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Os

Doze Passos
e as
Doze Tradições
de
Comedores
Compulsivos
Anônimos

Quinta impressão
Dados internacionais de catalogação na Publicação (CP)
(câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Os Doze Passos e as Doze Tradições de Comedores Compulsivos Anô­


nimos/ traduzido por Junta de Serviços Gerais de Comedores Com­
pulsivos Anônimos do Brasil, Belo Horizonte, MG: Junccab, 1999.
Titulo original: The twelve steps and twelve traditions of Overeaters
Anonymous.
1. Comedores compulsivos – tratamento 2. Doze Passos – Programas
99.3188 CDD-616.85260651

Índices para catálogo sistemático:


1. Comedores compulsivos: Terapia espiritual: Medicina CDD-616.85260651

ISBN (USA) 0.9609898-6-2


ISBN (BR) 85.87441-01-9
Library of Congress
Catalog Card Número 93.85052

Overeaters Anonymous , Inc.


World Service Office
6075 Zenith Court NE
Rio Rancho, NM 87124-6424 USA
Endereço para correspondência: P.O. Box 44020
Rio Rancho, NM 87174-4020 USA
1-505-891-2664
© 1995, 1990, 1993 by Overeaters Anonymous, Inc.
Todos os direitos reservados.

Traduzido e impresso no Brasil por


Junta de Serviços Gerais de Comedores Compulsivos Anônimos do Brasil
Rua Debret, 79 sala 702- Castelo – Rio DE Janeiro – RJ
CEP: 20030-080 – telefax: (021) 2532-5174
E-mail: junccab@comedorescompulsivos.org.br
Com autorização de Overeaters Anonymous, Inc.
PREÂMBULO

Comedores Compulsivos Anônimos é uma Irman­dade


de indivíduos que, compar­ tilhando experiências, força e
esperança estão se recuperando do comer compulsivo. Em
CCA damos boas-vindas a todos que desejam parar de
comer compulsi­ vamente. Não há taxas ou mensalidades
para ser membro de CCA; somos autossustentados por
meio de nossas próprias contribuições, não solicitando nem
aceitando doações de fora. CCA não se filia a nenhuma
organização pública ou privada, movimento político,
ideologia ou dou­trina religiosa; não tomamos posição em
assuntos externos. Nosso propósito primordial é abster-nos
do comer com­pulsivo e dos comportamentos alimentares
compulsivos e transmitir esta mensagem de recuperação
através dos Doze Passos de CCA àqueles que ainda sofrem.

III
ÍNDICE

INTRODUÇÃO
AOS DOZE PASSOS, VII

Primeiro Passo, 1 Sétimo Passo, 53


Segundo Passo, 7 Oitavo Passo, 61
Terceiro Passo, 15 Nono Passo, 67
Quarto Passo, 23 Décimo Passo, 73
Quinto Passo, 39 Décimo Primeiro Passo, 81
Sexto Passo, 47 Décimo Segundo Passo, 89

INTRODUÇÃO
As DOZE TRADIÇÕES, 97

Primeira Tradição, 99 Sétima Tradição, 141


Segunda Tradição, 107 Oitava Tradição, 151
Terceira Tradição, 115 Nona Tradição, 157
Quarta Tradição, 121 Décima Tradição, 165
Quinta Tradição, 129 Décima Primeira Tradição, 173
Sexta Tradição, 135 Décima Segunda Tradição, 179

V
INTRODUÇÃO AOS DOZE PASSOS

Nós, de Comedores Compulsivos Anônimos, encon­


tramos nesta Irmandade, um caminho para recuperarmo­
nos da doença do comer compulsivo. Depois de anos de
culpa, pelos repetidos fracassos em controlarmos nossa
alimentação e nosso peso, agora temos uma solução que
funciona. Nossa solução é um programa de recuperação,
um programa de doze passos simples. Seguindo esses pas­
sos, milhares de comedores compulsivos pararam de comer
compulsivamente.
Em CCA, não temos programas de dietas e exercícios,
balanças nem pílulas mágicas. O que temos para oferecer é
muito mais importante do que quaisquer dessas coisas –
uma Irmandade no qual encontramos e partilhamos o poder
curativo do amor. Nossos laços comuns são dois: a doença
do comer compulsivo, com a qual todos nós temos sofrido,
e a solução que estamos encontrando ao vivermos pelos
princípios incorporados nesses passos. Como nosso
programa é baseado nos doze passos, gostaríamos de
oferecer, aqui, um estudo desses passos, partilhando a
maneira como os seguimos para nos recuperarmos do comer
compulsivo. Esperamos, dessa forma, oferecer ajuda aos
que ainda sofrem de nossa doença.
A segunda parte deste livro contém um estudo das
doze tradições de Comedores Compulsivos Anônimos, mos­
trando como nossos grupos, e CCA como um todo, resolvem
problemas e continuam a levar a mensagem de recuperação
aos comedores compulsivos.

VII
IX

Se você acha que pode ser um comedor compulsivo,


dê a si mesmo a oportunidade de recuperação, tentando o
programa de CCA. Nossa maneira de viver, baseada nesses
doze passos e doze tradições, trouxe-nos saúde física,
emocional e espiritual, a qual não hesitamos em chamar de
miraculosa. O que funcionou para nós funcionará, também,
para você.

VIII
PRIMEIRO PASSO

Admitimos que éramos impotentes


perante a comida e que tínhamos
perdido o domínio de nossas vidas.

Em Comedores Compulsivos Anônimos, começamos


nosso programa de recuperação, admitindo que éramos
impotentes perante a comida. Alguns de nós temos
dificuldade com essa admissão, porque tivemos inúmeras
experiências tentando controlar a nossa alimentação. Em
algum momento no passado, ou periodicamente, a maioria
de nós foi capaz de fazer isso. Nossa alimentação pode estar
fora de controle agora, persistíamos em pensar, mas em
algum dia próximo reuniremos de novo a força de caráter
necessária para vigiar nossos excessos alimentares e, desta
vez os manteremos sob controle. Para todos nós, entretanto,
os dias de alimentação controlada diminuíram e se tornaram
mais espaçados, até que, finalmente, viemos para CCA,
buscando uma nova solução.
Em CCA, aprendemos que a falta de força de vontade
não é o que nos faz comedores compulsivos. De fato,
comedores compulsivos frequentemente mostram uma
quantidade excepcional de força de vontade. Mas comer
compulsivamente é uma doença que não pode ser controlada
pela força de vontade. Nenhum de nós decidiu ter essa
desordem, da mesma forma como não poderíamos decidir
ter alguma outra doença. Podemos agora cessar de nos
culpar ou culpar os outros pelo nosso comer compulsivo.
A doença de comer compulsivamente é de natureza
tríplice: física, emocional e espiritual. Comer compulsivamente
não se deve simplesmente a maus hábitos alimentares
apren­ didos na infância, nem somente a problemas de

1
ajustamento, nem meramente a um amor pela comida,
apesar de que, todos esses, talvez, sejam fatores atuantes no
seu desenvolvimento. É possível que muitos de nós tenhamos
nascido com uma predisposição física ou emocional para
comer compulsivamente. Qualquer que seja a causa, hoje
não somos como pessoas normais, quando se trata de comer.
Como os comedores compulsivos, os comedores nor­
mais irão, algumas vezes, encontrar prazer em escapar dos
problemas da vida com o excesso de comida. Os comedores
compulsivos, entretanto, frequentemente, têm uma reação
anormal quando abusam da comida. Não podemos parar.
Um comedor normal sente-se farto e perde o interesse pela
comida. Nós, comedores compulsivos, desejamos mais.
Alguns de nós temos, inclusive, uma reação estranha a cer­
tas comidas: enquanto outros podem comer porções únicas
sem problemas, nos sentimos compelidos a comer uma
outra porção depois que acabamos a primeira... e então,
outra... e outra. Não são todos os comedores compulsi­vos
que conseguem identificar as comidas específicas, que lhes
causam esse problema, mas muitos de nós podemos. O que
todos temos em comum é que nossos corpos e mentes
parecem nos enviar sinais sobre comida, que são bastante
diferentes daqueles que o comedor normal recebe.
Percebemos, através de muita experiência que, não importa
quanto tempo nos abstenhamos de comer compulsivamente,
e quão aptos nos tornemos a enfrentar os problemas da
vida, sempre teremos essas tendências anormais. Aqueles de
nós, que retornaram aos antigos comportamentos com­
pulsivos em relação à comida, mesmo depois de anos em
recuperação, perceberam que é mais difícil ainda parar.
Evidentemente, se pretendemos viver livre da
dependência do comer compulsivo, precisamos abster-nos
de todas as comidas e comportamentos alimentares que nos
causam problemas. Se nunca comermos demais, nós não
despertaremos a reação, que nos faz querer mais. Mas isso,

2
também, é comprovadamente impossível de ser feito
somente com a nossa força de vontade. Antes de
encontramos CCA cada dieta ou período de controle foi
seguido por um período de descontrolada alimentação. Isto
porque nossa doença não era apenas de natureza física; era
também emocional e espiritual. Éramos obcecados por
comida, e nenhuma quantidade de autocontrole ou perda
de peso podia curar-nos. Por causa dessa obsessão, sempre
vinha um dia em que o excesso de comida parecia tão
convidativo, que não podíamos resistir, e nossas firmes
resoluções eram esquecida. Mais cedo ou mais tarde sempre
começávamos a comer compulsivamente de novo, e gra­
dualmente (ou rapidamente) o comer tornava-se pior, até
que, finalmente, estávamos fora de controle.
Essa obsessão era algo do qual não podíamos nos
livrar por meio de nossa desamparada vontade humana.
Por isso, um poder, mais forte que nós tinha de ser
encontrado para nos aliviar disso, se queríamos parar de
comer com­pulsivamente e permanecer assim.
A maioria de nós tem tentado negar, para si mesmo,
que tem essa doença. Em CCA, somos encorajados a dar
uma boa olhada no nosso comer compulsivo, na obesidade
e nas coisas autodestrutivas que temos feito para evitar o
excesso de peso como: fazer dieta, jejuar, exercitar-se com­
pulsivamente ou se livrar da comida por meio de vômito ou
uso de laxantes. Uma vez tendo examinado nossas histórias
honestamente, não podemos negar isso: nossa alimentação
e nossas atitudes, em relação à comida, não são normais;
nós temos essa doença.
A segunda parte do primeiro passo, admitir “que nos­
sas vidas tinham-se tornado ingovernáveis”, tem sido
também difícil para muitos de nós. Sentíamos que admi­
nistrávamos muito bem a nossa vida, apesar de nossos pro­
blemas com comida e peso. Muitos de nós arcávamos com
trabalhos, que exigiam responsabilidade, e cuidávamos da

3
casa com razoável sucesso. Tínhamos amigos, que gostavam
de nós, e muitos de nós tínhamos casamentos razoavelmente
bons. Isso não nos tornava felizes. Devia-se, seguramente,
ao fato de que éramos gordos (ou sentíamos que éramos).
Se apenas pudéssemos chegar ao peso perfeito, a vida seria
perfeita. Indubitavelmente, seria exagerado dizer que éramos
incapazes de governar nossas próprias vidas. Certamente
podíamos lançar mão de alguma ajuda quanto ao comer
compulsivo, mas, em relação ao resto do dia da vida, nós
estávamos bem.
De novo, um olhar honesto para nossas vidas nos
ajudou a dar o primeiro passo. Estávamos, realmente, nos
destacando em nossos trabalhos, ou fazendo apenas o
estritamente necessário? Nossas casas eram lugares agra­
dáveis de estar, ou estávamos vivendo numa atmosfera de
depressão ou raiva? Nossa crônica infelicidade, a respeito
dos nossos problemas de alimentação, tinha afetado nossas
amizades e nosso casamento? Estávamos, verdadeiramente,
em contato com os nossos sentimentos, ou tínhamos enco­
berto nossa raiva e nosso medo com falsa alegria?
Às vezes, reconhecíamos que tínhamos problemas com
a vida, mas sentíamos que a vida seria governável se
pudéssemos apenas parar de comer compulsivamente. Toda
vez que parávamos, entretanto, achávamos que a vida, sem
comida em excesso, era insuportável. Nem mesmo chegar
ao peso desejado curava nossa infelicidade.
Muitos de nós acreditávamos que nossa vida seria
governável se, pelo menos, os outros à nossa volta fizessem
o que queríamos. Pensávamos que tudo ficaria ótimo se
apenas nossos patrões reconhecessem nosso valor, se apenas
nossos esposos ou esposas nos dessem a atenção de que
necessitávamos, se apenas nossos pais nos deixassem
sozinhos. Nossas vidas tornavam-se ingovernáveis quando o
carro não queria pegar, o computador quebrava, ou nossa
conta corrente não tinha saldo. Sofríamos por cauda das

4
vidas ingovernáveis das outras pessoas ou por má sorte. Que
alternativa tínhamos? Comíamos para saciar nossos medos,
ansiedades, raivas e desapontamentos. Comíamos para
escapar às pressões dos nossos problemas ou ao tédio de
nossa vida diária. Adiávamos, nos escondíamos e comíamos.
Antes de virmos para CCA e de começarmos a falar
honestamente sobre nossas experiências com outros come­
do­res compulsivos, nós não havíamos percebido o quanto
nós prejudicamos a nós, e aos outros, tentando controlar
cada detalhe da vida. Foi só depois de começarmos a nos
recuperar, que vimos o egocentrismo infantil das nossas
ações obstinadas. Tentando controlar os outros, por meio de
manipulação e força direta, tínhamos magoado aqueles a
quem amávamos. Quando tentávamos nos controlar, termi­
návamos desmoralizados. Mesmo quando éramos bem suce­
di­dos, isso não era suficiente para nos fazer felizes. Comendo,
nos escondíamos de nossos erros; nós nunca crescíamos.
Muitos de nós resistimos ao primeiro passo, porque
nos parecia pensamento negativo. Se nos dissermos que
somos impotentes perante a comida, raciocinávamos, então
estaremos, certamente, nos programando para continuar a
comer compulsivamente!
Mais tarde, descobrimos que, longe de ser um fator
negativo, a admissão de nossa impotência perante a comida
abriu a porta para um novo e surpreendente poder. Pela
primeira vez em nossas vidas, reconhecemos, admitimos e
aceitamos a verdade sobre nós mesmo. Nós somos
comedores compulsivos. Nós temos uma doença incurável.
Diabéticos, que necessitam usar insulina, arriscam-se à
cegueira e à possível morte, a não ser que reconheçam a
realidade de sua condição de diabéticos, aceitem isso e
tomem a medicação prescrita. A mesma coisa acontece com
os comedores compulsivos. Enquanto nos recusarmos a
reco­nhecer que temos essa doença debilitante e definitiva­
mente fatal, não ficaremos motivados a procurar tratamento

5
diário, que leva à recuperação. A negação da verdade
conduz à destruição. Somente uma admissão honesta da
realidade de nossa condição pode-nos salvar do nosso
comer destrutivo.
O mesmo princípio se aplica às nossas vidas ingo­
vernáveis. Enquanto acreditarmos que já sabemos o que é
melhor para nós, nos agarraremos às nossas maneiras
habituais de pensar e agir. Entretanto, essas maneiras de
pensar e agir nos colocaram na insana e infeliz condição em
que estávamos, quando viemos para CCA. No primeiro
passo, admitimos essa verdade sobre nós: nossos métodos
de controle usuais não foram bem sucedidos, e precisamos
encontrar uma nova abordagem para a vida. Tendo admitido
essa verdade, estamos livres para mudar e para aprender.
Uma vez que nos tornemos abertos para aprender,
podemos desistir dos velhos pensamentos e dos padrões de
comportamento, que falharam no passado, começando por
nossas tentativas de controlar nossa alimentação e nosso
peso. Uma honesta avaliação de nossa experiência nos
convenceu de que não podemos lidar com a vida contando
somente, com nossa vontade própria. Primeiro, assimilamos
esse conceito intelectualmente, e então, finalmente, acre­
ditamos nele em nossos corações. Quando isso acontece,
damos o primeiro passo e estamos prontos para seguir
adiante em nosso programa de recuperação.

6
SEGUNDO PASSO
Viemos a acreditar que um Poder
Superior a nós mesmos poderia
devolver-nos à sanidade.

Muitos de nós, comedores compulsivos, tendemos a


olhar para este passo e dizer: “Devolver-me à sanidade?
Não preciso disso. Sou perfeitamente são. Só tenho um
problema alimentar.” Entretanto, seremos realmente sãos?
Quando olhamos com completa honestidade para
nos­sas vidas, vemos que, no que diz respeito à comida,
temos agido de maneira extremamente irracional e
autodestrutiva. Sob a compulsão por comer demais, muitos
de nós fizemos coisas, que nenhuma pessoa sã pensaria em
fazer. Dirigimos por vários quilômetros, na calada da noite,
para satisfazer a ânsia por comida. Comemos comida
congelada, queimada, velha, ou mesmo perigosamente
estragada. Comemos comida dos pratos dos outros, do
chão. Tiramos comida do lixo e a comemos.
Mentíamos, frequentemente, sobre o que tínhamos
comido – mentíamos aos outros porque nós mesmos não
queríamos encarar a verdade. Roubamos comida dos nossos
amigos, da família e dos patrões, assim como do supermer­
cado. Também roubamos dinheiro para comprar comida.
Comemos além da medida do empaturramento, além do
limite de passar mal de tanto comer. Continuamos a comer
demais, sabendo, todo tempo, que estávamos deformando e
lesando nossos corpos. Isolamo-nos para comer, prejudicando
nossos relacionamentos e nos negando uma vida social
satisfatória. Por causa do nosso comer compulsivo, nos
tornamos objeto de ridículo e destruímos nossa saúde.
Então, horrorizados com o que estávamos fazendo a
nós mesmos por meio da comida, nos tornamos obcecados
por dietas. Gastamos muito dinheiro em programas de perda

7
de peso, compramos todo tipo de remédio moderador de
apetite. Ingressamos em clubes de dieta e SPAs, fomos
hipnotizados e analisados, fizemos cirurgias graves nos
nossos aparelhos digestivos, tivemos nossas orelhas furadas
ou nossos maxilares presos. Fizemos tudo isso voluntaria­
mente, esperando que pudéssemos, algum dia, perder peso
e também comer.
Alguns de nós fomos de médico em médico procu­
rando uma cura. Os médicos nos deram dietas, mas não
tivemos mais sucesso com estas do que com outras que já
havíamos feito. Os médicos nos deram injeções e pílulas.
Isto funcionou por algum tempo mas, inevitavelmente, per­
de­mos o controle e nos empanturramos outra vez, recupe­
rando o peso que tínhamos esforçado tanto para perder.
Muitos de nós tentamos jejuar, com ou sem supervisão
médica. Geralmente, perdemos peso, mas tão logo começá­
vamos a comer outra vez e, outra vez, o comportamento de
comer compulsivamente retornava, juntamente com o peso.
Alguns de nós aprendemos a eliminar a comida por meio do
vômito, de laxativos, ou com exercício em excesso. Empur­
rávamos comida em nossas bocas, até que estivéssemos com
dor física, aí, então, nos “livrávamos dela”. Prejudicamos nos­
sos aparelhos digestivos e nossos dentes enquanto privávamos
nossos organismos dos nutrientes necessários para viver.
Aqueles de nós, que estávamos obesos, recebemos
muitos conselhos dos outros sobre como chegar ao nosso
tamanho “ideal”, mas nada resolveu o nosso problema
permanentemente. Descobrimos que não importava o que
fizéssemos para aliviar esse tormento, nosso comer compul­
sivo eventualmente voltava. Através dessa longa trajetória,
nosso peso aumentava e nossa autoestima diminuía. Depois
de algum tempo, nos tornamos desencorajados e cansados
de lutar. Ainda assim, não podíamos aceitar nossa impo­
tência. A perspectiva de ser obeso, doente e fora de controle,
para o resto de nossas vidas, levou alguns de nós a concluir

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que a vida, simplesmente, não valia a pena ser vivida. Mui­
tos de nós pensamos em suicido. Alguns de nós tentamos.
A maioria de nós, entretanto, nunca chegou ao deses­
pero suicida. Em vez disso, encontramos conforto no sen­
timento de que tudo estaria bem, enquanto tivéssemos o
bastante para comer. O único problema era que, à medida
que o nosso comer compulsivo progredia, ficava mais difícil
obter o bastante. Em vez de trazer conforto, o comer em
exces­so fazia efeito contrário. Quanto mais comíamos, mais
sofría­mos; ainda assim, continuamos a comer em excesso. A
nossa verdadeira insanidade podia ser observada no fato de
que con­tinuávamos a tentar encontrar conforto no excesso
de comi­da, muito depois de ela ter começado a nos causar
sofrimento.
Uma vez que olhamos honestamente para nossas
vidas, tornou-se fácil para nós admitir, que tínhamos agido
insanamente, no que dizia respeito à comida e ao peso.
Muitos de nós, entretanto, éramos capazes de restringir o
comer compulsivo às horas em que estávamos sozinhos e
continuar com vidas relativamente normais. Trabalhávamos
muito durante o dia e comíamos muito à noite. Certamente
não éramos sãos na maioria dos aspectos.
Mais autoexame revelou muitas áreas onde nossas
vidas estavam desequilibradas. Tivemos que admitir que
não agimos sensatamente, quando respondemos às necessi­
dades de atenção das nossas crianças gritando com elas, ou
quando nos comportamos de maneira possessivamente
ciumenta em relação a nossos parceiros. Vivíamos com
medo e ansiedade, durante grande parte do tempo. Mais à
vontade com a comida do que com as pessoas, nós muitas
vezes limitamos nossa vida social. Fechamos as cortinas,
desligamos o telefone e nos escondemos em casa.
Quando estávamos com outras pessoas, sorríamos e
concordávamos, quando, realmente, queríamos dizer não.
Alguns de nós éramos incapazes de nos defendermos de

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relacionamentos abusivos; sentíamos que merecíamos o
abuso. Ou nos concentrávamos nos erros dos outros, e
pensávamos por horas a fio, sobre o que eles deveriam fazer
para resolver seus problemas, enquanto os nossos próprios
problemas continuavam sem solução.
Comedores compulsivos, frequentemente, são pessoas
de extremos. Reagíamos exageradamente a pequenas pro­
vo­cações, enquanto ignorávamos os verdadeiros problemas
em nossas vidas. Estávamos obsessivamente ocupados;
depois, ficá­vamos apáticos e incapazes de agir. Estávamos
intensamente agitados e, em seguida, profundamente depri­
midos. Víamos o mundo em branco e preto. Se não
podíamos ter tudo, nada queríamos; se não podíamos ser os
melhores, não queríamos jogar.
Pouco a pouco, vimos quanta dor nossa maneira de
viver nos estava causando. Gradualmente, viemos a acreditar
que precisávamos mudar. Na totalidade da vida, como na
comida, éramos irracionais, desequilibrados, insanos. Se
nossa força de vontade e determinação não puderam mudar
nossa fracassada maneira de viver, o que poderíamos fazer?
Eviden­temente, um Poder maior que nós mesmos precisava
ser en­con­trado, se quiséssemos que nossa sanidade fosse
devolvida.
Nesse ponto, a maior parte de nós, por esta ou aquela
razão, tivemos problemas com o segundo passo. Alguns de
nós não acreditávamos em Deus. Desanimávamos de encon­
trar uma solução para nossos problemas, se isso significasse
precisar “encontrar Deus”. Alguns de nós fomos embora da
primeira reunião quando ouvimos esta palavra – antes
palavra somente mencionada – e não retornamos senão
quando anos de comer compulsivo nos deixaram deses­
perados. Aqueles de nós que permaneceram, fizeram uma
maravilhosa descoberta. CCA não nos diz que precisamos
acreditar em Deus – somente que um Poder maior que nós
pode devolver-nos à sanidade. Somos convidados a definir

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esse poder como desejarmos, e a nos relacionarmos com
ele, da maneira que funcionar melhor para nós. CCA sugere
somente que permaneçamos abertos ao desenvolvimento
espiritual e mostremos tolerân­cia para com os outros, ao
não criticarmos ou promovermos doutrinas religiosas
específicas em reuniões de CCA.
Nosso programa é espiritual e, não, religioso. Não
temos credos ou doutrinas; somente nossas próprias
experiências de recuperação. Ateus e agnósticos são bem-
vindos em CCA e encontram a recuperação.
De que modo aqueles que não acreditam em Deus
chegam a acreditar em um Poder Superior?
Isso geralmente tinha início quando participávamos de
uma reunião de CCA e vivenciávamos a camaradagem de
nossos companheiros comedores compulsivos. Aqui estavam
pessoas que nos compreendiam e se importavam conosco.
Podíamos ser totalmente honestos sobre nós mesmos e eles
ainda nos aceitavam incondicionalmente. Essa aceitação se
tornava amor, trazendo consigo um poder que parecia
permanecer conosco quando saíamos das reuniões de CCA.
Acreditar que esse amor partilhado era um Poder maior que
nós, que poderia nos conduzir à sanidade, não foi um salto
de fé tão grande assim. O amor do grupo, então, tornou-se
nosso Poder Superior.
Pouco tempo depois, nós normalmente pedíamos a
outros membros de CCA para serem nossos padrinhos. A
maioria de nós escolhia alguém, por quem sentia afinidade
ou em quem via recuperação. Ao desenvolvermos relacio­
namentos pessoais com nossos padrinhos, o amor do grupo
de CCA nos chegou de forma mais profunda. Eles
respondiam às nossas perguntas, ouviam nossos problemas,
compartilhavam de nossas lágrimas e risos e nos guiavam
na recuperação, à medida que nos ajudavam a aplicar os
princípios de CCA em nossas vidas. Pela primeira vez na
vida sentimos o alívio de não termos que encarar nossos

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problemas sozinhos. Este relacionamento era um Poder
Superior no qual podíamos acreditar.
Entretanto, CCAs são humanos. Algumas vezes, quando
nossos grupos ou padrinhos falhavam de alguma maneira,
nos sentíamos privados do apoio que tanto veio a significar,
para nós, e nossa nova sanidade parecia ameaçada.
Precisávamos, então, de uma forma mais confiável de nos
relacionarmos com um Poder Superior. Nesse ponto apren­
demos que podíamos “agir como se”. Isto não significava
que tínhamos que ser desonestamente devotos ou fingir que
acreditávamos em Deus quando não acreditávamos.
Significava que estávamos livres para pôr de lado os debates
teológicos e examinar a ideia de um poder espiritual, à luz
da nossa desesperada necessidade de ajuda em nossas
vidas.
Alguns de nós começamos nos perguntando: “Do que
eu preciso de um Poder Superior? O que eu gostaria que
este Poder fosse e fizesse em minha vida?” Uma vez que
tenhamos identificado este poder para nós, percebemos que
nos sentimos bem com ele. Então começamos a agir como
se tal Poder existisse e descobrimos coisas boas acontecendo
como resultado. Pouco a pouco, ao experiênciarmos
mudanças para melhor em nossas vidas, viemos a acreditar
em um Poder maior que nós mesmos, que poderia devolver-
nos à sanidade.
Aqueles de nós que chegamos ao CCA com um
conjunto de crenças religiosas, geralmente olhamos para
este passo e dissemos: “Sem problemas. Estou além deste
passo. Eu já acredito em Deus”. Então, para nosso espanto,
alguns de nós nos encontramos tendo mais problemas com
o programa de CCA do que o agnóstico ou o ateu. Algumas
vezes, nós, religiosos, tivemos problemas, porque acreditá­
vamos na existência de Deus, mas não acreditávamos
realmente que Deus poderia e iria tratar do nosso comer
compulsivo. Talvez não acreditássemos que o nosso comer

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compulsivo fosse um problema espiritual, ou sentíssemos
que Deus se ocupasse somente com problemas mais impor­
tantes e esperasse que controlássemos uma coisa tão simples
como a nossa alimentação. Falhamos ao não entendermos
que Deus nos ama em nossa totalidade e tem a
disponibilidade e a capacidade para ajudar-nos em tudo o
que fazemos; que Deus nos ajudará em cada decisão,
mesmo na escolha de comidas e porções.
Muitos de nós pedimos a Deus para ajudar a controlar
nosso peso, e esta prece não funcionou. Mais tarde,
entendemos que nossas súplicas por ajuda pareciam dirigir-
se a ouvidos surdos. O que realmente estávamos pedindo a
Deus para fazer era remover a nossa gordura e, ao mesmo
tempo, nos permitir continuar comendo o que quiséssemos,
quando quiséssemos. A maioria de nós, também, precisava
aprender a pedir ajuda a outras pessoas e deixar Deus nos
falar por intermédio de nossos companheiros. Em CCA, o
poder de cura de Deus chega até nós por intermédio de
uma atenciosa comunidade de outros comedores
compulsivos. Antes de nos juntarmos à Irmandade de CCA,
nossas preces por ajuda talvez tenham permanecido sem
resposta, simplesmente, porque não fomos destinados a
encarar esta doença no isolamento. Fomos destinados a nos
abrir, de forma que pudéssemos aprender a realmente amar
os outros.
Qualquer que fosse o caso, depois de anos fazendo
promessas e dizendo preces, mas comendo compulsivamente
outra vez, ficamos sem fé em que Deus pudesse devolver
nossa sanidade em relação à comida. Acreditávamos inte­
lectualmente que Deus pudesse fazer qualquer coisa, mas
no fundo de nossos corações, “sabíamos” que Deus não
poderia ajudar-nos nesta área de nossas vidas. Era este
conceito negativo, a respeito de Deus, que teríamos de
mudar se quiséssemos encontrar recuperação. Como
poderíamos fazer isto? Tornamo-nos dispostos a começar do

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zero com relação ao nosso Poder Superior. Nosso conceito
sincero de Deus não estava funcionando; então, nos
tornamos dispostos a que ele fosse modificado. Assim como
o ateu ou o agnóstico, podemos começar a fazê-lo per­
guntando-nos o que, exatamente, precisávamos e queríamos
que Deus fosse e fizesse por nós. Então agíamos como se
Deus fosse exatamente o que queríamos e precisávamos
que o nosso Poder Superior fosse. Nos dispusemos a
abandonar qualquer conceito sobre Deus que não estivesse
nos ajudando a nos recuperar do comer compulsivo.
Tivemos que substituir nossas velhas ideias sobre Deus, por
uma fé que funcionasse. Isto era humilhante e assustador
para nós, mas, uma vez que nos dispusemos a fazê-lo, coisas
surpreendentes começaram a acontecer.
Para todos nós – ateus, agnósticos e religiosos também
– vir a acreditar foi algo que aconteceu ao começarmos a
tomar atitudes que os outros disseram que funcionaram
para eles. Se acreditávamos ou não que essas atitudes
funcionariam para nós, não parecia importar. Uma vez que
tomamos uma atitude e vimos que ela funcionava, come­
çamos a acreditar. Então tentamos seguir outras sugestões e
nossas vidas começaram a ser transformadas.
Essa disposição para agir com fé, então, era a chave
para o segundo passo. Era o começo de um processo de
cura que nos aliviaria da compulsão por comer demais e
traria estabilidade para nossas vidas desequilibradas. Ao
respondermos com ação ao amor que nos foi demonstrado
em CCA, o resultado foi uma nova fé em nós mesmos, nos
outros e no poder deste amor. Começamos a desenvolver
uma nova relação com um Poder maior que nós mesmos, e
estávamos prontos para seguir em frente com nosso
programa de recuperação.

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TERCEIRO PASSO

Decidimos entregar nossa vontade e


nossa vida aos cuidados de Deus,
na forma em que O concebíamos

Diz-se que os três primeiros passos do programa de


Comedores Compulsivos Anônimos são simples: “Eu não
posso; Deus pode. Acho que deixarei aos cuidados de Deus”.
No primeiro passo, nos convencemos de que não podemos
nem administrar nossa alimentação, nem outros problemas
da nossa vida, apenas pela nossa própria vontade. No segun­
do passo, acrescentamos a esta aceitação de nosso completo
desamparo uma recém descoberta fé na existência de um
Poder maior que nós, que nos pôde aliviar da obsessão por
comida e restaurar nossa sanidade em todas as áreas da vida.
É impossível dar o terceiro passo sem que, antes,
tenhamos dado os dois primeiros. Entretanto, uma vez que
tenhamos admitido completamente de nossa falta de impo­
tência e tenhamos acreditado que existe uma solução, o
terceiro passo é simples. Se quisermos viver livres da doença
mortal do comer compulsivo, aceitamos ajuda sem restrições
de um Poder maior do que nós. Dizemos sim para este
Poder, decidindo, daquele momento em diante, seguir a
orientação espiritual ao tomar cada decisão.
Note que dissemos que este passo é simples; não dis­
se­mos que é fácil, porque para cada um de nós esta decisão
significa que devemos, então, adotar um modo novo e não
familiar de pensar e agir na vida. A partir de agora,
abandonamos nossas noções preconcebidas sobre o que é
certo para nós. Quando enfrentamos opções, procuramos
sinceramente orientação de nosso Poder Superior e, quando
essa orientação vem, agimos de acordo com ela.

15
Nosso novo modo de vida começa com a boa vontade
para adotar toda uma nova atitude em relação ao controle
de peso, à imagem corporal e à alimentação. Nosso
programa de doze passos é o aspecto mais importante que
distingue CCA dos programas de dieta e perda de peso, que
tentamos no passado. Esses sistemas nos deram dietas a
seguir, mas nos fizeram responsáveis por segui-las. Em CCA
não nos dão dietas. Perda de peso não é o nosso único
objetivo, e aceitamos que mesmo um corpo “perfeito” ( se é
que existe tal coisa) não nos faria felizes. Nosso propósito
primordial é abstermo-nos de comer compulsivamente, e
sabemos que, para fazer isso, precisaremos de ajuda.
Uma vez ou outra, desde o momento em que ingres­
samos em CCA, a maioria de nós experimentou um período
de completa liberdade da obsessão por comida e da
compulsão por comer demais. Para muitos de nós, esta
liberdade veio quando demos o terceiro passo e entregamos
todo problema ao nosso Poder Superior. De repente, já não
pensávamos muito em comida e em comer. Quando a hora
da refeição chegava, comíamos moderadamente, sentíamo-
nos satisfeitos e parávamos de comer. Foi como se algum
milagre nos tivesse dado uma atitude saudável com relação
à comida e ao comer.
Para a maioria de nós, entretanto, este alívio não
durou para sempre. Gradualmente, a comida recuperou seu
domínio sobre nossos pensamentos. Eventualmente, chegou
o dia em que outra vez queríamos comida, de que não
precisávamos, e ficar sem comer compulsivamente tornou-
se mais difícil para nós. Significaria isso que não teríamos
dado realmente o terceiro passo, apesar de tudo? Algumas
vezes esse foi o caso, mas, geralmente, significava sim­
plesmente que a lua de mel com CCA havia terminado. O
que precisávamos agora era uma maneira de ficarmos
abstinentes de forma duradoura; e viver, com sanidade, os
bons e maus momentos.

16
Frequentemente causávamos problema a nós mesmos,
porque não percebíamos que existem alguns comporta­mentos
alimentares, com os quais podíamos lidar tranquilamente, e
outros, com os quais não podíamos. Muitos CCAs têm sido
capazes de identificar certos comportamentos alimentares ou
comidas que tendem a nos induzir a comer compulsivamente.
A aceitação desses fatos sobre nós mesmos nos dá esperança,
pois sabemos que, eliminando simplesmente esses compor­
tamentos alimentares e essas comidas de nossas vidas,
lutaremos menos com nossa doença.
Em CCA, entretanto, não há listas de comidas e
quantidades, ou “faça” e “não faça”, definindo a absti­
nência. Somos pessoas com nossas próprias necessidades
nutricionais individuais e descobrimos que uma opção
saudável, para alguns de nós, pode ser fatal para outros. As
pessoas, que vêm ao CCA, ficam confusas, algumas vezes,
pela falta de regras de dieta. “Se CCA não nos dita regras a
seguir”, elas perguntam, “como vamos achar a orientação
necessária para evitar comer compulsivamente?” A decisão
que tomamos no terceiro passo responde a esta importante
pergunta. Descobrimos que, quando desistimos da vontade
própria, no que diz respeito à comida, e entregamos nossas
vidas completamente ao nosso Poder Superior, recebemos
todos os tipos de orientação.
Por exemplo, após anos gastos na luta contra essa
doença, alguns de nós fomos capazes de dar uma olhada
honesta em nossa experiência passada e de identificar os
tipos de comportamentos alimentares específicos, que nos
dão mais problemas. Outros receberam restrições alimentares
de profissionais qualificados por causa de problemas ou
necessidades específicas. Muitos de nós sabemos muito
sobre boa nutrição, mas nunca fomos capazes, anteriormente,
de colocar esse conhecimento em prática porque nossa
obsessão por comida interferia. Agora que estamos trabal­
hando os passos, nos foi dado o poder de escolha em

17
relação ao nosso comportamento alimentar. Nosso senso
comum nos dirá como evitar nossas áreas específicas de
problemas e seguir planos nutricionais sadios.
Às vezes, quando nos sentimos confusos sobre
abstinên­ cia, muitos de nós obtivemos ajuda discutindo
nossos problemas particulares com nossos padrinhos. Claro
que a responsabilidade final, pelo que comemos e não
comemos, é nossa, mas descobrimos que um padrinho
pode, frequentemente, dar sugestões que nos ajudam a
encontrar nosso caminho.
Toda essa experiência, conhecimento e ajuda são
ampliados por uma fonte de sabedoria dentro de nós, que
se torna mais poderosa ao nos recuperarmos do comer
compulsivo e desenvolvermos nossa relação com nosso
Poder Superior através da prece e da meditação. Este recurso
interior é a nossa intuição. Quando colocamos nossa vontade
e nossas vidas sob os cuidados de Deus, no terceiro passo,
oferecemos a Deus nossa intuição também. Intuição é,
supostamente, a linha direta de Deus com nossas mentes e
corações, mas nossos problemas e nossa obstinação
interferiram nesta conexão. Ao trabalharmos os passos, a
interferência começa a ser removida, e a intuição começa a
funcionar convenientemente, ajudando-nos a focalizar a
atenção na vontade de Deus para com nossa alimentação e
para com a maneira de vivermos nossas vidas.
É importante termos em mente que o conhecimento
sobre nós mesmos e nossas necessidades nutricionais é inútil
sem o tipo de ajuda que encontramos em CCA, porque con­
tinuamos impotentes para aplicá-los. Muitos de nós tentamos,
durante anos, encontrar a maneira perfeita de comer e não
abandoná-la. A fim de continuarmos abstinentes, precisaremos
ter um Poder maior que nós mesmos, atuando diariamente
em nossas vidas. Isto está sempre disponível para nós, con­
tanto que continuemos trabalhando os doze passos e vivendo
nossa decisão de confiar na orientação de Deus em tudo que

18
fazemos. Ao nos tornarmos cientes de quais deveriam ser
nossas diretrizes alimentares, pedimos a Deus disposição e
capacidade para viver de acordo com elas a cada dia.
Pedimos e recebemos, primeiro, a disposição, e, em seguida,
a capacidade. Podemos contar com isso sem falta.
Ao continuarmos a nos abster, descobrimos que
podemos depender de Deus para eliminar nosso anseio pela
maneira de comer que nos prejudica. Na maior parte do
tempo, não mais queremos comer insensatamente e
passamos a preferir alimentos que são bons para nós. Este
milagre de sanidade é uma realidade diária para milhares de
comedores compulsivos em recuperação. Com Deus desco­
brimos que raramente ficamos obcecados por comer e por
comida, de modo que é possível para nós continuarmos a
comer, com moderação, refeições nutritivas, um dia de cada
vez, dia após dia, mês após mês, ano após ano.
Chegamos alcançar algum dia a liberdade permanente
da obsessão por comida? Sim e não. Veteranos em CCA têm
esta miraculosa liberdade na maioria dos dias mas, ocasio­
nalmente, a obsessão volta. Como atravessamos estes perío­
dos sem nos empanturrar? Não entramos em pânico. Em vez
disso, tranquilamente reafirmamos nossos planos pessoais e
pedimos ao nosso Poder Superior para nos ajudar a continuar
vivendo dentro deles. Então nos desviamos da comida e do
comer para localizar nossa atenção na Irmandade de CCA e
nos doze passos. Ao trabalharmos os passos, usando os
instrumentos do programa – planejamento alimentar1, litera­
tura, escritos, reuniões, telefone, apadrinha­mento, anonimato,
serviço e plano de ação – encontramos a ajuda de que pre­
cisamos. Os companheiros de CCA afetuosamente nos lem­
bram que “isto também passará”. Passa, e a nossa obsessão é
removida outra vez. Este modo de vida abstinente continua

1 - O instrumento abstinência, conforme enumerado na primeira edição, foi substituído pelo


instrumento “planejamento alimentar” na Conferência de Serviço Mundial de 1995, de forma que a
abstinência permaneça como nosso propósito primordial conforme descrito no preâmbulo de CCA.

19
numa base diária, enquanto continuarmos a confiar em um
Poder Superior em nossas vidas, renovando diariamente
nosso compromisso do terceiro passo.
Inexperientes neste modo de vida, muitos de nós temos
perguntado: “Como eu chego a esta decisão de entregar
minha vontade e minha vida a um Poder Superior? O que
exatamente eu tenho que fazer? Uma coisa que ajuda é
compreender que, uma vez que tomemos esta decisão,
encaramos todas as escolhas como encaramos escolhas de
comida e de comportamentos alimentares. Não faremos mais
simplesmente o que sentimos vontade de fazer ou o que
pensamos poder fazer impunemente. Em vez disso,
procuramos honestamente saber a vontade de Deus para
nós; então, agiremos de acordo com ela. Desistimos do medo
e da indecisão, sabendo que, se formos sinceros, nosso Poder
Superior nos dará o conhecimento de nosso melhor caminho
na vida, junto com a disposição e capacidade para seguir
esse caminho, mesmo quando parece difícil e desconfortável.
Para saber qual a vontade de Deus, podemos nova­
mente recorrer à nossa intuição e à sabedoria de mentores
espirituais. Se alguma coisa tem repetidamente funcionado
bem para nós ou para alguém mais, numa situação similar,
podemos supor que funcionará na nossa situação atual,
trazendo benefícios a nós e a outros, o que é a vontade de
Deus. Por exemplo, podemos descobrir pela experiência
que, quando nos sentimos instáveis, ir às reuniões de CCA
geralmente restaura nossa sanidade. Portanto, podemos
supor que é a vontade de Deus, para nós, que continuemos
frequentando as reuniões regularmente, mesmo quando não
temos vontade. Ou então, quando estamos em um grupo de
pessoas que estão fofocando sobre alguém de quem não
gostamos, podemos ficar inclinados, a princípio, a nos juntar
a elas com uns poucos comentários de nossa parte, mas
aprendemos por experiência que fofoca não é bom para
nós, sabemos, portanto, que é vontade de Deus que não

20
tomemos parte nessa conversação danosa. Não precisamos
de sinais especiais nem de uma voz sobrenatural para nos
dizer o que Deus quer para nós na maioria de nossas
escolhas de cada dia. Honestidade, senso comum e uma
disposição sincera de seguir nosso novo caminho espiritual
são suficientes para mostrar o caminho.
Quando nos deparamos com a indecisão, lembramos as
palavras do Grande Livro de Alcoólicos Anônimos: “Aqui pedi­
mos a Deus inspiração, um pensamento intuitivo ou uma
decisão. Relaxamos e ficamos calmos. Não lutamos. Ficamos
frequentemente surpresos com o modo como as respostas
corretas chegam após termos tentado isso por um momento. O
que costumava ser pressentimento ou inspiração ocasional
gradualmente se torna parte integrante do trabalho da mente”.2
Ao tomarmos decisões maiores, naturalmente, não
vamos supor que todo pensamento, que nos vem à cabeça,
é inspirado por Deus. Quando estamos considerando tomar
uma atitude fora do habitual, vamos querer consultar um
padrinho ou um guia espiritual. Não é tarefa dessa pessoa
decidir por nós; nenhum ser humano pode fazer isso. Mas
uma pessoa, que está de fora da nossa situação imediata e
tem alguma experiência neste modo de vida, pode-nos
ajudar a aplicar princípios espirituais acertados na apren­
dizagem da vontade de nosso Poder Superior para nós.
É dessa forma que conduzimos nossas vidas, uma vez
que tomamos a decisão requerida no terceiro passo. Nenhum
de nós pode seguir esse modo de vida perfeitamente, mas
descobrimos que nosso sucesso na recuperação e que nossa
libertação da obsessão por comida estão na proporção
direta de quão sinceramente tentamos viver dessa maneira.
O que necessitamos para trabalhar o terceiro passo é
de uma verdadeira disposição para viver pela vontade de

2 - Reimpresso de Alcoholics Anonimous, 3ª Ed. ( New York: Alcoholics Anonimous World Services,
Inc. 1976), p. 86-87, por permissão do editor.

21
Deus, um dia de cada vez. Tendo esta disposição, não
deixamos que qualquer dúvida ou confusão, que talvez
ainda tenhamos, nos impeça de agir. Concentramo-nos no
lugar em que pensamos que Deus esteja ou no que achamos
que ele seja e dizemos em voz alta, com palavras de nossa
própria escolha, que agora voltamos nossa vontade e nossas
vidas para nosso Poder Superior, não ocultando nada.
Quando fazemos esta prece sinceramente, tomamos a
decisão chave de mudança de vida, que nos levará à recu­
peração. Demos o terceiro passo. Temos agora uma nova
reação quando enfrentamos um problema ou uma decisão,
quer digam respeito à comida, à vida ou às nossas próprias
emoções escapistas. Ao invés de agir por impulso, fazemos
uma pausa longa o bastante para saber a vontade de Deus.
Então, ao invés de recorrer à força de vontade, relaxamos e
nos abrimos para receber ajuda de nosso Poder Superior.
Tudo que precisamos dizer é: “Deus, por favor, ajude-me a
fazer Sua vontade.”
Uma Vez que nós, comedores compulsivos, tenhamos
realmente dado o terceiro passo, não podemos falhar na
recuperação. Ao vivermos nossa decisão diariamente, nosso
Poder Superior nos guia através dos nove passos restantes.
Quando hesitamos, somos lembrados do nosso compromisso
de viver somente a vontade de Deus e confiamos que a
disposição e a capacidade virão se apenas pedirmos por
elas. Quando nos desviarmos do caminho, nosso Poder
Superior nos guiará de volta, uma vez que nós, sinceramente,
estejamos tentando saber e fazer a vontade de Deus.
Podemos encarar com segurança qualquer situação que a
vida nos traga, porque não mais temos que encará-la
sozinhos. Temos o que precisamos toda vez que estivermos
dispostos a deixar de lado a obstinação e humildemente
pedir ajuda.

22
QUARTO PASSO

Fizemos minucioso e destemido


inventário moral de nós mesmos.

O quarto passo pede que examinemos nossas vidas


até o presente momento, escrevendo todos os acontecimentos
e atitudes importantes, de natureza moral ou ética, nossos
sentimentos a respeito deles e os defeitos de caráter dos
quais essas atitudes se originaram. Escrever este inventário é
um importante processo que põe à prova nosso compromisso
com o programa de doze passos. Como podemos encarar
este desafio sem medo, como o passo sugere?
Aqueles de nós que completaram o quarto passo des­
cobriram que fazer este minucioso e destemido inventário
moral foi uma das coisas mais amorosas que jamais fizeram
por si mesmos. Quando olhamos o passado honestamente
– quem fomos e o que fizemos – começamos a nos entender
melhor. Essa compreensão era o início da recuperação
emocional. Muitos tínhamos vivido, até o momento, com
uma secreta sensação de vergonha. Carregávamos, no
fundo de nossos corações, a sensação de que éramos inúteis
ou insignificantes. Frequentemente, essa vergonha vinha de
culpas não resolvidas, por erros com os quais nunca
tínhamos lidado completamente. Nunca havíamos encarado
nossos erros honestamente nem os havíamos admitido.
Desta forma terminávamos nos sentindo envergonhados.
Escrever nosso inventário do quarto passo nos permitiu
começar a arrumar as desordens do passado, para podermos
recomeçar a viver a vida em melhores condições.
A autoanálise que fazemos no quarto passo é essencial
para nos recuperarmos do comer compulsivo. Este passo dá
continuidade a um processo de transformação que começa

23
com a nossa admissão de impotência no primeiro passo, um
processo de crescente honestidade e autoconsciência que
gradualmente nos libertará da escravidão do ego. Nossos
problemas do passado têm guiado nossas ações e
sentimentos durante anos, geralmente de forma inconsciente.
Quando encaramos os problemas, eles perdem o poder de
nos sufocar e controlar. As amarras da obsessão soltam-se
uma a uma, por si mesmas, e então somos capazes de saber
e realizar a vontade de nosso Poder Superior mais facilmente,
sem a necessidade de nos protegermos de sentimentos
desconfortáveis comendo compulsivamente.
Achamos melhor fazer a abordagem deste inventário
com as palavras “destemido” e “minucioso” em primeiro
lugar no nosso pensamento. Muitos de nós nos tornamos
peritos em nos decepcionarmos conosco, depois de anos
nos enganando em relação a quanto comíamos e aos
problemas que nosso comer compulsivo estava nos causando
física, emocional e espiritualmente. Mentíamos para nós
mesmos sobre outros problemas também, negando que
cometíamos erros, que estávamos errados sobre certas
coisas, que precisávamos mudar. Nós precisamos mudar se
queremos recuperar. A mudança começa com honestidade.
Ao trabalharmos o quarto passo, desenvolvemos uma nova
capacidade para ver nossa própria desonestidade e uma
maior disposição para viver na verdade.
Em teoria, o quarto passo é um inventário para ser
feito depois de termos parado de comer compulsivamente,
pois, então, já teremos a clareza de mente necessária para
sermos completos em nosso autoexame. Alguns de nós,
entretanto, fomos em frente com o inventário do quarto
passo, assim que terminamos os três primeiros passos,
mesmo se não estávamos abstinentes ainda. Percebemos
que escrever o inventário nos ajudou a viver de acordo com
nossa decisão do terceiro passo, e, em muitos casos, ajudou-
nos a ficarmos abstinentes.

24
De fato, aprendemos que adiar o quarto passo até
sentirmos que podemos fazê-lo “perfeitamente” apenas adia
nossa recuperação. Alguns de nós gastamos meses procurando
conselhos de padrinhos, amigos e companheiros de reuniões,
estudando todos os tipos de literatura sobre o assunto,
procurando uma maneira “certa” de fazer o quarto passo.
Quando nossos padrinhos nos disseram: “O impor­ tante é
apenas fazê-lo”, não entendemos. Até que tivéssemos feito
este passo, não percebemos que o perfeccionismo era um dos
incômodos defeitos de caráter de que precisávamos nos livrar.
Muitos de nós adiamos o início de um quarto passo
simplesmente porque não queríamos fazê-lo. Dizíamos que
ainda não estávamos dispostos; mas, quando chegou a
hora, estar disposto a fazer o inventário e querer fazê-lo
eram duas coisas diferentes. Às vezes, começávamos o
programa com entusiasmo, mas mergulhávamos novamente
na doença, enquanto esperávamos que o desejo de fazer o
quarto passo tomasse conta de nós. Descobrimos que uma
simples oração pedindo disposição funciona para nos fazer
seguir adiante com o inventário, especialmente quando a
oração é seguida de alguma ação adicional. Qualquer ação,
não importa quão pequena, nos ajuda a superar a pro­
crastinação mortal. Também ajuda se seguirmos em frente
com o compromisso de trabalhar neste passo regu­larmente
e sinceramente até que esteja terminado.
Descobrimos que era necessário escrever nossos inven­
tários. Qualquer pessoa que tenha feito um inventário numa
loja ou outro tipo de negócio, verificou que é difícil saber
exatamente o que temos em estoque, a não ser que o
escrevamos. O processo de escrever nos ajudou a examinar
os sentimentos que acompanhavam nossas ações. Come­
çamos a ver claramente como algumas de nossas reações
nos convinham, enquanto outras nos desequilibravam emo­
cionalmente, estabelecendo padrões de pensamento nega­
tivo e comportamento autodestrutivo.

25
Às vezes começamos o quarto passo sem saber por
que ele era necessário, fazendo-o simplesmente porque nos
haviam dito que ele ajudaria a nos recuperarmos da
compulsão por comida. Tentamos fazê-lo e funcionou. Este
é um exemplo do que queremos dizer quando falamos que
no CCA aprendemos a utilizar e, não, a analisar. Aqueles de
nós que tentaram analisar este passo, e por que ele deveria
funcionar, logo descobriram que estavam perdendo tempo.
Analisar-nos antes de fazer o passo não nos ajudou também.
Funcionou melhor quando mergulhamos no inventário e
começamos a escrever.
Que forma nosso inventário deve ter? Nenhuma forma
específica, uma vez que estamos escrevendo nosso inventário
para nós mesmos e nunca nos foi exigido que o mostrássemos
para ninguém. De fato, verificamos que a maneira como
fazemos o inventário faz pouca diferença. O que conta é
que o façamos. Nossos padrinhos podem ajudar, sugerindo
meios de fazer o inventário e servindo como uma espécie de
concha acústica durante o processo de escrita.
Muitos de nós usamos as orientações contidas no
Grande Livro de Alcoólicos Anônimos, páginas 82 e 83, 3 e
descobrimos que essa é uma ótima forma de fazer nosso
inventário. Começamos escrevendo nomes de pessoas,
instituições e princípios em relação aos quais sentimos
ressentimentos, medo ou outros sentimentos descon­
fortáveis. Então, ao lado de cada nome escrevemos os
acontecimentos que nos fizeram ter tais sentimentos.
Finalmente, ao lado de cada acontecimento escrevemos
nosso instinto básico afetado pelo incidente e qualquer
traço de defeito de caráter, em nós, que nos possa ter feito
vulneráveis à mágoa.
Para a maioria de nós, é mais fácil prosseguir com o
quarto passo se reservamos tempo para reconhecer nossas

3 - Edição em Língua Portuguesa

26
qualidades, além dos nossos defeitos. Não importando
quantos problemas tenhamos, cada um de nós também tem
características positivas. É importante reconhecê-las em
algum momento do processo do inventário. Existem várias
maneiras de fazê-lo. Alguns CCA’s acham útil enumerar
qualidades e conquistas pessoais, logo no início do inven­
tário. Alguns de nós fazemos uma linha de cima a baixo no
meio de cada página. Então colocamos, de um lado, as
características positivas, pormenores e exemplos de nossa
história pessoal, e, do outro lado, características negativas,
pormenores e exemplos. Outros dedicam um parágrafo para
cada qualidade, seguido de um parágrafo sobre o defeito
correspondente. Alguns de nós fizemos o inventário em
ordem cronológica, enumerando aconte­cimentos, emoções,
características positivas e negativas de cada fase. Ter essa
visão equilibrada de nós mesmos nos encoraja a ser mais
objetivos e ajuda a investigar defeitos sem medo e com
perseverança.
Uma boa maneira de nos avaliarmos é nos fazendo
perguntas sobre traços de caráter específicos. Então os
examinamos, escrevendo as formas através das quais exi­
bimos essas características em nossas vidas.
Por exemplo, devemos nos perguntar se temos sido
orgulhosos. A arrogância e a falsa modéstia têm caracterizado
nosso comportamento? Se têm, sido orgulhoso, nós o
colocamos em nosso inventário. Então, ilustramos a carac­
terística do orgulho, enumerando exemplos de como este
nos fez agir.

Temos fome de poder? Gostamos de controlar os


outros? De forma tentamos controlar nossos cônjugues,
pais, irmãos e irmãs, filhos, amigos, patrões, professo­
res ou outros? Manipulamos as pessoas? Nós as
intimidamos?

27
Temos sido possessivamente ciumentos em relação a
um colega o a um amigo?

Como reagimos quando as coisas não acontecem do


nosso jeito?

Como reagimos quando as pessoas discordam de


nós?

Somos intolerantes com as diferenças?

Tentamos acalmar águas turbulentas, ou somos encren­


queiros?

Insistimos em ser o centro das atenções? Agimos


agressivamente apenas para sermos notados? Temos
medo de não sermos reconhecidos, respeitados ou
amados? Temos medo de não obtermos a nossa parte
ou de não sermos ouvidos? Fizemos pressão para
sermos o primeiro da fila? Como o egocentrismo
orgulhoso nos fez agir?

Somos caçadores de status? Quanto dinheiro, tempo e


energia temos gasto tentando impressionar, ou nos
mostrar melhores que os outros?

Somos esnobes? Prestamos mais atenção as pessoas


“importantes” que a pessoas “comuns”?

Procuramos diminuir as pessoas ou colocá-las no seu


lugar?

Temos depreciado alguém repetidamente?

Já fizemos uma trapaça com alguém?

28
Condenamos os outros por coisas em que também
temos culpa? Somos hipócritas, mesmo denunciando
a hipocrisia dos outros?

Já difamamos alguém deliberadamente?

Somos indulgentes conosco ao fazer fofoca ou ao ouvir


e apreciar a fofoca dos outros?

Somos supersensíveis, tomando rapidamente como


ofensa o que as pessoas nos dizem? Ou rimos de tudo,
fingindo que nada nos machuca?

Somos egoístas, deixando que nossos próprios desejos


nos governem, enquanto ignoramos as necessidades
dos outros? Gastamos o dinheiro necessário à nossa
família a fim de alimentar nossa doença ou satisfazer
outros desejos? Temo-nos esquivado de nossos filhos
ou parceiros quando eles precisam de nós?

Ou deixamos as necessidades dos outros nos gover­


narem enquanto ignoramos as nossas? Assumimos as
responsabilidades dos outros, fazendo por eles o que
eles deveriam estar fazendo sozinhos?

Estamos dispostos a assumir a responsabilidade pelos


problemas que causamos, ou tentamos transferi-la para
outros? Quando racionalizamos nosso mau compor­
tamento?

Somos intolerantes? Já negamos tratamento gentil a


alguém por causa de raça, religião, política, sexo ou
algum tipo de incapacidade? Contamos piadas racistas
ou de discriminação étnica ou sexual? Se não, temos
medo de dizer que não gostamos desse tipo de “humor”?

29
Somos capazes de admitir nossos erros e reconhecer
que os outros estão certos às vezes? Temos a mente
aberta, ou somos condescendentes?

Aceitamos as nossas falhas e as dos outros como algo


natural, ou criticamos, condenamos e reclamamos?

Temos necessidade de agradar as pessoas? Precisamos


que todos gostem tanto de nós que estabelecemos
como nosso objetivo descobrir o que as pessoas
querem e procurar satisfazê-las, não importando o
quanto isso nos custe? Temos medo de dizer não para
os outros?

Somos rebeldes, aberta ou secretamente? Qual é a


nossa atitude em relação a leis, regras e pessoas com
legítima autoridade sobre nós?

À medida que fazemos o inventário também olhamos


para nossos medos. Para muitos de nós, medo, preocupação
e ansiedade representaram um papel chave em nossas vidas,
tirando nossa felicidade e nos impedindo de realizar nossos
sonhos. Só quando fazemos o inventário no quarto passo é
que começamos a perceber que não temos de viver com
medo. Primeiro listamos as pessoas, lugares e coisas que nos
têm causado medo. Então examinamos de que outras
formas o medo nos tem afetado.

Somos ansiosos a respeito do futuro? Quanto do nosso


tempo gastamos nos preocupando?

Temos medo das pessoas? Nos isolamos dos nossos


amigos ou da sociedade?

Temos medo de nos aproximar de novos pessoas?

30
Temo-nos afastado dos outros, esperando que eles
venham a nós?

Estamo-nos relacionando repetidamente com o tipo de


pessoas que mental ou fisicamente abusam de nós?

Estamos receosos de acabar com relacionamentos


destrutivos ou inapropriados para nós?

Temos adiado a procura de novos trabalhos ou


carreiras, devido à preocupação e ao medo? Estamos
tão temerosos de mudança que permanecemos em
situações que não nos fazem bem?

Estamos com medo de nos expressar, de dizer aos


outros como nos sentimos?

Estamos com tanto medo de conflito que aceitamos


abusos em vez de nos arriscarmos a ser assertivos?

Quando o medo nos impediu de tomar outras atitudes


mais adequadas? Ficamos parados e permitimos que
outra pessoa fosse machucada quando podíamos ter
feito alguma coisa para impedir isso? Já deixamos
outra pessoa ser culpada ou punida por alguma coisa
que fizemos?

Já abandonamos uma pessoa a quem tínhamos a


responsabilidade de ajudar?

Raiva e ressentimento são manifestações comuns de


nossa doença. De fato, a maioria de nós come compulsiva­
mente quando sente raiva ou ressentimento. À medida que
continuamos escrevendo nosso inventário, é importante enu­
merar as pessoas e as instituições das quais guardamos rancor.

31
Estamos nos agarrando a um ressentimento porque
uma vez ou outra alguém ameaçou ou prejudicou
nosso amor-próprio, nossa segurança, nossas ambições
ou nossos relacionamentos? Temos tentado tirar a
desforra de alguém que nos magoou? Fazemos questão
de nunca esquecer quando alguém nos faz mal?

Guardamos rancor por alguém, devido a ciúmes?


Temos inveja da aparência de outras pessoas, da
riqueza, da vida sexual, da popularidade, das posses
ou da posição na sociedade? Se este for o caso,
enumeramos todos esses ciúmes no nosso inventário.

Nos odiamos por termos falhado em fazer certas coisas,


ou pelo fato de sermos comedores compulsivos? Se
assim for, nos incluímos em nossa lista de ressen­
timentos.

Olhando para a nossa raiva, nos perguntamos se


tendemos a ser ríspidos, a não perdoar e a ser hipócritas.

Direcionamos mal nossa raiva? Agredimos aqueles


mais chegados a nós, em vez de dizermos a pessoa
com quem estamos realmente aborrecidos o porquê
da nossa raiva?

Temos ofendido os outros verbal ou fisicamente?


Precisamos enumerar cada incidente em que
lembramos ter atacado uma outra pessoa.

Nós já maltratamos animais?

Nós já tiramos a vida de alguém por causa da nossa


raiva, medo, descuido ou outra razão?

32
Como a ganância tem afetado nossas vidas? Somos
generosos, ou egoístas? Ficamos satisfeitos quando
nossas necessidades são preenchidas, ou estamos sem­
pre querendo mais, raramente contentes com o que
temos?

Somos obcecados por dinheiro? Acreditamos que mais


dinheiro solucionaria nossos problemas? Gastamos
dinheiro mais rapidamente do que ganhamos?
Administramos com responsabilidade o dinheiro que
temos? Pagamos nossas contas?

De que maneira temos sido preguiçosos e indolentes?


Temos sido procrastinadores? E caso positivo, escre­
vemos sobre isto juntamente com as situações cujas
soluções adiamos. Somos perfeccionistas? Deixamos
para começar depois coisas que temos receio de não
podermos fazer perfeitamente?

Ou, por outro lado, nos apressamos descuidadamente


em fazer coisas sem a devida reflexão? Somos
impacientes?

Fazemos nossa parte nos grupos a que pertencemos,


ou nos colocamos de fora e esperamos que alguém se
voluntarie?

Somos excessivamente dependentes dos outros?


Esperamos que eles nos protejam das consequências
das nossas ações, que nos façam nos sentir bem, ou
que eles cuidem das coisas que deveríamos estar
fazendo por nós mesmos?

E sobre a luxúria? Que problemas o sexo nos tem


causado?

33
Temos vivido nossa vida sexual de forma a prejudicar
nossa autoestima? Temos sido promíscuos?

Temos gasto horas fantasiando sobre sexo, quando


poderíamos estar construindo melhores relaciona­
mentos?

Temos estado interessados somente no nosso próprio


prazer, nunca buscando agradar também nosso par­
ceiro sexual?

Temos procurado satisfazer nossos impulsos sexuais à


custa dos outros?

Temos dormido com o amante ou o parceiro de outra


pessoa? Enganamos nosso próprio parceiro ou
amante?

Alguma vez forçamos ou manipulamos alguém para


ter contato sexual conosco?

Já molestamos alguém sexualmente? Já tivemos


contato sexual com uma criança ou com alguém que
não era totalmente capaz de resistir?

Já abusamos da posição de confiança para fazer sexo


com alguém que procurou nossa ajuda?

Temos usado de intimidação para fazer sexo? Temos


abusado de uma posição de poder? Já ameaçamos ou
buscamos nos vingar de alguém se essa pessoa não
aceitou nossas investidas sexuais?

Usamos sexo ou gravidez como recursos para prender


alguém num relacionamento?

34
Já engravidamos alguém e não dividimos essa respon­
sabilidade?

Transmitimos uma doença quando sabíamos que


estávamos infectados?

De que outras maneiras fizemos mau uso do nossos


impulsos sexuais? O comer compulsivo tem deixado
muito de nós desinteressados em sexo. Temos sido injus­
tos com nossos parceiros e conosco, preferindo o isola­
mento e a comida em vez do risco da intimidade física?

Confiamos nas pessoas, ou não temos fé em alguém,


nem mesmo em nós?

Talvez não tenhamos sido capazes de confiar porque


não temos sido confiáveis. O desejo de ser honesto é
essencial para a recuperação no CCA. Com que
frequência dizemos a verdade? O quanto costumamos
mentir? Para quem temos mentindo e sob quais
circunstâncias? Sobre o que temos mentido?

Temos sido cínicos ou causado decepção? Temos


aproveitado da ignorância de alguém em vez de dizer
toda a verdade?

Temos guardado para nós dinheiro ou coisas que


encontramos em vez de devolvê-las para os seus
legítimos donos?

Já roubamos alguma coisa?

Precisamos enumerar cada incidente, que possamos


lembrar, no qual pegamos dinheiro, comida ou outras coisas
que não nos pertenciam.

35
Já estragamos a propriedade de alguém e não
consertamos ou pagamos pelos estragos?

Já trapaceamos alguém tirando-lhe dinheiro ou posses?


Em que ocasiões pedimos algo emprestado e não
devol­vemos?

Já revelamos um segredo a nós confiado?

Já trapaceamos em testes ou jogos ou concursos?


Fazemos da trapaça um hábito?

Enganamo-nos e mentimos para nós mesmos? Temos


vivido negando nossa forma de comer, nossos defeitos
de caráter ou nossa necessidade de mudar?

Pensamento negativo é outra forma de enganar a si


mesmo, que afeta muitos comedores compulsivos.
Temos tendência a enfatizar o lado escuro das coisas?

Somos agradecidos pelo que temos, ou ignoramos


nossas bênçãos, pensando naquilo que nos falta?

Somos otimistas, ou pessimistas? Concentramo-nos


em trabalhar pelo bem, ou nos tornamos obcecados
pelas coisas ruins que possam nos acontecer?

Nosso negativismo tornou triste a vida de outros que


vivem e trabalham conosco? Temos sido cínicos e
críticos?

Deixamo-nos levar pela autocomiseração? Fazemos o


papel de mártires?

36
O pensamento negativo, tal como o medo, é um hábito
do qual muitos de nós tivemos que nos livrar ao nos
recuperamos?

Depois de escrever nosso inventário, nós o revemos.


Enumeramos todas as coisas que podemos pensar sobre nós
mesmos, tanto as construtivas como as destrutivas?
Descobrimos que precisamos escrever todas as nossas
características, tendências, sentimentos, preconceitos e as
atitudes que daí resultam. Algumas de nossas atitudes serão
dolorosas de lembrar, mas as escrevemos mesmo assim.
Quando encaramos a culpa, que verdadeiramente nos diz: ”
Você cometeu um erro”, nos libertamos da vergonha, que
falsamente nos diz: “Você é um erro”.
Uma vez que tenhamos feito, verificado e revisto o
inventário, pedimos a Deus para nos ajudar a lembrar de
qualquer coisa a mais que deva ser acrescentada. Ficamos
algum tempo em calma meditação, concentrando-nos na
nossa completa disposição em enfrentar quaisquer verdades
sobre nós que Deus queira nos mostrar. Se percebemos que
deixamos de fora algum item importante, nós o incluímos
em nosso inventário. Ao continuarmos caminhando em
direção à recuperação, encontraremos mais defeitos e mais
caracte­
rísticas positivas. Agora, entretanto, tudo que
precisamos fazer é enumerar todas as coisas de que estamos
conscientes no momento. Tendo feito isto tão honestamente
quanto pudemos, temos a certeza de que escrevemos um
minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
Completamos então o quarto passo.
Olhando para trás, para o que escrevemos, não
devemos ficar desencorajados se o aspecto negativo supera
o positivo. Afinal de contas, se não encontrássemos nada
errado, não precisaríamos do nosso programa de recu­

37
peração. De fato, descobrimos que quanto mais defeitos
encontramos, mais nossas vidas podem melhorar, à medida
que continuamos trabalhando os doze passos.
Cada um de nós que completa o inventário no CCA
considera-o essencial para a nossa recuperação e o principal
fator de mudanças em nossas vidas. Ao alcançarmos o fim
do quarto passo, descobrimos que a promessa feita em
“Nosso Convite a Você”, de Comedores Compulsivos
Anônimos, começou a ser cumprida. Estamos “nos movendo
para além da comida e da ruína emocional, para uma mais
completa experiência de vida”.4

4 - Overeaters Anonymous ( Overeaters Anonymous, Inc., 1980), p. 3.

38
QUINTO PASSO
Admitimos perante Deus, perante nós mesmos
e perante outro ser humano,
a exata natureza de nossas folhas.

Ao longo de nossas vidas, muitos de nós temo-nos


sentido isolados em relação às outras pessoas. Sentíamos
que éramos estranhos e agíamos de acordo com tal
sentimento de formas diversas, uns sendo tímidos, outros
sendo arrogantes ou agressivos e alguns fazendo papel de
palhaços. Não importa como nos comportávamos, intima­
mente nosso sentimento era de solidão e isolamento. Agora,
examinando o quinto passo, vemos alguma coisa que é
possível fazer – uma atitude positiva que podemos tomar,
para pôr fim ao nosso isolamento.
No momento em que atingimos este ponto de nosso
programa de CCA, a maioria de nós já começa a se sentir
menos sozinho. Desde o momento em que ingressamos em
Comedores Compulsivos Anônimos aprendemos a aceitar a
acolhida carinhosa que encontramos e a ser parte de uma
Irmandade. Temos falado com os outros companheiros pelo
telefone, compartilhado durante as reuniões e discutido nossas
vidas em profundidade com nossos padrinhos e madrinhas.
Começamos a fazer amigos verdadeiros no CCA, com os quais
podemos conversar honestamente. Talvez tenha-se tornado
fácil compartilhar com outras pessoas a respeito de como nós
também agimos, enquanto estávamos comendo compulsiva­
mente. Em nível mais pro­ fundo entretanto, provavelmente
percebemos que há muito sobre nós mesmos que ainda não
compartilhamos com alguém. Isto é natural. Poucos de nós
fizeram um inventário moral antes de ingressar a CCA, e o
quarto passo trouxe novo discernimento e compreensão.
Tão logo concluímos o quarto passo, a maioria de nós
sentiu-se pronta para seguir adiante, rapidamente, fazendo

39
o quinto passo. Queremos nos livrar de nossos ressentimentos,
culpas e vergonhas enraizadas no passado, e percebemos
que compartilhar com outro ser humano os pormenores de
nosso passado é um passo importante em direção à
liberdade. Uma vez concluído este passo, não teremos mais
nada para esconder. É o começo do fim de nosso isolamento.
O quinto passo começa com nosso Pode Superior. A
maioria de nós percebe que, sem a ajuda de um poder maior
que nós mesmos, seremos incapazes de encarar com completa
honestidade os erros que cometemos no passado. É da
natureza humana apegar-se à ilusão de que nada fizemos de
errado, e através de anos de comer compulsivo tínhamos nos
tornado especialista em racionalização. Agora, com a ajuda
de Deus, deixamos a racionalização de lado e iniciamos a
prática da integridade. Encaramos a realidade de nossos
erros. Vemos a nossa parcela de responsabilidade na criação
da nossa própria infelicidade e percebemos a futilidade de
continuar culpando os outros pelo fato de comermos
compulsivamente e termos nossas vidas ingovernáveis.
No quinto passo, estamos aprendendo um novo modo
de vida. De agora em diante, iremos, prontamente,
reconhecer nossos erros, ao invés de procurar escondê-los
de nós mesmos e dos outros. Admitir com humildade nossos
erros perante Deus é o primeiro passo nessa nova direção.
Voluntariamente abrimos nossos corações para que uma
força capaz de modificar nossas vidas possa entrar e nos
curar. Olhamos para o inventário de nosso quarto passo
reconhecendo qualquer verdade relacionada com nosso
comportamento passado, não importando o quão dolorosa
ou constrangedora ela seja. Ao reconhecermos esses erros
perante Deus, começamos por fim a admiti-los perante nós
mesmos. Admitimos para nós mesmos quem somos e o que
fizemos. Ao fazer isso, ganhamos novas esperanças.
Começamos a sentir que podemos ser perdoados, iniciando
uma nova vida de forma mais saudável.

40
Uma vez que tenhamos admitido perante Deus e
perante nós mesmos as nossas falhas, podemos sentir que
lidamos completamente com nosso passado. Qual a neces­
sidade, podemos perguntar, de “lavarmos nossa roupa suja”
diante de uma outra pessoa? Será que está confissão não irá
simplesmente nos humilhar e diminuir, ainda mais, nossa já
baixa autoestima?
Na prática, o quinto passo tem efeito oposto. Quando
realmente praticamos o quinto passo com outro ser humano,
descobrimos que estamos sendo humildes sem sermos
humilhados. Muitos de nós sempre sentimos que teríamos
de ser melhores do que todo mundo ou não seríamos bons
de forma alguma. Através do processo do quinto passo,
começamos a perceber a realidade. Todo o nosso esforço
para passar à frente dos outros foi inútil. Não somos melhores
ou piores que os demais seres humanos: somos parte da
humanidade, moldados pelos mesmos desejos e necessidades
básicas, comuns a todas as pessoas. Aqueles dentre nós que
se sentiam diminuídos ou piores que os outros também
adquirem uma nova perspectiva. Conversando honestamente
com outra pessoa sobre nós mesmos, começamos a ter uma
sensação de alívio. Afinal, uma pessoa sabe tudo sobre nós
e nos continua aceitando incondicionalmente. Começamos
a nos perdoar e a nos ver como pessoas capazes, fortes e
honestas. E de fato somos: ao dar o quinto passo, provamos,
para nós mesmos, sermos capazes de cumprir uma tarefa
difícil e forte o bastante para sermos completamente
honestos com outro ser humano.
De fato, admitir a exata natureza de nossas falhas para
outro ser humano tem sido uma ideia amedrontadora para
a maioria de nós, tendo em vista que nunca antes nos
arriscamos a tal abertura com outra pessoa. Entretanto,
descobrimos que não admitimos verdadeiramente nossos
erros, até que tenhamos falado sobre eles com outra pessoa.
É somente através da discussão aberta sobre nossos defeitos

41
com uma pessoa compreensiva que podemos, finalmente,
começar a nos conhecer e a nos aceitar. Nada em nós, pode
ser modificado sem que o aceitemos antes. Ao nos ajudar a
conhecer e aceitar a nós mesmos, o quinto passo torna
possível nossa mudança e recuperação.
É importante que escolhamos alguém compreensivo e
digno de nossa confiança, a fim de completar o quinto passo.
Para muitos de nós, essa pessoa é o padrinho ou a madrinha
que nos ajudou a dar os quatro primeiros passos do programa.
Outros companheiros sentiram-se mais à vontade confiando
em uma pessoa que não o padrinho ou a madrinha. Qualquer
caminho é o caminho “certo”, desde que seja o certo para
nós. No nosso modo de entender, se escolhemos outra pessoa
que não o padrinho, não o estamos rejeitando.
Qualquer pessoa que se esteja recuperando em uma
Irmandade de doze passos e já tenha concluído seu quinto
passo, é, normalmente, uma boa escolha para nos ouvir. Essa
pessoa facilmente entenderá o que estamos tentando realizar
com o quinto passo. Todavia, não há regra alguma que diga
que nós não podemos confiar nosso quinto passo a uma
pessoa fora do programa – um terapeuta, por exemplo, ou
um conselheiro religioso. Pedimos a orientação de Deus, pen­
sa­mos um pouco sobre o assunto e, então, seguimos adiante.
Não estamos procurando por alguém que nos vá dizer
como lidar com nossos problemas. O que precisamos é de
uma testemunha amorosa, compreensiva, alguém que
guardará nossos segredos, que nos ouvirá sem nos julgar e
sem procurar nos “consertar”. Também desejamo-nos abrir
para alguém que seja suficientemente objetivo para nos
dizer se há algo evidente que omitimos e que nos possa
guiar, se necessário, através desse processo. O quinto passo,
normalmente, é nossa primeira tentativa de abrir totalmente
nossos corações para outro ser humano. A maioria de nós
necessita de uma orientação carinhosa para aprender essa
nova habilidade.

42
Ao trabalharmos esse passo fazemos mais do que sim­
plesmente relatar fatos do nosso passado que consideramos
serem nossos erros. Precisamos discutir a “exata natureza”
de tais erros. Isto quer dizer que vamos precisar falar sobre
por que agimos desta ou daquela forma, no passado. Quais
foram os sentimentos que nos levaram a tomar tais atitudes,
e como nos sentimos depois? Precisamos examinar o quanto
nos custaram essas ações. Por exemplo, não é suficiente
reconhecer que guardamos rancor e relação a determinada
pessoa; também precisamos falar sobre o que há em nossa
natureza que nos faz reagir dessa maneira. Somos ciumentos?
Será que não ficamos ressentidos por causa do nosso desejo
frustrado de querer controlar outra pessoa? Então discutimos
como esses sentimentos e atitudes negativas têm nos afetado
material, emocional e espiritualmente.
Algumas vezes, entender nossos motivos nos ajuda a
perdoar a nós mesmos. Frequentemente, vemos que, em
algum nível, estávamos lutando pela sobrevivência, quando
agimos daquela maneira. A maioria de nós descobriu que o
medo está na raiz de muitas de nossas emoções e atitudes
insa­nas. Ao progredirmos no programa de doze passos,
aprende­mos que nossos medos usualmente tem origem na
nossa incapacidade de acreditar que nossas necessidades
básicas serão atendidas. Talvez tenhamos boas razões para
nossa des­ con­ fiança; talvez as pessoas tenham falhado
conosco, colo­ cando-nos em situações para as quais não
estávamos emocionalmente preparados. Mesmo assim,
percebemos que precisamos superar nossas dúvidas. Se
queremos nos recuperar, precisamos aprender a confiar nas
outras pessoas e entregar nossas vidas aos cuidados de um
Poder maior que nós mesmos.
Para todos nós, aprender esse tipo de confiança tem
sido um processo gradual que toma muito tempo. Nosso
quinto passo é, na verdade, um gigantesco passo neste
processo. Ao revelar nossa vida passada, para outro ser

43
humano, e mostrar para esta testemunha nossos mais
profundos segredos, ficamos vulneráveis de uma maneira
que não acontecia desde nossa infância.
Podemos confiar em que essa pessoa não utilizará tais
confidências para nos prejudicar? Uma vez que estamos
determinados a melhorar, corremos este risco com boa
vontade. E, quando o fazemos, um milagre acontece. Um
outro ser humano nos conhece total e verdadeiramente,
ainda assim nos aceita como somos. Começamos a
experimentar um sentimento de confiança e sentimos que,
se outra pessoa nos pode aceitar incondicionalmente, talvez
nos possamos aceitar incondicionalmente também.
Algumas vezes, o processo de trabalhar os passos
quarto e quinto traz à nossa consciência mais do que nossos
defeitos de caráter. Algumas vezes descobrir velhos traumas,
experiências de ter sido abandonado, insultado, molestado
sexualmente ou vítima de estupro, são bem mais comuns
entre nós do que se gostaria de acreditar. Essas e ouras
lembranças foram tão profundamente dolorosas, se as
vivenciamos, que passamos a vida inteira fugindo de tais
recordações e comendo compulsivamente para encobri-las.
Até que tivéssemos começado lidar com elas, alguns de nós
percebemos que nossa abstinência era precária ou que
continuávamos a nos sentir infelizes, mesmo quando
estávamos abstinentes e trabalhando os passos. Em tais
casos alguns de nós suplementamos nosso programa de
CCA por meio de terapia com profissionais qualificados e
grupos especialmente concebidos para nos ajudar a lidar
com tais problemas. Ao mesmo tempo, a maioria de nós
percebeu que somente a terapia não consegue resolver
permanentemente seus problemas com a comida. Neces­
sitamos de contínuo envolvimento com os doze passos e
com CCA para contínua abstinência e recuperação.
Ao completarmos o quinto passo, pode ser que
venhamos a sentir muitas emoções, entre elas humildade,

44
alegria e alívio. Frequentemente, nos sentimos mais perto
que nunca do nosso Poder Superior, e mais cheios de amor
e confiança em relação às outras pessoas. Sentindo ou não
tais emoções, podemos descansar com a certeza de que
estamos mais perto de Deus e mais capazes de confiar nos
outros. Os frutos por termos completado, sinceramente, o
quinto passo poderão aparecer de imediato ou gradualmente,
mas seguramente aparecerão. Tendo dado o quinto passo,
estamos livres, finalmente. O terrível fardo de nossos erros
passados nos foi retirado. Descobrimos que podemos
encarar cada dia e cada desafio à medida que surgem.
No processo de compartilhar nosso inventário, nos
tornamos mais honestos conosco e com os outros, como
jamais tínhamos sido. Honestidade é um elemento chave
em nossa recuperação em relação ao comer compulsivo e,
sendo assim, desejamos desenvolver esse traço. A melhor
maneira de fazer isso é continuar trabalhando os dozes
passos. Dessa maneira podemos aprender como lidar com
nossos aspectos problemáticos, que descobrimos nos passos
quarto e quinto. Simplesmente saber o que está errado
conosco não é sempre suficiente. Os próximos passos, do
sexto ao décimo segundo, irão nos mostrar mais atitudes
que podemos tomar, para trazer as necessárias mudanças às
nossas vidas. A partir desse ponto começamos a aprender a
deixar para trás os defeitos de caráter que tantos problemas
nos causaram no passado.

45
46
SEXTO PASSO

Prontificamo-nos inteiramente a deixar


que Deus removesse todos esses defeitos
de caráter.

À primeira vista, o sexto passo parece fácil. Afinal,


quem, dentre nós não gostaria de ter todos os problemas
milagrosamente removidos, uma vez identificados? Quere­
mos ter êxito o mais rápido possível nessa tarefa de sermos
pessoas perfeitas. Muitos de nós somos tentados a passar
rapidamente pelo sexto passo sem lhe dar a devida atenção.
“Vá em frente, Deus!” dizemos. “Estou inteiramente
pronto”. Então prometemos renunciar aos velhos compor­
tamentos autodestrutivos, apenas para perceber que estamos
de volta às suas garras em pouco tempo. “Eu já me
conscientizei disso!”, nos censuramos. Nossos defeitos de
caráter parecem grudar em nós como cola, ao tentarmos,
repetidas vezes, entregá-los a Deus.
Na prática, o sexto passo acaba sendo um dos mais
difíceis dos doze passos, porque dizer que estamos
inteiramente prontos e estarmos inteiramente prontos são
duas coisas muito diferentes. Na verdade, não é para a
remoção dos defeitos que estamos prontos e sim para a
remoção das dificuldades que nossos defeitos nos causam.
Por que é tão difícil ficarmos inteiramente prontos para
nos livrar de nossos defeitos? Para a maioria de nós, a razão
principal é o medo. Estamos acostumados com nossas
velhas maneiras de pensar e agir, mesmo sabendo que são
nocivas. Não temos ideia do que faríamos sem elas porque
nunca lidamos com a vida de outra maneira. Frequentemente
sentimos que seríamos menos interessantes como seres
humanos sem alguns de nossos defeitos. Ao mesmo tempo

47
que não gostamos da dor que costumam nos causar, eles
são, de tal forma parte de nós que a ideia de tê-los
repentinamente removidos nos ameaça. Talvez os ressen­
timentos tenham dominado nosso pensamento por tanto
tempo que não sabemos sobre o que mais pensar. Ou talvez
estejamos com medo de que, se Deus eliminar nosso
cinismo, nossa mentira e nossa maledicência, ficaremos sem
nada interessante sobre o que conversar. Admitimos que
nossas velhas formas de nos relacionarmos com as outras
pessoas causaram dor e queremos deixá-las de lado. Mas
como iremos agir? Ao encarar honestamente o sexto passo
enfrentamos o medo de que nossos defeitos sejam como
fios que compõem o tecido de nosso ser, se Deus os remover
achamos que certamente nos desmancharemos.
Frequentemente enfrentamos um obstáculo ainda mais
difícil. Alguns de nossos defeitos não apenas são familiares e
cômodos para nós, eles também são agradáveis. Ficamos
animados ao dizermos uma mentira e não sermos
descobertos ou reprimidos; então nos convencemos de que
nossas falsidades, no final das contas, são inofensivas men­
tiras “brancas”. Nossas fantasias fazem com que nos
sintamos importantes, então não percebemos como elas nos
fazem desperdiçar o tempo que poderíamos usar para lidar
com nossas vidas reais. Deliciamo-nos ao descobrir
mexericos picantes e passá-los adiante; então, racionalizamos
dizendo que as pessoas sobre quem estamos falando
merecem isto, ou que elas nunca descobrirão. Alguns de nós
temos um certo prazer em brigar, ter acessos de raiva e con­
trolar as pessoas por meio dessas atitudes. De maneira geral,
podemos dizer o que quisermos sobre estar “completamente
pronto” para que Deus remova todos os nossos defeitos.
Mas, quando se trata de uma situação específica, preferimos
nos agarrar a alguns de nossos defeitos prediletos.
Por estas razões, somos tentados a racionalizar o sexto
passo em si. “Afinal, ninguém espera que sejamos perfeitos”,

48
dizemos. “Procuramos progresso, não perfeição”. Tal justifi­
cativa apenas adia nossa recuperação. O sexto passo pede
que estejamos inteiramente prontos para que Deus remova
todos os nossos defeitos de caráter. Aqueles que aceitam
este passo com o compromisso total que é requerido para
que funcione, esforçam-se realmente para o aperfei­çoamento
máximo do caráter.
Mesmo quando encaramos com completa disposição,
outro problema geralmente surge com o sexto passo. Alguns
interpretam mal este passo e agem como se estivesse a
nosso cargo remover nossos próprios defeitos. Nas tentativas
de nos livrarmos da desonestidade, por exemplo, podemos
tentar mudar e nos tornarmos honestos. Ou vemos que
temos sido egoístas, então tentamos ser generosos. Raiva é
um dos nossos problemas, então tentamos nunca ficar com
raiva. Ou ouvimos que medo é incompatível com fé, então
tentamos não sentir medo algum.
Tudo isso são boas tentativas, mas geralmente parecem
não levar a parte alguma. Quanto mais nós tentamos nos
livrar dos defeitos, mais eles nos controlam. Porque inter­
pretamos mal o sexto passo, nossas tentativas de o trabalhar
são totalmente frustradas. Assim, aprendemos uma verdade
fundamental sobre nós mesmos e o programa de doze
passos: somos impotentes perante cada um dos nossos
defeitos de caráter, da mesma forma que somos impotentes
perante a comida. Cabe a um Poder maior que nós removê-
los; não podemos fazê-lo sozinhos.
Isto significa que não devemos tentar mudar nosso
comportamento até que nosso Poder Superior nos
modifique? Devemos continuar a ser desonestos, intolerantes,
e todo o resto? Claro que não. Estar “totalmente pronto”
significa que nos afastamos dos comportamentos autodes­
trutivos e nos esforçamos ao máximo para agir e viver
segundo os princípios contidos nos doze passos. Mas não
devemos ficar desencorajados se descobrimos que não

49
estamos mudando tão rapidamente como gostaríamos. Não
podemos esperar ficar livres de todos os defeitos de um dia
para outro. O que nos é pedido no sexto passo é que
fiquemos inteiramente pronto para receber o milagre da
libertação, não importa o que isso possa custar, não importa
o que possa mudar em nossas vidas.
Quando trabalhamos o sexto passo, dedicamo-nos à
uma vida inteira de crescimento e mudança. Estarmos
inteiramente prontos significa que estamos completamente
dispostos a reconhecer e abandonar nossos padrões de
comportamento inadequados, e deixar que Deus nos
modifique como Deus quiser. Não estabelecemos um prazo
ou um método para essas mudanças. Quando e como
nossos defeitos serão removidos é algo que está inteiramente
a cargo de Deus. Nosso trabalho é fazer o que pudermos
para ficarmos prontos, procurando ativamente a recuperação
e nos colocando no estado de espírito necessário para
receber a ajuda de Deus.
Podemos começar a fazê-lo submetendo cada defeito
a um exame minucioso. Nos passos quarto e quinto, demos
uma longa e meticulosa olhada em cada um dos nossos
traços de caráter e os reconhecemos como parte de nossas
vidas. Agora, nos perguntamos sobre o que esses traços
estão fazendo a nosso favor, da mesma forma que nos
perguntamos sobre o que eles estão fazendo contra nós.
Procuramos descobrir as razões pelas quais nos agarramos a
cada um desses traços. Talvez um tenha sido uma fonte de
conforto sempre disponível, enquanto outro tenha dado
emoção às nossas vidas e um terceiro tenha nos possibilitado
compensar a nossa falta de autoestima. Todo defeito de
caráter, que temos hoje, nos foi útil em algum momento de
nossas vidas e precisamos admitir este fato.
Em seguida, precisamos reconhecer que cada um
desses velhos instrumentos para lidar com a vida cresceram
para além de sua utilidade. Observamos o mal que nos faz

50
apegar-nos a cada um desses modos de pensar e agir. Da
mesma forma que tivemos que “atingir o fundo do poço” no
que diz respeito ao nosso comportamento alimentar, agora
precisamos atingir o fundo do poço em relação a cada um
desses traços de caráter. Apenas quando percebemos,
realmente, que eles estão nos causando mais prejuízos do
que ganhos, é que ficamos inteiramente prontos para nos
livrar dos nossos defeitos de caráter.
Trabalhar o sexto passo é muito parecido com trabalhar
os três primeiros passos em torno de cada um dos nossos
defeitos. Lembramos a nós mesmos: “Sou impotente para
livrar-me desse defeito. Não posso, mas Deus pode, e
deixarei Deus se encarregar dele”.
Uma disposição para mudar é a essência do sexto
passo. A mudança é sempre assustadora, mesmo quando é
uma mudança para melhor, necessária há muito tempo.
Muitos de nós perdemos anos e sofremos muito tentando
evitar a mudança. Ao encararmos o sexto passo, reconhe­
cemos e admitimos o nosso medo humano de mudar. Então,
porque estamos dispostos a fazer o que for preciso para nos
recuperarmos do comer compulsivo, vamos adiante com
este passo apesar de tudo. Não mais deixaremos o medo
nos impedir de fazer o que é melhor para nós. Afinal de
contas, nos confrontamos com os primeiros cinco passos,
apesar do nosso medo, e sobrevivemos para contar a
história. No momento em que atingimos o sexto passo,
estamos quase acostumados a fazer, exatamente, as coisas
de que mais tivemos medo.
Da mesma forma que os cinco passos anteriores,
quando damos o sexto passo, nossas recompensas são
enormes. Ainda que não percebêssemos isso a princípio,
nosso compromisso em adotar as mudanças necessárias em
relação ao nosso modo de ser nos deu uma força
extraordinária para lidar com os desafios da vida. Não mais
passamos a vida nos apegando desesperadamente ao

51
passado, resistentes à mudança. De agora em adiante,
iremos empenhar em nos manter inteiramente prontos para
quais­
quer transformações, que o nosso Poder Superior
queira realizar. Assumindo tal atitude, não podemos falhar.
Nos tornaremos pessoas mais sábias, mais sãs e mais úteis
ao nos recuperarmos da doença do comer compulsivo.
Descobriremos que podemos lidar com os bons e os maus
tempos, aprendendo e crescendo espiritualmente a partir de
cada experiência, o que sempre foi a vontade do nosso
Poder Superior para nós.

52
SÉTIMO PASSO

Humildemente rogamos a Ele que nos


livrasse das nossas imperfeições.

Tendo nos tornado completamente prontos para nos


libertarmos dos defeitos de caráter, no sexto passo, achamos
que o sétimo passo é simples. Tudo que temos de fazer é
uma prece pedindo que Deus retire de nós as nossas
imperfeições. Existe, entretanto, um requisito. Enquanto
fazemos a prece, o sétimo passo requer a adoção de uma
atitude de humildade.
Muitos de nós, a princípio, não compreendemos bem
o conceito de humildade. Nós o confundimos com
humilhação ou baixa autoestima. Sentimos que já sofremos
humilhações suficientes para o resto de nossas vidas, e,
quando os companheiros do CCA sugeriram que
necessitávamos ser mais humildes, nos recusamos a aceitar
tal fato. Humildade não era o que precisávamos, a baixa
autoestima era uma parte significativa do nosso problema!
Em CCA aprendemos que baixa autoestima não era de
forma alguma o mesmo que humildade. De fato, uma
autoimagem negativa nos mantém na escravidão do ego e
nos impossibilita de achar a verdadeira humildade.
Ao começarmos a recuperação em CCA pudemos ver
como o comer compulsivo nos levou à obsessão por nós
mesmos e por nosso “status”. Humilhados por nossa
inabilidade em controlar a ingestão de comida e pelas
consequências devastadoras do comer compulsivo, lutamos
por autoestima com todas as forças. Na medida em que a
doença progredia e o comer compulsivo piorava, nossa
autoestima baixava progressivamente e lutávamos com mais
força ainda para mantê-la, tentando obter qualquer superio­

53
ridade sobre as pessoas próximas a nós. Absorvidos conosco,
perseguimos o “status” de uma maneira ou de outra.
Fundamentalmente preocupados em fazer com que as coisas
saíssem à nossa maneira, e em obter o reconhecimento que
desejávamos, tentamos, aberta ou secretamente, nos colocar
acima dos outros, esperando refutar nossos próprios
sentimentos de inadequação.
Em CCA descobrimos que humildade é simplesmente
compreensão de quem, realmente, somos hoje, e a dispo­
sição de nos tornarmos tudo que poderemos ser. A
verdadeira humildade traz o fim dos sentimentos de inade­
quação, de preocupação com a própria pessoa e de busca
de “status”. Humildade, como a que encontramos em nossa
Irmandade de CCA, não nos coloca acima ou abaixo de
outras pessoas em alguma escala de valores imaginária.
Coloca-nos precisamente no lugar a que pertencemos, em
igualdade de condições com nossos companheiros e em
harmonia com Deus.
Se tivermos trabalhado honestamente os seis primeiros
passos do programa, já conseguimos avançar um bom
pedaço em direção a esta nova atitude de humildade.
Admitimos a necessidade de ajuda para viver nossas vidas;
começamos a abrir mão da vontade própria; nos dispusemos
a nos assumir como realmente somos ( com defeitos e tudo
mais); e nos dispusemos a ter nossas atitudes derrotistas e
defeitos de caráter modificados. Entretanto, antes de poder­
mos pedir por estas mudanças com verdadeira humildade
há vários conceitos úteis que precisamos entender.
Primeiramente, não estamos rogando a Deus para
remover nossas imperfeições com o intuito de sermos
melhores que os outros. Este tipo de hipocrisia seria um
passo atrás em nossa jornada de recuperação. A hipocrisia
é que nos move quando nos vemos criticando as pessoas
que não estão trabalhando os doze passos, sejam elas
recém-chegados ou pessoas de fora de CCA. Na medida em

54
que trabalhamos o sétimo passo, nossa meta não é
alcançarmos moral mais elevada que os outros. É,
simplesmente, nos aproximarmos daquilo que Deus quer
que sejamos. Rezamos para sermos novas pessoas, não para
nossa própria satisfação, mas para que possamos ser
instrumentos mais úteis de nosso Poder Superior.
Em segundo lugar, às vezes acontece que um defeito
não é removido imediatamente ou que ele retorne depois
de algum tempo. Cada um de nós já lutou com alguns
defeitos de caráter mesmo após rezar pela sua remoção. A
existência desse tipo de conflito não significa falta de
humildade. Mas que atitude tomamos nestes momentos
difíceis? Se ficamos surpresos, chocados, esmorecidos ou
desencorajados, quando um defeito volta, nos falta
humildade. Se ficamos zangados com Deus, conosco ou
com outras pessoas porque temos este defeito, nos falta
humildade. A humildade verdadeira com relação aos nossos
defeitos de caráter implica aceitação. Aceitamos que cada
defeito, por mais doloroso que seja, é uma parte do que
somos. Com humilde aceitação podemos calmamente dizer
ao nosso Poder Superior. “Eu sou desta maneira e somente
com sua ajuda poderei mudar”.
Do outro lado da moeda, humildade significa que não
ficamos envaidecidos quando um defeito, que por muito
tempo fez parte de nossas vidas, é removido; ficamos
verdadeiramente aliviados. Reconhecemos a remoção do
defeito como um milagre, uma evidência do poder curador
do amor de Deus e ficamos honestamente gratos. Ao invés
de nos aproximarmos daqueles que ainda sofrem de um
problema similar com uma atitude de superioridade,
oferecemos-lhes esperança. Eles até podem dizer para si
mesmos: Se ele/ela pode mudar, certamente eu também
posso!”.
Obviamente, esta espécie de humildade não é algo
que possamos conquistar simplesmente desejando ser

55
humildes. Humildade é uma dádiva tão certa quanto nossa
recuperação do comer compulsivo e outros milagres de cura
que experimentamos ao trabalhar os doze passos. Nossa
tarefa é estarmos dispostos a abandonar velhas atitudes que
bloqueiam a humildade, como a baixa autoestima, a busca
de “status” e a hipocrisia.
A abordagem do sétimo passo, portanto, deve começar
com uma prece por uma humildade verdadeira. Após fazê-
la, damos prosseguimento ao restante do sétimo passo
confiando em que nosso Poder Superior concederá a dádiva
da humildade em grau cada vez mais elevado, um dia de
cada vez, ao continuarmos a abandonar nossos antigos
valores e praticarmos os princípios dos doze passos. Não
temos de esperar, até alcançarmos a perfeita humildade,
para trabalharmos este passo e os cinco restantes
(poderíamos esperar por um longo tempo). Damos segui­
mento ao sétimo passo, por meio dessa prece, conscientes
de que fizemos a nossa parte e de que Deus fará o resto.
Como completamos o sétimo passo? Muito simples­
mente: pegamos nosso inventário escrito ou a lista dos
defeitos de caráter. (Alguns de nós achamos útil assumir
uma postura física de humildade enquanto rezamos). Com a
lista diante de nós, enumeramos cada defeito, indivi­
dualmente, e pedimos a Deus que se encarregue deles
quando e como quiser. Expressamos nossa completa
disposição em deixar que esses defeitos sejam removidos.
Expressamos o desejo de nos tornarmos mais eficazes em
servir e ajudar os outros enquanto nossos defeitos vão sendo
transformados em qualidades. Tendo feito essa prece, demos
o sétimo passo.
Podemos, agora, esperar nos tornarmos, milagrosa­
mente, seres perfeitos? Talvez não. De fato, com a continuidade
dos doze passos, quase sempre encontramos defeitos que não
havíamos descoberto durante a “limpeza da casa” que
fizemos do quarto ao sétimo passo. Humildade significa que

56
não ficaremos mais chocados e horrorizados quando
percebemos que temos ainda um outro defeito. Partimos da
premissa de que pode haver muitas coisas em nós que
precisam ser mudadas. No entanto, estamos aptos a perceber
somente algumas delas num determinado mo­ mento. No
tempo de Deus, quando Ele souber que estamos prontos,
ganharemos nova compreensão a respeito dos nossos
verdadeiros defeitos de caráter – caso estejamos trabalhando
honestamente o programa. Quando isto acontece, aplicamos
os princípios do programa, incluindo aqueles do sexto e do
sétimo passos. Reconhecemos e aceitamos inteiramente o
defeito como algo que faz parte de nós. Então, examinamos
nossos motivos e o efeito que esse problema está tendo em
nossas vidas, até termos certeza de que estamos prontos para
abrir mão dele. Reconhecemos nossa impotência para
remover esse defeito por nós mesmos e, humildemente,
pedimos a Deus para retirá-lo de nós. Então nos levantamos
e continuamos a viver com um novo estado de espírito,
sabendo que Deus irá realmente remover esse defeito.
Frequentemente nos serão mostradas atitudes que
deveremos tomar, à medida que cada defeito está sendo
removido. Por exemplo, podemos visualizar as pessoas que
seremos quando não mais tivermos cada defeito. Como
pensaremos e agiremos? Pode ser útil ensaiar o que diremos
e faremos, quando tentados a agir de acordo com velhas
formas autodestrutivas. Algumas vezes, desprevenidos,
poderemos reincidir nos defeitos, mas, se persistirmos em
visualizar e praticar melhores formas de vida, elas irão, com
a ajuda de nosso Poder Superior, finalmente, se tornar parte
de nós. Quando cometemos um erro, reconhecemos este
fato, em lugar de afirmar que nós somos esse erro. De agora
em diante, paramos de dizer a nós mesmos que seremos
sempre desonestos, egoístas, injuriosos, estúpidos ou maus.
Ao invés disto, afirmamos repetidamente a verdade sobre
nós mesmos – que estamos nos tornando honestos, afáveis,

57
sábios e seres humanos eficientes, enquanto praticamos
novos comportamentos dia após dia.
Essas ações podem parecer um trabalho difícil, no
início, mas descobrimos que a disposição para agir é um
importante fator na cura. Esta disposição indica nossa
sinceridade. Estamos dispostos a investir tempo e energia
para mudar nossas atitudes e ações? Até onde estamos
dispostos a ir para nos livrarmos desses defeitos? Um esforço
de nossa parte nos ajuda a apreciar o milagre que estamos
para receber, muito mais do que se já contássemos com isto.
Entretanto, quando o milagre acontece, sabemos com
certeza que não “limpamos nossa maneira de agir”,
simplesmente. Agimos sob orientação do nosso Poder
Superior, e Deus trabalhou por intermédio de nós na
remoção dos nossos defeitos.
A fim de viver de maneira saudável e crescer
espiritualmente, ao continuarmos a nos abster de comer
compulsivamente, um dia de cada vez, achamos melhor
fazer com que os princípios aprendidos nos passos sexto e
sétimo fizessem parte de nossas vidas diárias. Cultivamos a
disposição para que fossem removidos quaisquer recém-
descobertos medos, ressentimentos e outros defeitos. Então,
como parte de nossas orações e meditações diárias,
colocamos esses defeitos sob a luz do amor de Deus e
humildemente pedimos que Ele os remova, estando
dispostos a tomar quaisquer atitudes que nosso Poder
Superior queira que tomemos.
Se formos pacientes e persistentes aprenderemos
muito sobre nós mesmos e sobre o porquê de nos sentirmos
e agirmos dessa maneira. Poderemos perceber que alguns
dos defeitos que temos são simplesmente traços de caráter
mal utilizados. Quando usados nas coisas certas e nas horas
certas, os mesmos traços, que tanto nos magoaram, tornam-
se importantes recursos. Por exemplo, a teimosia é um
defeito quando nos impede de abandonar os comportamentos

58
autodestrutivos. Quando trabalhamos um programa de doze
passos, entretanto, a teimosia pode ser um recurso. Ela pode
ser a única coisa que nos mantém retornando, praticando os
princípios e usando os instrumentos do programa, mesmo
quando custamos a ver resultados. Para “remover” um
defeito como a teimosia, nosso Poder Superior pode nos
ajudar a entendê-la como perseverança e a usá-la
corretamente.
A prática repetida do sétimo passo nos capacita a
formar uma eficiente parceria com nosso Poder Superior,
por meio da qual, somos libertados dos defeitos, que
bloquearam nossa eficácia no mundo. Ao ganharmos nova
humildade e nos libertarmos de nossos defeitos de caráter, o
poder de Deus flui com mais certeza e facilidade através de
nós, trazendo recuperação para os outros assim como para
nós mesmos, e nos conduzindo a coisas que antes lutávamos
duramente para alcançar: autoestima, sentimento de
utilidade, alegria, forças para suportarmos dificuldades,
companheirismo e amor. Nossas simples orações, ditas
humildemente, são atendidas de formas maravilhosas ao
abrirmos nossas vidas para o poder transformador de Deus,
e descobrimos que Ele faz por nós o que jamais poderíamos
fazer por nós mesmos.

59
OITAVO PASSO

Fizemos uma relação de todos as


pessoas que tínhamos prejudicado e nos
dispusemos a reparar os danos a elas causados

No tempo em que comíamos descontroladamente, a


maioria de nós estava tão obcecada com comida que tinha
pouco tempo para desenvolver ou nutrir relacionamentos
verdadeiros com outras pessoas. Enquanto estávamos
comendo de forma compulsiva, talvez não percebêssemos,
realmente, o quanto nos havíamos isolado. Talvez sen­
tíssemos que, uma vez resolvido o problema da comida,
tudo em nossas vidas ficaria bem. Quando paramos de
comer compulsivamente, entretanto, quase todos desco­
brimos que a forma doentia de lidar com os outros era uma
fonte de dor para nós. Em muitos casos, essa dor era tão
grande que ficávamos tentados a voltar a comer em vez de
encará-la. “Por que ficar abstinente se vou me machucar?”
perguntávamos. “Se isso é recuperação, eu não a quero!”.
Obviamente, se quiséssemos permanecer abstinentes e
encontrar serenidade, teríamos que aprender formas
melhores de lidar com outras pessoas, formas que trouxessem
alegria em vez de dor. O oitavo passo foi elaborado para
ajudar nesse processo. No oitavo passo, analisamos nossos
relacionamentos com o objetivo de descobrir aqueles
comportamentos que prejudicaram a nós e a outros. Aqui
encaramos a culpa frente a frente e nos libertamos dela.
Aqui aprendemos sobre o poder de cura do perdão ao
descobrirmos como perdoar a nós mesmos e a outros. E,
principalmente, começamos a ficar dispostos a fazer
reparações – ou seja, fazer mudanças – no modo como
lidamos com as pessoas que fazem parte da nossa vida.

61
O oitavo passo é um processo constituído de duas
partes, sendo que a primeira é fazer uma lista por escrito de
todas as pessoas que prejudicamos. Ao decidir que nomes
devem constar na lista, podemos ter alguma dificuldade em
identificar o que é realmente prejudicial para outra pessoa.
Estranhamente, a questão de como identificar o que é um
prejuízo dificilmente se coloca quando nos lembramos dos
prejuízos que foram causados a nós. Sabemos muito bem
quais atitudes dos outros que nos prejudicaram! Talvez, para
ajudar a responder a questão acerca de “o que é prejuízo”,
devamos pensar sobre algumas das maneiras como fomos
magoados e perguntar: “Já lidei, alguma vez, com outra
pessoa de forma semelhante?”. Quando respondemos a essa
pergunta, honestamente, podemos nos surpreender ao perce­
ber que nós mesmos demos aos outros o mesmo tipo de
tratamento que tanta mágoa causou quando dirigido a nós.
O inventário moral escrito, que fizemos no quarto
passo, nos ajudará a fazer uma lista das pessoas que preju­
dicamos. Se nosso inventário do quarto passo foi completo,
provavelmente conterá informações sobre a maioria dos
danos que temos consciência de ter causado aos outros. Ao
trabalharmos o oitavo passo, olhamos novamente para o
que escrevemos no quarto passo e extraímos desse inventário
uma lista de nomes, acrescentando a ela quaisquer outras
pessoas às quais julgamos dever reparações. Caso tenhamos
perdido ou destruído nosso inventário do quarto passo, as
perguntas contidas no capítulo deste livro sobre o quarto
passo podem ser usadas para fazer nossa lista do oitavo
passo. Repassamos essas perguntas cuidadosamente,
prestando atenção especial àquelas que tratam das formas
como nossos defeitos de caráter afetaram outras pessoas.
Muitos de nós descobrimos que nossos próprios nomes
aparecem logo no início da relação. Sim, prejudicamos
outras pessoas, mas também prejudicamos a nós mesmos
com pensamentos, forma de comer e hábitos de vida

62
autodestrutivos. Aprendemos que uma completa disposição
para fazer reparações a nós mesmos, e perdoar-nos pelos
erros passados, foi essencial para nossa recuperação.
Precisamos incluir os nomes de todos que lembramos
ter prejudicado, mesmo aqueles que nos magoaram primeiro.
Não importa quão mal alguma dessas pessoas possam ter
nos tratado; agora encaramos com completa honestidade a
nossa parte em cada relacionamento. Se causamos a tais
indivíduos qualquer dano, precisamos enumerá-los, especifi­
cando o tipo de prejuízo. Isto nos pode ajudar a lembrar que
nosso propósito, ao fazermos o oitavo passo, não é julgar os
outros, mas sim aprender atitudes de clemência e perdão.
Por outro lado, poderíamos cair no outro extremo e
incluir na lista nomes que não pertencem a ela. Se alguém
nos magoou ou foi rude conosco e ficamos sentidos com
essa pessoa, certamente precisamos fazer a nós mesmos o
favor de perdoá-la. Entretanto, o nome dessa pessoa não
precisa constar em nossa lista de reparações a não ser que
também a tenhamos prejudicado de alguma forma. Não
estamos trabalhando o oitavo passo para fazer outras
pessoas se sentirem melhor ou gostarem mais de nós, mas
sim para nós mesmos, para que nós nos possamos recuperar
do comer compulsivo. Nas situações em que estamos
confusos, nossos padrinhos podem ajudar a discernir a
quem prejudicamos ou não.
Uma vez que tenhamos rememorado nossas histórias
de vida e nos assegurado de ter escrito o nome de todas as
pessoas que prejudicamos, estamos prontos para enfrentar a
segunda metade do oitavo passo. Nossa tarefa agora é mais
difícil. Neste momento, precisamos nos dispor a fazer
reparações a cada pessoa da nossa lista. Em muitos casos
isto poderia parecer uma perspectiva assustadora e humi­
lhante. Sabemos haver cometido um erro e estamos
arrependidos por isto, mas confessar realmente nossos atos
exatamente para as pessoas a quem prejudicamos parece

63
impossível. Depois de anos fugindo de qualquer tipo de
coisa desagradável e nos escondendo na comida, para não
ter que sentir constrangimento ou dor, nos é pedido agora
que admitamos nossas falhas e encaremos todas as suas
consequências. E tudo isso enquanto estamos abstinentes,
sem comer compulsivamente para encobrir sentimentos.
Como então nos podemos tornar dispostos?
Nossos padrinhos e outros CCAs, que já passaram por
isso antes de nós, terão boas sugestões para ajudar nessa
tarefa de nos tornar dispostos. Neste estágio do programa,
mais do que em qualquer outro, não vamos querer tentar
levar isto adiante sozinhos. Aqui vamos querer levar nossa
lista de reparações para nosso padrinho ou nossa madrinha
e debater os vários problemas com ele ou com ela. Em
primeiro lugar, um CCA experiente será capaz de nos ajudar
ao se certificar de que, realmente, precisamos fazer
reparações em cada caso. Além disso, as sugestões de um
padrinho sobre como prosseguir com as reparações ajudará
a nos tornar dispostos. Ao discutir francamente as atitudes
que possamos ter que tomar e as palavras que possamos ter
que dizer, o ato de fazer reparações começa a parecer menos
ameaçador. Pela primeira vez, começamos a sentir que
podemos realmente ser capazes de encarar as pessoas que
prejudicamos.
Um padrinho geralmente nos irá encorajar a refletir
sobre o perdão ao trabalharmos o oitavo passo. Enquanto
não perdoarmos as pessoas por danos que elas nos
causaram, será impossível fazer reparações sinceras no que
se refere à nossa parte nos conflitos. Mesmo nos casos em
que conseguimos reunir a disposição necessária para falar-
lhes, temos a tendência de mencionar seus erros e acabar
insultando essas pessoas, em vez de fazer reparações.
Mesmo que não mencionemos seus erros diretamente, nossa
vontade doentia em relação a elas aparecerá de outras
formas, se nós não as tivermos perdoado verdadeiramente.

64
Visto que o perdão é obviamente essencial para
completar o oitavo passo, uma discussão sobre como
perdoar outra pessoa é indispensável. Muitos de nós
ouvimos a vida toda que devemos perdoar àqueles que nos
fizeram mal, mas raramente aprendemos como fazê-lo.
O primeiro passo no sentido de perdoar alguém, por
mais estranho que pareça, pode ser escrever, colocando
objetivamente as razões pelas quais estamos zangados com
essa pessoa. O processo de escrever pode ser bastante
saudável porque, mais do que qualquer outro instrumento
do programa, nos coloca em contato com nossos verdadeiros
sentimentos. Escrever esclarece as emoções que ficaram
confusas e encobertas dentro de nós, algumas vezes por
muitos anos. Além disso, ao registrarmos nossas mágoas
objetivamente, conseguimos delimitá-las. Quer gastemos
dois parágrafos ou vinte páginas, poucos minutos ou várias
horas, finalmente percebemos que há um limite para o
tamanho de nossas mágoas. Elas são grandes, mas não infi­
ni­tas. A mágoa teve um começo e pode ter um fim também.
Frequentemente, depois de escrevermos sobre nossos
sentimentos, achamos de grande ajuda partilhar o que
escrevemos, de alguma forma. É possível que queiramos ler
isso para um padrinho ou outra pessoa que não esteja
envolvida na situação, que está nos perturbando. Podemos
querer, ainda, guardar o que escrevemos por uma semana
ou mais, e depois voltar a ler para nós mesmos. Normalmente,
ao fazermos isso, percebemos que já estamos nos sentindo
melhor a respeito da situação, que a dor não é tão grande
como quando escrevemos pela primeira vez. Finalmente,
podemos querer aliviar a dor simbolicamente, talvez
queimando os escritos ou rasgando o papel em pedaços
para jogá-lo fora em seguida.
Se ainda temos maus sentimentos em relação à pessoa
que nos prejudicou, podemos tentar outro recurso para nos
livrar dos ressentimentos: a oração. Pessoas com longa

65
experiência em viver pelos doze passos descobriram que a
oração lhes pode dar a capacidade de perdoar até mesmo
as ofensas mais terríveis. Se rezarmos pelas pessoas que nos
fizeram mal, diariamente, pedindo a Deus para abençoá-las
com todas as boas coisas que queremos para nós mesmos,
podemos ser libertados dos ressentimentos e rancores. O ato
de rezar por aqueles contra quem temos ressentimentos irá
funcionar mesmo que não estejamos convencidos do que
estamos dizendo. Se continuarmos rezando por eles com fé,
mais cedo ou mais tarde nossos sentimentos irão mudar.
Quando nossos sentimentos mudarem, quando nos
percebemos sendo sinceros ao pedir a Deus para abençoar
velhos inimigos, então saberemos que os perdoamos.
Tendo perdoado prejuízos causados a nós, percebemos
que o maior empecilho à nossa disposição para fazer
reparações foi removido. Isto não significa que, de repente,
vamos ter vontade de ir adiante com este processo de
redução do ego. Em poucos casos, ficaremos ansiosos por
encarar as pessoas que prejudicamos e discutir nossos erros,
francamente, com elas. Precisamos lembrar, entretanto, que
podemos ficar dispostos a fazer algo que não desejamos
fazer.
Por mais que queiramos não podemos deixar de fazer
reparações. A experiência de CCA’s que trabalharam os
passos antes de nós, mostra que a recuperação depende de
completarmos o oitavo e o nono passos. Com isso em
mente, nos voltamos outra vez para Deus, pedindo
disposição para fazer as coisas das quais temos medo, e
para fazer as reparações necessárias. Tendo feito essa prece
com sinceridade, estamos agora dispostos a passar
rapidamente ao nono passo.

66
NONO PASSO

Fizemos reparações direitos dos danos


causados a tais pessoas, sempre que
possível, salvo quando fazê-lo
significasse prejudicá-lo ou a outrem

Para muitos membros de CCA, o nono passo é o mais


surpreendente dos doze. Antes de fazermos o passo, quase
todos nós nos apavoramos ao pensarmos em procurar cada
pessoa que prejudicamos, reconhecer sinceramente nossas
faltas e agir de maneira direta para reparar os danos que
provocamos ou reembolsar as perdas que causamos. No
entanto, depois de fazer reparações, os que mais temiam o
nono passo são os que ficam mais ansiosos para tecer
louvores a ele. Este passo libertou-nos milagrosamente dos
grilhões de nossos erros passados. Nossas vidas mudaram,
nossas relações rompidas foram reatadas e a má vontade,
que envenenou nossos corações durante anos, desapareceu.
Aqueles de nós que ainda têm o nono passo pela
frente podem ter ouvido, dos que já o fizeram, que é benéfico
fazer reparações. Mesmo assim, nossos temores nos fazem
querer procrastinar. Somos alertados de que adiar as nossas
reparações nos imobiliza e ameaça a nossa recuperação em
relação ao comer compulsivo. Tão logo nos dispomos a
repara os danos, no oitavo passo, temos de seguir adiante
rapidamente e agir conforme essa disposição.
Por outro lado, também precisamos de bom senso ao
dar início a esse processo. O nono passo alerta-nos especi­
ficamente para o perigo de fazer mais mal do que bem, ao
encararmos as pessoas diretamente e falarmos com elas
sobre situações dolorosas do passado. Por esta razão, muitos
de nós achamos aconselhável discutir as atitudes, que

67
estamos por tomar, com um padrinho ou uma madrinha, ou
com outra pessoa que entenda a maneira de viver do
programa de doze passos. Provavelmente já discutimos alguns
de nossos planos durante o processo de nos tornarmos
dispostos a fazer reparações. Agora precisamos resolver
quaisquer questões e dúvidas restantes sobre como proceder,
verificando de antemão nossas palavras e ações com alguém
mais experiente que nós, alguém desvinculado da situação.
Nossos padrinhos e madrinhas provavelmente nos
lembrarão de que a finalidade do nono passo é dissipar a
culpa e a má vontade para que possamos estabelecer me­
lhor relações com as pessoas a quem nossas vidas afetaram.
Na maioria dos casos, será necessário fazer algo mais que
apenas dizer “lamento”. Ao fazer reparações, precisaremos
reconhecer especificamente o dano que causamos, pedir
desculpas, fazer a reparação apropriada e mudar o nosso
comportamento em relação a essas pessoas, no futuro.
Antes de começar a fazer reparações, devemos deixar
de lado qualquer expectativa que possamos ter a respeito de
como as outras pessoas nos receberão. Na maioria dos
casos, elas nos tratarão melhor do que previmos. Às vezes
as pessoas nem lembrarão que algum dia as prejudicamos.
Outras podem rejeitar nossas tentativas de fazer restituições.
Em algumas raras ocasiões, haverá os que se recusam a
aceitar nossos pedidos de desculpas. Se isto acontecer, nos
afastamos sem rancor dessas pessoas. Não podemos
controlar a maneira como os outros receberão nossas
reparações. Eles têm o direito de guardar ressentimento
contra nós para o resto da vida, se assim escolherem. Não
nos devem o perdão, e nós não necessitamos dele para
completar o nono passo e nos recuperar do comer
compulsivo. Nossa única tarefa é “limparmos o nosso lado
da rua”, fazendo tudo que pudermos para corrigir os nossos
erros. Depois de tê-lo feito, não precisamos mais sentir culpa
nem raiva em relação a essas situações.

68
Para “limparmos o nosso lado da rua”, temos de ser
sinceros e diretos ao abordarmos as pessoas que
prejudicamos. Podemos ficar tentados a nos poupar de
constrangimento, falando apenas vagamente sobre o quanto
lamentamos quaisquer danos que possamos ter causado.
Essa maneira de fazer reparações é a mais apropriada
somente em alguns casos. Na maioria das vezes, contudo,
um pedido de desculpas feito de forma pouco explicita não
demonstra verdadeira sinceridade de nossa parte. Precisamos
nos lembrar que devemos às vítimas de nossas ações erradas
um reconhecimento honesto e direto de nossos erros.
Ao mesmo tempo, geralmente fazemos bem em usar a
linguagem mais simples possível em nossos pedidos de
desculpas, para evitar introduzir na conversa fatos e detalhes
que podem tornar a magoar as pessoas. Sem dúvida,
devemos evitar mencionar as coisas que elas possam ter
feito para nos provocar, mesmo se achamos que são muito
piores que nossos erros. Uma vez que perdoamos essas
pessoas no oitavo passo, agora nos limitamos a uma
declaração, feita com palavras simples, das coisas que nós
fizemos e que causaram danos a elas, e expressamos nosso
sincero arrependimento. Evitamos justificações, dramatiza­
ções ou uma recapitulação detalhada dos acontecimentos
que cercaram nossas ações. Podemos dizer algo como:
“Sr. Silva, roubei várias vezes dinheiro de sua gaveta quando
estava trabalhando para o senhor no verão passado.
Lamento muito minha desonestidade”. Ou: “João, percebo
que adquiri o hábito de o depreciar e quero pedir-lhe
desculpas. Eu estava errado ao tratá-lo assim”.
Na maioria dos casos, seria bom dizer às pessoas, às
quais estamos fazendo reparações, que tipos de mudanças
ou restituições estamos empreendendo, deixando bem claro
que ficamos contentes em ter uma oportunidade de corrigir
nossos erros. Se causamos danos físicos ou materiais a
alguém, se roubamos ou danificamos sua propriedade, ou

69
se nossas ações acarretaram despesas para alguém, devemos
pagar ou tomar providências para pagar o dinheiro que
devemos. Se mentimos para alguém ou sobre alguém, agora
devemos falar a verdade, desde que possamos fazê-lo sem
causar mais danos.
Reparar algo significa mudá-lo. Completamos as repa­
rações de nossas ações erradas do passado mudando nossas
ações no futuro. Este ponto é especialmente importante ao
fazermos reparações a nós mesmos e às pessoas próximas
de nós que prejudicamos repetidamente com nossos padrões
de comportamento. A essas pessoas devemos “reparações
vivas”. As palavras que lhe dissermos serão muitíssimo
menos importante do que a maneira como vamos agir em
relação a elas de agora em diante. Se pedirmos desculpas,
mas continuarmos a magoá-las, nossas palavras serão
realmente vazias, e será improvável que nossas relações
doentias realmente melhorem. Só poderemos compensar, a
nós mesmos e às pessoas que amamos, pelas ofensas do
passado, se mudarmos de maneira permanente nossas
atitudes e ações destrutivas.
São essas, portanto, as atitudes que devemos tomar
para fazer reparações diretas em todos os casos em que for
possível. Entretanto, haverá pessoas, na nossa lista de
reparações, que não conseguiremos encontrar. Embora não
seja possível fazer reparações diretas a tais pessoas neste
momento, podemos começar fazendo reparações indiretas a
elas. Podemos, por exemplo, escrever o que lhes diríamos se
pudéssemos estar com elas frente a frente. Podemos
reconhecer, por escrito, o mal que fizemos e elaborar planos
para acertar as coisas com essas pessoas. À medida que
prosseguimos no programa, precisaremos continuar a
procurar por elas, fazendo as reparações diretamente assim
que as encontrarmos. Às vezes, ficamos surpresos com o
súbito reaparecimento de pessoas de nossa lista de
reparações, que ficaram fora de nossas vidas durante anos.

70
Algumas das pessoas, que figuram na lista de nosso
oitavo passo, podem ter morrido, de modo que não podemos
fazer reparações diretas a elas. Descobrimos que é benéfico,
para nós, fazer essas reparações indiretamente. Uma vez
mais, podemos começar escrevendo as palavras que lhes
diríamos se estivessem vivas. Depois, podemos ler a carta
em voz alta em algum lugar que nos lembre essas pessoas. A
parte da restituição, em nossas reparações, pode ser feita
sob a forma de uma doação à obra de caridade preferida
dessas pessoas, de uma ajuda dada a um membro de suas
famílias ou de alguma outra maneira apropriada.
A adequação deve ser nosso guia cada vez que
fizermos reparações, quer sejam elas diretas ou indiretas.
Algumas reparações são do tipo que não podem ser feitas
diretamente sem prejudicar alguém. Por exemplo: poderia
ser prejudicial abordar o cônjuge de alguém com quem
tivemos um caso e confessá-lo, a menos que tenhamos
certeza de que essa pessoa já sabe disso. Também é útil,
para nós, lembrar-nos de que fazemos reparações diretas
por nossas ações (ou omissão, quando a ação era
necessária) e não pelos nossos sentimentos. Não é
apropriado, e só causará sofrimento, dizer a alguém:
“Lamento tê-lo detestado por todos esses anos”. A maneira
apropriada de compensar cinco anos de inveja ou ódio
secretos é substituí-los por cinco anos de aberta aceitação,
respeito e amor.
Algumas reparações podem precisar ser feitas de forma
anônima para não magoar pessoas inocentes. No entanto,
não fazemos nossas reparações anonimamente apenas para
poupar-nos ao constrangimento, assim como não racio­
nalizarmos dizendo que o fato de fazer reparações vai lesar-
nos financeiramente ou prejudicar a nossa autoestima. Se
evitássemos algumas de nossas reparações, estaríamos
privando a nós mesmos de todo o processo curador que
obtemos quando trabalhamos completamente o nono

71
passo, e, assim, estaríamos prejudicando a nós mesmos ao
invés de nos fazermos um favor.
Se quisermos voltar às boas relações com os outros,
devemos fazer tudo o que pudermos para acertar as coisas
com as pessoas que prejudicamos. Muito do que precisa­
remos fazer para levar adiante as reparações não será fácil,
mas o que passaram pelo nono passo sempre acharam que
o esforço valeu muito a pena. Ao terminar nossas reparações,
a maioria de nós sente-se, mais perto do que nunca, de
nosso Poder Superior. Ao lidar de maneira amorosa com
cada uma das pessoas em nossas vidas, nosso despertar
espiritual tornou-se uma realidade. Limpamos o mais que
pudemos os destroços do passado e estamos em paz com o
mundo.
Agora que completamos os nove primeiro passos,
podemos encarar o futuro com uma nova confiança. Não
precisamos mais da muleta do excesso de comida, porque
descobrimos um modo de viver que nos alimenta física,
emocional e espiritualmente. A partir de agora, nosso desafio
será continuar a trilhar esse caminho conforme somos
guiados pelos três últimos passos de nosso programa de
doze passos.

72
DÉCIMO PASSO

Continuamos fazendo o inventário


pessoal e quando estávamos errados
nós o admitimos prontamente.

Muitos de nós viemos para CCA depois de anos


procurando soluções a curto prazo para nosso problema de
longa duração com o comer compulsivo. Um aspecto deste
programa que nos mantém aqui é a promessa de recuperação
permanente dessa doença frustrante. Mas o que é realmente
permanente neste mundo? Lemos à página 204 do livro For
Today5: “A repetição é a única forma de permanência que a
natureza pode alcançar”.6 Se queremos experimentar a
recuperação permanente da compulsão por comida, teremos
que repetir, dia após dia, as atitudes que já nos trouxeram
tanto bem-estar.
Através dos nove primeiros passos do nosso programa,
começamos um modo de viver inteiramente novo, que está
nos tirando da lama do comer compulsivo e nos conduzindo
à “terra firme” de uma forma saudável de comer e de uma
vida bem sucedida. Embora esses nove passos visem, a
princípio, ajudar-nos a limpar as acumuladas ruínas do
passado, trabalhá-los possibilita o estabelecimento de
padrões para o futuro e padrões que nos Permitirão evoluir,
crescer espiritualmente e ser felizes sem excesso de comida.
O décimo passo pede uma repetição diária dessas ações
seguindo os novos padrões, de forma que possamos
experimentar recuperação todos os dias.

5 - For Today (Overeaters Anonymous, Inc.), 1982, p. 204


6 - Em português Para Hoje, (Overeaters Anonymous, Inc.), 1995, p. 204.

73
O décimo passo começa com a palavra “continuamos”,
nosso primeiro sinal de que a perseverança está para se
tornar um aspecto chave do nosso programa de recuperação.
No passado, podemos ter-nos agarrado obstinadamente à
alimentação autodestrutiva e a outros comportamentos
prejudiciais. Agora precisaremos ser obstinados ao
trabalharmos nosso programa, mesmo nos períodos em que
sentimos como se ele não estivesse funcionando ou como se
não estivéssemos nos recuperando rápido o suficiente. A
obstinação direcionada positivamente se transforma em
perseverança ao continuarmos – dia após dia – a aplicar em
nossas vidas os mesmos conceitos que aprendemos do
quarto ao nono passos.
No quarto passo, por exemplo, aprendemos a fazer o
inventário moral de nós mesmos, a nos olhar destemida e
honestamente, e a reconhecer nossas qualidades e deficiên­
cias. O décimo passo requer que continuemos a desenvolver
essa prática diariamente. Seu objetivo é identificar e remover
do nosso caminho os obstáculos do presente, aquelas
manifestações de orgulho, medo, raiva, autocomiseração,
ganância e outras emoções que estão trazendo dor para
nossas vidas e nos impedindo de crescer hoje. Descobrimos
que todos nós, inevitavelmente, experimentamos esses
sentimentos, e só pioramos as coisas se negarmos que os
temos ou tentarmos removê-los por meio de nossa vontade.
O décimo passo nos permite a reconhecer nossas emoções e
viver a dor que elas nos causam, para, em seguida, nos
desligar delas e entregá-las ao nosso Poder Superior, de
forma que possamos recuperar nosso equilíbrio emocional.
Nos passos quinto a nono nos aventuramos para além
do nosso isolamento, buscando compartilhar em profun­
didade com nosso Poder Superior e com outras pessoas. A
maioria de nós tinha passado a vida toda, antes de CCA,
tentando seguir sozinha. Ao trabalharmos esses passos,
vimos como é saudável, e nos ajuda, uma ligação amorosa

74
com um Poder superior a nós e com aqueles que partilham
de nossa vida. Agora queremos continuar fortalecendo essas
ligações e temos como fazê-lo através da prática do décimo
passo.
Há muitas maneiras de fazer um inventário pessoal.
Os mais simples são feitos mentalmente, e alguns veteranos,
na maneira de viver dos doze passos, se tornaram tão
adeptos dessa prática que a autoanálise já se tornou uma
segunda natureza. O inventário relâmpago, feito quando
estamos com dificuldades, é algo que podemos aprender a
fazer em poucos momentos de calma reflexão, quando a
necessidade aparece. Com a prática, torna-se mais fácil
reconhecer a exata natureza dos nossos problemas e ver
como precisamos agir para restaurar nossa serenidade; e
vamos querer agir “prontamente”, como sugere o décimo
passo. Talvez tenhamos esquecido nossa decisão do terceiro
passo e estejamos tentando controlar algum aspecto de
nossas vidas pela vontade própria. É possível que precisemos,
ainda, discutir o problema com nosso padrinho ou madrinha,
pedir ao nosso Poder Superior para remover um defeito de
caráter, ou talvez tenhamos prejudicado alguém e agora
precisemos fazer reparações. Tendo começado a praticar
esse padrão de análise e ação imediata, sempre que estamos
transtornados, isso se torna um hábito para nós e
descobrimos haver adquirido um maravilhoso conjunto de
habilidades, que nos permitem viver com êxito.
Quando algo mais que uma análise relâmpago é
necessário, muitos de nós achamos de grande ajuda escrever
esse inventário do décimo passo. Colocar nossos
pensamentos e sentimentos no papel ou descrever um
incidente problemático ajuda-nos a entender melhor nossas
ações e reações, de uma forma que não nos é revelada
quando simplesmente pensamos nelas ou conversamos
sobre elas. Quando escrevemos sobre nossas dificuldades,
torna-se mais fácil ver as situações mais claramente e talvez

75
discernir melhor qualquer ação que precise ser posta em
prática.
Alguns de nós cultivamos o hábito diário de rever
nossas emoções e comportamentos nas últimas 24 horas.
Uma análise mais calma e cuidadosa que o inventário
relâmpago, é o inventário diário, que pode ser escrito ou
feito mentalmente. O seu propósito é revelar aquelas áreas
em que estamos tendo dificuldades em nossas vidas diárias,
e nos ajudar a decidir o que podemos fazer a respeito delas.
Também funciona como um lembrete daquelas coisas que
estão indo bem para nós e pelas quais devemos ser gratos.
Existem várias formas de fazer inventários diários.
Alguns de nós apenas revemos os principais acon­
tecimentos do dia em ordem cronológica, anotando os
sentimentos que tivemos e como lidamos com eles. Outros
preparam um quadro esquemático, colocando sentimentos e
acontecimentos negativos de um lado e positivos de outro.
Alguns de nós trabalhamos a partir de uma lista de defeitos
de caráter comuns e seus opostos, como medo/fé, ressen­
timento/aceitação, ganância/generosidade e assim por
diante. Consultando essa lista, nos fazemos perguntas como:
“Que medos experimentei hoje, e como reagi a eles?”. Então
enumeramos ou lembramos aquelas situações em que
tomamos consciência de que nossos velhos defeitos de
caráter haviam sido removidos: quando agimos com fé;
quando aceitamos e perdoamos, abandonando antigos
ressentimentos; quando fomos abnegados; ou quando
demonstramos outras características positivas.
Ao fazer o inventário diário, buscamos ficar cada vez
mais conscientes de nossas verdadeiras motivações e emo­
ções. Procuramos examinar nossas ações a fim de aprender a
partir de nossos erros e construir sobre nossos êxitos. Nosso
objetivo não é despertar sentimentos negativos ou culpa, mas
continuar no caminho do progresso e reconhecer as áreas de
nossas vidas em que estamos progredindo.

76
Depois de fazer o inventário diário, podemos prosseguir
com a segunda parte do décimo passo, que diz: “Quando
estávamos errados, nós o admitíamos prontamente”. Essa
simples e pequena parte da frase subentende que temos a
oportunidade de fazer mais do que apenas olhar nossos
defeitos e qualidades. Podemos agir em relação a eles da
mesma forma que o fizemos em relação aos traços de caráter
que encontramos no inventário do quarto passo: discuti-los
com nosso Poder Superior e, talvez, com outra pessoa;
entregar esses defeitos, pedindo ao nosso Poder Superior
para removê-lo; e fazer reparações quando necessário.
Alguns CCA’s ligam diariamente para o padrinho ou para a
madrinha e leem ou discutem o inventário do décimo
passo. Também discutimos nossos problemas e sucessos
com nosso Poder Superior na oração, pedindo diariamente
ajuda para nos desligarmos de nossos defeitos, e
expressando gratidão quando descobrimos que defeitos são
removidos e problemas solucionados. Inevitavelmente, há
situações em que erramos e prejudicamos outras pessoas. O
décimo passo sugere que façamos reparações prontamente,
tão logo percebamos que alguém foi prejudicado. Dessa
forma, trazemos uma nova honestidade para nossos
relacionamentos. Descobrimos poder-nos livrar de períodos
de ressentimento e medo resolvendo desentendimentos
assim que eles surgem, ao invés de permitir que as feridas
inflamem.
Um inventário do décimo passo também pode ser
mais longo, parecido com o que fizemos no quarto passo,
porém lidando com problemas dos quais talvez não
estivéssemos conscientes quando fizemos o quarto passo. A
necessidade de reinventariar alguns aspectos do nosso
passado não significa que falhamos ao fazermos o quarto
passo. Mostra simplesmente que crescemos em autocons­
ciência e estamos prontos para encarar e resolver aspectos
de nossas vidas com os quais não fomos capazes de lidar da

77
primeira vez. Cada um de nós é um indivíduo com
necessidades peculiares, e não há dois de nós que sigam no
mesmo ritmo ou que trabalhem este programa exatamente
do mesmo jeito.
Um inventário longo do décimo passo pode focalizar
um defeito de caráter, padrão de comportamento ou área
da vida em particular. Provavelmente vamos querer escrever
esse inventário, como fizemos no quarto passo, e certamente
vamos querer acompanhá-lo de ação imediata. Tão logo
seja possível, vamos querer compartilhar esse inventário
com outra pessoa. Feito isso, repetiremos as ações dos sexto
e sétimo passos, pedindo ao nosso Poder Superior para
curar nossas mágoas, remover quaisquer defeitos que tenha­
mos descoberto em nossa investigação e nos ajudar a mudar
nosso comportamento. Então, completaremos essa trajetória
enumerando e fazendo qualquer reparação que preci­semos,
relacionada com os eventos contidos nesse inventário.
De agora em diante, será crucial, para a recuperação,
um esforço persistente para abrir mão dos defeitos e mudar
as nossas ações. Ao tomarmos consciência dos defeitos
através do processo de inventário, há muitas atitudes que
podemos por em prática para nos livrarmos deles. Uma
delas seria imaginar como nos poderíamos comportar se
não tivéssemos um determinado defeito. Poder-nos-íamos
imaginar nas circunstâncias em que demonstramos nosso
defeito, mas nos vendo agir de forma diferente desta vez.
Qualquer coisa que possamos imaginar podemos fazer, com
a ajuda de nosso Poder Superior. Podemos até falar as novas
palavras ou representar a nova forma de comportamento,
apenas para praticar. Adotando esse tipo de atitude,
afirmamos diariamente para nós mesmos que podemos
mudar e estamos mudando, com a ajuda de Deus. A
princípio podemos retornar aos velhos hábitos nos momentos
de pressão, mas não vamos deixar que isso nos desencoraje.
Passamos a vida toda aprendendo a fazer as coisas dessas

78
antigas maneiras; assim, é claro que o comportamento
antigo será muito mais natural para nós, no início. Contudo,
à medida que o tempo passa, Deus nos ajudará a abrir mão
de nossos defeitos e substituí-los por hábitos positivos de
pensamento e ação. Deus vai ajudar, isto é, se persistirmos
em fazer, o que pudermos, para mudar.
Como o inventário do quarto passo, o inventário do
décimo passo pode revelar aspectos do nosso passado em
relação aos quais precisamos de ajuda profissional. Nossos
amigos de CCA são compreensivos e amorosos, mas poucos
são treinados para reconhecer e lidar com problemas
psicológicos profundamente enraizados, e o CCA não é o
lugar para procurar tal ajuda.
Ao trabalharmos continuamente o décimo passo,
começamos a ver a extraordinária forma pela qual os passos
vão, de agora em diante, continuar a remover dor e tumulto
desnecessários de nossa vida. As novas atitudes de
honestidade em relação a nossos problemas e a rendição a
um Poder maior que nós mesmos, agora, se tornaram parte
de nós; elas são a base de cada escolha que fazemos em
nossa vida diária. Rever nosso comportamento recente,
manter nosso Poder Superior no comando de nossa vida,
pedir orientação e admitir prontamente nossos erros tornam
um modo de vida são e satisfatório – muito melhor que
alimentar nossos medos ou formar uma nova coleção de
ressentimentos para acalentar. Uma vez forçados a adotar
essa nova forma de lidar com a vida, a fim de nos
recuperarmos da compulsão por comida, agora nos vemos
gratos por este programa ser exatamente como ele é. A
prática do programa nos deu muitas dádivas. Dádivas estas
que não trocaríamos pelas soluções rápidas e fáceis para
nosso comer compulsivo que algum dia procuramos em
cada nova dieta. Mais dádivas esperam por nós à medida
que continuamos trabalhando o programa e experimentando
o milagre da recuperação permanente, um dia de cada vez.

79
80
DÉCIMO PRIMEIRO PASSO

Procuramos, por meio da prece e da meditação,


melhorar nosso contato consciente com Deus,
na forma em que O concebíamos,
rogando apenas o conhecimento de Sua vontade
em relação a nós e forças para realizar essa vontade.

Quando começou a frequentar as reuniões de Come­


dores Compulsivos Anônimos, a maioria de nós foi atraída
pela aceitação incondicional que experimentou aqui, um
amor que continuou a sustentá-la ao trabalhar os passos e
ao enfrentar as consequentes mudanças em sua vida. Agora,
no décimo primeiro passo, somos desafiados a procurar um
contato consciente mais direto com a fonte primeira desse
amor capaz de mudar nossas vidas.
Em CCA compartilhamos a crença de que cada um de
nós pode se recuperar por intermédio de uma relação
espiritual com um Poder que é maior que nós. Ainda que
baseado nessa crença comum, nosso programa não promove
ou favorece nenhum conceito particular da exata natureza
desse Poder. Em reuniões de CCA frequentemente ouvimos
essa fonte de poder ser chamada de “meu Poder Superior”,
ou, mais sucintamente, “P.S.”. Isto pode ser desconcertante
para os recém-chegados, mas, para aqueles que estiveram
em CCA o suficiente para trabalhar os dez primeiros passos,
o termo “Poder Superior” é sinal de uma liberdade que
viemos a apreciar e mesmo cultivar – a liberdade de
encontrar essa força salvadora diretamente e expressar
nossas crenças de modo que escolhermos. Para nos
recuperarmos do comer compulsivo, precisamos de um

81
relacionamento dinâmico, crescente e continuo com esse
Poder Superior, e descobrimos que ter completa liberdade
para buscar esse relacionamento é um aspecto vital do nosso
programa.
Entretanto, é necessário mais do que liberdade
espiritual para estabelecer e desenvolver um relacionamento
com um Poder maior que nós mesmos. Precisamos agir. No
décimo primeiro passo, somos desafiados a procurar
melhorar nosso relacionamento com nosso Poder Superior
ativamente, da mesma forma que desenvolvemos qualquer
relacionamento, ou seja, dedicando regularmente tempo
para estar com o P.S. A maioria de nós descobriu ser
necessário reservar, a cada dia, um período em que
possamos ficar sozinhos e sem sermos perturbados. Durante
esse tempo, procuraremos ativamente desenvolver a
consciência de nossa fonte de poder por meio da prece e da
meditação, pedindo apenas para saber as direções que
devemos tomar e força para ir em frente.
A princípio, poderemos sentir-nos hesitantes a respeito
da oração regular e diária. O décimo primeiro passo nos
encoraja a praticar a prece, a continuar a falar com nosso
Poder Superior diariamente, mesmo quando isto nos parece
um exercício sem sentido. Aqueles de nós que se valeram do
décimo primeiro passo, consequentemente separando uma
parte de cada dia para a prece e meditação, foram
recompensados – e algumas vezes surpreendidos – pelos
resultados. Para muitos de nós, um momento diário,
tranquilo, de prece e de meditação é essencial, uma parte
do programa sem a qual não queremos viver, porque nos dá
a orientação e a força que precisamos para viver o resto do
dia eficazmente. Muitos de nós começamos o dia com prece
e com meditação, terminamos o dia com outro período de
prece e meditação, e também usamos estas práticas todas as
vezes, durante o dia, em que sentimos necessidade de
orientação, de forma ou de serenidade.

82
As sugestões do décimo primeiro passo não pretendem
interferir ou substituir as práticas religiosas tradicionais que
alguns de nós seguimos. Ao contrário, descobrimos que
estas sugestões intensificam a prática da religião de nossa
escolha. Ao mesmo tempo, nem o décimo primeiro passo
nem qualquer outro passo exige que adotemos qualquer
religião organizada.
Como em muitos outros aspectos deste programa, não
há forma alguma correta de fazer o décimo primeiro passo.
“Mantenha-o simples”, é um bom lema a ser aplicado aqui.
Lembrando que nossa meta é desenvolver um contato
consciente e mais próximo com Deus, a prece é simplesmente
o que fazemos quando falamos com nosso Poder Superior;
e a meditação é, simplesmente, um meio de silenciar nossas
mentes e abrir nossos espíritos à influência de Deus.
O que dizemos quando falamos com Deus? Dizemos o
que tivermos vontade de dizer. Alguns de nós começamos a
praticar a oração recitando preces que memorizamos, talvez
preces que lemos na literatura do programa ou em outros
livros, que aprendemos nas reuniões, ou que lembramos da
infância. Existem muitas orações maravilhosas que, através
dos séculos, nutriram aqueles que procuraram crescimento
espiritual. Ao dizermos essas preces, dia após dia, e pen­
sarmos sobre o seu significado para nós em nossas circuns­
tâncias atuais, estamos começando a praticar a meditação
também, embora não percebamos isso. Ao fixarmos nossa
atenção nas verdades contidas nessas preces, estamos
abrindo nossas mentes para receber nova compreensão e
orientação de nosso Poder Superior.
Juntamente com a repetição de orações que me­
morizamos, podemos conversar com Deus usando nossas
próprias palavras, da mesma forma como falaríamos com
nosso melhor amigo. Alguns de nós aprendemos que há
coisas, que não deveríamos dizer para Deus, ou sentimentos,
que não deveríamos expressar. Entretanto, agora que nos

83
estamos recuperando do comer compulsivo, precisamos de
completa liberdade para expressar nossos sentimentos
honestamente, em qualquer situação, sem medo de dizer a
coisa errada e prejudicar ou destruir nosso relacionamento
com Deus. Tal liberdade é um fator essencial no processo de
cura, porque a recuperação é baseada na prática da
honestidade para conosco e nosso Poder Superior.
Precisamos da segurança que provém de saber que nada
pode destruir nosso relacionamento com essa tão importante
fonte de cura e força, enquanto honestamente exploramos
nosso eu mais profundo.
O décimo primeiro passo nos orienta no sentido de
pedir apenas o conhecimento da vontade de Deus em
relação a nós e a força para realizar essa vontade. Uma vez
que entregamos nossa vontade e nossa vida aos cuidados
desse Poder Superior, não faz muito sentido gastar tempo da
nossa prece dando instruções a Deus. Isso significa que
nunca iremos discutir nossas necessidades e nossos
problemas durante a oração, nunca iremos expressar nossos
sentimentos, nossos medos, ou nossos desejos? Evidente­
mente, se queremos desenvolver um relacionamento vital
com um Poder Superior, precisamos trazer para as nossas
orações todas as coisas que nos preocupam. Rezamos por
estas coisas, não para que aconteça o que nós queremos,
mas para que possamos colocar a nossa vontade, no que diz
respeito a estas coisas, em sintonia com a vontade de Deus.
Todos que procuravam desenvolver um relacionamento
com um Poder Superior por meio da prece, experimentaram
momentos em que se sentiram zangados com Deus. Talvez,
no passado, a nossa reação a essa raiva tivesse sido a de
fingir que ela não existia, negando a nossa raiva para Deus
e para nós mesmos. Ou, talvez, tivéssemos reagido desistindo
completamente de rezar. Ao procurarmos a recuperação
com a ajuda de Deus, nenhuma dessas opções funcionará
mais para nós. Então vamos em frente e expressamos nossa

84
raiva, mas continuamos conversando com Deus. A raiva
passa, as respostas vêm e descobrimos, que nos aproximamos
mais do nosso Poder Superior, por causa dessa experiência.
Muitos de nós descobrimos que a prática de escrever
cartas para Deus sobre nossos sentimentos de raiva ou
outras preocupações é de grande ajuda. Ao escrevermos,
esclarecemos certos assuntos, expressamos nossos senti­
mentos honestamente, e nos comunicamos com nosso Poder
Superior de uma forma que é bem tangível para nós. Tem-
se conhecimento de membros de CCA que entregam cartas
com preces para Deus de todas as formas possíveis: enviando
estas cartas para os padrinhos; colocando-as em uma lata a
que chamam de “latinha de Deus”; queimando-as ao
oferecê-las a Deus; pendurando-as em um galho de árvore
ou jogando-as em um rio. Tais rituais privados geralmente
parecem bobos para nós, a princípio, mas descobrimos que
eles funcionam maravilhosamente. A chave está no fato de
que paramos de nos preocupar, tomamos uma atitude e
entregamos nossos problemas para o nosso Poder Superior.
Nossas energias não mais estão atreladas às nossas
preocupações e ressentimentos, e estamos livres para irmos
adiante outra vez, para fazermos a vontade de Deus.
Meditação é a nossa forma de aquietar nossas mentes
de maneira que possamos conhecer melhor esse nosso
Poder Superior. Da mesma forma que em relação à oração,
não há um único modo correto de praticar a meditação; de
fato, a maioria de nós mudou a sua prática de tempos em
tempos. A única forma errada de fazer a meditação é não a
fazer de forma alguma. Nós, pessoas compulsivas, somos
orientados para a ação. A meditação é uma ação que nos
oferece a muito necessária prática na arte de nos sentarmos
imóveis e abrirmos nossos corações para receber nutrição
espiritual. Muitos de nós gastamos muito tempo correndo –
correndo da comida, e depois correndo para ela – e muitos
de nós nos voltamos para a comida excessiva por seu efeito

85
sedativo. Comer compulsivamente era nosso meio principal
de relaxar. A meditação nos oferece uma maneira de parar
de correr e relaxar sem comer.
Quando estamos meditando, conscientemente
escolhemos focalizar nossas mentes em algo diferente dos
nossos desejos e preocupações cotidianas. Podemos começar
a fazer isso respirando profundamente e contando nossos
movimentos respiratórios; segurando um objeto especial e
nos concentrando na impressão que ele nos causa; ouvindo
música suave; repetindo uma palavra ou uma frase;
concentrando-nos em uma imagem, fixando o olhar num
objeto ou gravura; ou de outras formas. No caso de sermos
distraídos por preocupações ou aborrecimentos, suavemente
nos desligaremos dessas distrações, e colocaremos nossa
atenção de volta à consideração das verdades com as quais
pedimos que Deus preencha nossas mentes. Nosso propósito,
ao meditar, é simples: procuramos relaxar e receber nutrição
espiritual ao experienciarmos mais plenamente nossas
conexões com o nosso verdadeiro e indivisível eu e com
nosso Poder Superior.
O décimo primeiro passo pressupõe que, por inter­
médio da prática da prece e da meditação, viemos a saber a
vontade de Deus para nós. Aqui surge a questão: como,
exatamente, vamos saber que pensamentos são orientações
de Deus e quais deles são nossas racionalizações? Pode ser
difícil, para nós, reconhecer, a princípio, um comunicado de
Deus, porque provavelmente não virá em palavras audíveis.
Em vez disso, pode vir na forma de uma nova ideia ou
conceito, pode vir como uma mudança em nossos motivos
ou atitudes, ou pode simplesmente ser uma sensação de
que nossa energia foi renovada ou de que nosso mau humor
foi removido. Podemos reconhecer um comunicado do
nosso Poder Superior pelo efeito que ele tem em nós. Se o
tempo, gasto na prece e na meditação, nos torna, pelo
menos um pouco mais sãos ou mais amáveis, se nos

86
encoraja ou nos fortalece pelo menos um pouquinho,
podemos ter a certeza de que Deus “falou” e de que nós
“ouvimos”.
Nossos padrinhos e outros CCA’s com experiência na
prece e na meditação também nos podem ajudar a
reconhecer a orientação de Deus. Quando acreditamos ter
encontrado o discernimento proveniente de nosso Poder
Superior, é aconselhável que discutamos o problema com
nosso padrinho ou mentor espiritual, antes de tomar
qualquer atitude drástica. Haverá momentos em que, face a
uma importante decisão, vamos querer saber a vontade de
nosso Poder Superior. Nosso padrinho ou amigo de CCA
poderá sugerir que rezemos a esse respeito, pedindo a Deus
para aumentar nosso desejo de tomar a atitude, supondo
que a devemos tomar, ou diminuir nosso desejo, se não a
devemos tomar. Depois dessa prece paramos de nos
preocupar em ter de tomar a decisão de imediato e
esperamos um dia ou mais, mantendo, enquanto isso,
nossos olhos, nossos ouvidos e nossas mentes abertos. No
final desse período de espera, iremos inevitavelmente
perceber que adquirimos uma perspectiva mais lúcida sobre
a decisão. Apesar dos nossos mais sinceros esforços, algumas
vezes cometemos um erro ao agirmos de acordo com o que
pensamos ser a vontade de Deus para nós. Com o tempo,
poderemos ser gratos pelas lições que aprendemos com
essas situações. É, em consequência de tais experiências,
que nos tornamos mais aptos a reconhecer a vontade do
nosso Poder Superior, no futuro.
CCA’s que fizeram da prece e da meditação uma parte
regular de suas vidas descobriram um recurso de cura e de
força que não pode falhar. Padrinhos, amigos de CCA,
reuniões e literatura são maravilhosas fontes de ajuda para
nós. Não iríamos querer ficar sem nenhum desses recursos,
porque geralmente descobrimos que Deus nos fala por
intermédio deles. De tempos em tempos, entretanto, cada

87
um deles nos irá falhar em um momento de necessidade.
Nosso Poder Superior é a única fonte de ajuda que está
sempre disponível para nós, sempre forte o bastante para
nos levantar e acertar nosso passo no caminho da vida. A
prece e a meditação são nossos elos com esta fonte infalível.
Praticadas regularmente, elas abrem nossa vida para o
conforto que procurávamos na comida, mas que nunca
pudemos encontrar. Por meio da prece e meditação, aliamo-
nos a um Poder espiritual superior, que nos dá tudo de que
precisamos para viver todo o nosso potencial.

88
DÉCIMO SEGUNDO PASSO

Tendo experimentado um despertar espiritual


graças a estes passos,
procuramos transmitir esta mensagem
aos comedores compulsivos e por em prática
estes princípios em todas as nossas atividades.

O décimo segundo passo começa com o reconheci­


mento de uma grande verdade: nós, que trabalhamos os
onze passos anteriores do programa de Comedores
Compulsivos Anônimos, tivemos um despertar espiritual e
agora temos uma mensagem de esperança para levar a
outros comedores compulsivos. Nós, que uma vez sofremos
pela completa impotência para controlar nosso comer e
nossas vidas, descobrimos agora a força salvadora de um
Poder maior que nós. Experimentamos o milagre da cura
física, emocional e espiritual exatamente como nos foi
prometido quando começamos estes passos.
Para a maioria de nós, o ponto central neste despertar
espiritual tem sido a decisão de confiar num Poder Superior
em todos os aspectos da vida. Ao agirmos de acordo com
esta decisão, um dia de cada vez, aprendemos toda uma
série de habilidades para viver, habilidades que nos
possibilitaram afastar de nossas vidas tudo que pudesse
interferir em nossa fé neste Poder Superior. Agora sabemos
que não precisamos temer nada do que possa acontecer.
Mesmo quando nos acontecem coisas das quais não
gostávamos, sabemos que temos uma maneira de encarar
cada situação com honestidade e sanidade. Observamos
que nosso Poder Superior revelará algo de valor para nós a
cada experiência, enquanto continuarmos praticando este
novo modo de vida.

89
Já não temos medo da comida, porque não somos
mais controlados por ela. O fato glorioso para a maioria de
nós é que Deus removeu nossa obsessão por comida. Uma
vez libertados da obsessão e com a nossa sanidade res­
taurada escolhemos, hoje, não comer auto-destrutivamente.
Temos novas maneiras de lidar com nossos problemas
agora, e novos hábitos que fazem da vida uma experiência
positiva e cheia de alegria na maior parte do tempo. Se
alguma outra vez desejarmos intensamente mais comida do
que precisamos, sabemos que encontraremos alívio nos
passos e não no comer compulsivo.
Considerando isso, estaremos prontos agora para
completar o décimo segundo passo e nos diplomar em
CCA? Olhando para trás e vendo o quanto já percorremos,
muitos de nós ficamos tentados a pensar que chegamos ao
final da jornada. A verdade, aprendida com a experiência
de milhares de CCAs, é que, mesmo tendo atingido a meta
em termos de saúde, de medidas do corpo, ou de peso,
mesmo tendo trabalhado os doze passos de melhor forma
possível, mesmo tendo celebrado longos períodos de
abstinência e recuperação, mesmo tendo sido colocados por
outros membros de CCA em posições de confiança e
prestado serviço em nível de grupo, de intergrupo, regional e
internacional; ainda assim não chegamos ao fim da linha. O
décimo segundo passo nos convida a continuar a jornada,
um dia de cada vez, pelo resto de nossas vidas. Precisamos
continuar avançando na recuperação, continuar desen­
volvendo nossa espiritualidade, se queremos nos manter
espiritualmente alertas e plenamente vivos.
Talvez seja uma graça para nós e para milhões de
comedores compulsivos que ainda sofrem, que a maioria
daqueles que trabalham esse programa não consigam
manter a recuperação a menos que compartilhem sua
experiência, sua força e sua esperança com outros. Alguns
de nós tentamos seguir o programa isoladamente e fomos

90
incapazes de manter o equilíbrio emocional e a abstinência.
Se isso fosse possível, talvez não estivéssemos aqui hoje
para levar a mensagem aos recém-chegados. Teríamos
perdido a melhor parte dos doze passos, porque a maior
alegria da recuperação chega quando compartilhamos o
programa de CCA com outros.
Poucos de nós suspeitam que seria assim quando
começam a trabalhar os passos. Por anos e anos, procuramos
gratificação no comer desenfreado, em posses materiais, em
carreiras, em nossas muitas tentativas de ter corpos perfeitos,
em dinheiro, sexo e status social. Embora a maioria de nós
tenha conseguido e apreciado algumas destas coisas, a
satisfação que sentíamos com elas era pequena em com­
paração com a alegria que encontrávamos ao compartilhar
este programa com outros comedores compulsivos.
Serviço em CCA tem sido um fator surpreendentemente
poderoso na nossa recuperação. Pequenas ações, que
pareçam sem importância quando as executávamos, acabam
por ter efeitos profundos em nós e nos outros. Abraços que
demos durante as reuniões, ligações telefônicas que fizemos,
cartas que escrevemos, simples palavras de encorajamento,
que dissemos e rapidamente esquecemos, nos foram
retribuídas – algumas vezes justamente no momento em que
mais precisávamos – por pessoas que receberam por
intermédio delas a força para continuar trilhando o caminho
de CCA. A maior parte dos que estiveram em CCA, por
mais de alguns meses, viram milagres de recuperação em
nossas reuniões. Entre nossos amigos, hoje, estão pessoas
que conhecemos como recém-chegados ainda sofredores.
Vimos essas pessoas se transformarem através deste
programa simples e estamos gratos por termos feito a nossa
parte, mesmo quando tudo o que fizemos foi aparecer nas
reuniões de CCA e dizer: “Continue voltando às reuniões!”.
A alegria que recebemos ao tentarmos levar a mensagem é
uma força positiva em nossas vidas hoje, nos sustentando

91
através dos bons e maus tempos, transformando a nós e aos
nossos companheiros de recuperação.
Falar sobre CCA com aqueles que ainda sofrem tem
sido algo que fazemos cada vez com mais naturalidade.
Alguma vezes, por causa das mudanças em nossos corpos, e,
algumas vezes, por causa das mudanças em nossas atitudes,
as pessoas agora nos dizem: “Você está maravilhoso! O que
você fez?”. Torna-se cada vez mais fácil mencionar nosso
envolvimento com CCA, compartilhar mais sobre o que
experenciamos aqui, convidar os amigos a se juntarem a nós.
Geralmente, pedimos a Deus que nos ajude a falar
sobre o programa com as pessoas de fora do CCA e com as
que estão nas reuniões. Quando nos entregamos ao nosso
Poder Superior, podemos relaxar e falar honestamente sem
nos preocuparmos em falar a coisa certa. Da mesma forma,
descobrimos que é menos confuso para os outros se nos
habituarmos a nos concentrar em nossa experiência de
CCA, quando estivermos compartilhando a respeito do
programa, e não em aspectos da nossa experiência não
ligados ao CCA. Embora possamos ter sido ajudados por
terapeutas, assistência religiosa, planos alimentares, pro­
gramas de exercício, livros de autoajuda, metafísica e coisas
parecidas, descobrimos que é melhor enfatizar nossa expe­
riência com os doze passos, que são a base da recuperação
para todos nós.
Também descobrimos que o serviço funcionou melhor
para nós quando não tínhamos expectativa alguma com
relação ao resultado. Quando nos propomos a “consertar”
as outras pessoas, geralmente falhamos, ainda que gastando
longas horas com elas. Para trabalhar o décimo segundo
passo também não temos que traçar planos para salvar o
mundo inteiro. Deus encontra muitas formas de ajudar as
pessoas por nosso intermédio, enquanto estivermos dispostos
a fazer o que pudermos, quando pudermos, e nos manti­
vermos no caminho do progresso espiritual.

92
O décimo segundo passo sugere que continuemos a
praticar o nosso novo modo de agir em relação à vida “em
todas as nossas atividades”, e a vasta experiência de come­
dores compulsivos em recuperação confirma a importância
desta sugestão. Ao trabalharmos os onze passos anteriores,
os princípios neles contidos começaram a substituir o nosso
antigo modo de vida, centrado no ego e no comer
compulsivo. No décimo segundo passo, asse­guramo-nos de
que viramos as costas aos velhos hábitos para sempre.
Estamos nos movendo em uma nova direção de crescimento
espiritual.
Quais são os princípios contidos em cada passo, os
quais somos encorajados a praticar em todas as nossas
atividades? No primeiro passo, aprendemos o princípio da
honestidade, ao admitirmos nossa impotência pessoal diante
da comida, e o fato de que sem ajuda não poderíamos
conduzir com sucesso nossas próprias vidas. Agora vamos
querer continuar a ser honestos conosco em todas as nossas
atividades. Uma maneira importante de praticarmos a
honestidade, hoje, é admitir que ainda somos comedores
compulsivos, que ainda precisamos de ajuda diária.
No segundo passo, aprendemos sobre a esperança ao
passarmos a acreditar que um Poder maior que nós mesmos
poderia devolver-nos à sanidade. Esta mesma esperança
precisará agora estar presente em todas as nossas ações.
Mesmo nas nossas horas mais solitárias, podemos nos
lembrar da grande verdade de que não estamos sozinhos;
mesmo nos momentos em que estamos mais frágeis encon­
traremos a força da qual precisamos, se acreditarmos que
ela está disponível para nós e se pedirmos por ela.
No terceiro passo, aprendemos sobre a fé ao tomarmos
a decisão mais importante que jamais tomamos, a decisão
de confiar a Deus – como O concebemos – nossa vontade e
nossa vida. Praticar o princípio da fé, hoje, significa que não
mais passaremos pela vida fazendo o que tivermos vontade

93
e na hora em que quisermos. Em vez disso, procuraremos
em nosso Poder Superior orientação e força ao enfrentarmos
cada decisão.
Nos passos quarto e quinto, aprendemos sobre coragem
e integridade ao encararmos a verdade a respeito dos nossos
defeitos de caráter. Aplicar estes princípios em todas as nossas
atividades significa que não somos mais governados pelo
medo de admitir nossos erros. Temos a integridade de mostrar
ao mundo nosso verdadeiro eu. Sem precisar mais aparentar
sermos pessoas perfeitas perante o mundo, podemos viver
mais completamente, tendo a cora­gem de enfrentar nossos
erros e testar nossas forças nos desafios da vida.
No sexto passo, aprendemos mais sobre a necessidade
de boa vontade ao nos tornarmos inteiramente prontos a
entregar nossos defeitos. Aplicamos este princípio de muitas
formas agora, aprendendo por intermédio das experiências
de cada dia a diferença entre vontade própria e a simples
boa vontade em cooperar com a orientação de nosso Poder
Superior.
No sétimo passo, começamos a compreender o signi­
ficado de humildade. Praticamos este princípio, hoje,
continuando a abrir mão da nossa necessidade de status e
dos pensamentos e atitudes por meio dos quais depreciamos
a nós e aos outros, e humildemente confiando em Deus
para a remoção de nossos defeitos.
Nos passos oitavo e nono, damos uma olhada no mal
que fizemos aos outros e começamos a repará-lo. Agora
aplicamos os mesmos princípios de autodisciplina que nos
torna menos passíveis de ferir outras pessoas e mais rápidos
em fazer reparações quando isso acontece. Praticando o
princípio do amor, aprendemos a aceitar os outros como
eles são, e não como gostaríamos que eles fossem. Estamos
começando a tomar esta nova atitude não somente em
relação a outros CCAs, mas também em relação às pessoas
em casa, na escola, no trabalho, e em todas as áreas de

94
nossas vidas. Devagar, mas, sem dúvida, seguramente
percebemos que estamos estabelecendo o melhor relacio­
namento possível com cada pessoa que conhecemos.
No décimo passo, descobrimos o valor da perseverança
ao trabalharmos os doze passos. Praticar este princípio em
todas as nossas atividades, hoje, significa que continuamos
a fazer as coisas que nos fizeram bem, mesmo que algumas
vezes nos perguntemos se ainda precisamos fazê-las. Perse­
verança nos traz a recompensa de recuperação contínua e
permanente.
No décimo primeiro passo, aprendemos o princípio da
espiritualidade ao voltarmos nossa atenção às práticas da
prece e da meditação. Praticamos este princípio procurando
a consciência da presença de Deus em todas as nossas
atividades e continuando a nutrir a nossa sensibilidade
espiritual através da prece e da meditação.
O princípio do serviço, que está na base do décimo
segundo passo de CCA, pode agora orientar nossas ações
não só dentro como fora do programa. Aqui comprovamos
a grande verdade de que, quando abandonamos a nossa
necessidade de controlar as pessoas e simplesmente deixa­
mos nosso Poder Superior servir a outros por nosso
intermédio, recebemos alegria e força em abundância.
Nós, que começamos a trabalhar os passos para nos
recuperarmos do comer compulsivo, agora descobrimos
que, por meio deles, embarcamos numa jornada de
crescimento espiritual para a vida inteira. Do isolamento da
obsessão por comida emergimos para um novo mundo.
Caminhando de mãos dadas com nossos amigos e nosso
Poder Superior, estamos explorando agora este mundo,
utilizando os grandes princípios espirituais contidos nos doze
passos como mapa para nos guiar pelo caminho. Seguimos
com gratidão as pegadas de muitos outros que andaram por
este caminho antes de nós, e estamos gratos por estar
deixando nossas pegadas para outros seguirem.

95
Aqueles de nós que vivem este programa não
transmitem, simplesmente, a mensagem, são a mensagem.
Cada dia que vivemos bem, estamos bem e incorporamos a
alegria da recuperação que atrai outros que querem o que
encontramos em CCA. Ficamos sempre felizes em
compartilhar nosso segredo: os doze passos de Comedores
Compulsivos Anônimos, que dão força a cada um de nós
para viver bem e estar bem, um dia de cada vez.

96
INTRODUÇÃO ÀS DOZE TRADIÇÕES

Quando viemos pela primeira vez para Comedores


Compulsivos Anônimos estávamos com a atenção voltada
para nossa própria recuperação. Muitos de nós tínhamos
como garantido o grupo de CCA que frequentávamos e a
Irmandade como um todo, não pensando muito a respeito
de como funcionavam ou se continuariam a estar lá para
nós, no futuro. Em breve, entretanto, conforme íamos saindo
de nossa dependência por comida, começamos a confiar
em CCA. Sentíamos que ali era o único refúgio seguro, e
reagíamos com medo se alguma vez pensávamos que esta
Irmandade pudesse estar ameaçada.
Mas depressa compreendemos que não tínhamos
necessidade de temer pela saúde de CCA. Comedores
Compulsivos Anônimos tem doze tradições que foram
elaboradas para manter no caminho os nossos grupos e
comitês de serviço, funcionando em uma direção tal que
promova a recuperação de todos os comedores compulsivos
que procuram ajuda nesta Irmandade. Este estudo das
tradições mostra como essas doze sugestões funcionaram
para ajudar pessoas, grupos e CCA como um todo a resolver
problemas, a prosperar e a ser instrumentos eficazes para
transmitir a mensagem de recuperação aos que ainda
sofrem.
Temos um grande débito de gratidão para com os
Alcóolicos Anônimos por mostrarem o caminho estabe­
lecendo estas tradições e por permitirem que CCA as
adaptasse à nossa Irmandade. Desenvolvidas através de
longa e às vezes, penosa experiência, as doze tradições
englobam os mesmos princípios de vida que os doze passos.

97
Os que as estudaram cuidadosamente perceberam que estas
tradições podem ser aplicadas eficazmente a todas as
relações humanas tanto dentro como fora de CCA. Com
isso em mente, voltamos nossa atenção para as tradições,
confiando em que, se viermos a entendê-las melhor, seremos
mais capazes de manter flutuando nosso bote salva-vidas,
CCA, e de nos manter espiritualmente aptos em face de
qualquer desafio.

98
PRIMEIRA TRADIÇÃO

Nosso bem-estar comum deve estar


em primeiro lugar; a recuperação
individual depende da unidade de CCA.

Nós, comedores compulsivos, vivemos a maior parte


das nossas vidas no isolamento. Muitos de nós preferíamos
ficar sozinhos para que pudéssemos nos empanturrar sem
interferência. Mesmo quando estávamos cercados por outras
pessoas, nossa crescente obsessão por comida, por medidas
e por comer fez com que ficasse cada vez mais difícil para
nos relacionarmos com elas. Alguns de nós nos sentíamos
fracassados cada vez que tínhamos que procurar a ajuda de
qualquer pessoa.
Nosso desejo de vivermos livres do comer compulsivo
nos forçou a mudar essas atitudes. A recuperação começou
para a maioria de nós quando saímos do isolamento e
entramos em um grupo de CCA. Aqui descobrimos que não
fomos feitos para viver sozinhos. Ao abrirmos nossos
corações para outros membros de CCA, encontramos
aceitação, sensação de pertencer ao grupo e união com
outros comedores compulsivos os quais nos satisfaziam
como a comida nunca seria capaz de satisfazer.
Muitos de nós não estaríamos vivos hoje se não
estivéssemos em nossos grupos de CCA. Aqui é o único
lugar onde pudemos encontrar recuperação em relação à
nossa devastadora doença do comer compulsivo. Se
queremos continuar vivendo e nos recuperando, precisamos
ter apoio contínuo dos grupos de CCA e a inspiração que
recebemos de nossos companheiros de CCA. Além disso,
precisamos de oportunidades diárias para que sejamos úteis
a outros comedores compulsivos, oportunidades essas que
os grupos de CCA proporcionam.

99
Sendo assim, a unidade de CCA é um problema de
vida ou de morte para nós. Entretanto, nem sempre é fácil
manter a unidade. Membros de CCA trazem diferentes histó­
rias, e, nas reuniões, algumas vezes encontramos pessoas
muito diferentes de nós em seus modos de buscar a recupe­
ração. Frequentemente, nosso primeiro impulso é achar que
eles estão fazendo tudo errado. Se nós, como indivíduos, não
valorizássemos o bem-estar comum na Irmandade acima de
nossos próprios pontos de vista, CCA em breve se partiria em
diferentes pontos de vista, em dife­rentes facções e perderia a
força que vem da união de muitos.
Em reuniões de CCA, os indivíduos são carinhosamente
orientados a manterem as necessidades do grupo inteiro em
mente ao compartilharem experiência, força e esperança.
Considerando que nem todos os grupos de CCA usam o
mesmo roteiro, geralmente começamos nossas reuniões com
avisos tais como: “por favor, evite conversa cruzada” ou
“depoimentos positivos de três minutos” ou “esta é uma
reunião de não fumantes”. Informamos, assim, a todos os
presentes, qual é a consciência do grupo. O respeito pela
unidade significa que o indivíduo mantém em mente as
regras básicas do grupo. Podemos querer falar por mais
tempo do que os três minutos recomendados ou podemos
sentir que “precisamos ao menos compartilhar” nossos
conselhos com alguém na reunião, mas a primeira tradição
nos diz para refrear tais impulsos, para o bem do grupo.
Geralmente, nossos roteiros de reunião são elaborados
de forma a manter as práticas dos grupos de acordo com os
princípios de CCA. Em sua forma ideal, CCA é um lugar
onde todos os membros têm ampla oportunidade de
compartilhar; onde não tentamos confrontarmos ou
consertar uns aos outros dentro do grupo; onde os detalhes
mais íntimos de nossas vidas não são descarregados nas
reuniões, mas sim, discutidos em particular com nossos
padrinhos. É responsabilidade de todos os membros proteger

100
o espírito de unidade e de apoio mútuo em CCA. E, quando
chega a nossa vez de coordenarmos uma reunião de CCA, a
primeira tradição faz com que seja responsabilidade nossa,
enquanto coordenadores, carinhosamente lembrarmos aos
indivíduos as regras básicas do grupo todas as vezes que a
consciência do grupo esteja sendo ignorada.
Isso não significa que todos os membros de CCA
precisem concordar com todos os assuntos relacionados ao
funcionamento da Irmandade. Discordâncias com relação as
atividades do grupo surgem sempre, e temos que encontrar
formas de resolvermos essas discordâncias sem destruirmos
a unidade da nossa Irmandade. O que a primeira tradição
sugere é que ouçamos com respeito as opiniões de outras
pessoas. Expressamos nossas próprias opiniões hones­
tamente, sem depreciarmos aqueles que talvez não concor­
dem com elas. Ao ouvirmos e falarmos, mantemos nossas
mentes e corações abertos à vontade do nosso Poder
Superior em todos os assuntos. Depois que a discussão
acabou e o grupo tomou a decisão, não permitimos que
nenhum sentimento de antagonismo, que ainda possamos
sentir, divida o grupo. Em CCA, resolvemos nossas diferenças
de opinião pensando no bem-estar do grupo como um todo.
A partir de sua experiência, os grupos de CCA
aprenderam a importância da unidade. Em uma cidade, um
conflito de personalidades dividiu o intergrupo. Duas facções
se formaram, cada um advogando seu próprio conceito de
recuperação. Quando meses de discussão não trouxeram
nenhuma solução, uma facção formou um novo intergrupo.
Pouco tempo depois, quando as pessoas de ambos os
lados atingiram certo grau de tranquilidade, a organização
regional de CCA encorajou os dois intergrupos e sediaram uma
convenção de CCA a nível regional. Nenhum dos intergrupos
tinha recursos para fazer o trabalho sozinho; eles foram forçados
a sentar cara a cara e a encontrar uma forma de trabalharem
juntos. Indivíduos que estavam dispostos a fazer aquele

101
trabalho, pertencentes a cada facção, formaram um Comitê da
Primeira Tradição, cujo propósito era encon­trar uma base para
a unidade. Mudanças de atitude seriam necessárias para que
os dois intergrupos permanecessem jun­tos pelo menos até a
convenção. Porque queriam trabalhar juntos, os membros do
comitê começaram a focalizar princí­ pios em que podiam
concordar, não suas diferenças, e, final­mente formaram uma
única consciência de grupo. Em um docu­ mento base de
trabalho em conjunto, ambos os intergru­pos reconheceram a
existência de várias formas de buscar a recuperação dentro da
Irmandade de CCA. Ambos reconhe­ ceram que uma
necessidade comum os colocara juntos. Declararam que as
maneiras de trabalhar o programa eram, claramente, questões
relativas à consciência pessoal ou do grupo e concordaram em
se abster de comentar ou discutir suas diferenças.
Ao respeitar essas regras gerais, as duas facções desco­
briram que podiam realmente trabalhar juntas para sediar
com sucesso uma convenção de CCA. Uma década depois,
nenhum dos dois intergrupos havia mudado sua filosofia
sobre como trabalhar o programa de CCA, e, mesmo assim,
ambos estavam prosperando, organizando convenções e
celebrações do Dia da Unidade juntos, bem ativos nos eventos
da Região e do Serviço Mundial. Cada um dava apoio a
muitos grupos de CCA fortes, onde os indivíduos encontravam
recuperação por intermédio dos doze passos.
Membros do único grupo de CCA de uma pequena
cidade do meio oeste dos EUA tiveram um conflito parecido
e também encontraram um caminho para a unidade. As
reuniões eram frequentadas por menos de dez pessoas, e,
como acontece em muitos grupos de CCA, uma ou duas
pessoas com muitos anos no programa mantinham as
reuniões funcionando. Em certa noite, uma companheira de
CCA que se havia mudado recentemente para a cidade,
apareceu na reunião e contou uma história dramática sobre
como quase morreu devido ao comer compulsivo. Ela

102
descreveu como encontrou CCA na Califórnia e como CCA
e um plano alimentar salvaram sua vida.
Os membros de CCA daquela pequena cidade ficaram
bastante impressionados quando aquela mulher lhes contou
sobre sua perda de mais de 45 Kg e foram inspirados pelo
brilho em seus olhos e seu entusiasmo evidente em relação
ao programa. Entretanto, outra pessoa, que era uma das
figuras centrais do grupo, ficou nervosa quando aquela
mulher falou sobre seu plano alimentar. Essa pessoa também
havia experimentado uma recuperação miraculosa em
relação ao comer compulsivo e acreditava que uma parte
desse milagre era o fato de ter sido libertada de anos de uso
compulsivo de dietas e de planejamento alimentar. Ela
aproveitou, então, seu tempo de depoimento para criticar o
plano alimentar da companheira recém-transferida.
Dentro de algumas semanas, se formaram facções em
torno da figura central e da companheira transferida.
Discussões acaloradas sobre o uso de planos alimentares
dominaram a reunião. Isso continuou por muitos meses,
suscitando sentimentos muito intensos em ambos os lados.
Então, numa noite no fim de verão, a figura central e a
companheira transferida foram as únicas pessoas que apare­
ceram na reunião semanal de CCA. Depois de esperarem
durante dez minutos por uma terceira pessoa, elas finalmente
concordaram em começar a reunião sozinhas. Juntas, elas
rezaram a Oração da Serenidade e começaram a seguir o
roteiro da reunião. Sentadas cara a cara em volta de uma
mesa, elas se revezaram falando de sua experiência, de sua
força e de sua esperança. Pouco a pouco seus depoimentos
se tornaram mais honestos. A figura central se viu admitindo
para a companheira transferida o quanto ela invejava a sua
recuperação e o quanto ela se sentia ameaçada em sua posi­
ção. A companheira transferida falou com lágrimas nos olhos
do quanto ela temia a recaída, do quanto ela gostaria de
iniciar uma reunião igual à sua antiga na Califórnia, mas não

103
havia sido capaz de encontrar ninguém disposto a juntar-se a
ela nessa tarefa. Mas do que qualquer coisa, disse ela, preci­
sava de compreensão e apoio. Gostaria de ter força da figura
central e admirava a sua experiência com os princípios de CCA.
Antes da reunião terminar, a companheira transferida
e a figura central haviam concordado em uma ser madrinha
da outra. Quando os outros membros voltaram à reunião,
na semana seguinte, encontraram uma atmosfera totalmente
nova no grupo. A companheira transferida não havia
deixado de lado seu plano alimentar e a figura central não o
havia adotado. Elas ainda tinham diferentes metas em
relação à alimentação, mas agora apoiavam-se mutuamente
no sentido de atingir suas metas. O que era ainda mais
surpreendente era um novo tom de amor e aceitação em
suas vozes, quando elas compartilhavam nas reuniões as
razões pelas quais adotavam diferentes abordagens em
relação à abstinência. Quando alguns membros do grupo
decidiram usar o plano alimentar, a figura central não tentou
dissuadi-los. Quando outras pessoas seguiam a filosofia da
figura central, a companheira transferida não discutia. Eles
descobriram que havia espaço para mais de uma forma de
buscar a recuperação naquele pequeno grupo.
Unidade não significa uniformidade. Em CCA,
aprendemos que podemos discordar de outras pessoas em
assuntos importantes e que podemos, ainda assim, ser amigos
que dão apoio uns aos outros. Ouvimos os outros com mente
aberta e aprendemos a nos expressar sem insistirmos para
que todos façam as coisas do nosso jeito. Ao praticarmos
essas nossas habilidades, começamos a entender melhor a
nós mesmos e aos outros. Torna-se mais fácil encontrar
formas de fazer coisas que atendam às necessidades de todos.
Será que praticamos bem o princípio da unidade?
Podemos colocar-nos algumas questões sobre como agimos
em nossos grupos de CCA:

104
Nosso grupo esta se dividindo em panelinhas e
permanecendo indiferentes a alguns membros?

Procuramos nos manter juntos enquanto grupo? Ou


tendemos a criar a discórdia? Desencorajamos a
fofoca? Desencorajamos os membros de fazerem os
inventários uns dos outros?

Concentramo-nos no que temos em comum? Ou


trazemos à tona nossas diferenças, apenas para que
haja debate?

Somos gentis, mesmo com aquelas pessoas de quem


não gostamos? Ou falamos sobre o amor do grupo de
CCA e continuamos agindo com hostilidade em relação
a algumas pessoas?

Encorajamos todos os membros a darem completa


atenção aos oradores ou aos outros membros do grupo
que estão prestando depoimento? Ou conversas
paralelas, cumprimentos, etc. desviam nossa atenção
da reunião com frequência?

Nosso grupo encoraja os membros a falarem


rapidamente? Ou permitimos que alguns dominem a
discussão falando tanto que não sobra tempo para os
outros?

Os coordenadores das reuniões permitem que os


recém-chegados dominem a discussão ou interrompem
outros? Ou as ajudam a ser parte do grupo logo de
início, dando-lhes, gentilmente, informações sobre o
roteiro da reunião e as regras básicas do grupo?

105
Encorajamos os membros a usarem o telefone para
ajudarem a si mesmos e aos outros, e não apenas para
reclamações e fofocas?

Depreciamos outros membros ou grupos de CCA que


tem uma forma diferente de trabalhar o programa?

Apoiamos atividades de CCA que nos põem em


contato com outros grupos?

Nos damos ao trabalho de aprender sobre CCA como


um todo? Apoiamos CCA como um todo da melhor
maneira que podemos?

Encorajamos todos os nossos membros a compar­


tilharem honestamente com o grupo, mesmo quando
eles estão passando por momentos difíceis? Ou acre­
ditamos que aqueles que estão tendo problemas não
deveriam compartilhar?

A primeira tradição da unidade nos lembra de uma


verdade importante: não estamos sozinhos. Estamos em
contato com outros seres humanos. Nossa saúde emocional
e espiritual depende da saúde de nossos relacionamentos. A
doença do comer compulsivo, que uma vez nos isolou,
agora nos leva a CCA. Aqui, nos grupos locais, no papel de
padrinhos, nos intergrupos, nas assembleias regionais, e em
CCA em nível mundial, estamos aprendendo a nos ligar a
outras pessoas de modo que possamos nutri-las, e a nós
mesmos, à medida que nos recuperarmos juntos.

106
SEGUNDA TRADIÇÃO

Somente uma autoridade preside, em última


análise, nosso propósito comum – um Deus
amantíssimo que se manifesta em nossa
consciência coletiva. Nossos lideres são apenas
servidores de confiança; não governam.

O recém-chegado poderá perguntar “Quem é o chefe


de CCA?” e ficar confuso com a resposta dada na segunda
tradição: um Deus amantíssimo que se expressa na
consciência de grupo. A segunda tradição de Comedores
Compulsivos Anônimos pode aparecer impraticável, mas ela
funciona. Quando nos deparamos com um problema ou um
desafio, pedimos orientação a Deus, para que nos mostre o
que é melhor para o grupo como um todo. A seguir,
discutimos o assunto cuidadosamente, votamos as alterna­
tivas propostas e acreditamos que a decisão a que chegamos
juntos é a vontade de nosso Poder Superior.
É um axioma dizer que, na sociedade humana, onde
há uma estrutura de poder há brigas pelo poder. Isso parece
ser verdade mesmo em organizações formadas por membros
bem intencionados e idealistas. Muitos de nós irão lutar para
dominar os nossos companheiros caso estejam em posição
de fazê-lo, mesmo quando falam ardentemente em favor da
igualdade. Em CCA, entretanto, não existem posições de
poder às quais possamos nos apegar. Em vez de uma estrutura
de poder, temos uma estrutura de serviço. Os escritórios ou
juntas encontrados em CCA existem somente para executar
serviços. Eles não têm poder para impor regras a outros
grupos ou a membros individualmente. Nos grupos de CCA,
seus membros são escolhidos para executar ser­ viços, tais
como contabilizar e distribuir o dinheiro do grupo, encontrar

107
pessoas para prestarem depoimentos, frequentar a reunião do
intergrupo ou reabastecer o estoque de literatura. Os grupos
de CCA, em geral gastam muito pouco do tempo regular da
reunião com assuntos de serviço. Se alguém deseja fazer uma
mudança na maneira como o grupo está operando – encontrar
um novo local para a reunião, por exemplo, ou usar parte dos
fundos do grupo de uma outra maneira – isto é trazido para
discussão em uma reunião administrativa com todos os
membros que frequentam regularmente o grupo. Alguns gru­
pos fazem tais reuniões junto com a reunião normal e outros
fazem tais reuniões junto com a reunião normal e outros as
fazem separadamente. A consciência de grupo, informada,
decide que ação deverá ser tomada, e os indivíduos agem no
sentido de implementar essa decisão no grupo.
Consciência de grupo é a mesma coisa que regra da
maioria. Essa consciência é um expressão da unidade do
grupo de que fala a primeira tradição, um elo comum que
cresce entre nós à medida que cada um abandona a vontade
própria. Em vez de sermos guiados pelo interesse individual,
procuramos, enquanto grupo, aplicar os princípios contidos
nos passos e nas tradições de CCA em relação à decisão em
questão.
Para que possamos alcançar uma consciência de grupo
devidamente informada, afirmamos o direito de cada
membro do grupo de participar das discussões e ouvimos
atentamente a todos, com a mente aberta. O propósito de
nossas discussões é assegurar que a decisão a que o grupo
chegou leva em conta todas as informações pertinentes. Se
queremos chegar a uma decisão consciente, o grupo
precisara considerar as necessidades e ideias de todos. Por
essa razão, grupos de CCA dão completa atenção a todos os
pontos de vista, mesmo os das minorias.
Ninguém que se considere membro do grupo é
impedido de falar ou de votar. Como de acordo com a terceira
tradição, “para ser membro de CCA e único requisito é o

108
desejo de parar de comer compulsivamente”, a maioria dos
grupos de CCA não exige abstinência, ou outros requisitos,
para dar direito a voto. Como podemos confiar nas decisões
de nosso grupo se permitirmos que votem pessoas que estão
comendo compulsivamente e podem não estar com a mente
sã? Isso certamente é um perigo, mas se deve levar em conta
a necessidade de manter CCA aberto a todos que desejam o
que a nossa Irmandade tem a oferecer. Não permitir que
alguns falam, ou votem para tomar decisões no grupo,
significa negar efetivamente sua condição de membros do
grupo, condição esta que pode ser essencial para a
recuperação em relação à nossa “doença do isolamento”.
Aqueles de nós que têm uma longa experiência com
grupos de CCA e com as tradições têm mais do que um
direito de falar: têm a responsabilidade de compartilhar o
que aprenderam. Algumas vezes o que eles têm a dizer pode
ser impopular; eles podem hesitar, para não “criar confusão”;
ainda assim, a experiência de outros grupos e as tradições
de CCA precisam ser conhecidas por todos nós, se queremos
agir sabiamente sob a autoridade de um Deus amantíssimo.
Uma vez que todos os pontos de vista tenham sido
carinhosamente ouvidos, o voto da consciência de grupo é
dado. Cada um de nós baseia seu voto no que acredita ser
melhor para o grupo, e não nas personalidades que estão
defendendo um determinado ponto de vista nem no que os
seus amigos mais próximos acreditam.
A luz da segunda tradição, ninguém “perde” em uma
votação da consciência de grupo em CCA. Aqueles de nós
cujas opiniões diferem da decisão do grupo podem ficar
desapontados ou zangados, a princípio. A longo prazo,
entretanto, geralmente acabamos por acreditar que o
resultado foi uma boa coisa para nós pessoalmente, assim
como para CCA. Caso venhamos a nos sentir assim, ou
não, a realidade é que todos ganhamos quando a vontade
de Deus é realizada.

109
Nem todas as decisões dos grupos serão sábias e
práticas. De fato, cometemos erros, algumas vezes, e temos
que procurar melhores soluções para os problemas. Outro
voto de consciência de grupo pode ser convocado quando
alguma coisa precisa ser corrigida. Assim como acontece
com indivíduos, grupos de CCA aprendem com seus erros,
da mesma forma que CCA como um todo. Percebemos que
nosso Poder Superior, geralmente, nos guia por intermédio
de nossos erros.
Membros que estão em CCA há tempo suficiente para
aprender com tais experiências, algumas vezes, ficam
tentados a pensar que as opiniões devem prevalecer sobre
seus grupos, apesar da segunda tradição. Entretanto, quando
eles tentam controlar, em vez de servir aos outros membros,
as coisas geralmente dão errado.
Ao iniciarem um novo grupo de CCA, algumas pessoas
poderão ter que tomar todas as decisões no início, mas logo
a consciência de grupo assumirá a função de liderança. O
conselho dos membros antigos continua a ser valioso, mas
não é bom para o grupo ou para seus lideres que uma
pessoa mantenha uma determinada posição de serviço por
muito tempo. Uma parte vital de nosso crescimento pessoal
em CCA é prestar serviço, mas também é vital praticar a
humildade, abrindo mão de nossa posição de serviço, após
um período de tempo específico, de maneira que outra pessoa
possa ter essa oportunidade de levar a mensagem de CCA.
Dessa maneira, as funções são rotativas e trocadas
regularmente nos grupos de CCA, mesmo quando a pessoa
que está exercendo a função fez um bom trabalho e está
disposta a continuar. Isto é um tanto desconcertante para o
recém-chegado, que poderá supor que aqueles que
prestavam serviço estavam no comando da reunião de CCA.
A primeira vez que um secretário de grupo ou encarregado
da programação declina da função, um novato pode ter a
sensação de que o grupo está se desintegrando ou sendo

110
abandonado por sua liderança. Contudo, depois de retornar
à reunião mês após mês, o recém-chegado começa a sentir
segurança na maneira como a reunião é guiada por sua
consciência de grupo. Eventualmente, o membro que
frequenta regularmente uma reunião decidirá tomar parte
nas discussões e decisões da consciência de grupo, descobrirá
que o grupo continua a nutrir a sua recuperação pessoal,
apesar das mudanças, e também encontrará oportunidades
de prestar serviço. Temos uma rotatividade na prestação de
serviços em CCA da mesma forma que membros da família
estabelecem rodízios para tarefas domesticas.7
Todos os membros de CCA partilham a responsabili­
dade pelo funcionamento de CCA. Algumas vezes, membros
que não compreendem ainda como nossa Irmandade
funciona, dirão coisas tais como: “Por que será que eles
mudaram meu folheto preferido?” ou ‘Por que será que que
eles não têm uma reunião na minha cidade?”. Logo
aprendemos que não existem “eles” em CCA; apenas “nós”.
Agindo por meio de comitês de literatura constituídos por
membros de CCA do mundo todo, nós decidimos que
literatura vamos publicar, reescrever ou tirar de circulação.
Se nós queremos uma reunião em nossa cidade, cabe
àqueles de nós, que a desejam, iniciar uma. Este tipo de
responsabilidade, algumas vezes nos apavora, até que nos
lembramos das palavras da segunda tradição. Tudo o que
temos a fazer é o trabalho de base, e podemos confiar os
resultados ao nosso amoroso Poder Superior, que nos
oferece todos os recursos de que necessitamos.
Este livro em si é um exemplo de como a segunda
tradição funciona em CCA. Antes de ser terminado,
aprovado pela conferência de Serviço Mundial de CCA e
publicado na sua versão final, a Irmandade de CCA passou

7 - O “Manual do Grupo’ (Overeaters Nanonymous, Inc,1986) oferece muitas sugestões úteis para
grupos de CCA e está disponível no Escritório de Serviço Mundial- World Service Office.

111
por um processo de treze anos, no qual discutiu, algumas
vezes acaloradamente, se havia ou não necessidade deste
livro e como ele deveria ser escrito. O texto passou por três
grandes esboços e numerosas revisões, incorporando
sugestões e comentários de centenas de membros de CCA
em todo o mundo.
Muitas vezes, durante aqueles anos, o projeto todo
parecia fadado à controvérsia e a confusão. Partes do livro
foram debatidas e votadas nas Conferências de Serviço
Mundial de 1987, 1989, 1990, 1992, e de 1993, antes que
o livro fosse finalmente aprovado na sua presente forma.
Durante rodos aqueles anos, muitos de nós nos pergun­
távamos se um Deus amantíssimo, como expresso em nossa
consciência de grupo, poderia realmente conseguir que o
livro fosse publicado. A cada vez, entretanto, uma série de
eventos (geralmente inesperados) ocorriam para solucionar
os problemas e colocar as coisas de novo no rumo certo.
A cada vez, entretanto, uma série de eventos
(geralmente inesperados) ocorriam para solucionar os
problemas e colocar as coisas de novo no rumo certo.
Muitos de nós temos tido experiência semelhantes em
nossas reuniões. Quando um problema do grupo é trazido
para discussão, uma solução melhor frequentemente surge
dos trabalhos da consciência de grupo, melhor do que
qualquer proposta que os líderes do grupo possam trazer. A
medida em que a discussão progride, uma ideia com­
pletamente nova emerge, ou do fundo da sala, vem a voz
de um dos membros mais novos com um recurso inesperado
para resolver o problema. Para nossa surpresa, sérias
controvérsias que ameaçam dividir o grupo, são resolvidas e
descobrimos que o grupo realmente se fortalece no processo.

De que forma vivemos de acordo com os princípios da


segunda tradição em nossas reuniões de CCA?

112
Será que nosso grupo encoraja todos a participarem
ativamente da reunião e das discussões da consciência
de grupo?

Antes de votar decisões da consciência de grupo, será


que o grupo destina algum tempo para pesquisar e se
informar ao máximo sobre o problema e discuti-lo
completamente? Será que ouvimos com a mente
aberta o ponto de vista de todos?

Será que algumas vez pressionamos o grupo a aceitar


as ideias dos indivíduos simplesmente porque eles
estão em CCA há muito tempo?

Será que sentimos que temos que manter as aparências


nas discussões do grupo? Ou podemos caminhar
juntos, de bom grado, com a consciência de grupo,
mesmo que tenhamos diferido dela no início?

Criticamos as pessoas que prestam serviço, comitês de


CCA e funcionários de CCA? Ou apoiamos seus
esforços?

Será que fazemos com que as pessoas, que prestam


serviço, sejam responsáveis perante o grupo, de forma
que se possa confiar nelas e contar com elas?

Será que o grupo dá a devida atenção ao secretário do


grupo, ao seu representante no intergrupo e a outros
que estão dando avisos?

Os membros do nosso grupo se voluntariam para


assumirem cargos de serviço (secretário, tesoureiro) ou
aceitam de boa vontade? Ou temos dificuldade para
encontrar membros dispostos a prestar serviço? Todos

113
se oferecem para arrumar a sala, limpá-la, ou fazer
outras tarefas? Será que cada um faz o que pode,
mesmo aqueles que são relativamente novos em CCA?
Ou mesmo aqueles que já estão em CCA há muito
tempo?

Muitos de nós chegam a CCA com anos de experiência


em tentar lidar com sua famílias, amizades ou relacionamentos
de trabalho por meio do poder e da manipulação. Ficamos
surpreendidos ao constatar quão bem funciona a segunda
tradição em CCA, assim como com o que acontece quando
nos dispomos a simplesmente servir ao grupo e deixar o
nosso Poder Superior governar por meio da consciência de
grupo.
Percebemos que a maioria das pessoas está disposta a
cooperar alegremente com as decisões que ajuda a tomar.
Em vez de discutir, de censurar, de implicar ou de mandar,
aprendemos em CCA a expressar necessidades e desejos de
uma forma adulta e a deixar que os outros falem sobre os
seus, expressando nossa disposição para aderir a qualquer
decisão, que leve em conta as necessidades de todos. Raiva
e amargura são frequentemente substituídas por harmonia e
paz, quando damos a mesma importância a cada pessoa, e
realmente ouvimos o que todos têm a dizer. Quando isto
acontece, a vontade de um Deus amantíssimo está,
realmente, se expressando através de nós e de nossos grupos
de CCA.

114
TERCEIRA TRADIÇÃO

Para ser membro de CCA, o único


requisito é o desejo de parar
de comer compulsivamente.

A maioria das organizações apresenta uma lista de


requisitos para filiação, mas, em Comedores Compulsivos
Anônimos, temos apenas um requisito: o desejo de parar de
comer compulsivamente.
Nenhuma pessoa que tenha esse desejo pode ser
barrada em qualquer grupo de CCA. Os membros de CCA
têm origens, raças e religiões muito diferentes. Podemos ter,
e de fato temos, diferenças quanto a opiniões, posição política,
valores, estilos de vida, idade, sexo, orientação sexual e
posição econômica. Uma pessoa nunca esta gorda demais,
magra demais ou com o peso normal demais para ser um
membro de CCA. “E se eu só tenho cinco quilos para per­
der?”, os recém-chegados perguntam às vezes. Não existem
quaisquer pré-requisitos em relação ao peso, em CCA.
Também não é um pré-requisito ter tido experiências
semelhantes com a doença do comer compulsivo. Alguns de
nós já fazemos muitas dietas enquanto outros nunca fizeram
dietas alguma. Alguns se empanturravam e outros, não.
Alguns “eliminavam” a comida de várias formas. Entre nos­
sos membros encontram-se aqueles que comem compulsi­
vamente desde a infância e outros que nunca tiveram
problemas com a comida até a aposentadoria. Todos
aqueles, que já experimentaram a dor do comer compulsivo
e querem parar, são igualmente bem-vindos aqui.
Em CCA também encontramos uma enorme gama de
opiniões sobre o programa em si, sobre os doze passos, as
doze tradições e como aplica-los melhor. Ninguém é expulso

115
de CCA por não trabalhar os passos, não arranjar um
padrinho, não respeitar as tradições ou não adotar os
instrumentos e as práticas, que a maioria de nós emprega.
Será que isso significa que as passos, as tradições e os
instrumentos não são importantes? Não, eles são a diferença
vital entre CCA, e todas as outras formas que já expe­
rimentamos para lidar com nosso comer compulsivo. A
recuperação é uma jornada, e o programa de doze passos é
a estrada pela qual viajamos juntos em CCA. O objetivo da
terceira tradição é assegurar que a estrada estará sempre
acessível a todos que queiram viajar por ela. Assim, dizemos
que dois ou mais comedores compulsivos, que se juntem
para pôr em prática os doze passos e as doze tradições, são
considerados um grupo de CCA, desde que eles, como
grupo, não tenham outras filiações.
Como está implícito na terceira tradição, o desejo de se
abster, se refrear do comer compulsivamente, está no cerne
da filiação a CCA. Entre nós existem muitas opiniões sobre o
que significa, exatamente, parar de comer compulsivamente.
Ninguém é excluído de CCA devido à sua opinião pessoal
sobre como conseguir a abstinência. Note-se também que,
mesmo que o desejo de parar de comer compulsivamente
seja requerido, uma pessoa não tem que estar abstinente para
ser bem-vinda às reuniões de CCA. Encorajamo-nos uns aos
outros a continuar voltando, não importa o que tenha
acontecido. De fato, muitos de nós continuamos voltando a
CCA apesar de enfrentarmos problemas com a abstinência e
descobrirmos que isto é a chave da recuperação. Em CCA, a
porta nunca se fecha para um membro, que tenha voltado à
ativa no comer compulsivo, e muitos membros com um longo
tempo de abstinência. Já se sentiam desesperançados porque
tiveram problemas para se manter abstinentes ou experi­
mentaram uma recaída, em algum momento no passado.
Ocasionalmente, os grupos são incomodados por
membros que destroem a harmonia nas reuniões. Mesmo

116
essas pessoas não são permanentemente barradas no grupo e
não é negado a elas a chance de recuperação. Naturalmente,
os grupos precisam proteger seus membros da violência e do
assédio. Sabemos de casos de grupos que se confrontaram
com pessoas que estavam agindo de maneiras abusiva e pe­
di­ram a elas que deixassem a reunião. Felizmente, tais casos
extremos são raros. Percebemos que a maioria dos problemas
de personalidade podem ser melhor trabalhados em base
pes­soal, por meio de apadrinhamento. Nossas reuniões de
CCA não serão sempre perfeitas, mas nelas podemos encon­
trar recuperação, apesar das imperfeições. Quando cada
pessoa é respeitada e tratada com amor, o grupo sobrevive e
emerge, de cada experiência, mais forte do que nunca.
Ao longo dos anos, muitos grupos de CCA estabeleceram
pré-requisitos para participação, além do simples desejo de
parar de comer compulsivamente. Em alguns, por exemplo, a
pessoa tinha que seguir um certo plano alimentar por um
certo número de dias para que pudesse compartilhar durante
a reunião. Em outros, a pessoa precisava de permissão de um
padrinho para compartilhar.
Surgiu, então, a questão: isso não seria uma quebra da
terceira tradição? Se as pessoas devessem preencher pré-
requisitos especiais para que pudessem ter alguma participa­
ção na reunião, não lhes estaria sendo negada a participação
efetiva no grupo? De maneira geral, a consciência de grupo
de CCA, como um todo, tem concordado com esta
interpretação da terceira tradição, mas já houve muita
discussão sobre este ponto. Afinal, a autonomia dos grupos é
também uma tradição de CCA atentamente respeitada, e
grupos com esses tipos de pré-requisitos têm sido vitais para a
recuperação de muitos de nossos membros.
Nas conferências de Serviço Mundial de 1983, de
1987 e de 1989, os delegados procuraram formular uma
maneira de lidar com este assunto, que protege a autonomia
dos grupos e, ao mesmo tempo, garantisse que todos os

117
comedores compulsivos se pudessem sentir bem-vindos à
nossa Irmandade. Uma declaração com a orientação por
eles adotada dizia: “Comedores Compulsivos Anônimos
respeita a autonomia de cada grupo de CCA. Sugerimos,
contudo, que qualquer grupo que imponha um propósito,
uma tarefa ou uma orientação especiais deverá informar aos
seus membros que este propósito, esta tarefa ou esta orien­
tação não representa CCA como um todo. O único requisito
para filiação é o desejo de parar de comer compulsivamente.
Qualquer um que diga que é um membro é um membro.
Nós, de Comedores Compulsivos Anônimos, damos a boas-
vindas a todos os membros, de braços abertos” 8.
Ainda existem, dentro da Irmandade de CCA, algumas
reuniões com pré-requisitos especiais. Um exemplo seria um
grupo especial para recuperação de membros em recaída ou
um grupo de estudo de passos, com limite de participantes e
que pede o compromisso de frequência regular e de
execução de tarefas. Tal apoio pode ser uma bênção para o
membro de CCA, que necessite de uma ajuda extra para
reforçar seu programa. Contudo, por causa de seus pré-
requisitos especiais, esses grupos são desencorajados e se
registrarem no Escritório de Serviço Mundial.
Em CCA também existem grupos com algum tipo de
ênfase especial, tal como aqueles especialmente para
novatos, para homens, para mulheres, para gays ou para
lésbicas, para membros que já estão na fase de manutenção
do peso, ou para bulímicos. No caso desses grupos serem
registrados em CCA, eles não devem excluir nenhum
comedor compulsivo que queira frequentá-los e compartilhar,
mesmo que o membro não se enquadre na categoria para a
qual a reunião é orientada.

8 - Relatório Final- Conferência Mundial de Serviço de Comedores Compulsivos Anônimos


(Overeaters Anonymous, Inc, publicado anualmente).

118
Não queremos excluir nenhum de nossos companheiros
sofredores ou criar barreiras à sua recuperação. Muitos de
nós chegamos a CCA com a sensação de que o resto do
mundo não entende os comedores compulsivos e nossos
problemas. Para nós, CCA é o único lugar ao qual realmente
sentimos pertencer.

De que maneiras vivemos segundo os princípios


contidos na terceira tradição de CCA?

Nosso grupo encoraja todos a tomarem parte nas


discussões?

Será que fazemos com que todos os tipos de comedores


compulsivos sintam-se bem vindos, ou existem alguns
tipos que preferíamos não ter em CCA ou em nosso
grupo?

Focalizamos nossas discussões nas coisas que temos


em comum, por sermos comedores compulsivos?

Será que permitimos que idade, raça, educação,


maneira de vestir, peso, religião (ou fala dela), crenças
políticas, linguagem ou outras características deter­
minem se iremos estender nossas mãos a determinados
membros durante as reuniões de CCA ou pelo
telefone?

Será que nos deixamos impressionar demais por um


recém-chegado que seja uma celebridade? Pelo seu
status profissional? Pela sua experiência com outros
programas de doze passos? Ou o grupo consegue
tratar cada recém-chegado da mesma forma como
trataria qualquer outro comedor compulsivo?

119
Fazemos questão de falar com os recém-chegados,
mesmo quando sua aparência ou atitude não são
convidativas? Será que fazemos com que eles sintam
que são bem vindos a CCA?

Será que o grupo continua a dar as boas vindas a


todos os comedores compulsivos, mesmo aqueles que
tenham sido críticos em relação às práticas do grupo,
no passado?

Antes de CCA, talvez tenhamos estabelecido pré-


requisitos especiais para nossos amigos, colegas de trabalho
ou membros de nossa família. “Eu o amarei se...” fre­
quentemente caracterizava nossa atitude em relação a eles.
Talvez exigíssemos que os outros vivessem de acordo com
os nossos padrões ou impuséssemos condições para oferecer
nossa amizade: “Se você discordar de mim, você me traiu”.
Em CCA aprendemos que as pessoas podem discordar de
nós em assuntos importantes e ainda serem amigos amorosos
que nos apoiam.
Quando aplicamos a terceira tradição de CCA,
frequentemente descobrimos o tesouro da amizade onde
menos esperávamos, em pessoas que anteriormente
teríamos nossa volta, e tudo que temos a fazer é abrir nossos
corações, porque é aqui que a maioria de nós experimenta
aceitação incondicional pela primeira vez. “...Nós temos
uma casa, se o quisermos,” é como “Nosso convite a você”
no livro Comedores Compulsivos Anônimos expressa a
terceira tradição. ”Bem vindo a Comedores Compulsivos
Anônimos, bem vindos ao lar!”9

9 - Comedores Compulsivos Anônimos (livro de depoimentos) (Overeaters Anonymous, Inc.


1980) p.6.

120
QUARTA TRADIÇÃO

Cada grupo deve ser autônomo,


Salvo em assuntos que digam respeito
a outros grupos ou a CCA em seu conjunto.

Um dos lemas favoritos em Comedores Compulsivos


Anônimos é: “Não há nada obrigatório no programa”. Como
indivíduos, somos responsáveis por nós mesmos e livres para
trabalhar (ou não) o programa de doze passos da forma como
quisermos. O mesmo princípio se aplica a grupos de CCA. A
quarta tradição, a tradição da autonomia, dá aos grupos de
CCA o direito e a responsabilidade de operarem da forma
como eles acharem conveniente, livres de qualquer influência
externa. Autonomia significa que grupos de CCA não podem
ter qualquer outra filiação a não ser com CCA. Também
significa que nenhum outro grupo ou escritório de serviço,
mesmo dentro de CCA, pode determinar as ações do grupo.
Há apenas um limite para a autonomia na quarta tradição: os
grupos não devem fazer nada que prejudique a outros grupos
ou a CCA como um todo.
A quarta tradição dá aos grupos de CCA a liberdade
de fazer o que funciona melhor para eles. Cada grupo
escolhe seu próprio horário e local de reunião, assim como
seu roteiro e suas práticas. Cada grupo de CCA toma suas
próprias decisões e comete seus próprios erros, sem
interferência de nenhum órgão de governo além da sua
própria consciência de grupo.
Como os grupos são autônomos, membros de CCA
que visitam grupos em outras cidades geralmente encontram
práticas de grupo que lhes parecem estranhas. “Estas
pessoas não estão fazendo a coisa certa”, pensa o visitante.
“Tenho saudades do meu grupo de origem!” Mais cedo ou
mais tarde, entretanto, o visitante descobre uma maravilhosa

121
verdade. Grupos de CCA por todo o mundo são iguais em
um aspecto: cada grupo de CCA funciona em uma atmosfera
que promove a recuperação em relação ao comer compulsivo
por intermédio dos doze passos e das doze tradições.
Uma razão muito forte para o fato de todos os grupos
serem iguais em espírito pode ser encontrada na segunda
parte da quarta tradição. A autonomia se aplica apenas a
assuntos que não afetem a outros grupos ou a CCA em seu
conjunto. Que tipo de problemas são capazes de afetar toda
a Irmandade de CCA?
Um exemplo seria um grupo que não usa os doze
passos e as doze tradições como base para suas reuniões. Ao
se intitularem “CCA”, mas não oferecem a seus membros os
princípios de CCA, esses grupos estariam transmitindo aos
comedores compulsivos uma ideia errada sobre o programa e
prejudicando a Irmandade como um todo. A definição de
grupo utilizada pela Irmandade afirma o seguinte: dois ou
mais comedores compulsivos que se reúnam para pôr em
prática os doze passos e as doze tradições são considerados
um grupo, desde que esse grupo não tenha outra filiação.
Grupos que ignoram uma ou mais das doze tradições
trazem discórdia para a Irmandade. Por exemplo, há grupos
que têm permitido que os desentendimentos ocupem mais
tempo durante a reunião do que o compartilhar sobre
recuperação. Outros grupos têm-se apoiado em uns poucos
membros que exercem a liderança, em vez de confiar em
Deus para guiá-los por meio da consciência de grupo
informada. Alguns grupos têm restringido a filiação de
membros, ignorando a terceira tradição. Ou ainda, grupos
têm aceito o não pagar aluguel, fotocópias e outros serviços
prestados por pessoas ou instituições alheias a CCA, apesar
de nossa sétima tradição de auto sustentação. Grupos têm
distribuído entre seus membros literatura não aprovada por
CCA ou têm discutido, durante as reuniões, tópicos não
relacionados com a recuperação em relação ao comer

122
compulsivo, esquecendo nosso propósito primordial expresso
na quinta tradição. O horário da reunião, em alguns grupos,
tem sido usado para promover empreendimentos e assuntos
alheios a Irmandade, apesar das nossas tradições sexta e
décima. Grupos e indivíduos têm quebrado o anonimato de
membros, mesmo que duas das nossas tradições se refiram
a esse aspecto importante da nossa Irmandade. Assim, e de
muitas outras maneiras, os grupos algumas vezes falham em
viver os princípios expressos em nossas doze tradições.
Entretanto, uma infração de uma tradição de CCA não
resulta na expulsão sumária de um grupo – talvez não tivés­
semos mais Irmandade de CCA alguma, se esse fosse o caso!
Quando um grupo quebra uma das tradições, isso
ocorre geralmente porque as pessoas não estão bem infor­
madas a respeito delas, e não porque as pessoas tenham
escolhido ignorá-las. Quando isso acontece, membros de
CCA, que conhecem as tradições, têm a responsabilidade de
se manifestarem e informarem ao grupo que ele esta
funcionando foras das tradições. Quando essas pessoas falam,
uma discussão saudável sobre as doze tradições geralmente e
segue, e a maioria dos grupos escolhe funcionar dentro dessas
orientações testadas pela experiência.
Mesmo em casos onde isso não acontece imediata­
mente, o grupo logo percebe por que todas as tradições são
importantes. Elas existem para prevenir problemas. Grupos
que as ignoram normalmente acabam-se envolvendo em
com­ pli­
cações de algum tipo. Surgem problemas, ou
simplesmente a atmosfera positiva, na qual o grupo sempre
funcionou, muda. Companheiros se afastam, o entusiasmo
se esvai, e a sobrevivência do grupo é ameaçada. Quando
isso acontece, membros familiarizados com os princípios de
CCA podem apontar, de forma precisa, a fonte do problema
como decorrente da quebra de uma determinada tradição, e
a consciência do grupo, informada logo se mobiliza no
sentido de fazê-lo voltar à normalidade.

123
Em casos extremos, quando um grupo está afetando
CCA como um todo, por causa da sua persistente recusa em
funcionar segundo os princípios da Irmandade, esse grupo
pode ser retirado das listas de reuniões, que são publicadas
pelos intergrupos e outros corpos de serviço de CCA.
Entretanto, o corpo de serviço que toma tal atitude deveria
fazê-lo somente depois de muita reflexão. Isto porque é
muito fácil usar o poder da maioria contra os grupos em
minoria, pelo simples fato de terem escolhido uma
abordagem diferente para o trabalho dos passos, e não por
estarem realmente prejudicando outros grupos, ou CCA
como um todo com suas ações. É igualmente fácil que
emoções e conflitos de personalidade sejam levados em
conta ao decidir-se não incluir na lista de reuniões um certo
grupo de CCA. Quando isso acontece, a tradição de
autonomia é ignorada e a unidade da Irmandade sofre.
Em 1988, a Junta de Custódios de CCA decidiu não
resgatar no Escritório de Serviço Mundial qualquer grupo de
CCA que fizesse exigências especiais a seus membros. Ao
mesmo tempo, a Junta permitiu o registro de grupos com
exigência de abstinência ou outros requisitos para pessoas
que prestem serviços ou que vão prestar depoimento longo,
na medida em que estas restrições não são requisitos para
ser membro do grupo. Ainda assim, questionou-se se não
seria uma quebra da quarta tradição que diz claramente
“grupos de CCA devem ser autônomos...”. Com o intuito
de assegurar que a autonomia do grupo seria respeitada,
deixou-se a cargo de cada grupo julgar se as orientações do
grupo com relação à frequência, ao compartilhar ou ao voto
eram sugestões ou requisitos.
Autonomia também significa que grupos de CCA
operam livres de influências externas. Mesmo quando outras
organizações nos proporcionam locais de reunião, não
permitimos que elas influenciem o grupo de CCA. Claro que
uma reunião que acontece em uma igreja, um edifício

124
comercial, um hospital, ou uma escola deve-se ajustar às
regras do estabelecimento no que diz respeito a fumar,
barulho, arrumação, aluguel, estacionamento e coisas desse
gênero. Mas pessoas que não são de CCA não podem limitar
os direitos dos membros de se expressarem durante as
reuniões. E nem se pode restringir a composição do grupo
de CCA aos membros da igreja, aos empregados de uma
companhia, aos pacientes de um hospital ou aos residentes
na área, pois os grupos de CCA são abertos a todos aqueles
que têm o desejo de parar de comer compulsivamente. Não
deve ser permitido que certas organizações alheias à
Irmandade introduzam suas práticas em reuniões de CCA.
Isso foi o que aconteceu, nos primórdios de CCA, com
um grupo que funcionava em uma grande igreja. Não
familiarizados com o conceito de autonomia de CCA, o
grupo começou a incorporar as práticas da igreja nas
reuniões, estendendo as mãos e rezando pela cura daqueles
que estavam tendo dificuldade com o programa. O número
de membros rapidamente aumentou para quase trezentos.
Membros do grupo, convencidos de que tinham sido curados
para sempre do comer compulsivo, esqueceram de trabalhar
os passos. Logo se viram de volta à agonia da doença. Em
poucos meses, o grupo diminuiu para uns poucos membros,
e, finalmente, se dissolveu.
Nossa Irmandade, ainda tão inexperiente, aprendeu
muito com essa experiência. Percebemos que a autonomia
de CCA é essencial, se queremos viver de acordo com
nossas tradições e manter intacto o programa de recuperação
de doze passos de CCA.
À medida que nossa Irmandade amadureceu, grupos
de CCA encontraram formas de satisfazer suas necessidades
específicas e ainda assim continuaram operando de acordo
com as doze tradições. Reuniões com algum tipo de ênfase
especial são exemplo disso. Em CCA existem muitas reuniões
com ênfase especial, tal como reuniões para jovens, para

125
pessoas que estão na fase de manutenção do peso, para
lésbicas, para aqueles que perderam 50Kg ou mais para
aqueles que estão em recaída. Os grupos têm autonomia
para seguir roteiros de reunião adaptados para necessidades
específicas; entretanto, a filiação ao grupo é aberta a todos
os comedores compulsivos, e todos os membros devem ter
oportunidade de compartilhar e de opinar sobre como o
grupo deve funcionar. Respeitando essas orientações, grupos
de CCA com ênfases especiais florescem e nutrem a
recuperação dos indivíduos que a eles pertencem.
A quarta tradição oferece aos grupos de CCA a
liberdade de encontrarem o seu próprio caminho e apren­
derem com suas próprias experiências. Ao mesmo tempo,
esta tradição assegura a todos nós que a Irmandade de CCA
não será prejudicada pelas ações equivocadas de um grupo,
e que as reuniões de CCA continuarão a focalizar os
princípios contidos nos doze passos e nas doze tradições de
CCA.
Viver de acordo com a quarta tradição em CCA
significa aprender a agir de forma autônoma, mesmo
quando vivemos em harmonia com os outros. Aqui
aceitamos a responsabilidade por nós mesmos, por nossas
ações e por suas consequências, e pela nossa própria
recuperação. Aprendemos a respeitar a autonomia de outros
membros de CCA ao apadrinha-los ou ajuda-los. Ao mesmo
tempo, aprendemos a aceitar a ajuda de outras pessoas sem
esperar que elas façam, por nós, coisas que nós mesmos
deveríamos estar fazendo. Estabelecemos os limites
necessários para nós e para nossos grupos de CCA, de
forma que não venhamos a sofrer abuso de parte de outros,
e que possamos expressar nossas necessidades abertamente,
sem insistir para que os outros as atendam de forma que
poderiam prejudicá-los.
De que forma vivemos a quarta tradição?

126
Será que nosso grupo acha que há apenas algumas
poucas maneiras certas de fazer as coisas em CCA?
Respeitamos o direito dos outros grupos de terem
práticas diferentes das nossas?

Nosso grupo leva sempre em consideração o bem estar


de CCA como um todo ao tomar as decisões da
consciência de grupo? Ao votar para resolver como
gastaremos o dinheiro de nosso grupo? Ao planejar as
atividades do grupo? Na forma como conduzimos
nossas reuniões?

Será que paramos para pensar que as atitudes e


criações de nosso grupo irão moldar muitas das
primeiras impressões dos recém-chegados, sobre CCA
como um todo?

Será que algumas vezes levamos em consideração que


as ações de nosso grupo poderiam afetar a opinião
publica sobre CCA como um todo?

Nosso grupo dedica algum tempo à discussão das


tradições? Levamos em consideração todas as doze
tradições, quando estamos tomando as decisões da
consciência de grupo?

Mantemos nosso grupo livre de controle ou de


influência alheia a CCA?

Será que praticamos o princípio da autonomia,


assumindo responsabilidade por nossas próprias ações
e evitando tentativas de controlar as ações dos outros?

127
Todos nós precisamos de equilíbrio implícito no
princípio de autonomia para sermos os indivíduos e grupos
únicos que devemos ser. A quarta tradição nos desafia como
indivíduos, como grupos de CCA, e como Irmandade a
atingir um equilíbrio saudável entre nossa responsabilidade
para conosco e nossa responsabilidade para com os outros
ao crescermos e trabalharmos juntos como companheiros
em recuperação.

128
QUINTA TRADIÇÃO

Cada grupo é animado por um único


propósito primordial – o de transmitir
sua mensagem ao comedor compulsivo que ainda sofre.

Uma grande variedade de soluções para nossos


problemas já nos foi oferecida, desde clubes de dieta, SPAs
e programa de aconselhamento até fórmulas naturais,
injeções e pílulas. Em meio a todo esse clamor pela atenção
e pelo dinheiro dos comedores compulsivos, Comedores
Compulsivos Anônimos é o único a oferecer um programa
espiritual que tem trazido recuperação para milhares de
pessoas que haviam perdido a esperança. Nós, que
encontramos uma maneira sadia de comer e de viver, temos
a responsabilidade de assegurar que CCA não se desvie de
seus objetivos. Nossos grupos se reúnem para que possamos
partilhar com outros comedores compulsivos a recuperação
obtida por intermédio dos doze passos e das doze tradições.
CCA sempre oferecerá recuperação para aqueles que sofrem
da nossa doença, desde que nos lembremos de que este é o
nosso propósito primordial.
Uma razão importante para que nos mantenhamos
fiéis ao nosso propósito primordial nas reuniões de CCA é
que nossos grupos podem-nos ajudar a por em prática o
décimo segundo passo. A experiência nos mostrou que não
podemos manter as dádivas preciosas da nossa própria
recuperação a não ser que as passemos adiante, partilhando
a mensagem de CCA. Quando focalizamos, em nossas
discussões, os princípios incorporados nos doze passos e nas
doze tradições, quando partilhamos o modo como
encontramos a solução para nossos problemas com corrida
pela prática desses princípios, percebemos que transmitimos

129
a mensagem para aqueles que ainda sofrem, assim como
para nós mesmos. Não importa quanta recuperação
tenhamos, precisamos, ainda assim, ouvir a mensagem de
CCA. Todas às vezes que oferecemos nossa experiência,
nossa força e nossa esperança ao comedor compulsivo que
ainda sofre, retribuímos o que nos foi dado de graça, e,
desse modo, perpetuamos o fluxo de energia curadora que
alimenta nossa própria recuperação.
Além do mais, nós, membros de CCA, temos habi­
lidade para ajudar nossos companheiros comedores
compulsivos de um modo que não está ao alcance de
nenhum comedor normal. Sabemos disso porque devemos
nossa própria recuperação a outros membros de CCA.
Nossos médicos, nossas famílias ou nossos amigos podem
ter expressado sua recuperação com nossos problemas com
comida, ou nos podem ter dado conselhos, mas suas
palavras não parecem ter ajudado. Sentimos que eles não
nos compreendem. Em CCA, contudo, encontramos pessoas
que tinham feito e sentido as mesmas coisas que nós.
Começamos a escutar avidamente o que elas tinham a dizer.
Queríamos saber de que forma elas estavam melhorando. A
partir dessas experiências, encontramos um princípio chave:
o comedor compulsivo na ativa, provavelmente, encontrará
mais ajuda em alguém, que também já experimentou a dor
do comer compulsivo, do que em médicos, as família ou nos
amigos. Falando abertamente sobre nossas próprias
experiências trazemos ao recém-chegado sofredor uma
mensagem de força e esperança que não se encontra em
nenhum lugar fora da Irmandade de CCA.
A quinta tradição nos lembra que nossa recuperação
não vem de simplesmente discutirmos nossos problemas uns
com os outros. É na mensagem de CCA, nos nossos passos
e nas nossas tradições, que encontramos soluções para
nossos problemas. Viver por esses princípios salvou nossas
vidas. Honestidade, esperança, fé, coragem, integridade,

130
boa vontade, humildade, auto-disciplina, amor, perseverança,
espiritualidade, serviço, unidade, confiança, mente aberta,
responsabilidade, aceitação, igualdade, irmandade: esses
princípios dos doze passos e das doze tradições, mais do
que nossos problemas, deveriam ser o foco de cada reunião
de CCA. O mesmo se aplica ao apadrinhamento e outros
membros de CCA. Ajudamos mais quando escutamos,
evitamos dar conselhos e partilharmos nossa experiência de
viver pelos princípios de CCA.
Um grupo de CCA não é um Club social, embora
façamos ótimos amigos em CCA e desejamos vê-los nas
reuniões. A quinta tradição nos lembra que os grupos de
CCA geralmente morrem se os seus membros formam
grupinhos ou continuamente ignoram as necessidades dos
recém-chegados, não fazendo esforço para lhes dar as boas
vindas ou explicar-lhes os pontos básicos do programa de
recuperação de CCA. Uma CCA escreveu para Lifeline
sobre sua experiência com a quinta tradição:
“Nos meus primeiros anos de CCA, os coordenadores
de reunião sugeriam que nos apresentássemos para os
recém-chegados, no intervalo. Apesar de inúmeros lembretes,
nunca o fiz, assim como também não o fizeram muitos
outros membros. Só Deus sabe quantos novatos saíram
daquelas salas de CCA para nunca mais voltar. Devemos ter
aparecido, para eles, muito fechados em nosso grupinho...
As coisas mudaram quando eu e meu marido nos
mudamos para uma cidade em que não havia reuniões de
CCA. Meu padrinho me encorajou a começar uma. Eu
estava apavorada, mas aceitei o desafio. O grupo era
pequeno, apenas quatro, mas estávamos ansiosos para
crescer. Esperávamos a chegada de novatos, mas não havia
nenhum...
Logo soubemos que dois dos quatro membros teriam
que se afastar por causa de conflitos de horário. Mas, antes
que eles saíssem, tivemos nossa primeira recém-chegada!

131
Caímos em cima dela. No intervalo, todos foram falar com
ela. De repente, percebi o meu medo de me aproximar de
uma pessoa nova tinha desaparecido. Minha necessidade de
recuperação superou meu medo...
Hoje em dia não tenho mais medo de falar com os
recém-chegados. Agora me aproximo deles de braços
abertos, agradeço-lhes por terem vindo e os encorajo a
voltar. Sem eles, este nosso grupo não estaria celebrando,
seu pão estaria celebrando seu pio aniversário!”10
O “comedor compulsivo que ainda sofre” não é sempre
um recém-chegado a CCA. Pode ser também um membro
mais antigo que esteja passando por dificuldades com a
doença do comer compulsivo, ou com outros problemas. Ver
um de nossos membros recair ou enfrentar problemas pessoais
pode ser assustador para nós, e poderemos reagir
desaprovando o membro que quebra sua abstinência ou tem
outros tipos de dificuldades. Geralmente ficamos tentados a
voltar o assunto, evitando a pessoa que esta sofrendo. Talvez
usemos o slogan “junte-se aos vencedores” como uma
racionalização para não falarmos com a pessoa em recaída
nas reuniões de CCA, ou para nunca telefonarmos para
nossos amigos que pararam de ir às reuniões. Quando
reagimos assim, estamos esquecendo o propósito primordial
de nosso grupo, que é levar a mensagem de esperança de
CCA para aqueles que ainda sofrem - incluindo aqueles
dentre nós que já ouviram a mensagem muitas vezes antes.
A quinta tradição também nos diz para irmos além de
nosso próprio grupo, para procurarmos comedores com­
pulsivos que nunca assistiram a uma reunião. Nosso
propósito primordial inclui a responsabilidade de atingir
essas pessoas de todas as maneiras possíveis. Esta é a razão
pela qual cada grupo de CCA gasta uma parte de seus
fundos sustentando intergrupos, grupos regionais e o serviço

10 - “Conexão Vital”, Lifeline, Março 1990, pg. 20-21.

132
Mundial. Esses corpos de serviço estendem a mão e o
coração de CCA ao mundo à nossa volta de formas que,
geralmente, não estão ao alcance dos grupos: mantendo
escritórios de CCA e serviços de atendimento telefônico;
colocando anúncios de reuniões e outras informações sobre
CCA nos meios de comunicação, organizando eventos
especiais, convenções e maratonas; publicando listas de
reuniões e literatura sobre o programa; fornecendo oradores
e informação sobre CCA para clubes, hospitais, escolas e
outros grupos interessados; e de muitas outras maneiras.
Antes de CCA, muitos de nós simplesmente vivíamos
para comer. Agora que estamos juntos nos grupos de CCA,
temos um novo propósito. Será que estamos tomando
decisões que nos ajudam a transmitir para os outros uma
mensagem de esperança de recuperação?

Será que nosso grupo se concentra suficientemente no


propósito primordial de CCA? Focalizamos nossas dis­cus­
sões nos doze passos, nas doze tradições, nos instrumentos
e na recuperação em relação ao comer compulsivo?

Damos as boas vindas aos recém-chegados a nosso


grupo e lhes damos atenção individual?

Será que tentamos fazer com que a Irmandade de


CCA seja conhecida por pessoas de fora que necessitam
de ajuda? De que maneiras apoiamos nosso intergrupo,
nossa região e o Serviço Mundial em seus esforços
para levar a mensagem?

Será que alguma vez nos voluntariamos para ajudar


recém-chegados, visitantes de outras cidades ou outros
membros que estivessem precisando de ajuda a
comparecerem às nossas reuniões?

133
O que fazemos para dar as boas vindas aos membros
que estão retornando a CCA?

Será que nos comprometemos a dar as boas vindas


aos recém-chegados, a falar com eles, a oferecer nossos
números de telefone?

Será que novatos, conseguem encontrar padrinhos em


nosso grupo?

Alguém no nosso grupo se compromete a ligar para os


recém-chegados ou membros que têm estado ausentes
da reunião?

Será que nos lembramos de que veteranos em CCA


podem também ser comedores compulsivos que ainda
sofrem? De que maneira tratamos o veterano que está
enfrentando dificuldades com o comer compulsivo ou
com a vida?

A quinta tradição nos ajuda a manter a simplicidade,


tanto para grupos como para membros de CCA indivi­
dualmente. Descobrimos que, quando focalizamos a atenção
nosso propósito primordial de serviço, podemos começar a
eliminar uma grande quantidade de preocupações desne­
cessárias. Á medida que nos concentramos em levar uma
mensagem de esperança para outros, nos é dada a
capacidade de usar nossos talentos únicos de maneira que
sejamos realmente úteis para os outros. O resultado é melhor
do que qualquer resultado que pudéssemos ter planejado
para nós, porque encontramos uma profunda satisfação no
serviço quando juntamos nossas forças para partilhar a
recuperação em CCA.

134
SEXTA TRADIÇÃO

Nenhum grupo de CCA jamais deverá sancionar,


financiar ou emprestar o nome de CCA a qualquer
sociedade parecida ou empreendimento alheio à
Irmandade, a fim de que problemas de dinheiro,
de propriedade e de prestígio não nos afastem de
nosso objetivo primordial.

A quinta tradição define nosso objetivo primordial. A


sexta tradição adverte a cada grupo de CCA para que se
mantenha fiel exclusivamente a nosso propósito primordial,
não importa quantos empreendimentos alheios à Irmandade
possam nos interessar como indivíduos.
A pessoa, que atenda telefonemas para CCA ou que
trabalha em qualquer escritório de intergrupo, ouvirá todos
os tipos de propostas interessantes. As pessoas vão querer
falar nas reuniões sobre técnicas de beleza ou sobre novas
curas para a obesidade. Membros à procura de trabalho vão
querer colocar anúncios nas paredes dos escritórios de CCA.
Nossa Irmandade tem sido convidada a se filiar a qualquer
coisa, de SPAs a corridas, de livros de receitas a restaurantes.
Sabe-se que membros de CCA, mal orientados têm
usado nossas listas de números de telefone para vendas.
Membros pouco familiarizados com as tradições quinta e
sexta algumas vezes divulgam empreendimentos alheios à
Irmandade a programas de tratamento e a conversões em
igrejas.
Muitos desses empreendimentos são úteis e merecem
atenção e apoio. Porque será, então, que os grupos de CCA
tradicionalmente adotam como prática dizer não a todos
esses empreendimentos de fora? A razão pode ser resumida
em três palavras: Mantenha a simplicidade. Embora esses

135
empreendimentos possam ter valor, eles ameaçam desviar a
atenção dos grupos da única função de CCA, que é transmitir
a mensagem de recuperação dos doze passos aos comedores
compulsivos, que ainda sofrem.
No passado, alguns grupos distribuíram ou venderam
uma grande variedade de literatura não aprovada por CCA,
folhetos e livros publicados por empreendimentos de fora da
Irmandade. Contudo, a medida que CCA foi amadurecendo,
mais e mais grupos têm decidido distribuir, nas reuniões,
somente literatura de CCA. Sempre que um grupo de CCA
apresenta ou vende literatura não aprovada por CCA, significa
que CCA endossa a filosofia de quem escreveu a publicação.
A literatura aprovada por CCA reflete a experiência de muitos
membros da Irmandade, cuja recuperação está fortemente
enraizada nos doze passos e nas doze tradições.
A sexta tradição ajuda os grupos de CCA a cumprirem
nosso propósito primordial de transmitir a mensagem de
CCA. Se o tempo das reuniões é tomado por depoimentos
em favor de grupos religiosos ou outros programas de doze
passos, se os recém-chegados não podem distinguir entre
literatura de CCA e de fora de CCA, em nossa reuniões, e se
os membros colocam seus números de telefone no caderno
de reunião somente para serem incomodados por telefonemas
para vendas, a mensagem de recuperação de CCA logo se
perde. Aqueles que sofrem da miséria do comer compulsivo
necessitam escutar a solução encontrada ao trabalhar os doze
passos, durante nossas reuniões e telefonemas. Eles também
precisam saber aqui que não há interesses paralelos, que não
há embustes, nem acionistas pedindo que se ganhe dinheiro.
Existem muitos programas de tratamento para pessoas
com desordens alimentares, fora de CCA. A maioria reconhece
o valor dos doze passos e toma providências para que seus
clientes ou pacientes se envolvam com as reuniões de CCA.
Embora empreendimentos alheios à Irmandade possam
endos­sar CCA, CCA não endossa nenhum desses empreen­

136
dimentos de fora. Damos as boas vindas a todos aqueles que
chegam às nossas reuniões com o desejo de parar de comer
compulsivamente, não importa em que outros tipos de
tratamento eles possam estar envolvidos como indivíduos,
CCA não se filia a nenhum tipo de tratamento ou terapia.
Os grupos de CCA frequentemente se reúnem em
instalações pertencentes a um empreendimento alheio à
Irmandade, tais como igrejas, hospitais, órgão governa­
mentais ou companhias. Isso não significa que haja filiação
entre CCA e a entidade proprietária do prédio onde o grupo
se reúne. Os grupos de CCA tradicionalmente pagam aluguel
pelo uso do espaço de reunião em prédios pertencentes a
empreendimentos alheios à Irmandade.
Em uma cidade, um hospital abriu uma unidade para
tratamento de desordens alimentares e começou a levar seus
pacientes para as reuniões de CCA, em base regular, e,
então, convenceu o grupo de CCA a mudar seu local de
reunião para a sala de conferências do hospital. Muitos
antigos pacientes das unidades, logo se tornaram membros
de CCA comprometidos, e, frequentemente, os oradores
mencionavam o nome do programa do hospital quando
falavam na reunião de CCA, ao compartilharem sua história.
Logo, alguns oradores, saídos recentemente do tratamento e
ainda não familiarizados com as tradições, estavam falando
a favor do programa do hospital na reunião de CCA. Isso
começou a acontecer tão frequentemente que os recém-
chegados tinham a impressão de que CCA endossava aquele
outro programa. Nesse ponto, um membro veterano objetou,
lembrando a sexta tradição de CCA de não endossar
empreendimentos alheios à Irmandade. Seguiu-se, então,
uma acalorada discussão de consciência de grupo.
“Como pode você ser tão ingrato para com o hospital,
depois de todo o apoio que eles deram a CCA?” perguntou
um paciente. “Além disso, meu tratamento foi que me trouxe
a CCA. Estou compartilhando minha experiência pessoal.”

137
A questão foi resolvida satisfatoriamente com uma
sugestão simples. Os membros de CCA precisam estar livres
para compartilhar sua experiência, mas o grupo agora
solicita aos oradores que se abstenham de enfatizar os
nomes de empreendimentos externos de forma específica,
incluindo o programa para tratamento de desordens
alimentares, do hospital.
Desde os primeiros anos de nossa Irmandade, surgiram
muitas outras instituições e empreendimentos para ajudar o
comedor compulsivo sofredor. Além de programas para
tratamento de desordens alimentares, existem clubes onde
nós podemos encontrar e nos socializar, centros de
tratamento de meio período, livrarias cheias de literatura
sobre recuperação pra comedores compulsivos, ministros
conhecedores dos doze passos, conselheiros, retiros e grupos
de terapia. Uma diferença crucial entre esses recursos e os
grupos de CCA e que, embora muitos deles sejam baseados
nos doze passos, eles não se orientam pelas doze tradições.
Por exemplo, podem ter pré-requisitos para participação,
além do desejo de parar de comer compulsivamente, ou
podem ter o lucro como propósito primordial.
Muitos desses programas têm sido úteis aos membros
de CCA, e somos gratos pelo fato de, como indivíduos,
termos tantas escolhas para nos ajudar em nossa recuperação
e em nosso crescimento pessoal. Certamente não precisamos
sentir nenhuma vergonha se decidirmos suplementar nossa
recuperação pessoal em CCA com outros tipos de apoio.
Mesmo assim, de acordo com a sexta tradição, os grupos de
CCA não se filiam a nenhum desses empreendimentos de
fora de CCA. Tomamos quaisquer medidas possíveis para
garantir que eles não usem o nome de CCA, e evitamos
utilizar o tempo e o espaço da reunião de CCA para
promovê-los.
CCA também não é filiado a outros grupos de doze
passos e doze tradições, tais como Alcoólicos Anônimos,

138
Alanon, O-Anon, embora muitos de nós sejamos também
membros desses grupos. CCA tem frequentemente usado a
sabedoria e a experiência de outros grupos de doze passos
ao tomar decisões para nossa Irmandade, mas não somos
parte de nenhum deles, nem eles de nós. Temos nosso
propósito único a cumprir, oferecer uma Irmandade de doze
passos e doze tradições para comedores compulsivos.
Como foi discutido no texto sobre quinta tradição, as
reuniões de CCA têm seu foco dirigido para a recuperação
em relação ao comer compulsivo. Membros que colocam
ênfase demais em outras Irmandades, durante as reuniões
de CCA, deixam os comedores compulsivos com a impressão
de que esses programas e os problemas em que se encontram
são sérios e mais importantes para o comedor compulsivo
do que CCA. Tal não é o caso, e manter a sexta tradição
significa que nos abstemos de falar sobre outros programas
nas reuniões de CCA.
A falta de ligação de CCA com qualquer tipo de
empreendimento de fora dá a nossa Irmandade uma
liberdade em relação a finanças, os problemas adminis­
trativos, sucesso ou fracasso dos empreendimentos de fora
de CCA. Permanecendo afastados de tais filiações, os grupos
de CCA, podem-se concentrar na recuperação em relação
comer compulsivo, ao invés de se concentrarem em
problemas associados a dinheiro, a propriedade e a prestígio,
que causam tanto conflito no mundo à nossa volta.
De que maneira respeitamos a sexta tradição?

O nosso grupo desencoraja os membros a fazerem


propaganda de empreendimentos de fora nas reuniões
de CCA? Ou será que racionalizamos, pensando que
as pessoas precisam escutar o que está sendo dito
sobre tal programa, portanto não fará mal se igno­
rarmos as tradições desta vez?

139
Quando votamos a questão de como usar os fundos
do grupo e outros recursos, será que somos cuidadosos
para evitar financiar empreendimentos de fora?

Será que o nosso grupo vende ou distribui literatura


de fora em nossas reuniões?

Tomamos cuidado para nunca usarmos nossos contatos


do grupo de CCA para obtermos ganho financeiro
pessoal? Será que protestamos quando vemos alguém
deturpando o uso das listas de números de telefone e/
ou de reuniões de CCA para esse fim?

Quando compartilhamos nas reuniões, somos cuida­


dosos para não deixar subentendido um endosso por
CCA de empreendimentos alheios, tais como hos­pitais,
programa de tratamento de desordem alimenta­res, outros
grupos de doze passos, clubes, livros, publi­ cações,
ministros, terapias, etc.? Será superenfatizamos aqueles,
e superenfatizamos nossa experiência em CCA?

Quando nos encontramos, ou a nossos grupo de CCA,


envolvidos em problemas de dinheiro, de propriedade e de
prestígio, temos um sinal de que nos podemos ter envolvido
em assuntos que teria sido melhor que tivéssemos deixado
de lado. Causamos tais tipos de problemas quando
assumimos responsabilidade de fora ou promovemos causas
externas, desviando a atenção e os recursos do nosso grupo
do propósito primordial de transmitir a mensagem de CCA.
“As primeiras coisas primeiro”, é outro lema que
resume a sexta tradição. Em CCA aprendemos a nos con­
centrar em nosso propósito primordial e a excluir de nossos
grupos tudo que possa interferir e a excluir de nossos grupos
tudo que possa interferir em nossa capacidade de transmitir
a mensagem de CCA.

140
SÉTIMA TRADIÇÃO

Todos os grupos de CCA deverão


ser absolutamente autossuficientes
rejeitando quaisquer doações de fora.

A Sétima Tradição é uma sequência natural da quinta


e da sesta tradições. Se queremos que a Irmandade de
Comedores Compulsivos Anônimos cumpra seu propósito
primordial e permaneça livre de influências externas, pre­
cisamos nos manter livres da necessidade de contribuições
externas, também. CCA deve ser totalmente autossustentável.
O dinheiro é, certamente, necessário para manter vivo
o programa de CCA. Cada grupo tem despesas, como
aluguel e literatura. Quando os grupos se juntam para for­
mar um intergrupo, as oportunidades de transmitir a mensa­
gem de CCA se multiplicam, mas as despesas também. A
maioria dos intergrupos fornece listas de reuniões, tem uma
linha telefônica ou um serviço de atendimento a telefonemas,
distribui informação sobre o programa de CCA em suas
comunidades, publica um boletim, organiza maratonas e
convenções. Muitos intergrupos financiam escritórios locais
de CCA, onde o telefone precisa ser atendido, um estoque
de literatura é vendido, e o trabalho de décimo segundo
passo é levado adiante.
Os escritórios regionais de serviço de CCA sediam
convenções, publicam boletins, ajudam novos grupos e
intergrupos a se estabelecerem, transmitem a mensagem de
várias outras formas em suas regiões. O Escritório de Serviço
Mundial de CCA também oferece serviços, que desem­
penham um papel vital na recuperação individual de cada
membro, tais como publicação de livros e folhetos de CCA e
de Lifeline, nossa revista mensal de recuperação, manutenção

141
de uma lista de reuniões mundial; e um serviço de escla­
recimento das dúvidas sobre nosso programa, provenientes
do mundo todo.
Todos esses esforços são pagos por nós, membros de
CCA que fazemos doações. Não são cobradas taxas ou
mensalidades de ninguém em uma reunião regular de CCA.
Passamos a “sacola da sétima tradição”, e a maioria de nós
fica feliz em poder contribuir para manter nossos próprios
grupos e nossa Irmandade em funcionamento. Afinal, CCA
é o que mantém nossas vidas a salvo, é nosso meio de
recuperação em relação à doença do comer compulsivo.
A sétima tradição nos diz que o sustento financeiro de
CCA é nossa responsabilidade como membros da Irman­
dade. Não pedimos ou aceitamos apoio de fontes externas.
Se, por um lado, CCA é uma causa nobre, não é uma
organização de caridade. Há um limite na quantia que pode
ser doada em um ano, por um membro, para o Escritório
Mundial.
As razões para isto são óbvias. Se aceitamos presentes
“gratuitos” de pessoas de fora, ou muita coisa de um só
membro, nos tornarmos menos livres. Podemos nos tornar
dependentes do dinheiro, que está sendo doado, e nunca
aprenderemos a assumir responsabilidades e a pagar a nossa
parte. A necessidade de mantermos boas relações com o
doador nos desvia a atenção do propósito primordial. Por
outro lado, o doador que está pagando as despesas de CCA
pode, naturalmente, esperar ter mais poder em nossas
decisões. Quem contribui com grandes quantias de dinheiro
pode, perfeitamente, sentir que tem o direito de dominar o
grupo. Isso significa problemas, porque nossa autoridade,
em última análise, é um Deus amantíssimo, que se manifesta
em nossa consciência coletiva.
São necessários recursos para mantermos as reuniões
funcionando. Ao pôr em prática a sétima tradição, pagamos
todas as despesas do grupo com o dinheiro da sacola, sejam

142
elas aluguel, xerox, café, ou decorrentes de outras necessi­
dades. Entretanto, aprendemos, através da experiência, que
guardar grandes quantias de dinheiro não é bom para o
grupo. Quando a quantia de dinheiro em caixa fica maior
do que uma reserva mínima necessária para cobrir as
despesas a curto prazo, os grupos transferem esses fundos
para intergrupos, regiões e Escritório de Serviço Mundial.
Esses escritórios de serviço necessitam de apoio financeiro
para continuarem a transmitir a mensagem nas formas que
não estão ao alcance dos grupos. Além disso, dinheiro em
excesso inevitavelmente causa problemas para os grupos
que o acumulam.
Houve o caso de um grupo que vinha encontrando-se
harmoniosamente e crescendo rapidamente durante um
ano, mas nunca havia feito uma doação para o intergrupo.
As reservas acumuladas pelo grupo estavam bem acima da
quantia necessária para pagar o aluguel dos meses que se
seguiram e havia bastante literatura estocada. Finalmente, a
tesoureira do grupo trouxe à tona o assunto do excesso de
fundos. “Precisamos de mais diversão em nossas vidas”, ela
disse. “Vamos pegar este dinheiro e fazer uma festa!”
Outros membros se opuseram. “Mark, o secretário de
nosso grupo, está se mudando da cidade,” alguém disse,
“Devía­mos comprar para ele um bom presente de despedida
com o dinheiro.” Logo o grupo estava envolvido em uma
disputa sobre como o dinheiro excedente deveria ser gasto.
Finalmente, um membro trouxe um outro ponto de vista.
“Descobri este grupo quando liguei para o telefone do inter­
grupo. Será que não deveríamos estar mandando o dinheiro
excedente para o intergrupo, para ajudar a pagar o telefone e
outros serviços?” Depois de uma discussão a respeito da
quinta e da sétima tradições, o grupo votou por manter
dinheiro suficiente para cobrir as despesas dos próximos três
meses e mandar o restante para ajudar o intergrupo, a região
e o Serviço Mundial a transmitirem a mensagem de CCA.

143
Outro grupo, procurando evitar acumular fundos em
excesso, foi para o outro extremo e simplesmente parou de
passar a sacola nas reuniões durante algum tempo. Isso
resolveu o problema do excesso de dinheiro, mas impediu o
grupo de fazer outros comitês de serviço. Em uma deter­
minada semana, um membro falou sobre isso no grupo.
“A sétima tradição diz que devemos ser autossus­
tentáveis. Ela não diz nada a respeito de sustentarmos o
intergrupo, ou qualquer outro escritório de serviço”, um
outro membro objetou.
“Esses grupos não estão trabalhando para nós?” um
terceiro membro perguntou. “Eles dizem aos recém-chegados
o que é CCA e como encontrar nosso grupo. Se nós não
fizermos a nossa parte para sustentá-los financei­ ramente
como poderemos nos declarar totalmente autossustentáveis?”
Durante a semana seguinte, membros do grupo
refletiram sobre as convenções e maratonas, publicações e
apoio que haviam sido proporcionados ao seu grupo pelos
escritórios de serviço de CCA. “Intergrupo, região e Serviço
Mundial são partes do nosso grupo também”, eles concor­
daram. E voltaram a passar a sacola de modo que eles
pudessem contribuir financeiramente com sua parte para os
escritórios de serviço continuassem funcionando.11
Nos casos em que o grupo está com problemas
financeiros, a Irmandade, como um todo, pode ficar contente
em “carregar” este ainda frágil grupo durante algum tempo.
Mas, a longo prazo, este tipo de dependência se torna
nocivo. Logo que possível, os grupos de CCA precisam
pagar a sua parte nos custos dos serviços que eles recebem
de outros escritórios de serviço de CCA. O mesmo princípio
se aplica a indivíduos em CCA. Mesmo aqueles que estão

11 - Ver “autossustentáveis através da formula 60/30/10” (Overeaters Anonymous) para informações


a respeito de como os grupos costumam distribuir suas contribuições para intergrupos, regiões e
Serviço Mundial.

144
passando por dificuldades financeiras, percebem que
precisamos fazer algum tipo de contribuição para nossas
reuniões de CCA. Para muitos de nós, nossa disposição de
pagar por nosso progresso pessoal é um sinal de que estamos
nos recuperando e amadurecendo emocionalmente.
Entretanto, a sétima tradição não se aplica simplesmente
ao sustento financeiro. Para que possam ser totalmente autos­
suficientes, grupos e indivíduos precisam também assumir sua
parte nos serviços a serem prestados. Contribuições financeiras
podem pagar o telefone do intergrupo, por exemplo, mas
alguém de CCA precisa receber telefonemas ou responder às
ligações. Dinheiro é necessário para imprimir e postar boletins,
mas, antes disso, é preciso que os membros de CCA os
escrevam, editem, digitem, desenhem e coloquem neles os
endereços dos destinatários. Os grupos precisam mandar
representantes para o intergrupo, para ajudar na tomada de
decisões, trazer as novidades de volta para os grupos, distribuir
os boletins para as reuniões. Indivíduos precisam se voluntariar
para ajudar se CCA organizar convenções e maratonas.
Nossos intergrupos precisam de coordenadores, de secretários,
de tesoureiros, de representantes regionais, de delegados para
a Conferência de Serviço Mundial. Os grupos são totalmente
autossuficientes somente quando contribuem com sua parte
para o trabalho necessário para transmitir a mensagem de
CCA na sua área, em nível regional e em nível mundial. Os
indivíduos são totalmente autossuficientes somente quando
fazem o que podem, quando podem, dando de volta uma
parte da ajuda que receberam em CCA.
Da mesma forma que há um limite para a quantidade
de dinheiro que o Escritório de Serviço Mundial recebe de
um membro individual, deveria haver também limites
saudáveis para a prestação de serviço. Quando um membro,
ou pequeno grupo de membros, faz, continuamente, todo o
serviço, geralmente surgem ressentimentos, Os outros
membros sentem-se excluídos, às vezes, de forma que CCA

145
se divide em dois grupos, os “de dinheiro” e os de “fora”.
Os que estão “dentro” se sentem incompreendidos e sobre­
carregados com o serviço. O que estão “fora” se ressentem
dos que estão “dentro” por tentarem controlar tudo.
Um grupo de CCA foi iniciado por um membro que
continuou a fazer todo o serviço no grupo por mais de dois
anos. Ela guardava a chave e abria a porta, coordenava as
reuniões, cuidava do dinheiro, representava o grupo no
intergrupo. Entretanto, ela ficava intrigada com o fato de que
seu grupo nunca crescia. Na verdade, ele gradualmente
enfraqueceu até que, finalmente, durante os dias mais quentes
e abafados do segundo verão do grupo, todos, exceto a
fundadora, pararam de vir às reuniões. Ao se sentar sozinha
pela terceira semana seguida, ela examinou a sua prestação
de serviço à luz do que ela sabia sobre as tradições de CCA.
“Creio que o P.S. está tentando me dizer algo,” disse ela para
as cadeiras vazias à sua frente. “Talvez eu precise abrir mão
do controle e deixar que Deus tome conta deste grupo.”
Na semana seguinte, outro membro apareceu mais
cedo para a reunião e perguntou se podia guardar a chave.
“Preciso prestar mais serviços.” Disse. “Guardar a chave irá
fazer com que eu venha à reunião.”
A fundadora precisou de quaisquer outras pistas para
saber a vontade de seu Poder Superior. Ela arranjou para
que outros coordenassem a reunião, e chegou no grupo
novo secretário, novo tesoureiro e novo representante de
intergrupo. Nunca mais ela teve que sentar na sala sozinha e
se perguntar o que havia de errado com o grupo.
O princípio da autossuficiência completa é bastante
importante para os grupos de CCA e para os comedores
compulsivos em recuperação. No grupo de CCA, aprendemos
a depender de Deus, e não das pessoas, para nós
aprendermos a depender de Deus, e não das pessoas, para
nos dar segurança. Sob a orientação de nosso Poder Superior
aprendemos a fazer as coisas necessárias para tomar conta de

146
nós e de nossos grupos, material e emocionalmente.
Começamos a olhar para nosso Poder Superior, e não para
outras pessoas, como fonte de nossa felicidade e segurança.
Paradoxalmente, ser totalmente autossuficiente significa
que estamos livres, agora, para pedir ajuda quando
precisarmos, ao fazer serviço de CCA, e quando temos outros
problemas, também. Sob a luz da sétima tradição, começamos
a compartilhar nossa vulnerabilidade com outras pessoas em
CCA, sem esperar que elas assumam nossas responsabilidades.
A medida que nosso Poder Superior nos ajuda a ser
autossuficientes, podemos abrir mão de nossas dependências
e podemos desenvolver relacionamentos saudáveis com as
pessoas com quem compartilhamos nossas vidas.
Até que ponto praticamos a sétima tradição?

Será que realmente contribuímos com tudo o que


podemos para o sustento financeiro de CCA, ou
simplesmente continuamos colocando uns “trocados”
na sacola?

Quando a sacola está passando, pensamos em quanto


poderíamos estar gastando se estivéssemos fazendo
uma farra alimentar, em vez de estarmos em uma
reunião de CCA? Será que nos lembramos de todo o
dinheiro gasto nos programas de perda de peso que
não funcionaram?

Será que aqueles de nós, que estão recuperando


financeiramente, estão dispostos a botar um pouco
mais na sacola em benefício do recém-chegado, que
não pode dar tanto?

Tentamos contribuir com um pouco na sacola do


grupo, mesmo quando tememos a insegurança finan­
ceira?

147
Nosso grupo considera o trabalho do tesoureiro
importante e procura assegurar-se de que ele esteja
sendo feito de maneira responsável? Será que ouvimos
com atenção o relatório do tesoureiro?

Nosso grupo paga suas próprias despesas com o


dinheiro da sua sacola? Pagamos a taxa cobrada pelo
aluguel do nosso local de reunião? Pagamos pelas
cópias da lista de reuniões? Ou esperamos que o
empregador de alguém os doe para nós?

Quando colocamos em votação o modo de utilizar o


dinheiro do grupo, temos em mente o que nosso
intergrupo, a região, e o Serviço Mundial fazem para
transmitir a mensagem e quanto isso custa? Fazemos
uma contribuição?

Fazer a nossa parte na prestação de serviço também


faz parte de ser totalmente autossuficiente?

Nosso grupo manda um representante para cada


reunião de intergrupo?

Será que esperamos que todos os membros de nosso


grupo tenham a sua vez na prestação de serviços?

Nos revezamos nos cargos, regularmente, ou mantemos


as mesmas pessoas fazendo os mesmos serviços ano
após ano?

Será que alguns membros acumulam mais tarefas em


CCA do que as que eles realmente são capazes de
realizar? Ou encorajamos os membros menos ativos a
se desenvolverem mais?

148
A sétima tradição de dizer “não” para doações de fora
e “sim” para as nossas responsabilidades como grupos de
CCA e indivíduos é um princípio vital, que nos mantém, e à
nossa Irmandade, livres das complicações que surgiram
inevitavelmente se fossemos depender de fontes externas.
Enquanto acatarmos esta tradição, pagando por nossa
recuperação, dos nossos próprios bolsos, mereceremos o
respeito do público em geral e o respeito próprio também.

149
150
OITAVA TRADIÇÃO

Comedores Compulsivos Anônimos


deverá manter-se sempre não profissional,
embora nossos centros de serviços possam
contratar funcionários especializados.

A fundação, sobre a qual CCA está edificado, é o


compartilhar, sem limitações, entre os membros, de
experiência, de força e de esperança. Este princípio de
altruísmo faz com que nossa Irmandade seja única entre os
programas para comedores compulsivos. Como membros
de CCA podemos doar muitas horas de serviço para outros
CCAs, apadrinhando, falando nas reuniões, fazendo o
trabalho necessário em comitês ou em outros tipos de
serviço. Nenhum de nós recebe pagamento em dinheiro por
esse trabalho. Nossa recompensa é algo que o dinheiro não
pode comprar nossa recuperação pessoal.
A tradição de não profissionalismo ajuda CCA a se
manter afastado da motivação do lucro e a se concentrar
em oferecer a recuperação dos doze passos a todos aqueles
que a procuram. Recém-chegados a CCA ficam frequen­
temente impressionados com a honestidade que escutam, a
profundidade da partilha e o espírito de compaixão
encontrados na reuniões. Nenhum de nós é pago para estar
aqui. Cada um de nós é um comedor compulsivo, e todos
chegamos procurando apoio para nossa própria recuperação
pessoal. Sabendo disso, podemos confiar uns nos outros
para falarmos de coração, para compartilharmos o que a
nossa experiência nos ensinou e para ouvirmos com
compaixão nossos companheiros.
Caso não existam membros de CCA profissionais,
todos nós temos oportunidades iguais de compartilhar,

151
prestando serviço. Não precisamos de certificado, de
formação ou de credenciais para compartilharmos nosso
programa com outros comedores compulsivos ou para
assumirmos posições de serviço em nossos grupos. Tudo
que precisamos é de boa vontade e de um compromisso
com os doze passos e as doze tradições de CCA. Cada um
de nós pode representar um papel chave. Como nosso
décimo segundo passo inclui transmitir a mensagem de
CCA, é bom que haja oportunidades para todos nós
prestarmos serviço.
Profissionais são contratados entre os membros da
Irmandade ou de fora para uma perícia ou um conselho,
quando tal ajuda é necessária para serviços que demandem
habilidades especiais. A oitava tradição diz que “nossos
centros de serviço podem contratar funcionários espe­
cializados.” Nossa experiência tem demonstrado que alguns
funcionários pagos são necessários para cuidar dos negócios
de CCA, nos escritórios de intergrupos e no nosso Escritório
de Serviço Mundial.
Por exemplo, em uma cidade, o intergrupo decidiu
abrir um escritório. Encontrou-se um voluntário não
profissional para administrar o escritório – cuidando para
que a correspondência fosse respondida, as contas fossem
pagas, os telefonemas fossem atendidos, o material fosse
encontrado e um arquivo fosse mantido. Era bastante
trabalho! Depois de muitos meses de serviço fiel, o
administrador voluntário ficou doente e teve que renunciar.
O intergrupo começou a procurar um novo administrador
voluntário. Dois meses se passaram, e a posição não foi
preenchida. “Eu gostaria de ajudar”, as pessoas diziam,
“mas eu não tenho tempo para fazer todo este serviço.”
Finalmente, cinco CCAs concordaram em se incumbir de
partes do serviço, organizando o escritório em plantões. Esse
arranjo foi melhor do que não ter administração alguma,
mas confusão, ainda era a ordem do dia. Os detalhes

152
continuavam a escapar pelas brechas, e os voluntários
frequentemente tinham que deixar de dar prioridade aos
negócios do escritório para cuidar de outras prioridades em
suas vidas. Ninguém, nem mesmo o senhorio, sabia quem
era o responsável, ou a quem se dirigir quando surgia um
problema. Por fim, o intergrupo aceitou o fato de que o
trabalho de administração do escritório era muito grande
para ser feito por voluntários e muito importante para ser
largado à própria sorte.
“Nós não podemos pagar”, eles diziam, “mas teremos
que contratar um gerente pago.”
Então, eles contrataram um gerente. Embora não fosse
um pré-requisito que o gerente fosse um membro, decidiram
procurar primeiro entre os membros, uma vez que um
gerente que também estivesse em CCA precisaria de menos
treinamento para responder indagações sobre a Irmandade.
Um membro em recuperação, com as habilidades de
escritório necessárias, foi encontrado para administrar o
escritório por uma remuneração razoável, e CCA, naquela
cidade, teve o seu primeiro empregado remunerado. Uma
administração efetiva do escritório ajudou CCA a se tornar
mais forte lá, e o crescente número de membros ficou
contente em pagar o gerente por um trabalho bem feito.
Contudo, nunca somos pagos pelo trabalho feito para
a Irmandade, aquelas horas que gastamos transmitindo a
mensagem de recuperação a outros comedores compulsivos.
Os membros que coordenaram retiros ou eventos especiais
patrocinados por CCA são reembolsados de suas despesas e
de viagem e de hospedagem, mas não são pagos por sua
coordenação, mesmo que eles sejam profissionais pagos, em
locais fora de CCA.
Alguns membros de CCA trabalharam para hospitais e
centros de tratamento de desordens alimentares como
terapeutas profissionais e perceberam que sua experiência
em CCA era de grande valor para eles naquele trabalho. A

153
pergunta que surge é se eles não estão quebrando a oitava
tradição ao receberem pagamento por trabalhar com pessoas
que sofrem de desordens alimentares. Tais pessoas,
entretanto, estão sendo pagas por seu trabalho como
terapeutas profissionais, não como CCAs profissionais. Com
certeza, eles podem falar com seus clientes sobre a sua
experiência em CCA, mas, nos grupos de terapia que eles
dirigem profissionalmente, eles são a autoridade. Eles são
responsáveis por aplicar sua especialização, no campo da
psicologia, às necessidades de seus clientes. Quando
frequentam reuniões de CCA, eles são simplesmente
membros de CCA, sem nenhuma autoridade. Maior do que
a de qualquer outro membro do grupo, e estão livres para
focalizar sua atenção em sua própria recuperação. Estes
membros com “dupla identidade”12 são requisitados para
falar somente sobre sua recuperação pessoal durante os
eventos de CCA, a fim de evitar endosso, pelo CCA como
um todo, de empreendimentos alheios à Irmandade.
As reuniões de CCA são frequentemente muito
terapêuticas, mas elas não são a mesma coisa que grupos
de terapia. Uma diferença significativa entre os grupos de
CCA e os grupos de terapia podem ser vista na oitava
tradição. CCA não têm terapeutas profissionais com a
responsabilidade de orientar membros do grupo e trabalhar
com eles. Embora a maioria de nós se sinta livre para
partilhar nossos problemas nas reuniões de CCA, fornecer
psicoterapia não é o objetivo de CCA. Durante o processo
de recuperação, alguns de nós descobriram que precisavam
da ajuda de um grupo de terapia com liderança profissional,
como complemento de CCA. Trabalhando alguns de seus
problemas na terapia, foram capazes se satisfazer suas
necessidades especiais enquanto continuavam a se
concentrar nos doze passos, nas reuniões de CCA.

12 N.T. – O termo em inglês é” two- hatters”, que significa literalmente “alguém que usa dois chapéus”.

154
O grande bem que CCA proporcionou aos comedores
compulsivos sofredores, no mundo todo, é ainda, na maior
parte, feito não profissionalmente por membros de CCA que
nos dão de volta o que lhes foi dado tão generosamente.
Este espírito de doação e de partilha desinteressados é uma
das grandes forças que temos a oferecer como Irmandade,
porque é acompanhado de um poder de cura especial.
Em CCA, aprendemos a dar aos outros nosso
carinhoso apoio, livremente, sem lhes tentar dar conselhos
ou modificá-los, e não esperamos que os outros trabalhem
nosso programa por nós. Ao manter nosso status “não
profissional” em CCA, nós, voluntariamente, compartilhamos
e escutamos nossos companheiros comedores compulsivos.
Mas tentamos deixar para trás expectativas de que deveriam
resolver nossos problemas. Ou, que, deveríamos resolver os
deles ou de pagar a eles por nos ajudarem. O serviço é a
sua própria recompensa. Quando nos aproximamos dos
outros dessa maneira, frequentemente descobrimos que eles
nos respondem com amor e confiança mais profundos.
De que forma estamos aprendendo a viver pelo
princípio de não profissionalismo em CCA?

Será que algumas vezes tentamos “consertar” outras


pessoas nas reuniões de CCA dando a elas nosso
conselho especializado, ou nos concentramos em
compartilhar nossa experiência, nossa força e nossa
esperança?

Será que tentamos falar como especialistas nas


reuniões de CCA? Sobre recuperação? Sobre medicina
ou nutrição? Sobre sociologia? Sobre o “livro Azul” de
AA? Sobre a Irmandade ou o programa de CCA?
Sobre psicologia? Sobre assuntos espirituais? Ou
mesmo sobre humildade?

155
Quando estamos tendo dificuldade com o programa,
será que tentamos esconder isso daqueles que
apadrinhamos ou de nossos grupos de CCA porque
queremos ser olhados como se fossemos “profissionais”?

Será que colocamos outros membros de CCA na


posição de gurus ou especialistas por causa de sua
experiência ou carisma pessoal? Será que alguma vez
tratamos alguns de nossos membros como profissionais
esquecendo que eles veem a CCA para a sua própria
recuperação?

Será que fazemos outras pessoas responsáveis por nossa


Abstinência ou outros aspectos de nossa recuperação?

Será que podemos distinguir trabalho, feito pelos


funcionários de CCA, do trabalho que os membros
fazem ao compartilharem sua experiência pessoal, sua
força e sua esperança?

Será que podemos distinguir entre o que os terapeutas


e os que trabalham em programas de tratamento de
desordens alimentares fazem e a partilha, que é feita
em CCA?

Quando acatamos a oitava tradição, descobrimos um


espírito de serviço carinhoso, que se torna um fator poderoso
em nosso processo de cura. Somos todos não profissionais
ao apoiarmos mutuamente na recuperação em relação ao
comer compulsivo, dando e recebendo apoio e amor
fraterno sem nenhuma expectativa de retorno. Vivendo de
acordo com o espírito desta tradição, podemos nos voltar
para o companheiro ao nosso lado e dizer com sinceridade,
de coração: “Coloco minhas mãos nas suas, porque eu me
importo com você”.

156
Nona Tradição

CCA jamais deverá organizar-se


Como tal; podemos, porém, criar juntas
Ou comitês de serviço, diretamente
Responsáveis perante aqueles a quem prestam serviço.

Os que visitam algumas reuniões meio desorganizadas


de CCA, algumas vezes balançam a cabeça e dizem: “A
nona tradição é a que as pessoas mais respeitam. Este grupo
nunca está organizado!”
Embora nossas reuniões de CCA possam parecer
caóticas algumas vezes, o caos não é o objetivo da nossa
tradição. O que esta tradição nos encoraja a fazer é
permanecermos o mais livres possível da burocracia que
tende a se formar em torno das organizações, adquirindo
vida própria e obscurecendo o verdadeiro propósito do
grupo. Tudo que fazemos em CCA é voltado para nosso
propósito primordial de transmitir a mensagem de recu­
peração baseada em princípios espirituais. Tomar conta dos
serviços do grupo é muito importante. Contudo, toma-se o
menor tempo possível da reunião elegendo coordenadores,
votando, organizando eventos ou fazendo relatórios. Em vez
disso, concentramo-nos em compartilhar nossa experiência,
nossa força e nossa esperança uns com os outros, e em
estudar os passos e as tradições.
Para manter nosso tempo de reunião o mais livre
possível de atividades de organização, os grupos de CCA
criaram corpos de serviço, como os intergrupos, encarregados
de se reunirem e conduzirem os serviços, de coordenarem
atividades locais de informação pública, de operarem um
escritório de serviço. Esses corpos de serviço são organizados.
Os intergrupos têm servidores eleitos e estatutos, pelos quais

157
operam. Geralmente, os grupos de CCA, que se juntaram
para formar um intergrupo, enviarão, cada um, um repre­
sentante para as reuniões do intergrupo, para ajudar no
serviço, para trocar informações sobre problemas de grupo e
para ajudar relatar ao grupo o que o intergrupo está fazendo.
Embora nossos órgãos de serviço precisem ser
organizados, CCA, como tal, é encorajado pela nona
tradição a manter a ênfase na Irmandade, e não na
organização. Esta tradição nos ajuda a garantir que Deus
sempre será nossa última autoridade em CCA. Sem uma
estrutura organizada de poder na qual operar, nenhuma
pessoa individualmente, ou grupo de pessoas, pode governar
outras. Não se pode estabelecer quaisquer regras, nenhuma
punição nem emitir ordens. Certamente, os intergrupos e o
Serviço Mundial podem retirar, de sua lista de reuniões, os
grupos que continuamente ignoram nossas tradições, mas
nenhum grupo de CCA não precisam de nenhuma permissão
do Serviço Mundial para funcionarem, ou de qualquer outra
organização. Ao contrário, o Serviço Mundial deriva sua
autoridade dos milhares de grupos de CCA no mundo todo.
Da mesma forma, nenhum membro individual pode
ser expulso de CCA. Os membros de CCA vêm e vão, à sua
vontade, contribuindo muito ou pouco, conforme acham
adequado, e não existe nenhuma estrutura de poder para
exigir que seja de outra forma. Nossa experiência tem
mostrado que nenhuma estrutura de poder para exigir que
seja de outra forma. Nossa experiência tem mostrado que
nenhuma quantidade de organização impedirá o caos em
CCA, a não ser que vivamos pelos princípios espirituais
incorporados aos passos e às tradições. Nossa sobrevivência
pessoal e de grupo depende da adesão a estes princípios e,
não, da obediência a qualquer estrutura de poder.
Esta tradição de não organização pode ser muito
desconcertante para aqueles de nós, que anseiam por
reuniões “perfeitas”, sempre operando suavemente, de

158
acordo com regras entendidas por todos. Alguns de nós,
sentem-se inseguros quando descobrem que não existem
regras, somente sugestões e tradições, e que não há nenhum
líder com autoridade há algum tempo, contudo, começamos
a ver que aquela espécie de organização baseada no poder
humano não é necessária, afinal. Reuniões, que estão longe
de serem perfeitas, aos nossos olhos, ainda assim podem-
nos oferecer o milagre da recuperação. Nossos grupos
cometem erros, mas a maioria consegue sobreviver. De fato,
descobrimos que podemos aprender a partir desses erros e
nos tornar mais fortes.
Depois de observar esta tradição em funcionamento
por algum tempo, a maioria de nós começa a confiar que
realmente existe um Poder Superior guiando a Irmandade
de CCA, por intermédio de nossa consciência de grupo.
Podemos relaxar, confiar em Deus e apreciar a sabedoria na
nona tradição.
Será que isto significa que, quando vemos as tradições
sendo quebradas em nossos grupos, não devemos falar
nada? Muito pelo contrário! Quando as tradições são
quebradas, os indivíduos têm a responsabilidade de se
pronunciar, de maneira amorosa e clara, mesmo quando, ao
fazê-lo, possam se tornar impopulares junto aos outros
membros do grupo. Frequentemente os membros quebram
as tradições, porque não as compreendem, ou aos princípios
espirituais nos quais as tradições são baseadas. Falando
claramente quando uma tradição é quebrada, ajudamos
outros membros de CCA a aprenderem sobre esses princípios
espirituais. É uma maneira muito importante de com­
partilharmos nossa experiência em CCA.
Uma vez que tenhamos falado, contudo, precisamos
aceitar que daí possa resultar o conflito, que nossas palavras
possam não ser levadas em consideração e que não temos
nenhuma maneira de impor nossa compreensão das
tradições a outros membros do grupo. Falamos claramente a

159
favor da melhor maneira possível, deixando os resultados
para nosso Poder Superior.
Um membro escreveu para a revista Lifeline a respeito
de como ela se pronunciou em defesa das tradições em uma
reunião.: “Nossa líder, durante aquela reunião, queria fazer
uma leitura de um pequeno folheto escrito por um líder
religioso. Antes de começar, ela disse: “Sei que não é uma
literatura aprovada pela Conferência, mas será que alguém
se importa que eu leia isto no grupo? ”
Eu calmamente respondi: “Você sabe que eu sou
contra. Nosso propósito primordial durante uma reunião de
CCA é transmitir a mensagem de CCA. Podemos fazer como
quisermos fora das reuniões”.
Com isto, os outros membros na sala sugeriram que
ela fizesse como quisesse, uma vez que ela era a líder. Uma
recém-chegada perguntou por que não nos era permitido
compartilhar qualquer coisa que pensássemos que poderia
ajudar. Diversas pessoas ficaram irritadas com minha
objeção, e foi um comentário sobre a necessidade de ter a
mente aberta.
A leitura foi deixada de lado abruptamente e
prosseguimos uma reunião pouco serena. Posteriormente,
me disseram que eu tinha feito com que outras pessoas
sentissem que era muito arriscado se voluntariar para liderar
a reunião.
“A medida que experimento o isolamento e a dor por
defender minhas convicções, me vejo cheia de indagações.
Eu estava agindo como uma servidora de confiança disposta
a falar a favor das tradições? Se resolvermos fazer o que
queremos em uma reunião, será esta, uma reunião de
Comedores Compulsivos Anônimos, ou uma reunião de
Qualquer Coisa Anônima?”13

13 - “Já que você Pergunta...” Lifeline, Novembro,1990.

160
A maioria dos membros veteranos descobriu que
defender nossas tradições é correr risco de serem criticados
ou de que as reuniões sejam “pouco serenas”. A alternativa
poderia ser algo pior para nós, do que uma impopularidade
a um conflito temporário. Poderia acontecer que, se nos sen­
tás­semos e não disséssemos nada quando nossas tradições
fossem ignoradas, o foco das reuniões não fosse dirigido
para os princípios do programa de doze passos. O grande
poder de cura que encontramos nestas salas não mais estaria
aqui para nós. Viver pela nona tradição de CCA significa
que não dependemos de nenhuma autoridade ou estrutura
de poder para impor as tradições. Todos nos responsa­
bilizamos por falar quando elas estão sendo ignoradas.
Da mesma forma, a nona tradição não significa que os
grupos de CCA nunca devem estabelecer normas de conduta
em suas reuniões. Quando surgem problemas relativos a
questões tais como roteiro de reunião, fumar ou não,
conversas paralelas, etc., os grupos para encontrar soluções
frequentemente fazem reuniões de consciência de grupo
para encontrar soluções. Alguns grupos fazem essas reuniões
separadas da reunião regular, não gastando com elas o
tempo destinado a compartilhar durante a reunião; outros
grupos estabelecem discussões de consciência de grupo e
fazem votações durante a reunião regular, para que todos os
membros do grupo possam tomar parte. Indivíduos que têm
um respeito saudável pela consciência de grupo seguirão as
orientações sob as quais o grupo decidiu operar. Assim
como em relação às tradições, quando os indivíduos estão
ignorando a consciência de grupo cada membro tem o
direito e a responsabilidade de falar.
Uma vez que nos tenhamos expressado, contudo, a
nona tradição nos diz para relaxar e deixar que o nosso
Poder Superior se encarregue da reunião. Percebemos que
não podemos impor nossa vontade ao grupo de CCA, não
importa quão certa ela nos pareça.

161
Praticamos bem a nona tradição?

Nosso grupo apoia nossos líderes e comitês de


serviço? Será que somos críticos em relação àqueles
que estão prestando serviço e suspeitamos de suas
motivações?

Somos suficientemente maduros para assumirmos


responsabilidade pessoal pelo bem estar de CCA e
pela nossa própria recuperação? Ou esperamos que
“eles” tomem conta das coisas para nós?

Tentamos compreender e apoiar a estrutura de serviço


de CCA? Será que fazemos nossa parte para ajudar os
diferentes corpos de serviço de CCA a transmitirem a
mensagem?

Será que usamos de paciência e humildade ao


desempenharmos cada trabalho de CCA que
empreendemos?

Será que estamos conscientes de todos aqueles diante


dos quais somos responsáveis em cada posição de
serviço em CCA?

Nosso grupo prioriza o estudo das doze tradições e de


como elas se aplicam a nós?

Será que temos medo de falar quando vemos as


tradições sendo ignoradas em nosso grupo de CCA?

Será que podemos fazer o trabalho de base em nosso


serviço em CCA e confiar os resultados a nosso Poder
Superior, mesmo quando as coisas não correm do jeito
que pensamos que elas deveriam correr?

162
Será que praticamos o rodízio de lideres em nosso
grupo? Será que discutimos de que maneira o rodizio
da liderança se relaciona com a humildade pessoal e o
funcionamento do anonimato em CCA?

Em CCA, a experiência nos mostrou que as coisas


funcionam melhor quando a organização é mantida no
mínimo. Encontramos agora, na liberdade, a ordem que,
antes, procurávamos em regras e estruturas de poder.
Confiando em nosso Poder Superior e não em qualquer
estrutura de organização, podemos assumir a respon­
sabilidade por nossa vida compartilhada e pela Irmandade
de CCA, na qual estamos nos recuperando juntos.

163
164
Décima Tradição

Comedores Compulsivos Anônimos


Não opina sobre questões alheias
à Irmandade, portanto, o nome de CCA
jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.

Vivemos em um mundo que prospera em controvérsia.


Quando chegamos em CCA e ouvimos pela primeira vez a
décima tradição, é uma surpresa, para muitos de nós, que
esta organização, que dá tanto apoio à nossa recuperação
em relação ao comer compulsivo, não se mobiliza para
lançar seu peso moral em prol de outras boas causas. Como
pode CCA se acomodar e não dizer nada a respeito dos
muitos males sociais que parecem continuar sem controle
em nosso mundo?
A razão é simples. Nossos membros provém de várias
regiões e origens e temos mais diversas opiniões sobre cada
assunto. Se CCA tivesse que tomar partido, imediatamente
afastaríamos alguns de nossos membros, assim como muitos
de nossos companheiros sofredores, que estão fora de CCA.
Ao permitir que a controvérsia sobre assuntos de fora afaste
as pessoas, que precisam da recuperação que CCA tem a
oferecer, estaríamos dando um passo atrás em relação ao
nosso propósito primordial, que é transmitir a mensagem ao
comedor compulsivo, que ainda sofre.
Isso significa que, para manter a unidade de CCA seus
membros individuais precisam sacrificar sua liberdade
pessoal de pensamento e abandonar todos os assuntos e
ativi­
dades externas? Claro que não. Como indivíduos,
somos livres para acreditar em qualquer causa que esco­
lhamos e trabalhar em prol dela. A décima tradição nos

165
pede que deixemos esses assuntos do lado de fora quando
atravessamos a porta de CCA. Mesmo as causas mais
merecedoras não tem lugar em uma reunião de CCA.
O programa de recuperação de CCA é essencial para
cada um de nós. Nossa própria sobrevivência depende
dele. Sem ele, muitos de nós logo estariam tão
completamente ocupados com o comer compulsivo que
teriam pouco tempo ou energia para fazer qualquer outra
coisa, inclusive apoiar efetivamente aquelas outras causas
que significam tanto para nós. Esta é a razão pela qual
somos cautelosos, resguardando nossa Irmandade de
qualquer conexão, por menor que seja, com assuntos de
fora.
Quebra da décima tradição normalmente parecem
bastante inocentes, mas elas podem ter consequências de
longo alcance. Este foi o caso quando uma colunista de
jornal, cujos artigos são distribuídos em nível internacional,
afirmou em sua coluna de aconselhamento que um dos
aspectos do programa de CCA era a crença em Jesus Cristo.
Naturalmente, CCA não tem nenhuma opinião a respeito
do cristianismo ou qualquer outra religião, mas o público
em geral não sabe disso. Mesmo depois de um esclareci­
mento do Escritório de Serviço Mundial a respeito desta
imagem equivocada, a mesma percepção apareceu
novamente em uma coluna subsequente. A razão para tal,
de acordo com um membro da equipe daquela colunista,
foi que, apesar dos nossos desmentidos oficiais, a colunista
tinha recebido, ao longo dos anos, cartas de comedores
compulsivos que haviam sido encorajados em reuniões de
CCA a “colocar sua fé em Jesus Cristo”. Muitos comedores
compulsivos em sofrimento pertencentes a outras religiões,
ou indivíduos não religiosos, ficara, sem dúvida,
desnecessariamente desencorajados a procurar a ajuda de
CCA, porque alguns membros trouxeram assuntos de fora
para reuniões de CCA.

166
Não ter opinião sobre assuntos de fora também
significa que não opomos de forma alguma a tais causas.
Ridicularizar religiões, clubes de dieta, crença políticas e
outros assuntos, ou fazer comentários desrespeitosos sobre
eles, absolutamente não tem lugar em reuniões de CCA.
Não precisamos diminuir os outros para levar a mensagem
de recuperação que CCA tem a oferecer. De fato, falar mal
dos outros e rir às suas custas geralmente interfere na
atmosfera positiva das reuniões de CCA. Muitos de nós
sofremos dos hábitos do discurso e do pensamento.
Precisamos desesperadamente de uma atmosfera positiva
em nosso grupo de CCA se nos queremos nos recuperar.
Portanto, percebemos a sabedoria de nos mantermos em
silêncio sobre assuntos externos, em reuniões de CCA.
O que exatamente, são assuntos externos? Esta per­
gunta surgiu de uma vez entre nós. Por exemplo, muitos
membros de CCA também são membros de AA, de
Al-Anon, de O-Anon, e de outras irmandades, e esses grupos
algumas vezes têm um lugar nas histórias compartilhadas
nas reuniões. CCA como um todo, contudo, não tem opinião
sobre qualquer grupo ou tratamento para alcoolismo, uso de
drogas, co-dependência, ou outras desordens compulsivas,
e achamos melhor não termos nossa atenção desviada para
eles durante as reuniões. CCA é único ao oferecer
recuperação por meio dos doze passos e das doze tradições
àqueles que sofrem do comer compulsivo. Este é um papel
vital que nenhuma outra irmandade pode desempenhar.
Portanto, grupos de CCA mantêm o foco de suas discussões
na recuperação em relação ao comer compulsivo e, não,
nesses outros assuntos.
Mas e o que dizer de outros programas para perda de
peso e para tratamento de desordens alimentares? Esses,
também, são assuntos sobre os quais CCA não tem opinião.
Como indivíduos, poderíamos compartilhar nossas expe­
riências neles, mas, como organização, não temos coisa

167
alguma a dizer, seja contra ou a favor de qualquer um
deles. Falamos a favor do programa de CCA em nossas
reuniões e na literatura. Nossa experiência no programa,
honestamente compartilhada, nunca falha em oferecer
esperança e força aos comedores compulsivos em
sofrimento.
Nutrição é um assunto com o qual comedores
compulsivos lidam todos os dias, e pode parecer lógico,
então, que esta Irmandade deva ter como parte de seu
programa algumas instruções específicas sobre como cada
um de nós deveria estar comendo. Contudo, não temos. Em
vez disso, trabalhamos os doze passos de forma a alcançar a
meta que temos em comum, que é nos abstermos de comer
compulsivamente um dia de cada vez.
Em seus primeiros anos, CCA publicou planos
alimentares, sugeridos para nossos membros. O plano
“Grey Sheet”, o plano “Orange Sheet” ou o plano “Basic
Four” eram considerados por alguns uma parte essencial
do programa de CCA. Outros, entretanto, alegavam que
um ou outro dentre esses planos não era nutricionalmente
saudável. Finalmente, os custódios de CCA contrataram
uma equipe de especialistas em nutrição, e cada um
divergia em relação a diferentes aspectos de nossos planos
alimentares. O resultado foi que CCA parou de publicar os
planos. A consciência de grupo de nossa Irmandade tem
concordado, desde então, que nutrição é um assunto fora
do escopo do programa de doze passos de CCA. Hoje, o
membro individual é livre para seguir nenhum. CCA, como
um todo, não tem opinião sobre dietas, planos alimentares,
alergias a alimentos, nutrientes essenciais ou assuntos
correlatos.
Para manter a décima tradição, a maioria dos grupos
vende, em suas reuniões, apenas literatura aprovada por
CCA, e não usa literatura de fora como base para os estudos
do grupo.14 Muitos livros e panfletos, que têm sido escritos,

168
são de grande valor e ajudaram na recuperação de
indivíduos, mas não foram aprovados por CCA como um
todo. Uma orientação para não vender ou usar esses livros
nos grupos de CCA certamente não tem a intenção de banir
o seu uso entre nossos membros. Significa, simplesmente,
que não temos quaisquer opiniões sobre eles. A experiência
de CCA pode ser encontrada em nossa própria literatura.
Nossos livros e folhetos são produzidos pela consciência de
grupo de CCA como um todo e foram desenvolvidos,
editados e revistos por comitês formados por membros de
CCA do mundo todo. Eles foram aprovados por nossa
Conferência de Serviço Mundial como tendo ampla
aplicação para os membros de CCA. Isto não significa,
naturalmente, que todos estejamos de acordo com tudo que
eles contêm. Significa, apenas, que seu foco é mantido
exclusivamente nos princípios de CCA e na mensagem de
recuperação em relação ao comer compulsivo por meio de
doze passos.
Nós, comedores compulsivos, podemos aprender
muito com a décima tradição de CCA de nos concentrarmos
em nossa mensagem e de evitarmos a controvérsia. Ela está
resumida no lema: “Viver e deixar viver”. Percebemos que
podemos viver vidas mais felizes e úteis quando focalizamos
nossa atenção no fazer a vontade de nosso Poder Superior e
não em nossos conflitos.

Será que estamos praticando o princípio da décima


tradição?

14 - Por muitos anos, os livros de Alcoólicos Anônimos eram os únicos livros sobre os passos e
tradições disponíveis, de modo que eles foram usados extensivamente nos grupos de CCA. O
“Grande Livro” Alcoólicos Anônimos (Livro Azul). Os Doze Passos e as Doze Tradições de AA e
muitos outros livros de AA estão na Lista de Literatura aprovada por CCA ( Overeaters Anonymous,
Ins.) Muitos grupos vendem esses livros em sua mesa de literatura e fazem leituras deles como parte
de seu roteiro de reunião.

169
Será que, em algum momento, damos a impressão de
que há uma “opinião de CCA” sobre dietas? Sobre
clubes de dieta? Sobre médicos nutricionistas? Sobre
pílulas de dietas? Sobre psiquiatras e terapeutas?
Sobre centros de tratamento de desordens alimentares?
Sobre planos alimentares? Sobre exercícios físicos?
Sobre vitaminas? Sobre açúcar? Sobre outros grupos
de doze passos?

Será que ridicularizamos alguma dessas coisas ou nos


mostramos desrespeitosos em relação a elas?

Podemos compartilhar nossa própria experiência em


relação a elas honestamente, sem mencionarmos
nomes ou darmos a impressão de que estamos
expressando a opinião de CCA?

No roteiro de reunião e nas práticas do grupo, cuidamos


para não parecer que CCA tem alguma opinião sobre
qualquer desses assuntos?

Ao compartilharmos em nossas reuniões, tentamos


ajudar os recém- chegados a entenderem melhor o
programa de doze passos de CCA?

Será que achamos CCA mais interessante quando há


uma centelha de controvérsia no grupo? Será que
algumas vezes trazemos assuntos externos, apenas
para provocar as pessoas?

Será que temos medo de nos pronunciarmos em voz


alta em defesa da décima tradição quando vemos
outros ligando CCA a assentos externos?

170
Será que alguma vez usamos nossos contatos íntimos
com amigos de CCA para fazermos campanha em prol
de assuntos externos?

Podemos continuar a compartilhar a Irmandade de


CCA, e mesmo amizades íntimas – com pessoas que
não compartilham de nossas opiniões? Nos concen­
tramos em nossos laços comuns, e não em nossas
diferenças?

A décima tradição nos liberta para concentrarmos na


recuperação em relação ao comer compulsivo sem os
conflitos que parecem grassar no mundo à nossa volta.
Muitos de nós têm sido atraídos pelo prazer do conflito.
Naturalmente, nenhum grupo ou pessoa pode viver
completamente livre de conflito, mas, em CCA, aprendemos
que podemos viver, e mesmo prosperar, com um mínimo de
conflito.
CCA tem estímulo suficiente a oferecer, à medida que
vemos comedores compulsivos desesperançados se recu­
perarem pelo milagre dos doze passos. Isto não poderia
acontecer se permitíssemos que assuntos de fora trans­
formassem nossa Irmandade em um fórum de debate. Por
esta razão, a décima tradição, de não ter opinião sobre
assuntos de fora, é uma das nossas práticas mais cuida­
dosamente defendidas em CCA.

171
172
Décima Primeira Tradição

Nossa política de relações públicas baseia-se na atração,


em vez da promoção, cabe-nos sempre preservar
o anonimato pessoal em jornais, no rádio, em filmes,
na televisão e em outros meios públicos de comunicação.

Em Comedores Compulsivos Anônimos encontramos


esperança, enfim, e um modo de nos livrarmos da escravidão
da comida e do comer compulsivo. Cheios de entusiasmo
pelo programa de CCA, muitos de nós querem contar, a
todos que podem estar comendo compulsivamente, sobre
CCA. Transmitir a mensagem, afinal, é uma parte importante
dos passos e o propósito primordial da Irmandade de CCA.
A décima primeira tradição nos dá algumas orientações para
transmitirmos a mensagem de CCA; orientações a respeito
das quais todos os membros necessitam estar conscientes, à
medida que começam a partilhar nosso programa com
aqueles que estão fora de CCA.
A primeira sugestão é que divulguemos CCA ao
público em geral sem promovê-lo. Assim, usamos os meios
públicos de comunicação – rádio, televisão, jornais, painéis
informativos, anúncios na lista telefônica, folhetos em
quadros de aviso, filmes, mostras em feiras de saúde, etc. –
afim de fornecermos informação sobre o nosso programa.
Queremos que as pessoas saibam o que é CCA e como
podem encontrar nossas reuniões. Nessa divulgação,
contudo, nós não promovemos CCA com apelos pessoais,
endosso de pessoas famosas ou outros meios de persuasão.
O uso dos meios de comunicação, desta maneira não
profissional, permite que CCA atraia para se aqueles que
estão prontos para se beneficiarem do que temos a oferecer.
Poucos de nós, que agora somos parte desta Irmandade,

173
procuramos CCA imediatamente após a primeira vez que
ouvimos falar dele. Talvez precisássemos deste programa de
recuperação naquela época, mas alguns de nós levamos
algum tempo até nos decidirmos a vir e nos dispormos a
trabalhar os passos. Até que estivéssemos prontos, ninguém
poderia nos ter “vendido” este programa. O mesmo acontece
com outras pessoas que se podem beneficiar com CCA.
Transmitimos melhor a mensagem quando compartilhamos
francamente sobre o que é CCA e o que tem sido nossa
própria experiência, sem tentar dizer aos outros, que eles
necessitam do nosso tipo de recuperação. Respeitando a
décima primeira tradição, respeitamos o direito dos outros
de escolherem CCA para si mesmos.
Esta é a política de relações públicas da Irmandade de
CCA. Fazemos tudo o que podemos para dizer às pessoas o
que é CCA, como funciona, onde nos reunimos. Não
publicamos nos meios de comunicação as fotos de nossos
membros “antes e depois” de CCA. Não prometemos perda
de peso rápida ou resultados garantidos. Não temos
celebridades indo a público para falar sobre o seu sucesso
com o nosso programa e para convidar outros a se juntarem
a nós.
De fato, a décima primeira tradição afirma que todos
os indivíduos mantêm seu anonimato pessoal quando falam
de sua participação em CCA, em qualquer meio público de
comunicação. Para respeitar a décima primeira tradição,
aqueles de nós que escrevem livros ou são entrevistados
para uma reportagem de jornal, de rádio ou de TV, têm
duas opções. Podemos evitar ser chamados de membros de
CCA (mesmo que digamos que somos comedores
compulsivos). Então ficamos livres para usar nossos nomes
completos ou mostrar nosso rosto. Aqui a ênfase é no
indivíduo, e não estamos ligados publicamente ao programa
de CCA. Nossa outra opção é ir em frente e nos identificarmos
como membros de CCA. Quando fazemos isso, nos

174
asseguramos de que nossos rostos não estão sendo
mostrados e de que nossos sobrenomes não estão sendo
usados. Quando tomamos o cuidado de respeitar a décima
primeira tradição dessa maneira, a ênfase permanece em
CCA e, não, em nós mesmos.
Ao lidarmos com os meios de comunicação, algumas
vezes cometemos o erro de supor que entrevistadores e
fotógrafos já conhecem a tradição de anonimato de CCA.
Muitos profissionais dos meios de comunicação têm apenas
um conhecimento superficial sobre CCA. Cabe-nos explicar
a décima primeira tradição e pedir a eles que nos ajudem a
proteger nosso anonimato. Quando nós mesmos escrevemos
sobre nossa filiação a CCA para os meios de comunicação,
ou em livros, não usamos nossos nomes e sobrenomes por
extenso, indicando. 15
Não é por acidente que a palavra Anônimo é parte de
nosso nome. O anonimato pessoal em nível público mostra
ao mundo que levamos esta tradição a sério, e que outros se
podem juntar a nós e ficar seguros de que a sua filiação será
mantida em sigilo.
Alguns de nós têm protestado: “Eu não tenho nada a
esconder. A TV é um meio de comunicação visual e os
novos membros serão atraídos pela minha perda de peso e
pela minha história. Além disso, não me importo que saibam
que sou um membro de CCA.”
Isto pode ser verdade, mas ignora o fato de que CCA
é um programa espiritual. Quando uma pessoa assume o
papel de porta voz de CCA, sua ação provoca problemas de
natureza espiritual para o indivíduo e para a Irmandade.
Provoca problemas para o indivíduo porque não temos
nada com valor espiritual duradouro a ganhar – e talvez
muito a perder – pelo fato de tornarmos pública nossa

15 - Para obter diretrizes sobre como lidar com a imprensa, ver o Manual de Serviço para Informação
Pública (Overeaters Anonymous, Inc.)

175
recuperação em CCA. Quando ignoramos a décima primeira
tradição, nos colocamos à parte dos outros membros de
CCA a fim de assumirmos o papel de porta vozes. Ser um
“astro” ou uma “estrela” pode ser divertido, mas inevi­
tavelmente nosso status de “astro” ou “estrela” nos isola.
Então temos muita dificuldade para pedir ajuda a outros
membros de CCA, quando dela precisamos. A humildade é
uma das qualidades essenciais que precisamos desenvolver
a fim de nos meios públicos de comunicação, ser uma
maneira de abandonarmos nossa ambição pessoal para nos
mantermos saudáveis espiritualmente.
Aqueles que ignoram nossa décima primeira tradição
causam prejuízo ao espírito de irmandade de CCA, espírito
este que é essencial à nossa recuperação. Tais quebras de
anonimato podem trazer o nome de CCA a público, mas
elas inevitavelmente causam ciúmes estre os membros de
CCA, e competição por publicidade e recompensas finan­
ceiras. Ao mesmo tempo, quebras de anonimato representam
erroneamente a Irmandade de CCA perante o público ao
colocar as personalidades antes dos princípios. Elas dão a
entender que a recuperação pessoal de um membro, ou sua
recaída, estão ligadas ao “sucesso” ou “fracasso” de CCA. A
décima primeira tradição ajuda a garantir que não iremos
ferir a Irmandade de CCA em nossas tentativas equivocadas
de promovê-la.
A insistência de CCA no anonimato pessoal e nossa
recusa em promover nosso programa pelo seu endosso por
celebridades ou por outras técnicas de persuasão torna CCA
único entre os programas para comedores compulsivos.
Através de nossa experiência em CCA, aprendemos que não
precisamos estar sempre nos promovendo, nem, tampouco,
os nossos pontos de vista, na frente de outras pessoas. Em
algum momento de nossas vidas, podemos ter tido o medo
de que não seriamos apreciados ou amados se não con­
tássemos aos outros sobre nossas realizações profissionais.

176
Agora podemos abrir mão deste medo e, tranquilamente,
fazer a vontade de Deus, confiando em que o respeito e o
apreço de que realmente necessitamos chegará para nós,
uma vez que paremos de buscá-los.
De que maneira praticamos a décima primeira tradição?

De que maneira nosso grupo divulga o local e o horário


de sua reunião para os comedores compulsivos que
possam querer frequentá-lo?

De que maneira nosso grupo informa o público – ou


apoia nosso intergrupo em seus esforços de informação
pública – sobre o programa de CCA?

Será que nossa recuperação em CCA é atraente o


bastante para atrair outros comedores compulsivos
para CCA?

Será que falamos sobre CCA tão fanaticamente ou tão


frequentemente que o tornamos atraente para as
pessoas que fazem parte de nossas vidas?

Somos cuidadosos no sentido de mantermos os nomes


e os rostos dos membros fora da história quando
discutimos CCA com repórteres ou escrevemos sobre a
Irmandade?

Nosso grupo ou intergrupo fornece informação sobre a


décima primeira tradição para os meios de comunicação
em nossa área? Pedimos a eles que mantenham o
anonimato de todos os membros em reportagens sobre
CCA nos jornais?

Será que estamos dispostos a falar a favor da décima


primeira tradição sempre que a vemos sendo ignorada?

177
“Atração ao invés de promoção” é bom para nós, e
essencial para a Irmandade de CCA. Nossa recuperação
individual e a unidade do grupo e sua eficácia dependem
deste tipo pouco comum de relações públicas. A décima
primeira tradição se baseia na fé em nosso programa e neste
Poder maior do que nós, que guia comedores compulsivos
às nossas portas. Tudo, que temos que fazer, é deixar que os
fatos sobre CCA e seus princípios sejam conhecidos.
Podemos depender de nosso Poder Superior e deste pro­
grama milagroso para atrair aqueles que podem beneficiar
com o que CCA tem para oferecer. Quando mantemos
nossa tradição de anonimato, garantimos que Comedores
Compulsivos Anônimos permanecerá uma Irmandade
espiritual, apoiando a todos nós em nossa recuperação. 16

16 - Para maiores informações sobre o assunto anonimato, ver folheto de CCA. Anonimato:
significado e aplicações da Décima Primeira e Décima Segunda Tradições, ( Overeaters Anonymous,
Inc., 1983)

178
DÉCIMA SEGUNDA TRADIÇÃO

O anonimato é o alicerce espiritual de nossas


Tradições, lembrando-nos sempre da necessidade
de colocar os princípios antes das personalidades.

Viver segundo as doze tradições de Comedores


Compulsivos Anônimos requer que adotemos atitudes que,
no início, parecem estranhas para muitos de nós. Por
exemplo, colocamos o bem estar do grupo de CCA acima
de nossos próprios desejos. Desistimos de nossa aspiração
de governar nossos companheiros. Acolhemos em nossas
reuniões todas as pessoas que têm o desejo de parar de
comer compulsivamente, não importa o que pensemos ou
sintamos a respeito delas. Abandonamos nossa dependência
de autoridades e estruturas de poder, assim como nossa
ambição de galgar o alto de alguma imaginária escada em
CCA. Cessamos todas as tentativas de usar CCA para
promover nossos assuntos e empreendimentos externos
favoritos. Pagamos por nosso próprio caminho e deixamos
de esperar que outros nos mantenham. CCA em andamento
sem nossa ajuda. Abandonamos a aspiração de ganhar
status profissional como membros de CCA. Abandonamos
toda a ambição de podermos algum dia ser aclamados
publicamente pela nossa recuperação ou pelo nosso serviço
em CCA.
Antes de todas essas atitudes de auto sacrifício, existe
um único alicerce espiritual, que é tão importante para nossa
Irmandade e faz parte do nosso nome: o anonimato. É
essencial que todos nós compreendamos e respeitemos o
anonimato para que CCA sobreviva e nós encontremos
recuperação aqui.

179
Nossa experiência com os diversos aspectos do
anonimato começa quando atravessamos a porta de CCA
como recém-chegados. Nesse momento, muitos de nós não
queremos que ninguém saiba que nós estamos nos juntando
a CCA, ou como realmente nos sentimos em relação a nós
mesmos. Em CCA encontramos um porto seguro, um lugar
para compartilhar nossos sentimentos e experiências com
outros seres humanos que também sofrem da doença do
comer compulsivo. Quando todos respeitam o anonimato
dos outros, podemos confiar em que ninguém de fora destas
salas saberá que estamos frequentando CCA, a não ser que
nós mesmos digamos. Porque este é um programa de
princípios, não de personalidades, esperamos que o que
compartilhamos aqui não será passado adiante ou julgado,
seja dentro ou fora de CCA.
Contudo, o anonimato significa muito mais para nós
do que apenas não passar adiante o que ouvimos. A
qualidade de nossa recuperação, em última análise, depende
de nossa compreensão do anonimato como um princípio
espiritual e de como ele nos permite mudar.
Muitos de nós chegamos a CCA carregando uma
bagagem excessiva de vergonha e orgulho. Estamos
envergonhados porque fomos incapazes de controlar nossa
comida por nós mesmos, e ainda somos muito orgulhosos
para admitir que precisamos de ajuda em relação à nossa
alimentação e à nossa vida. A fim de nos recuperarmos,
teremos que abandonar nossa vergonha e nosso orgulho
para que possamos procurar ajuda ativamente junto a outras
pessoas. À medida que praticamos o anonimato, começamos
este processo de entrega.
Ser anônimo em CCA significa ser um no meio de
muitos e aceitarmo-nos como nem melhores nem piores do
que nossos companheiros. Esta aceitação coloca-nos em um
estado de humildade. Ela nos torna abertos para aprender.
Passamos a ouvir atentamente pessoas cujos sobrenomes

180
desconhecemos. Elas podem ser mais do que nós ou menos
bem sucedidas pelos padrões materiais. Elas podem ter
origens completamente diferentes da nossa. Escutamos
porque nos identificamos com elas. Aprendemos simples­
mente que elas podem dizer alguma coisa que seja uma
chave para nossa recuperação.
Frequentemente, usamos o primeiro nome nas reu­
niões de CCA, mas não porque tenhamos vergonha de
nossa participação em CCA, mas não porque os sobrenomes
simplesmente não são importantes para nós, aqui. Os
membros de CCA podem ser famosos ou desconhecidos.
Podemos ter muitas realizações ou poucas, muito ou pouco
dinheiro. Quando praticamos nossa tradição de anonimato,
afirmamos uma verdade muito importante. Em CCA
estamos todos na mesma condição – reduzidos à deses­
perança por causa de nosso comer compulsivo e libertos,
para à recuperação por este programa milagroso. O dinheiro,
a inteligência e o status não fizeram diferença para o fato de
nos tornarmos comedores compulsivos e não fazem
diferença para nossas chances de recuperação.
O anonimato não é a mesma coisa que sigilo. É o que
diz o folheto de CCA “Os instrumentos de recuperação”:
“Não é uma quebra de anonimato usar nosso nomes
completos dentro do nosso grupo ou nos órgãos de serviço
de CCA”.17 Muitos de nós percebemos que nosso serviço
para CCA fica mais fácil quando nos identificamos de forma
completa, e fica mais fácil para os outros nos encontrarem
quando necessitamos de auxílio. Ao mesmo tempo evitamos
ao máximo a maleficência, precisamos nos lembrar de que
“não é uma quebra de anonimato recrutar ajuda de décimo
segundo passo para membros em dificuldade, desde que
tomemos cuidado de nos abstermos de discutir qualquer

17 - Os Instrumentos de Recuperação (Overeaters Anonymous, Inc. 1981, 1989)

181
informação pessoal especifica”.18 Por exemplo, poderemos
recrutar ajuda sem quebrar o anonimato da pessoa, dizendo:
“Você tem falado com Mary recentemente? Seria bom
telefonar para ela.”
Precisamos nos lembrar, também de que nem todos os
membros abandonam imediatamente o hábito da male­
dicência quando entram para CCA, e poderá haver recém-
chegados presentes não familiarizados com nossas tradições.
Portanto, pode ser melhor compartilhar de maneira genérica
durante as reuniões de CCA e poupar os detalhes mais
íntimos para nossos padrinhos ou para outros indivíduos
nos quais aprendemos a confiar dentro de CCA. Aqueles
que já trilharam o caminho dos doze passos antes de nós,
conhecem a confiança sagrada, que neles é depositada, ao
ouvirem inventários do quarto passo, e a importância do
anonimato. Muitos de nós achamos que a aceitação incon­
dicional e a confiança que surge da prática do anonimato,
nos abre uns para os outros de formas de nunca expe­
rimentamos antes.
Quando respeitamos a décima segunda tradição, não
é dado status especial em CCA a nenhuma pessoa ou a
nenhum grupo de pessoas. Nossos líderes não têm honras
especiais; eles são simplesmente nossos servidores de
confiança. Quando aplaudimos a perda de peso de alguém
ou celebramos aniversários de abstinência, em nossas
reuniões, isso não significa que estejamos glorificando essas
pessoas. Significa que nós estamos rejubilando pela
recuperação de um companheiro comedor compulsivo. O
membro de CCA, que se abstém do comer compulsivo, não
é mais importante do que o membro em recaída.
Recém-chegados e gente jovem compartilham em
iguais condições com CCAs “idosos” em nossas reuniões.

18 - Ibid.

182
Alguns membros são chamados para falar diante de grandes
grupos de CCA, mas isto não os faz mais importantes do
que qualquer outro na Irmandade. Depois que eles prestam
depoimento, geralmente se sentam no meio da plateia e
ouvem o orador seguinte. Eles querem aprender o máximo
possível e nunca sabem quem o seu Poder Superior poderia
escolher para lhes ensinar algo.
Em CCA aprendemos que nossa recuperação nos
chega por meio dos princípios do programa, e não por
intermédio das personalidades. Descobrimos que podemos
aprender e trabalhar em harmonia com as pessoas, cujas
personalidades não nos agradam, desde que focalizemos
nossa atenção nos princípios de CCA. Vários membros de
CCA têm tido a experiência de escutar as palavras, que os
salvaram, quando eles estavam em dificuldades, dos lábios
de companheiros, dos quais não gostavam realmente.
Muitos de nós também viveram a experiência de colocar
certos membros em pedestais, apenas para vê-los descerem
ou caírem da lá. Algumas vezes tentamos construir nosso
programa em torno de uma pessoa que admiramos, um
padrinho ou orador. Chegou inevitavelmente o dia em que a
pessoa nos falhou de alguma maneira, e nossa própria
recuperação, ficou ameaçada. Foi então que aprendemos a
importância de colocarmos os princípios antes das personali­
dades. Descobrimos, através dos anos de experiência, que os
princípios de CCA são à prova de falhas. Eles são a rocha
sólida sobre a qual podemos construir vidas significativas.
Ao longo dos anos, nossa Irmandade tem aprendido
como é importante enfatizar estes princípios salvadores de
vida, e não as personalidades, quando planejamos conven­
ções e outros eventos especiais, No passado, os intergrupos
convidavam membros de CCA bastante conhecidos, como
autores de livros, palestrantes ou especialistas em desordens
alimentares, para falarem em eventos especiais. Os intergrupos
“destacavam” seus nomes em panfletos e em boletins. Em

183
alguns casos, centenas de comedores compulsivos sofredores
afluíam ouvir o palestrante “de nome”. A curto prazo, era um
benefício, mas a longo prazo surgiam problemas. Alguns
daqueles palestrantes estavam mais interessados em auto
promoção do que nos princípios do programa. Alguns se
aproveitaram de seus status para divulgar seus próprios livros
e programas de tratamento. Alguns membros em dificuldade
colocaram sua confiança naqueles indivíduos, e não nos
princípios do programa. Em um caso, surgiram notícias de
abuso pessoal. Os intergrupos, que estavam patrocinando os
eventos, perceberam ser difícil evitar tais quebras das
tradições, uma vez que estavam usando aqueles membros
bem conhecidos como estrelas para atrair público.
Depois de anos de tais dificuldades, os delegados de
CCA, na Conferência de Serviço Mundial de 1990, aprovaram
uma sugestão: “intergrupos, regiões e grupos individuais, ou
qualquer outro órgão de serviço patrocinador, se abstenham
de publicar os nomes ou títulos de oradores/ líderes de eventos
de CCA em todo o material (panfletos, boletins, etc.)”.19
O anonimato possibilita a humildade e é um guardião
contra a emergência da vontade cega que leva à compulsão
por comer. Impedidos por nossas tradições de nos
colocarmos, ou a outros, em uma posição de distinção
dentro da Irmandade, achamos mais fácil para cada um de
nós ser simplesmente uma parte do grupo. Ser uma parte
do grupo é essencial para nossa recuperação em relação à
doença do isolamento. Significa apoiar e ser apoiado por
nossos companheiros de CCA, partilhando abertamente as
alegrias e os desafios de nossas vidas. Nunca nós poderíamos
permitir fazer isso em qualquer outro grupo, em que
estivéssemos tentando fazer um nome.

19 - Relatório Final- Conferência de Serviço Mundial de Comedores Compulsivos Anônimos 1990(


Overeaters Anonymous, Inc., publicado anualmente ).

184
Assim, é para promover nossa própria recuperação, que
cultivamos a atitude de humildade implícita na décima segun­
da tradição. A medida que continuamos a crescer espiritual­
mente, começamos a perder nosso desejo de conseguir
prestígio em CCA e em outras áreas de nossas vidas. Constitui
satisfação suficiente estar em recuperação – plenamente
atuante e contribuindo como seres humanos. E sabemos que
não podemos nos dar todo o crédito nem mesmo por isso.
Dividimos o crédito com nosso Poder Superior e com nossos
companheiros de CCA que nos apoiaram e nos ensinaram
tanto. Nós também aceitamos a responsabilidade por nossas
ações, olhando apenas para nossas próprias faltas, e não
fazendo o inventário de ninguém, apenas o nosso.

Como podemos agirmos no sentido de colocarmos os


princípios antes das personalidades?

Nossos grupos sempre informam os recém-chegados


sobre o significado e a importância do anonimato em
CCA?

Será que tomamos cuidado para não mencionarmos


os nomes de membros de CCA, mesmo dentro da
Irmandade?

Será que alguma vez repetimos alguma confidência


pessoal que tenhamos escutado nas reuniões ou em
conversas com outros membros de CCA?

Será que valorizamos todos os membros de CCA


igualmente, ou será que tratamos alguns indivíduos
como estrelas ou “gurus”?

Nosso grupo apoia nossa consciência de grupo e


confia, ou será que deixamos uma ou várias perso­
nalidades fortes dirigirem as coisas?

185
Nos manifestamos em favor dos princípios de CCA,
mesmo que possamos contrariar alguém?

Será que alguma vez confundimos os princípios de


CCA com nossas opiniões pessoais?

Usamos o anonimato para promover o propósito


primordial de CCA, deixando que a identidade dos
membros seja conhecida no grupo, a fim de sermos
chamados para o trabalho de décimo segundo passo?

Qual é a importância real de cada indivíduo na


Irmandade de CCA?

A medida que nos recuperamos em CCA, acabamos


por perceber que o anonimato é um de nossos bens mais
preciosos. O anonimato é o fundamento espiritual de nossas
vidas transformadas, assim como das tradições de CCA.
Somos comedores compulsivos, vivendo em recuperação,
não mais na escravidão da comida. Sabemos que o apoio
para nossa recuperação estará sempre aqui para nós, desde
que lembremos de colocar os princípios antes das
personalidades, respeitando estas doze tradições vitais que
nos unem uns aos outros na Irmandade de Comedores
Compulsivos Anônimos.

186
AGRADECIMENTOS

Nós de comedores compulsivos Anônimos, gostaríamos


de expressar nossa profunda gratidão ao nosso grande
preceptor. Alcoólicos Anônimos, sem o qual nossa Irmandade
e nosso programa de recuperação não existiriam. Os doze
passos e as doze tradições foram reproduzidos e adaptados
com a permissão de Alcoholics Anonymous World Services,
Inc. A permissão para reproduzir e adaptar os doze passos e
as doze tradições não significa que AA tenha revisado ou
aprovado o conteúdo desta publicação, nem que AA
concorde com os pontos de vista aqui expressados. AA é um
programa de recuperação dirigido ao alcoolismo. O uso dos
doze passos e das doze tradições em conexão com programas
e atividades copiadas de AA, mas que se dirigem a outros
problemas, não implica em seu endosso por AA. Aqui estão
os doze passos de Alcoólicos Anônimos em sua forma
original:

187
Os Doze Passos de AA
1) Admitimos que éramos impotentes perante o álcool –
que tínhamos perdido o domínio sobre nossa vidas.
2) Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós
mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3) Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos
cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4) Fizemos minucioso e destemido inventário moral de
nós mesmos.
5) Admitimos, perante Deus, perante nós mesmos e
perante outro ser humano, a natureza exata de nossas
falhas.
6) Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus
removesse todos esses defeitos de caráter.
7) Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de
nossas imperfeições.
8) Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos
prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a
elas causados.
9) Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais
pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo
significasse prejudica-las ou a outrem.
10) Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando
estávamos errados, nós o admitimos prontamente.
11) Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar
nosso contato consciente com Deus, na forma em que
O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de
Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar
essa vontade.
12) Tendo experimentado um despertar espiritual graças a
estes passos, procuramos transmitir esta mensagem
aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as
nossas atividades.

188
As Doze Tradições de AA
1) Nosso bem estar comum deve estar em primeiro lugar; a
reabilitação individual depende da unidade de A.A.
2) Somente uma autoridade preside, em última análise, nosso
propósito comum – Um Deus amantíssimo que Se manifesta
em nossa consciência coletiva. Nossos lideres são apenas
servidores de confiança; não têm poder para governar.
3) Para ser Membro de A.A. o único requisito é o desejo de
parar de beber.
4) Cada grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que
digam respeito a outros grupos ou a A.A. em seu conjunto.
5) Cada grupo é animado de um único propósito primordial-
o de transmitir sua mensagem ao alcoólico que ainda
sofre.
6) Nenhum grupo de A.A. deverá jamais sancionar, financiar
ou empresar o nome de A.A. a qualquer sociedade
parecida ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim
de que problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não
nos afastem de nosso objetivo primordial.
7) Todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente
autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8) Alcoólicos Anônimos deverá manter-se sempre não
profissional, embora nossos centros de serviços possam
contratar funcionários especializados.
9) AA jamais deverá organizar-se como tal; podemos, porém,
criar juntas ou comitês de serviço diretamente responsáveis
perante aqueles a quem prestam serviços.
10) Alcoólicos Anônimos não opina sobre questões alheias à
Irmandade; portanto, o nome de A.A. jamais deverá
aparecer em controvérsias públicas.
11) Nossas relações com o público baseiam-se na atração em
vez da promoção; cabe-nos sempre preservar o anonimato
pessoal na imprensa, no rádio e em filmes.
12) O anonimato é o alicerce espiritual de nossas tradições,
lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os
princípios acima das personalidades.

189
OS DOZE PASSOS
1) Admitimos que éramos impotentes perante a comida- que
tínhamos perdido o domínio de nossas vidas.
2) Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmo
poderia devolver-nos a sanidade.
3) Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados
de Deus, na forma em que O concebíamos.
4) Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós
mesmos.
5) Admitimos perante a Deus, perante nós mesmos e perante
outro ser humano a exata natureza de nossas falhas.
6) Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse
todos esses defeitos de caráter.
7) Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse das nossas
imperfeições.
8) Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos
prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas
causados
9) Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais
pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo
significasse prejudicá-las ou a outrem.
10) Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando
estávamos errados nós o admitimos prontamente.
11) Procuramos, por meio da prece e da meditação, melhorar
nosso contato consciente com Deus na forma em que O
concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua
vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.
12) Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes
passos, procuramos transmitir esta mensagem aos comedores
compulsivos e por em prática estes princípios em todas as
nossas atividades.
A permissão para usar os Doze Passos de Alcoólicos
Anônimos para adaptação foi concedida por A.A. World
Services, Inc.

190
AS DOZE TRADIÇÕES
1) Nosso bem-estar comum deve estar em primeiro lugar; a
recuperação individual depende da unidade de CCA.
2) Somente uma autoridade preside, em última análise, o
nosso propósito comum - um Deus amantíssimo que se
manifesta em nossa consciência coletiva. Nossos líderes são
apenas servidores de confiança; não têm poderes para
governar.
3) Para ser membro de CCA, o único requisito é o desejo de
parar de comer compulsivamente.
4) Cada grupo deve ser autônomo, salvo em assuntos que
digam respeito a outros grupos ou a CCA em seu conjunto.
5) Cada grupo é animado por um único propósito primordial -
o de transmitir sua mensagem ao comedor compulsivo que
ainda sofre.
6) Nenhum grupo de CCA deverá jamais sancionar, financiar
ou emprestar o nome CCA a qualquer sociedade parecida
ou empreendimento alheio à Irmandade, a fim de que
problemas de dinheiro, propriedade e prestígio não nos
afastem do nosso objetivo primordial.
7) Todos os grupos de CCA deverão ser absolutamente
autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora.
8) Comedores Compulsivos Anônimos deverá manter-se
sempre não profissional, embora nossos centros de serviço
possam contratar funcionários especializados.
9) CCA jamais deverá organizar-se como tal; podemos, porém,
criar juntas ou comitês de serviços diretamente responsáveis
perante aqueles a quem prestam serviços.
10) Comedores Compulsivos Anônimos não opina sobre
questões alheias à Irmandade; portanto, o nome de CCA
jamais deverá aparecer em controvérsias públicas.
11) Nossas relações com o público baseiam-se na atração em
vez da promoção; cabe-nos sempre preservar o anonimato

191
pessoal em jornais, no rádio, em filmes, na televisão e em
outros meios públicos de comunicação.
12) O anonimato é o alicerce espiritual das nossas tradições,
lembrando-nos sempre da necessidade de colocar os
princípios antes das personalidades.

A permissão para usar as Doze Tradições de Alcoólicos


Anônimos para adaptação foi concedida por A.A. World
Services, Inc.

192
Para obter informações sobre Comedores
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ou para receber uma copia do catálogo de literatura de
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P.O. Box 44020
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(Em Português) escreva para a Junta de Serviços Gerias de
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