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Psicologia

em Situação
de Emergência
Contextualização Histórico-Social

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Dr.ª Larisse Helena Gomes Macêdo Barbosa

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Sandra Regina Fonseca Moreira
Contextualização Histórico-Social

• Introdução;
• Fundamentos Históricos da Psicologia das Emergências;
• Desastres, Emergências e Catástrofes;
• Importância dos Órgãos de Controle e Fiscalização;
• Contribuições da Psicologia nas Emergências e Desastres.


OBJETIVOS

DE APRENDIZADO
• Contemplar aspectos que fundamentam historicamente a psicologia das emergências;
• Definir conceitos primordiais como desastres, emergências e catástrofes;
• Apresentar a importância dos órgãos de controle e fiscalização, como a defesa civil.
UNIDADE Contextualização Histórico-Social

Introdução
Não é incomum sermos envolvidos por inúmeras notícias sobre casos dos mais
diversos tipos de eventos adversos, que levam a emergências e a desastres. Tais
eventos podem ser exemplificados como o terremoto no Haiti e no Chile, no início
de 2010, as inundações na Austrália, no final de 2011 e início de 2012, o sismo e
o tsunami ocorridos na Ásia, em 2004, e o furacão Katrina, nos EUA, em 2005.

Figura 1 – Casa destruída pela passagem de um furacão na Flórida


Fonte: Getty Images

No Brasil, será que é comum acontecer esse tipo de emergências e desastres?

Um dos desastres não naturais que abalaram o país foi o acidente aéreo que acor-
reu em 1996, com o Fokker 100 da TAM, que registrou 99 óbitos (DESASTRESA-
EREOS, 1996). Outro desastre foi a colisão aérea do Boeing 737 com a aeronave
Embraer Legacy 600, que entre a tripulação e os passageiros, foram constatadas
154 mortes, sem nenhum sobrevivente (DESASTRESAEREOS, 2006). Ou o aci-
dente com mais mortes na história da aviação brasileira, o acidente do Airbus 3054,
que no pouso encontrou problemas ao frear e ultrapassou o limite da pista, colidindo
contra um prédio da TAM Express e um posto de gasolina. Os 187 passageiros e tri-
pulantes a bordo e 12 pessoas em solo morreram. Houve uma mobilização nacional
e desencadeou-se a crise “apagão aéreo”, em que foi criada, inclusive, CPI no Senado
Federal (SENADO, 2007).

Em relação aos desastres naturais, é possível lembrar as enchentes em Santa


Catarina, que aconteceram no verão de 2008, quando houve um desmoronamento,
destruindo e soterrando casas, além das cidades que ficaram submersas pelas águas
do rio Itajaí-Açu, ao afetar 60 cidades e, aproximadamente, 1,5 milhões de pessoas
(80 mil ficaram desabrigadas e cerca de 150 pessoas morreram) (FOLHA, 2008).
Mais: as enchentes e as inundações que ocorreram em 2009, em várias regiões nos

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estados do Maranhão e Piauí e, em 2010, em Alagoas e Pernambuco, e que acar-
retaram grandes prejuízos humanos e materiais com grandes dimensões (MELO;
SANTOS, 2011).

Outra tragédia que aconteceu recentemente no Brasil foi o rompimento da barra-


gem de Brumadinho, considerado um dos maiores desastres com rejeitos de minério
no Brasil. O rompimento da barragem resultou em um desastre de grandes propor-
ções, no qual 200 pessoas morreram e cerca de 98 pessoas ficaram desaparecidas,
gerando uma situação de calamidade pública (LACAZ; PORTO; PINHEIRO, 2017).

Figura 2 – Distrito de Bento Rodrigues após o desastre de Mariana


Fonte: Wikimedia Commons

Outro evento adverso ocorrido no Brasil foi a tragédia da boate Kiss, em 2013,
uma das experiências mais dolorosas que marcou a história do estado do Rio Grande
do Sul, no município de Santa Maria. Um incêndio que ocasionou 242 óbitos e cen-
tenas de vítimas ficaram com sequelas graves (DE FREITAS et al., 2013). 

E o que esses acontecimentos têm em comum? Segundo Braga et al. (2018), as


principais consequências desses e de outros desastres são o desespero e a comoção.
O primeiro, para quem foi diretamente afetado; e o segundo, para quem não tem
a experiência da situação no local, mas que de alguma forma é afetado, visto que
a mídia a todo momento transmite as notícias dos acontecimentos. Dessa forma, a
semelhança entre todos esses episódios é que as suas consequências impactam a
todos, tanto pelo nível de destruição que trazem, como pela sensação de vulnerabili-
dade que é evocada pelos sofrimentos que são deixados.

Nesse caso, a necessidade da Psicologia em situações de emergências e de de-


sastres fica evidente. Convém ressaltar que se trata de um campo de estudo relati-
vamente novo da Psicologia, mas com uma divulgação crescente. Em alguns países
da América Latina, já se trata de uma área bem consolidada, com várias pesquisas
executadas com anseio de aperfeiçoar as práticas atuais e desenvolver novas ferra-
mentas de suporte psicológico para as pessoas que foram atingidas por um desastre
(PARANHOS; WERLANG, 2015).

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Dessa forma, como salienta Paranhos e Werlang (2015), o foco nas necessidades
psicológicas das vítimas de emergências e de desastres possibilitou para a Psicologia
uma nova área de atuação, trazendo assim a necessidade de uma capacitação por
parte dos profissionais para a atuação e para o planejamento das intervenções em
situações de emergência, desastres e catástrofes.

Dessa forma, esta unidade tem por objetivos apresentar aspectos que fundamen-
tam historicamente a Psicologia das Emergências, definindo conceitos primordiais
como desastres, emergências e catástrofes, bem como a importância dos órgãos de
controle e fiscalização. Para tanto, abordaremos os seguintes tópicos:
• Fundamentos Históricos da Psicologia das Emergências;
• Desastres, Emergências e Catástrofes;
• Importância dos Órgãos de Controle e Fiscalização;
• As Contribuições da Psicologia nas Emergências e Desastres.

Iniciaremos abordando um breve histórico, haja vista a importância para qualquer


nova área que surge: conhecer o seu percurso histórico, pois, quando nos esquece-
mos da História, podemos repetir os erros. Então, conhecer o que foi feito e o que
está sendo realizado é de extrema importância.

Fundamentos Históricos
da Psicologia das Emergências
Até o século XX, poucas eram as pesquisas desenvolvidas na área de emergências
e desastres. Os trabalhos iniciais versavam sobre a Psiquiatria e a Segunda Guerra
Mundial, objetivando diagnosticar as reações das pessoas diante de um desastre,
devido a, nessa época, trabalharem com a ideia de uma guerra nuclear (ASSIS;
FERREIRA, 2013).

Dessa forma, as primeiras pesquisas que se tem registro em relação à área em


questão, abordavam as guerras mundiais, mais precisamente sobre o estresse pós-
-traumático (conhecido nessa época como fadiga de batalha, neurose de guerra ou
flashbacks), visto que muitos dos soldados que estavam em batalha acabavam desen-
volvendo algum tipo de problema psicológico, no entanto, eles tinham a necessidade
de voltar para o campo de batalha, pois tinham que produzir e, consequentemente,
estar bem para lutar em nome do Estado (MOLINA, 2006).

O primeiro estudo da história das emergências e desastres foi realizado pelo suíço
Edward Stierlin. Ele foi um médico psiquiatra que teve um dos seus trabalhos publicados
em 1909, buscando compreender as emoções das pessoas que vivenciavam um desas-
tre. O trabalho foi desenvolvido com familiares das vítimas de uma explosão nas minas
de carvão, na França. Incidente no qual mais de mil mineiros não sobreviveram. Apesar
de pouco divulgado, esse primeiro ensaio possibilitou entender as questões relacionadas
às emoções das pessoas que estiveram envolvidas em desastres (COGO et al., 2015).

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No entanto, a primeira pesquisa científica da área data do ano de 1920, desen-
volvida por Samuel Prince, em Hallifax, Canadá. Seu trabalho foi de um desastre
marítimo ocasionado pela colisão entre dois navios, um deles carregando explosivos,
provocando um tsunami na Nova Escócia (COELHO, 2006).

Em 1944, Lindemann publicou um importante artigo, sendo reconhecido como o


primeiro estudo, de fato, feito na área de intervenção pós-desastre. Constituiu-se no
auxílio aos sobreviventes e familiares de vítimas de um grande incêndio no clube no-
turno Coconut Grove, em Boston (EUA). Com 400 óbitos registrados, esse incidente
estimulou o governo norte-americano a organizar um serviço de apoio aos sobreviven-
tes de catástrofes. O levantamento das reações psicológicas dos sobreviventes foi feito
por Lindemann e tido como o ponto central para o desenvolvimento de aportes sobre
o processo de luto e suas etapas até a elaboração da perda. Caplan (1964), levando
em consideração esses dados, baseou a teoria da crise e a importância da dissolução
positiva ou negativa desta como ponto de passagem para uma psicopatologia ou não.

A Psicologia iniciou o estudo sistemático das reações adversas dos indivíduos no


pós-desastre nos anos de 1960 e 1970. O manual “Primeiros Auxílios Psicológicos
em Casos de Catástrofes” foi publicado pela Associação Brasileira de Psiquiatria, em
1970. Trata sobre várias possibilidades de reações aos desastres e os princípios bási-
cos para identificação das pessoas perturbadas emocionalmente (GONÇALVES, 2019).

Dentre os desastres que marcaram a história da Psicologia das Emergências e


Desastres, podemos citar o terremoto na cidade do México e a erupção do vulcão
Nevado Del Ruiz, na Colômbia. Nos dois casos, trabalhos de intervenções em crise,
focados no apoio psicológico às pessoas afetadas pelas tragédias foram desenvolvi-
dos (GONÇALVES, 2019).

Outro desastre marcante foi um grande incêndio que aconteceu no Peru, em 29


de dezembro de 2001, que ficou conhecido como “Incêndio de Mesa Redonda”.
Nesse incêndio terrível, foram notificadas 291 mortes. Essa catástrofe foi o princi-
pal motivador para a fundação da Sociedade Peruana de Psicologia e Emergências
e dos Desastres, visto que diante da sua magnitude o governo peruano pediu ao
Colégio de Psicólogos do Peru que desenvolvesse um trabalho com os familiares das
vítimas, principalmente na temática do luto. Para tanto, foi criada uma linha telefô-
nica chamada de “infosaúde”, para o atendimento psicológico das pessoas afetadas
(GONÇALVES, 2019).

Essa experiência influenciou a criação da Sociedade Peruana de Psicologia das


Emergências e dos Desastres. Assim, em 2002, foi organizado em Lima o I Congres-
so de Psicologia das Emergências e dos Desastres, evento que reuniu profissionais
que tinham interesse no tema, e onde foi instituída a Federação Latino-Americana
de Psicologia de Emergência e Desastres (FLAPED). A FLAPED era composta por
Cuba, México, Chile, Brasil, Argentina, Equador e outros países e tinha o objetivo
de reunir e abrir os olhos dos psicólogos para a área em questão. A instituição
possibilitou que várias discussões a respeito da temática pudessem ser desenvolvi-
das na América Latina, fazendo relevância ao Brasil (MOLINA, 2011; PAULINO;
SANT´ANA, 2018; PARANHOS; WERLANG, 2015).

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No Chile, foi desenvolvida a Sociedade Chilena de Psicologia das Emergências e


Desastres (SOCHPED). E em 2007, foi formulada a declaração de Princípios da nova
Rede Latino-Americana de Psicologia em Emergências e Desastres, com apoio de
vários países da América Latina. O objetivo dessa sociedade era incentivar o desen-
volvimento e o papel da Psicologia em situações de emergências (MOLINA, 2011).

A Psicologia das Emergências e Desastres no Brasil


A área de Psicologia das Emergências e dos Desastres no Brasil é recente e pou-
co se tem sobre sua prática, por ser um estudo que ainda está se desenvolvendo no
território brasileiro (PAULINO; SANT´ANA, 2018). No entanto, é uma prática que
vem ganhando espaço a partir da realização de vários congressos, seminários e con-
ferências (ASSIS; FERREIRA, 2013).
Um dos desastres que ganhou grande destaque no Brasil, e que é tido como o
primeiro registro do processo histórico de inserção da psicologia no estudo, pesquisa
e intervenção nas emergências e nos desastres, foi o acidente que ficou conhecido
como o Césio-137. O acidente aconteceu em 13 de setembro de 1987, em Goiânia,
sendo registrado como o maior acidente radioativo do mundo já ocorrido fora de usi-
nas nucleares. Em 1992, as Universidades do Rio de Janeiro (UFRJ), Brasília (UNB)
e Goiânia (UCG), em parceria com um grupo de psicólogos cubanos que já havia atua-
do no Acidente Nuclear de Chernobyl, realizaram atendimento às vítimas do césio-137,
fazendo uma adaptação levando em consideração as particularidades da comunidade
afetada de um programa utilizado em 1986 (PAULINO; SANT´ANA, 2018).
O acompanhamento psicológico teve início depois da terceira semana pós-con-
taminação, sendo seu trabalho voltado para a redução da ansiedade, utilizando-se
da reflexão e de técnicas que dessem vazão aos sentimentos, objetivando diminuir o
medo da morte ocasionadas pela situação de isolamento. Atualmente, a cidade segue
monitorada objetivando avaliar o nível de resíduos e de que forma eles agem ainda
no ambiente. Para saber mais sobre esse desastre, leia a seguir:

A história do acidente radiológico em Goiânia


Setembro de 1987
Em setembro de 1987 aconteceu o acidente com o Césio-137 (137Cs) em Goiânia, capital do
Estado de Goiás, Brasil. O manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado,
onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia, gerou um acidente que envolveu direta
e indiretamente centenas de pessoas. A fonte, com radioatividade de 50.9 Tbq (1375 Ci) con-
tinha cloreto de césio, composto químico de alta solubilidade. O 137Cs, isótopo radioativo
artificial do Césio tem comportamento, no ambiente, semelhante ao do potássio e outros
metais alcalinos, podendo ser concentrado em animais e plantas. Sua meia-vida física é de
cerca de 33 anos. Leia a matéria completa na íntegra, disponível em: https://bit.ly/2GoMzIH

O início dos anos 2000 foi marcado por uma série de movimentos do Conselho
Federal de Psicologia para o desenvolvimento da área de atuação em emergências e
desastres, e, segundo os registros, o I Congresso União Latino Americano da Psico-
logia – ULAPSI – aconteceu em 2005, em São Paulo (TRINDADE; SERPA, 2013).

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Em 2006, ocorreu o I Seminário de Psicologia das Emergências e dos Desastres,
em Brasília, organizado pela Secretaria Nacional de Defesa Civil, em conjunto
com o Conselho Federal de Psicologia. Neste mesmo evento, houve a 1a Reunião
Internacional por uma Formação Especializada em Psicologia das Emergências e
dos Desastres, procurando sintetizar as diretrizes curriculares que deveriam compor
a formação dos futuros profissionais em Psicologia, preparando-os para atuar junto
à Defesa Civil. A segunda edição do evento (II Seminário Nacional de Psicologia
em Emergências e dos Desastre) aconteceu em 2011, também em Brasília, quando
foi criada a Associação Brasileira da Psicologia em Emergências e Desastres
(ABRAPEDE), tendo por intuito ajudar a desenvolver o trabalho dos psicólogos nessa
área (TRINDADE; SERPA, 2013).

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) colaborou na elaboração de uma Rede


Latino-Americana de Emergências e Desastres, que teve a participação da Argenti-
na, Chile, Cuba e Brasil. Essa rede organizou vários eventos e congressos propondo
trabalhos na área. Dessa forma, vários Conselhos Regionais de Psicologia se mantive-
ram atuantes na promoção de espaços de diálogos sobre tema ou na produção de ma-
teriais como por exemplo, CRP-04, CRP-07, CRP-12, CRP-16 e outros (CFP, 2011).

Desse modo, fica evidente que a Psicologia vem promovendo atividades para
auxiliar nos casos de emergências e desastres, direcionando a atenção para o tema,
oferecendo congressos e seminários com o objetivo de unir profissionais com inte-
resse em abordar e aprender sobre este campo. No entanto, mesmo com todas as
discussões produzidas em torno dessa área de atuação e das pesquisas já realizadas,
podemos observar pouca expressividade no contexto da realidade brasileira, care-
cendo ainda de muitos estudos. Assim, conhecidos alguns aspectos históricos, faz-se
importante pensarmos sobre os conceitos de desastre, emergências e catástrofes.

Desastres, Emergências e Catástrofes


Para uma melhor compreensão sobre a atuação da Psicologia nas situações de
emergências e desastres, é importante compreender esses três conceitos, não a pon-
to de esgotá-los enquanto áreas de saberes, mas tendo por objetivo discutir quais
são os seus significados no que concerne a sua devida importância para a prática
do profissional de psicologia, explanando, dessa forma, a contribuição produzida a
partir da discussão desses temas.

Segundo Melo e Santos (2011), desastres, emergências e catástrofes sempre foram


usados como sinônimos, para fazer referências a eventos destrutivos. O uso dessas
três palavras de forma misturada se dá pelas semelhanças que elas trazem, visto que
situações de desastres, catástrofes, emergências ou acidentes podem ser classificadas
como acontecimentos desencadeadores de estresse, principalmente por representa-
rem um perigo imediato que acomete à integridade física e emocional das pessoas en-
volvidas, fazendo com que se tenha a necessidade de ações imediatas. Outra questão
é que todos esses acontecimentos são tragédias que deixam exposta a fragilidade

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do ser humano e, muitas vezes, acarretam um grande desamparo associado a


traumas mais ou menos permanentes para os envolvidos direta ou indiretamente.
Eles podem ser imprevisíveis e acidentais e, portanto, causam surpresa, desamparo
e desestabilização. Outra semelhança é que são fontes de destruição e causam danos
materiais e humanos, só que em diferentes proporções.

Será que esses termos são realmente usados como sinônimo na área das emergências e
desastres? Qual a importância prática em fazer uma distinção entre esses acontecimentos?

Apesar de o senso comum, muitas vezes ter o hábito no uso indiscriminado des-
sas palavras, elas se referem a situações diferentes, que trazem consigo uma série de
características que nos dão a possibilidade de enquadrar tais termos adequadamente.

Nesse caso, apesar de compartilhar de características comuns, é importante reco-


nhecer que existem elementos diferenciadores importantes entre as diferentes situa-
ções e que é necessário identificá-las para delimitar claramente os conceitos. Alguns
aspectos relevantes para fazer essa distinção:
• Declarar um evento como “desastre” influenciará a quantidade de ajuda ofere-
cida. Quando as autoridades competentes declararem um evento como um de-
sastre ou catástrofe, já implica em uma maior mobilização de recursos humanos
e materiais;
• O termo “desastre” também possui pesos emocionais, políticos e econômicos
que influenciarão as próprias vítimas e o público em geral;
• A magnitude do desastre, em contraste com outros eventos graves e traumáti-
cos, cria necessidades que abandonam os recursos disponíveis. Ao contrário de
acidentes e emergências, em que os recursos usuais são suficientes para respon-
der às demandas, situações de desastre ou acidente podem implicar em uma
mobilização maior ou menor de recursos, tanto para a gestão de desastres quan-
to para as próprias vítimas. Além disso, é necessário diferenciar esse tipo de
evento para conhecer as características diferenciais de cada uma das situações,
a fim de projetar planos de intervenção e planejamento muito mais específicos
às necessidades detectadas em cada uma das situações.

Alguns autores propõem organizar esses conceitos em uma gradação, em um


continuum, em torno do período de crise social e nível de estresse coletivo. Levando
em consideração: o número e tipo de pessoas envolvidas, o grau de envolvimento
das pessoas na área afetada ou no sistema social e a quantidade de perturbação
ou destruição causada no sistema social pelo agente indutor do estresse coletivo
(GÁRCIA; GIL, 2004; MUGA, 1997; PARANHOS; WERLANG, 2015). 

Levando em consideração esses critérios: (i) no desastre, acontece uma ruptura


ampla e quase completa de todos os processos sociais, estrutura social e interações
primárias e secundárias, e uma ampla destruição de infraestrutura funcional (edifícios,
redes de comunicação e apoio social), (ii) nas emergências, ocorre o colapso localizado

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que interfere com as atividades em andamento de certas pessoas envolvidas (as vítimas)
e causa certa crise em outras pessoas periféricas (PUY; ROMERO, 1998). Esses auto-
res entendem ainda como acidente um tipo de ruptura muito localizado em um grupo
específico de vítimas, mas não nos níveis sociais da maior população.

Assim, é possível localizar e representar esses três tipos de crises social em um


continuum, indo do maior ao menor estresse coletivo, conforme pode ser observado
na figura abaixo.

Acidente Emergência Desastre Catástrofe

- Estresse coletivo + Estresse coletivo


Figura 3 – Continuum acidente, emergência, desastre e catástrofe
Fonte: Adaptado de PUY; ROMERO, 1998

Conforme pode ser observado na figura, a catástrofe está localizada no extremo


que causaria maior estresse coletivo e que implicaria o maior número de vítimas
afetadas, além de uma ruptura na maioria das estruturas sociais e infraestruturas
comunitárias, sendo definida como uma situação em que um fenômeno infeliz e im-
provisado afeta uma comunidade globalmente, incluindo seus sistemas de resposta
institucional. Na catástrofe, os indivíduos afetados não poderão contar com ajuda
institucional, pelo menos nos primeiros momentos, e terão que enfrentar as conse-
quências do fenômeno com suas próprias forças. Um evento pode ser considerado
um desastre quando toda a população é afetada indiscriminadamente por eventos
infelizes e a vida social cotidiana é alterada. Em desastres, os sistemas de resposta
institucional, públicos e privados, podem permanecer ilesos e ajudar à comunidade
afetada (PUY; ROMERO, 1998).

Para maiores informações sobre Classificação e Codificação Brasileira de Desastres


(COBRADE) acesse o link: https://bit.ly/3jcFDgi

Nos extremos de menor estresse coletivo são colocados o acidente e a emergência.


A emergência, entendida como situação que surge quando, na combinação de fato-
res conhecidos, um fenômeno ou evento que não era esperado, eventual, inesperado
e desagradável pode causar danos ou alterações a pessoas, bens, serviços ou meio
ambiente. A emergência supõe uma ruptura da normalidade de um sistema, mas
não excede a capacidade de resposta da comunidade afetada. Quando os indivíduos
são afetados por um acidente, são um segmento da população facilmente delimitado
por uma variável nominal: ocupantes de um carro, inquilinos de um prédio. Nesse
tipo de situação, a população fica de fora dos efeitos do fenômeno ou sinistro, a vida
cotidiana da comunidade não é alterada e os sistemas de resposta e ajuda às pessoas
afetadas permanecem ilesos e podem agir.

Nessa linha, Fernández (2007) faz a diferenciação desses conceitos levando em


consideração os recursos que cada evento exige, diferenciando-se assim a gravidade

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desses. Dessa forma, o autor coloca as emergências como situações que poderiam
ser resolvidas com serviços assistenciais locais, tanto de médicos como de resgate
(exemplo: acidentes de tráfico). Já os desastres têm uma proporção maior e exigiriam
maior infraestrutura devido à falta de serviços locais, ou à magnitude excessiva do
evento para prestar auxílio aos feridos que se encontram em maior quantidade, bem
como já existe um grau de destruição em uma área maior, ocasionando, assim, um
custo socioeconômico mais elevado. E as catástrofes podem ser chamadas de “de-
sastre maciço”, em que as consequências destrutivas são mais generalizadas, afetam
um maior número de pessoas e bens materiais e, portanto, envolvem um grande
esforço por parte das instituições públicas e/ou privadas dedicadas à ajuda e à pro-
teção das pessoas afetadas em todo o território nacional. Por isso, são consideradas
os eventos mais graves nesta escala.

Portanto, diante do que foi apresentado, fica clara a importância de enquadrar


um evento de forma adequada, visto que declarar uma tragédia como um desastre
ou catástrofe pode implicar maior ou menor mobilização de recursos, tanto para a
gestão de desastres quanto para o atendimento das próprias vítimas.

Importante!
Como está o seu entendimento até esse tópico? Se tiver alguma dúvida, releia o texto
ou procure o seu tutor. É muito importante que você obtenha total entendimento para
poder prosseguir com seus estudos.

Importância dos Órgãos


de Controle e Fiscalização
Defesa Civil é o “conjunto de ações preventivas, de socorro, assistenciais e recu-
perativas destinadas a evitar ou minimizar os desastres, preservar o moral da popu-
lação e restabelecer a normalidade social” (BRASIL, 2007, p. 9).

O moral: disposição de espírito para agir com maior ou menor vigor diante de circuns-
tâncias difíceis.

Fonte: FERREIRA (2010)

É um órgão não governamental que tem por objetivo:


garantir a segurança da comunidade e proteção global da população;
compete ao poder executivo municipal oferecer condições para que a
comunidade possa se prevenir e dar respostas adequadas frente a um
desastre. Para isso, as atividades mais importantes devem ser dirigidas à
prevenção, com ações realizadas no período chamado de “normalidade”,

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tendendo a reduzir a incidência de desastres ou minimizar os danos e
prejuízos consequentes deste. (BRASIL, 2008 apud MELO; SANTOS,
2011, p. 174)

Nessas definições, é possível evidenciarmos que a atuação da defesa civil tem


como principal objetivo a redução de riscos e de desastres, compreendendo cinco
ações distintas e inter-relacionadas, que são ações de: prevenção; mitigação; prepa-
ração; resposta; e recuperação. Acontecendo de forma multissetorial e nos três níveis
de governo (federal, estadual e municipal), levando sempre em conta uma ampla
participação comunitária.

Dentre as atribuições da Defesa Civil no estado e nos municípios estão a orga-


nização e o planejamento do trabalho de outros órgãos (como bombeiros, SAMU,
polícia militar) em caso de desastres, cabendo à Defesa Civil fazer a organização do
trabalho em situações de riscos, dando direcionamentos sobre como deverão ser
as ações conjuntas desses órgãos, bem como fazer a sinalização se a área também
oferece risco aos profissionais.

Atualmente, a maioria das Defesas Civis se estruturam em sistemas abertos com


a participação dos governos locais e da população, de forma que todos estão sujeitos
ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC), órgão que é coordenado
pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC).

A finalidade do SINPDEC é cooperar no desenvolvimento de planejamento,


articulação, coordenação e execução de programas, projetos e ações de proteção
e defesa civil. Para tanto, trabalham no planejamento e na promoção de ações
de prevenção de desastres, na realização de estudos, e no desenvolvimento de
avaliações objetivando a redução de riscos de desastres; cabendo ainda, socorrer
e assistir populações afetadas e restabelecer os cenários atingidos por desastres ao
atuar desde a prevenção até a reconstrução. (SOUZA, 2012)

A Defesa Civil tem como um dos princípios uma atuação integrada (articulação
intersetorial). Essa articulação só é possível por meio de ações coletivas junto à rede
social (escolas, unidades básicas de saúde, associações de moradores e organizações
não governamentais, entre outros) e à rede socioassistencial (benefícios, serviços,
programas e projetos).

Importante!
A intersetorialidade pode ser compreendida como uma articulação de saberes e experi-
ências no planejamento, implementação e avaliação de ações para lidar de maneira in-
tegrada com os problemas sociais de uma determinada localidade visando uma gestão
social que atue diretamente no desenvolvimento social.

Ou seja, é uma atuação de maneira integrada da Defesa Civil com a saúde, a edu-
cação, a habitação, a defesa civil, as comunidades, os voluntários e as organizações
não governamentais. As principais organizações não governamentais parceiras na

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prevenção e nas respostas aos desastres: Naciones Unidas – Estratégia Internacional


para la Reducción de Desastres (ISDR); USAID – Do povo dos Estados Unidos; Or-
ganização Mundial de Saúde (WHO); Organização Panamericana de Saúde (PAHO);
CARE; Crescente Vermelho; e Save the Children. Em termos nacionais, são organi-
zações não governamentais importantes: Cruz Vermelha; e Cáritas Brasileira.

Você Sabia?
Você poderá consultar essas Organizações não governamentais digitando seus nomes
em sites de pesquisa. Confira!

A Defesa Civil foi uma das grandes responsáveis pela ampliação da participação
da Psicologia das Emergências e dos Desastres, atentando para a importância da
atuação dos psicólogos nos ciclos de gestão preconizadas pela Defesa Civil, a saber:
a prevenção de desastres, a mitigação do desastre, a preparação para emergências
e desastres, a resposta aos desastres e a reconstrução (BRASIL, 2010). Essas temá-
ticas serão abordadas no tópico subsequente.

Você pode saber mais sobre o trabalho da Defesa Civil, acessando a página da Secretaria
Nacional da Defesa Civil em: https://bit.ly/30gDsB5

Contribuições da Psicologia nas


Emergências e Desastres
A importância da Psicologia em Situações de Emergências e Desastres está in-
timamente relacionada com a descoberta de que os efeitos de um desastre sobre a
saúde se manifestam tanto no físico, quanto no mental e no social (LOMEÑA, 2007).
Paranhos e Werlang (2015) apontaram algumas pesquisas (KRAEMER et al., 2009;
NORTH et al., 2008; ORGANIZACIÓN PANAMERICANA DE LA SALUD, 2004,
2006; PANAGIOTI; GOODING; TARRIER, 2009) que vêm demostrando que a
saúde mental das pessoas que vivenciaram, direta ou indiretamente, situações de de-
sastres, é amplamente abalada, destacando-se o desenvolvimento de: estresse (agudo
e pós-traumático), luto, depressão, comportamento suicida, condutas violentas e uso
de substâncias psicoativas.

Kessler et al. (2006), por exemplo, desenvolveram uma pesquisa com o objetivo
de estimar o impacto do furacão Katrina nas doenças mentais e no suicídio, compa-
rando os resultados de uma pesquisa pós-Katrina com os de uma pesquisa anterior.
Participaram da pesquisa pós-Katrina 1043 pessoas. Como resultado, foi observado
que os participantes da pesquisa pós-Katrina tiveram uma prevalência estimada sig-
nificativamente mais alta de doença mental grave do que os participantes da pesquisa

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anterior (11,3% após o Katrina versus 6,1% antes) e doença mental leve-moderada
(19,9% após o Katrina versus 9,7% antes).

Dessa forma, a Psicologia das Emergências e dos Desastres é entendida como


uma área da psicologia geral que estuda “as diferentes mudanças e os fenômenos
pessoais presentes em um desastre, sejam esses naturais ou provocados pelo ho-
mem, que resultam em grande número de mortos ou feridos que tendem a sofrer
sequelas por toda a vida” (MELO; SANTOS, 2011, p. 175). Para Bruck (2009), a
Psicologia das Emergências estuda “o comportamento das pessoas nos acidentes e
desastres desde uma ação preventiva até o pós-trauma.” (p. 13).

Podemos observar pelas definições que as possibilidades de atuação da Psicolo-


gia na área de emergência e desastres são extensas e importantes (SOUZA, 2012).
Tais ações devem abranger os ciclos de gestão, aprovada pela Lei n. 12.608, de
10 de abril de 2012, ou seja, as cinco fases propostas pela Política Nacional de
Proteção e Defesa Civil – a prevenção, a mitigação a preparação, a resposta e a
reconstrução (WEINTRAUB et al., 2014).

A primeira fase é a prevenção, e tem como intuito evitar que o desastre aconteça,
e/ou atenuar as consequências. A mitigação é a fase de minimização dos desastres,
ou seja, a “diminuição ou a limitação dos impactos adversos das ameaças e dos de-
sastres afins (ESTRATÉGIA, 2009, p. 21). Em algumas situações, é impossível fazer
uma prevenção completa das ameaças, nesses casos, procura-se atuar de forma a
diminuir consideravelmente sua escala e severidade.

Cabendo ao psicólogo, nessas duas fases, uma atuação voltada para a capacitação
da comunidade por meio de uma psicoeducação, para o reconhecimento do risco e
adoção de medidas de segurança, realização de um mapeamento de áreas de riscos,
determinação do grau de vulnerabilidade sociais da comunidade e implementação de
projetos que visem à diminuição dessas vulnerabilidades (RAMÍREZ, 2011; SOUZA,
2012). Segundo Ramírez (2011), quando as pessoas estão informadas sobre seus
riscos, sensibilizadas e capacitadas para oferecer apoio, são capazes de responder
adequadamente, minimizando o impacto do evento em sua saúde mental.

A etapa de preparação tem por objetivo otimizar a comunidade frente aos de-
sastres para atuar em casos emergenciais. Nessa fase estão incluídos os sistemas de
alerta antecipado, que são considerados elementos fundamentais, pois evitam a per-
da de vidas e diminuem os prejuízos e os impactos econômicos e sociais decorrentes
dos desastres. A atuação do psicólogo deve ser a de auxiliar as comunidades no
planejamento, no estabelecimento e estruturação de planos de contingência, reserva
de equipamentos e de suprimentos, desenvolvimento de rotinas para a comunicação
de riscos, capacitações e treinamentos; e os exercícios simulados de campo.

Importante!
Sistema de alerta antecipado é a transmissão rápida de dados que acionem mecanismos
de alarme em uma população previamente treinada para reagir a um desastre.

19
19
UNIDADE Contextualização Histórico-Social

Já a fase da resposta, que ocorre durante o desastre, tem por intuito principal am-
parar e auxiliar vítimas, traçando intervenções para a redução dos danos causados e
estruturando os sistemas que são importantes para o funcionamento da comunida-
de. As atuações podem se dar em três etapas:
• Pré-impacto: acontece entre a ameaça da ocorrência e o desencadeamento do
desastre. O foco de atuação será o treinamento de resposta e a construção de
um plano de emergência;
• Impacto: refere-se ao momento em que a situação adversa está acontecen-
do. Uma atuação importante são os planos de controle hospitalar para as
pessoas vulneráveis;
• Pós-impacto: situação posterior à fase de impacto. Momento em que as ações
estão centradas nas atividades assistenciais e de reabilitação, tendo em conta os
impactos psicológicos de todas as pessoas envolvidas (vítimas de primeiro grau
e as equipes de resgate) (BRASIL, 2010; COELHO, 2012).

Assim, as atuações tanto durante o desastre quanto na recuperação pós-desastre


estão voltadas para trabalhar os efeitos do acontecido sobre a vida das vítimas, da co-
munidade e dos profissionais. Essa atuação pode se dar no atendimento às pessoas
afetadas, por meio de escuta, de entrevistas de apoio, ou mesmo para uma psicoedu-
cação com informações que possam ajudar as vítimas a se situarem e se orientarem
diante da desordem ocasionada pela situação (MELO; SANTOS, 2011).

Esse tópico será abordado em maiores detalhes nas unidades subsequentes, in-
clusive com apresentações de casos práticos com as intervenções realizadas e o
desfecho de eventos com repercussões mundiais. É importante que fique claro que
a atuação da Psicologia nos casos de emergências e desastres deve ter por trás uma
estratégia, não sendo uma atuação isolada, mas fazendo parte de equipes multidisci-
plinares, levando sempre em consideração o ambiente e as contribuições de outras
áreas de conhecimento (SOUZA, 2012).

Diálogo Digital Atuação da Psicologia – Emergências e Desastres.


Disponível em: https://youtu.be/ZMByE5RFoek

20
Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Livros
Estudos de Psicologia
BRAGA, A. P. A.; MARTINS-SILVA, P. O.; AVELLAR, L. Z.; et al. Produção
científica sobre psicologia dos desastres: Uma revisão da literatura nacional.
Estudos de Psicologia, v. 23, n. 2, p. 179–188, 2018.
Estudos de Psicologia
SCHMIDT, B.; CREPALDI, M. A.; BOLZE, S. D. A.; et al. Saúde mental e
intervenções psicológicas diante da pandemia do novo coronavírus (COVID-19).
Estudos de Psicologia (Campinas), v. 37, p. e200063, 2020.
Caderno de Graduação
PAULINO, A. F.; SANTANA, F. G. F. A atuação do psicólogo frente às emergências
e desastres. Caderno de Graduação. v. 5, p. 16, 2018.

Vídeos
Diálogo Digital Atuação da Psicologia – Emergências e Desastres
https://youtu.be/ZMByE5RFoek

21
21
UNIDADE Contextualização Histórico-Social

Referências
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Curso à distância/Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres.
Florianópolis: CEPED, 2010.
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<http: www.pol.org.br>. Acesso em: 15/07/2012.
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SOUZA, N. L. de F. A ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA EM DESASTRES E EMER-
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23
23
UNIDADE Contextualização Histórico-Social

WEINTRAUB, A. C. A. de M.; NOAL, D. da S.; VICENTE, L. N.; et al. Atuação do


psicólogo em situações de desastre: reflexões a partir da práxis. Interface – Comu-
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WEINTRAUB et al. Atuação do psicólogo em situações de desastre. 2015.
Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/icse/2015nahead/1807-5762-ic-
se-1807-576220140564.pdf>. Acesso em: 30/07/2020.

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Psicologia em
Situações de
Emergência
Psicologia das Emergências: Do Preparo Técnico
à Compreensão do Comportamento Humano

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Ksdy Maiara Moura Sousa
Prof.ª Dr.ª Larisse Helena Gomes Macêdo Barbosa

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Sandra Regina Fonseca Moreira

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza
Psicologia das Emergências: Do
Preparo Técnico à Compreensão do
Comportamento Humano

• Introdução;
• Saúde Mental Frente ao Contexto das Emergências;
• O Atendimento Psicológico em
Emergências e os Vários Tipos de Settings;
• O Comportamento Humano e Resposta ao Estresse.


OBJETIVOS

DE APRENDIZADO
• Abordar questões importantes sobre o papel do profissional da saúde mental, especifica-
mente do psicólogo, frente ao contexto das emergências, bem como o preparo técnico;
• Contextualização do setting terapêutico (clínico x emergencial), além de compreender o
comportamento humano frente a situações de desastres.
UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

Introdução
Iremos apresentar a você quais as possibilidades de atuação do profissional de
saúde mental frente ao contexto de situações de emergência. Para isso, é importante
iniciar alguns conceitos básicos sobre o que é saúde mental e como se pode preser-
vá-la diante de situações com elevado nível de estresse e sofrimento. Posteriormente,
serão apresentadas as habilidades técnicas do profissional de saúde mental, bem
como o atendimento psicológico e o setting terapêutico.

Já sabemos definir e compreender as diferenças entre emergências, desastres e


catástrofes, mas podemos dizer que, independentemente dessas definições, todas
trazem em seu contexto aspectos que podem levar a algum sofrimento, perdas, luto,
dor, e acima de tudo muito estresse, podendo esses eventos muitas vezes levar ao
desenvolvimento de transtornos emocionais.

Para compreendermos melhor o papel do psicólogo na saúde mental das pessoas


vítimas de desastres, é fundamental explorarmos três pontos importantes:
• O que é saúde mental?
• O contexto das emergências;
• Quais as habilidades e preparos técnicos do profissional psicólogo para atuar em
emergências e desastres.

Saúde Mental Frente ao


Contexto das Emergências
Sabemos que muitas vezes situações de desastres e catástrofes são capazes de
gerar um profundo impacto na saúde mental das pessoas vítimas desses eventos, e
até mesmo em pessoas que vivenciam de forma indiretas tais condições, devido à
divulgação em mídias, pelos familiares e colegas etc. Essas situações podem variar
desde a violência gerada nas cidades até fenômenos catastróficos de origens ambien-
tais e naturais, muitas vezes sem a ação direta do homem.

No entanto, situações como essas podem nos levar a uma sensação de perigo
iminente ou que ameaça a nossa integridade física, social, econômica e emocional,
podendo gerar muito medo, ansiedade, tristeza, depressão, ou qualquer outro desa-
juste ou desequilíbrio emocional.

Por esse fato, a atenção psicológica e social é fundamental, e preferencialmente


deve ser iniciada imediatamente após o evento ou desastre, ou seja, quanto mais
precoce for a intervenção psicológica, melhores serão os efeitos em longo prazo
(falaremos mais especificamente sobre o manejo nas próximas unidades).

8
Entretanto, mesmo sabendo da importância indispensável da atenção psicosso-
cial em situações de emergência, apenas nos últimos anos é que se começou a
prestar atenção a este tipo de intervenção, englobando ações não só para enfrentar
o quadro físico, mas também as questões psíquicas e emocionais nesses contextos.
(SÁ; WERLANG; PARANHOS et al., 2008)

Vamos Falar de Saúde Mental?


Quando se fala em saúde mental, muitas vezes atribui-se um significado um tanto
estereotipado, associado à doença mental, ou psiquiátrica, no entanto tal percepção
pode estar equivocada, como apontam Amarante (2013) e Foucault (2012) apud
Gaino et al. (2018).
Definições de saúde mental são objetos de diversos saberes, porém, pre-
valece um discurso psiquiátrico que a entende como oposta à loucura,
denotando que pessoas com diagnósticos de transtornos mentais não po-
dem ter nenhum grau de saúde mental, bem-estar ou qualidade de vida,
como se suas crises ou sintomas fossem contínuos. (AMARANTE, 2013;
FOUCAULT, 2012 apud GAINO et al., 2018 p. 112)

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), saúde é “um estado de


completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças”.
Tal definição também parece não contemplar, em sua essência, o conceito em si,
pois, segundo Gama, Torres e Ferres (2014), defini-la desta forma faz dela algo ide-al,
inatingível, favorecendo muitas vezes a medicalização da existência humana). Tal
conceito propõe “um significado irreal, em que as limitações humanas e ambientais
fariam a condição de “completo bem-estar” impossível de ser atingida”. Já o con-
ceito de saúde mental, de acordo com a OMS, seria “um estado de bem-estar no
qual um indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com os estresses
cotidianos, pode trabalhar produtivamente e é capaz de contribuir para sua comuni-
dade (HUNTER et al., 2013; FRANK et al., 2014 apud GAINO et al., 2018 p. 110).

Diante desse cenário, nota-se que tal conceito ainda se faz complexo na literatura
psiquiátrica e das ciências psicológicas.

• Assim, qual seria a melhor forma de trazer esse conceito, para que a partir dele pudéssemos
estabelecer práticas eficientes que corroborassem para a real promoção da saúde mental
no contexto das emergências e desastres?
• As situações de emergências e desastres por si só já são carregadas de profundo sofrimento
e dor, dessa forma, por que estamos falando de saúde mental nesse contexto?

Pois bem, aqui se instala um grande desafio, principalmente quando falamos de


saúde mental frente a eventos que podemos imaginar serem impossíveis de se alcan-
çar uma saúde emocional ou mental adequada. Se considerarmos que viver ou existir
é estar inserido em emoções e sensações diversas e antagônicas, e que a estabilidade
emocional é uma utopia, talvez seja normal haver oscilações e contradições diárias na

9
9
UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

vida. Os autores Gama, Torres e Ferres (2014) trazem uma discussão muito pertinente,
que nos permite refletir principalmente nos cenários de desastres e emergências:
A existência de uma pessoa inclui os erros, os fracassos, as privações, as
opções de vida, os desejos, as angústias existenciais, os desafios e as con-
tradições. Quando criamos um conceito de saúde que impede uma conexão
com a vida cotidiana, que exclui as oscilações, as possíveis aventuras e as es-
colhas singulares, relacionando qualquer afastamento da regra a uma espé-
cie de crime e merecedor de um determinado castigo, estamos, ao contrário
de produzir saúde, normatizando o comportamento. (FERRES, 2014, p. 72)

Dessa forma, segundo esses autores, a definição de saúde mental estaria atri-
buindo, ou incluindo, os paradoxos e sofrimentos encontrados em nosso dia-a-dia.
Assim, análise poderia ficar mais centrada na capacidade de enfrentamento dos
problemas. No entanto, parece pertinente falar que saúde mental é a busca pelo
bem-estar emocional e psíquico, incluindo a capacidade em lidar com as emoções
positivas ou negativas.

Saúde mental pode ser considerada também a forma como reagimos e o signifi-
cado que damos às situações, mudanças, exigências e aos desafios da vida, podendo
até mesmo ser tida como a habilidade em manejar de forma positiva ou realista as
adversidades e conflitos, reconhecendo e respeitando os limites e deficiências. É bus-
car sempre respeitar os próprios limites, sensações e reações.

Pode-se dizer que o conceito de saúde mental passa automaticamente por um


conceito de autocuidado, autocompaixão e aceitação. Vive-se em uma sociedade
onde a dor e o sofrimento são vistos como patológicos e na qual o “normal” seria o
contentamento e equilíbrio constantes.

Dessa forma, ao sujeito não foi permitido ou ensinado lidar com as emoções
negativas, ou com os seus medos, tristezas, angustias, ansiedade, raiva, e, automati-
camente, nos julgamos e tentamos a todo custo buscar sair desses sentimentos, sem
compreendê-los, sem dar a real atenção a eles ou sem acolhê-los. Muitas vezes tais
sentimentos são negados, negligenciados, o que pode vir a gerar uma enorme dor
emocional, muitas vezes irreparável.

Entende-se que no campo das emergências e desastres o sofrimento e a dor são


inevitáveis, e muitas vezes tais reações são coerentes e compatíveis com a situação
vivenciada. No entanto, ressignificar e dar lugar à dor pode ser uma estratégia de
enfrentamento importante dentro do campo da psicologia das emergências.

Existem várias abordagens psicológicas que buscam olhar para o sofrimento e para a
dor, não como um problema, mas como uma resposta para nossas percepções e cren-
ças disfuncionais. A terapia cognitiva comportamental (TCC) é uma delas, e segundo
essa abordagem, não é a situação em si que gera sofrimento ou dor, mas a maneira
como o sujeito atribui significados e percebe tais situações. Falaremos mais profunda-
mente dessa abordagem e de outras da terceira geração da TCC (terapia da Aceitação
e compromisso, terapia comportamental dialética e outras abordagens contextuais).

10
Saúde Mental x Contexto das Emergências
Entende-se que diante de uma situação de catástrofes e desastres, o trauma é um
sintoma ou uma consequência psíquica importante que merece a atenção dos profis-
sionais de saúde mental.

Segundo Shapiro (1997) apud Weintraub et al. (2015), existem duas correntes de
pensamento e intervenção que atribuem ao trauma o resultado principal do desastre,
fazendo com que a intervenção muitas vezes ocorra apenas a nível individual ou em
grupo, excluindo, por consequência, a intervenção nos fatores mais sociais e comu-
nitários. Por outro lado, segundo os autores, existem outras correntes que buscam
valorizar justamente estes dois fatores (social e comunitário) reservando a noção de
“trauma” para situações mais específicas, por sua menor incidência, embora não
sejam menos importantes.

Nota-se, portanto, que o processo de promoção de saúde não deve acontecer


apenas na esfera individual ou grupal, mas é necessário considerar todo o contexto
em que as vítimas estão envolvidas.

Segundo Mattedi (2008) apud Alves, Lacerda e Legal (2015), a psicologia, no


contexto das emergências e desastres, deve ultrapassar as ações voltadas apenas
para os efeitos na condição mental dos indivíduos. É necessário, portanto, que esses
profissionais compreendam também o caráter dinâmico das redes sociotécnicas das
quais o indivíduo faz parte. Dessa forma, a psicologia nesse campo permite a cons-
truir comunidades mais autônomas e seguras e que sejam capazes de estabelecer
criar redes de suporte para enfrentar os eventos catastróficos de origens naturais.

Ainda assim, a preocupação e o acompanhamento da saúde mental em contex-


tos de desastres tiveram início somente no final do século XX, com o amadureci-
mento da percepção do processo saúde/doença, quando equipes internacionais de
intervenção emergencial passam a incorporar, em seus trabalhos, o eixo da saúde
mental (FASSIN et al., 2007, apud WEINTRAUB et al., 2015). No Brasil, sobretudo
na última década, começou-se a considerar a saúde mental como ação crucial nas
respostas para desastres (VALENCIO et al., 2011 apud WEINTRAUB et al., 2015).
A psicologia brasileira tem reunido esforços para refletir sobre o tema,
como, por exemplo: com a realização do 1º e 2º seminários Nacionais
de Psicologia das Emergências e dos Desastres em 2006 e 2012; a cria-
ção da Associação Brasileira de Psicologia de Emergências e Desastres
(ABRAPED) em 2012, e diferentes encontros organizados pelo sistema
Conselhos de Psicologia desde 2010. (WEINTRAUB, 2011)

Dessa forma, é importante dizer que, em situações de emergência, são esperadas


reações emocionais muito intensas, sendo a grande maioria dessas manifestações
considerada compatível com o momento vivenciado. Contudo, a abordagem precoce
de qualquer problema de saúde mental é a maneira mais efetiva de prevenção de
transtornos mais sérios que costumam aparecer, em médio e longo prazo, após o
evento traumático (SÁ; WERLANG; PARANHOS et al., 2008).

11
11
UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

Segundo Cesar et al. (2015), a saúde mental dos atingidos pelos desastres costuma
apresentar-se de forma estigmatizada, gerando preconceito e exercendo assim um
poder patologizante sobre as vítimas, sendo essas muitas vezes consideradas incapa-
zes de reconstruírem suas vidas a partir dos eventos traumáticos. Para isso, segundo
o autor, é de fundamental importância que haja um processo de psicoeducação dos
agentes e autoridades envolvidas nas tomadas de decisões que envolvem as ações e
intervenções nos contextos emergentes.

O Atendimento Psicológico em Emergências


e os Vários Tipos de Settings
A psicologia das emergências é uma nova especialidade da psicologia que exige
habilidades e conhecimentos técnicos específicos, além de competências socioemo-
cionais importantes, dentre elas, a regulação emocional do profissional, bem como
o diálogo com a equipe multidisciplinar.

O que é a psicologia das emergências?

É uma área da psicologia que estuda o comportamento humano diante da ocor-


rência de desastres, acidentes, catástrofes, que podem ser causadas pelo homem ou
pela natureza. Tal atuação se dá desde uma ação preventiva até o pós-trauma, bem
como promove intervenções de acolhimento, compreensão, apoio e superação do
trauma às vítimas e socorristas (BRUCK, 2007).

Figura 1
Fonte: Getty Images

Outra definição importante se dá por Lorente (2003, p. 564) apud Paranhos e


Werlang (2015), em que a Psicologia das emergências é um campo que “compreende

12
a circunstância (a própria emergência atendida), o curso temporal (antes, durante e
depois do evento) e os sujeitos implicados (as vítimas, os intervencionistas e as orga-
nizações que se inserem).

Habilidades, Preparo Técnico e o Papel do Profissional Psicólogo


para Atuar em Emergências e Desastres

Antes de seguirmos nesse assunto, pense em quais habilidades e preparo técnico o pro-
fissional psicólogo precisa apresentar para atuar no contexto de emergências e desastres.
Vamos lá?

A psicologia das emergências e desastres ainda é uma área de atuação recente na


psicologia brasileira e também para todo o contexto envolvendo as emergências, por
isso há poucos estudos e pesquisas nessa área. Além disso, a escassez de material
também se dá pelo fato de as repercussões serem direcionadas especificamente para
questões de saúde física, aspectos sanitários, sociais e econômicos (ALBUQUERQUE,
1997, apud BRUCK, 2007), estando o suporte emocional às vítimas sendo acionado
ainda de maneira restrita e precária.

Mas mesmo diante da falta de qualificação na área de desastres, é necessário que


o psicólogo que atue nesse cenário seja capaz de compreender e adquirir habilidades
básicas tais como:
• Habilidade para trabalhar em equipe: a prática do psicólogo de emergências
e desastres é essencialmente o trabalho em equipe multidisciplinar e interdisci-
plinar. Vários são os profissionais envolvidos nesse cenário, desde socorristas,
assistentes sociais, médicos, servidores públicos, defesa civil, técnicos de saúde,
dentre outros. Saber transitar e promover uma comunicação assertiva com esses
profissionais é um caminho estritamente necessário para uma abordagem abran-
gente e eficaz;
• Conhecimentos específicos em outras áreas da psicologia: Psicologia da
Saúde, Psicologia Clínica, Psicologia Positiva, Psicologia Contextuais (Aceitação
e Compromisso, Comportamental Dialética), Psicologia Social e comunitária,
Psicologia Institucional, Psicofisiologia, Psicologia Ambiental, Desenvolvimento
Humano e Psicopatologia;
• Conhecimentos específicos em áreas como: políticas públicas relacionadas
à defesa civil, visão sistêmica, ou seja, o psicólogo deve ser capaz de analisar a
realidade como um todo;
• Conhecimento sobre os órgãos públicos de assistência à população, pois o pro-
fissional precisa desempenhar ações contínuas com a comunidade, promovendo
reflexão e criação de projetos de promoção à saúde compatíveis com a realidade
local (CARVALHO; BORGES, 2009 apud ALVES et al. 2015).

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UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

Figura 2
Fonte: Getty Images

Nota-se que o psicólogo que atuará em situações de emergência necessita de uma


formação generalista, para ser capaz de promover o diálogo com todos os órgãos
e pessoas envolvidas em todas as etapas do processo do desastre, bem como é in-
dispensável que tal profissional tenha boas habilidades sociais como: comunicação,
relacionamentos interpessoais, assertividade, empatia, civilidade, entre outras.

A atuação do psicólogo em um cenário de emergência não se dá apenas no mo-


mento do evento traumático, mas em todas as fases que envolvem o evento. Essas
áreas são:
• A Fase de prevenção: tem como objetivo evitar e prevenir a ocorrência de um
desastre. Nessa fase, o psicólogo atuará na prevenção; atuará com capacitação
comunitária para a percepção de riscos, em projetos educativos, no desenvolvi-
mento de projetos para a minimização de vulnerabilidades sociais, e no mapea-
mento de áreas de risco;
• A Fase de preparação: visa melhorar, preparar e capacitar uma comunidade
para atuar em caso de eventos adversos, promovendo planos de contingências
e psicoeducação;
• A Fase de resposta: é durante a ocorrência do evento, e, nessa fase, o psicólogo
tem por finalidade socorrer e dar suporte e auxilio às pessoas atingidas, buscan-
do assim reduzir os prejuízos e consequências do desastre naquela comunidade;
• A Fase de reconstrução: na qual o profissional irá dar o suporte necessário
para que a comunidade retorne ao seu funcionamento normal, bem como
administrar e dar suporte às pessoas em abrigos provisórios, atuando também
na elaboração de planos de reconstrução voltados às necessidades da popula-
ção, sempre levando em conta a redução ou minimização de outros eventos
(BRASIL, 2007; BRASIL, 2010);

Conselho Federal de Psicologia: A atuação da Psicologia na gestão integral de riscos e desastres.


Disponível em: https://youtu.be/G_tN6ZuNAzo

14
É possível perceber que a presença do psicólogo nas várias fases de um processo
de desastre envolve habilidades distintas e técnicas específicas. Segundo Greenstone
(2008) apud César et al. (2015), existem outras habilidades fundamentais que devem
ser executadas pelos profissionais de saúde mental, sendo necessário muito treina-
mento e atualização. Portanto, cabe ao psicólogo das emergências:
• Treinamento para intervenção em crises geradas pelos desastres;
• Psicoeducar sobre repostas a desastres para membros da equipe;
• Triagem e entrevista psicossocial;
• Interrogar a equipe;
• Treinamento em primeiros socorros (ressuscitação cardiopulmonar).

O trabalho do profissional psicólogo que atua em situações de emergências não


se limita apenas ao acolhimento e suporte às questões emocionais e psíquicas dos
envolvidos nesses eventos (CÉSAR et al., 2015), mas em toda a rede envolvida.

A práxis da psicologia das emergências vai se construindo no seu próprio fazer,


na sua própria atuação e demanda, e em cada cenário, comunidade, e grupos so-
ciais. É uma prática que, apesar da técnica, sua aplicabilidade e ação podem se dife-
renciar e se moldar de acordo com a situação de desastre, características e demanda
da comunidade atingida. (CÉSAR et al., 2015).

A Escuta Psicológica e os Settings Terapêuticos


A escuta psicológica e o acolhimento são grandes instrumentos e ferramentas
utilizadas pelo profissional, sendo tal prática fundamental em cada fase que envolve
o evento estressor. As técnicas de intervenção psicológicas muitas vezes precisam
ser adaptadas para o contexto das emergências e, por consequência, o ambiente ou
o setting de intervenção também.

Figura 3
Fonte: Getty Images

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UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

Dessa forma, a práxis do psicólogo ultrapassa as barreiras do consultório, sendo


caracterizada pelos contextos e pelos cenários diversos. Segundo César et al. (2015),
as técnicas de psicoterapia breve são frequentemente utilizadas nesse contexto, mas
requerem estudos e adaptações para diversos cenários e situações de emergências.
Ressaltam também a necessidade e importância de uma postura ética e política nor-
teada por valores profissionais em favor daqueles que necessitam de suporte e apoio.

Os autores destacam ainda que, muitas vezes, o atendimento em grupo é mais uti-
lizado do que o atendimento individual, pois permite o uso mais eficiente dos recur-
sos daquela comunidade, bem como melhora a relação com os serviços prestados,
reduzindo também o estigma associado à saúde mental e assistência psicossocial.

A escuta psicológica não se dá apenas às vítimas dos eventos, mas primeiramente


aos profissionais envolvidos no processo, incluindo os próprios psicólogos. Dar as-
sistência e suporte à equipe em primeiro lugar parece ser fundamental, pois seus
integrantes estão na linha de frente, e, dessa forma, eles podem assegurar e dar à
população maior apoio, segurança e acessibilidade. Segundo Cesar et al. (2015),
cuidar da equipe de resgate, e promover o autocuidado dos mesmos, é fundamental
para a promoção de saúde, não só no preparo dessa equipe, mas no decorrer da
atuação. Os autores apontam que o cuidar de si e da equipe são fundamentais, para
que possam dar suporte e cuidados adequados às vítimas.

Por esse contexto, nos é apresentado que os sujeitos envolvidos no processo


de atendimento psicossocial são diversos, e, igualmente, o setting também se faz
diferente. Quando falamos de setting, estamos falando do ambiente no qual esse
acolhimento e escuta são realizados, buscando preservar a ética, a integridade, o
sigilo e a dor dos sujeitos envolvidos. Migliavacca (2008, p. 222) define o setting da
seguinte maneira.
O setting contempla arranjos práticos para a realização do trabalho, mas
é também um conceito psicológico que inclui uma visão do que acontece
dentro dele – da moldura – de modo diferente do que acontece fora.
A par disso, mas não de menor importância, o setting se constitui como
um objeto internalizado, estreitamente ligado ao vértice e à função analí-
tica. O esclarecimento necessário dos arranjos práticos é um dos pilares da
moldura dentro da qual se desenhará em infinitas direções, o encontro de
duas mentes, a do profissional e a de seu paciente, em busca de realização.

Magliavacca (2008, p. 222) denomina o setting como uma moldura, sendo essa
“suficientemente clara, firme, consistente, rigorosa e flexível ao mesmo tempo, den-
tro da qual os conteúdos psíquicos possam encontrar a possibilidade de se manifes-
tarem com suficiente liberdade para serem examinados”.

Franco (2012, p. 56) aponta que:


Visitar o local do desastre (em condições de segurança), receber informa-
ções corretas e participar de celebrações são ações terapêuticas seme-
lhantes às tradicionalmente obtidas em setting clínico, mas ressaltam a im-
portância de se construir um novo setting a cada desastre. Atendimentos

16
grupais ou individuais podem ser efetuados, desde que se tenha clareza do
que mantém o grupo e do que se coloca como individual.

Muitas vezes, esses lugares de acolhimento poderão ser em abrigos comunitários,


escolas, igrejas e acampamentos de apoio. Aquele cenário do consultório individual
e sigiloso parece não ser uma realidade nessas situações, o que não quer dizer que o
psicólogo não deva manter a cautela, o respeito e a ética nesse contexto, permitindo
sempre um espaço de diálogo e encontros.

Psicólogos atuando com os familiares das vítimas da boate Kiss em Santa Maria.
Disponível em: https://bit.ly/2GgbkqZ

Normalmente, a definição sobre o setting ou espaços para realizar os atendi-


mentos/acolhimentos individuais ou grupais, é baseada na utilização de protocolos
e instrumentos para levantamento de dados, como o protocolo de Dodge (2006)
apud Torlai et al. (2015). Essa ferramenta tem por finalidade levantar informações
necessárias para a elaboração de planejamento em relação às intervenções a serem
realizadas, bem como abranger os diversos níveis de assistências demandados pela
situação de desastres. Com esse protocolo, também são levantadas informações
sobre os locais e suas estruturas para acompanhamento das vítimas e envolvidos no
processo (FRANCO, 2013).

No entanto, mesmo que haja um mapeamento prévio, durante e após os desas-


tres, o contexto e prática do psicólogo vai se estabelecendo ao longo do processo e
dos acontecimentos decorrentes do evento. Quando falamos da prática psicológica,
estamos nos atentando para tudo aquilo que nos remete a esse fazer, a começar pelo
enquadre e o cenário terapêutico.

Um estudo realizado por Vasconcelos e Cury (2017) investigou o parecer dos


psicólogos em situações de emergências. Nesse estudo, realizaram-se encontros in-
dividuais com nove psicólogos brasileiros no período de abril a setembro de 2013.
O critério de inclusão consistiu em escolher aqueles que tivessem participado de pelo
menos uma ocorrência extrema. Uma das questões levantadas pelos participantes foi
em relação ao enquadre e setting terapêutico. Segundo eles, ao se depararem com
os desafios da prática psicológica em situações de emergências, há uma necessidade
de estruturar de alguma forma a atenção psicológica. Eles descrevem isso como o
estabelecimento do setting terapêutico. “Corresponde a uma estratégia que acompa-
nha as demandas que surgem da situação. Há necessidade de estruturar o enquadre
como um modo de adaptar-se ao contexto e, a partir dele, traçar estratégias e rotinas
de atuação” (VASCONCELOS; CURY, 2017, p. 482).

Dessa forma, nota-se a importância desse aspecto para a construção e o fazer da


prática psicológica em cenários de desastres e catástrofes, que se estabelece de forma
flexível e dinâmica, pautada no contexto, na ação e intervenção contínua do psicólogo.

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UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

O Comportamento Humano
e Resposta ao Estresse
Abordamos até o momento aspectos que norteiam a prática do psicólogo em
situações de emergências e desastres, bem como a construção de uma práxis que
se estrutura no seu próprio fazer contínuo e diário. As mudanças nas intervenções
realizadas por psicólogos nessas situações decorrem do cenário e demanda em que
o desastre ocorre. No entanto, outro elemento se faz importante para a construção
dessa prática, que é a compreensão do comportamento humano e como esse se dá
em situações de emergências.

Falar sobre o comportamento humano em situações de emergência nos leva a


pensar em outros mecanismos e estruturas biológicas que nos fazem reagir a situa-
ções de perigo e que modulam nossas emoções. O nosso cérebro! Ou seja, como ele
reage e como ele percebe uma situação de estresse? Quais mecanismos ele aciona?
Quais substâncias ele libera e por quê? Falar de comportamento humano em situ-
ações como essas é compreender nosso mecanismo fisiológico frente ao estresse.

Antes de tudo, é importante definir a diferença e, ao mesmo tempo, a relação


entre ansiedade e medo. As respostas emocionais mais comuns em situações de
desastre são medo, ansiedade, estresse, podendo esses levar ao quadro de estres-
se pós-traumático (falaremos mais à frente), pois a característica de um desastre
representa uma ameaça real à integridade e a vida das pessoas envolvidas, levan-
do ao desenvolvimento de consequências emocionais e psicológicas inevitáveis
(CFP, 2005, apud MELO; SANTOS, 2011). Dessa forma a ansiedade e medo são
consequências dessa sensação de ameaça integridade dos indivíduos envolvidos
nessas situações. Ou seja, essas reações são mecanismos de defesa do organismo,
sendo reações esperadas e compatíveis com a situação. No caso dos transtornos
de ansiedade, esses derivam de uma reação exagerada ou catastróficas, não ne-
cessariamente compatível com o evento estressor. (BELZUNG; GRIEBEL, 2011;
ROSEN; SCHULKIN, 1988, apud BIANCO; CANTO DE SOUSA, 2018).

Entende-se por ansiedade a antecipação de uma situação acompanhada por sensa-


ção de medo, risco, ameaça iminente, associados à baixa sensação de controle ou do-
mínio da situação temida. Quando apresentados a situações ambíguas ou neutras, os
indivíduos ansiosos tendem a perceber as situações como ameaçadoras, enquanto os
indivíduos não ansiosos as consideram não ameaçadoras (EYSENCK; MOGG; MAY;
RICHARDS; MATTHEWS, 1991 apud GAZZANIGA et al. 2018 p. 614), assim,
a ansiedade é um estado de apreensão e excitação física em que o indivíduo acredita
que não pode controlar ou prever eventos futuros potencialmente aversivos.

O fato de não ter controle sobre o que irá acontecer faz o cérebro se sentir em
perigo, dessa forma, ele manda respostas para o corpo como se algo estivesse
acontecendo de ruim, tais como, disparo do coração, sudorese, tremores, respiração
ofegante, entre outras, que são reações que o corpo manda para que possamos fugir

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da ameaça que criamos. Segundo Brunoni (2008), os sintomas de ansiedade podem
ter características tanto a nível cognitivo ( percepções de ameaça, perigo), bem
como características físicas/somáticas (como taquicardia, falta de ar, sudorese fria,
dor abdominal, entre outros).

Mas, muitas vezes, certo de nível de ansiedade é fundamental para que possamos
nos preparar para a situação, motiva-nos a caminhar, bem como nos prepara para
reagir a determinada situação para nos proteger, dessa forma ela funciona como
uma alerta sobre a possibilidade da ocorrência de danos físicos e ameaça a nossa
integridade (BRANDÃO, 2004).

O medo é um sentimento primário que todos nós temos quando estamos diante
de uma situação real de ameaça, enquanto que na ansiedade, muitas vezes anteci-
pamos essa ameaça, e isso é o suficiente para o cérebro reconhecer que existe um
perigo, mesmo ele não sendo real. Daí ele funciona como se algo ruim estivesse
acontecendo, mas não está, formando um medo recorrente em situações cotidianas.
A pessoa fica sempre em estado de alerta, como se o pior fosse acontecer a qualquer
momento. O medo nos ajuda a criar estratégias de lutar e fugir, o medo pode ser
protetor, pois isso faz com que tomemos decisões que irão preservar nossa vida. Mas
o que realmente acontece?

Segundo Brandão (2004), quando a ameaça parte de um estimulo distante, ou


ainda é uma ameaça potencial, o nosso sistema nervoso autônomo ativa estruturas
como a amídala (responsável pelas emoções), hipotálamo, hipocampo (responsável
pela memória) e córtex pré-frontal (responsável pela regulação do estresse) resultando
em respostas de medo e ansiedade, enquanto que a resposta a estímulos reais, aver-
sivos e que ameaçam a vida, ativam estruturas mais caudais mesencefálicas, como
a substancia cinzenta periaquedutal (PAG), resultando em respostas de pânico e
ataque defensivo.

O sistema nervoso simpático e o eixo (HPA) hipotálamo-pituitária-adrenal são


acionados pelo hipotálamo. Este eixo exerce um papel fundamental na resposta
aos estímulos externos e internos, incluindo os estressores psicológicos (JURUENA
MF et al., 2004). Todas essas estruturas são responsáveis por regular nossa reação
ao medo, que conhecemos como a reação de luta e fuga. As estruturas cerebrais
também envolvidas nesse processo são a hipófise, pituitária e a amígdala. Essas
estruturas são inicialmente responsáveis pela nossa resposta ao medo e ao estresse.
Segundo Bear et al. (2006) apud Magrinele (2014, p. 23):
O hipotálamo possui um papel central em orquestrar uma resposta hu-
moral, visceromotora e somático-motora apropriada. Esta resposta é re-
gulada pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA). O hormônio cortisol
é liberado pela glândula adrenal em resposta a um aumento nos níveis
sanguíneos do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), liberado pela hi-
pófise anterior devido ao estímulo do hormônio liberador de corticotrofi-
na (CRH) do hipotálamo. Os neurônios hipotalâmicos que secretam CRH
são regulados pela amígdala e pelo hipocampo. Quando o núcleo central
da amígdala é ativado, interfere no eixo HPA e a resposta ao estresse é

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Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

emitida, sendo que a ativação inapropriada tem sido relacionada com os


transtornos de ansiedade.

Veja o quadro abaixo:

Reação do estresse
Ativação do eixo HPA
Hipotálamo
Ativação do sistema nervoso simpático

Amigdala Substância cinzenta Comportamento de esquiva

Sistemas modulatórios difusos Aumento do estado de alerta

Figura 4
Fonte: Adaptada de MARK, 2017

Quando falamos do comportamento humano frente a situações de desastre, tor-


na-se fundamental compreendermos a relação do nosso cérebro mediante uma situ-
ação de perigo.
Podemos dizer que não existe um único sistema responsável pelas nossas emo-
ções, mas já se sabe que o sistema límbico é um deles (MARK, 2017), que a ínsula
e a amígdala são as estruturas mais importantes desse sistema que contribui para
o processamento emocional, apesar de haver outras (GAZZANIGA et al., 2018).
A ínsula pode ser ativada em uma variedade de emoções como raiva, culpa e an-
siedade (CHANG; YARKONI; KHAW; SANFEY, 2013 apud GAZZANIGA et al.,
2018). Já a “amígdala processa o significado emocional dos estímulos e produz rea-
ções emocionais e comportamentais imediatas” (PHELPS, 2006 apud GAZZANIGA
et al., 2018, p. 4074). O processamento das emoções na amígdala é um circuito que
se desenvolveu ao longo do curso da evolução para proteger os animais do perigo”.
(LEDOUX, 2007 apud GAZZANIGA et al., 2018, p. 407)
Quando somos submetidos a uma situação de estresse, o organismo “reage ime-
diatamente, disparando uma série de reações via sistema nervoso, sistema endócrino
e sistema imunológico, através da estimulação do hipotálamo e do sistema límbico”
(ARALDI-FAVASSA et al., 2005 p. 88). Ainda que muitas vezes essas reações pode-
rão ser influenciadas ou sofrer interferências das nossas percepções.
A resposta ao estresse depende, em grande medida, da forma como o
indivíduo filtra e processa a informação e sua avaliação sobre as situações
ou estímulos a serem considerados como relevantes, agradáveis, aterro-
rizantes, etc. Esta avaliação determina o modo de responder diante da
situação estressora e a forma como o mesmo será afetado pelo estresse.
(MARGIS et al., 2003, p. 66)

O nosso cérebro reponde a estímulos imaginários ou reais, que podem estar


atribuídos às percepções de perigo e medo. Essas respostas fisiológicas do nosso
organismo, associadas ao medo, muitas vezes pode ajudar a nos proteger dos peri-
gos eminentemente reais, no entanto, o estresse, em doses crônicas e recorrentes,
pode ser prejudicial e danoso para o nosso corpo.

20
Bases Neurobiológicas da Ansiedade – por Ariadne Belavenutti Magrinelli – extraído do
livro “Tópicos em Neurociência Clínica” – Elisabete Castelon Konkiewitz – editora UFGD-2009.
Disponível em https://bit.ly/3jgltSK

O transtorno de estresse pós-traumático e até mesmo o transtorno de pânico


ou crises intensas de ansiedade podem ocorrer após uma situação de desastre, bem
como muitas outras reações, que podem acontecer durante o evento, como: ne-
gação, agressividade, paralisação, enfrentamento. Todas essas reações podem ser
consideradas normais e esperadas mediante tal situação.

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UNIDADE Psicologia das Emergências: Do Preparo
Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Vídeos
Atuação dos psicólogos nas emergências e desastres – a experiência de Santa Maria
https://youtu.be/2qKMAZFq8gQ

 Leitura
A psicologia das emergências: um estudo sobre angústia pública e o dramático cotidiano do trauma
BRUCK, N. R. V. et al. A psicologia das emergências: um estudo sobre angústia
pública e o dramático cotidiano do trauma. 2007.
Psicologia: Ciência e Profissão
PARANHOS, M. E.; WERLANG, B. S. G. Psicologia nas emergências: uma nova
prática a ser discutida. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 35, n. 2, p. 557-571, 2015.
A Intervenção psicológica em emergências: fundamentos para a prática
TORLAI, V. C. et al. A Intervenção psicológica em emergências: fundamentos
para a prática. Summus Editorial, 2015.

22
Referências
ALVES, R. B.; LACERDA, M. A. de C.; LEGAL, E. J. A atuação do psicólogo diante dos
desastres naturais: uma revisão. Psicologia em estudo, v. 17, n. 2, p. 307-315, 2012.

ARALDI-FAVASSA, C. T.; ARMILIATO, N.; IOURI, K. Aspectos fisiológicos e psi-


cológicos do estresse. Revista de psicologia da UnC, 2(2), 84-92. 2005.

BIANCO, M. B.; CANTO-DE-SOUZA, A. L. M. Ansiedade, memória e o transtorno


de estresse pós-traumático. Rev. CES Psico, 11(2), 53-65. 2018

BRANDÃO, M. L. As bases biológicas do comportamento. São Paulo: EPU,


2004.

BRASIL. Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional de Defesa Civil.


Universidade Federal de Santa Catarina. Centro Universitário de Estudos e Pesqui-
sas sobre Desastres. Gestão de riscos e de desastres: Contribuições da Psicologia.
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________. Secretaria Nacional de Defesa Civil. Brasília, 2007. Política Nacional de


Defesa Civil. Disponível em: <http://www.defesacivil.gov.br/publicacoes/>.

BRUCK, N. R. V. et al. A psicologia das emergências: um estudo sobre angústia


pública e o dramático cotidiano do trauma. 2007.

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Cristina et al. A Intervenção psicológica em emergências: fundamentos para a
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GAINO, L. V.; SOUZA, J. de; CIRINEU, C. T.; TULIMOSKY, T. D. E. O conceito


de saúde mental para profissionais de saúde: um estudo transversal e qualitativo*.
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GAMA, C. A. P da; CAMPOS, R. T. O.; FERRER, A. L. Saúde mental e vulnerabili-


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GAZZANIGA, M. Emoção e motivação. In: Ciência psicológica [recurso eletrônico]


/ Michael Gazzaniga, Todd Heatherton, Diane Halpern; tradução: Maiza Ritomy Ide,
Sandra Maria Mallmann da Rosa, Soraya Imon de Oliveira; revisão técnica: Antônio
Jaeger. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.

23
23
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Técnico à Compreensão do Comportamento Humano

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PARANHOS, M. E; WERLANG, B. S. G. Psicologia nas emergências: uma nova


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TORLAI, V. C. et al. A Intervenção psicológica em emergências: fundamentos


para a prática. Summus Editorial, 2015.

VASCONCELOS, T. P.; CURY, V. E. Atenção Psicológica em Situações Extre-


mas. Psicologia: Ciência e Profissão Abr/Jun. 2017 v. 37 n°2, 475-488. 2017.

WEINTRAUB, A. C. A. M.; NOAL, D. S.; VICENTE, L. N.; KNOBLOCH, F.


Psychologists’ actions in disaster situations: reflections based on practice.
Interface (Botucatu). 2015; 19(53):287-97.

WEINTRAUB, A. C. A. M. Psychological work in humanitarian emergencies:


some considerations and reflections based on two work experiences. Saude Soc
[Internet]. 2011.

WORLD Health Organization. Mental health: a state of well-being. [Internet].


2014.

24
Psicologia
em Situações
de Emergência
Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Ksdy Maiara Moura Sousa
Prof.ª Dr.ª Larisse Helena Gomes Macêdo Barbosa

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Sandra Regina Fonseca Moreira
Manejo Psicológico Frente
às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

• Introdução;
• Avaliação dos Riscos, Suporte
às Vítimas, Auxílios Emergenciais;
• Manejo Emocional dos Profissionais e
Socorristas bem como dos Familiares;
• A Saúde Emocional dos Psicólogos
que Atuam nas Emergências;
• A Mídia em Situações de Emergência e
Desastres: Influência na Saúde Mental.


OBJETIVOS

DE APRENDIZADO
• Compreender e avaliar as reações emocionais das pessoas diante do momento dos desas-
tres, ou da ocorrência do evento, fazendo avaliação dos riscos, o suporte às vítimas, os auxí-
lios emergenciais;
• Compreender quem são as vítimas, diretas ou indiretas, manejo emocional dos profissionais
e socorristas, bem como dos familiares. A saúde emocional dos psicólogos que atuam nas
emergências e o papel das mídias e imprensa no contexto dos desastres e influência na
saúde mental.
UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

Introdução
Eventos de emergência e desastre em larga escala, resultantes de causas naturais,
tecnológicas ou humanas, geralmente afetam comunidades inteiras. Invariavelmen-
te, produzem lesões, perdas humanas e de capital significativas, juntamente com
perturbações sociais e de infraestrutura prolongadas. Além disso, emergências e
desastres normalmente impõem uma carga significativa e persistente à saúde mental
para aqueles afetados direta e indiretamente (Ver quadro de classificação das vítimas)
(GÉNÉREUX et al., 2019).

Figura 1 – Visão aérea de região atingida por enchente


Fonte: Getty Images

Quadro 1 – Classificação de Vítimas


Vítimas primárias as do epicentro do desastre
Vítimas secundárias família e amigos das principais vítimas
Vítimas de terceiro nível pessoal de emergência e resgate
Vítimas de quarto nível membros da comunidade que oferecem ajuda
Vítimas de quinto nível aqueles perturbados por envolvimento indireto
aqueles que, por acaso, poderiam estar direta-
Vítimas do sexto nível mente envolvidos
Fonte: Adaptado de ALEXANDER, 2005

Esta unidade tem por objetivo compreender e avaliar as reações emocionais das
pessoas diante do momento dos desastres, ou da ocorrência do evento. Compreender
quem são as vítimas, diretas ou indiretas, o manejo emocional dos profissionais e
socorristas, bem como dos familiares. A saúde emocional dos psicólogos que atuam
nas emergências e o papel das mídias e imprensa no contexto dos desastres e influ-
ência na saúde mental.

Para tanto, abordaremos os seguintes tópicos:


• Avaliação dos riscos, o suporte às vítimas, os auxílios emergenciais;

8
• Manejo emocional dos profissionais e socorristas bem como dos familiares;
• A saúde emocional dos psicólogos que atuam nas emergências;
• A mídia em situações de emergência e desastres: influência na saúde mental.

Avaliação dos Riscos, Suporte


às Vítimas, Auxílios Emergenciais
Conforme visto nas unidades anteriores, situações de desastres e emergências
em geral extrapolam a capacidade da população de prever, prevenir ou controlar
determinado evento utilizando seus próprios recursos, visto que consistem em uma
grave interrupção do modo de funcionamento de uma sociedade (MELLER, 2015).
Geralmente, provocam um grande número de vítimas e uma comoção popular devi-
do tanto ao seu alcance (MELO; SANTOS, 2011) como os prejuízos causados para a
população afetada (mortes, desestruturação social, e o provável desenvolvimento de
alterações físicas e emocionais) (FARIAS, et al., 2012; MELLER, 2015, WHO, 2007).

Algumas reações emocionais, como medo, ansiedade, insegurança e sintomas


como distúrbios do sono, irritabilidade, raiva dificuldades de concentração e respos-
tas exageradas a estímulos ambientais, são esperadas e consideradas compatíveis
com o evento traumático (MELLER, 2015; SÁ et al., 2008). No entanto, a vivência
de um desastre pode ser uma situação que caracteriza um trauma.

E, além de lidar com essas repostas psicológicas às vítimas em geral, precisam


esforçar-se para estabelecer um equilíbrio entre o meio e ele mesmo. Isso se dá por-
que a partir do aparecimento da crise, o equilíbrio do indivíduo se desfaz, passando a
perceber suas estratégias de enfrentamento e resolução de problemas enfraquecidas
ou inexistentes. Como resultado desse desequilíbrio, as pessoas se veem incapazes
de manejar os conflitos e dificuldades relacionadas ao evento de forma satisfatória
(MELLER, 2015).

Mas, o que seria uma crise?

[...] um estado temporal de transtorno e desorganização, caracterizado


principalmente por uma incapacidade do indivíduo para manejar situa-
ções particulares utilizando métodos comumente conhecidos para a solu-
ção de problemas, e pelo potencial para obter um resultado radicalmente
positivo ou negativo. (SLAIKEU, 1996, p. 16)

O termo intervenção em crise pode ser pensado como um atendimento psicoló-


gico/comportamental imediato, projetado para primeiro estabilizar e depois reduzir
os sintomas de angústia/ansiedade, com o objetivo de alcançar um estado de fun-
cionamento adaptativo; ou, para facilitar o acesso a cuidados continuados, quando

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

necessário (EVERLY; LATING, 2019). Segundo sinalizam alguns autores (ALVES;


LACERDA; LEGAL, 2012; FRANCO, 2005; MELLER, 2015), a intervenção em
emergências e desastres deve se basear em uma atividade focal e breve, que tem por
objetivo fornecer os primeiros auxílios psicológicos após um desastre, levando em
consideração as condições individuais e, principalmente, a recuperação e o aumento
das capacidades adaptativas dos indivíduos.

Assim, o que se precisa ter em conta para realização de uma intervenção psico-
lógica em um momento de crise, é que a maioria das pessoas, quando se depara
com situações de emergências e desastres, possuem condições para restabeleceram
o equilíbrio e superar de forma positiva o estresse desencadeado (em torno de qua-
tro a seis semanas após o ocorrido), e que a intervenção precisar ter como pilar a
prevenção, para que esse fluxo aconteça da melhor forma possível (PARANHOS;
WELANG, 2015; YEAGER; ROBERTS, 2015).

Primeiros Auxílios Psicológicos


O aspecto psicossocial em situações de emergências e desastres foi por muito
tempo ignorado, até o final da década de 70, as atividades desenvolvidas na atuação
nesses eventos tinham o predomínio em atividades voltadas a medicação e cuidados
físicos com as vítimas feridas e intervenções estruturais, voltadas para a reconstrução
das áreas danificadas (MELLER, 2015). Com o passar do tempo, a identificação de
sintomas nas vítimas como medo, ansiedade e estresse, e o seu impacto prejudicial
na saúde mental dos envolvidos, faz surgir o primeiro manual denominado “Primei-
ros auxílios Psicológicos em Casos de Catástrofes”, que enfoca no suporte psicológi-
co das vítimas de desastres, desenvolvido pela Associação de Psiquiatria Americana
(BENEVIDES, 2015).

Na década de 80, foi desenvolvida a CISD (Critical Incident Stress Debriefing),


conhecida no Brasil como debriefing psicológico. Resumidamente, trata-se de uma
entrevista em profundidade realizada nos primeiros dias após a exposição traumáti-
ca. Tem o foco na expressão de sentimentos relacionadas à experiência traumática
vivida, com objetivo de fazer uma reordenação cognitiva. Na sua forma original, é
formada por sete fases: introdução, fatos, pensamentos, reações emocionais, sinto-
mas, informação e reentrada, agrupadas da seguinte forma: fase de introdução,
tem por objetivo a apresentação do profissional e a explicação das metas e benefícios
da intervenção, seguida da fase de narração, em que as vítimas relatam a situação
traumática vivenciada, descrevendo os pensamentos e ideias, fase de reação, que
promove a liberação de emoções e sentimentos associados à experiência vivida e
fase pedagógica, em que ocorre a psicoeducação sobre as reações esperadas e
estratégias de enfrentamento (coping) (GUIMARÃES, et al. 2007).

A técnica de debriefing psicológico em acidentes e desastres,


disponíevel em: https://bit.ly/34gCeqD

10
Apesar de serem amplamente utilizadas, as intervenções baseadas em debriefing
psicológico não apresentam estudos científicos que comprovem a sua eficácia para
a redução de sofrimento ou prevenção de reações pós-traumáticas. No entanto, as
intervenções fundamentadas nos primeiros auxílios psicológicos (PAP) são apresen-
tadas na literatura como uma alternativa mais segura de intervenção preventiva nas
situações de emergência e desastre. (SILVA et al., 2013)

A PAP é uma prática de suporte às vítimas de emergências e desastres recomen-


dada por importantes organismos como a Organização Mundial da Saúde – WHO,
Inter-Agency Standing Committee (IASC) e o Sphere Project, sendo considerada
uma alternativa ao debriefing  psicológico (JACOBS et al., 2016). Essas práticas
são entendidas como uma resposta humana e de apoio às pessoas em situação
de sofrimento e com necessidade de apoio. Os principais objetivos da PAP são:
oferecer apoio não invasivo, minimizar o perigo de morte, proteger as pessoas de
danos adicionais e auxiliar e orientar as pessoas com as fontes de ajuda disponíveis
(PARANHOS; WELANG, 2015; SLAIKEU, 1996; WHO, 2011).

Esses PAP se fundamentam na ideia de que os indivíduos que passaram por de-
sastres poderão desenvolver uma série de reações psicológicas, emocionais e físicas,
sendo um dos principais objetivos da intervenção o foco na reconstrução das capa-
cidade dessas pessoas se recuperarem, amparando-as na identificação das suas
necessidades imediatas, bem como suas próprias forças e habilidades.

Dessa forma, a abordagem inicial às vítimas nesse tipo de situação consiste numa
avaliação inicial das necessidades e preocupações das pessoas envolvidas, com intui-
to de propiciar um ambiente de assistência e segurança (MELLER, 2015). Segundo
salientam Paranhos e Bertuzzi (2019), são ações centrais dos PAP, promoção de
conforto e segurança, a observação de condutas, a escuta das preocupações e dú-
vidas, identificação das emoções consideradas atípicas em situações anormais. É
sempre importante ficar atento às vítimas que demandam auxílio especializado para
realizar encaminhamento.

Outra questão importante que é levantada é a questão cultural, é preciso estar


atento às necessidades mais salientes do outro, tendo em conta que cada cultura tem
suas próprias formas de comportamentos, buscando falar e porta-se de acordo com
a cultura do indivíduo, sua idade, gênero, costume e religião. Dessa forma, em qual-
quer protocolo de atuação que se vá usar, é necessário que se faça uma adaptação
às normas sociais e culturais para o contexto em que se está atuando (PARANHOS;
WELANG, 2015).

São diversos os modelos existentes de protocolos para aplicação dos primeiros


auxílios psicológicos (ASTRALIAN RED CROSS, 2009; CARE, 2009; MARTÍN;
MUÑOZ, 2009, SALIKEU, 1996, PARANHOS; BERTUZI, 2019) e, mesmo que
sejam evidenciadas diferenças em relação às características (fases a serem seguidas)
entre esses protocolos, é unânime a procura por proporcionar de forma rápida e
competente a autonomia dos indivíduos para lidar com a situação crítica e retomar o
controle de si (PARANHOS; WELANG, 2015).

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

O protocolo descrito por Meller (2015), que levou em consideração Organização


Mundial de Saúde (OMS), Australian Red Cross, Inter-Agency Standing Committe
(IASC) e a National Clid Traumatic Stress Network (NCTSN) estabelece diretrizes
que compõem os primeiros auxílios psicológicos. Essas diretrizes são explicadas por
seis intervenções: contato, segurança, estabilidade, coleta de informações, conexão
do indivíduo com a rede social e informação.

Sendo o primeiro denominado contato, preconizando que seja desenvolvido um


envolvimento de uma forma não abrupta com os indivíduos em crise. Tendo uma
comunicação cuidadosa, demostrando calma e compreensão, com intuito de ajudá-
-los a se sentirem mais protegidos e calmos. A segunda intervenção é denominada
segurança, cabendo garantir a redução de riscos e possíveis ameaças que a pessoas
possam estar passando naquele instante. Após a estabilização dos riscos, o próximo
passo e a estabilização dos indivíduos, buscando assegurá-los em ambiente seguro
e verificando se os indivíduos estão satisfazendo suas necessidades fisiológicas, pro-
porcionando mais conforto.

O foco da estabilidade é apresentar informações realistas, precisas e oportunas


sobre o desastre. A disponibilização desses tipos de informações sobre o evento
pode trazer consolo aos sobreviventes. Nesse momento, é importante estar aberto
para uma escuta caso exista o desejo por parte da vítima. A coleta de informa-
ções, tem por objetivo realizar uma avaliação com as vítimas e envolvidos procu-
rando saber suas necessidades e apreensões, para a verificação da efetividade da
assistência prestada.

A quinta intervenção, conexão do indivíduo com a rede, destina-se a estabele-


cer uma aproximação do indivíduo com seus familiares e amigos (suporte primário).
Por fim, cabe a intervenção de informar, que versa sobre a disponibilização de infor-
mações (verbais ou escritas) com intuito de instrumentalização das pessoas para lidar
com a situação de crise. Fornece-se informações sobre as possibilidades de serviços
para dar continuidade ao auxílio psicológicos, se for necessário.

Nessa mesma direção, Salikeu (1996) propõe cinco passos: (1) realização de con-
tato e aproximação; (2) identificação de necessidades e preocupações; (3) resoluções
de problemas; (4) oferecimento de informações estratégias positivas e (5) conexão à
rede de apoio e manutenção da segurança.

É importante ressaltar que PAP não é considerado um procedimento exclusivo


de profissionais de saúde mental, já que qualquer intervencionista de emergências e
até membros da comunidade podem ser treinados para fornecer apoio psicológico
básico às suas famílias, amigos, vizinhos e colegas de trabalho e gerenciar seu pró-
prio estresse (JACOBS, 2016). Essa capacitação pode ser oferecida por psicólogos,
que devem se inserir nesse contexto como integrantes da equipe de coordenação e
gestão, avaliando quando, como e que tipo de intervenção pode ser necessária em
cada situação (PARANHOS; WELANG, 2015).

12
Alguns outros protocolos disponíveis são: National Child Traumatic Stress Network e National
Center for Posttraumatic Stress Disorder (2006).

Importante!
A utilização dos protocolos deve estar em acordo com os planos de contingência que
devem ser traçados junto à comunidade, levando em consideração suas peculiaridades,
para que não se torne algo imposto pelos profissionais e perca o objetivo principal - ajudar
da melhor maneira possível a quem precisa.

Para saber mais sobre o PAP, leia “Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores
de campo” disponível em: https://bit.ly/30rqFf4

Manejo Emocional dos Profissionais e


Socorristas bem como dos Familiares
A instabilidade psicológica ou emocional causada por situações de emergências
e desastres, além de afetar à vítima, como foi discutido no tópico anterior, causam
danos tanto aos familiares, como aos profissionais que realizam os primeiros
auxílios (ALMONDES; SALES; MEIRA, 2016). Diante dessa demanda, cabe ao
psicólogo a função de acolhimento, intermediação e integração do paciente/famí-
lia, e da própria equipe (SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008).

Figura 2
Fonte: Getty Images

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

De acordo com Scremin, Ávila e Branco (2009), umas das funções importantes
do trabalho do psicólogo deve ser a de mediador na relação entre a equipe/paciente/
família, atuando como um porta-voz das necessidades dos sujeitos, intervindo para
diminuir os desencontros de informações que são comuns nesses contextos.

O atendimento oferecido aos familiares é de grande relevância, visto que eles tam-
bém querem esclarecimentos das informações sobre o evento e sobre seus parentes.
Algumas das informações mais urgentemente solicitadas pelos familiares são: se o
familiar está consciente e orientado, qual a gravidade da situação, quais são seus com-
prometimentos físicos, quais documentos são necessários para dar entrada no hospital.
Outra questão é que, em muitas ocasiões, os familiares desenvolvem níveis de estresse
e ansiedade tais como a própria vítima, tamanho o envolvimento deles com o evento.
Assim, realizar o apoio psicológico com os familiares é de suma importância, cabendo
a utilização de técnicas de diminuição da ansiedade, ajudando a transformar os familia-
res em agentes facilitadores no auxílio ao paciente (ALMONDES et al., 2016).

O psicólogo pode realizar acolhimento dos profissionais em sofrimento através


de algumas ações como: plantão psicológico, rodas de conversa e atendimentos
psicoterápicos individuais. Cabendo ainda a promoção de palestras e treinamentos
em temas diretamente relacionados a sua atuação, como saúde mental, psicopato-
logia, psicologia positiva, estratégias de enfrentamento do estresse e os maios va-
riados temas que possam surgir em um nível psicológico em situações de urgência
(ALMONDES et al., 2016).

Outra proposta salientada por Almondes et al. (2016) foi o atendimento aos fami-
liares das vítimas nas viaturas SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência),
tendo o intuito de proporcionar o alívio do impacto direto do evento traumático.
A proposta de intervenção do Serviço de Psicologia no SAMU visa ga-
rantir ações de cuidado aos profissionais, auxiliando-os no preparo para
lidar com a dimensão subjetiva que toda prática de saúde supõe, fortale-
cendo o processo de humanização da atenção e do cuidado prestado ao
paciente e ao trabalhador através da Política Nacional de Humanização
(PNH). (ALMONDES et al., 2016, p. 453)

Relato de experiência da inserção do Serviço de Psicologia no SAMU 192 RN, que tem como
proposta intervenções com as vítimas atendidas em resgate por condições clínicas, aciden-
tes ou violência, assim como com seus familiares, a comunidade envolvida e com os profis-
sionais de saúde do serviço. Disponível em: https://bit.ly/33l7RA1

14
A Saúde Emocional dos Psicólogos
que Atuam nas Emergências
Nota-se, no decorrer do conteúdo, que as situações de desastres e catástrofes exi-
gem um trabalho físico e mental dos profissionais envolvidos em todas as etapas que
envolvem o evento, estejam esses profissionais atuando de forma direta ou indireta
nas ocorrências. Dessa forma, é de extrema importância o cuidado e manejo da saú-
de emocional da equipe envolvida, para que esses possam dar o suporte necessário
à população.

Dentro desse cenário, o cuidado com a saúde emocional do profissional de psico-


logia também se faz necessário, no entanto, pouco se sabe sobre essas experiências
com esses profissionais nessas situações (VASCONCELOS; CURY, 2017). Nota-se,
portanto, uma escassez de material que retrata a realidade emocional dos profissio-
nais de psicologia que atuam em situações de desastres, já que a maioria dos estudos
realizados nessa temática traz a saúde do psicólogo nos contextos hospitalares, aten-
ção primária à saúde e instituições.

Ainda assim, segundo Cesar et al. (2015), é necessário que haja, antes de qual-
quer intervenção, um cuidado com a saúde mental dos profissionais da psicologia
envolvidos em situações de desastres, pois segundo os autores, os psicólogos, como
parte da comunidade e integrantes de uma sociedade, também são atingidos pelas
tragédias ao terem que lidar com tanta dor e sofrimento. Segundo Magalhães e Melo
(2015) apud Andery et al. (2020), “o contato com a vulnerabilidade dos pacientes
convoca o enfrentamento com o seu próprio despreparo, o que pode ocasionar so-
frimento emocional agudo” (p. 29).

A exposição diária a eventos traumáticos e de desastres, e a rotina exaustiva das


práticas e atividades realizadas, podem levar o profissional a um quadro de exaustão
e estresse mental. A atuação do psicólogo, principalmente no campo das emer-
gências e desastres, apresenta uma característica pautada no investimento subjetivo
às queixas e sofrimentos dos pacientes. Esses profissionais lidam diariamente com
situação altamente estressantes praticamente durante todo o período em que estão
atuando, bem como a sobrecarga de tarefas e o pluriemprego como forma de organi-
zação profissional (BIEHL, 2009). A síndrome de Burnout e outras alterações emo-
cionais como depressão e ansiedade podem ser muito comuns nesses profissionais.

Leia mais sobre a Síndrome de Burnout, disponível em: https://bit.ly/2HKJJOZ

O desgaste físico e emocional faz com que “o indivíduo se sinta exigido e reduzido
nos seus recursos emocionais, o que afeta as relações interpessoais profissionais e
familiares, tornando se assim ineficaz em se doar emocionalmente para as pessoas
ao seu redor” (ANDERY et al., 2020, p. 30).

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

O manejo e as medidas de prevenção da saúde mental desses profissionais, pas-


sam necessariamente pela qualificação e experiência, mas, acima de tudo, pela habi-
lidade de serem flexíveis e resilientes, levando em consideração que cada cenário irá
exigir estratégias distintas e a consciência da necessidade de adaptações das técnicas
de intervenção (CESAR et al., 2015).
Dentre os desafios para o psicólogo estão o elevado investimento pessoal
para execução de suas atividades, busca frequente por aprimoramento,
crescente número de profissionais que atuam em diferentes áreas e o
fazer profissional dar-se por meio da promoção de saúde mental e quali-
dade de vida das pessoas, o que prevê o manejo de problemas de origem
psicoafetiva. (BASTOS; GONDIM, 2010; RODRIGUEZ; CARLOTTO,
2014, apud ANDERY et al., 2020, p. 28)

Pelo fato do profissional psicólogo lidar diariamente com as perdas, dores, lutos
e sofrimento das pessoas atingidas pelos desastres, tal cuidado pode “trazer à cons-
ciência, por vezes de forma dolorosa, as próprias perdas do profissional que se vê
impactado podendo interferir no tratamento, como também promovendo e amplian-
do a consciência da morte pelo cuidador” (WORDEN, 1998, apud ANDERY et al.,
2020, p. 29).

Dessa forma, o cuidado com a saúde emocional da equipe envolvida deve ser
primordial, e realizada em primeira instância, para que assim os profissionais con-
sigam oferecer o cuidado integral e eficaz ao próximo e às vítimas. Vamos destacar
alguns pontos fundamentais que auxiliam nesse suporte e que garantem mais apoio
ao profissional de saúde mental.

Antes de darmos seguimento reflita: quais poderiam ser as estratégias de acolhimento e


suporte oferecidas aos profissionais psicólogos diante de situações de desastre?

Dentre essas estratégias encontram-se:


• Fazer parte de uma organização humanitária

Um estudo realizado por Vasconcelos e Cury (2017) investigou a experiên-


cia de 9 psicólogos que atuaram em situações extremas e de desastres. Dentro
desse contexto, os entrevistados relataram que pertencer a uma organização
estruturada garantiria maior suporte e auxílio frente às demandas.
Minimiza a exigência de tomada de decisão individual por parte do psi-
cólogo e estabelece uma relação de suporte e cuidado da direção da or-
ganização em relação à equipe. As organizações de ajuda humanitária
exercem funções vitais na coordenação das ações, no recrutamento, trei-
namento e suporte às equipes. (VASCONCELOS; CURY, 2017, p. 482)

Franco (2005) ainda ressalta que, diante de tanta exposição às adversidades,


as organizações tornam-se um espaço que oferece suporte e represamento ao

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risco, possibilitando ao profissional psicólogo um lugar de refúgio, amparo e
proteção, promovendo a segurança e cuidados necessários.

Nota-se também a importância das organizações nos preparos técnicos e


instrumentais aos psicólogos, o que possibilita uma melhor atuação e manejo
nas situações extremas. A capacitação profissional, os treinamentos realizados
e a prática supervisionada, podem ser fundamentais na garantia do suporte
emocional e manejo das situações de estresse dos profissionais. Contudo, esses
fatores não são suficientes se não há um espaço para o compartilhamento de
experiências e o autocuidado.
• Autocuidado, autoconhecimento e rede de apoio

Outros aspectos que se fazem fundamentais quando falamos em saúde men-


tal do profissional de psicologia são autocuidado e rede de apoio (familiar, social,
profissional) e autoconhecimento.

O Autocuidado, ou o cuidar de si, faz parte fundamental do processo de


promoção da saúde emocional do profissional psicólogo. No entanto, muitas
vezes tal aspecto passa despercebido, ou acaba sendo negligenciado pelos pro-
fissionais. Segundo Foucault (1982; 2006) apud Andery et al. (2020) “cuidar
de si, significa antes de tudo não ser escravo dos outros, tanto daqueles que nos
governam, quanto dos nossos próprios desejos e paixões” (p. 31).

Ainda nesse contexto “quem cuida de modo adequado de si mesmo, quem


ocupa-se de si mesmo, encontra-se em condições de relacionar-se, de condu-
zir-se adequadamente na relação com os demais” (FOUCAULT, 1982; 2006,
apud ANDERY et al., 2020, p. 32). Outra definição de autocuidado foi sugerida
pelo Departamento de Atenção Básica à Saúde (2012), “é olhar para si, em prol
da sua saúde, adquirindo hábitos saudáveis e que condicionem um bem estar,
físico e mental”.

No entanto, muitas vezes o profissional psicólogo não se permite esse cuidar de


si, deixando de lado seus sentimentos e emoções, por acreditar que por estar cui-
dando do outro não pode sentir dor, raiva, cansaço, sendo essas sensações muitas
vezes vistas como fraqueza ou incompetência profissional. Nesse caso, o exercício de
autocompaixão é importante, pois, segundo De Melo e Raupp (2020), muitas vezes
é difícil para esses profissionais aceitarem os próprios sentimentos e se sentirem
compadecidos por esse sofrimento. Entende-se por autocompaixão a capacidade em
aceitar as próprias limitações e falhas, e poder acolher a si mesmo, aceitando a todo
e qualquer sentimento que surja no decorrer da vida, sem julgamento.

Remen (1993) apud Andery et al. (2019, p. 32) apontam:


A repressão da emoção pode ser um dos principais provocadores do
esgotamento psicológico. Aponta que parte da fadiga é atribuída à natu-
reza do trabalho e ao empenho em negar constantemente as emoções,
para adquirir a objetividade imprescindível àquilo que se define ser o bom
desempenho profissional.

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

Quando falamos em saúde mental ou promoção de saúde, o autoconhecimento


parece ser outra condição fundamental para os psicólogos que atuam em situações
extremas. Compreender os próprios limites, os pontos fortes e os vulneráveis, permi-
te com que o profissional tome decisões mais assertivas e coerentes com seu modo
de encarar as situações, ou seja, tanto o autocuidado quanto ao autoconhecimento
permite com que o profissional psicólogo desempenhe seu trabalho de forma mais
assertiva e consciente (DE MELLO; RAUPP 2020).

Figura 3
Fonte: Conselho Regional de Psicologia – Rio Grande do Sul

A rede de apoio ao profissional psicólogo torna-se de suma importância, pois


consiste num espaço de acolhimento e troca de experiências com os outros profissio-
nais, bem como um lugar para aliviar as emoções e possíveis sofrimentos decorren-
tes dos atendimentos às vítimas. Worden (1998) apud Andery et al. (2020) destacam
que o coordenador ou o chefe de uma equipe pode algumas vezes ser um facilitador
dessa rede de apoio ao psicólogo, permitindo encontros regulares com a equipe,
no intuito de promover as discussões sobre os desafios e problemas enfrentados, os
sentimentos latentes que surgem no cuidado aos pacientes, visando assim a redução
e manejo do estresse e a da expressão de sentimentos a respeito das perdas e do
processo de luto.

A rede de apoio também pode ser promovida pela própria equipe envolvida
nos processos de intervenção, permitindo as trocas de experiências e supervisões
caso necessário.

No entanto, deve-se pensar que a exposição constante ao estresse, a sobrecarga


de trabalho, a falta de diretrizes e modelos a serem seguidos e a falta de suporte
emocional a esses profissionais podem ser importantes fatores desencadeares de
adoecimento mental nessa população.

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A Mídia em Situações de Emergência e
Desastres: Influência na Saúde Mental
Qual a importância da mídia em situações de desastres? E como ela pode influenciar a saúde
mental da população?

Iniciar este tópico com uma questão de análise sobre a importância da mídia é
fundamental, pois permite uma leitura mais crítica e uma aprendizagem mais signi-
ficativa sobre o assunto.

Diante de situações de desastres e catástrofes, a mídia apresenta uma participa-


ção importante, e, muitas vezes exaustiva, na cobertura desses eventos. A busca
por audiências, por informações e dados fidedignos e até mesmo o sensacionalismo
midiático fazem parte desse contexto jornalístico.

A impressa costuma dar muita audiência e atenção a grandes desastres ou catás-


trofes coletivas, sejam elas naturais ou produzidas pelo homem, sendo tais notícias
muitas vezes apresentadas em tons variados aos leitores e telespectadores de todo o
mundo (COUTINHO; FIGUEIRA 2013).

Tal narrativa, ou o tipo de conteúdo, intensidade e a exposição recorrente dos


eventos traumáticos apresentados pela mídia à comunidade, pode vir acompanhados
por interpretações, experiências e vivências emocionais baseadas nos fatos apresen-
tados, podendo gerar muitas vezes percepções ameaçadoras da realidade (GIANINI
et al., 2015).

No entanto, não podemos negar a responsabilidade social das mídias em situa-


ções como essas, pois seu objetivo, além de informar e sanar a angústia da popu-
lação, também apresenta um papel investigativo, político e econômico importante,
“a mídia é a mais importante ferramenta de mitigação à disposição das autoridades
porque a sua atuação cria a percepção pública sobre os riscos do evento (MILES;
MORSE, 2007; PÉREZ-LUGO, 2001 apud REIS et al., 2017, p. 78), Além disso,
a mídia possibilita ao público o despertar de um pensamento crítico e reflexivo da
população (CLIVEIRA; MONTIPÓ, 2017 apud SILVA; BARBOSA, 2019).
As mídias são ferramentas necessárias, e possuem como uma de suas
funções, abranger uma maior área de cobertura e, consequentemente,
criar uma parceria com os órgãos constituídos do Estado e com a so-
ciedade como um todo. A gestão do conhecimento das catástrofes, são
otimizadas pelas mídias, as quais, pelo seu poder natural, facilitam so-
bremaneira a disseminação das informações no tocante aos desastres
naturais. (MARTINS, 2012, p. 43)

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19
UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

Além disso, as mídias apresentam um importante papel na redução dos riscos


de desastres, tal prevenção e redução, segundo a Organização das Nações Unidas,
precisa contar com a participação tanto da sociedade civil quanto dos órgãos pú-
blicos de gerenciamento de risco, e o meio jornalístico participa como integrante
e membro dessa sociedade. Segundo Dos Santos (2012, p. 2), tal participação da
imprensa “nas políticas de redução de risco e desastre se torna então, inevitável, uma
vez que, mesmo sem tomar consciência, a mera cobertura do desastre já contribui,
positiva ou negativamente, para informar - ou desinformar - a população”. Por isso,
é de fundamental importância um jornalismo ético, comprometido com a qualidade
e fidedignidade das informações.

Figura 4 – Cenário da explosão ocorrida no porto em Beirute em Agosto de 2020


Fonte – Wikimedia Commons

A divulgação de notícias sobre a ocorrência de um desastre ou situação de emer-


gência, muitas vezes feita pelos veículos de comunicação, pode atingir de forma
inesperada a população, incluindo aí os próprios familiares das vítimas do evento
(veja exemplo na figura 2 acima). A necessidade por um furo de reportagem pode de
alguma forma impedir com que tal informação seja levada ou dirigida aos familiares
de maneira eficaz (GIANINI et al. 2015).

A mídia, como apresentado, cumpre um compromisso social importante, portan-


to, ao mesmo tempo que alivia a angústia por informações, pode vir a aumentar o
medo, a ansiedade e uma noção distorcida dos eventos, muitas vezes pelo uso das
notícias falsas, ou as fake news, podendo gerar efeitos desagradáveis e até mesmo
um sofrimento social e coletivo. Nota-se uma necessidade recorrente da mídia em
noticiar a dor e o sofrimento, mas pouco se vê sobre as conquistas e respostas de su-
peração. Assim, notícias ruins em excesso podem ser prejudiciais à saúde emocional
da população.

A mídia atinge uma extensão imensa de espectadores que, com a exposição di-
ária, recorrente e exaustiva de um evento por meio jornalístico, podem desenvolver

20
diversas reações emocionais na população, mesmo que esta não tenham vivenciado
diretamente o evento (GIANINI et al. 2015).

A comunicação desse tipo de notícia, quanto mais inadequada for sua divulga-
ção, mais danos emocionais pode causar, muitas vezes, pela conotação que se dá,
associada a imagens, sons e tonalidade da informação, pois esses são elementos que
levam a população a reagir de diversas forma às divulgações das notícias.

”Em 22 anos morando no Líbano, nunca senti medo como hoje”, diz brasileira em Beirute.
Disponível em: https://bit.ly/3jgnAGd

Lendo a matéria anterior, o que a imagem, associada à fala da vítima, te faz pensar e sentir?

Para evitar maiores danos à população, oriundos das veiculações das notícias, a
Organização Mundial da Saúde, criou um manual de comunicação eficaz com a
mídia durante emergências de saúde pública.

Nesse documento, você irá encontrar a descrição de sete passos para ajudar os
agentes de saúde pública e outros a comunicarem-se eficazmente pela mídia durante
emergências, permitindo que ações positivas promovam a interação com a mídia e
propiciando uma cobertura eficaz das notícias aos eventos, ao invés de simplesmente
responder à cobertura resultante, a fim de assegurar que as mensagens sejam preci-
samente transmitidas, altamente visíveis e claramente ouvidas.
Isto aumentará a probabilidade de êxito ao informar às pessoas, encora-
jando comportamentos proveitosos entre os atingidos ou ameaçados e
reduzindo significativamente o impacto dos eventos. (OMS, 2009)

Comunicação eficaz com a mídia durante emergências de saúde pública, disponível em:
https://bit.ly/2SfYQSB

Importante ressaltar que todos os envolvidos em situações de desastres, seja de


forma direta ou indireta, serão afetados pela dor e sofrimento daquela comunidade.
Isso inclui desde as vítimas, os socorristas, técnicos e agentes de saúde, até os res-
ponsáveis pela cobertura jornalística e midiática. “A dimensão desses eventos e a
cobertura exaustiva dos meios de comunicação, sobretudo nos momentos iniciais,
costumam produzir uma grande comoção” (COUTINHO; FIGUEIRA, 2013, [s.p.]).

O transtorno de estresse pós-traumático acomete principalmente às pessoas que


vivenciaram de forma direta ou indireta um evento estressor. No entanto, mesmo que
as pessoas não vivenciem o evento em si, o contato diário com notícias traumáticas,
pode de alguma forma gerar certo nível de sofrimento e emoções intensas na socie-
dade como um todo.

21
21
UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Leitura
Enfrentamento de Crises em situações de Emergências e Desastres
https://bit.ly/30oYlKh
Comunicação eficaz mídia durante emergências
https://bit.ly/2SfYQSB
Síndrome de Burnout: o que é, quais as causas, sintomas e como tratar.
https://bit.ly/36njyrT
O Autocuidado da Saúde Mental de Psicólogos: uma revisão bibliográfica
DE MELO, M. R.; RAUPP, L. M. O Autocuidado da Saúde Mental de Psicólogos:
uma revisão bibliográfica. Revista Perspectiva: Ciência e Saúde, v. 5, n. 1, 2020
https://bit.ly/3l7wR3I

22
Referências
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dos desastres naturais: uma revisão. Psicologia em Estudo, v. 17, n. 2, p. 307–315,
jun. 2012.

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SBPH, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 25-34, jun.  2020. Disponível em <http://pepsic.
bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-08582020000100004&lng=
pt&nrm=iso>. Acesso em: 02/08/2020.

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DE MELO, M. R.; RAUPP, L. M. O Autocuidado da Saúde Mental de Psicólogos:


uma revisão bibliográfica. Revista Perspectiva: Ciência e Saúde, v. 5, n. 1, 2020.

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UNIDADE Manejo Psicológico Frente às Reações Emocionais,
Psicológicas e Sociais Emergenciais

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SLAIKEU, K. A.  Intervención en Crisis: manual para práctica e investigación.


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TORLAI, V. C. et al. A Intervenção psicológica em emergências: fundamentos


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TRINDADE, M. C.; SERPA, M. G. O papel dos psicólogos em situações de emer-


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3 out. 2013.

VASCONCELOS, T. P.; CURY, V. E. Atenção Psicológica em Situações Extremas.


Psicologia: Ciência e Profissão, Abr/Jun. v. 37 n°2, 475-488, 2017.

WEINTRAUB, A. C. A. DE M. et al. Atuação do psicólogo em situações de desastre:


reflexões a partir da práxis. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 19,
n. 53, 2015.

24
Psicologia em
Situação de
Emergência
Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Ksdy Maiara Moura Sousa

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza

Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin
Manejo Psicológico e as
Alterações Emocionais Pós Evento

• Introdução;
• Transtornos Relacionados ao Trauma;
• Transtorno de Estresse Pós Traumático;
• Transtorno de Estresse Agudo;
• Intervenções Psicológicas e suas Abordagens;
• Intervenção em Crise com Crianças e Adolescentes;
• Luto Desencadeado por Desastres e Rituais de
Luto e sua Função Reconstrutora em Desastres.


OBJETIVOS

DE APRENDIZADO
• Aprender como se realiza o manejo psicológico das vítimas de desastres, bem como as prin-
cipais alterações emocionais decorrentes desses eventos;
• Compreender os processos de luto e a função reconstrutora dos rituais de despedida, e as
consequências desse luto complicado;
• Apresentar abordagens com crianças e adolescentes, bem como as linhas de intervenção
baseadas na Terapia Cognitiva Comportamental.
UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

Introdução
Ao longo desta Disciplina, vocês já tiveram contato com vários conceitos funda­
mentais para a compreensão do papel do psicólogo em situações de emergência.
Esses conceitos darão suporte para compreendermos os elementos que iremos
abordar nesta Unidade.

Antes de prosseguirmos, pense em quais possíveis reações que podemos esperar das pes-
soas nessas situações.

As consequências emocionais decorrentes de um desastre ou qualquer situação


que coloque nossa integridade em risco podem ser diversas, pois, segundo Torlai
(2010), os desastres implicam danos tanto materiais quanto psíquicos, o que afeta
os padrões de vida das comunidades e das pessoas envolvidas de forma direta ou
indireta,­bem como as redes de apoio biopsicossocial, colocando, assim, a capacidade­
de enfrentamento individual e coletivo em risco:
As emergências, como é o caso dos desastres naturais, se traduzem em
verdadeiras tragédias ou dramas humanos, justificando a preocupação de
se levar em conta os aspectos envolvidos, de atenção à saúde física, às
perdas materiais e, também, entender a aflição e as consequências psi­
cológicas decorrentes dessas situações. (SÁ; WERLANG; PARANHOS,
2008 apud BATISTA; CAVALCANTE 2012)

Quando a capacidade de enfrentamento de uma determinada situação é coloca­


da em risco, vários podem ser as patologias decorrentes, no entanto, é importante
salientar que determinadas reações no momento do evento possam ser totalmente
compatíveis com a situação.
Nesta Unidade, falaremos das reações e das consequências que surgem após a
ocorrência dos desastres.
Importante salientar que qualquer crise pode ameaçar a nossa saúde psíquica: “O indi­
víduo pode apresentar sinais e sintomas clínicos em resposta ao estado provocado pela
crise, necessitando, por consequência, de alguma intervenção para a sua resolução”.
Por outo lado, a crise (SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008, p. 3) pode ser um
momento importante para mudanças e projetos de vida. Ressignificar uma crise, pode
ser um processo fundamental para que a saúde psíquica e emocional se mantenha.
Segundo Lira e Veja (2002 apud SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008, p. 3),
“Quando a crise é resolvida satisfatoriamente, ela pode auxiliar o desenvolvimento
do indivíduo; caso contrário, poderá constituir-se em um risco, aumentando a vulne­
rabilidade da pessoa para transtornos mentais”.
A resolução de uma crise pode variar de 4 a 6 semanas, no entanto, pode ser
necessário, em alguns casos, um tempo maior para o sujeito ressignificar o evento

8
estressante, o que pode levar a certa desorganização psíquica, levando até mesmo a
um quadro crônico de sintomas (SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008, p. 3).

Horowitz (1976 apud SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008) apresenta um modelo


de enfrentamento de crise, que é dividido em três etapas (Figura 1).

• Reações inciais diante • Expressar, identificar


• Tentativa de • Ideias involuntarias • O indivíduo integra
do impacto: medo, e comunicar os seus
amortecer o impacto; de dor pelo evento; o evento dentro da
impotência, horror, pensamentos, imagens
• Tenta continuar suas • Pesadelos recorrentes, sua vida,
ausência de resposta e sentimentos
atividades como se imagem e outras • Reorganização do
emocional, amnesia experimentados pela
nada tivesse ocorrido. preocupações. indivíduo.
dissociativa, apatia. situação de crise.
Desordem Negação Intrusão Elaboração Término

Figura 1
Fonte: Adaptado de HOROWITZ,1976, apud SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008

O processo apresentado acima pode ser vivenciado por qualquer pessoa que
passa por uma situação de crise.

No entanto, a maneira como cada indivíduo interpreta e dá significado à situação


em si é que definirá a maneira de enfrentamento, de elaboração ou de sofrimento e
adoecimento mental.

Dessa forma, a percepção que o sujeito faz em termos de ameaça ou dano para si,
assim como da avaliação dos recursos disponíveis para o necessário enfrentamento
da situação, pode ou não levá­lo a desenvolver um transtorno decorrente da situação
de crise (SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008).

Quanto mais rápido for a intervenção, melhor será o resultado em longo prazo,
na resolução da crise.

Slaikeu (1996 apud SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008) postula três princípios
clínicos para a prática da intervenção em crise (Quadro 1):

Quadro 1
Princípios para
Objetivos
Intervenção em Crise
Avaliar e diminuir o perigo, avaliando também o nível de motivação
Oportunidade do paciente para propor nova estratégia de enfrentamento com as cir-
cunstâncias atuais de vida.
Promover ajuda aos envolvidos na recuperação do nível de equilíbrio que
Meta tinha antes ou a atingir um nível que permita superar o momento crítico.
Engloba tanto os “aspectos fortes” quanto as “debilidades” de cada um
Avaliação dos sistemas implicados na crise, bem como informações do que está
funcional e disfuncional na vida do indivíduo.

Fonte: Adaptado de SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008, p. 3

Como já mencionado anteriormente, os processos de intervenção mais breves


e em grupo têm sido o modelo mais utilizados nessas situações: “A meta principal
da intervenção é ajudar a pessoa a recuperar o nível de funcionamento que possuía

9
9
UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

antes de o evento desencadeante da crise” (SLAIKEU, 1996 apud SÁ; WERLANG;


PARANHOS, 2008).

Para isso, é fundamental que o profissional envolvido nesse processo realize trei­
namentos específicos, pois é necessário que esse especialista saiba como fazer uma
boa avaliação do processo, bem como o grau da crise, assim como reconhecer o
funcionamento e as características do evento, para que possa determinar a relevân­
cia e o resultado das intervenções propostas.

Importante salientar que existe um curso das manifestações de sintomas durante


a crise e a pós crise.

É o que chamamos de sintomatologia aguda, que dura em média 30 dias seguintes­


ao evento.

Um exemplo desses sintomas pode ser a manifestação de estresse, ansiedade


e depressão.

No entanto, caso não haja intervenção e tratamento adequado dos sintomas agu­
dos apresentadas, os indivíduos podem evoluir para um quadro crônico de sinto­
mas, levando ao desenvolvimento de outros transtornos ou doenças, que necessitem
de acompanhamento e tratamento especializado, como no caso do Transtorno de
­Estresse Pós-Traumático (TEPT), sendo um transtorno prevalente pós situações de
estresse, podendo vir acompanhado de outras patologias, como transtorno depres­
sivo, fobias e transtorno de ansiedade generalizada.

Leia o texto “The Lancet: uma em cada cinco pessoas que vivem em áreas afetadas por
conflitos sofrem com condições de saúde mental”. Disponível em: https://bit.ly/3iZh4DK

Transtornos Relacionados ao Trauma


De acordo como o DSM V (2014, p. 264), existem transtornos que são relaciona­
dos a trauma e a estressores, que incluem como critério diagnóstico a exposição a
um evento traumático ou estressante.

Esses transtornos podem ser: Transtorno de Apego Reativo, Transtorno de Inte­


ração Social Desinibida, Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), Transtorno
de Estresse Agudo e Transtornos de Adaptação, sendo os três últimos mais relacio­
nados a eventos como desastres e catástrofes, que abordaremos por aqui.

Essa classificação no Manual Diagnóstico se deu pela demanda e a pela ocorrên­


cia de sofrimento psicológico decorrente da exposição de eventos estressores. Muitas
vezes, esses sintomas podem ser acompanhados de ansiedade e medo. No entanto,
segundo do DSM V, muitos indivíduos podem apresentar um fenótipo no qual as

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características clínicas mais evidentes são sintomas anedônicos e disfóricos, externa­
lizações de raiva e agressividade ou sintomas dissociativos:
Em virtude dessas expressões variáveis de sofrimento clínico depois da
exposição a eventos catastróficos ou aversivos, esses transtornos foram
agrupados em uma categoria distinta: transtornos relacionados a trauma
e a estressores. Ademais, não é incomum que o quadro clínico inclua
uma combinação dos sintomas mencionados (com ou sem sintomas de
ansiedade ou medo). (DSM V, 2014, p. 265)

A seguir, serão listados todos eles, com as principais características e manifesta­


ções clínicas, baseados no DSM V (2014).

Transtorno de Estresse Pós Traumático


Características Clínicas
A característica essencial do Transtorno de Estresse Pós­Traumático é o desenvolvi­
mento de sintomas característicos após a exposição a um ou mais eventos traumáticos.

A apresentação clínica do TEPT varia:


• Sintomas de revivência do medo, emocionais e comportamentais pode  predominar;
• Estados de humor anedônicos ou disfóricos e cognições negativas podem ser
mais perturbadores;
• Excitação e sintomas reativos externalizantes são proeminentes;
• Sintomas dissociativos;
• Algumas pessoas exibem combinações desses padrões de sintomas.

O TEPT pode ocorrer em qualquer idade a partir do primeiro ano de vida. Os sin­
tomas, geralmente, manifestam­se dentro dos primeiros três meses depois do trauma,
embora possa haver um atraso de meses, ou até anos, antes de os critérios para o
diagnóstico serem atendidos.

Critério Diagnóstico
• Exposição a episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave
ou violência sexual em uma (ou mais) das seguintes formas:
1. Vivenciar diretamente o evento traumático;
2. Testemunhar pessoalmente o evento traumático ocorrido com
outras pessoas;
3. Saber que o evento traumático ocorreu com familiar ou amigo próximo.
Nos casos de episódio concreto ou ameaça de morte envolvendo um
familiar ou amigo, é preciso que o evento tenha sido violento ou acidenta;

11
11
UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

4. Ser exposto de forma repetida ou extrema a detalhes aversivos do


evento­traumático (p. ex., socorristas que recolhem restos de corpos
­humanos; policiais repetidamente expostos a detalhes de abuso infantil).
• Presença de um (ou mais) dos seguintes sintomas intrusivos asso-
ciados ao evento traumático, começando depois de sua ocorrência:
1. Lembranças intrusivas angustiantes, recorrentes e involuntárias do
evento traumático;
2. Sonhos angustiantes recorrentes nos quais o conteúdo e/ou o senti­
mento do sonho estão relacionados ao evento traumático.
3. Reações dissociativas (p. ex., flashbacks) nas quais o indivíduo sente
ou age como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente;
4. Sofrimento psicológico intenso ou prolongado ante a exposição a si­
nais internos ou externos que simbolizem ou se assemelhem a algum
aspecto do evento traumático;
5. Reações fisiológicas intensas a sinais internos ou externos que sim­
bolizem ou se assemelhem a algum aspecto do evento traumático.
• Evitação persistente de estímulos associados ao evento traumáti-
co, ­começando após a ocorrência do evento, conforme evidencia-
do por um ou ambos dos seguintes aspectos:
1. Evitação ou esforços para evitar recordações, pensamentos ou sentimen­
tos angustiantes acerca de ou associados de perto ao evento tramático;
2. Evitação ou esforços para evitar lembranças externas (pessoas, l­ugares,
conversas, atividades, objetos, situações) que despertem r­ecordações,
pensamentos ou sentimentos angustiantes acerca de ou associados de
perto ao evento traumático.
• Alterações negativas em cognições e no humor associadas ao evento
traumático começando ou piorando depois da ocorrência de tal even-
to, conforme evidenciado por dois (ou mais) dos seguintes aspectos:
1. Incapacidade de recordar algum aspecto importante do evento trau­
mático (geralmente devido a amnésia dissociativa, e não a outros
fatores, como traumatismo craniano, álcool ou drogas);
2. Crenças ou expectativas negativas persistentes e exageradas a res­
peito de si mesmo, dos outros e do mundo (p. ex., “Sou mau”, “Não
se deve confiar em ninguém”, “O mundo é perigoso”, “Todo o meu
sistema nervoso está arruinado para sempre”);
3. Cognições distorcidas persistentes a respeito da causa ou das con­
sequências do evento traumático que levam o indivíduo a culpar a si
mesmo ou os outros;
4. Estado emocional negativo persistente (p. ex., medo, pavor, raiva,
culpa ou vergonha);
5. Interesse ou participação bastante diminuída em atividades significativas;
6. Sentimentos de distanciamento e alienação em relação aos outros;
7. Incapacidade persistente de sentir emoções positivas (p. ex., incapa­
cidade de vivenciar sentimentos de felicidade, satisfação ou amor).
• Alterações marcantes na excitação e na reatividade associadas ao
evento traumático, começando ou piorando após o evento, confor-
me evidenciado por dois (ou mais) dos seguintes aspectos:

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1. Comportamento irritadiço e surtos de raiva (com pouca ou nenhuma
provocação) geralmente expressos sob a forma de agressão verbal ou
física em relação a pessoas e objetos;
2. Comportamento imprudente ou autodestrutivo;
3. Hipervigilância;
4. Resposta de sobressalto exagerada;
5. Problemas de concentração.
6. Perturbação do sono (p. ex., dificuldade para iniciar ou manter o
sono, ou sono agitado).
• A perturbação (Critérios B, C, D e Hipervigilância) dura mais de
um mês;
• A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo e pre-
juízo social, profissional ou em outras áreas importantes da vida
do indivíduo;
• A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos de uma subs-
tância (p. ex., medicamento, álcool) ou a outra condição médica.
(DSM, 2014 p. 271)

Nota­se que o TEPT pode ser uma condição debilitante, levando a alterações
no funcionamento diário do indivíduo, e pode ser associado a outras comorbidades
como depressão e ansiedade: “O TEPT está associado a relações sociais e familiares
empobrecidas, ausências ao trabalho, renda mais baixa e menor sucesso acadêmico
e profissional” (DSM V, 2014, p. 274).
A manifestação do trauma pode acontecer em qualquer idade e, principalmente,
dentro dos primeiros 3 meses após o evento traumático, podendo sofrer variações
quanto ao tempo de sua manifestação.

Transtorno de Estresse Agudo


Outra condição muito comum pós a ocorrência de um desastre é o transtorno de
estresse agudo.
Ele apresenta uma sintomatologia muito parecida com o TEPT, no entanto, o que
os diferencia é a manifestação e a duração dos sintomas.
De acordo com o DSM V (2014 p. 280), esse transtorno não pode ser diagnosticado
nos três primeiros dias após o evento, pois as reações apresentadas durante esse
período podem ser temporárias e esperadas para a situação, não podendo ser esta­
belecida como um transtorno: “A característica essencial do Transtorno de Estresse
Agudo é o desenvolvimento de sintomas típicos que duram de três dias a um mês
após a exposição a um ou mais eventos traumáticos” (DSM V, 2014, p. 281).
No entanto, o Transtorno de Estresse Agudo pode evoluir para o transtorno de
estresse pós­traumático depois de um mês, porém, ele também pode ser uma res­
posta de estresse temporária que cede dentro de um mês depois da exposição ao
trauma e não resulta em TEPT.

13
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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

A manifestação clínica do Transtorno de Estresse Agudo varia de pessoa para


pessoa, mas, de maneira geral, inclui sintomas ansiosos e revivência do evento, bem
como uma reatividade a ele.

Dentre esses sintomas, pode haver a apresentação de sintomas dissociativos de


distanciamento social. Uma outra manifestação possível é raiva intensa, irritabilidade
e agressão.

Em termos de alterações cognitivas, esses indivíduos podem apresentar pensa­


mentos catastróficos com conteúdo extremamente negativos sobre si em relação a
sua resposta às experiências traumáticas ou de danos futuros, ou seja, uma pessoa
com esse transtorno pode sentir culpa excessiva por não ter impedido o evento trau­
mático ou por não se adaptar à experiência com mais êxito (DSM V, 2014).

Outras condições podem ser apresentadas após um evento traumático, como


depressão, ansiedade, uso de álcool e outras condições clínicas.

No entanto, é fundamental compreender que para que essas condições sejam


consideradas um transtorno, é necessário observar o critério diagnóstico de cada
uma, bem como os prejuízos funcionais e a duração da manifestação dos sintomas.

Apresentamos a você, até o momento, as principais manifestações clínicas decor­


rentes do trauma.

A seguir iremos discutir as intervenções psicológicas possíveis e as abordagens


mais utilizadas até o momento.

Intervenções Psicológicas
e suas Abordagens
As intervenções psicológicas em situações de desastres podem variar de acordo
como tipo de evento, o cenário e a demanda apresentada, como já discutimos.

Por isso, é fundamental mapear as variáveis e o campo para uma atuação eficaz
e satisfatória.

Segundo Sá, Werlang e Paranhos (2008), as intervenções podem ser divididas em


primeira e segunda instância.

A primeira instância envolve os auxílios psicológicos iniciais, ou assistência ime­


diata, podendo durar de minutos a horas para ocorrência de um evento, que tem
como objetivo promover apoio emocional, diminuindo o risco de morte, além de
permitir maior acesso aos envolvidos aos recursos de ajuda disponíveis no local e
apoio geral realizado na comunidade e pela comunidade.

Já a intervenção de segunda instância diz respeito à terapia para a crise, que pode
ser definida como:

14
Uma estratégia de ajuda indicada para auxiliar uma pessoa e/ou família
ou grupo, no enfrentamento de um evento traumático, amenizando os
efeitos negativos, tais como danos físicos e psíquicos e incrementando
a possibilidade de crescimento de novas habilidades de enfretamento e
opções e perspectivas de vida. O tipo de crise não importa, pois o evento
é emocionalmente significativo e gera uma mudança radical na vida da
pessoa. (SÁ; WERLANG; PARANHOS, 2008)

A seguir, iremos apresentar alguns modelos de manejo psicológico e psiquiátrico


realizados em intervenções de segunda instância.

Figueroa, Marin, GONZÁLEZ (2010) propuseram um modelo de resposta psico­


lógica baseada em cinco níveis: difusão, suporte social, gestão médica geral, manejo
psiquiátrico geral e manejo psiquiátrico por especialista.

Cada um desses níveis será implementado em diferentes locais e apresentam


objetivos e benefícios distintos, bem como tarefas, executores e critérios de encami­
nhamentos específicos.
• Nível I – difusão: Toda a comunidade deve ser informada sobre o desastre e
receber psicoeducação e atendimento psicológico. A maioria das pessoas afe­
tadas será atendida em Centros de Afluência Pública, como acampamentos,
abrigos, escolas etc.;
• Nível II – suporte social: Facilitar a recuperação espontânea e a resiliência,
bem como identificar e encaminhar pessoas afetadas por emergências psiquiá­
tricas ou em risco de desenvolver um transtorno psiquiátrico;
• Nível III – manejo médico geral: Uma porcentagem menor será encami­
nhada aos Postos Médicos Avançados (Hospitais de Baixa Complexidade ou
Hospitais de Campanha das Forças Armadas) para atendimento médico geral.
Somente aqueles que desenvolverem transtornos psiquiátricos formais serão
encaminhados para Centros Psiquiátricos Gerais;
• Nível IV – manejo psiquiátrico geral: Estabilizar os sintomas, com a realiza­
ção de um diagnóstico psiquiátrico. Os pacientes mais graves, refratários aos
tratamentos baseados em evidências, podem ser submetidos a tratamentos de
resgate nos Centros de Especialidades em TEPT, no nível V;
• Nível V – manejo especializado: O objetivo é reservar psicoterapia e farma­
coterapia apenas para pacientes com transtornos psiquiátricos formais, vez que
esse é o único grupo que demonstrou se beneficiar com esses tratamentos. Para
o restante das pessoas afetadas, incluindo aquelas com sofrimento subclínico,
recomenda­se limitar a atenção aos chamados primeiros socorros psicológicos.

Uma das abordagens psicológicas utilizadas nos atendimentos em situações de


emergência é a terapia cognitiva comportamental, conhecida por sua atuação breve
e focal, estruturada e diretiva.

A escolha por essa abordagem se dá pelo fato da TCC se mostrar eficaz no trata­
mento das respostas emocionais decorrentes de eventos traumáticos.

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

No entanto, internacionalmente, outras abordagens terapêuticas são consideradas


e utilizadas nesse contexto, tais como: terapia de exposição de longo prazo e Dessen­
sibilização do Movimento Ocular e Terapia de Reprocessamento (EMDR).

Segundo Errazuriz et. al (2019), essas são abordagens que, segundo as evidên­
cias científicas internacionais, devem ser consideradas tratamentos de primeira linha
nesses casos. Cabe ressaltar que algumas intervenções usadas para tratar o trauma
ainda não apresentam evidências científicas suficientes em intervenções pós desas­
tres (por exemplo, terapia psicodinâmica breve).

A TCC pós desastre é uma terapia de grupo de curto prazo (10-12 sessões), cujo
objetivo é identificar e intervir nas crenças não adaptativas relacionados ao desastre.

A intervenção inclui quatro componentes:


• Psicoeducação;
• Retreinamento respiratório;
• Ativação comportamental;
• Reestruturação cognitiva.

Salazar, Caballo e González (2007) propõem um modelo e diretriz para atendimento­


em situações de crise, baseado na Perspectiva Cognitivo-Comportamental (TCC).

Segundo esses autores, a TCC tem como objetivos principais:


• Promover a construção de uma relação terapêutica segura, por meio do contato
psicológico e da empatia;
• Conhecer as dimensões da crise, o evento desencadeador, o impacto pessoal,
social e contextual, para o qual seria necessário utilizar todas as estratégias de
busca e coleta de informações;
• Comunicar apoio ao indivíduo afetado e à comunidade, aumentando, assim, a
possibilidade de obter algum nível de controle e previsão sobre o que aconteceu
e suas consequências;
• Desenvolver ou fortalecer estratégias de enfrentamento que lhes permitam lidar
com a situação de tal forma que os resultados possíveis sejam diminuídos, pro­
movendo a resolução de problemas.

Segundo os autores, o psicólogo cognitivo-comportamental deve, inicialmente,


avaliar a situação real e concreta do indivíduo e da comunidade.

Os processos de avaliação diante da crise devem ser imediatos e rápidos, mas


não superficiais.

É de suma importância que seja realizada uma avaliação global, reunindo infor­
mações relevantes para que se possa realizar uma intervenção efetiva. Para isso, é
necessário considerar alguns aspectos: características do evento que causou a crise,
processos envolvidos no funcionamento psicológico do indivíduo e impacto sofrido
pela situação que desencadeou a crise no nível das respostas biológicas, emocionais,

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comportamentais e cognitivas, antecedentes individuais (características físicas e de
personalidade pré­mórbidas); Características do contexto físico e social (SALAZAR;
CABALLO; GONZÁLEZ, 2007).

Para a realização de qualquer intervenção, é indispensável que sejam investigados


os fatores desencadeantes e suas consequências, bem como as diversas característi­
cas físicas e biológicas em que o sujeito está envolvido, desde a exposição à contami­
nação, barulho, calor excessivo, frio ou esforço físico, jejum, para sofrer algum tipo
de lesões ou infecções, etc., sua intensidade, sua duração, escopo e, em geral, o con­
junto de circunstâncias que definem a situação (CABALLO et al., 1996; CABALLO;
SIMÓN, 2000; FREEMAN; DATTILIO, 2000; LAZARUS; FOLKMAN, 1984 apud
SALAZAR; CABALLO; GONZÁLEZ, 2007).

Geralmente, as terapias com foco em trauma têm como objetivos permitir e expor
sistematicamente o paciente a memórias traumáticas, permitindo, assim, dessen­
sibilização e habituação à resposta emocional e angustiante. Essa técnica permite
que o paciente compreenda que, muitas vezes, suas respostas emocionais inten­
sas não necessariamente estão associadas ao evento real, ou seja, o risco inicial
objetivamente não existe mais (ERRAZURIZ et al., 2019).

Outros objetivos dessa terapia focada no trauma é avaliar as memórias traumá­


ticas e o desenvolvimento de distorções cognitivas e os componentes da resposta
(reações físicas e problemas na adaptação, entre outros).

Isso ajuda o paciente a modificar a relação entre a resposta afetiva e os pensa­


mentos que contribuem para sua manutenção e exacerbação. Eliminar sistematica­
mente os comportamentos de evitação (por exemplo, supressão, uso de substâncias
e distrações) que contribuem para o desenvolvimento e a manutenção dos sintomas
(ERRAZURIZ et al., 2019).

Para atingir adequadamente os objetivos de expor o paciente às memórias do


trauma, modificando a resposta afetiva e cognitiva a essas memórias e eliminando
os comportamentos de evitação, Errazuriz et al. (2019) sugerem que:
• O paciente possa lembrar e pensar nas memórias traumáticas até que elas
não criem altos níveis de desconforto. No caso das técnicas de exposição,
é muito importante evitar o uso de técnicas de relaxamento, pois estas
interrompem a exposição e, portanto, retardam e dificultam a habituação;
• Identificar, desafiar e modificar preconceitos, crenças ou distorções dos
pensamentos e memórias da experiência traumática. Técnicas como
diálogo socrático e dever de casa podem ser usadas na forma de regis­
tro de pensamentos automáticos relacionados ao trauma. Os compor­
tamentos de evitação devem ser examinados (por exemplo, “Não vou
trabalhar porque posso tremer de novo”), uma vez que frequentemente
estão vinculados a distorções cognitivas e contribuem para a manuten­
ção do TEPT, para o qual devem ser examinados e desmontados;
• Ajudar a administrar os sentimentos que emergem ao enfrentar expe­
riências traumáticas, como desamparo, vergonha, raiva, culpa e deses­
perança, entre outros. Esses sentimentos são esperados no contexto do

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

PTSD e é útil para s­ ocializar o paciente com os elementos normativos


da psicopatologia pós-traumática. É importante notar a diferença entre
normalizar os sentimentos produzidos pelo PTSD, por um lado, e nor­
malizar o próprio PTSD, por outro. O terapeuta deve fornecer psicoe­
ducação adequada e indicar que o PTSD é um transtorno psiquiátrico
que requer tratamento.

Apesar de os eventos traumáticos prejudicarem vários âmbitos e aspectos da vida dos


indivíduos, sejam recursos financeiros, sejam sociais, sejam profissionais, situações de
extra dor e sofrimento também podem proporcionar oportunidades de desenvolvimento
pessoal, principalmente, quando se referem à ativação de ­reconstrução e de resistência e
estratégias de enfrentamento para futuros desastres ­(SAMOUEI, et al., 2014).

Torlai (2008) aponta dois métodos importantes quando falamos de intervenção


psicológica em situação de desastres, o Defusing e o Debrifing psicológicos.

Essas estratégias são técnicas de intervenção psicológicas e psiquiátricas, que são


acionadas imediatamente após o evento estressor.

O Defusing é uma técnica que visa a diminuir a intensidade das reações, colo­
cando o indivíduo em perspectiva, psicoeducando e promovendo informações sobre
o evento, criando rede de apoio social, ampliando o suporte social diminuindo a
sensação de isolamento, bem como levantando e avaliando as necessidades reais de
prosseguimento em relação ao tratamento.

Essa é uma intervenção breve, que se inicia até 24 horas após a ocorrência
do evento.

Já o Debrifing consiste em uma entrevista mais aprofundada sobre as experiên­


cias e as vivências das pessoas envolvidas no evento traumático, buscando promover
enfrentamento, resiliência, crescimento pessoal, bem como a recuperação do indi­
víduo. Essa etapa pode ser realizada posteriormente ao evento, sendo uma ação de
médio e longo prazo (GUIMARÃES et al., 2007 apud TORLAI, 2008).

Outra técnica importante a ser apresentada é a CISD (Critical Incident Stress


Debriefing).

Essa intervenção alcançou grande difusão em cenários de desastres e emergências.


Essa técnica, foi idealizada por Jeffrey Mitchell, em 1983, como parte de sua teoria
geral sobre intervenção em crise e desastres naturais (GUIMARÃES et al., 2007):
Resumidamente, a técnica CISD consiste em facilitar a expressão dos
sentimentos e emoções em grupo, relacionadas à experiência traumática
vivida, com o propósito de reordená-la cognitivamente, de forma mais
adaptativa. (GUIMARÃES et. al, 2007, p. 2)

Ela é dividida em 7 etapas:


1. Introdução;
2. Fatos;

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3. Pensamentos;
4. Reações emocionais;
5. Sintomas;
6. Informação;
7. Re­entrada, sendo reorganizadas em quatro componentes:
a) fase de introdução, onde o profissional se apresenta e na qual são ex­
plicados: os objetivos, metas e benefícios da intervenção;
b) fase de narração na qual os participantes relatam os fatos vivenciados
e descrevem seus pensamentos e ideias acerca do mesmo;
c) fase de reação, na qual se promove a liberação de emoções associa
das à experiência vivida; e
d) fase pedagógica em que se informam os sintomas comuns do TEPT2,
normalizam­se as reações, entrega­se material informativo gráfico acerca
de estratégias de enfrentamento (coping), listam­se sintomas etc.

Essa técnica precisa ser realizada por profissionais da saúde, treinados adequa­
damente, atendendo às vítimas, nas primeiras 24 e 72 horas pós o evento. Dessa
forma, as intervenções psicológicas em emergências se tornam fundamentais, pois
permitem que os indivíduos afetados aumentem sua capacidade de resiliência, adap­
tação e enfrentamento, frente às situações de perdas (TORLAI, 2008).

Intervenção em Crise com


Crianças e Adolescentes
Não poderíamos deixar de citar, nesta Unidade, mesmo que de forma breve, a
intervenção e as manifestações psicológicas em crianças e adolescentes em situações
de desastres.

Segundo Kar (2019), as crianças e os adolescentes formam uma população vulne­


rável quando se trata de uma situação de desastre e trauma.

As respostas emocionais e comportamentais, muitas vezes, são complexas e subi­


dentificadas, sendo, portanto, pouco estudadas.

No entanto, é importante dizer que as estratégias de enfrentamento e as reações


psicológicas dessa população podem ser diferentes das apresentadas pelos adultos.
Dessa forma, entende­se que as intervenções também não podem ser generalizadas.

As manifestações psicológicas mais comuns encontradas nessa população são:


estresse agudo, depressão, transtorno do pânico, ansiedade, transtornos específicos
da infância e fobias, sendo relatados, também, transtornos psicóticos, dentre eles, a
esquizofrenia (KAR; BASTIA, 2006; KAR, 2009)

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

No entanto, durante a avaliação inicial envolvendo crianças e adolescentes, é


importante considerar que elas, muitas vezes, podem não relatar suas reações psico­
lógicas ao trauma, por não ter a oportunidade de falar sobre o evento com alguém,
muitas vezes por ser considerado imaturo e incapaz de compreender.

Nesse caso, os relatos e as experiências das crianças podem ser realizados por
pais, professores ou responsáveis, o que muitas vezes pode ser superficial e não
­fidedigno, sendo, portanto, fundamental perguntar diretamente à criança sobre seus
sentimentos e emoções. (AMERICAN ACADEMY OF CHILD AND ADOLESCENT
PSYCHIATRY, 1998 apud KAR, 2009).

Após a realização da entrevista, a triagem psicológica é fundamental para a ela­


boração de estratégia de intervenção adequada, sendo necessária a realização dessa
etapa o mais rápido possível, para evitar sequelas psicossociais que são conhecidas
por se tornarem crônicas (KAR, 2009).

Uma fase fundamental é o apoio psicológico, pois essa etapa irá permitir às crian­
ças darem sentido a seus sentimentos e pensamentos.

Para isso, é recomendado sempre seguir o exemplo dado pela criança, evitar son­
dar e responder apenas ao que a criança tem apresentado espontaneamente, para
apoiar a contenção de sentimentos opressores.

O apoio psicológico pós-desastre deve ser disponibilizado por longos períodos,


com mudança de ênfase para atender as necessidades variáveis ​​dos grupos de alto
risco, conectando pacientes com comunidades e serviços e ajudando e auxiliando
os pais a falarem sobre o trauma com seus filhos (COVELL et al., 2006; FETTER,
2005 apud KAR, 2009).

A terapia cognitivo-comportamental em grupo é a intervenção mais indicada nes­


ses casos. Por ser uma intervenção breve e focal, é indicada para uso em longo
prazo. Essa modalidade oferece aos participantes a oportunidade de compartilhar
suas experiências, desenvolver uma narrativa e aprender habilidades para lidar com
o TEPT e a depressão (KAR, 2009).

A eficácia da TCC no alívio dos sintomas de Estresse Pós-Traumático após desas­


tre catastrófico foi demonstrada.

As principais técnicas utilizadas são: intervenções cognitivas e comportamentais


incluindo discussão direta das técnicas de trauma, dessensibilização e relaxamento,
reenquadramento cognitivo e reforço de contingência, bem como programas para
comportamentos complexos.

A terapia em grupo pode ocorrer nas escolas, hospitais e outros ambientes


­comunitários. Esse tipo de abordagem parece ser a melhor maneira de lidar com o
problema de várias crianças afetadas (KAR, 2009).

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Luto Desencadeado por Desastres
e Rituais de Luto e sua Função
Reconstrutora em Desastres
O luto é um processo inevitável quando estamos falando de uma situação de
emergência e desastres.

A perda, não só associada a morte de parentes, mas a perda pela segurança físi­
ca, financeira e social pode ser um fator complicador para o luto.

Várias são as manifestações desse processo e várias são as etapas para a conso­
lidação e enfrentamento do luto.

Segundo Franco (2012, p. 56), a experiência do luto é única e incomparável, “ninguém


permanece o mesmo após viver um luto, e essa transformação é ampla e profunda”.

Primeiramente, é necessário trazer aqui alguns conceitos breves sobre morte e luto.

Segundo Kovács (1992 p. 149):


A morte do outro configura­se como a vivência da morte em vida. É a
possibilidade de experiência da morte que não é a própria, mas é vivida
como se uma parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos
vínculos estabelecidos.

Estabelecemos vínculos ao longo de nossas experiências, alguns mais profundos


outros mais superficiais, mas a vivência de uma perda, mesmo com vínculos mais
frágeis, pode gerar reações diversas e dolorosas.

De acordo com Kovács (1992, p. 150):


A morte como perda nos fala em primeiro lugar de um vínculo que se rom­
pe, de forma irreversível, sobretudo quando ocorre perda real e concreta.
Nesta representação de morte estão envolvidas duas pessoas: uma que
é “perdida” e a outra que lamenta esta falta, um pedaço de si que se foi.
O outro é em parte internalizado nas memórias e lembranças, na situação
de luto elaborado. A morte como perda evoca sentimentos fortes, pode ser
então chamada de “morte sentimento” e é vivida por todos nós. E impos­
sível encontrar um ser humano que nunca tenha vivido uma perda. Ela é
vivenciada conscientemente, por isso é, muitas vezes, mais temida do que
a própria morte. Como esta última não pode ser vivida concretamente, a
única morte experienciada é a perda, quer concreta, quer simbólica.

A representação que temos sobre a morte irá nos direcionar na forma como ire­
mos vivenciar essa perda.

Todos nós temos essas representações que, são pautadas em nossos valores, ideias
e experiências. Assim a morte é uma norteadora das relações sociais. Para Kovács

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

(1992), é a morte que envolve basicamente a relação entre pessoas que, se acontece de
maneira brusca e inesperada, pode gerar desorganização, paralisação e impotência.

O processo de luto, por definição, é um conjunto de reações diante de uma perda.


É complexo, doloroso e abrange uma série de fatores que interferem na vida pessoal,
familiar e social dos enlutados (CIPRIANI, D’AGOSTINI, 2015).

Segundo Bowlby (1985 apud KOVÁCS, 1992), as quatro fases do luto compreendem:
1. Fase de choque que tem a duração de algumas horas ou semanas e pode
vir acompanhada de manifestações de desespero ou de raiva;
2. Fase de desejo e busca da figura perdida, que pode durar também meses
ou anos;
3. Fase de desorganização e desesper.
4. Fase de alguma organização.

Já Kübler-Ross (2005 apud BASSO; WAINER 2011), apresenta cinco fases do luto.

Sendo elas:
• Negação e o isolamento: dificuldade em aceitar e encarar a situação. Ocorre
em quem é informado abruptamente a respeito da morte. Embora considerado
o primeiro estágio, pode aparecer em outros momentos;
• Raiva: considerada a reação de externar a revolta e busca por culpados, na
tentativa de aliviar a dor;
• Barganha: é a busca por acordos e promessas, na tentativa de aliviar ou adiar
o medo de enfrentamento da situação;
• Depressão: apresenta duas etapas: preparatória e reativa. A depressão reativa
ocorre quando surgem outras perdas decorrentes da perda por morte, como a
perda de um emprego, papel social etc. Já na depressão preparatória, pode-se­dizer
que a pessoa se aproxima do processo de aceitação, no qual há mais ­reflexão
e introspecção;
• Aceitação: nesta fase, a pessoa consegue expressar melhor seus sentimentos,
e a pessoa que sofreu a perda renova o interesse pelas atividades cotidianas.

A maneira como cada indivíduo passará por esse processo é única e subjetiva.

A perda de um ente querido ou qualquer perda que consideramos significativa


podem levar a misturas de sentimentos e sensações, desde negar tais emoções até
a manifestação intensa delas: “Sabe-se que a expressão de sentimentos nessas oca­
siões é fundamental para o desenvolvimento do processo de luto. No entanto, as
manifestações diante da perda e do luto sofreram alterações no decorrer dos tempos”
(KOVÁCS, 1992, p. 150): sabe-se que muitas doenças psíquicas podem estar rela­
cionadas a um processo de luto mal elaborado.

Quando nos deparamos com a perda e morte, o luto pode ser considerado um pro­
cesso natural, desde que seja encarado como uma transição existencial, ou seja, que

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esse processo seja reconhecido, que haja alguma reação ou manifestação referente à
perda ou à separação, bem como possibilidade de se reajustar a uma nova situação.

No entanto, alguns processos de luto podem vir a ter um desfecho não muito
saudável, o que consideramos um luto complicado.

Segundo Kovács (2008), existem diversas situações que podem dificultar a elabo­
ração desse processo, como, por exemplo:
• Negação e repressão ligadas à perda e à dor;
• Distorções na expressão do luto como o adiamento, inibição ou cronificação;
• Sobrecarga de luto;
• Mudanças sociais: desvalorização dos ritos funerários. Ao viverem perdas
significativas, as pessoas sentem­se sozinhas, sem saber o que fazer;
• Aumento de mortes violentas e traumáticas;
• Perdas múltiplas: mais de uma morte ao mesmo tempo;
• Perdas invertidas: pais enterrarem filhos;
• Mutilamento;
• Desaparecimento de corpos; 
• Cenas de violência;
• Tipo de morte;
• Suicídios e acidentes são os mais graves, pelos aspectos da violência e culpa que
promovem;
• Mortes de longa duração com muito sofrimento;
• Mortes em situações de emergências e desastres.

O processo de luto pode apresentar dois desfechos, o que chamamos de luto nor­
mal e o luto complicado.

No luto normal, a pessoal apresenta uma reação saudável diante um fator estres­
sante. Nesse caso, a perda de alguém querido. Tal reação, muitas vezes, implica a
capacidade de expressar e sentir a dor dessa perda.

No luto patológico, a reação pode ser um pouco distinta, com a presença e a


manifestação de sintomas físicos e mentais.

As pessoas “Encontram­se incapazes, pressionados pela sociedade a se controlar,


não manifestar suas tristezas e, por consequência, sentem­se solitários, frágeis e
depressivos” (PARKES, 1998 apud BASSO; WAINER 2011).

Dessa forma, muitos não recebem apoio adequado ou suficiente para amenizar
o sofrimento, ou não são orientados procurar algum tipo de auxílio (CREPALDI;
LISBOA, 2003 apud BASSO; WAINER 2011).

A morte em situações de desastres e catástrofes traz em seu contexto inúmeros


aspectos complicadores para a elaboração do luto.

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

Primeiro, o fato de ser uma morte repentina, segundo o tipo e o motivo de morte,
o número de mortes, bem como mudança nos rituais/funerais, sendo esses coletivos,
com corpos danificados ou carbonizados e, muitas vezes, sem a presença deles.

Um dos transtornos relacionados ao Luto é citado pelo DSM V como Transtornos


de Adaptação.

Esse Transtorno pode ser diagnosticado após a morte de um ente querido quando
a resposta ao luto vem acompanhada de intensidade, qualidade e a persistência não
corresponde ao esperado para essa condição: “Um conjunto mais específico de sin­
tomas relacionados ao luto foi designado como transtorno de luto complexo persis­
tente. Os transtornos de adaptação estão associados a um risco maior de tentativas
e consumação de suicídio” (DSM V, 2014, p. 287).

Podem ocorrer sentimentos ambivalentes, tristeza pela perda e raiva pelo aban­
dono, desejo da morte para alívio do sofrimento, que pode provocar culpa, podendo
ser este um fator de risco para o luto complicado (KOVÁCS, 2008).

Torlai (2010) ressalta que, para estudar a relação de luto em situações de desas­
tres, adotou o modelo dual como o mais indicado para explicar tal relação.

Segundo a autora, esse modelo tem como princípio que a elaboração do luto é
uma adaptação a um modelo operativo interno e que se dá por meio da oscilação
entre o enfretamento orientado pela perda e o enfrentamento orientado pela rees­
truturação, sendo essa oscilação considerada um processo natural de elaboração do
luto, pois permite o enfrentamento adaptativo por meio de um processo regulatórios
e dinâmico.

Como mencionado, os rituais de luto e despedidas e os funerais são aspectos que


permitem uma melhor elaboração desse processo.

A oportunidade de despedida, o fechamento de ciclo e a certeza da morte são


elementos fundamentais que, muitas vezes, em situações de desastres e catástrofes,
não é possível.

Dessa forma, o luto vivenciado nesse contexto de desastres tem consequências


específicas, a partir da sua natureza: “Dentre elas, cabe destacar a dificuldade em
­localizar, identificar corpos, para que os rituais da cultura sejam realizados e per­
mitam uma finalização, não do processo do luto, mas da ambiguidade da perda”
(PAKES, 2008; BOSS, 2006 apud FRANCO, 2012).

Recomenda-se que o psicólogo que atue em emergências permita espaço para


escuta e acolhimento dessa angústia, bem como possibilite a realização de rituais
simbólicos e significativos na tentativa de promover a ressignificação da perda.

24
Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Leitura
Crises e desastres: a resposta psicológica diante do luto
FRANCO, M. H. P. Crises e desastres: a resposta psicológica diante do luto.
O Mundo da Saúde, São Paulo, v. 36, n. 1, p. 54­58, 2012.
https://bit.ly/3cufNC0
Diretrizes do IASC sobre saúde mental e apoio psicossocial em emergências humanitárias
Inter-Agency Standing Committee (IASC, Comitê Permanente Interagências).
Diretrizes do IASC sobre saúde mental e apoio psicossocial em emergências
humanitárias. Tradução de Márcio Gagliato. Genebra: IASC, 2007.
https://bit.ly/3kMobzW
Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo
Organização Mundial da Saúde. War Trauma Foundation e Visão Global
internacional. Primeiros Cuidados Psicológicos: guia para trabalhadores de campo.
OMS: Genebra, 2005.
https://bit.ly/3kLyMuR
Folha informativa – Transtornos mentais
https://bit.ly/3kMPWYT

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UNIDADE Manejo Psicológico e as Alterações Emocionais Pós Evento

Referências
BASSO, L. A.; WAINER, R. Luto e perdas repentinas: contribuições da Terapia
Cognitivo-Comportamental. Rev. bras.ter. cogn., Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 35-
43, jun. 2011.

BATISTA, É. R.; CAVALCANTE, A. C. S. Desastres naturais: perdas e reações psi­


cológicas de vítimas de enchente em Teresina-PI. Psicologia & Sociedade, Minas
Gerais, v. 24, n. 3, p. 720-728, 2012

CIPRIANI, K. S.; D’AGOSTINI, C. L. F. Quando os filhos dizem adeus: a percepção


sobre a morte e o processo de luto dos pais que perderam seus filhos em situação de
Tragédia. Pesquisa em Psicologia-anais eletrônicos, Santa Catarina, 2015.

DSM V – Manual diagnóstico e estatístico de transtorno5 DSM-5. Tradução de


Maria Inês Corrêa Nascimento et al.; Porto Alegre: Artmed, 2014.

ERRAZURIZ, P. et al. Orientaciones Prácticas para Psicoterapeutas que Atienden


a Pacientes con TEPT Después de un Desastre Natural. Psykhe, Santiago, v. 28,
n. 1, p. 1-13, maio 2019.

FIGUEROA, R. A.; MARÍN, H.; GONZÁLEZ, M. Apoyo psicológico en desastres:


Propuesta de un modelo de atención basado en revisiones sistemáticas y metaanálisis.
Revista médica de Chile, Santiago, v. 138, n. 2, p. 143-151, 2010.

FRANCO, M. H. P. Crises e desastres: a resposta psicológica diante do luto. O Mundo­


da Saúde, São Paulo, v. 36, n. 1, p. 54-58, 2012.

GUIMARÃES, L. A. M. et al. A técnica de debriefing psicológico em acidentes e


desastres. Mudanças – Psicologia da Saúde, v. 15, n. 1, p. 1-12, 2007.

KAR, N.; Bastia, B. K. Post-traumatic stress disorder, depression and


generalised­anxiety disorder in adolescents after a natural isaster: a study of
comorbidity. Clin Pract Epidemol Ment Health, v. 2, n. 17, 2006.

KAR, N. Psychological impact of disasters on children: review of assessment and


interventions. World journal of pediatrics, Online, v. 5, n. 1, p. 5-11, 2009.

KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo,


1992.

KOVÁCS, M. J. Desenvolvimento da Tanatologia: estudos sobre a morte e o morrer.


Paideia, Ribeirão Preto, v.18, n. 41, set./dez., 2008

SÁ, S. D.; WERLANG, B. S. G.; PARANHOS, M. S. Intervenção em crise. Revista­


Brasileira de Terapia Cognitiva, Online, v. 4, n. 1, 2008. Disponível em: <http://
pepsic.bvsalud.org/pdf/rbtc/v4n1/v4n1a08.pdf>. Acesso em: 15/10/2009.

SALAZAR, I.; CABALLO, V.; GONZÁLEZ, Diana. La intervención psicológica­


cognitivo-conductual en las crisis asociadas a desastres: una revisión teórica.
­Psicología Conductual, Online, v. 15, n. 3, p. 389-405, 2007.

26
SAMOUEI et al. Positive psychology in disasters, International Journal of Health
System and Disaster Management, Online, v. 2, issue 4, out.­dez. 2014.

TORLAI, V. C. A vivência do luto em situações de desastres naturais. Disserta­


ção (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
– PUC, São Paulo, 2010. Disponível em: <http://www.ceped.ufsc.br/sites/default/fi­
les/projetos/a_vivencia_do_luto_em_situacoes_ de_desastres_naturais.pdf>. Acesso
em: 25/04/2012.

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Psicologia das
Emergências e
Desastres
Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Ksdy Maiara Moura Sousa
Prof.ª Dr.ª Larisse Helena Gomes Macêdo Barbosa

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza

Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Luciene Oliveira da Costa Granadeiro
Intervenções Psicológicas em
Emergências: Análise da Prática

• Introdução;
• O Caso da Barragem em Brumadinho e Mariana;
• Massacre na Escola em Suzano;
• Incêndio na Boate Kiss;
• Acidente com o Voo da Chapecoense.


OBJETIVO

DE APRENDIZADO
• Apresentar as intervenções realizadas por profissionais da saúde, nos casos da barragem de
Brumadinho, no massacre na escola em Suzano, no atendimento às vítimas do acidente com
o voo da Chapecoense e o incêndio da boate Kiss. A escolha por esses eventos se deu pelo
fato de cada um apresentar causas diferentes em suas ocorrências, como desastres naturais,
acidentes aéreos, entre outros.
UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Introdução
Os casos apresentados serão baseados em estudos e intervenções que foram rea-
lizados com essa população, considerando as várias fases para esse processo.

A apresentação dos casos se dará da seguinte maneira: contextualização do evento,


problemática e intervenções.

O Caso da Barragem
em Brumadinho e Mariana
O Brasil, em um intervalo de menos de 5 anos, protagonizou dois desastres de
enormes consequências e proporções. Os efeitos catastróficos na área ambiental,
social e econômica dos frequentes rompimentos de barragens de rejeitos dão impor-
tância à discussão sobre a psicologia das emergências e desastres na área ambiental.
Os impactos dos desastres ocorridos em Brumadinho e Mariana geraram enorme
indignação por causa da quantidade de morte de trabalhadores das mineradoras e
pessoas que moravam ou estavam por perto na hora em que aconteceu a ruptura
(PEREIRA et al., 2019).

Importante!
A atividade de extração de minério de ferro é feita através da separação do material
que tem valor comercial do que não é valioso (nãos e vende). Durante esse processo de
separação, todo o material que não será aproveitado, denominado de rejeito, de acordo
com as leis ambientais precisa ser guardado em reservatório para evitar danos. Essas
estruturas que têm a função de reservatórios são feitas de terra compactada e são cha-
madas de barragem.

Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu um desastre: o rompimento da barragem


­localizada na região do Córrego do Feijão, no município de Brumadinho, cerca de
65 km de Belo Horizonte em Minas gerais (PEREIRA, 2019).
Por falta de precaução e prevenção, apesar de indicativos de risco em lau-
dos, a mineradora Vale S.A foi responsável pelo maior desastre do trabalho
do Brasil, segundo a Organização Internacional do Trabalho-OIT[1], com
mais de 320 vítimas fatais, entre mortos e desaparecidos, somando 138
desabrigados. (PEREIRA, 2019, p. 2)

Segundo o Felix (2020), esse desastre não se trata de desastre ambiental, mas sim
de acontecimento social. Ao não se preocupar com o estado da barragem, focando
muito mais na redução das responsabilidades civis e criminais e garantir seus ganhos

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pela valorização no mercado global, a empresa responsável levou a inúmeros impactos
ambientais e danos à saúde da população.

Com o rompimento da barragem, foram formadas ondas gigantescas de rejeitos,


que avançaram com uma velocidade inicial de 80 km por hora, em direção a carros,
árvores, animais, casa e pessoas. As sirenes de segurança que deveriam tocar para
fazer o alerta aos residentes das proximidades da barragem e os trabalhadores não
foram acionadas. O Corpo de Bombeiro realizou as buscas pelas vítimas, foram
utilizados helicópteros na realização das buscas nas margens. Equipes de apoio e
humanização foram acionadas para trabalhar com os sobreviventes e familiares das
vítimas (FELIX, 2020).

É importante salientar que esse desastre poderia ser sido evitado, pois a empresa
responsável pela barragem em Brumadinho-MG teve um alerta alguns anos antes:
um desastre semelhante ocorrido em 2015, no município de Mariana-MG, mais pre-
cisamente no dia 5 de novembro de 2015. No distrito de Bento Rodrigues, na cidade
de Mariana, em Minas Gerais, teve início um grande desastre que mudou a vida e o
destino de milhares de pessoas em uma extensão de 663 quilômetros, desde o dis-
trito de Bento Rodrigues, em Mariana-MG, passando pelo Estado do Espírito Santo,
até atingir o mar territorial brasileiro (MPF, 2015).

A barragem de Fundão veio abaixo ocasionando o um dos maiores desastres


ambiental, social e econômico do mundo e o maior já vivenciado no Brasil. Como
consequência do rompimento da barragem, foram alastrados mais de 40 milhões de
metros cúbicos de rejeitos de minério na bacia do rio Doce. O potencial destrutivo
da lama foi enorme, destruindo tudo que estava no seu caminho (MPF, 2015).

Figura 1
Fonte: observatoriosocioambiental.org

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UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Em 2018, foi realizada uma pesquisa com os sobreviventes da tragédia em Mariana-


-MG, que evidenciou que 23% dos participantes desenvolveram algum transtorno,
como o transtorno de ansiedade, estresse e depressão (VORMITTAG; OLIVEIRA;
GLERIANO, 2018). Foi verificado, ainda, em outro estudo, que no município vizi-
nho, Barra Longa, foi detectado pelos pesquisadores o risco de suicídio em 16,4%
dos participantes (GLOBO, 2019).

Sobre a repercussão psicossocial da tragédia da Vale na população de Brumadinho­-


-MG, Felix et al. (2020) desenvolveram uma pesquisa com objetivo de analisar as
­notificações de transtornos psicossociais na população de Brumadinho-MG no perí-
odo de 2018-2019. Como resultados, os autores encontraram um registro em 2018
de 529 casos de transtornos psicossociais, enquanto, em 2019, esse número aumen-
tou 7X, chegando a 3967 notificações.

No que se refere ao transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), foram


­observados em 68 casos notificados em 2018, ao passo que, em 2019, tiveram 933
casos. Além disso, os autores identificaram seis transtornos psicossociais que, no
ano de 2018, não tinham nenhum caso registrado e que, no ano de 2019, passa-
ram a apresentar números significativos. Diante disso, salienta-se a necessidade de
desenvolvimento de estratégias governamentais voltadas ao fornecimento de suporte
psicológico à população atingida (FELIX et al., 2020).

Diante disso, podemos observar que os desastres impactam de forma imensurável


nas comunidades e nas pessoas afetadas. Tendo consequências tanto no plano imediato
como em longo prazo, como o sofrimento psíquico e emocional, que persistem muitas
vezes mesmo com o passar do tempo. Assim, além das respostas rápidas na prestação
de socorro e no restabelecimento da ordem, é de suma importância um aparo à saúde
mental das pessoas envolvidas e de algum modo afetadas (FELIX et al., 2019).

Por que uma barragem se rompe?


Existem duas principais razões para uma barragem de rejeitos se romper. A primeira
­delas diz respeito a fenômenos ambientais e que, em teoria, não temos controle sobre.
Um exemplo de fenômeno ambiental que poderia gerar esse desastre seria um tsunami ou
mesmo uma grande tempestade. Quando isso acontece, chamamos de desastre misto (por
ser a junção de erros humanos + força da natureza).
A segunda razão é a falha humana durante seu planejamento, que chamamos de desastre
tecnológico. Essa é a principal causa de rompimentos de barragens ao redor do mundo,
incluindo o Brasil.
Dessa forma, medidas como relatórios de segurança, planos de ações emergenciais, re-
gistro de dados e constantes revisões na segurança dessas barragens são fundamentais
para garantir a segurança do meio ambiente e de quem vive e trabalha no entorno dessas
grandes estruturas.

10
Estratégias de Saúde Mental e
Atenção Psicossocial: Relatos e Experiências
Assim, em desastres como o de Mariana e Brumadinho, as pessoas sofrem gran-
des perdas (casa, trabalho, animais, dentre outros) que provocam uma mudança em
suas vidas, mudando sua forma existir. Dessa forma, um dos aspectos mais valoriza-
dos em relação à psicologia é a sua contribuição nesses cenários de emergências e
desastres, atuando sempre de forma protagonista na orientação de ações de mudança
(ANTUNES, 2019).

Um dos agravantes à saúde mental dos afetados de acordo com Noel et al. (2019)
foi devido à maioria dos óbitos ter sido de trabalhadores da mineradora onde a bar-
ragem rompeu, fazendo com que os sobreviventes tivessem que lidar com perda de
vários amigos, colegas de trabalho e do trabalho. Essas questões são importantes
por causar alterações nas relações socioafetivas da comunidade, acarretando grande
possibilidade para o desenvolvimento de transtornos psicopatológicos em médio e
longo prazos. No que se refere às reações imediatas, a Figura 2 mostra as reações
mais esperadas.

PRIMEIRO ACOLHIMENTO PÓS-DESASTRES


REAÇÕES
72h Até 3 meses Mais de 3 meses

IMEDIATA PÓS-IMEDIATA CRÔNICA


Aguda Assimilação Potencial traumático

Estresse normal Estresse agudo Estresse pós-traumático


• Reação imediata de alarme; • Reviver; • Reviver;
• Reações fisiológicas, motoras • Evitar; • Evitar;
e cognitivas: taquicardia, sudorese, • Reação ansiosa; • Atividade neurovegetativa.
hiperatividade, aflição, agressividade; • Sintoma de dissociação;
• Agitação desordenada; • Paralisia. Problemas associados
• Fuga; • Ansiedade e depressão;
• Pânico; • Transtorno de comportamento;
• Crise emocional; • Transtornos somáticos;
• Incapacidade de reagir, paralisia. • Transtorno psicótico;
• Estresse pós-traumático.

Figura 2
Fonte: Adaptado de NOAL et al., 2019

Já em relação ao impacto psicossocial e de saúde mental nos trabalhadores de


saúde, vale salientar que grande parcela desses trabalhadores da rede municipal de
saúde perdeu pessoas próximas ou mantinha relações socioafetivas com pessoas
que tiveram perdas diretas. Assim, mesmo vivendo o luto, ocasionado pelas perdas
humanas e materiais, esses trabalhadores se depararam com uma carga horária
maior, o que desencadeou reações de estresse agudo, irritabilidade, humor depressi-
vo, envolvimento excessivo ou comportamento improdutivo, ou, ainda, manifestan-
do reações cognitivas como: dificuldade de concentração e na tomada de decisões
mais estressante que o normal, longos períodos de trabalho e ausência prolongada
(NOAL et al., 2019).

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11
UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Diante disso, aos psicólogos cabe oportunizar às vítimas o apoio da família e da


comunidade, prestar esclarecimento sobre perspectivas futuras e proporcionar um
alicerce, com intuito de se organizarem psiquicamente perante o evento. Dessa forma,
as intervenções psicológicas objetivam a diminuição do estresse agudo dando pos-
sibilidade de as pessoas aprenderem a dominar suas reações emocionais e também
proporcionar o reconhecimento racional do evento ocorrido. Cabe, também, uma
atuação junto à equipe (de saúde ou segurança) em virtude das possíveis reações ne-
gativas, assim como o próprio profissional da psicologia. Assim, é importante que o
psicólogo tenha um preparo específico para lidar com situações de extrema tensão,
da melhor forma possível (ANTUNES, 2019).

Com intuito de aderir a uma estratégia de saúde mental e atenção psicossocial


pós-desastre, foi utilizado como público-alvo dessa estratégia o treinamento das equi-
pes de saúde do SUS, focando em uma sensibilização sobre como elaborar estra-
tégias psicossociais e de saúde mental para atender à população de Brumadinho.
Capacitaram-se também socorristas, voluntários e trabalhadores que estiveram em
contato direto com a lama (NOAL et al., 2019).

Posteriormente, mapearam-se todos os dispositivos de saúde pública do mu-


nicípio. Após esse mapeamento, uma das primeiras estratégias na atuação do psicó-
logo foi incialmente organizada pelo Conselho Regional de Psicologia – ­Minas Gerais
(CRP-MG) – passando posteriormente a ser autogerida por psicólogos voluntários.
Os psicólogos atuavam no auxílio à Secretaria de Impacto Social no levantamento das
demandas urgentes das famílias e da comunidade através de entrevista para o preen-
chimento de formulário inicial de demandas das famílias atingidas (CRP-MG, 2019).

A partir desse preenchimento, foi possível mapear as demandas e as urgências da


população com um maior grau de precisão e individualização. Como a população
se apresentava extremamente fragilizada e muitas vezes começando a assimilar o
ocorrido, a presença do profissional de psicologia foi fundamental no processo de
amenizar, através de uma escuta empática e qualificada, possíveis efeitos colaterais
dessa coleta, os psicólogos atuaram de forma não invasiva e buscando ao máximo
a não revitimização da população. A escuta qualificada permitiu identificar outras
demandas que não se apresentavam de forma tão óbvia (CRP-MG, 2019).

Ação em Brumadinho realça a atuação plural da Psicologia: https://bit.ly/33CMPMs

Como estratégia de cuidado à saúde mental em Brumadinho, a prefeitura orga-


nizou um centro de operações de emergência em saúde (COES) para uma atuação
junto à população, tendo a função de atender às demandas psicossociais da popula-
ção, por meio da disponibilização de psicólogos e psiquiatras que ficaram de plantão
nas unidades de atendimento da região (ROSA, 2019).

Foram disponibilizados para o atendimento de vítimas em torno de 400 profissio-


nais, dentre eles, médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. E
­ sses pro-
fissionais locais atuaram junto a voluntários do grupo  Médicos Sem Fronteiras

12
compostas de psicólogos e psiquiatras  na realização de uma ação emergencial de
ajuda psicossocial (ROSA, 2019).

As equipes foram orientadas a prestar a auxílio no processo de luto e ritos de


passagem (reconhecimento de corpos, funerais e enterros), realizar psicoedicação
coletiva sobre as reações psíquicas mais frequentes, realizar divulgação sobre locais e
horários de atendimento, identificação, ferramentas socioculturais de enfrentamento
possíveis e disponíveis ao evento, e realizar o cuidado tendo em conta as redes
socioafetivas tradicionais de solidariedade (NOEL, el al., 2020).

Foram realizadas algumas intervenções que objetivaram construir ações de pro-


moção e prevenção de saúde, evitando a cronificação e patologização em médio e
longo prazos do sofrimento psíquico dos trabalhadores. Nesse âmbito, foram realiza-
das capacitações específicas sobre saúde mental e atenção psicossocial pós-desastres,
abarcando temáticas como o fortalecimento das redes de apoio com proposta de
construção de estratégias comunitárias para lidar com o sofrimento psicológico apre-
sentado pela comunidade. Realizaram-se ainda atividades de capacitação e supervi-
são de equipes, e foi proporcionado a espaços coletivos para troca de experiências
e análise das atividades realizadas para auxiliar na ressignificação do processo de
trabalho após o desastre. Foi realizado um suporte ofertado pelo NUPIC (Núcleo de
Práticas Integrativas e Complementares em Saúde) nos locais de trabalho das equipes
do SUS e o acompanhamento do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador.

Massacre na Escola em Suzano


No dia 13 de março de 2019, o Brasil se deparava com notícias chocantes sobre
um ataque terrorista. De acordo com o Governo do Estado, dois antigos alunos (um
adolescente e um homem encapuzado) entraram em uma escola estadual em Suzano-
-SP – Escola Estadual Raul Brasil – mataram oito pessoas e feriram pelo menos
onze. Em seguida, um dos assassinos atirou no comparsa e, depois, cometeu suicídio
(G1, 2019; R7, 2019).

O trauma ocasionado por esse massacre deixou sequelas emocionais, no entanto,


é possível lidar através da ajuda de especialistas, familiares e a comunidade escolar.
Em situações como essa, o estresse pós-traumático é a reação mais comum, podendo
desencadear uma série de outros problemas como ansiedade, síndrome do pânico e
crises de angústia.

Dentre os principais pontos para atuar para superação do trauma, segundo espe-
cialistas que deram entrevista ao G1 (2019), são:
• Trabalho coletivo: é importante que a comunidade escolar faça um trabalho
coletivo com os estudantes  oportunizando a eles a possibilidade de falarem
sobre o que estão sentindo;
• Psicoeducação com os familiares: para que fiquem atentos a sinais como
mudança de comportamento, insônia, crises de angústia;

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UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

• Escuta psicológica: não se deve forçar ninguém a falar, mas estar aberto para
escutar, caso seja necessário.

No dia 18 de março, professores e funcionários voltam à Escola Professor Raul


para planejamento de atividades de apoio, preparação psicológica da comunidade­
e retomada das aulas. O planejamento contou com apoio de uma força-tarefa do
­Governo Estadual e também da Prefeitura de Suzano, além de profissionais do
­Instituto de Psicologia da USP, Unicamp e Centros de Atenção Psicossocial (Capes)
da Prefeitura, entre outras instituições.

Foi formada uma rede de apoio, por instituições públicas e privadas, que atuou no
fim de semana logo após o massacre, prestando atendimento psicológico e especia-
lizado na Diretoria Regional de Ensino de Suzano e no Capes do município, além de
visitas domiciliares às famílias das vítimas (IG, 2019).

A escola foi aberta para os alunos no dia 26 de março. No primeiro momento, os


estudantes foram chamados para participar de atividades de acolhimento, com apoio
psicológico, oficinas, terapia em grupo, rodas de conversa, depoimentos e compar-
tilhamento de boas práticas (IG, 2019).

Os atendimentos individuais e coletivos foram realizados por técnicos do Centro


de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), da Secretaria Estadual de Justiça. Os acolhi-
mentos de saúde mental foram feitos em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS)
e em quatro Centros de Apoio Psicossocial da prefeitura de Suzano, bem como
por diversas instituições que se disponibilizaram para colaborar tanto no âmbito
pedagógico quanto no suporte psicológico de alunos e funcionário, dentre elas a
Universidade­Cruzeiro do Sul (JORNAL CRUZEIRO DO SUL, 2019).

Apesar dessa mobilização inicial, segundo reportagem do G1 (2019), mais de


1,3 mil pacientes ligados ao massacre em Suzano esperam atendimento psicológico.
Nesse grupo, estão os núcleos familiares das vítimas que morreram e dos sobrevi-
ventes Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) têm recebido entre 10 e 20 novos
pedidos de acompanhamento psicológico por dia, de pacientes ligados de alguma
forma ao massacre.

Nos 39 dias que se sucederam o massacre, 185 pessoas atingidas diretamente


pelo atentado foram atendidas. No entanto, muitas outras esperam para fazer agen-
damento da triagem, primeira fase do atendimento que seleciona os casos mais graves.
A cidade contava apenas com 14 psicólogos que se desdobravam para dar conta da
nova demanda, bem como de 1090 pacientes que já estavam em tratamento por
outros transtornos (FOLHAPRESS, 2019).

Como estão as vítimas do massacre de Suzano, um ano após o ataque?


Disponível em: https://bit.ly/2FLkCe6

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Vamos exercitar?
Pensando nas faltas de estratégias publicadas por profissionais psicólogos em relação às
intervenções nesse caso, propomos, nesta unidade, que você realize em duplas, um modelo
de intervenção possível, levando em consideração todo embasamento apresentado até o
momento. Seja criativo(a): o que você precisaria considerar para implementação de um pla-
no de ação psicossocial?

Incêndio na Boate Kiss


O incêndio da boate Kiss ocorreu em 27 de Janeiro de 2013, na cidade Santa
Maria-RS, no qual deixou 242 pessoas mortas por asfixia devido à inalação de uma
fumaça tóxica. As vítimas do acidente tinham entre 18 e 21 anos de idade e eram
estudantes universitários.

O acidente foi causado por um incêndio provocado por fogos de artifícios e pirotéc-
nicos durante a apresentação de uma banda que se apresentava no local. Esses fogos
utilizados durante o evento não eram adequados ou propícios de serem utilizados em
locais fechados, apenas em locais abertos. “O teto da boate pegou fogo e, em decorrên-
cia do mau funcionamento do extintor de incêndios, as chamas rapidamente se espalha-
ram por toda a boate lotada, liberando uma fumaça espessa e tóxica” (ATIYEH, 2013).

Além disso, o forro do teto da boate tinha em sua composição material inflamável,
e outro agravante era que a boate não contava com sistema de segurança contra
incêndios, como alarme ou sistema de aspersão adequados. Além disso, o local de
entrada e saída da boate era estreito e estava bloqueado para saídas, por esse motivo,
o fluxo de saída e escapes das pessoas foi dificultado, tendo os bombeiros que abrir
uma parede externa para permitir a saída das pessoas.

Esse acidente também deixou cerca de mil pessoas feridas, com queimaduras
graves e problemas respiratórios importantes, algumas em estado crítico até hoje.

Figura 3
Fonte: Wikimedia Commons

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UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Segundo o Sistema Nacional de proteção e defesa civil, o acidente na Boate Kiss


foi classificado como um desastre, no qual foi decretado situação de emergência no
Estado (Brasil, 2013a; Prefeitura de Santa Maria, 2013 apud NOAL et al., 2016).

Estratégias de Saúde Mental e


Atenção Psicossocial: Relatos e Experiências
As intervenções e estratégias utilizadas em eventos como esses, considerados
eventos críticos, são de extrarrelevância para a comunidade e familiares das vítimas.
Abaixo, apresentaremos os relatos de experiências de psicólogos voluntários que atu-
aram diretamente com essa população, foram selecionados 3 artigos para compor
essa análise.

O primeiro relato de experiência é baseado no artigo de Débora da Silva Noal et al.


Estratégia de Saúde Mental e Atenção Psicossocial para Afetados da Boate Kiss,
­publicado na revista Psicologia Ciência e profissional no ano de 2016. O objetivo
desse estudo foi analisar os primeiros três meses da estratégia de Atenção Psicosso-
cial (AP) e Saúde Mental (SM) criada em resposta ao incêndio ocorrido na Boate Kiss.

Essa análise é baseada na experiência de seis psicólogas voluntárias (autoras desse


artigo), membros da equipe que conformou a primeira resposta ao evento na estra-
tégia de Saúde Mental. Para melhor compreensão do processo de intervenção, as
autoras dividiram a intervenção em três momentos:
• Pré-evento crítico: onde foram contextualizadas informações importantes ­sobre
o local pertinentes sobre o local onde aconteceu o evento crítico, na cidade­de
Santa Maria e sua rede de atenção psicossocial antes do evento;
• Durante o evento: contextualizando o momento do incêndio até o primeiro
mês após;
• Pós-evento: descrevendo a conjuntura e intervenções nos meses subsequentes
ao evento em questão.

As estratégias serão descritas abaixo:

Pré-Evento
• Levantamento do panorama geral da cidade antes do incêndio, como dados
sociodemográficos;
• Durante o período do evento, a cidade passava por uma transição em relação à
equipe de gestão em saúde, bem como quanto ao planejamento, preparação e
prontidão das políticas públicas para atuar nas situações de desastres;
• Município também contava com um ambulatório de saúde mental que não man-
tinham articulação em rede com os demais serviços, sem oferta de dispositivos
terapêuticos para além do atendimento individual e sem um trabalho georrefe-
renciado do território;

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• Apresentava um sistema de saúde frágil quanto à composição da rede de aten-
ção básica, da gestão das políticas e de articulação intra e interinstitucional, mas
tal fragilidade não impediu com que processo de construção e implantação de
uma estratégia de oferta de cuidado psicossocial e de saúde mental para os
sobreviventes e familiares fosse realizado.

Durante o Evento
• Foi realizada uma reunião na manhã seguinte ao evento, que contava com a
presença dos membros da gestão municipal, estadual e federal de saúde, onde o
objetivo foi compartilhar o quadro específico de cada uma das áreas prioritárias
para a saúde;
• Foram mapeadas as estruturas e serviços que poderiam ser acionadas como
apoio. Esse mapeamento teve como intuito contemplar os primeiros cuidados
psicossociais;
• Estruturar rede de apoio com a presença tanto de intuições governamentais e
não governamentais, bem como voluntários e diversos profissionais, para aten-
dimento às pessoas afetadas (in)diretamente pelo evento;
• Foram definidos e pactuados eixos de cuidado e equipes de trabalho para con-
formação dessa rede, os quais deveriam funcionar de acordo com os princípios
estruturantes do SUS;
• Definição dos eixos de atuação: núcleo de gestão da estratégia de saúde mental;
educação permanente; regulação de saúde mental; seis eixos de apoio psicossocial:
» Núcleo de Gestão: esse eixo foi responsável por definir as ações na elabora-
ção de boletins informativos para o Gabinete de Crise. Também contava como
atribuição desse eixo, o alinhamento dos fluxos de trabalho, bem como a reali-
zação de reuniões diárias com o integrante responsável de cada eixo, no intuito
de melhor compreensão das reais demandas e necessárias diárias da emergên-
cia. Esse eixo tinha também como função, auxiliar na produção de indicadores
e dados que possibilitassem ao Gabinete de Crise compreender a problemática
da demanda psicossocial e dos possíveis encaminhamentos institucionais;
» Educação Permanente: esta etapa teve como objetivo contribuir para a for-
mação básica dos profissionais e voluntários que estavam atuando na resposta
direta ao evento. Essa formação no primeiro momento contemplava as estra-
tégias utilizadas em cada eixo, bem como realização de diagnostico situacional
das estruturas, das demandas apresentadas, considerando a importância da
articulação em rede. Nesta etapa, também foram organizados grupos de su-
pervisão presencial, apoio institucional e matricial, por meio de discussões de
casos realizados por mídias e telefone. Tais supervisões visavam o alinhamento
das estratégias de suporte as vítimas (sobreviventes e familiares);
» Regulação de Saúde Mental: esse eixo contava com uma equipe de profissio-
nais do município e profissionais que foram contratados para atuarem no fluxo de
encaminhamentos e auxílio das pessoas que buscavam informações e cuidados;

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UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Segundo as autoras, este eixo funcionou a partir de princípios similares aos da


regulação em saúde pública, no qual a equipe buscava garantir o acesso dos usu-
ários aos serviços de saúde de acordo com as necessidades singulares;
» Apoio Psicossocial: de acordo com as autoras, este eixo foi dividido em
seis subeixos:
» Nos territórios dos ritos de despedida: onde foi oferecido suporte psicos-
social aos familiares e amigos das vítimas no decurso dos velórios, missas e
atos públicos;
» Nas UPAS e SAMU: onde grupos de psicólogos e outros profissionais de
saúde voluntários estavam responsáveis por prestarem apoio qualificado aos
profissionais das unidades de atendimentos emergenciais, bem como aos fami-
liares e afetados, amigos e outras pessoas demandantes de apoio nestes locais;
» Nos hospitais: onde havia uma equipe de psicólogas(os) voluntárias (os) com
o objetivo de prover um suporte aos cuidadores e familiares dos pacientes­
internados, visto que a maior parte desses pacientes encontrava-se em
­
­estado grave. Neste eixo, os psicólogos também ficaram responsáveis por
dar s­ uporte aos profissionais de saúde que apresentasse alguma demanda de
apoio relacionada a este tipo de atendimento;
» Serviço de acolhimento 24 horas: este eixo foi criado pela necessidade de
acolher e atender especificamente os casos que apresentassem “queixas de
sofrimento agudo relacionado ao evento, por meio de uma equipe multipro-
fissional, inicialmente formada por alguns profissionais”;
» Apoio às equipes de resposta ao evento: este eixo foi elaborado para dar
suporte aos profissionais e voluntários que nunca haviam atuado em situa-
ções como esta. Dessa forma, foram promovidas ações de sensibilização e
informação específica para essas pessoas, acerca do cuidado em situação de
crise. Neste grupo também foi realizado acolhimento às equipes (bombeiros,
policiais, motoristas, maqueiros, equipes de saúde...) envolvidas nos atendi-
mentos aos afetados.

Pós-Evento Crítico: Acompanhamento e Reestruturação


Essa etapa ocorreu dois meses após a ocorrência do evento apresentado. Durante
esse período, foram realizados levantamentos referentes ao número de municípios
com casos registrados de vítimas e sobreviventes. Também foram elaboradas dire-
trizes técnicas para o acompanhamento psicossocial às vítimas e aos familiares do
evento e gestão de casos específicos.

Nessa etapa de intervenção, também foi realizada uma análise dos prontuários de
atendimento realizados aos pacientes durante o período de intervenção inicial, com
o objetivo de compreender quais as principais reações e dificuldades encontradas.
­Outro ponto avaliado nessa etapa foi mapear a necessidade dos pacientes que precisa-
vam ser recontatados para dar seguimento aos processos iniciais, caso fosse necessário.

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Durante essa fase da intervenção, várias medidas foram realizadas, dentre elas, a
contratação de profissionais da saúde como médicos, psicólogos, enfermeiros, entre
outros, bem como formação de uma nova equipe de profissionais, no qual foi neces-
sária a realização de um nivelamento da equipe atual, pois ela não acompanhou o
processo de resposta desde o início.

Por fim, durante esse período, aumentaram os acolhimentos realizados por telefone
(de 345 em março para 446 em abril), diminuindo os atendimentos domiciliares,
bem como houve redução importante quanto aos atendimentos emergências em
saúde mental.

Conclusão
Nota-se que esse relato de experiência em atendimento psicossocial a vítimas
e familiares do acidente na Boate Kiss apresentou uma estrutura de atendimento
pautada nas diretrizes referentes às intervenções em situações de emergências, bem
como estabeleceu protocolos próprios, mas com rigor e sistematização muito coe-
rentes e eficazes.

Como já mencionado, as intervenções psicossociais não só atuam nas consequên-


cias emocionais das vítimas, mas articula de forma direta ou indireta suporte social
importante e fundamental. Nota-se que o trabalho em rede e em equipe é imprescin-
dível para que o fluxo programado seja realizado com êxito.

Acidente com o Voo da Chapecoense


Acidentes aéreos são sempre motivos de muita comoção social, pelo fato de ocor-
rerem de forma inesperada, provocando a morte de centenas de pessoas ao mes-
mo tempo, com pouquíssima possibilidade de sobreviventes. Segundo Pereira (2012
apud ROOS, 2015), “os acidentes aeronáuticos são produtos de uma combinação
particular entre várias ameaças riscos e vulnerabilidades, levando a grandes conse-
quências psicológicas”. No Brasil, houve a ocorrência de diversos acidentes nesse
contexto, no entanto, alguns tiveram grande repercussão nacional pela mídia, provo-
cando imensa dor e sofrimento social. Um desses eventos foi o acidente com o voo
do time de futebol da Chapecoense.

O Contexto do Acidente
O acidente ocorreu em 29 de novembro de 2016 em Medelin, na Colombia, o
qual deixou 71 pessoas mortas e 6 feridos. O avião contava com a delegação do time
de futebol da Chapecoence, que iria realizar um jogo na cidade colombiana.

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UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Figura 4
Fonte: elderhsquill.org

De acordo com a Aeronáutica Civil, o acidente foi causado pela falta de combustí-
vel da aeronave. Foi acionado o sistema de emergência cerca de 40 minutos antes da
queda, naquele momento, o controle de tráfego aéreo desconhecia a situação do voo.
A empresa Lamia foi a responsável pela causa do acidente (nsctotal.com.br, 2019).

Avião com equipe da Chapecoense cai na Colômbia e deixa mortos: https://glo.bo/3iJp3oe

Em relação aos sobreviventes, é interessante comentar que, geralmente, em um


acidente como esse, as vítimas são fatais, mas, nesse caso, foram 6 pessoas que
­sobreviveram ao evento; dentre eles, tivemos 3 jogadores do time da Chapecoence, um
profissional da imprensa e dois tripulantes da aeronave um técnico e uma tripulante.

No caso de intervenções nesse acidente, houve raríssimas publicações científicas.


Abaixo, apresentaremos algumas ações realizadas por voluntários, pela cruz verme-
lha e por profissionais e estudantes do curso de psicologia da Universidade Estadual
de Santa Catarina (UNESC), juntamente com a Socape (Sociedade Catarinense de
Psicologia do Esporte).

Segundo informações do portal Veneza, o grupo de voluntários da Unesc reali-


zou a intervenção baseado em três etapas, em que foram realizados: grupo de estu-
dos em intervenção psicológica em situação de desastre, grupos para atendimento
­on-line aos familiares e outro grupo de apoio para o clube da Chapecoence.

Segundo a psicóloga Francielli Galli, professora de Psicologia das Emergências e


Desastres da UniRitter, universidade em Porto Alegre que integra a Rede Internacio-
nal de Universidades Laureate, em entrevista à revista Istoé, há algumas estratégias
importantes a serem consideradas em situações de emergências por desastres aéreos.
Segundo a psicóloga que atuou na equipe de apoio as vítimas desse acidente, é
­importante considerar que tragédias como essas atingem pelo menos quadro grupo,
tais como: sobrevivente, familiares e amigos próximos, comunidade, profissionais de

20
saúde/assistência social, sendo a abordagem psicológica realizada de forma distinta
em cada grupo, levando em consideração a demanda e o perfil de cada um, como
apresentado abaixo no quadro abaixo:

Quadro 1 – Abordagem psicológica realizada em cada grupo


• O psicólogo contextualiza o sobrevivente sobre:
• o local onde está e por que;
• seu estado de saúde;
Sobreviventes • sobre sua família.
• Responde às perguntas dos pacientes;
• O acompanhamento dever ser de longo prazo.

• Apresentação do profissional e rapport;


Familiares e • Respeito ao momento de cada um, acolhimento e orientações;
amigos próximos • Apoio para articular auxílio na solução de questões práticas, como a organização
do velório.

• Instalação de rede de apoio emergencial que atenda demanda espontânea;


• Acolhimento à comunidade, principalmente às pessoas que apresentarem
Comunidade sintomas de ansiedade (medo constante) ou de luto complicado;
• Estabelecer apoio social de longo prazo.

Equipe de saúde/ • Suporte psicológico aos profissionais de saúde e de linha de frente, com o objetivo
assistência social em estabelecer um atendimento de qualidade, eficiência e necessário às vítimas.

Outras equipes também se envolveram nas intervenções com as vítimas do aci-


dente com o avião da Chapecoense, dentre elas, a instituição de ajuda humanitária
brasileira, que, desde os primeiros momentos após o acidente, manteve contato com
a Cruz Vermelha Colombiana, buscando atualizar as informações. Voluntários da
Filial de Chapecó atuaram no acolhimento das famílias das vítimas. Todo o trabalho
foi realizado em conjunto com as secretarias de Saúde do Estado de Santa Catarina
e do Município de Chapecó, e órgãos competentes (VELOSO 2016).

Vamos exercitar?
Pensando nas faltas de estratégias publicadas por profissionais psicólogos em relação às
intervenções nesse caso, propomos nesta unidade que você realize em duplas, um modelo
de intervenção possível, levando em consideração todo embasamento apresentado até o
momento. Seja criativo, o que você precisaria considerar para implementação de um plano
de ação psicossocial?

21
21
UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

 Leitura
Desastres naturais: contribuições para atuação do psicólogo nos desastres hidrológicos
DÁRIO, P. P.; MALAGUTTI, W. Desastres naturais: contribuições para atuação
do psicólogo nos desastres hidrológicos. JMPHC | Journal of Management &
Primary Health Care | ISSN 2179-6750, v 10, 2019.
https://bit.ly/3iWueBv
O impacto na saúde mental dos afetados após o rompimento da barragem da Vale
NOAL, D. da S.; RABELO, I. V. M.; CHACHAMOVICH, E. O impacto na saúde
mental dos afetados após o rompimento da barragem da Vale. Cadernos de Saúde
Pública, v. 35, n. 5, p. e00048419, 2019.
https://bit.ly/2FOBuRa
Primeiros Socorros Psicológicos: relato de intervenção em crise em Santa Maria
SILVA, T. L. G; MELLO, P. G.; SILVEIRA, K. A. L. et al. Primeiros Socorros
Psicológicos: relato de intervenção em crise em Santa Maria. Rev. bras. psicoter.
2013;15(1):93-104
https://bit.ly/3hM7J0q
Nota da Cruz Vermelha Brasileira sobre acidente aéreo na Colômbia
VELOSO. J. Nota da Cruz Vermelha Brasileira sobre acidente aéreo na
Colômbia. 2016.
https://bit.ly/33JuXj3

22
Referências
ATIYEH, B. Desastre na boate kiss, Brasil. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica,
v. 27, n. 4, p. 502-502, 2013.

BRUNA, A. Psicologia presente em Brumadinho, 2019. Disponível em: <https://


www.oesteemfoco.com.br/noticia/2752/brumadinho>. Acesso em 07/09/2020.

FELIX, E. B. G. et al. O Dano Interior: Repercussão Psicossocial da Tragédia da Vale


na População de Brumadinho-MG. Revista Interfaces: Saúde, Humanas e Tecnolo-
gia, v. 8, n. 2, p. 546–553, 31 jul. 2020.

NOAL, D. da S.; RABELO, I. V. M.; CHACHAMOVICH, E. O impacto na saúde


mental dos afetados após o rompimento da barragem da Vale. Cadernos de Saúde
Pública, v. 35, n. 5, p. e00048419, 2019.

NOAL, D. da S. et al. Estratégia de Saúde Mental e Atenção Psicossocial para Afeta-


dos da Boate Kiss. Psicol. cienc. prof., Brasília, v. 36, n. 4, p. 932-945, Dec. 2016 .

TENENTE L.; COELHO T.; OLIVEIRA, E. Apoio psicológico pode ajudar vítimas
de traumas como o do massacre em Suzano. Disponível em: <https://g1.globo.
com/ciencia-e-saude/noticia/2019/03/14/como-o-apoio-psicologico-pode-ajudar-
-vitimas-de-traumas-como-do-massacre-em-suzano.ghtml>. Março de 2019.

LIRA. N. Mais de 1,3 mil pacientes ligados ao massacre em Suzano esperam atendi-
mento psicológico: disponível em: <https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/
noticia/2019/04/25/mais-de-13-mil-pacientes-ligados-ao-massacre-em-suzano-es-
peram-atendimento-psicologico-profissionais-estao-exauridos-diz-secretario.ghtml>.

PEREIRA, D. M. et al. Brumadinho: muito mais do que um desastre tecnológico. 2019.

VELOSO. J. Nota da Cruz Vermelha Brasileira sobre acidente aéreo na


Colômbia. 2016. Disponível em: <http://www.cruzvermelha.org.br/pb/nota-da-
-cruz-vermelha-brasileira-sobre-acidente-aereo-na-colombia/>.

LIMA. M. Psicologia da Unesc auxilia familiares da delegação da Chapecoense.

Sites Visitados
CRP-MG. Ação em Brumadinho realça a atuação plural da Psicologia. CRP_
MG, 2019 Disponível em: <https://crp04.org.br/acao-em-brumadinho-realca-a-atu-
acao-plural-da-psicologia/>. Acesso em: 07/09/2020.

https://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2019/03/13/tiros-dei-
xam-feridos-em-escola-de-suzano.ghtml

https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2019-03-17/suzano-escola-reabertura.html

https://direcionalescolas.com.br/caso-suzano-impactos-psicologicos-saude-socioe-
mocional-e-estrategias-de-seguranca/

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23
UNIDADE Intervenções Psicológicas em Emergências: Análise da Prática

https://www.portalveneza.com.br/psicologia-unesc-auxilia-familiares-delegacao-cha-
pecoense/. Novembro 2016

REDAÇÃO DC. Tudo que se sabe até agora sobre o acidente com o time da
Chapecoense. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/noticias/tudo-que-se-
-sabe-ate-agora-sobre-o-acidente-com-o-time-da-chapecoense>. Novembro 2019.

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Psicologia em
Situações de
Emergência
Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Dr.ª Larisse Helena Gomes Macêdo Barbosa

Revisão Técnica:
Prof.ª Me. Cássia Souza

Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin
COVID-19: Saúde Mental e
Manejo Frente uma Pandemia

• COVID-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia;


• Implicações na Saúde Mental Resultante
da Pandemia do COVID-19;
• Intervenções Psicológicas no Decorrer da Pandemia:
Principais Possibilidades e Desafios;
• Intervenções Voltadas aos Profissionais da Saúde;
• Considerações sobre Atendimento On-Line.


OBJETIVO

DE APRENDIZADO
• Contemplar uma situação emergencial da nossa atualidade, buscando reflexões e compre-
endendo a complexidade de uma pandemia e todas as consequências emocionais, sociais,
psicológicas, econômicas e políticas e o impacto disso na saúde mental da população. Quem
são as vítimas? Como intervir? Como evitar ou lidar com a ansiedade e o medo?
UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

COVID-19: Saúde Mental e


Manejo Frente uma Pandemia
O SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2), conhecido
como novo Coronavírus, causador da doença COVID-19, teve seu primeiro caso de
infecção reportado na China, em dezembro de 2019.

Figura 1
Fonte: Getty Images

A principal característica é a facilidade de transmissão, gerando uma síndrome


respiratória aguda, que apresenta um quadro clínico que varia de infecções assinto-
máticas a quadros respiratórios graves. No que se refere à taxa de letalidade, existe
uma variação, em relação à faixa etária e condições clínicas associadas, apresentando­
maior vulnerabilidade aos pacientes idosos e pessoas que já possuem outras doen-
ças, como pressão alta, problemas cardíacos ou diabetes (GRINCENKOV, 2020).

Em poucos meses, o SARS-CoV-2 se espalhou pelos cinco continentes.

Diante disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) o considerou, em março,


uma doença pandêmica, uma emergência de saúde pública internacional.

Em abril, a COVID-19 já trazia profundo impacto global, apresentando estatísticas


de casos confirmados em nível global superior a dois milhões, e o número de mortes
excedendo 130 mil (LANA et al. 2020; WHO, 2020).

No Brasil, os casos confirmados totalizavam 30.425, com 1.924 mortes (SCHMIDT­


et al., 2020).

Segundo Ferguson et al. (2020), a COVID-19 foi considerada a síndrome respira-


tória viral mais severa desde a pandemia de influenza H1N1, que ocorreu em 1918.

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As pandemias são conhecidas como epidemias que se espalham rapidamente por
diversos países e afetam uma quantidade relativamente grande de pessoas e que,
de forma geral, geram consequências do nível micro ao macrossistêmico, impondo,
pelo tempo em que duram, novas regras e hábitos sociais para a população mundial
e mobilizações de diversas naturezas para suas contenções (DUARTE et al., 2020, p. 2).

Os principais sintomas da COVID-19 são: tosse, febre e dificuldades respiratórias.


Cansaço, dores, corrimento e congestão nasal, dor de garganta e diarreia também
podem aparecer como sintomas.

A maioria das pessoas infectadas apresenta quadro leve a moderado (80% da


população infectada), recuperando-se sem precisar de grandes intervenções. Cerca
de 20% dos casos podem requerer atendimento hospitalar por apresentarem dificul-
dades respiratórias (15% evoluem para uma pneumonia grave e 5% dos casos pode
desenvolver a Síndrome Respiratória Aguda Grave) (DO BÚ et al., 2020).

O contágio é feito no contato pessoa a pessoa, por meio das gotículas com vírus,
que são expelidas pelas pessoas infectadas ao tossir ou espirrar. Essas gotículas têm
a possibilidade de contaminar objetos e superfícies. Assim, a transmissão pode acon-
tecer quando uma pessoa toca nessas áreas contaminadas e, em seguida, levar as
mãos à boca, nariz ou olhos (VELAVAN; MAEYER, 2020).

Quanto às estratégias de prevenção e controle para reduzir os impactos da pande-


mia, diminuindo o pico de incidência e o número de mortes, as principais recomen-
dações são o isolamento físico, o confinamento domiciliar, a higienização regular das
mãos, o uso de máscaras faciais, não tocar os olhos, nariz e boca com as mãos sujas
e a detecção precoce de pessoas infectadas (DO BÚ et al., 2020).

As principais medidas adotadas em alguns países foram: isolamento de casos


suspeitos, fechamento de escolas e universidades, distanciamento social de idosos
e outros grupos de risco, bem como quarentena de toda a população (SCHMIDT
et al., 2020).

No que se refere ao tratamento para a COVID-19, até o momento, não foi confir-
mado como eficaz nenhum tratamento antiviral específico.

Em relação aos pacientes infectados com COVID-19 tem sido recomendado apli-
car tratamento sintomático apropriado e cuidados de suporte. Ademais, não foram
realizadas ainda pesquisas conclusivas sobre a imunização (ADHIKARI et al., 2020).

Existe um amplo consenso de que a pandemia do COVID-19 não afeta apenas a


saúde física, mas também a saúde mental e o bem-estar das pessoas, podendo ser
particularmente grave para pelo menos quatro grupos de pessoas:
• Aqueles que estiveram direta ou indiretamente em contato com o vírus;
• Aqueles que já são vulneráveis a estressores biológicos ou psicossociais (incluindo
pessoas afetadas por problemas de saúde mental);

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UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

• Profissionais de saúde (devido ao maior nível de exposição);


• Até mesmo pessoas que acompanham as notícias por meio de diversos canais
de mídia (FIORILLO; GORWOOD, 2020). 

Assim, esta Unidade tem por objetivo contemplar uma situação emergencial da
nossa atualidade, buscando reflexões e compreendendo a complexidade de uma
pandemia e todas as consequências emocionais, sociais, psicológicas, econômicas e
políticas e o impacto disso na saúde mental da população.

Quem são as vítimas? Como intervir? Como evitar ou lidar com a ansiedade e
o medo?

Essas são perguntas que iremos tentar responder neste módulo.

Para tanto, traremos os seguintes tópicos:


• Implicações na saúde mental resultante da pandemia do COVID-19;
• Intervenções psicológicas no decorrer da pandemia: principais possibilidades
e desafios;

Implicações na Saúde Mental


Resultante da Pandemia do COVID-19
Como vimos em módulos anteriores, depois do ataque de 11 de setembro nos Estados
Unidos e do incêndio da boate Kiss no Brasil, houve um grande esforço para lidar com
assistência psicológica para vítimas e suas famílias, e ela foi rapidamente organizada.

A mesma situação pode não ocorrer nas pandemias, visto que os profissionais
de saúde, cientistas e gestores focam suas pesquisas e atenções nas questões físi-
cas, com o intuito de entender os mecanismos fisiopatológicos envolvidos e propor
medidas­para prevenir, conter e tratar a doença.

Como consequência, as implicações psiquiátricas e psicológicas são consideradas


menos importantes do que as físicas, tanto no nível individual quanto no coletivo,
­podendo ser subestimadas e negligenciadas, gerando estratégias falhas para comba-
ter a doença (ORNELL et al., 2020).

O número de pessoas que têm sua saúde mental afetada no decorrer das pande-
mias tende a ser maior que o número de pessoas infectadas pelo vírus.

Essas questões foram evidenciadas em tragédias anteriores (Surto de Ebola;


­Pandemia de Influenza H1N1), que demonstraram que as consequências para a
saúde­mental das pessoas têm maior duração em relação ao tempo e uma prevalên-
cia mais acentuada que a própria epidemia, trazendo grandes impactos psicossociais
e econômicos em diferentes contextos.

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Nessa linha, a pandemia e as medidas de contenção, como quarentena, distan-
ciamento social e autoisolamento, podem ter impacto prejudicial na saúde mental
das pessoas.

Em particular, o aumento da solidão e a redução das interações sociais são fatores


de risco bem conhecidos para transtornos mentais, incluindo a depressão.

As preocupações com a própria saúde e a de seus entes queridos (especialmente,


os que fazem parte do grupo de risco), bem como a incerteza sobre o futuro, podem
gerar ou exacerbar o medo, a depressão e a ansiedade. Se essas preocupações
forem prolongadas, podem aumentar o risco de problemas de saúde mental graves
e incapacitantes (FIORILLO; GORWOOD, 2020). 

Estudos têm identificado sintomas de depressão, ansiedade e estresse nas pes-


soas, como consequências da pandemia, com destaque para incidência desses sin-
tomas em profissionais da saúde. Em alguns países, como a Coreia do Sul e Índia
foram reportados casos de suicídio potencialmente ligados aos impactos psicológicos
da COVID-19 (GOYAL et al., 2020; JUNG; JUN, 2020; WANG et al., 2020).

Outra questão relevante é que a mídia vem explorando a temática diariamente, haja
vista os reflexos da pandemia no sistema de saúde, na política, na economia e na edu-
cação, apresentando a todo momento o quantitativo de infectados e de óbitos decor-
rentes da infecção pelo COVID-19, gerando em uma parcela da população um pânico.

Muitas vezes, apresentando exagero de notícias vinculadas à pandemia, gerando an-


siedades, contínuas avaliações de temperatura corporal, esterilização excessiva, sendo
esses atores que podem preceder os Transtorno do Pânico, Transtorno Obsessivo Com-
pulsivo (TOC), estresse e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) (LIMA, 2020).

Wang et al. (2020) desenvolveram uma pesquisa com a população da China sobre
implicações na saúde mental diante da pandemia do novo Coronavírus.

Participaram 1.210 pessoas oriundas de 194 cidades, durante o estágio inicial da


pandemia, que responderam aos seguintes instrumentos: Impact of Event Scale –
Revised e o Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21).

Os resultados, apontaram sintomas moderados a severos de ansiedade (28,8%),


depressão (16,5%) e estresse (8,1%) dos respondentes.

Deve-se destacar que 75,2% dos participantes se encontravam preocupados com


a possibilidade de seus familiares contraírem as doenças.

75,1% estavam satisfeitos com as informações disponíveis referentes à saúde.

Além da população geral, os profissionais de saúde também têm sofrido grandes


pressões, visto que estão diretamente envolvidos com a pandemia do COVID-19, o
que os deixa vulneráveis à infecção e a sintomas mentais.

Esses profissionais que estão na linha de frente se deparam com a exaustão mental,
carga horária exaustivas, redução do contato com a família, pressão, frustração na per-
da de pacientes e pessoas próximas, além do medo de contágio e progressão ruim de

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UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

familiares e amigos, o que pode gerar maiores danos em longo prazo para o desenca-
deamento ou a intensificação de sintomas de ansiedade, estresse, depressão, insônia.

Segundo Bao et al. (2020), as principais doenças mentais que esses profissionais
podem apresentar são ansiedade, depressão e TEPT (LIMA et al., 2020).

Vale ressaltar que esses profissionais vêm sendo orientados a minimizar as interações
de maneira próxima com outras pessoas, aumentando o sentimento de isolamento.

Outra questão está relacionada às frequentes mudanças nos protocolos de atendi-


mento, fruto das constantes descobertas sobre a COVID-19 e, ainda, tem o constante­
desgaste para colocar e remover os equipamentos de proteção individual, o que
­aumenta a exaustão relacionada ao trabalho (SCHMIDT et al., 2020).

Dessa forma, Chen et al. (2020) sinalizam que na China foi observado, nas equi-
pes de saúde mental que trabalham na linha de frente, sintomas de sofrimento psico-
lógico, irritabilidade aumentada e recusa a momentos de descanso.

Zhang et al. (2020) desenvolveu uma pesquisa com o objetivo de investigar a taxa
de prevalência de insônia e confirmar os fatores psicológicos sociais relacionados à
equipe médica em hospitais durante o surto de COVID-19.

Para tanto, contaram com a participação de 1.563 membros da equipe médica


de diferentes cidades chinesas.

Como resultado, foram observados altos índices de sintomas de estresse (73,4%


dos respondentes), depressão (50,7%), ansiedade (44,7%) e insônia (36,1%).

No que diz respeito ao estresse e à insônia, os autores discutem uma provável


ocorrência de um círculo vicioso, em que a insônia aumentava os níveis de estresse,
e vice-versa.

Não só os profissionais que atuam na linha de frente estão suscetíveis a apresentar


sofrimento psicológico.

Segundo apontam Li et al. (2020), um fenômeno amplamente encontrado foi a


traumatização vicária ou secundária, que é identificada quando pessoas que não
vivenciaram diretamente o evento traumático começam a mostrar sintomas psicoló-
gicos resultantes da empatia por quem o sofreu.

No que concerne à COVID-19, Li et al. (2020) desenvolveram um estudo com


uma amostra composta por pessoas da população geral, enfermeiros que trabalha-
vam na linha de frente e enfermeiros que não trabalhavam na linha de frente.

Os resultados sinalizaram que a traumatização vicária se apresentou em níveis


significativamente maiores em enfermeiros que não trabalhavam na linha de frente
em comparação àqueles que trabalhavam na linha de frente. Os autores discutem os
dados argumentando que a traumatização vicária em enfermeiros que trabalham na
linha de frente é derivada da empatia pelas pessoas que têm COVID-19.

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No entanto, os enfermeiros que não trabalham na linha de frente além de empatia
pelas pessoas que têm COVID-19, apresentam, também, empatia e preocupação
com os colegas da linha de frente.

Outra questão é que enfermeiros que trabalham na linha de frente podem ter
maior preparo e habilidades psicológicas para lidar com emergências de saúde em
comparação àqueles que não trabalham na linha de frente. Dessa forma, sugere-se
a importância da atenção psicológica a essa população no contexto de pandemias.

Assim, mesmo utilizando equipamentos de proteção, os profissionais da saúde


também sentiram o impacto da pandemia, por meio do medo diário de contrair o
vírus e de transmiti-lo para seus entes queridos, vivenciando a morte muito mais pre-
sente, com sentimentos de solidão, abandono, desespero e ansiedade e, em alguns,
pensamentos suicidas. Somada a isso, a situação de terem de escolher a quem salvar
(SCHMIDT et al., 2020).

Intervenções Psicológicas no
Decorrer da Pandemia: Principais
Possibilidades e Desafios
Pesquisas têm demonstrado (BAO et al., 2020; SHOJAEI; MASOUMI, 2020;
ZHOU, 2020) que intervenções psicológicas desempenham papel fundamental para
lidar com questões relativas à saúde mental durante a pandemia do novo Coronavírus.
Algumas orientações têm sido divulgadas para atuação no atual contexto (AMERICAN
PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 2020; JUNG; JUN, 2020; WHO, 2020b).

No que se refere-se às recomendações, primeiramente, aconselhou-se que sejam


evitadas intervenções psicológicas presenciais, com o intuito de diminuir a probabili-
dade de propagação do vírus.

Sugeriram-se TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) para mediar os


serviços psicológicos. Esse tipo de atendimento remoto já foi utilizado em outras
epidemias, como a SARS, identificado como um mecanismo importante para aco-
lhimento das queixas relativas à saúde mental (SCHMIDT et al., 2020).

No Brasil, essa prática foi legalizada em 26 de março de 2020, pela Resolução CFP
nº 4/2020, que permite a prestação de serviços psicológicos por meios de Tecnologia
da Informação e da Comunicação (TICs) após a realização do “Cadastro e-Psi”.

A partir dessa Resolução, passou a ser autorizada a prestação de serviços psi-


cológicos por meios TICs de forma individual ou coletiva, em situação de urgência,
emergência, desastre, violação de direitos ou violência, objetivando minorar as impli-
cações psicológicas diante da COVID-19.

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UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

Dentre as intervenções que se destinam à população geral, Schmidt et al. (2020)


fazem uma revisão de algumas propostas, a saber:
• Produções de cartilhas e outros materiais psicoeducativos (ENUMO et al., 2020);
• Canais com objetivo de possibilitar a realização de escuta psicológica. Essa escuta
pode ser via ligações telefônicas ou atendimento em plataformas on-line (JIANG
et al., 2020; ZHOU, 2020);
• Atendimentos psicológicos por meio de troca de cartas estruturadas (XIAO, 2020);
• Atendimentos psicológicos on-line (DUAN; ZHU, 2020; LI et al., 2020b) ou
presenciais, quando comprovadamente necessários (JIANG et al., 2020).
• Utilização de pesquisas com utilização de questionários on-line para compreen-
são do estado de saúde mental da população diante da COVID-19, para uma
identificação rápida dos casos com maior risco e para facilitar a execução de
intervenções psicológicas efetiva para aquelas demandas (ZHOU, 2020).

ENUMO, S. R. F. et al. Cartilha para enfrentamento do estresse em tempos de pandemia.


Porto Alegre: PUCRS/PUC-Campinas, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3j1L0yT

Outra indicação de atuação em estado de pandemia é a utilização dos Primeiros


Auxílios Psicológicos (PAP), que tem sua eficácia apresentada em situações de crise,
com o objetivo de aliviar preocupações, oferecer conforto, ativar a rede de apoio social
e prover necessidades básicas, como água, alimentação e informação) (WHO, 2020),
se se tratar de intervenção imediata para restaurar sua adaptação psicossocial às novas
condições e ajudar no processo de restauração psíquica, quando o indivíduo não con-
segue tomar decisões ou age impulsivamente, além de prevenir e mitigar complicações
adicionais psicopatológicas como estresse pós-traumático (ALMONDES; TEODORO,
2020, p. 6-7).

Protocolos de intervenções em saúde que contribuem nos primeiros auxílios e no enfrenta-


mento da COVID-19 foram produzidos pela pró-reitoria de gestão de pessoas da UFCSPA e
estão disponíveis no site da ABP+. Disponível em: https://bit.ly/2RVC9TB

Temáticas que ganharam destaque nos trabalhos dos profissionais da saúde men-
tal junto à população geral são:
• Informações sobre reações esperadas no contexto de pandemia, como sintomas
de ansiedade e estresse, além de emoções negativas, como tristeza, medo, soli-
dão e raiva (WEIDE et al., 2020);
• Promoção de bem-estar psicológico por meio de estratégias, como cuidado e
higienização do sono, incentivo a prática de atividades físicas e técnicas de rela-
xamento e táticas para organização da rotina (BANERJEE, 2020);

14
• Fortalecimento das conexões com a rede de apoio social, ainda que os contatos
não ocorram face a face, considerando que instituições como escolas, empresas
e igrejas costumam estar fechadas, o que pode gerar sentimentos de solidão e
vulnerabilidade (SHOJAEI; MASOUMI, 2020);
• Controle da exposição excessiva a informações nas diferentes mídias
(BARROS, 2020).

Pacientes em isolamento domiciliar ou pessoas em quarentena são potenciais dis-


seminadores do vírus na comunidade, e oferecer apoio psicológico a essas pessoas é
também uma medida de prevenção, visto que o fortalecimento do autocuidado e do
bem-estar psicológico ajuda na capacidade de as pessoas de suportarem melhor os
efeitos do isolamento.

Para dar suporte a esses grupos, deve-se centrar em:


• Fornecer informação correta e suficiente e orientar onde encontrar fontes de
informação confiáveis;
• Orientar quanto ao agravamento do quadro, para que possam saber identificar
e o que fazer diante do agravamento do quadro e poder ajudar a aumentar a
autonomia e a autoconfiança da pessoa;
• Construção do plano de cuidado, estabelecendo um planejamento da rotina,
estruturação de um suporte para providenciar alimento, medicações, acomo-
dação e outros ajustes necessários, orientar, ainda, sobre os sentimentos mais
comuns e esperados diante da situação.

Nos casos de pessoas com suspeita ou diagnóstico confirmado e seus familiares,


pessoas hospitalizadas ou que passaram pela experiência de hospitalização, pessoas
que estão vivenciando o processo de terminalidade ou a morte de familiares, em
particular aquelas que não puderam se despedir presencialmente ou acompanhar o
falecido em razão da pandemia, ou seja, pessoas em sofrimento mais severos, devem
ser encaminhadas para intervenções psicológicas mais intensas.

Intervenções Voltadas
aos Profissionais da Saúde
Psicólogos podem colaborar na prevenção de implicações psicológicas negativas,
bem como colaborar para a promoção da saúde mental nos profissionais da saúde,
haja vista que fatores psicológicos são de extrema importância na forma como os
profissionais de saúde respondem à doença e gerenciam as demandas de seu am-
biente de trabalho.

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UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

Figura 2
Fonte: Getty Images

Diante disso, como recomendação de intervenções para esses profissionais, temos:


• Intervenções voltadas à psicoeducação e possibilidades de controle dos sintomas
psicológicos que podem aparecer nesse contexto, como estresse, gerenciamento­
de estresse, depressão, ansiedade e insônia (ZHANG et al., 2020a);
• Importância do autocuidado;
• Incentivo ao fortalecimento da rede de apoio, por meio de telefonemas, mensa-
gens de texto, áudio e vídeo (CHEN et al., 2020).

Assim, o manejo terapêutico por parte dos psicólogos no atendimento aos profis-
sionais de saúde que estão em contexto de enfrentamento do COVID-19 são: identi-
ficar reações de crise e refletir sobre intervenções para o alívio emocional imediato,
facilitar a adaptação, promovendo saúde mental e prevenindo o desenvolvimento ou
o agravamento de doenças mentais.

O atendimento psicológico para o profissional de saúde precisa englobar a avalia-


ção das condições psicológicas descritas, sendo importante identificar quais são as
condições de trabalho do profissional de saúde e quais são as percepções que eles
possuem dela.

Também é importante ter em mente que o modo como as pessoas reagem depen-
de de muitos fatores, incluindo: natureza e severidade do(s) evento(s) ao(s) qual(ais) foi/
foram exposta(s), vivência anterior de situações de crise, apoio que elas recebem (ou
receberam) de outras pessoas durante a vida, estado de saúde física, histórico­pessoal
e familiar de problemas de saúde mental, cultura e tradições pessoais ­(ALMONDES;
TEODORO, 2020).

Depois de realizada essa avaliação, podemos planejar a intervenção psicológica,


que pode ser tanto um acolhimento, quanto escuta ativa, até as intervenções mais
específicas, lembrando que não envolve a utilização de psicoterapia, e sim técnicas
de apoio e primeiros auxílios psicológicos (ALMONDES; TEODORO, 2020).

16
• Acolhimento e escuta ativa: disponibilize um ambiente on-line que seja
adequado e sem distrações. Proporcione abertura para que o profissional
exponha suas dificuldades (medos e dúvidas). Identifique reações de desespero,
desamparo, desesperança e ideações suicidas;
• Psicoeducação: explique sobre os sentimentos que podem ser mais corriqueiros
nesse contexto de pandemia. Ajude-o a entender que outros profissionais estão
passando por situação semelhante, e que ele não é o único a ter essas dúvidas
sobre a vida e o futuro. Cabe ao psicólogo informar sobre a situação de crise,
sobre quais serviços e suportes estão disponíveis e, também, sobre as questões
de segurança e proteção;
• Aborde o desamparo: junto com ele, encontre pessoas importantes da família
e do trabalho. Tente fazer com que ele fale sobre situações passadas que foram
agradáveis. Faça uma avaliação do nível de desamparo atual. Tente encontrar,
junto com o profissional, pessoas relevantes do círculo de amizade, que podem
ajudá-lo. Estruture, junto com ele, uma possível rede de apoio social;
• Aborde o desespero e o ajude a enfrentar os seus medos: faça uma avalia-
ção dos principais medos na vida do profissional de saúde (por exemplo, “temos
medo de pegar a doença e a levarmos para casa”). Leve em consideração cada
um dos medos, procurando, conjuntamente, fazer uma avaliação do risco de
cada um, bem como as possibilidades do que pode ser feito para impedir que
eles aconteçam;
• Foque na esperança: fique cauteloso para sinais que denotam falta expectativa
em relação ao futuro ou desesperança. Tente explorar quais possíveis planos
para o futuro, o que ele pretende fazer quando tudo acabar;
• Avalie a ideação suicida: avalie a presença de pensamentos de morte com
ou sem planejamento, sua intensidade e o estado mental (delírio, alucinação,
depressão, desesperança, desespero, ansiedade, colapso existencial, instabilidade
do humor).

A Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) constituiu um Grupo de Trabalho (GT) para


enfrentamento da pandemia de COVID-19, com o objetivo de elaborar materiais de orien-
tação para atuação dos psicólogos brasileiros no âmbito do enfrentamento da pandemia.
Todos os fascículos estão disponíveis para livre acesso em: https://bit.ly/3i8PByh
• Tópico 1: Orientações técnicas para o trabalho de psicólogas e psicólogos no contexto
da crise COVID-19;
• Tópico 2: Como o psicólogo pode minimizar os efeitos do estresse em profissionais de saúde?
• Tópico 3: Como oferecer primeiros auxílios psicológicos para profissionais de saúde
traba-lhando na crise da pandemia COVID-19?  
• Tópico 4: Trabalhando com profissionais de saúde que enfrentam reações negativas
das pessoas ao redor durante a COVID-19?  
• Tópico 5: Atendimento on-line, voluntário, presencial e hospitalar durante a COVID-19;
• Tópico 6: São muitos os lutos na situação da COVID-19;

17
17
UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

• Tópico 7: Estratégia de resolução de conflitos aplicada a famílias;


• Tópico 8: Manejo das alterações de sono pela(o) psicóloga(o);
• Tópico 9: Apoio para pais de crianças de 0 a 11 anos;
• Tópico 10: Entenda os diferentes tipos de violência que vitimam as mulheres e saiba o que fazer;
• Tópico 11: Prevenir e tratar o trauma e amenizar as consequências das situações
traumáticas vivenciadas em diferentes situações durante a COVID-19. 

Considerações sobre Atendimento On-Line


Segundo a OPP (2020), um serviço de linha telefônica de apoio prestado à
c­ omunidade pode assumir 3 vertentes: informação, aconselhamento psicológico
e encaminhamento, tendo como princípios básicos de ação no que diz respeito ao
apoio à distância: a empatia, escuta e estabelecimento de proximidade.

São competências importantes para o psicólogo, no atendimento remoto:


• Capacidade para captar o que não é diretamente expresso: o pedido de
apoio ou o problema subjacente. Em muitas situações, a primeira pergunta ou
abordagem não é o principal motivo do contato. Pode ocorrer de a pessoa ter
dificuldades em falar sobre o assunto.
Para tanto, a OPP (2020) indica usar as seguintes frases:

“não tenha receio… estamos aqui para ajudar você… estou ouvindo você”.
Fazer mais perguntas abertas, parafrasear e clarificar;
Fazer “mm”, “sim” para que se saiba que nos mantemos em linha.

• Ter a habilidade de respeitar o silêncio e, por outro lado, saber quando inter­
rompê-lo, dando atenção à última coisa que foi dita e a quem o disse;
• Conseguir fazer uma escuta atenta, não fazendo muitas perguntas ou dando
informações em demasia para quem está do outro lado da linha. É pertinente
não disponibilizar mais informação do que a necessária, para não dispersar a
atenção do interlocutor;
• Saber controlar o tempo da chamada. O indicado são chamadas com o tempo­
médio entre 20 e 30 minutos, podendo, caso necessário, ser menos (desejável)
ou mais (excepcional);
• Ser assertivo e ter o manejo para lidar com chamadas difíceis, não sendo
manipulado. Caso necessário, repetir as mesmas informações, reconhecendo
quando é importante finalizar o contato.

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No que se refere às fases do atendimento a OPP (2020) preconiza quatro:
1. Abrir a comunicação: fazer um enquadre, apresentando-se e explicando
a intervenção, deixando claro que não se trata de uma intervenção longa,
mas tendo a duração do contato;
2. Escutar/avaliar necessidades: identificar o pedido de ajuda, as preocu-
pações, o apoio prático e emocional da pessoa que entrou em contato:

“Como posso ajudar?... “O que (a) o preocupa?”

• Entender os recursos imediatos presentes no mesmo espaço:

“Qual a sua situação? Em quarentena? Em isolamento? Com quem está em casa?”

• Avaliar possíveis riscos para a saúde física e psicológica que podem afetar
a pessoa;
• Focar e definir a situação.
3. Informação e/ou apoio personalizado:
• Estar calma, atenta/compreensiva/disponível;
• Comunicar-se de forma simples e direta, baseando-se em conhecimento
com evidências cientificas;
• Ter o cuidado de resumir a informação;
• Certificar se pessoa está entendendo o que o que você está falando:

“O que você entendeu sobre o que falei. Você pode me explicar?”

• Ajudar encorajando a expressão das emoções, sentimentos e pensamentos;


• Identificar recursos internos e externos da pessoa, e redes de apoio e estra-
tégias de resolução de problemas:
• “Talvez possamos discutir algumas soluções”
• Estimular pensamentos positivos e transmitir esperança;
• Ajudar na regulação das emoções: estabilizando a pessoa, utilizando tom
de voz calmo e pausado, fazendo escuta ativa, deixando a expressão de
emoções (choro, raiva), dando instruções para respirar fundo ou parar o
pensamento e, se necessário, fazer técnicas de relaxamento;
• Indicar medidas de gestão emocional e aumentar a percepção de controle,
mostrando que a pessoa pode ter papel ativo na sua proteção e na gestão
do estresse:

19
19
UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

“Que estratégias já usou no passado e em que resultaram?”


“Sabe que há algumas estratégias que costumam resultar para melhor lidar com
esta situação e não se sentir tão sozinho?”

4. Encaminhar, referenciar, terminar a chamada:


• Confirmar se o que foi dito foi compreendido;
• Fazer um resumo do diálogo, elencando os pontos mais importantes e dis-
cutidos os planos de ação;
• Identificar recursos de apoio (família, amigos, vizinhos), estimulando a liga-
ção com essas redes de apoio do interlocutor:
» Resolver ou ajudar a procurar soluções para problemas práticos;
» Se necessário, encaminhar para outros serviços especializados:

Estou preocupada(o) com você e gostaria de encaminhá-lo(a) para alguém que pode
ajudar mais”. Fornecer informação sobre formas de acesso a esses serviços.

» Finalizar a chamada com agradecimento:

“Há mais alguma pergunta que queira fazer?... Se tiver mais dúvidas. pode voltar a ligar.”

Nem sempre os discursos de algu-


mas pessoas são adequados. É ne-
cessário manter-se sempre calmo,
acolhedor e preocupado. Manter o
tom de voz é essencial.

Ordem dos Psicólogos de Portugal (OPP). Guia de Orientação de Atendimento Telefônico


em Fase Pandêmica COVID-19. Documentos de Apoio à Prática OPP. 2020.
Disponível em: https://bit.ly/3kLRSko

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Leitura
Saúde mental e intervenções psicológicas diante da pandemia do novo Coronavírus (COVID-19)
SCHMIDT, B.; CREPALDI, M. A.; BOLZE, S. D. A.; et al. Saúde mental e
intervenções psicológicas diante da pandemia do novo Coronavírus (COVID-19).
Estudos de Psicologia, Campinas, v. 37, p. e200063, 2020.
https://bit.ly/2FWOeFI
Enfrentando o estresse em tempos de pandemia: Proposição de uma cartilha
WEIDE, J. N.; VICENTINI, E. C.C.; ARAUJO, M. F. Enfrentando o estresse
em tempos de pandemia: Proposição de uma cartilha. Porto Alegre: PUCRS/
Campinas: PUC-Campinas, 2020.
https://bit.ly/3666CX9
Guia de Orientação de Atendimento Telefônico em Fase Pandêmica COVID-19
OPP (OPP). Guia de Orientação de Atendimento Telefônico em Fase Pandêmica
COVID-19. Documentos de Apoio à Prática OPP, Portugal, 2020.
https://bit.ly/3kLRSko
Guia Preliminar como lidar com os aspectos Psicossociais e de Saúde mental
referente ao surto de COVID – 19
Inter Agency Stadium Committee [IASC]. Guia Preliminar como lidar com os
aspectos Psicossociais e de Saúde mental referente ao surto de COVID – 19.
Versão 1.5. Tradução de Dr. Mario Gagliato. Março. Recuperado em 03 de agosto
de 2020.
https://bit.ly/36bRw2m

21
21
UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

Referências
ADHIKARI, S. P. et al. Epidemiology, causes, clinical manifestation and diagnosis,­
prevention and control of coronavirus disease (COVID-19) during the early outbreak­
period: a scoping review. Infectious Diseases of Poverty, Online, v. 9, n. 1, p. 29,
dez. 2020.

ALMONDES, K. M.; TEODORO, M. Os três Ds: desespero, desamparo e deses-


perança em profissionais da saúde. 2020. Disponível em: <https://www.sbponli-
ne. org.br/enfrentamento-covid19>.

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BAO, Y. et al. 2019-nCoV epidemic: address mental health care to empower


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SCHMIDT, B.; CREPALDI, M. A.; BOLZE, S. D. A.; et al. Saúde mental e interven-
ções psicológicas diante da pandemia do novo Coronavírus (COVID-19). Estudos de
Psicologia, Campinas, v. 37, p. e200063, 2020.

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Psychologists in COVID-19 Outbreak. Middle East Journal of Rehabilitation
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International Health, Online, v. 25, n. 3, p.278-280, 2020.

WANG, D. et al. Clinical Characteristics of 138 Hospitalized Patients With 2019


Novel Coronavirus–Infected Pneumonia in Wuhan, China. JAMA, v. 323, n. 11,
p. 1061–1069, 17 mar. 2020.

23
23
UNIDADE Covid-19: Saúde Mental e Manejo Frente uma Pandemia

WEIDE, J. N.; VICENTINI, E. C.C.; ARAUJO, M. F. Enfrentando o estresse em tem-


pos de pandemia: Proposição de uma cartilha. Porto Alegre: PUCRS/Campinas:
PUC-Campinas. 2020.

WHO. Coronavirus disease (COVID-19): situation dashboard. 2020. Genebra. Dis-


ponível em: <https://experience.arcgis.com/experience/685d0ace521648f8a5beee
ee1b9125cd>.

WHEN health professionals look death in the eye_ the mental health of
­professionals who deal daily with the 2019 coronavirus outbreak. Elsevier.
Disponível em: <https://reader.elsevier.com/reader/sd/pii/S016517812030669
7?token=4782DBEB4BD8D0EC7F05278BE102BD999D55B3D9C361E9239
8E1D35B767B878D0406E38620695DF60A4020B772EC72D6>. Acesso em:
03/09/2020.

XIAO, C. A Novel Approach of Consultation on 2019 Novel Coronavirus


(COVID-19)-Related Psychological and Mental Problems: Structured Letter
­
Therapy.­ Psychiatry Investigation, v. 17, n. 2, p. 175–176, fev. 2020.

ZHANG, J. et al. Clinical characteristics of 140 patients infected with SARS‐CoV‐2


in Wuhan, China. Allergy, Online, v. 75, n. 7, p. 1730–1741, jul. 2020.

ZHOU, P. et al. A pneumonia outbreak associated with a new coronavirus of


­probable bat origin. Nature, Online, v. 579, n. 7798, p. 270-273, mar. 2020.

24
Psicologia em situação de emergência – unidade 1

 Pergunta 1
0,0625 em 0,0625 pontos
Acerca das contribuições da psicologia nas emergências e desastres, julgue os itens a seguir.

I. A importância da Psicologia em Situações de Emergências e Desastres é bem pontual, cabendo ao


psicólogo uma atuação voltada apenas durante o desastre.

II. A atuação do psicólogo será feita nas três fases: no pré-desastre, durante o desastre e no pós-
desastre. É por meio da percepção dos comportamentos dos indivíduos em todas as etapas do desastre
que as intervenções da Psicologia devem ser desenvolvidas.

III. O psicólogo poderá atuar direta ou indiretamente; diretamente em relação ao atendimento às


vítimas; indiretamente, participando na capacitação e no preparo psicológico das equipes.

IV. A Psicologia das emergências e desastres busca estudar as reações dos indivíduos e dos grupos
humanos no antes, durante e depois da situação de emergência ou desastre, bem como implementa
estratégias de intervenção psicossocial orientadas à mitigação e preparação da população.

É correto o que está contido em:

Resposta Selecionada: b) II, III e IV.

 Pergunta 2
0,0625 em 0,0625 pontos
As possibilidades de atuação da Psicologia na área de emergência e desastres são extensas e
importantes. Tais ações devem abranger cinco fases preconizadas pela Defesa Civil, são elas:

Resposta Selecionada: b) Prevenção; Mitigação, Preparação; Resposta e Reconstrução.

 Pergunta 3
0,0625 em 0,0625 pontos
É possível localizar e representar esses três tipos de crises social em um continuum, indo do maior ao
menor estresse coletivo. Com base nessa informação, preencha os quadros na ordem sequencial em
que são classificadas essas crises, da menor para a maior.

1. Emergência

2. Acidente

3. Catástrofe

4. Desastre

Resposta Selecionada: c.
c) Acidente, Emergência, Desastre e Catástrofe.

 Pergunta 4
0,0625 em 0,0625 pontos
Sobre a Defesa Civil, é correto afirmar.

Resposta e.
Selecionada: b) A atuação da defesa civil tem como principal objetivo a redução de riscos e de
desastres.

UNIDADE 2

 Pergunta 1
0,0625 em 0,0625 pontos
Assinale a alternativa correta com relação às afirmações abaixo:

I) O processo de promoção de saúde em emergências e desastres deve acontecer


apenas na esfera individual ou grupal.

II) A psicologia no contexto das emergências e desastres deve ultrapassar as


ações voltadas apenas para os efeitos da condição mental das vítimas.

III) A psicologia no campo das emergências permite a construção de


comunidades mais seguras e capazes de criar redes de apoio para enfrentar os
desastres naturais.

Resposta Selecionada: e) II e III

 Pergunta 2
0,0625 em 0,0625 pontos
Saúde mental é a busca pelo bem-estar emocional e psíquico, incluindo a
capacidade em lidar com as emoções positivas ou negativas.

Assinale a alternativa que NÃO corrobora com a afirmativa acima:

Resposta e) Saúde mental apresenta uma definição inalcançável,


Selecionada: principalmente em situações de desastres.
 Pergunta 3
0,0625 em 0,0625 pontos
As técnicas de intervenção psicológicas muitas vezes precisam ser adaptadas
para o contexto das emergências e, por consequência, ao ambiente ou o setting de
intervenção também. Baseado nessa afirmativa, leia as alternativas abaixo.

I) Muitas vezes os lugares de acolhimento poderão ocorrer em abrigos


comunitários, escolas, igrejas e acampamentos de apoio.

II) A delimitação do espaço de atendimento e acolhimento pode ser escolhida de


forma aleatória, sem uma compreensão prévia do campo de atuação.

III) O contexto e prática do psicólogo vão se estabelecendo ao longo do processo


e dos acontecimentos decorrentes do evento.
Está correto o que se afirma em:

Resposta Selecionada: b.
d) I e III

 Pergunta 4
0,0625 em 0,0625 pontos
Leia a sentença abaixo.

A atuação do psicólogo em um cenário de emergência não se dá apenas no


momento do evento traumático, mas em todas as fases que envolvem o evento.

Selecione a alternativa composta por informações que completam as definições a


seguir, na sequência correta.

I) _______________, tem como objetivo evitar e prevenir a ocorrência de um


desastre.

II) ______________, visa melhorar, preparar e capacitar uma comunidade para


atuar em caso de eventos adversos, promovendo planos de contingências e
psicoeducação.

III) ________________, é durante essa fase que o evento ocorre, no assim, nessa
fase, o psicólogo tem por finalidade socorrer e dar suporte e auxilio às pessoas
atingidas.

IV) _________________, na qual o profissional irá dar o suporte necessário para


que a comunidade retorne ao seu funcionamento normal.

Resposta a.
Selecionada: a) Fase de prevenção, Fase de preparação, Fase de
resposta, Fase de reconstrução.

UNIDADE 3

 ergunta 1
0,0625 em 0,0625 pontos
Acerca dos primeiros auxílios psicológicos (PAP), julgue os itens a seguir.

I. Os PAP objetivam reduzir o estresse inicial causado pelos eventos potencialmente traumáticos e
engajar os sujeitos em estratégias de enfrentamento funcionais de curto e longo prazo.

II. Os PSP podem ser aplicados apenas por profissional na área da saúde mental, mas especialmente
por psicólogos e psiquiatras.

III. A PAP tem foco na reconstrução das capacidades dos indivíduos que passaram por desastre se
recuperarem, amparando-as na identificação das suas necessidades imediatas, bem como suas próprias
forças e habilidades.

IV. A questão cultural, não é importante, tendo em conta a necessidade de uma padronização na forma
de falar e portar-se independentemente da cultura, idade, gênero, costume e religião do indivíduo.
É correto o que está contido em:

Resposta Selecionada: e.
c) I e III.

 Pergunta 2
0,0625 em 0,0625 pontos
A saúde mental do profissional de psicologia em situações de emergências, ainda é pouco estudada,
por isso, o número de publicações sobre o assunto é escasso. Ainda assim, é possível compreender que
a própria condição de trabalho desse profissional pode ser um fator de adoecimento. Em relação a essa
afirmativa, leia as sentenças abaixo:

V) A exposição diária a eventos traumáticos e de desastres, e a rotina exaustiva das práticas e


atividades realizadas, podem levar o profissional a um quadro de exaustão e estresse mental.

VI) O manejo e as medidas de prevenção da saúde mental desses profissionais, passam


necessariamente pela qualificação e experiência, mas, acima de tudo, pela habilidade de serem
flexíveis, e resilientes.

Baseado no enunciado acima:

Resposta Selecionada: a) A primeira alternativa é a que melhor justifica o enunciado.

 Pergunta 3
0,0625 em 0,0625 pontos
_____________________ é uma intervenção conduzida nos primeiros dias após a exposição
traumática, focada na expressão de sentimentos e relato da situação traumática e na psicoeducação
sobre as reações esperadas.

Assinale a alternativa que preenche, de forma CORRETA, a lacuna:

Resposta Selecionada: c.
b) Debriefing psicológico

 Pergunta 4
0,0625 em 0,0625 pontos
Os conceitos que tradicionalmente têm sido assinalados como “Intervenção em Crise”, apontam
diferenças na sua aplicação em situações de emergência e na prática clínica devido às características
específicas da urgência na atenção psicológica/psiquiátrica e na dificuldade em estabelecer protocolos
adequados para tais intervenções (SÁ, WERLANG, PARANHOS, 2008). Pode-se considerar que os
métodos de intervenção de crise focam no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento práticas e
eficazes, que buscam identificar problemas e necessidades:

Resposta Selecionada: d) imediatos


 Unidade 4 – Manejo psicológico e as alterações emocionais pós evento

 Pergunta 1
0,0625 em 0,0625 pontos
Questão Anulada. Para que seja pontuado deverá assinalar qualquer alternativa. ANULADA
Resposta Selecionada: 3.
e) Desordem, negação, intrusão, término, elaboração.
 Pergunta 2
0,0625 em 0,0625 pontos
Leia as alternativas a seguir em relação ao processo de resolução de uma crise:

I) A resolução de uma crise pode variar de 4 a 6 semanas.

II) Pode ser necessário, em alguns casos, um tempo maior para o sujeito ressignificar o evento
estressante.

III) Pode levar a uma certa desorganização psíquica, levando até mesmo a um quadro crônico de
sintomas

Está CORRETO o que se AFIRMA em:

Resposta Selecionada: a.
d) I, II, III.

 Pergunta 3
0,0625 em 0,0625 pontos
Leia o trecho a seguir:

As consequências emocionais decorrentes de um desastre ou qualquer situação que coloque nossa


integridade em risco podem ser diversas, pois segundo Torlai (2010) os desastres implicam danos
tanto materiais quanto psíquicos, o que afeta os padrões de vida das comunidades e das pessoas
envolvidas de forma direta ou indireta, bem como as redes de apoio biopsicossocial, colocando, assim,
a capacidade de enfrentamento individual e coletivo em risco.

Assertiva 1: as emergências, como é o caso dos desastres naturais, traduzem-se em verdadeiras


tragédias ou dramas humanos.

Assertiva 2: quando a capacidade de enfrentamento de uma determinada situação é colocada em risco,


vários podem ser as patologias decorrentes.

Assertiva 3: no entanto, é importante salientar que determinadas reações, no momento do evento,


podem não ser totalmente compatíveis com a situação.

Assinale a alternativa CORRETA:

Resposta Selecionada: b.
e. As assertivas 1 e 2 estão corretas e são coerentes com a sentença citada.
 Pergunta 4
0,0625 em 0,0625 pontos
Leia as assertivas a seguir:

I) O processo de enfrentamento de crise pode ser vivenciado por qualquer pessoa que passa por uma
situação de crise.

II) Deve-se compreender que não é a maneira que cada indivíduo interpreta que dará significado a
uma situação, mas a própria situação é que definirá a forma de enfrentamento, de elaboração ou de
sofrimento e adoecimento mental.

III) Quanto mais rápido for a intervenção, melhor será o resultado a longo prazo, na resolução da crise.

Está CORRETO o que se AFIRMA em:

Resposta Selecionada: a.
d) I e III.

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