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Universidade Federal de Minas Gerais

MAT817: Medida e Integração


Lista 7

Medidas Produto

Professor: Remy de Paiva Sanchis

Aluno: Vinı́cius Pinheiro Bento Nº de Matrı́cula : 2018049725

30 de julho de 2021
Exercı́cio 1.18
Seja A ⊂ P(X) uma álgebra , Aσ a coleção das uniões enumeráveis de conjuntos em A e Aσδ a coleção
das interseções enumeráveis de conjuntos em Aσ . Seja µ0 uma pré-medida em A e µ∗ sua medida exterior
induzida.
(a) Para todo E ⊂ X e ε > 0 existe M ∈ Aσ com E ⊂ M e µ∗ (M ) ≤ µ∗ (E) + ε .
(b) Se µ∗ (E) < +∞ , então E é µ∗ -mensurável se, e somente se, existe B ∈ Aσδ com E ⊂ B e µ∗ (B \ E) = 0.
(c) Se µ0 é σ-finita, a restrição µ∗ (E) < +∞ em (b) é supérflua.

Resposta :
(a) Lembremos que  
X∞ ∞
[ 
µ∗ (E) = inf µ0 (Mj ) : Mj ∈ A , E ∈ Mj
 
j=1 j=1

[
logo, dado ε > 0 existe uma sequência {Mj } ⊂ A tal que E ⊂ M = Mj e
j=1

X
µ∗ (M ) ≤ µ0 (Mj ) ≤ µ∗ (E) + ε
j=1

como querı́amos.
(b) Como já sabemos,
E é µ∗ -mensurável ⇐⇒ µ∗ (M ) ≥ µ∗ (M ∩ E) + µ∗ (M ∩ E c ) , ∀M ⊂ X .

(⇐)
Suponha que existe B ∈ Aσδ com E ⊂ B e µ∗ (B \ E) = 0 . Sabemos que B é µ∗ -mensurável já que
pertence a Aσδ , a qual está contida em σ(A) . Desse modo, dado F ⊂ X
µ∗ (F ) = µ∗ (B ∩ F ) + µ∗ (B c ∩ F ) ≥ µ∗ (E ∩ F ) + µ∗ (B c ∩ F ) = µ∗ (E ∩ F ) + µ∗ (B c ∩ F ) + µ∗ ((B \ E) ∩ F ) ≥
≥ µ∗ (E ∩ F ) + µ∗ ((B c ∪ (B \ E)) ∩ F ) = µ∗ (E ∩ F ) + µ∗ (E c ∩ F ) .
Portanto E é µ -mensurável, e note que não precisamos usar que µ∗ (E) < +∞ .

(⇒)
Seja E µ∗ -mensurável ; para cada n existe An ∈ Aσ contendo E e tal que
1
µ∗ (E) ≤ µ∗ (A) ≤ µ∗ (E) + .
n
T∞
Seja B = n=1 An , logo B ∈ Aσδ , B ⊃ E e, pela desigualdade acima, temos
µ∗ (E) ≤ µ∗ (B)µ∗ (E)
portanto µ∗ (B) = µ∗ (E) . Como E é µ∗ -mensurável segue que
µ∗ (E) = µ∗ (B) = µ∗ (B ∩ E) + µ∗ (B ∩ E c ) = µ∗ (E) + µ∗ (B \ E) .
Como µ∗ (E) < +∞ a conta acima nos permite concluir que µ∗ (B \ E) = 0 .
(c) Como vimos no item (b) , a implicação (⇐) não querer que a medida exterior de E seja finita. Vamos
demonstrar então que a implicação (⇒) ainda vale no caso onde µ0 é σ-finita.
S∞
Escreva X = j=1 Mj onde µ0 (Mj ) < +∞ e defina Ej = E ∩ Mj . Como temos µ∗ (Ej ) < +∞ pelo item
(b) , para cada j existe Bj ∈ Aσδ tal que
Ej ⊂ Bj e µ∗ (Bj ∩ Ejc ) = 0 .
S∞
Com isso, sendo B = j=1 Bj temos E ⊂ B e
 

[ ∞
X ∞
X
µ∗ (B ∩ E c ) = µ∗  Bj ∩ E c  ≤ µ∗ (Bj ∩ E c ) ≤ µ∗ (Bj ∩ Ejc ) = 0 .
j=1 j=1 j=1

1
Exercı́cio 1.23
Seja A a coleção das uniões finitas de conjuntos da forma (a, b] ∩ Q onde −∞ ≤ a < b ≤ +∞ .
(a) Mostre que A é uma álgebra em Q .

(b) Mostre que a σ-álgebra gerada por A é P(Q) .


(c) Defina µ0 em A pondo µ0 (∅) = 0 e µ0 (M ) = ∞ se M 6= ∅ . Mostre então que µ0 é uma pré-medida em
A e que existe mais de uma medida em P(Q) cuja restrição à A é µ0 .

Resposta :

(a) Seja E = {(a, b] ∩ Q : −∞ ≤ a < b ≤ +∞} ∪ {∅} . Pela Proposição 1.7 do Folland basta mostrarmos que
E é uma famı́lia elementar:
– ∅ ∈ E por definição;
– Tome (a, b] ∩ Q e (c, d] ∩ Q em E . Sabemos que (a, b] ∩ (c, d] ou é da forma (r, s] ou é ∅ . Logo
(
(r, s] ∩ Q ∈ E
((a, b] ∩ Q) ∩ ((c, d] ∩ Q) =
∅∈E

– Dado (a, b] ∩ Q ∈ E temos


c
[(a, b] ∩ Q] = [(−∞, a] ∩ Q] ∪ [(b, +∞) ∩ Q]

o qual é união finita disjunta de elementos de E . Portanto E é uma famı́lia elementar e A será uma
álgebra em Q .
(b) Seja q ∈ Q . Então
∞   
\ 1
{q} = q− ,q ∩ Q .
n=1
n

Logo {q} ∈ σ(A) . Como Q é enumerável, segue que todo subconjunto de Q é união enumerável de
conjuntos unitários, logo σ(A) = P(Q) .
(c) Temos µ0 (∅) = 0 por definição.
Seja {Mj } uma sequência em A cuja união está em A . Se Mj = ∅ para todo j temos
 
[∞ ∞
X
µ0  Mj  = µ0 (∅) = 0 = µ0 (Mj ) .
j=1 j=1

Se Mj 6= ∅ para algum j , então temos


 

[ ∞
X
µ0  Mj  = ∞ = µ0 (Mj ) .
j=1 j=1

Portanto µ0 é uma pré-medida em A .


Sejam agora ν : P(Q) → [0, +∞] a medida de contagem e µ : P(Q) → [0, +∞] a medida que vale ∞ em
todo conjunto não vazio. Ambas são medidas tais que µ|A = µ0 = ν|A e são distintas pois

µ({1}) = ∞ e ν({1}) = 1 .

2
Exercı́cio 2.46
Sejam X = Y = [0, 1] , A = B = B[0,1] , µ = medida RR de Lebesgue
RR e ν = medida
R de contagem . Se
D = {(x, x) : x ∈ [0, 1]} é a diagonal em X × Y , mostre que χD dµdν , χD dνdµ e χD d(µ × ν) possuem
valores distintos dois a dois.

Resposta :
Primeiro observe que
( Z
1, y=x
(χD )x (y) = =⇒ (χD )x dν = ν({x}) = 1 , ∀x ∈ X
6 x
0, y= Y

( Z
1, x=y
(χD )y (x) = =⇒ (χD )y dµ = µ({y}) = 0 , ∀y ∈ Y .
6 y
0, x= X

Portanto, temos ZZ Z
χD dµdν = 0 dν = 0
Y
ZZ Z
χD dνdµ = 1 dµ = µ([0, 1]) = 1 .
X
Agora mostraremos que D é mensurável em A ⊗ B . Definamos os conjuntos
    2j
k−1 k k−1 k [
Qjk = , × , e Ej = Qjk .
2j 2j 2j 2j
k=1
T∞
Note que os Qjk são quadrados cujas diagonais estão em D e cada Ej cobre D . Observe então que D = j=1 Ej
, logo D ∈ A ⊗ B .
Lembrando de toda a construção feita para a medida produto e do capı́tulo sobre construção de medidas,
temos que  
X [ 
µ × ν(D) = inf µ(Aj )ν(Bj ) : Aj , Bj ∈ B[0,1] e D ⊂ Aj × B j .
 
j≥1 j≥1

Observe então que


X [
µ(Aj )ν(Bj ) < +∞ =⇒ ν(Bj ) < +∞ , ∀j =⇒ Bj é finito , ∀j =⇒ B = Bj é enumerável.
j≥1 j≥1
[
Portanto Aj × Bj não pode cobrir D . Ou seja, podemos concluir que
j≥1
Z
χD d(µ × ν) = µ × ν(D) = +∞ .

Exercı́cio 2.50
Sejam (X, A , µ) um espaço de medida σ-finito e f ∈ L+ (X) . Seja

Gf = {(x, y) ∈ X × [0, +∞] : y ≤ f (x)} .

Mostre que Gf é A ⊗ B-mensurável e (µ × m)(Gf ) = f dµ ; e o mesmo vale se a desigualdade y ≤ f (x) na


R

definição de Gf for substituı́da por y < f (x) .

Resposta :
Mostremos que Gf é mensurável em A ⊗ B . Vamos escrever Gf = A ∪ B onde

A = {(x, y) ∈ X × [0, +∞] : y ≤ f (x) < +∞}

B = {(x, y) ∈ X × [0, +∞] : f (x) = +∞ e y ≤ +∞} .

3
Observe que B = f −1 ({+∞}) × [0, +∞] , logo B é A ⊗ B-mensurável .
Agora veja que A = F −1 ([0, +∞)) onde F (x, y) = f (x) − y . Note que F = H ◦ G , onde H : R2 → R ,
H(z, y) = z − y e G : X × R → R2 , G(x, y) = (f (x), y) . Como H é contı́nua, então é Borel-mensurável. Agora
vejamos que as funções componentes de G , G1 (x, y) = f (x) e G2 (x, y) = y , são mensuráveis e com isso G será
mensurável. Tomando E ∈ B temos:

G−1
1 (E) = f
−1
(E) × [0, +∞) ∈ B ⊗ B

G−1
2 (E) = X × E ∈ B ⊗ B .

Sendo assim, concluı́mos que F é também mensurável, logo A ∈ A ⊗ B . Portanto Gf é mensurável.


Como o espaço de medida dado é σ-finito podemos usar o Teorema de Tonelli com a função g = χGf . Logo
 
Z Z Z Z Z Z
(µ × m)(Gf ) = g d(µ × m) =  gx dm dµ = m((Gf )x ) dµ = m([0, f (x)]) dµ = f dµ .
X×R X R X X X

Exercı́cio 10.F
Seja (R, B) o espaço mensurável dos reais junto com sua σ-álgebra de Borel. Mostre que todo aberto de R2
pertence a B ⊗ B .

Resposta :
Uma possı́vel base para a topologia usual de R2 é o conjunto de todos os retângulos abertos, ou seja, produtos
cartesianos de intervalos abertos. Pela maneira que construı́mos a σ-álgebra B ⊗ B , toda união enumerável de
retângulos abertos de R2 está em B ⊗ B .
2
Seja U um aberto [de R . Para cada p ∈ U existe um retângulo aberto Qp tal que p ∈ Qp ⊂ U . Podemos
então escrever U = Qp . Como U é um espaço topológico que possui base enumerável, então U é um espaço
p∈U

[
de Lindelöf, logo existe uma sequência (pn ) em U de modo que U = Qpn . Portanto U ∈ B ⊗ B .
n=1

Exercı́cio 10.G
Sejam f : X → R e g : Y → R ; suponha que f é A -mensurável e que g é B-mensurável . Se definirmos
h : X × Y → R como h(x, y) = f (x)g(y) , mostre que h é A ⊗ B-mensurável .

Resposta :
Primeiro seja s : X × Y → R , s(x, y) = f (x) + g(y) e vamos mostrar que s é A ⊗ B-mensurável. Fixado
α ∈ R , para cada r ∈ Q defina

Tr = {x ∈ X : f (x) > r} × {y ∈ Y : g(y) > α − r}

e observe que Tr ∈ A ⊗ B . Por outro lado temos


[
s−1 ((α, +∞)) = Tr
r∈Q

logo s é A ⊗ B-mensurável . Por fim, basta lembrarmos que as funções mensuráveis de um espaço formam um
espaço vetorial e o produto de funções mensuráveis do mesmo espaço é mensurável, pois
1
(f + g)2 − (f − g)2

h=
4
portanto h é A ⊗ B-mensurável.

4
Exercı́cio 10.L
Se F é a função caracterı́stica do conjunto D no exercı́cio 10.K , mostre que o Teorema de Tonelli pode
falhar se algum dos espaços fatores não for σ-finito .

Resposta :
A conta a ser feita aqui é a mesma que foi feita no exercı́cio 2.46 acima. Nesse contexto o Teorema de Tonelli
irá falhar pois a medida de contagem sobre o espaço [0, 1] não é σ-finita. Como já fizemos a conta, vamos
lembrar os valores distintos que assumem as três integrais envolvidas no Teorema de Tonelli:
ZZ
χD dµdν = 0
ZZ
χD dνdµ = 1 .
Z
χD d(µ × ν) = µ × ν(D) = +∞ .

Exercı́cio 2.56
Ra
Se f é uma função Lebesgue integrável em (0, a) e g(x) = x f (t)
t dt , então g é integrável em (0, a) e vale
Z a Z a
g(x) dx = f (x) dx .
0 0

Resposta :
f (t)χE (t, x)
Defina primeiro a função h : (0, a)2 → R , h(t, x) = , onde E = {(t, x) ∈ (0, a)2 : x < t} . Como
t
E é aberto, segue que h é uma função mensurável. A observação importante sobre tal h é a seguinte:
Z a
f (t)χ(x,a)
Z
g(x) = dt = hx dt , ∀x ∈ (0, a) .
0 t
Como h é mensurável podemos aplicar Tonelli à função |h| :
Z aZ a Z aZ t Z a
|f (t)|χE (t, x) |f (t)|
Z
|h| = dx dt = dx dt = |f (t)| dt < +∞ .
0 0 t 0 0 t 0

Então h é integrável, e pelo teorema de Fubini podemos concluir que g também é integrável. Agora que sabemos
que h é integrável, podemos aplicar Fubini à h :
Z a Z aZ a Z Z aZ a Z aZ t Z a
f (t)χE (t, x) f (t)
g(x) dx = hx (t) dt dx = h = dx dt = dx dt = f (t) dt .
0 0 0 0 0 t 0 0 t 0

Exercı́cio 2.57
Mostre que

e−sx sin(x)
Z  
1
dx = arctan para s > 0
0 x s
−sxy
ao integrar e sin(x) com respeito a x e y . (Dica: tan( π2 − θ) = 1
tan(θ) )

Resposta :
Denote por m a medida de Lebesgue na reta, f (x, y) = e−sxy sin(x) e considere Q = [0, +∞) × [1, +∞) .
Como f é contı́nua, então f é mensurável e faz sentido integrar f . Ainda não podemos aplicar Fubini à f pois
não sabemos se f é integrável, contudo podemos aplicar Tonelli à |f | , e isto nos dá:

Z Z Z ∞Z ∞ Z ∞ Z ∞ 
−sxy −sxy

f d(m × m) ≤ |f | d(m × m) = e | sin(x)| dy dx = | sin(x)| e dy dx =

0 1 0 1
Q Q

5
∞ ∞ ∞
e−sx e−sxb e−sx 1 e−sr
Z   Z Z  
1 −sx 1 1
= | sin(x)| lim − dx = | sin(x)| dx ≤ e dx = lim − =
0 b→∞ sx sx 0 sx s 0 s r→∞ s s s2
| sin(x)|
pois ≤ 1 , se x > 0 .
x
A conta acima mostra que f é integrável em Q , logo podemos aplicar o teorema de Fubini à f nesse conjunto.
Por um lado temos (note que conta similar foi feita acima) :
Z ∞Z ∞
1 ∞ e−sx sin(x)
Z
e−sxy sin(x) dy dx = dx
0 1 s 0 x

por outro lado, usando integração por partes temos que:


Z ∞
e−sxy
Z
−sxy 1
e sin(x) dx = (−sy sin(x) − cos(x)) + C =⇒ e−sxy sin(x) dx =
1 + (sy)2 0 1 + (sy)2

logo
Z ∞ Z ∞ Z ∞  
1 1 1 π 
e−sxy sin(x) dx dy = dy = lim arctan(bs) − arctan(s) = − arctan(s)
1 0 1 1 + (sy)2 s b→∞ s 2

e desse modo ∞
e−sx sin(x)
Z
1 1 π 
dx = − arctan(s) .
s 0 x s 2
Usando a dica dada veja que:
π  
1 π  1
tan −θ = =⇒ − θ = arctan
2 tan(θ) 2 tan(θ)

e tal relação com θ = arctan(s) nos dá o que querı́amos provar:


Z ∞ −sx  
e sin(x) π 1
dx = − arctan(s) = arctan .
0 x 2 s