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Resenha da obra: SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do


Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Research · December 2009


DOI: 10.13140/RG.2.2.32622.43842

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Jônatas Ferreira de Lima Souza


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1

UFRN – UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE


CCHLA – CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEHIS – DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
HISTÓRIA DA CULTURA
MARIANO DE AZEVEDO JÚNIOR

EDJAIR SANTANA MARQUES DA SILVA


EMILIANE MARIA HOLANDA DA SILVA
FABIANO MARQUES DA COSTA
JÔNATAS FERREIRA DE LIMA

ORIENTALISMO:
O Oriente como invenção do Ocidente (Resenha)

NATAL
2009
2

SUMÁRIO

SOBRE O AUTOR ...................................................................................................... 3

APRESENTAÇÃO DE CONCEITOS IMPORTANTES ........................................ 4

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 7

1 O ALCANCE DO ORIENTALISMO ..................................................................... 11


1.1 Conhecendo o oriental................................................................................ 11
1.2 Geografia imaginativa e suas representação............................................ 12

2 ESTRUTURAS E REESTRUTURAS ORIENTALISTAS ................................... 14


2.1 Fronteiras retraçadas, questões redefinidas, religião secularizada ....... 14
2.2 Sacy e Renan: antropologia racional e laboratório filológico................. 14
2.3 Residência e erudição oriental:a lexicografia e a imaginação ................ 15
2.4 Peregrinos e peregrinações, britânicos e franceses.................................. 16

3 ORIENTALISMO HOJE ......................................................................................... 17

CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................... 22

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 23


3

SOBRE O AUTOR

Edward Wadie Said nasceu em Jerusalém na Palestina (na época, província britânica)
em 1935. De família árabe cristã rica, viveu também no Cairo em 1947 e depois foi estudar
nos Estados Unidos em 1951 na cidade Massachusetts. Estudou na Universidade de Princeton
e terminou doutorado em Harvard. Critico literário e ativista da causa palestina, Said lecionou
na Universidade de Columbia em Nova Yorque (1963), ministrando por 40 anos Inglês e
Literatura Comparada. Também lecionou em Harvard, Johns, Hopkins e Yale.
Em 1970 casou com Mariam Cortas, com quem teve um filho e uma filha. Em 1977,
Said entrou para o Conselho Nacional Palestino. Era voltado para promover uma solução para
os conflitos árabe-israelense. No ano de 1978, Edward Said publica sua principal obra
intitulada “O Orientalismo”. Em 1988, Said mostrou-se a favor da criação de um estado
“binacional” envolvendo Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza, no qual judeus e árabes
pudessem viver harmonicamente, gozando dos mesmos direitos.
No ano de 1991, demitiu-se do Conselho Nacional Palestino em protesto pelo apoio de
Yasser Arafat a Saddam Hussein durante a Guerra do Golfo. Ouvinte de música orquestral,
Said, junto com o israelita Daniel Barenboim em 1999, fundou a West-Eastern Divan
Orchestra, cujo principal objetivo era unir músicos israelenses e árabes. Em 2002, Said uniu-
se a Haidar Abdel-Shafi, Ibrahim Dakak e Mustapha Barghouti para desenvolver a criação da
Iniciativa Nacional Palestina (Al-Mubadara), para torná-la uma terceira força política
palestina como nova alternativa à Autoridade Nacional Palestina e ao Hamas.
Edward Said faleceu, vítima de leucemia aos 67 anos em Nova Yorque, setembro de
2003. Outras de suas obras são “Cultura e Imperialismo” e “Representações do Intelectual”.
4

APRESENTAÇÃO DE CONCEITOS IMPORTANTES

Orientalismo:
O conceito segundo Edward W. Said.

É um corpo de saberes literários, eruditos e científicos sobre o Oriente, não apenas


sendo visto como um espaço geográfico, mas como uma geografia imaginativa,
construída/representada pelo Ocidente, mas precisamente por franceses, ingleses e
estadunidenses. Sendo caracterizado por uma visão que representa o oriental como sendo o
exótico, o inferior, o misterioso, o outro que precisa ser dominado. Esse conceito pode ser
usado em três situações diferentes, mas que terminam por se complementarem: os escritos
sobre o Oriente, o estilo de pensamento basedo numa distinção entre o Ocidente e o Oriente, e
as instituições “autorizadas” a lidar com o Oriente.

Cultura:
Uma discussão segundo Norbert Elias e Clifford Geertz.

Identidade, memória e cultura, são conceitos que estão vinculados ao espírito social. O
ser humano só se sente humano ao se distinguir do outro, ou seja, saber que não é outra coisa,
além de uma pessoa, um homem ou uma mulher e que ambos possuem construções
ideológicas, de certa forma, distintas. Se não fosse pelo o que Norbert Elias chamou de
“processo civilizador”, o homem não passaria de um ser de atitudes primarias, como um
animal – cumpriria seus instintos assim que os sentisse vontade. O homem é educado desde
sua infância para ser humano e aprender a controlar suas vontades instintivas. Em caso de
sucesso em seu processo civilizador, o mesmo será aceito pelos demais que participam desse
mesmo jogo; em caso de falha, por qualquer que seja o motivo, este se tornará marginalizado,
será chamado de “louco”, pois não é capaz de jogar o jogo estabelecido. Essa é uma
concepção fundamentada no século XIX e início do XX, que influenciou a mentalidade de
algumas nações europeias neoimperialistas e a posteriori, suas colônias. Essas discussões, que
geraram a idéia de Kultur na mentalidade alemã, idealizada por Kant, que discutia a distinção
de algo que fosse genuinamente alemão e algo que estava ganhando espaço na sociedade
(burguesa) que era a ideia de Civilisation. Este era um temo francês e inglês determinado para
designar tudo que constituía uma nação, desde seus valores, folclore, etc., até as relações
políticas e econômicas. Pensadores alemães como Goethe e Nietzsche criticavam a maneira
5

que a aristocracia dos principados alemães estavam se portando diante dessa homogeneização
do modo de viver francês (principalmente). A critica focava-se em mencionar que os
“alemães”, além de não tomarem uma postura quanto a essa “invasão” de normas de éticas
francesas, quando às aderiam, não faziam direito, tornando-os “má cópia de franceses”. Esses
filósofos temiam uma sociedade que nunca se unificaria, pois nem era francesa e nem tinha o
Zeitgeist (o espírito alemão). Mesmo com a unificação na década de 1860, os alemães
continuaram sendo uma má copia de franceses, contudo a ideia do termo Kultur idealizado
por Kant, havia se difundido entre os intelectuais dos principados, agora unificados
geopoliticamente. Essa primeira idéia de Cultura, ganhou novos termos em seu conceito,
ampliou sua abrangência territorial e passou a ser levada pelos ocidentais a todos os povos.
Mas a antropologia “geertzciana” (de C. Geertz) descarta essa excessiva preocupação
com os conceitos. Para Geertz o que realmente importa, não é conceituar a cultura, mas
buscar através do trabalho de campo os mais íntimos significados das ações de uma
sociedade. Essas ações para serem consideradas Cultura, necessitam necessariamente serem
reconhecidas por todos o membros da comunidade. Portanto a concepção de Geertz, é de
cultura como semiótica, isto é, de significados simbólicos. Mas são os conceitos de cultura
que abrangem todo o fazer humano que está nas concepções sociais. A ideia de que “tudo é
cultura.” Toda essa discussão sobre cultura está vivamente ligada às concepções que formam
a Identidade de um indivíduo e/ou de um povo, bem como suas memórias.

Identidade:
O conceito segundo Zygmunt Bauman.

Partindo do exemplo das “macro-identidades”, para tentar conceituar a identidade


defendida por Zygmunt Bauman, lembramos que ninguém apresenta-se como terráqueo, já
que não há, ao que se sabe até o momento, um outro para se diferenciar, mas sim como
brasileiro, argentino, francês, alemão, chinês, ou ainda, latino americano, americano, africano,
europeu, entre outros. Lembramos ainda que, mesmo quando as obras literárias ou
cinematográficas de ficção científica falam em “ser terráqueo” há a construção/idealização de
um “outro”, que se diferencia do “eu”, que são, na maioria das vezes, seres verdes, com
cabeças enormes, uma inteligência sobre-humana, mas que sempre “perdem” ao enfrentar o
“eu”, o terráqueo.
Assim, construir uma identificação para Bauman representa um processo de
classificação e reclassificação dos grupos em categorias socialmente construídas a partir de
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certos elementos culturais, tomados como referência pelo grupo em relação a outro(s)
grupo(s), tais como: a língua, religião, rito, etnia, nação, símbolos, etc.
Então, podemos afirmar que o conceito de identidade, entendido como
reconhecimento de pessoas ou grupos sociais, pressupõe, mesmo que inconscientemente, a
idéia de alteridade, pois aquele só se constrói a partir desta. E se há um “eu” e um “outro” há
a possibilidade de conflito, ou disputa de poder. Neste sentido, não haveria sentido para os
grupos se identificarem a partir de certos elementos culturais próprios e diferenciados se não
houvesse um conjunto de “outros” em contraposição, ou seja, identificar-se como grupo é
diferenciar-se em relação a outros grupos – como no caso dos terráqueos e os extra-
terrestres apresentado no exemplo inicial. Embora reconheça e defenda essa característica
conflitante da identidade, Bauman a considera essencial como fator de referência para os
grupos sociais, mesmo que une na diversidade e permanece na mudança.
Logo, o conceito “identidade” não é algo estático e atemporal, e sim dinâmico e
socialmente construído e negociado em resposta às necessidades dos grupos em um
determinado contexto histórico, assim como a própria identidade, que é abstrata, e sem
existência concreta.

Representação:
O conceito segundo Roger Chartier.

As representações são entendidas como classificações e divisões que organizam a


apreensão do mundo social como categorias de percepção do real. As representações são
variáveis segundo as disposições dos grupos ou classes sociais; aspiram à universalidade, mas
são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam. O poder e a dominação
estão sempre presentes. As representações não são discursos neutros: produzem estratégias e
práticas tendentes a impor uma autoridade, e mesmo a legitimar escolhas. É certo que elas
colocam-se no campo da concorrência e da luta. Nas lutas de representações tenta-se impor a
outro ou ao mesmo grupo sua concepção de mundo social: conflitos que são tão importantes
quanto às lutas econômicas; são tão decisivos quanto menos imediatamente materiais.
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INTRODUÇÃO

A introdução de Orientalismo está dividido em três momentos, que são nomeados


apenas em I, II e III. Edward W. Said discute em sua introdução as questões metodológicas
que cercaram a produção de suas obra, mas também suas motivações, escolhas, e,
principalmente, as características principais de Orientalismo, apresentando como esse
“humanista”, como se auto-define, observa esse fenômeno ocidental chamado orientalismo.
Said inicia o primeiro momento da introdução desnaturalizando a ideia de Oriente que
temos, afirmando que essa é uma invenção europeia, que o divulga como sendo um “lugar de
episódios romanescos, seres exóticos, lembranças e paisagens encantadas, lugar de
experiências extraordinárias.” (SAID, 2007, p. 27). Neste momento o autor começa a
delimitar como vê esse fenômeno moderno, como uma percepção do real, uma imagem
veiculada a partir de interesses, disputas e negociações.
Partindo dessa idéia, que o Oriente é representado a partir das visões orientalistas, Said
defende que esse mesmo Oriente ajudou a definir a Europa, já que ele é entendido como
sendo uma das imagens mais profundas e mais recorrentes do outro, não apenas adjacente a
Europa, mas como parte integrante da sua cultura, língua e civilização. Neste sentido, partindo
da caracterização do oriental, do “outro”, os europeus, principalmente franceses e britânicos,
forjaram o que é ser europeu, buscando diferenciar-se do outro. Assim, foi se criando a
imagem do “eu” a partir da diferenciação com o outro – Ocidental, civilizado, branco,
racional em contraponto ao Oriental, selvagem, de cor, emotivo.
Ainda no primeiro momento, o autor busca explicitar a que está tratando quando fala
em orientalismo, e nos apresenta três usos possíveis para esse termo, que embora sejam
distintos estão intimamente relacionados e se complementam. O primeiro uso apresentado
designa quem escreve, pesquisa ou ensina sobre o Oriente, que é orientalista, logo o que
produz é orientalismo. O segundo remete a um “estilo de pensamento baseado numa distinção
fundamental feita entre o Oriente e o Ocidente” (SAID, 2007, p. 29). Já a terceira utilização
desse conceito é voltada para as “instituições” autorizadas a lidar com o Oriente, em suma, é o
estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o oriente; como exemplos
claros dessas instituições podemos apresentar os consulados de países ocidentais em países
orientais, as divisões de agencias de inteligências responsáveis por monitorar as atividades no
Oriente, ou missões, militares ou diplomáticas, enviadas ao Oriente com os fins mais
diversos.
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Encerrando esse primeiro momento Said apresenta um dos primeiros objetivos


idealizados para a constituição de sua obra, que é o de que seu livro tenta mostrar como
aconteceu a limitação do que é produzido sobre o Oriente, já que para ele “o Oriente não era
(e não é) um tema livre para o pensamento e para a ação.” Logo, Orientalismo “tenta mostrar
que a cultura europeia ganhou força e identidade ao se contrapor com o Oriente” (SAID,
2007, p. 30), já que as limitações a que se propõe investigar valorizavam as diferenças em
detrimentos da semelhanças entre ocidentais e orientais. Além de discutir essas limitações,
Said também ratifica sua ideia que falar em orientalismo é falar como os franceses e
britânicos construíram a idéia de Oriente.
Seguindo o mesmo objetivo do primeiro momento, Said inicia o segundo afirmando
“o Oriente não é um fato inerte da natureza.” Para ele, tanto o Oriente como o Ocidente são
criações humanas; são entidades geográficas, mas, sobretudo histórico-culturais. Neste
sentido, tanto quanto o próprio Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma
tradição de pensamento, um imaginário e um vocabulário que lhes deram realidade e presença
no e para o Ocidente. Com isso desnaturaliza tanto a ideia de Oriente como também a de
Ocidente, apontando-as como construções forjadas socialmente.
Nesta introdução nos é apresentado três, como chama o próprio Said, “observações
razoáveis” para que se possa iniciar a leitura de sua obra, isso para evitar distorções, ou
equívocos do que propõe Orientalismo. A primeira das observações é que “seria errado
concluir que o Oriente foi essencialmente uma idéia (sic) ou uma criação sem realidade
correspondente.” (SAID, 2007, p. 31-32); porém, sua obra não estuda a relação entre o
Orientalismo e o Oriente, mas as visões que o ocidente tem do oriente, ou seja, o orientalismo,
mesmo que não tenha relação com um Oriente “real”. A segunda observação diz mais respeito
a uma questão metodológico-investigativa, na qual defende que “as idéias (sic), as culturas e
as histórias não podem ser seriamente compreendidas ou estudadas sem que sua força ou,
mais precisamente, suas configurações de poder também sejam estudadas.” (SAID, 2007, p.
32); assim, o Oriente não é imaginado apenas por desejos de imaginar, mas também expressa
relações de poder, de dominação, de graus variados de uma hegemonia complexa,
estabelecidas do Ocidente para com o Oriente. A terceira observação é composta por
elementos das duas anteriores, já que Said afirma que

não se deve supor que a estrutura do Orientalismo não passa de uma


estrutura de mentiras ou de mitos que simplesmente se dissiparia no ar se a
verdade ao seu respeito fosse contada. [...] O Orientalismo, portanto, não é
uma visionária fantasia europeia sobre o Oriente, mas um corpo elaborado
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de teorias e práticas em que, por muitas gerações, tem-se feito um grande


investimento material [para a sua manutenção] (SAID, 2007, p. 33).

Ainda no segundo momento, Said faz uso dos conceitos de Gramsci de sociedade
política (exército, polícia, burocracia central, entre outras instituições estatais) e sociedade
civil (escolas, famílias, sindicatos, e outros grupos da sociedade organizada) para tentar
explicar a longa durabilidade dos ideais Orientalistas, focando-se na ideia de hegemonia
cultural, já que ela é indispensável para compreender a realidade cultural da sociedade
ocidental. Nesta perspectiva, a sociedade política age sobre ecom a sociedade civil para
divulgar o ideal de hegemonia cultural, justificando as ações das “instituições autorizadas a
lidas com o Oriente” a partir da posição de que “eles, os orientais, precisam ser civilizados”.
Partindo desses ideais, Said aponta que uma das estratégias utilizadas pelo Ocidente,
principalmente França e Grã-Bretanha nos séculos XVIII e XIX e EUA no XX, é a da
“superioridade flexível”, em que se estabelece uma série de relações com o Oriente, mas sem
perder o relativo domínio sobre esse.
Ao fim dessa segunda parte da introdução, Said faz alguns questionamentos acerca de
como ele procederia metodologicamente para analisar as produções orientalistas: se seria
estudando um grupo geral de ideias que dominam a massa de material, ou o trabalho muito
mais variado de autores individuais em suas ideias? Frente a essa questão Edward Said se
preocupa ainda se não haveria um perigo de distorção se um nível demasiado geral ou
demasiado específico de descrição fosse mantido sistematicamente. O que o leva a atentar
para os perigos da “distorção e/ou da imprecisão”. Percebemos que, no decorrer da obra, Said
termina por fazer um misto dos dois, tanto analisa as ideias mais gerais presentes no
orientalismo, como também visões mais individuais.
Na terceira parte da introdução o autor se atém a explicar três aspectos
contemporâneos que estão presentes nas discussões de sua obra.
O primeiro diz respeito “a distinção entre o conhecimento puro e político”, já que para
Said todos os homens estão influenciados pelos valores, crenças, ideologias, culturas e outros
aspectos da sociedade em que estão inseridos, logo, todos esses fatores os influenciam no
exercício da escrita, assim como no de qualquer outra profissão. Said afirma isso ao tentar
responder a seguinte questão : “Como foi que a filologia, a lexicografia, a história, a biologia,
a teoria política e a sociologia, a criação de romances e a poesia lírica se colocaram a serviço
da visão amplamente imperialista do mundo apresentada pelo Orientalismo?” Mas aponta que
tais produções são produtos da realidade social em que estavam inseridos os estudiosos da
10

cada uma dessas áreas de conhecimento, sendo influenciados pela ideia de hegemonia
cultural, defendida por Gramsci.
Já o segundo aspecto contemporâneo está ligado “a questão metodológica”, pois ao se
pensar em delimitar um recorte para a pesquisa que tem o Orientalismo como objeto de
estudo, Said afirma que não há apenas o problema de encontrar o ponto de partida, a
problemática da pesquisa, mas também, e principalmente, a questão de designar que textos,
autores e períodos são os mais adequados ao estudo, ou seja, quais serão as fontes
selecionadas para serão “submetidas” a uma análise.
O terceiro é “a dimensão pessoal”, pois, sendo Said um “oriental” que teve uma
formação ocidental, mas que se reconhece enquanto oriental, suas motivações pessoais o
influenciaram na produção de sua obra, pois assim como os homens são influenciados pela
sociedade em que estão inseridos, também são influenciado pelas suas experiências pessoais.
Neste sentido, devido alguns vivencias no período de formação, tanto escolar como
acadêmica, no qual se sentia Fora do lugar – título de outra obra desse autor –, ele buscou
pesquisar esse mecanismo de dominação ocidental sobre o Oriente, chamado Orientalismo.
Assim, motivado por interesses humanísticos, políticos e pessoais é que Edward W. Said
escreve Orientalismo.
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1 O ALCANCE DO ORIENTALISMO

[o gênio inquieto e ambicioso dos europeus


[...] impaciente de empregar os novos instrumentos de seu poder]
Jean- Baptiste-Joseph Fourier, Préface historique (1809), Description de L´Égypte

1.1 Conhecendo o oriental

Uma das primeiras preocupações de Said nesse capítulo é designar quem era esse
oriental no início do século XVIII e o que fazia vê-los como apenas habitantes da porção
Leste da Europa (excluindo assim, a China, Japão e Índia). Estes eram basicamente descritos
em textos de cunho literário, textos eclesiásticos e em obras de Shakespeare.
Nessa “geografia” excludente esses orientais sempre foram vistos como uma
sociedade à parte, como inferior uma vez que sob a justificativa utilizada para dominá-los era
“nós o conhecemos mais”, e esse conhecimento implicava em “examinar uma civilização
desde suas origens, ao seu apogeu e declínio – introduzir-se no estrangeiro e distante; negar a
autonomia a ele por que o conhecemos mais e ele existe assim como o conhecemos”.
Dominar por quem os conhece é um benefício concedido tanto ao dominado quando
ao dominador “Ocidente civilizado”. A lógica para dominar dava-se em conhecer suas
limitações, não aplicar o uso da força, mas fazê-los entender essa própria lógica. O
orientalismo como corpo de saberes sobre esse “Oriente”, utiliza-se em seus discursos e se
justificam a partir da própria historia real desse oriente – reforçados ainda pelo regime
colonial, a divisão do mundo, as demarcações Leste/Oeste, as viagens de descobrimentos.
Além disso, os próprios estudos orientalistas coincidem com o período da expansão européia
e as brigas entre as duas grandes potências, França e Inglaterra que viam suas expansões três
caminhos: renunciar, monopolizar ou partilhar. Escolheram então um caminho mais
“benéfico” às partes, a “partilha”.
O que Said observa, é que tal partilha não foi somente de terra, lucro ou governo, mas
de um poder intelectual (orientalismo). A relação entre o Ocidente e orienta foi consolidada,
na visão de Said, a partir da ocupação do Egito por Napoleão. Estava assim, representada a
força ocidental versus fraqueza oriental.
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1.2 Geografia imaginativa e suas representações

O orientalismo é apontado como um campo de estudo erudito. E os campos de estudo


são criados pelos homens baseando-se em uma unidade geográfica, cultural, lingüística e
étnica. Mais há uma particularidade no estudo do orientalismo, segundo Said, visto que não
obedece a um campo “simétrico”, ou seja, não existe um outro campo que corresponda a um
estudo sobre o Ocidentalismo. É um campo que não possui uma posição geográfica fixa e ao
mesmo tempo assume visto que trata-se de um “região” de “interesses” e “ambição”
ocidental.
O próprio “ismo” do termo “ocidentalismo” reforça a idéia de que é uma disciplina
acadêmica que primariamente foi estudado por eruditos bíblicos, estudiosos de línguas
semíticas e especialistas islâmicos. Sobretudo, o século XIX foi um momento de grande
erudição e qualquer que cuidasse de “embarcar” nesse campo possui o status de orientalista.
Os estudos do campo foram divididos em dois grandes momentos, o primeiro foi pelo
enciclopedismo de Raymond Schwab que em sua obra “La renaisance oriental” reforça que
o estudioso do campo do orientalismo é todo profissional amador, seja por qualquer “coisa”
asiática, termo que lhe designa “exótico”, “mistérios”, “seminal”. E um segundo momento
foram as próprias crônicas produzidas pelo campo de estudo com destaque ao orientalista
Jules Mohl que em seu “Étude oriental” buscou sobre forma de relatório reunir todos os fatos
importantes desenvolvidos pelo próprio estudo orientalista, de 1840 a 1867. Obras sobre o
campo eram produzidas em diversos dialetos abrangendo desde a erudição e tradução de
textos até estudos de numismática, antropologia, sociologia, economia, historia, literatura e
cultura.
A geografia imaginativa, sobretudo, é um estudo de área, sob forma de título
geográfico, e não apenas na mente. Said mostra que os estudos de Claude-Levi Strauss em
“ciência do concreto” trabalha com a mente e faz-se necessário o estabelecimento de um
ordem que só poderá ser alcançada com a descriminação/localização ou na atribuição de
nomes às coisas e formas. Assim, a geografia imaginativa seria uma forma de designação
mental de fronteiras, “entendimento” de um espaço familiar e um outro que não é familiar,
trata-se de um ponto arbitrário pois não implica que esse “outro” reconheça e aceita esse
espaço que se conhece como “nosso” – eles se tornam ele de acordo com as demarcações.
Tais idéias, afirma Said, reforçam a idéias “absurdas” à cultura oriental. Ele aponta
ainda que o cristianismo em suas práticas contribuiu para o fortalecimento dessas idéias
quando se opõe e distingue o sagrado do profano, o ocidental e o oriental. O cristianismo,
13

utilizando-se do Islã como ponto descrevendo-o como profanação do sagrado, versão


fraudulenta do cristianismo e seu profeta Maomé como impostor a Jesus Cristo, vão de
encontro com os princípios da igreja, os princípios ocidental que significa toda a
“cristandade”. Formou-se um circulo jamais quebrado pela exteriorização imaginativa, o
conceito cristão tornou-se aceitável, integral e auto-suficiente para representar o Islã. Disso
aproveitaram-se muito bem os discursos orientalistas para representar o Oriente e o oriental
como pseudo-encarnações repetitivas do grande original: Cristo – Europa – Ocidente. Essa é a
simetria que o ocidental encontrou para termos que só equivalem à sua lógica cultural.
14

2 ESTRUTURAS E REESTRUTURAS ORIENTALISTAS

2.1 Fronteiras retraçadas, questões redefinidas, religião secularizada

Edward Said no capítulo dois do livro Orientalismo descreve as estruturas e


reestruturas orientalista e personagens que deram sustentação ao Orientalismo moderno,
apontando para quatro elementos da corrente de pensamentos do século XVIII que formaram
as estruturas intelectuais e institucionais específicas do Orientalismo moderno; O primeiro
elemento seria a expansão do Oriente, geograficamente mais para o leste e temporalmente
mais para o passado, afrouxou e até dissolveu bastante a estrutura bíblica. Segundo o autor, as
referências já não eram o cristianismo e o judaísmo, com seus calendários e mapas, sânscrito,
o zoroastrismo e outros. No segundo elemento, o confronto histórico, Said relata a capacidade
de lidar historicamente com culturas não européias e não judaico-cristãs foi reforçada. No
terceiro elemento, a simpatia, houve uma identificação seletiva com regiões e culturas alheias
desgastaram a obstinação do eu e da identidade, que fora polarizada numa comunidade de
fiéis guerreiros enfrentando hordas bárbaras. Com isso, as fronteiras da Europa cristã já não
serviam como uma espécie de alfândega. No quarto elemento, a classificação, foi
sistematicamente multiplicada, à medida que as possibilidades de designação e derivação
eram refinadas além das categorias, diferenciando o homem do Ocidente do Oriente através
da classificação fisiológico-moral, está chegando ao ponto de quando se referir a um oriental,
era em termos de universais genéticos, como seu estado “primitivo”, suas características
primárias.
Para Said, sem esses elementos, o Orientalismo não poderia ter acontecido, pois, eles
tiveram o efeito de liberar o Oriente em geral, e o islã em particular, do escrutínio
estreitamente religioso, por meio do qual tinha sido até então examinado e julgado pelo
Ocidente cristão.

2.2 Sacy e Renan: antropologia racional e laboratório filológico

Houve também duas outras figuras que contribuíram para o Orientalismo, Silvestre
Sacy e Ernest Renan. Sacy é tido como referencial quando se fala em Orientalismo. Ele se
utilizou da antologia, a crestomatia e, toda sua obra é essencialmente uma compilação e
elaboradamente revisionista e é também conhecido como pai do Orientalismo. A obra de Sacy
canonizou o Oriente. Já Renan é proveniente da segunda geração do Orientalismo, sendo sua
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a tarefa de consolidar o discurso oficial do Orientalismo, sistematizar as suas compreensões, e


estabelecer as suas instituições intelectuais e mundanas e para isso, se apoiou na filologia. A
imagem pretendida por ele era de o ocidental culto examinando, como se a partir de um ponto
de observação adequado, o Oriente passivo, seminal, feminino, até mesmo silencioso e
inativo, e depois passando a articular o Oriente, fazendo o Oriente entregar os seus segredos
sob a autoridade erudita de um filólogo cujo poder deriva da capacidade de decifrar línguas
secretas e esotéricas, isso era o que persistia em Renan.
Outro aspecto que podemos encontrar em Renan é a criação do semítico, uma ficção
inventada por ele no laboratório filológico para satisfazer o seu senso. O semítico era para o
ego de Renan o símbolo do domínio europeu sobre o Oriente e sobre sua própria era. Ele
também consistiu em negar à cultura oriental o direito de ser gerada, exceto de forma artificial
em laboratório filológico. Vale salientar que tanto Renan quanto Sacy colocavam a Europa
como centro e as demais regiões como periferias adjacentes a ela.

2.3 Residência e erudição oriental: a lexicografia e a imaginação

Said também revela a visão que o europeu tinha do Oriente; uma visão sub-
humanizado, antidemocrático atrasado, bárbaro, e assim por diante. Ele diz que o próprio
projeto de restrição e reestruturação associado ao Orientalismo pode ser ligado diretamente à
desigualdade pela qual a pobreza comparativa do Oriente pedia um tratamento erudito e
científico do tipo a ser encontrado em disciplina como a filologia, a biologia, a história, a
antropologia, a filosofia ou a economia. Said diz que a sua preocupação ficou focada em
mostrar como no século XIX foram criadas terminologias e práticas profissionais modernas,
cuja existência dominava o discurso sobre o Oriente, tanto o de orientalistas como o de não-
orientalistas, onde eles domesticaram o conhecimento para o Ocidente, filtrando-o através de
códigos reguladores, classificações, revistas periódicas, dicionários, gramáticas, comentários,
traduções, todos juntos formavam um simulacro do Oriente e reproduziam-no materialmente
no Ocidente, para o Ocidente.
Sacy e Renan foram exemplos disso, de como se moldava um corpo de textos e um
processo de raízes filológicas, pelos quais o Oriente assumia uma identidade discursiva que o
tornava desigual ao Ocidente.
16

2.4 Peregrinos e peregrinações, britânicos e franceses

De acordo com Said, para os peregrinos, o Oriente dos eruditos orientalistas, era um
desafio a ser enfrentado. Chateaubriand, Disraeli, Burton e outros proporcionaram uma base
estrutural de estudo sobre o Oriente, através do Orientalismo. Assim também a Inglaterra e a
França contribuíram com o Orientalismo através da dominação. Para o inglês, o Oriente era a
Índia, claro, uma possessão britânica real; passar pelo Oriente Próximo era, portanto, passar a
caminho de uma colônia de grande importância. Já para o francês estava imbuído de um senso
de perda aguda no Oriente. Ele chegava a um lugar em que a França, ao contrário da Grã-
Bretanha, não tinha presença soberana.
Assim Edward Said aponta as estruturas e reestruturas que o Orientalismo se apoiou
como base para a sua construção. As ciências aqui mencionadas, os personagens e Estados, as
obras, todos formaram um contexto que proporcionou a estruturação e reestruturação desse
termo chamado Orientalismo.
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3 ORIENTALISMO HOJE

Esse capítulo, intitulado Orientalismo Hoje, da continuidade as discussões tratadas nos


dois anteriores, inicia seu recorte temporal em 1870, quando se intensifica o expansionismo
no Oriente – expansionismo esse imperialista e colonialista – da França e Inglaterra,
estendendo-se até a década de 1970, com o novo imperialismo do século XX, o
estadunidense. Orientalismo Hoje está dividido em quatro momentos – "Orientalismo latente
e manifesto”, “Estilo, perícia, visão: a mundanidade do orientalismo”, “O Orientalismo
anglo-francês moderno em seu apogeu” e “A fase mais recente” –, o primeiro retoma as
discussões anteriores sobre a importância da França e Grã-Bretanha para a “criação” e
consolidação dos ideais orientalistas, o segundo de como esses ideais se popularizaram, ou
“mundanizaram”, o terceiro, como o nome já adianta, trata do apogeu do orientalismo anglo-
francês, que se estende destes a segunda metade do século XIX até a Primeira Grande Guerra,
em 1918, já o quarto se atem a discutir como os Estados Unidos emergiu enquanto força
criadora de novos orientalismos, ou representações do Oriente, tendo na criação do Estado de
Israel um dos principais elementos constitutivos desse novo orientalismo.
Algo interessante nesse capítulo é quando Said cunha, mais uma vez, um conceito para
o que ele concebe como sendo o Orientalismo:

O Orientalismo é uma escola de interpretação cujo material é por acaso o


Oriente, suas civilizações, povos e localidades. Suas descobertas objetivas
são e sempre foram verdades transmitidas pela linguagem, estão
incorporadas na linguagem e o que é a verdade da linguagem, perguntou
Nietzsche certa vez, senão um exército móvel de metáfora, metonímias e
antropomorfismos – em suma, uma soma de relações humanas que foram
realizadas, transportadas e embelezadas poética e retoricamente, e que
depois de um longo uso parecem firmes, canônicas e obrigatórias a um
povo: as verdades são ilusões, sobre as quais esquecemos que é isso que
elas são (SAID, 2007, p. 276).

Já no segundo momento, Estilo, perícia, visão: a mundanidade do orientalismo, Said


discute como o contraponto criado entre o homem branco e o oriental auxiliou franceses e
ingleses na justificativa da dominação que exerciam. Havia assim, uma questão clara sobre
essa “verdade” veiculada por teorias ocidentais, que defendiam as diferenças distintivas entre
raças, civilizações e línguas, essa questão era, ou pretendia ser, justificadora da flexível
superioridade a qual o autor tratou no decorrer da obra, do ocidental sobre o oriental, que era
“radical e inextirpável” segundo Said.
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Além de investigar como ocidentais, lê-se aqui franceses e britânicos, representaraam


e se relacionaram com o Oriente, Said também busca perceber como esses se relacionam no
processo de construção das representações e dominação desse oriental. Nesse momento Said
trata de como esses disputavam o controle e dominação desse mundo oriental, nessa disputa
os britânicos saíram “vitoriosos”, segundo suas percepções, já que substituiram o domínio
francês no Egito pelo seu, e por isso consideravam-se mais capazes a subjugar esse oriental.
Num terceiro ponto, o orientalismo anglo-francês moderno em seu apogeu, Said
enfoca a questão da formação de comunidades orientalistas, ou seja, a produção orientalista já
se tornava claramente semelhante em qualquer lugar do Ocidente e essa produção franco-
inglesa do século XIX, será a base para os novos estudos. Contudo, o contexto deste momento
é o da Primeira Guerra Mundial e a posterior, a Segunda.
Nas discussões orientalistas, o foco principal é o islã. Dá-se, contudo, um estudo que
enfatiza uma cultura judaico-cristã diante de um islamismo pejorativo. Mesmo que os
orientalistas do inicio do século XX tentassem excluir-se – de forma a não transparecer sua
ideologia no estudo – cada vez mais das suas produções orientalistas, o resultado acabava
sendo semelhante aos anteriores no século XIX. Said destaca dois orientalistas dentre essa
comunidade: o egípcio Gibb e o francês Massignon.
Vejamos algumas discussões realizadas por ambos no livro. Segundo Said, para Gibb,
o Ocidente tem necessidade do Oriente como algo a ser estudado, porque ele libera o espírito
da especialização estéril, porque acalma a aflição de um “autocentrismo paroquial” e
nacionalista excessivo porque aumenta a compreensão das questões realmente centrais no
estado da cultura. Segundo Gibb,

Se o Oriente parece mais um parceiro nessa nova dialética emergente da


autoconsciência cultural, isso acontece, primeiro, porque agora, bem mais
que antes, o Oriente constitui desafio, e segundo, porque o Ocidente está
entrando numa fase relativamente nova de crise cultural, causada em parte
pela diminuição da suserania ocidental sobre o resto do mundo (SAID,
2007, p. 346.).

Isso é observado por Gibb no período entre guerras, onde a crise ideológica no
ocidente aflorava diante dos traumas da Primeira Guerra Mundial, pois o sonho de uma
sociedade em progresso técno-científico-cultural, a ocidental, estava abalada.
Sobre o estudo referente ao islã, segundo Said, o francês, católico devoto, Massignon,
mostra que, a imagem alimentada desse islã é a de uma religião incessantemente implicadas
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nas suas recusas, no seu caráter tardio (com referência a outros credos abraâmicos), no seu
senso relativamente árido da realidade mundana, nas suas estruturas maciças de defesa contra
“comoções psíquicas” do tipo praticado por al-Hallaj e outros místicos sufistas, na solidão de
única religião “oriental” restante dos três grandes monoteísmos.
O que Said quer mostrar, na verdade, é que, apesar do conteúdo orientalista dessa
primeira metade do século XX parecer com aquele produzido no XIX pelos anglo-franceses,
não há “hostilidade” desses eruditos para com o Oriente. Para o autor

As representações do Orientalismo na cultura européia importam no que


posso chamar uma consistência discursiva, que não tem apenas história,
mas uma presença material (institucional) para mostrar por si mesma. Como
disse em conexão com Renan, essa consistência era uma forma de práxis
cultural, um sistema de oportunidades para fazer declarações sobre o
Oriente. Toda a minha idéia sobre esse sistema não é que seja uma
desfiguração de alguma essência oriental – com coisa em que não acredito
nem por um momento – , mas que opere como as representações em geral
fazem, para determinado fim, segundo uma tendência, num especifico
cenário histórico, intelectual e até econômico. Em outras palavras, as
representações tem propósitos, são efetivas a maior parte do tempo,
realizam uma ou muitas tarefas. As representações são formações ou, como
Roland Barths disse em todas as operações de linguagem, são deformações.
O Oriente como na Europa é formado – ou deformado – por uma
sensibilidade cada vez mais específica de uma região chamada “O Oriente”
(SAID, 2007, p. 365.).

Observemos como Said destaca esse Oriente como uma representação do Ocidente,
no qual o Ocidente fala, imagina, descreve, orienta, caricatura o oriental.
No ponto final deste terceiro capítulo intitulada “A fase mais recente”, Said destacara a
nova ordem orientalista liderara pelos Estados Unidos. A França e a Grã-Bretanha já não
ocupam o palco central na política mundial pois o império americano as desalojou. Esta parte
final da discussão orientalista, esta dividida em quatro pontos: 1) Imagens populares e
representações da ciência social. Em suma, o autor mostra como esse oriental passa a ser
caricaturado pelos E. U. A., pós-Segunda Guerra. Na visão norte-americana, oriental agora
passa a ser malvado, o inimigo do Ocidente. Esse Oriente resume-se ao Oriente Próximo. Os
Estados Unidos reforçam o estereótipo do oriental através de novas mídias que não eram
acessíveis no século passado como: rádio, televisão – filmes, desenhos animados,
documentários, telejornais, etc. – e posteriormente a Internet. Todos são meios de
comunicação de massas, o que torna essa visão pejorativa do oriental, mas especificamente do
Oriente Próximo, mais globalizada, não somente no Ocidente – Europa e América – , mas
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para todo o mundo; 2) A Política de relações culturais. Said mostra que a América, desde
1843, apresenta-se disposta a estudar o Oriente, assim como fizeram as potencias europeias.
Segundo o autor, uma política de relações culturais, idealizada em meados do século XX,
propunha um diálogo com o oriente, uma vez que de lá vinham as principais forcas a serem
combatidas pelo ocidente: o Comunismo e o Islã. Estudos realizados por eruditos americanos
como Von Grunebaum, afirmam e divulgam na academia os estereótipos pejorativos orientais,
mostrando que o Islã, por exemplo, “é um fenômeno unitário, diferente de qualquer outra
religião ou civilização, [...] é anti-humano, incapaz de desenvolvimento, autoconhecimento ou
objetividade, além de não ser criativo.” Said mostra como a Visão de Grunebaum é
semelhante aquela do século XIX, no qual essa visão do islã é inteiramente obstruída pela
noção de uma cultura incapaz de analisar ou fazer justiça à sua própria realidade existencial
na experiência de seus adeptos; 3) Simplesmente islã. Este ponto resume as relações do
Ocidente, o estado de Israel e o islã (o árabe). De acordo com o autor, o “Orientalismo rege
completamente a política de Israel para com os árabes, [...] há bons árabes (aqueles que
obedecem) e maus árabes (os que não obedecem e são, portanto, terroristas).” (SAID, p. 409).
Menciona Said que Bernard Lewis, importante estudioso do oriente nos Estados Unidos pós-
década de 1950, diz que “o islã não se desenvolve, nem os mulçumanos; eles meramente são,
e devem ser vigiados por causa dessa sua pura essência, que inclui por acaso um ódio
duradouro aos cristãos e aos judeus.” (SAID, p. 423). Said mostra que Lewis tenta evita fazer
essas declarações inflamadas de forma categórica; ele sempre toma cuidado de dizer que, é
claro, os mulçumanos não são anti-semitas assim como foram os nazistas, mas a sua religião
pode facilmente acomodar-se ao anti-semitismo, e tem se acomodado. O mesmo pode se dizer
com relação ao islã e ao racismo, à escravidão e a outros males mais ou menos “ocidentais”.
O autor mostra que, de acordo com Lewis,

As lealdades [do historiador] podem influenciar a sua escolha do objeto de


pesquisa; não deveriam influenciar o tratamento que lhe confere. Se, no
curso de suas pesquisas, ele descobre que o grupo com que se identifica está
sempre certo, e aqueles outros grupos com que está em conflito estão
sempre errados, então seria um bom conselho que questionasse suas
conclusões e reexaminasse sua hipótese, com base na qual selecionou e
interpretou as suas evidencias; pois não é da natureza das comunidades
humanas [tampouco da comunidade dos orientalistas, presume-se] estar
sempre certo.
Por fim, o historiador deve ser justo e honesto no modo como
apresenta sua história. Isso não quer dizer que ele deva limitar-se a recitar
sem comentários fatos definitivamente estabelecidos. Em muitos estágios na
sua obra, o historiador deve formular hipóteses e fazer julgamentos. O
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importante é que deve fazê-lo de forma consciente e explicita, revisando as


evidencias a favor e contra as suas conclusões, examinando as várias
possíveis interpretações e afirmando claramente qual é a sua decisão, e
como e por que ela foi tomada (SAID, 2007, p. 425-426).

Lewis mostra a postura que o historiador deve ter, não somente diante de temáticas como o
Orientalismo, mas em relação a toda a sua vida de historiador; 4) Orientais Orientais
Orientais. O mundo árabe de nossos dias é um satélite intelectual, político e cultural dos
Estados Unidos. De acordo com o autor, o orientalista agora tenta ver o Oriente como um
Ocidente de imitação que, segundo B. Lewis, só pode melhorar quando seu nacionalismo
“estiver preparado para chegar a um acordo com o Ocidente”. Se nesse meio-tempo os árabes,
mulçumanos ou o Terceiro e o “Quarto Mundo” trilharem caminhos inesperados, não será
surpresa que um orientalista nos diga que isso atesta o caráter incorrigível dos orientais,
provando assim que eles não merecem confiança.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer de toda a sua obra Edward Said investiga os vínculos profundos entre o
imperialismo europeu e norte-americano e a constituição de um imenso corpo de saberes
literários, eruditos e científicos sobre o Oriente. Percebendo esse Oriente mais que apenas um
espaço geográfico, mas como uma invenção ocidental, um selo que marca essas populações a
“leste” da Europa sob o signo do exotismo e da inferioridade. Para analisar essa construção
histórico-social e cultural, o orientalismo, que apresenta-se nas formas de disciplina
acadêmica, gosto literário e mentalidade dominadora, Said inicia seus estudos remetendo-se
ao século XVIII, com os imperialismos colonialista francês e britânico, chegando até o novo
imperialismo do século XX, o estadunidense.
Porém, Said questiona-se se seu “livro é apenas um argumento contra algo, e não a
favor de alguma coisa positiva?”, e para respondê-la afirmou que sua pretensão é descrever e
analisar um sistema de idéias usadas para justificar uma dominação ocidental, e não criar um
novo sistema.
Com a leitura de Orientalismo podemos perceber como outras culturas são percebidas
e representadas, mas Said não se limitou a entende essa questão e em uma pseudo-conclusão
da sua obra ele nos lançou diversas questões sobre “o que é uma outra cultura?”, por exemplo,
e não só essa, mas diversas outras que não encerram as discussões acerca desse tema. O que
abriu precedente para futuras análises dessa construção ocidental.
Utilizando-nos das ideias defendidas nessa obra podemos perceber como, por
exemplo, a mídia brasileira veicula a imagem do Oriente Médio, só entrando nas manchetes
dos jornais, televisivos ou impressos, quando noticia tragédias e violência: e após o “11 de
setembro de 2001” isso vem se intensificando, com a política internacional do último
presidente estadunidense, Georg W. Bush, de combate ao terrorismo todos os islâmicos
passaram a ser terroristas e quando não, continuam a ser aqueles exóticos, que usam vestidos
e tem barbas enormes, e que as mulheres tem que se cobrir toda por conta de uma sociedade
machista e sexista. Com essa leitura podemos expandir nosso olhar crítico para a própria
sociedade em que estamos inseridos, estranhando nossos próprios costumes e representações.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge


Zahar, 2005.

CHARTIER, Roger. A História Cultural entre práticas e representações. Rio de Janeiro:


Bertrand Brasil, 1990.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1994

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo:


Companhia das Letras, 2007

SILVA, Kalina Vanderlei; Silva, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São
Paulo: Contexto, 2008.

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