Você está na página 1de 37

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE EDUCAÇÃO
CURSO DE PEDAGOGIA

DANIELE APARECIDA FERREIRA LEMOS DO NASCIMENTO

A FILOSOFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL:


PROCESSOS DO ENSINAR E APRENDER E A FORMAÇÃO DO(A)
PEDAGOGO(A)

NATAL
2017
Catalogação da Publicação na Fonte.

UFRN / Biblioteca Setorial do CCSA

Nascimento, Daniele Aparecida Ferreira Lemos do.

A filosofia nos anos iniciais do ensino fundamental: processos do ensinar e


aprender e a formação do(a) pedagogo(a)/ Daniele Aparecida Ferreira Lemos
do Nascimento. - Natal, 2017.

35f.: il.

Orientador: Profa. Dra. Marisa Narcizo Sampaio.

Monografia (Graduação em Pedagogia) - Universidade Federal do Rio


Grande do Norte. Centro de Educação. Departamento de Educação.

1. Ensino de Filosofia - Crianças – Monografia. 2. Formação de


Professores - Monografia. 3. Diálogo - Monografia. 4. Ensino fundamental -
Monografia. I. Sampaio, Marisa Narcizo. II. Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. III. Título.

RN/BS/CCSA CDU 373.2:1


DANIELE APARECIDA FERREIRA LEMOS DO NASCIMENTO

A FILOSOFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL:


PROCESSOS DO ENSINAR E APRENDER E A FORMAÇÃO DO(A)
PEDAGOGO(A)

Artigo apresentado ao Curso de


Pedagogia do Centro de Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do
Norte como requisito parcial para a
obtenção do Grau de Licenciatura em
Pedagogia.

Orientação: Profª Drª Marisa Narcizo


Sampaio

NATAL
2017
DANIELE APARECIDA FERREIRA LEMOS DO NASCIMENTO

A FILOSOFIA NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL:


PROCESSOS DO ENSINAR E APRENDER E A FORMAÇÃO DO(A)
PEDAGOGO(A)

Artigo apresentado ao Curso de Pedagogia do Centro de


Educação da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte como requisito parcial para a obtenção do Grau de
Licenciatura em Pedagogia.

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________________
Profª Marisa Narcizo Sampaio (orientadora) – DPEC/CE
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

____________________________________________________
Prof. Lucrécrio Araújo de Sá Júnior – DPEC/CE
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

____________________________________________________
Profª Rosália de Fátima e Silva – DFPE/CE
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

NATAL
2017
A minha família e ao
meu namorado.
AGRADECIMENTOS

Primeiramente, agradeço aquele que chamamos Deus, pelo que aprendi durante
esses três anos e meio, pelas amizades construídas ao longo dessa jornada e por ter
concluído mais essa graduação.

Aos meus pais Fernando e Márcia, pelo amor incondicional, pela paciência, e
principalmente por terem me ensinado a importância do estudo, pois o único bem que
não pode ser tirado do ser humano é o conhecimento.
As minhas irmãs Fernanda e Maryanna, que mesmo, em alguns momentos de
forma inconsciente, me incentivaram a correr atrás de mais esse objetivo. Vocês foram
fundamentais para que eu não desistisse desse curso no meio do caminho.
Ao meu namorado Gabriel, por todo amor, carinho, compreensão e paciência.
Muito obrigada por compartilhar comigo os momentos de angústia, tristeza e alegria, e
principalmente por ser meu ponto de equilíbrio quando eu achava que as coisas não
iriam dar certo.
A minha orientadora Profª. Drª Marisa, que mesmo com todos os contratempos
me guiou até aqui, com muita competência e paciência.
Aos amigos que fiz ao longo dessa graduação. Agradeço principalmente a Alana,
Romênia, Kallyane, Fabiana, Sarah, Alyne e Thayse por terem tornado os últimos
semestres mais leves, além das ótimas histórias vividas e longos papos no corredor da
UFRN, pela amizade e por ajudar a tornar a vida acadêmica muito mais divertida.

A minha amiga Josina, sempre solícita no auxílio a qualquer tempo e hora, e que
mesmo a distância sempre estive me incentivando com suas palavras.

Aos meus alunos que na convivência da sala de aula me incentivaram muito,


principalmente nessa reta final, a concluir mais essa graduação.
A educação exige os maiores cuidados, porque
influi sobre toda a vida.
Sêneca
RESUMO

O presente artigo visa discutir a formação dos professores dos Anos Iniciais do Ensino
Fundamental para trabalhar conteúdos de Filosofia de forma sistemática com seus
alunos, pois são eles os responsáveis por trabalhar e fomentar nas crianças esse sujeito
crítico e questionador, capaz de pensar por si próprio e fazer suas escolhas. O ensino de
Filosofia para crianças é um dos caminhos para se formar sujeitos autônomos,
participativos na sociedade, criativos, críticos, reflexivos e melhor preparados para o
exercício da cidadania. Permite que o professor e o aluno tenham a experiência de uma
educação que tem como base o pensamento reflexivo. Dessa forma o professor que vai
trabalhar com o ensino de Filosofia para crianças precisa discutir na sua formação
conhecimentos para desenvolver uma prática que não deve estar baseada no ensino de
História da Filosofia. A construção desse artigo teve como ponto de partida a minha
observação do modo como as pedagogas que ensinam Filosofia para crianças na escola
em que trabalho conduziam as suas aulas e faziam seus planejamentos, isso me
inquietou e me fez partir para uma pesquisa bibliográfica para levantar quais eram as
necessidades formativas para professores dos anos iniciais que vão trabalhar com o
ensino de Filosofia para crianças. Para discutir essas necessidades de formação foram
estudados autores como Kohan (1998; 2004), Lipman (1990; 2002), entre outros que
discutem e fazem propostas para o ensino de Filosofia para crianças. É necessário que
os professores, pedagogos e pedagogas que vão trabalhar com o ensino de Filosofia para
crianças tenham uma formação apropriada no âmbito da Filosofia, como o
conhecimento de conceitos filosóficos e também de conteúdos que são próprios da
Filosofia. Para ensinar Filosofia para crianças o professor também tem que dominar os
conhecimentos pedagógicos contemporâneos para desenvolver um trabalho baseado na
diversidade, no aproveitamento das experiências dos alunos, na integração de
conhecimentos, no diálogo e na participação.
Palavras-chave: Ensino de Filosofia para Crianças. Formação de Professores. Diálogo.
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.................................................................................................. 10
2. A FILOSOFIA E O DIÁLOGO: A importância do ensino de Filosofia para
crianças ...................................................................................................................... 16
3. O PEDAGOGO E O ENSINO DE FILOSOFIA .............................................. 24
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 30
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 35
10

1. INTRODUÇÃO

Educar não é simplesmente transmitir conhecimentos, vai muito, além disso, a


educação deve promover o desenvolvimento do indivíduo como um todo, pois é por
intermédio dela que, segundo Freire (2011), a pessoa se humaniza, já que ela pode ser o
caminho para que o ser humano tenha um olhar crítico do mundo, bem como um
pensamento autônomo. A educação é uma responsabilidade social, dessa forma se faz
necessário que o aluno desenvolva outras habilidades além de ler e escrever, saber
ouvir, questionar e refletir acerca do cotidiano, assim a Filosofia aparece como um
caminho para que tais objetivos possam ser alcançados.

A sociedade contemporânea está imersa em uma realidade em que tudo já se


encontra dado, a tecnologia trouxe inúmeros benefícios e crescimento para o ser
humano, porém com ela tudo o que nos rodeia encontra-se pronto, como se tudo fosse
instantâneo e sem profundidade. O que acontece é que com a globalização os
conhecimentos foram ficando cada vez mais fragmentados, porém isso nos trouxe
problemas, como o fato da nossa capacidade de compreensão, bem como a de reflexão
quase que desaparecem, isso porque não conseguimos ver os problemas como um todo
e sim apenas um pedaço deles. Então não temos como compreendê-los e nem como
refletir acerca deles. Morin (2003) afirma que:

Assim, os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só


trouxeram as vantagens da divisão do trabalho, mas também os
inconvenientes da superespecialização, do confinamento e do
despedaçamento do saber. Não só produziram o conhecimento e a
elucidação, mas também a ignorância e a cegueira. (p.15)

Não obstante a essa esfacelação do conhecimento a escola acabou seguindo a


mesma linha e corroborando com a mesma, na medida em que ao invés de propor um
ensino que fosse capaz de mostrar ao aluno pensar o todo, ela divide o conhecimento
por área, o que mais uma vez deixa a compreensão e a reflexão cada vez mais distante e
superficial. Segundo Edgar Morin (2003)

Em vez de corrigir esses desenvolvimentos, nosso sistema de ensino


obedece a eles. Na escola primária nos ensinam a isolar os objetos (de
seu meio ambiente), a separar as disciplinas (em vez de reconhecer suas
correlações), a dissociar os problemas, em vez de reunir e integrar.
Obrigam-nos a reduzir o complexo ao simples, isto é, a separar o que
11

está ligado; a decompor, e não a recompor; e a eliminar tudo que causa


desordens ou contradições em nosso entendimento.

Em tais condições, as mentes jovens perdem suas aptidões naturais para


contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos. (p. 15)

Diante dessa fragmentação no qual estamos imersos, o que vemos são crianças
que possuem dificuldades de manter relações umas com as outras, pois estabelecem
suas relações com máquinas desde cedo e dessa forma acabam perdendo a sua essência
humana, no sentido de se relacionarem presencialmente com outras crianças e também
apresentam dificuldades para interpretar um texto e pensar por si próprias. Nesse
sentido educar para um pensamento crítico e reflexivo torna-se um grande desafio para
os professores.

Observando as professoras dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de uma


escola particular de Natal, escola na qual trabalho como professora de Filosofia neste
nível de ensino, visto que essa é a minha primeira graduação, pude perceber que elas
não possuíam a compreensão da importância que o ensino de Filosofia para crianças
pode ter para sua formação, além disso, não sabiam como trabalhar temas filosóficos
com as crianças, o que muitas vezes causava uma certa angústia nas mesmas. Por não
se sentirem preparadas para trabalhar com o ensino de Filosofia para crianças, na
maioria das vezes o que acontecia era uma fuga por parte dessas professoras, já que elas
usavam o horário que deveria ser destinado ao ensino de Filosofia e trabalhavam Língua
Portuguesa, por exemplo.

Além disso, pude observar, a dificuldade que as professoras tinham em planejar


as aulas de Filosofia e também em avaliar seus alunos quanto ao seu processo de
aprendizagem, uma vez que elas julgavam não ter o conhecimento necessário para
trabalhar com este conteúdo em sala de aula e menos ainda para avaliar as crianças.
Ainda tinha o agravante de desconhecerem o significado de termos que são próprios da
Filosofia e que apareciam constantemente no material utilizado pela escola, e de não
conseguirem compreender qual era o objetivo das atividades propostas por esse
material.

O ensino de Filosofia para crianças se faz presente atualmente apenas em


algumas escolas particulares, enquanto que nas escolas públicas os alunos só tem
contato com a Filosofia quando chegam ao Ensino Médio. Entretanto, vale salientar que
o fato de algumas escolas particulares colocarem o ensino de Filosofia na estrutura
12

curricular dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental não se dá exclusivamente pelo fato
delas se preocuparem em formar cidadãos críticos e reflexivos, mas por esta se tornar
um diferencial na sua oferta educativa. No que tange às escolas públicas a ausência
dessa disciplina nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental faz com que esses alunos
sintam mais dificuldades de compreenderem a importância da mesma ao chegarem no
Ensino Médio, bem como tenham alguma defasagem no processo de aprendizagem de
matemática e linguagem.

Nessa escola particular onde atuo, o ensino de Filosofia está presente na grade
curricular desde o 1º ano do Ensino Fundamental, dessa forma desde cedo as crianças
tem contato com o pensamento filosófico. A escola adota um sistema de apoio ao ensino
que vem de Curitiba, que oferece os materiais didáticos, com conteúdos que já vem pré-
determinados, entretanto isso não impede que o professor possa readaptar esses
conteúdos à realidade dos seus alunos.

A partir dessas observações e refletindo sobre a minha prática enquanto


professora de Filosofia para crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental na
escola particular já citada, este artigo tem como intento discutir a formação dos
professores dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental para trabalhar conteúdos de
Filosofia de forma sistemática com seus alunos, pois são eles os responsáveis por
trabalhar e fomentar nas crianças esse sujeito crítico, questionador e reflexivo, que não
aceita tudo pronto como a sociedade lhe impõe.

Kohan (2000) afirma que a Filosofia é ela mesma transformadora, seu exercício
impede o continuar pensando da forma que se pensava. Sendo assim, a presença do
ensino de Filosofia para crianças é de extrema necessidade, visto que ela é uma via que
pode possibilitar à criança pensar de forma autônoma e não mais simplesmente aceitar
as coisas como lhes são dadas sem que elas simplesmente não façam qualquer
questionamento ou que aquilo não lhes cause estranhamento. O ensino de Filosofia pode
e deve contribuir para a formação de sujeitos críticos através de uma educação
emancipatória que prioriza a formação de sujeitos autônomos. A educação tem uma
autoridade muito grande quando se trata de modificar uma sociedade, dessa forma o
ensino de Filosofia aparece como um instrumento extremamente necessário para que
seja possível formar cidadãos reflexivos, éticos, críticos e atuantes na sociedade.
13

De acordo com uma pesquisa realizada pela ONG Education Endowment


Foundation (EEF) com crianças de 9 e 10 anos na Inglaterra, aquelas que tiveram uma
aula semanal de Filosofia na escola melhoraram seu desempenho em matemática e
inglês mais rapidamente quando comparadas a outras crianças que não tiveram este
conteúdo inserido em seu currículo. Karin Franklin (2016) comentou sobre importância
da presença da Filosofia no currículo dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental que “a
inclusão de temas filosóficos desenvolve a criança de forma mais completa do ponto de
vista de sua estrutura lógica de argumentação e isso, obviamente, vai refletir em toda a
sua escolaridade.” Alguns especialistas admitem que a Filosofia pode ser um caminho
para melhorar o desempenho dos alunos no nosso país, visto que apenas 16% das
crianças saem do Ensino Fundamental com o conhecimento adequado em matemática e
28% em português, segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb 2013).

Muitas vezes na escola, o pensamento reflexivo acaba sendo deixado um pouco


de lado, pois as professoras – no caso do ensino de Filosofia para crianças estamos
falando de pedagogas e pedagogos – não têm a formação necessária, bem como não
tiveram a oportunidade de exercitar esse tipo de pensamento ao longo de sua vida,
apenas em momentos específicos.
Os professores e as professoras devem compreender que ao trabalharem o
pensamento reflexivo da criança, se faz necessário lançar mão, assim como no processo
de mediação do conhecimento de outras áreas do conhecimento, metodologias que
busquem envolver os alunos na aula, e, com isso, para que assim ele possa
posteriormente fazer seus alunos refletirem sobre a questão ou problema que foi
proposto inicialmente. Dessa forma, ao utilizar-se de diferentes metodologias o
professor também está aprendendo, bem como refletindo e renovando a sua prática
docente. Trabalhar o ensino de Filosofia para crianças a partir de histórias seria um bom
caminho para o professor fazer esse processo de mediação do conhecimento.
Para isso, os professores e professoras necessitam saber que não existe uma
metodologia pronta a ser seguida para que se possa ensinar Filosofia, o professor deve
ter a sensibilidade e saber enxergar sua turma, traçando o perfil da mesma, bem como
apontando suas necessidades e trabalhando a partir da realidade na qual aquela turma
está inserida.
Em uma entrevista, Giuseppe (2013, p. 165) afirmou “os métodos são muitos.
Eu ensino Filosofia e veja o que me acontece: este ano, tive que mudar meu modo de
14

relacionar-me com meus alunos, porque são diferentes, porque não são aqueles do ano
passado”.
Assim confirmamos essa necessidade do professor saber que não existe uma
única metodologia e nem uma metodologia pronta que deve ser seguida a risca para se
ensinar Filosofia, como também não há para nenhuma outra área do conhecimento e que
cada turma para a qual ele lecionar vai ser singular. Existem diferentes metodologias de
ensino, cabe então ao professor escolher as que se adequam melhor aos seus alunos.
O professor deve ter claro que o ensino de Filosofia, principalmente para
crianças, deve partir de questionamentos, diálogos e investigação para que assim os
alunos possam pensar por si mesmos, bem como compreender a importância de tal
disciplina no currículo escolar. De acordo com Malacarne (2005)

Pensar na inserção da Filosofia na escola fundamental é estar disposto


a olhar para as crianças, vendo nelas não adultos em miniaturas, mas
crianças que são capazes de quando valorizadas, refletir com vistas a
ter ideias próprias, o que é melhor, com grau de compreensão
suficiente. (p. 63)

A presença da Filosofia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é, portanto, de


suma importância, uma vez que ela pode levar os alunos a questionar, refletir e pensar
por si próprios, visto que oportuniza aos alunos expressar seus pensamentos e mostra
caminhos pelos quais devem percorrer para que sejam capazes de refletir sobre esses
pensamentos. A escola deve formar cidadãos autônomos e críticos, dessa forma uma
educação emancipatória voltada para a autonomia intelectual e moral é essencial, pois
por meio dela o aluno pode reconhecer-se como cidadão crítico e questionador, capaz de
modificar a realidade na qual está inserido.

De acordo com Lipman (1994) o questionamento das crianças em sala de aula é


de suma relevância, devendo ser proporcionado ao aluno desde as séries iniciais, pois
assim ele pode se habituar a fazer intervenções e aprender a respeitar as opiniões
diferentes. Dessa forma o ensino de Filosofia para crianças tem como atribuição mostrar
para elas a importância do diálogo em uma sociedade democrática, onde cada um
conhece seus direitos e deveres e compreende que as regras precisam ser respeitadas.
Neste processo de educação emancipatória poderemos formar cidadãos democráticos,
tolerantes, éticos, críticos e reflexivos.
15

O ensino de Filosofia para crianças tem início com o filósofo norte americano
Mathew Lipman na década de 1960, porém só chega ao Brasil na década de 1980,
exatamente na época em que estava acontecendo à abertura política para o processo de
redemocratização. De 1964 até 1985 o Brasil viveu o período da ditadura militar,
quando muitos direitos foram suprimidos e muitos abusos de autoridade foram
relatados. Nesse período houve inúmeras mudanças em nosso país e uma delas foi a
exclusão da Filosofia do currículo, deixando de ser disciplina obrigatória na formação
dos jovens. Valls (1983) afirmou que “a Filosofia, principalmente na segunda metade
dos anos 60, tornou-se indesejável, passou a ser considerada perniciosa e subversiva. Há
dois mil anos, Sócrates foi condenado à morte como sedutor da juventude e inimigo dos
deuses do Estado” (p. 42).

Rodhen (1980) afirmou que “o Estado tem medo de homens que fazem
verdadeira Filosofia. Tais homens, pela sua própria estatura de pensamento e de
homens, não servem ao Estado, e ele não os favorecerá” (p.8). A retirada da Filosofia
dos currículos escolares se deu por medo de que as ideias por ela difundidas chegassem
até a massa e que por isso esta se rebelasse contra o regime militar, dessa forma os
professores foram proibidos de exercer sua função, não apenas na sala de aula, mas na
sociedade, sendo, por muitas vezes, perseguidos e presos. No ano de 1971, com a
promulgação da Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) 5692/71, oficializou-
se a retirada da Filosofia dos currículos escolares, sendo substituída pela disciplina de
Educação Moral e Cívica. Só em 2006 o parecer n° 38/2006, do Conselho Nacional de
Educação (CNE), já tornava obrigatória a inclusão da Filosofia no Ensino Médio. Em
junho de 2008, depois de quase 40 anos, quando entrou em vigor da Lei nº 11.684, que
alterou a Lei nº 9.9394/1996, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o
ensino de Filosofia volta aos currículos escolares.

O método de Lipman chegou ao Brasil trazido pela norte-americana naturalizada


brasileira, Catherine Young Silva, que adaptou e aperfeiçoou o projeto inicial para a
realidade brasileira. Dessa forma, foram alcançadas diversas escolas tanto particulares,
quanto públicas, porém o método teve um destaque maior nos seguintes estados
brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Paraná, Brasília, Maranhão, Mato
Grosso do Sul. Entretanto, apesar do método Lipman ser o primeiro voltado para o
ensino de Filosofia para crianças, ele não precisa ser o único método utilizado para o
ensino de Filosofia, ele pode e deve ser tomado como um roteiro, de maneira que, como
16

foi dito anteriormente, é preciso que o trabalho reflexivo seja feito voltado para a
realidade e necessidade de cada turma.

Dessa forma, o artigo está estruturado da seguinte maneira: no primeiro tópico


discuto a importância do ensino de Filosofia para crianças, enfatizando a relação entre a
filosofia e o diálogo e mostrando que através do processo dialógico nas aulas de Filosofia
a criança possa se formar como um cidadão participativo, questionador e reflexivo. No
segundo tópico serão discutidas as necessidades de formação para que pedagogos e
pedagogas possam desenvolver esse trabalho.

2. A FILOSOFIA E O DIÁLOGO: A importância do ensino de Filosofia para


crianças

Com a reinserção da Filosofia nos currículos escolares do Ensino Médio, de


acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB 9394/96 e
também com a sua presença no Ensino Fundamental I e II, tem sido cada vez mais
constante a discussão e estudo acerca da importância do ensino de Filosofia para
crianças e quais as habilidades são desenvolvidas. De acordo com Thomal (2001) a
Filosofia, continua sendo um desafio no campo educacional, mas em tempos atuais é
necessário inseri-la já nas séries iniciais do Ensino Fundamental, para que não se torne
um tabu, de que é privilégio de poucos. Este mesmo autor afirma também que a
tentativa filosófica é a de nos tirar do senso comum para conhecer e compreender o real
significado desse algo a que nos referimos. É com a filosofia que podemos começamos
a questionar as coisas, procurando conhece-las em sua totalidade, não apenas aceitando
o que nos é passado. A filosofia vai permitir que se saia do conhecimento que está
fragmentado, onde conhecemos apenas uma parte das coisas, e se passe a conhecer a
totalidade delas.
A Filosofia pode mostrar o caminho para que possamos educar o nosso
pensamento, mas isso só é possível se estivermos dispostos a fazer parte do diálogo
filosófico dentro de uma comunidade de investigação, e o ambiente da sala de aula
receberá esse nome, pois é nela que irão acontecer as discussões. Essa comunidade de
investigação, de acordo com Lipman (1994), proporciona as crianças
17

A dividirem opiniões, com respeito, desenvolverem questões a partir


das ideias de outros, desafiarem entre si para fornecerem opiniões até
então não apoiadas, auxiliarem uns aos outros ao fazer interferências
daquilo que foi afirmado e buscar identificar as suposições de cada
um. (p. 31)

Também em Piaget (1977) encontramos argumentos favoráveis à necessidade de


desenvolver o pensamento. Ele nos mostra que:

É preciso ensinar os alunos a pensar, e é impossível aprender a pensar


num regime autoritário. Pensar é procurar por si próprio, é criticar
livremente e é demonstrar de forma autônoma. O pensamento supõe
então o jogo livre das funções intelectuais e não o trabalho sob pressão
e a repetição verbal (p. 118).

Na medida em que as crianças são estimuladas a pensar elas vão ficando mais
sensíveis, criativas e críticas à realidade na qual estão inseridas. A interação é uma via
fundamental para que as crianças através da mediação possam aprender. Dessa forma,
se faz necessário despertar na criança a dúvida e também a curiosidade, para que assim
o aluno possa adquirir novos conhecimentos. Um espaço que tem como foco a interação
é um ambiente propício para a construção do conhecimento.

A criança também usa a fala para pensar. A linguagem possibilita


pensarmos sobre mais coisas, pois nos dá acesso a algo que não está
concretamente presente, mas pode ser pensado e elaborado enquanto
palavra, enquanto conceito. É interessante imaginar o pensamento
como um diálogo internalizado. (FERREIRA E ROSSETTI, 1998, p.
79)

A presença do ensino Filosofia para crianças dos Anos Iniciais do Ensino


Fundamental pode proporcionar um ambiente onde elas podem vivenciar o diálogo,
bem como trocar experiências, o que consequentemente poderá levar a criança a evoluir
a sua forma de pensar, uma vez que ela irá socializar e em seguida internalizar esse
novo conhecimento. Assim, o conhecimento é aperfeiçoado por intermédio da
educação.

Falar e pensar, portanto, não se aprende sozinho, mas na interação,


com os outros. Assim, falar sobre as coisas com os outros ajuda a
criança a pensar sobre elas e a desenvolver sua linguagem e seu
pensamento. Nesse processo, nós, educadores, devemos buscar ouvi-
las e dar-lhes oportunidades para que, brincando, explorando e
interagindo, construam sua própria linguagem, cada uma a seu tempo.
(FERREIRA E ROSSETTI, 1998, p. 79)
18

O saber pensar assume um papel fundamental não só durante a trajetória escolar


das crianças, mas também ao longo da vida. Assim, o ensino de Filosofia para crianças
deve procurar desenvolver as capacidades do pensamento, principalmente a de
raciocínio, verbalização do pensamento, a reflexão e o confronto de ideias.
O estímulo ao pensamento é dado através do processo dialógico, visto que é esse
processo que vai proporcionar à criança apresentar o seu conhecimento prévio, uma vez
que ela faz uma leitura de mundo antes mesmo de aprender a ler, assim ela traz consigo
conceitos, vivências e compreensões próprias antes de chegar à escola, defender o seu
ponto de vista e contrapor o mesmo com o dos outros, e assim criar um novo conceito.

O diálogo é um estágio desse difícil e árduo processo da experiência


que é necessário para que a experiência bruta seja convertida em
expressão acabada. Os professores deveriam ter em mente que as
poderosas relações que existem entre leitura e fala, por um lado, e entre
a escrita e a fala. (LIPMAN, 2001. p.47).

O processo dialógico no ensino de Filosofia tem como foco fazer com que os
alunos possam expor suas sugestões e também suas ideias, para, a partir daí, serem
capazes de desenvolver novos conceitos. Para que exista o diálogo, se faz necessário
que duas ou mais pessoas estejam presentes e assim possam ouvir o ponto de vista do
interlocutor e mostrar pontos de vista divergentes e também convergentes.

[...] um grupo de crianças que investigam juntas sobre questões


problemáticas comuns de uma maneira tal que as faz construir ideias a
partir das ideias umas das outras, oferecer contraexemplos umas às
outras, questionar as inferências umas das outras a gerar visões
alternativas e soluções para o problema tratado, além de seguir com a
investigação para onde quer que ela leve. Com o tempo, elas passam a
se identificar com o trabalho do grupo, ao construírem significados
cooperativamente e ao se comprometerem a uma reconstrução em
andamento autoconsciente da própria visão de mundo enquanto a
investigação procede. Esta construção e reconstrução de visões de
mundo é algo com a qual todos estamos engajados consciente ou
inconscientemente (SHARP, 2004, p. 121).

O processo dialógico vai levar a criança à aprendizagem, uma vez que o mesmo
está ligado à interação entre o pensamento, conhecimento e suas experiências. À medida
que os pensamentos individuais são compartilhados, eles vão gerando a reflexão.

Vygotsky, por exemplo, reconhece clara e abertamente a existência de


uma diferença entre a capacidade que as crianças têm para solucionar
19

problemas individualmente e a capacidade de resolverem tais problemas


com a colaboração de seus professores e colegas. (LIPMAN, 2001.
p.45).

Lev Vygotsky traz a concepção de que a construção do conhecimento vai


ocorrer do social para o individual, dessa forma a interação torna-se agente fundamental
no processo de aprendizagem da criança. A construção de um ambiente social que seja
rico em estímulos é benéfica para o processo de aprendizagem, sendo assim, podemos
afirmar que o desenvolvimento da aprendizagem da criança vai oscilar de acordo com o
ambiente no qual a criança esteja inserida.

É por meio do diálogo que a criança compreende que ela tem direitos e deveres,
e nesse caso ela tem o dever de ouvir e respeitar o outro, mas também tem o direito de
falar. O aluno só sai do conhecimento prévio e passa a elaborar o seu conhecimento
quando é introduzida a relação com o outro.
O ensino de Filosofia para crianças por intermédio do processo dialógico pode
fazer com que as crianças estejam prontas para atuar na sociedade como cidadãos que
são capazes de respeitar os outros e também as leis.

[...] Crianças precisam do grupo para aprender a externalizar seu


pensamento, para aprender respeito por outros pontos de vista e a
importância de critérios públicos de validez. Porém, mais uma vez,
uma discussão requer consciência da distinção entre o meu ponto de
vista e o do outro ou outros. E é precisamente esta diferenciação do
grupo que promove o pensamento. A comunidade pode dar suporte ao
pensamento, aguçá-lo, corrigi-lo, mas não é ela que pensa.
(SCOLNICOV, 1999, p. 95).

Para que seja possível acontecer um ensino de Filosofia no qual o processo


dialógico funcione, se faz necessário que o professor abandone a visão de educação
bancária, onde ele é o detentor do conhecimento e o aluno apenas um depósito de
informações, e que ele acredite que a criança é capaz de desenvolver uma educação
reflexiva. Além disso, ele deve valorizar as capacidades e também o potencial de cada
aluno, tendo em vista que a sala de aula é um ambiente heterogêneo.
É o processo dialógico estabelecido entre alunos e professor que poderá fazer
com que seja estabelecida uma rede de ideias na comunidade investigativa que foi
estabelecida na sala de aula, onde estão presentes concepções diferentes, onde os alunos
irão questionar, refletir e emitir suas opiniões.
20

[...] as crianças tem de passar por um processo de transição em que


verbalizam diversos modos de abordar um determinado tópico para
preparar o seu maquinário intelectual. Têm que tentar expressar as suas
ideias, escutar os comentários, superar a sensação de que o que tem para
dizer é absurdo ou irrelevante testando a ideia para aprender com as
experiências do grupo e começar a ficar animada à medida que as
implicações do tema forem surgindo. Somente ai é que a tarefa
proposta, pelo professor, começa a lhe aparecer apaixonante. (LIPMAN,
1994, p. 45)

De acordo com Walter Kohan (2000), Freire e Lipman consideram o diálogo


como sendo a essência para o processo de conhecimento e de aprendizagem, visto que é
o diálogo que vai fazer com que seja estimulada a autonomia do ser humano para o
pensar, além disso, vai fazer com que o aluno desperte algumas outras habilidades que
são essenciais, tais como o cuidado, a esperança e a confiança.
O ser humano constrói relações o tempo todo, dessa forma quando ele chega ao
ambiente escolar traz consigo conhecimentos, porém esse é o conhecimento popular,
aquele que é próprio da cultura na qual ele se encontra inserido. Nesse sentido, a escola
assume o papel de apresentar novas culturas, bem como ampliar o conhecimento do
aluno acerca da cultura que já está arraigada nele, esse processo acontece através do
diálogo. O processo de construção do conhecimento se dá na interação com o outro, ou
seja, através do diálogo entre o professor e aluno, e também entre aluno-aluno.

É também papel da Filosofia mostrar o caminho para que o aluno possa


questionar, bem como refletir sobre suas ações, fazendo assim com que ele se reconheça
como cidadão e agente transformador da realidade na qual encontra-se inserido. A
Filosofia pode possibilitar ao aluno e também ao professor que a educação tradicional
seja deixada de lado, ela vai trazer caminhos que podem possibilitar que o aluno
aprenda de forma mais significativa por meio do processo dialógico, o que
consequentemente vai levar o mesmo a refletir, bem como “aprender” a pensar sozinho.
A Filosofia estimula um ambiente participativo, bem como também pode
estimular a autonomia dos alunos, por meio da troca de experiência e opiniões. O
professor deixa de ser o detentor do conhecimento e passa a ser um agente mediador
nesse processo e o aluno é o foco principal, dessa forma cria-se um ambiente
democrático, isso tudo através do diálogo.
No entanto, não é apenas incluir o ensino de Filosofia nos currículos escolares,
se faz necessário que tantos os professores como os gestores revejam e tenham bastante
claro aquilo que eles compreendem como sendo educação e a partir daí sejam capazes
21

de pensar em uma dinâmica dentro do ambiente escolar que possa oportunizar as


crianças a construírem novos significados e conceitos, bem como fazerem escolhas
adequadas às necessidades que se apresentam para elas.
A Filosofia não é algo estático, pelo contrário, ela está em constante movimento,
uma vez que atravessa diferentes assuntos e os mesmos precisam ser expandidos e
sempre atualizados, fazendo assim com que os alunos percebam a presença da Filosofia
no seu dia a dia. Entretanto, é preciso que o foco da educação, segundo Lipman (1995)
seja o aprender para o pensar. É necessário que os alunos pensem por si mesmos, e não
alunos que só aprendam o que outras pessoas pensam.
Na sociedade contemporânea existe uma forte tendência à uniformização do
conhecimento no âmbito escolar. Uma das formas de materialização da uniformidade é
por meio dos materiais didáticos, onde, por exemplo, um livro que é produzido por
professores do sudeste é utilizado por alunos do norte e do nordeste. Essa unificação
dos materiais didáticos em um país de enormes dimensões territoriais como o nosso,
traz problemas, pois, geralmente, os assuntos que são tratados como relevantes para os
alunos do sul e sudeste do Brasil, são discrepantes da realidade dos alunos do nordeste e
norte, e isso reflete em um processo de ensino-aprendizagem que em sua grande maioria
não é significativo para o aluno. Além disso, acaba criando uma espécie de alienação
nos alunos e também não permite que o professor possa fazer a reflexão acerca do seu
trabalho.

Tudo isso reflete o espírito de racionalização tecnológica do ensino, na


qual o docente vê sua função reduzida ao cumprimento de prescrições
externamente determinadas, perdendo de vista o conjunto e o controle
sobre suas tarefas. (CONTRERAS, 2002, p. 36)

O que é possível perceber através dessa unificação dos materiais didáticos é que
ela proporciona a padronização do conhecimento que é mediado na escola, bem como
viabiliza a desvalorização intelectual e criativa tanto do professor quanto do aluno.
É natural da criança criar, fantasiar, ter curiosidade e assim buscar conhecer
mais sobre as coisas que são do seu interesse, entretanto, quando chegam ao ambiente
escolar começa o procedimento de uniformização do pensamento, onde ela aprenderá a
pensar igual a todos. Com isso o aluno começa a abandonar sua autonomia e dá início a
um processo de repetição de conhecimento, onde ele apenas executa as tarefas que são
passadas pelo professor.
22

A escola atualmente não tem se preocupado em formar alunos que pensam e


questionam, pelo contrário, ela está mais preocupada em formar alunos que estejam
prontos para o que a sociedade espera deles, ou seja, prontos para o mercado de
trabalho. De acordo com Nadal (2009, p. 28) “[...] a escola com matrizes pragmáticas,
meritocráticas e apolíticas, é pouco capaz de participar da construção de uma sociedade
pautada em valores sociais igualitários e democráticos”. O que vemos ainda nos dias
atuais é uma educação bancária, onde o aluno não participa ativamente da aula, não se
tem o diálogo presente no processo de ensino-aprendizagem.
É papel do professor fazer a mediação do diálogo em sala de aula para que a
criança possa alcançar o pensamento autônomo. Sobre isso, Esteban (2001) afirma que:

O ponto de partida é o diálogo que, criando espaço para que seja


explicitada a pluralidade de vozes existentes na vida escolar cotidiana,
permita e estimule a reflexão, individual e coletiva sobre o processo
desenvolvido na sala de aula e a busca de formas coletivas de
intervenção no sentido de ampliar a democratização do ensino. (p.32)

De acordo com Lipman (2001)

As crianças deveriam adquirir prática em discutir os conceitos que elas


considerassem importantes. Fazerem com que discutam assuntos que
lhes são diferentes priva-as dos prazeres intrínsecos de se torarem
educadas e abastecer a sociedade com futuro cidadãos que nem
discutem o que lhes interessa nem se interessam pelo que discutem. (p.
31).

O ensino de Filosofia pode ajudar as crianças a aprenderem a conhecer, a


viverem juntas, a fazer, a ser, a questionar e também a argumentar sobre seus pontos de
vista e até mesmo decisões. Por exemplo, uma criança que deseja sair de sala para tomar
água e que recebe um não do professor, saberá argumentar com o mesmo, expondo seus
motivos para fazer esse pedido, ou então, ela questionará seu professor quanto a sua
resposta negativa.
A finalidade do ensino de Filosofia para crianças do Ensino Fundamental é
permitir que os alunos tenham autonomia, cooperação social, sejam criteriosos e
reflexivos, e a partir do pensamento, saber criticar e avaliar a realidade na qual estão
inseridos.
A Filosofia tem também o papel de mostrar caminhos que possam assegurar a
nossa autonomia, uma vez que a sociedade contemporânea nos impõe um modelo de
23

divisão do trabalho, incapacitando o homem de pensar o processo como um todo. A


Filosofia não trabalha isolada, pelo contrário, ela vai perpassar todas as outras áreas de
conhecimento.

A pesquisa experimental mostrou que a introdução da Filosofia para


crianças de uma maneira sistemática e rigorosa [...] pode ter impactos
positivo nas habilidades básicas. Porém, poderá fazer uma diferença
substancial ou significativa quando integrada a outras disciplinas.
(LIPMAN, 2001, pág.41)

Um trabalho em conjunto com as outras disciplinas pode permitir que se tenha


uma educação emancipatória, para isso os professores devem começar a trabalhar na
perspectiva da transdisciplinaridade, para que o aluno seja capaz de compreender a
realidade como um todo e não ter acesso apenas a fragmentos, Morin (2003) afirma que

[...] a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo


em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o
multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de
reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento
corretivo ou de uma visão a longo prazo. Sua insuficiência para tratar
nossos problemas mais graves constitui um dos mais graves problemas
que enfrentamos. De modo que, quanto mais os problemas se tornam
multidimensionais, maior a incapacidade de pensar sua
multidimensionalidade; quanto mais a crise progride, mais progride a
incapacidade de pensar a crise; quanto mais planetários tornam-se os
problemas, mais impensáveis eles se tornam. Uma inteligência incapaz
de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e
irresponsável. (p.15)

Entretanto, o papel da escola na formação da criança deveria ser o de


proporcionar um espaço onde as mesmas possam analisar e questionar as coisas, mas
para isso é preciso que os conhecimentos deixem de ser trabalhados isoladamente e
passem a ser trabalhados em conjunto. Sendo assim, a Filosofia que deve ir para sala de
aula é aquela que apresenta uma proposta transdisciplinar e não a que trabalha
isoladamente, ou seja, é aquela que está presente em todos os conteúdos como
metodologia.
O professor enquanto mediador e fomentador das discussões dentro da sala de
aula deve assumir um compromisso com a investigação dialógica, não respondendo as
perguntas das crianças, enquanto elas ainda buscam respostas. O professor deve
respeitar o pensamento da criança acerca dos assuntos que são discutidos em sala de
aula. O profissional que trabalha com o Ensino de Filosofia para crianças dos Anos
24

Iniciais do Ensino Fundamental necessita estar acessível às discussões, bem como não
deve ter medo de explorar as questões que surgem durante as aulas e questionar seus
alunos, além de ser necessário que se tenha uma formação adequada no âmbito da
Filosofia para que assim ele não sinta tanta dificuldade em realizar seus planejamentos,
bem como compreender e adaptar os conteúdos filosóficos para a realidade da sua
turma, esta necessidade será abordada no próximo item.

3. O PEDAGOGO E O ENSINO DE FILOSOFIA


O ensino de Filosofia pode permitir que o professor privilegie o
desenvolvimento do pensamento crítico da criança, bem como passar a compreender
melhor que ela é um sujeito autônomo na construção do seu conhecimento.
É essencial desenvolver atividades filosófico-pedagógicas de maneira criativa,
levando em conta a multiplicidade das relações e do mundo contemporâneo, dando
assim um novo significado ao que é mediado em sala de aula, lançado mão de outros
suportes pedagógicos.
O papel do professor no processo de mediação do conhecimento é o de indagar a
criança, despertando assim a sua curiosidade, problematizando, ou seja, fornecer
subsídios para que elas possam ultrapassar as limitações iniciais e assim começarem a
refletir. Para isso, o professor não deve tratar o Ensino de Filosofia para crianças dos
Anos Iniciais do Ensino Fundamental como sendo o ensino de história da Filosofia, pelo
contrário, o ensino de Filosofia deve ser tratado como algo que precisa antes de
qualquer coisa mexer com o imaginário da criança, dessa forma antes de chegar a
História da Filosofia propriamente dita, ele deve procurar sensibilizar a criança por
intermédio de algo que esteja mais presente no seu dia a dia.
Com a finalidade de reformular o sistema educacional norte-americano Matthew
Lipman criou o programa de Filosofia para crianças na década de 1960, uma vez que ele
julgava a presença da Filosofia como algo necessário para as crianças desenvolverem o
pensamento crítico e serem cidadãos participativos. A partir disso desenvolveu um
currículo e uma metodologia específica voltada para o ensino de Filosofia para crianças.

Na visão de Lipman o programa tem como objetivo principal desenvolver no


aluno a capacidade de pensar bem, para ele esse pensar bem é equivalente ao Pensar de
Ordem Superior, onde essa forma de pensar tem como características a compreensão, o
cuidado, o ser criativo, o ser criador e o ser crítico. À medida que a criança vai
25

desenvolvendo a capacidade de pensar bem, ela começa a organizar o mesmo de modo


mais investigativo, coerente e organizado.

A criança que cresce na família tem sua curiosidade despertada pela


aventura das conversas familiares e aprende a “reconhecer vozes” e a
“distinguir os momentos certos quando se fazem declarações,
passando paulatinamente a iniciar-se no desenvolvimento da
capacidade e participação” deste diálogo contínuo. Quando é chegada
a hora para a educação formal, ocorre mais uma vez: a iniciação no
qual aprendemos reconhecer vozes, distinguir os momentos certos das
declarações e adquirimos os hábitos intelectuais e morais apropriados
à conversação. (LIPMAN, 1995, p. 35)

A proposta metodológica de Lipman do programa de ensino de Filosofia para


crianças tem como alicerce

Mediante o trabalho com o conteúdo, pudessem ser trabalhadas


habilidades cognitivas necessárias ao desenvolvimento dos alunos. O
programa propiciava o acontecer do conhecimento nas crianças e
jovens porque os fazia trabalhar com as ideias de forma cooperativa,
isto é dialógica. (LIPMAN, 1995, p. 32)

A parte fundamental não só desse programa, mas do ensino de Filosofia para


crianças como um todo, é gerar o espaço para o diálogo, pois é através dele que os
alunos podem trocar suas experiências e expressar as suas convicções em todos os
âmbitos. Sobre isso, Gianolla (2006) traz:

A proposta “Filosofia para crianças”, tanto para Lorieri, quanto para o


idealizador do P.D.P.S., propunha um espaço físico que pudesse ser
reservado pela escola para se transformar num espaço de diálogo, em
que as crianças desenvolvessem e ampliassem suas ideias e
concepções. O espaço concebia uma sala de aula em que os alunos,
posicionados em círculo, pudessem todos se observar e presenciar
uma “comunidade de investigação”. (p. 31)

Dessa forma, a proposta de Matthew Lipman traz um ensino de Filosofia que


deve começar desde a educação infantil, onde a escola oferece um espaço propício, que
é a comunidade investigativa, para que os alunos possam trocar experiências, bem como
favorece o desenvolvimento do pensamento e suas habilidades cognitivas, tudo isso
baseado em um processo dialógico. Entretanto, vale salientar que o método Lipman não
se faz condizente com a realidade do sistema educacional brasileiro, isso por que o
mesmo exige que o professor faça uma formação, sendo essa formação paga e além
disso, ainda tem um outro agravante, que seria o fato de que os professores não tem
autonomia para pensar sobre a sua prática, ele apenas deve seguir à risca o método, o
26

que torna os professores alienados quanto a sua própria prática, uma vez que eles não
tem o seu espaço de reflexão.
Atualmente o profissional que trabalha com o Ensino de Filosofia para crianças
dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é o pedagogo ou a pedagoga, entretanto o que
acontece é que esses profissionais em sua grande maioria não tiveram o ensino de
Filosofia em sua formação e, por falta dessa formação inicial, encontram muita
dificuldade de trabalhar com a Filosofia na sala de aula. Isso acaba refletindo de forma
negativa no seu planejamento e na condução das aulas, pois, por não dominarem o
assunto sentem dificuldades até mesmo de seguir seu planejamento inicial diante dos
questionamentos que vão surgindo por parte dos alunos. Kohan (2000) nos mostra que

O professor não pode limitar-se a executar os procedimentos previstos


em planos ou planejamentos, mesmo ciente de tê-los elaborado. O
acontecimento da aula traz sempre consigo a possibilidade de que algo
surpreendente ocorra, alterando o percurso daquilo que havia sido
antecipado no planejamento. (p. 101)

O professor precisa, antes de qualquer coisa, compreender que o planejamento é


essencial tanto para a sua prática pedagógica quanto para a sua vida, Menegolla e
Sant’Ana (2004) afirmam que:

Planejar é uma exigência do ser humano; é um ato de pensar sobre um


possível e viável fazer. É como o homem pensa o seu "quê fazer", o
planejamento se justifica por si mesmo. A sua necessidade é a sua
própria evidência e justificativa.” (p. 17).

Não existe professor sem planejamento, isso porque é ele quem vai direcionar a
aula e nortear a prática docente, porém o planejamento não é uma receita que deve ser
seguida a risca, tal qual foi pensado inicialmente. O planejamento é uma ferramenta
indispensável na organização profissional do professor, e que, com o domínio do seu
planejamento, ele tem condições de ir por caminhos diferentes dos previstos
inicialmente dependendo do que acontecer porque a sala de aula é um ambiente que tem
diversas variáveis. Sampaio (2007) aponta que:

[...] planejamento que no decorrer de sua execução percorre caminhos


arbitrários ao registrado, mas não quer dizer que isso é negativo e sim
positivo, pois a decisão mediante a necessidade dos alunos é mais
importante. (p.8)
27

Além disso, os alunos trazem consigo conhecimentos distintos que vão além dos
muros da escola. De acordo com Sampaio (2007)

Mesmo partindo do conhecimento que têm sobre seus alunos e alunas,


daquilo que discutem coletivamente, e dos conteúdos a serem
trabalhados, os estudantes aportam elementos e contextos
desconhecidos pela professora e o planejado não tem garantias de
acontecer. (p.10)

Dessa forma cabe ao professor fazer com que as aulas tornem-se mais
significativas tomando um rumo diferente do inicialmente planejado, partindo do
interesse dos alunos e usando os acontecimentos, porém com o mesmo propósito, o de
fazer com que elas possam aprender.
Assim como o planejamento pode assumir um caráter flexível e proporcionar
outro caminho a aula, a Filosofia também, visto que ela vai proporcionar diversos
caminhos a serem seguidos, dessa forma é necessário que o professor tenha consciência
dessa peculiaridade filosófica e assim permitir que a aula possa fluir de forma a dar
prioridade a discussão e a fomentação do pensamento crítico e reflexivo dos alunos.
Diante desse quadro é preciso que esses professores tenham uma formação
apropriada para que eles possam trabalhar com o ensino de Filosofia nos Anos Iniciais
do Ensino Fundamental, uma vez que a Filosofia também é extremamente necessária na
formação desses profissionais, isso porque são eles os responsáveis por fomentar o
desenvolvimento intelectual e educacional dos seus alunos.
O professor dos Anos Iniciais precisa compreender que a Filosofia encontra-se
presente em tudo e que a criança quando questionada acerca das coisas que constituem a
sua realidade ela aprende a filosofar de uma maneira mais prazerosa, assim como o
processo de aprendizagem torna-se significativo para ela. Dessa forma, ele pode lançar
mão de estratégias, técnicas e recursos para que o processo dialógico aconteça da
melhor forma em sala de aula, de modo que possa proporcionar as crianças
compreenderem e atingirem as características de um diálogo filosófico.
Quando se trabalha com o ensino de Filosofia para crianças o professor pode
trabalhar com a leitura de histórias, filmes, músicas e etc, as quais vão possibilitar que
através do imaginário, as crianças possam começar a refletir e questionar. Matthew
Lipman em seu programa de Filosofia para crianças desenvolve seis novelas, que são
histórias as quais vão nortear em sala de aula o ensino de Filosofia, a primeira foi escrita
no ano de 1969. As novelas são divididas em faixas que vão abranger desder a educação
28

infantil até o 9º ano do Ensino Fundamental. Cada novela pode possibilitar a formação
de alunos autônomos e reflexivos, porém tendo sempre o professor como mediador
desse processo. Sobre as novelas, Lipman (2002) afirma que:

As histórias para crianças são mercadorias preciosas – bens


espirituais. Constituem uma espécie de bens de que não despojamos
ninguém ao torna-los nossos. As crianças adoram personagens de
ficção das histórias que leem: apropriam-se deles como amigos -
como companheiros semi-imaginários. Dando às crianças histórias de
que se apropriar e significados a compartilhar, proporcionando-lhes
outros mundos em que viver – outros reinos em que habitar. (p. 62)

Assim, podemos perceber uma preocupação por parte dele em trazer a Filosofia
para próximo da criança, utilizando-se de métodos os quais a mesma já tem
familiaridade e que também vai abrir caminho para que seja possível o diálogo. A partir
das novelas, as crianças serão incentivadas a refletir sobre as mesmas e os assuntos que
estão presentes ali, bem como a falar e ouvir os demais colegas. Entretanto, para
escolher as histórias com as quais irá trabalhar, o professor precisa conhecer a realidade
na qual os seus alunos encontram-se inseridos, assim ele terá os subsídios necessários
para problematizar e proporcionar uma discussão mais significativa na sua sala de aula.
Além disso, esse profissional, também precisa ser criativo, dinâmico e apresentar
diferentes recursos didáticos para contagiar seus alunos. Dessa forma, podemos afirmar
que o professor que trabalha com o ensino de Filosofia para crianças é um profissional
que se distingue dos demais, porque ele incentiva seus alunos a refletirem sobre a
realidade, a participação deles nos debates, a convivência democrática, respeito a pontos
de vista diferentes, a serem éticos, a criação de atitudes sociais, a se reconhecerem
cidadãos que podem modificar a realidade na qual estão inseridos e etc.
Apesar do método de Filosofia para crianças desenvolvido por Lipman ser um
caminho para que os professores possam trabalhar com o ensino de Filosofia em sala de
aula, vale salientar que eles não devem assumir o papel de meros reprodutores e menos
ainda que fiquem subordinados ao material didático. Um professor que é apenas um
mero reprodutor do conhecimento vai de encontro àquilo que a Filosofia mais preza que
é um pensamento autônomo, crítico e questionador. Gallo (2013) afirma que

Uma didática geral, uma “arte – MÉTODO! – de ensinar tudo a todos”


não pode dar conta do ensinar filosofia, do aprender filosofia.
Filosoficamente, o aprendizado da filosofia está para além de qualquer
método, que significa controle. No processo de ensino, a filosofia nos
29

escapa... E, no entanto, nos dedicamos a essa aventura que é o ensino


da filosofia. Sim, aventura, pois sabemos quando e de onde saímos,
mas não sabemos quando, aonde ou mesmo se chegaremos.
O ensino de filosofia não pode ser abarcado por uma didática geral,
não pode ser equacionado unicamente como uma questão pedagógica
porque há algo de específico na filosofia. Há algo que faz com que a
filosofia seja filosofia, e não ciência, e não religião, e não opinião, e é
esse algo que faz com que o ensino de filosofia careça também de um
tratamento filosófico, de uma didática específica, para além de toda e
qualquer questão estritamente pedagógica. (p. 212)

O professor deve ter domínio do seu trabalho e exercer o papel de sujeito em


relação ao seu fazer, bem como confiar em seus conhecimentos e habilidades, além
disso, planejar as suas aulas e preparar as atividades filosófico-pedagógicas.

Silveira (2001) afirma que cabe ao professor:

[...] identificar a [forma] mais adequada aos seus objetivos e às


condições em que o trabalho pedagógico deverá se desenvolver. Essa
é, de fato, uma responsabilidade que compete ao professor. Daí a
importância de que ele tenha formação específica em filosofia. (p.
112)

Para trabalhar com o Ensino de Filosofia para crianças dos Anos Iniciais do
Ensino Fundamental antes de qualquer coisa é necessário que o professor tenha
conhecimento de conceitos filosóficos, bem como de conteúdos que são próprios da
Filosofia, além disso, tão importante quanto, é esse professor saber como adequar esses
conceitos e conteúdos próprios da Filosofia a uma linguagem que seja acessível e de
fácil compreensão para a faixa etária com a qual ele está trabalhando. Silveira (2001, p.
113) diz que “em resumo, para ser radical, rigorosa e de conjunto, ou seja, para ser
filosófica, a reflexão necessita contar com certos pressupostos teóricos e metodológicos
que precisam ser aprendidos”.
Podemos afirmar que o professor que tem um conhecimento didático e teórico
ele pode e deve produzir contextos significativos através uma adaptação didático-
metodológica, assim as crianças poderão compreender os conceitos filosóficos de forma
significativa sem achar que a Filosofia é algo inatingível por ela.
O professor antes de planejar suas aulas pode procurar conhecer a realidade da
turma, bem como fazer um levantamento prévio dos interesses da mesma, sobre isso
encontramos em Rondon (2011)
30

As aulas de filosofia poderiam começar com a escolha de temas


sugeridos pelos alunos, isso porque o professor precisa levar em conta
a realidade dos alunos, saber quais são seus reais interesses e levar em
conta o conhecimento prévio de cada um, se isso não acontece as
chances de “sucesso” da sua disciplina diminuem consideravelmente.
(p. 73)

Com esse conhecimento prévio da turma levantado, o professor necessita fazer


uma leitura prévia da história que pretende trabalhar, ouvir a música, assistir ao vídeo,
ou seja, independente do recurso didático que ele escolha para conduzir sua aula, é
preciso que tenha um contato prévio com o mesmo para que ele identifique os conceitos
filosóficos estão presentes ali, decidir qual a melhor forma de mediar esse conhecimento
com as crianças e pensar nas perguntas iniciais que serão lançadas aos alunos, para fazer
com que as crianças comecem a questionar. Assim podemos dizer que ao planejar a
aula, o professor está planejando uma educação para o pensar. Ao pensar a finalização
da discussão do tema, o professor pode, por exemplo, propor um desenho, uma
produção textual ou até mesmo a oralização onde cada aluno possa expressar o que
aprendeu naquela aula.
O professor deve sempre repensar a sua prática docente e consequentemente a
sua proposta didática. Como afirma Gontijo (2013)

Pensar uma didática para além da didática do ensino de Filosofia é


contribuir para que esta atividade – a filosofia – ocupe, de forma
criativa, crítica e rigorosa, seu lugar. Elaborar um planejamento do
que se deseja ensinar, prevendo e preparando materiais específicos,
selecionando textos, organizando a dinâmica da aula não aprisionada,
necessariamente, o processo de aprendizagem. (p. 49)

O Ensino de Filosofia para crianças necessita de uma didática própria, uma vez
existe algo que faz com que a Filosofia seja a Filosofia e assim ela se diferencie da
ciência, da religião e etc. Rondon (2011) acredita que:

O primeiro passo, então, para a elaboração de uma proposta didática


para ensinar filosofia é recuperar a sensibilidade de ouvir o outro, isto
é, saber quem é, de onde vem, quais são suas histórias, seus limites,
suas possibilidades, suas questões. Antes de nos preocuparmos tanto
com o quanto ou o que vamos dizer em nossas aulas, poderíamos dar a
oportunidade aos alunos de se expressarem e, a partir dessa “escuta”,
elaborar um programa de estratégias que permitam a mediação entre
suas questões e a tradição filosófica, visando à constituição de espaços
de formação e liberdade. (p. 71)
31

Por fim, para que o Ensino de Filosofia para crianças seja prazeroso tanto para
os alunos quanto para o professor, bem como para um bom andamento das aulas, é
necessário que o professor assuma o papel de mediador e não de detentor do
conhecimento, bem como fomente em sua sala de aula um ambiente investigativo onde
os alunos podem questionar, criar e discutir. O professor pode buscar transformar sua
sala de aula em uma comunidade de investigação, onde as aulas estão baseadas no
diálogo, conforme discutido anteriormente, para que assim o aluno possa desenvolver o
pensamento crítico e reflexivo, visto que vai ser o processo dialógico que irá levar a
criança a aprender através do contato com as experiências e opiniões dos outros alunos.
Para ensinar Filosofia para crianças, o (a) pedagogo (a) deve assumir a postura
de pesquisador e não apenas de um reprodutor do que já vem pronto nos livros didáticos
ou de métodos, como o de Lipman, o professor não pode privar-se de buscar novos
conhecimentos tanto para as suas aulas, quanto para a sua própria vida profissional.
Quando o professor se restringe apenas a seguir um livro didático ou a métodos já
prontos na sua atividade docente, ele acaba se restringindo a trabalhar com a reprodução
do que já está dado sem reflexão, além de perder características próprias da profissão
docente como a autonomia e a criação da sua prática, dessa forma a pluralidade e
diversidade que constituem o espaço escolar acabam sendo suprimidas da prática
pedagógica. Encontramos em Freire (2011)

Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres


se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo
buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei,
porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando,
intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o
que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. [...]
Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a
pesquisa. O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o
professor se perceba e se assuma, porque professor, como
pesquisador. (p. 16)

Além da postura de pesquisador e da prática reflexiva, se faz necessário que o


(a) pedagogo (a) domine os conhecimentos pedagógicos contemporâneos que o ajudem
a desenvolver um trabalho baseado na diversidade, no aproveitamento das experiências
dos alunos, na integração de conhecimentos, no diálogo e na participação. A tipologia
dos conteúdos também é um conhecimento necessário que o (a) pedagogo (a) deve ter,
especialmente no campo dos conteúdos atitudinais e conceituais, onde os mesmos
32

devem ser ampliados para outras áreas. Apesar dos conteúdos conceituais serem
abstratos de acordo com Zabala (1998)
As condições de uma aprendizagem de conceitos ou princípios
coincidem exatamente com as que foram descritas como gerais e que
permitem que as aprendizagens sejam o mais significativas possível.
Trata-se de atividades complexas que provocam um verdadeiro
processo de elaboração e construção pessoal do conceito.[...] Trata-se
sempre de atividades que favoreçam a compreensão do conceito a fim
de utiliza-lo para a interpretação ou para o conhecimento de situações,
ou para a construção de outras ideias. (p. 43)

Já os conteúdos atitudinais compreendem valores, atitudes e normas, onde esses


quando interiorizados pelos alunos ajudam os mesmos segundo Zabala (1998)
Foram interiorizados e formam elaborados critérios para tomar posição
frente àquilo que deve se considerar positivo ou negativo, critérios
morais que regem a atuação e a avaliação de si mesmo e dos outros.
Valor que terá um maior ou menor suporte reflexivo, mas cuja peça-
chave é o componente cognitivo. (p. 47)

É necessário também que os professores, pedagogos e pedagogas que vão


trabalhar com o ensino de Filosofia para crianças tenham uma formação apropriada no
âmbito da Filosofia, como o conhecimento de conceitos filosóficos e também de
conteúdos que são próprios da Filosofia, de acordo com Saviani (1994, p. 11) “a
filosofia desempenha papel imprescindível na formação do educador”. Falcão (1989)
afirma:

O profissional que fornece matéria para o trabalho da mente dos alunos


precisa ser bem preparado, o que ele conseguirá informando-se,
debatendo, observando, experimentando, comparando, analisando,
encontrando problemas e soluções, soluções e problemas –
estabelecendo uma visão-do-mundo, da qual decorrerá uma visão da
educação. (p. 34)

O Ensino de Filosofia nos reporta imediatamente a pensar em uma educação


emancipatória, na qual os professores lançam questionamentos e não fornecem
respostas prontas e acabadas. Através do diálogo eles levam a criança a refletir e assim
construir o seu conceito próprio para que depois elas possam comparar com o
conhecimento sistematizado. Dessa forma, podemos dizer que estamos perante uma
educação que pode capacitar à criança, através do desenvolvimento do seu pensar, para
ser um cidadão ético, questionador, reflexivo e que é capaz de modificar a realidade na
33

qual está inserido, tudo isso através do processo dialógico no qual o professor,
mediador, assume o papel fundamental.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presença da Filosofia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental reforça uma
visão de educação que se contrapõe à educação tradicional e propõe uma educação
baseada em um processo de ensino-aprendizagem dialógico e reflexivo, onde o aluno
vai debater e também refletir partindo de situações que estão presentes no seu cotidiano,
onde o objetivo é tornar esse aluno um cidadão crítico, reflexivo, que se reconhece
enquanto agente transformador da realidade na qual está inserido e que poderá refletir
criticamente sobre qualquer situação durante toda a sua vida.

O ensino de Filosofia para crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental


pode permitir que o professor e o aluno tenham a experiência de uma educação que tem
como base o pensamento reflexivo. Dessa forma o professor que vai trabalhar com o
ensino de Filosofia para crianças deve abandonar o modelo de educação tradicional,
onde ele é o detentor do conhecimento, além disso, a sua prática não precisa partir do
ensino de História da Filosofia, mas sim em conversas que vão gerar inquietações em
seus alunos. O professor precisa buscar meios alternativos os quais sejam capazes de
sensibilizar as crianças para aquele assunto que será discutido com eles, como por
exemplo, fazer uso de histórias, visto que estes textos são algo muito presente em suas
vidas e com as quais elas já possuem uma intimidade.

O professor precisa utilizar-se de diferentes recursos didáticos para que o


processo de ensino-aprendizagem seja baseado em um pensamento autônomo, crítico e
reflexivo da criança não seja algo distante da realidade dos seus alunos. As aulas de
Filosofia nos Anos Iniciais podem ter como ponto de partida a ludicidade, dessa forma
cabe ao professor trazer algo – história, música, vídeo e etc – que seja próximo da
criança, para que assim seja possível abrir caminho para o diálogo. Esse diálogo poderá
proporcionar à criança subsídios para que ela seja capaz de se apropriar de algumas
habilidades cognitivas que são fundamentais para a construção do seu pensamento
autônomo, uma vez que ela faz o exercício de falar e de ouvir o outro, ela está ao
mesmo tempo refletindo sobre tudo o que está sendo falado e dessa forma estará
34

reafirmando seu ponto de vista ou reconstruindo um novo ponto de vista sobre um


determinado assunto.

A Filosofia é um dos caminhos pelo qual o professor passa a ver a criança como
sujeito autônomo no processo de construção do seu próprio conhecimento. Além disso,
a comunidade investigativa, que é estabelecida na sala de aula, pode proporcionar ao
aluno, por meio do diálogo, vivenciar situações de aprendizagem como a concentração,
a organização do raciocínio lógico, aprender a ouvir o outro, bem como refletir acerca
de tudo que está sendo falado, possibilitando assim um processo contínuo de construção
e reconstrução do pensamento.

Para isso se faz necessário que o professor, nesse caso os pedagogos e


pedagogas já que são eles os responsáveis por trabalhar com o ensino de Filosofia nos
Anos Iniciais do Ensino Fundamental, tenham uma formação apropriada no âmbito da
Filosofia, pois são eles que vão fomentar o desenvolvimento intelectual e educacional
dos seus alunos. Além disso, eles precisam ter domínio do seu trabalho, planejar suas
aulas e também preparar as atividades filosófico-pedagógicas. Entretanto, esses
profissionais devem ter o conhecimento de conceitos filosóficos, bem como de
conteúdos que são próprios da Filosofia e ainda saberem que se faz necessário uma
adequação desses conceitos e conteúdos a uma linguagem que seja acessível aos seus
alunos, pois de nada adiantaria eles terem conhecimento desses conceitos e conteúdos e
conceitos próprios da Filosofia se não soubessem que essa adaptação é de fundamental
importância, seria a mesma coisa que apenas repetir palavras sem que as mesmas
atinjam seus alunos de alguma forma.

O método desenvolvido por Matthew Lipman pode ser usado pelos professores
como um meio, ou melhor, um orientador para ensinar Filosofia para crianças,
entretanto, ele não deve ser seguido à risca, é mais adequado que seja apenas tomado
como base para que o professor crie a sua própria proposta didático-pedagógica que se
encaixe na realidade da sua turma. Além disso, o método Lipman encontra-se distante
da realidade do ensino brasileiro, uma vez que para um professor ter acesso a esse
método ele precisa desembolsar altos valores para fazer o curso, ainda assim esse
método não permite que o professor seja dono da sua prática educativa, uma vez que ele
deve apenas aplicar as aulas que já vem prontas. O que se pode perceber dentro desse
método Lipman é uma alienação dos profissionais, uma vez que eles perdem o espaço
35

de planejamento e também de reflexão sobre a sua prática, o que vai de encontro à


própria Filosofia. A base do ensino de Filosofia é o pensamento autônomo, crítico e
reflexivo dessa forma, não cabe ao professor assumir uma proposta já pronta, pois ele
não terá condições de avaliar e nem de refletir acerca do trabalho que está
desenvolvendo com seus alunos.

O ensino de Filosofia para crianças é um caminho para se formar sujeitos


autônomos, participativos na sociedade, criativos, críticos e reflexivos. A presença da
Filosofia nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental coopera para efetivar uma educação
transformadora, que pode abrir caminhos para preparar a criança para o exercício da
cidadania.

REFERÊNCIAS

CZELUSNIAK, A. Filosofia ajuda a aprender melhor matemática e linguagens, diz


estudo. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/filosofia-ajuda-a-
aprender-melhor-matematica-e-linguagens-diz-estudo-664gv9skcaqt1fhhlousa4mgq>
Acesso em: 27.04.17.

CONTRERAS, J. Autonomia de professores. Tradução de Sandra Trabucco


Valenzuela; revisão técnica, apresentação e notas à edição brasileira Selma Garrido
Pimenta – São Paulo: Cortez, 2002.

ESTEBAN, M. T. O que sabe quem erra? Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

FALCÃO, Gérson Marinho. Psicologia da aprendizagem. São Paulo: Editora Ática. 5ª


edição. 1989.

FERREIRA–ROSSETTI, M. C. Os Fazeres na Educação Infantil. São Paulo:


Cortez,1998.
36

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educatia. São


Paulo: Paz e Terra, 2011.

GALLO, S. O Ensino de filosofia e o pensamento conceitual. In: CARVALHO, M.


Cornelli, G. Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Filosofia e
formação: volume 1. Cuiabá: MT, 2013.

GIUSEPPE, N. História da filosofia antiga: começar pelo diálogo. In: CARVALHO,


M. Cornelli, G. Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Filosofia e
formação: volume 1. Cuiabá: MT, 2013

GIANOLLA, M. S. S. O programa de desenvolvimento pessoal e social e o ensino de


filosofia. Sorocaba: SP, 2006.

GONTIJO, P. Didática para além da didática. In: CARVALHO, M. Cornelli, G.


Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Ensinar Filosofia: volume
2. Cuiabá: MT, 2013.

KOHAN, W. O.; LEAL, B.; RIBEIRO, A. (Org.). Filosofia na Escola Pública.


Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

KOHAN, W. O. Filosofia para crianças: A tentativa pioneira de Matthew Lipman 3


ed. Petrópolis (RJ): Vozes, 1998.

__________. O que você precisa saber sobre filosofia para crianças. Rio de Janeiro:
DP&A, 2000.

__________. Infância. Entre Educação e Filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

__________. Lugares da Infância: filosofia. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

__________. O ensino de filosofia e a questão da emancipação. In: CARVALHO, M.


Cornelli, G. Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Filosofia e
formação: volume 1. Cuiabá: MT, 2013

LIPMAN, M.; SHARP, A. M.; OSCANYAN, F. S. (Orgs). A filosofia vai à escola. São
Paulo: Summus, 1990.

LIPMAN, M.; SHARP, A. M.; OSCANYAN, F. S. (Orgs). A Filosofia na sala de aula.


São Paulo: Nova Alexandria, 1994.

MENEGOLLA, M.; SANT'ANA, I. M. Por que planejar? Como Planejar?.


Currículo, área, aula. Petrópolis/Rj: Vozs, 2004.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 16


ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

NADAL, B. G. A escola e sua função social: uma compreensão a luz do projeto de


modernidade. In: FERDINANN, M. G. (Org). Formação de professores e Escola na
contemporaneidade. São Paulo: Ed. SENAC, 2009.
37

PIAGET, J. O julgamento moral na criança. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

RODHEN, V. A filosofia prática, sua relevância e atualidade. Debates filosóficos.


Rio de Janeiro, n. 2, 1980.

RONDON, R. Pequenas questões sobre o ensino de filosofia. In: CARVALHO, M.


Cornelli, G. Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. Filosofia e
formação: volume 1. Cuiabá: MT, 2013

SAMPAIO, M. N. Quando a rotina é o imprevisto, ou o diálogo entre o pré-


estabelecido e o contexto dos acontecimentos na sala de aula. In: TEIAS: Rio de
Janeiro, ano 5, nº 9-10, jan/dez 2007.

SAVIANI, D. Educação do senso comum a consciência filosófica. São Paulo: Autores


Associados, 1994.

SCOLNICOV, S. A problemática comunidade de investigação: Sócrates e Kant sobre


Lipman e Dewey. KOHAN, Walter O.; LEAL, Bernadina (Orgs.). Filosofia para
crianças: em debate. São Paulo: Vozes, 1999. v. IV. p. 89-96. (Filosofia na escola)

SILVEIRA, R. J. T. A Filosofia vai à Escola? Contribuições para a crítica do


programa de filosofia para crianças de Matthew Lipman. São Paulo: Autores
Associados, 2001.

SHARP, A. M. A outra dimensão do pensamento que cuida. KOHAN, Walter O.


(Org). Lugares da infância: Filosofia. Rio de Janeiro: DP&A Editora. 2004. p.121-130.

THOMAL, A. O desafio de pensar sobre o pensar: investigando sobre teoria do


conhecimento. Florianópolis: Sophos, 2001.

VALLS, A. A Filosofia no II grau. Correio do Povo. Porto Alegre, 1983.

Você também pode gostar