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Caderno Direito Internacional Público

Elementos Históricos e Teóricos do Direito Internacional


- Existe um debate acerca de quando nasce o Direito Internacional
● Várias correntes sobre o momento de início
- O marco de nascimento do Direito Internacional é a Paz de Westfália (1648)
● A Paz de Westfália põe fim a Guerra dos 30 anos
● Consagra-se a ideia de igualdade e de soberania entre os Estados
- Contudo, desde povos da antiguidade pode-se perceber ações que remetem ao que
chamamos hoje de Direito Internacional
- O “Direito Internacional Antigo” era sacralizado
● Na divindade se justificava o porquê da guerra ocorrer
● Não existia igualdade entre Estados
- O “Direito Internacional Medieval” era baseado na doutrina da guerra justa
● Ex: Cruzadas
● Ideia de conquistar e converter, uma vez que após esse processo haveria
paz
● A guerra justa servia para legitimar a guerra
- Jean Bodin é o grande teórico da soberania
● O poder de ser soberano é não dever nada a ninguém a não ser a Deus
- Hugo Grotius dessacraliza o Direito Internacional
● Ele refaz a doutrina da guerra justa retirando o elemento religioso do meio
○ A guerra deve ser justa não de acordo com a religião, mas de acordo
com o Direito Natural
● É considerado o pai do Direito Internacional
- Nos séculos XIX e XX há uma ascensão do positivismo
● Direito Internacional vem da vontade dos Estados soberanos e não mais de
uma lei natural
○ Irá justificar uma série de práticas que irão surgir ao longo do século
XIX
■ Ex: Colonialismo
- Atualmente é possível perceber várias correntes de análise dentro do Direito
Internacional
● Iremos utilizar da visão normativa

Carta da ONU e seus princípios


- O Direito Internacional na antiguidade tinha forte caráter religioso
- Hugo Grotius é considerado o pai do Direito Internacional
● Dessacralizou o Direito Internacional
- Paz da Westfália (1648)
● Encerra a guerra dos 30 anos
● Sinaliza que os Estados são soberanos
- Ex de movimentos de Direito Internacional nos séculos passados:
● Congresso de Paris (1856)
● Congresso de Viena (1814)
● Movimentos de Independência
● Colonialismo e Imperialismo
● Liga das Nações
- Todos esses movimentos culminaram na Carta da Organização das Nações Unidas
- A carta da ONU é um tratado internacional que funda uma organização
internacional, uma pessoa jurídica autônoma
● Hoje 193 Estados aceitam a Carta da ONU
- Existem duas teorias acerca da Carta da ONU ser uma Constituição ou não
● Aqueles que acreditam que ela é uma constituição dizem que ela é a mais
importante dos tratados, reorganizando a ordem internacional, criando
órgãos específicos com competência e exibindo valores fundamentais da
organização
● Aqueles que acreditam que ela não é uma constituição dizem que ela não
estabelece direitos, uma vez que esses já existem, da mesma forma ela não
divide os poderes e competências do mundo, mas sim apenas da própria
organização, a carta da ONU é a Constituição da ONU mas não poderia ser
considerada constituição da ordem internacional como um todo
- A Carta da ONU possui propósitos e princípios
● Propósitos (art. 1° da Carta da ONU)
○ Manter a paz e a segurança internacionais
■ Evitar a guerra a qualquer custo, possuindo legitimidade para
usar a força
○ Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no
princípio da igualdade e da autodeterminação dos povos
○ Estimular a cooperação entre os Estados
○ Estimular o respeito aos Direitos Humanos
○ Ser um centro destinado a harmonizar a ação das nações para a
consecução desses objetivos comuns
● Princípios para a realização de tais propósitos (art.2° da Carta da ONU)
○ A Organização é baseada no princípio da igualdade soberana de
todos os membros
○ Todos membros deverão cumprir de boa-fé as obrigações por eles
assumidas de acordo com a Carta (Pacta sunt servanda)
○ Todos membros deverão resolver suas controvérsias internacionais
por meios pacíficos
○ Todos membros deverão evitar em suas relações internacionais a
ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a
independência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação
incompatível com os propósitos das Nações Unidas
○ Todos os membros darão às Nações toda assistência em qualquer
ação a que elas recorrerem de acordo com a presente Carta e se
absterá de dar auxílio a qual Estado contra o qual as Nações Unidas
agirem de modo preventivo ou coercitivo
○ A Organização fará com que os Estados que não são Membros das
Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em tudo quanto
for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais
○ Nenhum dispositivo da presente Carta autorizará as Nações Unidas a
intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição
de qualquer Estado
■ Este princípio, porém, não prejudicará a aplicação das
medidas coercitivas constantes do Capítulo VII
- Não existe hierarquia entre os princípios da ONU
- Para realizar os propósitos os Estados irão agir de acordo com os princípios
- A ONU não esclarece quem produzirá as normas
Existem outros princípios da ordem internacional, contudo os 7 listados acima são os
princípios obrigatórios da ONU
- No caso de conflito entre as obrigações dos Membros das Nações Unidas, em
virtude da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo
internacional, prevalecerão as obrigações assumidas em virtude da presente Carta
● Art. 103 da Carta da ONU
- No art. 55 de sua Carta, a ONU trata dos Direitos Humanos, colocando como
objetivo das Nações Unidas favorecer o respeito universal e efetivo dos direitos
humanos e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo,
língua ou religião

Conceito de Direito Internacional Público


- O plano internacional possui 4 características:
● A ordem internacional é composta proeminente por Estados soberanos
○ Enquanto a ordem interna é composta por empresas, indivíduos,
entes públicos
● A ordem internacional é descentralizada
○ Os Estados nacionais não submetem a um outro estado, todos
membros são soberanos e estão no mesmo patamar, existe uma
relação horizontalizada
● A comunidade internacional é não hierarquizada
○ Os Estados serão sempre soberanos
● A comunidade internacional é uma comunidade não jurisdicionalizada
○ Os Estados não estão obrigatoriamente sujeitos a cortes
internacionais
- O Direito Internacional é um sistema jurídico
● Possui regras para produção das normas, sanções das normas, adesão das
normas, …
- Direito Internacional Especial (particular) x Direito Internacional Geral
● Direito Internacional Especial é aquele que se aplica somente entre alguns
Estados
○ ex: Regras de um tratado entre alguns países específicos
● Direito Internacional Geral é aquele conjunto de regras que se aplica a todos
os Estados sem exceção
- O Direito Internacional Geral possui essencialmente três elementos
● Suas regras podem ser costumeiras, principiológicas e ius cogens
- O Direito Internacional é um sistema jurídico que regula a comunidade internacional
● Ele é um conjunto de diferentes normas que possuem diferentes fontes
voltado a regular diferentes sujeitos
- O Direito Internacional não é um conceito fechado, mas sim um processo em
constante transformação, uma estrutura de argumentação
Fontes do Direito Internacional
- A produção normativa na ordem internacional ocorre de maneira descentralizada,
enquanto que dentro dos Estados ocorre, essencialmente, de maneira centralizada,
ou seja, os próprios Estados, os quais devem seguir as regras, são quem as criam.
● No direito internacional também existem produção normativas centralizadas,
porém em menor quantidade (Conselho de segurança é um exemplo que
pode ter uma produção centralizada. Já a Assembleia Geral, apesar de poder
adotar resoluções, elas não são a princípio obrigatórias.
- Em regra, os Estados têm autonomia para decidir quais regras acatar ou não dentro
de um ordenamento jurídico internacional
● Esses só se sujeitam às normas às quais há um consentimento prévio
- A ideia de fontes do Direito Internacional não é um assunto exato e objetivo, vários
autores trazem consigo várias ideias distintas
- Adotaremos a ideia de fontes do Direito Internacional como normas internacionais
que criam e impõem obrigações e direitos para os Estados, as Organizações
Internacionais e aos demais sujeitos da ordem internacional
● Abordagem normativa
- O Direito Internacional é essencialmente a limitação de um poder do estado, da sua
atividade soberana
● Essa limitação vem do consentimento do próprio Estado
- O art. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça é um documento muito
importante que estabelece as regras (as fontes) do Direito Internacional

Art. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça


- A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as controvérsias
que lhe forem submetidas, aplicará:
● a. as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
● b. o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como
sendo o direito;
● c. os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações civilizadas;
● d. sob ressalva da disposição do Artigo 59, as decisões judiciárias e a
doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio
auxiliar para a determinação das regras de direito.
● A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma
questão ex aequo et bono, se as partes com isto concordarem.
- Escrito pelo Comitê de Juristas de 1919
- O Estatuto da Corte Internacional de Justiça nada mais é do que um tratado
internacional que foi colocado como anexo à carta da ONU
● Todo membro da ONU é um membro do Estatuto da Corte Internacional de
Justiça
- O Estatuto da Corte Internacional de Justiça são as regras que vinculam a corte
internacional
● Diz qual é o direito aplicável entre os Estados
- As fontes do Direito Internacional são, portanto, tratados, costumes e princípios
● Além disso, as decisões judiciárias e as doutrinas são colocadas em segundo
plano
- O art. 38 do ECIJ é extremamente importante, uma vez que é capaz de “organizar”
esse ordenamento jurídico internacional que possui produção normativa,
predominantemente, descentralizada
- O art. 38 é um artigo completo?
● Duas visões
○ Sim, todas as regras possíveis de serem aplicadas estão dentro do
art. 38
○ Não, existem regras jurídicas que Estados aceitam como obrigatórias
que não estão dentro do art. 38
■ Mais aceito
- Existe uma certa hierarquia no Direito Internacional
Essa é delimitada pelo art. 38 do ECIJ
- A noção de Jus Cogens foi introduzida no Direito Internacional pelo art. 53 da
Convenção de Viena dos Direitos dos Tratados
● É nulo um tratado que, no momento de sua conclusão, conflite com uma
norma imperativa de Direito Internacional geral. Para os fins da presente
Convenção, uma norma imperativa de Direito Internacional geral é uma
norma aceita e reconhecida pela comunidade internacional dos Estados
como um todo, como norma da qual nenhuma derrogação é permitida e que
só pode ser modificada por norma ulterior de Direito Internacional geral da
mesma natureza.
● Problemas: dificuldade de saber ao certo quais ao certo são as regras Jus
Cogens e quais os efeitos das regras Jus Cogens
● Exemplos: proibição da agressão, proibição de genocídio, proibição de
crimes contra a humanidade, proibição da escravidão, proibição da tortura
- Existe no Direito Internacional a chamada soft law
● São documentos internacionais que os Estados concordam e acordam, mas
que não possuem força obrigatória jurídica
● A soft law serve para guia e esclarecimento de Estados ao tomarem suas
decisões
● A soft law pode, com tempo, ao se tornar um costume, virar uma hard law e,
assim, ganharem poder de obrigatoriedade

Costume Internacional
- Uma das fontes mais importantes do Direito Internacional, se não a mais importante
● Previsto no art. 38, I, b, do ECIJ
- Exemplos históricos de como o costume atua na comunidade internacional:
● Antigamente, definiu-se, por meio da prática dos Estados, a regra jurídica de
que o mar territorial se limitaria até onde alcançaria um tiro de canhão
● A regra jurídica da passagem inocente no início das grandes navegações
○ Se um determinado país não estivesse em guerra com outro ele
poderia fazer passagem por “seu” mar
● A regra das imunidades diplomáticas
○ Complô contra a Rainha Elizabeth I feita por alguns ingleses e
posteriormente pelo embaixador espanhol no século XVI
● A regra da exploração da plataforma continental de um Estado
○ Cada Estado tem direito a explorar os limites de sua plataforma
continental
■ Só na Convenção de Montego Bay (1982) que essa regra se
tornou um tratado
- Lentamente, o comportamento dos Estado gera regras jurídicas
- O direito costumeiro, ainda hoje, regula importantes elementos da nossa sociedade
- O costume internacional geral é, tirando as exceções, obrigatório a todas as nações
- Diferença entre direito escrito e direito costumeiro
● No direito escrito a norma condiciona o comportamento, já no direito
costumeiro o comportamento que condiciona o que é a norma
- Art. 38, I, b do ECIJ
● O costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como
sendo direito
- Teoria dos Dois Elementos
● Para que uma regra costumeira se forme precisa-se de uma prática
(elemento objetivo) seguido da opinio juris (elemento subjetivo), ou seja, a
convicção de que aquela prática é um dever (direito) a ser seguido
○ Prática: todos os atos de um Estado
○ Opinio Juris: os Estados devem crer no costume, sentindo que estão
agindo de acordo com uma obrigação legal
- Determinou-se que a prática deve ser:
● Geral: representar um número significativo de Estados
● Consistente: esses Estados devem agir de uma mesma maneira
- A respeito do tempo para se tornar um costume podemos dividir esses em dois, o
costume sábio e o costume selvagem
● O costume sábio é aquele que lentamente, na prática dos Estados, vai se
formando e ao longo de décadas cria-se uma norma costumeira
● O costume selvagem é aquele que surge de maneira rápida diante da
necessidade dos Estados
- Princípio Iura Novit Cura
● “O juiz sabe o direito”
● Hoje, Cortes Internacionais são as principais indicadoras das regras jurídicas
costumeiras

A Codificação do Costume
- Caso Nicarágua x EUA (1986)
● Nicarágua possuía governo de esquerda que flertava com Moscou em plena
Guerra Fria
● Nicarágua relata que estava sofrendo intervenção nos assuntos domésticos e
uso da força ilegal por parte dos EUA
● EUA alegou que estava usando a legítima defesa de um terceiro (El
Salvador)
● Debate se o caso poderia ou não ser levado à Corte Internacional de Justiça
○ Para que se discuta um caso na corte internacional de justiça é
necessário aceitar a jurisdição desse caso, coisa que os EUA não
fizeram, uma vez que controvérsias envolvendo tratados multilaterais
precisavam que todos os Estados partem do tratado fossem também
parte do conflito
● O processo chegou à Corte Internacional de Justiça
● EUA diz que a Corte Internacional de Justiça não tinha jurisdição, visto que
essa não pode julgar a carta da ONU, onde está a proibição do uso da força
○ Corte Internacional concorda com os EUA a respeito da não
possibilidade de se discutir a carta da ONU, contudo, a Corte
Internacional assinala que poderia discutir o direito costumeiro relativo
à proibição do uso da força
● A Corte Internacional encontrou esse direito costumeiro de proibição do uso
da força em uma série de resoluções da Assembleia Geral que possuíam
caráter declaratório
● A Corte Internacional condena os EUA por treinar, armar e financiar grupos
contrários ao governo, violando o direito de não intervir em assuntos internos
dos Estados, o direito de não usar a força contra um Estado e, também, a
violação da soberania territorial da Nicarágua
● Esse caso foi um grande marco na comunidade internacional, visto que foi a
primeira vez que uma potência mundial foi condenada por uma Corte
Internacional
- Doutrina do paralelismo entre o tratado e o direito costumeiro
● O fato de existir uma obrigação no tratado não exclui que ela existe também
no direito costumeiro
- O direito costumeiro é uma fonte independente dos tratados
- A Corte Interamericana de Direitos Humanos e o caso Herzog
● Determina que a imprescritibilidade de crimes contra os direitos humanos é
um direito costumeiro
● Brasil foi condenado usando o costume internacional
- No direito internacional a codificação significa transformar a prática costumeira em
tratados multilaterais (normas positivas escritas)
● O paralelismo entre direito escrito e costume nos mostra que este último não
será excluído
● É uma forma de organizar e esquematizar o costume
- A codificação do direito internacional tem um órgão específico
● Em 1873 foi feito pelo Instituto de Direito Internacional
● A partir de 1945 com a Organização das Nações Unidas, o art. 13 da Carta
da ONU dá a Assembleia Geral da ONU a função de codificar e desenvolver
o direito internacional
○ Um órgão dentro da Assembleia, chamado de Comissão de Direito
Internacional, é que faz essa codificação e o desenvolvimento
progressivo
- Distinção entre Codificação e Desenvolvimento Progressivo
● O art. 15 do Estatuto da Comissão de Direito Internacional diz que:
○ A expressão desenvolvimento progressivo do direito internacional é
utilizada como significando a preparação de projetos e convenções
em matéria que ainda não foram reguladas em direito internacional ou
em relação a uma área do direito que ainda não foi suficiente
desenvolvida na prática dos Estados
○ A expressão codificação do direito internacional é utilizada como
significando uma precisa formulação e sistematização das regras do
direito internacional nos campos que já existem práticas estatal
extensiva, precedentes e doutrina
- A função da Comissão de Direito Internacional não é legislativa
● Ela prepara os materiais e realiza os estudos, mas no fim quem adere ou não
aos tratados são os Estados

Costume
- Como um Estado pode fugir de uma regra costumeira:
● Através por um tratado internacional
○ Um tratado internacional é hierarquicamente superior a uma regra
costumeira
● Teoria do objetor persistente
○ No momento em que uma regra está sendo formada (não depois de
já formada) um Estado pode demonstrar que não concorda esse
costume
● Costume regional ou bilateral
○ Uma série de práticas, seguidas de opinio juris, que somente um
grupo de Estados possui, sendo essa uma regra costumeira diferente
daquela que é a regra costumeira geral
- Comissão de Direito Internacional lança em 2018 um documento chamado
Conclusões sobre Identificação do Costume
● Algumas cortes internacionais não estavam o costume propriamente
● Necessidade de se direcionar como identificar as regras costumeiras
● Valor jurídico de soft law
○ Não é obrigatório
● 1° conclusão: o projeto está preocupado com como fazemos para achar
regras costumeiras
● 2° conclusão: para determinar a existência e o conteúdo de uma regra de
direito internacional costumeiro é necessário verificar se existe uma prática
geral que é aceita como direito
○ Art. 38 do ECIJ
● 8° conclusão: a prática deve ser geral, assim como consistente
- Em contradição ao costume tradicional (prática + opinio juris), surge um costume
moderno que dá maior força a opinio juris e acaba deixando a prática de lado
● Até o momento, o entendimento dos órgãos de direito internacional é que
existe uma necessidade de também haver a prática do costume, não
bastando somente a opinio juris
- A Comissão de Direito Internacional está trabalhando para a identificação das regras
jus cogens
● A regra jus cogens é a soma de prática com a opinio juris qualificada, ou
seja, os Estados devem reconhecê-la como uma regra superior
Princípios Gerais de Direito Internacional
- O art. 38, c, do Estatuto da Corte Internacional de Justiça expressa que a Corte
poderá aplicar os princípios gerais de direito reconhecidos pelas nações civilizadas
● Busca evitar o non liquet, ou seja, a declaração por parte de uma corte de
que não existe regra
- Duas possibilidades de ler a ideia de princípios gerais dentro das fontes do direito
internacional
● A ideia geral é que se existem regras, princípios gerais, reconhecidos dentro
dos próprios Estados eles poderiam ser exportados para a ordem
internacional
○ In foro domestico
● Princípios deduzidos, inferidos, pela própria ordem internacional
○ Princípios de Direito Internacional
- Algumas vezes os Princípios de Direito Internacional (2° categoria) se confundem
com normas costumeiras
● Ex: Resolução 2625 da Assembléia Geral
○ Declara a existência de princípios, contudo, a CIJ na hora de aplicar
esses princípios atribuiu a eles o caráter costumeiro
● Ex: Resolução 1514 da Assembléia Geral
● Ex: Resolução 1803 da Assembléia Geral
- No fim das contas não faz tanta diferença ser costume ou princípio

Tribunais Internacionais
- Art. 38, 1, d do Estatuto da Corte Internacional de Justiça
● Sob ressalva da disposição do Artigo 59, as decisões judiciárias e a doutrina
dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para
a determinação das regras de direito
○ Art. 59 do ECIJ
■ A decisão da Corte só será obrigatória para as partes
litigantes e a respeito do caso em questão
- As decisões judiciais que trata o art. 38 do ECIJ são aquelas tomadas pelos próprios
tribunais internacionais
● O art. 38 não trata das decisões judiciais da ordem nacional
- Existem diversos Tribunais Internacionais que atuam em diversas áreas do direito
internacional, seja para indivíduos ou seja para Estados
● Ex: Corte Internacional de Justiça (1945)
○ Função contenciosa: decide controvérsias entre dois Estados
○ Principal órgão judiciário da ONU
● Ex: Corte Permanente de Arbitragem (1907)
○ Mecanismo de composição de tribunais de arbitragem
● Ex: Tribunal Internacional do Direito do Mar (1996)
○ Resolve controvérsias relativas à convenção do mar
● Ex: Órgão de Solução de Controvérsias da OMC
○ Resolução de controvérsias relativas ao comércio internacional
- Os Tribunais Internacionais de Direitos Humanos decidem questões entre indivíduos
e Estados
● Ex: Corte Europeia de Direitos Humanos (1959)
● Ex: Corte Interamericana de Direitos Humanos (1979)
○ Brasil faz parte
● Ex: Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos (2004)
- Os Tribunais Penais Internacionais são responsáveis por punir indivíduos visando
evitar grandes crimes
● Ex: Tribunal Penal para a Ex-Iugoslávia (1993)
● Ex: Tribunal Penal Internacional para Ruanda
● Ex: Corte Penal Internacional (2002)
● Ex: Tribunal Especial para o Líbano (2009)
- Existem ainda os Tribunais de Integração Econômica/Política
● Ex: Corte de Justiça da União Europeia (1952)
● Ex: Tribunal Permanente de Revisão do MERCOSUL (2004)

Decisões e Doutrinas Como Fontes


- Tribunais Internacionais têm diversas funções dentro da ordem internacional
● Resolução de controvérsias e disputas entre Estados
○ Ex: Caso Nicaragua (Nicaragua v. EUA)
● Enforcement do Direito Internacional
○ Ex: Caso Lubanga (RDC)
● Proteção de Direitos Individuais
○ Ex: Corte Interamericana de Direitos Humanos (Herzog e Outros v
Brazil)
● Revisão Administrativa Internacional
○ Ex: Tribunal de Justiça da EU
● Função Constitucional Internacional
○ Ex: Saga tadic (CIJ v. Tribunal par Ex-Yugoslávia)
● Lawmaking / Produção normativa?
○ As decisões tomadas por esses Tribunais Internacionais acabam
estabelecendo novas interpretações sobre tratados e sobre o direito
internacional geral
- Qual o valor jurídico das decisões judiciais internacionais? Três posições principais:
● Posição conservadora (positivista)
○ As decisões judiciais são meios auxiliares, não criam novas
obrigações
● Posição Autoritativa
○ As decisões judiciais adquirem grande relevância por causa da
qualidade do raciocínio e do uso adequado das fontes
● Posição Criativa
○ Consideram as decisões judiciais como catalisadores de novas
obrigações
- Não existe uma posição certa ou errada, contudo, existe uma inclinação das Cortes
Internacionais de seguirem a sua própria jurisprudência por uma missão de
coerência jurisprudencial
- Nem todas decisões possuem o mesmo valor
● Dependem da qualidade do raciocínio jurídico e da recepção dentro da
comunidade internacional
- Os Tribunais Internacionais não possuem o mesmo valor
● Depende de em que âmbito se trata
- A Corte Internacional de Justiça possui proeminência em relação a outras cortes
internacionais?
● A Corte Internacional de Justiça é o principal órgão judiciário da ONU, além
de ser a mais antiga, possuindo grande importância, tradição e qualidade de
raciocínio
- Art. 38, 1, d do Estatuto da Corte Internacional de Justiça
● Sob ressalva da disposição do Artigo 59, as decisões judiciárias e a doutrina
dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para
a determinação das regras de direito
- A doutrina no direito internacional serve para comentar, explicar, sistematizar,
contudo, não tem o poder de criar obrigações para os Estados
● Função meramente auxiliar
- O critério de publicistas mais qualificados é um critério muito subjetivo
● Por isso, somente uma vez a Corte Internacional de Justiça faz citação a um
autor

Tratados Internacionais
- Fonte de direito internacional mais comum na prática internacional, na prática dos
Estados e na prática dos diplomatas
- Povos (Estados) utilizam pactos escritos (tratados) para definir obrigações com
clareza
- Art. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça
● A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as
controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará:
● a. as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
- Tratados importantes ao longo da história:
● Tratado de paz entre egípcios e hititas (1259 a.C.)
○ Um dos tratados mais antigos que se tem notícia
● Tratado de Tordesilhas (1494)
● Tratado de Versalhes (1919)
● Carta de San Francisco (1945)
- Dimensão histórica de tratados vs. dimensão atual de tratados
● Dimensão histórica: os tratados serviram para redesenhar o mundo, para
gerar paz entre os Estados, para gerar uma nova organização do espaço
mundial
● Dimensão atual: existência de mais de 560 tratados multilaterais em vigor e
mais de 3000 tratados bilaterais registrados juntos ao secretariado da ONU
○ Multiplicidade de documentos muito grande, gerenciando regimes
jurídicos diversos
○ São os principais veículos de obrigações jurídicas
- A convenção de Viena sobre direito dos tratados (1969)
● Trata das regras que se aplicam aos Tratados Internacionais
● É um tratado sobre os tratados
● Se aplica somente entre Estados
- O conceito de tratado
● Art. 2, a, da C.V.D.T. (1969)
○ “Tratado” significa um acordo internacional concluído por escrito entre
Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um
instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos,
qualquer que seja sua denominação específica;
- Conceito de tratado
● Art. 2, a, da convenção de Viena sobre direito dos tratados (1969)
○ “Tratado” significa um acordo internacional concluído por escrito entre
Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um
instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos,
qualquer que seja sua denominação específica;
- Conceitos de tratado utilizados na prática internacional
● Tratado: nome genérico que se dá para todo esse tipo de documento
○ Ex: tratado de Tordesilhas
● Carta: é um tratado que, via de regra, funda uma organização internacional
○ Ex: carta da ONU
● Convenção: é o nome que se dá, via de regra, para grandes tratados
multilaterais negociados em grandes conferências
○ Ex: convenção de Viena sobre direito dos tratados
● Protocolo: via de regra, são instrumentos adicionais para um tratado já
existente
○ Ex: protocolo de Kyoto
● Estatutos: documentos que fundam cortes internacionais
○ Ex: estatuto da corte internacional de justiça
● Pactos: via de regra, são grandes documentos de direitos, sobretudo,
envolvendo indivíduos
- O fundamento jurídico de um tratado
● Art. 26 da C.V.D.T (1969)
○ Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por elas
de boa-fé.
■ Pacta sunt servanda
■ Os tratados são obrigatórios porque todos entendem estarem
lidando com entidades soberanas e com a reputação de um
Estado
- Aplicabilidade de um tratado
● Art. 29 da C.V.D.T (1969)
○ A não ser que uma intenção diferente se evidencie do tratado, ou seja
estabelecida de outra forma, um tratado obriga cada uma das partes
em relação a todo o seu território.
■ Aplicação territorial
- Relação dos tratados com o direito interno
● Art. 27 da C.V.DT. (1969)
○ Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno
para justificar o inadimplemento de um tratado.
○ Caso S.S. Wimbledon. CPJI. 1923 (Reino Unido et al v. Alemanha)
Como nascem os tratados
- As fases do tratado (e sua confecção)
● Negociação
○ Pode ser multilateral ou bilateral
○ Momento de liberdade, em que os Estados devem negociar de boa fé
e efetivamente escolher a forma, os termos, as obrigações, e todos
detalhes do tratado
○ Regras:
■ Os negociadores devem ter plenos poderes de negociação
● Assinatura
○ Não gera efeitos jurídicos
■ Somente como exceção
○ É o fechamento do tratado (versão final)
■ Após a assinatura o tratado não pode mais ser modificado
● Ratificação / aceitação / aprovação / acessão (Art. 14 da C.V.D.T)
○ Momento em que o consentimento do Estado é outorgado
■ No caso do Brasil, pelo Congresso Nacional
○ Posterior confirmação daquilo que foi negociado e assinado
○ A partir desse momento o tratado gerará obrigações aos Estados
● Entrada em vigor
○ Momento em que, dentro da ordem internacional, o tratado ganha
força jurídica
○ Ex: tratados que entram em vigor no momento em que obtêm X
ratificações
○ A partir desse momento o tratado terá valor jurídico
○ Antes que o tratado entre em vigor os Estados terão 2 tipos de
obrigações:
■ Um Estado tem a obrigação de não frustrar objeto e propósito
do tratado antes que ele entre em vigor
➢ Igualmente para aquele Estado que ainda não ratificou
➢ Art. 18 da C.V.D.T
■ Se o Estado já tiver ratificado e o tratado ainda não tiver
entrado em vigor deve-se cumpri-lo normalmente (já existe a
obrigação por ter se tornado lei)
● Registro (Art. 102 da Carta da ONU)
○ Para acabar com a diplomacia secreta, a ONU determinou que todo
Estado tem a obrigação de registrar o tratado da ONU
■ Caso esse não seja registrado, o Estado não terá o poder de
invocá-lo perante órgãos da ONU (Ex: CIJ)
○ Se houver uma cláusula de segredo, da mesma forma, continua
existindo a obrigação de registro
■ Quando existir um conflito entre a Carta da ONU e qualquer
outra obrigação prevalece-se a Carta da ONU (Art. 103 da
Carta da ONU)

O direito internacional dos direitos humanos


- São direitos universais
● Todo indivíduo possui por ser humano e são internacionalmente protegidos
- De acordo com a ONU existem, ao todo, 30 direitos humanos
● Estão listados na declaração universal de direitos humanos (1948)
○ Essa declaração é não obrigatória
- A ideia de direitos humanos não é nova na história
- Conselho de direitos humanos
● Função de monitoramento a respeito dos direitos humanos
- Tratados obrigatórios sobre direitos humanos
● Pacto internacional sobre direitos civis e políticos (1966) e Pacto
internacional sobre direitos econômicos, sociais e culturais (1966)
○ O pacto internacional sobre direitos civis e políticos possui um órgão
de supervisão, o comitê de direitos humanos
- Outras iniciativas dos Estados ocorreram
● Ex: Convenção de genocídio (1948), Convenção internacional para a
eliminação de todas as formas de discriminação racial (1965), Convenção
contra discriminação contra as mulheres (1979)
- Existem ainda os sistemas regionais de direitos humanos
● Ex: corte europeia de direitos humanos, corte interamericana de direitos
humanos

Reservas a tratados multilaterais


- Para aumentar as adesões de Estados aos tratados, permitiu-se que esses, na hora
de fazer parte desse tratado, pudessem limitar algumas partes desses tratados
● Ex: Brasil faz reserva aos Arts. 25 e 66 da Convenção de Viena sobre Direito
de Tratados (CVDT) de 1969
○ Art. 25 fala da aplicação provisória de tratados (antes da ratificação
pelo Congresso Nacional)
○ Art. 66 fala que a Corte Internacional de Justiça (CIJ) terá jurisdição
para discutir qualquer questão de tratado
■ Com isso, o Brasil perdeu o direito de processar outro país na
CIJ envolvendo a Convenção de Viena
- As reservas estão previstas no Art. 2 (d) da CVDT
● “reserva” significa uma declaração unilateral, qualquer que seja a sua
redação ou denominação, feita por um Estado ao assinar, ratificar, aceitar ou
aprovar um tratado, ou a ele aderir, com o objetivo de excluir ou modificar o
efeito jurídico de certas disposições do tratado em sua aplicação a esse
Estado;
- As reservas são regidas essencialmente pelo direito costumeiro e pelos Arts. 20 a 23
da CVDT
- O limite para fazer reservas é estabelecido pela primeira vez por um parecer
consultivo da CIJ de 1951
● Parecer esse que tratava de reservas à convenção de genocídio
● A CIJ determinou que as reservas só são possíveis na medida em que forem
compatíveis com objeto e a finalidade do tratado
● Existe a possibilidade dos Estados objetarem as reservas
- O Art. 19 da CVTD traz a formulação de reservas e seus limites
● Um Estado pode, ao assinar, ratificar, aceitar ou aprovar um tratado, ou a ele
aderir, formular uma reserva, a não ser que:
● a) a reserva seja proibida pelo tratado;
● b) o tratado disponha que só possam ser formuladas determinadas reservas,
entre as quais não figure a reserva em questão; ou
● c) nos casos não previstos nas alíneas a e b, a reserva seja incompatível
com o objeto e a finalidade do tratado.
- O que acontece se mesmo assim o Estado fizer uma reserva?
● Duas hipóteses: o Estado ou anula o tratado ou anula a reserva
- Efeitos das reservas
● Efeitos recíprocos (Art. 21, 1 da CVDT)
○ Aquilo que o país reservar, todos os outros membros também
reservarão em relação a esse país
● Efeito relativo (Art. 21, 2 da CVDT)
○ Continuidade do tratado para aqueles outros Estados não envolvidos
na reserva

Interpretação de tratados

- A interpretação pode assumir várias formas: restritiva, extensiva ou até evolutiva


- Quem tem competência para realizar interpretação?
● Estados, órgãos, cortes, …
- O grande problema não se trata de quem pode realizar interpretações, mas sim de
quando existem divergências de interpretação
- Três teorias se destacaram no direito internacional para interpretar tratados
● Objetiva:
○ Olha o texto em si
○ Só o texto é a vontade dos Estados
● Subjetivo:
○ Deve-se olhar a vontade dos Estados no momento da feitura do
tratado, mas também a vontade dos Estados evoluindo com o tempo
● Teleológica:
○ Deve-se olhar para que o tratado foi feito
- As regras usadas para a interpretação dos tratados são abordadas nos Arts. 31, 32
e 33 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados (CVDT) de 1969
- Art. 31 da CVDT (Regra Geral de Interpretação) - prevalece a interpretação objetiva
● 1. Um tratado deve ser interpretado de boa-fé segundo o sentido comum
atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e
finalidade.
● 2. Para os fins de interpretação de um tratado, o contexto compreenderá,
além do texto, seu preâmbulo e anexos:
○ a) qualquer acordo relativo ao tratado e feito entre todas as partes em
conexão com a conclusão do tratado;
○ b) qualquer instrumento estabelecido por uma ou várias partes em
conexão com a conclusão do tratado e aceito pelas outras partes
como instrumento relativo ao tratado.
● 3. Serão levados em consideração, juntamente com o contexto:
○ a) qualquer acordo posterior entre as partes relativo à interpretação
do tratado ou à aplicação de suas disposições;
○ b) qualquer prática seguida posteriormente na aplicação do tratado,
pela qual se estabeleça o acordo das partes relativo à sua
interpretação;
○ c) quaisquer regras pertinentes de Direito Internacional aplicáveis às
relações entre as partes.
■ Estabelece uma interpretação sistêmica
● 4. Um termo será entendido em sentido especial se estiver estabelecido que
essa era a intenção das partes.
- Art. 32 da CVDT (Meios Suplementares de Interpretação) - prevalece a interpretação
subjetiva
● Pode-se recorrer a meios suplementares de interpretação, inclusive aos
trabalhos preparatórios do tratado e às circunstâncias de sua conclusão, a
fim de confirmar o sentido resultante da aplicação do artigo 31 ou de
determinar o sentido quando a interpretação, de conformidade com o artigo
31:
○ a) deixa o sentido ambíguo ou obscuro; ou
○ b) conduz a um resultado que é manifestamente absurdo ou
desarrazoado.
- Art. 33 da CVDT (Interpretação de Tratados Autenticados em Duas ou Mais Línguas)
- prevalece a interpretação teleológica
● 1. Quando um tratado foi autenticado em duas ou mais línguas, seu texto faz
igualmente fé em cada uma delas, a não ser que o tratado disponha ou as
partes concordem que, em caso de divergência, prevaleça um texto
determinado.
● 2. Uma versão do tratado em língua diversa daquelas em que o texto foi
autenticado só será considerada texto autêntico se o tratado o previr ou as
partes nisso concordarem.
● 3. Presume-se que os termos do tratado têm o mesmo sentido nos diversos
textos autênticos.
● 4. Salvo o caso em que um determinado texto prevalece nos termos do
parágrafo 1, quando a comparação dos textos autênticos revela uma
diferença de sentido que a aplicação dos artigos 31 e 32 não elimina, adotar-
se-á o sentido que, tendo em conta o objeto e a finalidade do tratado, melhor
conciliar os textos.
- Em tratados de direitos humanos, por exemplo, a interpretação teleológica ganha
destaque em relação à textual
- Não é matéria simples a interpretação de tratados, mas existem uma série de guias
que a CVDT nos dá na regra geral do Art. 31 e nos meios suplementares do Art. 2

Relação entre direito internacional e direito interno

- Cada vez mais o direito internacional tem sido utilizado dentro do direito doméstico
brasileiro
● É uma tendência que segue outros países e que vem em crescimento
- Duas teorias tentaram dar uma explicação para a relação entre o direito interno e o
direito internacional
● Monismo
○ Direito interno e direito internacional constituem a mesma ordem
jurídica
○ Direito internacional possui efeito direto dentro dos ordenamentos
domésticos nacionais
○ As normas internacionais se realizam nas normas nacionais
■ O direito internacional vai ser efetivo dentro do direito interno
de cada um dos Estados na hora que ele é aplicado pelos
operadores do direito
○ Principais autores foram Georges Scelle, Hersch Lauterpacht e Hans
Kelsen
○ Duas vertentes do monismo: supremacia do direito interno e
supremacia do direito internacional
■ Supremacia do direito internacional
➢ Representadas pelos 3 autores citados acima
➢ Tudo é uma ordem jurídica só, mas o direito
internacional se sobrepõe
■ Supremacia do direito interno
➢ Associada a autores hegelianos
➢ O direito internacional irá ser inferior as ordens
domésticas
● Dualismo
○ Principais autores são Carl Henrich Triepel e Dionisio Anzilotti
○ Direito internacional e direito interno são duas ordens distintas
■ O direito internacional possui sujeitos diferentes, objetos
diferentes, destinatários diferentes, as normas se formam pelo
pacto de vontades; enquanto que o direito interno é um direito
feito por uma vontade, sendo, portanto, diferente em natureza
do direito internacional
○ Teoria da adaptação
■ Na hora de incorporar normas internacionais é necessário
transformá-las em leis domésticas
- O direito nacional perante o direito internacional
● O Art. 27 da Comissão de Viena sobre Direito dos Tratados (CVDT) diz que
um Estado não pode invocar seu direito nacional para fugir de uma obrigação
internacional
● Elementos de direito nacional são fatos perante o direito internacional
○ Leis nacionais expressam a vontade dos Estados
● O princípio Iura Novit Curia (o juiz sabe o direito) não se aplica em relação ao
direito nacional
○ O juiz internacional não sabe o direito interno de cada país e,
portanto, ele precisa ser provado
● Por vezes, um tribunal internacional precisa interpretar o direito interno
○ Nesse sentido, não serão meros fatos
- O direito internacional perante o direito nacional
● Cada ordenamento jurídico tem uma específica quantidade de regras para
estabelecer essa relação
● Os direitos internacionais são “the law of the land”
○ As normas que vêm dos sistemas internacionais são também normas
no direito interno
● Direito internacional é aplicável em matérias de direito civil, penal, tributário,

● Dois problemas distintos para que se entenda o direito internacional dentro
dos direitos domésticos
○ Incorporação
■ Como eles entram?
➢ Cada país irá definir
○ Hierarquia
■ Cada país define a posição que uma norma internacional
ocupa dentro de seu ordenamento

Direito internacional e o ordenamento brasileiro


- O direito internacional é uma parte importante de argumentação para os operadores
jurídicos
- Diversas regras de direito internacional são aplicadas e respeitadas pelo poder
judiciário
- A relação entre o direito internacional e a ordem brasileira:
● Lei n° 13.810, de 8 de março de 2019
○ Estabelece que as decisões do conselho de segurança da ONU
entraram diretamente no ordenamento jurídico brasileiro
● CF/88
○ Traz os princípios norteadores das relações internacionais (Art. 4°)
○ Divide competências, quem pode celebrar, aprovar e julgar tratados
internacionais (Arts. 21, 49, 84, 104, 109, 178)
○ Traz o status de tratados de direitos humanos (Art. 5°, §2°, §3° e §4°)
- Os princípios constitucionais de relações internacionais
● Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações
internacionais pelos seguintes princípios:
● I - Independência nacional;
● II - Prevalência dos direitos humanos;
● III - Autodeterminação dos povos;
● IV - Não-intervenção;
● V - Igualdade entre os Estados;
● VI - Defesa da paz;
● VII - Solução pacífica dos conflitos;
● VIII - Repúdio ao terrorismo e ao racismo;
● IX - Cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
● X - Concessão de asilo político.
- Tratados internacionais e seu ingresso no ordenamento brasileiro
● O papel do presidente e da união
○ Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:
○ VIII - Celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a
referendo do Congresso Nacional;
○ Art. 21. Compete à União:
○ I - Manter relações com Estados estrangeiros e participar de
organizações internacionais;
○ II - Declarar a guerra e celebrar a paz;
● O papel do congresso nacional
○ Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
○ I - Resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos
internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao
patrimônio nacional;
○ II - Autorizar o Presidente da República a declarar guerra, a celebrar a
paz, a permitir que forças estrangeiras transitem pelo território
nacional ou nele permaneçam temporariamente, ressalvados os
casos previstos em lei complementar;
● Em termos práticos (segue a ordem)
○ Presidente negocia e assina um tratado
○ Tratado é enviado ao Congresso para ser aprovado
○ Após a aprovação é enviado ao Presidente
○ Promulgação do Decreto Presidencial
○ Presidente informa os órgãos internacionais da ratificação
- Exceção ao Art. 49
● Os acordos executivos
○ Não passam pelo crivo do Congresso Nacional, são acordos mais
rápidos
○ Podem ser feitos para:
Interpretar ou detalhar acordos já existentes
■ Quando não acarretem compromissos gravosos
■ Quando detalhem o modus vivendi diplomático
○ Necessitam:
■ Reversibilidade
■ Preexistência de Cobertura Orçamentária
- STF: deve controlar a constitucionalidade dos tratados
- STJ: responsável por lidar com órgãos estrangeiros

Tratados internacionais e a ordem brasileira

- Posição normativa dos tratados internacionais:


● Até 1977, tratados eram considerados superiores à legislação nacional
○ Tratados internacionais tinham primazia em relação ao Direito
Nacional
● RE 80.004/77 irá mudar a ideia da posição dos tratados internacionais no
ordenamento jurídico
○ Problema relativo à nota promissória
■ Conflito entre a Convenção para a adoção de uma lei uniforme
em matéria de letras de câmbio e notas promissórias (1930) e
o Decreto n° 427/69
○ O STF entendeu que: “Embora a Convenção de Genebra, que previu
uma Lei Uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias, tenha
aplicabilidade no direito interno brasileiro, não se sobrepõe elas às
leis do país, disso decorrendo a constitucionalidade e consequente
validade do Decreto n° 427/69” e aplicou o princípio lex posterior
derrogat legi priori
- Os tratados internacionais possuem status de Lei Ordinária no ordenamento
- Tratados internacionais de direitos humanos:
● A Constituição prevê que
○ Art. 5°, § 3º. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos
humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso
Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos
membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. (Redação
dada pela EC 45 de 2004).
■ Tratados ganham peso constitucional
○ Art. 5°, § 4º. O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal
Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão.
● Tratados anteriores a 2004 e Tratados posteriores a 2004 e não tiverem a
específica votação:
○ RE 466.343/SP em 2008: a questão do depositário infiel
■ A CF permite a prisão por dívida por questão alimentícia e
depositário infiel
■ A Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San
José) (1969 - 1978 -1992 BR) permite apenas por dívida
alimentar
■ Tese da Supralegalidade (aceitar o tratado seria diminuir o
papel da Constituição) x Tese do Bloco de Constitucionalidade
(proteção dos direitos humanos é a norma hermenêutica
constitucional, o bloco de constitucionalidade incorpora esses
tratados)
■ Ganhou a Tese da Supralegalidade: os tratados de Direitos
Humanos anteriores à EC 45 e posteriores que não tenham
quórum são supralegais, ou seja, são superiores às leis
ordinárias, mas estão abaixo da Constituição
■ Debate ainda não encerrado
- A hierarquia entre tratados e Constituição é:
● 1) CF + tratados de DH aprovados pelo rito do Art. 5°, §3°
● 2) Tratados de DH não aprovados pelo rito do Art. 5°, §3°
● 3) Leis ordinárias e tratados sobre matérias que não sobre leis ordinárias
- A Convenção Americana de Direitos Humanos impõe o Controle (Judicial) de
Convencionalidade: é a obrigação que todo ente público controle a legislação
ordinária e os atos administrativos pelas luzes da Corte Interamericana de Direitos
Humanos
● Isso pode gerar choques constitucionais
- Tratados já aprovados pelo quorum do art. 5°, §3°:
● Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu
Protocolo Facultativo, assinados em Nova Iorque, em 30 de março de 2007.
Decreto n° 6.949, de 25 de agosto de 2009
● Tratado de Marraqueche para Facilitar o acesso a Obras Publicadas às
Pessoas Cegas, com Deficiência Visual ou com outras Dificuldades para ter
Acesso ao Texto Impresso, concluído no âmbito da Organização Mundial da
Propriedade Intelectual (OMPI), celebrado em Marraqueche em 28 de junho
de 2013. Decreto n° 9.522, de 8 de outubro de 2018
- As exceções legais e jurisprudenciais:
● Tratados de Direito Tributário:
○ Art. 98, CTN: Os tratados e as convenções internacionais revogam ou
modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que
lhes sobrevenha.
■ Ou seja, a lex posteriori não derroga os tratados internacionais
em matéria tributária
● Aplicação do princípio da lex specialis derogat lex generali
○ Prática recente
○ RE 636.331 e ARE 76.661: por força do art. 178 da CF/88, as normas
e tratados internacionais limitadores da responsabilidade das
transportadoras aéreas de passageiros, especialmente as
Convenções de Varsóvia e Montreal, têm prevalência em relação ao
Código de Defesa do Consumidor
- Não existe consenso entre os autores acerca da posição do Brasil no que tange este
ser monista ou dualista

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