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Ficha Técnica

Copyright © 2013 Marcus Fahr Pessoa


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Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Direção editorial: Martha Ribas e Ana Cecilia Impellizieri Martins

Editora: Fernanda Cardoso Zimmerhansl

Editora assistente : Beatriz Sarlo

Copidesque: Beatriz de Freitas

Revisão: Lilia Zanetti

Capa: Marianne Lépine

Foto de capa: Marcus Farh Pessoa

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
P568b
Pessoa, Marcus Fahr
Em busca da cura : a incrível jornada de Laura Pires ao encontro da essência da vida / Marcus Fahr Pessoa. - Rio de Janeiro :
Casa da Palavra, 2013.
ISBN 9788577343591
1. Não ficção e Autoajuda inspiracional. I. Título.

13-1320. CDD: 869.93


CDU: 821.134.3(81)-3

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O elixir da vida
Às vezes a vida nos impõe desafios que nos deixam perplexos, e nos
assustam. Hoje, acredito que eles acontecem para nos transformar, tirar de
nós o que de outra forma não manifestaríamos. Quando o susto passa, se
devolvemos ao mundo o que ele nos exige e não fugimos da
responsabilidade em que a surpreendente situação nos coloca, tornamo-
nos pessoas mais ricas e fortes.
Em meu caso, o inesperado se deu pelo surgimento de uma doença
incurável em minha companheira. Sei que os desafios do mundo podem
ser de toda ordem, porém a doença, quando é severa, afeta todas as esferas
da vida. Simples ações como caminhar, dormir, se alimentar passam a
receber um outro sentido de valor, ou melhor, revelam o seu verdadeiro
valor. O viver passa a se mostrar de outra forma, com menos ambições e
repleto de alegria pelo simples fato de se estar vivo, podendo contemplar o
espetáculo da existência que a todo momento se manifesta no planeta.
Não sei o que é pior: sentir-se doente ou ver um ente querido doente.
Mas posso afirmar que, a cada desafio que a doença ofereceu a minha
companheira, sentia-me com mais determinação para buscar a solução
para o seu restabelecimento a uma vida normal. Enquanto me empenhava
nas tentativas de solução, fui percebendo a magia da vida e aprendendo a
dar importância àquilo que faz a diferença na trajetória.
Talvez empreguemos muita energia e tempo de nossas vidas em
aquisições que não nos levarão à tão almejada felicidade. As dificuldades
podem servir para descobrirmos a maneira correta de interagir no mundo.
E, aqui, busquei oferecer minha percepção do que pude aprender com o
caminho da superação das dificuldades da saúde. Acabando por romper
com minhas limitações sobre o que é ser feliz e revelando que a magia
está em aprender a levar uma vida mais equilibrada.
Conto uma história verídica de como superamos a dificuldade e fomos
presenteados com a transformação dos nossos seres. De pessoas muito
rígidas e sérias, aprendemos a amar mais a vida; como prêmio,
descobrimos como sermos pessoas mais saudáveis. Passamos a utilizar em
nossa rotina novas formas de gerir a vida, baseadas numa tradição milenar
de saúde, a Ayurveda,1 a medicina da misteriosa Índia.
A Índia está em franca expansão econômica, ávida pelo moderno e
prático. Contudo, sua população na ordem do bilhão ainda vai preservar
muitos sábios, conhecedores da forma tradicional de cuidar da saúde. Lá,
bebemos desse elixir da vida.
Mas nada nos é oferecido sem um preço, neste caso, nossas crenças
sobre o que é saúde tiveram de ser postas à prova. Quando você aposta
numa filosofia de vida, com ela vem sua filosofia de saúde; portanto,
alterar suas crenças sobre saúde transforma sua concepção filosófica da
vida. Estávamos lidando com algo sério e não tínhamos a exata noção do
quanto isso afetaria nossos valores.
Primeiro trilhamos os caminhos convencionais da medicina ocidental,
com direito aos modernos equipamentos e medicamentos do mundo
científico. O Brasil, a cada dia, deixa o subdesenvolvimento para trás, e a
medicina acompanha o progresso. Tivemos acesso ao moderno; o dinheiro
soluciona esse problema no Brasil. Mas quem disse que a modernidade
médica saberia o que fazer com uma doença incurável?
Neste momento sua vida desaba, os médicos não se sentem à vontade
para expor o tamanho do problema, afinal a profissão do médico busca
curar, mas, quando não há cura reconhecida na medicina alopática, ele
perde sua força.
O que deu errado na vida? Estávamos fazendo tudo que se diz adequado
para ter uma vida agradável e sem problemas sérios. Estávamos juntos há
quase três anos e pretendíamos nos casar. Claro que sempre ocorrem
desavenças familiares e probleminhas em outros campos da vida. Mas
quem não os tem? Essas eram as perguntas que nos fazíamos.
Momento a momento, fomos perdendo as esperanças na sociedade que
sempre nos amparou e tivemos que fazer novas escolhas. A medicina não
cuidava mais de nós. Minha companheira seria dependente de
medicamentos caríssimos e repletos de efeitos colaterais para o resto de
sua vida, sem que com isso conseguisse a cura. Seria simplesmente a
postergação dos sintomas ou, talvez, a troca das manifestações da doença
por novos sintomas, desenvolvidos com os efeitos adversos dos remédios.
Não teríamos mais uma vida confortável, pois as limitações físicas de
minha futura esposa poderiam ser de tal ordem, que não sobraria muito
tempo para lazer, e ela não teria condições de fazer qualquer atividade
com qualidade de vida, sem falar nos gastos de nossa renda familiar com
as empresas de medicamentos.
Neste momento muitas pessoas se afastam, por diversos motivos. Uns
têm medo de opinar e acabar não obtendo bons resultados com o caminho
sugerido, outros simplesmente ficam amedrontados, enquanto alguns não
querem mais problemas para suas vidas. Poucas são as pessoas que
conseguem oferecer ajuda, mesmo entre os familiares. O que acaba se
tornando mais um baque para quem acreditava na união e solidariedade
das pessoas.
Percebi que, quando não vemos mais horizonte, é nesta hora que surge
algo realmente novo e importante para nós. Ocorre a quebra de paradigma.
A partir daí, um mundo inédito se desvela diante dos nossos olhos. E foi
exatamente isto que aconteceu.
Na Índia, que é tão ou mais milenar que as comunidades indígenas do
Brasil, encontraríamos, por sorte do destino ou, talvez, por entrega ao
destino, uma maneira equilibrada e natural de cuidar da saúde do corpo e
da mente.
Os mistérios da Ayurveda e da yoga nos seriam revelados pelos
caminhos que a vida nos guiaria. Viajaríamos por uma estranha cultura,
deixando-nos cuidar pelo que não compreendíamos. Nesta ousadia da
entrega ao desconhecido, encontramos a resposta de nossa busca, e de
maneira ainda mais mais surpreendente, percebemos como tocar a nossa
essência. Sem saber, estávamos em busca da essência.
1 Ayurveda é um sistema de cuidados com a saúde utilizado para prevenir e tratar doenças. Tem
origem na Índia e é conhecido como a medicina indiana. O sufixo Ayur da palavra Ayurveda significa
vida, saúde ou cura, em sânscrito, escrita antiga da Índia, enquanto veda é tradução da palavra
escritura ou texto.
Em seis meses tudo
pode mudar
Laura queria mais atenção para si, eu necessitava de mais espaço para
mim. A discussão foi acalorada. Mesmo sem chegarmos a um consenso
fomos dormir. Morávamos juntos havia três anos e ainda procurávamos
nos acostumar com as peculiaridades de cada um. No dia seguinte,
voltamos a nossas rotinas. Nada como uma noite de sono para arrefecer
vontades e fazer despertar a aceitação. Fui para o trabalho.
Horas mais tarde, o celular toca. Era Laura.
– Estou passando mal, está tudo ficando escuro.
– Onde você está?
– No Barra Shopping, dentro da livraria.
– Vou dar um jeito de sair do trabalho. Estou indo para aí.
Em todo o período de nosso relacionamento Laura nunca havia passado
mal, fiquei preocupado. Avisei que teria de sair mais cedo e fui para o
estacionamento. Quando desci do elevador lembrei que tinha deixado o
carro na oficina. Estava confuso. Peguei um táxi.
Ao chegar no shopping fui direto à livraria. Liguei para seu celular, mas
não respondia. Como não a encontrava, dirigi-me ao segurança e expliquei
a situação.
– Uma moça baixa de cabelos escuros?
– Deve ser ela mesma.
– Meu senhor, ela deve estar no serviço médico. Eu vi quando
desmaiou, teve de ser levada na cadeira de rodas.
Quando cheguei ao serviço médico a encontrei deitada, recebendo soro
na veia. A médica responsável me falou que agora ela estava melhor e que
deveria ter sido uma hipoglicemia.
Laura me viu.
– Tomei um susto com seu telefonema. Como está agora?
– Melhor. Mais ainda estou fraca.
– Vamos, me abraça, vou te ajudar a chegar até o carro. Você comeu?
– Sim, antes de desmaiar tinha acabado de beber um suco de açaí.
– Estranho. A médica disse que foi uma baixa de glicose no sangue.
– É, ela comentou que deveria ser isto, mas estou sentindo um tremor
por dentro do corpo. Acho difícil ser falta de glicose.
Chegamos em casa e fizemos as pazes do que sobrara da discussão, não
havia espaço para desentendimentos naquele momento. Nos dias que se
seguiram, Laura ainda sentia a estranha sensação de tremor pelo corpo,
fora isto não havia nada de diferente, sua saúde aparentava estar
completamente normal. Mesmo assim, por precaução, fomos a vários
médicos tentar pesquisar o que havia acontecido e a causa do seu
constante e inexplicável tremor interno. Todos os exames mostravam
resultados dentro da normalidade, até que desistimos de buscar resposta
para o que deveria ter sido apenas uma crise de cansaço ou estresse.
Laura vinha trabalhando muito e conjugava o trabalho com a faculdade
cursada à noite. Periodicamente, precisava viajar a São Paulo, pois a
arquiteta com quem fazia uma parceria morava lá, e, consequentemente,
era onde tinha boa parte de seus clientes. Isto exigia muito da sua saúde. A
rotina incerta dos projetos de arquitetura sempre são desgastantes. E, ainda
por cima, passamos por um susto havia poucos dias: um pequeno acidente
de carro que a deixou muito nervosa. Havia pouco tempo que ela estava
dirigindo e, numa confusão de um cruzamento, acabamos levando a batida
de uma picape na porta do carona, onde eu estava. Isto a deixou muito
descontrolada no momento, talvez por algum tipo de sentimento de culpa,
já que era ela quem dirigia. Portanto, o estresse parecia uma justificativa
plausível para o desmaio.
Após seis meses, no verão de 2006, pouco depois de meu aniversário,
Laura acordou pela manhã de forma incomum. Percebi que estava
cansada, mas não poderia desconfiar do que estava acontecendo.
Depois de levantar para escovar os dentes, ela saiu do banheiro dizendo
que não estava enxergando bem. Pensei que fosse uma brincadeira, mas
não, a vida estava começando a nos desafiar; não tínhamos a menor noção
do que nos aguardava.
Quando a vi saindo do banheiro tive certeza de que se tratava de algo
sério. Pedi que se acalmasse. Poderia ser uma alteração visual passageira.
– Me leva para um pronto-socorro.
– Laura, é melhor esperar para ver o que acontece.
– Não, vamos agora mesmo. Já estou há dias percebendo que minha
visão não está como antes. Não quis falar nada antes para não te
preocupar. Mas agora está demais.
– Sendo assim, é melhor irmos. Mas não vamos fazer tudo que o médico
disser. Temos que consultar outros.
– Certo. Está bom. Então vamos logo.
Ela contou melhor como eram os sintomas, e acabei lembrando de um
amigo do trabalho que havia pouco tempo teve de sofrer uma cirurgia às
pressas por causa de um problema na retina. Acabei compartilhando com
ela minha preocupação:
– É... É bom investigarmos logo, lembrei do caso de um colega de
trabalho de descolamento de retina. A pessoa perdeu a visão de uma hora
para outra e só enxergava borrões.
– É, não enxergo nada dos lados e há uma mancha na frente do olho
esquerdo.
– Pois é, mas se for isto, Deus queira que não, vamos esperar para
ouvirmos outra opinião médica.
Partimos para uma clínica de olhos com plantão médico, em Botafogo.
Fomos atendidos por uma estagiária que realizou exames nos seus olhos,
depois pediu que aguardássemos para o médico vir conversar conosco.
Estávamos tensos. Parecia que a moça suspeitava de glaucoma. Mas, a
opinião do médico foi diferente, acreditava que fosse um descolamento de
retina, exatamente como eu havia imaginado. Ele teria de fazer um exame
complementar e, se o diagnóstico fosse confirmado, operaria no dia
seguinte.
Sabia como se procedia uma operação desse tipo. Meu amigo contara os
detalhes da cirurgia que sofrera. Não era nada agradável e havia riscos.
Assustados com o possível diagnóstico, resolvemos não esperar para fazer
mais exames. Saímos de lá e fomos direto procurar uma médica
especialista em retina. A princípio, quando a médica ouviu o relato de
Laura, admitiu que poderia ser o mesmo diagnóstico do médico anterior.
Porém, quando examinou os olhos, identificou uma inflamação no nervo
ótico. Ficamos aliviados, não haveria necessidade de cirurgia. Bastaria
tomar medicamentos orais para voltar ao normal. Estávamos satisfeitos,
pois a médica parecia muito segura e confiável.
Nos primeiros dias do tratamento, Laura começou a apresentar muitos
efeitos colaterais do remédio, o que nos fez voltar à médica. Depois de
analisar melhor o caso, a médica suspendeu e trocou a medicação.
Passados dez dias, Laura sentiu-se bem melhor, voltando a enxergar
como antes. Entretanto, transcorridas mais duas semanas, o quadro
mudou. E, desta vez, ambos os olhos apresentavam perda visual. Na nova
consulta, a médica não conseguia mais identificar a lesão do nervo ótico e
suspeitou que poderia ser um problema de ordem neurológica. E, como os
sintomas visuais estavam mais intensos, acabou nos encaminhando a uma
neurologista.
A partir daí, nossa peregrinação médica teve início. Fomos trocando de
especialistas e pesquisando as diversas possibilidades de doença. Cada um
falava de uma hipótese diferente. Ninguém conseguia chegar a uma
conclusão sobre os motivos da piora visual. Pediam exames e mais
exames, e enquanto isto, os sintomas se agravavam.
Durante essas investigações, Laura passou a apresentar outros
problemas em várias áreas do corpo. Estava muito fraca, sentindo
câimbras dolorosas durante a noite, rigidez em um dos braços e um visível
tremor na face. Associado a perda visual, esse quadro se agravava a cada
semana sem que houvesse um diagnóstico preciso dos neurologistas. Para
nós ficava nítido que o problema era grave, pois as dores de câimbras
durante a noite e a perda de movimentos eram assustadoras, sem falar na
questão visual.
Nossas vidas ficaram estagnadas. Não conseguíamos trabalhar, ter
momentos de lazer, encontrar com amigos. Nada. Passávamos os dias e as
noites nos consultórios médicos ou na internet, pesquisando as
possibilidades levantadas pelos médicos.
Após consultar com oftalmologistas, clínicos gerais, endocrinologistas,
neurologistas, cardiologistas, ortopedistas e uma série de outros
especialistas, realizar vários exames, muitos bem desgastantes, e passados
nada mais, nada menos, do que quatro meses de investigações,
descobrimos que os novos sintomas da perda visual estavam relacionados
com a uma doença mais complexa, ou seja, o problema de visão não
passava de um sintoma dentre outros. Tudo era fruto de uma síndrome
neurológica conhecida como esclerose múltipla ou E. M. Porém, o mais
inesperado era a perpectiva do tratamento da doença.
Uma doença incurável
Os diagnósticos na área neurológica não se formavam de uma maneira
clara, mas aos poucos delineava-se o tipo de patologia de que Laura sofria.
Dos diversos neurologistas que procuramos, foi na Santa Casa de
Misericórdia do Rio de Janeiro, que encontramos profissionais mais
hábeis. O primeiro médico que consultamos neste hospital era jovem, mas
mostrava um grande conhecimento da sua especialidade. Já com os
exames solicitados em mãos e após verificar mais uma vez os reflexos de
Laura e avaliar sua capacidade visual, esboçou sua percepção do quadro
clínico.
– Creio que provavelmente estamos diante de uma patologia
neurológica.
– De que tipo, doutor?
– Ainda é cedo para precisar, mas é uma doença desmielinizante do
sistema nervoso.
– E em que isso consiste?
– Bem, existem várias doenças que atuam neste processo de ataque da
mielina das células nervosas. A mielina é uma capa de gordura e proteína
que envolve os neurônios, tal como o plástico de um fio elétrico.
– Entendi. Mas há um padrão entre elas?
– Sim, porém pela idade de Laura e se tratando de uma mulher, a mais
provável é a esclerose múltipla.
– E como se trata?
– Vamos com calma. Não estou afirmando que ela esteja com a
esclerose múltipla. Vou encaminhar vocês a uma especialista, aqui mesmo
no hospital. Ela só atende pacientes com essa doença, portanto saberá
melhor definir o diagnóstico.
– Tem consulta para hoje?
– Infelizmente não, vou tentar encaixar vocês na próxima consulta que é
daqui a 15 dias. Enquanto isto vocês podem providenciar mais alguns
exames de que certamente a doutora necessitará.
– Mas, doutor, o senhor poderia adiantar alguma coisa. Sei que, como
disse, não está confirmado ser esta tal de esclerose múltipla, mas só para
sabermos como seria a doença caso se confirme o diagnóstico.
– Bem, é bom frisar que ela já sofre de uma desmielinização no nervo
ótico, e por isto tem tido tantos problemas na visão, mas o diagnóstico de
esclerose múltipla ou E.M., como também é conhecida, é apenas uma
hipótese.
– Perfeito. Está claro.
– A E. M. caracteriza-se por ser um dos cem tipos de doenças
autoimunes, talvez a mais severa por afetar diversas áreas de
funcionamento do corpo. A doença autoimune geralmente ataca um tecido
do corpo, trazendo problemas para as áreas que são cobertas por ele e que
se encontra sob o ataque do sistema imunológico, porém, normalmente
todos os outros órgãos ou tecidos permanecem inalterados. Ocorre que, no
caso da esclerose múltipla, o tecido eleito é o que constitui o invólucro das
células do sistema nervoso, como já disse, a bainha de mielina. O que vale
dizer que o sistema de defesa do corpo contra agentes intrusos, o sistema
imunológico, deixa de reconhecer determinado grupo de células que
envolve as células do sistema nervoso, passando a atacá-las como se
fossem invasores do organismo. Sendo assim, ocorre a desmielinização
das fibras do sistema nervoso. E sem essa proteção as células nervosas não
conseguem conduzir apropriadamente os sinais nervosos, fazendo com
que a pessoa perca o controle sobre diversos dos seus sentidos e funções,
o que acaba por gerar vários sintomas severos no portador da patologia.
Portanto, apesar de o ataque do sistema imunológico ser localizado e
ocorrer sobre apenas um dos tecidos do sistema nervoso, isto acarreta
efeitos e sintomas sobre todo o organismo devido à característica
intrínseca do sistema nervoso de controlar diversos órgãos. – Após uma
breve pausa, continuou a explicar: – Caso a desmielinização seja extensa,
o nervo pode morrer, acarretando uma lesão irreversível em várias funções
corporais. A desmielinização costuma acontecer em áreas isoladas dos
nervos dos olhos, do cérebro e da medula espinhal. A característica
múltipla da esclerose se deve às múltiplas áreas de cicatrização (escleras)
que surgem como resultado dos focos de deteriorização em várias áreas do
sistema nervoso.
– E como é o tratamento?
– O tratamento convencional é o uso de corticoides administrados por
via intravenosa, a pulsoterapia, durante períodos curtos, além de outros
medicamentos que se propõem a reduzir a frequência das crises. Mas não
fiquem preocupados, a doutora é uma especialista na área e vai cuidar da
Laura.
– Obrigado, doutor, o senhor foi muito esclarecedor.
Quando olhei para o lado, percebi que Laura estava pálida. O possível
diagnóstico tinha abatido suas esperanças de se resolver logo seu
problema de saúde.
Saímos da sala do médico e nos dirigimos à recepção, com uma
solicitação por escrito para sermos encaixados no próximo dia de consulta
da especialista. Laura sentou-se no banco junto aos outros pacientes que
aguardavam sua vez para o atendimento neurológico do dia. Pela primeira
vez, meu olhar se transformou. Passei a perceber que Laura, de fato, era
como um daqueles pacientes. Alguns estavam de cadeiras de rodas, outros
tinham atrofias nos membros. O rosto distorcido de outro paciente acusava
uma paralisia facial. Virei-me para o outro lado, a fim de evitar a cena e
amenizar minha consciência do que acabara de me dar conta. Neste
momento, do outro lado do hall de espera, um casal acabara de entrar. A
mulher apoiava o marido que caminhava com dificuldade, valendo-se de
uma bengala para identificar os objetos à sua frente. Notei que deveria ter
problemas visuais. Vislumbrei de relance o que nos aguardaria no futuro
próximo e tive a certeza de que passaríamos por muitos momentos
difíceis. De repente, meus olhos se encheram de lágrimas.
– Senhor, senhor. – Alguém tocou em meu braço. – O senhor está me
escutando?
Percebi que a senhora da marcação de consultas deveria ter me chamado
outras vezes sem que eu esboçasse uma resposta, provavelmente estava
pensando que eu tinha algum problema de audição, afinal muitos de fato
tinham. Sentia-me sem chão.
– Desculpe, está tudo bem...
A volta para casa foi marcada pelo silêncio. Estávamos tensos. Quando
chegamos, abri a porta e fui direto à geladeira, comi uma fruta e perguntei
à Laura se precisava de mim nas próximas horas. Diante da negativa, fui
deitar. Dormi por quatro horas, era como se quisesse poupar forças para
enfrentar o desafio de sua doença.
Acordei no início da noite e virei a madrugada pesquisando a doença na
web. Já tivera algumas informações do que era a E. M. quando estava
buscando as possibilidades de patologias, mas, agora, era diferente, tinha
que me dedicar ao entendimento do desenvolvimento da doença.
Consultei centenas de páginas abordando o assunto. A cada hora ficava
mais nítido que não havia cura para essa doença. Ela estava no rol de
moléstias graves, juntamente com a Aids, câncer, paralisia irreversível,
entre outras. O tratamento parecia ser apenas um paliativo para os
momentos de crise, além de trazer diversos efeitos colaterais, tais como o
crescimento de pelos no rosto, diabetes, susceptibilidade à infecção,
aumento de peso, fadiga, osteoporose, depressão, úlceras, surgimento de
gorduras no pescoço, erupções de pele no rosto etc.
Através de relatos de portadores da doença, percebi que era comum não
se conseguir o diagnóstico nos primeiros meses de manifestação da
doença, por atingir diversas funções e os especialistas não perceberem as
conexões entre elas. Como se não bastasse, a doença, na maioria das
vezes, piorava lentamente no decorrer do tempo, sem responder aos
tratamentos sugeridos pelos especialistas da função afetada, deixando os
médicos e pacientes mais confusos. Em muitos casos, os indivíduos
afetados apresentam períodos de saúde relativamente boa (remissões)
alternados com períodos de fraqueza (exacerbações), o que dificulta a
validação da linha de tratamento empregada.
Comecei a ler os blogues de pacientes com E. M. e descobri os
pormenores de suas rotinas. Muitos ficavam vinculados a frequentes
sessões de fisioterapia para tentar melhorar a capacidade de caminhar, a
restauração do equilíbrio, e a amplitude dos movimentos dos membros. A
rigidez muscular de pernas e braços era um forte fator limitante associada
à fraqueza generalizada, que a fisioterapia busca ajudar, mas com
resultados variados, conforme a situação de cada paciente. Existiam,
ainda, os que se tornavam tão fracos e incapazes de se movimentar, que a
cadeira de rodas era a única maneira de se locomover. Quando a doença
progredia mais ainda, não bastava a cadeira de rodas, um assistente
permanente para empurrá-la era indispensável, uma vez que o doente
perdia o controle dos movimentos dos braços. Por fim, muitos acabavam
apresentando úlceras de decúbito por permanecerem imóveis na cama, na
mesma posição por horas. E o mais difícil de ler era que alguns faleciam
por falta de ar: o músculos responsáveis pelo movimento respiratório
ficavam fracos e simplesmente paravam.
Percebi que estava diante de uma doença severa, de difícil diagnóstico,
sem uma certeza quanto à causa e à cura, que vai depauperando,
gradativamente, a pessoa, sem falar nos surtos que a invalidam mais ainda,
de um dia para o outro, mesmo nos tipos mais brandos da doença.
Podendo levar a uma morte lenta e assustadora.
Li informações de pessoas que, como nós, já haviam tentado outras
áreas da saúde, tais como a homeopatia, hipnose e acupuntura, porém
diziam que os ganhos eram modestos. Também já estávamos buscando
ajuda de profissionais da medicina complementar. Lendo os relatos, a
expectativa de conseguir um resultado satisfatório com as terapias
alternativas ou complementares esmaeceu. Era pouco provável que
obtivéssemos um sucesso definitivo com esses métodos. Mesmo assim
sentia que estavam sendo importantes como uma forma de manejo dos
sintomas, o que também era relatado por alguns portadores da doença.
De qualquer forma, era triste ler as conversas entre os blogueiros.
Alguns contavam que passaram a depender completamente da família,
sendo comum a cena de serem carregados em cadeiras de rodas ou serem
apoiados pelos pais para poderem caminhar mesmo que cambaleando.
Outros conversavam pela internet com ajuda de alguém, pois já não
conseguiam digitar no computador, apesar da imensa vontade de se
comunicarem.
Senti um peso nos ombros: era a responsabilidade incomensurável que
carregaria.
Esse era o quadro que nos esperava caso não tomássemos as ações mais
adequadas, se é que podíamos pensar em adequação diante de uma doença
tão grave e pouco conhecida pela medicina.
Muitos dos sintomas descritos pelos portadores de E. M.,
conheceríamos de perto; outros, por sorte, conseguiríamos evitar.
Quando os sintomas começaram a se agravar, fiquei perdida diante das
abordagens médicas, que me deixavam ainda mais angustiada. Via Marcus forte
ao meu lado tentando achar soluções, entrando em contato com pessoas por
telefone e e-mail. Mesmo com uma rotina puxada de trabalho, ele me levava aos
médicos e laboratórios para incansáveis sagas com funcionários sem esperanças
e cuidados.
A cada dia que acordava via cada vez mais limitações físicas surgindo e
nenhuma real possibilidade de melhora. Os meses passando, os sintomas vindo e
desaparecendo, piorando e melhorando, e os médicos sem conseguirem definir o
que eu tinha, o que gerava cada vez mais medo e angústia.
Quando comecei a piorar ainda mais e não víamos solução aparente, Marcus
intensificou sua busca, para ver se em algum lugar do mundo alguém pudesse me
ajudar. No Brasil, amigos, conhecidos e parentes se arriscavam indicando
tratamentos e terapias desde neurologistas bem tradicionais a tratamentos como
acupuntura, crudismo, picadas de abelha, rezas, centros espíritas, massagens,
terapias com psicólogos, psiquiatras e outros mais. Aos poucos, fui tentando
alguns deles. Uns, sem sombra de dúvida, trouxeram bons resultados e foram
diminuindo o agravamento da doença, mas nada parecia trazer a solução dos
problemas.
Lembro como se fosse hoje o exato dia em que saímos do consultório de um
neurologista muito atencioso e humano. Ele falou da possibilidade de eu estar
com esclerose múltipla, explicou um pouco da doença, da progressão dos meus
sintomas e de como era difícil fechar um diagnóstico. Pediu que eu fizesse outros
exames mais específicos e que assim que estivessem prontos retornasse ao
hospital para uma consulta com toda a equipe médica e residentes especialistas
em E. M.
Então, cheguei em casa. Entrei no quarto depois de vir calada quase todo o
trajeto dentro do carro, deitei na cama e chorei copiosamente. Ao mesmo tempo
em que sentia um alívio por descobrir e ter um diagnóstico correto para então
decidir que caminho prosseguir e qual tratamento e médico acompanhar, a
notícia de algo tão terrível parecia me estrangular. Eu sentia como se o mundo
estivesse escuro, denso, parado.
E agora? O que será de mim?
Por alguns instantes um medo muito intenso percorria meu corpo, minha
mente. Mas, ao ver Marcus entrar no quarto, também desolado, com os olhos
marejados, exausto, esgotado, eu ainda assim vi alguma luz ao lado dele.
Simplesmente ajoelhei diante dele e, mesmo com nossas brigas, pedi que pelo
menos ele me ajudasse a sair daquele momento. Implorei que ficasse ao meu lado
para superar tudo e que depois poderia ir. E foi exatamente o que ele fez. Ele me
abraçou e choramos juntos.
Percebi que aquilo era um sim, e eu estava disposta a agarrar aquela chance
custasse o que custasse. Foi então o momento de aprender a ceder, de me entregar
e reconhecer que eu precisava deixar de verdade a vida agir.
Naquele instante, uma força muito intensa tomou conta do meu ser. Minha
mente, alma e corpo se mobilizaram em direção ao caminho de enfrentar,
reconhecer e transformar a vida como um todo.
Os descaminhos da medicina
ocidental
A tentativa de tratamentos alternativos no
Brasil

No dia seguinte, buscando dar um rumo à situação, voltei a virar a noite na


tentativa de encontrar outras possibilidades de tratamento na web.
Conversei com várias pessoas ao redor do mundo, mas nada parecia
satisfatório. Sentia-me frustrado diante de tantas investidas sem sucesso.
No meio da madrugada, com uma forte dor de cabeça de tanto consultar
a web, entrei no quarto que mantínhamos somente para orações e
meditações, ajoelhei-me e implorei ao Divino para que me orientasse:
“Senhor, já fiz tudo que pude, o que mais posso fazer?” Prostrei-me no
chão diante das imagens de santos no nosso altar. Minha mente ficou vazia
por um instante. Uma sensação invadiu meu peito, sentia a dor de Laura
como se fosse minha, uma sensação de compaixão fazia meu corpo
tremer. A angústia que Laura devia estar passando devido à falta de
esperança em encontrar uma cura estrangulava meu coração.
Brotou em minha mente a lembrança de que, havia um ano, também
sofria de problemas nos olhos e, apesar de serem patologias consideradas
simples, já foram o suficiente para me causar uma forte falta de esperança
e, na época, também não tinham cura garantida. Senti um vazio na cabeça,
acompanhado de um zunido. De súbito, me lembrei da palavra: ÍNDIA.
Sim, talvez seja lá que tenhamos a cura. Por que não?
No ano anterior, tínhamos viajado a turismo para a Ásia. Naquele
período da vida, considerava o budismo uma forma interessante de
compreender a saga humana no planeta.
Quando morrei no Rio Grande do Sul visitei, várias vezes, o templo
budista tibetano Kadro Ling Chagdud Gonpa, na cidade de Três Coroas,
perto de Gramado. Fiquei fascinado com sua beleza e dedicação aos
sábios do passado, representados nos murais das paredes do lugar. Na
época, o mentor do templo, o lama tibetano Chagdud Rinpoche, estava
vivo e irradiava uma clareza sobre os aspectos da mente durante seus
discursos, o que me deixou impressionado.
Passei a conhecer um pouco da história do budismo e descobri que
nasceu na Índia, com o príncipe Sidarta Gautama. No silêncio da noite, o
príncipe interessado no sofrimento humano deixou sua esposa e filho no
palácio, fugindo para se entregar às práticas ascetas2 do hinduísmo nas
montanhas, ao norte do país. O ascetismo é até os dias de hoje uma prática
comum na Índia, no qual se busca os aspectos sagrados da vida, a fim de
transcender ao sofrimento humano.
Após alguns anos de práticas austeras, obteve a clareza de qual caminho
seguir e, em sete dias, sentado de forma imóvel sob uma árvore, atingiu a
iluminação, compreendendo o verdadeiro significado do amor e da
compaixão. Neste momento, passou a receber a designação de o Buda, o
iluminado. Muitos dos ascetas que o acompanharam nas montanhas
tornaram-se seus discípulos e, como fruto de vários anos de ensinamento
sobre o que descobriu na vivência da iluminação, floresceu o budismo em
toda a Ásia.
Sendo assim, o hinduísmo foi o alicerce para a descoberta de Buda, e,
portanto, desenvolvi uma curiosidade ímpar por esta religião. O sul da
Índia possui aspectos preservados da cultura védica, origem do hinduísmo.
Então, tornou-se parte do nosso roteiro de viagem, além da Tailândia e
Myanmar, a antiga Birmânia.
Quando estávamos no sul da Índia, descobrimos que este era um local
onde se mantinha viva a prática da medicina ayurvédica, a tradicional
medicina da Índia. Avaliei que não deveria desperdiçar a oportunidade de
ouvir a opinião médica sobre os problemas que tinha nos olhos, blefarite e
pterígio.3 Por lá, a Ayurveda tinha obtido status de medicina reconhecida
oficialmente como prática médica tão eficaz quanto a medicina alopática.
O curso universitário de medicina ayurvédica é de oito anos, sem contar a
residência. Certamente para o segundo país mais populoso do mundo, não
se tratava de uma medicina alternativa e pouco experimentada, mas sim de
uma medicina oficial, testada e aprovada por milhões de pessoas por
séculos, e mantida válida até os tempos modernos, mesmo com o
contemporâneo surgimento da alopatia.
O médico fundador da clínica, Dr. Bokulan, estava viajando. Acabei me
consultando com a médica assistente, Dra. Chitra. Após uma breve
observação do estado de meus olhos, disse que deveria ficar internado por
catorze dias para realizar o tratamento indicado. Ambas as doenças tinham
grandes chances de regredirem e serem curadas. Como avisei que não
tinha tempo para a internação, ela receitou alguns medicamentos à base de
ervas e advertiu que poderiam ajudar principalmente a blefarite, mas que,
se demorasse a realizar o tratamento com a internação, provavelmente não
teria como remover a pele do pterígio com as técnicas da Ayurveda.
Fiquei satisfeito e continuamos a viagem. Passei a usar diariamente os
remédios, e após um mês não sofria mais com a blefarite; desaparecera
completamente. Para a alopatia não havia cura, apenas utilizava-se a
limpeza diária dos cílios sem resolver o processo de formação de novos
cristais entre eles. Após dois anos de incômodos e várias visitas a
médicos, por fim, havia resolvido algo que me incomodava muito e que
me deixava preocupado, pois sabia que a progressão da doença poderia
levar à perda completa dos cílios.
No que dizia respeito ao outro problema, a pele que crescera sobre os
olhos ainda continuava lá, contudo não causava mais os incômodos tão
frequentes de vermelhidão e ardor. A frequência desses sintomas tinha
sido alterada de diária para esporádica.
Esse foi o primeiro vínculo que estabeleci com a Ayurveda. Sentira
confiança em seu método, apesar de achar muito incomum ficar tantos
dias internado numa clínica para resolver um problema considerado
simples, o pterígio. Enquanto para a medicina alopática apenas uma hora
de cirurgia seria o suficiente para remover a alteração da conjuntiva do
olho, com uma grande probabilidade de voltar a crescer a mesma estrutura
em poucos meses, para a medicina ayurvédica a proposta era uma
internação de catorze dias sem nenhuma cirurgia e com ótimas chances de
uma cura definitiva. Na verdade, a técnica cirúrgica não parecia muito
com uma cura, e sim com uma extirpação de uma estrutura criada por uma
disfunção da superfície do olho, cujo funcionamento a medicina ocidental
desconhecia.
Exatamente um ano mais tarde, naquele momento em que me
encontrava encolhido no chão, me lembraria dessa consulta e dos
resultados obtidos com apenas medicamentos ayurvédicos. Compartilhei
com a Laura minha vivência no quarto de orações. Resolvemos que
procuraríamos profissionais que trabalhassem com essa técnica terapêutica
indiana no Brasil. Encontrei algumas referências e comecei com as mais
próximas, um médico no Rio de Janeiro.
Resolvemos procurar um médico a cuja palestra sobre Ayurveda
tínhamos assistido. O médico dizia ser conhecedor da medicina indiana e
ter estado na Índia, mas, durante a consulta, parecia sem muito rumo.
Perguntava sobre o que os neurologistas haviam dito e, ao se dar conta da
gravidade do caso, logo afirmou que não sabia do que se tratava.
Aparentemente avaliava que estava tudo normal. Percebemos que pouco
sabia da prática da Ayurveda, na verdade tinha muito conhecimento para
um palestrante, mas não para um médico da técnica nos padrões do que
havíamos conhecido na Índia. Tínhamos alguma informação sobre o
funcionamento da Ayurveda nos livros que compramos lá por curiosidade,
e suas orientações não pareciam convergir com o que tínhamos lido. No
final da consulta, reafirmou não saber do que se tratava, mas prescreveria
algumas ervas para acalmar os nervos. Depois pediu que o avisasse
quando descobríssemos o tipo de patologia. Mesmo assim, compramos os
fitoterápicos prescritos por ele, mas em nada ajudaram. Mesmo com a
primeira experiência um tanto frustante, dias depois, descobrimos uma
terapeuta ayurvédica e fomos a ela.
A proposta da terapeuta pareceu muito melhor do que as orientações do
primeiro “médico ayurvédico”. Ela jurou que não valeria a pena ir para a
Índia, pois ela empregaria todos os procedimentos que conseguiríamos lá,
caso viajássemos. Vendo que ainda não tínhamos outra proposta que
revertesse a doença e, antes de começarmos os tratamentos alopáticos,
decidimos fazer uma experiência com a Ayurveda. Mesmo sem possuir
informação suficiente para comparar sua proposta com os tratamentos
aplicados na Índia, iniciamos o tratamento com ela no dia seguinte.
Avisamos que estávamos esperando o resultado de um exame para
consultar uma neurologista que, provavelmente, daria início à pulsoterapia
em mais ou menos uma semana. Só tínhamos sete dias disponíveis para
tentar a investida com a terapeuta. Ela concordou em condensar o
tratamento de catorze dias para a metade. E também nos aconselhou a
fazer o tratamento convencional da alopatia, a pulsoterapia com
corticoides.
Durante a semana a melhora da Laura foi impressionante. Seus
intestinos voltaram a funcionar todos os dias, a visão melhorou, as
dormências passaram, juntamente com as câimbras, e sua disposição
aumentou. No oitavo dia percebemos que esse poderia ser o caminho para
a cura, e o melhor era que não oferecia qualquer efeito colateral como a
pulsoterapia.
Eu tinha visto uma enciclopédia de Ayurveda na mesa da terapeuta.
Perguntei a Laura do que se tratava e fiquei sabendo que o livro abordava
a E. M. dando as indicações de tratamento. No dia seguinte, pedi para
olhar o livro; a terapeuta desconversou e não mostrou. Percebi que seus
conhecimentos estavam embasados, em boa parte, no compêndio. Como
vi a capa do livro memorizei seu título e o encomendei pelo site da
internet de venda de livros estrangeiros, a Amazon. Com o livro pude ter
uma referência maior da adequabilidade da Ayurveda para tratar a E. M.
Havia um capítulo que abordava doenças nervosas, e a E. M. era um dos
destaques, indicando os tratamentos e remédios. Alguns dos tratamentos
estavam sendo realizados, porém o mais indicado não foi sugerido pela
terapeuta.
Tínhamos que seguir toda manhã para seu consultório do outro lado da
cidade. Laura precisava conter a urina para ser observada pela terapeuta, e
depois eu seguia para o trabalho. No fim da tarde, voltava para buscá-la. A
cada dia sua fisionomia era melhor. Mesmo com a melhora fiquei um
pouco apreensivo depois do segundo dia de tratamento. Laura me contou
que, durante uma das massagens feitas na cabeça, perdeu completamente a
sensação do corpo do pescoço para baixo. A terapeuta foi chamada por
sua assistente que tentava em vão recuperar a sensibilidade das pernas de
Laura. Quando a terapeuta se deu conta do que estava ocorrendo, esboçou
uma feição de pavor, o que não escapou do olhar atento de Laura. Fiquei a
me perguntar se a terapeuta realmente sabia o que estava fazendo, ou
simplesmente queria nos impedir de irmos para a Índia, a fim de ganhar
mais um cliente.
O tratamento ayurvédico terminou. Contudo, para nossa surpresa, após
dois dias, Laura voltou a piorar. Retornamos à terapeuta. Percebemos que
estava apreensiva. Acabou confessando que não sabia mais o que fazer;
tinha esgotado seus recursos. Ficamos desolados. Como algo podia trazer
tanta melhora em tão pouco tempo e depois levar a pessoa ao mesmo
quadro? Das duas, uma: ou a terapeuta não sabia o que fazia ou a
medicina ayurvédica era um método de criar falsas esperanças nos
pacientes. Escolhemos a primeira hipótese e procuramos mais dois
médicos com conhecimentos ayurvédicos, em São Paulo. Ambos
concordaram que a medicina ayurvédica poderia trazer a cura, e que os
procedimentos da terapeuta do Rio não foram o suficiente.
Diante dessas opiniões, decidimos que, se fôssemos prosseguir com um
tratamento orientado pela medicina indiana, faríamos a tentativa na Índia.
Nada melhor do que beber a água da fonte. E se os médicos de São Paulo
também não soubessem exatamente quais procedimentos utilizar? Será
que eram tão especialistas ou conhecedores de uma medicina que possui
sua origem no outro lado do mundo?
Nestes dois primeiros dias após o tratamento ayurvédico do Rio, apesar
de Laura ter piorado comparando a como se mostrara durante a terapia
ayurvédica, ela não estava no seu pior momento. Foi neste instante que
regressamos à Santa Casa de Misericórdia para nos consultar com a
neurologista especialista em E. M. Enquanto esperávamos o atendimento,
começamos a conversar com um rapaz de uns 30 anos que aguardava ser
atendido. Tratava-se de um homem corpulento. Ele contou que trabalhava
na terra no plantio de mandioca e que, de repente, começou a perder o
controle das pernas e dos braços. Seu patrão levou-o a vários médicos,
mas somente essa doutora descobriu o que tinha. Então, tomou umas
injeções por cinco dias, a pulsoterapia. Pensou que fosse morrer. Debatia-
se tanto na cama que foi preciso amarrá-lo. Ficou sem enxergar por várias
horas. Mas depois de alguns dias sentiu que estava retornando ao normal e
voltou a trabalhar na roça. Transcorridos seis meses desde que fez o
tratamento, ficou sem controle do lado direito do corpo, novamente.
Quando a médica nos atendeu, pediu o relato dos últimos meses e os
exames que já havíamos realizado. Ficou particularmente interessada no
evento do desmaio no shopping. Concluiu que, naquele evento, talvez
tivesse ocorrido o primeiro surto da doença. Passou a fazer testes
neurológicos juntamente com um grupo de estagiários. Eram exames
motores, de reflexo, sensibilidade, força; entre eles havia cócegas com
pena, martelinhos nas juntas, espetões de agulhas etc. Não estava tão mal,
pois comparando aos exames clínicos do neurologista que estávamos
frequentando, Laura estava respondendo muito melhor aos estímulos.
Pareceu ficar em dúvida de tratar-se realmente de E. M. Verificou de novo
os exames, identificou a lesão no nervo ótico. Escreveu um pedido de
mais uma série de exames neurológicos, de pulsão lombar e de sangue. E
disse que não havia dúvida quanto à existência de uma doença
degenerativa do sistema nervoso, mas que seria necessário fazer mais
exames e aguardar a progressão dos sintomas a fim de confirmar o
diagnóstico.
Aproveitamos para contar que nas últimas semanas Laura estivera pior,
sem nenhum reflexo e sem nenhuma sensibilidade nas pernas e mãos, mas
que havíamos feito na semana anterior um tratamento da medicina indiana
e que, por isso, havia melhorado.
– Que tipo de tratamento é esse?
– Ele é à base de óleo e limpezas dos órgãos internos. – Os estagiários
se entreolharam e esboçaram um sorriso. Não parecia serem sorrisos de
alegria. A médica não se mostrou interessada.
– Por ora, vamos esperar os resultados dos novos exames, mas se você
piorar, volte a mim, que prescreverei a pulsoterapia para o dia seguinte.
Saímos aliviados e preocupados. Por um lado estávamos cientes de que
as melhoras se deviam ao tratamento ayurvédico, e, portanto, sentimos
uma esperança de cura. Por outro lado, ficamos preocupados pela falta de
continuidade no tratamento ayurvédico; certamente com a interrupção do
tratamento Laura teria que fazer a terapia de choque da pulsoterapia,
aquela que o homem forte nos relatara na sala de espera da Santa Casa de
Misericórdia. Nesta hipótese, não teríamos a cura, mas sim, o simples
controle dos sintomas da esclerose múltipla e o surgimento inevitável dos
efeitos colaterais dos remédios, os quais os médicos evitavam abordar e,
quando questionados, diziam que eram insignificantes. As comunidades
de internautas com E. M., contendo milhares de pessoas que já haviam
passado pela experiência da pulsoterapia, tinham outra opinião, e as
reações ao medicamento eram realmente preocupantes. Muitos falavam
em depressão profunda, deformidades pelos inchaços no corpo, aumento
de peso, perturbações gastrointestinais, acne, insônia, gosto metálico na
boca e taquicardia. Os mais antigos e consumidores assíduos dos remédios
sabiam que a osteosporose era fruto do enfraquecimento dos ossos
provocado pelo remédio. Perda de paladar era frequente, além da sensação
de ardência por todo corpo. As desregulações hormonais eram comuns,
levando a crescimento de pelos. Uma das possibilidades usuais de
alterações corporais é a chamada síndrome de Cushing, que assusta
qualquer pessoa, ainda mais uma mulher, pois gera muitas deformidades.
Na verdade é um sinal de que o corpo está intoxicado pelos corticoides, o
que gera o desenvolvimento da aparência cushingoide, que se caracteriza
pela face arredondada (chamada de fácies em lua), pelo acúmulo de
gordura na região posterior do pescoço e das costas (chamado de corcova
ou giba de búfalo) e pela distribuição irregular da gordura corporal, com
predomínio na região abdominal e tronco. Resumindo, a pessoa fica
deformada e depois de um tempo nem os amigos a reconhecem. Isso sem
falar de queimaduras e manchas pelo corpo e formação de estrias na
barriga. É tudo que uma mulher não gostaria de passar na vida.
Outra situação séria para quem toma altas doses de corticoide é o efeito
de imunossupressão, que a princípio é um resultado desejável nos casos
das doenças autoimunes, mas pode também ser um grande problema por
facilitar a ocorrência de infecções. Além de ocultar o fenômeno da febre, o
que deixa a pessoa muito vunerável, devendo evitar tomar até certas
vacinas.
De maneira geral, havia os sintomas que se seguem: hipertensão arterial,
outras doenças cardiovasculares, hiperglicemia, retenção de líquido,
hiperparatireoidismo, necrose óssea asséptica, miopatia, catarata,
glaucoma, arritmias cardíacas, tromboembolismo, sintomas psicológicos e
psiquiátricos (euforia, alucinações, depressão, insônia e psicose), acnes,
ulceração gástrica, infecções. Claro que somado a isso ainda restavam os
sintomas da própria E. M. ora mais brandos, mas sem garantia de
sumirem. Mas talvez o mais grave é o risco da infertilidade.
Com o encaminhamento dos fatos levando a um tratamento alopático
com corticoides, sabendo dos riscos inerentes dessa aplicação e ainda com
a piora vertiginosa do estado geral de Laura, após poucos dias do fim do
tratamento ayurvédico no Brasil, estávamos certos de que uma decisão
tinha de ser tomada imediatamente.
Percebemos que a Ayurveda de fato era uma medicina de grande poder,
e por sorte estávamos em contato por e-mail com um médico renomado do
país.
Caso optássemos pelos corticoides, dificilmente teríamos o ânimo de
buscar um tratamento diferente mais à frente, pois o medo de trocar um
tratamento que melhore, nem que seja um pouco, os sintomas, mesmo sem
uma proposta de cura, por outro tratamento completamente desconhecido
pelos médicos brasileiros, seria muito mais desafiador. Agora estávamos
num momento em que nos sentíamos inseguros e guardávamos dúvidas
sobre as duas alternativas, a Ayurveda ou a pulsoterapia.
A expectativa de realizar novos exames desanimava. As experiências
anteriores tinham sido desgastantes em vários aspectos.
Estávamos ficando desesperançosos com a medicina alopática: muita
investigação, alguns tropeços, muito estresse, muita teoria e poucas
esperanças de cura.
2 Os ascetas são renunciantes conhecidos como monges errantes, que buscam o controle sobre as
funções vitais e o domínio espiritual inspirados em textos antigos da Índia, os Vedas.

3 A blefarite é um descamação que ocorre entre os cílios, e o pterígio, uma alteração na córnea com o
crescimento do tecido conjuntivo, tendo indicação cirúrgica com alto índice de recidiva.
Por que ir para a Índia

Quando chegamos da consulta, fui para o computador, que para mim era a
porta para o mundo. Ainda guardava a esperança de conseguir acessar
uma opção que nos levasse à cura. Recordei-me da clínica do Dr. Bokulam
e achei que valeria a pena tentar um contato. Enviei-lhe um e-mail
contando sobre o estado de Laura, principalmente sobre o diagnóstico de
desmielinização do nervo ótico. A clínica era especializada em
panchakarma4 para problemas nos olhos, logo parecia se encaixar
perfeitamente na necessidade da doença.
O médico respondeu o contato em apenas uns dias:

Caro Sr. Marcus,


Obrigado por se lembrar de nossa clínica em um momento tão
delicado para sua esposa. O problema que ela apresenta é de ordem
Vata5 e Pitta,6 e está relacionado a uma inflamação no nervo ótico e a
alterações no fundo do olho. A medicina moderna não tem outro
tratamento além de corticoides para seu problema de saúde. A
Ayurveda pode melhorar muito sua qualidade de visão e prevenir
recorrências de seu problema, gradualmente irá reduzir a frequência e
a severidade da doença. Entretanto, será necessário uma internação
de 21 dias com medicamentos, além de uma rigorosa dieta
acompanhada por outros medicamentos para quando regressar para o
Brasil. Quanto antes começar o tratamento mais fácil será para evitar
prejuízos e complicações.
Com os melhores votos de estima,
Dr. Bokulam

Pode parecer pouco, mas essas palavras abriram uma janela de


esperança para nós. Já havia testado e comprovado o poder da medicina
indiana, e por sorte conhecíamos a clínica. Deixamos essa possibilidade
como uma carta na manga, caso não encontrássemos uma proposta
melhor.
Cinco dias depois, os sintomas motores estavam intensos, Laura perdeu
os reflexos dos membros, tinha nevralgia no nervo trigêmeo, apresentava
áreas de insensibilidade pelo corpo, a fadiga era crônica e os músculos
estavam enrijecidos, impedindo vários movimentos. Já havíamos
regressado à especialista em E. M. e ela prescrevera a pulsoterapia, uma
vez que o diagnóstico de esclerose múltipla parecia estar confirmado.
Apesar de saber que a Ayurveda é holística e não analisa os sintomas de
forma isolada, pensei que não obteria mais sucesso com o contato com o
Dr. Bokulam, a doença agora era outra.
Mesmo assim, voltei a questionar o médico, queria saber se conhecia a
esclerose múltipla e se poderia tratar de uma doença tão séria, ou se
trataria somente a questão da perda visual.
Aprofundei a conversa esclarecendo tais pontos. Ele foi específico,
explicando que o tratamento funcionaria para todo o seu quadro de
sintomas, não havendo motivos para dúvidas, mas era necessário evitar
fazer a pulsoterapia para facilitar o tratamento ayurvédico. Senti-me
aliviado, pois já tinha perdido as esperanças de ir para Índia.
Fiz uma retrospectiva de todos os contatos via web que já estabelecera.
Também havia escrito mensagens eletrônicas para vários países e
profissionais, mas nenhuma resposta fora satisfatória, tudo encaminhando
para o uso de corticoides, exceto uma referência de tratamento através da
yoga.
Cheguei a escrever para centros de yoga espalhados pelo mundo, até
que obtive a resposta do Ramamani Iyengar Institute. Avisaram que
existia um americano professor de yoga e portador de E. M., Eric Small.
Ele obteve excelentes resultados através da yoga e foi supervisionado por
B.K.S. Iyengar7 durante seu processo de restabelecimento. O senhor
Iyengar, que está com saudáveis 90 anos, é um dos grandes mestres de
yoga da atualidade com diversos livros publicados. Quando fiquei
sabendo da história pessoal de Eric busquei imediatamente um contato via
e-mail.
Respondeu-me que a yoga poderia colaborar muito para o
restabelecimento, mas que não havia garantias. Pesquisei em seu site na
internet e verifiquei a divulgação de suas aulas de yoga e sua história
pessoal.
Havia manifestado a doença aos 22 anos. Certa manhã, acordou e
verificou que não tinha mais movimento nas pernas e nos braços, ficando
de cama por longos períodos. Sua condição era tão severa que teve de ser
colocado em uma máquina para respirar, o músculo do diafragma estava
ficando paralisado e seus pulmões começavam a perder movimento.
Passou a tomar medicamentos que o fizeram se sentir pior, a ponto de os
médicos não esperarem que passasse dos 40 anos. Aos poucos recuperou
alguns movimentos, sem, contudo, deixar de ter dificuldades na fala, visão
e locomoção. Ao ouvir falar sobre um tratamento à base de grão, óleos e
choques glandulares na Escócia, resolveu visitar o médico que
desenvolveu essa teoria. Quando estava a caminho do consultório, avistou
uma pessoa se contorcendo. Soube logo que se tratava de um praticante de
yoga, pois já havia tentado o método em academias de ginástica, mas não
tinha obtido bons resultados. Contudo, desta vez, ficou fascinado com a
leveza do praticante que desafiava a força da gravidade. Pediu que o
motorista parasse e foi ao encontro do praticante com a ajuda das muletas.
A princípio o homem não se disponibilizou a ajudar, mas após investir
vários dias obteve o nome de seu professor, Sri Ananda. Começou a
praticar com o mestre indicado após insistir por uma semana em que o
admitisse como aluno. Quando o mestre percebeu que sua insistência era
calcada em uma persistência sólida, aceitou-o. Com o passar do tempo foi
conseguindo progressos em suas limitações, deixou de lado as muletas,
passando a desenvolver maior força nos membros. Assumiu uma dieta
vegetariana e adquiriu toda literatura que estava disponível na época a
respeito de yoga e meditação. A contragosto da família mudara de cidade
mantendo uma prática regular de yoga. Mais tarde percebeu que fazer as
posturas de yoga na piscina facilitava sua evolução. Notou que exercícios
em piscina aquecida e yoga se complementavam. Leu diversos livros de
B.K.S. Iyengar e formou uma forte curiosidade a respeito de seu método
terapêutico de yoga.
Quando ficou sabendo da vinda do mestre de yoga, o Sr. Iyengar, partiu
para uma tentativa de encontro nos EUA. O senhor Iyengar mostrou-se
interessado em seu caso e passou a orientá-lo por correspondência,
indicando que praticasse com um de seus antigos alunos. Sua melhora foi
progressiva, até que viajou para a Índia e passou a estudar com o mestre.
Anos mais tarde tornou-se um professor certificado no método Iyengar.
Hoje colabora com diversos trabalhos de reabilitação de pacientes com
E. M., além de ministrar aulas de yoga para esse público específico.
Em sua resposta ao meu contato afirmou que não saberia dizer qual o
melhor caminho a se tomar, uma vez que não era médico, mas que se
quisesse sua colaboração estaria disponível.
Fiquei um pouco decepcionado, mas, por outro lado, entendi seu
cuidado em não interferir nas escolhas. Sem dúvida ele teria muito a
contribuir, pois ministrava aulas para turmas de alunos exclusivamente
portadores de E. M. havia anos. Provavelmente, também teria que avaliar
primeiro se Laura poderia beneficiar-se de suas aulas, mas não tínhamos
como encarar uma viagem até os EUA sem uma convicção maior. Mesmo
assim, o yogue americano sugeriu que mandássemos um vídeo exibindo as
limitações físicas de Laura. Porém, não tivemos a calma necessária para
nos engajarmos num programa de yoga à distância. Ficamos receosos de
não haver tempo suficiente para impedir o avanço da doença, uma vez que
Laura se encontrava em crise. Talvez mais tarde, quando ocorresse uma
estabilização dos sintomas, poderíamos recorrer à ajuda da yoga, e, de
fato, foi o que fizemos, dois anos depois.
Sendo assim, entre todos os contatos, foi o Dr. Bokulam quem
respondera com maior segurança, afirmando, peremptoriamente, que
poderia ajudar e mostrara-se conhecedor das possibilidades de tratamentos
alopáticos com seus resultados e consequências. Desse posicionamento
firme nasceu nossa segurança para embarcar numa viagem com esperança
da cura do incurável.
A conversa com um velho amigo num bar da lagoa Rodrigo de Freitas
foi bem ilustrativa sobre o que passamos no período em que estávamos
para tomar a decisão entre as possibilidades de tratamentos que havíamos
descoberto.
Luis era meu amigo havia quase 30 anos, sempre conversávamos. Logo,
era uma pessoa que realmente me conhecia. Estava por compartilhar um
dos momentos mais difíceis de minha vida. Depois de conversarmos
rapidamente sobre amenidades fomos direto ao assunto:
– O que os pais dela dizem?
– Claro que eles querem que ela se trate aqui. Mas eles estão no Rio
Grande do Sul e mal sabem direito o que é a doença.
– Mas será que não seria o mais prudente? Quero dizer, e se algo der
errado lá?
– Não sei. Já me informei, e lá também tem aplicação de pulsoterapia.
– Tudo bem, mas a higiene do país não é lá essas coisas.
– Eu sei, Luis. Mas não dá para engolir que ela vai ficar a vida toda
tomando corticoides na veia, sofrendo uma série de efeitos colaterais,
além dos sintomas da doença, quando voltarem a se manifestar. A garota
já está fora de si sem ter os efeitos indesejados do corticoide. Pode surgir
pelos no rosto, osteoporose, depressão e centenas de outras coisas que
nem quero ficar sabendo.
– E os médicos falaram o quê sobre esses efeitos?
– Infelizmente, não dá para acreditar completamente nos médicos. Eles
acham que sabem de tudo e não te contam as coisas para te poupar. Só sei
que já pesquisamos, e os contras são “brabos”. – Silêncio. – Ela melhorou
no tratamento ayurvédico feito pela terapeuta da Tijuca, só que voltou a
piorar, provavelmente porque a mulher não sabe tanto assim. Duvido que
na Índia seja igual. A medicina é de lá, e é milenar. Se o médico disse que
poderia ir para sua clínica, que ele sabe o que fazer, e ainda explicou como
se trata no Ocidente com a pulsoterapia, é porque conhece os dois lados
dos tratamentos e sabe que neste caso a Ayurveda é o mais indicado.
– Pode não se tratar disto. Ele pode ser bom, mas assim como a
medicina daqui tem limites, a de lá também deve ter. Imagina, vocês irem
até o outro lado do mundo para descobrir que não era bem assim. O que os
pais dela vão dizer?
– Não estou muito interessado. Se quiserem podem vir para o Rio e
tocar o tratamento dela. Eu é que não vou assistir a ela sofrer no
tratamento daqui para ainda não ficar boa de vez, enquanto eles ficam
tomando decisões em ponto remoto, por MSN. Ou eu toco as coisas ou
eles. O que sabem do tratamento? Lá, eles não têm muitas informações,
pois não são da era do Google, não sabem como pesquisar na internet.
– Já conversou com sua mãe? Ela tem experiência de vida.
– Já.
– E aí? O que ela acha?
– Disse que se decidirmos ir para lá, ela vende o apartamento dela para
pagar a viagem e o tratamento na Índia também. Ela apoia a minha
decisão, seja qual for. E ainda comentou que, se percebo que esse pode ser
um caminho para a cura, não o deveria deixar passar.
– Interessante. É, Marcus... Se eu fosse você jamais sairia daqui nessas
condições. Mas...
– Eu sei... Você me faz pensar, me critica! Tenho que amadurecer
minhas ideias para não fazer besteira.
– Tá bom. E a Laura está disposta?
– Ela tem dúvida e medo.
– Difícil, hein?
– Não sei se ela está em condições de decidir, está doente. Claro que não
vou contra a vontade dela, mas tenho que orientá-la. Ela sabe que a
opinião dos pais tem peso pequeno. Apesar de possuírem médicos na
família, não deram alternativas além das que já sabemos.
– É, a mulher agora é sua. E eles sabem que não devem se meter
demais.
– Mas a família é dela, nunca deixará de ser. Dinheiro muitas vezes
serve de apoio psicológico, mostra engajamento com a questão.
– Sei como é. Pensa bem, meu amigo. É muito longe. A saúde dela não
está boa. Voltar de lá pior vai ser mais pesado.
– Na verdade, os médicos acreditam que, se ela não tomar logo os
corticoides, vai voltar ao hospital de cadeira de rodas.
– Está vendo?
– É. Mas também tem a opinião do médico da Índia. Ano passado estive
lá e fui medicado no meu problema do olho, o pterígio e a blefarite. Usei o
que eles passaram e hoje estou muito melhor, enquanto os médicos daqui
disseram não saber direito a causa, ou que o problema não tinha cura, ou
que só operando, com chances altas de voltar a apresentar o mesmo
problema mais tarde. Hoje não tenho mais nada nos cílios, quando deveria
ter, já que era incurável. E o outro problema está tão brando que nem me
incomoda mais.
– É, mas seu caso é simples comparado ao dela.
– Sei. Mas quando estive na clínica indiana a médica falou que deveria
ficar internado lá por catorze dias para fazer um tratamento específico, e
os remédios eram somente para não piorar até poder voltar lá, e mesmo
assim fizeram milagres em mim.
– É. Só toma cuidado para você não misturar sua vontade de voltar lá
com a necessidade da Laura.
– Está certo. Eu sei que se fizesse uma enquete neste bar todos diriam
que sou louco em ir para a Índia num caso desse. Mas pensa bem, Luis,
essa turma daqui, onde certamente nos incluímos até certo ponto, vive
num mundinho da Zona Sul do Rio. Todos bebem e alguns usam drogas.
Não parecem cuidar da própria saúde, muitos deles vão virar especialistas
da nobre área médica e continuarão a negligenciar a saúde. Será que
sabem o que fazem? Minha mãe, quando foi tirar um tumor do lado
esquerdo do rosto com o melhor médico da especialidade, voltou para o
quarto da clínica com um talho do lado direito. Depois retirou o tumor do
lado certo, pouco tempo depois também voltou a nascer um novo tumor.
Isto é saber o que faz? Pois é. É assim que, algumas vezes, somos
cuidados pelos nossos médicos. Não vou ficar gastando seu tempo
relembrando histórias absurdas sobre escolhas de tratamentos médicos
infrutíferos que já vivenciei e fiquei sabendo. Eles também são humanos e
muitas vezes erram. A sociedade mistifica muito o médico, atribui a eles
superpoderes. E é natural possuírem concepções equivocadas sobre várias
doenças e tratamentos. Nada é perfeito ou infalível. Sei que existem
grandes médicos. Mas o que está em jogo aqui é o tipo de visão médica
sobre o funcionamento da esclerose múltipla. Pode ser que na Índia
tenham outra forma de entender a doença.
– Mas os médicos daqui resolvem muitas doenças. Não seja tão
pessimista.
– Eu sei que são excelentes em muitos casos. Mas isto está misturado
com interesses de indústrias de remédios e também há muito marketing.
Não te contei, mas quando fui buscar a terceira ressonância magnética da
Laura num laboratório lindo e renomado da Zona Sul, nos entregaram um
envelope com chapas do crânio de outra pessoa e, por sorte, havia uma
chapa de uma perna junto. Foi o que nos chamou a atenção para verificar
o nome do paciente no exame. Que beleza, não? Isto quando estávamos
indo para o neurologista e na maior expectativa do resultado.
– Que isto? O que vocês fizeram?
– Pedimos para encontrarem o exame correto. A recepcionista ficou sem
saber o que fazer, e após 30 minutos de espera, fui procurar o profissional
responsável pela ressonância. Estavam sem saber como me explicar que,
além de terem trocado as chapas com a de outro paciente, não conseguiam
encontrar uma das que completavam o exame da Laura. Isto sem contar
que no dia do exame Laura ficou quase surda porque os atendentes não
orientaram como deveria vedar os ouvidos com os protetores auriculares.
Não sei se você conhece o exame, mas a máquina solta um som
ensurdecedor. Quando reclamamos que estava muito alto nos disseram que
era assim mesmo e que deveria aguentar. Para completar, injetaram
erradamente o contraste no braço dela. Fora da veia. O braço começou a
doer e ameaçaram abortar o exame se ela quisesse sair da máquina.
Quando a tiraram verificou-se que não haviam acertado a veia,
reaplicaram o contraste; eu mesmo tive de ajustar o protetor auricular nas
orelhas dela e a ressonância foi concluída com muita cara feia da parte
deles. Isto só para te contar um caso. É mole?
– Não. É duro. Ainda mais quando se está doente. De qualquer forma
não tem como se livrar de exames quando se está doente. Erros fazem
parte do processo.
– Pode ser. Errar é humano. Mas tudo depende da medida. Parece que
passaram da medida do erro humano. E não é só isso. Na pesquisa sobre
qual tipo de doença se tratava, o neurologista pediu um exame de punção
lombar para coletar uma amostra de líquido cefalorraquidiano, o licor,
aquele líquido branco que fica na medula, que para mim parece uma seiva
humana, tal como a seiva que corre no tronco de uma árvore. Parece um
exame inofensivo, mas se o profissional errar na hora de introduzir a
agulha na coluna a pessoa pode ficar com problemas. Na hora do exame a
Laura tremia de medo. Depois teve de ficar três dias na cama, pois o
exame deixa fortes dores de cabeça e tontura.
– E o resultado do exame? No que deu?
– Em nada. Laura ganhou uma carga de estresse à toa e ficou mais
debilitada. Os médicos hoje em dia não chegam a um diagnóstico sem
muitos exames. Alguns exames são invasivos e agressivos, o paciente já
está fragilizado tanto física quanto emocionalmente, e ainda tem que
passar por isso. As pessoas que aplicam os exames são frias, pois encaram
o procedimento como algo repetitivo e monótono. É uma matemática
complicada de dar certo.
– Os erros são comuns em qualquer atividade.
– Pode ser, um erro ou outro tudo bem, mas um atrás do outro estressa.
No nosso caso foram dezenas de erros, não vou ficar aqui contando tudo,
mas teve outro que foi demais. Encontramos um especialista neuro-
oftalmogista renomado. Quando apresentamos os exames realizados, o
médico identificou um deles, que julgou estar com o resultado errado. Pela
sua experiência, sabia que o laboratório onde realizamos o exame quase
sempre apresentava defeitos nas máquinas. Quando fizemos um novo
exame, confirmou-se o erro, e o médico pôde diagnosticar a
desmielinização do nervo ótico que nenhum outro doutor descobria. Um
dos médicos, que não desconfiara do resultado equivocado do exame,
disse que se tratava de um problema psicológico, avisei que já estava
frequentando uma psicóloga e que eu também tinha formação na área, mas
manteve sua posição.
– Mas quantas divergências! É, mas por outro lado, você tem que ver
que a doença dela é rara, isto dificulta muito o posicionamento dos
médicos.
– Sem dúvida, porém me parece que estamos vivendo na era do mito da
máquina, é ela quem está decidindo o rumo de nossas vidas. Nós,
enquanto sociedade, estamos acreditando mais nas máquinas que
construímos do que em nós mesmos. Por sorte, encontramos o médico que
talvez pela idade não titubeava no seu olhar clínico e duvidou da máquina.
Se não fosse ele, e se eu não tivesse noção da área psicológica, Laura
poderia estar até hoje culpando a si mesma pela sua crise nervosa que a
limitava de andar e enxergar, com um diagnóstico de pura histeria.
Passaria a trocar de psicólogos na esperança de encontrar a solução de seu
problema psíquico. A resposta certa foi descartada por uma médica que
deixou de acreditar em si mesma, para preferir exames falhos.
– É, nós costumamos pensar que os médicos são infalíveis e conhecem
todas as doenças. Talvez seja porque as propagandas dos planos de saúde
nos levam a crer que estaremos sempre seguros.
– Sei que em parte também colaborei para o acontecimento de tantos
erros, pois nasci e compactuei com tudo na nossa sociedade. Se a
medicina comete equívocos seja pelo lado da operacionalização dos
procedimentos médicos ou pela forma de entenderem a doença e,
principalmente, a saúde, é porque todos nós somos responsáveis. Ninguém
vende um produto que as pessoas não querem comprar. E se querem
comprar é porque acreditam que é o melhor que podem ter. A medicina
oferece o produto da cura e se o usamos é porque acreditamos nos
princípios que fundamentam a medicina. É a tampa e a panela.
– Pelo menos vocês têm plano médico para cobrir o custo dos exames.
Imagina quem não o tem.
– Nem o plano médico foi confiável. Esse exame do licor, o plano não
quis pagar. Disse que não estava no rol da agência controladora de saúde.
Mesmo depois de entrar com um pedido no qual copiei o trecho da lei que
obrigava os planos a cobrirem todos os exames em caso de pesquisa de
doença grave. Vê? É o que fala a lei. Agora me diga, dentro desse
turbilhão todo como é que eu vou fazer valer um direito junto à operadora
de saúde? O pior é que eles sabem disso e tratam o doente como um custo
a ser diminuído no seu balanço contábil. Estamos perdendo nossa
humanidade. A sociedade está doente por dinheiro e status.
– Parece que vocês estão muito estressados com tudo isto. Por um lado,
talvez seja bom viajar. Sabe? Férias? Mas, sabe o que me deixa
preocupado?
– Pode dizer.
– É como você vai levar a Laura em dois voos internacionais desse
jeito? Ou seja, quando chegar lá, ainda tem que pegar algum voo.
– Sim. Eu sei. Mas nessas horas não dá para ficar pensando muito. As
escolhas são todas difíceis. Não vai ser nada fácil. Talvez eu vá pela
África. São menos horas de voo. Mas quando eu chegar em Bombaim vou
ter de dormir um dia para pegar outro voo para o sul da Índia, Trivandrum.
Depois um trem de algumas horas, para finalmente pegar um táxi até a
clínica. Com saúde, já é desgastante. Mas...
– Pelo visto você está com tudo programado, e eu diria, decidido. Só
toma cuidado para não levar a Laura contrariada, já basta a família dela
não estar de acordo.
– Eu vou tomar esse cuidado. Ela já se consultou na Santa Casa com
uma neurologista especialista em E. M., estamos com a prescrição para
fazer as aplicações de corticoides na veia, agora só falta a Laura decidir.
– Que bom que será ela quem vai escolher o que fazer. Vai com calma.
– Pelo andar da carruagem não espero algo muito diferente, não tem
mais médicos para irmos. Apenas um médico em São Paulo disse que ela
poderia se tratar com hipnose e acupuntura. Mas ele não é neurologista.
Mesmo sendo oriental e parecer muito inteligente, além de ser chefe de
equipe num grande hospital, tenho minhas dúvidas se seu tratamento daria
certo. Ele acredita que não dá para falar em esclerose múltipla ainda. O
laudo médico trata o quadro como investigativo de doença degenerativa
do sistema nervoso. E mesmo que se confirme a esclerose múltipla, há
várias modalidades, em algumas a doença estaciona e não progride. Pois
ela não necessariamente vai piorar.
– Pelo menos foi otimista. Por que vocês não tratam com ele?
– Primeiro, é em São Paulo. Segundo, é bem caro, e na altura do
campeonato não temos como gastar sem estar acreditando. Mesmo que
não funcione o tratamento, se nós entramos acreditando que vai dar certo
já é meio caminho andado. A colaboração do paciente é fundamental.
Nesse caso não sei se ele está certo. A Laura já está fazendo terapia com
hipnose a um mês. E não posso dizer que tenha melhorado. Sem dúvida
ela tem descoberto situações importantes de seu passado que
provavelmente contribuíram para seu adoecimento. A psicóloga falou que
ela tem uma inscrição de morte em seu cérebro, e que é preciso apagar.
Não duvido nem um pouco, dado seu histórico familiar de rejeição. Laura
sempre manteve um vínculo muito forte com sua avó materna que morreu
de câncer há poucos anos. A psicóloga descobriu que, quando o
diagnóstico de câncer foi descoberto, Laura passou a desenvolver um
sentimento de negação da doença de sua avó. Diversas vezes, Laura ia
tomar banho e chorava sozinha enquanto manifestava um tremor por todo
o corpo, neste momento do banho mantinha a ideia fixa de que gostaria de
morrer caso sua avó não resistisse ao câncer. Oito anos depois, sua avó
falece de câncer num estado terminal. Cheguei a conhecê-la neste período,
estava sem cabelos, não andava mais e o corpo parecia deformado,
provavelmente fruto dos remédios da quimioterapia.
– Será que isto é possível? Alguém ter vontade de morrer e desenvolver
uma doença dessa?
– Não tenho certeza, mas é bem possível pelo que conheço de
psicologia. Sem dúvida, a hipnoterapia está sendo de suma importância,
parece ajudar a desfazer esta vontade inconsciente de morrer, e talvez
forneça a coragem necessária para buscar sua cura com afinco. Mas esse
trabalho já está sendo feito. Como é que vou fazer de novo? Teria que
conhecer muito o trabalho do médico para saber se sua hipnose é melhor
do que a da psicóloga. Quanto à acupuntura, ela já faz duas vezes na
semana com um amigo que dá aula de medicina chinesa há mais de dez
anos. Sei que ela sai das sessões de acupuntura bem aliviada, mas basta
dormir para os sintomas voltarem com força. Por enquanto, tem
funcionado bem para atenuar a rigidez muscular. Outro ponto é que
teríamos que ficar em São Paulo pelo menos um mês. No final, o custo
seria equivalente ao de ir para a Índia e ficar o mesmo tempo por lá. Com
a diferença que aposto muito mais no tratamento feito no próprio Oriente,
por uma equipe de indianos.
– Você acha que tem tanta disparidade assim entre um tratamento aqui
ou na Índia?
– Faz diferença, sim. No caso do japonês, fazer o tratamento da Laura
em São Paulo é como você assistir a um mestre de bateria levar um samba
tocado nos EUA por americano, por melhor que seja o mestre de bateria
não dá para comparar com um samba na Sapucaí.
– A diferença é que a viagem para São Paulo é bem mais tranquila do
que para a Índia.
– Sem sombra de dúvida. Mas é apostar numa tranquilidade inicial para
perder a boa equipe de profissionais que me trariam uma tranquilidade
mais na frente. Prefiro passar pela turbulência da viagem e quando estiver
lá ficar tranquilo. Mas também sei que nada garante isso. Ela pode piorar
muito por causa dos voos. É um jogo. É a hora de fazer minhas crenças
valerem. Testá-las. E, se for o caso, descartá-las. Pena que não sou eu que
está doente. Mas é como se fosse. Ou pior. Costumo ser mais responsável
com os outros do que comigo mesmo. Sei que estarei dando o melhor de
mim. Só que no final posso perceber que o melhor de mim não valia nada.
Paciência. Volto e sigo as orientações convencionais daqui.
– Não gostaria de estar na sua pele. O bom é que não teria esse conflito,
já que acredito piamente na medicina ocidental. Para mim se a medicina
não pode fazer nada é porque tudo já está resolvido. São muitos anos de
pesquisa científica para produzir remédios. Eles fazem o melhor para nós.
Pena que nem todos da sociedade possuem acesso. Mas isto não é seu
caso. Mesmo com os contratempos dos planos médicos vocês podem
pagar os extras. Se precisar de ajuda neste sentido, damos um jeito.
– Obrigado. Fico feliz de tê-lo como amigo.
– Pede um chope. Vamos saudar a vida com tudo que ela nos oferece.
– Parei de beber. Não dá mais tempo. Mas brindo com uma água tônica.
Nessas horas os amigos são grandes terapeutas, mesmo com a
discordância de pontos de vistas, minhas ideias estavam mais arrumadas.
Cada opinião de um amigo era como uma pérola rara. Outra pessoa da
nossa rede de contatos que nos motivou a investir na mesma ideia foi a
arquiteta com quem Laura trabalhava antes de adoecer. Estivemos na casa
dela em São Paulo para fazer uma consulta com o tal médico
acupunturista, indicado por ela, que não acreditou que a esclerose múltipla
fosse incurável.
Tínhamos uma relação próxima com ela e seu marido, conhecíamos sua
história pessoal e sabíamos que, apesar de sempre ter se relacionado com a
classe alta de São Paulo, estava desencantada com as promessas de luxo
que a cidade oferece a seus habitantes. Ter visitado a Índia e comparado as
filosofias de vida do Ocidente e do Oriente fez com que passasse por uma
profunda reavaliação de sua vida, e isto permitiu que apostasse em nossa
escolha de tratamento. Disse-nos sem cerimônias: “Eu não acredito que
vocês, que sempre pregaram uma vida bela, neste momento vão sucumbir
à dúvida de tentar um tratamento natural para a doença. Agora não é
momento de medos. Vocês devem tentar a Índia, e nem pensem em outra
hipótese.”
O poder da palavra de um amigo é algo sutil, porém profundo. Sei que
sua fala tocou fundo no coração de Laura e me deu forças para continuar
apostando na Índia como um caminho de tratamento. Como sementes de
plantas em solo fértil, percebemos que suas palavras estavam germinando
em nossas pretensões.
Uma vez que o mundo é feito de opostos, dos outros amigos a única
coisa que ouvíamos era: “Vocês vão deixar de fazer o tratamento
convencional que todos fazem inclusive nos EUA? Isto é loucura.”
Decidimos pela “loucura”, dois dias depois da conversa com meu amigo
de infância, optamos por ir à Índia fazer um tratamento desconhecido por
boa parte do mundo ocidental.

Enquanto os sintomas iam e vinham e as visitas aos médicos se tornavam


quase diárias, as sessões de acupuntura, semanais, as terapias de hipnose me
rasgando a alma, os exames laboratoriais repetidos – fui me dando conta de que
os médicos estavam chegando a alguma conclusão, mas que não queriam assinar
nada. E eu me via cada vez mais sem saída.
E foi aquele rapaz na sala de espera do hospital, cujo nome eu nem sabia, que
de certa forma me trouxe uma esperança.
Às vezes, a solução não está em algo correto, bonito, saudável e feliz. A
resposta está intrincada e escondida nos sinais, nas palavras e nos gestos.
O rapaz tinha cerca de 1,80 metro de altura, era forte, trabalhava na roça e
possuía, aparentemente, muita resistência física. Ele começou a contar o que fazia
ali e a explicar por que seu lado esquerdo estava paralisado. Detalhou sem eu ao
menos perguntar qualquer coisa. Relatou seus sintomas, os efeitos das tais doses
de corticoides, exaltou a médica como sua salvadora por seis meses, já que tinha
tido uma “crise dos nervos” e só mexia os olhos. E que a doutora ali dentro, atrás
daquela imensa porta, o tinha salvado e o feito voltar a andar, se mexer e
trabalhar com apenas três dias de injeções.
Mas não havia durado muito e as paralisias estavam voltando. Agora, ele
desejava mais uma dose porque, mesmo tendo tido efeitos colaterais horríveis dos
remédios, queria voltar a se mexer.
Um pânico tomou conta de mim. Era exatamente deste medicamento que eu já
tinha recebido a prescrição algumas vezes nos últimos dias. Parecia que, ao
entrar por aquela porta, a notícia seria a mesma. E entrei...
Nesses últimos dias eu me sentia melhor, já estava fazendo vários tratamentos
paralelos, inclusive um ayurvédico. Os sintomas estavam mais brandos, a
sensibilidade na pele, maior, mas ainda assim tinham dias que eram bem
comprometidos.
E, ao entrarmos por aquela porta, senti uma mistura de sensações: esperança
de uma possível solução e um medo de ter a mesma recomendação. A médica me
fazia perguntas e os residentes me observavam. Fizeram vários testes e, como eu
estava melhor naquela semana, passei na maioria deles. Mas, ainda assim, depois
de cerca de uma hora de conversa, exames e muito diálogo entre eles, veio a
prescrição: três dias de pulsoterapia.
Vendo que a situação era impossível de contornar e que àquela altura a
pressão dos meus pais, familiares e amigos para fazer o que os médicos
mandavam era grande demais, eu me vi numa encruzilhada. Era momento de
fazer a escolha: fazer o que sabia que aconteceria comigo ou partir para o total
desconhecido.
Ao fechar a porta do consultório, dar as costas à equipe medica e afirmar a
eles que ia em algumas horas dar entrada na clínica para o procedimento, uma
força e coragem tomaram conta do meu ser. Segurei a mão do Marcus e apenas
falei: “Vamos para Índia, pois eu tenho mais medo daqui do que do
desconhecido.”
Parecia insano talvez, mas aqui no Brasil, eu já tinha uma breve noção dos
acontecimentos e meu futuro, baseado nas experiências de todas as outras
pessoas com quem tive contato. Eu não queria ser mais uma cobaia no mundo dos
experimentos medicamentosos e cheios de efeitos colaterais, eu preferia ir para o
desconhecido mundo ayurvédico e talvez achar uma boa solução. Marcus já
estava com tudo pronto, passaportes, vistos, caso eu tomasse esta decisão, e sabia
que seria tudo muito rápido. E foi.
Saímos do consultório em direção à agência de viagem, compramos a
passagem e era hora de voltar para casa a fim de arrumar as malas e dar a
notícia aos meus pais.

4 Panchakarma é a terapia de rejuvenescimento, desintoxicação e purificação dos tecidos corporais


utilizada pela medicina ayurvédica através de cinco procedimentos básicos: Nasya – terapia nasal,
Vamana – terapia com vômito, Virechana – terapia com purgação, Basti – terapia de enema e
Raktamoshana – terapia com sanguessugas.

5 Vata é um dos três tipos de constituições psicobiofísicas, os chamados de doshas (Vata, Pitta e
Kapha), possíveis na tipologia de organismos das pessoas para a medicina ayurvédica indiana.
Constituído dos elementos da natureza ar e espaço, possuindo assim características corpo fino e
magro, pele e cabelos secos, comportamentos inconstantes.

6 Pitta é o tipo de constituição psicobiofísica (dosha) que é formado pelos elementos fogo e água,
possuindo características de um corpo forte, pele quente e às vezes com manchas, comportamentos
firmes e vigorosos, inteligente e crítico.

7 B.K.S. Iyengar ou Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar é um mestre de yoga nascido em


1918 na Índia. Ao ser desenganado pelos médicos quando jovem devido a suas complicações de
saúde, recebeu aulas do yogue Sri Tirumalai Krishnamacharya, que o inspirou a dedicar sua vida à
yoga a ponto desenvolver seu próprio método de ensino, sendo este difundido em todo o mundo
como método Iyengar.
O que a sabedoria
oriental me ensinou
A importância dos alimentos

A questão alimentar acabou se mostrando uma experiência reveladora


para nós durante o tratamento ayurvédico, bem como nos meses que se
seguiram, por isso gostaria de abordá-la agora, o que facilitará a
compreensão dos fatos transcorridos conosco durante os tratamentos na
Índia.
O quadro de Laura ia se mostrando estar intimamente relacionado à
alimentação, apesar de os médicos alopáticos afirmarem que a doença não
tinha qualquer correlação com a dieta alimentar. Enquanto estávamos
testando diversos médicos, fomos indicados a um naturalista, que
orientava seus pacientes a se alimentarem com vegetais e grãos crus, como
forma de limpar o organismo, além disto ele mandava reduzir o consumo
de óleo e gorduras. Em uma semana Laura piorou significativamente, e
abortamos suas orientações. O crudismo8 está em voga mas, apesar dos
benefícios que gera, não creio que seja indicado para todas as pessoas e
todos os problemas de saúde. Como veremos, segundo a alimentação
ayurvédica, para algumas pessoas comer alimento cru promove sinais de
saúde, enquanto para outras, conforme sua constituição metabólica, pode
levar ao desenvolvimento várias doenças. Na época pensávamos que
apenas veneno matasse. O resto era muito mais uma questão de gosto. Uns
gostam de batata e outros, de cenouras, nada mais. Mas o que descobrimos
é que para uns a batata pode ser um veneno, enquanto para outros, um
remédio. E para Laura o exemplo da batata se encaixava perfeitamente,
era um veneno.
Somado a outros episódios, em que alteramos a alimentação e notamos
os efeitos sobre os sintomas da E. M., concluímos que não havia como
negligenciar esse aspecto. Muito se fala sobre os alimentos e suas
propriedades, mas a abordagem ayurvédica é uma visão completamente
diferente do que estamos acostumados a ver. Somente quando buscamos
compreender o funcionamento da Ayurveda é que, pouco a pouco, fomos
aprendendo a forma de utilizar o alimento como um remédio. Hoje posso
afirmar que a alimentação é um alicerce para a manutenção da saúde,
sendo um dos fortes “remédios” para quem possui uma patologia severa.
Quando conto isso para as pessoas que conheço percebo certa
desconfiança. Afinal, o tempo todo os jornais divulgam os benefícios de
cada alimento, tudo com base científica. Realmente também desconfiaria
se alguém viesse a afirmar que, pela minha constituição biofísica, ou
melhor, por um tal de dosha,9 deveria evitar comer batatas, pois poderei
ficar doente. Pensaria imediatamente: “Doente é você que está dizendo
isso.” A influência direta dos alimentos na saúde ainda é um mistério para
a medicina convencional; a cada ano se descobrem novas propriedades
dos alimentos e surgem novas dietas. Mas hoje estou convicto dessa
influência em razão de minha experiência pessoal e de minha
companheira, além do que, descobri os pilares que fundamentam o
conhecimento da Ayurveda, que milenarmente estabeleceu estas “regras”
validadas até hoje na Ásia e incorporadas por muitos nos EUA e Europa.
Para a Ayurveda cada pessoa tem o poder de curar a si mesma, basta
entender o funcionamento do corpo e suas necessidades. A alimentação é
a ferramenta fundamental para suprir as necessidades do indivíduo. As
orientações alimentares da Ayurveda são determinadas pelo biótipo ou
dosha de cada pessoa e por seus desequilíbrios. Somente observando o
sujeito para identificar seu dosha, assim é que podemos saber as suas
necessidades para a reversão da doença. Não há receitas únicas, mas pelo
menos três tipos de dietas – Vata, Kapha e Pitta – o que dificulta um
pouco nossa compreensão generalista e leva muitos a acreditarem que não
se trata de um sistema organizado de saúde. Contudo, é nessa leitura
individual, ou pelo menos para cada dosha, que mora o segredo da
medicina indiana.
Depois de identificar o dosha é que teremos a seleção adequada dos
alimentos que estabilizam seu corpo. Desta forma, quem possui um dosha
Vata deve se alimentar de maneira diferente quase em tudo de quem é
Pitta, ou Kapha.
O corpo na visão ayurvédica é um sistema de fluxo de elementos
constituidores dos organismos humanos, que se condensam de forma
distinta em cada pessoa, formando seu dosha. Devido a essa constituição
particular de cada um, existem órgãos com uma atividade mais saudável
ou não. Conforme o tipo de dosha da pessoa alguns órgãos vão trabalhar
mais sobrecarregados. Por exemplo, o sistema nervoso é mais sensível
numa pessoa de dosha Vata; sendo assim, a pessoa é propensa a alterações
frequentes neste tecido, caso absorva do mundo exterior alimentos ou
rotinas que agravem seus elementos constituidores.
Para essa medicina é simples observar as tendências físicas e mentais de
uma pessoa depois de identificar seu tipo de dosha. De forma
simplificada, apresento algumas características de cada constituição ou
biótipo.

Vata – Corpo de estrutura óssea fina, magro, pele e cabelos secos,


unhas fracas, mente ativa e agitada, muitas ideias, temperamento
tímido e ações orientadas pelo medo.
Pitta – Corpo com estrutura bem desenvolvida, pele com marcas ou
vermelhidões, mente analítica e aguda, temperamento argumentativo
e ações orientadas pela reação.
Kapha – Corpo forte e largo, tecido adiposo destacado, cabelos e pele
oleosos, mente letárgica, temperamento dócil e cooperativo, ações
orientadas pela parcimônia.

Portanto, as pessoas de dosha Vata, por exemplo, são em sua maioria as


que desenvolvem problemas no sistema nervoso e na estrutura óssea,
situação atípica para uma pessoa de dosha Kapha, que possui uma
tendência a manter-se calma e uma estrutura óssea robusta e saudável. O
sistema da Ayurveda consegue prever tão bem o nosso futuro de
patologias possíveis que podemos usar a alimentação para reduzir as
chances de desenvolvermos as doenças a que somos mais propensos.
É interessante notar que a Ayurveda considera o uso de medicamentos à
base de ervas como um recurso principal. Uma cirurgia é aventada
somente em casos extremos, assim como a utilização de medicamentos
sintéticos, uma vez que trazem tanto malefícios quanto benefícios para a
saúde.
O fato de usualmente decidirmos tomar um remédio para curar uma
doença mantendo toda a alimentação da mesma forma é algo inimaginável
para os profissionais da Ayurveda. Para eles, a atitude de tomar um
comprimido toda vez que se sente uma dor de cabeça e achar que a vida
vai bem é um equívoco.
As doenças surgem do desconhecimento de como se portar no mundo, o
que leva a formarmos escolhas pobres em nosso estilo de vida. Criamos
hábitos inadequados de alimentação, de pensamentos, de moradia, de
trabalho, de relacionamentos, formando um campo fértil para o
surgimento das doenças. A importância de sabermos viver em paz com a
nossa natureza é primordial para qualquer alteração de dieta alimentar.
Uma adequada escolha alimentar pode ficar prejudicada se não mudarmos
rotinas e hábitos doentios.
As terapias ayurvédicas englobam, além das dietas alimentares, o uso de
ervas e a mudança de estilo de vida. Caso ocorra o descuido de um desses
aspectos, os benefícios gerados por outro procedimento podem ter seus
ganhos anulados. Pouco vale regularizar sua dieta de acordo com sua
constituição, ou seja, seu dosha, e manter um vício que seja. Muitos
alimentos podem agravar uma gastrite. Uma dieta apropriada pode
eliminar os alimentos que agridem um organismo propenso à gastrite e
adicionar alimentos que acalmam e estabilizam todo o trato digestivo,
porém de pouco adianta a mudança de dieta se o indivíduo não deixa de
fumar, por exemplo. O equilíbrio saudável do corpo é tênue e não
consegue aceitar todos os excessos que cometemos dentro da faixa de
normalidade social, tais como: bebidas alcoólicas, alimentos estimulantes,
processados ou enlatados, frituras, gorduras sintéticas, refrigerantes etc.
Quando a severidade da doença indica a aplicação de panchakarma para
desintoxicação do corpo, a dieta alimentar deve ser rigidamente
observada, pois após a “limpeza” dos tecidos o corpo necessita de
alimento adequado para que se recomponham os tecidos saudavelmente.
Caso contrário, a desintoxicação terá um efeito inverso, aumentando o
nível de toxinas no organismo.
Sabemos que os alimentos carregam uma memória de prazer associada.
Por exemplo, quem sempre comeu fritura, tal qual aquela batata frita
entregue com carinho pela mãe, guardará sempre essa memória emocional
de afeto vinculada. Todos sabemos a carga emocional que os alimentos
possuem. Quem nunca assaltou a geladeira quando a tristeza bate à porta?
Logo não é tarefa simples alterar uma dieta alimentar para outra, mesmo
que a nova seja mais saudável. É necessário um tempo para que possamos
perceber os reais benefícios e nos abstermos dos antigos hábitos; o ideal é
que seja gradual.
Depois de escolhida a gama de alimentos indicados e não indicados para
o nosso dosha, deve-se ter claro que os alimentos ingeridos também
devem ser saudáveis, ou seja, frescos e livres de agrotóxicos. Não se
guarda um alimento por mais de três horas depois de preparada a refeição.
O que é vitalidade vai aos poucos se transformando em toxinas, mesmo
que o alimento não exale odores desagradáveis.
Por último, a Ayurveda elege como a função mais relevante do
organismo o processo digestivo, conhecido por agni, ou fogo digestivo.
Dizem que somos o que comemos, contudo, o que de fato somos é o que
comemos associado à nossa capacidade de digerir, ou seja, somos o que
digerimos. Quando não há fogo digestivo no organismo pouco adianta
escolher alimentos saudáveis e apropriados para o nosso dosha. Um
organismo com desequilíbrio na capacidade de processar o alimento
certamente formará muitas toxinas, como resultado de uma digestão
empobrecida, que propiciarão a formação de doenças. Logo fica fácil
inferir que não se deve beber durante a refeição, a não ser as bebidas que
possuem essa capacidade de aumentar o fogo digestivo, que certamente
não são os sucos ou refrigerantes gelados que nós costumamos ingerir. O
mais adequado seria fazer como japoneses, que bebem chás digestivos. A
bebida quente ajuda a dissolver a gordura e as ervas de propriedades
quentes ativam o metabolismo durante a digestão, capacidade também
encontrada no chá indiano, o chai.
Os temperos na culinária indiana também possuem a responsabilidade
de promover a estimulação do fogo digestivo. Somente a partir da
“quebra” completa dos alimentos é que acontece uma salutar absorção dos
nutrientes e conseguimos alcançar o efeito terapêutico pretendido com a
alimentação.
Além de não existir na Ayurveda uma dieta única e adequada para todas
as pessoas, esta dieta, de acordo com o tipo constitucional da pessoa, não
se dá por toda a vida. Haverá momentos em que sua dieta deverá ser
alterada para buscar o rebalanceamento do seu organismo dentro de um
funcionamento compatível de seu dosha. A vida é uma eterna mudança;
mudança que também ocorre com o nosso corpo. A beleza está em saber
como mudar para acompanhar o fluxo da vida com o mínimo de
turbulências em nosso organismo.
8 Crudismo é um regime alimentar à base de frutas, vegetais, hortaliças, castanhas, grãos e sementes
germinadas, consumidos absolutamente crus, ou aquecidos até 400C.

9 Dosha é a constituição psicobiofísica da pessoa, ou seja, uma espécie de característica de


funcionamento de seu organismo, ele pode ser de três tipos: Vata, Pitta e Kapha.
A viagem para a Índia

Depois da consulta com a especialista em E. M. e da conversa com Luis


não tivemos mais dúvidas. Luis ajudou-me a organizar minhas ideias.
Contei a Laura sobre o nosso encontro e ela tomou a iniciativa de dizer:
“Vamos para a Índia. Seja o que Deus quiser. Estou com mais medo de
ficar aqui do que de ir para lá.” No mesmo dia confirmei nossa ida para a
clínica do Dr. Bokulam e comprei as passagens. No dia seguinte, à tarde,
estávamos embarcando.
Antes de pegar o avião tomamos algumas precauções, tais como,
comprar óleo vegetal para passar no corpo durante o voo, a fim de
minimizar os efeitos do ar seco e frio do avião e comprar um casaco novo
adequado para a viagem. No dia anterior ao voo, depois de comprar as
passagens, fomos ao shopping comprar mais alguns itens. Laura estava
muito cansada. Apesar da dificuldade visual fez questão de escolher seu
casaco. Como estávamos algum tempo vasculhando as lojas na busca da
melhor opção resolvemos fazer um lanche.
Escolhemos uma loja de sucos e sanduíches. Laura pediu um suco e um
salgado integral, que a princípio pareciam muito inofensivos e de certa
forma não eram antagônicos às recomendações alimentares que vinha
seguindo de acordo com as dicas ayurvédicas da terapeuta, muito embora
também não fossem exatamente o aconselhável, mas estava acostumada a
essa combinação.
Após comermos voltamos à loja onde havíamos decidido comprar o
casaco. Enquanto estávamos na fila para pagar, Laura ficou muito mal, sua
pele estava pálida, disse que as câimbras estavam voltando com força e
que teria que se sentar. Orientei-a a ficar no banco em frente à loja, mas
avisou que tinha fortes cólicas e que iria ao banheiro antes.
Fiquei muito preocupado, mas era importante fechar logo a compra, o
casaco seria imprescindível durante a viagem. Quando saí da loja ela
estava sentada no banco e disse que havia liberado os intestinos e que se
sentia melhor.
Suspeitei que o lanche tinha influenciado no seu estado, mas não sabia
como. Senti que seria uma situação de risco viajar de avião quando não se
pode escolher exatamente o que se pretende comer, ela poderia piorar
durante o voo por causa disso. Tive clareza de que não possuía
conhecimento suficiente para administrar seu estado durante a viagem. Por
outro lado, parecia que a alimentação de fato era um fator essencial para
sua saúde e que o curto tratamento ayurvédico tinha tornado essa relação
mais evidente, e, portanto, uma dieta adequada poderia realmente ser o
caminho para sua cura, principalmente após um tratamento ayurvédico
especializado. Tinha que arriscar e enfrentar as dificuldades que viessem a
surgir durante a viagem, a escolha já estava feita. Diante disto resolvi
encher uma bolsa de mão com alguns alimentos que a terapeuta
ayurvédica havia prescrito.
Não quis entrar em detalhes sobre isso com ela, tinha que me concentrar
em preparar tudo para embarcarmos no dia seguinte para São Paulo e
esperar o voo internacional à tarde para a África. Nunca tinha usado essa
rota, mas fora a melhor passagem que conseguimos, pois os voos estavam
cheios. A vantagem era o tempo de percurso menor do que o das rotas
pela Europa.
Quando chegamos a São Paulo para esperar o voo internacional, quatro
horas mais tarde, percebemos que o ambiente com a refrigeração fechada
do aeroporto estava minando suas forças. Tentamos ficar nos bancos do
lado de fora, mas tivemos de disputar o espaço com fumantes – uma
escolha difícil, fumaça de cigarro ou o ar viciado e seco de dentro do
prédio. Tivemos que almoçar no aeroporto e tomamos cuidado com a
escolha do que comer, apenas arroz e cenouras cozidas.
Durante o voo sempre evitávamos os alimentos que pareciam
desaconselháveis para seu caso e, apesar do ar condicionado dentro do
avião, que ressecava demasiadamente seu corpo e seus olhos,
conseguimos chegar relativamente bem à África, para a conexão de três
horas. Tínhamos claro que o importante era manter seu corpo com
bastante óleo na pele e bem hidratado, além da escolha atenciosa do que se
alimentar.
O cansaço de seu corpo era nítido, mas por sorte consegui deixá-la
sozinha em dois bancos durante o voo, o que permitiu que chegasse à
Índia menos mal.
Pela manhã acordamos cansados, mas parecia que tínhamos sido
vitoriosos, estávamos na Índia. De certa forma ficamos felizes, o que nos
permitiu fazer um pequeno passeio nos arredores do hotel para comprar
frutas e almoçar. A comida na Índia, apesar de apimentada, é muito
saborosa, e Laura escolheu um prato vegetariano com cogumelos do tipo
champignons, que comumente comíamos na viagem anterior.
Após a refeição, nos arrumamos rapidamente e fomos para o aeroporto
doméstico. Os voos estavam atrasados e havia muitos passageiros
aguardando, sentados no chão. As filas para embarcar eram enormes e se
formavam antes mesmo de o voo estar com sua partida confirmada. Nosso
horário de embarque já tinha passado em duas horas e meia e estava sem
previsão.
Laura começou a passar mal e a ficar com muitas câimbras; seu corpo
tremia por dentro. Tentei acalmá-la. Faltava pouco para chegarmos ao
hospital. O voo confirmou sua partida e logo se formou uma fila na frente
do portão de embarque. Fui para a fila enquanto Laura ficou aguardando
nas escadas do saguão de embarque. Sua feição era de desespero.
Mantinha contato visual com ela e buscava contornar o tumulto. Percebi
que a fila iria começar a andar e chamei-a para que viesse para o meu
lado; contudo a essa altura ela era incapaz de andar, apenas as lágrimas
escorriam em seu rosto, enquanto dizia: “Não consigo andar, não consigo
mais andar.” Mesmo com duas mochilas para segurar, fui até ela e agarrei-
a por baixo dos braços, arrastando-a para fila. Algumas pessoas se davam
conta da minha situação e liberavam algum espaço para nós, enquanto
outros continuavam envolvidos com o desespero de embarcar no avião e
nos empurravam. Meus braços estavam fatigados e fracos, mas, mesmo
assim, fui subindo as escadas que acessavam o avião, sem saber
exatamente como. Enfim , só sei que chegamos lá dentro e encontramos
nossos assentos.
Durante o voo Laura tremia, seu corpo estava manifestando uma crise
da doença mas, como no dia do shopping, tinha vontade de vomitar e
liberar os intestinos. A passageira ao nosso lado quis saber o que estava
acontecendo, mostrando-se preocupada. A única atitude que pude tomar
foi manejar para que Laura pudesse ir ao banheiro e aquecê-la.
Após duas horas de voo chegamos em Trivrandrum, cidade ao sul da
Índia. Contratei um táxi e fomos para um bom hotel. O taxista ainda
tentou nos levar para um hotel no qual ele recebia comissão, mas fui
rigoroso em afirmar que nem tentasse trocar e nos levar para outro hotel.
Mesmo assim, deu uma volta pela cidade para ver se eu mudava de ideia.
Quando entramos no quarto do hotel a situação melhorou um pouco.
Laura foi direto para o banheiro. Mais um evento que sugeria que o
sistema digestivo tinha ligação com os sintomas da E. M. Apesar da
minha exaustão física e psíquica sentia-me mais tranquilo por dentro ao
perceber que haveria alguma chance de regularizarmos o problema.
No início da noite dormi e acordei de hora em hora para saber como ela
estava. Ela também só apagou por causa da exaustão, mas voltou a acordar
reclamando das dores e câimbras. No final da noite, apesar de
compreender sua situação desesperadora, pedi que mesmo que sentisse
fortes dores me deixasse dormir por mais uma hora, para que pudesse ter
condições para administrar a viagem do dia seguinte, e desmaiei de sono.
Acordamos cedo, e às 6h20 chegamos à estação de trem. O bilhete
marcava 6h40 e parecia que teríamos tempo de sobra, uma vez que o trem
viria parando em várias outras estações e dificilmente chegaria no horário.
É comum na Índia o trem sair atrasado, exceto na primeira estação.
Gastamos algum tempo tentando localizar a plataforma de embarque. As
sinalizações eram precárias e conseguimos no guichê a informação de que
a plataforma era a de número quatro. Isto significava que deveríamos subir
as escadas para ir ao outro lado da estação. Laura estava cansada e a
travessia foi lenta. Estávamos tranquilos quanto ao horário, pois dava para
ver que não havia trem na plataforma, o que significava que estava por
chegar, para variar, atrasado.
Alcançamos a plataforma às 6h40. Em seguida, surge um trem com
numeração diferente da que constava no bilhete. Como não se tratava de
nosso trem fui a um quiosque comprar nosso café da manhã, leite com
cardamono10 e bolo.
Laura ficou preocupada de aquele ser nosso trem para a clínica. Resolvi
perguntar a um homem de uniforme sobre o número de trem e ele
informou que eu deveria perguntar ao maquinista. Estávamos muito longe
do maquinista, não daria tempo. Neste momento surgiu um rapaz de
uniforme vermelho, que identifiquei como sendo um vendedor ambulante
de bebidas do trem. Avisou-nos que o trem iria para Chengannur, uma
cidade próxima à da clínica. Comentei sobre o vagão especial com ar-
condicionado, o desejado tipo A/C. Ele disse que existia, mas que não
havia tempo de embarcarmos nele, pois o trem acabara de soltar o terceiro
apito, deveríamos embarcar na classe comum e trocar de vagão na
próxima parada.
Avisei a Laura que tínhamos de entrar imediatamente no trem e depois
trocaríamos de classe. No impacto da necessidade de tomar uma decisão
de ter de viajar em classe comum sem saber se realmente se tratava do
trem correto, e ainda por cima sentindo-se mal, respondeu por reflexo que
não iria. A classe comum é uma experiência pouco recomendada para
quem não está acostumado e em boas condições físicas, bancos de
madeira para três pessoas são ocupados, muitas vezes, por mais de oito.
Acima dos bancos, nos bagageiros, mais passageiros disputam espaço
junto às malas, deixando por vezes suas pernas pendentes sobre os
passageiros de baixo. Os ventiladores de teto acabam se transformando em
sapateiras, pois as pessoas que subiram para os bagageiros querem ficar
sem sapatos, mas sabem que se deixarem os sapatos no chão não os
encontrarão mais quando descerem. No chão forma-se um tapete vivo
criado por várias pessoas que viajam sentadas diretamente no assoalho do
trem. E para se locomover dentro do vagão é como o milagre de andar
sobre as águas – temos de medir o próximo passo trocando o peso do
apoio do pé de trás para o outro, que investiga um novo espaço para se
apoiar à frente. A tarefa simples de andar torna-se uma experiência de
equilíbrio e respeito ao próximo, pois em apenas um deslize pode-se pisar
em alguém.
O trem partiu e ela caiu num choro copioso. Ficamos nervosos, e ela
entrou em desespero devido às dores das câimbras que aumentaram com a
tensão da situação. Fiquei fora de mim, não sabia quando viria outro trem
e ela estava piorando a cada momento. Gritei: “Não acredito, perdemos o
trem!” Pedi que parasse de chorar e se acalmasse, pois tinha que ter
tranquilidade para solucionar a situação e seu choro só me deixava
nervoso, em nada resolvia o problema. Sem querer, fui rude.
Após alguns instantes de silêncio, acalmei-a e expliquei que não havia
motivo para desespero, estávamos há três horas da clínica. O pior já tinha
passado durante os voos. Em último caso, pegaríamos um táxi, pois
mesmo que demorasse mais nos deixaria lá. Os trens geralmente são bem
mais rápidos do que as estradas estreitas e esburacadas do país.
Sentado, puxei um papel do bolso com as anotações que fiz no dia
anterior quando fui comprar os tíquetes, onde havia o horário dos outros
trens para o mesmo destino. Sim, havia outro trem em pouco tempo, às 8
horas. Resolvemos que seria melhor confirmar se o bilhete do trem
perdido serviria para o próximo trem. Deixe-a só num banco com as
mochilas, enquanto fui me entender com os funcionários do guichê de
venda de passagem. Essa é uma tarefa árdua na Índia. Talvez tenha sido
por causa dessa situação que a expressão fila indiana tenha surgido. As
filas são longas até mesmo para se conseguir informações. Todos ficam
grudados uns aos outros, já que é frequente a tentativa de alguém furar a
fila.
Quando consegui chegar ao guichê de informações, o funcionário ficou
sem atitude. Perguntei-lhe se poderia embarcar no próximo trem, mas ele
olhava para o bilhete e nada respondia. Comecei a ficar agoniado. O que
será que há de tão difícil para entender que havíamos perdido o trem?
Talvez não compreendesse meu inglês. Mas o bilhete era autoexplicativo,
tinha campo com data, horário, classe, número do trem e destino.
Por fim, fez um gesto para que saísse da fila e fosse para o lado. Fiquei
na dúvida se atendia sua ordem de filme mudo. Levantou-se da cadeira e
sumiu. O que fazer? Resolvi entrar na fila de vendas e comprar outro
bilhete. Após vinte minutos, suando frio de preocupação com Laura, mas
sabendo que deveria resolver a situação o quanto antes, pois certamente se
decidíssemos pegar um táxi outra novela se desenrolaria, o funcionário
apareceu ao meu lado e disse para me dirigir ao caixa em que havia
comprado os bilhetes do trem perdido.
No novo guichê, uma moça atendeu-me, expliquei o ocorrido. Ela
também passou a olhar o bilhete sem muita reação e perguntou algo para o
colega ao lado. Não conseguia acreditar que estava neste emaranhado sem
saber como estava Laura e sem desatar o nó. Já eram quase 8h, estava
prestes a perder o outro trem. Mostrei o dinheiro para comprar outro
bilhete na melhor classe. Desta vez funcionou. Ela perguntou: “Para o
próximo?” Respondi: “Sim, Sim, correto.” O suspense acabou. Fez as
contas e disse que eu só teria 50% de reembolso, no que concordei de
pronto. Paguei, e, com os novos bilhetes à mão, fui ao guichê de
informações para saber a plataforma de embarque, e como o mundo é
redondo desta vez fui eu quem estava a “furar” a fila. Pronto. Por sorte, a
mesma plataforma.
Cheguei à plataforma junto com o trem. Sem tempo de explicar o que
ocorrera, peguei ambas as mochilas e puxei Laura pelo braço. “Vamos,
vamos, esse não perderemos.” E embarcamos, depois de enfrentar o
empurra-empurra de quem entra e quem sai do vagão. Sentei ofegante e
ela deitou no meu colo. O vagão era sleep class, ou seja, havia camas.
Agradeci aos céus por ter superado a situação.
Eram quatro camas por cabine, o nosso único companheiro não parava
de falar no telefone celular, que ainda era uma grande novidade para os
indianos, e como tudo que é novo, usamos sem parar. A modernidade não
afetava seus velhos hábitos culturais, de tempos em tempos liberava gases.
Certamente o acúmulo de gases é sinal de disfunção no organismo e
mantê-los preso é a pior estratégia para a saúde, agrava Vayu11 a ponto de
poder gerar dores no tórax. Sei que, para nossa orientação de costumes e
educação, repleto de boas etiquetas e pudor, tal atitude é execrável.
Levamos isso tão a sério que, por nos acharmos limpos e educados,
procuramos reprimi-los a vida inteira, principalmente as mulheres, o que
só agrava cada vez mais a constipação, já que a existência de ar nos
intestinos faz secar ainda mais as fezes. Sem dúvida, a etiqueta nos
adoece.
Laura se protegeu do frio do ar-condicionado. Era uma opção difícil
entre ficar no aperto da classe comum de vagão, porém na temperatura
ambiente, ou ficar com espaço, contudo num frio gélido do ar-
condicionado, que afetava sua saúde, aumentando as câimbras. Na Índia
não há muito meio-termo: ou é muito quente ou muito frio, ou muito
salgado ou extremamente doce. Ou sobra espaço no vagão ou as pessoas
ocupam até o bagageiro reservado para as malas sobre as cabeças de quem
senta em baixo, espremido com as oito pessoas no lugar de três.
Conseguimos administrar o frio do vagão e, antes das três horas de
viagem, que fora o tempo informado para chegada a Chengannur,
estávamos na estação. Por sorte, tinha acordado para beber água naquele
momento, pois após uma hora de viagem, o cansaço venceu-me e apaguei
sentado.
Saltamos do trem e caminhamos em direção aos táxis brancos, apesar
dos motoristas de autorickshaw12 nos chamarem insistentemente. Dirigiu-
se a nós um senhor com um bigode enorme e vestido com uma saia branca
dobrada nos joelhos, roupa usual para homens no sul do país.
Mostrei-lhe o que havia de mapa da localização da clínica, além do
folder que guardara do ano anterior. Formou-se uma reunião de motoristas
ao redor dos papéis, cada um dava uma opinião. Após alguns minutos um
outro motorista fez sinal de positivo, deu o preço em inglês e a distância,
treze quilômetros. Pelo visto era o único que sabia bem inglês.
Quando chegávamos perto da clínica reconheci o local, pedi que parasse
o carro. O taxista avisou que a clínica tinha mudado de lugar, tínhamos de
prosseguir um pouco mais.
Laura mostrava uma fisionomia abatida, mal conseguia manter-se ereta
no assento do carro. Os óculos escuros protegiam sua visão comprometida
e fotofóbica. Um pensamento veio a minha mente de que este era o início
do fim dessa jornada em busca da cura. Espontaneamente registrei o
momento com a câmera fotográfica. Hoje, quando revejo a foto, sinto um
aperto no peito, mas depois um alívio nos ombros.
10 Cardamono é uma especiaria de aroma refrescante e de propriedades digestivas.

11 Vayu é um conceito da cultura védica indiana que faz referência aos tipos de ares que circulam no
corpo humano, sendo o principal deles o da respiração, mas também engloba outros, como o ar nos
intestinos. Estes ares em excesso no corpo de certas pessoas são muito prejudiciais.

12 Rickshaw literalmente significa carruagem cuja força é de um homem, referência à época em que
não havia motores e a carruagem era puxada por um homem, como ainda é em muitas cidades do
interior da Índia. Na verdade, o nome atual é autorickshaw, pois são motorizados em sua grande
maioria.
A chegada à clínica ayurvédica

Chegamos à clínica e logo avisaram ao médico Dr. Bokulam. Ele


interrompeu a consulta que estava em andamento, para nos dar as boas-
vindas. Perguntou se fizéramos boa viagem e avisou que havia um quarto
nos esperando, caso concordássemos. Aceitei de imediato, mesmo sem
verificar as acomodações. Como Laura estava com muita dificuldade
motora, não fazia sentido ficar longe da clínica para garantir algum
conforto a mais. Mandou que nos levassem ao quarto e assegurou que, em
uma hora, faria a consulta inicial para definir o tratamento.
Dr. Bokulam era um homem de seus 45 anos, alto, usava um bigode,
como de costume na Índia, e uma marca vermelha entre as sobrancelhas,
sinal de pertencer a uma das linhas de hinduísmo. Vestia-se de maneira
ocidental: com calça e camisa sociais, contudo preservando um estilo
oriental à moda indiana. Tinha um belo sorriso e era muito simpático.
Quando bateu na porta para a consulta estávamos descansando nas camas.
Levantei-me rapidamente ainda com feições de sono combinadas com
estafa. Abri a porta e ele entrou, sentando-se em uma das camas à frente
de Laura, que a esta altura já estava sentada de pernas cruzadas sobre o
colchão. Creio que Laura o motivou a deixar a etiqueta ocidental de lado,
pois, imediatamente, retirou os sapatos e também cruzou as pernas sobre a
cama.
Perguntou como ela estava, pediu os exames realizados no Brasil, ouviu
tudo, observou os exames, balançou a cabeça num sinal de negatividade,
mas que para eles mostra uma concordância com o que ouve. Aplicou
vários testes de reflexo e sensibilidade nas pernas, constatando que a perna
direita não esboçava a menor reação. Pegou o telefone, falou com alguém
em sua língua nativa, o malayalam. Ao desligar, olhou-nos firmemente e
em tom sério nos disse: “Podemos dar um jeito em tudo, mas será
necessário a ajuda dos deuses. A reza será fundamental para o sucesso do
tratamento.” A necessidade de dedicação à entrega espiritual batia com
força na porta da vida de Laura. Por vezes, Laura manifestara a opinião de
que minha prática matutina de meditação era desnecessária, mas agora
parecia ser imprescindível a ela.
O médico voltou-se para mim e perguntou quem havia formulado o
diagnóstico de esclerose múltipla. Dr. Bokulam, além de formado em
medicina ayurvédica, uma faculdade de pelo menos oito anos, e de possuir
diversos títulos de reconhecimento médico dentro de seu país, já havia
palestrado em vários seminários internacionais de oftalmologia; portanto,
conhecia bem os métodos de diagnósticos convencionais. Os exames
deixavam claro que ocorria a desmielinização do nervo ótico, mas ainda
não havia evidências de placas de escleras no cérebro. Muitas vezes são
necessários anos de convívio com a doença até que surjam tais sinais nos
exames neurológicos. Informei que tínhamos mais exames solicitados por
uma neurologista especialista em esclerose múltipla, dos quais estávamos
aguardando os resultados.
O médico não fez comentário algum e resolveu iniciar sua avaliação
para definir o tratamento. Pegou o pulso de Laura e observou em silêncio.
Parecia estar tocando um instrumento musical. Usava três dedos sobre a
artéria do pulso e alterava constantemente a pressão exercida pelos dedos
sobre seu punho. Após alguns instantes comentou:
– O Vata está muito desequilibrado, o tratamento começará ainda hoje.
Na Índia, os exames clínicos, aqueles aplicados pelo próprio médico,
são soberanos. Na medicina ayurvédica a sensibilidade do médico é o que
identifica a patologia, seja pela observação dos tipos de pulsos, verificados
com seus próprios dedos, seja pela análise do aspecto da língua do
paciente e das outras alterações apresentadas. A língua é testemunha do
que ocorre com nossos processos bioquímicos. Através de um olhar
treinado é fácil verificar pela coloração e alterações na textura e formato o
que se passa com todo o nosso trato digestivo, pois faz parte de um
sistema único. Afinal, a digestão começa na boca e vai até os intestinos.
Como a visão é holística, verificando o estado do sistema digestivo pode
se inferir o que ocorre com várias reações em outros órgãos. Já o pulso,
além de acusar alterações no coração, revela nosso estado mental e
metabólico através dos tipos de batimentos cardíacos, que, conforme o
caso, são testemunhas de uma série de alterações no corpo.
Eles entendem que o homem é um organismo vivo, cujas partes
interagem a cada segundo com as outras. O órgão doente é a manifestação
de desequilíbrio de um todo. O que se busca não é sanar o órgão doente e
sim restabelecer o equilíbrio perdido do ser, para que naturalmente o órgão
doente não precise ser o mensageiro da desarmonia. Portanto, gastar toda
a atenção observando pormenorizadamente o órgão afetado, com olhar
microscópico e tecnológico, é perda de tempo. Muito mais vale entender
os caminhos e sinais do desequilíbrio deixados pelo corpo todo do
paciente, bem como pela sua mente.
Logo em seguida, Dr. Bokulam perguntou sobre meu problema nos
olhos, uma vez que tinha escrito no último e-mail que ainda estava com
pterígio. Mostrei-lhe a vista de perto. Disse-me que parecia estar num
estágio bem avançado e que o ideal era operar para remover a pele, para
somente depois realizar o tratamento ayurvédico, para que não voltasse a
crescer. Contudo, devido à oportunidade de estar na clínica por vários dias
para acompanhar o tratamento de Laura ele faria o tratamento antes da
operação.
Fiquei um pouco decepcionado, mas sabia que desde a última vez que
estive na clínica a pele realmente tinha evoluído bastante a ponto de cobrir
parte da íris. Como já disse, a médica que havia me atendido falara que
deveria ficar internado catorze dias para eliminar o pterígio e que se
esperasse muito poderia não ser possível ter sucesso no tratamento
ayurvédico. Um ano foi tempo demasiado. Isto provou que em vários
casos a união de ambas as medicinas é a receita para uma visão de saúde
mais completa. Apenas operar sem remover os processos que geraram os
tecidos alterados nos olhos não impede que eles voltem a surgir. Por outro
lado, eliminar o processo que provoca os tecidos não é garantia de
remover o que já foi afetado.
Encerrada a consulta, fomos levados à sala do médico, onde Laura
realizou testes visuais. Realmente, sua visão estava bastante
comprometida. Um dos olhos lia somente as letras garrafais. Enquanto se
procediam os exames visuais, a médica assistente tomava nota de toda a
rotina de tratamentos a serem realizados nos 21 dias da internação. No
final, pediu para que aguardássemos no quarto, pois logo seríamos
chamados para o início do tratamento.
Detalhes sobre a clínica

Mesmo ainda inebriado pelo cansaço, não pude deixar de notar alguns
detalhes sobre a clínica. Certas evidências de que estávamos do outro lado
do mundo eram nítidas, de certa forma lembravam cenas de um Brasil
rural, mas ainda assim eram exóticas para nós. Outros detalhes eram sutis,
porém seriam os mais marcantes quanto ao que diferia de um tratamento
de saúde ocidental; forneciam a peculiaridade de uma forma de cuidar à
moda indiana.
A falta de limpeza, pelo menos para nossos padrões, era gritante. O
mofo fazia desenhos nas paredes coloridas. Pedaços do teto ameaçavam
cair. Apesar do ar-condicionado, as constantes quedas de luz tornavam-no
um objeto decorativo. Existia uma televisão no quarto, apesar de não nos
ser recomendado assistir a qualquer programação, já que estávamos em
tratamento visual. Como se tratava de uma clínica de oftalmologia e
panchakarma, sobrava a pergunta: por que existir uma televisão no quarto
para os pacientes? Talvez a resposta fosse uma necessidade de expressar o
acesso à modernidade, mesmo que não fosse conveniente para o
tratamento. As eclosões de novas tecnologias parecem estar tomando
conta da Índia sem permitir a oportunidade de se pensar sobre a
adequabilidade do que se oferece nos centros de consumo. O desejo de ter
e mostrar o que possui também contamina os ambientes que preservam as
tradições milenares de medicina e até os templos. Não é raro encontrar
templos centenários ornados com colares luminosos sobre as estátuas,
combinando a arte milenar com o mau gosto da modernidade. Luzes que
apagam o brilho das deusas e deuses esculpidos com os mais reluzentes
contornos nas pedras centenárias.
Na recepção havia marcas na parede, logo acima das cadeiras, como
uma indicação de onde descansar a cabeça assim que se sentasse.
Realmente, os tratamentos eram à base de massagens com óleos e as
paredes testemunhavam essa técnica gordurosa.
O banheiro! Poderia escrever um livro sobre o banheiro na Índia,
tamanha a complexidade de seu uso para um ocidental. Por sorte, pelo
menos um dos objetos usuais não compunha o banheiro que usávamos na
clínica. Não que não houvesse em outros cômodos, mas, ao menos no
banheiro ao lado de nosso quarto, estávamos livres deste primor de
escultura na porcelana, a latrina. Uma peça em forma de bidê, porém
soterrada no chão, com saliências laterais para apoio dos pés, obrigando
seu uso em posição de cócoras. Dizem que esta ajuda as eliminações, mas
há muito tempo deixamos de ter flexibilidade para tanto.
Contudo, ainda tínhamos de enfrentar os insetos que eram
frequentadores assíduos da umidade do banheiro. Até mesmo porque o
banho se dava de balde e caneca junto ao vaso. Afinal, o estilo asiático do
banho não inclui nenhum chuveiro; a caneca também fazia às vezes do
nosso conhecido papel higiênico. No ambiente sempre úmido, seja pelos
banhos ou pela higiene pessoal, as lacraias, baratas, formigas e os sapos
tornavam-se acessórios de toilette. O chão escuro ocultava as camadas de
sujeiras. Um nicho na parede forrado com jornal velho servia de apoio
para o sabão ayurvédico em pó.
Uma cozinha me foi cedida para preparar nossas refeições. Colchões
velhos e camas faziam parte da decoração junto à pia e ao fogão. Era na
verdade um mix de depósito e cozinha. Havia uma bela janela na frente da
pia, o que dava um estilo romântico, graças a uma bela vista para um
jardim repleto de bananeiras. Vez por outra, via uma das enfermeiras
colhendo uma folha de bananeira para em seguida recortá-la e compor
vários “pratos”. É comum servir a comida em retalhos de folhas da nossa
árvore tropical.
Mas a janela também servia de porta de entrada para formigas e
lagartixas, que eram afoitas à presença de qualquer alimento – não se
podia vacilar enquanto cozinhava. Apesar da limpeza duvidosa do
ambiente, os utensílios de cozinha eram reluzentes de tão bem areados.
A falta de limpeza externa era diametralmente oposta à limpeza de
caráter que toda a equipe apresentava. Mesmo no segundo dia, nada nos
foi cobrado ou falado a respeito do pagamento. Nenhum cheque caução,
termo de responsabilidade ou número do cartão de crédito. Parece
irrelevante, mas, até hoje, não fui a nenhuma clínica em que não se
abordasse o assunto logo na admissão do paciente, e mesmo com plano
médico não é incomum ser exigido um cheque de garantia ou algo
parecido. Parece que o foco é meramente financeiro no Brasil, mesmo que
o hospital seja religioso. Nunca me foi confortável tratar de assunto de
pagamento num momento em que você está fragilizado pela doença de um
parente, isso quando não se trata de você mesmo.
Contraste entre países? Contraste entre religiões? Entre culturas? Não
sei dizer, apenas constato que a clínica era particular, não tinha cunho
religioso ou beneficente. Havia um altar com deuses e mestres espirituais
da Índia, porém, todos de devoção do próprio médico. Aberto a quem se
interessasse por orar de forma espontânea. Religião à parte, mas sei que,
quando se está fragilizado, tanto por uma doença séria na família e ainda,
por viagem desgastante, é muito mais acolhedor não ter de preencher
cadastros, assinar termos, deixar cheques em branco, pré-autorizações de
cartão de crédito etc.
Foi em pequenos gestos como esses que Índia, aos poucos, ia resgatando
de forma tão simples o meu lado humano e sensível, e transformando
desilusão em esperança.
Acostumando-se aos tratamentos

Em meia hora bateram na porta do quarto: “Treatment.” Faríamos uma


limpeza dos olhos com leite e chá, e os tratamentos Putapaka,13 Nasya e
Tarpana.
Com o intuito de preparar os olhos para a aplicação dos tratamentos era
derramado antes leite com chá. O primeiro a ser aplicado era o Nasya, que
consistia em gotas medicadas colocadas nas narinas, após o aquecimento
da face com um pano quente e úmido. Logo em seguida, aplicava-se o
Tarpana – tratava-se de em um líquido morno, manteiga clarificada
misturada a ervas, que com auxílio de uma massa de farinha era fixada ao
redor dos olhos, para assegurar a permanência do líquido dentro dos
globos oculares. O Putapaka seria administrado a partir da segunda
semana.
Havia quatro camas, sendo duas sem colchão e com o fundo de
palhinha. Nestas, se derramava o chá nos olhos até escorrer pelas orelhas e
cair numa bacia abaixo da cama.
O desconforto era grande. Os olhos queriam se fechar, mas a enfermeira
segurava as pálpebras habilmente com força, para evitar a fuga do
paciente supreendido pelo desconforto do aparentemente inofensivo chá
com leite, que, ao contrário da sensação prazerosa de quando desce pela
garganta num gole matutino do café da manhã, nos olhos ardiam muito.
Ao meu lado, apesar de existir uma certa beleza no ambiente, a cena da
aplicação do tarpana lembrava um filme de tortura. Laura tentava fugir do
líquido viscoso fechando os olhos, mas a enfermeira dava tapinhas na sua
cabeça mandando abri-los. Os ventiladores no teto faziam barulho e
davam um ar misterioso ao ambiente dos tratamentos, fazendo parecer
uma sala de confissões, daqueles filmes da Segunda Guerra.
Quando aplicaram em mim, um calor tomou conta de meu corpo
misturado com um sufocamento. Percebi que o método era sério e potente,
pois me deixou atordoado. Ao meu lado, a batalha entre Laura e a
enfermeira continuava, até que a indiana perdeu; como era seu primeiro
dia, resolveu deixar Laura manter os olhos fechados. Afinal, a situação
estava penosa demais, mas logo avisou que no dia seguinte teria de mantê-
los abertos.
Terminados os três tratamentos estávamos exaustos e com dores nos
olhos. Mesmo assustados com a intensidade do que acabáramos de passar,
sorrimos; de fato algo estava sendo feito para que melhorássemos, e talvez
estivéssemos no caminho da cura. Diferentemente do que tínhamos no
Brasil, aqui a proposta não era de aliviar os sintomas, mas sim de remover
a causa, mesmo que tivesse de demorar 21 dias de torturas, a esperança de
voltar ao normal era nosso guia. Sabíamos que a medicina indiana não
deixava efeitos colaterais e que Laura não passaria por reações adversas
comuns ao tratamento ocidental.
Mais tarde comentei com o médico que, como havia dito por mensagem
eletrônica, ela tinha obtido melhoras durante o curto tratamento
ayurvédico no Brasil e que a aplicação de óleo de gergelim ajudava
durante as crises de câimbras. Ele foi bem receptivo e concordou que a
simples aplicação tópica de óleo era útil. Entretanto, o óleo de gergelim
puro tinha uma característica inapropriada para quem possuía problemas
na visão, pois era muito quente e não servia bem a este propósito. Não
deveríamos nos preocupar, providenciariam outro óleo para as massagens.
No início da noite o administrador da clínica, Mr. Pillay, levou-nos para
jantarmos numa loja de bolos – a Bakery. O local era simples, contudo,
agradável. Estávamos famintos, mas Laura sabia que deveria escolher algo
que não provocasse gases no corpo. Apesar de ainda não conhecermos
todos os itens prejudiciais a sua saúde, sabíamos de vários. Escolhi dois
hambúrgueres vegetarianos que, naturalmente, viriam apimentados,
enquanto ela pediu um sanduíche de cenoura cozida e queijo tipo ricota.
Conversamos sobre a outra vez que estivemos na clínica, quando Mr.
Pillay nos levara no mesmo lugar para fazermos nossa refeição após
minha consulta. Ele lembrava bem de nós e comentara que Laura estava
muito bem naquela época. Mas não deveríamos nos preocupar, tudo daria
certo. Na verdade já estava dando, pois estávamos de volta e tivemos a
sorte de conhecer a clínica no ano anterior por um motivo simples de
saúde, a minha vermelhidão nos olhos. E graças a esta oportunidade,
pudemos ter um local para fazer o tratamento de um problema grave. Em
sua opinião, desde o ano passado já estávamos sendo amparados pela
orientação divina. Estava escrito que voltaríamos, portanto, bastaria agora
seguir as orientações do médico que conseguiríamos passar por mais uma
experiência na vida com um belo aprendizado.
Certamente as dúvidas durante a viagem sobre se conseguiríamos
chegar à clínica haviam passado, porém as consequências de tais receios
demorariam a desaparecer. Dúvidas geram medo e o medo altera nossa
tranquilidade, desgastando o corpo com uma série de descargas
bioquímicas que nos debilitam por vários dias. Mais tarde descobriria que,
devido às tensões vividas durante as viagens de avião com Laura neste
estado, eu mesmo desenvolveria uma certa fobia de voar.
Pela noite, antes de adormecermos, o vigia da clínica bateu na porta do
quarto. Era um jovem que usava bigode, vestia o doti, típica vestimenta
para homens no sul da Índia. Sua estatura era baixa para um vigia, tinha
feições suaves e um olhar penetrante. Deu para perceber que falava
pouquíssimo inglês, mas deixava transparecer sua boa vontade em nos
servir. Em uma das mãos trazia os medicamentos e, na outra, o óleo
prometido para câimbras. Imediatamente, fui esfregar o óleo nas partes do
corpo em que Laura geralmente sentia câimbras. Logo percebi o que era
um óleo de natureza quente – minhas mãos ardiam. No Brasil, estava
acostumado a usar o óleo de gergelim, que é considerado um óleo que
aquece o corpo durante a massagem. O gergelim é muito calórico e possui
uma característica intrínseca de emanar um calor ao simples contato com a
pele. Porém, além da própria característica das sementes que deram
origem ao óleo que recebera do vigia, percebi resíduos de ervas
adicionadas a ele, que provavelmente acabaram por intensificar mais ainda
a sensação de calor. Sabedoria ayurvédica que ainda teria que aprender.

Primeiro dia
A noite foi abafada e difícil. Apesar do ar-condicionado não pude usá-lo
como gostaria, Laura não podia se expor ao frio. Deixei o ar ligado por um
período. Em poucos minutos, talvez uns quatro, ela reclamou que estava
sentindo câimbras. Não deveria ter ligado o aparelho. A situação dela era
bem pior do que a minha. Estava nervoso e, consequentemente, com mais
calor que o meu padrão usual.
Às 6h30 nos acordaram com fortes batidas na porta do quarto. Levantei
cambaleando; o cansaço da viagem e a tensão da chegada na clínica
haviam ceifado minhas forças. Abri a porta e um rapaz serviu-me duas
canecas com chai, o chá indiano com leite e, às vezes, com especiarias,
ganhando o nome de masala chai. Como Laura tem dificuldade de digerir
a lactose acabei tomando as duas xícaras de chá.
Uma terapeuta bem morena usando uma roupa bege nos chamou antes
das 9h para começarmos nossa jornada de panchakarma. Pareciam muito
sérios com o que fazem.
A sala de tratamento estava repleta de pacientes indianos esperando para
serem atendidos. Eram homens, mulheres, idosos e crianças. Quatro deles
estavam deitados recebendo a lavagem do chá com leite nos olhos. Alguns
pareciam sofrer mais que outros. As enfermeiras forçavam a abertura dos
olhos, que insistiam em se fechar, para evitar o derramamento do líquido
turvo sobre eles.
Laura foi primeiro. Deitou-se na cama junto à janela de grades verticais.
A luz da janela clareava o local como se seus raios fossem uma
manifestação divina. O quarto preenchia-se da penumbra restante dos
feixes de luz. A cena remontava um filme de tempos imemoriais. A roupa
oriental das mulheres era exótica, colorida e de estampas delicadas, o sari,
e as poucas que vestiam roupas ocidentais desfilavam uma moda de
dezenas de anos atrás. A cama e o teto eram de madeira, as paredes
grossas e azuladas com detalhes marrons. As portas com aberturas duplas,
como aquelas dos antigos casarios. O silêncio nos invadia a alma, e os
olhares de expectativa dos pacientes, como se fossem participar de uma
purgação hipocrática, causaram-me um frio na espinha.
Lamento não estar com a máquina fotográfica para registrar aquele
momento sagrado. Aquela luz divina! Guardá-la para aqueles momentos
em que perdemos as esperanças. Senti-me nutrido na visão e na alma.
Uma chama acendeu em meu íntimo. Tudo daria certo. Talvez tivesse
transformado a inevitável aceitação de uma doença sem cura numa
esperança. Talvez tivesse caminhado no sentido do reencontro com a
intangível presença de algo maior, onde tudo é possível. Até a cura do
incurável. Sim. Esperava por um milagre. Não tinha confiança suficiente
na medicina ayurvédica. Pelo contrário, tudo parecia muito estranho. As
leituras que haviam feito sobre a Ayurveda não foram capazes de suplantar
décadas de certezas e aceitação das verdades médicas ortodóxicas.
E se tudo não passasse de uma medicina alternativa fajuta? Não.
Naquele instante, certamente não. Há algo maior do que nossas teorias
científicas. Uma luz tão bela banhando o corpo de Laura não poderia ser
acaso. Essa sensação no meu peito de um coração enorme não poderia ser
fantasia, minha alma estava testemunhando. Não se tratava de mera visão.
O silêncio entre os indianos, usualmente falantes, configurava o respeito
com que aguardavam os que estavam a sofrer pelas aplicações, e, ao
mesmo tempo, marcava o receio das sensações que os acometeriam,
quando chegasse a sua vez. Quando manipulavam os produtos nos olhos
dos pacientes, as enfermeiras indianas agiam com puro profissionalismo.
Com sabedoria, orientava-nos sem uma palavra em inglês. Gestos de
quem sabe o que faz. Em poucos instantes, já sentia a confiança necessária
para acreditar que se tratava de enfermeiras engajadas e precisas. Diante
da seriedade e competência delas, a colaboração de todos os pacientes era
espontânea e plena, mesmo a despeito das dores e desconfortos.

A chegada na Índia foi talvez um dos momentos de maior agonia, alívio, pavor
e sensações horrorosas. O meu corpo dava sinais de piora a cada minuto. Era
nítido o efeito do estresse e do medo no meu corpo. As minhas pernas vibravam
tanto, que eu sentia o chão tremer: náuseas, dores, fraqueza, câimbras até a
cabeça, tudo ao mesmo tempo. E ainda assim, nada me fazia desistir. Eu estava
disposta a tudo para voltar a viver.
Eu estava do outro lado do mundo, praticamente sem falar inglês, com o corpo
sofrendo e dependendo das últimas forças que Marcus ainda guardava. E foi com
aquele médico de poucas palavras que uma nova realidade viria a surgir.
Ao indagar quando começaria o tratamento, ele sorriu e apenas respondeu
olhando em direção ao Marcus: “O tratamento já começou: no momento em que
ela decidiu vir para cá.” Naquele instante, senti o cuidado e a certeza no que ele
dizia.
Nenhuma pílula ou promessa mágica foi feita, dita, prescrita. Nenhuma
palavra de desmotivação foi proferida, nenhum ato de dúvida foi demonstrado e,
aos poucos, eu fui aprendendo que a Ayurveda não era nada mística: somente
espiritual. Era uma medicina muito bem estudada, focada em cuidar, tratar, curar
ou apaziguar o corpo e a mente. Mas não os sintomas e minhas queixas, que era o
que eu tinha de mais intrincado acontecendo no meu sistema e que naquele
momento eu não era capaz de desvendar.

13 Putapaka consiste em uma decocção de ervas com leite, manteiga clarificada e mel colocadas nos
olhos por quinze minutos.
A tranquilidade dos indianos

A segunda noite foi chuvosa. Estávamos no início das monções da Ásia


meridional. A umidade estava densa, mas o quarto guardava o calor do dia
– sentia-me como numa sauna.
Pela manhã, o médico chegou de carro enquanto estávamos na varanda
esperando para o início dos tratamentos do dia, que seguiriam por uma
semana.
Saltou do carro e nos escancarou um sorriso, seguido de um bom-dia,
acompanhado de um balançar de cabeça, como sinal de aceitação, talvez o
oposto do nosso sim. O mundo nos confunde, em algumas culturas o
“não” é “sim” e noutras o “sim” é o sinal de “não”. Para um ocidental
desavisado poderia mais parecer uma manifestação de reprovação,
contudo, para eles, é o gesto mais expressivo do consentir. Para nós é um
gesto gritante, que salta aos olhos. Para eles, um sinal imperceptível. É
uma expressão social e discreta aos olhos do membro da sociedade
indiana.
Enquanto penso que os europeus são mais sérios que os brasileiros,
provavelmente os indianos julgam que somos mais sérios que eles. Certa
vez, um indiano levou-me a uma profunda reflexão, durante outra viagem
que fiz. Saí da estação de trem perto de Bodhygaya, cidade onde Buda
atingiu a iluminação, e como de costume fui cercado por uma legião de
motoristas de rickshaw, oferecendo-me transporte, a ponto de alguns
puxarem minha mochila para acompanhá-los, cada um numa direção, o
que provocou uma discussão entre eles. Como já estava acostumado com a
cena, sentei num degrau da estação até que foram se dispersando e se
entretendo com novos clientes que desciam do trem. Passado algum tempo
dirigi-me a um dos motoristas e acertamos um preço para minha ida até a
cidade vizinha, obviamente com exclusividade no veículo.
Como o trajeto era relativamente longo, quinze quilômetros, ele parou
no primeiro ponto quando lhe fizeram sinal e colocou duas pessoas
sentadas no banco da frente, no qual dirigia, ou seja, era como se tivessem
três pessoas espremidas no banco do motorista sendo uma delas ele
próprio, que fazia contorcionismos para comandar o veículo. Nas curvas,
o guidom esbarrava no parceiro do lado, que, já sabendo da necessidade
do motorista, cedia algum espaço para a manobra. Fiquei constrangido de
haver três pessoas no lugar de uma e estar com um lugar vago ao meu
lado, mesmo mantendo a mochila apoiada no assento. Sabia que tinha
pago a exclusividade do veículo, mas isto já havia se transformado na
exclusividade apenas do assento de trás.
Um sentimento contraditório me tomou. Por que eles se espremiam na
frente e eu estava sozinho atrás, ainda gerando o risco de provocar um
acidente, uma vez que mal sobrava espaço para os braços do motorista?
Optei por tentar resolver o risco de acidente reclamando por haver
contratado todo o veículo, mas o motorista fingiu não ouvir. Quando
passou por três mulheres na estrada, parou e as convidou para entrar.
Fiquei pasmo. Como ele ousou colocar mais passageiros no diminuto
veículo, quando eu acabara de reclamar da composição da frente? O
assento de trás, na minha visão ocidental, era dimensionado para duas
pessoas, e, agora, estavam quatro pessoas mais minha mochila. Resolvi
saltar do “triciclo”.
Ao verificar minha reação, fez as mulheres descerem, sabendo que
minha corrida valia mais do que a soma de tarifas que cobraria delas.
Fiquei mais constrangido ainda, afinal eram três mulheres e minha
gentileza havia sucumbido à rigidez do meu conceito de espaço e do rigor
à quebra de contrato de exclusividade. Mais uma parada, o motorista
conversou com o futuro passageiro, após compreender onde seria seu
lugar, olhou para mim e concordou. E pasmem: mesmo após minha
tentativa de fuga do veículo mais uma pessoa estava adicionada ao
veículo, desta vez, pendurada do lado de fora, para preservar meu precioso
espaço no banco de trás! Lá estávamos nós: eu sozinho no banco de trás e
os quatro na frente, um deles pendurado no lado de fora do veículo,
fazendo-o pender para um lado. Logo pensei que seria melhor mais uma
pessoa do outro lado de fora para equilibrar a situação. Quando olhei
melhor a situação me dei conta de que a pessoa do lado de fora tinha idade
para ser meu avô e estava em risco, com o corpo todo exposto ao fluxo
contrário da estrada, arriscando até sua integridade física.
Tudo aconteceu muito rápido e quando me dei conta do andamento da
viagem com minhas resistências ao número de passageiros no veículo,
senti saudade das três mulheres, pois talvez ele considerasse o veículo
cheio e não aceitasse mais aquele senhor pendurado. Meu coração sentiu
um aperto, e dele brotou a pergunta: por que sou tão egoísta? Não dava
para argumentar contra os fatos daquela viagem. Estava comprovado. Para
preservar meu espaço ponho os outros em risco. Não fui capaz de chamar
o senhor para sentar ao meu lado, estava humilhado pela situação. Percebi
o poder da Índia. Ela foi capaz de deixar minha alma em frangalhos, para
depois reconstruí-la.
Mas a questão que gostaria de evidenciar ainda estava por vir. Os três
desceram e a cada parada havia uma breve discussão sobre o preço
acertado, ora o motorista vencia ora era o passageiro. Como era de se
esperar, quando fui saltar, o mesmo aconteceu. Claro que, no momento,
não imaginava que haveria qualquer desentendimento, pois havia
combinado o preço previamente e ele ainda tinha quebrado o acordo
carregando mais pessoas. Fiquei furioso e disse que ele não tinha palavra e
estava me enganando. De repente parou de insistir e imitou minha cara,
dizendo que não precisava ficar tão bravo, como se fosse matá-lo. Afinal,
só estávamos negociando. Por um instante tomei consciência de minha
expressão facial e percebi o quão carrancudo estava. Será que gasto muito
tempo de minha vida com esta expressão?, pensei. O rosto deixa
transparecer o estado de espírito, e um espírito amargurado leva a um
corpo doente e a uma alma obscurecida. A Índia serviu-me de espelho. E
não gostei do que vi. Ficou claro para mim que necessitava de uma faxina
interna, pois meu âmago estava doente. Naquele instante, pude perceber a
Índia dos indianos, a Índia da simplicidade, do tanto faz, do não desistir,
do viver no presente, aceitando cada situação e não na cobrança dos
acordos passados ou na ansiedade do futuro determinado. Abri-me. A
defensiva se desfez.
Obviamente, os outros indianos estavam acostumados a essa negociata,
mas como encaram o fato com mais naturalidade, era necessário ocorrer
algo muito mais relevante para tirá-los do sério. Nós buscamos a
sociedade perfeita para vivermos. Eles buscam o ser perfeito para poder
viver em qualquer situação. Para um, o foco é fora, para outro, o foco é
dentro. Um volta-se para o mundo, acreditando na imperfeição dele,
contudo, convicto de ser a melhor pessoa do planeta; enquanto o outro
busca corrigir suas imperfeições de caráter, aparando suas arestas, a fim de
se atritar menos no mundo externo, seja a sociedade como for. E após esse
burilamento interno são capazes de se cumprimentar com um belo
namastê, que significa: “A paz que habita em mim saúda a paz que habita
em você”, ou “Seu espírito e o meu fazem parte do Único Maior”, ou
simplesmente “Eu me curvo a você”, um verdadeiro sinal de liberdade das
barreiras do ego.
Fazendo as compras

Enquanto Laura fazia o tratamento, fui ao centro fazer compras. Tive o


auxílio do táxi regional de três rodas, com guidom de motocicleta na
frente, o rickshaw. Os motoristas destes veículos são responsáveis por
manter viva e dinâmica a tradição da arte de negociar. Como já disse,
sempre ocorre uma discussão sobre o preço no final da corrida. Claro que
a margem de negociação é bem mais larga quando o cliente é um
estrangeiro.
Na ida às compras, dividi a condução com outros citadinos e me foram
cobradas três rupias. Já na volta, tive que pagar vinte rupias, na mesma
modalidade de compartilhamento de condução. Certamente, estava sendo
enganado. Entrei no espírito da tradição e exercitei meu lado de homem de
negócios: reclamei. Ele justificou tratar-se de dois quilômetros. Falei que
havia pagado muito menos na ida e a distância não mudara. Fingiu não
ouvir. Resolvi pagar o solicitado. Milênios de experiência mercantil contra
algumas décadas de liberdade comercial brasileira – não há como disputar.
Além do mais, se convertêssemos os valores da negociação,
perceberíamos que o que estava em jogo era pagar entre sete centavos de
real ou um real. Já havia aprendido que, dependendo do que está em jogo,
é sempre melhor ceder, pois se poupam valores intangíveis, dentre eles, o
estresse.
Já na cidade, parei na primeira loja em que vi uns tapetes plásticos
decorativos. Eram úteis para prática de yoga, além de belíssimos, apesar
da simplicidade do material. Na verdade, eram vendidos como camas para
os indianos. Muitos dormem no chão, apenas sobre esses tapetes, até os
dias atuais. Noção de conforto bem diversa da nossa. Não pude me conter
e comprei vários pois, além de serem úteis no quarto da clínica, serviriam
para decorar a varanda de casa, quando voltássemos.
Os vegetais eram estranhos, mas consegui selecionar os que me eram
familiares. Afinal, ambos os países são de clima tropical, ricos em
bananas. A próxima parada foi numa espécie de loja em que se vende de
tudo, uma espécie de papelaria misturada com utensílios de lar e bar.
Escolhi um caderno para as anotações e preenchimento das horas ociosas.
Vinte e um dias de tratamento é uma longa jornada, precisava anotar tudo
que passaríamos, pois não teríamos o mesmo acompanhamento quando
estivéssemos de volta ao Brasil.
Encontrar talheres é tarefa para poucos, apenas os restaurantes oferecem
garfos e facas. O talher mais usual é a colher, e muitos, quando buscam se
ocidentalizar, a utilizam no lugar do garfo. Sem dúvida, engatinham na
infância do ocidentalismo, ao pensar que comemos com colheres, à
exceção de nossas crianças. Encontrei talheres na mesma papelaria. Eram
elementos essenciais para nós e completamente dispensáveis para eles. No
hospital, todos comiam com as mãos. Ou melhor, com a mão direita.
Cultura milenar que preserva seus costumes com uma perseverança
revestida de sacralidade. Comer com a mão esquerda é impuro, já que esta
se destina ao asseio pessoal. Obviamente havia papel higiênico na lista de
compras. Parece primitivo e incompreensível usar uma mão para se
alimentar e a outra para limpar os excrementos pessoais com o mero
auxílio de uma caneca com água. Contudo, no fundo não me incomodava
nem um pouco. Não me culpem por simplificar os fatos, mas, num
momento como o que estávamos passando, a questão de hábitos culturais
era completamente secundária. A necessidade falava mais alto, fazendo
até parecer razoável o invento dessa estratégia com as mãos.
Talvez tenha sido o contexto religioso que permitiu que o hábito se
estabelecesse na cultura do povo. Porém, parece que não havia outra
estratégia. Como ensinar algo de fundamental valor para preservação e
saúde de todos, quando não se tinha inventado o microscópio, e não se
podia ver os germes? Quando olhamos para milhares de anos atrás e
percebemos que a melhor maneira de evitar a contaminação dos alimentos
era separar uma mão (a esquerda) para manusear as coisas impuras
(nossas fezes, lixo, urina etc.) e empregar a outra mão (a direita) para as
coisas sagradas (vegetais, água potável, comida etc.), sabemos que era
uma forma de promover em larga escala a prevenção de uma
contaminação sem a necessidade de um remédio sequer. A ideia do
sagrado, mesmo que insconcientemente, foi uma solução simples, barata e
milenar, da qual não tínhamos noção antes do advento do movimento
higienista no mundo ocidental. Posso imaginar que, enquanto a Europa
lutava contra epidemias, a Índia permanecia incólume às pestes da época.
A mudança de ângulo faz o primitivo transformar-se em sábio, ainda
mais num mundo onde buscamos as simplificações para evitar ou
minimizar o aquecimento global gerado pelas décadas de excessos da
cultura ocidental.
Garrafa de água mineral era outro item de necessidade básica. A água
usual para consumo é água de poço fervida com uma erva. Mal sabia eu,
tendo em vista meus escassos conhecimentos ayurvédicos na época, do
poder germicida da planta. Ficava pensando se não existiria algum germe
resistente aos cem graus Celsius e ao efeito da erva. Porém,
provavelmente, ela atuaria como agente antisséptico. Era muito fácil
reconhecer se a água era tratada ou não, uma vez que a erva liberava um
corante, deixando a água rosada. Bonito, contudo, suspeito.
Sal, geleia e pano de prato completavam minhas compras para o início
de minhas experiências gastronômicas na Índia. Conhecíamos pouco as
propriedades dos alimentos e seus poderes intoxicantes ou curativos.
Acabamos tomando vários sustos que nos fizeram aprender sobre a
verdade do que ingerimos. Estes traumas terminaram por nos salvar, até
hoje, e nos fizeram desenvolver uma dieta muito mais saudável. A
culinária indiana é perpassada pela medicina indiana, na qual a teoria dos
doshas rege as escolhas alimentares de cada indivíduo, como já disse:
Kapha, Pitta ou Vata. Trilogia alimentar que descobrimos na carne, não na
de vaca, uma vez que ela é sagrada, mas sim na nossa própria carne,
quando nos alimentamos diariamente. Porém, deixemos os doshas e a
vaca de lado por enquanto.
O calor na rua era intenso, parecia o tempo quente e úmido da
Amazônia. As monções ocorrem principalmente nos meses de junho,
julho e agosto. Algumas semanas são de chuvas ininterruptas. O calor da
região transforma-se em uma sauna ao ar livre, quando as chuvas
umedecem a terra. Por outro lado, favorece as colheitas do sul da Índia e
transformam os campos amarelos pela longa estiagem em verdejantes
jardins. Duas Índias, uma verde e outra amarela, contrastes
complementares. Da mesma forma, o clima de monção ajuda no
tratamento ayurvédico, o panchakarma. A umidade e o calor estimulam o
processo de depuração do corpo. Os poros dilatados assimilam melhor os
tratamentos, os quais, em sua grande parte, são administrados no maior
órgão humano, a pele. Porém, o clima do lado de dentro da clínica
permanecia fresco.
Progressão da doença para a Ayurveda e
suas particularidades

Durante o tratamento na clínica, o administrador, Mr. Pillay, foi quem nos


introduziu aos conceitos da Ayurveda. As conversas que mantivemos
foram instrutivas para sabermos como proceder durante a internação e no
decorrer do resto de nossas vidas.
No início da tarde, quando serviam-nos chá, Mr. Pillay veio ao quarto
segurando sua caneca de chá para uma conversa. Abordou o assunto sobre
a medicina alopática:
– Os efeitos colaterais são algo permanente na alopatia, além do mais,
muitos remédios são produtos sintéticos que retiram a vitalidade do corpo,
fazendo com que necessitemos de novos remédios para agir sobre o que
foi desestabilizado com o primeiro, formando uma cadeia sem fim. É o
que também ocorre com nossa alimentação atual. As comidas
industrializadas nos roubam energia demasiada para que possamos
processá-las dentro de nós, muitas vezes gerando toxinas no organismo,
que com o passar do tempo vão se acumulando até eclodirem como
doenças.
“A natureza forneceu tudo para o homem. Basta que utilizemos os
recursos com sabedoria, sem alterá-los em demasia. Claro que coisas
como jejuar, meditar e fazer yoga com práticas respiratórias, os
pranayamas,14 também ajudam a manter o corpo saudável, mas acima de
tudo a saúde é mantida pelo que se ingere. De todos os canais de contato
com o exterior, a boca é a maior porta de entrada em nosso sistema, e por
conseguinte permite maiores alterações no nosso corpo e mente. Quem
toma café várias vezes ao dia, por exemplo, além de desenvolver uma
gastrite, ficará com a mente perturbada, principalmente se tiver uma
constituição Vata, que por natureza é agitada. Comida saudável é o maior
regenerador do corpo, mas tem que ser adequada ao seu dosha. Os
produtos industrializados agregam componentes químicos que as pessoas
não conseguem processar, acumulando-os em vários órgãos. O fígado é
um dos mais afetados. Isso gera alterações de humor, entre outras
disfunções. O clima é outro fator que afeta a saúde, em intensidade menor
que a alimentação. Sem a utilização de recursos naturais, como aplicação
de óleos adequados para proteger a pele do clima, todo o corpo pode ficar
desestabilizado por causa dos efeitos negativos de um clima. Como
exemplo mais extremo, podemos citar o deserto, onde rapidamente a
pessoa pode ficar desidratada e falecer. A Ayurveda busca nutrir e
proteger o corpo a fim de que tenha as condições necessárias para curar a
si mesmo, logo não há o que falar sobre efeitos colaterais.”
Comentei que, outrora, a cultura indígena e as pessoas de áreas rurais
tinham diversos tratamentos simples que ajudavam na cura.
Lamentavelmente, a cada dia esses conhecimentos vão se perdendo pela
facilidade dos remédios prontos nas farmácias. Além do mais, a medicina
alopática não aprova a utilização desses métodos, pois não foram
cientificamente comprovados e nunca serão; os laboratórios não têm tanto
interesse em provar que uma erva, que nasce de graça no mato, pode ser
eficaz na cura de uma doença. Quando acontece a identificação de uma
planta, a industrialização altera seu estado natural e, com isso, sua
capacidade curativa. É comum ficarmos sabendo que os cientistas
identificaram a substância natural de várias ervas e, sintetizando-as no
laboratório para produção em escala, contudo, esquecem de todos os
outros elementos naturais da planta que estabilizam a substância principal.
Além disso, como o objetivo é principalmente o lucro, normalmente
deixam de informar que o sintético pode ser encontrado em uma planta
comum, o que deixa as pessoas de baixa renda desorientadas. Essas
pessoas passam a acreditar que as plantas não funcionam e só os remédios
das farmácias podem curá-las. A prova viva desse tipo de raciocínio são as
empregadas domésticas que trabalharam em minha casa. Criadas na roça
tomando chás durante a infância para curar as doenças que as acometiam,
hoje só querem se tratar com remédio das farmácias. Quando oferecia um
chá para algum problema de saúde ou, até mesmo, uma simples
indigestão, diziam que não gostavam mais de chás, pois tiveram que tomar
muito na infância.
– Obrigada patrão, erva não me melhora não, comigo só remédio de
farmácia.
A Ayurveda ainda carrega a confiança do povo simples da Índia, pois
parece que buscou a catalogação de várias plantas e se estruturou
enquanto sistema de medicina antes do advento do movimento
higienista,15 o que o manteve livre de interesses da indústria química-
farmacológica, pelo menos até agora.
14 Pranayama é composto por prana, ou seja, energia vital existente no ar, e yama, que significa
controle. Sendo assim, é uma forma de controle respiratório composto por diversas técnicas que
acabam regulando os fluidos vitais, proporcionando saúde e equilíbrio mental. Dentro do caminho da
Yoga é o quarto estágio.

15 Movimento higienista foi a forma sistematizada de criar projetos de saúde para a comunidade
ocidental ocorrido no século XIX, no qual se buscou legitimar a prática médico-científica.
O tratamento mais
importante: o Shirovasti

O tratamento da tarde para Laura seria talvez o mais difícil de suportar.


Necessitaria da colaboração dos “deuses” para o sucesso da aplicação, e
neste tratamento não podia lhe fazer companhia. Tratava-se do Shirovasti.
Esse tratamento era muito intenso. Já havia lido em livros que era
extremamente recomendável no caso de patologias nervosas,
principalmente em desordens neurológicas, que afetam os olhos, dão dores
de cabeças, e disfunção da tireoide, além de vários outros problemas
relacionados aos distúrbios na glândula pituitária.
Enquanto Laura ficava fazendo o tratamento da tarde, resolvi ir até a
cidade buscar mais alguns mantimentos; quando retornei, contou-me que
tudo havia sido muito estranho. Sentira sensações estranhas nos braços e
no peito, apesar de não ter existido nenhuma manipulação nessas regiões.
Com uma expressão cansada e, ao mesmo tempo, assustada descreveu a
sessão de Shirovasti. Após despir-se, foi enrolada num pano e orientada a
sentar num banco sem encosto. Depois de puxarem seu cabelo para cima,
fixaram um recipiente no topo de sua cabeça e preencheram-no com óleo.
Pediram para que não dormisse, pois senão o líquido poderia derramar.
Também não poderia ficar pensando, a mente teria que ficar vazia.
Durante essa hora o sono passou a ser seu oponente. A mente ficara
sedada e a vontade de ceder ao sono era incomensurável. Terminada a
aplicação, como última recomendação, a médica advertiu que após o
Shirovasti não se devia dormir, a despeito da fadiga do corpo e da mente,
principalmente na parte da tarde.
Sendo assim, comemos e ficamos conversando para que não dormisse.
Travamos uma batalha difícil, era uma sedução irresistível que Laura tinha
de enfrentar para se manter acordada. Após muito encorajamento e
alternância nos assuntos, atravessamos a tarde. As dores nos olhos do
último tratamento do dia se encarregaram de despertar de vez a paciente.
A tolerância à dor é algo que certamente varia de pessoa para pessoa.
Sempre percebi que Laura tinha baixa capacidade para suportar qualquer
tipo de dor. Parece que as pessoas com o Vayu agravado sentem mais as
dores. O Vayu é responsável pelos movimentos e aloja-se principalmente
no tecido nervoso. Quando está fora de equilíbrio é como se o sistema
nervoso se encontrasse irritado e sensível a qualquer estímulo.
Mr. Pillay, simpático e eloquente como sempre, foi ao quarto fazer uma
visita. Perguntou como estávamos passando e logo nos entreteve com os
acontecimentos do casamento em que fora padrinho no dia anterior. Na
Índia, a maioria dos casamentos é acertada pelos pais. Isso pode nos
parecer primitivo, mas talvez a livre escolha seja mais suscetível a um
padrão primitivo, uma vez que os jovens escolhem sem respeitar as
percepções dos mais velhos, que são mais conhecedores dos rumos dos
casamentos.
Mr. Pillay explicou que os pais possuem mais experiência sobre os
diversos aspectos da vida que um casamento envolve. Enquanto os jovens
são movidos por impulsos, os adultos utilizam o discernimento e
conseguem prever o que virá pela frente, observando as condições iniciais.
O caminho do casamento deve ser longo para dar solidez na criação dos
filhos. Somente os pais sabem quem se adequa a seus filhos. O acerto
entre os pais deve se dar por ambas as famílias, e mesmo assim, ocorre
uma prévia consulta astrológica, o jyotsh, para analisar a compatibilidade
dos pretendentes.
Parei para refletir sobre o passado recente de nossa cultura no Brasil.
Até bem pouco tempo eram os pais que definiam as escolhas de parceiros
para os filhos. Porém, o discurso moderno da liberdade de escolha tirou de
nós a aceitação da sabedoria de nossos pais, ou melhor, de nossos avós. O
amparo dos familiares foi transformado em banalidade, substituído pelas
revistas de dicas de romance, novelas e cinema. Como se a informação
estanque pudesse dar conta do que só o aprendizado da vida, de anos de
experiência, é capaz de discernir. Nossa juventude (e, para mim, quem tem
menos de 60 anos ainda é jovem) tornou-se rebelde. Crente que faria
opções melhores, vendeu-se às drogas na tentativa de buscar respostas.
Nossos pais acabaram perdendo para a força da mídia e do capitalismo,
que promete vender soluções para tudo. Sem a sabedoria dos pais,
tornamo-nos órfãos, ficamos perdidos, sem rumo. Os casais se
divorciaram mais, pois, na tentativa de novas escolhas de parceiros, não
deram ouvidos aos seus pais e erraram a opção enquanto jovens. E até
mesmo os pais já não sabem o que dizer, pensam que este lugar não mais
lhes pertence, delegam a responsabilidade aos filhos, ainda inebriados pela
jovialidade. Como o amadurecimento não é fruto apenas do passar dos
anos, e, sim, disso somado às orientações dos mais velhos e mais sábios,
após o segundo casamento novamente ficamos à mercê de novos
divórcios.
Perdemos o rumo, não entendemos mais a que se propõe um casamento.
Rogamos por felicidade e, contudo, ignoramos as regras da vida. Como
crianças, agimos com imaturidade, querendo tudo possuir: dinheiro,
esposa bela, marido belo, bens, filhos, um de cada sexo, bom emprego,
férias etc. Não sabemos mais das concessões naturais necessárias a cada
conquista. A vida das emoções e das ideias transforma-se num shopping
center. Basta ter dinheiro que tudo se resolve. Ledo engano, somente
quando adoecemos é que nos damos conta de que não é tudo que se pode
comprar nessa vida.
Onde estão nossos pais? Quisera que ainda nos pudessem dizer quais
decisões tomar. A liberdade tornou-se uma prisão. Ficamos presos numa
plataforma que dá vista para todos os lados, mas não sabemos para onde
ir. Mesmo quando escolhemos uma direção, desconhecemos o quanto de
esforço é necessário para se atingir determinadas metas e abandonamos o
caminho frente ao primeiro obstáculo. Situações que seriam facilmente
superadas, se nos mantivéssemos conectados aos mais experientes,
tornaram-se intransponíveis. Bastava a fala dos que conhecem a vida:
“Calma, meu filho, está tudo certo, esse obstáculo vai ser transposto logo,
seja perseverante que tudo se resolverá.”
Perdemos a fé na vida. Ou melhor, perdemos a fé e a vida. Fé virou
artigo de pobre e a vida virou uma cópia da telenovela, ou de um Big
Brother; que é a cópia da cópia com ar de originalidade e espontaneidade.
Nossas escolhas ficaram restritas; não somos mais capazes de escolher,
temos vergonha, seguimos as normas do belo, da moda e da publicidade,
seja ela de produtos ou de soluções para vida.
A moda, muitas vezes, restringe-se a ditar o que deve ser consumido de
supérfluo, para você gastar mais com o que é desnecessário, e a ciranda do
consumismo rodar. Estamos mais aprisionados mentalmente do que na
época da escravidão. Pelo menos os escravos planejavam a liberdade e
fugiam. Estamos numa senzala, acreditando que por meio da televisão
somos livres e, portanto, não há por que planejar fugir rumo à liberdade.
Não precisamos escolher rumos; eles são escolhidos para nós e depois
vendidos a nós. Tudo tem seu preço no mundo de hoje. Não há aceitação
pelo ser e sim pelo ter. Negligenciamos nosso âmago em prol do externo,
esquecendo que tudo vem de dentro. Para a cultura hindu, o mundo que
nos rodeia é fruto de nosso mundo interno. Primeiramente, surgem nossos
pensamentos; depois, desenvolvemos emoções pelas ideias anteriormente
formadas, às quais nos apegamos e escolhemos dar ênfase; daí
estabelecemos criações mentais do que esperamos do mundo externo,
quase como fantasias. Em seguida, surgem as ações para que isso venha a
se encaminhar concretamente no mundo real, e, por fim, as aquisições,
sejam de bem materiais, de conhecimentos, de incidentes, ou até de
sofrimentos. Do mundo irreal para o real, nossa mente estabelece o rumo
das nossas ações, que acabam se tornando materializações. Tudo vem de
dentro.
Na Índia, as aceitações são mais frequentes, as roupas, mais simples –
sem deixar de serem belas – e as expressões faciais, mais decididas.
Parecem saber que a roupa e até o corpo não passam de ornamentos. O
âmago de cada um é o que conta, e isso não floresce assistindo à televisão
ou indo ao cinema, mas, sim, por meio da entrega à vida, seja orando para
uma deidade, que representa os aspectos profundos da vida, ou tomando
banho num rio sagrado, para reverenciar a importância da água em nossa
existência, ou, até mesmo, ouvindo atentamente o que os mais velhos têm
a dizer.
Por lá, também existem os casamentos sem interferências dos pais. São
considerados uma possibilidade válida, apesar de menos frequente. Muitas
vezes, até mesmo os indianos que vivem nos EUA buscam casamentos
arranjados e, se necessário, viajam até a Índia para conhecer a família da
pretendente.
Após as explicações sobre casamentos arranjados e os não arranjados,
Mr. Pillay nos esclareceu a respeito de como os medicamentos
ayurvédicos invadem as cavidades corporais e os tecidos e se depositam,
promovendo o reequilíbrio do corpo.
No caso do Shirovasti, usa-se um óleo medicado que, pelo período de
uma hora, vai penetrando na cabeça, banhando todos os tecidos do cérebro
e agindo no sistema nervoso, tal como um sedativo, mas que acaba tendo
o efeito principal de rejuvenescer o tecido nervoso. Com o passar dos dias,
o corpo todo também fica embebido nesta mistura de óleo, limpando os
tecidos e tornando-os mais macios e soltos, o que promove a saúde das
fibras, restabelecendo todo o organismo e proporcionando a cura.
Comentei sobre a medicina hipocrática e os conceitos dos diversos
humores16 que se parecem com os conceitos dos doshas ayurvédicos.
Talvez esses conceitos tivessem vindo da Índia por meio de algum
peregrino. Concordou comigo e disse que os humores poderiam ser uma
forma de se referir ao Vata, Pitta e Kapha, que possuem formas diferentes
de atuar e de serem purgados, tais como os fluidos hipocráticos. Talvez
seja mais uma faceta da Índia que, como boa provedora, foi capaz de
fornecer conhecimentos aos grupos que a visitaram no passado e os
assimilaram e apresentaram como ideias próprias nos palanques das
discussões sofismáticas na Grécia. Nada que um bom filho da sociedade
grega não fizesse na busca de sua autoafirmação.
No terceiro dia da aplicação do shirovasti não pude conter a curiosidade
e pedi para assistir à aplicação com a colocação do óleo na cuba sobre a
cabeça de Laura. Afinal, era o processo de limpeza e nutrição do tecido
nervoso mais importante do tratamento.
Quando entrei na sala de aplicação do shirovasti, estavam terminando
de fixar o recipiente no alto da cabeça de Laura, era o momento de
vedarem as laterais para que o óleo não escorresse. Utilizavam uma
espécie de massa com uma faixa por cima. Laura parecia estar recebendo
uma enorme coroa de folha de bananeira. Logo em seguida, a médica
entrou sorridente com seu vestido rosa e dourado, enquanto a enfermeira
coloria o ambiente com um tom azul repleto de bordados dourados.
A médica pegou a vasilha com óleo morno do chão e dirigiu-se a uma
pequena mesa com uma lamparina esculpida de bronze de dois andares,
que apresentava vários pavios acessos e mergulhados em ghee.17 Em
seguida, proferiu algumas palavras, provavelmente um mantra18 ou uma
oração, enquanto segurava um vasilhame cheio. Estava voltada para o
leste, que acreditavam ser a posição mais promissora para qualquer tipo de
concentração. Comumente utilizam essa direção para iniciar todo processo
de revitalização, tal como a ingestão de alimentos durante as refeições.
Não que seja a única possibilidade, mas sabem que é a mais favorável.
Durante a reza, uma outra enfermeira que passava pelo corredor abriu a
cortina, que funcionava como porta da sala, para ver o que ocorria. A
médica não alterou sua atitude contemplativa. Sua concentração era
impecável. Enquanto a ajudante segurava a cuba sobre a cabeça de Laura
para que não houvesse vazamento do óleo pelos cabelos, a médica
derramava o líquido morno no topo da cabeça. Aparentemente, apenas a
médica podia manusear o vasilhame e tocar em Laura; a enfermeira
apenas a assessorava. No chão havia um papel aberto para absorver
qualquer gota que caísse. O corpo de Laura estava reluzente de óleo, pois
previamente tinha feito um abhyanga, a massagem com óleo. Sobre si
tinha um pano de cor açafrão fazendo a combinação final do evento. O
silêncio seria seu único companheiro por uma hora. Como alternativa
poderia orar a reza que lhe fosse mais conveniente, ou ainda, escolher
ficar prestando atenção na respiração, a fim de evitar pensamentos
negativos. Para eles, tais práticas mentais durante o tratamento, é uma
estratégia muito usual. Não se trata de misticismo, mas de uma técnica
comum de trabalhar o lado psicossomático durante o tratamento. Além
disso, o foco na respiração diminui a ação das células nervosas. A reza
sincera possui o mesmo fim, acalmando a mente e gerando uma aceitação
do processo que a terapia gerava. Convidaram-me para me retirar da sala,
uma vez que a possível conversa entre nós poderia comprometer a
qualidade da terapia.
Mr. Pillay havia nos dito que, apesar de aparentar ser uma terapia
simples, era um procedimento tão sério quanto uma cirurgia. Afetava
profundamente todos os tecidos da cabeça chegando a alcançar as células
dos membros inferiores no dia seguinte.
Tive de acreditar nele, pois, no dia seguinte, um rapaz cego desde os 3
anos de idade começou a ser submetido ao mesmo Shirovasti. Rasparam-
lhe a cabeça para facilitar a fixação dos aparatos e iniciaram catorze dias
ininterruptos desta aplicação. Tinha a confiança de que voltaria a enxergar
com pelo menos 40% da visão normal.
No decorrer das aplicações de shirovasti, Laura foi percebendo que um
gosto de óleo passava a ser uma sensação constante em sua boca.
Perguntamos a Mr. Pillay o que deveria ser essa sensação. Surpreso com a
nossa dúvida, respondeu que, como havia explicado, o óleo desceria por
todo o corpo lavando diversos tecidos, logo, nada mais comum do que
sentir o gosto do óleo na boca. A dúvida quanto à ação intensa do
shirovasti estava sanada, restando compreender como o óleo penetrava no
crânio, se sempre se soube que não existem fendas entre os ossos que o
formam.
Mais tarde, de volta ao Brasil, fiquei sabendo do caso de um eletricista
de 25 anos, que havia perdido o osso de cima da cabeça. Nosso crânio é
formado por vários ossos que se encaixam como um quebra-cabeça. Esse
homem recebera um choque elétrico na cabeça e, após alguns dias, um dos
ossos formadores do crânio começou a cair, enquanto o couro cabeludo
abria espaço para que se soltasse. O incrível é que o homem não tinha
dores nem havia qualquer alteração nas suas capacidades e, além disso,
um novo osso estava se formando por baixo do que estava para cair, como
se fosse uma unha nova empurrando a unha velha e machucada. Para
muitos médicos isso era surpreendente, pois não sabiam que era possível
tal regeneração de um osso tão importante e que se tem por fixado de
forma definitiva na estrutura óssea craniana. Eles afirmaram: “Quando o
pedaço do crânio se descolou, achei que o paciente fosse morrer. Mas
percebemos a formação de uma nova proteção para a cabeça dele e isso
pode ter empurrado o ‘crânio morto’ para fora.” Como não podia deixar
de ser, o homem era de nacionalidade indiana. Portanto, ficou evidente
para mim que o crânio possui fendas que podem assimilar o que lhe é
posto na superfície da cabeça. Estava desvendado o mistério.
16 Humor é a matéria líquida ou semilíquida de quatro tipos, entendida como base do funcionamento
do corpo humano para a medicina no período de Hipócrates, e que, no indivíduo sadio, se
encontrariam em equilíbrio e lhe caracterizariam o temperamento. A ruptura do equilíbrio
determinaria o aparecimento de doenças Eram eles: o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis
negra.

17 O ghee é feito de manteiga fervida em banho-maria até que libere uma gordura consistente e
branca, restando a manteiga líquida e clarificada. No Brasil, é mais conhecido como manteiga
clarificada, aquelas que vendem nas garrafas comumente no Nordeste, porém sem sal e curtida pelo
tempo após o preparo.

18 Mantra são palavras que alteram o estado mental quando proferidos repetidamente. Em muitos
casos, carregam em seu significado orações a Deus.
As orientações médicas
fora do usual

Ainda não havia tido tempo de cozinhar para nós. A organização do


quarto, a falta de costume com o ritmo dos tratamentos e o cansaço da
viagem ainda não me haviam dado trégua. Por três dias, tínhamos comido
sanduíches, que buscava na Bakery a um quilômetro do hospital. Para
acessar a cozinha que me fora oferecida para cozinhar, eu tinha de passar
por um quarto. O cômodo estava vazio até então, porém uma família
chegou para o tratamento com hospedagem, assim como nós. E logo
teríamos que compartilhar a cozinha.
Os indianos são muito dedicados à arte de cozinhar e fazem questão de
comer comida caseira. A ponto de, numa cidade grande como Bombaim,
existir, até os dias de hoje, um sistema de entrega de quentinhas caseiras
no trabalho através dos chamados de dabawalas, literalmente os “homens
caixas”. Existem desde 1890, mantendo um sistema de entrega de
marmitas que quase nunca falha. O marido vai trabalhar pela manhã e,
pontualmente, na hora do almoço, um entregador busca a comida feita
pela família e entrega ao ente querido no trabalho sem fazer confusão com
as dezenas de outras entregas, que também foram recolhidas nas casas dos
respectivos parentes.
Sendo assim, o momento da alimentação, que vai desde preparar a
comida até lavar os pratos, é muito reservado, e eu ainda não tivera a
oportunidade de me entender com a família a fim de combinarmos
horários. Expliquei ao médico minha necessidade, já que havia me dito
que não deixasse de comunicar qualquer coisa que precisássemos.
Quando o médico nos visitou já era na parte da tarde, e ainda não
tínhamos almoçado. Comentou que eles iriam usar a cozinha das
enfermeiras. Fui solidário e comentei que poderíamos compartilhar a
cozinha. Ele sorriu e disse para não me incomodar, já estava definido.
Queria que ficássemos o mais bem instalados possível, dentro das
limitações da clínica. Ele, além de ser formado em Ayurveda na Índia, já
visitara várias vezes os EUA e a Europa, sabia perfeitamente da
dificuldade dos ocidentais em compartilhar espaços e de nossos conceitos
diferenciados de limpeza.
Por outro lado, tinha a certeza de que os novos pacientes iriam se sentir
mais à vontade dividindo o uso da cozinha com as enfermeiras; o que para
nós seria inusitado, para eles seria usual.
Essa atitude de compartilhar os espaços e objetos faz com que sejam, de
certa maneira, mais versáteis; a simplicidade e a aceitação com que
encaram a vida lhes dão força e tolerância. Vigorosos no caráter,
desenvolvem um espírito cooperativo, próprio daqueles que observam as
adversidades com naturalidade e são capazes de enfrentar qualquer
obstáculo. E, caso não os vençam, suportam a derrota com um sorriso
estampado no rosto. Percebo que, em muitas situações de minha vida, a
ânsia em vencer acabou por me derrotar.
Com clareza e respeito às divergências culturais, ficava natural
administrar nossa situação em sua clínica. Dava-me contentamento saber
que um homem de gestos singelos já havia aparecido no canal da
Discovery falando de Ayurveda.
Certamente diversas pessoas puderam obter acesso a um lampejo de sua
personalidade irradiante e ter um pouco de curiosidade sobre esse estranho
método de cura, num canal de grande divulgação para um público de
interesse científico.
Sentia-me privilegiado por ter tido a sorte de encontrar a sua clínica na
nossa última estada no país. Agradeci ao mundo, quem sabe aos deuses,
por estimular minha coragem e de entregar a saúde de minha companheira
a um homem que conheci por e-mail do outro lado do mundo, pois quando
estivemos no ano anterior na clínica ele estava ausente. Loucura? Talvez.
Mas em toda atitude que transpõe o intransponível, sempre há uma pitada
de insanidade, beleza, incerteza e entrega.
Em vista das dificuldades para dividir os horários da cozinha, nos foi
autorizado sair para almoçar na cidade. Até mesmo porque Laura tivera
uma pequena melhora.
O administrador da clínica, Mr. Pillay, nos orientou a irmos ao
restaurante, a poucos metros do hospital, e explicou que, quando iniciado
o tratamento, a pessoa não deveria se expor ao tempo, principalmente
durante o dia.
Informei a Laura da nossa opção de restaurante. E ela respondeu:
– Naquela sujeira, nem pensar. Aquilo é muito imundo. Vamos à cidade.
– Conhecíamos bem a área.
Expliquei as orientações médicas de não se afastar da clínica; não
deveria ficar muito tempo fora do quarto. Mesmo assim concluímos que
uma “fugidinha” até a cidade nos faria bem. Eram apenas três quilômetros
de autorickshaw. Buscaríamos um restaurante mais no padrão ocidental,
muito embora soubéssemos que seria um oásis num deserto.
Encontramos um motorista de rickshaw que não falava inglês, mas a
capacidade deles de se comunicarem permite um bom entendimento
através de gestos. Saltamos em frente a uma construção moderna, coisa
rara, uma vez que Tiruvalla é uma cidade pequena num estado da Índia
que não é tão moderno, mas, por outro lado, é o que permite que a tradição
da Ayurveda se preserve até os dias de hoje.
Por sorte, havia um restaurante vazio com ar-condicionado e instalações
novas. Mesas de vidro, piso de mármore. Dava para notar pelas roupas
novas e os relógios de ouro que a frequência era elitizada. O crescimento
do PIB indiano pode ser percebido até no interior do país. Mas muitos
homens continuavam a usar suas saias; característico do sul do país, o
doti, que outrora era usual em toda a Índia, tal como Gandhi usou em
visita à Inglaterra. Porém, agora combinadas com camisas sociais, para
eles foi uma grande novidade ver as camisas ocidentais com bolsos e
botões, e por isso as adotaram.
As modernas instalações não eram suficientes para nos fazer esquecer
onde estávamos. Todos comiam com as mãos. Mundo moderno e hábitos
ancestrais.
Laura teve de escolher uma opção de macarrão vegetariano, noodles
veg, pois era o único prato em que os ingredientes eram visíveis.
Normalmente, na culinária indiana os vegetais são batidos e misturados
com temperos, tornando impossível identificar o conteúdo da comida. O
prato escolhido por Laura não apresentava muita variedade de vegetais,
grande parte resumia-se a repolho e pimentão verde, os quais já sabíamos
não ser aconselhável para a alimentação de quem possui problemas
nervosos, pois são ativadores do Vayu, e, portanto, irritam os nervos.
No meu caso, pude optar pelo paneer butter masala, prato que me era
familiar. Como era um pouco carregado nos temperos picantes, sempre
pedia que fosse preparado sem pimenta, o que não o tornava muito menos
ardente ao paladar, afinal, na Índia nem tudo que arde na comida é
pimenta. Na viagem anterior, tinha me acostumado a pedir um prato com
pouca pimenta, mas, mesmo assim, a boca ardia de forma inimaginável. A
princípio, pensava que os garçons estavam zombando de mim, mas logo
percebi que, realmente, não havia pimenta, mas, sim, uma dezena de
outros temperos tão picantes como a mais forte pimenta malagueta. O
prato era avermelhado e com cubos de queijo branco, uma espécie de
ricota. Desta vez, logo senti que, apesar de pouca ou nenhuma pimenta, o
gengibre imperava, e na segunda garfada não sentia mais a língua; os
olhos lacrimejavam, contudo, nada que a fome não superasse.
Saímos do almoço, que apesar de limpo não possuía o sabor rico que já
havíamos provado em estabelecimentos menos asseados, e fomos a um
cybercafe ao lado para consultar os e-mails. Tudo certo, meu chefe
respondera o meu e-mail de desculpas por sair de forma tão repentina do
trabalho com uma licença para tratar de pessoa da família, sem explicar
exatamente o que estava se passando. A resposta foi curta e doce:
“Tranquilidade. Estamos torcendo por vocês.”
Seus 48 anos de idade, três filhas, sendo a mais nova de apenas um ano,
lhe deram a suavidade e o apoio espontâneo, naturais num excelente pai,
que agora transbordava para suas relações de trabalho. Certamente tive a
sorte de quatro meses antes ser convidado por ele a ocupar sua chefia
substituta. A princípio fiquei preocupado com o convite, Laura já
apresentava problemas visuais na época, o que certamente iria demandar
de mim uma colaboração maior em casa. Além disso, ela estava sem
trabalhar com os projetos de design de interiores. A visão comprometida
roubou-lhe o trabalho, o que diminuía nossa renda.
Na época, expliquei-lhe toda a minha problemática. Ele insistiu na
necessidade de meu apoio na chefia e garantiu-me que, em poucos meses,
poderia voltar a meu posto anterior de plantonista. Assegurou-me também
que seria colaborativo com as necessidades de meu acompanhamento
médico com as consultas de Laura, o que, de fato, cumprira. Porém os
meses se passaram. E, graças a sua colaboração, os meses se
transformaram em anos sem que pleiteasse meu retorno.
Quando se encontra um homem de palavra e solidário, raridade numa
sociedade corrompida pela promessa do egoísmo feliz, não é fácil deixar
de colaborar. No Oriente, apesar de haver espaço para o oportunismo, o
individualismo não é tão cultuado, talvez pelo excesso de pessoas ou pela
cultura da ajuda mútua, ou, ainda, pela colaboração religiosa num panteão
de deuses que estão sempre a exemplificar uma história, na qual a noção
do todo, ou de pertencer a um todo, e de domar o egoísmo é a tônica.
Certamente que todos os homens, independentemente da sociedade em
que vivam, sempre buscam o melhor para si e sua família. Contudo, o que
os distingue é a que custo social, ou seja, o grau de indiferença com que se
relaciona com os outros, fora da teia familiar.
Na Índia, tudo é muito cheio de pessoas, e, consequentemente,
compartilhado. Para os indianos não faz sentido você usar um meio de
transporte sozinho, mesmo pagando mais, já que há mais pessoas
querendo ir para o mesmo destino. Por que desperdiçar o espaço vazio?
Em prol de quê? Do conforto? O que é o conforto do corpo? Mas quem
garante que não seria mais confortável dividir o espaço com alguém que
você poderia trocar ideias durante o trajeto? Um desconhecido não poderia
lhe economizar tempo e dinheiro lhe dando informações valiosas? Tudo é
relativo.
No Ocidente, buscamos um certo isolamento corporal e mental. Alguns
podem acreditar que o isolamento corporal não implica uma forma
individualista de pensar, mas para a visão oriental essas situações andam
juntas, como agimos e como pensamos. Nosso comportamento talvez seja
fruto do individualismo moderno. Somos mais inclinados a comprar um
carro novo para nos livrarmos do transporte coletivo, do que sentir
satisfação em compartilhar o mesmo transporte. Não foram poucas as
vezes em que fui orientado por indianos com bom nível de renda a não
desperdiçar dinheiro num transporte, já que se poderia ir por bem menos,
tão confortável quanto. Sem dúvida, na época, não comunguei dessa
opinião. Para mim, era barato pagar a diferença para não dividir o mesmo
espaço com outros. Coisa que aos poucos foi mudando, na medida em que
eu tomava consciência da expressão de meu egoísmo.
Estamos perdendo a naturalidade de perguntar algo às pessoas ao nosso
redor; preferimos pagar para acessar a informação no celular a perguntar a
alguém no mundo concreto. A virtualidade nos isola ou dá expressão a
nossa vontade de nos isolar.
O valor atribuído ao grupo nos torna mais seguros e menos agressivos,
pois sabemos que não estamos ameaçados e que sempre haverá alguém
para nos ajudar. Por outro lado, o isolamento faz com que queiramos tudo,
pois sabemos que os outros também são solitários e que dificilmente nos
ajudarão. Quem já participou da intimidade de uma família americana
sabe muito bem como funciona. Condomínios com garagens lotadas dos
mesmos produtos em todas as casas, muitos que serão utilizados apenas
uma vez na vida, mas que preferem tê-los a ter de pedir emprestado ao
vizinho. Desenvolvem o orgulho da autossuficiência e a alegria, baseados
na aquisição de produtos de bens de consumo, o que permite venderem
mil vezes mais do que deveriam vender caso a sociedade guardasse o
sentimento de coletividade e de que é impossível viver isolado dos outros.
A falta da certeza de que fazemos parte de um todo interdependente nos
deprime, apagando o brilho de nossas almas. Quando retornamos, resolvi
comprar um bolo na Bakery e primeiro deixei Laura na porta da clínica.
Ao voltar, encontrei-a espantada com a advertência que acabara de receber
do médico. Ele estava na porta esperando-a e, assim que colocou o pé na
recepção, dirigiu-lhe a palavra:
– Você não pode sair da clínica por tanto tempo. Só depois das 19h. Mr.
Pillay já havia lhe avisado ontem que não deveria tomar sol. Vocês só
estavam autorizados a ir ao restaurante da esquina. Quem tem que trazer
comida para você é o Marcus. Não sairá mais até o fim do tratamento,
caso contrário, vai estragar nossos esforços.
Ela parecia assustada, mas esboçava um contentamento em perceber que
nos observavam e que se preocupavam seriamente com o sucesso do
tratamento. Os indianos são assim, extremamente atentos e seguros do que
fazem, seja um pedinte na rua que aparece como assombração e não te
larga até atingir seu objetivo, a esmola, seja um médico. Aparentemente,
não mostram essa capacidade ou intenção. São relaxados, mas atentos. O
que dá a impressão de não estarem nem aí para o assunto, quando, na
verdade, estão absorvendo tudo em silêncio, esperando para agir com toda
a intensidade. Em contrapartida, nós, os ocidentais, costumamos ser tensos
e desatentos. A cena da nossa primeira consulta na clínica foi outro
exemplo de como procedem. O médico parecia desinteressado ao ouvir as
queixas de Laura; quando analisou os exames não mostrou dar muita
importância ao que estava vendo, porém, internamente estava seguro e
certo do que estava ocorrendo no organismo de Laura, e, provavelmente,
definia os pormenores do tratamento, em silêncio.
Após o desenlace, a médica assistente surgiu com uma seringa das
grandes cheia de óleo quente para fazer um enema.19 Como Laura estava
com constipação, deveria ser essa a solução a ser empregada. Eles ficaram
muito preocupados quando souberam que os intestinos estavam sem
funcionar havia dias, e que ela já tomara pílulas de ervas para esse fim,
mas até o momento, nada, e tinham se passado dois dias.
A enfermeira avisou-me para aguardar do lado de fora. Em poucos
instantes, saiu do quarto e advertiu que ela deveria ficar deitada por uma
hora, exceto se sentisse vontade de ir ao banheiro.
Naquela tarde, Laura mostrou uma forte determinação para se submeter
a qualquer modalidade das aplicações do tratamento. Após a espera de
uma hora devido ao enema, levantou pontualmente antes de a enfermeira
nos chamar e me convidou para irmos à sala de tratamento. Para ela se
submeter ao tarpana seria doloroso e agoniante, enquanto para mim seria
mais suave.
Primeiro Laura foi convidada a deitar-se na cama. As mãos morenas da
enfermeira moldavam com uma massa caseira uma estrutura ao redor dos
olhos para servir de reservatório, a fim de derramar a manteiga morna
clarificada, ou como a chamam, o ghee, que é conhecido na Índia por sua
capacidade de limpar os tecidos do corpo, removendo até o colesterol
ruim. Deitei-me a seu lado e logo fui alvo das mãos artesanais que
levantavam paredes ao redor de meus olhos, desta vez sem a sensação de
sufocamento, quando os cobriram com o líquido. Percebi que sofri de
expectativa à toa. A questão da dor e do sofrimento voltou a circular na
minha mente. Quantas vezes sofremos por algo que nem acontece? E
quanto isso nos faz mal!
No entanto, para Laura a situação não transcorreria com a mesma
tranquilidade. Ela gemia de dor ao meu lado. Busquei encorajá-la,
comentei que talvez no dia seguinte tudo melhorasse já que eu não tinha a
mesma sensação do dia anterior. Contudo, a severidade de seu problema
não era comparável ao que eu sentia. Possivelmente ela sofreria por mais
dias.
Troquei a estratégia para distraí-la com algo de que gostava. Falei sobre
sua cadela, a quem sempre guardou grande afeição. Mas não percebi
alteração em seus gemidos. Fui mudando de assuntos, até que os minutos
se esgotassem.
Hoje sei que, para quem se encontra com comprometimento nos nervos,
a experiência de dor é potencializada. Os nervos reagem mais quando se
encontram estimulados, pois o Vayu está mais presente. Um dos fatores
que o estimula é o frio. Pode-se fazer uma analogia com uma pessoa que
dá uma topada com o dedo do pé numa pedra num dia frio – as dores são
naturalmente mais agudas, posto que o Vayu já está agravado pelo clima.
Por outro lado, o enfoque nas dores é reflexo das emoções aprisionadas,
que ao saírem liberam sensações escondidas e sufocadas. Na filosofia
indiana chamam de Samskaras.20 Mas que dor é essa? É a dor criada pela
mente quando ocorre uma interpretação de desconforto. Passar por
situações de desconforto faz parte da existência dos seres vivos, mas
sobrevalorizar tais momentos é uma capacidade humana, ou melhor, um
defeito que nos adoece. E essa forma de encarar os desagrados da vida se
cristaliza em pontos profundos de nosso organismo.
De manhã, descobrimos novos tipos de sensações. Laura acordou com
dores nos joelhos e ouvidos, porém com menos dormência nas pernas. A
novidade deixou-a assustada. Acordar com um sintoma ruim, porém
conhecido, é uma situação melhor do que se deparar com um novo
incômodo. O desconhecido assusta. Nossa mente resiste ao inusitado, pois
somos seres que suplicamos pelo calor da caverna, mesmo que ela só
exista no mundo abstrato das sensações e emoções. A busca por ficar
perto do que se conhece é um estado mental que trazemos desde os
primórdios.
Nossa sociedade nos protege por vários meios, ou pelo menos se diz
protetora, e, mesmo assim, estamos em constante estado de alerta. A
insegurança e o medo são nossos devoradores. Por vezes deixamos de
fazer algo ou nos assustamos quando uma situação nova está envolvida. É
aconselhável estarmos mais atentos e despertos num ambiente inusitado,
mas não quer dizer que seja aconselhável olhar para o novo de maneira
paranoica ou com aversão.
Para o budismo, Theravada,21 também conhecido como budismo do
pequeno veículo, em que se busca primeiramente a compreensão de si
mesmo, para depois o praticante se dedicar ao amor e compaixão para
com os outros, o apego e a aversão são dois lados da mesma moeda.
Quando gostamos de algo nos sentimos apegados e desenvolvemos o
medo de perder aquilo. Por outro lado, se desgostamos de algo, passamos
a querer que a situação não se aproxime de nós e aí desenvolvemos a
aversão, sentindo medo de estabelecer um contato mais próximo com o
indesejado. Isso pode variar de coisas banais a situações mais relevantes,
como o sentimento pela vida e pela morte. Certamente, criar preferências
não é algo tão terrível, caso contrário, seríamos apáticos a tudo; entretanto
a intensidade da preferência pode fazer a diferença. Se nos tornamos
inflexíveis nas escolhas e não aceitamos as constantes mudanças dos fatos
como um fenômeno natural da existência em todas as suas expressões,
acabamos por entrar num ciclo de sofrimento, pois terminamos buscando
nos livrar de algo por um lado, e por outro lado, nos aproximamos, ou não
largamos, de tantas outras coisas.
O corpo impõe restrições a situações para evitar acontecimentos que o
degenerem antes do tempo, e isso é salutar. O problema é que
potencializamos esses sinais do corpo e criamos verdadeiras intolerâncias,
quando na realidade nada nos afetaria de forma demasiada. No que se
refere às solicitações do corpo, como quando nos alimentamos, também
hiperdimensionamos as necessidades físicas e nos perdemos no desejar, a
ponto de nos tornarmos obesos.
O budismo também ensina que a existência é sofrimento, mas que este
pode ser evitado, pois advém da interpretação errônea dos fatos, a
ignorância. A compreensão inadequada dos fatos nos faz sofrer. É comum
considerarmos que a vida deveria ser melhor do que está sendo, mesmo
que estejamos em uma ótima condição e, por essa interpretação
equivocada dos fatos, terminamos por sofrer sempre. O desejo de estar em
melhores condições a qualquer preço nos faz sofrer. Muitas vezes estamos
sendo agraciados com as situações que se sucedem em nossas vidas, mas
ficamos inconformados com o curso dos acontecimentos, desejando que
as situações fossem exatamente como planejávamos. Mais tarde nos
damos conta de que se os acontecimentos ocorressem conforme nossos
desejos teríamos um desfecho ruim. Na verdade, a vida estava oferecendo
o melhor, e nós não estávamos sendo capazes de perceber o rumo
adequado dos fatos e sofríamos pelo fato de os acontecimentos estarem se
desenrolando de maneira diversa das nossas expectativas. Quando
ignoramos a realidade dos fatos e não aceitamos a vida como ela é,
desejamos fora de contexto, e isso gera sofrimento. Somente pelo controle
do desejo podemos nos livrar do sofrimento. E tal controle se estabelece
pela correta orientação da mente: um estado de ausência de expectativas.
Existe uma história que aborda essa questão do desejo, do sofrimento e
da expectativa dos acontecimentos. Um fazendeiro compra um belo cavalo
para seu filho. O vizinho, vendo a sorte do garoto em possuir um cavalo
tão especial com tão pouca idade, resolve comentar com o fazendeiro
sobre o futuro do garoto:
– Vejo que seu filho é um rapaz de sorte na vida, todos o invejam pelo
belo cavalo que possui.
O pai do garoto, sabedor do perigo das expectativas e dos desejos na
vida, comenta:
– Não sei. Pode ser sorte ou azar.
O vizinho, inconformado com o comentário do fazendeiro, completa:
– Como azar, não existe cavalo mais valioso em toda a redondeza.
Passado alguns meses, apesar do zelo do rapaz para com o cavalo, o
animal foge sem deixar rastro. E o vizinho volta a opinar sobre o destino
do rapaz.
– É, vejo que seu filho não teve sorte. Perder um cavalo tão caro é muito
azar.
O pai do garoto mantém a mesma prudência em relação à vida e
comenta:
– Sei não, pode ser sorte ou azar.
O vizinho, sem entender novamente o pensamento do fazendeiro,
interpreta que o pai não queria aceitar o azar de seu filho.
Passados alguns dias, um assalto acontece em todas as fazendas da
região e são levados os cavalos de todos os fazendeiros. Na busca pelos
assaltantes, os fazendeiros da região acabam encontrando somente o
cavalo desaparecido do rapaz.
O vizinho volta a conversar com o fazendeiro sobre os últimos
acontecimentos:
– Como pode seu filho ter tanta sorte. Após o assalto nós ficamos sem
um cavalo e seu filho, que estava certo de não encontrar mais seu cavalo,
foi o único a reaver seu animal. Que rapaz de sorte!
Mais uma vez, o pai do rapaz emite sua opinião:
– Sei não, pode ser sorte ou azar.
Após uns meses, o rapaz quebra a bacia ao pular uma cerca com o
cavalo e cair no chão. O vizinho, sem conseguir se conter, volta a
conversar:
– Coitado do seu filho, foi muito azar o acidente com o cavalo.
Mais uma vez, o fazendeiro expressa a mesma consideração:
– Sei não, pode ser sorte ou azar.
Desta vez, o vizinho se indigna:
– Como pode você achar que seu filho quebrar a bacia pode ter sido
uma sorte. Que tipo de pai você é?
Passados alguns meses, enquanto o rapaz ainda estava se recuperando, o
exército convoca todos os rapazes para a guerra. O filho do vizinho acaba
morrendo na guerra e o filho do fazendeiro ainda está vivo; graças ao
tombo de cavalo, não foi convocado para a guerra.
Moral da história: o que é sorte ou azar? São apenas nossas expectativas
que geram esses conceitos, que nos fazem sofrer. E o mais interessante é
que poderíamos pensar: se tudo sempre der certo, serei uma pessoa de
sorte. Contudo, infelizmente, na vida, nunca dará tudo certo, e, caso
ocorra algo que consideremos positivo, estaremos nos preparando para o
sofrimento futuro, pois o apego irá reger nossas expectativas. Mesmo a
interpretação de uma situação como sorte nos leva a sofrer mais à frente.
O desejo gera seus filhos: apego e aversão a objetos, pessoas e eventos.
Quando ele cessa, não há mais situação boa ou ruim, nova ou velha, tudo
passa a ser aceitável e bem-vindo. Dessa forma, livramo-nos do medo das
situações; isto nos leva à aceitação, pois não necessitamos mais nos
defender o tempo todo, de tudo e de todos, o que nos faz menos
autocentrados, mais compartilhadores e zelosos com o próximo. Ao nos
livrarmos dos nossos medos, compreendemos que éramos limitados, da
mesma forma que um adulto percebe que, no passado, quando criança,
valorizava detalhes que, na maturidade, transformam-se em trivialidades.
Mediante o entendimento de nossas limitações, passamos a
compreender que os outros também possuem o mesmo medo que outrora
tivemos. Dessa forma, respeitamos os limites alheios como se fossem
parte de nosso passado, e, desse respeito, pode até mesmo brotar a
compaixão. O sentimento da meta búdica, a “com-paixão”, significa que
compartilhamos das dores alheias; é um apaixonamento por tudo e todos.
Também, passamos a entender as dores advindas das paixões equivocadas.
Compreendemos onde essa ilusão vai desembocar, no sofrimento. Onde
não há clareza dos fatos, as expectativas serão sempre frustradas. Sabedor
disso, não desenvolvemos raiva pelos erros dos outros, da mesma forma
que toleramos os erros de uma criança, por saber que são frutos da pouca
experiência da vida. A condescendência com a falha é sábia. Sabemos que
a falha é fruto da visão equivocada, e, por isso, nasce a semente da ajuda e
não da discórdia. Quando a realidade nua e crua for descoberta e aceita, a
paz de coração surgirá. Para o budismo a realidade é a de que tudo perece,
de que nada é para sempre, e de que pouco adianta se apegar a algo que
não pode ser eterno. Mesmo que não gostemos desse quadro, o fato é que
a vida desaparece como surgiu, e sendo assim, não há o que temer.
O amor aparece quando a compaixão transborda, fruto da compreensão
dos fatos, do completo assoreamento da ignorância, dissolvendo todo o
sentimento de não pertencer ao mundo. Quando nos vemos plenos no
mundo, sentimos que respiramos o mesmo ar que todos respiram,
desfrutamos o mesmo sol que a todos ilumina, dando vitalidade e energia
de forma gratuita e generosa, e também nos sentimos sustentados pela
terra, que a todos comporta e, ao mesmo tempo, alimenta – não há como
sobrar espaço para a solidão. A única preocupação que pode restar é a de
permitir que todos sintam essa bem-aventurança que a cada instante nos
agracia.
Sem dúvida, isso não quer dizer que todos devam ter carros luxuosos
para se sentirem nutridos pela terra. Esse sonho de que todos possuem o
direito de ter tudo é fruto do sonho de poucos que buscam concentrar
riquezas e difundem o exemplo da felicidade através do medo de se ter
pouco.
O pensamento da riqueza é mais ou menos assim: se tenho uma árvore
não será o bastante, quero todas as árvores. Como agora tenho todas as
árvores da região fico com medo de que me roubem, para isso devo
garantir continuar a possui-las, por isso, preciso de mais árvores.
Considerando que tirei algumas árvores que deviam pertencer a outros, sei
que algumas pessoas devem querer uma árvore também. Assim, vendo
algumas árvores, que antes eram de graça para os outros, e, com o
dinheiro, compro novas terras para plantar mais árvores. E nessa angústia
sem fim o pensamento da riqueza usurpa o planeta, retirando mais e mais
da terra para concentrar na mão de alguns, até que esses alguns virem
muitos, pois é expalhando o exemplo de que é possível ter tudo para ser
feliz, e que somente o tudo é que gera felicidade, que se mantém a ideia de
luxo.
Deitar em luxo é uma distorção da compreensão do que a terra e o
universo podem nos oferecer. A vida é repleta de presentes simples que a
melhor das suntuosidades não pode oferecer. O luxo geralmente nos isola
do simples, e é no simples que percebemos a generosidade do universo
para conosco. O toque do sol na pele, a brisa no rosto, o “gosto” da água,
o sorriso de alguém, o descanso depois do esforço, a beleza da flor, o
nascer de uma criança, tudo expressão do amor, da completude.
A única preocupação que nos deveria assolar seria a de que ainda há
pessoas obscurecidas, sofrendo da falta de tranquilidade e da paz de
espírito, a ponto de tornarem-se fisicamente doentes. Assim, do serviço
dadivoso surge o dar sem esperar receber algo em troca, já que a sensação
de estar pleno, completo em si e amparado por tudo, não dá oportunidade
a desejos. O “eu” diminui de importância; o ego torna-se enfraquecido,
porém presente para gerenciar as necessidades do corpo sem negligenciar
os outros, já que a atenção está voltada para a ajuda sincera. A luz do ser
invade os espaços escuros da vida dos outros, clareando o obscurecimento,
difundindo amor.
Mas esta é uma longa jornada, um desabrochar lento, que a vida em suas
múltiplas facetas nos impõe, seja pelo reconhecimento desta celebração do
simples existir, nos momentos que nos emocionamos com as belezas da
criação, que são inegáveis de tão forte, ou pelo sofrimento de nos
recusarmos a seguir no desenvolvimento da jornada humana, quando
queremos coisas que não nos cabem ou recusando coisas que fazem parte
da experiência humana na Terra.
Certamente estávamos passando pela segunda opção. Mas estávamos
conscientes de que mergulhar na situação, por mais adverso que pareça, é
o melhor meio para reencontrar o caminho do reconhecimento das belezas
da vida, e sentíamos que essa viagem médica à Índia seria crucial para
nós.
Terminado o meu tratamento da manhã, enquanto Laura estava no
Shirovasti, o médico bateu na porta do quarto, interessado sobre a melhora
da constipação de Laura, sua graciosidade era permanente, interrompida
apenas para advertir-nos de nossas transgressões às regras da Ayurveda,
como havíamos feito anteriormente. Afirmei que ela havia ido quatro
vezes ao banheiro, após a aplicação do enema. Ele esboçou satisfação.
Aproveitei para avisar que ela estava com dores nos ouvidos e joelhos.
Disse tratar-se de outra coisa, que o problema do desequilíbrio de Vayu
estava melhor e que estas dores deviam-se ao fato de termos saído para
almoçar no dia anterior, pois isso expôs o organismo dela ao esforço nas
pernas, quando precisava de descanso; o sol e vento também agrediram
seus ouvidos, quando deveriam ficar protegidos.
Lembramos que logo no início do tratamento Laura foi orientada a usar
um lenço grosso para proteger os ouvidos e o topo da cabeça. Depois do
Shirovasti, colocavam uma pasta de ervas no topo de sua cabeça para
isolar e medicar essa região; portanto era de fato uma recomendação séria
a de se manter longe da rua.
Fiquei constrangido por ter sido responsável por levá-la e negligenciado
as orientações de proteger a cabeça do tempo. Mas ele mostrou uma feição
tranquila, como quem esboçava um pensamento de que tudo passaria e
estava sobre controle. Deu orientações alimentares e mudou o assunto
para os controles remotos da televisão e do sintonizador de canais
fechados, mostrando que poderíamos ouvir rádio poupando-nos os olhos.
Sorriu e novamente reiterou que deveríamos avisá-lo de qualquer
necessidade.
19 Enema é a aplicação de substâncias nos intestinos através do ânus, técnica muito comum no
passado para resolver constipações ou restaurar a saúde.

20 Samskaras são as impressões psíquicas das ações passadas, armazenadas em nosso inconsciente e
prontas para agirem num ato reflexo às novas experiências da vida.

21 Theravada é a expressão mais antiga do budismo em contraposição ao Mahayana, tendo por base
a prática individual do Arahat, praticante do budismo, até que alcance a iluminação para em seguida
espalhar seus benefícios pelo mundo.
O intestino: um órgão de importância
vital

Preparei o almoço, após uma rápida saída para novamente fazer aquisições
de mais provisões. Por onde parava para adquirir algo, era perguntado
sobre meu nome e de qual país tinha vindo, o que estabelecia um elo de
conhecimento. Certamente se lembrariam de mim nas próximas compras.
Ao lado de um verdureiro vi garrafas de água expostas. Quando perguntei
quem as vendia, o verdureiro fez um gesto para que entrasse e chamou por
alguém. Havia um senhor sentado conversando por uma porta interna da
loja com o vizinho de comércio. Ao me ver, levantou-se e veio andando,
completamente torto e cambaleante, em minha direção. Parecia ter sido
acometido de paralisia infantil. Sorriu e fez a usual pergunta:
– De onde você vem?
– Do Brasil.
– Qual seu nome?
– Marcus.
– Oh, sim, aqui também existem Marcos. O que faz na cidade?
– Vim fazer tratamento na clínica de olhos da cidade.
– Que ótimo. Como ficou sabendo sobre a nossa clínica?
– No ano passado, passei pela cidade à procura de um curso de
arquitetura indiana.
Quando já havia se assenhorado da minha situação, completou:
– E o tratamento? Está se sentindo melhor? – indagou, com um olhar
preocupado.
– Sim, a clínica é muito boa.
– Eu sei, fico feliz por você.
Fiquei sensibilizado pela preocupação de uma pessoa tão comprometida
em sua incapacidade corpórea, limitada no plano físico, mas certamente
muito mais liberta no plano do espírito do que eu estava acostumado a ver.
Geralmente, em minha cidade, vejo deficientes físicos amargurados com
a vida e sempre solicitando atenção. Talvez seja a experiência comum nos
sinais de trânsito, quando se misturam aos vendedores ambulantes. Mas,
de qualquer forma, sentir o interesse daquele senhor sobre o meu
problema me fez perceber que, mesmo a despeito de qualquer dificuldade
que tenhamos de enfrentar na vida, o caráter e o espírito sempre terão a
oportunidade de se mostrarem mais belos.
A cozinha tinha sido usada pelos pacientes do quarto ao lado, por onde
tinha de passar para acessá-la. Portanto, os utensílios de cozinha estavam
limpos, no estilo indiano. Fiz uma faxina antes de usá-los e preparei nossa
comida caseira, sem deixar de dar uma pitada indiana com um pouco de
pó de pimenta vermelha e uma mistura preparada de temperos chamada de
Gram Masala. A palavra masala pode significar molho ou mistura de
temperos. Também é usual usarem a palavra curry. Muitos pensam que o
tempero curry é uma erva indiana, mas na verdade, trata-se de um
preparado de temperos específicos. No Brasil, só existe um tipo de curry.
Entretanto, no país das especiarias, quando você pede um, querem saber
qual, ou seja, qual mistura de temperos deseja.
Enquanto terminava os preparos do almoço, Laura estava sendo
banhada por uma das enfermeiras. Da cintura para cima era tarefa da
indiana lavar, enquanto da cintura para baixo era responsabilidade do
próprio paciente. A adequada retirada do óleo dos cabelos, após o
Shirovasti, já que o topo da cabeça ficava mergulhado em óleo por quase
uma hora, exigia um ritual específico para que não afetasse o tratamento
recém-realizado.
Desta vez, voltou com o corpo mole, quase como uma “drogada”. Era o
efeito do óleo sendo assimilado pelo cérebro. Fiquei satisfeito; sem dúvida
a Ayurveda era real e alterava de maneira forte o organismo.
Pela noite, após o lanche de appam, bolinhos de arroz cozido, com chá,
Laura foi ao banheiro duas vezes e, passados dez minutos, relatou que
sentia que havia melhorado da insensibilidade das pernas e que, pela
primeira vez desde que chegara à clínica, estava sentido o contato das
mãos passando sobre a perna direita.
Fiquei impressionado. Para mim, estava comprovada a importância do
bom funcionamento dos intestinos na saúde geral. Comentei que o médico
havia dito que, assim que ela liberasse bem os intestinos, melhoraria. A
emoção tomou conta de seus olhos; as lágrimas desceram. A alegria da
melhora e o fascínio pela previsão do médico misturados com a certeza de
que havia um caminho para cura e que este passava pela regulação dos
intestinos explodiram numa emoção temperada de esperança.
Magia da Ayurveda, que nos embriagou de admiração pelo
entendimento dos processos simples que perfazem a vida e a saúde, os
quais geralmente ignoramos e menosprezamos. Por vezes, perguntei aos
médicos se havia alguma correlação da doença com as frequentes
constipações e todos foram unânimes em afirmar que não existia nenhuma
conexão.
Emocionei-me também e agradeci silenciosamente a oportunidade de
estar na Índia; sabia que, mesmo com a mera determinação de vir para este
país, nada teria sido o suficiente, caso não tivesse ocorrido uma
conspiração favorável que permitiu surgir uma gama de circunstâncias
favoráveis, as quais facilitaram nossas decisões de vir para a clínica e
nossa viagem de avião.
Quando decidimos viajar, ainda não havíamos comprado as passagens, e
não tinha como requisitar licença no trabalho; além disso, minha conta
bancária já estava negativa. Como num passe de mágica, consegui
resolver tudo em apenas dois dias. O dólar estava no patamar mais baixo
dos últimos anos; havia uma promoção com assentos disponíveis no voo;
consegui o afastamento do trabalho com a rápida compreensão da
assistente social. Sem dúvida, o Universo conspirou a nosso favor.
Além disso, sabia da sorte de ter caído nas mãos de um médico dotado
de delicadeza e carinho, associados a um profundo conhecimento da
ciência médica da Índia. Qualidades que, talvez, tenham sido inspiradas
pela luta gentil de Gandhi pela independência do país. Homem sábio e
letrado, porém, humilde e de rara tenacidade, a ponto de promover um
penoso e sacrificado jejum pela libertação do país.
É bem verdade que aqui no Brasil também tivemos nosso Gandhi,
porém atuou fora do mundo da política. Sempre me vem à mente a frase
desse senhor mendigo e “louco” com aparência de santo, que vivia pelas
ruas da cidade do Rio de Janeiro. Em um dos vários cartazes que exibia
pela cidade havia a frase: “Gentileza gera gentileza”, por sinal seu apelido
era “Profeta Gentileza”.
Tomando consciência
através da dor

Laura parecia sofrer demais na nova modalidade de tratamento com os


líquidos nos olhos, que iniciara naquela manhã. O tratamento mudara para
o Kashayadhara, uma decocção de ervas misturadas com mel, colocadas
sobre os olhos da mesma forma que o tarpana.
Ficava na dúvida se era devido as suas características pessoais de
encarar os fatos com um sofrimento demasiado, ou se o conteúdo do que
lhe era posto nos olhos, desta vez, era mais forte e as dores eram
realmente insuportáveis. Sabia que a dor é um fenômeno da fisiologia
humana, mas pela minha formação em psicologia, também sei que o
sofrimento é uma escolha psíquica. Pela observação do oposto, podemos
ver que é possível sentir dor e ter prazer ao mesmo tempo. Os masoquistas
que o digam. Portanto, a dor se atrela ao sofrimento por uma
permissividade da mente. Caso contrário, é apenas uma sensação de alerta
para o corpo, que pode ser ignorada ou pode levar uma pessoa ao
desespero, se houver uma estreita identificação com a dor. Muitas são as
técnicas para se desvencilhar da dor. Por exemplo, podemos levar nossa
atenção para outro assunto ou fato. Não é incomum pessoas que estão com
patologias dolorosas esquecerem da dor durante uma conversa agradável.
A mente se desocupa da dor e passa a se ater ao assunto interessante,
minimizando a sensação de dor que o organismo informa à mente.
Porém, pude perceber que, nos anos de convivência com a Laura, sua
aversão à dor fez com que ficasse muito atenta ao fato de a estar sentindo,
o que fez com que tivesse desenvolvido uma baixa tolerância a qualquer
tipo de dor, seja física ou emocional. Aliás, dizem que a emocional é a
mais forte na nossa experiência humana. Sempre verifiquei isso nos anos
em que cursei psicologia e estive em contato com pacientes psiquiátricos
no hospital. Muitas vezes, presenciei o dilaceramento do eu através da dor
emocional de pessoas com quadro depressivo. O mundo passa de colorido
para um preto e branco desesperador.
Quando chegou a minha vez de colocar o líquido nos olhos, fiquei mais
propenso a acreditar que de fato as dores eram insuportáveis. Certamente
meu caso era muito menos severo que o dela, mas, mesmo assim, durante
algumas aplicações, tive sensações que me deixavam à beira do desespero.
A busca do autocontrole tinha de ser dedicada, pois se fraquejasse não
serviria de exemplo para ela, e minhas orientações de como se
desvencilhar da dor perderiam todo o valor aos seus ouvidos.
Mantive-me firme, fosse o que estivesse a perceber no meu corpo,
focava minha atenção na respiração. A meditação de alguns anos foi
minha tábua da salvação, pois a técnica de centrar-se na respiração é uma
das orientações mais usuais para os iniciantes da prática meditativa.
Mais tarde, me vi numa cilada. O tratamento bloqueava as vias
respiratórias. Primeiro, sentia as narinas se fecharem, então respirava pela
boca, mas pouco durava a estratégia. A sensação da glote fechada tornava
essa respiração bucal quase impossível. Tentei colocar mais esforço no
mesmo caminho forçando a respiração ao máximo. Mais tarde lembrei de
algumas sábias palavras: “Resistir é dar espaço para o oponente.” Em
outras palavras: “O que resiste, persiste.” O empenho em respirar pela
boca, já que não havia qualquer sinal de desobstrução das narinas, foi se
transformando em angústia, e o autocontrole cedeu espaço para uma
batalha entre mim e eu mesmo.
Uma onda de calor invadiu meu corpo. Apenas um alento existia na
situação. Na sala de tratamento eles deixavam o ventilador de teto no
máximo, o que aliviava um pouco o ardor que tomava conta de mim.
Contudo, dava-me a impressão de o ar ficar mais escasso. O excesso de
vento provocava um congestionamento maior na inspiração.
Minha mente sentia que o desespero estava ganhando espaço a cada
minuto; os olhos ardiam como brasa. Laura, ao meu lado, gemia, ora
ofegante, ora soltando uivos de dor. A terapeuta, como de praxe, segurava
sua cabeça para que não fugisse, impedindo-a de virar o rosto para o lado
e evitando que o óleo caísse. Sua larga experiência com outros pacientes
fez com que identificasse rapidamente os primeiros ensaios de se debater
na cama como uma forma de fuga previsível.
Caí em mim e vi a seriedade de toda a situação, tanto a minha como a de
Laura. Frações de minutos levaram-me a sentir que o rumo que estava
dando em minha vida alojava muita dor em meus olhos. Resignei-me ao
meu passado. Assumi meus erros. Pedi perdão a mim mesmo. Senti um
alívio na alma. Alívio suficiente para oferecer um espaço na mente e
reorientá-la. Por puro instinto, dobrei uma perna sobre a outra, como um
quatro. Sabia que tinha um encurtamento nas virilhas e que essa postura
sempre me foi dolorosa. Uma vez que a mente estava indócil e
comparadora dei-lhe a oportunidade de se vincular a outro tipo de dor.
Forte, porém controlável. O simples fato de poder graduar a dor nas
virilhas pacificava a mente, pois devolvia o controle a mim. Dessa forma,
pude orientar o medo da dor incontrolável para o porto seguro da dor
sobre controle. Perguntei-me: “Ah! Mente insegura e, por isso,
controladora, o quanto tenho que trabalhar para que se aceite num mundo
que não governas? O quanto tenho que aprender a governar meu interior e
aceitar os fatos externos?”
Uma vez recomposto do sofrimento, já que a dor ainda estava lá, pude
orientar Laura, mesmo sabedor do tamanho da dificuldade que ela estava
enfrentando. Certamente, o meu tom de voz devia passar a solidariedade
de quem experimentava de certa forma sua dor. “Respire fundo, foque na
respiração, esqueça o resto do corpo, distancie-se da dor, leve sua atenção
para outra parte do seu corpo, aperte minha mão.”
Saímos rendidos da sessão. Todo o querer estava adormecido. O que
mais queríamos já havia acontecido; os quinze minutos tinham se passado
e a terapeuta estava tirando o líquido dos nossos olhos. A vida só tinha um
sentido: poder estar em pé de olhos limpos. Tudo o mais não importava. Ó
dor, como nos engrandece. É capaz de restabelecer o sentido da vida.
Estar vivo. Nada mais. Pleno no simples momento de estar vivo.
Aceitamos as dores antes insuportáveis quando experienciamos dores
maiores. O inaceitável torna-se bem-vindo. É como um milagre. Do
impossível para o possível.
Dificuldade de aceitar
novos paradigmas

Dormimos tarde. Fiquei tomando nota dos acontecimentos durante o


início da noite; foi difícil levantar pela manhã. Laura acordou com dores
nos tornozelos, ainda eram sequelas da saída para almoçar de dois dias
antes.
Novas pessoas estavam na espera do tratamento da manhã. O desfile de
saris, sempre coloridos e alguns com muitos brilhos, dava um esplendor
especial à sala de aparência sóbria. A energia caía com frequência durante
a noite, mas nessa manhã não havia luz elétrica, somente a luminosidade
da janela, os brilhos das joias que adornavam os pescoços, orelhas e
pulsos, lantejoulas que cintilavam na meia-luz. Apesar do calor de quase
40ºC as indianas não abandonavam seus xales que serviam para cobrir o
busto, um costume para preservar a intimidade feminina, enquanto nós
fazemos o contrário, somos exibidos, quanto mais expor o busto melhor –
desde que não seja na Índia.
Como de costume, recebemos a visita médica enquanto estávamos na
varanda que dava vista para o pátio, por onde as pessoas transitavam para
entrar e sair da clínica. O fluxo de veículos era bem diversificado:
bicicletas, rickshaws, carros antigos, carros modernos, Mercedez-bens e
lambretas dos anos 1960, que traziam um charme especial quando
acomodavam em sua garupa uma mulher de sari colorido sentada de lado
para não macular a tradição de sua vestimenta.
Mantive a mesma rotina: preparei o almoço e servi, enquanto Laura se
banhava para retirar o óleo da cabeça e do corpo. Após comermos, lavei a
louça. Logo em seguida, fomos chamados. Estava na hora da aplicação de
enema. A aplicação era rápida, a ponto de não sobrar tempo para verificar
a higiene da sonda usada e, muito menos, sugerir que se utilizasse as
nossas, que havíamos comprado no Brasil, a caminho do aeroporto. A
condição imposta por Laura para irmos à Índia seria de levarmos nossas
próprias sondas para eles usarem, e assim cumpri. Antes de chegarmos ao
aeroporto parei no centro da cidade e vasculhei as lojas de produtos
cirúrgicos para garantir a limpeza do procedimento. Mas de nada
adiantou; por vezes tivemos de rever nossos conceitos de higiene, até
perceber que somente ocorre higienização do que de fato é relevante, e
não de tudo o que se faz durante a manipulação dos equipamentos.
Quando estivemos num dentista, em outra viagem, ficamos receosos
com a sujeira, com a tinta descascada nas paredes, com o carpete velho,
com os pés descalços do dentista e as teias de aranhas, mas, no momento
de manipular os instrumentos na boca, fez uma esterilização na hora,
vestiu luvas e realizou em pouco tempo um trabalho de artista, que foi
elogiado por todos os dentistas por onde passamos até agora.
Os indianos não possuem a mesma conceituação de assepsia que nós. O
fato é que o mundo é sujo e repleto de germes. Para os indianos, devemos
conviver com a sujeira numa medida mais ampla. A completa limpeza ou
assepsia é necessária em momentos particulares e específicos. O corpo é
suficientemente forte para combater o meio externo dos micróbios, e se
assim não for capaz, é porque está enfraquecido e necessita de ervas para
restabelecer sua defesa imunológica.
Na realidade, o mundo é mais limpo do que imaginamos, e possuímos
uma relação pacífica com os microorganismos. Talvez tenhamos
exacerbado a noção de infecto, quando Pasteur descobriu o mundo
microscópico. Com a descoberta, achamos que todos esses seres invisíveis
e perniciosos poderiam nos infectar. De fato, eles existem a ponto de nos
colonizarem, seja nos intestinos, na pele, no queijo que ingerimos ou no ar
que respiramos. Mas ninguém questiona que somente são nocivos, em sua
grande maioria, caso tenhamos defesas naturais do organismo abaixo do
que é comum num ser saudável. Existe um ecossistema interno, onde
células e microorganismos convivem pacificamente e até em sistemas
colaborativos, é a fraqueza do corpo e da mente que cede espaço para a
proliferação desses seres, estabelecendo um quadro patológico. Talvez a
patologia se instale antes de as colônias de micróbios crescerem; no
momento em que o corpo ou a mente fraquejam é que a doença emerge.
À tarde, fui caminhando até a cidade, desta vez nenhum táxi parava ao
meu sinal, talvez porque estivesse vestido de forma muito incomum para
eles. Na volta das compras, tive mais sorte com a condução. Parei na
Bakery para procurar queijo. Impossível. Parecia artigo de luxo, e na
verdade era, pois poucos lugares trabalhavam com freezer. O hábito de
conservar alimentos com especiarias ainda era soberano na pequena
cidade. E o queijo amarelo é algo estranho à sua culinária, que só usa um
queijo tipo ricota para colocar nas comidas, o paneer.
Cheguei da caminhada com um acúmulo de cansaço, calor e uma
moleza interna, que havia se instalado durante o tarpana da manhã. Na
aplicação, a enfermeira pediu que eu abrisse os olhos várias vezes, minhas
pálpebras pesavam toneladas.
Mais à tarde, ficamos de novo lutando para nos mantermos acordados,
era o período pós-Shirovasti, usualmente bastante sedativo.
Busquei lavar roupas na varanda, até que os mosquitos a infestaram. Era
o cair da tarde. Entrei e pedi à Laura que aquecesse a comida, teria apenas
de esquentar o chapati, pão não fermentado indiano. Mas, imediatamente,
ela lembrou que Mr. Pillay nos advertira de que em seu caso não deveria
se aproximar do fogo, nem mesmo entrar na cozinha com o fogão
funcionando. Porém, pensei comigo, cozinhar um almoço é algo diferente
de apenas aquecer um pão. Sendo assim, mantive meu pedido, já que
havia desempenhado várias tarefas no dia. Laura rendeu-se à situação e foi
providenciar o pão quente. Quando voltou da cozinha estava exaurida,
apenas cinco minutos junto ao fogão tinha deixado-a com câimbras nos
braços e peso nas pernas e costas. Ficou desanimada e enfurecida de ter
regredido nos sintomas por um descuido. Acusou-me diante do desespero
de sentir a força da doença de volta. Fiquei sem ação, mas logo fiz uma
retrospectiva de nossa situação e lembrei que, considerando nossas
limitações frente a uma cultura completamente estranha e a uma doença
dita incurável no Ocidente, estávamos nos saindo muito bem. Deslizes são
naturais diante da complexidade das novidades, ainda mais cansados de
todas as atividades diárias.
Por um lado, sabíamos que tinha de se proteger de fogo (Agni), tanto
que estava proibida de sair na rua enquanto estivesse claro e,
principalmente, com sol. Tínhamos estudado em livros que fogo e vento,
Agni e Vayu, se incrementam, mas pensava que tinha algo simbólico nessa
combinação. Tudo bem que, se temos uma fogueira e começa a ventar, a
combustão aumenta, mas daí acreditar que uma pessoa que sofra um
distúrbio de Vayu, como era o caso da esclerose múltipla, deva se proteger
do fogo, era demais para minha mente ocidental. Conseguia imaginar que
devesse ficar longe de fogueiras e do calor intenso, mas de uma boca de
fogão? Como acreditar que cinco minutos perto do fogão seria o suficiente
para provocar Agni em seu corpo e consequentemente estimular Vayu? Era
como se o fogo alimentasse suas estruturas corporais que se constituem
através das características do “ar”.
Conceitos orientais nos parecem apenas misticismo, e para mim não
deixava de ser, mas as experiências reiteradas somadas a um
conhecimento prévio do sistema ayurvédico foi nos mostrando que eram
inegáveis as interações e consequências de seus princípios. Os conceitos
orientais estavam se tornando mais concretos do que as minhas próprias
certezas sobre a vida; 35 anos de experiência estavam sendo demolidos.
Entendendo a visão holística

Mais uma vez tive de me render ao estado crítico em que me encontrava.


Angústia no peito, ardor nos olhos, que rapidamente ficaram vermelhos,
narinas obstruídas, crise de raiva, pensamentos de fugir do tratamento,
falta de controle, lábios secos, visão escura, sufocamento, tensão nos
ombros, calor nos braços, pernas, mãos e barriga. Tudo isto me assolava
de uma só vez durante mais uma aplicação do tratamento.
Arregacei as mangas da camisa para refrescar os braços, tentei virar o
rosto; a enfermeira impediu. O ventilador estava no máximo e me
sufocava. Laura molhou minhas mãos para me refrescar. O cansaço me
dominou ao término da batalha.
Nesse dia, tive a convicção sobre o processo de adoecimento. Estava
ficando evidente que a doença era um acúmulo de equívocos que
cometemos no decorrer da vida. E retirá-los do corpo é um processo
doloroso.
Compreendi o porquê de a medicina alopática fazer tanto sucesso. Ela é
rápida, não necessita de mudanças gradativas do corpo e da mente, e por
mais desconfortável que seja um procedimento como uma cirurgia, não há
grandes desconfortos; estamos anestesiados. No dia seguinte a uma
cirurgia, entramos num processo recuperativo das incisões e não temos
contato com o que nos foi extirpado. Claro que se restabelecer de incisões
também é desagradável, mas a diferença é que não sentimos o que foi a
causa da nossa doença.
No nosso caso, o tratamento ayurvédico estava nos transformando aos
poucos, quebrando-nos; eliminando os processos cristalizados no corpo,
dia após dia. A mente vai percebendo que mudanças terão de ocorrer e,
em regra, somos bem reativos, ou seja, evitamos largar a doença pois é
algo que nos constitui nesse momento. Sonhamos largar o tratamento e
fugir. A fuga, na verdade, é de nós mesmos.
A consciência é chamada para participar do processo de cura, o que nos
leva a vivenciar as emoções guardadas à época em que fizemos uma
leitura ruim dos acontecimentos do passado, cristalizando vivências
indesejáveis através das emoções negativas.
A memória dos acontecimentos pode não ser revivida, mas as sensações
que guardamos dos acontecimentos passados eclodem como um vulcão. E,
na verdade, não possuem qualquer importância específica para a
continuidade do tratamento. São como bolhas de sabão que se desfazem
da mesma forma que aparecem.
Na alopatia, somos levados à inconsciência da mudança; na
administração dos remédios, ficamos reféns dos efeitos colaterais, que não
passam de respostas bioquímicas de um fármaco, sem possuírem
correlação alguma com as emoções que acompanham o processo de
adoecimento. Não parece ocorrer uma limpeza na origem dos problemas,
pelo menos esta é a impressão. O foco é o órgão doente e jamais o
organismo como um todo. Quando se repara uma parte, esquecendo-se da
relação que possui com o restante do corpo e do psiquismo, é comum que
a doença reapareça em outro órgão. Afinal, o sistema não foi cuidado
como um todo, apenas uma parte dele. Pensamos que, desta vez, fomos
desafortunados com outra doença, mas na verdade o desequilíbrio somente
encontrou outro local para se manifestar.
A ótica de limpeza de um organismo parece antagônica entre o Ocidente
e o Oriente. Por exemplo, enquanto os médicos ocidentais “limpam” o
organismo que sofre de câncer, retirando o tumor através de cirurgias, os
médicos orientais costumam “limpar” o organismo através de
procedimentos que “lavam” os tecidos e órgãos do corpo, que foram
prejudicados com a instauração do mecanismo canceroso. Enquanto o
olhar médico ocidental for o mesmo despendido em uma máquina, cuja
peça com defeito é reparada, esquecendo-se do sistema como um todo,
viveremos ciclos de doenças.
De fato, existem padrões de correlações na alopatia, vários são
conhecidos. Porém, são muito mais da ordem da contiguidade, ou seja,
daquilo que está em contato imediato com as outras partes do corpo, seja
por proximidade ou por funções correlatas ou complementares. Para o
oriental, essa comunicação dos padrões de funcionamento do organismo é
mais ampla e, muitas vezes, extrapola o entendimento convencional,
gerando estranheza. É incomum compreendermos que esse sistema de
correlações não se restringe ao corpo e a suas partes. Passa pelos
pensamentos, hábitos e atitudes que vão desde as conversas, os trabalhos
que desempenhamos, a nossa relação com o clima em que vivemos, até do
que nos alimentamos.
Para a alopatia é fácil perceber a correlação entre um problema
cardíaco, a obstrução das veias, que são contíguas ao coração, e a
alimentação, que o sangue carrega pelas veias. O sangue acaba
depositando certos resíduos alimentares, tais como gorduras saturadas,
que as obstruem, e consequentemente afeta o funcionamento do órgão, no
caso o coração. Contudo, isso não é o suficiente para a Ayurveda. Toda
essa correlação é conhecida. Mas, além disso, são ministrados cuidados
para que se facilite o funcionamento de todo o sistema. Não se colocará,
por exemplo, um espaçador de veias para desobstruir o canal arterial mais
bloqueado, nem se rogará ao paciente para que mude sua dieta alimentar,
receitando fármacos para afinamento do sangue ou algo parecido. O
médico ayurvédico fará diferente, passará uma série de orientações ao
paciente, no que se refere às suas atividades diárias, e promoverá
procedimentos de remoção de todas as gorduras residuais que estão
impregnadas nos diversos tecidos do corpo, através dos panchakarmas.
Pois, a partir dessa limpeza, se terá certeza de que os pontos de maiores
obstruções nas artérias serão beneficiados. Dessa forma, haverá uma
grande chance de o coração se manter sem problemas, uma vez que o
estoque de resíduos foi eliminado ou pelo menos drasticamente reduzido
de todo o organismo. Essa é a tarefa do panchakarma, o rejuvenescimento
dos tecidos.
Uma visão holística não significa dizer que se percebe que o corpo sofre
influências diversas, mas, objetivamente, que os órgãos não são tratados
de maneira isolada, e, sim, como um todo, pois o mal de que determinado
órgão padece também atormenta o restante do corpo. Dessa forma, é
necessário curá-lo como um todo.
Sendo mais específico no caso das gorduras que obstruem as artérias,
seria fundamental eliminá-las de todo os outros tecidos e não apenas das
artérias. Por isso, se empregam as massagens com óleos adequados, que
são capazes de movimentar essas gorduras tóxicas dissolvendo parte delas
e realocando-as de volta ao trato digestivo, para que sejam eliminadas por
processos de purgação.
No caso de Laura, o que ocorria com a desmielinização do nervo ótico
era um processo diferente. Os nervos são envolvidos por uma camada de
gordura específica que, quando perdida, acaba levando a pessoa a
apresentar diversos problemas neurológicos. Sendo assim, o que o
organismo dela sofria de maneira mais contundente era a perda da mielina
no nervo ótico, mas isso dentro de uma visão holística implica que todo
seu organismo sofria dessa perda de gorduras específicas, que não se
restringiria ao cérebro ou ao nervo da visão.
Por isso que recebia massagens abundantes de óleos medicados, que não
passam de gorduras boas e adequadas para seu problema, além do banho
de óleo através do crânio, no caso do Shirovasti.
A medicina convencional pode facilmente perceber um coração batendo
mais rápido pela observação do pulso, mas necessita de exames
complexos para perceber a existência de obstruções em artérias. A
Ayurveda pode não ser capaz de desenvolver as máquinas da medicina de
diagnósticos, mas, por outro lado, é capaz de identificar com excelente
margem de segurança através do pulso do paciente não só a frequência
cardíaca, mas também o nível de gorduras saturadas no sangue, artérias e
tecidos. O que à primeira vista pode parecer um procedimento “mágico”,
na realidade é apenas o desenvolvimento da sensibilidade do médico
ayurvédico.
Após o tratamento da manhã, percebi que a Ayurveda é como a yoga,
um constante aperfeiçoamento gradativo e silencioso, contudo,
transformador e impactante. Permeado pelo mistério do tempo, a
dedicação por um período é a chave mestra para a transformação; não há
soluções imediatistas como estamos acostumados. No início parece que
nada vai acontecer, e duvidamos, quando não desistimos do caminho, mas,
a quem despende empenho e perseverança, a transformação surge
inesperadamente. Na Ayurveda, os procedimentos vão se somando no
organismo sem apresentarem grandes modificações, mas há um
determinado momento quando as alterações da saúde começam a brotar,
tal qual uma semente que é cultivada na terra sem esboçar nenhum sinal
de vida nos primeiros dias. Entretanto, o processo da vida está ganhando
força silenciosamente, até que num certo dia surge o broto da árvore, e, só
então, temos certeza de que os esforços de regar todos os dias a semente
não foram em vão.
O remédio que era derramado morno nos olhos, e que no dia anterior
não provocava praticamente ardor algum, foi desta vez aplicado frio, e
para minha surpresa causava mais dor do que antes. Novas etapas a
superar. Quando se estabilizavam os desconfortos de um procedimento,
atingindo um patamar, somos impelidos a um próximo estágio. Não há
espaço para estagnação. A proposta do viver deveria ter o mesmo enfoque,
a evolução constante, apenas pequenas pausas para respirar e novamente
mais dificuldades a enfrentar.
Os asanas22 da yoga ensinam o modo de caminhar na vida. Quando
estamos todos orgulhosos de atingir um bom desempenho em uma
determinada postura em que não haja mais incômodo e a perfeição foi
conquistada, a yoga logo lhe apresenta uma variação mais complexa a ser
trabalhada. O orgulho cai por terra e a humildade floresce, fazendo nos
lembrar que somos meros buscadores da perfeição e nunca seres perfeitos
e soberbos. Nesse jogo da yoga não há espaço para pensar que se
conquistamos algo seremos felizes; já o capitalismo nos seduz com a falsa
promessa de felicidade, que por sua vez é vazia, sem participação da alma.
Basta comprar um relógio caro ou uma bolsa de marca para nos sentirmos
especiais, mais importantes. É a ilusão do marketing, avaliar-se pelo que
se compra, é o lema da “felicidade” consumista e provisória.
Na Índia, é a alma que necessita se vestir de valores nobres para ter o
reconhecimento dos outros. Os Sadhus, homens santos que se despojaram
dos pertences materiais e praticam a austeridade para fortalecer o espírito,
são extremamente respeitados, até mesmo por homens de negócios, pois
sabe-se que estes homens despidos de bens e muitas vezes da própria
roupa, moradores de rua, são os mais ornados na sabedoria do viver.
Os indianos que buscam as posses materiais, até mesmo os que vão para
os EUA ganhar uma vida mais luxuosa, desfrutando da acessibilidade aos
bens americanos, fazem-no por saber que ainda não se encontram à altura
dos que vivem nas ruas por opção, como os Sadhus.
22 Asanas são as posturas corporais que afetam positivamente o corpo em suas camadas mais densas
até as mais sutis, preparando o corpo e a mente para estágios mais avançados de concentração
mental, sendo o terceiro dos oito passos da proposta da yoga.
Reavaliando a vida moderna

— Quinto dia —

Como tinham se passado cinco dias, as aplicações iniciais estavam menos


dolorosas para nós dois. Entretanto, a preocupação com a constipação era
visível nas perguntas da Dra. Chitra em suas visitas diárias. Sendo assim,
mais uma aplicação de óleo nos intestinos foi ministrada, seguida de uma
massagem nas pernas. Uma hora de descanso deitada era o recomendado
para uma boa absorção do óleo.
O tratamento de óleo na cabeça continuava e a batalha para Laura se
manter acordada logo em seguida era cada dia maior. Apesar de
aparentemente não fazer muito sentido, era de suma importância o estado
desperto para garantir melhores resultados. Mantive-me vigilante para
deixá-la acesa. De dez em dez minutos tinha de chamá-la. Isso a irritava
muito, brigou comigo várias vezes, parecia estar embriagada. Sabia que
deveria estar com a mesma sensação de quem fica uma noite sem dormir e
não pode desfrutar do sono da noite seguinte, porém não ousava mais
descumprir as recomendações médicas.
Durante a tarde, fomos visitados novamente pela médica, que perguntou
como andava o estômago de Laura. Por sinal, sempre perguntava sobre o
estômago por mais que afirmássemos que nunca houve problemas com
ele. Imaginamos que em breve alguma complicação surgiria com ele, pois
não havia pergunta furtiva. Mesmo que não entendêssemos o motivo, os
questionamentos eram fundados no que se esperava do curso do
tratamento.
Mais uma vez os sintomas de mobilidade comprometida se aliviaram
em poucos minutos, após a liberação completa dos intestinos. Pernas e
braços insensíveis voltaram a sentir o toque. Lágrimas de alegria e de
alívio brotaram pelo medo de ficar sem sentir a carícia das pessoas, e o
aprisionamento dos sentidos dissolveu-se. Pura alquimia ancestral da
medicina ayurvédica, transformando o corpo e a mente.
Aproveitei a oportunidade da visita para perguntar sobre as
descamações que surgiram em minha cabeça, a caspa. Certamente, o
nervosismo de toda a viagem e a expectativa do tratamento tinham que se
manifestar em alguma parte de mim.
Não era a primeira vez que apareciam descamações na cabeça.
Consultara dermatologistas no passado e o diagnóstico era o famoso
estresse. A solução? Não tinha, apenas xampus que me eram familiares e
que geravam melhoras somente nas duas primeiras semanas.
A psicossomática é conhecida como fator de origem de certas doenças,
mas quando se buscam orientações médicas de como eliminar o fator
psíquico da doença pouco se sabe dizer. Para muitas pessoas, a cura
através da adequada orientação mental não passa de um xamanismo;
poucos assumem a forte correlação mente-corpo. Contudo, os que a
assumem não sabem orientar os procedimentos mentais para caminhar no
sentido do restabelecimento. Nem mesmo a psicologia consegue sempre
garantir uma intervenção eficaz para o alívio do estresse, e
consequentemente, de várias doenças.
Terapias psicológicas, que para muitos não passam de pesquisas inócuas
e abstratas da mente, possuem pouco espaço numa sociedade que está
acomodada com o poder dos fármacos sintéticos, os quais fazem o corpo
responder com apenas uma pílula. As rotinas sobrecarregadas e agitadas, a
alteração do biorritmo devido às constantes saídas noturnas para divertir-
se, com o alto índice de ingestão de álcool, consumismo desenfreado, a
alimentação indiscriminada, a insegurança nas relações de trabalho e
familiares, o medo urbano da violência e tudo o mais passaram a ser o
natural, ao mesmo tempo a ideia de adoecimento por estresse ficou mais
comum. Mesmo assim, são poucos os que aceitam abdicar de uma
pequena parcela da modernidade em prol da saúde; resta a fantasia dos
pseudoganhos de muitas vantagens do mundo fast-food. As consequências
dos excessos e descuidos se apresentarão em décadas à frente, quando não
mais houver condições de reverter todo prejuízo praticado contra nós
mesmos.
No final das contas, o indivíduo é quem fica desamparado. Realizou
tudo que a sociedade lhe propôs e, agora que se encontra estressado e
doente, a cura definitiva fica a seu encargo, afinal foi ele mesmo que se
estressou! E, caso não consiga refazer sua vida, em breve será cliente dos
remédios de tarjas pretas. A política de saúde pouco parece amparar um
dos males da modernidade, o estresse.
Apesar de a médica não me propor nenhuma mudança de hábito de vida
para contornar meu estresse – afinal, já estava engajado nos tratamentos
da clínica –, disse que me daria um óleo de coco com ervas e que não
precisaria me preocupar. A natureza do óleo de coco é fria e grande parte
dos problemas de pele são de características de irritações e vermelhidões,
ou seja, quentes. É comum existirem sensações de ardor ou queimação na
pele, sinais de que ela está tentando funcionar como um refrigerador do
excesso de calor de alguma área do corpo. Sendo assim, o óleo de coco
ajudaria a anular os efeitos do calor gerado no desequilíbrio da pele,
acalmando a descamação da cabeça. As bactérias da caspa só se
proliferam porque a pele está aquecida e propicia a proliferação da cultura
de germes. Desse modo, o resfriamento da área acabaria por diminuir a
colônia de bactérias.
Meus problemas de saúde insolúveis no Ocidente, segundo opinião de
vários especialistas, estavam sendo tratados na Índia. Que contradição!
Fomos assistir à televisão e por coincidência surgiu um comercial de
xampu; cheio de promessas sobre a eliminação da caspa. Conhecia-o
muito bem. A eficácia do xampu era mínima em minha experiência
pessoal, mas isso fica em segundo plano, pois o convencimento por
propagandas ganha destaque, promessas e mais promessas. O poder
econômico invade uma cultura para desfazer seus tratamentos prometendo
soluções garantidas através de pessoas belas, soluções perfeitas em rostos
perfeitos. A promessa, muitas vezes vazia, ganha consumidores
esperançosos, enquanto o conhecimento das ervas é esquecido e
ridicularizado. Sem propagandas e sem poder econômico, a sabedoria
milenar vai perdendo força, afinal o que não é visto não é lembrado.
Vende-se com glória e altos preços o ineficaz, porém moderno.
Modernidade devoradora que “passa uma borracha” no que levou
centenas de anos para surgir, a Ayurveda.
No sábado, Laura telefonou para sua mãe, já que estavam havia dias
sem se falar. As restrições de sair do quarto antes das 19h, horário de
fechamento da loja com telefone público, somada à falta de telefone na
clínica para uso dos pacientes, limitavam as chances de se comunicar com
sua casa.
Nesse dia saímos um pouco antes. Sua família estava preocupada com a
falta de contato, pensando o pior. Sua mãe suspirou de alívio do outro lado
da linha.
– Finalmente. O que houve? Por que não ligaram antes?
– Não podia sair do quarto com a luz do dia; faz parte do tratamento se
reservar da luz do sol.
– Que loucura! Está comendo bem?
– Sim, Marcus está cozinhando para mim.
– E como está sendo o tratamento?
Laura explicou tudo, dos tipos de aplicações às dificuldades de se
submeter a elas. Por fim, sua mãe quis saber.
– A clínica é boa, direitinha, ou seja, limpa?
– Normal!
Bem, essa era a pergunta que não se faz para quem está na Índia. Mas
era de se entender que viesse à tona a questão. Logo, não cabia responder
com muitos detalhes, uma vez que possuímos o conceito de limpeza
externa associada à saúde. Para nós, as temidas infecções hospitalares
eram fruto da falta de asseamento dos hospitais. Muito embora na visão
ayurvédica trata-se muito mais da debilitação das defesas naturais do
organismo devido às altas doses de medicação sintética do que da sujeira
exterior propriamente dita. Um corpo fragilizado com o bombardeamento
químico perde sua capacidade de se proteger com seus próprios meios. Por
esse motivo, é que se faz necessário um ambiente extremamente limpo nos
hospitais ocidentais. Busca-se compensar o que se retira da capacidade de
resposta do corpo aos microorganismos em função do enfraquecimento
dos sistemas dos órgãos durante o tratamento alopático.
Os conceitos de limpeza mudaram muito nos últimos cem anos.
Excluindo-se as grandes cidades, a Índia inteira encontra-se há um século
atrasada. Não que isso seja ruim, pelo contrário, é exatamente essa
característica que fornece um grande diferencial ao país. Os métodos
ancestrais estavam muito mais ligados à harmonia do homem com a Terra
do que ocorre hoje em dia. Perdemos nossa sintonia com o planeta em
função da visão reinante de domínio e uso indiscriminado da natureza. Em
nome do conforto máximo e da rapidez, compramos a ideia do moderno e
nos distanciamos dos ritmos naturais da vida.
Atualmente, surgem estudos verificando que atitudes simples, como
acordar junto com o amanhecer, provoca um estado de humor muito
favorável, podendo inclusive servir de orientação para pessoas deprimidas,
o que converge com as orientações da medicina indiana.
Certamente, quando a situação de aquecimento global, poluição e
campanhas contra alimentos modificados estiverem mais fortes iremos
repensar nossos valores, e nos tornaremos ansiosos por restabelecer um
modelo de vida bem mais próximo de nossos antepassados pré-
industrializados. A maneira adequada de interagir com o mundo será
questionada, e a Ayurveda estará disponível para orientar uma
humanidade com rumo perdido.
Por outro lado, a limpeza da clínica em pouco difere das clínicas do
Brasil como um todo. Certamente nós não somos o parâmetro correto para
servir de padrão sobre o que ocorre no Brasil. Quem possui renda para
comprar um livro não é membro da maioria brasileira e frequenta
hospitais que o povo nem sonha. Existem dois tipos de Brasil, um pobre e
extenso e um rico e escasso.
As áreas rurais pelo Brasil afora e as diversas pequenas cidades ainda
vivem de um modo bastante similar ao Brasil colônia. Era usual jogar o
lixo pela janela, que era levado pelas chuvas. Exatamente como ocorre
com nossas favelas urbanas. Afinal, seus moradores são oriundos dessas
áreas rurais. Naquele tempo, o Brasil era uma verdadeira latrina, e,
provavelmente, não contava com um sistema de cuidados tão eficiente
quanto o da Ayurveda.
A Índia, em sua ancestralidade, sempre soube administrar melhor a
sujeira, pois os conceitos da medicina ayurvédica misturados com a
sacralização de rotinas preventivas da saúde agiam como um sistema de
profilaxia.
Para os indianos, nunca se entra em casa com sapatos. A casa é sagrada,
e nos locais sagrados se entra descalço, como sinal de respeito. Dessa
forma, não trazem as bactérias e germes para dentro do lar.
Outra maneira pela qual a tradição inibe a disseminação de doenças,
como já disse, se dá na forma com que utilizam as mãos. A mão que se
alimenta não interage com as ações mundanas e vice-versa. Às vezes,
chega a ser difícil imitá-los na destreza com que manuseiam a comida com
apenas uma das mãos. Utilizam apenas os dedos da mesma mão para
cortar os pães não fermentados, do tipo pão árabe, o chapati. Quando um
novato tenta proceder da mesma forma, a outra mão que não deveria se
envolver na atividade acaba por ensaiar movimentos de socorro à mão
destinada à alimentação.
Os deuses recebem oferendas de alimentos da mão direita do devoto, e,
preferencialmente, antes de se servir a refeição aos familiares. Como os
deuses só devem ser alimentados com comida fresca, a família, por
conseguinte, também se beneficia.
A tradição religiosa preserva a saúde familiar. Para a Ayurveda, os
alimentos, após quatro horas de preparados, perdem boa parte de sua
capacidade nutritiva, fazendo com que o organismo acumule gorduras
tóxicas, chamadas de amam. Os nossos intestinos acumulam matéria
putrefata durante muitos anos; muitos alimentos no final do processo
digestivo terminam por cobrir suas paredes e todas as células da mucosa
do aparelho digestivo.
Essa gordura tóxica é um veículo para instauração de várias patologias e
pode ser produzida mesmo quando o alimento é saudável, desde que o
corpo tenha perdido a capacidade de digeri-lo de forma correta.
Em quase todos os tratamentos, retirar essa toxina dos intestinos e de
outros tecidos é um dos objetivos para se restabelecer a força natural do
corpo. É costume manipular os fluidos corporais através de massagens
com óleos medicados com ervas específicas para cada tipo de pessoa, a
tradicional abhyanga, ou massagem indiana.
A movimentação dos músculos e tecidos superficiais do corpo utiliza o
óleo como veículo para remover as toxinas impregnadas nas células e
colocá-las em circulação no sangue, até que se acumulem no estômago ou
intestinos, para depois serem expelidas. O óleo serve de veículo para a
rápida e homogênea absorção das ervas pela pele, pois esse é o maior
órgão do corpo humano, sendo irrigada por diversos vasos sanguíneos que
acabam por espalhar a ação do óleo medicado pelos demais tecidos. Outra
forma de eliminação se faz pela ativação do suor através de saunas, pois
os poros funcionam como um dos sistemas excretores do corpo. Além de
regular a temperatura do corpo, o suor atua como sistema de limpeza de
determinadas toxinas. Primeiramente se aplica a massagem ayurvédica,
para em seguida colocar a pessoa numa sauna em forma de caixa deixando
a cabeça fora do calor. A cabeça não deve ser exposta a altas temperaturas.
Como se observa, a cultura milenar através de crenças e ritos religiosos
preserva a maneira adequada de se alimentar e cuidar da saúde. Quando
mesmo assim ocorrem falhas, a medicina ayurvédica encarrega-se de levar
o indivíduo ao equilíbrio, manipulando seus fluidos de forma a limpar os
tecidos e nutri-los.
Abalando as estruturas emocionais

Desta vez a técnica de envolver os olhos com massa de pão para aplicar o
tarpana foi bastante demorada. Uma nova enfermeira juntava-se à equipe.
Era uma moça de menos de 20 anos, feições delicadas e corpo esguio.
Séria e compenetrada, seguia as instruções das mais antigas. Suas mãos
estavam trêmulas. Por vezes errou e teve de remover toda a massa para
recomeçar.
Após a escultura artística da novata estar acabada, foi a vez de derramar
o medicamento nos olhos. Primeiro deixou cair algumas gotas. O copo
que acondicionava o medicamento era de alumínio, como de costume em
todos os utilitários modernos da cozinha indiana, o que deixava o líquido
rapidamente frio devido à demora com os preparativos, dando uma
sensação desagradável nos olhos.
Fiquei na completa escuridão, o líquido parecia ser escuro desta vez.
Pensei que talvez tivesse acontecido um engano da jovem enfermeira. As
experiências anteriores foram marcantes e deixaram-me apreensivo.
Perguntei-me se estava indo ao encontro de um novo desespero de quinze
minutos.
A princípio, instaurou-se um leve ardor, para depois ceder espaço a uma
sensação refrescante. Comecei a me sentir completamente aliviado nos
olhos, até as camadas mais profundas do corpo, como se fosse um banho
de cachoeira no verão.
Passados três minutos, a configuração se alterou. Num ato de proeza,
acabei por dobrar as calças até os joelhos, devido ao intenso calor que
invadiu meus membros, pernas e braços. Encolhi uma perna por vez até a
altura de meu peito e somente tateando a bainha da calça encurtei seu
comprimento. Eu mesmo fiquei surpreso com minha habilidade
espontânea de alterar minhas vestes, enquanto me concentrava para não
deixar o líquido derramar de meus olhos. Por outro lado, sabia que não
seria muito respeitosa a atitude de mostrar minhas pernas. Porém, no
momento, a vivência era mais forte do que os valores e respeitos culturais.
Laura, que estava como sempre ao meu lado, avisou que estava bem e
mostrou-se interessada por meu estado. Respondi que estava bem, afinal
ela tinha que se orientar sobre suas próprias questões, não queria
preocupá-la.
Fiquei ciente de que os próximos minutos não seriam fáceis, o calor
tomou meus lábios e o entorno da boca, que transpiravam copiosamente.
Passei a secar com a mão o que sobrava do rosto, já que a escultura de
massa ocupava uma boa parte das faces. A respiração não fluía, as narinas
novamente ficaram de tal forma fechadas, que, mesmo forçando a
respiração com toda a capacidade pulmonar, nada obtinha de melhora.
Tive de me conformar com a respiração pela boca. Porém em um minuto
uma dúvida me dominou. Será que conseguiria continuar a respirar pela
boca? Neste momento uma sensação desceu pela garganta e passou a
disputar espaço com a respiração.
Nesta altura todo o meu corpo ardia, perdi a estabilidade emocional, e a
mente tornou-se minha inimiga. O que será de mim nos minutos que se
seguem?, pensei.
A impossibilidade de notar até mesmo a claridade do ambiente, a falta
de ar, a ardência generalizada, o suor no rosto, as mãos da enfermeira
novata que apertavam as laterais da massa no entorno dos olhos,
conjugado a uma intensa dor no meio do peito, fizeram-me pensar em
levantar antes do término.
Argumentei contra mim mesmo que comprometeria o tratamento e
lembrei da situação em que Laura tentara virar o rosto para derramar o
líquido, mas imediatamente duas enfermeiras seguraram-lhe a cabeça.
Certamente a cena não seria boa para ninguém, a minha força e
determinação em levantar versus a tentativa das enfermeiras de me
impedir. Alguém poderia se machucar.
Durante essa divagação, a consciência estava nitidamente cindida.
Havia dois de mim, em mim mesmo. Uma guerra estava sendo travada em
minha mente. Cada qual com uma vida própria, e antagônicos, ego e
consciência travavam uma luta.
A parte que sabia da necessidade de superar as dificuldades de velhos
padrões e permitir as mudanças psicofísicas pareceu-me mais madura.
Algo em mim relaxou e deixou-se guiar pela consciência, a despeito das
dores. Desfiz a tensão nos ombros, soltei a nuca, a respiração dilatou-se. A
agitação mental havia roubado meu ar, quando a calma abria caminho, o
ar voltava. Com mais ar, as emoções se tranquilizavam.
O corpo e a mente mutuamente se influenciam num processo silencioso,
mas de resultados intensos. Caso a mente ficasse agitada, o corpo reagia
com batimentos cardíacos mais rápidos e com a respiração mais restrita. O
inverso também parecia verdadeiro. Se controlasse com suavidade as
reações corporais a mente tendia a se acalmar.
Mesmo com as reações corporais mais brandas, percebia que a
avalanche de emoções incontroláveis tinha se resumido a uma: a raiva.
Talvez fosse a mais resistente em mim.
O rapaz que cuidava dos serviços gerais era muito atrevido e costumava
se intrometer em tudo que fazíamos. Caso ficasse uma brecha na porta do
quarto, lá estava ele a bisbilhotar. No momento ele se encontrava na sala
do tratamento e conversava fazia algum tempo com as enfermeiras, mas,
agora, estava ao meu lado, tilintando o copo de alumínio com seus dedos.
O som era agudo e repetitivo. Fiquei cada vez mais enfurecido. De
repente, me surpreendi com o tipo de ideias que brotavam em minha
mente. Pensamentos homicidas vieram. Quando me dei conta, estava com
raiva do mundo e de tudo ao meu redor. O mundo poderia explodir que
ficaria bem. Acabara de iniciar a Terceira Guerra Mundial com meu
próprio ódio.
Voltei a sentir sensações intensamente desagradáveis. Um egoísmo
passou a reinar em meus pensamentos. Sentia completa indiferença pela
situação alheia, pois percebera como se uma bomba nuclear estivesse
explodido na cidade, queimando meu corpo, cegando-me e terminando
com todo o ar do mundo.
Novamente tive de rogar para que a parte em mim que é comprometida
com a evolução pessoal voltasse ao eixo. Pensei que tudo não passava de
um teste e que tinha de superá-lo, pois tinha pleno entendimento, pelos
livros que lera sobre a Ayurveda, que os olhos são o veículo de expressão
do fogo, sendo o meu dosha Pitta, que é regido por este elemento, não
havia outra opção a não ser se manifestar pelas características da
irritabilidade furtiva, podendo ser levado à raiva ou à fúria incontroláveis.
Portanto, era o meu lado sombrio que estava sendo revirado para, por fim,
ser apaziguado. Só me restava distanciar-me da raiva, que estava
adormecida em mim e que agora eclodia.
Fiz algumas respirações profundas pela boca. Busquei levar minha
mente para o quarto de meditação em nossa casa. Lembrei que sempre
meditava no escuro, e era através da escuridão que me encontrava. Graças
ao líquido preto, fui mergulhando no estado meditativo, na completa
ausência de valoração dos fenômenos. Pensei novamente na respiração,
era a minha chave para abrir a porta meditativa. Mas, desta vez, tive de
abri-la sem chave alguma. O entupimento nasal não dava trégua; acabei
por galgar um novo patamar no caminho meditativo. Em regra, a
concentração na respiração faz com que esta se acalme, o que, por sua vez,
diminui o fluxo de pensamento, permitindo que um estado diferenciado de
estar acordado se instale. Porém, desta vez o caminho se dava pela pura
entrega à escuridão, que por si só é capaz de sedar nosso sentido visual,
desencadeando um processo de isolamento do mundo externo, gerando
paz interior.
Laura já havia terminado o tarpana, sentou-se ao meu lado e perguntou
como eu estava. Avisei que as coisas não andavam muito fáceis. Depois,
para demonstrar minha situação, levantei parte de minha camisa, para que
a barriga se refrescasse.
Laura me advertiu de que a enfermeira abaixara o rosto em sinal de
vergonha frente minha ousadia e despudor. Não tive condições de
recompor a minha atitude, o calor ainda era intenso demais.
Desta vez, pedi que molhasse minhas mãos e barriga. Laura entendeu a
gravidade da situação, deduzindo que deveriam estar como em chamas.
Rapidamente, dirigiu-se ao banheiro anexo à sala e voltou pingando um
pouco de água na barriga e passando a segurar minhas mãos com as suas,
que ainda estavam molhadas.
Um alívio imediato percorreu todo o meu corpo. Minha mente passou a
ficar perdida novamente devido às distrações da conversa com Laura. Os
desconfortos voltaram a emergir com força.
Laura avisou-me que a enfermeira acabara de olhar no relógio.
– Aguente, só mais um pouco, vai acabar.
Por um segundo senti-me mais confortável, mas a indocilidade da mente
ainda estava instaurada e logo surgiu um questionamento interno: “Mas se
esse novo remédio tiver de ficar mais tempo nos olhos?”
O calor aumentou. E um diálogo interno estava se formando, Não
importa. Tudo que está acontecendo é para meu benefício, e cedo ou tarde
vai passar. Tudo passa nesta vida.
O líquido escuro começou a escorrer pelos lados e pude enxergar o teto.
Poder ver apenas a luz, mesmo sem formas, pareceu-me uma benção
divina. Lembrei-me do rapaz do quarto vizinho, que era cego praticamente
de nascença. No dia anterior, tinha visto ele receber o tarpana e era claro
que sofria bastante. Possuía um relógio de pulso que falava as horas. Após
alguns minutos, passou a apertar o botão que avisava a hora em intervalos
cada vez menores.
Meu coração encheu-se de compaixão por ele, ao mesmo tempo em que
me sentia abençoado. Como gastamos momentos preciosos reclamando
dos acontecimentos e ignorando que, na verdade, somos bem-aventurados
por poder vê-los, sejam eles bons ou ruins.
Laura advertiu-me de que a menina estava se preparando para preencher
o que se perdera de líquido.
Não me importava mais. A compaixão suplantara qualquer traço de
outra emoção negativa. A voz de Laura também fez com que fosse objeto
desse nobre sentimento. Quanto medo e desespero ela deve ter passado em
silêncio, quando duvidava da possibilidade de voltar a enxergar
normalmente. Como deveria ter caído em seu coração a informação dos
médicos neurologistas de que provavelmente não recuperaria a visão.
Quanta dor deveria estar carregando somente pela dúvida. Meu coração
doía. Percebi que chorava dentro do líquido preto.
Poucos instantes se passaram e, de repente, a voz da enfermeira surgiu
como uma sinfonia celestial; estremeci de alegria e alívio: “Feche os
olhos.” Esse era o código para saber que terminara e que iria começar a
secar o líquido com um chumaço de algodão.
Levantei-me, recompus-me e perguntei quanto tempo tinha durado desta
vez.
– Os mesmos quinze minutos.
– Parecia mais de uma hora. – Risos.
– Não leve o tratamento tão a sério – disse a enfermeira mais veterana.
Ela era a mais velha de todas, mas parecia muito jovem. Não podia ter
filhos, mas mantinha seu ar alegre e brincalhão. Sua beleza era ímpar, pois
se revestia de simpatia. Por diversas vezes, foi quem animou os pacientes
quando seus limites de dor ficavam claros. Talvez tivesse aprendido com a
dor de não poder ser mãe. Uma verdadeira maldição para uma sociedade
como a indiana. Mas, certamente, não perdera as esperanças de reverter
sua situação.
Distraída, mas completamente presente era sua definição. Aliás, na
Índia o “ar” de que nada está acontecendo, quando para nós o mundo está
caindo, é muito peculiar. O contrário também é verdade, ou seja, quando
tudo está tranquilo fazem parecer que o fim do mundo está por acontecer.
É a técnica de venda indiana. Você pode estar andando calmamente na rua
que será abordado por uma voz como se estivesse vendendo os últimos
lugares no maior show do mundo: “Madame, esta é a sua chance, é o
melhor preço do dia, os deuses estão sorrindo para você, venha, entre na
minha loja, é a sua oportunidade, venha, posso ajudá-la”, entre outras
chamadas para a chance de sua vida, que, na verdade, de especial nada
possuem.
Diferentemente das abordagem de venda, a técnica de dar pouca
importância aos momentos críticos e dolorosos é positiva. Não que
ignorem a situação, mas sabem que expressar maior pesar em um
momento difícil em nada ajuda. Por outro lado, ridicularizar a facilidade
com que se desenvolve um feito pode permitir a vacilação e deixar cair
tudo por terra. Portanto, são ávidos em elogiar uma habilidade incomum
ou um momento de profunda compenetração ou conexão com algo divino.
Quando estão envolvidos em seus rituais, seja nos Ghats23 dos rios
“sagrados”, seja num festival ou em um pooja,24 a seriedade, o interesse e
a atenção são plenos, como se estivesse acontecendo o maior evento do
planeta naquele momento. Para um observador desatento pode parecer que
seus comportamentos e gestos são triviais. Porém, a presença de espírito é
absoluta, o que determina o despertar de estados mentais sutis, fazendo
surgir força e perseverança nos momentos difíceis e contemplação nos
momentos agradáveis da vida.
Seus valores são voltados ao coletivo, pois os deuses e os festivais são
expressões de um determinado aspecto da vida, simbolizado através de
uma forma humana ou animal que sempre carrega instrumentos que
refletem atitudes da vida comum a todos.
Por exemplo, o deus Ganesha é, na verdade, uma figura assustadora e
bizarra. Poucas são as chances de que de fato exista no planeta Terra,
mesmo que em algum plano paralelo de manifestação, tal como num tipo
de mundo espiritual. Mas isso pouco importa. Os símbolos têm sido uma
das formas mais efetivas de comunicar ideias desde o surgimento da
civilização humana. O estudo do marketing se utiliza desta capacidade
inerente à simbologia. Muitas são as marcas de produtos que criam
mascotes para materializar ideias positivas sobre a empresa ou sobre um
novo produto.
Através de imagens e apelos verbais, o marketing busca formar hábitos
de pensamentos e comportamentos automáticos nos consumidores. Na
nossa era, a utilização de símbolos para passar uma mensagem de maneira
instantânea, fazendo lembrar todo um conceito por trás da imagem, é a
melhor estratégia para um anunciante. Quando entramos num bar e
pedimos automaticamente uma determinada marca de refrigerante
anunciada é sinal de que fomos impregnados pela propaganda que
associou mensagens agradáveis a um símbolo da referida bebida. Da
mesma forma acontece quando pedimos um analgésico para dores de
cabeça ou escolhemos uma marca de xampu.
No mundo capitalista, a simbologia pode ser associada a valores
almejados sem, na verdade, nada ter a nos oferecer, tamanho é o poder do
símbolo.
Podemos assistir a uma propaganda que prometa algo novo, irresistível,
sedutor, radioso e que garante nosso sucesso, mas que na verdade em nada
muda nossa vida. Pela mera associação de imagens e ideias somos
impelidos a comprar o produto supostamente capaz de cumprir todas as
fantásticas promessas.
Dessa forma sucedem as palavras motivadoras da venda: ofuscando,
hipnotizando, despertando a fantasia e a ilusão no desprevenido
consumidor.
Empregando-se a imagem de figuras, desenhos ou de artistas na
propaganda, os símbolos são formados e ganham tamanha força que a
todos convencem e submetem. Este é o poder do símbolo e, por isso, a
religião e a cultura o utilizam para divulgar ideias e conceitos sobre a
história dos valores humanos. Pouco importa se estamos assistindo a uma
artista anunciando uma marca ou se é um boneco criado por computador,
ou ainda uma estátua de madeira repleta de cores e objetos. Tal como
Ganesha, a efetividade é similar, o que mais interessa é sua popularidade e
a mensagem que está vinculada a ela.
Religião e capitalismo utilizam-se de artifícios comuns para arrebanhar
devotos, uns podem ser fiéis ao Ganesha, outros à marcas de esporte
famosas. Mas, parece-me que o deus elefante possui muito mais
qualidades para nos inspirar e para nele nos espelharmos do que qualquer
empresa de objetos de esportes.
Para os indianos, as deidades são a materialização de ideias e valores
que se buscam eternizar. Pouco provável que sejam panteístas e acreditem
em vários deuses. Parecem adorar os diversos deuses pela mensagem que
transmitem.
A popularidade de Ganesha é maior do que qualquer astro da televisão.
Sendo assim, os símbolos intrínsecos à sua imagem acabam impregnando
o povo. Além de sua própria imagem, cada parte de Ganesha possui um
significado: em suas mãos carrega objetos ampliando a gama de ideias que
se busca expressar. São justamente essas expressões de símbolos com seus
valores peculiares que guardam o segredo de sua adoração pelos indianos.
Ganesha é uma figura metade humana, metade animal.
Vale lembrar a lenda do surgimento de Ganesha, não que sua figura seja
real ou tenha grande importância, mas, como já afirmei, talvez os
símbolos que explicarei mais à frente sejam os representantes dos aspectos
que remetem à sabedoria a ser seguida na jornada da vida dos indianos, e,
quem sabe, na nossa também.
Um menino, filho de dois deuses, estava em casa enquanto sua mãe saía
para se banhar no rio. Neste momento um homem invade a casa sem
aviso. O menino, munido de uma espada, adverte o invasor para que se
retire. O invasor diz que a casa é sua e lança sua espada sobre o pescoço
do valente guardião, matando-o instantaneamente. Quando a mãe regressa,
surpreende-se por encontrar o pai do menino na frente da casa, após tantos
anos desaparecido. Ao entrar em casa, cai em prantos por ver seu filho
morto. O invasor pai entende o que se passara, tinha acabado de matar seu
próprio filho, cujo nascimento presenciara, antes de partir para sua
jornada.
Desesperado, ordena que um de seus soldados traga a cabeça do
primeiro animal que encontrasse, a fim de utilizá-la para tentar ressuscitar
seu filho. Cumprindo a ordem, saem à busca de animais na floresta
quando se deparam com um elefante branco, comum nas florestas da
Índia. Sua cabeça é trazida para que o pai utilize seus poderes e recupere a
vida de seu filho, nesta nova forma.
Em sua versão final, Ganesha é representado por uma divindade com
cabeça de elefante e o corpo de uma criança sentada num rato, o maior
atemorizador de elefantes. O rato é o símbolo do inconsciente humano,
habitante de nossas profundezas; tal como nos esgotos, o rato caminha por
locais degradados. Esse lado perverso de nossa mente, capaz de dar vazão
aos aspectos degenerativos e impuros que carregamos, é o que mais
tememos, tal como o elefante teme o rato. Porém, Ganesha está sentado
sobre o rato, o que significa dominar esse aspecto inconsciente.
Reverenciar Ganesha nos faz almejar essa mesma capacidade, bem como
todas as outras.
Cada parte do símbolo do deus possui um significado relevante. Por
exemplo, sua cabeça de elefante é uma referência à auspiciosidade, força e
destreza intelectual. Todas as qualidades do elefante estão contidas na sua
representação. O elefante é o maior e mais forte animal da floresta.
Contudo, é gentil e, por incrível que pareça, apesar de seu tamanho, é um
animal vegetariano, portanto, só se dispõe a matar em situações especiais.
Caso perceba sinais de amor e gentileza para consigo torna-se muito
apegado e leal a seu dono. Desta forma, Ganesha é considerado muito
amável e movido pela afeição de seus adeptos. Quanto mais os devotos
são gentis e amáveis, mais Ganesha os protegerá. Tal como a vida se
mostra para com quem se mostra gentil, afinal gentileza gera gentileza.
Entretanto, o elefante pode destruir toda a floresta se for provocado por
um homem armado. Da mesma forma, Ganesha é extremamente poderoso
e pode ser implacável caso seja provocado. O que exemplifica nossa
necessidade de atitude em determinadas situações extremas.
Sua cabeça possui um significado especial; diz-se que é sinal de
sabedoria uma cabeça tão grande. Seus largos ouvidos são capazes de tudo
ouvir e de considerar o que de fato possui relevância e bons valores,
descartando o resto.
Sua tromba é um símbolo da discriminação, a mais importante
qualidade para se orientar na vida. O elefante usa a tromba para derrubar
uma imensa árvore, ou para realizar outros trabalhos pesados. A mesma
tromba imensa é capaz de pegar ramas de grama, ou quebrar pequenos
cocos e remover a parte interna de pequenas nozes. Portanto, a força que
emprega no trabalho pesado pode se transformar na sutileza das tarefas
mais refinadas, através do discernimento aguçado de Ganesha.
Dessa forma, os conceitos relevantes da vida vão sendo reverenciados
coletivamente por todos, para que jamais esqueçam que há muito no que
trabalhar para manter o caráter cristalino e a vida em equilíbrio.
Isso pode parecer idolatria, mas funciona como um lembrete dos valores
que são relevantes na vida. De outra forma, ficamos dominados pelos
sentidos absorvendo indiscriminadamente o que nos é apresentado pelo
mundo, sem reconhecer por onde devemos nos orientar. Atualmente, a
ciência cumpre esse papel na sociedade ocidental, em conjunto com as
religiões, mas os interesses comerciais de cada pesquisa científica podem
nos direcionar para caminhos distanciados da realidade dos fatos.
Nem todos utilizam adequadamente a ferramenta da simbologia, mas os
que reconhecem seu poder dificilmente serão levados por vícios, drogas,
ou atitudes perniciosas, pois Ganesha, ou melhor, a lembrança de seus
aspectos simbólicos, os manterá no caminho adequado.
Para os indianos, as dores individualizadas e valorizadas por nós podem
facilmente ser descartadas. Nada que nos aflija possui real importância.
Seu valor é sempre relativo. A vida está em constante mudança, suas
manifestações não são eternas, tudo está em contínua transformação e isso
é a realidade, pura impermanência dos fatos. O que é prazeroso hoje pode
se tornar doloroso amanhã, e vice-versa. Assim, não há motivos para
sobrevalorizar estes acontecimentos. A mudança é a regra infalível.
Para esta questão também existe uma deidade que carrega esse conceito
em sua representação: Shiva, o transformador. Mas deixemos isso para os
livros de mitologia hindu.
Como minha visão sobre a realidade individual ainda é exacerbada, tive
que me manter no quarto acompanhado da exaustão física e mental.
Restava-me analisar minhas sensações. Percebi que meu corpo tremia,
numa espécie de entrega a mim mesmo.
Minhas estruturas emocionais estavam abaladas, e minhas cristalizações
trancafiadas em olhos e garganta estavam sendo modificadas. Muitas das
coisas que vi durante minha vida e que não gostava estavam, de alguma
forma, condensadas em minha estrutura visual. Talvez quisesse me recusar
a ver o mundo como de fato é. Rejeitei o mundo por ver suas
contradições; preferia que os fatos fossem de alguma forma como
acreditava que deveriam ser. Nossas expectativas nos adoecem. No peito,
restava um alívio; a mente ficara mais calma. Os músculos perderam
tônus, provavelmente tônus desnecessários. As tensões que em mim se
abrigavam renderam-se ao tratamento. Tensões acumuladas no transcorrer
do tempo terminam por formar nós musculares, que logo evoluem para
doenças.
Mesmo neste estado, saí para comprar verduras frescas e frutas. Pela
primeira vez observava calmo e despreocupado os indianos.
Nunca havia me dado conta de que ao sair na rua buscava me esconder
dos indianos. Percebi que não me agradava ficar exposto a seus olhares.
Minha consciência foi remetida para minha cidade e notei que, até mesmo
lá, evitava os outros, o que acabava me trancando emocionalmente. Era
como se não aceitasse a vida como ela é.
Encontrei uma estátua de Ganesha numa loja de frutas. Desta vez, ele
estava deitado de lado, apoiando sua cabeça com um dos braços,
sorridente e descansado. Parecia mostrar-me como eu deveria ser daqui
para a frente. O pequeno rato a seu lado fez-me lembrar da capacidade de
Ganesha dominar os aspectos inconscientes. Quanto tempo convivi com o
receio de ser observado, e quanto sofri sem perceber que,
inconscientemente, sempre repetia os mesmos gestos de fuga. A
capacidade discriminatória estava brotando em mim, tal como as
habilidades da representação da tromba em Ganesha. Talvez daqui para a
frente saberia distinguir melhor meus receios infundados das cautelas
necessárias para um caminhar seguro.
Daí em diante, pude realmente mostrar-me para o mundo. Completo em
meus erros e acertos, aceitando mais a mim mesmo. É engraçado como
projetamos para o exterior o que particularmente pensamos sobre nosso
“eu”. Antes, acreditava que o mundo era de certa forma triste, quando, na
verdade, era eu quem me sentia triste.
De maneira inédita, desfrutava da tranquilidade da certeza de que nada
está errado, tudo segue seu caminho no processo de aperfeiçoamento do
Ser. Cada coisa do seu jeito e no seu tempo.
23 Ghats são os acessos às escadarias que dão na margem dos rios sagrados.

24 Pooja é o ritual de oferenda à vida ou aos deuses.


As recaídas naturais durante o processo
de cura

Era domingo e o mercado próximo não abria, tivemos um almoço rápido e


prático, um macarrão de arroz com ovos, pois não encontrei legumes
frescos no dia anterior. Os médicos viriam fazer a visita do dia em pouco
tempo.
Pela manhã, Laura reclamava que tinha a impressão de que sua visão
estava piorando e sentia dores nos ouvidos. A médica já ficara sabendo
das queixas no turno da manhã e provavelmente nos daria algum retorno.
Sabíamos que ela era muito compenetrada no que fazia, mas que, mesmo
atendendo a nossas solicitações com presteza, não era de dar muitas
explicações, por isso ansiávamos pela presença do Dr. Bokulam.
Certamente ela compartilhara nossos receios a respeito da piora visual
com ele.
Durante os tratamentos ayurvédicos podem surgir várias dores em locais
que, aparentemente, nada têm a ver com o problema inicial, mas são os
sinais de que os medicamentos aplicados nos diversos orifícios do corpo
estão provocando a purificação e a nutrição dos canais internos.
Tais canais podem ser de ordem densa como os que comunicam os
ouvidos ao nariz, bem como os de ordem sutil. Sabe-se que existem canais
que intercomunicam diversos órgãos de forma sutil. Na acupuntura, que
nos é mais conhecida, costuma-se aplicar agulhas em vários pontos desses
canais. Na verdade, é bem provável que o sistema da acupuntura da China
tenha surgido do conhecimento dos canais energéticos, conhecidos por
nadis na cultura indiana, que se desenvolveu de forma mais vigorosa nos
países do leste asiático. Pois bem, estes nadis comunicam várias estruturas
do corpo e, quando estimulados, são capazes de favorecer a circulação de
fluidos que a doença deixa estagnados.
No caso da medicina indiana, a estimulação dos nadis se dá pela
massagem com óleo, que segue direções e caminhos por onde transitam os
canais. Além disso, pressionam pontos específicos de cruzamento destes
canais chamados de pontos marmas, que podem ser bastante dolorosos,
quando uma patologia está instalada ou até mesmo às vésperas de se
instalar. Dessa forma, é comum durante o curso do tratamento que essa
circulação de fluidos, sejam físicos ou “energéticos”, provoque alterações
aparentemente inexplicáveis na pessoa.
Com o passar dos dias, a queixa principal tende a ceder. Contudo, às
vezes, verifica-se uma piora circunstancial, para depois o organismo se
mostrar melhor com a remissão dos sintomas.
Cabe ao médico ayurvédico com sua experiência discernir se a piora em
determinada pessoa está dentro do que se espera do comportamento
reagente da patologia, ou se o rumo do tratamento está equivocado,
necessitando de correções.
Assim como o surgimento da doença, a melhora de uma pessoa doente
não é linear, ocorre em altos e baixos. Um dia sentimos um desconforto
que logo passa, depois de dias sentimos outro sintoma que também se vai.
Costumamos não correlacioná-los e, de repente, surge a doença como um
fantasma que aparece do nada. Mas os avisos já estavam a nos alertar
sobre o rumo dos fatos. Somos medicados ou sofremos cirurgias e após
alguns anos uma nova doença. Pensamos se tratar de algo completamente
novo. Mas, frequentemente, é a mesma manifestação do distúrbio anterior,
com nova roupagem.
A cura, quando trabalha na raiz do problema, também se procede aos
poucos, intercalada com algumas pioras e melhoras, até que o bem-estar
vence o quadro patológico e a pessoa desfruta um novo patamar de
equilíbrio. Quando a doença está em sua fase inicial, sentimos alento em
suas oscilações durante o caminho da formação do quadro patológico. Já
na situação inversa, onde a cura está se solidificando, a falta de linearidade
na progressão do alívio dos sintomas muitas vezes nos faz desistir do
tratamento e acabamos buscando algo mais rápido e evidente, como
remédios sintéticos ou cirurgias. A natureza da saúde não é matemática,
muito menos linear; vivemos em altos e baixos de humores e assim se
procede qualquer transformação no organismo.
Estava na varanda e vi quando o médico estacionou seu carro no pátio
da clínica. Veio direto na direção de nosso quarto. Sua maneira decidida
de andar denunciava que já estava sabendo o que se passava. Voltei para
dentro do quarto avisando Laura da chegada do médico e comentando que
ele já deveria saber sobre seu estado. Mesmo assim, ela reiterou para ele
que sua visão havia piorado. Fomos encaminhados até a sala de consulta.
Aplicaram-se os exames usuais de leitura de letras para verificar o nível da
piora.
Um ar de suspense pairava no ambiente. No transcorrer do exame, a
médica começou a balançar a cabeça num sinal de positividade. Laura
estava lendo até as letras menores com a vista menos prejudicada, a que
sempre esteve melhor. Até aí tudo bem, uma vez que esta foi menos
afetada durante os piores momentos de sua crise visual. Talvez um olho
tivesse melhorado e o outro estivesse horrível.
Porém, quando passou das letras da terceira linha, a tensão do ambiente
se desfez. Ri e exclamei:
– Você está lendo mais que antes, é incrível!
O Dr. Bokulam imediatamente sorriu.
– Até o olho que estava melhor quando chegaram está além da média de
normalidade. Veja como ela está mais animada agora. Quando a vi alguns
minutos atrás estava “murchinha”. – E completou: – É natural perder a
referência do que é estar pior ou melhor durante o tratamento. Talvez sua
visão periférica não esteja completamente recuperada, mas como a visão
central melhorou muito, ela tem a impressão de estar pior, pois agora pode
comparar a visão central com a periférica. De qualquer forma ainda é
muito cedo para nos preocuparmos com a lateralidade da visão; ainda
temos muito tratamento pela frente.
Fiquei sensibilizado de ver o acompanhamento próximo do médico ao
paciente. Ele realmente mostrava-se contente e compartilhava de nossa
alegria. Era gratificante perceber a satisfação no íntimo dos médicos
diante da melhora de Laura.
Talvez pela primeira vez em minha vida pude sentir que o médico
desenvolvia sua profissão por amor ao próximo. Buscava nos acompanhar
diariamente, sempre interessado em dar o melhor de si para a recuperação.
Não mostrava em nenhum momento uma preocupação apenas aparente.
Tudo que faziam durante o tratamento não oferecia nenhum risco à saúde
de Laura. Apesar dos desconfortos e da dor emocional, nada nos dava a
sensação de estarmos sob alguma ameaça pelo tipo de técnica empregada.
Hoje em dia é comum o paciente se submeter a riscos durante o
tratamento convencional, tanto que a Declaração de Genebra, que
substituiu o juramento hipocrático, diz que nas pesquisas médicas é
inevitável o risco e custo dos tratamentos: “Na prática da medicina e da
pesquisa médica do presente, a maioria dos procedimentos preventivos,
diagnósticos e terapêuticos implicam alguns riscos e custos.”
Na medicina ayurvédica a orientação é outra. Procura-se evitar ao
máximo qualquer intervenção que agrida o paciente, pois a sua integridade
é parte da saúde física e mental.
Sabia que estava assistindo a cenas de uma medicina do passado. As
escrituras da saúde indiana revelam que a Ayurveda tem o foco na cura. E
a referência mítica é à deusa Dhanvantari. Sua figura faz lembrar o
restabelecimento, que depende da manifestação do ato divino de curar, o
qual habita cada um de nós. A prece mítica que evoca a deusa fala sobre
as qualidades de cada símbolo que adorna suas mãos, todos instrumentos
da cura.
Tal como Ganesha, Dhanvantari possui quatro braços para segurar os
símbolos que se propõem importantes para a trajetória da cura.
Um deles são as sanguessugas, comuns em terapias ayurvédicas e úteis
em várias enfermidades, possuindo também ampla aplicação nas técnicas
ayurvédicas de rejuvenescimento. Parece que Dhanvantari realmente está
certa, as sanguessugas conquistaram estrelas americanas, que sabem dar o
devido valor a uma terapia com os moluscos. Atualmente, até a atriz
americana Demi Moore, portadora de uma persistente beleza a despeito da
idade, confessou que seu segredo são as preciosas sanguessugas. Afinal
teve de despender nada menos do que a quantia de 220 mil libras pelo
tratamento na Austrália.
Outro aspecto de destaque na representação de Dhanvantari é o pote
com a Ambrosia, o elixir da vida. Esse néctar é originário dos primórdios
do surgimento da vida no planeta. Talvez possamos comparar com o
filamento de DNA que existe em todas as células e rege o
desenvolvimento do organismo. Representa também a capacidade de a
vida prosperar sobre o planeta. É um potencial que habita em cada um de
nós, manifestando-se através de nossas capacidades naturais para cura.
Quem nunca cortou um dedo, e o corpo por si só resolveu o problema?
Esse mesmo potencial para recuperação da saúde pode ser acessado em
quase todas as enfermidades. Metaforicamente seriam nossas “células-
tronco ocultas”, aquelas que a todos os tecidos e órgãos é capaz de
regenerar.
Vejamos a prece:

Aquele que tem em sua forma quatro mãos, segurando uma concha,
um disco, um conjunto de sanguessugas e um pote com Ambrosia, e
cuja fineza, o resplandecer e a pureza transparecem. Traz um colar
que faz dela parecer especialmente maravilhosa, cujos olhos são
como flor de lótus, cujo brilho do corpo é da cor de uma nuvem de
chuva fresca, cuja bela cintura é adornada por um magnífico vestido
amarelo e a todas as doenças faz arder como se fora um incêndio
florestal, à Dhanvantari eu respeitosamente rezo, Senhor.

A chama da sabedoria da Ayurveda se encarrega de debelar as doenças.


Para os indianos boa parte da chama de nossa existência está no sistema
digestivo. Quando se incrementa essa força metabólica, além de promover
uma melhor absorção dos alimentos, não há doença que resista. E Laura
estava sobre intenso tratamento desse sistema, tínhamos fé no
ressurgimento e na sua chama, e isso nos dava ainda mais confiança e
segurança de que havíamos feito a escolha correta em ir à Índia. Essa
convicção certamente facilitaria a recuperação. Toda a expectativa gerada
pela dúvida cria tensão, e isso é o que uma pessoa doente tem de sobra,
expectativas e tensão. A cura é o caminho de volta à calma e à paz natural
de nosso ser. Eu mesmo sentia como se retirasse um fardo de minhas
costas.
A busca de um tratamento do outro lado do mundo era estranho para
todos; isto incluía as enfermeiras que não se cansavam de perguntar o
porquê de sairmos do Brasil, aparentemente um país com mais recursos,
para buscar tratamento lá.
Esse sentimento também era comum entre nossos amigos e médicos.
Não viam o menor sentido em irmos para a Índia estando com uma doença
grave. Afinal o país, para alguns, ainda era um lugar famoso por ser de
saneamento precário e repleto de leprosos. Em suas avaliações,
deveríamos ter ido para a Europa ou EUA. Mas tínhamos convicção de
que o mundo desenvolvido pouco contribuiria para o caso. Naqueles
locais, o índice de incidência de E. M. era altíssimo, e, mesmo assim, as
pesquisas com sucesso no tratamento eram desanimadoras, muito embora
estivessem ocorrendo sempre novos estudos, mas ainda em fase de teste.
Mesmo com os insucessos todo o mundo credita a solução dos problemas
mais difíceis à ciência e à medicina moderna.
Certa vez, uma das enfermeiras, com mais vocabulário em inglês e mais
empatia com Laura, perguntou o que achávamos da clínica e do
tratamento. O tom era de dúvida por termos escolhido uma clínica do
interior para nos tratar. No fundo elas se sentiam honradas por ter acesso
direto a estrangeiros e poder tratar deles.
Para elas o mundo ocidental era tão utópico como é para os pobres do
Brasil conhecer a China. Sabem que nunca terão renda suficiente para
viajar ao exterior e ficam intrigadas com tanta modernidade e luxo que
assistem na televisão; além disso, a cor de pele branca é algo
completamente inusitado. Quase todos possuem uma tez marrom.
Sabíamos que nossas crenças nas propostas de terapias orientais
deixavam de ser um punhado de dúvidas quanto à eficácia para se
tornarem uma visão clara sobre as nuances do que é moderno e do que é
adequado. Modernidade não é sinônimo de adequação. Percebemos que a
tradição pode ser mais eficaz do que milhões de dólares aplicados em
estudos científicos de ponta, mas como explicar a elas?
Apesar da consulta no dia anterior, comprovando sua melhora visual,
Laura começou relatar pensamentos de que talvez estivesse piorando em
vez de se curar. Continuava a afirmar que seus olhos estavam com a visão
ainda pior e as dores de ouvido tinham aumentado. De súbito, fiquei
preocupado e pensando na possibilidade de partirmos para o plano B, a
alopatia com as aplicações de corticoides, mas logo desisti de gastar
minha energia me adiantando aos fatos; isso tirava o foco do que se estava
fazendo e poderia diminuir a eficácia do tratamento. Talvez estivesse
simplesmente passando por uma fase natural de reação do organismo.
Muito se fala na Ayurveda que a doença resiste em ceder e pode se
agravar por algum tempo no curso do tratamento, mas que se este não
perder seu andamento, quem se perde é a doença, abrindo espaço para a
saúde.
À tarde, recebi óleo para descamação no couro cabeludo e um pó para
lavar os cabelos em lugar do xampu. O aroma do óleo era agradável para
mim, porém Laura tinha náuseas com o cheiro. Para as pessoas de
característica fria, de dosha Vata, como ela, o óleo torna-se uma ameaça e
o cheiro, algo repugnante. O pó para lavar a cabeça não era muito prático;
apesar de fazer espuma, criava uma pasta de difícil remoção dos cabelos,
deixando invariavelmente resquícios, o que dava a sensação de se ter areia
na cabeça. Pelo menos não tinha os diversos produtos químicos que
estamos acostumados a encontrar nos xampus de supermercados.
A realidade externa
para a Índia

O calor foi intenso durante a noite; tive poucos momentos de sono. Acabei
me levantando e fiquei duas horas na varanda tentando me refrescar. As
paredes eram grossas, e, apesar de existir uma ventilação junto ao teto, o
calor do dia ainda estava dentro do quarto. As construções utilizam um
tijolo maciço com o dobro da espessura dos nossos. Como em quase tudo
na Índia, seguiam as orientações de um dos textos antigos dos vedas,25 que
discorre, entre outros assuntos, sobre as construções desde os materiais
utilizados até a localização e posicionamento da casa, além de orientar
quanto à utilização dos benefícios do clima local, evitando as trocas de
temperaturas. Essa área da ciência védica é conhecida como o
Vaastushastra.26
Os antigos sábios criaram um sistema ideal para a maneira ideal de se
morar. Muitas casas ainda são construídas seguindo esse texto védico, e
este era o caso da clínica. Seus cômodos eram grandes, as telhas de barro
eram ornadas com motivos florais voltados para o interior da construção,
dando um ar gracioso nas varandas. As janelas eram de madeira, sem
vidros, com a possibilidade de se abrir somente a parte inferior ou
superior, tais como as portas, lembrando as casas coloniais de fazendas
antigas. O piso estava a um metro do solo para evitar certos animais como
as cobras.
Pela manhã, o corpo exigiu mais sono e Laura sabia da minha
constituição Pitta, o que sempre me deixa mais calorento do que ela,
mesmo quando estava saudável. Certamente agora ela estava muito
sensível ao frio devido ao tipo de desequilíbrio que manifestava. Ficou
sensibilizada pela minha noite mal dormida e saiu do quarto, ligando o ar-
condicionado. Tive minutos preciosos de descanso.
Como ela tinha restrições para se expor ao vento, frio e calor, fiquei
preocupado por estar já havia algum tempo na varanda. Tínhamos
situações um tanto diferentes quanto à nossa necessidade de temperatura.
Mas como seu problema era infinitamente mais sério do que a minha falta
de sono, se alguém tivesse que sobrepor desconfortos este seria eu.
Evidentemente, o cansaço tornou-se meu companheiro nos dias restantes,
pela seguida falta de sono, até o início do período das chuvas.
Nem sempre conseguia, nas brechas da ausência de Laura, refrescar-me
no ar-condicionado. As quedas de energia eram constantes. Às vezes me
encontrava com reflexões paradoxais: tinha a sensação de ter ficado
insano. Como fui parar num lugar que nem luz tinha para tratar uma das
doenças mais graves da atualidade? Nesse momento compreendia as
colocações dos amigos, no sentido de que não cabia ir para a Índia fazer
um tratamento médico. Realmente percebi o quanto havia me despojado
de meus conceitos usuais para nos expor a essa situação.
Por um lado, a certeza de que a vida pode ser mais segura e bela sem
tanta “parafernália” da modernidade começava a desabrochar em mim.
Passei a refletir sobre o que havia aprendido na faculdade de psicologia,
nos cursos de hipnose e na clínica como terapeuta. A superação é um
caminho contínuo que só termina quando não há mais nada a transpor,
quando a mente passa a ser soberana sobre o corpo. Para muitos, isso é
uma utopia mística, impossível de ser posta em prática; o que resta é o
caminho da busca incessante dos objetos externos para nos fornecer
conforto. Talvez esse seja o dilema existente entre o Oriente e o Ocidente.
O primeiro acredita na superação dos desconfortos pelo desenvolvimento
do domínio interno, educando a mente, enquanto o segundo é convicto de
que dominar o mundo externo é o único caminho para nos livrar dos
transtornos que o mundo nos impõe, seja pelo clima, seja pelas pessoas
indesejáveis. Quando se fala em modificação do estado interno para
melhor conviver com os problemas do mundo, parece haver um certo tom
de resignação
Mas o que dizer sobre o fato científico da hipnose? Muitos terapeutas
acreditam que a hipnose é algo do passado, que não possui eficácia na
terapia para implementar as mudanças desejadas para o paciente. Contudo,
nenhum deles discorda de que na hipnose é possível transpor limites do
corpo através da orientação da mente. Quando, sob hipnose, uma pessoa
exposta a um calor de 40ºC pode tremer de frio, se o hipnotizador sugerir
que a temperatura externa está próxima de 0ºC. O corpo parará de suar e
desencadeará todas as reações típicas do frio. Sem dúvida a mente reinou
sobre as sensações neste momento. A realidade externa foi alterada pela
modificação da “realidade” interna.
Na Índia, busca-se esse controle através de métodos religiosos ou
filosóficos imbuídos de uma prática diária. A yoga, a meditação, as
preces, os malas27 e os mantras trabalham neste sentido do fortalecimento
da mente sobre os fatos. É evidente que nem todos no país possuem essa
clareza do que se propõem tais práticas, mas é nítido que os textos antigos
versam sobre esse desenvolvimento da mente sobre as sensações. Mesmo
assim, a grande maioria pratica um ou vários métodos de controle da
mente por mero hábito social.
Atualmente, o número de pessoas no Oriente que, como nós, ficam
fascinadas com o uso do ar-condicionado é incrivelmente crescente. Seus
hábitos religiosos e suas crenças caem por terra, principalmente naqueles
que os praticavam sem entender do que se tratava. Quando se deparam
com a facilidade do controle do mundo externo, em vez de ignorarem o
calor, passam a desejar ar-condicionado em casa, no carro, no trabalho e,
se puderem, na rua. Como não podem gelar a rua, começam a frequentar
somente os shoppings gélidos, os quais ainda podem ser considerados uma
construção cheia de excessos e inapropriada num país que
tradicionalmente ficou conhecido por usar feiras ao ar livre para prática
comercial. Estes são os seduzidos por Maya,28 a deusa da Ilusão. Para o
hinduísmo a ilusão é o que faz dar concretude aos fatos a ponto de nos
tornarmos escravos deles. Na verdade, toda realidade externa não passaria
de um jogo ilusório, pois seríamos capazes de nos manter estáveis e em
paz, independentemente do surgimento dos fenômenos. Também tenho
minhas dúvidas; por um lado usei a hipnose nos pacientes, alterando
provisoriamente suas percepções sobre o mundo exterior, por outro, não
consigo fazer o mesmo comigo e busco o conforto do ar-condicionado.
Mas quando a situação exige uma abnegação dos prazeres da vida
costumo aceitar e fazer um ambiente agradável com o que resta. Assim
aconteceu todas as vezes que tive de desligar o ar-condicionado para o
bem-estar de Laura.

— Sexto dia —
A típica imagem da suplantação das adversidades acontecia pela manhã.
Sempre que abria a porta sentia o aroma de incensos invadindo nosso
quarto: era a despedida do vigia da noite que terminava seu trabalho
agradecendo aos deuses através dos incensos e orações por mais um dia de
trabalho, ou melhor, mais uma noite de trabalho. Pura teoria do
contentamento. Geralmente ficamos tristes por mais um dia de trabalho. O
ponto de vista muda nosso relacionamento com a vida; quando
agradecemos, um sentimento de gratidão nos invade e causa reações
positivas em nossos tecidos. A felicidade nutre, enquanto a tristeza
desnutre.
Estávamos no último dia da primeira semana. O tratamento se dividia
em grupos de sete dias, no dia seguinte novos tratamentos nos seriam
administrados.
25 No caso o Atharva Veda, que trata de arquitetura no subtexto do Sthapatya Veda, sendo datado por
volta do ano 2.000 a.C.

26 Vastu ou Vaastushastra é a filosofia de construção orientada por textos védicos que define desde o
local adequado para construir até os materiais e distribuição dos móveis na casa. Provavelmente foi
desta proposta que os chineses desenvolveram o Feng Shui, com a imigração dos monges budistas da
Índia para a China.

27 Mala é um tipo de terço ou rosário utilizado para repetição de mantras por várias religiões
orientais, possivelmente foi quem deu origem ao rosário cristão.

28 Maya é uma palavra em sânscrito que se traduz como “aquilo que não pode ser explicado”. Pode
ser entendido como o véu ilusório da criação, cuja multiplicidade de formas oculta a única Verdade
Sem Forma. A ideia é a mesma de um mágico que produz a ilusão que nos faz crer que a mágica é
real. Essa sensação de verdade da ilusão é apenas uma experiência, pois não passa de um truque. Se
explicamos a ilusão ou o truque, a mágica se desfaz e vemos a realidade por detrás do truque. Por
isso é que Maya não pode ser explicada. Para quem explica Maya, ou vê além do véu ilusório de
Maya, a verdade última se desvela. Maya também é vista como uma deusa, representando o poder
feminino que turva a visão dos deuses reponsáveis pela criação, manutenção e transformação do
Universo: Brahma, Vishnu e Shiva.
A limpeza profunda
do organismo

No dia seguinte, após o tratamento matutino, apresentei uma reação


estranha. Liberei uma quantidade inesgotável de muco das vias
respiratórias, provavelmente o que tinha provocado o sufocamento no dia
anterior.
O nasya é considerado um tratamento essencial para regular vários
problemas na cabeça. O muco antigo e ressecado torna-se um foco
infeccioso e provoca dores de cabeça, rinite, pode comprometer a visão e,
em alguns casos, até a sanidade mental.
Quando adolescente sofria de rinite e nenhum médico foi capaz de me
ajudar. Apenas receitavam vasos dilatadores que me faziam melhorar por
algumas horas, passando a ficar viciado no remédio. Até que um dia me
indicaram uma senhora numa cidade próxima que aplicava algumas ervas
nas narinas para limpar os seios nasais. Fiz o procedimento e, no dia
seguinte, para meu espanto, tive grandes liberações pelo nariz, que me
livraram das fortes crises de rinite até hoje, mais de 20 anos depois.
Porém, havia se passado tempo suficiente para que outros depósitos de
resíduos nos seios nasais necessitassem ser retirados.
Preparei o almoço com novos temperos, à moda indiana, enquanto
Laura recebia sua massagem. Quando voltei da cozinha, encontrei-a no
quarto desanimada. Avisou que comeria a refeição preparada pela
cozinheira da clínica. Era incomum, pois isso não tinha ocorrido ainda.
Voltei para a cozinha e desliguei o fogo. Quando retornei, me espantei
com o choro intenso que Laura derramava.
– O que aconteceu, me fala?
– Dói muito, não estou aguentando.
– Pelo amor de Deus, me conta o que é.
– Meu intestino dói. É forte demais.
Ela contou que estava recebendo massagem em todo o corpo por Jeisri e
Raji, as enfermeiras, e que um óleo era passado por ambas ao mesmo
tempo, dos ombros até os pés com um pano embebido em óleo. O
ambiente estava descontraído, e conversavam sobre ter filhos. Ambas
queriam saber por que ainda não os casamos ou tínhamos filhos.
Morávamos juntos havia tempo demais, quatro anos.
Para os indianos os filhos nascem no primeiro ano de casamento. É um
dever tê-los logo, pelo menos um de cada sexo. E caso tenham somente
filhos de um mesmo sexo, devem ficar tentando mais um bebê até que
nasça um do sexo oposto. Na Índia há um sistema de amparo familiar bem
estruturado. Não há asilos, portanto, é necessário ter uma filha para cuidar
dos pais quando velhos. Logo, quase em todas as casas o casal recebe os
pais do esposo para morar com eles, salvo se eles já estiverem morando
com a filha mais nova. Quando não se tem uma filha a esposa do marido
terá esta responsabilidade de bom grado.
A velhice é respeitada e amparada socialmente pelos familiares. Não é
concebível a possibilidade de deixar os pais idosos ao encargo de
estranhos para serem cuidados, como no caso dos asilos. Isso seria uma
falta de respeito com os progenitores que tiveram tanto empenho em
cuidar dos filhos na infância. Sabem que sem o elo familiar o idoso cairá
em depressão e no desgosto pela vida. As discussões familiares dão calor
e afeto a todos. Não se pode delegar o indelegável, mesmo que se tenha
dinheiro para isso. Outro aspecto é que os mais velhos sempre possuem
algo para contribuir pela larga experiência na vida. Perder esta bagagem é
estar sempre “reinventando a roda”.
A velhice dos pais nos prepara para a nossa própria velhice. Sem o
convívio com os idosos passamos a acreditar que não envelhecemos, ou
que não deveríamos envelhecer. O imaginário do idoso inútil nos
contamina. Produzir é o que importa e esquecemos que sabedoria é fazer
pelo menor esforço. Corremos o risco de desacreditar nas qualidades que
só o tempo constrói.
O mito de Peter Pan assola-nos. Buscando negar a maturidade e o
envelhecimento glorioso, somos vítimas das clínicas de plástica e da
indústria de cosméticos milagrosos. Acreditar que a juventude é eterna
traz um tipo de psicose social onde os valores da vida ficam deturpados,
sobrando espaço somente para o capitalismo moderno, que vende por altos
preços uma ilusão do eternamente jovem, puro Maya.
Terminada a massagem, a médica entrou na sala trazendo um saco
plástico cheio de óleo. Havia uma sonda conectada ao recipiente com o
óleo. Pediu que Laura se virasse e injetou a sonda de forma a fazer
escorrer o óleo quente que estava no saco plástico para o interior dos
intestinos, utilizando-se da simples diferença de pressão atmosférica, já
que mantinha o recipiente com óleo a uma altura mais elevada que a maca,
era o Kashaiabasti.29
A dor do óleo quente por dentro do corpo era insuportável, parecia que
seria dilacerada de dentro para fora. A médica perguntou como ela estava.
Falou com a voz trêmula que precisava ir ao banheiro. As enfermeiras
ajudaram-na a levantar da maca escorregadia, devido a sessão de
massagem com óleo. Quando alcançou o vaso sanitário a tontura e o enjoo
turvaram-lhe a vista; ficara sozinha no breu com a sensação da forte
purgação pelos intestinos. Dores profundas e ardências na barriga foram a
tônica dos vinte minutos seguintes. Pequenos intervalos davam a
oportunidade de respirar fundo para novamente esvair-se, limpando as
vísceras.
Enquanto isso, as enfermeiras aguardavam sentadas no chão do lado de
fora junto à porta aberta do banheiro. Laura gritava de dores até que a
médica apareceu, falou que estava tudo certo. As dores e o calor faziam
parte da resposta natural de um organismo intoxicado, e em breve
passariam. Isso a fez ficar mais calma. O medo de não saber o que estava
acontecendo certamente aumentava as dores, transformando-as em
desespero. Agora sabia que não iria morrer. Deram-lhe um banho e
acompanharam-na até o quarto.
Foi nesse momento que a encontrei. Laura chorava e dizia que havia
sido muito ruim, as dores eram profundas, pareciam fincadas na alma.
Continuou a relatar:
– Foi terrível. Foi o pior momento de toda minha vida.
– Mas aconteceu algo mais que você não quer contar.
– Não, mas parecia que ia morrer e que estavam arrancando um bando
de coisas de mim.
Possivelmente as emoções de vários acontecimentos estavam sendo
liberadas de uma só vez. Cada placa de resíduos estagnada nas paredes do
intestino havia se formado graças a erros alimentares do passado
associados às condensações emocionais.
Hoje alguns médicos reconhecem que há um “cérebro emocional” nas
células dos intestinos. Memórias em forma de emoções são codificadas
nas paredes dos intestinos. Muitos animais mais simples usam essa
memória para diversas tarefas.
As emoções fortes geralmente são de cunho negativo e servem para nos
poupar de passar por perigos similares. Porém, o homem possui tensões
oriundas de situações abstratas que não mais o colocam em risco, mas que,
mesmo assim, as arquivamos, como se fossem situações mortais, tal como
o encontro com um tigre na selva.
É comum nos tratamentos de colonterapia,30 provavelmente oriundos
das técnicas ayurvédicas e vestidos com novo nome no Ocidente, os
pacientes serem advertidos de que poderá haver alguma descarga
emocional durante o tratamento.
Em função de ter um conhecimento prévio disso, comentei que deveria
ser uma reação natural e que logo desapareceria, ainda mais rapidamente à
medida que se acalmasse e não se fixasse no ocorrido. Era uma página
virada.
A enfermeira trouxe um prato de arroz com pães não fermentados e
assados. Em seguida, a médica veio checar como andavam as coisas.
– Ela estava muito assustada, mas amanhã não haverá esse
procedimento, só depois de amanhã.
Laura sorriu e chorou enquanto ouvia a frase da médica.
A médica sorriu e retrucou:
– Fique tranquila, talvez nem precisemos repetir.
Laura tinha encontrado seus limites. Todo cuidado era pouco. Em
momentos como esse costumamos agir como crianças, regredimos. Isso
ficou claro em seu comentário, logo que a doutora saíra.
– Acho que vou desistir de tudo, chega. Isso é demais.
Percebi que é impossível submeter-se a um tratamento ayurvédico sem
um acompanhante, a desorientação do paciente durante esse período é
algo comum. Tive de trazer um senso de realidade ao momento, mesmo a
contragosto, pois percebia em suas feições como tinha sido séria sua
vivência.
– Laura, sei que esta sendo difícil para você. Mas temos de lembrar que
sua patologia é uma das mais sérias que existem. Se voltar antes de
concluir o tratamento provavelmente terá que tomar os medicamentos que
desencadeariam sintomas muito piores do que está sentindo agora. E,
diga-se de passagem, não terá esperança de se livrar da doença como aqui
estão garantindo.
Lágrimas desceram pelo seu rosto, mas desta vez pareciam de
resignação. Por fim.
– Você tem razão. Vou ficar até o fim.
A luz acabou na cidade. Dentro da clínica tudo transcorreu
normalmente. Os procedimentos não necessitavam de eletricidade. As
consultas também fluíram sem incômodo algum, parecia que nada de
especial estava ocorrendo. Os aparelhos de exames oftalmológicos eram
antigos e no máximo se fazia necessário o uso de uma lanterna ou uma
vela para se observar o fundo de olhos dos pacientes.
Fiquei pensando o que se daria nas clínicas ocidentais com toda a sua
parafernália de última geração. Certamente havia geradores, mas se
também faltasse a fonte de energia dos geradores, não se trataria mais
ninguém? Talvez tenha sido o que aconteceu em Nova York, quando
faltou energia num dos últimos verões, pelo excesso de uso de
refrigeradores.
29 Kashaiabasti é uma mistura de chá de ervas purgantes e outros produtos para preservar a flora
intestinal. Remove as fezes antigas dos intestinos, que em muitos casos ficam acumuladas liberando
toxinas para o sangue.

30 Colonterapia é uma limpeza dos intestinos feita com água para remover resíduos antigos das
paredes dos intestinos aplicada no Ocidente, mas que não se confunde com a técnica indiana, pois
essa aplica outros procedimentos para nutrir os intestinos além de promover sua limpeza.
O poder das ervas e
dos produtos da vaca

Pela tarde saí para procurar um acesso à internet no cyber cafe, pois o
comércio também funcionava normalmente. A loja de costura ao lado da
clínica estava a todo vapor, as máquinas eram de pedal e a luz do dia
fornecia a claridade necessária para as costureiras. Na Índia, as geladeiras
expostas nas lojas de eletrodoméstico são do tamanho de um frigobar,
tamanha a importância que é dada a elas. No país das especiarias, onde
tudo se conserva com uma pitada de algum tempero ou condimento
especial, a geladeira está mais para um luxo do que para um bem
indispensável.
Muitos ainda possuem vacas por perto, afinal o animal é sagrado na
Índia, e, portanto, acabam por se beneficiarem de leite sempre fresco.
Pode parecer infundado e de mau gosto adorar a vaca, mas foi em função
da inserção dessa crença na cultura indiana que, apesar dos poucos
recursos tecnológicos e da pressão ainda recente da colonização inglesa, o
alimento nunca faltou no país. A vaca é tida como um recurso natural
essencial à vida familiar. São diversos os produtos que gera para o bem-
estar humano: dela se obtêm o leite e seus subprodutos essenciais para a
saúde. Por exemplo, na concepção ayurvédica o ghee é utilizado como
parte fundamental da dieta diária. Nessa espécie de manteiga clarificada se
extrai toda a gordura ruim da manteiga, aquela que obstrui nossas artérias,
restando um néctar para manutenção e recuperação de vários tecidos do
corpo humano. Seu consumo no lugar do óleo de cozinha pode reduzir o
colesterol ruim e aumentar o bom em poucos meses, e para eles o melhor
é que não estraga e nem necessita de geladeira.
Outro exemplo são as fezes do gado que, misturadas ao capim, têm alto
poder de combustão, fornecendo fogo e energia para diversos lares. A
urina da vaca pode ser utilizada como remédio em diversas afecções e
funciona como um excelente desinfetante para a casa. Sem contar que a
força motriz da vaca pode garantir uma plantação familiar e executar
diversos serviços de transporte.
O leite fresco, sem hormônio nem outras drogas químicas, que
usualmente ingerimos nas grandes cidades, é um potente revitalizador do
corpo se tomado na quantidade diária ideal.
É comum a produção de medicamentos utilizando os cinco subprodutos
da vaca (ghee, leite, fezes, urina e iogurte) conhecidos como Pancha
Gavya. Suas utilidades medicamentosas vão desde antibióticos até
antidepressivos.
Agora imaginemos que a vaca não fosse sagrada e todos os indianos
fossem de dieta carnívora. Provavelmente sua população seria bem menor,
pois muitos não teriam acesso ao consumo de carne e matariam sua única
vaca para comê-la; em poucos dias estariam privados de todos os produtos
que a “ruminosa” gera para subsistência da família.
Imaginemos ainda que antes de a sociedade indiana transformar-se em
carnívora (fato que vem ocorrendo nos últimos anos em face da admiração
pelos jovens do modo ocidental de ser) e que o petróleo entre em crise
maior do que já está, juntamente com as outras fontes de energia, nesse
panorama a grande maioria das famílias indianas permaneceria da mesma
forma, incólume, graças à ideia de proteger a vaca.
Talvez alguns sábios do passado tenham difundido a ideia de
sacralização da vaca prevendo sua necessidade para a subsistência humana
de forma equilibrada para o planeta. Cada família buscava possuir sua
própria vaca e garantia seu suprimento básico para higiene, saúde,
alimentação e energia. Mais itens do que o benefício social da “bolsa-
família” consegue prover na nossa sociedade brasileira.
Quando voltei da cidade, em mais um momento de queda de energia,
resolvi esperar na recepção lendo jornal com a luz das janelas, afinal para
mim a luz mais importante da clínica estava na recepção, Mr. Pillay. Ele
era quem sempre clareava minhas ideias a respeito de vários aspectos da
vida e nos introduzia aos conceitos, filosofia e atualidades da Índia.
Encontrei com Mr. Pillay e entramos numa conversa sobre o poder das
coisas simples na Índia, como as ervas. Ele explicou:
– As ervas adequadamente plantadas possuem um fantástico efeito sobre
nós. Isso significa que, se alterarmos a época de plantio ou a região e o
clima, perdemos as propriedades essenciais das ervas e sua eficácia
termina por diminuir. O Ganga (rio Ganges) é dito como sagrado pelos
seus poderes curativos. Se você colher a água de qualquer parte de um rio
comum e guardá-la em um recipiente, após uma semana terá cheiro ruim
com partículas de cores alteradas. Mas se a água for do Ganga
permanecerá igualmente fresca. Isso se deve ao fato de que o rio nasce nos
Himalaias em uma região onde crescem muitas ervas especiais em
temperatura e clima adequados e em solos puros e ricos. O resultado é que
a água fica medicada e pode descer milhares de quilômetros entrando em
contato com corpos cremados na beira do rio, como usualmente ocorre
com os velórios daqui, além de vários detritos de diversas ordens, sem que
perca suas propriedades de pureza. As ervas esterilizam os detritos,
enquanto em outros rios eles apodrecem a água. Claro que há trechos do
rio em que a quantidade de dejetos industriais é tão grande que a água
torna-se envenenada. O poder de equilíbrio das ervas atua somente em um
ambiente de atividades orgânicas – a natureza sabe como interagir com os
seus resíduos. Quando alguém é cremado na beira do rio seu corpo fará
parte da fértil lama escura que margeia o rio e ajudará a torná-lo mais
fértil, alimentando as gerações que estão por vir e mantendo o ciclo da
vida com sua própria entrega na hora da morte. Não há sujeira nisso, mas
sim beleza. Morrer para que outros renasçam. E assim tem ocorrido nos
últimos milhares de anos nas águas do Ganga. Infelizmente, a
modernidade das indústria é que tem abalado esse equilíbrio nas últimas
décadas, com sua espuma branca e mortal saindo das tubulações das
fábricas.
“Mesmo assim, muitos acreditam que a água do Ganga é sagrada,
milagrosa e pura, e é capaz de levar suas almas para os céus no momento
da morte. Seus familiares pingam gotas dessa água na boca de um
moribundo, a fim de garantir que este vá para os céus. Mesmo que a água
não tenha esse poder no momento final da vida, em nada diminui as
crenças que surgem das propriedades medicinais da água. Talvez o
moribundo acabe formando uma firme convicção de que estará salvo e
tenha uma morte tranquila e feliz, após receber as gotas miraculosas do
Ganga. Mas isso, só saberei mesmo quando chegar minha hora nas
margens do Ganga.”
Nesse momento Mr. Pillay caiu em risos. Depois prosseguiu:
– O rio Ganges é ayurvédico por natureza. A água de beber nos
restaurantes é de cor rosada. Pode parecer suspeita, mas na verdade é o
selo de garantia de uma água limpa e potável. Todos conhecem as ervas
que garantem a purificação da água na Índia e, por isso, não necessitamos
de comprar água em garrafas plásticas, mesmo que muitos as comprem
por praticidade na hora de viajar pelo país.
“A utilização dos recursos alimentares, tal como o uso adequado da
água purificada, é uma tarefa que somente pode ser levada com sucesso se
houver o emprego da sabedoria das orientações ayurvédicas para a vida.
De pouco nos adianta a fartura de alimentos adulterados por uso de
agrotóxico, com modificações genéticas, iluminados artificialmente,
enriquecidos com adubos químicos; tudo isso gera mais lixo para o corpo
do que alimento. Mas a sociedade ainda vai aprender com isso, e
naturalmente voltará às raízes da Ayurveda ou dos outros sistemas de
medicina natural.”
A Índia continuaria a mesma diante de uma crise de petróleo ou
energética. A abundância de rios e a sabedoria das ervas associadas às
vacas são o que mantém tudo em funcionamento no país. Apenas uma
pequena fração da produção agrícola é feita com maquinário. A cena mais
comum é assistir aos búfalos puxando carroças carregadas a ponto de
parecer no contraste que o animal é quem está sendo puxado pela carroça.
Certamente o desespero de invadir países produtores de petróleo com
pretextos infundados, dizimando parte da população em pleno século XXI
não faz parte do karma da Índia. Entendem por karma a ação que
inevitavelmente gera reações; em outras palavras, colhemos o que
plantamos. A soberania do país baseia-se em princípios mais altivos que
muitos países desenvolvidos. Sua matriz energética não é predatória e sim
pacífica, aliás a vaca é o símbolo da pacificidade ou da não-violência,
chamado por eles de Ahimsa. O mesmo princípio que Gandhi fez o povo
relembrar para ativar a resistência pacífica aos ingleses.
Os países são como seres humanos, uns ricos, outros pobres, mas
sempre resta a pergunta: quais foram as ações que levaram alguém a ficar
rico? Foi o trabalho justo ou o saque das riquezas alheias?
O caráter deve ser percebido nas atitudes e nos alicerces da própria vida
do indivíduo. Esta é uma máxima para se identificar falsos discursos. É
isso o que ocorre na Índia como coletividade de indivíduos que
apresentam um caráter espiritualizado, suas premissas e atitudes calçadas
na roda do dharma, ou seja, na atitude correta e na solidariedade. Sem
falar na generosidade exemplificada como nação. Após a invasão do Tibet
pela China, a despeito de toda divulgação do Dalai Lama sobre as
barbaridades que se praticaram sobre seu país, na tentativa de mobilizar os
órgãos internacionais e países de maior vulto econômico (leia-se poder),
nem mesmo a ONU tomou uma atitude à altura do massacre. Somente a
Índia permitiu e tomou o compromisso de aceitar a população do Tibet em
seu território, atitude nobre de um país cujo povo preserva o espírito de
solidariedade.
Terminado o assunto do Ganges conversamos sobre o movimento das
igrejas evangelistas. Por sinal, havia uma em frente à clínica, e sobre as
notícias do jornal Sunday Express. O movimento cristão no país era
pequeno em relação às outras religiões, mas em números absolutos
possuía muitos fiéis. Benny Himm e K.A. Paul são exemplos de
milionários religiosos, fruto do evangelismo na Índia, um país
eminentemente hindu. Pelo que noticiava o jornal, um deles chega a
possuir um Boeing 747s e gaba-se de ser o único a possuir um avião de tal
porte, além do presidente dos EUA.
Comentei o assunto no intuito de obter sua opinião a respeito dos
movimentos religiosos na Índia:
– Há muitos homens milionários na Índia que pregam como pastores
dessas igrejas?
– Sim, existem diversas religiões na Índia; alguns ganham fortunas com
a ingenuidade do povo, mas outros simplesmente pregam a sabedoria
religiosa sem nada pedir, e isto não é restrito apenas a uma religião.
Existem bons e maus religiosos em toda parte. Aqui perto tem o ashram31
da Amma, uma santa hindu. Muitas pessoas ficam curadas por lá só com o
abraço dela. Ela é conhecida como a Divina Mãe. Costuma visitar várias
cidades e países só para oferecer um abraço de amor. – Mr. Pillay não
pareceu muito interessado em abordar o enriquecimento dos religiosos.
Interessei-me pela Santa.
– Será que poderíamos ir até lá.
– Verei se consigo falar com um amigo que frequenta o ashram para
levar vocês, mas será necessária a autorização do Dr. Bokulam.
– É necessário pagar?
– Não, de forma alguma, seu darsham32 é para todos. Ela possui muitas
obras de caridade e reverte todo o dinheiro que recebe de doações
espontâneas para o povo; ela vive de forma simples.
Comparada à notícia que acabara de ler no jornal, era grande o contraste
religioso do país, nada que particularmente não desconheçamos no Brasil.
Porém, impressiona tomar conhecimento que, num país em vias de
desenvolvimento, se faz tanto dinheiro através da religião, principalmente
sendo esta minoritária. Enquanto uma santa da religião hindu, a religião de
quase todo o povo, vive de forma simplória, sem nenhuma fortuna
material.
Lembrei-me de outra notícia que me chamou a atenção na televisão pela
manhã. Desta vez foi na BBC News. A Inglaterra tinha planos para reduzir
a quantidade de voos internacionais no país, devido à poluição do
aeroporto londrino, uma vez que possui o maior movimento de conexões
aéreas do planeta.
Quem diria, o desenvolvimento econômico teria de retroceder para
poder sobreviver. Um dos maiores geradores de divisas, o frete aéreo,
estava ameaçado em uma das potências econômicas, graças à mentalidade
indiscriminada de crescer e se desenvolver a qualquer custo. As guerras
mundiais evidenciaram a desgraça da cobiça de mercados, mas o pior
talvez esteja por vir. O planeta testemunhou silenciosamente a ganância e
agora emitia uma das contas em Londres.
Todas as reportagens a respeito das consequências sobre o clima e a
natureza, devido à expansão desenfreada do consumismo e da
industrialização, ficam com um toque de humor quando assistidas nos
noticiários do país onde a vaca ainda é sagrada e a simplicidade reina nos
procedimentos necessários à manutenção da vida humana.
Tive de saber a opinião de Mr. Pillay sobre a poluição do planeta.
– Como o senhor vê a explosão econômica da Índia e o aumento da
poluição de gás carbônico no planeta gerando o aquecimento global?
– É estranho, nós nunca fomos ligados na modernidade de maneira
impensada. Mesmo na época da colonização britânica existiam vários
sábios e pensadores que julgavam desnecessária toda a modernidade que
os britânicos nos ofereciam. Pensavam que a vinculação com o moderno,
de maneira inconsequente, teria um resultado grave. Profetizavam que o
homem perderia sua visão ajustada do propósito da vida e se entregaria à
busca desenfreada pela praticidade moderna.
– Mas quais seriam esses perigos de perder o propósito da vida? Será
que um pouco de conforto faz mal a alguém?
– Não, o conforto até certa medida é necessário. O problema é quando
trocamos a meta da vida por adquirir conforto cada vez mais em
detrimento do próprio planeta. O propósito da vida é ser feliz, mas isso
não acontece adquirindo bens ou conforto. A felicidade é fruto da
compreensão da alma, passa muito mais pela aceitação do que pela
aquisição. Além disso, é um recurso gratuito e disponível a todos; não
necessitamos de guerras para roubar a felicidade de uns para si mesmo.
– Entendo, mas parece ser difícil dosar o quanto de conforto é
necessário para o humano.
– Por isso o caminho da vida tem que ser trilhado a pé. Não adianta ir
num automóvel de último modelo. O que quero dizer é que há muitas
coisas que necessitam de dedicação e esforço, e isso é uma qualidade
antagônica ao conforto. Veja nosso corpo, por exemplo. Se abdicamos de
fazer qualquer exercício ele adoece. Carros, escadas rolantes, elevadores
são sinais de conforto, mas o uso constante desses instrumentos nos fará
ter problemas cardíacos, além de musculaturas e articulações frágeis.
Portanto, é como o sal, quando posto de maneira comedida, realça o sabor
da comida, mas se o colocarmos demais, acreditando que quanto mais
melhor, a refeição ficará intragável. Assim é a vida com o tempero do
conforto.
– Mas agora a Índia está caminhando no sentido do desenvolvimento e
consequentemente do conforto.
– A Índia viveu um largo período sem conforto algum, agora está
buscando o conforto. Não há nada de mal nisso, desde que não se erre a
dose. Comida sem sal dá para comer, mas também não é uma boa pedida,
entende?
– Sim, parece que uma pitada de conforto fará bem ao país.
– É isso que quero dizer. Mas lembre-se, isso serve para tudo na vida, se
errar a medida do que é necessário, você se encontrará no outro lado da
questão e cairá num novo problema. O tratamento da Laura é assim, se
errarmos a dose ela cai em outro desequilíbrio. Logo, fique sempre atento
à necessidade do momento, não a tome como uma regra, pois, no dia
seguinte, você poderá precisar do oposto, e se não estiver atento manterá a
mesma atitude de antes, só que na nova configuração estará fora de
contexto. É como o clima, um dia faz sol e você quer um copo de água
gelada, e isso é muito bom. No outro dia, faz muito frio e se você
mantiver a mesma atitude de antes ficará bebendo água gelada e logo
estará resfriado. A vida é dinâmica e temos de acompanhá-la da mesma
forma, com dinamismo.
– Parece simples, mas sei o quanto é difícil manter esta consciência de
adequação durante os percalços da vida. Obrigado por me lembrar.
– Eu que agradeço pela conversa. Agora talvez fosse melhor verificar
como está sua companheira.
31 Ashram é o local reservado para prática espiritual dos devotos de um mestre, destina-se ao
praticante que busca retiro da vida usual para se dedicar a uma linhagem espiritual. Literalmente
pode significar local de descanso para a prática de austeridade.

32 Darsham é a prática de difundir bênçãos aos visitantes na religião hindu.


Dor de dente: a medicina
da simplicidade

Pela manhã, Laura acordou convencida de estar com um problema nos


dentes. Ficou triste porque já se sentia com problemas demais. Lembrei-
me da conversa do dia anterior sobre a necessidade de não nos
desorientarmos quanto à continuidade do tratamento, mesmo que naquele
instante fosse preciso resolver seus dentes e tirar um pouco o foco da
doença. Perguntei de que forma era a dor. Tratava-se de uma dor difusa e
irradiante, característica de um problema de canal. Ficou preocupada de
necessitar ir a um dentista desconhecido.
Quando estamos doentes nossas avaliações dos fatos ficam alteradas.
No momento em que a situação está ruim fazemos uma leitura pessimista
de tudo que está por vir, tenha alguma correlação com nosso problema
inicial ou não. Percebi que era a hora de estimular o lado positivo da vida.
Apesar das dificuldades criadas por nossa mente, podemos transpô-las
sem necessariamente cair em sofrimento.
A vida é uma alternância de eventos positivos e negativos. Nunca é um
contínuo indefinido de desgraças ou de alegrias. Deixando de lado o
sentido de coisas boas e ruins, os polos positivos e negativos se alternam
no decorrer do tempo, simplesmente como oscilações entre opostos. E no
que transitam de um extremo ao outro criam situações de mais ou menos
equilíbrio.
Havíamos ido a um dentista indiano na viagem anterior e quando
voltamos os profissionais brasileiros elogiaram o trabalho. Logo, não
havia por que se preocupar, provavelmente o médico nos encaminharia a
um bom profissional.
Na Índia, mesmo os mais pobres mantinham belos dentes, apesar de
avermelhados, devido ao uso de uma erva que gostavam de mascar e
depois cuspir.
Certa vez em Varanasi, cidade sagrada, banhada pelo Ganges, rica em
antigos palácios à beira-rio, construídos pelos Maharajas33 da época para
permitir ao povo um acesso fácil às águas do rio, acordei bem cedo, antes
do nascer do sol, para observar os rituais do amanhecer. Nas ruas havia,
sentados no chão, vendedores de escovas de dente naturais. Eram gravetos
de madeira de uma árvore chamada Neem, com propriedades antissépticas
reconhecidas até pela ciência atual. Os transeuntes matutinos compravam
os gravetos e mascavam a ponta da madeira para deixá-la em fiapos e em
seguida esfregá-los nos dentes, segurando o graveto pela outra
extremidade intacta. Talvez venha daí a ideia das atuais escovas de dente.
Após o escovamento, bochechavam a água do rio sagrado e rico em
propriedades medicinais, que, aliás, atualmente também é repleto de lixo
das mais diversas espécies, como relatei em outro capítulo.
O fato é que dentes saudáveis são uma tônica na Índia, seja pela água
dos rios sagrados, pelas ervas que comumente mascam ou pelas escovas
naturais com suas propriedades bactericidas, ou ainda pelos artesãos que
desempenham o ofício de dentista.
Quando o Dr. Bokulam chegou, comentamos o possível problema
dentário. Foi bem específico e quis saber se era uma dor irradiante. Com a
resposta, considerou melhor esperar, uma vez que era usual durante o
tratamento o desencadeamento de dores nos ouvidos e mandíbula. Caso a
dor ficasse mais intensa seríamos encaminhados a um dentista.
Decidido o rumo da solução do problema dentário, voltamos a observar
a dinâmica da clínica. Encontramos o jovem cego com apenas o irmão.
Contaram-nos que o pai tivera que retomar suas atividades do trabalho,
mas que o irmão ficaria até o final do tratamento. O rapaz estudava letras
na faculdade, seu inglês era impecável. Mesmo cego conseguia levar com
afinco suas atividades escolares. Um exemplo de perseverança.

— Décimo dia —
Dias mais tarde, a médica se convenceu de que a dor no rosto de Laura
provinha de um canal no dente. Disse que resolveria o problema até
chegarmos ao Brasil. Não era prudente sair da clínica para se submeter a
um dentista, uma vez que o tratamento ayurvédico absorvia toda a energia
do paciente. O dente podia esperar. Comparado ao quadro geral de saúde
era um fator de menor relevância. Entretanto, não caberia sentir dor ou
desenvolver uma infecção; para isso receberia remédios.
Ficamos curiosos sobre a fórmula do remédio dentário. Mais tarde
chegou um copo contendo um óleo de cheiro forte. Perguntamos do que
era composto. A resposta foi: uma combinação simples, alho com cravo e
óleo de gergelim.
Muito embora, às vezes, nos esquecêssemos de que estávamos em uma
clínica médica, dada a simplicidade do local, uma casa antiga que,
provavelmente, abrigou uma grande família no passado, havia solução
médica para tudo. Tamanha era a modéstia, que, em alguns momentos,
parecia que estávamos diante de atos de curandeirismo. Mas quem disse
que curandeirismo não funciona? Na verdade, nossas mentes criavam
resistências, pois ainda estávamos poluídos com a falsa necessidade de
equipamentos modernos, que em alguns casos mais impressionam do que
curam. Se a cura não for à moda ocidental todos nós temos dificuldade de
aceitar a eficácia do método terapêutico. Por mais que soubéssemos que a
Ayurveda era uma ciência médica reconhecida em vários países,
ficávamos apegados à forma conhecida de tratamento, com fármacos,
injeções e cirurgias.
Não havia suportes para soro fisiológico, comida especial o tempo todo,
enfermeiras de branco, estetoscópios, macas, raio-x, seringas para coletar
sangue ou outro objeto típico de hospitais. O foco era colocado na
necessidade de espaços para administrar os óleos medicados com ervas no
corpo dos pacientes. Portanto, o típico instrumento médico, em várias
salas, eram as mesas de madeiras para aplicação de massagens, sendo o
óleo vegetal o remédio mais usado. Sempre estava com minhas mãos
untadas de óleo, seja para passar em mim ou para massagear Laura em
diversos momentos do dia e da noite, a fim de aliviar qualquer dor que os
sintomas ainda faziam-na sofrer. As minhas anotações acabavam por se
tornarem testemunhas da importância do óleo durante o tratamento; as
páginas se transformaram em papel manteiga dada as frequentes manchas
de óleo que se formavam nas folhas.
Foi através do cachorro de estimação do médico, que tivemos acesso a
mais um aspecto da simplicidade da fabricação de alguns remédios, a
mesma simplicidade inerente a vários procedimentos da Índia. O cão era
de raça basset dachshund, o famoso salsicha, alegre, desconfiado e
comprido, como em qualquer parte do mundo. Ele ficava na clínica apenas
no final de semana, quando o médico tinha de viajar. Para Laura era uma
alegria muito grande poder acariciar o cãozinho; sempre teve um cachorro
da mesma raça quando morava com sua família e isto a fazia relembrar os
laços da infância. A área de serviço onde o cachorro ficava era próxima à
cozinha das enfermeiras. Pedimos para vê-lo e ficamos dentro da cozinha
acariciando-o, enquanto elas faziam suas refeições.
Todas traziam um pão tipo chapati embrulhado diretamente em folhas
de jornal e untavam-no com ghee, que por sinal era o mesmo que
colocavam nos olhos dos pacientes, misturados a ervas. Como pode, para
a metade do mundo, o jornal ser considerado algo sujo e para outra metade
ser limpo?
Certa vez na Índia, quando estava saindo de uma cidade para outra, a
cozinheira do local onde fiquei hospedado muito gentilmente preparou um
lanche para eu não ter de comprar nenhuma refeição nas estações de trem,
onde a comida não costuma ser tão confiável. Fiquei satisfeito tanto com
seu cuidado, como com a oportunidade de não precisar me preocupar com
a alimentação durante o trajeto. Peguei o embrulho e só abri dentro do
trem. Para minha surpresa, o sanduíche estava enrolado diretamente no
jornal. Como havia ghee, a gordura do pão manchara o jornal e,
consequentemente, o jornal manchara o pão, com suas letrinhas. Decidi
que não comeria um pão marcado com letras de jornal. Porém, ao longo
da viagem revi a decisão, ainda mais porque todos os vendedores também
serviam seu produto numa folha de jornal.
Ainda é muito comum na Índia encontrarmos pessoas vendendo nas
calçadas a comida servida em folhas de árvores, algumas em folhas de
bananeira, enquanto outros em um pratinho feito de folhas de árvore
comuns transadas no formato de prato. O chá também era servido de
maneira ecológica, num pequeno copo de barro descartável, que, após o
consumo do líquido, é prontamente atirado ao chão. Esse hábito fazia
parte de um ciclo de renovação, que se completava quando chovia, pois o
copo jogado ao chão se desmanchava com a água da chuva. Do pó surgia
e ao pó voltava.
Não é demais imaginar que a folha de jornal veio a substituir as folhas
naturais de árvores no seu uso corriqueiro. Talvez tenham pensado que,
afinal, os jornais também provinham das árvores, mas não sei dizer se
avaliaram o ingrediente das tintas que formam as notícias.
Certamente estávamos aprendendo a cada dia um pouco mais da
espiritualidade da Índia através do mesmo jornal que embrulhava os
sanduíches. Quando estabelecemos um convívio mais estreito com o povo
da Índia vamos percebendo que a espiritualidade está em todos os
aspectos da vida. Pode estar nas frases do jornal, mas também na utilidade
dada a ele. Todo ato está revestido de intenção. Cada intenção é uma
manifestação do nosso lado espiritual. A expressão sincera do homem
acaba por se tornar uma prece e toda atitude que tomamos é como se
estivéssemos rezando. Essa reza, feita de nossas atitudes, influencia o
mundo ao nosso redor e, naturalmente, acarreta uma série de reações nas
pessoas e no meio que nos cerca, trazendo de volta o que nossa atitude
provocou. Se somos amáveis, cedo ou tarde sentiremos a amabilidade dos
outros em resposta à nossa atitude. O contrário também é parte dessa
cadeia de reações. Se somos indelicados, não tardará para colhermos o
fruto da indelicadeza dos outros. Muitas vezes pedimos e oramos a Deus
para que tudo seja melhor para nós, mas nos esquecemos da lei infalível
do retorno de nossas atitudes. Se nossos desejos e metas não observarem
as consequências de nossas atitudes, será em vão desejar algo. Por fim,
pouco importa o que pedimos aos céus, mas sim aquilo que fazemos pelos
outros na terra. O “mundo” nos devolve não exatamente o que pedimos a
ele, mas sim, retorna o resultado de cada atitude através de nossas
escolhas.
Era fácil perceber de dentro da cozinha que a simplicidade constituía
uma regra básica da fabricação dos remédios e dos preparativos para os
tratamentos. Os panos empregados para esquentar o rosto durante o nasya
ficavam estendidos na cozinha secando para o dia seguinte. A cozinha era
guarnecida de um grande forno a lenha feito de barro, onde eram
preparadas as misturas dos remédios; os utensílios usados para cozinhar as
refeições eram os mesmos utilizados na elaboração dos medicamentos e
nos preparos para as terapias. Nada se desperdiçava. As ervas eram
secadas no pátio, atrás da cozinha, e depois trituradas em grandes pilões
retangulares de pedra. Uma indiana sentada ao chão esfregava a pedra do
socador contra a base do pilão transformando as ervas em pó, ou melhor,
quase num talco. Também era comum, antes de iniciar algum tratamento,
ver a enfermeira colhendo no quintal uma folha cuidadosamente escolhida
para usar no preparativo das decocções.
A geladeira era utilizada para os mais diversos fins, desde de estocar
remédios de fácil deterioração, até guardar o queijo que eu comprara.
Espaços específicos é um luxo que a Índia não pode oferecer: a geladeira
tinha de ser comunitária. Por outro lado, a memória deles era muito mais
aguçada; nunca esqueciam de quem era cada produto guardado nas
prateleiras da geladeira.
A médica veio ao quarto pela tarde, desta vez com a esposa do Dr.
Bokulam. A senhora era distinta e bem composta em seu sari com finos
bordados em fios dourados. Tinha nas mãos uma bandeja com doces
indianos, que nos ofereceu. Guardavam um aspecto fora do usual,
pareciam docinhos redondos de festas, porém em tamanho maior e de cor
âmbar.
Os doces indianos são geralmente feitos sem o preparo no fogão,
misturados com ghee, temperos, castanhas, coco ou leite e depois
amassados e enrolados com as mãos, até ganharem o formato redondo.
Talvez por isto não sejam tão nocivos como os nossos doces de açúcar
branco, com gorduras saturadas e chocolate, por sinal, algo que não lhes é
familiar, pois para eles o cacau possui toxinas nocivas à saúde.
Era inauguração da farmácia ayurvédica da clínica no centro da cidade.
Escolhemos dois doces, um rosado e outro de cor castanha. Como não
poderia ser de outra maneira, o sabor era de rosa e de castanha.
Em seguida, o médico adentrou com seu casal de filhos. Como de
costume, as crianças mostraram grande satisfação em poder nos ver, afinal
éramos ocidentais de “verdade”. Para elas era a oportunidade de ver as
propagandas de televisão com ocidentais de pele alva se materializarem à
sua frente.
Cumprimentaram-nos à maneira ocidental, com um aperto de mão e
seguiu-se a pergunta de nossos nomes. A menina era mais encabulada,
entre as sobrancelhas tinha uma pinta azul e usava um vestido da mesma
cor, como efeito do bom gosto assimilado da mãe. Seu nome, Gandhari,
um dos personagens do épico hindu, o Mahabharata.34 O rapaz, de 11
anos, usava uma camisa social xadrez e bermuda, e tinha o nome do pai da
medicina indiana, Charaka.
Perguntaram sobre o estado de Laura. Informei que os sintomas tinham
se tornado mais brandos, exceto pela perda da lateralidade da visão. Na
mesma hora, o médico aplicou o teste do campo visual utilizando os
dedos, como antigamente. Constatou que ainda estava com a visão
periférica prejudicada. Perguntou se este havia sido o primeiro sintoma a
surgir. Respondemos positivamente, no que esclareceu que, geralmente,
tende a ser o último a desaparecer.
– Lembrem que estamos no meio do tratamento. O progresso tem sido
satisfatório. Vejamos o que se dará nos últimos dias. Tenhamos fé na
remição completa dos sintomas.
À tarde chegaram mais dois pacientes para ficarem internados por uma
semana, pai e filho. Agora éramos sete pessoas internadas na clínica.
O tarpana da manhã era feito em revezamentos; as camas estavam todas
ocupadas. Uns do lado dos outros com os olhos mergulhados em soluções
medicinais. Laura voltava a ter dificuldade de respirar, pois o líquido
corria pela garganta. Buscamos conversar para nos distrairmos, afinal
estávamos, de certa forma, familiarizados com as dores e dificuldades.
Laura desenvolvera uma nova modalidade de entretenimento. Passou a
conversar com as enfermeiras, perguntando como se falava, em sua
língua, algumas palavras essenciais. O Malayalam é uma língua de grafia
própria e pronúncia diferenciada, conhecida como uma fala gutural; muito
de sua fonética nos é completamente estranha. A boca necessita aprender a
desenvolver malabarismos com a língua para emitir certos sons
desconhecidos para o latim. A tradução do que perguntávamos era
imediata, mas surgiam muitos risos entre as enfermeiras, até conseguirmos
repetir a palavra de maneira apropriada.
Quando saímos da sala de tratamento vi que Mr. Pillay estava sentado
em seu escritório. Bati no vidro e, imediatamente, convidou-me para
entrar e sentar. Sempre solícito e disposto. Senti-me à vontade de pedir
sua ajuda para os preparativos da volta. Afinal, do meio para o final do
tratamento, usualmente se tem a sensação de os dias passarem mais
rápido. Perguntei sobre o número do trem e o melhor horário para
alcançarmos o aeroporto a tempo. Rapidamente pegou um livro com as
rotas de trem, o Trains at a glance, e ofereceu-me duas possibilidades. A
arte de manusear tais livros é algo que nem todos possuem, mesmo entre
os nativos. A quantidade de trens e a diversidade de classes, horários e
escalas podem deixar qualquer um confuso. Atualmente é possível
comprar bilhetes pela internet, o que sem dúvida facilitou as escolhas.
Mas pouco tempo atrás o livro era a única chance de se orientar sem ter
que enfrentar longas filas somente para obter informações nas estações.
Sugeriu que pegássemos o trem mais cedo, antes do período estipulado
para o final do tratamento, pois evitaríamos qualquer imprevisto até a
partida do voo, em Bombaim. Era época das monções e os noticiários
alertavam que a cidade estava alagada. Talvez fosse o pior alagamento dos
últimos tempos. Ofereceu-se para comprar os bilhetes e me poupar de
longas filas, do calor e do “empurra-empurra”. Acertada a volta,
perguntou-nos sobre as melhoras, no que afirmei serem satisfatórias.
Nesse momento, Laura juntou-se a nós e ele aproveitou sua presença
para advertir-nos de que durante a viagem e por mais um ou dois meses
Laura deveria evitar fazer qualquer serviço doméstico ou exercício físico.
O corpo ainda estaria sobre os efeitos do Shirovasti.
– Volto a afirmar, o corpo dela foi revigorado a tal ponto que seus
músculos e articulações estarão frágeis. Foram nutridos a ponto de ficarem
macios e suaves. Não é um efeito ruim, mas sim, uma dádiva do
rejuvenescimento dos tecidos. Um corpo jovial não deve fazer tarefas de
adulto. A volta ao estado normal será lenta e deve ser respeitada.
Fiquei um pouco surpreso por saber que ficaria meses com tanta
fraqueza em seu corpo e resisti ao fato. Focamos nossas vidas em
controlar e não em aceitar e deixar fluir.
Para qualquer um de nós, se um rio muda de curso e vem em direção à
nossa casa, fazemos uma barreira para desviar seu curso. Um oriental,
claro que hoje em dia nem todos, recolherá os objetos possíveis de serem
carregados e levantará uma nova casa num lugar que saiba ser mais
apropriado, tendo em vista a nova situação. Sem a aceitação dos fatos
podemos acabar morrendo afogados.
Percebo, hoje, que nasci numa cultura de resistência aos fatos.
Resistimos tanto que atualmente percebemos que perdemos a batalha, pois
sem a natureza como parceira o mundo nos parece mais hostil. Explorá-la
e dominá-la sem respeito nos levou ao funil do aquecimento global. Na
intenção de construir e progredir acabamos ameaçando a nós mesmos. Se
tivéssemos trilhado o caminho da simplicidade e de uma maior aceitação,
poderíamos possuir menos conforto e praticidades; entretanto, não nos
sentiríamos ameaçados por nossas próprias atitudes no último século de
desenvolvimento desenfreado. Talvez o mundo ainda estivesse verde, e os
recursos naturais, mais disponíveis.
Por último, Mr. Pillay perguntou se havíamos tomado remédios no
Brasil para o problema da E. M. Explicamos que passamos quatro meses
de médico em médico, trocando de especialistas até que conseguimos um
diagnóstico, e que, quando isso ocorreu, a prescrição medicamentosa era
de aplicação venosa de corticoides inicialmente por cinco dias.
Concluímos que deveríamos procurar outro tipo de tratamento para evitar
os efeitos devastadores do uso contínuo de altas doses do medicamento.
Até mesmo porque o procedimento não se propunha a gerar cura e não
evitava as sequelas da doença. Ficou satisfeito de nos ouvir.
– Vocês agiram muito bem, pois o corticoide iria tornar os ossos
quebradiços em alguns anos e, quando isso acontecesse, nem se
lembrariam de que a causa tinha sido as doses de remédios recebidas anos
atrás. Essas substâncias sintéticas ficam por muito tempo prejudicando o
corpo até serem totalmente eliminadas, mas não sem antes degenerar
algum órgão.
Abordando o assunto da escolha entre a medicina ocidental e a
Ayurveda completou:
– Hoje em dia, muitas pessoas na Índia evitam fazer o tratamento
ayurvédico devido à agitação que suas vidas têm se transformado nos
últimos anos por aqui, com a chuva de conceitos e hábitos da modernidade
ocidental. Vêm para a consulta e quando são informados que devem fazer
paradas por quinze dias em suas vidas para se dedicarem ao tratamento
desistem imediatamente da medicina de seu país. Em vez disso, vão
buscar na alopatia as soluções rápidas para continuarem com seus
afazeres. Acreditam que não há tempo a perder com doenças. Não
conseguem perceber que a cura com remédios feitos em laboratórios
químicos atingem os sintomas, mas não afetam a causa e geram efeitos
colaterais. Ao mesmo tempo que atingem o órgão doente também
debilitam sempre outros até então saudáveis. Não há cura rápida para algo
que silenciosamente demorou para se instalar. Só percebemos a doença em
sua fase mais crítica, mas vamos adoecendo aos poucos. O caminho
inverso também deve ser lento e necessita de toda dedicação da pessoa
para poder curar-se e abdicar de seus hábitos doentios. Até mesmo na
matemática do tempo gasto com a cura eles se equivocam. A princípio
ficam convictos de que fizeram um bom negócio, pois se curaram com
remédios alopáticos sem ter de ficar internados para os longos tratamentos
ayurvédicos. Mas certamente mais à frente a doença voltará com mais
força, às vezes revestida de outra forma, e acabarão em internações mais
complicadas nas UTIs, só que desta vez não terão mais escolhas, seu
organismo terá atingido tal grau de intoxicação que o auxílio da Ayurveda
não provocará mais resultados num corpo cada vez mais dependente de
remédios sintéticos. É triste, mas a Ayurveda não possui o mesmo poder
financeiro que as indústrias alopáticas para esclarecer a população. A
modernidade deixa as pessoas intolerantes, ávidas por informações rápidas
e soluções imediatas.
Após uma breve pausa e um olhar triste, ganhou novo fôlego e passou a
explicar as origens da medicina indiana:
– A Ayurveda surgiu nos Himalaias com os yoguis que viviam de
prana35 e do sol. Em estado meditativo percebiam os princípios ativos das
ervas e entendiam como e quando elas deveriam ser empregadas para cada
tipo de indivíduo, órgão e situação. Há mais de cinco mil anos essa
tradição de cura foi sendo passada de pessoa a pessoa até que há dois mil
anos o conhecimento começou a ser escrito em tratados, saindo da
oralidade para os livros sagrados dos Vedas. O eventual sofrimento do
tratamento não era visto como algo ruim e sim positivo, pois garantiria a
completa cura. Mesmo os conhecedores dos processos de anestesia faziam
pequenas cirurgias à sangue frio, sendo o paciente segurado por ajudantes.
A dor leva ao alívio, faz a consciência purgar a doença. Fornece à pessoa a
certeza de que algo está sendo realizado para sua cura, pois há assim a
participação do paciente através de seus meios próprios de
restabelecimento do organismo, atuando em conjunto com o tratamento.
Além de fazer entender ao paciente que em regra ele mesmo impeliu a si a
doença, e que agora estava a transformar todo seu potencial malefício
sobre si mesmo em uma atuação positiva para com seu corpo.
Aos poucos estávamos compreendendo como ocorria o funcionamento e
mistérios da Ayurveda. Mesmo em sua tamanha simplicidade, a riqueza
das técnicas se expressava na história e nos resultados obtidos com os
tratamentos. Parecia que estávamos diante de um tipo de paradoxo
oriental, onde o não aparente, mas de certa forma óbvio, se transformava
em extraordinário.

— Décimo primeiro dia —


A dor de dente de Laura estava quase imperceptível com apenas um
bochecho do “remédio caseiro”. Mesmo assim, recebeu mais uma porção.
A médica surpreendera-se ao ouvi-la dizer que estava bem em malayalam,
sua língua natal. Também completou, em inglês, que ainda sentia os
desconfortos habituais nos olhos. Nada de surpreendente, mas sempre era
aconselhável deixar avisado o que está se passando.
Procurou saber se estávamos gostando de estar na Índia, talvez por ter
ouvido uma tentativa de falarmos uma expressão familiar. Era a terceira
vez que nos perguntavam sobre nossa impressão de seu país. Parecia que
não acreditavam que estrangeiros ocidentais pudessem gostar de lá. O
descaso britânico com a tentativa de instalar uma espécie de apartheid na
Índia ainda deixava marcas. Sessenta anos não foi tempo suficiente para
apagar a ideia de terem sido excluídos e malquistos.
Isso me fez lembrar um acontecimento no ano anterior. Certa vez,
quando viajava pelo norte da Índia em direção à base do Himalaia, rumo à
cidade Rishkesh, paraíso da yoga, encontrei um rapaz francês, que estava
passeando na Índia havia quatro meses. Entramos num ônibus velho e
muito sujo. A cidade era em uma região alta e os passageiros comumente
ficavam enjoados e vomitavam durante o trajeto. O fato de sermos os
únicos estrangeiros no veículo fez com que nos aproximássemos. Fiquei
curioso em saber o motivo de gastar tanto tempo pela Índia. Explicou que
queria conhecer um país terceiro-mundista, pensou na América Latina,
mas, por fim, escolheu a Índia por ter custos menores.
Mesmo com o descaso apresentado na escolha do país perguntei:
– Entendo, realmente a Índia é mais em conta que o Brasil. Mas, diga-
me, o que aprendeu das experiências na Índia que pode ser útil para sua
vida, quando voltar a Paris?
Pasmei pela sinceridade de sua resposta:
– Hoje tenho certeza de que a França é o melhor lugar para se viver,
longe dessa sujeira e desordem.
Certamente essa sua leitura sobre o país deve ter transparecido em
gestos e atitudes diante dos diversos indianos que encontrou.
Relembrando o episódio tive certeza de que o tempo não apagara as
incursões inglesas. A sensação de desprezo que os estrangeiros
dispensaram à Índia dura até os dias de hoje; olham o país como um
habitat primitivo e hostil. De certa forma, o Brasil deve se incluir, em
alguma medida, no mesmo conceito para os povos primeiro-mundistas.
Talvez sejam os indianos, em alguns aspectos, mais primitivos, mas
certamente esse conceito carrega vários aspectos positivos, que não são
lembrados quando dão essa classificação. Mas, também, não é difícil
perceber os países desenvolvidos como disseminadores de uma
modernidade bárbara e cruel, pois, afinal, são capazes de atrocidades
nucleares por interesses econômicos.
Quando chegamos em Rishikesh fomos almoçar juntos num restaurante
alemão, depois de passarmos por vários pedintes de turbante nas
escadarias que desciam até o acesso da ponte sobre o rio Ganges, de águas
cristalinas, pois estávamos perto das nascentes no Himalaia.
A paisagem era deslumbrante e a atmosfera, única. A cidade é
considerada a meca da yoga e o meu companheiro tinha uma ideia fixa de
que tudo não passava de primitivismo. Não resisti e tive de abordar o
assunto.
– Sabe, esta cidade é repleta de homens santos, tais como os monges.
Porém, entre as pessoas comuns da cidade muitos se fazem de homens
santos fingindo seguir o mesmo caminho da dedicação à meditação e à
oração para receber alimentos ou dinheiro. Para um desavisado todos não
passam de mendigos devido à precariedade com que se vestem, mas
alguns são capazes de feitos que nenhuma ciência ou ordem ocidental é
capaz de replicar ou explicar. No caminho da busca da realização da alma,
acabam desenvolvendo capacidades sobre o corpo. É fato reconhecido por
cientistas europeus que vários conseguem parar o coração e a respiração
por muitos minutos simplesmente pelo ato da vontade. A sociedade
indiana os reconhece e os apoia, dando condições para se manterem sem
serem incomodados. Sem dúvida, são dignos de atenção, não há como
classificá-los como meros mendigos. Isso é um conhecimento milenar que
se encontra vivo, e você está no lugar onde tais feitos acontecem. Se
esquecermos todo o misticismo e focarmo-nos nos poderes desses
homens, certamente perceberemos que nenhuma sociedade é tão avançada
no conhecimento das capacidades humanas como a Índia.
– Mas como vou saber se encontrei um autêntico monge? Todos
parecem iguais e maltrapilhos.
– Saberá caso se interesse, mas, primeiramente, é necessário estar aberto
a esta possibilidade.
Ainda não tinha a consciência suficientemente clara para discernir o
bom do mau monge, mas, possivelmente, o rapaz estava confuso a ponto
de não conseguir distinguir quem pede por ser mendigo e não tem
qualquer propósito de vida, de um monge que pede como exercício da sua
prática espiritual de humildade. Sei que o rapaz teve suas convicções
balançadas. Seria um desperdício deixar de abordar a vida dos Sadhus, os
monges indianos, e as descobertas da yoga, quando se estava no local
repleto de provas do que dizia, ocultas, mas acessíveis àquele que fosse
persistente. Sabia que uma barreira intransponível separa a mente
ocidental – acostumada a crer que o pensar prova a existência, tal como
Descartes preconizou – da mente oriental, em que a meditação, ou seja, a
ausência do pensamento, é o que faz o existir mais pleno.
33 Maharajas eram os reis que administravam porções da Índia antiga, mantendo palácios e súditos.
Suas vestimentas eram suntuosas e seus palácios repletos de afrescos de beleza incomparável.

34 O Mahabharata foi escrito antes de 400 a.C, relatando a guerra entre famílias imperiais. Durante
o desenrolar da história o texto explica os preceitos filosóficos da humanidade na concepção hindu.
Destaca-se o conceito dos quatro objetivos do ser humano (Purushartha): conduta espiritual,
prosperidade material, senso de gratidão e sentimento de união com o divino.

35 Prana é a energia vital existente no ar e que habita todos os seres vivos, desde as plantas até os
seres humanos.
Aprendendo com o
jornal indiano

Na parte da tarde, conversamos com as enfermeiras por longo tempo. Elas


esperavam as chuvas de monções se acalmarem para partirem. Havia
quinze dias que o período de chuvas se iniciara, agora eram mais
frequentes e intensas, e o clima estava mais fresco e úmido, o que me
deixava mais calmo; estava livre dos dias quentes.
Uma das moças estava de partida. Era seu penúltimo dia de trabalho;
iria morar em Dubai na Arábia Saudita. Seu marido tinha sido contratado
para trabalhar em construções de prédios, onde a inacreditável expansão
imobiliária é movida pela alta dos preços do petróleo e outras políticas
internas que não vêm ao caso agora. Era a mesma moça que não podia
engravidar; seu rosto era jovial. Ousamos perguntar sua idade: 37 anos.
Aparentava dez anos a menos. Milagres da Ayurveda, que tem como uma
de suas propostas as terapias de rejuvenescimento; estávamos diante de
uma prova viva.
Nas cidades litorâneas do sul, a quantidade de spas para
rejuvenescimento com técnicas ayurvédicas é cada vez maior. Os europeus
são o público mais assíduo e não param de chegar. Enquanto alguns
duvidam da eficácia da Ayurveda, as mulheres europeias mergulham
fundo nas terapias de óleo da medicina milenar.
Durante o jantar Laura percebeu que seu olho esquerdo estava com a
visão borrada; terminada a refeição vieram as dores de cabeça. Parecia
desanimador. Porém, nesta altura do tratamento, já estávamos aprendendo
a correlacionar os acontecimentos com as reações do corpo. Lembrei-a de
que durante o dia não havia feito sua higiene pessoal completa, portanto
seria natural de se esperar que a constipação produzisse seus efeitos, pois
nessa condição os sintomas ganhavam espaço para surgirem. Ela
concordou que poderia haver uma correlação entre os fatos. Mais uma vez
ficamos estupefatos de ver como apenas um dia de intestino preso poderia
fazer o tratamento regredir.
Laura lembrou que antes de ficar doente ficara vários dias constipada e
não apresentava nenhum problema dessa gravidade. Ainda não conseguia
entender por que agora se encontrava tão suscetível ao funcionamento do
sistema digestivo.
Para mim ficava nítido que agora estávamos num patamar limítrofe
entre saúde e doença, e certamente apenas uma pequena dose do que nos é
prejudicial é capaz de proporcionar grandes estragos ao organismo.
Quando a situação de reequilíbrio do corpo estivesse restabelecida isso
não seria mais fácil de acontecer com uma mera constipação de um dia.
Comentei ainda que o tempo que gastamos aqui nos dá a oportunidade da
cura, portanto devemos usá-lo a nosso favor e livrar-nos da angústia da
demora.
Na verdade, não há espera e sim uma constante e suave melhora, que
ocorre no silêncio de nossas células. Como não percebemos o processo
discreto ficamos angustiados e isso prejudica o “curar-se”. É por isso que
foram desenvolvidas técnicas de biofeedback, nas quais se monitora o
comportamento do órgão em tratamentos para que a pessoa perceba de
forma clara que a mudança está ocorrendo e com isso se anime e estimule
ainda mais a transformação do organismo no sentido da cura. Antes do
restabelecimento completo pode se orientar com os dados da melhora do
órgão apresentados na tela para o paciente, tornando o otimismo calçado
em pequenas evidências positivas, o que serve como um agente de
autocura. A mente trabalha em prol da cura, em vez de oscilar pendendo
para dúvida do sucesso das incursões terapêuticas.
Senti falta dos recursos do Ocidente naquele momento, poderia livrá-la
das recaídas de otimismo. Sabia que as reações esporádicas durante o
curso do tratamento eram perfeitamente normais, mas como convencê-la?

— Décimo segundo dia —


Quanto a mim, o tratamento terminara no dia anterior e, como o médico
advertira na consulta inicial, seria necessário uma microcirurgia para
retirar a pele sobre a retina. Por outro lado, percebia que a condição geral
dos olhos estava bem melhor, sem as vermelhidões e ardências frequentes,
possivelmente poderia conviver com o problema sem os incômodos
habituais.
Na tarde seguinte, ficamos sabendo notícias sobre a santa indiana
Amma. Infelizmente não estava mais em seu ashram. O médico ligara
para um amigo e recebera a informação de que ela estava indo para o Sri
Lanka para abraçar multidões. Por algum tempo ficamos na expectativa de
algo de bom ocorrer no encontro com a santa. Laura ficara nervosa,
palpitações e suores frios surgiram quando fomos autorizados a visitá-la.
Era um sinal de que poderia se entregar aos encantos da santa e conseguir
melhoras na saúde. Já havíamos combinado com o táxi para o dia
seguinte, mas a notícia acabou com os planos milagreiros.
A situação de Laura piorou, a constipação não cedeu e terminava por
gerar mais sintomas. A visão turva com dores nos olhos e as dormências
ficaram mais intensas. O desânimo nos abateu. Resolvemos ir à recepção
para variar um pouco das entediantes horas no quarto. Encontrei um jornal
em inglês, já que a literatura era quase toda em malayalam. Na primeira
página que abro, encontro os dizeres de um guia espiritual da Índia, Sri
Paramahansa Yogananda,36 já falecido, porém conhecido tanto no
Ocidente como na Índia. Sua missão foi levar o conhecimento da busca de
Deus ao Oriente através da meditação. A frase era completamente
pertinente à situação: “Tudo é um sonho, quando passar por dias ruins
lembre-se disso. E mantenha a mente focada no positivo.”
Senti o coração bater mais rápido, as palavras eram como soro a um
moribundo. Minha determinação não era inabalável e naquele dia pela
primeira vez vacilou. Como sua visão estava afetada li para Laura o dizer
do dia. Ficou impressionada. Resolvemos deixar todas as temeridades de
lado, estávamos entregues à Índia, e só restava-nos esperar.
Passei a me interessar pela parte de notícias espirituais do jornal. No dia
seguinte, li no jornal Indian Times uma matéria sobre yoga. Contava a
história de como se perverte a proposta original das coisas em prol do
comercialismo. Bishnu Ghosh, irmão de Sri Paramahansa Yogananda,
desenvolvera uma variação de yoga. Um de seus discípulos, Bikramm
Chowdhury, viajou para os EUA, a fim de ensinar os asanas aos
americanos. Acabou por se envolver com ricos e famosos, tendo em vista
a sua performance surpreendente. Percebendo que poderia ganhar dinheiro
e influenciado pelo modo americano de levar a vida, resolveu patentear
um método milenar de posturas, que beneficiou a mente e o corpo de
milhares de pessoas nos últimos milênios. Assim o fez, e agora ganha
royalties do “seu” método pelos professores que treinou espalhados pelo
mundo.
A matéria criticava as pessoas que viajavam à Índia para colher sua
sabedoria, e depois renomeá-las para poderem patentear o conhecimento
e, por fim, vendê-lo a preço salgado para o resto do mundo e até para os
próprios indianos. Uma técnica milenar difundida de graça, bastando para
tanto o comprometimento do discípulo, agora era comercializada,
colocada dentro de uma embalagem bonita, com propagandas sedutoras e
vendida a todos!
As grandes empresas de esporte vendem produtos com sua marca para a
prática de yoga. Roupas de yoga também são negociadas e o mercado
mundial fatura algo em torno de 30 bilhões de dólares ao ano.
Aproveito para transcrever a matéria:

Este é um caminho perigoso, considerando que outro praticante


independente de yoga deve por agora protocolar um pedido de
patente e gerar escárnio de um sistema que é considerado a mais de 5
mil anos. Nesse sentido, a controvérsia sobre o movimento da Yoga
Bikram tem se espalhado, mas aqui (na Índia) ainda é despercebido,
porque a yoga está começando a se tornar uma moda.
Considerado nos EUA, a yoga é supostamente um negócio de 30
bilhões de dólares, com algo em torno de 20 milhões de praticantes
americanos. Quando uma arte se torna uma indústria, como se pode
esperar em países como os Estados Unidos, o dinheiro começa a ser o
mais importante para as cabeças que tratam do assunto.
Lá fora, uns ensinam Om Yoga, outros ensinam Power Yoga e por
aí vai, você pode inventar seu próprio tipo de yoga e patenteá-la para
em seguida fazer dinheiro.
Enquanto o governo da Índia está criando um banco de dados para
prevenir que os estrangeiros reivindiquem patentes das artes
ancestrais, seria importante para os indianos acordar para o fato de
que a yoga é a maneira mais barata e fácil de manter a saúde e a
juventude.
Sem contar que se trata de nossa própria tradição, mas apesar disso
nenhuma companhia indiana fabrica tapetes de yoga. Enquanto isso,
a Nike e a Reebok, desde que a yoga se popularizou no Ocidente,
passaram a manufaturar os tapetes e você pode comprá-los por
valores entre 40 a 50 dólares. Do mesmo modo, amanhã acabaremos
importando não somente os tapetes de marca, mas também os
próprios asanas.

A reportagem me fez recordar a recente questão brasileira dos produtos


da Amazônia que foram patenteados por japoneses. A falta de
consideração pelas riquezas nacionais dos países emergentes faz com que
virem reféns de seus próprios valores.
Os ocidentais “produtificam” tudo e, certamente assim, estão
metamorfoseando a Ayurveda. Enquanto médicos tradicionalistas o
julgam com os cantos dos olhos, os centros de tratamento de beleza e
rejuvenescimento comercializam a Ayurveda no Ocidente, como mais um
boom da estética.
Levei o jornal para o quarto a fim de tomar nota da matéria. Enquanto
transcrevia a matéria assistia na televisão ao programa da BBC World
abordando os gigantes emergentes, China e Índia. Vi uma cena de
agricultores rurais em ambos os países falando como suas vidas eram
difíceis e que estavam ansiosos para a chegada de uma melhor qualidade
de vida para sua família. Dava a impressão de que o cenário fora
previamente montado com falas arranjadas. Provavelmente, o homem do
interior não fazia a menor ideia do que representaria essa tal melhora de
sua qualidade de vida, mas as indústrias famintas por novos mercados
sabiam e exploravam-na.
Configurou-se um interessante contraste entre uma reportagem
abordando um método eficaz e simples de qualidade de vida através da
yoga, que estava sendo espoliado da Índia pelos países desenvolvidos,
enquanto outra reportagem afirmava que os infelizes indianos, largados à
própria sorte, carentes, miseráveis e desamparados pelos ocidentais
estavam prestes a ter acesso à modernidade e consequentemente à
felicidade, como se a proposta consumista de bens fosse a única e a
melhor para livrar o homem dos males que os assolam!
Caí em reflexão motivada pelo contraste que vivenciávamos entre o
moderno muitas vezes ineficaz e a proposta simples, tradicional e
transformadora. Será que os jornalistas não refletem sobre o fato de que o
desenvolvimento econômico pode ser um retrocesso global? Quando
analisado pela perspectiva de que no momento em que a outra metade da
população do planeta, China e Índia, tiver o mesmo índice de consumo
que os países desenvolvidos, o mundo será poluído em dobro, e as
empresas ávidas em produzir alimentos geneticamente modificados
ficarão mais empenhadas na disseminação de seus produtos, até que o
pequeno produtor rural não mais exista, pois estará preocupado em vestir
um terno e em comer produtos transgênicos em supermercados coloridos
de alimentos embalados!
Além de estarem matando o produtor rural de câncer provocado pelos
pesticidas, irão extirpar-lhe a alma, que acreditará somente em produtos de
marca para lhe trazer a felicidade. A revista Vogue na Índia, em uma
edição recente, apresenta fotos de pessoas de rua e produtores rurais,
enfim, pessoas comuns do povo indiano, vestindo peças de roupa de
marca famosas de centenas de dólares. Parecia que esse é o sonho
extremado do capitalista: que todos pudessem pagar caro por produtos
supérfluos, independentemente da classe econômica.
A modernização desvaloriza o produtor rural e expulsa-o para as
cidades, nem que seja para engordar as estatísticas dos desempregados; e o
capitalismo brinca com sua imagem nas revistas famosas e nos programas
sobre economia.
Só mais tarde perceberão que os produtores familiares rurais eram
fundamentais para o equilíbrio da produção agrícola saudável. O
autoritarismo do capitalismo é sutil e marqueteiro, inebriando os
desavisados. Mostra-se belo nas televisões, mas esconde seus equívocos
nas negociações políticas e na voracidade dos ganhos financeiros.
Tomaram a yoga do país, instrumento de saúde e felicidade, para
entregar em troca uma modernidade cheia de lixo inorgânico (latas,
embalagens plásticas, embrulhos de papel), consumos exacerbados,
relações pessoais frias e televisivas, modismos inúteis, poluição com
detritos tóxicos em larga escala, estresse urbano, medicina com baixa
profilaxia e repleta de efeitos colaterais e, por fim, um vazio no coração.
Um exemplo claro do que se deixa para os países pobres no caminho do
desenvolvimento insustentável foi a cena que presenciei em Katmandu,
capital do Nepal, país vizinho à Índia. O legado da modernidade foi um
trânsito caótico para a cidade. A poluição do ar é tão intensa que acaba
obrigando as pessoas a usarem máscaras faciais. Outrora, era conhecida
por ser a morada dos sábios, repleta de belas construções da arte Newari,37
banhada de esculturas e símbolos de deuses.
Estava a passeio na cidade havia alguns dias e resolvi tomar um táxi
para ir do centro da cidade até Boudhanath, local da construção de uma
grande stupa38 budista. Talvez fosse de aproximadamente quatro
quilômetros a distância que separava o hall da cidade antiga da área da
stupa envolvida por diversos templos budistas. As ruas guardam ainda a
arquitetura de ruas estreitas, tomadas por asfalto, sem espaço para
calçadas de pedestres, como se o automóvel fosse o “ser vivo” mais
importante do planeta. No percurso passamos por uma estrangeira de
bicicleta e resolvi apostar com o taxista que a mulher de bicicleta chegaria
primeiro que nós, caso fôssemos para o mesmo destino. O motorista, de
pronto, aceitou a aposta. Afinal, como poderia uma bicicleta ser mais
rápida que seu carro, tão sonhado? Dito e feito. A ciclista seguiu o mesmo
itinerário e ganhou a corrida. O motorista embaraçado justificou que havia
muito trânsito e por isso havia perdido a disputa.
Concordei, mas lembrei que sinal e trânsito fazem parte do ambiente
onde existem carros. Para mim, parecia óbvio que uma cidade entregue à
indústria automobilística, ainda mais sem as avenidas necessárias para o
escoamento do trânsito, se tornava lenta e caótica. Porém, o rapaz ainda
estava confuso, pois acabara de contar as vantagens de ter um automóvel.
Percebi a força do marketing sobre nós. Os carros, nos comerciais, estão
sempre andando em estradas belas com uma via livre. Pura utopia.
Será que essa é a qualidade de vida que se pretende para os países
emergentes? Fazê-los consumir mesmo sem infraestrutura adequada,
deixando-os acreditar que, por isso, serão felizes, mesmo que no final suas
vidas resumam-se a um caos urbano?
Após essa reflexão Mr. Pillay nos encontrou, ofereceu mais do remédio
caseiro para a dor de dente de Laura e disse que também costumava usá-
lo, uma vez que já estava com mais de 70 anos e não achava sensato tratar
dos dentes em procedimentos caros, como se fosse um jovem. Sabedoria
da simplicidade ou desleixo?
Não saberia dizer, mas, certamente, o remédio era um excelente
antisséptico e analgésico. Talvez suas cáries não evoluíssem mais rápido
do que seu tempo restante de vida. Afinal, fazer uma aplicação bucal a
mais com esse remédio não deveria ser tão penoso assim. Sempre
escovamos os dentes todos os dias e não reclamamos quando temos de
acrescentar mais uma escovação durante o dia, logo não faria muita
diferença para sua rotina diária a aplicação do remédio.
Meu interesse pelas colunas espirituais do jornal progrediu para um
hábito diário de ler as mensagens espirituais dos famosos sábios hindus da
atualidade. Descobri a coluna de outro guia espiritual, Sri Sri Ravi
Shankar,39 que, por sinal, está vivo. Vale a pena destacar uma de suas
mensagens. Achei que esta mostrava bem como a espiritualidade invade
todas as nossas ações:

Toda escolha está criando uma atração e toda atração pode ser um
ato espiritual. Gostaria de falar sobre prema, que significa amor. Há
amor em cada partícula desta criação. Amor é atração. Amor
significa absorvendo a viscosidade, trazendo a união. A partir da
atração, os átomos se juntam e formam moléculas com as quais um
objeto é formado. Baseados na combinação de moléculas ou átomos
nós identificamos um material. Existe algo que mantém as partes
unidas. Essa força que une as coisas e as mantém juntas é chamada
amor ou prema. O amor está presente em toda a criação. Há amor e é
por isso que a reprodução está acontecendo. Por causa do amor os
planetas estão se movendo em suas órbitas, o sol está brilhando, e as
estrelas estão lá. Existe amor em cada átomo, e é por isso que o
elétron está se movendo ao redor da partícula carregada. A carga de
atração, a carga em toda essa criação é um poder, é amor.

Provavelmente nossa permanência na clínica também não deixava de ser


uma atitude espiritual. A nossa busca da recuperação da saúde na Índia
também era uma expressão de amor, amor à vida saudável e a nós
mesmos.
36 Sri Paramahansa Yogananda ficou conhecido pela obra literária Autobiografia de um Yogue.

37 Newari é o tipo de cultura formada pelo sincretismo do Tibet e da antiga Birmânia. Suas
construções são ricas em entalhes na madeira e contam muitas vezes a história dos épicos asiáticos.

38 Stupa é a construção budista do tipo mausoléu em forma de cone que representa as qualidades de
Buda, tendo muitas vezes uma relíquia ou pedaço do corpo do próprio Buda, tal como um fio de
cabelo.

39 Sri Sri Ravi Shankar nasceu em 1956, em Papanasam, no sul da Índia. Estudou com muitos
mestres reconhecidos, tornando-se erudito em literatura védica e aos 16 anos obteve graduação
avançada em Ciências Físicas. Em 1982, criou a Fundação Arte de Viver e começou a ensinar o
Sudarshan Kriya, uma técnica de respiração para eliminar o estresse e restaurar a saúde física e
mental do indivíduo.
A refeição do dia a dia
pode curar ou adoecer

O dia não havia começado bem. O poder da constipação estava gerando


seus efeitos no corpo de Laura. Perguntei-me como tantas mulheres vivem
com problemas intestinais e, apesar do desconforto, não desenvolvem os
sintomas que acometiam Laura. Caí novamente em dúvidas, minhas
convicções tinham se dissipado. Será que, de fato, a regulação diária dos
movimentos intestinais é algo tão relevante?
Quando a dor nos assola, nossas certezas se abalam. Neste momento,
costumamos lembrar de Deus, e frases inconscientes clamando por Sua
ajuda brotam das camadas profundas da mente e se expressam em: “Livre-
a desta dor, pelo amor de Deus.”
Era o que eu pedia ao ver Laura com queixas sobre sua dormência, que
aumentava de área e intensidade, beirando à insensibilidade dos membros.
O médico avaliou a situação verificando que a visão mantinha-se como
da última avaliação. Bom sinal, mas que, de fato, os membros voltavam a
sofrer com a sintomatologia.
Foi severo em suas recomendações:
– Elimine o pão branco de sua dieta, ele está nos atrapalhando. A ervilha
também deve ser trocada, a miúda de cor verde é a mais indicada, e
mantenha vegetais frescos, sempre frescos e cozidos. Com estes cuidados
ela terá melhoras.
Antes de sairmos do Brasil havíamos realizado novos exames de sangue
para uma melhor investigação da progressão da doença. Como os exames
eram fora do usual, o resultado demoraria quinze dias. Havia transcorrido
o tempo necessário para que os exames estivessem prontos, por isso,
Laura fez questão que eu consultasse o resultado pela web.
Voltei com ele impresso. Laura desenvolveu uma preocupação sobre a
alteração de algumas taxas no sangue, como as de linfócitos e monócitos.
Tentei dissuadi-la da questão, pois não fazia sentido se preocupar com isso
durante o tratamento. O médico daqui já tinha formado sua convicção e
provavelmente não levaria em conta taxas antigas de uma coleta de sangue
anterior ao início do tratamento para embasar seu diagnóstico ou traçar o
rumo do tratamento.
Foi inútil, o temor de sua piora estar sacramentada pelos novos exames
era inabalável. O poder da prova documentada de um exame a deixava
paralisada. Entretanto, geralmente não nos damos conta de que o
organismo é muito dinâmico, e as investigações por exames laboratoriais
são uma mera tentativa de indicar ou sinalizar o que está ocorrendo dentro
de nosso sistema em determinado momento. Os resultados de um exame
não cristalizam um fato, mas nossa mente, acostumada a pensar em termos
quase que jurídicos, avaliando e julgando todos os acontecimentos, nos
faz acreditar que os indícios são da mesma natureza que os fatos.
Minha esperança era de que Dr. Bokulam compartilhasse da minha
opinião. Afinal, de nada valia se desesperar sobre um dado antigo, que
certamente não indicaria o estado atual de Laura.
Enquanto isso, seguíamos as orientações de tratamento para
regularização do funcionamento do processo digestivo de Laura.
Usualmente, o basti é aplicado por pelo menos três dias alternados, mas
como o caso era especial, houve uma adição de mais dias desse
tratamento. Em regra, o basti não provocava dores, mas como a
constipação estava fortemente instalada, fazendo com que o organismo
reagisse de maneira diferente, desta vez havia dores e, consequentemente,
uma enorme frustração.
Na tentativa de melhorar o ânimo, busquei comprar vegetais diferentes
para o jantar. Encontrei belos e frescos cogumelos. Faria-os com ghee e
shoyo num estilo de comida chinesa. Sabia que Laura adorava a comida
vegetariana chinesa. Jantamos com satisfação e fomos dormir.
Por volta da meia-noite Laura me acordou.
– Marcus, acorda. Estou passando muito mal.
– Quê? Diga o que está sentindo.
– Dores na barriga, vontade de vomitar, e estou com o corpo todo
dormente. Não sinto nada.
– Calma! Vamos avaliar a situação.
– Chama alguém.
– Está certo, vou falar com o vigia.
Procurei o vigia da noite, que, por sinal, era quem nos entregava os
remédios das 6h. Ele avisou que o médico estava fora da cidade e que não
adiantaria tentar contato com ele àquela hora, mas de qualquer jeito iria
telefonar para seu celular. Voltei com a triste notícia e certo de que caberia
exclusivamente a nós reverter a situação.
– Vamos ver se você expulsa o que está te fazendo mal, foi a comida,
certamente.
– Não acredito, só estamos comendo coisa saudável e estou quase
morrendo. O que está acontecendo comigo? – E começou a chorar.
Percebi que eu também sofria de uma revolução de gases tanto no
estômago como nos intestinos. Isso me gerava apenas desconfortos, mas
para Laura estava sendo crítico.
– Vou ao banheiro, fica na porta.
– Pode ir.
Nesse momento, faltou luz na clínica. Laura deu um berro.
– Que droga, só faltava essa. Acha a luz para mim, rápido.
Por sorte tinha trazido uma pequena lanterna na bolsa de viagem, só
restava encontrá-la no escuro.
Por fim, a luz voltou. Era apenas uma queda repentina e rápida. O vigia
veio ao quarto trazer velas.
– Não consegui melhorar nada, essa luz me assustou.
– Vou pedir água morna, para ver se te ajuda na digestão.
Dessa forma ficamos por cinco horas acordados. Ora indo ao banheiro,
ora deitada, ora acendendo as velas, pois a luz voltava a cair. A claridade
do amanhecer era como uma esperança para acalmar nossa angústia de
não saber exatamente o que estava acontecendo.
Quando nos chamaram para o tratamento da manhã estávamos exaustos.
Laura mantinha as dormências associadas à estafa.
Avisei que ela precisava de um médico, pois passara mal a noite toda. A
enfermeira trouxe a surpreendente notícia de que a médica estava doente e
o médico fora ministrar um simpósio em Bombaim. Coincidências do
destino; todos os dias ambos nos visitavam e, por puro azar, quando mais
necessitamos não tínhamos a presença deles.
Tentei explicar o que ocorrera, mas parecia que a enfermeira sabia
pouco inglês, já tinha uma ideia preconcebida de que Laura estava
resfriada e não conseguiu compreender a situação.
Depois de ligarem para o vigia da noite e perguntar o que acontecera,
voltou com mais clareza dos fatos e com o restante dos cogumelos na
mão.
Fiquei surpreso de vê-la com parte de nosso jantar em sua posse, mas
antevi que este seria o vilão que nos atormentara durante toda noite.
– Você os cozinhou bem?
– Não, no Brasil é comum comê-los quase crus.
– Sei, mas aqui é conhecido pelos seus efeitos venenosos. Se não
cozinham muito eles carregam toxinas que dão muitos gases no corpo.
– Agora eu sei, mas o médico falou que poderia preparar qualquer
legume.
– Mas cogumelo não é legume.
Realmente, poderíamos estar falando de um fungo e não de um legume,
mas essas classificações botânicas não eram minha especialidade. De fato,
senti-me desamparado, na tentativa de fazer o melhor, tornara tudo pior.
Lembrei-me da história do macaquinho bem-intencionado. Era um vez
um jovem macaco muito benevolente que resolvera visitar as árvores junto
a um lago. De repente, quando estava num galho de árvore à beira do lago,
avistou um ser inusitado para ele, mas que não parava de se debater. Com
um sentimento de compaixão pelo sofrimento do animal desconhecido, o
macaquinho encheu-se de coragem e resolveu descer da árvore para ajudar
o ser em sofrimento. O animal estranho se debatia cada vez mais. Assim, o
macaquinho concluiu que estava com frio e, portanto, deveria aquecê-lo.
Decidiu então recolher todas as folhas ao redor para cobrir o animal e
assim esquentá-lo, feliz pela ajuda que estava prestando ao ser em
sofrimento. De repente, percebeu que o animal subitamente parara de se
mexer. Ao pegá-lo em suas mãos verificou que acabara de morrer.
Na verdade, o animal não passava de um peixe fora do lago.
Minha ajuda foi comparável a do macaquinho. Decidi que, quando
voltássemos, estudaria pelo menos a alimentação ayurvédica a fundo.
Por fim, ligaram para o médico, que determinou que Laura ficasse de
repouso todo o dia. Por volta das 18h passaria na clínica para nos ver.
Quando ele chegou eu estava preparando o jantar, batata com cenoura.
Mesmo com seu visível cansaço de uma longa viagem de trem, foi cortês e
amável. A estafa não o impediu de perguntar o que tínhamos aprontado
para a refeição da noite.
– Batatas dão gases, ela irá piorar.
– Mas batata não é um legume?
– Certamente, mas depois dos cogumelos seu quadro está mais sensível.
A partir de amanhã, nós nos encarregaremos da alimentação dela.
– Não sabia que cogumelos eram perigosos, afinal são cogumelos
comestíveis; comprei-os na venda de verduras.
– Entendo, todos os cogumelos são formadores de gases, aumentam
Vayu. Amanhã faremos outro kachaiabasti, assim limparemos os
intestinos e ela ficará melhor.
Definitivamente estava descobrindo que alimentos podem ser perigosos,
mesmo os mais inofensivos, como uma batata. O que será dos alemães?
Lembro que minha avó, uma boa alemã, usava um tempero chamado
kümel, que servia para retirar os gases da batata.
Começava a perceber que o vegetarianismo poderia ser nocivo sem o
conhecimento adequado de como e com quais vegetais deveria preparar a
refeição.
Mais tarde, já no Brasil, descobriria como funciona a alquimia da
cozinha vegetariana, seguindo as recomendações da Ayurveda. A
literatura que advertia sobre os cuidados com qualquer cogumelo era farta,
o mesmo falava da batata e das leguminosas, ambas classificadas como
alimentos geradores de gases durante a digestão. Por outro lado, na
culinária ayurvédica quase sempre havia um antídoto natural para cada
malefício de um vegetal.
Os tomates são ácidos e necessitam de cominho para neutralizar sua
acidez. O leite gera muco e precisa ter associado temperos picantes como
cravo e canela e até mesmo a pimenta, que ajuda na quebra das
substâncias como a lactose, facilitando sua assimilação. Combinado ao
apaziguamento de certas propriedades de cada alimento, também se faz
necessário saber o tipo ou dosha de quem vai consumi-lo, pois mesmo que
os alimentos estejam balanceados em suas propriedades, podem ser mais
benéficos para determinadas pessoas e prejudiciais a outras.
A cebola é um bom exemplo de como um alimento pode ser bom para
uns e nocivo para outros: uns adoram cebola e não sofrem de sensação de
queimação quando a ingere; outros sofrem de imediata azia, como no meu
caso. Na Ayurveda a alimentação é uma forma de medicação, e a escolha
adequada de ingredientes pode gerar equilíbrio no organismo. E quando
alguma doença se instala, boa parte das vezes basta uma simples troca de
hábitos alimentares e uma certa dose de paciência e disciplina para esperar
os meses passarem e observar os efeitos sobre o corpo, e até a mente,
restaurando a saúde.
Pode parecer estranho que o alimento tenha tanta influência sobre nosso
estado físico e mental, mas o que diremos a respeito do café? Certamente
altera nossa condição mental, fazendo-nos mais ativos e alertas, o que
pode gerar até insônia em algumas pessoas. Da mesma maneira, porém de
atuação oposta, outros alimentos podem deixar-nos mais sedados,
principalmente se são ingeridos regularmente, como é o caso da alface, do
maracujá etc.
Na verdade, a cozinha indiana pode ser considerada uma farmácia
natural.
Não restava dúvida do tamanho da responsabilidade de cozinhar para
uma pessoa em tratamento ayurvédico. Fiquei contente de não possuir
mais o encargo de cozinheiro.
Laura passara a comer arroz e banana e um copo de leite aguado com
curry. Parecia contraditório que alguém que estivesse com constipação
passasse a se alimentar de arroz e banana, mas sabia que meus conceitos
preconcebidos sobre os alimentos caíam a cada dia, um após o outro, num
efeito dominó.
Como estava com os intestinos limpos pelo kachaibasti, ficamos mais
atentos para que não surgisse uma nova crise de constipação.
Mr. Pillay tentava nos ajudar como podia e havia nos presenteado com
um mamão do quintal de sua casa. Fiquei muito contente, pois havia
procurado mamão por toda a cidade e nenhuma banca de frutas vendia.
Mr. Pillay explicara que não existia mamão à venda, porque todos
possuem um mamoeiro em seu quintal, uma vez que as propriedades
laxativas da fruta eram largamente difundidas entre as famílias.
No momento da explicação das propriedades do mamão, ele completou:
– Hoje as pessoas estão perdendo a sabedoria das ações de cada
alimento. Muitos estão perdidos e sem rumo se entregando ao consumo de
álcool. Com isso, vem aumentando o consumo de carne. Nada é mais
eficiente para curar uma ressaca alcoólica. Após uma bebedeira o corpo
pede por uma sustentação mais forte, e os vegetais demoram a oferecer
uma nutrição que compense os efeitos devastadores do álcool no corpo. A
situação da falta de orientação de como se alimentar está se transformando
num problema tão sério que hoje podemos encontrar sacerdotes que
milenarmente sempre foram vegetarianos consumindo carne e pregando o
oposto, ou seja, o vegetarianismo ayurvédico. A modernidade está fazendo
as pessoas perderem a sensatez na Índia. Alguns chegam a matar às
escondidas as vacas que andam soltas nas ruas para comer sua carne,
mesmo o animal sempre tendo sido um símbolo de paz e do
vegetarianismo no país. Mais tarde vão acabar sofrendo as consequências
dessa atitude no seu próprio organismo: sentirão o envelhecimento
precoce devido ao consumo da carne vermelha. Muitas sociedades que
tradicionalmente se alimentam de carne vermelha usam outros alimentos,
mesmo que sem se darem conta, para minimizar os efeitos nocivos da
ingestão da carne; porém os indianos, que estão se transformando em
carnívoros, misturam tudo e desconhecem os antídotos da carne.

— Décimo sexto dia —


Apesar dos cuidados que estávamos tomando e do mamão matutino, a
constipação se instalara novamente. Parecia que os efeitos dos cogumelos
ainda se mantinham.
Laura teve que passar o dia inteiro bebendo um remédio, a cada duas
horas, a fim de evitar que o quadro piorasse.
O médico ficou muito preocupado com a persistência da constipação.
Sabia que, se fizesse outra limpeza intestinal, voltaria ao problema da
regulação dos movimentos peristálticos, e estávamos no final do período
combinado para a internação. Tínhamos passagem comprada para o Brasil
e não podíamos ficar mais tempo na Índia.
Agora o remédio vinha a cada meia hora acompanhado de um copo de
água morna e da pergunta: “Latrim?”
Depois do almoço samaritano, um novo basti de óleo morno. Tinha
claro que enfrentávamos momentos difíceis para o sucesso do tratamento.
Em outras circunstâncias, mesmo que os sintomas fossem mais evidentes,
a calma dos médicos era nítida, porém, agora, mostravam-se preocupados
e mobilizavam as enfermeiras para um acompanhamento mais presente.
Pela tarde conversamos com o Mr. Pillay sobre os cuidados da
alimentação nos próximos três meses, pelo menos:
– Amanhã trarei mais papaya. Fiquem tranquilos, a situação vai se
normalizar.
– Também temos fé nisso, mas parece que os cogumelos estão fazendo
efeito até agora.
– Correto, eles são muito nocivos a qualquer pessoa, ainda mais na
situação da Laura. Vocês devem tomar cuidados com a alimentação,
quando estiverem em casa.
– Por onde vamos nos guiar. Tenho alguns livros falando sobre a
Ayurveda, mas observamos que existem algumas diferenças entre eles, e
achamos que, por isso, as orientações nutricionais não eram tão
importantes.
– É verdade, há polêmicas. Mas elas se devem mais ao fato de que em
cada região, os vegetais ganham propriedades típicas do clima local,
alterando suas indicações. Por isso, alguém no norte da Índia pode receitar
uma fruta que nasce no frio, mas quando ela é plantada no sul da Índia,
num clima quente, percebe-se que não é apropriada a determinado dosha,
pois sofreu alterações de seus princípios ativos. Assim um escritor de
livros ayurvédicos do sul poderá alterar a lista de alimentos de acordo com
as frutas e os legumes da região.
– Entendo. Mas fica muito difícil estabelecer um padrão assim.
– Nem tanto. Acontece que a Ayurveda é regida por princípios
universais, sua padronização é apenas circunstancial, de forma a facilitar o
entendimento, mas a presença de alguém em sua região que entenda esses
princípios é fundamental para que não ocorram tais desvios. Como é o
clima na cidade em que vocês moram?
– Parece com o Kerala. – Estado onde se encontra a cidade da clínica. –
Quente a metade do ano, em torno de trinta e poucos graus centígrados, e
fresco na outra metade com uns dezoito graus centígrados. A cidade é
litorânea, portanto também é úmida. Mas boa parte dos vegetais são
plantados a cem quilômetros, nas montanhas, com um clima mais frio,
talvez uns cinco graus a menos.
– Sendo assim, devem existir as mesmas frutas e legumes daqui?
– Sim. Banana, abacaxi, maçã, abóbora...
– Não será difícil. Vocês só deverão tomar cuidado com as diversas
modalidades da mesma fruta ou legume, e escolher a menos ácida, mais
doce...
Pillay gastou umas duas horas nos ensinando sobre os alimentos e suas
propriedades favoráveis e maléficas para o dosha da Laura, o Vata. Tomei
nota de tudo e fiquei pensando por que eles não nos disseram isso antes,
quando chegamos. Resolvi perguntar.
– Mr. Pillay gostaria de fazer uma pergunta, mas tenho receio de ser mal
interpretado.
– Vá em frente, tudo pode ser esclarecido.
– Por que não cuidaram da alimentação da Laura desde o início? Eu não
tinha esse conhecimento e preparei refeições que acabaram prejudicando o
tratamento.
– Existe sempre um dilema quando recebemos os pacientes. Caso
mudemos a alimentação drasticamente a pessoa fica triste e seu organismo
reage negativamente, mesmo que a comida seja a mais indicada para ela.
Os alimentos a que estamos acostumados são muito representativos para
nossa segurança emocional. Cada cultura possui alimentos que trazem
conforto e paz interna. Quando recebemos estrangeiros sabemos que a
dieta comum indiana já é por demais diferente. Sendo assim, optamos por
deixar que cozinhem o que estão habituados a comer e ficamos apenas
monitorando suas escolhas.
– Eu vi que sempre estavam “de olho” no que comíamos – interveio
Laura, surpreendida.
Entendida a questão alimentar, Laura foi se preparar para um novo tipo
de massagem que é aplicada com um preparo feito de leite, arroz e ervas,
o Pinda Sveda.40
Tratava-se da continuação do procedimento que realizou durante toda
semana anterior, o Pizhichil. 41 O novo tratamento dava um aspecto
incomum à pessoa; seu corpo ficava todo branco. Resolvi tirar fotos do
novo procedimento e percebi que as enfermeiras ficaram encabuladas.
Mas tinha tomado as precauções necessárias e pedira autorização ao
administrador para fotografar alguns tratamentos.
Mais tarde, Laura disse que elas riram muito depois que saí da sala de
massagem e mostraram-se satisfeitas com as fotos.
No dia seguinte, às 7h, Mr. Pillay bateu na porta e nos entregou mais
dois mamões com um largo sorriso no rosto. Era domingo e, normalmente,
não viria à clínica.
Ficamos comovidos por mais uma de suas gentilezas. Rapidamente
Laura serviu-se da fruta e em menos de cinco minutos estava correndo
para o banheiro.
Passados vinte minutos, comecei a ficar preocupado. Bati na porta.
– Laura, você está bem?
– Me deixa quieta, está funcionando.
Apaziguado, voltei a esperá-la, torcendo para que a situação se
resolvesse. A barriga tornara-se o centro do funcionamento do corpo.
Mesmo intrigado, ficava cada vez mais convencido de que até mesmo uma
doença do sistema nervoso poderia ser tratada pela regularização do mau
funcionamento do sistema digestivo.
De qualquer forma, os santos mamões, após quatro dias de constipação,
ajudaram o organismo a se normalizar e a se limpar, fazendo o milagre da
recuperação através dos alimentos. Sem dúvida os remédios ayurvédicos
tiveram sua contribuição. Contudo, a ação dos mamões foi decisiva para
estabelecer a regularização do peristaltismo intestinal e talvez regular as
liberações das proteínas que intoxicam os intestinos, e consequentemente,
o sangue e todo o corpo. Mas o sucesso da fruta não impediu que outro
basti fosse administrado para nutrir os intestinos.

— Décimo oitavo dia —


No dia seguinte, pela tarde, Mr. Pillay levou-me para o centro em sua
lambreta, para comprar alguns CDs de músicas indianas. Primeiro, fomos
fazer um lanche numa rede de refeições indianas. Mr. Pillay escolheu para
mim um típico lanche da região, o dosai. Era uma panqueca de farinhas de
arroz e lentilha, frita numa massa fina, que se come com molhos
apimentados ou de coco. Uma verdadeira iguaria.
Depois, fomos às compras. Os CDs de música indiana eram, em sua
maioria, “piratas”; a informalidade é quase uma regra no país.
Em seguida, passamos numa loja de sucos para um refrescante abacaxi
com hortelã. A doçura da fruta era incomparável. Comprei um suco de
laranja para viagem, por sinal, acondicionado em saquinhos transparentes
com um nó na ponta; maneira usual de se acondicionar alimentos líquidos
sem preocupação com embalagens sofisticadas.
Identifiquei uma mistura de cereais vendidas em saquinhos e perguntei
se era o mesmo que havia comido com o chá da tarde. Positivo.
– Será que Laura pode comer?
– Sim, são cereais e são nutritivos para ela.
– Vou levar.
Quando chegamos, ela ficou feliz em comer algo diferente. Duas
pequenas porções, para não abusar da novidade.
Logo após ingerir o inofensivo mix, percebemos o gosto do óleo
adicionado aos cereais e ao amendoim. A fritura era extremamente
contraindicada. Laura ficou sofrendo de indigestão e gases, e novamente
se estabelecera a gama de sintomas usuais da E. M. Uma hora depois,
sofreu um novo martírio.
Era inacreditável que, mais uma vez, tínhamos gerado uma intoxicação
em seu organismo, mesmo na melhor boa vontade. Esperamos algum
tempo, tomando água quente. Mas, como o quadro não melhorava e as
câimbras aumentavam, resolvi pedir para ligarem para o médico.
– Dr. Bokulam, desculpe incomodá-lo, mas ela está passando mal, creio
que foi algo que comeu.
– Diga o que teve nas últimas refeições.
– Nada de incomum, arroz cozido com cenoura, mas pela tarde comeu
um preparado de cereais, onde parecia ter um pouco de óleo vegetal,
castanha de caju, amendoim, pimenta.
– Ela não deve comer amendoim nem óleo, dá muitos gases.
– Desculpe, mas o senhor havia dito que podia comer castanha de caju e
nozes. – De fato no dia anterior havia feito essa recomendação,
– Certamente, mas o amendoim é outra coisa.
– Entendo – falei, sem me convencer. Na verdade não entendia nada.
Qual era a diferença entre amendoim e castanha de caju, se ambos eram
oleosos e nutritivos?
– Passe o telefone para o vigia que pedirei que prepare um remédio, não
se preocupe.
– Obrigado e desculpe.
Um grande constrangimento assolava meu peito. De novo, por uma
compra diferente, estragara tudo. Mas, desta vez, Mr. Pillay fora meu
álibi, afinal ele afirmara que não havia problemas para ela.
Mais tarde, compreenderia que o óleo vegetal esquentado irrita a
mucosa fazendo surgir gases. É que o amendoim possui propriedade
diferente das castanhas e sementes oleaginosas, pois durante sua digestão
surgem gases, tal como no caso do milho. Os mistérios do efeito dos
alimentos no corpo humano são cuidadosamente estudados pela Ayurveda,
havendo um ramo de pesquisa à parte, chamado de vipak. Cada alimento
tem um sabor e uma ação posterior a sua ingestão; o vipak afeta o corpo
durante a digestão, gerando um efeito pós-digestivo. Quando se coloca o
alimento na boca, não se pode imaginar que durante sua digestão irá
provocar certos efeitos, que o paladar não pode identificar. Por exemplo,
certos alimentos com sabor doce no primeiro contato com a boca podem
se transformar quando atingem o estômago, gerando um efeito ácido.
Contraditório? Mas veja o que acontece com um doce fora da geladeira
após um tempo, provavelmente irá azedar, podendo acidificar seu
organismo em vez de adoçá-lo. É curioso, mas a ciência da química
muitas vezes não conversa com nossa medicina, e por isso parece que
nossa medicina desconhece a grande maioria desses efeitos pós-
digestivos.
Quinze minutos depois de tomar o medicamento, os sintomas
amenizaram. Desta vez, o organismo respondeu mais rápido e conseguiu
se reequilibrar. Tive esta certeza porque até mesmo eu fiquei com
desconfortos devidos aos gases gerados pelo óleo vegetal, mas me
recuperei bem mais rápido do que quando comi os cogumelos.

— Décimo nono dia —


Com o incidente do dia anterior, as enfermeiras realizaram outro
kashaiabasti. Em poucos minutos, os sintomas que ainda restavam
sumiram, provando mais uma vez que somos escravos do que comemos e
acumulamos nos intestinos. Isso me fazia lembrar da expressão
“enfezado”. Sem dúvida, a sabedoria popular juntou o fenômeno físico ao
emocional, deixando claro que somos vítimas do mau funcionamento do
sistema digestivo.
Após o tratamento, foi servido, como de praxe, mais um arroz com
banana para manter o organismo limpo e livre dos gases.

O dia a dia no hospital era longo e terrível. Mesmo que tivesse aquela
esperança e força de vontade que me faziam agarrar a oportunidade e a
possibilidade de melhora, na prática, não era tão simples. As noites eram
tortuosas, e as manhãs, cheias de expectativas de um dia melhor, com menos
dores e menos sofrimento.
Aprender a me desapegar do corpo, das sensações de tudo, foi o primeiro
passo para me desapegar das emoções e das pessoas mais adiante. Cada
procedimento que os médicos indicavam e as enfermeiras aplicavam era
novidade. Aceitar algo novo, para uma mente ocidental, bem racional e que
precisa de explicação para tudo, é um desafio. Mais provas iam quebrando as
barreiras da vida e os preconceitos enraizados.
A sujeira, as baratas, as aranhas, o banheiro imundo, extremamente imundo, a
cozinha deplorável no início me faziam querer fugir dali. Mas havia um
antagonismo interno muito forte em tudo. Internamente, na minha mente e
externamente, naquela clínica. Mesmo com as péssimas condições de higiene
para o nosso padrão, o cuidado na manipulação dos remédios e a atenção de
todos eram indescritíveis. Eu sabia que estava sendo bem orientada e tratada de
verdade e que os outros detalhes eram pequenos diante da dedicação, do cuidado
e da sabedoria.
Os dias eram muitas vezes agonizantes. As dores, câimbras e paralisias
oscilavam o tempo todo. Não conseguia sentir grandes alívios. A dieta bastante
restrita não gerava grandes incômodos. Na verdade, aos poucos fui percebendo a
grande relação entre os alimentos e o meu desequilíbrio.
Os dias passavam, as massagens com óleo morno às vezes provocavam alívios,
outras horas, sedavam e, muitas vezes, geravam mais incômodos. Os
procedimentos nos olhos talvez fossem os momentos de mais dor e desespero. Em
algumas ocasiões, eu tentava boicotar as enfermeiras, tentando fechar os olhos.
Mas elas logo percebiam e me faziam abrir os olhos para que eles ficassem o
máximo de tempo possível banhados pelo medicamento. As sensações de
sufocamento, dormência e dores nas pernas aumentavam à medida que o remédio
penetrava os olhos. Mas só depois de um tempo é que pude perceber e assimilar
seus reais benefícios.
Toda aquela dor e agonia teriam ótimas consequências, e, mesmo sem saber
delas, estava ali, entregue à tudo.
As lavagens intestinais, essas sim, mexeram profundamente no meu ser. Depois
de alguns segundos, após a Dra. Chitra inserir o líquido quente no meu intestino,
dores e calafrios tomaram conta de mim.
Era mais do que uma limpeza física, era uma limpeza da mente, da alma. Um
choro intenso me dominava. As lágrimas, impossíveis de controlar, detalhes de
toda a minha vida surgiam na minha mente. Todos os meus sentimentos mal
resolvidos e guardados vieram à tona. E eu me sentia um bebê desprotegido,
precisando de algo que não sabia o que era. Era como se eu estivesse renascendo,
como se meus nós estivessem sendo afrouxados e eu tinha a oportunidade de
entender e liberá-los de uma só vez. Ou então, novamente me apegar e me manter
no mesmo padrão de sofrimento que já conhecia. Era uma escolha, uma
oportunidade de recomeçar a vida sem realmente precisar nascer de novo. E, no
silêncio, sem ninguém dizer uma palavra e me ajudar a sair daquele emaranhado,
a percepção de que algo deveria mudar foi tomando conta de mim. Fui vendo
meus erros, meus acertos e me deparando com cada sentimento de apego, de
saudade, da vida, de pessoas, lugares etc.
E fui vendo os dias de tratamento chegarem ao fim. Com Marcus exausto, mas
sempre ao meu lado, aguentando as noites que eram quentes demais para ele, e
frias e dolorosas para mim. Eu havia perdido a real noção de temperatura do
corpo e via-o reclamar e transpirar horas a fio. E eu apenas deitada, tapada por
cobertores, vivendo uma realidade só minha, doentia e fria. Eu estava do outro
lado do mundo, e quase sem notícias, pois o telefone nem sempre funcionava e a
falta de luz era constante.
Mas, nos últimos dias, nenhuma melhora parecia permanecer. Os movimentos
dos braços e pernas oscilavam à medida que minha digestão acontecia. Eu não
sentia desconforto nenhum nem apresentava constipação e fui entendendo a chave
de toda a questão.
Eu não via motivos para desistir, apenas persistir.
40 Pinda Sveda é uma técnica rejuvenescedora que remove a dureza do corpo e diminui os inchaços
das articulações, tornando o corpo flexível, além disso, limpa as obstruções corporais aumentando a
circulação sanguínea, o que recupera o vigor físico.

41 Pizhichil é uma forma de massagem (abhyanga) em que o óleo é abundante, sendo continuamente
derramado a certa altura do corpo e simultaneamente esfregado pelo terapeuta, o que promove vigor
aos tecidos e aumenta o calor corporal.
O final do tratamento

Aliviados do susto, fomos conversar com Mr. Pillay para nos distrair. Ele
escolheu abordar o assunto dos enterros na Índia, aparentemente mórbido,
mas, no fundo, era muito interessante a maneira distinta de como
compreendiam a morte.
– A igreja aí em frente é católica – disse Mr. Pillay.
– Eu sei, estive lá outro dia. Mas achei estranho uma procissão de motos
com bandeiras pretas que saem de lá.
– Ah! Sim. São os enterros católicos. Eles costumam fazer “buzinaços”
com as motos levando bandeiras pretas. Mas creio que o que viu foi a
greve dos médicos.
– Como assim? – Havia também um hospital geral na mesma rua.
– Os médicos estão em greve, pois estão permitindo que hindus de
outras classes ingressem na faculdade. São as cotas por casta. Usualmente,
são os Brâmanes que ocupam os postos de médicos e eles acreditam que
se forem abertas vagas para as outras castas ficarão sem trabalho.
– No Brasil existe algo parecido, mas são cotas nas faculdades para
negros.
– Vocês também possuem castas?
– Não exatamente, mas os negros, muitas vezes, ocupam postos de
trabalhos de menor importância, devido às condições históricas da
escravidão.
– Entendo, mas é impossível deixar de fazer a comparação com os
Shudras,42 ou melhor, os Panchamas, a casta inferior da Índia. Apesar da
separação por castas estar proibida desde o ano 2000, muito se mantém na
mesma situação.
– E sobre o enterro?
– Ah, sim. Os católicos usam as funerárias. Mas os hindus queimam o
corpo do falecido. Primeiro levam o morto para a frente de casa e
colocam-no no chão perto da entrada, cobrem o corpo com um pano
branco deixando somente a cabeça de fora. O sacerdote realiza preces
para, logo em seguida, os familiares se despedirem, ficando ainda exposto
para a visita dos parentes e amigos. No fim do dia, cobrem também o
rosto.
– Mas ele não é posto no rio, como acontece no Ganges?
– Não. Somente para quem mora perto do Ganges. Para o resto da
população só as cinzas são jogadas ao mar ou num rio sagrado. Como
dizia, após o dia de despedida o corpo é levado para o crematório
acompanhado do filho mais velho e o mais novo. O primogênito fica
posicionado junto à cabeça e o caçula aos pés do falecido, que tem o corpo
coberto por folhas de bananeiras. Ao mesmo tempo, ateiam fogo nas
extremidades. Há sândalo e ervas aromáticas para defumar, além de
pétalas de rosas e guirlandas de flores. Quando o corpo está
completamente queimado voltam a retirar os ossos dos fragmentos dos
pés, tórax e cabeça. Lavam-nos com mel, ghee e leite. Seguem-se pujas
(preces) para depois guardar os restos mortais num pote de barro
enrolando-os num pano vermelho, que será mantido na frente da casa por
41 dias, com uma lamparina acesa permanentemente ao lado. A alma fica
acompanhando os restos mortais por todo este período, e família se
mantém rezando para que ela encontre a Luz Divina.
“Encerrado o período de luto, o filho mais velho leva o pote até o mar
ou um rio. Segurando o pote no alto da cabeça, mergulha na água. Com o
corpo submerso empurra o pote para trás, deixando assim que os vínculos
físicos e emocionais fiquem definitivamente rompidos. Porém, mantém-se
o laço espiritual. Nesse momento o filho tem a convicção de que a alma
do pai seguirá seu curso.”
A esta altura, Laura estava cansada; percebi que a viagem de volta não
seria nada fácil, pois apesar de não estar mais com câimbras e paralisias,
era nítida a fraqueza de seu corpo.
O médico estava a caminho para a consulta final. Acertei o pagamento
do tratamento com Mr. Pillay.
– Não se preocupe com as refeições que fornecemos a sua companheira,
não serão cobradas.
– Obrigado, toda a economia é bem-vinda, nos últimos meses as
despesas com saúde foram intermináveis.
– Compreendo. Vou separar os remédios para os próximos quatro
meses. Esses remédios pós-panchakarma são de suma importância. Agora
o corpo está limpo e os remédios surtirão maiores efeitos. Sejam
cuidadosos nos horários e nas quantidades.
– Pode deixar conosco. Mas percebo que ela ainda está fraca.
– Isso é absolutamente normal. Aos poucos irá melhorar e ganhar
forças. A Ayurveda é uma ciência que trabalha em parceria com o tempo.
Gradualmente o organismo vai se estabilizando com a ajuda das ervas. É
como um caminho contrário ao adoecimento, que em regra é lento e
silencioso.
– Será que ela deveria continuar a fazer os procedimentos do
panchakarma?
– Não. Panchakarma só se faz de tempos em tempos, é muito forte.
Pode parecer simples, mas seu efeito é tão intenso quanto uma cirurgia,
como já disse. E não se realiza uma cirurgia atrás da outra, só quando é
estritamente necessário. O corpo está limpo e pronto para estabelecer seu
processo de cura, apenas sejam cuidadosos com os remédios ayurvédicos,
com a alimentação e mantenha uma rotina suave para ela.
Percebi o quanto estava contaminado com a ideia de que tudo que é bom
deve ser repetido. Talvez uma visão consumista da vida. Tinha ficado
claro que as coisas se dão dentro de um contexto e numa certa medida.
Passado o momento adequado, algo que era bom pode passar a ser nocivo.
A noção de que o tratamento, na verdade, tinha apenas começado, e que
entraria numa nova fase com a administração dos remédios em casa, me
assustava. Parecia muita responsabilidade. Mas o que não sabia era que a
trajetória da cura já estava estabelecida dentro do organismo, através dos
diversos tratamentos, nos 21 dias de internação. Agora, bastava não
atrapalhar.
Dra. Chitra e Dr. Bokulam nos chamaram para o consultório. Era o
exame final.
– Leia as letras, das maiores para as menores.
– H, C, E, N, D, U...
– Ótimo. Agora com o olho esquerdo.
Laura foi até a penúltima linha desta vez.
– Bem, sua visão está normal. A diferença entre os olhos é comum,
apenas um olho está acima da média. Vamos avaliar seu campo visual. –
Laura seguia seus dedos e respondia a quantidade de dedos apresentada ao
seu lado.
– Também está normal. Agora, sua sensibilidade nos membros.
Tudo sem alterações, era impressionante. Percebi que nos últimos dias
tínhamos ficado tão preocupados com a fraqueza, que esquecemos de
como eram os sintomas da E. M.
– Veja, ela está apenas fraca. O tratamento é intenso e debilita o corpo,
mas isso nada tem a ver com a sua doença. Seu quadro patológico foi
revertido e melhorará ainda mais nos próximos meses. Mas aconselho que
voltem entre seis meses e um ano para outro panchakarma. Ela precisa
regularizar seu sistema digestivo, e existem outros tratamentos, mas não
podemos administrá-los junto com o que já estávamos fazendo. É
necessária uma pausa entre eles. Sua digestão ainda está fraca, o que
permite que o organismo gere toxinas que não ajudam em nada. Mas isso
pode ser resolvido mais tarde. Por ora, o tratamento foi um sucesso. Mais
uma coisa. Ela deve tomar nos próximos dois meses sopa de cérebro de
carneiro.
– Como? Mas a Ayurveda não é um sistema para vegetarianos?
– Sim. Não estou pedindo que ela deixe de ser vegetariana, apenas
quero reforçar a recomposição de alguma perda de substâncias
neurológicas como a mielina. O cérebro de carneiro é rico em mielina e,
de alguma forma, o organismo vai se valer da sopa para recompor o
material perdido. Quando a doença é muito severa é praxe na Ayurveda se
valer de animais para ajudar a sustentar o corpo humano, apenas como
tratamento. Não necessitamos de carne no dia a dia, mas um convalescido
pode necessitar.
– É só o líquido da sopa que devo tomar ou devo comer o cérebro junto?
– perguntou Laura, interessada e impressionada por receber uma receita
carnívora de um hindu.
– Somente o caldo, nele estará a gordura de que seu corpo necessita.
Deixe ver seus olhos, Marcus.
Observou de perto com o auxílio de uma lanterna.
– Seu tratamento também foi eficaz. No entanto, como avisei no início,
no atual estágio de crescimento da pele nos olhos a Ayurveda não a
retiraria, mas fique certo de que não crescerá mais. Se lhe incomodar,
poderá operar que não voltará a crescer, o pterígio foi estagnado.
Parecia-me estranho o fato de um problema tão simples como o meu
não poder ser removido com a Ayurveda e uma doença incurável como a
esclerose múltipla poder.
As medicinas ocidental e oriental parecem funcionar de maneira
complementar, o que é incurável para uma pode ser tratado pela outra, e
vice-versa.
Por outro lado, estava havia cinco anos com o meu problema e a
esclerose múltipla tinha surgido havia poucos meses. Certamente o tempo
de atuação da patologia sobre o organismo não pode ser ignorado.
Terminada a consulta fui agradecer a ambos pela cordialidade e o
carinho com que fomos cuidados na clínica. Estendi a mão para o médico,
que prontamente retribuiu o cumprimento. Já a médica, simplesmente, deu
um passo para trás e juntou as mãos em prece, num sinal de respeito. Isso
me remeteu a um ano antes, quando me consultei com ela e, ao me
despedir, ingenuamente, tentei um beijo de agradecimento no rosto, o que
foi prontamente rejeitado e transformado num suave “namastê”.
Por um instante, parei para pensar que um ano se passara desde a última
vez que estivemos na clínica; nossas vidas haviam se transformado. A
ignorância de como se processa nossa jornada saudável na Terra estava se
metamorfoseando gradativamente em sabedoria ayurvédica do cuidado
com a saúde. A princípio de maneira meio tímida e desconfiada, mas a
doença nos faria colecionar livros e participar de cursos de medicina
ayurvédica, para buscarmos entender que tipo de alquimia havia se
processado no organismo de Laura e – por que não? – nas nossas visões de
mundo.
Novas viagens para Índia estavam programadas pelo destino. A yoga
entraria como uma lâmina afiada para operar as camadas obscuras do
corpo e da mente, transformando hábitos corporais de nós dois e relaxando
as tensões adquiridas com o viver equivocado.
A importância do ar durante a respiração, o prana, seria cuidadosamente
ensinado a nós por conhecedores da arte da yoga na Índia, através de
técnicas respiratórias, os pranayamas.
A paciência da recuperação e a importância da perseverança estavam
sendo preparadas pelos professores de yoga, que nos acompanhariam no
Brasil. Dia após dia, como num caminhar de tartaruga, fui acompanhando
o progresso físico de Laura e seu restabelecimento, através das técnicas da
sabedoria oriental, dos medicamentos à base de ervas e da culinária
ayurvédica.
Os alimentos processados sumiram de nossas vidas. Vegetais frescos e
cereais meticulosamente escolhidos para a recuperação das debilidades de
seu corpo foram ocupando nossas despensas. O supermercado deixava de
possuir vários corredores para se resumir a prateleiras de verduras, frutas e
cereais. A comida ganhava aspecto ritualístico, uma vez que não se
aproveitava nada de uma refeição para outra. Laura, que outrora pouco
cozinhava, foi lentamente aumentando seu cardápio de pratos saudáveis
para uma pessoa de tipologia Vata, até ser capaz de escrever um livro de
receitas.
Sua rotina de vida, mesmo quando já estava quase normal, foi
drasticamente alterada. De arquitetura e trabalhos em São Paulo com
clientes exigentes em horários imprevisíveis, manteve apenas seu curso de
Letras, buscando uma vida com rotina e estabilidade.
Tudo isso foi acontecendo com o apoio de um pequeno grupo de
amigos, que foram capazes de nos incentivar na empreitada desconhecida
de uma cura dita “alternativa”.
Professores de yoga foram contribuindo na medida de seu conhecimento
e agregando coragem e rumo ao caminho da cura. Entre eles, destaco
Orlando Cani, Edi Lisboa, Kátia da Costa, Débora Weinberg, Diego
Koury e os grandes discípulos de B.K.S. Iyengar: Faeq Biria e Eric Small.
Entre as celebridades do caminho espiritual sei que fomos muito
inspirados por Paramahansa Yogananda, Sri Sri Ravishankar, Sadhguru e
Sivananda.
Todo o processo, que ocorreu nos meses que se seguiram, daria para
escrever outro livro, belo em descobertas e rico de conhecimentos. Por
ora, gostaria de me concentrar na viagem de volta da Índia.
A viagem de volta
No cair da tarde, começamos a nos preparar para a viagem de volta ao
Brasil. Teríamos seis horas de trem pela frente até a cidade onde
pegaríamos um avião para Bombaim. Depois de pernoitar na “Hollywood”
indiana, entraríamos num voo internacional até Johannesburgo, na África
do Sul, fazendo uma conexão de quatro horas para São Paulo, para enfim
tomarmos um voo doméstico para o Rio de Janeiro. Ufa! Como tínhamos
conseguido viajar tanto para chegar no interior da Índia com ela doente?
Envolvido com os arranjos da volta, havia faltado tempo para preparar o
jantar de Laura, pois seu tratamento já terminara e voltei a ser responsável
por sua alimentação. Tinha terminado o arroz, suplemento básico para sua
condição enfraquecida. Para a alimentação ayurvédica, o arroz é um
veículo de assimilação dos outros alimentos, ou seja, o organismo absorve
de maneira mais completa uma refeição se ela for acompanhada de arroz.
Caso seja ingerida a mesma comida sem o arroz, a assimilação dos
nutrientes fica comprometida.
Aproveitei o fim do expediente para pedir uma carona a Mr. Pillay até o
centro em sua lambreta dos anos 1960.
Prontamente se dispôs a buscar comigo o arroz, mas resolveu que seria
melhor encomendar num restaurante, uma vez que estaria pronto. Fomos
até o restaurante do melhor hotel da cidade.
Mr. Pillay comentou:
– Sabe, um dos garçons estava ficando cego e não sabia. Sua perda
visual era enorme. Veja como é pequeno e escuro aqui dentro. O rapaz
trabalhava dez horas por dia sem sair daqui de dentro. Sua visão foi se
prejudicando, a ponto de não conseguir enxergar nada além de dois
metros.
– E como o senhor ajudou-o?
– Certa vez estive aqui para jantar e ele não conseguiu me reconhecer da
porta da cozinha. Olhe, não chega a três metros da mesa em que estava
sentado. Então, perguntei a ele por que demorou a me atender, e ele disse
que não me havia reconhecido. Imediatamente pedi para me acompanhar
até a recepção do hotel e solicitei que lesse algumas palavras na parede,
como o preço da tarifa dos quartos. Nada feito, sua visão estava
completamente comprometida além de dois metros. Na semana seguinte,
ele apareceu na clínica, e o apresentei ao Dr. Bokulam. Após duas
semanas de tratamento, voltou à normalidade, e o mais incrível, sem usar
óculos ou lentes de grau.
– Sem dúvida, a Ayurveda é poderosa em muitos casos.
Após uma longa explicação ao garçom sobre a minha pessoa e o motivo
pelo qual gostaríamos de um arroz simples para viagem, conseguimos
uma quentinha de arroz do tipo basmati,43 por sinal o melhor da Índia, de
cor branca e formato comprido, com aroma destacado.
Quando cheguei com a quentinha a fome era tão grande que Laura
preferiu investir em algumas garfadas antes de esquentar os legumes.
Naquele momento já havíamos percebido que o estômago vazio por mais
de duas ou três horas provoca gases, que iniciavam a manifestação de
alguns sintomas de seu problema. Sendo assim, nada mais natural do que
engolir as primeiras garfadas, porém, para nossa surpresa, essa rapidez foi
o início da volta do pesadelo. O arroz aparentemente inofensivo fora
preparado com óleo, apesar de solicitarmos um arroz na água e sal.
Resultado? Uma noite de dificuldades na véspera de partirmos da clínica e
justamente quando ela voltara a se estabilizar dos sintomas da E. M.
Além do quadro de sintomas da E. M., desta vez havia placas vermelhas
pelo corpo. Liguei para o médico.
– Dr. Bokulam, desculpe incomodá-lo de novo, mas Laura está passando
mal, desta vez foi um arroz que buscamos no restaurante da cidade e pelo
que percebemos foi preparado com óleo. Só que agora, além das câimbras
e tremores, ela está com manchas vermelhas pelo corpo, principalmente na
barriga.
– Entendo. Ela está mais forte em relação à doença e acabou por
desenvolver uma alergia a alguma coisa que havia no arroz. Vou passar o
remédio para retirar os gases e também um antialérgico comum, não
temos tempo para remédios ayurvédicos no caso da alergia. Chame o
vigia, que pedirei que vá até a farmácia na cidade. Mas antes de ele sair,
ela deverá tomar o líquido preto para os gases.
– Obrigado, desculpe-me pelo erro, deveria ter comido o arroz antes
dela.
– Isso acontece, amanhã vou tentar encontrá-los na estação de trem para
vê-la.
– Combinado, boa noite.
Pela manhã, Laura estava melhor, porém muito cansada. Os sintomas,
quando surgem, são estafantes.
Partimos para a estação de trem depois de nos despedirmos das
enfermeiras. Estavam felizes por ver a mudança de quadro no final do
tratamento.
Enquanto aguardávamos o trem, Mr. Pillay apareceu com uma dúzia de
bananas na mão.
– Estas bananas são boas para a saúde dela. Quando tiverem dificuldade
de escolher algo para comer usem bananas.
– Não precisa cozinhá-las? – perguntei porque sempre ofereciam
bananas cozidas na clínica.
– Não, estas são mais digestivas, pode comer como estão. Dr. Bokulam
deve estar chegando; ele também pegará o trem. Vai para Bombaim dar
uma palestra.
Realmente, os indianos possuem uma visão diferente de conforto.
Enquanto nós iríamos a outra cidade para voar até Bombaim, uma vez que
seriam mais dez horas de trem, o médico enfrentaria dezesseis horas, sem
problemas.
Quando o médico chegou, perguntou primeiro sobre a plataforma em
que deveríamos embarcar. Verificando que estávamos aguardando o trem
na plataforma errada, prontamente ajudou-nos com as bagagens para
mudarmos para o local correto.
– Deixe-me ver como está a alergia.
Laura levantou a blusa, exibindo a barriga.
– Bem, continue a tomar o anti-histamínico. A reação foi forte, mas
passará até amanhã.
– Foi uma pena aquele deslize no final.
– Com o passar dos meses tudo ganhará uma nova configuração. Por
ora, tomem cuidado com a alimentação. Como disse, não enveredem por
nenhuma comida processada, tudo fresco e bem cozido, sem frituras e
somente ghee para cozinhar.
– Nos restaurantes eles usam ghee?
– São poucos que ainda possuem esse cuidado.
O trem chegou, Mr. Pillay ajudou a colocar as malas para dentro, e
partimos acenando pela porta do vagão. Agora Laura estava entregue aos
meus cuidados. E eu buscava não pensar nas dificuldades do regresso.
Simplesmente dispus-me a enfrentar cada situação por vez, conforme
fossem surgindo.
O primeiro desafio foi manejar as horas no trem com ar-condicionado
fortíssimo. A solução foi novamente passar mais óleo no corpo para isolá-
la do ar seco, como havíamos feito no avião da vinda, e cobri-la até a
cabeça. Por sorte, o cansaço fez com que dormisse a maior parte da
viagem, acordando apenas para comer e beber água. A cabine era para
quatro pessoas, mas acabamos por ocupá-la sozinhos.
Fiquei junto à janela, observando as paisagens que eram deixadas para
trás na velocidade hipnotizante do trem. Cenas de mulheres em saris
coloridos ordenhando vacas eram comuns junto à linha de trem. Meu olhar
mudara. Não conseguia ver as vacas como meros animais de corte. Graças
a elas foram quinze dias de ghee nos olhos e uma semana de massagens
com leite no corpo de Laura. Para mim, a vaca tinha se transformado num
ser sagrado. O leve balançar do vagão fazia com que minhas lembranças
aflorassem, levando-me à reflexão dos acontecimentos dos últimos meses.
Toda dúvida e medo de uma doença misteriosa foi surgindo em minha
mente através das cenas que vivenciamos. Nos consultórios, nas conversas
com a família, no trabalho, tudo aparecia como um quebra-cabeça que ia
se encaixando, mas que ainda não estava completo. Faltavam algumas
peças para entender o quadro geral do que estava nos acontecendo.
Por um instante, fiquei comovido com tudo que passamos e derramei
lágrimas de alívio. Sentia que agora havia uma esperança concreta de
voltarmos a ter uma vida normal.
Enfim, chegamos à cidade para pegar o avião. Conseguimos um táxi, e
como havia tempo, pedi que nos levasse a um templo hindu muito
conhecido pela rica decoração de sua fachada. Talvez fosse bom para
Laura ver algo belo e exótico antes de partir da Índia. Afinal, foram 21
dias praticamente confinados num quarto, e o pior era saber que estava
num país rico em construções belas e de uma cultura vibrante sem poder
aproveitar.
O templo era realmente belo, mas não aceitava estrangeiros em seu
interior. Não fazia mal. Agradeci, de fora, o cuidado que o país despendeu
conosco.
Voltamos para o hotel em que nos hospedáramos na vinda. O
recepcionista sorriu em sinal de nos haver reconhecido. Quando chegamos
ao restaurante, o garçom, com sua simpatia habitual, perguntou se
comeríamos pelo cardápio ou no bufê. Tive dificuldade de explicar que
necessitávamos de uma banana da terra cozida, mas, por fim,
compreendeu, sem antes deixar de procurar entender o porquê do pedido
tão exótico, como praxe da usual curiosidade indiana – talvez pudesse
dizer, da habitual preocupação com o próximo que eles possuem.
O surpreendente foi que trouxeram a banana cozida no centro do prato
e, num toque decorativo, envolveram-na com finas tiras de repolho cru, ou
seja, a salvação ao lado da perdição. O repolho é um dos legumes que
mais gases provoca no corpo durante a digestão, o que seria “fatal”.
No dia seguinte, enquanto esperávamos para embarcar no avião, me
lembrei do voo da vinda. No momento em que tive de carregar Laura no
meio da confusão da fila de embarque. Felizmente a volta estava sendo
mais bem administrada e, sem dúvida, a condição de saúde era menos
assustadora.
Bombaim, a cidade do cinema indiano, é populosa e confusa. Havia
reservado um hotel nas imediações do aeroporto. Restava saber se
conseguiria atender a nossas demandas com o restaurante anexo.
Chegamos tarde, necessitando de alimento quente. Como não queria
correr o risco de não haver bananas no restaurante, tinha trazido algumas
da cidade anterior.
O restaurante era famoso e lotado. O garçom logo buscou nos atender,
afinal não era tão frequente a presença de estrangeiros naquela área.
Da mesma forma que nas outras experiências em restaurantes, fui
informando pacientemente o que estava acontecendo, justificando assim
nossa escolha. O garçom ficou muito interessado; quis saber o nome do
hospital e como havíamos descoberto o médico. Explicado tudo, pôs-se a
mobilizar o maître sobre nossa demanda, o que fez ocorrer uma breve
reunião entre todos os garçons, que se entreolharam, nos olharam e em
poucos minutos estava servida a comida.
Durante a refeição o maître nos interrompeu:
– Como está a comida?
– Muito boa. Obrigado pela atenção no pedido fora do comum.
– Não há de quê. No que for possível estamos no mundo para nos
ajudar. Fiquei sabendo de seu problema. Tenha fé, não pense nas
dificuldades. Este é o segredo para tudo correr bem. – Dirigindo o olhar
para Laura, completou: – Vou rezar para você ficar boa. Na viagem de
volta vai dar tudo certo.
Nossos olhos se encheram de lágrimas. Como aquele homem simples
sabia de tudo que precisávamos ouvir? Sentia que Deus falava pelos seus
lábios. Não era a primeira vez que a sensibilidade de um estranho me
impressionava, mas desta vez foi como palavras de um sábio ditas na hora
exata.
No hotel, na maior parte do tempo, Laura ficava deitada na cama para
descansar, mas me surpreendi ao ver que ela não parava de ler o jornal,
algo impossível antes, com o comprometimento visual.
O voo era de madrugada, o que significava que tínhamos de estar no
aeroporto quando na verdade deveríamos estar nos preparando para
dormir. Uma noite de sono para alguém convalescido é fundamental, mas
teríamos que enfrentar a confusão do check-in mesmo cansados.
Quando chegamos de táxi ao aeroporto, a confusão do lado de fora para
entrar pelas portas de acesso à área interna era assustadora. Os guardas
armados verificavam bilhete por bilhete, para não permitir o acesso ao
saguão do aeroporto de quem não tivesse passagem para o dia. O
terrorismo ainda deixava seus reflexos.
Laura ficou me aguardando, enquanto enfrentava a fila desgovernada do
check-in.
Para variar, o saguão do aeroporto era demasiadamente frio e seco.
Como não era fácil voltar a entrar no aeroporto, decidimos não sair para
pegar o ar fresco da rua e tivemos que aguardar sentados no frio glacial do
saguão até chegar o momento de podermos passar pelo controle de
segurança para a área de embarque.
Apesar dos vários tipos exóticos ao nosso redor, turbantes, saris, curtas,
batas, burcas etc., Laura acabava se destacando com a coberta
quadriculada azul e branca que tinha trazido de casa, cobrindo-a dos pés a
cabeça. Estávamos apreensivos com a verificação de segurança dos
passageiros. Tínhamos uma mala com comida e remédios que seriam a
nossa farmácia e cozinha nas próximas 24h, sem contar que se tratava dos
remédios para os próximos meses.
Sem problemas, estavam mais preocupados com o passageiro da frente e
não nos verificaram com rigor.
O avião estava cheio, mas consegui dois bancos para Laura deitar. A
viagem foi tranquila, apenas tinha que acordá-la de hora em hora para que
bebesse água e de três em três horas para passar óleo no corpo e colocar
ghee nos olhos.
O cansaço acabou agindo a favor, mas quando desembarcamos em
Johannesburgo, o peso da viagem nos atropelou. Laura buscava um banco
para deitar e proteger-se do ar seco comum a qualquer aeroporto, ainda
mais na África.
Perto do horário da partida, fomos para o portão de embarque que, por
sorte, era junto à pista, ou seja, tínhamos de pegar um ônibus para nos
levar até a aeronave. Dessa forma, a porta pantográfica abria e fechava o
tempo todo, permitindo a troca de ar. Por simplória que fosse a situação de
ter um pouco de ar fresco, sentia que seu corpo ficava feliz, e assim Laura
se reanimava e tomava forças para mais dez horas de voo.
Desta vez, os lugares estavam completos e meu companheiro do outro
lado do corredor não parava de falar e puxar conversa. Conseguimos dar
alguma atenção a ele, mas, logo percebeu que não estávamos dispostos a
muito “papo” e fez amizade com os sul-africanos que sentavam a nossa
frente.
A viagem deles foi regada a muito uísque, cerveja, vinho e champanhe.
A conversa ficou animada e percebemos que se tratava de um comerciante
que comprara produtos na China para revendê-los no Brasil. A animação
foi tamanha que conseguiram comprar duas garrafas de champanhe da
primeira classe e quando abriram deram um banho nos passageiros ao
redor, incluindo nós.
A aeromoça tentou tomar a garrafa deles, pois já tinham passado do
limite. Nada feito, acabaram por beber mais rápido, risos e gargalhadas
seguiram por mais meia hora até que dormiram, roncando.
Somente aí tivemos sossego, porém no meio da confusão da abertura da
rolha do champanhe acabamos pisando na bolsa de comida, na tentativa de
fugir do banho de álcool.
Ainda faltavam quatro horas de voo e as bananas estavam amassadas;
sobraram as castanhas, mas não aliviavam a fome da mesma forma.
Seu estômago começara a formar gases, tanto pela falta de comida,
como por estar várias horas sentada.
Resolvemos que seria bom comer alguns pedaços de pão com ghee.
Afinal o ghee é gorduroso e poderia sustentar por mais tempo.
No momento de comer o pão acreditamos que estávamos solucionando
o problema, mas na verdade, sem ser torrado acaba gerando mais gases.
Em pouco tempo Laura tremia no banco; fiquei assustado. O que fazer
agora? Não havia muitos recursos dentro do avião. As comidas eram
processadas e as poucas frutas servidas não eram recomendadas.
Há momentos em que só resta esperar e aguentar firme. Procurei
acalmá-la.
– Acho que devemos ficar calmos e esperar, não falta tanto para o voo
terminar. Sei que deve estar péssima sua condição, mas quando pousarmos
daremos um jeito. Procure ficar calma para que o nervosismo não piore
seu estado.
– Está tremendo tudo por dentro.
– Estamos quase lá, enfrentamos a viagem de volta quase toda sem
problemas. Somos vitoriosos. Aguenta firme.
– Vou tentar. – Sua voz estava trêmula e meu coração apertado por vê-la
naquele estado.
Aterrissamos. Deixei as pessoas saírem na frente. Despedimo-nos do
comerciante “chinês” e dos africanos.
Quando decidimos levantar, Laura percebeu que não tinha mais forças
nas pernas. Pedi que passasse o braço no meu ombro para sairmos do
avião. Quando chegamos perto da porta, a aeromoça percebeu a situação e
pediu para sentarmos que solicitaria a cadeira de rodas.
Naquele minuto, uma onda fria correu o meu corpo. O que tinha
acontecido? A dúvida voltava a me rondar. Será que havia feito a coisa
certa em buscar tratamento na Índia? Será que ela voltará a andar? Um
aperto no peito me dava falta de ar.
Fiquei pensando sobre o que estava passando na cabeça de Laura, mas
tive medo de fazer qualquer referência ao que poderia estar pensando..
O rapaz da companhia aérea informou que não necessitaríamos
enfrentar as filas da imigração e alfândega. Deixei que ele empurrasse a
cadeira de rodas na minha frente, enquanto tentava esconder de Laura
minha fisionomia assustada.
O desamparo tornou-se meu companheiro, mas não podia deixar
transparecer. Mesmo com inseguranças, minha obrigação era a de passar
firmeza. De nada adiantaria compartilhar o desespero.
Fomos para a sala de espera da empresa aérea aguardar o voo para o
Rio. Pouco falávamos entre nós, apenas o essencial.
– Estou com sede.
– Aguente um pouco que vou buscar água.
– Você me tira da cadeira de rodas, me sinto mal.
– Claro, vamos lá. – Coloquei-a num sofá com a ajuda do funcionário da
sala de espera.
– Não sinto minhas pernas.
– Tenha paciência, vai melhorar. Sempre melhorou, não foi?
Seus olhos se encheram de água. Sem coragem de encarar seu rosto,
baixei meu olhar e saí.
Ao embarcar, separaram as primeiras cadeiras para nós. As comissárias
de voo entendem a dificuldade das pessoas em cadeiras de rodas.
Possivelmente, devem ter assistido a cenas piores, pois foram gentis.
– Estou muito enjoada.
– Quer o saquinho que oferecem no avião?
– Acho que sim.
Tentou eliminar os resíduos do estômago, mas foi em vão.
Uma hora de voo, uma hora se contorcendo. Os comissários percebiam
a gravidade da situação e chegavam para oferecer algum remédio. Adverti
que estava tudo bem, que não havia motivo para se preocuparem, apesar
do argumento pouco convincente, eles se afastaram.
Os passageiros na fileira ao lado, ao perceber o que estava ocorrendo,
ficaram assustados e terminaram sua conversa animada.
Uma vez que reclamava de dores na barriga, além das queixas
neurológicas, passei a acreditar que o pão tinha sido o desencadeador da
situação e que bastaria eliminá-lo.
Quando saímos do avião, novamente de cadeiras de rodas, senti que a
chegada em nossa cidade fez muitas de nossas tensões se dissiparem.
Acomodei-a no carro, sugerindo que fosse no banco de trás, mas recusou.
Ao deixar o estacionamento tivemos de parar o carro.
– Para, para, vou vomitar.
– É pra já!
Foi só jogar para o acostamento e ela abrir a porta, para pôr fim à agonia
do estômago.
Com o rosto mais abatido revelou-me:
– Estou me sentindo melhor.
– O.K. Vamos comprar outra água no posto de combustível adiante.
Talvez agora ajude.
Fomos direto para a casa de minha mãe. Precisaríamos de ajuda até que
se recuperasse.
Deixei as malas no carro, peguei-a no colo e subimos de elevador até a
porta do apartamento. Toquei a campainha. A porta abriu-se e o olhar de
minha mãe não escondia a surpresa da cena. Mas, em um instante,
mobilizou-se para resolver a situação, como sempre fez em sua vida
bravamente.
– Entrem. Aqui, venha, na minha cama. Que saudades!
– É, não foi fácil.
– Dá para perceber, mas vocês chegaram bem.
Deixei Laura na cama e fui preparar algo para ela comer, e explicar o
que havia acontecido no final da viagem.
– Ah! Então ela vai melhorar. É só o efeito da viagem.
– Tomara que você esteja certa, mãe. Tive minhas dúvidas.
– Vejamos daqui a dois dias; foram muitas horas no ar. Quando tiver
minha idade vai entender como isso é puxado para o corpo humano.
– Tens razão.
Laura almoçou, dormiu, acordou, comeu e voltou a dormir até o dia
seguinte. Pela manhã, eu estava muito cansado, mas acordei primeiro que
ela para preparar algo de café da manhã, bananas cozidas com ghee.
Para minha surpresa, quando estava entretido lavando uns copos, senti o
toque da mão de Laura em meu ombro.
– Estou melhor.
– Você está de pé. Que maravilha!

Talvez a volta para casa seja o momento mais marcante de todos. Pois foi ao
desembarcar do avião, já no Rio de Janeiro, sem forças e sem conseguir me
mexer direito, sentada na cadeira de rodas, que percebi os olhares ao redor,
minhas sensações e meus tormentos. A fraqueza, o medo, o alívio e a incerteza
faziam meu corpo tremer, comecei a sentir náuseas e a vomitar. Completamente
inebriada e cansada entramos no táxi rumo a nossa casa. Era o caminho para
uma nova e incerta vida.
Mas foi justamente dentro daquele táxi que a maior aflição do meu corpo
parecia estar resolvida.
Era noite. O trânsito estava intenso e começava desde a saída do aeroporto.
Dei-me conta de que estava olhando para os carros. Pude olhar para a frente. A
fotofobia, que fazia doer meus olhos e deixava uma visão completamente turva
das luzes dos veículos, tinha desaparecido. Olhava os carros e percebia as luzes
dos faróis com nitidez, lia as placas e distinguia tudo à minha frente. Era a
Ayurveda fazendo seu milagre e eu pude perceber de verdade, naquele momento,
uma luz que banhava meu corpo, a minha alma e a minha existência.
E, a partir daí, cada momento foi um grande aprendizado comigo mesma.
Reaprender a viver, a ceder, de um modo completamente diferente da minha “zona
de conforto” anterior. Fui redescobrindo sensações, sentimentos e aprendendo a
ver a vida de uma forma bem diferente.
A sensação de que a vida é mais do que prazeres físicos ou dores foi se
tornando mais clara e real. O entendimento e a percepção de que a negligência
com o corpo permite que as doenças se estabeleçam e nos leva a perder todas as
possibilidades da existência.
Entendi que a saúde começa com o corpo limpo, firme e ativo, o que dá lugar a
uma maior estabilidade emocional e mental. A saúde do corpo, da mente e do
espírito se interligam, se correlacionam e interagem. Tudo está interligado.
Em consequência, a ignorância dos nossos atos, dos nossos comportamentos e
das nossas atitudes nos leva ao adoecimento do corpo, da mente e da alma.
A Ayurveda apenas limpa o corpo doente, restabelece as funções orgânicas
para que desta forma nossa mente e alma estejam livres para o real propósito da
vida.

42 Vaishyas são o terceiro grupo na estratificação social da Índia do sistema de casta, geralmente
composto por comerciantes. O primeiro da hierarquia são os Brahmins, formados pelos intelectuais,
sacerdotes e professores. Em segundo, surgem os Kshatriyas, formado pelos políticos e os guerreiros,
em quarta posição fica a classe dos Shudras que se compõe de agricultores, artesões e serviçais.
Ainda existe um grupo reconhecido por não pertencer ao sistema de casta, sendo considerado os
intocáveis, também chamados de Panchamas ou ainda de Dalits, podendo ser considerados uma
subdivisão dos Shudras em um nível mais baixo. Há também diversas denominações para subcastas
que definem o ramo ou atividade de trabalho da família que podem ser reconhecidas pelo sobrenome,
existindo mais de 3.000 subcastas.

43 O arroz basmati é conhecido por possuir maior capacidade nutricional, sendo um alimento
indispensável para ajudar na absorção dos outros alimentos.
A vida pós-tratamento
A partir daí, foram quatro meses de cuidados diários para manter o corpo
longe dos sintomas da esclerose múltipla.
Sua mãe veio do Rio Grande do Sul para nos ajudar. A princípio, ficou
contente com o estado da filha, porém, com a dificuldade de uma rotina
rigorosa, percebeu a delicadeza da situação.
Por vezes, sua mãe entrou em desespero ao perceber o quadro de saúde
se agravando, ainda mais depois de cometer alguns equívocos na dieta, o
que implicava uma imediata piora.
A novidade dos procedimentos e a contraditória informação sobre os
conceitos usuais do que fazia bem ao seu quadro levavam qualquer um a
duvidar da adequação da linha de tratamento.
“Como não deve comer carne, se é tão forte para a saúde?” Certamente
era um dos pensamentos que assombravam sua mãe, mesmo que ainda
restasse a orientação para comer miolos de carneiros.
Seguindo as recomendações do Dr. Bokulam, passei a frequentar os
açougues em busca do cérebro de carneiro nos primeiros meses. Não era
muito fácil encontrar esta parte do animal. Muitos comerciantes se
desfaziam deles jogando-os no lixo, uma vez que a procura para compra
era pequena.
Muitas vezes, tinha de comprar a cabeça inteira, mas sua mãe tinha
facilidade para preparar a iguaria de miolos. A tradição em churrascos dos
gaúchos garantia uma intimidade com qualquer preparo de carne.
Tínhamos de mantê-la alimentada a cada duas horas com alimentos
frescos e incomuns para uma dieta brasileira. Na prática, quando
acabávamos de cozinhar, já tínhamos que nos mobilizar para a
administração dos remédios e o preparo da próxima refeição; isso incluía a
madrugada, pois acordávamos diversas vezes para alimentá-la.
Sua condição física era bem precária, apesar de conseguir caminhar, não
passava de poucos metros. Escadas nem pensar. Lavar um copo já era uma
tarefa exaustiva para ela.
Mesmo assim buscou forças para realizar as provas da faculdade.
No primeiro dia em que a levei à faculdade senti-me pequeno diante do
tamanho da situação. Sua fraqueza era intensa, não era sensato fazer prova
naquele estado. Por outro lado, entendia a importância de se sentir útil e
capaz, perder um semestre de faculdade poderia representar um grave
fator de estresse para ela.
– Será que vou conseguir fazer a prova?
– Claro. O importante é tentar, faça o que for possível, não se preocupe
com o resultado. Espero você do lado de fora da sala, se precisar de algo,
estarei lá.
Após a prova seu estado piorou, pois a atividade mental consome muita
energia do organismo, o que alterava seu quadro delicado. Mesmo assim,
continuou a semana toda retornando até a última prova. Foi um desafio
vencido pela persistência e por cuidados redobrados com sua dieta,
associados a práticas de relaxamento durante o dia.
O dilema entre colaborar na sua participação nas provas de final do
semestre, sem as mínimas condições de saúde, e buscar convencê-la de
que seria melhor abandonar o semestre foi algo que ocupou minha mente
por dias durante a madrugada.
As pessoas com doenças nervosas são muito suscetíveis a fracassos e o
momento estava envolto neste fantasma. Se realizasse as provas e fosse
reprovada sofreria da derrota. Se abandonasse o período letivo estaria
entregando-se ao fracasso. Parece simples resolver a questão quando se
observa a problemática por outro ângulo, afinal, o sucesso já fora a
conquista de conseguir realizar um tratamento fora do usual no outro lado
do mundo. Mas não havia espaço para conversa sobre o que já se tinha
passado, não interessava mais, para ela apenas o que contava era o futuro
de sua vida profissional.
Sabia que os nervos não resistem à preocupação constante sobre o que
está por vir. Ainda demandaria tempo até que as coisas ganhassem pesos
distintos. Viver com a mente focada no presente é algo que se conquista
aos poucos.
Apesar de lágrimas de dúvidas e medo, fraquezas nas pernas, cansaço
visual e noites de câimbras pelo corpo, o episódio da faculdade acabou
sendo bem-sucedido.
Foi muito difícil, tanto chegar na sala de aula, como se manter
realizando as provas. Os professores admiravam seu esforço e buscaram
ser colaborativos na medida do possível. Resultado: passou “raspando”
nas matérias, e isso elevou sua autoestima de forma visível.
Para recuperar suas forças, aprendi a fazer massagem ayurvédica, o
abhyanga, e quase diariamente aplicava-lhe a técnica, que relaxa e acalma
o sistema nervoso. Pode parecer estranho que uma simples massagem
tenha tanto efeito sobre nossa saúde, mas a técnica correta de massagem
ativa os pontos marmas, regulando uma rede invisível de fluxo de energia.
Também estimula a circulação sanguínea e a atuação saudável do sistema
imunológico, trazendo ainda o efeito medicinal do tipo de óleo utilizado
durante a massagem.
Mas não bastava a massagem para manter o corpo funcionando de
maneira regular. Os intestinos necessitavam de uma atenção especial, e,
periodicamente, Laura realizava um enema de óleo em si mesma. Isto
garantia o funcionamento diário dos intestinos e colaborava para manter
seu corpo lubrificado e aquecido.
Tínhamos atingido um ótimo patamar com as técnicas ayurvédicas. O
corpo ficava cada vez mais distante da recorrência de sintomas e ganhava
força e flexibilidade. Porém, comparado a seu estado geral anterior ao
surgimento da doença, no qual havia muito mais energia e flexibilidade,
ainda existia um caminho a trilhar. Lembrávamos da experiência do
professor americano de yoga para portadores de esclerose múltipla, Eric
Small, e, portanto, sabíamos que a yoga poderia ajudar a recuperar as
capacidades físicas perdidas.
Não considerávamos viável enfrentar uma viagem internacional para
receber aulas de yoga diretamente de Eric Small. Acabamos por buscar
auxílio dos professores na própria cidade.
Inicialmente, buscamos meu primeiro professor de yoga, Orlando Cani.
Sua intimidade com pessoas que passaram por problemas de saúde
tornavam-no único. Com muita naturalidade foi capaz de aceitá-la como
aluna, e mesmo percebendo o quanto faltava para recuperar suas
capacidades físicas usuais, resolveu admiti-la na aula de grupo. O que
acabou sendo muito importante, pois se sentia capaz de participar de uma
atividade junto a outras pessoas. Entretanto, muito tinha que ser feito.
Pacientemente, o professor observava suas limitações e a ajudava a obter
os ganhos onde houvera perdas. Havia sido ele quem insistira na ideia de
que a prática de pranayama específico poderia ser relevante para sua
recuperação.
Contou que, quando estivera na Índia, nos anos 1970, conheceu uma
francesa que chegara ao ashram sem poder andar, e se encontrava com a
mesma doença de Laura. Passado algum tempo, ficou sabendo que ela se
recuperara praticando pranayama. Quando o ar é controlado
adequadamente por intenção do praticante, um dos efeitos possíveis é a
regulação do sistema nervoso, de tal forma que ajuda a restabelecer seus
tecidos. Sempre nos explicava a importância da respiração adequada:
– O corpo é regulado por dois tipos de sistema nervoso: o voluntário e o
autônomo. O sistema autônomo, sobre o qual temos pouco controle,
divide-se em simpático e parassimpático. O primeiro estimula o corpo e o
segundo tem como função relaxar. Quando o sangue está com pH ácido, o
sistema simpático é estimulado, e quando torna-se alcalino, ocorre o
contrário, ou seja, o sistema parassimpático entra em funcionamento a fim
de parar o simpático e acalmar o corpo. Nossa respiração atua na
regulação do pH do sangue.
“A simples respiração adequada é um estágio anterior do pranayama,
que é considerado um patamar mais avançado do controle da respiração e
das funções autônomas do corpo. Porém, apenas a simples respiração
consciente com o corpo relaxado e calmo, de maneira bem profunda, já é
o suficiente para provocar efeitos incríveis. Quando entra mais ar nos
pulmões a troca de gases das células é favorecida, o sangue carrega mais
oxigênio o que revigora todas as células e elimina o gás carbônico que
acidifica os tecidos. Com isso, o sangue deixa de ficar ácido e se
alcaliniza. Imediatamente o sistema nervoso simpático, que é aquele
responsável pela aceleração dos batimentos cardíacos, pelo aumento da
pressão arterial, da concentração de açúcar no sangue e pela ativação do
metabolismo geral do corpo, começa a ser inibido pela atuação do sistema
parassimpático. Em outras palavras, a parte do sistema nervoso que é
responsável por nossas ações voluntárias fica mais relaxada. A outra parte,
que regula nossas funções involuntárias e relaxantes, tais como a
respiração, o batimento cardíaco lento, a dilatação dos vasos sanguíneos e
o relaxamento dos músculos, é ativada. Em poucos minutos o corpo fica
mais sedado e se revigora pelo melhor funcionamento deste sistema de
atividades involuntárias, tranquilizantes e vitais.”
Para Orlando a fisiologia é a base do funcionamento da yoga e a sua
compreensão fornece a convicção necessária para se levar a sério os
“exercícios” da yoga. E, desta forma, prosseguíamos em suas
recomendações e acabamos por desenvolver um interesse particular pela
respiração consciente, o que nos guiou para os passos seguintes.
Enquanto sua mãe ainda estava conosco, vimos no jornal de final de
semana que o mesmo indiano, cujas colunas nos jornais da Índia
costumávamos ler, estaria dando uma palestra num hotel da cidade.
Resolvemos assistir, e gostamos de sua proposta. Menos de um mês
depois estávamos realizando um de seus cursos de respiração. Durante o
curso, Laura percebeu que os sintomas surgiam com intensidade máxima.
Mas isso durava apenas dez minutos, para depois proporcionar um alívio
no resto do dia.
Ela passou a realizar diariamente os pranayamas aprendidos durante o
curso, o que fez com que sua recuperação fosse acelerada. Com o passar
dos meses, foi notando que a intensidade dos sintomas que surgiam nos
dez minutos após a realização do exercício respiratório foi diminuindo na
mesma proporção em que os sintomas desapareciam de sua vida.
Períodos de estresse e preocupações os faziam retornar, mas os
pranayamas alertavam que algo de errado estava acontecendo em sua
rotina, pois, além de recuperarem a serenidade do organismo, agiam como
avisos do que estava por surgir. Se após a prática de pranayama algum
desconforto fosse sentido era sinal de que o corpo e a mente estavam se
direcionando para um caminho distante da saúde.
Tudo que obtivera de ganho em sua nova rotina tinha que ser mantido,
sem deixar de adicionar o que se poderia agregar ainda mais. A
alimentação era um desses ganhos e foi se mantendo dentro da mesma
prescrição de alimentos que a favoreciam, porém, tornando-se um pouco
mais diversificada respeitando o rol de alimentos indicados para seu
dosha. Quando o corpo não está 100% saudável não há espaço para
desvios alimentares.
A cidade grande por si só é um gerador de estresse e, se não soubermos
agir de maneira hábil, acabamos sendo atingidos por suas dinâmicas
nocivas. Para ir praticar yoga era necessário uma longa jornada até outro
bairro da cidade, submetendo-se ao horário do rush num trânsito com
mais de trinta quilômetros. Concluímos que, apesar dos benefícios
provocados pela prática, o desgaste no deslocamento acabava por anulá-
los. Tínhamos que encontrar outro professor mais perto de casa.
Poucos dias depois de chegarmos a essa conclusão fomos a uma aula de
yoga nidra, o que podemos traduzir por yoga do sono. A expectativa era
de uma aula sem desgaste físico, em que a prática se daria deitado
seguindo as orientações do professor. De fato, isso acabou acontecendo,
mas somente depois de uma aula de posturas em pé. Laura rendera-se nas
primeiras orientações, passando o restante da aula sentada e frustrada. O
professor percebeu sua dificuldade e quis saber o que estava acontecendo.
Quando terminou a aula, expliquei-lhe que estava se recuperando de uma
doença e que tínhamos feito uma escolha pela medicina ayurvédica. Ele se
mostrou interessado.
– Mas que tipo de doença?
– Esclerose múltipla. Ela ataca o sistema nervoso debilitando o
organismo em diversas funções. No caso dela chegou a afetar gravemente
a visão, mas agora está bem melhor.
– O que mais acontece?
– Fica com o corpo enrijecido, com câimbras, perde a força, sente
tremores. São vários os sintomas.
– Entendo.
– Estamos precisando de um professor de yoga particular.
– Infelizmente não tenho horário. – Fez-se uma breve pausa na
conversa. E continuou: – Mas escreve uma carta me contando tudo o que
aconteceu e como é o quadro atual dela que vou avaliar.
– Obrigado, na próxima aula trago a carta.
– O.K. Mas não garanto nada.
– Está ótimo.
Após duas semanas, Laura estava tendo aula particular na casa do novo
professor Edi Lisboa. Mesmo sem saber qual a melhor técnica a ser
empregada para eliminar os resquícios da doença, que ainda persistiam no
corpo de Laura, o professor foi trilhando uma prática para suas limitações.
Conversei com ele sobre o preço a pagar da hora aula.
– Qual é o preço de sua aula?
– Esquece isso.
– Como assim?
– Estamos aprendendo juntos. Não tem preço algum.
– Mas é seu trabalho, desculpe-me, mas você vive disso.
– Está certo, porém não vou cobrar nada, vocês já passaram muitas
dificuldades, relaxe.
Não pude me conter. Pela primeira vez depois da volta da Índia, chorei.
Chorei por bastante tempo. Era um choro de um profundo obrigado,
misturado com um alívio de tudo que havíamos passado.
Nas primeiras aulas, Laura era incapaz de subir as escadas da casa do
professor sem a sua ajuda; suas pernas ainda manifestavam dificuldades
motoras. Após seis meses, Laura recuperara muito de sua força e
começava a ganhar bastante autonomia. A escada não era mais um
problema. O aprendizado de agir de maneira relaxada que a prática da
yoga oferece trazia uma forma de encarar a vida de modo inédito para ela.
E para mim solidificava a ideia de que agimos demasiadamente tensos. É
necessário relaxar no agir e aprender a recuperar-se das atividades diárias
sem cair direto na inconsciência do sono. Vivemos entregues às tarefas,
até que surja a estafa. Dia após dia, treinamos nos cansar até não dar mais.
Com o passar dos anos, roubamos o nosso direito de descansar durante o
dia. A sociedade nos cobra e abdicamos de nossa tranquilidade para
atender a essa cobrança. O resultado final será um desequilíbrio orgânico,
e, por fim, uma doença. Estávamos aprendendo a importância da
simplicidade de várias atitudes corriqueiras para o bem da saúde. A
certeza de uma vida saudável não se adquire numa farmácia e, sim, nas
rotinas diárias. Sua saúde voltava a brilhar como resultado dessa entrega a
uma nova maneira de viver.
Quando existe empenho num caminho parece que o mundo conspira a
nosso favor. Um ano depois, conseguimos contato com um professor de
yoga que passara muito tempo estudando com B.K.S. Iyengar, e conhecia
muito bem Eric Small. Estava para vir da Europa a fim de ministrar aulas
de yoga numa academia do Rio de Janeiro. Escrevi uma mensagem
eletrônica, meses antes de ele chegar à cidade, na esperança de poder
marcar um encontro particular para avaliar a situação de Laura, e talvez
sugerir uma série de asanas mais específicas para seu problema. Não
obtive resposta. Passado algum tempo, mesmo um tanto desanimado,
resolvi escrever uma nova mensagem. No dia seguinte recebi sua resposta:

Queridos Marcus e Laura,


Li sua mensagem. Sou secretária do professor e conversei com ele
sobre seu caso. Ele concordou em marcar um encontro quando estiver
no Rio de Janeiro.
Paz e Amor.

Apesar de curta, sua resposta mobilizou-nos profundamente. Sabíamos


da fama do professor e da sua capacidade. Meses depois, quando o
encontramos, foi muito objetivo. Perguntou a Laura o que exatamente
estava praticando de posturas de yoga e pranayamas. Explicamos
detalhadamente. Após ouvir, foi bem claro: “Se quiser fazer o que vou te
ensinar deve parar de praticar o que aprendeu. Certamente a sua prática
pode ter te beneficiado, mas não é o mais indicado para seu caso”.
Laura concordou imediatamente, e seguiram-se duas horas e meia de
aula, com as anotações necessárias para que nada se perdesse.
Sua habilidade em entender as reações do corpo de Laura era
assombrosa. Quando Laura sentia dor em algum membro ou qualquer
outra sensação desagradável, imediatamente aplicava uma alteração na
postura, o que fazia o desconforto desaparecer.
Numa das posturas, Laura tinha de ficar de cabeça para baixo. Ao entrar
na posição, ficou sem ouvir. Sua feição passava desespero. Não pude
conter minha preocupação. Sabia que a perda da audição poderia ter
alguma correlação com a doença, uma vez que muitos apresentam o
mesmo sintoma na progressão da E. M., e, talvez, tal posição fizesse mais
mal do que bem. Aproximei-me de Laura num reflexo de ajuda. Ao
perceber meu movimento, o professor imediatamente apertou dois pontos
na nuca de Laura. E pronto, no mesmo momento voltou a escutar. Parecia
que estava presenciando uma mágica. Laura se acalmou e manteve-se
mais tempo na postura. Cenas similares foram surgindo em várias
posições, e sempre havia uma solução a ser aplicada. A yoga, além de
outros propósitos filosóficos, é uma ciência do funcionamento do corpo
humano vivo. O que para nós é um mistério, para um yogue é uma simples
constatação.
O respeito que guardava sobre sua sabedoria tinha se transformado em
admiração pela yoga. De alguma maneira, uma técnica de milhares de
anos estava viva na dedicação daquele homem. Enquanto observava suas
manobras para com Laura, fiquei pensando como gastamos tempo
confusos, apostando em teorias científicas sobre a saúde, quando a
observação apurada de si mesmo faz desvelar os segredos do
funcionamento do nosso corpo. Estava convicto de que seus
conhecimentos não surgiram de pesquisas científicas, mas sim, de uma
profunda observação do próprio corpo, além, claro, das orientações de seu
mestre, B.K.S. Iyengar, que também adquiriu seus conhecimentos da
mesma forma, pela auto-observação.
No final da aula perguntei sobre o valor da hora aula. Mais uma vez fui
surpreendido.
– Não faço atendimento individual, este foi uma exceção. Se desejam
me dar algo continuem a praticar o que foi ensinado e rezem por mim.
Meu coração transbordava de gratidão, mas não havia espaço para tentar
uma retribuição. Sabia que não adiantaria insistir, poderia tomar como
uma ofensa. Ele ainda complementou:
– Sei que Laura fez um bom tratamento de panchakarma na Índia, e isso
é fácil de perceber. Seu corpo reagiu muito bem durante a prática de yoga,
mostra que está limpo, e que sua dieta é apropriada. Mesmo assim,
recomendo que vocês leiam o livro da Dra. Catherine Kousmine, La
Sclérose en plaques est Guérissable? (A esclerose múltipla tem Cura?),
que aborda que a fraqueza imunológica é devido, entre outras causas, à
intoxicação intestinal. Em suas orientações alimentares pode haver algo
que complemente a sua dieta.
Quando conseguimos ter acesso à teoria da Dra. Kousmine, verificamos
que muitas de suas orientações coincidiam com as recomendações da
medicina ayurvédica.
Passadas algumas semanas, os efeitos da nova prática de yoga já se
faziam visíveis. Ficava nítido para nós que a recuperação seria uma
questão de tempo. Tínhamos cercado as possibilidades corretas para uma
recuperação natural de uma doença dita incurável, através dos caminhos
que a Índia nos ofereceu.
De pequenas voltas ao redor da praça na frente do prédio em que
moramos, Laura foi aumentando sua capacidade. Passou a caminhar por
sete minutos até a praia, uma verdadeira vitória para quem tinha dúvidas
se conseguiria voltar a andar. Com o tempo, passei a ficar cansado antes
de Laura nos passeios por onde íamos juntos. Sua essência voltava a
brilhar num corpo resistente.
Com o transcorrer dos meses, seu estado geral foi melhorando. Por
vezes, lembrava da expressão do médico na clínica: “Gradually”; isto
fornecia a determinação necessária para acreditar que nosso corpo, de fato,
trabalha num tempo bem distante do que estamos acostumados a acreditar.
Quatro meses de recuperação, permeado por altos e baixos, é algo
perfeitamente natural para uma adequada reorganização de nossas funções
corporais. Mas quando uma doença é severa os meses podem se alongar,
sem que signifique uma contramão da cura.
Apenas perdemos a sensibilidade de avaliar o tempo de uma
recuperação; vivemos na era da informática e do just-in-time. As
propagandas prometem emagrecimentos em três semanas, especialistas da
área de saúde nos oferecem pílulas milagrosas para toda gama de
problemas, até mentais, frutas de inverno são oferecidas no mercado em
pleno verão. Não há necessidade de esperar a natureza nos dar.
Desenvolvemos a ideia de que basta ter dinheiro que a tecnologia nos
oferecerá prontamente a solução. Não há limites.
E tudo isso vai dificultando a noção do tempo necessário para as coisas
do corpo e da própria vida. Mas a Índia tinha nos mostrado que a vida
pode ser vivida com outra compreensão do que é necessário para uma
caminhada saudável. Balanceamento da alimentação conforme a
constituição física de cada um, massagens de óleo adequado no corpo,
limpeza das vias respiratórias, exercícios conscientes, ou seja, a yoga, uma
respiração mais livre e, ao mesmo tempo, controlada, ou seja, os
pranayamas, uma rotina tranquila, dormir cedo, permitir-se um lazer
simples, acreditando que se está fazendo algo muito útil na vida, e ainda,
submeter-se a tratamentos de purificação do corpo de tempos em tempos,
ou seja, os panchakarmas, aprender sobre as propriedades dos temperos e
utilizá-los na comida como se fossem remédio etc., além de vários outros
hábitos diários orientados pelos conhecimentos ayurvédicos.
Nosso respeito e confiança na Ayurveda foi ficando cada vez mais
sólido, e quando qualquer problema de saúde surgia recorríamos às
soluções da medicina milenar. Um dos aspectos que incomodava Laura
eram algumas persistentes espinhas que a acompanhavam desde a
adolescência. Já havia tentado todos os cremes possíveis e até remédios
injetáveis.
Sem dúvida, tivemos de voltar à Índia outras tantas vezes. Numa delas
viajei sozinho e aproveitei para trazer compostos de ervas para pele de
Laura. Na época ainda suspeitávamos do limite da aplicação da Ayurveda.
Estávamos convictos de que para problemas sérios era uma medicina
poderosa e indicada, mas talvez não fosse recomendado para espinhas,
afinal os médicos nunca haviam dado nenhum resultado sobre a pele de
Laura. Mais tarde eu viria a compreender que na época, de fato, não era o
momento de tratar de mais de um desequilíbrio por vez. De qualquer
forma, busquei uma clínica ayurvédica voltada para problemas de pele e
relatei os detalhes dos sintomas à médica. Após algumas perguntas recebi
remédios para três meses e a certeza de que as erupções de pele iriam
desaparecer. Quando cheguei de viagem com a novidade foi uma surpresa
para Laura. Não quis acreditar que teria medicamentos para sua pele sem
ao menos ser examinada por um médico. Como a esperança de uma pele
melhor era um motivador constante, perguntou-me se expliquei o seu
quadro geral de saúde, inclusive seu tratamento anterior para a E. M., no
que respondi positivamente. Após 3 meses sua pele era perfeita e bela
como uma seda.
Após recorrentes experiências positivas com a Ayurveda, nossa
convicção no poder da natureza e na capacidade curativa das ervas ficou
misturada a nossa própria visão de mundo, a nossa filosofia de vida.
Assim, estes cuidados transformaram nossa nova maneira de levar a vida,
e desenvolvemos a certeza de que a saúde nada mais é do que o resultado
do carinho que despendemos em nós mesmos, da fé na natureza que nos
envolve em cada árvore, em cada erva, em cada respiração e da entrega de
si para o amor que a tudo envolve.
Hoje, analisando aquela época, vejo que na verdade meu corpo e minha mente
já estavam doentes havia algum tempo. Alguns sintomas já vinham me
acompanhando antes da crise mais grave que me levou à Índia.
Por questões sociais negligenciamos os pequenos sinais. Não temos a cultura
da prevenção e, por isso, os desequilíbrios vão se tornando mais graves e intensos
ao longo do tempo, chegando muitas vezes a estágios intratáveis.
Mesmo depois do retorno a minha casa, nos dois primeiros anos, entendi e
vivenciei o quanto é importante manter a disciplina. E, a cada momento, novas
ferramentas complementares foram surgindo e pessoas e situações se assomaram
para me ajudar.
Mas o processo ainda foi muito solitário e intenso. A desconfiança de todos
sempre permaneceu. Mesmo assim, me mantive forte e persistente e acabei
ganhando o presente da nova e saudável vida.
Hoje, acordo 5h30 ou 6h da manhã. Aplico óleo de gergelim no corpo, tomo
um banho, um chá e faço uma prática de iyengar yoga. Medito diariamente e sou
bem rigorosa com a minha alimentação.
A nova rotina foi aos poucos sendo estabelecida e hoje foi bem readaptada.
Na verdade, o tratamento é para a vida toda! Mudança de estilo de vida,
alimentação, horários, hábitos e objetivos foram primordiais para minha total
recuperação e manutenção da minha saúde.
Logo após o primeiro tratamento, nos dois primeiros anos, eu tive uma dieta
muito restrita, mas muito restrita mesmo. Eu a segui à risca, sem sair da dieta um
único dia. Depois deste período, ela começou a ficar um pouco mais fácil, até
porque fui me aventurar na cozinha. Descobri um mundo fantástico de muitos
aromas e aprendi a magia das especiarias e do preparo dos alimentos de forma
saudável e equilibrada. Voltei a comer peixes e ovos. Mas tirei da minha
alimentação simplesmente tudo o que é artificial, embalado, enlatado e
processado. Não como comida feita de um dia para o outro. Minha comida é
fresca e preparada no dia.
Só consumo produtos orgânicos, nenhuma substância transgênica, nada
congelado ou refinado. Sucos de frutas, só naturais e feitos na hora, bolos feitos
em casa com 100% de farinha integral, muita lentilha, arroz basmati, açúcar
demerara, legumes frescos e tudo cozido e bem temperado com muitas
especiarias.
Como prescrição dos meus médicos ayurvédicos, continuo usando os
medicamentos à base de ervas e aplicando óleos na pele.
Minha rotina de prática de yoga e pranaymas continua quase a mesma.
Nos três primeiros anos, me dedicava à minha recuperação e estudo da
Ayurveda. A minha “vida” parou por um instante. Eu percebi que tinha que fazer
novas escolhas e criar um novo rumo.
Bem, já se vão seis anos. Com o tempo fui ampliando meu cardápio com base
nos estudos e conhecimentos que adquiri dos efeitos de cada alimento para a
Ayurveda. Já faz tempo que meus pratos, bolos e doces foram ficando tão
saborosos e com um bem-estar garantido que hoje muitos querem sentir o que
sinto, comendo saborosamente e se sentindo bem e leves após cada refeição. Foi a
partir daí que me dediquei a elaborar pratos saudáveis e saborosos para mim.
Fui passando e ajudando outras pessoas a se equilibrarem com uma dieta
ayurvédica.
Sei que tenho que ter um ritmo diferente e outras prioridades.
Meu corpo e minha mente estão 100%, mas minhas escolhas na vida tiveram
que ser mudadas. Mesmo de volta ao mercado de trabalho, minha rotina é bem
diferente. Meus horários são adaptados a um estilo bem saudável: acordar cedo,
praticar yoga, pranayamas, aplicar óleos e preparar meus alimentos frescos. E
somente depois trabalhar. Alguns dias, a ordem é trocada para que eu possa
trabalhar, mas sem deixar de colocar o foco na minha saúde sempre.
Nenhum médico ayurvédico me prometeu curas em momento algum, e sei na
verdade o que significa isso. Equilíbrio se conquista e se mantém com disciplina e
rotina. Não há milagres, pílulas mágicas ou uma regra geral. Há um foco
específico e constante.
Mas “entrega” foi a palavra mais forte e importante para chegar aos
resultados de hoje. Entrega ao universo, à existência, a Deus, aos deuses, ao
mundo, à vida. Entregar... abrir mão do controle, do desejo, da expectativa, da
vitória, da derrota. Entregar-se e permitir-se ver, sentir e perceber o que o mundo,
o destino, me preparou.
E nunca desistir.
Aprendi que não basta ter apenas o caminho e as direções, é preciso disciplina,
foco e Sadhana! 44 Utilizar as ferramentas sem questionar.
Aprendi, sim, que é preciso fé, é preciso alegria, é preciso acreditar em nós
mesmos, na nossa força interna.
É preciso viver o presente e não se preocupar com nada, absolutamente nada.
Encarar as dificuldades do agora, que são apenas para transformar nosso rumo.
Tentamos de alguma forma entender, analisar o porquê estamos tão doentes
neste momento. Por que meu corpo adoeceu? Se eu nem ao menos levava uma
vida tão desregrada. Por que tenho que passar por isso? Por que tenho que sofrer
essas dores na alma, no corpo, na vida?
Porque mais à frente, o tempo nos mostra novos caminhos, novas pessoas,
novas possibilidades. Se neste momento de maior dificuldade entrarmos de
verdade em contato com nosso ser, com nossa busca, com nossa essência, a vida
irá fluir. Acontecer.
Então, apenas permita-se silenciar, se observar, se entender, se reconhecer.
Porque de alguma forma você terá a grande oportunidade de ver e de se
aproximar da sua mais pura essência e descobrir o real propósito da vida.
Agora só me resta agradecer... ao universo, ao destino, aos deuses e mestres
por estes momentos que me fizeram me transformar, me lapidar, me redescobrir e
ter encontrado meu Dharma, meu caminho...

44 Sadhana é um termo sânscrito que significa prática espiritual. Refere-se à prática diária da yoga.
O equilíbrio
entre corpo,
mente e espírito
Não há nada que substitua a experiência. Mesmo que a gente consiga as
informações com certa rapidez e facilidade nos dias de hoje, a vivência é
única. Na Índia, por exemplo, muitos dos conhecimentos ainda são
transmitidos num sistema de ensino chamado de Gurukulam, ou seja, de
mestre a discípulo. Devemos nos lançar de corpo e alma em novos
mundos e nos abrir ao que eles têm a nos oferecer. Pois nunca se sabe o
que nos espera e toda transformação é um ganho. O que de fato
aprendemos foi fruto de uma entrega às lacunas existentes entre o mundo
ocidental e o oriental.
Nessa jornada, aprendemos como uma proposta de cura tão estranha
para o mundo ocidental, repleto de tecnologias médicas, pôde nos resgatar
a essência humana, regulando o relógio da recuperação da saúde, perdido
no mundo acelerado que construímos no último século.
A modernidade virou um dogma e a velocidade, uma regra. O cultivo da
paciência e perseverança é algo que a Índia nos ensinou, no árduo
processo de restabelecer nosso bem maior, a saúde.
Em toda a Índia podemos encontrar hospitais ayurvédicos, com vasta
equipe médica das mais diversas especialidades, cuidando desde simples
dores de cabeça até câncer. Fábricas de remédios ayurvédicos nas mais
diversas formas (pílulas, pastas, pós, gel etc.) trabalham dia e noite para
produzir de forma industrial e em larga escala as antigas formulações
descritas nos textos milenares, modernidade associada ao conhecimento
ancestral de saúde.
Para aqueles que buscam a Ayurveda como uma forma de terapia
alternativa existe em regiões do estado do Kerala, na Índia, uma enorme
quantidade de spas ayurvédicos que são frequentados exclusivamente por
estrangeiros, principalmente europeus, nos quais cuidam do
rejuvenescimento, além de diversas patologias exaustivamente tratadas
por outras linhas médicas sem sucesso.
No vagão do trem, durante a viagem de volta, encontrei numa revista,
uma propaganda de um desses spas com o depoimento de um paciente:

Para mim foi como se estivesse em uma oração. Entreguei-me


completamente e quando me dei conta estava curada.
De olhos fechados sentia Niaya massageando minhas costas com
um óleo dourado e quente, em movimentos rítmicos.
Ao meu redor as flores pareciam dançar. O odor do óleo e a
fragrância etérea dos incensos eram relaxantes.
Esse foi o último dos quatorze dias de férias ayurvédicas. Quatorze
dias de rejuvenescimento através de regimes, banhos medicados e
dietas com ervas. Quatorze dias que removeram cinco anos de dores
nas costas. Colocando novamente a firmeza nos meus passos.
A dança das mãos massageando meu corpo trouxe a juventude de
volta à minha vida. E o sorriso em meus lábios. Enquanto fazia
minhas malas sabia que o Kerala tinha se tornado parte de minha
vida; voltaria a cada ano para revitalizar o corpo, a mente e o espírito.

A sensação de que a alma também fora tratada é relato comum para


quem se submete a esta forma de terapia.
Mas não basta se curar. É necessário manter-se são, numa sociedade que
considera normal muitos hábitos que são nocivos à saúde na visão da
Ayurveda. Enquanto a necessidade da mudança de hábitos que nos
adoecem é um fator contributivo da cura de uma doença, quando falamos
da manutenção da saúde essa mudança de hábitos transforma-se no fator
decisivo.
Assim, tivemos que adquirir outros costumes, que normalmente atuam
como prevenção, quando são aplicados esporadicamente. Mas que,
quando incorporados na rotina diária, passaram a fornecer um outro brilho
ao existir.
Mesmo com uma nova rotina estabelecida, sentimos que a Ayurveda
faria parte de nossas vidas e que muitas outras viagens à Índia ocorreriam.
Agora, já passam de mais de uma dúzia de experiências ayurvédicas lá,
todas com a sensação de que uma transformação profunda aconteceu.
Uma mudança que não mais se restringia ao corpo ou à saúde, mas que
abrangia todo o ser.
Para a Ayurveda, nossa experiência existencial é como um pote de barro
repleto de água cristalina. O pote de barro representa o nosso corpo e a
nossa saúde, a água cristalina é a nossa mente num estado puro, e a
evaporação natural e sutil da água em direção ao céu é o nosso espírito. Se
deixamos de cuidar do pote, duas coisas podem acontecer: ou o pote fica
sujo e turva a água, prejudicando sua evaporação na medida em que o
líquido fica denso, ou seja, pesado, ou o pote quebra e a água se vai
completamente, derramando no chão e evaporando-se em pouco tempo.
Um corpo alimentado com os frutos da natureza e tratado com
medicamentos naturais deixará a mente cristalina, e, quando ela está calma
e em paz, sentimos nosso espírito, que, por sua vez, nos faz perceber que
somos parte de um espírito maior, parte do universo. E, assim, tocamos o
interior de nosso ser, e por um momento todos os medos, frustrações e
ansiedades se dissolvem. Resta-nos paz e sentimento de pertencimento a
um projeto maior, em que tudo está na mais perfeita ordem e harmonia. A
vida passa a ser um contínuo ato de entrega e relaxamento, pura satisfação
no existir.
Anos depois, pude entender o que tinha lido no recorte de jornal. Meus
problemas iniciais de saúde tinham desaparecido completamente, nada
mais de descamações e vermelhidões na pele ou desconforto nos olhos.
Minha saúde tinha encontrado o equilíbrio através da Ayurveda. Laura já
houvera recebido alta dos médicos ayurvédicos, tendo a orientação de
voltar ao hospital para tratamentos de harmonização, comuns a todos que
se disponibilizam a seguir a Ayurveda como linha de saúde preventiva.
Com o tempo, duas frentes se desenvolveram em nossas vidas: cuidar de
nós mesmos através da Ayurveda e dividir nossa experiência orientando a
quem se dispusesse a desbravar essa linha natural de saúde.
Tal como Laura, continuei a fazer tratamentos de manutenção e
rejuvenescimento na Índia, sabia que eu e a Ayurveda seríamos
inseparáveis. Toda a experiência tinha nos marcado profundamente,
deixamos de ser curiosos da Ayurveda ou apenas pacientes para deixar que
ela corresse em nossas veias.
Desta vez, eu estava num centro ayurvédico tradicional de mais de 200
anos, recebendo um tratamento no qual se aplicava um óleo morno e
viscoso em todo meu corpo. Na sala de massagem havia quatro terapeutas,
dois cuidando de minhas pernas e outros dois encarregados de meus
braços e dorso. Durante as massagens, a entrega e confiança são
requesitos básicos. O corpo nu e exposto deve combinar com o toque
carinhoso, mas ao mesmo tempo respeitoso, dos quatro massagistas. O
óleo era derramado sobre meu corpo numa temperatura quente, perto do
limiar de arder a pele, mas que me levava a derreter de fora para dentro,
como um sorvete que recebe uma cobertura de calda de chocolate quente.
Pequenos pedaços de um pano sedoso embebido no óleo dançavam sobre
meu corpo dando um toque viscoso e aveludado na pele. Por vezes, os
panos eram espremidos por entre os dedos dos massagistas, que
mantinham o polegar voltado para baixo em direção ao meu corpo,
canalizando o fio dourado de óleo sobre minha pele. Os poros se
dilatavam e a pele funcionava como uma membrana porosa que dava
acesso aos meus tecidos mais internos. Tudo que havia sob a pele aos
poucos ia recebendo o efeito do óleo morno por entre as fibras de cada
tecido, cada órgão. Os pensamentos ficavam rendidos. A sensação da pele
por todo o corpo era inúmeras vezes mais forte e sedativa que qualquer
boa memória que estivesse a transitar por minha mente. Pouco a pouco, a
própria mente começava a se desmanchar, derretendo no mesmo ritmo
suave que era massageado pelas quatro mãos bailantes sobre a minha tez.
A impressão de estar entregue a um vazio mental fazia-me lembrar que a
intuição e a compreensão verdadeiras surgem nos momentos de ausência
do pensamento. Percebi-me pensando e notei a contradição de refletir
sobre o não pensar. Abandonei-me. Entreguei-me à sensação sedativa da
massagem. Novamente estava mergulhado na calma e na quietude
profunda de minha mente.
Era entardecer, e como de costume os pássaros se alegram e cantam
uma oração de agradecimento pelo dia que tiveram. A brisa do vento faz
as folhas dos coqueiros se tocarem, o que emana um agradável som da
natureza. Por um segundo pensei em como era possível reconhecermos
tais sons naturais e ao mesmo tempo sentir um bem-estar que jamais se
alcança com os ruídos artificiais da modernidade. Fiquei feliz por estar
rodeado de natureza. Alegrei-me por estar tendo mais essa chance de
receber esse carinho da Ayurveda em meu corpo através das mãos precisas
dos terapeutas e do óleo acolhedor que se esfregava em mim.
De repente, o som das folhas aumentou, fiquei atento. A brisa forte
penetrou pela janela. Senti todo meu corpo ser envolvido pelo toque do
vento, senti-me imerso no ar. A película de óleo sobre mim permitia uma
sensação diferente do vento. Era como se ao mesmo tempo em que tocava
minha pele numa suave pressão, o óleo a protegesse do efeito do vento.
Aquele efeito de ressecamento do qual buscamos nos proteger com
hidratantes. Mas a preparação ayurvédica era muitas vezes mais potente
que qualquer hidratante, penetrava profundamente em meus poros e nutria
minha carne. E acho que foi dessa forma que tive uma vivência única. O
vento intenso atravessava o coqueiral e tocava meu ser interior, não mais
apenas minha pele. O óleo especial da Ayurveda havia permitido essa
conexão entre mim e a natureza. Entre a brisa e a minha natureza interna.
Os poros dilatados permitiram que os efeitos do vento fossem transmitidos
para dentro de mim. Minha carne vibrava, e a vibração foi se
intensificando, como o retumbar de um sino que expande em ondas e afeta
tudo que está ao redor. Porém, nesse caso, a referência era interna, a
vibração se expandia para meu centro. Até que atingiu meu coração.
Senti-o pulsar. Fiquei estupefado. Como podia estar sentindo meu
coração?
Por um instante o tempo parou. Não senti mais minha respiração, tudo
que percebia era meu coração, ou melhor, o centro do coração. E dessa
sensação brotou-me a certeza de que ali era a morada de meu espírito.
Sem perceber, fui tomado por uma claridade em meus olhos. Fiquei
pasmo. A claridade turvou-se e, de um momento para o outro, o cenário
visual que vivenciava internamente mudara. A luz transformara-se em
escuridão, mas não em uma escuridão comum. Tratava-se do mais belo
céu estrelado que jamais presenciei antes. Nesse instante compreendi que
estamos conectados ao universo. A brisa forte que veio do céu penetrou
em meus poros, de uma maneira inexplicável atingiu meu coração, tocou
minha alma e revelou o mistério da vida. Nossa infindável conexão com a
natureza, com o cosmos. Meus olhos estavam fechados para evitar que
alguma gota de óleo respingasse neles. Mas gotas internas de alegria
começaram a escorrer deles, pelos cantos. O terapeuta mais antigo e sábio,
Ravi, com trinta anos de aplicação de massagem ayurvédica, rapidamente
parou o movimento de suas mãos e perguntou: “Sir, are you ok?” (O
senhor está bem?).
Abri meus olhos, submersos em lágrimas. Vi o rosto de Ravi perto de
minha face. Ele tinha nos seus olhos negros uma transparência profunda,
que espelhava sua sincera preocupação. Entre suas sobrancelhas,
levemente franzidas pela apreensão do que deveria estar se passando
comigo, havia uma marca redonda e de cor ocre, feita com uma mistura de
pó de sândalo e água, que contrastava com sua pela escura. Era um
símbolo de sua devoção e religiosidade diária, pois somente após preces e
orações é que o sacerdote aplica com um toque de seus dedos o preparado
de sândalo entre as sobrancelhas do devoto, com o intuito de despertar sua
visão interna, sua espiritualidade.
Sorri suavemente e lhe respondi de forma sucinta: “Ravi, it is just
happiness. Just happiness.” (É apenas alegria, só alegria.) Ravi sorriu de
volta e suas sobrancelhas relaxaram, compartilhamos o mistério da
transformação que a Ayurveda era capaz de empregar: “Yes, Sir. I know
what you mean, I know. It is pure joy.” (Sim, senhor. Eu entendo o que
quer dizer. Eu sei. É pura alegria.)
Em meu corpo corria por dentro uma vibração de contentamento.
Depois de anos aprendendo com a Ayurveda e sendo tratado por ela,
testemunhando a melhora de Laura e de todos a que indiquei e apliquei a
sabedoria ayurvédica, fui presenteado, senti que pude tocar minha
essência. Senti a conexão entre o pote, a água cristalina e o vapor.
Desfrutei da Unidade. Senti que somos parte de algo maior. Tudo era
paz...
Desta forma, tive a clareza de que todo o sacrifício e sofrimento eram
apenas o desabrochar de uma flor em cada um de nossos corações, meu e
de Laura, e que, enfim, encontramos o alicerce para a nossa jornada.
Índice
CAPA
Ficha Técnica
O elixir da vida
Em seis meses tudo pode mudar
Uma doença incurável
Os descaminhos da medicina ocidental
A tentativa de tratamentos alternativos no Brasil
Por que ir para a Índia
O que a sabedoria oriental me ensinou
A importância dos alimentos
A viagem para a Índia
A chegada à clínica ayurvédica
Detalhes sobre a clínica
Acostumando-se aos tratamentos
A tranquilidade dos indianos
Fazendo as compras
Progressão da doença para a Ayurveda e suas particularidades
O tratamento mais importante: o Shirovasti
As orientações médicas fora do usual
O intestino: um órgão de importância vital
Tomando consciência através da dor
Dificuldade de aceitar novos paradigmas
Entendendo a visão holística
Reavaliando a vida moderna
Abalando as estruturas emocionais
As recaídas naturais durante o processo de cura
A realidade externa para a Índia
A limpeza profunda do organismo
O poder das ervas e dos produtos da vaca
Dor de dente: a medicina da simplicidade
Aprendendo com o jornal indiano
A refeição do dia a dia pode curar ou adoecer
O final do tratamento
A vida pós-tratamento
O equilíbrio entre corpo, mente e espírito

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