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FACULDADE VENDA NOVA DO IMIGRANTE

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

VENDA NOVA DO IMIGRANTE - ES


SUMÁRIO

1 SOCIOLOGIA: O QUE É?........................................................................... 5

2 REVOLUÇÃO INDUSTRIAL ....................................................................... 7

3 HOMEM E NATUREZA............................................................................. 10

4 IMAGENS DE INADEQUAÇÃO PARA O TRABALHO NO FILME ........... 13

5 O PAPEL POLÍTICO DA GREVE ............................................................. 16

6 AUGUSTO COMTE: SURGE A CIÊNCIA DA SOCIEDADE ..................... 19

7 O POSITIVISMO ....................................................................................... 21

8 A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE ............................................................... 23

9 A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO ........................................................... 26

10 ENTENDENDO O CONCEITO .............................................................. 27

11 SOCIEDADE MECÂNICA E ORGÂNICA .............................................. 30

12 POSITIVISMO E EDUCAÇÃO ............................................................... 31

13 O POSITIVISMO E A ESCOLA ............................................................. 32

14 A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NO BRASIL ................................... 34

15 MARX WEBER: O SOCIÓLOGO DA BUROCRACIA E DA


RACIONALIDADE ..................................................................................................... 36

16 AÇÃO SOCIAL ...................................................................................... 38

17 PARA ENTENDER UMA SÍNTESE ....................................................... 40

18 RACIONALIZAÇÃO DO MUNDO SOCIAL ............................................ 43

18.1 Karl Marx: a sociologia da luta de classes ...................................... 44

19 CRÍTICA DE MARX AO CAPITALISMO ................................................ 45

19.1 Continua a crítica de Marx ao capitalismo....................................... 46

19.2 A atividade humana: A prática ........................................................ 46

20 O QUE IMPORTAVA PARA MARX ENTÃO? ........................................ 47


20.1 Ideologia, o que é? .......................................................................... 48

21 A LUTA DE CLASSES ........................................................................... 50

22 A CRÍTICA AO CAPITALISMO NA ARTE ............................................. 52

23 A INFLUÊNCIA DA TEORIA MARXISTA .............................................. 55

24 MARX E A EXPANSÃO DO CAPITALISMO ......................................... 57

25 O ESTADO NA TEORIA MARXISTA..................................................... 59

26 REIFICAÇÃO, O QUE É? ...................................................................... 62

27 A TEORIA DE DURKHEIM NA EDUCAÇÃO ......................................... 64

28 WEBER E A EDUCAÇÃO ..................................................................... 66

29 OS GRANDES SOCIÓLOGOS DO BRASIL ......................................... 68

30 FLORESTAN FERNANDES .................................................................. 69

31 DARCY RIBEIRO: O BRASIL COMO MISSÃO ..................................... 71

32 GILBERTO FREYRE: AUTOR DE CASA GRANDE & SENZALA ......... 72

33 SERGIO BUARQUE DE HOLANDA ...................................................... 74

34 HOMEM CORDIAL: A IDENTIDADE BRASILEIRA NA VISÃO DE


SÉRGIO BUARQUE. ................................................................................................. 75

35 CAIO PRADO JUNIOR .......................................................................... 76

36 FERNANDO HENRIQUE CARDOSO .................................................... 78

37 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO ............................................................. 80

38 CONCEITO DE EDUCAÇÃO................................................................. 83

39 CAMPO DA SOCIOLOGIA. ................................................................... 85

40 DESCOBERTA DA INFÂNCIA .............................................................. 89

41 A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA......................................................... 92

42 REFLETINDO SOBRE AS CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO ............... 95

43 REPRODUÇÃO NA ESCOLA................................................................ 98

44 ESCOLA: DESIGUALDADE LEGÍTIMA? ............................................ 101

45 A TRANSMISSÃO DO CAPITAL CULTURAL ..................................... 102


46 RENDA E CULTURA: ATRIBUTOS FAMILIAR ................................... 104

47 A ESCOLHA DO DESTINO E A QUESTÃO DO ETHOS FAMILIAR ... 106

48 COMO A ESCOLA CUMPRE A FUNÇÃO DE CONSERVAR AS


DESIGUALDADES SOCIAIS? ................................................................................ 108

49 VIOLÊNCIA SIMBÓLICA ..................................................................... 111

50 BOURDIEU E A EDUCAÇÃO .............................................................. 112

51 CAPITAL CULTURAL .......................................................................... 114

52 SOCIOLOGIA NA ESCOLA ................................................................. 116

53 PAULO FREIRE: A IMPORTANCIA DO PENSAMENTO EDUCACIONAL


BRASILEIRO. .......................................................................................................... 118

54 FREIRE E BOURDIEU ........................................................................ 121

55 ESCOLA: UM AMBIENTE POLÍTICO.................................................. 123

56 ENSINAR É TRANSFORMAR ............................................................. 126

57 A SOCIEDADE NA VISÃO DE FREIRE .............................................. 129

58 ENTENDENDO A POLÍTICA DA EDUCAÇÃO .................................... 133

59 ESCOLA TECNICISTA ........................................................................ 138

60 E COMO FICA A FORMAÇÃO? .......................................................... 141

61 FORMAÇÃO DOCENTE ..................................................................... 144

62 RETRATO DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA .............. 146

63 PARA VOCÊ ENTENDER O QUE SIGNIFICA CAPITAL HUMANO: .. 149

64 CRÍTICA À TEORIA DO CAPITAL HUMANO ..................................... 151

65 E EM WEBER? .................................................................................... 154

66 OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA..................................................... 155

67 FECHANDO COM CHAVE DE OURO ................................................ 158

67.1 Morin e a Educação ...................................................................... 160

68 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ...................................................................... 163


1 SOCIOLOGIA: O QUE É?

Fonte: educacaodialogica.blogspot.com.br

A sociologia é antes de tudo uma ciência. Uma ciência social. Neste sentido
você deve compreender que essa disciplina não pode ser identificada como
simplesmente estudo da sociedade como é comumente definida pelo senso comum.
Deve-se perguntar, portanto: que estudo e para qual sociedade? Significa dizer que
por ser ciência ela possui um método de investigação. Mas antes de saber sobre os
métodos de investigação e o paradigma do conhecimento da sociologia, é necessário
reconhecer o universo histórico do seu surgimento.

Antecedentes históricos
A sociologia é parte integrante das ciências sociais juntamente com a
antropologia e a ciência política. Isto significa que estas três disciplinas têm em comum
tanto o paradigma de sua construção e constituição quanto sua metodologia. A busca
do entendimento sobre a sociedade é possível imaginar, é um exercício que sempre
esteve presente na vida das relações humanas, vimos que mesmo na Grécia, com os
Sofistas, chamados também de pedagogos já se discutiam fatos sociais, políticas e
economia. Pode-se dizer, então, que já existia a sociologia como ciência?
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Fonte: pedagogia2015-anhanguera.blogspot.com.br

A sociologia como disciplina científica vai surgir no início do século XIX, como
uma resposta acadêmica para o novo desafio da modernidade: o mundo estava se
tornando cada vez menor e mais integrado, a consciência das pessoas sobre o mundo
estava aumentando e dispersando. Os sociólogos não só esperavam entender o que
mantinha os grupos sociais unidos, mas desenvolver um “antídoto” para a
desintegração social.
O termo sociologia foi criado pelo Francês Auguste Comte, que associou a
palavra sócio do latin socius (associação) e o grego lógus (estudo). Ele pretendia
juntar todos os estudos sobre a humanidade, incluindo história, economia e psicologia.
Dois eventos foram marcantes para o início desta ciência: A revolução Industrial
e a Revolução Francesa.

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2 REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Fonte: lingua-bocaberta.blogspot.com.br

A Revolução Industrial, ocorrida na Europa (principalmente na Inglaterra) no


século XVIII, mudou radicalmente a estrutura da sociedade. Homens passaram a ser
substituídos por máquinas, que produziam mais e custavam muito menos. Isto fez com
que os problemas sociais aumentassem, pois, muitas pessoas que antes trabalhavam
de forma artesanal, ficaram sem emprego. Eram acostumadas a uma forma mais lenta
de vida, no meio rural, trabalhando apenas para sobreviver da terra. Agora passariam
a trabalhar muito mais para os empresários, ganhando às vezes menos do que
estavam ganhando antes.

Divisão de classes
A sociedade se dividiu em Burgueses, os que detinham as fábricas e
controlavam a economia, e os Proletariados, que tinham a força de trabalho.
O capitalismo se fortaleceu quem produzisse mais, estava acima dos outros.

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Fonte: www.cinevest.com.br

As mudanças no mundo do trabalho

Fonte: kdfrases.com

A revolução industrial mudou a forma e a estrutura do trabalho e das relações


de produção. Da manufatura ao trabalho nas fábricas e nas indústrias. Este ponto é
de fundamental importância para o seu entendimento das consequências que esta
revolução trouxe para a humanidade de forma geral, mesmo que ainda nos seus
primórdios é possível visualizar em longo prazo fortes transformações sentidas até
hoje na estrutura de produção e reprodução social.

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O sentido do trabalho

Fonte: pt.slideshare.net

A origem da palavra trabalho tem sido comumente atribuída ao latim tripalium,


instrumento de tortura utilizado para empalar prisioneiros de guerra e escravos
fugidios. O sentido da palavra trabalho atribuído há séculos passados é responsável
por inúmeros preconceitos e padrão relacionados à atividade que tem atribuído uma
separação hierárquica de funções, que irá se refletir posteriormente em desigualdades
sociais.
A origem da palavra trabalho tem sido comumente atribuída ao latim tripalium,
instrumento de tortura utilizado para empalar prisioneiros de guerra e escravos
fugidios. Assim, em sua própria terminologia, o trabalho carrega uma carga de esforço
e desprazer, o que é extremamente compreensível em sociedades onde
predominavam o trabalho forçado e que atividades produtivas eram desprezadas e
executadas tão somente por escravos como na Grécia e Roma antigas, cabendo aos
homens livres a execução de atividades intelectuais ligadas às ciências e às artes.
Pode-se afirmar que o trabalho é o ato que o homem executa visando
transformar conscientemente a natureza, é uma ação em que o homem media, regula
e controla seu metabolismo com a natureza.

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Fonte: kdfrases.com

Uma sociedade não vive sem o trabalho, na verdade, pode-se dizer que o
homem evoluiu de sua condição animal até sua condição atual devido ao seu trabalho.
Engels (s/d, p. 270) afirma que o homem modifica sua relação com a natureza devido
ao trabalho. Se na condição animal ele tinha de submeter-se às leis da natureza,
através do trabalho ele busca dominar a natureza, transforma-a em proveito próprio.
Passa de ser dominado a ser dominante devido ao desenvolvimento do trabalho.

3 HOMEM E NATUREZA

Fonte: www.umqueddemarx.com.br

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O próprio desenvolvimento do seu corpo, do cérebro, da fala, e da relação entre
os homens origina-se do trabalho. Desta forma, Engels afirma que o trabalho criou o
homem e o homem criou o trabalho, sendo esta uma ação exclusivamente humana,
pois assume uma forma consciente, não intuitiva, pois antes de produzir um objeto é
necessário ao trabalhador elaborá-lo inicialmente em seu cérebro para só então partir
para a execução. Já as atividades que os animais executam (a aranha e sua teia, o
joão-de-barro e sua casa) são meramente intuitivas, daí trabalho ser uma atividade
exclusiva da espécie humana.
Para Marx, o único bem que o trabalhador possui devido a não ser proprietário
de meios de produção é a sua força de trabalho, a sua capacidade de trabalhar, sendo
por isso que o trabalhador é obrigado a vender sua força de trabalho ao capital. Ao
contrário de sociedades pré-capitalistas como o feudalismo e a escravidão, no
capitalismo o trabalhador entrega sua capacidade de trabalhar por um tempo
determinado através de um contrato de trabalho.

Atenção!

Além do estabelecimento de um contrato de assalariamento que regula as


relações capital-trabalho, algumas diferenças podem ser encontradas no trabalho sob
o modo de produção capitalista em comparação com sociedades pré-capitalistas.
Como já visto, o trabalho era desprezado na Grécia e Roma antigas, fazendo com que
a socialização dos indivíduos ocorresse fora do trabalho, enquanto na sociedade
capitalista a socialização dos indivíduos ocorre exatamente nas relações de trabalho.
Percebe como o sentido atribuído ao trabalho vai sofrer alterações ao longo da
história? Para você entender, principalmente o pensamento de Karl Marx, que é o
sociólogo do conflito e da luta de classes, é imprescindível que você compreende
antes como este autor considerava o trabalho. Para ele o elemento chave para a
compreensão da dinâmica da sociedade capitalista. Neste sentido, sugiro que você
faça anotação no seu caderno da disciplina porque este conhecimento lhe será útil
mais tarde, tanto para a realização das suas atividades, quanto para entender a
sociologia da educação dos autores pós Marx.

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Fonte: slideplayer.com.br

Os Séculos XVIII e XIX: Novo caráter do trabalho e suas relações no filme


Tempos Modernos
A revolução industrial dos séculos XVIII e XIX teve um peso determinante, com
a formação de exércitos de trabalhadores que desprovidos de qualquer propriedade
são obrigados a abandonar a vida do campo, sendo jogados nas cidades em busca
de empregos assalariados junto às nascentes indústrias.
O trabalho então assumiria um novo caráter, de atividade indigna no passado,
passam a ser vistos como indignos aqueles que não trabalham, taxados como
vagabundos os que não se submetem a trabalhar para o capital, mesmo que o próprio
capital não tenha interesse em absorver todo o trabalho posto à sua disposição.
Assim, os capitalistas sempre encontram um grupo de trabalhadores à margem do
processo produtivo, mas sempre ávidos por incorporar-se a ele, a estes trabalhadores
Marx denominou de “exército industrial de reserva”.
Em “Tempos modernos” (“Modern times”), filme de Charles Chaplin de 1936, o
diretor mostra com maestria os efeitos que o desenvolvimento capitalista e seu
processo de industrialização trouxeram à classe trabalhadora. Como diz o texto de
introdução do filme, “Tempos modernos” é uma história sobre a indústria, a iniciativa
privada e a humanidade em busca da felicidade.

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A temática de “Tempos modernos” custou a Chaplin uma série de perseguições
por parte da CIA, juntamente com a acusação de simpatias comunistas. Além disso,
havia recusado naturalizar-se norte-americano argumentando ser um “cidadão do
mundo” o que agrava ainda mais sua situação. Chaplin passa a constar na “lista negra”
de Hollywood durante a perseguição macarthista, o que torna sua situação de trabalho
nos EUA insustentável (seus filmes eram proibidos), levando-o a abandonar
definitivamente os EUA em 1952.

Fonte: mansaodocinefilo.blogspot.com.br

No filme “Tempos Modernos”, o vagabundo Carlitos, ironicamente, encontra-se


na condição de operário. É ao auge do predomínio do padrão de acumulação
taylorista-fordista, em que os trabalhadores têm suas habilidades substituídas por um
trabalho rotineiro e alienado. É o predomínio da esteira rolante de Ford, do cronômetro
de Taylor, do operário-massa.

4 IMAGENS DE INADEQUAÇÃO PARA O TRABALHO NO FILME

A inadequação de Carlitos com o trabalho alienado perpassa o tempo todo do


filme. Na condição de operário ele tenta se adaptar, se esforça para inserir-se naquele
novo mundo de produção em massa, máquinas gigantescas, exploração do trabalho,
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mas também de greves e de organização sindical. Esta inadequação fica presente
logo no início do filme, quando um bando de ovelhas brancas é mostrado e apenas
uma delas tem a cor preta, certamente está representa o próprio Carlitos. A cena do
bando de ovelhas é misturada com a cena dos operários entrando na fábrica, como
se fossem animais indo para o abate, só que, na verdade, vão para a produção na
fábrica.
Como operário da fábrica, Carlitos se depara com a esteira de produção fordista
que aumenta o ritmo de produção a todo instante, tornando a relação homem-máquina
extremamente conflituosa, até o ponto em que o próprio Carlitos é engolido pela
máquina, saindo de lá em uma condição de insanidade, momento em que ele
abandona a condição de quase um autômato (repetindo um gesto mecânico mesmo
quando não está trabalhando, fruto da alienação do trabalho) para uma situação de
confronto direto em que ele sabota a produção, insurge-se contra o patrão e é
internado como louco.

Fonte: historiaeciajg.blogspot.com.br

A contradição capital-trabalho está presente de forma clara no filme. O patrão


fica numa sala armando quebra-cabeças e lendo jornal, ao mesmo tempo em que de

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um monitor controla todos os movimentos dos operários e dita o ritmo de produção a
ser executado.
Em outras passagens, a inadequação de Carlitos com o trabalho alienado fica
presente nas tantas tentativas de trabalhar que o personagem enfrenta. Quando
arranja trabalho no caís após sair do hospício, consegue em um simples gesto lançar
um navio ao mar. Quando o personagem vira vigia na loja de departamentos, além,
de não conseguir impedir um assalto, consome produtos da loja, leva a amiga para o
interior da loja, e dorme no serviço. Trabalhando como auxiliar de mecânico, Carlitos
demonstra a todo instante sua inadequação com a simples tarefa de ajudar o
mecânico chefe, fazendo com que este seja também engolido pela máquina. Quando
assume o papel de garçom, também é nítida a sua incapacidade de servir uma mesa.
Na verdade, Carlitos só consegue mostrar sua identificação com atividades
nada alienantes e que fogem ao domínio da máquina sobre o trabalho. Quando ele
está na loja de departamentos e mostra uma grande habilidade em patinar, e quando
está no restaurante trabalhando como garçom e que improvisa um número musical
cômico. Neste momento percebe-se que em ao menos em uma atividade ele é bom,
em um tipo de trabalho que requeira criatividade e não uma mera execução de tarefas
formulada por terceiros. Só então, ele é aplaudido por todos e inclusive, parabenizado
pelo patrão.
A voz de Carlitos é ouvida pela primeira vez no cinema quando ele canta.
Chaplin opunha-se ao cinema falado, achando que este não duraria muito tempo. Na
verdade, seu temor era com seu próprio personagem, adequado muito mais ao gestual
do que a fala. Somente depois de 10 anos de existência, é que em “Tempos
modernos”, Chaplin faria sua primeira experiência com o cinema falado, ou no seu
caso, “semi-falado”. Ouve-se o ruído das máquinas, o som mecânico da “máquina de
comer”, do alto-falante em que o patrão se dirige aos funcionários, mas em nenhum
momento um personagem fala, que não seja através de uma máquina.
Mesmo quando Carlitos canta ele expressa uma crítica ao cinema falado,
quando esquece a letra, sua amiga grita a ele: “Cante! Dane-se a letra! ”, e é o que
ele faz, mostra que mesmo sem palavras, ou no caso, usando palavras sem sentido,
mas caprichando no gestual, faz com que todos consigam compreender uma história.
Outro aspecto que chama atenção no filme é o predomínio completo do trabalho
abstrato sobre o trabalho concreto, ou seja, ao capital não interessa a forma como

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está sendo produzido ou que está sendo produzido, somente importa é que está sendo
criado valor. Daí não sabermos exatamente qual a mercadoria que Carlitos produz, e
certamente, nem mesmo os operários da fábrica o sabem. Assim, não existe qualquer
identificação do trabalhador com seu trabalho, nem com a mercadoria produzida por
ele.

5 O PAPEL POLÍTICO DA GREVE

Fonte: www.youtube.com

Mesmo com toda a crítica social que é feita, a reação do personagem Carlitos
ao sistema é feita de maneira individual e não coletiva. Quando eclode a Grande
Depressão de 1929, que coincide com a saída do personagem do hospício, é levado
à prisão acusado de ser líder comunista por empunhar uma bandeira (pretensamente
vermelha) em frente a um grupo de trabalhadores que fazia uma passeata na rua.
Carlitos é visto como o cidadão comum, não politizado, mas que pelo simples gesto
de buscar devolver a bandeira que tinha caído do caminhão é acusado de líder da
revolta operária. Em outro momento, quando eclode uma greve na fábrica em que

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trabalha, também por acidente é acusado de agressão a um policial que viria reprimir
a greve.
No final do filme, quando sua amiga indignada com a situação de perseguição,
miséria e desemprego pergunta: “para que tudo isso? ” Ele responde: “levante a
cabeça, nunca abandone a luta”. No entanto, a reação dos dois não é o enfrentamento
contra o capital, é retirar-se da cidade, indo em direção ao campo.
Ao som da belíssima “Smile”, de autoria de Chaplin, Carlitos dá as costas para
a para produção em massa, para as gigantescas máquinas que desempregam
trabalhadores, para as suntuosas lojas com suas escadas rolantes, para o trabalho
alienado. Seria o último filme mudo de Chaplin e também a despedida do personagem
Carlitos, que havia se tornado obsoleto em um momento em que o cinema falado
tomava conta dos cinemas do mundo todo. Era o sinal dos tempos. Os tais “tempos
modernos”. O que representa o tempo da urbanização e do advento dos problemas
sociais.
O que conhecemos hoje como modernidade foi exatamente marcado por
acontecimentos que fundaram e consolidaram o sistema capitalista de produção, ou
seja: a relação capital X trabalho, o trabalho assalariado, a propriedade privada dos
meios de produção, o consumo, o investimento em tecnologia, enfim, fatos
relacionados â revolução científica e industrial.
São as consequências destes acontecimentos sobre a sociedade como
desemprego, desigualdades, injustiças, prostituição, mendicância, etc, que vai fazer
com que Auguste Comte decida por criar a disciplina sociologia.
Sugiro que se você ainda não viu o filme, que veja, ou veja novamente com um
novo olhar a partir do que lido.

Revolução Francesa
A Revolução francesa é o outro evento que junto à Revolução Industrial
representa um marco histórico importante para o surgimento da sociologia.

Revolução Industrial é um marco em termos econômicos e tecnológicos, e a


Revolução Francesa é importante no aspecto político, com a queda da bastilha
inaugurou a passagem de uma sociedade de privilégios para uma sociedade de

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direitos, sobretudo na dimensão formal, representada pelo documento produzido e
bastante significativo que é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
Usualmente observa esta declaração ser apenas citada sem conhecer a fundo
o seu teor e a sua importância para o que estamos estudando nestas primeiras aulas
que é as consequências dos acontecimentos dos Séculos XVIII e XIX para o
surgimento da sociologia. Na revista Nova Escola é possível encontrar uma reflexão
acerca deste documento, conforme segue abaixo:
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi anunciada ao público
em 26 de agosto de 1789, na França. "Ela está intimamente relacionada com a
Revolução Francesa. Para ter uma ideia da importância que os revolucionários
atribuíam ao tema dos direitos, basta constatar que os deputados passaram cerca de
10 dias reunidos na Assembleia Nacional francesa debatendo os artigos que
compõem o texto da declaração. Isso com o país ainda a ferro e a fogo após a tomada
da Bastilha em 14 de julho do mesmo ano", explica o professor Bruno Konder
Comparato, professor no Departamento de Ciências Políticas da Universidade de São
Paulo (USP) e da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares.
Havia urgência em divulgar a declaração para legitimar o governo que se
iniciava com o afastamento do rei Luís XVI, que seria decapitado quatro anos depois,
em 21 de janeiro de 1793. "Era preciso fundamentar o exercício do poder, não mais
na suposta ligação dos monarcas com Deus, mas em princípios que justificassem e
guiassem legisladores e governantes", diz o professor.

Direitos civis
A primeira geração de direitos humanos diz respeito à conquista por direitos
individuais e inaugura o marco histórico da sociedade fundada em direitos contra o
privilégio.
Você pode observar que se trata de direitos de primeira geração, ou seja,
direitos civis, que diz respeito ao indivíduo, à pessoa.
A importância desse documento nos dias de hoje é ter sido a primeira
declaração de direitos e fonte de inspiração para outras que vieram posteriormente,
como a Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU
(Organização das Nações Unidas), em 1948. Prova disso é a comparação dos
primeiros artigos de ambas:

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O Artigo 1º da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, como
visto acima, diz: Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As
distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum.

O Artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948: Todos os


homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Foi também na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que o lema
da República Francesa se inspirou: liberdade, igualdade, fraternidade. Dos três, a
igualdade era o mais importante para os revolucionários.

6 AUGUSTO COMTE: SURGE A CIÊNCIA DA SOCIEDADE

Nas aulas anteriores você viu o contexto do surgimento da sociologia, agora


você irá conhecer os métodos sociológicos. Atenção, vamos tentar entender de forma
sistemática. Não se esqueça de registrar no seu caderno.
Positivismo ou cientificismo

Fonte: articulo.mercadolibre.com.ar

Livro lançado em 1842 por ele que é considerado o fundador da filosofia


positivista.

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Filósofo do Século XIX, Comte tinha na base na sua filosofia uma visão
evolucionista, ou seja, acredita que a história evolui para o progresso, que a
humanidade caminha para a perfeição. Contudo, como você viu na segunda vídeo
aula o horizonte desta perspectiva era a Europa, demonstrando assim uma visão um
tanto quanto etnocêntrica. E o que é o etnocentrismo?

Fonte: www.escolaeducacao.com

Etnocentrismo é a atitude de enxergar o mundo com os parâmetros da sua


própria cultura.
O objetivo de Comte era reorganizar o conhecimento humano a partir da ideia
de ordem e progresso. Como você pode perceber ele teve grande influência na
sociologia brasileira, não é por acaso que os dizeres da bandeira nacional são: ordem
e progresso.
Comte fez uma releitura, digamos assim da realidade da época na França, num
período turbulento de revoluções e mudanças como visto. Esta formulação parte do
princípio que é possível aplicar as leis naturais ao estudo da sociedade.
Hoje essa ideia é rebatida por muitos estudiosos, inclusive pelo próprio Karl
Marx, considerado também um clássico da sociologia, no entanto, é fundamento do
positivismo é a ideia de que tudo o que se refere ao saber humano pode ser
sistematizado segundo os princípios adotados como critério de verdade para as
ciências exatas e biológicas.
Este conjunto de ideias descritas acima se refere ao método que Comte irá
propor e que mais tarde será aprofundado por Emile Durkheim. Como dito, a lei natural

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se aplicaria também aos fenômenos sociais, que deveriam ser reduzidos a leis gerais
como as da física. Para Comte, a análise científica aplicada à sociedade é o cerne da
sociologia, cujo objetivo seria o planejamento da organização social e política.

7 O POSITIVISMO

Fonte: slideplayer.com.br

O método da ciência de Comte consiste em observar os fenômenos por meio


da experiência sensível, e como você viu, este é o único, de acordo com o autor, capaz
de produzir estados concretos e científicos, tomando como base o mundo físico ou
material.
Para Augusto Comte, o desígnio único da história é o progresso do espírito
humano. Se este dá unidade ao conjunto do passado social, é porque a mesma
maneira de pensar deve se impor em todos os domínios. Auguste Comte conclui que
o método positivo, baseado na observação, na experimentação e na formulação de
leis, deve ser estendido aos domínios que são deixados às explicações por meio de
seres transcendentais ou entidades ou ainda as causas últimas dos fenômenos. Para

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ele há um modo de pensar, o positivo, que tem validade universal, tanto em política
como em astronomia.

A lei dos três estados


O estágio final da inteligência humana é o estágio positivo.

Observe:
1- No primeiro estado, o teológico tudo se explica pela ação dos deuses, mitos,
enfim, de forma não científica;
2- No segundo, já começa a curiosidade e a pergunta sobre os fatos;
3- E, por fim, o último estado é aquele em que a explicação acontece. Tem-se
a verdade sobre os fatos, se tem a ciência e seu método.

Nesse sentido a humanidade atravessa várias etapas até atingir a etapa final.
E o que o positivismo faz é descobrir as leis que agem por traz dos fatos e estas
podem ser apreendidas da mesma forma que se apreende o conhecimento de um
evento natural.
A queda de um corpo, por exemplo, pode ser explicada espontaneamente de
forma positiva. Mas a filosofia da observação, da experimentação, da análise e do
determinismo, não podia se fundamentar na explicação autenticamente cientifica
desses poucos fenômenos.
No referido curso de Comte, ele afirma que, em seu conjunto a história é, na
essência, o dever da inteligência humana. Assim, o progresso necessário do espírito
é o aspecto essencial da história da humanidade. Ou seja, o progresso é uma
realidade.
Na dinâmica da sociedade quando se passa de uma etapa para outra ocorre
uma força que move a contradição entre os diferentes elementos da sociedade. As
grandes fases históricas da humanidade são dadas pela forma de pensar; a etapa
final é a do positivismo universal, e a impulsão última do dever e nesse sentido o
positivismo faz a crítica às sínteses provisórias do da teologia e da metafísica.
A história humana é compreendida numa dimensão única. E isto se dá o nome
de visão evolucionista. Ou seja, a evolução vai ocorrer fatalmente e todas as
sociedades passam pelos mesmos caminhos até o progresso.

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Auguste Comte justifica essa diversidade enumerando três fatores de variação:
a raça, o clima e a ação política. Ele interpretou a diversidade das raças atribuindo a
cada uma a predominância de certas disposições. Assim, segundo ele, a raça negra
deveria caracterizar-se, sobretudo, pela propensão à afetividade. As diferentes partes
da humanidade não evoluíram do mesmo modo porque, no ponto de partida, não
tinham os mesmos dons. Mas é evidente que essa diversidade se desenvolve tendo
como pano de fundo uma natureza comum.

8 A EVOLUÇÃO DA SOCIEDADE

Fonte: slideplayer.com.br

A evolução da sociedade em sua diversidade é explicada em relação ao clima


da seguinte forma: o conjunto das condições naturais em que se encontra cada parte
da humanidade. Cada sociedade conheceu circunstâncias geográficas mais ou menos
favoráveis, o que permite explicar, até certo ponto, a diversidade da sua evolução.
Estática e dinâmica são as duas categorias centrais da sociologia de Auguste
Comte. Uma sociedade se assemelha a um organismo vivo. E aqui, querido aluno e
querida aluna você deve parar um pouco e reter o seguinte:

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Para este autor a sociedade deve ser vista como um organismo e é por isso
que ele é também conhecido como sociólogo organicista. Ou seja, a
sociedade composta por elementos interdependentes formando uma
totalidade.

Assim como é impossível estudar o funcionamento de um órgão sem situá-lo


no conjunto do ser vivo, é impossível estudar a política e o Estado sem situá-los no
conjunto da sociedade. Mais tarde Emile Durkheim irá retomar estes conceitos de
Comte, e sob a forte influência desta Durkheim será reconhecido também como
sociólogo das instituições. Isto quer dizer que as instituições cumprindo uma sua
função contribui para a harmonia social.
Compreendendo melhor este ponto acima citado, a sociedade para os autores
positivistas tende à harmonia social, ao equilíbrio. Como ocorre então a mudança
social?
De acordo com Aron (2008), para Comte,

A dinâmica, em seu ponto de partida, é apenas a descrição das etapas


sucessivas percorridas pelas sociedades humanas. A dinâmica social
percorre as etapas, sucessivas ou necessárias, do dever do espírito humano
e das sociedades humanas. Ela dinâmica social retraça as vicissitudes pelas
quais passou essa ordem fundamental, antes de alcançar o termo final do
positivismo. A dinâmica está subordinada à estática. É a partir da ordem de
toda sociedade humana que se pode compreender a história. A estática e a
dinâmica levam aos termos de ordem e progresso que figuram nas bandeiras
do positivismo e do Brasil: O progresso é o desenvolvimento da ordem
(ARON, 2008).

Ciência e senso comum


Neste ponto das aulas é esperado que você já compreenda que para Comte,
havia uma grande diferenciação entre o conhecimento científico e o conhecimento do
senso comum. Segundo ele, o conhecimento científico representava um estágio mais
elevado do desenvolvimento da sociedade.
Assim para ele a evolução da ciência, ou seja, do conhecimento, é uma
sucessão de estágios, é assim a mente humana se desenvolve se libertando do senso
comum. Este é o denominado Sistema de Filosofia Positiva. O estágio positivo da
sociedade seria o mais evoluído o pensamento científico e está baseado na
observação e na experiência.

24
Iniciando informando que Comte para o desenvolvimento de suas ideias recebe
influências de filósofos. Vamos a eles: Condercet (1666-1790), que defendia a ideia
de que toda e qualquer ciência da sociedade precisa se identificar com o que ele
chamava de matemática social, isto é, precisa realizar um estudo preciso, rigoroso,
numérico dos fenômenos sociais. Percebe a origem do pensamento de Comte? Veja:
Segundo Condorcet, a ciência estava sendo controlada e submetida aos interesses
de senhores feudais, à aristocracia e ao clero e carecia de objetividade. A intenção
era libertar a ciência de subjetividades e interesses políticos e individuais. Portanto,
de acordo com Condorcet, era necessário tirar o controle das ciências destas classes
para que uma ciência natural pudesse se impor.
Outra influência foi a de Saint-Simon (1760-1852), este o primeiro a usar o
termo positivo na ciência. Então observe que Comte usou o nome sociologia pela
primeira vez, mas não foi o primeiro a usar o termo positivo. Para Saint-Simon, o
raciocínio deveria se basear nos fatos observados e discutidos. “Uma vez que nosso
conhecimento está uniformemente fundado em observações, a direção de nossos
interesses espirituais deve ser entregue ao poder da ciência positiva” (COMTE In:
MESQUIDA, 20001, p.27).
Saint-Simon também defendeu a sociedade industrial, dizendo que o que é
favorável à indústria também o será para o homem. Portanto, acreditava na visão de
progresso trazido pela indústria e a sociedade capitalista.
O século XIX recebe então, a formalização do pensamento positivista. É o
século de surgimento da ciência positiva, a sociologia.

Sintetizando assim e concluindo as características do positivismo podemos


citar que:
 As sociedades, melhor, a sociedade, é considerada um fenômeno natural,
podendo ser analisada através dos métodos das ciências naturais.
 A compreensão da realidade só é possível pela objetividade que é
alcançada através do rigor empírico e da coerência teórica. Trata-se de um
avanço na capacidade de pensar, da razão.
 A ação da ciência, ou seja, o conhecimento, é evolutivo e caminha para o
progresso.

25
Desta forma se descobre as leis gerais e diante disso o ser humano pode prever
ações futuras.

9 A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO

Fonte: slideplayer.com.br

O pensamento positivista teve grande influência na formação científica de


muitos autores que buscavam analisar as transformações da sociedade e a
emergência do capitalismo nos séculos XIX e XX. Como já foi citado, Durkheim é um
desses autores que foi profundamente influenciado por todo o ambiente intelectual e
social de sua época. Embora tenha sido influenciado pelas ideias de Comte,
Durkheim, diferentemente de Comte, aprofundou seus estudos na análise da
sociedade a partir dos fatos sociais. Procurou explicar o funcionamento da sociedade
emergente no século XIX, com base no estudo dos fenômenos sociais vistos de
maneira isolada do seu contexto histórico-cultural.
Durkheim foi um dos primeiros a teorizar sobre a sociologia da educação. A
ideia central de Durkheim, ao propor a sociologia no campo da educação, era
preparar as novas gerações para uma nova civilização. A educação, para ele,
significava o mesmo que socialização e tinha por objetivo formar o ser social.

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A sua teoria, embora atualmente bastante contestada pelas teorias críticas da
sociedade, serviu de base para o Funcionalismo, corrente de pensamento bastante
desenvolvida e valorizada no Século XX.
Veja abaixo a influência de Augusto Comte:

A teoria Funcionalista de Durkheim


Esta é a concepção de funcionalismo de Durkheim. A diversificação de funções
vai gerar a solidariedade entre os seres humanos, e a especialidade atribuída a cada
um ele vai dar o nome de Divisão social do trabalho social. E aqui podemos conhecer
dois conceitos essências em Durkheim: Solidariedade mecânica e solidariedade
orgânica.

10 ENTENDENDO O CONCEITO

A solidariedade orgânica é, portanto, uma das características da sociedade


capitalista, industriais e a divisão do trabalho é que promove a coletividade, este elo
perdido com a fragmentação e o individualismo. Coletividade existente nas
sociedades primitivas.
Nestas aulas você está conhecendo a base conceitual de cada um dos
chamados clássicos da sociologia. Posteriormente você terá estes conhecimentos
aplicados à análise das questões da educação, ou seja, como a sociologia pode
contribuir para a compreensão dos problemas educacionais.
Pois bem, sigamos um pouco mais com Durkheim:
Émile Durkheim, nasceu em Epinal, na Alsácia, descendente de uma família de
rabinos. Iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal de Paris, indo depois para
a Alemanha. Lecionou Sociologia em Bourdieu primeira cátedra desta ciência na
França.

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Fonte: www.infoescola.com

Suas principais obras foram: Da Divisão do Trabalho Social, As Regras do


Método Sociológico, O Suicídio, As Formas Elementares de Vida Religiosa, Educação
e Sociologia, Sociologia e Filosofia e Lições de Sociologia (obra póstuma). Morreu em
1917.
Durkheim é conhecido como um dos primeiros teóricos da Sociologia,
conferindo a esta o estatuto de ciência. Portanto, um clássico, o que quer dizer que o
seu trabalho é sempre uma referência no estudo da sociedade. Foi também o primeiro
filósofo a sugerir a Sociologia como uma disciplina autônoma, caracterizada pelo
método científico. Com base nos ideais positivistas, que tem como princípio
fundamental a realidade objetiva dos fatos, dando pouca importância aos fatores
históricos e ao papel do indivíduo e da subjetividade desses na organização social,
Durkheim desenvolveu seus estudos tendo como objeto de pesquisa a investigação
dos fatos sociais. Mas o que são os fatos sociais?

Este conceito é a unidade básica de análise do social de Durkheim

1- O que significa que são coercitivos. Independentemente de sua vontade o


fato irá exercer uma força sobre o indivíduo.

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2- São exteriores porque dizem respeito à cultura, ou seja, como o indivíduo
nasce o fato está lá.
3- Gerais porque não diz respeito a um indivíduo apenas, mas a uma
comunidade.

A escola é um fato social: Existe independente da vontade, é exterior ao


indivíduo, e diz respeito a uma coletividade.
Os estudos de Durkheim tinham como foco principal descobrir as leis de
funcionamento da sociedade. E isto você já viu também em Comte, não é mesmo?
Nesse sentido, é considerado um dos sistematizadores do funcionalismo, uma
corrente de pensamento muito presente até os dias de hoje não apenas nas diferentes
ciências sociais, mas também nas teorias educacionais e organizacionais. Você
entendeu o que é o funcionalismo?

Como Durkheim concebe a sociedade


Você já deve ter entendido, mas não é demais rever que a sociedade, para
Durkheim, é um organismo exterior e superior aos indivíduos e constituída por um
conjunto de normas, leis e regras que são responsáveis pela formação moral e social
dos indivíduos. Ou seja, ela mesma um fato social, por excelência, da sociologia.
Regida por normas, leis e regras que irão determinar a maneira de ser e de agir dos
indivíduos, bem como, a formação das instituições sociais.
Em seu livro: A Divisão do Trabalho Social, Durkheim descreve o processo de
transformação da sociedade primitiva para a sociedade moderna através da divisão
social do trabalho, na qual estabelece a passagem de um tipo de organização social
com base na solidariedade mecânica (pré-capitalista) para a solidariedade orgânica
(capitalista).
Por que esta obra é importante? Uma de suas preocupações, nessa obra, é
perceber como se dá a relação entre indivíduo e a sociedade. Isso porque, para o
autor, o objetivo máximo da vida social é promover a harmonia da sociedade que é
conseguida por meio do consenso social. Está fazendo os links possíveis para
entender o pensamento de Durkheim? Viu que ele fala da harmonia social que ocorre
por meios do consenso entre os indivíduos e é garantido por meio das regras e leis
que controlam as ações.

29
Quando você viu os conceitos de solidariedade mecânica e orgânica entendeu
que se trata de um processo de mudança: de sociedade simples para mais complexas.
Você pode perceber como a questão do consenso é tratada pelo autor, a partir da
análise da mudança nas formas de organização social das sociedades "primitivas"
para as sociedades modernas.

11 SOCIEDADE MECÂNICA E ORGÂNICA

Fonte: clicksociologico.blogspot.com.br

Na solidariedade mecânica a consciência coletiva forte, existe a ideia de


coletividade, típica de sociedades primitivas, pré-capitalistas. Pense, por exemplo,
numa comunidade indígena. Os integrantes destas comunidades, identificados por
laços familiares, tradição, religião, costumes seguiam as regras sociais cegamente,
de forma mecânica, ou seja, não existe obrigatoriedade nem burocracia, não tem
documento e, no entanto, podiam se manter autônomos e independentes em relação
aos outros grupos. A divisão social do trabalho não precisava ir além da sua
propriedade e existia para assegurar a subsistência familiar. O consenso se manifesta
na semelhança entre os indivíduos.

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Contudo, na Solidariedade orgânica o que se percebe é a diminuição da
consciência coletiva, e o aumento da fragmentação e do distanciamento típicos das
sociedades capitalistas. A divisão social do trabalho é obtida por outros meios,
espalhada pelos setores econômicos da sociedade, como fábricas, agricultura,
comércio, indústrias. E por que o laço não se rompe? De acordo com Durkheim, a
solidariedade é assegurada pela interdependência dos indivíduos, mantendo, assim,
os laços sociais. O indivíduo escolhe seguir as regras, pois percebe que as mesmas
são boas para ele. O consenso se manifesta na diferenciação dos indivíduos.
Entendeu a noção de consenso, ou seja, há um acordo entre nós de que seguir as
regras e as leis é um bem para o todo, para o coletivo.
Para Durkheim, a existência de valores e laços morais entre as pessoas era
fundamental para a manutenção da harmonia social e da consciência coletiva.
Quando uma sociedade não consegue manter esse estado de harmonia, significa que
a sociedade está ‘doente’. E para isso Durkheim tem o termo: anomia.
Anomia é exatamente quando o consenso se rompe e não há mais
possibilidade de manter a ordem e o respeito às instituições. Anomia, neste caso, seria
o contrário de harmonia.
Pois bem, Augusto Comte e Durkheim são autores expressivos do positivismo
e antes de dar início a mais duas vertentes clássicas da sociologia é importante que
você compreenda a relação entre o positivismo e a educação. Vamos lá?

12 POSITIVISMO E EDUCAÇÃO

A corrente positivista influenciou consideravelmente a sociedade nos séculos


XIX e XX. Aqui você poderá se lembrar da disciplina história da educação e o próprio
surgimento da escola formal.
Tendo em vista que a Educação é uma atividade social, também foi marcada
por esta influência. Nas escolas, a influência do positivismo, se fez sentir com força
devido à influência da Psicologia e da Sociologia, ciências auxiliares da Educação.

31
Fonte: multigolb.wordpress.com

O positivismo esteve presente de forma marcante no ideário das escolas e na


luta a favor do ensino leigo das ciências e contra a escola tradicional humanista
religiosa. O currículo multidisciplinar – fragmentado – é fruto da influência positivista.
Certamente você se lembrará.
No Brasil esta influência aparece no início da República e na década de 70,
com a escola tecnicista. Muitos historiadores ressaltam o pensamento positivista no
movimento pela proclamação da república e da elaboração da constituição de 1891.
O movimento republicano apoiou-se em ideias positivistas para formular sua ideologia
da ordem e do progresso, graças particularmente à atuação de Benjamim Constant
(1836-1891).

13 O POSITIVISMO E A ESCOLA

Pode-se inclusive entender que ainda hoje a ênfase nos conteúdos


sequenciais, a valorização do pensamento cognitivo, o distanciamento das
características emocionais e estéticas do aluno e do processo de aprendizagem tem
um viés positivista. A ideia de que o aluno se desenvolve de forma linear à medida
que vai se apropriando do raciocínio lógico.
Assim apenas o que é observável interessa ao positivismo. O real,
inquestionável, aquilo que se fundamenta na experiência. Deste modo, a escola deve
privilegiar a busca do que é prático, útil, objetivo, direto e claro. Os positivistas se
empenharam em combater a escola humanista, religiosa, para favorecer a ascensão
32
das ciências exatas. Compreenda que o positivismo influenciou a prática pedagógica
na área das ciências exatas, influenciando a prática pedagógica na área de ensino
de ciências sustentadas pela aplicação do método científico: seleção, hierarquização,
observação, controle, eficácia e previsão.

Fonte: pt.slideshare.net

Observe:

Fonte: slideplayer.com.br

33
Reflita:
Hoje é comum a prática da avaliação baseada nestes princípios. A própria
escola em sua prática seleciona, hierarquiza, observa, controla, busca a eficiência e
busca a previsão. É neste sentido que no Módulo II você irá conhecer autores críticos
do positivismo que apresenta uma perspectiva mais voltada para a sociologia
marxista, que se verá nas próximas aulas.
Espera-se que você tenha entendido que esta postura dá uma ênfase nas
ciências exatas em detrimento das humanas, e a sociologia estaria no ápice da
classificação de Comte, que seria: Por meio da fundamentação e classificação das
Ciências (Matemática, Astronomia, Física, Fisiologia e Sociologia).

14 A INFLUÊNCIA DO POSITIVISMO NO BRASIL

Foi em meados do século XIX que o positivismo de Comte chega ao Brasil. E


foi entre os oficiais do exército que estas ideias ganharam força. O currículo voltado
para as ciências exatas e para a engenharia denota um distanciamento da tradição
humanista e acadêmica, havendo certa aceitação das formas de disciplina típicas do
positivismo. Você irá se lembrar da influência do humanismo do século XVI na origem
do capitalismo. Contudo, as palavras “ordem e progresso” que fazem parte da
bandeira brasileira indicam claramente a influência positivista.
No ano de 1870, a escola tecnicista teve uma presença marcante. A valorização
da ciência como forma de conhecimento objetivo, passível de verificação rigorosa por
meio da observação e da experimentação, foi importante para a fundamentação da
escola tecnicista no Brasil. Para esta escola o elemento primordial é a tecnologia.
De acordo com Saviani (1993), na escola tecnicista, professores e alunos
ocupam papel secundário dando lugar à organização racional dos meios. Professores
e alunos relegados à condição de executores de um processo cuja concepção,
planejamento, coordenação e controle, ficam a cargo de especialista supostamente
habilitados, neutros, objetivos, imparciais. Esta objetividade do positivismo vai gerar a
noção de que a ciência e a educação devem ser neutras, ou seja, livre de qualquer
pré-noção ou posicionamento político. Portanto, pode-se perceber pelas palavras de
Saviani que neutralidade e objetividade são típicas do positivismo.

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Concluindo pode-se dizer que a necessidade de estabelecer uma relação de
aproximação entre a ciência e a técnica em nome do progresso foi um grande marco
nos primórdios do pensamento social e das políticas de educação que se concretizou
de maneira significativa por gerações. De forma racional e não critica. Se você estiver
atento/a a discussão hoje no Brasil, inclusive com manifestações de intelectuais e
professores, vai observar que tramita uma discussão no congresso nacional que
desautoriza o professor ensinar de forma reflexiva e crítica.

Fonte: twibbon.com.br

Os críticos do positivismo entendem que este posicionamento, assim como o


positivismo serve para legitimar a ordem vigente e impedir a transformação e a
autonomia.
Se você entendeu até aqui o contexto do surgimento da sociologia e as ideias
e os ideais positivistas, vá até o fórum da graduação e chame seus colegas para uma
roda de conversa virtual, isto irá ajudar você a reconhecer os conteúdos de uma forma
mais prática. Não tenha a noção de que está recebendo um conhecimento, mas reflita
que o conhecimento é uma produção humana e é nesta dimensão que ele pode ser
questionado. Esteja atento/a.

35
15 MARX WEBER: O SOCIÓLOGO DA BUROCRACIA E DA RACIONALIDADE

Max Weber é considerado um dos grandes intelectuais do Século XIX e a sua


influência atravessa o Século XX. Na verdade, ele figura na transição do século XIX
para o século XX. A sociedade da época de Weber gestava um conhecimento que foi
sistematizado de forma brilhante por este autor. Especialista em história, direitos e
economia. Não falava de si como sociólogo e isso faz dele um autor diferente tanto de
Comte quanto de Marx, isso porque ele não acreditava na força da sociedade sobre o
indivíduo. A sociedade por si só não determina as ações humanas, o caminho dele foi
outro. Contudo, como Durkheim ele era professor de sociologia, contribuindo para o
avanço desta disciplina.

Fonte: pt.slideshare.net

Ele captou de maneira grandiosa a emergência na prática política da nação


como princípio organizador da sociedade. Ele é um pensador que tem como eixo
fundamental de sua reflexão a Alemanha. O problema da Alemanha de Weber
acabava de se consolidar com uma nação.
Entre Weber e Durkheim há uma diferença, quase oposta. Durkheim é o
pensador social que está imbuído, no seu universo de estudo, da presença de um
Estado nacional e de uma sociedade constituída. Weber vivia numa nação
problemática, desafiadora. O grande desafio era pensar a inserção da Alemanha na
36
Europa. Na virada do século já unificada, a Alemanha tinha atravessado um processo
rápido de modernização e industrialização com marcar profundas no nível estrutural.
As turbulências políticas e econômicas da industrialização da Alemanha era a
preocupação de Weber.

Fonte: slideplayer.com.br

Se você leu atentamente o quadro acima encontrou diferença entre o autor


francês e Max Weber. Durkheim visava a totalidade, o fato social, enquanto Weber vai
se debruçar sobre as motivações humanas para o agir. É neste sentido que ele se
aproxima de uma perspectiva cultural.
Na época a Alemanha organizou o maior movimento operário do mundo, o
partido social democrata. Para weber a constante é a forma de organização da
sociedade e a consolidação política. Está preocupado com o tema da política: quais
são as dificuldades para o surgimento de sujeito histórico, grupos capazes de
organizar um projeto de sociedade, assim como era também de Marx. Este você
conhecerá posteriormente. Vale adiantar que enquanto Marx considerava as classes
sociais, a luta entre as classes, Weber visualizava que grupo será este. E a primeira
resposta de Weber é a constatação de que não existe na Alemanha nenhum grupo
que saberá dar um rumo à nação como Estado com projeção internacional.

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O que propõe então Max Weber? A reflexão de Weber não mostra preocupação
com grandes estruturas já montadas. A preocupação deste sociólogo está na ação
social. Ou seja, quem age e como age, o que move a ação dos sujeitos e para onde
estas ações conduzem na prática e como as ações promovem as mudanças no social.
Weber é o autor da burocracia e da razão instrumental. Na sociedade capitalista
a organização ocorre de maneira rotineira e repetitiva, mas administração não é a
questão política, esta é de outra ordem.
Portanto, o pensamento de Weber está entre o corpo administrativo que faz
funcionar a sociedade e a questão política que escapa à administração.

16 AÇÃO SOCIAL

Formular projetos e objetivos para a sociedade. Weber aposta na capacidade


política e neste sentido o seu pensamento é fundamentalmente político. A eficiência e
a direção, a orientação da conduta. Quem age? Estas são as questões teóricas de
Weber. Diante disso ele formula uma teoria da ação. Assim o conceito de ação social
é a unidade básica da sociologia weberiana.
Vejamos o conceito:

Fonte: slideplayer.com.br

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É assim que Weber pode ser chamado do teórico da ação e sua teoria, a teoria
da ação.

Teoria da ação
Ação social, a atividade orientada para um objetivo que dá sentido a ação. As
múltiplas linhas de ação são complexas e tecem o social. Cada ação busca uma meta,
ou metas que se cruzam, as ações se cruzam e podem ser ou não significativas uma
para outras.
Este autor, por exemplo, explicou como a ação do protestante levou (indícios
da salvação, está ou não salvo, o protestante se orienta pelo trabalho para a obra no
mundo capaz de mostrar resultados), ao surgimento do espírito do capitalismo. O
modo de comportamento na área religiosa influenciou a área econômica.
Para Weber não existe uma ação que determina a sociedade. O sentido a ação
religiosa concedeu importância à ação econômica. Não é uma relação direta, mas a
questão é o sentido que é dado pela ação. O que isso quer dizer? Você já ouviu falar
no livro clássico de Weber: A ética protestante e o espírito do capitalismo? Ele faz uma
interessante análise de como o comportamento de um destes influencia o outro.
Veja no esquema abaixo:

Fonte: slideplayer.com.br
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A ética protestante é diferente da ética católica. Por isso, na visão weberiana,
o capitalismo no Brasil é chamado por alguns sociólogos de Capitalismo tardio.
A ideia de rede, de ações sociais, e a busca de significados que as ações têm
para o agente, é isso que vai construindo a teia social. Observe novamente o esquema
acima e certifique-se de que entendeu. Se ainda não compreendeu chamo seus
colegas lá no fórum e levanta esta discussão.
Max Weber é o único dos três clássicos (Durkheim e Marx), que considera a
ação individual é um elemento de análise importante, e que responde a questão
fundamental para Weber: o que pode responder pela continuidade da sociedade. A
ação individual não é vista sozinha, isto seria caótico. Como você analisou, ela
aparece numa teia de relações que se cruzam.
Weber traz uma nova reflexão sobre ciência e a sociedade. Vimos que para
Durkheim e Comte a sociedade deve ser estudada de forma objetiva. Weber admite
que a neutralidade/objetividade total é impossível tendo em vista que o próprio
pesquisador está inserido na sociedade. No entanto, a ciência não pode se submeter
a interesses particulares e político. Existe fronteira entre a ciência e a política, rigorosa.
O papel do sociólogo é compreender a sociedade e suas múltiplas
possibilidades de entendimentos.
Para Weber não existe uma causa para um fenômeno social, existe uma
pluricausalidades e estas dadas pela ação social. As ideias condicionam o momento
histórico, e são essenciais para entender o pensamento de Weber.
Vamos fazer uma síntese do que foi visto até aqui. Lembrando que a intenção
aqui é que você entenda a base do pensamento dos clássicos, tendo em vista que o
pedagogo está habilitado para dar aulas de sociologia no ensino médio e estas noções
precisão ser bem compreendidas.

17 PARA ENTENDER UMA SÍNTESE

a) O conceito de ação social para Max Weber


O conceito de “ação social” foi concebido por Weber como qualquer ação
realizada por um sujeito em um meio social que possua um sentido determinado por
seu autor. O processo de comunicação estaria, portanto, intimamente ligado ao

40
conceito de ação social. A manifestação do sujeito que deseja uma resposta é feita
em função dessa resposta. Em outras palavras, uma ação social constitui-se como
ação que parte da intenção de seu autor em relação à resposta que deseja de seu
interlocutor.

b) Weber estipulou quatro tipos ideais de ações sociais:


1- A ação racional com relação a fins,
2- A ação racional com relação a valores,
3- A ação afetiva,
4- A ação tradicional.

Percebe-se, portanto, que Weber se afastou dos determinismos sócio históricos


de Karl Marx (A história da produção econômica determina a realidade social), e do
fatalismo da noção de um sistema externo e independente do indivíduo que Emile
Durkheim propôs, elaborando, assim, a noção de um ser humano livre para agir,
pensar e construir sua realidade.
Para Weber, as estruturas sociais estavam em contato direto com o poder de
ação dos indivíduos, o que significa que os sujeitos, seus valores e ideias possuem
força de ação direta sobre essas estruturas. A tarefa da Sociologia seria então,
segundo o teórico, apreender os significados que norteiam essas ações. Interessante,
não acha? Esta perspectiva é muito utilizada nas pesquisas atualmente tanto no
campo social, como econômico e político. O que move a ação individual?
Weber demonstrou esse princípio em seus estudos comparativos sobre as
distinções entre religiões Ocidentais e Orientais. Em seu livro, “A ética protestante e o
espírito do capitalismo”, conforme já foi mencionado acima, o autor buscou esclarecer
como a lógica cristã foi responsável pelo desenvolvimento do sistema de produção
capitalista. Nisso estaria inserido o contexto cultural e valorativo das sociedades
cristãs, e não apenas seu modelo ou situação econômica.

41
Veja abaixo uma sugestão de livro.

Este é um livro fundamental para entender a metodologia de Weber

Fonte: slideplayer.com.br

Outro conceito importante de Weber: Os tipos ideais


Outro ponto importante da teoria weberiana é a busca pela construção dos tipos
ideais no processo de construção do conhecimento teórico. O estabelecimento de
tipos ideais não busca construir tipologias fixas nem mesmo busca classificar de
maneira inflexível o objeto em questão. Eles servem como parâmetro de observação,
um “boneco” com características delineadas que serve apenas como ponto de
comparação entre o observado e sua obra teórica. Trata-se de modelos conceituais
que nem sempre, ou quase nunca, existem. Apenas alguns aspectos ou atributos são
observáveis.

42
Fonte: slideplayer.com.br

Esta construção do tipo ideal faz parte da metodologia de Weber. Observa que
neste modelo está inserido também o sentido da ação de cada pessoa.

18 RACIONALIZAÇÃO DO MUNDO SOCIAL

Max Weber faz referência a um fenômeno de grande importância do mundo


moderno e que está relacionado com as mudanças estruturais, culturais e sociais que
as sociedades modernas passaram no decorrer do tempo: “a racionalização do mundo
social”. Um dos conceitos essenciais de Weber é o de racionalização. E isso você já
sabe.
Esse fenômeno refere-se a mudanças profundas, como a gradual
construção do capitalismo e a monstruosa explosão do crescimento dos meios
urbanos, que se tornaram as bases da reordenação das organizações tradicionais que
predominavam até então. Pode-se dizer que o processo de consolidação do
capitalismo é sim um processo de racionalização da vida e da sociedade.
Ampliando nossa explicação, devemos dizer que a preocupação de Weber
estava em tentar apreender os processos pelos quais o pensamento racional, ou a
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racionalidade, impactou as instituições modernas, como o Estado, os governos e,
ainda, o âmbito cultural, social e individual do sujeito moderno. Em sua denominação
das diversas formas de racionalidade, Weber fez distinção de quatro principais formas:
a racionalidade formal, a racionalidade substantiva, a racionalidade meio finalística e
a racionalidade quanto aos valores. A obra de Max Weber é incrivelmente diversa e
amplamente utilizada em esforços de compreensão dos fenômenos sociais
contemporâneos. Como já foi dito, a sociologia weberiana influenciou e ainda
influencia grandes teóricos, que enxergam na visão de Weber uma ferramenta para
desvendar os mistérios das relações humanas.

18.1 Karl Marx: a sociologia da luta de classes

Talvez o mais popular entre os clássicos sejam o alemão Karl Marx e isto se
deve ao fato de terem as suas ideias não só influenciados gerações, mas, sobretudo,
fundou as bases para as lutas dos movimentos sociais, especialmente o movimento
operário, além de fundamentar as grandes revoluções socialistas do século XX, como
a revolução soviética e cubana.

Fonte: www.portalconscienciapolitica.com.br

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No quadro acima é importante que você reconheça a diferença entre o sistema
capitalista e o socialista. Assim, você poderá entender as propostas de Marx e também
todos os movimentos sociais, partido políticos, enfim, todo o movimento que surgir em
torno desta teoria marxista.
Na investigação da relação de Marx com a sociologia, não há como subestimar
a importância do movimento crítico. E esta palavra é chave para você compreender a
influência de Marx, sobretudo na educação. Ele é, digamos o pai do pensamento
crítico.
Este é de fato o autor que inaugurou o pensamento crítico e o que você verá
nesta disciplina é que grandes sociólogos da educação pautaram suas reflexões neste
pensamento.

19 CRÍTICA DE MARX AO CAPITALISMO

Marx é sem dúvida o que influenciou uma geração de estudiosos da educação,


especialmente a maior referência em educação no Brasil, o filósofo Paulo Freire. As
reflexões que se seguem foram extraídas do artigo do professor Ricardo Musse, do
Departamento de Sociologia da USP.
Ao longo de toda sua obra, o exame das diversas teorias sociais prevalecentes
desemboca, com base no exercício de uma crítica ao mesmo tempo imanente e
transcendente, na delimitação de um território próprio denominado pela posteridade
de “materialismo histórico”, “sociologia marxista” ou mesmo “sociologia ou teoria
crítica”.
Durante o inverno de 1845-1846, refugiados em Bruxelas, Marx e Engels
redigiram A Ideologia Alemã. O texto, no entanto, por uma série de motivos, não foi
editado e permaneceu assim durante o período em que eles viveram. Numa breve
apresentação de sua trajetória intelectual, no Prefácio ao livro Para a Crítica da
Economia Política (1859), Marx comenta o manuscrito, destacando que:
Tratava-se de acertar conta com nossa antiga consciência filosófica. O
propósito tomou corpo na forma de uma crítica da filosofia pós-hegeliana (…).
Abandonamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos, tanto mais a gosto quanto já
havíamos atingido o fim principal: a auto compreensão.

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As ideias apresentadas no artigo, e que se tornaram uma espécie de resumo
oficial da teoria marxista da história, retomam quase que literalmente o texto do
manuscrito de 1845-1846.
Marx é alemão, crítica que ele fez à racionalidade filosófica o fez declarar:

Os filósofos limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras, o que


importa é modifica-lo (Marx. 1848).

19.1 Continua a crítica de Marx ao capitalismo

A Ideologia Alemã tornou-se desde então um texto essencial do corpus


marxista. Nela delineia-se pela primeira vez de forma nítida o que pode ser
considerado o programa do materialismo histórico, gestado por meio de uma crítica
incisiva dirigida simultaneamente à filosofia, à teoria política, à historiografia, à
economia política, à teoria social etc. Você deve considerar então, que Marx é o
sociólogo da crítica ao capitalismo. Para ele a política, economia, cultura, enfim, são
na verdade a superestrutura criada para sustentar o capitalismo, a classe burguesa.
Até o Estado para ele, é o braço direito da burguesia.

Neste ponto você já percebe que dos três, Marx é o mais radical, porque a
teoria dele implica numa ação política. Ele não acredita na objetividade nem na
neutralidade. Nada é neutro, somos determinados pela forma como atuamos nas
relações de trabalho, de produção.

19.2 A atividade humana: A prática

A auto compreensão à qual Marx se refere surgiu, em grande medida, de um


acerto de contas com filósofo chamado Ludwig Feuerbach, o mais destacado dos
filósofos pós-hegelianos. Nos 11 parágrafos das famosas “Teses sobre Feuerbach”,
escritas provavelmente em maio ou junho de 1845.

46
Portanto, alguns meses antes do início da redação de A Ideologia Alemã –,
Marx, que havia muito já não era idealista, ao contestar o caráter passivo, abstrato e
não histórico do materialismo (incluindo o de Feuerbach), destaca que a sensibilidade,
a história e a vida social resultam da atividade prática humana. Não se preocupe com
os conceitos filosóficos até aqui, o mais importante é que você retenha que Marx
criticava uma postura que considera o pensamento o início da reflexão social. Para
ele o pensamento nasce na prática, ou seja: Não somos o que pensamos, mas
pensamos do jeito que somos, que produzimos e nos inserimos enquanto uma classe
social.
Um ponto decisivo da divergência de Marx ante Feuerbach consiste na
determinação do conceito de “alienação”. Esta palavra se tornou popular hoje em dia,
embora o seu sentido muitas vezes tenha se perdido.

ATENÇÃO NO CONCEITO IMPORTANTE DE MARX


Viu? O homem no sistema capitalista se distanciou dos seus meios de produção
e ficou alienado do seu próprio trabalho. Aliás, não existe mais trabalho próprio,
porque agora se trabalha para um patrão.
Marx afirma: “a auto alienação religiosa, o desdobramento do mundo em um
mundo religioso e um mundo mundano (…) só pode se explicar pela auto dilaceração
e pela autocontradição desse fundamento mundano”. Desse modo, a questão da
alienação, e assim da própria situação do homem, é deslocada de “um reino autônomo
nas nuvens” ou da compreensão do indivíduo singular para a vida efetiva, que se
desenrola como um nexo de relações sociais. É dele a frase: a religião é o ópio do
povo. Ópio no sentido de uma droga que entorpece o ser e o impede de enxergar a
sua verdadeira posição.

20 O QUE IMPORTAVA PARA MARX ENTÃO?

Era a tarefa de delinear uma nova concepção, materialista, da história e da


sociedade. Teoria essa que, não custa repetir, nasceu da convivência com e da crítica
à filosofia pós-hegeliana (pode entender aqui pós-idealista), mas que, de certo modo,
pode ser estendida a grande parte da tradição cultural e intelectual burguesa. Não

47
mais no mundo das ideias, mas no mundo das condições concretas, materiais, no
mundo do trabalho e de suas relações que onde ocorre o processo de produção e
reprodução humana.
A estratégia de Marx e Engels para submeter à crítica os jovens hegelianos,
evitando o risco de recair no jogo especular de uma crítica da “filosofia crítica”, passa
pela remodelação do conceito de “ideologia” – concebido como um descompasso
entre o que os indivíduos, grupos e sociedades imaginam ser e o que efetivamente
são. Você sabe o que é ideologia?

20.1 Ideologia, o que é?

Já dizia Cazuza: “Ideologia, eu quero uma para viver! ”


O esforço crítico vincula-se assim ao desenvolvimento de uma teoria apta a
compreender os indivíduos efetivos em suas ações concretas, o que aponta para a
necessidade de conhecer suas condições materiais de vida e as relações sociais aí
engendradas.
Esse programa, ao qual Marx se ateve ao longo de sua trajetória, foi levado
adiante submetendo à crítica – imanente e transcendente – aquelas que são
comumente apresentadas como as três fontes do pensamento marxista:

1- A teoria social alemã, tal como configurada no idealismo alemão e no


movimento dos jovens hegelianos;
2- A teoria social inglesa, consubstanciada na economia política;
3- E as vertentes da sociologia francesa iniciadas por Saint-Simon, com
seus desdobramentos no socialismo utópico de Fourier e Proudhon.

Ideologia para Marx significa de acordo com o sociólogo Michael Lowy:


O levantamento das principais determinações da sociedade capitalista tornou-
se imprescindível durante a redação do Manifesto do Partido Comunista (1848). Para
compreender o momento histórico, Marx expõe a história da gênese e do
desenvolvimento do mercado mundial, assim como dos conflitos sociais e das
oposições de classe que moldam esse cenário, delineando os principais pontos da

48
sociologia marxista, numa exposição concisa das coordenadas econômicas, sociais,
políticas e culturais do mundo moderno.
Marx atravessou o sem tempo e fez uma crítica denuncia a um sistema que
para ele levaria o ser humano à uma destruição. A saída? A Revolução, ou seja, a
construção de uma nova sociedade sob as bases de outra estrutura. A socialista.

O manifesto comunista de Marx


Se tiver curiosidade de conhecer mais um pouco sobre o que Marx escreveu
no manifesto Comunista, busque, leia resenhas, ou melhor, leia o texto na íntegra.
Não é um texto difícil, talvez seja um dos mais fáceis de apreender o sentido.
Veja o que diz o texto abaixo:

O Manifesto Comunista e a teoria de Marx


O Manifesto pode ser lido então como uma demonstração da contradição entre
o movimento do desenvolvimento das forças produtivas e a estática inerente às
relações de produção, que reproduzem a cada momento as formas desiguais de
apropriação da riqueza e de dominação social. Ou seja, em outras palavras, a relação
ente capital e trabalho.
Marx apresenta o Manifesto como uma auto exposição do comunismo.
Conjugado a essa tentativa de exposição teórica das premissas de um movimento
político que mal entrara em cena e já invocava para si o papel de protagonista, Marx
compôs um diagnóstico da modernidade que esquematiza, em linhas gerais, tópicos
que só serão desenvolvidos detalhadamente em obras posteriores, particularmente
no conjunto de textos projetados pelo próprio Marx como uma “crítica da economia
política” e cuja formulação mais acabada consiste em O Capital.
Este livro influenciou os partidos de esquerda que se espalharam pela Europa
e em todo o mundo, sobretudo no pós-guerra. Na América Latina, inclusive, no Brasil,
influenciou as lutas pelo fim de ditadura militar e a criação dos partidos.

49
21 A LUTA DE CLASSES

Fonte: www.cartamaior.com.br

Diante de tudo o que você leu até agora já deve estar compreendendo o que é
a luta de classes e que classes são estas. A burguesia e o proletariado, ou seja, o
dono dos meios de produção e o dono da força de trabalho.
Marx tomou como pressuposto no Manifesto apenas um esquema mínimo, a
tese de que “a história de todas as sociedades até o presente é a história das lutas de
classes”. Observe que em toda a história esta foi a conclusão a que chegou Marx.
Trata-se, portanto, de trazer para o centro do relato da história humana o conflito, a
“luta ininterrupta, ora dissimulada, ora aberta”, entre oprimidos e opressores.
Em uma comunidade primitiva ou indígena não existe Estado, nem trabalho
assalariado e, acima de tudo não existe propriedade privada, que é o núcleo da crítica
de Marx ao capitalismo.
Apesar do tom panfletário, inerente a seus objetivos práticos, políticos e
pedagógicos (afinal foi lendo o Manifesto que as lideranças criaram os partidos), o
Manifesto mantém a postura crítica em relação à filosofia da história de A Ideologia
Alemã, como você viu acima. Em lugar de estabelecer uma teleologia para o
desenvolvimento geral da espécie humana, Marx, fez uma análise em conjunto do
destino da humanidade e do moderno, apenas aponta duas tendências, extraídas da
observação do passado histórico, procurando evitar recair na ideia de uma

50
necessidade inerente ao espírito ou em alguma forma de determinismo: “uma
reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou uma derrocada comum das
classes em luta”.

Propriedade privada dos meios de produção capitalista

Chamo a sua atenção aqui para a palavra chave do conceito no quadro acima:
PROPRIEDADE PRIVADA. Esta é a razão de todo o processo. No momento em que
se instaura a propriedade privada está se instalando o conflito entre as classes. É por
isso que a proposta socialista e, o comunismo, tem na sua base a eliminação da
propriedade privada, os bens não seriam individuais e sim coletivos.
Querido aluno, querida aluna, observe bem que Marx associa o
desenvolvimento histórico-social da burguesia, em especial sua constituição como
força política, a uma série de acontecimentos que marcaram a gênese e os
desdobramentos do mundo moderno. Desse modo, essa classe é apresentada como
o produto de um longo processo, de uma série de revoluções nos meios de produção,
transportes e comunicação, por meio do qual ela se desenvolve, economicamente,
multiplicando seus capitais e, politicamente, empurrando para segundo plano as
demais classes opressoras.
Marx adverte assim que, ainda que as demais classes opressoras não sejam
suprimidas, doravante quem dá as cartas nos rumos do desenvolvimento histórico e
na luta política é a burguesia.
No Manifesto, o mundo burguês é compreendido como uma unidade
contraditória entre fatores dinâmicos e invariância estática. O paradoxo de uma
sociedade que não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de
produção e, com eles, o conjunto das relações sociais é próprio do mundo moderno.
Enquanto os antigos modos de produção assentavam-se, à maneira de uma tradição,
na manutenção e conservação de relações fixas e cristalizadas, a sociedade burguesa
se reproduz, mantendo-se idêntica somente ao preço de uma contínua transformação
que, acarretando a obsolescência e uma incessante destruição de toda a estrutura de
produção existente em determinado momento, subverte inclusive o cenário histórico
e político.

51
22 A CRÍTICA AO CAPITALISMO NA ARTE

Para descontrair um pouco leia a música que Cazuza compôs e perceba


também a crítica à sociedade burguesa. Analise a letra a partir do que você estudou
até agora.

Fonte: www.youtube.com

Burguesia
(Cazuza)

A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia

A burguesia não tem charme nem é discreta


Com suas perucas de cabelos de boneca
A burguesia quer ser sócia do Country
A burguesia quer ir a New York fazer compras

Pobre de mim que vim do seio da burguesia


Sou rico, mas não sou mesquinho
Eu também cheiro mal
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Eu também cheiro mal

A burguesia tá acabando com a Barra


Afunda barcos cheios de crianças
E dormem tranquilos
E dormem tranquilos

Os guardanapos estão sempre limpos


As empregadas, uniformizadas
São caboclos querendo ser ingleses
São caboclos querendo ser ingleses

A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia

A burguesia não repara na dor


Da vendedora de chicletes
A burguesia só olha pra si
A burguesia só olha pra si
A burguesia é à direita, é a guerra

A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia

As pessoas vão ver que estão sendo roubadas


Vai haver uma revolução
Ao contrário da de 64
O Brasil é medroso
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia

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Vamos pra rua
Vamos pra rua
Vamos pra rua
Vamos pra rua
Pra rua, pra rua

Vamos acabar com a burguesia


Vamos dinamitar a burguesia
Vamos pôr a burguesia na cadeia
Numa fazenda de trabalhos forçados
Eu sou burguês, mas eu sou artista
Estou do lado do povo, do povo

A burguesia fede - fede, fede, fede


A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia

Porcos num chiqueiro


São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês
Que vive do seu trabalho honestamente
Mas este quer construir um país
E não abandoná-lo com uma pasta de dólares
O bom burguês é como o operário
É o médico que cobra menos pra quem não tem
E se interessa por seu povo
Em seres humanos vivendo como bichos
Tentando te enforcar na janela do carro
No sinal, no sinal
No sinal, no sinal

A burguesia fede

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A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia

23 A INFLUÊNCIA DA TEORIA MARXISTA

Marx é de fato o mais popular dos sociólogos exatamente por influenciar


gerações e continuar influenciando. Você mesmo já deve ter usado os seus conceitos
como alienação, ideologia, revolução. Embora seja o mais conhecido, as teorias de
Max Weber e Emile Durkheim são teoria ainda vivas, o que justifica a posição que
ocupam como clássicos dos estudos da sociedade. São cientistas sociais referências
não apenas nas ciências sociais, em vários campos das ciências humanas.

Fonte: eumarxista.blogspot.com.br

Os clássicos olhavam para o mesmo contexto, e, no entanto, possuem


perspectivas teóricas diferentes para compreender a realidade social. E você, com
qual deles se identifica?
No manifesto comunista, Marx mostra a dinâmica da característica da
modernidade, e apresenta sob a forma de um feixe de expansões que ocorrem
simultaneamente, em direções e sobre domínios diferenciados. A descrição do papel
“eminentemente revolucionário” desempenhado pela burguesia na história moderna
pode ser concebida como uma história dos movimentos do agente histórico dessa
expansão, o que explica, entre outras coisas, a forte carga irônica dessas passagens,
muitas vezes interpretadas erroneamente como uma apologia da burguesia.

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Vamos lá: Está se falando que a Revolução Francesa é uma revolução
burguesa e, de fato, foi uma grande transformação, na medida em que acabou com
aquela sociedade dos senhores feudal, dos vassalos e suseranos e instaurou-se a
sociedade capitalista, de trabalho assalariado.

Fonte: www.portalconscienciapolitica.com.br

Marx descreve os movimentos segundo os quais o capitalismo extravasa o


campo das relações puramente econômicas, espraiando-se para outras esferas da
vida social. Esse processo caracteriza-se por uma inaudita mercantilização e
reificação de todo o domínio social, atingindo inclusive o âmago da subjetividade. O
que significa dizer que tudo no capitalismo se transforma em mercadoria. Até o próprio
ser humano. Não vê o tráfico de pessoas ou de órgãos?
Contudo, ao mesmo tempo em que ressalta o domínio do mercado e da
coisificação, reificação sobre o conjunto da vida social, Marx percebe outro movimento
de expansão caracterizado pela colonização, ou melhor, pela penetração capitalista
sobre áreas e regiões econômicas ainda não capitalistas – o que abrange desde áreas
do mundo rural, situadas próximas do centro do capitalismo, até os territórios pré-
capitalistas, situados nos confins do planeta. O que ele vai denominar de acumulação
primitiva do capital.

56
Fonte: slideplayer.com.br

A queda do muro de Berlin significou uma queda do socialismo e a expansão


do capitalismo em que a globalização é a maior referência, ou seja, o capitalismo se
expandido para todos os cantos da sociedade ocidental.

24 MARX E A EXPANSÃO DO CAPITALISMO

Essa expansão, hoje denominada globalização, vincula-se de forma mais


estreita, no Manifesto, com a fase do mercado mundial. Por “mercado mundial”, Marx
designa tanto uma forma de concentração industrial como o domínio exclusivo do
poder pela burguesia.
Essas duas “expansões” são assinaladas, ao mesmo tempo, como expedientes
a que a burguesia recorre para tentar superar as crises do capitalismo. Marx indaga:
“Por quais meios a burguesia supera as crises? Por um lado, pelo extermínio forçado
de grande parte das forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos
mercados e da exploração mais metódica dos antigos mercados”.

57
A frase “exploração metódica dos antigos mercados”, outra vertente da
expansão capitalista, fala da reformulação dos meios e das formas de produção, o que
abrange desde a tecnologia empregada na produção até as formas de manejo da mão
de obra no interior do processo produtivo. Esse processo, no entanto, não pode ser
levado adiante sem a derrubada de obstáculos (jurídicos, culturais etc.) e sem uma
intensificação da padronização específica da economia capitalista sobre as demais
esferas do mundo social.

O que dizer do proletariado na teoria marxista?


Todo aquele ou aquela que vende a sua força de trabalho, que não é dono/a
dos meios de produção. A exposição do proletariado, no decorrer do Manifesto,
embora possa ser remetida ao quadro histórico-econômico próprio do mundo moderno,
não privilegia as mediações econômicas, mas antes a história de sua formação
política. De modo geral, Marx salienta que, na mesma medida em que a burguesia, ou
melhor, o capital se desdobra, também o proletariado se desenvolve. A proposta de
Marx é a tomada do poder político pelo proletariado.

Fonte: pt.slideshare.net

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No livro O Manifesto Comunista, Marx determina, de modo genérico, o
proletariado como aqueles que “só subsistem enquanto encontram trabalho e só
encontram trabalho enquanto seu trabalho aumenta o capital”. Esse modo de
compreender a inserção social do proletariado destaca a submissão do mundo do
trabalho à lógica econômica do mercado: os “operários, que têm de vender- se um a
um, são mercadorias como qualquer outro artigo de comércio e, por isso, igualmente
expostos às vicissitudes da concorrência e às oscilações do mercado”. “A clássica
frase: ‘trabalhadores de todos os países, une-vos” retrata a proposta de Marx de
libertação. A liberdade só é possível coma revolução e a tomada do poder pelo
proletariado.
A dinâmica da expansão, própria do capitalismo, afeta o proletariado no âmago
da sua inserção (e integração) social, como força de trabalho, consolidando-se como
um dos principais obstáculos à sua organização e formação política. Esse processo
foi destacado por Marx como uma forma de reificação típica da situação do trabalho
no capitalismo. E você já sabe o que significa a palavra reificação.
Primeiro, o trabalhador perde sua autonomia, pela via da expansão da máquina
e pela ampliação da divisão de trabalho no interior do processo de produção,
tornando-se quase um mero acessório da máquina. Mas, sobretudo, ele encontra-se
submetido, no interior da fábrica, ao “despotismo” do capital:
“Eles não apenas são servos da classe burguesa, do Estado burguês;
diariamente e a cada hora eles são escravizados pela máquina, pelo supervisor e,
sobretudo, por cada um dos fabricantes burgueses” (Manifesto, 1848)

25 O ESTADO NA TEORIA MARXISTA

Observe que Marx tem uma visão do Estado atrelado aos interesses da
burguesia. O Estado como diz Althusser, um teórico marxista é um aparelho
ideológico. O que significa dizer que longe de atender aos interesses de todos o
Estado existe para manter e proteger a propriedade privada dos meios de produção.
Isto não é difícil de entender. O que você deve fazer é ler estes conceitos não
como uma atitude de alguém que está recebendo um conhecimento, mas numa

59
atitude de reflexão. O objetivo aqui é que você desenvolva a sua autonomia para
pensar junto com Marx, concordando ou não com ele.

Fonte: capitalismoemdesencanto.wordpress.com

Como o proletário adquire a consciência de classe?


A formação política do proletariado é, portanto, uma alternativa de superação,
seja da alienação própria ao mundo do trabalho, seja dos resultados da incessante
concorrência entre os trabalhadores gerada pela recorrente reprodução da mão de
obra. Nesse sentido, um dos pressupostos práticos do Manifesto, a tarefa de contribuir
para a organização do proletariado em um partido político, não pode ser visto como
um objetivo descolado da necessidade de superar esses obstáculos.
É neste sentido que você irá compreender os muitos movimentos a favor da
escola e sua transformação, e como já dito anteriormente, o próprio Paulo Freire
adepto desta corrente de transformação. Em educação como prática de autonomia é
possível visualizar estas ideias. Paulo Freire é considerado um dos, se não, o maior
educador brasileiro.
Pode-se considerar que a aposta de Marx, recorrente ao longo do Manifesto,
atribui ao proletariado a possibilidade de desempenhar na história papel equivalente
ao exercido pela burguesia. Vale dizer que, para Marx, a classe operária tem a

60
possibilidade de posicionar-se como agente determinante do destino histórico do
mundo moderno.

“Trabalhadores de todos os países, une-vos! “

Assim criou-se partidos comunistas e movimentos revolucionários em várias


partes do mundo.
Por que é importante você se situar em relação ao papel revolucionário da
classe trabalhadora? Exatamente porque será esta classe que irá para as escolas
públicas e, neste sentido, é a partir dela que se desenvolverá os estudos sociológicos
em educação. Para tornar este conteúdo um pouco mais prático, faça você mesmo
um retrocesso na sua história de vida e avalie em que medida a sua identidade foi se
constituindo a partir das condições materiais de existência da sua família.
O que diz Karl Marx é que o povo está alienado, ou seja, não conhece e nem
reconhece tais processos históricos. Neste ponto entre a escola como instituição
capaz de praticar o exercício crítico e a conscientização do aluno enquanto um ser
histórico.
No entanto, como você também verá, a escola pode também e quase sempre
o faz, reproduzir a situação de classes. Ou seja, a escola pode manter tudo como está
atuando em uma educação desprovida do pensamento crítico o que levaria, de acordo
com Marx, a um processo de reificação cada vez maior.
Esse engajamento da classe operária em um projeto de transformação social
não é apresentado como um resultado automático e necessário decorrente das
condições econômicas e sociais da sociedade burguesa. Marx adverte que os
incessantes esforços para organizar o proletariado em um movimento político são, a
cada instante, contrariados pela concorrência entre os próprios operários, bem como
pela reificação, condições inerentes a sua situação no capitalismo.
O que se vê é que com o processo de globalização acelerado pelo impulso da
internet e, sobretudo, pela nova forma de produção e as características do capital hoje,
o trabalhador não é mais aquele da fábrica do século XVIII e XIX. Não há o predomínio
do coletivo de trabalhadores em um só lugar, o que existe é uma pluralidade de formas
de trabalho nem sempre assalariado.

61
Assim a nova dinâmica social coloca em cheque as ideais de Marx, no sentido
de que estas conduzirão inevitavelmente à ditadura do proletariado. A generalização
da forma-mercadoria dificulta não só a afirmação do proletariado como sujeito
histórico, mas a própria reflexão acerca dos problemas inscritos no cerne da
sociedade capitalista, uma vez que a reificação, originariamente atuante no mundo do
trabalho, estende-se para todos os setores da sociedade.
Se você ainda não entendeu o que significa o termo reificação, olha com
atenção a citação abaixo.

26 REIFICAÇÃO, O QUE É?

Fonte: slideplayer.com.br

Conhecimento de Marx aplicados à Educação


Vamos concluir o pensamento de Marx com uma parte da entrevista do
sociólogo Michael Lowy já citado nas aulas anteriores, num trecho em que ele fala da
relação do marxismo com a educação.
Antes disso é preciso justificar porque um espaço maior aqui para a teoria
marxista? O processo de luta pela democracia no Brasil e a luta pela escola pública,
universal e gratuita ocorreu, em grande parte, sob as bases da teoria crítica de Marx.
62
E os principais teóricos da educação tem como referência esta teoria, a exemplo, já
citado, de Paulo Freire.

ASSISTA: Revista Histedbr On Line – Como as propostas marxistas podem


contribuir para o desenvolvimento de um projeto educacional no Brasil?

Fonte: jornalggn.com.br

Michael Lowy é um estudioso e especialista da teoria marxista


Michael Lowy – Do ponto de vista marxista, a educação é uma das prioridades
de qualquer política social. Um primeiro passo seria, como em Cuba ou na Nicarágua,
uma grande campanha de alfabetização, mobilizando a juventude escolar para ir a
todos os recantos do país, utilizado a pedagogia ativa de Paulo Freire.
Recursos enormes que hoje são desperdiçados com compra de armamentos
inúteis – porta aviões! – Ou na subvenção a banqueiros e usineiros, deveriam ser
dedicados ao orçamento da educação, em todos os níveis, desde o primário ao
universitário; é fundamental ampliar a rede de ensino público gratuito, e marginalizar
as empresas privadas, enorme sistema parasitário que se desenvolveu explorando as
falhas da educação pública.
É preciso garantir o acesso ao ensino secundário e universitário ao conjunto
dos jovens brasileiros. Isto permitirá não só criar centenas de milhares de postos de
trabalho, mas contribuirá para elevar o nível cultural da população, aprimorar a
qualificação profissional dos trabalhadores, ampliar substancialmente o público leitor
e reduzir a criminalidade juvenil. Enfim, seria importante associar os professores e os
alunos, assim como seus sindicatos e associações a uma reforma estrutural da
educação, buscando superar a herança do elitismo, do autoritarismo e da exclusão
social e/ou racial, e introduzindo métodos pedagógicos libertários.
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Viu? A proposta de educação está vinculada a uma proposta política de
transformação social, então neste sentido, não existe uma escola neutra. O que
significa dizer que a escola deve optar de que lado está. Ao lado da burguesia ou do
lado do trabalhador. Sigamos em frente!

27 A TEORIA DE DURKHEIM NA EDUCAÇÃO

Émile Durkheim, nasceu em 1858, França, próximo à fronteira com a


Alemanha. Era filho de judeus e optou por não seguir o caminho do rabinato, como
era costume na sua família. Mais tarde declarou-se agnóstico. Depois de formar-se,
lecionou pedagogia e ciências sociais na Faculdade de Letras de Bordeaux, de 1887
a 1902. Durkheim foi o primeiro professor de sociologia da educação. A cátedra de
ciências sociais foi a primeira em uma universidade francesa e foi concedida
justamente àquele que criaria a Escola Sociológica Francesa.
Os alunos de Durkheim eram, sobretudo, professores do ensino primário.
Durkheim abordou a educação como um fato social. Você já sabe o que é fato social
e se não se lembra, sugiro que volte às aulas anteriores ou veja no seu caderno de
anotações.
Para ele a verdadeira natureza da educação era essa: o de considera-la um
fato social. "Estou convicto de que não há método mais apropriado para pôr em
evidência a verdadeira natureza da educação", declarou. Sua preocupação sempre
esteve ligada à questão da educação. Dentro da educação moral, psicologia da
criança ou história das doutrinas pedagógicas, não há campos que ele não tenha
explorado. Suas obras mais famosas são A Divisão do Trabalho Social e O Suicídio.
Morreu em 1917, supostamente pela tristeza de ter perdido o filho na Primeira Guerra
Mundial, no ano anterior.

OS ALUNOS: Indivíduo e o ser social  Concepção


Em cada aluno há dois seres inseparáveis, porém distintos. Um deles seria o
que Durkheim chamou de individual, formado pelo estado mental pessoal. A função
da educação então seria o desenvolvimento deste ser individual, posição que
predominou até o século XIX. Principalmente por meio da psicologia, entendida então

64
como a ciência do indivíduo, os professores tentavam construir nos estudantes os
valores e a moral. Lembra-se das aulas anteriores?
O reconhecimento de Durkheim veio com a caracterização do segundo ser:

Ele ampliou o foco conhecido até então, considerando e estimulando também


o que concebeu como o outro lado dos alunos, algo formado por um sistema
de ideias que exprimem, dentro das pessoas, a sociedade de que fazem parte
(SAVIANI, 2012)

A importância que Durkheim atribuía à educação reforça sua teoria: Segundo


ele, "a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta". E quanto
mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que
a escola esteja inserida.

Fonte: slideplayer.com.br

Na teoria funcionalista de Durkheim, as consciências individuais são formadas


pela sociedade. Ela é oposta ao idealismo de acordo com o qual a sociedade é
moldada pelo "espírito" ou pela consciência humana. Lembra que também Marx
combateu o idealismo? "A construção do ser social, feita em boa parte pela educação,
é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios - sejam morais,
religiosos, éticos ou de comportamento - que baliza a conduta do indivíduo num grupo.
O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela” (DURKHEIM,
1994).
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Essa teoria, além de caracterizar a educação como um bem social, a relacionou
pela primeira vez às normas sociais e à cultura local, diminuindo o valor que as
capacidades individuais têm na constituição de um desenvolvimento coletivo. Aqui
você vê claramente a perspectiva sociológica que é o entendimento do ser e das
ações coletivas. Embora com Weber você tenha vista o termo ação social, este é
utilizado para compreender as ações no seio da sociedade. E por falar em Weber
vamos ver um pouco com aplicar sua contribuição teórica é educação?

28 WEBER E A EDUCAÇÃO

Você já viu que os conceitos básicos de Weber são racionalidade e burocracia


e é neste viés que você deve entender a visão de Weber sobre a educação. Veja
abaixo:

Fonte: pt.slideshare.net

A educação é um caminho de acesso a formas cada vez mais racionais e


também uma forma de inserção social, de mudança de uma classe para outra.
Veja o exemplo: Mesmo sendo de uma origem rural, por exemplo, o acesso a
uma faculdade pode representar para alguém uma porta para outros níveis de
pensamento e, como isso, nova forma de agir e interagir socialmente.

66
Estas conclusões não são literais de Weber, o tema da educação nunca foi
exaustivamente desenvolvido pelo autor, como o foi em Durkheim. Todavia, no texto
conhecido como “A religião da China”, quando Weber trata do papel dos letrados ou
mandarins chineses naquela sociedade, encontramos uma explícita menção do
pensador a diferentes tipos ideais de educação. Pode-se apresentar os tipos ideais de
educação de Max Weber da seguinte forma:

Fonte: slideplayer.com.br

Educação Carismática: Conforme explica Webber:

“Isto significa que eles (os educadores), simplesmente desejavam despertar


e testar uma capacidade considerada como um dom de graça exclusivamente
pessoal, pois não se pode ensinar, nem preparar um carisma “ (COHN. 1997).

Entre os exemplos citados por Webber, estão os mágicos (ou feiticeiros) e o


heróis guerreiros.

67
Educação especializada: Aqui você pode observar o foco no treinamento do
aluno para finalidades específicas, formando os estratos sociais. Atividades úteis à
administração – na organização das autoridades públicas, escritórios, oficinas,
laboratórios industriais, exércitos disciplinados. Para Weber qualquer pessoa pode ser
treinada para qualquer função.

Educação humanística: retomando os termos weberianos temos que a


pedagogia do cultivo, finalmente procura educar um tipo de homem, cuja natureza
depende do ideal de cultura da respectiva camada decisiva. E isto significa educar um
homem para certo comportamento interior e exterior.

29 OS GRANDES SOCIÓLOGOS DO BRASIL

É muito comum nos cursos de graduação o estudo da sociologia voltado para


os grandes clássicos, o que de fato é importante. Contudo é necessário conhecer o
processo de produção da sociologia brasileira, considerando a relação entre
sociologia e os problemas sociais, você aluno/a poderá por meio deste
reconhecimento compreender o Brasil em suas especificidades sócio cultuais.
É por esta razão e, sobretudo, para contribuir com uma formação próxima da
realidade brasileira é que vamos concluir o módulo I, com uma série de abordagens e
reportagens sobre o papel que a sociologia brasileira exerceu no processo de
construção do pensamento cientifico.
É em 1930 na Era Vargas teve início no Brasil a construção da ideia de nação
e dos processos incipientes de industrialização. Foi também neste período que surge a
discussão sobre a educação universal, pública e gratuita.
A seguir veremos alguns destes nomes e suas principais contribuições para a
Sociologia local.

68
30 FLORESTAN FERNANDES

Florestan Fernandes foi importantíssimo para o desenvolvimento de estudo


sociológico em nosso país.

Fonte: www.sohistoria.com.br

Sempre se mostrou extremamente comprometido com estudos de


perspectivas teórico-metodológicas esforçando-se no âmbito da fundamentação
da Sociologia enquanto ciência. Foi também crucial sua atuação no
desenvolvimento e orientação de pesquisas do processo de industrialização e
mudanças sociais no Brasil.

O pai da sociologia brasileira

Fonte: nossapolitica.net
69
A obra deixada por Florestan é ampla e variada, abrigando estudos sobre temas
diversos. No entanto, seu constante esforço para entender a sociedade brasileira
como um todo – sua formação marcada por conflitos, seu desenvolvimento único e
suas perspectivas futuras – foi caracterizado por uma perspectiva única que
questionava não só a forma de ser da realidade social, como o pensamento
sociológico em si. É por esse motivo que Florestan é considerado o fundador da
Sociologia crítica brasileira.
Você pode compreender pela formação de Florestan Fernandes a sua filiação
à teoria marxista. Este diálogo com os clássicos e, principalmente com o pensamento
marxista, é um tema central nos escritos de Florestan, que procurou revisitar as
principais correntes do passado e do presente, buscando o que existia de mais crítico
em cada uma. A necessidade de interpretar uma sociedade como a brasileira –
complexa e marcada por grandes desigualdades levantava muitos questionamentos
a Sociologia como um todo (uma vez que a disciplina foi forjada principalmente em solo
europeu). Algumas das obras onde Florestan reflete sobre o próprio saber sociológico
são: Fundamentos empíricos da explicação sociológica, Ensaios de sociologia geral
aplicada e A natureza Sociológica.
Outra fonte importante de Florestan foi o legado deixado por pensadores
brasileiros que buscaram interpretar o país elevando a primeiro plano a luta de setores
populares nacionais. Para Florestan, era preciso compreender o país a partir da
perspectiva dos grupos e classes que formavam a maioria do povo. Por isso, durante
alguns anos, dedicou-se a estudar a centralidade da presença dos negros na
sociedade brasileira, sua trajetória de povo escravizado a trabalhador marginalizado.
Sobre as lutas que marcaram o Brasil – desde a resistência ao colonialismo a
conquista de direitos sociais – Florestan pública: A organização social dos
Tupinambás, A integração do negro na sociedade de classes, O negro no mundo dos
brancos e Mudanças sociais no Brasil.
Pelos temas de estudos você já é capaz de ver a filiação teórica.
A transformação social e as possibilidades revolucionárias de um dado tempo
são também um tema recorrente na Sociologia de Florestan. Sobre esse ponto em
específico, destacamos os livros: A sociologia numa era de revolução social, A
revolução burguesa no Brasil e Da guerrilha ao socialismo: a Revolução Cubana.

70
Florestan era um homem de ação, comprometido a compreender e colaborar
com os desafios colocados pela época e pelo local onde vivia: um país periférico
vivendo o pleno ápice de seu processo de urbanização. Para ele, o intelectual não
deveria se esconder por detrás da máscara da neutralidade científica, uma vez que
os movimentos e acontecimentos ao seu redor são grandes fontes que nutrem o
pensamento crítico.

31 DARCY RIBEIRO: O BRASIL COMO MISSÃO

Fonte: pt.slideshare.net

Darcy Ribeiro, antropólogo, escritor e político brasileiro, desenvolveu trabalhos


importantes na educação, inclusive na LDB9394/96.
Sua principal obra “O Povo Brasileiro” traz impressões de um importantíssimo
estudioso que observou durante muito tempo as características de nosso povo
pensando sua formação e sua organização social.
Darcy é muito conhecido também por seus trabalhos desenvolvidos a partir das
temáticas voltadas para os povos indígenas, com riquíssimas observações e relatos
antropológicos. Foi o relator da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada no
governo Fernando Henrique (1996).
71
32 GILBERTO FREYRE: AUTOR DE CASA GRANDE & SENZALA

Fonte: basilio.fundaj.gov.br

Gilberto Freyre é um dos mais reconhecidos nomes da Sociologia no Brasil.


Você certamente conhece a sua obra Casa Grande & Senzala. A influência de
Portugal, o mundo ibérico e a presença portuguesa nos trópicos frequentemente são
temas de seus escritos, demostrando o papel desse povo na formação de civilizações
modernas nos trópicos. Mais uma vez percebe-se o anseio da compreensão da
formação da sociedade e do povo brasileiro, principal questão que move os estudos
dos precursores da Sociologia em nosso país.
Lembre-se: Neste momento está se pensando no país como uma nação, na
construção de uma Nação.

 A sociologia de Gilberto Freyre - Freyre é um dos mais complexos e


contraditórios pensadores brasileiros. Tal constatação justifica a imensa
produção sociológica acerca de sua obra. A vitalidade de seu pensamento
parece estimular vários debates ao longo dos últimos 50 anos. É o autor
mais moderno do pensamento social, o que nos faz sugerir a hipótese de
que ao invés de perder atualidade, sua obra torna-se cada vez mais atual e
contemporânea.

A análise da vida cotidiana é a grande contribuição de Freire. Teria sido ele,


então, um dos primeiros a pensar em "patrimônio imaterial". Ele foi o precursor do

72
conceito de patrimônio imaterial, conceito este que se concretizou com enorme
sucesso.

Fonte: slideplayer.com.br

De outra forma: Não é possível de ser tocado, como a dança, a música, a


religião. Entendeu? Outra contribuição da obra de Freyre foi a tentativa de
desmistificar a noção de determinação racial na formação de um povo, apontando a
miscigenação conferida no país como elemento positivo. Em "Casa-Grande", o papel
de índios e negros na formação do povo brasileiro é valorizado de forma praticamente
inédita.

73
33 SERGIO BUARQUE DE HOLANDA

Fonte: periferiadainformacao.wordpress.com

Fonte: slideplayer.com.br

Com Sergio Buarque de Holanda veremos a influência da sociologia de Max


Weber. No seu estudo sobre o homem cordial, ele mostrou as motivações das ações

74
social e, sobretudo criou um tipo ideal para entender a característica do brasileiro. Mas
o que quer dizer homem cordial? Veremos a seguir.

34 HOMEM CORDIAL: A IDENTIDADE BRASILEIRA NA VISÃO DE SÉRGIO


BUARQUE.

Fonte: pt.slideshare.net

Significa dizer que o brasileiro age mais pelas emoções do que pela razão. A
forma de solucionar os problemas é ligada a vínculos familiares ou de amizade. Um de
seus principais trabalhos, intitulado “Raízes do Brasil” aborda aspectos centrais da
formação da cultura brasileira e do processo de formação da sociedade, que como
vimos, é a preocupação mais recorrente dos grandes sociólogos do Brasil. Nesta obra,
mais uma vez aparece em lugar de destaque, a importância do legado português no
Brasil e a dinâmica de transferências culturais que se dava entre metrópole e colônia.

75
35 CAIO PRADO JUNIOR

Fonte: sociologiacienciaevida.com.br

Observe um pouco da biografia deste intelectual e responda: qual é a sua


influência teórica?
Estudou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (1924-1928),
formando-se bacharel em ciências jurídicas e sociais aos 21 anos. Na Faculdade de
Direito iniciou sua preparação crítica no ensaio político e, logo depois de formado
exerceu a advocacia por alguns anos. Durante sua formação universitária e prática
advocatícia, vivenciou toda a efervescência política, social e cultural no Brasil, durante
as décadas de 20 e 30. Iniciou suas atividades políticas ingressando no Partido
Democrático (1928). Participou ativamente da Revolução (1930) e filiou-se ao Partido
Comunista Brasileiro. Fez uma viagem de estudos à União Soviética (1933) e publicou
um livro de viagens, URSS, um novo mundo (1934).
Assumiu a vice-presidência da Aliança Nacional Libertadora, motivo por que foi
preso (1935) por dois anos. Exilou-se na Europa (1937-1939) e de volta ao Brasil
(1940), lançou sua obra mais importante: Formação do Brasil Contemporâneo (1942)
um clássico da historiografia brasileira, discorrendo sobre a formação histórica do
Brasil.

76
Fonte: slideplayer.com.br

Fonte: produto.mercadolivre.com.br

Com certeza você acertou. Ele foi um estudioso da realidade brasileira e se


dedicou a esta temática tão cara à Sociologia Brasileira, publicando a clássica obra
“Formação do Brasil Contemporâneo” que deveria ser parte de uma coletânea
77
dedicada a pensar justamente a evolução histórica brasileira desde o período colonial,
tendo mais uma vez como tema central a formação da sociedade e do povo brasileiro
desde a chegada dos portugueses.

36 FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Fonte: dougnahistoria.blogspot.com.br

Este é sem dúvida o mais conhecido sociólogo brasileiro. Este é conhecido, foi
o presidente da República do Brasil. É o mais reconhecido sociólogo brasileiro.
Entre suas obras mais divulgadas estão diversos títulos que tratam de política
e governo, no entanto seu trabalho de cunho sociológico dava-se inicialmente na área
voltada para a teoria do desenvolvimento econômico e das relações internacionais.
Foi também um dos ideólogos da corrente desenvolvimentista. Além disso, atualmente
é bastante conhecido por sua atuação em movimentos a favor da descriminalização
das drogas.

No que consiste a teoria do desenvolvimento de Fernando Henrique


Cardoso?
A Teoria da Dependência surgiu no quadro histórico latino-americano do início
dos anos 1960, como uma tentativa de explicar o desenvolvimento socioeconômico
78
na região, em especial a partir de sua fase de industrialização, iniciada entre as
décadas de 1930 e 1940.
Em termos de corrente teórica, a Teoria da Dependência se propunha a tentar
entender a reprodução do sistema capitalista de produção na periferia, enquanto um
sistema que criava e ampliava diferenciações em termos políticos, econômicos e
sociais entre países e regiões, de forma que a economia de alguns países era
condicionada pelo desenvolvimento e expansão de outras.

Fonte: pt.slideshare.net

Aqui é importante você compreender que embora os estudos sociológicos


tenham surgidos entre os anos 1920 e 1930, sem dúvida, foi na década de 1960 que
ganham maior fôlego. O Brasil está no momento de investir em grandes projetos
industriais e a teoria da dependência busca apreender este momento histórico.
Parabéns por ter concluído este módulo I. Se você fez as leituras com atenção
certamente agora está capacitado a reconhecer os principais pontos da origem da
sociologia como ciência e as ideias centrais dos clássicos desta disciplina.

79
Esta capacitação básica tem por objetivo contribuir para a sua formação de
pedagogo/a tendo em vista que a legislação o habilita para dar aulas de sociologia no
ensino médio. Sendo assim é muito importante que saiba as bases conceituais desta
ciência social.

37 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO

Fonte: www.educamundo.com.br

Nas aulas anteriores você conheceu os pontos centrais das teorias sociológicas
dos clássicos Durkheim, Weber e Marx. Que tal pensá-los na relação com a escola?
Não esqueça de registrar no seu caderno de sociologia da educação o
resultado de sua leitura. Não deixe passar nenhum conteúdo sem a sua compreensão.
A qualquer momento pare, reflita, faço conexões, busque exemplo e, peça ajuda. O
ensino à distância oferece um espaço importante de liberdade e autonomia para o
estudo que, se não for bem aproveitado poderá trazer prejuízo para a sua formação.
Então, encorajo você a criar metas e fazer um plano de estudo.
Nestas aulas você irá ter contato com trabalho bastante significativo de autores
que se dedicam à sociologia da educação:

80
 Professora Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis, professora Livre
Docente do Departamento de Educação do Instituto de Biociências da
UNESP- Botucatu. Trata-se do artigo A Contribuição da Sociologia da
Educação para a Compreensão da Educação Escolar;
 Pierre Bourdieu e a reprodução. Este importante sociólogo apresenta dois
conceitos importantíssimos para entender a escola como reprodutora da
sociedade. Os conceitos são: violência simbólica e capital cultural. Fique
atento/a que você deverá, no final do módulo, compreender e aplicar bem
estes conceitos;
 A pedagogia de Paulo Freire. Este é o autor clássico da educação brasileira.
As reflexões freirianas da relação entre escola e sociedade trarão grande
contribuição para a sua formação acadêmica.

Primeiramente o artigo da professora Marília Freitas de Campos Tozoni- Reis


A Contribuição da Sociologia da Educação para a Compreensão da Educação
Escolar.
Você já possui conhecimentos suficientes para fazer um diálogo com a autora
na medida em que vai identificando e reconhecendo as perspectivas durkheimianas,
weberianas e marxistas presente no artigo.

Fonte: www.scielo.br
81
A imagem acima tem o objetivo de inspirar a sua leitura e motivar o seu estudo
sempre direcionando a sua atenção na sua formação e, como já podemos concluir, uma
formação que é essencialmente política, tendo em vista os interesses diversos que
são colocados em jogo na complexidade do espaço, tanto da sala de aula quanto da
sociedade global em que estamos todos envolvidos. Portanto, antes de seguir em
frente, observe e registre no seu caderno as reflexões contidas na imagem.
Não se preocupe se encontrar dificuldades no caminho, siga em frente.
Leia com atenção as aulas a partir de agora. Estamos na reta final e o seu
empenho fará uma grande diferença não só aqui, mas em toda a sua vida acadêmica.

Fonte: albertovillas.com.br

A origem da escola está no contexto do desenvolvimento da sociedade


moderna, precisamente na sociedade capitalista. Não é difícil entender que no cenário
brasileiro, a partir dos anos 20 e 30 do século XX, a escola surgirá ladeada de
problemas sociais, sobretudo das desigualdades sociais. Qual é o papel da escola
nesta sociedade emergente, moderna e capitalista? Este papel é permanente ou sofre
mudanças com o tempo e as condições históricas?
Pensar na relação entre educação, escola e sociedade é o primeiro exercício
para se entender a contribuição da sociologia da educação. Antes de conhecer a
82
citação convido você a pensar na sua própria definição de educação e depois verificar
em que medida ela se aproxima ou se distancia do conceito de Demerval Saviani.
O que é educação para você? Este é o princípio básica que irá definir a sua
experiência, ou seja, a sua definição de educação irá ser a base para a sua prática.
Por isso importante escolher como quais autores você quer caminhar. A partir das suas
leitura e conhecimento com quais você mais se identifica. Tenha isso como meta ao
caminhar na sua formação.

38 CONCEITO DE EDUCAÇÃO

Fonte: slideplayer.com.br

Observou a relação entre o indivíduo e a sociedade? Pois bem, esta é a relação


mais importante da sociologia. Temos na citação acima que o processo educativo é
um processo de formação humana, isto é, um processo em que todos seres humanos
- que nascem inacabados do ponto de vista de suas características humanas - são
produzidos, construídos, como humanos. É um processo – histórico e social – de
tornar humanos os seres humanos. Neste sentido, não nascemos humanos, este é
um processo que se consolida nas práticas das relações sociais nos variados campos,
seja político, social, econômico, cultural, etc.

83
Para compreender melhor esta definição de educação como um processo
histórico e social de formação humana, tomemos como referencial os escritos de Marx
(1993) no mais importante de seus textos sobre a concepção de homem: “ Manuscritos
Econômicos e Filosóficos”.

Neste livro, Marx desenvolveu uma concepção de homem como ser natural,
universal, social e consciente. Isto é, embora ao nascer, ele conte com uma base
biológica, natural, para se objetivar como gênero humano – para vir a ser humano –
os homens, todos os homens, necessitam de um processo de humanização, que seja
direto e intencional, um processo social e consciente.
A finalidade imediata da educação (muitas vezes não cumprida) é a de tornar
possível um maior grau de consciência, ou seja, de conhecimento, compreensão da
realidade da qual nós, seres humanos, somos parte e na qual atuamos teórica e
praticamente.
Então, se a espécie humana necessita de um processo de humanização,
histórico e social de formação humana – de educação –, a educação tem como
objetivo realizar esta tarefa. Isso implica em um processo de conscientização que
significa conhecer e interpretar a realidade social e atuar sobre ela, construindo-a.
O primeiro processo de socialização, primária, ocorre na família. É neste
ambiente que a criança desde o seu nascimento aprende por meio da interação com
o meio e com a intervenção de um mediador adulto, as primeiras lições de vida. A
noção do certo e do errado, a se comportar, a reconhecer as pessoas, os valores da
família.
No segundo processo, o secundário, que ocorre principalmente na escola, a
criança começa a ter conhecimento do mundo que a envolve e a produção coletiva
que forma a estrutura social do seu ambiente.

84
Fonte: pt.slideshare.net

Neste processo de humanização, nós, seres humanos, produzimos cultura, e a


cultura se expressa por meio de símbolos. Assim, podemos dizer que o ser humano é
um produtor de símbolos. Em outras palavras, significamos a nossa existência.
Assim, o processo educativo constrói, ao mesmo tempo, o ser humano como
humano e a realidade na qual ele se objetiva como tal. Constrói, também, a
humanidade do ponto de vista histórico e social. Se os seres humanos não trazem ao
nascer os instrumentos necessários para compreender as leis da natureza e da cultura
(das sociedades), e não podem contar com a possibilidade de que isso aconteça
“naturalmente”, o processo de formação do ser humano tem que ser intencionalmente
dirigido, pelos próprios seres humanos que se relacionam socialmente. Ocorre que,
na história social da humanidade, diferentes e diversas instituições sociais se
responsabilizaram por esse processo de formação humana, pelo processo educativo.

39 CAMPO DA SOCIOLOGIA.

Nas sociedades primitivas, por exemplo, vemos a importância dos ritos de


iniciação realizados por diferentes coletivos no processo educativo dos sujeitos mais

85
jovens como expressão da organização do processo de formação humana para a
convivência naquelas sociedades que tinham, como tal, características próprias.
Muitos estudos no campo da sociologia – e da antropologia – mostram
diferentes formas sociais de apropriação dos elementos da cultura nessas sociedades
primitivas. Mas, o que temos em comum nesses estudos é o fato de que, mais ou
menos sistematicamente, há um processo educativo expresso na vida social dessas
sociedades.
Nesse sentido, também merece destaque o processo de preparação para o
trabalho a que eram submetidos os jovens aprendizes de ofícios nas sociedades pré-
industriais. A família como principal instituição social responsável pelo processo de
formação humana para convivência naquelas sociedades, em especial, como
instituição responsável pela formação para o trabalho: além da família de origem,
muitos jovens aprendizes eram encaminhados a outras famílias para a aprendizagem
dos ofícios.

Fonte: melhorcomsaude.com

Com esta referência, podemos buscar a tese de que a escola, tal como a
conhecemos hoje, é uma instituição social nova, moderna. E como instituição é a
principal responsável pela formação dos jovens para sua integração ao mundo social
adulto na modernidade.

86
Fonte: soparamaes.wordpress.com

Se, em períodos históricos anteriores, a família foi a principal responsável pelo


processo de formação dos sujeitos para a integração na sociedade, a modernidade –
com suas profundas transformações – buscou uma nova instituição que se
responsabilizasse pela formação humana para este novo modo de organização da
vida social: a escola.
Lembremos que as profundas modificações nas formas de organização das
sociedades, no final da Idade Média, culminaram com as revoluções do século XVIII,
caracterizadas pela ascensão da classe social denominada burguesia e a implantação
na Europa de um novo modo de produção – base da organização social – o
capitalismo.

Fonte: blogdaebi.blogspot.com.br

87
Foi a partir da segunda metade do século XVIII, com a Revolução Industrial, que
o capitalismo se consolidou. Do ponto de vista econômico, tem início um processo
intenso e contínuo de exploração do trabalho em grandes proporções, geração de
lucro e acumulação de capital. Aqui você pode se lembrar também da reflexão do filme
Tempos Modernos, de Chaplin, visto no Módulo I.
Do ponto de vista político e social, a aristocracia perde o poder político para a
burguesia urbano-industrial, surgindo ainda uma outra classe: os trabalhadores (ou
operários). Isso tudo implicou em profundas modificações nas práticas sociais, em
especial, no modo de produção.
Foi a preparação para essas novas relações sociais que modificou também a
organização do processo de formação humana, elegendo a escola como principal
instituição preparatória para a vida social.
Se, desde a antiguidade, temos algumas manifestações de um processo
educativo um pouco mais sistematizado, o qual nos acostumamos a chamar de
escola, somente na modernidade, a escola assume o papel de uma instituição
educativa significativa na sociedade para a organização do processo educativo
socialmente representativo.
Portanto, a escola é uma instituição da sociedade moderna, assim como a sua
correlata: a infância, tal como a entendemos hoje.
De acordo com o “sentimento da infância”, que “corresponde à consciência da
particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança
do adulto, mesmo jovem” (1981, p. 156). Na idade média, a infância se limitava ao
período inicial da vida no qual a criança dependia do constante cuidado do adulto,
mãe ou ama.

88
40 DESCOBERTA DA INFÂNCIA

Fonte: pt.slideshare.net

A criança ingressava no mundo dos adultos não se distinguindo mais destes. A


dilatação do período da infância foi correlata de uma transição da escola que durou
do século XV ao século XVIII.
A escola foi um meio de isolar cada vez mais as crianças durante um período
de formação tanto moral quanto intelectual, de adestrá-las, graças a uma disciplina
mais autoritária, e, desse modo, separa-la da sociedade dos adultos.
Segundo este autor, na idade média, a escola era destinada a um pequeno
número de clérigos de diferentes idades.

89
Fonte: slideplayer.com.br

A abertura da escola aos demais manteve a mistura de diferentes idades e a


exclusão das mulheres. Mais tarde, criou-se a separação dos estudantes por classes
(o que constituiu a primeira subdivisão no interior da população escolar), mas o critério
para formação das classes foi o grau de capacidade, não a idade. A criação das
classes por idade ocorreu somente no século XVIII.
Observe como vai se construindo o processo de seleção dos estudantes.
A regularização do ciclo anual das promoções, o hábito de impor a todos os
alunos a série completa de classes, em lugar de limitá-la a alguns apenas e as
necessidades de uma pedagogia nova adaptada a classes menos numerosas e mais
homogêneas, resultaram, no início do século XIX, na fixação de uma correspondência
cada vez mais numerosa entre a idade e a classe.

90
Fonte: pt.slideshare.net

Até o século XVIII, a distinção entre população escolarizada e não escolarizada


não correspondia às condições sociais, embora o núcleo principal da escola fosse
constituído de indivíduos oriundos das famílias burguesas de juristas e ligados ao
clero.
No século XIX, a escola única foi substituída por um sistema de ensino duplo,
em que cada ramo correspondia não a uma idade, mas a uma condição social: o Liceu
e o Colégio para os burgueses (o secundário) e a escola para o povo (o primário).
Existe, portanto, um notável sincronismo entre a classe de idade moderna e a
classe social: ambas nasceram ao mesmo tempo, no fim do século XVIII, e no mesmo
meio: a burguesia.
Se do ponto de vista sócio histórico a escola é uma instituição moderna, e aqui
você já compreende o que significa o moderno, então, qual a função da escola no
processo de formação humana nas sociedades atuais?
Nas aulas de história da educação você viu que o surgimento da escola tal qual
a conhecemos hoje coincide com o advento da sociedade capitalista em que a
necessidade de ler e escrever atendia às necessidades emergente do universo
comercial.

91
41 A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA

Fonte: slideplayer.com.br

A professora Tozoni-Reis (2010) pergunta em seu artigo: Se a educação é uma


exigência humana – individual e coletiva – e a escola foi, historicamente, a instituição
social “escolhida” pela humanidade para cumprir esta tarefa, como podemos
considerar a função específica da escola atualmente?
Lembremos que os estudos sobre o papel da escola, na sociedade moderna,
apontam para o fato de que não existe uma função única, consensual, universal da
escola. Se você recordar da sua vida escolar desde o início certamente irá reconhecer
que a função da escola mudou. Se vivemos, na modernidade, em uma sociedade
contraditória – uma sociedade de classes com interesses antagônicos e contraditórios
– cada grupo social compreende este papel segundo seu próprio conjunto de valores
e interesses sociais, culturais e políticos.

92
Fonte: www.inclusive.org.br

A função da escola é vista de forma global, universal e também tem um caráter


individual de acordo com os interesses daqueles que dela participa. Isso significa dizer
que a escola não é uma instituição social neutra, uma instituição educativa a serviço
de todos, igualmente. A forma como se realiza o processo de formação humana na
sociedade moderna, portanto, a educação no interior da instituição social chamada
escola, diz respeito aos valores, ideologias e intenções dos diferentes grupos sociais
que disputam seu lugar na hierarquia social.
Assim, os estudos da sociologia da educação apontam para a ideia de que a
educação escolarizada nestas sociedades tem, em geral, algumas funções. Vejamos
com atenção algumas destas funções.

93
ESCOLA ESCOLA ESCOLA
REDENTORA REPRODUTORA TRANSFORMADORA

Objetivo “Reproduzir” a Mediar a busca de


“redentor” de salvar a sociedade na sua forma entendimento da vida e
sociedade da situação de Organização, e da sociedade,
em que se encontra assim reproduzir contribuindo assim para
(LUCKESI, 1990). também as transformá-la (LUCKESI,
desigualdades 1990).

(LUCKESI, 1990).

Observe bem como estas funções acima citadas são vistas por Demerval
Saviani. Para este autor a escola vive o antagonismo destas três funções.

Fonte: pt.slideshare.net

O estudo empreendido por Saviani (2008) sobre as bases teóricas da


educação, apresentado no conhecido Escola e Democracia com todas as polêmicas

94
que ainda gera, analisa a impossibilidade teórica e prática das propostas educativas
denominadas por ele como “teorias não-críticas da educação”.

42 REFLETINDO SOBRE AS CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO

Fonte: www.egov.ufsc.br

Observe bem como Saviani conceitua as três funções da escola. Tozoni- Reis
(2010) utiliza-se da categoria desigualdade social para analisar a função social da
escola, especialmente para compreender as relações entre educação e sociedade.
Assim a autora pergunta: Diante desta característica definidora da sociedade
capitalista moderna, como sustentar a tese das teorias não críticas de que a educação
escolarizada é um instrumento de equalização social?
Teorias não críticas são aquelas que não consideram a escola na relação com
a sociedade e seus conflitos.
Em outras palavras, como conceber a escola como um instrumento de justiça
social analisada por teorias que não fazem a crítica às relações conflituosas que
existem na sociedade. Percebe?
Neste sentido, “a sociedade é concebida como essencialmente harmoniosa,
tendendo a integração de seus membros” (SAVIANI, 2008).

95
Lembra da teoria de Durkheim, em que a sociedade tende para a harmonia?
Assim, de característica definidora da sociedade capitalista moderna, a desigualdade
social – e, consequentemente, a marginalidade – é concebida como uma distorção
que, pela educação, pode ser superada. Numa perspectiva durkheimiana a
desigualdade social seria uma anomia social.
Assim pensada a escola mostra o caráter “redentor” nas relações entre a
educação e a sociedade: A marginalidade é, pois, um fenômeno acidental que afeta
individualmente um número maior ou menor de seus membros, o que, no entanto,
constitui um desvio, uma distorção que não só pode como deve ser corrigida.

Fonte: pt.slideshare.net

A educação emerge aí como um instrumento de correção dessas distorções.


Tozoni-Reis analisa esse papel de “redentora” da sociedade, de instrumento de
equalização, de correção das distorções que, eventualmente, encontramos na
sociedade moderna. Nesse sentido, a educação escolarizada tem o papel social de
garantir a construção de sociedades igualitárias, de corrigir essas distorções eventuais.

96
Perguntas:
A educação e, particularmente, a escola, como instituição social, define, por si,
a superação da desigualdade social?
A desigualdade social não é uma das mais importantes características –
definidora, fundante – da sociedade capitalista moderna? Nesta questão você
consegue perceber a perspectiva marxista?

Fonte: tempossafados.blogspot.com.br

Tozoni-Reis não conclui que essa tarefa – de superação das desigualdades é


impossível para a escola pela sua magnitude, mas compreende que a instituição
escolar é uma instituição que emerge desta sociedade, que está a serviço dos
interesses contraditórios que definem a constituição da sociedade capitalista moderna
como sociedade desigual.
Por outro lado, a educação, em particular a escolarizada, como instituição
social principal responsável pela formação dos sujeitos sociais na modernidade tem
assumido, segundo as análises sociológicas dedicadas ao seu estudo, a função de
reproduzir a desigualdade social que caracteriza essa sociedade.

97
43 REPRODUÇÃO NA ESCOLA

Reprodução: Isso significa dizer que a educação, como instituição social


organicamente ligada a esta sociedade, contribui, no que diz respeito à formação dos
sujeitos sociais, para reproduzir a contradição de classes inerente à sociedade
capitalista moderna.

Fonte: praticassocioeducativas.blogspot.com.br

A maior contribuição dos sociólogos da educação foi denunciar o papel


legitimador da desigualdade social que assume a escola em nossa sociedade.
Você já deve ter percebido a perspectiva crítica e já deve ter identificada qual
é a corrente teórica que a autora utiliza para compreender a escola na sua relação
com a sociedade.
Ou seja, é necessário compreender que a escola não tem apenas o papel de
formação dos sujeitos sociais, uma formação descomprometida com as formas
organizativas da sociedade, mas um papel comprometido com a dinâmica social
dominante.

98
Fonte: pt.slideshare.net

Dessa forma, a escola, em sua tarefa de formar os sujeitos sociais, não é


neutra, mas exerce um papel político nesta formação, no sentido de seu
comprometimento – do ponto de vista da reprodução ideológica – na formação dos
sujeitos.
Como dito acima a principal referência nestes estudos é Bourdieu: Contrariando
a ideia da escola enquanto espaço social democrático e emancipador, a Sociologia
bourdieusiana buscava mostrar que essa instituição legitimava as práticas sociais das
classes dominantes.
Vamos conhecer um pouco este eminente sociólogo que dedicou boa parte do
seu trabalho para entender a relação da escola com a sociedade.

Pierre Bourdieu
Destacado sociólogo francês do século XX. Nascido na cidade de Denguin,
França, no dia primeiro de agosto de 1930, era proveniente de uma família campesina.
Sua publicação entre as décadas de 1960 e 1980 o caracteriza como importante
sociólogo do século XX. A repercussão de suas reflexões o leva a lecionar em
importantes universidades do mundo.
Bourdieu faz uma análise das desigualdades escolares e sua relação com a
estrutura das desigualdades sociais, revela o que ele chama de violência simbólica,
ao mostrar como as desigualdades e dificuldades dos alunos podem ser

99
compreendidas a partir da observação da estrutura social em que vivem e, o que é o
mais importante, como a escola contribui para a reprodução destas desigualdades.
No texto, A Escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura,
o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1966), desenvolve um de seus principais
conceitos teóricos, o capital cultural; através do qual explica o atraso “educacional”
das classes populares. Bourdieu (1966) faz uma crítica vigorosa à função
desempenhada pelas instituições escolares francesas. Salvo às especificidades da
realidade escolar da França, da pesquisa sociológica científica e da época em que
Bourdieu escreve, acredito que, a partir de seu texto, podemos ainda pensar algumas
questões à política e à educação contemporânea no Brasil.

Fonte: pt.slideshare.net

É provavelmente por um efeito de inércia cultural que continuamos tomando o


sistema escolar como um fator de mobilidade social, segundo a ideologia da ‘escola
libertadora’, quando, ao contrário, tudo tende a mostrar que ele é um dos fatores mais
eficazes de conservação social, pois fornece a aparência de legitimidade as
desigualdades sociais, e sanciona a herança cultural e o dom social tratado como dom
natural.

100
44 ESCOLA: DESIGUALDADE LEGÍTIMA?

Fonte: acertodecontas.blog.br

Você pode perceber aqui que o autor chama a atenção para o fato de que a
escola legitima a desigualdade social, na medida em que não questiona as relações
de conflito que estão no seu interior.
Por que a escola não é um fator de mobilidade social? Bom, para o autor, existe
uma série de aspectos culturais que precisam ser levados em conta para explicar a
mobilidade social (aquilo que pode fazer com que uma pessoa saia de uma classe
social inferior para uma superior). Dentre os aspectos das relações sociais que levam
ao êxito escolar e à ascensão social, são perceptíveis algumas formas grosseiras:
a) Recomendações, quer dizer, o famoso “Quem Indica”.
b) Ajuda no trabalho escolar ou ensino suplementar. Pais, familiares e
outros que auxiliam os alunos nas tarefas escolares; e as atividades fora do âmbito
da escola, como cursos de idiomas ou de disciplinas específicas como português e
matemática (famoso Kumon) e de pré-vestibulares, no atual caso brasileiro.
(c) Informação sobre o sistema de ensino e perspectivas profissionais.
Este ponto se refere ao conhecimento detalhado de profissões e de particularidades
de estudos conforme as exigências de uma prova classificatória, como no vestibular ou
ENEM.

101
Porém, nenhuma dessas três formas consegue dar conta da sofisticação
cultural relacionada à classe social do aluno, que podemos enumerar em dois tipos:
1- Transmissão do capital cultural da família
2- Ethos (como proceder) no agir ao capital cultural e à instituição social.
Essas duas heranças culturais que diferem entre as classes sociais são
responsáveis pela diferença inicial das crianças diante da experiência
escolar e pelas suas taxas de êxito. Tento explicar minimamente a seguir
os valores culturais sofisticados captados por Bourdieu, que estão implícitos
na relação familiar – os modos de aprender e de agir, e as expectativas de
futuro.

Fonte: feliperochasociologia.blogspot.com.br

45 A TRANSMISSÃO DO CAPITAL CULTURAL

As pesquisas do sociólogo Paul Clere mostram que a parcela de bons alunos


em uma amostra de 5ª série cresce em função da renda de suas famílias. Entretanto
percebe-se que aqueles alunos cujos pais possuem formação superior têm maior
sucesso escolar. Você está entendendo a postura de Bourdieu? Ou seja, mesmo

102
utilizando-se de alguns pressupostos marxistas, este autor dá uma ênfase especial ao
aspecto cultural. Ainda assim os alunos de famílias que possuem diplomas iguais,
muitos pouco diferem entre si, mesmo que a renda de uma ou de outra família seja
superior. Isto demonstra que dentro das heranças dois fatores são determinantes para
o êxito escolar: a renda e o “conhecimento” dos familiares.

Fonte: pt.slideshare.net

Mas, acima de tudo, o conhecimento dos membros da família. Este está à frente
da renda. O que significa que o sucesso da criança na escola está diretamente ligado
à cultura. Esta tem um valor maior do que o financeiro, embora geralmente os dois
apareçam atrelados.

103
46 RENDA E CULTURA: ATRIBUTOS FAMILIAR

Fonte: www.marcocontabilidade.com.br

Podemos dizer então que o capital cultural possui uma relação direta com os
atributos familiares (cultura e renda), logo, com a rede sociocultural da qual a criança
participa. A herança cultural deve levar em conta não somente o nível cultural do pai
ou da mãe, mas também o dos demais componentes da família, especialmente, o dos
avós.
As localidades regionais onde se residiu para os estudos na adolescência e na
juventude também precisam ser colocadas nesse cálculo. Pois em determinados
lugares existe uma maior disponibilidade de bens simbólicos, como museus, teatros,
parques culturais, cinemas, instituições escolares de melhor qualidade, centros de
cultura e etc. soma-se a estes dois aspectos o conjunto das características do passado
escolar, como o tipo de curso secundário e o tipo de estabelecimento – se municipal,
estadual, federal ou privado. Você está entendendo? Se não, volte à leitura e faça
reflexão, ou pare um pouco de depois retorne.
Para a pesquisa sociológica sobre as causas do êxito escolar, é necessário
consequentemente, um modelo que leve em conta essas diferentes variáveis – e
também as características demográficas do grupo familiar, como o tamanho da família
– que permita fazer um cálculo muito preciso das esperanças de vida escolar.
É perceptível que Bourdieu atribui um valor muito maior a família do que a
escola. Ele conta que os filhos das classes populares com maior propensão a

104
ingressar na faculdade têm famílias diferentes da média de sua categoria, seja por
seu nível cultural global ou por seu tamanho.

Fonte: wol.jw.org

Contudo os níveis de instrução da família são apenas indicadores e não


mostram quais conteúdos são transmitidos às crianças. Nisso as pesquisas
demonstram que o capital cultural mais rentável para o sucesso escolar é constituído
pelas informações e conhecimentos relacionados ao mundo universitário, à facilidade
verbal e à cultura livre adquirida nas experiências extraescolares.
Quer dizer que a transmissão cultural eficaz é a que não está separada da
vida comum do aluno e que não se trata de uma tarefa específica que ele fará
metodicamente, mas um eixo de relações culturais que participa de sua vida de
maneira integral sem parecer forçosa. Neste sentido, os alunos de família rica e culta
interagem numa cultura de gostos, de linguagens e de fazeres propícios ao que é
cobrado nas instituições formais. Por conta de haver essas relações desde “berço”
acredita-se, enganosamente, que as qualidades destas crianças, transmitidas quase
por osmose, são dons naturais. Olha que interessante!
Ao contrário desta crença, Bourdieu (p. 46) escreve que:

“O êxito com os estudos literários está estreitamente ligado à aptidão para o


manejo da língua escolar, que só é uma língua materna para as crianças
oriundas das classes cultas”, enquanto as crianças das classes populares
precisam se desdobrar para fugir do linguajar próprio ao seu cotidiano.

Faz sentido para você, estas reflexões?

105
47 A ESCOLHA DO DESTINO E A QUESTÃO DO ETHOS FAMILIAR

Geralmente a atitude de pais e de crianças em relação à escola está


relacionada às suas posições sociais. Esse caso é particularmente importante no
âmbito do ensino francês estudado por Bourdieu. Os alunos após terminarem o nível
básico precisavam mudar para outra escola. Entre as opções, as melhores “públicas”
eram concorridas através de exames, de indicações e de regularidades de notas boas
no ensino básico.
O pai do aluno esperava que ele atingisse um bom desempenho nas séries
iniciais, sobretudo, baseado num certo índice medido conforme os incentivos dos
professores, para que ele continuasse os estudos e/ou concorresse a uma vaga nas
melhores escolas.
As pesquisas de Bourdieu mostram que “a escolha da escola e das maneiras
do ensino (técnico ou teórico) tem a ver com as lembranças das experiências direta e
imediata pela estatística intuitiva das derrotas ou dos êxitos parciais das crianças de
seu meio”. A desesperança, não raras vezes, toma as classes populares e então
dizem: “Isso não é para nós”. O que significa: “Não temos meios para isso”.

Fonte: ambientalistamarcioluiz.blogspot.com.br

106
As condições econômicas e culturais das classes médias também são
diferentes das classes superiores, haja vista que a cada dois alunos das classes
superiores que acessam a faculdade, somente um aluno das classes médias
consegue.
Pare um pouco agora e reflita sobre o seu capital cultural, este que você herdou
da sua família. Que tipo de bagagem você trouxe para a escola? Em que medida o seu
capital cultural ajudou ou dificultou a sua assimilação da cultura da escola?

Diferentemente das crianças das classes populares, que são duplamente


prejudicadas no que respeita à faculdade de assimilar cultura e a propensão
para adquiri-la, as crianças das classes médias devem à sua família não só
os encorajamentos ao esforço escolar, mas também um ethos de ascensão
social e de aspiração ao êxito na escola e pela escola, que lhe permite
compensar a privação cultural com a aspiração fervorosa à aquisição de
cultura” (BOURDIEU, 2007, p. 48).

O capital cultural e o ethos combinam-se na concorrência para definir as


condutas escolares que excluirão os alunos das classes populares. A questão da
desesperança e do ethos aparece de modo paradoxal para as crianças pobres, pois
se espera que compensem suas carências de capital cultural através de um
desempenho melhor que aqueles que possuem melhores condições econômicas e
culturais.

Fonte: slideplayer.com.br

107
Desta maneira, aponta Bourdieu (p. 50): “o princípio geral que conduz à
superseleção das crianças das classes populares e médias estabelece-se assim: as
crianças dessas classes sócias que, por falta de capital cultural, têm menos
oportunidades que outras de demonstrar um êxito excepcional, devem, contudo,
demonstrar um êxito excepcional para chegar ao ensino secundário”.

48 COMO A ESCOLA CUMPRE A FUNÇÃO DE CONSERVAR AS


DESIGUALDADES SOCIAIS?

Agora que você compreendeu o que significa capital cultural converse com os
seus colegas no fórum ‘do aluno’ e amplie ainda mais o se conhecimento de forma
interativa. Este é um ótimo exercício.
E, agora? Como o capital cultural interfere no processo de aprendizagem?

Fonte: slideplayer.com.br

As práticas e os métodos de ensino na escola são homogêneos, ou seja, o


mesmo para todos os alunos, não se importando com a diversidade cultural entre eles,

108
não atentam para as especificidades como as carências de cada pessoa associada a
uma dada classe social.
A escola trata todos “os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato,
como iguais em direitos e deveres, assim, o sistema escolar é levado a dar sua sanção
às desigualdades iniciais diante da cultura”. Pode-se afirmar que a escola nega o
princípio de isonomia da justiça liberal (inclusive), pois não trata particularmente cada
um de maneira adequada às suas necessidades.

Fonte: educaja.com.br

Ou seja, há um tratamento igual (baseado no modelo da cultura formal das


classes superiores) que reproduz as desigualdades já existentes tanto nas condições
simbólicas (como a linguagem) quanto nas condições materiais (econômicas).
Veja nas palavras do próprio Bourdieu:

“Ao atribuir aos indivíduos esperanças de vida escolar estritamente


dimensionadas pela sua posição na hierarquia social, e operando uma
seleção que – sob as aparências da equidade formal – sanciona e consagra
as desigualdades reais, a escola contribui para perpetuar uma sanção que se
pretende neutra, e que é altamente reconhecida como tal, nas aptidões
socialmente condicionadas que trata como desigualdades de ‘dons’ ou de
mérito, ela transforma as desigualdades de fato em desigualdades de direito,
as diferenças econômicas e sociais em ‘distinção de qualidade’, e legitima a
transmissão da herança cultural.” (BOURDIEU)

109
[...] “ Além de permitir a elite se justificar de ser o que é, a ‘ideologia do dom’,
chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os
membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes
assinala, levando-os a perceber como inaptidões naturais o que não é senão
efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem o seu
destino social à sua natureza individual e à sua falta de dons. O sucesso
excepcional de alguns indivíduos que escapam ao destino coletivo dá uma
aparência de legitimidade à seleção escolar, e dá crédito ao mito da escola
libertadora junto àqueles próprios indivíduos que ela eliminou, fazendo crer
que o sucesso é uma simples questão de trabalho e de dons” (BOURDIEU,
2007, p. 58-59)

Segundo a lição de Bourdieu, não é possível haver igualdade diante das


desigualdades pré-existentes.
Como cobrar as mesmas coisas para pessoas com condições materiais e
simbólicas totalmente diferentes? As estatísticas dos vestibulares da UFU mostram
que em dez anos nenhum aluno da rede pública conseguiu ingressar no curso de
medicina (o mais concorrido desta instituição).

PENSE UM POUCO: POR QUE SERÁ?


Seria porque nasceram burros? Porque estudaram pouco? Ou porque não
estudaram nas mesmas instituições e cursinhos que os alunos aprovados? Ou porque
não tiveram tempo ($) suficiente para aprenderem inglês no CCA e matemática no
Kumon? Talvez seja porque seus professores da rede pública precisaram pegar 32
aulas por semana em 18 salas diferentes, com cerca de 40 alunos em cada (360
alunos ao todo), fazendo com que seu tempo fosse bastante pequeno para que
pudessem preparar melhor as aulas.
Aulas as quais a direção da escola e o governo não deram apoio nenhum além
do livro didático de História escrito por um bacharel em Direito. Ou então talvez porque
os alunos tiveram que trabalhar de atendente de telemarketing para ajudar nas
despesas de casa. Vai saber!

110
49 VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

Fonte: www.agendartecultura.com.br

Nas próximas aulas você continuará a ter contato com o conceito de capital
cultural, entretanto, aliado a outro não menos importante conceito de Bourdieu:
violência simbólica.

Desigualdades sociais incorporadas na escola: a violência simbólica


Importante iniciar aqui com a compreensão do termo violência simbólica. O
adjetivo simbólico adverte que esta violência não é física nem aparente e, de certa
forma, é invisível, na medida em que para compreendê-la será necessário desvendar
alguns pontos presentes na prática pedagógicas.
Examine as suas experiências tanto pessoais quanto o contato com outras
pessoas, colega, vizinhos, família e identifique que tipos de violência simbólica é
possível lembrar.
Será que a violência existente na escola tem alguma relação com a violência
simbólica nesta mesma escola?
Como visto anteriormente, a escola tende a reproduzir a cultura dominante de
forma homogenia sem considerar a diversidade de saberes que a compõe e, neste
sentido, exclui alunos que não conseguem incorporar a estrutura dos valores
dominantes, considerados legítimos. Contudo, a transmissão de conhecimento não
forma pessoas críticas e com autonomia para pensar a partir de categorias que lhes
são próximas, construindo sentidos para a aprendizagem. A reprodução das estruturas
111
econômicas e sociais na escola e, consequentemente a exclusão dos alunos menos
favorecidos promove a violência simbólica, na medida em que as dificuldades dos
alunos são vistas como naturais e inerentes às suas capacidades individuais, quando
na prática devem ser compreendidas analisando a exclusão que a própria sociedade
impõe.

Fonte: nepfhe-educacaoeviolencia.blogspot.com.br

50 BOURDIEU E A EDUCAÇÃO

Uma contribuição importante de Bourdieu foi a noção de que o chamado


fracasso escolar não é um resultado que depende exclusivamente do aluno, pois a
escola não é um ambiente neutro. Existe influência dos agentes que participam das
instituições de ensino no processo de desempenho educacional, interferindo
diretamente no sucesso ou fracasso escolar.
Bourdieu (1998) argumenta que os problemas na educação são de ordem
social, que por meio de leis e projetos define quem serão os melhores e, assim, exclui
a concorrência justa.
Percebe que os problemas da escola estão ligados diretamente à estrutura
social e não será com leis e regras internas ou usadas para resolver o problema na
escola que irão acabar com as dificuldades enfrentadas. É preciso entender que a

112
escola é fruto de uma sociedade e compreender como esta funciona, quais são suas
características, sua história, sua cultura, é essencial para pensar em uma educação
transformadora, porque mudar a escola significa também operar mudanças no próprio
ambiente escolar.

Fonte: ccfjm.blogspot.com.br

O termo violência simbólica, que na visão de Bourdieu (1998), consiste em uma


ação arbitrária imposta por um grupo de poder dominante e imposto a todos como algo
natural, é um instrumento importante para compreender a dinâmica da escola e a
função do currículo nas práticas escolares. Para a apreensão mais efetiva o conceito
de violência simbólica, vamos fazer uma breve revisão no conceito de capital cultural.
É o que se apresenta a seguir:

113
51 CAPITAL CULTURAL

Fonte: moraispeterson.blogspot.com.br

Revisando o conceito: O Capital Cultural é a tradução de toda experiência


intelectual e cultural que o indivíduo adquire por meio das relações de socialização,
sejam socialização primária, no contexto familiar, ou secundária, em outros ambientes
de convivência. Este capital irá definir o sucesso ou o fracasso no contexto da
meritocracia tanto escolar quanto profissional. Ou seja, por mérito alcançam-se
determinados lugares. A discussão, portanto, está na palavra mérito.
O termo capital que poderia ser entendido na sua relação econômica, ou seja,
tem capital que possui dinheiro investido, ganha outro adjetivo. O que se pode adquirir
com o dinheiro: livros, idas à biblioteca, cinema, enfim, o investimento feito pela elite
econômica, gera uma relação entre os capitais que se traduz no capital simbólico
(cultural) e tem relação de poder sobre os demais, sendo esta influência do capital
simbólico chamada de poder simbólico.
A relação de dominação do capital simbólico passa a ser vista como legítima e
não como um tipo de violência que é imposta pelos valores, condutas e atitudes de
uma determinada classe.

114
O pertencimento a um determinado grupo é constituído a partir do capital
cultural que cada indivíduo traz consigo. Quando mais capital cultural é assimilado
maior é o poder e a visibilidade.

Fonte: www.google.com.br

Observe a imagem. O universo cultural dos alunos diante de um professor que


transmite o conhecimento no lugar de problematiza-lo faz diferença no processo de
aprendizagem. Para aqueles que não assimilam os códigos culturais dados pelo
professor (Veja: literatura, música e artes plásticas), o ‘aprender’ transforma-se numa
atividade angustiante.
Agir de acordo com os interesses da classe dominante é o jogo de poder do qual
fala Bourdieu, referindo-se ao poder simbólico que, na prática produz o que se viu
acima, a violência simbólica. Sucesso para uns e fracasso para outros. Ao entrar para
a escola o indivíduo traz consigo traços definidores da sua cultura e de seu
desempenho.
Na perspectiva de Bourdieu, os problemas educacionais não podem ser
resolvidos sem antes resolver os problemas sociais para garantir condições de
igualdade de oportunidades. Condições em que a escola deixa de ser uma instituição
reprodutora da cultural dominante para ser uma instituição produtora do saber.

115
52 SOCIOLOGIA NA ESCOLA

Fonte: www.unilab.edu.br

Capital cultural e violência simbólica. Estes termos revelam na prática a


função de reprodução das desigualdades sociais na escola.

Essa análise sobre a escola, baseada em volumosas e importantes pesquisas


com levantamento de dados empíricos sobre a realidade escolar, criou novos
referenciais teóricos para a compreensão da educação escolar na sociedade
capitalista dos anos sessenta do século XX. Até hoje, ela se constitui como um dos
principais paradigmas para os estudos sociológicos da educação: A grande
contribuição da Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu foi, sem dúvida, a de ter
fornecido as bases para um rompimento frontal com a ideologia do dom e com a noção
moralmente carregada de mérito pessoal.

Fonte: alencarcaroline.wordpress.com

116
A partir de Bourdieu, tornou-se praticamente impossível analisar as
desigualdades escolares, simplesmente, como frutos das diferenças naturais entre os
indivíduos.
Se essa Sociologia denunciou o papel de legitimador das desigualdades
sociais, trazemos também para análise a proposta transformadora da escola. Mais do
que uma realidade existente – como a analisada e denunciada pela sociologia
reprodutivista – a educação transformadora consiste em uma proposta que parte do
desafio de construir uma escola que esteja, não a serviço dos grupos dominantes da
sociedade no que diz respeito à preservação dos privilégios, mas comprometida com
a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
O ponto de partida da educação transformadora, que tem caráter fortemente
crítico, é a constatação de que a escola não transforma diretamente a sociedade, mas
instrumentaliza os sujeitos que, na prática social, realizam o movimento de
transformação. Isto é, a escola tem a especificidade de, do ponto de vista da formação
humana, garantir a apropriação de elementos da cultura que se transformem, na
prática social, em instrumentos de luta no enfrentamento da desigualdade social. Em
uma perspectiva crítica, que concebe a educação como um processo de
instrumentalização dos sujeitos para a prática social transformadora, Saviani define a
função da escola como sendo a de uma instituição cujo papel consiste na socialização
do saber sistematizado.

Fonte: pt.slideshare.net

117
Isso significa afirmar que a educação escolar tem como principal função
promover a consciência dos educandos para a compreensão e transformação da
realidade.
Sobre a educação transformadora você aluno e aluna não podem deixar de
conhecer mais de perto as grandes contribuições que o educador brasileiro, referência
em todo o mundo, Paulo Freire trouxe para o pensamento educacional. Sugiro que
registre em seu caderno de notas. Compreender Paulo Freire é aproximar da história
de educação brasileira.

53 PAULO FREIRE: A IMPORTANCIA DO PENSAMENTO EDUCACIONAL


BRASILEIRO.

Fonte: danielsantosalves.blogspot.com.br

A biografia de Paulo Freire revela momentos importantes da educação


brasileira, como você verá a seguir: Paulo Régis Neves Freire, educador
pernambucano, nasceu em 19/9/1921 na cidade do Recife. Foi alfabetizado pela mãe,
que o ensina a escrever com pequenos galhos de árvore no quintal da casa da família.
Com 10 anos de idade, a família mudou para a cidade de Jaboatão.
Na adolescência começou a desenvolver um grande interesse pela língua
portuguesa. Com 22 anos de idade, Paulo Freire começa a estudar Direito na
Faculdade de Direito do Recife. Enquanto cursava a faculdade de direito, casou- se
118
com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira. Com a esposa, tem teve cinco
filhos e começou a lecionar no Colégio Oswaldo Cruz em Recife.
No ano de 1947 foi contratado para dirigir o departamento de educação e
cultura do Sesi, onde entra em contato com a alfabetização de adultos. Em 1958
participa de um congresso educacional na cidade do Rio de Janeiro. Neste congresso,
apresenta um trabalho importante sobre educação e princípios de alfabetização. De
acordo com suas ideias, a alfabetização de adultos deve estar diretamente relacionada
ao cotidiano do trabalhador. Desta forma, o adulto deve conhecer sua realidade para
poder inserir-se de forma crítica e atuante na vida social e política.

Fonte: www.youtube.com

No começo de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar
o Programa Nacional de Alfabetização. Logo após o golpe militar, o método de
alfabetização de Paulo Freire foi considerado uma ameaça à ordem, pelos militares.
Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento na área
de educação.
Sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, foi lançada em 1969. Nela, Paulo
Freire detalha seu método de alfabetização de adultos. Retornou ao Brasil no ano de
1979, após a Lei da Anistia
Durante a prefeitura de Luiza Erundina, em São Paulo, exerceu o cargo de
secretário municipal da Educação. Depois deste importante cargo, onde realizou um

119
belo trabalho, começou a assessorar projetos culturais na América Latina e África.
Morreu na cidade de São Paulo, de infarto, em 2/5/1997
Atualidade de Freire está em colocar o ser humano, aquele que por muito tempo
esteve invisível diante da cultura dominante, como uma categoria central da sua
pedagogia. Se você observar bem verá que a concepção freirianas se insere nas
teorias críticas e pós-críticas, primeiro por denunciar a desumanização e a opressão
como estratégia fundamental para a libertação e transformação social.
Uma Teoria da educação de inspiração freireana necessariamente deverá
contemplar eixos centrais do pensamento de Paulo Freire, quais sejam: o que, como,
para que, para quem, a favor de quem?

Fonte: sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br

Neste sentido os conteúdos e em termos gerais o conhecimento, são questões


centrais que vem dominando as discussões curriculares tanto na ótica de algumas
teorias quanto nas políticas públicas, e mesmo nas escolas: quais os conteúdos que
são relevantes frente a contemporaneidade, aos desafios postos pela globalização.

120
54 FREIRE E BOURDIEU

Paulo Freire se aproxima de Bourdieu na medida em que os dois estão


interessados em denunciar as relações de classe presente na escola e
consequentemente, as desigualdades sociais.
Para Freire, a escola ensina muito mais que conteúdos, ensina uma forma de
ver o mundo. Neste sentido, o que ensinar não poder estar desvinculado de outras
questões que precisam ser feitas no ato de educar: quem educa? Por que educa? O
que ensina? Como ensina? A quem serve, contra quem e a favor de quem?
As dimensões devem ser vistas em seu conjunto.

Fonte: sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br

A diversidade é reflexo da nova configuração social em que o acesso à


educação fruto de lutas por direitos e do fortalecimento da democracia se constitui
uma realidade que não pode ser negada.
Para Freire a organização do conhecimento na escola não passa pelo viés dos
conteúdos, mas pelas relações que se possam estabelecer no entorno do ato
educativo; a vida cotidiana da escola como um todo diz respeito ao ato educativo. Um
campo vivo de possibilidades e incertezas. A vida cotidiana está no centro do currículo.
Freire entende que não se muda a cara da escola por portaria, por pacotes
pensados por uma dúzia de iluminados, para ser aplicado nas escolas. Aqui ele aponta
para a noção do conhecimento como uma construção teórico/prática, sendo
imprescindível a participação, a dialogicidade no processo de elaboração curricular.

121
Freire compartilhou com Giroux a perspectiva de uma pedagogia radical, libertadora.
Para ele, a linguagem da educação é contextual e deve ser compreendida em sua
gênese e desenvolvimento como parte de uma rede mais ampla de tradições históricas
e contemporâneas, de forma que possamos nos tornar autoconscientes dos princípios
e práticas sociais que lhe dão significado.
Tomando a linguagem como prática de significação, Giroux(1997) coloca a
necessidade de se analisar as condições históricas de construção de um discurso.
Henry Giroux nasceu em 18 de setembro de 1943, em Providence, Rhode
Island. Filho de Armand e Alice Giroux. Americano crítico cultural recebeu seu
doutorado em 1977, da Carnegie – Mellon. Henry Giroux ajudou a desenvolver a teoria
crítica sobre currículo, destacando-se como figura importante na teoria da educação
radical, expandido a ideia de uma “Pedagogia de fronteira”. Professor nos E.U.A., um
dos maiores representantes da teoria crítica educacional da atualidade, enquanto
educador aborda questões de importância teórica, política e pedagógica, voltando-se
para áreas que englobam a problemática da cultura popular, assim como nas artes de
um modo geral, porém, sempre em conexão com a questão pedagógica e curricular
Para ele, nenhum projeto teórico está pronto, e cada ensaio tem que ser lido
de novo pela compreensão que pode trazer ao momento presente. Neste sentido,
tomando a educação como prática de significação, o pensamento de Paulo Freire
pode ajudar a escola a contribuir na construção de outras subjetividades,
inconformistas, que pervertam os sentidos impostos pelo capitalismo sob a ótica de
valorar a tudo por sua qualidade de troca.
Sob a perspectiva freireana, a luta por significados é uma luta política,
reafirmando-se, portanto, a urgente politicidade da educação.
Em seu livro A pedagogia da autonomia, Freire (2002), pontua uma questão
que nos interessa de perto e veremos a seguir.

Ensinar exige respeito aos saberes do educando


Ao professor cabe respeitar os saberes do educando e mais do que isto,
reconhecer que tais saberes são parte de um processo social construído na prática
comunitária e discutir com os alunos a razão de ser de alguns desses saberes em
relação com o ensino dos conteúdos.

122
Nas palavras de Freire:
Deve-se aproveitar a experiência que tem os alunos de viver em áreas da
cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos
riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os
riscos que oferecem à saúde das gentes.
Por que não há lixões no coração dos bairros rios e mesmo puramente
remediados dos centros urbanos? Esta pergunta é considerada em si demagógica e
reveladora da má vontade de quem a faz.
É pergunta de subversivo, dizem certos defensores da democracia. Por que não
discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo
conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a
convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida?
Por que não estabelecer uma necessária "intimidade" entre os saberes
curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como
indivíduos?

55 ESCOLA: UM AMBIENTE POLÍTICO

Fonte: wwwblogdoprofalexandre.blogspot.com.br

123
Por que não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso
dos dominantes elas áreas pobres da cidade? A ética de classe embutida neste
descaso?
Por que, dirá um educador reaccionariamente pragmático, a escola não tem
nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos,
transferi-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmos.
Exatamente neste ponto há uma crítica à perspectiva freireana, a de enfatizar
as relações políticas e sociais presentes na construção e elaboração do
conhecimento.
A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação
Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo. Em
meio a uma estrutura social que se constitui como classista e exploratória,
diariamente moldando o pensar dos indivíduos, fazendo-os objeto dócil de
dominação e negando a sua condição de humano, a emancipação político-social
e educacional deve constituir-se como combustível que mova a esperança de
libertação de uma opressão cruel e desumana imposta a uma determinada classe.
Diante disso, a pergunta que deve ser feita, com base em umas práxis
educativa e emancipadora é então, como transformá-la?
Para Paulo Freire, uma educação que tenha como viés a conscientização dos
educandos-educadores, o engajamento político, a denúncia das estruturas
desumanizantes por parte dos oprimidos e a valorização de uma ética universal do
ser humano que em seu bojo está a serviço do status quo vigente, são características
indispensáveis para se ousar tal transformação, ou nas palavras de Paulo Freire ousar
ser mais.
Veja uma dica do mestre para você que irá se tornar um educador:

124
Fonte: images.slideplayer.com.br

Nesse sentido a educação de que precisamos deve ser capaz de construir


humanidade através da efetivação de um processo educacional libertador, crítico e
subjetivo, permitindo o diálogo como forma de construção do conhecimento e
valorização dos saberes individuais. Excluindo os variados modelos de educação que
entende o processo de ensino aprendizagem como depósito e acúmulo de
conhecimentos e o educando como recipiente vazio pronto para ser preenchido com
conteúdo, regras e fórmulas.
A partir dessa necessidade de humanização, afirma Freire:

A “luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela


afirmação dos homens como pessoas, como seres para si”, não teria
significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que
um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas resultado de
uma “ordem” injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos.
(FREIRE, 2005, p. 32)

Contudo, tais saberes, bem tipicamente freiriano, devem ser concebidos na


prática. Não existe um saber modelar em que como numa cartilha o educador se
inspirará para realizar seu ofício. Não. A prática é a principal fonte formadora do
educador.

125
Esta prática produz um sujeito autônomo que se convence que ensinar não é
transferir conhecimentos mas criar possibilidades para a sua construção. Formação
do indivíduo que é uma característica e função da educação é vista por Freire não
como uma ação que dá forma ou estilo a uma alma ou a um corpo indeciso e
acomodado.
O educador e o educando não são, apesar de suas diferenças, objetos um do
outro. Quem ensina aprende ao ensinar. Por isso é que, do ponto de vista gramatical,
o verbo ensinar é um verbo transitivo-relativo. Verbo que pede um objeto direto -
alguma coisa - e um objeto indireto - a alguém. Do ponto de vista democrático, em
que o autor declaradamente se situa, na compreensão do homem e da mulher como
seres historicamente inacabados.

56 ENSINAR É TRANSFORMAR

A concepção do ensinar de Paulo Freire promove reflexões importantes sobre


a dinâmica do currículo na medida em que como foi alertado nas aulas anteriores a
dimensão de redes de significados estão presentes assumindo que conhecer é um
ato dialógico e humanizador.
A experiência que tive nos anos 90 na UFES como monitora e depois como
coordenadora do Projeto de Extensão do Centro de Educação para Educação de
Jovens e Adultos me ensinou que o diálogo é importante para mediar a aproximação
com o mundo, e é a partir desta mediação que acontece a aproximação da cultura do
educador e educando, produzindo novos sentidos e significados. Estas lições aprendi
na prática tendo Paulo Freire como mestre.

126
Fonte: pensador.uol.com.br

O educador brasileiro nos leva a refletir acerca da mudança deste quadro


alienador e injusto, o qual se estabelece dentro da nossa sociedade atual, permitindo
através de seu trabalho humano-pedagógico-político e social entender a necessidade
do despertar de uma consciência crítica nas pessoas para o fato de que não somos
seres determinados, mas seres de liberdade, assim Freire em sua busca incessante
pela denúncia de uma estrutura social que desumaniza as pessoas, buscou anunciar
a boniteza da vida e o inacabamento das pessoas rechaçando os vários discursos
deterministas vinculados pela classe opressora, nos quais a ideia central é que a
sociedade é assim mesmo e que não pode ser modificada.
Freire insistiu veementemente em denunciar as estruturas desumanizantes
existentes em nossa sociedade, por entender que os oprimidos ao despertarem de
sua situação de opressão que é tida como condição dada e imóvel despertará para uma
construção social perfeitamente superável, pois segundo ele é necessário que o
oprimido se libertando de sua situação de opressão liberte também o opressor, que
não se percebe cativo da exploração promovida por ele e não tem nenhum interesse
em perceber. Campina Grande, REALIZE Editora, 2012 13 Ao observarmos
ligeiramente as escolas brasileiras, é possível perceber um silêncio nos espaços onde
deveriam acontecer calorosas discussões, no entanto falar, em um sistema que
oprime falar/questionar é um ato de rebeldia, sujeito a punições.

127
Estaria certo então o educador Moacir Gadotti, ao afirmar que “A educação para
a fala, para a formação do orador (no sentido daquele que defende seus direitos),
seria um suicídio para a sociedade opressiva. ” (GADOTTI, FREIRE e GUIMARÃES,
1995, p. 90)

Fonte: www.blogdopedroeloi.com.br

O processo de humanização das pessoas através da estrutura educacional


perpassa pela conquista da conscientização dos alunos, através do qual estes
envolvidos em um processo de alfabetização política como possibilidade de leitura de
sua realidade tomam como base a sua experiência para o entendimento da sociedade
e o domínio da palavra como instrumento de poder, nesta perspectiva afirma Freire,
“ Não há palavra verdadeira que não seja práxis. ”
Daí dizer que a palavra verdadeira seja transformar o mundo” (FREIRE, 2005,
p.89). Mas, o que Freire entendeu por palavra? Palavra é o ser humano transformando
em diálogo, palavra é a comunhão com o outro como testemunho e doação e,
consequentemente, como existência, porque existir “humanamente é pronunciar o
mundo, é modificá-lo” (FREIRE, 2005, P.90) porque não é no silêncio que os homens
se fazem e sim na ação reflexão.

128
57 A SOCIEDADE NA VISÃO DE FREIRE

Como visto a própria dimensão política é tocada tendo em vista que os lugares
são ressignificados. O lugar do professor adquire importância histórica tanto quando
o lugar do aluno e estes promovem um encontro cultural, ou melhor, multicultural em
que aprende-se ensinando e ensina-se aprendendo.

Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente


que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível
ensinar. Foi assim, socialmente aprendendo, que ao longo dos tempos
mulheres e homens perceberam que era possível - depois, preciso -trabalhar
maneiras, caminhos, métodos de ensinar. Aprender precedeu ensinar ou, em
outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de
aprender (FREIRE, 1996)

Na visão freireana de sociedade, essa constitui um espaço contraditório de


relações sociais historicamente tecidas. “Fechada” – é como ele via a sociedade
brasileira, nos anos 60. Não tardaria a enfrentar traços semelhantes, em outras
sociedades latino-americanas. E para além delas, afinal o Capitalismo se estende pela
maior parte das por onde, “andarilho da Utopia”, teve que peregrinar. Sociedade de
contradições extremadas, terreno propício para a formação de situações de dualidade,
algo como uma esquizofrenia individual e coletiva, a afetar opressores e oprimidos,
estes, sobretudo, condicionados a uma situação.
Terreno fértil para a fermentação da diversidade de justificativas ideológicas
introjetadas pelo opressor e alimentadas pelo oprimido coisificado. Apesar de toda a
carga ideológica administrada aos oprimidos, estes, uma vez estimulados a recuperar
sua identidade de sujeitos de sua história. Mediante debates, encontros, engajamento
nas lutas, passam a se conscientizar, a descobrir a sociedade em que vivem.
À medida que constroem ferramenta capaz de romper o véu ideológico em que
se acham envoltos os mecanismos de opressão, vão descobrindo o caráter histórico,
e, portanto, mutável, da sociedade. De meros integrantes acríticos de uma classe
sofrida (“classe em si”), passam também a identificar-se criticamente enquanto
membros de uma classe, sabendo a favor de quê e de quem e contra quê e contra
quem são historicamente desafiados a lutar.
E aqui, vão percebendo que sempre vale a pena dialogar com os iguais e com
os diferentes, com quem vão aprendendo e se completando; nunca, porém, com os
129
antagônicos: é trabalho perdido, além de ameaça de suicídio, é pretender o diálogo do
pescoço com a guilhotina.
Essa proposta pressupõe que a escola, para exercer sua função
transformadora no sentido de contribuir para a democratização da sociedade, não
pode abrir mão de sua responsabilidade específica que é a de garantir que os sujeitos
sociais se apropriem – de forma crítica e reflexiva – do saber elaborado pela cultura a
qual pertencem.
Nesse sentido, é importante que o educador compreenda a complexidade da
realidade social na qual ele atua. Não basta para isso conhecer a realidade, é preciso
pensar sobre ela, tendo as diferentes teorias educacionais como referência. Escola
pública e desigualdade social.
A escola pública é a maior expressão da escola com instituição social, aquela
que tem sua origem na modernidade, exigência do modo de produção capitalista
moderno industrial. No Brasil, podemos considerar como marco histórico do
surgimento da escola pública o Manifesto dos Pioneiros Pela Educação Nova por seu
conteúdo escolanovista.

Fonte: enatopr.wordpress.com

Esse Manifesto foi mais um documento de política educacional do que um


documento didático-metodológico, como encontramos muitas vezes na literatura
pedagógica. Sua proposta estava plenamente integrada ao contexto social, político e

130
econômico da consolidação do capitalismo industrial no Brasil, cujo papel da escola
estava voltado para a formação dos sujeitos sociais para esse desenvolvimento. Isso
explica porque o Manifesto trouxe a público da forma mais veemente na história da
educação brasileira a defesa da escola para todos, um dos mais importantes
princípios da educação burguesa. A escola para todos - pública - defendida no
Manifesto em contraponto à escola da Reforma Francisco Campos, era a escola única
(significando igualdade de oportunidades), laica (livre de doutrinas), gratuita (sob a
total responsabilidade do Estado), obrigatória (até 18 anos) e para ambos os sexos.

FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA PARA OS PIONEIROS DA ESCOLA NOVA


Nas próximas linhas você fará uma revisão do que viu em história da Educação,
agora identificando pontos importantes para compreender a sociologia educacional.
Você já sabe que para os Pioneiros, a função social da escola (campo
específico da educação) explicitava-se pela sua organização como instituição social
limitada na sua ação educativa pela pluralidade e diversidade das forças que
concorrem ao movimento das sociedades, considerando que, entre todos os deveres
do Estado, a educação é o maior.

Fonte: slideplayer.com.br

Saviani (2007) faz uma cuidadosa análise do Manifesto dos pioneiros


considerando-o heterogêneo e contraditório, pois expressa princípios elitistas e, ao
131
mesmo tempo, princípios igualitaristas. Como documento doutrinário da Escola Nova,
o Manifesto traz uma proposta de política educacional em defesa da escola pública e
de um sistema nacional de educação pública. No entanto, podemos encontrar nele a
marca da dualidade: a escola teria função homogeneizadora dos indivíduos nos níveis
primários e secundários de ensino e função diferenciadora no nível superior
(universitário). Todos estes embates ocorreram, como você já sabe, no início dos anos
trinta do século XX, e durante o Estado Novo (de 1937 a 1945) acirraram-se ainda
mais, pois a Reforma Capanema regulamentou um sistema de ensino centralista,
burocratizado, dualista (diferenciando fortemente o ensino secundário do profissional)
e corporativista (criando no ensino profissional o ensino industrial, agrícola e
comercial, além do curso normal para formação de professores).
O pacto com a Igreja, que a Reforma Capanema manteve, tinha uma
abordagem de “renovação conservadora”, isto é, nos aspectos pedagógicos defendia
novos métodos – inspirados na Escola Nova –, mas nos sociopolíticos era
extremamente conservador.

OBSERVE O CARÁTER ENTÃO CONTRADITÓRIO DA FUNÇÃO SOCIAL


DA ESCOLA
Com o fim do Estado Novo em 1945, as discussões em torno da Constituição
de 1946 trouxeram de volta os Pioneiros e, com eles, as forças hegemônicas na
comissão para elaboração da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
em 1961. É importante você entender este contexto da criação da primeira LDB. O
principal conflito vivido entre Pioneiros e Católicos no processo de elaboração da
LDBEN foi entre a escola pública e a escola privada. Centrada na figura de Anísio
Teixeira, a defesa da escola pública, universal e gratuita foi fortemente atacada pelos
católicos que, identificando-a com a proposta comunista de organização da educação,
contrapunham a hierarquia da Família, Igreja e Estado na responsabilidade
educacional.
Em defesa da escola pública estavam três principais correntes do pensamento
pedagógico brasileiro segundo Saviani (2007): liberal-idealista, liberal-pragmatista e
socialista. Por outro lado, esse conflito não ficou restrito aos educadores empolgando
a opinião pública: a imprensa católica e a imprensa leiga fomentaram as discussões

132
para o conjunto da população. A primeira LDB, a Lei n° 4024/61 – LDBEN – definiu a
construção do Plano Nacional de educação em 1962.

58 ENTENDENDO A POLÍTICA DA EDUCAÇÃO

Fonte: sociologiadaeducacaouff.blogspot.com.br

É importante que à medida em que você revê estes conhecimentos você possa
também fazer um link com o pensamento de Bourdieu e Freire, analisando o caráter
neutro da escola, ou crítico. Para isto, veja a citação de Florestan Fernandes, que
você conheceu um pouco no módulo I.
Com a LDB, de 1961 e a criação do Plano Nacional de Educação em 1962, o
investimento financeiro na educação subiu para 12% dos recursos da União, a política
educacional a esse investimento articulada pretendeu enfrentar o grave problema do
analfabetismo, da evasão escolar e do afunilamento do sistema de ensino. A estrutura
criada foi a do ensino primário, ensino médio (ginasial e colegial) e ensino superior.

133
Propunha também a valorização da formação de professores, a implantação do
tempo integral nas 5a e 6a séries (artes industriais).
Essas medidas legais, que consolidaram o ensino público, tomaram ainda mais
importância no início dos anos sessenta, desde 1945, vinha vivendo um período de
redemocratização, acompanhado pelo crescimento econômico do capitalismo
industrial. O papel dos movimentos sociais sempre marcou uma diferença no
pensamento educacional brasileiro.
Muitos destes influenciados pelo pensamento do educador Paulo Freire que
atuava frente aos Círculos de Cultura, com atenção especial à educação de jovens e
adultos, na intenção de discutir a função da educação no sistema de reprodução das
desigualdades e injustiças sociais.

Fonte: resistenciaemarquivo.wordpress.com

Os movimentos sociais populares do início dos anos sessenta trouxeram


importantes discussões acerca da organização do ensino e dos processos educativos.
As defesas da cultura popular e a da educação popular foram compreendidas como
formas de garantir o processo de conscientização necessário para a organização
igualitária da sociedade brasileira.

134
Nesse momento, as discussões sobre a escola pública deram lugar a propostas
de educação popular vinculadas aos grupos sociais populares. Esses movimentos
tiveram também a participação de um novo setor da Igreja Católica, articulado em
torno da Teologia da Libertação.

Fonte: pt.slideshare.net

Como já foi dito, um dos mais importantes representantes desse movimento de


educação popular no início dos anos sessenta é Paulo Freire com a pedagogia
libertadora. Tendo como referência a escola nova e teologia da libertação,
principalmente no que diz respeito à ênfase da atividade sobre os conteúdos – na
Pedagogia do Oprimido vemos a valorização da atividade para a conscientização
política transformadora –, esses movimentos tiveram fim no golpe militar de 1964.

135
Fonte: pt.slideshare.net

PARA ENTENDER A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL


É importante que você compreenda o contexto que envolveu a criação e a
consolidação da escola pública no Brasil para assim estabelecer critérios de análise
da educação.
Marcado pela contradição entre ideologia e economia, o período anterior ao
golpe militar organizava-se sob a ideologia do nacionalismo desenvolvimentista e
desnacionalização da economia. Essa contradição no conturbado governo João
Goulart foi “resolvida” pelo governo militar que marcou uma ruptura política com
continuidade socioeconômica, fundamentando-se na doutrina da interdependência.

136
Fonte: slideplayer.com.br

Com a implantação do Regime militar após a derrubada de Jango do poder, o


reflexo direto na educação, se expressou pelas reformas implantadas, em busca da
“educação que nos convém”: a aprovação da Lei 5540- 69 da Reforma Universitária e
da Lei 5692-71 que organizou o ensino básico em 1º e 2º graus. O pano de fundo das
reformas foi a teoria do capital humano com seus princípios da racionalidade, eficiência
e produtividade, isto é, o máximo de resultados com o mínimo de esforços na formação
humana (investimento) que interessava ao regime político e ao modelo econômico.
Essas reformas, portanto, inspiraram-se na pedagogia tecnicista, articulando a
organização racional (taylorista) do sistema de ensino brasileiro com o controle de
comportamento nos processos de aprendizagem (behaviorismo).

137
59 ESCOLA TECNICISTA

Fonte: pt.slideshare.net

Durante a Ditadura Militar, a escola pública expandiu-se. Essa aparente


contradição, por um lado, refere-se ao modelo econômico em desenvolvimento que
exigia escolarização da população, e por outro, exigia o controle da escolarização, em
especial no que diz respeito ao ingresso ao ensino superior, maior foco de resistência
ao regime no interior da sociedade brasileira.
O governo autoritário, então, equacionou essa aparente contradição pela
expansão controlada, isto é, expandiu a rede pública de ensino, criando um
mecanismo interno de controle. Segundo Romanelli (2009), esse controle recaiu sobre
a progressão no sistema e a qualidade da educação. A dualidade, então, cujos
reflexos vivemos ainda hoje, expressou-se pela oposição quantidade- qualidade, ou
seja, enquanto se expandia o atendimento à educação escolarizada pública pelo
estado autoritário (quantidade), privatiza-se, gradualmente, a qualidade.

138
Fonte: kdimagens.com

A década de oitenta, com o fim da Ditadura Militar, foi um período muito fecundo
nas discussões sobre a educação e a organização do ensino, em especial, sobre a
escola pública na perspectiva crítica e transformadora. No entanto, essas posições
críticas representavam um setor que, embora tivesse muita penetração entre os
educadores, não se consolidou como hegemônico, conferindo uma linha político-
pedagógica crítica e transformadora na organização do sistema de ensino.
Podemos afirmar que a política oficial se centrava na expansão do ensino e as
forças contra-hegemônicas apontavam duas correntes distintas:

1- A renovação dos processos de ensino propostos pela educação libertadora,


principalmente no que diz respeito ao processo de conscientização dos
sujeitos educandos e,
2- A valorização da educação escolar das tendências marxistas em defesa da
escola pública.

No entanto, as forças hegemônicas neoliberais avançavam no campo das


políticas púbicas da educação.

VOCÊ SABE O QUE SÃO FORÇAS HEGEMÔNICAS NEOLIBERAIS?


São as forças que atuam do lado do poder com uma dimensão voltada
para o mercado, para o desenvolvimento da economia.
139
Essa situação se expressa de forma muito clara no processo de elaboração da
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB – que, iniciado em 1988
com a promulgação da Constituição Federal, consolidou-se na promulgação da Lei no
9394-96.
De acordo com a professora Tozoni-Reis a Constituição Federal, elaborada por
um Congresso Constituinte apoiado pela população entusiasmada com o fim da
Ditadura e o início da redemocratização da sociedade, organizou o sistema de ensino
no Capítulo da Educação, expressando algumas vitórias e muitas derrotas nas teses
defendidas pela mobilização em defesa da escola pública.
O Fórum em Defesa da Escola Pública na Constituinte atuou vigorosamente na
elaboração deste capítulo da educação e seguiu mobilizado na difícil elaboração da
LDB. O clima de entusiasmo pela redemocratização arrefeceu frente ao avanço da
reforma do Estado inspirado na doutrina neoliberal. A nova LDB, instrumento político
da organização da educação no Brasil, traz a marca do neoprodutivismo (SAVIANI,
2007), ou seja, a renovação neoliberal da teoria do capital humano.

Fonte: slideplayer.com.br

Essa abordagem fez com que a LDB aprovada (cuja organização popular
sofreu um grande golpe no final de sua elaboração) se tornasse um instrumento para
a política educacional marcada pela inclusão-excludente. Os avanços quantitativos

140
necessários na inclusão da população em idade escolar na escola pública, não foram
equivalentes à qualidade necessária.
Temos que, pelo aprofundamento da crise de qualidade na escola pública, uma
enorme parte da população é excluída do processo de apropriação da cultura como
instrumento transformador na prática social.
Entenda o que diz a professora Tozoni-Reis:
A educação escolarizada – a educação na escola –, tanto conceitualmente
quanto na prática social, reflete o caráter contraditório que encontramos na sociedade
capitalista moderna.

60 E COMO FICA A FORMAÇÃO?

Se por um lado, implica na preparação dos sujeitos sociais para esse modo de
produção que tem dimensão social, política, econômica e cultural, caracterizando o
que a Sociologia identificou como um papel reprodutor das desigualdades sociais, por
outro, a educação escolar pode ser considerada como um processo que oferece aos
sujeitos em formação um dos mais fundamentais instrumentos para o enfrentamento
dessas desigualdades.
Esse enfrentamento ocorre quando a escola se organiza de modo a
sistematizar a transmissão crítica e reflexiva do saber elaborado historicamente pela
humanidade.
Isso significa dizer que a escola, como instituição social, tem o papel de garantir
aos sujeitos com oportunidades contraditoriamente desiguais a apropriação de
conhecimentos, a formação de valores sociais e culturais, a preparação para o mundo
do trabalho e para o desenvolvimento da prática social.

141
Fonte: www.ocoracaovermelho.com

Esse é o sentido público da escola pública: servir aos interesses públicos, aos
interesses da maioria da população, embora essa seja uma tarefa contraditória.
Superando o senso comum em relação à escola pública e ao poder estatal,
consideremos o importante papel que o Estado tem na formulação e realização da
escola pública. Assegurar escolas que facultem o acesso a todas as crianças, jovens
e adultos, bem como sua permanência em igualdade de circunstâncias,
independentemente das suas condições históricas, econômicas, políticas e sociais.

O ensino avançou, ainda que somente quantitativamente!


Embora seja fundamental reconhecer a importância política e social do avanço
quantitativo do ensino público – alguns dados indicam que, de 98% das crianças
brasileiras em idade própria para o ensino fundamental, mais de 90% delas estão nas
escolas públicas –, as escolhas neoliberais que no Brasil definem as políticas públicas

142
de saúde, educação, moradia e transporte – além de outros “bens comuns” –, desde
a última década do século XX, têm definido uma escola pública menos pública.
Isso significa uma escola menos democrática, menos inclusiva, pois voltada
principalmente para a certificação e o registro estatístico do sucesso quantitativo, em
detrimento da socialização do saber sistematizado. Nesse sentido, a escola pública
no Brasil, orientada pelas políticas neoliberais, está voltada mais para responder aos
interesses dos grandes grupos políticos e economicamente hegemônicos do que aos
interesses de formação plena do conjunto da população.

Fonte: slideplayer.com.br

É visível o progressivo “desinvestimento” na Educação, nem tanto diretamente


pela aplicação de percentuais orçamentários obrigatórios, mas por uma série de outros
mecanismos que Romanelli (2009) chamou de “mecanismos internos de controle”. O
processo de privatização do ensino, que afirma sua dualidade, é tão sutil quanto
eficiente e se expressa pelos mais diferentes indicadores:
 Baixa qualidade; Baixa valorização social da escola; Baixo salário dos
professores; Políticas ineficientes de formação inicial e permanente dos
professores; Burocratização do processo de planejamento pedagógico com
tendências a transformar os professores em meros reprodutores de
conteúdos estabelecidos pelos técnicos burocratas do ensino, etc.
143
Os indicadores referentes à consolidação do ingresso da população na escola,
encobrem os índices de abandono e fracasso. Embora estes índices, nas últimas
décadas, tenham baixado significativamente, sendo dignos de comemoração pelo
conjunto da sociedade, eles têm sido manipulados politicamente pelos Governos.

PENSANDO NA AVALIAÇÃO
Essa manipulação advém do objetivo de realizar uma avaliação essencialmente
estatística. Com essa avaliação, posterga-se a urgente necessidade de alcançar
níveis de aprendizagem e formação mais consistentes que garantam aos estudantes
os instrumentos indispensáveis ao exercício de uma cidadania ativa.
O investimento de recursos públicos na educação, cujos “gestores” insistem em
se desobrigar do cuidado com a qualidade ao assumir como política pública o ingresso
e a permanência das crianças na escola de ensino fundamental (na medida em que o
ensino médio no Brasil ainda é quantitativamente insuficiente para atender os jovens
e adultos), significa, na prática, uma perda irreparável de dinheiro e uma oportunidade
social mal aproveitada no sentido da formação dos sujeitos.

61 FORMAÇÃO DOCENTE

Fonte: slideplayer.com.br

144
Ao burocratizar o exercício da profissão docente, a formação e ação educativa
dos professores pouco têm a contribuir para a melhoria da qualidade do ensino
público. Essa burocratização provém do investimento em processos de formação e
ação educativa com tendências a transformar os professores e educadores em
profissionais acríticos e simples executores de tarefas pré-estabelecidas.
Esses profissionais perdem sua capacidade crítica e criativa ao trabalharem em
condições de crescente precariedade, desapropriados de direitos trabalhistas
conquistados no difícil processo de democratização da sociedade brasileira.
De impacto muito negativo para a qualidade da escola pública é, também, o
ataque neoliberal em curso contra os profissionais da Educação, docentes e não
docentes, com a supressão de aspectos fundamentais das suas carreiras. Esse
ataque consolida a instabilidade profissional, articulada a uma campanha pública de
desvalorização social da sua imagem (para isso colaboram, por exemplo, as
campanhas de substituição – direta e indireta – da ação docente na escola).
Sugiro neste ponto que você acompanhe as propostas de reforma do Ensino
Médio.
Essa situação colabora também para o aumento da indisciplina e da violência
na escola. Então, se a escola pública no Brasil tem uma trajetória histórica marcada
pela tardia implantação de um sistema nacional de ensino caracterizado, nos
diferentes momentos históricos, como excludente e dual, que “lições” essa história nos
traz? Lembremos que Lombardi, Saviani e Nascimento (2005) identificou na trajetória
histórica da consolidação da escola pública no Brasil três projetos de desenvolvimento
da sociedade brasileira em disputa nos dias atuais:

1- O projeto liberal (ou neoliberal), em sua versão mais contemporânea, o


neoliberalismo – atravessou praticamente todo o século XX como
hegemônico, com poucos períodos de interrupção, derrubando e
assimilando teses do projeto mais conservador.
2- Projeto do “desenvolvimento econômico nacional e popular”.
3- O projeto do desenvolvimento popular cresceu no final da ditadura e
consolidou-se no início dos anos 1980. A alternativa ao projeto neoliberal –
o projeto de desenvolvimento econômico nacional e popular –, ao chegar ao
poder pela expressiva votação do atual Presidente Lula, agiu de forma

145
radicalmente diferente daquilo que vinha buscando. Isso significa que
aprofundou ainda mais o ajuste neoliberal da economia globalizada,
consolidando uma perspectiva flexibilizadora da responsabilidade do
Estado em relação às políticas públicas, mesmo se considerarmos as
contradições – cada vez menores – que existem nos espaços de gestão das
políticas públicas deste governo.

62 RETRATO DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

Fonte: decifraoudevoro.blogspot.com.br

Para uma pequena, mas poderosa do ponto de vista econômico e político,


parcela da população há uma escola privada de melhor qualidade e, para a grande
maioria, uma escola pública de menor qualidade. Lembremos que, segundo os dados
do Censo Escolar de 2008, publicados em janeiro de 2009, a rede privada de ensino
no Brasil é responsável por 13,3% das matrículas da educação básica, enquanto a
rede pública recebe 86,7% dessas matrículas.
Então, pensar em políticas públicas de educação escolarizada no nível básico
no Brasil significa refletir sobre a estrutura e o funcionamento da escola pública como
instituição social responsável pela formação humana que interessa ao projeto de
sociedade que queremos – ou não queremos – construir.
146
A situação acima descrita é enfrentada pela sociedade em geral e pelo poder
público em particular de forma a consolidar a dualidade histórica da organização da
educação brasileira. Compreendida a educação básica – e o ensino – não como direito
social, mas como “mercadoria” a ser “adquirida” no mercado, a qualidade de ensino é
um “valor agregado” à escola privada, tornando-a mais atrativa para aqueles que
podem comprar seu produto.

Fonte: pt.slideshare.net

Isso não significa que, na escola privada, haja garantia de qualidade na


educação como formação humana que pretendemos, antes a qualidade que lhe
conferem está diretamente relacionada aos interesses imediatos, aos valores éticos e
políticos das elites dirigentes: individualismo, competição, consumismo etc.
No que diz respeito à escola pública, vejamos como os professores, de
mediadores no processo de apropriação de conhecimentos sistematizados da cultura
elaborada, assumem, na lógica hegemônica da organização da sociedade, o papel de
prestadores de serviço. Nesse sentido, sua formação plena para dirigir sofisticados
processos de ensino e aprendizagem que garantam a apropriação crítica e reflexiva
da cultura elaborada na perspectiva de formação para práticas sociais mais
conscientes e consequentes, transforma- se em uma formação ligeira e superficial.

147
Fonte: pt.slideshare.net

Chauí (2004) faz importante análise do sentido neoliberal e neoprodutivista da


proclamada educação continuada desses professores. A política de contratação de
professores substitutos, a existência ainda significativa de professores leigos –
inclusive em sua mais nova versão, os professores eventuais – e a valorização dos
programas com educadores voluntários na escola são reflexos dessas referências na
organização da escola pública. Essa pseudoparticipação dos grupos sociais
privilegiados na forma do voluntariado em busca de qualidade na escola pública pode
ser compreendida, por exemplo, quando buscamos identificar os protagonistas dos tão
conhecidos programas como “adote uma escola”; “amigos da escola”, “padrinho da
escola” etc.
Identificados os protagonistas, reconhecemos sua inserção de classes e
interesses econômicos, políticos e sociais que os move. Outra dimensão importante
da flexibilização da educação como direito de todos, identificada por Lombardi, Saviani
e Nascimento (2005), diz respeito à “privatização do pensamento pedagógico”.
Saviani (2007) analisou essa privatização do pensamento pedagógico, identificando
quatro categorias (provisórias).

148
63 PARA VOCÊ ENTENDER O QUE SIGNIFICA CAPITAL HUMANO:

Fonte: slideplayer.com.br

O neoprodutivismo, fundamentado na teoria do capital humano, busca


organizar o ensino a partir da necessidade de formação humana para as novas formas
de produção, também flexibilizadas. Isso significa que a formação escolar pretendida
se refere às capacidades e competências presentes e expressas nos documentos que
traçam parâmetros e diretrizes curriculares para a educação básica.
Veja bem: Assim, os princípios da Escola Nova, também ressignificados,
constituem-se no que ele definiu como neoescolanovismo, isto é, o “aprender a
aprender” que, agora também, é “formação permanente” dos sujeitos educandos.
Como terceira categoria, encontramos o neoconstrutivismo, expresso
particularmente pela teoria do professor reflexivo: os saberes docentes centrados na
experiência cotidiana. A reflexão aqui, cujos fundamentos estão na pedagogia das
competências, nos comportamentos flexíveis e na responsabilidade individual, diz
respeito à compreensão pragmática da experiência docente.
Se na década de setenta, seus princípios eram de racionalidade, eficiência e
produtividade sob o controle direto do Estado, agora, ele aparece sob o controle do
mercado, da responsabilidade da iniciativa privada e das organizações não-

149
governamentais, reduzindo os investimentos públicos pelas parceiras público-
privadas.

Como fica, então, o papel da escola e do profissional da educação diante


deste quadro e das exigências do mundo atual?
Vamos pensar um pouco, lembrando do último encontro presencial: A escola
pública é uma conquista que tem suas origens na Revolução Francesa, isto é, na
democratização da sociedade e na origem da modernização das sociedades como
capitalistas e industriais. Esse é um fato histórico de enorme importância, pois confere
à escola pública o caráter democratizante e democratizador. Contudo, sua origem
histórica não a exime de problemas também historicamente incorporados, problemas
a serem resolvidos e questões teóricas e práticas a serem exploradas.

Fonte: slideplayer.com.br

A Revolução Francesa marca o advento da sociedade capitalista e das


ideologias liberais, ou seja, centradas na economia e no mercado. Uma das críticas
que essa escola enfrenta, concerne à atualidade de seus conteúdos. Se por um lado,
o avanço neoliberal – e seu componente mais estritamente econômico, a globalização
da economia – trouxe novas exigências, a escola inserida neste mundo tem o papel
de preparar o aluno para conhecê-lo e nele atuar de forma adaptadora. Isto é, a escola
prepara os sujeitos para atuar de forma a se adaptar às exigências desta doutrina de

150
organização da sociedade e contribuir para seu aprimoramento, permitindo,
principalmente, que o aluno tenha competência em diversas tecnologias.

Fonte: cmapspublic.ihmc.us

64 CRÍTICA À TEORIA DO CAPITAL HUMANO

As críticas a essa forma de organização das relações sociais veem na escola,


em especial na escola pública, o papel de problematizar esse mesmo mundo atual,
seus conteúdos e valores constituintes, visando questioná-lo e transformá-lo de forma
a contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais democrática, mais
igualitária.
A escola pública é uma instituição social, portanto, política e enquanto tal
precisa desenvolver suas funções. Para isso, não significa uma formação
instrumental, “interessada” na manutenção do um modo de produção capitalista
moderno que, por definição material e histórica, é injusto e desigual.
151
A escola pública deve contribuir na formação plena – crítica – dos sujeitos
sociais. Para tanto, sua “tarefa” filosófico–política é a de assegurar a cultura clássica,
em cujo bojo se encontra o que há de mais universal e permanente das produções
humanas e que, considerada as condições de desigualdade de nossas sociedades
modernas, somente essa escola é capaz de garantir para o conjunto da população.
Em síntese, a escola, articulando o novo com a tradição, será efetivamente
pública se for capaz de trazer para seu interior a responsabilidade de formação plena
dos sujeitos, o que significa garantir a apropriação crítica do conjunto da produção
humana, ou seja: Trata-se aqui da produção de ideias, conceitos, valores, símbolos,
hábitos, atitudes, habilidades. Numa palavra, trata-se da produção do saber, seja do
saber sobre a natureza, seja do saber sobre a cultura, isto é, o conjunto da produção
humana.
Portanto, trata-se da necessidade da escola pública de assumir sua tarefa,
histórica e política, de equalização da sociedade, de superação da desigualdade social,
de realização de seu caráter público no sentido amplo e complexo de instituição
pública de educação.
Concluindo este módulo, desafio você a pensar em tudo que leu e estudou
relacionando com os clássicos da sociologia e buscando identificar quais são os
fundamentos sociológicos que estão na base nas análises aqui apresentadas.

Retrospectiva a partir dos clássicos:


Agora você já possui informação suficiente para entender as bases sociológicas
da educação. Avalie o seu conhecimento e faça uma reflexão sobre os seus valores e
sua formação. Tente compreender a sua concepção de educação na relação com a
sociedade. Este é um exercício importante para o exercício da sua formação. Vamos
rever:
No pensamento marxista, a educação é um espaço de reprodução ideológica
dos interesses da classe dominante (a burguesia); em Durkheim, a educação é vista
como instituição integradora essencial à ordem social; na perspectiva weberiana, a
educação é fonte de um novo princípio de controlo. Se em Marx a educação pode
oprimir ou emancipar o indivíduo (no sentido de “libertação”).

152
Fonte: slideplayer.com.br

Em Durkheim, a educação é o mecanismo pelo qual ele se torna membro de


uma sociedade (se torna “um ser novo”). A teoria da educação durkheimiana inspira-
se na sua teoria sociológica geral. Durkheim interessou-se desde cedo pela educação
enquanto objeto de estudo sociológico; pelo carácter social- histórico do fenómeno
educativo; pelos métodos de educação de cada sociedade em determinado período
histórico; pela forma como uma sociedade disciplina e integra através da educação;
pela forma como favorece a realização dos seus membros. Foi o primeiro autor
clássico a afirmar a educação como processo social, como fenómeno social, capaz de
ser descrito, analisado e explicado sociologicamente (Sebastião, 2009: 23), como
“função essencialmente social” (Durkheim, 2009: 61), como “coisa eminentemente
social” (Durkheim, 2009: 94). Este clássico da pedagogia francesa, teórico fundador
da sociologia da educação, considera que os fins da educação devem ser
determinados pela sociologia. A sua teoria define a educação como ‘bem’ social.

153
65 E EM WEBER?

Fonte: kdfrases.com

Weber vai mais longe: a educação é fator de seleção e de estratificação sociais.


Ou seja, o indivíduo passa de uma classe a outra por meio do processo de
racionalização do conhecimento. Marx e Durkheim centraram-se no poder das forças
externas ao indivíduo.

Fonte: slideplayer.com.br

154
Weber centrou-se na capacidade de ação do indivíduo sobre o exterior. Como
sabemos, o capitalismo é, para Weber, a forma mais elevada de racionalização. Numa
sociedade capitalista-racional burocrática, os indivíduos distinguem-se pelas suas
qualificações (havendo necessidade de “funcionários especializados”,
“profissionalmente mais informados”): a educação é o elemento que contribui para a
seleção social, é um dos recursos possíveis para se manter ou melhorar – o status (e
quanto mais reduzido for o grupo, maior o prestígio social dos seus membros).
Margaret Archer, no texto The sociology of educational systems, sintetiza, numa
lógica comparativa, o pensamento dos três clássicos: os três autores partilham uma
orientação comum, apesar das suas diferentes abordagens teóricas.
Preste atenção e saiba o que os autores clássicos da sociologia tem em
comum em relação à compreensão da educação.

Em primeiro lugar, unanimemente trataram a educação como instituição social


macroscópica, e não como um amontoado de organizações (escolas, faculdades,
universidades) ou como um conjunto de coletividades (professores, alunos e
diretores), nem como um aglomerado de propriedades separadas (inputs, processos,
outputs).

66 OS CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA

Em segundo lugar, Marx, Weber e Durkheim colocaram firmemente a instituição


educacional na estrutura social mais ampla e propuseram problemas interessantes
sobre a sua relação com outras instituições sociais (economia, burocracia e ação
política, respectivamente).
Em terceiro lugar, todos os três perceberam que a posição da educação na
estrutura social e sua relação com outras instituições eram a chave para compreender
a dinâmica da mudança educacional.

155
Fonte: slideplayer.com.br

Embora somente Durkheim tenha teorizado profundamente sobre os reais


mecanismos de desenvolvimento educacional, sendo chamado de Pai da sociologia
da educação, nenhum deles deixou dúvidas de que esta deveria ser uma parte
integrante das suas grandes teorias – para Marx, a mudança educacional nasceu do
jogo dialético entre infraestrutura e superestrutura; para Weber, ela estava associada
à dinâmica de burocratização, embora esta ligação estivesse ‘escondida em algum
ponto decisivo’.

156
Fonte: slideplayer.com.br

Para Durkheim, ela estaria, e deveria estar, unida à ação política e, deste modo,
ao desenvolvimento de uma sociedade orgânica integrada e normativa.

Fonte: slideplayer.com.br

O pensamento dos clássicos exerce influência por ser a base do pensamento


contemporâneo. Só a partir da leitura das teorias clássicas da sociologia se poderá
chegar a um entendimento mínimo do que foi dito.
157
67 FECHANDO COM CHAVE DE OURO

Observe bem o que Edgar Morin diz na sua entrevista na Rede Globo: é
preciso educar os educadores
Vejamos os seus argumentos:

Fonte: pt.slideshare.net

O Globo: Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?


Edgar Morin: A figura do professor é determinante para a consolidação de um
modelo “ideal" de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o
tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz
necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra,
observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por
exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma
resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o
conteúdo pesquisado.
É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa
passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos,
a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão
do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação,
sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.
158
O Globo: Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?
Edgar Morin: O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é
aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o
que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os
conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é
apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento
complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a
sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser
humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.

Fonte: educarparacrescer.abril.com.br

159
67.1 Morin e a Educação

www.correiodopovo.com.br

O Globo: O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?


Edgar Morin: Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa
percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção
da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina.
Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe são pequenas, e
vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da
realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar.
Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e
ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é
abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da humanidade
é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas
ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas
matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo
adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

160
O Globo: O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do
conhecimento?
Edgar Morin: As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas
do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das
disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O
homem e a morte" é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes
reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da
psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e
humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como
psicanálise e biologia.

O Globo: Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada


no sistema educacional?
Edgar Morin: É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção.
Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela
matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a
um controle racional. O economista, muitas vezes, só trabalha através do cálculo, que
é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as
emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa
postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo
atualmente.

O Globo: A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo


das escolas? Por quê?
Edgar Morin: Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do
conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as
artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na
sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos
sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante,
nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de
arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a
emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia.

161
Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento
secundário.

O Globo: Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?


Edgar Morin: O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias
pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma
na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores
precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento.
E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto
a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão.

 Assista a Edgar Morin - Os limites do conhecimento na globalização


No vídeo exclusivo, Morin reflete sobre seus interesses enquanto filósofo e
sociólogo: os limites do conhecimento e da razão, bem como a relação entre
a poesia e a racionalidade. Ainda, questiona a possibilidade da mudança de
pensamento em um mundo globalizado e acelerado. É possível sairmos de
uma visão fechada em formas particulares para o pensamento complexo,
capaz de ver os problemas em sua integralidade?

Não deixe de assistir.


Acesso para o link: https://www.youtube.com/watch?v=_FmdI-UFW1U

Se você se dedicou e chegou até aqui, tenho certeza de que cumpriu com
dignidade os compromissos da sua formação. Você está apto a usar os
conhecimentos aqui construídos no exercício da sua profissão e da sua vida como
cidadão. Parabéns por mais essa conquista!

162
68 BIBLIOGRAFIA BÁSICA

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. 7 ed.São Paulo: Cortez, 2011.

GIL, Antonio Carlos. Sociologia geral. São Paulo: Atlas, 2016.

MORIN, Edgar. A Cabeça bem-feita. 22ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

BORDIEU, Pierre. A reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.BRANDÃO,


Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2003.

DIAS, Reinaldo. Introdução à Sociologia. 2ª Ed. São Paulo: Pearson, 2010.

FORNARI, Fabrizio; CRESPI, Franco. Introdução à sociologia do conhecimento. São


Paulo: Donzelli, 2000.

MOONEY, Linda A.; KNOX, David; SCHACHT, Caroline. Entendendo problemas


sociais. São Paulo: Cengage, 2016.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 8.


ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 4 ed. São Paulo:
Cortez, 2001.

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