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Mar Adentro...
Uma viagem à Mediação de Leitura

Livreto Orientador para o Facilitador da Formação de Mediadores de Leitura


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A todos que favorecem


viagens à literatura
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O Livreto

Elaboramos este material para os formadores como guia desta viagem à Mediação de Leitura. Esperamos que ele ajude com indicações
precisas e orientações esclarecedoras para a condução da formação. Sabemos que outros fatores interferem na viagem: a composição
do grupo, seu ritmo, suas experiências prévias e o contexto da formação. São como os ventos e o clima que também precisam ser
observados e considerados. Assim, seu repertório e experiência como facilitadores de grupos vão contar muito nesta condução.

VEJA COMO O LIVRETO SE ESTRUTURA:

Bem-Vindos a Bordo: Carta de Boas Vindas e Considerações sobre a Formação.

Rosa dos Ventos: Vamos falar de direções e caminhos metodológicos, aqueles que
nos orientam a seguir uma direção, apostar em um caminho ou fazer determinada
trilha. Falaremos sobre os princípios que regem a formação (em Caminhos e
Direções metodológicas) e queremos dar dicas para a condução das atividades.
Além disso, Rosa dos Ventos indica todas as estratégias e os dispositivos usados no
encontro formativo.

Carta Náutica: É a pauta da formação, com os objetivos, conteúdos, atividades,


estratégias, tempos de duração e questões de avaliação para cada atividade
proposta.
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Navegar é preciso: São textos que visam apoiar a prática do formador, que
apresentam conceitual e metodologicamente o que entendemos por mediações
literárias qualificadas e que irão subsidiar as discussões propostas.

Há dois tipos de textos, os mais curtos – Texto Farol – que serão apresentados
junto com as atividades da Carta Náutica e para aprofundar ainda mais a
discussão – Textos de Apoio – apresentados a partir da página...

Mergulhando Fundo: Dicas de leituras para quem quiser continuar aprofundando


os estudos.

Livros à Vista!: Indicação dos livros que podem ser utilizados na formação. Além
da capa, autores e editora, indicamos a articulação do livro com o conteúdo
trabalhado na pauta.

Diário de Bordo: As últimas páginas deste livreto são para seus registros.

Anexos
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Bem-vindos a bordo...

Queridos Formadores,

Bem-vindos a bordo nesta viagem à Mediação de Leitura. Vamos navegar pelos mares da leitura dialogando com o universo da
literatura infantil e outros caminhos que serão fundamentais para a prática da Mediação de Leitura dos voluntários.

O percurso que iniciaremos tem o objetivo de formar Mediadores de Leitura capazes de estimular e potencializar o desenvolvimento
leitor de crianças, a partir de mediações qualificadas, que levem em conta os mais diversos contextos.

Elaboramos este material desejando abrir caminhos para a condução dos facilitadores até o destino esperado: o solo fértil da
Mediação de Leitura, prática social, cultural, educativa e artística, capaz de formar leitores plenos de sua capacidade leitora e
escolhas literárias.

Esperamos que suas vivências também componham a bagagem. A experiência como mediadores de leitura e facilitadores de grupo,
além d o repertório pedagógico que possuem são instrumentos de navegação imprescindíveis para realização de uma viagem segura
e aprazível.

Desejamos a todos uma boa viagem e bons mergulhos neste mar de águas claras de leitura, livros e literatura.

Equipe Fundação Itaú Social

Formação de Mediadores de Leitura - 2018


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A Formação

Acreditamos em uma Formação de Mediadores de Leitura que valoriza a Literatura Infantil – seus autores, as narrativas literárias, as
obras artísticas, o público a quem se destina.

Pensamos uma formação que ajude o voluntário a dar sentido a sua prática como mediador de leitura, ao mesmo tempo, que se
sensibiliza com experiências literárias transformadoras e assim, também se constrói como leitor; afinal, é preciso amar os livros para
contagiar as crianças.

Desejamos aprofundar conhecimentos sobre o livro de qualidade literária e a criança, sua cultura e seu desenvolvimento leitor; também
instrumentalizar o mediador para a prática com crianças em diferentes contextos e, sobretudo, promover encontros literários, entre
as pessoas e com os livros.

Construímos uma formação que, como uma metalinguagem, contará com os mesmo princípios e atividades que podem compor uma
sessão de Mediação de Leitura: o lúdico, as memórias afetivas, a experiência de acesso aos livros para a construção de conceitos e
práticas.

Queremos promover deslocamentos, no sentido de apresentar novos pontos de vista, desconstruir mitos, repensar algumas verdades
que reproduzimos automaticamente. Sabemos que, em geral, associa-se leitura a alguma utilidade, como ler e escrever melhor. De fato,
a leitura promove impactos, mas não mediamos leitura com esta finalidade. Lemos para as crianças por outros bons motivos...muito mais
relacionados com o contato da literatura como arte, do que como instrumento pedagógico.

Desenvolvemos uma pauta nas quais diferentes conteúdos atravessam as atividades. Assim como o livro é aberto para diferentes
significações, as atividades também permitem diferentes reflexões. Talvez nem todas teremos acesso, mas o convite que fazemos é para
o compartilhamento no grupo.
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Rosa dos Ventos:


Caminhos e direções metodológicas

Replicabilidade Horizontalidade, acolhimento e troca

Os princípios da formação de mediadores são os As sessões de Mediação de Leitura se baseiam nas


mesmos de uma sessão de Mediação de Leitura. Nelas relações horizontais entre os participantes, permeadas
cabem o lúdico, as memórias afetivas, a fala, a escuta, pelo acolhimento e troca entre todos os envolvidos. A
o diálogo. Sentar em roda, disponibilizar os livros de formação de mediadores também deve levar em conta
forma acessível, permitir a liberdade de movimento e de essas premissas. Valorizar a fala dos voluntários e sua
escolhas são características das mediações e dos participação na construção de conhecimento enriquece
encontros de formação. Algumas das atividades que a formação. Lembrando que a participação se dá de
compõem a formação inclusive, como as brincadeiras diferentes modos: pelas falas, gestos, parcerias que
com os livros, a gincana do acervo, “Do varal ao pé do surgem no grupo e que cada um se manifesta de seu jeito.
ouvido”, podem facilmente serem adaptadas e
replicadas pelos mediadores para com as crianças.
Queremos que todos – mediadores e crianças,
formadores e voluntários – vivenciem experiências
leitoras transformadoras.
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Experiências prévias, histórias e memórias O Lúdico

Quando lemos literatura, acessamos nossa própria história, O brincar faz parte da cultura da infância e é inerente à
nos identificamos com os personagens, pensando em algo literatura: o brincar com as palavras, com as imagens,
que já passou ou que imaginamos passar; usamos as com o próprio leitor, na sua interação com o livro e com
palavras, as metáforas e as imagens que o livro nos dá e as sua capacidade (e necessidade) de fantasiar.
levamos para nossas vidas. Compartilhar histórias – lidas ou
A Mediação de Leitura explora a ludicidade, mesmo
contadas, reais ou fictícias, faz parte da Mediação de Leitura
quando os livros tratam de temas difíceis, afinal o prazer
e dos encontros de formação.
lúdico do qual falamos não está sempre ligado ao
Explore a linguagem narrativa, tanto contando situações de
divertido ou engraçado. Tem a ver também com
mediação que você já vivenciou, como dando escuta às
descobrir, deslocar pontos de vista, imaginar outros
memórias e histórias dos participantes, que as atividades vão
contextos.
mobilizar. Você vai ver que um clima de afetividade se
instaura quando compartilhamos histórias. Na formação buscamos resgatar o lúdico nas memórias
de infância e propomos o brincar com os livros e leituras,
promovendo assim experiências que farão os
participantes compreenderem o papel do mediador de
leitura e a fundamental dimensão lúdica da Mediação
de Leitura.
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Espaço educativo

Muito mais do que decorar ou adornar, o cuidado com o espaço é porque acreditamos que o processo formativo ganha muito quando
o ambiente é mais uma ficha na aposta. Quando ambientamos, convidamos os participantes a leituras – de textos, de imagens,
sinestésicas, estéticas. Leituras que vão ajudá-los a compreender o papel do mediador de leitura, sua poética e também suas estratégias.

• Roda • Livros à mão • Varais


Conversar, se reunir, se movimentar em roda é uma Autoras como Cecilia Bojour Os varais, além de contribuir para a
conduta humana muito antiga, ancestral. Podemos acreditam que a Mediação ambientação dos espaços de formação,
lembrar as rodas dos povos tradicionais da África, começa na escolha dos livros, também são estratégias expressivas de cultura
do Brasil e tantos outros lugares. Pensando em seu elementos fundamentais para escrita. Almejam comunicação com o
formato, a roda carrega o desenho do abraço, ela a ambientação. Indicamos mediador que está se formando e exercita seu
acolhe a pluralidade e, por conta desse espírito que os livros fiquem no chão, olhar e percepção. Propomos o uso de três
receptivo se torna um círculo de aprendizagem e apoiados em um tapete, varais na formação:
desenvolvimento, um espaço fértil de troca e
tecido, E.V.A., colchonete.
conversação. No encontro de formação, use e “Meu quintal é maior do que o mundo” – varal
Quanto mais acessíveis aos
abuse das rodas; intercale momentos que os de brincadeiras de infância
olhos dos participantes, mais
participantes estejam em pé, sentados em cadeiras
explícito estará o convite “Varal Literário” – com trechos literários que
ou almofadas, mas sempre em uma disposição
para a exploração! serão usados na atividade: Do varal ao pé do
circular. Você verá que organizar-se em roda
ouvido.
favorece o convívio e o diálogo e oportuniza uma (Para a seleção do acervo
forma equânime na disposição espacial, fazendo consulte dicas nos Livros a Varal “Ler para uma criança muda o mundo”
deste um espaço de comunicação e Vista) – trechos sobre o potencial artístico, cultural,
entrelaçamento. Não deixe de apostar em rodas educativo e político da Mediação de Leitura.
no chão. Sentados no chão é que os mediadores
passam grande parte do tempo.
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Carta Náutica
PAUTA: FORMAÇÃO DE MEDIADORES DE LEITURA ITAÚ SOCIAL (Total: 4h)

dura ç ã o A t iv ida de C o nt e údo s O bje t iv o ( s ) E s t ra t é gia s M a t e ria is A v a lia ç ã o

. A brir a fo rmação ;
1) apresentar ao facilitado r o dia da fo rmação e o s mo tivo s pelo s quais a
A presentação da Justificativa da fo rmação e . Situar o s participantes; Carta náutica impressa e à 1) co mo o s participantes reagiram?
15" fo rmação é pro po sta;
fo rmação seu planejamnento . iniciar um pro cesso de co nstrução do vista de to do s 2) o que manifestaram?
2) realizar alguns co mbinado s entre o grupo
sentido do que é ser um mediado r de leitura

1) quais brincadeiras fo ram reco rdadas?


. Integrar o grupo ; Elas relacio navam-se co m cantigas,
. O lúdico na Cultura da . resgatar memó rias da infância; 1) pedir que o s participantes se apresentem falando o no me, uma Varal de brincadeiras "M eu narrativas o u brincadeiras co m livro s?
A presetnação do s
30" Infância; . perceber as subjetividades nas esco lhas brincadeira de infância e esco lham um livro do acervo que lhes chame a quintal é maio r que o 2) quais livro s fo ram esco lhido s pelo s
participantes
. O livro de literatura infantil do s livro s e co meçar a co ntemplar o livro atenção . A s brincadeiras po dem co mpo r o varal de brincadeiras mundo " e acervo participantes? Em que estas esco lhas se
de literatura infantil assemelham co m as que as crianças
co stumam fazer nas suas brincadeiras?

1) explicar o que é pro jeto gráfico e apresentar brevemente o s


. P ro mo ver acesso a um acervo de 1) o grupo co nhecia o s gênero s da
. Co mpo nentes do livro co mpo nentes do livro ;
literatura infantil e a uma co mpreensão do literatura infantil e estava familiarizado
co mo o bra de arte; 2) dividir o grupo em 4 subgrupo s;
livro co mo o bra de arte; co m o s co mpo nentes do livro ?
. Gênero s literário s; 3) Distribuir filipetas co m características do s livro s a serem buscado s; . A cervo diversificado de
. Instrumentalizar o mediado r à seleção de 2) perceberam que devem apresentar o
. seleção do acervo ; 4) o s subgrupo s terão 2 minuto s para o rganizar co mo realizarão as literatura infantil;
um acervo para a M ediação de Leitura em livro em sua co mpletude para as
30" Gincana do acervo . mito s da leitura (livro s e tarefas; . Filipetas co m
grupo s; crianças?
faixas-etárias; temas 5) o s subgrupo s terão 4 minuto s para buscar o s livro s indicado s na características do s livro s
. pro vo car o início de uma reflexão so bre 3) demo nstraram acreditar em mito s
pro ibido s); filipetas; a serem buscado s
armadilhas e mito s ligado s à leitura para so bre leituras para crianças, do tipo faixa-
. enco ntro s literário s x 6) apresentação do s "teso uro s literário s";
crianças (faixas-etárias, temas pro ibido s e etária adequada e temas inadequado s?
situação utilitária 7) o s subgrupo s que co nseguirem cumprir as instruçõ es ganham uma
situação utilitária) 4) fizeram perguntas? De que tipo ?
leitura: mediação do facilitado r.

1) dispo nibilizar em varal filipetas co m trecho s literário s;


2) dividir em 2 subgrupo s e pedir para o subgrupo (A ) esco lher um do s 1) co mo fo i o pro cesso de esco lha do s
trecho s dispo sto s no varal. Esse subgrupo é o rientado em sigilo a ler o s trecho s? Fizeram co mentário s so bre o s
A dimensão afetiva do
Do Varal ao P é do pro mo ver uma vivência prazero sa de trecho s ao pé do o uvido do s participantes do subgrupo (B ); texto s literário s?
15" mediado r de leitura: a vo z e Varal literário
Ouvido co ntato co m a vo z na M erdiação de Leitura 3) o subgrupo (B ) se aco mo dará co nfirtavelmente na sala de o lho s 2) o grupo fico u a vo ntade na realização
a escuta
fechado s; da atividade? Fizeram co mentário s
4) A pó s a leitura de to do s do subgrupo (a) e do subgrupo (B ) tro cam-se espo ntâneo s so bre a experiência?
o s papéis

. P erceber o o lhar co mo um elemento do


mediado r de leitura que ressalta sua 1) pedir que o s participantes esco lham trecho s do varal "M ediação de
A dimensão afetiva do dimensão afetiva; Leitura muda o mundo "; 1) co nseguiram desenvo lver a atividade?
Varal "M ediação de Leitura
15" M o vimento do o lhar mediado r de leitura: a vo z e . Exercitar o o lhar durante a leitura; 2) pedir que leiam silencio samente; 2) fizeram co mentário s so bre o s trecho s
muda o mundo "
a escuta . A tribuir sentido à M ediação de Leitura 3) em seguida, em ro da, pedir que leiam em vo z alta, e que durante a leitura, lido s?
co mo uma ação afetiva, cultural, artística e o lhem para o utro participante, o co nvidando a fazer a pró xima leitura.
po lítica

1) O que o grupo co lo co u so bre as


1) Escutar o grupo so bre co mo fo i a experiência nas atividades do Varal
Dimensão afetiva do Discutir so bre o papel do mediado r de experiências?
10" Ro da de Co nversa ao P é do Ouvido e M o vimento do Olhar;
mediado r de leitura leitura 2) Co mo co mpreenderam o papel do (a)
2) Enfatizar o o lhar e a vo z co mo elemento s fundamentais do mediado r.
mediado r?
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I n ter val o 10 m i n u tos


. Experimentar situações de Mediação 1) 4 kits com 4 livros
de Leitura, vivenciando aspectos como cada;
1) Dividir os participantes em 5 subgrupos; 1) Como os subgrupos realizaram a
a fruição do livro como objeto de arte 2) Filipetas com
. A prática da Mediação 2) Distribuir 4 livros para cada subgrupo, sendo um deles de leitura compartilhada (postura
e os impactos em diferentes dimensões perguntas
de leitura e sua relação um tema que possa gerar desconforto, outro de uma narrativa corporal, mostraram as imagens,
do humano; mobilizadoras para a
com a cultura da só de imagens, um terceiro de poesia e mais um que expresse dialogaram durante a leitura)?
Mediação de Leitura . Instrumentalizar para a Mediação de discussão;
infância; a cultura da infância; 2) Quais concepções trazem sobre
80" em subgrupos e Roda Leitura das imagens, componente 3) Ver "Livros à Vista!" -
. Temas que podem 3) Pedir que façam leituras compartilhadas; leitura e a criança leitora?
de Conversa importante da literatura infantil; Sugestões de livros a
causar desconforto; 4) Distribuir para cada subgrupo perguntas mobilizadoras e 3) O grupo promoveu
. Ampliar a compreensão sobre a serem utilizados nas
. Faixas-etárias e livros; convidá-los a pensar sobre elas; deslocamentos no modo de pensar
infância, seus modos de se relacionar Mediações de Leitura
. Leitura de Imagens. 5) Roda de Conversa a partir da apresentação das reflexões de a partir da roda de conversa? Que
com as narrativas, inclusive com em subgrupos;
cada subgrupo. tipos?
àquelas que trazem temas que podem 4) Perguntas
ser desconfortantes. mobilizadoras para a
PPT "Mediação de .Desenvolvimento PPT "Mediação de
Leitura - Leitor; Leitura -
. Sintetizar a discussão sobre Mediação
compartilhando leituras . Seleção de Acervo; compartilhando leituras
de Leitura e o desenvolvimento leitor; 1) Como o grupo participou da
10" e disseminando o . Critérios para um livro 1) Apresentar ao grupo o PPT e disseminando o
. Apresentar em ppt os critérios para o discussão? Fizeram perguntas?
prazer em ler": seleção de qualidade; prazer em ler": seleção
livro de qualidade.
de livros de qualidade e . O revesso de uma de livros de qualidade e
desenvolvimento leitor. situação utilitária. desenvolvimento leitor.

. Levantar e acolher as dúvidas e


Informes e combinados
expectativas para o desenvolvimento
para a ação de 1) Distribuir material de apoio para os mediadores; 1) Como o grupo se sente para a
10" Chegando ao Destino da ação de Mediação de Leitura nas
Mediação nas 2) escutar dúvidas e fazer combinados para o dia da ação. realização da ação?
instituições;
instituições
. preparar o grupo para ação.

1) Responderam com atenção e


Ter um registro escrito da percepção 1) Distribuir um impresso com perguntas avaliativas para os(as) cuidado?
10" Avaliação da Formação Avaliação da formação Impresso de avaliação
dos participantes sobre a formação participantes preencherem. 2) Apresentaram dúvidas sobre as
perguntas da avaliação?
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ATIVIDADE I
Apresentação de formação

Conteúdos:

Justificativa para a formação de mediadores de leitura e seu planejamento

Farol:
Comentários:

Por que lemos para uma criança?


Essa é uma formação pensada para pessoas que se voluntariam a ser mediadores de leitura
Lemos para as crianças porque isso
para crianças da sua ou de outras comunidades. Na formação vamos falar sobre o livro,
nos dá a oportunidade de dialogar
protagonista da nossa ação; sobre princípios e técnicas da Mediação de Leitura; papel do
com elas e assim fortalecer nossos
mediador e fundamentalmente sobre crianças (Inclusive as crianças que fomos). Muito do que vínculos afetivos.
vamos vivenciar na formação, vamos também vivenciar com as crianças. Importante pontuar Lemos para as crianças porque elas
a replicabilidade como estratégia metodológica. Fazendo isso logo no início os mediadores precisam falar sobre elas, dar nome e
ficarão atentos ao repertório que poderão utilizar na prática da Mediação. contorno as suas experiências.
Lemos para as crianças porque
Neste momento de chegada e recepção é importante que os participantes tenham uma ideia
fantasiar é inerente do sujeito desde o
do que acontecerá no encontro de formação. Diga que podem se situar na Carta Náutica e
nascimento.
façam combinados sobre intervalo, uso do celular, que o grupo garanta a participação de
Lemos para as crianças porque elas
todos, etc. são construtoras de sentidos e os textos
Como qualquer outro, este trabalho exige investimento, dedicação e continuidade. Vamos literários ajudam a ler o mundo.
vivenciar e descobrir muitas coisas. Inclusive criar um sentido para estarmos aqui, refletir Leia “Literatura para crianças
sobre porque queremos mediar leitura, sobre porque lemos para uma criança. e jovens, mediações e
leitores”, de Silvia Oberg.
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ATIVIDADE II
Apresentação dos participantes

Conteúdos:

O Lúdico na Cultura da Infância; Livro de literatura infantil

Farol:
Comentários:
Desde o início do século XIX, a
Interessante observar como os participantes se apresentam, quais brincadeiras carregam em suas psicanálise já refletia sobre o papel
histórias e o que determina suas escolhas. Além de permitir a integração do grupo, com esta estruturante do brincar no
desenvolvimento emocional da
apresentação procuramos resgatar as infâncias ou como diz Michele Petit, acessar os espaços criança, destacando sua função
íntimos. A ideia é que eles percebam que a brincadeira é elemento fundamental da cultura da defensiva no enfrentamento das
infância e que os mediadores devem explorar bastante o lúdico. angústias – seu caráter de
elaboração, já que pela
Ao sugerirmos que os participantes escolham um livro, já iniciamos também a exploração do simbolização, a criança desloca
situações de angústia para o mundo
acervo. Os facilitadores já podem fazer algumas pontuações sobre o que chama a atenção para
externo – e ainda, sua função de
as escolhas, provavelmente relacionadas a Projetos gráficos ou elementos conhecidos dos livros expressão e comunicação, como
(como autores, personagens e narrativas). Interessante pontuar que as crianças muitas vezes usam uma linguagem para as fantasias
inconscientes. Freud nos ensinou que
estes dois critérios para a escolha dos livros que querem ler: projetos gráficos chamativos e
tanto o brincar como o fantasiar são
elementos conhecidos. Assim começaremos a formação. determinados pelo desejo que
busca corrigir uma realidade
insatisfatória e que o brincar não é a
“Meu quintal é maior do que o mundo” - VARAL DE BRINCADEIRAS
antítese do que é sério, mas do que
Para incentivar as memórias, o varal deve apresentar algumas brincadeiras, (como as clássicas “esconde- é real. Defende ainda que o jogo
esconde”, “pega-pega”, “corre cotia”; cantigas, como “Ciranda-Cirandinha”; “Meu limão, meu infantil é a primeira expressão da
limoeiro”; jogos como, “Bolinha de gude”, “amarelinha”) e outras brincadeiras que vocês, formadores(as), poética humana. S. Freud, in:
“Escritores criativos e devaneios”.
acreditarem que expressam a cultura regional.
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ATIVIDADE III
Gincana do Acervo

Conteúdos:

Componentes do livro como obra de arte; Gêneros literários; Seleção do acervo; Mitos da leitura (livros e faixas etárias; temas
proibidos); Encontros literários x Situação utilitária.

Comentários: Farol:

“Preste atenção em cada detalhe,


Já que o lúdico é intrínseco à Mediação de Leitura, vamos brincar! A Gincana permite cada criar (...). É uma obra pra ser lida
explorar o acervo, conhecer elementos do livro infantil que o caracterizam como obra de com os olhos e com as mãos também.
arte, perceber que um bom acervo é diversificado quanto a gêneros e projetos gráficos e que Tocar, mudar suas páginas, virar o
uma Mediação competente explora junto com as crianças toda a completude do livro. objeto de cabeça pra baixo... Tudo
isso faz parte do processo de leitura de
As instruções 5 e 6 são propositalmente colocadas para começar uma reflexão sobre mitos alguns desses livros. Tudo nele é
relacionados à leitura para crianças, como faixas etárias adequadas ou temas comunicação (...). Ele [o autor] constrói
cada centímetro do livro. O estilo da
inapropriados. Poderá também iniciar a desconstrução de ideias pré-concebidas da leitura
imagem, o formato do livro, o tipo de
como uma situação utilitária (ler para alfabetizar, por exemplo; note que indicamos na papel, as cores”. Odilon Moraes,
instrução 5 uma criança em idade próxima a alfabetização). As atividades que seguem vão escritor e ilustrador.
complementar estas reflexões.
os textos Componentes do
A gincana do Acervo é uma brincadeira que facilmente pode ser adaptada nas Mediações Acervo e Gêneros literários são
de Leitura com as crianças. Elas adoram brincar de “Caça aos livros”. Não deixe de comentar boas dicas para embasar esta
isso com os futuros mediadores. atividade. (págs....)
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FILIPETAS PARA OS SUBGRUPOS:

1) Um livro que, por conta do projeto gráfico, você salvaria de um incêndio;


2) Três livros de gêneros diferentes;
3) Três livros de autores brasileiros;
4) Um livro em que a página de guarda ou a dedicatória estejam intimamente relacionados com a narrativa literária;
5) Um livro que vocês dariam de presente a uma criança de 7 anos;
6) Um livro que vocês não gostariam de ler para uma criança.

Farol: Armadilha da formação de leitores: Dar uma utilidade para a leitura

“Para que literatura? Para nada e para tudo. Para nada, porque a literatura não tem uma função utilitária ou pragmática para a vida: ela não tem o
compromisso de ensinar, de mudar o comportamento das pessoas, de atuar diretamente no real. E para tudo, se pensarmos que a literatura está aí
para que possamos nos indagar sobre quem somos, sobre o mundo em que vivemos, sobre a morte, esse grande mistério. A literatura nasce da
necessidade do homem de se pensar, de ter que se haver com a morte, que também nos faz questionar ou buscar o sentido da vida. Desse ponto de
vista, a literatura não é escape, mas envolvimento do leitor com os mistérios e os perigos da vida.” Luiz Percival Leme Britto, in: “As Razões do direito
à literatura.
“Não quero contar histórias para rechear as crianças de ensinamentos, não quero dar aulas, não quero transmitir os princípios morais vigentes. Não
é para isso que escrevo. Eu quero escrever beleza. Quero dar beleza de presente, para que os leitores se sintam nos meus livros como eu me senti nos
belíssimos livros que li. O ideal é que a pessoa leia um miniconto, um poema, um texto, e feche o livro sentindo-se plena, alimentada. E que esse
sentimento perdure. Eu quero ser a bala de hortelã para o resto do dia daquela pessoa.” Marina Colasanti, in: “Nos Caminhos da Literatura”.
“Literatura não pode ser utilizada como uma ferramenta. A Leitura vai muito além do utilitário ou do necessário. Leitura relaciona-se com um espaço
de liberdade, um movimento de entrega, de recusa ao jogo de dominar ou ser dominado, de deixar ir à deriva. (...) O cardápio de prazeres e leituras
é variadíssimo. O que não pode é ser reduzido a um único tipo de prazer: o da preguiça, de não ter trabalho, de buscar sempre a segurança do
enredo movimentado, dos personagens simplificados, das situações conhecidas, da linguagem direta, da mensagem com conselhos evidentes.” Ana
Maria Machado, in: “Nos Caminhos da Literatura”.
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ATIVIDADE IV
Do varal ao pé do ouvido

Conteúdos:

Dimensão afetiva do mediador de leitura: a voz e a escuta.

Comentários:

Esta atividade tem a intenção de promover uma vivência prazerosa de contato com a voz na Mediação de Leitura. No “Varal
Literário” estarão dispostos trechos de narrativas literárias que serão escolhidos pelos participantes de metade do grupo (subgrupo
A). As escolhas acabarão sendo aleatórias, tendo em vista que o tempo não permitirá a leitura de todos os trechos previamente.
Enfatizar que devem ler ao “pé do ouvido” dos participantes do subgrupo B (que estarão de olhos fechados, deitados ou
confortavelmente posicionados na sala). A ideia é que as leituras aconteçam ao mesmo tempo e que sejam rodiziadas. Sussurros
serão ouvidos pela sala. Depois os papeis serão trocados.

Farol:

“Os textos lidos abrem um caminho em direção à interioridade, aos territórios inexplorados da afetividade, das emoções, da
sensibilidade; a tristeza ou a dor começam a ser denominadas. O que é dividido com o autor, com aquele ou aquela que lhe empresta
a voz, com os que participam desses espaços de leitura, abre um espaço íntimo, subjetivo. Michèle Petit, in: Leituras: do Espaço
íntimo ao espaço público”
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VARAL LITERÁRIO

Trecho de “Lá e Aqui”, Carolina Moreyra e Odilon Moraes Trecho de “Ritmo é tudo”, Ricardo Elia (Ed. Scipione,
2012)
(Ed. Pequena Zahar, 2005)
“Coloque a mão do lado esquerdo do peito e sinta o ritmo
do seu coração neste momento.
O ritmo está em tudo: no pulsar do coração, nas conversas
“(...) um dia, a casa se afogou. com nossos amigos, nas ondas do mar. Dentro e fora da
gente.
Os cachorros fugiram.
Música é ritmo dos sons.
As flores murcharam. O jardim morreu...
Dança é ritmo dos movimentos.
e a casa ficou vazia. Poesia é ritmo das palavras.”

Os peixinhos foram morar nos olhos úmidos da minha mãe.


“Quando as crianças brincam”, Fernando Pessoa (Ática,
Os sapos levaram os ensopados pés de papai para longe. 1942)
Nossa casa virou duas:
“Quando as crianças brincam
Uma da mamãe
E eu as ouço brincar,
Uma do papai.” Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.
E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.
Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
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Trecho de “A árvore generosa”, Shel Silverstein (Ed. Trecho de “Felicidade clandestina”, Clarice Lispector
Cosac Naify, 2006) (Ed. Rocco, 1998)

“Era uma vez uma árvore “(...) chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não
que amava um menino. o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois
E todos os dias o menino vinha, abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui
juntava suas folhas, passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com
E com elas fazia coroas de rei; com elas brincava de rei da manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro,
floresta.
achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais
Subia em seu grosso tronco, balançava-se em seus galhos,
falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a
comia suas maçãs.
felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim.
E brincavam de esconder.
Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no
Quando ficava cansado o menino repousava à sua sombra
fresquinha. ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha
O menino amava a árvore delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me
profundamente. com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase
E a árvore era feliz. (...) puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma
Mas o tempo passou. mulher com o seu amante.”
O menino cresceu
E a árvore muitas vezes ficava sozinha.”
21

Trecho de “Ritmo é tudo”, Ricardo Elia (Ed. Scipione, 2012) Trecho de “O menino azul”, Cecília Meirelles (Ed.
Global, 2013)
“Coloque a mão do lado esquerdo do peito e sinta o ritmo
do seu coração neste momento. “O menino quer um burrinho

O ritmo está em tudo: no pulsar do coração, nas conversas Que saiba inventar histórias bonitas
com nossos amigos, nas ondas do mar. Dentro e fora da Com pessoas e bichos
gente.
E com barquinhos no mar.
Música é ritmo dos sons.
E os dois sairão pelo mundo
Dança é ritmo dos movimentos.
Que é como um jardim
Poesia é ritmo das palavras.”
Apenas mais largo
E talvez mais comprido
E que não tenha fim.”
Trecho de “O rio”, Bartolomeu de Campos Queirós (Ed.
Ozê, 2011) Trecho de “Poesia na varanda”, Sonia Junqueira e Flávio
Fargas (Ed. Autentica, 2012)

“Um rio viaja pela minha cidade. Corre sorrindo como se “Gritou o mato a poesia
fosse de vidro macio. O rio carrega uma cantiga açucarada quando caiu a noitinha:
capaz de adoçar a cidade inteira. Sua melodia percorre as era um concerto de grilos,
ruas dia e noite, noite e dia. É uma música mansa – a tantos astros em seresta,
música do rio - e faz carinho nas conchas dos ouvidos pois era dia de festa,
abertos.” e dentro da boca da noite
cantaram um coro sem fim... ”do trajeto.”
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Trecho de “A menina avoada” do livro: “Exercícios de ser Trecho de “De dois fios”, Pep Molist e Emilio Urberuaga
criança”, Manuel de Barros (Ed. Salamandra, 1999) (Ed. Cosac Naify, 2012)
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos. “(...) nos povoados, os passageiros o esperam.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Na ponta de um fio, as histórias do avô.
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele. E na ponta de outro fio, os beijos da mãe, que o protegem
Isso ele contava. dos perigos
No caminho, antes, a gente precisava
E dos espíritos que aparecem quando começa a escurecer,
de atravessar um rio inventado.
e...
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados. O seu trem ainda não chegou ao fim
Eu não morri porque o rio era inventado Do trajeto.”

“A função da arte”, em “O livro dos abraços, Eduardo Trecho de “O mundo inteiro”, Liz Garton Scallon e Marla
Galeano (Ed. L&pM, 2005) Frazee (Ed. Paz e Terra, 2013)

“(...) A rua, a via, a travessa, o caminho


“Diego não conhecia o mar. O pai Santiago Kovakloff, O navio, a jangada, a vela, o barquinho
levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.
O ninho, a ave, a nuvem cinzenta
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas,
esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram O mundo inteiro sopra e venta
aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar
estava na frente de seus olhos. E foi tanta imensidão do Corre, tropeça, escorrega, olha a lama!
mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, Vira o balde, derruba, esparrama
gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar!” A sorte volta em outro momento”
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Trecho de “Kurikalá e as torres de pedra”, Tino Freitas (Ed. Trecho de “A moça tecelã”, Marina Colasanti (Ed. Global,
Salamandra, 2014) 2004)
“Pela manhã, o menino gosta de construir torres “Acordava ainda no escuro, como
equilibrando pedras às margens dos caminhos por onde se ouvisse o sol chegando atrás
passa. das beiradas da noite.
E logo sentava- ao tear.
Elas ainda estão frias.
Linha clara para começar o dia.
Hora boa para oferecer o calor de suas mãos. Delicado traço cor da luz, que ela
ia passando entre os fios
Escolhe pedras chatas, redondas, pontiagudas, de cores e
estendidos, enquanto, lá fora
tamanhos diversos.
a claridade da manhã desenhava o
Logo, logo, mais uma torre estará pronta. horizonte.”
Faz isso como se estivesse brincando.
“No meio do caminho”, Carlos Drumomnd de Andrade (Ed.
Faz isso delicadamente. Semeia a beleza.” Pindorama, 1930

Trecho de “Como começa?”, Silvana Tavano e Elma (Ed.


Callis, 2009) “No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
“(...) mas e o mar? tinha uma pedra
Começa ou acaba na areia? no meio do caminho tinha uma pedra.

O vento também é um mistério: Nunca me esquecerei desse acontecimento


na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Às vezes começa antes da chuva, Nunca me esquecerei que no meio do caminho
E de vez em quando começa por nada, tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
É só vontade de ventar” no meio do caminho tinha uma pedra.”
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ATIVIDADE V
Movimento do olhar

Conteúdos:

Dimensão Afetiva do Mediador de Leitura: a voz e a escuta

Comentários:

Este é um exercício que enfatiza o olhar como elemento fundamental do mediador de leitura. O olhar do mediador acolhe,
observa, vincula e guia a criança ao livro.

Trechos a serem lidos – Varal: ler para uma criança muda o mundo

Mediação de leitura é uma ação educativa. Ainda que não Mediação de leitura é uma ação educativa, mas não
tenha uma intencionalidade pedagógica, seu potencial pedagógica. Os mediadores não precisam explicar tudo para
educativo se manifesta no desenvolvimento de competências a criança, nem usar uma linguagem específica (com
ligadas ao relacionamento pessoal, à comunicação, à diminutivos, por exemplo, ou simplista demais), muito menos
valorização da diversidade, à construção de empatia, ao trocar as palavras que os autores propositalmente usaram.
conhecimento das emoções e organização do próprio Quando fazemos isso, perdemos a oportunidade de ampliar o
repertorio linguístico da criança. Certamente, em um clima de
pensamento.
liberdade e acolhimento, se a criança tiver interesse, estará à
vontade para perguntar o que quiser compreender.
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A mediação de leitura é uma ação afetiva. A companhia de um Mediação de Leitura é uma ação cultural que pressupõe
mediador de leitura, promovendo um espaço para habitar a liberdade de escolha, de leituras, de interpretações.... Não
narrativa literária e seus múltiplos e diversos impactos, contribui precisa ouvir a história até o final se não quiser. Pode só folhear,
para que se encontre –e continue buscando - prazer em ler. O ler de trás pra frente ou só ver as ilustrações. Não precisa
triangulo amoroso (livro – mediador – criança), usando termo prestar atenção, como os adultos em geral acham que precisa.
de Yolanda Reyes, sustenta a atividade leitora transformadora Cabe ao mediador permitir a livre exploração e observar o que
que os bons livros de literatura proporcionam. causa encantamento nas crianças, para assim seguir nutrindo
os pequenos leitores.

A Mediação de Leitura é uma ação cultural que pressupõe A mediação de leitura é uma ação afetiva. “Não se pode
Gratuidade: nada é pedido em troca. Não precisa desenhar educar ou formar leitores, a partir de uma técnica neutra,
depois da leitura, não precisa conhecer as letras, não precisa independente das relações sociais e do mundo dos afetos”
dizer o que entendeu, nem qual a mensagem do livro. como nos ensina Daniel Goldin.

Mediação de leitura é uma ação cultural porque pressupõe A Mediação de Leitura é uma ação artística. O livro é uma obra
Fruição. Cada criança pode desfrutar do livro à sua maneira. de arte! Todos seus componentes são pensados. Como diz o
Um livro de literatura é um objeto cultural e permite diferentes ilustrador Renato Moriconi: “Uma ‘história mostrada’ requer um
interações. Perguntas, silêncios, histórias, gestos, rejeições e tipo de atenção diferente de uma "história contada", tanto
atrações surgem espontaneamente e são acolhidos pelo para ler quanto para quem planeja todos os detalhes. Os
mediador. elementos não são gratuitos, se você investigar, vai achar um
sentido para eles.”

A Mediação de Leitura é uma Ação Política. A difusão da A Mediação de Leitura é uma ação política: “Ler pode ser um
leitura contribui para que cada pessoa possa ser mais sujeita meio para melhorar as condições de vida e as possibilidades
de seu destino, singular e partilhado; esse processo é o que de ser e estar no mundo. A leitura, como nos diz Emilia Ferreiro,
entendemos por democratização, no qual cada criança possa é um direito, não é um luxo, nem uma obrigação”, Silvia
conquistar uma posição que não seja objeto do discurso e do Castrollón.
desejo dos outros.
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ATIVIDADE VI
Roda de conversa: A poética do Mediador de leitura

Conteúdos:

Dimensão Afetiva do Mediador de Leitura

Farol:
Comentários:

A experiência é a matéria prima para compreender a dimensão afetiva do mediador de leitura. Escutar A poética que vem de longe
como foi a vivência dos participantes nas duas atividades anteriores é o ponto de partido para a
O mediador de leitura é um
conversa.
valorizador do livro literário,
Nesta discussão é importante que os participantes: facilitador de processos de
Percebam que a voz e o olhar são elementos constituintes do mediador, que contribuem para o construção de sentidos e
fortalecimento do triângulo amoroso (conceito criado por Yolanda Reyes): criança – mediador – obra promotor de encontros afetivos
literária; em torno da leitura. Atribuímos
Considerem o afeto que se revela na escuta do mediador às crianças: suas necessidades, memórias e a ele uma função poética à
desejos suscitados pelas leituras; medida que sua atuação está
ligada com melodia e ritmos
Entendam o mediador como figura importante para o incentivo e acolhimento de diferentes posturas,
de linguagem e
interações e leituras;
fundamentalmente com
Compreendam a dimensão íntima da Mediação de Leitura, à medida que as crianças compartilham encantamento e afeto.
suas questões pessoais, suas visões sobre o mundo. Muitas vezes surgem questões dos mediadores
sobre o que fazer com expressões ou relatos das crianças com relação à dores, problemas, conflitos
familiares. Costumamos orientar a escutá-los e acolhê-los; e quando achar que alguma violação de O prazer de ouvir histórias e
Carta a um jovem mediador
direitos está acontecendo, compartilhar com os profissionais das instituições.
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ATIVIDADE VII
Mediação em subgrupos e roda de conversa

Conteúdos:

A prática da Mediação de Leitura e sua relação com a cultura da infância; temas que podem causar desconforto; faixas etárias e
livros; leitura de imagens

Farol:
Comentários:

Esta atividade propõem a vivência da Mediação de Leitura e reflexões Qual a diferença entre contar uma história e mediar
sobre perguntas frequentemente feitas pelos mediadores iniciantes leitura?
como: “Qual a diferença entre contar e mediar?”; “Devemos evitar Ambas são ricas e fundamentais para crianças – e
alguns temas ou o que fazer quando o livro trata de um tema que causa adultos também – mas são ações distintas. A
desconforto na criança?” Ou “Como ler o livro sem texto?” Ou ainda: diferença fundamental é a presença ou ausência do
“Como adequar as diferentes faixas etárias aos livros?”. Trataremos da livro na ação. Na mediação, o livro é essencial, o
prática da Mediação e de mitos relacionados a ela, sem perder de vista texto não sofre alteração, lemos – e ajudamos a ler
uma concepção de infância que acredita em seu potencial e – o que está nele. Inclusive não precisa alterar
capacidades leitoras. A vivência nos subgrupos, como mediadores e nenhuma palavra, trocando por sinônimos para
como ouvintes, promove uma experiência literária de fruição do livro ajudar na compreensão porque quando fazemos
como objeto de arte e a percepção dos diferentes impactos das isso, tiramos a possibilidade da criança ampliar seu
narrativas literárias. vocabulário.
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ANTES DA ATIVIDADE

Separem o acervo nas categorias propostas: livros de imagem, poesia, cultura da infância e temas desconfortantes.
Se não for possível montar 5 kits (um por cada subgrupo), os livros podem ser rodiziados.
A divisão em categorias é apenas para a organização dos facilitadores; não devem ser expostas aos subgrupos.

A ATIVIDADE:

Os subgrupos vão receber um kit de livros que devem mediar uns para os outros e as seguintes perguntas orientadoras para
debaterem:

Seria interessante os participantes registrarem em um flipshart ou cartolina as respostas do subgrupo para facilitar na hora de
apresentá-las.

Marque um tempo para o trabalho nos subgrupos. (sugestão: 25 minutos).


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1) Qual (ou quais) destes livros vocês indicariam para as crianças menores de 2 anos? E qual vocês
indicariam para crianças de 9 anos?

2) Como fazer a Mediação de Leitura de um livro sem texto?

3) E se os livros trouxerem temas que podem causar desconforto na criança? Isso atrapalharia o prazer na
leitura?

4) Após a leitura destes livros, o que podem dizer sobre literatura para crianças? Que temas tratam, quais
linguagens usam, como entendem a criança?
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RODA DE CONVERSA

Antes de apresentarem as reflexões das 4 perguntas orientadoras distribuídas aos subgrupos, investigue como foi participar das
Mediações em subgrupos:

As seguintes questões podem ajudar a iniciar o bate-papo e a refletir sobre a experiência de Mediação de Leitura em subgrupos,
tanto como mediadores, como também como ouvintes.

o O que facilita ler para alguém? O que dificulta?

o O que aconteceu quando vocês ouviram as histórias? viajaram? Lembraram de algo?

Para conduzir esta discussão, importante ter em mente que os participantes devem:

o Perceber que mediar leitura é dar acesso ao livro em toda sua completude

o Compreender que múltiplas interações, entendimentos, significados, leituras acontecem diante de um livro.

o Entender que a atenção pode ser manifestada de diferentes formas. E que quando de fato ela não se dá, é possível pensar
em outros modos de promover o acesso aos livros.

o Perceber que as histórias mobilizam emoções, memórias, lembranças, silêncios, atrações e rejeições.
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REFLEXÕES SOBRE AS PERGUNTAS ORIENTADORAS

1) Qual (ou quais) destes livros vocês indicariam para as 2) Como fazer a Mediação de Leitura de um livro sem texto?
crianças menores de 2 anos? E qual vocês indicariam para
O mediador de leitura tem um importante papel em
crianças de 9 anos?
provocar a leitura das imagens. As ilustrações têm uma
Esta pergunta provoca a pensar sobre a divisão dos livros em narrativa própria, ainda que se relacionem com o texto
faixas etárias e também em uma redefinição do conceito de (quando ele existe). Nos livros que não tem texto, os
leitura. mediadores costumam ter muitas dúvidas se silenciam para
não interferir na leitura da criança ou se contam a história a
É possível que os subgrupos tenham refletido a partir da ideia
sua maneira. Usar algumas frases de estímulo como “O que
que livros de imagem são para crianças não alfabetizadas e
você vê aqui?”; “E agora o que vai acontecer?” ajuda a
que poesias, por não serem compreendidas
criança a dar palavras às imagens. Os comentários e
metaforicamente pelos pequenos, não servem a eles.
observações dos mediadores também contribuem para este
Sabemos que as crianças têm direito à escolha em uma diálogo interpretativo das ilustrações. Os livros só de
sessão de Mediação de Leitura e quando observamos as imagens são ótimos para as sessões de Mediação de Leitura
escolhas que fazem, percebemos que seus critérios estão e encantam crianças e adultos. As crianças, inclusive,
bastante distanciados da ideia de classificação por faixa costumam ser mais observadoras aos detalhes das imagens,
etária, tão difundida por livrarias e pesquisada por mães e do que as pessoas adultas.
pais na hora de comprar livros. Ao partirmos da ideia que a
obra literária é aberta às múltiplas significações, não
podemos. enquadrar os livros em faixas etárias. Um bebê
pode se deliciar com um livro mais grosso, carregando-o
pela sala, imitando os personagens das ilustrações ou
relaxando com a música da voz do mediador que lê uma
poesia. Assim como um jovem, ou um adulto, pode se
encantar com livros voltados aos pequenos.
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3) E se os livros trouxerem temas que podem causar 4) Após a leitura destes livros, o que podemos dizer sobre
desconforto na criança? Isso atrapalharia o prazer na literatura para a criança? De que tema tratam, quais
leitura? linguagens usam, como entendem a criança?

Para discutir esta pergunta é importante levar em conta que Precisamos conhecer as crianças, escutar suas necessidades e
aquelas crianças que não estão preocupadas com questões desejos quando nos propomos a apresentar-lhes livros. As
como a separação dos pais, a morte ou sexualidade no crianças são criativas, curiosas, exploradoras, imaginativas,
momento da leitura, significam a narrativa a partir de outras questionadoras. Precisam se nomear e nomear o mundo;
óticas e acabam mobilizadas por outros componentes da querem se expressar e querem ser escutadas. Precisam da
narrativa, sem se atentarem aos temas “difíceis”. Outro brincadeira para se organizar intimamente; precisam
aspecto a ser ressaltado é que o livro de qualidade, ao compreender as regras e as consequências de suas ações no
mundo; precisam de contornos e limites. Precisam repetir
introduzir estes temas de modo poético, contribui para que
brincadeiras e leituras para elaborar suas angústias e questões.
aquelas crianças que já estão mobilizadas por eles, muitas
As crianças precisam de afeto.
vezes pela identificação com sua história de vida, encontrem
palavras e imagens para dar contorno aos sentimentos e Por isso, a Mediação de Leitura é tão organizadora. Por isso a
literatura, que trata dos temas da vida, que não quer ensinar,
emoções, muitas vezes até então indizíveis. Nesse sentido, o
mas quer mobilizar tem tanta importância.
modo como os livros constroem as narrativas e a presença
de um mediador sensível e acolhedor é fundamental para o A literatura para criança, assim como para os jovens ou para
enfrentamento de temas que a literatura trata, justamente por os adultos, trata dos temas da vida. A literatura nos faz pensar
sobre nós mesmos, sobre o outro; nos desconcerta, nos
serem questões da vida.
desestabiliza, nos faz refletir sobre nossa condição.
O prazer, como nos diz Ana Maria Machado, não está Os elementos todos que compõem o livro infantil estão a serviço
ligado apenas a uma narrativa divertida. O prazer da leitura de estimular com diferentes linguagens a criança entendida
também acontece quando encontramos palavras para como capaz de múltiplas interpretações e interações.
metaforizar o que sentimos, quando percebemos que nossas Não é só a criança que ganha com a presença do mediador
questões são compartilhadas por personagens ou quando de leitura; o mediador tem uma grande chance de pensar sobre
acompanhamos uma história cheia de peripécias e soluções si e sobre o mundo, quando observa as crianças e seu modo de
para (nossos) conflitos. relacionar com as narrativas.
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ATIVIDADE VIII
PPT: Mediação de Leitura – Compartilhando leituras e disseminando o
prazer em ler
Conteúdos:

Desenvolvimento leitor; Seleção de acervo; critérios para um livro de qualidade

Comentários:

O PPT apresenta os critérios de um livro de qualidade, orienta a selecionar um acervo diversificado e ao enfatizar a potência leitora
das crianças, capacita os participantes a compreenderem como se dá o desenvolvimento leitor. A ideia é que percebam que os
livros de qualidade estão intimamente relacionados com uma concepção de criança que parta de suas capacidades, necessidades
e desejos.

Direitos Imprescritíveis do Leitor


Farol: O direito de não ler;
O direito de pular páginas;
O direito de não terminar um livro;
O direito de reler;
O direito de ler qualquer coisa;
O direito ao “bovarismo” ;
O direito de ler em qualquer lugar;
O direito de ler uma frase aqui, outra ali;
O direito de ler em voz alta;
O direito de calar.
Por Daniel Pennac, in :Como um Romance
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Farol:

Desenvolvimento Leitor
A formação do leitor não se inicia com alfabetização. Nem termina na universidade. É uma história que começa embalada pelas primeiras
vozes, com as cantigas de ninar, com as brincadeiras, parlendas e outros jogos de linguagem. Desenrola com a exploração do objeto
livro, com as brincadeiras de faz de conta, com a descoberta que das imagens e palavras escritas se desenvolvem as histórias. Na
construção de sentidos, no estabelecimento de relações, nas interpretações e associações, o leitor continua se formando ao longo da
vida. Sempre estaremos aprendendo a ler.
Na relação com a literatura, a criança brinca com as palavras, com as imagens, com o objeto livro, com a narrativa, identificando-se com
os personagens, emprestando o corpo para imitar ou propondo desafios, construindo casas com os livros ou os utilizando como cama
para suas bonecas... as possibilidades são ilimitadas.
Uma Mediação de qualidade não tem um ponto de chegada, nem resultados a serem alcançados. Considera os diferentes modos de se
relacionar com a leitura e com os livros. Conhece a criança e sua cultura, partindo de uma concepção que a considera como sujeito,
valorizando suas capacidades e convicções (e não a partir do défict e da carência como tradicionalmente se entendeu a criança). Uma
competente mediação observa como as crianças fazem suas leituras, seus desejos e necessidades. Sabe que a criança é um ser brincante,
que quer brincar com o objeto livro, transformá-lo em casa, carro ou cama para a boneca dormir. A criança brinca de ser os personagens
da história, imita suas posições, gosta dos desafios de acertar a rima, falar o trava-língua. Uma Mediação de qualidade sabe, inclusive
que as crianças precisam inclusive brincar com seus medos; entende que precisam das histórias repetidas vezes, que conta com a literatura
para dar palavras e contorno às suas angústias. Uma Mediação competente sabe que as crianças precisam de afeto, assim como precisam
do alimento.

Leia: “Como selecionar bons livros de literatura infantil?”, por Collectivus de Leitura
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ATIVIDADE IX
Chegando ao destino

Conteúdos:

Informes e combinados para a ação de Mediação nas instituições

Comentários:

Este é o momento de compartilhar informações a respeito das instituições onde as ações de Mediação de Leitura irão ocorrer e fazer
os combinados (como por exemplo, não fotografar as crianças, não prometer presentes, etc.). Observe as perguntas, dúvidas e
expectativas do grupo.
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ATIVIDADE X
Avaliação

Comentários:

No anexo está o impresso de avaliação para distribuir aos participantes. Seus comentários na avaliação são fundamentais para
aprimorarmos os próximos encontros.
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Navegar é preciso
Apresentamos textos que visam embasar os formadores para a condução das atividades e rodas de conversa. Estão relacionados com
os conteúdos que serão trabalhados na formação. Boa leitura!

Texto 1: Literatura para Crianças e Jovens, Mediações e Texto 4: Como selecionar bons livros de literatura
Leitores – Silvia Oberg infantil? – Collectivus de Leitura

Texto 2: O prazer de ouvir histórias – Renata Texto 5: Componentes do Livro – Collectivus de


Gentile Leitura

Texto 3: Carta a um jovem mediador - Collectivus de Leitura Texto 6: Gêneros da Literatura Infantil – Collectivus de
Leitura
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Literatura para crianças e jovens, mediadores e leitores


Silvia Oberg

É possível pensar muitas razões pelas quais nos interessamos por das mais antigas e conhecidas narrativas a tratar da importância
literatura ou por que gostamos de ler, contar, ouvir e guardar na das histórias venha do Oriente, protagonizada pela corajosa jovem
memória histórias, imagens, versos, poemas. A própria literatura, Sherazade. Naquele reino, o sultão Shariar havia perdido a
muitas vezes, trata destas questões e apresenta personagens às confiança nas mulheres, depois de descobrir que era traído pela
voltas com livros e leituras. Entre tantas produções, antigas ou esposa. Por esta razão, submetia cada nova esposa à morte, logo
contemporâneas, lembro aqui algumas que fazem parte do acervo após a noite de núpcias. Sherazade, conhecida não apenas por sua
destinado a crianças e jovens... Da tradição africana nos chega o beleza, mas também por sua memória prodigiosa e pelo talento
velho Ananse, personagem que enfrenta perigosos desafios para em contar histórias, decide se oferecer para se casar com o sultão.
receber o baú com histórias guardado por Deus e poder passar a Ao se casar com Shariar, o estratagema de Sherazade para se
contá-las. No conto de origem coreana “A sacola de couro”, manter viva é contar histórias a seu marido com inteligência e
encontramos um menino que gostava de ouvir as histórias astúcia, interrompendo sua narração ao raiar do dia e acenando
contadas por um antigo criado da casa e descobrimos como estas com novos e incríveis episódios para a noite seguinte, caso o
narrativas desempenharam um papel essencial em sua vida. O marido lhe permita mais um dia de vida.
livro A história sem fim, do alemão Michael Ende, tem como
E é assim que, depois de mil e uma noites e de mil e uma histórias,
protagonista um menino apaixonado por livros. O mesmo
o sultão, já cativo da bela contadora, recupera a confiança na vida
acontece no conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector,
e vive feliz com Sherazade.
no qual uma menina “devoradora de livros” enfrenta infindáveis
dificuldades para realizar seu desejo de ler Reinações de Certamente, são muitos os papéis que a literatura pode
Narizinho, de Monteiro Lobato. Aliás, a obra infantil de Lobato desempenhar na vida das pessoas e muitas as razões pelas quais
está repleta de situações nas quais histórias são contadas, livros gostamos de ler. Mas, o fato é que, ao lado de depoimentos de
são lidos e personagens míticos ou criados por outros autores são leitores apaixonados sobre os prazeres e descobertas
chamados a fazer parte dos enredos. Matilda, de Roald Dahl, é proporcionados pela literatura, constatamos o alargamento do
protagonizado por uma menina que encontra nos livros consolo debate sobre a formação do leitor e a multiplicação de iniciativas
para a solidão e a ausência de afeto na família. Mas talvez uma (seminários, congressos, bienais, feiras, salões do livro, campanhas
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e projetos variados de âmbito local e nacional, entre outros) que, do leitor, não podemos deixar considerar a mediação como uma
por diferentes caminhos, convidam crianças e jovens que, por categoria essencial desse processo, uma vez que é preciso criar
diferentes caminhos, convidam crianças e jovens à leitura. Mas, condições à apropriação, à compreensão das “regras” do jogo
afinal, se ler “é uma viagem”, “é um prazer”, “é um barato”, como literário, que pede atuações específicas e mobiliza o leitor em
sinalizam tantos projetos, por que há tanta resistência à leitura, vários níveis: cognitivo, afetivo, imaginativo, sensorial, cultural,
por que são necessárias tantas estratégias e estímulos para fazer psicológico, entre outros. Mas, muitas vezes, os nós da formação
com que se leia? do leitor estão exatamente na qualidade das mediações
Se a literatura pode nos reservar grandes alegrias, é importante realizadas. Para pensar esta questão, destacamos algumas
lembrar que ela é uma produção complexa, que exige atuações propostas comumente encontradas nas propostas de formação.
variadas da parte do leitor no ato de ler. A recriação implicada na
A literatura como estratégia de ensino
leitura literária é, principalmente, de ordem linguística e
Em nosso país, onde convivemos com desigualdades sociais que
imaginativa: é preciso recuperar/ressignificar aquilo que, sugerido
dificultam, quando não impedem, a compra de livros e a inserção
no texto, não está dado completamente – o que vive no texto
e participação na cultura, o contato com a literatura acontece,
precisa ser reencarnado pelo leitor para ganhar sentido e
principalmente, na escola, em bibliotecas públicas e em espaços
concretude.
informais de educação.
Portanto, se a literatura e a leitura podem ser um “prazer”, uma
Nos contextos escolares, é comum encontrarmos propostas que
“viagem”, um “barato”, por outro lado, exigem saberes e
não reconhecem a leitura literária como ato com valor em si
competências variadas e específicas.
mesmo e que consideram a literatura para crianças e jovens em
A leitura não é um instinto, um ato natural. Se todo ser humano, função de suas possibilidades de uso pedagógico, como estratégia
a princípio, pode vir a ler, a leitura precisa ser aprendida e a para o ensino de outros assuntos ou para fornecer modelos de
formação do leitor exige tempo e mediações variadas – da família, comportamento. No ensino formal, gradativamente ao aumento
da escola, do meio social, entre outras. O leitor, portanto, não da idade das crianças e adolescentes, constatamos o crescente
surge espontaneamente: é preciso formá-lo e, para isso, são abandono de práticas de leitura que reconhecem a importância
necessárias atuações de várias ordens. da literatura e da apropriação lúdica e sensível da linguagem
Deste modo, ao refletirmos sobre a leitura literária e a formação literária em favor de outras, muitas vezes vinculadas
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exclusivamente a razões práticas. Assim, ações que priorizam a dificuldades, como relação fácil e sempre agradável. Esta noção
gratuidade da relação do leitor com o texto literário, vão sendo dá margem a propostas que deixam o leitor à deriva, colocando
substituídas por outras, cada vez mais comprometidas com níveis na obra literária todo o poder de provocar o prazer e, assim,
de formalização calcados na instrumentalização, que não levam formar o leitor. Neste contexto, bastaria que o leitor estivesse em
em conta a qualidade das relações que se estabelecem entre o contato com bons acervos para que a leitura acontecesse. Esta
sujeito e a literatura no momento da leitura. Ao não valorizarem convicção acaba por instituir práticas nas quais se ignora ou
a leitura literária como ato que pode se justificar nele mesmo, minimiza a importância das mediações socioculturais, apostando-
estas propostas buscam legitimar práticas com a literatura por se na naturalização do desejo de ler, como se os vínculos entre os
meio de atividades variadas (estudo da língua, avaliação de sujeitos e os livros surgissem espontaneamente, constituindo-se
compreensão e interpretação de texto, desencadeamento de apenas no contato com as obras, unicamente em função de suas
qualidades estéticas.
trabalhos interdisciplinares, entre outras) que, muitas vezes, Estes modelos de mediação colocam em risco, ainda que por
reduzem o texto lido à mera estratégia para a aprendizagem de diferentes caminhos, a formação do leitor: seja pelo excesso de
outros conteúdos. Ou seja, são modelos de mediação pautados atrelamento da leitura literária a tarefas muitas vezes sem
pela obrigatoriedade de um sem número de atividades pré e pós sentido, seja pela ausência de atuações adequadas, estas posturas
leitura que visam qualificar o ato de ler, como se a leitura por si só deixam de reconhecer a leitura como ato cognitivo complexo, com
não tivesse valor. características próprias, que mobiliza diferentes faculdades
A literatura – seja para crianças, jovens ou adultos – não tem que humanas (intelectuais, culturais, afetivas, sensoriais, entre
garantir “mensagens”, ensinar História, Geografia, Língua outras), exigindo mediações e contextos apropriados para se
Portuguesa, etc. ou veicular valores morais, regras para o bem constituir.
viver ou para salvar o planeta. A literatura educa? Sim, mas trata- A experiência mostra que políticas centralizadas apenas no acesso
se de uma educação no sentido mais amplo, próprio da arte. e distribuição de livros, que não sejam acompanhadas de
Literatura é arte da palavra e não pedagogia. mediações variadas e adequadas, têm sido insuficientes para dar
conta da empreitada de formar o leitor, especialmente o literário.
A leitura como um prazer fácil
Evidentemente, o contato com os livros e o cuidado na escolha
Outro nó da formação do leitor está nas mediações que das obras é essencial, mas a formação de leitores exige uma rede
incorporam a ideia do prazer de ler como ausência de de ações bem articuladas: bons acervos, espaços de leitura e
41

cultura acolhedores, mediadores e mediações competentes, Texto da publicação Arte e Expressão: reflexões de uma
entre outros.
experiência em arte e educação nas instituições de
Cabe aos educadores atuar para que as práticas com a literatura
junto a crianças e jovens considerem a complexidade e as acolhida. Vários autores, organizada por Bruna Elage e Renata
singularidades do processo de construção de leitores. Vivências, Gentile, São Paulo, outubro de 2012.
mediações e projetos educacionais e culturais múltiplos, que
privilegiem a diversidade da produção literária, que considerem
as diferenças entre os sujeitos e os contextos nos quais os REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
processos de formação do leitor ocorrem; ações nas quais o saber
sensível e o intelectual convivam poderão criar condições para
que nossas crianças e jovens possam não apenas descobrir as As mil e uma noites. São Paulo: Brasiliense, 1991.
alegrias da leitura, mas também refletir e atuar criticamente
frente aos desafios apresentados na contemporaneidade.
BONAVENTURE, Zette. A sacola de ouro. In: O que conta o conto?
São Paulo: Paulus, s.d.

DAHL, Roald. Matilda. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

ENDE, Michael. A história sem fim. São Paulo: Martins Fontes,


2000.

HALEY, Gail. O baú das histórias. São Paulo: Global, 1994.


Silvia Oberg é Doutora em Ciência da Informação pela
Universidade de São Paulo, especialista em literatura infantil e
juvenil. Desenvolve atividades de consultoria e coordenação de LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. In: Felicidade
projetos nas áreas de leitura e literatura. Clandestina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
42

O prazer de ouvir histórias


Renata Gentile
“Eu fui feito pela poesia, não ela por mim”
Mas além de facilitar uma situação caracterizada pela
Goethe interação, liberdade e fruição, o mediador de leitura
cumpre um importante papel também quando transmite
Tantos anos lendo histórias, ou como gostamos de dizer,
vocalmente um texto. Alguma coisa acontece quando
“mediando leitura” para crianças, jovens e adultos,
emprestamos a voz para um texto literário...
nos fizeram constatar que quando a literatura é
apresentada de forma prazerosa temos grandes chances As crianças costumam demonstrar com o corpo. Respondem
de formar leitores. de modo singular, às vezes relaxando, se aconchegando,
outras vezes agitando-se com a diversão, interação e
Sabemos também que muitos são os elementos que
ludicidade que o livro propõe. Fogem do padrão de
contribuem para o prazer na leitura: a possibilidade
comportamento de atenção suposto pelos adultos, ou
de fruição de uma obra literária (sobretudo as infantis
porque dormem ou porque se movimentam, fazendo com que
que compõem textos, ilustrações e projetos gráficos
seja repensado o que deve ser um comportamento leitor.
primorosos); a liberdade na significação da narrativa
e no manejo do objeto livro; a exploração de diferentes Quando lemos para adultos e adolescentes percebemos
interações com as histórias; a possibilidade de que se surpreendem, tanto com o inusitado da ação (“
conhecer o mundo, como coloca Antônio Cândido (1972), eu sei ler, por que estão lendo para mim?”) como
inclusive o próprio mundo interno, como sugere Bruno também com as sensações que ouvir uma história lhes
Bettelheim (1978). causa.

Ou seja, quando entendemos a mediação de leitura como Não é incomum quem escuta uma história “confessar”
uma ação cultural – sem uma intencionalidade pedagógica que não acompanhou os acontecimentos da narrativa, que
que busca alcançar resultados, passar uma mensagem ou na realidade “viajou para longe”, mas que estava
adquirir competências – ela torna-se uma situação gostoso e que se sentiu “entregue” a voz que dava
prazerosa, fundamental para o percurso do leitor em vida ao livro. Nas mediações de leitura por vezes,
formação. crianças escolhem narrativas longas, a princípio
43

inadequadas às suas idades, mas ainda que não Além da musicalidade, outra analogia entre o manhês e
estivessem “entendendo” o conteúdo do livro, pedem os textos literários é que ambos convocam o
para continuar e até para repetir a leitura. interlocutor, fazem olhar para quem fala, produzem um
Então nos perguntamos: “por que é tão prazeroso ouvir laço afetivo entre criança e adulto.
uma história?”; “de onde vem esse prazer?” “Nessa operação exercida pelo agente da função
Além de todos os elementos já citados, a tese materna, por meio de seu olhar e sua voz, o bebe
apresentada nesse artigo é que esse prazer vem de deixa de ser puro organismo para inserir-se em um
longe... (talvez lá de onde a gente vai parar quando funcionamento simbólico, próprio dos humanos” (Maria
viaja nas histórias.) De longe mesmo, nos primeiros Lacombe Pires, 2011).
meses de vida. No início da aquisição da linguagem, lá Nos primeiros dias de vida o choro do bebê é constante
onde começaram a nos entender como sujeitos; no tempo e apresenta o mesmo tom em diferentes situações. Com
da delicadeza do “manhês”. o passar dos meses e a partir da fala que lhe é
O “manhês” é o termo dado ao modo como as mães – ou dirigida, o bebê vai modulando sua vocalização
dependendo da situação, utilizando sua voz como
os agentes da função materna – falam com os bebês.
instrumento para chamar o outro. Assim, o bebê aprende
Aquela fala que abusa de neologismos e de frases
com o manhês a se expressar. Dá notícias a uma mãe
curtas, que tem uma melodia, entoação, ritmo,
atenta se está com fome, frio, sono.
musicalidade. Tal como nos poemas e prosas poéticas,
gêneros muito presentes na literatura infantil. Esse estatuto de sujeito provocado pelo adulto que se
dispõe ao diálogo também é provocado pelo mediador de
A voz que transmite o texto literário saboreia as
leitura que abre brechas para que a subjetividade da
palavras, se movimenta com o ritmo, dança com a
criança se expresse na interação com o livro. Lembrando
sonoridade dos versos...embala o bebê que fomos. O
que essa expressão não está para atender a expectativa
próprio silêncio que surge com a pontuação do texto ou do adulto e que pode ser inclusive o silêncio, o sono,
ao virar as páginas do livro são como as pausas que a a fala, um movimento.
mãe faz quando espera a resposta vocalizada de seus
Ouvir histórias é, portanto, prazeroso por diversos
bebês.
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Aspectos: entre eles porque remete a uma experiência


Renata Gentile é psicóloga clínica, supervisora
vivida, fundante da nossa posição de sujeito no mundo.
institucional e consultora de projetos na área de
Incentivemos então que a função poética da literatura leitura de literatura
(re)enganche os laços entre adultos e crianças. Que
experiências de leituras compartilhadas estejam
presentes na relação de pais e filhos, educadores e
alunos para que assim, continuemos nos apropriando da
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
linguagem, da leitura e dos livros. Que a voz de
mediadores continue nos ninando. Desse modo, seguros
e acalantados, seguiremos nos expressando ao mundo.
PIRES, Maria Lacombe. (org. Fernanda Nogueira). Falar
com bebês. Será que eles entendem? In: Entre o singular
e o coletivo – Ao acolhimento de bebes em abrigos. São
Paulo, 2011.

BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas.


Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem.


Ciência e Cultura, São Paulo, vol 24, n9, p806, set
1972.
45

Carta a um jovem mediador

Caro Mediador, a criança ampliar seu vocabulário.

Que alegria te escrever estas linhas! Ser mediador de leitura é Costuma-se dizer que o mediador é a ponte entre o livro e a
uma atividade prazerosa para as crianças e também para os criança. Gosto da imagem do mediador como um guia, mas não
mediadores. Já começo esta carta querendo te dizer isso: um guia como se as crianças tivessem que segui-lo; um guia para
encontre prazer neste trabalho! Não necessariamente o prazer da andar ao lado do pequeno leitor, promovendo situações de
diversão – embora tenho certeza que você vai se divertir muito. apreciação, fruição, escuta, diálogo. E de dança! Explico-me: o
Falo também de outros prazeres, como aquele de mergulhar livro não se dá sozinho. A mediação ajuda a fazer esta dança com
fundo em uma narrativa, de reaprender com as crianças a olhar o livro, com suas palavras e suas imagens.
os detalhes, de decifrar linguagens simbólicas, tanto Como uma mediadora apaixonada por livros (peço licença para
provenientes dos livros, como das próprias crianças. usar este pleonasmo, já que o verdadeiro mediador é sempre um
Observar como as crianças descobrem e significam o mundo é apaixonado literário) recorro a literatura na busca da melhor
encantador. Tanto por acompanhar este processo – e intervir definição para o mediador. Eduardo Galeano, no seu miniconto
sobre ele – como também porque nós temos a oportunidade de “A função da arte”, publicado no Livro dos Abraços, fala com
fazer muitas descobertas quando mediamos leitura. Aprendemos precisão o que para mim é o papel do mediador:
mais sobre nós mesmos, nossa infância, novas formas de se Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o
relacionar com os outros e com o mundo. para que descobrisse o mar.
Aqui acho importante fazer a distinção entre contar uma história Viajaram para o Sul.
e mediar leitura. Ambas são ricas e fundamentais para crianças Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
– e adultos também – mas são ações distintas. A diferença Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de
fundamental é a presença ou ausência do livro na ação. Na areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de
mediação, o livro é essencial, o texto não sofre alteração, lemos seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu
– e ajudamos a ler – o que está nele. Inclusive não precisa alterar fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
nenhuma palavra, trocando por sinônimos para ajudar na E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando,
compreensão. Quando fazemos isso, tiramos a possibilidade de pediu ao pai:
– Me ajuda a olhar!
46

O que não se pode nunca perder de vista é que a criança é E, olha mediador, não espere que a criança fique sentadinha na
inteligente, capaz de fazer leituras – mesmo não sendo roda, prestando atenção como os adultos fazem. As crianças
alfabetizada! - e nos dá dicas de que é possível interagir com os expressam sua atenção e seu interesse de outros modos. Você vai
livros de diferentes modos. O bom mediador compõe junto com perceber a necessidade que elas têm de se expressar pelo
a criança estas leituras. E sabe também que as crianças são movimento. Seja criativo e explore isso com brincadeiras. O
únicas e que não necessariamente o que funcionou com uma vai lúdico está muito relacionado com a leitura. E nunca, nunca se
funcionar com outra. Por isso a importância do mediador sinta desprivilegiado ou duvide da sua capacidade mediadora
observar, estar atento, escutar a criança, ou o grupo de crianças, quando a criança interromper a história com seus comentários e
para quem está lendo. Quais são suas brincadeiras, suas “viagens” ou até mesmo se ela pedir para parar a leitura ou
necessidades, suas escolhas? O que falam sobre os livros? Como recusar seu convite para lerem juntos. Lembre-se as crianças são
gostam de participar da leitura? Não precisamos indagá-las, elas autênticas, têm os seus motivos particulares e têm o direito de se
nos dão dicas que vamos aos poucos decifrando. relacionar com os livros de múltiplas formas. Nem sempre elas
Quando falamos de a leitura ser feita com o uso do olhar para o dizem o que querem, por isso, se você perceber algum incômodo
texto e para a criança, isso vai além de uma técnica. De fato, não dito, pergunte: quer que eu pare a leitura? Dialogar, dialogar,
quando fazemos isso (e para isso é importante conhecer o dialogar, este é o imperativo!
acervo) a criança se sente convidada a acompanhar nosso olhar Se você realmente tiver a companhia de bons livros e se dispor
para o livro. Além do convite ao livro, pelo olhar também se faz a conhecê-los bem, estará mais seguro e aberto a todas as dicas
um convite ao vínculo com o mediador, tão fundamental para a que as crianças nos dão de explorações e leituras. Certamente
construção de uma relação afetiva com a literatura. Pelo olhar se terá suas leituras para compartilhar também. E prepare-se para
estabelece diálogo. Olho no olho é uma experiência forte e bela! repetir e repetir os mesmos livros; as crianças adoram perceber
Além do olhar, procure deixar espaço para a intervenção das a permanência das histórias.
crianças na relação com o texto e com as imagens. Perguntar o Ah, acontece por vezes de você não saber qual leitura fazer
que ela está vendo, ajudá-la a adivinhar o que se segue, silenciar primeiro porque no grupo de crianças muitos são os pedidos.
para ela completar a rima são algumas intervenções que Ajude-as a negociar! Outra preocupação que os mediadores
naturalmente você vai testando e construindo seu jeitão de trazem é saber o que fazer com os relatos que as crianças trazem
mediar. Aposte na boa literatura, convide a explorar cada página de suas angústias, conflitos e problemas. Escutar é a melhor
do livro; certamente farão interessantes descobertas! forma de acolher...e quando o que você ouviu te deixar muito
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preocupado, compartilhe com seus colegas, com a Fundação ou REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


até mesmo com os profissionais responsáveis da instituição.
E por último, não espere resultados concretos ou algo em troca. GALEANO, Eduardo. Livro dos abraços. Porto Alegre: L&Pm
Você não é mediador para alfabetizar a criança ou para ensinar editores, 1991.
alguma coisa. Você está lá para uma experiência de prazer e
encontro literário. O único propósito é fazer com que as crianças
gostem dos livros. Mas não se forma leitores da noite para o dia.
Assim como você precisa construir uma trajetória de mediações
de leitura para ser um bom mediador, as crianças também
precisam de sucessivas experiências com a leitura para se
formarem leitoras literárias. A formação é processual, por isso
seu trabalho precisa ter continuidade e frequência.

Desejo que aproveite muito este processo! Tenho a convicção


que esta será uma oportunidade para muitas descobertas e
reflexões. Prepare-se para encontros poéticos, calorosos e
afetivos com as crianças e com a literatura. Lindas histórias estão
por vir!

Com carinho,
uma amiga mediadora de leitura
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Como selecionar bons livros de literatura infantil?


Collectivus de Leitura

Antes de pensar os critérios que definem um livro de o Equipe de Resenhadoras da Seção de Bibliografia
qualidade, vamos refletir sobre a importância dessa reflexão: Brasileira de Literatura infantil e juvenil da Biblioteca
Monteiro Lobato, coordenada por Silvia Oberg (até
Por que pensar na qualidade dos livros infantis?
2009)
o Não é verdade que “para criança qualquer leitura é
o Collectivus de Leitura em A Mediação de Leitura na
válida”; não se trata de proibir o contato com livros
Formação de Leitores – pesquisa teórico-
que achamos de qualidade duvidosa, mas é preciso
metodológica para a Formação de Mediadores de
que as crianças tenham acesso a bons livros para se
Leitura
desenvolverem como leitores.
o Luiz Brás no texto: Literatura Infantil: só para
o Queremos formar leitores que tenham experiências
menores?
transformadoras com a literatura; que tenham a
possibilidade de pensar em suas vidas e de suas
Livros adequados às crianças
comunidades.
o Se entendermos que as crianças são inteligentes,
o A produção editorial vem crescendo
capazes de descoberta e construtoras de significados
substancialmente nos últimos anos.
múltiplos, consideraremos que elas precisam de livros
Nesse mar de livros, não há como dispensar bússolas e bons que explorem sua capacidade investigativa, sua
coletes salva-vidas para não afogarmos.... sensibilidade, criatividade e imaginação.
(Seção Bibliografia Monteiro Lobato p. 20, 2009) o Obras que marcam presença na produção editorial
Com a convicção de que as crianças merecem bons livros, por temas inovadores ou por discutirem de forma
apresentamos algumas ideias–bússolas, vindas dos competente e com qualidade literária uma
especialistas da área: problemática importante da atualidade,
o Kátia Lomba Brakling, na Matriz de Critérios para o Obras que não veiculem discriminações ou
seleção de Livros de literatura do programa Itaú preconceitos de qualquer espécie, mas que
Criança apresentem situações nas quais esses aspectos sejam
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problematizados de modo a provocar reflexões Buenos Aires em 2015 pontuou que a literatura

críticas por parte dos leitores. infantil e juvenil de qualidade “não é utilidade, e sim
uma qualidade de presença no mundo”. Para ela, os
o Que o conteúdo não esteja ancorado em estereótipos
livros devem ser preservados de objetivação e dotados
não problematizados, ou para os quais não se criou
de interioridade e singularidade. Não somente porque
um espaço para reflexão crítica no texto e sua trama.
serão mais eficientes na familiarização com eles, mas
o Livros que não subestimem a capacidade intelectual
porque é vital uma possibilidade de se relacionar
da criança. Nem superestimem, pois isso também não
musicalmente com o que está aí.
seria respeitá-la em sua fase de desenvolvimento.
o Uso de uma linguagem literária, ou seja, que
Livros de Qualidade literária
apresenta ritmo, figuras de linguagem, a conotação
o obra não seja espaço de didatização simples de como recurso linguístico, entre outros elementos que
conteúdos escolares, pois a literatura de qualidade confiram ao texto valor estético.
não visa apresentar regras de comportamento, letras
o Os livros infantis são obras de arte e, portanto, a
do alfabeto, ou apresentar explicitamente mensagens
qualidade das ilustrações é um aspecto muito
de natureza ecológico-ambientais. Ao contrário, cria
importante para a constituição de um bom livro. Não
um espaço para a reflexão crítica dos problemas,
podem ser estereotipadas (como um sol com uma
sentimentos, emoções, situações vivenciadas no
carinha sorrindo) nem óbvias na sua relação com o
cotidiano das pessoas.
texto.
o Que o conteúdo não seja apresentado de modo que se
o . Que as ilustrações também não sejam estereotipadas,
perceba uma intenção moralizadora no texto, por
de maneira a “repetirem” o que foi anunciado no
meio de “lições” óbvias e apresentadas
texto, em especial se elas vierem depois dele, o que
explicitamente, sem criar um espaço para a reflexão
inviabiliza qualquer exercício de antecipação e
necessária à compreensão crítica do leitor
inferência de possíveis conteúdos da obra,
o Michèle Petit em Conferência na Feira do Livro de capacidades imprescindíveis ao leitor competente. Ao
50

contrário, que apresentem novas informações, que o É pensado como obra de arte; explora diferentes
ofereçam nuances diferenciadas do conteúdo linguagens
temático, aproveitando espaços deixados no texto o Não tem propósitos pedagógicos, informativos ou
moralistas.
verbal com interpretações relevantes do ilustrador,
E, como selecionar um acervo para as sessões de mediação
criando, assim, um espaço de participação do leitor na
de leitura?
construção dos sentidos.
o Um acervo diversificado, em termos de formatos,
o A qualidade do projeto gráfico: como as composições gêneros, tamanhos, autores, temas, tempo de edição,
gráficas se adéquam ao projeto estético e se cores, diagramações, tem mais chances de atingir
relacionam com a narrativa literária. diferentes crianças.
Luiz Brás em seu texto “Literatura infantil: só para o Apresentar diferentes gêneros e autores amplia o
menores?” apresenta os contato com a rica produção literária.
o Sobre a quantidade de livros, o ideal é pensar pelo
10 mandamentos da literatura infantil:
menos dois livros por criança. Assim a quantidade de
1. Evitar a infantilização da linguagem e das imagens; livros será o dobro da quantidade de crianças.
2. Não ser professoral nem moralista;
o No decorrer das mediações, um olhar atento às
3. Evitar os estereótipos e os clichês literários e visuais;
necessidades e desejos das crianças vai percebendo as
4. Não subestimar a inteligência do leitor;
escolhas, as preferências, os interesses, os modos de
5. Questionar os preconceitos e as verdades prontas;
ler, as brincadeiras que as crianças fazem com os
6. Não fugir dos temas proibidos;
livros. Essas observações te ajudarão na seleção.
7. Investir nas sutilezas e no vocabulário mais elaborado;
o A partir da observação das crianças você vai ver que
8. Propor experiências literárias e visuais enriquecedoras;
há livros que nunca podem faltar. É legal também
9. Saborear a boa literatura infantil brasileira e estrangeira;
sempre introduzir novidades.
10. Conviver prazerosamente com as crianças.
Resumindo, o Livro de qualidade literária para crianças:
o Acredita e explora a capacidade criativa da criança
leitora.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BRAKLING. Kátia Lomba. Matriz de critérios para a seleção dos livros de literatura do Programa Itaú Criança (versão
preliminar), 2017.

BRAS, Luiz. Literatura Infantil: só para menores? Revista Ponto-SESI, abril de 2013

SEÇÃO DE BIBLIOGRAFIA E DOCUMENTAÇÃO DA BIBLIOTECA INFANTO-JUVENIL MONTEIRO LOBATO. Bibliografia


Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil – v 16(2015), Secretaria Municipal de Cultura, Coordenadoria do Sistema Municipal de
Bibliotecas. São Paulo, 2008
52

Componentes do Livro
Collectivus de Leitura

Todos os componentes do livro de qualidade, os chamados para Tanto Tanto é um excelente exemplo de
projeto gráfico harmonioso que enriquece
textos – (formato, capa, quarta capa, orelha, páginas de guarda, a narrativa. Preste atenção na alternância
de cores, mais vivas quando chega um
dedicatórias, minibiografias, ilustrações, vinheta) compõem a convidado para a festa surpresa do pai e
pasteis quando os personagens estão
narrativa literária e a imaginação do leitor. esperando o homenageado chegar ou
ainda, na hora do bebê, o protagonista,
Textos, ilustrações e diagramação definem o projeto gráfico de um dormir.
As páginas vermelhas que abrem a narrativa e as amarelas que
livro. Cada vez mais na literatura infantil contemporânea, projetos encerram coincidem com as emoções do bebê, antes e depois
gráficos são criados de modo global, relacionando cada um dos da festa. Ilustrações de páginas inteiras, ora à direita, ora à
esquerda, variando conforme o texto. No auge da festa,
componentes e assim gerando novo significados às narrativas. ilustração de página dupla. Também merece destaque as
ilustrações em preto e branco do bebê, menores e ao final das
O livro infantil contemporâneo é um objeto artístico em sua páginas de texto, ressaltando seus movimentos e gracinhas,
casando com a perspectiva da narrativa, em que o bebê é o
totalidade; não somente por ser portador da arte literária, mas centro das atenções. A dimensão do livro (30 cm por 25 cm)
permite apreciar todas as riquezas das ilustrações.
também por articular em seus conteúdos narrativos diferentes
Tanto tanto, escrito por Trish Cooke e ilustrado por Heln
linguagens – visual, tátil, escrita, aproveitando o objeto da primeira a Oxenbury

última capa, Editora Ática, 1997

Um mediador experiente conhece bem essas relações quando observa as perspicazes leituras da imaginação
infantil. O mediador faz a ponte e a criança criativamente atravessa:
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Observe alguns exemplos de paratextos:

FORMATO: CAPA E CONTRACAPA (ou quarta capa)


Livro: A Casa dos Beijinhos Livro: O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande
Autora: Claudia Bielinsky urso esfomeado
Editora: Cia das Letrinhas Autora: Audrey Wood
Ilustrador: Don Wood
Editora: Brinquebook
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ORELHA PÁGINA DE GUARDA


Livro: Não é uma caixa Livro: Onda
Autor: Antoinette Portis Autora: Susy Lee
Editora: Cosac Naify
Editora Cosac Naify
55

DEDICATÓRIA VINHETA
Livro: Como começa Livro: O caderno do jardineiro
Autora: Silvana Tavano Autora: Angela Lago
Ilustradora: Elma Editora: Edições SM
Editora: Callis
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MINIBIOGRAFIA ILUSTRAÇÃO
Livro: Direitos do pequeno leitor Livro: A Moça Tecelã
Autora: Patricia Auerbach Autora: Marina Colasanti
Ilustrador: Odilon Moares Bordados: Ângela, Antonia, Zulma, Marilu, Martha e Silvia
Editora: Cia das Letrinhas Dumont
Desenhos: Demóstenes Vargas
Editora: Global
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ILUSTRAÇÃO ILUSTRAÇÃO
Livro: O Mundo Inteiro Livro: Obax
Autora: Liz Garton Autor e ilustrador: André Neves
Ilustradora: Marla Frazee Editora: Brinquebook
Editora: Paz e Terra
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Gêneros da Literatura Infantil


Collectivus de Leitura

Segundo a classificação proposta por Nelly Coelho (2006) debate sobre Literatura.
gêneros são a expressões estéticas de determinadas
experiências humanas de caráter universal. A vivência lírica Livros álbum: tem se constituído com um gênero literário
de mergulho em suas próprias emoções é expressa pela que vai além do livro com ilustração, pois há uma
poesia. Na prosa ficcional, é a vivência épica (o eu na interdependência entre texto e imagem, sendo um convite
relação com o outro ou com o mundo social) e a vivência sedutor ao leitor participar de um jogo complexo entre esses
dramática, cuja expressão básica é o diálogo e a elementos. A especialista em literatura infantil da
representação do teatro. Universidade de Glasgow, Evelyn Arizpe Solana diz que o
Katia Lomba Bräkling na matriz de critérios para a seleção livro álbum é um dos exemplos mais sofisticados e
dos livros de Literatura do programa Itaú Criança apresenta inovadores da literatura. (disse para Emília, não encontrei o
os subgêneros de prosas e versos: narrativas de enigma; artigo Imagens que convidam a pensar. Esse que Ariana uma
contos (de detetives; de fadas; populares; artimanha; de vez nos enviou?). O autor de “Onde vivem os Monstros”,
acumulação; de repetição; de aventura; de castelos e Maurice Sendak falava que uma história ilustrada tem o
cavalaria, entre outros); crônicas (de humor; de costumes, de tempo e o ritmo da poesia, como se fosse um poema gráfico.
esportes, entre outras); fábulas; lendas; mitos; parlendas; “Odilon Moraes, um dos grandes ilustradores
cordel; repente; poemas (sonetos, concretos, cinéticos, contemporâneas acrescenta: as possibilidades são muitas,
narrativos, limeriques, haicais, prosa poética, poesia como narrar em dois tempos distintos”. Ele se referindo ao
moderna, entre outros). seu recente livro “Rosa” (um excelente exemplo de livro
Há modos diferentes de se classificar em gêneros, álbum) em que uma releitura é necessária para perceber que
subgêneros, categorias. Aqui não pretendemos resolver o que texto e imagem não coincidem, nem falam a mesma coisa;
as teorias literárias discutem. Nosso objetivo é apresentar uma está no passado, o outro mostra o presente. Outro
gêneros, subgêneros e linhas que são tendências exemplo belíssimo de livro-álbum é um título, já distribuído
contemporâneas da literatura infantil/juvenil; conhecimento pelo Programa ITAU Criança: “O mundo inteiro” de Liz
que pode interessar ao mediador, lhe dar a dimensão da Garton Scanlon (Record).
diversidade que a área conta, além de ajudá-lo a se
familiarizar com termos e denominações que aparecem no
Clássicos: uma obra é considerada um clássico por ter
59

marcado muitas gerações e por ter sido transformada em uma Noites”. Diferentes dos contos de fadas, a sua
teatro, ballet, cinema e muitas adaptações para TV. Ítalo problemática é social: o herói ou anti-herói encontrará a auto
Calvino: “Um clássico é um livro que nunca terminou de realização na conquista de bens e poder material, como em
dizer aquilo que tinha para dizer” (CALVINO, 2007). Muitos ‘’Ali Babá e os Quarenta Ladrões”. A aventura da busca
destas obras, que hoje são consideradas clássicos são parte, geralmente, da necessidade de sobrevivência física ou
originalmente os livros cultos (não populares) que eram miséria dos protagonistas. Outros contos maravilhosos:
destinados aos adultos, mas acabaram por se transformar em “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa’’, ’’As Sete Viagens de
leitura para crianças e jovens. Exemplos: “Aventuras de Simbá’’, ‘’O Marinheiro’’, dentre outros.
Robinson Crusoé” (1719), “Vinte Mil Léguas O psicanalista Bruno Bettelheim diz sobre Charles Perrault –
Submarinas “(1870), “Os Três Mosqueteiros” (1844), “A a quem é atribuído o nascimento da literatura infantil em sec.
Volta ao Mundo em 80 Dias” (1873), etc. E também algumas XVII:
obras escritas para crianças: “Os Novos Contos de
Todas as crianças do mundo devem-lhe
Fadas” (1856), “Alice no País das
alguma coisa, seus contos nos
Maravilhas” (1962), “Aventuras de Pinóquio” (1881), etc.
introduziram em um universo
encantado cuja magia nos permitiu
Contos maravilhosos e contos de fadas: O conto de soltar as rédeas da imaginação sempre
fada originou-se entre os celtas, com heróis e heroínas, cujas que, como ocorre com frequência, as
aventuras estavam ligadas ao sobrenatural, ao mistério do dificuldades da vida real ameaçam nos
além-vida, visando à realização interior do ser humano. A destruir. (BETTELHEM, 1975).
fada (do latim fatum = destino) pertence à área dos mitos, No Brasil os contos de fada chegaram no século XIX em
encarna a possível realização dos sonhos ou ideais inerentes traduções portuguesas de difícil leitura, distanciando o leitor
à condição humana. Tem geralmente um herói ou uma do convívio prazeroso com esse imaginário. Fátima Miguez
heroína que tenta vencer obstáculos ou provas para alcançar nos conta que somente em 1894, a partir da publicação dos
a seu auto realização. Muitas vezes, a aventura da busca parte Contos da Carochinha, de Alberto Figueiredo Pimental, a
de uma metamorfose ou de um encantamento. Exemplos de criança brasileira passa a ter uma leitura mais nacional dos
contos de fadas: “Cinderela’’,’ ’Branca de Neve e os Sete contos de fada. Mas, lembra a autora, foi Monteiro Lobato
Anões’’, ‘’Chapeuzinho Vermelho’’, “Bambi’’. Já os Contos quem fortaleceu essa leitura no Brasil. Um dos grandes
Maravilhosos têm a sua origem nas narrativas orientais, achados de Lobato foi, justamente, mostrar o maravilhoso
difundido a pelos árabes. Um grande exemplo é “As Mil e
60

como possível de ser vivido por qualquer um, misturando Lago faz uma observação sobre seu livro “Cena de Rua”: “esse
o imaginário com o cotidiano, como ressalta a professora eu costumo recomendar para crianças acima de nove anos
Nelly (2006). porque sei que o livro assusta os menores” (também em
Nossa Literatura Infantil contemporânea conta com muitas entrevista para o mesmo site).
adaptações de contos maravilhosos e de fadas. Escritores Excelentes exemplos: “Ida e Volta”, Juarez Machado (1976),
como Marina Colasanti “Uma ideia toda azul”, Ana Maria primeiro livro-imagem editado no país e “Emoções”, do
Machado “Chapeuzinho vermelho e outros contos de mesmo autor; “Telefone sem fio”, Ilan Brenman e Renato
Grimm”, Rui de Oliveira “A Bela e a Fera”, Mary e Eliardo Moriconi, “OH!”, Josse Goffin , “Espelho” e “Ondas”, Susy
França (que publicaram inúmeros volumes dos contos de Lee, “Meu tio”, Paulo Wernek, “O artesão”, Walter Lara, “O
Andersen) – revisitaram o vigor do imaginário dos contos de leão e o Camundongo”, Jerry Pinkney, Monica Stahel, “O
fada num trabalho de pesquisa e de resgate, mas criando pela jornal”, Patricia Auerbach, “O bárbaro”, Renato Moriconi,
palavra e pela imagem, uma leitura atualizada do “Lobo negro”, Antoine Guilloppé, “O Cântico dos Cânticos”
maravilhoso tradicional. e “Cenas de Rua”, de Ângela Lago.

Os livros imagem: Aqueles que não apresentam texto Contos de Acumulação e Repetição: São contos que
gráfico, sendo a narrativa constituída apenas por ilustrações. lançam mão de um recurso lúdico em que um evento
São obras que instigam a imaginação, facilitam experiências desencadeador da narrativa é contado de maneira repetitiva,
de compartilhamento em grupos de crianças e atraem todas tendo a mesma ação realizada por diversos personagens e a
as idades. Excelentes livros para o trabalho do mediador de repetição de um mesmo acontecimento se dá por
leitura. Muitas vezes são indicadas apenas para crianças não acumulação. Os recursos da linguagem poética se fazem
alfabetizadas, por conta da ausência de texto gráfico. No presentes nas histórias, seja pela utilização de versos e rimas,
entanto, pessoas de diferentes idades podem ser mobilizadas seja pelo destaque dado aos elementos sonoros, como as
por estas leituras. A ilustradora Graça Lima em entrevista,diz expressões compostas pela repetição de palavras ou o uso de
inclusive que os livros de imagens são para crianças onomatopeias. Ótimos exemplos são: “A Casa Sonolenta”,
alfabetizadas, e não o contrário. . Angela Lago não concorda Audrey e Don Wood, Don Wood (Ática), “Bruxa, Bruxa
com esta afirmação, acredita que os livros de imagem podem venha a minha festa”, Arden Druce (Brinquebook), “Da
ser compreensíveis para crianças que ainda não sabem ler, pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na
mas já conseguem fazer uma sequência narrativa visual. Mas cabeça dela”, Werner Holzwartk (Companhia das Letras),
61

“Menina Bonita do Laço de Fita”, Ana Maria Machado Munduruku, sobre os mitos:
(Ática), “Mamãe você me ama?”, Barbara M. Joosse Nossos povos indígenas brasileiros
(Brinquebook), “O grande rabanete”, Tatiana Belinky, desenvolveram essa leitura do mundo para
explicar o que para eles era inexplicável: a
ilustrado por Claudius (Moderna), “Maria vai com as
origem do mundo e das coisas, os ciclos da
outras” Silvia Orthof (Ática), “Tanto Tanto!”, Trish Cooke natureza, nossa condição humana de homem
(Ática). ou mulher, os lugares sociais de cada um, a
grandiosidade do cosmos, a vida e a morte. A
resposta para cada uma e de outras dessas
Mitos e lendas: questões eram dadas em forma de histórias, a
maneira mais simples de fazer as pessoas
Mito é uma narrativa antiga que nos fala de deuses, entenderem a complexidade da vida. Essa
duendes, heróis fabulosos ou de situações em que o contação de histórias nunca foi uma forma de
sobrenatural domina. Os mitos estão ligados a fenômenos iludir as pessoas, mas de oferecer um norte a
ser seguido enquanto membro daquele povo.
inaugurais: a genealogia dos deuses, a criação do mundo e do Dessa maneira firmavam um compromisso
homem, a explicação mágica das forças da natureza, etc. de cuidado com o todo que era de todos e se
construía a harmonia necessária para a
convivência diária.
Lenda é uma forma narrativa antiquíssima, geralmente
breve (em verso ou prosa), cujo argumento é tirado da
Fábulas e Apólogos:
tradição. É o relato de acontecimentos em que o maravilhoso
Fábula é a narrativa de uma situação vivida por animais que
e o imaginário superam o histórico e o verdadeiro. É
alude a uma situação humana e tem por objetivo transmitir
transmitida e conservada pela tradição oral. Segundo
certa moralidade. Foi a primeira espécie de narrativa a
Câmara Cascudo, lenda conserva quatro características do
aparecer. Nascida no Oriente, a fábula foi reinventada no
conto popular: antiguidade, persistência, anonimato e
Ocidente pelo grego Esopo (séc. VI a.c.) e aperfeiçoada pelo
oralidade. Nosso folclore é rico em lendas como a da Mãe
escravo romano Fedro (séc. I a.c.), que a enriqueceu
d’Água, da Cobra Grande, Mula-sem-cabeça, Boto,
estilisticamente. No séc. XVI foi descoberta e reinventada
Curupira, etc.
por Leonardo da Vinci. No séc. XVII, La Fontaine reinventou
Ana Maria Machado tem algumas boas obras de mitologia,
a fábula introduzindo-a definitivamente na literatura
como “Os Argonautas” e “Clássicos de Verdade: Mitos e
ocidental (sua primeira coletânea de fábulas datada de 1668).
Lendas Greco Romanas”. Daniel Munduruku também trata
Importante situar que há controvérsias sobre o caráter
de mitos indígenas em seus livros.
62

caráter moralizante das fábulas. Há quem diga que isso repentistas, preservando o ritmo, as rimas, o tom de desafio,
ocorre no Brasil, mas na Itália, por exemplo, é distinto, e o clima de improviso. Como coloca Silvia Oberg a
considerando, por exemplo as famosas fabulas italianas de publicação deste gênero literário, ainda que rara na produção
Ítalo Calvino. dirigida à criança e jovens, possibilita a manutenção desta
importante tradição e amplia sua abrangência para além dos
O Apólogo é a narrativa breve de uma situação vivida por circuitos tradicionais. Um exemplo é “Antologia de Folhetos
seres inanimados (objetos ou elementos da natureza), que de Cordel: Amor, história e Luta” de Márcia Abreu
adquirem vida e que aludem a uma situação exemplar para a (Salamandra).
humanidade. Exemplo: “O Sol e o Vento”, Julia Alba (Callis).
Poesia: Dirce Waltrick do Amarante (2013) diz que embora
Cantigas, Parlendas, Trava Línguas e Adivinhas: não seja imprescindível que um bom poema se baseie na
Autores como Joel Rufino dos Santos e Ricardo Azevedo musicalidade, espera-se que caso isso aconteça, tal música
levaram o Folclore para a literatura infantil, com obras que seja capaz de deleitar. O livro “Ou isto ou aquilo” de Cecília
são frutos de cuidadosas pesquisas do repertorio popular, Meireles é bastante musical e uma leitura em voz alta
resgatando cantigas, histórias e brincadeiras com a destacará devidamente tanto a sua melodia quanto os vários
linguagem, transmitidas oralmente de gerações a gerações. jogos de palavras. Dirce ainda coloca que quando lê versos de
Da oralidade à escrita, estas obras compõem um registro do Cecilia Meireles fica claro que “a literatura é
imaginário popular, tão fundamental para a identidade fundamentalmente algo de oral, algo que se ouve, que ler
cultural brasileira e para a valorização da cultura da infância. consiste em devolver às palavras sua sonoridade original,
O caráter lúdico destas obras diverte os mais variados quer em voz alta, quer de um modo puramente interior”
leitores. O livro “Travadinhas” de Eva Furnari (Moderna) e (WALTRICK, 2013, p. 89). Nas Mediações de Leitura
o “Armazém do Folclore” (Ática) de Ricardo Azevedo são observamos bebes fascinados pela voz do mediador e adultos
bons exemplos deste gênero. encantados com a linguagem metafórica das poesias. Além
Literatura de Cordel: É um gênero que passou de uma de “Ou isto ou aquilo” de Cecilia Meireles, destacamos a
forma puramente oral à forma impressa em folhetos e livros. coleção “Brasileirinhos” de Lalau e Laura Beatriz, “Rosa dos
Apresenta como temáticas histórias de amor e de luta, os Ventos e os Cinco Sentidos”, de Bartolomeu de Campos
relatos históricos e as pelejas. A linguagem do cordel, mesmo Queiros (Global editora) e “Exercícios de ser Criança”, de
que impressa, mantém a força da oralidade e o vigor de seus Manoel de Barros (Salamandra).
63

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AMARANTE, Dirce Waltrick. Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores. São Paulo:
Iluminarias, 2013.

BRÄKLINGNA, Katia Lomba. Matriz de critérios para a seleção dos livros de literatura do Programa Itaú Criança.
São Paulo: Fundação Itaú Social, 2017.

BETTELHEIM. Bruno. Psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 1976.

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos?. São Paulo: cia de Bolso, 2007.

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de literatura infantil e juvenil brasileira. São Paulo: Cia Editorial Nacional,
2006
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Para mergulhar fundo


Sugestões de leitura para quem quiser mergulhar fundo!

TÍTULO AUTOR(A) EDITORA

A formação do leitor literário Tereza Colomer Global

Ouvir nas entrelinhas: o valor da


Cecília Bajour Pulo do Gato
escuta nas práticas de leitura

Ler e brincar, tecer e cantar Yolanda Reyes Pulo do Gato

O direito de ler e escrever Silvia Castrillón Pulo do Gato

Fundação Nacional do Livro


Nos caminhos da leitura Peirópolis
Infantil e Juvenil e Instituto C&A

Os dias e o livro Daniel Goldin Pulo do Gato

A arte de ler ou como resistir à Scipione


Michèle Petit Editora 34
adversidade
Editora 34Editora
Leituras: do espaço íntimo ao espaço Editora 34
Michèle Petit
publico

Uma história da leitura Alberto Manguel Cia das Letras

Da escuta a leitura Elie Bajard Scipione


65

Livros à vista!

Os livros a seguir são sugestões de títulos para compor o acervo da formação. Orientamos que selecionem um acervo diversificado
quanto à gêneros, projeto gráficos e autores. Os livros a serem usados nos kits da atividade "Mediação em subgrupos" estão
indicados pelas legendas: cultura da infância, poesia, tema que pode causar desconforto e livro de imagem. As legendas de outros
títulos referem-se ao potencial lúdico dos livros e outras ainda indicam os gêneros. Livros distribuídos pela Coleção Itaú estão
marcados com...
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Título: A aranha e outros Título: Abrindo caminho


Título: A arca de Noé Autoras: Ana Maria Machado
bichos
Autor: Vinicius de Morais e Elisabeth Teixeira
Autor: Manoel Bandeira
Editora: Cia das Letrinhas Editora: Ática
Editora: Nova Fronteira
POESIA
POESIA POESIA

Título: A casa dos beijinhos Título: A casa Sonolenta


Título: A Cinderela das
Autores: Audrey e Don
Autora: Claudia Bielinsky bonecas
Editora: Cia das Letrinhas Wood
Autora: Ruth Rocha
Editora: Ática
Editora: Salamandra
LER E BRINCAR: INTERAÇÃO COM
LER E BRINCAR: CONTOS DE
A MATERIALIDADE DO LIVRO CULTURA DA INFÂNCIA
ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO
0
0

Título: A cor de Coraline


Título: Adivinhe se puder Título: Agora não, Bernardo
Autor: Alexandre
Autor: Eva Furnari Autor: David Mackee
Rampazo
Editora: Moderna Editora: Martins Fontes
Editora: Rocco pequenos
leitores LER E BRINCAR: ADIVINHA TEMA QUE PODE CAUSAR
O QUE É? DESCONFORTO
CULTURA DA INFÂNCIA
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Título: Alice no país das Título: Alice viaja nas histórias


Título: Alecrim Dourado e
maravilhas Autores: Gianni Rodari e
outros cheirinhos de amor
Autor: Lewis Carrol
Autor: Lenine Gomes Anna Laura Cantone
(recontada por Ruy Castro)
Editora: Cortez Editora: Biruta
Editora: Cia das Letrinhas

POESIA CULTURA DA INFÂNCIA


CLÁSSICO

Título: Antologia de Folhetos Título: Aperte aqui


de Cordel: Amor, história e Título: A moça tecelã Autores: Hervè Tullet
Luta Autora: Marina Colasanti Editora: Ática
Autora: Márcia Abreu Editora: Global
Editora: Salamandra LER E BRINCAR: INTERAÇÃO
ILUSTRAÇÃO EM BORDADO COM A MATERIALIDADE DO
LITERATURA DE CORDEL LIVRO

Título: A princesinha Título: Argh! Título: Armazém de folclore


medrosa Autores: Jonathan Lambert Autora: Ricardo Azevedo
Autor: Odilon Moraes Editora: Brinque-Book Editora: Átical
Editora: Cosac Naify
LER E BRINCAR: INTERAÇÃO
LER E BRINCAR – TRAVA
COM A MATERIALIDADE DO
CULTURA DA INFÂNCIA LÍNGUAS
LIVRO

Título: As aventuras de Título: As Aventuras de Título: As aventuras do


Pinóquio Robinson Crusoé bonequinho do banheiro
Autor: Carlo Collodi Autor: Daniel Defoe Autor: Ziraldo
Editora: Martin Claret Editora: Paulus Editora: Melhoramentos

CLÁSSICO CLÁSSICO CULTURA DA INFÂNCIA


0 0 0
68

Título: As Mil e uma Noites Título: A separação


Tradução: Tiago Luciano Título: Assim Assado
Autor: Pascale Francotte
Angelo e Paulo Bazaglia Autora: Eva Furnari
Editora: Edições SM
Paulus Editora: Moderna
Editora: Paulus
TEMA QUE PODE CAUSAR
DESCONFORTO CULTURA DA INFÂNCIA
CLÁSSICO

Título: A velhinha que dava


nome às coisas Título: A Volta ao Mundo
Título: As tranças de Bintou
Autora: Cynthia Rylant em 80 Dias
Autora: Silviane A. Diouf
Editora: Brinque Book Autor: Julio Verne
Editora: Cosac Naify
Editora: Martin Claret
CULTURA DA INFÂNCIA TEMA QUE PODE CAUSAR
DESCONFORTO LITERATURA CLÁSSICA

Título: Bartolo Bortopelo Título: Bom dia Marcos! (e


Título: Bárbaro
Autores: Peter O Sagae coleção)
Autor: Renato Moriconi
e Suryara Bernardi Autora: Marie-Louise Gay
Editora: Cia das Letras
Editora: Baba Yaga Editora: Brinque Book
LIVRO DE IMAGEM
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA

Título: Bruxa bruxa, venha Título: Cabelinhos em


Título: Bruno e João
à minha festa lugares engraçados
Autor: Jean-Claude R.
Autora: Arden Druce Autora: Babette Cole
Alphen
Editora: Brinque Book Editora: Ática
Editora: Jujuba
LER E BRINCAR: CONTOS DE TEMA QUE PODE CAUSAR
CULTURA DA INFÂNCIA ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO DESCONFORTO
69

Título: Caindo morto Título: Caras animalescas


Autora: Babette Cole Título: Cena de rua
Autor: Illan Bremnan
Editora: Ática Autor: Angela Lago
Editora: Cia das Letrinhas
Editora: RH livros
TEMA QUE PODE CAUSAR LER E BRINCAR:
LIVRO DE IMAGEM
DESCONFORTO ADIVINHA O QUE É?

Título: Histórias Greco-


Título: Chapeuzinho Romanas
Título: Chuva de manga
amarelo Autora: Ana Maria
Autor: James Rumford
Autor: Chico Buarque Machado
Editora: Brinque Book
Editora: José Olympio Editora: FTD
CULTURA DA INFÂNCIA
CULTURA DA INFÂNCIA MITO

0
Título: Coleção o que é o
Título: Coleção ache o
Título: Cocô de que é
bicho
passarinho Autor: Guido Van
Autor: Svjetlan Junakovic
Autora: Eva Furnari Genechten
Editora: Cosac Naify
Editora: Moderna Editora: Brinque-Book
LER E BRINCAR: LER E BRINCAR :ADIVINHA
CULTURA DA INFÂNCIA
ADIVINHA O QUE É? O QUE É?

Título: Como é que eu era


quando era bebê Título: Como reconhecer
Título: Como começa um monstro
Autores: Jeanne Willis e
Autora: Silvana Tavano Autor: Gustavo Roldán
Tony Ross
Editora: Callis Editora: Jujuba
Editora: Brinque Book
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA
CULTURA DA INFÂNCIA
0
70

Título: Contos de enganar a Título: Curupira brinca


morte – narrativas de folclore
Título: Conta mais uma comigo
Autores: Ernani Só e Marilda
Autora: Nye Ribeiro Castanha
Autor: Lô Carvalho
Editora: Roda e Cia Editora: Cia das Letrinhas Editora: Cia das Letrinhas

CULTURA DA INFÂNCIA TEMA QUE PODE CAUSAR LER E BRINCAR: IMITANDO


DESCONFORTO COM O CORPO

Título: Da pequena toupeira Título: Declaração de


Título: Da cabeça aos pés que queria saber quem tinha amor
Autor: Eric Carle feito cocô na cabeça dela Autor: José Enrique
Editora: Callis Autor: Werner Holzwarth Barreiro
Editora: Cia das Letrinhas Editora: Galocha
LER E BRINCAR:
LER E BRINCAR: CONTOS DE
IMITANDO CO O CORPO ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO POESIA
0

Título: Direitos do Pequeno


Título: Dois de cada Título: Do outro lado da
Leitor
Autora: Babette Cole rua
Autores: Patricia Auerbach
Editora: Ática Autor: Cris Eich
e Odilon Moraes
Editora: Positiva
Editora: Cia das Letrinhas
TEMA QUE PODE CAUSAR
DESCONFORTO LIVRO DE IMAGEM
CULTURA DA INFÂNCIA

Título: Dorme menino, Título: Emoções


dorme Título: Drufs
Autor: Juarez Machado
Autora: Laura Herrera Autora: Eva Furnari
Editora: Nova Fronteira
Editora: LM Editora: Moderna

LIVRO DE IMAGEM
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA
71

Título: Ernesto
Título: Escrito em Verbal
Título: Entre Nuvens Autores: Blandina Franco e
de Ave
Autor: André Neves José Carlos Lollo
Autor: Manoel de Barros
Editora: Brinque Book Editora: Cia das Letrinhas
Editora: Leya
TEMA QUE PODE CAUSAR
CULTURA DA INFÂNCIA POESIA
DESCONFORTO

Título: Este chapéu não é


Título: Espelho Título: Esta é Silvia meu
Autora: Susy Lee Autor: Tony Ross Autor: Jon Klassen
Editora: Cosac Naify Editora: Salamandra Editora: WMF Martins
Fontes
LIVRO DE IMAGEM CULTURA DA INFÂNCIA
CULTURA DA INFÂNCIA

Título: Este não é um livro Título: Eu não gosto de você


de princesas Título: E você?
Autora: Raquel Matsushita
Autores: Blandina Franco e Autora: Rosinha
Editora: Jujuba
José Lollo Editora: Jujuba
Editora: Peirópolis TEMA QUE PODE CAUSAR
CULTURA DA INFÂNCIA
DESCONFORTO
CULTURA DA INFÂNCIA

0
Título: Fora da gaiola e
Título: Exercício de ser Título: Fique longe da
outras poesias
criança água, Shirley
Autores: Lalau e
Autor: Manuel de Barros Autor: John Burnirgham
Laurabeatriz
Editora: Salamandra Editora: Cosac Naify
Editora: Cia das Letrinhas

POESIA CULTURA DA INFÂNCIA


POESIA
72

Título: Iori descobre o sol, o


Título: Gato pra cá rato Título: Ida e volta sol descobre Iori
pra lá Autores: Taisa Borges e
Autor: Juarez Machado
Autora: Sylvia Orthof Oswaldo Faustino
Editora: Agir
Editora: Rovelle Editora: Melhoramentos

LIVRO DE IMAGEM LER E BRINCAR: ADIVINHA O


POESIA QUE É?

Título: Lá e aqui
Título: Josefina quer dançar Autores: Carolina Moreyra Título: Letras de Carvão
Autor: Jackie French e Odilon Moraes Autora: Irene Vasco
Editora: Brinque Book Editora: Pequeno Zahar Editora: Pulo do Gato

CULTURA DA INFÂNCIA TEMA QUE PODE CAUSAR CULTURA DA INFÂNCIA


DESCONFORTO

Título: Lobo negro Título: Malvina Título: Mamã


Autor: Antoine Guilloppé Autor: André Neves Autora: Mariana Ruiz
Editora: Melhoramentos Editora: DCL Editora: Livre

LIVRO DE IMAGEM CULTURA DA INFÂNCIA POESIA

Título: Mamãe é grande como Título: Mamãe você me


Título: Mamãe botou um ovo uma torre ama?
Autora: Babette Cole Autores: Brigitte Schar e Autora: Barbara M. Joosse
Editora: Ática Jacky Gleich
Editora: Brinque-Book
Editora: Casac Naify
TEMA QUE PODE CAUSAR
TEMA QUE PODE CAUSAR LER E BRINCAR: CONTOS DE
DESCONFORTO ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO
DESCONFORTO
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Título: Maria vai com as


Título: Mania de Título: Marcelo marmelo outras
explicação martelo Autora: Sylvia Orthof
Autora: Adriana Falcão Autora: Ruth Rocha Editora: Ática
Editora: Salamandra Editora: Salamandra
LER E BRINCAR: CONTOS DE
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO

Título: Max, o corajoso Título: Maya e Selou


Título: Mel na boca
Autor: Ed Vere Autoras: Laura Meana e
Autor: André Neves
Editora: Cia das Letrinhas Marìa Pascual de La Torre
Editora: Cortez
Editora: Edições SM
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA
CULTURA DA INFÂNCIA

Título: Menina bonita do


Título: Menina amarrotada laço de fita Título: Menina Nina
Autora: Aline Abreu Autores: Ana Maria Autor: Ziraldo
Editora: Jujuba Machado e Claudius Editora: Melhoramentos
Editora: Ática
TEMA QUE PODE CAUSAR TEMA QUE PODE CAUSAR
LER E BRINCAR: CONTOS DE DESCONFORTO
DESCONFORTO
ACUMULAÇÃO E REPETIÇÃO

Título: Meu tio Título: Mundo cor de rosa Título: Muito capeta
Autor: Paulo Werneck Autora: Roberta Martins Autora: Ângela Lago
Editora: Cosac Naify Editora: Bis Editora: Cia das Letrinhas

TEMA QUE PODE CAUSAR


LIVRO DE IMAGEM CULTURA DA INFÂNCIA
DESCONFORTO
74

Título: O anjo da guarda do


Título: Não é uma caixa Título: O artesão vovô
Autora: Antoinette Portis Autor: Walter Lara Autora: Jutta Bauer
Editora: Cosac Naify Editora: Abacate Editora: Cosac Naify

CULTURA DA INFÂNCIA LIVRO DE IMAGEM TEMA QUE PODE CAUSAR


DESCONFORTO

Título: O Caderno do Título: O Cântico dos


Título: Obax jardineiro Cânticos
Autor: André Neves Autor: Angela Lago Autora: Angela Lago
Editora: Brinquebook Editora: Edições SM Editora: Cosac Naify

CULTURA DA INFÂNCIA POESIA LIVRO DE IMAGEM

Título: O caso do bolinho Título: O fazedor do Título: O fim da fila


Autor: Tatiana Belink amanhecer Autor: Marcelo Pimentel
Editora: Moderna Autor: Manoel de Barros Editora: Rovelle
Editora: Salamandra
LER E BRINCAR: CANTANDO
LIVRO DE IMAGEM
COM OS LIVROS POESIA

Título: O grande rabanete Título: O guarda-chuva do


Autora: Tatiana Belinky guarda Título: Oh!
Editora: Moderna Autor: Bartolomeu de Autor: Josse Goffin
Campos Queirós Editora: Martins Fontes
LER E BRINCAR: CONTOS Editora: Moderna
DE ACUMULAÇÃO E LIVRO DE IMAGEM
REPETIÇÃO POESIA

0
75

Título: O Leão e o Título: O lenço


Título: O jornal camundongo Autora: Patricia
Autora: Patricia Auerbach Autor: Jerry Pinkney Auerbach
Editora: Brinque-Book Editora: Martins Fontes Editora: Brinque Book

CULTURA DA INFÂNCIA LIVRO DE IMAGEM LIVRO DE IMAGEM

Título: O livro com um Título: O livro negro das cores


buraco Autoras: Menena Cottin e Título: O livro sem figuras
Autores: Hervè Tullet Rosana Faría Autores: B. J. Novak
Editora: Cosac Naify Editora: Pallas Editora: Intrínseca
LER E BRINCAR: INTERAÇÃO LER E BRINCAR: INTERAÇÃO
COM A MATERIALIDADE DO COM A MATERIALIDADE DO CULTURA DA INFÂNCIA
LIVRO LIVRO

Título: O menino azul Título: O menino que


Título: O menino que
Autoras: Cecília Meirelles chovia
mordeu Picasso
e Elma Autor: Claudio Thebas
Autor: Antony Penrose
Editora: Global Editora: Cia das Letrinhas Editora: Cosac Naify
POESIA CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA

0
Título: O menino que queria
virar vento Título: O mundo inteiro Título: Onda
Autor: Pedro Kalil Auad Autoras: Liz Garton Autora: Susy Lee
Editora: Aletria Editora: Paz e Terra Editora: Cosac Naify

TEMA QUE PODE CAUSAR LIVRO ÁLBUM LIVRO DE IMAGEM


DESCONFORTO
76

Título: Onde vivem os


Título: O pato, a morte e a
monstros Título: O peixe e o pássaro
Tulipa
Autores: Maurice Sendrak Autor: Bartolomeu de
Autor: Wolf Erlbruch
e Heloisa Jahn Campos Queirós
Editora: Cosac Naify
Editora: Cosac Naify Editora: Miguilim
TEMA QUE PODE CAUSAR
LIVRO ÁLBUM DESCONFORTO POESIA

Título: O pote vazio Título: O princípio


Título: O ponto
Autor: Demi Autora: Paula Carballeira
Autor: Peter H. Reynolds
Editora: Martins Fontes Editora: Livre
Editora: Martins Fontes
TEMA QUE PODE CAUSAR
CULTURA DA INFÂNCIA CULTURA DA INFÂNCIA
DESCONFORTO

Título: O ratinho, o morango


Título: Ops! vermelho maduro e o
grande urso esfomeado
Título: Orie
Autora: Marilda
Autores: Audrey e Don Autora: Lucia Hiratsuka
Castanha
Wood Editora: Pequena
Editora: Cosac Naify
Editora: Brinque-Book
CULTURA DA INFÂNCIA
LIVRO DE IMAGEM
CULTURA DA INFÂNCIA

0
Título: Contos de Grimm
Título: Os Cinco Sentidos (Chapeuzinho Vermelho, o Título: O Sol e o Vento
Autor: Bartolomeu de Príncipe rã ou Henrique de Autor: Julia Alba
Campos Queiros ferro)
Editora: Callis
Editora: Global Autora: Maria Heloísa Pentedds
Editora: Ática
CULTURA DA INFÂNCIA
POESIA CLÁSSICO
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Título: Os pássaros Título: Os Três


Autor: Germano Zullo Mosqueteiros Título: Ou isto ou aquilo
Albertine Autor: Dumas Autora: Cecília Meirelles
Editora: 34 Editora: Zahar Editora: Global

LIVRO DE IMAGEM CLÁSSICO POESIA

Título: Parlendas para


Título: O violinista brincar Título: Patricia
Autor: Colin Thompson Autoras: Josca Aline Autor: Stephen Michael
Editora: Brinque-Book Barouch e Lucila Silva de King
ALmeida Editora: Brinque Book
TEMA QUE PODE CAUSAR Editora: Panda books
DESCONFORTO LER E BRINCAR: CANTANDO CULTURA DA INFÂNCIA
COM OS LIVROS

Título: Poemas para


Título: Paulina Título: Pedrinho cadê você?
brincar
Autora: Maria Eugênia Autora: Sonia Junqueira
Autor: José Paulo Paes
Editora: Peirópolis Editora: Melhoramentos
Editora: Ática
CULTURA DA INFÂNCIA LER E BRINCAR
POESIA

Título: Poemas para Título: Poesia na varanda


Título: Poeminhas da terra
crianças Autores: Sonia Junqueira e
Autora: Marcia Leite
Autor: Fernando Pessoa Flávio Fargas
Editora: Pulo do gato
Editora: Martins Fontes Editora: Autentica
POESIA
POESIA POESIA
78

Título: Quem tem medo de


Título: Pedro e Tina Título: Quem não arrisca monstro?
Autor: Stephen Michael não petisca Autoras: Ruth Rocha e
King Autora: Fatima Miguez Mariana Massarani
Editora: Brinque Book Editora: DCL Editora: Global

TEMA QUE PODE CAUSAR


CULTURA DA INFÂNCIA POESIA
DESCONFORTO

Título: Rápido como um


gafanhoto Título: Rosa dos Ventos
Título: Rosa
Autores: Awdrey e Don Autor: Bartolomeu de
Autoras: Odilon Moraes
Wood Campos Queiros
Editora: Olho de vidro
Editora: Brinque-Book Editora: Global

LER E BRINCAR: IMITANDO LIVRO ÁLBUM


POESIA
COM O CORPO

Título: Salada saladinha - Título: Sem Título


Título: Roupa de brincar Parlendas
Autores: Hervè Tullet
Autor: Eliandro Rocha Autores: Marcelo Cipis, Maria
José Nobrega e Rosane Editora: Cosac Naify
Editora: Pulo do Gato
Pamplona
Editora: Moderna LER E BRINCAR:
TEMA QUE PODE CAUSAR
LER E BRINCAR: CANTANDO INTERAÇÃO COM A
DESCONFORTO
COM OS LIVROS MATERIALIDADE DO LIVRO

Título: Sete histórias para Título: Tanto tanto


sacudir o esqueleto Título: Sombra
Autora: Trish Cooke
Autora: Angela Lago Autora: Susy Lee Editora: Ática
Editora: Cia das Letrinhas Editora: Cosac Naify
LER E BRINCAR: CONTOS
TEMA QUE PODE CAUSAR LIVRO DE IMAGEM DE ACUMULAÇÃO E
DESCONFORTO REPETIÇÃO

10
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Título: Telefone sem fio Título: Tinha uma velhinha que


Título: Tatu balão engoliu uma mosca
Autor: Illan Bremnan
Autora: Sonia Barros Autor: Jeremy Holmes
Editora: Cia das
Editora: Aletria Editora: Amarilys
Letrinhas

CULTURA DA INFÂNCIA TEMA QUE PODE CAUSAR


LIVRO DE IMAGEM DESCONFORTO

Título: Todo mundo boceja


Autores: Anita Bjsterbosh Título: Tom Título: Traço de poeta
Editora: Brinque-Book Autor: André Neves Autores: Cecília Meirelles
Editora: Projeto e Ferreira Gullar
LER E BRINCAR: Editora: Global
INTERAÇÃO COM A TEMA QUE PODE CAUSAR
MATERIALIDADE DO LIVRO DESCONFORTO POESIA

Título: Trava-língua,
Título: Travadinhas Título: Troma tromba
quebra-queixo, rema-rema
Autor: Eva furnari Autor: David Mackee
remelexo
Editora: Salamandra Editora: Pequena Zahar
Autor: Almir Correia
Editora: Cortez
LER E BRINCAR: TRAVA TEMA QUE PODE CAUSAR
LÍNGUA LER E BRINCAR: TRAVA DESCONFORTO
LÍNGUA

Título: Vinte Mil Léguas Título: Vó Naná


Título: Vozes no parque
Submarinas Autora: Margareth Wild
Autor: Antony Browne
Autor: Julio Verne Editora: Brinque Book
Editora: Pequena Zahar
Editora: Zahar
TEMA QUE PODE CAUSAR
CULTURA DA INFÂNCIA
CLÁSSICO DESCONFORTO
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Título: Kabá Darebu


Título: Zoom
Autor: Daniel
Autor: Istvan Banyal
Mundurukul
Editora: Brinque Book
Editora: Brinque Book

LIVRO DE IMAGEM
MITO
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82
83

Livreto Orientador para o


Facilitador da Formação de
Mediadores de Leitura

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