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10/08/2021 A Jornada da Heroína — Um olhar para a nossa própria história | by Camila Berteli | Medium

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Camila Berteli
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A Jornada da Heroína — Um olhar para a nossa


própria história
Camila Berteli Feb 9 · 11 min read

Hoje eu vivi com mais de 50 mulheres incríveis uma experiência muito profunda!
Compartilhei sobre a jornada da heroína e como essa teoria pode nos ajudar a ampliar
a visão sobre a nossa própria história!

Para quem não conseguiu estar em nosso encontro, segue minhas anotações e
reflexões para o bate papo!

Baseado nos conceitos da psicologia analítica do autor Jung e na jornada do Herói de


Joseph Campbell, Maureen Murdock descreveu a partir da sua vivência clínica, a
jornada do arquétipo feminino.

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Jung via a psique em 3 níveis — O consciente, o inconsciente pessoal e o inconsciente


coletivo. Dentro de cada estrutura o indivíduo carrega símbolos e padrões,
estabelecidos por ele, ou herdados da cultura da humanidade.

No inconsciente coletivo, nível que nos interessa para a conversa sobre a jornada estão
os arquétipos, eles são imagens e símbolos, presentes em nosso imaginário, que ajudam
a explicar histórias, culturas, experiência e padrões vividas por nós ou por outras
gerações.

A jornada da heroína, como a jornada de qualquer herói arquetípico, é um processo de


individuação. Essa experiência envolve descobrir quem você realmente é e transformar
a visão que você tem do mundo e de si mesmo. É uma busca por um sentido de vida
mais transcendente e um desejo de expressar sua verdadeira natureza.

A experiência do feminino nessa jornada é um caminho difícil e as mulheres têm que


lidar com um grau extra de dificuldade. Por quê? Porque estamos fazendo essa jornada
em um mundo prioritariamente regido pelo arquétipo masculino.

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Todas as histórias, mitos e contos que compõe o nosso imaginário colocaram as


mulheres em busca de sua identidade em um ambiente que trata a feminilidade como
algo dependente, inferior, fraco e objeto de tentação, associado a sexualidade.

Na jornada do herói, conceito amplamente conhecido e utilizado nas construções de


roteiros até hoje, apenas dois dos 17 elementos que Campbell descreve caracterizam as
mulheres (Priester): “o encontro com a deusa”, onde o herói encontra a deusa-mãe
idealizada, como Atena em A Odisséia (1997) que oferece orientação e inspiração, ou a
“mulher como sedutora”, onde o herói enfrenta “a tentação que ameaça desviá-lo do
caminho de seu destino”.

Murdock que foi uma das alunas de Campbell e psicoterapeuta, questionou Campbell
sobre a jornada da heroína. Ele respondeu: “A heroína é o objeto da Jornada do Herói”,
acrescentando: “Ela não vai a lugar nenhum, é para ela que o Herói está viajando”
(Murdock, citado em A. K. Anderson). Murdock sentiu que esse modelo não atendia às
necessidades psicológicas das jornadas das mulheres contemporâneas e mais tarde
escreveu seu próprio livro, The Heroine’s Journey: Woman’s Quest for Wholeness
(1990), em uma tentativa de preencher a lacuna na estrutura de Campbell . Murdock
propõe uma estrutura mítica para a heroína que é relevante e encontra seus próprios
desafios.

Em muitos casos, as heroínas inconscientemente usam a jornada masculina como


ponto de referência para enfrentar a sua própria experiência e sim há muitas
semelhanças entre as duas. Mas, como mencionado antes, The Heroine’s Journey é
centrada em seguir em frente, com a mulher tentando preencher a lacuna entre os
papéis masculino e feminino, talvez uma diferença essencial entre os dois conceitos
seja que o herói já tem poder como homem.

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Um importante lembrete aqui é que para Murdock (e representante da escola


junguiana de psicologia), o “masculino” e “feminino” não se referem aos gêneros, ao
invés disso, são “forças criativas”, que estão presentes em todos os homens e mulheres.
Por esta razão, ela sugeriu que a jornada de uma heroína era em direção a uma
unidade dessas forças e a “integração dos aspectos feminino e masculino dela mesma”

Aqui algumas similaridades entre as duas jornadas.

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Então vamos entender mais que jornada é essa:

A jornada da heroína

1 — Separação do Feminino

As mulheres deixam para toda sua referência feminina. AlgumS partem em busca do
sucesso e do senso de identidade. Outras fogem das associações negativas do
comportamento feminino, querendo ser levadas a sério e não sexualizadas de forma
irreal.

O primeiro estágio da jornada trata da rejeição do feminino. Alguns aspectos como ser
inferior, passiva, manipuladora, dependente, sedutora ou não produtiva costumam
estar atribuídas à figura feminina.

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A visão da sociedade exalta características ditas como inerentes aos homens. Valores
como liderança, autonomia e autoconfiança, estão vinculados ao masculino na nossa
forma de ver o mundo. Ao entender que não os possui, começam a acreditar realmente
que são inferiores e acabam buscando por alguma forma de aprovação masculina. A
desvalorização de ser mulher começa ainda na infância. Sendo assim, a heroína
começa a jornada se desvinculando de tudo que representa o feminino, sua semelhante
e do arquétipo de mãe que geralmente é a figura feminina mais próxima e presente na
vida da mulher.

Muitas vezes a mulher vê outras mulheres ou qualquer representação do arquétipo


feminino como inferiores, tendo dificuldades de trocas genuínas.

2. Identificação com o masculino

Para se encontrar em um mundo voltado para masculino, as mulheres que buscam ser
bem-sucedidas costumam imitar o comportamento masculino, abandonando a esfera
doméstica, escondendo as manifestações emocionais e adotando traços masculinos na
sala de reuniões ou durante o processo de busca por esse sucesso.

Normalmente é aqui que a mulher se aproxima de um mentor ou a uma figura


masculina que representa a sua relação com as figuras da sua própria vida. Logo o
sinônimo de admiração ou de sucesso aqui pode ser muito distinto. Incluindo modelos
que não são positivos de masculinidade já que as referências são de cada experiência
individual.

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Ao “copiar” ou absorver esses comportamento, a mulher passa a representá-los como


seus, sendo reconhecida diferente em seu ambiente por esse perfil (super mulher,
forte, que nem parece mulher, mais forte que muito homem, etc)

Ela se vê pronta para enfrentar os desafios.

3. O Caminho das Provas

A heroína enfrenta desafios e obstáculos para seus objetivos. Ela sobrevive a provações,
obtém diplomas ou aprende habilidades difíceis.

Ela deve equilibrar sua vida pessoal e profissional. Aliás de preferência não expor sua
vida pessoa que pode representar fraqueza. Ela deve provar seu valor para aqueles que
pensam que ela não é digna de ser bem-sucedida pelos padrões masculinos.

Na estrada de provações, ela está em busca de si mesma, indo ao encontro de desafios,


enfrentando quaisquer obstáculos que possam surgir. Ela se aventura para encontrar a
si mesma, a estrada de provações que a levará a descobrir suas forças e suas fraquezas.
Ela sente angústia de um período complicado carregado de medos, traumas e
sofrimento.

Novas oportunidades em diversos âmbitos de sua vida podem trazer à tona os aspectos
positivos e negativos de quem ela é, portanto, um tempo que ela possui para si, sem
interferências externas. Conforme segue sua jornada, sentimentos como dúvidas,
indecisão, medo, raiva aparecem e ela começa a travar uma batalha com seus
demônios interiores contra a auto sabotagem.

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As mulheres contemporâneas precisam enfrentar questões como conciliar carreira e


maternidade, ou são confrontadas por ter que escolher entre uma ou outra, o mito da
inferioridade feminina.

4. A dádiva ilusória do sucesso

Tendo superado suas provações, a heroína atinge certo grau de sucesso, um título,
posição ou riqueza. Ela é uma “supermulher” que tem tudo. A síndrome do impostor
ainda se insinua e ela se pergunta quando sentirá que realmente teve sucesso.

A falsa ilusão de sucesso aparece quando ela começa a ir além do que lhe é imposto ou
do que é saudável.

Antes acostumada a seguir padrões para atender as expectativas alheias, agora inicia
um processo perigoso no qual muitas vezes ultrapassa limites. O sucesso que ela tanto
perseguiu desperta e ela pode ter tudo o que sempre quis — ser independente,
assertiva e, desfrutar de suas conquistas. A heroína sabe quais são suas capacidades e
se sente poderosa consigo mesma. Embora ela tenha conquistado muitas coisas,
temendo não ser aquilo que esperam que ela seja, a heroína começa uma obsessão por
ser produtiva e fazer muitas coisas ao mesmo tempo, como se estivesse fora de
controle.

Obter prestígio traz muitas responsabilidades, não só externas como internas. Os mais
diversos questionamentos surgem e a mulher parece estar desconectada de todo o
resto. Um sentimento de vazio, uma sensação de traição passa a ser cada vez mais
frequente e suas emoções experimentam coisas novas como a desolação.
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5. Aridez e dureza

Apesar de seus sucessos, a heroína se sente vazia. Ela sente que deve haver mais vida.
Ela pode se sentir traída pelo sistema ou por seus aliados. Ela ouve sua voz interior
depois de anos ignorando-a. Ele questiona seus sentimentos e percebe que escolheu o
caminho errado.

Um sinal de que a mulher precisa da reconexão pois começa a experimentar o senso da


perda.

Aquilo que antes era prazeroso para ela, não mais faz sentido ou simplesmente deixa
de ser algo que ela queira fazer novamente, ela se sente cansada por dentro. Aqui
brincamos muito sobre o meme da Barbie cansada! Fato que ele nos representa.

A heroína vive a noite escura de sua psique. Ela às vezes se afasta de amigos e
familiares. Ela não vê mais sentido em lutar pelo sucesso por seus mandatos anteriores.
A heroína deve enfrentar sua Sombra, um arquétipo que, simplesmente, representa as
coisas dentro dela que a impedem de fazer o que ela realmente precisa. Ela aprende a
ser, não a fazer.

Isso o que ela começa a sentir como se estivesse secando, é uma desolação interna. Os
padrões antigos não mais se encaixam e, em algum ponto de sua vida, ela começa a
perceber que uma mudança precisa ser feita. Ela conquistou o sucesso, sua
independência, porém, nesse processo ela perdeu um pedaço de sua alma e seu
coração. É uma tarefa desconfortável para a heroína recusar o próximo desafio, pois

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isso significaria a morte simbólica e a sensação de incapacidade devido às cobranças


que a sociedade impõe como ideal.

Ela precisa se sacrificar por completo, deixando os velhos hábitos serem substituídos
por novos que reflitam quem ela realmente quer ser.

6|7. Encontro com a Deusa e Conexão com o Feminino

Para que a heroína possa ser trazida de volta à vida, ela precisa empreender uma
jornada paralela ao submundo, encontrar a Deusa ou simplesmente passar por um
período de afastamento. Quando ela começa a entrar na escuridão, suas emoções são
preenchidas com confusão, raiva, desespero. Toda vez que tenta enfrentar a verdade
sobre si mesma, ela prefere se ausentar ou fingir que não vê. Um período de isolamento
voluntário ocorre nesse meio tempo e ela se distancia da sua família. Esse período,
porém, é uma forma que encontra para voltar para si mesma, sem seguir os padrões
masculinos. A espiritualidade da mulher é uma imersão mais profunda dentro dela.
Pela primeira vez o foco é voltado para ela. Seu corpo, sua sexualidade, suas emoções,
sua intuição, seus valores e sua mente são encontrados no intimo do seu ser. é sua
forma de voltar a enxergar o feminino e assim, entender como voltar para este
feminino. O caminho de conexão não é sobre aprovações e méritos e sim, sobre
experimentar todo o ciclo da natureza feminina.

Ela aceita a sabedoria das mudanças, aceita a escuridão de bom grado e seu lado
instintivo ajuda a encontrar significado no sofrimento e na dor, assim como encontrar
na luz trazendo a coragem, a força que ela precisa.

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Ela se volta para o trabalho criativo e atividades que permitem conexões mente-corpo.

Através de figuras femininas, a maternidade e até mesmo com sua criança interior
ressurge. Ela anseia recuperar as partes perdidas de si mesma. A rejeição do corpo
feminino atravessa séculos de história por conta dos tabus culturais e religiosos
envolvendo o que representa. A partir do momento em que a mulher se livra dessas
convenções e aceita seu corpo, sua natureza, ela recupera o controle de si mesma.

8. Curando a divisão com o feminino

A heroína se reconecta com suas raízes e encontra forças no passado. Ela emerge da
escuridão com um senso de identidade mais profundo. Ela é capaz de compartilhar
com os outros e ser apoiada por eles. Ela recupera traços femininos que antes
considerava fracos.

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9. Curando o Masculino Ferido

Tendo reorientado seu conceito de feminilidade, a heroína deve se livrar das


percepções tóxicas de masculinidade. Se ela rejeitou suas buscas anteriores no mundo
masculino, ela procura o que permanece significativo para ela. Ela põe de lado
conceitos irrealistas de homens.

Na jornada há um encontro com características positivas do masculino como coragem,


determinação e liderança. Mas sem perder a conexão com o seu feminino, criando
então uma conexão poderosa.

10. Integração do masculino e feminino

Nossa heroína fechou o círculo. Os aspectos masculino e feminino da personalidade


são integrados em uma união. Ela é inteira e capaz de amar genuinamente os outros.
Ela se lembra de sua verdadeira natureza. Ela aceita o valor da instrução de sua mãe
nas atividades enquanto mantém seu interesse nas outras atividades masculinas,
muitas vezes estereotipadas.

Diferente do herói, a heroína vive a dualidade de como a sociedade a vê e de quem ela


realmente é dentro de si a partir de outros paradigmas.

É um processo de tomada de consciência, traçando sua própria jornada a fim de


entender e melhorar sua visão de mundo, até em contraposição a modelos de
estereótipos.
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Filmes

Alguns filmes modernos que já retratam os personagens com conexões sobre suas
preferências e jornadas, se baseiam no conceito da jornada da heroína. Que
demonstram o quanto este conceito é moderno é muito alinhado com visão da figura
feminina contemporânea.

Alguns deles são Valente, Moana, Capitã Marvel, Enola Holmes, Ray e Newt
Scamander que como adiantamos, a jornada não é sobre gênero e sim sobre formas de
olhar o mundo e preferências na forma de se expressar.

Importante ressaltar que é uma jornada que acontecem constantemente, sem começo,
meio e fim específico.

A cada novo desafio é possível começar uma nova jornada, que já não será a mesma
que a anterior, mas ainda com desafios e oportunidades de desenvolvimento pessoal.

E aí gostou da Jornada da Heroína? Se reconhece neste modelo?

Abraços

Jornada Da Heroína Historia Psicologia

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