Você está na página 1de 5

1.

INTRODUÇÃO AO DIREITO PROCESSUAL CIVIL


1.1 Contextualização
O Direito Processual Civil é uma matéria com elevado grau de abstração, diferentemente do
que ocorre no âmbito do Direito Civil.

As normas processuais tratadas no processo civil surgiram da necessidade de observância de


regras do direito material.

Assim, se existe uma convivência em sociedade, faz-se necessária a criação de regras como
contratos, propriedade, direito de família, regras para os casos de morte ou nascimentos de
pessoas etc.

Nesse sentido, caso exista uma regra sobre direito de propriedade e essa for violada por
alguém, então há a necessidade de se solucionar esse conflito.

Antes, existiam as regras convivenciais (de direito material); contudo, se houvesse a violação
dessas regras, as pessoas envolvidas faziam valer os seus direitos com base na própria força.
Desse litígio, nem sempre aquele que estava com a razão saía vencedor, mas sim aquele que
era mais forte. Isso gerava outros conflitos, talvez ainda maiores.

Assim, o Estado se viu na obrigação de tomar para si o dever de solucionar esses conflitos. Por
meio do poder jurisdicional do Estado, este passou a solucionar os mais variados conflitos que
ocorrem na sociedade. O Estado deve garantir, dentro da solução desses conflitos, regras
iguais para todas as pessoas.

Por esse motivo é que surgem as normas processuais. Essas normas processuais se dedicam a
trabalhar os mecanismos pelos quais o Estado-juiz e aqueles que participam do processo vão
se comportar no processo.

O Magistrado que responde pelo Estado deve garantir, a uma das partes, os mesmos direitos
que o seu adverso, e o mesmo zelo dedicado aos demais processos. Por tudo isso, o Código de
Processo Civil Brasileiro estabelece normas que cuidam de processos que irão solucionar os
mais diversos conflitos de interesses.

1.2 Processo

O Estado, em determinada época de evolução histórica, teve de assumir o poder-dever de


solucionar conflitos de interesse.

No âmbito do processo civil, aquele que está lidando com a ciência do processo deve fazer isso
da maneira adequada. Além disso, jamais deve perder de vista a finalidade do processo civil,
isto é, a geração da mais razoável solução de conflitos.

Mas, qual é o motivo de se desejar a solução desses conflitos? Dentro da ciência do processo,
não se pode perder de vista o jurisdicionado. O processo é uma forma de trazer ao
jurisdicionado a melhor solução de um conflito.

Com isso, zela-se pela paz social na qual o direito de cada um será observado. É importante
notar em qual momento o processo civil será utilizado nesse cenário. Atualmente, vive-se um
momento denominado neoconstitucionalismo, isto é, uma releitura/observância de todas as
normas infraconstitucionais à luz da Constituição Federal.
No artigo 1º da CF/1988, está elencada a questão da dignidade da pessoa humana, que é um
dos pilares dessa Constituição e também do ordenamento jurídico brasileiro. Assim, é
importante observar que o processo civil é totalmente direcionado a uma preocupação com o
jurisdicionado.

Por esse motivo é que se diz que o processo não é um fim em si mesmo. Uma pessoa ajuíza
uma ação porque precisa obter a solução de um determinado conflito, que lhe devolve a paz
social e resguarda o seu direito.

1.3 Processo civil

O Processo Civil é o ramo do direito que contém regras e princípios que tratam da jurisdição
civil. Quando se fala em aplicação de normas de processo deve existir, em tese, um conflito
entre sujeitos.

Assim, o processo civil é muito marcado por um conflito de interesses somado a uma
determinada pretensão, que é levada à solução pelo Estado-juiz, que exercerá a jurisdição
solucionando esse conflito.

A relação processual não é linear, conforme ocorre no Direito Civil, mas sim triangular. No
topo, está o Estado-juiz; na base, estão as partes. Hoje em dia, o Magistrado irá observar a
aplicação das regras processuais e, além disso, deve ser dotado de boa-fé objetiva e
cooperação. O Estado-juiz participa efetivamente da relação processual.

O processo civil existe para todos os efeitos, ou seja, é aplicado, inclusive, subsidiariamente ao
processo penal e ao processo do trabalho.

O processo civil cuida das normas processuais, que são direcionadas à solução de conflitos,
seja o interesse envolvido público ou privado. No âmbito do direito público, existem normas
que são aplicadas às relações públicas.

Já dentro do direito privado, estão regras aplicáveis aos particulares. Nesse sentido, o que
marca o direito privado é a horizontalidade entre os envolvidos.

O processo civil encontra-se no âmbito do direito público, que é marcado pela verticalidade. O
Estado participa dessa relação jurídica. Logo, pode-se dizer que a atividade jurisdicional é ramo
do direito público.

A atividade jurisdicional é exercida por meio do processo, que é um instrumento da jurisdição.


Assim, o processo goza de uma autonomia em relação ao direito material que nele esteja
sendo discutido.

Trata-se de um ente abstrato que é materializado por meio dos autos do processo (que podem
ser físicos ou eletrônicos). É por meio do processo que o Estado-juiz soluciona os conflitos. O
processo não é um fim em si mesmo, mas um meio de se alcançar determinada finalidade, que
é a solução do conflito.

Assim, entre outras situações, está a chamada instrumentalidade das formas, que ocorre em
decorrência da observância do processo como um instrumento. Ou seja, se uma pessoa pratica
um ato processual, ainda que violando essencialmente a forma de prática desse ato, caso o ato
alcance a sua finalidade, esse deve se manter íntegro.

1.4 Valores Constitucionais consagrados pelo atual CPC


O Atual Código de Processo Civil tem como valores:

• Universalização da Justiça;

• Constitucionalização;

• Facilitação do acesso à Justiça;

• Razoável duração do processo;

• Instrumentalidade;

• Busca de formas alternativas de solução de conflitos;

• Efetividade do processo.

A Universalidade da Justiça e a Constitucionalização são valores que estão intimamente ligados


ao processo de facilitação do acesso à Justiça.

Nesse sentido, busca-se reduzir a chamada litigiosidade contida, que é a insatisfação que não é
levada a juízo e permanece latente entre as partes.

O processo é um instrumento e deve ser sempre o mais perfeito o possível para solucionar o
direito material. Assim, busca-se o processo, não como um fim em si mesmo, mas como meio
de se alcançar determinada finalidade.

O Código de Processo Civil de 2015 enfatiza a ideia de “desjudicialização”, ou seja, a solução


alternativa dos conflitos, seja por meio da conciliação, da mediação ou da arbitragem. Esses
acordos são, muitas vezes, mais agradáveis que a imposição de uma decisão judicial.

O sujeito que busca o exercício de sua pretensão no Estado-juiz deve ter acesso a uma tutela
jurisdicional justa, efetiva e adequada.

2. NORMAS PROCESSUAIS

2.1 Introdução

As normas processuais cuidam da chamada jurisdição civil. Esta, por sua vez, é a chamada
jurisdição não penal.

No ordenamento jurídico brasileiro, há o chamado princípio da supremacia da lei, ou seja, da


norma escrita que emana das mãos da autoridade competente.

As normas jurídicas possuem várias características como a generalidade, a imperatividade, a


continuidade etc.

Contudo, dentre as categorias das normas, duas são muito importantes: as normas cogentes as
e não cogentes.

A- Normas Cogentes: são normas de ordem pública, ou seja, a vontade do particular não pode
alterar essa norma. Sua finalidade é resguardar os interesses coletivos;

B- Normas não cogentes: são normas dispositivas, ou seja, não possuem um comando
absoluto e podem ser permissivas, quando autorizam o interessado a derrogar, ou supletivas,
que será aplicada na falta de uma disposição em contrário das partes.
O processo civil estrutura a chamada jurisdição civil, que é assentada sobre as normas
processuais trabalhadas no Código de Processo Civil.

Assim, vale destacar que o processo civil, enquanto ramo do direito público, não possui apenas
normas cogentes. Também não se pode afirmar que, como o direito civil é ramo do direito
privado, suas disposições abrangem apenas normas dispositivas.

No âmbito do direito público e do direito privado, é possível que existam normas cogentes e
não cogentes. O atual Código de Processo Civil é ramo do direito público; contudo, dentro
dele, há um fenômeno chamado de autorregramento da vontade.

Trata-se da liberdade das partes que adentra no processo civil, algo que, há muitos anos, já
existe em outros ordenamentos, como o processo alemão. Vale lembrar que o art. 191 do
novo CPC permite que as partes celebrem contratos processuais sobre os mais variados
assuntos, por exemplo, recursos, aspectos sobre defesa, produção de provas etc.

As normas processuais cuidam da relação processual e do procedimento que será adotado.


Dentro do aspecto do processo, as normas são predominantemente cogentes, mas também
existem normas dispositivas, por exemplo, a questão do ônus da prova, de competência etc.

Nesse sentido, as normas são direcionadas à solução de conflitos de interesse público e


privado. Na aplicação da lei processual, deve ser observar o âmbito de aplicação da lei
processual. No qual:

Lei processual no espaço: as normas do processo civil produzirão efeitos em território


nacional;

Lei processual no tempo: aplica-se a lei que está em vigência (atualmente, CPC/2015).

O Código de Processo Civil de 2015 foi promulgado em 16 de março de 2015 e teve um


período de vacatio legis de um ano. A sua publicação ocorreu no dia 17 de março de 2015;
logo, passou a ter vigência em 18 de março de 2016.

De acordo com a LINDB, quando uma lei nova entra no ordenamento jurídico, a sua
aplicabilidade é imediata e geral, ou seja, aplica-se tanto aos casos pendentes quanto aos
casos futuros.

Assim, em 18 de março de 2016, o novo CPC passou a ser aplicado aos processos em
andamento (independentemente da fase) e aos processos futuros.

Em suma, é importante ter atenção a alguns pontos:

• A lei processual atinge os processos em andamento;

• A lei nova é aplicada para o futuro;

• A lei nova não pode atingir os direitos processuais já adquiridos.

Como norma processual vigente, o CPC/2015 pode ser resumido em alguns pilares:

• Contraditório substancial;

• Boa-fé objetiva;

• Cooperação;
• Efetividade;

• Respeito ao autorregramento da vontade.

2.2 Princípios Processuais


2.2.1