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ANEMIAS Fonte: Santos, R.L. Patologia Veterinária.

Definição Anemia é uma síndrome


clinicopatológica caract erizada pel a diminuição na quantidade de hemoglobina de um indivíduo
para níveis abaixo dos limites mínimos considerados fisiológicos. Essa queda nos níveis de
hemoglobina geralmente é acompanhada do decréscimo no número de eritrócitos e, cons
equentemente, no hematócrito. É interessante refletir acerca desse conceito, pois muitos profissionais
associam an emia exclusivamente à diminuição do hemató crito ou dos eritrócitos. Apesar de a
maior parte das anemias realmente estar associada a hematócrito e contagens de eritrócitos
abaixo dos valores de referência para a espécie em questão, algumas anemi as cursam, pelo menos
inicialmente, apenas com diminui ção dos níveis hemoglobina, ou seja, nessas anemias se mantêm
a quantidade de eritrócitos e, consequentemente, os valores de hematócrito dentro de limites
considerados fisiológicos. Um bom exemplo disso ocorre no início das anemias ferroprivas
primárias, nas quais durante algumas semanas a meses, d e a cordo com cada espécie animal, há
diminuição apenas dos níveis de hemoglobina. Na ma ior parte dos casos, a anemia não é uma
condição primária, mas ocorre secundariamente a outros distúrbios e, desse modo, seu
reconhecimento pode também auxiliar no diagnóstico de doenças que afetam out ros sistemas
orgânicos que não o hematopoético. Assim, as características peculiares do éritron possibilitam
que o diagnóstico da anemia possa ser realizado com certa facili dade por meio apenas do
hemograma. Além disso, os achados presentes nesse exame quase sempre tornam possível definir
com boa exatidão a patogênese e a etiologia da anemia. Contudo, em alguns casos é n ecessária
a realização de outros testes laboratoriais, que vão desde simples avaliações citológicas ou
histológicas da medula ó ssea até complexas provas bioquímicas que visam estabelecer alterações
eritrocíticas he reditárias. Clinicamente, animais anêmicos, independentemente do ti po de anemia ou
de sua causa, desenvolvem sinais decorrentes d e três mecanismos básicos: diminuição do éritron,
hipóxia e compensação or gânica. A diminuição do éritron provoca palidez das mucosas, descoloração
da pel e e perda da viscosidade sanguínea; este último mecanismo é observado na forma de murm
úrios cardíacos, d enominados “sopros anêmicos”. Os achados clínicos relacionados com a hipox ia
ocorrem quando a anemia é mais grave e incluem taquipneia, intolerância ao exercício e cianose;
já o p rincipal sinal relacionado com a compensação orgânica é a taquicardia. Na necropsia, as
lesões encontradas em animais anêmicos variam principalmente com a patogenia da síndrome;
assim, os achados em um animal com anemia hemolítica serão totalmente diferentes daqueles
observados em um animal com an emia aplásica. Dessa maneira, considerações quanto às lesões
macroscópicas e qu anto aos achados citológicos e histológicos d e cada tipo de anemia serão
descritas separadamente. Classificação morfológica das anemias Os chamados índices
hematimétricos são essenciais para a classificação das anemias, pois, com eles, é possível chegar
mais facilmente à patogênese do processo. Antigamente, quando os índices não eram utilizados,
classificavam-se as anemias em regenerativas ou arregenerativas apenas pela presen ça ou não de
alguns achados no esfregaço. Os índices hematimétricos incluem o volume corpuscular médio (VCM),
a hemoglobina corpuscular média (HCM) e a concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM).
Desses três índices, apenas o VCM e a CHCM são necessários para a classificação d as anemias. Para a
maior parte dos patologistas clínicos, a HCM é u m dado inútil. Existem várias maneiras de classificar as
anemias e uma delas consiste na diferenciação das formas regenerativa e
arregenerativa utilizando como subsídio apenas a morfolo gia eritroide. Nos quadros regenerativos
ocorre reticulocitose e estão presentes os seguintes achados: anisocitose, policromasia e presença
de corpúsculos de Howell-Joll y e de eritrócitos nucleados circulantes (normoblaste mia), p
rincipalmente me tarrubrícitos (meta rrubricitemia), mas, ocasionalmente, também rubrícitos
(rubricitemia). Tais achados h emocitológicos indicativos de regeneração são comuns a todas a s
espécies de mamíferos, com exceção dos equídeos. Reticulocitose (mais qu e 1,5% de
reticulócitos do total d e eritrócitos circulantes em mamíf eros domésticos adultos) só pode s er
determinada em colorações especiais, como azul de metileno e azul cresil bril hante, pois os retículos
que caracterizam os reticulócitos só precipitam com esses corantes. Desse modo, os eritrócitos
jovens e com citoplasma ainda repleto de organelas (mitocôndrias, ribossomos e complex o de
Golgi) recebem outro n ome na coloração de rotina (corantes do tipo Romanowsk y):
policromatófilos. A presença d e muitos policrom atófilos é denominada de policromasia ou
policromatofilia e representa indiretamente reticulocitose. Outro método para classificar as anemias
é pelos índices hematimétricos citados anteriormente. Esse método é hoje o mais empregado em
hematolo gia veterinária e divi de as anemias em seis grandes grupos: macrocítica hipocrômica,
macrocítica normocrômica, microcítica hipocrômica, microcítica normocrômica, normocítica
hipocrômica e normocítica normocrômica. O termo macrocítica significa que o VCM é alto, acima
dos valores considerados fisiológicos para uma determinada espécie. Assim, os termos normocítica
e microcítica indicam VCM normal e diminuí do, respectivamente. O termo hipocrômica é
definido como a diminuição da CHCM abaixo dos valores normais para a espécie e, por
consequência, a palavra normocrômica significa uma C HCM normal. Como se pode perceber, não
existe anemia hipercrômica, pois as células não armazenam quantidades maiores de hemoglobina
no seu interior. As anemias que são hipercrômicas devem sempre ser consideradas falsas, pois
decorrem basicamente de técnicas laboratoriais imprecisas e de hemólise artefatual,
principalmente por coleta r ealizada incorretamente. Entretanto, quando essas duas hipóteses
puderem ser afastadas, hipercromia é um achado clássico de hemoglobinemia ou metemoglobinemia
secundárias à crise hemolítica intravascular. Embora as anemias hemolíticas intravasculares
também sejam falsamente hipercrômicas, essa falsa hipercromia auxilia sobremaneira na suspeita
clínica. A anemia macrocítica hipocrômica é a única essen cialmente re generativa e ocorre por
dois mecanismos básicos: he morragia ou hemólise. A anemia macrocítica normocrômica decorre
de distúrbios na fase de multiplicação eritroide, mais esp ecificamente po r deficiência de
elementos necessários na síntese do material nucléico, como a vitamina B12, o ácido fólico e o
cobalto. As anemias normocítica hipocrômica e microcítica hipocrômica se desenvolvem pela má
síntese de hemoglobina, oriunda da deficiência de ferro, das doenças crônicas, dos distúrbios no
metabolismo das porfirinas ou da globina. Anemias normocíticas normocrômicas são
essencialmente arregenerativas, ou seja, são decorrentes de diferentes causas de insuficiên cia
medular, como aplasia de medula, hipoplasia eritroide, mieloptise e proliferação cíclica de células-
tron co. A anemia microcítica normocrômica se estabelece durante a evolução final da an emia
normocítica normocrômica ou no início das anemias por má síntese de hemoglobina. Classificação das
anemias quanto à patogênese Anemias hemorrágicas A perda de sangue é a causa mais comum
de anemia em humanos e animais. A importância que algumas formas d as anemias h
emorrágicas têm, como é o caso das infestações por nematódeos hematófagos, pode ser
diretamente relaci onada com a excessiva perda econômica decorrente dessas doenças. As
anemias decorrentes de

processos hemorrágicos são classificadas em agudas ou crônicas, de acordo com o padrão de san
gramento apresentado pelo paciente. É f undamental ressaltar que a anemia desenvolvida por um
paciente com hemorragia aguda só é perceptível após 24 h, pois, durante o san gramento, é
perdido sangue total, ou seja, tanto o comp onente sólido (eritrócitos) quanto o lí quido (plasma).
Dessa maneira, como essa perda é proporcional, a anemia não pode se r detectada antes que o
organism o reponha a volemia. Isso explica porque um indivíduo que morre de choque após
perder grande quantidade de sangue de forma rápida é hipovolêmico, mas não anêmico.
Entretanto, se ele for mantido vivo, tornar-se-á anêmico no d ia seguinte. Hemat ologicamente, as
anemias hemorrágicas em seu auge são regenerativas, ou seja, ocorrem com o anemias
macrocíticas hipocrômicas. Nos esfregaços podem-se observar anisocitose, policromasia (Figura
6.101), normoblastemia, presença de corpúsculos de Howell -Joll y e, em bovídeos, ponti lhado
basofílico. Obviamente que essa re generação eritroide não é imediata, sendo perceptível em sua
plenitude apenas após 5 a 7 dias. Esse fato faz com que alguns autore s considerem, incorretamente, a
anemia hemorrágica aguda como no rmocítica normocrômica (arregenerativa). Uma característica
interessante descrita em animais com sangramento crônico é o desenvolvim ento de uma
trombocitose reativa, vista como um aumento no número e no tamanho das plaquetas que
ocorre como fenômeno de rebote à perda plaquetária crônica. Em relação ao leucograma, a
estimulação prolongada, acentuada e inespecífica da medula ós sea causa liberação aume ntada de
neutrófilos e seus precursores e, assim, a an emia hemorrágica pode cursar com desvio à esqu
erda regen erativo leve. Outros achados de leucograma estão associados à causa específica da
hemorragia. A anemia hemorrágica crônica é observada com grande frequência na forma de
anemia por deficiência de f erro. Isso ocorre porque a pe rda crônica d e sangue associada à marcada
eritropoese compensatória acaba por exaurir as reservas orgânicas desse mineral. Assim, embora seja
notório que a anemia f erropriva em animais não é uma condição comum, essa é uma exceção,
pois a deficiência de ferro secundária à hemorragia é a causa mais importante de anemia em
veterinária. Desse modo, a maioria dos pacientes com sangramento crônico que são avaliados
hem atologicamente demonstrará anemia microcítica hipocrômica, pois a perda crônica de sangue
tornou -os ferropênicos. Os animais que morrem em decorrência de anemia hemorrágica grav e
apresentam na necropsia um conjunto de lesões que possibilita estabelecer o diagnóstico. As
mucosas externamente visíveis (oral, ocular e genital) são pálidas e o sangue é ver melho -claro e
não tem viscosidade, u m aspecto coloquialmente descrito como “san gue aquoso”. Os órgãos
parenquimatosos demonstram acentuada palidez, o que é mais frequente nos rins, fígado, p âncreas e
pulmã o. O baço é pequeno e, ao corte, não deix a fluir sangue (baço exangue). O fígado, além
de pálido, pode dem onstrar acentuação do padrão lobular. Quando a hemorragia é crônica,
líquido translúcido pode ser encontrado nas cavidades, no saco pericárdico ou no tecido subcutâneo
e a gordura pericárdica frequentemente sofre atrofia serosa. Além disso, nesses casos, em animais
adultos, a medula óssea gordurosa é substituída por medula ó ssea ativa. Quando a hemorragia é
aguda, a m edula óssea não demonstra alterações macroscópicas. Na histolo gia,
independentemente da duração do processo, podem-se observar degeneração vacuolar ou necrose de
coagulação paracentral a centrolobular e, ocasionalmente, degeneração e necrose tubular renal.
Nos casos de hemorragia crônica, a medula óssea demonstr a acentuada eritropoese, com baix os
estoques de ferro; já nos casos de hemorra gia aguda, o asp ecto é o de um a medula óssea normal.
Outras lesões estão relacionadas com a c ausa primária da hemorragia. Anemias hemorrágicas
agudas As anemias hemorrágicas agudas são um achado comum na rotina clínica, princip almente
quando estão associadas a lesões tr aumáticas ou procedimentos cirúrgicos. Outras causas menos
comuns de anemia hemorrágica a guda incluem: ruptura

de tumores (p. ex., tumores vasculares esplênicos em cães, gatos e equinos), gastrite hemorrágica
(p. ex., intox icação por diclofenaco em cães e gatos), cistit e hemorrágica [ p. ex., distúrbio do trato
urinário inferior dos felinos (DTUIF)] e hemorragia secundária à congestão aguda localizada (p.
ex., torção intestinal ou uterina em várias espécies). Ocasionalmente, as anemias por
sangramento agudo desenvolvem -se se cundariamente a deficits hemostáticos, como
trombocitopenias, trombocitopatias, deficiências ou inibições dos fatores de coagulação e
hiperfibrinólise. As várias doenças e situações clínicas que cursam com deficit hemostático pod em
ser contempladas neste capítulo sob o título Distúrbios hemorrágicos, no item Síndromes clínicas.
Anemias hemorrágicas crônicas As anemias por hemorragia crônica são d e extrema importância em
veterinária, principalmente por ocorrerem associadas a infest ações por parasitos hematófagos,
como nematódeos, carrapatos, pulgas, piolhos, moscas, mosquitos, percevejos, reduvídeos
(“barbeiros”), anelídeos (“sanguessugas”) e morcegos. Outras causas d e sangramento crônico
incluem neoplasias sa ngrantes (p. ex., tumores gastrintestinais ulcerados, como leiomiossarcoma),
ulcerações gastroduodenais (p. ex., úlceras gástricas e/ou duodenais associadas ao uso continuado
de ácido acetilsalicíli co, à insuficiência hepática crônica e aos tumores d e mastó citos),
nefropatias que cursam com hematúria crônica (p. ex ., pielonefrite crônica e neoplasias renais),
distúrbios hemostáticos e uma variedade de outras situações menos f requentes. Anemias hem
olíticas Anemia hemolítica é uma das consequências da h emólise e consiste na diminuição da
quantidade d e eritrócitos e, consequentemente, no decréscimo da concentração de hemoglobina,
que ocorre po r um encurtamento da vida média dos eritrócitos. Os distúrbios hemolíticos são
divididos de várias maneiras: intravasculares ou extravasculares, intrínsecos ou extrínsecos e
infecciosos ou não infecciosos. A expressão hemólise intravascular define a forma de hemólise em
que ocorre a ruptura dos eritrócitos dentro dos vasos sanguíneos; já hemólise extravascular d enota a
retirada ex acerbada dos eritrócitos pelo sistem a monocítico macrofágico. A hemólise ex
travascular é o principal mecanismo patogênico responsabilizado no desenvolvimento de anemia
hemolítica em muitas das espécies animais, principalmente nos cães e gatos, já a hemólise
intravascular é bem mais comum em ruminantes. Várias s ão as anormalidades que podem levar à
retirada prematura dos eritrócitos da circulação. Alterações na forma dos eritrócitos são as
causas mais facilmente compreendidas; entretanto, mudanças ant igênicas imperceptíveis ao
microscópio são, provavelmente, as causas mais comuns de hemólise não infecciosa na maioria
das espécies. A ruptura dos eritrócitos na circulação ocorre fisiologicamente em todas as espécies.
Nos humanos, por ex emplo, sabe-se que aproxim adamente 3% dos eritrócitos são perdidos por
esse processo. Desse modo, um perfeito mecanismo de retirada da h emoglobina livre da
circulação não p ossibilita que o pigm ento se dissocie nos tecidos. Quando ocor re destruição
acelerada d os eritrócitos dentro do vaso, a grande quantidade de hemo globina livre no pl asma
supera a capacidade dess e sistema de retirada, o que provoca hemoglobinemia e,
consequentemente, deposição de hemoglobina nos tecidos, em particular nos rins. A consequência d
esse processo é devastadora e, portanto, hemoglobinúria está diretamente relacionada com a
insuficiência renal que se estabelece nos pacient es a cometidos por crise h emolítica int ravascular,
ind ependentemente da patogênese (tóx ica ou isquêmica). Hematologicamente, os distúrbios
hemolíticos são vistos como anemia macrocítica hipocrômica com sinais de regeneração excessiva,
ou seja, os mesmos achados hemocitológicos des critos para anemia hemorrágica, mas muito mais
evidentes. Nos esfregaços observam-se anisocitose, policromasia ( Figura 6.102 ), normoblastemia,
corpúsculos de Howell-Jolly e, em bovídeos, pontilhado basofílico. Em alguns casos, podem ocorrer
trombocitose e desvio à esquerda regenerativo em pacientes que estão desenvolvendo processo
hemolít ico; acredita-se que i sso ocorra p ela

estimulação prolongada, acentuada e inespecí fica da medula ósse a. O casionalmente, os desvios


à esquerda podem ser acentuados o suficiente para serem considerados como reação leucemoide
ou leucocitose neutrofílica extrema. Outros achados hem atológicos estão relacionados com a
etiopatogênese do distúrbio e incluem, por ex emplo, a pres ença de esferócitos (anemias h emolíticas
imunomediadas), queratócitos, esquizócitos (anemias hemolíticas microangiopáticas), corpúsculos de
Heinz, excentrócitos e metemoglobinemia (anemias hemolíticas por age ntes oxidantes). Os anima is
que morrem em decorrência de crise hemolítica apresentam n a necropsia uma gama de achados
que possibilitam o diagnóstico com certa facilidade. As mucosas externamente visíveis (oral, ocular e
genital) são icté ricas, mais gravemente quando a hemólise é extravascular. O sangue, à
semelhança do que ocorre em todas as outras anemias, é vermelho -claro e perde a viscosidade
(“sangue aquoso”). Crises hemolíticas intravasculares hiperagudas ou agudas podem causar apenas
palidez das mucosas, e casos crônicos pod em cursar com icterícia l eve. No entanto, mesmo
nesses c asos, a icterícia pode s er observada n a íntima das grandes artérias, nas serosas de alguns
ór gãos, nos ligamentos, na cápsula arti cular e no tecido subcutâneo. O baço dos animais que
desenvolveram crise hem olítica, principalmente extravascular, é acentuadamente aumentado de
volume e tem aparência carnosa. Ao corte, ocorre protrusão da polpa vermelha sobre a cápsula. O
fígado, que também frequentemente está aumentado de volum e, assume uma coloração vermelho
-alaranjada em decorrência d a grande quantidade de pigmento bil iar, e a vesícula biliar
frequentemente está bastante distendida por bile espessa. Nos casos em que a hemólise é
intravascular, no interior da bexiga há urina pigmenta da por hemoglobina, a q ual assume uma
coloração semelhante à do vinho tinto. Os rins são vermelho- escuros, marrons ou negros e a s erosa do
estômago e dos intestinos é rosada ou marrom, um padrão típico de emb ebição por
hemoglobina ante mortem. O aspecto macroscópico da medula óssea d e animais com an emia
hemolítica varia de acor do com a evolução da crise. Quando a hemólise é hipera guda, não se
observam alterações, mas, nos casos em que a doença cursou de forma aguda e, principalmente,
naqueles em que ocorreram múltiplas crises, a medula óssea é acentuadamente vermelha e ocupa
toda a cavidade medular dos ossos longos. Vários são os achados hist ológicos que um quadro
hemolítico poderá desencadear. Entre eles destacam-se: degeneração e necrose tubul ar a guda
induz ida pela hemoglobinúria ou metemoglobinúria (“nef rose hemo globinúrica”); degeneração
vacuolar e necrose hepática paracentral a centrolobular causada pela hipoxia; infartos focais em
decorrência do bloqueio de pequenos capilares por restos de eritrócitos rompidos nas anemias
hemolíticas microangiopáticas ou por aglutinação de eritrócitos na doença das aglutininas frias (abo
rdadas mais adiante neste Capítulo); e hemossiderose em p acientes que se recuperam de di
stúrbios hemolíticos extravasculares crônicos. Histologicamente, a hemoglobina e a metem
oglobina são vistas no rim como um pigmento vermelho e cilíndrico no interior dos túbulos
(cilindros de hemoglobina), qu e apresentam seu epitélio de revestimento acentuadamente necrótico.
Comumente esses cilindros são fragmentados, e os fragmentos dispõem -se nos túb ulos em várias
direções, como baquetas radiadas. No fígado, mais comumente, há necrose de coagulação
paracentral a centrolobular rodeada, o casionalmente, por áreas de degeneração vacuolar; no
entanto, em casos nos quais a anemia não é tão grave, pod e ocorrer apenas d egeneração vacuolar
centrolobular. O acúmulo de pi gmento biliar é um achado muito prevalente, mas sua intensidade
pode variar. O pigmento é visto como tampões amarelo-esverdeados nos ductos biliares e nos
canalículos. Nos casos mais graves pode haver acúmulo de pigmento biliar no interior dos
hepatócitos. Tanto no fígado quanto no baço, nos linfonodos e na medula óssea é possível
observar uma grande quantidade de macrófagos com eritrócitos

no citoplasma (eritrofagocitose). Nos casos de hemólise subaguda o u crônica, a eritrofagocitose


é acompanhada de grande quantidade de macrófagos com citoplasma repleto de hemossiderina
(Figura 6.103). A medula óssea dos animais que desenvolvem crise hemolítica aguda a crônica, mas não
hiperaguda, demonstra acentuada eritropoese, vis ta na citologia como qu eda na relação
mieloide:eritroide e na histologia como substituição do tecido adiposo por células hematopoéticas
com alt a taxa mitótica. Focos de proliferação e ritroide extramedular podem ser observados com
grande frequência no baço e no fígado e meno s comumente nos li nfonodos e nas adrenais.
Embora exist am alguns critérios morfológicos para diferenciar as várias doenças que causam crise
hemolít ica, a pesquisa de alterações eritroides e hemoparasitos no sangue do animal morto é um
método bastante útil. Desse modo, durante a necrop sia, esfregaços sanguíneos podem ser
realizados com sangue obtido a partir da transfix ação dos vasos sanguíneos musculares no
momento em que o cadáver está sendo desmembrado ou col etado durante a abe rtura do
coração. Quando fragmentos de órgãos são enviados ao l aboratório, impressões de tais tecidos
podem também ser tentadas. Nesses casos os melhores resultados são conseguidos com baço e
fígado. Vale ressaltar que esfregaços ou impress ões de órgãos realizados em salas de necropsia
ou a c ampo necessitam ser rapidamente secos ao ar e armazenados em caixas, pois a grande
quantidade de moscas ness es am bientes pode rapidamente consumir o material não fix ado
presente nas lâminas. P ara fins didáticos, as anemias hemolíticas serão divi didas em infecciosas e
não infecciosas; entretanto, não se deve p erder a noção de que muitas das doença s infecciosas
que cursam com crise hemolítica têm mecanismos imunológicos e, portant o, são também
imunomediadas. As anemias hemolíticas não infecciosas são m enos comuns do que os dist úrbios
induzidos por microrganismos, principalmente em regiões de clima tropical e subtropical. Contudo, em
várias regiões do mundo em que o clima é temperado, distúrbios hemolíticos não infecciosos são
as principais causas de hemólise nos mamíferos domésticos. As anemias hemolíticas não
infecciosas são subdivididas de acordo com sua etiopatogênese em: imunomediadas, por agentes
oxidantes, decorrentes de traumatismo nos eritrócitos, por defeitos metabólicos hereditários e por
anormalidades hereditárias de membrana eritroide. Algumas anemias hemolíticas não são
infecciosas, mas também não se enquadram em nenhuma dessas outras cinco categorias. Essas
anemias hemolít icas serão abordadas no item Outras anemias hemolíticas não infecciosas.
Anemias hemolíticas infecciosas Várias são as causas de distúrbios hemolíticos induzidos por
agentes infecciosos n o s mamíferos domésticos. Entre os quadros mais importantes destaca-se a
hemólise induzida por hemoparasitos, a qual, em algumas espécies, leva a grandes prejuízos
econômicos. As principais doenças hemolíticas infecciosas descritas em animais são: b abesiose
(várias espécies), rangeliose (cães), tripanossomíase (várias espécies), teileriose (ruminantes e
equinos), citaux zoonose (gatos e grandes felídeos selvagens), malária (primatas), anaplasmose
(ruminantes), micoplasmose hemotrópica (gatos, suínos e bovinos ), leptospirose (bezerros,
cordeiros, cabritinhos, l eitões e potrinhos), hemoglobinúria bacilar (ruminantes, suínos e equinos),
doença do cordeiro amarelo (ovinos), dirofilariose (cães e gatos), anemia i nfecciosa equina
(equinos) e anemia hemolítica associ ada à infecção pelo FeLV (gatos). Neste ponto, cabe
ressaltar que leptospirose em cães não cursa com crise hemolítica e que a icterícia apres entada
comumente por esses animais é hepática e decorre d e uma disfunção colestática induzida por
mediado res químicos liberados por macrófagos estimulados pelas espiroquetas. Muitas dessas
doenças serão abordadas posteriormente, no item Doen ças específicas. Anemias hemolíticas
imunomediadas As an emias hemolíticas imunomediadas resultam da d iminuição da sobrevida
eritroid e mediada por imunoglobulinas e/ou pelo complemento. Esses componentes imunes
podem se fixar direta ou indi retamente n a membran a do eritrócito, causar opsoni zação e,
consequentemente, levar à r etirada dos eritrócitos pelo sistema monocítico macrofágico. Todo
ess e processo pode ocorrer por ligação direta de anticorpos na membrana eritroide, s er oriundo
da adsorção d e imunocomplexos na superfície do eritrócito ou decorrer d e modificações
antigênicas n a membr ana da célula. Os dist úrbios hemolít icos mediados pelo sis tema imune
incluem as anemias hemolíticas autoimunes e as anemias hemolíticas isoimunes. A anemia
hemolítica autoimune é resultante da produção de autoanticorpos contra a membrana do
eritrócito, o que pode ocorrer de uma maneira primária ou secundá ria. Em veterinária, a
anemia hemolítica autoimune é considerada uma das causas mais frequentes e importantes de
doença hemolítica em cães, mas é descrita com uma frequência muito menor em gatos e
raramente em outras espécies. O termo p rimário ou idiopátic o é usado qu ando o dist úrbio ocorre
sem nenhuma doença subjacente ou precipitante; já a hemólise imune secundária está ligada ao
uso de fármacos, ao contato com subst âncias químicas e à infecção por alguns microrganismos.
Os fármacos mais responsabilizados são o levamisol, em cães, e o propiltiouracila, em gatos. Em
relação aos microrganismos, várias enfermidades infecciosas podem cursar com hemólise imune,
entre elas: e rliquiose monocitotrópica aguda (c ães), an aplasmose (bovinos), babesiose ( cães),
rangeliose (cães), micoplasmose hemotrópica ( gatos), tripanossomíase por T rypanosoma evansi
(equinos e cães), leptospirose (bovinos), anemia infecciosa equina (equinos) e anemia hemolítica
imunomediada associada à infecção pelo FeLV (gatos). A isoeritrólise neona tal, também conhecida
como doenç a hemolítica do recém-nascido ou eritroblastose fetal, é um distúrbio hemolít ico
isoimune que ocorre pela incompatibilidade sanguínea, oriunda da passagem de anticorpos via
colostro. Essa doença é frequentemente descrita em equinos e humanos, mas ocorre muito
raramente em cães e gatos. Nos bovinos existem vários relatos da ocorrência da isoeritrólise
neonatal após a premunição das fêmeas para anaplasmose e babesiose. Fato semelhante ocorre
em suínos, espécie em que a do ença costuma ocorrer como resultado do uso de vacinas para
peste suína clássic a. Tanto em bovinos quanto em suínos, a doença não associada à v acinação é
rara. An emias hemolíticas por agentes ox idantes As chamadas anemias hemolíticas por agentes
oxidantes são resultantes da quebra do metabolismo antiox idativo do eritrócito, uma alteração
bioquímica que leva à formação de metemoglobina e, consequ entemente, a alterações mor
fológicas eritroides. O aum ento nos níveis de metemoglobina causa desnaturação d a mol écula
proteica, que pod e s er visualizada na forma de inclusões eritroides conhecidas como
corpúsculos de Heinz . Esses corpúsculos são semelhantes a uma bolha e podem ser mais bem
visualizados qua ndo se utilizam colorações supravitais. Muitos agentes oxidantes têm a capacidade de
induzir essas transformações e podem estar presentes em plantas, fármacos ou subst âncias
químicas (Tabela 6.3). Anemias hemolíticas por trauma aos eritrócitos As anemias hemolíticas
decorrentes de traumatismo aos eritrócitos ocorrem principalmente devido a a lterações da
microvasculatura e são denominadas anemias hemolíticas microangiopáticas. Essas alterações
vasculares leva m à formação de microtrombos, o que faz com que os eritrócitos se rompam no mom
ento da aderência aos filamen tos de fibri na. Teoricamente, qualquer enfermidade que curse c
om alterações d a microv asculatura e desencadeie formação de microtrombos pode originar crise
hemolítica intravascular e, consequentemente, anemia hemolítica, mas, na prática, os quadros são
relacionados principalmente com CID, síndrome hemolítico-urêmica (síndrome de Gasser) e
hemangiossarcoma. Bem menos comumente ocorre hemólise intravascular decorrente do im pacto
dos eritrócitos com outras estruturas que não vasos sanguíneos. Isso é descrito em humanos, ma
s também experimentalmente em animais, e as causas incl uem, basicamente, prót eses valvares e
cateteres arteriais que permanecem por tempo prolongado. Anemias hemolíticas po r defeitos
metabólicos hereditários Várias s ão as descrições de anemias hemolíticas por defeitos metabólicos
hereditários, tanto em humanos quanto em animais, principalmente no que se refere a defi ciências
enz imáticas relacionadas com o metabolismo antioxidativo dos eritrócitos, ou seja, deficiências
de enzimas da glicólise anaeróbica, h exose monofosfato e metabolismo da glutationa. Quando
ocorre a deficiência de alguma d essas enzimas, há uma maior possibilidade de a hemoglobina
sofrer ox idação. Desse modo, muitos dos pacientes com alterações do metabolismo antioxidativo
terão maior chance de desenvolver anemia hemolítica po r formação de corpúsculos de Heinz.
Outros distúrbios metabólicos hereditários b em mais raros ocorrem por alterações no metabolismo
das porfirinas e dos nucleotídios. A deficiência de piruvatoquinase foi inicialmente desc rita em
cães das raças Beagle, Basenji, West Highland White Terrier e Cairn Terrier, mas atualmente sabe
-se que ocorre em várias outras raças de cães e também em gatos. A defi ciência de
fosfofrutoquinase é a segunda anomalia mais comumente descrita em cães e ocorre naqueles das raças
English Springer Spaniel e Cocker Spaniel Americano. A deficiência de glicose-6-fosfato-desidrogenase é
relatada em humanos, cães, gatos, equinos, ratos e camundongos, mas apenas infrequentemente
essa anomalia provoca sinais c línicos ou alterações lab oratoriais. As anomalias enzimáticas
hereditárias relacionadas com o metabolismo da glutationa já descritas em hematologia veterinária
incluem a deficiência de γ- glutamilcisteína-sintetase em ovinos, a deficiência de glutationa-sintetase
nos cães condrodisplásicos da raça Malamute do Alasca e a deficiência de glutationa-redutase
em equinos. As anomalias enzimáticas hereditárias que culminam em metemoglobinemia incluem
a deficiência de metemoglobina-redutase em cães e gatos e a def iciência d e citocromo b5
-redutase em cães, gatos e equinos. As porfirias constituem um grupo d e doenças qu e ocorrem
pela deficiência de al guma e nzima do ciclo das porfirinas. Esse ciclo é responsável pela produção
de protoporfirina, que se liga ao ferro para formar o heme. As porfirias são divididas em
hepáticas e eritropoéticas, mas apenas as últim as são responsáveis por quadros hemolíticos de
causa não bem compree ndida. As porfirias eritropoéticas que acometem animais são a
protoporfiria eritropoética e a porfiria eritropoética. A porfiria eritropoética, também conhecida
por doença de Gunther ou dentes rosados, é um raro distúrbio metabólico eritrocítico que acomete
hum anos, gatos, suínos e bovinos das raças Holandês e Shorthorn. A protoporfiria eritropoética é
uma alteração metabólica eritrocítica descrita em humanos e bovinos da raça Limousin. Anemias
hemolíticas por anormalidades hereditárias de membrana Várias são as anormalidades he
reditárias de membrana r elatadas p ara o eritrócito humano, algumas delas com alta prevalência.
Em animais são descritas poucas anomalias, que têm ocorrência bastante rara e estão vinculadas
a determinadas raças, principalmente nos cães. Os distúrbios de membrana ocorrem em
consequência de defeitos quantitativos e/ou qualitativos em s uas proteínas formadoras e acabam
por desencadear alterações da conformação celular. Entre as enfermidades hereditária s de
membrana eritroide r elatadas em animais, a m ais im portante parece ser a estomatocitose hereditária
que ocorre nos cães da raça Malamute do Alasca. Os cães afetados são con drodisplásicos e a doença
está associada à deficiência da enzima glutationa-sintetase. Um dist úrbio semelhante é descrito em
cães das raças Schnauzer miniatura e Drentse-Partrijshond. Outras anormalidades de membrana eritr
oide incluem: eliptocitose hereditária por deficiência da proteína 4.1 em cães e deficiência da
proteína 3 em bovinos J apanese Black. Outras anemias hemolíticas não infecciosas Outras
anemias hemolíticas, de causa desconhecida ou com patogênese que não se assemelha a
nenhuma das anteriormente citadas, ocorrem em animais e entre elas destacam -se
hemoglobinúria pós-p arto, crise hemolítica associada à insuficiência hepática, intoxicação por
chumbo, anemia hemolítica não esferocítica hereditária, def iciências vitamínicas e intox icação
pela água. A he moglobinúria pós -parto é descrita predominantemente em vacas de leite no
período pós -parto. A enfermidade ocorre pela deficiência de fósforo, q ue, em bovinos, está
associada à permanência do animal em campos cujo solo é pobre nesse mineral. Além dos
bovinos de leite, a doença já foi descrita em bovinos de corte, caprinos, ovinos e bubalinos.
Várias doenças hepáticas, principalmente distúrbios crônicos do fígado, são associadas a crises h
emolíticas descritas em humanos e animais. Na maior parte das vezes, isso é oriundo do
aumento nos níveis de colesterol plasmático e, consequentemente, da elevação da percentagem de
lipídios na membrana eritroide, o que causa acantocitose e hemólise extravascular subsequente. Em
equinos, um distúrbio hemolítico intravascular fulminante é associado à insuficiência hepática
crônica ou aguda. A anemia h emolítica não esferocítica hereditária é um distúrbio idiopático
herdado como um caráter autossômi co dominante, descrito principalmente em cães das raças
Poodle e Beagle. A do ença se d esenvolve, em médi a, no primeiro ano d e vida e os animais
acometidos têm uma tendência bastante grande para o desenvolvimento de mielofibrose e
osteosclerose. A intoxicação pelo chumbo pode levar ao d esenvolvimento de hemólise em humanos
e animais, embora, mais comumente, esse elemento cause anemia sideroblástica por inibir enzimas
do metabolismo das porfirinas. A forma crônica da intox icação é responsável pelo aparecimento
de anemia hemolítica, que tem causa desconhecida, embora, para alguns autore s, ocorra pela
inibição que o chumbo d etermina na enzima pirimidina -5’-nucleotidase. A intoxicação pela água
ocorre pela ingestão excessiva de água, a ponto de produzir sensível hipotonicidade plasmáti ca e,
assim, hemólise intravascular. A doença é descrita em bezerros al eitados, que, ao terem o
primeiro acesso à água, bebem quantidades exageradas, ou em bezerros recémdesmamados que
são privados de água. Casos esporádicos o correm em outras espécies, como os des critos em
jovens cabritos pigmeus que ingeriram grandes v olumes de água administrados utilizando
mamadeiras. Anemias por má síntese de hemo globina As anemias por má síntese de
hemoglobina ou anemias hipocrômicas são, como o próprio nome diz, oriundas de di stúrbios na
formação da hemoglobina. As alterações do metabolismo normal do ferro são de longe as p
rincipais causas de anemia hipocrômica, que ocorre em animais quase sempre associada à pe rda
contínua de sangue ou a doenças crônicas. Menos comumente, probl emas relacionados com a
síntese de porfirinas são relatados; já os distúrbios na produção da globina (talassemias) são
descritos apenas em humanos. Hematologicamente, as anemias por má síntese de hemoglobina têm
como principal característica a menor quanti dade dessa proteína dentro da célula, o que
provoca o aparecimento de grande quantidade de eritrócitos pouco hemoglobini zados (torócitos). A
microcitose é uma constante nesse ti po de anemia, mas pode se desenvolver antes ou depois da
hipocromia, dependendo da espécie animal afetada. Morfologicamente, a anemia que se
desenvolve é microcítica hipocrômica no seu auge, podendo se r normocítica hipocrômica ou
microcítica normocrômica no início do processo. Muitas vez es, uma anisocitose acentuada é bem
evidenciada, em decorrência do intenso contraste entre os discócitos normais e os micrócitos.
Além da hipocromia, as anemias por má síntese de hemoglobina frequentemente estão
associadas à presença de codócitos (células-alvo; F igura 6.104). Nos casos de anemia por má síntese
de hemoglobina não associada à carência de ferro, e sim a anomalias na síntese de porfirin as, pode oco
rrer acúmulo compensatório do mineral. Nessa situaç ão, o armazenamento de ferro den tro do
eritrócito é evidenciado como inclusões coradas pelo azul da Prússia, chamadas corpúsculos de
Pappenheimer ou siderossomas. As células com essas inclusões s ão conhecidas por sider ócitos e
seus

precursores s ão chamados sideroblastos. O diagnóstico diferencial d as anemias por má síntese


de hemo globina pode ser d ifícil de ser estabelecido apenas pelo hemograma; assim, em muitos
casos, é necessária uma avaliação bioquímica dos parâmetros férricos, a qual inclui a determinação
do ferro sérico, da transferrina e ferritina plasmáticas e, menos comumente, da protoporfirina
eritrocítica livre. Os animais que mo rrem em de corrência de anemia por má síntes e de
hemoglobina, basicamente por deficiência de ferro d ecorrente d e hemorra gias crônicas, apresentam
na necropsia achados idênticos aos descritos para as anemias hemorrágic as. Nos casos de
anemia ferropriva secun dária à perda de sangue, a medula óssea demonstra acentuada
eritropoese, mas baixos estoques d e ferro. Nas anemias das doenças crônicas, a eritropoese
medular é pouco evidente e há acentuado acúmulo de ferro, pr inc ipalmente em macrófagos da
medula óssea, baço e linfonodos, mas também em hepatócitos, principalmente em gatos. Na
anemia sideroblástica, a eritropoese medular também é pouco conspícua e os precursores
eritroides apresentam acúmulo de ferro intramitocondrial, principalmente ao redor do núcleo, daí
a expressão “si deroblastos em anel”. Vale lembrar que os precursores eritroides normais têm de um
a quatro agregados de ferritina e nenhum ferro visível nas mitocôndrias. Anemias ferroprivas A
anemia por deficiência de ferro, também conhecida como anemia ferropriva ou anemia
ferropênica, ocorre quando as reservas de ferro corporal torn am -se inadequadas para as
necessidades da eritropoese. Isso é decorrente da má in gestão do mineral, da sua má absorção,
de sangramentos contínuos ou de anormalidades hereditárias no metabolismo do ferro. Nos animais,
as anemias ferroprivas são consideradas incomuns ou até mesmo raras quando relacionadas com a
m á ingestão do elemento. Isso se deve, principalmente, ao fato de que os animais têm acesso à
terra, que poderá suprilos em uma determinada carência. Situações associadas a sangramentos
contínuos são bem d escritas e parecem constituir, na prática, a única forma dessa deficiência em
algumas espécies; já anormalidades hereditárias no metabolismo do ferro não foram ainda
reconhecidas em animais. As anemias por deficiência de ferro oriundas da má ingestão do
mineral são comuns em humanos e raras em animais, sendo observadas em veterinária quase
somente em leitões. Os fatores responsáveis pelo desenvolvimento d e an emia ferropriva nos
leitões são a baixa reserva corporal d e ferro ao n ascimento, a alta taxa de c rescimento e a
baix a concentração de ferro no leite materno. Em filhote s de cães, uma deficiência de ferro com
posterior anemia pode ocorrer principalmente em casos de inanição ou quando há competição
nas ninhadas de cães de raças gigantes, o que faz com que os mais fracos não tenham acesso ao
alimento. Casos esporádicos de alimentação incorreta em cães, como dietas exclusivas de leit e,
pão ou polenta, têm sido observados por nós e decorrem da baixíssima concentração de ferro
no leite, na farinha de trigo e na farinha de milho, respectivamente. Entretanto, com a adição de
ferro às farinhas de trigo e milho, regulamentada pelo Governo Federal brasileiro em 2002, no
intuito de combater a deficiência de ferro dos humanos, esses casos são cada vez mais raros. Bovinos
neonatos criados em currais de cimento e sem acesso ao solo podem também dese nvolver anemia
ferropriva primária e isso, inclusive, é almejado pelos criadores de vitelo. Má absorção de ferro é
uma situação rara e oco rre em animais com síndrome de má absor ção ou naqueles que
sofreram gastrectomia total, já que a ausência do ácido gástrico não possibilita redução do ferro
férrico em ferroso. Síndrome de má absorção o corre principalmente em animais com insuficiência
p ancreática crônica e men os comumente em cães com intolerância ao glúten ou enterite
linfoplasmocitária e em gatos com linfoma intestinal de padrão difuso. Ruminantes que ingerem uma
dieta rica em fitatos por longos períodos podem também desenvolver anemia ferropriva. Anemias
das do enças c rônicas A expressão anemia das doenças crônicas ou anemia paradoxal é utilizada para
descrever o processo anêmico que se estabelece secundariamente a doenças inflamatórias crônicas
ou ao câncer. A base desse fenômeno decorre do sequestro de ferro por macrófagos, mas a redução da
sobrevida eritroide e a eritropoese reduzida em virtude da liberação de fator de necrose tumoral por
parte de ma crófagos ativa dos também contribuem para agravar a anemia. Recentemente, descobriu-
se que uma proteína denominada hepcidina é responsável pela induç ão de anemia nas doenças
crônicas. Essa proteína , que tem sua expressão elevada nas doenças crônicas, liga-se à ferroportina e
induz sua degradação. A ferroportina é a p roteína responsável pela exportação c elular de ferro, e
o bloqueio dos canais de f erro da mem brana plasmátic a leva ao acúmulo intracelular do
mineral e, consequentemente, e a menores nível ci rculante e disponibili dade desse elemento para
a eritropoese. Em veterinária, as do enças mais associadas à anemia das doe nças crônicas são
cirrose hepática em cães, tuberculose em bovinos e câncer nas diferentes espécies animais.
Anemias sidero blásticas A an emia sideroblástica é um distúrbio associado a vários defeitos na via
de biossíntese da porfirina, os quais ocasionam uma menor síntese do heme e desen cadeiam uma
maior captação de ferro pelo e ritrócito. Essa expressão é utilizada porque designa a formação de
depósitos excessivos de ferro dentro da mitocôndria dos precursores eritroides, de uma maneira
compens atória à diminuição da quantidade de hemoglobina. As anemias sideroblásticas são bem
descritas em humanos e em animais e podem ser adquiridas ou hereditárias. A forma adquirida da
anemia sideroblástica já foi relat ada em várias espécies, principalmente associada à intoxicação
pelo chumbo, pois esse elemento ini be as enzimas A LA-desidrase e ferroquetalase. Em cães, o
uso de cloranfenicol causa inibição da ferroquetalase e desencadeia anemia sideroblástica. A
deficiência de vitamina B6 (pi ridox ina), uma coenzima na reação de formação do ácido delta-
aminolevulínico, está a ssociada à anemia sideroblástica em várias espécies, sobretudo nos suínos.
O cobr e, elem ento necessário na formação da enzima ALA-desidrase, quando deficiente, p arece
ser responsável por um processo anêmico que se desencadeia em ruminantes e suínos. Anemias
megaloblásticas As anemias megaloblásticas são assim denominadas pelo fato de haver um
grande número de megaloblastos na medula óssea e megalócitos na co rrente sanguínea. Os
megaloblastos são precursores eritroides nucleados maiores que os normoblastos correspon dentes; já
os megalócitos são grandes eritrócitos circulantes. O distúrbio megaloblástico é oriundo da síntese
reduzida de á cido desoxirribonucleico (DNA, deox yribonucleic acid) na f ase de multiplicação
eritroide, uma alteração que causa diminuição no número de mitoses e liberação de eritrócitos
maiores que os normais. O menor número de divisõe s nuclear es e citoplasmáticas não poss ibilita a
diminuição no tamanho da célula e leva à dissociação nuclear:citoplasmática. A megaloblastose é
oriunda de deficiências de vitamina B12 ou ácido fólico, que são substâncias necessárias à
multiplicaç ão eritroide, pois funcionam como coenzimas da síntese de nucleotídios. Mais raramente,
distúrbios relacionados com drogas e anomalias adquiridas ou hereditárias d a síntese de DNA são
resp onsáveis pelo desenvolvimento da anemia megaloblástica. Hematologicamente, as diferentes
apresentações da anemia megaloblástica ocorrem de forma semelhante, ou seja, como anemia
macrocítica normocrômica com achados hemocitológicos típicos, principalmente a presença de
macrócitos. Em cães, às vezes, os macrócitos são ovalad os (macro-ovalócitos) e nota-se um
grande número de eritrócitos com corpúsculos de Howell -Joll y e ponti lhado basofílico. A
alteração megaloblástica acomete também o compartimento mieloide e megacariocítico medular,
o que causa a liberação de grandes neutró filos e eosinófilos maduros e imaturos com núcleo
pseudo-hipersegmentado (macropolícitos ou pleocariócitos) para o sangue periférico. Os achados de
necropsia observados em animais que morrem de an emia megaloblástica são semelhantes aos
descritos para as an emias hemorrágica e ferropriva; entretanto, como a maior parte d essas
anemias é secundária a alterações sis têmicas, a necropsia é importante para desvendar o real
motivo da deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico. A avaliação citológica d a medula óssea
nesses casos revela eri tropoese anormal, caracterizada por grande quantidade de megaloblastos,
baixo índice mitót ico e dissociação nuclear:citoplasmática. Na histologia, pode-se observar uma
medula óssea aparentemente sem alterações. Desse modo, a avaliação citológica é necessária, mas
pod e ser substituída pela avaliação dos precursores eritroides em corte semi finos. Anemias
megaloblásticas por distúrbios relacionados à vitamina B12 A anemia megaloblástica oriunda de
distúrbios relacionados à vit amina B12 é a principal causa de alteração n a fase de multiplicação
eritroide descrita em humanos, mas é incomum a rara em animais, principalmente pelo tipo de
alimentação. Uma ex ceção a isso diz respeito à deficiência de cobalto nos ruminantes, pois
esses animais necessitam do mineral p ara que a mic robiota ruminal sintetiz e a vitamina B12. A anemia
megaloblástica por deficiência de cobalto é também descrita em equinos e coelhos, mas com
menor frequência. Distúrbios megaloblásticos secundários à má absorção de vitamina B12 têm sido
o casionalmente relatados em vá rias espécies animais, já anemia megaloblástica por deficiência de f
ator intrínseco (anemia perniciosa) ainda permanece aparentemente uma doença exclusiva de
humanos. A má absorçã o de vitamina B12 é o riunda de doenças intestinais, da competição pela
vitamina B12 ex ercida por bactérias (“supercrescimento bacteriano”) e por cestódeos (parasitismo
por Diphyllobothrium latum – difilobotríase), da prod ução de fator int rínseco anormal ou da
diminuição da captação do complexo fator intrínseco/vitamina B12 (síndrome de Imerslund-
Gräsbeck). Em animais, as doenças intestinais que levam à cha mada síndrome de má absorção são com
certeza as principais causas de deficiência dessa vitamina; entre elas destacam-se: intolerância ao
glúten (sobretudo em cães), enterite linfoplasmocitária (principalmente em cães), linfoma intestinal
de padrão difuso (principalmente em gatos) e insuficiência pancreática crônica (em várias
espécies). Embora enterite linfoplasmocitária acometa cães de basicamente qualquer raça,
diminuição nos níveis séricos de vitamina B12 é mais bem descrita no Lundehund norueguês,
pois esses cães apresentam gastrite at rófica crônica concomitantemente. O “sup ercrescimento
bacteriano” tem sido frequentemente d escrito, no Brasil, em cães e gatos, mas não foi ainda
associado à anemia megaloblástica. Aparentemente, difilobotríase e anemia megaloblástica
concomit ante têm sido descritas no Brasil apenas em humanos que têm hábito de consumir
peixe cru, principalmente sal mão. A ressecção cirúrgica do íleo em decorrência de neoplasias
também leva à anemia megaloblástica. Mais recentemente, foi comprovado qu e cães S chnauzer
gigantes desenv olvem uma diminui ção da captação do complexo fator intrínseco/vitamina B12
semelhante à síndrome de Imerslund-Gräsbeck dos humanos. Anemias megaloblásticas po r
distúrbios relacionados ao ácido fólico A anemia megaloblástica oriunda de dist úrbios relacionados
ao ácido fólico é i ncomum em humanos e rara em animais; ocorre quase exclusivamente em
lactentes hu manos que se alimentam apenas com leite de cabra, reconhecidamente um dos
alimentos mais pobres nessa vitamina. No passado, anemia me galoblástica por deficiência de
ácido fólico foi descrita em cães e gatos que eram alimentados somente com rações comerciais
enlatadas, pois o processo de enlatamento destrói a vitamina. Atualmente, as r ações úmidas
comercializadas s ão acrescidas de ácido fólico e a deficiência por esse motivo não ocorre mais. Assim
como foi des crito par a a de ficiência de vitamina B12 , anemia megaloblástica por deficiência de
ácido fólico pode desenvolver-se em casos de sín drome de má absorção. Uma causa interessante
d e anemia megaloblástica por deficiên cia de ácido fólico consiste em algumas sit uações
fisiológicas (gestação) e patológ icas (n eoplasias malignas e hipertireoidismo) que estão associadas
ao aumento da ne cessidade da vitamina. Alterações adquiridas do metabolismo dos folatos
também são descritas em humanos e animais e ocorrem por hep atopatia o u pelo uso de
drogas inibidoras, como: metotrexato, pirimetamina, triantereno, pentamidina e trimetoprima.
Outros fármacos, como a fenitoína, o fenobarbital e a primidona podem causar anemia
megaloblástica por deslocarem a vitamina d e seus transport adores plasmáticos ou por inibirem as
conjugases intestinais, mas parecem não inibir diretamente o ácido fólico. Anemias por insuficiência
medular As anemias por insuficiência da medul a óssea são alterações hematológicas
rotineiramente diagnosticadas em medicina veterinária. A expressão insufic iência medular é aqui
utilizada para retratar tanto a disfunção primária do órgão como a que ocorre secundariamente a
alteraçõ es em outros sistemas. As causas de anemia por insuficiência medular incluem: aplasia
medular crônica, hipoplasia eritroide, mi elopti se, proliferação cíclica de células-tronco e necrose
medular. Os achados he matológicos encontrados em paci entes com aplasia medular crônica
caracterizam uma pancitopenia, ou seja, ocorre anemia arregenerativa (normocítica normocrômica
ou microcítica normocrômica), trombocitopenia arregenerativa e leucopenia por neutropenia; já os
achados hematológicos de animais que desenvolvem hipoplasia eritroide estão relacionados apenas
à anemia arregenerativa (normocítica normocrômica ou microcítica normocrômica), pois os valores
de leucócitos e de plaquetas permanecem dentro da normalidade. O processo mielotísico, assim
como a aplasia medular crônica, frequentemente causa pancitopenia. De acordo com a patogenia do
distúrbio mielotísico, vários achados hem atológicos poderão ser encontrados nos esfregaços
sanguíneos. As causas e os achados citol ógicos e histológicos referentes à medula óssea de animais
com aplasia medula r crônica, hipoplasia eritroide, mieloptise e proliferação cícli ca de células-tronco
foram descritos sob o título Alterações degenerativas no item Medula óssea