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Setembro 1995.

Caros leitores,

A iniciativa da Diretoria da Sociedade Antroposófica no Brasil, de publicar apostilas, visa possibilitar o


acesso de membros e amigos que não dominam o idioma alemão ou outra língua na qual a obra já tenha
sido publicada, a textos importantes que não constam da programação da Editora Antroposófica para um
futuro próximo.

Trata se de um trabalho de leigos e portanto, sujeito a imperfeições. Somos gratos a todos que nos
ajudarem a aperfeiçoá lo.

A fim de que o investimento feito seja recobrado pelo menos parcialmente, solicitamos que não sejam
tiradas cópias.
O material de estudo que aqui lhes apresentamos é mais conhecido como "As Cartas Micaélicas" e é a
continuação das assim chamadas "Cartas aos Membros" que, em parte, podem ser encontradas nas
apostilas "A formação de Comunidades" e "O Cultivo da Vida da Antroposofia" porém, sem as respectivas
máximas.

As "Cartas Micaélicas" já foram o tema de estudo de diversos grupos, tanto assim que existem traduções
e revisões feitas por diversas pessoas. As primeiras cartas com as máximas correspondentes já foram
publicadas nos "Periódicos" no. 7 a 11.

A Diretoria

ÍNDICE

No irromper da era de Micael

Outras máximas n: 79 a 81 (17/08/1924)

Outras máximas n: 82 a 84 (24/08/1924)

A constituição anímica humana antes do irromper da época de Micael

Outras máximas n: 85 a 87 (31/08/1924)

Aforismos de uma palestra a membros, proferida em Londres, no dia 24 de agosto de 1924

Outras máximas n: 88 a 90 (07/09/1924)

Outras máximas n: 91 a 93 (14/09/1924)

Outras máximas n: 94 a 96 (21/09/1924)

Outras máximas n: 97 a 99 (28/09/1924)

Outras máximas n: 100 a 102 (05/10/1924)

O caminho pré Micaélico e Caminho de Micael

Outras máximas n: 103 a 105 (12/10/1924)

A tarefa de Micael na esfera de Arimã

Outras máximas n: 106 a 108 (19/10/1924)

As experiências e vivências de Micael durante a realização de sua missão cósmica

Outras máximas n: 109 a 111 (26/10/1924)

Futuro da humanidade e atividade de Micael

Outras máximas n: 112 a 114 (02/11/1924)

A vivência que o homem tem de Micael e de Cristo

Outras máximas n: 115 a 117 (09/11/1924)

A missão de Micael na era cósmica da liberdade do homem


Outras máximas n: 118 a 120 (16/11/1924)

Os pensamentos cósmicos na atuação de Micael e na atuação de Arimã

Outras máximas n: 121 a 123 (23/11j1924)

Primeira consideração: Diante dos portais da alma da consciência.

Como no âmbito supra terrestre Micael prepara sua missão na Terra pela sua vitória sobre Lúcifer

Outras máximas n: 124 a 126 (30/11/1924)

Segunda consideração: Como as forças de Micael atuam no primeiro desabrochar da alma da consciência

Outras máximas n: 127 a 130 (07/12/1924)

Continuação da segunda consideração: Fatos que dificultaram ou favoreceram as forças micaélicas na


incipiente era da alma da consciência

Outras máximas n: 131 a 133 (14/12/1924)

Terceira consideração: O sofrimento de Micael causado pela evolução da humanidade antes da era da
sua atuação na Terra

Outras máximas n: 134 a 136 (21/12/1824)

Consideração natalina: 0 mistério do Logos

Outras máximas n: 137 a 139 (28/12/1924)

História Celeste História Mitológica História Terrestre Mistério do Gólgota

Outras máximas n: 140 a 143 (04/01/1925)

0 que se revela ao olhar retrospectivo dirigido às vidas repetidas

Outras máximas n: 144 a 146 (11/01/1925)

Primeira parte da consideração: 0 que se revela ao olhar retrospectivo dirigido às vidas anteriores entre a
morte e o novo nascimento?

Outras máximas n: 147 a 149 (18/01/1825)

Segunda parte da consideração: 0 que se revela ao olhar retrospectivo


dirigido às vidas anteriores entre a morte e o novo nascimento?

Outras máximas n: 150 a 152 (25/01/1925)

0 que é a Terra realmente no macrocosmo?

Outras máximas n: 153 a 155 (01/02/1925)

0 sono e o estado de vigília à luz das considerações anteriores

Outras máximas n: 156 a 158 (08/02/1925)

Gnose e Antroposofia

Outras máximas n: 159 a 161 (15/02/1925)

A liberdade do homem e a era de Micael

Outras máximas n: 162 a 164 (22/02/1925)

Onde se encontra o homem como ser que pensa e se recorda?

Outras máximas n: 165 a 167 (01/03/1925)


0 homem em sua essência macrocósmica

Outras máximas n: 168 a 170 (08/03/1925)

A relação entre a organização sensorial e intelectiva do homem e o mundo

Outras máximas n: 171 a 173 (15/03/1925)

A memória e a consciência moral

Outras máximas n: 174 a 176 (22/03/1925)

A aparente extinção do conhecimento espiritual na época moderna

Outras máximas n: 177 a 179 (29/03/1925)

Os abalos históricos durante o desabrochar da alma da consciência

Outras máximas n: 180 a 182 (05/04/1925)

Da natureza à sub natureza

Outras máximas n: 183 a 185 (12/0411925)

NO IRROMPER DA ERA DE MICAEL

Até o século IX após o Mistério do Gólgota, o ser humano se posicionava de modo diverso perante os
seus próprios pensamentos. Ele não tinha o sentimento de que ele próprio formava (produzia) os
pensamentos que viviam em sua alma. Considerava os dádivas (inspirações) de um mundo espiritual.
Mesmo quando tinha pensamentos sobre aquilo que percebia com os sentidos, estes pensamentos se lhe
apresentavam como revelações do divino, o qual lhe falava a partir dos objetos sensoriais.

Quem tem percepções espirituais compreende este sentimento, pois toda vez que algo espiritualmente
verdadeiro se revela (se transmite) à alma, não se terá jamais o sentimento de que, de um lado, existe a
percepção espiritual e que, de outro, formamos nós mesmos, o pensamento para compreender esta
percepção; o que ocorre é que o pensamento é visto na percepção; contido nela; sendo um dado tão
objetivo quanto o da própria percepção.

Com o século IX (tratam se obviamente de indicações médias do tempo; a passagem se dá de maneira


gradativa) a inteligência pessoal individual passa a brilhar na alma humana. 0 ser humano passou a ter o
seguinte sentimento: eu mesmo formo (produzo) os pensamentos. E esta atividade de formar os
pensamentos se tornou o elemento preponderante da vida anímica, fazendo com que os pensadores
vissem no comportamento inteligente a essência (Wesen) da alma humana. Anteriormente se tinha uma
representação imaginativa da alma. A essência dela não era vista na atividade de produção de
pensamentos, mas na sua participação no conteúdo espiritual do mundo. Os seres espirituais supra-
sensíveis eram pensados como seres pensantes; e eles vêm atuando para dentro do ser humano, eles
também vêm pensando "para dentro" dele. Aquela parte do mundo espiritual que vive no ser humano era
sentida como sendo a alma.

Ao penetrar o mundo espiritual com a própria visão, o ser humano é confrontado com poderes essenciais
espirituais concretos. Antigas doutrinas designavam com o nome Micael aquela força a partir da qual
emanavam (fluíam) os pensamentos das coisas. 0 nome pode ser mantido. Pode se então dizer que
inicialmente os seres humanos receberam os pensamentos de Micael. Micael administrava a inteligência
cósmica. A partir do século IX os seres humanos não sentem mais que os pensamentos lhes são
inspirados por Micael. Eles escaparam do seu domínio e caíram do mundo espiritual para dentro das
almas individuais.
A vida dos pensamentos, a partir de então, foi desenvolvida no âmbito da Humanidade. Não havia
segurança a respeito do significado do pensamento. Esta insegurança vivia nas doutrinas escolásticas. Os
escolásticos se dividiram em realistas e nominalistas. Os realistas liderados por Tomás de Aquino e seus
próximos ainda sentiam o antigo vínculo entre pensamento e coisa. Portanto, viam o pensamento como
algo real que vive nas coisas. Eles viam os pensamentos como algo real que flui das coisas para dentro da
alma. Os nominalistas sentiam fortemente o fato de a alma ser aquela que forma (produz) os
pensamentos. Sentiam que os pensamentos eram apenas algo subjetivo que vive na alma e nada têm a
ver com as coisas. Os pensamentos eram vistos apenas como nomes produzidos pelo ser humano para
designar coisas (não se falava sobre "pensamentos", apenas sobre "universalias"; mas quanto ao princípio
do que estamos expondo, isto não vem ao caso, pois pensamentos têm sempre algo de universal em
relação às respectivas coisas individuais).

Pode se dizer que os realistas queriam manter a fidelidade a Micael; e como os pensamentos haviam
caído de seu domínio para o dos homens, eles, como pensadores, queriam servir a Micael como o senhor
da inteligência do cosmo. Em sua parte inconsciente da alma os nominalistas se afastarem de Micael.
Para eles o ser humano era dono dos pensamentos e não Micael.

0 nominalismo se expandiu, aumentou sua influência e pôde continuar desta maneira até o último terço do
século XIX. As pessoas que, nesta época tinham a possibilidade de perceber os acontecimentos no
âmbito do cosmo, sentiam que Micael havia seguido a corrente da vida intelectual. Ele busca uma nova
metamorfose da sua incumbência cósmica. Anteriormente, ele deixava fluir os pensamentos para dentro
das almas humanas a partir do mundo espiritual externo. Desde o último terço do século XIX ele quer viver
nas almas humanas nas quais se formam (produzem) os pensamentos. As almas "aparentadas" com
Micael viam no, anteriormente, desenvolver suas atividades no âmbito espiritual; agora elas reconhecem
que devem deixá lo viver em seus corações e lhe dedicam a sua vida espiritual baseada nos
pensamentos; agora, a partir de seus pensamentos individuais e livres, estas almas deixam que Micael
lhes ensine a trilhar os caminhos verdadeiros da alma.

Os homens que na vida terrestre anterior viveram em pensamentos inspirados e que, portanto, eram
servidores de Micael, ao voltarem a Terra para uma nova encarnação no final do século XIX sentiam se
impelidos à formação desta comunidade micaélica livre. Elas agora consideravam o seu antigo inspirador
de pensamentos como sendo o indicador de rumo, no âmbito dos pensamentos superiores.

Aqueles que sabem levar em conta estas coisas podem saber o significado que teve esta reviravolta no
final do século XIX, com relação aos pensamentos dos seres humanos. Anteriormente o ser humano podia
apenas sentir como os pensamentos se formavam, a partir de seu próprio ser. A partir da época
mencionada, o ser humano pode erguer se acima de si mesmo, ele pode voltar a sua percepção (atenção)
para o âmbito espiritual, onde Micael se lhe aproxima mostrando se, já desde longa data, familiarizado
com todo o tecer dos pensamentos. Ele liberta o pensar do âmbito da cabeça e lhe abre o caminho para o
coração; ele liberta a capacidade de entusiasmo do âmbito dos sentimentos, fazendo com que o ser
humano possa viver com dedicação anímica para com tudo que pode ser experimentado no âmbito da luz
dos pensamentos. A era de Micael irrompeu. Os corações começam a ter pensamentos; o entusiasmo não
provém mais apenas da escuridão mística, mas da clareza anímica sustentada por pensamentos.
Compreender isto significa acolher Micael na índole. Os pensamentos que hoje almejam abarcar o
espiritual devem partir de corações que batem por Micael como o senhor ígneo dos pensamentos
cósmicos.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(17/08/1924)

79. Podemo nos aproximar espiritualmente da terceira hierarquia (Arqueus, Arcanjos, Anjos), se viermos a
conhecer, pensar, sentir e querer, de tal modo que neles percebamos o espiritual atuante na alma.
Inicialmente, o pensar apenas coloca imagens no mundo, e não uma realidade. 0 sentir urde neste
elemento pictórico; intercede por algo real no ser humano, mas não é capaz de vivê lo efetivamente. 0
querer desenvolve uma realidade que pressupõe o corpo, mas não co atua conscientemente em sua
estruturação. Está vivo na terceira hierarquia o essencial que vive no pensar, a fim de fazer do corpo a
base deste pensar; o essencial que vive no sentir, a fim de fazer do corpo o co-vivenciador de uma
realidade; o essencial que vive no querer, a fim de co atuar conscientemente em sua estruturação.
80. Podemo nos aproximar espiritualmente da segunda hierarquia (Exusiai,Dynameis, Kyriotetes), ao
contemplarmos os fatos da natureza como manifestações de um espiritual que neles vive. A segunda
hierarquia tem, então, a natureza como seu domicilio, para dentro dela atuar nas almas.

81. Podemo nos aproximar espiritualmente à primeira hierarquia (Seraphim, Cherubim, Tronos), ao
contemplarmos os fatos existentes no reino humano e no reino da natureza como os atos (criações) de um
espiritual neles atuante. A primeira hierarquia tem, então, o reino humano e o reino da natureza para sua
atuação, na qual ela se desenvolve.

82. 0 ser humano olha para cima, em direção aos mundos estelares; o que aí se oferece aos sentidos são
apenas as revelações externas daquelas entidades espirituais e seus atos, das quais se falou nas
abordagens anteriores como sendo os seres dos reinos espirituais (hierarquias).

83. A Terra é o palco dos três reinos da natureza e do reino humano, na medida em que estes revelam a
aparência sensorial externa da atividade de entidades espirituais.

84. As forças que, vindo dos seres espirituais, atuam para dentro dos reinos terrestres da natureza e para
dentro do reino humano, desvenda-se ao espírito humano através do conhecimento verdadeiro e
adequado ao espírito, dos mundos estelares.

Constituição Anímica Humana antes do Irromper da Época de Micael

Hoje deve ser introduzida uma consideração que se acrescenta às idéias do texto "No irromper da época
de Micael". Esta época de Micael ascendeu na evolução da humanidade após a predominância da
formação intelectual de pensamentos, por um lado, e por outro, do modo de contemplação humano
dirigido ao mundo sensorial externo o mundo físico.

A formação de pensamentos, em sua própria essência, não é um desenvolvimento em direção ao


materialismo. 0 mundo das idéias, que em épocas mais antigas se aproximava dos homens como
inspirado, tornou se propriedade da alma humana, no tempo que precedeu a época de Micael. A alma
humana não mais recebe as idéias "de cima", do conteúdo espiritual do cosmo; ela as faz ascender
ativamente da própria espiritualidade do homem. Com isto, o homem se tornou maduro para refletir sobre
sua própria entidade espiritual. Antes, ele não penetrava até essa profundeza do próprio ser. De certo
modo, ele via em si a gota que se separou do mar da espiritualidade cósmica para a vida terrestre para,
depois desta, novamente se unir ao mesmo.

A formação de pensamentos acontecendo dentro do homem é um progresso no autoconhecimento


humano. Visto no supra sensível, o assunto se apresenta assim: os poderes espirituais, que se pode
denominar Micael, administravam as idéias no cosmo espiritual. 0 homem vivenciava estas idéias ao
participar com sua alma da vida do mundo de Micael. E então esta vivência tornou se sua própria. Através
disto, ocorreu uma separação temporária entre o homem e o mundo de Micael. Com os pensamentos
inspirados da antigüidade, o homem recebia simultaneamente os conteúdos espirituais do mundo. Ao
terminar esta inspiração e o homem formar os pensamentos em própria atividade, ele se vê remetido à
contemplação dos sentidos, para ter um conteúdo para estes pensamentos. Assim, de inicio o homem
teve de preencher com conteúdo material a própria espiritualidade conquistada. Ele caiu na visão
materialista, na época que levava seu próprio ser espiritual a um grau superior aos precedentes.

Isto pode ser facilmente mal interpretado; pode se apenas considerar a "queda" para o materialismo e ficar
triste com ela. Mas enquanto a forma de percepção dessa época teve de se limitar ao mundo físico
exterior, desenvolvia se no interior da alma uma espiritualidade purificada do homem, auto contida, como
vivência. Mas na época de Micael, esta espiritualidade não mais deve permanecer vivência inconsciente,
deve se tornar consciente de sua própria característica. Isto significa a entrada da entidade de Micael na
alma humana. Durante um certo tempo, o homem preencheu o próprio espiritual com o material da
natureza; ele deve preenchê lo novamente com espiritualidade própria original, como conteúdo cósmico.

A formação de pensamentos se perdeu por um tempo na matéria do cosmo; ela deve encontrar se
novamente no espírito cósmico. No mundo frio e abstrato do pensamento, pode entrar calor, pode entrar
realidade espiritual preenchida de essência. É isto o que apresenta o irromper da época de Micael.
Apenas devido à separação da entidade pensamental do universo, nas profundezas da alma humana
pôde crescer a consciência da liberdade. 0 que veio das alturas teve de ser reencontrado a partir das
profundezas. Por isto, o desenvolvimento desta consciência da liberdade, de início esteve ligado a um
conhecimento da natureza, voltado apenas ao que é exterior. Enquanto no interior o homem formava
inconscientemente seu espírito, para a pureza das idéias; seus sentidos estavam direcionados para fora,
apenas para o material, o que de nenhum modo interveio, perturbando aquilo que inicialmente brilhava
como delicado gérmen na alma.

Mas a contemplação do material exterior pode novamente penetrar a vivência do espírito e, com isto, uma
nova forma de contemplação espiritual. Aquilo que foi adquirido em conhecimento da natureza, no signo
do materialismo, pode ser apreendido na vida anímica interior de maneira adequada ao espírito. Micael,
que falava "de cima", pode ser escutado "a partir do interior", onde ele vai estabelecer sua nova morada.
Pronunciado de maneira mais imaginativa, isto pode ser expresso assim: o elemento solar que o homem
acolheu em si por longos tempos, apenas a partir do cosmo, brilhará no interior da alma. 0 homem
aprenderá a falar de um "sol interior". Por causa disso, em sua vida entre nascimento e morte, ele não se
perceberá menos como ser terrestre, mas conhecerá o próprio ser em seu percurso pela Terra como
guiado pelo sol. Aprenderá a perceber a verdade de que no interior uma entidade o coloca numa luz , que
por certo brilhará na existência terrestre, mas não é acesa nesta. No irromper da época de Micael, ainda
pode parecer como se tudo isto pudesse estar bem distante da humanidade; mas está próximo "em
espírito", apenas precisa ser "visto". São imensas as conseqüências do fato de que as idéias do homem
não permaneçam apenas "pensando", mas que no pensar comecem a "ver".

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(31/08/1924)

85. Na idade cósmica presente, o ser humano inicialmente se vivência na consciência diurna vígil. Esta
vivência lhe oculta que, dentro da vigília, está presente em sua vivência a terceira hierarquia.

86. Na consciência de sonho, o ser humano vivência de maneira caótica o próprio ser unido
desarmonicamente com o ser espiritual do mundo. Ao se defrontar com a consciência de sonho, a
imaginativa, como seu outro pólo, o ser humano observa que a segunda hierarquia está presente em sua
vivência.

87. Na consciência de sono sem sonhos, o ser humano vivência, sem consciência própria, o próprio ser,
unido ao ser espiritual do mundo. Ao se defrontar com a consciência de sono inspirada, como seu outro
polo, o ser humano observa que a primeira hierarquia está presente em sua vivência.

Aforismos de uma palestra a membros, proferida em Londres, no dia 24 de


agosto de 1924

A consciência humana desenvolve três formas no presente estado cósmico de sua evolução: a
consciência vígil, a que sonha e a que dorme sem sonhos.

A vígil vivência o mundo exterior sensível, forma idéias sobre este, e é capaz de configurar, a partir destas
idéias, aquelas que reproduzem um mundo puramente espiritual. A consciência sonhante desenvolve
imagens que mudam a forma do mundo exterior; por exemplo, associam ao sol que ilumina a cama, a
vivência onírica de um grande incêndio com muitos detalhes. Ou, coloca o mundo interior humano em
imagens simbólicas perante a alma; por exemplo, o coração intensamente palpitante, na imagem de um
fogão superaquecido. Também as lembranças vivem transformadas na consciência onírica. A elas se
acrescentam conteúdos de imagens não extraídas do mundo sensorial, mas do mundo espiritual, as quais,
entretanto, não oferecem a possibilidade de penetrar cognitivamente no mundo espiritual, porque sua
existência crepuscular não se deixa elevar totalmente à consciência vígil, e por não se poder apreender
verdadeiramente o que passa para dentro desta.

Porém, é possível, imediatamente ao acordar, abranger tanto do mundo onírico, que se note como este é
a impressão imperfeita de uma vivência espiritual que preenche o sono, mas que em sua maior parte
escapa à consciência vígil. Para vislumbrar isto, só é necessário preparar o momento de acordar de modo
que este não traga imediatamente o mundo exterior diante da alma como num passe de mágica, mas que
a alma, ainda sem olhar para fora, se sinta dedicada ao vivenciado interiormente.

A consciência de sono sem sonhos deixa a alma atravessar vivências que apenas aparecem na
lembrança, como monotonia indiferenciada do cumprimento do tempo. Poder se á falar destas vivências
como algo totalmente inexistente, enquanto não se penetrá las pela pesquisa científico espiritual. Mas se
isso acontecer, se for desenvolvida a consciência imaginada e inspirada de maneira descrita na literatura
antroposófica, sobressaem da treva do sono as imagens e as inspirações de vivências de existências
terrestres anteriores. E então, também se pode abranger o conteúdo da consciência onírica. Ele consiste
de um conteúdo não apreensível pela consciência vígil, o qual indica o mundo no qual o ser humano
permanece como alma não incorporada entre duas vidas terrestres.

Quando se vem a conhecer o que ocultam para a presente fase cósmica a consciência de sono e a
onírica, é aberto o caminho para as formas evolutivas da consciência humana no mundo precedente. A
isto, efetivamente não se pode chegar através da pesquisa externa. Pois, os documentos externos
adquiridos, apenas trazem conseqüências de vivências pré históricas da consciência humana. A literatura
antroposófica traz esclarecimentos de como se pode chegar à contemplação de tais vivências através de
pesquisa espiritual.

Esta pesquisa encontra, na antiga época egípcia, uma consciência onírica que se encontra muito mais
próxima da consciência vígil, do que acontece hoje no ser humano. As vivências oníricas irradiavam como
lembranças para dentro da consciência vígil; e esta não apenas fornecia as impressões sensoriais
abrangíveis em pensamentos bem delineados, mas, ligadas a elas, o espiritual atuante no mundo
sensorial. Através disto, o ser humano se encontrava instintivamente com sua consciência dentro do
mundo que deixou, ao se incorporar na Terra no qual novamente penetrará, ao ter passado através do
portal da morte.

Os escritos conservados e outros monumentos dão, àquele que penetra em seu conteúdo
despreocupadamente, nítidas reproduções de uma tal consciência, pertencente a uma época da qual não
existem monumentos externos.

A consciência de sono da antiga época egípcia continha sonhos do mundo espiritual, de maneira
semelhante à presente que contêm sonhos do mundo físico.

Porém, em outros povos se encontra ainda uma outra consciência. 0 sono irradiava suas vivências para
dentro da vigília, de tal modo que neste irradiar existia instintivamente uma visão das repetidas vidas
terrestres. As tradições do conhecimento das repetidas vidas terrestres, pelos homens primevos, provêm
destas formas de consciência.

Reencontra se o que existia instintivamente em épocas antigas, crepuscularmente como consciência


onírica, no conhecimento imaginativo desenvolvido. Só que neste, é plenamente consciente como a vida
da vigília.

Da mesma maneira, pelo conhecimento inspirado, se percebe a instintiva visão pré histórica, que ainda via
algo das repetidas vidas terrestres. A atual história da humanidade não trata desta mudança das formas
humanas da consciência. Ela gostaria de acreditar que, em essência, sempre existiram as formas de
consciência atuais, desde que a humanidade terrestre existe.

Pretende se ver os mitos e contos, que indicam tais formas diversas de consciência, como o
extravasamento da fantasia poética do homem primitivo.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(07/09/1924)

88. Na consciência diurna vígil, o ser humano se vivência na era cósmica presente como estando dentro
do mundo físico. Esta vivência lhe oculta que se encontram dentro de sua própria entidade, os efeitos de
uma vida entre morte e nascimento.

89. Na consciência onírica, o ser humano vivência caoticamente o próprio ser unido desarmonicamente ao
ser espiritual do universo. A consciência vígil não consegue apreender o conteúdo próprio desta
consciência onírica. Desvenda se à consciência imaginativa e inspirada que o mundo espiritual, no qual o
ser humano vive entre morte e nascimento, participa da edificação de seu ser interior.
90. Na consciência sem sonho do sono, o ser humano vivência, sem consciência própria, o próprio ser
como permeado pelos resultados de vidas terrestres passadas. A consciência inspirada e intuitiva penetra
a visão destes resultados e vê a atuação de vidas terrestres anteriores no decurso do destino (carma) da
vida presente

91. A vontade apenas penetra a consciência habitual, na atual era cósmica, através do pensamento. Mas
esta consciência habitual só consegue se ligar ao perceptível sensorialmente. E também, só apreende da
própria vontade aquilo que desta penetra no mundo sensorial da percepção. Nesta consciência, o ser
humano sabe de seus impulsos volitivos apenas através da observação representativa de si mesmo,
assim como ele sabe do mundo exterior apenas através da observação.

92. 0 carma, que atua na vontade, lhe é uma propriedade inerente a partir de vidas terrestres precedentes.
Portanto, esta não pode ser apreendida através das representações mentais da habitual existência
sensória, que se dirige apenas à presente vida terrestre.

93. Por estas representações não conseguirem apreender o carma, elas remetem ao incompreensível,
que se lhes defronta nos impulsos volitivos humanos, à treva mística da constituição corpórea, enquanto é
o efeito de vidas terrestres precedentes.

94. Com a habitual vida representativa, intermediada pelos sentidos, o ser humano se encontra no mundo
físico. A fim de acolher este em sua consciência, o carma tem de calar na vida representativa. De certa
maneira, o ser humano esquece seu carma enquanto ativo nas representações mentais.

95. Nas manifestações da vontade atua o carma. Mas a atuação permanece no inconsciente. 0 carma é
apreendido elevando se, até a imaginação, o que atua inconscientemente na vontade. Sente se em si seu
destino.

96. Quando inspiração e intuição penetram na imaginação, então torna se perceptível na atuação da
vontade, além dos impulsos do presente, o resultado de vidas terrestres anteriores. A vida passada se
mostra efetiva na presente.

97. Uma representação mais grosseira pode dizer: na alma do ser humano vivem a pensar, sentir e
querer. Uma mais sutil deve dizer: pensar sempre contêm um substrato de sentir e querer; sentir, um de
pensar e querer; querer, um de pensar e sentir. Perante os outros conteúdos da alma, na vida do
pensamento só predomina o pensar, na vida do sentimento o sentir e na vida volitiva o querer.

98. 0 sentir e querer da vida do pensamento contêm o resultado cármico de vidas terrestres anteriores. 0
pensar e querer da vida do sentimento determinam o caráter de maneira cármica. 0 pensar e sentir da vida
volitiva arrancam a vida terrestre presente do contexto cármico.

99. No sentir e querer do pensar, o ser humano vive seu carma do passado; no pensar e sentir do querer
ele prepara o carma do futuro.

100. Os pensamentos têm sua verdadeira sede no corpo etérico do ser humano. Mas aí eles são forças
vivas essenciais. Eles se impregnam no corpo físico. E como tais "pensamentos impregnados", eles têm a
maneira vaga em que são conhecidos pela consciência habitual.

101. 0 que de sentir vive nos pensamentos, provém do corpo astral; o que de querer, do Eu. No sono o
corpo etérico do ser humano brilha em seu mundo de pensamentos; só que o ser humano não participa
disto, pois ele extraiu dos corpos físico e etérico, o sentir dos pensamentos com o corpo astral, o querer
dos mesmos com o Eu.

102. No momento em que, durante o sono, o corpo astral e o Eu desatam a relação com os pensamentos
do corpo etérico, eles entram em uma relação com o "carma", com a contemplação dos acontecimentos
através das repetidas vidas terrestres. Esta contemplação é recusada à consciência habitual; uma
consciência supra sensível penetra nela.

O Caminho pré-Micaélico e o Caminho de Micael

Não é possível compreender adequadamente a forma pela qual o impacto micaélico penetra o
desenvolvimento da humanidade, se for continuada a forma usual em que atualmente é concebida a
relação entre a natureza e o recente mundo das idéias.
Pensa se que lá fora existe a natureza com os seus processos e seres e que no interior estão as idéias.
Estas apresentam conceitos de seres da natureza ou, das assim chamadas leis da natureza. Os
pensadores estão empenhados principalmente em mostrar como se formam as idéias que têm a relação
correta com os seres da natureza ou que contenham as verdadeiras leis da mesma.

Atribui se pouco valor à relação que estas idéias assumem para com o homem que as tem. 0 essencial, no
entanto somente poderá ser compreendido quando se coloca a pergunta: o que é que o homem vivência
diante das recentes idéias das ciências naturais?

Uma resposta a esta pergunta poderá ser conseguida da seguinte maneira:

Hoje em dia o homem tem a sensação de que as idéias são formadas nele pela atividade de sua alma. Ele
tem o sentimento de ser ele o formador das idéias enquanto que de fora lhe viriam apenas as percepções.

0 homem não teve sempre este sentimento. Em tempos passados ele não tinha a sensação de que o
conteúdo das idéias fosse produzido por ele, mas como algo recebido do mundo supra sensível como
dádiva.

Este sentimento passou por etapas. E estas etapas dependiam da parte de seu ser, com a qual o homem
vivenciava aquilo que hoje denomina suas idéias. Hoje em dia, na época do desenvolvimento da alma da
consciência, vale, sem restrições, aquilo que se encontra nas máximas anteriores: "Os pensamentos têm
sua sede no corpo etérico do homem. Mas neste eles são forças vivas essenciais. Eles se impregnam no
corpo físico. E como tais pensamentos impregnados, têm a maneira vaga, na qual a consciência comum
os conhece".

Pode se voltar àqueles tempos em que os pensamentos eram vivenciados diretamente no Eu. Mas neste
caso não eram vagos como hoje; os pensamentos não eram meramente viventes, eram providos de alma
e perpassados pelo espírito. Isto significa então que o homem não pensava pensamentos e sim, que ele
vivenciava a percepção de entidades espirituais concretas.

Uma consciência que desta forma se dirige para um mundo de entidades espirituais, pode ser encontrada
no passado de todos os povos. Aquela parte desta consciência que foi preservada pela história é hoje
denominada "consciência formada de mito" e não é vista como algo que tem valor especial para a
compreensão do mundo real. No entanto é justamente com esta consciência que o homem se encontra
dentro de seu mundo, no mundo de sua origem, enquanto que através da consciência atual ele se coloca
fora desse seu mundo.

0 homem é espírito. E seu mundo é o mundo dos espíritos. Um estágio seguinte é aquele em que o
pensamental não é mais vivenciado pelo Eu, mas pelo corpo astral; então, para a contemplação anímica,
perde se a espiritualidade imediata. 0 pensamental surge como algo vivo permeado pela alma.

No primeiro estágio, aquele da visão da essencialidade espiritual concreta, o homem não sente a
necessidade de levar o que é vislumbrado para junto do mundo que é percebido através dos sentidos. É
certo que as manifestações do mundo sensível se revelam como os atos do vislumbrado supra
sensorialmente; mas não há motivo para desenvolver uma ciência especial sobre aquilo que se apresenta
à visão espiritual imediata. Além do mais a exuberância daquilo que é percebido como o mundo das
entidades espirituais é tão grande que a atenção se volta principalmente para a mesma.

A situação é outra no segundo estágio de consciência. Nesta, as entidades espirituais concretas se


ocultam; aparece então o seu reflexo como vida permeada de alma. Começa se a levar a "vida da
natureza" para junto desta "vida das almas".

Procura se nos seres e nos processos da natureza as entidades espirituais efetivas e seus atos. Naquilo
que surgiu mais tarde como busca alquimista, pode se ver historicamente o sedimento dessa etapa da
consciência.

Assim como o homem vivia totalmente dentro de seu ser quando "pensava" entidades espirituais no
primeiro estágio da consciência, assim ele ainda continua próximo de si e da sua origem nesse segundo
estágio.
Mas, com isso, está excluída nestes dois estágios a possibilidade do homem chegar realmente a um
impulso interior próprio para o seu agir.

Algo espiritual que lhe é semelhante age nele. 0 que ele parece estar fazendo ê manifestação de
processos que acontecem por meio de entidades espirituais. 0 que o homem faz é a manifestação físico
sensorial de um acontecimento divino espiritual real que se encontra por trás.

Uma terceira época do desenvolvimento da consciência traz os pensamentos, como pensamentos vivos, à
consciência do corpo etérico.

A civilização grega, no seu período de grandeza, vivia dentro dessa consciência. Quando o grego pensava
ele não formava um pensamento através do qual ele via o mundo como sendo algo que ele mesmo
construíra; mas ele sentia suscitar dentro de si a vida que também pulsava fora dele nas coisas e
processos.

Foi aí que surgiu pela primeira vez o anseio por liberdade do próprio agir. Ainda não era a verdadeira
liberdade, mas o anseio por ela.

0 homem que sentia o movimento da natureza ativar se também em si mesmo podia desenvolver o anseio
por separar o próprio movimento do movimento percebido como estranho. Mas ainda assim sentia se no
movimento exterior o último resultado do mundo espiritual efetivo, que é semelhante ao homem.

Apenas quando os pensamentos assumiram o seu cunho no corpo físico e a consciência se estendeu
apenas a esse cunho, é que surgiu a possibilidade da liberdade. Esse é o estado que se apresenta no
século XV após Cristo.

No desenvolvimento do mundo não importa qual o significado que as idéias da atual ciência natural têm
para a natureza; pois essas idéias não tomaram a sua forma para dar uma determinada imagem da
natureza, mas para levar o homem a um determinado estágio de seu desenvolvimento.

No momento em que os pensamentos se prenderam ao corpo físico, desprendeu se de seu conteúdo


direto o espírito, a alma e a vida; e a sombra abstrata, presa ao corpo físico, ficou só. Tais pensamentos
apenas conseguem fazer do físico material objeto de seu conhecimento. Pois eles mesmos apenas são
reais no corpo físico material do homem.

0 materialismo não surgiu porque somente os seres e processos da natureza exterior são perceptíveis;
mas porque o ser humano tinha que passar por um estágio no seu desenvolvimento que o levasse a uma
consciência na qual inicialmente fosse capaz de perceber apenas revelações materiais. A configuração
unilateral dessa necessidade humana de desenvolvimento deu origem à concepção que os tempos
modernos têm da natureza.

A missão de Micael é levar forças aos corpos etéricos dos homens, através das quais as sombras de
pensamentos novamente recebem vida; e então, almas e espíritos dos mundos supra sensíveis se
inclinarão aos pensamentos reavivados; o homem liberto poderá viver com eles, assim como com eles
vivia o homem que era apenas uma reprodução física de sua atuação.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(BASEADAS NO AQUI EXPOSTO)

(12/10/1924)

103. Na evolução da humanidade, a consciência desce pela escada do desenvolvimento dos


pensamentos. Há uma primeira etapa da consciência: nela, o homem vivência os pensamentos no Eu,
como seres permeados de espírito, de alma, de vida. Em uma segunda etapa, o homem vivência os
pensamentos no corpo astral; ai, eles apenas representam as cópias vivas e animadas dos seres
espirituais. Em uma terceira etapa, o homem vivência os pensamentos no corpo etérico; eles apenas
representam uma movimentação interna como um eco do anímico. Na quarta etapa, a atual, o homem
vivência os pensamentos no corpo físico; eles representam sombras mortas do espiritual.

104. Na mesma medida que o vivo anímico espiritual se retira do pensar humano, desperta à vida a
vontade própria do ser humano; a liberdade se torna possível.
105. É tarefa de Micael novamente conduzir o ser humano, sobre a via da vontade, para lá de onde ele
veio; já que o homem, sobre a via do pensar, desceu com sua consciência terrestre da vivência do supra-
sensível à do sensível.

A Tarefa de Micael na Esfera de Arimã

Ao lançar um olhar retrospectivo sobre o seu desenvolvimento, e voltando a visão espiritual para a feição
característica que sua vida espiritual adquiriu nos últimos cinco séculos, o ser humano, mesmo a partir da
consciência comum, deve reconhecer, ou pelo menos suspeitar, que ele se encontra, há cinco séculos
para cá, num significativo momento de transição do desenvolvimento da humanidade na Terra.

Na consideração anterior enfoquei esta mudança de direção sob um determinado ponto de vista. Ao elevar
o olhar para os primórdios do desenvolvimento humano, pode se ver como a força anímica que hoje
denominamos inteligência, se transformou no interior do ser humano.

No âmbito da consciência humana surgem atualmente pensamentos mortos, abstratos. Estes


pensamentos estão atados ao corpo físico do homem; o ser humano é obrigado a reconhecê los como
tendo sido criados por ele mesmo.

Em tempos primordiais, o ser humano via entidades espirituais divinas quando voltava o olhar anímico
naquela direção em que hoje se lhes são revelados os próprios pensamentos. Ele vivenciava todo o seu
ser, inclusive o seu corpo físico, atado a estas entidades; ele era obrigado a reconhecer a si mesma como
um resultado ou produto da ação destas entidades, reconhecer como o resultado de uma ação delas, não
apenas o seu ser, mas também o seu agir. 0 ser humano não possuía um querer próprio. 0 que ele fazia
era manifestação do querer divino.

Conforme já descrevemos, o ser humano atingiu gradativamente a vontade própria, cuja época se iniciou
há aproximadamente cinco séculos.

Entretanto, a última etapa distingue se mais das anteriores do que estas entre si.

A medida que os pensamentos passam ao corpo físico, eles perdem a sua vitalidade, morrem e tornam se
configurações espiritualmente mortas. Em tempos anteriores, além de serem parte integrante do ser
humano, eles também se constituíam em órgãos das entidades divino espirituais às quais o ser humano
pertence e que o permeavam com o seu querer. Desta forma o ser humano sentia se vivamente ligado ao
mundo espiritual.

Com os pensamentos mortos, o ser humano sente se desligado do mundo espiritual; ele sente se
totalmente translocado para o mundo físico.

Com isto ele encontra se translocado para dentro da esfera da espiritualidade arimânica. Esta tem pouco
poder naquelas regiões onde as entidades das hierarquias superiores sustentam o ser humano na sua
própria esfera na qual elas, como em tempos remotos, atuaram no próprio ser humano, ou então, como foi
posteriormente, apenas através do seu reflexo permeado pelo elemento alma ou pelo elemento vida.
Enquanto existia este atuar de entidades espirituais supra sensíveis que permeava o atuar humano, ou
seja, até o século XV, os poderes arimânicos tiveram apenas um poder, por assim dizer, muito leve sobre
o desenvolvimento da humanidade.

Aquilo que a concepção do mundo dos persas descreve da atuação de Arimã, não está em contradição
com o que foi dito, pois aquela concepção não se refere a uma atuação de Arimã no âmbito do
desenvolvimento anímico do ser humano, ela refere se à atuação arimânica num mundo imediatamente
limítrofe ao mundo anímico humano. A atividade de Arimã chegava a transpassar de um mundo espiritual
vizinho para dentro do mundo anímico humano, mas não interferia diretamente nele.

Esta interferência direta só se tornou possível nesse espaço de tempo que se iniciou há aproximadamente
cinco séculos.

Desta forma, o ser humano encontra se no final de um fluxo de desenvolvimento dentro do qual a sua
essência (ser) se constitui a partir de uma espiritualidade divina tal como a descrevemos e que finalmente
veio a morrer para si, na abstrata entidade inteligente do ser humano.
0 ser humano não permaneceu naquelas esferas nas quais teve a sua origem, assim como nesta
espiritualidade divina.

Aquilo que há cinco séculos se iniciou para a consciência humana, já se havia realizado para uma parte
mais abrangente da sua entidade global na época em que o Mistério do Gólgota entrou para a
manifestação terrena. Foi ali que, de maneira imperceptível para a consciência existente na maior parte
dos seres humanos de então, o desenvolvimento da humanidade deslocou se gradativamente de um
mundo onde Arimã tem pouco poder para dentro de outro no qual ele o possui em grande medida. Este
deslocar se para dentro de um outro âmbito do mundo completou se justamente no século XV.

A influência de Arimã sobre o ser humano neste âmbito do mundo é possível e pode lhe ser perniciosa,
porque ali o atuar divino, familiar ao ser humano, está morto. Por outro lado, o ser humano não tinha
meios de chegar ao desenvolvimento do querer livre por outra forma que não fosse através do
deslocamento para uma esfera na qual não estivessem vivas as entidades espirituais divinas às quais
estivera ligado desde os primórdios de seu desenvolvimento.

Do ponto de vista cósmico, é na essência deste desenvolvimento humano que se encontra o mistério
solar. As entidades divino espirituais que deram origem ao ser humano, estavam ligadas àquilo que ele
podia perceber até o momento daquele redirecionamento significativo ao qual nos referimos acima. Estas
entidades desligaram se do Sol deixando neste apenas as suas partes mortas, de forma que o ser
humano pode receber em sua corporalidade, através do Sol, somente a força dos pensamentos mortos.

Mas estas entidades enviaram o Cristo do Sol à Terra. Para o bem da humanidade ele ligou o seu ser com
as partes mortas do ser espiritual-divino no reino de Arimã. Foi desta forma que a humanidade veio a ter
as duas possibilidades que lhe garantem a liberdade: voltar se ao Cristo, mas agora de maneira
consciente dentro da atividade espiritual que estava subconscientemente presente durante o percurso de
"descida" da percepção supra sensível do espiritual até chegar ao uso da inteligência; ou querer preencher
se do sentimento de desligamento perante a presença do espiritual, caindo consequentemente sob a
orientação dos poderes arimânicos.

A humanidade encontra se nesta situação desde o início do século XV. Ela foi preparada pois tudo na
história ocorre gradualmente desde o Mistério do Gólgota, o qual, como o maior acontecimento sobre a
Terra, está predestinado a salvar o ser humano da ruína à qual tem de estar exposto para poder tornar se
um ser livre.

Agora, pode se dizer que o ocorrido nesta situação deu se para a humanidade de forma semiconsciente.
Foi desta maneira que se chegou ao que é bom na concepção da natureza que vive em idéias abstratas, e
a vários princípios igualmente bons de postura perante a vida.

Os tempos em que o ser humano podia passar inconscientemente sua existência na perigosa esfera
arimânica já passaram.

0 pesquisador do mundo espiritual deve alertar a humanidade para o fato espiritual, que Micael assumiu a
direção das questões da humanidade. Micael realiza a sua tarefa sem, através disso, influenciar os seres
humanos; eles podem segui lo em liberdade para, através da força crística, reencontrar a saída da esfera
arimânica pela qual tiveram necessariamente que passar.

Pode se considerar que compreendeu verdadeiramente este fenômeno micaélico aquele que, de forma
sincera e a partir da profundeza de sua alma, consegue sentir se uno com a Antroposofia. A Antroposofia
deseja ser a mensagem desta missão Micaélica.

Goetheanum, 10 de outubro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(19/10/1924)

106. Micael novamente ascende pelos caminhos que o homem descendeu pelas etapas do
desenvolvimento do espírito até à atividade da inteligência. Só que Micael conduzirá a vontade para cima,
nas vias em que a sabedoria desceu até sua última etapa, a inteligência.
107. Micael apenas mostra seu caminho neste momento do desenvolvimento do mundo; assim, o homem
pode transformar este caminho em liberdade; isto distingue esta liderança de Micael de todas lideranças
arcangélicas anteriores, e mesmo de todas próprias lideranças micaélicas anteriores. Estas lideranças
atuavam no homem; não lhe mostravam apenas a atuação delas, de modo que naquela época o homem
não podia ser livre na atuação dele.

108. A tarefa atual do Homem é ter uma visão interna disto, para que ele possa encontrar, com toda sua
alma, o seu caminho do espírito dentro da época de Micael.

As experiências e vivências de Micael durante a realização de sua Missão


Cósmica

Do ponto de vista da humanidade, pode se observar o progresso desta, da etapa de consciência onde o
homem se sente como membro da ordem divino-espiritual, até o estágio atual, no qual ele se sente como
uma individualidade que se desprendeu do divino espiritual e faz uso próprio dos pensamentos. Foi isto
que fizemos no último ensaio.

Por outro lado, pode se também esboçar, a partir da visão supra-sensível, uma imagem daquilo que
Micael e os seus vivenciam no decorrer deste fluxo de desenvolvimento, ou seja, pode se descrever a
mesma seqüência de fatos do ponto de vista de Micael. Tentaremos fazer isto desta vez.

Inicialmente temos uma época mais remota na qual se pode falar apenas sobre aquilo que acontece entre
seres divino espirituais. Tem se um continuo agir dos deuses. Deuses realizam aquilo que os impulsos de
seu próprio ser lhes inspira; nesta atividade eles encontram a satisfação correspondente. E o que vem ao
caso é apenas o que eles vivenciam em tudo isto. Algo como a humanidade pode ser percebida apenas
num dos cantos deste campo de ação dos deuses. Ela é apenas uma parte destas ações do divino.

Mas Micael é o ser espiritual que desde o inicio voltou o seu olhar para a humanidade. Ele estrutura as
ações dos deuses de tal forma que a humanidade possa continuar existindo num dos cantos do cosmo. E
a forma pela qual ele atua é semelhante àquela que mais tarde se revelará como atividade intelectual no
ser humano; mas esta forma atua como força que em ordenação de idéias flui através do cosmo causando
realidade. Micael atua nesta força. Sua função é administrar a intelectualidade cósmica. Ele deseja a
continuação do progresso nesta sua área. E este progresso pode existir apenas se a inteligência, que atua
através do cosmo todo, se concentrar na individualidade humana. A partir daí resulta um período do
desenvolvimento no qual o cosmo não vive mais a partir da inteligência do presente, e sim, da do passado.
E a inteligência do presente passa para a corrente de desenvolvimento da humanidade.

Micael deseja constantemente manter um vínculo entre a inteligência que se desenvolve no âmbito da
humanidade e os seres divino espirituais.

Mas há uma resistência contra este intuito. 0 desenvolvimento pelo qual passam os deuses no processo
em que a intelectualidade se desliga do seu agir cósmico e se incorpora à natureza humana, é um fato
aberto ao mundo. Seres que tenham a capacidade de percepção destes fatos podem revertê los em
próprio proveito. E tais seres existem. São os seres arimânicos. Eles são plenamente predispostos para
absorverem para dentro de si a inteligência que se desliga dos deuses. Eles têm em si o potencial para
unir o seu próprio ser com toda a intelectualidade. Desta forma, eles se tornam às inteligências maiores,
mais abrangentes e penetrantes do cosmo.

Micael prevê que o ser humano, ao avançar gradativamente no uso próprio da inteligência, deve se
confrontar com os seres arimânicos e pode, consequentemente, cair no seu domínio por ter entrado em
relação com os mesmos. E por isto que Micael coloca os poderes arimânicos sob os seus pés; ele os
expulsa constantemente para a região abaixo da qual se desenvolve o ser humano. Micael, o dragão aos
seus pés, lançando o ao abismo: é esta a grandiosa imagem que vive na consciência humana a respeito
dos fatos aqui descritos.

0 desenvolvimento segue o seu percurso. A intelectualidade, que de inicio estava totalmente contida no
âmbito da intelectualidade divina, agora se desliga até o ponto em que passa a ser a alma do cosmo.
Aquilo que anteriormente irradiava apenas a partir dos deuses, agora passa a brilhar como a revelação do
divino, a partir do mundo das estrelas. Antes o mundo era conduzido pela própria entidade divina, agora, é
conduzido pela revelação divina que se tornou objetiva e atrás da qual a entidade divina percorre o
próximo estágio de seu próprio desenvolvimento.

Novamente é Micael o administrador da inteligência cósmica na medida em que esta flui em ordenação
das idéias através das revelações do cosmo.

A terceira fase do desenvolvimento consiste num maior desligamento da inteligência cósmica de sua
origem. Agora não é mais a presente ordenação das idéias que vige nos mundos estelares na forma de
revelação divina; as estrelas se movimentam e ordenam conforme a ordem ideal que lhes foi inserida no
passado. Micael vê como, cada vez mais, o que ele administrava no cosmo, a intelectualidade cósmica,
toma o seu caminho para a humanidade da Terra.

Mas Micael vê também como o perigo de sucumbir aos poderes arimânicos, se torna cada vez maior. Ele
sabe que para si mesmo ele sempre conseguirá manter Arimã abaixo de seus pés; será que o conseguirá
também para o ser humano?

Micael vê ocorrer o maior acontecimento da Terra. A entidade crística descende, a partir do reino onde o
próprio Micael servia, e se dirige ao âmbito da Terra para lá estar quando a inteligência estiver plenamente
com a individualidade humana. Pois será nesta ocasião que o ser humano viverá com a maior intensidade
o impulso de entregar se àquela potência que com toda a perfeição se tornou à portadora completa da
intelectualidade. Mas o Cristo estará presente; através do seu grande sacrifício, ele viverá na mesma
esfera em que também Arimã vive. 0 ser humano poderá optar entre o Cristo e Arimã. 0 mundo poderá
encontrar o caminho do Cristo no desenvolvimento da humanidade.

Esta é a experiência de Micael com aquilo que está sob a sua administração no cosmo. Para permanecer
junto ao objeto de sua administração, ele se põe a caminho do cosmo em direção à humanidade. Ele se
encontra neste caminho deste o século VIII depois de Cristo. Mas foi apenas no último terço do século XIX
que ele alcançou a sua função na Terra, resultado da transformação de sua função cósmica.

Micael não pode impor nada ao ser humano. Pois a imposição cessou totalmente com a plena entrada da
inteligência para o âmbito da individualidade humana. Mas Micael pode realizar o que quer realizar na
forma de uma exemplar e majestosa ação no mundo supra sensível imediatamente contíguo ao mundo
visível. Com uma aura luminosa e um gesto de ente espiritual, Micael pode se mostrar, e revelar todo o
brilho e majestade da inteligência divina do passado. Ele pode trazer à manifestação o efeito desta
inteligência do passado, e mostrar como ela é mais verdadeira, mais bela e mais virtuosa do que toda a
inteligência do presente que emana de Arimã com um brilho falso e sedutor. Ele pode fazer perceber como
para ele Arimã será sempre o espírito baixo sob os seus pés.

Aquelas pessoas que vêem o mundo espiritual contíguo ao mundo sensível, percebem Micael e os seus,
da forma aqui descrita, empenhados naquilo que desejam realizar para o ser humano. Tais pessoas
percebem que o ser humano, na esfera de Arimã, deve ser, em liberdade, desviado de Arimã para o
Cristo. Se tais pessoas conseguirem também, através da sua vidência, abrir corações e mentes de outros
seres humanos, de forma que um circulo de pessoas saiba como Micael vive entre os homens, então a
humanidade começará a celebrar Festas Micaélicas com um conteúdo real, nas quais as almas deixarão
avivar em si a força de Micael. Micael poderá então, atuar com verdadeiro poder entre os homens. Mas o
ser humano será livre e mesmo assim seguirá o seu caminho de vida espiritual em íntima comunidade
com o Cristo.

Goetheanum, 19 de outubro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(26/10/1924)

109. Tornar se bem consciente da atuação de Micael no contexto espiritual do mundo significa liberar dos
contextos cósmicos o enigma da liberdade humana, à medida que a liberação seja necessária ao homem
terrestre.

110. Pois a "liberdade" é dada como fato diretamente a todo homem que se compreende a si mesmo no
trecho atual da evolução da humanidade. Ninguém pode dizer: "liberdade não é", se não quiser negar um
fato manifesto. Mas se pode encontrar uma contradição entre os processos no cosmo e o que assim é
dado de fato. Esta contradição cai ao se abordar à missão de Micael no cosmo.

111. Em minha "Filosofia da Liberdade" se encontra demonstrada a "liberdade" do ser humano na atual
época do mundo como conteúdo da consciência; nas apresentações da missão de Micael, dadas aqui, se
encontra fundamentado cosmicamente o "devir dessa liberdade".

Futuro da Humanidade e Atividade de Micael

Qual é a relação do homem, em seu atual estágio de desenvolvimento, com Micael e os seus?

0 Homem se encontra diante de um mundo que já foi completamente entidade divino espiritual. Uma
entidade divino espiritual da qual ele mesmo fazia parte como um membro. Portanto, naquela época, o
mundo pertinente ao homem era de essencialidade divino espiritual. Numa etapa evolutiva seguinte, não
mais o era. Era então manifestação cósmica do divino-espiritual, cuja entidade pairava por trás desta
manifestação. Porém, ela vivia e urdia na manifestação. Já havia um mundo estelar. Em seu brilho e
movimento vivia e urdia o divino espiritual como revelação. Pode se dizer que, naquela época, a atividade
do divino espiritual podia ser vista diretamente na posição ou movimento de uma estrela.

Em tudo isso, no atuar o espírito divino do cosmo, na maneira como o homem em sua vida, era um
resultado da atividade do divino espiritual no cosmo, Micael ainda estava em seu elemento, sem
resistência. Ele intermediava a relação do divino com o homem.

Vieram outros tempos. 0 mundo estelar cessou de portar diretamente em si, no presente, a atividade
divino espiritual. Vivia e se movia ao continuar obstinadamente o que nele, antigamente, era tal atividade.
0 divino espiritual não mais vivia no cosmo como manifestação, mas apenas como atuação. Havia surgido
uma nítida dualidade entre o divino-espiritual e o cósmico. Devido às suas próprias características, Micael
mantinha se no divino espiritual. Buscava manter o homem o mais próximo possível deste. Isto ele
continuou fazendo. Ele queria resguardar o homem de viver intensamente demais em um mundo que
apenas é atuação do divino espiritual, e não essencialidade ou manifestação.

Micael sente a mais profunda satisfação pelo fato de ter conseguido manter, através do homem o mundo
estelar ainda imediatamente unido com o divino espiritual, da seguinte maneira. Quando o homem, após
ter completado a vida entre a morte e um novo nascimento, novamente enceta o caminho para uma nova
existência terrena, ele busca estabelecer, em sua descida para esta existência, uma harmonia entre o
curso das estrelas e sua vida terrena. Esta harmonia, que antigamente existia obviamente, pois o divino
espiritual atuava nas estrelas, nas quais também a vida humana tinha sua fonte: hoje ela não existiria,
quando o curso das estrelas meramente continua a atuação do divino espiritual, se o homem não a
buscasse. Ele leva seu divino espiritual, resguardado em tempos anteriores, para uma relação com as
estrelas, que apenas têm em si seu divino espiritual como repercussão de uma época anterior. Com isto,
algo divino entra na relação do homem com o mundo, relação esta correspondente a épocas anteriores,
mas que aparece em épocas posteriores. Que isto seja assim, é uma ação de Micael. E esta ação lhe dá
uma satisfação tão profunda que nesta satisfação ele tem uma parte de seu elemento de vida, de sua
energia de vida, de sua vontade solar de vida.

Mas hoje ele vê, ao dirigir o olhar espiritual à Terra, um fato, essencialmente diverso. Durante sua vida no
físico, entre nascimento e morte, o homem está circundado por um mundo que tampouco ainda mostra,
imediatamente, a atuação do divino espiritual, mas apenas algo que permaneceu desta atuação; ou seja,
apenas a obra do divino espiritual. Esta obra, em suas formas certamente é de natureza divino espiritual.
Para a contemplação humana o divino se mostra nas formas, no acontecimento natural; mas não mais se
encontra nelas como algo vivo. A natureza é esta obra do divino, e, por toda à parte, é a imagem da
atuação divina.

0 homem vive neste mundo solar divino , que já não é mais vivo. Mas como resultado da atuação de
Micael sobre ele, como homem manteve resguardada a conexão com a essência do divino espiritual. Ele
vive como ser permeado por Deus em um mundo não permeado por Deus.

0 homem trará para dentro deste mundo esvaziado de Deus o que está dentro dele, aquilo que, nesta
época, veio a ser sua entidade.
A humanidade irá se desenvolver para dentro de uma evolução do mundo. 0 divino espiritual do qual se
origina o homem pode, como entidade humana que se expande cosmicamente, transiluminar o cosmo,
que apenas ainda existe na imagem do divino espiritual.

Não mais luzirá através da humanidade, a mesma entidade que existiu uma vez como cosmo. 0 divino
espiritual vivenciará, na passagem pela humanidade, um ser que ela antes não manifestava.

Os poderes arimânicos voltam se contra este decurso da evolução. Eles não querem que os poderes
divino espirituais originais iluminem o universo em seu decurso subseqüente; eles querem que a
intelectualidade cósmica sugada por eles irradie através de todo o novo cosmo e que o homem continue a
viver neste cosmo intelectualizado e arimanizado.

Numa tal vida, o homem perderia o Cristo. Pois este penetrou no mundo com uma intelectualidade que é
totalmente como viveu uma vez no divino-espiritual, quando este ainda moldava o cosmo em sua
essencialidade. Se hoje falamos de modo que nossos pensamentos também possam ser os de Cristo,
colocamos algo defronte os poderes arimânicos que nos protege de sucumbir a eles.

Compreender o sentido da missão de Micael no cosmo significa poder falar assim. Hoje se deve poder
falar sobre a natureza do modo como exige a etapa da evolução da alma da consciência. Deve se poder
acolher em si o modo de pensar puramente científico natural. Mas também se deveria aprender a falar
sobre a natureza isto é, sentir em conformidade com o Cristo. Não devemos aprender a linguagem de
Cristo meramente através da redenção da natureza, meramente através da alma e do divino, mas através
do cosmo.

Que nossa conexão humana com o divino espiritual original permaneça assim resguardada, que saibamos
cultivar a linguagem de Cristo sobre o cosmo: chegaremos a isto se, com um sentir interior cordial, nos
familiarizarmos inteiramente com aquilo que Micael e os seus, com seus atos, com sua missão, são entre
nós.

Pois compreender Micael significa, hoje, encontrar o caminho para o Logos, vivido por Cristo na Terra,
entre os homens.

Antroposofia valoriza corretamente o que o modo científico natural de pensar aprendeu a dizer sobre o
mundo desde quatro ou cinco séculos. Mas além desta linguagem ela também fala uma outra sobre a
essência do homem, sobre a evolução do homem e sobre o devir do cosmo; ela pretende falar a
linguagem de Cristo e Micael.

Pois, se forem faladas ambas as linguagens, a evolução não poderá romper e passar ao âmbito arimânico
antes de encontrar o divino espiritual original. A maneira de falar meramente científico natural corresponde
ao desprendimento da intelectualidade do divino espiritual original. Ela pode passar ao âmbito arimânico,
se não se atentar à missão de Micael. Não o fará se o intelecto tornado livre se encontrar novamente,
através da força do exemplo de Micael, na intelectualidade cósmica original desprendida do homem,
tornada objetiva diante dele; esta intelectualidade está intrínseca à origem do homem e apareceu em
Cristo dentro do âmbito da humanidade, como algo ligado à sua essência após ter se esgueirado do
homem para que ele pudesse desenvolver sua liberdade.

Goetheanum, 25 outubro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(com relação às considerações procedentes sobre a atividade de Micael)

(02/11/1924)

112. 0 divino espiritual evidencia se no cosmo, de diversas maneiras nas etapas subseqüentes: 1. através
de sua essência intrínseca; 2. através da manifestação desta essência; 3. através da atividade, quando a
essência se retrai da manifestação; 4. através da obra, quando o divino não mais está no universo
manifesto, mas apenas suas formas.

113. Na atual contemplação da natureza, o homem não tem uma relação com o divino, apenas com sua
obra. Com aquilo que se participa à constituição anímica humana através desta contemplação, como
homens tanto podemos nos ligar aos poderes arimânicos como aos poderes crísticos.
114. Micael está permeado pelo empenho de incorporar à evolução cósmico-humana a relação com o
cosmo mantida no homem desde a época em que o divino aparecia em sua essência e sua revelação, de
modo que, através de seu exemplo que atua livremente, aquilo que a contemplação da natureza revela
apenas como sendo relativo à imagem, à forma do divino, flua para uma contemplação da natureza mais
elevada e mais condizente com o espiritual. Esta existirá no homem; mas será uma vivência humana
suplementar da relação divina com o cosmo durante as duas primeiras etapas da evolução cósmica.
Antroposofia corrobora dessa maneira a contemplação da natureza, na época da consciência; mas
complementa a com outra que resulta da visão do olhar espiritual.

A Vivência que o Homem tem de Micael e de Cristo

Quem acolher em seus sentimentos a contemplação interior, da essência e dos atos de Micael, apoiado
numa sensibilidade profunda, compreenderá corretamente como deve ser tomado pelo homem um mundo
que não é de essência divina, nem manifestação, nem atuação, mas a obra dos deuses. Olhar para este
mundo cognitivamente significa ter diante de si formas, estruturações, que em toda parte falam do divino;
mas nas quais não se encontra ser divino com vida própria, a não ser que se queira entregar-se a uma
ilusão. E não se poderá olhar meramente para o conhecimento do mundo. Nele se manifesta, mais
nitidamente, a configuração do mundo que hoje cerca o homem. Porém, mais essencial para a vida
quotidiana são o sentir, o querer, o trabalhar em um mundo que pode ser sentido como divino em sua
estruturação, mas não pode ser vivenciado como divinamente vivificado. Para trazer a este mundo vida
moral real são necessários os impulsos éticos que eu mencionei na "Filosofia da Liberdade".

Para o homem que sente genuinamente, neste mundo obra pode luzir o ser de Micael e o mundo factual
presente, Micael não entra no mundo físico como fenômeno. Com todo seu atuar, ele se mantém dentro
de uma região supra sensível que, porém, se delimita diretamente com o mundo físico da atual fase de
desenvolvimento do mundo. Através disto nunca pode ocorrer a possibilidade de que, através das
impressões da entidade Micael recebidas pelos homens, eles levem a contemplação da natureza ao
fantástico; ou que queiram moldar a vida prático moral em um mundo configurado por Deus, mas não
vivificado por Deus, como se pudesse haver impulsos que não precisassem ser carregados espiritual e
eticamente pelo próprio homem. Sempre, seja pensando ou querendo, necessariamente aproximar se á a
Micael ao se transpor ao espiritual.

Assim viveremos espiritualmente da seguinte maneira. Tomar vida e cognição como devem ser tomadas
desde o século XV. Mas ater nos emos às manifestações de Micael, deixar esta manifestação luzir como
uma luz para dentro dos pensamentos que recebemos da natureza; os levar no coração como calor,
quando tivermos de viver de modo adequado ao mundo divino da obra. Então não olharemos apenas para
observação e vivência do mundo atual, mas também para aquilo que Micael transmite, um estado passado
do mundo, um estado do mundo que Micael trás para o presente através de seu ser e seus atos.

Se fosse diferente, se Micael atuasse de modo a trazer seus atos para dentro do mundo que o homem tem
de reconhecer e vivenciar atualmente como físico, o homem não vivenciaria do mundo no presente o que
em realidade está nele, mas o que estava. Se isto acontecer, esta apreensão ilusória do mundo conduz a
alma do homem da realidade a ela adequada a uma outra, a uma luciférica.

A maneira como Micael faz atuar o passado na vida humana presente é a maneira conduzida no sentido
do correto curso espiritual do mundo, que nada contém de luciférico. É importante que na compreensão da
alma humana viva uma representação correta de como todo o luciférico é evitado na missão de Micael.

Ter esta postura perante a luz de Micael que desabrocha na história da humanidade também significa
poder encontrar o correto caminho em direção a Cristo.

Micael dará a correta orientação no que se refere ao mundo que envolve o homem como objeto para sua
cognição ou seu agir. 0 caminho em direção a Cristo dever se á encontrar no intimo.

E perfeitamente concebível que, na época em que a cognição da natureza tem a forma que lhe deram os
últimos cinco séculos, também a cognição do mundo supra sensível tenha se tornado como a humanidade
à vivência atualmente.
A natureza tem de ser conhecida e vivenciada, como algo vazio de conteúdo divino. Numa relação com o
mundo assim estruturada, o próprio homem não mais vivência a si mesmo. Na medida em que o homem é
um ser supra sensível, seu posicionamento diante da natureza adequado à época, nada lhe dá sobre seu
próprio ser. Ele tampouco pode viver eticamente de modo adequado a sua humanidade, se apenas tiver
em vista este posicionamento.

Com isto é dada a predisposição de não permitir que esta maneira de cognição e de vida aflua a nada que
se relacione com a sabedoria supra-sensível humana, com o mundo supra sensível em geral. Este âmbito
é segregado do que é acessível à cognição humana. Diante do cognicível, apela se a um âmbito extra ou
supra científico da manifestação pela fé.

Contudo, a isto se contrapõe à atuação puramente espiritual do Cristo. Desde o Mistério do Gólgota, Cristo
é acessível à alma humana. E a relação entre ambos não precisa ficar indefinida, dominada por um
misticismo sentimental obscuro; pode se tornar uma relação completamente concreta, vivenciável clara e
profundamente humana.

Então aflui para a alma humana, a partir da convivência com Cristo, aquilo que esta deve saber sobre sua
própria entidade supra sensorial. A revelação da fé deve então ser sentida de modo que a ela
continuamente aflua à viva experiência de Cristo. A vida poderá ser permeada pelo elemento crístico de
modo que em Cristo seja sentido o ser que dá à alma humana a visão de seu próprio caráter supra
sensorial.

Assim, poderão estar lado a lado a vivência de Micael e a vivência de Cristo. Através de Micael, o homem
encontrará o correto caminho em direção ao supra sensorial, ao se defrontar com a natureza externa. A
visão da natureza poderá ser colocada, sem ser falsificada em si, ao lado de uma visão espiritualista do
mundo e do homem enquanto ser cósmico.

Através da correta postura perante Cristo, o homem experimentará, em vivo intercâmbio da alma com
Cristo, aquilo que ele só podia receber como tradicional revelação da fé. 0 mundo interior da vivência
anímica poderá ser vivenciado como um mundo iluminado pelo espírito, assim como o mundo exterior da
natureza poderá ser vivenciado como um mundo suportado pelo espírito.

Se o homem quisesse obter esclarecimento sobre sua própria entidade supra sensível, sem conviver com
a entidade de Cristo, isto o conduziria para fora de sua própria realidade e para dentro da realidade
arimânica. Cristo leva em si os impulsos futuros da humanidade de maneira cosmicamente justificada. Unir
se a ele significa para a alma humana acolher em si, de maneira cosmicamente justificada, seus próprios
germes futuros. Outros seres, que no presente já mostram configurações que só no futuro são justificadas
para os homens, pertencem à esfera arimânica. Unir se corretamente com Cristo significa também
resguardar se corretamente do elemento arimânico.

Naqueles que severamente exigem o resguardo das revelações da fé perante a afluência da cognição
humana, há o temor inconsciente de, em tais caminhos, cair sob influências arimânicas. Isto tem de ser
compreendido, mas também deverá ser compreendido que seria para a glória do Cristo e para o seu real
reconhecimento, se à vivência com Cristo, for atribuída a afluência, cheia de graça, do espiritual para
dentro da alma humana.

Assim, no futuro podem estar lado a lado a vivência de Micael e a vivência de Cristo; com isto o homem
encontrará seu correto caminho de liberdade entre a aberração luciférica em ilusões de vida e pensamento
e a tentação arimânica a formas futuras que satisfazem sua arrogância mas que ainda não podem ser as
suas formas presentes.

Sucumbir a ilusões luciféricas significa não se tornar completamente homem, não querer avançar até a
etapa de liberdade, mas querer ficar parado em uma etapa muito prematura da evolução como Homem
Deus. Sucumbir a tentações arimânicas significa não querer esperar até que tenha sido alcançada uma
certa etapa da humanidade, no correto momento cósmico, mas querer antecipar esta etapa.

No futuro, Micael Cristo se encontrará como palavra guia no inicio do caminho pelo qual o homem pode
chegar à sua meta no mundo de modo cosmicamente adequado, entre os poderes luciféricos e
arimânicos.

Goetheanum, 2 de novembro de 1924


OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA
(Com relação à precedente apresentação A vivência que o homem tem de Micael e de Cristo)

(09/11/1924)

115. 0 homem peregrina seu caminho através do cosmo de modo que a retrospectiva ao mundo anterior
possa lhe ser falsificada por impulsos luciféricos e o refletir em direção ao futuro possa ser enganado por
tentações arimânicas.

116. 0 homem encontra a correta postura diante das falsificações luciféricas permeando sua atitude
perante cognição e vida com a entidade e a missão de Micael.

117. Mas com isto o homem também se resguarda das tentações arimânicas, pois o caminho espiritual em
direção à natureza exterior, estimulado por Micael, conduz à correta postura perante Arimã, pois é
encontrada a correta vivência com Cristo.

- A Missão de Micael na Era Cósmica da Liberdade do Homem

Quando pelo vivenciar espiritual, nós nos aproximamos do atuar de Micael na época atual, encontramos a
possibilidade de, por meio da ciência espiritual, conseguir clareza sobre a entidade cósmica da liberdade.

Isso não se refere à minha "Filosofia da Liberdade". Essa resulta de forças cognitivas puramente
humanas, quando estas conseguem penetrar no campo do espírito. Para reconhecer o que aqui é
reconhecido, ainda não é necessário um convívio com seres de outros mundos. Contudo, é lícito afirmar
que a "Filosofia da Liberdade" nos prepara para termos, a respeito da liberdade, o conhecimento daquilo
que, mais tarde, podemos chegar a conhecer no convívio espiritual com Micael.

Trata se do seguinte:
Se a liberdade realmente deve viver no atuar humano, aquilo que é realizado à sua luz, não deve, de
maneira alguma, depender da organização física e etérica do homem. 0 "livre" só pode se realizar a partir
do Eu; e o corpo astral deve poder vibrar junto com o atuar livre do Eu, para poder transmiti lo aos corpos
físico e etérico. Mas este é apenas um aspecto. 0 outro se torna transparente quando relacionado à
missão de Micael. Aquilo que é vivenciado em liberdade pelo homem, não deve, de maneira alguma, atuar
sobre seus corpos etérico e físico. Se tal ocorresse, o homem acabaria por desprender se totalmente do
que ele veio a ser, nas etapas de sua evolução, sob a influência da entidade divino espiritual e da
manifestação desta.

As vivências transmitidas ao homem pelo que é apenas obra do divino-espiritual em seu ambiente devem
influenciar somente sua parte espiritual (seu Eu). Sobre sua organização física e etérica só pode ter
influência o que continua a participar do fluxo da evolução, não no seu ambiente, mas dentro de sua
própria entidade, como continuidade daquilo que teve seu inicio na entidade e manifestação do divino
espiritual. Isto não deve, de forma alguma, atuar dentro do ser humano junto com aquilo que vive no
elemento da liberdade.

Isto só é possível pelo fato de Micael trazer de um passado remoto da evolução algo que confere ao
homem uma conexão com o divino espiritual, que na atualidade não mais interfere na organização física e
etérica. Dentro da missão de Micael desenvolve se, através disso, a base para um relacionamento do
homem com o mundo espiritual, que de modo algum interfere no âmbito da natureza.

É reconfortante observar como a entidade do homem é elevada por Micael à esfera espiritual, ao passo
que o inconsciente, o subconsciente, que se desenvolvem abaixo da esfera da liberdade, arraigam se,
cada vez mais profundamente, com o elemento material.

Ao homem se tornará sempre menos compreensível sua posição frente ao ser universal, se não se
dispuser a reconhecer, além de suas relações com os seres e processos da natureza, também outras
como aquelas com a missão de Micael. Vem se a conhecer as relações com a natureza como algo que se
contempla de fora; aquelas com o mundo espiritual nascem de algo que, de certa forma, são um diálogo
interior com um elemento essencial para o qual se conseguiu acesso por se ascender a uma aspecção do
mundo de cunho espiritual.

Para poder vivenciar os impulsos da liberdade, o homem deve, pois, ser capaz de manter afastados do
seu ser certos efeitos da natureza que, a partir do cosmo, atuam sobre esse ser. Esse manter a distância
ai ocorre no subconsciente, quando reinam no consciente as forças que constituem, pois, a vida do Eu em
liberdade. Na percepção interior humana, existe a consciência do atuar em liberdade; para os seres
espirituais que mantêm contato com o homem a partir de outras esferas cósmicas, isso é diferente. Ao ser
pertencente à hierarquia dos Anjos que conduz a existência humana de uma vida terrestre à outra, o
seguinte fato torna-se, imediatamente, visível frente à atuação humana em liberdade: o homem rechaça
de si forças cósmicas que visam continuar a formá lo pretendendo dar à sua organização do Eu os esteios
físicos necessários, tal como tinham dado antes da era de Micael.

Como ser pertencente à hierarquia dos Arcanjos, Micael recebe suas impressões com a ajuda dos seres
pertencentes à hierarquia dos Anjos. Dedica se à tarefa de levar ao homem, a partir da parte espiritual do
cosmo, da maneira aqui já exposta, forças que possam substituir as forças reprimidas da existência
natural.

Ele o consegue, ao colocar sua atuação na mais perfeita harmonia com o Mistério do Gólgota.

Na atuação do Cristo dentro da evolução terrestre jazem as forças que o homem precisa para compensar
impulsos oprimidos da natureza, quando o homem atua em liberdade. Só que o homem precisa, então,
realmente levar sua alma a uma convivência íntima com o Cristo, da qual já foi falado nestas
comunicações sobre a missão de Micael.

0 homem sabe que vive num mundo real quando está defronte ao Sol físico e através dele recebe calor e
luz.

E da mesma maneira ele deve colocar se frente ao Sol espiritual, o Cristo, que tornou sua existência una
com a existência da Terra, e dele receber em sua alma, de forma viva, aquilo que corresponde, no mundo
espiritual, ao calor e à luz.

Sentir se á permeado pelo "calor espiritual" quando ele vivenciar "o Cristo dentro dele". Permeado dessa
maneira, dirá a si mesmo: "Esse calor liberta o teu ser humano de vínculos do cosmo, nos quais não deve
permanecer. Para a conquista da liberdade o ser divino espiritual dos primórdios tinha de conduzir te a
regiões onde ele não pôde permanecer contigo, mas te deu o Cristo, para que as forças Dele te
proporcionassem, como homem livre, aquilo que o ser divino espiritual te proporcionara, outrora, por meio
da natureza que, naqueles tempos, também era a via do espírito. Esse calor reconduzir te á novamente ao
Divino donde tu provéns".

Enquanto o homem experienciar essa sensação, a vivência no Cristo e com o Cristo passará a tornar se
una com a vivência da verdadeira humanidade em uma atmosfera de íntimo calor anímico. "Cristo me dá
minha essência humana", eis o sentimento fundamental que irá fluir e ondear por toda a alma. E quando
existir esse sentimento, também surgirá aquele outro pelo qual o homem se sentirá elevado por Cristo
acima da mera existência terrestre, vivenciando se uno com o mundo estrelado que circunda a Terra, e
com tudo que de divino espiritual, pode ser discernido nessa redondeza estrelada.

Algo análogo acontece com a luz espiritual. 0 homem pode sentir a plenitude de sua humanidade ao
discernir a si próprio como individualidade livre. Mas ainda assim ocorre um obscurecimento. 0 divino
espiritual dos primórdios não mais brilha. Na luz que o Cristo traz para o Eu do homem, ressurge a luz
primordial. Convivendo, dessa forma, com o Cristo, pode transluzir na alma o sublime pensamento qual
um sol: a grandiosa e divina luz primordial voltou e está brilhando, embora seu brilho não seja um
fenômeno da natureza. No presente, o homem une se com as forças luminosas cósmico espirituais do
passado, quando ainda não era uma individualidade livre. E, nessa luz, ele poderá encontrar os caminhos
que conduzem sua entidade humana corretamente, desde que una na sua alma conscientemente com a
missão de Micael.

Então, no calor do espírito, o homem sentirá o impulso que o transporá ao seu futuro cósmico de tal forma
que possa permanecer fiel às dádivas primordiais de suas entidades divino espirituais, não obstante ter se
desenvolvido, nos mundos delas, à individualidade livre. Sentirá na luz do espírito a força que o levará,
mediante percepção e consciência cada vez mais elevadas e amplas, àquele mundo em que se
reencontrará, como ser humano livre, com os deuses da sua origem.

Persistindo na existência primordial, querendo manter a ingênua bondade primitiva dos deuses que
imperava no homem, e recuando, estremecido, ante o pleno uso da liberdade, o homem será conduzido a
Lúcifer que quer ver renegado o mundo presente, no qual tudo está orientado em direção ao pleno
desenvolvimento da liberdade humana.

Entregando se à existência atual, deixando reinar a visão naturalista do mundo que se revela ao intelecto,
mas é neutra em relação à bondade, e querendo vivenciar o uso da liberdade apenas no intelecto, o
homem é conduzido a Arimã que visa à transformação do mundo atual em um cosmo de essência
intelectualista quando deveria ocorrer, nesse mundo atual, uma evolução em regiões anímicas inferiores,
já que a liberdade reina em, superiores.

Em tais regiões, em que o homem sente o olhar dirigido ao mundo exterior vislumbrar espiritualmente
Micael, e o olhar dirigido ao interior da alma vislumbrar espiritualmente o Cristo, prospera aquela
segurança de alma e espírito através da qual lhe será facultado tomar o caminho cósmico no qual
encontrará sua perfeição futura correta, sem perda da sua origem.

Goetheanum, 9 de novembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(com relação às considerações precedentes de "A missão de Micael na era cósmica da liberdade do
homem")

(16/11/1924)

118. Só pode ser livre o ato no qual não colabora nenhum evento natural, dentro ou fora do homem.

119. A isto se coloca polarmente o fato de que, no atuar livre da individualidade humana, nela é reprimida
um evento natural que ali estaria no ato não livre e que daria ao ser humano sua configuração
cosmicamente pré determinada.

120. Esta configuração, que não vem por via natural ao homem que convive em seu ser com o atual e o
futuro estágio de evolução cósmica, vem a seu encontro por via espiritual através do unir se a Micael,
encontrando assim também o caminho a Cristo.

Os Pensamentos Cósmicos na atuação de Micael e na atuação de Arimã

O observador da relação entre Micael e Arimã talvez será levado à seguinte questão: como se relacionam,
no contexto cósmico, estes dois poderes espirituais, na medida em que ambos atuam no desenvolvimento
das forças intelectuais?

Micael desenvolveu a intelectualidade através do cosmo no passado. Ele fez isto servindo aos poderes
divino espirituais que tanto deram origem a ele mesmo quanto ao homem. E ele quer permanecer nesta
relação com a intelectualidade. Quando esta se soltou dos poderes divino espirituais, a fim de encontrar o
caminho para o interior do ser humano, ele decidiu se colocar, desde então, de maneira correta em
relação à humanidade, para nesta encontrar sua relação com a intelectualidade. Mas ele só queria
continuar fazendo tudo isto no sentido e a serviço dos poderes divino espirituais; dos poderes com os
quais ele está unido desde a sua origem e a do homem. Assim sua intenção é que no futuro a
intelectualidade flua através dos corações dos homens, mas como a mesma força que emanava dos
poderes divino espirituais no início.

É bem diferente com Arimã. Este ser já há muito se soltou do fluxo evolutivo ao qual pertencem os
caracterizados poderes divino-espirituais. Ele se colocou como poder cósmico autônomo a seu lado, em
longínquo passado. Ora, é verdade que no presente ele se encontra espacialmente dentro do mundo ao
qual pertence o homem, mas não desenvolve nenhuma relação dinâmica com os seres legitimamente
pertencentes a este mundo. Apenas pelo fato da intelectualidade, desprendida dos seres divino espirituais,
se aproximar deste mundo, Arimã se encontra tão aparentado a essa intelectualidade, que através dela
ele consegue se unir, de sua maneira, com a humanidade. Pois ele já uniu a si, em tempos remotos, o que
o homem recebe no presente como uma dádiva do cosmo. Se conseguisse o que intenciona, Arimã iria
tornar o intelecto dado à humanidade semelhante ao seu próprio.

Arimã, porém se apropriou da intelectualidade em uma época em que ele não conseguia interiorizá la. Ela
permaneceu uma força em seu ser, que nada tem a ver com o coração ou a alma. A intelectualidade
emana de Arimã como impulso cósmico gélido e desalmado. E aqueles seres humanos que são
apanhados por este impulso, desenvolvem uma lógica que parece falar por si mesma, sem amor nem
misericórdia em verdade é Arimã quem fala dentro dela e na qual nada se mostra do que seja união
correta, interior, cordial anímica do homem com aquilo que ele pensa, fala, faz.

Mas Micael nunca se apropriou da intelectualidade. Ele a administra como força divino espiritual ao se
sentir unido aos poderes divino-espirituais. Através disto também se mostra na intelectualidade, quando
ele a permeia, a possibilidade de ser uma expressão do coração, da alma, tão bem quanto da cabeça, do
espírito. Pois Micael traz em si todas as forças originais de seus deuses e do homem. Através disto ele
não passa nada de desalmado e gélido à intelectualidade, mas está com ela de modo íntimo, caloroso e
animado.

E aqui também está a razão porque Micael peregrina pelo cosmo com gesto e semblante sérios. Estar
assim unido no íntimo com o conteúdo inteligente como Micael está, significa, ao mesmo tempo, ter de
cumprir a exigência de não trazer nada de arbitrariedade subjetiva, de desejo ou cobiça para dentro deste
conteúdo. Senão, lógica se torna arbitrariedade de um ser em vez de expressão do cosmo. Manter firme
seu ser como expressão do ser cósmico; deixar no interior tudo que quer se fazer sentir no exterior como
ser próprio: isto Micael considera a sua virtude. Seu sentido está dirigido às grandes conexões do cosmo
disto fala seu semblante; sua vontade, que se aproxima do homem, deve refletir o que ele vê no cosmo
disto fala sua postura, seu gesto. Micael é sério em tudo, pois seriedade como revelação de um ser é o
reflexo do cosmo a partir deste ser; o sorriso é a expressão daquilo que, partindo de um ser, irradia para o
mundo.

Uma das imaginações de Micael também é esta: Ele domina o curso do tempo, portanto essencialmente a
luz do cosmo como seu ser; configurando o calor do cosmo como revelador de seu próprio ser; como
entidade qual um mundo, ele flutua, afirmando se a si mesmo apenas ao afirmar o mundo, como
conduzindo de todos sítios cósmicos, forças para baixo, em direção a Terra.

Oposta a esta, uma imaginação de Arimã: Em sua marcha, ele gostaria de conquistar a partir do tempo o
espaço, ele tem escuridão ao seu redor, para a qual ele envia os raios da própria luz; é tanto mais gélido o
frio ao seu redor, quanto mais ele alcança suas intenções; ele se movimenta como mundo que se
condensa totalmente em um ser, o próprio, no qual ele apenas se afirma para si mesmo por negar o
mundo; ele se movimenta como se levasse consigo as lúgubres forças de escuras cavernas da Terra.

Se o homem busca a liberdade, sem se inclinar ao egoísmo, se para ele a liberdade se torna puro amor ao
ato a ser executado, ele tem a possibilidade de se aproximar de Micael; se ele quiser atuar em liberdade,
desenvolvendo o egoísmo, se para ele a liberdade se torna o orgulhoso sentimento de se revelar a si
mesmo no ato, ele se encontra diante do perigo de chegar ao âmbito de Arimã.

As imaginações acima descritas brilham a partir do amor do homem pela ação (Micael) ou de seu amor
próprio ao atuar (Arimã).

Quando o homem se sente próximo a Micael como ser livre, ele está a caminho de carregar a força da
intelectualidade em "todo seu ser humano"; por certo ele pensa com a cabeça, mas o coração sente a
clareza ou a escuridão do pensar; a vontade irradia o ser do homem quando ele tem os pensamentos
fluindo em si como intenções. 0 homem se torna cada vez mais humano ao se tornar expressão do
mundo; ele se encontra ao não se procurar, mas ao se unir, volitivamente ao mundo com amor.

Quando o homem, desenvolvendo sua liberdade, cai nas tentações de Arimã, ele é puxado para dentro da
intelectualidade, como para um automatismo espiritual, no qual ele é um membro mas não mais ele
mesmo. Todo seu pensar se torna vivência da cabeça; só esta o segrega da vivência do próprio coração e
da própria vida volitiva e extingue a existência própria. 0 homem perde cada vez mais de sua expressão
humana interiormente essencial ao se tornar expressão de sua existência própria; ele se perde ao se
buscar; ele se subtrai ao mundo ao qual recusa o amor; mas o homem apenas se vivência
verdadeiramente ao amar o mundo.

Bem se visualiza do que se descreveu, como Micael é o guia que leva ao Cristo. Micael vai através do
mundo com amor, com toda seriedade de seu ser, de sua postura, seu atuar. Quem se ativer a ele, cultiva
o amor na relação com o mundo exterior. E o amor tem de se desenvolver inicialmente na relação com o
mundo exterior, senão se torna amor próprio.

Existindo este amor na mentalidade de Micael, então amor ao próximo também poderá irradiar de volta ao
próprio ser. Este poderá amar sem amar se a si mesmo. E nos caminhos deste amor é que Cristo será
encontrado pela alma humana.

Quem se atém a Micael, cultiva o amor na relação com o mundo exterior e através disto encontra aquela
relação com o mundo interior de sua alma que o conduz ao Cristo.

A época, que agora irrompe, carece do olhar da humanidade dirigido a um mundo espiritual imediatamente
adjacente ao mundo fisicamente sentido, e no qual se encontra o que aqui se descreve como entidade e
missão de Micael. Pois aquele mundo que o homem se imagina como natureza ao olhar para este mundo
físico, tampouco é aquele no qual ele vive imediatamente, mas é um que se encontra tanto abaixo do
verdadeiramente humano como o micaélico acima dele. Mas o homem apenas não nota que, ao formar
para si uma imagem de seu mundo, inconscientemente surge uma imagem de um outro mundo. Ao
delinear esta imagem ele já se encontra se eliminando e sucumbindo ao automatismo espiritual. 0 homem
apenas pode conservar sua humanidade ao confrontar esta imagem, na qual ele se perde como na
imagem da visão da natureza, com aquela outra, na qual vigora Micael, na qual Micael conduz os
caminhos ao Cristo.

Goetheanum, 16 de novembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(com relação às considerações precedentes sobre os pensamentos cósmicos na atuação de Micael e na
atuação de Arimã)

(23/11/1924)

121. Não compreendemos algo que atua no mundo, por exemplo, os pensamentos cósmicos, em seu
significado para o mundo, enquanto permanecemos parados na atuação em si; devemos olhar
cognitivamente para os seres dos quais parte a atuação; por exemplo, nos pensamentos cósmicos, se
eles são carregados no e através do mundo por Micael ou Arimã.

122. 0 que parte de um ser e, por sua relação com o mundo pode atuar de modo sanante e criador, pode
se mostrar nocivo e destruidor, se parte de um outro ser. Os pensamentos cósmicos levam o homem em
direção ao futuro se ele os recebe de Micael; eles o desviam do futuro sanante para ele, se for Arimã
quem lhe pode dá los.

123. Através de tais abordagens, cada vez mais se é levado a superar a visão de uma espiritualidade
indefinida que deva vigorar panteisticamente no fundamento das coisas; se é conduzido ao de uma
espiritualidade definida, concreta, que é capaz de formar representações dos seres espirituais das
hierarquias superiores. Pois a realidade consiste em toda a parte em algo essencial; e o que nela não é
essencial é a atividade que se desenrola na relação de ser para ser. 0 essencial só pode ser
compreendido quando se é capaz de ter a visão dos seres atuantes.

Primeira consideração: Diante dos Portais da Alma da Consciência. Como no


âmbito Supra-terrestre Micael prepara sua missão na Terra pela sua vitória
sobre Lúcifer
A intervenção de Micael na evolução do mundo e da humanidade, no final do século XIX, aparece sob
uma luz particular quando se contempla a história espiritual nos séculos que o precederam.

No começo do século XV se encontra o momento em que a época da alma da consciência se inicia.

Antes desse momento se manifesta uma mudança completa na vida espiritual da humanidade. Pode se
constatar como até então, em toda a parte, ainda insinuavam se imaginações na maneira de ver dos
homens. É verdade, que algumas personalidades já anteriormente alcançaram meros "conceitos" em sua
vida anímica; mas a constituição anímica geral da maioria dos homens vive numa interpenetração de
imaginações com representações mentais oriundas do mundo puramente físico. E assim com as
representações sobre processos naturais, como também com as representações sobre o devir histórico.

0 que a observação espiritual pode descobrir nesta direção é completamente confirmado pelos
testemunhos exteriores. Vamos apontar para alguns deles.

0 que se havia pensado e falado sobre acontecimentos históricos nos séculos precedentes,
freqüentemente começa a ser escrito justamente antes do irromper da era da alma da consciência. E
assim temos "sagas" e outros escritos dessa época, que dão uma imagem fiel de como antes se
imaginava a "história".

Um belo exemplo é o conto do "bom Geraldo", conservado em um poema de Rudolf von Ems, que viveu
na primeira metade do século XIII. 0 "bom Geraldo" é um rico comerciante de Colônia. Ele empreende
uma viagem de negócios à Rússia, Livônia e Prússia para comprar peles de zibelina. Em seguida vai para
Damasco e Ninive para adquirir tecidos de seda e similares.

Durante a viagem de volta, uma tempestade o desvia do caminho. Na região estranha em que chega vem
a conhecer um homem em cuja prisão se encontram cavaleiros ingleses e também a noiva do rei da
Inglaterra. Geraldo sacrifica tudo que havia lucrado na viagem e, em troca, recebe os prisioneiros. Ele os
instala em seu navio e começa a viagem de retorno. Quando os navios chegam ao lugar onde se separam
os caminhos para a Inglaterra e para o país de Geraldo, ele liberta os prisioneiros que voltam para sua
pátria, mas mantém consigo a noiva do rei, na esperança de que seu noivo, o rei Guilherme, venha buscá
la assim que receber a noticia de sua libertação e de seu paradeiro. A noiva do rei e as amigas que a
acompanham recebem o melhor trato imaginável. Ela vive como uma filha bem amada na casa do homem
que a libertou do cativeiro. Passa um longo tempo, sem que o rei apareça para buscá la. Então Geraldo
decide, para assegurar o futuro da filha adotiva, a esposá la com seu filho. Pois pode se acreditar que
Guilherme esteja morto. A festa de casamento já começara, quando então aparece à mesma, como
peregrino desconhecido Guilherme. Ele havia errado longamente em busca de sua noiva. Após a
renúncia altruísta do filho de Geraldo, sua noiva lhe é devolvida. Por algum tempo os dois ainda ficam com
Geraldo; então este arma um navio para levá los à Inglaterra. Quando os prisioneiros, de volta à sua
dignidade, podem saudar Geraldo na Inglaterra, querem elegê-lo rei. Mas ele pode lhes responder que
lhes traz seu legitimo casal real. Também eles haviam considerado Guilherme como morto e queriam
escolher um outro rei para o país, no qual o caos veio a reinar durante as peripécias de Guilherme. 0
comerciante de Colônia recusa todas as riquezas e dignidades que lhe oferecem e volta a Colônia, para ali
continuar a ser o simples comerciante que fôra anteriormente. A estória é relatada no contexto seguinte:
o imperador saxônico, Otto I, viaja a Colônia para conhecer o "bom Geraldo". Pois o poderoso imperador
sucumbiu à tentação de contar com uma "recompensa terrestre" para muitas coisas que fizera.
Conhecendo Geraldo, sente, em um exemplo, como um homem simples pratica um bem imenso: sacrifício
de todas as mercadorias que adquirira, para libertar prisioneiros, restituição da noiva de seu filho a
Guilherme, e tudo que faz para reconduzi lo à Inglaterra e assim por diante , sem exigir qualquer
recompensa terrestre por isso, mas esperando toda retribuição apenas de Deus. Este homem se chama "o
bom Geraldo" na voz do povo; o imperador sente que recebe uma potente sacudida religiosa e moral ao
conhecer a disposição anímica de Geraldo.

0 conto, cujo esboço eu dei aqui para não apenas explicar com nomes algo pouco conhecido mostra
claramente, de um lado, a constituição anímica da época anterior ao surgimento da alma da consciência
na evolução da humanidade.

Quem deixar atuar sobre si o conto na maneira como foi dada por Rudolf von Ems, pode sentir como o
vivenciar do mundo terrestre se transformou desde aquela época em que viveu o imperador Otto (no
século X).
Veja se como na época da alma da consciência o mundo, de certo modo, se tornou "claro" à visão da
alma, para todo captar da existência física e sua evolução. Geraldo viaja com seus navios como que na
neblina. Sempre conhece apenas um pedacinho do mundo com o qual ele quer se relacionar. Em Colônia
nada se vem, a saber, do que se passa na Inglaterra, e tem que se buscar anos a fio por uma pessoa que
está em Colônia. Apenas se vem a conhecer a vida e as posses de uma pessoa, como aquela para a qual
Geraldo foi desviado, quando se é trazido pelo destino diretamente ao local correspondente. 0
discernimento das condições do mundo de hoje é comparável ao daquela época, como a visão de uma
ampla paisagem ensolarada se compara ao tatear na névoa densa.

0 que se conta com relação ao "bom Geraldo", nada tem a ver com o que vale hoje "historicamente". Mas
tanto mais tem a ver com o ambiente anímico interno e toda a situação espiritual da época. São estes, e
não cada um dos eventos do mundo físico, que são apresentados em imaginações.

Nesta exposição se reflete como o homem não se sente apenas como um ser que vive e atua como um
elo na corrente dos ventos do mundo físico, mas como ele sente seres espirituais, supra sensíveis,
atuarem para dentro de sua existência terrestre e sente como sua vontade está a eles ligada.

0 conto do "bom Geraldo" mostra como a penumbra, que precedeu a era da alma da consciência em
relação ao discernimento do mundo físico, dirigia o olhar a uma visão do mundo espiritual. Não se olhava
as amplidões da existência física, mas as profundidades do espiritual.

Mas na referida época, (já não existia mais a clarividência crepuscular onírica) que outrora o mundo
espiritual mostrava à humanidade. As imaginações ali estavam; mas elas apareciam dentro de uma
acepção da alma humana que já tendia fortemente ao intelectual. Isto fazia com que não mais se
soubesse como o mundo revelado pelas imaginações, se relacionava com o mundo da existência física.
Por isso, às pessoas que já se atinham mais ao racional, as imaginações pareciam ser "invenções"
arbitrárias sem realidade.

Não se sabia mais que, através da imaginação, se olha para um mundo no qual se está com uma parte
totalmente diversa de sua essência humana do que no mundo físico. Assim, na exposição, ambos os
mundos se encontravam lado a lado; e pela maneira como era relatado o conto, ambos traziam um caráter
tal que se podia supor que os acontecimentos espirituais relatados tivessem se desenrolado tão
perceptivelmente entre os acontecimentos físicos como estes mesmos são perceptíveis.

A isto se acrescia que se confundiam os eventos físicos em muitas dessas narrações. Aparecem como
contemporâneas pessoas cujas vidas se encontram séculos distantes uma das outras; acontecimentos
são transpostos a locais ou momentos incorretos.

Fatos do mundo físico são vistos pela alma humana como apenas se pode ver o espiritual, onde tempo e
espaço têm um significado diverso do que para o físico; o mundo físico é apresentado em imaginações em
vez de pensamentos; o mundo espiritual é entretecido no relato como se não se tivesse a ver com uma
outra forma de existência, mas com a continuação de fatos físicos.

Uma acepção que apenas se atém ao físico pensa que se tenha trazido as velhas imaginações do oriente,
da Grécia, etc., e entretecido poeticamente com assuntos históricos que ocupavam as pessoas naquela
época. De fato, as obras de Isidoro de Sevilha, do século VII, constituíam como que uma coletânea de
antigos "motivos lendários".

Porém, esta é uma forma exterior de abordar os fatos. Ela apenas significa algo para quem não tem
nenhum senso por aquela constituição anímica humana que se sabe ainda em ligação direta com o mundo
espiritual em sua existência, e que se sente compelida a expressar em imaginações esse saber. Se, em
lugar da própria imaginação, for utilizada uma fornecida pela história, com a qual a pessoa se identifica,
isto não é o essencial. 0 essencial é que a alma esteja orientada para o mundo espiritual, de modo que ela
vê seu próprio agir e os fatos da natureza como algo entrosado nesse mundo.

No entanto, nota se aberrações na maneira de contar da época antes do irromper da época da


consciência.

A observação espiritual vê nesta aberração a atuação do poder luciférico.


0 que impele a alma a acolher imaginações no seu conteúdo de vivência corresponde menos às
faculdades que ela tinha na época precedente através de uma clarividência onírica porém corresponde
mais àquelas existentes no século VIII ao XIV d.C. Estas faculdades já impeliam mais a uma acepção das
percepções sensoriais por meio de pensamentos. Ambas faculdades existem lado a lado na época de
transição. A alma está colocada entre a antiga orientação, que vai ao mundo espiritual e só vê o físico
como na névoa, e a nova, que vai aos fatos físicos e na qual desvanece a visão espiritual.

0 poder luciférico intromete se neste equilíbrio oscilante da alma humana. Ele quer impedir o homem de
encontrar a plena orientação no mundo físico. Ele quer mantê lo com sua consciência em regiões
espirituais que lhe eram adequadas na época precedente. Ele não quer deixar afluir o elemento puro do
pensar, direcionado à acepção da existência física, para dentro de sua cosmovisão oniricamente
imaginativa. Por certo o poder luciférico consegue manter incorretamente afastado do mundo físico o
discernimento do homem. Mas não consegue manter corretamente a vivência das antigas imaginações.
Assim, deixa o refletir em imaginações, sem poder transportá lo animicamente de modo completo ao
mundo no qual as imaginações são plenamente legítimas.

Ao irromper a era da alma da consciência, Lúcifer governa de tal modo que através dele o homem é
transposto à região supra sensível mais próxima à física, de uma maneira não correspondente a ele.

Veja se isto bem visivelmente na "lenda" do "Duque Ernesto", que pertencia às preferidas da Idade Média,
e que era amplamente contada em toda parte.

0 Duque Ernesto entra em desavença com o Imperador que, injustamente, o quer aniquilar pela guerra. 0
Duque se sente impelido a escapar da relação impossível com o Imperador, participando da cruzada no
Oriente. Nas vivências que ele têm até que a viagem o conduza à meta, o físico e o espiritual são
entretecidos "lendariamente" da maneira mencionada. Por exemplo, o Duque, no seu caminho, chega a
um povo cujas pessoas têm cabeça de grou; os navios são desviados para a "montanha magnética", pela
qual eles são atraídos magneticamente, de modo que as pessoas que se aproximam da montanha não
conseguem voltar, mas têm de morrer miseravelmente. 0 Duque Ernesto e seu séquito escapam
costurando se dentro de peles de condores, os quais estão acostumados a capturar os homens arrastados
para a montanha magnética. Em seguida, deixam se levar para outra montanha e de lá, após cortarem as
peles, fogem quando os condores estão ausentes. A peregrinação o leva depois a um povo cujas orelhas
são tão longas que podem servir de vestimenta, envolvendo todo o corpo; a outro, cujos pés são tão
grandes que, quando chove, as pessoas podem se deitar no chão e os pés se estendem sobre elas como
guarda-chuvas. Vai a um povo de anões, a um de gigantes e assim por diante são contadas muitas
peripécias semelhantes relacionadas à cruzada do Duque Ernesto. A "lenda" não deixa sentir
corretamente como em toda parte em que surgem imaginações, acontece uma orientação a um mundo
espiritual; como são relatadas coisas através de imagens que se desenrolam no mundo astral e que se
relacionam à vontade e ao destino dos homens terrestres.

E assim também com a bela "Lenda de Rolando", na qual se glorifica a campanha de Carlos Magno contra
os pagãos na Espanha. Nesta lenda até se conta, reproduzindo a Bíblia, que o sol para seu curso para
que Carlos Magno possa alcançar uma meta almejada por ele, de modo que um dia tem a duração de
dois.

E na "Lenda dos Nibelungos" se vê como aquela forma que se manteve nos países nórdicos, mantém
mais pura a visão do espiritual, enquanto que na Europa Central as imaginações são mais próximas à vida
física. Na forma nórdica do conto é expresso que as imaginações se referem a um "mundo astral"; na
configuração centro européia da Canção dos Nibelungos, as imaginações deslizam para a visão do mundo
físico.

Também as imaginações que aparecem na lenda do Duque Ernesto em realidade se referem àquilo que é
vivenciado em um "mundo astral" entre as experiências na esfera física; mundo esse ao qual o homem
pertence, tanto quanto ao físico.

Ao dirigir a visão espiritual a tudo isto, vê se como a entrada na era da consciência significa o final de uma
fase evolutiva na qual os poderes luciféricos venceriam a humanidade, se um novo impulso de evolução
não viesse ao ser humano através da alma da consciência com sua força da intelectualidade. A orientação
ao mundo espiritual, que quer levar às vias da aberração, é impedida pela alma da consciência; o olhar
humano é retirado e levado ao mundo físico. Tudo que acontece nesta direção subtrai a humanidade do
poder luciférico que a induz ao erro.

Aqui já se encontra Micael ativo para a humanidade a partir do mundo espiritual. A partir do supra
sensível, ele já prepara sua obra posterior. Ele dá impulsos à humanidade, que preservam o antigo
relacionamento com o mundo divino espiritual, sem que esta conservação assuma um caráter luciférico.

Em seguida, no último terço do século XIX, Micael irrompe no próprio mundo terrestre físico com a
atividade que ele exercera de modo preparatório, a partir do supra sensível, do século XV ao XIX.

Durante certo tempo, a humanidade teve de passar por um desenvolvimento espiritual voltado à libertação
do relacionamento com o mundo espiritual, que ameaçava tornar se impossível. Em seguida, através da
missão de Micael, esse desenvolvimento, enveredou por caminhos que novamente conduzem a
humanidade a um relacionamento com o mundo espiritual que lhe é salutar.

Assim, em sua atuação, Micael se encontra entre a imagem luciférica do mundo e o intelecto arimânico do
mundo. Com ele a imagem do mundo se torna revelação cósmica, plena de sabedoria, que desvenda o
intelecto cósmico como atuação divina do cosmo. Nesta atuação cósmica vive a preocupação de Cristo
pela humanidade, que assim pode se desvendar aos corações humanos através da revelação cósmica de
Micael.

Goetheanum, 23 de novembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente primeira consideração sobre o preparo supra sensorial da missão terrestre
de Micael)

(30/11/1924)

124. No crepúsculo da época da alma do intelecto e da índole, o inicio da época da consciência (século
XV) é precedido de um incremento da atuação luciférica que perdura, por algum tempo, também na nova
época.

125. Essa atuação luciférica quer conservar, de modo ilegítimo, formas antigas de representação de
imagens do universo, e impedir o homem de compreender a existência física do mundo por meio de
intelectualidade e integrar se nela.

126. Micael se liga à atuação da humanidade para que a intelectualidade autônoma permaneça no divino
espiritual original, mas de maneira legítima e não luciférica.

Segunda consideração: Como as forças de Micael atuam no primeiro


desabrochar da Alma da Consciência

Enquanto a alma da consciência começava a atuar na evolução da humanidade na Terra, os seres do


mundo espiritual mais próximo a Terra, encontravam dificuldades para se aproximar da humanidade. Os
acontecimentos na Terra assumiram uma forma que mostra que condições especiais são necessárias a
fim de se abrir ao espiritual o caminho rumo a existência física na Terra. Mas essa forma também torna
freqüentemente claro como um determinado tipo de espiritualidade, ao buscar seu caminho rumo a vida
terrestre na humanidade, se opõe energicamente a um outro tipo de espiritualidade, no caso de forças do
passado ainda estarem atuando, enquanto as potências do futuro já começam a agir.

Vemos desenrolar se, de 1339 a 1453, uma guerra confusa, de mais de cem anos, entre a França e a
Inglaterra. Nessa confusão obra de uma corrente espiritual desfavorável ao desenvolvimento dos
homens, ocorrem, obstáculos a acontecimentos que teriam trazido a alma da consciência mais
rapidamente do que se esses obstáculos não tivessem existido. Chaucer (que morreu em 1400) deu início
à literatura inglesa. Basta recordarmos que conseqüências espirituais se originaram para a Europa pela
instituição dessa literatura, e acharemos significativo que esse acontecimento não pôde desenvolver se
livremente pois ocorreu em meio à confusão da guerra. A isso acresce que já tivera início na Inglaterra em
1215 aquela mentalidade política que pôde receber sua forma adequada graças à alma da consciência.
Também o desenvolvimento posterior desse acontecimento é atingido pelos obstáculos que resultam da
guerra.
Trata se de uma época em que surgem adversários daquelas forças espirituais que desejam desenvolver
o homem de acordo com disposições implantadas nele por potências divino espirituais superiores. Esses
adversários querem encaminhar o homem para rumos diferentes dos que lhe foram destinados no início.
Ele não poderia, nesse caso, usar as forças do seu início para sua evolução posterior. Sua infância
cósmica não poderia frutificar, transformando se num elemento seco e estéril de sua essência humana.
Como conseqüência, o homem poderia tornar se vítima das forças luciféricas e arimânicas, e perder o
desenvolvimento de sua própria natureza. Se os adversários da humanidade tivessem não apenas
produzido, com seus esforços, obstáculos, mas chegando a um sucesso pleno, toda a manifestação da
alma da consciência poderia ter sido impossibilitada.

Um acontecimento que revela com particular clareza o refluxo do espiritual nos acontecimentos terrenos é
o aparecimento e o destino de Joana D'Arc (a donzela de Orleans, 1412 1431). Para ela mesma, os
impulsos de seus atos situam se nas profundezas subconscientes da alma. Ela segue as obscuras
inspirações do mundo espiritual. Na Terra reina uma confusão chamada a impedir a era da alma da
consciência. Micael precisa preparar sua futura missão atuando a partir do mundo espiritual. Pode fazê lo
se houver almas dispostas a acolher os impulsos dele. A donzela possui tal alma. Embora em grau menor
e de maneira menos visível para a história, ele atua também através de muitas outras almas. Em
acontecimentos tais como a guerra entre Inglaterra e França, ele se defronta com a oposição arimânica.

Na consideração anterior já falamos do adversário luciférico com o qual Micael se defrontou naquela
época. Este adversário manifestou se principalmente no desenrolar dos acontecimentos posteriores ao
aparecimento da donzela de Orleans. Estes acontecimentos mostram que os homens não podiam mais
posicionar se corretamente diante de uma intervenção do mundo espiritual nos destinos da humanidade;
tal intervenção podia ser compreendida e acolhida pelos homens em seu querer, enquanto ainda existia
um discernimento imaginativo. 0 posicionamento correto em relação a tal intervenção tornou se impossível
quando a alma do intelecto ou do sentimento deixou de atuar. 0 posicionamento condizente com a alma da
consciência ainda não foi encontrado naquela época, e nem o é em nossos dias.

Ocorreu, pois, que toda a estruturação da Europa foi realizada pelo mundo espiritual, sem que os homens
compreendessem o que estava ocorrendo, e sem que pudessem exercer uma influência digna de nota
sobre essa estruturação.

Basta imaginarmos o que teria sucedido no século XV se não existisse uma donzela de Orleans e
compreenderemos então o significado desse evento produzido pelo mundo espiritual. Existem pessoas
que querem explicar tal fenômeno por causas materialistas. Não pode haver entendimento com elas pois
dão um cunho materialista ao que, obviamente, é espiritual.

Manifesta se então também em certos anseios espiritualistas que a humanidade não consegue mais
descobrir, sem dificuldades, o caminho do divino espiritual, mesmo se o procura intensamente. Tais
dificuldades não existiam nas épocas em que se podia conseguir o discernimento por meio de
imaginações. Basta considerar claramente as pessoas que surgem como pensadores filosóficos, para
entender o que procuro dizer. Um filósofo não deve ser observado apenas conforme a atuação que exerce
sobre sua época; ele é, antes, a expressão, a essência manifesta, da sua época. Ele exprime em suas
idéias o que vive inconscientemente como disposição anímica, como sentimentos e impulsos
inconscientes, em grande parte da humanidade. Assim como o termômetro indica o estado térmico de seu
ambiente, o filósofo indica o estado anímico de sua época. Os filósofos tampouco causam o clima anímico
de sua era, como os termômetros determinam a temperatura do seu ambiente.

Que se considere, sob essas premissas, o filósofo Renê Descartes que viveu de 1596 a 1650, quando já
estava presente a época da alma da consciência. 0 esteio reduzidíssimo de sua ligação com o mundo
espiritual (o verdadeiro ser) era a experiência "Penso, logo existo". Ele procura sentir a realidade no cerne
da sua auto-consciência, no Eu; e só na medida em que a alma da consciência o podia dizer lhe.

Procura então conhecer tudo que ainda existe de espiritual pelo caminho do intelecto, investigando quanta
certeza da existência de outra coisa pode resultar na certeza da consciência de si próprio. Diante de todas
as verdades transmitidas pela história, ele pergunta se elas são tão claras como aquele "penso, logo
existo". E se a resposta for positiva, ele as aceitará.

Será que tal maneira de pensar não expulsa o espírito de toda visão que encara as coisas do mundo? A
revelação desse espírito retraiu se a um ponto de apoio mínimo na auto-consciência; todo o resto revela
de forma imediata, apenas a ausência de qualquer revelação do espiritual. E apenas de forma mediata,
por meio do intelecto que reside na alma da consciência que uma luz dessa revelação do espírito pode
cair sobre tudo que está fora dessa auto-consciência.

0 homem desta era como que dirige o conteúdo ainda quase vazio de sua alma da consciência ao mundo
espiritual, numa atitude de intensa ânsia. Mas é apenas um jato muito fino.
Os seres do mundo espiritual diretamente adjacente ao mundo terreno, e as almas humanas na Terra têm
dificuldade em estabelecer um contato. A alma humana consegue participar da vivência da preparação
supra sensível de sua futura missão por Micael apenas sob imensos impedimentos.

Para captar a essência da disposição anímica que se expressa em Descartes, vamos comparar este
filósofo com Agostinho que invoca, quanto à formulação exterior, o mesmo ponto de apoio para a vivência
do mundo espiritual. Mas isso ocorre em Agostinho a partir da plena força imaginativa da alma do intelecto
ou do sentimento (ele viveu de 354 a 430 d.C.). Pode se achar, e com razão, que há um parentesco entre
Agostinho e Descartes. Só que o intelecto em Agostinho é ainda um resto de um elemento cósmico, ao
passo que aquele de Descartes já é o intelecto que entra em cada alma humana. A evolução de Agostinho
a Descartes permite ver que o caráter cósmico das forças intelectuais vai se perdendo e volta a aparecer
dentro da alma. Percebe se ao mesmo tempo que Micael e a alma humana só dificilmente se encontram
de modo a permitir a Micael dirigir no homem o que outrora dirigira no cosmo.

As forças luciféricas e arimânicas lutam contra esse encontro. As luciféricas querem que só se desenvolva
no homem aquilo que já lhe pertencia em sua infância cósmica. As forças arimânicas, ao mesmo tempo
opostas as luciféricas e colaborando com elas, querem que só se desenvolvam as forças conquistadas em
eras posteriores enquanto a infância cósmica seca completamente.

Sob o impacto de tais resistências cada vez maiores, as almas na Europa tiveram de digerir os impulsos
espirituais e antigas cosmovisões que as cruzadas fizeram fluir do oriente para o ocidente. As forças
micaélicas impregnavam essas idéias intensamente e as cosmovisões eram dominadas pela inteligência
cósmica, cuja administração tinha sido tradicionalmente, o domínio espiritual de Micael.

Mas como podiam essas cosmovisões serem acolhidas já que um abismo separava as forças do mundo
espiritual e as almas humanas? Elas se defrontaram com a alma da consciência que ainda estava
nascendo muito de leve. Dessa maneira, essas cosmovisões enfrentavam um obstáculo constituído pela
alma da consciência ainda fracamente desenvolvida, dominado a e paralisando a; de outro lado não
encontravam mais uma consciência ainda esteada na imaginação. A alma não podia assimilá las com
pleno discernimento; as pessoas aceitavam nas superficialmente, ou como superstições.

É preciso considerarmos essa disposição mental, se quisermos compreender correntes espirituais ligadas,
de um lado, a nomes como Wicliff, Huss, etc., e de outro lado, ao rosacrucianismo.

(Seguirá mais tarde a continuação desta segunda, e a terceira consideração).

Goetheanum, 30 de novembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente parte da segunda consideração sobre a maneira como as forças de Micael
atuam no primeiro desabrochar da alma da consciência)

(07/12/1924)

127. No inicio da época da consciência, a alma humana ainda desenvolve, em escala reduzida suas forças
intelectuais. Perde se a conexão entre o que a alma almeja em suas camadas inconscientes, e aquilo que
lhe podem dar as forças provenientes da região em que vive Micael.

128. Essa falta de conexão aumenta a possibilidade de as forças luciféricas manterem o homem ao nível
das forças cósmicas que atuavam nos primórdios da sua evolução, e não o deixam desenvolver se pelos
caminhos das forças divino espirituais com as quais estava ligado desde o começo, mas sim pelos
caminhos luciféricos.

129. Existe outrossim, uma possibilidade maior para as potências arimânicas de isolar o homem das
forças cósmicas que atuavam em seus primórdios, e de atraí-lo, quanto ao seu desenvolvimento futuro,
para dentro da sua própria órbita.
130. Ambas essas possibilidades não se realizaram pois, mesmo assim, as forças de Micael atuavam;
mas a evolução espiritual da humanidade teve de realizar se dentro das limitações impostas por essas
eventualidades, vindo a ser o que atualmente é, em conseqüência dessa situação.

Continuação da segunda consideração: Fatos que dificultaram ou


favoreceram as Forças Micaélicas na incipiente era da Alma da Consciência

A incorporação da alma da consciência produziu também em toda a Europa, uma perturbação nas
vivências religiosas e cúlticas. Na virada dos séculos XI e XII, essa perturbação se anuncia pelo
aparecimento de "Provas da Existência de Deus", (mormente por Anselmo de Canterbury). Procurava se
demonstrar a existência de Deus por causas racionais. Tal anseio só podia nascer quando a antiga
maneira de vivenciar "Deus" com as forças da própria alma estava desaparecendo. Pois não há
necessidade de se demonstrar pela lógica aquilo que assim é vivenciado.

0 modo antigo consistia na percepção anímica das inteligências, com caráter de seres, até a divindade
suprema, o modo novo veio a ser a formação, pelo intelecto de pensamentos a respeito dos "fundamentos
primários" do universo. Para o primeiro modo, os homens dispunham, na região espiritual imediatamente
adjacente ao plano terrestre, das forças de Micael que proporcionavam à alma, por trás dos pensamentos
dirigidos ao mundo sensorial, capacidades apropriadas para perceber aquilo que, no cosmo, tinha caráter
de inteligência sob forma de seres; para o segundo modo, era necessário que a alma se unisse com as
forças de Micael.

No que se refere à vida cúltica, uma doutrina central da vida religiosa, a da eucaristia, sofreu abalos,
desde Wicliff na Inglaterra (século XV) até Huss na Boêmia. 0 homem podia encontrar no Sacramento da
comunhão sua ligação com o mundo espiritual, a qual tinha sido estabelecida para ele por Cristo; pois era
capaz de entrar, em seu próprio ser, numa união com o Cristo tal, que o fato da união sensorial era, ao
mesmo tempo, uma união espiritual.

A consciência da alma do intelecto ou do sentimento era capaz de conceber uma representação mental
dessa união. Pois essa alma ainda tinha do espírito e da matéria, idéias próximas uma da outra, de modo
que se podia imaginar uma transição de uma (matéria) à outra (espírito). Tais idéias, porém, não podem
ser do tipo intelectual daquelas que exigem provas da existência de Deus; devem ser do tipo daquelas que
ainda possuem algo da imaginação. Dessa maneira é possível sentir, na matéria, o espírito que nela atua,
e no espírito, a tendência de chegar à matéria. Por trás de idéias desse tipo atuam as forças cósmicas de
Micael.

Convém considerar quanta coisa veio a vacilar nessa época para a alma humana. Quanta coisa
relacionada com suas vivências íntimas mais sagradas. Surgiram Huss, Wicliff e outras personalidades
nas quais a essência da alma da consciência refulgiu com o maior brilho, personalidades cuja disposição
anímica as ligava com as forças micaélicas com uma intensidade que se manifestou em outros indivíduos
somente depois de séculos. Inspirados pela voz de Micael em seu coração, eles faziam valer o direito da
alma da consciência a um ponto onde conseguiam apreender os mistérios religiosos mais profundos.
Sentiam que a intelectualidade surgida junto com a alma da consciência devia ser capaz de incluir no
âmbito de suas idéias aquilo que podia ser conseguido em tempos passados pela imaginação.

Contrastava com isso o fato de ter o antigo posicionamento tradicional da alma perdido, em círculos muito
amplos, toda força interior. Os males da vida religiosa objetivo dos grandes concílios de reforma na era
do início da alma da consciência estavam relacionados com aquelas almas que ainda não sentiam atuar
nelas a alma da consciência, mas tampouco podiam continuar a receber força e segurança da tradicional
alma do intelecto ou do sentimento.

É licito dizer que vivências humanas tais como se manifestaram nos concílios de Constança e de Basiléia,
revelavam em cima, no mundo espiritual, a descida da intelectualidade que queria chegar aos homens, e
em baixo, no âmbito da Terra, a alma do intelecto ou do sentimento que já não correspondia mais à época.
Entre ambas pairavam as forças de Micael: olhavam, em retrospectiva, à sua ligação passada com o
divino-espiritual, e também à humanidade que outrora tivera essa ligação, mas que, agora, devia passar a
uma esfera em que Micael devia ajudá la, a partir do mundo espiritual, sem, porém, se ligar interiormente
com esse elemento humano. Nessa época, a humanidade passou, também com relação às verdades mais
sagradas, por uma crise cujas causas devem ser procuradas nesse anseio de Micael que era uma
necessidade no contexto da evolução cósmica embora constituísse uma perturbação do equilíbrio no
cosmo.

0 aspecto característico da época revela se no cardeal Nicolau Cusano (leia se a seu respeito o que
escrevi em meu livro "Die Mystik im Aufgange des neuzeitlichen Geisteslebens" 0 Misticismo no
despontar da vida espiritual moderna). Sua personalidade é como que um marco daquela época. Ele quer
fazer valer opiniões que não combatem os aspectos negativos do mundo físico de modo exaltado, mas
reconduzem sensatamente ao bom senso o que saiu dos trilhos. Basta observar, para constatá lo, sua
atuação dentro de sua comunidade eclesiástica durante o concílio de Basiléia e em outras oportunidades.

De um lado, o Cusano concorda inteiramente com a reviravolta causada pelo desabrochar da alma da
consciência; de outro, manifesta opiniões que revelam, de forma luminosa, a atuação das forças
micaélicas em sua alma. Ele coloca, em sua época, as boas antigas idéias que produziam na alma a
capacidade de perceber no cosmo as inteligências (seres) quando Micael ainda estava administrando a
inteligência cósmica. A "docta ignorantia" da qual fala é um discernimento superior à percepção dirigida ao
mundo sensorial; esse discernimento leva o pensar para além da intelectualidade, do conhecimento
comum a uma região onde se capta o espiritual sem que reine o verdadeiro conhecimento, mas numa
vivência contemplativa.

0 Cusano é, pois, aquela personalidade que sente em sua própria alma a perturbação do equilíbrio
cósmico por Micael, e ao mesmo tempo quer instintivamente contribuir, quanto for possível, para que essa
perturbação seja benéfica para a humanidade.

Havia um outro elemento que vivia clandestinamente em meio a esses fenômenos espirituais. Algumas
pessoas, abertas a uma compreensão da posição das forças micaélicas no universo, queriam preparar as
forças de sua própria alma para que pudessem, conscientemente, ter acesso à região imediatamente
adjacente ao mundo terreno, na qual Micael estava realizando seus esforços em beneficio da humanidade.

Essas personalidades procuravam legitimar se para essa tarefa espiritual por um comportamento na vida
profissional e algures tal, que sua vida não se distinguia da de outras pessoas. Devido ao cumprimento
dos seus deveres no âmbito terrestre, realizado com todo o amor, eles podiam abrir o cerne de sua própria
natureza humana ao conteúdo espiritual já mencionado. Essa sua atividade era assunto íntimo deles e dos
que com eles estavam "secretamente" unidos. Aparentemente, o mundo não foi afetado, em seus
aspectos físicos, por esse anseio espiritual. Não obstante, tudo isso era necessário para estabelecer um
relacionamento correto entre as almas e o mundo de Micael. Não se tratava de "sociedades secretas" em
qualquer mau sentido, de algo que busca a clandestinidade por ter medo da luz do dia. Tratava se, antes,
de encontro de pessoas que dessa forma se convenceram de que os que a eles pertenciam, tinham uma
consciência correta da missão de Micael. Os que assim juntavam seus esforços, não falavam de sua
atividade diante daqueles cuja falta de compreensão só podia prejudicar as suas tarefas. Essas consistiam
numa atuação em correntes espirituais que não se desenrolam dentro da vida física, mas no mundo
espiritual adjacente, embora seus impulsos irradiem para a vida física.

Apontamos com essas observações para o trabalho espiritual de indivíduos que se encontram no mundo
físico mas atuam em conjunto com seres do mundo espiritual, seres que não penetram no mundo físico e
nele não se encarnam. Estou falando daquilo que, pouco objetivamente, é chamado de "rosacrucianismo".
0 verdadeiro rosacrucianismo exerce sua atividade em harmonia com a missão de Micael. Ele ajudou na
preparação de sua atividade espiritual numa época posterior.

0 verdadeira significado desse processo torna se claro quando se considera o seguinte: As já


caracterizadas dificuldades ou impossibilidades de Micael de atuar nas almas humanas, se prendem ao
fato que ele mesmo não quer entrar, com sua essência interior, em nenhum contato com o presente físico
da vida na Terra. Ele quer permanecer no âmbito das forças que tem existido no passado para espíritos de
sua espécie, e para os homens. Todo contato com aquela realidade com a qual o homem deve
necessariamente entrar em contato em sua vida física atual, poderia ser considerado por Micael apenas
como uma profanação de seu próprio ser. Ora, as vivências espirituais da alma atuam sobre a vida terrena
física comum, e vice-versa, esta retroage sobre o vivenciar. Essa retroação manifesta se precipuamente
na disposição interior do homem e na maneira como ele se orienta em relação a qualquer coisa do mundo
terreno. Tal interpenetração ocorre normalmente mas não sempre nas personalidades que tem uma
posição na vida pública. Por isso houve em vários reformadores, grandes obstáculos a sua atividade em
prol de Micael.
As dificuldades que apareceram a esse respeito, os Rosacruzes as venceram, mantendo sua vida exterior,
com seus deveres terrenos totalmente separada de sua atividade com Micael. Quando este se defrontava,
com seus impulsos, com aquilo que um rosacruciano lhe preparava em sua alma, não estava exposto ao
perigo de chocar se com algo terreno. Pois esse choque era justamente evitado graças á relação particular
do rosacruciano com Micael, conseqüência da disposição anímica particular que reinava.

Graças a isso, as verdadeiras intenções dos Rosacruzes constituíam para Micael, o caminho terreno rumo
a sua própria missão futura na terra.

(Segue a Terceira consideração)

Goetheanum, 6 de dezembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente parte da segunda consideração sobre os fatos que dificultaram ou
favoreceram as forças micaélicas na incipiente era da alma da consciência).

(14/12/1924)

131. No inicio da época da alma da consciência, a intelectualidade, emancipada no homem, pretende


ocupar se com as verdades da religião e do culto. Em conseqüência disso, a vida anímica sofre um abalo.
Pretende se provar pela lógica o que em sua realidade essencial era vivido antigamente na alma. Deseja
se captar por meio de deduções lógicas, o conteúdo de cultos que devem ser captados sob forma de
imaginações; deseja se, até, encontrar para os cultos, formas que decorram de tais deduções.

132. Tudo isso resulta do fato de Micael desejar, de toda maneira, evitar qualquer contato com o mundo
terreno atual em que o homem deve necessariamente penetrar, embora ele próprio deva continuar
orientando no homem a intelectualidade cósmica que ele tem administrado no passado. Resulta, pois, das
próprias forças micaélicas uma perturbação do equilíbrio cósmico, a qual, porém, se faz necessária para a
continuação da evolução do mundo.

133. A missão de Micael vem sendo facilitada pelo fato de certas personalidades os autênticos
Rosacruzes organizarem sua vida terrestre de tal forma que ela não afeta, em nada, sua vida anímica
interior. Conseguem dessa maneira, mobilizar forças interiores mediante as quais colaboram em espírito
com Micael sem este correr o perigo de se ver envolvido nos acontecimentos que se passam na Terra,
coisa que, aliás, lhe seria impossível fazer.

Terceira consideração: O Sofrimento de Micael causado pela Evolução da


Humanidade antes da Era da sua atuação na Terra

Na medida em que prossegue a era da alma da consciência, fica mais reduzida a possibilidade de Micael
ligar se com o ser humano. Nele entra a intelectualidade "humanizada" e desaparecem representações
imaginativas suscetíveis de revelar ao homem a inteligência cósmica que atua por intermédio de seres
espirituais. A possibilidade de aproximar-se do homem, começa para Micael apenas no último terço do
século XIX. Antes dessa data, ela só existe quando são usados os caminhos genuinamente rosacrucianos.

Com seu intelecto nascente, o homem olha para a natureza. Ele vê então um mundo físico e etérico do
qual não faz parte. Pelas grandes idéias de Copérnico, Galileu, etc., ele faz uma imagem do mundo extra
humano; mas perde aquela de si próprio. Ele olha para si sem poder discernir o que ele realmente é.

Desperta nas profundezas do seu ser aquilo que deve servir de suporte para sua inteligência, e com isso
se une o seu Eu. 0 homem abarca, pois, três elementos: Primeiro, em sua essência anímico espiritual,
mas manifestando se física e etericamente, aquilo que o colocava no reino do divino espiritual nas eras de
Saturno e do Sol e também nas eras posteriores. Nesse elemento, o ser humano e Micael podem unir se.
Segundo, o homem contém sua essência física e etérica posterior, que veio a fazer parte dele nas eras da
Lua e da Terra. Tudo isso é obra e atuação do divino espiritual, mas este não está mais presente nela de
maneira viva.
Começa a estar novamente presente, de maneira viva, no momento em que o Cristo atravessa o Mistério
do Gólgota. 0 Cristo pode ser encontrado naquilo que atua espiritualmente nos corpos físico e etérico.
Terceiro, o homem contém aquela parte de sua essência anímico espiritual que assumiu um novo caráter
nas eras da Laia e da Terra. Nessa parte de sua essência, Micael continuou a ser atuante ao passo que
deixou de atuar, cada vez mais, na parte orientada em direção à Lua e à Terra. Naquela parte, ele
conservou para o homem a sua imagem divina do ser humano.

Tudo isso, ele podia fazê lo até o irromper da era da alma da consciência. Aí, toda a parte anímico
espiritual do homem desapareceu na parte físico etérica a fim de haurir dela a alma da consciência.

0 homem teve em sua consciência uma visão luminosa do que seus corpos físico e etérico podiam revelar
lhe acerca do físico e do etérico na natureza. Mas desaparece da sua visão aquilo que o corpo astral e o
Eu lhe podiam revelar acerca de si mesmo.

Surge uma época na qual renasce na humanidade o sentimento de que, através do conhecimento, ela não
consegue mais chegar a si mesma. Começou então uma busca de conhecimento relativo ao ser humano.
Essa busca não se pode dar por satisfeita com aquilo que o conhecimento atual proporciona. Remonta se
então a épocas anteriores da história. Surge o Humanismo. Os homens o cultivam não para possuírem a
ciência do homem, mas por tê la perdido. Se a possuíssem, Erasmo de Rotherdam e outros teriam atuado
com outra disposição anímica do que com base naquilo que o Humanismo significava para eles.
Goethe concebeu mais tarde, na figura de Fausto, uma figura humana que tinha perdido o homem por
completo.

Essa busca "do homem" torna se então cada vez mais intensa. Pois só existe a opção entre embotar se
quanto à esperança de discernir a própria essência, ou desenvolver o anseio por ela como um elemento
da própria alma.

Até o século XIX, os melhores indivíduos nas diversas áreas da vida cultural européia desenvolvem, de
muitas maneiras, idéias históricas, científicas, filosóficas, místicas que denotam um anseio, dentro da
cosmovisão intelectual, de encontrar o homem.

A Renascença, o ressurgimento espiritualista, o Humanismo procuram, e até impetuosamente, a


espiritualidade numa direção onde não pode ser encontrada. E do lado onde deveria ser procurada,
reinam a impotência, a ilusão, e o atordoamento. E ao mesmo tempo, temos em toda parte a irrupção das
forças micaélicas: na arte, no conhecimento, no interior do homem mas ainda não na alma da
consciência cujas forças começam a manifestar sua vida. É um abalo na vida espiritual. Micael, apelando
a forças passadas da evolução cósmica, para ter o poder de manter o "dragão" equilibrado em baixo de
seus pés. Sob o impacto desses esforços de Micael nascem as grandes obras criadas durante a
Renascença. Mas não passam de uma renovação, realizada por Micael, do que competia à alma do
intelecto ou do sentimento, e não resultam da atuação das novas forças anímicas.

Micael está preocupado: terá ele a força para combater o "dragão" a longo prazo, já que percebe que os
homens querem chegar a uma imagem do homem com base na imagem recém adquirida da natureza?
Ele vê que se observa a natureza e que se quer formar uma imagem do homem a partir das chamadas
"leis da natureza". Ele vê os homens pensarem que tal propriedade de determinado animal se tornaria
mais perfeita, que tal combinação de órgãos se tornaria mais harmônica, e que de tudo isso "nasceria" o
homem. Mas não é um homem que nasce diante da visão espiritual de Micael pois aquilo que se pensa
em maior perfeição ou harmonização, não deixa de ser apenas pensado; ninguém vê isso realmente
ocorrer, porque não acontece em nenhum lugar.

Com tais pensamentos a respeito do homem, os homens vivem em imagens sem realidade, em ilusões.
Correm atrás de uma imagem do homem que acreditam possuir; mas na verdade nada disso apresenta se
à sua visão real. "A força do Sol espiritual ilumina suas almas, Cristo atua; mas eles não o percebem. Em
seus corpos, a força da alma da consciência vige; mas ainda não penetra na alma". Tal seria o conteúdo
de uma inspiração, pronunciada por um Micael preocupado. Será que a força da ilusão nos homens não
dará ao "dragão" tanto poder que Micael não possa mais manter o equilíbrio?

Outras pessoas procuram sentir a natureza em união com o homem, com uma força artística interiorizada.
São majestosas as palavras pronunciadas por Goethe quando caracterizou, num belo livro, a atuação de
Winkelmann: "Se a natureza sadia do homem atuasse como um todo; se ele se vivenciasse no mundo
como fazendo parte de um todo grande, belo, digno e precioso; se a sensação da harmonia lhe
proporcionasse um prazer puro e livre: aí o Universo se pudesse ter uma sensação de si próprio
jubilaria por ter chegado ao seu destino, e admiraria o auge da sua própria essência e evolução". Ressoa
nesta palavra de Goethe aquilo que tinha estimulado Lessing com ardor e animado em Herder o amplo
olhar que abrangia o universo. E toda a criação de Goethe nada é senão a manifestação universal dessa
sua máxima. Em suas "Cartas Estéticas" Schiller descreveu um homem ideal que contém o universo
conforme ressoa na máxima acima e o transforma em realidade na cooperação social com outros
homens. Mas de onde vem essa imagem do homem? Brilha como um sol matutino na Terra primaveril,
mas foi da contemplação do homem grego que veio alojar se no juízo dos homens. Estes o guardavam
carinhosamente com um forte impulso micaélico; mas só podiam dar forma a esse impulso contemplando
animicamente as épocas passadas. Quando queria vivenciar "o homem", Goethe passou por violentos
conflitos com a alma da consciência. Ele procurava o homem na filosofia de Espinoza; pensava que o
estava apreendendo durante sua viagem à Itália quando se aprofundava na alma grega. E acabou indo da
alma da consciência, cujos anseios estão presentes em Espinoza, à alma do intelecto ou do sentimento,
que ia se apagando. Foi só em suas vastas idéias sobre a natureza que conseguiu levar à alma da
consciência muito do que a alma do intelecto lhe havia ensinado.

Também essa busca da imagem do homem, Micael a observa com muita preocupação. É verdade que
algo que está em conformidade com seus intentos, acaba penetrando na evolução da mente humana, é
aquele homem que outrora olhava a inteligência ainda ligada a seres espirituais, na época em que Micael
a administrava a partir do cosmo. Mas tudo isso escaparia à atuação de Micael e ficaria no poder de
Lúcifer, se não fosse apreendida pela força da alma da consciência, devidamente espiritualizada. A outra
grande preocupação de Micael é, pois, a eventualidade de Lúcifer triunfar naquela oscilação do equilíbrio
espiritual cósmico.

Foi, portanto, num ambiente trágico que Micael preparava, no cosmo, sua missão no fim do século XIX.
Em baixo, na Terra, freqüentemente reinava profunda satisfação pela repercussão da imagem da
natureza; na região dominada por Micael, o ambiente era de tragicidade devido aos obstáculos que se
opunham à introdução geral da imagem do homem.

Antigamente, o amor espiritual e grave de Micael vivia no raiar do Sol, no brilhar da aurora, no cintilar das
estrelas; agora, esse amor tinha adquirido a conotação de observação da humanidade cheia de
sofrimento.

Na época anterior à sua missão na Terra, a situação de Micael no cosmo tornou se, portanto, difícil e
trágica; mas ao mesmo tempo, ela exigia uma solução. Os homens podiam usar a intelectualidade
somente no âmbito do corpo e lá, apenas na parte servida pelos sentidos. Não recebiam em seu
conhecimento nada que não fosse transmitido pelos sentidos. A natureza transformou se em campo de
observação dos sentidos, mas esta era considerada como algo totalmente material. Não se percebia mais
nas formas da natureza, a obra de algo divino espiritual, mas algo que carecia de espírito, embora se
afirmasse que produziria o elemento espiritual em que o homem vivia. De outro lado, em matéria de
mundo espiritual, os homens só queriam admitir aquilo que era assunto de noticias históricas. Era excluída
qualquer observação espiritual dirigida ao passado e ao presente.

Só vivia na alma o que provinha da região em que, presentemente, Micael não penetrava. 0 homem
estava satisfeito de pisar em terreno "firme". Acreditava tê la porque não procurava na "natura"
pensamentos que logo receava estarem cheios de arbitrariedades da fantasia. Mas Micael não estava
satisfeito; cabia lhe lutar contra Lúcifer e Arimã em sua própria área, por além do humano. Era essa a
grande e trágica dificuldade, porque Lúcifer se aproxima do homem tanto mais facilmente quanto Micael
o qual também conserva o passado deve manter se afastado dele. Houve, portanto, uma luta violenta de
Micael contra Arimã e Lúcifer na região espiritual imediatamente adjacente a Terra, e o que estava em
jogo era o homem; mas este atuava no âmbito terrestre em sua alma, de forma contrária à sua evolução
sadia.

Tudo isso vale, obviamente, para a vida espiritual na Europa e na América. Deveríamos falar de maneira
diferente para a Ásia.

Goetheanum, 14 de Dezembro de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente terceira consideração: 0 sofrimento de Micael causado pela Evolução da
Humanidade antes da Era da sua Atuação na Terra).

(21/12/1924)
134. Na primeira fase da evolução da alma da consciência o homem sente ter perdido a imagem
antigamente recebida por via imaginativa, da humanidade, isto é, da sua própria entidade. Ainda incapaz
de encontrá-la na alma da consciência, procura a pelos caminhos das ciências naturais ou da história.
Procura fazer renascer dentro de si, a antiga imagem da humanidade.

135. Dessa maneira, porém, não consegue realmente preencher se com a essência do humano, mas
apenas com ilusões. Mas o homem não nota e vê nisso algo capaz de sustentar a humanidade.

136. Durante a época que precede a sua atuação terrestre, Micael deve, pois, observar a evolução da
humanidade com pena e preocupação, já que a humanidade, negando se a qualquer observação
espiritual, corta todos os laços que a unem com Micael.

Consideração Natalina: O Mistério do Logos

A contemplação do Mistério do Gólgota vem permear a do Mistério de Micael. Isso decorre do fato de ser
Micael a potência que conduz o homem, de maneira benéfica, à proximidade do Cristo.

Mas a missão de Micael repete se ritmicamente durante a evolução cósmica da humanidade. Ela ocorreu
várias vezes antes do Mistério do Gólgota, com seu efeito benéfico sobre a humanidade. Aí ela estava
relacionada com tudo aquilo que a força de Cristo, ainda extra terrestre, tinha de revelar ativamente para o
desabrochar da humanidade na Terra. Depois do Mistério do Gólgota a missão de Micael vem a servir
àquilo que deverá acontecer à humanidade terrena por Cristo. Ela se manifesta em suas repetições, de
formas diferenciadas e progressivas mas não deixam de ser repetições.

Em contraste com isso, o Mistério do Gólgota é um acontecimento cósmico que engloba tudo e que ocorre
apenas uma vez em todo o decurso da evolução cósmica da humanidade.

Quando a humanidade tinha progredido até o desabrochar da alma do intelecto ou do sentimento,


começou a manifestar se com todo seu peso, a ameaça permanente do desprendimento do ser humano
da essência divino-espiritual, desprendimento cujas primeiras raízes já foram implantadas em tempos
primordiais.

Na mesma medida em que a alma perde o convívio com as entidades divino-espirituais, vem emergindo
ao redor dela o que se costuma chamar hoje de "natureza".

0 homem não enxerga mais sua própria entidade como algo que faz parte do cosmos divino espiritual; ele
vê a obra do divino espiritual na Terra. De início não a vê na forma abstrata em que costuma ser vista
hoje: seres e fatos físicos e sensoriais interligados por aqueles conteúdos de idéias abstratas que
chamamos "leis da natureza". Vê a como um ser divino espiritual que paira em tudo que percebe na
natureza: no nascer e perecer dos animais, no crescer das plantas, na atividade das nascentes e rios, na
formação de ventos e nuvens. Tudo isso fatos e seres constituem para ele gestos, feitos , são para ele a
própria linguagem do ser divino subjacente à "natureza".

Os "fatos da natureza" passaram então a ser expressão da deusa da natureza, da mesma forma como se
via outrora nas constelações e trajetórias das estrelas, os feitos e gestos das divindades cósmicas, e como
se lia nelas as palavras destas divindades. Pois a divindade que atuava na natureza, era representada
com um ser feminino.

Restos dessas representações eram conteúdos imaginativos da alma do intelecto atuavam nas almas
até tempos avançados da Idade Média.

Os que queriam compreender a natureza, falavam então dos feitos da "deusa". Essa maneira de ver a
natureza, viva e intimamente animada, se tornou incompreensível somente na medida em que a alma da
consciência veio a reinar.

A maneira como se considerava a natureza na era da alma do intelecto ou do sentimento, lembra o mito
de Persefoneia com o Mistério que lhe é implícito:

A filha de Deméter, Persefoneia, é obrigada pelo deus do mundo inferior a acompanhá lo ao seu reino. No
fim, a solução encontrada prevê que ela passe no mundo inferior apenas uma metade do ano; durante a
outra, ela permanece no mundo superior.
Esse mito ainda exprime, de modo majestoso, como se discernia, num passado remoto, a essência do
mundo terreno por meio de uma clarividência onírica.

Nos primórdios, toda a atuação cósmica tinha sua origem fora da Terra. A própria Terra ainda estava
nascendo. Sua essência resultou da atuação de seu mundo ambiente. Quem lhe plasmava a essência,
eram os seres divino-espirituais do cosmo. Quando tinha amadurecido o suficiente para tornar-se um
corpo cósmico autônomo, algo divino cósmico desceu do cosmo e transformou se em divindade terrestre.
Esse fato cósmico foi percebido pela clarividência onírica da humanidade antiga, e desse conhecimento
sobrou o mito de Persefoneia. Mas também ficou, até épocas adiantadas da Idade Média, a maneira com
se queria perscrutar a "natureza" para conhecê la. Pois não se mirava naquele tempo, as impressões
sensoriais ou seja, aquilo que se manifestava na superfície da Terra, mas as forças que atuavam das
profundezas à superfície. E essas "forças da profundidade", do "mundo inferior" eram vistas em sua
interação com os efeitos que resultavam das estrelas e dos elementos ao redor da Terra.

Vemos as plantas crescerem, com a multiplicidade de suas formas e a diversidade de suas cores. Nelas
há uma atuação combinada das forças solares, lunares, estelares, e das forças da profundidade terrestre.
0 fundamento para esse processo são os minerais cuja essência é determinada por aquilo que, partindo
de uma origem cósmica, se tornou terreno. As rochas nascem exclusivamente do "mundo inferior", devido
às forças celestes transformadas em forças terrestres. 0 mundo animal não aceitou as forças das
profundidades; nasceu exclusivamente das forças cósmicas que atuam de fora. Ele deve sua origem, seu
crescimento, sua evolução, sua capacidade de alimentar se e de desenvolver se, às forças solares que
fluem para a Terra. 0 mundo animal se reproduz sob a influência das forças lunares; ele se apresenta em
muitas formas e espécies porque as constelações atuam sobre ele, a partir do cosmo, de muitíssimas
maneiras, plasmando o. Mas os animais apenas são colocados pelo cosmo na Terra. Participam da
existência terrena somente com sua consciência embotada; não são terrenos com sua origem, seu
crescer, com tudo que possuem para perceber e mover se.

Essa idéia, de concepção imponente, do devir da Terra, vivia outrora na humanidade. Aquilo que dela se
conservou até a Idade Média, só permite discernir, em escala reduzida, a concepção imponente original.
Para se ter conhecimento disso, é preciso remontar, com o olhar da vidência, a tempos antiquíssimos.
Pois mesmo os documentos físicos existentes só permitem discernir o que existia nas almas, a quem o
pode compreender a partir de um modo de ver espiritualista.

0 homem não pode manter se tão distante da Terra, como o reino animal. Proferindo essa sentença,
estamos nos acercando dos mistérios tanto da humanidade como dos animais. Esses mistérios refletem
se no culto dos animais nos povos antigos, principalmente dos egípcios. Considerava se os animais como
hóspedes na Terra, nos quais se podia ver a essência e a atuação do mundo espiritual contíguo ao mundo
terrestre. Os homens representavam, na combinação das formas animais com a humana, sob forma de
imagens, as figuras dos seres elementares intermediários que estavam, na evolução cósmica, a caminho
da humanidade, embora não penetrassem no elemento terrestre para não tornar se homens. Existem tais
seres elementares intermediários. Fazendo imagens deles, os egípcios apenas reproduziam o que
estavam vendo. Tais seres, porém, não possuem a plena auto-consciência do homem. Para adquiri la, o
homem tinha de penetrar no mundo terrestre tão completamente que acolheu, em sua essência, algo da
essência da Terra.

Tinha de ser exposto à realidade de existir neste mundo terrestre a obra dos seres divino espirituais
ligados a ele; mas só a obra deles. E por existir apenas a obra separada da sua origem, os seres
luciféricos e arimânicos têm acesso a ela. Dai a necessidade de o homem fazer da obra, permeada por
Lúcifer e Arimã, o palco de parte de sua existência aquela que passa na Terra.

Isso é possível, sem que o homem se desligue definitivamente de sua origem divino espiritual, enquanto
ele não progrediu até o desenvolvimento da sua alma da razão. Aí ocorre uma corrupção dos seus corpos
físico, etérico e astral. Uma ciência mais antiga conhece essa corrupção como algo que vive no homem. É
sabido que ela é necessária para que a consciência possa evoluir para a auto-consciência. No cultivo da
cognição, realizado nas instituições criadas por Alexandre Magno para as ciências, vive um aristotelismo
que traz em si quando bem compreendido essa corrupção como um elemento essencial de sua
psicologia. Tais idéias deixaram de ser compreendidas mais tarde em sua essência íntima.

Nos períodos anteriores ao desenvolvimento da alma da razão, o homem estava tão compenetrado com
as forças de sua origem divino espiritual que estas podiam, atuando de seu local cósmico, manter em
equilíbrio as potências luciféricas e arimânicas que estavam se acercando. Os homens faziam naquele
tempo uma contribuição suficiente para conseguir esse equilíbrio quando elaboraram, nas cerimônias dos
cultos e mistérios a imagem do ser divino espiritual que mergulhou no reino de Lúcifer e de Arimã e dele
voltou vitorioso. Vemos, pois, nas épocas anteriores ao Mistério do Gólgota, nos cultos populares,
representações pictóricas daquilo que se tornou, mais tarde, realidade no Mistério do Gólgota.

Depois do desenvolvimento da alma do intelecto ou do sentimento, só a realidade podia preservar o ser


humano do desprendimento de suas entidades divino espirituais. Era necessário que o divino penetrasse
intimamente, como entidade, também no âmbito terrestre, na organização da alma da razão que vivia em
sua existência terrestre tirando o seu fundamento do ambiente terrestre. Isso ocorreu quando o Cristo, o
logos divino espiritual, uniu seu destino cósmico com a Terra, em beneficio da humanidade.

Persefoneia mergulhou no âmbito terrestre para livrar o mundo vegetal da necessidade de formar se
exclusivamente a partir de elementos terrenos. É a descida de um ser divino cósmico à natureza da Terra.
Percefoneia também "ressurge", mas ela o faz anualmente, numa seqüência rítmica.

A esse evento cósmico que se realiza na Terra, contrapõe se a descida do logos em benefício da
humanidade. Persefoneia desce para dar à natureza a sua orientação original. Isso requer ritmo, pois os
processos da natureza decorrem em ritmos. 0 logos desce à humanidade e isso ocorre uma vez durante a
evolução da humanidade. Pois essa evolução é apenas um elo num gigantesco ritmo cósmico; com efeito,
o gênero humano era algo totalmente diferente antes da fase humana e o será depois dela, ao passo que
a vida vegetal se repete como tal em breves ritmos.

A partir da época da alma da consciência, a humanidade precisa ver o Mistério do Gólgota nessa luz. Pois
o desprendimento do homem já teria sido uma ameaça na era da alma da razão se não tivesse ocorrido o
Mistério do Gólgota. Na era da alma da consciência, um obscurecimento total da consciência ocorreria se
esta alma não conseguisse robustecer-se a ponto de discernir sua origem divino espiritual. Conseguindo o
ela encontra no logos cósmico a entidade capaz de reconduzi la. Compenetrasse com a grandiosa
imagem que revela os fatos ocorridos no Gólgota.

0 inicio desse discernimento é a carinhosa compreensão da Noite Sagrada cósmica que se comemora
festivamente a cada ano. Pois o fortalecimento da alma da consciência ocorre quando, depois de acolher
a intelectualidade, ela faz fluir a esse elemento mais frio da alma, o caloroso amor. Esse amor caloroso
fica mais sublime quando se destina ao menino Jesus que aparece na Terra naquela Noite Sagrada
cósmica. Dessa maneira, o homem sente em sua alma o impacto do fato terreno mais sublime, fato tanto
espiritual como físico; iniciou a caminhada que deverá levá lo a acolher o Cristo.

Conhecer a natureza significa compreender que ela revela, em Persefoneia ou naquele ser chamado, no
começo da idade média de "natureza", a força primordial divino espiritual da qual nasceu e continua
nascendo, e que é o fundamento da existência humana na Terra.

0 mundo humano deve ser conhecido como aquele que revela em Cristo, o logos dos primórdios e da
eternidade, o qual atua em benefício de desabrochar da essência espiritual do homem, permanecendo no
âmbito da essência divino espiritual que estava unida com o homem.

0 verdadeiro conteúdo dessa recordação festiva que, a cada Natal cósmico, invade o homem, consiste em
conduzir com amor o coração a esses grandes fatos cósmicos. Quando esse amor vive nos corações, ele
incendeia o elemento frio da luz que vive na alma da consciência. Sem esse elemento de calor em sua
alma da consciência, o homem nunca conseguirá espiritualizá la. Pereceria pelo frio de sua consciência
intelectual ou permaneceria num estado mental que não progride até o desabrochar da alma da
consciência, ficando parado no desenvolvimento da alma da razão ou do sentimento.

Mas em sua essência, a alma da consciência não é fria; parece sê lo no inicio do seu desenvolvimento
pois revela apenas o elemento luz que contém, e ainda não o calor universal do qual emana.

Quem sente e vivência o Natal dessa maneira, pode ter a visão seguinte à glória dos seres divino
espirituais que se manifestam, ex-imagem, nas constelações das estrelas, revela se ao homem, e este se
livra na Terra das potências que o querem afastar de sua origem.

Goetheanum, Natal de 1924.


OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA
(Com referência à precedente consideração natalina)

(28/12/1924)

137. A atividade exercida pelas forças micaélicas durante a evolução do mundo e da humanidade, repete
se ritmicamente, embora de forma diferente e progressiva, antes e depois do Mistério do Gólgota.

138. 0 Mistério do Gólgota é o maior acontecimento na evolução da humanidade. Foi um acontecimento


único, não podendo portanto ser questão de repetições rítmicas. Pois mesmo se a evolução da
humanidade é integrada num grandioso ritmo cósmico, ela não deixa de ser apenas um elo, embora de
grandes proporções, dentro desse ritmo. Antes de transformar se neste elo único, a humanidade era algo
essencialmente diferente do que hoje é. Mais tarde ela será novamente algo diferente. Durante a evolução
da humanidade ocorrem, portanto, vários acontecimentos micaélicos mas apenas um acontecimento do
Gólgota.

139. 0 ser divino espiritual que desceu às profundezas da Terra para espiritualizar a vida da natureza,
realiza esse processo na rápida repetição rítmica de um ciclo anual. Esse processo representa a
espiritualização da natureza por meio das forças originais e eternas que devem continuar atuando, assim
como o Cristo, em sua descida a Terra, representa a espiritualização da humanidade pelo logos original e
eterno, cuja atuação, para o bem da humanidade nunca deve cessar.

História Celeste - História Mitológica - História Terrestre - Mistério do Gólgota

Existe no cosmo espacial o contraste entre a amplidão do universo e o centro da Terra. Na amplidão
cósmica, as estrelas se acham, por assim dizer, "espalhadas". Partindo do centro da Terra, existem forças
que irradiam em todas as direções para a amplidão do universo.

Na atual época da evolução cósmica o homem, de acordo com seu posicionamento no mundo, pode ver
no cintilar das estrelas e no atuar das forças terrestres apenas a obra global dos seres divino espirituais
com os quais está intimamente ligado.
Mas houve uma época cósmica em que esse cintilar e essas forças terrestres ainda eram uma
manifestação espiritual imediata dos seres divino espirituais. Ai o homem, possuidor de uma consciência
embotada, sentia os atuando em seu próprio ser.

Veio então uma outra época. 0 céu estrelado desprendeu se, como um ente corporal, do atuar divino
espiritual. Nasceu aquilo que se pode chamar espírito do universo e corpo do universo. 0 espírito do
universo é uma pluralidade de seres divino espirituais. Durante a época anterior, eles atuavam sobre a
Terra a partir das estrelas onde eram localizados. Aquilo que refulgia nas amplidões, aquilo que, como
forças, irradiava do centro da Terra era, na realidade, a inteligência e a vontade dos seres divino
espirituais empenhados num trabalho criador tendo por objetivo a Terra e a humanidade.

Na época cósmica posterior depois dos ciclos de Saturno e do Sol a atuação da inteligência e da
vontade dos seres divino espirituais tornou se cada vez mais interiorizada. Estavam presentes e atuantes
dentro daquilo que se transformou em "corpo do universo", ou seja, a disposição harmônica das estrelas
no espaço cósmico. Olhando em retrospectiva espiritual para esses fatos, podemos dizer: o corpo-espírito
primordial dos seres criadores do mundo engendrou o espírito do universo e o corpo do universo. E o
corpo do universo mostra, na disposição e nos movimentos das estrelas, como tinha sido outrora a
atuação inteligente e volitiva dos deuses. Mas para o presente cósmico aquilo que era, outrora,
inteligência e vontade divina livremente atuante nas estrelas, se transformou nestes em algo rígido e
sujeito a leis.

0 que hoje está radiando dos mundos estrelados ao homem na Terra, não é a expressão imediata da
vontade e da inteligência dos deuses, mas um signo não evoluído do que eles outrora eram nas estrelas.
Na formação das estrelas no céu, que suscita nossa administração, podemos ver uma manifestação
passada dos deuses, e não uma manifestação presente.

Todavia, o que "passou" no cintilar das estrelas, continua "presente" no mundo espiritual. E o homem vive
com seu ser, neste espírito universal "presente".
Na evolução do cosmo podemos olhar, em retrospectiva, para uma época antiga na qual o espírito e a
corporalidade do universo atuavam como unidade. Podemos discernir uma época intermediária na qual
vêm a ser uma dualidade. E devemos pensar no futuro, na terceira época quando o espírito cósmico
voltará a incorporar a corporalidade universal em sua atuação.

Na época antiga, as constelações e órbitas das estrelas não podiam ser "calculadas" pois expressavam a
livre inteligência e a livre vontade de seres divino espirituais. No futuro será novamente impossível calculá-
las.

0 "cálculo" só tem significado para a época cósmica mediana.

Isso é válido para as constelações e órbitas das estrelas como para a atuação das forças que irradiam do
centro da Terra em direção às amplidões cósmicas. Aí aquilo que atua "da profundeza", se torna
"calculável".

Mas tudo tende da época mais antiga para a mediana, na qual se pode "calcular" o que se relaciona com
espaço e tempo, e onde é necessário procurar "por trás" do "calculável", o divino espiritual, como
manifestação da sua vontade e da sua inteligência.

Existem apenas na presente época intermediária as condições que permitem à humanidade progredir de
uma consciência embotada a uma auto-consciência clara e livre, à própria inteligência e vontade livres.

Tinha que vir a época em que Copérnico e Kepler "calculavam" a corporalidade do mundo. Pois a auto-
consciência humana tinha de tomar forma a partir das forças cósmicas relacionadas com o advento desse
momento. Em tempos mais antigos foi elaborada a disposição para a auto-consciência; mais tarde, veio à
época em que havia condições para "calcular" a amplidão do cosmo.

A "história" se desenrola na Terra. Ela nunca teria surgido se a amplidão cósmica não se tivesse
transformado em constelações e órbitas "fixas". Temos na "evolução histórica" na Terra uma imagem
totalmente metamorfoseada da "história celeste".

Os povos antigos abarcam em sua consciência ainda essa "história celeste" e atentam muito mais para ela
do que para a "história terrena".

Na "história terrena" vive a inteligência e a vontade dos homens; primeiro em união com a vontade e a
inteligência dos deuses; depois, de maneira autônoma.

Na "história celeste" viviam a inteligência e a vontade dos seres divino espirituais relacionados com o
gênero humano.

Olhando em retrospectiva para a vida espiritual dos povos, constatamos, nos homens, num passado bem
longínquo, uma consciência da comunhão do existir e do querer com os seres divino espirituais: sua
história é, ao mesmo tempo, história celeste. Quando fala de "origens", o homem não descreve processos
terrenos, mas processos cósmicos. E até para o seu presente, aquilo que se passa no mundo terreno
ambiente, parece lhe, em comparação com os acontecimentos cósmicos, tão insignificante que só se atém
a estes, e não àquilo.

Houve uma época em que a humanidade tinha a consciência de ver a história celeste em grandes
impressões; nelas as próprias entidades divino espirituais apareciam à alma. Falavam, e sua linguagem
era percebida em inspirações oníricas; aí, elas manifestavam suas figuras, e o homem as enxergava nas
inspirações do sonho.

Essa "história celeste" que preenchia durante muito tempo as almas, foi seguida pela história mística que,
hoje em dia, muitos consideram como uma invenção poética. Ela combina acontecimentos celestes e
terrestres. Surgem, por exemplo, "heróis", isto é, seres supra humanos. São seres que, em sua evolução,
tinham alcançado um nível mais elevado do que os homens. Estes alcançaram, por exemplo, em
determinada época, apenas a alma da sensação; mas o "herói" já desenvolve aquilo que aparecerá no
homem em determinado tempo, como "si mesmo espiritual". 0 "herói" não pode encarnar se diretamente
na Terra; mas pode fazê lo penetrando no corpo de um homem, tornando se capaz de viver como homem
entre outros homens. Devemos ver tais seres em certos "iniciados" de tempos antigos.

Não era assim que a humanidade imaginava que os fatos apenas "ocorressem" nas subsequentes épocas
das histórias; houve uma autêntica mudança daquilo que se desenrolava entre o mundo espiritual
"incalculável" e o mundo corpóreo "calculável". 0 que houve, era o seguinte: muito tempo depois da
transformação das condições exteriores, a consciência deste ou daquele povo ainda tinha uma
"cosmovisão" que correspondia a uma realidade muito anterior. De inicio, a consciência que não tinha
progredido paralelamente ao progresso cósmico realmente percebia a realidade antiga. Depois, veio um
tempo onde à visão se desvaneceu, enquanto a antiga realidade era conservada apenas por tradição.
Assim costumava se representar ainda na idade Média uma influência do mundo celeste sobre o mundo
terrestre, influencia que não era mais diretamente percebida porque não existia mais a capacidade de se
enxergar imagens.

E na Terra, os povos evoluem conservando, durante períodos diferentes, os diversos conteúdos


percebidos, de modo que houve simultaneamente percepções que, pela sua natureza, deviam ser
consecutivas uma à outra.

Além disso, as diferentes visões que os povos tinham do mundo, não decorrem apenas desse fato mas
também da circunstância de que os diversos povos realmente percebiam coisas diferentes, de acordo com
suas disposições. Assim, os egípcios percebiam um mundo em que se achavam seres prematuramente
parados em sua hominização; não chegaram a se tornar homens terrestres. E eles viam o homem tendo
depois de sua morte, de lidar com esses seres. Os povos caldeus viam, antes, seres espirituais extra
terrestres, bons e maus, intrometendo se durante a vida na Terra para ali atuarem.

A antiga "história celeste", que se estendeu por um período muito comprido, foi seguida pela "história
mitológica", mais breve mas ainda muito longa em comparação com a história propriamente dita que veio
em seguida.

Conforme já disse, os homens só dificilmente abandonam em sua consciência as antigas visões nas quais
se imaginava deuses e homens atuando em conjunto. Já reinava a "história terrena propriamente dita"
desde o desabrochar da alma da razão ou do sentimento embora os homens ainda "raciocinassem" em
função daquilo que já tinha passado. Começaram a pensar em termos de "história propriamente dita"
apenas quando se desenvolviam os primeiros germes da alma da consciência.

E a inteligência livre, e a vontade livre, só puderam ser vivenciadas na história humana como algo humano
espiritual, desprendido de toda origem divino espiritual.

A evolução na qual o homem se acha entretecido, decorre, pois, entre o pleno determinismo, inteiramente
calculável, e a atuação da inteligência e da vontade livre, passando por toda espécie de combinações
intermediárias entre ambos.

0 homem passa sua vida entre o nascimento e a morte de maneira tal que lhe é preparada, no ambiente
calculável, a base corpórea para desenvolver seu elemento incalculável interior, que é anímico espiritual e
livre. E ele percorre a vida entre a morte e o nascimento num mundo incalculável, embora o calculável se
lhe revele no "interior" da sua existência anímico espiritual. A partir desse elemento calculável, ele vem a
ser, dessa maneira, o edificador de sua vida terrena futura.

0 incalculável realiza se na Terra na "história", todavia o calculável vem a integrar se nele, embora em
escala reduzida.

Os seres luciféricos e arimânicos vêm a opor se à ordem estabelecida, entre o calculável e o incalculável,
pelos seres divino espirituais ligados ao homem desde seus primórdios; opõem se dessa maneira à
harmonização do universo, expressa em "medidas, números e pesos". De acordo com sua índole, Lúcifer
não pode conviver com a "calculabilidade". Seu ideal é a atuação cósmica incondicionada, em matéria de
inteligência e vontade.

Essa tendência luciférica é apropriada à ordem cósmica nas áreas em que deve reinar a liberdade. Ai,
Lúcifer é o legítimo ajudante espiritual da evolução humana. Sem a assistência dele, nenhuma liberdade
poderia fazer parte do anímico espiritual do homem, que se edifica sobre o fundamento calculável do
corpo. Mas Lúcifer pretende estender essa tendência ao cosmo inteiro. Aí sua atividade entra em choque
com a ordem divino-espiritual à qual o homem originalmente pertence.

Ai começa a função de Micael. Sua própria índole o coloca no âmbito do incalculável; mas ele harmoniza o
incalculável com o calculável que ele abarca como pensamento cósmico recebido dos deuses dele.

As potências arimânicas ocupam no mundo uma posição diferente. São o oposto total dos seres divino
espirituais com os quais o homem originalmente está ligado. Atualmente, estes são potências puramente
espirituais que possuem uma inteligência e uma vontade totalmente livres. Mas produzem, não obstante
essas qualidades, a sábia convicção de que o calculável, o não livre, é uma necessidade; e essa
convicção tem o caráter de um pensamento cósmico a partir do qual o homem, como ser livre, deve
desenvolver se. Esses seres têm, para com o calculável, o pensamento cósmico, uma atitude de amor.
Esse amor irradia deles para todo o universo.

Em contraste a isso, é o ódio frio contra tudo que se desenvolve em liberdade, que vive na ávida cobiça
das potências arimânicas. 0 desejo de Arimã é transformar numa máquina cósmica tudo o que ele irradia
da Terra para o espaço cósmico. Seu ideal se reduz exclusivamente a "medidas, números e pesos". Ele
foi chamado para o cosmo destinado a servir a evolução do homem, porque seu reino, aquele das
"medidas, números e pesos", precisava ser desenvolvido.

Só compreende realmente o mundo quem o compreende, em qualquer parte, como algo espiritual e
corpóreo. Isso tem de ser levado em consideração até na natureza, com referência a seres como os divino
espirituais que atuam com amor, e os seres arimânicos que atuam com ódio. Precisamos detectar o amor
natural dos seres divino espirituais no calor natural que começa na primavera e atua no verão; precisamos
perceber a atuação de Arimã no vento gélido do inverno.

Em pleno verão, a força luciférica penetra no amor afim à natureza, no calor; na época de Natal, as
energias dos seres divino espirituais com os quais o homem estava originalmente ligado, vem contrapor se
ao ódio gélido de Arimã. E quando se aproxima à primavera, o amor divino afim à natureza, ameniza
constantemente o ódio arimânico afim à natureza.

0 aparecimento anual desse amor divino é a época em que se recorda a entrada do elemento divino livre
no elemento terreno calculável; foi o acontecimento que teve por protagonista o Cristo. Cristo atua com
total liberdade na área do calculável; dessa maneira, ele neutraliza o impulso arimânico que só quer o
calculável.

0 acontecimento do Gólgota é o livre ato de amor cósmico dentro da história da Terra; só pode ser
compreendido pelo amor, desde que o homem o use para compreendê lo.

Goetheanum, Natal de 1924.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência ao capítulo precedente sobre História Celeste, História Mitológica, História Terrena e
Mistério do Gólgota)

(04/01/1925)

140. A seqüência dos acontecimentos cósmicos em que se acha entretecida a evolução da humanidade,
que se espelha, na consciência humana, como "História", no sentido mais amplo, divide se: na longa
história celeste, na história mitológica, mais curta, e na história terrestre, relativamente muito curta.

141. Esse acontecimento cósmico divide se atualmente na atuação "incalculável" de seres divino
espirituais que criam com inteira liberdade de inteligência e vontade, e na atuação "calculável" do corpo do
universo.

142. As forças luciféricas opõem se à precalculabilidade do corpo do mundo, e as arimânicas, à força


criadora exercida com livre inteligência e com livre vontade.

143. 0 acontecimento do Gólgota é um feito cósmico livre que tem sua origem no amor cósmico e que só
pode ser compreendido pelo amor humano.

O que se Revela ao olhar retrospectivo dirigido às Vidas Repetidas

Quando a cognição espiritual olha, em retrospectiva, para vidas terrenas anteriores de um homem,
aparece um certo número dessas vidas terrenas em que o homem já era uma pessoa. Seu exterior se
parecia com o que é agora, e ele possuía uma vida interior marcada por um cunho individual. Afloram
vidas que revelam a presença da alma da razão ou do sentimento, mas ainda não da alma da consciência,
e outras em que só a alma da sensação estava pronta, etc.
Era assim nas várias épocas da história terrena, e também muito tempo antes.

Mas o olhar retrospectivo remonta a tempos em que ainda não era assim. Ai deparamos com o ser
humano ainda entretecido com o mundo dos seres divino espirituais, quanto à sua vida interior e à
formação exterior. 0 homem é terreno, mas ainda não desprendido da existência desses seres, do seu
pensar e querer.

Em épocas ainda mais antigas, o homem separado desaparece; só existem seres divino espirituais que
levam o homem em seu seio.

Essas três fases, o homem as percorreu durante sua existência na Terra. A passagem da primeira para a
segunda se situa no fim da época lemúrica, aquela da segunda para a terceira, na época atlântica.

Assim como o homem carrega dentro dele suas vivências como recordações, ele também carrega como
recordação cósmica tudo que experimentou dessa maneira. Que é a vida anímica na Terra? 0 mundo das
recordações, sempre pronto para, a cada instante, ter novas percepções. 0 homem passa sua existência
terrena interior nessa ação reciproca de recordações e novas experiências.

Mas esta existência terrena interior não poderia desenvolver se se não houvesse, como recordação
cósmica presente, aquilo que presenciamos ao olharmos, em espírito, para a primeira fase da nossa
existência como homens terrenos quando ainda não ocorrera o desprendimento do mundo divino
espiritual.

Daquilo que então ocorria no mundo, só existe hoje, de forma viva, o que é desenvolvido na organização
neuro sensorial do homem. Na natureza exterior, as forças que então atuavam, estão mortas ou apenas
observáveis em formas mortas.

Vive no mundo dos pensamentos, como manifestação presente, aquilo que precisa ter passado, para sua
existência terrena atual, por uma evolução antes que o homem tivesse alcançado sua existência terrena
individualizada.

Essa fase, o homem a revive entre cada morte e o novo nascimento. Só que leva sua existência individual,
plasmada nas vidas terrenas, para o mundo dos seres divino espirituais que volta a recebê lo como
outrora o abarcava. Entre a morte e o nascimento, ele se acha, ao mesmo tempo, no presente e em todos
os tempos atravessados em vidas repetidas e existências entre mortes e novos nascimentos.

A situação é diferente no que se refere ao mundo dos sentimentos. Este tem uma ligação com as
vivências que vieram imediatamente após aquelas onde o homem ainda não era homem. São as vivências
que o homem teve como homem, mas ainda não desprendido da existência divino espiritual e seu pensar
e querer. Atualmente, o homem não poderia desenvolver uma vida sentimental se esta não nascesse com
base de sua organização rítmica. Esta contém a recordação cósmica da segunda fase da evolução.

Atuam, pois, na vida emocional, o presente anímico e os pós efeitos de uma época muito remota.

Em sua existência entre a morte e o novo nascimento, o homem vivência o conteúdo do período em
questão como o limite de seu cosmo. Na vida física o homem tem, como limite, o céu estrelado; a ele
corresponde, na vida espiritual entre a morte e o nascimento, a fase que se situa entre sua ligação total
com o mundo divino espiritual, e seu desprendimento desse mundo. Ai não são os corpos celestes físicos
que aparecem no "limite do cosmo", mas, no lugar de cada estrela, a soma dos seres divino espirituais os
quais, na realidade, constituem a estrela.

As vidas terrestres que aparecem como individualizadas e personalizadas, são relacionadas apenas com
a vontade e não, com o sentimento e o pensamento. 0 que dá ao homem a forma exterior a partir do
cosmo, se conserva nessa forma exterior como recordação cósmica. Esta vive na figura humana como
forças, não são as forças da vontade mas seu fundamento dentro da organização humana.

Essa região da entidade humana situa se fora dos "limites do mundo" durante a vida entre a morte e o
novo nascimento. 0 homem sabe que voltará a fazer parte dele em sua nova vida terrestre.

0 homem está atualmente ligado ao cosmo em sua organização neurosensorial da mesma maneira como
o era quando ele apenas se manifestava como um gérmen dentro do plano divino espiritual.

Em sua organização rítmica o homem vive no cosmo de maneira como vivia quando já existia como
homem mas ainda não era desprendido do divino-espiritual.
Em sua organização do metabolismo e dos membros, base da atuação da vontade, o homem vive de
forma tal que continua atuando nessa organização tudo que o homem vivenciou nas vidas pessoais e
individuais e nas vidas entre a morte e o novo nascimento.

Das forças da Terra, o homem só tira o que lhe proporciona a auto-consciência. Também a base física
dessa auto-consciência provêm da atuação da Terra. Todo o resto tem uma origem cósmica, extra
terrestre. Têm essa origem extra terrestre o corpo astral, veiculo das sensações e pensamentos, e sua
base etérica e física ou seja, os processos vitais do corpo etérico e até tudo que atua química e
fisicamente no corpo físico. Pode parecer estranho, mas mesmo aquilo que atua química e fisicamente,
não provém da Terra.

São os planetas e outras estrelas que determinam que o homem desenvolva em si esses lados cósmicos
extra terrestres. É o Sol que leva à Terra aquilo que ele desenvolve dessa maneira. 0 elemento cósmico
do homem é levado ao âmbito terreno pelo Sol. Graças a este, o homem, como ser celeste, vive na Terra.
Constitui uma dádiva da Lua apenas aquilo que transcende a sua formação humana, isto é, a capacidade
de produzir um ser igual a ele.

Essas não são, obviamente, as únicas influências do Sol e da Lua. Emanam deles também efeitos
altamente espirituais.

Quando, na época do Natal, o Sol aumenta suas energias destinadas a Terra, isso é um efeito rítmico que
se manifesta no âmbito físico-terreno num ciclo anual; é uma manifestação do espírito da natureza. A
evolução do homem constitui um único elo numa espécie de ano cósmico gigantesco. É isso que decorre
das explanações que precedem. Nesse ano cósmico ocorre uma "Noite Sacra" cósmica: não é apenas o
Sol que atua sobre a Terra a partir do Espírito da Natureza, é a alma do Sol, o espírito de Cristo, que
desce à Terra.

Assim como as vivências individuais de cada indivíduo têm uma relação com a recordação cósmica, a
noite sacra anual, o Natal, é interpretada corretamente desde que se considere o acontecimento do Cristo,
celeste e cósmico, como algo contínuo e que constitui uma recordação não apenas humana, mas
cósmica. Não é só o homem, mas o cosmo inteiro que recorda efetivamente, no Natal, a descida do Cristo.

Goetheanum, Ano Novo de 1925

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(com referência à consideração precedente: o que se revela ao olhar retrospectivo dirigido às vidas
repetidas)

(11/01/1925)

144. As vidas repetidas do homem se dividem em três fases distintas: uma mais antiga na qual o homem
ainda não era uma entidade individual, mas existia apenas como gérmen, num estado divino espiritual. Ai,
o olhar retrospectivo não depara com um ser humano, mas com seres divino-espirituais (os Arqueus).

145. A essa fase segue outra, intermediária, na qual o homem já existe como entidade individual, mais
ainda não separado do pensar, do querer e do existir no mundo divino espiritual. Nessa altura ainda não
possui sua personalidade atual que depende do fato dele ser, em sua existência terrestre, um ser
inteiramente individualizado e separado do mundo divino espiritual.

146. E só como terceira fase que surge o estado atual. Ai, o homem se vivência em sua forma humana,
desprendido do mundo divino espiritual; vivência o mundo como ambiente com o qual se defronta como
pessoa individual. Essa fase começa na época atlântica.

Primeira parte da consideração: O que se revela ao olhar retrospectivo


dirigido às Vidas anteriores entre a Morte e o Novo Nascimento?

Na consideração anterior, a vida humana total foi examinada pelo olhar anímico dirigido às vidas terrenas
consecutivas. Esse critério pode ser elucidado ainda mais pela contemplação das vidas consecutivas entre
a morte e o novo nascimento.
Aparece também que o conteúdo dessas vidas, tal como atualmente é, só remonta até um determinado
momento da evolução da Terra. Esse conteúdo é determinado pelo fato de o homem levar pelo portal da
morte a força interior da auto-consciência adquirida durante a vida na Terra. Dessa maneira, o homem
enfrenta, como individualidade, os seres divino-espirituais em cujo meio se encontra.

Não era assim num período anterior. Aí, o homem ainda não estava avançado com o desabrochar de sua
auto-consciência. A força conquistada na Terra não era suficiente para efetuar o desprendimento do
mundo divino espiritual até chegar a uma existência individual entre a morte e o novo nascimento. 0
homem não se achava dentro desses seres, mas fazia parte de sua esfera de atuação de modo que seu
querer era, essencialmente, o querer deles, e não seu próprio.

Antes desse período existe outro; a retrospectiva não nos faz chegar ao homem em sua constituição
anímico espiritual atual, mas a um mundo de seres divino espirituais dentro dos quais o homem se
encontrava qual um gérmen. São os Arqueus.

Demonstrando a vida de um determinado indivíduo, não se chega a um ser divino espiritual, mas a todos
os que fazem parte dessa hierarquia.

Nesses seres reina a vontade de que o homem venha a existir. A vontade de todos participa da gênese de
cada homem individual. Sua ação conjunta, "em coro", tem por meta cósmica a criação da foram humana.
Pois o homem vive, ainda sem forma, no mundo divino espiritual.

Pode parecer curioso que todo o coro dos seres divino espirituais atue mesmo para formar um homem
individual. Mas já houve, na Lua, no Sol e em Saturno, a atuação das hierarquias, dos Exusiai, Dynameis,
Kyriotetes, Tronos, Querubins e Serafins, para formar o homem.

Aquele que tinha surgido antes em Saturno, no Sol e na Lua, uma espécie de proto homem, não tinha
forma unitária. Havia precursores do homem em que predomina o sistema dos membros, outros com
predomínio do sistema toráxico ou do sistema da cabeça. Nem por isso eram homens autênticos e são
chamados aqui de proto homens para diferenciá los da fase posterior onde aparece à convergência de
todos os sistemas na figura humana. A diferenciação entre esses proto-homens ia ainda muito mais longe;
é possível falar em homens coração, homens pulmão, etc.

A hierarquia dos Arqueus considera como sua tarefa levar para a feição humana geral todos esses proto
homens cuja vida anímica correspondia à sua configuração básica unilateral.

Os Arqueus receberam o homem das mãos dos Exusiai. Esses já tinham criado em pensamento, uma
unidade a partir da diversidade humana. Mas nos Exusiai, essa unidade ainda era uma figura ideal, uma
figura sob a forma de pensamentos cósmicos. Os Arqueus plasmaram, a partir dela, a forma etérica, mas
essa já continha as forças para gerar a forma física.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à segunda parte da consideração: "0 que se revela ao olhar retrospectivo dirigido às vidas
anteriores entre a morte e o novo nascimento?")

(25/01/1925)

150. Numa segunda fase da evolução das vidas entre a morte e o novo nascimento, o homem penetra no
âmbito dos Arcanjos. Durante essa fase, o gérmen da auto-consciência posterior é implantado no anímico,
depois de ter sido colocado, na primeira fase, na formação da configuração humana.

151. Durante essa segunda fase, o homem é impelido pelas influências luciféricas e arimânicas mais
fundo para o físico do que aconteceria sem essas influências.

152. No terceiro período, o homem entra na esfera dos Anjos, os quais porém, só exercem sua influência
no corpo astral e no Eu. Esse período é o atual. 0 que ocorreu nos dois primeiros continua vivendo na
evolução da humanidade e explica o fato de o homem só ver a mais completa escuridão, quando olha, na
época da alma da consciência (no Século XIX) para o mundo espiritual.

O que é a Terra realmente no Macrocosmo?


Temos enfocado nestas considerações, dos mais diversos pontos de vista, o devir do cosmo e da
humanidade. Evidenciou se como o homem recebeu do cosmo extra terrestre as forças constitutivas de
sua entidade, exceto aquelas que lhe proporcionam a auto-consciência. Estas têm sua origem na Terra.

Com isso explica se a importância do terrestre para o homem. Surge então a pergunta: qual a importância
do terrestre para o macrocosmo?

Para se aproximar da resposta a essa pergunta, é necessário voltar ao que já foi exposto.

Na medida em que o olhar remonta ao passado, a consciência vidente vê o macrocosmo caracterizado por
uma vitalidade cada vez maior. Num passado remoto, ele vive de maneira que cessa toda previsão de
suas manifestações vitais. 0 homem é segregado dessa vitalidade. 0 macrocosmo entra cada vez mais na
esfera do que pode ser previsto.

Dessa maneira, porém, entra num processo de morte. 0 macrocosmo morre na medida em que dele surge
o homem, o microcosmo, como entidade autônoma.

Na atualidade cósmica existe um macrocosmo morto. Mas com o devir do mesmo, surgiu não só o
homem, mas também a Terra.

Tirando da Terra as forças para sua auto-consciência, o homem está excessivamente próximo a ela, para
poder perscrutar sua essência. Na era da alma da consciência, enquanto se desenvolvia plenamente a
auto-consciência, os homens se acostumaram a olhar apenas para o tamanho espacial do universo e a
considerar a Terra como um grão de poeira insignificante perante o universo físico espacial.

Por isso, inicialmente, parecerá esquisito, quando uma contemplação espiritual revelar o verdadeiro
significado cósmico desse "grão de poeira".

Os reinos vegetal e mineral são acolhidos pela base mineral da Terra.

Em tudo isso vivem as forças que se manifestam das mais diversas maneiras no decorrer do ano.
Vejamos o reino vegetal. Ele nos mostra forças que esmorecem no outono e no inverno. A consciência
vidente percebe nessa manifestação a essência daquelas forças que fizeram perecer o macrocosmo. Na
primavera e no verão vemos no reino vegetal forças que germinam e vicejam. A consciência vidente
percebe nesse germinar e vicejar não somente aquilo que faz nascer à plenitude do mundo vegetal para o
ano em curso, mas um excedente. Trata se de um excedente da força germinativa. As plantas contém
mais força germinativa do que necessitam para o crescimento das folhas, flores e frutos. Diante da
consciência vidente, esse excedente de força germinativa flui ao macrocosmo extra terrestre.

Da mesma forma, um excedente de força flui também do reino mineral ao cosmo extra terrestre. Essa
força tem a tarefa de levar as forças oriundas das plantas, ao seu destino certo no macrocosmo. Sob a
influência das forças minerais, uma nova imagem do macrocosmo nasce das forças vegetais.

Existem também forças que emanam do reino animal. Não atuam irradiando da Terra, como fazem as
forças vegetais e minerais; sua atuação consiste em dar forma esférica a tudo que, de vegetal, é levado ao
cosmo pelas forças minerais; nasce então a imagem de um macrocosmo fechado de todos os lados.

É essa visão que a consciência dotada de cognição espiritual tem da essência do terreno. Essa essência
vivifica o macrocosmo em vias de perecimento.

Assim como o gérmen vegetal, tão pequeno em termos espaciais, dá origem a uma planta inteira e grande
quando a antiga entra em decomposição, o "grão de poeira", a Terra, dá origem a um novo macrocosmo
enquanto o antigo, morto, se desagrega.

É essa a verdadeira contemplação da entidade da Terra que revela, em toda parte, um mundo em
processo de germinação. Só conhecemos os reinos da natureza, sentindo neles aquilo que está
germinando.

Em meio a esse ambiente germinante, o homem passa sua existência terrena. Ele participa tanto nos
processos de germinação como nos de morte. Deste último, ele tira suas forças do pensar. Enquanto, no
passado, estas provinham do macrocosmo que ainda estava vivo, não eram o fundamento do homem auto
consciente. Existiam como forças de crescimento no homem que ainda não possuía a consciência de si
mesmo. As forças do pensar, em si, não podem ter vida própria enquanto devem ser a base da auto-
consciência humana autônoma. Devem constituir, juntamente com o macrocosmo perecido, as sombras
mortas daquilo que estava vivo na época cósmica primeva.

De outro lado, o homem participa na vida germinativa da Terra. As forças da sua vontade nascem dela.
Elas são vida mas, em compensação, com sua auto-consciência, o homem não participa de sua essência.
No interior do ser humano as forças da sua vontade irradiam para as sombras dos pensamentos. Estas as
impregnam, e é a auto-consciência plena e livre que, na época da alma da consciência, penetra no
homem, como resultado do pensar livre que se desenvolve no ser germinativo da Terra.

Encontra se, pois, na entidade humana, o passado, projetando suas sombras, e o futuro, contendo
germens de uma nova realidade. E o lugar desse encontro é a vida humana atual.

Que as coisas tenham esse aspecto, a consciência vidente o percebe tão logo ascende à região espiritual
que fica diretamente adjacente ao plano físico, na qual também encontramos a atividade de Micael.

Toda a vida no âmbito do terreno torna se transparente quando se tem a sensação de que nela atua,
como embasamento, o gérmen do cosmo. Toda forma vegetal, toda pedra aparecem à alma humana
numa nova luz quando ela se dá conta como cada um desses seres contribui, pela sua vida e pela sua
constituição, para fazer da Terra, considerada como um todo, o embrião de um novo macrocosmo em
formação.

Procure se fazer do pensamento centrado nesse fato, algo bem vívido; notar se á então que pode adquirir
um significado especial dentro da alma humana.

Goetheanum, janeiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com relação às considerações precedentes: 0 que é a Terra realmente no macrocosmo?)

(01/02/1925)

153. No começo da época da alma da consciência, os homens se acostumaram a dirigir os olhos para a
extensão físico espacial do universo e dar ênfase a esta. Por isso se denomina a Terra um grão de poeira
dentro desse universo que, fisicamente, parece ser tão imenso.

154. Diante da consciência vidente, esse "grão de poeira" revela se como gérmen de um macrocosmo em
formação, enquanto o antigo mostra que já morreu. Tinha que morrer, para o homem poder alienar se dele
com plena consciência de si mesmo.

155. Na época cósmica atual, o homem participa no macrocosmo morto com as forças intelectivas que o
libertam, e no novo macrocosmo, que vem a viver e que germina sob forma de entidade terrena, ele
participa com as forças da sua vontade cuja essência, porém, lhe permanece oculta.

O Sono e o estado de Vigília à luz das considerações anteriores

O sono e o estado de vigília já têm sido objeto de considerações antroposóficas sob vários pontos de
vista. Mas a compreensão de tais fatos deve ser novamente aprofundada quando novas áreas tiverem
sido observadas. As explicações sobre o fato de ser a Terra um gérmen para o macrocosmo em vias de
formação resultam na possibilidade de uma compreensão mais profunda das concepções sobre sono e
vigília.

No estado de vigília, o homem vive nas sombras dos pensamentos, projetadas por um mundo morto e nos
impulsos da vontade, cuja essência íntima está tão oculta à sua consciência normal como o são os
acontecimentos do sono profundo, sem sonhos.

Quando esse impulso volitivo subconsciente flui às sombras dos pensamentos, nasce a auto-consciência
livre. Nessa auto-consciência vive o Eu.

Enquanto o homem vivência, nesse estado, o seu mundo ambiente, sua vivência interior está sendo
permeada por impulsos cósmicos extraterrestres que se estendem de um passado cósmico longínquo até
o presente. Ele não tem consciência desse fato. Um ser qualquer só pode se tornar consciente de algo do
qual participa com suas próprias forças que se acham num processo de desagregação, mas não com
forças que vivem crescendo e animam o próprio ser. 0 homem vivência, pois, a si mesmo enquanto perde
de sua visão espiritual aquilo que fundamenta seu próprio ser interior. Mas é justamente por isso que está
em condições de, durante o estado de vigília, se sentir inteiramente nas sombras dos pensamentos.
Nenhum impulso de vitalidade impede a vida interior de participar naquilo que está morto. Mas a essência
do terreno, gérmen de um novo universo, não se abre àquela "vida no que está morto". No estado de
vigília, o homem não percebe como a Terra realmente é; escapa lhe sua vida cósmica principiante.

Vive o homem, naquilo que a Terra lhe dá como fundamento de sua auto-consciência. Na época do
desabrochar do eu auto consciente, ele perde a visão espiritual da verdadeira natureza de seus impulsos
interiores e de seu mundo ambiente. Pairando dessa maneira acima do ser do mundo, ele vivência o ser
do Eu, sentindo se como ente dotado de auto-consciência. Acima dele o cosmo extra terrestre; abaixo
dele, no âmbito terreno, um mundo cuja essencialidade lhe fica escondida; entre ambos, a revelação do
Eu livre cuja essencialidade brilha no fulgor do conhecimento e do livre querer.

E diferente no estado de sono. Aí, o homem vive, por meio de seu corpo astral e de seu Eu, na vida
germinativa da Terra. Quando dorme sem sonhar, seu mundo ambiente é animado de um impulso muito
intensivo de "querer chegar à vida". Os sonhos são imbuídos dessa vida, mas não tão intensamente que o
homem não os pudesse vivenciar numa espécie de semiconsciência. Nessa visão semiconsciente dos
sonhos, percebemos as forças pelas quais a essência humana está sendo tecida a partir do cosmo. No
refulgir do sonho, se torna visível, como o astral flui ao corpo etérico, vitalizando o indivíduo. Nesse
refulgir, o pensamento ainda está vivo. Só depois do despertar, ele fica envolto pelas forças que o fazem
morrer, transformando o em mera sombra.

Essa relação entre a representação onírica e o pensamento do estado de vigília é algo significativo. 0
homem pensa com as mesmas forças que o fazem viver e crescer; só que elas devem morrer para que ele
se transforme em ser pensante.

É nessa altura que pode surgir a correta compreensão de porque o homem pode captar a realidade por
meio do pensar. Ele tem em seus pensamentos, a imagem morta daquilo que plasma a ele mesmo a partir
de uma realidade cheia de vida.

Essa imagem morta é o produto da atividade do maior pintor que é o próprio cosmo. É verdade que a vida
está ausente dessa imagem. Se não estivesse, o eu não poderia se desenvolver. Mas todo o conteúdo do
universo, em sua glória, está presente nela.

Na medida em que me era possível expor isso, eu já apontei em minha "Filosofia da Liberdade" para esse
relacionamento interior entre o pensar e a realidade do mundo; foi naquele trecho onde digo que uma
ponte conduz das profundidades do Eu pensante às profundidades da realidade da natureza.

Para a consciência comum, o sono tem um efeito apagador pois conduz à vida germinativa da Terra, que
se transmite ao macrocosmo em formação. Se essa ação apagadora for inibida pela consciência
imaginativa, a alma não se defronta com uma Terra dividida por contornos nítidos em reino mineral,
vegetal e animal. Existe, antes, um processo vivo que se acende na Terra e se projeta em flamas ao
macrocosmo.

É uma necessidade o homem destacar se, no estado de vigília, com seu Eu, do ser do mundo; só assim
atingirá a auto-consciência livre. No estado de sono, ele volta a unir se com o ser do mundo.

É esse o ritmo que reina, no momento cósmico atual, entre a vida humana na Terra, fora do "âmago" do
mundo, acompanhada pela vivência da existência própria da vida no "âmago" do universo, estando
apagada a consciência da existência própria.

No estado entre a morte e um novo nascimento, o Eu humano vive dentro dos seres do mundo espiritual.
Aí penetra na consciência tudo que dela se subtrai durante a vida de vigília na Terra. Surgem as forças
macrocósmicas, desde sua vida plena num passado remoto, até seu estado de morte no presente.
Surgem também as forças terrestres, gérmen do macrocosmo em formação. E assim, o homem tem a
visão dos seus estados de sono, como enxerga, durante sua vida terrestre, a Terra banhada pelos raios
do Sol.

E só graças ao fato do macrocosmo, tal como é atualmente, ter se tornado algo morto, que o ser humano
pode atravessar, entre a morte e o novo nascimento, uma forma de vida que significa, quando comparado
com a vida de vigília na Terra, um despertar superior. Um despertar que capacita o homem para dominar
totalmente aquelas forças que apenas refulgem fugazmente durante o sonho. Essas forças preenchem
todo o cosmo, elas permeiam tudo. É delas que o homem tira os impulsos que lhe permitem plasmar, ao
descer para a Terra, seu corpo, que é a maior obra de arte do macrocosmo.

Aquilo que se manifesta no sonho como algo crepuscular, abandonado pelo Sol, vive no mundo espiritual
como algo banhado pelo Sol, na expectativa que os seres das hierarquias superiores ou o homem o
chamem para lhe dar, por um ato criador, uma existência essencial.

Goetheanum, janeiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(08/02/1925)

156. Para se vivenciar na auto-consciência plena e livre no estado de vigília, o homem deve renunciar à
vivência da verdadeira configuração da realidade na própria existência e naquela da natureza. Ele emerge
do oceano dessa realidade para ter, nas sombras do seu pensamento, a experiência realmente sua do seu
próprio Eu.

157. No estado de sono, o homem convive com o seu ambiente terrestre; mas esse convívio apaga sua
auto-consciência.

158. No sonho ocorre um bruxulear semiconsciente da vigorosa existência cósmica da qual é plasmada a
essência do homem, e a partir da qual ele formou seu corpo enquanto descia do mundo espiritual. Essa
vigorosa realidade cósmica definha na vida terrestre do homem até subsistir apenas como sombras de
pensamentos, pois é só desta maneira que pode servir de fundamento para a consciência do homem.

Gnose e Antroposofia

Quando se consumou o Mistério do Gólgota, esse maior acontecimento na evolução da Terra, uma parte
da humanidade pôde compreendê lo não apenas sentimentalmente, mas por meio da cognição; a maneira
de pensar desses homens era a "gnose".

Para compreender o estado anímico no qual a gnose vivia nos homens, é preciso lembrar que a época
dessa gnose era aquela do desabrochar da alma da razão ou do sentimento.

Nesse fato reside também a causa do desaparecimento quase que total da gnose, da história da
humanidade. Enquanto não for compreendido, esse desaparecimento é um dos acontecimentos mais
surpreendentes do desenvolvimento da humanidade.

0 desabrochar da alma da razão ou do sentimento foi precedido por aquele da alma da sensação,
precedido por sua vez, pelo desenvolvimento do corpo da sensação. Quando os fatos do mundo são
percebidos pelo corpo da sensação, toda a cognição do homem vive nos sentidos. 0 mundo é percebido
como colorido, sonoro, etc. Mas os homens sabiam que um mundo de seres espirituais estava presente
nas cores, nos sons, nos estados térmicos, etc. Não se falava numa "matéria" na qual se manifestam as
cores, estados térmicos, etc., mas sim em seres espirituais que se manifestam através daquilo que era
percebido pelos sentidos.

Ainda não existia naquele tempo, o desenvolvimento de uma "razão", ao lado da percepção sensorial. 0
homem abria se ao mundo exterior, e ai os deuses se lhe manifestavam pelos sentidos; ou, em sua vida
anímica, retraia se, do mundo exterior, tendo então em seu interior uma vaga sensação da vida.

Uma reviravolta notável ocorreu com o surgir da alma da sensação. A revelação do divino pelos sentidos
foi se apagando. Ela foi substituída pela percepção das impressões sensoriais das cores, estados de
calor, etc., em que o divino não estava mais presente. No interior o divino manifestava se de forma
espiritual em idéias pictóricas. 0 homem percebia então o mundo sob dois aspectos: de fora, pelas
impressões dos sentidos, de dentro, pelas impressões do espírito, que se manifestavam como idéias.

0 homem deve chegar a perceber as impressões espirituais tão nítidas e definidamente como antes
percebera as impressões sensoriais permeadas pelo divino. Ele o pode, enquanto dura a época da alma
da sensação, pois as imagens ideais afloram do seu interior com uma forma bem definida. Preenche o, de
dentro, um conteúdo espiritual que não possui caráter sensorial e constitui uma imagem do conteúdo do
mundo. Os deuses que se lhe haviam revelado antes, numa roupagem sensorial, passam a manifestar-se
numa roupagem espiritual.

É essa a época do surgimento e da existência da gnose. Reina um conhecimento maravilhoso e o homem


participa dele desde que consiga abrir o cerne do seu ser num ambiente de pureza, a fim de que o
conteúdo divino possa manifestar se através dele. Essa gnose reina do quarto até o primeiro milênio antes
do Mistério do Gólgota, na parte da humanidade mais avançada, quanto à cognição.

Começa, em seguida, a época da alma da razão ou do sentimento. As imagens divinas do mundo deixam
de aflorar espontaneamente do cerne do ser humano. Este tem de mobilizar uma energia interior para que
o façam. 0 mundo exterior com suas impressões sensoriais vem a ser problemático. 0 homem recebe
respostas usando a força interior para fazer surgir do seu interior as imagens divinas do mundo.

Mas essas imagens são agora pálidas em comparação com seu aspecto anterior. Essa disposição
anímica da humanidade chegou a um desenvolvimento admirável na Grécia. 0 homem grego sentia se
viver nesse mundo sensorial exterior e teve nela o poder mágico que estimulava a força interior a produzir
as imagens do mundo. No campo da filosofia, essa disposição anímica desabrochou no platonismo.

Por trás de tudo isso, porém, atuava o mundo dos mistérios. Nele foram fielmente conservados os
remanescentes da gnose, da era da alma da sensação. As almas eram treinadas para essa fiel
conservação. A evolução geral levou à gênese da alma da razão ou do sentimento. A alma da sensação
foi reavivada por um treino especial, resultando dai, na era da alma da razão ou do sentimento, uma
diversidade de mistérios bem evoluídos, por trás da vida cultural comum.

As imagens cósmicas dos deuses também estavam presentes pelo fato de se tornarem objeto de um
culto. As pessoas tinham uma visão íntima dos mistérios e vislumbravam o universo, projetado nas
imagens das mais sublimes instituições cúlticas.

Os homens que tinham essa experiência eram os mesmos que compreenderam o significado cósmico
mais profundo do Mistério do Gólgota. Mas esses mistérios se mantinham longe da agitação do mundo, a
fim de desenvolver as imagens cósmicas em toda a sua pureza. E tornou se cada vez mais difícil para os
homens, participar desse desenvolvimento.

Aí houve seres espirituais que desceram do cosmo espiritual aos santuários dos mistérios mais evoluídos
para ajudar os homens em busca de conhecimento. Os impulsos da era da alma da sensação
continuavam, pois, a desenvolver se, sob a influência dos próprios "deuses". Surgiu uma gnose dos
mistérios da qual, pouquíssimas pessoas tinham a menor idéia. Ao lado dela desenvolvia se aquilo que os
homens podiam assimilar com a alma racional: era a gnose exotérica da qual alguns fragmentos
chegaram à posteridade.

Na gnose esotérica dos mistérios, os homens tornavam se, cada vez mais incapazes de se elevarem ao
desenvolvimento da alma da sensação. Sua sabedoria esotérica passou a ser, sempre, mais um culto
dedicado aos "deuses". E isto é um segredo do desenvolvimento histórico: que "mistérios divinos" atuaram
desde os primeiros séculos cristãos até a Idade Média.

Nesses "mistérios divinos", algo que não podia mais ser guardado pelos homens, foi conservado pelos
seres angélicos na existência terrena. Continuou reinando a gnose dos mistérios, enquanto havia esforços
para extirpar a gnose exotérica.

0 conteúdo das imagens cósmicas, que na gnose dos mistérios era guardado, de modo espiritual, por
seres espirituais enquanto devia atuar na evolução da humanidade, não pode ser conservado para a
compreensão consciente da alma humana. Mas o conteúdo sentimental devia ser conservado. No
momento cósmico certo, esse conteúdo devia ser transmitido a uma humanidade devidamente preparada,
para que a alma da consciência pudesse penetrar, mais tarde, de uma nova maneira, no reino do espírito,
graças ao calor anímico do conteúdo da gnose. Foram, pois, seres espirituais que lançaram uma ponte
entre o antigo conteúdo do universo, e o novo.

Existem alusões a esse mistério da evolução da humanidade. 0 sagrado cálice de jaspe do Graal, do qual
o Cristo se serviu quando partiu o pão, no qual José de Arimatéia recolheu o sangue que escorria da ferida
de Jesus, cálice este que, portanto, continha o Mistério do Gólgota, e que de acordo com a lenda, foi
guardado pelos anjos até poder ser entregue aos homens devidamente preparados, depois de Titurel ter
construído o castelo do Graal.

Foram seres espirituais que guardaram as imagens cósmicas em que viviam os segredos do Gólgota.
Quando os tempos haviam chegado, esses seres implantaram nas almas humanas o conteúdo
sentimental, já que não era possível implantar o conteúdo das imagens.

Essa implantação do conteúdo sentimental do antigo conhecimento pode constituir apenas um estímulo;
mas é um estímulo extremamente forte para que se desenvolva em nossa era da alma da consciência
uma nova e total compreensão do Mistério do Gólgota, à luz da atuação de Micael.

A Antroposofia almeja essa nova compreensão. A descrição dada deixa claro que ela não pode constituir
uma renovação da gnose, cujo conteúdo se baseava no tipo de cognição próprio da alma da sensação;
mas ela pretende haurir da alma da consciência um conteúdo não menos rico, por um caminho totalmente
novo.

Goetheanum, janeiro de 1925

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA

(15/02/1925)

159. A gnose desenvolve se em sua forma autêntica na época da alma da sensação (4º ao 1º milênio
antes do Mistério do Gólgota). 0 "divino" manifesta se durante esse período, no interior do homem, como
conteúdo espiritual, enquanto se manifestara na época anterior, a do corpo da sensação, nas impressões
sensórias do mundo exterior.

160. Na época da alma da razão ou do sentimento o conteúdo espiritual do "divino" só pode ser vivenciado
de uma maneira pálida. A gnose é conservada em mistérios rigorosos. Quando os homens não são mais
capazes de fazê lo, por não poderem mais vivificar a alma da sensação, seres espirituais transmitem à
Idade Média senão o conteúdo cognitivo, pelo menos o conteúdo sentimental (A lenda do Graal contém
alguns indícios desse fato). Ao mesmo tempo, a gnose exotérica que penetra na alma do intelecto ou do
sentimento, é extirpada.

161. A Antroposofia não pode constituir uma renovação da gnose, pois esta estava ligada com o
desenvolvimento da alma da sensação. A Antroposofia deve desenvolver, de uma forma nova, uma
compreensão do universo e do Cristo, à luz da atividade de Micael e a partir da alma da consciência. A
gnose era o modo de conhecer, guardado desde tempos antigos, que melhor podia proporcionar aos
homens uma compreensão do Mistério do Gólgota, no momento em que este se realizou.

A Liberdade do Homem e a Era de Micael

Na capacidade de recordação do homem, vive a projeção personificada de uma força cósmica que atuou
na formação da entidade humana da maneira mencionada nas últimas considerações. Essa força cósmica
continua ativa ainda hoje. Ela atua, como energia de crescimento, como impulso vitalizante que age por
trás dos bastidores da vida humana. É lá que atua principalmente; apenas uma pequena parte penetra na
alma da consciência, onde atua como força da recordação.

Essa força deve ser interpretada corretamente. Quando o homem tem, na época atual da evolução
cósmica, percepções sensoriais, essas equivalem a um refulgir momentâneo de imagens cósmicas em
sua consciência. Esse refulgir ocorre quando o sentido é dirigido ao mundo exterior; ilumina a consciência
e some quando o sentido deixa de dirigir se ao mundo exterior. 0 que aí refulge na alma, não deve ter
duração; caso contrário o homem não conseguiria eliminá lo a tempo de sua consciência, e ele perderia
sua identidade, entregando se totalmente ao conteúdo de sua consciência. 0 "refulgir" pela percepção
deve ficar na consciência apenas durante curto tempo, sob forma das chamadas pós imagens que
interessavam a Goethe. Esse conteúdo da consciência deve ficar como imagem, e não enrijecer se em
existência. Não pode tornar se real, tampouco como o pode a imagem no espelho.

0 homem tanto se perderia em algo que vive na consciência como realidade, como em algo que tivesse
duração a partir de si mesmo. Ele não poderia continuar a ser ele próprio.
Perceber o mundo exterior pelos sentidos equivale, pois, a um "pintar interior" realizado pela alma. Um
pintar sem material de pintura. Esse pintar se realizaria no nascer e perecer do espiritual. Assim como o
arco íris aparece e desaparece na natureza, sem deixar um vestígio, a percepção nasce e desvanece sem
que ela, por sua existência própria, deixe uma recordação.

Mas ocorre que cada percepção é acompanhada, simultaneamente, por um outro processo que se realiza
entre a alma e o mundo ambiente. Situa se em regiões mais abscônditas da vida anímica, lá onde atuam
as forças do crescimento, os impulsos da vida. Enquanto percebemos, não é apenas uma imagem
efêmera mas uma imagem real e duradoura que se grava nessa região da alma. Pode o homem suportar
essa imagem, pois ela se relaciona com o ser do homem considerado como conteúdo do cosmo.
Realizando esse processo, ele não pode perder se, tão pouco quanto não se perde quando cresce ou se
alimenta sem a plena consciência disso.

Quando o homem apreende em seu interior as recordações, isso é uma percepção interior do que restou
do segundo processo que se desenrola durante a percepção exterior.

Mais uma vez, a alma está pintando, mas desta vez é o passado que vive no próprio interior. Aqui também
não é algo real e permanente que se deve formar na consciência enquanto a alma pinta, mas apenas uma
imagem que surge e desaparece.

Essa é, pois, a relação que existe na alma humana entre a representação baseada na percepção, e a
recordação.

Todavia, as forças da recordação tendem constantemente a ser mais do que podem, se o homem, como
ser auto consciente, não deve perder a si mesmo.

Pois são restos do passado e caem, por isso, sob o poder de Lúcifer. Este procura condensar no homem
as impressões do mundo exterior, fazendo com que brilhem constantemente na consciência como
representações mentais.

Esse esforço luciférico seria bem sucedido se não se lhe opusesse a força micaélica. Ela não permite
àquilo que foi pintado na luz interior, enrijecer a ponto de se tornar uma realidade; mantém no como
imagem que aparece e se desvanece.

0 excesso de forças que sobe do interior humano devido a Lúcifer, na era de Micael, será transformado
em forças imaginativas. Com efeito, a capacidade de ter imaginações penetrará paulatinamente na
consciência intelectual da humanidade. Nesse processo, porém, o homem não fará pesar sobre sua
consciência presente, uma realidade duradoura, pois as imagens continuarão nascendo e desaparecendo.
Com suas imaginações, o homem alcançará um mundo espiritual superior, assim como desce com suas
recordações em seu próprio ser. Ele não guarda em si as imaginações; elas são gravadas no ser do
cosmo e o homem sempre poderá copiá las, pintando as em sua vida representativa pictórica.

Aquilo que Micael impede de enrijecer no interior do homem, o mundo espiritual o acolhe. As vivências
que resultam da energia das imaginações conscientes, tornam se conteúdo do mundo. Que isso seja
possível, é uma conseqüência do Mistério do Gólgota. É a força de Cristo que grava a imaginação do
homem no cosmo, a força de Cristo unida à Terra. Enquanto ainda não estava unida com a Terra mas
atuava de fora como força solar, todos os impulsos de crescimento e de vitalidade do homem fluíam para
dentro do homem. Destarte, o homem era criado e conservado a partir do cosmo. Desde que o impulso
crístico atua dentro da Terra, o homem é restituído ao cosmo como ser auto consciente.

De um ser cósmico, o homem veio a ser um ente terreno; ele tem a disposição de voltar a ser um ente
cósmico, depois de ter se tornado, ele mesmo, um ente terreno.

0 fato de o homem viver com suas representações atuais não numa realidade existente, mas numa
reflexão da realidade, numa realidade de imagens, implica na possibilidade de se desenvolver a liberdade.
Toda realidade na consciência é algo que coage. Mas uma imagem não pode coagir. Se algo deve
acontecer pela impressão feita por uma imagem, a necessidade da ação deve ser independente dele. 0
homem torna se livre pelo fato de elevar se da existência com sua alma da consciência, e emergir na
essência pictórica não existente.

Nessa altura surge uma pergunta significativa: será que o homem não perde a existência real ao
abandoná la com parte do seu ser, mergulhando na não existência?
Eis mais um ponto onde a contemplação do mundo nos coloca diante de um grande enigma.

Aquilo que se vivência na consciência como representação, nasceu do cosmo. Em relação ao cosmo, o
homem precipita se no não ser.

Representando, liberta se de todas as forças do cosmo. Ele pinta o cosmo fora do qual ele se encontra.

Se fosse apenas assim, a liberdade refulgiria no ser humano por um instante cósmico; mas no mesmo
instante, a entidade humana se desintegraria. Todavia, embora tornando se livre do cosmo em seu
representar, o homem continua vinculado em sua vida anímica não consciente, com suas vidas terrenas
anteriores e com suas vidas entre a morte e o novo nascimento. Como ser consciente, ele se encontra
numa existência de imagem, e como ser inconsciente, ele participa numa realidade espiritual. Vivência a
liberdade em seu Eu presente, mas seu Eu passado conserva o na existência.

No que se refere à existência, o homem está entregue, no representar, àquilo que ele veio a ser pelo seu
passado cósmico e terreno.

Com isso, apontamos ao abismo do nada que se abre na evolução do homem, o qual ele transpõe ao se
tornar um ser livre. Esse salto é possibilitado pela atuação de Micael e pelo impulso de Cristo.

Goetheanum, janeiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente consideração sobre "A liberdade do Homem e a Era de Micael)

(22/02/1925)

162. Enquanto forma representações mentais, o homem não vive com sua alma da consciência, em algo
que tem existência real, mas sim, numa existência de imagem ou seja, na não existência. Isso o liberta de
uma convivência com o cosmo. Imagens não coagem. Só coage o que tem existência real. Se o homem,
não obstante, deixa se determinar por imagens, ele não o faz por depender delas, mas em completa
liberdade do mundo.

163. No momento em que forma representações desse tipo, o homem só está ligado com a existência do
mundo por meio daquilo que veio a ser, a partir do passado das suas vidas terrestres anteriores e das
suas existências entre a morte e o novo nascimento.

164. Esse salto por cima da não existência frente ao cosmo, o homem só pode dá lo graças à atividade de
Micael e ao impulso do Cristo.

Onde se encontra o Homem como ser que pensa e se recorda?


Com o representar (pensar) e a vivência de recordações, o homem se encontra dentro do mundo físico.
Mas para onde quer que ele dirija o olhar neste mundo físico, com seus sentidos, não encontrará, em lugar
algum, nada que lhe pudesse dar as forças para representar e recordar.

No representar aparece a auto-consciência. Esta, no sentido das abordagens precedentes, é uma


conquista que o homem tem pelas forças do terrestre. Mas estas forças terrestres são tais que
permanecem ocultas à visão sensorial. É certo que o homem, na vida terrena, só pensa o que seus
sentidos lhe transmitem; mas nada de tudo que ele assim pensa, lhe dá a força para o pensar.

Onde se encontra essa força que forma o representar (pensar) e as imagens de recordação a partir do
terrestre?

Ela pode ser encontrada quando se dirige o olhar espiritual para o que o homem traz consigo das vidas
terrestres anteriores. A consciência habitual não conhece isto. Inicialmente vive inconscientemente no
homem. Mas, quando o homem chega à Terra após a existência espiritual, mostra-se afim com aquelas
forças terrestres que não caem no âmbito de observação sensorial e pensar sensorial.

0 homem não se encontra neste âmbito com o representar (pensar), mas com o querer, que se desenrola
no sentido do destino.

Considerando que a Terra contém forças que caem fora do âmbito sensorial, pode se falar da "Terra
espiritual" como polo contrário à física. Então resulta que o homem vive, como ser volitivo, dentro e com a
"Terra espiritual", mas que ele como ser que representa (pensante) está dentro da Terra física, mas que
não vive como tal com ela.

0 homem como ser pensante traz forças do mundo espiritual ao físico; mas com estas forças ele
permanece ser espiritual que apenas aparece no mundo físico, porém não entra em nenhuma comunidade
com ele.

Durante a existência terrestre o homem que representa (pensante) só entra em comunidade com a "Terra
espiritual" e, a partir desta comunidade, cresce lhe sua auto-consciência.

Seu surgimento se dá, portanto, graças a tais processos que se desenrolam como espirituais na vida
terrena com o homem.

Ao se abarcar com a visão espiritual o que aqui se descreve, tem se o "eu humano" diante desta visão.

Com as vivências de recordação chega se ao âmbito do corpo astral humano. No recordar não afluem,
meramente como no representar (pensar), os resultados de vidas terrestres anteriores para dentro do eu
atual, mas, para o seu interior, afluem às forças do mundo espiritual, que o homem vivência entre morte e
novo nascimento. Este afluir acontece no corpo astral.

Contudo, tampouco há dentro da Terra física algum âmbito para a acolhida direta das forças assim
afluentes. Enquanto ser que se recorda, o homem tampouco pode se ligar com as coisas e processos
percebidos por seus sentidos, como consegue se ligar a estes enquanto ser que representa.

Porém, ele entra em comunidade com o que não é físico, mas transforma o físico em processos, em
acontecimentos. São estes processos rítmicos na vida humana e da natureza. Na natureza alternam se
ritmicamente dia e noite, estações do ano seguem se ritmicamente, e assim por diante. No homem, a
respiração e a circulação do sangue sucedem em ritmo. Também assim se processa a alternância de sono
e vigília e assim por diante.

Os processos rítmicos não são físicos nem na natureza nem no homem. Poder se iam chamá los semi
espirituais. 0 físico desaparece como coisa no processo rítmico. No recordar, o homem está colocado com
seu ser em seu ritmo e no da natureza. Ele vive em seu corpo astral.

A ioga hindu quer abrir se totalmente à vivência do ritmo. Quer abandonar o âmbito do representar, do eu,
e em uma vivência interna, semelhante ao recordar, quer olhar para o mundo que se encontra por trás do
que a consciência habitual pode conhecer.

A vida espiritual ocidental não pode reprimir o eu para o processo cognitivo. Deve aproximar o eu da
percepção do espiritual.

Não pode acontecer que se vivencie no ritmo apenas o tornar se semi-espiritual do físico, quando se for
penetrando do mundo sensorial ao mundo rítmico. Deve se encontrar a esfera do mundo espiritual que se
revela no ritmo.

Portanto, duas coisas são possíveis. Primeiro: vivenciar o físico no rítmico, como este físico se torna semi
espiritual. Este é um caminho mais antigo, que hoje não se trilha mais. Segundo: Vivenciar o mundo
espiritual que tem o ritmo cósmico dentro e fora do homem tão dentro de sua esfera como o homem tem o
mundo terrestre com seus seres e processos físicos.

A este mundo espiritual pertence tudo que acontece através de Micael no momento cósmico atual. Um
espírito como Micael traz aquilo que se encontraria no âmbito luciférico para o âmbito da evolução
puramente humana que não é influenciado por Lúcifer ao escolher o mundo rítmico como sua morada.

Tudo isso pode ser visto quando o homem penetra na imaginação. Pois, com a imaginação, a alma vive
no ritmo; e o mundo de Micael é aquele que se revela no ritmo.

Recordação, memória já se encontra dentro deste mundo, mas ainda não profundamente. A consciência
habitual não vivência nada disto. Porém, ao se penetrar na imaginação, do mundo do ritmo sobressai,
inicialmente, o mundo das recordações subjetivas; mas este passa logo às imagens primordiais, viventes
no etérico, criadas pelo mundo divino espiritual para o mundo físico. Vivência o éter luzente em imagens
cósmicas, que guarda em si a criação do mundo. E as forças solares que urdem neste éter não irradiam
meramente ali, desencantam da luz imagens primordiais do universo. 0 Sol aparece como o pintor
cósmico do mundo. Ele é a contra imagem cósmica dos impulsos que pintam no homem as imagens da
representação (do pensar).

Goetheanum, janeiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com relação à consideração precedente: Onde se encontra o homem como ser que pensa e se recorda?)

(01/03/1925)

165. Na verdade, como ser pensante o homem vive no âmbito da Terra física; porém ele não entra em
comunhão com esta. Como ser espiritual, ele vive de modo a perceber o físico; mas ele recebe as forças
para pensar da "Terra Espiritual" do mesmo modo como vivência o destino no resultado das vidas terrenas
precedentes.

166. 0 que é vivenciado na recordação (na memória), já está no mundo onde no ritmo o físico se torna
semi espiritual e onde se desenrolam processos espirituais como aqueles que acontecem através de
Micael no momento cósmico atual.

167. Quem vem a conhecer corretamente o pensar e a recordação, a ele se descerra à compreensão de
como o homem vive dentro do âmbito da Terra como ser terrestre, mas não penetra completamente neste
âmbito com seu ser, porém, como ser extra terreno, através da comunhão com a "Terra espiritual", busca
sua auto-consciência como sendo a perfeição do eu.

O Homem em sua Essência Macrocósmica


0 cosmo revela-se ao homem inicialmente do lado da Terra e do lado do mundo extra terrestre, do mundo
das estrelas.

0 homem se sente aparentado com a Terra e suas forças. A própria vida instrui-o claramente a respeito
desse parentesco.

0 homem não sente, na era atual, igual parentesco para com o mundo das estrelas. Mas isso dura apenas
enquanto não tem consciência de seu corpo etérico. Apreender este por meio de imaginações equivale a
desenvolver uma sensação de comunhão com o mundo das estrelas, da mesma forma que se recebe da
Terra a consciência do corpo físico.

As forças que colocam o corpo etérico no mundo, provém da periferia do mundo, assim como as relativas
ao corpo físico, irradiam do centro da Terra.

Mas junto com as forças etéricas que fluem da periferia do cosmo para a Terra, vêm também os impulsos
cósmicos que atuam no corpo astral.

0 éter é como um oceano sobre o qual flutuam de todas as direções às forças astrais em direção a Terra.

Na era cósmica atual, só os reinos mineral e vegetal podem relacionar se diretamente com o astral que flui
à Terra sobre as ondas do éter. Os reinos animal e humano não o podem.

A visão espiritual revela, quanto ao reino animal, que não atua, durante o período embrional, o astral que
atualmente flui à Terra, mas aquele que fluiu na época da antiga Lua.

Quanto ao reino vegetal, suas maravilhosas e inúmeras formas têm sua origem no astral que se separa do
éter e atua em todo o mundo das plantas.

No mundo animal revela se como o astral que atuava na antiga Lua ficou conservado espiritualmente;
permaneceu no mundo espiritual e não passou ao mundo etérico.

São também as forças lunares que transmitem a atuação desses impulsos astrais; elas também são um
resto da encarnação da Terra.

Atuam, pois, no reino animal impulsos que se manifestavam exteriormente, como algo natural, no ciclo
anterior da Terra, enquanto se retiraram, na era atual, para o mundo espiritual que atua sobre a Terra
permeando a.
A visão espiritual constata, com referência ao reino animal, que só as forças astrais conservadas do
passado são relevantes, na era presente, para permear os corpos físico e etérico com o corpo astral. Uma
vez formado o corpo astral, os impulsos solares passam a atuar sobre ele. As forças solares não podem
doar ao animal nada de astral; mas têm de promover o crescimento, a alimentação etc. depois que esse
astral veio a morar no animal.

A situação é diferente no que se refere ao reino humano. Originalmente, este também recebe sua
astralidade das forças lunares conservadas. Contudo, as forças solares contém impulsos astrais que não
atuam sobre os animais, mas continuam atuando na astralidade humana da mesma forma como fizeram
as forças lunares quando começaram a permear o homem com astralidade.

Vemos no corpo astral dos animais a atuação do mundo lunar; no corpo astral do homem, os mundos
solar e lunar atuam em conjunto de maneira harmônica.

Esse elemento solar no corpo astral é a causa pela qual o homem pode usar o espiritual que irradia da
Terra, para formar sua auto-consciência. 0 astral flui da periferia do universo. Atua como algo que flui no
presente, ou como algo que fluiu no passado e ficou conservado. Mas tudo que se refere à formação do
Eu como suporte da auto-consciência deve irradiar de um centro estelar. 0 astral atua a partir da periferia,
aquilo que se refere a um Eu, a partir de um centro. A Terra, como estrela, impulsiona a partir de seu
centro o Eu humano. Toda estrela irradia do seu centro forças que dão origem ao Eu de uma entidade
qualquer.

E dessa maneira que se apresenta a polaridade entre centro estelar e periferia cósmica.

Isso explica que o reino animal é hoje o resultado de forças evolutivas passadas da Terra, que ele gasta
as forças astrais conservadas e é fadado a desaparecer, quando estas tiverem sido gastas. E no homem
essas forças astrais são adquiridas do Sol. Elas o capacitam para levar sua evolução adiante, ao futuro.

Como se vê, a essência do homem não pode ser compreendida se não for discernida sua relação com o
mundo das estrelas da mesma forma como aquela com a Terra.

Tudo aquilo que o homem recebe da Terra para desenvolver sua auto-consciência, também provém do
mundo espiritual, que atua no âmbito da Terra. 0 fato de o homem receber do Sol aquilo do qual necessita
para seu corpo astral, decorre de influências ocorridas durante o ciclo do antigo Sol. Ai a Terra adquiriu
capacidade de desenvolver os impulsos referentes ao Eu da humanidade. É o elemento espiritual daquela
época que a Terra conserva do Sol; a influência solar atual o preserva contra a morte.

A própria Terra era outrora um Sol. Ela espiritualizou se e na época cósmica atual, o elemento solar atua
de fora, rejuvenescendo constantemente o elemento espiritual que ficou do passado e tende a envelhecer.
Ao mesmo tempo, o elemento solar presente impede o elemento solar anterior de cair na esfera de
Lúcifer. Pois tudo que atua desde o passado sem ser acolhido nas forças do presente, cai no poder de
Lúcifer.

Na época cósmica presente, o sentimento de sua afinidade com o cosmo extra terrestre é tão abafado no
homem, que não o percebe com sua consciência normal. E não é apenas abafado, ele é superado pelo
sentimento da sua afinidade com a Terra. Como ele precisa desenvolver sua auto-consciência na Terra,
ele se une com ela, no inicio da era da alma da consciência, de maneira tal que a auto-consciência atua
sobre ele mesmo mais fortemente do que convém para o desempenho sadio de sua vida anímica. De
certa maneira, o homem é atordoado pelas impressões do mundo sensorial. Não consegue impor seu
pensar livre e autônomo dentro desse atordoamento.

Toda a época a partir da metade do século XIX foi caracterizada por esse atordoamento causado pelas
impressões dos sentidos. Foi a grande ilusão dessa época, de considerar como vida anímica legítima,
aquela dominada, de forma excessiva, pelos sentidos. Essa vida nas impressões sensoriais tinha a
tendência de abafar completamente qualquer vida no cosmo extra-terrestre.

É dentro desse atordoamento que os seres arimânicos puderam desenvolver sua atividade. Lúcifer mais
do que Arimã era rechaçado pelos impulsos solares; justamente nos homens de mentalidade científica,
Arimã provoca a sensação perigosa de que as idéias só podem ser aplicadas às impressões sensoriais. E
por isso que a Antroposofia encontra pouca compreensão justamente nesses círculos. Os homens que a
eles pertencem, ao serem confrontados com os resultados da pesquisa espiritual, procuram compreendê
los com suas idéias, mas essas não são capazes de captar o espiritual, pois o vivenciar dessas pessoas é
dominado pela cognição arimanizada, limitada aos sentidos. Daí o medo de se cair num autoritarismo
cego, quando se admite os resultados conseguidos por aqueles que possuem a visão espiritual.

Na segunda metade do século XIX, o cosmo extra terrestre tornou se cada vez mais tenebroso para a
consciência humana.

Se o homem voltar à capacidade de vivenciar as idéias, seu olhar receberá do cosmo extra terrestre uma
impressão de clareza, mesmo se essas idéias não se apoiarem no mundo sensorial. Isso significa
conhecer Micael em seu próprio reino.

Quando a festa de Micael for, futuramente, algo autêntico e mútuo, os homens que a celebrarão terão a
sensação e a consciência deste "Leitmotiv": a alma vivenciará a luz do espírito repleta de idéias, quando
as impressões sensoriais estiverem ecoando no homem apenas como recordações.

Se for capaz de ter essa sensação, o homem poderá, depois da elevação anímica da festa, voltar a
mergulhar no mundo dos sentidos de forma correta. E Arimã não lhe poderá fazer mal.

Goetheanum, janeiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à precedente consideração: "0 homem em sua essência macrocósmica")

(08/03/1925)

168. No início da época da alma da consciência, o sentimento de comunhão do homem com o cosmo
extra terrestre ficou mais abafado. De outro lado, a vivência das impressões sensórias fez com que o
sentimento de comunhão com a Terra se tornar-se tão forte justamente no homem de ciência, que
constitui uma obnubilação.

169. Em meio a essa obnubilação, a atuação das potências arimânicas se torna particularmente perigosa
porque o homem nutre a ilusão de que a vivência excessiva e atordoadora das impressões sensórias seria
legítima e constituiria um verdadeiro progresso na evolução.

170. 0 homem deverá encontrar a força para iluminar o mundo das suas idéias e vivenciá lo iluminado,
mesmo se não se apoiar, com suas idéias, no mundo atordoante dos sentidos. Através dessa vivência do
mundo autônomo das idéias, iluminado em sua autonomia, o sentimento de comunhão com o cosmo extra
terrestre despertará. Disso nascerá o fundamento para futuras festas micaélicas.

A Relação entre a organização Sensorial e Intelectiva do Homem e o Mundo


Quando o homem usa a cognição imaginativa para contemplar sua própria entidade, ele se desfaz,
enquanto observa, do seu sistema sensório. Para a contemplação de si mesmo, ele se torna um ser
desprovido desse sistema. Não deixa de ter diante da sua alma imagens que eram anteriormente
veiculadas pelos órgãos sensórios, mas cessa de se sentir ligado por eles com o mundo físico exterior. As
imagens desse mundo que ele tem ante a alma, não são mais veiculadas pelos órgãos dos sentidos;
demonstram, porém, de forma direta, que o homem se relaciona sensorialmente com seu ambiente natural
de uma maneira diferente que prescinde dos próprios sentidos; trata se da relação com o espírito que está
incorporado ao mundo ambiente natural.

Nessa maneira de considerar as coisas, o mundo físico se desprende do homem. 0 elemento terreno o
deixa, e o homem não o sente mais como parte dele.

Alguém poderia pensar que a auto-consciência deve apagar se nessas condições. Isso parece ser a
conseqüência das considerações precedentes que revelaram ser a auto-consciência o resultado do
relacionamento do homem com a Terra. Mas não é assim. 0 que o homem conquistou pela sua ligação
com o terrestre permanece, mesmo quando se liberta do elemento terreno depois dessa aquisição através
de uma cognição viva.

A contemplação espiritual imaginativa que acabamos de descrever, revela que o homem não se ligou, no
fundo, tão intensivamente com o sistema sensorial. Não é ele quem vive nesse sistema, mas o seu mundo
ambiente. Foi este que veio a integrar, com sua essência, a organização sensorial.

Por isso, o homem dotado de visão imaginativa, considera a organização sensorial como uma porção do
mundo exterior. Um pedaço de mundo exterior que está muito mais próximo dele, do que o ambiente da
natureza mas, nem por isso, deixa de ser exterior. A diferença do resto do mundo ambiente é a seguinte:
ele precisa da percepção sensorial para conhecê lo, enquanto mergulha em sua organização sensorial
vivenciando a. A organização sensorial é um mundo exterior, mas o homem penetra nesse mundo exterior
com sua atividade anímico espiritual a qual ele traz consigo ao penetrar na Terra, provindo do mundo
espiritual.

Excetuando se o fato de o homem preencher sua organização sensorial com sua entidade anímico
espiritual, essa organização é uma parte do mundo exterior como o é o mundo das plantas. 0 olho
pertence, em última análise, ao mundo e não ao homem, assim como a rosa, percebida pelo homem, não
pertence a este, mas ao mundo.

Na era que o homem acaba de atravessar no desenvolvimento cósmico, houve pessoas que, em sua
busca de conhecimento, afirmaram que a cor, o som, as impressões de calor na realidade não estavam no
mundo, mas no homem. A "cor vermelha", disseram, não existiria no mundo circundante, mas seria antes,
o efeito de algo desconhecido sobre o homem. Mas a verdade é o oposto dessa interpretação. Não é a cor
que, juntamente com o olho, pertence ao ser humano, mas é o olho que, com a cor, pertence ao mundo. 0
homem não deixa o ambiente terrestre fluir para dentro enquanto vive; é ele que se expande em direção a
esse mundo entre o nascimento e a morte.

É significativo que a interpretação correta da relação entre o homem e seu mundo ambiente, ter se virado
ao contrário, no fim da era tenebrosa na qual o homem fita o mundo exterior em que vive, sem ter nem
uma vaga sensação da luz do espírito.

Depois de se desprender daquele mundo exterior em que vive com sua organização sensorial, o homem
dotado da cognição imaginativa vivência uma organização que produz o pensar da mesma maneira como
a organização sensorial faculta a percepção sensorial de imagens.

Nessa altura, o homem se sente relacionado com o mundo exterior das estrelas pela organização do
pensar, da mesma forma como antes se havia sentido relacionado com a natureza terrestre pela sua
organização sensorial. Reconhece a si próprio como ser cósmico. Os pensamentos deixam de ser
sombras: são imbuídos de realidade, como o eram as imagens sensoriais da percepção sensorial. Se o
indivíduo chega, com sua cognição, ao nível da inspiração, ele percebe que pode se desfazer desse
mundo que se apoia na organização do pensar, da mesma forma como se desfez do ambiente terreno. Ele
perscruta, que também com sua organização do pensar, não pertence a ele próprio, mas ao mundo. Ele
descobre que são os pensamentos cósmicos que reinam dentro dele por intermédio de sua própria
organização do pensar. Ele percebe que enquanto pensa, não recebe nele imagens do mundo, mas
cresce para fora penetrando com sua organização pensante no pensar do universo.

0 homem é, pois, mundo, no que se refere tanto à organização sensorial quanto ao sistema do pensar. E o
mundo cuja estrutura penetra para dentro dele. Percebendo pelos sentidos e pensando, o homem não é
ele mesmo, mas é conteúdo do mundo.

Mas o homem envia a parte divino espiritual de sua entidade para dentro da sua organização do pensar;
essa parte não pertence nem ao mundo terreno nem àquele das estrelas; ela é de natureza inteiramente
espiritual e vive no homem de uma vida terrestre a outra. Esse divino-espiritual só é acessível à
inspiração.

Assim o ser humano se desprende de sua organização terrestre e cósmica para erguer se, diante de si
próprio, como um ente puramente divino-espiritual.

Percebe então em sua própria entidade o reinar do destino.

Com sua organização sensorial, o homem vive no corpo físico; com a organização do pensar, no corpo
etérico. Liberto de ambas as organizações graças à vivência cognitiva, ele está em seu corpo astral.

Cada vez que o homem se liberta de alguma parte de sua entidade, o seu conteúdo anímico fica, de um
lado, mais pobre; de outro, ele fica, ao mesmo tempo mais rico. Se enxerga, depois de se libertar do seu
corpo físico, a beleza das plantas sensoriais, apenas de forma muito pálida, em compensação, todo o
mundo dos seres elementais domiciliado no reino vegetal, se apresenta à sua alma.

Por ser essa a realidade, o indivíduo que tem a visão espiritual, não se transforma em asceta com relação
ao que seus sentidos percebem. Enquanto vivência espiritualmente, ele sente o vivo desejo de perceber
também pelos sentidos o que vivência em espírito. Assim como a percepção sensorial produz no homem
total o qual busca a realidade total, a nostalgia do polo oposto, isto é, o mundo dos seres elementais, a
visão dos seres elementais desperta, por sua vez, a ânsia pelo conteúdo da percepção sensorial.

Na vida humana global, o espírito sente falta do sensorial, e o sensorial requer o espírito. A existência
espiritual seria vazia se nela não pairassem, como recordação, as vivências da vida sensorial; a vida
sensorial seria escura se nela não atuasse de forma luminosa, embora inconscientemente, a força do
espiritual.

Quando se tiver tornado maduro para vivenciar a atividade de Micael, o homem não sentirá um
empobrecimento da alma no entrar em contato com a natureza, mas sim, um enriquecimento. E sua vida
sentimental não tenderá a retrair se das impressões sensoriais, mas sentirá uma alegre inclinação para
acolher na alma todas as maravilhas do mundo dos sentidos.

Goetheanum, fevereiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à consideração anterior sobre "A relação entre a Organização Sensorial e Intelectiva no
Homem e no Mundo")

(15/03/1925)

171. A organização dos sentidos não faz parte da entidade humana, mas foi implantada nela pelo mundo
ambiente durante a vida na Terra. Do ponto de vista do espaço, o olho que vê, se acha dentro do homem;
pela sua essência ele está no mundo. E o homem estende sua entidade anímico-espiritual para dentro
daquilo que o mundo nele vivencia por meio dos sentidos humanos. Durante sua vida terrestre, o homem
não acolhe o ambiente físico dentro de si, mas penetra nesse ambiente com sua entidade anímico
espiritual.

172. Algo semelhante acontece com a organização do pensar. Através dela, o homem se estende para
dentro do mundo das estrelas. Reconhece a si próprio como mundo das estrelas. 0 homem vive nos
pensamentos cósmicos depois de se ter despido da organização dos sentidos através de um conhecer
acompanhado de um vivenciar.

173. Depois de se ter libertado de ambos, do mundo terrestre e do mundo das estrelas, o homem se
confronta consigo mesmo, como ser anímico-espiritual. Ai ele não é mais mundo, ele é, no verdadeiro
sentido, homem. Perceber o que ele aí vivencia, chama se auto conhecimento, assim como as percepções
feitas através da organização dos sentidos e do pensar, constituem o conhecimento do mundo.

A Memória e a Consciência Moral

Durante o sono o homem está entregue ao cosmo. Leva a ele o resultado de vidas anteriores, que possui
ao descer do mundo anímico espiritual ao mundo terrestre. Durante o estado de vigília, ele priva o cosmo
desse conteúdo de sua entidade.

A vida entre o nascimento e a morte decorre nesse ritmo entre entregar-se ao cosmo, e subtrair se a ele.

Subtrair se ao cosmo significa, ao mesmo tempo, estar a organização neuro sensorial acolhendo o homem
anímico espiritual. Este se une durante o período de vigília com os processos físicos e vitais que nela se
desenrolam, para atuar de uma maneira uniforme. Tal atuação engloba a percepção sensorial, a formação
das imagens da recordação e a vida da fantasia. Estas atividades estão ligadas ao corpo físico. Em
compensação, as representações mentais e o pensar nos quais o homem se torna consciente do que
ocorre, semi inconscientemente, na percepção, na fantasia e na recordação estão relacionados com a
organização do pensar.

Encontra se também nessa organização do pensar propriamente dita, a região pela qual o homem
vivência sua auto-consciência. A organização do pensar é uma organização estelar. Se ela se
manifestasse exclusivamente como organização estelar, o homem carregaria em si não uma consciência
de si próprio, mas uma consciência dos deuses. Mas a organização do pensar é uma organização estelar
separada do cosmo das estrelas e transferida a Terra. Vivenciando o mundo das estrelas no âmbito da
Terra, o homem vem a ser auto consciente.

Eis, pois, a região da vida íntima do homem: o mundo divino espiritual, vinculado ao homem, demite o
para que possa tornar se homem no pleno sentido da palavra.

Mas logo abaixo da organização do pensar, na região onde se realizam a percepção sensorial, a fantasia,
a formação de recordação, o mundo divino espiritual vive integrado à vida humana. Pode se dizer que o
divino espiritual participa no estado de vigília do homem enquanto a memória se desenvolve. Pois as duas
outras atividades, a percepção sensorial e a fantasia, são apenas modificações do processo de formação
de imagens da recordação. Na percepção sensorial a formação do conteúdo da recordação está em sua
fase inicial; no conteúdo da fantasia vemos refulgir na alma o que, desse conteúdo, fica conservado na
existência da alma.

0 estado de sono leva o elemento anímico espiritual do homem ao cosmo. 0 homem como que mergulha
no cosmo anímico espiritual com a atividade do seu corpo astral e seu Eu. Não está apenas fora do
mundo físico, mas também do mundo das estrelas. Todavia, encontra se dentro dos seres divino
espirituais que deram origem à sua existência.

No momento atual da evolução cósmica esses seres divino espirituais atuam da seguinte forma: gravam
durante o estado de sono o conteúdo moral do mundo no corpo astral e no Eu. Tudo o que acontece
durante o sono do indivíduo, em âmbito cósmico, tem realidade moral e não se parece de maneira alguma
com os processos da natureza.

0 homem leva os pós efeitos desses processos do estado de sono para o estado de vigília, mas eles
permanecem em estado de sono. Pois o homem está acordado apenas naquela parte de sua existência
que tende para a região do pensar. Aquilo que ocorre na esfera da vontade está envolto, mesmo durante o
estado de vigília, numa inconsciência igual àquela que caracteriza toda a vida anímica durante o sono.
Mas o divino espiritual continua impregnando a vida volitiva adormecida, durante o estado de vigília. A
moralidade do indivíduo é tão boa ou tão má quanto é possível de acordo com a proximidade dos seres
divino espirituais que pode alcançar enquanto dorme. E ele chega mais perto ou fica mais distante de
acordo com a moralidade das vidas terrestres anteriores.

Das profundezas da alma acordada soa aquilo que nela implantou durante o sono, com a participação do
mundo espiritual. 0 que assim soa, é a voz da consciência moral.

Vemos assim, que aquilo que uma cosmovisão materialista mais tende a explicar apenas por processos
materiais, é algo moral quando considerado pela cognição espiritual.

0 mundo divino espiritual atua no homem acordado diretamente na memória; e atua indiretamente, como
pós efeito, na consciência moral.

A formação da memória ocorre na organização neuro sensorial; a formação da consciência moral ocorre
como processo puramente anímico espiritual, porém dentro da organização do metabolismo e dos
membros.

A organização rítmica situa se no meio entre as duas. Exerce uma atuação dupla, orientada em dois
sentidos opostos. Como ritmo da respiração, ela está intimamente ligada com a percepção sensorial e
com o pensar. Esse processo é mais grosseiro na respiração pulmonar, passando a ficar mais refinado e
transformando se, como respirar mais sutil, em perceber sensorial e em pensar. A percepção sensorial
ainda está próxima da respiração; ela é um respirar pelos sentidos e não pelos pulmões. Formar
representações e pensamentos já está mais longe da respiração pulmonar; ai intervém o apoio dado pela
organização do pensar. Há algo que se aproxima do ritmo da circulação sangüínea e constitui um respirar
interiorizado que se liga com a organização do metabolismo e dos membros; manifesta se na atividade da
fantasia.

Esta se estende, animicamente, até a esfera da vontade, da mesma forma como o ritmo da circulação
chega até a organização do metabolismo e dos membros.

Na atividade da fantasia, a organização do pensar aproxima se da organização da vontade. 0 homem


mergulha em sua esfera de sono da vontade, que nesse lugar está acordada. Em pessoas que
apresentam esse tipo de organização, os conteúdos da alma manifestam se como sonhos em estado de
vigília. Tal organização vivia em Goethe. Por isso ele fala que Schiller deveria lhe interpretar os sonhos
poéticos.

No próprio Schiller era a outra organização que atuava. Ele era inspirado pelo conteúdo de suas vidas
anteriores, e tinha de procurar conteúdos de fantasia, para a sua forte vontade.

A potência arimânica conta, para realizar seus intentos cósmicos, com pessoas que tendem a viver
principalmente na esfera da fantasia, de modo que a contemplação da realidade sensorial se lhes
transforma como que espontaneamente em visão de fantasia. Ela acredita poder cortar, com a ajuda de
tais pessoas, a evolução da humanidade das suas raízes passadas e levá la para o rumo que ela quer.

A potência luciférica conta com indivíduos nos quais a esfera mais organizada é a da vontade, mas que
dão à contemplação sensorial uma pronunciada conotação de imagens da fantasia, por amor íntimo a uma
cosmovisão ideal. Ela pretende manter na evolução da humanidade os impulsos do passado, servindo se
de tais indivíduos. Poderia prevenir a humanidade de mergulhar na esfera dentro da qual a potência
arimânica precisa ser vencida.

Na existência terrena encontramos dois pólos opostos. Em cima espalham-se as estrelas. De lá irradiam
as forças afins com tudo que pode ser calculado e que segue regras. A alternância regular do dia e da
noite, as estações do ano, períodos cósmicos maiores, tudo isso é o reflexo terrestre dos acontecimentos
do mundo das estrelas.

0 polo oposto irradia do interior da Terra. Ele vive em irregularidades.

0 vento e o tempo, o raio e trovão, terremotos e erupções vulcânicas refletem essa atividade interior da
Terra.

0 homem é uma imagem da existência estelar e da terrena. A ordem das estrelas vive em sua organização
do pensar, o caos terrestre vive na organização volitiva de seus membros. 0 ser humano terrestre,
elemento harmonizador entre ambos, é vivenciado na organização rítmica.

Goetheanum, fevereiro de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência à consideração anterior sobre a Memória e a Consciência Moral)

(22/03/1925)

174. 0 homem recebe sua organização corpóreo espiritual de duas direções. Primeiro, do universo físico
etérico. Aquilo que irradia para a entidade humana nessa organização da essência divino espiritual vive
nesta como forma de percepção sensória, de capacidade de memória e de atividade da fantasia.

175. Em segundo lugar, o homem recebe sua organização de suas vidas passadas. Essa organização é
inteiramente anímico espiritual e existe no homem por meio do corpo astral e do Eu. É efeito daquilo que,
de seres divino espirituais, permeia essa entidade humana, resplandece no homem como luz da
consciência moral, e tudo que lhe é afim.

176. Em sua organização rítmica o homem encontra a ligação continua entre os dois tipos de impulsos
divino espirituais. Na vivência do ritmo, a força da memória é transmitida à vontade, e o poder da
consciência moral ao mundo das idéias.

A aparente extinção do conhecimento espiritual na Época Moderna


Quem quiser fazer uma avaliação correta da relação entre a Antroposofia e a evolução da alma da
consciência, deve sempre de novo enfocar o estado de espírito da humanidade culta que começa com o
desabrochar das ciências naturais e atinge seu auge no século XIX.

Dirijamos o olhar anímico para a característica dessa época e comparemo la com aquela de épocas
anteriores. Em todos os tempos da evolução consciente da humanidade, considerava se como
conhecimento aquilo que aproximava o homem do mundo espiritual. 0 conhecimento determinava a
relação com o espírito e esse conhecimento vivia na arte e na religião.
Isso mudou com a aurora da época da alma da consciência. Aí o conhecimento deixou de interessar se
por grande parte da vida anímica humana. Ele queria pesquisar a relação entre o homem e a existência
quando esta dirige seus sentidos e sua inteligência crítica à "natureza"; não queria mais ocupar se com o
que o homem desenvolve como relacionamento com o mundo espiritual, quando usa sua capacidade de
percepção interior a exemplo de seus sentidos.

Resultou dai a necessidade de relacionar a vida espiritual dos homens não com a cognição do presente,
mas com tradições e conhecimentos válidos no passado.

A vida anímica humana ficou cindida. De um lado, o homem tinha diante de si o conhecimento da natureza
que ia evoluindo, desabrochando na atualidade viva. De outro, vivenciava uma relação com o mundo
espiritual que resultava de conhecimentos acumulados no passado. Essa vivência ia perdendo toda noção
de como o conhecimento se realizava no passado. Existia a tradição, mas faltava o caminho pelo qual as
verdades acumuladas tinham sido conhecidas. Existia apenas a possibilidade de se acreditar na tradição.

Um indivíduo que refletisse, ao redor do meio do século XIX, serenamente sobre a situação espiritual da
época, teria de reconhecer que a humanidade tinha chegado a ponto de apenas se considerar capaz de
desenvolver um conhecimento totalmente desvinculado do espiritual. Uma humanidade anterior foi capaz
de pesquisar tudo o que se pode saber a respeito do espírito; mas a alma humana perdeu a capacidade
dessa pesquisa.

As pessoas não concebiam então todo o significado dessa situação. Limitavam se a constatar que a
cognição simplesmente não podia alcançar o mundo espiritual; este só pode ser objeto da fé.

Para ter noções mais claras a respeito dessa situação, olhava se para as épocas em que a sabedoria
grega teve de recuar diante da civilização romana impregnada pelo cristianismo. Depois de terem as
últimas escolas de filosofia grega sido fechadas pelo imperador Justiniano, também os últimos
conservadores da antiga sabedoria emigraram das regiões onde a nova mentalidade européia passou a se
desenvolver. Esses sábios foram acolhidos na academia de Gondishapur, na Ásia, um dos lugares onde a
tradição da antiga sabedoria ficou mantida no oriente, em conseqüência dos feitos de Alexandre Magno;
ela continuava vivendo ali na forma que recebera de Aristóteles.

Mas essa sabedoria antiga foi assimilada pela corrente oriental que pode ser designada arabismo. Sob um
certo aspecto, o arabismo constitui um desabrochar prematuro da alma da consciência. 0 arabismo fez
com que a vida anímica, prematuramente permeada pela alma da consciência, pudesse inundar a África e
a Europa meridional e ocidental através de uma onda espiritual que, partindo da Ásia, preenchia certos
indivíduos na Europa com um intelectualismo que normalmente devia ter aparecido somente mais tarde;
nos séculos VII e VIII a Europa meridional e ocidental recebeu impulsos espirituais que deveriam ter
chegado apenas na época da alma da consciência.

Essa onda espiritual conseguiu despertar o intelectual no homem, mas não a vivência mais profunda que
leva a alma a submergir no mundo espiritual.

Quando o homem nos séculos XV a XIX passou a usar sua capacidade cognitiva, ele só pôde chegar a
uma profundeza anímica em que ainda não se defrontava com o mundo espiritual.

Ao penetrar na vida espiritual européia, o arabismo impediu as almas sedentas de conhecimento de


penetrar no mundo do espírito. Ele fez funcionar de maneira prematura o intelecto que só é capaz de
apreender a natureza exterior.

E esse arabismo revelou possuir um imenso poder. Os que foram tomados por ele, tiveram a alma
dominada por um orgulho interior, em grande parte inconsciente. Sentiam o poder do intelectualismo, mas
não a incapacidade do mero intelecto de penetrar na realidade. Entregaram se à realidade sensorial
exterior, que se erguia naturalmente diante deles, mas não se interessavam em aproximar se da realidade
espiritual.

Essa era a situação com a qual a vida espiritual da Idade Média se confrontava. Ela ainda possuía as
imponentes tradições do mundo espiritual; mas a vida anímica estava a tal ponto impregnada
intelectualmente pelo arabismo que atuava, poderíamos dizer, de uma forma oculta, que a busca cognitiva
não conseguiu chegar às fontes onde o conteúdo dessas tradições tinha sua origem.

Desde os primórdios da Idade Média havia, então, uma luta entre as correlações espirituais que os
homens ainda sentiam instintivamente e a forma assumida pelo pensar devido ao arabismo.
Os homens sentiam dentro deles o mundo das idéias, vivenciando as como algo real. Mas suas almas não
tinham a força de vivenciar o espírito nas idéias. Nasceu assim o realismo que tinha a sensação da
realidade nas idéias, mas não conseguia captar essa realidade. 0 realismo ouvia o verbo cósmico que
falava no mundo das idéias, mas não era capaz de entender sua linguagem.

Ao realismo opunha se o nominalismo; como a linguagem não podia ser compreendida, sua própria
existência foi contestada. Para o nominalismo, o mundo das idéias não passava de uma soma de fórmulas
na alma humana, sem qualquer raiz que o unisse com uma realidade espiritual.

Os conteúdos dessas correntes continuaram atuando até o século XIX. 0 nominalismo veio a ser a
maneira de pensar das ciências naturais que elaboraram um sistema grandioso de opiniões sobre o
mundo sensorial, mas destruíram toda compreensão da essência do mundo das idéias. 0 realismo era
algo morto. Ele sabia da realidade do mundo das idéias, mas era incapaz de chegar a ela por uma
cognição viva.

Podemos chegar a ela, quando a Antroposofia encontrar o caminho que conduz das idéias à vivência
espiritual nas idéias. Num realismo sadiamente desenvolvido, o nominalismo científico deve ser
completado por um caminho cognitivo, o qual demonstra que o conhecimento do espiritual não se apagou
na humanidade, mas pode voltar a fazer parte da evolução humana, quando novos mananciais anímicos
permitirem uma nova ascensão.

Goetheanum, março de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência às considerações anteriores sobre "A aparente extinção do conhecimento espiritual na
época moderna")

(29/03/1925)

177. A quem observa, com o olhar da alma, a evolução da humanidade na época das ciências naturais,
inicialmente revela se uma perspectiva triste. Os conhecimentos humanos são brilhantes, no que se refere
a tudo que é mundo exterior. Mas de outro lado, aparece um tipo de consciência como se fosse impossível
de se ter qualquer conhecimento do mundo espiritual.

178. Parece que só em tempos remotos, os homens tinham conhecimento deste tipo de conhecimento e
que, com relação ao mundo espiritual, só nos resta aceitar as velhas tradições e fazer delas um objeto de
fé.

179. Na Idade Média essa crença relativa à relação do homem com o mundo espiritual, produz uma falta
de segurança, que gera a descrença no conteúdo espiritual das idéias sob forma do nominalismo cuja
continuação é a ciência natural moderna; e, como saber da realidade das idéias, um realismo, o qual,
porém, só pode encontrar seu cumprimento por meio da Antroposofia.

Os abalos históricos durante o desabrochar da Alma da Consciência

0 ocaso do Império Romano, relacionado com o aparecimento de povos chegados do leste a assim
chamada migração dos povos é um fenômeno histórico que sempre precisa ser considerado pelo
pesquisador, pois o presente ainda contém muitas repercussões daqueles eventos comoventes.

Mas uma contemplação histórica exterior não pode chegar a uma compreensão desses fatos. E
necessário estudar as almas dos indivíduos que participaram da "migração dos povos" e do ocaso do
Império Romano.

As civilizações grega e romana floresceram na época em que a humanidade desenvolvia a alma da razão
ou da índole; os gregos e romanos eram os verdadeiros portadores desse desenvolvimento. Mas a
evolução dessa forma anímica nesses dois povos não continha o gérmen que pudesse dar, de forma
correta, origem à alma da consciência a partir dela mesma. 0 conteúdo espiritual e anímico da alma da
razão ou da índole manifesta se na riqueza da cultura grega e romana; mas não pode, baseado em sua
força própria, fluir para a formação da alma da consciência.

Não obstante, a fase da alma da consciência surge naturalmente. Mas parece que a alma da consciência
não nasce da personalidade do homem grego ou romano; porém como algo que lhe é implantado de fora.
A ligação com os seres divino espirituais e a separação deles, tantas vezes mencionadas nestas
considerações, realizaram se no decorrer dos tempos com intensidade variável. Em épocas antigas, era
uma força que atuava vigorosamente na evolução da humanidade. Na experiência dos gregos e romanos,
durante os primeiros séculos cristãos, a força atuante era menor; mas existia. Enquanto desenvolviam
plenamente a alma da razão ou da índole, os gregos e os romanos sentiam de forma inconsciente mas
significativa para a alma que estavam se desprendendo da essencialidade divino espiritual e que o
elemento humano estava se tornando autônomo. Esse processo terminou nos primeiros séculos cristãos.
As primeiras manifestações surdas da alma da consciência eram sentidas como um relacionamento com o
divino espiritual. A evolução levou de uma maior autonomia da alma para uma autonomia menor. 0
conteúdo do cristianismo não podia ser acolhido pela alma da consciência porque esta não podia ser
recebida pela entidade humana.

Por esse motivo, o conteúdo cristão era sentido como algo recebido do mundo espiritual exterior, mas não
como algo com o qual se pudesse unir-se pelas forças cognitivas.

A situação era diferente nos povos vindos do nordeste que estavam fazendo sua entrada na história. Eles
tinham atravessado a época da alma da razão ou da índole num estado que sentiam como dependência
dos mundos espirituais. Só começaram a sentir algo da autonomia humana quando as primeiras forças da
alma da consciência vieram a manifestar se nos primórdios do cristianismo. Eles sentiam a alma da
consciência como algo ligado à entidade humana; quando ela refulgia neles, eles sentiam em si o alegre
desabrochar de uma energia interior.

0 conteúdo do cristianismo veio juntar se, nesses povos, ao alvorecer da alma da consciência. Sentiam
esse conteúdo como algo que lhes brotava na alma, e não como algo recebido de fora.

Foi nesse estado de espírito que esses povos entraram em contato com o Império Romano e tudo o que a
ele se relacionava; era a mentalidade do arianismo, em oposição ao atanasianismo, divergência da qual
resultou um profundo contraste interior na evolução da história universal.

0 que atuava na alma da consciência dos gregos e romanos, exterior ao homem, era a essência divino
espiritual que não conseguiu unir se totalmente com a vida terrena para a qual ela apenas irradiava de
fora. 0 elemento divino espiritual que conseguiu unir se com a humanidade atuava de maneira ainda fraca
na alma da consciência dos francos, germanos, etc. e ali germinava apenas muito de leve.

0 passo seguinte foi que o conteúdo cristão que vivia na alma da consciência pairando acima do homem,
passou a espalhar se na vida; aquele elemento que se tinha unido com a alma, permaneceu no interior do
homem como anseio ou impulso na expectativa de um desabrochar, que só podia acontecer quando a
alma da consciência tinha atingido uma determinada fase do seu desenvolvimento.

Durante o período entre os primeiros séculos cristãos e o desabrochar da alma da consciência, vemos
pairar acima da humanidade, como vida espiritual relevante, um conteúdo espiritual com o qual o homem
não consegue ligar se pelo conhecimento. Liga se então de uma maneira exterior; procura "explicá lo" e
reflete sobre a incapacidade das forças anímicas de estabelecer uma ligação por meio do conhecimento.
Distingue uma região que o conhecimento alcança, de outra onde não consegue chegar. E passa a
renunciar à perspectiva de usar forças anímicas que fossem capazes de elevar se, pelo conhecimento, ao
mundo espiritual. Chega então a época, na virada dos séculos XVII e XVIII, na qual as forças cognitivas
dirigidas ao espiritual passaram a abandonar a idéia de conhecê lo. Os homens começam então a dirigir
suas forças anímicas apenas àquilo que pode ser percebido pelos sentidos.

Foi principalmente no século XVIII que as forças cognitivas se tornam impróprias para captar o espiritual.

Os pensadores perdem então, em suas idéias, o conteúdo espiritual. Afirmam, no idealismo da primeira
metade do século XIX, que as idéias em que não havia espírito presente são o conteúdo criador do
mundo. É a maneira de pensar de Fichte, Schelling, Hegel, ou apontam para algo supra sensível que
perde toda consistência, por carecer de conteúdo espiritual; assim fazem Spencer, John Stuart Mill, etc. As
idéias são mortas quando não procuram o espírito vivo.

A visão do espiritual perde se, pois irremediavelmente.


Não é possível "continuar" com a antiga maneira de se conhecer o espiritual. As forças anímicas, nas
quais se desenvolve a alma da consciência, têm de almejar uma nova união, elementar e imediata, com o
mundo espiritual. A Antroposofia pretende constituir essa busca.

Na vida espiritual da nossa época, as pessoas lideres são justamente aquelas que não compreendem o
que a Antroposofia almeja. Isso mantém afastados dela, também amplos círculos que seguem a esses
líderes. Estes perderam o hábito de usar suas forças espirituais. É como se pedíssemos a um indivíduo de
usar um órgão que ficou paralisado. Pois as capacidades cognitivas superiores ficaram paralisadas do
século XVI até a segunda metade do século XIX. A humanidade não teve consciência disso, pois
considerava o uso unilateral das forças cognitivas dirigidas exclusivamente ao mundo sensorial, como um
grande progresso.

Goetheanum, março de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência às considerações precedentes sobre "Os Abalos Históricos durante o Desabrochar da
Alma da Consciência")

(05/04/1925)

180. Os gregos e os romanos são os povos com a melhor disposição para o desenvolvimento da alma da
razão ou da índole, desenvolvimento que neles atinge sua perfeição. Mas esses povos não possuem os
germes para progredir em linha reta até a alma da consciência. Sua vida anímica submerge na alma da
razão ou da índole.

181. Contudo, no período que se estende do nascimento do cristianismo até a época da alma da
consciência, existe um mundo espiritual que não se une com as forças anímicas do homem; estas
"explicam" o mundo espiritual mas não o vivenciam.

182. Entre esses povos que investem contra o Império Romano, partindo do nordeste, durante a chamada
"migração dos povos", ocorre uma apreensão da alma do intelecto ou da índole por meio dos sentimentos.
Em compensação, forma se, em suas almas, a alma da consciência. A vida íntima desses povos aguarda
a época em que uma plena união da alma com o mundo do espírito seja novamente possível.

Da Natureza à Sub-natureza

Fala se que, com a superação da era da filosofia, aproximou se à era das ciências naturais, em meados
do século XIX. Afirma se também que essa era cientifica ainda perdura hoje, havendo todavia muitos
indivíduos afirmando que se voltou a certas intenções filosóficas.

Tudo isso corresponde aos caminhos do conhecimento, seguidos pela época mais recente, mas não aos
caminhos da vida. Com suas representações mentais o homem ainda vive na natureza, embora leve
também o pensar mecanicista a suas concepções sobre a natureza. Mas, com sua vontade, vive tão
intensamente numa mecânica de processos técnicos que isso deu, há muito tempo, à era das ciências,
uma nuança totalmente nova.

Se quisermos compreender a vida humana, temos de enfocá la de dois lados. 0 homem traz de suas vidas
passadas a capacidade de formar conceitos a respeito do elemento cósmico que atua a partir da periferia
da Terra e dentro do âmbito da Terra. Pelos sentidos percebe o cósmico que atua na Terra, e ele pensa,
pela sua organização intelectiva o cósmico que atua sobre a Terra a partir do mundo que a circunda.

Vive dessa forma no perceber pelo seu corpo físico; e no pensar pelo seu corpo etérico.

Aquilo que ocorre no corpo astral e no Eu, reina em regiões mais escondidas da alma. Reina, por
exemplo, no destino. Mas não se deve logo procurá lo em relações complicadas do destino, porém nos
processos vitais simples e elementares. 0 homem une se com certas forças da Terra, dirigindo seu
organismo em direção a elas. Aprende a manter se na vertical e a locomover se, aprende a colocar se
com seus braços e mãos no equilíbrio das forças terrestres.

Essas forças, porém, não atuam a partir do cosmo; são veramente terrestres.
Na realidade, nada do que o homem vivência é abstrato. Só que ele não discerne de onde vem a vivência
e por isso leva as idéias acerca da realidade à abstração. Ele fala em regularidades mecânicas,
acreditando tê las abstraído do contexto da natureza. Todavia tal não é o caso; as leis mecânicas que o
homem vivência na alma, ele as experimentou no seu relacionamento com o mundo terrestre (pela
posição ereta, pelo andar, etc.).

Logo, a regularidade mecânica se caracteriza como algo meramente terrestre. Pois as regularidades que
se manifestam na natureza nas cores, nos sons, etc., fluíram para o âmbito terrestre a partir do cosmo. É
só no âmbito terrestre que o elemento mecânico também implantado naquilo que existe de acordo com a
natureza, da mesma forma como o homem também tem a vivência do mecânico apenas no âmbito da
Terra.

A maior parte daquilo que atua na civilização através da técnica e se acha intimamente ligado à vida
humana, não faz parte da natureza mas de uma sub natureza. É um mundo que se emancipou para baixo
da natureza.

Vemos o homem oriental que procura chegar ao espiritual, esforçar se para desprender se dos estados de
equilíbrio que são determinados apenas pelas forças da Terra. Ele se coloca, na meditação, numa posição
que o integra em um equilíbrio meramente cósmico; ai a Terra não atua mais sobre a orientação do seu
organismo (Menciono isso não como algo a ser imitado, mas para tornar claro o que acaba de ser dito.
Quem conhece meus escritos, sabe como se diferenciam, a esse respeito, a vida espiritual oriental e
aquela do ocidente).

0 homem necessitava relacionar se com o elemento meramente terrestre, para desenvolver a alma da
consciência. Nasceu daí a tendência, presente nos tempos mais recentes, de levar também para o fazer
aquilo que deve impregnar a sua maneira de ser. Entrosando se no que é exclusivamente terreno, ele se
defronta com Arimã. É necessário que estabeleça, entre seu próprio ser e esse elemento arimânico, uma
relação correta.

Mas na evolução que a era da técnica tem seguido até agora, o homem não teve a possibilidade de
relacionar se corretamente com a cultura arimânica. 0 homem precisa encontrar a energia e a força do
conhecimento interior que o capacitem para não ser subjugado por Arimã em meio à civilização técnica.
Ele tem de compreender a sub natureza como tal. Só o conseguirá elevando se, pela cognição espiritual,
pelo menos, tão alto na supra natureza extra terrestre quanto desceu, na técnica à sub-natureza. Essa era
necessita de um conhecimento que transcenda a natureza, pois tem de superar, interiormente, um
conteúdo existencial que desceu abaixo da natureza e atua de uma maneira bem perigosa. Não
pretendemos, naturalmente, que se volte a fases anteriores da civilização; opinamos que o homem deve
encontrar o caminho que estabeleça uma relação certa das novas convicções da civilização, para com ele
próprio e com o cosmo.

São pouquíssimas as pessoas que sentem hoje em dia as importantes tarefas espirituais que estão se
concretizando para o homem. É necessário reconhecer que a eletricidade a qual foi elogiada, depois de
sua descoberta, como a alma de toda existência natural – é intrinsecamente a força que conduz da
natureza à sub natureza. 0 importante é que o homem não a acompanhe nessa descida.

Nos tempos em que ainda não existia uma técnica independente da natureza propriamente dita, o homem
encontrava o espírito na contemplação da natureza. Na medida em que se tornou autônoma, a técnica fez
com que o homem fixasse seu olhar no mundo material e mecânico como se fosse o único que
satisfizesse a ciência. Ora, não havia lugar, nesse mundo, para o divino espiritual onde a humanidade teve
sua origem. Essa esfera o dominava exclusivamente pelo elemento arimânico.

Uma ciência do espírito cria a esfera oposta na qual nada de arimânico existe. Acolhendo, pelo
conhecimento, aquela espiritualidade à qual as potências arimânicas não tem acesso, o homem adquire
forças para opor se a Arimã no mundo.

Goetheanum, março de 1925.

OUTRAS MÁXIMAS EMITIDAS PELO GOETHEANUM PARA A SOCIEDADE ANTROPOSÓFICA


(Com referência às considerações precedentes sobre "A Natureza e a Sub Natureza")
(12/04/1925)

183. Na época das ciências naturais que começa em meados do século XIX, a atividade cultural dos
homens desliza não só para as regiões mais baixas da natureza, mas abaixo da natureza. A técnica vem a
ser sub-natureza.

184. Isso faz necessário que o homem chegue a vivenciar uma cognição espiritual por meio da qual se
eleva tão alto na super natureza quanto desceu abaixo da natureza, devido à atividade técnica sub natural.
0 homem cria dessa forma em seu interior a força para não afundar.

185. Uma concepção mais antiga da natureza ainda continha em si o espírito com o qual se relacionava a
origem da evolução humana; pouco a pouco, esse espírito desapareceu da ciência e o espírito meramente
arimânico penetrou a e fluiu dela para a civilização técnica.

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