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MAURÍLIO ANTONIO ALVES

CONSIDERAÇÕES SOBRE A NARRATIVA


LITERÁRIA: UMA ABORDAGEM DE SEUS
CONCEITOS, GÊNEROS E ELEMENTOS

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS


NÚCLEO DE MOEMA
JABOTICABAL-SP
2009
MAURÍLIO ANTONIO ALVES

CONSIDERAÇÕES SOBRE A NARRATIVA


LITERÁRIA: UMA ABORDAGEM DE SEUS
CONCEITOS, GÊNEROS E ELEMENTOS
Trabalho de conclusão de Curso apresentado a
Faculdade de Educação São Luís como
exigência parcial para a conclusão do CURSO
de Pós-Graduação Lato Sensu em: Língua
Portuguesa, Compreensão e Produção de
textos.

Orientado pela professora: Janaína Maria


Lopes Ferreira.

FACULDADE DE EDUCAÇÃO SÃO LUÍS


NÚCLEO DE MOEMA
JABOTICABAL-SP
2009
Dedicamos

a nossa família, pela


paciência e
compreensão durante
nossas ausências.
AGRADECIMENTOS

A Deus, pelo sentido da vida.

À Professora Janaína Maria Lopes Ferreira, por sua dedicação e


orientação.

Aos professores tutores, pela dedicação e disponibilidade nos momentos de


orientação e esclarecimentos de dúvidas.

Aos colegas de curso de pós-graduação, pela agradável convivência.

Aos amigos que por diversas vezes nos deram apoio moral em nossa
conquista.

Ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região pela valorização, incentivo e


apoio aos Servidores.
A arte de escrever como tôdas as artes, é difícil, e a
de hoje é o resultado de multisseculares
aperfeiçoamentos conseguidos por grandes mestres,
cujos processos a crítica esmiúça e apura. Supor
que o talento natural, por si só, tudo adivinha e
descobre, de salto ou de oitiva, o que gerações de
gênios pouco a pouco revelaram, é incorrer no
lamentável êrro de tantos músicos, pintores,
escultores, perdidos para a arte por não quererem
conquistá-la de mansinho, nem lhe aprender
custosamente a técnica severa.
(OITICICA, José)
Resumo

Para conhecer melhor os conceitos e as questões a que se referem à prosa


narrativa, não basta a intimidade com a leitura. Não obstante seja esta – como
largamente difundido – a grande pedagoga na condução do homem a um
universo mágico, sem a qual não saberia existir, permitindo-lhe uma vida mais
salutar, exige-se do leitor conhecer os principais conceitos e elementos da prosa
narrativa, os quais servirão de importante auxílio para uma leitura menos ingênua
e mais eficaz, sem perder a visão de conjunto – o encantamento e
deslumbramento íntrinsecos ao texto – importante na análise literária. Analisar
uma narrativa é descodificar suas partes (elementos) e, posteriormente,
correlacioná-las em torno de uma idéia central, as quais ajudarão a desenvolver
uma argumentação e defesa de um ponto de vista crítico; é aferir objetiva e
rigorosamente o seu valor. É exigir-se do leitor a desmontagem do texto e
promover a sua articulação em torno de um tema, capaz de legitimar o sentido da
construção textual. Para esse desiderato, este trabalho é composto de um
capítulo inicial sobre a gênese da narrativa e, especificamente, da narrativa
literária e seus gêneros. Nos capítulos seguintes abordaremos, respectivamente,
alguns conceitos imprescindíveis no trato com o texto literário, os seus elementos
(o enredo, as personagens, o tempo, o espaço/ambiente), uma análise do texto
machadiano “A borboleta preta”, extraído da obra ”Memórias Póstumas de Brás
Cubas” e breve biografia do autor, em homenagem ao centenário de seu
nascimento. Em considerações finais, temos que, o conhecimento dos principais
conceitos e elementos estruturais, próprios dos textos narrativos, são de muita
valia na formação do juízo crítico do leitor e na compreensão da obra literária.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO......................................................................................................... 9

1 A NARRATIVA LITERÁRIA ........................................................................ 12

1.1 Restrição da narrativa ao gênero literário. Definição. Classificação........... 13


1.2 Tipos de narrativa ....................................................................................... 14
1.2.1 Romance .................................................................................................... 15
1.2.2 Novela ........................................................................................................ 16
1.2.3 Conto .......................................................................................................... 17
1.2.4 Crônica ....................................................................................................... 17

2 CONCEITOS IMPRESCÍNDIVEIS PARA A ANÁLISE LITERÁRIA ......... 19


2.1 Autor, Narrador, Autor implícito .................................................................. 19
2.2 Leitor e narratário ....................................................................................... 20
2.3 História e discurso....................................................................................... 20

3 ELEMENTOS DA NARRATIVA .................................................................. 22


3.1 Enredo ........................................................................................................ 22
3.2 Personagens............................................................................................... 24
3.2.1 O nome das personagens .......................................................................... 26
3.3 Tempo......................................................................................................... 27
3.4 Espaço/ambiente ........................................................................................ 29
3.5 Narrador ...................................................................................................... 31
4 ANÁLISE DO TEXTO MACHADIANO “A BORBOLETA PRETA” 35

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 37

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................ 39

ANEXO.................................................................................................................... 40
INTRODUÇÃO

Atualmente é crescente o interesse pelas obras literárias graças as


divulgações, qualidade das impressões e as facilidades para se obtê-las. A
propagana, boca-a-boca, pelos leitores aficcionados e, sobremodo, a mídia em muito
contribuem para a democratização das obras literárias.

Com efeito, ler uma obra literária e poder compreendê-la no seu todo,
isto é, apreender a unidade dos elementos de construção – a técnica e os recursos
utilizados pelo escritor - e o momento histórico-social em que foi produzida, requer
trabalho, paciência e empenho.

Dentre as obras literárias, especialmente as de ficção, encontramos


uma enormidade de textos predominantemente narrativos, cuja intenção do escritor
é a de relatar fatos, episódios, contar histórias que se desencadeiam no tempo,
envolvendo personagens e ação, de modo a provocar no leitor uma variedade de
sentimentos e impressões, impedindo-o de tornar-se indiferente a questões que
continuamente se põem em sua vida. É, pois, a concatenação desses elementos
(fatos que se sucedem no tempo, personagens e ação) um dos traços fundamentais
que distingue um texto narrativo das outras modalidades de redação. Conhecê-los e
estudá-los, procedendo a uma desmontagem das peças (elementos/conceitos)
inseridos no texto, sob um amálgama (tema) articulado e central e as interações
entre eles, muito ajudam na formação de um juízo mais crítico do leitor interessado.
10

Com efeito, a abordagem aqui realizada é desprovida de qualquer


dogmatismo e não tem a pretensão de abarcar e apontar todos as questões
inerentes aos conceitos nela citados. Antes, o propósito é mostrar que o texto
narrativo é dotado de características próprias, e devendá-los e compreendê-los só
se permitem pelo prazer da leitura. Porque toda boa obra narrativa sempre tem algo
a nos dizer, a nos ensinar. A relevância, é, pois, a de nos transformamos de leitor
empírico para leitor modelo, de leitor ingênuo a leitor crítico, pelas mãos dos
inúmeros mestres da narrativa. Não são eles que nos impelem ler contínua e
apaixonadamente, ora pelo desenvolvimento progressivo de suas personagens, ora
pela ação desencadeada, ora pela própria gradual revelação de suas perspectivas?
Não é à toa que, independentemente da idade, temos a tendência de nos identificar
com certas personagens, seja por ingenuidade ou sentimentalismo. Todavia, o que
importa é que a identificação só acontece por meio da leitura. Quem é que não se
lembra pelo menos de uma personagem de um romance ou conto lidos?

No primeiro capítulo, mostraremos que dentre as infindáveis


maneiras de narrar acontecimentos, encontra-se a narrativa no campo da expressão
literária e os seus gêneros.

No segundo capítulo, antes de adentrarmos nos elementos


propriamente dito, discorreremos sinteticamente sobre alguns conceitos que muito
nos ajudam na compreensão e análise de um texto narrativo: autor, narrador, autor
implícito; leitor e narratário; história e discurso.

No terceiro capítulo, falaremos sobre os elementos estruturais da


narrativa imprescíndiveis na edificação do texto: enredo, personagens, tempo,
espaço/ambiente, narrador.

No quarto capítulo, apresentaremos uma análise do texto “A


Borboleta preta” de Machado de Assis, extraído da obra Memórias Póstumas de
Brás Cubas.
.
11

Finalizando, assentamos que não obstante cada elemento e/ou


conceito tratado gera profundas e complexas discussões, inclusive entre os
estudiosos em Teoria Literária, (re)conhecê-los, porque íntrinsecos ao texto
narrativo, em muito contribui para a formação do juízo crítico do leitor.
1. A NARRATIVA LITERÁRIA

O ser humano é, naturalmente, um contador de histórias1. Narrar é


uma atividade exclusivamente humana. Desde o início dos tempos a imaginação
humana foi fértil e prodigiosa para narrar histórias. Lembremos que as gravações em
pedra nos tempos da caverna são narrações, assim como, posteriormente, os mitos,
a Bíblia que relata tanto a história do povo hebreu (Antigo Testamento) como os
feitos de Jesus (Novo Testamento).

Com efeito, muitas são as narrativas do mundo. A narrativa se


sustenta pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, pelo gesto ou pela
mistura de todas essas substâncias. Ela está presente no mito, na lenda, na fábula,
no conto, na novela, na epopeia, na história, no filme de cinema, peça de teatro, na
novela de TV, gibi, desenho animado, em autos de processo, sobretudo da seara
criminal, sendo a denúncia2 texto narrativo por excelência. Enfim, a narrativa está
presente em todos os tempos e lugares; a narrativa inicia-se com a própria história
da humanidade; não há grupos humanos imunes à ela; a narrativa é um fato
universal, por isso, tão evidente e presente.

Sendo muitas as possibilidades de narrar, nos deteremos nas


narrativas literárias e em prosa, ou seja, permaneceremos no campo da expressão
literária, no qual, e desde já, podemos definir a narrativa como a representação de

1
MANZANO, Thais Rodegheri. Artimanhas da ficção (ensaios de literatura). 1ª ed. São Paulo: Editora Terceiro
Nome, p. 7
2
Denúncia. Em sentido estrito, na técnica do Direito Penal, diz-se denúncia o ato mediante o qual o
representante do Ministério Público formula sua acusação perante o juiz competente a fimde que se inicie a ação
penal contra a pessoa, a quem se imputa a autoria de um crime ou de uma contravenção. Conf. SILVA, De
Plácio e. Vocabulário Jurídico, Vol. II – D-I. 11ª ed. Rio de Janeiro. Editora Forense. 1991. p.33
13

um acontecimento ou de uma série deles, reais ou fictícios, por meio da linguagem


e, precisamente, da linguagem escrita.

1.1 Restrição da narrativa a gênero literário. Definição. Classificação.

Podemos definir, de forma mais abrangente, gênero literário como


sendo a forma artística com que são apresentadas as produções do espírito
humano. Ou se se quiser, restritivamente, a forma que seja adequada ao texto em
construção pelo escritor, um ser presente no mundo.

Essas formas podem ser classificadas em três grandes grupos,


denominados gêneros literários e se distinguem por características específicas:

(a) o gênero lírico tem o seu campo operacional mais restrito.


Refere-se às manifestações da alma, sentimentos, paixões; é de caráter subjetivo e
exige do literato uma gama delicada de sentimentos e grande conhecimento das
fraquezas, angústias e recursos do coração humano. Este gênero subdivide-se em
soneto, canção, ode etc.

(b) o gênero épico é o gênero narrativo ou de ficção que se


estrutura sobre uma história. A epopeia abrange um cenário imenso, no tempo e no
espaço, como uma civilização, a história, ou mesmo episódio marcante de um povo;
seu caráter é objetivo, grandioso, impessoal; exige-se do escritor conhecimentos
vastos e profundos, grandes conhecimentos psicológicos, imaginação poderora,
capacidade de realização e de movimentação de grande número de personagens e
variedade de caracteres. As narrativas pertencem a este gênero. Contudo, por
estarem bastante distantes na forma e conteúdo das epopeias clássicas, as
narrativas modernas podem ser classificadas num subgrupo do gênero épico.
Atualmente é denominado pelo termo gênero narrativo.

Lembremos que a epopeia é uma narrativa em versos, praticada no


passado remoto (Ilíada) e, em passado mais recente, época do Renascimento,
14

podemos destacar, “Os lusíadas”, de Luís Camões. É de se notar, ainda, que o


crítico literário, filósofo, ensaista e escritor húngaro Georg Lukács (o mesmo que
serviu de inspiração a Thomas Mann, brilhantemente representado pela personagem
Naptha3, reacionário radical, jesuíta judeu, marxista-niilista, opositor da democracia,
em “A montanha mágica”), afirmara que o romance é a epopeia da era burguesa4,
ou seja, um texto em prosa, cuja forma se identifica com os valores dessa classe
social. Como dito, sempre houve formas narrativas, as quais são continuamente
adaptadas ao contexto psicológico, histórico e social de cada época. Subdivide-se
este gênero nos subgêneros: romance, novela, conto, crônica etc.

(c) o gênero dramático ou gênero teatral, cuja forma o escritor se


“esconde” por trás da representação e da fala das personagens criadas. Subdivide-
se este nas categorias: tragedia, comedia, drama, auto, farsa etc.

Em consonância com a vida humana, individual e coletiva, os


gêneros envolvem com as nacionalidades e com as épocas da vida humana. Em sua
evolução, estão sujeitos ao desenvolvimento e regressões, ou mesmo ao
desaparecimento completo, cedendo lugar a outras formas de maior aceitação,
cambiante com a época.

Após, as noções aqui apresentadas de lirismo, narratividade e


dramaticidade – ainda vigentes na atualidade – o importante é observar a dinâmica
entre os gêneros, pois são categorias muito importantes para o estudo literário.

1.2 Tipos de narrativa

As formas literárias em prosa de ficção – aqui empregada no sentido


mais abrangente, ou seja, imaginativo, inventivo - mais difundidas e conhecidas são
o romance, a novela, o conto e a crônica.

1.2.1 Romance

3
http://74.125.47.132/search?q=QTc85owpxUJ:www.geocities.com/aperezprat/l...página acessada em
22/1/2009 e MANN, T. A montanha mágica. São Paulo: NOVA FRONTEIRA, 2006. P.10.
4
LUCKÁCS. G. A teoria do romance. São Paulo: Livraria Duas Cidades Ltda e Editora 34 Ltda 2003. p.55
15

A palavra romance, primitivamente, significava a fala dos habitantes


de Roma, do homem do povo, em oposição ao linguajar culto dos literatos e
escritores célebres. O termo romance – assim como novela – só surgiram depois do
desaparecimento do mundo antigo. Como dito, romance designava as obras escritas
não em latim, mas no vernáculo, ou seja na língua romanz, a partir do século XII.
Com o passar do tempo é que passou a definir o gênero literário.

O romance, como entendemos atualmente, é uma das


transformações, no tempo, do gênero épico em poesia; é a narração imaginosa de
aventuras – constituída de conflitos – total ou parcialmente fictícias sempre
verossímeis e que servem de base ao drama da vida humana, com as paixões,
prazeres e agruras que a caracterizam.

Inúmeras são as espécies de romances quantos os seus escritores.


Igualmente, muitas são as personagens quanto as realidades do mundo tornaram
necessários.

Quem não se lembra dos romances medievais, com as histórias do


rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda, os amores de Guinevere e Lancelot,
Tristão e Isolda, e os romances de cavalaria, os ideiais medievais candentes nas
páginas de Dom Quixote.

No século XVII, os romances barrocos. Cite-se “A Princesa de


Cléves”, cuja intriga reside na análise psicológica de uma paixão avassaladora.

No século XVIII, o romance se destacou e tomou o lugar do teatro


como gênero apreciado pelo público. A partir de então, com a crescente difusão da
ficção, refletindo a democratização das sociedades ocidentais, as antigas
concepções aristocráticas e autoritárias foram transformadas havendo mudanças na
História e, por consequência, na Literatura. Aos poucos os ideiais de outrora
(heróicos) foram sendo substituídos pelos valores das classes médias, novas
protagonistas da história. Assim é que Dom Quixote cedeu lugar ao lendário
Robinson Crusoé, que imbuído dos valores de sua “casta” reconstituiu o mundo em
16

sua ilha deserta e se consolidou como o herói burgês paradigmático. Tempos


depois, vieram os românticos expondo desinibidamente as emoções mais profundas,
sendo a obra goethiana, “Os sofrimentos do jovem Werther”, um clássico exemplo.

Posteriormente, o realismo pôs fim a essas convulsões e trouxe a


lume os fatos da vida cotidiana.

No Brasil os precursores do realismo foram Manuel Antonio de


Almeida e Machado de Assis. O primeiro, em plena época do Romantismo, com a
publicação do livro Memórias de um Sargento de Mílicias; marco inaugural do
realismo, do romance urbano no Brasil.

Essa ligeira explanação tem o intuito de mostrar que a prosa de


ficção – notadamente o romance – desenvolveu-se e expandiu-se em todas as
direções, apossando-se dos dados móveis e fugidios das realidades exteriores e
interiores (psicológicos), nunca lhe faltando leitores apaixonados.

Note-se que o romance sendo a forma narrativa mais longa, melhor a


visualização das categorias fundamentais do gênero (personagem, espaço, tempo,
ação etc), pois o surgimento de interconexões são bastante elaboradas, fator
importante que o distinguirá dos demais tipos narrativos. Não quer com isso
significar que inexista outros tipos de narrativos que apresentem grande elaboração
nas categorias desse gênero. Não!

1.2.2 Novela

Novela foi usada pela primeira vez, no seu sentido atual, no século
XVII. Oriundo do italiano novella, uma pequena história do “novo” tipo apresentada
por Boccaccio no seu Decameron.

Novela é um romance mais curto; tem um número menor de


personagens, conflitos e espaços, ou os tem em igual número ao romance. A
diferença reside na ação do tempo que é mais veloz na novela, isto é, a passagem
do tempo é bastante rápida.
17

Lembremos da clássica novela de Thomas Mann, “A Morte em


Veneza”, narrativa com vigorosa força dramática e trágica.

1.2.3 Conto

É uma narrativa curta. A sua principal característica é a condensação


das categorias narrativas (conflito, tempo, espaço, número reduzido de
personagens).

O conto é um tipo de narrativa tradicional; fora adotado já nos


séculos XVI e XVII por muitos autores, tais como Cervantes e Voltaire.

A trama outrora possuia a intenção moralizante; atualmente, o


psicológico, o fantástico, o humor.

Dada a brevidade da narrativa, a sua leitura é bastante apreciada


hodiernamente, isso porque há uma hierarquização dos fatos narrados, com o intuito
de produzir no leitor um efeito marcante.

1.2.4 Crônica

A crônica é um texto híbrido, por isso nem sempre apresenta uma


narração completa. Nela tanto se narra, comenta, descreve e analisa. A crônica é
um texto breve; geralmente, aborda temas do cotidiano, sendo a imprensa o seu
principal veículo de divulgação.

Citem-se as notórias crônicas produzidas por Lourenço Diaféria5 que


retratou o mundo político e o cotidiano paulistano, na década de 1970, com lirismo e

5
Lourenço Diaféria nasceu em 1933 e faleceu em 2008. Foi escrito e jornalista. Escreveu crônicas na Folha de
São Paulo entre 1964 e 1977. Publicou entre outros livros, Brás, Sotaques e desmemórias (2002), da Coleção
Paulicéia da Boi Tempo Editorial, cf. http://boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-106-2.
18

emotividade, quando o país encontrava-se em pleno regime militar e cuja liberdade


de expressão era bastante restrita, sob o patrulhamento da censura.
2. CONCEITOS IMPRESCINDÍVEIS PARA A ANÁLISE LITERÁRIA.

Antes de discorrermos propriamente dito sobre os elementos


estruturais da narrativa, necessário se faz aclarar os conceitos de AUTOR,
NARRADOR, AUTOR IMPLÍCITO; LEITOR E NARRATÁRIO; HISTÓRIA E
DISCURSO, igualmente importantes na análise literária.

2.1 Autor, narrador, autor implícito

O autor é o sujeito que a escreve a obra literária. O escritor recebe


da realidade na qual se insere, os estímulos que o levam a produzir o texto. A
relação entre autor e ambiente cultural auxilia na análise literária. Permite-nos
entender como certos fatores externos ao texto foram interiorizados. No dizer de
Antonio Candido, auxilia o entendimento do processo de construção da narrativa.

O narrador é uma entidade fictícia, assim como as personagens e a


história contada. O narrador constitui-se numa verdadeira persona, máscara,
personagem, que narra os acontecimentos. Não se confunde narrador com autor,
ainda que a narrativa é contada na terceira pessoa do singular.

Entre a figura do autor e narrador, podemos encontrar uma terceira


categoria: a do autor implícito. No dizer de Abdala Junior (1995, p.20), “na fala do
20

narrador podem aparecer certas idéias que são no fundo do autor – não o autor
perfeitamente consciente do que diz, mas com motivações que escapam à sua
própria consciência.”

2.2 Leitor e Narratário

Assim como existe diferença entre autor e narrador, há a diferença


entre o leitor e narratário.

Como é sabido, leitor é o índivíduo que efetivamente lê o texto e o


narratário é o destinatário imediato da comunicação. O destinatário é um leitor
implícito no texto, enquanto o leitor é quem efetivamente lê a narrativa.

Como diz Eco (2006, p.7) “... Mas numa história sempre há um leitor,
e esse leitor é um ingrediente fundamental não só do processo de contar uma
história, como também da própria história.”

2.3 História e Discurso

Atualmente, a crítica literária reconhece a necessidade de se


considerar dois níveis inerentes à estrutura da narrativa: o nível da história e o nível
do discurso. A história é formada pelo conjunto dos fatos relatados e constitui o
plano do conteúdo da narrativa. São fatos fictícios que devem guardar uma relação
de verossimilhança com a realidade. O discurso é o plano da expressão desse
conteúdo.

É importante observar que entre o autor implícito, o narrador e o


leitor podem ocorrer aproximações ou distanciamentos. O ponto de vista do narrador
sobre um determinado assunto pode distanciar-se ou aproximar-se daqueles ditos
21

pelas personagens. A mesma variação do ponto de vista pode ocorrer com o autor
implícito, em relação ao narrador, personagens e leitor.
3. ELEMENTOS DA NARRATIVA

Sobre os Elementos da narrativa, no domínio da expressão literária.

Toda narrativa – por mais singela – se estrutura sobre cinco


elementos, sem os quais ela não existe. São eles: enredo, personagens, tempo,
lugar e o narrador. Este último é quem caracteriza a narrativa. Diversamente do
texto teatral que prescinde da figura do narrador. O mesmo já não acontece no conto
ou no romance, onde o narrador é o elemento organizador de todos os outros
componentes, ou seja, o narrador é o intermediário entre aquilo que é narrado (a
história) e o autor, entre o narrado e o leitor.

3.1 Enredo

Neste primeiro elemento da narrativa duas proposições se põem: (1ª)


como é que o enredo se estrutura, ou seja, quais são as suas partes e, (2ª) sua
natureza ficcional.

Iniciemos pela natureza ficcional.

Ao lermos uma obra narrativa, por exemplo, um romance, sabemos


de antemão que os fatos ali tratados são fictícios. Ou seja, sabemos previamente
que a história contada não condiz exatamente com a realidade, isto é, com os fatos
23

ocorridos no universo exterior do texto. Todavia, prosseguimos na leitura, porque


nos fatos narrados há uma ilusão da realidade. Esta “ilusão da verdade”, também
denominada de verosimilhança, definida como lógica interna do enredo, é que torna
o enredo não verdadeiro mais verossímel para o leitor e o faz prosseguir na leitura
da narrativa, aliada, claro, aos outros fatores. Na verdade e no que interessa, o leitor
“acredita” no que lê e esta credibilidade origina-se da organização encadeada dos
fatos dentro do enredo, da relação entre os vários elementos da história.

Sabemos que toda história tem começo, meio e fim, Mas essa
compreensão não basta para entender o desenrolar dos fatos numa determinada
trama. É preciso compreender o elemento estruturador das partes do enredo: o
conflito. O conflito é, numa linguagem figurada, a “seiva” na qual a história se nutre;
é ele que ornamenta em vida, atribui movimento e dá graça a uma narrativa; é ele
que faz uma história ser cativante, interessante ou tediosa.

Imaginemos as notórias fábulas do Chapeuzinho Vermelho, da


Cinderela, tantas vezes contadas – por nós mesmos – a uma criança. O que seriam
essas fábulas sem os conflitos nelas inseridos, ou seja, o Chapeuzinho Vermelho
sem o Lobo Mau, a Cinderela sem a meia-noite? Seriam histórias absolutamente
sem encantos.

Na definição dada pela profª. Gancho, (p.13, 2008) “conflito é


qualquer componente da história (personagens, fatos, ambiente, ideias, emoções)
que se opõe a outro, criando uma tensão que organiza os fatos da história e prende
a atenção do leitor. Em geral, o conflito se define pela tensão criada entre o desejo
da personagem principal (isto é, sua intenção no enredo) e alguma força opositora,
que pode ser uma outra personagem, o ambiente, ou mesmo algo do universo
psicológico”.

Assim, podemos dizer que o enredo se estrutura da seguinte forma:

(a) exposição, também conhecida por introdução ou apresentação.


É o início da historia. A sua finalidade, em síntese, é apresentar ao leitor os demais
elementos estruturais da narrativa.
24

(b) complicação (ou desenvolvimento) é a parte do enredo na qual


se desenvolve(m) o(s) conflito(s); constitui no mais das vezes, a maior parte da
narrativa; é o delineamento do agir das forças auxiliadoras e opositoras ao desejo da
personagem e que intensificam o conflito.

(c) clímax é o momento de maior tensão na história, no qual o


conflito chega ao seu ponto máximo.

(d) desfecho (ou conclusão) é a solução dos conflitos; boa ou má;


feliz ou não, trágico, cômico etc.

Convém assinalar que o enredo psicológico é passível da mesma


análise, lembrando que os fatos nem sempre são evidentes, visto tratarem-se de
movimentos interiores, ou seja, fatos emocionais que compõem o enredo
psicológico. Um exemplo de enredo psicológico: o conto “Amor” de Clarice Lispector.

Em síntese, o enredo é aquilo que dá sustentação à história, é o


desenrolar dos acontecimentos.

Geralmente, o enredo está centrado num conflito responsável pelo


nível de tensão narrativa; assim, podemos ter várias espécies de conflitos: o homem
x o meio natural, o homem x o meio social e até as narrativas que colocam o homem
contra si próprio (como ocorre nos denominados romances introspectivos).

Exemplificando: em “O Ateneu”, de Raul Pompéia, o enredo


desenvolve-se a partir da entrada do menino Sérgio, aos onze anos de idade, no
colégio interno. Colocado diante de um mundo diferente, sem estar preparado para
isso, o garoto vivencia uma série de experiências e acontecimentos que culminam
com o incêndio e a consequente destruição do colégio.

3.2 Personagens
25

Personagem é quem desempenha a ação narrada; é um ser fictício


responsável pelo desempenho do real; a personagem é uma invenção, ainda que
fortemente caracterizado por elementos da personalidade de uma pessoa real.

Elas se classificam tanto pelo papel desempenhado no enredo,


quanto pelas suas características.

Quanto a sua ação no enredo podem ser protagonista (personagem


principal), antagonista (personagem que se opõe ao protagonista).

Quanto à caracterização podem ser:

(a) personagens planas – também denominadas de simples: são


aquelas caracterizadas com um número pequeno de atributos, facilmente
identificados pelo leitor. Estas de subdividem-se em duas categorias: as tipo e as
caricaturais. As tipo são reconhecidas por características típicas, invariáveis, sejam
elas de que ordem for (moral, social, econômica etc). Exemplos, o jornalista, o
estudante, a dona-de-casa, o sertanejo etc. As caricaturais são reconhecidas por
características fixas e ridículas; geralmente estão presentes em histórias de humor;
também muito utilizadas pela teledramaturgia.

(b) personagens redondas: são mais complexas que as planas.


Sua construção, diferentemente da simples que é mais rápida e direta, tem uma
predicação imprevisível no discurso narrativo. Ou seja, não obstante alguns traços
caracterizadores se repetirem, outros se modificam, às vêzes de forma ambígua.
Esclarecendo que há limites para essa ambiguidade, ou seja, ainda que certos
traços permaneçam e outros se alteram, essas transformações devem obedecer a
relação de uma lógica interna do texto narrativo. Assim, por exemplo, nada obsta a
transformação de uma personagem formiga em elefante, num âmbito de uma
narrativa fantástica. De modo que, é perfeitamente comprensivel, que na fábula da
Cinderela, os ratinhos sejam transformados em lindos mustangues, os quais
conduzirão a carruagem da Cinderela à festa palaciana, selando a história com um
final feliz.
26

Salientamos que as personagens redondas apresentam uma


variedade maior de características, que podem ser classificadas em físicas,
psicológicas, sociais, ideológicas, morais.

Em síntese, as personagens são seres fictícios, criados pelos


escritores, que atuam no enredo. Em geral a personagem bem construída
representa uma individualidade, com, traços distintos.

Há personagens que não representam individualidades, mais sim


tipos humanos, identificados pela profissão, pelo comportamento, pela classe social,
enfim, por algum traço distintivo comum a todos os indivíduos dessa categoria. E há
também personagens cujos traços de personalidade ou padrões de comportamento
são extremamentes acentuados (às vêzes tangenciando ao rídiculo, como já
assinalado); esses casos de personagens caricaturais são bastante evidentes nas
novelas de TV.

Retornando à obra “O Ateneu”, a personagem Sérgio,constitui-se


numa individualidade, ou seja, numa figura humana complexa que vive conflito com
o mundo exterior e consigo mesmo, diferentemente do diretor do colégio, o dr.
Aristarco, embora não seja uma caricatura, apresenta alguns traços de personagem
caricatural.

3.2.1. O nome das personagens

Não se deve desprezar os nomes das personagens construída nas


narrativas. Eles também auxiliam numa análise e interpretação literária.

Por isso, é interessante observar como os escritores se preocupam


com a relação personagem/nome próprio. Graciliano Ramos, por exemplo, em
“Vidas Secas”: Vitória é o nome de uma nordestina que alimenta pequenos sonhos,
nunca concretizados; Baleia é o nome de uma cachorra que morre devido a seca,
em pleno sertão nordestino.
27

Em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, a personagem-narrador


chama-se Bento e tem sua vida em grande parte determinada pela carolice da mãe,
a qual queria torná-lo padre.

Lima Barreto também utiliza magistralmente o nome das suas


personagens: Clara dos Anjos é uma rapariga negra que é engravidada e
abandonada por uma rapaz branco; Isaías Caminha é um escrivão; Quaresma é um
ingênuo nacionalista que morre às mãos de um ditador.

Em “O Ateneu”, de Raul Pompéia, o diretor autocrático e magistático,


responsável por um ensino conservador e retrógrado, é denominado de Aristarco
(cujo significado etimológico refere-se bom governo).

Assim, na leitura-análise de uma obra narrativa – notadamente, o


romance – é interessante observar a significação dos nomes das personagens
escolhidas pelos seus autores. Eles têm muito a dizer ...

Ademais, há personagens tão marcantes e inesquecíveis quer na


literatura nacional ou estrangeira, que se tornaram verdadeiras individualidades na
imaginação do leitor. Citemos alguns: Iracema, Capitu, Macunaíma, Ridoaldo,
Quixote, Hamlet, Emma Bovary, Gregor Sansa (de Kafka), Raskolnikov (de
Dostoiévski), Werther (de Goethe), Dorian Gray (de Oscar Wilde), Hans Castorp (de
Thomas Mann) e tantos e tantos outros ...

3.3 Tempo

Com relação a este elemento estrutural da narrativa, convém


classificá-lo em duas outras categorias: tempos externos e tempos internos à
narrativa.

Entendem-se com tempos externos à narrativa: o tempo do


escritor, o tempo do leitor e o tempo histórico.
28

Resumidamente definidos, temos que:

(a) o tempo do escritor é o tempo histórico da via do escritor pois os


valores de sua época ou suas mudanças, interferem na organização da narrativa.
Como bem aponta Abdala Junior (1995, p 54.), “um autor pode iniciar-se
literariamente num movimento e alcançar sua maturidade em outro.” Trazemos à
memória Machado de Assis, que de romântico na mocidade passou-se ao
movimento realista.

(b) tempo do leitor: a narrativa é descodificada – apreendida –


segundo os valores da época do leitor. Um texto romântico dirigido ao leitor do
século XIX, procurando atender aos padrões artísticos daquela época, não o será
para o leitor do século XXI. Lembremos da obra “Os sofrimentos do jovem Werther”
de Johann Wolfgan von Goethe, cujo tema em síntese, versa sobre a exposição
franca e direta do estado de paixão e seus reflexos, efeito alcançado pela sua forma
epistolar. Esta obra goethiana aqui é citada pelas vigorosas expressões da força do
amor, não se ignorando as outras obras que já tinham se valido do mesmo gênero
de romance em forma epistolar: na Inglaterra, por Richardson, Pamela, 1740;
Clarissa, 1748; na França, por Rousseau, A nova Heloísa, 1761.

Pois bem. Não obstante “Os sofrimentos do jovem Werther” ser uma
das grandes obras da literatura estrangeira e os excessos emocionais íntrinsecos
desse texto estarem em dissintonia com a realidade contemporânea, impregnada de
outros valores, por óbvio não teria o mesmo efeito impactante e influenciador como o
foi ao jovem dos anos de 1775, que segundo relato da história, os jovens daquela
época não só se vestiam com as cores das roupas utilizadas por Werther, como
foram fortemente influenciados pelo suicídio da personagem, levando muitos a
imitarem no mesmo fim trágico da personagem, necessitando de um efetivo apelo de
Goethe em sentido contrário.

(c) o tempo histórico: a história contada pelo narrador poderá se


situar ou não na época do escritor. Um clássico exemplo é a obra “O nome da
Rosa”, de Umberto Eco, ensaísta, professor e escritor, que retrata a Idade Media,
embora tenha sido escrita e publicada na década de 1980 do século XX.
29

Como tempos internos da narrativa, seu estudo, segundo a


análise literária, pode ser feita ao nível das relações entre a história e o discurso
narrativo.

O tempo da história é cronológico. Ele se apresenta pela sucessão


cronológica de eventos. A personagem está com vinte e dois anos, depois, vinte e
cinco, em seguida vinte e oito e, assim, sucessivamente. No tempo da história temos
a dimensão humana do tempo. Não se olvida aqui, a ocorrência do tempo
psicológico, visto ser, nada mais nada menos, o tempo cronológico distorcido em
função das vivências subjetivas das personagens.

O tempo do discurso é a representação narrativa do tempo da


história. Abdala Junior. (1995, p. 55) lecionando sobre o tempo do discurso diz que:
“o tempo do discurso, para efeito de análise literária, pode ser entendido grosso
modo como o tempo que o leitor leva para ler uma determinada narrativa. Na
verdade, é o tempo de leitura do narratário, um leitor ideal a quem se destina a
narrativa, conforme vimos. Esse leitor ideal é capaz de uma descodificação com um
máximo de rendimento, o que não acontece com o leitor real que tem sempre um
rendimento mais baixo, em face das solicitações e dos ruídos do local ou da
resistência do texto impresso (dificuldades de leitura), fatores que impedem o
máximo de atenção e aplicação do leitor na leitura.”

3.4 Espaço/Ambiente

Espaço é, por definição, o local onde se desenrola a ação numa


narrativa. Na ação concentrada ou no enredo psicológico haverá uma menor
variedade de espaços; pelo contrário, se a narrativa for cheia de aventuras,
acontecimentos, haverá maior afluência de espaços.

O espaço tem como função primordial situar as ações dos


personagens e estabelecer com eles uma interação, isto é, tanto propicia às
30

personagens mudanças em suas atitudes, pensamentos ou emoções como pode


sofrer transformações provadas pelas personagens.

O termo espaço, geralmente, denota somente o lugar físico onde se


desenrolam os fatos da história; para designar um “lugar” psicológico, social,
econômico etc, emprega-se o termo ambiente.

Ambiente, pois, é o espaço carregado de características


sócioeconômicas, morais e sociológicas em que vivem as personagens. Ambiente é
um conceito que aproxima tempo e espaço; a confluência destes dois referenciais
(tempo e espaço), adicionada de um “clima”, resulta, pois, no ambiente.

Segundo a profª Gancho (2008, p.28/29), quatro são as funções do


ambiente: “1. Situar as personagens no tempo, espaço, no grupo social, enfim nas
condições em que vivem. 2. Ser a projeção dos conflitos vividos pelas personagens.
Por exemplo, nas narrativas de ‘Noites na taverna’ (contos de Álvares de Azevedo),
o ambiente macabro reflete a mente mórbida e alucinada das personagens. (...) 3.
Estar em conflito com as personagens. Em algumas narrativas, o ambiente se opõe
àss personagens estabelecendo com elas um conflito. Um exemplo disso é o que
ocorre no romance ‘Capitães de areia’ de Jorge Amado, no qual o ambiente burguês
e preconceituoso se choca constantemente com os heróis da história. (...) 4.
Fornecer índices para o andamento do enredo. É muito comum, nos romances
policiais, ou nas narrativas de suspense e terror, certos aspectos do ambiente
constituírem pistas para o desfecho que o leitor pode identificar numa leitura mais
atenta. No conto ‘Venha ver o pôr-do-sol”, de Lygia Fagundes Telles, nas descrições
do ambiente, percebemos índices de um desfecho macabro, por exemplo, no trecho
em que se insinua um jogo entre a vida e a morte, que é o que de fato ocorre com as
personagens Raquel e Ricardo. (...)”

Enfim, o ambiente se caracteriza, levando-se em consideração os


seguintes aspectos: época (em que se passa a história); características físicas (do
espaço); aspectos socioeconômicos; aspectos morais, psicológicos, religiosos.

Na abordagem desse elemento estrutural da narrativa, citemos


exemplificando o Sanatório Berghof, palco principal onde se passa quase que única
31

e exclusivamente a narrativa de “A montanha mágica”, romance do escritor Thomas


Mann, publicado em 1924. O Sanatório Berghof, para os “filhos enfermiços da vida”
(tuberculosos) situa-se nas elevadas regiões alpinas de Davos, Suiça; toda a ação
narrativa (impregnada de ironia e comicidade por vezes) concentra-se, como
afirmamos, no referido sanatório e nas imediações de sua propriedade. Importante
destacarmos que em certos trechos da narrativa, fica magistralmente claro como o
lugar e a época dão o tom da história! Personagens de diferentes nacionalidades,
abastadas porém enfermas, reunidas num mesmo lugar, as quais as maneiras de
pensar o mundo, a vida, a doença e o amor etc, divergem profundamente, fazendo-
se uma alusão clara de uma Europa também doente que se encaminhará
inevitavelmente ao Primeiro Conflito Mundial de 1914-1918.

3.5 Narrador

É fundamental a importância do quinto elemento da estrutura da


narrativa: o narrador. Inexistindo este, inexiste a narrativa.

O narrador é uma criação linguística do autor, não se confundindo


com este; o narrador é uma entidade de ficção.

Os termos mais usados pela análise literária para designar a função


do narrador na história são: foco narrativo e ponto de vista (do narrador ou da
narração). Portanto, o foco narrativo (ou ponto de vista) refere-se à perspectiva do
narrador frente aos fatos narrados.

Desde já esclareçemos que o foco de narração dentro de um mesmo


texto – no caso, o romance – pode não ser fixo, isto é, pode oscilar, dependendo dos
efeitos que o escritor quer produzir. Ainda assim, cada texto terá um foco narrativo
dominante, que circunscreve e delimita os demais.

Tratando-se de uma narrativa de ficção, o escritor possui a liberdade


de contá-la sob o foco narrativo ou ângulo que quiser.
32

As abordagens mais tradicionais são:

a) foco narrativo de 3ª pessoa: o narrador observa os fatos de fora


e os registra. Por isso, o narrador em terceira pessoa também é conhecido pelo
nome de narrador observador6. Suas principais características são: onisciência (o
narrador sabe tudo sobre a história; sobre o que as personagens estão pensando,
interpreta gestos, conhece o passado e o futuro deles) e onipresença (o narrador
está presente em todos os lugares da história).

Esse recurso permite que o autor explique sentimentos complexos,


talvez desconhecidos da própria personagem, como pode também explorar todas as
sutilezas de sentimentos/emoções, promovendo inclusive flashbacks.

Segundo a profª Gancho (2008, p.33) as variantes do narrador em


terceira pessoa são: narrador “intruso” e narrador “parcial”, ou seja, “narrador
‘intruso’: é o narrador que fala com o leitor ou que julga diretamente o
comportamento das personagens (...) narrrador ‘parcial’ é o narrador que se
identifica com determinada personagem da história e, mesmo não o defendendo
explicitamente, permite que ele tenha mais espaço, isto é, maior destaque na
história. (...)”

Exemplo de um texto narrativo em 3ª pessoa.

Era Natal. O pai ajudou Eduardo a fazer o presépio – seu Marciano


mesmo ajeitou o papel fingindo de montanha, serrou madeira, colocou o
espelho, fingindo de lago, com dois patinhos de celulóide, trouxe da cidade
as figuras. Eduardo comapreceu com dois soldadinhos de chumbo,
espingarda ao ombro, para montar guarda à manjedoura. Mas a finalidade
última – chamar Leda para vir ver – não foi atingida. O menino não teve
coragem, e foi melhor assim. Na casa dela havia de ter um presépio, e foi
melhor assim. Na casa dela havia de ter um presépio muito mais bonito. E
achava a sua casa velha demais para ela: tinha vidro partido na janela da
sala, a pintura do lado de fora descascando – a sala de jantar mesmo era

6
Em entrevista na revista mensal Vila Cultural, edição 56, janeiro/2009, o escritor Cristóvão Tezza, vencedor do
Prêmio de Literatura de 2008, com seu livro Filho Eterno (Ed. Record) falando sobre a produção de sua próxima
obra disse: “Já comecei. É uma história de amor inteira concentrada em um homem e uma mulher, com um
narrador onisciente, o bom e velho narrador onisciente que entra nas duas cabeças.”
33

antiquada, móveis velhos e gastos – era preciso reformar os móveis,


reformar a casa e reformar o mundo, para merecer a presença de Leda. Foi
melhor assim. (SABINO, Fernando. O encontro marcado. 7ª ed. Rio de
Janeiro, Ed. Do Autor, 1963, p. 18)

b) foco narrativo de 1ª pessoa: o narrador participa da ação como


personagem, vivenciando os fatos; os verbos e os pronomes empregados são de 1ª
pessoa. O narrador se funde com o personagem, que pode ou não ser a principal;
também é conhecido por narrador personagem.

As variantes desse foco narrativo, conforme leciona a festejada


profª. Gancho (2008, p. 33), são: o “narrador testemunha que geralmente não é a
personagem principal, mas narra acontecimentos dos quais participou, ainda sem
grande destaque. (...); narrador protagonista é o narrador que é também a
personagem principal Podem-se citar inúmeros exemplos deste tipo de narrador e
apresentaremos alguns bastante célebres: Paulo Honório, narrador do romance ‘São
Bernardo’, de Graciliano Ramos, homem duro, que tenta entender a si e a sua vida
após a morte da esposa Madalena; Bentinho, de ‘Dom Casmurro’, de Machado de
Assis, célebre por dar sua versão sobre a possível traição de Capitu, seu grande
amor. Nos dois casos, temos um narrador que está diante dos fatos narrados e que,
portanto, pode ser mais crítico de si mesmo”.

Vejamos dois exemplos de textos narrativos em 1ª pessoa que bem


ilustram os dois tipos de narradores.

O primeiro é uma narrativa com foco predominante “EU” como


testemunha. Excerto extraído do romance de Eça de Queirós, “A cidade e as serras”:

“Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu


gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos completadores e
facilitadores da vida – o seu telégrafo, o seu telefone, o seu fonógrafo, o seu
radiômetro, o seu gramafone, o seu microfone, a sua máquina de escrever, a
sua máquina de contar, a sua imprensa elétrica, a outra magnética, todos os
seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um
suplicante percorre altares de onde espera socorro. E toda a sua suntuosa
mecânica se conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda
34

girasse, nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu senhor.” (In: Obras de
Eça de Queirós, v.I. Porto, Lello & Irmão Ed., s.d. p. 419)

O segundo, é uma narrativa com foco predominante “EU” como


protagonista, extraído da obra Menino de Engenho, de José Lins do Rego.

“Era um menino triste. Gostava de saltar com meus primos e fazer


tudo o que eles faziam. Metia-me com os moleques por toda parte. Mas, no
fundo, era um menino triste. Às vezes dava para pensar comigo mesmo, e
solitário andava por debaixo das árvores da horta, ouvindo sozinho a
cantoria dos pássaros. (REGO, José Lins do. Menino de engenho. 18. ed.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1972).

Cumpre-ressaltar que os focos narrativos aqui apresentados não são


exaurientes; a matéria é bastante complexa, pois muitos são os recursos e efeitos
que o escritor quer causar, conforme cânones de Teoria Literária. A intenção é
mostrar as abordagens mais tradicionais, fornecendo uma ferramenta a ser utilizada
na narração.
4. ANÁLISE DO TEXTO MACHADIANO “A BORBOLETA PRETA

O trecho é uma narrativa simples, em 1ª pessoa, ou seja, é um relato


de um fato, fato este que sugere um pequeno drama entre o homem (o autor) e a
borboleta preta.

Machado de Assis7 inicia sua pequena narrativa com a exposição do


fato da entrada da borboleta em seu quarto. À medida que vai expondo as
peripecias, traduz a sua crescente irritação contra o inseto, até que a mesma expira
no peitoril da janela, para onde o fizera levá-la um súbito sentimento de desagrado
muito próximo da piedade. A morte é o desfecho trágico, o que leva à reflexão: havia
praticado uma maldade. Como consolar-se? Para livrar-se do sentimento
angustiante, por momento, lembrou-se de que afinal se tratava apenas de uma
borboleta preta. Por que não era azul?

O tom com que o autor expõe sua história é dramático e vai num
crescendo, uma parte sucedendo-se à outra. Cena realista, descrita com
encantadora simplicidade, com economia de adjetivos, sem figuras de estilo,

7
Joaquim Machado de Assis, nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839. Filho de pais pobres. Começou a
vida como tipógrafo. Tendo vivido, na mocidade, quando se achava em pleno vigor o Romantismo, ao atingir a
idade madura, a das suas grandes obras, defrontou-se com o Realismo, depois com o Naturalismo. Não ficou
sendo um romântico, mas não foi também realista e muito menos um naturalista. Foi o que se pode chamar um
escritor de transição, embora mais inclinado para o Realismo. Em 1867, entrou para o Diário Oficial como
redator. Em 1873, passou para a Secretaria da Agricultura. Em 1889, foi nomeado chefe da Diretoria do
Comércio. Primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras, onde tomou por patrono José de Alencar, seu
grande amigo e mecenas, continuando essa intimidade com o filho Mário de Alencar. Faleceu na sua cidade
natal, em 29 de setembro de 1908. Obras: Quincas Borbas; Helena; Memórias de Brás Cubas; Iaiá Garcia etc.
que são romances; poesias, contos, dramas, comedias, inúmeras páginas de crítica e crônicas. Memorial de Aires
é o seu último livro, saudades da esposa, Carolina, falecida a 20 de outubro de 1904.
36

explicitamente, refletidamente denotando os sentimentos íntimos que a vida do


inseto lhe provocava.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste trabalho foi elaborar um estudo mais sistemático


sobre como se estrutura o texto literário predominantemente narrativo, seus
principais conceitos e gêneros de expressão, fazendo-se referências a obras
literárias nacionais e estrangeiras, visando a formação de um juízo crítico ao leitor.

Conforme vimos, antes de qualquer construção teórica a respeito do


texto narrativo, se buscou, na prática, entender as questões que se põem sobre a
estrutura narrativa; sobretudo discerni-la diante de um romance, conto ou crônica.

A partir do estudo dos principais conceitos, gêneros e elementos


(referentes ao texto narrativo), a leitura naturalmente passa a ser mais cuidadosa. O
conhecimento deles, em suas partes e subdivisões, permite-nos transformar a leitura
empírica em leitura crítica, extraindo-se a inteireza da compreensão e mensagem do
texto literário.

Não obstante os elementos da narrativa terem sido examinados de


forma pedagógica e sistemática, a verdade é que cada qual pode gerar profundas e
complexas discussões, inclusive entre os estudiosos (experts) de Teoria Literária.

De qualquer maneira, é interessante ressaltarmos que a partir do


conhecimento sistemático dos principais conceitos da narratividade, de seus
elementos, nos permitirá, doravante, uma compreensão maior das obras literárias,
das personagens, a interação de seus principais elementos, a utilização e o jogo dos
38

principais discursos e personagens, num determinado tempo e espaço, dependendo


dos efeitos que quis despertar o autor.

Com esse emprendimento, melhor será o aproveitamento das obras


narrativas.

Assim, a gradução do desenvolvimento de leitor empírico para leitor


modelo será muito mais exitosa.
REFERÊNCIAS

ABDALA JR, BENJAMIN. Introdução à análise da narrativa. São Paulo:


Scipione, 1995.

BARTHES, ROLAND (et. al.). Análise estrutural da narrativa. 5.ed.


Petropólis/RJ: Editora Vozes, 2008.

_______. Escrevendo pela nova ortografia. Instituto Antônio Houaiss.


Coordenação e assistência de José Carlos de Azeredo. 1.ed. PUBLIFOLHA,
2008.

FARACO & MOURA. Para gostar de escrever. 13.ed. São Paulo: Editora Ática,
2002.

GANCHO, CÂNDIDA VILARES. Como analisar narrativas. 9.ed. São Paulo:


Editora Ática, 2008.

LUKÁCS, GEORG. A teoria do romance. 1.ed. São Paulo: Livraria Duas


Cidades e Editora 34 Ltda, 2000.

MANN, THOMAS. A montanha mágica. São Paulo: Nova Fronteira S/A, 2006.

MANZANO, THAIS RODEGHERI. Artimanhas da ficção (ensaios de


literatura). 1.ed. São Paulo: Editora Terceiro Nome.

TODOROV, TZVETAN. Estruturas narrativas. 4.ed. São Paulo: Perspectiva,


2003.
ANEXO
A BORBOLETA PRETA

A borboleta, depois de esvoaçar em torno de mim, pousou-me na


testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu
dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O
gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar
escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto, mas, tornando
lá, minutos depois, achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos,
lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da
cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era
tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido,
incomodado.
- Também por que diabo não era ela azul? – disse comigo.
E esta reflexão, - uma das mais profundas que se tem feito, desde a
invenção das borboletas, - me consolou do malefício, e me reconciliou comigo
mesmo. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio
por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula
de um céu azul, que é sempre azul para todas as asas. Passa pela minha janela,
entre e dá comigo. (...)
Pois um golpe de toalha rematou a ventura. Não lhe valeu a
imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às
borboletas. Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria
mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para
recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo
42

grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí


vinham as próvidas formigas... Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era
melhor ter nascido azul. (...) (Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo XXXI, A
Borboleta Preta, ed. 1992 Editora Nova Aguilar S.A).

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