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EXCELENTÍSSIMO DOUTO JUÍZO FEDERAL DO JUIZADO ESPECIAL FEDERAL

DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DE PORTO ALEGRE/RS

COM PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA


COM PEDIDO GRATUIDADE DE JUSTIÇA

(...) , brasileiro, casado, aposentado, portador do CPF/MF (...), RG


SOB Nº (...), residente e domiciliado na Rua Milton Guimarães Guerreiro, nº (...) Bairro (...), em
Eldorado do Sul/RS, CEP: (...), por seus procuradores subscritos, vem à presença de Vossa
Excelência ajuizar a presente

AÇÃO ORDINÁRIA DE CORREÇÃO DOS SALDOS DO FUNDO DE GARANTIA POR


TEMPO DE SERVIÇO (FGTS) COM PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA

Em desfavor da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, pelas razões de fato e de direito que passa a expor.

I – BREVE RESUMO DOS FATOS

A presente demanda concerne a um objeto de extrema atenção aos trabalhadores


brasileiros: o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), criado pelo Governo Federal através
da Lei 5.107 de 19/09/66, que entrou em vigência em 1967, para proteger o trabalhador demitido sem
justa causa. Funciona como um verdadeiro fundo de auxílio ao empregado uma vez que é constituído
por valores depositados pelas empresas empregadoras no decorrer do vínculo empregatício. Hoje, é
principalmente utilizado para financiar programas de habitação popular, saneamento básico e
infraestrutura urbana.

O atual regramento do FGTS é a Lei nº 8.036, de 11 de maio de 1990, que


estabelece normas e diretrizes do Conselho Curador, gerido pela Caixa Econômica Federal. Infere-se
dos arts. 2º e 13 da referida Lei que os recursos depositados nas contas vinculadas devem ser
atualizados com correção monetária e juros, a saber:

Art. 2º O FGTS é constituído pelos saldos das contas vinculadas a que se refere
esta lei e outros recursos a ele incorporados, devendo ser aplicados com
atualização monetária e juros, de modo a assegurar a cobertura de suas
obrigações.
Art. 13. Os depósitos efetuados nas contas vinculadas serão corrigidos
monetariamente com base nos parâmetros fixados para atualização dos saldos
dos depósitos de poupança e capitalização juros de (três) por cento ao ano.

Rua Washigton Luiz, nº 1010/505– Centro – Porto Alegre/RS – CEP 90010-460


Fone: (51) 3237.2060/ 98938.6601 - E-mail: gksadvocacia@gmail.com
A atualização dos valores depositados se dá na forma dos arts. 12 e 17 da Lei nº
8.177/1991, com redação ulterior da Lei nº 12.073/2012: Taxa Referencial – TR, cujos artigos
passamos a transcrever:

Art. 12. Em cada período de rendimento, os depósitos de poupança serão


remunerados:
I - como remuneração básica, por taxa correspondente à acumulação das TRD, no
período transcorrido entre o dia do último crédito de rendimento, inclusive, e o dia
do crédito de rendimento, exclusive;
II - como remuneração adicional, por juros de: (Redação dada pela Lei n º 12.703,
de 2012)
a) 0,5% (cinco décimos por cento) ao mês, enquanto a meta da taxa Selic ao ano,
definida pelo Banco Central do Brasil, for superior a 8,5% (oito inteiros e cinco
décimos por cento); ou  (Redação dada pela Lei n º 12.703, de 2012)
b) 70% (setenta por cento) da meta da taxa Selic ao ano, definida pelo Banco
Central do Brasil, mensalizada, vigente na data de início do período de rendimento,
nos demais casos.  (Redação dada pela Lei n º 12.703, de 2012)
(...)

Art. 17. A partir de fevereiro de 1991, os saldos das contas do Fundo de


Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) passam a ser remunerados pela
taxa aplicável à remuneração básica dos depósitos de poupança com data
de aniversário no dia 1°, observada a periodicidade mensal para
remuneração.
Parágrafo único. As taxas de juros previstas na legislação em vigor do
FGTS são mantidas e consideradas como adicionais à remuneração
prevista neste artigo.

Retrata a Lei nº 8.177/91 a forma como a TR será calculada:

Art. 1° O Banco Central do Brasil divulgará Taxa Referencial (TR),


calculada a partir da remuneração mensal média líquida de impostos, dos
depósitos a prazo fixo captados nos bancos comerciais, bancos de
investimentos, bancos múltiplos com carteira comercial ou de
investimentos, caixas econômicas, ou dos títulos públicos federais,
estaduais e municipais, de acordo com metodologia a ser aprovada pelo
Conselho Monetário Nacional, no prazo de sessenta dias, e enviada ao
conhecimento do Senado Federal.
§ 1° A TR será mensalmente divulgada pelo Banco Central do Brasil, no
máximo até o oitavo dia útil do mês de referência. (Revogado pela Lei nº
8.660, de 1993)
§ 2° As instituições que venham a ser utilizadas como bancos de
referência, dentre elas, necessariamente, as dez maiores do País,
classificadas pelo volume de depósitos a prazo fixo, estão obrigadas a
fornecer as informações de que trata este artigo, segundo normas
estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional, sujeitando-se a
instituição e seus administradores, no caso de infração às referidas
normas, às penas estabelecidas no art. 44 da Lei n° 4.595, de 31 de
dezembro de 1964.
§ 3° Enquanto não aprovada a metodologia de cálculo de que trata este
artigo, o Banco Central do Brasil fixará a TR.

A metodologia de cálculo foi há muito tempo definida pela Banco Central-Conselho


Monetário Nacional (CMN), e hoje está vigente sob a forma da Resolução nº 3.354, de 31 de março de
2006.

Sustentamos que a fórmula de cálculo mediante a TR está defasada, não refletindo


sobremaneira os índices oficiais de inflação. Nos meses de setembro, outubro e novembro de 2009,

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janeiro e fevereiro de 2010, fevereiro e junho de 2012 e de setembro de 2012 em diante, o cálculo
feito com base na TR desautoriza qualquer correção, como se praticamente anulasse o período
passível de correção.

Eis a razão desta ação.

II – PRELIMINARMENTE – DISCUSSÃO DO DIREITO – JUNTADA DE EXTRATOS E


ANÁLISE DO QUANTUM APENAS EM LIQUIDAÇÃO

Antes de adentrarmos as questões de mérito da demanda, imperioso se faz


destacar, por extremamente oportuno, que a presente ação versa sobre a declaração de um direito a
ser reconhecido ao postulante – qual seja, a de que os valores depositados em seu Fundo de Garantia
sejam revisados, recalculados conforme índices que mantenham o poder de compra dos valores
recolhidos no decorrer dos anos.

Conforme já destacado, a ação se justifica, em apertada síntese, na medida em


que o FGTS dos trabalhadores brasileiros vem sendo atualizado pelo índice “TR”, o qual não reflete
minimamente a realidade financeira nacional e culmina, sem dúvidas, na defasagem dos
recolhimentos em comparação a qualquer outro índice (como, por exemplo, o INPC).

O que está em jogo, Excelência, é o reconhecimento ou não do direito que o autor


sustenta possuir, no sentido de lhe ser deferido ou indeferido o pleito pela substituição da TR por outro
índice que, desde 1999, reflita equitativamente as variações (a maior) da moeda nacional no decorrer
de todo esse período. Conforme restará demonstrado a seguir, as diferenças de um montante
remunerado pela TR e de outro (de igual valor) remunerado pelo INPC poderá superar os 80% nos
últimos 14/15 anos.

E, por óbvio, a discussão acerca do direito independe da juntada dos extratos


para apuração do valor a ser corrigido em caso de provimento da ação: sendo o quantum
apurado em R$ 100,00 ou R$ 20.000,00, o direito pleiteado é o mesmo em qualquer caso.

Por este motivo, não se faz necessário, neste momento processual, com a
discussão e impugnação de cálculos realizados unilateralmente pelo autor: até mesmo por celeridade
processual, é imperativo a concentração dos atos judiciais no sentido de declarar a possibilidade ou
impossibilidade do direito pleiteado, de maneira que, apenas posteriormente – já em sede de
liquidação de sentença – poderíamos analisar o valor efetivo da condenação.
Sobre a possibilidade de restringir a discussão à questão de direito com a posterior
juntada de extratos em sede de cumprimento do julgado, tem decidido pacificamente toda a
jurisprudência pátria, in verbis:

APELAÇÃO CÍVEL - EXPURGOS DA INFLAÇÃO - PRELIMINARES E


PREJUDICIAL DE MÉRITO ARGUIDAS EM CONTRARRAZÕES
AFASTADAS - AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA TITULARIDADE
DA CONTA-POUPANÇA À ÉPOCA DA IMPLANTAÇÃO DOS
PLANOS ECONÔMICOS DE GOVERNO - POSSIBILIDADE DE
INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA - EXISTÊNCIA DA POUPANÇA
COMPROVADA - JUNTADA DE EXTRATOS EM LIQUIDAÇÃO -
RECURSO PROVIDO. (TJ-MS - AC: 403 MS 2010.000403-0, Relator:
Des. Júlio Roberto Siqueira Cardoso, Data de Julgamento:
29/04/2010, 5ª Turma Cível, Data de Publicação: 07/05/2010)

AÇÃO DE COBRANÇA. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. JUNTADA


DOS EXTRATOS. FASE DE LIQUIDAÇÃO. A juntada dos extratos
não é necessária ao reconhecimento do direito do poupador aos
expurgos inflacionários, mas, tão somente, à apuração das
diferenças reclamadas e devidas. E, os valores certos e líquidos
decorrentes dos expurgos inflacionários desconsiderados pela
Instituição Financeira poderão ser apurados em sede de liquidação
de sentença, sendo despicienda a juntada dos extratos ou

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comprovantes até tal fase. (TJ-MG 104330721757410011 MG
1.0433.07.217574-1/001(1), Relator: MARCOS LINCOLN, Data de
Julgamento: 27/01/2010, Data de Publicação: 22/02/2010)

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. POUPANÇA.


JUNTADA DOS EXTRATOS ANALÍTICOS. MOMENTO
PROCESSUAL. DISPENSABILIDADE. FASE DE LIQUIDAÇÃO.
MULTA IMPOSTA. AFASTAMENTO. DECISÃO REFORMADA.
RECURSO PREJUDICADO. 1 - Cuida-se de agravo de instrumento
interposto pela Caixa Econômica Federal - CEF, com requerimento de
efeito suspensivo, contra decisão interlocutória proferida pelo Juízo da
4a Vara Federal Cível de Vitória, na ação de rito ordinário, em face de
Ivan de Oliveira. 2 - A decisão agravada determinou que a agravante
apresentasse, no prazo de 15 (quinze) dias, os extratos das contas de
poupança de titularidade do autor, sob pena de multa diária
correspondente a R$ 100,00 (cem reais). 3 - Considerando o ofício nº
ES-OFI-2010/02119, de 23/09/2010, remetido pelo Juízo da 4a Vara
Federal Cível de Vitória, Seção Judiciária do Estado do Espírito Santo,
verifica-se que a decisão agravada foi revogada. O referido ofício foi
recebido por este Relator quando já incluído o processo na pauta de
julgamento. 4 - A questão abordada através do presente recurso
encontra-se superada, ficando o mesmo prejudicado pela perda de
objeto. 5 - Agravo de instrumento prejudicado. (TRF-2 - AG:
201002010066021 RJ 2010.02.01.006602-1, Relator: Desembargador
Federal GUILHERME CALMON NOGUEIRA DA GAMA, Data de
Julgamento: 27/09/2010, SEXTA TURMA ESPECIALIZADA, Data de
Publicação: E-DJF2R - Data::11/10/2010 - Página::332/333)

APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO DE COBRANÇA. CONTRATO DE


ABERTURA DE CRÉDITO EM CONTA CORRENTE. CHEQUE
ESPECIAL. PRELIMINAR DE INÉPCIA DA INICIAL. AUSÊNCIA DOS
EXTRATOS DE TODO O PERÍODO DE CONTRATUALIDADE.
ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE DOCUMENTO INDISPENSÁVEL À
PROPOSITURA DA AÇÃO. DISCUSSÃO QUE CINGE-SE ÀS
CLÁUSULAS CONTRATUAIS. POSSIBILIDADE DE JUNTADA
ULTERIOR, NO MOMENTO DA LIQUIDAÇÃO DO DÉBITO.
PRELIMINAR INACOLHIDA. RELAÇÃO DE CONSUMO. CONTRATO
DE ADESÃO. APLICABILIDADE DA LEI N. 8.078/90. SÚMULA 297
DO STJ. MITIGAÇÃO DO PRINCÍPIO PACTA SUNT SERVANDA.
REVISÃO CONTRATUAL. POSSIBILIDADE. INTELIGÊNCIA DO
ART. 6º DO CDC. COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. EXIGÊNCIA
PERMITIDA TÃO SÓ NOS CONTRATOS EM QUE HOUVER
EXPLÍCITA CONVENÇÃO LIMITADA À TAXA DE JUROS
REMUNERATÓRIOS LEGAL FIXADA NO AJUSTE, VEDADA,
CONTUDO, A CUMULAÇÃO COM A CORREÇÃO MONETÁRIA.
MATÉRIA AFETADA NA FORMA DE RECURSO REPETITIVO.
ATENÇÃO AO PRECEDENTE DE RECURSO ESPECIAL N. 1058114
DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. CAPITALIZAÇÃO MENSAL
DE JUROS. DECLARAÇÃO DA INCONSTITUCIONALIDADE, POR
ESTA CORTE, DA MP N. 1.963-17/2000, REEDITADA PELA MP N.
2.170-36/2001. CÔMPUTO EXPONENCIAL NÃO PERMITIDO NA
FORMA MENSAL. JUROS REMUNERATÓRIOS EM 12% AO ANO.
INAPLICABILIDADE DO ART. 192, § 3º, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. EXEGESE DA SÚMULA VINCULANTE 7 DO STF.
LIMITAÇÃO PELA TAXA MÉDIA DE MERCADO. OBSERVÂNCIA DO
ENUNCIADO I DO GRUPO DE CÂMARAS DE DIREITO
COMERCIAL. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. PEDIDO DE
REDUÇÃO. REJEIÇÃO. VALOR ESTIPULADO EM CONFORMIDADE
COM OS PADRÕES ÍNSITOS AO ART. 20, § 3º, DO CPC.
SENTENÇA PARCIALMENTE REFORMADA. RECURSO DO AUTOR

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CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO. RECURSO DO RÉU
CONHECIDO E DESPROVIDO. O Superior Tribunal de Justiça, em
recurso repetitivo (REsp. n. 1058114), reafirmou o entendimento
jurisprudencial de que é válida a cláusula que prevê a cobrança da
comissão de permanência para o período de inadimplência, assim
entendida como juros remuneratórios à taxa média de mercado,
respeitada a fixada no ajuste, acrescidos de juros de mora e multa
contratual, vedada a exigência concomitante, contudo, com correção
monetária (Súmula 30 do STJ). "Nos contratos bancários, com
exceção das cédulas e notas de crédito rural, comercial e industrial,
não é abusiva a taxa de juros remuneratórios superior a 12 % (doze
por cento) ao ano, desde que não ultrapassada a taxa média de
mercado à época do pacto, divulgada pelo Banco Central do Brasil."
(Enunciado n. I do Grupo de Câmaras de Direito Comercial do TJSC).
(TJ-SC - AC: 170105 SC 2008.017010-5, Relator: Altamiro de Oliveira,
Data de Julgamento: 14/06/2011, Quarta Câmara de Direito
Comercial, Data de Publicação: Apelação Cível n. , de Pomerode)

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. CORREÇÃO


MONETÁRIA. CADERNETA DE POUPANÇA. PROVA DA
TITULARIDADE DA CONTA. INEXISTÊNCIA DE DOCUMENTO
INDISPENSÁVEL À PROPOSITURA DA AÇÃO. PRELIMINAR DE
PRESSUPOSTO PROCESSUAL ACOLHIDA. DEMAIS
PRELIMINARES E MÉRITO PREJUDICADOS. EXTINÇÃO DO FEITO
SEM EXAME DO MÉRITO. ART. 267, IV E VI, DO CPC. - A
jurisprudência pátria, capitaneada pelo e. STJ, vem entendendo
ser dispensável, à época da propositura da demanda, a juntada
aos autos dos extratos das contas de poupança, sendo
necessário, apenas, a prova da titularidade da conta no período
requerido. - A teor do art. 333, I, do CPC, é da parte autora o ônus da
prova quanto ao fato constitutivo do seu direito. E, mesmo que se
considere como sendo de consumo a relação em discussão, a ser
amparada pelo Código de Defesa do Consumidor, o fato é que a
inversão do ônus da prova em benefício do consumidor somente deve
ser determinada, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação
ou quando for ele - o consumidor - hipossuficiente (art. 6º, VIII do
CDC). - Inexistência de qualquer documento apto a provar a
titularidade de conta poupança pela parte autora ou que a sua
situação financeira tenha impedido o fornecimento pela instituição
financeira de algum indício de prova material. - Situação que impõe a
extinção do feito sem apreciação do mérito por falta de pressuposto
processual - comprovação da existência de relação contratual entre as
partes (titularidade de conta) - e, também, por ausência de uma das
condições da ação, qual seja, o interesse de agir, nos moldes do art.
267, IV e VI, do CPC. - Exame das demais preliminares e do mérito
prejudicado. - Deixa-se de condenar a parte autora em custas e
honorários advocatícios por ser beneficiária da justiça gratuita.
Preliminar de ausência de pressuposto processual acolhida. Apelação
provida. Extinção do feito sem exame do mérito. (TRF-5 - AC: 438184
PE 2007.83.00.008583-8, Relator: Desembargador Federal José Maria
Lucena, Data de Julgamento: 15/05/2008, Primeira Turma, Data de
Publicação: Fonte: Diário da Justiça - Data: 18/08/2008 - Página: 747 -
Nº: 158 - Ano: 2008)

Desta maneira, em estando comprovada a existência de vínculo trabalhista apto a


gerar recolhimentos ao Fundo de Garantia, requer seja processada a presente ação sem os cálculos
do FGTS, declarando-se o direito à revisão dos valores aqui pleiteado para, apenas na sequência, na
fase de execução da sentença, o encaminhamento da presente ação para cálculos, que serão
realizados no alcance da sentença.

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III – LEGITIMIDADE PASSIVA DA CAIXA

A tese que deve ser acolhida já em Primeiro Grau é a predominante no STJ –


Superior Tribunal de Justiça, de que por versar a lide sobre correção monetária dos depósitos de
FGTS, a legitimidade passiva é exclusiva da Caixa Econômica Federal. Assim demonstra a
jurisprudência daquela Corte:

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE


INSTRUMENTO. MATÉRIA PACÍFICA. FGTS. LEGITIMIDADE AD CAUSAM
EXCLUSIVA DA CEF. PRESCRIÇÃO. PRECEDENTES. Não cabe prover recurso
especial quando a matéria nele versada encontra-se pacificada no âmbito desta
Corte. É pacífico o entendimento que nas ações que versam sobre reajuste
dos saldos do FGTS a legitimidade ad causam é exclusiva da CEF, que
ostenta a condição de gestora do fundo. Pacífica, também, a questão do prazo
prescricional que é de trinta anos. Precedentes. Agravo regimental improvido.
Decisão unânime. (STJ - AgRg no Ag: 187946 DF 1998/0033324-0, Relator:
Ministro FRANCISCO FALCÃO, Data de Julgamento: 20/10/1999, T2 - SEGUNDA
TURMA, Data de Publicação: DJ 29.11.1999 p. 152) Grifo nosso

FGTS. CORREÇÃO MONETÁRIA. IPC DE JANEIRO/89 (42,72%).


LEGITIMIDADE PASSIVA "AD CAUSAM" EXCLUSIVA DA CEF. PRESCRIÇÃO.
MATÉRIA NÃO PREQUESTIONADA. I - A Seção de Direito Público do STJ
firmou orientação de que apenas a CEF é parte legítima para figurar no pólo
passivo das ações em que se discute correção monetária das contas
vinculadas ao FGTS (Incidente de Uniformização de Jurisprudência no REsp
nº 77.791/SC, relator para o acórdão Ministro JOSÉ DE JESUS FILHO, DJU de
30/06/97). II - A Corte Especial adotou o percentual de 42,72%, referente ao IPC
de janeiro de 1989. III - A questão atinente à prescrição não foi prequestionada.
Aplicação das Súmulas nºs 282 e 356 do STF. IV - Recurso conhecido, mas
improvido. (STJ - REsp: 181718 SP 1998/0050554-7, Relator: Ministro ADHEMAR
MACIEL, Data de Julgamento: 30/09/1998, T2 - SEGUNDA TURMA, Data de
Publicação: DJ 01.02.1999 p. 165)Grifo nosso.

A matéria encontra-se inclusive sumulada, a saber: súmula 249/STJ – A Caixa


Econômica Federal tem legitimidade passiva para integrar processo em que se discute correção
monetária do FGTS.

Assim, a presente ação tem em seu polo passivo o detentor da qualidade para nele
estar, conforme amplamente sedimentado pela jurisprudência pátria.

IV – DA PRESCRIÇÃO

A prescrição trintenária é pacífica no caso em deslinde, questão esta também já


pacificada no Superior Tribunal de Justiça, a saber:

CONSTITUCIONAL - FGTS - NATUREZA INSTITUCIONAL - LEGITIMIDADE


PASSIVA EXCLUSIVA DA CEF - INOCORRÊNCIA DE PRESCRIÇÃO -
ILEGITIMIDADE AD CAUSAM DO BANCO DO BRASIL S/A - EXPURGOS
INFLACIONÁRIOS - JUROS PROGRESSIVOS. 1. O FGTS tem natureza institucional,
e não contratual, regido que é por normas gerais e abstratas. Não há, pois, direito
adquirido à inalterabilidade de instituição, estatuto ou de regime jurídico. 2. É a CEF
parte legítima para, no pólo passivo, litigar sobre questões relativas ao FGTS, haja
vista as atribuições na gerência do Fundo desde 1989 (Decreto-lei 2.408/88, art. 4.º),

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época da ocorrência dos expurgos. 3. Inocorrência da prescrição, posto que a
ação foi proposta dentro do prazo legal, a teor da Súmula 210 do STJ, que
consagrou o prazo prescricional de 30 (trinta) anos. 4. Ilegitimidade passiva do
Banco do Brasil S/A, uma vez que, por ser Banco Depositário, mero recebedor das
quantias das contas vinculadas, só lhe cabe aplicar os indicadores da correção
monetária fixados pela CEF. 5. Determinou-se a atualização monetária dos saldos do
FGTS pelos índices inflacionários, conforme mencionados na inicial, de 42,72%
(janeiro de 1989) e de 44,80% (abril de 1990). 6. Com relação à incidência dos juros
progressivos, deve haver a manifesta comprovação de que o Autor já era optante pelo
regime do FGTS em período anterior a 22.09.71, data da publicação da Lei n.º
5.705/71, que ressalvou a progressividade dos juros para os que optaram até
22.09.71 ou, para os empregados, que ainda não haviam optado pelo regime do
FGTS, o direito de fazê-lo com efeitos retroativos a 1967 ou à data da admissão ao
emprego se posterior ao início da vigência da Lei n.º 5.107. Por outro lado, a opção ao
regime do FGTS feita em data posterior a 12.11.90 obedecerá aos termos da Lei n.º
8.036/90, regulamentada pelo Decreto 99.684/90. 7. Apelação dos Primeiros
Apelantes a que se dá parcial provimento e improvido o recurso da CEF. 8. Recurso
Adesivo conhecido e provido. (TRF-2 - AC: 164984 98.02.09660-1, Relator:
Desembargador Federal WANDERLEY DE ANDRADE MONTEIRO, Data de
Julgamento: 03/10/2001, TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJU -
Data::14/08/2003 - Página::114) Grifo nosso

Assim, a ação ora proposta não está alcançada pela prescrição trintenária,
conforme se demonstrará adiante.

V – DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS

A) A correção monetária

A correção monetária existe entre nós desde a década de 1960. O principal teórico
da Correção Monetária, o Advogado Tributarista Bulhões Pedreira explica o seguinte:

”Por analogia com as unidades de medidas físicas podemos dizer que o nível geral
de preços é o padrão primário do valor financeiro, enquanto que a unidade
monetária serve como padrão secundário – usado, na prática, para exprimir o valor
financeiro, mas que deve ser aferido pelo padrão primário porque sujeito a
modificações.” (BULHÕES PEDREIRA, José Luiz, “Correção Monetária; Indexação
Cambial. Obrigação Pecuniária”, in “Revista de Direito Administrativo”, c. 193 p,
353 a 372 Jul/Set 1993).

O nosso ordenamento jurídico possui índices de correção monetária que refletem a


inflação, recuperando o poder de compra do valor aplicado (IPCA e INPC), e a TR, índice que não
reflete a inflação, e, por consequência, não recupera o poder de compra do valor aplicado.

Os índices da TR, do INPC e do IPCA, sempre andaram próximos, mas nunca


tiveram o mesmo fim, nem quando o país passou por um período de hiperinflação e nem quando
passou por um período de deflação.

ANO TR INPC IPCA


1991 335,51% 475,11% 472,69%
1992 1.156,22% 1.149,05% 1.119,09%
1993 2.474,73% 2.489,11% 2,477,15%
1994 951,19% 929,32% 916,43%
1995 31,6207% 21,98% 22,41%
1996 9,5551% 9,125% 9,56%

Em 1999 a TR se distancia expressivamente do INPC e do IPCA, ao ponto de


hoje a inflação superar 6% ao ano e a TR ser igual a zero. Assim, perde seu caráter de

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mantenedora e adequadora do poder aquisitivo dos depósitos do FGTS, que formam o
patrimônio do empregado/trabalhador.

O sentimento geral é que há muito tempo o FGTS é um fundo iníquo por ele não
ter recomposição inflacionária dos seus recursos. Na verdade, o trabalhador não está financiando
programas de habitação popular, saneamento básico e infraestrutura urbana, ele está subsidiando.

É sabido que o trabalhador não pode dispor livremente do FGTS, devendo aplicá-lo
e utiliza-lo conforme a autorização legal e não onde lhe é mais conveniente ou rentável. O trabalhador
tem que se submeter a políticas econômicas e sociais que lhe são altamente prejudiciais, ainda mais
se não for corrigido da forma correta, como é o que acontece com a utilização da TR de alguns anos
para cá. O art. 2º da Lei do FGTS assegura a correção monetária e é frontalmente descumprido
quando a TR é mínima e totalmente desproporcional em relação à inflação, sendo igualmente
desrespeitado quando o patrimônio do trabalhador é subtraído por quem tem o dever legal de
administrá-lo.

Em um cenário de TR zero e inflação pública e notória, estamos diante de uma


situação de confisco. O Governo Federal, através da Caixa Econômica Federal, está confiscando os
rendimentos dos trabalhadores, para subsidiar políticas públicas, sem a menor possibilidade de
ingerência destes trabalhadores.

Assim como em nosso Estado Democrático de Direito, a Constituição veda que se


utilize o tributo com efeito de confisco, o trabalhador não pode ser punido com o confisco do que a
própria Caixa define em seu sítio eletrônico, como um patrimônio do trabalhador, e definitivamente o é.

Quando se fala em patrimônio, imediatamente sobrevém lição da Professora Maria


Helena Diniz ao comentar o artigo 91 do Novo Código Civil:

Art. 91. Constitui universalidade de direito o complexo de relações jurídicas


de uma pessoa, dotadas de valor econômico.
Universalidade de direito. É a constituída por bens singulares corpóreos
heterogêneos ou incorpóreos (complexo de relações jurídicas), a que a norma
jurídica, com o intuito de produzir certos efeitos, dá unidade, por serem dotados de
valor econômico, como p. ex., o patrimônio (...) O patrimônio e a herança são
considerados como um conjunto, ou seja, como uma universalidade. Embora se
constituam ou não de bens materiais e de créditos, esses bens se unificam numa
expressão econômica, que é o valor. O patrimônio é complexo de relações
jurídicas de uma pessoa apreciáveis economicamente. Incluem-se no
patrimônio: a posse, os direitos reais, as obrigações e as ações
correspondentes a tais direitos. O patrimônio abrange direitos e deveres
redutíveis a dinheiro. (Código Civil Anotado, Ed. Saraiva, pag. 100) (grifamos).
Levando em conta que a relação jurídica entre os trabalhadores e a Caixa é de
direito pessoal, o artigo 233 do Código Civil se torna inafastável, na medida em que determina que a
obrigação de dar coisa certa abrange os acessórios, ainda que não mencionados.

Art. 233. A obrigação de dar coisa certa abrange os acessórios dela embora não
mencionados, salvo se o contrário resultar do título ou das circunstâncias do
caso.

Assim, perfeito o entendimento de que os acessórios do dinheiro são os juros e a


correção monetária.

Em relação aos índices, apresenta-se um quadro comparativo entre os percentuais


da TR, INPC e IPCA, desde 1997, os depósitos nas contas vinculadas do FGTS dos trabalhadores
estão perdendo poder de compra, notadamente a partir de 1999.

ANO TR INPC IPCA


1997 9,7849% 4,34% 5,22%

8/13
1998 7,7938% 2,49% 1,65%
1999 5,7295% 8,43% 8,94%
2000 2,0962% 5,27% 5,97%
2001 2,2852% 9,44% 7,67%
2002 2,8023% 14,74% 12,53%
2003 4,6485% 10,38% 9,30%
2004 1,8184% 6,13% 7,60%
2005 2,8335% 5,05% 5,69%
2006 2,0377% 2,81% 3,14%
2007 1,4452% 5,15% 4,46%
2008 1,6348% 6,48% 5,90%
2009 0,7090% 4,11% 4,31%
2010 0,6887% 6,46% 5,91%
2011 1,2079% 6,07% 6,50%
2012 0,2897% 6,17% 5,84%
2013 (até março) 0,00% 2,05% 1,94%

Excelência, hoje, o trabalhador que tem seu dinheiro aplicado no FGTS, e de lá


não pode retirá-lo para outro investimento, está sendo remunerado com 0,247% de juros ao mês e
mais nada. Não há nem correção monetária nem Taxa Referencial (independentemente da sua
natureza jurídica), em flagrante ofensa ao artigo 2º da Lei nº 8.036/90, que impõe a correção
monetária dos valores depositados pelo empregador.

Ainda que se argumente que a aplicação do Redutor pelo Banco Central/CMN


seja legal, sua redução a zero em um cenário de inflação superior a 6% ao ano, configura
flagrante afronta ao artigo 2º da Lei nº 8.036/90, que determina a atualização monetária, bem
como ao artigo 233 do Código Civil, quando sonega os acessórios da obrigação de dar.

Mas é necessário ir mais além e revisitar o entendimento jurisprudencial sobre a


TR como índice de correção monetária, máxime a partir da instituição de um redutor que tem por
efeito zerar o índice da TR em um ambiente de inflação.

O quadro comparativo mostra que a TR não se presta como atualizador monetário


do FGTS, pelo menos desde janeiro de 1999. Desde o momento em que o Banco Central/CMN
estabeleceu um redutor para a TR, ela deixou de ser um índice confiável para atualizar
monetariamente as contas do FGTS, porque se descola dos índices de inflação, sendo reduzido ano a
ano. A finalidade da correção monetária é manter o poder de compra do capital, e esta finalidade nem
de perto vem sendo alcançada pela TR. A anulação total da TR é só o desfecho desta política
predatória para o trabalhador.

A atualização monetária é o componente mais importante do mercado financeiro,


posto que sem a medição exata da perda do poder aquisitivo da moeda com o passar do tempo,
ocorre uma enorme destruição de valor. O patrimônio é justamente protegido pelo índice de
atualização de ativos que melhor amorteça os efeitos da inflação.

O Poder Judiciário não pode ficar inerte ao esbulho praticado pelo Governo
Federal, através da Caixa Econômica Federal, uma vez que instado a se pronunciar nesta causa.
Desde janeiro de 1999 as constantes reduções da TR em relação aos índices de inflação fizeram por
nulifica-lo, sobretudo desde setembro de 2012.

Quando o STF julgou a ADI 493-0/DF, deixou bem claro que a TR não constituía
índice que refletia a variação do poder aquisitivo da moeda. Esta característica da TR tem se
confirmado ao longo dos anos. A sua aplicação aos saldos dos depósitos do FGTS tem gerado
“gigantesca destruição de valor” do patrimônio do trabalhador. Há anos, os trabalhadores que tem
depósitos no FGTS não experimentam ganhos reais em sua aplicação, mesmo levando em conta a
remuneração dos juros de 3% ao ano.

C) Dos Índices que efetivamente produzem correção monetária

9/13
Diz o art. 5º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro:
Art.  5o Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às
exigências do bem comum.

O fim social da Lei do FGTS é inegável, que é o de proteger o trabalhador e


constituir um patrimônio que lhe sirva de arrimo em várias situações de sua vida. Com isto em vista, o
nobre Julgador, cumprindo a mens lege, reconhecer que correção monetária deverá ocorrer no
sentido aqui demonstrado de reposição dos índices inflacionários de forma a garantir o poder de
compra daquele dinheiro ali depositado no Fundo, é efetivamente devida pela Caixa Econômica
Federal. Se a TR não cumpre esta função, mais do que autorizado está a consideração de outros
índices previstos na legislação brasileira que melhor reponham as perdas monetárias.
Até por uma questão de equidade, o melhor índice que pode substituir a TR é o
índice que corrige monetariamente o salários dos trabalhadores e os benefícios previdenciários. Este
índice está previsto na Lei 12.382 de 25 de fevereiro de 2011, cujos primeiros artigos trazem a
seguinte dicção:

Art. 1o  O salário mínimo passa a corresponder ao valor de R$ 545,00 (quinhentos


e quarenta e cinco reais). 

Parágrafo único.  Em virtude do disposto no  caput, o valor diário do salário mínimo
corresponderá a R$ 18,17 (dezoito reais e dezessete centavos) e o valor horário, a
R$ 2,48 (dois reais e quarenta e oito centavos). 

Art. 2o  Ficam estabelecidas as diretrizes para a política de valorização do salário


mínimo a vigorar entre 2012 e 2015, inclusive, a serem aplicadas em 1 o  de janeiro
do respectivo ano.  

§ 1o  Os reajustes para a preservação do poder aquisitivo do salário mínimo


corresponderão à variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor -
INPC, calculado e divulgado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística - IBGE, acumulada nos doze meses anteriores ao mês do reajuste. 

§ 2o  Na hipótese de não divulgação do INPC referente a um ou mais meses


compreendidos no período do cálculo até o último dia útil imediatamente anterior à
vigência do reajuste, o Poder Executivo estimará os índices dos meses não
disponíveis. 

§ 3o  Verificada a hipótese de que trata o § 2 o, os índices estimados permanecerão


válidos para os fins desta Lei, sem qualquer revisão, sendo os eventuais resíduos
compensados no reajuste subsequente, sem retroatividade. 

§ 4o  A título de aumento real, serão aplicados os seguintes percentuais: 

I - em 2012, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do


Produto Interno Bruto - PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2010;

II - em 2013, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do


PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2011; 

III - em 2014, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do


PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2012; e 

IV - em 2015, será aplicado o percentual equivalente à taxa de crescimento real do


PIB, apurada pelo IBGE, para o ano de 2013. 

§ 5o  Para fins do disposto no § 4 o, será utilizada a taxa de crescimento real do PIB
para o ano de referência, divulgada pelo IBGE até o último dia útil do ano
imediatamente anterior ao de aplicação do respectivo aumento real. 

10/13
Utilizar-se-ia, assim, o mesmo peso para medidas semelhantes, já que o
salário mínimo é corrigido monetariamente pelo INPC; o depósito do FGTS que, em última
análise, é um salário indireto do trabalhador, e também merece ser assim entendido.

E observe que o objetivo da Lei em corrigir o salário mínimo pelo INPC


decorre exclusivamente da necessidade de preservar seu poder aquisitivo. A necessidade de
preservar o poder aquisitivo é um constante em todas as transações financeiras, e ela só
aperfeiçoa quando repõe efetivamente as perdas inflacionárias.

Em caso de entendimento diverso do Douto Juízo, trazemos à baila outro índice


que satisfaria a situação: o IPCA, índice oficial do Governo Federal para medição das metas
inflacionárias, contratadas com o FMI, a partir de julho de 1999.

De qualquer forma, quaisquer dos dois índices preservariam o poder aquisitivo dos
depósitos do FGTS, coisa que o aniquilado e ultrapassado índice da TR não faz.

D) O outro lado da moeda

É de conhecimento geral que o Sistema Financeiro de Habitação dispõe dos


recursos do FGTS para financiar o maior sonho de todo brasileiro – casa própria. Também é de
conhecimento geral que a Caixa Econômica Federal é o Banco que mais se utiliza destes recursos do
SFH para financiar, emprestar dinheiro para os brasileiros comprarem a casa própria.

E, embora em princípio, não haja correlação entre o trabalhador que tem depósitos
no FGTS que são emprestados para financiar a casa própria, e aquele que se vale do empréstimo do
SFH para adquirir sua casa própria, em algum momento, trabalhador e mutuário são a mesma pessoa.

E neste contexto de mutuário e trabalhador serem a mesma pessoa é que se


evidencia a maior sordidez da história recente deste País.

Já seria reprovável o fato de a Caixa pegar um dinheiro a juros baixos e sem


nenhuma correção e emprestá-lo a juros muito altos, mesmo sem correção (uma vez que a TR corrige
prestações do SFH), evidencia que a instituição bancária leva imensa vantagem nesta negociação.

Mas a situação piora consideravelmente quando, a Caixa pega dinheiro a juros


baixos, sem nenhuma correção para o trabalhador, e empresta para ele mesmo.

Suponhamos que um trabalhador queira adquirir uma casa própria utilizando


recursos do seu FGTS. Ele encontra o imóvel, mas verifica que seus recursos não são suficientes
para adquiri-lo. Então ele se dirige a um Banco para financiar a diferença, comprometendo sua renda
por muitos anos.

A maioria dos trabalhadores brasileiros, quando quer adquirir um imóvel, dirige-se


à Caixa Econômica Federal.

Todavia, se o depósito do FGTS tivesse sido devidamente corrigido, se ele


mantivesse seu poder de compra, ou o empréstimo seria menor ou sequer haveria necessidade de o
trabalhador comprometer sua renda e anos de trabalho para adquirir aquilo que é o nosso sonho mais
primário, nossa necessidade mais rela como indivíduo e como povo brasileiro.

A Caixa está emprestando para o trabalhador aquilo que ela deixou de pagar
a ele a título de correção monetária na sua conta de FGTS. É o suprassumo dos abusos
econômicos que afeta principalmente os trabalhadores brasileiros mais necessitados!!

Em suma, pode-se dizer que a Caixa vale-se da fragilidade humana para colocar-
se como realizadora de sonhos, ao mesmo tempo em que, ano após ano, aufere lucros exorbitantes
às custas do trabalhador, o qual vê seu Fundo de Garantia sendo defasado no tempo em troca de
lucros bilionários para o ente financeiro.

11/13
VII – DA TUTELA ANTECIPADA

O Artigo 273 do Código de Processo Civil preceitua que é possível a concessão de


tutela antecipada se o Juiz se convencer da verossimilhança da alegação e houver o fundado receio
de dano irreparável ou de difícil reparação.

A verossimilhança da alegação já foi amplamente demonstrada.

O fundado receio de dano de difícil reparação advém do fato de que a


correção monetária é um obrigação de trato sucessivo.

O Artigo 12 da Lei nº 8.177/91, com redação da Lei nº 12.703/12, determina que a


remuneração dos depósitos será feita em cada período de rendimento.

Cada período de rendimento que a Caixa sonega a correção monetária dos


depósitos do FGTS, o dano contra o trabalhador se configura.

Acresça-se a este dano, a situação de refém que o trabalhador com depósito do


FGTS se encontra quando quer financiar seu imóvel pelo SFH com a Caixa. Hoje, e enquanto durar a
TR zero, ele terá que financiar mais do que seria necessário, pois o que lhe pertence de direito –
correção monetária – não está incidindo sobre seu depósito.

E ao que tudo indica, este dano continuará se repetindo por um longo período.
Verifica-se no Estudo Econômico que ao tempo em que esta ação perdurar, a TR continuará anulada,
ou reduzida a patamares mínimos, impondo aos trabalhadores mais perda do seu poder aquisitivo,
mas dilapidação do seu patrimônio e mais restrições à sua capacidade de fazer negócio jurídico.

Não há dúvida de que há um risco de difícil reparação na medida em que não é


possível quantificá-lo, mas não há como negá-lo, tanto se levarmos em conta o trabalhador
individualmente considerado como a coletividade de trabalhadores.

Assim, imperioso é que desde já a TR seja substituída pelo INPC, índice que
corrige o salário mínimo ou pelo IPCA, índice oficial de medida de inflação. Índices que minimamente
repõem as perdas monetárias haja vista que hoje não há nenhum tipo de correção monetária dos
depósitos do Fundo.

Assim, requer a concessão da tutela para substituir imediatamente a TR, como


índice de correção monetária nos depósitos do FGTS dos ora substituídos, pelo INPC, IPCA ou índice
que, no entender deste Juízo, melhor reflita as perdas inflacionárias daqui por diante, até o trânsito em
julgado do presente feito.

VIII – DOS PEDIDOS

Antes o exposto, o Autor requer:

1) Em caráter antecipatório, que seja deferida a substituição da TR pelo índice


INPC para a correção dos depósitos efetuados desde a concessão até o trânsito em julgado da
demanda, com a consequente aplicação do índice determinado sobre os montantes depositados em
contas vinculadas dos beneficiados ou, alternativamente, a substituição da TR pelo índice IPCA para
a correção dos depósitos efetuados desde a concessão até o trânsito em julgado da demanda, com a
consequente aplicação do índice determinado sobre os montantes depositados em contas vinculadas
dos beneficiados;

2) Em caráter definitivo, a confirmação da providência concedida antecipadamente


e/ou o julgamento inteiramente procedente dos pedidos para condenar a Caixa Econômica Federal
para:

12/13
2.1) Pagar aos beneficiários o montante correspondente ao valor corrigido pelo
índice de correção monetária deferido (INPC/IPCA/outro definido pelo Douto Juízo) nos meses em que
a TR foi zero, nas parcelas vencidas e vincendas;

2.2) Pagar à parte autora o montante correspondente ao valor corrigido pelo índice
de correção monetária deferido (INPC/IPCA/outro definido pelo Douto Juízo), desde Janeiro de 1999,
nos meses em que a TR não foi zero, mas foi menor que a inflação do período;

3) Que se ordene a citação da requerida, para querendo contestar a presente


ação, sob pena de revelia e efeitos da confissão;
4) A concessão de correção monetária e juros legais sobre os valores devidos pela
condenação de que tratam os itens acima;

5) A condenação da Ré ao pagamento das custas e honorários advocatícios na


ordem de 20% sobre o valor da condenação;

6) A concessão dos benefícios da justiça gratuita à parte autora, uma vez que
pobre no sentido jurídico do termo, conforme declaração de hipossuficiência anexa.

Protesta provar o alegado por todos os meios de prova admitidos em direito,


principalmente prova documental – pugnando desde já pela juntada dos extratos do Fundo de
Garantia apenas em sede de liquidação de sentença, conforme exposto preliminarmente.

Atribui-se à causa o valor de R$ 1.000,00 (mil reais) para efeitos fiscais (sem
prejuízo de eventual complementação posterior).

Nestes termos, pede-se deferimento.

Porto Alegre, 06 de maio de 2021.

Gabriela Karoline Scortegagna


OAB/RS 94329

13/13

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