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Poesia para crianças

coMo A PoESTA É coNsTDERADA

A poesia é um gênero literário que sofre os maiores


preconceitos editoriais... Edita-se muito pouco, mui ra_
ramenre e sem muiro critério. Grandes poeras brasileiros
não têm versôes infantis de sua obra, e poeras menores,
que não dominam o verso, que não sabem falar de mo-
do se nsíve I e belo, têm suas pobres palavras impressas...
Tru quru ACHf, euE A poESIA INFÂNTII rEM
euE sER MoRÂ_
tzÂDoRA, falar de cosrumes edificantes, de como orga_
nrzar o dia-a-dia, descrever bons hábitos de higiene dãn_
tária ou glorificar o Dia das Mães ou o Dia ào Índio e
coisas que tais. .. Que, obviamente, por serem restritivas
e. diretivas, já têm grandes chances áe nao ser
boa poe_
sia. E geralmente são pessimamente escritas, entediando
profundamente a criança.
TEU quEu ÂclrE eur A ponsrA pÂR cRrANçÂs rEM euE sER
PEeUEMNINHÂ, bobinha, mimosinha e outros inhos...
Que deve contar como a plantinha cresce , como a chu-
vinha caindo faz a folhinha ficar grande e fote e ou-
tras tatibitatices que acabam irritando a criança por
acharem que ela é um bebê, que com ela só se fala no
diminutivo, que gosta de frases para débil mental e que
está curiosa em relação a assuntos pra lá de interessantes
prum berçário, mas jamais pra um aluno de l.a ou 3.a
série . ..
Tru qurlr ACHE eur A poEsr pARr{ cRI^NÇAS DEVE TRÁ-
TAR DE rrUeS pnrnróTrcos, cívicos, fazendo com que alu-
nos em coro recirem odes à pá,tria, em várias datas espe-
c-ficas, de preferência muitíssimo bem decoradas... Co-
mo se cidadão não se fosse o ano inteiro e como se poesia
fosse decantar um dia do cale ndário... E ainda usando
chavões, grandiloqüências, frases de pretenso efeito que
não se ouvem mais em lugar nenhum... Em geral tedio-
sos, chatos, compridos, e dando aquela sensação de ridí-
culo e de mal-estar ao ser a poesia declamada, em con-
junto, por toda uma classe ...
Tru qulu ACHE euE A poESrA TNFANTTI DEv[ FALAR DE AS-
suNTos PIEGAS: de órfaos abandonados, de escravos gra-
tos, de cartas enviadas pelo pai que está na guerra ou na
prisão, da moça que foi abandonada etc. e tal... Emoção
verdade ira é uma coisa, pieguice gasta e óbvia é outra. . .

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Claro que a tristezura pode
- e deve - estar presenre,
mas se bem descrita, bem vivida, bem expressa. Tem
uma definição curtinha do Mario Quintana, intitulada
"Tristeza de escrever", onde ele diz esta lindeza:
"Cada palavra é uma borboleta morra espetada na
[págit''
Por isso a palavra escrita é sempre triste .. . "
A porsm pARÁ cRIÂNÇÂs, ASSIM coMo A pRosl, TEM euE
sER, ANTTs DE TUDo, Murro noa! De primeiríssima quali-
dade! ! ! Bela, movente, cutucante, nova, surpreendente,
bem escrita... Mexendo com a emoção, com as sensa-
çÕes, com os poros, mostrando algo de especial ou que
passaria despercebido, invertendo a forma usual de a
gente se aproximar de alguém ou de alguma coisa...
Prazerosa, divertida, inusitada, se for a intenção do au-
tor... Prazerosa, triste, sofrente, se for a intenção do au-
tor... Prazerosa, gostosa, lúdica, brincante, se for a in-
tenção do autor...
Ou, como diz José Paulo Paes, ao dar sua "Explica- < José Paa/o PAES
ção", em seu livro É isso a/i: "4 poesia nao é mais do
que uma brincadeira com as palavras. Nessa brincadeira,
cada palavra pode e deve significar mais de uma coisa ao
mesmo tempo: isso aí é também isso ali. Toda poesia
tem que ter uma surpresa. Se não tiver, não é poesia: é
papo furado" (e ele , um de nossos maiores poetas, bem
sabe o que fala... ).

BRINCANDO COM AS PATAVRAS

Há poetas que brincam com as palavras dum modo


gostosíssimo de a criança ouvir e ler. Lidam com toda
uma ludicidade verbal, sonorâ, às vezes musical, às ve-
zes engraçada, no jeito como vão juntando palavras, fa-
zendo com que se movam pela página quase como uma
cantiga, e ao mesmo tempo jogando com os significados
diferentes que uma mesma palavra possui.
Sidônio Muralha, autor de A TV da biçbarada. faz is-
so lindamenre, em:

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Stdônio IIURALHA > Dia de festa

E tudo que /ã
hauia,
e tudo o que baau
/a,
qil( Je chamasse a/egn'd
que se c/tamdsse poesia
so sabia
o sabú.
Ouçam como e/e assobia
assobta
o sabtã.

Nas estrofes finais do poe ma, a brincadeir a com sabu


e sabta
- um bom trocadilho e ainda assobia... sem
contar a leveza das imagens. -
Neste outro poema, de Cecília Meireles, o trocadilho
é entre a letra erre e o verlto errar:

O rnenino dos FF e RR

O menino dos ff e n
é o Ot'eu Orofilo Feretra;
at com tonto: rr, não erres!

Jogos de palavras são muito usados em poesias infan_


tis, e as crianças adoram a brincadeira. Na música popu_
lar brasileira, esse jogo também é muito utilizado, cÀo
n-o poema-canção que Chico Buarque criou para a peça
Os sa/timbancos, chamado "Â galinha,'. l,tuito go*oro
o trocadilho: cltocor-se (espantar-sç) e cltocor (aqúe..r o
ovo), além de brincar com ot)o, noao e aouô!

Cbico BUARQLTE DE HOLANDA


Todo oao
qae ea boto
me cboco
de noao.
Todo oao
é a cara
é a clara
do aouô.

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Também o Elias José, em LIm poaco de tudo, joga Um pouco de tudo, de E/iat Jo
com drferentes significados da palavra gnlo: sé. I/ustrdção de lÍarce/o Cipu e
lÍr/ton Ciptls. São Paulo, Edtçoes
Paulinas, p. 7.

Grilo Grilado
O grilo
ceitado
anda grilado
e au soi
o que há.
Salta pra aqui,
salta pra ali.
Cri-cri pra cá,
cri-cri pra lá.
0 grilo
*oitado
anda grilado
e não quer fonlaÍ.
No fundo
nãç ilqde,
é sô raparar
êm sua atitudê
pra so desconfiar.
O grilo
coilado
anda grilado
o guâr unr enâlistâ
a quôr um rloutsr,
§eu grilo.
eu sei:
o sau grilo
â um grilo
de smor.

ô
tf

{*}
4q 6
#\
I rr
jv:

69

i{
O autor dá contemporaneidade ao poema quando lhe
acrescenta um analista, junta o bucólico com o urbano,
fala de amor como desencadeante de grilaçoes, repete o
estribilho que é algo geralmente gostoso de ouvir
-
e constrói um poema divertido.
-
Utiliza muito a aliteração, Íepetição de fonemas para
produzir efeito. Esse recurso poético também é empre-
gado em cantigas de roda, em brincadeiras de Íua ou no
jeito divertido de um poeta brincar com o á, criando si-
tuaçÕes inesperadas, relaçÕes de bravice , juntando um
bebê babao com um barbeiro, e contar um episódio en-
graçado de ouvir, que constitui ao mesmo tempo um
desafio à leitura em voz alta... como fez o Sérgio Capa-
relli, em um dos poemas do Boi dd cara pretd.'.

SéTgictCAPARELLI > O barbeiroe obobeiro

O barbeiro conzprou um babeiro


para a babd de seu filbo;
- Bdba agord, bebê babao,
de babeiro. babar é bom.

Depors foi fazer a barba


do único pai de sea fillto;
Barbeio a barba e não babo,
sou barbeiro sem babetl.ro.

Mas ao linzpar o babeiro


lua barba .çe encbeu de baba
e o barbeiro embrabeceu
com babeiro, barba e baba,

Ou de , ao usar a consoante r, produzir e provocar um


som semelhante ao de uma engrenagem esquentando,
martelando, girando... É o que Cecília Meireles faz
num de seus poemas do livro Isto ou aqui/o:

Cecília ,IIEIRELES (1901 196,1t Roda na rua


NaÍura/ do Rio de Janero, foi
pro/e.r.rora pnmiia e uniyerstti Rodo na rua
na. Em l9.ll, cnoa no Rto de.f a
iltt:rú J f nm, /u /,th/iut,,:,t tn
a rodd do caro.
J.tntt/ J, ' Brt:i/. F:;rt t cu f uL st:r
(parit ada/tos e cnançat) e crô Rodd nd rua
ntc,l, a roda das danças

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A roda nd rao
rodaaa no barro

Na roda da rua
rodat,am cianças

O carro, na rila.

Soa tão difere nte esta ''Moda da me nina trombuda'',


onde a mesma Cecília, mantendo o m, faz com que se
altere totalmente seu rumo quando dele aproxima outra
vogal, tornando-o mais duro ou mais macio, mais fecha-
do ou mais aberto...

É a rnoda
da menína muda
da menina tronzbuda
que muda de modos
e da medo,

(A menina mimada!)

É a moda
da menma muda
qae muda
de modos
e já não é trombuda,

(A menina amada!)

E ainda fala de como o amor, o carinho, afeta e modi-


fica os afetos e o jeito de ser e de sentir de cada um...
(Tão, tão bonitoll!)
Há que m saiba usar bem o anagÍama, como Bartolo- Anagrana: pa/aura ou frase ob
meu Campos de Queirós, quando escreveu seu tão belo ttda pela mudança de posição de
..RAUL.LUAR'': /elras de ouÍra pa/aura ou frdse,

RAUL e LUAR
mesmo nome escito de duas
maneiras diferentes

Neste belo poe ma gráfico, ele faz um parale lo entre


RALIL/menino que gosta do luar e LUAR/luz da laa no

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lmtnn imtFr.
céu/e que gosla de Rau/, e continua inventando novas
reiaçÕes e novas palavras:

RAUL é LIJAR

O rau/ /uaaa

E mais tarde

RLl4,
lugar de encontro do Luar
e da Rdu/

o /uar ruaua

RLJ,\VA,
t/o da /u,t pa.rse ar
7?.t rltit do Rau/

Uma lindezafazer com que a mesma palavra, escrita


de forma diferente uma de trás para fiente, ouüa de
frente para rrás -permita tantas aproximaçÕes, ima-
-
gens, relaçÕes, descobertas... que um poeta encontra e
que fazem com que o leitor se encante!

AS RIMAS

As rimas
- outro Íecurso poético - são tào gosrosas
de ler e ouvir quando bem escolhrdas, bem trabalha-
das!... Não poclem é ser postas sem nenhum critério,
pois há regras poéiicas que as definem bem: podem vir
intercaladas, rimando a primeira com a segunda linha.
Vní'rut de I|ORAES (1913. ou então de outro jeiro, dependendo do tipo de versifi-
1980) l\,tscrdo no Rto de.f anei cação que cada poeta escolhe para cada poema que
ro, frti poe/,t. l.orn,t/llit (crí/tco
faz ...
de cinert,t) e dt/lor de /elr,t.ç t/e
rnú.;tc;t popa/ar, lendo.çtdo urt Vinícrus de Moraes, em seu livro á arca de,\roá, pu-
dot intciadctre.; dt bossa-nctt,d, blicou esre poema:

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O pingüint

Bom dia, Pingilim


Onde aai assinz
Com ar apressado?
Eu não sou ma/aado
Nao fique assustado
Com medo de mim.
Eu só gostaia
De dar um tapin/ta
I"lo seu chapéu jaca
Oa bem de leatnbo
Puxar o rabinbo
Da sua casaca.

Rimas gosrosas, bem usadas e uma cândida proposra


duma criança um tantinho perversa, que não é nenhum
modelo de santidade e que aré se espanra com a vontade
do pingtiim de dar o fora rapidinho... Puderal
EliasJosé, ao descrever a flor hortênsia, faz com que
as rimas fluam sem forçar barra alguma, usa uma ima-
gem pouco explorada na poesia da flor gorda
mostra a obesidade sob outro ponto- a de vista:
- e

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Um pouco de tudo, de Eltias Jo
sé. Ilustrações de l[arcelo Cipis e
Milton Cipi:. São Pau/o, Ediçoes
Paulinas, p. 18.

Hortânsia
Honônria, fiofiânsia,
flor rninha
da paoiâncie,
Olhsndo pra rla,
§Gmprâ tão bala,
dâ ttperanço,
Mas nâo
*- a náo lhe diga,
sâr por intriga, *
quo ela pracisa
da uma balança.
Hortânsia, hortünsia,
tâo sorridente,
tüdâ gorduÍâ,
ongorda â gsntÊ
só d* ternura.

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O português Sidônio Muralha brinca com as sílabas,
usando a repetição de modo muito bem-humorado e
obtendo um efeito nas rimas de eco... eco. ..
eco. ..
- -

Conaerso

Quando unz tata


encontra oiltro tata
tratdm-se por tu:

Como estãs tu,


-Tatu?
Eu estou bem e tu,
-Tatu?
Essa conuersa gagu ejada
ainda ê mais engraçada;

Como estás tu,


-
td- ta, ta- ta,
Tatu?

- Eu estou bem e tu
td-ta, ta-ta,
Tatu?

Digo isso para bincar


pois nunca at'
anz /a, ta-/a,
tatu
gaguejar.

O fato de a rima ser simpática e lúdica não significa


que seja obrigatória e que não exisram versos livres, li-
vres... Agora, rímar mão com ndo, oco com toco ov ta-
foco, tanzbém com ninguém é não fazer esforço
algum. .. É simplesmenre buscar o fácil, o rápido, o que
geralmente resulta numa grandissíssima bobagem, sem
significado algum, sem acréscimo nenhum... E isso não
é tiabalhar com a palavra, não é rabiscar mil vezes até
conseguir a musicalidade nova, a imagem que não esteja
gasta, o efeito mágico e belo, a surpresa no rimar
- ob-o
tendo novas possibilidades de dizer... Uma vez, disse
Mario Quintana:

75

. f{tiíÇtd,r,
"Descobrir continenres é tao fâcll como esbarrar
[com um elefante :

Poeta é aquele que encontra uma moedinha


Iperdida. "

O RITMO

O ritmo é outra marca essencial da poesia. É o que


possibilita acompanhamenro musical ao que é lido ou
ouvido. Dado pelos olhos que vão seguindo linhas e li-
nhas, dado pela voz que fala, pelo corpo que se move
junto, seguindo o compasso dos versos, a cadência do
poema, o envolvimento acontecendo por inteiro.
Pode ser lindamente bailável, leve , rodopianre, como
um dos poemas de José Paulo Paes, em É isso a/i:

Jo:é Paulo PAES > Valsinba

E tão frcil
dançar
uma ua/sa,
rapaz...

Pezinbo
pra frente
Pennlto
pra trãs.

Pra dançar
umo ua/sa
é preuso
só dots.

O so/
conz a /ua
Feqão
com olroz,

Pode ser marcado, quase riquetaqueado, fazendo


com que os olhos andem até em movimento pendular,

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assim repetindo, repetindo... e , de repente , uma que-
bra no compasso, que é também um final de história.
Como se lê no poema de Manuel Bandeira que está no
lívro Beimbau e oatros poemas, bonito, bonito...

Debussy

Para cã., para /ã, . .

Para cá, para /á, , ,

Um noaelozinho de /inba...
Para cã, para lá,,,
Para cã, para /á, , .

Osci/a no ar pe/a mão de unta ciança


(Vem e uai... )
Que de/icadamente e quase a adormecer o balança
-ParaPstu... -
cá, para /ã, . .

Para cã e ...
O noue/ozinho cdiu.
-
Ou, ainda, como escreveu o mesmo Manuel Bandei- Manue/ BANDEIRA (1886
ra, desta vez com ritmo forte, cade nciado, marcado, que t9ó81 Nasctdo em Recife. uiueu
grande parte de sua údd no Rio
se mantém sempre, que caminha
- por cada verso -
como um trem pelos trilhos. E novas cenas vão se for-
de Janeiro. Iniciou-:e como Poe
ta sinzbolista, nzas grande Parle
mando, novas paisagens vão surgindo, velhas lembran- de sua obra poética reflete bem
ças vêm voltando, novos desejos e vontades se firmando as mf-luências do Modemísmo: o
de voltar logo pro lugar de onde saiu. u:o c/a /inguagem ora/, a reaçào
- à ngtdez das regras gramaticai:.
0 /emáIica brasi/etra. Deditou'se
Trem de feno também à prosa (crônicas, críti-
cds, ensaios) e à traduÇã.o.
Cafê com pão
Cafe com p,ão
Café com pão

Virge Mani.a que foi isso maquintsta?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre cerca
Aí seu fogaista
Bota fogo

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Na forna/ba
Qae eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

oô. ..
Foge, bicho
Foge, pouo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Possa boi
Passa boiada
Passa ga/bo
De ingazeira
Debruçada
No nacbo
Que uontade
De cantar!
oô...
Quando nze prendero
No canaaiá
Cdda pé de cana
Era um oficiá
oô...
lLenina bonita
Do aestido aerde
Me dá tua boca
Pra matá minba sede
oô...
Vou nzinzbora aou mimbora
Nao gosto daqui
l"lasçi no sertã.o
Sou de Oaicui
oô...
Vou depressa
Vou conendo
Vou na toda
Que sõ /euo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente ..

78
T

Ou ainda a repetição buscada pra reproduzir os movi-


mentos dum cotidiano chato e repetitivo de gentes di-
vetsas, à espera de uma ruptura, de uma quebra de tu-
do, que... nem sempre acontece. Gente imóvel acaba
fazendo um mundo imóvel, daí o ritmo dessas pessoas e
de seu mundinho nunca se alterar. Como mostra o Ma-
rio Quintana em:

Ritmo lÍano QUINTANA Poeía gaú-


cho nasci.do em 1906, dedtlca-se
à poesia, à prosa poética, à crôni
Na porta
ca e ao conlo.
A aaredeira uarre o cisco
uarre o c$Ço
aane o cisco

lVa pia
a menininba escoaa os dentes
escoad os dentes
esco?a os dentes

Itlo arroio
a laaadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa

alé qile enfirn


se desenro/a
todd a cordd
e o mundo gira imóue/ como um piãol

Lendo esses poemas (e os que virão nas próximas pá-


ginas), damos com alguns que obedecem a uma métrica
específica, um jeito obrigatório de construir as frases, de
colocar um número determinado de palavras, de ri-
mar... E com outros, livres, abertos, que vão sendo
construídos conforme a emoção, a vontade, a boniteza
buscada pelo autor... Um soneto ou uma trova podem ser
tão válidos e belos quanto um poema concreto. Importa
é que a escolha seja a melhor pra idéia, e que a idéia e os
versos sejam os mais belos pro leitor... Se soar falso, de -
safinar, não está tocando na tecla certa, e, ao invés de
provocar espanto, desperta bocejos ou irritação. Poesia
ruim não dâ pra agüentar!

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A POESIA E AS SENSAÇÕES

Ah, mas quando a poesia é boa, que sensaçÕes alguns


escritos provocam e evocam! Em "Sonho de Olga", de
Cecília Meireles, imagens visuais, escorregadias, aquáti-
cas, marítimas surgem fortes... (aqui a primeira e a últi-
ma estrofe ):

A espuma escreae
com /etras de a/ga
o sonho de Olga

A espunza escreae com a/gas na água


o sonho de O/ga..,

Sabores, líquidos e sólidos, todos mui doces, surgem


na memória de Ricardo Azevedo quando descreve "Â
casa de meu avô" (transcrita aqui a última estrofe):

Ab como é boa essa aida


nd do meu auô
Çasa
Bem me/hor do que soraete
Mais gostosa que bonzbont
Que refresco, cboco/ate
Bo/o, bala, caranze/o,
Ab como é doce essa aida
Nd casa do meu aaô!

Devia ser ótima mesmo!!l Parecida com a imagem cá-


lida e nutritiva, toda querer-bem, que a casa dos avós
rem na memória ou na vivência de tanta gente ...
Roseana Murray, em Fa/ando de pãssaros e gatos, des-
creve com sensibilidade as texturas, a sensação do vento,
provocando sons e deslocame ntos...

casa de gato
é no canto da rua
mobíltLa de uento
tapete de laa

casa de pãssaro
é pendurada no azu/
Çasa sonoro
de çaníos e uentos

80
I

E Mario Quintana descreve uma sensação de vibra-


ção, de som perdido, de silêncio inteiriço, buscado e
achado.. .

Cançã.o de uidro

E nada aibrou...
Ilião se ouuiu nada
Nada...

Mas o cista/ nunca mais deu o mesmo sorn.

Cola, amigo,..
Cuidado, amiga...
Uma palaura sõ
Pode tudo perder para sempre

E é tao puro o si/ênct)o agoral

(arrep mn te nte n te b e /o !!! )

A POESIA E OS SONHOS

Outros poemas retratam os sonhos, os desejos, as von-


tades, e fazem com que surja no leitor a visualiza-
- -
ção de seus próprios anseios ou idéia de felicidade ...
José Paulo Paes fala não do sonho comum, mas de
uma parte tão especfica, inesperada... e realmente im-
portante, que no entanto tantas e tantas vezes passa des_
percebida do desejante:

Modéstia

Eu nem queia
aoar no 14-Bis
pelo céu
de Pais.
Já ficana
muito feliz
apenas com
o incríuel cbapéu
de Santos Dumont

81
E o lindo Mario Quintana ilumina o céu com as possí-
veis puxadas nas pernas dum grilo... Tao simples, tão
aparentemente pouco e tão céu todo-aberto.

I'loturno arrabaleiro

Os gi/os... os gni/os,.. fuIeu Deus, se a gente


Pudesse
Puxor
Por uma
Perna
Um só
Gi/o,
Se desfianam todas as estrelas!

A POESTA E AS EMOÇÕES

Ah, a poesia fala sobretudo de emoções... De senti-


mentos vividos, sentidos, provocados. Fala de amor, às
vezes de um amor antigo, lembrado por despertar algo
de especial, de único. É o que faz Cecília Meireles, em:

As meninas

Arabe/a
dbia e janeld

Carolind
erguia a cortina

E Mana
o/baad e sorrid;
"Bom dta!"

Arabela
foi sempre a rnais be/a.

Cdro/ina
a mais sábia nzenina.

82
E Maia
apenas sonia,
"Bom dia!"

Pensaremos em cada rrzenina


que uiuia naquela janela,.
anxa que se cbanzaaa Arabe/a,
oatra qae se cbanzou Caro/ina,

Mas a nossa profunda saudade


é Mana, Maria, Maia,
que dizia com aoz de amizade:
''Born dial''

Não, não é o amor e a saudade do primeiro namora-


do... É o provocado por uma voz meiga, sorridente que
deseja o melhor para os ourros.. Há tanras formas de se
tornar inesquecível...
Há o sentimento de amor-ternura, de admiração pela
simplicidade , pela boniteza no se relacionar, no ir... De
que fala tão suavemente Vinícius de Moraes, em "São
Francisco" (aqui, apenas a estrofe final).

La uai São Franci.çco


Pelo caminbo
Leaando ao co/o
Jesuscnistinbo
Fazendo festa
No menininlto
Contando bistóias
Pros passainhos.

E o sentimento de tristeza, de perda de algo muito


querido, presente em tantos momentos da vida, ao qual
Mario Quintana poeticamenre dá vida e do qual ao mes-
mo tempo reclama a vida perdida...

Uma sirnples elegia

Caminhozinbo por onde eu ia andando


E de repenle íe sumiste,
o que seid qae te aconteceu/
Eu sei.. , o tempo.,. d.s eraas más .., a aida

83
Não, não foi a morte que acabou contigo;
Foi a aida.
Ah, nunca a uida fez uma butóia mais tisÍe
Que a de am caminho que se Perdeu...

E raramente se leu uma história tão linda, tão tocan-


te, tão profunda e verdadeiramente triste, sobre algo
que só os olhos dum poeta mui enxergador veriam: o ca-
minho e o descaminho dum caminhozinho...
E há a emoção do medo, às vezes do terror
- geral-
mente tatada de modo assustador, como convém ao te -
ma poucas vezes do modo humorado, compreensivo
-
e delicado de José Paulo Paes:

Histoinba de borror

Certa uez eu sonhei


que embaixo da çama haaia um monstro medonho
Acordei assustado
e fui olhar: de fato,
embaixo da cama ltauia um monstro medonbo.
E/e me uiu, soriu
e me disse, genti/;
"Durma! Sou apenas o nzonstro dos seus sonhos".

Manuel Bandeira conta das dificuldades e desacertos


para a conquista:

Porquinbo-da-índio

Quando eu Íinha seis anos


Gan h ei um p orq uin ho - da'ín dia,
Que dor de coração me daaa
Porque o bichinbo só qaeia estar debaixo do fogao!
Leaaaa ele pra sala
Pra os lagares mais bonitos nzais /impinhos
E/e não gostila:
Queia erd. estar debaixo do fogão.
Nao fazia caso nenhum das ternuinbas...

a nzinha pnlmeira
- O nteu porquinho-da-índia
namordda.
foi

84
A POESIA E A VIYÊNCIA INFANTIT

E há ainda roda uma série de poemas que falam de


experiências, vivências infantis...
Elza Beatriz
- no livro A nzenina dos olhos _ rem
este, gosroso e melódico:

8lfrmqaedo;s

Eu fiz de papel dobrado


um barquinho e naveguei.
Fiz um chapéu de soldado
e soldadinho - marchei.'
Fiz avião, fiz estrela
embarquei dentro - voei.
Agora fiz um brinquedo
- o melhor que já brinquei -
guardei num papel dobrado
o primeiro namorado
il
(o seu nome eu inventei...)

tE=3

Não é um relaro nostálgico do adulto falando de coi_


A menina dos olhos. de E/za
sas suas, de outras épocas
de ter sua beleza - que também não deixam
mas falandà duma saudade próxima
Beaínz. I/uslrações de paulo
Bernardo, Be/o Hoizonre. lLi-
à criança, relativa- a experiências recentes, a seu cresci_ gui/rm, p. 18.
mento em relação a objetos lúdicos, senrimenro que
permite roda sorre de viagens imaginárias par, dentrà
e
para fora dela própria.

8)
Roseana Murray, em seu livro À'o mundo da /ua,
aborda com sensibilidade o brincar de faz-de-conta e a
noção de realidade que qualquer criança tem, conhece e
aplica em seu jogo:

O pirata

O menino binca de pirata;


sua espada é de ouro
e sua roupa de prata,
Atraaessa os sete ruares
em busca do grande tesouro.
Seu nauio tem setec€ntas ue/as de pano
e ê o terror do oceanc.t,
Mas o tempo passa e e/e se cansa
de ser pirata,
E uira oulro vez menino.

, ,r.-* "a:- :,

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3

--*--L'*..-

86
I

Tao lindo, tão colorido, tão iluminado, tão grandio-


so, tão divertido, o mundo mágico que a criança pode
criar... E como sabe, sozinha, o momento de cortar...
José Paulo Paes poetiza, brinca em cima duma canti-
ga de roda tradicional, altera seu desfecho (tudo é mutá-
É isso ali, de José Paulo Paes.
vel, claro...), para falar de desacertos acontecidos (in- llusíraçÕe: de Carlos Bnto. Rtlo
tencionais ou não??) nesta vida: de Janeiro, .Salamandra, D. 32.

À§!§r§lE
Â*rE! o pôil Ês gê18.
mâ$ ü gê10
*àü rnsrí*d.
p*ique il pürj pg§*u Í:0 .Íãt§
tue eu 1e*1*r sâiÍâr dff §41ü
Ê s rã1t
iqi:e ri:*t*ii
i*i Êi;*m *ti:re,;

87
E encontra uma solução nova pra questão do pau ati-
rado no gato, além de não fazer uma tagédia descabela-
da por conta da morte do rato... Nao foi nada além
dum acontecimento chato, ora...
Cecília Meireles, tão próxima do universo da criança,
fala sobre a opção, a escolha, a querência definida.

O último ondar

Irlo ú/timo andar é nzais bonito


do último andar se uê o mar.
L ld qile ea qaero moror.

O último andar é maito longe


casta-se muito a cbegar.
Mas é /ã que etl quero morar,

(.,.)

De /ã se auista o rrtundo inteiro


tudo parece perto, no ar,
E /á que ea qaero nzorar:

no últinzo andar.

E há razÕes claras, definidas, senridas, visuais... é di-


fícil conquistar esse universo urbano, tem que se subir
muito, se cansar, mas é de lâ e apenas de lá
-
pode ver o mundo todinho... E quando é clara - aque se
esco-
lha, definido o porquê de se jogar na caminhada, aívale
a pena!
Ainda Cecília coloca com leveza o peso que signiÍica
cada escolha, em "Ou isto ou aquilo" (final):

Ou isto oa aquilo; oa isto ou aquilo


e uiao esco/hendo o dta mteiro!

I"lão sei se binco, não sei se estudo,


se saio correndo ou fico tranqililo.

Mas não consegui entender ainda


qual é nze/hor; se é isto ou aqui/o

B8

*w
I

E viva a dúvida permanenre, a escolha revista e refeita


a cada nova situação de vida, pra se perceber que o me -
I lhor para cada um depende de seu momenro, de
- -
suas vontades, de suas necessidades, de seus impulsos...
Sempre pode ser isto ou pode ser aquilo... É ,rÀ., optm
e correr o risco...

A POESIA NARRATIVA

Há, ainda, na nossa literatura infantil, inúmeras nar_


rativas contadas sob a forma de versos. Inteirinhas rima-
das, melodiosas, obedecendo à cadência escolhida pelo
autor.
Âlgumas são ótimas. Só para refrescar a mem6ria: pé
de pilao, do Mario euintana; Ltm rei e seu caaalo de
!a1, do Elias José; fuIe/bor qae a enconzenda, escrita pe _

la Edy Lima; A áraore cheu de estre/as, doJoão das Ne_


ves... Ruth Rocha tem várias histónas rimadas, verseia_
das e ritmadas, dentre elas: Bom dia todas as cores, As
co.i.ras que a gente
fa/a, O que o.ç o/bos não aêem... Se m
esquecer o poema gráfico-colorido do Zjraldo, o belo,
aflito e triste F/ícts.
Existe também uma variedade enorme de edições de
poesias para adultos, onde se encontram muitos és.ritos
bonitos e estimulanres que as crianças gostariam de ou_
vir. É procurar bem procurado em q"rrlqrer livro do
Carlos Drummond de Andrade, do irreverente Oswald
de da inquietante Adélia prado ou do inespe-
.Andrade,
rado Murilo Me ndes... É buscar em antologirr. o, Cn/os DRU,\!,líOÀD de Andra
-.r_
mo em livros esparsos, aqueles poemas da Cecília Meire _ Lle (19A2 tÇ87 1,L'Í.tnei16 de Itabi
les e do Nlario Quinrana que ainda não tiveram ediçÕes rt. inicirtu sus ttda de jo,rn,t/i.r/t c
e .çcnlor ent Be/ct Ítoizon/e. ten-
para público infantil . É sc deparar com alguns poemas
do .çe trtn:.fe'ndo c'n i9l4 Í,,,tr;t ,t
do Fernando Pessoa, com a fàse modernista do Guilher-
llio de Janetro. ont/e morrea,
mc de Âlmeida, com a delícia nordestina do Âscençcr .l/,tn ,/, J, Jt:;,tr tt ) f ot.tr,t. c

Ferreira, com a simplicidade comovente e sábia de Dom Jill.)r de crôntcn e cctnlos, É


Hélder Câmara. É procurar também nos poemas concre _
»tutt,t :unh(ctJu cnlre nót. Ít n.
tos as_brincadeiras gráficas e os do também obra.ç ediiada.ç em
;ogos verbais que os poe _
n/ u t /r t,,,u / rut 7,t í, t;. Pl r,t
c n.t n
tas sabem fazer bem, e selecionar os que poderao rÀsti_
!'ri e.çcrel.teu Hrstória de dois
gar a criança... Como ,,Viva
este , que se chama vaia,,: am0rcs. t/ustr,tda pe/o Ztra/do.

89
Poesia 1949-19 /-g. de Aagas- E, claro, buscar a poesia do Chico Buarque de Holan-
-
to de Campos, São Pau/o, Duas da, do Paulinho da Viola, do Caerano, do Gilberto Gil,
Crdades, p. 201.
do Lamartine Babo, do Dorival Caymmi e de tantos ou-
tros letristas nossos, para encontrar veios poéticos belíssi-
mos, que podem chegar até a criança de modo simples e
aberto, todo porosidade e já com melodia ao fundo... e
ter outra experiência de ler e sentir um poema-canriga.

Eu fiz uma aiagenz


Cancionerros da Bahia. de Don- Eu fiz uma aiagenz
ual Calmmi, São Paulo, Mdr A qual foi pequenininlta
rins, p. 105.
Eu saí dos Olhos d'Água
Fui atá Alagoinba.
Agora co/ega ueja
Coruo canegado eu ainha
Trazia a minba "negd'''
E também minha filhinha
Trazia o rueu tatu-bo/a
Filbo do tatu-bolinlta
Traztla o meu facão
Com todo o aço que tinha
Vinte couros de boi nryanso
Sõ no bocal da bainba
Trazia uma capoeira

90
I
i

itl
Com qaatrocenlds "ga/inha"
Vinte sacos de fetlão
E Íinta sacos de fainba
fuÍ.as a sorte desandou tr\
Quando ea cheguei ena Alagoinba .4, #rj
-
Bexiga deu na "nega" L'Ê
,

Catopora na fi/binba
Morreu o nzeil tatu-bo/a
Fi/bo do tatu-bolinha
Roabaram o meu facão
Com todo o aço qae tin/ta
Vinte couros de boi ?nonso
Só no bocal da bainba
Moneu minlta capoetra
Das qaatrocentas "ga/inba"
Gorgu/lto deu no feryão.
Co/ega,
E deu mofo na fainba

A PROSA POÉTICA

E há tanta belezupa a ser desfrurada em algumas his-


tórias infantis brasileiras... Não em forma t. u.rror,
mas de pura prosa poética.
Lygia Bojunga Nunes, em Tchau, escreve quarro con_
tos belos, densos, envolventes... E neles r. j.prr^.o-
parágrafos desta qualidade literária: ',Cada bàra de re-
creio, coda doruingo inleiro, cada /tora-de_fazer_deaer
eu escreaia a históia da minha uontade de nnorer. E
fui
acbando Íão difici/ de fazer, que enz aez de sentt)r aonta_
de de moner eu só pensaat conzo é que se
fazia a bistõna
de uma aontade de nzoner; enz aez de ientir a dor do
anzor, erl só senít)a a força que ext fazia pra contdr a
dor", (A transformação das vontades, a mudança do
primordial, a descoberta de algo mais envolvente e
-ais

91
desafiante do que o sofrime nto inicial ...) Ou, em ourro
conto:
"O Barco tonzou unz sasÍo quando o Meníno pisoa
ne/e; quanto! quanto tempo sem sentir a/guénz assim
perto.
O Menino a/isou a nzadet)ra do banco, a ponta do de
do tocoa no /erze, de /eue, feito fazendo ama fesÍa.
E o susto do Barco uirou suspiro. "
Nao é assim mesmo que acontecem os conraros que
le vam ao amor . . . do recolhime nro espantado / iembrado
ao suspiro? !!
E Ciça Fittipaldi, em João Inmpiao, em momenros
I difere ntes da história, marca tão lindamenre a passagem
dos tempos: "O tempo não é que ro/a? Rolou nas ãguas
sumiu. Lembrança ficou guardada /á onde o mar junta
com o no".
"Feryão feiloou, milbo millsou, mandioca nzandiocou
e o tempo do tempo de/e? Madura, modurou."
"Viue agora de andança, com sext candeeiro na mão.
Conta estóia de /embrança, inuenta de coração. E o
tempo pra e/e não passa? Passa. Passa no passo de João
Lampiã.o. " Se acompanha pelas águas, pelas colheitas,
pelo caminhar iluminado, iluminando cada erapa com
sua linguagem, cada palavra sentida, pensada, invenra-
da, marcada, marcando... Lindo!
Ana Maria Machado, ao conrar, em O nzenino pedro
e seu boi uoador, o quanto a fantasia de uma criança é
negada, ridicularizada, incompreendida e desvaloriza-
da, mosrra
- lá no finalzinho - como ela surge vitorio-
sa e conquistadora. Ninguém acreditava na existência do
boi voador... Pois entào:
"Ftcaram todos tão erubeuecidos com o boi aoador
qae nem notaram qae de repente toda aque/a be/eza ai-
rou sarpresa, E/e sentou para comer, e beber com a
fome
e a sede de quem açabaaa de muito aoar e bnncor. lt/o
prato só linba um blfe
- ologo
para e/e. l,l,as o boi aoador
que Pedro tinha guardado
deu um 1erto.
Da irmã de Pedro corueu o feijao, E todo o arroz de
sea irmão, Do prato da mãe, raspou a sa/ada, Da aerdu-
ra do pati, não sobrou nada. O auô ftcou sem a /aranjada.
E a auó, gulosa e af/ita, ficou fazendo beianbo sem a ba-
tata frila. Só Pedro comeu direito. E ia à too, o goza-

92
l
dor:
- Pra aoçês todos, bem feitol euenz ntandou nr
do boi aoador?"
Vivina de Assis Viana, que caminha com suavidade,
delicadeza, rernura, pelo universo da criança, preservan-
do cada um dos pequenos momentos tão cheios de sig-
nificado e boniteza, conra, em O ret dos çacos:
"Então todas as tardes, antes de irmos para casd, nõs
afostamos as tãbuas, entraruos dentro do tanque, e gadr-
dantos, em rrzesinhasfeitas cornpedacinhos de outras tã-
buas e tijolos, os cacos do dia, euase todos estão /á. Fa/
td anz só, pequeno, branco, conz /istas cor-de-rosa qae
nzeu irmão insiste enz dizer que são de outra Çor. Esse e/e
guarda separado, dentro de unza caixinba peqxtena, que
ê guardoda dentro de uma çaixinlsa grande,- junto ionz
nzuitas outras coisas sõ de/e; pedinbas, penas de passa_
inbo, apitos, filipes de ca/é, que são dois grãos de café
junÍos, pedacinltos de çuia con gonza esticada qr, ,io-
man?u de uio/a, e caixas e mais caixas de
fósforos.., E
guardou junto com as coisas só dele.E pôs o nome de/e:
o rei dos cacos.
O rei dos cacos não pode ser uisto a qua/quer hora. Só
enz dias mutto espectiais, quando meu irmão reso/ue pro-
curar a caixinba grande çheia de coisas, E/e lira todas,
uma por uma, posso aer tudo desde que não ponlta a
mão enz nada, guarda de nouo, feclta, pronto, acabou.
Durmo pensando no rei dos caccts, e/e lanzbénz. ',
O saber colecionar algo de especial, o saber guardar
com requinte e cuidados únicos, o organizar um ritual
no espaço e no tempo para ver uma preciosidade _ rara
e insubstituível para a criança
-, sea deferência
o obje to é tratado... Nao importa
com que
um caco, pois póde
ser até o rei deles. ..

Bartolomeu Campos de Queirós, palavra sempre de- Barlo/omeu Campos


purada, exara, sem supérfluos, buscada, buscada... e de QUEIROS
achada. sabe falar dos sentimenros e emoçÕes mais pro-
fundos e dolorosos dum ser em crescimento, sem r", pi.-
gas e sem fazer concessão de espécie alguma ... Em Os ci-
ganos se lêem parágrafos desta qualidade poética: ,,For
de .çea pai que e/e berdou essa mania cd/ida, esse jet)to
e.çcondi.do e mais a saudade de cotsas que e/e não con/te-
cia, mas imaginaua. Saa aontade de partir ueio, porém,
do desamor. Tudo em casa jã andaaa ocupado; as çadet-

93


rds, as canzds, os pratos, os copos. Mesnzo o can'nho dis-
tibaído,
Por tantas aezes e/e quis oferecer sua mão às cigdnas,
mas recusaua, exp/icando para u nzesnzo que mão de
nzenino não tem leitura, as /inbas não são definidas. Seu
medo, no entanto, era outro. E/e tinha cisma de as ciga-
nas descobirem seus sonbos e não confirmarent saas es-
peranças. "
Âh, esta eterna dúvida, este grande e imenso remor
do ser humano, em qualquer época da vida... senrir o
desamor e temer a não-concretizaçáo do sonho verbali-
zado ...

COMO TRABATHAR
POESIA COM AS CRIANÇAS?

São tantos os elementos para se trabalhar poesia com


as crianças, em sala deaula... O ler em voz alta um poe -
ma amado com a emoção que ele despe rtou... O e ncon-
trar poesias que mexeram com o sensorial de cada um
(visão, olfato, paladar...)e perceber como âconreceram
escolhas diferentes por razÕes diversas. .. O procurar
poemas que falem de assunros paralelos, parecidos, mas
tratados de outra forma, valorizados por outro ângulo. . .

O trocar experiências pessoais a partir de um poema que


tenha sido vivido
- por cada leitor - àabrangente
seu momento de vida, de modo mais
sua maneira, no
, mais
específico ou mais distanciado.
O ter um caderno, um álbum, uma agenda, onde
anotar poemas inte iros ou versos que pareceram particu-
Iarmente belos ou sábios ou perspicazes ou esclarecedo-
res ou incríveis... O musicar, tornando cantigas, algu-
mas expressões poéticas, que dão aquela vontade de
criar uma melodia. O descobrir ritmos e Iê-los em con-
junto ou em voz alta... O escrever os próprios, a partir
dum jogo de rimas
- fáceis ou difíceis sentido
dos, de inversões, de brincadeiras com o-,
de significa-
das pa-
lavras, através da cor, da textura, do movimento de cada
palavra, cada frase ou estrofe...

94
SE a pnomssoRa FoR LER uM poEMA pARÁ A ctASSE _ que
o conheça bem, que o tenha lido várias vezes anres, que
o tenha sentido, percebido, saboreado. para que passe a
emoção verdadeira, o rirmo e a cadência pedidos, que
sublinhe o importanre , que faça pausas prm q,.r. .ád,
ouvinte possa cobrir por si próprio cada párrrg.-,
-
cada estrofe, cada mudança... -
Que a criança goste de ler, de sorver devagarinho,
sem pÍessa, a poesia que encontrar... eue, ao folhear
um livro, saiba reparar numa passagem bem escrita e
que saboreie esse momento de boniteza que o autor ela-
borou. Ou, ao se deparar com o mal escrito, com o tolo,
com o desprovido de emoção e sensaçÕes, com o texto
apressado, mal resolvido, que perceba e registre o quan_
to aquilo não quer dizer absoluramenre nada... É q.re
comente , fale e leia alto, pra demonstrar seu espanto
não com o bom e o novo, mas com o malfeito ou o
-batido...
E, sr rox sEtECToNAR ATGUMA poEStA pRA sER LIDA pEtAS
CRIANÇAS, que não seja a escrita por iniciantes, que ain_
da estão à procura da forma. É me lhor recorrer ãque les
autores que já dominam o verbo, constroem o verso,
controlam o ritmo, sabem eliminar o supérfluo , paÍa
condensar
- de modo exaro
provocar encantamento,
e belo
- as imagens, e
suspiros, concordância, gosto_
sura, sorriso, vontade de querer mais, de repetir, de di-
zer "Ah, é istol " ou "Oh, é aquilo!", de precisar le r de
novo pra melhor se inteirar, pra compreender lá no fun-
dinho ou descobrir algo que na primeira ou na se-
gunda leitura -
não foi percebido... de aré querer
guardar -
dum modo especial palavras que abriram
-
as portas da compreensão dum -mundo mágico e sábio
(que nem se intuía, imaginava ou percebia que era as-
sim... ).
Pois, como escreveu um dia, lindamente, o poeta Os-
wald de Àndrade :

"Âprendi com meu filho de dez anos


Que a poesia é a descoberra
Das coisas que nunca vi. "

95
A TITERATURA TAMBEM INFORMA

Querer saber de todo o processo que acontece, do


nascimento até a morte, fazparte dacuriosidade natural
da criança, pois se tÍa.ta davida em geral e da sua própria
e m particular .. . Saber sobre se u corpo, sua sexualidade ,

seus problemas de crescimento, sua re lação (fácil ou difi-


cultosa) com os outros faz pane do se perguntar sobre si
mesma e do precisar encontrar resposras.. . Que re r dis-
cutir relaçÕes familiares fáceis/ difíceis/ conflituadas/ dis-
persivas/gregárias/simpariconas erc., e aré a nova esrru-
turação das famílias onde há ranros
- nestas décadas
casame ntos desfeitos e refeitos faz parte do repertório
indagativo e questionador de toda - pessoa. . .

Querer saber mais sobre afliçÕes, tristezas, dificulda-


des, conflitos, dúvidas, sofrências, descobertas que ou-
tros enfrentam, para poder compreender melhor as suas
próprias, faz pzrte das interrogaçÕes de qualquer ser hu-
mano em crescimento.. . Querer se e nfronhar mais nas
questÕes do poder, no jogo das manipulaçÕes políticas,
nas discussÕes sobre o mundo circundante, faz pane da
curiosidade de qualquer um que veja o noticiário da TV
ou escute o do rádio ou leia jornal ou ouça as discussÕes
- que acontecem em cada esquina - sobre como tudo
isso se reflete no cotidiano de cada um, de cada família,
de cada rua. de cada cidade ...
A cruauça, DEnENDENDo DE sEU MoMENTo, DE su ExpE-
RIÊNCIÂ, DE suA vwÊNCIe, DE suÂs DúvtDAs, poDE EsrÂR IN-
TERESSADÂ EM LER SOBRE QUÂLQUER ÂSSUNTO... A questão é
saber como o tema é abordado: se sem medo, sem reser-
vâs, sem fugir das questÕes principais ou fazer-de-conta
que não existem... Ou, colocando num parágrafo, cheio
de evasivas, mil explicações, às vezes até confusas ou ata-
balhoadas, não dando nem tempo para que a criança-
leitora pense , elabore , resolva, se identifique , concorde,
discorde, critique, negue etc. a forma como tal ou qual
questão está sendo explicada / proposta / vivida / resolvi-
Qua/quer /turo, qua/quer dssun da I lidada.
to, pode ler uma /íngaageTn. u7n
Estamos falando de literatura... Portanto, não se tra-
lrd/d/nenÍo, ilm encaminha
m. nlu. nJrt (nuu/uenlf e mJir ta de livros didáticos, de não-ficção, onde se disserta, se
pessoa/,., Depende da postura e dá uma explicação objetiva, seca, dura... Nao é a de-
da crença do autor. monstração dum teorema (a vida não é bem assim...),

98
nem a explanação dum fenômeno cienrífico distante,
que acontece num laboratório de ciências e onde se bus-
ca provar algo que não está exigindo nenhuma emoção
ou envolvime nto pessoal ...
Estamos falando de literatura, de ficção, de histórias,
onde se aborda ou vários problemas
- que
criança pode estar atravessando ou pelo qual pode
a
estar
se interessando... De uma leitura que não é óbvia, dis-
cursiva ou demonstrativa do tal te ma... Onde ele flui
natural e límpido, dentro da narrativa
me nte não üatará apenas disso.
- que evidente -
E, para encarar um dos assuntos da chamada realida-
de, não é necessário que a linguagem do autor seja rea-
lista. Pode até ser, mas não é obrigatório... Pode ser
crua, dura; mas também pode ser poética, suave , tristo-
nha; como pode ser humorada, divertida, irônica... A
[nguagem, o tom, o escriror escolhe conforme concebeu
sua história, suas personagens, seu desenvolvimento,
seu final, a parrir de sua convicção ou necessidade de to-
car nesre ou naquele assunto...

Âgora o qur NÃo FAz sENTrDo É RnoRoen uMA eLTEST-Ào


DE MoDo supERFrcrAL, conrar uma história de modo mas_
carado, maquilado, prerensamente facilitado... Porque
o autor não se sente à vontade para discutir tal ou qual
tema (e se senre pressionado pelos que cobram dele mais
modernidade etc. e tal), ou levanrar tópicos que ele vi-
veu mal ou não elaborou o suficiente dentro de si: não
importa se a relação com sua avô, a angústia com a soli-
dão ou o modo como e nfoca a morte ... Ou colocar situa-
çÕes de vida que, nele escritor, ainda provocam pudor,
timidez, seja a relação com a namorada, com o próprio
corpo ou com quem está no poder, no comando (da fa-
mília ou do país... ).

Quarqurn ASSUNTo poDE sER TMIoRTANTE. e isso não


Jú/io WRNE (1828 1905)
depe nde apenas da curiosidade da criança (se não esrive r Esciíor francês, considerado o
particularmente interessada no tema, lerá sem maiores precursor da ficção científica. É
e nvolvimentos... e dia virá em que aque le livro lhe será de/e A voha ao mundo em oiten-
revelador e esclarecedor!). Depende também do desen- ta dias.
volvimento do mundo, das contradiçÕes que a criança vi-
ve e encontra à frente, se se envolve com elas ou apenas
observa os fatos, e paÍa isso é preciso estar atenro e poroso
a tudo o que aconrece... (há temas datados, que peia pró-

99
pria evolução dos costumes deixaram de ser polêmicos,
pois, dum jeito ou de outro, a cltlização os inte grou .. .

há outros que estão surgindo devagarinho, há outros


efervescentes, sobre os quais o momento de falar urge e
se impÕe).
Mas, sobretudo, o assunto tem que ser importante,
mobilizador, verdadeiro para o autor, para que o trate
de modo inteiro, digno... Senão vira uma grande boba-
gem, pois o preconceito surge nas entrelinhas, a não-
-convicção do escritor se flagra num parágrafo ou capítu-
lo inteiro, se desmente pela boca duma personagem, se
perce be o mal-estar do autor. . . Que r dizer, abordou um
tema contemporâneo, mas de modo antigo, mofado,
boboca... Se violentou e não esclareceu nenhum
João Guimarãe! ROSA (1908- leitor... Como disse uma vez o sábio Guimarães Rosa:
1967) ''O trágico não vem a conta-gotas", ou seja, quem que r
Escntor mineiro cald ongind/ida-
tocar em algo verdadeiramente uâgíco tem que mergu-
de ettá na cnação de tocabu/os e
e i lru í u ras de
lhar de cabeça, jorrando o vidro todo. Senão, a coisa
frase.r de' l e ndê ncia
lanlo regronali:Ía quanlo erudi- perde a dimensão e se torna um melodrama... E, ai, o
la, de grande efeito e:tético. Es- que era pra chorar, dâ ê prz rir ...
cretett a romance Grande sertão:
Fundamental para que a questão passe como verda-
veredas. not,e/as e conÍos.
deira é que o escritor esteja convencido de sua importân-
cia... Senão é mais uma pincelada demagógica, nada
acrescentadora, nada esclarecedora, para quem lê...
Qualquer que seja o tema escolhido, que ele seja traba-
lhado com verdade, sentimento, vivência, clareza por
parte do autor. . .

Ou que seja uma opção pe la função de escrevinhador,


Enco VERISSI:II.O (1905' 197) ) como disse Érrco Veríssimo, em So/o de c/aineÍa.
Romancisla gaucho de grande "Desde que, adulto, comecei a escrever romances,
popu/anldade, é aa/or. entre ou
tras obras, cla tn/ogta O tempo e
tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que
o vento, onde est,io pre.çen/e.ç um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e in-
tradiçoe.r e Jitos hstónco.ç do Rtct justiças como a nossa, é ace nder a sua lâmpa da, fazer luz
Grande do Su/. Dedicou-.te ldm- sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ela
bém à /rteratura infanti/ e in.fan caia a escuridao, propícia aos ladrÕes, aos assassinos e aos
to juaent/, escreaendct Âs aven-
tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e
turas do avrão vermelho (19Jó).
O urso-com-música-na-barriga do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica. acen-
(19381, A vida do elefante Basí- damos o nosso toco de ve la ou, em último easo, risque-
l:.o (19-391 e ctutro.ç ht'r,..ç. mos fósforos repetidame nre , Lomo um sinal de que não
dese rtamos nosso posto. "

100
LENDO SOBRE REIAÇÕES FAMILIARES

Assim, as relaçÕes familiares são encaradas de várias


formas por diferentes autores.
Naumin Aizen, em Era ama uez dads aaõs, ttma his-
tória bem curtinha para crianças pequenas, retrata suas
duas avós: Sonia e Ester. As duas diferentes: fisicamen-
te, no humor, no gostar de dar comida, no lidar com a
emoção (uma nunca chorava, a outra, às vezes... uma
beijava, a outra não; uma aconselhava, a outra não...).
Uma alegre , risonha; a outra triste , durona apesar de
-
as duas terem levado vidas batalhadas, suadas, difíceis. ..

- a esse seu neto - cada qual a seu


e ensinado modo,
dando ou negando, demonstrando ou timidamente dis-
farçando... o quanto a vida pode ser boal
Ronaldo SimÕes Coelho, em Macaquinho, contauma
história curta e cálida. Fala da relação entre um pai e um
filho (Macaco e Macaquinho) sem que surja nenhuma
mãe ou avó... Só os dois. No momento de dormir,
quando a criança de tudo faz para ficar perto do pai por
mais e mais ternpo (como tantas...), buscando uma
aproximação maior, esticando o encontro. De verdade,
o filho quer carinho, proximidade , e não apenas que o
pai tome providências prático-domésticas (tipo colocar o
cobertor, dar mamadeira, levar pra fazer xixi etc.)...
Âh, como ele tem que chamar a atenção do pai
parece não entender
- que
que ele precisa mesmo é do
-
bem-querer... O resto é só pretexto...
Flávio de Souza, em A mãe da menina e a menina da
mãe, conta dum dia especial entre uma menina de 7
anos e sua mãe. De como ela quer saber mais da mãe ,
de como descobre reações e comportamentos dela, de co-
mo experimenta suas roupas para se surpreender,com a
parecença enffe as duas... E de como descobre que a mãe
já tinha sido menina, quando vê uma velha foto dela,
e quanto, no seu olhar, ainda revelava um pouco da crian-
ça que ela fora... e como resolve dar um presente para
a mãe no Dia da Criança. E aí vive hesitações, dúvidas...
depois, a expectativa, a ansiedade, a espera de que amãe
abra o pacote , o vexame ao pensar que fizera algo tolo...
Tantas sensações e emoções pelas quais alguém passa quan-

101
do resolve enfrentar algo especial . .. E ver a mãc choran_
do, que ela passara o dia todo desenhando, se permi_
-ver
tindo ser criança... Â filha abraçando ,-, p.rroá-adul_
ta-mãe que cuidava dela e da casa mas que também fora
me.nina um dia, e que guardava isso dentro de si, pron_
tinho pra explodir, pra sair... Uma história deliiada,
humana, que provoca um nó na garganr,,. que faz uma
lâgrima rolar de mansinho ao ficar claro que a filha com_
preendera a mãe e que a mãe correspondera à filha.. .

Âssim, uma relação humana é tão bonita, com suas idas


e vindas, suas tentativas e desacertos, pra chegar a uma
descoberta fundamental I

,lltrnt PINSKY s Mirna Pinsky, no seu delicado As rnrulas nzães de


Ane/, faz com que o menino descubra as muitas facetas,
lados, aspecros que sua mãe possui, dependendo do mo-
mento em que vive ... Sem mistificaçôes, sem querer
que uma pessoa seja vista como uma tábua lisa de passar
roupa... ,{o contrário, ela é toda angulosa, toda cheia
de lados, de contradições, como qualquer ser humano
em ge ral e como qualquer mãe em particular.. . É preci_
so perce ber os lados para poder se inteirar da pessoà e se
relacionar com ela... Uma idéia tota[zante , globalza-
dora, num tratamento muito bonito...
Vivina de ,{ssis Viana, em O jogo do pensarnento,
narÍa a relação te rna entre uma mãe e uma filha e a rela_
ção das duas com o pai, sem que nenhum se perca como
pessoa, como individualidade. Há contação de histórias,
aconchegos, cafunés, a sensação gostosa da textura do
cabelo e a força e ncorajante dum aperto de mão, e há te-
moÍes de que o que havia srdo mágico, na infância da
mãe , já não o seja paÍa a menina, que vive na era dos
plásticos, da TV, das metrópoles.. . E também os
flds/tes
de rudo o que está acontecendo no mundo, que passam
pela cabeça preocupada e informada da mãe -.. É qrrn-
do a luz se apaga na cidade toda, no escuro a brincàdei-
ra entre as duas, onde se joga às claras: adivinhar o que o
pai estaria pensando naquele momento, em seu escritó-
rio... E o que cada uma vai colocando, dizendo, priori-
zando e mostrando o quanto o conhecem, cada uma a
seu modo, nos contrapontos de necessidades e vontades
diversas.. . E a constatação de que os problemas do mun-
do
- por ser ele rão pequeno - são (um
mas e as preocupaçÕes das pessoas.
também os proble-
.. jcgo de pe nsa-
mento, de idéias, de geraçÕes, de honestidade ; um jogo

102

'*ir:. effi.H" ' r'


de se inteirar do ourro a partir de si, sem perder a cons-
ciência do mundo, do tempo, da geografia, da História,
da responsabilidade e do sofrimenro com tudo o que
acontece neste mundão... ).

I/astração de Darcl Penteado


:*. ,ri; -l: para o liuro O jogo do pensa-
i.1,
mento, de Viurna de Assis Vu-
na. Bt/o Hoizonre, Comanic,t.
çdo, p.1J.

i''

l{'
'
-t,f
ii,

I
1:

Num dos contos de Mantãe é d mu//ter do pai, de


§Terner Zov, exatamente o primeiro do volume , uma W'erner ZOTZ
criança, ao abrir a porta do quarto, percebe haver uma
re lação amorosa, carinhosa, sexual entre os pais. .. Num
primeiro momento se enraivece , sente ciúme , até com-
preender que sua mãe (que ranto gosra dela) também é,
afinal de contas, a mulher de seu pai... Faz parte das re -
laçÕes familiares conhecer o papel de cada um e saber
que a proximidade de alguns (em situações de cumplici-
dade específica) não exclui o amor pelos ourros (em si-
tuações nada específicas...). Algo tão natural, rão hu-
mano, tão bom como uma relação sexual, não tem por
que estar distante duma história pra crianças. O impor-
tante é que se,a colocado, e bem colocado, sem moralis-
mos, gaguejame ntos, escusas ou menriras... Âfinal, um
dia o me nino vai crescer e vai ter também as suas.. . E
que se1:am tão boas, tão carinhosas e tão sem pecado
quanto.
Claro, há inúmeros aurores que , em infindáveis his-
tórias, falam de famílias idealizadas, onde tudo trans-

103
coÍre sem nenhum vendaval nas relaçÕes, onde tudo é
sempre calmo, sem hesitaçÕes, sem impasses... Onde a
autoridade é indiscutível, onde a aproximação é obe-
diente-pacífico-servil, onde o que ocorre no mundo não
afeta a sólida estrutura familiar... e nem mesmo o que
acontece dentro das paredes do lar as afeta ou modifica
em algo... Nem em maquete de arquitetura é assim...
quanto mais na vida de uma família. Pessoas de qual-
quer idade
-
- se mexem, são cutucadas, se abrem ou se
fecham, duvidam, brigam, sentem ciúme , perguntam e
por isso crescem, se modificam e modificam suas rela-
çÕes com os outros (sobre tudo os mais próximos). . . E
mudar a intensidade do amor não significa perdê-1o
(enibora isso também possa acontecer, o que também
faz parte da r ida... ).
Como há famíLas inteiras fazendo figuração de luxo
enr histórias inteiras... Ou seja, os conflitos mal apare-
cem. ficam ao fundo. E a história se Lmita a aspectos de -
simportantes, como a pe rmissão que a criança solicita ao
pai. uma comida que pede à mãe e coisa: que tais...
Uma ode à omissão, à presença inatuante ... E ainda
esrereotipada e mui mal dividida: como se mãe só cozi-
nhassc ou como se o pai detivesse o monopólio do podcr
da casa...

rErvDo soBRE A SEPARAÇAO

Sr í;rrnílias se formam através do casame nto (ou equi-


vaientc':. tambón"i se desiazcm quanilo os p.ris se sepe-
r:1iÍ'r .. l:. isso j:i nã,.; e cxa.t:irlrente um'rl raridade , alg,.r iier
(:]plri.iii)so i;i..i irtvulg;r... Â,i contrário, cada dia mais --
sobretr:dr-, nas grarrdes ,-iriaiirs pal e mãc já não mi-,-
ram mais juntos, constituem
-
novas f-amílias. e a criançe
comcçà a viver o firrr-de-semana com urn deles. E essa
semana quebrada, essa nova forma de se re lacionar (con.t
dia e horas marcados) Lom o par ou a mãe , pede de la um
novo jeito de conversar, de se aproximar, de se assegu-
rar... E é importante que se contem a ela histórias onde
as personagens também vivam essa situaçào, pera quc

104
ela se identifique ou não com a forma como reagem/so-
nham/choram ou o que seja... Fazer de conta que isso
não existe é fazer de conta que vivemos no século XIX, e
não às portas de um novo milênio...
ilãno PRATA
dum diálogo solto, vivo, espontâneo, gostoso, entre
duas crianças, uma menina de l anos e seu irmão de 7,
vai mostrando como se sentem em relação à separaçãcr
dos pais. jov.e ns, modernos, urbanos... Nao que não ha-
ia dor ou sofrimento, mas há o sonho e o plano de fazer
com que a namorada do pai passeie e viaje com o namo-
rado da mãe ... Trocam informaçÕes sobre o cotidiano.
sobre suas descobertas recentes, sobre sexo, dor de den-
tes e mil outras acontecências que as crianças vivem dia-
riamente ... Uma história curta, simples, atual, se m mis-
tificação, narrada através do olhar e da percepção
de crianças paulistanas como tantas outras que nas
- -
sextas à noite se preparam para um fim-de-semâna com l/ustraçao de L{td/ter Ono para o
/iaro Sexta-feira de noite, de 14á-
o pai (com quem não moram durante a semana to- nn Pra/t. S,to Ptu/". Qutn/cto.
d^. ..). p.215

* O quê?
Pintada? De batom?
* Não é se su nào ir. É se eu não for.
Çê nào entendeu? Então não enche.
- Nâo menina. É jeío de talar. Quer dierr
- A màc vai te mandar ir. que ela nâo queÍ ver ela dr jeito nenhum. Jeito
* de falar. Igual falar assim: moÇo, '-ocê me caiu
.Eiltào, né, se *u nâo ir, da fica do céu. Não e que ele caiu do céu. Jeito de falar.
aqui comigo, né? AÍ. ne, ocê pega o pai
com a namorada dele .- Ah, sei. Igual quando o Pai diz que
s vrm prâ cá rambém. não quer ver o namorado da màe nem
Pra quê? Ocê nào viu a màe dizer oue morto?
_
nao quer ver a cafa dela nem pintada? *É.
r(

105
Vivina de Assis Viana, em O dia de uer meu pai, foi a
primeira autora a tocaÍ no assunto... Conta de um do-
mingo, dia de o menino encontrar e sair com o pai, que
já, náo mora mais com eles... Sabe, escuta, vê a tristeza,
a dor, o choro sentido e escondido da mãe .. . sua expli-
cação lúcida e doída sobre a separação, sobre a nova mu-
lher do pai, sobre escolhas que um dia devem ser feitas e
não podem mais ser adiadas... (até porque a convivên-
cia forçada pode implicar mais dor...).
Com o pai, conversa sobre várias coisas. pergunta se
ele já tinha chorado, e o pai devagarinho vai lembrando
e contando: na vitória do seu time no campeonato de fu_
tebol; no dia em que ele filho
fora bonito ter assistido a rodo - i À"r..r, ealguns
- seuo parto... como
Quando
amigos e parenres tinham morrido; po. .àrrt, da eipo-
sa... Homem chora, claro. E também admite que não sãbe
muitas coisas, que desconhece muitas respostas sobre al-
gumas emoções e sentimentos seus.

E o filho, nos contatos em contraponros, vai perce_


bendo a impossibilidade de os dois pai e mãe
- can-
tarem a anriga cantiga de ninar com -a qual o embalaram
quando bebê, porque ela especialmenre desenca_
deia um sofrimento grande - nos dois... E a -consraração
do menino que nuncâ conseguirá saber essa .artiga
ior
inteiro (e tanta coisa mais que marcou momenros espe-
ciais da vida do casal...).
Separação dói, e dói muito. pro pai, pra mãe, pros fi_
lhos... As marcas ficam e não há cómo menti, ou di-i_
nuir isso, já que as saudades podem ser desencadeadas
por qualquer motivo... Mas, se há um rempo de sofrên_
cia, há um de escolha e ourro de tentativa de re.ompor a
vida, que acaba por se refazer, se equilibrar e enconrrar
uma nova forma de seguir em frente ...
Ziraldo, em O menino maluquinho, não usa o divór_
cio como rema ce nrral ... Mas lá pelas ranras do cresci-
mento do menino, o pai toma um rumo, a mãe outro, e
ele inventa a teoria dos lados e descobre que pode viver
ao lado, do lado
- deacada
que era o seu ... Sente
um deles
-, naquele lado
barra, convive com a saudade e
compreende que a ausência também faz parte da vida.
Lygia Bojunga Nunes, no primeiro conto de Tcbau,
fala da tristeza sofrida, impotente, decisiva, da menina

106
-ele Rebeca - quando sua mãe vive um novo amor e com
acaba partindo, após muitas indecisÕes suas e muiras
tentativas da filha para que ela ficasse, ficasse ... Dói
partir, seguir, procurar outros caminhos, tomar cons-
ciência de que um ciclo havia se encerrado (com o pai da
filha) sem abandonar toda a afetividade e o amor que
ele englobou e gerou (a própria Rebeca)... Mas a mãe,
como qualquer ser humano, tem direito a um novo
amor, a uma nova tentativa de vida com o homem por
quem está apaixonada. Ela tem direito ao amor (o que a
faz decidir e escolher)e também tem direito a conrinuar
sentindo o imenso amor pela filha, que procurará assim
que voltar de viagem... É preciso coragem para romper
o rotineiro, o tedioso na vida, sobretudo quando isso
apare ntemente -
represenra a felicidade dos filhos...
-
Mas é se permitindo como mulher, crescendo como pes-
soa, que ela poderá amar ainda mais e possivelnrente
-
- a filha... É um risco adulto dar essa espécie
melhor
de tchau, que não é adeus. Tem volta, e de outro tipo,
com outra intensidade e novo calor. E esse tipo de mu-
lher existe e é bom que surja nos livros, não-idealízada,
não-santificada, não-dependente ou incapaz de tomar
uma decisão (e das mais mexentesl e sendo muito pres-
sionada!l). Bom haver personagens assim, tratados por
uma autora assim...

TENDO SOBRE O
CRESCIMENTO PESSOAT

Há as questÕes todas do crescimento que envolvem o


enfrentamento de problemas pessoais.
Eliane Ganem, em O coração de Corali, discute um
espaço sobrante no coração dessa menina, que pode ser
a solidao, a rrisreza, a aflição... A família reunida en-
contra várias explicações e propÕe mil soluçÕes, sem
que ela seja consultada, sem que fale, desabafe, aponte
a provável resposra. . . ImpÕe com a maior das boas
-
vontades e a melhor das intençÕes
- desoluçÕes
que estão longe de aplacar a angústia Corali..
várias,
.

107
Mas é num papo, com sua tia gorda, que descobre
que todo mundo tem um buraco no coração, embora al-
guns nem se dêem conta disso; outros comem, fumam,
trabalham loucamente , só pra esquecer esse oco opressi-
vo denrro do peito, disfarçando para os outros e sobretu-
do para si próprios... Pois, claro, é muito difícil preen-
cher o coração com coisas que valham a pe na.. . Um te-
ma bonito, de licado, sensível, verdadeiro, onde a crian-
ça é quem encarâ o que lhe falta, enquanto a maioria
dos adultos finge não se dar conta. Ter um coração todo
tomado exige percepção e escolha, como exige saber dei-
I/ustração de Elr,ra Vrgna para
o liuro O coração de Corali, de xar de lado aquilo que não é mais importante ou mere-
E/íane Ganem, Rtio deJaneiro. J. cedor de carinho e confiança.
Ofimpto, p. 19-20

Ruth Rocha, em Facd sem ponld, ga/inha sem pé. na


sua forma humorada e divertida de abordar um fato, faz
com que um menino e uma menina atravessem o arco-
-íris para que cada um sinra e tome consciência do quan-
to pode ser difícil, problemático, cansativo, exigente . se r
do outro sexo: a menina se inteira do que significa ser

108

q
menino e vice-versa... É faclt choramingar quando não
se tem idéia do que o ourro vive... E é fundamenral sa-
ber e conhecer o próprio sexo para poder crescer como
pessoa inteira, que se sabe e se conhece .

Znaldo, em O menino maluquinbo, n^rÍa a vida


dum moleque sabido, irrequieto, sempre em movimen-
to e em ebulição... Poetando, aparenremente descuida-
do com objetos e roupas, explosivo em seus comentários,
inventador consrante da alegria, da brincadeira (pra fa-
mília, pros amigos. .. ), beijoqueiro e encanrador com as

at
Jr Ç

O menino maluqarnho, de Zi
rd/do. Siio Pau/o, llellorarnen.
to.r, p. 44.

namoradas mil, ótimo jogador de futebol, aluno inteli-


gente, mas não exaramenre dos mais drsciplinados, ávi-
do de tudo o que a vida oferece... Mas, claro, que tam-

109

q
bém chorava, também se entristecia, também precisava
de seus momentos de solidao, de se trancar no quarro
por muito tempo até ter clareza da situação ou das afli-
ções. ..
Um livro que se refere a uma criança muito amada,
contente , que sabe crescer, que se interessa por muira
gente , por muitas coisas, por muitas atividades... Qr"
sabe estar consigo e com os outros e que sobretudo sabe
viver (sem achar que isso significa um campo florido, em
eterna primavera, onde só aconrecem coisas boas, cal-
mas, e onde nada se altera...). Nao, rudo se altera, e,
como ela sabe encarar as diferentes situaçÕes da vida.
consegue crescer e perceber o quanro tinha sido feliz,
em sua meninice estouvada, vibranre e cheia de vida.

O menino maluquinho, de Zi
ra/do. Sao Pta/o. lÍe/horamen-
tos, p.23.

I
110
it
hli

t
LENDO SOBRE A MORTE

E a morte , como é explicada, colocada, na nossa lite-


ratura infantil? O tema é ainda pouco explorado, como
se as pessoas temessem tocar nele, como se a morte não
fizesse parte da vida, como se a criança não se defrontas-
se com ela... Ao nível do que acontece no mundo, ela
é informada o tempo todo: de que há guerras, bom-
bardeios, epidemias disto ou daquilo, acidêntes, aten-
tados terroristas neste avião ou naquela cidade, tiroteios
com a polícia, falecimento desta ou daquela celebrida-
de, deste ou daquele vizinho... Sem contar que as pes-
soas de qualquer idade podem falecer por doença ou aci-
dente a qualquer instante. Ou seja, dum jeito ou de
outro, a mofte faz parte dos noticiários, faz parte dos co-
mentários, faz parte das lamentações, faz parte das in-
dignações.
No entanto, poucos autores em poucas histórias abor-
dam o assunto ... Lygia Bojunga Nunes tece uma novela
sensibilíssima, sofrida, iliste , chamada Na corda bam-
ba... onde a calada menina Maria, uazida à casa da avó
rica e dominadora pelos amigos do circo
o Foguinho
- a Barbuda e
vive um processo de amnésia, pois apa-
-,
gou da memória a morte dos pais, acontecida numa
apresentação no trâpézio. Âcompanham-se os passos de
adaptação da menina a uma vida não mais nômade , não
mais mágica e iluminada como fora a vivida no circo,
mas às voltas com a escola, com a professora particular
horrorosa, com problemas de Matemática, com sua soli-
dao... E como ela vai recobrando a memória do triste
acontecimento, na medida em que abre seus espaços in-
ternos, suas portas, aprende a se gostar, exercita o esco-
lher... Triste , bela, comovente , a história causa um arre -
pio constante no leitor, uma tristeza doída, daquelas
bem quietas... Bem escritíssima, como uma corda bam-
ba esticada no seu limite máximo, sem que a autora tro-
pece, sequer por um momento, num tema tao difícil e
tao delicado...
Luís Fernando Emediato, em Eu ai nzinlta nzãe nas-
Çer, conÍa dum menino que sabe que sua mãe vai mor-
rer, pois ela, ao saber da gravidade de sua doe nça, o pre -
paÍapala esse dia, explicando que renascerá da terra, co-

111

q
mo uma planta branca e especial... E quando ela falece
,
como o garoto compreende o sofrimento, a necessidade
de silêncio, o desamparo do pai. .. e o ajuda aatravessar
o momento doloroso. Nesse relato curto, pode-se discu-
tir a explicação dada ao que aconrece aepáis da morte: o
se ffansformar e renascer como flor... Mas há um en_
frentamenro do tema que pode ser debatido em clas_
se... Â relação terna entre pai e filho, viúvo e órfã,o,
por mais preparados que estivessem para o desapareci-
mento definitivo de alguém que muito amavam, eles so-
frem... E quantol
Em O meu dmigo pmtor, Lygia Bojunga Nunes, com
criatividade, poesia e sem remer a dor, faia das dificul-
dades que temos para entender alguma coisa num deter-
minado momento e como percebemos depors
de estalo - quase
aquilo qur nos agoniou por ranro rempo.
-
De como é difícil explicar a morre dum amigo, como é
complicado compreender por que alguém se suicida
mesmo que esse alguém estivesse se sentindo velho- e
desvitalizado... E a compree nsão, de pois da morte desse
amigo, do quanto gostou dele, cada dia dum jeito dife-
re nte , por uma tazão difere nte ... que é como se gosta e
se desgosta de alguém.

Outros autores alertam para outro tipo de morte.. .

\üTander Pirolli, em Or nlos morrem de sede, relata a


morte dum rio, onde um homem passou momentos
marcantes e significativos de sua infância, que foi assas-
sinado pela poluição... E, com e le , morrem junro as re -
ferências, as image ns de sua me ninice , das pescarias com
o pai... e a impossibilidade de passar para o filho
Bumba este rio que era também um mundo limpo, -
-
límpido, claro, com peues, silencioso e arraenre ... per-
das imensas que interferem na forma e no local em que
se desejaria que uma criança crescesse, e nas experiências
vitais que ela não poderá ter, pois se marou a narureza e ,
com isso, também um pouco da natureza do homem. ..
\Werner Zotz, em Apenas unt curumim,
fala, de mo-
do poético e inventivo, da morte de toda uma cultura
a indígena. E, ao mrsmo tempo, da morte da terra, da -
água, dos bichos e do próprio índio, do desaparecime n-
to de um povo, duma fé, de urira forma de estar no
mundo e de acreditar nele... Conta de uma tribo, cha-
mada "povo do riso", que foi morrendo de rristeza pu-

112
o
ô
ts

O
2
O

ra. .. Relata a história de um povo em que o respeito pe-


lo outro, a não-exploração do trabalho alheio, o produ-
zir por puro gosro, foi tendo que ser abandonado por
conta da contaminação branca... Mostra que tudo falece
quando perde a identidade, quando as pessoas esque-
cem quem foram... E que cada um, como o velho pajé
da história, pode morrer feliz e satisfeiro quando fez o
que devia ter feito nesta rerra. Â questão não é morrer
naturalmente quando chega a hora. É ser exterminada,
não uma única pessoa, mas uma civilização inteira, em
nome de tirar a terra de seus verdadeiros e legítimos do-
nos, para apossar-se dela.
Tantas espécies de vida, tanras possibilidades de mor-
te... É fundame ntal discutir com a criança, de modo

113
verdadeiro, honesto, aberto, como isso aconrece e como
pode ria não acontecer. .. Compree nde r a morte como
um fechamento natural dum ciclo, que não exclui dor,
sofrime nto, saudade , sentime nto de perda... E também
discutir a morte provocada de modo irresponsável, levia-
no, segundo a lei do mais forte, profundamente injus-
ta, de civilizaçÕes, de culturas, de crenças, de bichos,
plantas, pessoas... De tudo e todos que fazem parte do
mundo e que deixam de fazer por razÕes não-humanas,
não-solidárias. nem progressistas.
)á dizta o sempre sábio Guimarães Rosa: "saudade é
ser, depois de ter".

TENDO SOBRE AS DIFERENTES


FORMAS DE PODER

E há todas as questÕes do poder, do domínio político,


da autoridade despótica, temas que Ruth Rocha aborda
como ninguém em suas quatro histórias de reis.
Em Reizinbo mandão, trata do poder sem limites,
disparatado, temido, que acaba sendo enfrentado e des-
montado por uma menina, muito da sem medo e sem
papas na língua. ..
Em O que os o/ltos não aêem, se conhece um outro
rei, que só enxergava quem era grande, forte, nutrido...
e , poftanto, jamais via o povo, que não se caracteriza
exatamente por essas qualidades... E o que não via, não
sentia... (muito confonável!!!). O povo cada dia mais tris-
te, mais acabrunhado, acaba encontrando uma solução:
pÕe imensas pernas de pau, visíveis ao longe, e assim
chega ao real palácio pruma conversa... Mas todos, mi-
nistros e assessores o rei à frente
-
tremendo de medo, pois é muito difícil- saem correndo,
governar quem
se vê... (muito familiar, muito conhecido de todos nós,
não???).
Já em O rei que não sdbia de nada, é desmascarada
com graça e humor uma supermáquina que tudo podia
fazer e controlar, o que deixa os ministros felicíssrmos...

114
I/ustração de ./osé Carios Bntc-,
p,trt o /iuro O que os olhu' nào
vêem, de Rath Rocha. Rio deJa
ntiro. Sa/.tm,tnJra, p. l{:.

E quando ela começa afalhar, claro, não avisam o rei so-


bre o que está acontecendo... E o caos se instala no país;
mas, para que sua alteza não se inteire disso ao sair em
raríssima visita, os dignos ministros rapidamente cons-
troem cenários na frente das moradias populares, ma-
quilam as pessoas pra parecerem saudáveis, enfim,
I transformam tudo num imenso circo... Mas, de repen-
) te, toda essa fachada começa a ruir, e o que estava escon-
dido por detrás surge na sua feiúra e miséria... O rei,
apavorado, foge , tenta passar por visitante estrangeiro,
I se aproxima do povo (sua grande descoberta!!!) e dele
escuta que o rei mora muito longe , por isso não pode ver
nem ouvir nada... E o povo aposenta a máquina, colo-
n cando-a num parque de diversões... Ruth consegue des-
muscarar os problemas mascarados, a enganação geral
que é montada, mas que um dia desmonta.. , e mosüar
que não se pode governar quando se está muito distante
do povo, das cidades, do que acontece em cada casa, em
cada lugarejo... Pois, se assim for, nem precisa renrar
passar por estrangeho: já é um, de fato!

115

-qí
E em Sapo aira rei uira sapo, Ruth Rocha conta de co-
mo uma menina é atormentada por um sapo para que lhe
dê um beijo... E, quando consegue, vira rei' Daí que ,
tomando o poder, ele começa afazer leis disparatadas e
enlouquecidas, pondo a mandonice à solta... Histérico,
manda prender todas as verdades circulantes, exige que
fiquem embrulhadíssimas e assim, empacotadas, as
manda pro sótão palacial... Mas as verdades escapolem,
fogem, começam a aparecer em todos os cantos, e solda-
dos são postos a corret atrás delas, feito baratas tontas...
Mas as verdades se espalham, chegam até as pessoas. Por
isso, o augusto rei manda prender todo mundo, e as pes-
soas vão se amontoando, se amontoando... E enquanto
isso, no aperto geral, as verdades espremidas vão saindo,
rachando o palácio, explodindo tudo... Mas, atenção,
sempre pode reaparecer numa estrada um novo sapo, pe-
dindo um novo beiio pra alguma menina, e daí pode
Sapo vira rei vira sapo, de Ruth
tudo recomeçar... (um texto divertido, rimado, solto,
Rocha. I/ustrações de W'a/ter fluente, que questiona todos os passos, temores, prisões,
Ono. Rn de Jdnerro, Salantan- afunilamentos, descontroles, que acontecem com os reais
dra. p. 28 9 poderes quando eles não têm limite para nada... e em-

f/-}r
íf,] r,§ !t . l
if-- 't
Í'ra r:+tq*rlrr :! i!it!i,:i
í-)sr ti:iharl! :li, rtr;.:r{iiiJ=

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{ trI* lr4rir4 iÍr!{il,,.
?th' tlj]1i lrltirifii rjlilis !:ii!1,.

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L Itr-l 11Éa_iá i':tiif4sr *i FÍ;{.iil .

'l'txÍü lurnrfur tfri cnranlrilr


I'aru 4 Fr*lrittt* r**1,
lrírrâEi 1üIrÊ(lô *ç exulfi*
llilÍa o $aúi10 ltHpcriill.
F, li lilÍüIr k't$Jrrç*rsfrd.t í.,f\
S§ {tjsllardt cr*l r ru*I. I rii
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fi 116
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pacotam tudo e todos os que incomodam e, por isso, se
tornam ameaçadores... ).
O povo
- do qual as crianças fazem parte - pode
encontrar soluções: usar pernas de pau paÍa se agigantar
e ser visto, demolir cenários de faz-de-conta, cochichar
e espalhar verdades, ter coragem individual pra dizer o
que precisa ser ouvido e mil outras soluções... Não, não
é preciso fazer nenhumâ carequese politicóide com as
crianças. Mas discutir com elas, sem medo, esse poder cir-
cundante , que pode ir do palácio real atê a sala da dire-
tora da escola, passando pela porta do síndico do pré-
dio ou por qualquer outra que se arvore em autoridade
de plantão, com poderes ilimitados para tudo e sobre
todos.
Quem manda, quem é mandado, em nome de quê?
Por quanto tempo? Quem escolhe os assessores (secretá-
rias I zeladores) e com que extensão de poderio, de man-
do? Como se perperua um poder (rei/pail professora/
polícia...) quando menre, ludibria, não olha na cara
seus comandados, se recusa a ouvir, avl-Í, asaber?
euais
são os compromissos com a verdade que essa autoridade
tem
- e como fica quando embaralha, empacora, em-
brulha as verdades, com medo de saber, de ser informa-
do e de informar?
O poder está muito, rruito próximo da vida de cada
um... Como participante duma famílta, como cidadão
dum país, como aluno duma escola, como jogador dum
time de futebol, como membro da turma ou do grupo
de escoteiros. Em cada uma dessas situações e em deze-
nas de outrâs se vive a autoridade, o autoritarismo, a li-
berdade de opiniao, o direito de participação, a recusa
ou negativa a se envolver, dependendo de como cada um
percebe , se aproxima, questiona, aplaude esse poder e
se submete a ele... O limite não é dado apenas por quem
manda: também o ó pelo que refuta ou recusa, o que
faz com que as regras do jogo se perperuem ou se modi-
fiquem... Depende de como se analisa e se comporta cada
um em relação a ele.
Há tantas e tantas verdades pata a criança se inteirar
de modo bonito, poético, crítico, irônico, envolvente ...
 questão, parece, ê náo sonegá-las, não encobri-las,
nao disfarçá-las ou diminuir sua importância... Ou re-
fletir junto com Dom Hélder Càmara, quando diz:

117
Mil razões para viver, de Dom As verdades vivem e sofrem
Hé/der C)m,tr.t. Rr, dr Jtnttro.
Ciut./tzação Brat ile ra.
Importante e urgente
como libertar criaturas humanas
de prisÕes inumanas
é ir em socorro de verdades
prisioneiras de sistemas de idéias
que as retêm e asfixiam.

Ou quando ele mesmo reivindica condiçÕes para que


haja uma ampliação da visão que a criança tem do mun-
do, pelas quais deveriam se responsabilizar todos aque-
les que se preocupam com a formação do ser humano:

Se eu pudesse

I
dava um globo terrestre
i a cada criança...
Se possível até
:
um globo luminoso,
: na esPerança
de alargar ao máximo
a visão infantil
tt
fii e de ir despertando
ilr
tl interesse e amor
I
I por todos os Povos,
todas as Raças,
todas as Línguas,
todas as Religioes!. ..

,i
!t

ii,,! 118
s

t
Se matavilhando com
os contos de fadas

r'í
OS CONTOS DE FADAS
vrvEM ATÉ HOJE...

Quem 1ê "Cinderela" não imagina que há registros


de que essa história já era contada na China, durante o
século IX d.C. E, assim como rantas outras, tem se
perpetuado há milênios, atravessando todas as geogra-
fias, mostrando toda a força e a perenidade do foiclore
dos povos.
Por quê? Porque os contos de fadas estão envolvidos
no maravilhoso, um universo que detona a fantasia, par-
tindo sempre duma situação real, concreta, lidando com
emoçôes que qualquer criança já viveu . .. Porque se pas-
sam num lugar que é apenas esboçado, fora dos limites
do tempo e do espaço, mas onde qr.ralquer um pode ca-
minhar.. . Porque as pe rsonagens são sirrrples e colocadas
em inúmeras situações diferentes, onde têm que buscar
e encontrar uma resposta de importância fundamental,
chamando a criança a percorrer e a achar junto uma res-
posta sua para o conflito... Porque todo esse processo é
vivido através da fantasia, do imaginário, com intervett-
ção de entidades fantásticas (bruxas, fadas. duendes,
animais falantes, plantas sábias... ).
Ou, como bem explica Vera Teixeira de Aguiar: "Os
pctsfãcio da co/eção Era uma Vez contos de fadas mantêm uma estrutura flxa. Partem de
(conto.ç de Gnmm), edição para
um problema vinculado à realidade (corno estado de pe-
cnança.r com btb/iografia de
núria, carência afetiva, conflito entrr mãe e filho), que
apoir:, para profestores. Porto
A/egre, Kuarup. desequilibra a tranquilidade inicial. O desenvolvimento
é uma busca de soluçÕes, no plano da fantasia, com a in-
trodução de elementos mágicos (fadas, bruxas, anôes,
duendes, gigantes etc.). A restauração da ordem acon-
tece no desfecho da narrativa, quando há uma volta ao
real. Valendo-se desta estrutura, os autores, de um la-
do, demonstram que aceitam o potencial imaginati-
vo infantil e , de outro, transmitem à criança a idéia de
que ela não pode viver indefinidamente no mundo da
fantasia, sendo necessário assumir o real, no momento
certo' ' .

PoR rnan coM coNTEúDos DÂ sABEDoRIA populÁR, coM


CoNTEÚDOS ESSENCIATS DA CONDrÇÃO TIUMANA, É qUr rSSrS
coNTos DE FADÀS SÃO IMPORTANTES, PERPETUANOO-SE ArÉ
HOJE...

120

,.i'ih ".8,r
 psicanálisc dos contos de fa- "Explicar para uma criança por que um conto de fa-
das. de Brano Bette/heim. Rirt das é tao cativante para ela, destrói, acima de tudo, o
de Janeiro. Paz e Tena
e ncantamento da história, que depende , em gÍau consi-

derável, de a criança não saber absolutamente por que


está maravilhada. E ao lado do confisco deste poder de
e ncantar vai também uma perda do potencial da história

e m ajudar a criança a lutar por si só e dominar exclusiva-

me nte por si só o problema que fe z a história estimulan-


te para ela. Âs interpretaçÕes adultas, por mais corretas
que sejam, roubam da criança a oportunidade de sentir
que ela, por sua própria conta, através de repetidas au-
dições e de ruminaÍ acerca da história, enfrentou com
êxito uma situação difícil. Nós crescemos, encontramos
sentido na vida e segurança em nós mesmos, por termos
entendido ou resolvido problemas pessoais por nossa
conta, e não por eles nos terem sido explicados For ou-
tros. ''

PERR.AULT - €enr'rçl - (l€.zo-- {+O3)


" l-halotnr-s ,c*
rcvtla e* )uvtt'y*S
pàlJ, ;*; d-u: .-"ur.*'Ytl": "' í691

ÍAcots (t?gs -1O€,3) I u/rLttEum (r+ae-


{65q) GRlMtvl - ÀLÉMANHA.o- do 'Lo''w "
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12,-rc'lt;v'*t- -ll8{z
22 ç<l*^rrrt.-e- I B{ 5

+'tAN5 c+tRigTiAN ANDERSEN


;;;ÁM;àcA -(rooq - 1615)..
'í)ior.,Ç-À'n '12 - í635
cornÍo t?o^,oy
rr

(-!'<,l-t^ÉL {56 z<r,f,cn f*


/c/í\r\a/\/\r<a'õ )

Char/et PERRALTLT (1628 1703)


Escnlor e arquitetc,t francês cé/e Os autores mais famosos desses contos são citados a
/tre pt /,t cukl)nr,t p,tra tn'tnç't.t se guir:
Ccrntos da Mãe Gansa que Pu
/:,/tcou en 1697. cc,tm o nctme de
Perrault, um erudito e acadêmico francês, é autor de
seu fi/ho Perrault d'Armancour. vários livros para adultos, tornando-se célebre e imortal

122
por seu único volume de contos para crianças. Sao histó-
rias recolhidas junto ao povo, respeitando o que rives-
sem de cruel, de moral própria e de poético. Muitos de
seus contos foram também recontados pelos irmãos
Grimm, mais de um século depois, mas com menos
qualidade literária. Jesualdo assim fala deles: "Os con-
tos de Perrault são apenas fragmentos e documentos gadio.
dessa história poética que todos os povos possuem, mas
que não foi escrita... Mistura a criaçã,o popular à sua
imaginação de escritor, dando detalhes e minúcias reais
nos contos encontráveis e característicos de sua época.
Sao obras-primas".
Os irmãos Grimm, Jacob e \X/ilhelm, foram estudio-
sos, pesquisadores, que em 1800 viajaram por toda a
Alemanha conversando com o povo, levantando suas
lendas e sua linguagem e recolhendo urm farto material
oral que transcreviam à noite .. . Nao prete ndiam escre_

ver para crianças, tanto que seu primeiro livro não se


destinava a elas... Só em 1815 \X/ilhelm mostrou algu-
ma preocupação de estilo, usando seu marerial fantásti_
co de forma sensível e conservando a ingenuidade popu-
lar, a fantasia e o poético ao escrevê-lo.
Andersen é filho do povo, e seus conros brotam de
sua própria infância. Dele dizJesualdo: "Nele o maravi-
lhoso é a sua própria alma e seu mundo inteiro, seu
mundo vivo. produto de sua própria vida. É o poe ta da
rnfância".

OS CONTOS DE FADAS lnniot GRIl4lÍ


Ol t/ernãe.rJacob Gimm (l78)
FALAM DE MEDOS... 18{t3) e V'lbe/nt Gnlmm (t186.
1859) l)tram o: inicrddores dart-
Como num dos contos de Grimm, deliciosamenre tra- ,o/,,gt;.t gtrn)ni(.t c .ràu famoro.,
duzido por Ana Maria Machado, "O homem que saiu por !eui Contos. reco/hido.ç da
tradtção e /endas popu/ttres.
em busca do medo" (está no volume C/tapeuziilto Ver-
O Romanltsmo a/ernão. do qaa/
l rnelho e outros conto: de Grinzm). É a saborosa história tj,' rfpr(t(ntJn/er. iuo/kiu nn
t de um rapaz que quer aprender a se arrepiar e para isso
enfrenta monstros, fantasmas, mortos, mas que conti_
-çentido de arn rndtor inleresse
peh cndçãct tnagtnatit,a e pe/c,t
nua não sentindo o ambicionado calafrio... Depois de domínto dd cu/turd popaldr na-
mil tentativas das mais tenebrosas e desafiantes, desco- ciona/. E/e.ç se uo/ídram para o
bre que só sente arrepios quando lhe fazem cócegas... .[anlásttco, e a simp/es naração é
ento/t,tda par amd ;ttmosfera
(mostrando que o que pode provocar o medo é diferente poética.

123

,q
paÍa cada um, conforme o que perce be , o que enfre nta,
o que o assusta de verdade ou não...).
Diferente do medo que sente a mãe de Chapeuzinho
Vermelho, que não quer que ela atravesse uma parte da
floresta ou ande por caminhos onde poderia encontrar o
lobo (que pode levá-la a outras experiências, à descober-
ta dos desejos sexuais, que a mãe teme que a filha
viva.. . ).
Ou dos medos que Marina Colasanti, uma autora
brasileira dos dias de hoie, aponta, em seus dois lin-
dos livros de fadas, LIma idéia toda azul e Doze reis e a
rnoça do labin'nto de aento... Medo dos silêncios ime n-
sos que acabam abafando o grito, ou então aquele me-
do que a procurâ do rosto do amado escondido atrás du-
ma máscara, mesmo te ndo sido solicitado que ela nunca
fosse retirada, acaba revelando e provocando, ao não ser
o pedido respe itado
- um mome nto de horror. . . Pois a
personagem, tal como o poe ta Jorge Luís Borges, deve
./orge Luís BORGE-I (1899-1986)
E:cn/c.tr argen/ino, dutor de poe ter pensado: "Â curiosidade pôde mais do que o medo e
nJs, cunlor. nute/at t cniJt:or. não fechei os olhos".
para adu/to.r. É altor, €ntre ou
Íras. da.ç obra.ç Fe.vor de Buenos
Ou, como nos conta Andersen, em "Os sapatos ver-
Aires (pcte.rta) e FicçÕes (conlos). me lhos", que é a história da menina Kare n, bonita, de -
licada, pobre, descalça no verão e com imensos e pesa-
dos sapatos de madeira no inverno que a incomodam
muito... Quando fica ôrfã., é recolhida por uma ve lha
senhora e tanto faz que consegue enganá-la para que lhe
compre sapatos vermeihos tão iindos, tão cobiçados,
-
tão desejados... Sapatos que parecem de baile e que fa-
zem com que ela dance, dance e dance sem poder parar,
sem conseguir retrrá-los dos pés... E recebe ordens cate-
góricas, dum anjo, para nào parar. e por isso segue bai-
lando, coberta de sangue , pois se movimenta sobre án'o-
res, espinhos, tocos de madeira, cada vez mais exausta,
mais dolorida... E quando o anjo ressurge , pede a ele
que não a degole, apesar de ser culpada, mas que the
corte os pés e assim, com pernas de pau e muletas, ela ca-
minha... Inválida, doente , descobre te r sido perdoada e
abençoada pelo anjo, pelas pessoas da aldeia, e nunca
mais pergunta pelos sapatos verme lhos... (medo da pró-
pria cobiça, medo do desejo, medo da cuipa que o an-
seio seja ate ndrdo e a escravize para se mpre ... me do de S

que a posse do desejado paÍa^ quem nunca teve nada


seja objeto de
-
dor, de desconforto, de autodestruição
S

--

124

'@l:r.lç*
{i.
fi{
e de obediência cega, sem poder nunca parar, relaxar...
e só abandonando seu sonho, só abrindo mão dele é que
ficará em paz, amparada.., Há muito o que trabalhar
com a criança ao lhe contar essa história e discutir as cul-
pas e nvolvidas. )
Pois medos os mais variados estão presentes no
- -
cotidiano de todos... Medo de escuro, de rnjeção, de ca-
chorro, de lobisomem, de ladrao... Medo de dentista,
de ser reprovado na escola, de levar cascudo, de encon-
trar um vampiro ou ter que enfrentar a polícia. . . Temo-
res reais ou imaginários relacionados à escola, temor dos
mais fortes, dos que agem nas sombras ou a descoberto,
das puniçoes da Igreja, do grupo, do próprio ridículo...
Medos com os quais todos convivem, dum jeito ou de *
,q.*
outro, numa intensidade ou noutra, que se aprende a
enfrentar, a desviar, a superar, a substituir, com os quais
se aprende a conviver ou a lidar...
%

OS CONTOS DE FADAS
FALAM DE AMOR...
d'
Han.ç C hn: riaa ÁÀDER-IEN
(180t t875)
E sobre o amor e ntão, em todas as suas dime nsÕes, so-
De nacionthdade dmdrnarque-
frimentos, descobertas, encanros, possibilidades, enrre- .ça,teil pai era .rapdÍero e .raa
gas e plenitudes, início e término... quanro esses conros ryit /.tt tJrttr.t. Su,t t tJt Jut como
de fadas não nos revelam?... \(tts .oillar de I,tJ,tr. unJ, mtni-
rtcts e menin;t.r pobre.r pnl;rm
Andersen alerta, com humor. em "O menino mau" por tenít,ei.r huni/hações e. co
- que é como para
logia grega)
chama Cupido (deus do amor, na mito-
a malvadeza desse garoto, que flecha
D/ t
fttr mtgi,t. ;/ttgt»t r t),ftn-
lrenlJr si/uaçõer naratt/hosas,
o coração das- pessoas, fazendo com que se apaixonem, Ob/et,e fltm,t pe/o se a trsbitl/:o
se arnem... Em "O soldadinho de chumbo", conra ;ttnd, ,, ,,rr.
poeticamente a história de um soldadinho de brinque- O Rr:,zn;tntumo da época. crm
ter en/a.çia.çrno pe/a.r lrac/tçÕe.r e
do, com seu fuzil ao ombro, apaixonado por uma pe- /endas pctlttt/ares. f)rotocou it
que na, linda e delicada barlarina que mora num belo ;tpançict de itmp/o repertóio de
castelo de papel (os dois, junto com ourros brinquedos, conÍo:, onde ct /iism.ct :e a/le rna
vive m num cômodo da casa.. . ). Depois de ter sido posto (.),t u !!r,,/t ttu. C tl inain/ , .,í(
rece face.; dramiíttct.ç. Pe/d emo
num barco de papel pelos me ninos, rer navegado, quase
se afogado, ter sido comido por um peixe, volta para ca-
çio. fantatia e /insmo de seus
Ccrntos. ,\nder.çen Íem encinld-
sa; é quando um dos gaÍoros, num único gesto, o joga drt tina: g€rnçoe: de cnlança.ç e
na lareira, onde o soldadinho se derrete olhando a suave tda/tos.

12)
bailarina que, num único passo, voa também para den-
tro da fogueira ... "O soldodinho se derretea, trdnsfor-
mando-se numa bo/inba de chumbo, e qadndo, no dia
s€guínt€, a ciada tirou as cinzas, uiu que a bo//nha ti-
nha a forma de um cordçãozinbo de cbanzbo. Da bat/a-
nna só restaua a lantejou/a qaeimada, preta como car-
aão, " Meio que faz queimar também o coração do leitor
sentir que a morte do amado pode levar ao suicídio a
amada e que, dessa relação de ençantamento mútuo,
feita através de olhares, fica um símbolo forte e indes-
trutível: a marca do sentimenro...

l/uslraçãct de Vr/h Pedersen e É o mesmo poético, delicado e sensível Andersen


Lorenz Fro/tch para o conto "O
quem nos conta a triste e bela história "A pequena se-
soldadinho de chumbr,,", exÍraí'
da dc, /iuro Contos de Andersen.
reia" (ou "Sereiazinha"), passada em lugares encantados
Rto de Janero, Paz e Tena, p e mágicos do fundo do mar, na suntuosidade e opulência
1t2. de alguns castelos da terra, e em mares, ilhas, grutas...
E, entre esses cenários, a sereiazinha vive, cresce, desco-
bre as dores, o sofrimento, as renúncias, o peso das reso-
luçÕes e das escolhas, a morte que um grande amor cau-
sa, tudo tão intensamente vivido por ela, em seu imenso
e totalizante amor pelo príncipe ... Uma das histórias
mais lindas e mais tristes escritas para crianças em todos
os tempos... O pensar que se pode cortar uma cauda
imensa, transformá-la em delicados e martirizados pés
humanos, por amor... E por amor conseguir estar ao la-
do do amado, mesmo que por isso perca a imorta-
- tornando
lidade (que a sereia possui), - a morte próxi-
ma... (como o Chê Guevara, com ataques de asma vio-

126

{
lentos e dolorosos, embrenhado em selvas que não eram
as da sua pâuía, mas as da sua verdade, de valer o sacrifí-
cio, a entrega, a morte...).
E Marina Colasanti que, no conro "Um espinho de
marfim", mostra um amor absoluto entre uma princesa
e um unicórnio... a partir da querência, das aproxima-
çÕes e da incorporação dum todo sensorial (ele tinha
cheiro de flor porque comia lírios), a escrirora descreve
situaçÕes de maravilhamenro, de entendimento silen-
cioso e desliza pelo espaço almejado até chegar à ple ni-
tude, finalmente alcançada, do amor integralmente vi-
vido, seguido da morte , no cumprimento da promessa
feita ao pai (que pode não significar exaramenre a mor-
I/urtrdç,io de fi[annd Co/asan ti
te, mas o final dum ciclo, duma relação, duma cumpli- pdra o sea ht,roUma. idéia toda
cidade não mais compartilhada, ou um afastamenro por azul. Rio deJanetro, Nórdica, p.
pressÕes de outros...).

tlm ri.

espinho "aü
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Í.
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de marfixm I t;
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127
OS CONTOS DE FADAS FATAM
E COMO! DA DIFICUTDADE
- -
DE SER CRIANÇA...

Os irmãos Grimm recolheram histórias e histórias so-


bre esse assunto. Umas mostrando o quanto há de sabe -
doria inata, rápida, perspicaz na criança, como em "O
menino pastor"... Outras, o quanto a criança é peque -
na, única e , por isso, tão especial, como em "O peque-
no polegar", que quer sair pelo mundo para viver suas
próprias experiências e depois voltar, celebrando, numa
irpã.i. de renascimento... Uma criança que é inteligen-
primeiro
te, viva, e que
- como todas as outras
- num
momento é atiua, incansável, infatigável, canalizando
toda a sua energia para o mundo exteriot, para fora; e
numa segunda etapa como acontece com todas se
- -
volta para si mesma, querendo se conhecer, se saber ' ' '
J,tnct BARRIE (18(t0 t9_1:) E Peter Pan, a linda narrativa deJames Barrie, escrita
RotlJnctJ/J a ãillar drtrti/tco por este escocês em 1904, que continua - até hoje -
t.tL'úcli.lttr ciou Peter Pan. E:'
ãncantando os corações de gentes de todo o mundo " '
crrL'eil. em 190,1,,t peçr pJH
que luta
tdu/to.t Peter Pan. the bov thar Que conta desse menino simpático, coraioso,
woulcln't grow up e, en 1)06. o, eipada como se fosse o demônio, que sabe voar, brigar,
t,'il/,, 'Pt /(r PJ0 tn K. n jtnNl,.rl tornar conta de si e de todos os outros meninos perdidos
(r.tr,/tü.t . É J, lgll .t t.,rt),, da Terra do Nunca... Que fugiu de casa no dia em que
infantl/, .lue lent o título de Pe - nasceu, ao escutaÍ uma conversa de seus pais sobre como
tcr Pan and \X'cndr'.
seria quando crescesse . (Ah, ele não que ria crescer, se r
adulto. Queria ser para sempre um meninol) Que vive
em companhia das fadas, até que a fada Sininho fica -
para sempre com ele
- .

E se ele perde sua sombra na casa de Wendv, se com


e la e seus irmãos a quem ensina a voaÍ vai paÍa À
- - deleita
Terra do Nunca. se lá constrói uma casa, se se ncr

Lago das Sereias, se vê o ataque dos piratas aos índios, se


luta valentemente contra o pior de todos - o rjapitãLl
Gancho se nota a fada Sininho tomando o veneno
-,
que era a ele destinado e a vê também com ciúme , ciis-
putando suas atenções com §7endy, se com ele tudo
acontece , num sem-fim de peripécias emocionantes, ele
também díz: "Há muitas cianças que não acreditam
em fadas, Quando um garoto oa anza garota diz: 'Eu
não acredito em foda nzorre uma fada. " " E por is-
-
so, quando Sininho está morrendo' ele pede a ajuda de

I
I
I
128
Ít
I/uslração de Rtcardo Lette pttra
o conlo "O rtentno paslar", ex
trtídt do /iyro Br.a.aca de Neve e
outros conros de Grrmm. Rio de
Janetro. Noud Fronlera. p. 90.

todas as crianças do mundo para salvá-la... E consegue I


Ele que quer ser para sempre um menino, permanece
amigo de §íendv enquanro ela é criança, visitando-a
scmpre , mesmo quando ela jâ voirara a Londres...
Quando ela se torna adulta, ele nunca mais aparece .. .

(para continuar sendo me nirio, e le sabe que é necessário


acreditar na existência das fadas e não permitir que elas
mo(ram ... É a fé, a crença, dum período da viáal).
Como é necessário acreditar na vinda do Papai Noel e
nos presenres üazidos por ele , nos três dese.fos que po-
dem ser concrerizados pela lâmpada de Aladim ou nos
superpoderes do Super-Homem, que podem brecar
qualquer carásrrofe que esteja ameaçando a Terra... A

129

il
criança sabe que é pe que na, fraca, frâgtl, e que, para e n-
frentar os desígnios adultos, só imaginando que outras
forças estarão a seu lado, protegendo-a e facilitando o
confronto (em geral, com cartas marcadas... ). Aliás, pe-
lo sim, pelo não, adultos bem crescidos andam com seus
amuletos, com suas fitas de pedidos e desejos, invocam
proteção daqueles nos quais crêem, realizam seus pe-
quenos ritos para que nada de mal aconteça à sua casa
etc...
Pois, como alerta compadecidamente Dom Hélder
Càmara:

Tem pena Senhor

Tem carinho especial


com as pessoas muito lógicas
muito práticas
muito realistas
que se irritam
com quem crê
no cavalinho azul.

Em termos das afirmaçÕes feitas, das provas enfrenta-


das para confirmar tantas desconfianças manifestadas
tantas vezes pelos mais adultos e/ou mais poderosos, é
que se lêem tantas e tantas narrativas...
Assim, no volume intitulado Branca de Neue e outros
contos de Gimnz (seleção e tradução de Âna Maria Ma-
chado) há vârias histórias que envolvem três filhos
-
sendo o menor o João Bobo, tido por todos como um
pai, que coloca os filhos em dis-
idiota completo
- eo
puta, preparando sempre provas difíceis ou âté impossí-
veis para que eles as vençam ou ffagam a resposta pedida
e, assim, ele possa concretizar sua promessa de herança
(ou, no caso de um rei, dar a Íilha em casamento)... E é
invariavelmente oJoão Bobo (em todas as diversas naÍÍa'
çÕes) quem acaba vencendo, por ser mais generoso, mais
bondoso, menos preconceituoso, mais atento à pessoas
ou animais, menos arrogante , enfim, mais aberto e dis-
ponível, como é a criança menor... É aquele que sempre
apesar de lesado e não levado a sério aceita o ter-
- -
ceiro desafio, a terceira condição, a terceira pena... E
acaba por triunfar, conseguir o que fora prometido e se
sair muito bem no exercício de suas novas funiÕes...

130
Ilustração de Rtlcardo Lerte para
o conla "O ganso de ouro", ex
traí,y'a do /iuroBranca de Neve e
ourros conros de Grimm. Rio de
Jdneiro. Nou Frontetra. p 26

Perrault, ao recontar com todo o seu talento a história


da Cinderela (às vezes conhecida como Borralheira ou
Sapatinho de Vidro ou Gara Borralheira), nos faz viver
as desventuras e os infortúnios dessa enteada menospre-
zada, sem direitos e só com trabalhos pesados , .r--
prir.. . E, quando chega o mome nro do baile no castelo,
ao qual ela tanto desejava ir (como as irmãs e todas as
moças da regiao), é impedida. Só com a vinda da fada
Madrinha é que a possibilidade surge . Ela lhe dá instru-
ções sobre onde enconrrar o necessário: a abóbora, que
se transformaÍá numa carruagem dourada, os seis ca-
mundongos vivos, que viratão formosos cavalos
de les, o mais bigodudo, será o cocheiro... - um
e os lagar-
-
131

q
tos, que Cinderela apanha no jardim, que se ilansforma-
rão em elegantes lacaios. A roupa, duma beleza indes-
critível, é conseguida com um simples toque da fada...
No baile (quem pode se esquecer de tanto maravilha-
mento e encanto juntos???), com ela radiante e bela e
ele
- o príncipe - fulminantemente seduzido, ao dar
meia-noite (horário-limite imposto pela fada...) ela sai
correndo, pois tudo voltará à antiga forma... Só fica o
sapatinho de cristal, prova de sua existência e identida-
de , que será experimentado em todas as moças do reino,
até que seja encontrada a verdadeira dona, a única em
cujo pé cabe o delicado sapato... (há que se provar
quem se é, mesmo que seja através de algo que se conse -
guiu magicamente...).
Âinda é Perrault quem nos relata as vicissitudes da
Pele de Burro (ou Pele de Asno), história em que um pai
viúvo acaba se apaixonando pela própria filha. Cadavez
mais desesperada e constrangida, ela tenta frear seus ím-
petos, pedindo-lhe coisas aparentemente impossíveis,
mas que ele consegue rapidamente pela força e ameaças
que faz a seus comandados... Desesperada, ouve os con-
selhos da sua fada protetora e foge escondida dentro du-
rna pele de burro, suja, encardida, feía... causando pe-
na e horror em quem a vê... Acaba indo trabalhar como
serviçal numa granja, onde é ridicularizada por todos o
tempo inteiro... Um dia, trancada em seu quartinho, se
desfaz do pesado disfarce e é vista por um príncipe , que
se apaixona por ela instantaneamente.
Um anel que ela possuía vaipat:i num bolo que o prín-
cipe come , e ele , tomando o anel nas mãos, faz com que
todas o experimentem... Em nenhum dedo, de nenhu-
ma moça
- da corte ou do povo -, ele enüa... Afinal, a
chamam e, para espanto geral, o anel desliza em seu de-
do com a maior facilidade. .. Ela se afasta, troca de rou-
pa e surge majestosa e lindíssima. Se casam... O pai rea-
parece, arrependido, e a abençoa... (tanto o que afirmar
como pessoa, tanto o que viver de afliçáo e angústia,
tanto o que provar através de disfarces deformadores e
horríveis, tanto o que comprovar com sua mão de prin-
cesa, tanto o que sofrer para impedir o incesto e ranto
o ter que lutar para demonstrar aos outros e voltar a
se r quem sempre foi, continuando a viver sua verdadeira

vida).

132

"aí@"+:!
_d
OS CONTOS DE FADAS FALAM {

DE cARÊwcms. ..

Como em 'Joãozinho e Mariazinha", contada pelos


irmãos Grimm, onde dois irmãos vivem problemas de
carência: de comida (pela pobreza) e de afetividade (a
mãe tinha morrido). Âlém disso, a madrasta quer que
eles sejam abandonados (separando a familia) numa
imensa floreSta, onde terão que enfrentar sozinhos um
mundo desconhecido, para o qual ainda não estão ma-
duros. E, só chegando à casa de chocolate da bruxa (que
simboliza fartura) é que enconrram a solução para seus
conflitos, suas dúvidas, pensando e agindo em conjunto
(a experiência vivida e dividida faz surgirem ourras solu-
çÕes e novos encaminhamentos).
l/astração de Vl/:. Pedersen e
Lr:,renz Fro/rch para o conto "A
nenin,t rlos fí.,tforos", ex/raída
;/a Contos de Àndersen. -1. el
Rto de Janeu-o, Paz e Terra, p.
Ou na tão triste ' 'A me nina dos fósforos' ', narrada por 35 t.
Ândersen. Tremendo de frio, de fome . numa terrível e
gélida noite de Ano Novo europeu, vendo as luzes, a co-
mida, as árvores alegres de Natal em todas as casas poÍ
onde vai passando, a me nina só tem nas mâos uma caixi-
nha de fósforos para vender... E, querendo ver melhor
todo aquele mundo, querendo se aquecer mais, vai
acendendo um a url seus fósforos, e cada pequena cha-
ma afaz imaginar coisas bonitas, boas, iluminadas, ma-
ravilhosas, até que recebe o abraço de uma avô
morta - 1á
que a leva para as alturas, para junto de Deus,
-
onde não há fome. frio nem medo.
Tao parecido com nossos pivetes. com nossas crianças
esfomeadas, vendendo seus objetos em esquinas e pra-
ças, de dia ou de madrugada, querendo também
mo qualquer criança comida, agasalho, proreção, - co-
to.. . querendo estar de- ntro duma casa e não ape nas eten--
xergando seu interior pela janela e sendo protagonistas
de uma situação social injusta, cruel, desumana .
er;.-
rendo ser recebidas com carinho, com amor, por sua fa-
mí[a
- como acontece com aquelas mais ricas - e de-
sejando apenas que isso suceda enquanto ainda estão vi-
vas, e não depois de sua morte ...

133
OS CONTOS DE FADAS FATAM
DE AUTODESCOBERTAS...

E da descoberta da própria identidade , o que é fun-


damental para o crescime nro. .. Quantas histórias a ler e
a compreender em vários desses contos de fadas. . .

Ândersen, em "O patinho feio" (que tem muito de


autobiográfico), conta dum patinho que desde o nasci-
mento foi maltratado, ridicularizado, bicado (por outros
patos e galinhas) por ser feio. .. Rejeitado pela mãe , pe-
los irmãos, foge e continua sendo martirizado e despre-
zado, por sua feiúra, por todos os que encontra em sua
triste e melancólica caminhada... E foge novamenre, ca-
da vez mais assustadiço, nunca compÍeendido (inclusive
pela velha com quem mora por um tempo). Fugindo de
Írovo, etravessa um frio gélido e finalmente se aproxi-
ma duma lagoa plácida, onde deslizam belos cisnes, que
não só o reconhecem de imediato como um dos
seus, mas
- -
ainda o elegem o mais belo e formoso dentre
eles !

A mesma história vem sendo contada e reconrada...


por Ziraldo, em Flicts, por Ândré Carvalho, em Doura-
I/u.rtrdção de Vr/h. Pedersen e
do, e por tantos mais que falam da difícil, da árdua, da
Lorenz Fro/rch para o conto "O
patin/to feio", exíraída do liuro angustiante caminhada de quem se senre feio ou dife-
Contos de Ândersen. Rtio de Ja rente, e é tratado assim pelos demais por não saber
neiro. Paz e Telra, p 240. quem é, por se desconhecer... -

,t' {*-
ilH[

134

''--"ffimtHnl:
E que se encontra em alguns contos da Marina Cola-
santi, como aquele que enfoca uma personagem que
busca seu próprio reflexo perdido ou ourro a respeito de
alguém que precisa cortar as árvores e arbustos que com-
pÕem e fecham todo um labirinto para poder sair dele
livremente, com todo o espaço pela frente ...
O poder se encontrar, se conhecer, depois de ter sido
patinho feio, que só se percebe cisne após descobrir
sua identidade (o guç significa percorrer uma trajetória
l_onga, difícil e muito sofrida...). Aí a belezura é total!!!
E então que nos sentimos capazes de enfrentar o dragão,
o gigante, o ogro, o monstro, ou o nome que tenha no
nosso dia-a-dia, enfim, aquele que pensamos ser maior
ou desconhecido, ou inatingível, ou cercado de forças
inabaláveis e poderosas... e descobrir que podemos en-
frentá-lo, como oJoãozinho Pé de Feijao, e vencê-lo (co-
mo todos os heróis dos conros populares). A questão é
descobrir quem somos, perceber o quanto podemos, sa-
ber com quem contamos e o quanro desejamos (seja o
que for) nos colocar em campo e lutar contra o adver-
sário (e sempre por uma justa causa... conforme nossos
valores, nossa percepção, noção de justiça ou injustiça
etc. ).

OS CONTOS DE FADAS
FATAM DE PERDAS E BUSCAS...

Falam também de abandonos, de esquecimentos, de


quem um dia foi significativo, marcante , mas que, por
vârias ruzões (até mesmo a morte ) jâ não toca ou como-
ve ... Andersen conta isso linda. triste e poeticamente
em "O pinheirinho", uma bela árvore abandonada, re-
legada, após ter vivido uma experiência inesquecíve I nu-
ma noite de Natal, e que a cada novo dia espera um no-
vo momento belo e cálido, um novo aconchego, uma
nova audição de histórias emocionantes à sua volta, que
nunca acontecem... Ao ser levado para fora da casa,
imagina um recomeço de vida. Mas é cortado, trans-
formado em lenha e gemendo, gemendo... vai sendo

135
queimado... (como permitimos que aconteça com nos-
sos avós, nossos sábios, nossos anrigos ídoios
Garrincha ou a canrora Dalva de Oliveira - seja o
deixando
-
que nossas lembranças, gemendo, sejam picadas, quei-
madas e sepultadas...).
E falam também de crescimento, de buscas... Per-
rault nos relata a tão bela e tão cheia de significados his-
tória da Bela Adormecida, que dorme por 100 anos por
cclnta duma maldição atenuada (deveria morrer) e que
será despertada pelo filho dum rei... Seu sono se inicia-
rra no momento em que espetasse a mão num fuso, e,
apesar das providências tomadas pelo pai para que nun-
ca os enconrrasse. aos 15 anos isso acaba sucedendo...
Assim que o sangue respinga, a princesa fica respirando
levinho e é posta num belo aposento do castelo, ador-
mecida em toda a sua beleza. A fada boa toca em todos
corn slla varinha de condão e os adormece, para que
acordcm juntos. O mato cresce instantaneamente, afu-
gentando os intrusos. E por décadas correm lendas sobre
esse castelo. Um príncipe , ouvindo dum velho campo-
nês a verdadeira história, vai até lá; sentindo-se predesti-
nado, arma-se de coragem e atravessa todos os obstácu-
los... Che gando ao quarto da princesa. se ajoelha, cheio
de admrração, a beija, e o encanramenro se desfaz. Eies
vivem juntos por dois anos, rendo tido dois fiihos, em-
bora o casame nto só se torne público com a morre do rei,
pai do príncipe ... E o novo rei vive feliz com sua mulher
e filhos "..
Toda a puberdade, a consciência dos desejos, da se-
xualidade, o pai querendo impedi-la e preferindo um
sono secular para a filha... o ser despertada pelo prínci-
pe, acordada paÍa uma nova vida, onde rapidamente se
faz mulher (pois procria). E ele , também, ao buscar uma
mulher com quem tem filhos, mas não admitindo que o
mundo saiba dessa relação... Uma história que mexe
com conteúdos emocionais, sexuais, sociais... Que fala
de apetites e de impedimentos vitais, que podem ape-
nas ser retardados, adiados..,. Mas que um dia são acor-
dados, despertados... e querem ser satisfeitos.
um Gato de Botas, que percorra sete lé-
E o querer ter
guas como o Marquês de Carnavas
- -, que nos
para longe, para ouilas terras, outras paragens,
leve
para fo-
ra, pruma nova vida (seja onde for...). E talvez desco-

136

' .. +nrqFfffií 1r
brir, como o poeta Antonio Machado, que: "Cami-
nhante, I não há caminho / Se faz o caminho ao andar' ' .
(Nao é também o que buscavam os hippies há não mui-
to tempo, durante os anos 60??)
E imaginar que se pode romper, transgredir, modifi-
car algo no cotidiano massacrante , ou e ntão nas ciências,
t
nas artes, na política, na moda... Nao importa se para
dar uma mexida em si próprio, se para mobilizar os ou-
tros, ou tentaÍ outras formas de ser, agir, estar no mun-
t
do ou construir uma vida mais vivível, mais bonita, me-
lhor... Seremos enrão a Bela que descobre amar mesmo
a Fera (reconhecendo nossos instintos primeiros e nossos
preconceitos estreitadores e vitalmente impedidores de
sermos, nos dar, receber, e nossos estereótipos ao rotu-
lar pessoas, que nos afastam delas e de tudo o que te-
riam a oferecer...), o, propondo todo um novo enfoque
pata o corpo, através de alimentaçao, atividades físicas...

Esses contos de fadas nos falam de traiçÕes, de temo-


res, de juramentos, de sentimentos de perda, de infide-
lidades, de carências, de abandonos, de esquecimen-
tos... De que, às vezes, os irmãos, os familiares próxi-
mos, são maus, perversos, injustos, vingarivos e que a
ajuda pode chegar através de desconhecidos (raposas,
rãs, velhos, fadas, duendes), de desafios terríveis que
têm que ser enfrentados (remover montanhas, encarar
ogros, trabalhar como escravos), de prisões, de amor...
Falam de tristezas, de desconfortos, de revelaçÕes, de
sexualidade.. . Nos falam da vida e da morte , de ciclos
que se iniciam e que se fecham... Nos falam da dificul-
dade de ser criança ou jovem, de como é preciso provar
nossa capacidade a cada instante , de como temos que
nos afirmar como pessoa
- o que só acontecerá quando
nossa própria identidade tiver sido alcançada, após um
longo período de buscas, de sofrimentos, de rejeiçÕes...
E de como todas essas turbulências internas que fa-
zem parte da condição humana
-
- também podem ser
compreendidas ou resolvidas através do encantamento,
da magia, da presença do maravilhoso... Falam de pes-
soas e de suas buscas de felicidade.

Falam da fantasia, do poder sonhar, desejar, do que-


rer próximo o almejado (gente , bicho, forma de civiliza-
ção ou o que seja...), segundo a importância real, efeti-

137
va e afetiva que tenha p^ra cada um... Do querer acor-
dar dum sono centenário de Bela Adormecida sendo
beijada pelo príncipe ... ou perceber que alguns sonhos
podem ser coletivos (estão aí todas as proposras de vida
alternativa ou de dissidência política)... ou mesmo que,
num dado momento, em função duma proposra especí-
fica, eles podem acabar (pois se realizaramou se mosrra-
ram inviáveir...) e ser substituídos por outros, que se co-
locam densos e fortes, pois é outro o tempo e outra a
idade... Pois IMAGTNAR É raunÉu R-ECRTAR RTALTDADES.
Pois é só estarmos atentos ao nosso processo pessoal,
às nossas relações com osoutros e com o mundo, à nossa
memória e aos nossos projetos, para compreender que a
fantasia é uma das formas de ler, de perceber, de deta-
lhar, de raciocinar, de sentir... o quanro a realidade é
um impulsionador (e dos bonsl!!) para desencadear nos-
sas fantasias...

138

r 'r:!ffi11flit,i:',,;
Truballnndo com
a aprecraso crítica

'Çm@n&Srm* s{
A TEITURA EM SAIA DE AULA

Tudo bem... Â literatura infanto-juve nil foi incorpo-


rada à escola e, assim, imagina-se que
- por decrero
todas as crianças passarão a ler... Até poderia -
ser verda-
de, se essa leitura não viesse acompanhada da noção de
dever, de tarefa a ser cumprida, mas sim de prazer, de
deleite, de descoberta, de encanramento. .

Começa que há uma obrigatoriedade de prazo, uma


espécie de maratona, onde um livro tem que ser lido
num determinado período, com data marcada para tér-
mino da leitura e enrrega de uma análise , e não confor-
me a necessidade , a vontade, o ritmo, a querência de ca-
da crrança-le itora. ..
De pois, o livro é indicado. não e scolhido pe lo
O /iuro riio é t sc,-tilsido .tttio
;l/uno. le itor... Como uma única e mesma história pode inte-
Iessa.r atoda uma classe ? Como imaginar que haja uma
identificação geral
- de meninos e meninas - todi-
rrhos prcocupa<1os com o mesmo problerna? E rodos in-
rercssados num dererminado gênero literário, previsto
corlo fonte única de prazer para aque Ie mês do ano??
NÍesmo nas escolas mais democráticas. onde se dá o
clirerto de escolher entre dois ou três títulos. quais os re-
ferenciais reais para essa prévia seleção?? Por que não
arnpliar os horizonres, indo às livrarias ou bibliotecas e
deixando cada aluno manusear, folhear, buscar, achar,
separar, repensarJ rever, reescolher, até se decidir por
aquele volume, aquele autor, aquele gênero, que , na-
quele determinado dia, lhe desperta a curiosidade, a
vontade , a rnquietação??? Claro que, para isso, a profes-
sora teria que ler muito mais livros, e a quesrão que fica
ê esta: ela está disposta a fazer isso?
Porqr.ie , de verdade , a professora trabalha com um le-
que muito estreito de alternativas . .. Conhece pouco de
literatura infantil, em geral aqueles livros que as edito-
InJe/izmente, o citéno pitr,t a ras enviam para sua casa/escola ou aqueles cujos autores
escolha dct lruro não é sa,t qaali estão mais dispostos a divulgar seu trabalho... (e fica di-
dade ...
fícil achar que , por um desses dois métodos, realmente
se chegue a acompanhar o que é publicado de relevante,
de significativo, de bom...). O critério reinanre , na
maioria dos casos, não é o da qualidade do livro, mas o
da pronta eorrega.

140
Muitas vezes, dá é nisso: adoção de autores medío-
cres, menores, desimportantes, muitas vezes contando
histórias pralá de desinteressantes, chatas, monótonas,
antigas, tantas vezes falando duma criança que não exis-
te mais, de problemas que não as tocam ou sensibili-
zam.. . E como se pode estabe lecer uma relação boa e
gostosa com a literatura quando se trabalha em cima de
textos assim (ou apenas desse tipo)? Por que não adotar
e propor a leitura de tantos livros no mês ou no bimestre

- conforme a escolha de cada aluno -, em função de


seus parâmetros, vontades, buscas, afliçÕes, desse pe-
ríodo?

Certa vez, parada numa livraria de Sao Paulo, escutei


esta conversa entre duas garotas:
"- Eu queria um livro para saber...

- Eu não. Prefiro um livro de quererll"


E este diálogo, simples e incrível, mostra de maneira
clara como os critérios de escolha são diversos, e as neces-
sidades, outras.. .

Mas parece que não satisfaz ao professor apenas a


adoção de um livro para toda a classe , segundo a sua es-

141

" "'-HWi[*$ j:§tr.,e,,,, rilini'


O texto é uti/izado apenas para o
colha (dele , professor, claro...). Muitas e muiras vezes,
etÍudo da gramálica norma/iua.
esse texto selecionado se torna apenas um pretexto para
se esttrdar gramáúca, sublinhar substantivos concretos,
indicar rempos de verbos, enconrrar advérbios de modo
e mil outras relevâncias do tipo... Estilhaça-se uma his-
tória, não se aprofunda uma idéia, uma interpretação,
não se analisa a forma de escrever dum autor (iarefa-tao
absorvente e que exige tanto trabalho...). Aliás, usar
sempre um caderno para fazer exercícios, ao invés de
mutilar um conto ou poema.
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Ér- ;L§t*i##Y#"'i"*"
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É determinado am prazo para E há ainda um rempo prefixado, uma data marcada


que todos ot a/unos entrega€m
para o término da leitura... Como estabelecer um prazo
Jeur retumoJ.
determinado para a fruição?? Isso não é exatamenre o
que se chamaria de respirar, andar, caminhar no com_
passo, no ritmo, no rempo, que cada história leva pede
e
de cada leitor. ..
A fic/ta de /eitara dtnge a inter E essa bendita ficha, que é solicitada ao final de cada
pretação do texto.
leitura?
9 q.r. ela significa, o que acrescenra à criança?
Ao invés de trabalhar sempre com seu espírito crítico, de
fazê-la nsar sobre o lido, se espanrar .ó- o maravilho_
pe
so ou se irritar com a bobice, enfim, esrar permanenre-
mente ligada no que cada livro despertou... por que pe -
dir que todos os alunos respondarnàs mesmas questÕes,
em geral elaboradas pela editora, onde se solicita um re_
sumo (seguindo os passos estritos e estreitos propostos) e
compreensão do texto (segundo os parâmetros áa edito_
ra)? O que isso amplia, soma, acrescenra, faz a criança
crescer como leitora crltica???

142
Essa ficha à vezes chamada de encarte de trabalho
(l?) -
anexada à maioria dos livros ou proposta pela
-
professora pouco pede além da compreensão literal e li-
near da narrativa. Essa ficha tao bitolada e tão bitolado-
ra, tão padronizada, tão igual para todos os alunos (às
vezes do Oiapoque ao Chuí...), como poderá ajudá-los
a perceber o que significa cada leitura individual, perso-
nalizada, a emitir seu parecer único e pessoal? ? Ao invés
de constatar se decorou o nome ou como se veste uma ou
outra personagem, nesta ou naquela situação espec-rfica,
nesta ou naquela página (como se isso tivesse qualquer
importância efetiva), por que nao trabalhar com tudo o
que uma história (seja boa ou má, como qualidade, co-
mo idéia, como proposta etc.) possibilita? Com as emo-
çÕes que ela provocou, com as sensaçÕes que mobilizou,
com o alívio sentido, com a tristeza ou a alegria que de-
sencadeou, com os horizontes que abriu ou com as por-
tas que fechou? Por que totnar a leitura asséptica e im-
pessoal? ??

A LEITURA E O ESPÍRITO CRÍTICO

Ao ler uma história a criança também desenvolve to-


do um potencial crítico. A partir daí ela pode pensar,
duvidar, se perguntar, questionar... Pode se sendr in-
quietada, cutucada, querendo saber mais e melhor ou
percebe ndo que se pode mudar de opinião... E isso não
sendo feito uma yez ao ano... Mas fazendo parte da ro-
tina escolar, sendo sistematizado, sempre presente
- o
que não significa trabalhar em cima dum esquema rigi-
do e apenas repetitivo.
Pors É pRECrso sABER sE sE Gosrou ou NÀo Do euE rol
CoNTADO, SE SE CONCORDOU OU r.tÃO COl,r O QUE FOI CONTA-
Do... É perce ber que ficou super-envolvido, querendo ler Conuersar com as cnanças sobre
de novo mil vezes (apenas algumas partes, um capítulo o /ido é fundamenta/,
especial, o livro todinho...) ou saber que detestou e não
querer mais nenhuma aproximação com aquela história
tão chata, tão boba ou tão sem graça... É formar opiniao
própria, é ir formulando os próprios critérios, é começar
a amaÍ um autor, um gênero, uma idéia, um assunto e ,

143

{
dai, ir seguindo por essa trilha e ir encontrando outros e
novos volumes... (que talvez façam o amor pe Io âutor
redobrar, ou provoquem uma decepção. .. isso tudo faz
parte da vida!).
E há tanto o que analisâr, o que discutir, o que fazer a
criança perceber, opinar criticamente. Em relaçao à his-
tória: se boa, se interessanre, se palpitante , se boba etc.
... E a idéia do autor? Nova, batida, já,.lida ourras vezes
em outros livros? Esse autor repere suas idéias, seus re-
mas, ou inventa novos, se atreve a caminhar por outros
assuntos, por outras questões???
E o ritmo? Muito longo, rapidinho demais da conta,
não dando tempo de saborear, de ir mais longe, de que -
rer saber mais e melhor sobre um assunto, conversa ou
qualquer outra coisa que ficou solta, sem maiores expli-
caçÕes??... Ou se arrastando, se esricando. se esticando
e dando voltas e mais voltas em torno do mesmo tema,
como se não achasse o momento de terminar?? E falan-
do nisso, como foi sentido/percebido/aplaudido/vaia-
do etc. o final da história?? Tinha a ver com tudo o que
Íónd. aconteceu, ou de repente acabou dum jeito confuso,
abrupto, perdido??? E o começo, foi gostoso, chamou a
atenção, deu vontade de continuar lendo, ou já deu pra
sacar que ia ser uma chatura só ? ? Ou come çou mal e , de
repente, pra surpresa rotal, foi esquentando, esquen-
tando e até que ficou muito do simpático e do bomZ?? E
tanta coisa mais, que foi percebida pelo leitor e que me-
rece ser discutida.'. .

E a história, é bem escrita? Claro, nem todas são...


(aliás, a maioria não é...). Como é que deu para senrir
que o autor escreve bem ou mal, ou até médio?? E isso
aconteceu o tempo todo ou houve momentos em que o
autor decepcionou, escorregou, deu uma grande manca-
da, pôs qualquer coisa no papel, do primeiro modo que
lhe passou pela cabeça?? E aqueles trechos bonitos, que
deram um arrepio gosroso, uma respiração mais forte ,

um sorrisão daque les, uma rrisreza boa de ser senrida.. .

onde é que surgiram? Na boca, no olhar ou no gesto de


quem? E tanta coisa mais, que foi percebida pelo leitor e
que merece ser discutida...
Ductt/tr,l: per!ondgenJ. > E há tanto, ranto para descobrir, para polemizar so-
bre as personage ns... As que tinham vida, que conven-
ciam, que agiam dum modo verdadeiro (não importa se

144

.@r@,ÇlllilFr.f;!'

\
gente, se bicho, se fada, se vampiro...) e aquelas que
reagiram de repente, sem mais nem por quê dum
modo que não tinha nada a ver com elas, como -vinham
atuando desde o comecinho da história... E aquelas que
foram esquecidas pelo autor (o que aconrece muiro...y,
que aparece m no começo e nunca mais... ou aquelas
que não tinham a menor importância pro desenroiar do
conto e que ficaram só enchendo as páginas, sem fun_
ção, se m razão, se m opinião . . . E tanta coisa mais que foi
perce bida pe lo leitor e que merece ser discutida...

o
OBJETO_IrVRO:
O QUE PERCEBER, O QUE DISCUTIR...

E o objeto-livro... há tanto o que perceber, o que co_


mentar, o que olhar, o que opinar a respeitol... A co_
meçar da capa (se bonita, feia, atraente, boba, sem nada
a ver com a narÍatiya ..), do título que , afinal, são o
primeiro. contaro que se tem com o- volume: o impacto
visual e a curiosidade despertada ou adormecida... E
por que não distutir a encadernação, do desprazer que
é ver um livro amado desfolhando, descolando, não
dando mais nem para virar págína?... E o jeito como o
volume foi paginado, olhando muito do bem olhado se
a ilustração corresponde ao que esrá escriro na página ao
lado, se esrá rudo muito compactado, muito àpertrdo,
sem espaço para respirar... ou, ao contrário, se ficou
muito pouca coisa escrita ou desenhada em cada folha,
sobrando partes em branco demais da conta, só para en-
grossar o livro??
E se as letras eram grandonas, gostosas de ler, ou pe-
quenas, apertadinhas, sendo necessário um binóculo pa_ lraJ
ra poder seguir aquelas letras tão mínimas?? E quanto
havia de-espaço na passagem dum capítulo paraà.r,ro,
mostrando que )â era ouüo momento, o.rt.á dir, ort."
situação ou o que fosse, e estava tudo apertado, estreito
e até difícil perceber que já era ourro cãpítulo?? Esrava
metade cuidado, metade não? ... A editoia estava fazen_
do economia? Ou estava sendo generosa, tratando com

145
\
i

capricho a edição?... E tanta coisa mais que é percebida


pe lo leitor e merece ser discurida...
Di.çcuttr o Jàrmato do /irro E também analisar, comentar o formato do livro:
quadrado, retangular, comprido, miudinho... e se era o
melhor para aquela história ou aquele tipo de dese-
nho... E, ao fechar o volume, se deter na quarta capa,
ver se ela uaz alguma informação (e se ela é importante ,

boa, chata, difícil... ), alguma chamada sobre a coleção


(e se parece anúncio ou se ajuda a perceber o todo da sé-
rie . .. ), se a ilustração é uma continuação do dese nho da
capa ou se não tem nada a ver... Aprender aler a orelha
(se tiver.. . ), enfim, a deglutir e a enxergar o livro como
um todo e o todo do livro.

146
ATIVIDADES QUE PODEM SER
DESENVOTVIDAS APÓS
AS DISCUSSÕES

E cada aluno poderá escrever sobre tudo isso ou so-


-
bre outros itens não citados que pareçam importantes
de modo pessoal, sem roteiros definidos e muito menos-
definitivos... Se cada livro chama a arenção por algo de
especial, por que não deixar a criança
- sozinha
cobrir essa especificidade que ela sentiu, - des-
percebeu... e
escolher sobre o que quer falar?

E também pode haver ocasiÕes em que se troquem


opinioes... E constatar que cada um pode ter amado ou
detestado o mesmo livro, por razÕes mui diferentes...
Ou, através dos olhos do colega, se deter em aspecos
que não havia notado, se dado conra. .. E talvez por
isso mudar de opiniao (em relação a uma parre, -a uma
-
personagem, pará,grafolcapítulo, ou até em relação ao
todo...). Mas, de qualquer modo, a classc ou o grupo

147
que estiver trocando apreciaçÕes perceber que não há
necessidade de haver unanimidade de opiniao... Mais
importante é aprender a respeitar os pontos de vista dos
jeitos de
outros
- diferentes dos seus - ou os diversos
ler, de perceber, de valorizar ou de não ligar...
E por que se precisa tanto, sempre , estar indicando
Re/er um /irro tanbém é unPor- um novo livro? Por que não propor, também, que se re -
ían Íe leia algo que algum dia tenha sido importante ? ... Reler
pode ser tão bom, tão forte, tão esclarecedor... Nao é
; apenas na novidade que está o novo, mas na nova forma
de nos aproximarmos de algo já conhecido e perceber
mudanças...
Enfim, simplesmente colocar a leitura do livro infan-
tilbrasileiro no currículo escolar não quer dizer nada.. .

Pode-se até estar formando pessoas com ojeriza perma-


nente pela leitura, tal a quantidade de livros ruins que
lhes pedem que leiam, aliada a nenhuma crítica que é
solicitada... Apenas fazendo-de-conta que se leu, como
se se assinasse um visto, uma rubrica de "feito" ... Dar
uma opiniao pode não significar nada, não exigir nada,
além dum comentário superficial, epidérmico, ou ser
um jeito de agradar e corresponder à expectativa do adulto
(que já tem uma opiniao formada sobre aquele livro ou
aquele autor...).
Me parece que a preocupação básica seria formar ler-
tores porosos, inquietos, críticos, perspicazes, capazes de
receber tudo o que uma boa história traz, ou que saibam
por que não usufruíram aquele conto.". Literatura é ar-
te , literatura ê prazer ... Qr. a escola e ncampe esse lado.
É apreciar
- e isso inclui criticar. ..
Se ler for mais uma lição de casa, a ge nte be m sabe no
que é que dá... Cobrança nunca for passaporte ou aval
pra vontade, descoberta ou pro crescimento de nin-
guém...

148
I

Freqúentando
e formando
bibliotecas
ATIVIDADE DE HOJE:
IR A UMA TIVRARIA

Para se montar uma biblioteca, qualquer que seia seu


tamanho, começa-se indo às livrarias, onde se forma
uma idéia do que existe , do que acabou de ser lançado,
do que está circulando há tempo. (Um livro pode ter
reedições sucessivas pelo fato de ser bom/interessante/
bem e scrito I auaente lbadalado / bem promovido / clás-
sico ou por muitas outras razÕes.)
E ir a livrarias com as crianças-alunas, como se fosse
um passeio (como se vai ao zoológico, ao parque ou â
outra atração da cidade), é possibilitar a descoberta de
maravilhas insuspeitas...
Há várias livrarias especializadas em literatura infan-
to-juve nil espalhadas por todo o país... Sem falar na
grande quantidade daquelas que possuem um departa-
mento específico para crianças, ocupando às vezes todo
um segundo andar, com estantes feitas na escala da
criança, para que ela possa manusear à vontade, sem
precisar da intermediação adulta... Onde há mesas em
que ela pode folhear os apetitosos ou desinteressantes
volumes, ou sentar no chão, virar páginas coloridas ou
em preto e branco e fazer sua escolha, independente,
daquilo que lhe agrada,lhe atrai, lhe desperta a curiosi-
dade naquele momento.. .

Há ainda livrarias do tipo mais comum, onde apenas


um dos balcões, em geral o último, o que fica lá no fun-
do, é que tem livros para crianças. Muitas vezes amon-
toados em pilhas, onde tudo coabita, com os volumes
muitas ,.r.i .-po.irados, meio que maltratados... É pre-
ciso paciência para fuçar, separar, olhar onde a luz não
atrapalhe e se possa fazer uma escolha... Em geral, essas
livrarias tratam os livros adultos com igual falta de cari-
nho... E sempre se pode levar um papo com a criança
sobre conservação, cuidados e atenções...
Importante , mesmo que seja uma papelaria ou um
bazar de interior onde também se vendam livros, é as
crianças irem até lá, vasculhar, procurar, mexer, conhe-
cer o que existe , ter sua curiosidade satisfeita, a vontade
de ler aquele livro, de ficar mais tempo relendo aquele
poema, de olhar bem olhado uma ou outra ilustração,

150
ou de fechar rapidamenre a capa dum que pareceu desa-
gradâvel ou boboca, ou dar uma olhadela em alguns pa-
rágrafos e verificar que não despertam mesmo nenhuÀa
vontade de conhecer o livro por inteiro (às vezes, se equi-
vocam com a primeira impressão... o que não deixa de
ser um critério de escolha).
Ainda querendo ampliar os referenciais literários, al-
go muito saboroso é dar uma caminhada com toda a
classe até um sebo, e lá, ficar por um tempo enorme,
vendo pilhas e pilhas de livros antigos, usados... Desco-
brir, no meio duma estante, um livro raro, com capa du-
ra e desenhos daqueles bem antigos, feitos com caneta
de pena... Ou enconrrar de repente justo a única
história que desconhecia -daquele autor, - exatamenre o
preferido de todos... Ou avistar aquele livro de que a
mãe vive falando
quena
- o mais lindo que ela leu quando pe -
e que nunca pensou poder tocar, ver em mãos,
-
ao vivo, de novo... E sentir aquele cheiro especial de li-
vro velho, que tem toda uma maÍca de tempo passado,
todo um aroma de casa de avó, algo de muito peculiar...
Tantos e tantos tesouros encontrados, tantas e tantas re-
velaçÕes que acontecem num sebo, que podem ser com-

151
partilhados com um amigo, suspiros trocados com ou-
tros, risadinhas por causa do ieito como se escrevia anti-
gamente , audácias que nunca se imaginou ver, letras gó-
ticas e outras formas de embele zar uma página. . .

Ir em livrarias é ser informado, também, de dias espe -


ciais em que um determinado autor vai lá estar, autogra-
fando seu último trabalho publicado. E daí que se pode
ir nesse dia e conseguir a dedicatória especial e a assina-
tura cobiçada.. .

Sem falar que se pode pedir um livro como presente


de anive rsário ou duma ocasião especial. Talvez arriscar
e recebe r uma surpresa desconhecida... Talvez, já te ndo
idéia do que tem sido editado, pedir especialmente tal
história, de tal autor... Ou aprender a guardar o dinhe i-
ro da mesada como tanta gente já fez e faz para
comprar ao
- invés de sorvete um conto
-
que está
- -
sendo comentado, um livro elogiado. Além de tudo, li-
vro é até mais barato que uma passadinha na lanchone te
da moda, e garante diversão por mais tempo... Àfinal,
ler é um lazer que pode ser saboreado a qualquer hora e
que até dispe nsa companhia... É um dos poucos brin-
quedos com que se pode brincar sozinho (ou junto com
as personagens...).

A BIBTIOTECA PARTICUTAR

Levar as crianças a livrarias é estimulá-las a formar uma


biblioteca particular, própria. O nome parece imponen-
te , mas não se está propondo a organização dum espaço
com mil volumes... Âpe nas um canto onde cada criança
guarde seus livros: pode ser numa parte mais baixa da
estante de livros da casa, onde possa mexer sempre que
tiver vontade , num caixote desses de supe rme rcado, ou
até numa prateleira do guarda-roupa... Mas que a esse
local só ela e aqueles a quem convidar tenham acesso.
O lugar e a extensão não têm importância. Importan-
te é que a criança escolha os livros que quer ter e guar-
dar. E que os coloque na seqüência que inventar, que
achar me lhor pro seu jeito de encontrâr: separar por au-

152

"-qffimt!ilmüxri!
rq
tor, por assunro, por gênero ou por tamanho... E, no
momento que der vontade de re ler ou de emprestar pra
alguém, que saiba onde e por que está lá... assim como
saiba modificar essa organização quando river novos vo-
lumes que exijam outra forma de distribuiçao.

Couo É rupoRtaxrr, TAMBÉM, nERCEBER A HoR{, o Mo-


MENTO EM QUE SE ENCHEU DAQUELE LrVRO: porque era muito
infantil, porque, quando foi reler, percebeu que era
chato, porque encontrou um outro muito melhor do
mesmo escritor ou alguém que escreve muiro melhor
sobre aquele assunto... Por essa ou aquela razáo, no
nlomento que um iivro não satisfaz mais (como acontece
com roupa, disco ou brinquedo), é hora de passar adian-
te para outro: irmão, amigo ou vizinho... Ou dar de
prese nte . Ou trocar com alguém que esteja querendo es-
te Irr,ro c quc tenha um outro, que iustamente nos des-
perta muita curiosidadc... Âfinal, um livro não precisa
acompanhar uma pessoa pela vida toda (como prarica-
mente tudo, afinal ...). Importante é perceber o mo-
mento de saturação, ou a hora em que aquela história
saiu de nossa vida, e tentar encontrar outra para substi-
tuí-la na estante ... Ou conviver um tempo com um es-
paço vazio até descobrir com o que queremos ocupá-lo.

153
Claro que na biblioteca particular de cada um pode
haver livros de poesia, revisras em quadrinhos, histórias
de aventuras, seleção de contos de fadas, narrativas de
terror, livros curtinhos ou enormes, conforme a prefe-
rência e os critérios do dono... Sem nenhum preconceito
quanto ao gênero... Mas exigente quanro à qualidade !

ATIVIDADE DA SEMANA:
ORGANIZAR A BIBTIOTECA ESCOTAR

Além da biblioteca particular, existe ou deveria


existir -
a biblioteca escolar: da classe e m especial ou do
-
colégio como um todo. Há escolas pelo país com essa
preocupação que as mantém muitíssimo fartas e atuali-
zadas (e isso não é exatamente um fenômeno novo...
onde estudei, em criança, há décadas atrás, as bibliote-
cas tinham de tudo!!!). A maioria, no enranto, não dis-
pÕe de nada vagamente próximo...
NÃo É TÃo coMprrcÂDo ASSrM oRGÀNzÂR À BTBLToTECA
DA ESCoLÂ. É preciso esrar convencido de sua importân-
cia, de sua necessidade , para empenhar e mobilizar os
alunos na sua concrerização... Como? O passo inicial é
conseguir livros. Interessar a classe, de maneira que cada
aluno traga um volume , do que quiser ou puder... Ou
irem passando pelo bairro, pela comunidade e recolhen-
do o que
Há nzaito as esco/as tên direito
- em casa - não se quer mais,
pros dos/madrinhas/vizinhos/irmãos
ou pedindo
mais velhos, que
a doações, nzas e/as não são infor- estão mesmo querendo se desfazer de alguns (sempre há
nzadar a respeito .., Vale a pena
um período de arrumação na casa, onde se pretende dar
procurar as delegacias de ensino
e as secretaias de educação oa
fim a algumas ou muitas coisas...). Localizar as entida-
cu/tura, des públicas que fazem doaçÕes de livros e solicitá-los.
Quando se fala em monrar uma biblioteca, não está
se pensando em recolher apenas livros, muito menos em
excelentes condiçÕes e de impressionante edição... Fa-
zem parte da estante revistas semanais de informação
(tão importanres para consultas e pesquisas), gibis, enci-
clopédias, fascículos e livros de consulta especializados
neste ou naquele tema, folheros e almanaques (delicio-
sos!l), dicionários (fundamentais para enconrrar o signi-

154
I

ficado das palavras desconhecidas e redrar as dúvidas so-


bre a grafra correra...), atlas...
E, claro, a Bíblia, livros sobre mitos indígenas e afri_
canos, sobre as lendas todas e sobre tantas outras formas
de explicar o surgimento e o início do mundo e das coi-
sas, de abordar as diferenças de ótica e de ética no com_
portamento das pessoas ... paÍa a criança ver quantos en_
foques existem e poder escolher o
mais convincente.
-âi, apropriado, o
E também publicaçÕes ilustradas, livros de arte livros
,
que conrenham imagens de animais ou plantas, histó-
rias em quadrinhos, álbuns, revistas de geografia etc.
e tc., que fornecem à criança um panorama
do imaginá-
rio ou da realidade visual e ampliam seus horizo-ntes,
abrangendo outras culturas e outras formas de represen-
tação ou de valorização dum mesmo acontecimánto ou
fato.
BrM, RrcoulDo o MÂTERIAI oIspoNÍwr, TRÂTA-SE DE oR_ Há esco/as conz uerba para tanta
cANtzÁ-[o. ,.Fazer um trabalho com a classe toda ou cotsa... por que não para a aqui-
ele -
ger uma comissão responsável (por critérios determina_ sição de liaros???
dos pelas próprias crianças)... S.pr.", tudo o que se
conseguiu, dividir por assunros: livros e material dã con_
sulta dum lado; Iivros com histórias, poesias, ficção, de
outro... Aí, subdividir conforme a idade e as necessida-
des dos alunos por temas, por autores, por gênero lite _

rário etc.

155

rç{
\

Ah, saber separar também o joio do trigo... O que es-


tá em muito más condiçÕes, se der para conserrar com
cola e durex e valer a pena, tudo bem... Restaura-se .

Mas se não valer a pena e esriver em péssimo estado,


É importanrémmct saber jogar o também aprender a logar fora, saber o que deve ir pro li-
/xo nct lixo ern rez de gudrdi-/o xo... Se se puder trabalhar com a professora de Educa-
ou deixã-/o por aí,..
ção Artística ou outra que saiba rudimentos de encader-
nação, por que não aproveitar? Encapar, ou encontrar
outra forma de conservar um volume que será manusea-
do por muita genre , durante todo um ano le.tivo...
Depois de separar, triar, limpar e espanar os livros, e
providenciar todos os carinhos necessários, é preciso en-
contrar um local para acomodá-los (uma estante de tá-
buas separadas por tijolos... caixotes de made ira ou pa-
pelao, dispostos na veruical ou na horizontal, conforme a
altura do volume ... ou aproveitando qualque r outro
móvel adequado, existente na escoia...).
Se for uma biblioteca só da classe e que só será usada
pelos alunos em sala, não precisa muito mais.. . Se se for
emprestar os livros paÍa serem lidos em casa, ter fichas
para controlar entradas e saídas ou um caderno onde se
anote quem e quando levou, adata de devolução, quem
está na fila aguardando ... Pode -se até fazer um clube do
livro, com cameirinha e distintivo... Imprescindível
é battzar a biblioteca, com nome escolhido por toda a
classe I

ATIVIDADE DO UÊS:
FORMAR UMA BOA GIBOTECA

Numa parte da estante, num caixote especial. num


canto, onde se possam enconrrar histórias em quadri-
nhos de todo tipo e quaiidade... Das atuais, que se \re n-
dem na banca da esquina, e das antigas, aquelas maravi-
lhosas, todrnhas desenhadas em preto e branco pelos
maiores dese nhistas do mundo. . . Aquelas impressas co-
mo revisras e as que foram editadas com capa dura, pa-
pel encorpado, tendo a forma dum livro, como o Aste
ix, o Trn Tin... Ou o Príncipe Valente, o Flasb Gor

156
don, e alguns ourros que aré jâsairam em edições de ar-
te, de luxo pela qualidade dos seus desenhos!
Há ainda aquelas que , reproduzindo as tiras origi-
nais publicadas em jornais, foram editadas em forma
de livro, reunindo várias histórias ou todo um perío-
do de publicação, com capa do tipo brochura... T.-
séries do preguiçoso e comilão gato Garfield, do caipira
ingênuo Ferdinando e sua Família Buscapé, do pré-his-
tórico e diretíssimo Brucutu, e um montão de outras
mais...
E, também, procurando bem procurado em sebos, lo_
jas de quinquilharias, bazares de rroca, com genre
que
vende revistas antigas na rua, se podem achai ainda as
edições
- não
ye, às voltas
rão anrigas assim... do incrível pope_
com seu espinafie para-enfrentar o terrível
Brutus, e sua impagável namorada Olívia palito... Ou
as aventuras emocionantes do Fantasma na selva africa_
na, sempre ajudado por seus amigos pigmeus e sua erer-
na noiva Diana... Ou as soluçÕes fantásticas do elegan-
tíssimo mágico Mandrake , seu fiel companheiro LotÀar e
sua noiva, a princesa Narda. .. Ou as dúvidas e culpas do
Capitao Âmérica, o sentimento de rejeição do Hàmem
Âranha, o grito transformador do Capitão Marvel ao in_
vocar Shazam...

157
Ou os quadrinhos nacionais com as peripécias da tur_
ma da Mônica, feitos pelo Maurício de Souza, ou aque-
les um pouquinho mais antigos, como o Saci pererê, do
Ziraldo, os Fradinhos do Henfil, e ranros ourros...
Afinal, as histórias em quadrinhos envolvem toda
uma concepção de desenho, de humor, de ritmo acele_
rado, de intervenção rápída das personagens nas situa_
çÕes com.as quais se defrontam... Contêm algo de con-
clso, vertrgrnoso, quase cinematográfico... E, como em
qualquer outro tipo de história, há as ótimas, as medío-
cres, as muito bem feitas, as de carregação, as extrema-
mente inventivas, as que se repetem... Como em qual-
quer outra forma literária, se escolhem, se procuram as
que dizem mais, desistindo das que satisfazem menos e
suscitam menos emoção, menos envolvimento. menos
inesperados...
Elas fazem parte integrante da culrura deste século e é
tolo e preconceituoso esnobá-las, ridicularizá-las ou não
levá-las a sério...

A BIBIIOTECA ESTÁ PRONTA!


AGUARDEM...

Bem, biblioteca pronta sugere um montão de coisas a


serem feitas... Montar uma exposição com os livros lidos
e. recomendados por cada aluno, ou com as capas mais
simpáticas e atraenres, ou uma lista dos livros mais reti_
rados ou procurados durante a semana ou quinzena...
Montagem dum painel com críticas escriras pilos alunos
sobre tai livro, tal auror ou tal tema...
E ler baixinho, sentado, ou confortavelmente instala_
do num canto da classe ou do pátio, ler em pequenos
grupos, ilustrar uma história, escrever novai a-partir
dum título provocativo ou duma personagem inieres_
sante ou duma situação mal resolvida... Debater sobre
autores, fazer mesas-redondas para discutir temas lidos,
e tantas ourras atividades que
- só pelo
uma biblioteca provoca e mobiliza.
fato de existir
- ..

158
1r*

Sobretudo, a biblioteca trabalha com a qualidade dos Em outras página: deste liuro,
livros... E o fato de incluir obras diversas (boas, médias, ltá um nzontão de indicaçaes de
péssimas) permite que se desenvolva a fundo o senso crí- autorer fantásticot, de atsuntos
tico do aluno... que se façam leituras comentadas, per- interessantes, de boa escrelinha-

cebendo o que é de má qualidade literária, o que é mal çao... É só confenr.


escrito, o que é bobo, o que não soube levar adiante sua
proposta. Pois há inúmeros livros publicados para crian-
ças anualmente no Brasil que não têm nada para contar
ou üansmitir: uma lástima literária, um equívoco total,
um desperdício de toneladas de papel e um profundo
desgosto para o leitor associar tantas banalidades com a
idéia de literatura. . . Mas há alguns incríveis e nos quais
vale a pena mergulhar e viver momenros deleitosos.
Se a biblioteca for para uso de toda a escola, terá se-
çôes ou divisÕes, conforme a série escolar do aluno, ou
agrupando as mais próximas. Se se estiver pensando nu-
ma pequena biblioteca por classe
-escola - e se esta for de pré-
os passos serão parecidos... Apenas os livros, pré -esco/a
-
claro, terão um texto menor, para que a criança possa se
concentrar mais nos desenhos ou independer dos adul-
tos para a leitura... Q.re folheie, que reinvenre o que a
professora já contou, que selecione aquela que quer ou-
vir de novo e de novo e de novo... Que se divirta, ten-
tando reconstruir a narrativa conforme sua lembrança
guardou...
Se a biblioteca for da escola toda, a melhor providên- a bib/ioteca para uso da esco/a
cia é contratar um bibliotecário que saiba organizar o toda.
material de modo correto e segundo as normas, reno-

159
var e atualizar sempre o que existe nas estantes, con-
sertar os estfagos e danos, que aiude a cria:nça a pro-
curar um capíulo específico ou um tipo de história
que ela quer ler, mas da qual tem apenas uma noção
yag , Írão sabendo dar maiores indicações ou infor-
mações...
Em todo caso, bibliotecário ou professor, seria bom
estar atento também a isto: certa vez, fazendo um le-
vantamento com crianças sobre literatura infantil, me
Pctr que é irnportanle saber rt no
me do aulor? me dos autores, mesmo daqueles que haviam escrito a
história que mais amavam... E quanto é importante
dizer o nome do autor, mesmo quando a criança ainda é
pequenina, não sabe ler, e só escuta a nàÍÍativa... Tor-
nar constante a apresentação do nome verdadeiro e com-
pleto da história e do escritor, pois compreender o que
é uma obra e o que significa autoria só pode acres-
centar... Mesmo se o que estiver escutando ou lendo
for material de cultura popular, for de autor desco-
nhecido, que se diga e se informe também quem compi-
lou, quem recolheu e de onde provém aquela lenda,
aquele conto popular, aquele causo... E também, quân-
do a criança for maior, ensinar a buscar as referências
completas do que procura e do que acha (inclusive o no-
me da editora, da coleção ou da série), para poder seguir
a trilha, acompanhar o autor ou ilustrador, conferir o
gênero...
Faz parte da formação saber quem nos disse coisas bo-
nitas, encantadas, sábias ou chatas, para que a referência
fique e o caminho esteja aberto e continuemos mergu-
lhando nos textos de quem admiramos, dando uma co-
lher de chá a quem nos envolveu num primeiro contato,
ou para desistir (ou adiar prum outro momento da vida)
da proximidade com um escrevinhador que nos desagra-
dou ou decepcionou ou com um tipo de história que não
nos tocou... E procurar alimentar a biblioteca a partir
dessas constataçÕes...

E quando um livro é bem lido, bem sentido, bem vi-


vido.. . ai atê se pode dispensar essa nova mania de ficar
querendo ÍÍazer o escritor e o ilustrador Para' a escola...
Para quê??? Não é preciso conhecer a pessoa para se ter
um ime nso pÍ^zeÍ (ou chate ação ou aborrecimento) com
aquilo que criou. Se assim fosse, como fazer com tantos

160
escrltores que já morreram, que escreveram obras_pri-
mas e m ourros séculos? Z Qual a necessidade de ve r o au_
tor em carne e osso? (Âliás, a maioria dos livros traz im-
pressafoto e biografia do autor. ) Se se quiser um conra-
to, pode -se mandar uma carra aos cuidaáos da editora (o
endereço vem escrito obrigatoriamenre na segunda pági_
na do livro) e dar opinioes, fazer elogios ou conrar de
decepções... Nem sempre um bom escrevinhador é um
bom contador de histórias... e pode perder o rempo que
usaria para produzir novas e belas obras indo de iolegio
em colégio conversar com centenas de crianças (ele naã é
animador de auditório. . .), que muitas vezes não ape nas
não leram nada do que escreveu (um vexame só) como
não têm nada de verdadeiro, de espontâneo e de genuí-
no para lhe perguntar.. . (Raramente parre da classe a
idéia de convidar o auror; em geral, é idéia dos
adultos.. . )
O que se lê é o livro/a revista/o gibi/o poema, en-
fim, o que está impresso. Não se lê um escritor ao vi-
vo... E saber onde mora, quantos filhos rem, se gosra
de macarronada ou de coalhada, não ajuda .., nàa ,
compreender melhor os mistérios ou o deboche de suas
histórias.

A BIBLIOTECA PÚNUCE

Fora a biblioteca escolar, exisrem também as bibliote_


cas públicas. Na cidade de Sao paulo, há 35 bibliotecas
infantis, aparelhadas com móveis apropriados ao públi-
co infantil e com um acervo enorme de livros antigos,
novos, novíssimos... E com salas para fazer consultas,
para brincar, p^ra ver exposiçÕes... Se a criança quiser.
elas,também dão um tempo razoâvel para o volume ser
lido em casa...
No Estado de Sao Paulo há 4i0 bibliotecas públicas,
embora ninguém saiba informar
- em
delas são infantis ou têm um .setor
lggT
- quantas
para crianças, pois
não há uma classificação por incrível que pareça _
que esclareça esse ponto...-Mas, mesmo q.r. ,, bibúot._

161
Vi:ita à Biblioteca Infanri/ Mon. cas públicas de todo o país não disponham dum depar-
teiro Lobato, São Pdu/o, num
dta de Carnaua/.
tamento especializado em literatura infantil, pelo me-
nos possuem um material de consulta que pode ser me -
xido, manipulado. .. E láL se fornece orie ntação de como
localizá-lo ou que outras fontes se poderiam checar para
abordar melhor e mais profundamente tal ou qual as-
sunto de pesquisa.
Como nosso livro é sobre literatura, portanto ficção,
não vamos enveredar pelos rumos da informação, da
não-ficção...
A ida à biblioteca está incluídâ nas opções de progra-
mação escolar e extracurricular da criança? E nas de la-
zer?? Tão pouco e tão raramente ... E uma biblioteca é
um centro de descobertas, de silêncio repousante, de

162
provocação para olhar, mexer e encontrar algo de sabo-
roso ou novidadeiro... de possibilidades de sentar numa
mesa e ficar por muito tempo virando páginas e páginas
de livros raros, não encontráveis em casa... Um lugar
onde se pode folhear qualquer espécie de livro publica-
do, brincar com dicionários e buscar palavras novas,
imagens em livros de arte ou em revistas ou jornais de
antigamente ... Enciclopédias que têm verbetes sobre
tudo, imensas, que pedem ranras vezes que se as leia de
pé, tal o ramanho delas. E, sobretudo, possibilidades de
encontrar toda espécie de livros que proporcionem en-
cantamento, ludicidade , prazer, de scobe rtas ... Há tan-
tos! I! É só escolher...
HÁ rar.lros,JElTos DE A cRIÂNçA LER, DE corJvIvER coM A
TITERATURA DE MoDo enóxHo, sEM ÂcH,{R qur É arco oo
OUTRO MUNDO, REMOTO, ENTADONHO OU CHATO... É uma
questão de aproximá-la dos livros de modo aberto se-
ja na livraria ou na biblioteca... Se a criança é a -única
culpada nos tribunais adultos por não ler, pede -se o ve-
redicto inocente... Mais culpados são os adultos que não
lhe proporcionam esse contato, que não lhe abrem essas

- e outras tanras trilhas para toda a maravilha que é


a caminhada pelo-mundo mágico e encanrado das le-
tras .. .

163
DICAS DE TIVROS INFANTIS

ANA MARIA MÂCHADO


. O menino Pedro e seu boi voador
o História meio ao contrário
o Do outro lado tem segredos
o De olho nas penas
o Bia, bisa, bel

ANDERSEN
o Contos

ÂNDRE CARVALHO
. Dourado
ÂNcnra rÂco
o Uni, duni, tê
o Outra vez
. Chiquita bacana e ourras pequetitas

ÂNcpla SoMMER.BoDENBURG
. A mudança do pequeno vampiro

ASTRID LINDSTREN
o Bibi Meia-Longa
o Novas avenruras de Bibi Meia-Longa
. Bibi nos mares do sul
AUDREY e DON §íOOD
oA casa sonolenta

BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÕS


. Onde tem bruxa tem fada
o Coração não toma sol
o Âh, mar!
. Raul Luar
o Pedro
-
. Mário
. Os ciganos

BUERGER
o Aventuras do Barão de Münchhasen

164
BUSCH
. Juca e Chico (série de 10 volumes)
CAIO FERNANDO ABREU
o As frangas

CARTOS MOR,AES
o A vingança do timão

CECÍLIA MEIRELES
r Ou isto ou aquilo
CIÇA FITTIPALDI
o João Lampiao
. Série Morená

CLARICE LISPECTOR
o A vida íntima de Laura

CLEMENTE FREUD
. Grimble, famíha e cia.

CHiCO BUÂRQUE DE HOLANDÂ


. Chapeuzinho Âmarelo

COLLODI
o Pinochio
CORA RÓNÁI
o Sapomorfose
. Cabeça feita pé quebrado
o Aprincesae aabóbora
DOMINGOS PELLEGRINI
. Â árvore que dava dinheiro
EDITH DERDYK
. O colecionador de palavras
EDY LIMA
o  vaca voadora
o Melhor que a encomenda
ELIÂNE GANEM
o O coração de Corali
. Metade de quase nada
o O outro lado do tabuleiro

165
ELIAS JOSÉ
r Um rei e seu cavalo de pau
ELVIRÂ VIGNA
o  breve história de Asdrúbal, o Terrível
. Viviam como gato e cachorro
. O triste fim de Asdrúbal
t ELZA BE,ATRIZ
. A menina dos olhos
EVÂ FURNÂRI
oOqueé,oqueé?
o A bruxinha encantadora
. Zuza e Ârquimedes
o Filó e Marieta
. Coleção Ping-Póing

FERENC MÓLNÂR
. Os meninos da rua Paulo
FERNANDA LOPES DE ÂLMEIDÂ
o A fada que tinha idéias
o O equilibrista
FERNANDO PESSOÂ
o Comboio, saudades e caracóis

FLAVIO DE SOUZA
o A mãe da menina e a menina da mãe
. Um menino e uma menina:
papel de carta, papel de embrulho
o Eu e mim mesmo
. Príncipes e princesas, sapos e lagartos

GERSON MURILO
.Eu fico é segurando o meu nariz

GRÂCILIÂNO RÂMOS
o A terra dos meninos pelados

GRIMM
. Contos
o Coleção Era uma Vez
o Branca de Neve e outros contos de Grimm
. Chapeuzinho Vermelho e outros contos de Grimm

166
HAROLDO BRUNO
o O misterioso rapto da flor do sereno

HAROLDO MARÂNHÃO
o Dicionarinho maluco

HELENÀ MARLEY
o Minha vida de menina

ITDEU BRÂNDÃO
o A ponte

JAMES BARRIE
o Peter Pan

JANDIRA MANSUR
o O jogo do contrário
. O frio pode ser quente?
o A conversa das palavras

JOSÉ LrNS DO REGO


. Histórias da velha Totonha
JOSÉ PAUTO PAES
o E isso ali
. Olha o bicho
JOÃO CARLOS MARTNHO
o O gênio do crime
. O caneco de prata
o Sangue fresco
. O livro de Berenice

JOÃO DAS NEVES


o A árvore cheia de estrelas

JOEL RUFTNO DOS SANTOS


. O curumim que virou gigante
. O caçador de lobisomens
. Marinho marinheiro e outras histórias
JORGE AMADO
o O gato malhado e a andorinha Sinhá

JUAREZ MACHADO
o Ida e volta

167
LÂ FONTAINE
. Fábulas

LENY §TERNECK
. O bandolim
LE§rIS CÂRROLL
. Alice no país das maravilhas
. Âlice do outro lado do espelho
LUIS GALDINO
o Çaraooaé

LYGIÂ BOJUNGÂ NUNES


o A bolsa amarela
. Â casa da madrinha
. Tchau
o O sofá estampado
o Na corda bamba
o O meu amigo pintor
MANUET BANDEIRA
. Berimbau e outros poemas
MÂRIA CLÂRA MÂCHADO
. Â viagem de Clarinha
MÂRIA MAZETTI
o Coisas de lata com cheiro de prata
MARINA COLASANTI
. Uma idéia toda azul
o Doze reis e a moça do labirinto de vento
. Um amigo para sempre
o  mão na massa
MARCELO XÂVIER
. O dia-a-dia de Dadá
MÁRIo PRATÂ
. Sexta-feira de noite
. A viagem de Memoh
MÂRIO QUINTÂNA
o Pé de Pilão
MARIO VALE
o O almoço

168

u,{
MARK T§trÂIN
. Aventuras de Tom Sawyer
o Aventuras de Huck

MARY E ELI,TRDO FRÂNÇA


. Coleção Gato e Rato
ru
§fl
MIRNÂ PINSKY
. Quebra-cabeças
. Tatu-Bola
. As muitas mães de Ariei
. Assombramentos

MONIQUE FELIX
o O ratinho que morava no livro
. A nova aventura do ratinho que morava no livro
MONTEIRO LOBATO
o Reinações de Narizinho
o Memórias da Emília
o O Picapau Amarelo
. A chave do tamanho
o Caçadas de Pedrinho
o O minotauro
. Reforma da natureza
NAUMIN ÂIZEN
o Era uma vez duas avós

Seleção de NEUSA CECÂRNE


o Padendas

PAULÁ. SALDÂNHA
. O praça Quinze

PEDRO BANDEIRA
o O fantástico mistério de Feiurinha

PERRAUTT
o Contos

RENATÂ PALOTTINI
. Café com leite

169
RICARDO ÂZEVEDO
. Chega de saudade
o A casa do meu avô
o Alguma coisa
. Âquilo
RICARDO DÂ CUNHÂ LIMA
. Em busca do tesouro de Magritte
ROBERTO CÂLDÂS
. A menina das borboletas

ROGÉRIO ANDRADE BARBOSA


. Bichos da Ãfrica (coleção)
RONÂLD CLAVER
. Os cadernos de Aninha
oA casa

RONALDO SIMÕES COELHO


. Macaquinho
. Dormir fora de casa
ROSEANA K. MURRAY
. No mundo da lua
o Falando de pássaros e gatos
. Um avô e seu neto
. Terremoto furacão
RUBEM BRÂGA
. Omeninoeotuim
RUTH ROCHA
. Marcelo, martelo, marmelo
. O rei que não sabia de nada
o O que os olhos não vêem
o O reizinho mandão
o Faca sem ponta, galinha sem pé
o Procurando firme
o Nicolau tinha uma idéia
SEMPÉ GOSCINNY
. -
O pequeno Nicolau
SERGIO CAPARELLI
o Boi da c^Ía pÍeta
SIDÔNIO MURÂLHA
o A TV da bicharada

170

.,.q;pg,*,,.
SILVERSTEIN
o árvore generosa

SYtVh ORTHOF
. Mudanças no galinheiro
r Garo pra cá,, gato pra lá
o Os bichos que tive
o Pomba Colomba
o A velhota cambalhota
. A mesa de botequim e seu amigo Joaquim
. O cavalo tfansparente
o Doce, doce... e quem comeu regalou-se!
. Uma velha e três chapéus
o Ponro de recer poesia
TACUS
oA criação das criaturas

TASCHLIN
. Era urso?
TÂTIANÂ BELINKY
. Limeliques
o Que horta!
VÁRIOS COMPILADORES
o Contos populares para crianças da ÂméricaLatina
. Contos, mitos e lendas para crianças da América
Latina

VINÍCIUS DE MORAES
c A arca de Noé
VIVINÂ DE ASSIS VIÂNA
o O dia de ver meu pai
. O jogo do pensamento
. O rei dos cacos
§íERNER ZOTZ
. Âpenas um curumim
o Mamãe é mulher do pai
ZIRÂLDO
o Flicts
o O menino maluquinho
. Coleção Corpim

171
BIBTIOGRAFIA

Sobre conceitos, funçÕes e gêneros


da literatura infantil

1. ABRAMOVICH, Fanny. O estranlto nzundo que se


nzostra às cianças. São Paulo, Summus, 1983.
2. CADEMARTOzu, úgia. O que é leitura infantil? Sao
Paulo, Brasiliense, 1986.
3. CUNHÂ, Maria Antonieta Antunes. Literatura In-
fanti/: teoia e prática. Paulo, Atica, 1983.
São
4. HELD,Jacqueline . O imaginário no poder. São Pau-
lo, Summus, 1980.
,. JESUALDO. A literatura infantil. São Paulo, Cul-
trix / EDUSP, 1980.
6. MEIRELES, Cecília. Problenzas da literatura infan-
til. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.
7. PERROTI, Edmir. O texto sedutor na literatura in-
fantil. São Paulo, Ícone , 1986.
8. Confinonzento cultura/: iffincia e /eitura.
São Paulo, Summus, 1990.
9. -.
SANDRONI, Laura & MACHADO, Luis Raul (org.).
A cionça e o liaro. São Paulo, Atica, L986.
10. SÂNDRONI, Laura. De Lobato à Bojunga. Rio <le
Janeiro, Agir, 1987.
11. ZITBERMAN, Regina. A literatura infantil na esco-
la. Sao Paulo, Global, 19gr.

Sobre história da literatura infantil

1. ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira:


ensaio de pre/inzinares para a sua ltistória e suas fon-
les. São Paulo, Melhoramentos, 1986.
2. CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato: uida e
obra. Sã.o Paulo, Nacional, 1916.
3. COELHO, Nelly Novaes. Diçionáno crítico da litera-
tura infantil e juuenil brasileira (1882-1982). Sã,o
Paulo, Quirón, 1983.

172
4. COELHO, Nelly Novaes. A liÍeratura infantil: hutó-
io - análtre. São Paulo, Quirón, 1981.
,. zuNDAÇÃO Nacional de Livros Infanto-juve nis. Bi-
bltografia analítica da literatura infantil e juueni/ pu-
blicada no Brosil: 196j 1974. São paulo, Melhàra-
mentos, 1977.
6. zuNDAÇÃO Nacional de Livros Infanto-juvenis. Bz-
b\ograÍia onalítica da literatura infantil e juaenil pu-
blicada no Brasi/; 197) 1978. São paulo, Mercàdo
Aberto, P.A. /F.N.L .LJ., tgs/+.
7. LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. Liíeratura
infanti/: bistoias e ltistõia. São paulo, Ãúca, t984.

Sobre linhas de interpretação da


literatura infantil

1. BETTELHEIM, Bruno. A psicanã/ise dos contos de


fadas. Rio de Janeiro, Paz e Terra, t97g.
2. ECO, Umberto & BONAZZI, Marisa. Mentiras qae
parecem aerdades. São Paulo, Summus, 19g0.
3. FRÂNZ, Marie Louise von. A indiuiduaçao nos con-
tos de fa,las. São Paulo, paulinas.
4. FROMM, Erich. A linguagern esquecida. Rio deJa-
neiro, Zahar, t969.
t. PROPP, Vladimir. Morfologia do conto. São paulo,
Forense, 1984.

Outros livros publicados pela autoÍa.

o Teatncina, com M. Mathias e C. Ekisian. Rio deJa-


neiro, SNT/zuNARTE
o O sadisnzo de nossa in/ârzcia antologia (organiza-
-
ção e participação). São Paulo, Summus.
o O estranlto ruundo que se ,rnostra às cianças. São
Paulo, Summus.

173
o O nzito da infância feliz antologia (organização e
participação). Sao Paulo, -Summus.
o Meu fillto me uê desse jeito. Sao paulo, Almed.
o Quenz educa quern? São Paulo, Summus; São paulo,
Círculo do Livro.
o Ritos de passagem de nossa iffincia e ado/escência
-
antologia (organização e participação). São paulo,
Summus.
o Deixa isso pra /ã e aanzos brincar.Infantil. São paulo,
Salesiana.
o EsPe/lto, espe/lto meu. São Paulo, Brasiliense.
o Quem nzanda em mim sou eu. São paulo, Atual.
. As ao/tas do meu coração. São Paulo, Âtual.
o O Professor não duuida! Duaida? São paulo, Summus.
o Que raio de professora sou eu? São paulo, Scipione.
. Tenz carta pra nzim? São Paulo, Scipione.

174
!

PENSAMENTO E AÇAO
NO MAGISTERIO
A série Pensamento e Ação no Magistério baseia-se
numa concepção global da Educação e propõe-se a abor-
dar de forma integrada a teoria e a prática educacionais.
Os três selos abaixo Fundamentos, Recursos Didáti-
-
cos e Mestres da Educação indicam a ênfase dada a ca-
da um desses aspectos. -

FUNDAIMENTOS Livros que focalizam a fundamenta-


ção teórica indispensável à formação pe -
dagógica dos professores de pré-escola,
19 grau e demais licenciaturas, sem es-
quecer, contudo, os componentes meto-
PARA O [/AGISIÉBIO
dológicos.

OS D/ Temas voltados p?ra a. elaboração dos


mais variados recursos auxiliares no pro-
cesso de ensino-aprendizagem. Cada li-
vro encerta a experiência concreta de
educadores muito atuantes, com fre-
o ulg qüência só divulgada pela tradição oral.

IVESTBES DA Obras que dão uma visão histórica e


filosófica da atuação de mestres que se
dedicaram ou contribuiram para a Edu-

rln
EDUCACÂO
cação. Imprescindíveis a todos os educa-
dores que , desejando transformar o fu-
turo, precisam compreender o passado e
o presente.
A série
Wsaaa*Newéa" o #çãe a* %lagr;aeeuo

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