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Universidade Eduardo Mondlane

Faculdade de Direito

Tema: Cosmologia Tradicional, Ordem Social e Conflitos de Feitiçaria

Discentes:

Aida Roberto Mboane nº 20211936

Angela Massingue nº 20211933

Camisário Nhanombe nº 20211949

Elina Samanguana nº

Haylton de Tima Mateus nº 20211934

Idálio Djedje nº

Sílvio Chanito Amade nº 20211898

Tome Francisco Txaia nº 20211963

Maputo, Junho de 2021

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Universidade Eduardo Mondlane

Faculdade de Direito

Tema: Cosmologia Tradicional, Ordem Social e Conflitos de Feitiçaria

Pesquisa do 2º Grupo

Curso: Licenciatura em Direito

Cadeira: História do Direito Moçambicano

Ano: 1.º ano

Docente: Mestre: Joaquim Fumo

Maputo, Junho de 2021

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índice
1. Introdução................................................................................................................................................4
1.1. Objectivo Geral:...............................................................................................................................5
1.1.2. Objectivos Específicos:..................................................................................................................5
1.2. Metodologia:....................................................................................................................................5
2. COSMOLOGIA......................................................................................................................................5
2.1. Tradição................................................................................................................................................6
2.1.2. COSMOLOGIA TRADICIONAL.....................................................................................................6
2.1.3. A vida da Familia..........................................................................................................................7
2.2. Observações ao quadro dos termos de parentesco das tribos............................................................8
2.2.1. Aspectos do sistema de parentesco noutras tribos do sul de África...............................................8
2.2.2. A Poligamia.......................................................................................................................................8
2.2.3.Origem e extensão da poligamia entre os tsongas...........................................................................8
2.3. Qual é a origem deste costume?........................................................................................................9
2.3.1. Consequências da Poligamia..........................................................................................................9
3. Ordem Social: noção...............................................................................................................................9
3.1. Instrumentos de ordenamento social...................................................................................................10
3.1.2. Costumes.....................................................................................................................................10
2.1.3. Religião.......................................................................................................................................10
3.2. Moral..............................................................................................................................................10
4. Organização e divisão dos cargos judiciários........................................................................................11
4.1. Crimes e Penas...................................................................................................................................12
4.2. Conceptualização................................................................................................................................12
4.2.1. Estrutura familiar e social dos Vatssangas...................................................................................13
4.2.2. Sistema de ordem social dos Vatssangas.........................................................................................13
4.2.3. Organização económica dos Vatssangas......................................................................................14
5. Sucessão do Mambo..........................................................................................................................14
5.1. Religião e magia.............................................................................................................................14
5.2. Linhagem........................................................................................................................................15
5.2.1. Chefatura.....................................................................................................................................16
5.2.2. Estado..............................................................................................................................................16
6. FEITIÇARIA.........................................................................................................................................18

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6.1. IDEOLOGIA......................................................................................................................................18
6.1.2. CONFLITOS DE FEITIÇARIA......................................................................................................19
6.2. CRIME DE FEITIÇARIA..................................................................................................................22
6.2.1. Conflitos da feitiçaria pós-independência....................................................................................22
6.2.2. NOS DIAS DE HOJE..................................................................................................................23
6.2.3. Conflitos de Feitiçaria..................................................................................................................23

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1. Introdução
Nste trabalho abordarseà de temas referentes à Cosmologia Tradicional, Ordem Social e
conflitos de Feitiçaria. Sendo que a cosmologia tradicional baseiase no Estudo dos princípios
religiososmíticos e leis da natureza das tradições de Moçambique. Na ordem social iremos
debruçar os diferentes instrumentos sociais, que garantiram a coesão social e a resolução de
conflitos de feitiçaria.

1.1. Objectivo Geral:


 Compreender como as sociedades précolonias debatiam os assuntos referentes a
Cosmologia, Ordem Social e conflitos de Feitiçaria.

1.1.2. Objectivos Específicos:


 Caracterizar a Cosmologia tradicional;
 Caracterizar o fundo consuetudinário tradicional; e
 Caracterizar os mecanismos usados na resolução de conflitos.

1.2. Metodologia:
 Para a realização desta pesquisa, usouse o método hermenêutico, consultas em manuais e
livros, e pesquisas na internet.

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2. COSMOLOGIA: Noção

É uma palavra que deriva do grego. Segundo Chauí (2000),“a palavra Cosmologia é composta de
duas outras: Cosmos, que significa mundo ordenado e organizado, e logia, que vem da palavra
logos, que significa pensamento racional, discurso racional, conhecimento”. Os filósofos pré-
socráticos desenvolveram uma cosmologia porque tentaram desvendar a verdadeira origem do
universo, as causas da sua transformação e a sua organização. A Cosmologia estuda o universo, a
sua organização e a sua origem.

2.1. Tradição
Quando se fala de tradição fala-se da transmissão de costumes, crenças, memórias e lendas para
pessoas de uma comunidade a que passarão a pertencer a esses costumes.

2.1.2. COSMOLOGIA TRADICIONAL


Refere-se ao estudo da origem e organização da tradição, ou seja estudo e organização dos
hábitos e costumes, em especial,das primeiras sociedades ou primeiros estados Moçambique.

A tradição, segundo Carlos Feijó (2007), possui duas características aceites: a sacralidade e a
intemporalidade. A sacralidade provém do apelo ao passado, aos fundadores da comunidade.
Para as sociedades tradicionais africanas, a autoridade tradicional é investida de poderes
sobrenaturais que lhe conferem uma natureza divina ou espiritual e simbólica, o que faz com que
a esta estejam associados um conjunto de imagens, insígnias e rituais tanto de entronização como
de falecimento.

Como exemplo desta, podemos recorrer ao exemplo do aspecto ideológico do Estado dos
Mwenemutapas, no qual quem dirigia era o mambo, o chefe máximo e representante supremo de
todas comunidades. Ele devia se desligar das suas origens terrenas para conferir à realeza um
carácter sagrado. “ a fim de quebrar todas as lições com a sua linhagem, para se tornar
representante de toda a sociedade, indiferente às rivalidades familiares, (o mambo) comete, no
momemnto da sua entronização, o incesto com uma parente próxima, infringindo desse modo o
mais absoluto interdito. Numerosos testemunhos afirmam que a principal mulher do
monomotapa era a sua própria irmã” (W. Randles, 1975; apud; Serra, 1988). Esta prática tinha

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um grande significado para o seu reino, assim, ele era visto como um ser próximo ao
sobrenatural.

É notavelmente claro, que nas sociedades antigas predominava a monarquia, eram absolutistas.
No tipo de legitimação da autoridade tradicional, naquele estabelecido pela comunidade, Morais
(2020) “a legitimidade deve ser entendida, segundo Anders Nilson, como um processo de
reconhecimento instituído entre o (s) líder (es) e uma dada comunidade/grupo étnico,
relacionamento este assente num reconhecimento e aceitação mútua de regras e interesses, por
forma a garantir a harmonia social e o desenvolvimento do grupo”.

Em termos ideológicos, desde as primeiras comunidades até aos demais estados que foram
surgindo, praticava-se as cerimónias mágico-religiosas que assumiam um papel muito
importante, e constituía uma arma fundamental do poder, da coesão social e de aparente
imobilidade social. Os responsáveis destas cerimónias imploravam aos antepassados, chuvas, a
saúde, a protecção para caça e para as viagens, etc. Para os Bantu estas práticas eram feitas pelos
chefes das linhagens e os chefes territoriais. Já no caso dos Mwenemutapa, quem tinha esse
direito era o mambo, ele era o intermediário entre as necessidades dos aldeões e os espíritos
“vivos” dos antepassados régios: “Quando padecem algumas necessidades ou esterilidades, ao
rei se socorrem, cuidando firmemente que ele é poderoso para lhe dar todas as coisas que
desejarem, e houverem mister, e que tudo pode alcançar dos defuntos seus antepassados, com os
quais lhes parece que fala. Pela qual razão, ao rei pedem chuva, quando lhe falta, e todas as
bonanças de tempos para as suas novidades, e quando lhe vão pedir qualquer coisas d’estas
levam-lhe grande presente (...) (Frei João dos Santos, op.cit., pag 69; apud; Serra, 1998:70).

“Em Moçambique, na definição do parentesco, o princípio mais generalizado é o da filiação


unilinear, isto é, privilegia-se uma única linha, podendo ser paterna (Sul de Moçambique) ou
materna (Norte de Moçambique).” (Recama, 2000).

Elaborado por:

DJEJE, Idálio Bento

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2.1.3. A vida da Familia
O sistema de parentesco dos tsongas e todos os bantú, é muito diferente do nosso e embraça os
leigos (individuos com pouco conhecimento ou nenhum conhecimento em determinada
matéria)que tenta compreende-lo

2.2. Observações ao quadro dos termos de parentesco das tribos.


A tribo Copi fixou-se na costa do oceano indico, da foz do Limpopo a Inhambane número dos
seus membros imigrou para o destrito de Lourenço Marques.

A tribo Khahaé uma parte da população do norte do Transvaal.

Os Ndzawus, Também chamados Ngais, Habitavam mais ao norte entre o Save e a Beira.

Gramaticamente a maior parte dos termos de parentesco Tsonga pertence a classe Um-va, que é a
classe pessoal.Formam o plural em "Va" (vatatana, Vana, Vamakwavo, Vatukulo).Alguns
pertencem a classrnh-ti que compreende principalmente animais, mais também nomes de
profissões ou de relações de familia: Ndrisana, Nhondriwa, Namu, Nhombe, Nhlampsa que
formam o plural enti.Os termos Tatana, mamana, rharhana, malume e kokwana, são tidos como
nomes próprios empregados como tais.

2.2.1. Aspectos do sistema de parentesco noutras tribos do sul de África


As tribos que estudei podem classificar-se em duas categóriasatendendo o sistema de
parentesco:Aquelas em que o Homem tem o direito de casar com a filha do Irmão da mulher e
aquelas em que o filho que casa com esta rapariga, sua prima cruzada, Filha do tio
materno.taldiferença é absoluta no que respeita ao casamento entre primos Cruzados.Na primeira
categoria tal casamento é tabú e nunca se faz , a não ser que seja praticado o ritmo
KudlayaXivongo, excepção que confirma a regra.Na segunda categoria è proibidoo casamento
do tio com a sobrinha da Mulher, mas pode realizar-se eventualmente, pelo menos entre os pedis
e os vendas, se o homem não têm um filho para casar com a rapariga, contudo os dois costumes
são manifestações da mesma lei geral que existe em rodas as tribos do Sul de África:O direito
que tem uma familia, tendo arranjado uma mulher noutra familia, de escolher várias mulheres, na
familia aliada.

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2.2.2. A Poligamia

2.2.3.Origem e extensão da poligamia entre os tsongas


A poligamia pratica-se uniformimente em toda a tribo.isto não quer dizer que todos oa homens
possuam muitas mulheres, a regra de história natural segundo a qual o número de homens é
sempre pouco, mais ou menos equivalente ao de mulheres, regra que foi conhecida exacta em
Fisiologia, Verifica-se também entre os indigineas, em tempos vulgares, as mulheres não são
numerosas nas tribos bantú.

2.3. Qual é a origem deste costume?


1° As guerras diminuiram o número de homens, como as mulhers não desejavam ficar solteiras,
e a tribo queria aproveita-las o mais possivel para aumentar e Fortalecer-se, as mulheres solteiras
foram tomadas por homens casados, assim se instituiu a familiapoligâmica.

2° Leis de sucessão que regulam a famíliaagnática actual entre os tsongas conduzem também
necessariamente a poligamia!

2.3.1. Consequências da Poligamia


Uma consequência deste costume é que, na tribo bantú primitiva, não há a solteirona
inconsolável.

√ O primeiro destes males é o terrível desenvolvimento das paixões sexuais entre os polígamos,
os brancos que viveram em povoação de chefe onde os homens têm numerosas mulheres.Podem
testemunhar excessos medonhos a que eles se deixem levar (a ver annotation.14 observações
feitas pelo Dr.Liengme na residência do Ngungunyana).

√ Os conflitos domésticos que haviam nas povoações dos polígamos eram outro mal.

√ Uma irmãherda a viúvado irmão mais velho, quer seja casado ou não.

Se, A poligamia começou desta segunda maneira, o seu desenvolvimento não há-deespantar,
corresponde admiravelmente o ideal de vida bantú.

Elaborado por:

MBOANE, Aida Roberto

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3. Ordem Social: noção
Segundo (PATRÍCIO, 2016: 58), define a ordem social na concepção africana como
sendo as relações de parentesco e os costumes de uma determinada tribo. Sendo que
(PATRÍCIO, 2016: 60) afirma que “ o fundo consuetudinário africano é uma “norma de conduta
nascida na prática social e considerada obrigatória para todos”. (VIEIRA, 2011: 4), sustenta que
a ordem social não postula a existência dum corpo escrito de regras.

3.1. Instrumentos de ordenamento social

3.1.2. Costumes
Segundo (PATRÍCIO, 2016: 61), os costumes são “lei” porque “lei” é um conjunto
amplo e relativamente indefinido de esforços e de interconexões entre instituições para manter a
ordem e o controlo social, os quais variam conforme a natureza da organização de cada grupo.

No caso em estudo, há que referenciar algumas normas costumeiras usadas nos estados
tradicionais, salientado:

 Proibição de viajar com sal; corria o risco de não atingir o destino.( JUNOD, 1996: 309);
 Durante uma viagem não se devia afiar a azagaia, pois podia dispertar os inimigos da
floresta. (JUNOD, 1996: 309);
 Não se devia colher folhas de Milala "Usadas para trançar cestos" quando se pretendia
executar uma viagem a outra povoção, pois constituia insulto. (JUNOD, 1996: 309);
 Na recepção de um viajante era exigida ao povo hospitalidade, que caso não seja feita o
chefe obrigava a população a pagar multa. (JUNOD, 1996: 322).

2.1.3. Religião
Segundo (LOURENÇO, 2005: 13), os factores mágico-religiosos assumiam especial
relevância para a manutenção do poder e da coesão social, sendo que geralmente os espíritos
eram os antepassados-deuses. Na mesma corrente, as normas religiosas promulgavam:
 O termo “feiticeiro”, constituia insulto gravíssimo quando dirigido a qualquer elemento
da comunidade política, excepto se fosse usado para um curandeiro, pois enriquecia o seu
prestígio. (LOURENÇO, 2005: 13);
 Fazer oferendas aos espíritos, pedindo a fertilidade do solo, chuvas. (AUATE, 2017: 23).

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3.2. Moral
Segundo RIBEIRO (brasilescola) define a moral como sendo o conjunto de valores, normas
e noções sobre o que é certo ou errado, proibido e permitido dentro de uma determinada
sociedade. E no caso em estudo podemos representar as seguintes normas morais:

 Nos estados tradicionais no momento de distribuição de comida os homens deviam


receber o prato mais cheio. (JUNOD, 1996: 291);
 É interdita a mãe e a avô olhar para trás após voltar do rito kuyandala, com a criança
recémnascida. (COTA, 1944: 96), com risco de a criança ser condenada a graves
infortúnios enviados pela punição divina "Muzimo". (COTA, 1944: 98);
 O pai de um recémnascido não pode pegar o filho nos braços antes da realização de
certos ritos. Como tirar o cordão (n´kuzi, Tete) que a parteira costuma colocar na cintura
dos recémnascidos. (COTA, 1944: 98).

4. Organização e divisão dos cargos judiciários


Nos estados tradicionais a divisação dos cargos sociais esteve hierarquizada da seguinte
forma:

Chefe Tradicional: segundo (LOURENÇO, 2005: 12), o chefe tradicional era responsável pela
lei e pela ordem, detinha grandes funções jurídicas. E sublinha que apesar desta grande
concentração de poderes político-jurídicos, os chefes tradicionais não eram, por regra, autocratas
governando arbitrária e despoticamente, pois deviam cingir-se às normas do direito
consuetudinário e empregar os seus privilégios e riquezas com ponderação e discernimento,
tendo sempre em mente o bem-estar geral da comunidade.

Conselho dos anciãos: responável pela reposição da ordem social ajudar o chefe tradicional na
administração da justiça. (LOURENÇO, 2005: 12);

Médiuns: tirateimas, rensponsáveis pela resolução de conflitos de feitiçaria; ´

Conselho familiar: responsável pela resolução de conflitos inter e intrafamiliares. Segundo


(JUNOD, 1996: 304) o conselho familiar também poderia depor o chefe comunitário
"Munumuzana" se este fosse incapaz de governar e substituilo por outro homem. (LOURENÇO,
2005: 12), enriquece o pensamento anterior dizendo que, tal aconteceu em 1791 ao chefe

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tradicional Capela, da margem sul da baía de Lourenço Marques, que, durante uma grande fome,
tentou extorquir mantimentos aos súbditos.

4.1. Crimes e Penas


Segundo, (PATRÍCIO, 2016: 83) afirma que normalmente, todos os delitos e crimes eram
reduzidos a multas ou indemnizações. A salienar:

 Chinbingué: é uma leve multa a que são condenados todos os que cometem falta leve
contra os seus legítimos superiores, não só autoridades públicas, mas ainda os chefes e
grandes nas famílias, a quem é devida certa sujeição. (PATRÍCIO, 2016: 86);
 Mutaca: imposto denominado de sangue, que o criminoso é obrigado a pagar à
autoridade da terra aonde tiver feito derramar sangue. (PATRÍCIO, 2016: 86);
 Ussambi: tentativa de crime de adulterio com mulher casada. Este crime é considerado
simplesmente como injuria feita ao marido da ofendida, e por isso a sua pena não é
superior ao pagamento, por parte do deliquente e para o marido, de duas peças de
fazenda. (PATRÍCIO, 2016: 86).

Elaborado por:
MATEUS, Haylton de Tima

4.2. Conceptualização
Ordem Social é o conjunto de normas, instituições e costumes que regulam a vida dos indivíduos
em suas relações. A ordem social tem como objectivo a harmonia, o bem-estar e justiça
sociais.De acordo com Mahumana (2015:8), os discursos e as práticas sendo parte dos valores
tradicionais, produzem e reproduzem uma ordem social que valoriza a cultura oral, o passado e
símbolos enquanto factores perpetuadores da experiência entre gerações.Esta ordem é prática e
moral e resulta das actividades regulares realizadas pelos membros da sociedade, segundo as
suas próprias competências.
Paraefeitos de análise da ordem social no período pré-colonial, recorri a obra de José Amorim
(1957), com o título os “Vatssangas” (mais conhecidos por Vandaué), que pertencem a grande
família Bantu, o qual povoava a vasta área de Mossurize. Os hábitos e costumes desta população

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têm muita influência dos Ngunis particularmente de Ngungunhana,por ter lhes mudando os
Mutupo (Totem estou bem) de “Como“ e “Senguaio“ para “Sitole“ e começou a designá-los
Vandaué, que significa - e tu como tens passado?

4.2.1. Estrutura familiar e social dos Vatssangas


Os Vatssangas regem-se na base do sistema patrilinear. Geralmente casavam no mesmo
grupoentre famílias de um “Mutupo“diferente Totem (animal sagrado para a respectiva família).
Entretanto, havia excepções, desde que ambos não fossem vedado comer a mesma coisacomo
por exemplo patas, coração ou beber leite de vaca. O outro de factor de impedimento para o
casamento era a consaguidade, seja em que grau fosse do parentesco. Em alguns casos até
mesmo o parentesco por afinidade constituia impedimento (Amorim, 1957: 23). De acordo com
Junod (1927:121), regra geral esses casamentos processam-se através de uma cerimónias
designada de lobolo o que o autor chama de compra de esposa. O preço da noiva é geralmente
pago com algumas cabeças de gado ao pai da noiva.

4.2.2. Sistema de ordem social dos Vatssangas


No que respeita à manutenção da ordem social e a resolução de milandos (crimes, conflitos)
entre os indígenas, existia um tribunal tradicional em todos os regulados. Pelo costume dos
Vatssangas, o tribunal reunia-se uma vez por semana na casa da primeira esposa lobolada do
régulo ou do chefe.Estes tribunais também se organizavam de forma hierárquica, pelo que os
chefes de grupo de povoações participavam periodicamente ao régulo-chefe os milandos que
resolviam e enviavam para o seu tribunal os que não conseguiam resolver (Florêncio, 2008: 376).

Deste modo, um indivíduo ou um grupo que ficasse insatisfeito com a decisão tomada no
tribunal do seu chefe de grupo de povoações podia recorrer ao tribunal de outro chefe, ou ao do
régulo-chefe. Por sua vez, o tribunal tinha de enviar para a administração os milandos que o seu
tribunal não conseguia resolver ou aqueles que não faziam parte das suas competências
jurisdicionais, como os milandos de sangue, os crimes contra o Estado (fuga ao trabalho
obrigatório e ao imposto de palhota, fuga ao recrutamento para o serviço militar), roubos de
maior importância, etc. (Florêncio, 2008: 376).

Uma das importâncias desses membros tradicionais, prendia-se com a pluralidade e


complexidade de papéis sociais por eles desenvolvidos, sobretudo os de natureza mágico-
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religiosa, que são fundamentais no sistema simbólico e de reprodução social Vandau. Esses
líderes também eram elementos cruciais na organização e condução das cerimónias colectivas de
“kudira” ou “mbhambha”, que são momentos ritualizados que consubstanciam a relação de
veneração e dependência dos vivos face aos “Vadzimu” (os espíritos dos antepassados) e que se
realizam na época das colheitas ou para pedir chuva, assim como o seu papel no controlo e
regulação da feitiçaria, designadamente nos julgamentos e resolução de milandos. Estas funções
mágico-religiosas, constituiam provavelmente, a base mais poderosa da legitimidade social das
autoridades tradicionais Vandaué (Florêncio, 2008: 376-376).

4.2.3. Organização económica dos Vatssangas


a) Regime de propriedade: O regime da propriedade é colectivo, pois as terras eram distribuídas
pelos chefes. A propriedade familiar limitava-se a palhota.

b) Herdeiros ou sucessores:Em primeiro lugar quem tinha direito de herdar ou suceder era o
filho mais velho e por último o sobrinho mais velho.

c) Regime familar:Nesta sociedade vigorava o regime patriarcal, podendo o lar se poligamo.

d) Regime de castas e classes:Viviam em grupos maiores ou menores. Os dirigentes eram


chamados de “Mambo“, os chefes de grupo de povoações por “Muzahare“ e os chefes de
povoação por “Sagutá“. Os chefes de povoação detinham o poder de falar com autoridade, eles
também assistiam o chefe no exercício do poder.

5. Sucessão do Mambo
Em caso da morte do Mambo, os seus ascendentes mais velhos (avós, tios, ou mesmo primos),
convocam para determinado dia, uma reunião de toda a população , homens, mulheres e crianças,
na povoação do falecido, onde é feita comida em abundância, devendo a massa ser feita de
várias farinhas, matam bois ou cabritos ou ambas as espécies. No meio da povoação fica sentado
na esteira o novo Mambo, a quem os presentes vão fazendo ofertas constituídas por toda a
espécie de objectos ou animais. A esta cerimónia chama-se “Gaja“, o que significa nomeação do
chefe (Amorim, 1957: 32; Florêncio, 2008:376).

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5.1. Religião e magia
O povo Vatssangas, é monoteísta, pois acredita na existência de um só Deus que designam de
“Muari“ e que consideram um espírito – Muzimo – superior que em si concentra toda a força,
superintentendo sobre todas aas coisas que há e se passam no mundo em que vivem, assim como
na vida para além da morte, na qual acredita.Para esta população a Morte é o fim da vida,
absolutamente natural e inevitável e porém, creem noutra vida para além desta aqui na terra.
(Amorim, 1957: 33).O sistema religioso tradicional enquadra, dinamiza e força todas as relações
sociais de um grupo, especificando as relações familiares ou de parentesco. Ele representa a
ordem social na sua íntima relação com o sistema de parentesco e os antepassados.Relativamente
a prática mágica, existia advinho chamado “Nhanga“ e o curandeiro “Chiremba“. A função do
advinho consiste em através de ossos de leão, leopardo, cabrito de mato, macaco, papa-formigas,
cabrito doméstico, cágado, conchas e caroços de fruto de uma árvore chamada “Mungomo“,
escamas de crocodilo, etc, advinhar determinados factos de que as pessoas não conhecem a
execução. Enquanto o curandeiro, através de raízes e plantas, faz medicamento para as várias
doenças que graçam a população local (Amorim, 1957: 38).

Elaborado por:
NHANOMBE, Camisário Álvaro Mesa

Desde há cerca de 1700 anos, foram chegando ao nosso país grupos sucessivos agricultores,
pastores e conhecedores da metalurgia e da olaria que ficaram designados por Bantu.

Lentamente três grandes tipos de organização social foram se ordenando: a linhagem, a chefatura
e o estado.

5.2. Linhagem
Agrupava parentes cuja descendência se fazia por via paterna ou materna. Com reduzido
excedente económico, ausência de classes sociais, chefia política descentralizada e relações de
aliança com outras linhagens (Carlos Serra, 1982).

À frente de cada linhagem estava um chefe com poderes políticos, jurídicos e religiosos, e um
conselho de anciãos. As funções políticas eram exercidas pelo homem, em algumas regiões o

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poder passava do irmão mais velho para o irmão a seguir, noutras regiões o poder passava do pai
para o filho e, noutras a norte do Zambeze o poder passava do tio materno para o sobrinho.

A matrilinhagem ou linhagem matrilinear era característica da zona Norte.

Cada aldeia tinha um chefe chamado m’fumoou muene e no caso de um conflito armado
nomeava um chefe de guerra (Carlos Serra, 1982).

5.2.1. Chefatura
Uma linhagem sénior mais antiga subordinava outras, uma incipente rede tributária tomando um
possível excedente económico maior do que o da linhagem, divisão em classes sociais
embrionárias e abarcamento das esferas comerciais pelos chefes (Carlos Serra, 1982).

O chefe tradicional era responsável pela lei e ordem e detinha funções importantes judiciais.

Mesmo com a concentração de poderes político-jurídicos, os chefes tradicionais não eram


autocratas governando arbitrária e despoticamente, ou seja, não eram chefes ou governantes com
poder absoluto e inquestionável.

Na corte Tsonga por exemplo, como noutras cortes, não havia separação de poderes. Com a
ajuda dos conselheiros, o chefe tinha o poder legislativo, o poder executivo e o poder judicial em
suas mãos, tornando-se assim a autoridade suprema e das suas decisões, não havendo assim
apelo nas suas decisões, isso porque o chefe é que tomava a decisão final.

Nas comunidades matrilineares os chefes tradicionais (umo), tinham poder limitado, pois havia a
existência da chefe Mãe, assim os chefes tradicionais resolviam pequenos problemas, caso não
conseguissem pediam ajuda de outro chefe tradicional vizinho.

Na linhagem matrilinear ninguém devia julgar seu próprio filho, o julgamento era feito pelo
irmão mais velho da mãe.

Na linhagem patrilinear o Pai desempenhava todas as funções legislativas e administrativas e


ninguém dentro da família devia julgar.

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A terra pertencia à comunidade política e não ao chefe tradicional. O chefe tradicional era
responsável pelo controle da terra, regulando direitos, resolvendo conflitos de utilização,
distribuindo áreas de terra a linhagens e subdivisões distritais.

5.2.2. Estado
O aparelho servia como aristocracia comandando parentes e súbditos a quem tributava numa
vasta extensão territorial. Daí a existência nos Estados de conquista de um subproduto social
considerável, tornando possível uma administração centralizada, uma equipa de funcionários
especializados e um exército permanente ou semipermanente. Daí o monopólio do comércio dos
reis (Carlos Serra, 1982).

A expansão territorial do Estado pôde ter dado origem à formação de um Império, com um
estado dominando os outros estados, chefatura e linhagens.

A sociedade muitas vezes estava organizada em Tribos e cada tribo tinha seus hábitos e
costumes.

A tribo Tonga que está estabelecida na vizinhaça de Inhambane por exemplo, tem uma língua
diferente do Tsonga propriamente dito, isto por pertencer a outro grupo linguístico (Junnod,
1996).

Dentro da corte existiam personagens que eram conhecidos como: conselheiros, arauto e
insultador oficial.

Os conselheiros ou Thindunaeram uma espécie de gabinete que assistiam o chefe no exercício


da realeza. Estes dividiam-se em:

Conselheiros principais ou letikulu que eram encarregados de discutir e tomar decisões graves
que interessavam o país (Junnod, 1996)

Conselheiros do exército ou generais (tindhunata yimpi) que presidiam à batalha (Junnod,


1996). Os Conselheiros eram destinados a tratar dos negócios estrangeiros (Junnod, 1996).

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E por fim indivíduos estabelecidos pelo chefe em pequenos distritos do país para a categoria de
conselheiros para vigiar os súbditos e averiguar as desavenças. São eles que deviam levar à
capital os negócios importantes (Junnod, 1996)

O Arauto era o encarregado de levar e fazer ouvir as ordens do chefe (Junnod, 1996).

O insultador oficial era uma espécie de louco da corte que tinha o direito de vomitar os insultos
mais graves, os mais ultrajantes para todos os dependentes do país. Nunca insultava estrangeiros,
mas gozava de perfeita imunidade (Junnod, 1996).

Elaborado por:

MASSINGUE, Ângela Caldina da Sílvia

6. FEITIÇARIA
Feitiçaria – Nos estudos em antropologia e em ciências sociais em geral não há consenso sobre o
que é a feitiçaria. Invariavelmente, os diferentes autores que estudam o fenómeno, sobretudo no
contexto de África, recorrem aos termos empregues pelos nativos, para descrever experiências
particulares. No âmbito desta tese de doutoramento, entende-se por feitiçaria a crença de que
determinadas pessoas têm capacidades para actuar sobre aos outros, prejudicando-as e reduzindo
a sua força vital, podendo mesmo chegar ao ponto de lhes tirar a vida em definitivo. Alguns
autores fazem uma distinção entre a feitiçaria e a bruxaria. No entanto, para este estudo a
distinção é irrelevante, pois quer a feitiçaria quer a bruxaria resultam da crença do grupo social
que pratica. O termo feitiçaria tal como o pretendemos usar neste estudo, refere-se a todos os
atos de magia e de bruxaria cometidos pelas pessoas para fazer mal às outras. Portanto, esta
dissertação usa o conceito de feitiçaria num sentido amplo, para fazer menção à crença no poder
oculto que permite fazer mal às pessoas ou à propriedade destas. (Mahumane, Marido espiritual,
p.5).

6.1. IDEOLOGIA
A Caracterização geral das sociedades em Moçambique no que diz respeito as crenças mágico-
religiosas e outros aspectos ideológicos desempenharam, nessas sociedades, um papel muito

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importante, constituído uma arma fundamental do poder, da coesão social e de aparente
imobilidade.

Mas eram as crenças na feitiçaria, a acção dos feiticeiros e dos curandeiros contra feiticeiros, que
exprimiam os conflitos socias, as coerções morais e politicas e as dependências familiares. A
forma como os homens se julgavam relacionados entre si e com a natureza, e as incertezas às
quais estavam sujeitos criava tenções que encontravam expressão figurada na feitiçaria.

Proprietário do “saber”, os Mambos tinha o direito de invocar a chuva e eram eles os


intermediários entre as necessidades dos aldeões e os espíritos"vivos”, dos antepassados régios.
A propriedade do "saber", dos Mambos cobria, também, a esfera dos contactos com as entidades
sobrenaturais que se julgava povoavam a natureza e o mundo em geral. Essa a razão por que
eram interditos os feiticeiros não devidamente autorizados pelos Mambos.

[...] é proibido pelo rei da terra que ninguém seja feiticeiro sem uma licença, porque somente ele
e seus amigos quer que usem desta ciência. (Santos, Etiópia oriental, p.220).

Independentemente da arte dos magos, há pessoas a quem se atribuem o dom de produzir


malefícios e raras vezes benefícios por meios materiais. São os feiticeiros (noyi). A eles se
imputam, frequentemente, as causas das doenças nas pessoas e nos animais domésticos, assim
como insucessos agrícolas.

Mas ninguém os viu até hoje actuar, nem isso é mesmo possível... O feiticeiro ou feiticeira leva a
doença, a morte qualquer infortúnio, a alguém por mera acção espiritual.

No contextomoçambicano. “A feitiçaria", pode ser uma força niveladora solapando


desigualdades de riqueza e poder, mas ao mesmo tempo, instrumental para a acumulação
individual e mobilidade social. Isto é, ela é contraditória - pode ser inveja (maldade) e busca de
sucesso (bem). Os feiticeiros são temidos, por causa dos grandes poderes que possuem.

No contexto do Sul de Moçambique, a feitiçaria é denominada pelo termo Wuloyi, do verbo


kuloya – que significa enfeitiçar, fazer mal ou comer outra pessoa. O feiticeiro é referido pelo
termo noyi (valoyi, no plural). Dentre as várias acções dos feiticeiros destacamos a sua
capacidade para matar ou comer pessoas, o poder de envenenar à distância, de provocar
acidentes, de inocular doenças incuráveis, de destruir plantações, de tornar as mulheres estéreis

19
ou mesmo de provocar menstruação irregular. A feitiçaria provoca o medo, a intranquilidade, a
desconfiança e é vista como sendo muito perigosa.

6.1.2. CONFLITOS DE FEITIÇARIA


A casa começa num tribunal comunitário. Uma mulher casada apresenta-se como queixosa,
exigindo o divórcio em virtude se continuas agressões por parte do marido, ao longo dos anos
que levam de casamento. Da última vez, em que foi agredida conseguiu fugir e procurou abrigo
junto da sua família de origem, intentando por isso a acção.

Contudo, a descrição pormenorizada dos acontecimentos acabou por revelar que, dessa ultima
vez, a mulher enfrentou o marido, tendo-o atingido na cabeça com uma frigideira para conseguir
fugir. Ao saber-se isto, o ambiente mudou de imediato. O juiz demostrou estranheza com o facto
e tanto ele quanto as pessoas da parte do marido começaram a questionar, de forma cada vez
mais aberta, se uma tão inusitada reacção por parte da mulher não apenas explicável por ela se
ter tornado feiticeira. Apesar das suas indignadas recusas de uma tal sugestão, a mulher passou
rapidamente de queixosa a acusada. E o juiz, considerando-se incompetente em tais matérias, fez
organizar de imediato um tribunal de feitiçaria.

Este novo julgamento, embora ad hoc, começou de acordo com os procedimentos habituais que
anteriormente referiu. No entanto, dado que a agora acusada insistia em não se reconhecer como
culpada, um dos julgadores acabou por lhe passar para a mão um espelho, perguntando-lhe o que
via nele. Conforme seria de esperar, a mulher disse que via a sua imagem reflectida.

- Essa é a prova - doí-lhe respondido. Esse espelho é mágico e só mostra feiticeiros!

Não sei o que veio a acontecer a essa mulher, que continuava a refutar as acusações, embora um
tão original meio de prova tivesse convencido a maioria dos presentes. (Paulo,
Determinationchaos, P, 9).

Como percebemos, em ambos os processos criminais analisados, a questão da feitiçaria é


recorrente. Os indivíduos organizavam seus discursos em torno de acusações de feitiçaria.
Alegavam que cometeram assassinatos fazendo “justiça”, ou se “defendendo”, porque suas
vítimas eram feiticeiros. Devemos, então, tentar buscar o significado e as intenções por trás das

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acusações de feitiçaria. Essas intenções, muitas vezes, ultrapassam o campo do sagrado,
revelando motivações económicas ou relacionadas com desavenças e vingança.

Diz que a feitiçaria entre os ajauas era um ato condenável e passível de punições, os acusados de
serem feiticeiros eram linchados, e podiam também ser condenados à morte na fogueira.

Em um dos processos analisados, temos um caso de homicídio de uma suposta feiticeira. Este
caso nos revela uma série de dados interessantes sobre o convívio doméstico, como a violência
contra a mulher. E também estratégias de vingança, nos quais o discurso de feitiçaria sérvio
como justificativa para o crime. A mulher acusada sofreu o tipo de punição mais recorrente em
casos de feitiçaria, a fogueira. Neste processo, um homem chamado Mendele, chefe de
povoação, ordena a seus cipoaisBeve e Momade que assassinem uma mulher chamada
Awayarese. Mendele acredita que ela, sua ex-esposa, teria lhe “enfeitiçado”, pois estava doente
de uma perna. Em alguns testemunhos, porém, há indícios que a motivação do crime poderia ser
uma traição conjugal. Beve e Momade jogaram a mulher em uma fogueira. Depois disso foram
aconselhados por Mendele a fugir para terras estrangeiras emNyassiland, actual Malawi.

A doença na perna de Mendele foi logo atribuída à feitiçaria. Vimos que qualquer infortúnio que
recaísse sobre uma pessoa podia ser considerado acção de algum feiticeiro. Desastres, má
colheita, doenças e a morte de algum indivíduo certamente eram relacionados à feitiçaria. Temos
nos processos analisados inúmeros casos de doenças e mortes que foram atribuídas à acção de
feiticeiros. (Yohanna, B. Os yao, p.29).

Vejamos alguns desses casos. Em um dos processos criminais analisados deparamo-nos com o
assassinato de um indivíduo chamado Cangoma. Saindo de viagem, junto com sua esposa e
sobrinha, Cangoma foi abordado por Manuel e Anilade. Estes dois homens agarraram e
agrediram Cangoma, arrastaram-no para o mato onde o assassinaram. Um detalhe importante
nesse crime é que Cangoma, Manuel e Anilade eram irmãos. Em depoimento, Manuel alega ter
matado Cangoma porque este era feiticeiro e, através de feitiço, teria feito Abula, seu outro
irmão, falecer:

Certamente, os irmãos possuíam algum tipo de rivalidade. A doença e morte de Abula logo
foram associadas à acção de um feiticeiro. Tendo coincidido a morte de Abula com a repentina
viagem de Cangoma, as suspeitas de feitiçaria recaíram sobre ele. Qualquer comportamento

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atípico, contra o senso de colectividade, ou o descumprimento de algum tabu ou norma social,
poderia causar a suspeita. (AHM- Arquivo Histórico de Moçambique. Conselho de Cabo
Delgado no Ibo. P. 5593 à 5608).
6.1.3. COMO JULGAR CONFLITOS DE FEITIÇARIA

Amaral descreve que, para descobrirem a identidade do feiticeiro, os adivinhos ajauas utilizavam
uma espécie de cofio enfeitado com plumas de aves, um bambu fléxil e oco, preenchido com
algumas ervas e raízes especiais, fechado hermeticamente com cera de abelha.

Apos a identifiçãodo feiticeiro, a vítima do suposto feitiço, ou os seus parentes, tomavam as


precauções devidas, trabalhando nos contrafeitiços ou accionando a chefia local. Amaral
menciona que, no passado, os feiticeiros podiam ser assassinados ou expulsos da comunidade: já
no período colonial apenas eram “convidados” a retirar o feitiço e pagar multas. Outra forma de
proceder também nos e descrita por Ayres D’Ornellas. O autor observou que a vez ministrava-se
um veneno de ervas específicas ao suposto feiticeiro, chamado de Muave ou Mudjo Este veneno,
segundo a crença induziria o individuo, se fosse realmente um feiticeiro, a morte ou a dizer a
verdade sobre o feitiço que supostamente fizera (Manuel Gomes da Gomo. O povo Yao. P.394)

Traça-nos um cenário relativo ao planalto de Moeda em que a feitiçaria se desenrola num Mundo
invisível que está em interacção com o nosso, no qual os feiticeiros nefastos se projectam para
praticarem as suas malfeitorias. Estes só poderão ser neutralizados ou revertidos por uma
projecção semelhantes por parte de feiticeiros benéficos que, nesse Mundo actuam sobre aquilo
que os malocados provocam. (Harr, O ponders e o invicívelemMueda).

Bastaria para esse efeito, que a pessoa acusada reconhecesse a sua falta, mas alegasse estar
possuído por um espirito abusivo que a obrigava a praticar actos sem ter consciência deles e
contra a sua vontade e que essa alegação recolhesse consenso social e confirmação por parte de
especialista.

6.2. CRIME DE FEITIÇARIA


Antigamente e em toda a colónia a pessoa acusada de feitiçaria, devidamente "constatada", pelo
mágico, era, com poucas excepções, condenada à morte. Os sistemas de execução consistiam no

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enforcamento, na decapitação a golpe de maobado, no golpeamento com azagaia e na morte pelo
fogo, sendo este ultimo o meio mais frequentemente adoptado para tais criminosos.

6.2.1. Conflitos da feitiçaria pós-independência


Ao proibir a realização das cerimónias tradicionais, o trabalho das personagens mágico-religiosas
e as consultas de kuringuidja, a FRELIMO estava a desestruturar um pilar fundamental do
edifício simbólico Ndau. É verdade que, por vezes, e em certos locais, o Estado e a FRELIMO
eram «obrigados a fechar os olhos» e a permitir a realização de cerimónias, como no caso das
cerimónias da chuva realizadas no Búzi em 1988.

A proibição das actividades dos ny’anga e dos nhamussoro também afectou imenso o quotidiano
das populações, porque a maioria da população, mesmo a que professa as diversas confissões
cristãs, consulta regularmente estas personagens mágico-religiosas tradicionais.

A proibição da FRELIMO, quer em relação às cerimónias tradicionais, quer às actividades


mágico-religiosas, implicou, na generalidade, dois tipos de consequências desestruturantes do
modelo de reprodução social Ndau: constituiu uma forte ruptura no sistema de comunicação
entre os espíritos e os vivos, fundamental para a manutenção e reprodução da ordem
cosmológica e, por conseguinte, da ordem social terrena; permitiu uma enorme expansão da
feitiçaria, dada a ausência dos mecanismos tradicionais de controlo, nomeadamente das
actividades desempenhadas pelas personagens mágico-religiosas e pelas autoridades tradicionais.
(Florêncio, Ao encontro dos Mambos autoridades tradicionais vaNdau e Estado em
Moçambique, p. 304).

6.2.2. NOS DIAS DE HOJE


A acusação de feitiçaria está, no entanto, continuamente presente no nosso quotidiano. Antes de
mais, embora os feiticeiros mais temidos e conhecidos, mas não os mais confrontados ou
desafiadores costumam ser homens, a esmagadora maioria das pessoas acusadas de feitiçaria são
mulheres. Sendo que a vulnerabilidade à suspeita aumenta em idade avançada, nível social.

Elaborado por:
TXAIA, Tomé Fransisco

23
6.2.3. Conflitos de Feitiçaria
Como forma introdutoria referir antes de tudo que a a feitiçaria era acto normal e comum nas
sociedades tradicionais pre-existentes, porem, mesmo sendo um acto comum na comunidade
existente era considerado um acto perigoro/terrivel.

A feitiçaria envolve actos pessoais de um individuo atraves do uso de poderes


sobrenaturais para fazer mal ao outro, tais actos nao sao fortuitos mas, antes uma
extrategia usada em situaçoes particulares de realcionamento social e em contexto de
interaçao.

A intenção e a acçao sao especificamente malevolos e antissociais, muitos actos de


feitiçaria ocorrem em contexto do relacionamento intimo, especialamente entre pares,
familia e entre co-esposas-sugerindo a ideia de que o contexto domestico e um espaço
potencial para praticas de feitiçaria(JONAS A. MAHUMANE-2015).

Os actos de feitiçaria implicam sempre uma componente de violencia e abuso para as


vitimas(J.A.MAHUMANE-pag.47).

segundo HENRY JUNOD( USOS E COSTUMES BANTU -1996)a feitiçaria era


considerada um crime na sociedade tradicional. com efeito, na sociedade tradicional, a
feitiçaria e considerada o maior crime que alguem pode cometer. Equivale a um
homicidio.

Na sociedade tradicional, acreditava-se que o acto de feitiçaria podia levar a doença, a


morte, qualquer infortunio a alguem por mera acçao espirutual.

Dentro da cosmovisao, o feitiçeiro mata os seres humanos para lhes comer a carne. E um
crime cometido a noite por acçao espirutual, a acusaçao ou identificaçao da feitiçaria e
feita na base da advinhaçao dos ossos, feita por um nhanga (tinhanga em plural referese
aos especialistas (curandeiros) locias possuindo não por espíritos e que tem um papel central na
prestação de cuidados de saúde e resolução de problemas sociais de diversa indole) e em casa
da recusa, e submetido ao ritual mondro e a puniçao era a morte .

Na comunidade pre-colonial, o chefe tradicional possuia privilegios sociais dentre


numeros- Apenas ele se encontrava isento das terriveis acusaçoes de feitiçaria anti-social

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que tao profundas dissensoes e pertubaçoes causaram ate epocas recentes. Pelo contrario,
o chefe tradicional podia recorrer ao auxilio dessa suposta potencia sobre humana quando
julgasse a colectividade ameaçada.(VICTOR A. LOURENÇO-2005)

O termo feitiçeiro- insulto gravissimo quando dirigido a qualquer elemento da comunidade


politica, revestia-se de conotaçao honorificas quando, em superlativo era aplicado ao chefes
tradicionais.

Estes por vezes, eram detentores de insignias que conferiam poderes sobrenaturais como a
bracelete dos tinguluve/o celebre mphulo, que tornava a chefatura invencivel, ou os
relicarios sacralizados compostos por minusculos restos extraidos dos corpos moribundos
de antepassados. Identica força lhes davam esses potentes e secretos medicamentos
magicos que transformavam toda a sua pessoa em um perigoso tabu. O seu nome possuia
um caracter mistico-sagrado.

Eram os chefes tradicionais que realizavam os complexos rituais que garantiam o sucesso
das grandes migraçoes que vigiavam o cumprimento dos numeros tabus e observancias
que regulavam e dinamizavam a vida social e politica da comunidade que
superientendiam(VICTOR A. LOURENÇO-pp-13).

O autor JONAS A. MAHUMANE na sua pag109- relaciona a feitiçaria a um acto ligado


ao acesso a prosperidade material e a ascensao social individual , esse acto denominado
de (KUKHENDLA). Os familiares mais velhos particularmente os de geraçao de avos e
progenitores, tem custume de estabelecer pactos com seres espirituais (KUKHENDLA),
com objetivo de conquistar alguns privilegios sociais numa acço que implica um
pagamento atraves de casamentos secretos entre jovens-filhos e netos, e os espiritos.

Elaborado por:

SAMANGUANA, Elina

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