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ACIPOL

ACADEMIA DE CIÊNCIAS POLICIAIS


CURSO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS POLICIAIS

NOTAS

CADEIRA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DO HOMEM

Introdução
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Direitos Humanos são direitos e liberdades básicas de todos os seres humanos. São tambem
considerados como faculdades de agir ou poderes de exigir atribuídos ao indivíduo para
assegurar a dignidade humana nas dimensões da liberdade, igualdade e solidariedade.

Outos autores consideram ais que são também direitos positivos, históricos e culturais, que
encontram seu fundamento e conteúdo nas relações sociais materiais em cada momento
histórico.

DIREITOS FUNDAMENTAIS- são aqueles valores éticos, morais e políticos, considerados


por uma determinada sociedade, em uma determinada época, como os mais importantes para
que, sendo eles respeitados, estejam assim asseguradas as condições mínimas que irão permitir
uma existência com DIGNIDADE, LIBERDADE E IGUALDADE para qualquer pessoal, em
qualquer lugar do mundo onde se encontre.

Os Direitos Humanos devem ser integrados e interpretados em harmonia com a Declaração


Universal dos Direitos do Homem e a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos.

TEMA I: CONCEITO DE DIREITOS HUMANOS

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Definição: são direitos e liberdades básicas de todos os seres humanos.

Estes direitos devem ser integrados e interpretados de harmonia com a Declaração Universal dos
Direitos do Homem e a Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos.

A DUDH afirma: todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.
Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de
fraternidade.

Os direitos humanos baseiam-se no princípio de respeito em relação ao indivíduo. A sua


suposição fundamental é que cada pessoa é um ser moral e racional que merece ser tratado com
dignidade. Estes são chamados direitos humanos porque são universais. Enquanto as nações ou
grupos especializados usufruem dos direitos específicos que se aplicam só a eles, os direitos
humanos são os direitos aos quais todas as pessoas têm direito, não importa quem sejam ou onde
morram, simplesmente porque estão vivos.

Em eras passadas, não havia direitos humanos. Depois surgiu a ideia de que as pessoas deveriam
ter certos direitos. E essa ideia, no final da Segunda Guerra Mundial, resultou finalmente no
documento chamado Declaração Universal de Direitos Humanos e nos trinta direitos a que todas
as pessoas têm direito.

Direitos Humanos. A quem se Destinam?

A todo o cidadão sem discriminação de raça, de etnia, de sexo, etc.

Ex: os Polícias não devem discriminar os homossexuais

Características dos Direitos Humanos

a) Historicidade são históricos como qualquer direito. Nascem, modificam-se,


ampliam-se com o ocorrer dos tempos.
b) Inalienabilidade é direita intransferível, inegociável. Se a ordem constitucional os
confere a todos, deles não se pode desfazer, porque são indisponíveis.
c) Imprescritibilidade o exercício de boa parte dos direitos fundamentais ocorre só no
facto de existirem reconhecidos na ordem jurídica.
d) Irrenunciabilidade não se renunciam direitos fundamentais.
e) Universalidade destina-se a todo o ser humano

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Violação dos Direitos Humanos

Por causa da sua característica de Imprescritibilidade, o que significa que só são reconhecidos os
direitos prescritos na ordem jurídica, através da constituição nacional ou através de Pactos
internacionais, os direitos fundamentais podem ser violados por pessoas singulares ou colectivas.

Ex1: se um indivíduo não respeita algum preceito de Direitos Humanos prescritos na CRM, tal
como o princípio da igualdade, este indivíduo viola os Direitos Humanos.

Ex2: se o Estado não respeita as convenções dos pactos Internacionais, tais como, tratamento ou
punição cruel, proibição das detenções arbitrarias; este Estado viola Direitos Humanos.

Em que consiste a dignidade humana?


A resposta a essa indagação fundamental foi dada, sucessivamente, no campo da religião, da
filosofia e da ciência.
Na religião todos os homens são iguais perante Deus. Mais tarde, com a afirmação da natureza
essencialmente racional do ser humano, põe-se nova justificativa para a sua eminente posição no
mundo. A sabedoria grega expressou-se com vigor, pela voz dos poetas e filósofos.
Foi durante o período axial da História, que se despontou a ideia de uma dignidade essencial
entre todos os homens. Mas foi necessário muito tempo para que a primeira organização
internacional proclamasse na abertura de uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, que
todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direito.
Daí que a CRM, no seu artigo 40 determina que todo o cidadão tem direito à vida e à integridade
física e moral, não podendo ser sujeito à tortura ou tratamentos cruéis ou desumanos.
É sobre o fundamento da liberdade que se assenta todo o universo axiológico, isto é, o mundo
das preferências valorativas, bem como toda a ética de modo geral, ou seja, o mundo das normas.
Neste sentido, não pode ser limitado o exercício da liberdade de expressão que compreende,
nomeadamente, a faculdade de divulgar o próprio pensamento por todos os meio legais, e o
exercício do direito à informação. Devendo-se respeitar de igual modo, a liberdade de imprensa.
O exercício de direito e liberdade estende-se até a segurança, assim o art.59 da CRM determina
que na República de Moçambique todos têm direito à Segurança e ninguém pode ser preso e
submetido a julgamento senão nos termos da lei.

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Os direitos fundamentais constituem a base normativa do desenvolvimento social e político de
cidadãos e homens livres em uma democracia.
Dignidade é mérito de ser pessoa, direito de ser respeitada como tal. Dignidade é inerente apenas
ao ser humano. Direito à vida, à integridade física, à honra, respeito pelos alunos, professores e
toda a pessoa humana são alguns exemplos de dignidade.

EXERCÍCIO
1) Depois de ter lido o tema I, apresente uma tese, explicação da tese e uma questão para
debate.
2) Tendo em conta as características de direitos humanos e o conceito de dignidade humana,
dê uma definição abrangente de direitos humanos.

TEM II: HISTORIA DOS DIREITOS HUMANOS

A ideia de DH tem origem no conceito filosófico de Direitos naturais que seriam atribuídos por
Deus.

Os DH, são o resultado de uma longa história, onde filósofos e juristas discutiram ou abordaram
o tema.

Pode-se afirmar que a questão de DH começou com a religião, na época do Cristianismo, na


Idade Média, onde se afirmava a defesa da igualdade de todos os homens numa mesma
dignidade.

Na Idade Moderna, os racionalistas dos séculos XVII e XVIII, reformularam as teorias do


Direito Natural, deixando de estar submetido a uma ordem divina. Para os racionalistas todos os
homens são por natureza livres e tem certos direitos inatos de que não podem ser despojados
quando entram em sociedade. Foi esta corrente de pensamento que inspirou o actual sistema
internacional de protecção dos Direitos Humanos.

Mas o momento mais importante, na história dos Direitos Humanos é durante 1945-1948. Em
1945, os Estados Unidos tomam consciência das tragédias e atrocidades vividas durante a 2
Guerra Mundial, facto que levou a criar a Organização das Nações Unidas (ONU) em prol de

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estabelecer e manter a paz no mundo. Foi através da carta das Nações Unidas, assinada a 20 de
Junho de 1945, que os povos exprimiram a sua determinação em preservar as gerações futures do
flagelo da Guerra, proclamar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e valor da
pessoa humana, na igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como das nações. A
criação das Nações unidas simboliza a necessidade de um mundo de tolerância, de paz, de
solidariedade entre as nações, que faça avançar o progresso social e económico de todos os
povos.

Assim a 10 de Dezembro de 1948, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou a


Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH).

A DUDH, é fundamental na nossa sociedade, quase todos os documentos relativos aos direitos
humanos tem como referência esta Declaração, e alguns Estados, como é o caso de Moçambique,
fazem referência directa nas suas constituições nacionais.

A DUDH, ganhou uma importância extraordinária contudo não obriga juridicamente que todos
os Estados a respeitem e, devido a isso, a partir do momento em que foi promulgada, foi
necessário a preparação de inúmeros documentos que especificassem os direitos presentes na
Declaração e assim força-se os Estados a cumpri-la. Foi nesse contexto que nasceram vários
documentos tais como: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto
Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais.

EXERCÍCIO

1) Depois de ter lido o texto sobre a história de direitos humanos, apresente uma tese, explicação
da tese e questão para debate.

2.1 Historial do Reconhecimento e Promoção dos Direitos Humanos em Moçambique

o reconhecimento e a promoção dos direitos humanos em Moçambique está directamente ligado


à evolução do poder político.

Da fase colonial até aos dias de hoje, o poder político obedeceu três fases notórias: a fase
colonial, a fase pós-independência até 1990 e a fase de 1990 até aos nossos dias.

Fase Colonial
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O povo Moçambicano não tinha o direito de dispor de si mesmo e, consequentemente, não
determinava livremente o seu estatuto político nem se dedicava livremente ao seu
desenvolvimento económico, social e cultural. A constituição política, então vigente em
Moçambique, no período colonial, nos seus artigos 137 e 141 fazia a diferenciação dos residentes
em território Moçambicano. Assim dentro do mesmo território uns tinham a designação de
nacionais e outros indígenas. Sendo nacionais os colonos e indígenas os nativos. Esta
diferenciação reflectia-se nos direitos e deveres fundamentais. Os nacionais tinham direitos
iguais aos dos cidadãos portugueses, enquanto que os indígenas gozavam apenas de garantias
sociais menos privilegiadas que as dos nacionais.

Fase Pós-independência até 1990

Com a independência nacional, o Estado Moçambicano aprova a sua primeira Constituição da


República em que, no capítulo II, reconhece-se alguns direitos fundamentais, essencialmente de
âmbito social e cultural.

Neste período houve também a promoção dos direitos económicos, sociais e culturais, para além,
dos direitos civis e políticos.

Fase de 1990 até aos nossos dias

Em 1990, foi aprovada a segunda Constituição da República de Moçambique e em 2004, a


terceira. Em 4 de Outubro de 1992, foi assinado o Acordo de Paz, estes actos tiveram grande
impacto no reconhecimento e promoção dos Direitos Humanos em Moçambique.

EXERCÍCIO

1) Depois de ter lido o texto sobre a promoção de direitos humanos em Moçambique,


apresente uma tese, explicação da tese e questão para o debate.

TEMA III: FONTES DE DIREITOS HUMANOS

Fonte de Direito é a base de revelação da norma jurídica

As fontes dos Direitos Humanos, são:


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1. Fontes Internas
A Constituição da República
A CRM consagra no Título II, relativo aos Direitos, Deveres e Liberdades Fundamentais,
grande parte do leque de Direitos Humanos consagrados na DUDH e nos demais
instrumentos internacionais.
Outra legislação Nacional
A problemática dos Direitos Humanos encontra a sua consagração em várias leis, como
sejam o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Estatuto do Polícia, etc.

2. Fontes Regionais
Carta Africana dos Direitos do homem e dos Povos ( CADHP)
Foi adoptada pela organização da Unidade Africana na decimal oitava Conferência dos
Chefes de Estado e de Governo, em Junho de 1981, em Nairobi, Quénia, tendo entrado
em vigor em 21 de Outubro de 1986

Direitos Individuais
Um leque de direitos individuais é consagrado na Parte I, da CADHP, tais como: o direito
ao tratamento igual para todos; o direito à vida; o direito à dignidade pessoal, o direito à
liberdade, etc.

Outros direitos que a CADHP consagra: Direito à família, Direitos dos Povos, etc.

3. Fontes Internacionais
Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH)
A DUDH consagra direitos e liberdades de todos os tipos: Civis, Políticos, Económicos,
Sociais e Culturais

TEMA IV: DIREITOS HUMANOS E INTERPRETAÇÃO DA NORMA


Como toda a interpretação jurídica, a interpretação dos Direitos Humanos não é de natureza
diferente da que se opera noutras áreas. Pois está estreitamente conexa com a aplicação do
Direito:
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o A interpretação dos DH deve ser harmonizada com os enunciados dos Direitos Humanos
proclamados na DUDU e nas fontes regionais e internas.
o Não se destina a enunciação abstracta de conceitos mas sim a conformação da vida pela
norma.
o Tem de estar atenta aos valores sem dissolver os DH no subjectivismo ou na emoção
política.

EXERCÍCIO
A interpretação dos Direitos Humanos tem de ser feita tendo em atenção os valores sem
dissolver os Direitos fundamentais no subjectivismo ou na emoção política. Justifique?

TEMA V: CATEGORIAS DOS DIREITOS HUMANOS

1) Direitos Civis e Políticos

Estes direitos foram convencionados como sendo os direitos da primeira geração de direitos. Os
Direitos Civis e Políticos visam a participação efectiva do cidadão na vida política da sociedade
onde está inserido, gozando assim dos seus direitos e liberdades. Estes direitos figuram no Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, adoptados pela Assembleia Geral das Nações
Unidas, em 16 de Dezembro de 1966, e ratificado por Moçambique através da Resolução n°
5/91, de 12 de Dezembro de 1991.

Fazem parte desta categoria os direitos de liberdade, tais como:

o Livre iniciativa económica;

o Livre manifestação da vontade;

o Livre cambismo;

o Liberdade de pensamento e de expressão;

o Liberdade de circulação;

o Liberdade política;
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o Liberdade de trabalhar; etc.

Ainda nesta categoria, no que se refere aos direitos civis, temos:

O direito ao reconhecimento de igualdade perante a lei;

O direito à vida em detrimento da pena de morte;

A proibição da tortura;

O direito a um julgamento justo; etc.

2) Direitos Sociais e Económicos

São direitos da segunda geração de direitos. Os direitos sociais, económicos e culturais são
aqueles que exigem a intervenção do Estado na vida económica e social, proporcionando
condições para o emprego e oferecendo serviços e bens ao conjunto de cidadãos abrangidos,
além do direito à propriedade. São exemplos desses direitos:

O direito a alimentar-se;

O direito à moradia e ao trabalho;

O direito à segurança social;

O direito das mães e crianças;

O direito à educação;

O direito de participar na vida cultural e no progresso científico, etc.

3) Direitos Culturais, ambietais

Fazem parte destes direitos os direitos da terceira geração de direitos.

São chamados direitos de solidariedade ou de fraternidade, a saber:

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O direito ao desenvolvimento;

O direito à paz;

O direito ao meio ambiente;

4) Direitos Sexuais e Reprodutivos

São considerados direitos da quarta geração de direitos.

Fazem parte deste grupo:

O direito de decidir se pretende ter filhos;

O direito de espaçar o nascimento dos seus filhos;

O direito de escolher qualquer método anticonceptivo;

O direito de se proteger contra doenças de transmissão sexual, incluindo o HIV/SIDA, etc.

TEMA VI: AS OBRIGAÇÕES DO ESTADO FACE AO SISTEMA INTERNACIONAL


DE PROTECÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Alguns dos direitos e liberdades consagrados na DUDH tornaram-se mais tarde conhecidas como
sendo “direitos civis e políticos” e “direitos económicos, sociais e culturais”. Estas designações
encontram-se presentemente vincadas nos títulos dos Pacto Internacional sobre os Direitos Civis
e Políticos (PIDCP) bem como Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e
Culturais (PIDESC); adoptados pela Assembleia Geral das Nações Unidas em Dezembro de
1966.
Estes Pactos constituem, hoje, o núcleo do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Os
pactos estipulam, com uma considerável precisão, definições de todos os direitos humanos e
liberdades fundamentais universalmente aceites. Assim como definem as obrigações assumidas
pelos Estados partes destes tratados, com respeito aos direitos e liberdades neles consagrados.

O conteúdo dos pactos

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a) Os direitos civis e políticos incorporados no PIDCP incluem o seguinte:
o As liberdades de expressão, religião, reunião e associação
o A liberdade de movimento
o O direito à privacidade
o O direito à vida, liberdade e segurança pessoal
o A proibição da escravatura, tortura e punição ou tratamento cruel, desumano ou
degradante
o O direito a um julgamento justo

o A presunção de inocência e a proibição da retroactividade de leis e sentenças em matérias


criminais, etc.

b) os direitos económicos, sociais e culturais incorporados no PIDESC incluem:


o direito a um adequado padrão de vida;
o o direito à educação para todos;
o o direito ao emprego livremente escolhido e aceite;
o o direito ao goza das condições de trabalho justas e favoráveis;
o o direito à segurança social;
o o direito à protecção da família, das mães, das crianças;
o o direito a participação na vida cultural

EXERCÍCIOS
1) o que entendes por Direitos Humanos?
2) Qual é o papel da polícia na protecção da dignidade humana?
3) A CRM é fonte de DH. Comente.
4) O PIDCP e o PIDESC são instrumentos internacionais que orientam o Estado em
questões de protecção dos DH. Justifique.

TEMA VII: AGENTES POLICIAIS E A DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS NUM


ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
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Num Estado Democrático de Direito, o Estado deve respeitar os direitos naturais, pois quando o
Estado se formou encontrou estes direitos (Direito a vida; Direito a liberdade; Direito a
propriedade).

Estado de Direito significa que não há arbitrariedade. Significa que deve existir limite do poder.

Deve haver uma alternância no poder num Estado Democrático. A alternância faz parte de um
dos capítulos de ciências políticas.

Num Estado Democrático o povo é fiscal do poder, e o Governo deve ser responsabilizado.

Cidadão vem da civis (Estado) = isto também é meu.

Características Comuns do Estado de Direito

● Pluralismo (ideias, religião, política, educação, etc.)


● Tolerância (reconhecimento do outro como ser igual, racional e livre)
● Separação de poderes
● Reconhecimentos dos direitos e liberdades
● Igualdade de oportunidades
● Alternância ao poder
● Limitação de mandatos
● Meios de comunicação independentes
● Autonomia e primazia do indivíduo sobre o Estado
● O Estado ao serviço do indivíduo

A democracia é a forma do governo em que a soberania reside no povo e é exercida por ele. A
democracia é a forma mais alta da organização da sociedade. Mas para que ela proporcione ao
cidadão comum uma participação activa na vida política, um efectivo exercício dos seus direitos
e o cumprimento dos seus deveres é necessário que quer a sociedade quer o Estado, sejam
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regidos no seu funcionamento pela lei. Devendo os homens da lei e ordem, garantir o efectivo
cumprimento da lei sem ferir os pressupostos da Democracia.

A Democracia e Direitos Humanos andam sempre de mãos dadas, pois há entre eles uma relação
de interdependência entre o Estado Democrático de Direito e os Direitos Humanos. Sem o
primeiro, muito dificilmente se asseguram os Direitos Humanos e, sem os segundos, o Estado
Democrático de Direito, a existir, estará esvasiado do seu conteúdo útil, pois ele pressupõe e
garante os direitos fundamentais.
Neste sentido, os agentes policiais, ao defenderem os direitos humanos desempenham um papel
preponderante na preservação do Estado de Direito.

É por isso que o exercício democrático do poder requer a participação activa de todos os
cidadãos e, para que aconteça devem estar plenamente assegurados os direitos de igualdade de
participação política e as necessárias garantias para o seu efectivo exercício. Assim os direitos de
associação, de formação de partidos políticos, de liberdade de expressão, de pensamento e de
informação; constituem os pressupostos fundamentais da democracia.
As democracias modernas devem priorizar o pensamento diferente.

Entre a autoridade do Estado e a Sociedade deve existir uma dialéctica, isto é, nenhum dos dois
deve concordar cegamente com o outro.

Normalmente quando o Estado tem muito poder a Sociedade civil não tem poder. Deve existir
um equilíbrio entre o Estado e a Sociedade Civil. Quando o Estado tem muito poder:
Totalitarismo, autoritarismo, ditaduras, autocratismo e absolutismo; o povo não pode falar, não
pode ouvir, não pode ver; por outro lado, o povo não pode ter peso exagerado, senão teríamos
anarquia, Estado mínimo.

Na democracia há respeito mútuo. A responsabilidade pela prevenção e detecção do crime tem


sido atribuída às organizações de aplicação da lei. Isso deve ser entendido de forma a incluir a
responsabilidade por investigar crimes cometidos por funcionários públicos, portanto, também
pelos responsáveis pela aplicação da lei.

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Assim, o polícia no âmbito da promoção e protecção dos Direitos Humanos devem respeitar os
seguintes princípios da Investigação:
A presunção de Inocência
Direito a um julgamento justo
O respeito pela Integridade Física e Mental
O respeito pela privacidade, honra, bom nome, reputação e a inviolabilidade do domicilio
A confidencialidade e cuidado no tratamento de informações

EXERCÍCIO
Depois de ter lido o texto sobre o papel da polícia na protecção de direitos humanos num
Estado Democrático de Direito, apresente uma tese, explicação da tese e questão para o
debate.

TEMA VIII: GÉNERO E DIREITOS HUMANOS


Instrumentos Nacionais e Internacionais de Promoção de Direitos das Mulheres e
Crianças

A carta das Nações Unidas, assinada em Junho de 1945, foi o primeiro instrumento jurídico
internacional a afirmar explicitamente os direitos iguais do homem e da mulher e a incluir o sexo
como uma das formas proibidas de discriminação. Estas garantias foram incluídas na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, adoptada pela assembleia geral em 1948. desde então os
direitos iguais para a mulher têm sido ajustados e ampliados em inúmeros tratados internacionais
de direitos humanos dos quais se ressalta o Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos e
Sociais e o Pacto Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais.
A não-discriminação baseada no sexo também se encontra na convenção sobre os direitos da
criança e nos tratados de direitos regionais da Carta Africana dos Direitos do Homem e dos
Povos (CADHP) artigo 2; Convenção Americana dos Direitos Humanos (CADH) artigo 1 e
Convenção Europeia dos Direitos Humanos ( CDEH) artigo 14.
Convencionou-se criar regras específicas para a mulher pelo facto da sua humanidade não ser
suficiente para lhe assegurar os seus direitos.

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Neste sentido a Assembleia-geral das Nações Unidas adoptou a Convenção sobre a eliminação
de todas as formas de Discriminação Contra a Mulher; em 1979, passando a vigorar em 1980.
A convenção reforça as disposições dos instrumentos internacionais já existentes, elaborados
para combater a discriminação permanente contra as mulheres, identificando muitas áreas de
notória discriminação, como, por exemplo, os direitos políticos, o casamento, a família e o
trabalho. Nestas e em muitas áreas, a convenção estabelece objectivos e medidas específicas a
serem seguidos pelos Estados Parte para facilitar a criação de uma sociedade global dentro da
qual as mulheres possam gozar de plena igualdade junto aos homens, obtendo assim o exercício
pleno dos seus direitos humanos garantidos.
A convenção enfatiza que a discriminação impedirá o crescimento económico e a prosperidade
ao mesmo tempo que reconhece a necessidade de uma mudança de atitude, por intermédio da
educação de homens e mulheres para que aceitem a igualdade de direitos e superem os
preconceitos e práticas baseadas em estereótipos.
Assim devem ser tomadas todas as medidas para proteger as mulheres de qualquer tipo de
violência. A violência contra as mulheres deve ser tratada como crime, mesmo quando ocorra no
seio da família.

TEMA IX: DIREITOS HUMANOS, DESAFIOS E PERSPECTIVAS


Uma cultura que exija acções permanentes para prevenir e diminuir a violência, que respeite e
valorize os direitos humanos e que tenha na sociedade civil sua principal fonte criadora. A
questão de Direitos Humanos no seio da polícia está intimamente ligada à ética policial. Se se
entender que a ética policial visa ao perfeccionismo na acção policial, então se pode afirmar que
a ética é o caminho para a promoção dos Direitos Humanos.

9.1 Ética Policial

9.1.1 Fundamentos Objectivos e Subjectivos da Ética Policial

De acordo com Camargo (2014) constituem fundamentos objectivos da ética os seguintes


princípios descritos na tabela abaixo:

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Princípios Objectivos da Fundamentos Valores Éticos
Ética

Ser Corpóreo Bem-estar físico e Virtudes “aretê”


emocional

Ser Inteligente Criação de valores humanos Justiça

Ser Pertencente a um gênero Valorizar o outro como Vida


Sujeito

Fonte: Camargo (2014)

Tendo em conta que ética profissional é uma reflexão ética ligada às diferentes profissões, no
dizer de Silva, (2001). A ética policial é um ramo da ética profissional e comunga de toda a
problemática que é própria desta e como tal é também a expressão, no contexto policial, de uma
ética geral. Assim são principais fundamentos objectivos da ética no geral constituem igualmente
principais fundamentos objectivos da ética policial.

A pessoa encontra o princípio fundamental da ética não só na vivência em sociedade mas


também nas características que perfazem a identidade da pessoa humana, (CAMARGO, 2014).
O que significa que a pessoa procura fazer o bem para o seu corpo, tomando banho, procurando
ser saudável, etc. A pessoa procura usar da melhor maneira a sua inteligência, de modo a
produzir ideais construtivas e que beneficiem a si e aos outros. Sendo membro da sociedade o
polícia comunga com os princípios objectivos da Ética que se seguem:

O Homem é um ser corpóreo. É uma vida material com uma série de órgãos, cada um com sua
razão de ser específica e função receptiva, mas intimamente relacionados uns com os outros; é a
realidade bio fisiológica humana (CAMARGO, 2014).

A ética preocupa-se com o desenvolvimento e o bem-estar de cada órgão, não só em si mesmo


mas em função de todo corpo humano. Assim, o cuidado com a saúde própria e alheia é um
dever de cada pessoa reclamado e exigido pela sua natureza. Neste sentido a valorização do
corpo humano próprio e alheio é imprescindível para a construção ética.

É neste sentido que as organizações, incluindo a organização policial, por meio de ferramentas
de gestão de pessoas, procuram garantir o bem-estar físico e emocional da pessoa inserida na
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organização, através de um agir comunicativo que mais do que falar sobre a importância do bem-
estar físico e emocional corresponde à agir de forma ética, com justiça, em prol do benefício
físico e emocional do agente da polícia (ASSIS E PAULA, 2013).

Para Socrates o bem-estar físico e emocional do indivíduo influencia a atitude de excelência,


traduzida em virtude, o que o filósofo denomina de aretê. Em busca da excelência no agir ou
aretê a acção comunicativa desempenha um papel preponderante na construção da perfeicção
humana.

É assim que Habermas (1987) defende como resultado da acção comunicativa a ética do
discurso, que leva à uma ética filosófica que valoriza uma teoria especial de argumentação com
pretensões universais. Para Habermas a ética do discurso torna-se ética cognitivista ao
estabelecer uma ligação entre o dever fazer e o saber as razões para agir.

O Homem é um ser inteligente. A memória e a imaginação são faculdades que arquivam e


reproduzem ideias e, as ideias estão intimamente ligadas à inteligência. Através da inteligência o
homem aprende e cria valores inerentes aos seres humanos. Assim é um dever ético o homem
usar a inteligência em todas as situações da vida (CAMARGO, 2014). A inteligência humana
constitui um factor incontornável para a sobrevivência da sociedade, no entanto, é necessário que
esta seja gerida por meio das ferramentas de GRH.

Para que possam cumprir seu propósito, as ferramentas de GRH na Polícia devem ser geridas de
forma ética, devendo haver disciplina, justiça e transparência nos sistemas de recrutamento de
polícias, integração, avaliação de desempenho e, sobretudo, no sistema de gestão da carreira
policial. Facto que permitiria, por um lado, buscar polícias inteligentes e competentes; por meio
da aplicação de forma ética e imparcial da ferramenta de recrutamento e selecção, e por outro,
manter e evoluir essa competência alicerçando-se nas ferramentas de integração, avaliação de
desempenho, formação, remuneração, dentre outras, a evolução na carreira aplicadas com base
em princípios ético-fundamentais. Na obra a Ontologia é Fundamental de Zuben (2001),
Heidegger afirma que a humanidade sobrevive porque o ser humano é inteligente. Mas a
inteligência ou pensamento do homem deve ultrapassar a contemplação e engajar-se na
realização do bem para a sociedade. A inteligência é o próprio acontecimento que a existência
articula. Só pensa quem existe, assim afirma Descartes.

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Tendo em conta que a GRH na Polícia é composta de pessoas existentes, logo inteligentes. A
gestão do membro da polícia é feita com base na articulação das ferramentas de GRH,estas
devem ser capazes de trazerem para a organização pessoas que saibam usar a inteligência em
prol do alcance da Missão e Visão da organização, facto que contribui para a existência de
polícias com comportamento humano, reflectido na sua actuação perante a sociedade.

O Homem é um ser pertencente a um determinado gênero: masculino ou feminino. Constitui um


fundamento objectivo, um dever ético a faculdade de cada pessoa reconhecer as suas
especificidades de gênero e, considerar o outro gênero como um sujeito e não como um objecto.
(CAMARGO, 2014). Tal facto se encontra fundamentado na 2ª Lei do Imperativo Categórico de
Kant " Age de tal forma que não Instrumentalizes a ninguém."

Kant afirma nesta lei que as pessoas devem ser respeitadas e não tratadas como se fossem
instrumentos/objectos. A organização policial tende a ter um tratamento diferenciado entre
homens e mulheres, valorizando pouco as mulheres.

Esta cultura policial pode ser reflectida alicerçando-se em máximas de Kant:

1ª Lei do Imperativo de Kant

"Age segundo máximas universalizáveis"

O imperativo de Kant manda seguir máximas correctas que possam ser universalizáveis.
(BERTAGNOLI 1959).

Valorizar de forma diferenciada as qualidades do homem polícia e da mulher polícia, não é uma
máxima correcta e, logo não pode ser universalizável. É assim que Oliveira (2008) afirma que
deve existir um reconhecimento recíproco da igual dignidade a partir da autoconstrução
permanente da vida humana que deve emergir num processo de criação de uma sociabilidade
radicada na solidariedade universal.

Outro sim, a 3ª Lei do Imperativo Categórico de Kant dá o seu contributo na equidade de genéro
na Polícia a partir da seguinte máxima:

"Age segundo a máxima que possa simultaneamente fazer-se a si mesma lei universal"

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Esta lei no pensamento Kantiano implica que se deve agir de maneiras a se considerar os outros
seres humanos como sendo legisladores universais (BERTAGNOLI 1959). Assim, a
desvalorização da mulher na instituição policial não pode ser considerada como sendo um
comportamento universalmente aceite.

9.1.2 Fundamento Subjectivo da Ética Policial

A consciência

Como vimos anteriormente é princípio fundamental da ética fazer o bem e, para fazer o bem a
pessoa baseia-se em fundamentos objectivos da ética que são dentre outros; a vontade, a emoção,
a inteligência, etc. que perfazendo as características da identidade humana nem sempre
conseguem desenhar o bem, é neste contexto que se busca o fundamento subjectivo da ética para
a concepção do bem. Assim, segundo Camargo (2014) constitui fundamento subjectivo da ética a
Consciência. Só de forma consciente a pessoa pode fazer o bem ou o mal.

Eticamente, consciência significa a capacidade de distinguir o bem do mal, ela é norma


fundamental do comportamento de cada pessoa sob o ponto de vista ético. A consciência é
pessoal, individual, irrepetível pois é a convicção interna na decisão moral.

A consciência ética é a voz da própria pessoa para si mesma; fora da consciência, a pessoa está
fora de si; ela é a única lei suprema que rege a conduta humana, a própria pessoa tem que se
reger (CAMARGO, 2014).

A consciência obriga as pessoas a procurarem a verdade objectiva de acordo com aspectos


fundamentais do ser humano.

Assim, na organização policial deve haver consciência na aplicação de cada uma das ferramentas
de GRH. Consciência essa que é buscada a partir da articulação da Subjectividade com a
Objectividade no Plano de Recursos Humanos, no sistema de Recrutamento e Selecção, na
Integração, na Avaliação de Desempenho, e sobretudo no sistema de gestão de Carreira Policial.

9.2 Papel da Polícia na Sociedade

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A palavra “polícia” é derivada do latim “politia” e significava governo de uma cidade,
administração ou forma de governo. Este significado deriva do facto de o Estado ser formado por
um conjunto de instituições ligadas aos poderes executivo, legislativo e judiciário. Tendo o
Estado a soberania sobre um determinado território, cabe a ele fazer as leis, as quais todos os que
vivem nesse território, devem obedecer e, como forma de fazer cumprir as leis, o Estado está
dotado de meios de coerção de que fazem parte as forças policiais (REGO, 2012).

A organização policial nasce como uma necessidade social e de forma paralela ao


desenvolvimento da sociedade humana e, como no caso desta, não é possível designar uma data
para seu surgimento. Contudo, a evolução da polícia pode ser observada pelos testemunhos
escritos deixados pelos povos antigos: Os Egípicios e os Hebreus; estes foram os primeiros
povos a mencionarem medidas policiais nas suas legislações.

De acordo com Bittner citado por Rego (2012) à polícia corresponde a actividade do Estado que
tem por finalidade defender, por meio do poder da autoridade, a boa marcha da causa pública
contra as perturbações ocasionadas pelas existências individuais. Assim, a polícia é a
manisfestação viva do poder público e da autoridade abstracta do Estado (BITTNER, 2003).

Para Silva (2001) à Polícia corresponde ao exercício da sociedade, e foi instituida para ordem
pública, liberdade, propriedade, segurança individual, dentre outras. A sua característica é a
vigilância e o objecto do seu cuidado é a sociedade.

Segundo Bittner citado por Rego (2012), três expectativas definem a função do polícia numa
sociedade moderna: Espera-se que a Polícia vá fazer algo a respeito de qualquer problema que
seja solicitada a tratar; espera-se que a Polícia vá atacar os problemas em qualquer lugar e hora
em que ocorram e espera-se que os polícias prevaleçam em qualquer coisa que façam e que não
recuem ao enfrentar situações de diferente natureza.

A taxonomia utilizada por Bayley (2002) identifica três maneiras bem distintas de descrever a
actividade policial, cada uma a partir de diferentes fontes de informação. O trabalho policial
pode-se referir, primeiro ao que a Polícia é designada a fazer, segundo às situações com as quais
ela tem que lidar, terceiro às acções que ela deve tomar ao lidar com as situações.

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É assim que Caetano (apud SILVA, 2001) define o policiamento como sendo o modo de actuar
da autoridade administrativa que consiste em intervir no exercício das autoridades individuais
susceptíveis de fazer perigar os interesses gerais.

Neste sentido pode-se dizer que a Polícia se apropria do espaço público de forma particularizada
pelo Estado (LIMA, 2002). Nessa concepção, conforme a visão do autor, tanto o Estado quanto a
Polícia são definidos como instituições separadas e externas ao conjunto de cidadãos; assim, a
natureza do trabalho policial relaciona-se com as tensões geradas nas relações sociais.

Monjardet (apud BITTNER 2003) compara a polícia com um martelo, isto é, tal como o martelo
a polícia serve as finalidades daquele que a maneja. Assim, a Polícia pode servir aos mais
diversos objectivos tais como: a opressão num regime totalitário; a protecção das liberdades num
regime democrático ou até pode acontecer que a mesma polícia sirva sucessivamente a
finalidades opostas.

Segundo Bayley (2002), o polícia desempenha um papel pertinente na sociedade, ao manter a


ordem e tranquilidade públicas, o seu trabalho inscreve-se em acções que vão desde a prisão dos
infractores até ao aconselhamento ou mediação de conflitos sociais. Daí que faz-se necessário
que o seu agir seja revestido de princípios éticos que possam moldar o comportamento do agente
da polícia perante a sociedade.

Nesta mesma perspectiva, Lima (2002) enfatiza o papel do polícia na sociedade, afirmando que
a actividade do polícia abrange todas as camadas da sociedade porque “a lei vale para todos”,
sendo o dever do polícia o de fazer cumprir essa lei. Com vista ao melhor desempenho da sua
actividade, os polícias são recrutados e formados para agirem de forma pró-activa na resolução
de problemas que emirjam no cotidiano. É neste sentido que Bayley (2002) afirma que o
processo de formação deve pôr à disposição do polícia os conhecimentos necessários para o
desempenho da sua actividade.

Constitui um dos primeiros passos da formação da polícia o processo de recrutamento e selecção


dos candidatos o qual deve decorrer com estrita observância dos princípios de igualdade,
imparcialidade, isenção e equidade de gênero e; sobretudo, revestido de reflexão ética.

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Considerando-se a Polícia como força para-militar, habitualmente ela obedece a uma estrutura
hierárquica rígida.

Sendo uma instituição estruturada, a Polícia rege-se no âmbito de recursos humanos com base
em Administração dos Recursos Humanos (ARH) que a permite recrutar, seleccionar e
desenvolver a sua força de trabalho, dentre outras atribuições. Neste sentido, faz-se importante
descrever o impacto da ética e da subjectividade na gestão de recursos humanos.

9.3 O Papel da Ética Policial no Combate à Corrupção

O mau relacionamento entre a polícia e a comunidade tem emergido de vez em quando como
facto que muito preocupa os cidadãos sobre a má prestação do serviço do polícia.

Por outras palavras, a Polícia é, em algumas vezes acusada de abusos contra cidadãos. Uma
reflexão inicial sobre este assunto aponta para a falta de Ética e Disciplina Policial no seio da
polícia.

A ética é uma ciência que define os actos humanos, como sendo bons ou maus, (Silva, 2001)
assim, esta ciência é a base para a formação de qualquer comunidade em equilíbrio. Se
isto for correcto para a comunidade é ainda mais correcto em relação aos Polícias que a servem.

Deste modo, os polícias, quando se relacionam com a comunidade, devem sempre observar os
padrões de conduta ética. Contudo, para observar melhor, é necessário que os polícias tenham
uma consciência moral.

A consciência moral implica, então, a presença de três elementos: racionais (juízos de valor),
afectivos (sentimentos) e activos ( intenções, desejos ).

Os racionais fazem um juízo de valor, dizem se um acto deve ser praticado ou evitado, portanto,
se um acto é bom ou mau.

Os afectivos têm a ver com sentimentos altruístas.

Os activos dão coragem ao agente na prática de um acto moral.

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Neste contexto, um polícia com consciência moral é aquele que no seu trabalho procura ser
racional, afectivo e activo.

A corrupção é uma das ameaças para o exercício da democracia.Corrupção é um complexo


fenómeno e manifesta-se de diferentes maneiras. A palavra corrupção vem do verbo latim
corrumpere que significa estragar, apodrecer.

O polícia, presta serviço a sociedade e esta não entende o significado da palavra corrupção na
sua íntegra. Daí que é importante que o polícia ao interagir com a comunidade entenda o ponto
de vista da comunidade. No combate a corrupção qualquer membro da polícia na sua
responsabilidade deve respeitar o poder que tem respeitando a legislação.

A corrupção mina a democracia e estado de direito, destrói os direitos humanos, corroi a


qualidade de vida, ameaça à segurança humana como o terrorismo. É uma preocupação especial
para os países africanos, desencoraja os investimentos estrangeiros, reduz os recursos disponíveis
e inibe o desenvolvimento de programas contra a pobreza.

Algumas pesquisas mostram que os países de Africa Austral são os mais corruptos do mundo.
Para lavar a imagem 14 países membros da SADC demonstraram o seu compromentimento no
combate à corrupção e assinaram o protocolo para prevenir actos de corrupção, para criar
políticas sustentáveis para controlar a corrupção na região e, sobretudo para medir o desempenho
de cada país no combate a corrupção.

A corrupção na polícia é visível e os países da SADC também estão empenhados a combater a


corrupção nesta área.

A percepção que a população tem sobre a polícia Moçambicana é que a polícia moçambicana é
muito corrupta. Das pesquisas feitas em 2010 mostram que

a corrupção é mais vista na polícia de transito em moçambique.

De acordo com dados retirados duma palestra sobre o papel da ética no combate à corrupção,
proferida pelo Prof. Doutor Trevor Budhram, na Academia de Ciências Policiais, no dia 13 de
Abril de 2018, esperava-se colectar para o cofre do Estado a partir de multas passadas pela
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Polícia 2500 milhões de meticais e a polícia de transito somente conseguiu colectar 600 mil.
Logo a corrupção prejudica em muito o Estado.

Como combater a corrupção? Adoptar o sistema de valores éticos (sociedade e polícia); polícia
ao agir de forma ética deve influenciar a planificação estratégica; agir de acordo com a lei, não
aceitar o suborno, aplicar a lei, desta forma se pode reduzir o crime e desenhar a identidade
organizacional policial.

9.3.1 Princípios Básicos da Conduta Ética Policial

Segundo Sarpcoo e Sahrit (2000), o polícia no seu relacionamento com a comunidade é guiado
com base em alguns princípios éticos indispensáveis à actividade policial:

Respeito pela Vida. A actuação do polícia alicerça-se sempre na Lei-mãe que é a constituição da
República. Assim, a CRM no seu artigo xxxx determina que todo o cidadão tem direito à vida.
Neste contexto, sempre que o polícia tiver necessidade de fazer o uso da força, deve considerar
que o direito fundamental vida é inviolável, devendo por isso, procurar causar os menores danos
possíveis e evitando tirar a vida ao cidadão.

Igualdade de todas as pessoas perante a lei. A Constituição da República de Moçambique no


seu artigo xxxx reza que todas as pessoas são iguais perante a lei. Sendo o polícia o garante da lei
deve considerar que todas as pessoas têm a mesma dignidade social, o que significa que ninguém
pode ser privilegiado, beneficiado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever por
causa da sua raça, religião, ascendência, língua, origem étnica, situação económica, convicções
políticas ou ideológicas, etc.

Liberdade das Pessoas. O respeito pela liberdade das pessoas constitui um dos mais visíveis
princípios básicos da conduta policial. Um polícia com uma conduta ética não faz detenções
arbitrárias, nem tira a liberdade das pessoas senão nos casos devidamente previstos na lei,
devendo por isso, o polícia, ao detiver alguém, para além de basear-se na lei, informar o detido
sobre as razões da sua detenção.

Respeito pelo Serviço. Respeitar o serviço é seguir os princípios deontológicos da ética policial,
neste contexto,o polícia tem deveres e obrigações ligados ao seu serviço, sendo necessário que

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saiba respeitar esses deveres e obrigações para que é chamado. Portanto, o Polícia deve ser
responsável pelas suas acções, procurando sempre respeitar o serviço.

Respeito pela Verdade. Um Polícia com uma conduta ética é aquele que procura respeitar a
verdade, combinando a conformidade do que diz com o que é a realidade e com o que faz,
evitando sempre mentir.

Papel do Guarda Penitenciaário na Protecção dos Direitos Humanos dos Reclusos

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