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Sumário 7

08 Primeiras Palavras
Maron Emile Abi- Abib

10 Ensaios
Maurício Ianês: Espaço Literário
O corpo da linguagem
Contos
12 Veronica Stigger: 78 Leonardo Villa-Forte:
Útero errante Ligações interrompidas
Diego Moraes:
18 Lourenço Mutarelli: Palmas para o silêncio
Meu corpo gera minha Turn away
mente Poemas de derrubar
Muhammad Ali

Dossiê
Armando Freitas Filho Poesia
31 Antonio Cicero: 86 Alice Sant’Anna
A poesia de Armando 89 Ana Elisa Ribeiro
Freitas Filho e a apreensão 92 Josoaldo Lima Rêgo
trágica do mundo

39 Mariana Quadros: Eu Recomendo


De corpo presente 98 Rogério Pereira: Para
iniciar, a cólera. Ou o ano
48 Biografia que desapareceu
99 Eduardo Lacerda:
49 Entrevista O corpo desabrocha na
casa — uma breve leitura
58 Suíte para o Rio de Novo endereço, de Fabio
Weintraub e Pequenos afa-
zeres domésticos, de Lilian
Depoimentos Aquino.
61 Laura Liuzzi:
O tigre salta da página
Eduardo Coelho: 109 Dicas
A única ameaça Poesia
Ficção
64 Eucanaã Ferraz: Não ficção
Armando — um tema Filmes
Mário Alex Rosa: Música
A máquina do poema
116 Colaboradores

120 Expediente

Sumário Revista Palavra 06 /2015


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Veronica Stigger
ro em português. Uma associação que do entre as solteironas e as viúvas. Para
nasceu em 1973, em Porto Alegre. e Barbárie, 2012) e Opisanie  świata não era gratuita. Ainda se acreditava, estas últimas, a receita era ficar grávida;
Desde 2001, vive em São Paulo. É (Cosac Naify, 2013, Prêmio Machado
escritora, crítica de arte e professora de Assis, Prêmio São Paulo para autor
num período pré-Charcot e pré-Freud, para aquelas outras, arranjar um marido.
universitária. Entre seus livros publi- estreante e Prêmio Açorianos para que manifestações histéricas, até en- ¶
cados, estão: Os anões (Cosac Naify, Narrativa Longa).
2010), Delírio de Damasco  (Cultura tão vistas como exclusivas das mulhe- O “útero errante”, de Um útero é do ta-
res, derivavam do mau funcionamen- manho de um punho, de Angélica Frei-
to do aparelho sexual feminino. Cabia tas (2012), não se desloca mais pelo
à mulher procriar. Para os antigos, se corpo, mas pelo mundo. É assim que
ela não procriasse, ou seja, se não co- a autora o apresenta no poema que dá

Útero
locasse seu útero em funcionamento, título ao livro:
este se punha a mover-se, e o organis- ¶
mo inteiro entrava em colapso. É para
prezadas senhoras, prezados senhores,
esse entendimento que aponta Platão,
contemporâneo e provável leitor de Hi- excelentíssimo ministro, querida rainha da festa da uva,

pócrates, no Timeu: amigos ouvintes, brasileiros e brasileiras:

errante
¶ apresento-lhes
Nas mulheres [...] o que se denomi- o útero errante
na matriz ou útero é um animal que
vive nela com o desejo de procriar o único
filhos, e quando fica muito tempo testado
estéril, depois da estação certa,
suporta com dificuldade sua condi- aprovado
ção, irrita-se e, vagando por todo o que não vai enganchar
corpo, bloqueia os canais do fôlego,
o que dificulta a respiração, provo- nas escadas rolantes
ca extrema angústia na paciente e nem nas esteiras
é causa das mais variadas perturba-
Na Antiguidade grega, pensava-se que ceras, o quadro poderia ser ainda mais ções, até que, unindo os dois sexos dos aeroportos
o útero podia se deslocar pelo corpo e grave, provocando o sufocamento. To- o amor e a vontade irresistível, eles o único
venham a colher os frutos, como de
que todos os males da mulher decor- dos esses deslocamentos são relatados com passe livre nos estados schengen
uma árvore, e semear na terra ará-
riam desse deslocamento. Se o útero por Hipócrates (1851) em seu tratado vel da matriz animais invisíveis por
ia para o fígado, a mulher perdia ime- Da natureza da mulher. Ao traduzi-lo sua pequenez e ainda informes, e, ¶
diatamente a voz, passava a ranger os para o francês, Émile Littré introduziu depois de promover a diferencia- Não se trata mais do útero em sua re-
ção de suas partes, alimentá-los,
dentes e sua pele ficava escura. Se o parênteses que sintetizam e atualizam lação com o organismo, mas de um
até que dentro eles cresçam, para,
útero ia para a cabeça, a mulher sentia cada parágrafo do texto hipocrático, por último, com trazê-los à luz, ar- órgão autônomo, nômade, feito sob
dores nas narinas e abaixo dos olhos. associando alguns dos espasmos e das rematar a geração da criatura viva medida para a viagem (“que não vai
Se o movimento se dava em direção às dores decorrentes do vagar do útero (PLATÃO 2001, p. 145) enganchar / nas escadas rolantes / nem
pernas, a mulher tinha espasmos sob pelo corpo à histeria – palavra que, vale ¶ nas esteiras / dos aeroportos”). Não o
as unhas dos dedões dos pés. Se o úte- lembrar, deriva do grego hystéra, cone- Daí, o fenômeno do “útero errante” acon- “corpo sem órgãos” de Deleuze e Guat-
ro andava rumo ao coração ou às vís- xo ao latino utĕrus, de onde vem úte- tecer, segundo Hipócrates (1851), sobretu- tari, mas algo como um órgão sem cor-

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po. No século XXI, seus deslocamentos me olho no espelho de início, a possibilidade da partida ma que dá título a seu segundo livro,
não produzem mais transtornos; muito se anuncia, uma partida que, de certa diga-se de passagem, se origina de uma
pelo contrário: em contraposição a uma visão da andrade neves maneira, se acha associada à questão: experiência pessoal da poeta, quando
negativa da histeria, tal qual descrita no poema da general osório “para que serve um útero quando não ela acompanhou uma amiga a uma clí-
“uma canção popular (séc. XIX-XX)”, em que os
se fazem filhos”; ou, trocando em miú- nica de aborto no México, diante da
arroubos da mulher são reprimidos e subjugados da gartuk street
violentamente (“interna, enterra”), de maneira dos, para que serve a mulher se não for qual um grupo de católicas fazia um
a zelar pelo bem-estar do homem (“são porcas da johanitterstrasse para procriar? protesto a fim de dissuadir as pacien-
permanentes / mas como descobrem os maridos
/ enriquecidos subitamente / as porcas loucas
da barão de tatuí ¶ tes de interromperem a gravidez. Daí,
“O corpo humano, e, ainda mais dramaticamen- a potência de sua pergunta recorrente:
trancafiadas / são muito convenientes”), se ela- da 11 de abril te, o corpo da mulher, é uma estranha intersec-
“para quê”. Ao sair pelo mundo, libera-
bora uma visão positiva, a que não falta, porém,
afirma Julia Kristeva
ironia – a ironia de quem sabe estar se confron- de poptahof-zuid ção entre zoé e bios”,
do do corpo – isto é, do corpo construí-
tando, a cada palavra, com um discurso predomi- (2001, p. 14) em O feminino e o sagrado,
do pela sociedade –, o “útero errante”
nante antagônico (FREITAS, 2012, p. 15). (FREITAS, 2012, p. 48) evocando a diferenciação proposta por
nega seu destino fisiológico e começa a
¶ Hannah Arendt, com base em Aristó-
¶ construir sua própria história.
Se o útero é uma metonímia da mu- teles, entre duas noções de vida: zoé
Emancipado do organismo, o útero li- ¶
lher, a errância é, aqui, uma forma de sendo a vida biológica e bios, a vida
berta-se definitivamente de sua função No mesmo ano em que foi lançado
libertação. Um dos poemas do livro se possível de ser contada, de ser narra-
biológica. É, antes de tudo, um órgão Um útero é do tamanho de um punho,
chama justamente “metonímia”, e nele da. Desse modo, a mulher se dividiria
-palavra, um órgão-poema, isto é, um Angélica Freitas publicou o romance
a voz lírica, que diz ter encontrado o “entre fisiologia e narração, genética e
órgão-arma. Por isso, a pergunta, for- gráfico Guadalupe, com desenhos de
significado daquela palavra no Google, biografia”. Kristeva observa ainda que
mulada sem ponto de interrogação: Odyr. No final dessa narrativa, ambien-
indaga: “a parte pelo todo em minha vida / este costumamos esquecer que a transfor-
“para que serve um útero quando não tada no México, o tio Minerva, travesti
pedaço de tapeçaria / é representativo? não é re- mação da vida em algo sagrado tem
presentativo?”. Sem resposta, observa: “eu não se fazem filhos”. Uma pergunta que que criou Guadalupe, concede a esta
uma história; e que “esta história depende
queria saber o que era / metonímia, entrei na ressoa ao longo do livro na formulação a livraria de que era proprietário e lhe
do lugar que a religião e as sociedades conce-
página errada”. O que ela buscava não poderia elíptica “para quê” – e ainda em sua va- entrega também um espelho que tem o
ser outra coisa senão o caminho por onde seguir: deram às mulheres”. Tendo a imagem da
riante na língua do “i”, “piri qui”. É nes- poder de mostrar o rosto da pessoa no
“eu queria saber como se chegava / perguntei a Virgem Maria como modelo, nada pa-
sa língua que se quer secreta, extraída futuro. A protagonista se olha imedia-
um guarda” (FREITAS, 2012, p. 52). O corpo do rece mais sagrado que dar vida a outro
das brincadeiras infantis, que o “para tamente no espelho e vê uma senhora,
útero é agora o mundo, onde ele se en- ser. Mas reduzir a mulher a esse papel
quê” aparece na epígrafe, “i piri qui”, de óculos, cercada de livros. Assustada,
contra a vagar: de genitora é negar-lhe toda uma vida
logo abaixo da citação de três versos da pensando na imagem que viu, ela de-
para além de uma mera função biológi-
canção “Seeräuber Jenny” (“Jenny Pira-
ca. “Depois de dois mil anos de história mundial cide recusar a livraria: “eu
preciso
ta”), de A ópera de três vinténs, de Bel- dominada pela sacralidade do Menino Jesus, não
tolt Brecht e Kurt Weil – versos que fun- estaria a mulher em condições de dar uma colo- construir um futuro novo
cionam como estribilho, com pequenas ração diferente ao sagrado último, ao milagre da
vida humana: não a vida por ela mesma, mas a
para mim”, diz ela. Guadalupe
modificações a cada ocorrência: “Und ein pega então seu carro e sai em viagem,
vida produzindo sentido, para cuja formulação as
Schiff mit acht Segeln / Und mit fünfzig Kanonen /
mulheres são convocadas a oferecer seus desejos sozinha e sem rumo. Depois de muita
Wird liegen am Kai” (na tradução de Wolfgang Ba-
der e Marcos Roma Santa e versificação de Wira e suas palavras?”, pergunta Kristeva (2001, estrada rodada, ela volta a se olhar no
Selanski: “E a nau de oito velas, / Com cinquen- p. 14). Angélica Freitas dessacraliza a espelho, e este agora não reflete coisa
ta canhões, / Ancora no cais”). Assim, logo função reprodutiva da mulher. O poe- alguma: nem o presente, nem o futuro,

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muito menos o passado. Com um largo


sorriso no rosto, Guadalupe atira o es-
pelho ao mar. Ela não precisa mais dele
para saber que seu futuro é deliciosa-
mente incerto.

O exílio, diz Roberto Bolaño (2004,
p. 157) pela boca de seu personagem
Amalfitano, “contribui para abolir o destino
ou o que comumente se considera o destino”.
Bolãno, escritor errante, que nasceu no
Chile mas passou boa parte de sua vida
morando no México (terra de Guada-
lupe) e na Espanha, também escreveu
que “toda literatura leva em si
o exílio, tanto faz que o escri-
tor tenha tido de ir embora
aos vinte anos ou que nunca
tenha saído de sua casa”.

Referências
BOLAÑO, Roberto. 2666. Barcelona: Anagrama, 2004.

BOLAÑO, Roberto. Exilios. In: BOLAÑO, Roberto. Entre parente-


sís. Barcelona: Anagrama, 2004.

BRECHT, Bertolt; WEIL, Kurt. A ópera de três vinténs. In:


BRECHT, Bertolt; WEIL, Kurt. Teatro completo 3. São Paulo: Paz
e Terra, 1988.

FREITAS, Angélica. Guadalupe. São Paulo: Companhia das Letras,


2012.

FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Pau-


lo: Cosac Naify, 2012.

HIPÓCRATES. De la nature de la femme. Trad. E. Littré. Paris: Chez


J. B. Baillière, 1851.

KRISTEVA, Julia. The feminine and the sacred. Trad. Jane Marie
Todd. New York: Columbia University Press, 2001.

Ensaio Veronica Stigger

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