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Ensaios de Consciência

Amanda Cristine Faluba do Vale


RG: MG 14.544.124

CPF: 081.791.496-09

Belo Horizonte
2018

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APRESENTAÇÃO DA OBRA

Essa é uma coletânea de ensaios do cotidiano. Esses ensaios foram escritos a


partir da visão da autora sobre suas vivências, sob uma perspectiva de
crescimento interior e de transcendência de aspectos diversos da vida e do
mundo.

A ideia desse livro é despertar para a necessidade de trazer a nossa própria


trajetória para a luz da nossa consciência, refletindo melhor sobre muitos
aspectos da nossa vida: os caminhos que estamos seguindo, o que desejamos
e como nos sentimos em relação ao que estamos vivenciando.

A partir da melhor compreensão desses aspectos, temos a possibilidade de


nos desfazer de velhas ações condicionadas pelas janelas do inconsciente e
de adquirir, assim, maior discernimento para lidar com diversas situações.
Nesse processo, tornamo-nos capazes de ver a nossa própria vida com
um olhar mais desanuviado - ou seja, como ela realmente é, ao invés de
enxergá-la através das neblinas decorrentes das nossas crenças
limitantes. Dessa forma, podemos nos libertar das fórmulas rígidas que outrora
criáramos para lidar com a vida, tornando as nossas ações mais conscientes e
menos condicionadas pelo passado ou pelo senso comum.

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PRIMEIRO ENSAIO

Sobre os desejos da mente e as necessidades da alma

Esperamos ansiosos pelos momentos de realizações, pela conclusão de


metas, pela formatura, pelo nascimento dos filhos, pela promoção no trabalho,
aumento de salário, aposentadoria, netos, satisfação financeira. Nós nos
perdemos buscando ininterruptamente a realização das diversas metas criadas
pelo senso comum. Mas será que viver consiste em passar por esta Terra e
cumprir tais etapas? E será que o cumprimento dessas etapas irá me trazer a
satisfação que eu imagino? Ou irá apenas despertar mais desejos?

Dizer que a vida acontece na própria trajetória para a realização dos


sonhos não mais convence. Isso soa como se o sentido da vida estivesse
condicionado pelo cumprimento de sonhos, e não o contrário. Quem é que
definiu que a nossa vida funciona por etapas de realização? Aliás, quantas vezes
paramos para refletir se o caminho que determinados para a nossa vida
corresponde aos verdadeiros anseios do nosso ser?

Cada um de nós é único no mundo. Cada um de nós é capaz de perceber


o mundo de uma forma original, que vai ao encontro da nossa própria história de
vida, das nossas vivências, da nossa criação, dos nossos dons naturais, das
nossas virtudes e do crescimento interior que adquirimos frente às dificuldades
que encontramos pelo caminho. Por isso, cada um tem um potencial de contribuir
com o mundo de uma forma única. Mas conhecer o nosso próposito pessoal e,
principalmente, as nossas possibilidades de realização e contribuição com o
mundo, requer que vivamos com coragem, ao invés de seguir cegamente por
caminhos pré-estabelecidos.

Viver com intensidade, explorando o potencial do nosso ser, exige abrir


o caminho, fazendo escolhas e descobrindo o percurso a cada passo. Viver com
liberdade e intensidade é estar pronto para se surpreender com o mundo e com
a gente mesmo, é descobrir algo novo a cada instante e renovar o olhar, ao invés
de rotular o que acho eu acho que já conheço. Não espere para se tornar alguém
melhor amanhã. Manifeste o seu melhor hoje.
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Viver com intesidade é estar aberto para conhecer o nosso lugar nesse
mundo, é estar disposto a expressar as nossas virtudes, da forma mais sincera
que possamos. Mas para que eu possa me conectar com as minhas virtudes,
preciso deixar de lado a vaidade de querer ser alguém diferente para atender às
expectativas do mundo, alguém honroso ou bem sucedido, por exemplo. Esses
desejos não nos aproximam da nossa essência. Eles apenas nos deixam
isolados dentro da prisão que nós mesmos construímos - prisão da qual somos,
ao mesmo tempo, o refém e o carcereiro.

Nós temos a chave da prisão que construímos para viver, mas


escolhemos permanecer nela porque, em algum momento da vida, talvez
tivéssemos a impressão de que seria mais fácil viver assim. Seríamos mais
compreendidos se aceitássemos buscar para a nossa vida aquilo que todos
estão buscando, aquilo que todos reconhecem como o melhor a se fazer. Mas
nós não precisamos desempenhar esse papel, nem aceitar interpretar um
personagem que não somos. Em nossa essência, já somos obras primas,
impossíveis de repetir.

Nós, de fato, sabemos para onde estamos caminhando? Nós, como


humanos, estamos sempre atrás de algo não palpável. A nossa mente é
orientada por metas. Mas será que estamos chegando a algum lugar diferente
do lugar que estávamos há dez anos atrás, por exemplo? Mudamos? Estamos
crescendo? Quantas vezes ao dia buscamos expressar o nosso melhor, de
verdade? Expressar o nosso melhor para o mundo e não apenas para nós
mesmos -.desafio simples, sofrido e transformador...

Constantemente orientados para o futuro, esquecemos de ser inteiros no


agora. Qual é o sentido da pressa e das expectativas em relação ao futuro se
cada dia a mais vivido, é também um dia a menos para viver? Não há momentos
mais decisivos ou mais especiais. Cada momento é um momento de vida, cada
instante tem a mesma importância.

Ao dar demasiada importância às nossas expectativas futuras, passamos


a tratar o hoje apenas como uma preparação para o que está por vir. Mas o hoje
é a única coisa que existe. O futuro só existe como uma projeção de nossas

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mentes. Não há momentos preparatórios. Não há momentos comuns. O milagre
da vida acontece o tempo todo.

Quantas vezes sentimos que a concretização das metas de ontem mudou,


de fato, quem somos hoje? Quantas vezes ao dia olhamos para este mundo de
aparências, com um olhar afastado e desconfiado, e damos um passo atrás?
Quantas pessoas buscam, verdadeiramente, ser um ser humano melhor, ao
invés de permanecer centrado na meta de ser um simples "melhor profissional",
ou "alguém mais bem sucedido", por exemplo?

Para ser um ser humano melhor, não é necessário nos esconder atrás de
religiões. A religião pode trazer para a instituição religiosa valores como a
necessidade de ser bom, sincero, justo e generoso, mas não pode trazer essas
virtudes para as nossas vidas. Cabe a nós mesmos a tarefa de nos conectar com
as nossas virtudes. Não é necessário pertencer a um grupo ou levantar símbolos
e cartazes para ser alguém melhor. Basta sermos mais sinceros com a gente
mesmo, basta olharmos para os nossos defeitos - a nossa arrogância, a nossa
soberba, o nosso preconceito, a nossa impaciência, a nossa vaidade ou o nosso
egoísmo, por exemplo - e ir nos despreendendo deles dia após dia.

Para sermos seres-humanos melhores e mais livres, basta sermos mais


críticos em relação aos rótulos sociais, à ditadura do consumo, às padronizações
de comportamento e a todas as outras formas rígidas impostas pelo ambiente
em que vivemos que acabam determinando, de certa forma, quem somos - pois
nos enche de desejos, de padrões, de metas vazias ou de falsas necessidades.

Para atingir certos padrões, corremos desenfreadamente atrás de


recursos financeiros e passamos várias horas por dia nos dedicando a ampliá-
los. Materialmente, a abundância de recursos financeiros pode até representar
certa liberdade, sim - pode representar, inclusive, maior tempo livre para buscar
uma vida mais significativa e mais cheia de sentido pessoal. Mas buscar a
abundância de recursos para a satisfação de desejos vazios - provenientes de
padrões sociais incorporados cegamente – pode ser uma prisão, principalmente
se eu dou a isso mais importância do que isso tem na prática.

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Não são poucas as pessoas que passam grande parte da vida correndo
atrás de uma satisfação financeira que costuma nunca vir. Diante disso,
deveríamos nos perguntar, de tempo em tempos, quem somos em meio a essa
bagunça que é o nosso dia a dia correndo atrás de nossos desejos? E de onde
nasceram esses desejos? Também devíamos frequentemente nos fazer
intimamente a pergunta: Qual é o meu lugar nesse mundo? Aos desejos de
quem eu estou servindo?

Quando buscamos atingir resultados para satisfazer as exigências do


mundo, ficamos muito focados nos possíveis resultados. Já quando
encontramos o próposito do nosso ser e tratamos de colocá-lo em ação, a
ansiedade vai embora e nós seguimos a jornada em paz. Sentimo-nos
cofortavelmente “em casa” quando fazemos aquilo que amamos e,
silenciosamente, encontramos sentido no agora, ao invés de estarmos focados
quase exclusivamente nos possíveis frutos daquilo que estamos realizando.

Vivemos procurando por algo inalcançável que nos traga maior satisfação
e um sentido maior para as nossas vidas, mas o sentido que buscamos
externamente está bem pertinho da gente o tempo todo. O sentido da vida é
estarmos vivos, algo tão simples e óbvio. Ainda assim, as pessoas permanecem
perdidas no turbilhão das suas tarefas do cotidiano, buscando adquirir cada vez
mais habilidades, mais recursos financeiros e mais reconhecimento social.
Vivem acumulando desejos supérfluos, que, no fundo, pouco sentido tem, até
mesmo pra si mesmas. O cotidiano das pessoas pouco as aproxima de uma
realização real. Assim, atravessam os anos ausentes de si mesmas e presas na
correria para a concretização dos seus incontáveis e constantes desejos.
Buscam ser alguém que não são; como se houvesse nesse mundo algo maior
a se alcançar do que a nossa simples e real presença... Como se houvesse
nesse mundo algo mais valioso a se expressar do que as nossas mais sinceras
e genuínas virtudes.

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SEGUNDO ENSAIO

Sobre o teatro da vida e a verdade da morte...

A nossa sociedade está cheia de vidas de mentira e de encenações de


felicidade. Acho que não há nada de errado em sermos atores na vida. O que é
prejudicial, a nós mesmos, é quando começamos a acreditar nas mentiras que
nós mesmos inventamos. É quando começamos acreditar que somos a imagem
que criamos diante dos outros, imagem que foi cristalizando em nós com o
passar dos anos, até que nós mesmos não saibamos mais separar o ator do
personagem.

Com o tempo, aparentar estar feliz e em paz passa a ser mais importante
do que, de fato, estar. Com o tempo, o prazer de aparentar ser algo que não
somos toma o lugar da satisfação de ocupar o nosso lugar real no mundo - um
lugar que, grande parte das vezes, não é um cenário perfeito, muito menos
confortável.

Mas por que essa fuga de quem somos? Por que ocupar o nosso lugar
no mundo não é o bastante? Será que existe algo de legítimo nessa busca por
demonstrar satisfação pessoal na vida? Se há, em que momento e por que
desacreditamos de alcançá-la em nossa própria vida, a ponto de tentar recriá-la
em um mundo falso? Será que é por que, quando crianças, tínhamos uma ideia
de um mundo justo, perfeito e equilibrado e fomos obrigados a lidar com a
frustração de uma realidade imperfeita? Será que não encaramos, de fato, as
desilusões, abandonos, desapontamentos e as dores que encontramos pelo
caminho em nossa vida e preferimos, assim, deixá-los de lado para nos esconder
atrás da imagem da vida gostaríamos de ter, recriando um personagem sempre
novo, mesmo que vazio?

Quando nos afastamos de nós mesmos, para evitar vivenciar as nossas


dores e fraquezas, não somente deixamos de crescer com elas, como também
acabamos perdendo o contato com as nossas virtudes. E aí, maior é a nossa
necessidade de também tentar recriá-las em um mundo falso.

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A lembrança da nossa própria morte seria capaz de nos despertar de
nossas ilusões? Se fôssemos capazes de realmente refletir sobre o fato de que
vamos morrer, tomando esse fato como uma sentença e não como uma ideia
vaga, essa lembrança da morte teria o poder de colocar cada coisa em seu lugar,
fazendo com que as mentiras que contamos para nós mesmos viessem à tona?

Nós não pensamos na nossa própria morte e, quando pensamos, isso não
passa de uma idéia vaga. Não refletimos verdadeiramente sobre a nossa própria
morte. Nós não sentimos que vamos morrer. A morte carrega para nós algo de
pesado e negativo. É certamente doloroso pensar na morte quando sabemos,
no fundo, que não estamos experimentando a vida verdadeiramente. É doloroso
lembrar que vamos perder a vida que nunca nos permitimos vivenciar por inteiro.
Mas lembrar que vamos morrer, não se sabe quando, nem onde, deveria nos
fazer despertar.

Assisti àquele filme infantil que trata do tema da morte - "A Noiva Cadáver"
- junto com uma criança de seis anos. A criança percebeu algo intencional no
filme. Ela me perguntou por que é que no desenho os vivos parecem mortos e
os mortos parecem vivos. Os vivos são cheios de formalidades, vaidades,
aparências e confusões. Os mortos são muito mais leves e aparentam estar
muito mais satisfeitos consigo mesmos, exceto a noiva cadáver, que levou para
a morte fatos trágicos e ilusões de quando estava viva. Na história, tudo flui para
que a noiva cadáver liberte-se, não realizando o seu desejo, mas libertando-se
das ilusões do mundo dos vivos.

O livro da nossa vida é um livro que escrevemos do jeito que achamos


melhor, mas o fim da história, esse nós conhecemos desde as primeiras páginas
- esse está determinado como uma sentença em nossas vidas. E o fim é o
mesmo pra todos nós: A nossa própria morte. Lembrar da morte deveria nos
fazer entrar em contato com a nossa verdade, com a nossa própria vida, do jeito
que é, cheia de obstáculos internos e externos, cheia de pendências a resolver,
cheias de metas não realizadas, de palavras não ditas, de objetivos primordiais
deixados de lado... cheias de complexos a serem vencidos, apegos, vaidades e
preconceitos, com os quais deveríamos lidar... Enfim, cheia de virtudes, mas
também cheia de dores e de lutas.
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Lembrar da morte pode ser desagradável, mas pode ser também a nossa
única chance de despertar a tempo e de começar a buscar em que ponto da vida
deixamos de ser nós mesmos. Deveríamos nos perguntar: Quando foi que
deixamos de aceitar a nossa vida como ela é e de enfrentar nossos obstáculos
internos, nos permitindo crescer com eles e superá-los de vez?

Recentemente passei por uma loja de caixões e fiquei perplexa quando


percebi que os caixões exibidos na vitrine eram caixões de times de futebol.
Escolher um caixão com a bandeira de um time para alguém é como resumir
tudo o que aquela pessoa foi àquela bandeira, que não passa de uma
representação vaga e infinitamente mais vazia do que é uma vida. Refleti sobre
como podemos passar a vida toda escondidos atrás de rótulos que nós mesmos
criamos a ponto de carregá-los ao túmulo. Somos capazes de nos esconder
atrás do rótulo da nossa profissão, do nosso título de mestre ou doutor, do
conhecimento que acumulamos, do nosso currículo, do nosso time de futebol,
do nosso ídolo, da arte que criamos, das música que compomos, do hábito de
vida que levamos, da alimentação saudável que possuímos, da nossa página
nas redes sociais e, enfim, de todas as representações vagas de nós mesmos,
que nem ao menos passam perto de quem somos de verdade, nem da nossa
missão nesse mundo.

Como podemos correr o risco de alimentar ilusões sobre nós mesmos das
quais não podemos nos libertar nem com a lembrança de que nós, e todas as
pessoas que conhecemos, vamos morrer? Ela, a morte, a nossa única certeza
absoluta é também o nosso mistério mais vivo. É a única capaz de nos manter
realmente acordados durante a vida para cumprir com os nossos mais íntimos
objetivos e missões nessa terra. Morte e vida andam lado a lado. Não sabemos
o dia, mas vivemos com a certeza de que a ampulheta do tempo está correndo.
E é a lembrança da morte que poderia nos faz despertar para o porquê de
estarmos aqui nesse mundo, por esse curto período.

Quando evitamos olhar para a realidade da morte é porque não estamos,


de fato, vivendo a vida. Falar de morte é o mesmo que falar da vida. A morte não
chega a nós em um futuro próximo ou distante. Ela está aqui o tempo todo ao
nosso lado.
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Cada momento que vivemos pela metade se tornou pó e foi engolido pela
ampulheta do tempo. O passado já morreu. Só temos o agora. A morte nos
encontra todos os dias. Se você não está vivendo intensamente o mistério que
envolve a morte, você não está vivo o suficiente. É a morte que coloca todas as
cartas na mesa e nos faz despertar para as coisas que, de fato, são importantes
nessa vida.

Se fosse o meu último dia de vida, eu realizaria a mesmas coisas que


realizei hoje? Provavelmente não. Eu provavelmente sairia pra fazer tudo que
me deixa bem e que faz bem às pessoas que estão ao redor. Eu acordaria cedo
para realizar todos os sonhos possíveis de concretizar naquele dia, ou nem
dormiria. Eu ajudaria alguém que precisa de mim. Pediria desculpas. Estaria ao
lado das pessoas que me amam. Eu seria a melhor pessoa que posso ser nesse
mundo. Deveríamos viver os dias assim, como se fosse o último dia; porque um
dia, de fato, será.

É absurdamente estranho como evitamos falar da morte, mas somos


capazes de sentenciá-la, sem saber, antes mesmo que ela chegue,
mergulhados em um mundo de ilusões, vivendo às margens de nós mesmos...

TERCEIRO ENSAIO

Estamos a serviço e não a passeio...

Nós podemos nos lembrar, de tempos em tempos, o que viemos fazer


aqui nesse mundo. Isso nos ajuda a retornar à nossa casa interior. Mas nem
sempre temos a clareza da nossa missão aqui. Essa resposta não vem pronta.
Mas, ao longo do processo de autoconhecimeto, percebemos que temos uma
imagem de nós mesmos e seguimos a vida correspondendo a essa imagem,
sustentando essa imagem para os outros. Quando nos damos conta, durante um
estado meditativo, de que vivemos constantemente sustentando uma imagem
para os outros e para nós mesmos, abre-se diante de nós a possibilidade de
iniciarmos uma jornada de regresso à nossa casa interior.

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Aos poucos vamos percebendo de que não somos a imagem que fazemos
de nós mesmos. Nós não somos o turbilhão de pensamentos que diariamente
passa por nós, nem esse vendaval de emoções que nos atordoa - nós somos a
consciência que presencia isso tudo. Somos uma consciência sem forma
definida e independente de quaisquer condicionamentos externos. Somos uma
consciencia livre.

Não sabemos quem somos, mas podemos nos aproximar da nossa


essência pouco a pouco. E o primeiro passo é afastar de nossas vidas todas as
ilusões que trazemos sobre o que “devemos” ou “queremos” ser, para então nos
conectar com quem somos. Também não sabemos ao certo o que viemos fazer
aqui, mas podemos começar descartando o que não viemos fazer aqui nessa
Terra.

Eu não vim ao mundo para sustentar uma imagem que não sou. Eu não
vim para carregar rótulos ("quem" que tornei, quais são as minhas capacidades,
o que conquistei, como aparento estar e viver...). Eu não vim para rotular os
outros. Eu não vim para acumular mais dinheiro do que o suficiente para atender
às minhas necessidades básicas, nem vim para deixar que a minha vida
financeira (ou pela falta, ou pela vontade de ter mais do que tenho) comandem
a minha conduta ou me tragam preocupações a ponto de me desviar do que
realmente importa nessa vida. Eu não vim a esse mundo para achar que os
outros precisam ser ou deixar de ser de algum modo, ou pensar de determinada
maneira. Vim a esse mundo para aprender com cada professor que aparecer
nessa jornada e respeitar as escolhas de cada um. Eu não vim a esse mundo
para preservar uma ideia fixa sobre as coisas, mas para observar e rever os
meus pensamentos e as minhas crenças a cada dia. Eu não vim a esse mundo
para me esconder atrás de dogmas religiosos e nem vim para usá-los para
justificar a minha conduta, embora eu seja livre para frequentar e escolher
qualquer doutrina, ideologia ou religião. Eu não vim a esse mundo para passar
a vida trabalhando exaustivamente e excessivamente para adquirir coisas, sem
me questionar se é essa a minha missão nesse mundo.

Eu vim a esse mundo para constantemente aprender. Aprender a ser


humilde, a querer crescer como ser humano. Estou aqui para ajudar quem está
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perto de mim, sempre quando puder, a crescer também. Vim antes para fazer
tudo o que posso por mim e pelos os outros, usando as ferramentas que tenho
para isso. Eu não vim a esse mundo para ser feliz, nem pra usufruir, nem para
desfrutar de nada. Estou a serviço, e não a passeio.

Eu sei que vou tropeçar e que vou me esquecer. Eu sei que vou me
identificar e vou querer correr atrás de uma felicidade fictícia, numa tentativa de
encontrar nela a minha razão de ser. Sei que vou me perder diversas vezes. Mas
sei, também, que sempre será possível retornar ao meu lar, esse lugar dentro de
mim onde não há predefinições de quem eu devo ser ou o que devo sustentar
diante dos outros. Há somente uma vontade de viver e de realizar nesse mundo
o que há de melhor em mim.

QUARTO ENSAIO

Criando coragem" e vencendo o medo


.

Muitos de nós foram criados para ter medo de muitas coisas; para nos
afastar das situações possam nos fazer sofrer. Aprendemos muito cedo a nos
esconder da dor. Mas as dores serão inevitáveis e só atravessando desafios é
que conseguimos conhecer a nossa força interior. A coragem tem muito a ver
com a fé, mas não "fé" no sentido religioso da palavra, e sim aquela confiança
no desconhecido que precisamos assumir no momento em que decidimos tomar
coragem para agir.

Pensar demasiadamente sobre a vida e calcular cada detalhe é um reflexo


do medo. A nossa mente vive cheia de medos: os medos da infância, os medos
colocados por nossos pais e também os medos que a gente insiste em colecionar
pelo caminho. O medo nos impede de aceitar as coisas como são e encará-las,
como podem vir a ser. O medo nos impede de dar o salto que precisamos para
a nossa superação pessoal.

A vida, em si, é imprevisível e nos conduz por caminhos tortuosos.


Contornar o percurso do caminho pra evitar possíveis e incalculáveis

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barreiras que possam surgir, não facilita a viagem, mas apenas a prolonga.
Inclusive, no caminho aparentemente mais fácil podem estar escondidas várias
armadilhas do destino.

A vida não é uma linha reta. Não é possível fazer um mapa de viagem da
vida porque os cenários mudam e o destino também. É preciso maturidade
emocional para realmente aceitar que a vida é feita de tempos bons e tempos
ruins. E é preciso coragem para acreditar que, durante os dias ruins, seremos
capazes de nos redescobrir e nos fortalecer. Por muito tempo tentei antecipar
vários cenários como se isso fosse me trazer segurança. Eu queria que tudo
saísse como eu havia planejado. Com o tempo fui percebendo o quanto essa
atitude interna me impedia de desfrutar da vida com leveza e, principalmente,
com a fé necessária para deixar que ela siga seu fluxo.

Fui percebendo com o tempo que, à medida que caminhamos, o caminho


aparece. Passei a aceitar as coisas como são e, a partir dessa aceitação, seguir
pelos caminhos novos que iam aparecendo. Meu coração foi aprendendo, pouco
a pouco, que, sim, aqueles caminhos não imaginados poderiam fazer muito mais
sentido do que os caminhos que tracei pra mim no começo.

Desvencilhar-nos do medo nem sempre é fácil. Sempre que seguimos por


caminhos novos, aparecem várias pessoas para nos desencorajar. Não é por
mal. Simplesmente transferem a descrença delas para nós, inconscientemente.

Li uma vez que a palavra coragem vem da raiz latina "cor", que significa
"coração" e isso deu todo sentido às descobertas que eu estava fazendo em
relação à busca da força e da coragem dentro de mim, para enfrentar os
obstáculos de outrora. Hoje, compreendo que ser corajoso é aprender a viver
com o coração. A cabeça tenta antecipar cenários, numa tentativa de evitar a
possibilidade de sofrimento. Ela acaba, assim, restringindo as nossas
possibilidades de ação. O coração se coloca em prontidão para enfrentar
riscos e para lidar com as possíveis dificuldades que aparecerem.

É preciso equilibrar esse dois extremos. É preciso racionalizar


atentamente as nossas escolhas, sim, mas sem deixar que elas condicionem

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demasiadamente as nossas atitudes - sem deixar que elas nos paralisem, diante
de todas as possibilidades de falha. Pois essas sempre existirão.

Estou aprendendo a cada dia a me conectar mais com os caminhos


tortuosos do coração e da coragem. Tenho descoberto verdadeiramente o poder
que a vida tem de nos surpreender e tenho percebido o quanto eram tolas muitas
das expectativas que criei ao longo do percurso. Quando comecei a me abrir
para a vida, deixando que ela siga seu o percurso, ao invés de permanecer
cultivando planos, autocobranças e expectativas, comecei a entender que o
meu destino e a minha missão nesse mundo não me pertencem e nem estão em
minhas mãos pois, felizmente, parecem fazer parte de algo maior.

E parece que, de alguma forma, o nosso destino sabe o caminho a seguir.


Quando deixamos de tentar agarrá - lo, ele nos conduz, surpreendentemente,
a "lugares" que fazem sentido, "dentro" e "fora" da gente. Não cabe a mim traçar
a melhor rota precipitadamente. A vida se encarrega de mostrar aos poucos as
trajetórias possíveis. A mim, basta estar atenta e corresponder a isso a cada
momento, fazendo as melhores escolhas naquele momento.

QUINTO ENSAIO

Removendo obstáculos diários e lidando com o sofrimento...

A maioria dos problemas nascem pequenos. Nós é que permitimos que


eles cresçam, quando evitamos olhar para eles. A situação que não encaro hoje
e as escolhas que não faço por medo de sofrer serão cobradas amanhã. E a vida
cobra com juros. Isso vale pra qualquer área da vida. Isso vale para as emoções
negativas que acumulamos, vale para as relações que carregamos, vale para o
modo como administramos nossas contas, como cuidamos do nosso corpo, das
nossas emoções, dos nossos pensamentos. Os problemas e o sofrimento
decorrente deles fazem parte da vida e deixar de olhar para ambos não vai fazer
com que eles diminuam. Nós é que temos que crescer, nos colocar acima deles
e encará-los de frente... até que se tornem pequenos ou sumam por completo.

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A dor aparece para nos lembrar que algo não está bem. A dor nos conecta
com a nossa verdade interna e externa. Quando fazemos escolhas pensando
em fugir da dor, ou mesmo quando optamos por não escolher, mas
simplesmente fingir que o problema não existe, é aí que ele nos segue como
uma sombra.

Fugir do sofrimento é fugir de nós mesmos. Ninguém gosta de sofrer, mas


fazer escolhas e arcar com as consequências boas e ruins faz parte do processo
de crescimento. Quando encaramos a dor de frente, ela costuma ser passageira,
já quando nos recusamos olhar para as nossas sombras internas,
permanecemos incapazes de perceber com clareza os obstáculos que a
separam da luz.

Sentir as nossas dores é o que nos faz fortes o suficiente e nos impulsiona
a remover os obstáculos que as desencadearam. Fugir da dor é recusar o
aprendizado que ela nos oferece. Nunca fui de ter medo de sofrer. Meu receio
sempre foi não aprender com o sofrimento, não fazer boas escolhas só pelo
medo das consequências. Mas hoje, mais do que nunca, percebo a importância
de varrer a sujeira que está debaixo do tapete. Isso evita que a gente acabe
arrastando situações mal resolvidas por semanas, meses, anos, ou pelo resto
da vida. E é o espaço que essas situações mal resolvidas, ainda que pequenas,
ocupam em nossas vidas, que nos impede de colocar a atenção plena no agora
e de vivenciar a vida por completo.

Quando negamos olhar para os resultados negativos decorrentes das


nossas vivências, acabamos repetindo os nossos erros e fazendo,
inconscientemente, com que os mesmos resultados se repitam em situações
semelhantes, justamente porque não aprendemos, de fato, a lidar com elas. Isso
ocorre porque evitar olhar para o passado, elimina em grande parte o
aprendizado que ele traz. Já quando nos dispomos a conhecer mais de perto os
obstáculos que outrora nos derrubaram, tornamo-nos capazes de definir
melhores estratégias para enfrentar os desafios que virão.

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SEXTO ENSAIO

Transcendendo as críticas gratuitas...

Não desanime caso as pessoas ao redor não acreditem no seu potencial


para realizar o que quer que seja, pois na maior parte das vezes a descrença
delas não está relacionada com você, mas com elas mesmas. Não desanime se
duvidarem da sua capacidade de realizar o que você deseja de coração e sabe
que é capaz. Primeiro, porque, quando você se propõe a fazer algo novo, muitas
pessoas ao redor o desestimulam por estarem conectadas com o sentimento de
inveja, mesmo que inconscientemente. É possível contar nos dedos aqueles que
ficarão realmente alegres com as suas conquistas e se esforçarão para que as
coisas realmente deem certo para você, sem interesse em ganhar nada com
isso.

Não somos seres constantes e previsíveis. Reagimos de formas


diferentes dependendo do nosso estado interno e das influencias externas que
recebemos. Mas, às vezes, com algum esforço, é possível nao nos contaminar
com a negatividade do meio em que vivemos. Vários sofrimentos que
carregamos não vem das dificuldades da vida, mas da maneira como nos
acostumamos a reagir, internamente, a elas. Quando percebemos isso, nos
tornamos mais motivados a tentar, a cada momento, permanecer tranquilos com
a gente mesmo, independente das influências externas.

A maioria das pessoas quer realizações apenas pra si, pois o fracasso
dos outros é pra elas a confirmação de que elas estão bem. É assim que muitas
pessoas avaliam se estão alcançando objetivos significativos: É olhando a
própria satisfação e comparando com a satisfação das pessoas ao redor. E, se
por acaso elas tem a sensação de que as pessoas ao redor estão crescendo
mais do que elas em determinada área da vida, isso faz com que elas deixem de
olhar para áreas de maior abundância em suas vidas e as faz olhar para o que
lhes falta.

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O sentimento de inveja vem de uma cegueira em relação às próprias
perspectivas. As pessoas, ao enxergarem as realizações do outro, fecham os
olhos para as próprias realizações, sentem-se vazias e manisfetam a inveja.
Quando nós não torcemos para o crescimento alheio, é porque estamos
conectados com a sensação de incapacidade própria. É essa mesma sensação
de incapacidade, com a qual entramos em contato quando sentimos inveja,
que alimenta as nossas crenças limitantes de fracasso. E essas crenças
assombram o nosso inconsciente e impedem que sigamos seguros em busca de
nossos objetivos.

É por isso que, em prol do nosso crescimento, do nosso encontro com a


gente mesmo e com a nossas virtudes inatas, além de ser necessário saber
reconhecer a manifestação da inveja alheia em nossas vidas, é preciso também
vigiar a manifestação da inveja quando surge em nós mesmos. Embora seja algo
difícil reconhecer e admitir, pois sentir inveja é algo que causa muito
constrangimento, é aprendendo a identificar de onde ela nasce e porquê que
podemos conhecer as nossas próprias crenças limitantes. Sentir inveja é natural,
embora a gente sinta muito constrangimento ao perceber que a estamos
sentindo.

Algumas vezes, a inveja é um processo interno completamente


inconsciente. Às vezes as pessoas tem conflitos internos e medos em
determinada área da vida e pode ser que, por anos, essas pessoas tenham se
convencido de que elas mesmas não poderiam realizar algo. A partir disso, elas
permaneceram paralisadas pelo medo da frustração. Quando você, agora, está
caminhando em uma determinada direção, o que acontece é uma tentativa
inconsciente das pessoas de convencer os outros da impossibilidade ou da
dificuldade de realizar o que, outrora, tanto desejaram. Se alguém, por acaso,
realizar um feito parecido, isso os conectará com o desejo pessoal de ter feito e
com o vazio causado pela falta de ação.

Às vezes, para realizar algo que nós nos determinamos a fazer, é preciso
transcender muitas vozes que, “gratuitamente”, dizem que não é possível, sem
ao menos ter tentado. Mas não é necessário que você despenda energia
entrando em conflitos com as ideias dessas pessoas. A maior parte das pessoas
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que desestimulam você estão paralisadas pelo medo e pela sensação de
fracasso pessoal, e não percebem isso. Aceite as pessoas ao redor e a trajetória
delas, com maturidade e compreensão. Quando puder perceber isso com
clareza, você vai ser grato, de verdade, às pessoas que duvidaram de você. No
fundo, era delas mesmas que elas estavam duvidando e apenas
inconscientemente projetaram isso em você. Estar diante da cegueira delas
ajuda a enxergar com mais clareza as suas próprias crenças limitantes. E apenas
enxergando as suas próprias bairreiras internas é que podemos encará-las de
frente, com racionalidade e objetividade.

Ademais, também não é recomendável canalizar as críticas externas para


a vontade de se superar apenas para provar aos outros que é possível e que
você é capaz. Quando você faz isso, você está fortalecendo a ideia de que a
visão negativa dessas pessoas é significativa para você. Dessa forma, as
crenças limitantes alheias passam a ser inimigos a serem combatidos. Isso
acaba gerando muita ansiedade e afeta a forma como você irá conduzir a
realização das missões que você determinou para você. Simplesmente não
absorva críticas sem fundamento ou ideias gratuitas de fracasso.

O conflito gerado em você a partir das críticas e energias negativas


externas é justamente o que pode impedir que você realize o que você tem como
missão, pois isso ocupa muito espaço dentro de nossas mentes. Esvazie a
mente e faça o que deve ser feito a cada dia para atingir o que deseja. Adquira
foco. Desenvolva a disciplina de que necessita e avalie com bastante
racionalidade e objetividade o seu desenvolvimento nessa trajetória, discernindo
ao máximo a análise racional das dificuldades e as críticas construtivas da
manifestação de suas crenças limitantes - provenientes do passado e das
pessoas ao redor.

Uma vez que você se aproximou do que quer realizar em sua vida, é bom
estipular metas e traçar estratégias para concretizar. Quando você está
buscando realizar o que o seu coração deseja, cada caminho desse percurso
valerá a pena. Você não mais estará centrado nos resultados ou no
reconhecimento social que isso irá lhe proporcionar, mas na própria
concretização. Quando fazemos o que amamos e o que sentimos como
18
propósito do nosso ser, a ansiedade e o medo tem bem menos forças sobre
nós... nós nos perdemos no tempo enquanto fazemos o que amamos.

Avalie, você mesmo, a sua própria dedicação e os pequenos resultados


atingidos. E, caso você esteja cercado por pessoas em que realmente confia,
peça a opinião sincera delas. Caso não haja com quem contar, avalie o seu
desenvolvimento de forma aberta e sincera. Normalmente, há pessoas ao nosso
redor que realmente podem impulsionar o nosso crescimento. Podemos procurar
nos aproximar de pessoas confiantes e que se sentem realizadas na área em
que você está buscando agir. Elas enxergarão em você um pouco dos sonhos
que elas mesmas tiveram um dia e pelos quais lutaram... Ficarão satisfeitas em
ajudar.

Pode ser muito bom buscar o aconselhamento de pessoas de confiança,


mas é preciso lembrar também que força de que você precisa para realizar o que
quer que seja apenas pode vir de você mesmo. Frequentemente, a própria
trajetória rumo aos nossos objetivos é que nos dá a força necessária para
prosseguir. Então, o mais importante é começar. Às vezes precisamos passar
por dificuldades para conhecer a força que existe dentro de nós. Às vezes
precisamos da tentativa das pessoas ao redor de nos desestimular para
conhecer o quão vivo são os nossos objetivos. A disciplina e a dedicação só
podem partir da nossa força pessoal, da clareza que temos diante do que
queremos realizar e da nossa vontade de realizar.

Durante o percurso, é preciso estar ciente de que você pode não alcançar
aquilo que estabeleceu como meta. Mas será que, por causa disso, você deve
parar de tentar? Será que você deve não dar tudo de si? Pensar assim, é
escolher o fracasso sem ao menos ter participado da batalha. Aliás, o verdadeiro
fracasso acontece quando agimos em prol do que acreditamos.

A disciplina e o treino podem nos conduzir, a cada dia, à superação


pessoal dos nossos próprios limites e é isso o que mais importa. Ganhar não é
importante. Treinar e lutar, sim. É a luta e o treino que nos deixam mais forte,
não os títulos a serem recebidos.

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Além disso, ao fim e ao cabo de tudo, é isto que nos traz satisfação
pessoal: o nosso aprendizado e a nossa consciência em relação àquilo que
fomos capazes de fazer, com a força e as ferramentas que tínhamos - e não as
medalhas recebidas. As medalhas são para os outros. Você não precisará delas
e quem te apoia e conhece a sua luta também não. O que você leva para sempre
da batalha é a força adquirida. Já as medalhas, quando são conquistadas, com
o tempo acabam enfiadas no fundo de alguma gaveta.

SÉTIMO ENSAIO

O mundo não está preparado para o amor...

O mundo não está preparado para o amor, mas eu posso me preparar.


Para que externamente o amor floresça, é necessário um terreno fértil dentro de
nós, é necessário deixar que o amor crie raízes. Para amar o próximo é preciso,
primeiro, estar conectado com o nosso amor próprio. É preciso aprender a nos
aceitar completamente e estar felizes com quem somos e com a nossa vida
exatamente como é. Se não estamos prontos a estar totalmente à vontade como
somos e como as coisas são nesse exato momento, também não estamos
preparados para aceitar o próximo do jeitinho que é.

Muitas vezes o mundo não nos acolhe e desde criança trata o que
trazemos dentro como algo sem valor. Muitas vezes o mundo se mostrou
completamente hostil. Muitas vezes nós mesmos acabamos desacreditando de
traços e virtudes nossos que não foram bem acolhidos pelo mundo,
principalmente na infância, e acabamos deixando de ser quem somos para ser
quem o mundo quis que fôssemos.

Negligenciar quem somos é a primeira barreira que erguemos em relação


ao amor-próprio. E, ao longo da vida, seguimos erguendo mais barreiras
inconscientes, por medo de não sermos amados e por descrença em nossas
virtudes. E, quanto mais nos afastamos do amor dentro de nós, quanto mais nos
afastamos de quem somos verdadeiramente, maior é a necessidade que
sentimos de sustentar traços ou imagens diante dos outros que possam ocupar

20
o espaço vazio deixado pela perda de contato com o nosso ser essencial. Talvez
seja por isso que, muitas vezes, vemos muita autoconfiança, onde há pouco
amor-próprio, vemos muita auto-suficiência e arrogância onde há, no fundo,
muita necessidade de afeto ou muita insegurança.

Muitos dos traços que sustentamos são como balões inflados e parecem
estar ali apenas para preencher o vazio. São como defesas que criamos ao longo
da vida. Como somos incapazes de dar aquilo que não temos, começamos todos
a nos relacionar como mendigos. No fundo sentimos que estamos vazios, que
nos falta algo. Porém, não nos damos conta de que o que falta está dentro, e
não fora. Quando o amor próprio não está presente, quando estamos
insatisfeitos, infelizes e perdidos dentro de nós mesmos, os nossos
relacionamentos (seja com amigos, família, parceiro) são baseados nas
cobranças, nas expectativas, na culpa e na possessividade.

Essas são formas inconscientes de tentar preencher o vazio de fora para


dentro, de buscar nos outros a mesma aceitação e paz que o amor próprio, do
qual nos desconectamos, um dia nos proporcionou. O amor genuíno não vive de
exigências, nem é baseado na comodidade de buscar no outro as qualidades
que me convém. Se eu espero obter algo do amor, não aprendi ainda a amar.
Não se pode aprender a amar tentando atender às nossas próprias
necessidades e expectativas. Isso é comodidade, não amor. Se você espera
encontrar pessoas dignas de serem amadas, para então amar, nunca irá amar.
Amor é rendição e aprendizado constante, é repensar as nossas convicções e
nos colocar à prova. Apenas deixando de lado o egoísmo é que é possível nos
conectar com o amor que já trazemos dentro de nós. E essa conexão com o
nosso amor próprio vem a partir da maturidade emocional, a partir do
autoconhecimento e a partir da cura de antigas feridas não cicatrizadas.
Somente depois desse processo de crescimento e de reconhecimento do amor
dentro de nós é que a conexão com o outro acontece verdadeiramente, livre
barreiras emocionais e de exigências egoístas.

Quando estamos conectados com o amor internamente, a partir da a


aceitação plena de nós mesmos, de uma forma natural o amor floresce
externamente. Mas esse estado de amor ao próximo raramente é alcançado em
21
nossas vidas. Na vida, estamos repletos de arrogância, egoísmo e intolerância.
Vivemos muito centrados nas nossas próprias necessidades, no nosso próprio
bem estar, ou na necessidade e no bem estar da nossa família e dos nossos
amigos - porque reconhecemos neles, de certa forma, uma extensão de nós
mesmos.

Nós vivemos justificando as nossas próprias falhas e apontando o dedo


para as falhas alheias. Quando negamos a imperfeição dos outros, estamos nos
colocando em um patamar diferenciado em relação a eles. Não importa a mim o
quanto os outros estão errando, pois a conduta deles não é responsabilidade
minha e eu nada posso fazer em relação a eles. Eu não posso transformá-los
através da intolerância. O mundo já está cheio de intolerância e de julgamentos.
Eu só posso transformar a mim mesmo...E não há possibilidade de fazer isso se
eu não for atrevido o suficiente para me colocar à prova, para me ver como
realmente sou.

No fundo, é o lado ruim de nós mesmos que nos faz capaz de enxergar o
lado ruim dos outros. E é o lado bom de nós mesmos que nos faz capaz de
enxergar o lado bom dos outros. O outro é o nosso espelho. Por isso é que a
nossa conexão com o o próximo através do amor, analogamente, só pode partir
do reconhecimento de nossos defeitos e da a aceitação plena da nossa
imperfeição. Assim, pouco a pouco, aprendemos a acolher também o próximo
em sua totalidade.

O amor aos outros nasce da nossa conexão com o amor-próprio. E, nesse


instante de florescimento do amor, de dentro para fora, amar o próximo é muito
simples, muito óbvio, muito natural. Na verdade, sentimos que o amor é a única
forma natural de nos relacionar. No momento em que me conecto com o outro
através do amor, todas as outras formas de nos relacionarmos que conhecemos
durante a vida perdem todo o sentido. Quando reconhecemos o amor dentro de
nós, naturalmente nos conduzimos à terrenos férteis para o florescimento do
amor externamente.

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OITAVO ENSAIO

Aprendendo a meditar

Meditação é estar aqui e agora. É trazer a sua atenção para o que se


passa exatamente nesse momento, dentro e fora de você: as tensões físicas, os
pensamentos, as emoções que passam por você, os sons e as demais
impressões em relação ao mundo externo. Enquanto você permanece em
estado meditativo, todas essas coisas passam por em seu interior como se
fossem um filme. Você não mais se identifica com elas, como se elas fossem
você. E aí você se dá conta de que, se você é capaz de assisti-los como um
expectador, de fato, não há como eles serem você.

Por trás das suas percepções - pensamentos, emoções e sensações


físicas do corpo - existe "alguém" que presencia isso tudo, uma consciência que
está aí o tempo todo. Você permanece em estado meditativo vendo o que se
passa em você e naturalmente se abre para as percepções externas. Não
permitindo que a sua atenção se perca nesses processos internos automáticos,
a sua atenção fica, então, mais disponível para estar no momento presente. Os
sons passam a ser ouvidos com mais intensidade. As cores, os sabores, as
sensações físicas... todos passam a ser percebidos de forma mais clara, pois a
sua atenção se encontra mais disponível para o agora.

Esse processo parece muito simples, mas nem sempre acontece dessa
forma. Às vezes permanecemos sentados na posição da meditação que fazemos
e os pensamentos incessantes logo nos tomam. Quando percebemos, estamos
‘vivenciando” uma verdadeira novela dentro de nossas mentes - imaginando
situações ou lembrando de coisas passadas. Então, tentamos mais uma vez
trazer a atenção para a sensação do corpo... e simplesmente nos damos conta
de que não somos capazes de sentir plenamente o corpo.

Por estarmos quase constantemente muito presos nos pensamentos


automáticos - e naturalmente nas emoções que surgem a partir deles - é como
se não tivéssemos um corpo físico - raramente entramos em contato direto com

23
a consciência do corpo. Entrar em contato com a percepção do corpo parece
algo difícil, a princípio. Podemos passar anos em meditação achando que
estamos sentindo o corpo, quando na verdade estamos quase que apenas
"pensando nele", sem saber. Por isso, meditar para algumas pessoas passa a
ser visto como algo muito difícil. De fato, meditar, principalmente no princípio,
não costuma ser algo confortável.

Quando meditamos, saímos da nossa zona de conforto. Quando


começamos a meditar, percebemos que a nossa casa interior é como um porão
escuro e bagunçado, o qual trancamos e nunca nos preocupamos em visitar. Por
muito tempo, sequer nos preocupamos em tirar a poeira desse porão. Mas
somos pretensiosos. Quando resolvemos limpar esse porão, não queremos lidar
com toda a bagunça deixada ali, tirando a poeira e encontrando o lugar de cada
coisa. Não queremos assumir a nossa bagunça interna e estar diante dela,
queremos arrumar tudo num passe de mágica. Mas não é assim que funciona.
É preciso, primeiro, destrancar as portas desse porão bagunçado e instalar uma
iluminação adequada, para enxergar com clareza e então conhecer cada
elemento esquecido ali. E, então, somente a partir daí, podemos começar a
arrumar toda a desordem. Internamente, também é assim. Nunca olhamos para
dentro. Estamos sempre envolvidos com o mundo exterior. Quando resolvemos
parar e sentir o que que se passa dentro de nós, tudo parece desordenado e
bagunçado. É necessário tempo para arrumar a nossa casa interior. No entanto,
as pessoas tem comprado ideias muito simplistas sobre autoconhecimento e
sobre meditação. Elas dizem: "Coloque a atenção no agora" e “tudo estará
resolvido”. Tente e se dará conta de que não somos tão capazes de fazer isso
como imaginamos.

A nossa mente é muito rápida. Às vezes conseguimos trazer a atenção,


mas no segundo seguinte ela se foi. Colocar a atenção no momento presente e
aprender a sentir o corpo é um exercício a ser praticado várias vezes por dia,
inclusive durante as atividades diárias e não apenas sentado em posição de
lótus. É preciso observar com atenção os pensamentos que surgem e que me
tiram do agora. Somente observando o que me tira do momento presente e

24
percebendo com clareza “o que eu não sou”, é que é possível me aproximar do
que sou.

Quando começamos a praticar meditação, percebemos que já meditamos


algumas vezes durante a vida, sem saber que o estávamos fazendo. É possível
que tenhamos encontrado um profundo estado meditativo em algum momento
de nossas vidas. Isso pode acontecer enquanto apreciamos uma paisagem, por
exemplo, ou então quando passamos por uma situação difícil. É que a força
interna que precisamos encontrar para lidar com algumas adversidades pode
nos fazer transcender o ego naquele momento e vivenciar um estado meditativo.
Através da meditação, você alcança um "lugar" dentro de você em que tudo é
novo a cada instante e, ao mesmo tempo, paradoxalmente, tudo lhe é familiar. É
como se você reconhecesse ali como uma casa... uma casa que você ficou um
tempo sem visitar e agora pode regressar.

Após muitos anos praticando meditação, percebemos que o que nos tira
do momento presente são coisas da "mesma natureza". Um dia alguém ofende
o seu ego e aquela lembrança, assim como as emoções provenientes dela, irão
te visitar frequentemente nos dias seguintes. E sempre haverá algo durante a
vida que vai tirar a sua atenção. O exercício repetitivo de não se identificar com
esses pensamentos, sejam pensamentos “bons” ou “ruins”, e trazer a atenção
para o agora pode trazer algumas percepções e experiências muito inusitadas.
Essas experiências, mesmo quando fazem muito sentido para nós,
internamente, podem não despertar a necessidade de relatar aos outros. A
meditação parece ser um caminho solitário. Com o passar dos anos praticando,
um sentido interior para a vida começa a se formar. E quando você entra em
contato com esse lugar dentro de você, o externo passa a não ter a mesma
intensidade e a mesma importância que tinha, pois agora você conhece também
uma outra realidade, diretamente conectada a essa "realidade externa", mas que
não está presa a ela.

Com o tempo, você amplia a percepção de si mesmo e começa a ver que


carregamos internamente várias “bagagens” desnecessárias. Ao mesmo tempo
que enxergamos isso, vamos nos aproximando de um lugar dentro de nós mais
livre do nosso ego e, à medida que aprendemos a nos conectar com esse lugar
25
dentro de nós, entramos em contato com experiências cada vez mais profundas.
Entretanto, percebemos que os mesmos tipos de pensamentos e emoções
voltam frequentemente a nos tirar desse local de liberdade que encontramos
internamente.

Durante a meditação, a mente está sempre lá, interrompendo,


identificando-se com o externo, tagarelando incessantemente coisas inúteis...
Meditar não é parar de pensar, meditar é distribuir melhor a sua atenção
internamente de modo a perceber e despertar outros sentidos. Assim, os
processos mentais e emocionais automáticos vão se acalmando naturalmente e
o pensamento se torna mais direto, mais prático e mais direcionado.

À medida que você se torna capaz de tirar um pouco a sua atenção desse
processo incessante de pensamentos e emoções e de colocar essa atenção no
corpo e nas percepções de si mesmo no momento presente, esses processos
automáticos mentais e emocionais acalmam de forma muito natural. Por isso,
não é necessário, e muito menos recomendável, lutar contra os pensamentos.
Qualquer luta seria inútil e prejudicial. Eles não são inimigos. Aliás, estar diante
dos pensamentos, vendo esse processo de pensar e nos dando conta do modo
como nos identificamos com eles em nossa vida é o que pode gerar em nós o
discernimento necessário para que nos conectemos com a nossa consciência
plena.

Ao longo da vida, seguimos juntando as experiências e a partir delas


vamos consolidando a nossa personalidade - o nosso modo particular de pensar,
de sentir e de agir. Aprendemos, ainda que de forma inconsciente, a elaborar
fórmulas para lidar com as situações externas com base nas coisas que já vimos,
que ouvimos e que sentimos – ou seja, com base nas coisas que
experimentamos e assimilamos ao longo das nossas vivências. Dentro dessa
bagagem interna de experiências, juntam-se as memórias de situações as quais
incorporamos de forma positiva, assim como se agregam reminiscências de
situações mal-resolvidas.

Por constituírem a gênese da nossa personalidade, as nossas memórias


são capazes de nortear o modo como lidamos com as mais diversas situações

26
com as quais frequentemente nos deparamos. Sendo assim, à medida que
passamos a olhar para dentro e a acompanhar de perto esse processo,
observando como se dão os nossos fluxos diários de emoções e pensamentos
– como medos, angústias, arrependimentos e culpas – e à medida que nos
damos conta do quanto esses aspectos estão relacionados às janelas da
memória e do inconsciente, uma nova possibilidade se abre para nós – a
possibilidade de nos colocarmos de uma maneira nova e ativa diante dos nossos
obstáculos internos decorrentes de reminiscencias de situações já vividas.

À medida vamos nos desfazendo de velhas ações condicionadas pelas


janelas do inconsciente, adquirimos maior discernimento para lidar com diversas
situações; pois somos capazes de vê-las como elas realmente são, ao invés de
enxergá-las através das neblinas decorrentes das nossas preocupações e das
nossas emoções negativas. Através desse processo de cura, as nossas ações
se tornam menos condicionadas em relação às fórmulas rígidas que outrora
criáramos para lidar com vida.

Quando os nossos obstáculos internos que impedem que a gente


experimente a vida de uma forma mais plena e mais leve insistem em não recuar,
podemos nos colocar diante deles, observando-os durante a meditação, até que
se tornem pequenos diante da nossa firmeza.

Os pensamentos e emoções ficam o tempo todo oscilando entre os


passado e o futuro, criando ilusões e nos levando de um lado para outro de forma
automática, como o movimento de um pêndulo. Esses pensamentos e emoções
que surgem de forma automática são naturais e até necessários a nossa
evolução. À medida que nós os observamos sem nos identificar com eles,
percebemos que não somos essa parte que está sempre reagindo de forma
automática às influências externas, somos a consciência que presencia isso
tudo.

A meditação não trata o seu passado, nem o seu futuro. Meditar é estar
aqui e agora. Mas o passado e as expectativas e preocupações em relação a
futuro sempre nos visitam durante a meditação. Eles fazem parte do processo
natural da mente. O passado e o seu futuro são puramente ilusórios. Eles só

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existem dentro de nossas mentes. Só o agora é real. Estamos acostumados a
olhar para o presente através das neblinas das nossas preocupações e
lembranças, mas se você se aproximar melhor dos seus pensamentos e se você
começar a percebê-los repetidas vezes durante a meditação, naturalmente irá
alcançar a percepção de que eles são ilusórios. Talvez nesse momento você
sinta necessidade de rir de toda a importância que você dá a eles no dia a dia.
Toda a importância que você dá a algo que você criou.... que não faz parte da
realidade nesse momento.

O corpo é a porta de entrada para o momento presente. Por isso, quando


começar a observar o processo incessante de pensamentos durante a
meditação, coloque a atenção na percepção do corpo. Sinta o seu corpo nesse
exato momento, aceitando o fluxo de pensamentos...

Os pensamentos continuarão passando, mas você não precisa mais estar


completamente envolvido com eles. Durante a meditação, a sua mente irá trazer
o passado repetidas vezes e você poderá repetidas vezes regressar à sensação
do corpo, perceber o contato dos seus pés com o chão ou perceber os sons que
estão vindo de fora, por exemo. Isso ajuda a voltar para o agora.

A meditação trata do presente. Mas, como já disse, o futuro e o passado


não são inimigos a serem combatidos. Podemos visitar o passado em um
momento propício para isso - durante uma terapia, por exemplo. Mas, durante a
meditação, apenas trazemos a sensação para o momento presente e permitimos
que o corpo preencha-se com a nossa presença. E, então, esvaziar-se das
ilusões da mente será um processo natural, ao longo do tempo praticando
meditação.

O presente é sempre mais simples e mais claro do que a forma que o


enxergamos habitualmente. Mas insistimos em olhar para a vida no presente a
partir das sombras do passado. Enquanto o que nos seria mais útil, na verdade,
seria aprender a utilizar sabedoria do que passou para nos relacionarmos com o
momento presente de uma forma mais sábia, de uma forma mais direta e
desanuviada.

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Aprender a alcançar a verdadeira compreensão de que nós não somos o
processo ininterrupto de funcionamento da mente e das emoções que ocorre
dentro de nós, mas sim a pura consciência que presencia todos esses
processos, é o primeiro passo para nos colocar inteiramente livres para nos
conectar com a nossa vida no presente de uma maneira mais plena.

NONO ENSAIO

Transpondo as paredes do templo

A Luz está em toda parte, mas, por nem sempre conseguirmos enxergá-
la em toda parte, vamos ao templo. As paredes do templo, construídas com
determinada angulação, em alguns momentos, possibilita que o reflexo da luz
chegue aos nossos olhos. Pode ser que o "templo" que eu visite seja o meu
próprio corpo em meditação, pode ser um retiro, uma oração, o contato direto
com a natureza, uma prática espiritual, a busca do silêncio interno. O templo é
tudo que me faz entrar em contato com essa luz. Não importa qual seja o templo
que eu visite e não importa que as paredes de cada templo reflitam a luz de uma
maneira... a luz continua sendo uma só. A luz não está ligada ao templo. As
paredes do templo apenas a refletem. Diante da luz, o próprio templo é
insignificante.

Se eu busco olhar para a Luz apenas através do seu reflexo nas paredes
do templo que eu frequento, deixarei cada vez mais de enxergá-la em toda parte.
Enquanto faço isso, continuarei ignorando a grandiosidade da luz. Enquanto
estivermos apegados ao caminho que escolhemos, estaremos caminhando na
escuridão. As nossas experiências espirituais acontecem a partir de uma relação
com algo que não é deste mundo e não tem nenhuma relação de dependência
com nada daqui. Às vezes, ir ao templo pode ser necessário. Às vezes, escolher
um caminho pode ser necessário. Mas há momentos em que o que deve ser feito
é destruir as paredes do templo, parar de olhar para o reflexo e começar a olhar
diretamente para a Luz.

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DÉCIMO ENSAIO

Alumbramentos da Noite

A noite tem uma estratégia para nos envolver. Com o passar das horas,
ela vai mesclando pouco a pouco a imensidão do seu vazio ao silêncio da
alma. No silêncio da noite, quando diminuem as vozes, tanto as exteriores
quanto as vozes interiores, ela começa a cochichar verdades sobre nós mesmos
nos nossos ouvidos. Quando escurece lá fora, é possível enxergar com mais
clareza o nosso mundo interior. Quem foge do escuro da noite, foge de si
mesmo. Quem não se sente bem em meio à escuridão da noite é quem habituou-
se a olhar somente pra fora. A noite nos interioriza.

Não importa que a barulheira do dia nos atordoe e nos distraia, a noite
sempre encontrará uma maneira de nos despertar, por dentro. A gente pode
olhar com contemplação para o brilho das estrelas e para a lua, mas se não
estivermos prontos para acolher a noite e permitir que ela nos inunde com o seu
silêncio, o seu vazio e a sua escuridão - se não estivermos prontos para
anoitecer junto com ela - não estaremos verdadeiramente prontos para
contemplar o mistério da nossa própria existência.

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