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ESQUEMA DE RESOLUÇÃO DE CASOS PRÁTICOS

Enriquecimento sem causa

 Classificar o caso como uma potencial situação de enriquecimento sem causa, indicando
quem é o enriquecido e empobrecido;

EXEMPLO. Estamos perante uma potencial situação de enriquecimento sem causa, em que o
empobrecido é A e, por sua vez, B é o enriquecido.

 Verificar o preenchimento dos pressupostos gerais cumulativos do instituto do


enriquecimento sem causa que decorrem do disposto no artigo 473º/1 do CC através dos
elementos presentes no caso prático.

De acordo com o professor MENEZES LEITÃO, os pressupostos são os seguintes:

 Um enriquecimento, isto é, um aumento da esfera patrimonial do enriquecido (A), suscetível


de avaliação pecuniária.

Aqui, o enriquecimento deve ser considerado em abstrato, equivalendo ao valor bruto da


deslocação patrimonial em causa (indicar o valor). Tem de envolver uma vantagem de carácter
patrimonial: benefícios de carácter pessoal, insuscetíveis de carácter pecuniária, estariam, assim
excluídos.

 À custa de outrem, isto é, uma relação causal entre um enriquecimento e um empobrecimento


(diminuição da esfera patrimonial, suscetível de avaliação pecuniária).

O enriquecimento de uma pessoa deverá ter ocorrido à custa de outra pessoa. Diz-se que ao
enriquecimento de uma pessoa corresponderá o empobrecimento de outra, devendo haver, pois,
uma relação entre o enriquecimento e o empobrecimento. A fim de explicar essa mesma relação,
deve atender-se à teoria do conteúdo da destinação, ou seja, se houve vantagens/utilidades
destinadas à esfera do empobrecido (A) que foram desviadas para a esfera do enriquecido (B),
haverá um correlativo empobrecimento.

 Sem causa justificativa: não pode existir nenhuma norma (princípio ou regra) que legitime a
manutenção do enriquecimento na esfera do enriquecido (A).

 Obrigação de restituir: o enriquecimento sem causa gera a obrigação de restituir. O artigo


479º CC determina, antes de mais, que a restituição deve ser natural: deve, pois, restituir-se
a própria coisa adquirida sem causa. Porém, quando a reparação em espécie não for possível
(e também quando for excessivamente onerosa para o devedor), o obrigado à restituição deve
restituir o valor equivalente ao enriquecimento à custa de outrem.

 A subsidiariedade do instituto do enriquecimento sem causa

Havendo enriquecimento sem causa, é necessário atender à sua natureza subsidiária.


A letra do artigo 474º do CC aponta para a subsidiariedade do instituto do enriquecimento sem
causa. Contudo, a doutrina, na medida em que a subsidiariedade é contrária aos princípios do
Direito Civil e lhe é estranha, recorre a uma interpretação restritiva do disposto no artigo 474º,
estabelecendo que nos casos em que este instituto seja mais favorável ao lesado, devemos aplicá-
lo ao caso.
 Modalidades de enriquecimento sem causa

ENRIQUECIMENTO POR PRESTAÇÃO.


Alguém efetua uma prestação a outrem, MAS verifica-se a ausência de causa que permita a
receção ou manutenção da prestação em causa.
De acordo com o professor MENEZES LEITÃO, a ausência de causa jurídica deve ser definida em
sentido subjetivo como a não obtenção do fim visado com a prestação.
Assim, haverá lugar à restituição da prestação sempre que este fim não venha a ser obtido.

Requisitos:
 Um elemento real consistente numa atribuição patrimonial que produza no recetor um
enriquecimento

 Um elemento cognitivo e volitivo que se traduzem no facto de este incremento do património


de outrem exigir uma consciência da prestação e da vontade de prestar

 Um elemento final, segundo o qual a atribuição tem de visar a realização de um fim específico
(o incremento de património alheio)

Há várias modalidades de não obtenção do fim visado com a prestação.

 A repetição do indevido: os pressupostos comuns à repetição do indevido são:

 a realização de uma prestação com a intenção de cumprir uma obrigação (animo


solvendi);
 sem que exista uma obrigação subjacente a essa prestação (indevido objetivo); (artigo
476º/1 CC)
 OU sem que esta tenha lugar entre solvens e accipiens (indevido subjetivo) ; O indevido
subjetivo ocorre quando a prestação é realizada a terceiro e não ao seu verdadeiro credor
(ex latere accipientis); (artigo 476º/2 CC)
 OU quando a prestação é realizada por terceiro e não pelo verdadeiro devedor (ex latere
solventis) (477º e 478º CC)
 OU sem que deva ser realizada naquele momento (cumprimento antecipado) (476º/3 CC)

 A restituição da prestação por posterior desaparecimento da causa


 artigo 473º/2 CC. EXEMPLOS. artigos 442º/1; 788º CC

 A restituição da prestação por não verificação do efeito pretendendido

 artigo 473º/2 CC
 Hipótese de alguém realizar uma prestação “em vista de um efeito que não se verificou”

Requisitos (decorrem do artigo 473º/2, in fine CC):


 realização de uma prestação visando um determinado resultado correspondente a um
comportamento da outra parte;
 correspondendo esse resultado ao conteúdo de um negócio jurídico;
 sendo que esse resultado não se vem posteriormente a realizar
ENRIQUECIMENTO POR INTERVENÇÃO.

 Esta modalidade não se encontra expressamente prevista no artigo 473º/1 MAS é reconduzível
a este preceito
 Aqui, existe uma ingerência não autorizada no património alheio, verificando-se o desviar de
vantagens destinadas ao empobrecido, a favor do interventor.
 Quanto a essas vantagens, estas até podem ser criadas pelo interventor, mas em área
destinada ao empobrecido, não sendo necessário verificar-se uma deslocação patrimonial
concreta, atendendo-se à teoria do conteúdo da destinação.
 A teoria do conteúdo da destinação assenta na tese de que qualquer direito subjetivo absoluto
(direitos reais, de personalidade (…)) atribui ao seu titular a exclusividade do gozo e da fruição
da utilidade económica de um bem. Quando essa exclusividade é desrespeitada através da
intervenção de outrem no âmbito exclusivamente destinado à esfera do titular do direito,
permite a esse mesmo intentar uma ação de ESC.

Requisitos.
 o dano
 a ausência de causa que se reconduz à frustração da destinação atribuída pela Ordem jurídica
a determinados bens

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