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Sou um tupi tangendo um alaúde.

detalhada dos vastos cerrados, da parte sul


Mario de Andrade. da província de Mato Grosso e região,
demominados por ele, de sertão bruto.
Introdução_________________________ Partindo de Santana do Parnaíba até sua
confluência com os estados de Minas
O historiador Alfredo Gerais, Goiás e Mato Grosso e mais
d'Escragnolle Taunay em seu romance algumas dezenas de léguas, o Baixo
Inocência (1872), descreve as paisagens Paraguai. Na condição de escritor,
brasileiras e os costumes do sertão. No apresenta sua visão romântica, a medida
primeiro capítulo temos uma visão que gradativamente adentra por esses

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sertões de natureza exuberante. A despeito cordas, foi Couto de Magalhães (1897) que
do desenvolvimento da trama, é na presenciou o instrumento nas mãos de
descrição do cotidiano dos personagens indigenas, que praticavam o cururu e
que encontramos detalhes interessantes cateretê. Soma­se a essas informações, as
sobre as práticas musicais, ora pesquisas realizadas na década de 1940,
interessadas. Em uma das cenas, apresenta por Alceu Maynard Araújo, que presenciou
um dos personagens acomodado em seu no cururu paulista uma viola rústica
descanso embalado pelo “som da viola de conhecida por cocho,
três cordas” cantando livremente Em 1947, o folclorista piracicabano
“monótonas modulações de umas chulas e registrou, no município de Tietê, o
modinhas” (p. 53). Teria o instrumento uso de um instrumento de nome
citado parentesco direto com a viola­de­ cocho feito de uma só corda. No
cocho que hoje empunham os cururueiros? mesmo ano, teve notícias da
Essas referências musicais teriam existência, em uma fazenda do
proximidade com o cururu e siriri de Mato município de Pereiras, próximo a
Grosso? Embora obra de ficção, as Tatuí, de um cocho de quatro cordas
referências no romance de Taunay, e com a caixa de ressonância e
guardariam um retrato caprichoso da braço escavados a partir de uma
realidade vivida, mesmo que significasse única peça de madeira. As
uma junção aleatória de cenas vívidas em similaridades no nome, formato e
cenários distintos. E uma vez em construção destes (ROCHA, 2015,
conformidade com o tema estudado, as p. 82).
práticas musicais, os costumes, e os festejos
locais, são coerentes com outros estudos e De qualquer forma, ao priorizar
não se pode refutá­los como fonte de uma dessas distinções sobre a qual, direta
conhecimento, sobretudo pelo fato de ter o ou indiretamente convergiram até a viola­
autor convivido de perto com essa de­cocho, corremos o risco de cair um uma
realidade, por ocasião de sua presença redundância, dada a impossibilidade de se
como segundo­tenente nas tropas dissociar as práticas de tais instrumentos,
brasileiras que combateram na Gerra do daquelas que resultaram na viola­de­cocho.
Paraguai, percorrendo toda essa região, em É preciso considera­las todas,
ofensivas contra os paraguaios. Em especialmente sob o ponto de vista das
secundo, um contemporâneo de Taunay práticas sociais. Talvez seja possível
que também mencionou a viola de três iluminar o começo desse túnel, a princípio,

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dentro de tal contexto, se nos atermos ao Pouco se sabe sobre a prática da
alaúde, posto que citado nos documentos viola no Brasil do século XVI. Os relatos
pesquisados, é o instrumento que mais se dos viajantes e missionários do século XIX
assemelha a viola­de­cocho. Nesse que viajaram pelo Brasil, sob a ação
movimento de encontros, práticas e trocas, colonizadora da coroa portuguesa na
buscamos sua origem. implantação de suas instituições, na qual
teologia e política, misturaram um tipo de
Percurso histórico___________________ festa comum na Europa não foram
precisos quanto as definições sobre a viola.
Os instrumentos musicais viviam Entrementes, a relação música e religião
nas mãos do povo. Entretanto, não é eram tão intrincadas que vários são os
possível afirmar categoricamente o quanto registros que conferem a presença
a viola esteve presente em seu cotidiano, constante do instrumento entre as danças
mas evidências apontam que a sua função indígenas e suas festas no Brasil. José
de instrumento acompanhador vinha desde Ramos Tinhorão (1990) assevera que a
tempos remotos. Oliveira (1966) assevera existência de cantigas acompanhadas pela
que no reinado de D. Afonso V, em 1459, os viola, datam de fins do século XVI, mais
Procuradores da Ponte de Lima especificamente em uma comedia encenada
endossaram uma representação, por ocasião da festa do Santíssimo
queixando­se ao Rei, sobre os “males que Sacramento em 1593, descrito nas
por causa das violas, se sentiam por todo o Denunciações de Pernambuco,
País pelas gentes que delas se serviam “confirmando desde logo a ligação da viola,
para, tocando e cantando, mais facilmente com a canção citadina"(p. 44). Desde então,
escalarem as casas e roubarem os homens a viola é relacionada como parte do
de suas fazendas, e dormirem com as suas cotidiano do povo que aqui se anunciava.
mulheres, filhas ou criadas, que como ouvem Fernão Cardim (1925) jesuíta português,
tanger a viola, vão lhes desfechar as portas” (p. deixa claro a presença instrumental nas
163). Por seu caráter popular, estavam a práticas religiosas junto a população
serviço “de folguedos rurais e de rua, ao indígena;
serviço de amores, devaneios, diversões e Em todas essas três aldeias há
folias, e muito generalizado já nesses escolas de ler e escrever, aonde os
recuados tempos” (p. 163) e por serem padres ensinam os meninos índios e
considerados profanos, eram renegados algumas mais hábeis também
pelos padres. ensinam a contar, cantar e tanger,

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tudo tomam bem, e há já muitos Poeta, contrapontista, musico e
que tangem flautas, violas, cravo tocador de viola e sabe inventar
(...) outros saíram com uma dança modas profanas, para as ensinar
de escudos à portuguesa, fazendo aquelles, que não temem a Deus
muitos trocados e dançando ao som (p.216).
da viola, pandeiro e tamboril e
flauta, e juntamente representavam Dentre os instrumentos de cordas
um breve diálogo, cantando dedilhadas presentes na Península Ibérica,
algumas cantigas (p. 292/315). quando da chegada dos árabes, por volta de
722, estão as harpas celtas e as cítaras
O padre Nuno Marques Pereira greco­romanas, o oud, conhecido por
(1738) escandalizado que estava “pelo alaúde árabe, foi o primeiro instrumento de
profano das modas e mal soante dos cordas com braço, que chegou à Europa .
conceitos” (p. 216), apesar de ser ele Dessa fusão cultural entre mouros, cristãos
próprio um tocador de viola, afirma e judeus, os menestréis aperfeiçoam a
severamente que aqui se deveria ser chrota dos bretões e o relab dos árabes,
evitada, as modas de viola, sob pena de transformam­nas em uma grande família
castigos com duras penas, e evidencia um de instrumentos de corda, designados na
fato ocorrido na cidade da Bahia, língua latina de viola. No século XIII, a
Ouvi ir cantando pela rua uma voz; viola já era armada com cinco cordas e
e tanto que punha fim a copla, dizia podia ser afinada de três maneiras
com todo apoio da cantiga: Oh diferentes. Durante os séculos XV e XVI já
diabo! E fazendo eu reparo em haviam violas com três, quatro e cinco
palavra tão indecente de se proferir, cordas. O braço da viola era curto e largo,
me disseram que não havia negra, “a viola de mão era o mesmo que a cithara
nem mulata, nem mulher dama, que ou guitarra, congênere do alaúde (...)
o não cantasse, por ser moda nova, afinadas em quinta. Da viola de mão deriva
que se usava. Vede se pôde haver o instrumento a que hoje damos o nome de
maior atrevimento e ousadia entre viola francesa ou violão” (VIEIRA, 1899, p.
Catholicos Christãos, que cantar 524). É preciso destacar, entretanto, que o
semelhantes músicas (...) Porém, eu violão tal qual o conhecemos hoje, só passa
me persuado, que a maior parte a existir depois do século XIX, ocasião em
destas modas lhes ensina o que o vocábulo seria incorporado à língua
Demônio: porque é elle grande portuguesa.

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Considerando­se o acesso a História. Nos Dicionários
organologia buscando a compreensão Organográficos especiais poderá o
histórica, implica em, por um lado, analisar leitor estudar a história desse
e agrupar registros e, por outro, buscar as instrumento, que para por aqui, por
suas relações diversas. Para se ter uma ser bem conhecida (p. 51).
percepção da grande variedade vocabular,
vejamos algumas designações: aláude, Ainda sobre o alaúde, Vieira (1899)
barbitus, cedra, cítara, chelys, chítara, confirma ser um instrumento de cordas
cithara, cítola, descante, fides, fidicula, dedilhadas de origem árabe, que se
guararápeuva, guitarra, guitarra mourisca, difundiu na Europa através das cruzadas,
guitarra latina, lira, lyra, séstro, testudo, se popularizou nos séculos XV, XVI e
vihuela, vihuela de peñola. É preciso XVII,
pontuar que como instrumentos de corda e O alaúde tinha o tampo harmônico
individuais, no momento de sua afirmação em forma de pera como as guitarras
estão justamente o alaúde, a vihuela/viola portuguesas; as costas eram
e a guitarra (AMORIM, 2015). bombeadas como as do bandolim, e
A partir dos estudos organológicos o cravelhame chato, inclinado para
do espanhol Felipe Pedrell (1901) e dos traz em angulo com o braço (...)
portugueses Ernesto Vieira (1899) e Veiga Havia ainda um alaúde pequeno só
de Oliveira (2000), apresentamos algumas com cinco ordens (...) O nome d’este
referências e possíveis herdades. Sobre o instrumento em árabe, êud, junto ao
alaúde, vejamos o que diz Pedrell (1901), artigo definido el, deu origem à
Laúd. ­ Instrumento derivado, por palavra élude que durante a idade
seu nome e forma, de e'oud (caixa média passou por muitas
bombada) árabe. Descreve­se este mudanças na Europa; as primeiras
instrumento (aparentemente de foram: leut, leuth, luit, lut, luc, lucs,
origem persa) no Livro de Música lus, e luz; d’aqui nasceu liuto para
de Alfarabi (século X). O Sr. D. os italianos, laud para os espanhóis
Juan Facundo Riaño acertou em e alemães, lut para os francezes. Em
reproduzir em uma de suas obras o português chamou­se lhe sempre
desenho de um laúd, admirável por laude (...) Também muitas vezes era
sua correção de linhas, retirado de designado com o nome latino de
um relicário do século XVI, testudo por causa da sua
conservado na Real Academia da semelhança com a casca de uma

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distintos e não podem ser confundidos “a
guitarra era um instrumento pobre e
popular, que se tocava rasgueado já vihuela
era um instrumento rico que se tangia
ponteado” (p. 213). Diferenciavam­se pelo
número de cordas e modo de execução.
Todavia, com o passar do tempo a guitarra
foi pouco a pouco invadindo o espaço da
vihuela e no início do século XVIII, já era
um só instrumento, porém relegada às
classes baixas.
Veiga de Oliveira (2000) cita alguns
pesquisadores que partilham definições
muito parecidas, sobre o alaúde, Geiringer
diz que a “forma primordial do alaúde,
numa caixa oval ou piriforme, com boca e
Exemplar de um alaúde do século XVI.
rosácea, de fundo convexo composto de uma
(PEDRELL, 1897, p. 253).
peça única de madeira escavada, e um braço
curto que é apenas o prolongamento do
tartaruga (p. 42/48). tampo, e sem trastos [e a partir do século
XIII] apresenta inovações e
Pedrell (1897) assinala que as melhoramentos importantes” (p. 264).
variadas formas e nomenclaturas atribuídas Reforça a ideia de Pedrell (1897), no que
à guitarra na Idade Média, causaram tange à apresentação das características da
confusão entre os pesquisadores, embora “vihuela espanhola quinhentista (...)
no século XV, pouco se diferenciava da herdeira mais ou menos directa da guitarra
forma que hoje a concebemos, “era menor e latina, que, como ela, possui uma caixa com
contava no máximo, com sete cordas enfranque [e nesse ponto assinala que] a
dispostas em quatro ordens, a saber, três guitarra mourisca tinha carácter popular e
cordas duplicadas e uma simples, que era a se tocava de rasgado, a latina era de nível
prima, as quais se tangiam de modo mais elevado e tocava­se de ponteado”.
rasqueado para acompanhar as danças e Acrescenta ainda, que “no século XIII, a
canções do povo”. Porém, alerta que, a guitarra latina prefigura a forma essencial
Guitarra e a Vihuela, são instrumentos da vihuela ou viola quinhentista, que seria

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compreensivelmente o seu prolongamento tartaruga, Lyra…et al. Nomenclaturas
directo, à nossa viola actual” (p. 149/150). variadas e muitas familiares a nós, outras
Em Curt Sachs, evidencia a aproximação nem tanto, mas que de alguma forma, os
do alaúde curto, na sua forma mais antiga traços genealógicos da herança musical
de um saltério alemão presente em que nos foi legada pelos conquistadores,
iluminuras espanholas do século X e XI e o conquistados e povos ibéricos, guardam
classifica como um instrumento “pesado, relação direta com a viola­de­cocho,
cavado numa peça única de madeira, com símbolo do cururu e siriri mato­grossense.
caixa estreita de lados paralelos (...)
aparentemente cinco cordas presas em A viola­de­cocho cá entre nós_________
baixo num cavalete, passando, a seguir,
sobre outro, em forma de ponte” (p. 263). Não faz parte dos tratados
Veiga assevera que o alaúde sofreria a internacionais de organologia o termo
ampliação das cordas para onze, com viola­de­cocho. Embora sua origem não
duplas, a caixa aumenta, os tratos fixos de esteja totalmente definida como vimos,
tripa, sobem para oito e finalmente no alguns documentos sugerem sua origem da
século XV, teria sua forma definida. Dessa, guitarra latina, que por sua vez, se
a evolução foi linear até a forma como hoje pressupõe herdade da vihuela ou viola
o conhecemos. quinhentista espanhola, até chegar a viola,
Como apontam Pedrell, Veiga e mas não a de cocho. Tais definições
Vieira, vihuela, vigola, vigolón, figolón, categóricas nos levam a indagar sobre
viola, são sinônimos, significavam quais instrumentos, de fato correspondem
antigamente a mesma coisa. Contudo, tal às designações aos atuais cordofones, que
suscetibilidade pode ter provocado algum levam os nomes de viola e guitarra e, até
grau de incerteza, onde tanto a nomeação, que ponto podemos relaciona­los à viola­
quanto a tradução de tais registros para de­cocho. Ou tais termos teriam sido
outras línguas, estariam sujeitos a usados de forma indiscriminada e sem
variações inconstantes e/ou equivocadas. diferenciação na literatura brasileira,
Embora essas variações linguísticas dificultando uma categorização específica?
presentes nos dicionários latino­ Buscar, diga­se a origem, a partir
portugueses e também na documentação dessa organologia; mestiça, híbrida, cuja
jesuítica, a definição do termo alaúde é retrospectiva se faz a partir de pesquisas
pensamento comum, com ampla sinonímia, específicas sobre a viola­de­cocho .
os termos; viola, tangida, concha de Autores que se debruçaram sobre a viola­

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de­cocho para buscar suas origens na Bonito dia da chegada a Cuiabá!
história, trazem em comum, a ideia da Duas horas antes, já se avista a
herança alaudeana, ou seja, de que a viola­ cidade, manchas avermelhadas de
de­cocho pertença a família dos aludes telhado, traços claros de paredes
curtos, cujo caminho teria sido trilhado e caiadas, entre o verde escuro das
adaptado à condições especificas desta mangueiras e o verde mais claro
região de pântano e cerrado. E que sua das outras árvores. Lá está a igreja
presença e caraterísticas, fazem parte da de São Gonçalo, com o santo em
fusão e difusão da cultura ibérica, trazida cima da torre, sobre um globo
pelas expedições das missões católicas dourado; o cais de pedra­canga feito
portuguesas e espanholas. por Leverger, muito alto, dando
A intensão de apontar o nascimento idéia da altura a que podem chegar
da viola­de­cocho nos leva ao começo, ao as águas da enchente; uma figueira
início da formação histórica da nossa enorme nascida entre as pedras do
região. Por mais longínquo e difícil o cais, dando sombra às lavadeiras e
trajeto, para se chegar a Cuiabá, a chegada aos garotos que se preparam para
das embarcações sempre era motivo de pescar piraputanga no porto (p. 34).
festa. Ferdinand Nijs foi um oficial militar
belga que viajou a Mato Grosso em 1901, Tudo começou pelas águas. Tudo o
para avaliar as potencialidades econômicas que chegou por aqui, veio pelo rio. O rio foi
da região e registrou, “um dos eventos o fio condutor, a mola propulsora, entre
sensacionais que se produz em Cuiabá é a esta região central e o resto do mundo. Era
chegada e a partida dos barcos, colocando a rio­acima, rio­abaixo, tudo ia e vinha,
cidade em contato com o resto do mundo. levava­se e trazia­se; vidas e sonhos.
Daí a maioria da população vir se postar às Conquistas e perdas. Os perigos eram
margens para assistir à sua chegada, superados pela ideia do ouro, da
exibindo suas mais belas toaletes” (p.34). abundância, da vida farta. Por ele nasce o
Karl von den Steinen (1942), afirmou que a sentido. Foi pelas águas do rio que,
tranquilidade da cidade só era abalada com segundo a lenda, veio a viola­de­cocho.
a chegada dos navios, quando um tiro de Atualmente a viola­de­cocho está
canhão anunciava a presença do vapor fortemente ligada aos meios de
ancorado no porto. Manuel Cavalcanti comunicação em massa. Sua imagem está
(1958), um filho da terra, também estampada nos mais diferentes canais de
registrou um desses momentos, divulgação, transformada em símbolo da

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terra pantaneira, mato­grossense e, um dos 1993, p. 21).
ícones da cultura local. Entretanto, apesar
dessa visibilidade, sua origem é Lenda ou não, esse relato vai ao
reconstituída por alguns a partir da encontro de algumas pesquisas, que veem
memória oral da população mais antiga. íntima relação na origem da viola­de­
Dentre eles, uma bem conhecida entre os cocho, com o alaúde. Desta feita, Julieta de
cururueiros , é contada pelo Sr. Luiz Andrade (1981) considera a forte influência
Marques da Silva, cururueiro antigo da espanhola nesse processo de aculturação da
região e presidente fundador da AFOMT­ viola­de­cocho, se consideramos seu
Associação Folclórica de Mato Grosso, modelo de fabricação; escavado em um
cujo relato conseguiu em conversas com tronco inteiriço, as divisões das partes do
outros cururueiros mais antigos em cocho, o comprimento do braço, o número
diversas localidades do Estado, vejamos, de cinco cordas e “iluminuras, desenhos
Vivia às margens do rio Cuiabá, um constantes de Cancioneiros em obras
artesão fabricante de canoas e peças espanholas da época, mostrando
de madeira, quando certo dia instrumentos muito semelhantes” (p. 74).
atracou na barranca próxima a sua Apontando uma hipótese bem provável, a
casa uma embarcação, trazendo um de que pode ser, a viola­de­cocho, um
homem a princípio identificado por instrumento que conservou as
Paraguai. Vinha a procura de características medievais do alaúde, se
trabalho e trazia em sua bagagem considerarmos as evidências que se
um instrumento de cordas, que revelam. E sobretudo, se considerarmos
principiou a bater assim que desceu que Cuiabá sofreu um isolamento natural
em terra firme. Assim que o devido a sua localização geográfica,
paraguaio partiu, esse artesão distante das demais regiões do país e por
tratou de fabricar para si uma igual. décadas só era possível se chegar até aqui
Esculpiu um tronco de madeira pelas vias fluviais, como já vimos
macia, da raiz da figueira fez o anteriormente. Mesmo que ainda
tampo, do Tucum fez as cordas. questionada na sua origem, não há como
Findo o trabalho seguiu em direção negar um conhecimento partilhado,
a cidade, quando o indagaram sobre apropriado, emprestado, que se ajusta na
o instrumento disse apenas se uma criação do novo. Não é por acaso que
viola, insistiram, viola? mas que Gruzinski (2001) nos alerta, para o fato de
viola? Viola­de­cocho (SANTOS, que pode o pesquisador cair em uma cilada

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quando “um substrato cultural estável ou Cururu era mais compassado, mais lento”
invariante [sujeito ao] reflexo (RAMOS & DRUMMOND, 1978, p. 9).
condicionado do observador (...) reduzir­se Existe até um verso assim:
na linguagem corrente a uma etiquetagem A viola chora a prima
sumária que logo vira caricatura” (p.48). A prima chora o bordão
Ao afirmar que toda história é cultural, Sangue corre pela veia
Chartier (2004) reforça que esse é o E a veia pra geração
sentido da cultura, posto que nada “está (RAMOS & DRUMMOND, 1978, p. 11).
acima ou ao lado das relações econômicas e
sociais e não existe prática que não se A capacidade humana de
articule sobre as representações pelas quais transportar­se de um lugar para outro, de
os indivíduos constroem o sentido de sua ir e vir carregando na bagagem toda sua
existência – um sentido inscrito nas carga cultural, adaptada às suas novas
palavras, nos gestos, nos ritos” (p. 18). necessidades, estabelecendo redes de
Mas uma coisa é certa, não há cururu ou atividades nas quais várias culturas são
siriri sem a viola­de­cocho, o mocho e o incorporadas, apropriadas e
ganzá . internacionalizadas, propiciam certa
A viola­de­cocho ainda hoje é circularidade característica do contato
confeccionada artesanalmente. Primeiro fluvial ibérico­americano, “o fenômeno da
escolhe­se a madeira, esculpe­se o braço, mistura se tornou uma realidade cotidiana,
depois molda­se o corpo da viola escavado visível nas ruas (...). Multiforme e
com faca e formão. O segredo da viola está onipresente, ela associa criaturas e formas
justamente no corte da madeira, que deve que a priori, nada deveria aproximar”
ser feito sempre na lua minguante, caso (GRUZINSKI, 2001, p. 48). Práticas, em
contrário o instrumento corre o risco de que residem a revitalização de uma cultura
ser atacado por carunchos. Um que se ajusta aos processos vetores da
instrumento de cinco ordens simples de globalização a partir de sistemas propensos
cordas, a mais importante é o canotio, que a releituras, nos quais é possível se
pode ser solto ou preso. Tão importantes reconhecer os fenômenos da mestiçagem­
são “a prima, a contra, o bordão (ou do hibridação, oriundos de diversas
meio) e a de cima (ou tueira). Antigamente, influências.
usava­se uma sexta corda, a requinta, Desta feita, é razoável
fininha como a prima e que trabalhava consideramos o relato do Sr. Luiz como
junto ao bordão. Antigamente o ritmo do parte desse processo circular de migração,

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hibridação, apropriação cultural? Santos lugares nas comunidades onde vivenciam
nos lembra que “o homem refaz suas suas práticas sociais. Conforme registro de
práticas e incorpora novos modos. É neste Nº 1450. 01090/2003­03, a viola­de­cocho
processo que ocorrem mestiçagens e todas se apresenta como “uma expressão única
as misturas que se possa classificar. Reside no fazer popular [e] referência cultural
aí um importante testemunho da grande importante (...) incorporando contribuições
força criadora humana” (SANTOS, 2011, de diversas etnias, como tradição que se
p.48). reitera e atualiza” (IPHAN, 2009, p. 81).
Acresce, que a despeito de sua Para além da uma demarcação
importância para o cururu e o siriri, a geográfica, entre o Sul e o Norte de Mato
partir de então, a viola­de­cocho Grosso, o rio Cuiabá serviu de base para
incorpora­se definitivamente na cultura que os sujeitos dessas práticas, pudessem,
local e em toda extensão territorial rio acima, rio abaixo, dar sentido a uma
pantaneira. Adquire sua própria história. prática cultural que transcende qualquer
limitação espacial.
A valorização dos saberes____________ Nesse sentido, o reconhecimento,
a promoção e a valorização a partir dessa
No contexto atual, na categoria titulação, garante aos atores sociais, a
saberes, comemoramos 15 anos do possibilidade e a prerrogativa da
primeiro registro de um Patrimônio interlocução com os poderes públicos, na
Cultural do Brasil, o Oficio das Paneleiras construção de um cenário cultural que se
de Goiabeiras, que encabeça uma lista de deseja. A valorização do saber desses
28 bens culturais registrados pelo Iphan . mestres cururueiros, pressupõe o vetor
Dentre eles, o Modo de Fazer: Viola­de­ para a percepção da diversidade cultural e
Cocho, registrada em 2005, sua forma de reivindicação de respeito, inclusão,
produção artesanal e a execução musical, participação e cidadania. Entrementes,
associadas ao cururu e siriri. Esse registro registra­se que essa visualidade, pode abrir
constituiu­se a partir de relatos, imagens, precedentes para a banalização e
vídeos e partituras, material coletado em folclorização de determinadas práticas
municípios da Baixada cuiabana e cidades sociais, sobretudo porque atinge
do Mato Grosso do Sul, um saber que se diretamente o cotidiano e o modo de vida
manifesta como um lugar de memória dos sujeitos envolvidos, social e
articulando o passado, o presente e o economicamente.
futuro, de sujeitos e seus respectivos No caso da viola­de­cocho, sua

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comercialização está além do consumo 1990/ RAMOS, Otávio; DRUMMOND, Arnaldo F.
Função do Cururu. Cadernos Cuiabanos. Nº 8. Ed.
entre os cururueiros, engloba; músicos,
Planimpress. São Paulo. 1978/ Modo de Fazer
colecionadores e turistas, situação que
Viola­de­Cocho. Brasília­DF. Dossiê IPHAN­8.
promoveu o aumento da demanda de 2009/ VIANA, Letícia. O caso de registro da viola­
produção e comercialização dentro e fora de­cocho como patrimônio imaterial. In; Sociedade
do estado, quiçá internacionalmente. e Cultura. Goiânia: UFG, Vol. 8 N. 2, 2005/
ANDRADE, Julieta de. Cocho mato­grossense: um
Todavia é prudente observar que a
alaúde brasileiro. São Paulo: Escola de
circulação de bens culturais a partir
Folclore/Editorial Livramento, 1981.
exclusivamente do seu valor econômico,
tende a deixar de lado o código cultural São todos os tocadores de viola­de­cocho, tanto no
que rege o sentido da prática. cururu quanto no siriri.

Ernesto Vieira (1899) em seu Diccionario musical,


Notas______________________________
apresenta o mocho como Adufe, espécie de pandeiro
antigo mais usualmente utilizados por mulheres em
Doutoranda em Arte Cognição e Cultura ­ pela
danças e cantos. Distingue­se por ser quadrado, não
UERJ ­ Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
ter soalhas e ser coberto dos dois lados como um
Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea ­
tambor. Sua antiguidade remonta da cultura assíria
pela UFMT ­ Universidade Federal de Mato
e representado em escultura das ruinas de Nínive.
Grosso. Graduada em Educação Artística com
Os árabes usam desde os tempos imemoriais e dão­
Habilitação em Música ­ pela UFMT ­
lhe o nome daff ou duff. VIEIRA. Op. Cit. p. 36.
Universidade Federal de Mato Grosso.

Ou caracachá, na designação antiga. Espécie de


De acordo com Mario de Andrade pouco se sabe
reco­reco feito de bambu. RAMOS, Otávio;
sobre a música popular no Brasil nos três séculos da
DRUMMOND, Arnaldo F. Função do Cururu.
colônia. “Um povo misturado porém não
Cadernos Cuiabanos ­8. Ed. Planimpress. São
amalgamado parava nas possessões que Portugal
Paulo. 1978. p. 05. Mario de Andrade aponta o
mantinha aqui. Esse povo feito de portugueses,
ganzá como herança africana, instrumento
africanos, ameríndios, espanhóis, trazia junto com
exclusivo de percussão rítmica, trazido nos navios
as falas deles as cantigas e danças que a Colônia
da escravidão.
escutava”. ANDRADE, Mário de. Pequena história
da música. 2ª ed. Martins, S.P. 1942. p. 54.
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