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Capítulo 1

A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA

Every morning I start my day with an intelligence report. (…) The intelligence I
receive informs just about every foreign policy decision we make.
Bill Clinton, 1995

Este é um livro sobre inteligência. Mas o que vem a ser realmente


inteligência? É o mesmo que espionagem? Então, o que vem a ser espionagem? Há
outros tipos de inteligência além daquela realizada por espiões? E “informações”,
é a mesma coisa? Qual o objetivo da inteligência? A quem ela serve ou deve servir?
E a contrainteligência? São todas essas perguntas que se pretende responder nas
páginas que se seguirão.
Convém lembrar, preliminarmente, que a atividade de inteligência tem sido
pouco estudada no Brasil, existindo apenas algumas linhas de pesquisa sobre o
assunto nos meios acadêmicos.1 Entre as razões dessa lacuna está a aura de repúdio,
desconhecimento e preconceito que envolve a percepção da opinião pública (e de

1
Marco A. C. Cepik. Espionagem e democracia: agilidade e transparência como dilemas na
institucionalização de serviços de inteligência. Rio de Janeiro: FGV, 2003, p. 20. Além de pesquisadores
isolados em alguns Estados e no Distrito Federal, é importante destacar o papel do Curso de
Especialização em Inteligência de Estado e Inteligência de Segurança Pública, promovido, até 2014,
pela Fundação Escola Superior do Ministério Público de Minas Gerais (FESMP) no fomento à produção
acadêmica na área de inteligência. De fato, o referido curso, que em 2016 iniciou sua nona edição, tem
formado especialistas oriundos do Ministério Público, da magistratura, policiais federais, rodoviários, civis
e militares, servidores públicos da área de segurança e inteligência e membros das Forças Armadas,
bem como acadêmicos, com monografias de conclusão que sem dúvida já constituem alicerce teórico
imprescindível para o preenchimento de lacunas sobre o assunto ainda tão pouco explorado. Em 2014,
o curso da FESMP passou a ser oferecido pela Associação Internacional para Estudos de Segurança
e Inteligência (INASIS), criada para integrar profissionais da comunidade de inteligência e estudiosos
do tema pelo mundo e que já inicia suas atividades com prestígio e presente em diversos países (para
conhecer a INASIS, vide www.inasis.org). Vale citar, ainda, o Curso de Especialização em Inteligência
Policial, promovido pela Academia Nacional de Polícia (ANP), do Departamento de Polícia Federal
(DPF), capacitando policiais federais e estaduais, bem como servidores de órgãos do SISBIN. Outras
instituições, muitas por meio de convênios com as Secretarias de Segurança Pública dos Estados,
também iniciaram programas de especialização relacionados à inteligência. Tem-se aí passo importante
para o desenvolvimento de uma cultura de inteligência no Brasil e produção acadêmica e científica
relacionada. Assim, a pesquisa em inteligência, que teve em Marco Cepik um valoroso pioneiro, chega
à segunda década do século XXI com boas perspectivas de ampliação.

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parte da academia) sobre os serviços secretos. Geralmente, a inteligência é vista
com desconfiança pela sociedade. Isso se deve não só à natureza da atividade, mas,
também, no caso brasileiro, à associação dos serviços secretos com um passado
autoritário e de repressão. Mesmo depois de três décadas desde o fim do regime
militar no Brasil, ainda há os que insistem em “caçar bruxas” (até porque, com a
atual “indústria de indenizações” relacionadas ao período de 1964 a 1985, isso
pode ser bastante lucrativo) e em atacar setores como a inteligência. Essas pessoas
têm dificuldade de aceitar que há grandes diferenças entre os serviços secretos de
hoje e os de outrora. Ademais, não entendem que a inteligência é instrumento de
grande importância para a defesa das instituições democráticas e da sociedade,
em um ambiente internacional onde a questão da segurança apresenta-se como
tema fundamental da agenda dos países. Sim, é possível conciliar atividade de
inteligência com democracia, e aquela pode ser de grande valor para a preservação
desta. O preconceito, entretanto, permanece.
Outra razão pela qual se estuda pouco a atividade de inteligência no
Brasil deve-se ao fato de que essa é uma área do conhecimento tremendamente
hermética. São poucos os que têm acesso a uma doutrina de inteligência, restrita
àqueles “iniciados” na chamada “comunidade de inteligência”. Com isso, fica
difícil ao pesquisador comum desenvolver seus trabalhos sobre um tema cuja
doutrina ainda é mantida, pelos próprios órgãos de inteligência, em segredo.
Essa realidade, felizmente, começa a mudar, e o livro que o leitor tem nas mãos
buscará levantar alguns dos véus que encobrem a misteriosa atividade, sem ferir,
entretanto, o sigilo a ela relacionado. Convém observar, preliminarmente, que
todas as informações transmitidas nesta obra foram reunidas a partir de fontes
abertas, disponíveis na literatura brasileira e internacional sobre o tema.
Também se publica pouco no Brasil sobre o assunto. Enquanto outros
países dispõem de centros de estudos avançados sobre atividade de inteligência,
com publicações que vão de análises acadêmicas a obras de ex-agentes e oficiais
de inteligência,2 no Brasil a bibliografia ainda é bastante restrita. A academia
apenas tem começado a dar atenção à matéria e são poucos os veteranos dos
serviços secretos brasileiros que resolveram escrever suas memórias ou “abrir”
ao público em geral o que é possível sobre doutrina.
Portanto, para iniciar a presente obra, nada mais natural que começar
conceituando “atividade de inteligência”.

2
Além da intensa e significativa produção nos países anglo-saxões, capitaneados pelos Estados
Unidos da América (EUA), com suas abrangentes comunidades de inteligência e variados centros
de pesquisa no meio acadêmico, outro país que merece atenção pela qualidade do que se publica
é a Espanha. Os espanhóis, graças a parcerias estabelecidas pelos setores de inteligência daquele
país e a comunidade acadêmica, têm produzido excelentes publicações sobre inteligência.

6 ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA
Joanisval Brito Gonçalves

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1.1. CONCEITOS
O que vem a ser “atividade inteligência”? Primeiramente, é importante se
definir “inteligência” propriamente dita. São muitos os conceitos de inteligência
fora do âmbito das ciências cognitivas. Dentre as diversas definições, convém
destacar algumas, a título de introdução ao tema. José Manuel Ugarte3 considera
inteligência um produto sob a forma de conhecimento, informação elaborada.
O autor lembra, ainda, que é atividade ou função estatal, realizada por uma
organização ou conjunto de organizações. Ugarte também ressalta o papel do
“secreto” na atividade de inteligência.
Com base na clássica definição de Sherman Kent, 4 Ugarte assinala
que: “La información es conocimiento, la información es organización, (...)
la información es actividad” e que “(...) inteligencia (...) es el conocimiento
que nuestros hombres, civiles y militares, que ocupan cargos elevados, deben
poseer para salvaguardar el bienestar nacional”. O mestre argentino, um dos
maiores especialistas latino-americanos no tema, lembra da concepção trina
de inteligência (conhecimento-organização-atividade) e de sua importância
para o processo decisório, tanto no campo militar quanto nas altas esferas da
Administração Pública. Acrescente-se que hoje, cada vez mais, a atividade de
inteligência também alcança o meio privado, sendo recurso importante às
corporações no mercado competitivo.5

1.1.1. Produto, organização e processo


Ugarte baseia-se em uma das obras mais tradicionais sobre inteligência,
produzida no final da década de 1940 pelo professor norte-americano Sherman
Kent: Strategic intelligence for American world policy.6 Foi Kent, em uma época em
que a atuação dos serviços secretos pelo mundo começava a se profissionalizar
– e, nos EUA, acabavam de ser criados a Agência Central de Inteligência (Central
Intelligence Agency – CIA) e o Conselho de Segurança Nacional (National
Security Council – NSC) –, quem primeiro sistematizou, sob a ótica acadêmica,
o conhecimento de inteligência. É dele uma das concepções mais conhecidas e
aceitas, que descreve inteligência sob três facetas: conhecimento, organização,

3
José Manuel Ugarte. Control Público de la Actividad de Inteligencia: Europa y América Latina,
una visión comparativa (Trabalho apresentado no Congresso Internacional “Post-Globalización:
Redefinición de la Seguridad y la Defensa Regional en el Cono Sur”, promovido pelo Centro de
Estudios Internacionales para el Desarrollo, em Buenos Aires, 2002).
4
Sherman Kent. Strategic intelligence for American world policy. Princeton: Princeton University Press,
1949. Trabalhou-se para o presente livro com as várias edições da obra de Kent, particularmente a
de 1949 (1a), a de 1965 (2a) e a de 1966 (3a). Uma tradução da obra de Kent foi publicada no Brasil
pela Biblioteca do Exército sob o título de Informações Estratégicas (Rio de Janeiro: Bibliex, 1967).
5
Mais adiante se tratará da inteligência aplicada ao setor privado.
6
A obra de Kent é um clássico sobre atividade de inteligência e leitura obrigatória para qualquer
um que queira estudar essa área. Foi livro de cabeceira de diversos serviços secretos pelo mundo,
inclusive no Brasil.

capítulo 1
A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA 7

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e atividade. Esses três aspectos também podem ser entendidos como produto,
organização e processo.
• Inteligência como produto, conhecimento produzido: trata-se do
resultado do processo de produção de conhecimento e que tem como
cliente o tomador de decisão em diferentes níveis. Assim, o relatório/
documento produzido com base em um processo que usa metodologia
de inteligência também é chamado de inteligência. Inteligência é,
portanto, conhecimento produzido.7
• Inteligência como organização: diz respeito às estruturas funcionais que
têm como missão primordial a obtenção de informações e produção de
conhecimento de inteligência. Em outras palavras, são as organizações
que atuam na busca do dado negado, na produção de inteligência e na
salvaguarda dessas informações, os serviços secretos.8
• Inteligência como atividade ou processo: refere-se aos meios pelos
quais certos tipos de informação são requeridos, reunidos (por meio de
coleta ou busca), analisados e difundidos, e, ainda, os procedimentos
para a obtenção de determinados dados, em especial aqueles protegidos,
também chamados de “dados negados”.9 Esse processo segue metodologia
própria,10 a metodologia de produção de conhecimento, ensinada nas
escolas de inteligência por todo o globo.

7
Intelligence means knowledge. If can not be stretched to mean all knowledge, at least it means an
amazing bulk and assortment of knowledge. [Strategic Intelligence deals with ] (…) the intelligence
trade as ‘high level foreign positive intelligence’. This phrase is short for the kind of knowledge our state
possess regarding other states in order to assure itself that its cause will not suffer nor its undertakings
fail because its statesmen and soldiers plan and act in ignorance. This is the knowledge upon which
we base our high-level national policy toward the other states of the world. Sherman Kent. Strategic
Intelligence for American World Policy. Hamden, Connecticut: Archon Books, 2nd ed. 1965, p. 3.
8
Intelligence is an institution; it is a physical organization of living people which pursues the special
kind of knowledge as issue. Such an organization must be prepared to put foreign countries under
surveillance and must be prepared to expound their pasts, presents and probable futures. It must be
sure that what it produces in the way of information on these countries is useful to the people who
make the decisions: that is, that it is relevant to their problems, that it is complete, accurate, and
timely. It follows that such an organization must have a staff of skilled experts who at the same time
know (or can be told) what the current foreign policy and strategic problems are, and who will devote
their professional skill to producing useful information on these problems. Kent, 1965, op. cit., p. 69.
9
(…) the word intelligence is used not merely to designate the types of knowledge (…) and the
organization to produce this knowledge, it is used as a synonym for the activity which the organization
performs. Kent, 1965, op. cit., p. 151.
10
Intelligence is a process by which data is refined into a usable form for decision-makers. It is
also a structure of organizations that collect and process information. It is the relationship between
processes and structures that determines the successful outcome of the intelligence activity. Gregh
Hannah, Kevin O’Brien, Andrew Rathmell. Technical Report: Intelligence and Security Legislation for
Security Sector Reform, prepared for the United Kingdom’s Security Sector Advisory Team, RAND
Europe, Cambridge (June 2005), p. iv. Disponível em http://rand.org/pubs/technical_reports/2005/
RAND_TR288.pdf (acesso em 01/05/2008)

8 ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA
Joanisval Brito Gonçalves

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A tabela 1.1 sintetiza a concepção de inteligência segundo Kent, também
chamada “concepção trina”: produto, processo e organização.
Tabela I.1.
Acepções de Inteligência segundo Sherman Kent –
concepção trina
• Produto (conhecimento)
Inteligência • Processo (atividade)
• Organização (serviço secreto)
Elaborado a partir da obra de Sherman Kent, op. cit.

Interessante observar que Kent percebia os profissionais de inteligência


como pessoas especiais, “especialistas dedicados, agrupados em uma unidade de
produção robusta”. E destacava que os serviços secretos deveriam ser parecidos
com uma grande universidade (tanto em razão da amplitude dos temas objeto
de análise, quanto pela qualidade de seu pessoal, para o qual “a mentalidade
de pesquisa e rigor constitui um sopro de vida”, gente que “coerentemente deve
ser tolerante com as mentes fantasiosas e com os excêntricos de ideia fixa”).
Enfim, para Sherman Kent, os profissionais de inteligência, em particular os
analistas de informações, deveriam “defender um tipo de liberdade acadêmica
e lutar contra aqueles que se opõem a essa liberdade pondo em evidência suas
opiniões errôneas ocasionais”11. Claro que Kent não esquecia tampouco o pessoal
de operações e via na atividade de inteligência algo que reunisse liberdade
acadêmica (para não engessar o trabalho dos analistas) e expertise técnica
essenciais à produção do conhecimento, junto com o emprego de operações
para obtenção de dados, contrainteligência e, ainda, influenciar países, pessoas
e organizações – tinha-se, com essa percepção, a essência de uma organização
de inteligência, de um serviço secreto.
Para Abraham Shulsky e Dary Schmitt,12 inteligência também compreende
informação, atividade e organizações. Seguem, portanto, os ensinamentos de
Kent, e identificam inteligência com a informação relevante para se formular
e implementar políticas voltadas aos interesses de segurança nacional e
para lidar com as ameaças a esses interesses – relacionadas a adversários
potenciais ou reais (e até a aliados)13. Inteligência envolve, ademais, a reunião

11
Kent, 1965, op. cit., pp. 69-70.
12
Abraham Shulsky; Gary J. Schmitt. Silent warfare: understanding the world of intelligence.
Washington, D.C.: Brassey’s, 3rd edition: 2002, pp. 1-3.
13
Intelligence refers to information relevant to a government’s formulation and implementation of policy
to further its national security interests and to deal with threats from actual or potential adversaries. (…)
In the most obvious and often most important case, this information has to do action. Potential or actual
enemies typically do their best to keep this type of information secret. Of course, other types of secret
information may be equally important – for example, information about another country’s diplomatic
activities and intentions, as well as about intelligence activities. Shulsky & Schmitt, op. cit., p. 1.

capítulo 1
A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA 9

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e a análise de informações e inclui atividades destinadas a conter as ações de
inteligência adversas, como espionagem, fotografia operacional, interceptação de
comunicações e mesmo pesquisa em documentos de bases públicas disponíveis.
A contrainteligência é, por sua vez, indissociável da inteligência.
Shulsky e Schmitt observam, ainda, que “inteligência” também é termo
associado a organizações que exerçam a atividade de inteligência14, atribuindo a
elas uma característica das mais notáveis: o sigilo necessário à conduta de suas
atividades. E assinalam que exatamente porque muitos dos métodos utilizados
por uma organização de inteligência envolvem ações mais intrusivas, essas
agências têm que operar sob sigilo, de forma secreta. Claro que as ações da
inteligência, ainda que sigilosas, não podem escapar a mecanismos de controle,
para se evitar abusos por parte dos serviços secretos15. De toda maneira, Shulsky e
Schmitt defendem que esse caráter secreto se justifica pelo papel da inteligência
na garantia da segurança nacional e no apoio à política externa.
Interessantes as observações contidas no antigo Manual Básico da Escola
Superior de Guerra (ESG),16 que também trata de informações (inteligência) como
conhecimento, organização e atividade. Sobre inteligência como conhecimento,
a ESG assinala que a “Política Nacional (...) deve ser estabelecida e conduzida
à luz de uma série enorme e variada de dados impossíveis de caber em um só
cérebro, em condições de serem utilizados a qualquer momento e com um
mínimo de probabilidade de erro. Tais conhecimentos, na realidade, são fruto de
um método técnico-científico de raciocínio e devem permitir o acompanhamento
dos fatos parciais obtidos, para relacioná-los com as variações que ocorrem.
As informações assim produzidas, em resumo, devem traduzir a situação do
próprio país, os antagonismos, as vulnerabilidades, as possibilidades, as pressões
e outros fatores concernentes, bem como conhecimentos relativos a outros
países: tudo isso atualizado e projetado para o futuro, com base em dados e
informes devidamente atualizados e interpretados.” E completa: “é evidente
que tais informações, embora não esgotem o assunto sobre o qual incidem,
representam uma espantosa e variada massa de conhecimentos, diuturnamente
ampliada.” Para a ESG, portanto, “informação significa conhecimento. Se não
pode ser ampliada a ponto de significar todo o conhecimento, pelo menos
significa um espantoso volume e variedade de conhecimentos”.
No que concerne à inteligência como organização, a ESG destaca que
somente uma organização com estrutura especializada pode levar a bom

14
É o que acontece, por exemplo, quando se diz que “a inteligência produziu determinado documento”
ou “o Presidente quer conversar com a inteligência”.
15
A esse respeito, vide nosso livro Políticos e Espiões: o controle da atividade de inteligência (1a  ed.
Niterói: Impetus, 2010).
16
Brasil. Estado-Maior das Forças Armadas. Escola Superior de Guerra. Departamento de Estudos.
Manual Básico. Rio de Janeiro: 1975 (MB-75), pp. 431 e ss.

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Joanisval Brito Gonçalves

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termo a missão de assessorar os formuladores e executores de uma Política
Nacional com ampla gama de conhecimento e de maneira eficiente e oportuna.
Para a ESG, “a organização deve proporcionar condições para que seu próprio
produto – a informação – atenda à sua finalidade básica, que é satisfazer às
necessidades do utilizador, isto é, ser apta a fornecer elementos para a decisão e
correto equacionamento dos problemas de planejamento de maneira que sejam
alcançadas soluções seguras, completas e oportunas”.
Já em termos de inteligência como atividade, a ESG destaca que “as
atividades de informações obedecem a um processo lógico e metodizado que
se desenvolve desde a observação dos fatos e seu processamento até a difusão
das informações aos seus utilizadores”. Essa atividade, lembra a Escola, tem forte
caráter científico, mas também possui um quê de “arte” em sua componente,
uma vez que exige do analista percepção e sagacidade que ultrapassam o simples
apuro do cientista.
O International Dictionary of Intelligence define inteligência como “o
produto resultante da reunião e processamento de informação referente a situações
e condições, reais ou potenciais, relacionadas a ameaças domésticas ou externas
aos Estados Unidos da América (EUA) ou conduzidas por inimigos do país em
âmbito doméstico ou internacional”.17 O Departamento de Defesa (DoD) dos
EUA converge com esse entendimento, definindo inteligência como “o produto
resultante da reunião, processamento, integração, análise, avaliação e interpretação
de informações disponíveis referentes a países ou áreas no exterior”.18 Registre-se
que, associadas à atividade de inteligência estão a contrainteligência e as “ações
encobertas” (covert actions),19 sobre as quais trataremos mais adiante.

1.1.2. Assessoramento ao processo decisório


Já a Agência Central de Inteligência dos EUA (Central Intelligence Agency –
CIA) traz uma definição mais ampla e, diga-se de passagem, bastante genérica do
que viria a ser inteligência. Para a CIA, de maneira sintética, inteligência é a ciência
ou presciência do mundo a nossa volta, utilizada para orientar o processo decisório
ou as ações de autoridades políticas estadunidenses (policymakers). Ainda
segundo a Agência, as organizações de inteligência proveem seus consumidores,
comandantes civis ou militares, com informação (conhecimento processado) para
assessorá-los. Acrescenta a CIA que o processo de produção de conhecimento de

17
Leo Carl. International Dictionary of Intelligence. McLean, VA: Maven Books, 1990 (livre tradução).
18
Joint Chief of Staff, U.S. Department of Defense Dictionary of Military Terms. New York: Arco Publishing,
1988, p. 183 (livre tradução).
19
Comum no jargão de inteligência anglo-saxônico, o termo “ações encobertas” (covert actions)
não encontra espaço na doutrina brasileira de inteligência. De fato, “ações encobertas” é raramente
empregado pela comunidade de inteligência do Brasil, que prefere falar de “operações de inteligência”.

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inteligência envolve a reunião acurada e sistemática dos fatos, sua análise, com
avaliações céleres e claras, e sua disseminação aos consumidores. Nesse sentido,
o processo de análise deve ser rigoroso, oportuno e relevante par as necessidades
e interesses de seus clientes.20
Mais completa que a definição da CIA é a do Auditor-Geral do Canadá, que
resume a percepção canadense de inteligência, enfocando sua importância para
o assessoramento do processo decisório governamental e o aspecto do “dado
negado” utilizado na produção do conhecimento. Para ele, “o termo ‘inteligência’
(...) refere-se à informação necessária ao governo e que, no todo ou em parte, não
está disponível a partir de fontes convencionais”.21 E explica que o que distingue
a inteligência é seu “caráter que requer o acesso à informação colhida por meios
secretos ou clandestinos”, completando que essa informação “pode apresentar-se
em estado bruto ou processada” e que é interpretada combinando-a “com outras
informações obtidas de fontes convencionais, como aquelas produzidas pela
mídia”. O Auditor-Geral conclui assinalando que a inteligência deve produzir
conhecimento objetivo e sem conotação política, de modo a contribuir para o
processo decisório governamental.22

1.1.3. Obtenção do “dado negado”


De acordo com um relatório preparado pelo United Kingdom’s Security
Development Advisory Team, em junho de 2005, também é importante assinalar
o vínculo da atividade de inteligência com a obtenção do dado negado para
assessoramento do processo decisório. O documento assinala que, uma vez que

20
Reduced to its simplest terms, intelligence is knowledge and foreknowledge of the world around
us, the prelude to decision and action by US policymakers. Intelligence organizations provide this
information in a fashion that helps consumers, either civilian leaders or military commanders, to consider
alternative options and outcomes. The intelligence process involves the painstaking and generally
tedious collection of facts, their analysis, quick and clear evaluations, production of intelligence
assessments, and their timely dissemination to consumers. Above all, the analytical process must be
rigorous, timely, and relevant to policy needs and concerns. Central Intelligence Agency, A Consumer’s
Guide to Intelligence, OPAI 93-00092, September 1993, p.1.
21
Canada. Auditor General of Canada. “The Canadian Intelligence Community – Control and Accountability
– 1996, Chapter 27”, Report of the Auditor General of Canada – November 1996. Disponível em http://
www.oag-bvg.gc.ca/domino/reports.nsf/html/9627ce.html, (acesso em 29/09/2005).
22
The term “intelligence”, (…) refers to information needed by the government that, in whole or in part,
is not available from conventional sources. The distinguishing characteristic of intelligence, therefore, is
that it requires having access to information collected by “secret”, or clandestine, means. Information
gathered in this way can be used in either a raw or an assessed form. When assessed, such information
is frequently interpreted in combination with other information available from conventional sources; for
example, the print media. Both raw intelligence, and assessed intelligence that is objective and policy-
neutral, can contribute to informed policy analysis and decision making by the government. Canada.
Auditor General of Canada. “The Canadian Intelligence Community – Control and Accountability – 1996,
Chapter 27”, Report of the Auditor General of Canada – November 1996. Disponível em http://www.
oag-bvg.gc.ca/domino/reports.nsf/html/9627ce.html, (acesso em 29/09/2005).

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Joanisval Brito Gonçalves

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Estados ou outros atores buscam esconder informações de outros Estados ou
atores, essa informação deve ser obtida por meios sigilosos ou encobertos.23 Daí
a necessidade de serviços secretos.
De fato, é essencial à atividade de inteligência o trabalho sob a égide do
“segredo”.24 O manuseio do dado sigiloso bem como as técnicas sigilosas para
obtenção do dado negado são inerentes à atividade de inteligência.25 Claro
que essa característica pode gerar reações da sociedade e das autoridades
públicas, que exigem maior transparência na atividade de inteligência. Em
regimes democráticos, em que prevalece o respeito aos direitos individuais e às
instituições, e impera o Estado de Direito, é fundamental que os serviços secretos
estejam sob rígidos mecanismos de controle, em especial externo, para que se
evitem abusos e arbitrariedades por parte da comunidade de inteligência26.

1.1.4. Inteligência, informações e informação


Segundo Mark Lowenthal, outro seguidor da percepção de Kent, inteligência
é o “processo pelo qual certos tipos de informação importante para a segurança
nacional são requeridos, coletados, analisados e disponibilizados aos tomadores
de decisão (policymakers). É, ademais, o resultado desse processo, a salvaguarda
desses processos e dessa informação pela contrainteligência, e o desenvolvimento

23
Intelligence is a special kind of knowledge, a specialized subset of information that has been put
through a systematic analytical process in order to support a state’s decision and policy makers. It exists
because some states or actors seek to hide information from other states or actors, who in turn seek to
discover hidden information by secret or covert means. Gregh Hannah, Kevin O’Brien, Andrew Rathmell.
Technical Report: Intelligence and Security Legislation for Security Sector Reform, prepared for the
United Kingdom’s Security Sector Advisory Team, RAND Europe, Cambridge, June 2005. Disponível
em http://www.dfid.gov.uk/pubs/files/intelligence-security-reform.pdf (acesso em 01/08/2008), p. iii.
24
“(…) outro traço persistente na trajetória dos serviços de inteligência é justamente sua relativa
opacidade, o manto de segredo que cerca suas atividades. Como a transparência dos atos
governamentais é um dos requisitos mais valorizados da prática política contemporânea (...), não é
de se estranhar que a mera existência dos serviços de inteligência gere desconfiança e insegurança
nos cidadãos dos próprios países que têm organizações desse tipo. A visão negativa que os cidadãos
tendem a ter dos serviços de inteligência de seus próprios países faz da transparência um enorme
desafio no processo de institucionalização dessas atividades.” Cepik, op. cit., p. 15.
25
O Estado é, em sua essência, cercado pelo secreto, faz parte das ações de governo, da manutenção
da soberania e da obtenção de vantagens estratégicas para o país esse manto de proteção às
informações ditas de “segurança nacional” e a busca por informações que possam revelar ameaças
ou oportunidades ao País. Desta forma, o Estado não pode prescindir dos serviços de Inteligência,
pois estes produzem o conhecimento necessário à tomada de decisões e trabalham na proteção
destas informações, impedindo que elementos de Inteligência adversos comprometam os interesses
nacionais. Robson José de Macedo Gonçalves. “A inteligência e o Poder Legislativo” (separata),
p.  5. Disponível em http://www.senado.gov.br/sf/senado/seseg/doc/ArtigoRobson1.pdf (acesso em
01/05/2008).
26
Indubitavelmente, o controle é um aspecto fundamental para a inteligência no Estado democrático.
A esse respeito, vide nosso livro Políticos e Espiões: o controle da atividade de inteligência, op. cit.

capítulo 1
A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA 13

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de operações de acordo com a demanda de autoridades legítimas”.27 O professor
da Universidade de Colúmbia diferencia inteligência de informação, assinalando
que enquanto informação refere-se a algo que é conhecido, independentemente da
maneira como se chegou a esse conhecimento, inteligência refere-se à informação
voltada às necessidades dos tomadores de decisão (policymakers), sendo
reunida, refinada e direcionada com objetivo de preencher essas necessidades.
Nesse sentido, informação é gênero; e inteligência, espécie. Toda inteligência é
informação, mas nem toda informação é inteligência. Demais disso, inteligência
envolve, necessariamente, componentes sigilosos em sua produção, sendo obtida
a partir de “dados negados” (no todo ou em parte).28
Para ilustrar as observações de Lowenthal, vamos a um exemplo. Um
relatório produzido por um centro de pesquisas, um trabalho acadêmico, ou
mesmo um livro sobre determinado assunto, tudo isso é informação, podendo
ser de grande utilidade em processos decisórios das mais altas instâncias, civis ou
militares. Ainda que contenham análise acurada, esses documentos não podem ser
considerados conhecimento de inteligência. Já um relatório simples, de somente
algumas páginas, produzido por um analista de informações, por exemplo, a
partir de imagens obtidas de satélites espiões, ou de documentos reservados do
inimigo (reunidos por meio de uma operação de inteligência), ou mesmo de dados
fornecidos por agente recrutado, e tendo o processamento desses dados seguido
metodologia própria de produção de conhecimento, tal relatório é inteligência.
Registre-se o caráter secreto do mesmo e seu fim único de fornecer subsídios ao
tomador de decisão. Aqui convém destacar que o destino final de um documento
de inteligência não é a publicação, divulgação, ou instrução de um processo
administrativo, conclusão de um inquérito e produção de provas. O relatório de
inteligência destina-se ao tomador de decisão e tem o objetivo de esclarecê-lo,
contribuindo para o processo decisório daquela autoridade.
Outro exemplo: um mapa de determinada região, adquirido em uma
livraria na internet, é informação. O mesmo mapa, com dados sobre a localização
de instalações militares, disposição de tropas ou assinalação de dispositivos
encobertos do inimigo, torna-se inteligência em estado bruto e que, processado
pelo analista, comporá relatório sobre as potencialidades, vulnerabilidades e
intenções do inimigo – nesse caso, passa a ser “conhecimento de inteligência”.
O referido mapa pode, inclusive, receber classificação sigilosa.

27
To many people, intelligence seems little different from information, except that it is probably secret.
However, it is important to distinguish between the two. Information is anything that can be known,
regardless of how it may be discovered. Intelligence refers to information that meets the stated or
understood needs of policy makers and has been collected, refined and narrowed to meet those needs.
Intelligence is a subset of the broader category of information; intelligence and the entire process by
which it is identified, obtained, and analyzed respond to the needs of policymakers. All intelligence is
information; not all information is intelligence. Mark M. Lowenthal. Intelligence: from Secrets to Policy.
Washington, D.C.: CQ Press, 2nd ed., 2003, p.8.
28
Lowenthal, op. cit., pp. 1-2.

14 ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA
Joanisval Brito Gonçalves

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No campo privado, dados sobre uma empresa concorrente, coletados a
partir dos demonstrativos contábeis e financeiros da empresa, disponíveis em
publicações especializadas, constituem informação, assim como os relatórios com
análises produzidas a partir desses dados. Não obstante, constitui inteligência
documento sobre o planejamento e as futuras ações da empresa, com dados
extraídos de gravação clandestina de reunião da diretoria, de interceptação de
documentos da empresa ou mesmo de informação privilegiada fornecida por
alguém que tenha acesso a dados sensíveis da organização.29
Assim, sob a perspectiva anglo-saxônica, inteligência (intelligence) seria a
informação (information) processada e analisada com o objetivo de assessorar o
processo decisório. Há nela uma componente sigilosa, dado negado obtido com
o emprego de técnicas operacionais. Ainda que a maior parte dos insumos para
um relatório produzido por um analista seja proveniente de “fontes abertas” (sem
restrição de sigilo), a pequena parcela de dados negados que venham a compor
esse relatório faz dele um documento de inteligência.
Convém fazer uma observação sobre o termo “inteligência”, adotado
atualmente no Brasil em substituição a “informações”. Qual a diferença, portanto,
entre “informações” e “inteligência”? O vocábulo “inteligência” foi incorporado
à doutrina brasileira a partir da década de 1990, durante a redemocratização,
quando a terminologia “informações”, mais adequada à língua portuguesa, foi
substituída por “inteligência”.30 As razões dessa mudança foram, sobretudo,
de ordem política, de modo a se tentar banir termos associados ao regime
militar – como também aconteceu com a expressão “segurança nacional”31.
Fica o esclarecimento de que, na nova doutrina brasileira de segurança,
“informações” passou a ser entendida como “inteligência”, que também não
é a mesma coisa que “informação” (esta última mais relacionada com um
conjunto de conhecimentos reunidos sobre determinado assunto).32 De toda
maneira, repita-se, “informações” é mais consentâneo com o vernáculo que
“inteligência”, sendo, inclusive, usado em Portugal.33

29
Por mais chocante que possa ser essa assertiva, seria ingênuo imaginar que empresas não recorrem
aos métodos citados para obter dados privilegiados de seus concorrentes.
30
Vale lembrar que em francês se mantém o termo “informações” (renseignement) e não inteligência.
Em Portugal, a terminologia “informações” também é preservada.
31
Sobre o assunto, há um artigo de Fernando do Carmo Fernandes, intitulado “Inteligência ou
Informações?”, publicado na Revista Brasileira de Inteligência (Brasília: Abin, v. 2, n. 3, set. 2006, pp. 7-19).
32
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.
33
Vide, por exemplo, a Lei Quadro do Sistema de Informações da República Portuguesa. Para maiores
informações sobre a atividade de inteligência (ou de informações) em Portugal, sugere-se a leitura
dos artigos de Jorge Bacelar Gouveia, “Os Serviços de Informações de Portugal: Organização e
Fiscalização” e de Arménio Marques Ferreira, “O Sistema de Informações da república Portuguesa”,
ambos publicados em Estudos de Direito e Segurança, organizado por Jorge Bacelar Gouveia e Rui
Pereira (Coimbra: Edições Almedina, 2007).

capítulo 1
A ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA 15

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