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Copyright © 2016 Raiza Varella

Capa: Marina Avila

Revisão e Copidesque: Carla Santos

Diagramação Digital: Carla Santos

Esta obra segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte dessa obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma, meio eletrônico ou
mecânico sem a permissão do autor e/ou editor.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Para meu marido, meu monstro particular; e para você, Lucca, a razão pela qual eu faço tudo,
meu pequeno monstrinho.
“Sentimentos são fáceis de mudar
Mesmo entre quem não vê que alguém pode ser seu par”
(Sentimentos, A Bela e a Fera)
A história que eu vou lhes contar hoje já foi contada muitas vezes, de milhares de formas
diferentes, mas nunca com a minha versão: Uma plebeia com o coração de uma verdadeira princesa e
uma Fera com um príncipe aprisionado dentro de um coração negro. Ela se negando a entregar sua
confiança a quem quer que fosse e ele fugindo de qualquer sentimento que o domasse pelo tempo que
conseguisse. Ambos precisando do que tanto temiam para encontrarem o verdadeiro amor.
Ela precisava de alguém que a protegesse e ele de alguém que o ensinasse a amar.
A rosa no jardim não mentia e lhes lembrava disso todos os dias, o tempo estava passando e a
cada novo dia ela entregava mais uma parte de si ao medo e ele se parecia mais com um monstro do
que com o príncipe que na verdade era.
O relógio fazia Tique-taque, tique-taque.
Aqui você não vai encontrar um bule, nem uma xícara, muito menos uma vela falante. Mas vai
encontrar uma família esquisita, mas muito unida e alguns cavalos encantados. Alguns chamam essa
história de A Bela e a Fera, mas eu chamo de A garota sem nome e o garoto que tinha asas.
Aproveite!
Se você ainda não me conhece, muito prazer, eu sou Bárbara Vitorazzi, ou Babi para os íntimos
(não, não para você que não leu a minha história, querido, para você é somente Bárbara mesmo, não
gosto de ousadias com estranhos), algum tempo atrás decidi que vocês precisavam saber exatamente
tudo que eu passei, já que tive a felicidade de viver um conto de fadas na vida real (depois de comer
o pão que o diabo amassou com o rabo no café da manhã, por meses, mas isso não vem ao caso
agora). Como aquela era a MINHA história, não vi necessidade de contar a vocês o que se passava
mais a fundo na vida dos meus irmãos na época, afinal quem em sã consciência gostaria de saber
mais sobre aqueles manés? Então, eu apenas “editei” o meu final sem muitos detalhes extras.
O problema é que, assim como eu sempre desejei reencontrar o meu garoto dos olhos azuis, eu
conheci uma garota que desejava reencontrar certo garoto que tinha asas e essa sim é uma história
que merece ser contada. Essa é uma história sobre medo, sofrimento e certo babaca que teve que
engolir todos os seus preconceitos por um sentimento tão bonito e tão desconhecido para ele, é uma
história sobre amor.
Então vamos lá, ela começa exatamente alguns meses antes do meu último ponto-final, antes da
noite chuvosa em que eu e a Malibu trouxemos ao mundo dois pestinhas barulhentos e incrivelmente
fofos. Naquela época, eu ainda pesava o mesmo que qualquer hipopótamo bem tratado.
Ah, claro! Eu já estava me esquecendo de um pequeno detalhe: Augusto não é a pessoa mais
maravilhosa do mundo (essa sou eu), ele não chega nem perto disso, então, por favor, perdoem o
monstro do meu irmão, eu sei que é difícil porque, às vezes, nem eu gosto dele. Ele pode ser um
babaca quando quer, mas vai valer a pena, você vai ver.

Conheçam a garota sem nome, essa é a história dela.


Distrações geram falhas e falhas geram culpa

“Eu sou feita de tão pouca coisa e meu equilíbrio é tão frágil que eu preciso de um excesso de
segurança para me sentir mais ou menos segura.”
(Clarice Lispector)

A garota sem nome

Eu tenho muitas regras e me obrigo a seguir cada uma delas diariamente. Talvez um psicólogo
me diagnosticasse com Transtorno Obsessivo Compulsivo, ou TOC em um linguajar popular, mas
minha obsessão vai muito além de um rótulo qualquer, ela é uma questão de sobrevivência, ela é
necessária, ou é nisso em que eu tento acreditar. Embora, na maior parte dos dias, eu me ache tão sã
quanto qualquer residente de um hospício, não foram nem uma, nem duas vezes que pensei em
arrancar as roupas no meio da rua, dançar pelada uma música do Elvis e falar para todos a minha
volta que eu vejo gente morta (que nem o garotinho do filme O Sexto Sentido), o tempo todo. Tenho
certeza de que seria meu passe livre para uma vida regada a camas quentinhas, correntes nos pulsos e
calmantes grátis, eu seria muito feliz tendo calmantes grátis, não tenha dúvidas.
Infelizmente, não posso pensar só em mim e isso é uma droga e não, eu não vejo gente morta de
verdade, embora eu tenha lá os meus fantasmas. Por mim eu já teria jogado tudo para o alto faz
tempo, mas fiz uma promessa e sempre cumpro as minhas promessas. Fora isso, eu me apaixonei,
acho que foi esse pequeno detalhe que estragou tudo! O amor faz isso com as pessoas, faz com que
elas ajam de uma maneira que não agiriam normalmente, faz elas desafiarem o impossível; é o que
faço todos os dias: desafio o impossível, isso é ficar cada vez mais maluca.
Como eu disse, tenho regras e você precisa saber de cada uma delas se quiser me conhecer
melhor:
Primeira regra, nunca, em hipótese nenhuma, confiar em alguém. Sem exceções.
Segunda regra, nunca deixar o tanque de combustível do carro na reserva. A lei de Murphy me
ama, então é melhor prevenir.
Terceira regra, nunca entrar em casa sem fazer a verificação do perímetro primeiro.
Quarta regra, nunca apagar as luzes quando sair de casa, luzes apagadas indicam ausência de
moradores, são convites. A mesma coisa com as cortinas, nunca fechá-las. Se eu tivesse achado uma
caverna pelo mesmo preço que meu senhorio cobra de aluguel eu, com certeza, teria ficado com a
caverna (muito mais bem arejada).
Quinta regra, nunca sair sem ter dinheiro na carteira, no meu caso uma maleta cheia no porta-
luvas do carro. Só por precaução. Nunca se sabe quando será necessário subornar alguém.
Sexta regra, ser invisível. Isso inclui nunca fazer amizade. Se as pessoas não sabem quem você
é provavelmente não vão se lembrar de você caso questionadas.
Sétima regra, nunca chamar a atenção, seja com roupas ou ideias, invisível, lembra? Então, nada
de tops e opinião própria.
Oitava regra, nunca confiar. Essa é tão importante que sempre me lembro dela uma segunda vez.
Afinal, nunca se sabe quando eu vou topar com o próximo maluco que vai tentar cruzar minha vida.
Desenvolvi essas técnicas, ou neuras psicóticas se você preferir, há alguns anos e elas vêm se
mostrando muito úteis, eu acreditava que se seguisse todas elas rigidamente ficaria segura.
Eu estava errada!
Chego ao apartamento alugado no bairro de classe baixa, que eu chamo carinhosamente de
espelunca pelas costas do meu senhorio, pouco depois das sete horas da noite, estaciono o carro no
posto de gasolina abandonado do outro lado da rua e desligo os faróis começando minha rotina de
verificação antes mesmo de desligar o motor.
Tenho que estar preparada, sempre tenho que estar preparada.
Não tiro o cinto de segurança, não viro a chave na ignição, não movo meus pés dos pedais,
apenas me inclino para frente e olho ao redor com as duas mãos agarradas ao volante de maneira
apreensiva, como fico dia após dia. Tenho esse hábito desde que comecei a fugir dele, nunca me
passou pela cabeça que eu fosse mais rápida, mas eu sempre soube que era mais inteligente e isso era
algo que ele não podia tirar de mim.
Não havia restado quase nada para ser tirado de qualquer modo, a não ser a minha vida e isso
era algo que eu não estava disposta a permitir que ele fizesse.
Olho para a rua cuidadosamente de um lado ao outro, analisando cada detalhe dela; está limpa,
tirando um jornal que voa pelo meio fio e os dois bêbados que moram no beco da esquina, não tem
ninguém transitando por ela. O comércio já fechou há pouco mais de meia hora e a noite caiu sem que
eu me desse conta no trajeto de apenas vinte minutos que levei da creche até o esconderijo, a porta
de entrada do prédio de três andares está fechada e quase todos os apartamentos estão com as luzes
apagadas, menos o meu. Luzes apagadas indicam que não há ninguém em casa, então nunca as apago,
lembra?
Tudo parece normal ou é nisso que tento acreditar até que meus olhos encontram e se fixam na
janela do meu apartamento com um pouco mais de atenção, as cortinas estão parcialmente fechadas.
Não deixei as malditas cortinas fechadas.
Merda! Tem alguém no meu apartamento.
Já passei há alguns anos do estágio de inventar desculpas para tudo de ruim que acontece na
minha vida, então não perco tempo me iludindo que pode ser apenas um vizinho, ou o senhorio (que
também é um dos meus vizinhos) se utilizando da chave reserva por algum motivo que faça todo
sentido, também não vejo necessidade de imaginar nem por um segundo que eu possa ter me distraído
e fechado as cortinas antes de sair.
Eu não me distraio.
Eu nunca me distraio.
O primeiro pensamento que me vem à cabeça é: Ele me achou, eu posso sentir em cada célula
do meu corpo. Eu deveria saber que isso aconteceria. Acordei hoje com uma sensação esquisita e
inquietante que corria por baixo da minha pele como pequenos animais peçonhentos se arrastando,
me fazendo ter calafrios de hora em hora. Eu não deveria ter saído de casa, mas a paranoia que
desenvolvi ao longo dos anos estava ganhando uma proporção enorme diante de tudo que eu tenho
que fazer para sobreviver como qualquer pessoa normal, como tomar banho, comer e trabalhar para
conseguir pagar as contas, uma proporção grande o suficiente para me fazer questionar minha
sanidade mental com seriedade.
Então me obriguei a levantar da cama e entrar no banheiro, precisei de todo meu autocontrole
para ter coragem de puxar a cortina e ligar o chuveiro, levei uma mão ao peito e com a outra puxei a
beirada do plástico vagabundo com cuidado imaginando a todo o momento que ele sairia de trás dela
e pularia no meu pescoço com as duas mãos. Depois de ter tomado banho e estar trocada para sair
para o trabalho foi outra luta interna para conseguir colocar os dois pés para o lado de fora do
apartamento. Só me senti segura o bastante para abandonar meu esconderijo depois que fiz as malas.
Isso já havia virado rotina: ter um surto, arrumar as malas, deixá-las prontas em caso de uma
emergência. Pelo menos, uma vez por semana, todos os meus pertences eram trancafiados dentro da
mala xadrez roubada e permaneciam lá até que eu me sentisse segura o bastante para devolvê-los aos
seus devidos lugares.
Hoje não seria esse dia.
Estreito os olhos e tento observar com a ajuda da parca claridade do poste de iluminação
qualquer movimento de sombras dentro do apartamento através do pano leve das cortinas
vagabundas. Não vejo nada. Respiro fundo e bato com os punhos cerrados do volante repetidas
vezes, frustrada, tentando pensar no que fazer a seguir. A resposta óbvia seria engatar a marcha e
correr para o mais longe possível desse endereço, mas eu hesito por um segundo, apenas um.
Naquele momento eu ainda não sabia, mas aquele único segundo me custaria muito caro, bem
mais do que eu estava disposta a pagar por ele.
Eu, o destino e um acidente

“Tá chorando?
Acho melhor parar!
Se depender de mim
as lágrimas vão te afogar.”
(Lágrimas vão te afogar, Cristiano Araújo)

Augusto

Me viro na cama e olho para o teto atento aos sons a minha volta. O vento uiva do lado de fora e
o sono ameaça me dominar, tento pensar em qualquer coisa, qualquer uma que o impeça de me
vencer, acabo pensando no desastre que se tornou o jogo de ontem, isso com certeza vai me manter
ocupado! Eu deveria mudar de time, se fosse inteligente já teria mudado. Aquele bando de palhaços
não ganha um jogo há tanto tempo, que nem me lembro quando foi a última vez que gritei “gol”, não
sei por que ainda me dou ao trabalho de vestir a camisa e torcer, não leva a nada, a não ser passar
vergonha e talvez uma úlcera, que eu crio como um bichinho de estimação. Continuo resmungando em
pensamento até que escuto o som que estou esperando há quase meia hora: o som da respiração dela
se normalizar. E, em seguida, me dou conta de que chegou a hora de sair de mansinho e, se for
cuidadoso o suficiente, não serei notado.
Jogo as pernas para fora da cama e a escuto ressonar, merda!
Espero mais alguns segundos para ter coragem de continuar a me levantar. Quando sua
respiração volta a um ritmo lento e compassado, ergo meu tronco e me sento, me livrando dos lençóis
e saindo da cama. Ando na pontinha dos pés até o outro lado do quarto e recupero minha cueca do
chão; depois que a visto, vou em busca da minha camisa, meu terno e minha gravata, que não
encontro em lugar nenhum.
Ah, que se foda a gravata!
Me visto no escuro e tateio o criado-mudo em busca da minha carteira, celular e chave do carro.
Quando tudo está alojado no bolso interno do meu paletó me viro e ando até a porta girando a
maçaneta com cuidado.
— Você vai embora? — Ah, que inferno, largo a maldita maçaneta e minha mão cai ao lado do
corpo.
— Vou, gata, já está tarde e a viagem é longa — respondo como se realmente lamentasse partir.
— Você não pode ficar nem mais alguns minutos? — pergunta acendendo a luz do abajur e me
encarando com olhos expressivos e um sorriso malicioso pregado aos lábios. Penso por alguns
segundos em seu pedido olhando-a dos pés à cabeça. Gostosa, essa é a palavra que eu usaria para
descrevê-la. Talvez muito gostosa, levando em conta os peitos enormes e a calcinha de renda
vermelha, a única peça que cobre seu corpo. Mas nem essa visão é o suficiente para que eu mude de
ideia.
— Lamento... — Juliana? Júlia? Não me lembro mais. — Realmente tenho que ir.
— Poxa, Augusto! — Ela transforma o sorriso malicioso em um beicinho nada sexy e eu
pressinto que devo sair imediatamente, antes que a garota faça uma cena ou implore mais um pouco.
Exatamente o que eu estava tentando evitar saindo sem que ela visse.
— Desculpe, gata — peço girando a maçaneta e abrindo a porta.
— Você, pelo menos, vai me ligar? — Claro, claro que não, porra! Que perguntinha mais cretina
essa.
— Claro, por que eu não ligaria? — Penso seriamente em começar a pagar por sexo, eu
adoraria apenas transar e me mandar, sem ter que encarar esse tipo de conversa fiada. Ela sabe que
eu não vou ligar, elas sempre sabem e mesmo assim pulam na minha cama, ou me levam para as
delas. Mulheres como essa garota que não me lembro do nome não deveriam se sentir ofendidas
quando flagram o cara indo embora no meio da noite, não deveriam pedir para ele ficar e muito
menos perguntar se ele vai ligar. Elas deveriam entender de uma vez por todas que, ao se jogarem no
colo de um cara sem ressalvas, se transformam em mulheres de uma única noite. Nada mais do que
isso.
— Porque você não tem meu número — constata o óbvio. Suspiro evidentemente frustrado e
decido parar de ser cordial.
— Querida... Qual é mesmo o seu nome? — Sua expressão de horror me diz que ela se sentiu
ultrajada com a minha pergunta. Deveria ter se sentido da mesma forma quando se inclinou para que
eu visse seu decote no congresso que a conheci mais cedo, ou talvez quando, nada sutilmente, me
convidou para uma bebida em seu apartamento.
— Joana — responde entredentes. Hum, eu sabia que começava com J.
— Joana — repito com ironia. —, eu não preciso do número do seu telefone, porque eu não vou
ligar. — E lá vamos nós com o beicinho de novo, me controlo para não revirar os olhos e continuo:
— Antes de mais nada deixei bem claro que eu não estou buscando um relacionamento, não foi? —
Eu sempre deixo e elas sempre esquecem essa parte da conversa.
— Mas eu pensei... — Corto sua frase com um aceno impaciente. Eu sei o que ela pensou, que
eu mudaria de ideia, ela não foi a primeira e com certeza não vai ser a última. Por que toda mulher
pensa que tem o poder de mudar um cara? Não tem, muito menos com uma transa meia boca como
essa.
— Eu realmente tenho que ir — falo de forma rude e lhe dou as costas. Não olho para trás, mas
escuto um soluço antes de bater a porta do apartamento e chamar o elevador.
Chorar por um cara que conhece há menos de doze horas? Isso é épico. Ou a garota é muito
carente ou é maluca! Não me dou ao trabalho de me censurar por ter sido rude, o que de fato ela
pensou que aconteceria? Que eu me casaria com ela? Lhe daria uma penca de filhos e uma mesada
por mês? Não, obrigado! Quem sabe da próxima vez ela pense em ser um pouco mais seletiva, ou
então aceita o seu papel e não mendiga mais do que as pessoas estão lhe oferecendo.
Assim que saio de São Paulo, meu celular toca. E como ainda estou irritado por causa da garota
então me recuso a atender, mas ele volta a tocar depois de algumas horas de estrada e por já estar
entediado decido atender de uma vez.
— Monstro, onde você está? Estou ligando há horas — pergunta Bárbara, curiosa. Ela me ligou
duas vezes, duas únicas vezes. Como sempre, ela está sendo exagerada e intrometida, nada fora do
normal.
— Estou a caminho de casa, já peguei a estrada há algum tempo — informo batendo os dedos no
volante, impaciente.
— Era melhor você ter ficado em São Paulo, a viagem é longa e já é madrugada. Não quero
correr o risco de você estragar as minhas férias capotando seu carro novo. Por que não procura um
hotel? — aconselha minha irmã caçula, entediada do outro lado da linha. — É bem provável que eu
perca o avião se estiver ocupada recolhendo seus pedaços da estrada, seu babaca teimoso. — Por
mais que possa parecer o contrário, minha irmã extremamente egoísta diz essa fala com naturalidade.
Normalmente eu mandaria ela para o inferno, mas estou tão cansado que apenas lhe respondo:
— Eu vou ficar bem, Bárbara. Estou exausto, só quero ir para casa — argumento mudando o
celular de mão e dando seta para mudar de faixa.
— Você é quem sabe, mas já estou avisando, não tenta estragar as minhas férias de novo,
Augusto — sua ordem é clara e precisa. — Senão, eu juro por Deus que vou surtar! — Eu não duvido
disso nem por um segundo.
— Vou fazer o possível, já que minha morte pode fazer você perder suas milhas — respondo
sarcasticamente.
— Ótimo! — Ela não espera pela minha resposta, porque, como sempre tão educada, desliga o
telefone na minha cara para enfatizar sua ameaça.
Que culpa eu tenho se o destino não quer que ela viaje? Da primeira vez que ela agendou as
passagens e o hotel, Ian, seu marido e um dos meus melhores amigos, quebrou o pé em uma partida
de futebol. Tudo bem que eu dei um chute no seu tornozelo, nada pessoal, eu só queria a bola. Da
segunda vez, Gustavo derrubou ele de uma escada porque, embora seja arquiteto e adore elaborar
plantas de casas, se recusa terminantemente a trocar uma lâmpada e convenceu Ian a fazer o serviço.
Minha irmã ficou uma fera ao descobrir que ele se distraiu com uma mulher seminua de um comercial
qualquer e largou a escada para limpar a baba que escorria de sua boca sem avisar ao seu marido,
que despencou no chão voltando a machucar o pé que eu já tinha ferrado.
Em vez de ajudar um Ian extremamente irritado, ela resolveu se preocupar em nos acusar de
estar tentando sabotar suas férias. Enfim, como eu disse, ela é um monstrinho egoísta.
Jogo o celular de qualquer jeito no banco do carona e pela milionésima vez penso que só perdi
o meu tempo vindo nesse congresso. Gente chata, palestras pouco atrativas e comida ruim, fora a
garota que no final acabou sendo mais uma das “comidas” ruins. Eu deveria ter ficado em casa vendo
tevê, me entupindo de cerveja. Me animo um pouco ao notar uma placa que indica um restaurante a
alguns quilômetros de distância e aumento o volume do som pisando fundo no acelerador com o
estômago roncando de fome.
Quando entro com o carro na rampa de acesso ao restaurante noto que tem apenas mais um carro
no estacionamento, ele está parado de qualquer jeito ocupando mais do que a vaga necessária.
Embora a fome esteja fazendo minha garganta latejar perco alguns segundos olhando para o carro, é
quando eu vejo a luz do teto se acender e a porta se abrir, uma garota sair apressadamente pela porta
do motorista batendo-a logo em seguida. Ela dá um passo para o lado e olha ao redor rapidamente de
forma obstinada como se estivesse procurando alguém, continuou encarando-a até que seus olhos se
fixam nos meus.
Seu olhar sombrio não dura mais do que poucos segundos, mas é o suficiente para fazer com que
os pelos dos meus braços se arrepiem e eu instintivamente me abrace para combater a sensação
estranha que me atingiu. Ela não estava olhando para mim, seria impossível enxergar alguma coisa
através do vidro escuro com a iluminação precária do restaurante, mas mesmo assim foi como se
pudesse me ver, foi como se olhasse dentro dos meus olhos e tivesse o poder de ver através deles.
Foi bizarro, porra!
Algo naquela garota chamou de imediato a minha atenção. Não sei precisar se foi sua postura
ereta, sua desenvoltura em olhar ao redor sem sair do lugar ou seus cabelos longos e negros como a
noite voando com o vento. Só sei que me esqueci de que deveria sair do carro e caminhar até a
construção logo adiante e permaneci olhando-a embasbacadamente. Vi quando ela finalmente se
virou e andou alguns passos se encaminhando para a porta automática, e ouvi ao mesmo tempo que
ela o cantar de pneus próximos.
Em uma situação como essa, onde um barulho alto pode ser ouvido tão perto, que parece estar
ao nosso lado, o instinto de qualquer um seria se virar para o som, mas não o meu, pelo menos não
naquele momento, eu ainda olhava para ela como se tivesse sido enfeitiçado. Vi quando ela se virou
com agilidade e vi o medo estampado em seu olhar no mesmo instante em que seu queixo caiu,
surpreso. Ela encurtou a pouca distância de seu corpo até seu carro abrindo a porta com precisão e
pulando dentro dele assim que um carro preto parou bruscamente, novamente cantando pneus
bloqueando sua saída propositalmente. Sua reação imediata deu a impressão de que ela tinha
entendido a situação instantaneamente, já eu não conseguia nem piscar, quanto mais entender alguma
coisa!
O que aconteceu em seguida me deixou aturdido e sem reação.
O motorista do carro pulou para fora dele e correu até a porta do motorista onde a garota havia
entrado. Porém, quando ele agarrou a maçaneta ela engatou a ré e acertou em cheio o veículo que a
bloqueava fazendo com que ele fosse empurrado lhe abrindo espaço para manobrar e sair do
estacionamento a toda velocidade de volta para a estrada.
O homem colocou as duas mãos na cabeça e gritou alguma coisa que não pude ouvir de onde
estava voltando para seu carro sem nem ao menos parar para conferir o estrago e saindo de maneira
brusca do estacionamento fazendo com o cascalho voasse do chão ao entrar em contato com seus
pneus.
O primeiro pensamento que passou pela minha cabeça foi a certeza de que ele seguiria a moça
de cabelos negros. Então não foi uma surpresa quando ele nem ao menos deu seta e entrou na estrada
sem fazer uma pausa tomando a mesma direção que ela, na verdade o que foi uma surpresa foi ver
como meu cérebro reagiu tão rápido em uma situação tão estranha. Eu sabia que o quer que tivesse
presenciado não era bom, sabia que não deveria me envolver, mas quando dei por mim eu já estava
com o carro em movimento fazendo o mesmo que os dois acabaram de fazer, voltando para a estrada
a toda velocidade ignorando a fome e o absurdo do que estava fazendo.
Naquele momento eu não pensei em nada concreto. Nem a ideia de chamar a polícia me ocorreu,
até porque talvez eu estivesse apenas imaginando que aquela moça estava em perigo, talvez ela fosse
somente uma péssima motorista e ele fosse somente um homem qualquer em um dia ruim. Não pensei
no que faria se conseguisse alcançá-los, não pensei no motivo que me levou a querer de fato alcançá-
los, eu só pensei nela, nela e em seu olhar, no olhar que eu achei que era destinado a mim, no olhar
que eu senti que podia ver através de mim.
Aquele olhar foi o culpado de tudo que aconteceu em seguida.
Fugindo do passado, de novo

“Na natureza não existem recompensas nem castigos.


Existem consequências.”
(Robert G. Ingersoll)

A garota sem nome

Bastou um momento de hesitação para colocar tudo a perder.


Enquanto eu pensava em tudo que estava dentro daquele apartamento, principalmente todos os
documentos, papéis esses que ele jamais poderia encontrar, o destino ferrou comigo. Eu ainda estava
tentando ver algo se mover através da janela do meu apartamento quando ele me viu. Eu estava longe
o suficiente para não conseguir ouvir a porta de ferro do prédio ser aberta, mas eu senti, e quando
meus olhos a encontraram o que eles viram foram um par de olhos em brasa que olhavam diretamente
para mim.
Eu estava certa, ele tinha mesmo me achado, de novo.
Engatei a marcha e saí do posto levando junto as correntes de ferro que estavam à minha frente,
não havia tempo para manobras, eu não pensei, apenas agi. Deixei que o instinto me guiasse e
disparei pelas ruas de São Paulo dobrando esquinas uma atrás das outras, passando por sinais de
trânsitos fechados e entrando em vielas.
Eu tinha que despistá-lo.
Eu tinha que fugir.
Eu achei que estava sendo esperta. Como me enganei tanto?!
Antes de dobrar a primeira esquina, eu olhei no retrovisor e o vi correr pela rua em disparada
para o sentido contrário, mas eu sabia, simplesmente sabia, que ele não ia desistir, ele nunca desistia.
A cada vez que eu era obrigada a parar o carro, o medo ameaçava me dominar, nesses momentos eu
olhava para trás tentando ver se estava sendo seguida e depois desviava o olhar para o banco
traseiro do meu carro, respirava por um momento aliviada e era invadida pelo pânico novamente, eu
não estava segura, talvez nunca estivesse, era hora de me acostumar a isso.
Em dias bons eu sonhava com vidas alternativas, sonhava com um futuro seguro onde eu pudesse
chamar um lugar de lar, ao invés de chamar de esconderijo. Sonhava com um emprego de verdade e
não o primeiro que aparecia, aquele que não levantaria nenhuma suspeita e que quase não fizesse
perguntas para me contratar, sonhava com dias de sol onde eu poderia sair na rua e caminhar sem ter
a sensação de estar sendo seguida, mas, como eu disse, isso em dias bons. Nos maus, eu apenas
rezava para ter duas horas inteiras de sono e acordar viva. Nesses dias, eu me torturava lembrando
do passado, tentando entender como foi que parei aonde estou hoje, quando as coisas degringolaram
e porque eu não previ que isso iria acontecer. Perguntas para as quais provavelmente eu nunca teria
as respostas. Perguntas tolas.
Decido que está na hora de sair da cidade de São Paulo e mudar de ares, quem sabe dessa vez
eu tenha sorte. Olho ao redor e me deparo com um acesso para a Rodovia Régis Bittencourt, não
penso duas vezes antes de cortar um caminhão e um carro de passeio para pegar a rodovia me
esquecendo de todos os pertences que ficaram no apartamento alugado, eles não valiam o risco de
voltar e ser pega, isto é, se ele ainda estivesse lá, o que eu duvidava.
Os vermes que corriam por baixo da minha pele me avisavam que eu ainda não estava fora de
perigo, era hora de ouvi-los e pisar fundo no acelerador. Me senti triste por apenas uma coisa que
ficou para trás, não foi pelas roupas e sapatos de segunda mão comprados em brechós, nem meus
parcos livros imundos encontrados em um sebo e sim por Judite, minha aranha de estimação que
mora na minha cozinha. Era uma boa aranha, sabe? Eu não queria magoá-la. Será que ela ao menos se
perguntaria por que a abandonei? Bom, ela sempre foi meio desligada e na dela, talvez nem repare
que eu não estava por perto. Mas eu sentiria falta de ver aquelas oito perninhas se balançando à
minha frente, presas à sua teia todos os dias de manhã enquanto eu fazia café.
Horas depois uma luz acendeu no painel do carro me informando o nível de gasolina baixo. Eu
sabia que ainda podia rodar muitos quilômetros com o combustível que restava no tanque, mas essa
era uma das regras, nunca deixar o carro na reserva. Comecei a ficar apreensiva mirando o
acostamento com os olhos e só me permitir sentir certa tranquilidade quando avistei uma placa que
indicava um restaurante dois quilômetros à frente, se eu tivesse sorte também acharia um posto de
gasolina.
Estacionei o mais próximo do restaurante que consegui, não foi difícil, afinal o meu carro era o
único ali, mas por pouco tempo. Segundos depois uma AUDI preta adentrou o estacionamento, eu
quis fechar os olhos, mas não me permiti, eu não teria mais nenhum momento de distração hoje. Se
fosse ele, eu teria que estar alerta e teria que ser rápida. Observei o carro pelo espelho retrovisor
por dois minutos inteiros contados no relógio, os faróis foram desligados, mas o motorista ainda
estava dentro do veículo, eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Pela minha experiência, se
fosse ele não seria tão paciente, já teria se revelado, mas, como eu disse, eu não me precipitaria, não
haveria nenhuma distração, nenhuma falha, nenhum erro de julgamento.
Não desliguei o motor, ainda não me sentia segura o suficiente para abandonar a falsa segurança
que o interior do meu carro me proporcionava, então esperei, respirei fundo duas vezes, conferi o
banco traseiro, quatro, xinguei exatamente sete palavrões e finalmente me senti preparada para
enfrentar quem quer que fosse.
Não havia um posto, mas eu precisaria de comida em breve e talvez alguns energéticos, porque
não fazia ideia para onde essa estrada me levaria e em quanto tempo seria, dormir não era uma opção
viável. Então decidi sair do carro e servir de isca, se fosse ele eu saberia em breve e se não fosse eu
correria até o estabelecimento e compraria tudo o que eu precisava rapidamente. Saí do carro e bati
a porta, me afastei dele alguns passos e olhei ao redor, qualquer cuidado era pouco em uma situação
como essa. Tentei não me deixar influenciar pelo sono e pelo frio da madrugada, eu tinha problemas
maiores que esses no momento.
Não fingi estar mais interessada em todas as direções, menos no carro parado mais adiante, eu
realmente estava prestando atenção em todas elas, mas deixei o carro por último. Fixei meu olhar
onde imaginei que os olhos do motorista estariam, o vidro escurecido não me permitia ver nada além
do reflexo da luz e pensei comigo mesma: Vai, se é você, vem me pegar, seu filho da puta insistente.
Rezando para que meu pedido não fosse atendido, claro!
Nada, absolutamente nada aconteceu.
Um sorriso de vitória estava quase se desabrochando nos meus lábios cedo demais, quando eu
escutei o barulho. Pneus. Pneus vindo rapidamente em minha direção. Não precisei mais do que um
relancear de olhos para saber que era ele. Corri para o carro feito a menininha assustada que não era,
ou não queria ser, e torci o tornozelo falseando o pé pouco antes de me jogar sobre o banco do
motorista e bater o trinco manualmente para travar a porta, virei a chave na ignição e o motor rugiu
em resposta à longa pisada no acelerador. Olhei novamente pelo retrovisor e o vi sair do carro e
correr em minha direção. Quando sua mão bateu na lataria, eu dei um pulo no lugar e engatei a ré.
Meu pé doía com o esforço, mas não titubeei ao bater com a traseira do meu carro na lateral do dele
para ter espaço para uma manobra feita às pressas e de qualquer jeito.
Enquanto eu saía desesperadamente do estacionamento voltei meus olhos mais uma vez para o
Audi, seu motorista ainda não havia saído de dentro dele e, provavelmente, tinha assistido a cena
bizarra que acabara de se desenrolar tendo a minha pessoa como a atriz principal do espetáculo,
dessa vez pensei em outro pedido quando me imaginei olhando para os olhos daquela pessoa: Me
salva!
O mal nunca dorme, eu já deveria saber

“Quem aceita o mal sem protestar


coopera com ele.”
(Martin Luther King Jr.)

Augusto

Não demorei mais do que alguns segundos para chegar à estrada e buscá-los com os olhos. Eu
conseguia ver apenas os faróis traseiros dos dois carros ao longe, se eu esticasse meus dedos
conseguia segurá-los com o indicador e o polegar com facilidade, como se fossem miniaturas de
brinquedo. Não seria fácil alcançá-los, estavam rápidos demais. Tentei racionalizar e me convencer
a deixar para lá. Eu não precisava correr o risco de fazer a minha irmã realmente ter que juntar meus
pedaços com uma pá do asfalto um dia antes de suas férias, eu não conhecia aquela garota, não devia
nada a ela.
Não foi suficiente.
Acelerei o máximo que meu carro permitiu, o que é muito, e deixei os pensamentos racionais de
lado me concentrando no que faria quando os alcançasse ouvindo o ronco do motor. Eu iria dar um
jeito de salvar aquela garota do que quer que ela esteja fugindo. Claro que não de forma direta, eu
apenas os seguiria e ligaria para a polícia se ficasse claro que ela estava em perigo, não mais do que
isso.
Minha bondade não ia muito mais longe, ou pelo menos foi o que pensei.
Pouco a pouco fui me aproximando, essa era a vantagem de ter um carro potente, ele deixava os
dois veículos comendo poeira facilmente se eu me esforçasse o bastante, em poucos minutos eu
estava a menos do que quinhentos metros atrás deles. Mas não tive tempo de me sentir feliz com essa
pequena conquista, porque logo depois eu presenciei uma cena assombrosa.
Eu presenciei o mal pela segunda vez na minha vida.
O homem se cansou de seguir a garota de cabelos negros e mudou de abordagem tentando uma
ultrapassagem, ela que deveria estar alerta às suas investidas passou a bloqueá-lo. Ambos estavam
em uma dança macabra nas duas pistas da BR-101, por isso senti um gelo na espinha e fechei os
olhos apenas por um milésimo de segundo prevendo que aquele impasse terminaria em sangue.
Às vezes, eu gostaria de não estar sempre certo.
A garota não foi rápida o bastante, o homem que a perseguia conseguiu ultrapassá-la e acelerou
ainda mais para ganhar certa distância, quando conseguiu jogou com tudo seu carro em cima do dela.
Ela não poderia ter evitado o que aconteceu nem se quisesse, nem se fosse um homem (não preciso
esclarecer que dirigimos melhor, não é?), não haveria tempo. Dessa vez, eu fechei os olhos por mais
tempo enquanto afundava o pé no freio como se minha vida dependesse disso, e não é que dependia
mesmo?!
Tudo aconteceu tão rápido que se eu dissesse que tive tempo de pensar em alguma coisa além de
um pedido silencioso para conseguir brecar antes de bater seria uma mentira. Duvido até que eu
tenha conseguido respirar entre o momento que o homem a fechou até o momento em que tudo havia
terminado.
— Puta que pariu! — Se você pensou que uma oração sairia da minha boca se enganou, eu só
conseguia repetir isso. — Puta que pariu! Que merda!
O carro que a garota de cabelos negros dirigia girou na pista diversas vezes fazendo uma
fumaça branca tomar conta da noite impedindo minha visão. Mas eu ouvi o barulho. Ouvi nitidamente
o impacto do seu carro se chocando contra algo sólido, assim como ouvi um cantar de pneus.
Provavelmente o homem estava fugindo, mas não me atentei a isso, a garota era minha prioridade.
Era meu dever socorrê-la.
Fiquei aturdido com as mãos agarradas firmemente ao volante. Pareceram horas inteiras, mas
não passou de alguns segundos até que eu conseguisse me mover novamente, saí cambaleante e com a
respiração acelerada de dentro do meu carro e corri no meio da fumaça até o local onde achei ter
ouvido o estrondo com as pernas bambas. Se duvidar devo até ter mijado nas calças.
A fumaça começou a se dissipar e coloquei as duas mãos na cabeça emitindo um palavrão ao
notar o que de fato havia acontecido. O carro da garota havia se chocado contra uma árvore.
Provavelmente ela estava morta, mas isso não me impediu de correr o máximo que pude ao seu
encontro enquanto sacava o celular do bolso do terno e discava em busca de ajuda.
Quando me aproximei e consegui enxergar o interior do veículo com mais nitidez vi que sua
cabeça estava tombada em cima do volante imóvel e seus olhos estavam abertos, voltados em minha
direção emoldurados por fios de sangue que saíam do seu couro cabeludo e escorriam por sua face.
Praguejei e encurtei nossa distância tentando me concentrar em garantir seu bem-estar ao invés de me
distrair analisando seu olhar, o olhar que ainda podia jurar ser capaz de ver através da superfície,
aquele olhar queimava.
A porta do motorista estava curvada tamanha a força do impacto. Agarrei-me a ela para
conseguir parar antes de me chocar contra a lataria e acabei fazendo um talho na palma da mão com
os estilhaços de vidro que permaneceram fixos na janela, ignorei a dor e me debrucei sobre a moça
afastando seus cabelos da nuca e colocando os dedos em seu pescoço gelado para tentar sentir se
havia pulsação. Fiquei em dúvida se ela estava ou não morta, já que meus dedos estavam trêmulos
até que ela se mexeu com meu toque.
Abaixei-me para encará-la, de perto seus olhos negros assim como seus cabelos eram muito
mais perturbadores. Encaramo-nos por um momento, até que ela piscou e me lembrei do que tinha
que fazer em seguida.
— Você está bem? Consegue me ouvir? — perguntei afastando os cabelos grudados em seu
rosto pelo sangue com uma mão enquanto discava os números com a outra e levava o celular até a
orelha. — Preciso de uma ambulância no limite da BR-101 e 282 porque houve um acidente de
carro, tem uma vítima ferida no local. — Merda, o sangue não estava somente no rosto, ele saía dele.
Terminei a ligação e guardei o celular no bolso, me concentrando nela.
Estava nítido que ela não estava bem, que seus ferimentos não eram superficiais, sua blusa
estava encharcada de sangue e sua respiração estava curta, foram perguntas tolas de se fazer, estava
claro que mesmo que ela pudesse me ouvir não conseguia responder. Então, me surpreendi ao ouvir
um fragmento de voz:
— Asas... — disse com evidente esforço, pisquei e franzi as sobrancelhas sem entender. —
você tem asas. — Provavelmente ela estava alucinando, pois era comum em casos de dor extrema a
vítima sair da realidade e se esconder em um mundo próprio, acho que o desligamento da mente era a
maneira mais fácil de lidar com o insuportável, afinal, eu estava longe, muito longe, de me parecer
com um anjo.
— Você vai ficar bem — prometi amparando sua cabeça com uma das mãos, mesmo sabendo
que essa era uma certeza que eu não podia lhe dar. Sou médico, e se aprendi algo desde que exerço a
profissão é não fazer promessas que eu não posso cumprir, nunca garantir algo que está fora do meu
alcance. Porque, às vezes, brincar de Deus dá errado e a culpa disso é enorme até para quem tem o
costume de lidar com a morte quase que diariamente. Mas eu não estava no hospital, não estava de
serviço, aqui eu era apenas um curioso, alguém que tinha o direito e o dever de fazer com que essa
garota se sentisse segura em um momento tão amedrontador.
Aqui eu não tinha que ser ético, eu tinha que ser apenas humano.
— Me ajuda — implorou. Eu não estava preparado para o impacto daquele pedido, mesmo ele
sendo esperado desde o momento em que saí correndo ao seu encontro. Eu me mantinha agachado,
com uma das mãos enganchadas no seu cabelo, ainda olhando dentro dos seus olhos.
Seu olhar me assustava.
Não era um olhar de alguém à beira da morte, não era o olhar de uma pessoa dominada pelo
medo, era um olhar cético, frio e impassível. Ela deve ter visto a confusão no meu próprio olhar
porque piscou demoradamente como se estivesse em dúvida se continuava a tentar falar ou se calava.
Quem era essa garota misteriosa, afinal?
— Eu estou aqui — disse por fim, sem saber mais o que lhe dizer.
— Preciso que você me ajude. — Era notório que falar estava sugando o resto das suas forças
vitais. Eu não sabia como ela não estava em prantos, desesperada, poupando a força restante para
gastá-la em uma oração, como qualquer pessoa normal faria. Essa garota me intrigava mais a cada
minuto.
— A ajuda já está a caminho, tente ficar quieta, descansar e se poupar até que eles cheguem. —
Ela revirou os olhos como se eu não a estivesse entendendo.
— Não — sussurrou. —, preciso que faça algo por mim... — Imaginei que ela iria me pedir
para ligar para alguém, para ser o portador da má notícia, então assenti, mesmo odiando a ideia.
— Proteja minha vida. — Então, eu vi a primeira lágrima rolar pelos seus olhos e se misturar
ao sangue viscoso grudado em sua bochecha. Franzi o rosto e balancei a cabeça sem entender. — No
banco de trás, garoto com asas. Minha vida está no banco de trás. Esconda-a.
Então, ela fechou os olhos.
O anjo com asas cor de bronze

“A voz do anjo
sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido,
já escuto os teus sinais
Que tu virias
numa manhã de domingo
Eu te anuncio
nos sinos das catedrais.”
(Anunciação, Alceu Valença)

A garota sem nome

Estamos em julho, um dos meses da estação do ano que eu mais gosto, o inverno. Imagino que a
essa hora da madrugada a temperatura deve estar por volta dos dez graus, com uma sensação térmica
bem mais baixa. Mas, inexplicavelmente, eu não sinto o frio embora minha respiração saia da minha
boca em forma de fumaça junto com o sangue que eu sinto subindo pela minha garganta dominando o
céu da minha boca. Eu daria tudo para estar com uma xícara de chocolate quente em uma mão e um
bom livro na outra ao invés de estar me afogando com meus próprios fluidos, mas nem sempre
podemos ter tudo o que desejamos, não é? O babaca que inventou essa frase manjada deveria ser um
puta zero à esquerda, mas isso não tira a veracidade da informação. Fracassado ou não, ele estava
certo. No meu caso a resposta é “nunca”, nunca posso ter o que desejo, esse é o bônus de ter meu
maluco particular, é o que eu ganho por viver na mentira.
Eu não só vivo dentro dela, eu a respiro. Alimento-me dela e deixo que ela reja minha
existência. Ela faz parte de cada um dos meus atos e pensamentos.
Ela sou eu e eu sou ela. Somos uma única coisa.
Mas isso não importa, nada mais importa.
Eu falhei.
Nenhuma das minhas regras fez com que eu ficasse segura. Nenhuma delas me protegeu quando
mais precisei. Eu fiz tudo certo, tomei cuidado com cada detalhe e mesmo assim acabei colocando
tudo a perder. Não sei como ele conseguiu me encontrar, mas isso não faz diferença, eu deveria ter
percebido que estava sendo seguida, eu deveria ter visto. Se eu pudesse fazer algo, seria rir. Eu riria
até me dobrar tamanha a minha frustração. Mas, além de tudo, absolutamente tudo, do meu corpo
estar doendo para cacete, a culpa nunca me deixaria ser mórbida a ponto de achar graça dessa
situação.
Eu jamais vou conseguir me perdoar.
Quando ele jogou seu carro na frente do meu, dois pensamentos me passaram pela cabeça:
Acabou, finalmente acabou, ele vai me matar e dar um fim a essa vida de merda que tenho vivido há
anos, graças a Deus acabou, o segundo pensamento terminou por anular completamente o primeiro, eu
não tinha o direito de ser grata, afinal nunca foi a minha vida que eu quis proteger, unicamente porque
eu não tinha mais uma vida, ela não era mais minha, não se tratava de mim. Nunca se tratou de mim.
Na pressa em fugir, não me lembrei de me proteger prendendo a fivela do cinto de segurança, então
apenas fechei os olhos e esperei e isso foi tudo o que pensei enquanto era atingida.
Senti uma dor excruciante no meu peito que se chocou contra o volante e senti o impacto da
minha cabeça se chocando contra o para-brisa com força o suficiente para fazer com que ele se
estilhaçasse. Tentei me proteger e impedir que os cacos de vidro se fixassem em meu rosto, mas meus
braços não responderam ao meu comando, meu peito se comprimiu com o esforço e eu arfei ficando
sem ar.
Assim que o carro estagnou, reuni todas as minhas forças para me virar para trás, a dor no peito
era insuportável e não consegui me manter muito tempo inclinada, mas foi o suficiente para conseguir
olhar para o banco traseiro do carro de relance, com medo e ao mesmo tempo com esperança,
sentimento que me era desconhecido há muito tempo e, pela primeira vez nesse tempo todo, o destino
sorriu para mim. Eu poderia me debulhar em lágrimas ali mesmo, mas ainda não.
Ainda não era seguro.
— Vai ficar tudo bem, estamos bem — tentei falar alto, mas quase não consegui ouvir minha
própria voz. Meu peito explodia a cada palavra, tentei olhar para baixo e só vi sangue tomando conta
de toda a frente da minha camiseta vagabunda. A tontura foi quase insuportável, mas eu não podia
ceder, não podia deixar que a inconsciência me vencesse, ainda não. Lutar comigo mesma e tentar
pensar ao mesmo tempo me enfraquecia mais e fui forçada a tombar a cabeça em cima do volante. Eu
sentia que o ar sumia dos meus pulmões, não só por conta dos ferimentos, mas também pelo
desespero da pergunta que eu não conseguia evitar: O que vai acontecer agora?
Escutei um barulho de passos apressados no asfalto, alguém estava gritando. Tentei comprimir
meus olhos para enxergar de quem se tratava com atenção e medo, morta de medo, mas os faróis
ligados de um carro que parou a uma boa distância da sucata que meu carro havia se transformado
ofuscaram minha visão. Deus, se você existe, permita que não seja ele, ele não pode se aproximar
enquanto eu não estiver em condições de me defender. Tento me mexer com esperança de que
consiga sair do carro e correr para longe, mas não sou capaz nem de erguer novamente a cabeça,
quanto mais fugir.
Nunca me senti tão impotente em toda minha vida.
Mas não era ele. Embora o sangue que começou a pingar da minha testa e escorrer pela minha
face nublasse minha visão, eu vi claramente outro homem correndo em minha direção. Seu rosto
estava fechado em uma máscara de calma e competência, os faróis de seu carro misturados a fumaça
que serpenteava pelo ar deram à cena uma luz quase que sobrenatural, ele corria envolto em uma luz
cor de cobre. Olhando com mais atenção, eu quase podia jurar que via asas saindo de suas costas,
longas e belas asas cor de bronze. Não me importava que, na verdade, fossem as sombras do
acidente que teria o poder de mudar tudo, acabar com tudo, porque para mim, ainda eram asas e isso
inexplicavelmente fez com que eu me sentisse segura pela primeira vez em anos.
Ele tinha asas grandes o suficientes para me esconderem, para salvarem a minha vida e isso
bastou para que eu ao menos conseguisse respirar novamente.
A vida dela

"Nossas vidas são definidas por momentos.


Principalmente aqueles que nos pegam de surpresa.”
(Bob Marley)

Augusto

— Não. Não. Não — gritei batendo em seu rosto. — Você tem que se manter acordada, fica
acordada, garota. — Mas que inferno! Ela não reagia, coloquei instintivamente meus dedos
novamente em seu pescoço na esperança de sentir uma pulsação. Estava fraca, mas ainda estava lá.
Onde estava a maldita da ambulância?! Ela não ia aguentar muito tempo sem ajuda.
Estava claro que eu não podia fazer mais nada por ela, eu não podia removê-la, não enquanto os
paramédicos não chegassem, e meu apoio moral não era mais útil, ela não poderia mais ouvi-lo. A
sensação de fracasso chegou de mansinho abrindo espaço, primeiro com um nó firmemente amarrado
entalando a minha garganta, depois veio a culpa. Eu deveria ter feito alguma coisa, eu sabia, soube
desde o começo que essa garota estava em perigo.
Por que eu não fiz a porra de alguma coisa?
Eu falhei com ela e isso porque eu nem a conhecia. Não me permiti sair de perto de seu corpo
desfalecido, não me movi um milímetro, não tirei minhas mãos de cima dela, não afastei meu olhar,
eu ficaria ao seu lado, até o fim. Mas algo que ela havia dito voltou à minha memória, algo
importante, algo que eu deveria ter dado atenção imediata.
Minha vida está no banco de trás, proteja-a.
Nada teria o poder de me preparar para ver ao que ela estava se referindo, não que eu tenha
pensado em algo em particular, mas mesmo que tivesse eu nunca teria adivinhado. Levantei-me e me
desdobrei para conseguir olhar sobre o encosto do banco do motorista, meus olhos não precisaram
procurar por muito tempo, eles foram presos de imediato por outro olhar: o olhar da sua vida.
Um garoto pequeno com mais ou menos quatro anos de idade me encarava com os olhos
arregalados, ainda sentado em sua cadeirinha, o medo era tamanho que ele nem chegou a piscar
enquanto eu abri a porta do banco traseiro com agilidade e me lancei sobre ele em uma mistura de
histeria, desespero e surpresa.
— Você está machucado? — Ele virou a cabeça para não quebrar nosso contato visual e a
balançou negativamente, mesmo assim tomei sua pulsação e fiz uma rápida verificação, ele parecia
bem, bem até demais para quem tinha acabado de sofrer um acidente. Assim como a garota, ele não
derramava uma lágrima sequer. — Qual é o seu nome? — ele não respondeu, ao invés disso olhou
apreensivo para a garota desacordada. Como se não soubesse se tinha ou não permissão de
responder.
Infelizmente, ela não podia mais ajudá-lo.
Quebrando as regras

“Os desconfiados desafiam a traição.”


(Voltaire)

A garota sem nome

Volto momentaneamente à consciência me sentindo mais leve, só para perceber que a sensação
de leveza equivocada vem de estar sendo erguida em uma maca, do chão para dentro de uma
ambulância. Não que eu tivesse conseguido abrir meus olhos para ter certeza, mas as sirenes altas e
os reflexos de luzes piscantes que me incomodavam mesmo de olhos fechados me deram a dica. Por
um momento fiquei confusa, sem me lembrar exatamente o porquê era tão difícil me manter
consciente e respirar ao mesmo tempo, continuei a forçar a minha mente até que um lampejo voltou à
minha memória.
O acidente.
Além de ter me encontrado havia tentado me matar, ele nunca chegou tão longe antes e isso me
assustava. Assustava-me ainda mais me dar conta de que ele havia mudado as regras do jogo sem se
dar ao trabalho de me avisar com antecedência. Mas não me surpreendia, ele nunca foi de jogar
limpo, não seria agora que sua falta de caráter iria mudar.
Aos poucos as cenas da batida voltavam à minha memória, o carro cruzando o meu caminho, o
milésimo de segundo que levei para decidir se soltaria o volante ou se jogaria o carro para fora da
estrada. Não creio que me chocar contra uma árvore realmente tenha sido uma decisão consciente,
não houve tempo para lógica, então me sobrou apenas o instinto. Meu cérebro já estava programado
para não pensar em mim, em primeiro lugar. Sendo assim sofri a maior parte do impacto, deixando
seguro o que eu realmente zelava, a pequena vida que eu carregava comigo no banco de trás do meu
carro.
Lembro-me de me virar e conferir desesperadamente se ele realmente estava seguro, lembro-me
do alívio ao não encontrar nem um arranhão sequer lhe cobrindo a superfície, lembro-me do seu
olhar assustado e da pergunta dentro dele, eu a respondi, lhe disse que ficaríamos bem.
Eu menti.
Pareceu-me a coisa certa a se dizer, algo que um adulto diria. Afinal era obrigação dos adultos
sempre prometerem às crianças tudo o que fosse necessário para que elas se sentissem seguras.
“Não, eu nunca vou te abandonar”, “Sim, é claro que eu te amo”, “Não meu bem, não existe monstros
no seu armário”, e várias outras mentirinhas bem-intencionadas. O problema é que eu nunca fui boa
nesse lance de ser adulta, sempre preferi ser sincera.
Não, ninguém pode ser as duas coisas ao mesmo.
Então Nicholas sabia que o monstro estava em um lugar diferente, sabia que ele não estava
dentro do armário e sim atrás de nós.
Não sei por que dessa vez achei melhor mentir para ele, talvez porque eu precisava que ele
pensasse estar seguro, precisava que ele realmente acreditasse que tudo ia ficar bem para que eu
pudesse me sentir bem, provavelmente menti por egoísmo.
Tento parar de pensar por um instante e me concentrar no que acontece ao meu redor. Posso
ouvir um amontoado de vozes frenéticas e impacientes, embora não tenha entendido sobre o que
falavam reconheci uma delas, o anjo, eu podia ouvir o anjo e ele estava gritando com alguém.
Demorei vários minutos até perceber que era comigo.
Senti uma mão firme agarrar meu pulso e ouvi pouco depois um sussurro urgente dito ao pé do
meu ouvido, me concentrei mais para prestar atenção ao que ele dizia:
— Vocês estão em perigo? Você conhecia o homem que tentou matá-los? — perguntou rápido
demais para que eu realmente processasse suas perguntas urgentes. — O que eu devo fazer com
aquilo? — O que ele estava chamando de “aquilo”? Se eu pudesse levantar seria apenas para lhe dar
um chute no meio das costelas. Abri a boca e tentei fazer minha voz passar por ela, mas senti como se
estivesse me afogando e talvez realmente estivesse porque o único gosto na minha boca era uma
mistura de sal e ferrugem: era sangue. — Vou até a polícia, vão mantê-lo seguro até que você se
recupere.
Não. Não. Não.
Ambos sabíamos que isso poderia não acontecer. Mesmo que sua voz não tivesse vacilado ao
final da frase, eu já sabia que era possível que nunca mais voltasse a ficar bem outra vez e ele
também sabia. O que ele desconhecia era que a polícia não poderia nos ajudar, não era como se eu
não tivesse tentado antes.
Nicholas não estaria seguro, droga!
Ele nunca estaria seguro sem mim.
Comecei a entrar em pânico. O que eu estava pensando quando pedi a ajuda de um
desconhecido? Eu havia quebrado a minha primeira regra: nunca confiar. Mas que escolha eu tinha?
Eu seria levada para o hospital, não ficaria consciente por muito mais tempo e Nicholas ficaria
sozinho, ficaria a cargo de outras pessoas. Qualquer pessoa normal o levaria até a polícia, que
designaria um assistente social para cuidar dele e já que ninguém encontraria nenhum parente nos
bancos de dados, ele acabaria em um abrigo.
Tudo muito correto e também falho.
Eu não podia deixar isso acontecer.
— Não — murmurei, sentindo seu rosto sendo colado à minha boca e soube que ele estava
tentando me ouvir com mais nitidez se aproximando o máximo possível. — Não o leve a polícia, não
é seguro. — Eu não sabia se estava conseguindo dizer as palavras em voz alta, eu mesma não era
capaz de me ouvir.
— O que eu faço então? — perguntou contrariado, para meu alívio.
— Esconda... porta-luvas... maleta... — Eu estava tão frustrada por não conseguir falar que
minha vontade era de gritar e me estapear, nada, não havia absolutamente nada que eu pudesse
realmente fazer. Toda a tentativa estava acabando comigo. — Só proteja... o garoto.
Foi tudo o que consegui falar antes de sair fora de órbita novamente, agora eu só podia rezar
para que ele não se sentisse na obrigação de fazer a coisa certa e me ajudasse como eu havia pedido,
que ele deixasse toda uma vida baseada em um caráter (isto é, se ele tivesse algum; eu rezava para
ter, embora isso fosse muito contraditório) e fizesse algo absurdo por uma mulher que ele nunca
havia visto antes.
Eu estava pedindo demais, sabia disso, mas eu não me perdoaria se não tentasse.
O que eu tinha a perder?
Nunca confiei em ninguém antes, nunca deixei Nicholas com outra pessoa. Nunca precisei e
mesmo se tivesse precisado não teria deixado, mas não estávamos mais dentro de uma situação
normal, eu precisava acreditar que aquele garoto de feições duras amoleceria ao olhar nos olhos do
meu menino, precisava acreditar que ele ficaria apreensivo com o perigo que ele corria o suficiente
para escondê-lo. Precisava acreditar que uma pessoa teria um ato de bondade sem pedir nada em
troca e, acima de tudo, precisava acreditar que não estava entregando meu menino para um lunático
qualquer, que se aproveitaria da situação. Eu precisava acreditar que aquele garoto o alimentaria, o
vestiria e o abrigaria. Precisava acreditar que o garoto o protegeria sob suas asas. Mas nem por um
momento cogitei que ele realmente fosse capaz.
O dom da confiança não existia mais no meu DNA e eu não era dada a fingimentos e ilusões, não
menti para mim mesma, ao invés disso apenas rezei. Rezei, sobretudo, para que a soma em dinheiro
guardada no porta-luvas do meu carro fosse o suficiente para convencê-lo. Como eu disse, eu não era
dada a confiança, mas não via problema nenhum em subornar, afinal o garoto teria que violar algumas
leis, mentir, omitir, e sabe-se lá Deus o que mais.
Merda, eu realmente estava pedindo demais, não tinha mais tanto dinheiro assim naquela maleta.
Mudei os meus pedidos e rezei por algo diferente.
— Deus, se você está aí e ainda me escuta, mesmo depois de todas as afrontas e julgamentos
que eu lhe fiz, deixe de ser um completo narcisista e faça algo por mim, pelo menos uma vez nessa
minha droga de vida: proteja o meu garoto. Faça a porra desse seu anjo me ajudar...
— Eu vou cuidar da sua vida. — Só então me dei conta de que consegui fazer a oração em voz
alta e de que estava chorando, baixinho, mas estava. — Confia em mim, eu tenho asas, não tenho? —
Pedido errado, pergunta certa. Sim, para mim ele as tinha, ele era o meu garoto que tinha asas. —
Qual o seu nome? — Sua última pergunta foi feita com urgência, como se fosse algo que ele
realmente precisasse saber, infelizmente não havia me restado forças suficientes para lhe responder
em voz alta, então apenas pensei: “Eu sou a garota sem nome, anjo”.
A promessa que eu nunca deveria ter feito

“Promessas são apenas palavras até começarem a ser cumpridas por nossas atitudes.”
(Carlos Hilsdorf)

Augusto

Afastei-me da ambulância depois de conferir para qual hospital ela seria levada.
Inexplicavelmente minha vontade era a de abandonar meu carro no acostamento e ir junto para me
assegurar pessoalmente de que ela teria o atendimento adequado, mas abandonei a ideia. Não era
exatamente como se eu não tivesse mais nada para fazer, não é? Eu lhe fiz uma promessa, uma
maldita promessa que fez com que eu me arrependesse assim que as palavras cruzaram a fronteira
dos meus lábios e se jogaram ao vento. Quando me dei conta era tarde demais para voltar atrás e de
qualquer modo eu não era esse tipo de homem.
Eu não prometia nada que não tivesse a real intenção de cumprir
Eu só não sabia como iria cumprir aquela promessa.
Fiquei olhando a ambulância se afastar hipnotizado pelas luzes piscantes com as duas mãos
enfiadas nos bolsos do terno e um milhão de pensamentos inquietantes me atormentando. Em que
porra de confusão eu tinha acabado de me meter? Ou melhor, como eu ia sair dela? Duas perguntas
sem respostas, e por mais que eu tentasse buscar uma solução, absolutamente nada se iluminava nos
meus pensamentos. Decidi ser prático, eu tinha palavra e me orgulhava disso, então respirei fundo,
dei meia volta e caminhei até o carro destroçado, abrindo a porta do passageiro e puxando a
alavanca do porta-luvas com precisão. Não havia nada dentro dele a não ser uma pequena maleta de
couro, eu já podia ouvir as sirenes ao longe, então me apressei, puxei a maleta e corri de volta para o
meu carro jogando-a de qualquer jeito no banco do passageiro. Pisei fundo no acelerador cantando
pneus no exato momento em que avistei a primeira viatura pelo retrovisor.
De médico renomado a um fora da lei, quem diria? Isso não tinha nem um pouco a minha cara.
Eu me orgulhava de ser o certinho, o orgulho dos meus pais, que tiveram o azar de ter um filho mais
inútil do que o outro. Gustavo, meu irmão do meio, era de uma calma inquietante e dono de um
coração imenso, mas estava escondendo um segredo. Eu não fazia nenhuma ideia do que era, mas
sabia que independente do que fosse não era uma coisa boa. Já Bárbara, nossa irmã caçula, era
definitivamente a pior de nós três, eu nem chegava a considerá-la um imã de problemas, ela era logo
um para-raios deles. Aí sobrava eu, o filho que fez tudo certo na vida. O que saiu do colégio direto
para uma Universidade Federal com uma bolsa integral para cursar Medicina, aquele que evitava
problemas, o que ficou trancado estudando por anos para se tornar alguém na vida e construir uma
carreira sólida. O idiota que estava a ponto de colocar tudo a perder por causa de uma garota que ele
nem conhecia e uma promessa feita no calor da emoção.
Fiquei em dúvida sobre o que fazer a seguir.
Minha vontade era ir até o hospital monitorar a situação da garota e garantir que ela
sobreviveria para me tirar do problema ao qual havia me enterrado. Olhei novamente pelo retrovisor,
mais precisamente para o garotinho de olhos arregalados que não havia movido um músculo sequer
desde o momento em que o tirei de seu carro e o coloquei no meu, voltando logo em seguida para
junto da garota até que a ajuda tivesse chego. Ele seria um empecilho para os meus planos.
Pelo que eu havia entendido da situação, ela queria que eu o escondesse, então eu não podia
entrar no hospital para o qual ela foi levada desfilando com ele agarrado na barra da minha calça,
assim como não podia deixá-lo trancado dentro do carro, embora vontade não me faltasse e ele
aparentasse não ter nenhum arranhão, o protocolo correto seria levá-lo também para o hospital e
verificar se realmente estava bem, mas eu não queria correr o risco de deixá-los no mesmo lugar,
então eu ia precisar de ajuda.
Eu só queria resolver esse problema e voltar para minha vida, onde o pior que poderia me
acontecer era uma garota acordar no meio da noite e me flagrar caindo fora.
Decidi que por mais que eu odiasse a ideia iria ter que pedir a ajuda dos meus irmãos, não que
eu achasse que conseguiria esconder o garoto por muito tempo, afinal Gustavo e eu morávamos juntos
e tínhamos ninguém mais, ninguém menos, do que a nossa irmã como vizinha de porta. Mas até aí eu
não podia reclamar, foi escolha minha comprar a casa ao lado quando ela se casou, não é porque ela
tinha assinado um papel que eu ia deixar de cuidar dela como sempre fiz.
Antes morávamos eu, Gustavo e mais dois amigos, Ian e Bernardo, em um apartamento não
muito longe de onde moramos hoje. Acabamos ganhando a Bárbara de presente quando seu noivo a
abandonou no altar e ela veio fazer parte do time, se instalando no melhor quarto da casa e dentro das
calças de um dos meus melhores amigos. Como o destino não brinca em serviço, ele dá porrada
mesmo, pouco depois ela descobriu que estava grávida de seu ex-noivo, o desgraçado que eu
adoraria degolar com as minhas próprias mãos. Quando todos, incluindo eu, pensamos que Ian ia dar
no pé e fugir enquanto tivesse tempo (exatamente o que eu teria feito), ele nos surpreendeu a pedindo
em casamento e assumindo minha sobrinha.
Não, eu não fiquei feliz com isso.
Não fiquei nem um pouco feliz, na verdade eu quis matá-lo. A ideia ainda me passa pela cabeça
de vez em quando. Às vezes estamos fazendo algo simples, como assistindo um jogo de futebol, ou
realizando uma cirurgia juntos, e eu me pego imaginando como seria arrancar sua cabeça fora com
uma pá e depois enterrá-lo no meu jardim, perto das roseiras.
Ian era meu parceiro de pegação, nós tínhamos regras rígidas, uma conduta que ambos
levávamos a sério. Então, não fiquei contente quando o meu melhor amigo, o cara que pegava todas e
as descartava como objetos, assim como eu, decidiu ter como prêmio a porra da minha irmã sem se
importar com a minha opinião.
Mas não posso negar que me orgulho dele.
Ian se tornou um marido exemplar, um daqueles babacas pau mandados, que nunca deixa de
atender uma ligação, e volta para casa cedo e sóbrio. Acima disso se tornou um pai incrível. Ele
assumiu minha sobrinha, Valentina, de peito aberto, lhe deu seu sobrenome, lhe paga a escola e a
ensina a chamá-lo de papai. Ele se saiu bem, mas nada no mundo vai me fazer confessar isso em voz
alta, nem sob tortura!
O fato é que eu não tenho a menor privacidade, eu deveria ter desconfiado que tendo a minha
irmã na porta ao lado não seria mais fácil cuidar dela e sim tornaria mais fácil tê-la se intrometendo
na minha vida. Ah, é, tem outro detalhe. O idiota do Gustavo decidiu abrir uma porta no jardim a
marretadas no muro que divide as propriedades, tudo porque adora a piscina que Ian fez para a
Valentina e é muito mão de vaca para instalar uma no nosso quintal, o que tornou o livre acesso da
nossa irmã pela nossa casa fácil demais. Então, ela sempre está por lá, roubando internet, assaltando
a geladeira no meio da noite, expulsando o Gustavo de seu próprio quarto quando briga com o
marido.
Da última vez Ian acordou com Gustavo ao seu lado, tentando abraçá-lo, tudo porque ele se
recusou terminantemente a dormir em um dos sofás quando foi enxotado do conforto da sua cama e
acabou sonhando com a Cameron Diaz de fio dental. Não posso negar que foi muito divertido
acordar com os gritos do Ian, algo mais ou menos assim: “Que porra é essa, cara? Para de me
encoxar, tá me estranhando? E o que você está fazendo na minha cama, afinal Gustavo?
Definitivamente, não vai demorar nem cinco minutos até um deles encontrar o garoto.
Minha boneca

“Me apaixonei do mesmo jeito


que alguém cai no sono:
gradativamente e de repente,
de uma hora para outra.”
(A culpa é das estrelas, John Green)

Augusto

Depois de pensar por algum tempo, enquanto tamborilava os dedos no volante e pisava fundo no
acelerador, decidi que ir para casa era minha única alternativa viável. Eu abandonaria o garoto com
o primeiro que encontrasse e depois iria até o hospital me certificar de que aquela garota ia acordar,
nem que fosse à marra, não havia outra opção. Na verdade, eu é que não teria opção caso ela não
sobrevivesse, afinal eu não podia ficar com aquilo. O que eu ia fazer com um garoto? Nem de
crianças eu gostava. Sempre tão barulhentas e teimosas. Animaizinhos sedentos por açúcar e atenção.
Só eram úteis para duas coisas: encher o saco e fazer as mulheres do supermercado ficarem iludidas.
A única exceção era Valentina e pensar na minha boneca me fez vacilar.
Descobri que Bárbara estava grávida por acaso, quando ela teve um sangramento. Gustavo e
Bernardo estavam em casa naquele dia e a levaram às pressas para a emergência do hospital no meu
horário de serviço. Em um primeiro momento fiquei confuso e depois desesperado ao vê-la nos
braços de Bernardo, mas o sentimento se transformou em revolta assim que as batidas do coração do
bebê preencheram a sala de exames, pensei que o filho fosse de Ian tamanho seu desespero com a
possibilidade de ela estar tendo um aborto espontâneo. Quando descobri que era do Miguel, seu ex-
noivo, fiquei apenas decepcionado.
Eu não conseguia entender como ela havia sido tão burra a ponto de deixar que isso
acontecesse, pior, fiquei inconformado quando ela anunciou que levaria a gravidez adiante. Por mim
ela teria feito um aborto, teria cortado o mal pela raiz e ficaria livre e desimpedida para continuar a
viver a vida sem o peso de uma bagagem tão excruciante.
Me lembro de ter chamado aquele bebê de estorvo em mais de uma ocasião. Até o dia em que
Bárbara foi sequestrada por Miguel e sua esposa (a melhor amiga da minha irmã, pela qual ele a
trocou) e obrigada a dar cabo da vida daquela criança à base de um medicamento abortivo. O
desespero que eu senti quando deixei de ser teimoso e percebi que minha irmã estava em perigo foi o
suficiente para que eu tivesse me arrependido de ter sido tão duro com ela, mas secretamente eu
queria que eles tivessem conseguido, queria que a criança tivesse morrido ou, pelo menos, era o que
eu pensava na época.
Ela ficou em coma por diversos dias e Ian não saiu de seu lado em nenhum deles. Sua dedicação
foi o suficiente para que eu entendesse que ele queria a criança, ou ao menos não se importava em
cuidar dela, desde que tivesse a minha irmã ao seu lado, também percebi que ao desejar a morte
daquele bebê o destino podia me castigar tirando a vida da Bárbara, então fiz uma promessa: Se ela
acordasse, eu faria o possível para não demonstrar a ela meu desagrado com aquela situação e
estaria ao seu lado independente de sua decisão.
Eu cumpri a promessa.
Vi sua barriga crescer, sem colocar a mão sobre ela, a ouvi discorrer sobre diversos ultrassons
sem comparecer a nenhum deles mesmo estando de plantão em quase todas as vezes no mesmo
hospital onde o exame estava sendo realizado, lhe mandei flores, mas não compareci ao parto,
inventando uma desculpa qualquer para não saudar aquele ser que chegava ao mundo.
Na minha cabeça a promessa que fiz tinha limites, eu prometi não demonstrar o que eu pensava,
não prometi mentir.
Quando Valentina nasceu ainda morávamos todos na mesma casa, minha irmã se casou vários
meses depois de dar à luz. O bebê ficou com seu antigo quarto, que estava vazio após sua mudança
para o quarto do Ian. Em sua terceira noite em casa, a primeira que estávamos sob o mesmo teto, eu
acordei com o barulho estridente de seu choro, tentei virar para o lado algumas vezes, cobrir a
cabeça com o travesseiro e fingir que não estava ficando maluco com aquele maldito barulho. Mas
não consegui, eu me levantei e caminhei pelo corredor morrendo de vontade de sufocar aquela coisa
com o travesseiro e voltar a dormir, pelo menos até olhar para ela pela primeira vez.
Não sei dizer precisamente o que senti, só sei que me desarmou completamente.
Não sei se foi culpa, remorso, arrependimento, amor ou uma mistura de tudo, mas ela me ganhou
no ato. Seu choro cessou e quando dei por mim, ela já estava nos meus braços sendo ninada enquanto
eu andava em círculos pela quarto que nem um idiota babão. Demorei vários minutos para reparar
que Ian estava à porta do quarto me olhando com um olhar que eu definiria como enviadado, mas
uma mulherzinha talvez usasse o termo encantado, só notei sua presença quando sua voz quebrou o
silêncio:
— Para quem nunca pegou um desses no colo até que você leva jeito, Monstro. — Dei um pulo
quase jogando a menina para o teto e o encarei sem saber o que responder. — Apaixonado? —
perguntou se escorando no batente, abrindo um sorriso zombeteiro diante do meu silêncio e da
vergonha, que devia estar estampada na minha cara de pau, por ter sido flagrado com ela nos braços.
— Claro que não — respondi na defensiva. — Só vim resolver o problema do barulho, essa
garota não calava a boca. — Ele assentiu, ainda sorrindo, e esperou até que eu cedi. — Ela é bonita,
tão bonita quanto a mãe. — E era mesmo, uma linda garotinha com cara de joelho e olhos brilhantes.
— Graças a Deus, não se parece com o pai, aquele filho da puta desgraçado.
— Eu sou o pai. — O sorriso do meu melhor amigo havia sumido e sua voz se transformado em
gelo enquanto ele assumia um ar irritadiço.
— Claro, eu entendo. Você está com a minha irmã, então isso o torna...
— Não — me cortou com veemência. — Não é porque vou me casar com a sua irmã que me
considero pai da filha dela. Eu sou o pai porque eu estava ao lado dela quando ela viu as listras no
teste de gravidez, eu a tirei do chão e a abracei. Eu sou o pai porque eu estava em todos os
ultrassons, ansioso pelo momento de ouvir seu coração bater. Eu sou o pai porque pintei essas
paredes. — Ele indicou uma das paredes roxas com uma das mãos cerradas. — Eu sou o pai porque
estava segurando a mão da minha mulher quando ela nasceu, porque fui o primeiro a pegá-la nos
braços, porque troquei a primeira fralda. Eu sou o pai, Augusto, porque eu a amei quando ninguém
mais amou, desde o momento em que eu soube que ela estava a caminho. Ela é o meu presente, o
melhor que eu poderia ter ganhado.
— Tudo que você disse é muito bonito, mas você é meu melhor amigo, não preciso esconder de
você a minha opinião sobre toda essa situação — resmunguei entediado. Eu não entendia, talvez
nunca entendesse. — Não sei como você suporta, ela não é sua cara! — Eu não disse isso de forma
ofensiva, só não conseguia conceber a ideia de um homem assumir uma criança que não tinha seu
DNA. Era errado, talvez até humilhante.
— Quem sabe um dia você entenda. — Ele não parecia com raiva por minhas palavras duras,
apenas decepcionado e isso me incomodava. Me virei de costas e coloquei a bebê, que agora dormia
profundamente, de volta ao berço. — Ela é sim minha, Augusto, mas também é sua. — Suspirou. —
Não estrague tudo.
Dito isso, ele se virou e voltou para seu quarto. Já eu? Eu me debrucei sobre o berço.
Naquele dia eu menti para ele, eu estava sim apaixonado.
Valentina era a única criança por quem eu era loucamente e irrevogavelmente apaixonado. Ela
era, sem dúvidas, a garota que eu mais amava na vida. Uma menina doce e meiga, que sabia pedir
por favor, falar obrigada e ser gentil. Ela se comportava à mesa e andava com a postura de uma
boneca e, claro, sempre me arrumava várias mulheres quando resolvia sair agarrada no meu pescoço.
Fora isso, ela era a única criança que eu me permitia amar, talvez por ter meu sangue, ou talvez por
simplesmente não ser minha.
Diferente de Gustavo, eu não a mimava, não brincava com ela, não falava com voz mansa, pelo
contrário, sempre a tratei como uma igual. Como alguém que entendia o que eu dizia até que ela
realmente conseguiu entender. Quando eu me cansava, a devolvia para seus pais, e voltava a minha
vida, e era assim que deveria ser porque, para mim, o amor tinha limites.
Eu nunca amei mulher nenhuma, mas o limite que eu nunca ultrapassaria se um dia amasse era
dar a vida a alguém, muito menos criar o filho de outra pessoa.
Eu não queria ser pai.
Então, naquele momento dentro do meu carro com um garotinho me olhando de maneira
assustada, eu estava diante do meu pior pesadelo: uma criança.
Uma criança que estava sob a minha responsabilidade.
Irmãos, para que servem mesmo?

“Uma coisa é certa,


nem sempre os irmãos brigam...
só quando eles se encontram.”
(Autor desconhecido)

Augusto

Quando embiquei o carro na entrada da garagem, o dia já tinha amanhecido. Levantei a mão e
apertei o botão que abria o portão automático notando meus dedos tremerem diante dos meus olhos,
eu ainda estava em choque e não conseguia raciocinar normalmente, então me forcei a pensar sobre
um assunto de cada vez. Será que eu deveria mentir para minha família sobre as circunstâncias em
que esse garoto acabou na minha vida?
Provavelmente não ia adiantar, todos são tão fofoqueiros e curiosos que minha mentira só
levaria a mais perguntas, que levaria a mais mentiras e, no fim, eu não tinha dúvidas de que iria me
enrolar tanto nelas que acabaria tropeçando nas minhas próprias invenções e dando com a cara no
chão enquanto suas risadas acabavam com o resto da minha paciência, isto é, se eu tiver nascido com
alguma, o que eu seriamente duvidava.
Durante o percurso, não voltei a olhar para trás e o garoto não fez um som sequer, foi quase fácil
esquecer de sua presença, quase. Mas eu não precisava ver o problema para saber que ele estava ali,
à espreita, esperando uma única chance de foder com a minha vida.
Por enquanto eu vou fingir que ele não existe, porque eu posso. Saio do carro e bato a porta,
entro em casa a passos duros e paro no meio da sala. Quem vai ser mais receptivo e menos
barulhento, Gustavo ou Bárbara? Ah, a quem estou enganando? Tanto faz, os dois vão surtar de
qualquer jeito. Mesmo assim decido apelar primeiro para o sentimentalismo da minha irmã primeiro.
Chego ao quintal e passo pela porta que liga nossas casas, em poucos passos estou dentro da sua
cozinha, subo os degraus e abro a porta do quarto principal entrando com toda a graça que meu um
metro e noventa de altura e 98 quilos me permitem, ou seja, quase nenhuma.
Olho para a cama e tenho vontade de vomitar, sempre tenho essa vontade quando vejo Ian tão
perto da minha irmã. Os dois estão dormindo profundamente, ele a abraça e repousa a mão em sua
barriga inchada, e ela se preocupa em abraçar apenas seu travesseiro. Ainda não me acostumei com a
ideia de saber que ela está novamente grávida, sinto certa repulsa em saber que tem um pequeno ser
feito pelo meu melhor amigo nadando dentro dela, mais uma criança, mais choros de madrugada,
mais baba por toda parte, mais noites em claro.
Penso em me mudar, não pela primeira vez, fazer as malas e passear por uma geleira, será que o
Polo Norte seria longe o suficiente desses dois e sua mania de coelho de colocar filho no mundo?
Não sei, mas a ideia é tentadora. Talvez eu comece a procurar pelas passagens depois de achar um
idiota para ficar de olho na criança.
O que importa é que essa visão é o suficiente para me fazer surtar. Tudo que eu guardei nas
últimas horas sai de dentro de mim na forma de frustração e gritos, muitos gritos.
— Acordem, porra! — berro fazendo os dois pularem de susto.
— Se ninguém tiver morrido, dá o fora! — reclama Ian soltando minha irmã e se virando para o
outro lado enquanto cobre a cabeça com o travesseiro. Não me incomodo em responder, apenas puxo
as cobertas, eu não deveria ter feito isso.
— Você tem mesmo que dormir sem cueca, cara? — pergunto irritado, virando o rosto e
encontrando um vaso no aparador, ele vai ser útil se eu realmente vomitar e sinto que estou mais
perto disso a cada minuto ou eu posso apenas quebrá-lo na cabeça do meu cunhado, uma ideia muito,
muito mais atraente.
— Bárbara, eu não falei para você trancar a porta? — reclama Ian se sentando e puxando de
volta o edredom para cobrir a ótima visão do inferno que eu fui obrigado a presenciar tão cedo. — O
benefício de casar era se livrar deles, lembra?
— Esqueci — murmura bocejando. —, eu disse que nós devíamos nos mudar.
— Concordo! — dissemos ele e eu em uníssono, mas ainda não.
— O que você quer, Augusto? — pergunta minha irmã se sentando também. Graças a Deus ela
veste um pijama, senão eu seria obrigado a arrancar meus olhos.
— Eu... — engasgo, respiro fundo e tento me acalmar. — eu... — novamente não sai nada. Ela
arregala os olhos e me encara com atenção, sabe tão bem quanto ninguém reconhecer meus gestos e
maneiras, e nesse instante sei que devo parecer desesperado porque sua boca se abre e ela vira a
cabeça como um cachorrinho diante de algo que foge a sua compreensão.
— O que aconteceu? — pergunta séria, em voz baixa, cruzando os braços sobre o rosto da
Minnie em sua blusa de mangas compridas.
— Eu... — Merda, não consigo falar.
— Virou gay? Roubou um banco? Engravidou alguém? — Nego com a cabeça a cada sugestão
insana, parando para pensar não tão insanas perto do que eu tenho para lhe dizer. — Matou alguém?
— Nego novamente. — Não está saindo com nenhuma mulher casada de novo, está? Bom se for isso,
a gente dá um jeito! Eu tolero qualquer coisa, desde que você não estrague as minhas férias de novo
— diz lançando um olhar zangado e sonhador para as malas feitas e enfileiradas no canto do quarto.
Acho que eu terei que decepcioná-la, porque ela não vai sair do país enquanto eu estou nessa
enrascada, mas não vai mesmo.
— Eu presenciei um acidente — começo lentamente, ela revira os olhos como se esperasse algo
mais bombástico. Calma, monstrinha, ainda não cheguei lá. — Uma moça estava sendo perseguida
por um homem quando ele jogou seu carro em cima do dela, fazendo-a se chocar contra uma árvore.
— Meu Deus que coisa horrível, você está bem? — pergunta Ian solícito.
— Eu estaria se tivesse passado reto — lamento fazendo ele erguer as sobrancelhas. —, mas eu
parei para ajudar a garota e me meti em uma enrascada.
— A polícia vai bater na nossa porta? — pergunta minha irmã estreitando os olhos. — Porque
se você precisa de uma advogada, já te aviso que eu vou cobrar!
— Vê se cala a boca e escuta! — Ela faz cara de poucos amigos, mas se cala. — Tinha uma
coisa no carro dela. Antes de apagar, ela me pediu para cuidar dessa coisa e protegê-la e me disse
que eu não deveria chamar a polícia porque senão a tal coisa ficaria em risco...
— O que era essa coisa? — pergunta curiosa.
— Acho que é melhor você ver com seus próprios olhos, eu deixei no carro. — Suspiro fazendo
um meneio para a janela fechada de sua varanda. Não preciso falar duas vezes, em poucos segundos
ela está calçando os chinelos e saindo do quarto apressadamente, Ian tenta impedi-la e se levanta
para ir junto, mas ela o faz ficar e some pela porta do quarto.
Seu berro vem apenas um minuto depois.
— Porra, Augusto, não é uma coisa, é uma criança, cacete! — grita a plenos pulmões da
garagem. Fecho os olhos e deixo meus ombros caírem. É, é uma porcaria de uma criança.
— Uma criança, Augusto? — pergunta Ian espantado. Eu apenas assinto. — Vai ter que fazer
melhor do que balançar a cabeça que nem aqueles cachorrinhos de painéis de carros, vai falando...
— Eu não faço ideia no que me meti — digo dando de ombros, exasperado.
— Mas eu faço — diz minha irmã entrando no quarto feito um furacão. — Você se meteu em um
GRANDE... — grita. —, GRANDE... — grita mais uma vez. — problema. Dito isso, ela se vira e
esmurra duas vezes a parede, berrando, para chamar a atenção de Gustavo, já que seu quarto fica
apenas a uma fina camada de concreto de distância. — Acorda e pega a câmera, Mala, o papai vai
adorar as cenas em vídeo!
Olhares decepcionados me irritam

“A decepção é a dura consequência


de termos provado do veneno da ilusão.”
(Autor desconhecido)

Augusto

— Por que tem um garotinho que parece ter visto um fantasma no nosso sofá? — pergunta
Gustavo entrando no quarto da Bárbara com cara de sono. Ele boceja e passa a mão pelo rosto
tentando acordar para não perder nem um segundo do novo espetáculo em cartaz: Como foder o
Augusto em Cinquenta Tons de Promessas Babacas! Sim, eu havia visto o filme original, minha irmã
havia me obrigado e eu tinha certeza de que era muito mais bem-dotado que o psicopata fodidão que
gostava de dar uns tapinhas na mulherada.
— Porque nosso irmão resolveu brincar de Capitão América — responde ríspida. — O que
você tinha na cabeça de prometer uma coisa dessas? — pergunta se voltando para mim novamente.
Até Gustavo levantar a bunda da cama e aparecer com a câmera, eu já tinha tido tempo de contar a
ela e Ian tudo que aconteceu em detalhes.
— Eu não sei, eu não sabia o que era a tal coisa — tento me defender. — Ela parecia tão
desesperada, eu... — Deixo que minha voz diminua de tom até sumir, para essa pergunta eu não tenho
uma boa explicação.
— Desde quando você faz o que alguma mulher desesperada te pede? — Dessa vez, quem
recrimina é Ian, ele está mais frustrado que minha irmã, se é que isso é possível.
— A melhor pergunta é, o que você tinha na cabeça de se envolver nisso? Por que seguiu eles?
— pergunta minha irmã furiosa.
— Eu não sei o que deu em mim — é a melhor explicação que tenho.
— Quem é o garoto? Ela te falou o nome dele ou o que era dele? Mãe, irmã, babá? Qualquer
coisa útil?
— Não, ela apagou antes disso, antes mesmo de me dizer seu nome. Mas isso agora não
importa, eu tenho que honrar minha promessa. — Essa convicção ainda ia me colocar em maus
lençóis.
— Não tem, não. — Ian balança a cabeça indignado, como se minha ideia fosse um absurdo e eu
não discordava.
— Ian, pensa comigo — peço quase perdendo a paciência. —, se ela disse que eu tinha que
proteger o garoto, eu acredito nela. Eu vi com meus próprios olhos alguém tentar matá-los. — Aquela
era uma cena que dificilmente ia sair da minha cabeça tão cedo.
— E o que te faz pensar que pode fazer isso melhor do que a polícia? — pergunta cravando seus
olhos azuis nos meus de forma questionadora.
— Ela disse que a polícia não poderia mantê-lo seguro, ela deve ter os seus motivos. — Eu
esperava que tivesse mesmo porque se ela estava me fazendo ficar de babá à toa ia se arrepender.
— Motivos que você não conhece — ralha minha irmã. — Como você sabe que ela não
sequestrou esse garoto e agora, nesse instante, tem uma família chorando sua perda em algum lugar?
— Porque se alguém quisesse o garoto de volta não teria tentado matá-la. — Eu acho.
— Pare e pense, seu animal — rosna alisando a barriga pontuda. —, você não faz ideia de quem
essa mulher é, com quem ela está envolvida e o que ela faz.
— Gente, alguém me explica o que está acontecendo? — pede Gustavo com cara de cachorrinho
que caiu da mudança.
— Cale a boca, Gustavo! — berramos Bárbara, Ian e eu ao mesmo tempo. Ele revira os olhos e
se joga na cama entre nossa irmã e nosso cunhado com uma carranca zangada no rosto.
— Até eu descobrir mais sobre ela, o garoto fica — afirmo determinado. Que escolha eu tinha?
— Ótimo, boa sorte em acabar atrás das grades enquanto eu vou tomar um belo banho de sol no
Caribe! — Ela dá de ombros e volta a olhar para as malas com carinho.
— Ah, mas não vai mesmo — afirmo categórico.
— Como é que é? — pergunta colocando as mãos na cintura, me encarando com os olhos em
brasa, não desvio o olhar, mas percebo pelo canto do olhos Ian fazer um sinal para Gustavo e os dois
saírem de fininho pela porta, prevendo a tempestade que vou enfrentar.
— Você não pode tirar férias, eu não faço ideia do que fazer com aquele garoto. — Suas
sobrancelhas se franzem e ela afina os lábios cerrando os punhos enquanto eu aguardo pelos raios.
— O que isso quer dizer exatamente? — pergunta em um fio de voz e eu sinto que a resposta
errada vai fazê-la pular no meu pescoço, literalmente.
— Que eu preciso de você. — As palavras chegam a arder na minha boca. Não vou implorar,
pode esquecer, monstrinha, isso não vai acontecer.
— Não é o suficiente. — Ela balança a cabeça sorrindo diabolicamente, sabe que me tem nas
mãos e não vai me deixar ignorar esse fato. — Se você quer a minha ajuda, se quer ferrar com as
minhas férias pela TERCEIRA — grita. — vez, vai ter que me dar mais do que isso.
— O que você quer? — pergunto entredentes, me rendendo.
— Primeiro, que você peça por favor; segundo, quero que você diga por favor de novo; e
terceiro, quero o seu Home Theater novo, ele vai ficar perfeito nesse quarto, ligado naquela tevê. —
Aponta o dedo magro para a televisão de tela plana grudada à parede, tenho vontade de arrancar seu
dedo, mas me pego assentindo de mau gosto.
— Por favor — sussurro querendo arrancar a sua cabeça e jogar uma partida de futebol com
ela.
— Mais alto — pede, rindo. Eu adoraria que fôssemos crianças novamente e eu pudesse enfiar
a porrada nela sem medir as consequências. Mas novamente faço o que ela pede.
— Por favor — falo alto.
— Mais uma vez. — Ela está se divertindo pra caramba, dá para ver pelo seu olhar.
— Por favor — grito, me segurando para não enforcá-la.
— Gravou? — pergunta voltando sua atenção para a porta, sigo seu olhar e encontro o do
Gustavo, ele parece arrependido, mas não abaixa a câmera, a luz vermelha piscantes que emana dela
não deixa dúvidas, ele registrou cada momento.
Eu vou matar ela e depois vou matar ele, eu vou matar os dois e vou gostar de cada minuto
disso.
— Agora que o show acabou, pode me ajudar com aquela coisa? — pergunto para Bárbara
lançando um olhar mortífero para meu irmão, ele desliga a câmera e dá dois passos para trás.
— Claro. Enquanto isso, Mala joga essa belezinha no Youtube e no Facebook! — diz, rindo e
saindo pela porta do quarto. — E vê se não chama o garotinho assim — ralha.
— Se você... — ameaço e Gustavo dá mais alguns passos para trás se escondendo atrás dela e
descendo as escadas antes que eu consiga alcançá-los.
Respiro fundo uma, duas, três vezes e depois desisto, nem se eu respirasse fundo mil vezes ia
me sentir calmo. Faço o mesmo caminho e desço as escadas me sentando na poltrona mais afastada
do garoto evitando deixar meu olhar cruzar com o dele, em vez disso me concentro na minha irmã que
está agachada à sua frente.
— Qual é o seu nome? — pergunta docemente, com a voz que ela guarda para quando quer que
alguém lhe faça algum favor ou para quando está falando com a Valentina. O silêncio me enche de
curiosidade e é ele quem me faz olhá-lo. O garoto não olha para ela, ao invés disso mira os próprios
pés, encara com fascínio e tristeza o par de tênis surrados como se estivesse esperando que eles
respondessem por ele. — Você está com fome? — Novamente não há reação. Isso não é normal. Na
minha cabeça todas as crianças falam pelos cotovelos e nada, absolutamente nada que tenha sentido,
mas esse garoto não chega nem a mover os olhos, chego a ter dúvidas até se ele está respirando.
Quando dou por mim estou encarando seu peito, o ponto exato onde seu coração está por baixo
da camiseta vermelha manchada, esperando notar uma elevação, um golpe de ar, um tremular do
tecido, quando vejo o que procuro solto minha própria respiração, não me dei conta de que a estava
prendendo de forma ansiosa até então.
Ian se junta a nós com um prato em uma das mãos e um copo de suco na outra. Ele deposita tudo
na mesa de centro e se senta ao lado do garoto.
— Você está com fome? — pergunta gentilmente novamente passando a mão por sua cabeça, a
criança se encolhe com seu toque e ele retira rapidamente a mão franzindo o cenho. Novamente não
há resposta.
— Acho melhor deixarmos ele se acostumar ao ambiente, tentar forçá-lo a falar não vai ajudar
— disparo para ninguém em especial.
— Tem razão — concorda Ian. Minha irmã parece frustrada e confusa, não tira os olhos do
menino, Gustavo faz o mesmo em sua poltrona, mas ele parece apenas curioso. — Você o levou para
o hospital depois do acidente?
— Não — Balançou a cabeça em uma negativa. —, ele me pareceu bem.
— E você parece que comprou o diploma, seu inútil. Ele tinha que ter sido examinado, deveria
ter ido com a garota na ambulância — recrimina Ian como se estivéssemos em pleno apocalipse sem
uma lata de cerveja no estoque.
— Ótimo, leva ele você. Usa seu charme e entra com o garoto pela porta dos fundos, não
esquece de não deixar nenhum registro — instruo com um nó na garganta, não me parece certo deixar
Ian cuidar da situação. Tenho receio do que pode acontecer se ele der apenas um passo em falso, mas
ele é a melhor pessoa para o trabalho. Conhece o hospital em que trabalhamos de uma ponta a outra e
tem influência para conseguir que o garoto seja atendido de maneira discreta. — Enquanto isso eu
vou até o hospital ver o que descubro sobre a garota, cuidem dele — ordeno me levantando, mas me
lembro de mais um detalhe. — Nenhuma palavra a ninguém sobre isso, entenderam? — Olho apenas
para minha irmã ao fazer a pergunta, sua língua solta é a que mais me preocupa.
— Acho que deveríamos ligar para o Bernardo — aconselha. Bernardo é outro dos meus
melhores amigos e, por sinal, um delegado da polícia civil. Quando a garota de cabelos negros me
disse para não envolver a polícia nem por um minuto pensei em não envolver meu amigo, eu sabia
que podia confiar nele. Sabia que mesmo tendo feito um juramento e ser correto em sua profissão ele
ia me ajudar a sair dessa, mas ainda não. Ainda não estou pronto para que ele saiba.
— Não é porque você não vai se juntar a eles que vamos estragar a primeira viagem dele e da
Vivian, não é? — Ambos foram uma semana antes de Bárbara e Ian para aproveitarem um tempo
sozinhos, já que não puderam fazer uma viagem de lua de mel por causa de um caso de última hora
que ele teve que resolver na época do casamento.
— Augusto — tenta novamente, incerta, pronunciando meu nome como um lamento.
— Ainda não, Babi, vamos ver como as coisas se desenrolam primeiro. Eles voltam em duas
semanas. Quando eles chegarem eu converso com ele, mas até lá não fofoca nada pra Vivian,
entendeu? — Sei o quanto é difícil para ela fazer essa promessa e claro que sei que ela não vai
cumpri-la. Vivian é sua melhor amiga, além de ser irmã de Ian, é sua outra metade. Entre elas não há
segredo, mas eu vou precisar confiar na minha irmã e torcer para que ela não queira estragar a
viagem da amiga antes da hora.
— Tudo bem — concorda de má vontade.
— Campeão, vamos dar uma volta? — pergunta Ian para o garoto, ele apenas volta a arregalar
os enormes olhos verdes e se encolhe ainda mais em seu lugar. — Precisamos saber se está tudo bem
com você, então vou te levar até o hospital para alguns exames, tudo bem?
A reação do garoto é tão rápida que a sinto antes mesmo de conseguir registrá-la. Ele pulou do
sofá com agilidade e correu em minha direção até a porta envolvendo uma das minhas pernas com
duas mãozinhas gordas. Olho para baixo e vejo sua cabeça inclinada em minha direção, seus olhos
assombrosamente expressivos como os da garota que estava com ele se fixam aos meus, dentro deles
vejo medo e várias lágrimas se formando.
Suspiro e seguro com precisão um dos seus braços, o arrancando da minha perna, e caminho de
volta até o centro da sala, o empurrando na direção de Ian, que o pega no colo. Dou as costas rezando
para não encontrar um atestado de óbito ao invés da garota quando chegar ao hospital. Mas antes de
fechar a porta volto a olhá-lo, ele me encara com um misto de decepção e abandono enquanto se vira
e agarra o pescoço de Ian deixando a cabeça tombar em seu pescoço para que eu não veja as
lágrimas escorrerem.
Ele logo se sentirá seguro com Ian, muito mais do que se sentiria comigo.
É isso que digo para mim mesmo enquanto sua decepção me queima por dentro.
Corrompendo um amigo

“Ter um amigo é ter alguém


para cometer certas idiotices.”
(Autor desconhecido)

Augusto

— Boa tarde — cumprimento a moça que está atrás do balcão de informações, ela não chega a
tirar os olhos das unhas que está lixando com uma expressão entediada quando faz um meneio com a
cabeça indicando que notou minha presença. — Uma garota foi trazida por paramédicos mais cedo,
ela sofreu um acidente na estrada...
— Você é parente? — pergunta, me cortando ainda sem me olhar.
— Não — respondo entredentes.
— Então não posso te dar nenhuma informação. — Minha vontade é dar a volta no balcão e
fazê-la engolir aquela maldita lixa de unhas, mas não posso, ainda não.
— Desculpe — Inclino a cabeça para tentar enxergar o que o crachá preso ao seu peito diz. —,
Isabela, mas eu realmente preciso saber como a garota está. — Finalmente, ela levanta a cabeça e me
encara. Noto que ela não esperava pelo que vê, seus olhos se findam e suas bochechas coram de
imediato. Me aproveito da situação e me debruço sobre o balcão lhe lançando meu melhor olhar de
“faz logo a porra do que estou mandando” e ela cai, elas sempre caem.
— Talvez eu possa chamar um dos médicos que a atendeu? — pergunta com um sorriso tímido.
— Isso seria perfeito. — Sorrio em resposta. Até que ela é bonitinha, se eu tivesse mais tempo
livre, talvez a levasse para um dos consultórios vazios, talvez eu faça exatamente isso mais tarde, ou
seja, depois de conferir que a garota está viva e bem e vai me tirar da confusão em que me meteu,
porque Deus sabe o quanto estou precisando relaxar. Mas até lá não consigo pensar com outra cabeça
a não ser aquela que tem uma corda firmemente amarrada em volta do pescoço.
Ela digita algumas coisas no teclado se inclinando e me mostrando casualmente o parco decote
que a blusa do uniforme permite, acha um nome e tira o telefone do gancho enquanto liga para o
ramal de alguém.
— Dr. Soares, tem um rapaz aqui que gostaria falar com o senhor sobre a garota sem nome que
chegou mais cedo. — “Garota sem nome” é a expressão perfeita para defini-la. A recepcionista
assente algumas vezes e desliga.
— Ele virá falar com o senhor... — ela deixa sua frase morrer à espera que eu lhe dê um nome.
Não vai rolar.
— Obrigado, querida — agradeço com uma piscadinha e lhe dou as costas me sentando em uma
cadeira nada confortável na sala de espera. Pelos próximos vinte minutos em que eu espero o tal
médico parar de jogar Candy Crush no celular e vir me atender tento ao máximo fingir que não noto
os olhares da recepcionista, mas está ficando cada vez mais difícil ignorar que ela adoraria arrancar
a minha roupa. Quando estou quase me dando por vencido e me levantando para pedir seu telefone
avisto um médico de aparência cansada saltitando pelo corredor central como se fosse a porra da
Chapeuzinho Vermelho.
Assim que a recepcionista, que está atenta a todos os meus movimentos, se vira e olha o que
prende minha atenção, o médico se volta para ela, que faz um gesto mínimo na minha direção, me
levanto e estendo a mão que ele aperta.
— Você é parente da moça? — pergunta soltando minha mão e endireitando a armação torta do
óculos de grau.
— Não, mas fui eu quem presenciou o acidente e chamei socorro. — Ele assente esperando que
eu lhe fale o que vim fazer aqui. — Eu gostaria de saber qual é o estado de saúde dela.
— Me desculpe, mas eu não posso dar informações para alguém que não é parente — diz sem
paciência lançando um olhar rápido para a recepcionista que, com certeza, vai levar uma bronca por
tirá-lo do que estava fazendo, mesmo sabendo as regras.
— Eu sei, mas ela me disse que não tinha nenhum parente, também disse que estava sem seus
documentos — minto descaradamente. —, eu sou a única pessoa que a viu consciente, me sinto
responsável por ela. — Essa parte não é totalmente uma mentira e é ela quem faz o médico fraquejar
e abrir o bico.
— Bom, ela está estável. — Esfrego uma das mãos pelo rosto em evidente frustração e ele
continua falando calmamente. — Estamos fazendo mais exames, agora só podemos aguardar, rapaz.
— Como se eu tivesse toda essa paciência.
— Doutor, se me permite, eu não sou leigo, sou um colega de profissão. — Ele arqueia as
sobrancelhas me medindo dos sapatos até o último fio de cabelo. — Vamos direto ao ponto, por
favor.
— Está bem — diz se rendendo. —, a garota não está nada bem — afirma enquanto indica duas
cadeiras mais adiante, me arrasto até elas de bom grado enquanto me imagino comendo feijão do
governo com duas algemas nos pulsos. — Mas ela teve sorte em ter um atendimento rápido. — Isso
se ele contar os vários minutos que a ambulância levou para chegar.
— Quais são as extensões dos ferimentos? — pergunto com medo da resposta.
— Ela chegou aqui com várias lacerações, mas as mais preocupantes foram as escoriações
torácica esternais e a fratura de arcos costais, particularmente da primeira costela. Ou seja, ela teve
um trauma torácico fechado o que pode indicar... — ele para de falar e deixa de olhar para os
sapatos voltando os olhos caídos para os meus. — Qual você falou que era sua especialidade?
— Eu não falei. — Qual era a dificuldade de desembuchar tudo de uma vez? — Sou
cardiologista. — Lamento, nesse momento realmente lamento a profissão que escolhi.
— Então, provavelmente você já sabe aonde eu quero chegar. — Assinto respirando
profundamente. Tudo que eu consigo pensar é, agora fodeu!
— Por causa do impacto frontal e da aceleração, mais a fratura, vocês estão suspeitando de uma
lesão aórtica. — Ele assentiu embora eu não tivesse feito nenhuma pergunta. — Realmente ela teve
sorte. — Quase metade dos pacientes que sofrem esse tipo de lesão não chegam com vida ao
hospital, eu realmente estava preso dentro de um problema enorme e a um passo de ter como enfeite
uma bola de ferro amarrada a um dos tornozelos.
— Ela está passando por exames nesse momento, está sedada e foi preciso fazer uma
traqueostomia porque seus canais respiratórios se fecharam na ambulância. A radiografia de tórax
mostrou alterações, tais como o mediastino alargado e a perda do contorno aórtico, então se for
confirmado ela vai direto para a cirurgia. O nosso maior problema é que não temos nenhum
cardiologista de plantão e não conseguimos achar nenhum deles pelo celular.
— Esse hospital não comporta uma cirurgia dessa proporção? — Ele parece ofendido, mas se
cala enquanto eu meio que me desespero.
— Primeiro vamos avaliar o eco transesofágico e descobrir se ela realmente será necessária,
rapaz.
— Você sabe que esse exame não é eficaz em caso de ruptura da aorta, não sabe? — pergunto
irritado fazendo com que ele se ofenda cada vez mais, sei que corro o risco de ele me colocar para
fora e não me dizer mais nada, mas essa anta está fazendo tudo errado. — O comprometimento do
arco aórtico e da aorta ascendente não é bem visualizado, se houve pneumomediastino então vai
atrapalhar a interpretação. Faz uma angiografia!
— Eu não recebo ordens de nenhum garoto mimado que se acha o rei do pedaço — cospe. —,
você nem trabalha aqui, moleque! — Cerro os punhos vendo-o me dar as costas e se afastar. Não
tenho outra saída, vou ter que infringir a lei de novo. Eu não poderia estar mais feliz por Bernardo
estar em outro país nadando com golfinhos.

— E aí? — pergunta Ian assim que a ligação se completa.


— Cara, eu preciso da sua ajuda. — Duas vezes, já implorei por ajuda hoje duas vezes. Não
gosto nem um pouco disso.
— Merda, a garota morreu? — pergunta seguido por um palavrão.
— Ainda não, mas vai se continuar aqui. Eles estão suspeitando de uma ruptura aórtica, eu
sugeri que eles fizessem uma angiografia para confirmar, mas o médico praticamente me enxotou
porta afora.
— Você sugeriu? — Seu tom de voz me diz que ele não acredita nisso.
— Eu mandei, qual é a diferença? — Esse não era o ponto. — Isso não importa, você precisa
me ajudar a tirar ela daqui.
— Sem chance, Augusto — me corta rapidamente.
— Eu sei que você pode. Você está no conselho dessa merda — Recentemente promovido, por
sinal. —, eu sei que você pode internar ela pro bono.
— E que desculpa eu daria para fazer isso? Nós não sabemos nem quem ela é. A garota é um
indigente, Monstro. Ela ia acabar com uma dívida médica milionária se sobrevivesse.
— Ian, por favor. — Esse é o meu limite, é mais longe do que já fui em muitos anos de amizade
e ele sabe porque xinga em alto e em bom som. Ele não pode escapar de um “por favor” saído da
minha boca e tem plena consciência disso.
— Você quer me foder, cara? — Se eu precisar... — O que eu vou dizer para conseguir tirar
essa garota daí? Acha que o médico dela vai embrulhá-la para presente e me ajudar a enfiar ela em
uma ambulância? — Não respondo, não preciso porque sei que ele já cedeu. — Vem até aqui buscar
o garotinho, eu vou dar um jeito na merda que você fez! — resmunga irritado.
— Valeu, cara! — Mas a essa altura, ele já havia desligado na minha cara e isso era ótimo, um
“por favor” e um “obrigado” na mesma conversa faria ele me internar em algum hospital para gente
doida.
Dirigi o caminho de um hospital ao outro pensando seriamente em ligar para um dos meus
irmãos irem buscar o garoto, mas Ian não ia gostar e nesse momento tudo o que eu não preciso é
deixá-lo mais puto comigo. Eu consigo, consigo lidar com um garoto por algumas horas até encontrar
alguém com o coração mole, mais precisamente algum otário sentimental para passar o bastão. Deixo
o carro na esquina e entro pela saída de emergência, tentando ao máximo não ser notado, mas é em
vão.
— Boa tarde, doutor, pensei que o senhor não estivesse de plantão hoje — diz uma das
enfermeiras mais velhas, piscando os cílios na minha direção. Até ela! O único lado positivo do Ian
ter se casado com a minha irmã é que não preciso mais disputar a atenção de nenhuma enfermeira
com ele, toda a atenção agora é só minha. Sorrio em resposta e me apresso até o elevador apertando
o botão do sétimo andar uma dúzia de vezes.
Quando abro a porta da sala dele, Ian está ao telefone, dou uma olhada no ambiente e encontro o
garoto sentado no pequeno sofá creme em silêncio encarando os tênis. De novo aqueles tênis velhos e
esburacados, ele precisa urgentemente de um par novo, mas esqueço esse pensamento assim que as
palavras de Ian começam a fazer sentido na minha cabeça.
— Me espera na saída de emergência e nenhuma palavra disso pra ninguém, Diego, entendeu?
— pergunta com autoridade para um dos enfermeiros que trabalham na equipe dele, seu preferido e
puxa-saco oficial. Sério, se alguém abaixar as calças do Ian não vai encontrar a minha irmã
pendurada e sim aquele moleque esquisito. — Manda a Nina preparar o leito e ligar para a
anestesista, quero todo mundo pronto para quando chegarmos com a paciente. — Tenho dificuldade
em esconder um sorrisinho, tanta que meu amigo o nota assim que coloca o telefone de volta no
gancho.
— Não comemore, ainda não tirei ela de lá — alerta de forma fria, mas não me importo. A
determinação que vejo dentro de seus olhos azuis é o suficiente para eu saber que ele vai conseguir,
não importa como, mas vai. — O garoto está bem, só para você saber — ralha. Eu disse que ele
estava bem, então a constatação não é nenhuma surpresa.
Ian veste o jaleco e sai pela porta feito um furacão, consigo ouvir seus passos enquanto ele
corre pelo corredor de linóleo e, por fim, ouço a porta da saída de emergência bater. Nesse momento
me volto para o garoto.
— Vem — chamo olhando-o, ele não se mexe. — Garoto — Ele levanta a cabeça e me olha com
ressentimento, que logicamente eu ignoro. —, vem! — Dessa vez ele se move, tem certa dificuldade
em descer do sofá muito maior do que ele, mas se põe de pé e anda em minha direção. Quando ele
para ao meu lado estende a mão para cima, para que eu a pegue, o que eu também ignoro.
— Não precisa. — Ele abaixa a mão e olha para o chão. Abro a porta e espero ele passar por
ela para fechá-la. Caminho até o elevador pensando no quanto esse menino é estranho. Ainda não
ouvi sua voz e duvido muito que ele tenha falado com outra pessoa. Não o vi sair correndo nem
mexer em nenhum objeto que não deveria, novamente, garoto estranho! — O gato comeu sua língua?
— pergunto com ironia quando chegamos à rua, mas ele apenas balança a cabeça negativamente
pulando os quadradinhos do ladrilho da calçada, a primeira coisa realmente infantil que o vejo
fazendo. Então percebo que não tem a menor graça gastar o meu sarcasmo com alguém que ainda não
o entende, vou guardar meu estoque para meus irmãos então!
Destravo o alarme do carro e abro a porta traseira, ele pula dentro do automóvel e se instala em
sua cadeirinha, tento não revirar os olhos para a cena família, ao invés disso olho ao redor para ver
se ninguém está nos observando, isso acabaria com a minha reputação. Quando confirmo que a barra
está limpa, volto minha atenção para ele e o pego tentando colocar a trava de segurança sozinho, sem
sucesso. Espero mais algumas tentativas, até que me canso de vê-lo falhar e eu mesmo o prendo.
— É assim que se faz, está vendo? — Mostro como prender o cinto na trava e noto que ele
observa com atenção minha instrução, depois de feito volto a soltá-lo e cruzo os braços. Ele me dá
uma rápida olhadela e tenta sozinho, dessa vez conseguindo. — Isso aí, cara! — Um minúsculo
sorriso se estampa em sua face, só me dou conta de que estou sorrindo também quando viro a chave
na ignição.
Crianças, outro detalhe delas, são manipuladoras!
Nenhuma das mulheres da família sabem falar ao telefone

“A morte não é a maior perda da vida.


A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos.”
(Picasso)

Augusto

Chego em casa e pelo silêncio imagino que não há mais ninguém nela. Tento gritar o nome dos
meus irmãos, mas não há resposta. Eu já imaginava que Gustavo ainda estaria no trabalho, mas
imaginei que Bárbara estaria sentada no meu sofá me esperando chegar com a curiosidade saindo de
todos seus poros. Pelo visto me enganei.
— Senta aí. — Indico o sofá para o garoto que faz o que eu mando. Ligo a televisão e acho um
desenho babaca do Mickey no Netflix, acho que isso dá conta de entretê-lo pelas próximas horas e
vou para a cozinha, eu necessito de uma cerveja, ou talvez umas dez. Sento-me à mesa e abro uma
long neck, somente depois do primeiro gole avisto um bilhete sobre ela.

“O chefão disse que eu não vou viajar, tenho que trabalhar. O filho da puta adiou minhas férias,
então estou indo levar a Tina para a mamãe. Muito obrigada, Augusto!”

Começo a rir de sua desgraça até perceber o quanto seu azar vai afetar minha vida. Se ela vai
ter que trabalhar, quem vai ficar com esse garoto para que eu possa trabalhar? Eu não posso
simplesmente ficar em casa até a garota melhorar, isso se ela realmente melhorar, também não posso
cogitar levá-lo para o hospital comigo, mas que merda eu vou fazer? Abandono a cerveja e vou atrás
de uma lista telefônica, depois de meia hora e mais de vinte ligações não encontrei uma única babá
disponível.
— Pensa Augusto, pensa. — Forço em voz alta bebendo o que restou da cerveja quente indo em
busca de outra. A quem eu posso recorrer? Tenho um estalo assim que bato a porta da geladeira, mas
no mesmo instante sei que é uma péssima ideia. Infelizmente é a única que me ocorre... Volto a me
sentar na mesa e disco os números que sei de cor ao invés de procurar seu contato na agenda
telefônica do celular, tomando coragem para pedir a ajuda de mais uma pessoa, ela atende no quinto
toque, eu já estava quase aliviado por não ter que lhe contar o que eu fiz, quase.
— Lembrou que eu estou viva? — pergunta dona Eva sarcasticamente do outro lado da linha.
— Eu falei com você há três dias! — argumento enquanto ela estala a língua. Tem tantos sons de
fundo diferentes na ligação que me pego curioso. — Onde você está?
— Em Camboriú, viajei com algumas amigas! — Suspiro, o destino realmente não estava a meu
favor.
— Quando você volta? — Será que todo mundo decidiu tirar férias ao mesmo tempo? Por que
minha avó não podia ser normal e passar seus dias de avental assando bolos?
— Em uma semana. Por que, meu bem? — pergunta com curiosidade.
— Por nada, vovó. — Porque eu vou me estirar na rua e torcer para um caminhão passar por
cima de mim.
— O que você fez, Augusto Bittencourt? — pergunta energicamente percebendo pelo meu tom
de voz que estou quase tendo um colapso, ela me conhece bem.
— Nada que eu não possa consertar. — Assim eu espero.
— Augusto — repete, se irritando. —, se você estiver encrencado é melhor me dizer agora.
— Não é nada, vovó, eu juro — minto descaradamente. Incrível como eu consigo mentir para
minha família e para todas as mulheres que cruzaram a minha vida, mas não consigo deixar de
cumprir uma promessa para uma estranha a quem não devo nada.
— Se eu descobrir que você está mentindo pra mim e me escondendo algum problema sério, eu
vou te dar umas chineladas antes de resolver para você, entendeu? — Sorrio.
— Entendi, dona Eva!
— Ótimo. — Assim como minha irmã, ela adora desligar na minha cara quando acha que o
assunto já acabou ou quando quer que suas palavras se tornem uma frase de efeito. São igualmente
irritantes.
Noto pela primeira vez que não escuto mais o som da televisão, me levanto e caminho até a sala
de fininho, a tela está escurecida. Bato os olhos na mesa de centro e o sanduiche sumiu, assim como o
suco que estava dentro do copo, assim como o garoto...
Saio em disparada pela sala olhando ao redor, não o vejo em lugar nenhum.
— Garoto! — berro, claro que ele não vai me responder! Só faltava essa: eu perder o menino.
O que eu vou dizer para a garota quando ela acordar? Decido não me preocupar com isso em um
primeiro momento, pode ser que ela não venha a acordar, ao invés disso saio pela casa abrindo
portas e olhando embaixo dos móveis. O encontro embaixo da minha cama. Estou tão irritado que não
me dou ao trabalho de chamá-lo, apenas o pego pelos pés e o arrasto para fora, estou pronto para lhe
dar uma bronca quando vejo o que ele tem nas mãos... o telefone sem fio.
Ele me encara assustado e cobre o rosto com as mãos prevendo que eu vou gritar com ele ou até
bater. Eu, com certeza, vou gritar, mas depois. Depois de descobrir com quem ele estava falando.
Arranco o telefone de sua mão e levo até o ouvido, consigo ouvir uma respiração curta do outro lado
da linha.
— Quem é? — pergunto cautelosamente.
— Eu, titio — diz Valentina alegre. Olho para o garoto que abaixou as mãos e deu alguns passos
para trás. Mas que merda!
— O que você está fazendo no telefone? Você não devia estar com a sua avó?
— Sim, a mamãe me trouxe, mas ela já foi — explica calmamente. — Fiquei com saudade dela
e liguei, a vovó não percebeu. — Claro que não. Minha mãe perdia até uma tartaruga se alguém
realmente tivesse coragem de deixar uma com ela.
— Mas você ligou em casa, bonequinha.
— Eu não sabia, titio, só apertei o botão. Cadê a mamãe? — Escuto um barulho alto de
brinquedos sendo aniquilados e sorrio.
— Sua mãe ainda não chegou, mas eu falo para ela te ligar assim que a vir. — Prometo trocando
o telefone de mão.
— Obrigada. — Sorrio para o telefone. — Titio, quem é o menininho?
— Você sabe guardar segredo, Valentina? — Não, não sabe. Nenhuma das mulheres da família
conseguia, mais um dos dons recebidos via DNA.
— Sei. — Posso imaginá-la assentindo afirmativamente enquanto balança as pernas sentada na
cama da minha mãe.
— Ele é... — Merda, o que eu digo pra ela? — Ele é filho de uma amiga, minha bonequinha.
Mas ninguém pode saber que ele está aqui em casa, combinado?
— Tá, agora eu tenho que ir, a vovó está me chamando — informa estabanada. — Diz pro
Nicholas que eu disse tchau. — Antes que eu possa perguntar qualquer coisa, ela desliga. TODAS as
mulheres dessa família são extremamente irritantes e mal-educadas. Vou começar a ligar para cada
uma delas e fazer questão de bater o telefone em suas caras sempre que tiver chance, fico remoendo a
falta de tato da minha sobrinha até que algo clareia na minha memória, quem é Nicholas?
— Você é o Nicholas? — pergunto abaixando suas mãos do rosto, ele não responde como eu
bem esperava que fizesse, mas o brilho de reconhecimento em seus olhos me dizem que sim, ele é o
Nicholas, um mistério a menos. — Ainda está com fome? — Ele assente, então o puxo pela mão e
desço as escadas arrastando-o comigo e o abandonando novamente no sofá enquanto vou preparar
alguma coisa para lhe dar de comer. Abro os armários e depois a geladeira, não tem comida nessa
casa. Eu e Gustavo sempre comemos na rua, então saio pela porta do jardim e vou assaltar a
geladeira do vizinho voltando com mais um sanduiche que eu coloco na almofada ao seu lado. —
Você não pode atender o telefone de novo! — eu falo de maneira ríspida e sem dó para que ele
compreenda que vão existir limites, e se fosse meu pai ou minha mãe do outro lado da linha? Um dos
meus amigos ou alguma das mulheres com quem me divirto? — Você vai ficar aqui até aquela garota
que estava com você poder vir buscá-lo, até lá quero que você se comporte. Não quero que você
mexa em nada que não é seu, não quero que você quebre nada e não quero ver você com o telefone na
mão novamente, entendeu? — Ele não esboça reação além dos olhos cheios de lágrimas que não
caem. — Entendeu, Nicholas? — Ele assente e esfrega os olhos com as duas mãos, me dou por
satisfeito e vou tomar um banho.
Quando termino de me vestir, alguém abre a porta do meu quarto, me viro pensando ser o
menino pronto para lhe dar uma bronca sobre não bater antes de entrar, mas me deparo com Ian, seu
semblante está cansado e ele parece muito, muito irritado.
— Me custou sete mil reais — diz cruzando os braços. — Faz o cheque!
— Você subornou o médico? — pergunto em choque. Ele é tão bundão quanto eu para fazer esse
tipo de coisa, então o fato de ele subornar alguém realmente me impressiona.
— Não só o médico, como dois enfermeiros e um segurança. O que você queria que eu fizesse?
— responde de forma grosseira. — Queria que eu roubasse a menina? Porque é isso que ela é, uma
menina.
— Ela não me pareceu tão nova assim. — Tento lembrar do seu rosto, buscar cada detalhe dele
na minha mente, mas tudo está nublado, eu a vi a noite sobre o reflexo de uma iluminação precária e
depois coberta de sangue. Por mais que eu tente me lembrar dos detalhes de suas feições, não
consigo, mas lembro nitidamente do seu cabelo negro voando e do olhar expressivo que fez com que
eu me sentisse exposto.
— Não importa, eu também aceito uma transferência ou dinheiro vivo se você tiver — comenta
impaciente.
— Como ela está? — pergunto mordendo o lábio e saindo porta afora em direção à cozinha com
ele em meu encalço. Ele espera eu pegar uma cerveja da geladeira antes de voltar a falar, balançando
a cabeça negativamente quando lhe ofereço uma.
— Mal, ela está mal, cara — diz balançando a cabeça tristemente. — Ela é só uma menina,
Augusto, o que faz alguém querer machucar alguém que parece tão indefesa?
— Eu não sei. — Os limites da mente humana são extensos demais, nem se eu quisesse e me
esforçasse conseguiria compreender o nível de maldade de algumas pessoas.
— Um DOC, uma TED talvez? — pergunta Ian sem paciência.
— Ian, foco, por favor, qual o estado clinico dela? — Posso ver que está me enrolando. Meu
amigo pisca demoradamente e depois parece bastante distraído com a capa de um livro que está
jogado em cima do balcão da cozinha. — Ian! — grito perdendo a paciência.
— Ela teve uma ruptura traumática parcial da aorta logo abaixo da artéria subclávia esquerda
— conta por fim me olhando com aquela cara. A cara que ele usa quando acha que um paciente vai
pro saco e que nós não vamos conseguir fazer nada por ele. Odeio aquela cara porque ele nunca erra.
— Por que ela não está em uma sala cirúrgica agora? Por que você não me ligou? — questiono
andando pela cozinha, tentando calcular quanto minha irmã vai cobrar pelos seus serviços se eu for
mesmo em cana. Barato é que não ia ser.
— Houve algumas complicações, o sangramento está sendo contido pelo mediastino o que nos
dá algum tempo. — Suspira pausadamente. — Você não vai me pagar, não é? — pergunta com o
mínimo dos sorrisos. Ele me conhece bem, claro que eu não ia pagar. Ele se casou com a minha irmã,
vamos encarar essa dívida como um dote atrasado.
— Você vai esperar ela ter outra ruptura? Você sabe que se a artéria se romper outra vez, ela
morre — questiono levando as duas mãos até o rosto e juntando-as na frente dos lábios, me mantendo
no assunto que realmente importa.
— Augusto, eu sei o que estou fazendo, a deixei com betabloqueadores. A garota precisa ser
avaliada por um neurologista antes da cirurgia, você sabe que com ela estamos às escuras. Não
sabemos quem é ou de onde vem, se tem alergia a alguma coisa, não sabemos absolutamente nada.
Deixei-a sendo examinada e vim tomar um banho, a sala já está sendo preparada para ela.
— Quem vai operar? — Levanto uma sobrancelha.
— Eu — ele é firme ao responder.
— Você tem certeza de que consegue fazer isso? — pergunto erguendo as mãos e segurando
minha cabeça com elas. Essa é uma pergunta muito babaca de se fazer para o melhor cirurgião
cardíaco que eu conheço (depois de mim, claro), mas não consigo evitar. É como se eu precisasse da
promessa dele de que algo não vai dar errado, é como se um punhado de palavras tivesse o poder de
transformar meu desejo em realidade. Talvez eu quisesse apenas consolo, algo a que me agarrar.
— Fica tranquilo — diz Ian colocando uma das mãos no meu ombro apertando-o. —, não é
como se eu nunca tivesse feito um desses antes. Fazer uma reparação para mim é o mesmo que trocar
um pneu — compara, me dando uma maldita piscadinha, que não me anima nem um pouco.
— Ian você não sabe trocar pneu. — Lembra Bárbara entrando pela porta do jardim alheia a
importância do assunto discutido, tenho vontade de xingá-la, mas me controlo. Ian a olha feio e ela
levanta as mãos se rendendo enquanto sai pela mesma porta que entrou murmurando. — Credo, só ia
avisar que cheguei.
— Isso não está me ajudando — digo para ninguém em particular me sentando à mesa da
cozinha.
— Só relaxe. — Ian aperta meu braço mais forte e eu tenho um grande impulso de lhe quebrar
um dedo antes que ele me mande relaxar novamente, mas me lembro de que ele vai precisar daquele
dedo em breve, de todos eles. Eu só gostaria que as pessoas parassem de me mandarem “relaxar”
como se fosse algo simples de se fazer.
— Vai dar tudo certo, não vai? — Me odeio por parecer tão piegas e tão carente de palavras de
conforto. Esse cara que está implorando ao melhor amigo para prometer algo que ele não sabe se vai
poder cumprir não sou eu. Eu sou muito melhor e mais profissional que isso. Não sou um leigo, pelo
amor de Deus.
— Você sabe que não posso prometer algo assim — diz franzindo o cenho surpreso com minha
pergunta, sim eu sabia. Meu pedido me colocou na posição de interessado pela paciente e não um
colega de profissão. As palavras que ele diz a seguir me fazem ter certeza de que é assim que Ian vai
me tratar daqui para frente. —, mas posso prometer que vou fazer o meu melhor. — Uma frase tão,
mas tão clichê, que me faz suspirar. Em vez de perguntar quantos episódios de Grey’s Anatomy minha
irmã o obrigou a assistir, me pego assentindo, me pego acreditando nele como todos os familiares
com os quais lidamos todos os dias acreditam em nós.
O grande problema é que, às vezes, nós falhamos e temos que comunicar a esses mesmos
familiares que o nosso melhor não foi o bastante.
— Só confia em mim, está bem? — pergunta soltando meu ombro e se afastando para me olhar
nos olhos. Estão cheios de preocupação e algo mais, algo semelhante a pena. Algo que me irrita
profundamente.
— Porra, Ian — estouro me levantando. —, não sou um dos familiares! — Lhe dou as costas e
saio da cozinha em direção ao bar na sala de estar, a cerveja não vai resolver o meu problema hoje.
— Eu nem conheço a garota! — Posso ouvir seus passos me seguindo, mas ele fica em silêncio, só
voltando a falar depois que me sirvo de uma dose generosa de uísque.
— Não quero você na cirurgia — determina olhando dos meus olhos para o copo em minhas
mãos e vice-versa.
— Você não pode fazer isso. — O encaro com um misto de frustração e raiva.
— Eu não só posso, como eu vou. Sou o médico dela agora e você não vai ficar em cima do
meu ombro por horas me dando ordens na MINHA cirurgia — Ele me dá as costas. —, isso é para o
seu bem.
— Como isso pode ser para o meu bem? — pergunto incrédulo. — Como ficar na sala de
espera vai ser melhor para mim?
— Porque você está se comportando como se conhecesse a garota, como se fosse a porra de um
deles, um familiar — diz dando dois passos em minha direção e encurtando a distância que nos
separa, me arrancando o copo e o colocando sobre a bancada do bar com determinação. — Agora vê
se dorme um pouco, você está um lixo — aconselha e me dá as costas se dirigindo até o jardim para
a porta que dá acesso à sua casa. Me volto para o bar e agarro novamente meu copo bebendo seu
conteúdo em uma única golada, depois o jogo frustrado na parede fazendo com que ele se estilhasse
em diversos pedaços.
O garoto, que está sentado no sofá, grita de medo e se encolhe, eu havia me esquecido de sua
presença e, pelo visto, Ian também. Passo a mão pelo rosto e sigo Ian porta afora sem me preocupar
com o menino, essa discussão ainda não havia terminado, mas estaco no lugar assim que escuto a voz
da minha irmã atrás do muro que divide nossas propriedades.
— Você foi muito duro com ele — censura. Mesmo sem vê-la consigo imaginá-la colocando as
mãos na cintura e interceptando Ian assim que ele chegou ao jardim deles. Claro que ela tinha ficado
ali plantada ouvindo a conversa em vez de nos dar privacidade. Essa garota não me dá uma folga
desde que nossa mãe trouxe aquele estorvo embrulhada em um pacotinho cor-de-rosa da
maternidade. Não sei por que ainda me surpreendo, eu deveria tê-la jogado em um rio quando tive a
chance.
— É para o bem dele — diz Ian de forma mais doce. Rezo para que ela lhe devolva um pouco
do bom senso, já que é a única que parece conseguir domar aquele idiota arrogante.
— É só uma garota, Ian — diz minha irmã com impaciência. —, ele se apegou demais ao caso
por causa do menino. Você está exagerando.
— Eu não sei porque, amor, mas sinceramente eu não tenho certeza de que consigo salvá-la. —
Meu coração se aperta.
— Não acho que ele ficar sem notícias dela na sala de espera ao invés de estar ao seu lado seja
a melhor solução... — diz em dúvida.
— Não, amor, ele não vai entrar — diz Ian a cortando com doçura, mas de forma determinada.
—, eu nunca vi seu irmão preocupado com garota nenhuma e não tenho certeza se é somente pelo
menino, meu instinto me diz que tem algo mais, eu não quero estar olhando para os olhos do Monstro
se aquela garota morrer na minha mesa.
Suas palavras me ferem fundo e nem ao menos sei por quê. Não faço ideia do que ele insinuou,
mas está enganado. Ela é só uma garota que eu tentei ajudar e acabou me fodendo, uma garota que se
morrer vai me deixar com um problema do tamanho do mundo, ou mais precisamente, pouco mais do
que um metro de altura. Nada mais do que isso. Escuto seus passos se afastarem pela grama e a porta
da cozinha bater, pouco depois minha irmã passa pela passagem e vem ao meu encontro de braços
estendidos, provavelmente acha que preciso de colo, mas não preciso. Dou um passo para trás antes
que ela consiga me abraçar.
— Cuide do menino — ordeno lhe dando as costas e saindo apressadamente de casa sem olhar
para trás.
Eu preciso vê-la, talvez seja a última vez que eu verei minha garota problema com vida. Preciso
me despedir e perguntar que porra eu faço com aquele moleque, mesmo que ela não possa me
responder.
Talvez Ian tenha razão afinal, talvez ela seja mais do que uma garota qualquer.
Talvez ela seja a garota que vai fazer o que nenhuma outra conseguiu.
Talvez ela seja a garota que vai afundar a minha vida.
Companhia na hora de dormir

“Quero colo!
Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui
com vocês?”
(Pais e filhos, Legião Urbana)

Augusto

Visto o jaleco e prendo o crachá ao seu bolso entrando a passos largos na Unidade de Terapia
Intensiva, avisto Diego preenchendo uma ficha encostado desleixadamente ao balcão. Me aproximo e
pergunto com autoridade:
— Onde está a garota que o Dr. Vitorazzi trouxe mais cedo?
— Ela acabou de ser liberada pelo neurologista, está na última baia, Dr. Bittencourt. Eu já
estava indo prepará-la para a cirurgia.
— Me dê cinco minutos com ela. — Não é um pedido.
— Tudo bem, o Dr. Ian ainda não chegou de qualquer modo. — Como se eu não soubesse, como
se não morasse a cinco passos dele. Me afasto revirando os olhos e me apresso até seu leito, não
tenho muito tempo.
Quando chego até ela sou forçado a abaixar os olhos por um momento. Ian tinha razão, ela é só
uma menina, uma menina extremamente machucada, uma linda, linda menina. Um curativo extenso
cobre metade de seu rosto, a parte descoberta está tomada por feridas quase cicatrizadas,
provavelmente dos cacos de vidro do para-brisa estilhaçado e hematomas cobrem seus braços em
várias tonalidades de azul e violeta. Dou mais um passo em sua direção e ergo a mão sem saber ao
certo o que fazer com ela deixando-a cair ao lado do meu corpo logo depois. Respiro fundo e volto a
erguer a mão, dessa vez a pouso sobre seus cabelos negros, afagando-os meio sem jeito.
— Eu queria muito saber seu nome, menina. — A observo desejando que ela abra os olhos.
Alguém pigarreia e eu dou um pulo para trás me virando e notando que Ian está parado com as mãos
nos bolsos a alguns passos de distância, me volto para a garota novamente. — Vê se aguenta firme,
você tem que sobreviver para me tirar da roubada em que me meteu — emendo em uma voz firme
mais por vergonha do que por necessidade, ser pego em uma cena tão íntima e inusitada com alguém
que eu nem mesmo conheço me deixa encabulado.
— Ela tem que ir, Monstro — Ian diz se aproximando e colocando uma das mãos nos meus
ombros, apertando-o de leve e se afastando novamente para chamar um dos enfermeiros para levá-la.
— Boa sorte, querida — sussurro com doçura apertando levemente sua mão quando ninguém
mais pode me ouvir.
Fico parado no meio na UTI a vendo ser levada pela equipe do meu melhor amigo sem poder
fazer mais nada para ajudá-la. Mesmo se quisesse eu nunca poderia operá-la. Não é ético, já que
mesmo sem a conhecer me tornei tudo que ela tem no momento. Quando ela sai pela porta, eu fecho
os olhos rezando para que ela seja forte, ela tem que ser forte por aquele garoto estranho e assustado
que ela protegeu com a própria vida.
— Vai ficar até a cirurgia terminar? — Balanço a cabeça negativamente. Ian ergue as
sobrancelhas como se esperasse uma resposta diferente e é por esse motivo que eu vou embora, não
quero ninguém pensando ou fazendo suposições de algo que não existe.
— Me liga se algo der errado. — respondo com um nó na garganta esperando que ele não
perceba. — Boa sorte lá dentro. — Ele assente.
— Eu vou fazer o que eu puder. — Eu sei que vai, dessa vez quem assente sou eu. Lhe dou as
costas e vou embora desejando ficar.
Quando entro no meu carro e bato a porta reparo em algo que eu havia esquecido completamente
durante o dia: a maleta. A curiosidade briga com a exaustão e eu decido abri-la quando chegar em
casa.
— Ainda bem que você chegou! — exclama o mala do Gustavo assim que coloco os pés dentro
de casa. — Nem a Babi e nem eu conseguimos acalmar o garoto, ele não parou de chorar desde que
você saiu. — Ele parece cansado e desesperado, como se uma criança chorando fosse o fim do
mundo.
— Merda, será que ele entendeu minha discussão com Ian? — Ele não falava, então eu não fazia
ideia de até aonde ia sua compreensão. Eu deveria ter tentado falar com ele quando notei que o
assustei jogando o copo na parede. Mas ele não era minha prioridade, nunca seria. A garota escolheu
o anjo errado para cuidar da sua vida, ela escolheu o anjo sem asas e sem compaixão.
— Não faço ideia, Monstro, vai lá falar com o garoto — ordena irritado pela minha aparente
falta de interesse na criança.
— Cadê a Bárbara, que não está fazendo seu papel de babá como pedi antes de sair?
— Ela teve que sair e eu tô saindo também, então você vai ter que se virar. — Ele me encara
esperando por uma atitude, mas mudo novamente de assunto, ou continuo no mesmo. Ainda não
estava acreditando que minha irmã tinha se mandado e me deixado lidar com isso sozinho.
— Aonde ela foi? — É típico de ambos me abandonarem.
— Trabalho, um cliente foi preso e ela teve que ir lá tirar o cara — responde se levantando do
sofá com um impulso.
— Nossa, como o trabalho dela é motivador. — Ele ri. — E você, aonde vai?
— Sair — diz simplesmente pegando a carteira do aparador e saindo porta afora antes que eu
faça mais perguntas. Isso já tinha virado rotina. Ele andava saindo muito sem dizer para onde ia, o
que não era seu costume, então cheguei à conclusão de que ele está escondendo alguma coisa. Ele
sabe tão bem quanto eu que quanto menos informação mais tempo vai demorar até algum de nós
descobrir onde ele está se enfiando. Ele está sendo inteligente, mas eu sei que não vai durar, assim
que nossa irmã perceber o que está rolando ela vai torturá-lo até ele lhe contar.
Subo as escadas pensando o que dizer para o garoto, quando agarro e giro a maçaneta do quarto
de hóspedes ainda não sei o que lhe dizer. Ele está encolhido no chão do quarto com a cabeça entre
os joelhos, seus ombros se balançam e seus soluços baixos preenchem o ambiente.
— Vem aqui — digo puxando-o do chão pelo braço e o sentando na cama, me sento ao seu lado.
— A garota está no hospital, eu não vou mentir para você, ela não está bem. — Ele levanta a cabeça
e me encara com o rosto molhado por lágrimas prestando atenção a cada uma das minhas palavras.
— Mas meu melhor amigo está cuidando dela e ele é o melhor. Se tem alguém capaz de fazê-la ficar
bem esse alguém é ele. — O garoto limpa o rosto com uma das mãos e coloca a outra na minha perna,
é a deixa para que eu me levante. — Vou estar no quarto no final do corredor, agora você precisa
dormir. — Saio do quarto sentindo minha nuca queimar com seu olhar questionador e abandonado.
Fecho a porta do meu quarto e me escoro na porta.
Eu não sirvo para isso, não sou a pessoa mais otimista do mundo e não sei lidar com esse tipo
de situação. Não sei lidar nem com adultos direito, que dirá com crianças. Caminho até o divã e me
sento diante da maleta. Meus dedos vacilam no fecho e fico em dúvida se devo ou não abri-la.
Porém, quando tomo coragem apenas me frustro.
Ela não se abre.
A maleta tem três roletas com dígitos, provavelmente estão fora de ordem, não vou conseguir
abri-la sem a senha e me sinto exausto demais para procurar por ferramentas e forçar a fechadura a
essa hora da noite, decido deixar para o dia seguinte apagando a luz e me deitando.
Achei que o sono viria fácil, mas não consigo me desligar.
Não consigo deixar de pensar nela.
Eu nunca tinha ansiado descobrir o nome de uma garota antes com tanto afinco, com tanta
vontade. Não sei que diferença faria de qualquer modo, mas gostaria de saber como chamar a dona
daquele rosto machucado e lindo, tão lindo. Algo nela chamava minha atenção, tirava os meus
sentidos e isso me dava medo por diversos motivos. Se ela tinha o poder de me afetar inconsciente, o
que faria se acordasse? O que eu faria se ela não acordasse? Mesmo indo contra minha promessa eu
teria que procurar a polícia, teria que entregar o menino para alguém com capacidade de cuidar dele,
alguém que soubesse como fazê-lo. Mas só de pensar nessa ideia, meu estômago se revirava, quem
tentou matá-los ainda estava lá fora, podia estar à espreita nesse momento apenas esperando o
momento certo de terminar o serviço.
Quem seria ele e o que ela fez para merecer a sua fúria? Será que ele sabia que havia uma
criança no carro? E a criança, o que era dela? Será que a menina era mãe do Nicholas? Eles não se
pareciam, os contornos das faces eram distintos, ao passo que ela era dona de longos cabelos negros,
ele tinha cabelo castanho-claro, os olhos dela eram castanhos e os dele verdes, mas ambos sabiam
olhar para as pessoas de modo abrasador, a semelhança terminava aí. Não havia mais nada, mas isso
não queria dizer que não eram mãe e filho.
Ouvi minha porta ser aberta de mansinho e pequenos passos adentrarem o quarto, eu não
precisava olhar para saber quem era. Fechei os olhos instintivamente imaginando que o garoto viera
me chamar, se fosse o caso eu fingiria estar dormindo, mas voltei a abri-los quando seus passos não
cessaram. A luz da lua iluminava parcamente o quarto, mas era o suficiente para que eu o visse olhar
ao redor e fixar seus olhos em um objeto, para que eu o visse chegar perto da maleta e girar as
roletas, acertando os números, será que ele fazia o que eu estava imaginando que faria? O clique da
maleta se abrindo me confirmou que sim, ele estava abrindo-a para mim. Ele não mexeu nela, não
olhou seu conteúdo, apenas deixou-a aberta e caminhou em minha direção, voltei a fechar os olhos
rapidamente.
Momentos depois senti que ele estava se esforçando para tentar subir na minha cama, se eu
fosse expulsá-lo esse seria o momento perfeito, mas não foi o que eu fiz. Não sei precisar exatamente
o motivo, mas me virei para o outro lado e deixei que ele se deitasse ao meu lado e puxasse parte do
edredom para si.
Eu deixei que ele ficasse.
Um caso qualquer, como todos os outros

“Quando um homem sabe que uma mulher


já cedeu a alguém, ele não resiste verificar se a história se repete.”
(Millôr Fernandes)

Augusto

Acordo pouco depois com o barulho do celular tocando, morto de frio e tremendamente irritado.
Me encolho batendo os dentes, puxando de volta o edredom, que me foi arrancado sem que eu ao
menos me desse conta durante o sono, em contrapartida o garotinho o puxa de volta enquanto ressona
e ronca baixinho. Desisto do cabo de guerra e tateio o criado-mudo em busca do alto-falante do
capeta. Aperto os olhos e o nome de Ian pisca para mim na tela. Respiro fundo e atendo a chamada
sentindo meu peito se comprimir em resposta. Não ouso ter esperanças, assim como não me permito
imaginar o pior, livro minha mente de pensamentos e escuto o que ele tem a dizer.
— Era pior do que imaginávamos, cara, mais alguns minutos e ela teria sangrado até morrer. A
aorta estava em um estado lastimável, mas nada que uma Super Bonder não resolvesse — diz com
evidente orgulho dele mesmo e da cola de sapateiro que ele deve ter usado na menina. — Mas... —
Pausa para um efeito excessivamente dramático.
— Estamos brincando de acerte a charada ou você vai me contar como ela está de uma vez? —
rosno, me sentando e arqueando as costas. — Filho da puta! — berro ao levar um chute no meio das
costelas do Kung Fu Panda que sonha ao meu lado.
— Não precisa ser tão ignorante, sabia? — pergunta Ian, chateado. — Tudo o que eu fiz hoje foi
ajudar você, eu podia estar em um avião rumo ao Caribe, o que teria deixado a minha mulher
gritantemente grávida e cheia de hormônios um pouco mais contente e menos assassina, mas não, eu
estou aqui... — Eu o corto.
— O filho da puta não é você. — Não hoje, pelo menos.
— Sendo assim, menos mal. Como eu estava dizendo, ela ainda não está fora de perigo.
— Ou seja, você me acordou para me dizer que não tem nada para me dizer — resmungo. — ou,
pelo menos, nada que eu já não soubesse.
— Pois é, talvez eu seja um filho da puta afinal. — Ri achando graça.
— Pode apostar que é. — Eu soube disso assim que ele me disse que estava apaixonado pela
minha irmã.
— Eu te liguei porque acho completamente injusto eu estar acordado resolvendo os seus
problemas enquanto você sonha com alguma garota pervertida — reclama.
— Como se eu conseguisse ter bons sonhos com esse pivete me chutando e roubando meu
edredom. — Eu sei que deveria ter um pouco mais de compaixão pelo menino, afinal nesse momento
ele não tem ninguém, provavelmente deve estar se sentindo abandonado e morto de medo por ter
presenciado um acidente e ter passado a viver debaixo de um teto estranho com pessoas que nunca
viu antes, mas não, estou só ressentido mesmo e, claro, irritado, muito irritado, por ele estar
atrapalhando minha rotina.
— O menino está dormindo com você? — Ian pergunta surpreso.
— Entrou sorrateiramente enquanto imaginou que eu estivesse dormindo — comento olhando-o
dormir. Quem vê uma criaturinha dessas durante o sono até chega a acreditar que são realmente fofos
e não os demônios disfarçados que são de fato.
— E você deixou que ele ficasse? — Ele ainda parece surpreso, como se essa fosse a última
reação que esperasse de mim.
— Deixei, Ian — respondo sem humor. — Se era só isso, vou voltar a dormir.
— Você está amolecendo, Monstro, quem diria... achei que não viveria o suficiente para ver
uma cena dessas — diz com uma risadinha, o que eu acho extremamente sem graça. Sua insinuação
embrulha meu estômago e faz com que eu me sinta envergonhado.
— Talvez não viva — ameaço desligando o telefone na sua cara e me levanto da cama
contornando-a e pegando o garoto adormecido nos braços.
Ian tem razão, atitudes como a que tive hoje podem causar uma impressão errada no menino, ele
tem que saber qual é seu lugar e seu lugar é bem longe de mim.
Coloco-o na cama de solteiro improvisada pelo sofá-cama no quarto de hóspedes e o deixo lá
me virando para sair do quarto. Antes que eu chegue à porta, ouço seus dentes baterem, suspiro e dou
meia volta cobrindo-o com uma manta até a altura do pescoço. Afinal, não é porque eu não gosto do
menino que vou deixar que passe frio. Mas ele não deve esperar muito mais de mim. Minha bondade
tem limites e ele já ultrapassou todos eles nessas 24 horas desde que o conheci.
Quando entro no quarto, o celular está tocando novamente, atendo sem olhar o identificador de
chamadas berrando:
— Porra, Ian, pare de encher o meu saco, cara!
— Augusto? — pergunta uma voz feminina confusa do outro lado da linha.
— Sim. — Tenho dificuldade em associar a voz um rosto. Sento-me na cama tentando imaginar
que mulher me ligaria a essa hora da madrugada, são tantas que desisto e espero que ela me dê um
nome, o que faz logo em seguida.
— É a Leila, tudo bem? — pergunta jocosamente.
— Tudo — respondo exausto. — O que você quer? — Deus, que não seja mais uma daquelas
conversas difíceis, até porque não faço ideia nenhuma de quem seja Leila.
— Eu estou sozinha no meu apartamento e pensei em te chamar para vir até aqui. Tomar um
vinho, conversar... — diz deixando a frase morrer. — quem sabe repetir a dose do último encontro
— fala sexy. Meu primeiro instinto é recusar, mas consigo refrear as palavras antes que elas passem
pela minha boca, um vinho até que ia bem. Um vinho, uma transa decente e uma boa noite de sono,
exatamente nessa ordem, é tudo que eu poderia desejar para esquecer um dia como o de hoje. A ideia
é tão tentadora que me pego assentindo.
— Me manda o endereço por mensagem — peço indo à procura de uma roupa limpa para vestir
no guarda-roupa.
— Não se lembra onde eu moro? — Minha filha, não me lembro nem quem é você, essa seria a
resposta perfeita, mas logicamente não é a que eu lhe dou.
— Não sou bom em guardar endereços, gata. — E eu esperava que ela fosse mesmo gata. Caso
contrário, eu teria o trabalho de inventar uma desculpa para cair fora.
— Tudo bem então, vou enviar. Até daqui a pouco, Guto.
— Até. — Ela faz alguns barulhos de beijinho no telefone, eu reviro os olhos desligando a
chamada e me levanto. Quando termino de me vestir escuto o celular apitar com uma nova mensagem,
pego a carteira do criado-mudo e, antes que eu possa me virar completamente em direção à porta,
meus olhos param na maleta. Dessa vez, não resisto à curiosidade e caminho até ela a passos largos
abrindo-a sem cerimônia.
O que eu vejo me deixa chocado, mas logo recupero os movimentos e pego um a um os bolos de
notas de cem reais enroladas com elásticos. São tantos que não perco tempo imaginando a quantia
exata de dinheiro que tem ali, não preciso contar para saber que é muito. Fora o dinheiro, não há
mais nada dentro dela, nenhum documento, nenhuma pista, exatamente como imaginei que seria.
Eu tinha que admitir que a garota era precavida e meticulosa, pena que um acidente quase fatal
não estava em seus planos. Eu não fazia ideia de quem ela estava fugindo e o porquê, mas tinha
certeza de que ela havia se tornado boa em esconder seus vestígios. Não havia outros motivos para
que eu não tivesse encontrado nenhuma informação de quem ela era e de onde vinha, a não ser o fato
de que ela estava escondendo alguma coisa, ou se escondendo de alguém.
Comecei a ficar irritado com meus próprios pensamentos, eu tinha mais o que fazer além de
brincar de Sherlock Holmes nas horas vagas, provavelmente existia uma boa e coerente explicação
para o enigma que ela era. Talvez tivesse saído de casa sem os documentos porque os havia
esquecido. Mas quem pega uma rodovia às pressas ao ponto de se esquecer de coisas tão
importantes? Somente quem está fugindo. Quem anda por aí com tamanha quantia em dinheiro vivo?
Somente quem não quer deixar nenhum tipo de registro. Quem confia a segurança de uma criança a
um estranho? Somente quem não tem outra opção. Por mais que eu tentasse preencher as lacunas e lhe
arrumar desculpas, eu não conseguia entender. Não conseguia convencer a mim mesmo que ela deve
ter tido suas razões, boas razões, para cada um dos seus atos.
A grande verdade é que aquela garota era problema e, infelizmente naquele momento, um
problema meu.
Coloquei o dinheiro de volta ao lugar, peguei o celular jogado em cima da cama e saí de casa.
Eu queria, precisava esquecer os problemas, nem que fossem por poucas horas, se não iria
enlouquecer, eram muitas perguntas e nenhuma resposta. Por um breve instante desejei que o garoto
falasse, mas o desejo passou rápido, conviver com ele em silêncio era mais fácil e muito menos
trabalhoso.
Cheguei ao endereço que a tal Leila havia me enviado por mensagem apenas quinze minutos
depois, virei a chave na ignição e desliguei os faróis admirando o prédio luxuoso que estava a minha
frente me lembrando de imediato quem ela era e como a conheci.
Ela foi a primeira pessoa que notei assim que coloquei meus pés na festa de aniversário de um
dos amigos do meu irmão. Eu me lembro de ter reclamado por ele ter me arrastado e depois de tê-lo
agradecido em pensamento quando ela sorriu para mim quando me apresentei. Leila era uma arquiteta
com fama de fácil, dona de um dos corpos mais esculturais que eu tive o prazer de tocar e a melhor
parte? Foi extremamente rápido conseguir sua permissão para tal. Nada que algumas horas de
conversa jogada fora e muita astúcia para parar na sua cama coberta por lençóis egípcios (não que eu
repare nessa merda, mas ela fez questão de me contar a origem dos malditos lençóis mais vezes do
que o necessário) e o melhor de tudo, ela era casada. Ou seja, nunca poderia desejar mais do que
estava disposto a dar.
Eu adoro mulheres comprometidas, mas não pelo jogo. Não por serem mais difíceis e darem
mais trabalho para conquistar e sim porque elas estão amarradas a outra pessoa, tem sentimentos por
elas (na maioria das vezes), são impedidas pelas regras morais de sonharem com algo que não posso
oferecer.
Elas são perfeitas para mim.
Nunca me perguntam se vou ligar, porque elas não podem receber o telefonema a qualquer
momento, não me cobram fidelidade já que são infiéis e, claro, não se importam que eu jamais passe
a noite ao lado delas.
Eu nunca passei uma noite ao lado de uma mulher.
No começo era apenas uma mania, uma tendência, era instinto me levantar e ir embora depois
que estivesse satisfeito. Quando comecei a entender mais sobre relacionamentos se transformou em
um mecanismo de defesa, não se dorme com uma mulher que você só tem intenção de usar, não se
ilude esse tipo de mulher, posso ser promíscuo, mas nenhuma das mulheres que passaram na minha
vida podem me acusar de ser mentiroso. Hoje é uma regra. Não há exceções e fim de discussão.
Antes era uma regra entre Ian, Gustavo, Bernardo e eu. Dois deles se casaram: Ian, para o meu
desagrado, com a minha irmã; e Bernardo com a irmã dele, o que, claro, fez com que eu me sentisse
um tantinho vingado. Gustavo e seus segredos me fazem duvidar por qual caminho ele está seguindo
e, então, sobrou apenas eu, aquele que nunca vai ceder.
O que nunca se deixará dominar, o que não vai em hipótese alguma amar.
Eu não entendo o amor, nunca entendi. Não acho que possa comparar qualquer sentimento que se
venha a sentir por uma parceira com o sentimento que nutro pela minha família que é o único tipo de
amor que conheço, por eles eu faria tudo e por ninguém mais, eles são os únicos que conseguem
arrancar de mim esse sentimento medonho de maneira extensa e desenfreada. Então, não entendo a
necessidade que as pessoas têm de ter o outro inteiramente para si, precisar que ele abdique de tudo
por um sentimento banal para que elas possam se sentir seguras em um relacionamento. Não entendo
como dar a vida por uma pessoa que não nasceu dentro dos seus laços, não tem o mesmo sangue e na
maioria das vezes nem compartilha dos mesmos ideais.
Por que amar um estranho?
Nunca acaba bem de qualquer maneira. Não importa quanto as intenções são boas,
relacionamentos sempre acabam da mesma forma, alguém comete um deslize, alguém se fere, alguém
é odiado. Sempre termina em ressentimento. Por que procurá-lo, então? Por que se entregar a ele?
O amor nada mais é do que um rótulo. Durante a minha vida, já vi muitas mulheres o desejarem,
implorarem por ele como se não tivessem amor-próprio, muitas delas o imploraram a mim. Essa
mendicância nada mais é do que carência pura e desmedida. As mulheres seriam muito mais felizes
se aprendessem a se valorizar e viverem a vida sem ter a necessidade absurda de cobrar do outro o
que não encontram dentro de si mesmas.
Já eu? Eu não me deixo levar por rótulos, não sou carecido de afeto e não tenho a louca
necessidade de ser querido, de ser cuidado. Sou autossuficiente para gostar tanto de mim mesmo que
não me importo se ninguém mais gostar.
A minha felicidade está na liberdade de viver sem amarras.
Desço do carro e travo o alarme sem olhar para trás caminhando a passos largos até a portaria.
Não é preciso que eu me anuncie, assim que digo o nome da Leila minha entrada é liberada,
provavelmente o porteiro também deve ajudar seu marido a se abaixar para que consiga passar pelo
portão, seu silêncio e discrição deve custar caro, isso se eu fosse supor pelo relógio de marca em seu
pulso. O sorriso contido que lança em minha direção quando passo por ele me faz acreditar que não
sou o único homem que frequenta a cama dela. Não que essa constatação seja algo com que eu me
importe, eu sei dividir.
Leila me espera à porta vestida com um short minúsculo e uma camiseta decotada, seu sorriso é
malicioso e seu olhar é convidativo. Lhe dou um beijo na face e adentro o apartamento com um único
pensamento: como ela coube dentro daquele short? Será que não ficava sem ar? Outra coisa que as
mulheres deveriam aprender, não importa se a roupa é curta ou apertada, ainda é roupa, ainda precisa
sair, então não faz diferença mostrar mais ou menos quando já sabemos como é a mercadoria. Nós
homens só queremos algo que não precise de força bruta e um pé de cabra pra sair.
— Fiquei feliz que você pôde vir — diz me puxando pela mão e me levanto até o sofá no centro
da sala. — Quer beber alguma coisa?
— Um uísque seria ótimo. — Ela pisca e assente dando a volta e sumindo pela porta da cozinha
voltando logo em seguida com um copo na mão, meu olhar a segue de perto medindo cada uma das
suas curvas. Se em algum momento acreditei que o dia de cão que eu tive seria um empecilho para
aproveitar uma noite agradável eu estava enganado, o volume na minha calça jeans provava isso.
Talvez eu só fosse bom no negócio, ou talvez não tivesse nenhum escrúpulo. — Obrigado —
agradeço ao pegar o copo e virá-lo em uma golada.
— Sem preliminares? — brinca quando deposito o copo vazio em uma mesa de apoio próxima
ao sofá.
— Pelo que eu me lembro conversa fiada não fazia seu estilo. — Agarro uma das suas coxas e a
aperto fazendo com que ela morda o lábio para segurar um gemido involuntário. — E posso te
garantir que também não faz o meu.
— Tem razão, não faz. — Concorda em um fio de voz acompanhando minha mão com o olhar.
— Para que perder tempo, não é? — Concordo puxando-a para o meu colo e fazendo-a montar em
cima de mim. Arranco sua blusa pela cabeça e abocanho seus seios por cima do sutiã enquanto
minhas mãos voam por suas costas em busca do fecho.
Leila se levanta e se livra do short (não tão rápido quanto eu gostaria, como eu já tinha
imaginado que seria) ficando vestida apenas com uma calcinha de renda preta, faço o mesmo,
abrindo os botões da minha camisa com agilidade e me levantando. Vou de encontro a ela e a forço a
caminhar para trás, até uma parede onde eu a imprenso com meu corpo, dessa vez arrancando um
gemido de verdade de seus lábios.
Ela se desprende do meu aperto e se agacha puxando o zíper da minha calça jeans enquanto faz
sua boca passear próxima à costura de encontro ao que ela realmente desejava quando me convidou
para vir até seu apartamento. Assim que sua língua me toca, eu jogo a cabeça para trás e me preparo
para todas as sensações maravilhosas que vou sentir e nada, absolutamente nada, me prepara para o
que eu sinto de verdade.
É como se ela tivesse desligado um interruptor, minha mente voa daquele apartamento caro e vai
até um garoto que só tem um par de tênis vermelhos rasgados: o garoto que eu deixei sozinho em
casa. Como se não bastasse, ela abandona o garoto e viaja até o hospital, até o leito de uma mulher
que pode não acordar, uma mulher que eu nem mesmo conheço, mas que tem o poder de acabar com a
minha lucidez. Fecho os olhos e tento me concentrar, tento voltar para o presente e aproveitar o
momento, mas ele já foi perdido.
Talvez, pela primeira vez na vida, eu finalmente tenha tido um lampejo de consciência. Será que
não era irresponsabilidade minha deixar uma criança sozinha em casa a troco de sexo casual? Leila
responde a essa pergunta se levantando e se livrando de sua calcinha ao se virar de costas e empinar
a bunda em minha direção enquanto espalma as duas mãos na parede.
Foda-se o garoto.
A culpa sumiu, foi substituída pelo que sou de verdade e o que eu sou em nada se assemelha a
um garoto que tenha asas.

***

Entro sorrateiramente em casa embora não deva satisfações a ninguém. Talvez uma parte de mim
se sinta culpada, mas ela não é grande o suficiente para me arrancar o sorriso de satisfação do rosto.
Mesmo assim, me sinto como se fosse um assaltante no lugar onde eu pago a maior parte das contas,
não ajuda o fato de alguém sentado na minha poltrona favorita acender a luz do abajur e me dar um
puta susto.
— Onde você estava? — pergunta Bárbara. A luz amarelada da lâmpada lhe traz um ar
irritadiço e mortalmente feroz. Ela andou treinando, vai ser uma mãe incrivelmente boa em assustar
as crias que escaparem de sua vigilância.
— Não é da sua conta — respondo passando por ela em direção as escadas.
— Monstro. — O apelido carinhoso que ganhei dela quando ainda éramos adolescestes sai de
sua boca como um alerta e eu estaco no lugar, vai ser mais fácil simplesmente ouvir e balançar a
cabeça ao invés de ignorá-la.
— Fala. — Me jogo no sofá à sua frente.
— O garoto não é minha responsabilidade, é sua, você deveria estar a uma porta de distância
quando ele acordou gritando por causa de um pesadelo. — Reviro os olhos, mas ela ainda não
acabou. — Você poderia ter entregue ele a polícia assim que as portas da ambulância foram
fechadas, mas não foi o que você fez. Então, vê se cuida dele!
— Olha o lado bom, nós descobrimos que ele não é mudo. — Só eu acho graça da minha piada
fora de hora. — Se bem que eu deduzi mais cedo quando ele contou seu nome para a Tina.
— O quê? Como ele falou com a Tina? — pergunta confusa.
— Ela ligou aqui pensando que fosse na sua casa. Deve ter apertado um dos botões de discagem
rápida do telefone da mamãe. Eu peguei o Nicholas escondido embaixo da minha cama conversando
com ela — conto erguendo as sobrancelhas.
— Esse é o nome dele? — Ela ri.
— Bom, a Tina me pediu para dizer “tchau para o Nicholas” antes de desligar o telefone na
minha cara.
— Isso é interessante, já que ele não trocou uma palavra com ninguém desde que chegou, mesmo
quando vim acalmá-lo agora há pouco ele se recusou a falar comigo. — Concordo com a cabeça
reparando pela primeira vez o que ela segura em seu colo.
— Você não deveria estar comendo isso aí. — Lembro ao ver o pote de sorvete inconfundível
do Ian e uma colher em suas mãos. Provavelmente eu acordaria ao som da típica briga que nunca tem
fim “Você comeu o meu sorvete de novo, Bárbara?”. Porque ele não via problema em aturá-la, em se
casar com ela, em pagar todas as contas da casa e do seu cartão de crédito, mesmo ela tendo um
trabalho rentável para tal e também não via problemas em assumir como sua a filha de um marginal,
mas milagrosamente ainda arrumava briga pelo maldito sorvete que ela sempre se esquecia de repor
depois de comer.
— Eu estou grávida, entupida de hormônios e meramente homicida, ele não vai ousar falar
absolutamente nada sobre essa merda que tem um gosto péssimo — cospe de forma psicopata o
suficiente para me fazer ficar com medo. —, a menos que queira ficar sem cabeça e eu não estou
falando da que pensa.
— Você me dá medo, às vezes — conto me encolhendo com o gesto de uma tesoura se fechando
que ela faz com os dedos. — Se você não gosta, por que come então?
— Porque os monstrinhos a quem eu dou à luz são fissurados por ele — lamenta de forma
rancorosa. — Tem dias que eu acordo no meio da noite só pensando nessa porcaria de sorvete, eu
sonho com ele, só penso nele, desejo ele... — Ela está babando na minha poltrona, mas acho melhor
não comentar sobre o assunto.
— Ok, acho que eu vou dormir. — Ela está me assustando pra caralho e eu estou morto de sono.
Dou um beijo em seu rosto e começo a subir as escadas.
— Monstro — chama fazendo com que eu me vire. — Eu me esqueci de dizer o que eu tive que
fazer para acalmar o Nicholas. — Eu espero de maneira impaciente que ela termine, faço até um
gesto com a mão, mas ela balança a cabeça em uma negativa abrindo um sorriso maquiavélico. —
Quer saber? Você vai descobrir. Boa noite. — Ela lambe a colher mais uma vez e abandona o pote de
sorvete vazio, vulgo prova do crime em cima do sofá e some na escuridão de volta à sua casa.
Subo as escadas e abro a porta do quarto desejando apenas meu travesseiro e meu edredom
somente para encontrar um garoto dormindo atravessado na minha cama como se ela fosse dele. O
que seria mais rápido socar a cara redonda e inchada da minha irmã ou arrastar o menino de volta
para o quarto de hóspedes? Talvez eu devesse perguntar o que seria mais prazeroso, mas me sinto
muito cansado para descer novamente as escadas de modo que eu apenas ando até o menino e o pego
nos braços pela segunda vez na mesma noite, ele ressona e passa as mãos em volta do meu pescoço
se aninhando em meu peito.
Merda de criança, novamente eu cedo, novamente eu deixo que fique.
Dia de comprar cuecas para outro cara

“Suas crenças não fazem de você


uma pessoa melhor,
o seu comportamento faz.”
(Autor desconhecido)

Augusto

Acordo na manhã seguinte mais cansado do que fui dormir, talvez parte disso seja culpa da
conversa acalorada que tive comigo mesmo e que me impediu de pegar no sono como a pedra que eu
desejava me tornar. Eu quis entender antes de mais nada por que deixei o garoto ficar e roubar meu
conforto além de já ter permitido que ele roubasse a minha paz unicamente por ter entrado na minha
vida. Depois de muito questionamento cheguei à conclusão de que cedi porque era mais simples. Se
ele acordasse sozinho novamente e voltasse a abrir o berreiro, eu teria que levantar novamente para
tentar fazê-lo calar a boca, já que contar com a bondade da minha irmã, mais de uma vez ao ano, era
impossível. Então pareceu mais razoável que ele ficasse e nada mais do que isso.
— Moleque — Cutuco chacoalhando-o até que ele desperte. —, acorde! — Ele esfrega os olhos
com as duas mãos e se senta bocejando. — Vai tomar um banho que eu vou roubar alguma coisa no
vizinho para você comer. — Ele se levanta da cama, obediente, e olha ao redor. Eu aponto para a
suíte, mas ele não sai do lugar. — O que foi? — pergunto suspirando. Nicholas olha para baixo e
depois para mim, só entendo o que ele está tentando me dizer quando ele segura a barra da camiseta
machada com as suas mãos e a ergue em minha direção.
Ele não tem mais roupas para vestir. Quem foge, pelo amor de Deus, sem pegar nenhuma maldita
peça de roupa? Talvez ela não fosse tão precavida e meticulosa quanto pensei. Tenho a ideia de lhe
emprestar alguma coisa, mas ele vai poder nadar ou brincar de esconde-esconde dentro das minhas
camisetas, não vai ter jeito, vou ter que lhe comprar algumas coisas, já que está claro que não vou me
livrar dele tão rápido.
— Vem. — Saio pela porta e desço as escadas, ouço seus passos bem atrás de mim, então não
preciso conferir se ele está me seguindo, encontro minha irmã já de pé enrolada em um cobertor em
frente à televisão com mais um pote do sorvete proibido nas mãos assistindo a dois caras com pinta
de gostar de rapazes com os olhos vidrados.
— Ele precisa de roupas — resmungo parando ao seu lado, ela nem pisca ao responder.
— Por acaso, eu tenho cara de loja? — pergunta no instante em que a porta da frente é aberta.
— Isso aí que está nas suas mãos é o que eu estou pensando? — pergunta Ian passando pela
porta, ainda de jaleco e olheiras escurecidas o suficiente para ser confundido com um panda. Como
ninguém chamou o Ibama ao vê-lo na rua para vir recolhê-lo é um mistério para mim.
— Isso aqui que está se revirando dentro do meu útero e sugando todas as minhas energias, eu
fiz sozinha? — pergunta cutucando a barriga inchada se virando para encará-lo, fazendo com que ele
se encolha ao meu lado. Seus olhos estão marejados e ela funga. — Não tenho culpa que nossos
monstrinhos têm um gosto duvidoso para comida.
— Você está chorando, amor? — pergunta preocupado caminhando até ela e se agachando à sua
frente. — Não precisa, Bá, pode comer o sorvete. — Não, ele não disse a última parte de forma
complacente, foi mais como se ele estivesse se rendendo porque sabe que não pode ganhar a briga.
Ele foi inteligente. Ian enxuga suas lágrimas e passa seus polegares pelas suas bochechas com
carinho, se fosse eu daria um tapa. Ela ia parar de chorar rapidinho.
— Não é por sua causa, idiota — devolve se voltando para a televisão. —, é por causa dele. —
Aponta para a tela.
— Por causa do cara com cabelo de menina? — pergunto confuso encarando a imagem
congelada na televisão.
— Ele tem nome, é Sam Winchester e ele é o receptáculo de Lúcifer, e ele vai se sacrificar para
salvar o mundo e para isso vai ter que abandonar o irmão — explica de forma histérica com mais
lágrimas rolando. Claro, eu entendi tudo, penso sarcasticamente.
— Amor, você já assistiu a todos os episódios de Supernatural no mínimo três vezes — diz Ian
incisivo. — Não precisa chorar, você sabe que ele volta do Inferno depois. — Dou um passo para
trás quando ela se vira para ele com os olhos em brasa. Se ela for jogar alguma coisa na cara dele,
não quero que acerte em mim.
— Não é esse o ponto aqui, Ian Vitorazzi — cospe irritada.
— O ponto é que você percebeu o quanto me ama ao vê-lo abandonando o irmão? — pergunto
sério, o que só faz com que ela abandone as lágrimas e ria descontroladamente.
— Eu gostaria bem mais de você se você fosse Dean Winchester. — Ela limpa o rosto e se volta
para a televisão ainda sorrindo como uma lunática. — Agora deem o fora, eu quero chorar mais um
pouco quando ele pular no buraco!
Não é preciso falar duas vezes.
— Eu vou dormir — anuncia Ian subindo as escadas. Subindo é modo de dizer, ele praticamente
se arrasta por elas.
— E a garota? — pergunto me lembrando dela de repente.
— Na mesma, mandei deixarem ela em coma induzido, vão me ligar se tiverem novidades. —
Assinto e me viro para puxar o garoto de volta para casa. Mas não o encontro.
— Nicholas? — grito, o que faz Bárbara suspirar de maneira estressada e apontar para a
televisão indicando que estou atrapalhando seu momento de mulher problemática. Suspiro e começo
a procurar pela casa, o encontro na cozinha sentado no chão, de costas para mim. Vitório, o pitbull
mais parecido com um poodle que minha irmã cria desde filhote está à sua frente de barriga para
cima abanando o rabo por estarem coçando sua barriga rosada.
— Você é bonitinho, au, au — diz o garotinho de forma infantil quando estou a ponto de puxá-lo
do chão pela gola da camiseta, mas freio. Essa é a primeira vez que escuto sua voz e ele ainda não
reparou que estou atrás dele. Fico quieto e apenas escuto admirado com o carinho com o qual ele
passa a mão pelo comedor máster de sapatos sociais e com suas palavras sussurradas baixinho: —
Tão bonitinho. — Me pego sorrindo e logo fecho a cara, não podemos perder tempo, já que, pelo
visto, eu mesmo terei que levá-lo ao shopping.
— Vem, garoto! — O puxo pela camiseta e o sinto congelar sob o meu toque, ele volta a ficar
mudo exatamente como prefiro e se deixa ser arrastado de volta para minha casa até o carro, abro a
porta e ele entra, dessa vez não espero para ver se ele prendeu o cinto, mas escuto o clique do fecho
assim que engato a ré e saio da garagem.
Se tem algo que eu odeio na minha vida com todas as forças é shopping. Quem, por livre e
espontânea vontade, vai até um lugar infestado de gente (portando crianças, muitas crianças) somente
por diversão? Quem gosta de ser perseguido por vendedoras que mais parecem urubus atrás de
carniça? Ou melhor, quem consegue almoçar em um lugar tão barulhento que não se dá para ouvir os
próprios pensamentos? Sem falar que é praticamente impossível arrumar uma vaga para estacionar o
carro sem ter que brigar por ela literalmente. Não eu, com certeza.
Esse passeio está estragando um domingo que tinha tudo para ser maravilhoso.
Não é o passeio, é o garoto que está estragando minha vida que tinha tudo para ser maravilhosa.
Meia hora depois finalmente consigo estacionar o carro, levei uma buzinada e minha mão teve
sua honra posta em prova por outro motorista quando fui mais rápido e roubei a vaga pela qual ele
estava esperando, como se eu não fosse dormir à noite por ser mais esperto, babaca! Amaldiçoo
minha irmã mentalmente (enquanto desço as escadas rolantes olhando para a bunda embrulhada a
vácuo em uma calça de muito mau gosto da garota em pé a minha frente), ela podia muito bem deixar
de ser uma completa maluca entupida de hormônios e ter feito o favor de trazer o... O garoto, porra,
cadê ele? Olho em volta e não o encontro. Leva um milésimo de segundo para que eu entre em
pânico.
Respiro fundo e olho em volta novamente, será que ele se perdeu? Fugiu? Quando estou a ponto
de ligar para a polícia, me lembro de duas coisas. Primeira, a polícia não pode saber sobre ele; e
segundo, eu esqueci ele dentro do carro! Refaço o caminho, me xingando mentalmente, não por tê-lo
esquecido, afinal acontece, mas sim porque vou ter que refazer todo o percurso.
Quando abro a porta do passageiro do meu carro bruscamente, o menino se assusta. Seu rosto
está vermelho e quando me vê, seu primeiro instinto é esfregar o rosto com as mãos para se livrar de
lágrimas que ele não quer que eu note. Talvez, só talvez, eu tenha ficado um pouco arrependido por
esquecê-lo, ou é o que eu penso até que seus olhos se voltam para mim com censura.
— Qual é, guri, nunca esqueceu nada na vida, não? — Ele balança a cabeça negativamente sem
fazer ideia de que era uma pergunta retórica e eu suspiro abrindo seu cinto e o puxando para fora do
carro, agarro em sua mão e volto para dentro do shopping.
O lugar está lotado, como previ, então aperto ainda mais a mão do garoto e entro no meio da
multidão, não sei nem precisar meu alívio quando avisto ao longe uma loja infantil. O arrasto até ela
o mais rápido que eu consigo fazendo com que ele tropece para me acompanhar vez ou outra.
— Posso ajudá-lo? — Porra, se eu quisesse ajuda pedia, a vendedora, uma ruiva anoréxica me
barra assim que passo pelas portas de vidro. Podia, pelo menos, ter esperado eu colocar os dois pés
dentro da loja, mas não. Urubus!
— Quero ver roupas — anuncio fazendo um meneio para a criança que tenho presa a uma das
mãos, ela assente e faz um gesto para que eu a acompanhe.
— Que número ele veste? — Dou de ombros e ela parece surpresa. Solto da mão do Nicholas e
o viro olhando em sua etiqueta, está rasgada.
— Que tal irmos por tentativa e erro? — Ela franze os lábios como se fosse algo que eu tenha a
obrigação de saber, só não dou meia volta e procuro outra loja porque chegar vivo e são dentro dessa
já foi difícil, então apenas sorrio e apelo para o meu charme.
— Quantos anos ele tem? — Dessa vez não quero lhe dar uma resposta inadequada, então
sorrio.
— Quatro. — Olho de relance para Nicholas que ergue três dedos da mão direita em um gesto
rápido para que eu veja e volta a abaixá-los. — Quer dizer, três. — Ela repuxa os lábios novamente
e eu emendo com uma risada forçada. — Quase acertei. — Ela sorri contra a vontade e começa a
tirar algumas roupas das araras.
— O senhor está procurando alguma peça especifica?
— Não, quero um pouco de tudo, calças, algumas camisetas, talvez alguns shorts, uma ou duas
jaquetas e cuecas, muitas cuecas. — Ela assente indo para trás do balcão, eu a sigo e volto a olhar
para Nicholas, ele olha fascinado para as roupas que ela está retirando da prateleira e mostrando a
ele.
— Gosta dessa? — ela pergunta diretamente ao garoto que me olha, eu dou de ombros e ele
abaixa a cabeça. Nesse momento a vendedora passa a estudá-lo, olhando-o de maneira desagradável
por suas roupas estarem imundas e rasgadas, depois volta sua atenção para minha calça jeans da
moda e minha camiseta de marca. Eu já odeio essa puta.
— Ele não gosta muito de falar. — Não sei por que sinto a necessidade de explicar, de defendê-
lo, mas a cada olhar repulsivo que ela lança ao menino, mais vontade eu tenho de esganar essa passa
fome. — Nicholas, você gostou? — Ele ainda olha para o chão, então me abaixo e o viro de frente
para mim, levantando sua cabeça até que seus olhos encontrem os meus. — Gostou? — Ele assente
timidamente, então eu entendo, ele está com vergonha.
Por que estaria com vergonha?
— Acho que seria melhor ele experimentar — ela aconselha e eu concordo e lhe entrego uma
calça jeans e uma camiseta que pego do balcão.
— Vai até aí dentro e veste isso. — Ele não se move, dou uma olhada na varapau e ela me olha
com uma interrogação no olhar. Ele também não sabe se vestir sozinho? — Você pode ajudá-lo? —
Ela não parece gostar da ideia, mas o leva até o provador, talvez saiba que a venda vai valer a pena.
Pouco depois ele sai timidamente do cubículo vestindo as roupas novas, couberam
perfeitamente, ele balança as mãos e olha para baixo admirado. Eu assinto e ela volta com ele lá para
dentro me devolvendo em poucos minutos o garoto maltrapilho que veio comigo.
— Vamos levar, quero também essa calça. — Aponto para uma calça de moletom. — Essas
duas também e todas essas camisetas. — Olho mais um pouco sobre o balcão e separo alguns shorts
e três casacos. Me viro para Nicholas para perguntar se ele gostou de tudo e o pego olhando com
cobiça para um item em especial. Estava demorando, me volto para a vendedora e espero a criança
dentro dele puxar a barra da minha calça e me pedir para lhe comprar enquanto termino de escolher
as roupas que vamos levar, mas não é isso que ele faz.
Ele não pede e quando percebe que o flagrei olhando novamente para o par de tênis azul-
marinho, ele desvia o olhar e segura a barra de sua camiseta para disfarçar como se de uma hora para
outra ela fosse a coisa mais interessante do mundo embora se pareça com um pano de limpar o chão
para mim.
— Quero os tênis também. — Tanto ele quanto a vendedora se voltam para onde estou
apontando, ela vai até a prateleira e pega o calçado chamando-o para experimentá-los. Quando estão
em seus pés, ele se levanta e os olha abrindo um sorriso gigantesco.
Nicholas se levanta e corre até onde estou, agarrando minhas duas pernas em um abraço
desajeitado e inesperado olhando para cima. Acho que nunca vi um sorriso mais verdadeiro na vida,
embora lhe falte alguns dentes. Me pego sorrindo de volta, mas a felicidade de vê-lo tão animado
some pouco depois. Mais precisamente some quando chegamos em casa e eu vou tirá-lo da
cadeirinha de segurança. Nicholas está dormindo agarrado ao par de tênis que ele deve ter pego da
sacola enquanto eu não prestava atenção.
O sorriso ainda está seu rosto, mas no meu só tem curiosidade.
Por que ficar tão feliz com um par de tênis?
Não o acordo, ao invés disso o pego no colo e o levo até o sofá depositando-o gentilmente,
depois refaço o caminho e pego as sacolas. Assim que piso novamente na sala tenho uma surpresa,
não uma boa. Uma surpresa do tipo que quase me faz mijar nas calças.
— Acho que esse é o momento em que você me conta exatamente o que está acontecendo aqui,
Augusto Bittencourt — diz minha avó encostada na parede com as duas mãos na cintura, seu olhar se
desvia para Nicholas apenas por um segundo e logo se volta novamente para mim de maneira irritada
como eu nunca havia visto, talvez por eu nunca ter dado motivos antes. Fico sem palavras até ver
minha irmã espiando pela porta da cozinha.
Dedo-duro, filha da mãe!
Qual é o nome dela?

“No coração das crianças


vivem a compaixão e a sabedoria
de quem é inocente.”
(Autor desconhecido)

Augusto

— Além de gorda, é dedo-duro filhote de rinoceronte? — pergunto cuspindo fogo, mas em tom
baixo, não quero que a criança acorde.
— Isso ofende, sabia, seu monstro? — pergunta com os lábios tremendo. — Ela praticamente
me torturou.
— E como ela fez isso, te ofereceu uma xícara de chá? — Como se precisasse muito para ela
abrir o bico.
— Parem vocês dois — diz vovó, autoritária. Bárbara e eu trocamos olhares mordazes, mas
calamos a boca. — O que sua irmã me contou é verdade? Você está escondendo uma criança, meu
filho? — Noto censura em sua voz e algo mais, algo que não consigo identificar. Antes que eu tenha a
chance de estudá-la melhor, a barra da minha calça é puxada e eu olho para baixo, mas não vejo
ninguém. Me viro e avisto um Nicholas assustado se escondendo atrás das minhas pernas.
— Consegue levar as sacolas para cima e colocar tudo em uma gaveta? — Ele assente e me dá
as costas fazendo o que mandei. — Eu já subo para te dar banho. — Minha intenção era pedir que
Bárbara fizesse isso, mas não quero mais nada dessa monstra vingativa de duzentas toneladas e
também não quero que minha avó pense que estou jogando a responsabilidade nas costas dos outros,
porque é exatamente isso que tenho feito na maior parte do tempo desde que acolhi o garoto.
— Estou esperando — diz dona Eva caminhando até a cozinha certa de que vou segui-la
puxando uma cadeira e se sentando à mesa. — Filha, pegue uma cerveja para mim, por favor. Estou
pressentindo que eu vou precisar. — Quando ela sorve a primeira golada e limpa os lábios com a
manga da blusa estampada, começo a falar. Não lhe escondo nada. Ela não me interrompe e suspira
vez ou outra, mas escuta atenciosamente o que lhe conto.
— Seu moleque irresponsável. Você poderia ter se ferido — dispara jogando as mãos para o
alto assim que termino o relato do maior problema que já me meti, maior até do que a vez em que saí
com a mulher de um juiz e ele descobriu, me encolho. Ela me encara com os olhos duros matando o
resto de sua cerveja e fazendo um gesto para que minha irmã pegue outra. — Isso é um problema sem
precedentes. Você conseguiu superar a sua irmã se é que isso é possível! — Eu rio e Babi faz uma
careta, mas não se manifesta. — Não ria, isso é sério, Augusto. Mas não temos saída, temos? Não
podemos entregar o menino a justiça. Temos que lidar com isso e torcer para a moça acordar para
nos dizer o que fazer. — Eu assinto.
— Vai me ajudar, vovó? — Pareço novamente um menino com um brinquedo quebrado nas
mãos.
— Vou te ajudar, claro que eu vou. Mas com duas condições. — Assinto novamente, é justo.
— Tomo conta dele apenas no seu horário de trabalho, assim que você colocar os pés dentro
dessa casa ele é responsabilidade sua, isso inclui janta e banho. — Merda! — Nada de sair com
essas meninas promíscuas com as quais você se encontra. — Tento negociar e ela me cala com o
olhar. — Quero você todas as noites em casa com esse menino e, por último, se seus pais
descobrirem eu não sabia de nada e vou dar uma surra em quem me desmentir, de chinelo — frisa.
— Fechado. — Que outra opção eu tinha? Ia sair bem mais barato que uma babá e, de qualquer
forma, não encontrei nenhuma disponível.
Deixo elas na cozinha, minha avó com sua terceira cerveja e minha irmã com uma barra de
chocolates que ela surrupiou do armário na maior cara de pau e subo para ajudar Nicholas a tomar
banho, mas o encontro chorando na cama. Ele está com o rosto enfiado no travesseiro e funga fazendo
com que seus ombros chacoalhem furiosamente, dou meia volta sem chamar sua atenção.
Não, eu não consigo lidar com isso.
— O menino está tendo uma crise, será que alguém... — deixo a frase no ar quando volto a
entrar na cozinha, ambas me olham como se eu não tivesse presenciado a conversa anterior. — Não
consigo lidar com isso, é demais. — Não estou mentindo. Quem vai ter uma crise daqui a pouco serei
eu.
— Fala com ele — diz vovó docemente. Noto que ela está praticamente se segurando na cadeira
para se manter no lugar, ela ama crianças e o único motivo que encontro para ela ainda não ter se
levantado e ter subido as escadas é que ela possivelmente está tentando me dar uma lição. Não
precisa, eu já aprendi. Se algum dia na vida me der vontade de ajudar outra pessoa, o que eu duvido
muito que vá acontecer, vou simplesmente pular de uma janela para não ficar tentado.
— É só uma criança, Monstro, não é um ET — ralha minha irmã sarcasticamente, muito
provavelmente ainda esteja magoada por eu tê-la ofendido.
— Não. Consigo — falo secamente e pausadamente para dar efeito as palavras. Ambas se
entreolham em uma conversa silenciosa e voltam sua atenção para qualquer objeto inanimado da
cozinha, menos para mim, não preciso ser um gênio para perceber que decidiram que tenho que me
virar sozinho. Antes que eu me estresse mais, tenho uma ideia. Saco o celular do bolso e faço uma
ligação.
— Mãe, passa o telefone para a Tina — peço sem rodeios.
— Oi, filho, eu estou bem e você? — Se era para ser sarcástica ela não conseguiu, também não
espera pela minha resposta, pouco depois a voz da minha boneca chega até meus ouvidos.
— Oi, titio — diz com um gritinho de felicidade.
— Bonequinha, preciso de um favor, vai para longe da vovó e me escuta.
— O que está acontecendo aqui? — pergunta Ian com cara de sono entrando na cozinha, quem
responde é minha irmã.
— Augusto está usando nossa filha — diz mais interessada no chocolate do que na exploração
de Valentina. Ian me olha interrogativamente e eu lhes dou as costas subindo novamente para o quarto
de hóspedes. Ouço vários passos me seguindo e com uma rápida olhada por cima do ombro vejo os
três atrás de mim.
— Quero que você fale com o Nicholas, está bem? — pergunto docemente. — Ele está triste e
eu não faço ideia do porquê.
— Você tentou perguntar pra ele? — me responde sem paciência, ela realmente não nega de
quem é filha.
— Não, isso não me passou pela cabeça.
— Isso sempre resolve. — Ela ainda não entende o que é sarcasmo, preciso ensiná-la
urgentemente.
— Nicholas, tem alguém no telefone que gostaria de falar com você. — Ele não se move, ainda
chora. — É Valentina. — Ao ouvir o nome da minha sobrinha, ele se põe de pé em um pulo e antes
que eu tenha a chance de falar alguma coisa, o telefone já foi arrancado de minhas mãos. Ele olha
incerto para os quatro pares de olhos que o observam e some debaixo da cama. Vários minutos
depois, quando estou quase puxando seus pés e acabando com isso, ele sai e me devolve o telefone.
— O que está acontecendo aqui? — pergunta Ian novamente, mas o ignoro.
— Então, bonequinha? — pergunto para Tina.
— Ele tem saudades da mamãe dele — diz parecendo triste. — Cadê a mamãe dele?
— Ela está doente, querida, está no hospital. — Ouço minha sobrinha engolir o choro.
— Isso é triste, ele só tem a mamãe dele, ela vai virar estrelinha? — Tapo o bocal do celular.
— O que é virar estrelinha? — pergunto para um Ian confuso e levemente irritado. Ele apenas
faz um gesto de “cortar a garganta” com o dedo e eu entendo, virar estrelinha no dicionário da minha
sobrinha quer dizer “bater as botas”. — Não, querida — tranquilizo-a, espero que não. — Mas
ajudaria bastante saber o nome da mãe dele, você pode perguntar?
— Posso. — Devolvo o telefone para Nicholas e ele volta a se esconder em baixo da cama para
que ninguém o escute falando, dessa vez é mais rápido e logo depois ele volta a me entregar o
aparelho.
— E aí? — pergunto ansiosamente. Eu deveria ter pensado nessa estratégia há muito tempo
atrás. — Ele te contou o nome dela?
— Sim. — Desembucha, criança.
— E então? — pergunto sem paciência trocando o telefone de mão.
— É mamãe.
— O quê? — pergunto confuso.
— O nome dela — responde irritada por eu fazê-la repetir. — é mamãe. Era só isso? Vai
começar o filme da Cinderela, e eu gostaria muito de assistir.
— Era só isso — respondo para a minha sobrinha mal-humorada.
— Ah, foi legal comprar o tênis para ele, titio, deixou ele feliz. — Dito isso ela desliga, como
de costume, na minha cara.
— O garoto só fala com a minha filha? — pergunta Ian a contragosto.
— É o que parece. — Dou de ombros me escorando na parede.
— Não gosto disso, Augusto. — Ele balança a cabeça.
— O que você pensa que um garoto de três anos vai fazer com a Valentina? Levá-la para um
bar? Deixá-la passear em sua motoca? Pelo amor de Deus, Ian — debocho.
— Bom, quando liguei mais cedo ela me perguntou se ele tinha aparecido montado em um
cavalo branco — diz Bárbara distraída, sempre posso contar com ela para abrir a boca quando não
deve.
— Mantenha o seu garoto com as mãozinhas longe da minha filha — intimida Ian se voltando
emburrado para minha avó. — O que eu disse sobre a Valentina e a porra do cavalo branco, vó? —
pergunta cruzando os braços com uma carranca desaprovadora no rosto.
— Que ela é muito nova — dizemos nós três em coro.
— Ótimo, então façam o favor de se lembrarem disso, e você — diz para Nicholas, que está
prestando atenção a cada uma das nossas palavras. — Nunca convide a minha filha para um passeio
de motoquinha. — Ele assente, mas duvido que ele saiba o que é uma maldita motoquinha. Logo
depois os três me abandonam para lidar com o garoto sozinho. Quando consigo fazê-lo tirar a roupa e
entrar dentro do chuveiro, Ian volta e abre a porta se escorando na pia.
— Será que da próxima vez que brigar com a sua irmã você pode evitar usar os sinônimos de
gorda? — pergunta se olhando no espelho. — Nada de filhote de elefante...
— Rinoceronte — corrijo, cortando-o.
— Tanto faz, não compare ela com nenhum animal que pese mais do que trinta quilos, por favor.
— Ele busca meu olhar no espelho e vejo a determinação dentro dos seus olhos azuis. — Ela já está
pirada o suficiente. Em menos de meia hora, ela já me perguntou três vezes se eu acho que ela está
gorda, então facilita a minha vida, porque ela não acredita na minha resposta de qualquer modo.
— Ela tem motivos para estar gorda, tem um babaquinha dentro dela, isso, claro, se ele puxar
você — comento distraidamente colocando um pouco de sabonete líquido nas mãos e passando sobre
o corpo do garoto. — Essa coisa você pode lavar sozinho, né, guri? Não vou pôr a mão aí não. —
Ele me olha como se não entendesse sobre o que estou falando. — Hum, a torneirinha? — Ele ri e faz
o que mandei.
— Você conhece sua irmã? — Assinto. — Então sabe que isso não faz diferença. Ela está
sentimental, peguei ela chorando com uma propaganda de cerveja esses dias, dá um desconto,
Augusto. — Não foi um pedido, então apenas concordo. Não que eu vá obedecer, claro.
— Como será que Bernardo está se virando? — pergunto me lembrando de que Vivian está com
o mesmo tempo de gestação que a Bárbara.
— Se formos analisar pela mensagem que ele me mandou de manhã, não muito melhor do que
eu. — Eu rio.
— O que dizia?
— “Se importa se eu afogar a sua irmã nas águas espetaculares do Caribe? Porque esse é meu
primeiro pensamento quando acordo e o último quando eu vou dormir. Eu quero matá-la, Ian” — Ele
ri. — Algo a ver com um biquíni que não serve mais e uma peregrinação para achar um que sirva e
depois um surto porque ela só coube em um, duas vezes o seu tamanho, e se recusou terminantemente
a comprá-lo.
— Não faço ideia de como vocês aguentam — resmungo terminando de ensaboar o garoto, que
brinca com a água do chuveiro jogando-a para todos os lados, principalmente na minha cara.
— Porque nós amamos nossas esposas, amamos os bebês dentro da barriga delas. O amor é
isso. Você suporta alguém comendo o seu sorvete, roubando seu carro, seu travesseiro, o poder do
controle remoto. Você releva as roupas jogadas pela casa, o mau humor e as crises de choro. Você
apoia, Augusto, você melhora, você se doa. — Parei de ouvir o discurso de menininha na metade e,
pelo visto, ele percebeu. — O dia mais feliz da minha vida vai ser o dia em que eu vou rir da sua
cara quando você finalmente me entender. Vou estourar pipoca e assistir você sofrer por uma mulher,
é o meu único desejo antes de morrer.
— Não vai rolar. Não vou virar esse marido pano de chão que nem você e o Bernardo são. No
lugar de vocês, a Babi e a Vivian já estavam enterradas no quintal servindo de adubo para as rosas
que o jumento do jardineiro plantou quando eu falei claramente que queria cactos.
— O amor dá paciência, cara. Ele te dá tudo que você precisa pra ser o que outra pessoa
necessita. — Nada, absolutamente nada, tinha o poder de me dar paciência, muito menos amor. Ô
sentimento desgraçado, por que todo mundo tinha que achá-lo tão importante? Dava para viver sem
na boa.
— Gay — digo entredentes lavando o garoto com a mangueirinha do chuveiro como quem lava
um carro enquanto ele ria e se desviava da água.
— Iludido — resmunga em contrapartida. — Se você acha que é imune, boa sorte. Vai ser uma
boa surpresa quando você finalmente descobrir que é humano. — Ele ri e sai do banheiro me
deixando sozinho para secar e vestir o menino, que não para quieto.
Deixo Nicholas em seu quarto, dou boa noite para minha avó, que já se apoderou do quarto do
Gustavo. Quando ele chegar, e se chegar, vai descobrir logo que foi banido para o sofá e vou tomar
banho. Estou exausto e não consigo parar de pensar em tudo que aconteceu hoje.
“Mamãe” esse é o nome da garota, quase sorrio por, pelo menos, um dos mistérios que a rondam
ter sido desvendado, quase. Pelo menos descobri a ligação entre ela e o garoto, uma ligação que era
óbvia, mas por algum motivo eu me recusava a ter certeza. Ninguém, além da mãe, trocaria sua vida
pela vida de uma criança, pediria a um estranho que tomasse conta dela com tanta garra quanto ela
fez. A garota sem nome é mãe. Isso me incomoda e também não sei o motivo.
Quando saio do banheiro da suíte encontro Nicholas dormindo na minha cama, faço barulho ao
fechar a porta e ele se mexe deixando que seu pé escape debaixo das cobertas e fique à mostra. Ele
está calçando os tênis novos. Balanço a cabeça e caminho até ele retirando os tênis e os colocando
no criado-mudo ao seu lado, apago a luz e me deito. O brilho da lua é o suficiente para que eu o veja
esticar uma das mãos e agarrar um tênis, abraçá-lo com a mão que está próxima ao travesseiro e se
virar de lado, abraçando meu ombro com a outra voltando a chorar baixinho.
Não me mexo por vários minutos indeciso sobre o que fazer. Não sei se apenas fecho os olhos e
deixo a exaustão me dominar ou se retiro sua mão de cima de mim. Minha vontade é me afastar, mas
a voz da minha sobrinha preenche meus pensamentos. Que tipo de criança fica feliz com um par de
tênis a ponto de dormir abraçado com eles?
A falta de melhora no estado de saúde da mãe dele indica que talvez ele esteja a ponto de ficar
com menos ainda. De ficar realmente sem nada. Novamente eu deixo que ele fique, não só na minha
cama, mas também agarrado a mim.
Hoje, eu sou tudo o que ele tem, eu e aquele par de tênis azuis.
O instinto protetor que eu não deveria ter

“Algumas pessoas surgem em nossas vidas


como uma bênção, outras como lição.”
(Autor desconhecido)

Augusto

Já era madrugada quando Nicholas finalmente parou de chorar e pegou no sono, já eu não tive a
mesma sorte. Cansei de me virar de um lado para o outro em cima dos lençóis e decidi que precisava
fazer alguma coisa, qualquer coisa para não ceder ao desespero de toda a situação em que eu me
encontrava. Levantei, me vesti agarrando meu jaleco ao sair pela porta. Fui acometido por uma
vontade avassaladora de olhar a garota com meus próprios olhos. Vê-la talvez tornasse tudo real,
como se eu realmente precisasse de algo mais real do que comprar cuecas para outro (mini) cara.
Merda, não sei o motivo, eu só sei que queria olhar para a máquina que monitora seus batimentos
cardíacos e constatar que eles ainda estão lá, que ela ainda vive.
Eu precisava disso.
Não deixei de reparar que Gustavo não estava no sofá. Se eu tivesse que adivinhar diria que não
voltou para casa e decidiu passar a noite com seu segredo, mas logicamente não me sentia muito
animado em especular sobre esse mistério no momento.
Eu sentia pressa. Não, não era pressa, era ansiedade, desespero, como se um martelo estivesse
sendo batido repetidamente dentro da minha consciência. Uma vontade alucinante de apenas puxar
uma cadeira para junto dela e lhe falar algumas verdades, mesmo que ela não pudesse me responder
e nem ao menos me escutar.

Adentro o hospital a passos largos avistando o enfermeiro que fica de plantão na maioria das
noites lendo um livro atrás do balcão na Unidade de Terapia Intensiva, ele era exatamente quem eu
esperava encontrar. O cara tem fama de vender até a própria mãe por uns trocados, o que foi
confirmado quando Ian o subornou para ficar na UTI ao lado da minha irmã, mesmo contra a
indicação de seu médico na época em que ela ficou internada após o sequestro, espero que ele aceite
fazer o mesmo por mim hoje.
— Pois não? — pergunta sem tirar os olhos do livro notando minha presença imediatamente.
Ele ajeita os óculos de grau de lentes grossas e percorre a página com o olhar aguçado.
— Preciso de um favor. — Isso estava ficando tão costumeiro que era quase fácil pronunciar as
palavras. Quase.
— Eu tenho cara de quem faz favores, doutor? — pergunta secamente. Era uma babaquice nós
médicos sermos proibidos de ficarmos onde bem entendíamos, eu tinha pacientes naquela mesma ala.
Mas não podia o correr o risco de esse sacana contar para alguém que eu estava usando meus
benefícios em proveito próprio, o utilizando como um dos familiares. Afinal, eu não tinha nenhum
bom motivo para querer “visitar” aquela garota enquanto o cara da cirurgia de ontem estava alguns
leitos adiante.
Naquele hospital, a fofoca corria mais do que o saudoso Ayrton Senna.
— Dinheiro não é um problema — cuspo. Paciência é que era o meu problema, eu não tinha!
Ele ergue o olhar interessado e os óculos caem até a ponta de seu nariz pontudo, ele aguarda que eu
fale e é o que eu faço. — Quero ficar um pouco com a indigente. — Aponto até a última baia
tentando não soar mal-educado.
— Não dá, ela é paciente do Doutor Vitorazzi, ele mandou eu não deixar ninguém chegar perto
dela — diz encerrando o assunto e voltando a atenção para o maldito livro.
— Eu sei que você deixou Ian ficar com a minha irmã quando ela estava internada e o médico
dela também havia proibido — justifico meu pedido abandonando a ideia de não soar mal-educado,
a essa altura eu já não estava conseguindo de qualquer modo.
— A diferença é que eu gosto do Ian — diz sorrindo para mim. — Mas não gosto de você,
doutor. — Não me preocupo em ficar ofendido, ele não é o único. Mas fico puto da vida por ele
decidir me enfrentar, ele não sabe com quem está lidando.
— Manoel — digo ameaçadoramente lendo o nome em seu crachá. —, não acho que você vá me
querer como inimigo. — E eu tenho razão, depois que Ian foi nomeado para o conselho pega apenas
os casos que lhe interessam, os casos que seu cunhado o obriga (no caso eu e esse é o primeiro) e
cuida de seus antigos pacientes. O chefe nomeado para a ala de cardiologia sou eu e se esse cara
quiser assistir a qualquer uma das cirurgias da minha ala precisa da minha permissão, não acho que
ele queira viver o resto da vida trabalhando como babá na UTI.
— Claro, doutor — confirma com os dentes cerrados provavelmente se imaginando socando a
minha cara. Sorrio desdenhosamente e caminho até a garota sem nome. Ele poderia ter facilitado as
coisas, poderia ter pegado o dinheiro e calado a boca, ao invés disso ele se queimou, eu cuido dele
mais tarde.
Me aproximo do leito e ergo uma cadeira a colocando ao lado de seu corpo adormecido, me
sento e passo as mãos pelo rosto, só depois olho para ela. Balanço a cabeça sem saber o que estou
fazendo e instintivamente me aproximo mais, me inclinando em sua direção.
— Você me meteu em uma fria — censuro agarrando sua mão e virando sua palma para cima
ainda presa à minha. — Um garoto que não fala, você me deixou um garoto que não fala — resmungo.
— Graças a minha sobrinha, eu descobri seu nome, mas você poderia ao menos ter pego uma muda
de roupas para ele, não acha? — Fecho os olhos e me xingo mentalmente. — Que porra eu tô
fazendo, conversando com uma garota em coma? — Fico em silêncio por alguns minutos brincando
com sua mão. — É sério que ele nunca teve um maldito tênis novo? — Não consigo evitar, os
questionamentos pulam para fora da minha boca em forma de palavras de forma descontrolada. —
Por quê? Por que você nunca comprou uma porra de um par de tênis para o menino? Eu sei que você
tinha dinheiro suficiente, eu vi o interior da maleta. Quem são vocês, afinal?
— Provavelmente uma vagabunda qualquer — diz uma voz acima de mim, me viro
imediatamente e me deparo com o enfermeiro me olhando de cima. — Essa aí tem cara de ser barata
ainda por cima. — Cerro os punhos e abro a boca, mas ele continua sem perceber seu erro. — Se for
esperta morre pra não pagar a conta do hospital, garanto que ninguém vai dar falta. — As sensações
chegam muito rápido, não consigo processá-las antes de agir, quando dou por mim empurrei a
cadeira no piso de linóleo fazendo um barulho agudo e ensurdecedor e estou indo para cima dele com
ambas as mãos esticadas à frente do corpo, mas não é a lapela de seu jaleco que eu agarro com força,
é o jaleco de alguém que se coloca a sua frente para protegê-lo.
— Calma, Monstro — pede Ian de olhos arregalados segurando meu rosto firmemente, desvio o
olhar e noto o enfermeiro dar alguns passos para trás, forço meu corpo para frente ainda tentando
chegar até ele, mas Ian me pressiona com seu próprio corpo me impedindo se sair do lugar. Só
consigo ter um único pensamento: eu conheço alguém que vai dar falta da “vagabunda barata”.
— Me solte, Ian — ordeno com raiva. Tento empurrá-lo, mas ele não está disposto a me soltar.
Eu sou mais forte, mas ele é mais determinado em se tratando de defender a minha pele, sempre foi.
— Sem chance, não vou deixar você acabar com a sua carreira por causa dessa garota —
sussurra me dando um chacoalhão, é o suficiente para que eu seja invadido pela razão, ele está certo.
Mesmo que ela não pare de tentar, ela não vai conseguir destruir o que eu demorei anos da minha
vida para construir. Foi muito suor e dedicação para jogar tudo pelo alto por uma garota qualquer.
Ergo as mãos demonstrando que concordo e ele me solta olhando por cima do ombro para o
enfermeiro. Sigo seu olhar e novamente tenho vontade de encher ele de porrada ao notar seu sorriso
de escárnio.
— Dê o fora daqui, Manoel — ordena Ian, ele assente e dá meia volta ainda com o sorriso
pregado aos lábios, abandonando seu posto e sumindo porta afora.
— Já você, eu vou te levar até sua sala e impedir que você mate alguém no caminho — diz me
puxando pela manga do jaleco. Olho uma última vez para a garota entubada no leito e me deixo ser
arrastado.
Já na minha sala, sozinho, me sento na cadeira giratória e respiro fundo, não acreditando que
quase bati em um enfermeiro porque me ofendi por alguém que nem mesmo sei como se chama. Se eu
realmente o tivesse machucado, eu estaria com a demissão assinada a essa hora. Nem minha
credibilidade, nem o cargo de Ian seriam o suficiente para livrar minha cara, para mascararem minha
falta de profissionalismo.
Claro que isso não me impede de estar louco da vida. Ainda adoraria ter o sangue dele
manchando minhas mãos e lhe deixar de presente um ou os dois olhos roxos.
Quem eu estava me tornando? A única mulher por quem já me arrisquei a entrar em uma (ou
várias) brigas foi minha irmã. Não posso deixar a ligação que eu tenho com aquela menina interferir
de forma negativa nas minhas atitudes, ela já causou alvoroço o suficiente.
— Com licença, doutor — chama uma das recepcionistas abrindo a porta levemente. —, sua
paciente já chegou. Posso pedir que entre? — Balanço a cabeça afirmativamente e respiro fundo
enterrando qualquer tipo de pensamento que não tenha a ver com meu trabalho no fundo da mente.
— Doutor Augusto, querido. — Sorri dona Antônia, uma das minhas pacientes mais antigas
passando pela porta que a recepcionista mantém aberta para que ela entre. — Está cada dia mais
bonito — elogia caminhando até a mesa e a contornando para beijar cada uma das minhas bochechas.
Mais essa agora! Ela não poderia ter escolhido qualquer outro dia para me fazer perder tempo? Tinha
que ser justo hoje?!
— O que a traz aqui, dona Antônia? — pergunto sem rodeios. Ela vem até o hospital uma vez a
cada duas semanas há mais ou menos seis meses. Todas as semanas com sintomas diferentes, todas as
semanas achando a mesma coisa: que vai morrer e todas as semanas eu lhe digo que é bem capaz que
eu vá antes dela.
— Meu peito — lamenta balançando a cabeça com pesar. Ela infla as bochechas pintadas e
franze os lábios pintados de vermelho como se estivesse pensando em que sintoma novo vai me
apresentar dessa vez, eu cruzo os braços em cima da mesa e aguardo.
— O que tem ele? — pergunto por fim constatando depois de quase um minuto que ela não ia
cooperar.
— Arde, doutor. Meu peito arde — diz balançando a gola da camisa para expressar um calor
imaginário, já que estamos quase abaixo de zero por causa do ar condicionado com problemas.
— Vamos ver, então. — E lá vamos nós outra vez. Eu a examino pensando seriamente que
poderia estar fazendo algo mais útil, já que não tem absolutamente nada errado com ela. Assim que
pego o estetoscópio nas mãos, ela ameaça tirar a camisa. — Não é necessário... — ela me
interrompe com um acesso de mãos e desabotoa a camisa mesmo assim, ok então!
— E então, doutor? — pergunta assim que enrolo o estetoscópio no meu pescoço, fico tentado a
lhe dizer que há algo errado só para que ela aprenda a não brincar com o trabalho das pessoas, mas
me freio. Provavelmente eu sou a única distração dela, já que em nossa primeira conversa ela me
contou que havia ficado viúva recentemente. Não sou tão babaca assim.
— Como sempre, a senhora está tão saudável quanto qualquer garotinha. — Ela ri e se senta.
— Então, não foi dessa vez? — pergunta abotoando a camisa lentamente me olhando nos olhos,
e eu rio. Nada como uma distração para nos fazer esquecer dos problemas.
— Não, não foi. — Eu rio.
— Ora, que surpresa. Dessa vez, realmente achei que era alguma coisa. Acordei no meio da
noite com o peito em chamas e sabia assim que senti que tinha que vê-lo. — Ela ergue uma
sobrancelha sugestivamente e eu quase caio da cadeira. Estaria essa senhora na casa dos setenta
dando em cima de mim?
— Desse jeito vou pensar que a senhora vem até aqui só para me ver, dona Antônia. — Ela
sorri, mas não responde. Apenas se levanta e me dá os dois beijos costumeiros antes de se virar para
ir embora.
— Semana que vem na mesma hora? — brinca. Assinto, sabendo tão bem quanto ela que não é
brincadeira.
O resto da tarde passa como um borrão com um paciente atrás do outro entrando pela porta. Já
passa das seis quando termino todos que estavam na agenda, estou virado de costas arrumando as
fichas quando a porta é aberta novamente. Me volto abrindo a boca para pedir a recepcionista que
leve e arquive as fichas, já que não estava esperando outra pessoa, mas dou de cara com a minha
avó. Como se não bastasse, Nicholas está firmemente agarrado a uma de suas mãos admirando minha
sala com olhos curiosos.
— O que vocês vieram fazer aqui? — censuro puxando minha avó para dentro do consultório e
fechando a porta, não sem antes conferir o corredor.
— O menino não estava bem, passou boa parte da tarde chorando de novo. — Ergo as
sobrancelhas em um legitimo: “o que eu tenho a ver com isso?!”. Seus olhos se findam e ela suspira
pronta para me dar uma bronca, mas olha para Nicholas e desiste. — Ele deve estar com saudades da
mãe, então pensei...
— Não — a corto já sabendo o que exatamente ela pensou.
— Mas Augusto...
— Sem mais, vovó — corto novamente dando o assunto por encerrado e voltando para minhas
pastas. — Aqui ela está como indigente, já tive um desentendimento com o enfermeiro do setor hoje,
não podemos levantar nenhum tipo de suspeita.
Pouco depois, uma mão conhecida agarra minha perna e puxa minha calça para chamar a
atenção, olho para baixo, para um par de olhos infantis marejados e suspiro.
Não, dessa vez não.
— Augusto, o menino se recusou a comer, a tomar banho, não quis nem sair de dentro do quarto.
Ele não nos responde quando falamos com ele, não sei nem se ele entende — diz minha avó no meu
ouvido depois de chegar perto o bastante para que o menino não a escute.
— Nicholas, você se lembra da conversa que tivemos quando eu o trouxe para casa? — Ele
balança a cabeça confirmando que se lembra enquanto sobe em uma cadeira e se senta. — Eu não
disse que você tinha que se comportar? — Balança a cabeça novamente. — Então, por que você não
quis nem tomar banho e nem comer? Eu já disse que se você quiser ficar terão regras... — Suas
bochechas coram e ele olha para o chão.
— Não seja tão duro, não é assim que se educa uma criança — sussurra novamente minha avó.
— Quer tentar? — sussurro de volta. Ela ergue os braços se dando por vencida e anda até a
maca se deitando com uma das mãos sobre os olhos como se estivesse sobre uma toalha estendida
nas areias da praia.
— Estou exausta! — reclama em uma voz monótona. — Acho que vou para casa, Nicholas pode
ir com você, assim vocês podem parar no caminho para casa e aproveitarem para comprar alguns
brinquedos, algo que o distraia. — Ela não desiste mesmo de me perturbar, não é?
— Brinquedos? — pergunto perplexo.
Ela não me olha, continua como se estivesse tomando sol, tentando pegar um bronzeado quando
responde:
— Ele é criança, Augusto, o que você acha que as crianças fazem?
— Além de me tirar toda a paciência? — pergunto sarcasticamente.
— Duvido muito que você tenha nascido com alguma, querido — diz mais para si mesma, mas
escuto da mesma forma. — Duvido — repete.
— Ele não precisa de brinquedos, não vai ficar muito tempo. — O menino continua olhando
para o chão, mas minhas palavras fazem seus ombros caírem e seus olhos se fecharem. — Se for
mesmo necessário, ele pode pegar algo da Tina.
— Ah, claro, ele vai adorar brincar de Barbies! — diz finalmente me encarando.
— Olha, vovó, eu tenho mais dois pacientes — minto descaradamente rezando em silêncio para
que ela não perceba. —, então se você puder levá-lo de volta para casa eu agradeceria — ela não
responde, mas se levanta em um pulo como se eu a houvesse ofendido, ou no mínimo a decepcionado,
passa a mão pelo braço do menino até encontrar sua mão e o puxa da cadeira com suavidade o
arrastando até a porta. Durante o pequeno percurso, os olhos dele não desgrudam dos meus e antes de
passar pela porta, ele levanta a mão e acena em sinal de despedida.
Brinquedos, e mais essa agora! Não bastava ter me falido com as roupas, agora também tenho
que comprar brinquedos. Até parece que minha avó não me conhece. Ela sabia exatamente como eu
reagiria a sua presença e aos seus pedidos, então não vejo razão para tanta irritabilidade. É só um
menino, ele vai ficar bem. Vai se adaptar às circunstâncias, seja na minha casa até a mãe melhorar ou
em um abrigo caso ela não resista.
Crianças se adaptam, os adultos é que não conseguem. Pelo menos, não eu.
O monstro e a voz

“Nós paramos de procurar monstros de baixo de nossas camas quando nos damos conta de que
eles estão dentro de nós.”
(Batman, o cavaleiro das trevas – filme)

Augusto

Uma semana se passa com a mesma rotina. Saio para o trabalho antes que o menino acorde e
volto quando imagino que ele já esteja dormindo. Visito a garota todos os dias no final da tarde, me
sento ao seu lado, pego em sua mão e xingo ela até não poder mais. Tenho esperanças de que seu
inconsciente se irrite por ela e a faça acordar para me responder à altura. Mas claro que isso não
poderia acontecer, eles ainda a mantém drogada, seria dor demais para que ela suportasse, seria
tortura acordá-la somente porque esse é o meu desejo. Todos os dias quando chego em casa encontro
minha avó me esperando no sofá, sempre com o mesmo olhar de reprovação, mas desde o dia em que
ela foi com o menino até o hospital não houve mais críticas e nem julgamentos, acho que, enfim, ela
entendeu que essa situação é demais para que eu consiga lidar como um ser humano normal.
Tem mais uma coisa que não muda. Dia após dia eu passo reto pelo quarto de hóspedes e mesmo
assim todas as manhãs acordo com o garoto ao meu lado na cama.
Já deixei de ficar irritado, é quase como se eu tivesse me acostumado. Ainda suspiro e
resmungo ao vê-lo roubando meu travesseiro e coberta, mas aceitei que ele é mais esperto do que eu
nesse aspecto de entrar sorrateiramente.
É sábado de manhã e assim que acordo encontro Nicholas em pé ao meu lado me olhando
dormir, levo um puta susto ao abrir os olhos e dar de cara com ele a um palmo de distância, tanto que
chega a disparar meu coração.
— Porra, isso não se faz, Nicholas! — grito ferozmente e ele se encolhe. Sinto algo duro
empurrando minhas costas. Se o garoto está em pé ao lado da cama, quem está dormindo ao meu
lado? Me viro abruptamente e encontro Vito com a cabeça no meu travesseiro tirando um cochilo, seu
focinho está entreaberto e a baba escorre livremente pela fronha limpa. — Você colocou o cachorro
para dormir na cama? — grito de novo me virando para ele, mas não o encontro no mesmo lugar. Me
sento passando as mãos pelo rosto para espantar o sono e olho ao redor do quarto, Nicholas está
ajoelhado no canto da parede com as mãos no rosto, seus ombros tremem e escuto audivelmente seus
soluços.
Porra, fiz o moleque chorar. Mal acordei e já fiz o menino chorar, qual o meu problema?
Não, não, isso não está certo!
Qual o problema dele? Quem disse que ele podia deixar o cachorro entrar no meu quarto e
ainda por cima deixá-lo subir na cama? Quem disse que eu queria ser acordado com dois olhos
curiosos em cima de mim?
Me levanto e o ignoro entrando no banheiro, fecho a porta e tranco com a chave abrindo a
torneira e jogando um punhado de água fria no rosto. Ligo o chuveiro e tomo um banho rápido, assim
que fecho o registro e puxo a toalha do suporte escuto a voz do garoto. Ainda me surpreendo com o
fato de que ele sabe falar, só não quer.
— Você tem que descer, au, au. Por favor, desci — pede com a voz de quem está fazendo
esforço. Boa sorte em tentar tirar o Vitório da cama, esse cachorro mais parece um urso. — Desci, se
não o Monsto vai biga comigo de novo. Pô favo, au, au. — Nesse momento ele irrompe em lágrimas,
e eu me sinto um verdadeiro monstro. Não ligo para o fato dos meus irmãos e meus amigos me
chamarem assim, já virou costume, apelido, e Deus sabe como é difícil se livrar dos apelidos de
infância, mas na voz daquela criança a palavra “monstro” não tem a mesma conotação, claro que ele
ouviu alguém me chamar assim, mas ele a pronunciou como se realmente tivesse medo de mim.
Decido que é hora de sair e lhe pedir desculpas, lhe dizer que exagerei e é exatamente isso que estou
prestes a fazer quando suas palavras congelam minha mão na maçaneta.
— Eu só quero minha mamãe — lamenta no meio de um soluço alto. Suspiro e solto a maçaneta
me encostando na porta enquanto passo as mãos pelos cabelos. A garota não está nem perto de
melhorar. Não houve qualquer alteração em seu estado de saúde, ela continua tentando resistir ao
pós-operatório, sinais vitais baixos, pressão baixa, chances baixas. É bem provável que essa criança
não volte a ver a “mamãe” dele e o quanto antes ele entender isso será melhor. Penso se devo ser
sincero, mas aí penso na minha mãe, em tudo que ela significa pra mim e decido tomar outra atitude.
— Nicholas — chamo da porta do banheiro. Ele não me olha, está deitado na cama abraçado a
Vitório que, com toda paciência do mundo, se faz de porto seguro.
Um trabalho que até o cachorro faz melhor do que eu.
Caminho até eles e me sento, passando a mão na cabeça do Vito algumas vezes, ergo a mão e
paro com ela em cima da cabeça de Nicholas, mas não consigo pousá-la. Por mais que eu tente, não
consigo me obrigar a afagar seus cabelos.
— Me desculpe, ok? — peço deixando a mão cair ao lado do corpo. Seu choro se transforma
em algo contido me provando que ele está escutando. — Vou te levar para ver sua mãe. — Ele se
levanta imediatamente e me encara com o rosto molhado e uma meleca do tamanho de Marte
escorrendo do nariz. — Você quer? — Ele assente várias vezes e começa a pular na cama de alegria
como se há pouco não estivesse contando seus problemas para um cão.
Crianças, tão instáveis!

Uma hora depois estamos entrando sorrateiramente na ala da UTI. Assim que o garoto solta
minha mão e corre para o leito em que a garota permanece adormecida me arrependo do que fiz.
Olho ao redor constatando mais uma vez que estamos sozinhos e me xingo mentalmente por não ter
lhe explicado a situação que ela se encontrava antes de chegarmos até aqui. Nicholas arrastou uma
cadeira para perto da cama e balança o braço de sua mãe com as duas mãos, ele não chora, não
precisa, seu olhar desesperado entrega seus sentimentos em cada mínimo detalhe.
Me aproximo e, para minha surpresa, ele se volta para mim e fala, olhando diretamente nos
meus olhos, me deixando embasbacado e sem reação.
— Po que ela não coda, Monsto? — Seus lábios se curvam e ele engole o choro à espera da
minha resposta. — Po quê?
— Ela não pode, guri — digo retirando-o da cadeira e o colocando na cama, sentado ao seu
lado.
— Po quê? — pergunta mais uma vez de forma incerta. Ele limpa a bochecha com uma das
mãos e agarra a mão dela com a outra, mas mantém seu olhar firmemente preso ao meu.
— Eles tiveram que consertar o coração dela e isso dói. Não queremos que ela sinta dor, não é?
— Ele assente. — Nem eles, então deram a ela um remédio para que durma até que não doa mais.
Nicholas desvia o olhar e se concentra em sua mãe, entubada e adormecida. Provavelmente uma
cena que uma criança jamais deveria ver, mas eu nunca disse a ela que sabia o que estava fazendo
quando lhe fiz aquela maldita promessa. Primeiro porque se eu soubesse o que estava prometendo
jamais teria concordado e, em segundo, não deu tempo. Não deu tempo de nada. Eu agradeceria se o
pestinha tivesse vindo com manual de instrução!
Meia hora depois estou sentado na cadeira ao lado do leito e Nicholas dorme agarrado a mãe,
olho no relógio e constato que estamos nos aproximando do horário da troca de turnos e não vai
demorar até aquele enfermeiro, filho da puta, chegar, prevendo mais um confronto e, dessa vez, na
frente do garoto, então decido que a visita acabou. Me levando e encosto em seu braço, ele desperta
imediatamente e olha para ela, acreditando que havia sido a mãe que o acordou, o pequeno sorriso
que quase brotava de seus lábios morre e ele me olha estendendo ambos os braços para que eu o
pegue no colo, ele parece triste e cansado e eu o pego sem nem pestanejar.
Nicholas se aninha em meus braços e encosta a cabeça em meu ombro, antes que eu chegue ao
estacionamento escuto sua respiração se normalizando, prendo-o na cadeirinha de segurança e tomo
meu assento sem que ele acorde. Mas noto certa movimentação no banco traseiro pelo retrovisor
alguns quilômetros depois, ele tem as duas mãos espalmadas no vidro. Meu primeiro pensamento é
que aqueles dedinhos gordurosos vão manchá-lo, e tenho que me concentrar para não gritar para que
eles os remova. Acompanho seu olhar quando paramos em um semáforo e o vejo olhar para as
crianças que se divertem em um pequeno parquinho com atenção e até inveja.
Deus, ele é só uma criança e eu um monstro que só se preocupa com coisas insignificantes como
um maldito vidro que posso mandar lavar depois. Viro a primeira à esquerda e faço o retorno
estacionando próximo ao parque. Saio do carro, dou a volta e abro a porta traseira destravando seu
cinto.
Nicholas não se mexe.
O menino me olha com medo e agarra os apoios da cadeirinha como se estivesse tentando se
manter fixo no lugar, estreito os olhos e suspiro olhando para as crianças que fazem fila no
escorregador por alguns segundos antes de fazer um aceno para que ele desça. Não obtenho resposta.
— Vamos guri, desce. — Ele balança a cabeça em negativa e seus lábios se dobram para baixo
em uma careta apreensiva. — O que foi? — Ele continua a me encarar sem dizer uma palavra. —
Pensei que agora você falasse comigo. — Lembro-o perdendo um pouco da paciência e da vontade
de ficar algumas horas olhando para o nada só para que ele tenha o prazer de um pouco de diversão.
— Vai me bandoná e ir embola?! — Não é uma pergunta, é quase uma acusação. Não, também
não é isso. Parece que... parece que ele está acostumado a isso, a ser abandonado. Minha garganta se
aperta. Qual é a história desse menino? Tenho quase certeza de que ele já viu muito do mundo com
apenas seus três anos de idade, e não estou falando da parte boa dele.
— Não vou abandoná-lo — afirmo categoricamente. — Só achei que você gostaria de brincar
um pouco com as outras crianças. — Apoio o braço na lataria do carro encostando minha testa nele.
Nicholas olha pelo vidro traseiro em direção ao parque e assente, mais para si mesmo do que para
mim e logo grava seus olhos verdes nos meus.
— Pomete, Monsto? — pergunta, me estendendo o dedo mindinho.
— Prometo, garoto — respondo no automático, mas ele não parece feliz com a resposta.
— Pomete NUNCA — frisa. — me bandoná? — Ele ergue o dedo mindinho mais para perto e
antes que eu realmente possa pensar no que estou fazendo engancho meu dedo ao dele e respondo,
com a voz falhando:
— Sim, eu prometo nunca abandonar você. — Ele desce do carro e sai correndo em direção ao
parque sem esperar por mim e em contrapartida eu me encosto no carro enterrando o rosto nas mãos.
Mais uma promessa feita no calor da emoção, mais uma promessa que eu gostaria de não ter feito e
mais uma que não sei se sou capaz de cumprir.
Mentira, eu sei sim.
Não vou cumpri-la em hipótese alguma.
Caso a mãe dele acorde vou fazer o possível para entregar o garoto para ela e me ver livre dos
dois o quanto antes e caso isso não aconteça, caso ela não acorde, eu serei obrigado a entregá-lo a
polícia. Não há mais nada que eu possa fazer por ele que já não esteja fazendo, então é apenas uma
questão de tempo até que essa promessa seja quebrada. Tento dizer a mim mesmo que não há
importância, que ele ainda é uma criança e não sabe o que pede, muito menos entende os motivos do
adulto que me levaram a lhe responder com um “sim”, mas a grande verdade é que eu deveria ter dito
“não”, deveria ter explicado a ele exatamente o que vai acontecer em seu futuro baseando-me nas
duas opções que temos. Por que não fiz isso?
Ao caminhar até o parque e me sentar em um banco de madeira para observá-lo brincar de
pega-pega com outras crianças eu não sabia a resposta, mas ela me atinge como um raio, como uma
luz. Eu tive pena. Sim, foi só isso, pena!
Nicholas corre em minha direção e me puxa pela mão, deixo-me ser arrastado até um dos
balanços. Ele se senta agarrando as correntes com as duas mãos e pede timidamente:
— Balaça?
— Acha que eu sou seu emprego, é? — pergunto chocado colocando as mãos na cintura. Para
meu espanto, ele sorri docemente e dá um pequeno impulso.
— Po favo, Monsto. — Menininho manipulador. — Balaça, vai.
— Ah, tá legal. Mas vê se não fica mal-acostumado! — Ando até a parte de trás do brinquedo e
empurro suas costas vendo-o voar cada vez mais alto. Seus gritinhos, típicos de um garoto da idade,
são como música para meus ouvidos. Ele está feliz e eu estou fazendo parte disso, tomara que essa
lembrança seja útil, caso eu tenha que entregá-lo a um assistente social. Esse pensamento faz a
pergunta que não cala voltar a rondar os cantos mais obscuros da minha mente. Por que eu lhe fiz
aquela promessa? Por mais que eu tente mascarar todas as emoções que momentos como esse são
capazes de trazer à tona não sou bom o suficiente em conseguir mentir para mim mesmo por muito
tempo.
Não, não foi só pena.
Talvez, e aqui estamos falando de um “talvez” enorme, eu goste um pouco do pirralho. Claro
que isso não muda os fatos, porque eu vou mesmo abandoná-lo, de uma maneira ou de outra, mas eu
vou!
Ficamos por uma hora brincando no balanço. Quando voltamos para o carro, meus braços
parecem pesar uma tonelada e eu me sinto exausto, não só fisicamente. Mas mesmo assim faço mais
uma parada, talvez eu tenha acordado e me levantado pelo lado certo da cama hoje de manhã, como
diria a minha avó. Aproveito meu raro momento de bom humor para parar em uma sorveteria e deixar
que ele se entupa de sorvete de chocolate até alegar que sua barriga dói. A minha não está muito
diferente.
Chegamos em casa de maneira diversa com a qual saímos, acho que por um curto período de
tempo eu consegui preencher um pouco do vazio que ele deveria estar sentindo e fiz com que
esquecesse a cena que presenciou no hospital. Ou, pelo menos, é o que penso enquanto ele saltita a
minha frente passando pela porta da sala, mas ao notar que ele congelou na soleira e deu meia volta
correndo para se esconder atrás das minhas pernas, me dou conta de que posso estar um tantinho
enganado.
— Não dexa ele me levá, não dexa, você pometeu — sussurra chorando enquanto agarra minhas
penas, pego-o no colo sem entender o que está acontecendo, até entrar em casa e dar de cara com a
polícia.
Intervenção

“É mais fácil entrar em um problema do que sair dele. O bom senso recomenda procurar a saída
antes de entrar.”
(Esopo)

Augusto

Bernardo pousa sua xícara de café na mesa de centro e me olha com os olhos em brasa, me
fulminando, não parece nem um pouco surpreso de me ver com um menino. Se estivéssemos em um
desenho animado teria fumaça saindo de suas orelhas. De cara, noto o que assustou o menino, ele está
trajado. Veste uma farda preta e tem duas armas presas ao coldre. Sua barba por fazer e a cara de
mal-encarado (que tenho a impressão de ser unicamente para mim) não ajudam em nada a fazer os
calafrios que o garoto está tendo diminuírem, antes que ele enforque mais seu aperto em meu pescoço
tento acalmá-lo.
— Ele é amigo, não vai te levar embora — informo olhando sem hesitação para Bernardo que
balança a cabeça como se não acreditasse em minha tolice. Pois é, amigo. Sinto muito, mas o garoto
não vai a lugar nenhum. Ainda.
— Augusto, temos que conversar — diz sem rodeios.
Ah, merda, isso porque meu dia estava bom!
Pela primeira vez noto que não estamos sozinhos na sala. Temos plateia. Gustavo está sentado
na poltrona de frente para Bernardo atento ao circo, sua expressão concentrada indica que ele não
quer perder nenhum detalhe da briga, que acha que está por vir. Minha avó se mantém encostada na
parede de forma apreensiva alisando sem necessidade o avental sujo de farinha. Mas não é em
nenhum deles que me concentro, meus olhos recaem sobre uma Bárbara com cara de culpada sentada
ao lado de uma Vivian incrivelmente animada.
Antes que eu tenha tempo de julgá-la, ela despeja.
— Eu contei, sinto muito. — Joga as mãos para o alto. — Você tem que admitir que até
demorou, Monstro, eu consegui guardar o segredo por intermináveis dias.
— Você foi forte, amiga — consola uma Vivian compadecida segurando em seu braço. — Mas,
droga, deveria ter me contado no primeiro dia, esse é o tipo de fofoca quente que não se guarda —
diz alisando a barriga minúscula embaixo do vestido florido.
— Eu sei — diz minha irmã animada. — Dá para acreditar que ele fez algo por alguém que não
seja ele mesmo? Seria cômico se não fosse trágico.
— Eu ainda estou aqui — lembro-a, que me ignora por completo.
— Acho que eu nunca vi o Monstro fazer alguma coisa para alguém que não fosse ele mesmo, eu
adoraria ter as cenas principais em vídeo — lamenta Vivian.
— Ah, eu tenho! — exclama Bárbara eufórica. — Mala, vai pegar a câmera! — Eu registrei o
momento em que ele me pediu “por favor”.
— Não acredito! — berra Vivian dando pulinhos no lugar.
— Você não vai pegar nada, cacete. — Coloco a mão em seu ombro para impedi-lo de se
levantar, porque o babaca realmente ia fazer o que a desmiolada lhe pediu.
— Deem o fora, eu quero conversar com o Augusto sozinho — ralha Bernardo, mas pouco
depois desvia os olhos para sua esposa que lhe olha espantada e talvez um tanto ofendida e muda o
discurso. — Por favor, querida.
— Assim está melhor — afirma, sorrindo docemente. — Muito melhor, querido.
— Nicholas — chamo-o, colocando-o no chão e me abaixando para ficar em sua altura. —, por
que você não vai até a cozinha? Minha avó vai lhe dar algo para comer. — Ele olha para Bernardo e
se agarra ao meu pescoço decidindo não cooperar. Arranco suas mãos do aperto sem cerimônia. —
Agora — falo com veemência.
— Vem, querido, acabei de assar um bolo — minha avó bate palminhas e estende a mão, que ele
pega depois de conferir com mais um olhar que não vou ceder. Dona Eva o arrasta para a cozinha, e
até que eles sumam de vista, seus olhos não se desviam dos meus. Somente quando ficamos realmente
sozinhos, Bernardo abre a boca.
— Puta que pariu! — ralha. — Senta a bunda aí — ordena indicando a poltrona a sua frente sem
paciência. — O que você fez, Monstro? Que porra você fez?
— Imagino que seja uma pergunta retórica — respondo me sentando no lugar indicado e
cruzando as pernas. — Com certeza, a Bárbara não lhe escondeu nenhum detalhe.
— Não estou falando disso, na verdade te fiz a pergunta errada. A certa é, por quê? Por que
você achou uma boa ideia esconder uma criança enquanto a mãe dele está morrendo? — Ela não está
morrendo. Não literalmente. Não lhe respondo, estou muito ocupado dizendo a mim mesmo que ela
vai acordar a qualquer minuto. — Se o que você estiver fazendo não for um crime, com certeza é
errado.
— Eu estou ajudando uma amiga, só isso. — Se ele vai falar comigo como um delegado e não
como amigo, vou lhe responder de forma evasiva, assim como os suspeitos que ele interroga todos os
dias.
— Então, você sabe o nome dela? Onde mora? Quem é o pai da criança? Eles têm uma família
que deveria ter sido avisada do estado de saúde da moça? Família essa que deveria estar tomando
conta do filho dela? — Fiquei até tonto com tantas perguntas sendo metralhadas na minha direção
sem nem mesmo uma pausa para pegar fôlego.
— Você sabe que não — digo entredentes. — Sabe que eu sei tanto quanto você.
— Então você não sabe nada, Augusto, o melhor que temos a fazer é acabar com isso de uma
vez. — Afundo o rosto nas mãos, ele tem razão, eu não sei nada, nem mesmo o que estou fazendo.
Talvez ele esteja certo, talvez acabar com essa situação imediatamente seja o melhor a se fazer.
— Como? — Como acabamos com isso?
— Vamos até a delegacia, entregue o garoto. Se você fizer isso agora, eu consigo resolver o
resto. — Meus olhos chegam até a cozinha americana, estamos longe para sermos ouvidos, mas
consigo visualizar Nicholas de perfil sentado ao chão dividindo seu pedaço de bolo com Vito.
— Não posso — sussurro voltando a esconder o rosto.
— O que te impede? Você não conhece a garota, nem de crianças você gosta, pelo amor de
Deus, que porra te impede? — explode se levantando e se aproximando, ele empurra minhas mãos
para baixo e expõe meu rosto. — O que você está escondendo, Augusto?
— Nada, não há nada que vocês não saibam. — Assim que as palavras saem da minha boca me
lembro da maleta cheia de dinheiro, enterro o pensamento e me concentro em ganhar tempo. — Só
acho que o garoto vai estar mais seguro aqui.
— Você acha que pode protegê-lo mais do que a polícia? — pergunta sarcasticamente, pelo
visto ele não concorda.
— Você sabe tão bem quanto eu que antes que eu dê três passos para fora da delegacia, um
assistente social vai tê-lo jogado em um abrigo qualquer, sem vigilância. Ele não vai estar seguro em
um lugar assim.
— Nem com você, sinto muito, mas não vou deixar você jogar a sua vida fora por causa de
pessoas que não significam nada para você. — Ele não me dá margem para recusa, Bernardo não vai
mudar de ideia, não vai me escutar.
— Você não pode fazer isso, não pode levá-lo sem a minha autorização! — informo de maneira
grosseira me levantando e o encarando frente a frente. Tento ser o mais firme que possível, mas sei
que ele pode, não só pode como ele vai. Bernardo não é o tipo de homem que muda de ideia.
— Você está errado — diz uma voz conhecida a nossa direita, olhando ao mesmo tempo em sua
direção e encontramos Ian despindo o jaleco encarando a nós dois. — O garoto significa alguma
coisa pra ele — diz como quem sabe das coisas, com um sorrisinho zombeteiro. Meu instinto de
preservação me faz ter vontade de negar, nem que seja com um balançar de cabeça, que é exatamente
o que eu faço. Pareço um cachorro de painel de carro, balançando a cabeça sem parar, é mais forte
do que eu.
— Você não pode estar falando sério — Bernardo ri sem humor. —, não pode compactuar com
isso, Ian, está errado. Augusto vai acabar se metendo em um problema que nenhum de nós dois vamos
conseguir tirá-lo depois — se exaspera estendendo os braços.
— Eu sei disso, mas o garoto não vai a lugar nenhum — Eu sorrio com escárnio e encaro
Bernardo, que parece pronto para discordar quando Ian continua: —, porque a mãe dele acordou. —
Meu coração bate mais rápido quando registro essa informação.
— E o que isso significa? — Bernardo não parece entender, significa que tudo vai ficar bem
afinal, ela vai viver e eu vou me livrar do garoto, é perfeito. Puta que pariu, é perfeito.
— Significa que Augusto já está dentro de um problema sem proporções e tudo que podemos
fazer agora é tentar ajudá-lo como pudermos. — Meu sorriso some.
— O que você quer dizer, Ian? — É a minha vez de perguntar. — O que ela lhe falou?
— Nada — balança a cabeça maravilhado com algo que não está compartilhando. —
Absolutamente nada.
— Como assim nada, porra? — Bernardo volta a se sentar, na verdade ele se joga na poltrona
outra vez como se estivesse se rendendo.
— Ela foi categórica em afirmar que só fala com o garoto que tinha asas — Ele sorri, mais
para si mesmo do que para de um de nós dois — e eu tenho quase certeza de que conhecemos esse
garoto, só tenho dúvidas se ele tem mesmo asas, pelo menos eu nunca vi. — Ele me encara esperando
que eu me pronuncie, mas eu o decepciono, fico mudo, encarando-o, fazendo o mesmo que Bernardo,
me deixando cair no sofá.
— O garoto que tinha asas? — pergunta minha irmã encostada na parede próxima à cozinha, não
sei o quanto ela ouviu, mas, pelo sorriso bobo igual ao do marido no rosto, acredito que foi mais do
que deveria. — Isso é muito romântico, vai ser uma pena quando ela descobrir que o anjo, na
verdade, era um monstro em um dia bom. — Ela abandona o sorriso e assume uma postura mais dura,
triste até, eu diria. Algo que me enlouquece e me devolve a voz.
— Cale a boca, você não sabe o que está dizendo. — Subo as escadas sem olhar para trás
encerrando o assunto, com as palavras da minha irmã martelando nos meus pensamentos, abandono
todos com os queixos caídos e me tranco em meu quarto, me escorando na porta fechada. Não sei
exatamente o motivo, mas elas me incomodaram mais do que estou disposto a admitir.
Não sou um anjo, nunca fui. Provavelmente eles têm razão, nunca fiz nada realmente altruísta,
nada que não tenha me beneficiado acima dos outros. Claro que não por maldade, não sou mal,
apenas alguém que pensa em si mesmo, não há nada de errado nisso. Ou eu pensava que não tinha até
escutar minha irmã dizer que vou decepcionar aquela garota.
Como? Eu cumpri o que prometi, protegi o garoto. O que mais ela pode querer de mim?
Olhos abertos

“Ela não era um monstro. Era só uma garota.”


(Carrie, a Estranha, Stephen King)

A garota ainda sem nome

Abrir os olhos dói, mas isso não é novidade, tudo dói, principalmente o meu peito. Sendo
metafórica penso na dor da saudade que tenho de Nicholas, sendo literal não preciso pensar em nada
para sentir, meu peito dói mesmo, pra cacete. O que eles fizeram? Arrancaram meu coração do peito
para dar uma olhada mais de perto e botaram de volta?
Acordei há poucas horas, foi como se tivesse fechado os olhos e em um instante os aberto, mas
sei que não foi assim. Estou em um hospital, devo ter sido remendada, sinto uma bandagem em um
dos pés que muito me incomoda, e me sinto tonta como se estivesse drogada, contanto que se alguém
perguntasse qual dos pés está machucado, eu não saberia dizer.
Assim que um dos enfermeiros notou que meus olhos estavam abertos correu em minha direção
e pouco depois me abandonou, quando ele brecou ouvi alguém sendo chamado pelo alto-falante, não
escutei o nome e também não me importava. A única coisa que eu queria saber é onde Nicholas
estava. Muitos pensamentos vieram à mente. O anjo o tinha sequestrado, ou tinha picado ele em
pedacinhos e os colocado em sacos de lixo, tinha fugido com ele do país, o vendido no mercado
negro, talvez tivesse vendido apenas os órgãos. Nenhum, absolutamente nenhum, dos pensamentos
eram bons, ossos do oficio, imagino.
Minha mente sempre funcionou no modo “pessimismo supremo” e não era agora, com a minha
vida longe de mim, que isso ia mudar. Eu precisava sair dessa cama e procurar por ele, mas, que
merda, o que eu tinha na cabeça quando o entreguei para um desconhecido, eu nem sabia o nome
dele. Analisando os fatos mais friamente, eu tinha acabado de levar um golpe na cabeça...
Antes que eu pudesse me torturar, mais um cara de jaleco e olhos apreensivos se aproximou da
cama, a hora era péssima, mas não tive como não reparar que ele era lindo, e os olhos? Eram os
olhos azuis mais bonitos que eu já tinha visto na vida. Esse homem deveria ser proibido de sair da
rua, deveria causar um acidente de trânsito todos os dias. Contanto que nem ouvi o que ele falou. O
encarei de olhos arregalados e esperei que julgasse minha babaquice como um efeito colateral do
que quer que tivesse feito comigo.
— Qual seu nome? — perguntou erguendo as sobrancelhas. Provavelmente não era nem a
primeira, nem a segunda vez que perguntava. Encarei-o em silêncio. — Você está se sentindo melhor?
— tentou outra vez. Continuei em silêncio. — Não consegue ou não quer falar comigo?
— Não quero — disparei carrancuda antes de notar que já tinha falado.
— Por quê? — Ele estreitou os olhos e deu mais um passo em minha direção. Congelei. E se ele
não fosse médico coisa nenhuma? E se fosse alguém a mando dele? Eu não duvidava de mais nada
depois de ele tirar meu carro da estrada, sem se importar com a criança que estava no banco de trás.
— O anjo — sussurrei de forma sonolenta. — Eu só falo com o anjo.
— Que anjo? — Ele sorriu involuntariamente, ou eu acho que sim, mas não tenho certeza, foi
pouco antes dos meus olhos se fecharem.
— O anjo que tinha asas — acho que sussurrei a resposta, mas talvez eu já tivesse sonhando.
Apaguei.

Agora eu havia acordado de novo e estava sozinha, levantei o máximo que consegui o tronco e
vi que não havia mais ninguém na sala, nem um único enfermeiro. Será que eu conseguiria fugir?
Tentei me sentar, mas não consegui. Mas que merda, empurrei meu corpo para frente fazendo pressão
com os braços na cama quando uma voz me fez parar e erguer o olhar.
— Está maluca? Você não pode se mexer, mas que porra você pensa que está fazendo? —
berrou alguém de forma irritada entrando a passos largos na sala, caminhando até meu leito que era o
último, não que ele tivesse incomodado alguém com seus gritos, a maioria dos meus colegas de
quarto estava apagado, em coma, ou morto, eu não duvidava nem por um minuto disso, mas eles
fizeram com que eu me sentisse exposta. Odiava que a atenção estivesse concentrada em mim, por
isso cerrei os punhos e me deixei cair de volta na maca com um suspiro, se ele estava tão
preocupado com a minha saúde assim, eu não precisava me preocupar.
Tudo o que eu conseguia ver era um homem com uma postura rígida e passadas largas e
decididas. Fosse quem fosse tinha uma excelente confiança em si mesmo. Somente quando ele já
estava quase à minha frente percebi quem era, como eu não vi antes? Era o anjo. Ignorei a felicidade
que eu senti por vê-lo outra vez, depois de pensar que ele já estava bem longe com Nicholas àquela
altura e disparei:
— Onde está o menino? — Ele não respondeu de imediato, estava ocupado me olhando com
interesse e surpresa, o olhar foi tão intenso que novamente me senti exposta. Seus olhos gelados
passearam por tudo, mas se mantiveram por mais tempo no meu rosto, perto da minha orelha
esquerda, a sensação desagradável que senti foi tão forte que levantei as mãos e pousei sobre o local
que pensei tê-lo visto encarando e encontrei algo pelo qual não esperava. — O que é isso? — eu não
queria perguntar em voz alta, mas saiu mesmo assim. As pontas dos meus dedos encontraram uma
atadura grossa e larga, fiquei assustada.
— Não é nada — disse irritado encurtando nossa distância, me encolhi ainda com a mão sobre
o machucado, mas ele não parou, se debruçou sobre meu corpo e puxou minha mão para baixo sem o
mínimo de delicadeza. — Precisamos conversar — anunciou exalando arrogância. Seu olha
impassível fazia com que eu me sentisse pelada na frente de uma multidão em um estádio de futebol,
não que eu realmente já tivesse pisado em um. Era um misto de irritação, desconfiança e alívio, que
me intrigou na mesma medida que me incomodou.
— Nicholas, onde ele está? — perguntei me culpando por ter saído do meu foco principal.
Droga, eu era uma péssima...
— Comigo — respondeu cortando meus pensamentos. Soltei a respiração que eu nem havia
dado conta de ter prendido em uma lufada de ar e até arrisquei um sorriso arisco, ele merecia, porra,
ele merecia aquela maleta de dinheiro inteira por ter cumprido sua promessa. — O menino está na
minha casa desde o dia do acidente, eu cuidei dele. — Ele não pareceu nem um pouco feliz ou
orgulho disso.
— Obrigada — sussurrei sem saber mais o que dizer. Enquanto eu estava emocionada ele
pareceu desapontado, mas não se abalou, respirou fundo e ergueu um dos dedos que apontou sobre o
meu rosto, me metralhando de perguntas.
— Qual o seu nome? O que aconteceu, quem causou o acidente? Vocês estão em perigo? Por
que, porra do caralho, você achou uma boa ideia deixar uma criança para um desconhecido tomar
conta? Que tipo de garota maluca é você? — Ele parou para respirar e achei que ia continuar, mas
ele se calou e me olhou interrogativamente. Pensei em cada uma das perguntas, tentando encontrar
desculpas, respondi a que foi mais fácil.
— Anna — cuspi com uma voz que eu acreditava que não levantaria suspeitas, firme e precisa.
— O quê? — Ergueu as sobrancelhas.
— Meu nome, você disse que queria saber meu nome, é Anna — disse com confiança,
esperando estar soando o mais verdadeira possível aos seus olhos e ouvidos. Ele assentiu e eu
respirei, novamente sem ter me dado conta de que estava prendendo a respiração.
— Eu quero as outras respostas. — Cruzou os braços sobre o peito largo e me olhou duramente.
Eu não me lembrava de que ele era tão alto e tão forte. Que tipo de anjo era esse troglodita, afinal?
Eu tinha acabado de acordar, também queria respostas.
— Onde eu estou e o que aconteceu comigo? — perguntei empinando o nariz.
— Eu respondo uma e você outra, ok? — Parecia justo. Eu ia mentir, esperava que ele não
tivesse tido a mesma ideia.
— Primeiro você, onde estou? — tentei outra vez.
— Você está no Hospital Santa Rita, em Florianópolis — ele não titubeou momento nenhum. —
Quem estava perseguindo vocês? — Cruzou os braços e um vinco se instalou em sua testa, mais
precisamente entre as sobrancelhas. Talvez ele tivesse me sacado, afinal. Talvez soubesse que tinham
grandes chances de eu contar uma mentira atrás da outra, que era exatamente o que eu ia fazer.
— Não sei quem era, começou pouco antes de eu parar naquele posto, achei que tivesse
despistado ele. — Ele assentiu, eu estava indo bem. Anos de prática fizeram maravilhas para minha
interpretação. Se eu gostasse de ser o centro das atenções procuraria um trabalho na tevê. — O que
aconteceu comigo?
— Uma das suas artérias se rompeu, seu coração foi operado. Você teve uma concussão e tem
um pé machucado, achamos que não ia viver, mas, pelo visto, vai. Agradeça ao Ian depois.
— Quem é Ian? — perguntei confusa.
— Seu médico e meu amigo, minha vez... — falou rápido demais.
— Espera — cortei. —, ainda não fiz minha pergunta.
— Fez sim, me perguntou quem era o Ian — disse com um sorriso de vitória e escárnio. Então
além de intrometido, controlador e rude, ele também era sarcástico, quem diria, não?
— Não vale — disse irritada fazendo careta, o que fez meu rosto doer e eu franzi-lo em uma
expressão carregada de dor.
— Para de choramingar como uma criancinha, já tínhamos combinado as regras. Vocês ainda
estão em perigo? — Merda, o que eu deveria responder nessa? Se eu dissesse que não e minha
recuperação demorasse mais um pouco, eu corria o risco de ele chamar a polícia e entregar
Nicholas, se eu dissesse que sim, ele poderia fazer o mesmo. Eu estava em um beco sem saída.
— Não sei — respondi cuidadosamente, sempre atento, ele não deixou passar.
— Você quer que eu acredite que um cara simplesmente começou a persegui-los do nada, depois
tentou tirar seu carro da estrada e que você não faz ideia nenhuma do que está acontecendo? —
perguntou com deboche.
— Sim, quero que você acredite. Como está o Nicholas? — mudei de assunto, o que surtiu
efeito.
— Ainda não fiz minha pergunta — ralhou, franzindo os olhos.
— Na verdade, você me fez três — Me utilizei de seu truque e fiquei feliz ao notar seu sorriso
de escárnio sumir da face. —, como está minha vida?
— Ele está bem, vai ficar comigo até você ter alta. — Novamente ele não parecia feliz, isso se
eu fosse julgar pelo suspiro frustrado que ele deu a seguir. — De onde vocês são?
— São Paulo. — Essa era verdade, bom quase. — Você chamou a polícia? — Mordi os lábios e
prendi a respiração.
— Não. — Ele balançou a cabeça, mas seu olhar tremeluziu e nele eu captei um fragmento de
um sentimento diferente da postura de ferro que ele parecia gostar de exibir. Dúvida talvez. Ele
estava mentindo, não era tão bom quanto eu na arte de enganar.
— Tem certeza? — perguntei com medo.
— Tenho, vou embora. Ian disse que você terá alta em uma semana, vou pedir para alguém
trazer o Nicholas para te ver. — Ele me deu as costas, mas meu grito fez com que ele se voltasse
novamente em minha direção olhando para os lados para conferir se eu não tinha chamado atenção
demais para nós dois.
— Alguém? Quem mais sabe? — Agora eu não estava mais com medo, estava apavorada. Se o
olhar que ele me lançou falasse me chamaria de burra, não gostei dele.
— Digamos que eu tenho uma família grande. — Vendo meu olhar se arregalar, completou: —
Relaxe, todos são confiáveis. — Dessa vez, ele realmente se afastou. Não acreditei nisso nem por um
minuto. Ninguém era confiável, muito menos ele. Mas se senti na obrigação de lhe agradecer, só foi
difícil fazer as palavras passarem pela garganta. Ele já estava vários passos ao longe, de costas
quando consegui.
— Obrigada, anjo.
— Eu tenho nome — Se virou com os olhos em brasa. — é Augusto e não anjo, garota.
Nesse momento odiei suas palavras, a maneira como ele as dizia, sua postura e sua
autoconfiança, sua presunção e todo o resto, odiei esse cara por completo e ferozmente.
O odiei na mesma proporção do quanto o achei atraente.
Loucura, não?

“Eu sei, sou uma pessoa fria muitas vezes.


Minha frieza é minha proteção.”
(Tati Bernardi)

Augusto

Antes de chegar ao estacionamento, eu já estava com o celular na orelha, a ligação chamava e eu


torcia mentalmente para que fosse atendida.
— Guto — disse Leila após o terceiro toque com uma voz surpresa e sexy.
— Posso te ver? — direto ao ponto, eu estava precisando urgentemente de algo que me fizesse
parar de pensar em tudo e me concentrasse em uma única coisa, esquecer. Tudo, todos, qualquer
coisa e aquela menina. Principalmente aquela menina.
— Claro, mas não em casa, ele está aqui. — disse com um risinho, falando baixo para não ser
ouvida pelo marido chifrudo.
— Te encontro na rua de trás daqui quinze minutos, vou te levar para o motel. — Eu não tinha
tempo para risinhos, queria sexo. Queria que seu corpo me desse amnésia, e conhecendo-a bem sabia
que ela era capaz disso. Eu queria parar de pensar no quanto Anna parecia doce e ingênua ao mesmo
tempo que parecia manipuladora e esperta, no quanto estava machucada e no quanto era bonita,
mesmo que eu soubesse que provavelmente mudaria de opinião quando a atadura em seu rosto fosse
removida.
Exatos vinte minutos depois, parei o carro no meio-fio e destravei a porta para que entrasse.
Leila saiu do frio e entrou no carro com uma calça jeans apertada e uma blusa decotada, sorrindo
com vontade beijou meu rosto e se acomodou colocando o cinto. Com ela tudo era mais fácil, não
precisava dar explicações, não tinha que responder perguntas, nem fingir que não tinha visto
cicatrizes cobertas por esparadrapos quase translúcidos. Leila escondia segredos e por isso ficava
em silêncio, nunca perguntava demais, assim como falava apenas o suficiente, exatamente como me
convinha.
Entramos no motel por entrar, não deixei que ela sequer saísse do carro, apenas a joguei para o
banco de trás, arrancando sua roupa na velocidade da luz. Não sei se ela esperava algo mais,
preliminares ou qualquer coisa do tipo, mas não reclamou quando a comi sem cerimônia alguma,
pelo contrário, ela gemeu alto até que fizesse o que eu queria, até que me fizesse esquecer tudo o que
eu senti quando olhei nos olhos daquela menina perdida.
Era isso que ela era, uma menina perdida. Uma menina perdida que sabia mentir.
Uma mentirosa.
Assim que vesti minha calça jeans e fechei a braguilha, cada um dos malditos pensamentos que
tentei enterrar voltaram para minha mente. Abandonei Leila no banco de trás lutando para conseguir
se vestir e saí do carro para tomar ar fresco, algum tempo depois ouvi a porta bater e uma mão no
meu ombro.
— Você quer conversar? Está estranho. — Eu só queria que ela calasse a boca e ao mesmo
tempo continuasse falando, queria que ela calasse meus pensamentos, mas já tinha notado que nem
ela seria capaz disso.
— Não — respondi secamente sem me virar.
— Tudo bem, estão vamos embora, ele acha que fui ao supermercado. — Riu voltando para o
carro como se não tivesse notado minha frieza.
Fiquei mais um tempo parado olhando para uma parede encostado no capô. Só me mexi quando
ela voltou a me chamar, então a levei para casa e a deixei em um mercado algumas ruas adiante. Não
houve beijo de despedida, não houve mais conversa, ela apenas me mandou um beijo no ar enquanto
arrumava o sutiã para esconder o seio que tentava escapar pelo decote e saiu do carro.
Quando cheguei em casa, minha avó me esperava no sofá, assim que me viu desligou a televisão
que estava assistindo enquanto me esperava e se voltou para mim com uma cerveja na mão, o que era
bem comum ultimamente. Deus, eu estava transformando minha avó em uma alcoólatra, não tive
tempo de me sentir culpado.
— Onde você estava? — perguntou abandonando a Long Neck na mesa em frente ao sofá e
cruzando os braços.
— No hospital — menti descaradamente.
— Larga a mão de ser mentiroso, moleque — disse irritada espalmando as duas mãos no tecido
e se levantando. —, o cheiro de vadiagem está impregnado em você, eu o senti assim que você abriu
a porta.
— Vó — reclamei fazendo uma careta de nojo. Sério que ela queria ter essa conversa? Eu já
podia imaginar sua cara quando eu dissesse: é que eu fui comer uma mulher casada ali, mas já voltei.
Qual o problema nisso, vovó?
— Nós fizemos um acordo, guri, eu disse nada de meninas promiscuas. — Ergue as
sobrancelhas, eu me lembrava vagamente dessa cláusula do nosso acordo. — Mais uma bola fora e
eu ligo para sua mãe — ameaça com um dedo apontado para meu rosto com a unha vermelho
berrante.
— Não é ela que me preocupa. Minha mãe é avoada, provavelmente nem vai ligar. Se eu
deixasse Nicholas com ela, só ia descobrir que não é a Tina um mês depois.
— Ah, você quer jogar baixo? — perguntou com um sorriso faceiro. — Então, eu ligo para o
seu pai.
— Ok, essa foi a última vez, eu prometo! — Eu teria que arrumar desculpas melhores e de
preferência entrar na porra do motel e tomar um banho depois de voltar para casa da próxima vez.
— Como está a menina? — pergunta menos brava.
— Melhor. Você pode levar o menino para vê-la? — Ela me olha interrogativamente. Não sei o
que é pior, deixar minha avó entrar mais fundo nessa confusão ou ter que voltar lá com Nicholas.
Acho que eu ia de vovó, só dessa vez. Ela sempre foi melhor em situações de crise do que eu, do que
qualquer um na verdade. Ela era o pilar dessa família louca, saberia o que fazer.
— Por que você quer que eu faça isso? — Treiteira, seria uma ótima palavra para descrevê-la.
Ela seria uma ótima policial se quisesse.
— Porque eu não quero voltar lá vovó — respondi evasivamente admirando um quatro.
— Por que não? — Agora sim ela estava interessada.
— A garota, eu não sei... ela me intriga... — bufei vendo sua expressão de escárnio e levantei as
mãos me rendendo. — Eu não sei, tá legal? Só quero ficar longe dela.
— Interessante. Achei que nunca veria essa cena, meu pequeno monstrinho amedrontado diante
de uma garota. É claro que eu vou, agora mais do que nunca quero conhecê-la. — Acho que falei
demais e para a pessoa errada. Minha vó era tão aficionada por amor quanto minha irmã, na verdade
ela que enfiou todas aquelas besteiras de príncipe encantado e blá-blá-blá na cabeça da Bárbara e
consequentemente ela se enfiou na cama do meu melhor amigo. Então temo que ela tenha entendido
errado, não estou amedrontado e nem tenho sentimentos desse tipo pela garota, é algo indefinido,
algo que não consigo explicar. Mas sei exatamente o que se passa em sua cabeça maluca olhando
para seus olhos sonhadores.
— Não, vovó, não comigo! — Ela apenas ri, quando estou subindo as escadas escuto sua voz
novamente.
— Vê se toma um banho, você está fedendo a perfume barato e perdição — resmunga voltando a
se sentar no sofá e pegando o controle remoto com uma mão e a cerveja com a outra.
Subo as escadas e encontro Nicholas na minha cama, encostado em dos travesseiros vendo
desenho animado. Sorrio fingidamente quando ele me olha com alegria desejando mais do que tudo
me livrar dele.
— Monsto — chama quando estou quase entrando no banheiro, não sei por qual motivo, mas ia
fazer exatamente o que minha avó mandou, tomar banho e arrancar o perfume enjoativo da Leila do
meu corpo, mas paro onde estou e lhe dou atenção, esperando que continue a falar. —, mamãe codo,
verdade isso? — pergunta sem conseguir controlar a felicidade, nítida em sua voz.
— Sim, ela acordou... — Antes que eu termine a frase, ele se levantou e correu pela cama se
jogando nos meus braços, eu o pego antes que pare no chão e o jogo na cama de novo na mesma
velocidade. Nada de abraços por hoje.
— Amanhã minha avó vai te levar para vê-la. — Dou as costas e entro no banheiro.
— Vovó vai levá mesmo? — pergunta animado. Quase saio do banheiro para lhe dizer que a avó
é minha e não dele, mas não faço isso, apenas o ignoro trancando a porta e agradecendo a Deus pela
garota ter acordado, agora faltava pouco para me livrar dos dois, só uma semana, só mais uma, não
seria tão difícil.
Quando saio do banho, Nicholas já havia adormecido, desliguei a televisão e saí do quarto,
pretendia me esconder no quarto de hóspedes onde ele deveria estar, mas acabei encontrando
Gustavo lendo um livro.
— E aí, Monstro — cumprimentou me olhando rapidamente e voltando a leitura.
— Oi, parece que não te vejo há anos — reclamo cruzando os braços.
— Você me viu de manhã, babaca — responde para as páginas amareladas à sua frente.
— Eu sei, mas sei que você sabe exatamente o que quero dizer — Ele finge que não ouve e não
tira os olhos do livro. —, uma hora alguém vai acabar descobrindo o que você tanto esconde.
— Não estou escondendo nada, enxerido, você não tinha uma garota problemática e uma criança
para cuidar, não? — Ele está na defensiva, não sabe mentir. Ele ergue o olhar e o lança em todas as
direções do quarto, menos em uma, nos meus olhos.
— Se for uma namorada, não vejo problemas em você apresentá-la — começo, mas ele me
corta.
— Pra quê? Para ouvir que eu perdi a manha, que era o último dos guerreiros ou qualquer
babaquice do tipo? Não é uma namorada e vê se para de me sondar. — Então era uma namorada, mas
por que ele tinha tanto receio de nos apresentar? A menos que fosse um namorado... Não, abandono o
pensamento, não fazia seu estilo, ou pelo menos eu acho que não.
— É alguém que conhecemos? — Ele joga o livro longe e caminha até a porta, abrindo-a para
mim em um sinal claro de que ele quer que eu o deixe em paz.
— Não é uma namorada, agora vê se dá o fora, Monstro, vai assustar umas criancinhas ou
comer uma puta, tanto faz — Hum, essa magoou. Então era alguém conhecido, mas quem? Faço o que
ele me pede e saio do quarto às gargalhadas, ele sempre se entrega, é até cômico de ver. Ele deveria
estar feliz por ser eu a fazer o interrogatório e não a Babi.
— Melhor falar comigo direito, senão eu conto para a Bárbara, garanto que ela vai conseguir
arrancar alguma coisa de você — digo pouco antes de ele fechar a porta do quarto na minha cara,
mas para meu deleite, ela volta a se abrir e ele me contempla com um olhar assustado que eu adoro.
— Por favor, Augusto, não fale nada, está bem? Por favor! — Ele parece desesperado de
verdade e abandono o sorriso assumindo uma postura desconfiada.
— No que você tá metido, garoto? — Ergo as sobrancelhas e cruzo os braços aguardando por
uma resposta decente para minha pergunta.
— Em algo menos pior do que você, garanto — diz sabendo que amoleci. Sua declaração é o
suficiente para que eu o deixe em paz, por ora. Se o problema é menor do que o meu, não merece que
eu perca meu tempo me preocupando com ele. Mas me incomoda o fato de estar amolecido demais
ultimamente, começo a me sentir muito bonzinho, acho que vou assustar minha criança particular,
afinal.
Volto para meu quarto e me deito ao lado do garoto, que dorme como uma pedra acabando com
meus planos de torturá-lo, até tentei cutucar suas costelas, mas ele virou para o lado e levou consigo
toda a coberta.
Apago a luz do abajur e deixo que os pensamentos me dominem, não iria conseguir contê-los
por muito tempo de qualquer forma e antes que a cabeça bata no travesseiro estou pensando em sua
mãe. A menina era tão estranha quanto a sensação que me invadiu assim que a olhei nos olhos, um
sentimento de posse e proteção, me senti impelido a cuidar dela, loucura, não? O que não era loucura
eram suas mentiras. Eu não imaginei aquilo, ela se achava boa atriz, mas não era.
Nem por um minuto, eu acreditei na história que contou.
Eu não via possibilidade de um cara qualquer ter decidido segui-los e quase matá-los sem
motivo algum, assim como não conseguia me convencer de que estavam seguros. Olhei para o menino
na penumbra e fui invadido pelo mesmo sentimento, o ímpeto de protegê-lo, o mesmo que senti por
sua mãe, a dona dos olhos de vidro.
A única conclusão que eu tirava disso é que estava fodido, muito fodido, e que ia me foder
muito mais se fizesse o que estava pensando em fazer: tentar protege-los.
O que é uma família? Não me lembro mais

“Você não escolhe a sua família.


Ela é presente de Deus para você,
assim como você é para ela.”
(Desmond Tutu)

Anna

— Mamãe? — Abri os olhos, eu conhecia aquela voz vacilante e infantil quase tanto quanto
conhecia o mal. Era minha vida, meu garotinho.
— Nick! — berrei tentando me sentar, falhei nas duas primeiras vezes. Só consegui quando ele
pulou e pegou impulso subindo na cama e se atirando em meus braços. Eu o apertei por pouco tempo,
abandonei logo o abraço para olhá-lo. Estudei seu rosto com atenção, cada milímetro dele, parecia
bem. Também reparei nas roupas novas.
— O que é isso na sua cara? — Coloquei a mão instintivamente no curativo, o que eu vinha
fazendo com frequência. Já havia pedido que o retirassem duas vezes, mas os enfermeiros negaram,
disseram que o médico não havia autorizado, e que na hora certa ele seria removido. Pior ainda, eles
o trocaram por uma bandagem mais grossa para que eu realmente não conseguisse sentir o que havia
por baixo com o tato.
— Isso é tudo o que você tem para me falar? — Sorri e o abracei novamente, olhando sobre seu
ombro avistei uma senhora caminhando lentamente em nossa direção com um sorriso no rosto. Eu já
esperava que não fosse Augusto ao trazê-lo, mas me surpreendi com a postura da mulher. Ela usava
um vestido longo de verão com um cardigã por cima, um colar de pérolas enfeitava seu pescoço e
suas unhas eram vermelhas, assim como seu batom. Mas a melhor coisa sobre ela era o sorriso, tão
bonito e tão cheio de dentes.
— Olá, querida, ainda não fomos apresentadas, eu sou Evangeline, avó do Augusto, mas todo
mundo me chama de Eva — disse me estendendo a mão com marcas de idade, mas com aperto forte.
— Oi, eu sou Anna. — O nome se embolou na minha garganta, mas ela não parece ter
percebido.
— A mãe do Nicholas, suponho. — Assenti e olhei para o menino, ele parecia aliviado em me
ver. — É bom finalmente ouvir a voz dele — comenta se sentando na poltrona ao lado do leito.
— Como assim? — pergunto olhando de um para o outro.
— Nicholas não conversou com ninguém a não ser o Augusto, por isso eu digo que é bom poder
ouvir sua voz. Bom, ele conversou com a minha sobrinha por telefone, mas dos adultos, apenas com
meu neto.
— Eu obedeci, mamãe — diz Nick, orgulhoso de si mesmo. —, não falei com estranhos, como
você ensinou.
— O que te fez pensar que o Augusto não é um estranho? — perguntei mais por curiosidade,
mas vi pelo canto dos olhos a senhora levantar as sobrancelhas curiosamente.
— Porque ele não é, ele é o Monsto, gosto do Monsto — diz simplesmente se deitando no meu
colo, que dói e incomoda um pouco, mas não o afasto.
— Monstro? Que apelido fiel. — Percebo que falei merda quando dona Eva se inclina, mas
para minha surpresa ela preenche o silêncio constrangedor com uma gargalhada sonora, com uma
rápida olhada vejo que tem até lágrimas saindo por seus olhos.
— É fachada, espero que você tenha tempo de descobrir isso — fala quando finalmente se
recompõe. Não respondo, o que responderia? Em uma semana, o tal Monstro não faria mais parte de
nossas vidas.

***

A semana demorou a passar, todos os dias pareciam ter o dobro de horas e se arrastaram
lentamente, tanto que quase fiquei louca de ansiedade, suspirei de alívio todas as vezes em que vi o
relógio que ficava alojado no alto da parede da entrada bater meia-noite. Quando o dia da alta
chegou acreditei estar vivendo o dia mais feliz da minha vida.
— Bom dia, Anna — disse o médico de olhos bonitos se aproximando e folheando o prontuário
que ele retirou do suporte ao pé da cama. —, como está se sentindo?
— Bem, doutor. — Incomodada com tanta beleza, mas bem. Dei uma rápida olhada para sua
mão e encontrei uma aliança de ouro grossa, quem quer que seja que usasse o outro par queria que o
mundo soubesse que ele tinha dona, claro que tinha, bonito desse jeito. Uma beleza muito diferente da
de Augusto, pensar nele, no Monstro, me fazia ficar inquieta, mas ia passar, eu não ia mais vê-lo já
que provavelmente ele me mandaria o Nicholas e seus pertences por sua avó.
— Isso é ótimo — Sorriu e devolveu a prancheta ao seu devido lugar. —, vou assinar sua alta.
Augusto deve estar chegando. Estou um pouco atrasado, vou deixar que ele lhe explique os cuidados
que você deve ter em casa, tudo bem?
— O quê? — perguntei atônita. Como assim, Augusto deve estar chegando? Imaginei que não
voltaria a vê-lo. O médico que se chamava Ian, não me ouviu, já tinha se afastado e, assim como
disse, alguns minutos depois Augusto entrou pela porta também com a cara fechada, o olhar
determinado e uma sacola nas mãos, mas nada do Nick.
— Vamos embora — anunciou puxando minhas cobertas sem nem mesmo me dar um bom-dia.
Me sentei com dificuldade e ele jogou a sacola que tinha nas mãos no meu colo.
— O que é isso? — perguntei abrindo-a e examinando seu interior.
— Roupas, consegue se vestir sozinha ou quer que eu chame uma enfermeira? — perguntou
dando alguns passos para o lado e retirando a prancheta da cama vizinha, só naquele momento me
atentei ao jaleco que lhe caía feito uma luva, fiquei olhando a cena com espanto e um tanto
ludibriada. Hum, médico? Não!
— Consigo me vestir sozinha — cuspi irritada tentando me levantar. Ah, vamos lá, pernas, não
pode ser tão difícil assim trabalhar. Estava distraída olhando para minhas coxas e não o vi se
aproximar, ele me puxou e me colocou de pé apenas com uma das mãos, já que estava com a
prancheta na outra, não agradeci, ele também não esperou, focando sua atenção em alguma coisa
escrita no papel.
— Diego, aumenta a dose desse aqui, ele vai para a cirurgia à tarde — ordenou retirando uma
caneta do bolso e escrevendo alguma coisa nos papéis, mas parou na metade e me olhou ao
perguntar: — Perdeu alguma coisa? — Neguei constrangida. — Então anda logo, não tenho o dia
inteiro. Preciso abrir esse cara ainda hoje.
— Tudo bem. — Me arrastei até o banheiro lentamente, não era fácil com toda a gaze envolta
em meu pé e todo o resto. Eu ainda me sentia como se tivesse brincado de sair na mão com algum
boxeador famoso.
— Porra, não se mexe, esqueci dessa merda no seu pé — disse xingando alto atrás de mim.
Parei.
— Pode conseguir algumas muletas? — perguntei em dúvida, seu olhar foi esmagador.
— Não, forçaria demais o local da cirurgia. Diego! — chamou aos berros. —, pegue uma
cadeira de rodas e chame uma enfermeira para ajudar ela a se vestir.
— Já disse que posso me vestir sozinha — falei com as bochechas ficando vermelhas com a
atenção sobre mim.
— Não quero nem saber. Se você abrir essa porra de corte, o Ian vai ficar uma fera, e você não
quer ver o Ian uma fera, te garanto. — Não teria como seu amigo ser uma fera pior e mais
incrivelmente feroz do que ele. Disso eu tinha certeza. Mas assenti como a boa menina que era,
deixei que o enfermeiro me sentasse na cadeira de rodas e que uma moça me ajudasse a colocar o
vestido que ele me trouxe, mesmo que me sentisse desconfortável em usar a roupa de outra mulher.
Sempre comprei roupas de segunda mão, mas isso era diferente. O perfume doce dela ainda
estava no tecido, me peguei imaginando quem seria sua dona, esposa dele? Não, não tinha aliança, eu
tinha verificado. Namorada talvez? Por que isso importa, afinal? Eu deveria estar me sentindo grata e
não estar com ciúmes de alguém que não conheço porque ela pertence a um homem do qual não
gosto. Tudo era muito sem sentido, e se tornou pior quando ele empurrou a bendita cadeira que eu
não queria até um carro de luxo e o destravou com uma chave que tirou do bolso da calça de linho
bege.
— Onde está o Nick? — perguntei para afastar o constrangimento que senti quando ele me
pegou nos braços e me colocou delicadamente sentada no banco do passageiro de seu carro, assim
que entrei descobri que o perfume era dele. Eu era boa com cheiros. Acho que esse foi a primeira
delicadeza que teve comigo desde que nos reencontramos, não quero nem imaginar o que Nicholas
passou na mão desse cara insuportável. Mas não deixei de ficar tentada a tocar em seus braços
enquanto estava no ar sob sua posse.
— Em casa — respondeu batendo a porta e dando a volta no veículo, ocupando o lugar do
motorista e virando a chave na ignição.
— Vamos passar para buscá-lo, então? — Claro que íamos, que pergunta mais idiota.
— Não, você vai para casa comigo. — Ele não parecia feliz em me dar essa notícia e quase
engasguei com o ar quando a recebi. Ele estava nos acolhendo? Se não nos queria, por que nos
deixaria ficar?
— Por quê? — perguntei desconfiada.
— Vai estar mais segura lá, pelo menos até que esteja recuperada e possa continuar fugindo do
que quer que seja que você fuja e leva o menino a tiracolo. — Ele ligou o rádio e aumentou o volume
o suficiente para que a conversa não tivesse continuidade, por mim tudo bem, eu não queria falar
mesmo. Parece que não fui convincente o bastante quando lhe disse que estávamos bem, ele ainda
achava que estávamos em perigo, o que provavelmente era verdade. Eu não sei o que era pior, pedir
que ele me abandonasse à própria sorte em um ponto de ônibus qualquer ou ficar sobre seu teto até
estar recuperada, mas eu sabia que precisava fazê-lo acreditar em cada uma das minhas mentiras.
Tentei pensar em outra coisa por ora e uma ideia me atingiu, eu queria ver meu rosto, baixei o
para sol e estava abrindo a trava do espelhinho com uma mão e tentando levantar o curativo no rosto
com a outra quando sua mão abaixou a minha com brutalidade e depois fechou o compartimento, ele
baixou o volume enquanto minha mão ficou a meio caminho do meu objetivo, latejando por ser
tocada pela sua.
— Não — foi tudo o que disse antes de aumentar o som novamente. Meus olhos pinicaram com
a grosseria, mas engoli o choro. Nem meus maiores problemas me fizeram chorar, não seria esse cara
que conseguiria essa façanha. Encostei-me ao banco e passei o caminho olhando para o lado de fora
pensando no quanto estar indo para sua casa era má ideia, até que ele anunciou em sua voz dura feito
pedra: — Chegamos, Anna.
Voltei meu olhar para frente e encarei a casa verde de dois andares. Imponente, assim como o
carro. Ele era o tipo de homem que não se importava em esconder que tinha dinheiro, provavelmente
suas ações sempre tão rudes e sua mania de pensar que era o dono do mundo advinham disso, do
poder que seus bens materiais e seu coração gelado lhe traziam. Como eu sabia que era gelado? Um
homem que tem amor nunca seria tão frio e tão distante quanto ele.
Monstro, pensei com ironia.
Ele apertou um controle que fez o portão automático abrir e entrou com o carro na garagem que
caberia facilmente mais que oito carros, embora só tivessem mais dois, fora o dele. Pela primeira
vez me peguei imaginando quem encontraria do outro lado daquela porta, será que seriam pessoas tão
rudes quanto ele? Se fosse julgar por sua avó eu não apostaria nisso, mas se fosse julgar por ele eu
tinha lá as minhas dúvidas...
Demorei mais do que o normal para abrir a porta do carro porque estava distraída tomando
coragem e dei de cara com ele com os braços estendidos em minha direção assim que voltei meu
corpo para o lado de fora.
— Eu consigo sozinha — afirmei com orgulho, querendo evitar que me tomasse nos braços
outra vez.
— Como você vai andar sem colocar o pé no chão? — perguntou com impaciência.
— Pulando. — Ele riu e me abandonou à própria sorte. Idiota! Pular se tornou algo bem difícil
de ser posto em prática, bem diferente do que imaginei, antes que eu tivesse percorrido um metro ele
já estava parado à porta com cara de poucos amigos. — Anda logo. — Como se fosse fácil, vendo
minha lerdeza ele suspirou e caminhou em minha direção. Antes que eu pudesse objetar me pegou nos
braços e refez o caminho até a porta entrando comigo em sua casa de sonhos.
Os quadros foram a primeira coisa que notei e a segunda o sofá espaçoso de couro preto, mas
não vi muita coisa, logo fui praticamente jogada em uma cadeira no que eu acreditava ser a cozinha e
admirada por diversos pares de olhos. Hoje, eu sabia o que os animais sentiam em suas jaulas no
zoológico. Jurei para mim mesma ao fechar os olhos e respirar fundo que nunca iria em um, depois os
abri e encarei as pessoas ao meu redor, uma a uma enquanto me eram apresentadas.
Dois homens e três mulheres, uma delas, sua avó eu já conhecia, mas as outras duas chamaram
minha atenção de imediato, ambas estavam grávidas e eram extremamente lindas. Analiso primeiro a
que ele apresentou como sendo sua irmã, ela é mais baixa e loira, tem várias sardas pelo rosto e um
sorriso convidativo. Sua beleza vem envolta em doçura que ela exala como se fosse perfume, mas me
freio ao me deparar com seus olhos: são duros, observadores e astutos. Ela tem uma beleza natural
que se multiplica pelo ar de mulher rica, suas roupas cheiram a dinheiro, muito dinheiro.
Já a outra garota tem uma beleza diferente, estonteante, intimidante e marcante. Ela tem feições
de fada. Enquanto a beleza da primeira me puxa até ela, a beleza dessa me inibe, me afasta, mesmo
que seus olhos sejam serenos e o sorriso amplo tenha efeito calmante. Sua beleza me amedronta, faz
com que eu me sinta insignificante em um vestido emprestado. Elas estavam me estudando,
analisando e tentando me decifrar e eu não gostava disso, sobretudo não gostava do que pudessem
descobrir e não duvidei de que aqueles rostos bem esculpidos escondiam artimanhas capazes de
descobrirem muito, se não tudo que eu escondia.
Fica claro que elas são uma unidade inabalável. Se comunicam apenas com olhares e acenos
imperceptíveis, são uma dupla, são unidas. É nítido o quanto se amam e se entendem, são família. Eu
não sei o que é isso.
Os rapazes não são muito diferentes, ambos exalam confiança. Exalam a certeza de que estão no
lugar certo, percebo não pela primeira vez, que apenas eu destoo desse lugar, dessa unidade familiar.
Um deles está vestido de maneira mais despojada e é mais alto e magro do que o outro, seus olhos
eram castanhos e suas feições lembravam as de Augusto, mas sem a frieza, a postura rígida e o
maxilar travado. Se eu tivesse que descrevê-lo em uma única palavra possivelmente escolheria
“bom”, embora não saiba o porquê. O outro não sorria, apenas me olhava de forma observadora com
seus enormes olhos verdes faiscantes.
Seu olhar foi o que mais me incomodou. Me fez sentir medo.
— Olá, Anna. Querida, seja bem-vinda! — disse dona Eva se inclinando para beijar minha face
e dando a volta para se prostrar atrás de mim descendo suas mãos para meus ombros. — Nicholas
está dormindo, achamos que você deveria conhecer a família, ou uma parte dela, antes de se instalar.
— O gesto que deveria ser um ato carinhoso apenas me fez ficar mais inquieta como se eu estivesse
presa e não pudesse fugir. — Augusto disse que ficaria uns dias conosco, fico feliz em saber disso.
— Estávamos querendo conhecê-la, não é todo dia que uma moça confunde meu irmão com um
anjo — disse a primeira moça, a de olhos ferinos, Bárbara, esse era seu nome. Ela continuava com o
sorriso e seus olhos continuavam tentando ultrapassar uma barreira invisível entre nós duas.
— Quantos anos você tem, Anna? — perguntou a outra moça, a que parecia uma boneca. — A
propósito, sou Vivian.
— Mas você pode chamá-la de Malibu, que nem a Barbie — disse Bárbara passando um braço
em volta da mulher-boneca, o apelido lhe caía como uma luva, esta por sua vez encarou a amiga com
doçura. Um olhar foi tudo o que eu vi, mas eu senti como se elas tivessem tido uma longa interação.
Eu jamais faria parte desse time, pensei com pesar. Eu não me encaixava nesse lugar, no meio dessa
família, eu nunca estaria à altura deles. Não só pelas roupas de marca e carros do ano, não era só
dinheiro, era a vida mesmo. As nossas eram bem diferentes.
Eu tinha certeza de que nenhuma delas já tinha visto o mal tão de perto quanto eu vi.
— Tenho dezenove anos — sussurrei quando o olhar da Malibu se tornou insuportável.
— De onde você era? — perguntou o rapaz de olhos verdes me encarando com frieza. Travei,
não queria ter que olhá-lo, muito menos respondê-lo. Mas o silêncio se tornou constrangedor, então
cedi.
— São Paulo — respondi ao mesmo tempo que Augusto interveio a meu favor.
— Depois Bernardo. — O rapaz não gostou de ser freado, mas assentiu nos dando as costas.
— Já estava na minha hora de qualquer maneira, tenho um plantão para cobrir, Babi você leva a
Vivi em casa? — perguntou se aproximando da geladeira e levantando a mão para pegar algo que
estava em cima dela, somente quando sua mão desceu e chegou à altura da cintura percebi o que era:
uma arma.
Imediatamente agarrei a mesa com as duas mãos para não ficar tentada a sair correndo e olhei
para Augusto que seguia meu olhar, com raiva explodindo dentro de mim, a traição deveria estar
aparente nos meus olhos e nos meus movimentos rígidos porque ele se aproximou e se sentou ao meu
lado pegando uma das minhas mãos e a retirando do aperto na madeira, levando-a até debaixo da
mesa.
Eu soltei. Ele me trouxe até um policial, ele mentiu.
— Ele é amigo, não vai interferir — sussurrou quando o barulho da despedida de Bernardo
ficou alto o suficiente para que ele não fosse ouvido. Não acreditei. Policiais são enxeridos, sempre
mexem onde não devem, não são confiáveis. Não posso, definitivamente não posso ficar perto de um
deles.
— Quero ir embora — sussurrei de volta com urgência. —, me deixe ir embora — o pedido
saiu como um lamento, pareceu que eu estava implorando, ele também deve ter percebido porque
ergueu as sobrancelhas.
— Você não está em uma prisão, Anna, é livre para ir quando quiser. — Assenti tentando me
levantar, mas sua mão segurou firmemente na minha coxa me puxando para baixo. — Mas se vocês
realmente estiverem em perigo, eu sugiro que fique. Eu e ele — disse indicando o policial com a
cabeça. — somos sua melhor chance. Ele é meu amigo há muitos anos, não vai trair minha confiança
e eu vou fazer o possível para protegê-los até que você esteja bem para fazer isso sozinha.
Todos esses dias que passei no hospital gastei o tempo, que parecia nunca passar, fazendo
planos do que faria a seguir. O plano principal era simples: recuperar Nicholas e entrar em um
ônibus para um lugar qualquer, dormir algumas noites em um hotel até montar acampamento outra
vez. Mas só agora com a observação de Augusto notei o quanto seria difícil colocar meu plano em
prática. A cada novo dia eu me sentia mais eu mesma outra vez, mas estava claro que ainda não
estava completamente recuperada.
Não respondi, mas permaneci sentada. Que escolha eu tinha? Não conseguia andar e meu peito
doía, o que eu faria se ele me encontrasse na rua? Provavelmente não conseguiria fugir, muito menos
proteger o Nick. Augusto tinha razão, eles eram minha melhor chance, isso se não descobrissem nada
antes da minha partida e acabassem comigo, como ele vinha tentando fazer há anos.
Tentei convencer a mim mesma de que aquela mão quente e firme na minha coxa que fazia com
que eu me sentisse desconfortável e, ao mesmo tempo, protegida não tinha nenhuma parcela de culpa
na minha decisão de ficar.
Na próxima hora, as loiras, como eu havia apelidado internamente, continuaram tentando
arrancar informações de mim, dona Eva me obrigou a comer e Augusto brigou com as três mandando-
as me deixar em paz. Era interessante ver como eles interagiam uns com os outros, ora brigavam, ora
se ofendiam, ora riam, eu não entendia aquela dinâmica, então permaneci o tempo todo em silêncio
brincando com a comida em meu prato.
Lembro-me vagamente de como era isso, pertencer a uma família. Foi há tanto tempo e machuca
tanto lembrar que me pego à beira das lágrimas com algumas lembranças que não quero ver
novamente tentando tomar conta dos meus pensamentos na marra.
— Estou cansada, posso me deitar um pouco? — peço segurando o braço de Augusto com
firmeza e falando alto demais. Sinto a necessidade de fugir do aconchego dessas pessoas, de sua
civilidade e de suas cenas familiares. Não olho para nenhuma delas enquanto Augusto me pega nos
braços e me tira de lá.
Famílias não foram feitas para mim, assim como não fui feita para elas.
Observar a de Augusto me deixou triste e acima de tudo me lembrou o que perdi e o que jamais
terei novamente, um sentimento de perda e solidão misturados que foi quase insuportável de sentir.
Ele não falou, apenas abriu uma porta sem me soltar e entrou comigo em um quarto quase sem
mobília, me deixando em cima de uma cama de solteiro.
— Nick está dormindo no meu quarto, você pode ficar nesse. Grite se precisar de alguma coisa
— diz se virando e saindo pela porta sem mais perguntas ou qualquer questionamento. Não me sinto
tranquila por isso, sei que ele está apenas me dando tempo, mas que uma hora ou outra as perguntas
virão, preciso estar preparada para responder a cada uma delas sem titubear.
— O que ele está fazendo em seu quarto? — pergunto percebendo em um estalo que isso é
estranho. Augusto já estava do lado de fora quando minha voz chamou sua atenção.
— Parece que seu filho não gosta desse quarto, mas inexplicavelmente gosta de mim. — Ergo as
sobrancelhas de modo questionador, o que o faz ter a necessidade de se explicar melhor. — Todas as
noites ele ia sorrateiramente para minha cama, depois de um tempo desisti de trazê-lo de volta. Ele é
mais teimoso do que eu, porque todos os malditos dias eu acordava com ele roubando mais da
metade do meu travesseiro. — Assinto um tanto impressionada. Nicholas não é o tipo de criança que
se apega, nosso estilo de vida não permite.
Augusto não diz mais nada, apenas fecha a porta me deixando sozinha enquanto penso no quanto
é contraditório ele sempre agir como alguém sem sentimentos e deixar um menino assustado se
esconder na sua cama. Será que sua avó tinha razão? Será que a máscara de monstro é apenas uma
fachada para esconder um homem que tem sentimentos?
Isso é algo que não faço a mínima questão de descobrir, na verdade prefiro que ele aja como
está agindo, como se não importássemos, como se estivesse apenas nos fazendo um favor. Ele me
deixa ficar até que eu esteja me sentindo melhor e em agradecimento eu e Nicholas saímos de sua
vida para sempre, como se nunca tivéssemos passado por ela. Parecia uma troca justa.
Me deito na cama de solteiro encostada na parede da janela e admiro o quarto pedida em
pensamentos. A decoração é simples, as paredes são azuis, e os únicos móveis no ambiente são um
pequeno guarda-roupa, uma cômoda e uma mesinha. Nenhum objeto pessoal, o que indica que deve
ser um quarto de hóspedes. O ambiente é gelado e desprovido de emoções, consigo imaginar porque
Nicholas não quis dormir aqui sozinho, embora esse quarto seja melhor do que muitos lugares em que
o fiz dormir ao longo dos anos. Já eu não tenho o mesmo problema, o sono me atinge assim que fecho
os olhos.
O dom da paciência que eu não tenho

Paciência é fundamental, mas tem horas que uma metralhadora faz falta na vida da gente.
(Autor desconhecido)

Augusto

Desço as escadas com a cabeça fervilhando com perguntas que gostaria que ela respondesse.
Não sei ser paciente, isso é evidente, mas não posso agir com Anna como ajo normalmente, meu jeito
de ser não parece assustá-la, mas também não ajuda em nada a lhe arrancar respostas. Então, apenas
a deixo em paz em vez de fazer o que realente gostaria: chacoalhá-la até que me contasse o que quero
saber.
Gustavo está saindo pela porta em direção à garagem sorrateiramente, na ponta dos pés para não
ser notado, ameaço perguntar onde ele está indo, mas o som das vozes na cozinha me breca, paro no
último degrau para escutar a conversa sem que vovó, Bárbara e Vivian percebam, estou curioso com
suas primeiras impressões com a minha convidada.
— Tentem deixar a moça em paz, ela parece assustada — ordena minha avó com sabedoria. —,
ela passou por muita coisa.
— Mas estamos curiosas, vovó — reclama Bárbara. Claro que elas estavam curiosas. Tenho
que dar um jeito de manter minha irmã longe de Anna. A menina não lida bem ao ser encostada em
uma parede e minha irmã é mestre nisso. Ou talvez eu devesse fazer o contrário, prender as duas em
uma sala e esperar Bárbara arrancar até as calcinhas da menina.
— Ela não nos conhece, não confia em nós e nem deveria, já que somos pessoas estranhas para
ela. Acredito que aos poucos ela vai se abrir. — Dessa vez, não concordo com minha avó, a menina
é mais durona do que aparenta.
— Eu só queria saber o que aconteceu com ela — intervém Vivian. —, talvez Bernardo possa
ajudar a encontrar o homem que tentou machucá-la. Será que ela sabe quem ele é?
— Eu quero saber outra coisa, quero saber o que ela fez para esse cara e porquê. Quero saber
por que ela não quis envolver a polícia nisso, pela minha experiência quando alguém não confia na
polícia é porque a teme — diz minha irmã com sua melhor voz de advogada de porta de cadeia.
É quando percebo que preciso encobrir como puder essa situação. Todas as nossas dúvidas são
as mesmas, mas não posso correr o risco de elas especularem demais e deixarem Bernardo com mais
vontade de se intrometer nessa história. O olhar que Anna lançou para ele quando o viu pegar sua
arma foi de medo. Não, medo não, foi pior, foi um olhar de pavor que fez com que eu me sentisse
culpado por não ter contado sobre ele no caminho até em casa. Seja o que for que ela esconde é algo
grave e não quero minha família envolvida nisso, por Deus, nem eu quero me envolver nisso.
Talvez estejamos lidando com algo sem precedentes, algo do qual iremos nos arrepender de
mexer. Será que ao acolher essa menina e o filho estou colocando todos em perigo? Eu não me
perdoaria se estivesse, minha família já sofreu o bastante com o que aconteceu a Bárbara para ter que
passar por outra situação similar, mais uma vez.
— Augusto, ela te contou alguma coisa? — pergunta Babi assim que piso na cozinha, nego com
a cabeça, me preparando para mentir.
— Ela não se lembra de muita coisa, disse apenas que não sabia quem era o outro motorista. Ela
percebeu que estava sendo seguida um pouco antes de parar no posto em que a encontrei, ela estava
em busca de ajuda — digo desejando fervorosamente por uma cerveja, não um uísque, uma garrafa
inteira se possível.
— E quanto à questão da polícia? — Ela não consegue mesmo cuidar da própria vida, não é? —
Por que ela não te deixou chamá-los?
— Acho que ela deve ter pedido para eu cuidar do garoto porque eu disse que era médico e ela
viu meu carro, sabia que eu tinha condições financeiras — minto. —, deve ter ficado com medo que
ele fosse para um abrigo, você sabe como são esses lugares.
— Não sei não, Monstro, tem alguma coisa que cheira mal nessa história — diz colocando o
indicador na boca e mordendo a ponta da unha, pensativa.
— Já pensou que pode ser você? — ironizo. — Você, por acaso, já tomou banho hoje?
— Não estou brincando — diz sem parecer ofendida.
— Nem eu. Provavelmente eu exagerei na minha preocupação. Ela vai ficar por alguns dias e
depois vai embora levando o menino e nossas vidas vão voltar ao normal.
— Eu só queria que ela soubesse que pode se abrir, nós podemos ajudar. Eu sei o que é passar
por uma situação parecida — diz com os olhos tristes, provavelmente está se lembrando do dia em
que foi sequestrada e tudo que passou nas mãos daqueles filhos da puta, o que faz um nó se formar na
minha garganta e meus punhos cerrarem em baixo da mesa.
— Ela está bem, Bárbara, não é a mesma coisa. — Minha irmã não parece convencida e sim
obstinada. Ela parece uma pessoa que acabou de comprar um jogo novo, está empolgada com o
mistério e constatar isso me faz temer por ela. Tomo uma decisão no mesmo instante, quero a mulher
e a criança, assim como seus problemas, fora da minha casa, da minha vida e da minha família. Mas
não posso correr o risco de colocar o menino em perigo, maldito menino com olhos de cachorro
abandonado, por que eu tinha que gostar dele?
Assim que Anna estiver melhor, eles vão embora e eu vou fingir que nunca os conheci, é
exatamente isso que vou fazer.
Não vou me meter em algo que não é da minha conta, não dessa vez.
Pessoas me dão medo

“Nossas cicatrizes servem para nos lembrar de que o passado foi real.”
(Hannibal)

Anna

Um barulho extremamente alto e repetitivo é o motivo de me fazer abrir os olhos, acordo


assustada e sem ar, me levantando em um pulo e quase caindo da cama no processo. Se estivéssemos
em um desenho animado eu teria grudado no teto que nem um gato, fincando as unhas na parede com
os pelos arrepiados. Minha mão direita vai quase que por instinto na direção do meu coração, para
fazê-lo diminuir o ritmo ou garantir que ele não o diminua mais do que deve, não faço ideia.
Respiro de forma entrecortada algumas vezes e pisco tentando fazer com que a embriaguez do
sono se dissipe, é somente aí que percebo que o barulho vem da porta. Passo as mãos pelo cabelo e
jogo meus pés para o lado de fora da cama, me sentando na beirada com a intenção de me levantar
para abri-la, mas assim que meus pés tocam o chão, uma dor aguda e incômoda me lembra de que não
posso andar. Desisto e grito para quem quer que seja:
— Entre. — Me remexo no lugar e aliso o vestido, tudo para que minhas mãos tenham o que
fazer. Mais uma das minhas manias de quando me sinto desconfortável, não conseguir ficar parada.
— Te acordei? — pergunta Bárbara colocando a cabeça no vão da porta. Seus cabelos acabam
por cair em seu rosto e elas os assopra impaciente enquanto aguarda por uma resposta sem tirar os
olhos dos meus, quando eles se findam percebo que estou demorando demais e articulo algumas
palavras.
— Não, tudo bem — minto me desprendendo de seu olhar astuto encarando a gaze que protege o
corte em meu pé. Além do ferimento, ele ainda está dolorido pela pisada em falso que dei enquanto
tentava entrar rapidamente no carro naquele restaurante de beira de estrada. Escuto a porta se abrir
mais e seus passos se aproximando, puxo a coberta jogada atrás de mim para mais perto, em busca de
me agarrar a alguma coisa e começo a torcer a ponta que agarrei em minhas mãos.
— Não quero incomodar, mas achei que você gostaria de mais algumas roupas, além do vestido
que você está usando. — Olho para o lado e a vejo deixar uma pilha de roupas empilhadas ao pé da
cama. Assinto constrangida esperando que ela vá embora e me deixe em paz, mas ela não se move,
ao invés disso joga o peso do corpo de um pé para o outro, ansiosa. Por que ela não vai embora?
Pensa Anna, pensa.
Não estou acostumada a conversar e interagir com outras pessoas sem ser Nicholas, na verdade
evito falar o máximo possível com qualquer um. Sempre arrumo empregos que me mantém ocupada e
calada e fico desconfortável até mesmo com interações obrigatórias, como pedir ao frentista que
abasteça o carro ou comprar pão. Nessas ocasiões me pego imaginando que vão me reconhecer, vão
gritar e ele vai aparecer.
Pessoas me dão medo.
— Eu... — É quando me lembro de algo chamado “educação”, uma coisinha que não utilizo com
muita frequência. — obrigada. — A palavra tem o efeito desejado e ela relaxa assentindo como se eu
tivesse lhe dado a resposta certa em um teste.
— Não precisa me agradecer. — Se eu não precisava, por que ela ainda não havia ido embora?
Não entendo essa garota, por que ela não pode simplesmente me deixar em paz de uma vez? — Você
precisa de ajuda em alguma coisa? — Vendo minha expressão confusa, ela explica. — Gostaria que
eu te ajudasse a tomar um banho? Ou ajuda para trocar de roupa e ficar mais confortável? Gostaria
que eu pegasse algo para comer? — Devo parecer assustada, porque ela recua e coloca uma das
mãos em frente ao corpo como se estivesse lidando com uma fera selvagem e não uma pessoa. Talvez
ela tenha razão, talvez para ela eu pareça um bicho machucado e acuado, bichos nesse estado
mordem.
— Não — balbucio me abraçando, me protegendo.
— Anna, eu só quero ajudar — sussurra franzindo as sobrancelhas, confusa. Ela também não me
entende, isso não é novidade. Como uma patricinha que tem tudo na vida poderia entender alguém
como eu? O pior drama que essa garota deve ter sofrido é ter saído de casa e ter descoberto que o
sapato não combinava com a roupa.
— Não preciso da sua ajuda — sibilo fazendo um sinal negativo com a cabeça como se não
acreditasse em sua coragem de sugerir que eu precisaria dela. Deixei de parecer na ofensiva, passei
para a grosseria. Seu semblante muda imediatamente de confusa para magoada e eu me arrependo
instantaneamente de ter aberto a boca. Ela não pediu para nascer em berço de ouro, certo? Ela só está
tentando me ajudar, eu deveria realmente parecer mais bem-agradecida do que de fato estou com essa
atenção. Mas não consigo.
— Tudo bem. Me desculpe, Anna — diz me dando as costas, eu não a impeço. Fecho os olhos
quando ela sai e a porta bate, mas volto a abri-los quando escuto a maçaneta girar outra vez segundos
depois.
— O que você fez para minha irmã? — pergunta Augusto parado na soleira, me volto para ele e
seus olhos cintilam de raiva. Abro a boca, mas nada sai de dentro dela. Não sei como lhe responder
a essa pergunta. — Ela desceu as escadas chorando. — Agora realmente estou me sentindo mal por
ter sido tão grosseira, algo que eu não vou admitir para esse cara.
— Eu sinto muito — Suspiro irritada. —, mas não gosto que as pessoas pensem que preciso
delas. Eu não preciso, Augusto. — Seu olhar debochado me faz ter vontade de enforcá-lo.
— Engraçado você dizer isso, porque, pelo que eu me lembro, você implorou para que eu
tomasse conta do seu filho, então você precisou de mim. Precisou também do marido da minha irmã
para salvar a sua vida. — Então, é ela a pessoa que usa o outro par da aliança de ouro que estava no
dedo do médico de olhos bonitos, claro que era, não deveria ser uma surpresa tão grande assim para
mim. — Precisou que ela lhe emprestasse uma roupa para ter o que vestir e agora precisa ficar na
minha casa porque não tem mais para onde ir. Interessante você dizer que não precisa de ninguém,
garota ingrata — ele cospe cada palavra sem se importar se elas ofendem ou não.
— Se esse é o problema, eu vou embora — tomo impulso e fico de pé, mas assim que meus dois
pés se firmam no chão eu fraquejo com a dor aguda em um deles e perco o equilíbrio, me preparo
para o baque, mas uma mão firme agarra meu cotovelo e me empurra em direção à cama antes que eu
caia no chão. Em vez disso, caio sentada no colchão e me volto furiosa para ele. Não gosto de ser
tocada, ainda mais com essa brutalidade desnecessária. Até quando ele tentava ajudar acabava
parecendo um ogro.
— Talvez eu realmente devesse deixar você ir embora — diz me dando as costas, sem expressar
uma verdadeira intenção de fazê-lo, o que só me faz ter mais vontade de atacá-lo.
— Por que você não faz isso, então? — pergunto com a voz elevando uma oitava, espalmando
as duas mãos na cama, frustrada.
— Por quê? — pergunta se voltando para me encarar, seu tom de voz sugere que minha pergunta
foi tola. — A única coisa que me impede de te pegar pela mão e te colocar para fora da minha casa é
o menino. Você não achou que era por sua causa, não é? — alfineta. Seu comentário me incomoda
mais do que eu gostaria.
— Você quer que eu acredite que você se importa com meu filho? — Solto uma risada
debochada.
— Você quer falar de acreditar nas pessoas? — ele pergunta sarcasticamente. — Então vamos
lá, você quer que eu acredite que você não conhecia o homem que tirou seu carro da estrada e quase
te matou? Quer que eu acredite que é normal viajar com uma criança sem bagagem, além de uma
maleta cheia de dinheiro no porta-luvas do carro? Você quer que eu acredite que o que esconde não é
algo sujo? Você é uma hipócrita, Anna, claro, se esse for realmente o seu nome. — Me encolho pelo
tom agressivo de suas palavras e ele sorri porque sabe que atingiu em um ponto fraco. — Eu não
acredito em você.
— Eu não estou escondendo nada. — Sei que pareço na defensiva e sei que ele percebe o
mesmo, me odeio por isso.
— Então, por que você pegou a estrada? Estava viajando, se mudando, ou fugindo? Por que não
tinha uma muda de roupas, brinquedos ou qualquer objeto pessoal no seu carro? Por que não tinha
nenhum documento, nem seu nem do menino? — ele dispara as perguntas tão rápido que fico tonta,
mas acho que isso se deve mais ao fato de eu não conseguir pensar em uma boa desculpa para cada
uma delas, então fico em silêncio, com medo. Percebo tarde demais que meu pedido naquela estrada
gelada deu um poder a esse homem sobre o qual não tenho o menor controle.
Esse monstro me tem nas mãos, enquanto as minhas permanecem atadas.
— Eu... — gaguejo.
— Não precisa me responder nada, Anna. Eu não quero saber. Seja lá o que você esconde, não
é problema meu, mas por sua causa o garoto é. E eu ainda não estou convencido de que ele estará
seguro com você fora daqui, então fique na sua até estar em condições de protegê-lo do quer que
seja, aí ficarei feliz em me livrar de vocês, porque, Deus, como eu quero me livrar de vocês. —
Suspira, cansado.
— Se você quer tanto nos ver fora da sua vida por que está tão preocupado? Como um homem
como você se arriscaria a entrar no problema de alguém sem mesmo saber onde está pisando? — Eu
sei que deveria ter calado a minha boca, mas a atitude dele ao mesmo tempo que me enfurece
desperta minha curiosidade.
— Eu também gostaria de saber — diz mais para si mesmo do que para mim. —, só me parece o
certo. Eu não quero saber no que você está envolvida porque não quero me sentir responsável por
isso, mas infelizmente já me sinto responsável pelo menino. E não se engane, não estou feliz com
isso. Tudo o que você vai conseguir de mim é um teto e comida até estar recuperada, depois quero
que você vá embora e leve todos seus problemas com você.
— Farei isso, Augusto, com todo o prazer — digo entredentes e ele assente. —, assim como
estou aceitando a sua... — engasgo para falar a palavra. — ajuda por causa do Nicholas.
— Ótimo, parecemos concordar em alguma coisa, você ainda não consegue cuidar do menino
sozinha e não iria muito longe com esse pé machucado — É a minha vez de assentir. —, mas que
fique claro que enquanto você permanecer nessa casa usufruindo da minha ajuda terá que tratar a
todos com respeito, isso inclui pedir desculpas para a minha irmã. — Não foi um pedido e sim uma
ordem, uma ordem que estou longe de querer cumprir.
— Não vou me desculpar por não gostar que as pessoas se intrometam na minha vida — Ele
revira os olhos e bufa em frustração. —, aquela garota não faz ideia do que estou passando — digo
com ressentimento, me traindo.
— Isso é o que você pensa, vocês são mais parecidas do que aparentam ser — diz com mais um
riso debochado.
— Não vejo como, não me pareço em nada com ela.
— Eu não lhe devo satisfação nenhuma da vida da minha irmã — diz com grosseria se
escorando na porta fechada. —, mas ela, assim como você, já viu o mal de perto. Já esteve com ele
cara a cara e, assim como você, parou de confiar nas pessoas. Não se iluda com o sorriso doce e as
lágrimas, isso é culpa do girino que tem dentro da barriga dela, você não conhece a minha irmã e o
furacão que ela pode ser se assim desejar — diz com o rosto fechado, mas com uma admiração
inabalável no olhar, ele a ama, isso está claro.
— O que aconteceu com ela? — me deixo ser vencida pela curiosidade.
— Isso não importa. — Ele balança a cabeça e vejo seus punhos se fecharem assim como seus
olhos. O que quer que tenha sido, não foi bonito e me pego realmente arrependida de tê-la tratado tão
mal. Será que me enganei sobre ela e sua futilidade? Augusto volta a abrir os olhos e se dirige para a
porta, abrindo-a, pouco antes que ele a feche me pego perguntando:
— Como ela fez para confiar? O que mudou? — não sei por que pergunto, porque
definitivamente não há uma receita mágica para apagar tudo que eu já vivi e ainda vivo. Mas
inexplicavelmente sinto que preciso dessa resposta.
— Ian — é o que ele responde. Uma única palavra que para mim não representa nada. Ele não
explica, apenas fecha a porta, enquanto eu permaneço olhando-a muito tempo após sua partida.
Eu moro dentro de um pesadelo, um nome nunca seria suficiente para me tirar de dentro dele.

***

Permaneço por um longo tempo com o olhar perdido naquela droga de porta, tempo o suficiente
para me sentir suja e com fome. Mas não tanto ao ponto de gritar por ajuda, me levanto e vou pulando
com dificuldade até a porta e passo por ela em direção ao final do corredor. Me sento no último
degrau da escada e desço de bunda que nem Nicholas fazia quando era um bebê, me sinto patética.
A situação só piora quando chego ao último degrau com esforço e dou de cara com Bárbara
passando pela porta com a bolsa presa em uma das mãos e a chave do quarto na outra, ela me encara
por apenas um segundo e corre em minha direção para me ajudar a levantar.
— Você está bem? Me dá sua mão — pede ao parar na minha frente.
— Você não desiste, não é? — pergunto me rendendo ao estender as suas mãos para que ela
segure e puxe. Não vou mentir, o discurso do Augusto me deixou curiosa, preciso conhecer a história
dessa garota e quem sabe ela possa me apontar uma saída. Não que eu acredite que realmente exista
uma, mas já quebrei tantas regras nessa altura do campeonato que uma pequena especulação é o
menor dos meus crimes.
— Não, nunca — diz sorrindo quando engancha o braço ao meu e me puxa escada acima
novamente, ela me ajuda a me sentar na cama e vai em direção à porta. — Está com fome? — Meu
primeiro instinto é negar com a cabeça, mas minha boca tem outra ideia.
— Sim, estou.
— Ótimo, vou pegar algo para você comer — diz sumindo pela porta.
Pouco depois ela volta com dois sanduíches e um refrigerante. Me entrega o prato e se senta ao
pé da cama me olhando comer. Ela não fala, muito menos eu. Estou ocupada devorando até as
migalhas. Quando termino, ela ainda está em silêncio o que acaba me incomodando.
— Me desculpe por... mais cedo — peço sem jeito.
— Não tem problema, Anna, eu entendo — diz como se realmente entendesse, o que eu
particularmente, ainda duvido.
— Como? — Uma única palavra com uma interrogação foi o suficiente para um turbilhão de
emoções diferentes passarem por seu rosto. Quase todas negativas, raiva, mágoa, humilhação, medo,
dor, mais dor até que a última se estampa em suas feições: amor. Creio que seja, se assemelha ao que
penso ver no olhar do Nick quando me olha, mas também pode ser conforto, segurança, superação.
Não sei, essas eu não conheço.
Ela demora tanto para falar com aquele olhar estranho, perdido em suas próprias unhas pintadas
com francesinhas, que chego a duvidar que ela vai me responder, mas ela o faz e, para minha
surpresa, meu queixo cai.
— Fui abandonada no altar, meu noivo parou o casamento para informar a mim e aos demais
convidados que estava apaixonado pela minha melhor amiga. — Isso era horrível, mas ainda estava
longe, muito longe de chegar perto de tudo que tive que enfrentar. — Depois eu descobri que ela
estava grávida, mas nessa época eu já tinha vindo embora para Florianópolis morar com meus
irmãos.
— Eu sinto muito — digo porque acho que é o que ela espera que eu diga, mas eu não sinto. Um
chifre, quem dera meu problema fosse tão simples.
— Não sinta, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida — Sorri fracamente, é quando
percebo que a história não terminou. —, o problema é que eu também estava grávida e quando eles
descobriram vieram atrás de mim. — Ergo as sobrancelhas sem entender e ela fica mais algum tempo
em silêncio antes de voltar a falar com a voz trêmula. — Eles me sequestraram e me obrigaram a
tomar um remédio. Eles queriam matar minha filha.
— Bárbara, eu... — quero que ela pare de falar, mas não consigo lhe dizer isso. Não quero
sentir pena dela, não quero sentir nenhum tipo de sentimento que me obrigue a gostar dela.
— Valentina sobreviveu, graças a Deus. Fiquei em coma por alguns dias e quase morri, mas
sobrevivemos, as duas. — Ela volta a examinar a unha.
— Como? Como você sobreviveu? — Ela sabe que não estou perguntando da parte médica do
processo, essa eu também conhecia. Quando ela levanta o olhar, aquele sentimento que não sei
identificar está de volta.
— Ian. — Novamente a mesma resposta. O mesmo nome que Augusto me disse. Mas
diferentemente do irmão, ela se explica. — Ele não saiu do meu lado, foi ele quem me provou que
não era porque duas pessoas tinham me machucado que o resto do mundo ia fazer o mesmo. Foi uma
sequência de mãos estendidas desde o começo. Minha avó, meus pais e meus irmãos, o apoio de
cada um deles. Vivian e sua vontade de me curar, de me provar que amizades verdadeiras existem,
mas foi ele. Ian, quem me mostrou que o amor cura tudo.
— Bom pra você — juro que eu não queria que minha voz saísse carregada de inveja, mas saiu.
A inveja foi lançada ao ar como um gás tóxico que afetou apenas a mim mesma, porque ela sorriu de
maneira triste enquanto eu me encolhi.
Eu jamais me curaria como ela se curou porque eu não tinha nada que ela teve. Eu não tinha uma
família para me apoiar, não mais e também não tinha um grande amor para curar minhas feridas, eu
tinha que lambê-las sozinha até que as cicatrizes fossem o suficiente para que eu fosse em frente.
— Você pode ter tudo isso, Anna, se permitir confiar nas pessoas que querem te ajudar — diz
lendo meus pensamentos.
— Não preciso de ajuda — rebato me sentindo humilhada agarrando as barras do vestido
emprestado, um item colado ao meu corpo que desmente minhas palavras.
— Você já disse isso, mas ninguém é feliz sozinho. Você está aqui agora e estamos do seu lado.
Meu irmão poderia ter deixado o Nicholas naquela estrada, mas não foi o que ele fez e mesmo que eu
não saiba por que, sei que deve ter uma razão. — Ela parece impressionada com o ato do irmão,
como se até então ela não soubesse que ele era capaz de tanto.
— Ele não me quer aqui — digo ressentida. —, mas não tem problema, assim que eu me sentir
melhor vou embora com meu filho.
— Se ele não te quisesse aqui, você estaria no olho da rua nesse momento — diz com uma
risada gostosa de ouvir que acaba antes que eu possa apreciá-la pelo tempo que desejava, de repente
Bárbara fica séria. — Anna, não vou te encher com todas as perguntas que eu gostaria, mas você me
responderia apenas uma?
— Sim — digo por obrigação lembrando que sempre posso mentir, o que se torna
essencialmente necessário assim que as palavras jogam de seus lábios pintados de cor-de-rosa.
— Meu irmão está em perigo mantendo você e seu filho aqui? — pergunta cruzando as pernas
me olhando de maneira objetiva.
— Não — digo rápido demais, ela pisca e assente.
— Porque se ele estivesse eu te pediria para contar para ele, Augusto tem o direito de saber
quais consequências sua bondade repentina pode trazer. Aqui nós somos um time e por enquanto você
faz parte dele. Não abandonamos ninguém do time, entende?
— Entendo — digo sem entender.
— Assim como não deixamos que alguém do time seja prejudicado, por ninguém — frisa. Volto
a sentir vontade de chorar, quem são essas pessoas que acabam com meus nervos tão resistentes?
Com uma mão ela me oferece apoio, diz que estarão do meu lado, mas como poderiam? Não me
conhecem e tenho certeza de que não confiam em mim. Com a outra mão, ela claramente me faz uma
ameaça. Percebo em seu olhar o mesmo que percebi no do Augusto, ela o ama.
— Eu não estou escondendo nada, Bárbara. — Esse vai virar meu mantra nessa casa. Quem
sabe se eu continuar repetindo, por um passe de mágica essa afirmação passe a ser verdadeira. Isso
porque eu não era uma pessoa iludida, penso com agonia.
— Ótimo, tem apenas mais uma coisa que você deve ter em mente.
— O quê? — pergunto curiosamente.
— A solução dos seus problemas não estão na cama do meu irmão — dito isso ela se levanta,
estou mortificada, mas encontro minha voz no momento em que ela retira o prato vazio das minhas
mãos.
— Eu nunca pensei... eu... — gaguejo envergonhada me lembrando do quanto o achei atraente na
primeira em que o vi, naquela em que eu não achava mais que estava morrendo.
— Anna, ele... — Ela suspira. — Augusto não é um anjo com um par de asas — diz dando de
ombros como quem pede desculpas e eu entendo o recado. — Ele não é um príncipe que vem
montado em um cavalo branco para resgatar a mocinha, ele é... — Ela não precisa se preocupar
comigo e muito menos terminar sua frase, eu já entendi que ele é intocável. Monstros não amam,
certo?
Assim que ela me deixa sozinha com meus pensamentos, a solidão se torna excessiva e tenho a
necessidade de fazer alguma coisa, qualquer coisa, para me acalmar. Remexo na pilha de roupas que
ela trouxe e me encanto por cada uma delas, mas não consigo me imaginar vestindo-as. Uma blusa
branca em especial se torna minha favorita, provavelmente por ser a mais simples, eu a puxo da pilha
e a passo sobre o rosto sentindo o perfume do amaciante, mas ela para de deslizar quando fica presa
no limite da atadura que cobre boa parte do lado esquerdo do meu rosto me fazendo ficar mais
irritada, chega. Vou descobrir o que tem aqui embaixo de uma vez por todas. Seguro firmemente a
blusa e pego também uma bermuda preta e uma calcinha, ainda com etiqueta da pilha e começo a
terrível tarefa de chegar pulando em um pé só até o banheiro duas portas adiante.
Entro e tranco a porta, me escoro na pia, respiro fundo e me olho no espelho, algo que eu não
fazia desde que havia acordado, olhando de perto o curativo era maior do que o toque me fez supor,
seguro uma das pontas do esparadrapo, fecho os olhos e puxo com força. A sensação de liberdade em
deixar a pele exposta é gratificante, pelo menos até que eu abra meus olhos.
Os olhos de vidro

“Cuidado, eu realmente posso ler sua mente através dos seus olhos. Eu posso ver quando está
mentindo, não tente me enganar.”
(Ana Carolina)

Augusto

Plantão dos infernos resume meu dia. Cirurgia maldita que deu errado, o cara morreu enquanto
seu coração estava em minhas mãos: transplante. Odeio esse tipo de responsabilidade. Se eu gostasse
de trocar motor, tinha virado mecânico e não médico. A pior parte? O olhar da esposa com quem ele
era casado há trinta anos. Mesmo que o marido estivesse em coma, sedado, há vários dias, ela tinha a
esperança de que hoje seria o dia em que ele voltaria a abrir os olhos, em sua ilusão isso aconteceria
no exato momento em que o homem de branco colocasse um coração novo em seu peito.
Fantasia tola, o novo coração nem chegou a bater.
Não sou tão sentimental quanto Ian, que abraça a família, lamenta a perda e, às vezes, chora.
Aquela bichinha acha que eu não sei, mas eu sei. Já peguei ele no flagra duas vezes. Eu apenas fico
com um mau humor dos diabos e tenho vontade de queimar o diploma, mas passa rápido. Eu nunca
disse que era Deus, não faço milagres.
Essa frase deveria estar gravada no meu crachá.
Estaciono o carro na garagem e encosto a testa no volante, criando coragem para entrar dentro
da minha própria casa. Em dias como o de hoje, eu queria apenas tomar um porre, comer alguém e
dormir um pouco, não necessariamente nessa ordem e tudo que vou conseguir é me sentir
desconfortável porque tem pessoas estranhas nas quais não confio dormindo debaixo do meu teto.
Quando finalmente piso na sala de estar o que eu temia acontece, a falta de paz.
O grito dela é ensandecido. A primeira coisa que vem à minha mente é que a casa foi invadida,
que alguém a está machucando. Saio em disparada escada acima deixando o celular e a chave do
carro que estavam em minhas mãos caírem no chão, subo os degraus de dois em dois e trombo com
minha irmã e minha avó no topo da escadaria, ambas saíram correndo do quarto de Gustavo assim
como eu, desvio e tento o quarto de hóspedes primeiro, mas está vazio. Me volto para o corredor e
aguço os ouvidos, soluços, estou ouvindo soluços, sigo o som e chego até a porta do banheiro social
duas portas adiante.
— Anna — grito esmurrando a porta. — Anna, você está bem?
Ela não responde, mas chora mais alto. Seus gemidos são tão desalentadores que chegam a me
desesperar, não paro de esmurrar a porta e gritar seu nome, não paro de tentar fazer com que ela abra
essa porta e me diga que está bem, que vai ficar bem, mas não é o que ela faz. Não recebo nada dela
além de desespero que somado ao meu me transforma em alguém que até então eu não conhecia.
— Anna, fale comigo — suplico cruzando ambas as mãos atrás do pescoço. — Por favor,
garota, fale comigo. — Não deixo de notar o olhar questionador que minha irmã e minha avó trocam
em silêncio, não tenho tempo para isso agora, me volto novamente para a porta, minha única
preocupação nesse momento é ela.
— Vá embora, Augusto! — berra no meio de um soluço entrecortado, falar parece exaustivo e
cansativo. Parece mais do que ela consegue fazer no momento. Ouvir sua voz não diminuiu minha
apreensão, pelo contrário, fez ela se intensificar.
— Abre essa porta, agora, ou eu vou colocá-la abaixo — ameaço apoiando a testa e ambas as
mãos na madeira à espera de uma resposta, o que não vem. — Eu avisei — murmuro me afastando
alguns passos e impulsiono meu corpo em direção à porta com toda minha força, não precisei de
mais do que um tranco para arrombá-la. As dobradiças rangem e a madeira se parte, a fechadura se
solta e em um segundo estou dentro. Escancaro a porta e entro no banheiro encontrando-a no chão,
com as costas apoiadas na parede, seu corpo está arqueado e ela tem o rosto escondido nas mãos,
seus ombros chacoalham e ela funga.
— Anna, o que aconteceu? — pergunto me agachando em frente ao seu corpo, ela se afasta e, em
contrapartida, ergo minha mão e pressiono seu queixo, agarrando-o e levantando seu rosto, ela
continua tentando me impedir, mas sou mais forte.
— Não me olhe — suplica cobrindo a face com as mãos novamente, mas ela não é rápida o
suficiente e eu vejo de relance o que tanto tenta esconder. Fico de pé e me afasto alguns passos
olhando-a com pena e receio, a cicatriz estava pior do que imaginei. Acho que essa era exatamente a
reação que ela esperava de mim porque se encolhe em uma bola e desaba, soluçando alto o suficiente
para me encher de culpa. Então, faço o que sei fazer de melhor, ser um babaca.
— Levanta desse chão — Agarro seu braço e a puxo para cima, firmando-a de pé enquanto ela
ainda tenta esconder o rosto de maneira envergonhada. —, eu disse para você não tirar o curativo,
por que você não me escutou? — Espero que ela brigue comigo, que grite, que me xingue, qualquer
coisa, mas ela parece fraca demais para me atacar, ela se vira em direção à parede e me dá as costas,
mas não me dou por vencido, ainda estou segurando firmemente em seu braço, então a puxo para que
me olhe em direção ao meu corpo, ela bate no meu peito e eu agarro seu queixo outra vez. —
Responde, Anna! — grito.
Nada teria o poder de me preparar para todas as emoções que senti quando ela finalmente
ergueu a cabeça e a levantou me olhando nos olhos, estavam vermelhos e repletos de lágrimas e, pela
primeira vez, não senti como se ela pudesse ver através de mim, pelo contrário, seus olhos
espelhados haviam se transformado em um vidro translúcido, tive a sensação de que era eu quem
podia ver dentro dela.
Não gostei do que vi.
Marcas

"Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve."


(A Graça da Coisa, Martha Medeiros)

Anna

Tudo havia se perdido, minha fachada, minha casca, meu casulo. Meu esconderijo estava
arruinado. Ele havia conseguido. Como se não bastasse todas as marcas internas, agora eu teria uma
marca gravada na superfície para me lembrar dele sempre que olhasse meu reflexo no espelho.
Minhas regras nunca seriam o bastante para nos manter seguros outra vez.
Como me manter no anonimato e jamais ser notada se agora eu seria um chamariz de atenção?
Nunca ninguém se lembrava da menina pálida de cabelos negros que não emite sons, não sorri e nem
levanta o olhar, mas posso garantir que, a partir de hoje, todos vão se lembrar da menina da cicatriz
horrenda no rosto.
Eu estava marcada. Condenada seria a palavra mais apropriada. Mas tudo o que eu consegui
pensar quando levantei os olhos e fitei a cicatriz profunda que descia da minha testa até perto do
queixo dividindo minha bochecha ao meio de maneira violenta foi que não queria que Augusto a
visse.
Tola. Menina tola. É isso que ele diria.
Eu deveria estar amedrontada, apavorada com a ideia de que nunca mais conseguirei me
esconder, mas não paro de desejar que Augusto vire o rosto e caminhe para longe. Pensei que veria
nojo em seu olhar, então não estava pronta para encontrar apenas pena em seus olhos, não fazia
diferença. Pena era quase tão ruim quanto repulsa. Quase tão ruim quanto o fato de ele ter arrombado
uma porta porque estava preocupado comigo. Atitudes como essa me desestabilizam, não sei lidar
com gentilezas, assim como não sei lidar com agradecimentos.
Também não sei lidar com um monstro que solta fogo e, ao mesmo tempo, estende uma mão.
— Por que, Anna, por que você fez isso? — pergunta abandonando a tonalidade irritada, soando
quase complacente. Não consigo responder, então dou de ombros e choro mais. Não tenho tempo de
me recompor porque meu pé falha em segurar o peso do meu corpo e eu fraquejo, Augusto passa as
duas mãos em meus ombros com habilidade e, antes que eu possa realmente pensar no que estou
fazendo, encosto minha cabeça em seu peito e jogo minhas mãos em volta de sua cintura.
Congelo assim que percebo o que eu fiz.
Espero que ele me empurre ou grite comigo, mas ele não faz nem um e nem outro. Augusto desce
uma das mãos até o meio das minhas costas e me abraça, me apertando contra seu corpo com firmeza
enquanto a outra mão é colocada atrás da minha cabeça. Eu não sei o que esperava quando busquei
abrigo em uma pessoa, eu nunca havia feito isso antes, só sei que nunca passou pela minha cabeça
que eu encontraria algo que venho buscando há anos: a sensação de segurança.
Era uma ilusão, tinha que ser. Uma falha, uma distração.
Eu nunca me distraía, eu não podia.
Me desprendo de seus braços tentando me afastar de seu toque, mas Augusto entende mal o sinal
e acha que estou prestes a desmoronar novamente, antes que eu possa contê-lo ele me pega nos
braços e sai comigo do banheiro de forma decidida. Não sei se foi pela firmeza do toque, pelo cheiro
amadeirado do seu perfume que invade o meu corpo me desestabilizando ou pelas palavras de
consolo sussurradas próximas ao meu cabelo enquanto me aperta contra seu peito, mas eu cedo,
deitando a cabeça no vão de seu pescoço e fechando os olhos saboreando mais um pouco a sensação
de pertencer a algum lugar.
O pensamento me assusta.
Esconderijos são lugares sujos, remendados. São apenas lugares passageiros que não ganham
quadros na parede nem pintura nova. O outro lugar, aquele em que a gente se assenta, que tem nosso
cheiro e fotos em porta-retratos espalhados se chama lar e eu não sei o que é isso. Segurança para
mim sempre foi ter um teto sobre a cabeça e uma porta com trincas a mais. Sempre foi nunca apagar
as luzes e nem fechar janelas, nunca, em momento algum foi uma pessoa.
Pessoas não são seguras, são ameaças.
Se eu sei disso, por que a cada passo me aninho mais em seus braços? Por que não grito ou tento
me desvencilhar? Por que não peço para que ele me solte e fujo dessa casa enquanto ainda há tempo,
enquanto ainda posso fingir que ele nunca existiu na minha vida? A resposta é simples, eu não
conseguiria mais fingir nem se quisesse. Desde o momento em que ele apareceu correndo no meio da
fumaça com asas cor de bronze saindo de suas costas eu soube: soube que ele era o homem que iria
me salvar.
E, então, um simples abraço faz a fachada começar a ruir

“É claro que a culpa foi sua, foi o seu abraço que tirou a graça de todos os outros.”
(Autor desconhecido)

Augusto

Não pensei exatamente no que estava fazendo quando a tomei nos meus braços e saí com ela
daquele banheiro. Deveria ter pensado. No mínimo, deveria ter imaginado.
Nicholas acordou imediatamente com a nossa comoção, provavelmente nunca esteve próximo a
uma família que age loucamente em meio a um drama, muito menos uma família que tem uma certa
quedinha por ele. Coloquei delicadamente (no meu dicionário quer dizer, de qualquer jeito) Anna
sentada sobre meus travesseiros e me sentei ao seu lado tomando suas mãos das minhas, apertando-as
em uma tentativa patética de fazer com que a menina parasse chorar e grunhir antes de me deixar
surdo ou à beira de um colapso.
O menino ainda tentava despertar àquela altura, esfregando os olhos com as mãos enquanto
bocejava, mas no instante em que olhou para a mãe o sorriso que levava no rosto sumiu trazendo à
tona uma expressão de espanto e um grito, claro, sempre teria que haver um grito. Ele pulou para fora
da cama em um pulo indo se esconder atrás da poltrona próxima à janela e Anna chorou mais, se é
que isso é possível. Suas mãos começaram a tremer entre as minhas pouco antes de ela as tomar de
volta para esconder o rosto mais uma vez.
Novamente, eu repito. Não pensei nas consequências que minhas ações teriam, mas deveria,
realmente deveria ter pensado.
Levantei rapidamente e corri até o garoto me agachando à sua frente e o puxando para um
abraço apertado, suas mãozinhas não tardaram em segurar em meu pescoço e eu o tirei do chão
apoiando sua cabeça com uma das mãos enquanto ele soluçava no meu pescoço. O levei até minha
cama e o coloquei de pé, o desprendendo de meu corpo.
— Olhe para mim, guri. — Ele levantou a cabeça e me fitou apavorado, seus olhos estavam
vidrados nos meus, provavelmente estava fazendo um esforço enorme para não movê-los até sua mãe
ou o que ele pensava que ela havia se transformado. — Shhh, está tudo bem, Nick.
— Não, não tá, Monsto. — Soluça, funga, funga, limpa o nariz na minha camiseta antes de jogar
as mãozinhas em volta do meu pescoço outra vez. — Mamãe é que virou um monsto agora. —
Crianças, sempre tão sinceras. Tenho vontade de tapar a boca dele, mas é inútil, as palavras já
saíram e o murmúrio alto e sofrido de Anna indica que ela ouviu cada uma delas.
— Ela ainda é sua mãe. Apenas machucou o rosto no acidente, vai sarar — os gritos que Anna
dá porque obviamente sabe que estou mentindo assustam mais o menino, que começa a gritar também.
Meu primeiro instinto é tapar os ouvidos e sair correndo, o segundo é mandar os dois calarem a
porra da boca, mas não faço nada disso. Apenas olho para minha irmã e para minha avó, ambas
prostradas na soleira da porta, agarradas uma a outra. Bárbara me olha com os olhos rasos de água
de maneira desesperada, já minha avó faz um aceno imperceptível para que eu resolva a situação.
Seu olhar é um mistério para mim, um misto de pena e esperança que não entendo. Nem tenho tempo
de tentar entender, já que estou ficando maluco com tanto barulho.
Penso rapidamente e decido cuidar do garoto primeiro. O chacoalho até que fique quieto e
pouse seu olhar assustado no meu olhar duro.
— Chega, Nicholas! — ralho segurando seus ombros, é o suficiente para que ele pare de chorar
e vire uma estátua. — Precisamos que você seja um mocinho agora. — Sabe-se lá Deus o que isso
significa, mas pareceu fazer sentido porque ele afirma positivamente esfregando as lágrimas da
bochecha com as costas da mão descuidadamente. — Vá até lá e peça desculpas para sua mãe. —
Ele não se mexe, apenas me olha de maneira apreensiva como se preferisse colocar um dedo na
tomada. — AGORA! — ordeno incisivamente.
— Descupa, mamãe — diz assim que para em frente a Anna, seus olhos estão em seus tênis e os
dela ainda escondidos sobre os dedos. Não, ainda não está bom. Ando até eles e me sento ao lado
dela puxando o menino para o meu colo e o sentando em meu joelho. Gentilmente ergo o queixo da
menina até que ela levante o olhar.
— Vamos resolver isso, eu te prometo. Mas não chore mais, está bem? Eu sei que é difícil, sei
que é torturante se olhar no espelho e não se reconhecer, mas você ainda é a mesma menina que era
antes do acidente. Nada mudou, Anna. — Para minha surpresa, ela ri. Descontroladamente e
debochadamente. Ela ri tanto que chora mais.
— Você tem razão, sou a mesma menina ferrada, a única coisa que mudou é que agora todos
podem ver por fora o que eu sou por dentro. — Suas palavras são um divisor de águas e acabam por
partirem algo dentro de mim. Até então eu estava atuando, representando um script escrito pelos bons
modos. Estava agindo como se era esperado de mim fazendo exatamente o que eu achava que
amenizaria a situação. Quando aquela sentença saiu de seus lábios, foi como se as cortinas tivessem
fechado e eu tivesse que sair do papel e ser eu mesmo. O que eu senti não foi pena, foi carinho.
Inexplicavelmente eu quis conhecer cada uma das cicatrizes que ela tinha por dentro e quis consertar
cada uma delas.
Estiquei minha mão livre por trás das costas daquela menina marcada e a puxei de encontro a
meu peito, ela veio sem reclamar, outra eu apertei mais nas costas da criança que se agarrava ao meu
pescoço e foi assim. Foi exatamente assim que eu percebi que estava mesmo fodido. Porque eu senti
que ali, dentro daquele abraço carente e angustiante, era a porra do meu lugar.
— Vou pegar um copo de água com açúcar, talvez ajude. — Até eu escutar a voz incerta da
minha irmã, não tinha notado que apenas os soluços abafados da garota preenchiam o silêncio. Me
afastei dela em um ímpeto e me levantei colocando o menino sentado ao seu lado, ela o agarrou e se
prendeu a ele me fitando com seus olhos de vidro. Tudo o que eu consegui enxergar naquele olhar foi
abandono e gratidão. Rapidamente sua postura mudou, ficou mais firme, mais rígida e mais centrada.
Os olhos antes de vidros voltaram a se transformar em espelhos e, então, foi a vez de eu ver o que
meus próprios olhos mostravam, eram sentimentos diferentes dos seus, provavelmente
arrependimento, culpa e ultraje — esse último pelas minhas atitudes não convencionais —, o que eu
tinha na cabeça em tentar confortá-los?
Aquele não era eu. Alisei a calça jeans com as mãos, mais pelo prazer de ter algo que fazer do
que incomodado pelo suor frio que começou a escapar delas e me voltei para minha irmã
concordando com sua ideia.
— Seria bom. Obrigado, Babi — agradeci. Ela fez um aceno e saiu às pressas do quarto. Para
evitar olhar para Anna olhei para minha avó. Ela sorria. Por um momento eu me enfureci, quis lhe
perguntar aonde estava a graça nessa tragédia, será que ela tinha mesmo visto o rosto desfigurado
daquela menina? Mas não foi preciso, o motivo do sorriso não tardou a aparecer. Ela me deu as
costas e começou a caminhar pelo correr sem me dirigir uma única palavra, fui atrás dela, mesmo
sem saber o que dizer. Também não precisei dizer nada.
— Acho que você deveria conversar com Ian e pedir alguns dias de folga, querido — sugeriu
ainda com o sorriso de canto de boca dançando nos lábios antes de sumir pela porta aberta do quarto
do Gustavo.
— O quê? Por quê? — perguntei confuso seguindo-a de perto.
— Porque eu estou indo para casa — anunciou pegando a mala do chão e jogando-a na cama,
ela a abriu e começou a andar pelo quarto jogando seus pertences espalhados de qualquer jeito em
cima das roupas ainda dobradas enquanto eu permanecia em pé olhando-a, embasbacado. — Não
precisa me olhar com essa cara de assustado, você ainda pode me ligar se precisar de mim.
— Por quê? Por que você está indo embora e me deixando para lidar com aquilo — Aponto
para uma parede qualquer, ela sabia exatamente do que eu falava. — sozinho, vovó?
— Não seja tão dramático, garoto — diz, rindo. Ela ri. Não acredito que ela ri. Que tipo de avó
maligna eu tinha? — Quem vê pensa que eu estou te abandonando no Jurassic Park e fugindo em um
jato enquanto te dou tchau pela janelinha.
— É mais ou menos assim que me sinto — murmuro pensando se devo amarrá-la ao pé daquela
cama e obrigá-la a não me abandonar.
— Você não precisa mais de mim aqui — diz sabiamente fechando a mala com todos os seus
pertences dentro.
— Preciso — afirmo incisivamente. —, preciso sim. — Ela apenas balança a cabeça e me
contempla outra vez com o sorrisinho que um dia achei encantador, mas que hoje passo a odiar. —
Por quê? — é minha única e verdadeira pergunta.
— Porque amanhã é dia de bingo. — Ela bate palmas como se estivesse animada, como se um
jogo idiota fosse mais importante que o apocalipse que eu estava vivendo.
— Eu estou falando sério, dona Eva. — Passo as mãos pelo rosto, indignado.
— Eu também. — Ela ri de novo. Estou perdendo o bom humor, a qualquer instante vou ter um
ataque que nem aquelas crianças remelentas e insuportáveis tem nos corredores dos supermercados.
— Além disso, estou indo embora porque vi com meus próprios olhos que você está mais do que
capacitado para lidar com aquilo — Aponta para a mesma parede que apontei segundos antes, a
parede oposta de onde estão Anna e o menino. — sozinho.
— O que te fez pensar isso? Você não poderia estar mais errada. — Sei que estou parecendo
desesperado, mas não posso evitar.
— Você abraçou aquela menina — responde com tanto orgulho que pareceu que eu havia
ganhado um Grammy e não passado os braços de forma desajeitada em volta de uma garota qualquer.
Reviro os olhos. — Quando foi a última vez que você abraçou alguém com a intenção de consolar
essa pessoa, pelo simples fato de achar que um abraço iria curar alguma coisa? — Penso demais
para responder e ela balança a cabeça indicando que não preciso fazê-lo. — A resposta é nunca,
Augusto, você nunca fez isso. Pelo menos, não com ninguém que não seja da nossa família e não que
eu saiba.
— E o que isso tem a ver com alguma coisa? — pergunto confuso.
— É o que vamos descobrir — diz pegando a mala nas mãos, me dando um beijo na bochecha e
saindo pela porta.
Se antes eu achei que estava fodido, nem queira saber como me sentia agora!
Uma história sobre cavalos

“Eu não cresci com a fantasia


que o homem da minha vida
chegaria em um cavalo branco.”
(Renée Zellweger)

Anna

Estou me sentindo uma idiota. Além de estar me sentindo horrivelmente feia, mas isso é assunto
para outra hora, nesse momento quero me concentrar no idiota mesmo. Por que deixei que ele me
puxasse? Por que fui como um cordeiro saltitando indo para o abate direto para seus braços? Por que
enterrei meu rosto desfigurado em sua camiseta cara e chorei minhas lágrimas de sangue encharcando
o tecido bonito? Não sei, não sei a resposta para nenhuma das perguntas que faço a mim mesma, só
sei que tudo o que senti quando ele se afastou rapidamente com os olhos arrependidos foi que sou
uma grandessíssima idiota.
Regras, eu tenho regras. Não é porque da última vez elas não resolveram nada que vou
abandoná-las, sou persistente e tenho regras. Regras que regem a minha vida. Preciso me lembrar de
NÃO CONFIAR, grito dentro da minha cabeça repetidas vezes, quem sabe assim eu faça a porra do
que meu amigo Transtorno Obsessivo Compulsivo me manda fazer sem hesitar.
Tento me recompor o máximo que posso até um deles voltar para o quarto, estou agarrada a
Nick como se ele fosse meu paraquedas e eu estivesse em pleno voo livre despencando a toda
velocidade no chão de concreto, seu corpo está rígido por baixo do meu e sei que ele está com medo.
Algo que eu jamais pensei em ver, ele com medo de mim...
— Filho, olha pra mim, por favor. — Ele não olha. — Nick, eu ainda sou a mamãe, só meu rosto
que não é mais o mesmo. Vamos ter que nos acostumar a isso, como já nos acostumamos a muitas
coisas ruins antes, tudo bem? — Ele ainda não me olha, mas afirma positivamente com a cabeça. Já é
um começo.
— Eu trouxe sua água, você está se sentindo melhor? — pergunta Bárbara entrando no quarto
com um copo das mãos. E lá vamos nós para mais uma gentileza.
— Estou, obrigada. — Claro que não estou, cacete, ela não está vendo minha cara? Bom, não,
não está. Eu ainda estou escondendo o rosto com a palma de uma das mãos, com a outra pego o copo
e o deposito no criado-mudo sem dar ao menos um gole.
— Anna, querida — diz dona Eva também passando pela porta, ela contorna a neta e se abaixa
me abraçando, respondo sem jeito. Não quero mais abraços, obrigada! — Vim apenas me despedir.
— Se despedir? — pergunta Bárbara com um levantar de sobrancelhas. — Achei que você ia
ficar cuidando da Anna... — ela não termina, sua avó a corta.
— Não, Augusto pode fazer isso, amanhã é dia de bingo. — Nossa, que lisonjeiro! Claro que eu
não queria que ela ficasse cuidando de mim como se eu fosse uma criança, mas ser descartada por
um jogo de bingo não era nada animador.
Bárbara olha para mim como se quisesse falar alguma coisa e não gostaria que eu ouvisse, ela
deve estar tentando decidir ser educada e opta por não ser, já que puxa sua avó até a porta antes de
voltar a falar, enquanto isso eu me inclino na cama para tentar ouvi-las.
— Você vai deixar Augusto nessa roubada e vai cair fora? — Ela engasga e se volta para mim
para ver se estou ouvindo, finjo estar interessada nos cabelos de Nick, que afago distraidamente e ela
volta a falar imaginando ser seguro. — Por causa do bingo? Que tipo de bruxa é você? — ela
pergunta isso de forma divertida, o que de fato, não entendo.
— Abraços dizem mais do que palavras, você deveria saber disso. — Ri. — O cavalo, sabe?
— sussurra enigmaticamente. Eles têm cavalos no quintal? Não bastavam os carros caros?
— Augusto não é um príncipe, está mais para a Fera, caso eu fosse compará-lo a um conto de
fadas — murmura. — Ele não é tipo de cara que monta em um cavalo branco... — e resgata a
mocinha, ela não termina, mas já havia dito o mesmo antes. O que abraços e cavalos têm a ver com
Augusto, essa é a parte que não entendo.
— Não, não é. A Fera vem montada em um cavalo alado negro, Bárbara, mas nem por isso ele
deixa de ser um príncipe aprisionado dentro de si. Só é necessário que ele encontre a rosa certa.
— Isso vai dar merda e a culpa vai ser sua, já estou avisando — sussurra Bárbara parecendo
não estar convencida, do que, eu não sei.
— Tchau, Anna, querida. Tchau, Nicholas. Até mais — diz acenando para nós da porta. Penso
em lhe dizer que não haverá um até mais, que provavelmente não vamos voltar a nos ver, mas eu
gosto dela, é uma boa pessoa e não quero magoá-la com minhas palavras nem parecer mal-
agradecida, então aceno e sorrio meio torto porque com a minha cara estragada não consigo sorrir de
forma melhor.
— Você vai embora, vó? — pergunta uma voz conhecida fora da minha visão, onde eu a ouvi
antes? Não é estranha...
— Já, algo envolvendo cavalos e bingo — diz Bárbara de forma divertida. Ele não deve ter
entendido porque ela explica. — Augusto, cavalo branco, no caso negro, você conhece a história.
— Vó, isso vai dar merda — diz o homem, receoso, parecendo ter a mesma opinião de Bárbara.
— Eu disse o mesmo, Ian, mas ela escuta? Não, claro que não — diz entediada.
— Parem de ser tão descrentes, eu nunca erro — diz dona Eva entoando certo orgulho na voz e,
aos poucos, as vozes se afastam e o corredor fica em completo silêncio.
Acabo pegando no sono, acordo assustada. Um pesadelo, tudo foi só um pesadelo. Pisco com os
olhos se fechando de sono e tateio o rosto em busca da confirmação, não, era real, o vinco ainda
permanece em meu rosto como uma parte absurdamente grande de mim, tenho vontade de desabar em
lágrimas, mas estou cansada, já chorei demais. Tateio a cama e não encontro Nick, o que me
desespera imediatamente. Me sento em um pulo, tateando o criado-mudo atrás da cordinha do abajur
antigo, quando encontro e o quarto se ilumina constato o que já sabia, o menino não está aqui.
Onde ele se meteu? Me levanto ainda grogue de sono e pulo feito um coelho drogado até a porta,
paro em frente ao quarto de hóspedes e abro a porta. O lugar está mais iluminado, já que a janela fica
em uma posição em que a luz da lua entra com mais vivacidade. Achei Nicholas, achei também
Augusto. Ele está deitado de barriga para cima com o corpo torto na cama de solteiro com o menino,
meu menino ao lado, agarrado a um dos seus braços. Ambos parecem desconfortáveis, assim como
parecem dormir profundamente. Será que devo acordá-los? Que pergunta mais idiota, sim, claro que
sim. Aquele menino é meu, deveria estar dormindo comigo, mesmo que no momento eu pareça mais o
Freddy Krueger do que com a mãe dele.
Antes que eu possa chacoalhá-los sinto sede, muita sede. Volto a fechar a porta e desço a escada
de bunda até o andar de baixo. Para que tantos degraus, me digam? Pulo até a cozinha e bebo a água
da torneira mesmo. Só depois de saciar a sede me dou conta de que estou na penumbra. Um frio
repentino gela minha pele e arrepia todos — todos mesmo — os pelos do meu corpo. Merda, luzes
apagadas são convites. Convites!
Esqueço de pular, esqueço até meu nome inventado. Me arrasto até o interruptor de luz mais
próximo e o assendo como se estivesse cortando o fio de uma bomba com apenas um segundo para a
explosão sendo mostrado no visor. Antes que eu possa olhar ao redor e respirar com alívio, uma
sombra cruza a sala e eu grito.
Puta que pariu, como eu grito. Grito muito e alto, bem alto, até que uma mão tapa a minha boca
me impedindo de acordar o mundo.
— O que foi, cacete? — pergunta Augusto com os olhos arregalados e o cabelo arrepiado. Não
respondo, ao invés disso soco seu braço uma, duas, três vezes. — Acabou?
— Não, ainda quero socar sua cara, seu idiota! — Estou arfando, completamente trêmula e um
tanto irritada por ele nem tentar desviar dos meus socos e por agir como se não estivesse nem
sentindo.
— Vou perguntar de novo — diz de forma rude e sem humor. —, o que foi?
— Susto. — Apoio a mãos nos joelhos e busco o ar abaixando a cabeça, tudo o que eu consigo
é cair sentada quando meu pé volta a falhar.
— Você é muito teimosa, garota, quantas vezes eu vou ter que falar, não põe essa porra de pé no
chão, senão nunca vai melhorar e eu nunca vou me livrar de você — reclama me puxando do chão
com apenas uma das mãos como se eu pesasse o mesmo que seu travesseiro de penas de... sei lá o
que gente rica põe dentro do travesseiro.
— Eu estou bem — garanto empurrando suas mãos para longe de mim e dando um pulinho para
trás quando ele ameaça me jogar nos ombros feito um homem das cavernas novamente. Pensando
bem, ele não está longe, só falta o porrete e o cabelo sujo!
— Para de ser orgulhosa, me deixa ajudar — pede voltando a estender os braços, mas eu nego
com a cabeça e cruzo os braços. — Ótimo, como você vai subir as escadas, então?
— Do mesmo jeito que eu desci — respondo estufando o peito e pulando até a sala, seguro no
corrimão no momento em que ele pergunta:
— E como seria? — Ele parece curioso e divertido na mesma medida. Também parece estar
esperando que eu falhe e me renda pedindo sua ajuda, o que não vai acontecer, nem que para isso eu
precise dormir no sofá.
— De bunda. — Ele gargalha e cruza os braços me olhando atentamente. Provavelmente devo
estar parecendo ridícula, envergonhada eu tenho certeza de que estou, pois sinto minhas bochechas
corarem. Tento fingir que ele não existe ao subir um a um os degraus o que se torna uma tarefa difícil,
já que sinto seu olhar me queimar.
— Ah, chega, você está sendo patética! — exclama se cansando da minha teimosia, ele desce
um degrau e se abaixa me puxando pela cintura, firma as mãos e me joga sobre os ombros como um
saco de farinha qualquer. Me debato todo o percurso até o quarto de hóspedes e só paro quando ele
me joga na cama acordando Nicholas.
— Vem, guri — diz puxando meu filho pelas pernas, que ri e estica as mãozinhas que Augusto
pega no ar e puxa, tirando-o da cama e colocando-o no chão. —, vamos dormir.
— Onde você pensa que vai com meu filho? — pergunto ultrajada e irritadiça.
— Dormir, você é surda? — Ele não espera pela resposta, simplesmente sai do quarto
rebocando Nick, que parece bem contente por me deixar.
— Espera. — Ele se vira e me encara sem paciência.
— Se quiser ele fica, mas ele vai acabar indo atrás de mim durante a noite de qualquer forma.
Já aprendi que é mais fácil deixá-lo fazer o que quiser. — Ele não parece nem um pouquinho irritado
pelo novo hábito do meu filho, na verdade ele parece alguém que foi derrotado e aceita isso.
— Acho que eu gostaria de ouvir da boca dele onde ele quer dormir — assim que termino de
falar, o sorriso presunçoso volta para seus lábios, ele coloca Nick no chão e o encara à espera de sua
resposta.
Odeio aquele sorriso, odeio tudo nele. Odeio ele. Odeio. Odeio. Odeio.
— Quelo dormi com o Monsto, mamãe — Nick se intromete, ele pelo menos tem a decência de
parecer culpado.
— Boa noite, Anna — canta Augusto com um sorriso de vitória.
— Boa noite, mamãe — diz Nick com um sorrisinho estendendo as mãos para pedir novamente
colo ao Augusto, que faz questão de pegá-lo e me olhar, mais uma vez, com satisfação antes de fechar
a porta.
O policial intrometido

“Não existem segredos na vida, apenas verdades escondidas que ficam sob a superfície.”
(Dexter Morgan – série)

Anna

Não preciso abrir os olhos para saber que não estou sozinha. Aprendi a sentir ao redor. O ar, a
respiração, a presença. Me sinto claustrofóbica ao despertar para mais um dia, sinto como se o
mundo estivesse menor, então sei que estou sendo observada. Não gosto dessa sensação, assim como
não gosto de que ninguém me veja dormir. Tem algo muito particular em observar uma pessoa que
está vulnerável durante o sono. Falta de segurança, essa é a sensação. Uma sensação que já virou
rotina na minha vida, mais do que mudar de calcinha e lavar o cabelo. Uma sensação bem conhecida.
Abro os olhos e giro o olhar pelo quarto parando em uma mulher sentada ao pé da cama. A
boneca, Malibu, se não me engano. Ela está sentada ereta, me observando atentamente.
— Você está acordada — constata Bárbara entrando no quarto, não foi uma pergunta.
— Ela acabou de acordar — responde Vivian com aquele sorriso doce que imagino ser sua
marca registrada.
— Você fez de novo, não fez? — pergunta estalando a língua. — Sabe, amiga, as pessoas não
gostam de acordar com alguém as olhando fixamente, é desconfortável.
— Não é não — diz Malibu se defendendo. — Anna, você acha desconfortável?
— Acho! — exclamo bocejando, minha educação pela manhã ainda não engrenou, ou seja, elas
terão que se concentrar com a Anna verdadeira até mais ou menos depois do almoço.
— Eu disse — murmura Bárbara zombando a amiga, que parece magoada. Mas ela logo se
recupera e ergue uma maleta gigantesca que estava aos seus pés para me mostrar.
— Levanta, temos trabalho a fazer. — Olho para ela interrogativamente e ela suspira. — Vou te
ensinar a cobrir a cicatriz com maquiagem. — Instintivamente cubro o rosto com uma das mãos, o
gesto é automático e volto a sentir vontade de chorar, eu já havia me esquecido dela.
Era tão fácil não lembrar, até porque como alguém se acostuma com algo assim?
— Não precisa esconder de nós, vamos te ajudar a dar um jeito nela — diz confiante, parecendo
culpada pela minha tristeza. Não respondo, não sei o que responder. Nunca usei maquiagem e tenho
sérias dúvidas se essa é a resposta.
— Está tudo bem, Anna, não custa tentar. Por que você não toma um banho, esperamos aqui e
depois podemos deixar a mãos de fada ali fazer seu milagre — sugere Bárbara. Assinto porque não
sei mais o que fazer, sair correndo não seria uma opção embora seja uma vontade.
Olho para a cômoda, as roupas não estão mais em cima dela. Será que Bárbara pegou de volta
ou alguém guardou? Me sinto tímida de repente e me remexo na cama pensando no que fazer.
— O que foi? — pergunta Bárbara, será que realmente me tornei alguém tão transparente assim?
O que aquele acidente fez comigo? Me remexo mais um pouco e respondo:
— Minhas... suas... suas roupas, eu deixei ali — Aponto debilmente para o móvel.
— Vivian! — grita Bárbara repreensivamente.
— Desculpe — pede com cara de culpada. —, ela demorou demais para acordar.
— Você tem que parar com essas manias! — briga colocando as mãos na cintura.
— O que foi? — pergunto mordendo a bochecha.
— Ela arrumou suas roupas, e não tenho dúvidas de que foi por cor e estação do ano. Ela tem
uma pequena, por pequena leia-se do tamanho do Hulk, compulsão por organização. O que você vai
ver, que é bem irritante. — E surpreendentemente eu me pego rindo.
Família de malucos, é isso o que são.
Mas essas duas pelo menos são loucas que sabem exatamente o que fazer com um pincel e
potinhos com pós coloridos. Tenho vontade de pedir que elas parem de me tocar sempre que as
pontas de seus dedos entram em contato com a minha pele. Me encolho instintivamente e faço mil
caretas, mas aguento firme porque se tem uma única chance de não assustar meu filho com a minha
cara feia, vale a pena tentar e quando elas terminam eu não estou nada menos do que surpresa e
encantada.
Claro que a cicatriz continua gritante, mas não parece tão horrenda em comparação aos olhos
com contornos e os cílios inexplicavelmente maiores, nem com a boca cor-de-rosa que vejo no
espelho de mão. É quase como se mexendo e pintando outras partes do meu rosto tivesse dado menos
destaque para a maldade impregnada nela.
— Não chora, vai borrar — aconselha Malibu com um sorriso contagiante. — Você está linda,
Anna. — Fungo, sei que ela está mentindo, mas acabo me sentindo melhor com o elogio. Bem o
suficiente para aceitar descer para o café da manhã sem resistência amparada pelas duas, uma de
cada lado.
Nós três nos sentamos na cozinha e não demoramos em ter companhia. Augusto desce as escadas
pouco depois com o cabelo negro despenteado e olheiras enormes, resmunga alguma coisa que em
nada se parece com um bom-dia e se senta à mesa comentando:
— Vou te contar, aquele menino tem potencial para ser lutador, levei tantos socos durante a noite
que ainda tô me sentindo meio tonto — boceja.
— Se você tivesse deixado meu filho dormir comigo, isso não teria acontecido — murmuro
sarcasticamente feliz por ele não ter tido uma boa noite de sono.
— Não vou culpar o menino por não querer dormir com você, provavelmente ele iria ter
pesadelos com a sua cara. — Meus olhos se arregalam e se enchem de lágrimas. Minha boca está
aberta, mas nenhuma palavra sai de dentro dela, não me arrisco, provavelmente se tentar falar vou
irromper em lágrimas.
O silêncio na cozinha se tornou constrangedor, as loiras o olham embasbacadas, sem reação. Ele
pisca algumas vezes, provavelmente tentando entender o porquê de o clima ter ficado tão carregado
de uma hora para outra, mas é surpreendido por um tapa na parte de trás da cabeça dado com força o
suficiente para ele soltar um grunhido de dor. Encaro a mão que me defendeu e subo o olhar até estar
olhando para um lindo par de olhos azuis faiscantes. O médico, meu médico de olhos bonitos.
— Por que, uma vez na vida, você não cala essa maldita boca? — vocifera com incredulidade.
— O que eu disse de mais? — pergunta defensivamente olhando de Ian para mim, até que seu
olhar recai sobre meu rosto com mais atenção, ele pisca mais algumas vezes e balança a cabeça
como se não pudesse acreditar em sua própria babaquice.
— Eu esqueci — murmura distraidamente se concentrando em pegar uma xícara de café. Fico
alguns segundos esperando pelo pedido de desculpas que ele não me dá, sem saber se eu realmente
choro ou se fico feliz em saber que a maquiagem funcionou surpreendentemente bem a ponto de fazê-
lo se esquecer da minha cicatriz.
Não choro, mas também não comemoro, ao invés disso me pergunto, como ele pode ser tão
insensível? Como ele pode mudar da água para o vinho em poucos segundos. Uma hora age como se
estivesse preocupado, no minuto seguinte me trata como um estorvo. O que mais me irrita é por que,
não o porquê de ele ser assim, mas sim o porquê disso me importar tanto.
— Bom dia, amor. — O médico de olhos bonitos beija Bárbara delicadamente nos lábios. É
apenas um cumprimento, mas não é apenas um beijo. É mais, muito mais do que isso. O cuidado com
que ele se abaixa, segura seu rosto e toca os lábios aos dela em meio a um sorriso torto e depois
desliza a mãos por sua barriga redonda com carinho me faz invejá-la. Faz com que eu entenda que ela
tem algo que nunca tive, algo pelo qual nunca ansiei, mas agora sinto que preciso: ela tem amor.
— Bom dia. — Os olhos dele brilham quando ela fala e seu riso sai fácil, não é contido e sim
espontâneo. Se eu tivesse que descrever o que ela significa para ele diria, tudo. Ela não é menos do
que o mundo dele e, em contrapartida, ela parece dançar à sua volta mesmo sem sair do lugar, como
se ele fosse um imã particular, com os olhos cintilantes e inebriados.
Viro o rosto, estou corando. Sinto como se eu tivesse presenciado uma cena íntima, algo que não
deveria ter visto e me concentro na bainha da minha blusa emprestada como se ela fosse a coisa mais
interessante do planeta. Mas as demonstrações de afeto estavam longe de terem terminado, antes que
eu conseguisse me recompor mais alguém passou pela porta e caminhou até a cozinha: o policial.
— Bê — disse Malibu dando pulinhos e se jogando em seus braços como se não o visse há
dias, sua aparência indicava que ele estava exausto, mas o sorriso que abriu mostrou todos os dentes.
O sorriso não foi para ninguém em especial, a mulher em seus braços não conseguia vê-lo agarrada
ao seu pescoço, foi um sorriso de contemplação, como se o fato de vê-la fosse o bastante para que
ele se esquecesse do que quer que fosse que o afligia. Tenho certeza de que foi o sorriso mais bonito
e sincero que já vi se abrir diante dos meus olhos pelo simples fato de ele nem ter reparado que o
lançou aos quatro cantos do cômodo iluminando o ambiente.
— Bom dia, Vivi — disse se inclinando para trás e beijando seus lábios com vivacidade,
depois se abaixou e plantou os joelhos no chão. — Bom dia, campeão — sussurrou segurando sua
barriga com as duas mãos.
— Vocês me dão nojo — reclama Augusto com desdém. Somente quando ouvi sua voz percebi
que meus olhos estavam cheios de lágrimas e que o medo que senti ao ver aquele homem fardado à
minha frente havia desaparecido, o que eu sentia por ele eram outros sentimentos: um misto de
respeito e curiosidade.
— O que aconteceu com seu rosto? — perguntou o outro irmão, Gustavo, entrando na cozinha a
passos largos, seu perfume tomou conta do lugar fazendo Malibu tapar o nariz e conter uma ânsia de
vômito, não era para menos, o cheiro estava tão forte que eu podia jurar que ele nadou dentro do
frasco. Me encolhi com a pergunta.
— Mais um sem um pingo de tato, agora eu me pergunto: é de família, não é? Só pode ser! —
reclama Ian exasperado.
— Me desculpe, Anna, não quis soar grosseiro. Você está se sentindo bem? — diferentemente
do irmão ele tinha modos e olhos gentis. Fiquei envergonhada, pois todos pararam o que estavam
fazendo para esperarem por minha resposta. Apenas assenti.
— Isso é ótimo, porque eu passei aqui justamente para conversar com você — disse Bernardo
com uma linha rígida vincando a testa, fazendo com que eu previsse que o assunto não seria
agradável. — Podemos conversar lá fora? — Não me mexi, muito menos respondi. Os olhares
estavam se tornando insuportáveis e o medo deveria estar evidente em meu semblante porque Ian
decidiu interferir.
— Tem que ser agora, cara? Ela ainda está se recuperando...
— Tem sim — cortou o amigo abandonando a fachada de homem comum e vestindo a fantasia
de policial, a ordem soou dura, mas as palavras seguintes não. — Precisa de ajuda para caminhar?
— Eu levo ela até lá — disse Augusto afastando a cadeira da mesa, e sendo barrado pela mão
do amigo em seu ombro, mesmo de longe percebi que o aperto foi firme.
— A conversa é particular. — Todos ainda me olhavam com receio quando Bernardo deu a
volta na mesa e me estendeu uma mão, relutantemente aceitei e vi muitos olhares de alívio. O que
eles pensaram que eu faria, correr?
Ele enganchou um dos braços debaixo da minha axila e me amparou até o jardim, contemplei o
lugar, ainda não tinha pisado do lado de fora. Saímos por uma lavanderia e desembocamos em um
espaço aberto. Admirei os canteiros de flores e a fonte no meio do jardim gramado até que ele me
empurrou gentilmente para um sofá branco feito de vime no canto direito e se acomodou em uma das
duas poltronas que faziam o jogo. Deixei que meus olhos fossem capturados pela água que jorrava da
pedra e contemplei a ironia de ver que ela saía pelas mãos de um anjo lindamente esculpido, me
demorei a voltar o olhar para o rapaz à minha frente com medo do que encontraria em seus
inexpressivos olhos verdes, mas fui forçada a me voltar em sua direção de forma surpresa quando ele
quebrou o silêncio.
— Acho que devemos ir direto ao ponto, o que acha Lavínia Andreata? — Arfei.
— Eu não... — Será que adiantaria mentir? Estava claro que ele havia feito a lição de casa, o
que eu precisava saber era o quanto ele sabia.
— Eu não gosto de joguinhos, Anna — frisou o nome que escolhi quando abri os olhos no
hospital. —, então vamos ao que interessa, está bem? — Concordei afirmativamente sem escolha e
morta de medo.
— Tudo bem. — Minha voz soava vacilante.
— O carro que você dirigia no momento do acidente teve perda total, ele foi rebocado até um
ferro velho. Não havia documentação dentro do veículo, mas não foi difícil chegar até um nome, o
seu nome, dada a sua expressão de reconhecimento quando o mencionei, mas você não é mais
Lavínia Andreata, não é? Agora você é a Anna, já pensou em um sobrenome?
— Não. — Enrosquei as mãos uma na outra e as pousei no colo para que ele não as visse tremer
e tentei parecer o mais neutra possível.
— Sugiro que pense, por ora. Augusto parece ter desenvolvido... não dá para chamar de
sentimento de proteção, na verdade não sei exatamente do que chamar, responsabilidade talvez, por
seu filho. Então, em respeito a ele não vou ser precipitado e te algemar nesse momento com o
pretexto de falsidade ideológica e te arrastar até a delegacia da forma mais humilhante possível, vou
lhe dar o benefício da dúvida, vou deixar que você se explique... — Aquela pareceu a minha deixa,
mas o que eu diria? Fico muda e desvio o olhar, ele espera...
— Não é tão simples, eu...
— Eu tenho neste momento alguém da minha confiança na porta do prédio que você morava em
São Paulo — conta como quem não quer nada, eu me empertigo no lugar.
— Você não pode fazer isso sem um mandado — ralho me traindo. É exatamente o que eu não
deveria ter feito, contestado. Só quem se importa com os detalhes é quem tem algo a esconder e, por
mais que ele e todos dessa casa saibam que eu tenho o que esconder, não posso admitir.
— Tecnicamente sim, se a pessoa fosse um oficial da lei. Mas creio que meu informante será
muito convincente em convencer o senhorio a abrir a porta de seu apartamento se utilizando de uma
desculpa no mínimo aceitável.
— Imagino que sim — murmuro sarcasticamente. Policiais, sempre conseguindo o que querem.
Os fins justificam os meios, não é?
— Então eu vou te dar algumas opções — diz como se estivesse me fazendo um favor e talvez
realmente esteja, mas já estou muito calejada para acreditar nele sem desconfiança. — Você pode me
contar de antemão o que ele vai encontrar e podemos discutir os rumos que podemos tomar a partir
daí.
— Ele não vai...
— Anna, eu disse que não gosto de jogos e não estava brincando — me corta de forma dura. —
Estou tentando ajudá-la e não por você, que fique claro, estou fazendo isso por Augusto. Mas estou
ficando realmente cansado de tentar lhe provar que pode confiar em mim. Se você tem algo a
esconder e precisa de ajuda policial ou se está devendo algo judicialmente é o momento certo para
me contar e eu prometo que farei o possível para que as consequências sejam menos dolorosas.
— Ele vai encontrar documentos, apenas isso — solto em um impulso. Claro que não confio
nele, mas sei admitir quando estou na merda e, dessa vez, estou enterrada até o pescoço nela.
— Que tipos de documentos? Documentos que comprova um crime? Documentos falsos? Que
tipo, Anna? — pergunta cruzando os braços, qualquer traço do rapaz gentil que eu respeitava
desapareceu, agora ele era somente um policial, um policial sentado em frente a uma suposta
criminosa. O nojo em sua expressão é o suficiente para que as lágrimas escapem dos meus olhos, no
começo lentamente, mas elas se intensificam quando lhe respondo.
— Não posso... — Soluço. — Desculpe.
— Se você quer ajuda precisa me dar alguma coisa, garota. — Levanto o olhar esperando pela
perspicácia e malícia de uma chantagem, mas não é isso que encontro. Ele parece preocupado e
astuto. Parece alguém chateado por ter descoberto que sua intuição parece estar certa, sua mão desce
até a cintura e se apoia no par de algemas presa ao cinto e eu me desespero. Não porque não quero
que meu filho me veja ser algemada, não quero deixá-lo sozinho ou passar pelo trauma de ir parar em
um abrigo. Nada disso importa, o que importa é ele... ele vai encontrá-lo em um piscar de olhos e
quando eu não estiver mais ao seu lado ninguém poderá protegê-lo.
— Eu não posso — grito me desestabilizando emocionalmente. —, não posso. A única coisa
que você precisa saber é que não sou uma criminosa, eu só precisava fugir.
— De quem? Um marido? Um traficante? Um agiota? De quem, Anna, de quem você foge? —
pergunta agarrando meus pulsos com firmeza.
— Eu vou te dar algumas opões — o imito engolindo o choro e o olhando de maneira fria. —,
você pode me prender e me interrogar na delegacia e acabar com a minha vida ou pode me dar
aquele benefício da dúvida sobre o qual falava e me deixar em paz. Eu vou melhorar e vou embora
da vida de vocês, será como se eu e meu filho nunca houvéssemos existido. Eu não sou uma ameaça,
Bernardo.
— Sabe que não posso, Anna — lamenta parecendo verdadeiramente triste. —, eu sinto muito.
— Eu também sinto, porque se você colocar uma algema nos meus pulsos e me tirar de perto do
meu filho estará assinando o atestado de óbito dele. — Seus olhos se arregalam e sua boca se abre,
mas não permito que fale. —, isso é tudo que você vai arrancar de mim policial.
Ele não tem tempo de responder, porque o toque do seu celular nos interrompe. Ele ainda parece
chocado ao atender, cumprimenta quem quer que seja que está do outro lado da linha e escuta por
cerca de um minuto o que essa pessoa tem a dizer, depois agradece e encerra a ligação parecendo
confuso.
— Não havia nada no apartamento.
— O quê? — Quem está confusa agora era eu.
— O senhorio disse que um homem se apresentou como seu amigo, entrou no apartamento por
alguns minutos e saiu pouco depois com as mãos vazias anunciando que ele poderia fazer o que
quisesse com todos seus pertences. — Ele fica pensativo como se estivesse diante de um enigma
interessante. — Sabe quem é esse homem, Anna?
— Não — minto descaradamente.
— Também não sabe quem é o homem que tentou te matar, não é?
— Não, eu não sei. — Ele parece decepcionado comigo, volto meu olhar para meu colo ao
murmurar: — Ainda vê necessidade em me interrogar?
— Não há nada que eu possa fazer sem provas, então não. — Ele sorri fracamente e eu sou
invadida por um jorro de alívio momentâneo. — Mas vou estar de olho em cada um dos seus passos
de agora em diante.
— Não tenho dúvidas disso. — Fico de pé e dou alguns pulos me afastando dele quando me
lembro de um detalhe. — Podemos manter meu nome apenas entre nós? — Ele concorda receoso e
me surpreende ao perguntar:
— Tem chances de ele te achar, ele é bom nisso? Augusto está em perigo? Todos nessa casa
estão? — Me volto para ele, no seu olhar encontro apenas preocupação. Penso por um instante em
qual resposta vou lhe dar, se vou mentir ou não. Por um lado, eu sinto que deveria dizer a verdade,
ele pode proteger essas pessoas que foram tão acolhedoras comigo e meu filho, mas por outro não
quero me arriscar, porque além delas meu segredo também mora dentro dessas paredes.
Se eu tivesse que sacrificá-los um por um para manter Nicholas a salvo, eu faria isso.
— Não sei sobre quem você está falando. Já disse que o acidente foi algo isolado e quanto a
pessoa da qual eu fujo, bom, ele não representa risco algum para ninguém. Não há com o que se
preocupar, policial.
As mentiras queimam como ácido no céu da minha boca quando me aproximo do vidro que
cerca a lavanderia e encontro Augusto na porta de braços cruzados, assim como Bernardo. Em seus
olhos vejo apenas preocupação e o vinco em sua testa quando olha do meu rosto para meu pé
machucado sugere que o motivo da preocupação sou eu. Tento não desabar emocionalmente mais uma
vez, quando ele sai de seu posto e caminha ao meu encontro agarrando minha cintura com agilidade
me ajudando a entrar na casa.
Como se não bastassem as mãos fortes que me amparam, mãos que já se tornaram conhecidas e
familiares também tive que lidar com mais remorso e uma sensação terrível de culpa que se instalou
no fundo da minha garganta pronta para me sufocar devido ao fato de Bárbara ser tão atenciosa,
Malibu ter um sorriso tão doce, Gustavo ser sempre prestativo e Ian fazer o possível para ser gentil.
Eu os estava condenando, todos eles.
Eu ainda estou aqui, não estou?

“O que quer que você faça na vida será insignificante. Mas é muito importante que faça, porque
ninguém mais fará. Como quando alguém entra na sua vida e metade de você diz: ‘você não está
preparado’ e a outra metade diz: ‘torne-a sua para sempre’.”
(Lembranças – filme)

Augusto

Giro a garrafa de cerveja nas mãos olhando por cima do ombro de Ian para Anna, sentada ao
sofá junto com minha irmã e Vivian, as três estão assistindo a algum desenho bobo que Nicholas quis
ver, ela é a única que parece não estar se divertindo. Suas expressões parecem todas atrasadas, ela
demora para responder as perguntas e é sempre a última a rir depois que todos os demais gargalham
de alguma cena engraçada, é quase como se ela estivesse representando, imitando as pessoas a sua
volta para não parecer desfocada, mas na verdade estava em outro lugar.
Ela está estranha desde que conversou com Bernardo. Mudo o foco e olho para ele sentado ao
lado de Ian, quase à minha frente, ele também tem o olhar perdido. Será que ambos estão pensando na
mesma coisa?
— Como foi a conversa? Descobriu alguma coisa? — pergunto cansado de esperar que ele nos
conte de livre e espontânea vontade. Ele demorou vários minutos para voltar à cozinha e desde então
se mantém calado deixando claro que não pensa em dividir os assuntos discutidos com ninguém.
— Não, nada — diz arrancando o rótulo de sua própria garrafa distraidamente.
— Ela continua mantendo sua versão de que não conhece o motorista, não é? — Ela é alguém
difícil. Começo a acreditar que ela vai embora e nos deixar sem nenhuma resposta concreta.
— Sim, mas ela está fugindo de alguém, então duvido que o acidente tenha sido uma mera
coincidência — comenta sem dar a entender se vai ou não continuar o assunto.
— Isso eu já tinha imaginado. Ninguém pega uma estrada tão longa sem bagagem por diversão, a
questão é de quem ela foge? — penso alto.
— Pode ser do pai do menino — diz Ian distraído. —, de um namorado ou de qualquer outra
pessoa, não há como saber. Não deveríamos especular. — E não é exatamente isso que ele está
fazendo?
— Ian tem razão, mas não consigo parar de pensar em uma única pergunta. — Bernardo faz uma
pausa e esperamos que ele nos fale em silêncio. — Se o acidente não foi coincidência e ele
realmente a encontrou uma vez pode fazer de novo, então a única pergunta com a qual devemos nos
preocupar é se estamos seguros com ela e o menino aqui, eu não tenho certeza...
— Esse tipo de especulação é que não vai levar a lugar algum, não vou expulsar uma menina
que mal consegue andar e ainda está se recuperando de uma cirurgia cardíaca com uma criança
pequena porque sou covarde — digo defensivamente, Ian ergue a cabeça e me encara com os olhos
curiosos.
— Augusto, você é o que menos me preocupa, sabe se cuidar. Na verdade, estou preocupado
com minha esposa grávida andando por essa casa e brincando de maquiadora de uma mulher que
pode ser uma criminosa, no mínimo ela é uma estranha. Estou preocupado com a sua irmã que mora a
uma porta de distância e também está vulnerável, uma irmã que já passou por uma situação fodida
pra caralho. Você não pode pensar somente nessa menina e na criança, deve pensar primeiro na sua
família.
— Eu entendo seu ponto de vista, Bê, mas está errado — diz Bárbara parada na entrada da
cozinha, ela não parece envergonhada por estar escutando uma conversa para a qual não foi chamada,
ela caminha até Ian e se prostra às suas costas envolvendo seu pescoço com os braços. — Nós não
somos assim, nenhum de nós, então não julgue meu irmão. Anna agora faz parte das nossas vidas, se
vai ser por alguns dias, meses, anos, quem sabe? Não faz diferença, não abandonamos ninguém do
time.
— Ela não é da família, Babi, é uma estranha. Uma mulher que tem um passado sobre o qual não
conhecemos. — Está nítido o desconforto de Bernardo em discordar da minha irmã, mas ele parece
irredutível, em contrapartida tenho vontade de abraçar Bárbara por ela ser essa idiota iludida que me
defende até mesmo quando não mereço. Ela pode berrar comigo por horas a fio que eu fui imprudente
em ter ajudado Anna, pode julgar e reclamar, mas não vai deixar mais ninguém fazê-lo. Se conheço
minha irmã, ela abraçou a causa perdida que aquela menina marcada era, assim que colocou os olhos
nela. Mas Bernardo tem razão.
Eu posso estar colocando minha família em perigo, eu já havia pensado nessa possibilidade
muito tempo antes que ele levantasse a questão, mas não consigo me obrigar a agir em cima dessa
teoria. Não consigo me imaginar deixando uma mulher incapacitada e uma criança pequena
desprotegidos. Por que não, porra? Por quê?
— Ela é alguém que precisa de ajuda, se ela parou na nossa porta, ou no caso, quase morreu na
frente do Augusto, eu acredito que tenha um propósito — diz firme.
— Ian, pelo amor de Deus, me ajuda — pede Bernardo exasperado.
— Não dessa vez — diz Ian balançando a cabeça negativamente, ele parece contrariado, mas
também decidido. — Bárbara tem razão e, além disso, eles são importantes para o Monstro... —
deixa a frase morrer se virando para olhar por sobre seu ombro para Anna brincando com Nicholas
no chão da sala e voltando seu olhar para mim, esperando que eu negue sua afirmação. Tenho a
sensação de que ele concorda em número e grau com tudo que Bernardo disse, assim como percebo
que ele está do meu lado não pela razão e sim pelo sentimento, ele está me protegendo, mas do quê?
Na última vez que ele disse essa mesma sentença senti um ímpeto descontrolado em negar,
mesmo que fosse com um balançar de cabeça, mas não dessa vez. Dessa vez percebo que ele tem
razão, esse é o único motivo pelo qual eu estava de bom grado colocando pessoas que eu amava em
risco, porque eles eram sim importantes para mim. De que forma eu ainda não sabia, mas não tinha
dúvidas de que iria descobrir.
— Preciso de uns dias de folga para cuidar deles, tudo bem por você? — pergunto para Ian
desconfortavelmente. Surpreendo a todos que estavam provavelmente esperando que eu negasse a
afirmação de Ian.
— Claro, você tem milhares de dias de férias vencidos — concorda puxando minha irmã pelo
braço, afastando a cadeira e a colocando sentada em seu colo. — Oi, garoto — diz com a mão
pousada em sua barriga, vejo-a pular de onde estou sentado. Tenho o impulso de me levantar e
esticar a mão sobre a mesa para sentir o monstrinho deles se mexer, mas me freio, já estou enviadado
o suficiente depois dessa conversa de merda.
— Alguém sabe onde está o Gustavo? Não vi ele sair — mudo de assunto cerrando os punhos e
desviando o olhar da barriga da minha irmã, percebo tarde demais que puxei o assunto errado.
— Nem eu, o Mala está fazendo muito isso ultimamente! — exclama Bárbara pensativa e
curiosa. Acabei de foder meu irmão, eu realmente era ótimo nesse lance de mudar de assunto porque
ela emenda. —, tenho a sensação de que ele está escondendo alguma coisa, não vejo mais ele em
casa e o que foi aquele banho de perfume barato?
— Bom, esse é só mais um dos mistérios dessa casa, não é? — diz Bernardo me olhando feio. O
que eu acho interessantíssimo já que denota que ele está mais por dentro do segredo do meu irmão do
que eu e Bárbara juntos. Olho para Ian, que ergue as sobrancelhas percebendo o mesmo que eu.
— Esse é um que eu posso garantir que vou descobrir — Bárbara parece tão compenetrada e
concentrada quando lança sua sentença quase tanto quanto fica quando está assistindo um episódio de
CSI. Coitado do Gustavo, fecho os olhos lamentando o que está por vir.

***

A primeira coisa que noto na manhã seguinte é que estou sozinho, a segunda são os gritos. Passo
a mão pelo colchão vazio ao meu lado no exato momento em que Anna berra no andar de baixo. Em
questão de milésimos de segundos estou correndo pelo corredor vestindo apenas uma cueca boxer. O
ato de descer as escadas permanece um borrão, como se eu me visse apenas voando por cima dela e
aterrissado na sala de estar, olho ao redor e a avisto jogada ao chão, puxando Nick para seu colo de
forma protetora. Ele tenta se desvencilhar de seu aperto de forma obstinada, mas ela não o solta.
— O que está havendo? — pergunto correndo até eles.
— Sai, sai daqui! — berra. Mas não é para mim, sua atenção está voltada para algo escondido
embaixo da mesa, algo que não consigo ver até estar bem perto. — Não sai de perto de mim, filho —
ordena amedrontada.
— Você quer fazer o favor de parar de assustar o cachorro, porra? — Anna tenta em vão afastar
Vitório com o pé enquanto aperta Nick contra o peito. O pobre coitado está acuado embaixo da mesa
sem ter para onde fugir. Quando me vê, abana o rabo e encara Anna de rabo de olho como se
dissesse: “Quer fazer essa mulher maluca parar de me ameaçar?”. Se Bárbara visse a cena, meu
sobrinho nasceria antes da hora, aquele cachorro era muito importante para ela. Não duvido que
fosse até mais importante que Ian.
— Augusto, ele entrou aqui do nada, ele... — Vitório, enfim, cria coragem e se levanta, mas
volta a deitar quando Anna berra apavorada novamente.
— Para, mamãe, é só o au, au — geme Nick, como se estivesse envergonhado por sua atitude.
— Anna, o cachorro não é uma ameaça. — Ela me olha como se não acreditasse e se volta para
Vitório novamente, sigo seu olhar e vejo que o que mais chama a atenção no cachorro são os dentes
que reluzem quando ele faz careta e coloca a língua para fora. Tenho vontade de rir, porque parece
que ele o faz apenas para assustá-la mais. Sendo o animal de estimação de quem é, eu realmente não
duvido. — Ele é da Bárbara e é mais mulherzinha que uma poodle.
— Ele entrou e veio direto para cima do Nicholas, eu... — Ela parece aturdida e desconfiada,
mas acaba soltando o menino que corre em direção ao cachorro, ela fecha os olhos por um momento
e suspira aliviada quando os reabre e vê que o menino ainda não foi devorado. — eu apenas me
assustei...
— Vem, levanta — ordeno estendendo uma mão, que ela gentilmente recusa se escorando na pia
até conseguir se colocar de pé sozinha. Ela ergue um pouco o pé machucado e dá dois pulinhos até
chegar próxima à mesa, arrasta uma cadeira e se joga nela. — Está tudo bem, isso é normal por aqui.
Olha — peço pegando o saco de pão de cima da mesa e jogando em cima da geladeira com força o
suficiente para acertar meu alvo.
— Miauuuu! — geme Victoria contrariada, ela arqueia as costas e anda até a beirada da
superfície da geladeira para me olhar feio, franze os dentes deixando-os à mostra, me dá as costas e
volta a deitar como se estivesse em casa.
— Como eu disse, esse tipo de coisa é normal por aqui. Eles entram, roubam comida, dormem e
se apossam — explico me afundando na cadeira ao lado dela, ainda olhando a bola de pelos folgada
ressonar. Tão, mas tão iguais minha irmã.
— Ele também é da Bárbara? — pergunta desconfortável, puxando assunto.
— É ela, Victoria. Não, ela é do Ian. Não precisa se preocupar com ele, mas eu ficaria atenta às
suas coisas, Vitório é conhecido por destruir tudo o que toca com os dentes — Ela se enrijece no
lugar e eu completo. — menos humanos. — Ela inclina o corpo e olha embaixo da mesa, eu faço o
mesmo. Nick está deitado em cima de Vito coçando sua barriga. Anna se reergue e assente
confirmando que entendeu que não há perigo.
Quando me volto para ela, Anna está sorrindo, mas endurece as feições quando percebe que
notei. Em um piscar de olhos ela muda, parece triste deixando seu olhar se perder ao longe e dentro
de seus próprios pensamentos. Aproveito sua distração e a encaro.
A cicatriz está muito mais aparente hoje sem a maquiagem que se perdeu durante o sono. O
vinco em sua bochecha é fundo e se eu não a tivesse visto quando seu rosto ainda era liso,
provavelmente não a acharia bonita, mas eu vi. Uma imagem dos seus cabelos voando ao vento e dos
olhos que tudo podiam ver invadem minha mente e quando volto a firmar o olhar voltando para a
realidade continuo achando-a linda, mesmo que esteja marcada.
Eu vejo a menina que tem por baixo de toda a dor e ela me fascina.
Seus cabelos negros estão amarrados em um rabo de cavalo desleixado e ela ainda veste a
roupa da véspera. Uma camiseta que já vi minha irmã usando diversas vezes e que Anna parece
nunca tirar. Mas nela fica diferente. Ela não tem curvas, nem seios, muito menos a graciosidade das
mulheres as quais estou acostumado. Anna ainda tem o corpo de uma menina, sem quaisquer atributos
chamativos, mas não deixo de pensar que é o corpo perfeito para ela. O corpo que embeleza o
conjunto denotando sua juventude e mesmo contra todas as expectativas ele me atrai.
Quando percebe meu olhar, ela cora. Puxa o laço do cabelo com agilidade e encobre o rosto
com ele, tentando esconder a cicatriz. Não sei como é viver escondida atrás de uma máscara,
sabendo que as pessoas te olham com pena e repulsa, mas posso imaginar que para alguém que
parece não gostar de ser notada é um martírio. Tento livrar meu semblante de qualquer expressão que
possa ser encarada como vexatória, mas não desvio o olhar.
— Você pode parar, por favor — pede impaciente embolando as mãos umas nas outras em um
sinal claro de apreensão por cima da mesa.
— Parar com o quê? — Ergo as sobrancelhas.
— Parar de me olhar como se eu fosse um espécime raro criado por algum experimento bizarro.
— Ela tenta manter a raiva no tom de voz, mas trai quando as palavras saem trêmulas e
entrecortadas.
— Não. Eu olho para onde eu quiser e, além disso, é melhor você começar a se acostumar com
os olhares. — Sua boca treme ligeiramente e eu mordo a língua.
— Já pensou alguma vez que você não deveria dizer tudo o que se passa na sua cabeça? —
pergunta desviando o olhar, ela encara a mesa e morde a bochecha.
— Gosto de ser sincero — Dou de ombros. —, você não gosta de pessoas sinceras, Anna? —
alfineto propositalmente. Não sei por que meu mecanismo de defesa sempre liga no modo “seja um
filho da puta” quando estou perto dela, mas é algo que não consigo evitar.
Ela fica em silêncio e me ignora. Ok, acho que mereci. Me distraio me servindo de uma xícara
de café e quando volto a prestar atenção nela, seus olhos estão cheios de lágrimas.
— Eu só acho que você deve se preparar porque as pessoas são curiosas por natureza. Vão
existir olhares e cochichos, muitas vão perguntar o que aconteceu — Dou uma golada antes de
continuar: — Não vai ser fácil, mas você terá que viver com isso. Quanto mais cedo aceitar, melhor.
— Por que você não pode agir como as outras pessoas? Por que não pode tentar evitar olhar ou
falar sobre essa merda? Por que é tão importante esfregar na minha cara que virei um monstro? — Só
estou tentando ajudar e tudo o que consigo é trazer toda a raiva reprimida dela à tona outra vez.
— Porque eu não sou como a maioria das pessoas.
— Eu percebi, sincero, não é? Vou te dizer uma coisa, Augusto. Você não é sincero, é rude —
cospe.
— Pra mim dá no mesmo. Eu só falo o que a maioria não tem coragem de falar. Essa porra na
sua cara chama a atenção e ponto. Chorar por isso não vai resolver nada.
— Você não entende, não é? — pergunta furiosa. — Claro que não, olha para você.
— O que você quer dizer com isso?
— Você é bonito, bem-sucedido, tem dinheiro, o que falta para você? Nada, nunca deve ter
faltado nada. Provavelmente você sempre teve tudo o que quis na hora que quis. Não sabe o que é ter
que se esconder, ter que ceder ou se anular, você não sabe de nada! — Ela tem razão. Sempre que eu
olhava para minha vida constatava que era perfeita, era exatamente da maneira que eu queria que
fosse, mas inexplicavelmente não me sinto assim agora. Ter ela sob meu teto me enche de
desconfiança e algo mais, uma vontade de fazer alguma coisa por outra pessoa, como se a falta do
que quer que seja que ela sinta também me afetasse, isso me deixa com raiva dela, o que não faz
sentido. Nada disso faz.
Quem era ela para fazer com que eu questionasse minha própria vida?
— Tudo o que eu consegui foi à base de esforço. Em vez de reclamar da vida e viver pelos
cantos murmurando “Oh céus, oh terra” eu fui atrás, menina. Não sou do tipo de que foge que nem
você. — Espero pela explosão, pelos gritos, insultos ou xingamentos, mas não espero pela resposta
que recebo.
— Às vezes, fugir é a única opção — sussurra dando de ombros. — Ser covarde não é algo
ruim se isso for a única coisa que te mantém vivo. Se para isso eu tenho que aceitar a compaixão de
um estranho que me odeia, roupas doadas e olhares de pena, então tudo bem. Porque meu filho ainda
vai estar vivo no final do dia. — Ela nunca me pareceu tão triste e eu nunca me senti tão babaca.
— Você diz como se a qualquer momento ele pudesse não estar — As palavras embolam na
minha garganta. Ela pisca e balança a cabeça em uma negativa, vejo em seu olhar que ela gostaria de
retirar o que disse, mas não pode.
— É só maneira de falar, Augusto. Para algumas pessoas viver não é tão fácil como é para você.
— Por que vocês tão bigando? — pergunta Nick saindo de repente de baixo da mesa. Anna
arregala os olhos e me encara, devo estar com a mesma expressão perplexa que ela. O menino estava
tão quieto que havíamos nos esquecido dele.
— Estávamos apenas conversando. Por que não vamos brincar com o cachorro lá fora? —
sugere se levantando, faço menção de me levantar para ajudá-la, mas ela estende uma mão me
impedindo. — Consigo sozinha, obrigada.
Meia hora depois, os únicos sons audíveis na casa são os risinhos de Nicholas, os latidos de
Vitório e meus pensamentos que não se calam. Repasso nossa conversa na cabeça, repetidas vezes.
Ela tem razão, para algumas pessoas a vida não é tão fácil e não importa o quanto eu pense que
consegui sozinho, com meu próprio esforço, tudo o que eu tenho na verdade é que se eu não tivesse
pessoas fortes como pilares eu nunca teria ido tão longe.
Anna não teve esses pilares e se teve eles se perderam há muito tempo. A grande verdade é que
se pode tirar a menina de dentro do inferno, mas nunca o inferno de dentro da menina. Anna sempre
terá o inferno dentro de si. Sempre terá revolta, tristeza e medo. Anna nunca me deixará chegar perto
o suficiente para perceber que pode confiar em mim.
Mas ela pode.
Ele sabe ser gentil

“Quantas vezes tentei. Já caí, levantei.


É você que me mantém de pé.
Não preciso gritar, você vem me salvar
Você sente quando eu vou chorar.
Parece não ser desse mundo por que você sabe de tudo
Não sei, se é ser humano ou se é um anjo.”
(Ser humano ou anjo – Matheus e Kauan)

Anna

Ele tinha mesmo que descer aquelas escadas voando apenas com uma cueca boxer? Por um
momento me senti culpada porque o cachorro poderia ter devorado Nicholas enquanto eu admirava
suas pernas torneadas e a barriga cheia de gomos. Depois que ele abriu a boca, meu único desejo era
que o cachorro devorasse ele.
Augusto nunca me entenderia. Como podia? Ele nunca foi obrigado a passar fome porque tinha
que dar de comer a outra pessoa. Nunca foi forçado a passar dez dias sob a luz de velas quase sem
dormir com medo do escuro e do que se esconde nele porque não conseguiu pagar a conta de energia
elétrica. Nunca teve que andar duas horas para chegar ao emprego porque a gasolina tinha se tornado
um luxo enquanto o leite e fraldas eram uma necessidade. Duvido que algum dia na vida Augusto
tenha sentido medo.
Não medos bobos, como o medo de altura ou o medo de perder a hora depois de uma noite de
diversão em claro. O medo real. Aquele que eriçava os pelos dos braços e gelava o corpo em
questão de segundos. O medo que tirava o sono, o apetite e a vontade de viver. O tipo de medo que
eu sentia cada segundo de cada minuto de cada dia dessa minha maldita vida. O medo que me
sufocava e me envelhecia aos poucos, aquele medo. Aquele medo eu tinha certeza de que ele não
conhecia.
Eu não podia culpá-lo. Ele teve o que não tive: sorte.
Ele caiu na família perfeita. Decerto teve uma mãe que o embalou em noites de tempestade e
cantou, teve irmãos que dariam o sangue por ele e amigos levianos e divertidos que anuviassem os
problemas ao sons de risadas e boas farras. Augusto teve tudo o que eu queria e tudo o que eu não
podia ter. A vida é assim e como diz o ditado: “nenhuma cruz é dada a alguém que não suportaria
carregá-la”. Infelizmente a minha pesava demais. Mesmo que em muitas noites eu tenha chorado
escondido, com o som sendo abafado por um travesseiro velho cheirando a mofo e sussurrado com
ferocidade que era demais, que eu não ia conseguir, não ia suportar ir adiante. Um novo dia se erguia
e mais um eu vivia.
O peso, esse nunca diminuía.
— Vá se trocar, Anna, vamos sair — disse alguém acima de mim, coloquei o braço sobre o
rosto para proteger os olhos do sol e o encarei. Augusto parecia determinado.
— Não quero sair — reclamei mal-humorada. Eu só queria ser deixada em paz, sentada nesse
sofá confortável observando a estátua do anjo em pé na fonte com pesar porque meu anjo, aquele
cara rude e babaca, para minha infelicidade também não era feito de pedra enquanto sentia o
inebriante perfume das rosas que ladeavam o jardim.
— Não perguntei se você quer, eu disse apenas que íamos. Não foi um convite. — Pisquei e
pensei seriamente em mandá-lo se catar, mas seu tom sugeria que nada que eu dissesse o faria mudar
de ideia, por isso anuí.
— Vou assim mesmo. — Me levantei e o encarei sem a luz do sol para atrapalhar.
— Por que você não tira nunca essa camiseta? — perguntou de forma curiosa.
— É a que mais se parece comigo, o resto... — Eu deveria estar soando a pessoa mais ingrata
da face da Terra, já que sua irmã teve a bondade de separá-las e se desfazer delas por mim. Eu não
duvidava que não fariam a menor falta, mas essa não era a questão. Esperei por uma bronca ou um
deboche, mas ele apenas concordou, como se entendesse.
— Vamos resolver isso também — murmurou ao se virar. — Vamos logo, o dia vai ser longo.
— Ele não pareceu nem um pouco animado, pelo contrário, pareceu exausto só de pensar no “dia
longo que teríamos”, fiquei curiosa.
Augusto se afastou e trocou algumas palavras com Nicholas que corria atrás do cachorro sem se
cansar, não ouvi o que ele disse, mas pouco depois meu filho sumiu por uma porta que ligava as duas
casas germinadas, parando apenas para acenar em despedida em minha direção. Só quando cheguei
até o homem que me esperava de maneira impaciente na porta, ele explicou que pediu para Bárbara
ficar com meu filho enquanto saíamos.
— Aonde vamos? — pergunto assim que saímos da garagem.
— Ao shopping — murmura como se tivesse dito “ao inferno, pegar um bronze”. Fiquei inquieta
no banco, eu odiava shoppings, estive dentro de um apenas uma vez. Depois que Nicholas nasceu
decidi que poderia ser um bom passeio, mas não suportei mais do que poucos minutos no meio do
mundaréu de gente e arrastei o menino pela camiseta até o carro enquanto ele chorava por estar sendo
privado de uma novidade.
Multidões são ótimas para se esconderem, assim como são ótimas para encobrirem qualquer
coisa que te aconteça. Multidões não são seguras.
— Não quero ir — sussurrei apavorada.
— Nem eu, mas no momento não temos escolha — responde revirando os olhos com
impaciência.
— Temos sim, é só você fazer o retorno e voltarmos para casa. — Agarrei o banco no
passageiro com as duas mãos para me impedir de pular para fora do carro com ele em movimento.
Como ele não respondeu fiz uma nova pergunta. — Por que precisamos ir? — Quem me ouvisse
falando pensaria que estávamos a caminho de ir torturar alguns gatinhos indefesos.
— Porque você precisa de coisas. — Me voltei para ele espantada.
— Coisas? — perguntei sem entender.
— Sim, coisas. — Ele apertou o volume do rádio para evitar a conversa e me senti
envergonhada de martelar no assunto. Eu queria dizer que não precisava de nada além de voltar para
a segurança de sua casa, mas não disse. Apenas me voltei para frente e continuei a agarrar o banco
com toda minha força rezando para que o tempo congelasse.
Depois de reclamar, falar diversos palavrões e roubar a vaga pela qual um cara já estava
esperando, ele me mandou descer do carro. Eu parecia uma maluca, agarrada ao banco, olhando para
frente, com o olhar preso a um ponto fixo, incapaz de falar ou me mexer. Eu sabia que deveria estar
agindo normalmente, mas não conseguia.
— O que foi? — Só notei que ele havia saído do carro quando abriu a porta do passageiro e se
sentou no metal ao meu lado, agarrando meu braço com força para que eu o olhasse me tirando do
transe. — Por que seus olhos estão úmidos?
— Eu não gosto de lugares que tem muita gente. — Eu deveria ter falado que estava passando
mal, com dor ou até naqueles dias, porque assim que a verdade saiu da minha boca uma ruga
apareceu em sua testa vincada. Achei que ele ia me pressionar por uma explicação, mas seu rosto se
desanuviou e ele sorriu. Não um sorriso de verdade, esse eu ainda não tinha visto, nem sabia se ele
era capaz de dar, mas um sorriso contido, de encorajamento.
— Você não precisa se preocupar, não vou sair do seu lado. — Não sei o que me surpreendeu
mais: suas palavras, a mão que me estendeu ou o fato de eu tê-la aceitado sem nenhuma ressalva.
Ele continuou segurando em meu braço enquanto me arrastava, literalmente arrastava, pelo
estacionamento entrando no complexo gelado e lotado de pessoas que provavelmente não tinham
mais o que fazer além de se acotovelarem para olhar vitrines. Ele olhou rapidamente para a fila que
aguardava em frente à porta dos elevadores e me puxou para a escada sem hesitação me empurrando
para ficar à sua frente, quando notou que eu tremia colocou as duas mãos sobre meus ombros e só
assim, eu finalmente consegui respirar outra vez, pelo menos até que chegamos ao primeiro piso das
lojas e eu me ver sozinha.
Augusto não estava mais ao meu lado.
Estaquei no lugar atrapalhando a passagem, duas pessoas trombaram em mim por estar no
caminho e, então, me apavorei, girei ao redor tentando captar se estava sendo observada, eu me
sentia observada e nunca me senti tão solitária. Senti vontade de chorar, de correr e me sentar no
chão e me encolher feito uma bola, tudo ao mesmo tempo.
— Tudo bem? — perguntou ele ao meu ouvido fazendo os pelos do meus braços se eriçarem,
nunca na minha vida me senti tão aliviada por escutar uma pergunta rude.
— Você disse que não ia sair do meu lado — recriminei girando para ficar de frente para ele
com lágrimas embaçando a visão. — Onde você estava? — perguntei com rancor abaixando o olhar
para que ele não visse meus olhos úmidos e minha iminente carência.
— Atrás de você, Anna, o tempo todo — ele praguejou e brutalmente agarrou minha mão,
levantei os olhos e o flagrei olhando ao redor de maneira apreensiva, como se segurar minha mão
fosse algo vergonhoso, eu quis soltar, mas algo me impedia. Aquela mão dada por pena era tudo o
que me mantinha firme. — Sente-se melhor assim?
Augusto não esperou pela minha resposta, apenas me arrastou pelos corredores determinado,
sem soltar nem uma única vez da minha mão, como se soubesse exatamente o que queria, e talvez
realmente soubesse. Nossa primeira parada foi em uma farmácia.
— Tem preferência por alguma marca ou produto? — perguntou olhando por sobre o ombro,
balancei a cabeça em uma negativa, ele assentiu, pegou uma cesta e me entregou. Passamos de
corredor em corredor enquanto ele ia pegando os produtos das prateleiras e jogando dentro da cesta
em minhas mãos. Desodorantes, giletes, xampu e condicionador. Ele hesitou apenas em frente aos
absorventes, seu olhar enjoado quase me deu pena. Augusto parou e olhou os diversos pacotes
coloridos como se estivesse estudando um quebra-cabeça confuso e complicado e, por fim, tivesse
percebido que não saberia montá-lo. — Eu não vou escolher isso para você — disse por fim me
fazendo perceber que essa era a primeira vez na vida que ele comprava um desses. Balancei a
cabeça em negativa, eu estava envergonhada demais para esticar a mão e pegar um dos pacotes, ele
ergueu a sobrancelha e eu balancei a cabeça novamente, foi o suficiente para ele respirar aliviado e
me puxar em outra direção o mais rápido que pôde.
— Augusto, não posso me dar a esse luxo, eu nem peguei dinheiro, eu... — comecei quando
entramos na fila do caixa.
— Eu vou pagar. Por essas coisas e todas as outras — disse encarando a bunda da mulher que
estava à nossa frente sem nem mesmo parecer constrangido, mordi a bochecha.
— Mesmo assim, o dinheiro que tenho guardado não é para esse tipo de coisa, não
deveríamos... — Como eu ia explicar que aquele dinheiro era essencial para que eu começasse uma
nova vida e que estava quase no fim. Que eu não o usava para as contas, muito menos para luxo, que
ele era uma reserva para “agora ferrou de vez!”.
— Eu não disse que você teria que me pagar, Anna — resmungou se obrigando a olhar nos meus
olhos, irritado por eu o estar distraindo.
— Não aceito esmolas de estranhos...
Ele me cortou.
— Ah, vê se cala essa boca uma vez na vida! — E eu calei.
Nossa próxima parada foi em uma loja de roupas. Dessa vez, ele nem ao menos me perguntou se
eu tinha uma preferência (não tinha, até hoje todas minhas roupas foram compradas de segunda mão),
apenas me empurrou para dentro da primeira loja que viu. Assim que entramos, o cheiro forte de
canela e dinheiro me atingiram. Me senti envergonhada somente de estar dentro da loja cercada pelas
araras cheias de roupas em tom vibrantes que gritavam em minha direção não terem sido feitas para
mim.
— Posso ajudá-los? — perguntou uma mulher se aproximando. Seus cabelos ruivos, que foram
a primeira coisa que notei a seu respeito, estavam firmemente amarrados em um coque no alto da
cabeça, sem nem um único fio fora do lugar. Meu único pensamento era que agora eu nunca voltaria a
me sentir confortável com o mesmo penteado, quando abaixei os olhos e a encarei vi que ela já tinha
notado isso. Ela estava encarando a cicatriz em meu rosto com nojo e nem ao menos tentou disfarçar
enquanto eu, bom, eu olhei para o chão. Para minhas sapatilhas de plástico, a única coisa que
consegui recuperar depois do acidente.
— Augusto, vamos... — sussurrei dando um tranco em sua mão. Estava me sentindo
envergonhada e humilhada sendo observada por aquela mulher sem educação e tato.
— Sim, nós gostaríamos de ver algumas roupas — respondeu me ignorando. — Anna, por que
não dá uma olhada na loja e vê se gosta de alguma coisa? — instruiu Augusto sem parecer abalado.
Pensei seriamente em sair correndo da loja, mas não me sentia segura sem ele por perto, então me
obriguei a colocar um pé em frente ao outro e me afastar alguns passos. Enquanto eu fingia estar
interessada por uma blusa em especial pude ouvir, mesmo que quase inaudivelmente, a ameaça
velada que saiu dos seus lábios pouco depois.
— Se eu pegar você olhando para ela com repulsa mais uma vez, vou fazer questão de pedir ao
gerente sua cabeça em uma bandeja de prata, estamos entendidos? — Não pude ouvir a resposta, mas
sua tentativa de me defender fez com que eu me sentisse pior ainda. Um misto de raiva e
constrangimento dominaram meu medo e fizeram com que eu ignorasse a vendedora que tentava me
barrar parecendo fingidamente arrependida e saísse da loja sem olhar para trás. Quando já estava
afastada o suficiente consegui voltar a respirar após me abaixar e plantar as mãos nos joelhos. A dor
em meu pé machucado era lancinante e por um momento eu só queria me sentar.
— O que houve lá dentro? — perguntou Augusto de algum lugar atrás de mim. — Ela te falou
alguma coisa? Foi grosseira? Eu vou... — Cortei sua ameaça.
— Você não vai a lugar nenhum. — falei tentando me virar, sem colocar muito peso sobre o pé
latejante. — Não quero que você me defenda... Não quero que as pessoas me olhem... eu... aquela
loja, não é para pessoas como eu, Augusto.
— Pessoas como você? É só uma loja, Anna, você entra, escolhe, paga e sai. Não há segredo.
— Eu queria argumentar que para ele até poderia ser, mas que eu não me sentia confortável com isso
quando deixei de conseguir me manter em pé. — Merda, forçamos muito seu pé, não é? Eu quase
havia me esquecido dele. Fique aqui — disse me ajudando a chegar até um sofá. — Vou buscar uma
cadeira de rodas.
— Não. — Pelo amor de Deus, com cara de monstro, sentada em uma cadeira de rodas. Por que
ele não colocava logo um letreiro néon na minha testa? — Só preciso descansar alguns minutos.
— Anna, o que está te deixando tão desconfortável? — Reviro os olhos para a idiotice de sua
pergunta, então ele emenda outra se sentando ao meu lado. — Fora o fato de que as pessoas estão te
olhando... O que está te incomodando?
— Não gosto de shoppings — respondo evasivamente.
— Você já disse isso. — Foi a vez dele revirar os olhos.
— Não gosto de lugares que tenham muitas pessoas me sinto claustrofóbica. Também não me
sinto confortável em entrar em lojas como aquela. — Eu não conhecia o nome, mas sabia que era uma
loja fina e cara só pelo perfume exagerado e a postura da vendedora.
— Me desculpe — pede, me desconcertando.
— Pelo quê? — pergunto chocada. Se eu já não soubesse que ele não era o tipo de homem que
se desculpa com frequência, seu maquilar cerrado e os olhos acuados teriam me dado uma boa dica.
— Por te tirar da sua zona de conforto e achar que sabia o que era melhor para você. Eu só
queria que você tivesse roupas que você mesma escolheu para vestir e algumas coisas básicas para
poder viver, já que não restou nenhum dos seus pertences. Você gostaria que eu te levasse onde vivia
para buscá-los? — Oferece solidariamente.
— Não — respondo tão rápido que suas sobrancelhas se erguem em surpresa. — Mas agora
você me deixou curiosa, o que exatamente você acha que eu preciso para suprir as minhas
necessidades básicas? Fora o absorvente. — Ele cora. Quase não acredito que consegui deixá-lo
com vergonha.
— Roupas, sapatos, pelo menos algo melhor que essa coisa que você está usando — Tento não
me ofender pela sapatilha que eu paguei menos de dez reais em um brechó maravilhoso. —, uma
bolsa, maquiagem, calcinhas, uma chapinha talvez? — pergunta confuso. — Cremes para, sei lá,
alguma coisa. Acho que eu deveria ter mandado a Bárbara vir com você...
Cremes? Ele está de sacanagem comigo? Quando vejo, estou rindo, é tão ridículo que se torna
engraçado. Quem dera minhas necessidades básicas fossem bolsas e batons.
— Eu não sei que tipo de mulher você está acostumado, mas não sou assim. Não preciso dessas
coisas... — Mordo os lábios tentando controlar o riso.
— Como assim, que tipo de mulher estou acostumado? — pergunta estreitando os olhos.
— Mulheres fúteis, suponho. — Agora é a vez dele rir.
— Então você me acha fútil, assim como as mulheres pelas quais acha que me interesso? —
pergunta com interesse.
— Sim, eu acho e pessoas fúteis pensam que o dinheiro compra tudo. — Ele parou de rir e
parece pensativo, quase contemplativo.
— Não tudo, mas boa parte. — Infelizmente dinheiro não comprava o melhor da vida, a
felicidade. Talvez comprasse a minha liberdade, ou a tornasse mais acessível, mas felicidade? Eu
duvido.
— E do que adianta se o mais importante, a felicidade, não está à venda? — questiono
sabiamente.
— Anna, a felicidade eterna não existe, ela é uma utopia. O que existe é a felicidade
momentânea e sinto informar que o dinheiro ajuda e muito nesse quesito. Por exemplo, eu me sinto
feliz ao sair de casa bem-vestido, saborear a comida de um bom restaurante ou dirigir meu carro do
ano. O dinheiro traz pequenas felicidades que se somadas tornam a vida boa e você? O que a faz
feliz? — pergunta com interesse.
— Nunca conheci esse tipo de felicidade — relevo. —, nunca conheci nenhum tipo dela fora ter
Nicholas e essa felicidade vem sobrecarregada com uma tonelada de preocupação. Não sei qual é a
sensação de usar uma roupa que não foi de outra pessoa ou comer algo esquisito, mas que por
incrível que pareça tem gosto bom. Não sei qual é sensação de voar por cima das nuvens em uma
máquina de metal, muito menos se alguma dessas coisas me faria feliz ou me alegraria, eu sempre
estive preocupada em sobreviver.
— E a maleta? Para que serve o dinheiro dentro dela? — pergunta curiosamente sobre os bolos
de notas de cem. Fecho os olhos e penso antes de responder.
— Sobrevivência e não luxo. Dinheiro para emergências, economias para começar de novo,
como eu disse, tudo o que eu tenho ou fiz foi para sobreviver e não viver. — Já tive que recorrer
àquela reserva duas vezes, e assim que sair da casa dele terei que fazer novamente. Aquele dinheiro
é para reconstruir a vida quando um esconderijo é descoberto e não para coisas banais. Penso por um
momento em meu filho que não conhece quase nenhum brinquedo, nunca assistiu aos desenhos
famosos, nunca foi uma vez sequer ao cinema ou teve um calçado decente. Ambos tivemos que
abdicar de muita coisa, ora pela falta de dinheiro, ora pela falta de segurança. Viver na miséria e
ainda por cima de maneira reclusa tem seu preço e esse preço Augusto não conhece.
— Vem, vamos — chama se levantando e me estendendo uma mão.
— Vamos para onde? — pergunto aceitando-a e me levantando.
— Vamos lhe dar toda a felicidade que meu dinheiro pode comprar, porque essa é a única que
eu posso te oferecer. — Ele sorri, ainda aquele sorriso contido, de canto de boca e meu coração se
aperta. Não me surpreendo que esse homem não seja capaz de me dar nada a que eu realmente possa
me agarrar. Augusto pode apenas me dar coisas provisórias. Um teto por alguns dias, alguns pratos
de comida que logo ficam vazios, objetos que vão perder o uso ou se tornarem inúteis, nada
duradouro, nada fixo e isso, por mais estranho que seja, me entristece. Me entristeço ainda mais por
ele achar que a felicidade está no que pode ter e não em quem pode ter.
Sempre que eu penso em felicidade, penso em pessoas. Talvez comer bem, andar bem-vestido
ou dirigir uma máquina potente seja realmente divertido, mas fazer tudo isso sozinho não tem graça,
para mim teria valor apenas se a pessoa que fizesse tudo isso comigo fosse valiosa. Eu nunca quis
bens materiais ou subir na vida, eu sempre quis alguém a quem me agarrar.
Eu sempre quis amor e para mim felicidade é encontrar alguém que o devolva.

***

Augusto me comprou muitas coisas. Diversas roupas bonitas e coloridas, com tecidos macios,
todas cheirando a algo novo. Me comprou alguns sapatos baixos com pedras incrustadas e pijamas.
Tive dificuldade em escolher as peças. Sempre que eu comprava roupas quase nunca tinha essa
opção, meu antigo guarda-roupa consistia apenas em duas calças básicas e algumas camisetas lisas,
um tênis e duas sapatilhas, mais um punhado de calcinhas com o elástico gasto e sem cor. Eu sempre
ficava com o que conseguia encontrar nos brechós ou nos bazares de caridade, não havia escolha.
Fiquei embasbacada com tantas opções, modelos e estampas, então, por muitas vezes, apenas olhava
para as roupas, até que ele me jogava alguma ou levantava outra em um cabide, apontava um sapato
ou sorria quando eu pegava algo nas mãos.
Aprendi algo sobre ele naquela tarde, ele tinha bom gosto, ou pelo menos achei que tinha.
Melhor que o meu era, sem dúvidas. Me peguei mais de uma vez imaginando o tipo de mulheres com
quem ele saía. Seus saltos altos e batons vermelhos, suas posturas e cabelos invejáveis e, claro, seus
rostos, sempre lisos e sem marcas.
Todas diferentes de mim.
Isso se tornou claro quando ele parou na última loja, faltava apenas um item em sua lista, as
roupas de baixo. Ele segurava a minha mão, o que fez em todas as vezes que voltávamos aos
corredores do shopping, mas, pela primeira vez, isso me incomodou, eu podia sentir o suor que as
minhas expeliam e minhas bochechas esquentaram, não precisava de um espelho para saber que
estava corando como uma adolescente boba.
— Escolha algumas, Anna — disse me empurrando para frente e desprendendo nossas mãos, eu
quis me virar para ver se ele iria secar a sua na calça jeans, mas me obriguei a olhar para as araras.
— Posso ajudá-la, querida? — perguntou uma senhora com mais idade, seu sorriso era gentil e
ela tentou disfarçar que havia encarado meu rosto com curiosidade. Não respondi, apenas me
balancei para frente e para trás.
— Está tudo bem, nós podemos escolher. — disse Augusto parando ao meu lado, vindo em meu
auxilio, decerto pensou que eu havia ficado constrangida com o sorriso pesaroso da senhora. Ela se
afastou e ele também, continuei imóvel, até que a voz dele me tirou do transe. — O que acha dessa?
— perguntou segurando uma calcinha branca minúscula que não cobriria nem metade da minha bunda
magricela. Se eu senti minhas bochechas corarem antes, agora sentia que entraria em combustão, de
tanta vergonha.
— Eu... é...— Balancei a cabeça em uma negativa, sem saber mais o que dizer.
— Não precisa ficar toda retraída, são só calcinhas, pelo amor de Deus, Anna — murmurou
devolvendo a peça para o lugar. Eu estava sendo infantil, sabia disso. Me movi e agarrei uma
calcinha cor-de-rosa com vários corações vermelhos estampados em um ímpeto de coragem. Eu só
queria terminar com isso logo de uma vez e de preferência não ter ele olhando as minhas futuras
calcinhas.
— Essa é sua ideia de roupa de baixo ideal? — perguntou sarcasticamente. Eu queria bater nele
com as sacolas, mas apenas mordi a parte inferior do lábio. — Não tem como um cara sentir tesão
com alguém vestindo essa coisa.
— Ah, meu Deus! — murmurei querendo me enfiar em um buraco, seus olhos queimavam nos
meus, esperando por uma resposta. — Ela parece confortável — defendi timidamente.
— Ela parece a calcinha de uma menina de treze anos — Revirou os olhos fazendo careta. —,
virgem — frisou.
— Será que você pode sair daqui? Isso é meio pessoal — sibilei irritada e constrangida.
— Ótimo — respondeu de má vontade me entregando um cartão e me dizendo a senha baixinho.
—, compre o que quiser vou esperar em uma das poltronas do lado de fora da loja — disse me dando
as costas parecendo aliviado e, ao mesmo tempo, ressentido por ter sido rejeitado.
Eu comprei a bendita calcinha rosa com estampas de corações, e mais um punhado delas. Uma
com estrelinhas e luas, outras com ursinhos, de várias cores e estampas fofas, mas antes de me dirigir
ao caixa voltei sorrateiramente e puxei com agilidade a calcinha de renda branca e o sutiã que
combinava com ela embolando-a no meio das outras peças.
Enquanto esperava minha vez para passar no caixa comecei a me achar boba, senti vontade de
devolvê-las ao lugar, mas não me obriguei a fazê-lo e, enquanto pensava no real motivo de ter pego o
conjunto, apenas uma frase perambulava pelos meus pensamentos: “a solução dos seus problemas
não está na cama do meu irmão”, a voz da Bárbara me acompanhou em todo o trajeto de volta para
casa, a sacola parecia pegar fogo em minhas mãos e um medo já conhecido tomou conta de mim.
O medo de amar novamente um monstro.
Dia de virar maquiador

“E a fera fitou a face da beleza.


E a beleza acalmou a fera.
E a partir desse dia a fera perdeu a imortalidade.”
(King Kong – filme)

Augusto

Anna ficou quieta todo o caminho de volta, o que era estranho porque ela pareceu feliz enquanto
eu a arrastava de loja em loja atrás de coisas que pensei que ela pudesse precisar. Não que eu tenha
algum dia na vida ido comprar roupas com outra mulher, mas duvidava que a maioria das que eu
conhecia, se não todas, se portaria como ela. Sempre olhando as etiquetas e as devolvendo, mesmo
quando eu achava o preço uma pechincha, escolhendo apenas uma ou duas peças de cada, sendo
cautelosa e controlada. Ela nem parecia uma mulher de verdade e não estou dizendo isso porque ela
não fazia ideia do que era um pó compacto, esse até eu sabia, mas sim porque ela não tinha vaidade
nenhuma.
Foi a primeira vez que uma mulher hesitou com meu cartão de crédito nas mãos.
Assim que entramos em casa, ela foi atrás de Bárbara para ver como Nick estava enquanto eu
carreguei as sacolas até o quarto de hóspedes e depois me servi de uma cerveja me sentando à mesa
da cozinha girando a garrafa nas mãos pensativamente.
É difícil imaginar a vida que Anna teve, principalmente por não saber o que desencadeou tudo
e, pela primeira vez, me pego imaginando quem seria o pai do garoto e por que ele não os ajudava,
mas, pelo menos, descobri porque o menino parecia tão malvestido e ignorante para a idade.
Comparei a vida da Valentina com a dele, o menino não sabia nem como funcionava a maior parte
dos brinquedos dela, ficava em êxtase quando eu o deixava assistir a filmes no Netflix, sem contar
que ele devorou um brigadeiro outro dia mais rápido do que eu conseguia comer uma puta, o que me
fez pensar que um simples doce para ele deveria ser uma iguaria rara.
Privações, privações, privações, é só o que consigo pensar, me torturo imaginando tudo o que
ele quis ter e não pôde. Com ela a mesma coisa, o olhar assustado e ludibriado dela hoje ao
descobrir coisas novas mexeu comigo mais do que deixei transparecer, dei risada, fiz piadas e me
armei com meu sarcasmo, mas por dentro tudo o que eu sentia era pena.
Eu sei que nem todas as pessoas nasceram privilegiadas ou conseguiram ao longo da vida galgar
cargos altos ou sequer ter uma formação, mas ver de perto uma mulher tão carecida de tudo me fez
pensar no que mais existe do lado de fora da minha vida abastada. Mas não foi só isso, não foi só a
humildade e carência que me fizeram pensar, foi o medo. Anna tinha os olhos assustados de um
filhote acuado, no começo quando ela chegou tentou esconder, tentou parecer forte e destemida, mas a
verdade é que ela era feita dele, feita de medo e não importa o que tenha feito para sobreviver até
hoje, não importa o quanto pense que foi corajosa, ela é só isso: uma mulher amedrontada por um
passado secreto.
— Monsto! — grita Nick quando me vê, correndo em minha direção, levanto o olhar da garrafa
e sorrio. O menino ainda me incomoda, sua infantilidade, sua falta de independência e seus passinhos
pela casa. Apenas olhar para ele debaixo do mesmo teto que eu, ainda me incomoda, mas hoje passei
a olhar para ele com outros olhos.
— Você sabe o que é um cinema? — pergunto cautelosamente.
— Claro que sei. — Ri. — Mamãe me contou que é onde as pessoas vão para ver tevê. — Ele
não vai tornar as coisas mais fáceis para mim, não é? Um bolo enorme se forma na minha garganta
quando sussurro:
— Gostaria de ir em um? — Seus pequenos olhos se arregalam de surpresa e ele pula no chão
de euforia, acho que isso é um sim. Escuto um barulho na porta e vejo Anna sorrir timidamente
olhando para o filho, sorrio também grato por ela não estar olhando para mim nesse momento.
— Sélio? — pergunta parando no lugar e me estudando atentamente.
— Sério. — Escondo o sorriso rapidamente e me volto para Anna outra vez. — Por que vocês
não vão se arrumar? Vamos ao cinema e quem sabe jantar fora. — Ela estreita os olhos, deve pensar
que estou fazendo isso por pena depois de ela ter me contado tudo o que nunca pôde fazer, mas é
mais do que isso. Não é só pena, eu quero que ela faça coisas diferentes, quero que ela veja mais da
vida e tenha pequenos momentos que a farão feliz antes de voltar para sua vida de fuga e
reprimendas.
— Não sei se é uma boa ideia, acabamos de voltar de um lugar lotado, eu não me sinto... — Ele
a corta.
— Pô favô, mamãe — implora Nicholas com o queixo tremendo, abraçando suas pernas. Ela
morde o canto interno da boca e suspira, se rendendo.
— Tudo bem. Obrigada, Augusto — diz tentando sorrir, mas seu olhar diz outra coisa. Diz que
está com medo... como eu disse, ela é feita dele. Se tornou tão habitual ter medo que Anna não sabe
fazê-lo ir embora, duvido até que saiba aproveitar os momentos bons da sua vida sem ser
assombrada por esse sentimento de pavor que ela não controla.
— Não precisa agradecer — murmuro fingindo que é algo sem importância, ela assente e leva
Nicholas pela mão. Escuto seus passos subindo a escada e afundo o rosto em uma das mãos.
Como fazer Anna perceber que está segura aqui e que não precisa ter medo? Como fazê-la
entender que não vou deixar ninguém lhes fazer mal? Ela deveria estar preocupada no que vai fazer
quando for embora e tiver que se virar por conta própria, quando não tiver mais ninguém se
assegurando de que eles ficarão bem. É quando a pergunta me atinge: Vou mesmo deixá-los ir
embora? Vou ter coragem de vê-la passar pela porta da rua segurando as mãos do menino e vê-los
dobrando a esquina e sumindo de vista? Das minhas vistas? Começo a me sentir ansioso por esse dia
que está tão distante e tão perto ao mesmo tempo, claro que não vou impedi-los, mas talvez eu não
ficarei tão feliz quanto pensei em me livrar deles. Uma sensação de preocupação começa a me
dominar e me assombrar.
— Você vai levá-los ao cinema? — Bárbara me arranca violentamente dos meus pensamentos
com sua voz irritante parecendo um zumbido que tem o poder de enlouquecer qualquer mortal,
indicando que o tal mosquito irritante ainda não havia perdido a mania de escutar atrás das portas. —
Espera, vou começar desde o começo, você foi ao shopping? — Levanto o olhar e encaro dois pares
de olhos verdes arregalados me olhando de volta. — Você levou ela ao shopping? Comprou roupas
pra ela? — Sua boca estava ligeiramente aberta de surpresa. — Quem é você e o que você fez com
meu irmão?
— Pare de ser retardada — resmungo dando a primeira golada na cerveja já quente. —, a
menina não tinha nada. Ela precisava de algumas coisas — respondo na defensiva, seu olhar surpreso
me incomoda, ela me olha como se eu nunca tivesse feito uma ação de caridade antes.
— Claro, e uma bolsa e maquiagem. Você comprou uma chapinha? — Ela parecia a ponto de
ter um infarto.
— Eu já ajudei pessoas antes, quem ouve você falar parece que eu sou o cara mais horrível do
mundo. — Tento não parecer magoado, mas acho que não consegui, porque sua boca se abre mais e
ela vira a cabeça como os cachorros fazem quando estão confusos.
— Pegar o telefone e fazer uma doação é uma coisa, abraçar uma causa, levar ela para o
shopping e gastar uma fortuna em roupas, sapatos, acessórios e UMA CHAPINHA — frisa — é
outra.
— Eu não sabia o que ela ia precisar, tentei comprar tudo o que achei útil. Eu deveria ter
pedido para você levar ela — respondo exasperado desejando que essa conversa termine, mas
conhecendo minha irmã sei que é apenas o começo.
— E por que não pediu? — pergunta cruzando os braços com evidente curiosidade.
— Não sei. — Porque queria ser eu a passar um tempo com ela, conhecê-la melhor e comprar
tudo o que ela precisava, porque achei que ela ficaria feliz e não distante como ficou. Porque eu
queria participar e lhe agradar porque ela parecia tão triste, mas claro que isso eu jamais diria a
minha irmã.
— Você está cometendo um erro enorme, Monstro — diz frustrada fazendo com que eu franza o
cenho.
— Mudou de lado? Você disse que achava que acolhê-la era o certo... — Ela me corta.
— Ainda acho, só não acho certo você fingir ser o que não é. Você não é o cara que leva uma
garota ao shopping, não é o cara que dá presentes e atenção. Você não é o cara que pega na mão de
uma garota durante o passeio e liga no dia seguinte, cacete. — Ela parece mais brava e eu mais
confuso, não entendo. — Você vai arrasar essa menina.
— Do que você está falando? Eu só estava tentando ser legal, porra. O que eu fiz de mais? Ela
precisava de coisas e o menino nunca foi ao cinema. Só pensei...
— Augusto, ela ainda é uma menina. Uma menina solitária e carente que está sozinha há muito
tempo, ou é nisso que acredito. Ela é vulnerável — diz pausadamente. —, ela é o tipo de menina que
se ilude com atitudes como as suas.
— Não entendo. — Balanço a cabeça sem saber onde ela quer chegar.
— É simples, não prometa ser alguém que você não pode ser. Não deixe ela acreditar que você
pode dar mais do que realmente pode. Ela já tem problemas demais para terminar se apaixonando
por um babaca igual a você — cospe.
— Eu não tenho esse tipo de intenção, jamais ficaria com ela, Bárbara, que tipo de homem você
pensa que eu sou? — pergunto ofendido.
— Do tipo que pensa com o pau e não com a cabeça — responde na lata, sem nem mesmo parar
para pensar, e não é que ela tem razão?! Mas não nesse caso.
— Ótimo, então vou fazer questão de deixar claro que isso — Abro os braços indicando tudo.
— não passa de ajuda a uma pessoa necessitada e não um romance.
— É só você ser você mesmo e ela vai entender — diz me dando as costas. Penso em me
levantar e puxar seu cabelo como fazia quando éramos crianças, mas ela me deu muito em que
pensar, por isso apenas volto a encarar a cerveja. — De qualquer forma ela vai embora em alguns
dias, certo? O que de pior pode acontecer em poucos dias...
Vejo minha irmã voltar para sua casa e contínuo olhando para suas costas, até que não a vejo
mais. Ela tem razão, o que de pior pode acontecer? Não acredito que Anna me veja de outra maneira,
além do homem que está lhe estendendo uma mão e emprestando o teto, mas serei mais cauteloso a
partir de agora, Bárbara está certa em dizer que não devo iludir ninguém, pois ambos sabemos que eu
sou mesmo incapaz de ter um relacionamento como a maioria das pessoas.
— Ela já foi? — Giro na cadeira e encontro Gustavo apoiado na parede, com apenas a cabeça à
mostra.
— Está se escondendo da nossa irmã? — pergunto achando graça.
— Na verdade estou — admite sem achar a menor graça, ele suspira e estreita os olhos como se
estivesse pensando se divide ou não alguma informação comigo. — Se eu precisar da sua ajuda,
sabe... para conversar com a Bárbara, você me ajudaria? — pergunta com receio, minha testa
franzida é o suficiente para que ele balance a cabeça e diga. — Esqueça.
— Não, não vou esquecer. O que você está aprontando, porra? Deve ser sério se você vai
precisar de ajuda para contar pra ela, o que é? — Me levanto e cruzo os braços encarando-o
firmemente, estou começando a ficar de saco cheio dos segredos dele.
— Eu disse para você esquecer — se irrita, me dando as costas, só volto a escutar sua voz
quando a porta da sala se abre em um rompante. — Vou sair, não me espere e talvez você deva subir,
Anna está chorando — dito isso ele bate a porta, mas não estou mais prestando atenção nele, estou
concentrado em subir as escadas.
Começo a ficar seriamente preocupado com esse garoto idiota. No que ele está metido e, acima
de tudo, por que precisaria da minha ajuda para conversar com a nossa irmã? Ela pode ser
intrometida e se achar a dona da razão, mas não é uma pessoa difícil de lidar, seja o que for sei que
ela será a primeira a estender uma mão e se colocar em sua frente se for preciso, como fez comigo,
como faz sempre. Quebro a cabeça pensando no que Bárbara teria dificuldade para aceitar e não
encontro uma resposta, não até que lembro de uma pessoa em especial, mas abandono a ideia.
Gustavo não é tão idiota assim.
— Anna, está tudo bem? — pergunto batendo levemente na porta, posso ouvir algumas fungadas
do outro lado, como ela não responde giro a maçaneta devagar, ela está sentada na cama cobrindo o
rosto com as mãos.
— Vai embora — pede com os ombros chacoalhando levemente.
— Eu estou na minha casa, vai você — digo sem paciência. O pouco que eu tinha, meus irmãos
haviam tomado, não havia restado nada para ela.
— Eu vou fazer isso, faço hoje mesmo se você quiser — cospe levantando a cabeça para me
olhar com ódio e indiferença se esquecendo do que tanto a afligia, é quando eu vejo. Começo a rir
descontroladamente, sinto que tem lágrimas saindo dos meus olhos e me apoio nos joelhos quando
perco o fôlego. — Não é engraçado, Augusto — murmura fazendo beicinho.
— É sim, você parece uma palhaça. — Quanto mais eu rio, mais ela se encolhe, até o ponto em
que ela desaba e seus soluços se tornam altos o suficientes para encobrirem o som da minha risada,
aí eu me sinto culpado. Mas o que eu posso fazer se é extremamente engraçado? Anna tentou se pintar
sozinha com as maquiagens que eu comprei para ela, nunca me passou pela cabeça que ela realmente
não soubesse usá-las. Mas aparentemente não sabe, já que está parecendo uma figurante de um filme
de zumbis barato.
— Vai lavar a cara, vamos consertar essa merda que você fez. — Ela levanta a cabeça
novamente e me olha com um misto de curiosidade e descrença, limpa as bochechas molhadas com as
costas da mão e assente, o que mais ela faria?
— Você sabe usar essas coisas? — pergunta indicando a bolsa de maquiagem ao pegá-la antes
de se levantar.
— Não, mas pior do que está te garanto que não vai ficar. — Ela concorda com uma risada
inesperada abandonando de vez as lágrimas e eu sorrio em resposta. Acompanho ela até o banheiro e
espero que ela ensaboe o rosto e o lave até que toda a pintura saia, enquanto isso saco meu celular do
bolso e acesso o Youtube. Não há nada que essa porra não possa te ensinar. Escolho um vídeo
qualquer e coloco o aparelho em cima da pia assistindo o vídeo e indicando o vaso sanitário com um
gesto, para que ela se sente.
— Certo, vamos começar com o corretivo — digo de maneira decidida, pareço um cara com
uma missão e realmente sou, também pareço alguém que sabe o que é a porra de um corretivo,
embora eu não faça a menor ideia.
Pauso o vídeo e procuro o negócio dentro da bolsinha, coloco um pouco do produto na ponta
dos dedos quando o encontro e dou um passo para trás encarando Anna, ela parece apreensiva e
nervosa, quando meus dedos chegam perto de seu rosto, ela fecha os olhos e eu sinto alguma coisa
muito estranha dentro de mim. Tão estranha que não sei nem o nome e isso só se intensifica quando
finalmente pouso as pontas dos dedos em sua bochecha e traço o começo de sua cicatriz levemente,
fazendo-a mudar de cor. Anna enrijece, endurecendo as feições, de vergonha talvez? — Só relaxe,
Anna. — E aos poucos faz o que eu peço, ela suspira e deixa os ombros caírem, mas não deixa de
morder o canto interno da boca de maneira apreensiva enquanto aplico o produto com o máximo de
cuidado que consigo.
Não me contenho em observá-la, cada detalhe de seu rosto, não apenas o traço que o marca e o
divide quase que pela metade. Ela é tão linda... As sobrancelhas são bem desenhadas e arqueadas,
trazendo uma expressão forte até mesmo quando seu semblante está sereno, o nariz pequeno e
arrebitado e as maçãs do rosto proeminentes combinando perfeitamente com um rosto emoldurado
pelos cabelos mais negros que já vi.
— Está ficando bom? — pergunta me distraindo de meus pensamentos, é quando eu noto que
seus olhos estão abertos e encarando os meus com um brilho repentino. Assinto constrangido por ter
sido pego no flagra e continuo o que estava fazendo evitando seu olhar.
Quando termino de passar corretivo na cicatriz e embaixo dos olhos, volto a ligar o vídeo por
tempo suficiente para saber quais são os próximos passos, não deve ser tão difícil, a maioria das
mulheres faz essa merda todo dia, não deve ter segredo. Base, a menina do vídeo diz que depois vem
a base, mas que porra é uma base? Procuro sem sucesso pelo tubinho até que me irrito e despejo todo
o conteúdo da bolsa dentro na pia.
— Isso é uma base — digo surpreso olhando para um tubo plástico com um líquido viscoso
bege, interessante. — Não sei pra que tanto produto, isso deveria ser mais fácil. — Anna ri e eu
repito o procedimento, dessa vez tomando mais cuidado ao observá-la, permaneço por mais tempo na
região dos olhos para ter certeza de que ela não vai abri-los inesperadamente outra vez e volto a
admirá-la.
Anna é só uma menina, uma jovem menina que deveria estar na balada enchendo a cara, sendo
perseguida por caras e fazendo besteiras, deveria estar estudando ou trabalhando, vivendo, é isso que
ela deveria estar fazendo. Não consigo imaginar como tantas responsabilidades caíram em seu colo.
Ela tinha uma vida pela frente, agora tem apenas um filho, um empecilho. Não tem como descrever
criança de outra forma, por mais que eu goste dela. As marcas vincadas em seu rosto dizem isso, os
traços de preocupação e a ruga que se ergue em sua testa quando está apreensiva, suas
responsabilidades estão todas marcadas, todas fazendo companhia para aquela cicatriz tenebrosa que
quase nem noto mais depois de ter me acostumado a ela.
— Mas que porra é essa? — Dou um pulo para trás e olho para porta, assustado por ter sigo
pego desprevenido. Ian está escorado nela parecendo estar assistindo a cena mais engraçada de sua
vida. Ele segue as sobrancelhas indicando que está esperando por uma resposta.
— Eu... é.. Anna... — gaguejo escondendo as mãos.
— Ele está me maquiando, vamos ao cinema — responde Anna por mim, quero mandá-la calar
a porra da boca, mas era exatamente isso que eu estava fazendo, como negar?
— Maquiando? Cinema? — pergunta Ian curiosamente, olhando dela para mim, ele balança a
cabeça e finalmente cai na gargalhada. — Essa é épica, pena que sua irmã saiu, ela adoraria filmar
isso. Sabe, Augusto, você já foi mais, como se diz? — Finge estar pensando, depois solta. — Ah é, a
palavra é macho!
— Ah, vê se cala a boca, a bichinha da família sempre foi você e não eu — resmungo irritado,
me rendendo, ele já viu, do que adianta mentir? Em vez disso, me preocupo em terminar o que me
propus a fazer. — Ou cai fora, ou me ajuda, você quem sabe, seu babaca presunçoso.
— Ah, eu vou ficar. Com certeza vou ficar — diz limpando as lágrimas que saíram de seus
olhos, o que os tornou mais azuis e reluzentes. Bom saber que faço ele feliz, muito bom, penso
sarcasticamente. — O que eu preciso fazer? — pergunta arregaçando as mangas na blusa de manga
comprida.
— Me passa o pó compacto — peço com as mãos erguidas como se estivesse com luvas
cirúrgicas de frente para um coração defeituoso. Ele pisca e assente olhando dentro da pia
compenetradamente, sem fazer ideia do que é um pó compacto. Bem-vindo ao time.
— É aquele negócio redondo — digo sem paciência pela demora.
Pela próxima meia hora nós operamos. Continuo focado em seguir todos os passos que a menina
ensina no vídeo, ora me afastando para avaliar o progresso, ora berrando com Ian, exatamente como
fazemos quando estamos abrindo um peito juntos, comigo no comando. Quando termino, estamos
ambos cansados, exaustos. Limpo o suor da testa com o antebraço e olho para ele, que sorri
satisfeito.
— Pronto — digo me afastando e dando passagem para que Anna se levante e se olhe no
espelho enquanto me escoro na parede.
— Puta que pariu! — exclama e eu sorrio orgulhoso, mas ela se volta para mim horrorizada. —
Você disse que não tinha como ficar pior do que estava, eu estou parecendo uma prostituta, Augusto!
— Não — Balanço a cabeça em negativa. —, você parece uma prostituta de luxo — friso
sabiamente, ainda com orgulho do meu trabalho e a maquiagem perfeita de noite que produzi, com
direito a olhos esfumados e batom vermelho biscate.
— Ele tem razão, de prostitutas ele entende — murmura Ian alto o suficiente para ganhar um
soco no braço e fazer Anna me olhar interrogativamente.
— Não vou sair assim — ela parece decidida, por isso olho para Ian e dou de ombros.
— Vamos ligar para a Vivian? — pergunta sacando o celular.
— Vamos, liga pra Malibu, ela vai saber resolver — Estou tentando não parecer ofendido. Ela
está bonita, arrasadora eu diria e eu nunca nem peguei uma dessas coisas na mão, muito menos usei
em alguém e eu fiz por ela, fiz porque chorava. Me dou conta de foi a primeira vez que fiz alguma
coisa realmente legal porque uma mulher estava chorando e isso só me deixa mais irritado por ela
ser tão mal-agradecida.
— Desculpe, Augusto, é só que estou chamando a atenção demais — diz como se fosse algo
horrível. — Esse tipo de coisa... eu... me desculpe. — Parece culpada. Fico feliz que esteja.
— Tanto faz — murmuro fingindo indiferença e lhe dando as costas. Escuto Ian murmurar
alguma coisa no telefone, mas não escuto a conversa, já lhes dei as costas e estou quase saindo do
quarto quando a voz de Anna chega até meus ouvidos.
— Obrigada. — Não sei se é para Ian ou para mim, também não me importo em descobrir, tudo
o que eu preciso é de uma bebida e uma das fortes. Maquiagem. Sério, Augusto? Grito em
pensamento. Tem como você fazer mais alguma coisa que não se pareça com você? Repasso o dia
na minha cabeça: shopping, roupas, sapatos, maquiagem, lágrimas me fazendo ser generoso, onde
esse caralho de dia vai terminar?
— O que foi que você já ficou putinho, cara? — pergunta Ian se jogando ao meu lado no sofá.
— Realmente ficou chateado por que ela não deu um pingo de valor ao seu esforço?
— E se tiver ficado? — pergunto na defensiva.
— Vou te dizer que isso é extremamente normal. — Vendo minhas sobrancelhas erguidas em
confusão, ele explica. — Por exemplo, noite passada sua irmã me fez sair as três da manhã atrás de
uma coxinha e eu fui. Me troquei e saí de casa morrendo de sono sem fazer nenhuma reclamação,
nenhuma, Augusto, e sabe o que aconteceu quando eu voltei com a maldita coxinha uma hora e meia
depois? — Eu balanço a cabeça. — Ela se irritou comigo porque a porra no negócio tinha catupiry e
não comeu, ainda por cima se recusou a falar comigo por um dia inteiro pela minha falta de atenção.
— Por que você ainda é casado com ela? — pergunto achando graça de sua história.
— Por causa do sexo. — Jogo a almofada na cara dele com toma minha força. — Ai — grita.
—, é brincadeira. Porque eu amo aquela mulher maluca mais do que tudo nessa vida — diz
parecendo o otário que realmente é. Seus olhos até brilhavam ao falar da minha irmã, era nojento!
— Eu preferia mil vezes quando eu ficava com elas e elas iam embora antes do dia clarear. Ter
uma morando em casa é meu pesadelo pessoal e isso porque nem estou comendo — murmuro
achando que ele vai rir, mas não é o que ele faz. Quando levanto o olhar do copo, ele me olha
atentamente. — Ah não, você não. Já tive essa conversa com a sua mulher ingrata.
— Eu sei, Bárbara me contou sobre o shopping e todo o resto — Assente. —, e ela tem razão,
você sabe, não sabe? Esse não é você. Não queremos que a menina saia machucada.
— E eu? — pergunto de repente fazendo ele se surpreender. — E se for eu quem sair
machucado, Ian? — Por que ninguém dessa família nunca pensava nos meus sentimentos? Ah é,
porque eu não tinha.
— Isso não vai acontecer — diz dando risada. —, quem não ama não se machuca, essa é a regra
e você, meu amigo, você não ama, você usa. — Fico calado e viro o resto do uísque, ele tem razão.
— Não vou chegar perto dela, Ian, eu não faria isso. Nunca mulher nenhuma que eu peguei
sequer dormiu na minha cama, acha que eu cometeria o erro de me envolver com uma que mora na
minha casa? — questiono. Não sei porque de uma hora para outra eles resolveram encanar nesse
assunto, não vai rolar. Nem meu tipo Anna faz, eu gosto de curvas, gemidos e mulheres ousadas.
Gosto daquelas que não pensam antes de falar e de abrir o sutiã. Anna tem problemas e reticências
demais para servir pra mim.
— Exatamente por isso. Ela é uma presa fácil, está dormindo a uma porta de distância e você é
fraco. Sabemos que é... — ele ameaça me dar exemplos da minha fraqueza, mas o corto com um
aceno, conheço cada uma das histórias, eu as vivi.
— Eu já disse, eu não vou chegar perto dela, Anna não me atrai — explico pausadamente, e
diferente da minha irmã ele assente e deixa o assunto quieto, como sabia que faria e muda para outro.
— O que o Gustavo está escondendo? — Ele se levanta do sofá e serve uma dose de uísque
para si.
— Não faço ideia, mas admito que estou começando a ficar curioso... e preocupado, ele anda
muito estranho. Quase não para em casa, agora toma banho de perfume e está com medo da Bárbara.
— Ele deve é estar com medo de ela encostar ele na parede, porque a gente não deixa ela fazer
isso de uma vez? Pelo menos, assim vamos matar a curiosidade — Ele ri. Provavelmente deve ter
alertado minha irmã a dar um tempo, mas duvido que seus apelos durariam muito de qualquer forma.
— Como a gente faz? Tranca os dois em uma sala e grita: “pega”? — Antes que ele responda, a
campainha toca e ele vai abrir para a Malibu, ao mesmo tempo meu celular toca, atendo sem olhar o
identificador de chamadas.
— Não gosto da minha mulher indo até a sua casa sem eu estar por perto — dispara Bernardo
sem nem ao menos dar um “Oi, filho da puta, como vai?”.
— Oi pra você também, sem educação — resmungo mudando o celular de mão.
— Você ouviu o que eu disse? — Depois eu que sou o monstro, quando Bárbara me apelidou
ainda não conhecia o Bernardo, perto dele eu era a porra da Cinderela.
— Desde quando eu fiquei surdo, cara? Pare de se preocupar que nem uma bichinha, eu e o Ian
estamos aqui. — Ou talvez não, talvez fôssemos um páreo duro afinal.
— Grande merda, Monstro. Só vê se manda ela pra casa logo, não quero ela aí enquanto a
encrenca estiver morando com você. — A forma como ele chamou a Anna me incomodou a ponto de
que querer xingá-lo, mas me controlei a tempo.
— Ela já sabe disso? — provoco e ele se cala e respira fundo antes de continuar.
— Não e se você puder não abrir a boca eu ficaria grato. Ela gosta da menina e me mandou
cuidar da minha vida quando eu sugeri que ela não fosse. — Touché! Pau mandado que nem o Ian. E
pensar que eles já haviam sido homens um dia, homens com H maiúsculo e não dois capachos que
obedeciam às ordens de duas malucas sem noção que pesavam o mesmo que um frango de vinícola
com anorexia.
— Era só isso, Bernardo? — pergunto de mau humor.
— Eu já disse que você vai se foder com essa história? Se já disse — Ele sabia que já tinha
dito, várias vezes. — vou repetir. A menina é problema e você vai se fod... — É nesse momento em
que desligo a ligação em sua cara que Malibu entra pela porta portando uma maleta de maquiagem do
tamanho do meu carro.
— Cadê meu projeto? — pergunta sorrindo e se abaixando para me dar um beijo na bochecha.
Ela está cada dia mais linda e cada dia maior, mas decido não comentar nem um nem outro com ela.
Vivian já sabe que é linda e me daria um tiro com a arma do marido se eu sequer cogitasse mencionar
seus quilos extras.
— Lá em cima, removendo a maquiagem de prostituta que o Monstro fez nela — diz Ian sem
conseguir segurar a risada.
— Como assim? — pergunta com os olhos brilhando.
— Augusto achou que era capaz de maquiar a Anna e realmente ficou bom, Vivi, mas ela se
recusou a sair de casa parecendo uma garota de programa — Vendo meu olhar assassino, ele emenda.
—, de luxo. Garota de programa de luxo — frisa. Eu adoraria que Ian não espalhasse essa história,
mas eu duvidava muito que ele não o faria. Provavelmente quando chegasse ao hospital encontraria
até panfletos do meu bico extra sendo distribuídos. Olho para Malibu apreensivo, admito, até
envergonhado, achando que ela vai rir ou fazer alguma gracinha, mas sua reação me surpreende.
— O que deu em você? — pergunta perplexa. — Por que fez algo assim? Não pense que não sei
do seu passeio pelo shopping — Meu Deus, nada nessa família era mantido com discrição? Como as
coisas se espalhavam tão rápido assim? — e não acho boa ideia você ser tão... bonzinho com essa
moça, pode dar a ideia errada.
— Lá vamos nós outra vez.
Primeira Pista: Eu sou observador

“Lar é onde o coração está.”


(Bono Vox)

Anna

Eu queria não ter me aproximado da escada sorrateiramente. Queria não ter me erguido na ponta
dos pés agarrada ao corrimão e acima de tudo queria não ter escutado a conversa que Augusto e Ian
estavam tendo na sala. Mas eu fiz tudo isso. Escutei audivelmente ele dizer que não sentia atração
por mim, também, como poderia?
Eu nunca me apaixonei. Não porque não quisesse, mas sim porque não podia. Minhas regras
sempre foram claras e nunca sequer pensei em abandonar qualquer uma delas por um desejo tão tolo.
Como amar alguém se eu não podia confiar em ninguém? Como se quer conhecer alguém se eu tinha
que permanecer invisível? Ninguém pode amar o que não vê, uma pessoa que não conhece ou ao
menos se lembra. E agora, mesmo se eu quisesse, se pudesse, quem amaria um monstro mutilado?
Quem amaria uma mulher marcada para sempre? Ninguém, essa é a resposta.
Muito menos o homem imponente e rude que estava brincando de ter um bichinho de estimação
por alguns dias comigo. Porque era isso que eu era para ele, uma diversão, uma causa perdida, uma
ação de solidariedade, um fardo... Alguém a quem ele estava ajudando por obrigação, por pena ou
até mesmo por gentileza, não fazia diferença.
— Meu Deus, não é que ele é bom mesmo? — disse uma voz acima da minha cabeça entonando
orgulho e admiração. — Pensei que ia encontrar uma prostituta barata, mas você realmente parece
uma acompanhante de luxo com estilo. Isso, claro, sem querer ofender.
— Não está ofendendo. — Tentei sorrir, quase consegui. Ela me estudou por alguns minutos e
franziu os lábios de forma pensativa. Pensei que ia dizer alguma coisa sobre os olhos marejados que
viu, mas me enganei, ela balançou a cabeça e colocou sua maleta de maquiagens em cima da pia.
— Vamos ao trabalho, vamos te deixar com cara de garota de missa de domingo outra vez,
combina mais com você. — Mordi o canto da boca em resposta. Eu não saberia o que lhe dizer de
qualquer forma e fiquei grata porque em vez de puxar assunto ela começou a retirar a maquiagem
cantando uma canção que eu não conhecia. Sua voz era linda e foi a melodia que embalou meus
pensamentos até que ela deixasse meu rosto limpo outra vez. — Quer aprender como fazer? —
perguntou, sorrindo, docemente. — Assim não corremos o risco de Augusto pegar o gosto por outra
profissão no futuro, ele é melhor consertando corações quebrados. — Mais uma vez suas palavras
me deixam sem ação e respostas. Embora eu não quisesse admitir teria grandes chances de Augusto
ter nas mãos um coração quebrado que não poderia consertar: o meu.
— Sim, eu gostaria. — Quem sabe se eu aprendesse a me vestir, me portar e me maquiar eu me
parecesse mais com as mulheres por quem ele sentia atração. Me arrependi no pensamento, se fosse
assim deveria ter ficado com a primeira maquiagem. Estava claro que o tipo de mulheres que o
agradavam não se pareciam em nada comigo. Eu tinha que fazer isso por mim, iria precisar em um
futuro próximo se não quisesse chamar mais atenção do que deveria para meu rosto e não para
agradar um homem que já deixou claro que encostar em mim jamais passou por seus pensamentos.
Pela próxima hora aprendi tudo o que se há para saber de maquiagem, como passar cada um dos
produtos, vários truques que nunca imaginei existirem e uma forma rápida e fácil de mascarar a
cicatriz. Quando terminamos, eu estava olhando para outra pessoa no espelho, uma pessoa que criei
sozinha a partir das dicas e instruções de uma boneca Barbie que realmente sabia o que estava
fazendo. Olhei para aquela mulher no espelho, a que deveria ser eu e sorri, ela sorriu de volta,
parecia animada e feliz. Não é à toa que pensei ser outra pessoa.
— Você está linda, Anna. — Inesperadamente Malibu jogou seus braços em volta de mim, por
alguns segundos eu não soube o que fazer, mas felizmente meu corpo e meu subconsciente sabiam,
eles a abraçaram de volta e eu gostei disso. Fiquei com a cabeça apoiada em seu ombro sentindo o
cheiro do seu perfume, cheiro de bala, até que senti algo molhado no meu rosto, me afastei em tempo
de vê-la enxugar uma lágrima com a ponta de um dos dedos. Até para secar lágrimas, a mulher tinha
classe, puta que pariu.
— O que houve? — perguntei preocupada olhando para sua barriga.
— Hormônios, eu já era chorona antes disso — Apontou para o volume por baixo da blusa. —
Agora parece que não faço outra coisa da vida. É que você está tão linda e é tão jovem, eu só queria
que ficasse bem.
— Você está preocupada comigo? — pergunto com um bolo se formando na garganta, ela
assente timidamente e volta a sorrir fazendo com que mais uma lágrima caia de seus olhos. Fico
muda, embasbacada seria a palavra certa. Nunca ninguém tinha se preocupado comigo dessa forma.
— Mas você nem me conhece! — exclamo ainda surpresa e ela ri.
— Bárbara me disse o mesmo quando nos conhecemos, vocês duas têm muito em comum, acho
que é por isso que gostei das duas logo de cara. — Ela está me comparando com Bárbara? Está
insinuando que podemos ser... amigas? — Eu adoro um bom caso perdido. — Me pego sorrindo de
volta, um daqueles sorrisos bobos e cheios de dentes, um sorriso que eu dei pouquíssimas vezes na
minha vida.
— O que eu perdi e por que você está chorando? Anna não deixou você guardar as roupas novas
dela? — Nós voltamos para a porta e encontramos Bárbara sorrindo encostada na soleira, por um
momento pensei que ela se sentiria ofendida por ser comparada com alguém como eu, que jamais
chegaria perto de seus pés, ou enciumada por Malibu ser tão gentil, já que estava claro que ela havia
ouvido o final da conversa, mas tudo o que encontrei foi um sorriso de cumplicidade.
— Sabe, Anna, minha experiência me diz que ter amigas pode ser uma merda — murmura
Bárbara, agora sorrindo diretamente para Malibu. —, mas essa daí eu recomendo. Não só ela, você
pode contar comigo também, agora... — faz uma pausa. — e quando sair daqui. Estaremos a um
telefonema de distância, sempre que você precisar. Viver a vida sem acreditar em ninguém é muito
solitário... — divaga, parecendo triste por um momento.
— Eu não sei nem o que dizer. — Diga sim, Anna, vamos lá, diga, pede meu coração, mas não
posso, sei que não. Não posso criar laços com essas pessoas nem com ninguém. Laços são fáceis de
serem rastreados e eu não posso me dar a esse luxo, não posso correr o risco de ser encontrada por
ele novamente, então apenas sorrio e parece que isso basta, porque elas sorriem de volta e me
arrastam para o quarto, mais precisamente até as sacolas com as roupas novas alegando que ainda
não estou pronta para sair.
O que eu aprendi hoje? Aprendi que talvez shoppings não sejam tão ruins, aprendi que fazer uma
maquiagem não é um bicho de sete cabeças e que existem pessoas boas, puras, eu diria, que
conseguem ver através de toda a fachada que cobre o que tento ser, aprendi que o primeiro homem
que fez meu coração bater mais forte não vê o que tem por baixo dessa fachada e que esse mesmo
homem sempre tão rude, nem sempre tem palavras prontas na ponta da língua. Esse último item eu
aprendi assim que desci as escadas do sobrado vestindo um vestido de verão preto com flores
vermelhas, nos pés uma sapatilha da mesma cor: vermelha, com uma confiança que eu não tinha, mas
que as loiras garantiram que eu deveria ter e um sorriso tímido que eu não sabia de onde vinha.
— Vo-você está... — ele gagueja e faz uma pausa, olha para Ian que levanta as sobrancelhas e
de volta para mim, pensa um pouco no que falar e decide por terminar assim: — bem.
— Não seja modesto, Monstro, ela está linda! — diz Malibu descendo as escadas atrás de mim,
posso escutar os murmúrios de concordância de Bárbara, Ian apenas sorri em minha direção,
concordando com a cabeça.
— Está pronta? — pergunta Augusto desconfortavelmente.
— Sim, tenho apenas que chamar Nicholas — respondo desviando o olhar, sentindo minhas
bochechas corarem com seu aparente desconforto que ecoa dele como ondas de calor.
— Ah, Anna, esqueci de dizer, passei no quarto do Monstro enquanto você terminava de se
arrumar e ele está dormindo profundamente, tentei acordá-lo, mas ele parece tão cansado que não
abriu os olhos, apenas virou para o outro lado — diz Malibu, tento não parecer decepcionada. Eu
nem queria sair, mas depois de tantas horas me preparando para isso, física e mentalmente, acabo
ficando triste de ter que tirar o vestido bonito tão rapidamente. Augusto parece perceber meu
desapontamento porque oferece:
— O que acha de irmos nós dois, então? Não quero que toda essa produção — diz erguendo a
mão e me indicando com um aceno. — não valha para nada.
— Não, tudo bem. Quem sabe outro dia? — Agora estou sendo patética, eu me odeio. — Não
quero deixar Nicholas sozinho, ele pode ficar chateado se formos sem ele.
— Isso não é problema, amanhã eu e Bernardo íamos mesmo assistir um desenho animado que
lançou recentemente no cinema, podemos levá-lo, se você autorizar. — A oferta é realmente generosa
e eu penso sobre ela por alguns instantes antes de concordar. Nunca deixei Nick sair com ninguém
por falta de alguém para se oferecer claro e, acima disso, por falta de confiança, mas ele não estaria
em melhores mãos do que a de uma moça tão doce e um policial, nessa equação foram as mãos do
policial que me ganham, afinal ter mãos doces nunca protegeram ninguém, ter uma arma na cintura
sim.
— Seria ótimo — me pego concordando. Malibu sorri para Bárbara quando escuta minha
permissão, ela a encara de modo inquisitivo. Ambas estão trocando olhares que apenas elas
entendem, parecem no meio de uma discussão acalorada que tem como palco apenas sorrisos
discretos (Malibu), olhares zangados (Bárbara), uma carinha de filhote de cachorro triste que caiu do
caminhão de mudança (Malibu), alguns palavrões (Bárbara), um olhar firme e um trincar de dentes
(Malibu), isso está ficando cada vez mais interessante, e, por fim, um sorriso de derrota misturado a
um olhar reprovador (Bárbara).
— O que estão esperando? — pergunta Bárbara ainda olhando para a amiga. — Eu e Ian
ficamos com Nicholas para vocês saírem. — Três coisas acontecem em seguida. Ian levanta as
sobrancelhas, como se dissesse: “É mesmo?”, Augusto me puxa pela mão, arrasta seria a palavra
mais apropriada e eu tento agradecer, mas não sei se alguma delas me escutou, já que quando consigo
articular a palavra obrigada, já estou praticamente sendo enfiada no carro.
— O que você gostaria de fazer, ainda quer ir ao cinema? — pergunta Augusto virando a chave
na ignição e saindo de ré com precisão.
— Uma sala escura e lotada com apenas uma saída de emergência? Acho que eu passo, só
aceitei por Nicholas — murmuro distraída, antes de me dar conta do quanto fui incisiva. Mas quer
saber? Que se dane, ele não é a pessoa mais agradável do mundo, de qualquer forma.
— Ótimo, também só ofereci por causa do menino, se fosse para ver filmes eu via na minha
tevê, de graça. Não vejo graça em ir ao cinema. — Pelo menos tínhamos algo em comum, ou quase.
Ele não via graça, eu via medo. — Que tal se jantássemos em algum lugar e depois déssemos um
passeio?
— Tudo bem — concordei ainda distraída, mas dessa vez minha distração tinha nome. Mais
precisamente um modelo e nenhuma placa. No outro lado da rua estava um carro preto, com os vidros
escurecidos e sem identificação. Cheguei a me virar no banco enquanto Augusto manobrava para ter
uma visão melhor com a já conhecida sensação ruim subindo pela garganta. Não havíamos virado a
esquina ainda quando os faróis do carro se iluminaram e passaram a se aproximar lentamente.
Não é ele. Não é ele. Não é ele.
É ele, eu sei que é. Eu tenho certeza, posso sentir e cada célula do meu corpo diz que é ele.
— Você está bem? Parece pálida — comenta Augusto me olhando de soslaio. Não respondo,
estou ocupada. Na minha mente já fiz as malas, recuperei minha maleta e acordei uma criança no
meio da noite lhe dizendo que partiríamos para mais uma aventura. Por um momento temi por
Nicholas, mas abandonei rapidamente o pensamento, o carro nos seguiu, então por ora ele estava
seguro, quanto a mim e a Augusto, eu já não tinha tanta certeza. — Anna, você está se sentindo mal?
— Dessa vez Augusto se virou no banco para me estudar, a preocupação em sua voz foi tão nítida
que me forcei a responder.
Só Deus sabe de onde tirei a voz.
— Estou ótima. — Estou em pânico. Fico em silêncio durante todo o trajeto até o restaurante,
olhando no espelho retrovisor, somente quando chegamos ao nosso destino consigo soltar a
respiração que nem havia me dado conta de estar prendendo, pelo que pude ver não havíamos sido
seguidos mais do que poucas quadras. Existia uma boa chance de ser apenas um dos vizinhos que
havia comprado um carro novo e saído para um passeio justamente no mesmo horário que nós, assim
como existia uma boa chance de eu estar me iludindo. Algo que eu me gabava para mim mesma de
nunca fazer.
Minha ilusão tinha nome, sobrenome, um carro do ano e um mau humor grande o suficiente para
ser exportado para todos os países do Oriente Médio. Eu tinha que parar de enganar a mim mesma e
enganar apenas as outras pessoas, tinha que admitir que deixar a casa dele seria o único esconderijo
do qual eu sentiria falta, isso porque ele estava longe de se parecer com um esconderijo, se parecia
tanto com um lar...
Augusto me passava a sensação de ser um lar.
Eu não sabia como eles eram, que cor tinha, ou se tinham um aroma especifico, nem mesmo
sabia que podiam ser encontrados em uma pessoa, mas aquele homem com feições duras, humor
ácido e olhos em brasa me fazia sentir como se estivesse em casa apenas por estar ao seu lado.
Menina tola, é o que ele diria.
Pequena Mentirinha

“Não se confunda pela sua aparência comum, como muitas coisas, não é o que está por fora, mas
o que está por dentro que importa.”
(Aladdin)

Vivian

— O menino não está dormindo, não é? — pergunta meu irmão levantando as sobrancelhas, seu
tom de voz indica que ele está zangado por eu ter mentido, mas sei que é fingimento. Sei disso pelo
leve tremular de seu queixo que sempre antecede um sorriso conspiratório. Conheço aquele sorriso
matreiro como cada uma das minhas unhas pintadas a francesinha, ele é tão natural para mim como o
ar que eu respiro.
Quantas não foram as vezes que esse mesmo sorriso surgiu quando eu quebrava alguma coisa da
mamãe e ele assumia a culpa para não me ver tomar uma bronca, ou nas vezes em que me
acompanhou em uma festa somente porque eu não tinha permissão para ir, mesmo que ele preferisse
cortar o dedo do pé a dentadas a comparecer por vontade própria, ou nas milhares de vezes em que
me deixei levar pela crença de que eu tenho no sentimento mais bonito que foi dado a humanidade: o
amor. Uma crença que já está tão enraizada em mim que sem ela eu não seria mais a mesma.
Um dia, Ian precisou que eu acreditasse nessa crença por ele.
Aquele pequeno sorriso apenas provava que meu irmão sabia exatamente tudo o que se passava
na minha cabeça e concordava comigo, porque ele aprendeu a acreditar. Era um sorriso de
cumplicidade onde ele sem dizer nem mesmo uma única palavra me mostrava um orgulho do tamanho
do mundo. Já Bárbara parecia querer bater com o mundo na minha cabeça, isso se eu fosse julgar
pela carranca mal-humorada e o julgamento em seu olhar. Tão difícil, sempre tão difícil essa garota,
a essa altura da vida ela deveria ser mais crente no amor, isso ou nas minhas habilidades de fada
madrinha. Porque ela sabe que quando eu entro no jogo, eu entro para ganhar.
Tenho para mim que até os homens mais duros podem amar se encontrarem a mulher certa e meu
coração diz que a mulher certa para o Augusto é a Anna, ele não apenas diz, ele grita e grita alto. Ela
em nada se parece com todas as mulheres que o vi desde que o conheço. Sua beleza é angelical e
suas feições são doces, embora escondam muitos segredos sombrios. Seu corpo ainda é de menina,
não há curvas, há apenas graciosidade, mas eu sei disso pelo olhar. Que ela o olha com um misto de
admiração e ilusão todos nós percebemos, o que ninguém viu ainda é como ele olha para ela quando
acha que ninguém está prestando atenção.
Seus olhos refletem muitos sentimentos: carinho, proteção, culpa, obrigação e algo mais e é esse
algo mais o culpado por eu ter mentido para que eles saíssem sozinhos. Ainda não descobri que
sentimento é esse, mas estou tentada a achar que é medo e se um monstro tem medo de alguma coisa é
porque sabe que essa coisa pode lhe ferir.
Se Anna pode ferir Augusto é porque ele pode vir a amá-la e se isso é possível vou arregaçar as
mangas e bancar a fada madrinha, mesmo que nenhum dos dois queiram. Eu sou assim, intrometida
por natureza e me orgulho muito disso. Se não fosse minha intromissão, eu não teria uma cunhada que
eu venero e que posso chamar com a boca cheia de melhor amiga, embora na maioria dos dias eu a
chame de carma ou a pequena criatura sem humor que eu crio com carinho. Se eu dobrei a Bárbara
também posso dobrar o Augusto.
É só uma questão de pensar positivo e arrumar um pozinho mágico mais eficiente.
— Barbie, isso não está certo, coitadinho do menino ser deixado para trás dessa maneira —
ralha Babi colocando as mãos na cintura.
— Eu comprei ele com chocolates, um cinema e uma bola — ela finda os olhos em reprovação
e Ian gargalha. — O menino vai ficar bem! — Percebo que o menino é a menor de suas preocupações
somente por seu suspiro alto.
— Mas a mãe dele não vai, por que você fez isso? — questiona abandonando a carranca e
parecendo triste. Não gosto de vê-la triste.
— Pensei que você gostasse da menina, pensei que... — digo confusa.
— Eu gosto da menina, esse é o problema. Só não gosto do que meu irmão vai fazer com ela. —
Em um primeiro momento pensei que ela estaria com ciúmes do Augusto, mas percebo por seu olhar
perdido que é mais do que isso, Bárbara está lembrando de alguma coisa... — Não é nem um pouco
agradável se tornar o brinquedo de alguém, Barbie, a menina merece mais.
— Eu tenho fé nele, Bá, talvez você devesse ter também — se intromete Ian fazendo ela estalar
a língua. — Augusto pode ser um idiota, mas ele não vai iludir aquela menina se não puder se doar
em troca. Ele mesmo me disse que não pensa nela dessa forma. Acho que todos nós estamos nos
precipitando e vendo coisas onde não existe nada.
— Eu sei o que eu vi — sussurro para ninguém em especial.
— Eu acredito e eu sei como termina, Barbie Made in China falseta — sussurra Bárbara da
mesma maneira. Tenho vontade de bater nela, mas em vez disso a abraço. Ela tem motivos para não
ter fé em amores impossíveis, não é porque ela foi agraciada com um que todas as outras também
seriam. Mas há algo de mágico no reino da Bela e a Fera que me faz ter esperanças de que nosso
próprio monstro também encontre o amor.
Vai ser lindo, ela vai ver, todos nós vamos.
— Preciso de uma coxinha — diz ela suplicante, batendo os cílios em direção ao meu irmão.
— E eu preciso de bolo — digo eu, também batendo os meus enquanto ele revira os olhos já
sabendo que não vai se negar a atender nossos pedidos.
Nós viramos uma para a outra, depois nós voltamos para ele e dizemos mais uma vez em
uníssono:
— AGORA, IAN!
Tantos nomes para um único rosto

“Quando você for sair da sua casa. Não se esqueça de levar coragem. Sempre equipe sua alma
com asas. Cada dia é uma nova viagem. Todo mundo gosta de viajar. A saudade muitas vezes faz
bem. Ela disse que queria voar, mas que um beijo meu servia também.”
(Tanto faz, Projota)

Augusto

Me amaldiçoei assim que o convite para sairmos sozinhos saiu da minha boca, foi como se outra
pessoa — uma que eu não conheço — o tivesse feito por mim e me irritei por não ter mais controle
sobre meu próprio corpo, minha língua e meus atos quando estava perto dela. Tentei atribuir minha
iminente insanidade a sua beleza. Anna nem de longe parecia com as mulheres com as quais eu saía e
foi exatamente isso que me atraiu nela.
Anna não é previsível.
Jurei a mim mesmo que não seria cordial nesse encontro. Deus, eu já estava chamando de
encontro, se Ian pudesse entrar nos meus pensamentos e ouvisse isso me esperaria em casa com uma
camisa de força e uma mordaça nas mãos. Eu seria o Augusto cheio de si que não desce do salto
(fazer aquela maquiagem me deixou mais bicha do que supus) por ninguém. O Augusto que não é
gentil e nem preocupado. Eu seria apenas eu, como sempre fui e como sei ser.
Embora poucas pessoas gostem dessa versão de mim.
— O que houve? — pergunto ao abrir a porta do carro para que ela saia depois que estaciono o
carro. Somente quando minha mão agarrou a maçaneta percebi meu ato. NÃO SEJA GENTIL,
PORRA! De qualquer maneira, ela já estava saindo por conta própria, então talvez não tenha
percebido que eu também estava lhe abrindo a porta. Ela olhava incerta para o restaurante e para as
pessoas que esperavam na fila de espera na calçada, como se estivesse desconfortável.
— Parece caro — comenta. Não só parecia, o restaurante era mesmo caro. O dono fazia questão
de estuprar o cliente assim que esse pagava a conta. Era mais ou menos assim: “Posso incluir os
serviços, senhor? Ótimo, ótimo, agora fique de quatro, por favor!”. Mas a comida era ótima e as
mulheres solteiras que perambulavam pelo lugar faziam cada centavo valer a pena.
— Se você quiser ir em outro lugar, podemos ir — ofereço de repente pensando que é bem
possível que eu encontre uma ou várias das mulheres solteiras que já passaram pela minha cama
nesse lugar e percebo que não quero que Anna presencie um encontro assim, ou que passe a noite
toda me vendo babar nas coxas de outra mulher sem prestar atenção a nenhuma de suas palavras.
— Não me encaixo em um lugar como esse, acho que eu envergonharia você — admite fechando
os olhos por um momento e voltando a reabri-los para me encarar, estavam inseguros. Outra mulher
estaria dando pulos de alegria por estar na porta do melhor restaurante da cidade, estaria planejando
animada pedir o prato mais caro do cardápio e pagaria o preço pelo jantar de bruços encostada a
uma mesa mais tarde, ainda com um sorriso no rosto. Mas não essa menina, tudo o que ela se
preocupa é se eu vou me sentir confortável com ela ao meu lado.
Foda-se. Foda-se. Foda-se. Vou ser gentil sim, porra!
Vou dar a ela um dia especial e divertido. Nem que para isso eu deixe de ser eu por algumas
horas. O que são algumas horas, afinal? Não vou morrer por isso...
— Eu não tenho por que me envergonhar — Ela estreita os olhos desacreditando da minha
afirmação. —, mas caso você não se sinta bem aqui podemos fazer outra coisa, o que você quiser
fazer...
— O que eu quiser? — pergunta sorrindo timidamente e embora eu ache que vá me arrepender
de concordar é exatamente isso o que faço.
— Sim, o que você quiser. — Seu sorriso se torna mais largo.
— Então eu quero comer ali — diz apontando o dedo em direção à praia. Em um primeiro
momento não vejo nada até que firmo o olhar e avisto ao longe uma barraca de cachorro-quente. Não
me aguento e caio na risada. Nunca na minha vida uma mulher me pediu para levá-la para comer
cachorro-quente e provavelmente a maioria me daria as costas e entrariam em um táxi se eu sequer
sugerisse esse menu. — Por que você está rindo? — pergunta constrangida decerto imaginando que
estou caçoando dela, estou longe disso. Estou apenas surpreso. Surpreso e secretamente encantado.
— Não é nada. — Balanço a cabeça tentando conter o riso. — Se você quer pão com salsicha é
isso que vai ter, vamos lá — digo abrindo a porta do carro para que ela entre e dando a volta para
assumir o volante. Estaciono pouco depois na beira da praia, a alguns metros da barraca. — Me
espera aqui, eu vou lá comprar. O que você quer que eu traga?
— Um dog completo e uma Coca-Cola, por favor — diz remexendo na bolsinha de mão atrás de
uma nota, reviro os olhos e lhe dou as costas quando ela consegue puxar o dinheiro da carteira. Volto
pouco depois equilibrando os lanches e o refrigerante e paro a pouco passos do carro, incerto.
Comer dentro do meu carro já é demais, não é? Mas o sorriso que ela lança quando olha pela janela
e me vê me desarma, então apenas dou a volta no carro e entro nele lhe entregando seu jantar.
— Não deixa nada cair no banco — advirto sem conseguir me controlar. — Mandei lavar o
carro esses dias. — Ela assente como uma criança assustada e eu me arrependo de abrir a boca
assim que ela se endireita no banco e parece apreensiva controlando cada uns dos seus movimentos.
— Posso comer sentada ali, se você quiser — diz apontando para um banco de madeira.
— Não... — discordo me sentindo um babaca. — só tenha cuidado, ok?
Depois dessa, eu calo a minha boca e como em silêncio observando-a de canto de olho. Anna
parece estar adorando o jantar e devora seu sanduíche com os olhos grudados no mar a nossa frente.
Vez ou outra ela me olha de lado, mas finjo não perceber, assim como finjo não perceber que ela
deixou cair mostarda no meu banco, apenas mordo os lábios para não falar nada e me volto para o
mar, como ela está fazendo.
Ela parece incomodada com alguma coisa, não algo que eu tenha dito ou feito, algo que é só
dela e imagino que não vá dividir comigo. Embora esteja tentando disfarçar, posso ver as
engrenagens dos seus pensamentos funcionando a todo vapor. Começo a ficar incomodado com o
silêncio, mas não sei como começar uma conversa sem terminá-la com uma discussão, então saio do
carro com a intenção de jogar os papéis e as latas no lixo e disco o número de Ian no caminho, ele
atende no terceiro toque.
— O que as pessoas normalmente fazem em um encontro? — pergunto rapidamente antes que eu
me arrependa do que estou fazendo. Porque eu sinceramente não faço ideia. As únicas vezes em que
saí com uma mulher foi com segundas intenções, sempre para que eu acabasse me divertindo no final
da noite e nunca ela, no começo.
— Você está em um encontro? — pergunta divertido. Eu queria muito, muito socar a cara dele.
— Não, mas se eu estivesse, o que deveria fazer? — Estou ficando sem paciência e
envergonhado da pergunta, desejando poder voltar atrás.
— Um encontro serve para duas pessoas se conhecerem, começa por aí. Observar estrelas
também funciona — diz de forma prática e eu olho para o céu, está estrelado. Perfeito.
— Valeu — agradeço afastando o celular do rosto com a intenção de desligar a chamada, mas
sua voz me faz desistir e prestar atenção no que ele ainda tem para dizer.
— Cuidado, Monstro, muito cuidado com o que você vai fazer — aconselha.
— Eu vou ter, Ian, agora cuida da sua vida — resmungo dessa vez desligando o telefone.
Consigo ouvi-lo murmurar um “mal-agradecido” antes encerrar a chamada, mas não estou nem aí. A
única coisa que me preocupa é a vontade que tenho de tornar esse dia mais especial do que ele
deveria ser. Embora eu saiba que é um erro, faço com que ela saia do carro e o mais importante,
deixo que ela se deite sob o capô do meu carro e faço o mesmo ignorando a ânsia de conferir se não
estamos riscando a lataria.
— Aqui dá para ver as estrelas, são tão lindas. — Sorri admirada. — Em São Paulo quase não
vemos nenhuma por causa da poluição.
— São sim — concordo sem nem ao menos olhar para o céu, eu só tenho olhos para ela. — Me
fala sobre você, Anna, sempre morou em São Paulo? — Ela arqueia as sobrancelhas, surpresa.
— Eu não... eu... não te-tenho muito o que falar — gagueja amedrontada.
— Fale o que você quiser, quero saber tudo. Onde nasceu, os lugares onde morou, o que fez
para sobreviver nesse tempo todo em que não nos conhecíamos. — Prendo a respiração e espero por,
pelo menos, uma resposta para as minhas perguntas.
— Augusto... eu... — ela se cala e me encara, enquanto torce as mãos apreensivamente.
— Tudo bem, deixa pra lá. — Estava claro que ela não confiava em mim para contar
absolutamente nada sobre sua vida e eu tinha que respeitar isso, então me fechei também e olhei para
as estrelas para as quais ela olhava tomando consciência de que nunca havia visto as estrelas deitado
ao lado de uma mulher antes.
— Quanto aos lugares onde morei, bom... morei em toda parte — diz de repente minutos depois
quebrando o silêncio, ela parece solitária.
— Você tem família? — pergunto aproveitando a abertura que ela me deu, vejo-a assentir, mas
ela demora para responder em voz alta.
— Eu tive, mas não tenho uma há muito tempo. — Vejo uma única lágrima se acumular no canto
de seu olho, ela levanta a mão e rapidamente a espanta voltando a contemplar o céu enquanto morde
o lábio para reprimir qualquer emoção que esteja tentando invadi-la.
— Então é só você, Nicholas e o fantasma que te assombra — imaginei que ela se fecharia ou
até se ofenderia, mas ela ri.
— Sim, somos só nós três. — A que eu possa perguntar mais alguma coisa, ela emenda: — E
você? É só você, seu narcisismo e as mulheres fúteis com quem você sai?
— Sim, também somos só nós três. Nós e uma família maluca. — Rio.
— Me conta mais sobre a sua família? — pede com a voz carregada de emoção, mesmo sem
conhecê-la bem, posso jurar que ela está pensando nas pessoas que perdeu.
— Você conheceu minha avó, então já sabe o quanto ela é extraordinária — Ela assente. —,
além dela tenho meus pais, ambos também extraordinários. É de família — digo fazendo graça.
— Eles ainda são casados? — pergunta com os olhos brilhando.
— Sim. — E até hoje não sei como conseguem, provavelmente porque minha mãe não mora na
mesma dimensão do meu pai.
— Ainda se amam? — pergunta despretensiosamente. Penso por um momento em sua pergunta.
— Meu pai ainda abre a porta do carro para a minha mãe sair, ainda lhe compra flores todas as
últimas sextas-feiras de todos os meses, porque foi em uma que eles se conheceram. Eles ainda se
beijam e se agarram o tempo todo, então sim. Acho que ainda se amam.
— Eles foram bons pais então. — Eu nunca poderia falar o contrário.
— Por que você diz isso? — me intrigo com sua constatação.
— Porque onde existe uma criação feita com amor existem pessoas dignas — Nesse momento
percebo que ela me olha de lado com um sorriso zombeteiro. —, talvez você tenha sido a exceção.
— Ei, eu sou digno. Ajudei você, não foi? — Me arrependo de ter feito essa pergunta. Parece
que estou jogando o que venho fazendo por ela e pelo menino em sua cara, mas não foi essa a
intenção, eu só quis que ela soubesse que tem mais além de todos os meus defeitos. — E pode se
sentir lisonjeada, foi a primeira. Acho que nunca fiz algo assim por ninguém antes. — Eu tenho
certeza, certeza absoluta de que nunca abriguei uma mentirosa antes.
— Eu estou brincando — diz culpada. — Sempre serei grata a você, Augusto, por tudo que tem
feito. Eu não sei nem como te agradecer. — Ela dá de ombros sem saber mais o que falar.
— Eu sei — digo, me sentando e me voltando para ela, suas sobrancelhas se erguem em
resposta, me mostrando que ela não é tão santa assim, posso ver em seu olhar que ela pensa que vou
sugerir algo moralmente errado e bem que eu gostaria, mas não era nisso que eu estava pensando. —
Me conta um dos seus segredos. — Seus olhos se arregalam. — Um só, Anna, e eu juro que não conto
para ninguém.
— Meu nome não é Anna — diz rápido demais e tapa a boca assim que as palavras terminam de
passar por ela, como se quisesse engoli-las de volta, mas não pode. Eu já escutei e assimilei o que
ela falou.
— Qual é seu verdadeiro nome? — pergunto espantado pensando em mil e uma possibilidades
para ela achar que precisa usar um nome falso dentro da minha vida.
— Você me pediu um segredo — frisa pausadamente passando a mão pelos cabelos, o que deixa
sua cicatriz temporariamente à mostra. — e foi o que eu te dei.
— Essa é a primeira vez que você usa um nome falso? — Ela desvia o olhar e olha para o céu
respondendo silenciosamente minha pergunta. — Quem você era antes de eu te encontrar naquela
estrada?
— Lavínia Andreata — sussurra. Penso que ela não vai falar mais nada, mas ela me surpreende
ao continuar. — Antes fui Giovanna de Souza Maninaro e antes dela Bruna Bernardes Dias e antes de
todas as outras, Augusto, fui Violeta Castelare. Fui muitas mulheres, mas acho que nunca fui eu
mesma. Pelo menos, não desde que me lembro, não até encontrar você...
— Quando foi a última vez que te chamaram pelo seu verdadeiro nome? — Como ela conseguiu
ser tantas mulheres com tão pouca idade? Será que algum dia eu conheceria a verdadeira por inteiro
ou ela havia sido absorvida por todas as outras personalidades que ela criou?
— No dia em que eu perdi tudo. — Ela está abalada, em um impulso estendo minha mão e
agarro a dela que está pousada em cima de sua barriga, aperto-a na minha tentando lhe passar algum
tipo de conforto, mas não tenho sucesso, ela chora. — Antes de conhecer você, eu não chorava, o que
você faz comigo? — pergunta desesperada.
— Talvez porque eu seja a primeira pessoa que nesse tempo todo realmente quis conhecer você.
Conhecer de verdade. — De onde saiu isso? É aquele outro eu assumindo o controle da minha mente
e do meu corpo outra vez, antes que eu possa enforcá-lo ele a puxa pela mão e a abraça e ela encosta
a cabeça em meu pescoço me deixando de mão atadas.
— Me desculpe, mas essa pessoa ninguém vai conhecer, nunca mais. Dói demais — sussurra
com a boca próxima a minha pele. Seu hálito faz cócegas no meu pescoço e eu a aperto com mais
força encostando os lábios em seus cabelos.
Por incrível que pareça, o abraço demorado não é desconfortável, pelo contrário, eu desejo que
nunca mais acabe e a aperto cada vez mais contra meu peito, como se não fosse mais soltá-la, mas em
certo momento ela o interrompe ao se reclinar e olhar nos meus olhos com um brilho interessante no
olhar e depois os fecha esperando por uma atitude minha...
Esperando ansiosamente por um beijo que não virá.
Afasto-a e a empurro para longe de mim pelos ombros sem hesitar, não posso me dar a esse
luxo, não com ela. Só aí Anna abre os olhos. Eu não estava preparado para ver decepção e vergonha
dentro deles. Ela realmente achou que eu a beijaria, mas por que eu faria isso? Prometi a minha
família e a mim mesmo que não iludiria essa menina e é exatamente isso que vou fazer, por mais que
eu queira tomá-la em meus braços e conhecer cada um dos seus segredos, sei que se fizesse isso
estaria dando um passo sem volta.
Espero que meus olhos não reflitam exatamente o que estou sentindo: medo.

***

Não vou conseguir dormir. Em parte, porque sinto falta do menino roubando meu espaço, já que
Anna não deixou que ele ficasse comigo essa noite e em parte porque não consigo parar de pensar no
nosso encontro, no que não aconteceu nesse encontro. Por que eu não a beijei? Seria tão fácil me
inclinar e encostar os lábios nos seus, eu sei que ela queria isso, esperava por isso. Por que não
consegui? Nunca fui de cumprir promessa nenhuma, porque não a agarrei, joguei-a dentro do meu
carro e arranquei sua roupa? Eu sei que ela permitiria, que se entregaria para mim sem ressalvas.
Nisso ela não era diferente de nenhuma das outras mulheres que passaram pela minha vida.
O fato é que eu não me reconhecia e isso era o que mais me torturava. Eu não me via mais em
nenhuma das minhas ações ou palavras, sequer me reconhecia ao olhar no espelho. Onde deveria
estar o meu reflexo, estava apenas o rosto dela me olhando de volta com medo e algo mais, aquele
brilho encantador no olhar. O brilho que me cegava e fodia com a minha cabeça.
Meu celular toca assim que Anna sai do meu quarto carregando um Nicholas adormecido nos
ombros, ela não disse uma palavra no caminho de volta, mas suas bochechas vermelhas e o olhar
para fora da janela disseram tudo, ela estava constrangida e irritada e, em contrapartida, não fiz nada
para amenizar isso, também fiquei em silêncio. Só respondi o boa noite que ela lançou a uma parede
em voz baixa depois de passar pela porta, respondi para a mesma parede.
— Como foi? — pergunta Ian em voz baixa, provavelmente está se escondendo da minha irmã.
— Nada bem, cara — confesso.
— Você não... você não comeu a menina, né? — pergunta na lata. Ian sempre direto.
— Não, esse é o problema — lamento me jogando na cama, cobrindo o rosto com o antebraço.
— Eu sei que vou me arrepender de perguntar, mas por que é uma coisa ruim? Já estava mais do
que na hora de você encontrar uma mulher que não tira a calcinha sempre que você manda — falou o
cara que era famoso por arrebentar um coração depois do outro. Por coração, entenda-se calcinhas,
muitas calcinhas de todas as cores e modelos.
— Novamente, não é esse o problema — resmungo. — Ela queria, Ian, eu sei que queria, mas
eu... fui eu quem não consegui.
— Ok, tô descendo aí, vai pegando uma cerveja — diz prático. — porque eu quero estar
olhando pra sua cara arrasada quando você repetir que não conseguiu — frisa. — pegar uma mulher
que queria ser pega. Me dá dois minutos!
— Se você trouxer o celular pra filmar, vou fazer você engolir ele pela bunda — ameaço e
escuto sua gargalhada antes que ele desligue na minha cara.
Quando Ian finalmente passa pela porta da cozinha, já estou na segunda garrafa de cerveja. Não
falo nada, apenas abro a geladeira e lhe estendo uma.
— O que exatamente aconteceu? — pergunta abrindo a garrafa e dando uma golada antes de me
encarar com expectativa. Mulherzinha, adorava uma boa fofoca. Tão igual a minha irmã que me dava
até medo, por falar nela...
— Bárbara não está atrás da porta, né? — pergunto olhando por sob seu ombro de forma
suspeita.
— Não e sugiro que você não converse com ela sobre a Anna, ela não te acha capaz de gostar
de nada, nem ninguém, a não ser seu carro e seu estetoscópio — alerta com uma risada.
— Ela não está muito longe da verdade, eu gosto mesmo daquele carro. Muito mais do que eu
gosto da minha irmã. — Dou outra golada. — Enfim, Anna foi a primeira mulher com quem não
consegui transar e eu não faço ideia do motivo e eu adoraria que você me dissesse que porra está
acontecendo sem me torturar, já estou fazendo isso por conta própria.
— O hospital contratou um novo urologista, cara bacana...
— Não brochei, seu animal — corto sua piadinha sem graça. —, eu só não quis — confesso na
defensiva.
— Por que você não sente atração nenhuma por ela? — pergunta parecendo confuso. — Pelo
menos foi exatamente isso que você me disse antes de sair de casa, antes de me ligar desesperado
que nem uma menina porque não fazia ideia do que era um encontro de gente normal.
— Eu menti, tá legal? Menti. Ela me atrai, mas... também me dá um medo da porra. Não entendo
e não gosto dela, mas aqueles olhos... eles parecem ver através de mim e eu odeio isso.
Ian não fala nada. Me olha por quase um minuto inteiro antes de se levantar e pegar outra
cerveja na geladeira, estendendo-a à minha frente antes de se sentar novamente.
— Melhor você beber, vai precisar depois que eu te disser o que acho que você precisa ouvir.
— Assinto sem reclamações. — Gostar de alguém não é a pior coisa que pode te acontecer, cara, se
você acha que essa menina tem alguma coisa que nenhuma das outras tem, talvez valesse a pena você
simplesmente ver no que vai dar. Mas se você está pensando só com o pau, esquece. Se você quer
transar vai atrás de uma puta e deixa a menina quieta. Porque isso que vocês estão fazendo, esse
jogo, não tem só você como participante e dos dois ela é a parte mais sensível.
Não respondo. Ainda bem que ele me deu aquela cerveja antes de abrir a boca, depois de
escutar suas palavras eu realmente precisei de mais álcool no corpo, um caminhão pipa cheio dele
teria sido até melhor, como eu bem previa foi extremamente difícil conseguir pregar o olho, só
adormeci depois que todo o álcool fez efeito.
Acordei na manhã seguinte com uma dor de cabeça dos diabos e um hálito capaz de matar uma
boiada com um bocejo. Não perco tempo tomando banho ou trocando de roupas, me levanto e vou
atrás dela. Ainda não sei o que vou lhe dizer, mas penso em todas as possibilidades disponíveis
enquanto procuro por ela em cada um dos cômodos da casa, Anna não está em lugar nenhum, nem o
menino. Me desespero. Me sento no sofá e afundo a cabeça nas mãos, uma hora depois ainda estou
sentado no mesmo lugar arrasado, somente quando Bárbara me chama desperto para a realidade ao
invés de me perder em uma cena após a outra de Anna indo embora e levando o menino consigo pela
mão.
— Você parece péssimo. Tá de ressaca? — pergunta se jogando ao meu lado no sofá. —
Alguém já te disse que você está fedendo? Deve ser por isso que Anna pediu para o Ian levá-la na
consulta e não você. — Ela prende o nariz fingindo que não consegue respirar com nossa
proximidade, mas eu quero que ela se foda, estou mais preocupado em ficar aliviado, Anna não tinha
ido embora.
— Então Ian a levou para o hospital? — pergunto deixando minha cabeça tombar no sofá.
Bárbara me olha com uma careta, mas assente.
— Ela teve alta hoje, está liberada por todos os médicos para ir embora, Augusto, ela levou as
malas... — diz contra a vontade, como se não quisesse me contar esse fato. Deixo-a falando sozinha e
subo as escadas correndo atrás do meu celular.
— Ian, traga a Anna de volta para casa, está me ouvindo? Eu quero ela aqui AGORA! —
vocifero assim que a chamada é completada.
— Estamos dobrando a esquina, Monstro, precisa gritar? — berra de volta.
— Vocês estão na esquina de casa? — pergunto visivelmente confuso.
— Não, na esquina da puta que te pariu. Qual é, Augusto, onde pensou que eu estava levando a
menina? — pergunta levemente irritado.
— Esquece. — Desligo e volto a descer as escadas, soltando fogo pela boca, encontro minha
irmã lixando as unhas calmamente no sofá. — Por que você fez isso? — questiono aos berros, ela
não se assusta.
— O quê? — pergunta fingindo inocência.
— Por que você me disse que Anna havia levado as malas? — sibilo sem fôlego pela corrida e
o desespero iminente.
— Ah, ela não levou? — pergunta se levantando e me dando as costas. — Eu jurava que tinha
visto ela carregando uma mala, talvez fosse só minha imaginação — murmura com um sorriso
zombeteiro, que eu quero tirar da cara dela na porrada. Pouco antes de passar pela porta escuto ela
murmurar: “Talvez fossem as suas bolas, seu covarde de merda”.
A palavra frustrado me define. Tomo um banho, mudo de roupa e saio de casa. Preciso
espairecer, dar uma volta, bater com a cabeça em uma parede de concreto. Estaciono o carro em uma
rua qualquer e desço para andar a pé, para sentir o vento na minha cara de otário. A sensação de
desespero que senti quando achei que nunca mais a veria outra vez chegou a me deixar tonto, e agora,
longe de casa e de sua presença, me culpo. Seria melhor para nós dois se ela sumisse. O tempo apaga
tudo, tem o poder inclusive de apagar uma menina sem nome que entrou na minha vida em uma noite
de inverno para virá-la de ponta cabeça.
Quando estou chegando perto do carro outra vez avisto uma loja de brinquedos. Olho para os
dois lados da rua, como se estivesse com medo de ser observado. Quico algumas vezes no lugar e
suspiro derrotado. Entro na loja e saio dela com uma bicicleta nova para Nicholas e uma sensação de
impotência arrasadora, como se não me conhecesse mais.
Chego em casa e o encontro no jardim brincando com Vitório. Ou o cachorro que brinca com
ele, porque Vito tem sua mandíbula firmemente presa à camiseta do menino e o está balançando com
os dentes de um lado para o outro como se fosse um dos seus brinquedos de morder.
— Monsto! — grita correndo em minha direção, seus olhos brilham quando levanto o pacote.
Não quero admitir, mas fiquei feliz em ver essa peste ainda dentro do meu teto.
— Sabe andar de bicicleta? — Ele nega com a cabeça e seus olhos brilham mais ao entender o
que tem na caixa. Eu a abro e retiro o brinquedo de dentro dela colocando-o no chão à sua frente. —
Então, hoje você vai aprender.
— Não sei se consigo — diz perdendo o sorriso levado, me encarando com medo. Assim como
a mãe, ele não sabe viver de outra forma. Será que ela sabe o quanto suas inseguranças afetam esse
menino?
— Nunca diga que não pode fazer alguma coisa, garoto. Se você quiser, quiser de verdade, você
pode fazer qualquer coisa, ser quem você quiser... — me freio. Não sou nada dele para lhe dar esse
tipo de conselho.
— Você me ajuda? — pergunta esperançoso. Eu tinha apenas pensado em largá-lo com o
brinquedo novo e sumir de perto, mas me pego assentindo e o ajudando a subir no cilindro. Seguro a
parte de trás dele e o incentivo a pedalar por horas a fio.
— Tô andando, Monsto, tô andando! — grita alegremente enquanto eu dou um impulso e solto
pela primeira vez, ele só percebe que conseguiu sozinho quando freia, coloca os dois pés no chão e
olha para trás com o sorriso mais bonito que eu já vi no rosto dele. Com certeza, aquela foi a
primeira vez que alguém o incentivou a não ter medo e o fez acreditar em si mesmo. Coitado daquele
menino.
Sete tombos depois, dois joelhos e uma panturrilha ralados, dois choros de manhã e três
lágrimas de verdade, ele consegue andar de um lado a outro do quintal sem minha ajuda berrando de
euforia para que o olhe, o que eu faço com cara de idiota e um sorriso aberto de orgulho.
— Nick, já está tarde, entra para tomar banho — chama Anna da porta da cozinha evitando
olhar para qualquer lugar a não ser o lugar onde seu filho está parado.
— Ah, mamãe, só mais um poquinho — pede fazendo beicinho, mas ela não se deixa convencer
e revira os olhos, como se já esperasse por esse pedido.
— Amanhã é outro dia, por hoje acabou a brincadeira, entra. — Ele me olha em busca de ajuda,
eu dou de ombros sorrindo solidariamente.
Anna sequer olhou na minha direção, tento não ficar magoado, mas é impossível. Sei que a
culpa é minha e que ela provavelmente ainda está envergonhada, mas será que ela se deu conta de
que passei a tarde toda ensinando algo útil a criança dela e que não tenho a menor obrigação de fazer
algo assim? De repente, uma pergunta inconveniente permeia meus pensamentos, será que só agradei
o menino para que ela se aproximasse de mim, mesmo que inconscientemente? Ou pior ainda, será
que gosto do menino o suficiente para fazer isso por ele, sem esperar nada em troca?
Decido não entrar em casa e caminho até o quintal do Ian, tiro a camiseta e me jogo na piscina
para esfriar a cabeça, perco a hora dando braçadas de um lado a outro tentando me cansar
fisicamente até o ponto em que minha cabeça também me deixe em paz, quando volto a superfície
tomo um susto. Anna está sentada na beira piscina com os pés dentro da água me olhando
atentamente.
— Obrigada pela bicicleta e por ensiná-lo, eu ainda não havia tido oportunidade de fazer isso
— agradece educadamente e friamente, como se fizesse por obrigação. Mas sei que não faz, ela está
nervosa, mexendo no cabelo de maneira apreensiva.
— Você sabe nadar? — Ela balança a cabeça em negativa e antes que eu possa pensar no que
estou fazendo estendo uma das mãos que ela recusa com um aceno. — Tem medo de água? — Ela
balança novamente a cabeça, dessa vez afirmativamente. — Não vou deixar você se afogar, prometo
— continuo com a mão esticada, ela fecha os olhos e morde o canto da boca como se precisasse de
um momento para se decidir, antes que volte a abri-los sua mão foi posta na minha às cegas. Quando
eu a puxo para dentro da piscina, ela grita e tenta se debater, mas eu a agarro pela cintura e encosto
seu corpo ao meu, olhando para sua boca bem desenhada com desejo.
— Abra os olhos, olha para mim garota sem nome — peço com um sussurro rouco, lentamente
seus olhos se abrem e brilham pra mim, no exato instante em que ela cruza suas pernas nas minhas
costas estreitando o pouco espaço que havia restado entre nós. Anna agarra meu pescoço e eu a solto,
passo as mãos por seus cabelos negros agarrando-os, imprensando-a contra a borda da piscina, sua
boca se abre ligeiramente e ela arfa. Anna enrijece suas pernas e crava as unhas nas minhas costas
enquanto eu apenas sorrio em resposta, eu sabia. Sabia que era isso que ela queria.
Vendo minha falta de reação, ela ameaça se soltar, mas seu olhar confirma que ela não quer ser
solta, ele diz outra coisa, ele me diz que ela ainda está à espera do que lhe recusei noite passada, ela
quer provar meu gosto e nesse momento com ela sendo iluminada pela luz amarela de um holofote
que reluz toda sua beleza e seu corpo completamente colado ao meu, eu quero muito, muito deixar.
Quando ela dá mais um tranco para que eu a solte, reajo. Seguro seus cabelos com mais força e
puxo sua cabeça de encontro a minha, enterrando minha língua em sua boca com brutalidade, se ela
ficou surpresa se recuperou rápido porque não levou mais do que poucos segundos para retribuir o
beijo. Minhas mãos se desprendem de seus cabelos e descem por seu corpo explorando-o em todos
os lugares, fazendo com que sua respiração fique curta e ela arqueie as costas. Agarro seus seios com
as duas mãos e Anna geme baixinho sob meu toque, então o mundo explode, dentro e fora de mim.
Tudo o que eu consigo pensar é no quanto seu gosto é bom, no quanto ela é bonita e no quanto
me enche de tesão. Deixo de sentir o vento e a água gelada ao redor do meu corpo para sentir suas
mãos no meu rosto e suas coxas encaixadas no lugar certo. Deixo de pensar no quanto isso é errado
para pensar no quanto eu quero entrar dentro dela.
— Vamos pra casa — murmuro tentando ter autocontrole para afastá-la o suficiente para olhar
em seus olhos. Não sei se são espelhos refletindo todo meu desejo ou se são feitos de vidro
mostrando que ela quer isso tanto quanto eu. Suas bochechas estão coradas e seus lábios adquiriram
um tom carmim por causa da minha barba por fazer, mas ela sorri. Não é um sorriso tímido, nem
envergonhado, é um sorriso de malícia, é o suficiente para que eu chegue até a escada e saia da
piscina com ela agarrada a minha cintura. Aperto ela contra meu corpo e ela deita a cabeça no meu
ombro enquanto caminho com ela até minha casa, entro pela porta da cozinha e a coloco sentada em
cima da mesa.
Volto a beijá-la intensamente puxando seu vestido pela cabeça, revelando um par de seios
pequenos que cabem perfeitamente nas minhas mãos, eu os agarro com força enquanto deixo minha
boca explorar sua clavícula, seu pescoço e refazer o caminho até seus lábios macios, mais uma vez.
— Augusto — ouvir ela gemer meu nome derruba todas as minhas defesas, não penso em mais
nada a não ser na mulher que está em meus braços pronta para se entregar pra mim, na mulher para
quem eu quero me entregar. Decido pensar nas consequências amanhã, quando estiver completamente
arrependido por ser tão fraco. Talvez eu bata a cabeça naquela parede de concreto, afinal!
— Dá pra mim, Anna? — Ela geme mais, enquanto afasto suas pernas me encaixando dentro
delas com mais força pressionando minha ereção no tecido fino de sua calcinha.
— Sim. — Nunca pensei que uma única palavra fosse capaz de me enlouquecer, seguro sua
cintura com uma das mãos de forma animalesca, fazendo ela se contrair em resposta, com a outra
volto a agarrar seus cabelos puxando-os para trás, aproximo meu rosto do dela e a olho nos olhos de
forma penetrante.
— Então me diz seu nome — peço urgente. —, eu quero sussurrar seu nome quando estiver
dentro de você. — Ela não pensa para responder.
— Só se você me disser que eu não sou só uma transa, só se você me disser que sente por mim o
que eu sinto por você — pede entreabrindo a boca em uma careta sexy.
— E o que é? — pergunto distraidamente roçando nossos lábios.
— Eu acho... acho que é amor, Augusto. — Assim que registro a palavra que ela falou, congelo,
me sentindo incapaz de falar ou me mexer, vejo ela bater os cílios ao piscar com lentidão. — Diga,
diga que eu e Nicholas somos mais do que duas pessoas que você abrigou.
— Não — respondo encontrando minha voz e me afasto alguns passos para trás erguendo as
mãos como se elas pudessem me defender de suas palavras, de sua revelação.
— Não? — pergunta desmoronando, ela cobre rapidamente os seios com as mãos e me olha
desconcertada. Novamente vejo vergonha e, dessa vez, está acompanhada de decepção e de tristeza.
— Não, Anna, vocês não são. — Passo por ela saindo da cozinha e subindo as escadas o mais
rápido que posso, arranco uma roupa do guarda-roupa sem nem mesmo olhar para as peças e as
visto, ainda no escuro. Tateio o criado-mudo em busca da minha carteira e da chave do carro
ensandecidamente. Sinto que estou sufocando e que só vou conseguir respirar novamente quando
estiver o mais longe dela possível.
— Onde você vai? — pergunta assim que piso na sala novamente, me volto para ela e vejo que
já está vestida, ela dá um passo para trás e se encosta à parede que antecede a cozinha se protegendo
de mim na escuridão. Não respondo, apenas encaro seu contorno com um misto de desespero e
rejeição antes de lhe dar as costas e sair pela porta.
Tinham razão, todos eles tinham razão. Eu não deveria ter feito nascer um sentimento dentro de
uma mulher que eu não tinha intenção de retribuir.
Eu só não sabia por que meu coração estava doendo tanto.
Eu queria ser mais, muito mais

“O pecado me atrai, o que é proibido me fascina.”


(A Hora da Estrela, Clarice Lispector)

Anna

Eu nunca seria mais do que a garota que ele se sentiu obrigado a salvar. A garota que teve a
sorte, nem sei mais se foi mesmo sorte, de encontrá-lo em uma estrada escura, no meio da
madrugada, presa sobre os destroços de metal de um carro. Eu era a garota que tentava ver o que
tinha por baixo da fachada, a garota que sabia que ia se decepcionar, eu era a garota tola que
acreditou que o Monstro tinha um coração batendo dentro do peito, um coração que podia amar.
Eu era a garota que estava errada.
“Garota tola, tola, tola”, sua voz faz eco na minha cabeça, não quero ouvi-lo, não quero lembrar
dele, mas é impossível. Como esquecer que tenho um esqueleto no armário se ele me persegue pela
rua vestindo sua fantasia de homem importante? É isso o que eu sou, uma garota tola que se
apaixonou pelo homem errado, mais uma vez.
Obro os olhos no instante em que escuto a porta da sala se abrir, Nicholas se remexe ao meu
lado na cama e eu respiro fundo, me sentindo mais tranquila ao saber que ele já está em casa e em
segurança. Mas a tranquilidade dá lugar a dor quando escuto os passos no corredor e os risinhos
baixos, ele não está sozinho.
Não me contenho e me levanto, andando até a porta nas pontas dos pés para não fazer barulho,
agarro a maçaneta e a giro com cuidado tentando não ser notada. Não sei realmente o que pretendo,
anseio por estar enganada, mas sei, simplesmente sei que vou confirmar minhas suspeitas e me ferir
sendo enxerida. Encosto o rosto na fresta aberta e forço a visão, no começo não vejo nada, mas
quando meus olhos se acostumam a escuridão noto os contornos de seus corpos entrelaçados. Antes
que eu possa registrar o que estou vendo, a porta do quarto de seu irmão é aberta e a luz acesa, vejo
quando ele para na soleira e beija a moça com ferocidade imprensando-a na parede, vejo sua língua
invadir a boca dela e suas mãos deslizarem por seu corpo até a lateral de suas coxas lhe arrancando
um gemido ensandecido como fizera comigo há poucas horas.
Estou paralisada, não consigo nem ao menos piscar, muito menos ser rápida o suficiente para
desaparecer antes que ele me veja. Pouco depois de empurrar a moça para dentro do quarto, ele se
volta em minha direção e me encara, como se soubesse o tempo todo que eu estava ali, à espreita.
Sua fisionomia é dura e seu rosto está inexpressivo, não sei precisar o que sente ou pensa e, antes
que eu possa ao menos tentar, ele desvia o olhar e some quarto adentro batendo a porta com força,
indo atrás dela.
Demoro alguns minutos para conseguir fechar a porta e quando o faço me escoro nela sentindo a
dor da rejeição percorrer minha corrente sanguínea, só noto que estou chorando quando um soluço
escapa pelos meus lábios e Nicholas volta a se remexer na cama de maneira inquieta, tapo a boca
com uma das mãos para não fazer barulho e me deixo cair sentada no chão, apoiando a cabeça na
madeira ao olhar para o teto e deixar as lágrimas correrem em silêncio.
Augusto não faz o mesmo, não faz questão de ser silencioso, muito menos faz questão que sua
acompanhante seja. Pela próxima hora, o silêncio foi quebrado e preenchido por batidas repetitivas
da cama se chocando contra a parede e gemidos altos e ensurdecedores, a sensação torturante de
saber e ouvir que ele tem outra mulher nos braços e está fazendo ela sentir as mesmas sensações que
me fez sentir são suficientes para que eu me levante e cambaleie para fora do quarto aos prantos,
desço as escadas me segurando nos corrimões, me agarrando a eles, e corro para fora da casa em
busca de ar.
Estaco na entrada do jardim ao notar que não estou sozinha, já tem uma pessoa recostada no
sofá, no meio da escuridão. Sei que ela me viu e sei que não posso voltar para dentro sem que ela
desconfie que algo está errado, por isso limpo o rosto disfarçadamente com agilidade e engulo os
soluços, e rezando para que a lua não ilumine meus olhos úmidos e torturados.
— O que você faz acordada? — pergunto me sentando ao seu lado, fazendo questão de olhar
para todos os lugares, menos para seu rosto.
— Tem como dormir com essa porra de barulho? — pergunta Bárbara revoltada. — O quarto do
Gustavo é colado com a minha parede, gostaria que ele tivesse a decência de, pelo menos, afastar a
cama dela — murmura parecendo ofendida.
— Não é o Gustavo — sussurro olhando para meus pés descalços.
— O quê? — ela praticamente grita, parece surpresa e muito mais brava. — Droga, eu tinha
esperanças de descobrir o que o Mala está escondendo.
— Eu vi o Augusto entrar com uma moça no quarto do Gustavo, há pouco, decerto porque
imaginou que Nicholas poderia ir para sua cama no meio da noite — conto mordendo a bochecha
para evitar mais lágrimas, mas percebo que não tenho sucesso quando ela pousa a mão gentilmente na
minha perna, após um soluço indesejado sair de meus lábios e ganhar a noite.
— Isso é inacreditável, eu vi o beijo... eu... — consola. — Porra, eu avisei ele para não iludir
você, que cara mais...
— Babaca? — pergunto quando Bárbara não encontra a palavra certa, e ela assente. — Não tem
problema, não é nada de mais. — Balanço a cabeça tentando sorrir.
— Eu não sou cega, Anna, e se não quiser conversar sobre o assunto vou entender, também vou
entender se quiser mentir para mim, mas não minta para si mesma, isso sim não vai te levar a lugar
nenhum.
— O que eu faço, então? — pergunto me entregando às lágrimas sem ressalvas e sem vergonha,
porque definitivamente não sei o que fazer para parar de doer.
— Dê um jeito de matar esse sentimento — Ergo as sobrancelhas surpresa. — e não me olhe
assim, não estou dizendo isso por causa do meu irmão. Augusto não tem um coração apaixonado para
que eu me preocupe com ele sendo quebrado, você sim.
Bárbara me dá as costas e caminha pelo jardim me abandonando com minhas dúvidas,
incertezas, medos e o amor que eu descobri sentir por um homem que não sente o mesmo.
O destino é mesmo traiçoeiro, passei a maior parte da minha vida sem conseguir me relacionar
com outro ser humano, sem conseguir acreditar na bondade de ninguém e com o passar do tempo a
falta de crença se tornou um hábito, uma mania, uma defesa e justamente no momento em que eu
deliberadamente fui obrigada a ceder percebi que estive certa esse tempo todo. Pessoas não são
confiáveis. O problema é que naquela noite gelada, na estrada, eu não entreguei apenas minha
confiança para um monstro, eu ainda não sabia, mas também tinha entregue meu coração, a única
parte de mim que eu não conseguia controlar e sim a parte que me controlava, me cegava, me
desestabilizava, me fazia crer em coisas e sentimentos que não poderia nem ter nem despertar em
outro, me fazia ter esperanças e me machucar.
Aquele amor me dominava e me fazia sentir medo, muito mais medo do que o que eu tinha da
morte, porque estar longe daquela casa era como deixar uma parte minha morrer, uma parte que eu
achei que já estava morta há muitos anos e que Augusto encontrou no meio de roupas, maquiagens e
bicicletas. Uma parte que eu queria desesperadamente de volta.
Cupido de asinhas tortas

“Desde que a Disney criou a Bela e a Fera, qualquer animal se acha príncipe.”
(Autor desconhecido)

Bárbara

Caminho para casa respirando fundo, tentando me controlar para não dar meia volta, entrar na
casa dos meus irmãos e bater do Augusto até ele ficar azul, quebrar um vaso em sua cabeça ou ligar
para a mamãe. Como ele pode ser tão inútil? Não presta para dar uma dentro, e não estamos falando
de onde ele está dentro nesse exato momento, se não vou ter que parar para vomitar todas as coxinhas
tamanho família que venho engolindo como se fossem balinhas de menta em um canteiro.
Droga, eu cansei, cansei, caramba, de avisar para aquele idiota não brincar com os sentimentos
das pessoas, falo isso há anos, ele nunca me escuta e sempre dá merda. Falei isso antes de cada uma
das mulheres que se apaixonaram por ele virarem Gremlins depois de um banho de água gelada e
pirarem.
Teve a mulher do juiz, nem queira saber a merda que deu quando Augusto sumiu do mapa e ela
arrasada contou para o marido aos prantos que meu irmão se beneficiava de seu colchão de água bem
mais do que ele (por falar nisso, meus serviços advocatícios não foram pagos até o presente
momento, nota mental para roubar um de seus relógios caros para quitar a dívida). Teve a maluca que
se acorrentou ao nosso portão por três dias inteiros (mamãe ficou com tanta dó da menina que a
alimentava escondido). Teve a que riscou seu carro de ponta a ponta fazendo com que ele quase
tivesse um infarto fulminante quando viu o estrago.
Falei isso antes de cada um dos maridos enfurecidos baterem em nossa porta e na cara dele,
antes de cada mulher ferida fazer um escândalo e se agarrar as suas pernas, falei isso há pouco
tempo, antes de ele machucar a primeira menina que eu realmente acreditei que fosse feita na medida
para ser dele.
Agora sou obrigada a ver a prova viva de sua falta de coragem caminhar ao meu encontro como
se fosse a porcaria de um zumbi enquanto tenta fingir que tão está com o coração em pedaços, sou
obrigada a ver uma pobre moça chorar porque ele está transando com outra, fazendo barulho
suficiente para acordar o quarteirão inteiro depois de beijá-la. Eu lhe disse para não despertar nela
sentimentos com os quais ele não conseguia lidar, por que uma única vez na vida ele não me ouviu?
Chego ao nosso jardim espumando de raiva e desejo por um balde de sorvete de café, não ajuda
em nada o monstrinho que estou abrigando estar com as patas alojadas na minha costela, mais um
pouco e seus pés sairiam pela minha boca. Eu estava gorda, cansada e enjoada, para piorar agora
também estava arrasada por dentro. Por mais que eu soubesse que Augusto acabaria machucando
aquela menina, deixei que Ian e a Barbie me iludissem e me fizessem ter um fio de esperança de que
Augusto poderia mudar, que ele poderia deixar de ser a toupeira que era e abrir os olhos para
encontrar o presente que caiu no seu colo, ou no caso, quase se matou ao bater o carro em uma árvore
à sua frente. Era tudo culpa dos dois!
O destino era treiteiro e imprevisível, mas ninguém podia negar que ele sabia brincar com a
mente e o coração das pessoas e se ele achou que seria uma boa ideia deixar Anna ver um anjo onde
existia um amontoado de cocô de galinha tinha que ter um motivo, eu esperava que o motivo fosse
transformar a vida do meu irmão.
Eu estava enganada, todos nós estávamos.
Eu disse para a minha avó que Augusto não era o tipo de homem que montava no cavalo branco
por ninguém, ele era o cara que dava uma rasteira no cavalo e deixava a princesa ser devorada pelo
dragão, era egoísta, inconsequente, boêmio e mulherengo, ele nunca ia mudar.
— Você disse para a menina matar o que sente pelo seu irmão? — pergunta Ian saindo da
escuridão e caminhando ao meu encontro, me dando um puta susto. Levo a mão ao peito e o olho feio.
— Meu Deus, quase que nosso filho sai pela minha boca, você podia balançar um sininho
quando for andar por aí no escuro feito uma assombração. — Ele ri, mas não responde. Está
aguardando ela minha resposta. — Sim, eu disse, mas não estou feliz por isso — respondo
contrariada.
— Como se mata um sentimento, amor? — pergunta curiosamente chegando mais perto, dou de
ombros.
— Não sei. Eu, pelo menos, não consegui, casei com você, não foi? — pergunto rindo, ele me
abraça, entrelaçando suas mãos em minhas costas.
— Isso é algo pelo que eu agradeço todos os dias — frisa enquanto encosto a cabeça em seu
ombro. — Mas ainda não entendi por que você deu justamente esse conselho para a Anna.
— Porque eu amo meu irmão, mas ele não é alguém por quem valha a pena lutar — lamento
tristemente. — Ela só vai se machucar, se insistir nesse erro. Por mais que ele goste dela, e eu não
estou convencida de que realmente gosta, ele nunca vai aceitar aquele menino.
— Não estou tão certo disso — diz se afastando e me encarando com os olhos brilhando. Azuis,
tão azuis. — Ele está diferente desde que eles entraram em sua vida. Ele fez coisas por ela que não
fez por ninguém — Meu marido parece maravilhado, tão mais tão inocente. Será que se eu der uma
bofetada bem dada na cara dele, ele acorda pra vida? —, ele acolheu uma criança, ele lhe comprou
roupas que ele mesmo escolheu, deixou que dormisse na cama dele, levou para passear, se preocupou
se o menino comeu, se preocupou se ele tinha ou não com o que brincar, Bá ele ensinou o menino a
andar de bicicleta.
— Sim, ele fez tudo isso e depois beijou uma moça que deveria estar sob seus cuidados fazendo
com que ela acreditasse que era alguém especial, somente para sair de casa e voltar acompanhado de
uma vagabunda que grita mais que atriz pornô.
— Tirando esse pequeno... — Eu o fulmino com o olhar e ele conserta a frase. — grande,
grande erro, ele fez muitas coisas que eu mesmo desacreditei e tudo por eles.
— Eu não estou dizendo que o coração dele não foi invadido por essa família, Ian, estou
dizendo que, por mais que o coração dele queira ser deles, Augusto nunca irá permitir. Ele vai se
boicotar de todas as formas possíveis até que não reste mais nada da Anna para ele brincar e eu não
quero ver isso, você quer? — pergunto incisivamente. — Deixa de ser iludido, caramba!
— Não, não quero. Mas se eu consegui, ele pode... — tenta em vão compará-los.
— Não, Ian, é diferente. — Balanço a cabeça, cortando-o. — Você amou Valentina no exato
instante em que descobriu que ela estava dentro de mim, você não hesitou, sequer pensou em não
aceitá-la por ela ser filha de outro homem, você a quis pra você. — Sorrio e vejo os olhos dele se
encherem de amor ao escutar o nome da nossa filha.
Não teria como amar mais esse homem do que eu amo, ele é o dono dos olhos que me mostram a
beleza do céu todos os dias, mesmo em dias como hoje que o meu céu está fechado e encoberto por
nuvens cinzas.
— Eu a quis com todas as minhas forças. Só de pensar na Tina sendo de outro, isso me mata.
Ela é minha, Bá, sempre vai ser, o sangue que corre nas veias dela não tem a menor importância, só o
amor que eu sinto por ela tem — fala de forma apaixonada me fazendo suspirar.
— Você é um pai com direito a tudo o que a palavra significa, você foi pai antes mesmo de ser.
— Aliso minha barriga e, quando nota, ele coloca suas mãos por cima das minhas. — Desde que eu
te contei que tinha um filho seu vindo a caminho, você me provou isso mais uma vez. Ian, você não
olhou para minha barriga de maneira diferente da que olhava quando ela estava lá dentro, ou deixou
de dar atenção a ela, você fez exatamente como da primeira vez, sem nenhuma diferença.
— Porque os dois são meus. Não há diferenças, Bárbara, eu amo os dois exatamente da mesma
maneira e de todo meu coração. — Sorrio encantada pelo homem que, mesmo hoje, após anos juntos,
ainda tem o poder de aquecer meu coração.
— Eu sei, por isso não há comparação. Augusto se negou a dar essa chance para nossa filha, por
que faria pelo filho de uma estranha? Ele não é assim e não podemos julgá-lo, mas podemos proteger
a garota enquanto pudermos. Então, não vou lhe dar falsas esperanças, por mais que eu queira que dê
certo.
— Ainda acho que ele mudou, ele está sim se apaixonando. Mas é que nem a história do Lobo,
ele mente tanto, que quando diz a verdade ninguém acredita. Minha única preocupação é que ele só
perceba o que tem nas mãos quando não tiver mais — ele sussurra parecendo preocupado, não
deveria.
— Você é a única pessoa que acredita nele, sinto muito. — Sorrio torto e beijo seus lábios antes
de lhe dar as costas e entrar em casa. Depois dessa conversa, eu necessito mesmo de um sorvete de
café!
— Tudo bem, então parece eu vou ser o único a estar preparado para amparar a queda quando
ele cair — o escuto murmurar baixinho para si mesmo e sorrio mais. Ian vai se frustrar, porque
Augusto nunca vai cair, não por amor.
Encontro o pote de sorvete escondido atrás das ervilhas, acho que Ian ainda os esconde por
puro hábito, porque ele sabe tão bem quanto eu que vou encontrá-los até dentro de um pote escrito
feijão e vou devorá-los sem culpa alguma. O casamento me dava essa liberdade, estava lá no
contrato: tudo agora era dos dois, isso incluía a Land Rover e os potes de sorvete, gostasse ele ou
não. Pego uma colher e vou me refugiar no sofá atrás de algum filme onde alguém morre para chorar
um pouco enquanto eu como.
— Babi, posso entrar? — Me viro para a porta e encontro Anna na soleira com Nicholas
dormindo profundamente em seu colo amparado por uma de suas mãos, na outra vejo uma mala e em
seu rosto vejo apenas dor.
— Claro, entra. — Me levanto abandonando o sorvete e encurto a distância que nos separa
pegando a mala de suas mãos. — Você pode ficar no quarto da Tina, vou te mostrar aonde é. — Lhe
dou as costas, mas suas palavras me fazem parar de andar e me voltar para ela novamente.
— Não, na verdade eu vim me despedir e também perguntar se posso usar seu telefone para
chamar um táxi que me leve até a rodoviária. — Então, ela vai seguir meu conselho, vai tentar matar
o amor que sente pelo meu irmão com a distância que impuser entre eles, eu poderia lhe dizer que
tentei o mesmo e que isso não surte efeito, apenas alimenta outro sentimento: a saudade. Mas não
faço isso, pelo contrário, eu sorrio maliciosamente deixando uma ideia tomar forma nos meus
pensamentos.
— Vou fazer melhor do que isso, eu mesma vou te levar. — Agarro a chave da Land Rover do
aparador e quando levanto os olhos encontro Ian debruçado sobre o balcão da cozinha americana me
olhando com um misto de tristeza e incredulidade, sei que ele não gostaria que eu levasse Anna
embora escondido do meu irmão, mas também sei que ele não vai me impedir. Sorrio fracamente em
resposta e dou de ombros.
Será que ele acha que sou tão idiota assim?
Quando volto para casa descubro que dormir se transformou uma tarefa impossível. Augusto
parece estar no segundo round, ele realmente está se esforçando hoje, se é para impressionar a moça
ou judiar da Anna, não faço ideia. Mal sabe ele que acabou de ser abandonado. Mal posso esperar
para ver sua cara quando descobrir que em vez de ferir ele vai ser ferido.
— Ei, acorda. — Cutuco Ian enfiando um dedo em sua costela, ele se remexe e pula de susto
abrindo os olhos. — Como você consegue dormir com esse barulho?
— Sério que você me acordou para perguntar isso? — Ele parecia irritado, mas eu não estava
nem um pouco preocupada.
— Sério, se eu não durmo ninguém dorme! — Ele passa as mãos pelos cabelos e ri.
— Morei com seu irmão por muito tempo, já acostumei — murmura bocejando. — Que horas
são? Já, já, ele despacha a garota, ele nunca deixa elas dormirem. — Ian se vira para o outro lado
antes de perguntar: — Por que você deixou ela ir embora? — Ele parece ressentido, embora tente
esconder.
— Porque o Augusto precisava de uma lição! — respondo sem rodeios.
— Você vai machucar o seu irmão, amor — sussurra, eu abraço suas costas e sua mão agarra a
minha prendendo-a em seu peito.
— Estou contando com isso — sussurro friamente. Ele não responde, mas se levanta e dá alguns
socos na parede, milagrosamente o barulho diminui. Ian volta a se deitar e me abraça apertado,
confiando em meu julgamento, mesmo que não concorde com ele.

***

Acordo assustada com alguém tentando arrancar meu braço fora, abro os olhos e passo as costas
das mãos por eles para espantar o sono, quando firmo o olhar e encaro o homem à minha frente volto
a deitar, porque só pode ser um pesadelo. Eu podia jurar que estava olhando para o Augusto, mas,
claro, não era ele. Era uma versão dele que não existia fora de uma realidade alternativa. Seus olhos
estavam inchados e vermelhos e ele parecia à beira de um colapso, não os pitis que ele tem sempre
que se irrita, um colapso daqueles de verdade, com lamúrias e gritos. Então logicamente, eu estava
vendo coisas.
Por que eu não podia sonhar com coisas legais como unicórnios?
— Babi, acorda, pelo amor de Deus! — grita fazendo com que eu me assuste e me sente na cama
em um impulso, em questão de segundos meu coração dispara e meus olhos estão abertos e focados.
Mas que porra... — Ela foi embora, Anna foi embora... — murmura se sentando ao meu lado na
cama, me deixando sem reação. Augusto se inclina e passa as mãos pelos cabelos com força como se
desacreditasse da situação. Enquanto isso, eu acordo Ian novamente com um cutucão, ele resmunga e
desperta e, assim como eu, fica sem palavras ao olhar para o homem desesperado que temos diante
de nós.
— Isso é uma surpresa pra você? — pergunto sarcasticamente encontrando minha voz. —
Depois de todo o showzinho barato de ontem, você realmente achou que ia acordar e encontrá-la à
sua espera? O quanto você é idiota... — Ele me corta.
— Eu fiz merda, eu sei que eu fiz merda! — exclama desesperado. — Mas o que eu faço agora?
— pergunta implorando por uma resposta. Seus olhos estão angustiados e seu semblante se contrai
como se doesse dizer as palavras em voz alta. Como se tivesse vergonha delas, o que só me irrita
mais.
— Você volta para sua vidinha medíocre e cresce, moleque, agora vê se me deixa dormir —
murmuro friamente, voltando a me deitar e me virando de lado, encontrando os olhos acusadores de
Ian que parecem gritar: “Eu te avisei, você machucou ele, sua monstra!”. Como se o monstro não
fosse Augusto.
Então algo muda, a respiração do meu irmão se torna sufocada e sua boca emite barulhos que
me lembro vagamente de ter ouvido vez ou outra há muitos anos, somente quando me sento outra vez
percebo o que está acontecendo. Ele está fazendo algo que não o vejo fazer desde que era uma
criança, meu irmão rude e arrogante está... Deus, Augusto está chorando.
A saudade é a prova dos nove

“Tô virado já tem uns três dias,


tô bebendo o que eu jamais bebi.
Vou falar o que eu nunca falei,
é a primeira e a última vez.

Eu sosseguei.
Ontem foi a despedida
da balada, dessa vida de solteiro.
Eu sosseguei.
Mudei a rota em meus planos
e o que eu tava procurando, eu achei em você.”
(Sosseguei, Jorge e Mateus)

Augusto

Eu sabia que tinha algo errado assim que abri os olhos. Sabia que estava sem uma parte minha
antes mesmo de descobrir o que perdi, ela foi embora e levou o menino consigo, deixando para trás
tudo que lhe comprei. Eu fui mesquinho, quis lhe proporcionar tudo o que ela não teve e que o
dinheiro podia comprar. Mas ela não estava interessada pelas coisas que a maioria das mulheres são
capazes de morrer, ela não queria roupas, sapatos, joias... Anna só queria abrigo. Queria poder
acordar em um lugar que pudesse chamar de lar, olhar para as pessoas que a considerassem da
família, não precisar nunca mais se esconder. Eu tirei isso dela, e me odeio por isso. Fui eu e apenas
eu quem a fez fazer o que fez.
O mundo é um mar onde todos estão à deriva. Alguns carecem de atenção, outros de afeto e
muitos de amor, porém Anna carece de segurança. Ela se afoga constantemente incapaz de dar a quem
quer que seja o benefício da dúvida, guarda sua confiança como um tesouro enterrado dentro de um
baú. A chave? Ela jogou fora. Afundou-a nas águas turvas da desolação e se perdeu em meio ao caos.
Por mais que tente, ela não enxerga que eu sou a boia que pode salvá-la, que eu sou um porto seguro
ao qual ela pode se agarrar para se manter a salvo. Ela me vê como uma âncora, vê o que sente por
mim como algo que tem o poder de arrastá-la para o fundo de vez e eu sou obrigado a concordar,
porque, por mais que eu queira, eu não fui feito para amar.
Ao meu lado, Anna se afoga porque eu não quero ser amado.
Não suportei ouvir de sua boca que estava apaixonada mim, suas palavras me fizeram sentir
como se uma corda estivesse sendo posta no meu pescoço e a qualquer momento ela iria puxá-la e
me enforcar. Saí de casa em alta velocidade, parei em um bar e me embebedei até esquecer que menti
para ela. Porque é claro que ela e o menino eram mais, muito mais do que pessoas que ajudei. Fui
covarde em não lhe dizer isso. Foi tudo culpa da palavra proibida, da palavra com A, a palavra que
faz minhas defesas se erguerem e o medo me dominar, a palavra que não consigo nem cogitar.
Trazer uma mulher pra casa não era minha intenção, mas pareceu uma boa ideia quando seu
olhar decepcionado passou a ser tudo o que o álcool me fazia ver. Eu queria que ela visse com os
próprios olhos porque me amar era um erro e ela viu. Agora quem estava diante de um erro era eu,
porque não passou pela minha cabeça que perdê-los machucaria tanto.
Encontrei sua carta em cima do meu travesseiro.

“Você sempre será o anjo com asas cor de bronze que cuidou da minha vida até que eu
estivesse bem para voltar a fazê-lo. Naquela noite eu confiei em você e você não me decepcionou,
como forma de agradecimento eu te dei a única coisa que tinha de valor: te dei o meu coração.
Mas você o esmagou me provando que confiar nas pessoas é um erro, o que, acredite, não é
nenhuma surpresa pra mim. Mas eu entendo, tem pessoas que nasceram sem saberem amar, e você
é uma delas.
Eu só gostaria de não ter sentido no seu abraço como se estivesse em casa, eu estava certa o
tempo todo. Lares são instáveis, podem ruir a qualquer momento, assim como as pessoas lares
machucam, Obrigada por me fazer lembrar e por todo o resto que você fez por mim e por
Nicholas. Espero do fundo do meu coração que você seja feliz, Augusto, mesmo sem amor.
Anna”

Eu li e reli aquelas palavras mil vezes, depois tentei fingir que não estava tocado, nem me
sentindo culpado, também tentei fingir que não tinha nada entalado na minha garganta me impedindo
de respirar. Mas não consegui. O desespero de olhar para uma casa vazia foi tão grande que me
peguei correndo até a casa ao lado, acordando minha irmã e meu melhor amigo aos berros e
desabando na frente dos dois.
As lágrimas vieram sem convite e sem permissão. Eu quis escondê-las me levantar e fugir para
longe para não deixar que ninguém visse a minha dor, mas não me sentia forte o bastante para fazer
minhas pernas responderem ao meu comando, por isso escondi como pude, fazendo o mesmo que vi
Anna fazer tantas vezes, enterrando o rosto entre as mãos. Meus soluços eram tão altos que chegaram
a me assustar e a me amedrontar mais, porque eu não sabia o que estava fazendo nem o que estava
sentindo. Por que doía tanto, porra?
— Monstro, calma — pede Ian colocando uma mão em meus ombros que chacoalham com
violência. Tento me recompor, parece que uma eternidade se passou até que as lágrimas começam a
diminuir e eu consiga respirar outra vez.
— O que é isso, Ian? O que é isso que eu estou sentindo? — pergunto amedrontado.
— Está feliz, Bárbara Cristina? — pergunta ele irritado, ignorando minha pergunta.
— Isso vai passar, Augusto, chama-se derrota. Pela primeira vez, você perdeu — sussurra
Bárbara no meu ouvido desdenhosamente e eu volto a sentir que vou ser dominado pelo choro mais
uma vez. Esfrego o rosto e respiro fundo tentando evitar decair novamente, mas percebo que não
tenho sucesso quando outro soluço escapa pelos meus lábios.
— Chega, Bárbara! — grita Ian enfurecido, Levanto os olhos e o vejo olhar para ela,
advertindo-a. — Acho melhor você dar uma volta. — Nunca vi Ian ser tão duro com a minha irmã
antes, penso que ela vai se magoar ou se ofender, mas ela concorda.
— Tem razão, eu já vi tudo o que precisava ver — diz se levantando da cama.
— Saia! — ordena apontando a porta com os olhos brilhando de raiva.
— Tudo bem, se era isso que ela queria ver, deixa ela olhar — murmuro me voltando para ela,
deixando que ela veja cada uma das lágrimas que derramo rolarem por meu rosto e pingarem em seus
lençóis, sem vergonha. Por um momento ela parece se compadecer, mas a pena dá rapidamente lugar
a outro sentimento, algo semelhante a triunfo, ela sorri e sai do quarto me deixando mais arrasado do
que já estava.
Eu mereci, sei disso.
Me levanto e ameaço sair do também, querendo me esconder em algum lugar até que pare de
doer, dentro de uma garrafa de vodka provavelmente, mas Ian me faz estacar no lugar com uma
pergunta.
— Ainda quer saber o nome do que você está sentindo? Porque eu não acho que seja derrota...
— Me volto para ele esperando que me dê uma resposta. — Respondendo à sua pergunta, Augusto, o
que você está sentindo se chama amor.
— Não, eu não... — Ele me corta com um aceno de mão, como se empurrasse minhas palavras
para longe.
— Se você não sentisse nada por ela, não estaria se sentindo um lixo agora por ter trazido outra
mulher para casa e ter esfregado isso na cara dela. O que você tinha na cabeça, Monstro? — pergunta
me encarando seriamente, seus olhos azuis reluzem tanto que não consigo desviar o olhar e percebo
que ele me defendeu da minha irmã, mas não vai me poupar de ouvir que ele concorda com ela.
— Ela disse que estava apaixonada por mim e eu... — Faço uma pausa. —, eu pirei, cara. Pirei,
não tô pronto pra encarar isso agora!
— Mas está pronto para encarar uma vida sem eles? — pergunta cruzando os braços, me
deixando em uma encruzilhada sem saber que caminho tomar, ou o que responder. — Pensa nisso,
Monstro. Nós sabemos que você consegue amar, e que o problema não está em você querer fazer isso
ou não, porque quando esse sentimento domina, perdemos a opção de escolha, o problema está se
você vai ou não deixar esse medo idiota de relacionamentos que você tem definir a sua vida e te tirar
alguém por quem vale a pena correr o risco.
— Eu não consigo. É muita coisa para assimilar, é uma mulher morando na minha casa, pedindo
exclusividade, pedindo um sentimento que eu nem sei como é e tem a criança, ela não é minha, Ian, eu
nunca quis ser pai, muito menos do filho de outro. — Então, para minha surpresa ele ri.
— Você acha que não vi o seu sorriso idiota de orgulho quando o menino deu duas pedaladas
sozinho naquela maldita bicicleta? Você deixou o menino dormir na sua cama, lhe preparou refeições
e deu banho, você foi pai por quase um mês Augusto e, além de ter sobrevivido, sei que gostou de
cada segundo.
— Mas ele não é meu — digo frustrado.
— O que determina se ele é seu, o sangue que corre nas veias dele? Garanto que o seu e o dele
tem a mesma cor. — Ian passa as mãos pelo cabelo exasperado. — O que determina se ele é seu ou
não, é você querer. Se você quer aquela mulher e aquela criança brigue por eles e os tome para si,
não seja a porra de um covarde, porque nós dois sabemos que isso não faz o seu estilo. — Fico sem
palavras apenas encarando meu melhor amigo, tentando descobrir em que momento ele cresceu tanto
e virou um homem tão amadurecido, responsável e sonhador.
— Eu vou ficar bem — garanto ignorando seu conselho, querendo de verdade acreditar nessa
fantasia. —, o que eu estou sentindo vai passar, daqui alguns dias nem vou mais me lembrar deles.
— Quando foi a última vez que você chorou por alguém? — me pergunta de repente, tento
pensar na resposta, mas não me lembro. — Eu sei que a única mulher que me fez chorar, hoje tem
uma aliança com meu nome gravado no dedo. Eu não fui covarde.
Assinto sem saber o que lhe dizer e saio pela porta com suas palavras martelando na minha
cabeça, quando chego à sala vejo minha irmã de costas pra mim, sentada no sofá, ela está falando
muito rápido e baixo, não entendo o que diz a não ser “ele chorou, porra!”. Ela parece feliz com isso.
Decido que não quero saber, não quero ouvir ela passar a fofoca adiante, dessa vez não é por
vergonha que as pessoas saibam que não estou bem, é porque machuca demais estar perto de
qualquer pessoa nesse momento. Saio de sua casa em silêncio e volto para a minha, subo minhas
próprias escadas e entro no quarto de hóspedes, olhando ao redor. Ela deixou ele arrumado antes de
partir, não me contenho e abro novamente o guarda-roupa, todas as suas coisas ainda estão ali, ela
deve ter partido apenas com a roupa do corpo. Ando para trás e me sento na cama.
Não sei quanto tempo passo olhando para as roupas do cabide com o coração se dilacerando de
culpa e algo mais, saudade talvez. Mas quando alguém bate na porta e eu pisco voltando à realidade
noto que o dia já acabou e que é noite do lado de fora, estou parcialmente na escuridão e não me
lembro de ter notado que o tempo correu tão rápido. Ele se arrastou enquanto uma cena após a outra
passava pela minha cabeça: Anna fugindo, Nicholas com frio, Anna sem ter o que vestir, Nicholas
chorando, Anna com medo, Nicholas chamando meu nome... Deus, vou enlouquecer... quem vai
protegê-los agora? Quem vai cuidar deles e se certificar de que tenham o que comer e vestir? Que
tenham onde morar?
— Monstro — chama Ian abrindo uma fresta da porta. —, você comeu alguma coisa? — Nego
com a cabeça ainda olhando para as roupas coloridas, ouço ele estalar a língua em reprovação. —
Você precisa se alimentar, desce comigo, venha comer em casa.
— Não quero — sussurro. Não quero ficar perto de ninguém, nem receber olhares de pena
vindo dele muito menos ver a satisfação de me ver sofrer no rosto da minha irmã desumana.
— Eu posso pedir uma pizza ou outra coisa e comer com você aqui, se quiser — se oferece
solícito. Estou grato por sua preocupação, mas não é isso que demonstro ao responder.
— Só me deixe em paz, Ian — peço cansado e me deito na cama, agarrando o travesseiro dela.
Ele não fala mais nada, apenas fecha a porta e faz o que lhe pedi. Não sei quando as lágrimas
voltaram, mas quando me dou conta meu rosto e o travesseiro estão completamente molhados,
escondo meu rosto nele para não fazer barulho e chamar a atenção de ninguém e me entrego à dor, de
corpo, alma e coração. Porque descobri que eu tenho um e ele bate e se machuca como o de todas as
outras pessoas. Acho que o que faltava na minha vida era encontrar uma mulher que soubesse como
fazê-lo funcionar. O único problema é que a mesma mulher também sabia como o destruir.
A porta se abre em um rompante e é batida logo depois com força, não me movo, não quero que
ninguém perceba o que estou fazendo.
— Levanta, cara — ordena Ian impaciente.
— Eu não mandei você me deixar em paz, porra? — vocifero afastando o rosto do travesseiro o
suficiente para que ele me escute, mas só saem grunhidos.
— Desde quando eu faço o que você manda? — pergunta sarcasticamente, sinto o colchão se
mexer com seu peso quando ele se joga na cama de solteiro pulando por cima de minhas pernas. Ele
puxa meus braços em sua direção e, antes que eu possa me dar conta do que estou fazendo, agarro seu
pescoço com um dos braços e deito minha cabeça em seu ombro chorando na sua camiseta,
agarrando-a com ferocidade. — Não era bem isso que eu tinha em mente, mas ok! — murmura
apertando meu braço com força, sem me afastar.
— Só cale essa boca, Ian. — Ficamos assim por vários minutos, minha testa tombada em seu
peito e ele sussurrando palavras de conforto, até que me recomponho e me levanto ultrajado comigo
mesmo, quando estou na porta me lembro de um detalhe, acendo a luz e encaro Ian, seus olhos estão
mais azuis do que nunca refletindo minha própria tristeza. — Obrigada por... — Não encontro a
palavra certa. — isso. — Faço um movimento com a mão indicando o que acabou de acontecer. — E
se você contar para alguém, vai parar enterrado embaixo das roseiras — falo por cima do ombro
sumindo pelo corredor, entro em meu quarto e tranco a porta.
— Não precisa agradecer! — grita em resposta para a porta fechada.
Me jogo na cama e olho para o teto, sentindo falta do corpo do menino ao meu lado e do som da
sua respiração enquanto dorme. Quando o dia amanhece meus olhos ainda estão abertos e eu ainda
estou sofrendo. Vai passar, esse é o mantra que entoo durante a madrugada repetidas vezes, tem que
passar. Mas que inferno, não passa!
O silêncio que eles deixaram ecoa pela casa como se gritasse meu nome. Não há um único som
sequer entre as paredes que me sufocam e mesmo assim me sinto a ponto de enlouquecer por causa
do barulho. A ausência deles vai me ensurdecer, esse é o preço que tenho que pagar por ter deixado
que minhas convicções me cegassem.
Sinto como se estivesse ficando louco. Tem fios de cabelo negro no assoalho, um suéter rosa
esquecido no corrimão e um batom na pia do banheiro social. Seu cheiro ainda está no seu
travesseiro e sua presença dentro da minha mente. Anna está em todos os lugares, dentro e fora de
mim. É como se Anna fosse tudo, fosse o mundo, fosse o ar. É como se ela fosse o riso fácil, a graça
da piada o gosto da comida. É como se sem ela eu não fosse eu e tudo fosse nada, é como se eu fosse
morrer de saudades dela, como se sem ela eu não pudesse mais viver nem por um único minuto a
mais.
Depois de andar pela casa imerso em sentimentos desconhecidos por vários minutos, acabo
indo parar no jardim, olhando o anjo na fonte, desejando ardentemente voltar a ser o anjo dela.
Percebo em um estalo que não é só dela que sinto falta, vejo isso claramente quando minha garganta
se fecha quando olho para a bicicleta abandonada em um canto, espero ouvir a voz infantil e irritante
chamar “Monsto” pelas minhas costas e o menino correr em minha direção com os braços estendidos
e as mãozinhas gorduchas balançando no ar, mas ele não está em parte alguma, eles não estão.
Anna e o menino foram embora e eu nunca me senti tão sozinho em minha vida.
— Por que Augusto está andando pela casa como um zumbi e, acima de tudo, por que Bárbara
me mandou queimar os meus lençóis? — Ouço Gustavo perguntar em voz baixa para alguém sobre o
muro vizinho. — Riscaram o carro dele de novo?
— Anna foi embora. Onde você estava, cara? Estou te ligando há horas — censura Ian também
em voz baixa. — É uma emergência familiar, não sei mais o que fazer.
— Por aí, com uns amigos — mente descaradamente. — Por que ela foi embora?
— Porque seu irmão é um babaca orgulhoso — diz com um suspiro. — Ele trouxe uma mulher
para casa ontem...
— Já entendi, precisava usar a minha cama? — Corta rindo. — O que eu não estou entendendo é
por que ele parece tão arrasado e ainda não foi atrás de outra vagabunda para pôr no lugar... — Ele
não termina de falar, porque minhas mãos agarram seu pescoço com gana, não me lembro de ter me
levantado, muito menos de ter caminhado pelo jardim e passado pelo acesso que ligam as casas, só
me lembro de enforcá-lo com toda minha força e ver a cor sumir de seu rosto. Ian demora vários
segundos para reagir, decerto me dando tempo de desestressar enquanto mato o filho da puta do meu
irmão.
— Ela não é uma vagabunda — sibilo com fúria quando Ian me puxa para trás me obrigando a
soltar Gustavo.
— Eu não... — Meu irmão tosse e apoia as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego. — estava
falando na Anna, e sim da outra que passou a noite aqui, porra, isso dói! — reclama respirando com
dificuldade. Olho para ele ainda imerso em ódio, não me sinto culpado, só muito mais triste. — É só
você sair e se divertir, vai pegar outra mulher, liga para alguns amigos, você vai esquecer, Anna não
era tão importante assim, não é? — Ele arqueia as sobrancelhas à espera da minha resposta.
— Você ainda duvida? — pergunta Ian olhando para as marcas em seu pescoço e vejo que ele
tem razão, estou me enganando. Não vai passar. A saudade vai me consumir, aquela mulher e aquele
menino são meus e de ninguém mais.
— Ian, eu tenho que achá-la — digo agarrando seus ombros e o chacoalhando e, para minha
surpresa, ele sorri aliviado.
— Até que enfim, cara. — Ri. — Achei que você nunca fosse dizer...
— Você sabe onde ela está? Ela disse alguma coisa... — Ele me corta.
— Foi sua irmã quem levou ela, Bárbara sabe para onde ela foi. — Assim que ele termina de
falar, invado sua casa com passadas largas parando de costas para a televisão e de frente para minha
irmã, ela abaixa a colher de sorvete levantando o olhar lentamente me encarando com repulsa.
— Eu tenho que encontrar a Anna — digo cerrando os pulsos de nervosismo e ansiedade.
— Boa sorte! — Quando seu cinismo me atinge me jogo para frente, mas Ian segura um dos
meus braços com força.
— Você não vai encostar em um fio de cabelo da minha mulher, Monstro, senão a briga vai ser
comigo — murmura friamente e em voz baixa, me recomponho balançando a cabeça para clarear as
ideias, ele tem razão. Não posso resolver isso arrancando os cabelos da minha irmã como quando
éramos pequenos por mais vontade que eu tenha de fazer exatamente isso.
— Me desculpe — peço para ela, que pisca e me encara de boa aberta, a colher que ela levava
à boca para no ar. — Por favor, Bárbara, eu tenho que encontrá-la, tenho que me redimir.
— Não — ela diz se recuperando do choque e enfiando a colher na boca. — Umas lágrimas de
crocodilo e esse pedido estúpido e falso não serão suficientes.
— Ian — alerto, lhe avisando que vou sim arrancar os cabelos dela se ela não começar a falar.
— Bárbara, coopera, amor — pede docemente intervindo, mas ela nega com a cabeça como
uma criança birrenta.
— O que mais você quer de mim? — pergunto exasperado.
— Quero que você me prove que merece aquela menina e que não vai estragar tudo outra vez,
quero um ato simples que me mostre que posso acreditar que você não é o lixo que eu acho que você
é. — Então, eu me jogo aos seus pés, simples assim, e ela leva um susto.
— Me ajude, por favor. — Ela olha para Ian espantada e depois de volta para mim e ri, a filha
da puta ri e bagunça meu cabelo me fazendo ter vontade de estapeá-la.
— Ela está na Malibu, vocês acharam mesmo que eu ia deixar ela ir embora? — pergunta com
um sorrisinho zombeteiro. — Não sou tão idiota assim. Mas se eu fosse você eu correria, porque a
Barbie não vai conseguir entretê-la por muito tempo. Você demorou bastante em vir pedir arrego, seu
babaca.
— Sua... sua... — A palavra não sai, não acredito que minha própria irmã armou para cima de
mim. Volto para trás, Ian está sorrindo de orelha a orelha como se estivesse realmente orgulhoso da
minha irmã, não compartilho do mesmo sentimento. — Por quê? — É o que acaba saindo, ela dá de
ombros e responde:
— Pessoas idiotas só dão valor quando perdem, imaginei que seria o seu caso. — Ela volta
seus olhos para a tevê e enfia uma colher cheia de sorvete na boca indicando que a conversa acabou.
Não posso discordar, se me ver arrasado e implorando por ajuda era o que ela queria,
conseguiu. Lhe dou as costas e saio correndo de sua casa, parando apenas para apanhar a chave do
carro de Ian, que está mais perto do que a minha e vou atrás da minha garota sem nome, a garota que
nunca mais vai fugir de mim outra vez.
Migalhas

“Ele diz: ‘Vamos sair dessa cidade


Dirigir para um lugar afastado, longe da multidão”.
Eu pensei: ‘Os céus não me ajudarão, agora nada
dura para sempre, mas isso vai me derrubar’”
(Wildest dreams, Taylor Swift)

Anna

Estou encolhida há horas em posição fetal na cama do quarto de hóspedes. Enquanto Malibu se
preocupa em entreter Nicholas eu continuo aqui, com a cabeça deitada no travesseiro sofrendo por
um homem que não deve nem ter percebido que fugi dele, isso porque, claro, ele estava muito
ocupado se divertindo com mais uma de suas garotas fúteis para reparar no quanto sua atitude infantil
e desprezível me machucou.
Eu realmente ia embora, implorei a Bárbara diversas vezes para que me levasse a rodoviária,
mas ela se negou, disse que eu precisava de um tempo longe de Augusto para pensar no que fazer a
seguir, que entrar em um ônibus para algum lugar sem planejamento não era uma boa ideia, então ela
me deixou no lugar em que eu menos queria estar, na casa do policial. Isso por si só foi um ótimo
motivo para que eu não pregasse os olhos durante a noite, isso e todo o sangue que escorria do meu
coração ferido.
Se eu acessar minhas lembranças e voltar no tempo, não sei dizer o exato momento em que me
apaixonei por ele, não sei se foi quando ele correu ao meu encontro pela estrada escura sendo
iluminado apenas por dois faróis, se foi quando abri os olhos e descobri que ele tinha mantido a
promessa que havia feito, ou quando me deu abrigo em sua casa, quando se preocupou que nada me
faltasse ou quando percebi que ele cuidou muito bem da minha vida, tão bem quanto eu cuidava. O
fato é que o sentimento estava lá e passei boa parte da madrugada me culpando por ter exigido mais
dele, Augusto já não tinha feito o suficiente?
Por que eu precisava lhe pedir a única coisa que sabia que ele não era capaz de me dar? Desde
o começo eu sou a garota que aceitou as migalhas, por que agora tenho que querer mais?
Eu dei sorte de Bernardo estar em um plantão na delegacia, em uma conversa com Malibu
descobri que ele não era apenas um policial, era o policial, um delegado. Eu estava sob o teto de um
delegado da polícia civil, o medo de seu olhar observador e seu julgamento era tão grande que eu
tinha a sensação de que as paredes estavam se afunilando e iam me imprensar até me esmagar, eu não
suportaria ficar dentro de uma casa fechada com um homem especializado em detectar mentiras, eu
podia me trair ao menor dos sinais, então decido não adiar mais o inevitável e ir embora de uma vez.
Me levanto esfregando o rosto e enxugando as poucas lágrimas que restaram depois de uma
noite em claro me banhando nelas e olho ao redor, não tenho nada para levar além de uma bolsa
contendo minha maleta de dinheiro, encontrei-a no guarda-roupa de Augusto e a peguei, iria precisar
dela para nos sustentar por algum tempo. Quando estou prestes a girar a maçaneta, escuto a voz que
grita dentro da minha cabeça desde que fugi dele, Augusto está aqui e está gritando, dessa vez do
lado de fora dos meus pensamentos.
— Cadê ela, Vivian? — ele soa desesperado e meu coração se aperta, o que ele está fazendo
aqui? Bárbara disse que não ia contar onde eu estava, ela mentiu e, por mais que eu tente não
consegui me sentir irritada por isso, não escuto a resposta da Malibu, acho até que ele não esperou
que ela respondesse antes de invadir sua casa para me procurar, posso escutar audivelmente as
portas sendo abertas e batidas logo em seguida, até a maçaneta que ainda tenho nas mãos gira e
alguém a puxa, fazendo com que eu tombe para frente.
Bato com a cabeça no peito dele, levanto o olhar no exato momento em que ele me puxa ao seu
encontro e me aperta, apoiando seu queixo na minha cabeça, ele suspira aliviado e me solta
agarrando meu rosto com ambas as mãos. Sinto seus dedos frios na cicatriz e me encolho sob seu
toque com o coração batendo tão forte que ameaça sair pela minha boca. Eu não falo, ele também
não, só ficamos ali parados, nos olhando com intensidade, até que ele rompe o silêncio com um
beijo.
Não é qualquer beijo e definitivamente não é um beijo carinhoso, é um beijo de posse e me
arrisco a dizer, de saudade. Não correspondo, tento dar um passo para trás, mas ele não me solta e
não afasta sua boca na minha, Augusto parece decidido e firme e quando menos espero estou
fechando os olhos e me entregando a sua brutalidade e solidez. O amor me transformou, tornou as
minhas regras algo sem importância e em um piscar de olhos sei que por ele vou aceitar as migalhas,
se for só isso que ele pode me dar.
— Não quero que vá embora. — Dou um passo para trás para olhar em seus olhos, esperando
encontrar uma mentira e, dessa vez, ele permite que eu me afaste o suficiente para erguer a cabeça.
Mas não, no seu olhar eu encontro o que vi tantas vezes no meu ao me olhar no espelho, eu vejo
medo.
Por muito tempo pensei que Augusto não sabia amar, hoje eu descobri que ele tem apenas medo
e eu sei o que é isso, sei o que é temer tanto alguma coisa que nada nem ninguém tem o poder de fazer
o pânico sumir, mas esse homem de gelo me ensinou que as vezes, no meio do nada, quando menos
esperamos, topamos com alguém que tem a chave para desvendar o segredo e fazer a sensação de
falta de segurança ceder.
Nos braços dele eu não sinto mais como se o medo regesse minha vida e espero que chegue o
dia em que nos meus braços ele também não sinta, porque suas asas são o que me protegem e me
mantém sã, porque debaixo delas foi o único lugar em que eu consegui respirar de verdade, dormir
uma noite completa, andar sem olhar para trás, não abrir as janelas e nem acender as luzes, porque
debaixo delas eu sou inacreditavelmente feliz, como nunca pensei que voltaria a ser.
— O que isso quer dizer? — pergunto mordendo a bochecha. Não me rejeite, não me rejeite,
não me rejeite, não fuja de mim, Monstro, rezo em silêncio.
— Quer dizer que não vou mentir pra você, eu não posso te prometer amor, muito menos uma
eternidade. — Fecho os olhos para que ele não os veja umedecerem, e tento dar mais um passo para
trás, mas ele ainda segura meu rosto e o levanta, fazendo com que eu o olhe. — Mas eu quero mais
do que tudo ser o cara que tem asas, porque vocês são muito mais do que a família que salvei, vocês
são a família que eu quis salvar e principalmente a família que eu quero desesperadamente pra mim.
— O que você está me prometendo então? — pergunto confusa.
— Anna, eu não quero te prometer um sentimento que eu ainda não sei se consigo lhe oferecer,
não da maneira que você gostaria. Eu não sou o cara que assume o filho de outro, não sou o cara que
traz flores pra casa ou leva alguém para o altar — sussurra angustiado. —, o que eu posso prometer é
que vou proteger vocês com a minha vida se preciso for e que ao meu lado você nunca mais vai ter
necessidade de sentir medo outra vez, estou prometendo que por vocês eu vou tentar ser a pessoa que
vocês merecem que eu seja — sussurra com seus lábios quase encostando aos meus.
— Do que você tem mais medo, Augusto? — pergunto desafiadoramente. — O que te assusta
tanto?
— Tenho medo de machucar você ainda mais, tenho medo de falhar — admite parecendo
angustiado. —, tenho medo de quebrar o seu coração.
— Se você ainda acha que não pode me amar, por que não me deixa ir? — É isso que não
entendo, se ele se nega a gostar de mim, por que não me deixa ir embora de uma vez, por que ainda
insiste em me manter ao seu lado?
— Porque inexplicavelmente eu quero ser o seu lar — murmura com emoção fazendo com que
eu me desarme completamente. — Me deixa ser seu lar, Anna? — Olho para o homem rude à minha
frente que, pela primeira vez, fala com o coração e não com a razão e sei que ele está me oferecendo
tudo o que pode, até mais do que acha que consegue suportar, a questão é: eu vou aceitar tê-lo pela
metade?
— Não. — Me ouço dizendo. Sua fisionomia se entristece na hora e é a vez dele de fechar os
olhos e desviar a cabeça para que eu não o veja fraquejar, pobre Fera, ainda não acredita que um
príncipe está escondido em seu coração. — Não, Augusto — repito. —, eu não preciso deixar. Eu
não sei desde quando ou como começou, mas se eu penso em casa eu não vejo um lugar, eu só vejo
você, você se tornou meu lar no dia em que me salvou, garoto com asas, e não há nada que eu possa
fazer para mudar isso.
Então ele me beija com alívio, remorso, gratidão e ferocidade e eu retribuo com perdão,
aceitação e esperança.
— Monsto! — grita alguém interrompendo o momento, Augusto me solta e olha para baixo, se
eu imaginei que ele se frustraria ou se irritaria eu me enganei, porque ele sorri ao notar que tem um
menino agarrando a barra de sua calça. — Você veio levá a gente pra casa? — pergunta esperançoso.
— Me desculpe, ele ouviu a voz do Augusto — diz Malibu aparecendo no corredor, ela segura
nos ombros de Nicholas e olha para Augusto ao se desculpar. — Acho que vocês têm muito para
discutir, eu posso cuidar do Nick essa noite... — Ele a corta.
— Obrigado — agradece estendendo os braços para Nicholas que os agarra de prontidão, ele o
pega e o abraça apertado antes de deitar sua cabeça em seu ombro. Nicholas boceja e respira
pesadamente. — Mas nós vamos para casa juntos, todos nós. — Nick abre um sorriso enorme e
suspira aliviado se entregando ao sono ao se aninhar mais no colo de Augusto.
Vivian nos acompanha até o hall e Augusto vai na frente para chamar o elevador. Enquanto eu a
abraço, agradecendo-a pela hospitalidade, escuto Augusto sussurrar baixinho: “Senti sua falta,
moleque!”. Me viro e vejo que ele tem os lábios encostados nos cabelos do meu filho que adormeceu
antes de escutar suas palavras.
Nas poucas horas que estive longe algo mudou. Está claro que Augusto está se esforçando para
ser mais gentil e atencioso, vejo isso pelo modo como ele colocou meu filho na cadeirinha em seu
carro, com carinho. Vejo isso pelo modo como ele pegou em uma das minhas mãos e não soltou mais
até chegarmos a sua casa, vejo isso pela forma como ele sorriu ao contemplar o sono tranquilo de
Nicholas ao deitá-lo na cama do quarto de hóspedes, ou na maneira quase delicada com a qual ele
me pegou no colo e me levou pelo corredor até seu próprio quarto.
Quando ele entra comigo nos braços no quarto escuro, me solta e me encosta em uma parede, me
beijando ardentemente, eu descubro um tipo de temor diferente do que os que eu conhecia. Eu
descubro que estava errada, descubro que ele não tem o poder de inibir todos eles, apenas os do
mundo exterior, mas que não consegue diminuir o temor que eu sinto dele. Hoje, Augusto não vai
fugir e, pela primeira vez, eu me sinto insegura por estar com ele, não sei como ele vai reagir ao
descobrir um dos meus segredos e tenho mais receio ainda por não ter a certeza se vou conseguir
esconder.
— Por que você está tensa? — pergunta no meu ouvido me abraçando forte.
— Porque sei que você vai me perguntar coisas que não posso responder. — Mordo o canto
interno da boca ao falar somente parte da verdade.
— Se você pode me aceitar como eu sou, eu posso fazer o mesmo. Anna, você ficou sem me
cobrar nada então não é justo que eu cobre alguma coisa de você — murmura alisando meu rosto com
as costas da mão. — No tempo certo, vamos aprender a ceder.
— Você tem razão. — Não, ele não tem. Tem coisas que eu nunca vou contar, porque não sei se
consigo suportar ver repulsa em seu olhar ao invés do desejo que vejo agora se ele descobrir quem
eu sou de verdade e tudo o que fiz.
Augusto volta a beijar minha boca e passa suas mãos pela minha cintura, ainda estou rígida e
amedrontada, ainda não tenho certeza de que posso esconder o que não quero que ele saiba, mas não
posso fraquejar agora. Penso na noite de ontem e na mulher que ele trouxe para casa, penso em
quantas outras não estão esperando por uma ligação sua nesse momento. Não quero nunca mais ter
que ouvir ele dar prazer ou imaginá-lo correndo as mãos pelo corpo de outra mulher. Não quero que
ele tenha que fazer isso, eu quero ser essa mulher, todas as vezes, então eu cedo.
— Estou indo rápido demais? — pergunta segurando meu cabelo em um nó em suas mãos e os
puxando para trás para ter acesso ao meu pescoço que ele beija e morde fazendo com que qualquer
ressalva que eu tivesse evaporasse, como da última vez em que estive em seus braços dessa forma. A
sensação de que estou no lugar certo, nos braços certos e com a pessoa certa me atinge mais uma vez
e eu esqueço do porquê estava tão preocupada quando ele interrompe nosso contato por falta de uma
resposta. — Você quer que eu pare?
— Não. — Sorrio timidamente, ele sorri de volta e puxa a bainha do meu vestido, me deixando
apenas de calcinha, ele dá um passo para trás e me admira por um momento, seus olhos passeiam
lentamente pelas minhas pernas e por minha barriga exposta até chegar em meus seios, antes que eu
possa me sentir envergonhada ou ter o ímpeto de me cobrir ele avança e me pega no colo outra vez,
me jogando na cama. Ele investe sobre mim tirando sua camiseta e se deita sobre meu corpo
enterrando as mãos nos meus cabelos ao enfiar sua língua em minha boca.
Eu me contorço debaixo dele e encaixo meu corpo ao seu lhe arrancando um suspiro, ele desce
seus lábios para meu pescoço, meus ombros e finalmente meus seios, arqueio mais o corpo em
resposta quando ele os coloca em sua boca, um a um.
— Não dá pra ter preliminares com você, não hoje — murmura com a voz rouca se levantando e
se livrando da calça jeans, eu desvio os olhos sentindo que estou corando, não quero que ele veja
minhas bochechas vermelhas nem a dúvida em meu olhar. Augusto me faz sentir muitas sensações
desconcertantes e maravilhosas, mas se eu tivesse que descrevê-lo em uma palavra seria animalesco.
Em todas as vezes em que pensei nessa noite, nunca imaginei que seria assim, não era como eu queria
que fosse. Eu não queria que fosse selvagem, apenas doce, mas eu já deveria saber que Augusto não
me proporcionaria isso. — Você me deixa louco, Anna.
Quando ele se remexe e se ergue, eu finalmente levanto os olhos e o vejo abrir a gaveta do
criado-mudo e pegar algo, uma pequena embalagem quadrada, quando sua mão se retrai vejo que é
uma camisinha com a parca claridade da lua. Ele fica de joelhos e abre a embalagem retirando-a com
rapidez, enquanto eu olho para o teto. Sinto quando ele volta a se deitar sobre o meu corpo após
colocá-la e afasta minhas pernas com agilidade, escondo ainda mais o rosto no travesseiro,
esperando que ele demore ao notar que não estou emitindo mais som algum.
Ele abaixa a cabeça e encosta seu rosto ao meu apoiando uma das mãos na cama e a outra em
uma das minhas coxas, no começo eu não sinto dor, eu acho que vou suportar e conseguir fingir, mas
quando ele força a entrada com mais vontade, eu solto um pequeno grito junto com o ar que nem
havia percebido estar segurando. Augusto encara minha reação como algo positivo porque intensifica
ainda mais o aperto em minha coxa, afastando-a ainda mais, sua boca se encosta em meu cabelo e
sinto sua respiração entrecortada, me concentro nela tentando me distrair, mas quando ele faz outra
estocada não consigo me controlar, fecho os olhos e solto um grunhido.
Na próxima já estou em prantos, seus gemidos cessam e meus soluços são os únicos sons que
preenchem o silêncio que se abateu sobre o quarto.
— Mas que porra...? — grunhe se levantando em um rompante.
Uma caneta, um receituário e um capacho

''— Eu confesso que nunca senti isso por ninguém. Quero fazer alguma coisa por ela, mas o quê?
— Ahn. As coisas costumeiras: flores, chocolates, promessas que não pretende cumprir.''
(A Bela e a Fera)

Augusto

Demoro até perceber que ela está rígida demais sobre meu corpo. Somente quando seus soluços
se misturam ao som do prazer que ela está me proporcionando é que percebo que algo está errado,
muito errado. Nunca mulher nenhuma chorou comigo na cama, elas só choravam depois...
— Mas que porra! — exclamo me levantando, com medo de tê-la machucado. O que eu fiz de
errado? — O que foi, Anna, você está bem? — pergunto preocupado. Ela ergue as pernas e abraça os
joelhos apoiando a testa neles, seus ombros chacoalham e eu fico sem reação, olho-a por alguns
momentos de forma observadora antes de entender em um rompante o que realmente estava
acontecendo. — Olhe pra mim — peço friamente. Ela não se mexe, por isso repito. — Olhe para
mim, Anna, agora.
— Me desculpe, Augusto — implora erguendo o rosto banhado em lágrimas, seus olhos...
pensei que não veria mais medo dentro deles. — Eu... é... — tenta em vão encontrar uma mentira,
mas ela sabe que perdeu, sabe que eu sei. É claro que eu sei.
— Por que você não me disse, porra? — pergunto irritado passando as duas mãos pelas laterais
dos cabelos e prendendo-as atrás do pescoço. Ela chora mais alto e volta a esconder o rosto nas
mãos, observo-a por não mais do que um segundo, antes de tirar a camisinha e voltar a vestir a calça,
saindo do quarto sem olhar para trás.
Puta que pariu! Puta que pariu! Puta que pariu!
Entro no bar e me sirvo de uma dose de uísque levando-a comigo até a cozinha, me sento e
enterro a cabeça nas mãos abandonando o copo à minha frente. Por que ela não me contou? Achou
que eu não encostaria nela se soubesse que era virgem? Se pensou, tinha razão, eu não gostava de
transar com mulheres virgens, nunca gostei. Não sou o tipo de cara cuidadoso e gentil que o momento
pede, eu não faço amor.
Ao mesmo tempo que eu estou puto por ela ter achado que eu seria trouxa o suficiente para não
perceber começo a me sentir culpado por tê-la feito chorar. Provavelmente eu devo ter machucado a
menina, provavelmente ela não confiou em mim o suficiente para se abrir e preferiu sentir dor ao
invés de me explicar a situação. Provavelmente ela achou que eu ia ser mais cuidadoso e preocupado
do que eu fui, provavelmente ela achou que eu não deveria saber porque... caralho, eu sou um burro
do caralho. Só agora a pergunta mais importante me atinge como um raio.
Se ela é virgem, quem é a mãe do menino?
Viro a dose de uísque e me levanto, chegou a hora de ter uma conversa séria com aquela garota
e, dessa vez, ela não ia fugir e eu também não a deixaria mentir, mas antes de mais nada eu queria ter
certeza de que estava bem, de que eu não tinha lhe machucado. Me assombra ver o quanto eu estava
me tornando babaca, mais alguns meses e é possível que tivesse uma coleira enfeitando o meu
pescoço, exatamente igual a de Ian.
Entro no quarto e caminho até ela acendendo a luz do abajur, Anna não se mexeu, continua na
mesma posição, pernas esticadas e cabeça tombada, escondida por suas mãos, ela também ainda não
parou de chorar. Quando nota a claridade, ela puxa as pernas de encontro ao corpo e é então que eu
vejo a mancha de sangue no lençol.
— Está doendo? — pergunto calmamente, tentando fingir que não quero socar minha própria
cara. Ela balança a cabeça afirmativamente e soluça. Me sento ao seu lado e puxo ela em direção ao
meu peito, ela vem, jogando os braços em volta do meu pescoço. Suas lágrimas molham meu rosto
que está colado ao dela e eu a puxo para o meu colo. — Me desculpe, eu não percebi antes. — Eu
deveria ter percebido, porra.
— Você não fez nada de errado — sussurra —, eu deveria ter avisado. — Passo as mãos pelos
seus cabelos até que sua respiração volte ao normal.
— Quem é a mãe do menino, Anna? — Ela enrijece e ameaça voltar a chorar, mas não volta. O
silêncio entre nós é perturbador. — Tem alguém procurando por esse menino, chorando sua ausência
em algum lugar?
— Não — sussurra tão baixo que imagino ter ouvido a resposta. Coloco-a sentada na cama
outra vez e empurro seu queixo para cima, obrigando-a a me olhar.
— A brincadeira acabou, Anna, eu devo ligar para o Bernardo, ou você vai me dizer o que
preciso saber? — sou incisivo e não deixo margens para recusa. Ou ela conta por bem ou vai contar
por mal, porque começo a pensar que o que ela esconde pode ser mais podre do que eu havia
imaginado.
— Por favor, não ligue para ele — implora entrando em desespero, ela agarra minhas mãos em
uma tentativa de me manter no lugar, mas não é necessário, eu não vou a lugar nenhum, percebo de
súbito que mesmo que o que ela me conte seja tenebroso, ainda assim não vou a lugar nenhum. Cruzo
os braços e espero, sua boca se abre uma, duas, três vezes e nada sai de dentro dela, vejo seus olhos
procurando em vão por uma mentira, mas também vejo que ela não consegue encontrar nenhuma.
— Você roubou aquela criança? — pergunto dando voz ao meu pior receio. Diga que não,
vamos, diga. Diga que não Anna.
— Sim. — Fecho os olhos e respiro lentamente, mas que merda! Dessa vez sim, ameaço me
levantar necessitando de espaço para pensar e talvez alguém para socar, ela não me impede e acabo
por enterrar minha mão repetidas vezes em uma parede. — Pare, você vai se machucar — implora
segurando meu braço no ar, impedindo que eu batesse no concreto novamente. — Eu posso explicar.
— Você pode me explicar por que roubou uma criança? — pergunto sarcasticamente, com a mão
latejando. — Então vamos lá, me explique.
— Eu roubei Nicholas para salvar a vida dele e isso é tudo o que você precisa saber — diz
desesperada puxando meu braço com força para que eu me volte para ela.
— Você acha mesmo que vou acreditar nisso? — Eu quero, como eu quero. — Acha que vou
simplesmente deixar o assunto pra lá? Anna, estamos com uma criança roubada, quanto tempo temos
até a polícia bater na nossa porta? — Bernardo ia me fritar!
— Eu estou dizendo a verdade, eu juro por Deus que estou. — Seus olhos buscam os meus atrás
de uma confirmação de que acredito nela, mas não posso, não ainda.
— Quanto tempo ele tinha?
— Dois meses — responde sem titubear.
— A pessoa de quem você se esconde, ela quer o Nicholas? — Ela balança a cabeça em
negativa. — O que ela quer, então?
— Não posso... — sussurra segurando o choro. — Desculpe, Augusto, mas você vai ter que
confiar em mim, por favor, confie em mim. Guarde o meu segredo, por favor — implora ameaçando
se jogar aos meus pés, mas eu seguro seus braços, não quero vê-la fazer isso. Antes que eu possa
impedir estou puxando-a para um abraço e beijando o topo de sua cabeça.
— Espero que eu não me arrependa de confiar em você, Anna — murmuro mais para mim
mesmo do que falo para ela. — Realmente espero não me arrepender.
— Você não vai — sussurra me apertando, eu me levanto com ela e apoio a mão em suas coxas,
caminhando até o banheiro. Coloco-a no chão e ligo o chuveiro, voltando a me livrar da calça,
depois paro a sua frente e puxo sua calcinha manchada de sangue para baixo, jogando-a no lixo e a
pegando-a pela mão, empurrando-a até que esteja debaixo da água quente.
— Ainda está doendo? — Ela balança a cabeça negativamente mordendo a bochecha com força,
está mentindo. — Me deixa ver? — Ela cora. Como eu não percebi antes que ela é ingênua em todos
os aspectos, sempre envergonhada e com as bochechas rosadas? Ela ainda é uma menina. Abaixo a
mão e a toco delicadamente, percebendo que a região está inchada, ela se remexe indicando que está
doendo e olho para baixo constatando que tenho um pouco de sangue nas mãos, minha culpa deve
estar estampada em meu olhar, porque ela segura minha mão me fazendo olhá-la nos olhos...
— Nós podemos tentar de novo... — murmura incerta, balanço a cabeça negando chocado.
— Não, Anna, eu não quero. — Ela murcha visivelmente. — Eu não sei fazer amor, vou
machucar você.
— Por favor — pede desviando o olhar. Caralho, essa menina vai me enlouquecer, vê-la
implorar dessa maneira, ver seu olhar inocente e constatar que deve estar sendo horrivelmente
vergonhoso para ela me pedir para tirar sua virgindade é o suficiente para me deixar de pau duro.
Cara, eu devo ter algum problema, só pode. Quando eu acho que não tem como piorar, ela nota minha
ereção e morde os lábios e eu preciso de todo meu autocontrole para não investir sobre ela. Por
autocontrole entenda-se, pensar na minha mãe pelada.
— Anna, sai do chuveiro e me espera na cama, eu preciso tomar um banho gelado agora,
sozinho — peço com a voz rouca cerrando os punhos para que minhas mãos não voem para seu
corpo exposto à minha frente.
— Só se você prometer que vamos tentar de novo. — Eu queria é tentar agora.
— Eu prometo, agora sai — ordeno abrindo a porta do boxe.
— Quando? — Ela quer me enlouquecer, é isso. Ela sabe o poder que está exercendo sobre mim
nesse momento e está se aproveitando dele. Ela é má.
— Assim que não estiver mais doendo, prometo — sussurro olhando para seus seios com
desejo, devo até estar babando. — Agora sai, pelo amor de Deus!
Se fosse em qualquer outra situação com qualquer outra mulher, eu sairia de casa e encontraria
alguém para me satisfazer, mas prometi a mim mesmo que o que houve ontem, não vai mais voltar a
acontecer. Eu não vou trazer mais mulher nenhuma para essa casa, deixar Anna me ouvir comendo
outra e duvido até que eu consiga fazer isso escondido dela, não adiantaria de qualquer forma,
porque é com ela que eu quero estar. Saio do chuveiro meia hora depois me sentindo um garoto de
treze anos novamente e a encontro dormindo na minha cama, ela veste a camiseta que eu usava e está
parcialmente coberta pelo meu edredom.
Anna nunca esteve tão linda e tão serena e por mais que todos os meus instintos me mandem
pegá-la no colo e levá-la até sua cama, sei que não vou fazer isso, sei que vou deixá-la ficar.
Observo-a por alguns minutos de pé ao seu lado. A luz da lua ilumina seu rosto marcado e tudo o que
eu vejo não é uma garota assustada, nem uma cicatriz feia. É a minha garota assustada com o rosto
marcado por uma cicatriz que não me incomoda, eu vejo a garota que eu quis salvar, a garota que vai
me salvar.
Por mais que eu tente negar, sei que Anna tem o poder de me fazer amar.

***

— Monstro. — Acordo com alguém batendo na minha porta, esfrego os olhos e me viro para o
despertador, xingo alto. — Você vai se atrasar — murmura Gustavo abrindo uma fresta da porta e
colocando a cabeça para dentro. Seus olhos se arregalam e sua boca se abre, mas ele não está
olhando para mim, sigo seu olhar e vejo o que tanto chamou sua atenção. Anna está enroscada em
minhas cobertas. Nessa noite descobri que ela tem muito em comum com o menino, também é uma
ladra de travesseiros.
— Perdeu alguma coisa? — pergunto de mau humor, me levantando. Empurro ele porta afora e
saio atrás.
— Aquilo era... — Ele nem consegue falar tamanho o susto. — Quem é você e o que você fez
com o meu irmão? — Reviro os olhos. — Não importa, deixa ele onde está, eu gosto mais dessa
versão de você — pede fazendo graça.
— Era só isso, Mala? — pergunto irritado, preciso estar no hospital em mais ou menos três
minutos e meio e não tenho tempo para esse palhaço agora. Mas ele não responde, continua me
olhando com cara de idiota embasbacado. — O que foi, Gustavo?
— Interessante, ela dormiu na sua cama — diz sorrindo.
— Essa era uma regra do Ian, não minha — minto cruzando os braços, na verdade não era uma
regra, era um acordo tácito entre ambos.
— É, e você sabe o que aconteceu na única vez que ele a quebrou — infelizmente eu sabia.
— Ele casou com a nossa irmã — murmuro.
— Isso não te diz nada? — pergunta erguendo as sobrancelhas se divertindo às minhas custas.
— Além do fato de que você é um enxerido? Não, nada — respondo lhe dando as costas.
— Ah, qual é — gargalha.
— Do que adiantaria expulsar ela da minha cama? Ela mora aqui, mala sem alça. — Sei que não
é desculpa, sei que a deixei ficar por motivos mais nobres que sua localização geográfica, deixei ela
ficar porque... porque... fiquei com dó... não, deixei ela ficar porque... ah, eu queria que ficasse,
droga, pronto admiti (pra mim mesmo claro, eu não ia dar munição para aquele idiota me infernizar),
e incrivelmente não caí duro. — Era só isso? — repito a pergunta. Ele me olha por algum tempo em
dúvida como se quisesse puxar outro assunto, mas acaba assentindo.
— Sim, melhor você correr, já está atrasado — diz me dando as costas e impedindo que eu
desvende pelo seu olhar o que tanto ele esconde.
Tomo o banho mais rápido da história, visto uma calça social e uma camisa, apanhando uma
gravata qualquer e o jaleco, correndo porta afora. Desço os degraus em direção à porta da rua, mas
estaco no meio do caminho, dou a volta e vou até a cozinha, abro a carteira e deixo algumas notas em
cima da mesa como vi Ian fazer tantas vezes antes do trabalho. Procuro em uma das gavetas por um
papel e uma caneta e rabisco um bilhete, colocando-o em cima do dinheiro e aí sim, saio voando pela
porta.
Quando estou entrando no corredor, avisto minha paciente vitalícia, aquela senhorinha que vem
me ver todos os meses para me mostrar seus peitos, me escondo atrás de uma pilastra, essa eu vou
deixar passar, Ian se vira. Tomo um café, dou uma voltinha e volto para minha sala vinte minutos
depois me sentindo um pouquinho culpado, mas nada que me afete de verdade porque me sinto na
obrigação de debochar.
— E agora, ela tá morrendo ou ainda não foi nessa semana? — Ele bufa irritado, ciente da
perseguição da dona Antônia.
— Não, mas o sutiã dela era uma coisa de louco — murmura sarcasticamente. — Ligou só pra
tripudiar?
— Foi. — Rio me lembrando de mais um detalhe. — Não, espera! — grito antes que ele bata o
telefone na minha cara. — Tem uma coisa que eu quero te perguntar... — Só falta a coragem, enrolo o
fio do telefone no dedo e ligo o computador tentando ganhar tempo.
— Você vai falar ou quer que eu olhe na minha bola de cristal? — Graças a Deus, ele não tinha
uma dessas, senão eu estava fodido.
— Como faz para... — tirar a virgindade de uma garota. Claro que essa não era a pergunta, eu
sabia como se fazia, eu só não sabia como fazer de forma, como se diz? Gentil? Essa não era a minha
praia, por que eu concordei em tentar novamente? Olha lá mais uma pergunta ridícula, porque eu não
ia deixar que fosse outro a fazê-lo. — Como... O que uma mulher espera de uma noite romântica? —
Esse foi o melhor que saiu, ia ter que servir. Pelo menos foi o suficiente para ele engasgar.
— Bom, se é pra ser romântica não pode ser uma noite com você, eu ainda tenho alguns amigos
solteiros... — Eu o corto.
— Ian, colabora! — murmuro girando na cadeira impacientemente.
— Depende, cara, o que você pretende que aconteça nessa noite romântica? Peraí... — Posso
imaginá-lo tirando os pés de cima da mesa e se sentando ereto, apertando o telefone com mais força.
— Vocês ainda não... você... Uau, quem é você?
— Você é a segunda pessoa que me pergunta isso hoje, mas não, a gente ainda não transou, eu
queria que fosse especial. — Ele gargalha me fazendo pensar seriamente em atravessar o corredor só
pra socar sua cara. Não posso contar o motivo que me impediu de fazer alguma coisa, muito menos
porque eu quero que seja especial, eu prometi guardar o segredo.
— Leva ela para algum lugar, não dá pra ser romântico em casa, principalmente com Nick lá.
Anna não é do tipo que se ludibria, não é? Nada de levar ela para o lugar mais caro que você
encontrar, isso não vai funcionar. Na verdade, não importa o lugar, o que importa é como você vai
fazer.
— Explica melhor, cara — peço confuso.
— Pega papel e caneta — manda, puxo o receituário e tiro a caneta do bolso do jaleco, ficando
a postos.
— Compre algumas flores, abra a porta do carro para ela, encontre um lugar que seja agradável
e não somente caro, seja gentil, educado, preste atenção no que ela falar e, pelo amor de Deus, faça
questão das preliminares. — Estou anotando tudo em tópicos, vou ter que decorar essa porra mais
tarde. — Elogie, não tenha pressa, dê mais prazer do que espera receber. Tá anotando?
— Tô. O que mais? — pergunto desenhando no papel.
— Agora coloca a cabeça para funcionar e planeja essa noite, você tem que fazer isso sozinho,
essa é a graça do negócio.
— Como foi que você aprendeu tudo isso? — pergunto curiosamente.
— Quer mesmo saber? Eu sou casado com a sua irmã — me lembra de forma inconveniente,
mas me conta mesmo assim. — Acho válido ter algumas noites com a Bárbara que sejam especiais.
— Ian, se minha irmã fosse virgem e não tivesse vindo com um brinde que nem o Kinder Ovo,
você ia se importar? — pergunto de repente torcendo para que ele não queira saber o porquê disso
agora e torcendo ainda mais para ele não entrar em detalhes que não desejo ouvir. Porque
infelizmente eu ainda morro de ciúmes daquela babaca e só de pensar no Ian... ah, eu já me irritava.
— Acho que tem algo de mágico em ser o primeiro homem de uma mulher, denota confiança.
Mas não importa se você é o primeiro ou não, o que importa é se você vai ser o último. Então não, eu
não me importaria se sua irmã fosse virgem, mas também não me incomodei que não fosse, a única
coisa que me importa é que eu vou ser o último homem a encostar nela. — Ele suspira. O desgraçado
suspira pensando na minha irmã. Por que eu ainda sou amigo dele?
— Você é gay. — Ele ri, mas ainda tenho mais perguntas. — Você já tirou muitas... digo,
virgindades?
— Embora não tenham faltado oportunidades, não, nunca gostei de mulher nenhuma para topar
fazer isso. Como eu disse é questão de confiança, é um dia especial para a menina, então não é legal
o cara fazer por fazer, só pra ser mais um número. Mas por que isso agora? — E lá estava a pergunta
que eu temia. Mas antes que eu pudesse responder, ele avisou. — Tenho outra ligação, espera aí. —
Ele não demorou nem um minuto para voltar à linha falando rápido. — Monstro, acabaram de avisar,
chegou dois pacientes, acidente de carro, ambos com trauma torácico, desce pro centro cirúrgico, te
espero lá. — Ufa, não que eu estivesse feliz de ter dois pacientes ferrados, mas veio bem a calhar.
No final das contas ambos os pacientes eram uma bomba-relógio e não consegui mais conversar
com Ian durante o dia todo, cada um de nós ficou preso em uma cirurgia. O que foi ótimo, porque eu
esperava que até a noite ele esquecesse das minhas perguntas e dos seus questionamentos.
Segunda pista: Eu sou invisível

“Cuidado com o medo, ele adora roubar sonhos.”


(Autor desconhecido)

Anna

A primeira coisa que noto quando abro os olhos é que estou sozinha na cama, por um momento
tenho um pressentimento ruim, a sensação de ter sido abandonada me atinge com força, mas balanço a
cabeça abraçando o travesseiro de Augusto deixando a ideia de lado, até porque não teria como ele
me abandonar já que estou na casa dele. Rá! Mas teria como ele ter ido atrás do policial e ter lhe
contado o que descobriu na noite passada, será que ele teria coragem? Ah, merda, claro que ele teria.
Às vezes, eu esquecia que estava apaixonada pelo lobo mau e não pela vovó. Jogo o travesseiro
longe e saio do quarto correndo, olhando para todos os cantos até chegar ao andar de baixo.
Avisto Bárbara em pé na cozinha com algo nas mãos, me aproximo dela que sorri me entregando
um bilhete e um punhado de dinheiro.
— Encontrei isso em cima da mesa e vou te dizer, eu estou surpresa. Por via das dúvidas, vou
voltar para a cama, vai que chove canivetes, não é? Ou coisa pior, poderia chover partos normais, ia
ser horrível — lamenta alisando a barriga pontuda, vejo o quanto ela cresceu nas poucas semanas
que estou aqui.
— Já está chegando? — pergunto indicando sua barriga com um aceno.
— Já podia ter chegado, se formado, casado e constituído família — murmura me mandando um
beijo. — Se precisar de mim, sabe onde me achar. Debaixo das minhas cobertas.
— Você também, qualquer coisa grita. — Fico feliz de ver que nossa interação esquisita é
completamente normal para nós duas, é como se nos conhecêssemos há mais tempo, é quase como...
como se eu fosse parte da família. Mas ela não passa pela porta, ela para, demora quase um minuto
para se virar e quando o faz, girando cento e oitenta graus, encara apenas o que estou vestindo, olho
para baixo me dando conta de que não tirei a camiseta de Augusto e fico desconfortável, mudando o
peso do corpo de um pé para o outro.
— Me tira uma dúvida? — pergunta embasbacada, mesmo se eu dissesse não tenho a impressão
de que ela me torturaria para ter sua resposta. — Onde você dormiu, Anna?
— Eu... é... — Não tinha porque esconder, certo? — Na cama do seu irmão, mas não é o que
você está pensando — tento explicar levantando as duas mãos em sua direção, mas ela faz um aceno,
indicando que não preciso dizer mais nada.
— Você passou a noite inteira na cama dele? — Ela parece não acreditar no que está ouvindo.
— Sim, eu peguei no sono e ele acabou não me acordando, eu... — Ela me corta.
— Talvez nem na minha cama eu esteja segura hoje — murmura para si mesma e se volta para
mim com os olhos brilhando de entusiasmo. — Eu sei que é uma coisa muito babaca de se dizer, mas
ele não deixa ninguém dormir naquela cama.
— Nick dorme lá — lembro-a, ela revira os olhos.
— O que eu estou dizendo é que mulher nenhuma nunca dormiu na cama dele, nunca — frisa
erguendo as sobrancelhas esperando que eu entenda o que ela estava sugerindo.
— Bom, deve ter algum motivo... — Ela me corta.
— Ele nunca permitiu, Anna. Ele tinha essa regra estúpida. Bom, meu marido também e olha só
como ele terminou. — Ri alisando a barriga.
— Então, eu fui... — Sorrio espontaneamente sem conseguir concluir a frase.
— É, você foi e eu deveria ter mandado Ian construir um abrigo nuclear no quintal e não uma
piscina — comenta rindo. — Preciso contar essa para Vivian — murmura me dando as costas e
sacando o celular do roupão rosa sumindo de vista.
Olho para o bilhete e tento decifrar o garrancho horrível, não é à toa que ele é médico.

“Desculpe não te acordar, você estava tão linda dormindo na minha cama que não tive
coragem. Tem um mercado no fim da rua, caso você precise de alguma coisa ou caso Nicholas
queira algo especial. Volto à noite.
Augusto”

Fico sem palavras, o que é bom, porque não tem ninguém para ouvi-las de qualquer modo.
Depois de ontem, o ataque de gentileza me pega desprevenida, já que ele não pareceu ter ficado
muito contente por eu nunca ter transado. Bom, eu não planejava ser virgem por tanto tempo é que
entre me esconder, fugir e trabalhar que nem uma escrava para comer não sobrava muito tempo para
pensar em sexo. Isso e o fato de que para perder a virgindade eu primeiro precisaria conhecer
alguém, e nós já sabemos que eu não teria feito isso se tivesse tido uma opção.
Me sento à mesa da cozinha me lembrando do quanto ele pareceu assustado ontem e depois do
quanto foi gentil e preocupado. Eu queria ter conseguido fingir, queria ter ido em frente, mas agora
vendo que ele consegue ser carinhoso quando tenta de verdade, não me arrependo. Ele prometeu que
vamos tentar de novo e, com certeza, será melhor agora que ele sabe das minhas inibições. Claro que
eu não espero que ele seja cavalheiro ou delicado, já aprendi que tem coisas que ele não consegue
fazer e aceito isso, mas, pelo menos, espero que não doa tanto e que eu possa curtir o momento ao
seu lado.
Olho o papel mais algumas vezes e resolvo lhe retribuir o gesto. Resolvo que vou arrumar a
casa (que está uma zona) e depois vou ao mercado fazer algumas compras para lhe preparar um
jantar decente, não aquelas coisas congeladas que todo mundo come quando a Bárbara está de mau
humor, o que vem se tornando frequente com o final da gestação.
E é exatamente isso que faço. Acordo Nicholas, lhe dou café da manhã e o coloco para ver um
desenho na sala. Enquanto ele está distraído, aproveito e limpo a casa, quando termino todas as
torneiras, móveis e o chão até brilham de tão lustrosos, me encosto em uma parede e admiro meu
trabalho, nada mal.
— Filho, vamos até o mercado com a mamãe? — Ele me olha sobre o ombro e depois volta a
olhar para o desenho, quando ele está a ponto de recusar, eu decido ser um pouco mais persuasiva
emendando: — Eu te compro um chocolate. — Cinco palavras mágicas que o colocam de pé mais
rápido do que consigo piscar, ele abandona a televisão e corre em minha direção solícito, o que um
chocolate não faz, não é?
Antes de ir ao mercado peço para que Nick busque minha bolsa enquanto procuro as chaves da
casa, não quero abusar do Augusto usando o dinheiro que ele deixou, eu posso pagar pelo jantar.
Quando tenho tudo nas mãos, incluindo um Nicholas extremamente ansioso saio pela porta. Somente
quando chegamos em casa e eu deposito as sacolas na bancada da cozinha percebo que não olhei
para trás uma única vez sequer durante o trajeto de ida e volta, não senti como se estivesse sendo
observada nem tive a ânsia de apertar o passo. Sorrio separando as compras, me distraindo com o
quanto essa cena é inusitada, limpar uma casa, ir ao mercado, preparar o jantar para um homem que é
meu. Bom, quase meu. É tudo tão perfeito, mágico e delicioso que não parece real.
— Mamãe! — berra Nicholas desesperado fazendo com que eu solte a garrafa de vinho tinto
que tinha nas mãos e atropele os cacos de vidro ao correr em seu encontro. Meu filho está estático no
meio da sala olhando pela janela, parece apavorado.
— O que foi? — pergunto derrapando à sua frente, me agachando e o virando em minha direção
pelos ombros magros.
— Tinha um homem do lado de fora — diz pálido fazendo minhas pernas bambearem, olho pela
janela e não vejo nada, mas sei que ele não está mentindo. Nicholas já é calejado nessa vida de
procurar por ameaças. Não preciso perguntar se ele viu o homem dentro de casa, porque o portão
automático da garagem não tem frestas, agarro sua mão com força e o puxo em direção às escadas.
— Sobe! — ordeno com um grito, ele não titubeia e corre escada acima, olho mais uma vez pela
janela em pânico e lentamente deixo meu olhar varrer o ambiente. Como eu não vi antes? Como pude
deixar a minha felicidade me cegar ao ponto de me distrair? Eu nunca me distraía e por causa da
minha falha não notei as pegadas de lama no chão da sala que eu havia limpado há pouco. Me
debrucei sobre o corrimão e segui as pegadas, elas saíam da porta do armário que ficava embaixo da
escada e iam até a porta da frente.
Ele esteve aqui, aqui dentro, ele me achou.
Corro escada acima procurando Nicholas em todos os quartos, eu o encontro escondido debaixo
da cama de Augusto, provavelmente o lugar que ele achou mais seguro, fecho a porta a chave e me
escoro nela respirando com dificuldade. Eu não deveria estar surpresa, ele sempre aparecia quando
eu menos esperava, ele tinha o dom de acabar com a minha sanidade. Quando volto a respirar com
normalidade caminho até Nick e puxo seus pés, ele grita e se debate, mas eu o acalmo. Quando
percebe que sou eu, ele pula no meu colo e eu o aperto forte, não sei quanto tempo passamos
abraçados no chão do quarto, ambos tremendo, ele chorando alto e eu baixo. Mas quando me lembro
de que existe mais uma pessoa que eu deveria estar protegendo provavelmente já tinham se passado
horas: Bárbara, eu abandonei a Bárbara.
Não consigo me mexer, não consigo sair do quarto para procurar o telefone, nem ao menos
encontro forças para gritar por seu nome, eu simplesmente não consigo colocar Nicholas em risco
saindo desse quarto por ninguém e faço o possível para engolir a culpa junto com as lágrimas.
Não estamos seguros, ninguém à nossa volta está.
A faca e a camisa de botões

“Entre uma boca e outra, uma dose e outra.


Toda madrugada nessa vida louca.
Nem passou pela cabeça me apaixonar.”
(Como é que a gente fica, Henrique e Juliano)

Augusto

Chego do trabalho exausto, querendo muito um banho quente e a minha cama, praticamente me
arrasto da garagem até dentro de casa. Minha vontade é rastejar pelas escadas, mas decido ser
corajoso o suficiente para procurar por uma cerveja antes de hibernar. Tudo muda assim que piso na
cozinha, o cansaço vai embora sendo substituído por adrenalina e um mau pressentimento
excruciante.
— Anna? — grito olhando para os cacos de vidro de uma garrafa estourada no chão lavado de
vinho. — Nicholas? — A casa está em completo silêncio. Dou as costas e começo a procurá-los pela
casa com um peso no peito. Corro pelo andar de baixo e pelo jardim deixando meus olhos correrem à
minha frente, depois subo as escadas e procuro por eles nos quartos, quando chego ao meu, o último,
encontro a porta trancada. — Anna? — Ela não reponde, mas não pode estar dentro de outro lugar,
me afasto da porta e a chuto fazendo com que se abra de forma violenta.
Demoro até vê-los abraçados no chão próximos a cama, ambos estão chorando e tremendo, não
penso, só reajo. Ando até eles puxando-a pelo braço e tirando o menino de seu colo, ele agarra meu
pescoço com força molhando meu pescoço com suas lágrimas, com a outra mão eu a puxo.
— Está tudo bem, vai ficar tudo bem — sussurro em seu cabelo, beijando sua testa. — Vocês
estão seguros. — Esse é o único conforto que encontro para lhe dar, já que está claro que estavam se
escondendo.
— Bárbara, vai procurar a Bárbara! — grita me empurrando. — Vai — Seu lamento é tão
penetrante que desperta algo em mim, algo ruim e assustador. Lhe entrego o menino e corro porta
afora até a casa da minha irmã, não preciso lhe perguntar mais nada para saber que algo muito errado
aconteceu aqui enquanto eu estava fora. Tudo o que eu consigo pensar é na fisionomia da minha irmã
em coma há alguns anos, no medo que eu senti de perdê-la e no quanto eu a amava, eu estava quase
chorando quando cheguei em sua casa e a encontrei sentada no sofá assistindo a novela se entupindo
com um saquinho de jujubas. Devo ter feito barulho porque ela se vira assustada.
— Oi, Monstro, quer jujuba? — pergunta com um sorriso aberto. Deus, eu podia beijá-la nesse
momento. Ela estava bem, apoio as mãos nos joelhos e sorrio fracamente em sua direção tentando
fingir que não tem nada errado, por mais que eu queira encurtar nossa distância e tomá-la nos meus
braços, apertá-la até que fique sem ar não faço isso, apenas dou as costas voltando para Anna
enquanto ela dá de ombros ao murmurar:
— Tudo bem, acho que eu vou ter que comer vocês sozinha, meninas — sussurra para o
saquinho em suas mãos.
Quando volto a entrar em meu quarto encontro Anna andando de um lado para o outro com
Nicholas em seu colo, apoiando a cabeça no ombro da mãe. Ela busca por respostas no meu olhar e
respira aliviada ao ver minha expressão.
— O que aconteceu aqui? — pergunto confuso me aproximando deles.
— Augusto — chama desesperada agarrando minha camisa com as duas mãos quando chego
perto, seus olhos estão ensandecidos, alucinados e amedrontados. — Ele esteve aqui.
— O quê? — não preciso perguntar quem, ela não vai dizer de qualquer forma. O importante é
que eu entendo exatamente o que ela está tentando me dizer, retiro o menino de seus braços
apertando-o contra meu corpo. — Ele machucou vocês? — pergunto olhando-a dos pés à cabeça e
apertando mais forte o menino.
— Não, eu não cheguei a vê-lo, eu... — Ela afunda o rosto nas mãos e puxa os cabelos com
força.
— Anna, pare — impeço-a segurando um dos seus pulsos. — Vocês estão seguros agora.
— Não, não estamos, ninguém aqui está seguro, Augusto — lamenta me dando as costas. — Ele
me achou — sussurra olhando para o céu noturno, não posso ver sua expressão, mas consigo quase
segurar sua tristeza, ela é palpável. — E, dessa vez, ele vai vencer.
— Nós vamos resolver isso, Anna, seja o que for — consolo encostando a mão em seu ombro,
ela se afasta se virando para me encarar com ódio no olhar.
— Você não entende! — cospe. — Você me deixou fraca, o que eu sinto por você é o que vai
acabar comigo, eu estava tão feliz com essa ilusão que não percebi... eu não vi que ele estava aqui
dentro, eu falhei, Augusto, falhei porque estava distraída pensando em você.
— Isso é loucura, Anna, como alguém conseguiria entrar aqui? Como você sabe que ele esteve
aqui? — questiono não gostando do rumo que a conversa estava tomando, ela tinha que entender que
não importa qual fosse o perigo, eu poderia protegê-la.
— Nicholas o viu e tinha as pegadas... — Suspira arrasada. — Eu tinha acabado de limpar a
casa, o chão estava limpo, então quando voltei do mercado tinha pegadas que saíam do armário
embaixo da escada até a porta da rua. Ele esteve aqui dentro, aqui — grita. — Ele poderia ter nos
machucado e só não fez isso para brincar comigo. Ele queria me assustar Augusto e conseguiu. Eu
estou completamente assustada — chora se jogando nos meus braços e eu a seguro.
— Anna, não tinha pegada nenhuma na sala — sussurro confuso. Eu passei por lá correndo, mas
tenho certeza de que não tinha absolutamente nada no chão.
— Isso é impossível, eu juro que estão lá — sussurra desesperada por achar que não acredito
nela. Ela sai pela porta caminhando devagar, de forma incerta, quase como se estivesse com medo de
andar pela casa, e provavelmente estava mesmo. Passei por ela e tomei a dianteira para que ela visse
que não havia o que temer, quando chegamos à sala eu faço um aceno para o chão.
— Viu? — Olho para o assoalho impecavelmente limpo. — Não há nada aqui. Para minha
surpresa ela ri, ela ri tanto que chora, e chora tanto que cai escorada no corrimão, se sentando na
escada e escondendo o rosto nas mãos.
— Nick, sobe, vai brincar lá em cima — peço colocando-o no chão, ele me olha com receio e
depois olha para a mãe. — Está tudo bem, pode ir. — Quando ele desaparece escada acima me volto
para ela. — Anna, você não pode fazer isso com o menino, ele já tem problemas de confiança, não é
justo fazê-lo passar por isso. — Ela levanta o olhar me olhando com um misto de ódio e
incredulidade. Ameaça abrir aboca para retrucar, mas a fecha assentindo e dizendo logo depois.
— Você tem razão, eu devo ter exagerado. — Ambos sabemos que ela está mentindo e continua
acreditando no que acha que viu e concordamos com a mentira fingindo que tudo está bem, mas não
está. Tem que ter uma explicação lógica para o que aconteceu hoje, é o que eu penso ao recolher cada
um dos cacos de vidro espalhados pela cozinha.
Mais ou menos meia hora depois descubro qual é essa explicação quando Ian vem me contar
que o técnico da televisão a cabo que veio hoje arrumar sua antena acabou mexendo na minha
também, algum problema com a fiação que passava de uma casa a outra ou qualquer coisa do tipo.
— Provavelmente foi ele quem você viu, ele deve ter entrado aqui dentro e ele mesmo deve ter
limpado o chão quando viu que sujou — falo para Anna quando Ian volta para sua casa, não quero
alarmar ninguém com esse assunto, ele vai ficar entre Anna e eu.
— Deve ter sido isso — murmura distraída com suas unhas. Eu suspiro alto e me sento ao seu
lado, querendo de todas as maneiras fazê-la se sentir melhor.
— Amanhã você gostaria de sair comigo? Só nós dois? — pergunto puxando sua cadeira para
mais perto de mim e beijando seu pescoço. — Babi e Ian podem ficar com o moleque.
— Não — ela fala rápido demais. — Quer dizer, sim, eu gostaria. Mas se você não se importar,
eu prefiro que a Vivian fique com ele. Você pode pedir para ela? — pergunta colocando sua mão
sobre a minha em cima da mesa.
— Você ainda pensa que aqui não é seguro, não é? — Não tenho como discordar que o menino
vai estar muito mais bem protegido na casa de um cara armado, embora não ache que ele corra
perigo nenhum nessa casa. Ela assente e eu concordo. — Ligo para ela depois.
— Obrigada — agradece deitando sua cabeça em meu ombro.
— Mas ainda acho que você está exagerando... — paro de falar quando escuto um grito.
— Socorrooooo... Monstro! — berra Ian quase me fazendo cair da cadeira de susto. Ah, de
novo não. Anna olha para o andar de cima, decerto calculando se Nicholas está seguro o suficiente
para que ela me siga até a casa ao lado, o que ela acaba por fazer depois de pensar por meio
segundo. Quando entramos correndo na cozinha deles, vemos Ian acuado em um canto com Bárbara
lhe apontando uma faca (Nota, uma faca das grandes). Faço menção de dar a volta, mas ele implora.
— Por favor, Augusto, segura ela.
— Ou você me fala que mancha de batom é essa na sua camisa ou eu juro que te mato, Ian — ela
berra fazendo ele se encolher, imprensado entre ela e a quina do armário. — Mas, pensando bem, eu
vou te matar de qualquer jeito se eu não gostar da resposta. — Ri diabolicamente balançando a
cabeça, fazendo seu cabelo loiro voar para tudo que é lado. Louca, louca de pedra seria minha
definição.
— Monstro — sussurra em pânico, sabendo muito bem que a mulher dele não é lá muito sã, eu
não confiaria nela com um canivete suíço, muito menos com uma faca daquele tamanho.
— Eu gostaria que você respondesse à pergunta dela primeiro — digo cruzando os braços e
estufando o peito, sem sair do lugar tomando o partido da lunática.
— Tá falando sério? — pergunta em um lamento. — Você pode fazer ela, pelo menos, abaixar
esse negócio primeiro? — pergunta olhando de mim para a faca.
— Não. Dependendo da resposta até eu vou querer matar você — intimido fazendo um aceno
para minha irmã.
— Meu Deus, em que família eu fui cair, é todo mundo doido — sussurra me olhando
boquiaberto, ele não deveria ter feito isso, só acho.
— Por quê? Quer me trocar por alguém que tenha uma família normal, é isso? Quem é a puta,
IAN VITORAZZI? — berra agarrando sua camisa com força e passando a faca em todos os botões.
Era uma boa camisa, agora não passava de um pano de chão.
— Amor, cuidado com isso! — ele berra assustado em resposta, até eu tô assustado, dou um
pequeno passo para o lado e me escondo parcialmente nas costas da Anna, que observa a cena com
interesse e um tantinho de admiração por minha irmã no olhar.
— Eu estou cansando de esperar — murmura Bárbara encostando a faca em seu peito, posso ver
o suor descer pela testa dele e até tenho um pouco de pena, mas também estou curioso.
— Foi uma paciente — sussurra olhando para a faca com atenção. — Uma paciente do seu
irmão. — Aponta para algum lugar próximo a mim ainda com os olhos na lâmina.
— Augusto? — pergunta sem paciência virando a faca na minha direção, eu levanto os braços e
chego mais para trás do corpo da Anna.
— Não sei do que ele tá falando — me defendo. Dou de ombros quando ele me olha feio. Ela se
volta para ele mais uma vez e Ian volta a erguer os braços em forma de rendição.
— Uma velhinha, amor, uma senhorinha de uns oitenta anos, pelo amor de Deus — murmura
desesperado. Ela se volta novamente para mim, sem olhar de fato para onde está apontando a faca
dessa vez. Como se estivesse vendo a cena em câmera lenta vejo Ian dar um pulo para trás e se jogar
de costas sobre o armário para se desviar. Legal, parecia que eu estava dentro do set de filmagem de
Matrix.
— Dona Antônia? — pergunto, rindo. — Ela faz isso comigo direto. — Ian suspira aliviado
quando minha irmã abaixa a faca parcialmente. — Ela também adora me mostrar os peitos dela.
— Por que foi você quem atendeu ela e não o Augusto? — pergunta Bárbara visivelmente mais
calma.
— Porque o filho da puta do seu irmão se escondeu quando a viu e sobrou pra mim. — Ela
levanta as sobrancelhas em dúvida e ele se ajoelha. Eu fecho até os olhos para não encarar sua
humilhação. Gay. Gay. Gay. — Eu te juro, amor, na minha vida só existem duas mulheres.
— Quem é a outra, seu marido infiel de uma figa? — E lá vamos nós com a faca outra vez.
— Valentina — ele grita agarrando sua cintura com as duas mãos. —, é a Tina.
— Bom... se é assim... — murmura desconcertada olhando para baixo, para o homem que está
ajoelhado aos seus pés. — Da próxima vez me avisa antes de eu pegar a faca — ralha sem se
desculpar. Como se ela realmente tivesse dado tempo para que ele respondesse, o que eu duvidava
que tinha feito.
— Vou fazer isso amor, prometo — diz se levantando e abraçando-a. Se fosse eu estaria batendo
com a cabeça dela em uma pia, mas fazer o quê? A mulher não era minha.
— Obrigado por nada, ela quase me mata e você se esconde, seu filho de uma puta covarde —
resmunga se sentando em uma cadeira com a camisa rasgada ainda do corpo, assim que Babi sai em
busca de um cardápio de restaurante agarrada a Anna, afirmando que todo o estresse que ela passou
lhe tirou a vontade de cozinhar. Do jeito que eu conhecia minha irmã era provável que ela só tivesse
ameaçado matar o marido para não ter que ir para o fogão.
— Não sou eu o trouxa que se jogou aos pés dela. Você é patético. — Rio abrindo a geladeira e
pegando duas cervejas, entregando uma para ele e abrindo a outra.
— Você viu o tamanho daquela faca? — pergunta, rindo. Como ele pode rir? Acho que a
pergunta está estampada nos meus olhos, porque ele mesmo responde. — São os hormônios, vai
passar. Me lembra de nunca mais engravidar a sua irmã outra vez? — pede dando uma boa golada.
— Vou escrever um lembrete na parede do seu consultório — debocho.
— Tem alguém em casa? — grita Bernardo da porta. — Não, espera, a pergunta certa é, tem
cerveja?
— Estamos aqui! — grita Ian em resposta.
— O que aconteceu com você? — ele pergunta assim que chega até a cozinha e vê a camisa
rasgada de Ian.
— Minha irmã atacou ele com uma faca — respondo por ele, rindo, e matando o resto da
cerveja, me levantando e pegando mais três.
— Quer dar queixa? — pergunta Bê achando graça. — Se quiser, algemo ela agora.
— Tá maluco? Além de ela ser uma ótima advogada criminalista, o que você acha que ela ia
fazer comigo depois que sua mulher pagasse a fiança dela? Hoje foi a camisa, amanhã pode ser a
minha cara, então não, obrigado — agradece balançando a cabeça.
— Você quem sabe. — Ri se sentando e pegando a cerveja das minhas mãos.
— O que você tá fazendo aqui? — pergunto de repente, ele não tem o costume de aparecer tão
tarde em dia de semana.
— Vivian me colocou pra fora — resmunga entornando a garrafa. — Eu fiz a besteira de dizer
pra ela parar de comer tanto bolo de chocolate.
— Será que elas combinam? — pergunto maravilhado. Ambos me olham feio e trocam um olhar
conspiratório.
— Já, já vai ser você e aí vai ser a nossa vez de tripudiar, Monstro — murmura Ian sorrindo
maliciosamente.
— Tá pra nascer a mulher que vai me domar — afirmo categoricamente.
— Augusto — chama Anna da sala, olhando por sobre o ombro, sentada no sofá ao lado da
minha irmã. Ela está indicando Bernardo com a cabeça e rapidamente sei o que ela quer, assinto
sorrindo.
— Bê, você e a Malibu ficam com o moleque amanhã? — pergunto seriamente. — Prometi levar
a Anna pra sair. — É o suficiente para que ambos gargalhem e troquem olhares divertidos e
irritantes.
— Tá pra nascer, é? — pergunta Bernardo diretamente para Ian me fazendo revirar os olhos e
estremecer por dentro.
Eles estão errados.
A primeira vez a gente nunca esquece

“Deixa eu dizer que te amo,


Deixa eu pensar em você.
Isso me acalma, me acolhe a alma,
Isso me ajuda a viver.”
(Amor, I Love You, Marisa Monte)

Anna

Me viro de lado na cama e encaro o homem ao meu lado. Seu rosto quadrado, a pele branca e a
barba que ele se recusa a fazer são emoldurados por seus cabelos negros com o comprimento logo
abaixo das orelhas. Admiro a ruga vincada em sua testa que quase nunca some, a boca fina e bem
desenhada e os ombros largos, ele é tão lindo e tão amedrontador e nesse momento ele é tão meu.
Foi natural jantarmos na casa vizinha ontem e depois voltarmos para sua casa de mãos dadas
enquanto meu filho corria à nossa frente. Em seguida, colocá-lo na cama e ver Augusto cobri-lo,
depois segui-lo até seu quarto e me aconchegar em seus lençóis. Ele me olhou com curiosidade, mas
não me mandou embora, em vez disso subiu na cama e me abraçou entrelaçando nossas mãos e as
pousando em meu peito, em cima do meu coração.
Augusto pegou no sono rapidamente, mas eu não consegui. Me levantei três vezes, a primeira
para acender as luzes e abrir as cortinas da sala e as outras duas para conferir se tudo estava como eu
havia deixado. A sensação inquietante de insegurança não havia me abandonado e por nem um único
momento acreditei na teoria do Augusto, eu sabia o que tinha visto. Assim como sabia que ele
poderia fingir ser quem quisesse, até mesmo um técnico de tevê a cabo.
— Sabia que é extremamente perturbador acordar com alguém me encarando? — pergunta me
tirando do transe, seus olhos estão abertos e as rugas em volta deles indica que ele está tentando ser
engraçado para esconder o desconforto de me ver olhá-lo com adoração.
— É que estou ansiosa — me defendo mordendo a bochecha.
— Por causa do que aconteceu ontem? — pergunta, me puxando. — Eu já não disse para você
esquecer isso? — Me aninho em seu corpo e deito minha cabeça em seu peito, de maneira que ele
não possa ver meu rosto quando eu responder.
— Não, estou ansiosa porque você ainda não me disse onde vamos hoje. — Em parte é verdade,
estou mesmo ansiosa sobre o mistério desse passeio, mas estou muito mais ansiosa por achar que
estou sendo observada, mesmo agora.
— Vai ter que se controlar até mais tarde, é surpresa. — Ele beija o topo da minha cabeça ao se
levantar. — Vá se arrumar, quero aproveitar o dia com você.
Não consigo parar de sorrir e me sinto muito idiota por isso. Quem em sã consciência fica feliz
por um passeio quando sabe que está correndo perigo? O amor era mesmo uma armadilha. Deixei
para me preocupar quando ele, enfim, saísse de casa, provavelmente eu me trancaria em um quarto
com meu filho, uma faca e uma bebida até que ele voltasse, mas por ora me distraí observando-o e
aproveitando o momento.
Hoje o dia não seria do medo, seria nosso, apenas de nós dois e seria mágico, era nisso que eu
queria desesperadamente acreditar.
— Está pronta? — pergunta saindo do banheiro minutos depois, ainda estou sentada em sua
cama pensando na vida, pensando nele. Balanço a cabeça negativamente.
— Não sei aonde vamos, então não faço ideia do que vestir — murmuro dando de ombros, ele
ri e assente sumindo pala porta do quarto, pouco depois ele volta com um vestido de verão branco
nas mãos, um biquíni e um par de chinelos.
— Uau, um passeio aonde eu possa ir de chinelo, isso não é típico de você — comento surpresa
pegando as roupas de suas mãos e sumindo de vista para me trocar.
— Nada que eu faça por você é — resmunga para si mesmo em voz baixa quando me afasto. —
Você está linda — dispara me olhando dos pés à cabeça admirado quando paro à sua frente, olho
para baixo e não vejo nada de mais no vestido simples e largo que cobre meu corpo esquelético, mas
agradeço o elogio reparando em seus ombros fortes sobre a camiseta. Ele não era apenas grande, ele
era gigante. Monstro era do tamanho de uma casa e ao seu lado eu parecia.... Bom, eu parecia a
casinha do cachorro.
Abandonamos um Nicholas extremamente alegre por passar um dia com a Barbie em um prédio
algumas quadras de distância e seguimos nosso caminho. Não consigo deixar de imaginar para onde
estamos indo e principalmente no que vamos fazer. Monstro não era o tipo de homem que esperava
pacientemente por sexo, com ele não tinha joguinhos e para mim tudo bem, porque eu não sabia
mesmo como jogar, eu só queria ser dele.
Queria que ele fosse o primeiro, também queria que fosse o único. Mas com ele eu não me
atrevia a sonhar com um futuro, ele já havia deixado claro que não poderia me prometer nada e eu
não ia cobrar. Talvez para outras pessoas eu parecesse uma mulher sem amor-próprio aceitando
migalhas por achar que não merecia nada melhor. Mas eu era muito mais do que isso, eu era a garota
que não tinha amor nenhum, então sim, eu me contentava com o que ele estava me dando de bom
grado.
Estava feliz porque ia me entregar a um homem bom que se preocupou em planejar um dia
especial porque achou que seria importante para mim. Um homem que tinha caráter e era correto, um
homem que nunca encostou a mão em mim sem que eu permitisse. Um homem que me acolheu e
cuidou de mim, tudo isso é mais do que já tive desde que nasci. Então se isso significasse não ter
amor-próprio, bom eu não tinha, o que eu tinha era amor por ele. Um amor grande o suficiente para
querer agradá-lo e para lhe entregar a única coisa de valor que eu tinha, embora a vida tivesse tirado
toda minha inocência.
Tudo o que ele me dava poderia parecer pouco para outras pessoas, mas para mim era
significativo, real e bonito, eram ações, sentimentos e sensações novas que eu ansiava cada vez mais.
— Quero que use um dos lenços que comprei para você como venda — pede retirando um
pedaço de pano florido do bolso da bermuda jeans e o estendendo em minha direção. Ergo as
sobrancelhas achando que se trata de uma brincadeira, mas me surpreendo quando ele ordena. —
Vamos, Anna, não estrague a surpresa. — Faço o que ele me pede com receio. Ficar vendada está
entre os top cinco medos mais frequentes que meus pesadelos acessam quando pego no sono, ele vem
antes de ratos e logo depois da morte. É um medo importante, não há quase nada tão assustador do
que estar à mercê de outra pessoa sem contar com a ajuda de olhos aguçados, olhos treinados para
escapar de situações perigosas.
Augusto para o carro e o escuto sair, dou um pulo quando minha porta é aberta com um tranco e
ele agarra meu braço.
— Confie em mim, não vou machucar você — sussurra no meu ouvido passando suas mãos por
baixo das minhas coxas e me pegando no colo. Se fosse em algum outro momento, com qualquer outra
pessoa, eu começaria a chorar agora mesmo, mas era ele e embora meus instintos me mandassem
fazer o contrário eu confiava.
Sou carregada por vários metros, tantos que me distraio do meu medo para imaginar como ele
não está cansado de me segurar, Augusto não chega nem a respirar com dificuldade.
— Eu posso andar, se você me ajudar — ofereço roçando levemente os lábios nos lóbulos de
sua orelha sem querer, o que o faz me apertar com mais força.
— Não precisa, já carreguei sacolas de supermercado mais pesadas do que você. — Era uma
ofensa, elogio? Com ele eu nunca sabia ao certo, então me calei. Senti a brisa marítima me atingir
como um raio e suspirei, me exaltando quando o chão se tornou irregular abaixo de nós, e mais uma
vez quando ele me levantou e se esticou, decerto para pular alguma coisa. Eu sentia como se
levitássemos e por momento me permiti sonhar embalada pelo cheiro do oceano e o cheiro dele, uma
mistura de autoconfiança e perfume caro que era inebriante. Me imaginei caminhando por um altar,
usando um vestido branco, enquanto ele me esperava ao final do caminho. Voltei para a realidade no
instante em que ele me pôs no chão e arrancou minha venda de supetão.
Mas que merda... Não estava nos meus sonhos morte por afogamento. Eu vivia há anos me
escondendo para não virar comida de tubarão e ele me trazia para um... um... Droga, eu nem sabia o
nome daquilo, só sabia que flutuava e que não era seguro.
— Qual o nome disso? — pergunto sentindo meus músculos se enrijecerem.
— Iate — respondeu me virando e me abraçando por trás, para admirar a vista adiante. Azul,
tão azul. Eu adorava azul. Espera, não, eu tinha medo de água, isso não ia dar certo.
— Monstro, eu... não sei nadar, você sabe... — digo mordendo a bochecha. Por que eu não
conseguia calar a boca e uma vez sequer na vida aproveitar o momento, não ser uma sonsa
amedrontada? Ele me puxa e me vira em sua direção passando as duas mãos pelas minhas costas.
— Hoje, você vai ter que confiar em mim de muitas formas, Anna, isso começa pelo mar. — Ele
afasta meu cabelo com uma das mãos sem tirar a outra da minha cintura e beija meu pescoço
demoradamente. — Eu já disse que vou proteger você, ao meu lado você não precisa ter medo de
nada, nem de ninguém.
— Nem de você, Lobo Mau? — pergunto achando graça de sua voz sexy.
— Lobo mau? Faz sentido, porque eu vou comer você. Mas não, você não precisa ter medo —
sussurra no meu ouvido fazendo meus braços se arrepiarem, me virando bruscamente e colando seu
corpo ao meu, me pressionando na barra de metal com força. Minhas entranhas se reviram e se
agitam em expectativa e desejo. Fecho os olhos e deixo a sensação tomar conta de mim, um fogo que
sobe pelo meu corpo como uma chama. — Eu quero que tudo seja perfeito, quero que você possa
lembrar desse dia com felicidade.
Aí está algo que nunca havia acontecido antes. Lembrar de um dia com felicidade. Todos os dias
felizes da minha vida estavam manchados. Sempre, em todas as vezes ele apagou o brilho do que me
fez sorrir. Mas aqui, dentro de uma banheira do meio do oceano, ele não podia fazer isso, não podia
me amedrontar ou me encontrar. Aqui, nos braços que me apertavam, eu poderia ter um dia feliz e me
lembrar dele apenas porque sorri e fui amada.
Isso era algo que ele nunca poderia me tirar, ele não podia tirar Augusto de dentro de mim.
— Tem certeza de que esse negócio não vai afundar? — pergunto cortando o clima. Me sinto
tímida e envergonhada de repente, não sei como agir ou o que fazer. Não sei o que ele espera que eu
faça na verdade.
— Tenho — responde, rindo. Ele parece perceber meu desconforto, porque distancia nossos
corpos levemente, beijando meus ombros nus antes de me abraçar com força e encostar sua bochecha
a minha de forma sutil e carinhosa.
Naquele momento, olhando para a água cristalina e uma imensidão azul, nos braços do homem
que fazia com que eu me sentisse especial e valiosa, eu soube que seu corpo não era apenas um
abrigo, um lar, era também um porto seguro ao qual eu podia me agarrar para me manter firme. Eu
soube que amava aquele monstro de todo o meu coração e que seria impossível deixá-lo, então fiz o
que não me atrevia a fazer há muito tempo.
Sonhei com uma vida onde eu era uma garota normal que poderia amar livremente sem temer o
amanhã, eu já deveria saber que isso era um erro terrível.
O medo não era algo ruim, não por completo. Era ele quem me deixava mais esperta, mais ágil e
concentrada. Meu medo era o meu combustível há tanto tempo que demorei a perceber que Augusto o
tinha substituído por outro sentimento que também funcionava bem como arrimo de vida: o amor. Ele
me deixava mais sonhadora, distraída e ludibriada, mas me mantinha viva tão bem quanto o
sentimento anterior. A única diferença entre viver de medo e viver de amor era que em um eu apenas
respirava e no outro eu vivia, literalmente vivia.
— Doutor, podemos começar a viagem? — Nos viramos para encontrar um rapaz jovem nos
olhando com um sorriso aberto repleto de dentes. Ele olha para mim e faz um meneio de cabeça em
cumprimento, se voltando para Augusto mais uma vez.
— Sim, Matheus, faça o itinerário que combinamos — ordena me puxando pela mão em direção
a outra parte do... do... eu já tinha esquecido o nome, então banheira flutuante ia ter que servir.
Passamos por uma porta atrás do rapaz e entramos em uma sala... Puta que pariu, a banheira
tinha uma sala de estar com sofá e tudo. Olhei ao redor maravilhada, como isso tudo não afundava?
Mais adiante estava duas poltronas de onde provavelmente o rapaz comandaria a banheira, com uma
espécie de volante e muitos botões. Augusto me puxa pela mão em direção a uma escada e para em
uma cozinha bem equipada no andar de baixo. Fogão, geladeira de duas portas, máquina de lavar
pratos e janelas, duas grandes janelas de onde era possível ver o oceano.
— Isso é uma casa — murmuro embasbacada passando as mãos pelo mármore na pia, não
resistindo em abrir a torneira para ver se era de enfeite ou se realmente jorrava água. Era de
verdade.
— Praticamente isso. — Sorri me olhando divertido enquanto coloco e retiro minha mão de
baixo do fluxo de água da torneira. — Vai brincar o dia todo na pia ou quer aproveitar o dia lá em
cima?
— Quero brincar na pia mais um pouco — resmungo, rindo de seu atrevimento e falta de
paciência. — Tem mais para conhecer aqui embaixo? — pergunto notando mais um lance de escadas,
que termina em uma porta de maneira fechada.
— Tem sim, mas essa parte vamos conhecer mais tarde — murmura cheio de segundas intenções
no olhar me fazendo corar e tremer por dentro. Ele ri e caminha até a geladeira abrindo-a. — O que
você quer beber?
— O que de mais forte tiver aí dentro — respondo amedrontada fazendo com que ele se vire e
me lance um olhar feio. Não entendo seu olhar, só pensei que uma bebida me ajudaria a relaxar e,
poxa, como eu precisava relaxar. A expectativa já tinha me feito roer todas as unhas das mãos e eu
duvidava seriamente que tinha desenvoltura para conseguir roer as dos pés, mas estava tentada a
descobrir.
— Não, você não vai se embebedar hoje, Anna. — Ele fecha a geladeira e caminha em minha
direção me pegando nos braços e me sentando no mármore, para poder me olhar nos olhos. — Se
você não estiver certa do que vai acontecer mais tarde não tem problema, podemos esperar. Não
quero que faça nada que não se sentir confortável em fazer.
— Não, não podemos — murmuro desviando meus olhos, concentrando-os na vista do lado de
fora das janelas.
— Por que você acha isso? — pergunta virando meu queixo para frente até que eu esteja
olhando para ele outra vez. Mordo o lábio em resposta e ele fecha os olhos pesadamente. — Pare de
fazer isso, isso me deixa louco. Tenho vontade de te agarrar e te pegar no colo, te beijar e afagar a
sua cabeça, arrancar a sua roupa e te proteger sempre que faz isso. É um misto de tesão e querer
cuidar de você que me incomoda, então pare, por favor.
— Desculpe — peço mordendo o lábio. Ele faz um barulho de irritação e eu paro tomando
consciência de que estou fazendo novamente.
— Por que acha que não podemos esperar para transar? — pergunta inquisitivamente.
— Porque você não é do tipo de cara que espera. Se eu não fizer, você vai achar quem faça e eu
não tenho dúvidas de que você não precisa estalar mais do que dois dedos pra isso. Acha que não
vejo seu celular tocar ou apitar com mensagens o dia todo? Não sou cega, muito menos surda. — Ele
começa a ficar vermelho e se afasta espalmando suas mãos na pedra, uma de cada lado do meu
corpo, ele abaixa a cabeça por um momento e quando a levanta já estou preparada para ouvir seus
gritos, mas ele me surpreende ao me olhar com dois olhos doces.
— Você tem razão. — Meu queixo treme. Odeio a sinceridade dele. Será que ninguém nunca lhe
ensinou que mentir as vezes é preciso? Que mentirinhas pequenas que embelezam situações são
praticamente exigência para viver uma vida cercado de pessoas? — Mas se eu quisesse transar com
outra não estaria aqui com você, não acha? Eu realmente não preciso me dar ao trabalho de alugar um
lugar como esse e planejar um dia romântico e divertido para comer alguém, para isso basta um
telefonema. Mas ainda assim estou aqui com você, fazendo isso por você.
— Eu não queria te dar tanto trabalho, muito menos te fazer gastar dinheiro, sinto muito. — Eu
tinha certeza de que esse passeio tinha saído mais caro do que minha cabeça limitada de pobre em
fuga conseguia presumir, mais um motivo para não me acovardar e ir em frente, eu só tinha pedido
uma bebida, ainda não entendia o problema disso.
— Anna, o problema não é o dinheiro, é você — diz com paciência. — Não quero que faça isso
porque acha que deve. Não estou te cobrando aluguel, comida e presença em sexo. Isso não é uma
troca, não é a moeda pra você ficar na minha vida. Não vou deixar de te proteger ou te mandar
embora se você não der pra mim — diz como se estivesse sendo torturado, seus olhos estão acuados
e ele parece desconfortável, não deve estar sendo fácil dizer essas palavras, expor seus sentimentos.
— Eu sei — murmuro baixinho, eu realmente sabia. Ele não era o tipo de homem que pedia algo
em troca por ajuda. Jamais me forçaria.
— Eu quero que faça isso porque quer fazer, porque confia em mim o bastante. É algo
importante... droga, eu sou a pessoa errada pra ganhar esse presente — diz retirando as mãos com
rapidez e se levantando. — Um dia, você vai encontrar um cara legal, que vai te dar tudo que você
almeja e é pra esse cara que você tem que perder a virgindade, não pra mim.
— Mas eu quero que seja com você, só estou apreensiva. Não sei fazer o que as mulheres fazem
pra você, não sei nem mesmo como me portar, que caras fazer, como é a sensação, eu não sei nada e
você sabe tanto. Já esteve com mulheres mais experientes, e se você... — Sei que estou corando e
adoraria pular no mar e virar comida de tubarão a essa altura, mas as palavras simplesmente saem e
não tenho controle sobre elas. — e se você não gostar?
— Você está preocupada se eu vou gostar? — pergunta incrédulo. — Você está fazendo isso só
para me agradar, não está? Por que acha que se não fizer vou terminar com você.
— Não, estou fazendo porque amo você — pronto, eu disse. Estava ali, as palavras flutuavam
sobre nós ameaçando despencar em nossas cabeças. Augusto fecha os olhos com força e me dá as
costas me mostrando que eu havia falado as únicas palavras que ele não suportava ouvir. — Por que
você está fazendo isso? Se chegou ao ponto de dizer que não se importa se eu fizer com outra
pessoa... — Ele me corta, se volta em minha direção e agarra meu rosto.
— Não me importo? Me deixa louco pensar em outro cara, qualquer um encostando um único
dedo em você — grita na minha cara me fazendo tremer. — Eu só tenho medo de não atender às suas
expectativas depois e te iludir mais...
— Já estou iludida, isso não é mais algo que você possa controlar — respondo com raiva. —
Responde a droga da minha pergunta, seu monstro arrogante, por que está fazendo isso?
— Porque eu quero você — grita mais alto fazendo meu cabelo voar e eu sorrir. — Era isso que
você queria ouvir? Eu quero você de todas as formas possíveis, na minha vida, na minha casa e na
minha cama. Você esteve aonde outras mulheres nunca chegaram nem perto e não estou falando só de
passar uma noite nos meus lençóis. — Ele parece irritado com esse fato, como se fosse culpa minha
conseguir penetrar sua armadura e não dele por se enfraquecer ao meu lado. Meu sorriso se tornava
cada vez mais aberto.
— Mas ainda não quer me amar... — constato entendendo o verdadeiro problema.
— Não, eu não quero amar você, mas a cada dia parece que tenho menos escolha quanto a isso
— murmura me olhando como eu nunca havia sido olhada antes, com adoração. — Eu quero ser o
primeiro, Anna, quero ser o cara que vai cuidar de você e te consertar. Quero que você descubra
essas sensações que não conhece comigo e só comigo.
— Não quero esperar até a noite, quero conhecer o que tem depois daquela porta agora, por
favor. — Não preciso falar mais nada, quando dou por mim ele já me puxou da bancada de mármore
e me encaixou em seu corpo, sua língua acaricia meus lábios e eu abro a boca de bom grado para ela
entrar na minha boca e se fundir a minha enquanto passo os braços em volta de seu pescoço. Fecho
meus olhos e percebo que ele caminha e desce as escadas, ouço quando ele abre a porta e o sinto me
jogar na cama cobrindo meu corpo com o seu, suas mãos estão em todos os lugares ao mesmo tempo
e eu estou com o pensamento em apenas um lugar: nele.
Augusto se levanta em um rompante e eu abro os olhos, o que vejo me deixa espantada e sem
fôlego. Bexigas, dúzias delas. Dúzias de bexigas cor-de-rosa cobrem todo o chão do quarto, e
algumas poucas que não levantaram voo quando nos jogamos sobre ela ainda permanecem na cama.
Ele não mentiu quando disse que seria especial, nunca ninguém se deu ao trabalho de encher uma
bexiga pra mim, nem em festas de aniversário, já que nunca as tive ou em qualquer outra situação.
Estou tão fascinada pelos lençóis dourados e toda a decoração que só percebo que ele saiu do quarto
quando volta com um balde de gelo em uma das mãos e duas taças na outra.
— Acho que esse momento merece um brinde — diz colocando as taças na cama e puxando uma
champanhe do balde.
— E a que exatamente vamos brindar? — penso ter escutado ele murmurar “ao idiota que me
convenceu que preliminares eram necessárias”, mas talvez eu estivesse imaginando já que o
estampido da garrafa sendo aberta é tudo o que eu de fato escuto com nitidez. Ele abandona o balde
de gelo e me entrega uma taça derramando um líquido espumante dentro dela, fazendo o mesmo com
a sua logo em seguida. Não me contenho e dou uma golada, fico extasiada.
— Isso é bom — murmuro dando mais uma golada. Seus olhos se arregalam e ele abaixa a taça
que eu levava a boca mais uma vez.
— Nunca tomou champanhe? — pergunta surpreso com um lampejo de tristeza no olhar.
Balanço a cabeça negativamente me sentindo constrangida por um momento. Decerto ele deve estar
pensando em todas as outras coisas que nunca fiz, uma lista que ao meu ver é enorme.
— Vem aqui — pede retirando a taça na minha mão e colocando-a em cima de uma mesa de
cabeceira ao lado de onde colocou a sua e me estende a outra mão, que eu aceito sem hesitar. Paro à
sua frente e ele olha com um sorriso. — Levante os braços. — Mais uma vez, faço o que ele pede,
suas mãos roçam nas minhas coxas e ele puxa meu vestido sobre a cabeça me deixando apenas de
biquíni. Minha vontade é esconder o corpo magro com as mãos e impedi-lo de olhá-lo por mais
tempo, e é exatamente isso que tento fazer, mas ele me impede abaixando minhas mãos com firmeza.
— Você é linda, não tem do que se envergonhar — murmura. Ando um passo à frente, passando as
mãos pelas minhas costas até o fecho da parte de cima e soltando-a, liberando meus seios que ele
segura com ambas as mãos. — tão linda.
— Me sinto um frango sendo observado enquanto eu rodo no forno da padaria. — Sempre
podemos contar comigo para acabar com um momento falando o que me vem à mente quando me
sinto constrangida. Ele ri, ri tanto que esquece do que estava fazendo e eu me amaldiçoo em
pensamento.
— O frango tem mais carne, garanto. — Estava demorando para ele voltar a ser ele mesmo.
Antes que eu possa lhe dar uma boa resposta, ele se recompõe e puxa com agilidade as cordinhas que
prendem a parte de baixo do meu biquíni, me deixando nua à sua frente. — Mas duvido que seja tão
gostoso quanto você. — Ainda estamos falando do frango? Deus, ele não brincou quando disse que
romantismo não fazia seu estilo. Decido ficar quieta por causa das bexigas, gostei delas.
Ele me olha por uma eternidade, seus olhos passeando dos meus pés até o último fio dos meus
cabelos negros, eles não se prendem em parte alguma, observam tudo, com afinco, encanto e desejo.
Ele me observa por tanto tempo que deixo de me sentir constrangida para ficar ludibriada. Todas as
mulheres deveriam ser olhadas assim.
Quando menos espero, ele tira sua camiseta jogando-a em um canto e se livra da bermuda e da
cueca junto, assim como eu, ficando nu, parado à minha frente. Não resisto em admirá-lo como ele
fez comigo, cada centímetro dele, cada parte, cada detalhe. Tão incrivelmente perfeito e bonito.
Quando me dou conta disso levo a mão ao rosto, sentindo a aspereza da cicatriz que me impede de
sequer sonhar em ser tão bela quanto ele.
Imperfeita, essa é a palavra que me descreve. Marcada.
— Podemos resolver isso, se te incomoda tanto — argumenta abaixando a minha mão.
— Como? — pergunto erguendo o rosto, tentando não chorar ao me comparar com as outras
mulheres de sua vida, eu jamais seria como elas.
— O dono desse iate é um amigo, ele é cirurgião plástico — comenta tocando minha pele com
gentileza. — Ele pode te ajudar.
— Não tenho dinheiro pra isso — comento com uma risada sarcástica. Como se fosse realmente
usar o pouco dinheiro que me resta para fugas para enriquecer mais um de seus amigos.
— Não disse que você teria que pagar — ele murmura me beijando docemente nos lábios. — se
você não está feliz com ela, nós a tiramos, simples assim. — Estou pronta para lhe dizer que não vou
aceitar seu dinheiro, mas ele não me dá chance de resposta. — Mas não pense nisso hoje, hoje você é
só minha e eu não me incomodo com ela. Pra mim, você continua linda, não é uma marca que te
define.
Ele volta a me empurrar sobre a cama com delicadeza até que eu esteja deitada e sobe em cima
de mim sem me tocar, ele se apoia no colchão e beija meu rosto para reafirmar que minha cicatriz é
um mero detalhe, depois beija meus lábios uma, duas, três vezes e desce, beijando meu pescoço,
meus ombros, meus seios. Neles ele para por alguns minutos fazendo com que eu arqueie as costas de
prazer, quando acho que não poderia ficar melhor ele desce mais, beijando minha barriga, minha
cintura, e... tento impedi-lo antes que ele continue, mas ele segura meus pulsos com firmeza me
beijando entre as pernas, não demora muito para que eu saia do meu corpo. A sensação é tão
inebriante e tão agoniante na mesma medida que tenho vontade de gritar e chorar de felicidade ao
mesmo tempo.
— Eu ah... ah... Augusto... para. — Ele para na hora e não me sinto feliz. — Continua, droga,
continua. — Ele ri e faz o que eu peço. Quando acho que vou explodir por dentro, ele se afasta me
deixando sem fôlego. Abro a boca para reclamar, mas ele me cala.
— Não, anjo — murmura se encaixando sobre meu corpo, seu rosto paira acima do meu e seus
olhos me perfuram enquanto sinto ele se posicionar entre minhas coxas. — Quero que você goze no
meu pau.
— Você não disse que ia tentar ser romântico? — reclamo me desprendendo do feitiço que seu
olhar tem sobre mim. Sei que estou ganhando tempo e ele também parece saber, porque sorri.
— Desculpe, forças do hábito. — Então, ele me beija carinhosamente. — Quero que seu
primeiro orgasmo de verdade seja me sentindo dentro de você — murmura mordiscando minha
orelha. — Melhorou, Srta. Puritana?
— Muito melhor, Monstro, muito melhor. — Sorrio em resposta.
— Tem certeza disso? — pergunta parecendo preocupado de repente se erguendo, ele se senta e
passa minhas pernas por cima das suas agarrando minhas coxas. Assinto fechando os olhos e os
comprimindo com força, esperando pela dor que senti da primeira vez em que tentamos. — Abra os
olhos, Anna, quero que você olhe pra mim — pede com a voz rouca, quando obedeço, sinto ele me
preencher lentamente e vejo seus olhos em brasa me olhando de volta. Ah, aquele olhar. Ele tomou
conta de mim, de tudo e em pouco tempo éramos apenas um, eu, ele e aquele olhar que ele me
lançava enquanto me tomava para si. — Estou te machucando? — perguntou mais de uma vez
enquanto se deitava sobre meu corpo e se movimentava dentro de mim em um ritmo lento e
cuidadoso. Em vez de lhe responder, eu o apertava mais, seus braços, seus ombros, sua cintura e me
movia junto com ele.
Em pouco tempo o desconforto se transformou em prazer e o prazer em júbilo e o júbilo em uma
explosão de corres e sentimentos avassaladores que eu sequer sabia nomear. Augusto levanta a
cabeça o suficiente para estar olhando para meu rosto quando faz uma última investida com mais
rapidez e força entrando dentro de mim por completo.
— Agora sim, você é minha — sussurra agarrando meus cabelos e beijando minha boca
ferozmente, mas a agressividade para por aí, porque o que eu ganho depois é carinho e muitos beijos,
é ternura e movimentos lentos, são palavras gentis ditas ao pé do ouvido. O quanto eu sou linda e
especial encabeça a lista de elogios. — Tenho que parar, preciso pegar a camisinha — anuncia no
exato momento em que não suporto mais.
— Augusto... — gemo sussurrando embaixo de seu corpo sendo tomada por completo por uma
sensação desconhecida que me tira o foco e me transporta para fora do meu corpo por alguns
segundos. É uma mistura de sinos, pássaros cantando e êxtase alucinante.
É a melhor sensação do mundo.
— Ah, Anna, porra! — Ele se contorce e seus gemidos se juntam aos meus quando chegamos ao
clímax juntos. Ele deixa o peso dele desabar sobre mim por um segundo antes de rolar de lado e me
puxar para junto de seu corpo me abraçando. Ele está rígido e calado, o que me faz ficar ansiosa e
com medo.
— O que eu fiz de errado? — pergunto quando o silêncio se torna incômodo.
— Tinha que gemer meu nome daquele jeito? — pergunta, parecendo irritado. — Porra, não
consigo me controlar quando você faz isso.
— E o que tem de errado nisso? — pergunto me virando para olhá-lo.
— Eu não estava de camisinha, Anna — diz como se eu fosse burra e talvez eu seja, não havia
percebido, imaginei tê-lo ouvido falar algo sobre o assunto, mas, bem, eu estava ocupada. — Eu
nunca transei sem camisinha antes, o que você faz comigo? Você vira a minha cabeça, com você não
me sinto como eu mesmo. — Mordo o lábio sem saber o que dizer. — Você não toma remédio, não é?
Claro que não — Ele balança a cabeça em negativa. — Por que tomaria?
— Você nunca fez sem? — pergunto espantada sem conseguir deixar o assunto pra lá.
— Não, não é porque não acredite quando elas dizem que tomam remédio, eu só prefiro ser
cauteloso com isso... — diz deixando as palavras morrerem. Mordo o lábio, apreensiva, me
entristecendo por ele parecer tão bravo. — Ei, não fique assim. Podemos resolver isso depois, tudo
bem? Passamos na farmácia na volta para casa, uma pílula do dia seguinte deve dar conta do
problema.
— Tudo bem — murmuro sem fazer ideia do que é uma pílula do dia seguinte. Mas se ele diz
que resolve, eu acredito nele.
— Então é assim que é fazer amor... — murmura voltando a me puxar para junto de si, me deito
de lado passando uma das pernas sobre ele e pousando a cabeça em seu peito. — É melhor do que eu
imaginava. — Eu rio, me aconchegando mais nele.
Alguns minutos depois decido me levantar, estou morta de sede, mas estaco no lugar quando
vejo a mancha no lençol, estou sangrando.
— Isso é normal — diz se sentando ao meu lado com um sorriso bobo. —, aconteceu da última
vez também, lembra?
— Sim... — Eu me lembrava, mas daquela vez tinha machucado. — Tem certeza de que é
normal?
— Anna, como você pode não saber algo assim? — pergunta chocado, o choque logo se
transforma na mesma tristeza de quando eu disse que não havia tomado champanhe antes. Espero que
ele não me pergunte porque sou tão limitada, eu teria que mentir. Jamais teria coragem de lhe contar
que fui para a escola por tempo suficiente apenas para aprender a ler e escrever e olhe lá, eu era
inteligente, pegava as coisas rápido, só não me sobrava tempo e nem dinheiro para investir em
qualquer coisa para aprender. Eu estava ocupada sobrevivendo, limpando o chão de casas para
sobreviver para ser precisa. O que eu sabia era provido de revistas, jornais e ensinamentos que
conseguia nessas mesmas casas.
— Eu só não sou muito experiente nesse tipo de assunto — murmuro lhe contando meia verdade.
O sexo que eu conhecia era diferente, fazia sangrar porque machucava e não por ser uma reação do
corpo.
— Eu machuquei você? — pergunta agora parecendo verdadeiramente preocupado. — Está
doendo? — Paro para sentir o que meu corpo diz.
— Não, só arde. — E é verdade, eu pensei que doeria como da última vez, mas senti muito mais
prazer do que incômodo. Sua gentileza me tranquilizou e fez com que eu aproveitasse o momento sem
inibições.
— Vem, vamos tomar um banho e aproveitar o resto do dia.
Sem dúvidas o segundo banho que tomamos juntos é muito melhor do que o primeiro, nesse ele
não tem receios de me tocar, me beijar e me puxar para junto de seu corpo. Quando terminamos, ele
sai primeiro e se enxuga voltando logo depois com a mochila. Ele a abre e retira um pacotinho
branco de dentro dela.
— Isso você sabe usar, certo? — pergunta apreensivo me fazendo rir. Sua timidez para esse tipo
de assunto era muito engraçada.
— Não sou tão limitada assim, sei o que é um absorvente interno — murmuro sentindo as
bochechas corarem e para minha surpresa seu rosto também ganha outra cor.
— Ótimo, porque só Deus sabe o quanto foi embaraçoso entrar na farmácia e pedir isso pra
atendente. — Depois dessa eu rio mais, rio tanto que ele sai do banheiro, tentando me ignorar,
vermelho como um pimentão.
Ah, com certeza eu gostaria de ter visto aquela cena.
Augusto, o homem rude que troca mais de mulher do que de cuecas entrando em uma farmácia
para comprar absorventes, quem diria, não? Depois que ele sai me pego com um sorriso bobo no
rosto, constatando que realmente um ato diz mais do que palavras.
Ele é péssimo com as palavras, mas estava se tornando cada vez melhor com os atos.
Todas as primeiras vezes do amor

“Mas, de repente você me beija


O coração dispara
E a consciência sente dor
E eu descubro que além de anjo
Eu posso ser seu amor.”
(Anjo, Saulo Fernandes)

Augusto

Visto uma sunga e subo as escadas até o andar superior ao som de sua risada baixa e contida,
parando apenas para pegar a garrafa de champanhe pela metade, ando até a frente do iate e me sento
admirando o mar, hipnotizado pelas ondas que rasgamos ao passar. Tomo uma golada do gargalo me
perdendo em pensamentos.
O que estava acontecendo comigo? Perto de Anna eu não conseguia pensar direito.
O iate, as bexigas que mandei encherem para decorar o quarto, o passeio na praia deserta que
ainda estava por vir, o vestido que estava escondido em um dos armários, o jantar. Tudo foi
calculado metodicamente para nada sair errado. Eu me sentia animado por ter conseguido
surpreendê-la com o passeio e um tanto pasmo pelo mesmo motivo. Eu realmente tinha conseguido
fazer algo especial eu, justo eu, dei uma primeira vez digna para uma mulher.
Eu nunca tinha feito algo assim, me empenhado tanto por alguém antes.
Por ela eu havia passado de todos os limites que me impus quando o assunto era
relacionamento. Deixei que dormisse na minha cama embolada nos meus lençóis, fiz questão de lhe
agradar com um dia perfeito, um dia que ela pudesse lembrar com um sorriso nos lábios para o resto
de sua vida. Fui gentil, carinhoso e extremamente preocupado. Por ela comprei absorventes,
absorventes, porra!
Por ela eu tinha feito amor, e o pior, eu tinha gostado.
Meu pau ficou duro de novo só de pensar no corpo dela embaixo do meu. Cara, ela não tinha
noção nenhuma de sua beleza e do poder que tinha sobre mim e meu corpo, um corpo que
aparentemente eu não controlava mais em se tratando dela. Anna não era o sonho de qualquer homem,
não tinha seios grandes, nem uma bunda de capa de revista, ela era de verdade e estava se
transformando no meu sonho. Uma mulher de verdade, penso, o que me faz acreditar que todas as
outras que passaram pela minha eram de mentira.
Eu não estava procurando ninguém, mas encontrei Anna e ela parecia exatamente tudo o que eu
precisava. Ela e suas feições de menina me deixavam louco por serem exatamente tão diferentes de
tudo o que tive até então.
Quando me levanto e me debruço para olhar para o mar com mais afinco escuto sua voz me
chamando.
— Monstro — Me volto para o som e a encontro agarrada na grade, olhando de mim para a
passagem estreita que teria que percorrer até onde eu estava. Me ergo e caminho até ela lhe
oferecendo uma mão, ela olha incerta para o mar abaixo de nós e a aceita, deixando que eu a guia até
o colchonete onde eu estava há pouco, me sento e a puxo para se sentar no meio das minhas pernas.
— Posso tomar mais um gole disso? — pergunta indicando a garrafa com a cabeça. Eu a pego e
entrego pra ela, vejo-a morder a boca e fazer biquinho enquanto entorna o líquido bebendo do
gargalo. É oficial, sua missão de vida é me deixar louco, puxo seu corpo mais para perto do meu
abraçando-a com as minhas pernas, quando sente minha ereção em suas costas ela arqueja e engasga.
— Sério? — pergunta se voltando pra mim com um olhar travesso.
— Não tenho controle sobre isso, sinto muito. — Rio beijando seu pescoço. Ela olha além de
mim e fica lívida, antes que eu pergunte o que foi, ela dá um sorrisinho sem graça para minhas costas
e eu me viro encontrando os olhos de Matheus, ele sorri de volta e desvia o olhar.
— Eu deveria ter levado você para o motel — reclamo, me levantando. — Vem, estamos
chegando.
— Chegando onde? — pergunta olhando ao redor.
— Vamos nadar. — Acho graça de seu pânico e da maneira que ela agarra meus braços e nega
com a cabeça como se fosse uma criança, não espero por suas negativas e a arrasto até a traseira do
iate pegando um colete do suporte. Antes que ela possa falar alguma coisa, o visto nela apertando
firme e a empurro para o mar, pulando atrás dela. Quando imerge ela está furiosa, mas aceita de bom
grado o beijo molhado que recebe. Brincamos na água como crianças por algum tempo até que
aponto para uma ilha próxima. Nadamos até lá e a ajudo a se livrar do colete, jogando-o na areia,
depois agarro sua mão e a levo para um passeio.
Vemos o pôr do sol abraçados, sentados da areia e eu nunca na minha vida me senti tão
completo e feliz e isso me assustava, mas eu não conseguia tirar as mãos e a boca de cima dela,
quando ela se afastava nem que fosse por alguns centímetros meu corpo reclamava em resposta e eu a
puxava novamente. Minha. Essa era a palavra que surgia na ponta da minha língua quando eu a
olhava. Só minha.
Queria lhe perguntar tantas coisas. Por que nunca tomou champanhe, por que não sabia que uma
mulher sangra na primeira vez, são coisas tão singelas e de conhecimento de todos que acho difícil
ela ser tão absorta. O que mais Anna não sabe? Ou melhor, até onde ela sabe? Será que estudou? No
que trabalhou? Como viveu até me conhecer? Será que passou fome, frio, necessidades? Eu achava
que a resposta era ‘sim” para todas as perguntas e isso me enlouquecia ao ponto de eu querer quebrar
as coisas, bater em alguém, cuidar dela, lhe dar tudo o que ela não teve e lhe ensinar tudo o que ela
não sabe. Mas me calei, não ousei tocar em nenhum assunto que a afastasse de mim, que fizesse com
que ela se fechasse, teríamos muito tempo para desenterrar segredos depois daquele dia.
Quando a noite estava quase caindo voltamos a nado até o iate e enquanto ela tomava banho dei
algumas ordens para Matheus e fui me juntar a ela no chuveiro. Não sem antes deixar o vestido para
que encontrasse. Quando voltei para o quarto amarrando a toalha na cintura, a peguei se olhando e
girando o tecido rosa para todos os lados. Vi quando ela se virou e encontrou a mesa posta com uma
vela acesa e algumas rosas em um vaso entre os pratos, o sorriso que ela deu... puta que pariu, aquele
sorriso de felicidade e encanto me desarmou completamente.
Eu queria aquele sorriso todos os dias, queria ser o responsável por ele.
Eu queria fazer mais por ela, tudo por ela, ser dela.
Completamente.
Caralho, eu estava enlouquecendo, só podia ser isso. Ela tinha me enfeitiçado e eu fui cedendo e
gostando da sensação, esse era o problema. Eu gostava de tudo que estava vivendo com ela, todas as
primeiras vezes. A primeira vez que comprei um vestido sozinho, a primeira vez que fiz uma mulher
feliz, a primeira virgindade que tirei, a primeira vez que transei sem camisinha, a primeira vez em
que fiz amor. Eram minhas primeiras vezes também assim como foi a dela e eu percebi que assim
como ela lembraria daquele dia com um sorriso.
— Você fez tudo isso? Como? — pergunta, me tirando do transe.
— Estamos perto de um dos únicos restaurantes da região que entrega a comida na embarcação.
— Sorrio caminhando até ela e afastando a cadeira para que se sentasse. — Matheus fez o resto.
— Qual o nome dessa praia? — pergunta quando me sento à sua frente.
— Agora estamos próximos a Tíngua, no município de Governador Celso Ramos — respondo
abrindo a tampa de metal para encontrarmos um prato típico que leva o mesmo nome do restaurante
feito com lagostas gigantes e peixe assado. Vejo Anna salivar e admirar o prato e sorrio mais.
— Já terminou de comer? — pergunta minutos depois, enquanto leva a última garfada de seu
prato à boca, eu assinto.
— Estou mais interessado em comer você — murmuro sorrindo enquanto ela cora. Adoro
quando ela cora. Anna morde o lábio e olha para o prato abrindo um sorriso tímido, é o suficiente
para que meu pau dê sinal de vida outra vez e eu me levanta agarrando-a pelo braço e empurrando-a
até uma parede com força. Encosto meu corpo ao dela fazendo-a sentir o quanto a quero.
— O romantismo acabou? — pergunta fazendo graça enquanto tiro seu vestido, estava lindo
nela, mas com certeza fica melhor no chão.
— Acabou, eu fiz amor por você, agora você vai aprender o que é foder, e isso vai ser por mim
— sussurro no seu ouvido e me afasto, quero olhar seu rosto, Anna deixa de ficar vermelha para fica
roxa, mas assente enquanto agarro seus peitos com as duas mãos e as desço mais até o limite de sua
calcinha. Beijo sua cintura brincando com a lateral do tecido até escutar ela gemer, quando ela o faz
eu a mordo, em todos os lugares que tenho acesso agachado em frente a ela puxando sua calcinha com
os dentes.
Dessa vez, ela não sente vergonha e se escora na parede me dando livre acesso quando eu a
chupo com vontade colocando um dedo dentro dela. Anna se mexe em seu próprio ritmo e deixo que
ela chegue ao orgasmo como queria antes. Me levanto e ela leva a mão ao coração, posso ouvi-lo
bater daqui. Ela sorri quando a viro de costas passando a mão por sua bunda e a empina pra mim.
Na minha cabeça eu ia conseguir. Ia conseguir meter dentro dela como sei fazer de melhor, mas
as coisas não acontecem bem assim, com a selvageria que pensei. Primeiro porque tenho um medo do
caralho de machucá-la e em segundo porque não consigo me ver tratando-a como as outras mulheres
que tive, Anna merece mais.
Não a penetro de imediato, agarro seus cabelos fazendo um nó em minha mão e beijo suas
costas, seu pescoço, sua orelha enquanto entro nela devagar, mas ela me faz parar.
— Não quer colocar a camisinha primeiro? — pergunta me fazendo pensar: Eu quero?
— Não, eu não quero. Quero sentir você mais um pouco. — Esqueço as consequências de ser
inconsequente, deixo para me preocupar com isso mais tarde enquanto eu estiver vendo-a engolir
uma pílula porque a grande verdade é que não tenho medo do que pode acontecer, com ela eu não
tenho medo de nada. Queria que ela se sentisse assim comigo também.
Empurro-a até a cama, mas ela me surpreende quando se levanta e me empurra sobre os
travesseiros, beijando meu peito. Ela desce mais e mais e, caralho, ela vai fazer o que eu estou
pensando? Puta que pariu, ela vai. Anna agarra meu pau com as duas mãos e o coloca na boca. Está
claro o tamanho de sua inexperiência, mas não importa porque só o fato de eu vê-la tentar me chupar
é o suficiente pra me deixar maluco.
— Pare — imploro me sentando, empurrando levemente seus ombros.
— Está tão ruim assim? — pergunta meio ofendida, meio envergonhada e novamente ela morde
a boca. Ela deveria ser proibida de fazer uma coisa dessas quando estiver sem roupas na minha
frente.
— Não — Eu a puxo pelo braço e viro-a de costas agarrando sua cintura. —, eu só não quero
que aconteça um acidente... — Ela geme alto quando deslizo para dentro dela, e sei que foi de dor,
então vou devagar até que ela se acostume, quando Anna começa a gemer de prazer eu começo a
estocar mais e mais rápido, até que ambos estejamos sem fôlego. Anna grita alto meu nome e eu,
bom, eu nesse momento quero que a tal da camisinha se foda. — Deixa eu gozar dentro de você,
Anna? — pergunto sem perder o ritmo falando em sua orelha, seu corpo se arrepia e ela vira o rosto
de lado para que eu veja seus olhos arregalados e a boca aberta enquanto arfa.
— Sim — geme se rendendo e chegando ao clímax junto comigo.
Não sei quanto tempo passamos abraçados. Mas não consigo parar de pensar no que saiu dos
meus lábios enquanto gozava dentro dela: “Linda, você é tão linda”, foi isso que eu disse, mas não
faço ideia se ela ouviu. Percebo que novamente eu fiz amor. Acho que com ela não poderia ser
diferente nem se eu quisesse. Eu já transei com muitas mulheres que me amavam, ou diziam amar,
mas nunca tinha transado com uma que eu... que eu... que eu queria desesperadamente não gostar.
Anna estava fodendo com a minha cabeça de muitas formas diferentes, algumas delas eu não
entendia, não era de todas que eu gostava, mas tinha uma em especial que eu não sabia se estava
pronto para lidar e que eu realmente temia. Anna estava fazendo com que eu me apaixonasse por ela
e isso era algo que eu não podia permitir que acontecesse.
Quando ela adormeceu, me levantei e fui atrás do meu celular, eu precisava falar com alguém e
só tinha uma pessoa para quem eu teria coragem de me abrir ou quase isso.

De: Augusto
Para: Capacho

Vamos chegar tarde, pega o Nick pra mim na Barbie? Se der passa na farmácia e compra uma
pílula do dia seguinte também? Não deixa minha irmã ver.

De: Ian
Para: Monstro

Animal, seu animal filho da puta!

De: Augusto
Para: Capacho

Só vai dizer isso, porra?


De: Ian
Para: Monstro

Foi tudo o que eu consegui pensar na hora. Você é um idiota.


Não sei porque ainda me surpreendo com a sua filha da putagem, Monstro.
Transou com a menina sem camisinha, o que você tinha na cabeça?

De: Augusto
Para: Capacho

Não sei, mas ela me faz sentir umas coisas estranhas, cara. Tipo, a única coisa que eu conseguia
pensar quando estava comendo ela era o quanto ela era linda e eu não consegui me controlar. Eu não
pensei. Ultimamente não penso quando tô com ela.
Acho que o nome disso é atração.

De: Ian
Para: Monstro

Eu acho que o nome é amor, mas você chama do que quiser.


Foi burrada não usar camisinha, cara, das feias.
Vou comprar o remédio, deixo no seu quarto e vê se faz ela tomar.

De: Monstro
Para: Capacho

Ela é tão bonita quando dorme, tô com um medo do caralho.

De: Ian
Para: Monstro

Do que exatamente você tem medo?

De: Augusto
Para: Capacho

De fazer merda e deixar ela triste.


Acho que eu não deveria ter encostado nela hoje, e se eu foder tudo como eu sempre faço? Você
tinha razão quando disse que esse tipo de coisa não é um número a mais na lista, mas ela é tão linda
quando dorme.
Acho que eu já disse isso, não disse?

De: Ian
Para: Monstro
Já, duas vezes.
Muda o nome do meu contato do seu celular, tira capacho e coloca no seu, “sua bichona”.
Cansei de dizer pra você não iludir a menina e o que você faz? Uma noite romântica! Se você chegou
até esse ponto é porque sente alguma coisa por ela, então é só você parar de ser tão covarde e se
permitir gostar dela de volta.
Não é tão difícil assim, vê se cresce, animal, e da próxima vez pensa com a cabeça de cima e
protege a de baixo!

De: Augusto
Para: O bichinho de estimação da minha irmã

É um bom conselho.
P.S.: A bichona aqui é você!

Ian tinha razão em um ponto. Eu fiz tudo isso porque sentia sim algo por ela, o problema é que
não queria sentir. Não queria me entregar, eu tinha medo. Agora tinha mais medo de magoar Anna. O
que aconteceria se eu voltasse a ser como era por um momento? Se fraquejasse diante de uma
investida de outra mulher? Se nunca conseguisse contar pra ela como eu me sentia?
O que aconteceria com meu coração se eu machucasse o dela?
Entre a razão e o coração

“Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar em vão, para trazer a linha de volta. É
aceitar doer inteiro até florir de novo.”
(Caio Fernando Abreu)

Anna

Se eu tivesse que resumir o dia de ontem em uma palavra seria mágico. O dia havia sido
mágico. Quando voltamos para o píer e pegamos a estrada já era madrugada. Augusto foi até a casa
ao lado e voltou com Nick nos braços o colocando na cama do quarto de hóspedes enquanto eu me
ajeitava na sua.
Quando acordo na manhã seguinte estou sozinha na cama, abro os olhos e me sento me sentindo
feliz e realizada. Tudo parece um sonho, contanto que me belisco duas vezes para ter certeza de que
estou desperta.
— Você fica linda na minha cama — murmura entrando no quarto e parando na soleira da porta
para me admirar. —, mas você ronca, o que é péssimo!
— E você chuta — reclamo, rindo. Ele desvia o olhar para o criado-mudo onde há uma sacola e
some pela porta voltando alguns minutos depois com um copo de água que me estende. Eu o seguro
enquanto ele se senta na cama e pega uma caixa de remédios na sacola e a abre me entregando
também um comprimido.
— É uma pílula do dia seguinte, serve como um anticoncepcional de emergência quando
acontece um acidente — diz sabendo tão bem quanto eu que da segunda vez não foi um acidente. —
Vou tomar um banho — anuncia levantando da cama.
— Não quer conferir se vou tomar? — pergunto prestativa.
— Eu acredito em você — responde, sorrindo torto, com um brilho no olhar. Está mentindo.
— Eu sou a primeira mulher para quem você dá isso? — pergunto curiosamente.
— Não, camisinhas as vezes estouram — comenta distraidamente ao me dar as costas,
provavelmente precisando de todo seu autocontrole para não enfiar ele mesmo o comprimido na
minha boca.
— Mas eu sou a primeira que você não fica para conferir se vai tomar, não sou? — pergunto
encarando suas costas, elas se retesam, mas ele não se vira. Augusto não precisa dizer nada, seus
músculos tensos respondem por ele. — Olha pra mim — peço com gentileza, quando ele o faz, eu
ergo o comprimido e coloco na boca, engolindo-o, ele sorri grato e suspira aliviado entrando no
banheiro.
Quando ele entrou no chuveiro precisei de toda minha coragem, o que convenhamos não era nem
um punhado, para me levantar e ir preparar o seu café. Ele entrou na cozinha no instante em que me
virei com uma xícara quente em sua direção, sorrindo. Não sei quem ficou mais surpreso, ele pela
gentileza ou eu por toda beleza que ele emanava. Tinha algo de surreal em vê-lo vestido de jaleco,
com o cabelo molhado e um sorriso de canto de boca pegando o café de minhas mãos. Uma cena
íntima e familiar, uma cena que quase me fez ter vontade de chorar.
E realmente quase chorei quando vi um papel dobrado sobre a mesa, caminhei até ele e o abri
lendo seu conteúdo. Era uma lista do que ele deveria fazer. Abrir a porta do carro, comprar flores,
falava até sobre preliminares. Em cima estava escrito “Lista do Ian”. Pensei novamente no dia de
ontem, no dia em que claramente ele não foi ele mesmo. Nada tão perfeito assim dura, é a ordem
natural das coisas e pela primeira vez decidi não me conformar com uma vida de rasteiras, percebi
que o que eu sentia por Augusto me fazia querer mais, sempre mais.
O amor havia me tornado gananciosa.
— Não pensa que um cafezinho ralo desses me compra, ainda te acho um estorvo — observa
fazendo graça, me dando um beijo nos lábios e saindo para trabalhar. Mas ele para e se vira pegando
a carteira, antes que ele a abra pergunto com ironia:
— Por que você está fazendo isso? — Para esse tipo de coisa eu tinha coragem, era uma idiota
mesmo. Sabia que estava a ponto de arrumar uma briga, mas mesmo assim não me calei. Ele me
olhou interrogativamente com a carteira aberta nas mãos.
— Vejo Ian fazer isso desde se casou com a minha irmã, achei que era... gentil? — Detesto que
sua resposta soe como uma pergunta, eu nunca lhe pedi dinheiro.
— Não quero que você seja Ian, quero que você seja você mesmo Augusto. — Jogo o bilhete
em minhas mãos, quando o pega e constata o que é, ele tem a decência de parecer envergonhado.
— Eram só dicas, eu planejei o dia, eu fui eu mesmo, bom quase... — Eu o corto.
— E o resto? Por que está sendo tão gentil e principalmente por que me deixou dormir na sua
cama? — Seus olhos se arregalam e ele os desvia por um único segundo dos meus, é o suficiente
para eu saber que ele vai mentir. Decerto não imagina que eu já esteja por dentro de sua “regra”
babaca, já que ele não a mencionou com clareza ontem.
Uma boa mentirosa conhece outro a milhas de distância. Tive um bom professor.
— É algo natural, não é? Nós estamos... é... — gagueja. — juntos... Pessoas normais dormem na
mesma cama quando estão... — Estou deixando ele constrangido, tenho certeza de que minhas
próximas palavras vão fazer o constrangimento ser substituído pela raiva.
— Eu fui a primeira mulher que dormiu na sua cama porque você não pode se livrar de mim, já
que estou morando aqui, não é? — Meus olhos cintilam e como eu imaginava acontece o mesmo com
os dele.
— Sim, Anna, é isso que você quer ouvir? Sim, o fato de você dormir na minha cama não me
agrada, mas... Mas eu não consigo mandar você sair, porra! — explode. — Eu não sei o que você faz
comigo, mas o que quer que seja eu ainda não gosto.
— Então, por que está cedendo?
— Porque doeu quando achei que tinha te perdido — sussurra desconfortavelmente.
— Você nunca vai mudar, sempre vai ser egoísta — falo alto fazendo ele fechar os olhos e
respirar fundo para se controlar. — Você me quer aqui porque acha que precisa de mim, mas não
pode me dar mais do que isso, não é?
— O que mais você quer de mim? — grita. — Eu gosto do que temos Anna e estou me
esforçando, não é o bastante?
— Não, não é. — Me ouço dizendo de maneira triste. — Eu quero mais, quero você por inteiro
e quero que você admita que me ter aqui te faz feliz, quero ouvir você dizer que me ama — peço
soando patética. —, quero ouvir você dizer que ama Nicholas. Eu quero uma prova de amor, quero
uma família! — Sempre, sempre quis e agora quero de forma desesperadora essa família.
— Não, Anna, eu não amo — Ele me dá as costas e murmura friamente: — e eu sinto muito por
isso.
Augusto sai de casa me deixando arrasada. Sei que não tenho direito de lhe cobrar nada, afinal o
que mais alguém podia querer além de casa, comida e segurança? É aí que estava o problema. Eu
queria amor. Não queria que ele imitasse Ian, nem fosse gentil apenas por obrigação. Não queria
passeios nem coisas caras. Eu queria que ele fosse ele mesmo e que me amasse.
Eu queria demais.
— Oi, posso entrar? — pergunta uma voz atrás de mim, me viro e encontro Bárbara na soleira
parecendo culpada. — Eu tenho o hábito de ouvir atrás das portas, por sinal, é de família, mas juro
que, dessa vez, eu não fiz de propósito. Eu vim pelo café, o cheiro está em todo canto, eu preciso
desse café — murmura salivando.
— Claro, entra. — Tento sorrir fingindo que a conversa com Augusto não me abalou e sirvo
duas xícaras. — Isso foi... — foi uma tentativa vergonhosa de mendigar o que não posso ter, mas
não é isso que respondo. — só o seu irmão sendo o babaca de sempre e eu sendo a porra de uma
carente.
— Ele não é muito de falar dos sentimentos. — Como se eu não tivesse descoberto sozinha.
“Não gosta muito” é eufemismo para “foge que nem o diabo foge da cruz”.
— Tradução: Ele é um ogro — murmuro queimando a língua com o café quente.
— Olha pelo lado positivo, deu certo para a Fiona — Ela ri.
— Bárbara, Shrek era mais simpático que seu irmão, por isso deu certo.
— Quem não é mais simpático do que ele? — Ela quase chora de tanto rir, e quando se
recompõe me encara com suavidade. — Você sabe que ele está apaixonado por você, não sabe? Mas
Augusto é duro na queda, ele não vai admitir a derrota facilmente.
— Eu não tenho certeza — murmuro fazendo uma careta. — Às vezes acho que ele está sendo
gentil por obrigação, acho que ele está fingindo ser quem não é. Eu prefiro que ele seja ele mesmo,
nem que para isso eu precise lidar com o Augusto rude outra vez. Eu só quero que ele pare de fingir e
assuma de uma vez o que sente.
— Você quer uma prova de amor. — Não foi uma pergunta e ela não parece me julgar, parece
sonhadora e ao mesmo tempo reticente.
— Acho que estou exigindo demais dele, como pedir para alguém que nunca soube nem mesmo
como se ama que aprenda a provar esse sentimento a alguém? — pergunto com o olhar perdido. —
Nunca vai acontecer.
Bárbara não diz nada, apenas cobre minha mão com a sua, assim como eu ela sabe que Augusto
nunca vai ter coragem o suficiente para me provar nada. Ele vai me aturar e brincar de casinha até
chegar o dia em que ele vai se cansar da brincadeira e voltar a sua vida me deixando no exato lugar
onde me encontrou: no meio do nada e sem nada.
Ele não volta na hora de sempre, nem na depois dessa. Quando mais uma hora se estende sem
que eu escute o barulho do motor de seu carro começo a ficar verdadeiramente preocupada e decido
ir atrás da sua irmã para lhe pedir que ligue para ele, mas não há necessidade. Assim que me levanto
do sofá, a porta se abre. Augusto passa por ela pisando duro, seu rosto está vermelho e suado. Ele
traz nas mãos de punhos cerrados a gravata e o jaleco.
— O que houve? Por que demorou tanto? — Cruzo os braços irritada por ele ter me deixado
preocupada.
— Eu não teria demorado se não tivessem furado os pneus do meu carro — murmura quase
espumando pela boca. —, os quatro pneus — frisa batendo a porta com força na cara de Ian que
estava quase passando por ela. Eu congelo imediatamente no lugar, mas ele não percebe e continua
tagarelando. — Se eu descobrir quem foi o filho de uma puta desgraçado...
— Se você não fosse sempre um babaca, as pessoas gostariam mais de você — rebate Ian
abrindo a porta e passando por ela visivelmente exausto e tão suado quanto Augusto. — Você também
poderia deixar de ser mão de vaca e ter chamado o guincho em vez de ter me obrigado a te ajudar a
trocar todos os pneus.
— Ninguém encosta naquele carro, Ian — responde irritado fazendo o amigo revirar os olhos.
— Parece que alguém encostou, não foi? — diz sarcasticamente.
— Que gritaria é essa? — pergunta Bárbara surgindo pela porta da cozinha.
— Alguém se vingou do seu irmão, pelo que e quem não sabemos. A fila é longa — ri Ian
achando graça.
— Foi ele — murmuro quase que para mim mesma, a conversa continua ao meu redor, não fui
ouvida, por isso falo mais alto entrando em pânico, não consigo me controlar. — Foi ele, Augusto. —
Ganho a atenção de todos na hora. Hoje eu não importo com a plateia porque eu sei que ele está
passando dos limites, sei que está se aproximando e estreitando nosso contato, assim como sei que
chegou a hora de ir embora.
— Anna, não começa — pede voltando sua fúria para mim. Ele não acredita e esse será seu fim.
Augusto nunca precisou acreditar no mal, ele se acha invencível.
Não sabe com quem está brincando.
— Eu tenho que ir... — murmuro aflita, dando as costas para todos e me dirigindo as escadas.
— Tem que ir aonde? — pergunta com sua voz mais próxima de mim, talvez seja isso ou ele
apenas tenha gritado, não sei. Estou muito preocupada pensando em uma maneira de sair dessa casa
sem ser seguida, o que me faz pensar em um porém.
Se ele descobrir que fugi, ele virá em busca de resposta atrás dessa família.
— Embora — murmuro por cima do ombro. Antes que eu pise no primeiro degrau, ele agarra
meu braço e me vira bruscamente para ele.
— Você não vai a lugar algum — sibila ferozmente.
— Quem vai me impedir? Você? — Me empertigo retirando suas mãos de meus braços, meu
coração dói porque o único pensamento que tenho quando o vejo dar um passo para trás é que estou
abandonando ele imerso em perigo. — O dia de ontem não significou nada pra você, porque deveria
significar pra mim? — Parece que lhe dei um tapa tamanho seu espanto, mas ele se cala.
Se eu sair pela porta, Augusto vai se machucar, sei que vai.
Será que serei egoísta o suficiente para pensar somente em Nick e em mim? Será que terei
coragem de dar as costas para essa família que tanto me ajudou e, acima de tudo, dar as costas para o
homem que eu amo?
Não tenho alternativa. Quanto mais tempo eu passar nessa casa será pior, se ele souber ou
sequer sonhar o que eu sinto por eles, todos eles, vai usá-los como arma para me atingir, vai querer
me tirá-los. Eu sei porque ele já tirou de mim quase tudo o que eu amava, só restou Nicholas e é nele
em quem eu tenho que pensar.
Preciso proteger minha vida.
Última pista: Eu estou aqui

“Tantos sorrisos por aí, você querendo o meu


Tantos olhares me olhando e eu querendo o seu
Eu não duvido não, que não foi por acaso
Se o amor bateu na nossa porta, que sorte a nossa”
(Que Sorte a Nossa, Matheus e Kauan)

Augusto

— Vai deixar ela ir, qual é seu problema? — pergunta Ian me olhando como se não acreditasse
em tamanha burrice. O que ele quer que eu faça? Acorrente ela ao pé da minha mesa? Não ia
adiantar, se eu não a amordaçasse ela voltaria a me pedir mais do que posso dar. Nós sabemos que
essa relação já estava fadada ao fracasso antes mesmo de começar. Anna merece mais.
— Do que ela estava falando, Augusto, quem é ele? — pergunta minha irmã focada em outro
ponto. Me viro para ela e vejo seus olhos transbordando de curiosidade e ideias, se eu me esforçar
posso ouvir sua cabeça maquinando os pensamentos. — Por que ela está tão assustada?
— Não sei — minto fazendo com que ela revire os olhos. Então ficamos em silêncio, nos
olhando sem saber o que dizer ou como agir. Só nos mexemos quando escutamos o grito de Anna no
andar superior. Desde que ela veio morar aqui devo ter perdido uns cinco quilos só de subir essas
escadas correndo quando ela grita ou chora.
— Augusto — Ela me encontra no topo da escada, antes que eu possa perguntar alguma coisa,
ela se joga nos meus braços e firma o aperto do meu pescoço me deixando sem ar. — Eu estava
certa, estava certa o tempo todo. Preciso de ajuda, não posso mais fazer isso sozinha, não posso... —
soluça enterrando o rosto na curva do meu pescoço, me deixando sem palavras.
Agarro seus ombros e a afasto olhando em seus olhos, procurando por pistas do que realmente
está acontecendo e do que ela está sentindo. Não gosto do que vejo: medo, vergonha e reticência.
Vejo o quanto é difícil para ela me pedir ajuda, e percebo que se ela pensasse ter outra opção não
pediria. O que vejo em Anna é mais do que medo, mais do que pavor ou assombro. Anna parece
morta por dentro...
Ela se protege há muito tempo sozinha guardando seu segredo como um tesouro valioso, se ela
achou que agora era a hora de pedir ajuda é porque sabe que chegou no limite. O que me faz pensar,
qual foi o gatilho para sua mudança, não importa o que seja, sei que isso simplesmente vai mudar
nossas vidas. Pela primeira vez desde que ela começou a dizer que havia sido encontrada, sinto
medo.
— O que é isso? — pergunto quando ela me estende um papel, eu o pego e leio a frase escrita
nele com as pernas bambas, o coração disparando e as mãos suando frio.
Isso é ruim. Muito ruim.

“Estou te vendo, garota tola!


Como seria acordar e encontrar o menino sem vida na cama? Seria tão fácil sufocá-lo com seu
próprio travesseiro enquanto você se prostitui no quarto ao lado por um prato de comida. Sempre
foi e vai ser tola. Você não pode me vencer, já deveria saber disso.”

— Anna... — murmuro sem tirar os olhos do papel. — o que... o que é isso, porra? Onde isso
estava? — pergunto com uma voz que em nada se parece com a minha. Estou assustado, assustado
pra caralho.
— Embaixo do travesseiro de Nicholas. — Ela soluça mais e se deixa cair no chão, se
encolhendo em posição fetal em cima do tapete. Passo por cima dela correndo desesperadamente até
o quarto de hóspedes, abro a porta em um rompante e suspiro aliviado quando o vejo sentado na
cama, balançando os pés de forma inquietante, ele levanta o olhar e noto as lágrimas silenciosas que
molham seu rosto.
— Vai ficar tudo bem, garoto — afirmo diminuindo nossa distância e me abaixando para pegá-
lo no colo, ele se agarra a mim como nunca se agarrou antes, como se jamais fosse soltar.
Saio do quarto e volto para o corredor, parando apenas para pegar Anna do chão pelo braço,
levantando-a e a escorando em mim. Desço as escadas com os dois para encontrar os olhares da
minha irmã e do meu melhor amigo. Bárbara parece ter entendido rapidamente que algo está errado,
assim como nós parece ter medo. Ela sabe o quanto é apavorante ser perseguida e machucada, já Ian
parece apenas confuso me olhando como se esperasse que eu lhe explicasse do que se trata isso tudo.
Ao invés de dizer com palavras lhe passo o bilhete.
— Meu Deus! — murmura boquiaberto enquanto minha irmã toma o papel de suas mãos.
— Quem é ele, Anna? — pergunta levantando o rosto, claro que ela não obtém uma resposta,
então se volta pra mim. — Vai atrás do Bernardo, nós cuidamos deles.
— Não, não vai — implora Anna. —, não me sinto segura quando você não está.
— Anna, isso é sério — Aponto para o papel nas mãos da Bárbara. — ele esteve aqui dentro,
talvez ontem, talvez enquanto dormíamos, não sabemos. Ele podia ter... — Aperto mais o menino. —
Precisamos do Bernardo.
— Policiais não podem ajudar — murmura balançando a cabeça incrédula — você não
entende? Isso nunca vai acabar, meu Deus, nunca.
— Ele não é um policial, ele é família — rebato decidido. — Além disso, ele vai saber o que
fazer. — Ela assente, sabe que não pode me impedir.
— Se tranquem em casa e cuida deles, Ian — ordeno saindo pela porta.
Enquanto dirijo pelas ruas sem me preocupar com limite de velocidade ou coisas banais como
sinais vermelhos me repreendo por ter partido tão assustado na frente dela. Se eu quero que Anna se
sinta segura, ela não pode perceber que também estou com medo. Mas o que era aquele bilhete? Só
de pensar em um homem estranho andando pela minha casa na surdina, no meio da madrugada com o
coração negro abarrotado de intenções macabras, os pelos dos meus braços se arrepiam. Onde fui me
meter, quem eu realmente trouxe para minha casa, para o seio da minha família?
Eu deveria despachar essa menina dentro do primeiro ônibus que eu encontrar na rodoviária, me
livrar do problema e proteger minha família, mas só de pensar em fazer isso meu coração se aperta,
eu jamais teria coragem de abandoná-los. Eles também são meus agora, são parte minha.
Estaciono o carro de qualquer jeito na porta do prédio e entro sem precisar ser anunciado,
fazendo o caminho que fiz por anos até o apartamento que hoje é de Bernardo e Vivian. Entro no
elevador apertando repetidas vezes o botão do sétimo andar para aplacar um pouco da ansiedade e
suspiro alto quando ele para no quarto andar e a porta é aberta. Quando ninguém entra, muito menos
fecha a porta levanto o olhar e me deparo com alguém por quem eu não esperava.
— O que você faz aqui? — pergunto franzindo o cenho para meu irmão.
— Eu... é... — ele gagueja e pragueja alto quando alguém aparece atrás dele chamando seu
nome.
— Esqueceu a carteira, gatinho. — Camila abraça sua cintura com uma das mãos e coloca a
carteira diante de seu rosto com a outra, olhando para mim com cinismo. — Como vai, Augusto?
— Nesse momento? — pergunto rispidamente. — Querendo vomitar. Você vai largar essa porra,
ou não? — pergunto para meu irmão indicando a porta.
— Eu... é...
— Gustavo, eu estou me controlando muito pra não socar a sua cara nesse instante — murmuro
cerrando o punho e o mordendo forte. — Mas se você não soltar esse elevador no próximo segundo
vou parar de me controlar. — Não preciso falar mais nada, ele se joga para dentro na caixa de metal
ao meu lado e abaixa a cabeça, saindo sem se despedir da vagabunda que está pegando.
— Eu ia contar, mas a Babi... — começa a se explicar.
— Tenho coisas mais importantes com o que me preocupar agora — ralho abrindo a porta com
um empurrão fazendo ela estalar ao chegar no andar certo e caminho pelo hall esmurrando a porta do
apartamento.
— Oi — diz Vivian sorrindo logo em seguida, deveria estar na cozinha para ter aberto a porta
tão rápido. — Ei, o que foi? — pergunta preocupada quando nota minha fisionomia enfurecida e o
rato amedrontado que se esconde atrás de mim.
— Emergência familiar, preciso do Bê — respondo passando por ela e entrando no
apartamento.
— Vou chamar ele, espera aí — murmura girando rapidamente e sumindo pelo corredor.
Adentro mais o ambiente e me jogo no sofá afundando a cabeça nas mãos.
— Monstro, não conta nada pra ninguém, por favor? — implora Gustavo pairando acima de
mim.
Não respondo, quero torturá-lo. Imaginei que seu segredo pudesse ser algo do tipo, só errei a
pessoa. Pensei que ele estava namorando alguma das mulheres que Ian ou eu pegamos, talvez alguém
de quem Bárbara não gostasse, mas a Camila? Cara, isso passava qualquer limite. Ela jamais seria a
namorada do meu irmão, pra mim ela sempre seria a vagabunda que tentou foder a vida da minha
irmã. O amor pode até perdoar, eu não. Mexeu com a minha irmã, pra mim era uma vez só e era por
causa disso que eu estava com tanta raiva. Na minha cabeça ele tinha traído a Bárbara e por mais que
eu não gostasse de me meter nos assuntos de ninguém sabia que se ficasse calado, estaria traindo ela
também.
— Tá tudo bem, Monstro? — pergunta Bernardo aparecendo na sala vestindo apenas uma
toalha. Puta que pariu, que visão do inferno. Em dias normais eu faria alguma piadinha sobre um
gorila ou o Chewbacca, mas não hoje.
— Não — retiro o bilhete do bolso do jeans e entrego pra ele. —, isso estava embaixo do
travesseiro do Nicholas.
— Porra — murmura quando termina de ler, assim como eu seus olhos continuam fixos no
papel, mas logo depois ele os levanta me encarando com raiva. —, eu te avisei, não foi?
— Tem mais — digo ignorando seu momento de “eu sou o policial mais foda do universo”. —,
alguém furou os pneus do meu carro hoje no estacionamento do hospital e ninguém viu nada e Anna
jura que tinha alguém dentro de casa. Ela limpou tudo e foi no mercado, quando voltou tinham umas
pegadas marcadas no chão. Saindo do armário da escada até a porta, quando cheguei encontrei ela e
o menino escondidos trancados no meu quarto.
— Baby, pega meu celular pra mim? — pergunta se virando para Vivian que assente assustada e
corre pelo corredor para atender seu pedido, assim que ela volta e lhe entrega o aparelho ele digita
alguns números e espera a ligação ser completada. — Jorge, preciso de uma patrulha na casa de um
amigo, ninguém entra e sai sem ser notado. Estou te mandando o endereço. Certo. Obrigado — ele
encerra a ligação e se volta pra mim. — Você vai fazer exatamente o que eu mandar a partir de agora,
entendeu Monstro teimoso?
— O que está acontecendo? — pergunta Gustavo confuso.
— Ué, você veio com ele e não sabe? — pergunta Vivian piscando os cílios longos
demoradamente, ele tosse e fica mudo, é seu fim. Os olhos dela se arregalam e suas bochechas ficam
vermelhas de raiva.
— Eu disse pra você — Volta para o marido. —, eu disse que tinha sido ele que eu vi se
esconder atrás da lixeira semana passada. O que exatamente você está escondendo da gente, Mala?
— Você não vai querer saber — alerto em voz baixa ganhando um olhar feio do meu irmão.
— Que tal se colocássemos ele na cruz e tacássemos fogo em outro momento? — pergunta
Bernardo olhando para Vivian com um alerta no olhar. — Temos um problema mais sério para
resolver primeiro.
— O que vamos fazer? — pergunto esfregando o rosto nas mãos denotando cansaço.
— Se você tivesse se livrado do problema quando mandei não precisaríamos fazer nada —
comenta sarcasticamente me tirando do sério.
— Não chama ela assim, porra — me irrito.
— Ela te contou quem é o cara e o que ele quer? — Não respondo e desvio o olhar. — Foi o
que imaginei. Ela é tão egoísta que mesmo agora não quer contar que tipo de perigo estamos
correndo.
— Ela deve ter seus motivos — defendo-a mesmo concordando com ele. Bernardo tem razão,
Anna está pensando somente em si, ignorando o fato de que estamos nessa juntos. Eu tinha opção,
mas minha família não, eles entraram nessa por mim.
Ela está sendo ingrata.
— Vá para casa, pegue eles, todos eles, e vá para o sítio — diz Bernardo retirando uma chave
do seu chaveiro. Ele havia comprado um pequeno chalé a alguns quilômetros da cidade, mas ainda
não havíamos estreado o lugar. — Você também Gustavo.
— Esse cara, será que ele tem seguido a gente? Todos nós? — pergunta meu irmão apavorado.
— Provavelmente. Ele deve ter estudado todos que entram e saem da casa de vocês. Alguém
capaz de invadir uma casa e deixar um bilhete como esse deve ser mais inteligente do que
imaginamos.
— Então eu vou levar minha namorada junto — diz olhando somente para mim, dou de ombros
rindo por dentro. Porque sabemos que a namoradinha dele estaria mais segura na mão do monstro que
persegue Anna do que nas garras da nossa irmã.
— Você está namorando quem? — pergunta Vivian se intrometendo desconfiadamente.
— Vocês logo vão saber — responde como se lamentasse e deveria mesmo. — Vai na frente
preparando o terreno Augusto, eu vou daqui a pouco. — Por preparar terreno ele deve estar tentando
dizer, amarrar nossa irmã com uma corda a uma cadeira.
— Não demorem — alerta Bernardo. — Vai com eles, baby — pede carinhosamente para
Malibu.
— E você? — pergunta ela, abraçando-o.
— Eu vou ficar na tocaia.
— Não, você não vai — diz séria dando um passo para trás e cruzando os braços. — Se ele está
seguindo todos, isso também inclui você.
— Eu sei me defender — diz sorrindo por causa de sua preocupação.
— Não tô nem aí, você vai na minha frente, Bernardo, não tem discussão. — Ela lhe dá as
costas e some no corredor, ainda podemos ouvir ela murmurar alto. — Não tem a menor chance de eu
deixar você morrer e criar essa criança sozinha, Deus sabe que eu não sei nem cuidar de mim direito.
— Ok, acho que eu vou junto então — murmura para si mesmo.
— Capacho — tusso falsamente.
— Não fui eu quem trouxe o brinquedinho de um maluco pra casa e colocou todo mundo em
perigo, é melhor você calar a sua boca, Monstro, antes que eu faça isso pra você — diz
sarcasticamente. — Na primeira vez em que você decide gostar de alguém fode com tudo. Vai ter
mau gosto assim lá no inferno. — Meu irmão tem um gosto pior, mas deixo passar. O assunto vai
entrar em pauta logo mais, só preciso ter paciência.
— Vamos? — pergunta Vivian jogando sua mochila no meu colo, quase caio do sofá.
— O que tem aqui dentro? Vamos ficar fora, com sorte, só o final de semana — reclamo me
levantando e colocando a bigorna nos ombros.
— Roupas, biquínis, minha chapinha, coisas básicas — diz distraída encarando
inquisitivamente o marido.
— Eu vou, ok? — diz respondendo sua pergunta silenciosa. — Só preciso passar na delegacia e
explicar a situação para os rapazes, eles vão fazer isso em off, e não oficialmente, não quero que haja
falhas.
— Ótimo. — Se alegra lhe dando um beijo nos lábios e saindo pela porta. Noto que Gustavo
fica para trás, não quer pegar o mesmo elevador que nós, provavelmente com medo do escândalo que
Vivian vai fazer.
Vinte minutos depois chegamos a porta de casa, o que foi ótimo, porque Vivian não calou a boca
um minuto sequer do trajeto. Pensei seriamente em abrir a porta do carro, lhe dar um chute na bunda e
abandoná-la na metade do caminho, Bernardo já estava bravo comigo de qualquer forma. O que me
refreou é que ele tem uma arma, e ainda por cima tem autorização para usá-la.
— Cadê o Bê, o que vocês decidiram? — pergunta Babi assim que passamos pela porta.
— Eu não mandei vocês ficarem na sua casa? — pergunto irritado, enquanto minha irmã estende
a mão para Malibu e a puxa em sua direção, abraçando-a.
— Bom, o cara não vai invadir nossa casa, mas já invadiu a sua, então tecnicamente estamos
mais seguros aqui do que estaríamos em casa. — Vendo minha cara de confusão, ela explica. — Ele
não vai voltar a entrar aqui se estivermos todos reunidos, mas pode pensar em entrar se achar que
não tem ninguém e a porta de acesso do jardim não tem tranca. — Vejo pela visão periférica, Anna
revirar os olhos na parte do “ele não vai entrar...”.
— Onde você aprendeu essas coisas? — pergunto erguendo as sobrancelhas.
— CSI — diz orgulhosa. —, estou com muito tempo livre desde que peguei a licença.
— Que licença? — questiono franzindo o cenho.
— Não reparou que eu estou em casa todos os dias? Em que mundo você vive? Meu médico
disse que provavelmente o bebê vai nascer antes da hora. Estou de licença desde o começo do sétimo
mês. — Ela revira os olhos fazendo com que eu me sinta um babaca. — Eu não disse nada porque...
— Porque sabe que não me importo com a criança.
— Apressadinho que nem a mãe, então? — pergunto sorrindo fracamente, me sentindo
arrependido por tê-la feito pensar dessa forma. Estico a mão, em um impulso encosto em sua barriga
e tomo um susto quando ela se mexe sob meus dedos.
— Ai — reclama fazendo careta. — Parece que ele gostou de você.
— É, parece — respondo distraidamente olhando para sua barriga que ainda se mexe, estou
ludibriado e um tanto enjoado por saber que tem alguém de fato ali dentro. Um alguém que se mexeu
por mim...
— Então, você não respondeu. O que vamos fazer?
— Sair de férias. — Ela ergue as sobrancelhas achando que estou brincando. — Não era isso
que você queria? Vamos passar o final de semana na cabana do Bê.
— Eu queria férias no Caribe e não me refugiar em uma cabana e servir de comida pra mosquito
— murmura debochadamente.
— Você não tem escolha. Precisamos de você, é a que tem mais carne — Ela me dá um soco
realmente dolorido, mordo o lábio para não gritar e me afasto alisando a pele que arde. —, acho
melhor você guardar a sua força para bater no Gustavo, ele finalmente vai nos apresentar a
namorada. — Seus olhos brilham de entusiasmo, brilham tanto que não tenho coragem de lhe contar a
verdade.
— Então, o segredo era uma mulher? Eu jurava que era um negão de dois metros de altura,
cheiroso e sarado e que ele ia fazer questão de fazer inveja pra mim e pra Malibu — diz de forma
sonhadora fazendo Ian revirar os olhos e fechar a cara de ciúmes.
— Por que vocês não vão indo arrumar a mala? — pergunto para ganhar tempo e fazê-la sumir
antes que eu lhe conte tudo. Ela faz o que peço e arrasta Ian para sua casa, enquanto isso me sento ao
lado da Anna, ela não me olha. Pego em sua mão com força para que ela não solte, mas ela nem ao
menos tenta, ao invés disso ela aperta mais forte ainda sem se virar na minha direção. Estou tentando
procurar alguma coisa para lhe dizer quando Gustavo abre a porta rebocando uma Camila com o
peito estufado de autoconfiança e uma maldade já conhecida no olhar.
— Corre, Anna — digo rapidamente finalmente encontrando algo para lhe dizer. —, esconde
tudo o que for afiado.
— O quê? — pergunta tropeçando nas palavras. — Como assim?
— Não tenho tempo de explicar, só faz o que eu mandei. Tudo que puder ser usado como arma
tem que sumir de vista, principalmente as facas. — Ela assente ainda atordoada se levantando, mas
se distancia de mim a passos largos agarrando tudo o que vê com pontas com as mãos ágeis.
— Gustavo já chegou com a namora... — Bárbara entrando pela porta do jardim, se calando ao
ver nosso irmão passar pela porta com a Camila. Ela pisca e ri nervosamente.
— É uma piada, né? — pergunta olhando diretamente para mim, não respondo. — Onde estão as
câmeras? — Ela cruza os braços e fulmina Gustavo com o olhar.
Eu não queria ser ele.
— Eu queria contar, eu...
— Covarde — tusso descaradamente.
— Você sabia disso? — ela grita em minha direção, eu balanço a cabeça com medo, no exato
instante em que Bernardo entra pela porta, graças a Deus por isso, porque suas algemas
provavelmente serão necessárias.
— Bárbara, você tem que entender... — pede Gustavo suplicando. Ela se aproxima dele
sorrateiramente, olhando em seus olhos o tempo todo enquanto ele tenta se explicar, só isso já
deveria lhe servir como alerta, ela parece um bicho prestes a dar o bote. Victoria se comporta
igualzinha quando está perseguindo moscas pela casa. — Eu estou apaixonado... — Agora ela está
soltando faíscas e está muito mais perto, será que ele é trouxa? Por que ainda não saiu correndo?
Prendo a respiração, qualquer palavra errada agora vai decretar seu fim.
— Enfim, eu estou apaixonado e não preciso da sua autorização... — Sim, ele era realmente
muito burro e sim, antes que ele terminasse de falar, as mãos dela já estavam em seu pescoço.
Ela não fala, só grunhe e aperta mais forte fazendo com que ele perca o ar.
— Socorro... — pede para ninguém em especial tentando puxar suas mãos para baixo, é em vão.
Ela não é mais forte, mas está com mais raiva. Só uma arma de choque pra fazer ela soltar agora.
— Ian, melhor você ir até lá — murmuro sem conseguir desgrudar os olhos da briga.
— Tá falando sério? Ela bate forte, cara — murmura de volta resignado. — Bernardo, vai você
que tem o treinamento certo para esse tipo de situação.
— Não, obrigado. — Balança a cabeça negativamente. — Eu passo.
— Seu bando de covardes — ralha Vivian, irritada. —, eu vou.
— Sério que você vai pôr a mão ali pra separar? — pergunto embasbacado. Será que ela não
sabe que minha irmã vai arrancar a dentadas o primeiro que se aventurar a pôr a mão em cima dela?
— Claro que não — diz parecendo ofendida por minha suposição. —, eu vou ajudar ela a bater!
Ninguém se mexe quando Malibu caminha até eles, nem quando ela chuta o saco do meu irmão
com o bico fino do seu sapato de salto para incapacitá-lo (nesse momento somos solidários e
soltamos uma exclamação de dor por ele), muito menos quando elas começam a chutá-lo quando ele
cai no chão gemendo de dor.
Eu estou apavorado, Ian não parece diferente se for julgar pelo passo para trás que ele deu,
Bernardo parece estar até se divertindo. A única voz que rompe o silêncio é de Anna, que até então
estava quieta contemplando a briga familiar à sua frente, uma briga bem frequente, diga-se de
passagem. Não á a primeira vez que Gustavo leva uma surra da nossa irmã.
— Ela vai parar em algum momento? — pergunta com admiração, um tanto nervosa.
— Vai — Assinto, e digo o que eu e o resto dos rapazes estamos pensando. —, quando ele
morrer.
Foi ótimo ter um irmão, pelo tempo em que ele durou.
— Sabe, é bom que elas finalmente tenham encontrado alguém para extravasar a raiva gerada
por tantos hormônios, eu estava pensando seriamente em começar a dormir com a minha arma
embaixo do travesseiro, sabe? Caso precisasse — murmura Bernardo admirando Malibu se afastar
alguns passos e olhar duramente para Gustavo encolhido no chão, enquanto eu olho para Bárbara, seu
cabelo voando e suas bochechas vermelhas. Gustavo sabia que ia terminar assim, não deve ser uma
surpresa tão grande pra ele. Não precisamos nos preocupar que ele revide, ele nunca faria isso, então
apenas assistimos elas arrasarem com ele.
— Eu concordo, ela me atacou com uma faca, vocês sabem — diz Ian cruzando os braços. —,
fico feliz de ser ele e não eu.
— Parem, suas cadelas malucas! — berra Camila, eu havia me esquecido dela. A garota está
encostada em uma parede com o rosto contorcido pela raiva. Eu acho, só acho, que ela deveria ter
continuado calada. Minha irmã levanta a cabeça e a encara, como aqueles leões, que estão devorando
um bicho azarado, fazem no Animal Planet e rosna. Ela rosna, cara.
— Do que você nos chamou? — pergunta dando um impulso na barriga de Gustavo para se
levantar, mas ele agarra sua mão impedindo que ela avance.
— Nada, ela não disse nada — diz debilmente em uma vã tentativa de consertar as coisas, teria
funcionado se nossa irmã fosse surda e, claro, se ele não tivesse se esquecido de segurar a Malibu
também.
— Eu disse que vocês são duas cadelas malucas — repete ríspida. — e agora parecem que a
família aumentou, estão criando um animal de estimação novo? — pergunta olhando para Anna, eu
me viro e a vejo abaixar a cabeça e encobrir a cicatriz com o cabelo, na loucura do dia ela esqueceu
de cobri-la com maquiagem. — Onde acharam essa, no circo?
Bárbara perde o controle e se levanta puxando sua mão com força o suficiente para fazê-la
cambalear para trás, Malibu está a ponto de lhe virar um tapa na cara, mas meu grito e minha raiva
congela as duas, porque elas sabem que agora um jogador mais forte acabou de entrar no jogo.
— Pra fora da minha casa, vagabunda! — berro andando até ela e agarrando seu braço sem
fazer questão de ser gentil.
— Me solta, você está me machucando — pede fazendo beicinho, olhando para Gustavo, que se
levanta e tenta se recompor vindo em minha direção, não espero por ele. Saio pela porta arrastando a
garota que vai tropeçando nos saltos altos ao meu lado. Chego à porta da rua e abro o portão
jogando-a na calçada, que é onde o lixo deve ficar.
— Monstro, não! — implora Gustavo dividido atrás de mim, me volto para ele e passo os olhos
por todos que saíram porta afora, estão todos ali. Ian assente pra mim, Bernardo parece consternado
e surpreso, Bárbara e Malibu sorriem e Anna não está em lugar nenhum, preciso dela porque sei que
ela precisa de mim agora.
— Se você não gostou, pode sair pela mesma porta. O que você tem na sua cabeça? Essa garota
é do mal, tentou foder a Bárbara, você está trocando sua família por uma vadia que vale menos do
que os sapatos que estou usando.
— Quem é você pra dizer alguma coisa? — pergunta se irritando e deixando o medo da nossa
rejeição de lado. — Quando foi que você gostou de alguém pra entender exatamente o que estou
sentindo? — Assim que ele pergunta um vulto chama a minha atenção e eu direciono meu olhar para a
porta da sala, Anna está escorada no batente tentando enxugar as lágrimas ensandecidamente, ela me
olha e vira a cabeça, como quem diz: “Tudo bem, ela tem razão, sei que sou mesmo tenebrosa”. Não,
ela não é.
— Agora — murmuro passando por ele e chegando a minha mulher em questão de segundos, eu
a tomo nos meus braços e beijo sua boca enroscando minhas mãos em seus cabelos, fazendo questão
de deixar a cicatriz aparente, desgrudando minha boca da dela e beijando a marca em seu rosto com
lentidão. —, agora eu gosto de alguém. — Viro o rosto ainda sem soltá-la e olho para meu irmão. —
Um alguém que vale a pena, diferente de você — dito isso, agarro a mão de Anna e entro com ela em
casa deixando muitos olhos arregalados e bocas abertas atrás de nós.
Ninguém mexe com a minha garota sem nome, assustada e cheia de traumas, ela é só minha e de
mais ninguém. Eu vou salvá-la e me apaixonar por ela e finalmente vou aprender a amar, porque eu
sei que, se tem alguém que pode me ensinar, esse alguém é ela.
Fim da linha

“Fim? A jornada não acaba aqui, a morte é apenas o último caminho que todos temos que tomar.”
(O Senhor dos Anéis)

Anna

Augusto se senta no sofá e me puxa para seu colo de forma rude. Ele não fala, apenas aperta
minha cintura com raiva me impedindo de sair de seu abraço. Ele não precisa se preocupar, não vou
a lugar nenhum sem ele. Quem sou eu para reclamar, depois do que ele fez? É uma pena que eu tenha
deixado de acreditar há muito tempo em finais felizes.
— Ele escolheu ela? — pergunta para ninguém em especial assim que todos voltam para dentro
de casa com olhares enraivecidos.
— Vou matar ele, eu juro que eu vou — ameaça Bárbara esfregando o rosto nas mãos com força.
— Alguém já pensou que ela pode fazer ele feliz? — pergunta Ian se intrometendo. Se olhares
pudessem matar, ele teria sido metralhado por vários pares deles. — Ok, eu também não. Era só para
tirar a dúvida mesmo — diz dando de ombros.
— Vamos nos preocupar com ele em outro momento, estão todos prontos? Os rapazes já estão
em alerta — diz Bernardo praticamente lembrando a todos que o foco mais preocupante é outro,
todos assentem. — Nós vamos com dois carros. Anna e Monstro vão na frente, os outros vão comigo
atrás, assim se vocês forem seguidos eu vou perceber.
— Você tá levando munição? — pergunta Bárbara em um rompante. — Porque se tiver muitas
eu gostaria de uma bala. Só uma. Pode encarar como presente de aniversário adiantado.
— Até quando você vai remoer esse assunto? — pergunta Bernardo sem paciência.
— Mais tempo do que vamos suportar — murmura Augusto atrás de mim.
— Anna, Nicholas vai estar mais seguro comigo, tudo bem pra você? — Assinto
fervorosamente.
— Então vamos, andem logo — diz fazendo um aceno para que eu e Augusto nos apressemos,
me levanto de seu colo e me surpreendo quando ele pega minha mão fazendo o mesmo. Não nos
despedimos de ninguém, apenas caminhamos até o carro. Ele me conduz até a porta do passageiro e a
abre para mim, faço menção de entrar, mas ele me puxa pousando as mãos em meu rosto.
— Vai dar tudo certo — promete olhando dentro dos meus olhos. Não tenho uma resposta para
lhe dar, não quero mentir para ele, então eu o beijo demoradamente nos lábios e me afasto entrando
no carro e olhando para frente para que ele não veja a dúvida em meu olhar. Ligo o rádio antes que
ele dê a volta no veículo e aumento o volume para me precaver de ter que enfrentar uma conversa.
Mas não tenho muito sucesso, primeiro ele me olha de rabo de olho, depois suspira, por fim ele
desliga a música.
— Acho que chegou o momento de você me contar algumas coisas, não acha?
— Não, eu não acho — digo severamente me voltando para ele, me sento de lado no banco e
encaro seu rosto endurecer e ele respirar fundo mais uma vez.
— Anna, temos o direito de saber com quem estamos lidando. Seria muito mais fácil se você
nos desse um nome, Bernardo poderia... — Eu o corto antes que termine de falar.
— Não, ele não poderia. — Ele não ia querer se envolver.
— Por quê? — Ele se vira para mim ao desviar de um motociclista. — Só me diz por que você
esconde tudo?
— Porque é mais seguro assim — respondo me voltando para frente outra vez.
— Mais seguro pra quem? — Para todos seria a resposta correta. Eles estão infinitamente mais
seguros no escuro, mas lhe dizer isso só geraria mais perguntas, por isso volto a ligar o rádio e
encosto o rosto no vidro gelado, me recusando a continuar a conversa. Ele bate os punhos no volante
uma vez, mas cala a boca.
Augusto se embrenha mais e mais em estradinhas estreitas, não ajuda o fato de ter um carro nos
seguindo de longe, embora eu saiba que é apenas Bernardo e o resto da família não consigo deixar de
me sentir sufocada. Meia hora depois tudo que consigo enxergar pelas janelas é mato e terra e
começo a ficar mais preocupada do que já estava. Não tem para onde correr e duvido que sozinha eu
saiba voltar para a estrada principal.
Paramos o carro em frente a uma porteira.
— É melhor abandonarmos o carro aqui — Ele se inclina e olha para o céu pelo para-brisa
franzindo os olhos em reprovação. —, para o caso de realmente chover.
— Está com medo de sujar o carro? — pergunto ultrajada, pelo menos ele tem a decência de
parecer culpado.
— Não vou correr o risco de atolar os pneus no barro vermelho — diz abrindo a porta e
pulando para fora no exato instante em que alguns pingos começam a cair do céu. Ele se abaixa e me
olha com as sobrancelhas erguidas como se dissesse “Viu? Eu disse!”, não me controlo e reviro os
olhos descendo também. Dou a volta e encosto-me ao capô enquanto esperamos que Bernardo nos
alcance, Augusto olha feio, mas decido ignorá-lo. A obsessão com esse carro passa de todos os
limites, quem dera se ele gostasse de mim o tanto que gosta dele.
— Por que vocês não entraram? — pergunta Malibu quando o carro em que eles vieram para ao
nosso lado.
— O carro do Augusto não é resistente a lama — provoco sem conseguir me controlar.
— Nem aos riscos feitos pelos botões dos seus jeans — murmura baixinho caminhando até a
porteira e a abrindo para que sua família entre. Eu o sigo e caminhamos lado a lado por alguns
metros, quando eu ergo os olhos e olho para frente vejo o novo esconderijo.
Uma singela cabana de verão.
Uma hora depois estávamos todos instalados. A cabana embora parecesse pequena contava com
uma suíte e mais dois quartos extras, que foram divididos por casais, uma cozinha, um banheiro e
uma sala. A mobília era rústica e não havia nenhum objeto de coração, deveria ser no mínimo
aconchegante e acolhedor, mas pra mim realmente se parecia com um esconderijo: frio, úmido e
escuro.
Todos tentam se distrair como podem enquanto a tarde discorre lentamente e a noite cai, eles
conversam, riem, brincam e parecem até felizes. Pareciam terem se esquecido do real motivo de
termos feito com que eles fizessem as malas e saíssem de casa. Já eu? Bom, eu não estava de férias,
permaneci o tempo todo sentada a uma poltrona de madeira na sala olhando pela janela. Não tirei os
olhos da porteira um minuto sequer desde que chegamos.
Não me distraí, não me descuidei e nem falhei, então assim que dois faróis apareceram no
horizonte eu os vi de imediato e soube.
Soube que iríamos morrer.
Me levantei em um rompante e joguei as mãos para frente, apoiando as duas palmas no vidro
gelado tentando enxergar com nitidez através da chuva torrencial que lavava o mundo do lado de
fora. O carro parou ao lado do de Augusto, ninguém saiu de dentro dele, mas os faróis não foram
desligados.
Estávamos sendo observados.
Girei rapidamente com um grito entalado na garganta, uma das mãos voando instintivamente
para o pescoço, onde não havia mais nada há muito tempo, tentando de todas as formas possíveis
respirar calmamente para conseguir avisar aos outros. Mas, de repente, a casa ficou agitada e várias
coisas aconteceram ao mesmo tempo.
— Fodeu, Bernardo ficou preso no porão — murmura Augusto entrando na sala com o suor
escorrendo da testa. —, eu nem sabia que tinha um porão nessa merda.
— Como assim, ele ficou preso? — pergunta Vivian se levantando do sofá com agilidade.
Assim que se põe de pé suas mãos voam para a barriga em um movimento involuntário e um lampejo
de medo passa por seus olhos no mesmo instante em que sua boca se franze de dor.
Bárbara está lendo uma revista que trouxe consigo calmamente no sofá oposto e não percebe o
desconforto da amiga, muito menos parece preocupada com o fato de Bernardo ter ficado preso em
alguma parte desconhecida da casa. Augusto também não nota, já que responde sua pergunta
calmamente.
— Eu e Ian queríamos zoar com a cara dele e fechamos a porta para assustá-lo — Ele realmente
parece estar se divertindo com isso, quantos anos ele tem, dois? —, o problema é que a porta agora
não abre, emperrou.
— Malibu — finalmente encontro minha voz quando ela dobra o corpo e arfa. —, você está
bem?
— O que foi? — pergunta Ian da porta da sala, ele olha para a irmã não mais do que dois
segundos e corre até ela com pressa, pousando uma das mãos em suas costas e afastando os cabelos
do seu rosto com a outra. — Vivian, fala comigo.
Ela não precisa falar nada, ela apenas olha para baixo no exato instante em que uma torrente de
água sai do meio de suas pernas e lava o chão de madeira. Seu olhar assustado e a mão que voa para
trás agarrando o braço do irmão dizem tudo.
— Ela entrou em trabalho de parto — alerta Bárbara depois de levantar os olhos da revista
rapidamente, para os dois brutamontes que parecem não entender, ou melhor, querer entender, a
situação e permanecem olhando para a água no chão.
— Porra! — Malibu grita se curvando mais, levando o braço de Ian junto, dobrando-o em dois.
— Porra, porra, porra, sou eu quem digo. Que porra, isso dói — lamenta puxando o braço de
volta. Ela se vira para ele com raiva no olhar, respirando com dificuldade e não se levanta, não deve
ter forças para isso, apenas permanece com as duas mãos apoiadas nos joelhos.
— Eu que o diga, isso dói. — Ela range os dentes e franze o rosto. — Vai soltar meu marido,
Ian, vai AGORA!
É mais ou menos aí, no meio do caos, que eu encontro minha voz.
— Ele está aqui — murmuro para ninguém em especial e todos me encaram de volta.
— Quem? — pergunta Vivian ofegante se sentando ao lado de Bárbara que toma suas mãos nas
suas de forma protetora.
— Amiga, o sofá... — diz fazendo careta.
— Que se foda a porra do sofá! — exclama à beira das lágrimas. — Eu quero uma peridural,
JÁ! — grita se contorcendo novamente.
— Gente, ele está aqui! — grito por cima de sua dor, novamente todos me olham, mas estão tão
preocupados com Malibu que demoram até entenderem o que quero de dizer. — Tem um carro do
lado de fora, alguém está nos observando de dentro dele.
Em um pulo Bárbara larga Vivian e se aproxima de mim na janela, ela encara o carro e se volta
para mim boquiaberta depois correm em direção a Ian que já tem os braços estendidos para recebê-
la. Eu realmente não sei quem está mais apavorado. Vivian passa a chorar baixinho, se é de dor ou
medo, não sei, provavelmente os dois. Ian abraça a esposa e olha para a irmã com preocupação e
pena, já Augusto, bom ele ainda olha para a água no chão com constrangimento e pavor.
Preciso que ele acorde e é exatamente isso que Bárbara faz acontecer.
— O que você tinha na cabeça, seu animal? — grita recuperando a “compostura” e se
desprendendo de Ian para cutucar o peito do irmão com o indicador. — Por que foi justo trazer pra
casa o bichinho de estimação de um maluco, porra? — No instante em que ele acha que estou sendo
ofendida, seu olhar sobe e a encara com raiva e repulsa.
— Tenho que lembrá-la que eu ex, além de ter te trocado por sua melhor amiga no altar, tentou te
matar? — pergunta sarcasticamente. Ian ameaça abrir a boca, mas ela é rápida na resposta.
— Exato, ele tentou me matar, não tentou matar todo mundo! — Ele a olha feio e faz um meneio
me indicando. Ela se vira e me encara. — Sem ofensas, Anna, mas já tive minha quota de malucos
por uma vida inteira.
— Não ofendeu. — Eu sabia exatamente como ela se sentia.
— Merda, vamos morrer, vamos todos morrer, não vamos? — pergunta me olhando. Ela não
parece mais brava ou triste, só consternada. Dou de ombros, como eu lhe responderia a verdade? —
Sabe, deveria ter uma regra: um maluco por vida vivida. Eu deveria estar a salvo até a próxima
encarnação.
— Ninguém vai morrer, amor — diz Ian puxando-a pelo braço. Ele segura em seu rosto com as
mãos espalmadas, uma em cada lado e a obriga a olhá-lo nos olhos. — Entendeu? Ninguém vai
morrer, eu vou te proteger. — Bem que eu queria que ele pudesse.
— Fale por você! — berra Vivian. Havíamos nos esquecido dela. — Porque eu vou sim morrer
se alguém não enfiar uma agulha na minha espinha e obrigar esse moleque a sair de mim.
— O que a dor não faz, não é? Tira até a Barbie do salto — murmura Augusto encontrando
motivos para fazer uma piada sem graça.
— Você acha isso engraçado, seu filho da puta? — pergunta Babi a ponto de voar em seu
pescoço. Ian aperta mais os braços ao redor dela enquanto suas bochechas ficam cada vez mais
vermelhas. — Me diz porque você achou que era uma boa ideia prender o único cara que não só tem
uma arma, mas também o único que sabe usá-la em uma porra de porão?
— Talvez não seja ele, talvez seja um dos vizinhos — defende-se caminhando até a janela e
olhando para fora. Acho que só agora ele está finalmente percebendo a gravidade da situação isso se
formos julgar pela veia pulsando em seu pescoço e as mãos que se fecham com força.
— Vizinho? A gente está no meio do nada, sua anta!
— Ian, vamos arrebentar aquela porta — diz se virando para o amigo com um olhar estranho
que eu nunca havia visto antes. Mas antes que eu possa descobrir que olhar é esse, ou até mesmo que
Ian possa responder, ele caminha até ele e o arrasta pela camiseta, sumindo de vista.
Faço o mesmo. Deixo Bárbara cuidando de uma Vivian mal-humorada e amarga e vou até a
cozinha. Não quero olhá-las agora. Tão íntimas e unidas. Não quero pensar que uma criança está a
ponto de vir ao mundo a menos de quinhentos metros do homem mais sádico e maléfico que existe no
mundo. Péssima hora para escolher nascer.
Eu sinto constantemente que minha vida é um labirinto sem saída. Não importa para onde eu
corra, sempre acabo parando no mesmo lugar. No ponto de partida. Mas dessa vez é diferente.
Não posso arrumar as malas, pagar por documentos falsos e começar uma nova vida com um
novo nome em outro lugar mentindo para meu filho que vamos embarcar em mais uma aventura
porque, dessa vez, não estou em um esconderijo, não estou realmente fugindo ou me anulando, não
mais.
Pela primeira vez estou vivendo e isso me faz ter vontade de lutar.
Eu vivo sobre os braços de um homem bom que me aperta e me protege. Eu vivo debaixo de seu
olhar acusador, transparente e encantado. Eu vivo nessa casa, no meio de uma família que me
abraçou como se eu tivesse valor. Eu vivo de amor, como eu não vivia desde que era uma garotinha.
Eu gosto de viver assim. Mas essa vida era ilusão, ela nunca poderia ser minha. Embora, dessa
vez, eu não estivesse sozinha, embora tivessem outras pessoas procurando por uma brecha nas cercas
do labirinto correndo ao meu lado, eu sabia que não podíamos vencer. Éramos muitos, éramos uma
família e deveríamos ter a chance de triunfar, afinal nas histórias os heróis sempre vencem, não é?
Mas a verdade é que iríamos todos morrer.
A vida real era dura, sólida e egoísta. Eu já deveria saber disso àquela altura.
Me escoro na pia da cozinha e olho para o lado de fora avidamente, pulando a cada trovão que
explode no céu. A chuva torrencial borra minha visão ao encharcar o mundo e eu choro em silêncio
para não ser ouvida. Passo as mãos pelo rosto para espantar as lágrimas e tento aguçar a visão, o
carro preto sem placa continua no mesmo lugar, mas vejo ele em lugar algum. O que não quer dizer
que ele não esteja lá fora se preparando para dar o bote. Eu sei que está, assim como sei que ele é
paciente e nunca perde.
O som do celular de Augusto ao longe chama minha atenção, mas não me movo. A curiosidade é
prato cheio para os distraídos, por isso continuo focada em tentar distinguir nem que seja um vulto
perto da cabana, pelo menos até que ele chama meu nome. Me desprendo do aperto soltando o aço
inoxidável com dificuldade e temor e caminho até a sala. Olho para ele, seu rosto está pálido e o
aparelho está sendo estendido em minha direção de maneira impaciente, como se fosse uma péssima
hora para receber uma ligação.
— Tem uma mulher querendo falar com você — murmura apertando mais o telefone, assim que
minhas mãos pousam sobre o aparelho e ameaçam tomá-lo. Pelo gesto sei que ele não quer que eu
atenda, mas também sei que ele não vê outra opção. — Quem é? — pergunta curiosamente, dou de
ombros não conseguindo encontrar ninguém que me ligaria, muito menos em seu telefone.
— Oi — murmuro cautelosamente. Quando escuto a respiração do outro lado da linha sinto
minha garganta se fechar, quando sua voz ribomba do outro lado da linha tenho que fazer mais força
para conseguir que o ar entre em meus pulmões. Me afasto alguns passos e dou as costas para os
olhos ansiosos que me perseguem. ERA ELE.
— Olá, menina tola, há quanto tempo — me saúda de maneira agradável, sei que ele tem um
sorriso no rosto, assim como sei de toda a maldade com a qual ele é feito. Não lhe respondo, eu não
conseguiria abrir a boca sem deixar que soluços escapassem dela e eu me negava a lhe dar o prazer
de me ver chorar. — Você não parece estar com saudades — finge lamentar. —, o que é uma pena.
— O que... — gaguejo e respiro fundo mordendo o lábios fortemente antes de continuar. — o
que você quer?
— Você — responde sem hesitar. —, pensei que isso já estava claro. Você contou alguma coisa
para alguém, qualquer coisa?
— Não. — Sou firme na resposta, não quero que ele duvide nem por um minuto dela. Eu não
seria irresponsável de contar, porque caso alguém soubesse o que fiz, esse homem morreria ao meu
lado e eu tentaria salvar essas pessoas pelo maior tempo que eu conseguisse.
— Isso é ótimo. Eu quero fazer um trato. — Aguardo por sua proposta de forma ansiosa,
prevendo o pior. — Você vem até mim por vontade própria e eu deixo os outros viverem, inclusive o
garotinho que você protege tanto.
— Ou... — Porque sempre tinha um mas.
— Eu mato todos eles. Todos não. Eu mato o médico na sua frente, vou adorar assistir você se
desesperar enquanto as tripas dele pulam para fora do corpo. Depois eu mato você e o resto da
família. O garotinho eu pego pra mim. — Ele ri fazendo meus ossos gelarem. Novamente não lhe
respondo, ao invés disso busco os olhos do Augusto, ele ainda está no mesmo lugar, no meio da sala,
de braços cruzados e olhos preocupados. — Você tem meia hora para caminhar até o carro do
médico com as chaves para me encontrar, se você não aparecer vou saber que escolheu a segunda
opção. — Ele encerra a ligação depois do aviso deixando meu coração na mão e um buraco enorme
dentro do peito onde ele deveria estar batendo.
Abaixo o telefone olhando para todos os rostos que me cercam, um a um. Eu só vejo amor e
cuidado. Vejo pessoas que me acolheram sem me conhecerem e sem me fazerem perguntas. Vejo
proteção, carinho e companheirismo. Eu vejo tudo o que eu sempre quis. Me volto novamente para o
homem que me fez sonhar e desejar ardentemente por um futuro sem medo, ele é tão lindo e estica
suas mãos em minha direção, me convidando a me esconder em seus braços fortes e impetuosos.
Quando caminho até ele e me jogo em seus braços sentindo suas mãos me apertarem eu sei,
simplesmente sei que não quero salvar apenas meu filho.
Eu daria minha vida por eles, todos eles. Principalmente pela Fera que sequestrou meu coração,
um coração que eu não sinto mais como se estivesse em minhas mãos e sim no peito dele, no peito do
homem que não sabe amar. Ele pode ficar com ele, eu não preciso mais.
Estou indo embora lhe deixando todo o meu amor.
Balbucio uma mentira. Lhes digo que era apenas uma vendedora de uma das lojas do shopping
em que fizemos compras me avisando de uma promoção. Ninguém suspeita de nada, mas não lhes dou
tempo de me fazerem nenhuma pergunta. Entrego o telefone para ele e saio pisando duro informando
que vou ver como Nicholas está. Subo as escadas e me enfraqueço quando pouso a mão na maçaneta.
Respiro fundo algumas vezes antes de criar coragem para virá-la. Meu filho dorme tranquilamente na
cama agarrado a um dos travesseiros. Me deito ao seu lado e passo as mãos por seus cabelos, beijo
sua testa e sussurro algumas palavras em seu ouvido baixinho para que não acorde.
— Eu amo você vida, sempre vou amar. Mas agora a mamãe tem que te salvar. Salvar todos
eles. — Saio pela porta na ponta dos pés e volto sorrateiramente para a cozinha, vasculho minha
bolsa em busca de papel e caneta e quando os encontro rabisco rapidamente um bilhete. Nunca na
minha vida senti tanta dor e olha que eu já senti muita, de diversas formas e em diversos lugares. Mas
essa é a pior. É um misto de derrota e saudade que tem o poder de me aniquilar por dentro.
Depois eu saio pela porta para encontrar o meu destino, caminhando lentamente para o fim com
dois rostos sobrepostos por trás dos meus olhos que pingam sangue. Um monstro e uma criança
inocente que em pouco tempo terão somente um ao outro.
O anjo dela

“E a flor conhece o beija-flor


e ele lhe apresenta o amor
e diz que o frio é uma fase ruim.
Que ela era a flor mais linda do jardim
e a única que suportou.
Merece conhecer o amor”
(Flor e o Beija-flor, Henrique e Juliano)

Augusto

— Você não vai arrombar minha porta, sabe quanto ela custa? — pergunta Bernardo do outro
lado, ultrajado pela minha sugestão.
— Fala pra ele — ordena Ian cruzando os braços. — Fala logo — repete quando o olho com
dúvida.
— Me falar o quê? — pergunta perdendo o pouco de paciência que havia restado desde que
ficou preso com os ratos em um porão imundo que não era limpo desde a Segunda Guerra Mundial.
— Melhor falar logo, tem uma aranha me olhando feio aqui dentro.
— O cara está lá fora — estranhamente Ian decide que essa seria a notícia mais fácil por isso a
contou primeiro.
— Porra. — Escutamos ele se jogar contra a porta, é inútil. Ele ia acabar quebrando um braço e
a geringonça não ia nem trepidar. — Como ele conseguiu? Vocês têm certeza? — berra como se não
estivéssemos a uma droga de porta (nota: porta muito resistente) de distância.
— Anna acha que sim — lamenta Ian. — Só pode ser, o carro está parado na porteira a alguns
minutos, ela está observando, até agora ninguém saiu de dentro dele. — Bernardo não responde,
apenas berra um palavrão atrás do outro. Como eu já sei todos de cor e ele não parece ter
criatividade para me ensinar um novo, jogo a bomba nele de cara.
— Sua mulher entrou em trabalho de parto. Ou você deixa eu arrombar a porta ou o moleque vai
nascer naquele sofá encardido. — Não sabemos se ele ouviu, porque ele fica quase um minuto inteiro
em silêncio que passamos trocando olhares confusos.
— Você ouviu? — pergunta Ian de maneira impaciente.
— Se afastem da porta. — Ele parece calmo e isso é preocupante. Não penso duas vezes e pulo
para longe agarrando Ian novamente pela camiseta e o trazendo comigo. Não damos mais do que
alguns passos quando um estouro faz Ian dar um pulo de susto e quase me faz fazer xixi nas calças.
Mas que porra!
Novamente outro estouro preenche o silêncio, mas por esse já esperávamos, Bernardo chuta a
porta passando por ela na velocidade da luz — depois de atirar na maçaneta — sem nem ao menos
olhar em nossa direção. Ele corre para a sala e praticamente se joga em cima de Vivian puxando seu
rosto em sua direção. Se ele achou que seria recebido com um sorriso por uma mulher amável estava
redondamente enganado. Ela agarra seu queixo e berra em sua cara com ferocidade.
— Você é o culpado! — Ele franze o rosto de dor, mas não se move. — Tudo isso é culpa sua!
Você deveria estar parindo.
— Calma, baby — fala de forma estranha já que não consegue abrir a boca direito.
— Calma? — pergunta rindo diabolicamente. — Vou ficar calma quando alguém disser a
palavra cesariana e estiver com um bisturi na mão e sabe o que eu vou fazer depois que seu filho sair
das minhas entranhas? — Ele nega com a cabeça e com os olhos arregalados. — Pegar a sua arma
emprestada e dar um tiro no seu brinquedinho. — Ele geme com a dor imaginária da cena que, com
certeza, está se desenrolando na sua mente. — Pra nunca mais correr o risco de passar POR ISSO,
PORRA!
— Deus, até eu tô com medo dela — murmura Babi se levantando do sofá antes que sobre para
ela. — E pensar que ela era tão doce e adorável.
— Bárbara Cristina, volta aqui e segura na minha mão, senão eu juro que não respondo por
mim. — Não precisa falar duas vezes. Minha irmã caminha até ela rapidamente e estende a mão
fazendo uma careta de dor antecipada.
— Onde está a Anna? — pergunta Bernardo ainda com a voz anasalada, já que Vivian não larga
seu rosto. Me viro trezentos e oitenta graus e não a vejo em lugar nenhum. Subo as escadas correndo
e entro no quarto que o menino dorme sem me preocupar em ser silencioso, ele se remexe e se vira
na cama suspirando. Ela não está lá. Desço os degraus às pressas e vou até a cozinha.
Quando vejo o bilhete em cima da mesa, meu mundo desmorona. Porque mesmo que seja
inconscientemente eu sei o que ele diz. Eu sei que ele diz adeus. Fico olhando para ele por um tempo
sem coragem de ler as palavras e constatar que acertei em cheio na suposição. Por que agora? É
quando me lembro do telefonema... Será que... Será que ela me abandonou por ele? E o menino que
dormia no andar de cima, será que ela o abandonara também? Abandono a covardia e avanço em
cima do papel o desdobrando com urgência e leio as palavras.
Suas últimas palavras.

“Eu queria lhe dizer tantas coisas, mas agora elas parecem tão sem importância. Tudo o que
você precisa saber é que eu amo você de todo meu coração e serei eternamente grata por você ter
permitido que eu morasse dentro de você por algum tempo, meu lar.
Você sempre será o meu lar.
Não se atormente por nunca ter me dado uma prova de amor, o sentimento esteve o tempo
todo em seu olhar e, acima de tudo, em seu medo. Eu sei, eu vi. Conheço o medo como ninguém e
se tem algo que eu aprendi é que ele revela a verdade.
Cuide da minha vida, está bem? Agora você é tudo o que ele tem. Prometa-me que será um lar
para ele quando eu partir. Ele precisa desesperadamente de um lar, Augusto.
Mas agora temos que nos despedir. É o fim, anjo, não tem mais volta.
Com amor, a garota sem nome.”

— NÃO. NÃO. NÃO. — Escuto alguém gritar. Somente quando Bernardo me dá um tapa na
cara fazendo com que eu acorde e erga a mãos instintivamente para cobrir o rosto dolorido descubro
que sou eu. Ele abre as pernas e se inclina quando o olho esperando que eu revide, e se surpreende
quando faço o oposto me jogando sobre ele.
— O que é isso? — pergunta atônito.
— Ele desenvolveu essa mania de abraçar machos agora, sabe Deus porque — murmura Ian,
rindo.
Sou invadido por uma desolação tão grande que me agarro mais a ele para não cair. Sinto as
lágrimas começando a se formar atrás dos meus olhos e tenho um lampejo de lucidez. Preciso achá-
la. Solto Bernardo e saio correndo até a sala, mas antes que eu chegue a porta ele se coloca à minha
frente.
— O que foi, Monstro? — Agora ele parece verdadeiramente preocupado colocando a mão
sobre a arma presa à cintura sem nem mesmo perceber o gesto. O faro dele era tão bom que chegava
até a me surpreender.
— Ele pegou a Anna — sussurro inconsolável tentando transpassá-lo para passar pela porta,
mas ele me impede segurando meus ombros com firmeza.
— Me explica isso — ordena olhando nos meus olhos com firmeza. Eu me afasto e lhe entrego o
bilhete. Quando ele abaixa o rosto para ler aproveito sua distração e saio pela porta. Corro pelo
quintal até a porteira e salto a madeira com um pulo tateando os bolsos em busca das chaves do
carro. Me desespero quando não as encontro.
Me viro para trás e vejo Ian e Bernardo correndo em minha direção enquanto Bárbara leva
Malibu para o outro carro amparando-a, com Nicholas dormindo profundamente em seu colo,
provavelmente para levá-la até o hospital agora que é seguro sair. Minha vontade é refazer o caminho
até eles e abraçar o garoto, mas vai ter muito tempo pra isso. Porque independente do que aconteça
com a mãe dele, agora ele é meu.
Sempre foi, desde o primeiro instante constato de repente.
— Não acho as chaves, ela deve ter pego — grito antes que eles me alcancem. Ian derrapa ao
meu lado e xinga alto cruzando as mãos atrás da nuca, mas Bernardo não se abate abrindo a porta do
motorista do meu carro com violência e se agachando para mexer em alguma coisa atrás do volante.
Segundos depois para minha surpresa o motor ruge e se levanta com um misto de orgulho, eficiência
e preocupação no olhar. Antes que eu possa esboçar qualquer reação, Ian corre até o veículo e entra
na parte traseira e Bárbara encosta o carro de Bernardo ao nosso lado, ele caminha até o vidro
traseiro e enfia a cabeça por ele.
— Vou chegar a tempo de ver o nosso filho nascer, eu prometo! — Ele beija seus cabelos
suados e ela sorri fracamente.
— É bom mesmo — murmura fechando os olhos, aproveitando o espaço entre uma e outra
contração. — Agora vai salvar a Anna e traga ela de volta.
— Não morre, senão eu te mato! — berra minha irmã para Ian agarrando o volante com força o
suficiente para os nós de seus dedos ficarem brancos, ela não solta nem para enxugar o rosto coberto
de lágrimas.
— Eu também amo você, garota do rio — diz olhando-a apaixonadamente. Ela funga e assente.
— Eu te amo, garoto dos olhos azuis. — Ela se volta pra mim. — Cuida dele, Monstro? —
implora soltando um soluço, fazendo com que eu queria abraçá-la.
— Sempre. — Eu sempre cuidaria deles. Não perco mais tempo, encurto a distância que me
separa do volante em segundos berrando para Bernardo entrar logo no carro, o que ele faz. Passo na
frente das meninas pisando fundo no acelerador, derrapando a cada poucos metros me afastando o
mais rápido que consigo. Bernardo se inclina para fora da janela com uma pistola nas mãos,
concentrado e com os olhos aguçadosà a procura de qualquer indício. Ele vai berrando as
coordenadas se baseando nas marcas de pneus na terra que parecem mais recentes enquanto Ian
murmura alguma coisa inconcebível no banco de trás.
— O que você está fazendo? — pergunto olhando pelo retrovisor com curiosidade e pouca
paciência para ter algo em que pensar ao invés de ficar maluco me torturando com uma cena mais
macabra do que outra. Anna se machucava em todas elas.
— Rezando — murmura sem abrir os olhos. — Eu não tenho uma arma e não estou no volante,
isso é tudo o que eu posso fazer por você agora.
Estranhamente suas palavras são o suficiente para fazerem com que as lágrimas que eu estava
segurando de todas as formas possíveis desde que vi o bilhete em cima da mesa venham à tona.
— Pare de chorar, seja macho, porra, e vê se você se concentra — briga Bernardo me olhando
de rabo de olho e voltando a se concentrar no chão e na arma em suas mãos. — Ela precisa de você
agora, não é o momento para ser egoísta.
— Talvez seja o momento para ser um pouco solidário, ele não está acostumado a sentir nada do
que está sentindo. Nunca perdeu um amor antes... — Ian se cala percebendo que não está ajudando
embora eu saiba que essa era sua intenção.
Faço o que Bernardo pede, enxugo o rosto com as costas de uma das mãos e seguro o volante
com a outra acelerando mais, fazendo como Ian, rezando. Porque talvez essa seja a única maneira de
conseguir um milagre.
— Ali! — berra Ian, vendo o carro antes de nós. Um carro preto sem placa está estacionado de
qualquer jeito no acostamento em cima da vegetação da estrada de terra deserta.
Vou perdê-la. Esse é o único pensamento que permeia minha mente enquanto abro a porta do
carro e saio correndo pela estada sem nem ao menos ter desligado o motor. Tenho a sensação de
poder sentir seu medo correndo pelas minhas veias a metros de distância, algo sobrenatural e
indefinido, ou talvez seja o meu próprio medo, eu não sei. A única coisa que eu sei é que até o ar tem
aroma de tempo perdido.
Eu não vou chegar a tempo e vou perdê-la.
Posso escutar os passos de Bernardo no asfalto atrás de mim, mas não paro ou diminuo o ritmo
esperando por ele, nem mesmo quando ele grita meu nome repetidas vezes. Pelo contrário, a cada
passo seu que escuto me esforço e corro mais rápido, com mais ânsia e vontade. Seus passos são o
que me movem e me impulsionam a correr contra o tempo.
Eles são a trilha sonora da minha dor.
Me aproximo do carro, me desviando dele e entro no matagal. Empurro a vegetação com fúria
porque no momento ela é tudo o que me separa de Anna. Quando a clareira surge à minha frente eu a
vejo, ajoelhada.
Ela está de costas com as mãos presas para trás com uma arma apontada para sua cabeça, seus
ombros tremem e eu sei que ela chora, mas permanece em silêncio aceitando de bom grado o castigo
que lhe impõem.
Quero chorar, gritar, me virar e não olhar. Quero pedir para que ele se afaste, para que não atire,
para lhe poupar. Quero apagar ela da minha memória, deixar de amá-la, não vê-la morrer. Eu quero
mais uma vez salvá-la.
Meu medo é o ar que respiro, é a perna que eu jogo uma em frente à outra, é as braçadas que eu
dou no vento ao me movimentar, é o sentimento que me rege, me domina e me cega. Não tenho medo
da arma, da dor ou da morte, meu único medo é perdê-la.
Escuto a arma sendo engatilhada, estou perto, tão perto. Eu poderia agarrá-lo, jogá-lo no chão,
matá-lo. Mas e se eu não for rápido o suficiente e ela se machucar? Fecho os olhos, não quero ver
seu sangue jorrar, não quero vê-la cair sem vida, não quero uma existência onde ela não exista.
Não penso, apenas reajo. A decisão já estava tomada no dia em que ela disse que eu tinha asas,
eu era seu anjo. Por isso eu me jogo na frente da bala por ela lhe dando a prova de amor que ela
tanto queria.
Em um primeiro momento, eu não sinto dor alguma, apenas uma pressão no peito que faz eu me
desestabilizar e cambalear para trás alguns passos. Não vejo nada ao redor, apenas escuto. Um
estampido alto e gritos, muitos gritos. Sei que alguns são dela e suspiro aliviado por saber que está
bem o suficiente para gritar meu nome, mas a sensação de alívio dura pouco quando meu peito arde
como se estivesse em chamas e eu percebo que algo está errado.
Tudo parece acontecer em câmera lenta dali em diante.
Caio de joelhos no chão abaixando o rosto para encontrar a frente da minha camiseta sendo
encharcada por um líquido vermelho, minhas mãos são instintivamente colocadas em cima da
mancha, eu as afasto e as olho com pavor e incredulidade. Estão viscosas, manchadas com meu
sangue.
Meu subconsciente sabe exatamente o que aconteceu, mas decido não me preocupar com isso,
no momento tudo o que importa é a mulher que derrapa ao se jogar ao meu lado em meio a grama
afundando os joelhos na terra e as mãos onde as minhas pousavam, assim como eu encharcando-as de
sangue. Ela empurra meu peito tentando estancar o sangramento e chora abertamente clamando por
socorro de maneira desesperada.
Seu rosto está desfocado, mas sei que é ela por causa da voz e dos cabelos negros como a noite
que voam ao meu redor conforme ela cola seu rosto ao meu implorando para que eu resista. É quando
eu as vejo. O par de asas douradas que parecem sair de suas costas. Elas batem ligeiramente quando
ela se mexe me deixando fascinado e entorpecido.
Anjo.
— Asas... — murmuro me afogando no meu próprio sangue. — você tem asas. — Apago.
O amor custa caro, eu não queria te ver pagar o preço

“Como podemos não falar sobre família quando família é tudo que temos? Tudo que passei você
estava lá ao meu lado e agora você estará comigo para um último passeio. Tem sido um longo dia
sem você meu amigo e lhe direi tudo quando vê-lo novamente.”
(Se you again, Wiz Khalifa)

Ian

Chego ao matagal meio segundo após Bernardo, correndo desesperadamente para alcançá-los,
afasto com dificuldade o mato rançoso e molhado de chuva que teima em grudar em minhas roupas e
me distraio olhando para baixo quando meu pé fica preso em um galho pouco antes de chegar a
clareira, eu o chuto com força e me livro dele abrindo o restante do caminho a braçadas largas,
movido pelo medo.
Registro o que acontece com rapidez e incredulidade. Anna de joelhos pronta para ser
executada. Um homem vestido de preto com uma arma apontada para sua cabeça. Augusto correndo
até eles como se não fosse parar.
A sensação de que isso não vai acabar bem me atinge como um soco que tem o poder de
arrancar o ar dos meus pulmões e incapacitar as minhas pernas, como se meu corpo tivesse deixado
de saber como usá-las.
Augusto vai em direção ao homem armado com determinação. Por um momento eu penso que ele
vai se jogar em suas costas e derrubá-lo, mas sem titubear ele se desvia e se vira pulando de lado em
frente a mira.
Um rugido corta o vento e eu fecho os olhos com pesar.
Ele se jogou na frente de uma bala para salvá-la.
Ele vai morrer.
São os únicos pensamentos que tenho, primeiro um depois o outro, depois os dois juntos e não
há mais nada. Não consigo gritar para que pare, já é tarde demais, não consigo mais segurá-lo, já é
tarde demais. Não consigo não pensar o pior, já é tarde demais.
Meu melhor amigo fez algo sem volta, algo que eu não posso consertar. Nem ao menos sei se
consigo salvá-lo. Mas a ânsia de fazê-lo faz com que eu abra os olhos com coragem e bravura pronto
para correr até ele, nem que para isso eu também seja atingido. Jogo meus pés para frente em uma
corrida desengonçada e vacilante mirando as costas de Bernardo como objetivo, mas antes que o
alcance ele para e se vira parcialmente de lado estendendo o braço para frente.
Mais um estampido corta o ar me fazendo arquejar.
Estou tremendo, entorpecido, arrasado.
Tudo aconteceu em questão de segundos, tudo muito rápido. Augusto se sacrificou por Anna, se
manteve de pé por não mais do que um segundo até levar as mãos ao peito e ver o sangue. Nesse
momento Bernardo atira. O homem cai com um baque surdo no chão sem se mover. Anna se vira
assustada e confusa, admira com espanto o corpo do atirador e se atreve a sorrir aliviada. É como se
um peso enorme saísse de suas costas e ela finalmente pudesse respirar outra vez, pelo menos até que
se dê conta do que exatamente aconteceu ao ver o homem que ama sangrando no chão a poucos
passos de distância.
Anna se levanta e se lança sobre ele desesperadamente.
— Socorro — implora aos berros tocando com receio o buraco em seu peito. — Não. Não,
Augusto — Ela segura seu rosto. — Você tem que resistir — soluça alto. — Era para ser eu e não
você, não está certo — urra de dor.
Bernardo larga a arma que cai aos seus pés emitindo um barulho seco e olha para nosso amigo,
não vejo seu rosto, mas sinto sua dor ao longe, ela também é a minha. Ele não consegue se mexer, não
vai até ele, está estagnado. O que só me faz querer correr mais rápido. Não me lamento, não choro,
não grito, terei tempo para isso depois. Me jogo ao lado de Augusto puxando sua camisa, abrindo-a,
fazendo com que chova botões, olho para o ferimento e tento estacar o sangramento com as minhas
mãos de forma prática, porque sei que ele precisa de mim, assim como sei que sou a única pessoa
que pode salvá-lo nesse momento.
— Liga pra emergência, porra. — Me volto para Bernardo que ainda não conseguiu se mexer,
sua expressão é uma mistura de culpa, arrependimento, derrota e medo.
É primeira vez que o vejo com medo, mas não é a primeira vez que eu o sinto.
Só teve uma situação na minha vida em que eu senti tanto medo assim. Um medo avassalador
que retirou todas as minhas forças e me fez cair de joelhos em meio ao sangue. O mesmo sangue, mas
em corpos diferentes. Por um segundo a imagem da minha mulher nua e desacordada no chão de um
banheiro imundo invade a minha mente, mas logo sou assombrado pela cena que se desenrola diante
dos meus olhos, praticamente a mesma. Alguém que eu também amo morrendo diante de mim.
Augusto perdeu a consciência, perdeu a cor, o brilho, sua vida está se esvaindo por entre minhas
mãos na forma do sangue que não consigo conter. Tomo seus sinais vitais, faço os primeiros
socorros, não paro de tentar conter o sangramento.
Não posso parar, não posso perdê-lo.
Quando o socorro chega, eu me afasto para que os paramédicos façam o que tem que fazer e
anuncio que vou com eles na ambulância, o hospital mais próximo é o que trabalhamos. Mais uma
vez estou indo para dentro de uma ambulância que leva alguém amado à beira da morte, a diferença é
que dessa vez eu sinto dentro de mim que não vai dar tempo. Não vamos conseguir.
Eu gostaria de não ter brincado com o destino dele: Monstro. Eu lhe disse tantas vezes que um
dia a vida lhe mostraria a importância que o amor tem, só não imaginei que para que ele realmente
entendesse tivesse que primeiro aprender o que era a dor. Se eu tivesse sequer imaginado que ele se
mataria tão facilmente por esse sentimento, eu mesmo teria posto Anna para fora de sua vida a
pontapés.
Estou sendo duro com ela, sei que estou. Tenho certeza de que não era sua intenção deixar que
ele pagasse o preço que ela devia a quem quer que o atirador fosse, mas ele pagou assim mesmo e eu
tenho o direito de me ressentir por isso. Tenho o direito de ser egoísta e de sofrer nesse momento.
Mas não vou deixar ninguém tomar uma decisão impensada se baseando nessa injustiça.
— Não — alerto Bernardo friamente enquanto a maca é erguida pelos rapazes. Ele estava com
as mãos no cinto, pronto para puxar a algema enquanto olhava para Anna com ódio. Ele se vira para
mim, incrédulo, mas balanço a cabeça negativamente para reafirmar minha ordem. — Ligue para a
família, mande-os para o hospital, minta. Lhes diga que não é grave, mas faça com que eles fiquem a
postos porque o prognóstico não é bom. — Ele assente se emocionando, vira o rosto e respira fundo
engolindo o choro para que eu não veja. — Depois quero que vá ver seu filho nascer. — Meu
conselho é o suficiente para desestabilizá-lo, ele funga e assente, ainda escondendo o rosto de mim.
Bernardo me dá as costas e manda Anna segui-lo de maneira grosseira, mas ela não se move,
duvido até que tenha escutado, ela permanece em pé olhando para o homem na maca como se
estivesse morta por dentro, quando as portas da ambulância são fechadas ela olha para o chão,
enxuga o rosto com brutalidade e caminha até o homem morto na grama logo adiante, lhe chutando
repetidas vezes. Ela só para quando Bernardo agarra seus braços por trás e a arrasta até o carro
enquanto ela se debate e chuta o ar com força.
Tenho pena dela, a garota já perdeu demais.
O trajeto até o hospital é torturante. Muitos gritos. Muita histeria. Muitas baixas. Batimentos
cardíacos fracos, pressão arterial quase inexistente, sangue jorrando. Uma vida se perdendo, alguém
deixando de existir. Alguém sumindo bem debaixo dos meus olhos. Faço de tudo, faço o possível,
não paro de me mover, muito menos de rezar.
Porque agora precisamos desesperadamente de um milagre.
Quando as portas são abertas e minha equipe aparece correndo pela rampa em nossa direção
sinto um misto de alívio e júbilo que não consigo definir. Tem algo nas beiradas dos jalecos voando,
nos olhares preocupados e na capacidade de todos que me faz acreditar que vamos conseguir.
Minha equipe é boa, por isso é minha. Se tem alguém que pode salvá-lo, somos nós.
Repasso informações. Grito ordens. Corro lado a lado da sua maca, com minha mão firmemente
presa a sua. Só me separo dele na entrada da sala de cirurgia, enquanto ele é levado para alguns
exames preliminares, lavo as mãos e os antebraços, espero impacientemente que a enfermeira
designada a seque e me ajude com as luvas, caminho até a porta abaixando a máscara cirúrgica e a
abro com a lateral do corpo. Quando chego próximo à mesa e o olho, meu coração para e minhas
mãos, que até então estavam erguidas, caem rentes as laterais do meu corpo.
Eu entendia muito bem de corações, e o meu naquele momento, mais uma vez, foi partido.
— Sem batimentos cardíacos, doutor — me informa uma residente com os olhos se enchendo de
lágrimas. — Sinto muito.
O peso do amor e do medo

“Você chora como se sua dor fosse sair junto com as lágrimas, mas não sai.”
(Renato Russo)

Anna

Bernardo não me olhou nem uma única vez desde que me enfiou no carro como se eu fosse uma
criminosa. Não o culpo, porque agora eu era. Eu havia matado seu amigo. Havia matado o homem
que eu amava. Não fazia diferença a arma não estar nas minhas mãos ou não ter sido eu a puxar o
gatilho. Ele morreu por minha causa e eu jamais me perdoaria por isso.
Heitor estava morto. Tinha policiais vindo até a cena do crime. Bernardo seria investigado e
talvez até punido. Eu não sabia como essas coisas funcionavam. A única coisa que eu sabia é que
nunca mais precisaria me esconder outra vez. Não precisaria deixar todas as luzes acesas nem as
cortinas fechadas. Não precisaria fugir nem me preocupar em olhar para trás quando andasse na rua.
Eu finalmente poderia viver e nunca quis tanto na minha vida estar morta.
Ele me amava. Saber disso tornava tudo mais difícil. Ele não precisou dizer, ninguém entra na
frente de uma bala por uma pessoa se não a amar. Eu me sentia culpada por ter lhe pedido uma prova,
mesmo que eu nunca pensasse que seria essa. Me arrasava saber que ele achou que tinha a obrigação
de me salvar, as lágrimas não tinham fim.
Eu queria descer do carro, gritar, bater em alguma coisa, abraçar alguém. Mas não fiz nada
disso, continuei sentada, chorando em silêncio ao lado de uma pessoa que assim como eu, me
culpava pelo que havia acontecido.
— Eu queria que você nunca tivesse entrado nas nossas vidas — Bernardo murmura
furiosamente travando o maxilar, quando chegamos à rodovia.
— Eu também — lamento quase inaudivelmente. Também queria nunca ter cruzado o caminho
do Monstro, queria que o destino não houvesse nos unido e, acima de tudo, queria não amá-lo como
amava. Eu não queria perder mais ninguém, não queria que Heitor me tirasse mais ninguém. Mas ele
sempre vencia.
— Eu só não te prendo agora a pedido do Ian — cospe se voltando em minha direção, gravando
o olhar duro no meu. —, mas se o Monstro morrer... — Ele se volta para a estrada e fecha os olhos
demoradamente ao piscar. — Se ele morrer, Anna, eu acabo com a sua vida.
— Não vai precisar se esforçar muito pra isso — respondo me revoltando momentaneamente,
eu também estava sofrendo. — Eu não queria que isso tivesse acontecido...
— Por que não nos contou quem era e do que fugia? Você deixou que eu trouxesse minha família
no meio do nada para ser surpreendida por alguém muito mais inteligente do que pensávamos. Você
nos usou como iscas! — grita batendo no volante com força, fazendo com que eu me encolha.
— Não — respondo debilmente. — Eu fui embora para salvar a sua família. A troca era
simples, a minha vida pela de vocês e a de Nicholas. Eu estava disposta a pagar o preço, eu...
— Você quer mesmo que eu acredite nisso? — Ele ri debochadamente com os olhos se
enchendo de lágrimas.
— É verdade. Ele disse que se fosse até ele, não iria machucar ninguém. Eu acreditei —
murmuro voltando a soluçar.
— Quem era ele? — pergunta incisivamente. Balanço a cabeça e escondo meu rosto nas mãos,
ele puxa meu braço violentamente fazendo com que quase batêssemos em outro carro. — Me solta!
— grito.
— Mesmo agora você se recusa a contar o que quer que seja, você é uma hipócrita, garota. Não
tem o direito de sofrer pelo Monstro, você não merece ele, não merece o que ele fez por você. — Ele
tem razão, o que só me faz chorar mais.
— Não interessa o porquê, muito menos o seu nome. Não interessa de onde eu vim ou quem eu
sou, a única coisa que interessa é: Você vai me levar para a delegacia ou para o hospital? —
pergunto com um ímpeto de coragem recém-adquirido.
— Para o hospital — responde duramente. — Ao contrário de você, eu sou decente. Mas depois
que as coisas se acertarem, você vai andar de viatura algemada, isso eu te prometo!
Ele se remexe no banco e não fala mais nada até estacionar o carro em frente a uma enorme
construção de pedra minutos depois. Não espero por ele, saio do carro e corro em direção ao setor
de emergência. Passo pelas portas duplas de vidro e olho para os dois lados com agilidade.
— Anna, querida — sussurra alguém atrás de mim, me volto e encontro dona Eva. Ela parece
exausta e preocupada, tem duas enormes olheiras embaixo dos olhos, mas mesmo assim me brinda
com um sorriso fraco que não mereço. Ao seu lado está um casal. O homem parece aflito e a mulher
desesperada, eu os ignoro e me concentro nela me jogando em seus braços e chorando. Chorando
muito. — Shhh, querida, vai ficar tudo bem. Bernardo disse que só pegou de raspão, ele vai ficar
bem. — Bernardo mentiu, quero gritar. Mas me recomponho e assinto.
— Mamãe! — grita Bárbara de uma das poltronas, ela se levanta em um impulso e corre em
nossa direção, abraçando os pais e a avó em um abraço desajeitado. Quando os solta, ela me vê e me
puxa em sua direção, já eu? Eu me deixo levar. Sinto como se precisasse de abraços nesse momento,
porque não vai tardar até que eles, todos eles, me deem as costas.
— Me perdoa — peço baixinho em seu ouvido.
— Por quê? — diferentemente de sua avó ela não me consola, não me diz que vai ficar tudo
bem, ou pede que eu não me preocupe. Ela me segura pelos ombros quando digo e me afasta para
olhar em meus olhos, voltando a repetir a pergunta. — Por que, Anna, por que eu tenho que te
perdoar?
Seus pais e sua avó parecem interessados e aguardam em um silêncio mortal a resposta que não
consigo fazer subir pela garganta e sair pelos lábios. Encaro o menininho adormecido em uma das
cadeiras da sala de espera e depois volto meus olhos para o chão. Ela não pergunta mais nada e fica
rígida, deixando seus braços caírem ao lado do corpo. Sinto que tem algo errado e levanto os olhos
seguindo seu olhar... Ian está saindo de um dos corredores com a camisa debaixo do jaleco coberta
de sangue. Suas feições são deprimentes. O rosto reluz das lágrimas que ele enxugou às pressas e os
olhos estão inchados, perderam a coloração azul-celeste e se transformaram em duas bolas de fogo
vermelhas. São aqueles olhos que me prendem. Repletos de dor, perda e saudade.
Bernardo entra correndo pela porta e estaca no lugar também encarando Ian, como todos os
demais. Mas diferentemente deles nós sabemos o que o pequeno aceno negativo que ele ganha do
amigo quer dizer.
Quer dizer o fim.
Quando dou por mim, estou no chão. Sei que não estou inconsciente, ainda escuto Bárbara gritar,
escuto sua mãe e avó começarem a chorar, sinto as mãos de Bernardo tentando me levantar e quando
ele o faz contemplo Ian nos dando as costas e vejo seus ombros chacoalharem.
— Não, Ian, não! — grita Bárbara andando até ele e se jogando em seus braços. — Diz que ele
não tá morto, diz... — implora agarrando sua camisa sem se importar com o sangue e o chacoalhando
ferozmente.
— Calma, amor — pede colocando as mãos na barriga, ela não poderia passar por esse tipo de
nervoso.
— Me diz que você não deixou ele morrer — ordena com raiva socando seu peito repetidas
vezes. Ele segura seus braços e a puxa em sua direção segurando sua cabeça contra seu peito.
— Ele está vivo, está bem? Fica calma, pelo amor de Deus — ele desaba e chora junto com ela
puxando-a para mais perto. — Eu fiz tudo o que eu podia, Bá, eu te juro que eu fiz.
Vivo, ele ainda está vivo.
— Filho, o que está acontecendo? — pergunta a mãe deles se escorando no marido.
— Ele não voltava — Ian soluça. —, todos acharam que ele não voltaria. Mas eu não desisti...
Um dos nossos colegas está na mesa com ele agora...
— Por que não é você lá dentro? — pergunta Bárbara arrasada.
— Porque eu perdi o controle — admite olhando-a profundamente. — Eu não deixei ninguém
encostar nele, não deixei declararem a hora do óbito, eu não desisti. Eu passei dos limites, não podia
ficar na cirurgia. Não consigo ser profissional com ele...
— Por que você me pediu perdão? — Ela se volta pra mim com um misto de raiva e desolação
no olhar. Ainda estou no chão, nos braços de Bernardo que tenta sem sucesso me levantar.
— Seu irmão entrou na frente de uma arma para salvá-la — responde Ian por mim.
— O quê? — perguntam sua avó e sua mãe em uníssono.
— Então, você é a mulher que virou a cabeça do meu filho — murmura seu pai me olhando
apaticamente. Ele não parece me odiar ou realmente culpar, ele está apenas tentando entender a
situação. Bárbara avança em minha direção, mas é contida pela mão de sua avó.
— Se ele fez isso é porque a ama, filha, se ele a ama, nós também amamos — murmura. Mas
Bárbara se desprende de seu braço com um puxão suave e se agacha à minha frente no chão. Eu
espero por gritos, uma bofetada, qualquer coisa que faça com que eu me sinta menos culpada. Mas
ela me surpreende ao jogar os braços em volta de mim e me puxar do chão junto com ela.
— Não se desculpe, não era você com a arma — diz agarrando meu rosto com as duas mãos
com força. — Nunca mais se desculpe, Anna.
— Mas a culpa foi minha... — sussurro olhando-a com receio. Ainda espero pelo momento em
que ela vai dizer que me odeia e que me quer longe dele e de sua família.
— Se ele morrer, Anna, vai ser por um motivo nobre, vai ser como um herói. — Soluça e desce
as mãos para a barriga apertando-a enquanto se dobra sobre ela. — Eu me orgulho dele.
Então, ela cai.
Enquanto a chuva desaguava do lado de fora, uma tempestade ameaçava tomar conta do meu
coração e da vida de todos ao meu redor. Bárbara entrou em trabalho de parto por conta de todo o
estresse das últimas horas. Foi levada às pressas para um centro cirúrgico com o risco de perder a
vida e o bebê prematuro. Mesmo querendo voltar para o centro cirúrgico e acompanhar a cirurgia de
Augusto, Ian não a abandonou. Embora quisesse ficar, Bernardo não pôde, porque em outra ala do
hospital sua mulher estava com seu filho recém-nascido nos braços aguardando por ele.
Nas horas seguintes todos tentaram se multiplicar e estar em mais de um lugar ao mesmo tempo.
Ian viu seu filho nascer e depois foi ver seu melhor amigo morrer, porque era isso que estava
acontecendo embora ninguém admitisse. Bernardo conheceu seu filho e beijou sua esposa, depois foi
ficar com Bárbara enquanto Ian não voltava. Depois de se recompor e mostrar mil façanhas cuidando
de todos, dona Eva decidiu levar Nicholas para casa aonde Gustavo a esperava com Valentina. Os
pais de Augusto se revezavam entre rezar e amparar as duas mulheres fragilizadas pelo parto.
Ou quase fragilizadas, depois de um escândalo que eu chamaria de motim elas foram postas no
mesmo quarto e expulsaram um por um, lhes dizendo que Augusto precisava mais de todos. Eu vi uma
família que nutria uns pelos outros um tipo de amor que nunca conheci, pelo menos até que sua mãe
pegou em uma das minhas mãos horas mais tarde e em vez de soltá-la eu a apertei mais em resposta.
A cirurgia durou mais de dez horas, muito mais. Durou tanto que eu perdi a conta. Não saí da
mesma cadeira de plástico que me sentei no início, não fui ao banheiro, não comi, mal respirei.
Augusto foi a primeira pessoa que me estendeu a mão, que se preocupou comigo e com meu filho.
Nos deu abrigo, comida e amor. Eu me sentia culpada por fazê-lo acreditar que tinha a obrigação de
me salvar.
Eu queria estar ali para receber a notícia, independente de qual fosse.
Quando Ian aparece de volta na sala de espera, ele parece muito mais exausto. Suas olheiras
estão enormes, ele ainda veste a mesma camisa suja e seus ombros estão caídos. Naquele momento
somente Bernardo e eu estávamos aguardando por notícias nas cadeiras de plástico.
— Como ele está? — pergunta o policial se desencostando da parede e vindo ao nosso
encontro. Prendo a respiração e esfrego uma mão na outra de maneira ansiosa. Durante quase a hora
em que estivemos sozinhos essas foram as primeiras palavras que ouvi de sua boca, pois ele insistiu
em me ignorar, a não ser pelos olhares de ódio que me lançava vez ou outra quando pensava que eu
não notaria.
— Ele ainda está na mesa — responde pragmático. — Vai demorar. Vão para casa como os
outros, tomem um banho e descansem. Eu ligo assim que tiver notícias.
— Você parece aliviada! — exclama Bernardo quando solto a respiração com força.
— Eu estou, ele ainda está vivo — respondo me virando para ele.
— Claro, assim você ganha tempo, não é? — pergunta sarcasticamente. — Por que eu acho que
assim que tirarmos o olho de você, você vai sumir no mundo outra vez? Por que eu acho que você vai
fugir? — pergunta com uma concentração fingida colocando o dedo sobre os lábios franzidos.
— Não é hora pra isso, Bê, vê se dá um tempo, porra! — reclama Ian sem paciência.
— Ainda não entendo porque o idiota tinha que se colocar em perigo por causa dessa garota, ela
não agregou nada desde que apareceu na nossa vida. — Ian respira fundo, mas quem responde sou eu,
já estou ficando cansada de seus julgamentos.
— Porque ele me ama, por isso ele se jogou na frente de uma bala por mim. — Então, ele cai na
gargalhada sem se importar se o local ou a situação são propícias para isso fazendo Ian fechar a cara
de imediato.
— Ele não ama você, garota estúpida. — Sinto como se tivesse levado uma bofetada. Garota
tola, tola, tola, é o que ele diria se ainda tivesse vivo.
— Chega Bernardo, você está passando dos limites, ele não gostaria disso — ralha Ian me
olhando preocupado.
— Ok, mas assim que o Monstro acordar, porque eu sei que ele vai, eu levo essa garota em cana
e ninguém vai me impedir — murmura nos dando as costas. — Considere isso uma gentileza — diz
por sobre o ombro saindo pelas portas duplas e sumindo de vista.
— Não chore, Anna — pede Ian limpando meu rosto de maneira desajeitada. Só percebi que
chorava quando seus dedos tocaram a minha pele, meus músculos se enrijeceram com o toque e eu
me afastei fazendo com que sua mão caísse ao lado de seu corpo.
— Ele tem razão, não tem? Augusto fez isso por impulso, ou porque ele achou que era o certo,
não fez porque gosta de mim... — Ele me corta.
— Só ele pode te responder essa pergunta — responde retirando do bolso do jaleco a carteira,
o celular e as chaves do carro de Augusto. — Não conta que eu deixei você dirigir — pede com um
sorriso que não chega a mostrar os dentes. — Agora vai para casa, eu ligo para dar notícias.
— Obrigada — murmuro olhando para os pertences em minha mão, lhe dou as costas sem
conseguir encará-lo e me afasto, mas antes que saia do prédio escuro ouço sua voz chegar até mim
em um volume baixo.
— Não fuja dessa vez, Anna, fique e encare as consequências do que você tanto esconde.
Augusto merece isso.
Não respondo, nem me viro, apenas saio do prédio.
Quando chego em casa me sinto péssima, não só por ter batido o carro do Monstro na parede de
raspão ao entrar na garagem, mas porque talvez ele nunca tenha a oportunidade de gritar comigo por
isso. Meu Monstro tinha que viver, ele tinha que ter a chance de ser agradecido e ser amado mais
pelo que fez por mim.
Ele merecia isso, eu merecia isso. Já havia sofrido demais.
Encontrei Nick dormindo no sofá ao lado da garotinha mais bonita que eu já havia visto na vida,
ela era loira e pequena. Seu rosto de boneca estava sereno, assim como o do meu filho. Estavam
alheios a dor do restante da família. O mesmo não acontecia com dona Eva que dormia ao lado dos
dois, ela parecia preocupada e devastada até mesmo durante o sono. Subi as escadas nas pontas dos
pés e fui até o quarto dele, pensando nas palavras de Bernardo.
Eu realmente era uma garota tola por pensar que um homem como Augusto viria a me amar, não
era? Ele deixou bem claro que não sabia amar, mas quando ele trocou sua vida pela minha imaginei
que ele estivesse me provando o que não sabia colocar em palavras com um gesto, um lindo gesto, o
maior gesto que ele poderia me dar.
Morrer por mim.
Não havia passado pela minha cabeça que era isso que um homem de caráter faria em uma
situação como a que vivemos, que ele poderia apenas estar tentando ganhar tempo, ou atingir o
atirador ao invés de querer de fato se sacrificar. Eu deveria ter pensado, ou ao menos cogitado que
eu estava fantasiando em cima de algo que não era real. Peguei o travesseiro dele nas mãos e o
abracei me perguntando onde estava a garota que se orgulhava de nunca se iludir, teria ela sido
perdida pelo caminho que percorri até essa casa? Até os braços dele?
Não fazia mais diferença saber, eu tinha decisões importantes a tomar. Se eu ficasse e ele
morresse seria meu fim. O policial me forçaria a parar de mentir e eu perderia Nicholas e o que
havia restado de minha sanidade. Se ele vivesse me mandaria embora, por que a cada minuto que
passava mais claro ficava que ele não me amava e mesmo se amasse, o que eu já não tinha mais
esperança alguma de ser verdade, ainda assim não poderia impedir o policial de acabar com a minha
vida.
Não tinha saída fácil, qualquer caminho que eu tomasse teria o mesmo desfecho, a não ser que
eu fosse realmente embora como eles pensavam que eu faria. Seria fácil fugir com a minha maleta e o
carro de Augusto, abandoná-lo em um local deserto e começar uma nova vida com Nicholas, mas
novamente eu estaria me escondendo e não vivendo. Heitor não era mais uma ameaça, mas eu sabia
que se partisse o policial me caçaria nem que fosse a última coisa que faria na vida.
Ele me faria pagar.
Não foi pelo medo que eu fiquei.
Eu fiquei por amor.
Fiquei porque não suportava a ideia de não saber o que aconteceria com Augusto, fiquei porque
o amava o bastante por nós dois, o bastante para contar a verdade. Fiquei porque queria ser dele
mais do que queria esquecer o passado. Eu precisava me livrar de toda podridão que havia sido
minha vida, precisava de rendição, perdão e do meu lar.
Eu precisava dele mais do que eu precisava respirar.
Algemas

“Amor e verdade são duas faces de Deus. A verdade é o fim, o amor, o caminho.”
(Mahatma Gandhi)

Anna

Durante três dias a rotina foi a mesma na casa.


Eu via cada um dos familiares de Augusto vez ou outra quando chegaram para tomar banho,
comer ou dormir. Na maior parte do tempo eles se revezavam para ficarem com as loiras ou na sala
de espera aguardando ansiosamente por notícias suas. Todos me tratavam com cordialidade e
respeito, embora me olhassem com espanto quando me viam sair ou entrar em seu quarto, que agora
era oficialmente meu em sua ausência, quando me viam com uma de suas camisetas, um novo hábito
muito eficiente para aplacar a saudade ou definhar de angústia ou quando me viam cuidando da casa
como se morasse ali há mais tempo do que realmente morava, o que incluía limpá-la excessivamente
para ter o que fazer, ou lhes preparar o jantar.
Mas na terceira noite após sua internação algo mudou.
Acordei com o barulho de vozes e passos na sala, me levantei e caminhei na ponta dos pés para
escutar melhor o motivo da comoção. As loiras haviam chegado em casa com seus bebês, os bebês
que eu ainda não conhecia. Ian havia me pedido para não ficar no hospital, já que Bernardo estava
plantado lá de maneira tão firme que podia ser confundido com uma das plantas artificiais que
enfeitavam o lugar e garantiu que ele não precisava ser lembrado de minha existência no momento,
em troca ele me ligaria duas vezes por dia para me dar notícias no celular prateado lotado de
mensagens de mulheres que eu odiava somente pelo fato de desejarem o que eu queria que fosse meu.
Ele cumpriu a promessa e eu só não joguei o celular na parede por causa disso. Eu era
masoquista e nada ética, li todas as mensagens, uma por uma e posso garantir que o celular só estava
vivo porque eu queria ter a chance de quebrá-lo na cabeça de Augusto quando ele acordasse, porque
ele ia ter que acordar depois de tudo o que descobri.
Saio silenciosamente pelo corredor e paro no último degrau, quando as vozes se distanciam
ouso descer os demais e ir até a cozinha, procurando por elas, desejando espiar. Tenho a nítida
sensação de que eles se refugiaram para falar de mim pelas costas, e descubro que estava certa
quando me sento rente ao muro do jardim que divide as casas e escuto a conversa com os ouvidos
afiados.
— Vocês não estão entendendo, não estão vendo a situação com clareza — murmura o policial
arrogante.
— Quem não está entendendo é você, Bernardo — diz Bárbara impaciente. Pelo visto perdi a
primeira parte da conversa, já que estava claro que ela parecia irritada. — Eu vejo claramente que
meu irmão quase morreu para salvar aquela garota e isso é tudo o que eu preciso saber para gostar
dela. — Internamente estou sorrindo enquanto mastigo uma unha ansiosa.
— Você tá maluca? Produzir leite está afetando seu cérebro, por acaso? — sua resposta não
pôde ser traduzida em palavras, mas se eu fosse tentar nomeá-las diria que ela rosnou que nem a gata
quando era incomodada durante seu sono de beleza em cima da geladeira.
— Bernardo — alerta Ian duramente. Consigo imaginá-lo nitidamente cruzando os braços em
frente ao peito e o olhando de forma ameaçadora por ofender sua mulher, uma mulher que ele
colocava em um altar. Sortuda.
— Eu sugiro que você seja mais educado, querido, senão eu vou fazer você encontrar a
educação que sua mãe te deu — ameaça Vivian se intrometendo na conversa. — Ninguém fala com a
Bárbara assim, nem mesmo você! — Depois dessa, a cozinha ficou em silêncio alguns minutos, ele
murmurou um pedido de desculpas e prosseguiu a conversa se direcionando a Ian, quem ele imaginou
provavelmente ser um pouco mais racional que os demais.
— Pelo amor de Deus, Ian, vocês estão tão cegos quanto ele. Augusto quase morreu por causa
daquela mentirosa. A perícia não encontrou nada no carro e nem no corpo, não sabemos quem era o
cara, de onde vinha ou o que planejava. Não sabemos se tem mais de onde ele saiu — ele se
exaspera. — Não sabemos nada sobre eles, nem o nome verdadeiro dela. — Então, ele lhes conta a
única coisa que conseguiu descobrir a meu respeito, que eu usava um nome falso e que pensava que
aquele que chegou até ele também não era meu nome de batismo. Eu tinha que dar o braço a torcer, o
faro do cara era espetacular. Espetacular e um grande inconveniente.
— Isso é preocupante sim — diz seu Henrique falando pela primeira vez. — Augusto não sabe
nada sobre essa moça. Porque ele se arriscou colocando-a dentro de sua casa é um mistério pra mim.
Não faz o gênero dele ser tão nobre.
— Isso é algo péssimo para se falar do próprio filho, Henrique — murmura dona Ruth
magnânima. — Ainda mais agora!
— Bom, é a verdade, não é? O que me faz pensar o que essa garota tem que as outras não
tinham... — Nesse momento, ele parece se perder em pensamentos. Com isso eu até me arrisco a
ajudar. Não tenho peito, nem bunda, muito menos onde cair morta. Mas tenho uma cicatriz
maravilhosa que estampa minha cara de lado a lado, também tenho um filho que, na verdade, eu
roubei e tantos problemas que perco a conta se tentar numerar. Não sei comer em restaurante caro
nem tenho apreço por roupas ou joias, mal sei escrever meu próprio nome e na cama meu
desempenho é nulo. Tá aí algumas das mais gritantes diferenças entre mim e as outras mulheres com
quem o filho dele estava acostumado.
— Isso é o menos relevante, Augusto nunca levaria essa menina a sério — comenta Bernardo
fazendo meus olhos se encherem de lágrimas. — Não vai demorar até ele se cansar dela, só estou
sugerindo que façamos ela ir embora antes disso, pelo bem dele.
— Que parte do ELE ENTROU NA FRENTE DE UMA BALA por ela você não compreendeu
até agora sua toupeira limitada! — grita Bárbara perdendo as estribeiras.
— Então, ela pode ser mal-educada comigo? — pergunta para alguém que suponho seja sua
esposa com mágoa na voz por não ter sido defendido.
— Ela tem razão, você não está vendo o óbvio! — Vivian lhe responde no mesmo tom que Babi
usou. Aos berros.
— O que eu deveria estar vendo exatamente?
— Ele ama essa menina — diz Ian em voz baixa. Depois dessa afirmação não entendo mais
nada, os sons são um misto de rosnados, gritos e choros de bebê que me ensurdecem por alguns
instantes. — E isso que você deveria estar vendo — completa quando todos se calam. Mais
precisamente quando alguma das loiras bate na mesa fazendo um estalido alto.
— Não acho que seja para tanto — diz Gustavo parecendo concordar com Bernardo.
— Você não opina, babaca omisso de uma figa, capacho de mulher safada, criador de cobras...
— Ian a corta antes que ela invente mais apelidos para demonstrar o desagrado com a nova namorada
do irmão.
— Nós brigarmos não vai levar a lugar nenhum. Acho que deveríamos fazer uma votação, quem
é a favor de pedirmos que Anna vá embora sem a autorização do Monstro? — diz diplomaticamente,
logo depois fala mais baixo: — Quem não tem amor a própria vida, vamos lá. Porque sabemos que
ele vai partir ao meio e fazer todos que colaboraram com isso passarem férias grátis no inferno só
com passagem de ida. Quem quer ser o primeiro a levantar a mão?
— Eu não acho que ele vá assumi-la ou coisa parecida, principalmente por causa do menino,
mas não vou correr esse risco, eu conheço meu irmão, ele vai virar uma fera se acordar e descobrir
que mandamos ela embora — opina Gustavo fazendo Bárbara voltar a rosnar.
— Só eu então? — pergunta Bernardo chocado. — Henrique? Ruth? Dona Eva?
— Não entendo a motivação do meu filho, mas não vou contra ela sem a sua autorização —
responde Henrique com prudência. — Acho que vocês deveriam ter intervido no começo, antes dessa
tragédia acontecer, agora tudo o que podemos fazer é esperar.
— Nós tentamos, eu tentei pelo menos.
— Você deveria ter nos alertado — nesse momento a vovó tosse, decerto prevendo que iria
sobrar para ela e toma a palavra para si.
— Augusto encontrou alguém por quem achou que valia a pena montar no cavalo. Estou
infinitamente triste com o rumo que essa história de amor tomou e, claro, com muito medo de perder
o meu menino, mas afastar Anna agora seria errado de nossa parte. Não foi ela quem atirou e se
decidiu não nos contar nada deve ter seus motivos.
— Sim ela tem, é uma filha da puta mentirosa e mal-agradecida — cospe Bernardo. — Dona
Ruth, por favor... — implora.
— Não vou julgar essa moça, muito menos enxotá-la porta afora como um cachorro com um
menino tão pequeno. Quando a criança fala do Augusto, os olhinhos dele brilham. Jesus, o menino é
apaixonado por ele e a moça também parece ser. Ela fica, Bernardo querido, fim de discussão.
— O menino parece apaixonado por outra pessoa também — diz Ian parecendo pouco feliz. —,
toda vez que olho para minha filha encontro ele. Não gosto disso.
— Ah, pelo amor de Deus, Ian, o que o menino vai fazer com ela, brincar de médico? —
pergunta Bárbara achando graça.
— Melhor não, se ele gosta do pintinho dele no lugar! — resmunga me fazendo rir. Realmente
Nick parecia estar perdidamente apaixonado e a bonequinha miniatura da mãe não parecia diferente.
Monstro daria risada dos ciúmes de Ian, pensar nele faz meu peito doer. Ele estava respondendo bem
ao pós-operatório, mas sua saúde ainda estava debilitada, ele ainda corria riscos, embora Ian
dissesse para a família que ele estava melhor a cada dia.
— Se você não vai fazer nada eu vou, cansei de esperar — diz Bernardo decidido, escuto seus
passos e a comoção de pessoas tentando contê-lo. Me levanto em um impulso, em vez de voltar
correndo para dentro de casa pegar meu filho e minha maleta e dar o fora me vejo entrando pela
passagem do jardim e adentrando a cozinha, fazendo com que ele estaque no lugar e os demais
pareçam envergonhados pelo que imaginam que eu tenha escutado.
— Fizemos um trato e eu espero que você cumpra sua parte — cuspo cruzando os braços,
olhando unicamente para ele. — Primeiro esperamos Augusto melhorar e você espera que eu lhe
peça perdão, depois você faz comigo o que bem entender. Seja homem e honre o compromisso que
você assumiu comigo, policial.
— Eu vou te pôr pra fora daqui agora — Bárbara e Vivian entram na minha frente e se não
estivesse tão brava choraria pelo ato de proteção. A vovó ameaça fingir que vai desmaiar depois de
me dar uma piscada, mas quem rouba a cena é Ian, ou melhor, seu celular que começa a berrar no
último volume.
— É do hospital — murmura apertando um botão e o levando até a orelha. Ele escuta por alguns
minutos enquanto nós permanecemos em um silêncio tenebroso, nem uma única respiração é ouvida
enquanto ele não encerra a chamada. — Se eu fosse você, não encostaria a mão nela — diz abrindo
um sorriso gigantesco para Bernardo e se voltando em minha direção. — O Monstro acordou e
ordenou ver a garota que tinha asas.
Nunca vi tanta felicidade em um só lugar fora aqueles programas da televisão em que o
apresentador fazia chover dinheiro. Uns abraçando os outros, rindo e gritando de alegria. Eu não
conseguia me mover, mas sabia que tinha um sorriso estampado no rosto. Meu coração estava na
boca e as mãos suavam. Anjo, eu era o seu anjo, assim como ele era o meu, a diferença é que só um
de nós salvou alguém, o outro ao invés disso mentiu.
O sorriso sumiu, dominado por um medo absurdo do que ia encontrar no hospital. E se ele
estivesse com raiva de mim? E se tivesse me chamado para me pedir para sumir da sua vida de uma
vez por todas e nunca mais voltar? Meu desconforto deve ter ficado explicito em minhas feições
porque as loiras pegaram em minhas mãos, uma de cada lado e encararam Bernardo como se fossem
passar por cima dele caso fosse necessário.
Elas pensavam que eu estava com medo do policial, estavam erradas. Eu só tinha medo de
perder o homem que eu amava e a família doida que vinha no pacote. Tinha medo da rejeição, da
solidão e de voltar para a vida de fuga e esconderijos, a vida sem amor.
— Nós levamos ela, você fica longe — ordena Babi apertando minha mão.
— Ela me mandou honrar o trato e é isso o que eu vou fazer — diz se empertigando, se eu fosse
ele tomaria cuidado, ela já tinha provado ser boa de briga. — Você tem cinco minutos com ele,
depois acabou — ele me dá o aviso e sai pela porta em direção a garagem. Os pais de Augusto e sua
avó vão com ele, enquanto eu, as louras e Ian ficamos para trás para irmos juntos.
— Também quero ir — reclama Gustavo.
— Você está com menos moral que meus chinelos falsos, Mala, você vai ficar de babá —
murmura Bárbara me puxando até sua bolsa, pegando-a e colocando-a no ombro.
— Os bebês têm três dias, você tá maluca? — pergunta entrando em pânico.
— Você sabe trocar fraudas e dar mamadeiras, larga mão de ser covarde — responde me
puxando até a porta, mas antes de sair ela se vira novamente. — Se sua namoradinha encostar em um
fio do cabelinho loiro do meu filho, eu te mato e enterro o corpo embaixo da cozinha pra eu pisar em
você todas as manhãs enquanto faço café, entendeu?
Ele abre a boca para responder, mas se cala quando ela cerra o punho e o ameaça, então ele
opta por assentir carrancudo.
— Você vai ter que aceitar a Camila um dia, ela é a mulher que eu amo e com quem pretendo me
casar — murmura quando chegamos à garagem. Claro que ele escolhe um bom momento para ser
corajoso, quando está protegido por paredes de concreto. Babi solta da minha mão e ameaça voltar
para casa, mas ele fecha a porta e escutamos a chave sendo girada.
— Eu mato ela antes do casamento, eu juro que eu mato — sibila pisando duro até o carro, ela
abre a porta e se joga dentro dele de mau humor. — Se eu for presa, você ainda vai me amar? —
pergunta se virando para Ian quando saímos da garagem.
— Eu te amaria de qualquer jeito, mas não acho que você vai precisar mesmo matá-la. Camila
vai aprontar com o seu irmão antes disso — tenta tranquilizá-la pegando em sua mão e pousando-a
em sua coxa, colocando a sua por cima da dela de maneira protetora. Ele é sempre tão carinhoso e
romântico que chego a ficar constrangida quando estou perto dos dois. Eles tem um tipo de amor que,
até então, eu só tinha visto em conto de fadas.
— Espero que sim, Ian, senão não terei outra opção a não ser lhe dar de comida aos peixes.
Preciso assistir mais CSI, pensar no crime perfeito... — murmura distraidamente.
— Eu ajudo — propõe Vivian. — Faz tempo que quero acertar umas contas com aquela biscate.
— Por que vocês não gostam dela? — pergunto me intrometendo. Estou muito curiosa com toda
essa raiva acumulada. Babi e Malibu são as mulheres mais incríveis e doces (quando não estão
agredindo ou gritando com alguém) que eu conheço, o que faria com que elas odiassem uma pessoa
tanto assim?
— Quando eu ainda era uma garota, ela me jogou dentro de um rio em um luau na praia, ela me
humilhou e me fez passar vergonha na frente de várias pessoas. Ainda tenho pesadelos com aquela
noite — Babi me conta se virando no banco para me olhar enquanto abraça o encosto.
— Mas aí eu tirei ela do rio — intervém Ian com um sorriso bobo no rosto que consigo ver
através do retrovisor ganhando um beijo na bochecha de sua esposa.
— Aí vocês se apaixonaram? — pergunto tentando imaginar ele ainda menino estendendo uma
mão para que ela se levantasse de um rio coberta de vergonha. Que história bonita.
— Não. Nunca mais nos vimos até que vim morar com o Monstro e o Mala em Floripa quando
fui abandonada na igreja, Ian morava com eles, mas eu demorei muito tempo para descobrir que ele
era o meu garoto dos olhos azuis. — Ela faz um carinho em seu rosto e ele o deita em sua mão.
— Ela descobriu quando a Camila entrou no nosso apartamento e armou uma cena para tentar
convencer a Bárbara de que eu a estava traindo. Quando a minha garota do rio chegou em casa,
Camila estava sem roupa na minha cama e mentiu dizendo que eu estava tomando banho, enquanto eu
estava em uma cirurgia de emergência no hospital o dia todo — continua Ian.
— Ela teve a capacidade de ligar o chuveiro e trancar a porta, Bárbara foi embora e abandonou
o meu irmão, foi horrível. Nessa época ela ainda estava grávida da Tina — quem termina a história é
Vivian. — então agora você entende porque Gustavo definitivamente não vai se casar com ela?
— Entendo perfeitamente, eu assisti bastante CSI, acho que tenho umas ideias que podemos usar
— comento tomando partido na situação. — Sem contar que podemos fazer parecer um acidente.
— Isso quer dizer que se precisarmos matá-la... — pergunta Bárbara, rindo.
— Eu estou dentro — Rio também. —, bom isso se seu irmão não me despachar com meu filho
e uma mala para o lugar mais longe em que ele for capaz de pensar.
— Acho que o único lugar para onde meu irmão vai te despachar é para a casa ao lado da minha
— comenta se ajeitando no banco e me lançando um sorriso cúmplice enquanto Vivian procura minha
mão e a aperta. Era oficial, eu era parte do time e nunca me senti tão feliz por saber que tinha amigas.
Bom, talvez porque elas fossem as primeiras. Mas de qualquer forma, eu sabia que eram as melhores
e eram minhas.
Quando chegamos ao hospital, Ian pede que todos esperem para que eu entre primeiro, ninguém
faz objeção. Finjo não reparar em Bernardo me apontando seu relógio de pulso com um gesto e sigo
Ian pelos corredores
— É essa aqui — anuncia parando em frente a uma porta branca e fazendo um meneio com a
cabeça abrindo um sorriso do tamanho do mundo emoldurado por dentes brancos e perfeitos. Seus
olhos azuis se tornam quase transparentes e brilham quando ele me olha.
— Só pra você saber, ele está mais mal-humorado do que de costume. Já xingou duas
enfermeiras e mandou seu médico para lugares nada agradáveis, virou uma bandeja de comida e fez
drama para tirar sangue porque tem medo de agulha, então tenha paciência e o sufoque com o
travesseiro se achar conveniente. Porque Deus sabe o quanto as enfermeiras queriam ter coragem...
— murmura agarrando a maçaneta e a girando antes que eu tivesse tempo de sair correndo.
Mordo o lábio apreensiva e olho de Ian para o quarto branco algumas vezes antes de criar
coragem para passar pela porta. Assim que entro, a porta bate às minhas costas chamando sua
atenção. Dou um passo para trás quando sua cabeça se vira no travesseiro em minha direção. Seus
olhos estão escuros e fundos contrastando com a pele pálida. Seu cabelo está uma bagunça só e a
barba é uma calamidade à parte.
Ele realmente parece alguém que levou um tiro recentemente.
Tenho vontade de chorar, gritar e pular em cima dele de tanta felicidade. Vivo, meu monstro está
vivo e acordado, ele respira e me olha feio, tão normal que me faz sorrir abertamente.
— Espero que você esteja feliz, Anna — murmura de forma irritadiça cravando seus olhos
duros nos meus. Nunca na minha vida fiquei tão feliz em ouvir uma de suas grosserias. Ele já estava
sendo rude, o que queria dizer que iria ficar bem.
— Posso ir embora se você quiser — ofereço chegando mais perto da cama ao invés de me
afastar. — Eu só queria ver com meus próprios olhos que você estava bem.
— Bem? Defina bem, por favor? — pede fazendo uma careta. — Meu peito dói, a comida dessa
merda é tão ruim que nem Vito comeria, as enfermeiras estão se vingando de anos de grosserias com
longas e grossas agulhas com a desculpa de mais exames de sangue do que eu na verdade preciso só
para me verem sofrer e só para terminar tem uma sonda enfiada no meu pau — murmura de mau
humor. — Então, defina bem.
— Desculpa... eu... — gaguejo me sentindo boba. — eu não deveria ter vindo. — Abaixo o
rosto e me sinto corar. Claro que eu não deveria ter vindo, ele quase morreu por minha causa, por
que iria querer me ver além de jogar isso na minha cara? Eu cheguei mesmo a acreditar que ele havia
me salvado porque me amava, mas Bernardo tinha razão já que ele não parecia feliz em me ver. Lhe
dou as costas e respiro fundo segurando o choro, engolindo meu orgulho e meu arrependimento. Não
chego a me afastar nem dois passos quando sua mão se move e agarra meu braço com força.
— Onde você pensa que vai, porra? Eu não tomei um tiro por você de graça, seja bem-
agradecida. É o mínimo que você pode fazer. — Me volto para ele espantada. — Isso e uma
massagem com final feliz, se possível.
— Você não quer que eu vá embora? — pergunto olhando para sua mão em meu braço com
apreensão e esperança. — Pensei que agora que estamos seguros você gostaria que eu e Nicholas
fôssemos embora, pensei que você estivesse com raiva ou no mínimo arrependido...
— Anna, vocês são meus — sussurra com a voz firme me cortando. —, não vão a lugar nenhum.
— Seus? — pergunto maravilhada ainda sem entender realmente o que ele está me propondo.
— Meus. — Assente sorrindo e me puxando em sua direção. Encosto a barriga na maca e beijo
seus lábios delicadamente enquanto ele agarra meu cabelo e me puxa mais para perto enfiando a
língua na minha boca.
— Por que você fez isso? — pergunto me afastando para olhá-lo, tocando em seu rosto com
doçura. Como era bom vê-lo outra vez acordado. Eu sei, sei que pensei que depois da ação as
palavras não importavam mais, mas não consegui me controlar. Ele fecha os olhos e afrouxa o aperto
deixando suas mãos caírem de volta nos lençóis. — Você quase morreu por mim, por quê?
— Você queria uma prova de a... — Ele olha para o teto e xinga baixinho. — Bom, daquilo, e
foi exatamente o que eu te dei. Espero que esteja contente porque foi o melhor que eu pude fazer e
não vai ter replay.
— Quero ouvir você dizer com todas as letras o porquê — resmungo me irritando com suas
restrições. Ele quase beija São Pedro na boca e não consegue dizer três míseras palavras?! Que cara
mais difícil de dobrar.
— Não seja tão gananciosa, uma bala já não está de bom tamanho para te provar o que eu sinto
por você? — pergunta com os olhos em pânico. — Isso dói, sabia? Dói pra cacete, você deveria
estar me mimando e não me encostando na parede.
Fico em silêncio. Também sei ser dura na queda. Como ele não diz nada novamente, eu lhe dou
as costas e ameaço sair do quarto, quando chego à porta sua voz flutua até mim, me fazendo estacar
no lugar, surpresa. Não pensei que ele teria coragem, não pensei que fosse dizer ou sequer admitir,
mas ele as fala. As três palavras que eu ansiei a minha vida inteira ouvir. Ou quase.
— Eu te am... — diz rapidamente atropelando as palavras, sendo interrompido por um barulho
alto que se assemelhava a uma tosse, quem nos alertou não faço ideia.
— O que você ia dizer? — pergunta alguém da porta. Estávamos tão distraídos que não ouvimos
quando ela foi aberta e não nos demos conta de que a família inteira em peso estava nos observando.
Bárbara ergue as sobrancelhas e pede: — Repete o que você ia dizer, espera. — Ela saca o celular,
aperta alguns botões e o aponta para Augusto. — Pronto, vai.
— Você tem sorte de eu não conseguir me mexer — ele murmura ríspido e constrangido. Ian e
Malibu riem e seus pais se entreolham. Sua avó olha apenas para mim, com um sorriso gigantesco
nos lábios, um sorriso de quem sabe das coisas.
— Eu acho que ele ia dizer que me ama — respondo por ele, não me aguentando em mim de
alegria.
— Sabe, Anna, você é mais bonita quietinha — resmunga mal-humorado, então eu rio, aliviada
e descontroladamente. Pelo menos até ver Bernardo escorado à porta olhando de mim para o relógio,
gesto esse que faz minha risada sumir abruptamente. Eu caminho até Augusto e me inclino sobre ele
segurando em seu rosto com as mãos, ele desvia o olhar me indicando que não estamos sozinhos e
que provavelmente está se sentindo desconfortável com sua família presenciando uma cena de
carinho, mas o que estou fazendo é mais que isso, é uma despedida. Porque depois que eu der o que
Bernardo quer terei que fugir sem olhar para trás e isso, sem dúvida, será a coisa mais difícil que já
tive que fazer na vida, abandonar o homem que quase morreu para me salvar.
— Eu também te amo, Monstro, amo muito. — Ele pisca e abre um sorriso involuntário,
percebo que dessa vez ele não ficou com medo das minhas palavras. — Me perdoa, sim? — Antes
que ele responda, eu o beijo demoradamente sem me importar com a plateia. Quando interrompo o
beijo, me afasto sem olhá-lo e caminho até Bernardo estendendo meus pulsos em sua direção. Se ele
fazia questão das algemas, eu não lhe tiraria esse prazer.
Rendição

“Beije-me sob a luz de mil estrelas


Apoie sua cabeça sobre meu coração palpitante
Estou pensando alto
Talvez tenhamos achado o amor bem aqui, onde estamos.”
(Thinking out loud, Ed Sheeran)

Augusto

Acordei gritando o nome dela, Anna. Minha garota sem nome, minha Anna.
Não consegui pensar em mais nada desde que despertei a não ser em três palavras que eu
precisava criar coragem para lhe dizer. Não só porque eu sabia que ela queria ouvi-las, mas porque
eu precisava urgentemente falá-las. Elas estavam me sufocando e fazendo mais pressão no meu peito
do que o buraco que um médico retardado abriu de maneira exagerada e exibicionista.
Treinei-as em pensamento por horas a fio, mas quando ela abriu a porta e entrou, eu me
acovardei. Ela parecia cansada e, ao mesmo tempo, feliz por me ver, devo ter lhe dado um bom
susto. Tomara que não tivesse feito a vovó enfartar. Mas, claro, como sempre, minha família tinha um
sexto sentido do capeta e invadiram o quarto quando eu estava quase conseguindo cuspir as palavras.
Um a um eles se espalham como podem pelo cômodo. Vivian, minha mãe e minha avó parecem
em êxtase. Meu pai e Ian parecem apenas aliviados. Bárbara parece que vai parir tamanha sua
ansiedade com o que ouviu há pouco, mas parando para reparar sua barriga está menor igual a de
Vivian. O que será que eu perdi? Quanto tempo eu apaguei?
Não tenho tempo de perguntar, porque Anna está me beijando e eu estou deixando. Depois de um
tempo a vergonha de estar diante da minha família e do seu julgamento me abandona e tudo o que eu
quero é aquela massagem com final feliz e ter ela para sempre na minha vida. Mas então ela me pede
perdão e se afasta caminhando até Bernardo lhe estendendo os punhos que ele não demora em segurar
ameaçando colocar as mãos para trás e eu sei o que aquilo significa. Ele vai tirá-la de mim.
— Bom, como eu havia prometido, Anna, você pôde vê-lo. Agora você vai ter que me
acompanhar até a delegacia, sinto muito — diz Bernardo agarrando e erguendo as algemas prateadas,
faço um esforço descomunal para me erguer, mas Ian corre em minha direção e me empurra de volta
aos travesseiros pelos ombros.
— Não se mexe, cacete, você tá todo costurado — resmunga preocupado.
— Se você encostar um dedo na minha mulher, Bernardo, eu juro que levanto dessa cama pra
encher sua cara de porrada, mesmo que eu caia depois — ameaço friamente fazendo com que ele
largue seu punho.
— Monstro, ela tem que se explicar. Precisamos saber quem era o cara e, principalmente, quem
ela é, não tem como deixar como está. Eu matei um cara, você levou um tiro, não são coisas que eu
consiga enfiar debaixo do tapete — explica exasperado passando a mão pelo cabelo curto. — Como
ela me pediu, eu esperei até que você acordasse, agora ela vem comigo.
Anna me olha com um misto de vergonha, derrota e aceitação, tudo misturado, é o suficiente
para eu conseguir empurrar Ian para longe de mim e lhe estender uma mão.
— Vem aqui, Anna, AGORA — ordeno sem um pingo de emoção na voz, não vou deixar
transparecer o quanto estou assustado por ela. Eu quase me matei por essa mulher, ninguém vai
afastá-la de mim, muito menos alguém que eu consigo desmontar com um soco bem dado. Ela corre
em minha direção e eu agarro sua mão na minha, apertando-a com força, lhe passando toda a
proteção e segurança que consigo através do toque.
— Ela tem que nos contar, senão eu vou arrancar dela, tô avisando — ameaça novamente
fazendo Anna começar a chorar. Eu vou parti-lo ao meio.
— Então como lhe perguntou meu marido no dia em que te viu pela primeira vez, você é a moça
misteriosa que virou a cabeça do nosso filho... — diz minha mãe a Anna parecendo surpresa,
encantada e exausta. Sinto que elas já se conhecem e que minha mãe está reforçando o assunto porque
quer chegar em um ponto especifico. Ela voltava da lua só em momentos de crise, era incrível de ver,
porque na maior parte do tempo para fazer contato com ela só com muita paciência e alguns
chocolates, que nem era com Vito.
— Acho que sim — responde olhando para os tênis sem coragem de encará-la.
— Então obrigada. — Anna se volta para ela perdendo o medo, parecia surpresa e muito
magoada.
— Eu virei a cabeça do seu filho ao ponto de ele querer morrer por mim e você me agradar? —
Vendo a confusão em meu olhar, minha mãe sorri e meu pai toma a palavra.
— Ela está agradecendo porque pensamos que ele nunca cederia, você nos provou que
estávamos errados. Não sabemos quem você é, de onde vem ou pelo que passou e não importa
porque nessa família tentamos não julgar ninguém. O que importa é que você deu ao nosso filho o que
sempre quisemos que ele tivesse. Você lhe deu um tipo de amor pelo qual ele quis lutar.
— O que eles querem dizer, Anna, é que você pode nos contar o que quer que seja, que ainda
ficaremos ao seu lado. Não abandonamos ninguém do time, lembra? — diz Bárbara, sorrindo
diretamente para mim, ao se intrometer.
Eu amo minha família. Eles são um puta pé no saco sempre que podem, mas são o que eu tenho
de mais importante e valioso nessa vida, hoje mais do que tudo quero que Anna e o menino façam
parte dela.
— Confie em nós, Anna — peço me voltando para ela com um pedido silencioso no olhar.
Confie, garota, vamos te proteger, inclusive de Bernardo se for preciso.
— Quem era ele? Essa é a última vez que eu vou te perguntar antes de te algemar — pergunta
Bernardo incisivamente. Anna balança a cabeça e esconde meu rosto na mão livre. Bernardo ameaça
vir em sua direção, mas Ian o puxa pela camisa.
— Mesmo agora você se recusa a contar o que quer que seja, você é uma hipócrita, garota. Não
tem o direito de sofrer pelo Monstro, você não merece ele, não merece o que ele fez por você. — Eu
vou matar ele, de preferência com sua própria arma. Eu estou exatamente tentando me levantar para
fazer isso quando as palavras dela me congelam e congelam a todos no quarto.
— Meu pai. ELE ERA MEU PAI! — grita soltando minha mão e caindo para trás escorada em
uma parede. Quero mais do que tudo me levantar e tirá-la do chão gelado, abraçá-la e mandar que se
cale, não temos o direito de lhe fazer contar nada, principalmente algo que está claro que a dilacera
por dentro e me revolto comigo mesmo por não conseguir. Bernardo dá um passo para frente e eu
olho para Ian incisivamente, se lhe peço com o olhar para afastá-lo dela ou levantá-la do chão não
sei, mas o bom de ter um melhor amigo como ele, que me conhece como seu bisturi preferido, é que
ele sabe exatamente o que se passa na minha cabeça e conhece cada um dos meus olhares como se
fossem seus. Ian faz as duas coisas, empurra Bernardo para longe de Anna e a pega nos braços
tirando-a do chão e a colocando ao meu lado na cama hospitalar. Passo meu braço em volta dela com
dificuldade e puxo sua cabeça em direção ao meu peito, deixando-a chorar onde é mais seguro.
Em seu lar, nos braços de seu anjo. O homem que jurou a si mesmo nunca deixar de protegê-la,
até mesmo na época em que achava que não poderia vir a amá-la.
A Fera que me amou

“Na bruma leve das paixões


que vêm de dentro
Tu vens chegando
pra brincar no meu quintal
No teu cavalo,
peito nu, cabelo ao vento
E o sol quarando
nossas roupas no varal”
(Anunciação, Alceu Valença)

Anna

— Meu pai — sussurro com a culpa dilacerando tudo. Sei que não deveria, sei que o homem
que ele matou não portava documentos, também sei que nada havia sido encontrado no carro. Nem
nome, nem endereço, nem nada que o pudesse ligar a mim ou ao meu filho. Mas ele tinha razão,
Augusto merecia a verdade. Mesmo que essa afirmação me faça perder a guarda de Nicholas, eu a
divido. Eu falo duas palavras que não pronuncio há três anos. MEU. PAI. MEU. PAI. MEU. PAI —
ELE ERA MEU PAI! — grito sendo vencida pela dor, sendo empurrada por ela até bater contra algo
sólido, me deixo cair abraçada a meu próprio corpo só me dando conta de que estou novamente
segura das minhas lembranças quando sinto as mãos do meu anjo ao meu redor.
— O quê? — pergunta Augusto no meu ouvido perplexo. Vejo que ele não acredita em um
primeiro momento no tamanho da brutalidade que lhes conto. Para pessoas de bem é inconcebível
que um ser que tem como missão cuidar, proteger e amar outro ser seja justamente a pessoa que ela
mais teme. Mas na minha vida isso é real. Real e extremamente doloroso. É o meu castigo por ser
uma menina tola.
— Meu pai tenta me achar há anos com apenas uma finalidade: me matar — quando solto as
palavras que por tantos anos tentei negar, não estou mais chorando, estou coberta de ódio pelo
homem que me apavorou desde que eu mal sabia falar. O homem que acabou com a minha vida,
matou tudo o que tinha cor, matou o amor.
— Por... — gagueja Ian de olhos arregalados. Azuis, tão azuis. — Por que, Anna?
— Não responda se não quiser, anjo — sussurra Augusto com os lábios em meu cabelo,
tentando me apertar mais forte sem ter muito sucesso. — Ninguém vai te forçar — Não vejo, mas sei
que as palavras foram um recado para Bernardo, elas saíram carregadas de raiva e algo mais,
proteção. Seu cuidado com meu emocional é o bastante para que eu me agarre mais ao seu corpo
machucado, tomando cuidado para não lhe causar dor e lhe conte sobre a minha, a minha dor sem
fim.
— Porque eu fui testemunha de um assassinato — respondo fechando os olhos. Sinto suas mãos
passearem pelos meus cabelos, seu cheiro que mesmo sendo encoberto pelo aroma de álcool e
lençóis limpos ainda se prende a ele com afinco e toda a segurança que ele, e apenas ele, me
proporciona e deixo as palavras saírem de meus lábios e se misturarem as lágrimas que saem dos
meus olhos. — Heitor nunca foi um bom pai, não merece esse título. Eu cresci vivendo imersa no
medo de sua presença até o pescoço. Para mim ele era o monstro que as crianças temiam morar
embaixo de suas camas, a única diferença é que o meu permanecia na mesa de jantar se embriagando
de uísque enquanto pensava como me torturar, noite após noite.
— Agora ela vai apelar para uma história triste — Bernardo ri sem humor. — e vocês tão estão
caindo na dela, faça me o favor...
— Cale a boca — ordena Bárbara ferozmente. — ou eu calo ela pra você.
— Diferentemente das outras crianças eu não temia dormir, eu só temia acordar — continua
ignorando-os. Não consigo mais me controlar, não consigo parar. Enquanto as mãos de Augusto
estiverem sobre mim sei que podia, sei que conseguia falar.
— Ele sempre foi muito rico, tinha posses e poder, mas na minha casa eu e minha mãe
passávamos fome, não tínhamos o que vestir e levávamos uma surra por dia. Ele fazia questão de
lembrar que era o mais forte, mesmo que já soubéssemos disso. Éramos sua outra família, aquela que
ele apenas usava, não éramos a família dos holofotes. Nela não havia crianças, sua mulher não podia
concebê-las, havia apenas aparências. Até hoje não entendo porque ele nos manteve vivas, sempre
fomos um estorvo.
Talvez fosse pelo sexo, ele judiava da minha mãe como não podia fazer com a mulher fina, de
classe e abastada com quem havia se casado, eu fui apenas uma mera inconveniência, um deslize, um
bebê que não havia sido planejado e com quem ele tinha que lidar. Heitor se enojava só de me olhar,
cansou de bater na minha mãe por ter escondido a gravidez quase até o final alegando estar
engordando. Quantas não foram as vezes em que minha mãe me empurrou para debaixo da cama ou
para dentro de um armário quando ele chegava bêbado e queria usar seu corpo, quantas não foram as
vezes em que eu os ouvi.
— Anna, querida, nós sentimos tanto — murmura Vivian entre soluços. A essa altura muitos
outros são ouvidos, levei todas as mulheres no quarto às lágrimas. Elas estavam se pondo no meu
lugar e haviam decidido sabiamente que não era uma boa pele para se estar, por isso as lágrimas
eram para fazerem com que voltassem a seus corpos, suas mentes e suas vidas, por isso a pena,
porque sabiam que ser eu era torturante. Infelizmente para elas eu ainda estava na metade da história
e não havia sido a mais prejudicada dentro dela.
— Quando eu cresci era mais fácil escapar das surras, eu corria, me escondia e minha mãe
apanhava no meu lugar. Ela sempre me dizia que aquele era o fardo dela e não o meu, que me
protegeria enquanto pudesse, nem que fosse com a própria vida. Mas eu não era mais criança e
embora não tivesse curva alguma meu corpo denunciava isso, minha mãe tomou a primeira atitude
quando o viu me bater até eu desmaiar e se aproveitar para passar a mão em mim, ela procurou a
polícia. — Nesse momento eu me levanto o suficiente para olhar para Bernardo com rancor, ele
abaixa a cabeça, como se estivesse envergonhado, não deveria, ele era um bom policial, apenas
estava cuidando de sua família, já o homem que minha mãe procurou era diferente. — Eles não só
não acreditaram nela como contaram para Heitor, ele tinha influência até nisso. Ela ficou de cama por
quatro dias depois de tantos chutes que recebeu como punição.
— Não somos todos iguais, se você tivesse me contado... — tenta se justificar.
— Eu sei — realmente sabia que ele teria me protegido, mas eu não podia contar. Nicholas
dependia disso, era muito para eu arriscar confiando em alguém que havia acabado de conhecer. —
Mas quem acreditaria em mim em detrimento da palavra de um homem rico e importante? Ele tinha
mais poder do que eu e sempre vencia.
— Ele... ele te estuprou? Ele é o pai de Nicholas? — pergunta Bernardo assustado, nesse
momento Augusto me aperta mais. Sei que ele está tentando me dizer que está tudo bem em mentir,
que esse segredo ele vai guardar até o fim como me prometeu, mas eu quero contar a verdade.
— Não e sim. — Eles arquejam de espanto e dona Ruth tapa a boca com as mãos, assim como
dona Eva. — Minha mãe engravidou novamente e com muito custo mais um vez conseguiu manter a
gravidez em sigilo. Não sei como Nick nasceu saudável, porque sua barriga era constantemente alvo
de socos e pontapés, afinal eu, o estorvo, havia saído dali. Fora a falta de comida e a falta de
dinheiro para remédios e exames. Minha mãe era proibida de sair de casa, Heitor era o responsável
por trazer os mantimentos e qualquer coisa que precisássemos, o que raramente acontecia e fora ir à
escola, onde ele mantinha alguém me vigiando eu também era. Tentei burlar essa regra uma vez e ele
quebrou meu braço, mas pela minha mãe e pelo bebê eu fiz de novo. Corri no meio da noite até uma
vizinha e pedi ajuda.
Foi essa vizinha quem fez o parto. Ela tinha visto minha mãe poucas vezes, a cidade era pequena
e agrária, era fácil esconder uma mulher e uma criança do resto do mundo. Mas aquela mulher nos
ajudou. O único problema foi Heitor descobrir isso. Diferentemente de mim ele gostou da criança.
Era um varão, como ele dizia, todo homem deveria ter um varão. Um filho homem, mesmo que fosse
bastardo. Certa noite ele chegou para buscá-lo, disse que ia levá-lo para morar com ele e a esposa.
— Meu Deus! — sussurra Babi entendendo exatamente onde minha história termina e ao mesmo
tempo começa. — Nick é seu irmão...
— Minha mãe não deixou e pela primeira vez o enfrentou, correu para fora de casa chamando
por ajuda, correu até a vizinha que havia nos ajudado antes. Heitor matou as duas, ou pelo menos
acho que sim. Ele atirou na minha mãe pelas costas enquanto eu corria atrás deles. Tudo o que eu me
lembro é de vê-la cair com um baque surdo no chão de terra e de ver Nicholas rolar alguns metros
adiante. Enquanto ele corria atrás da vizinha, eu peguei o bebê e cheguei até ela, tentei socorrê-la,
mas era tarde demais. Tudo o que ela conseguiu dizer antes de morrer nos meus braços foi: “Proteja
Nicholas como se ele fosse sua própria vida. Pegue a maleta no porta-luvas do carro dele e fuja” —
engasgo porque nesse momento escuto a voz da minha mãe na minha cabeça terminando seu apelo
dizendo meu nome, meu verdadeiro nome, a única coisa que não estou disposta a compartilhar com
ninguém. Dói demais porque era o nome dela. Minha mãe dizia ter me dado o mesmo nome porque eu
era sua chance de viver outra vez, fazer novas escolhas e ter uma vida melhor. Eu era a sua chance de
ser feliz, a única que ela teria.
— Então, você roubou o dinheiro e a criança e vem fugindo desde então? — pergunta Ian
chocado.
— Sim, tinha cinquenta mil em espécie no carro, não sei como minha mãe sabia, mas estava lá.
Peguei a maleta, meu irmão e corri até a estrada. Pedi carona e fugi, eu tinha só dezesseis anos, mas
se tem algo que aprendi nesse meio tempo é que dinheiro compra silêncio e que regras nos mantém a
salvo. Trabalhei como empregada doméstica ou qualquer outro trabalho que não fizesse perguntas
demais para me aceitar, arrumei esconderijos e tentei fazer com que Nicholas pensasse que eram
lares, mesmo sem serem. Ensinei ele a andar, a falar, a me chamar de mamãe porque era isso que eu
era dali em diante e a temer o monstro que nos perseguia, nunca me aproximei de ninguém o
suficiente para ser notada ou lembrada, nunca confiei...
— Até que você me encontrou — diz Augusto com a voz embargada.
— Sim, até que eu encontrei alguém que fez com que eu me sentisse em casa, alguém que me
abraçou com a mesma segurança que ela abraçava e me estendeu a mão mesmo sem me conhecer. —
Solucei. — Ano após ano, ele nos achava e eu tinha que fazer tudo outra vez, até que ele nos achou
pela última vez e tirou meu carro da estrada, até que eu precisei que Nicholas fosse protegido por um
anjo.
— Eu sempre vou proteger vocês, Anna. — ouvi-lo me chamar por um nome inventado
machuca, mas não lhe interrompo. — Vocês são meus agora e eu não sou esse tipo de monstro,
comigo você vai ter tudo o que ele te negou, eu te juro. — Sua voz é carregada de emoção e
promessas. Ela é carregada com o aroma de vida nova.
— O que você está me prometendo, Monstro? — Me afasto e me levanto o suficiente para olhá-
lo nos olhos com expectativa e medo. Me lembrando da última vez em que lhe fiz essa mesma
pergunta. Ainda lembro de sua resposta, palavra por palavra: “Eu não quero te prometer um
sentimento que eu ainda não sei se consigo lhe oferecer, não da maneira que você gostaria. Eu não
sou o cara que assume o filho de outro, não sou o cara que traz flores pra casa ou leva alguém
para o altar”. Mas naquele dia ele disse que me prometia segurança e cumpriu sua promessa, eu não
deveria querer mais dele, mas queria. Eu queria que ele prometesse o que não havia conseguido antes
e é exatamente isso que ele faz, palavra por palavra.
— Estou te prometendo flores e um altar, estou te prometendo amar e cuidar de você e de
Nicholas. — Ele segura meu rosto com uma das mãos e passa o polegar pela minha cicatriz. — Estou
te prometendo uma vida de felicidade, segurança e amor. Estou te prometendo amor, Anna.
— Você pode cumprir essa promessa, Monstro? — questiono, sorrindo timidamente, querendo
pular em cima dele e beijá-lo com vontade, mas me refreio. Quero ter a certeza de que ele consegue,
de que não está com medo ou tem dúvidas.
— Eu descobri que por você eu posso tudo, até mesmo voltar da morte. — Ele sorri e me puxa
para um beijo, jogo meus ombros em volta de seu pescoço e me entrego ao sentimento mais
avassalador e bonito que conheci, mesmo em meio a tanta dor.
O amor.
Não há nada como ser beijada por uma Fera e abrir os olhos para encontrar um lindo príncipe
nos olhando de volta, principalmente quando, ao invés de serem contemplados com uma valsa, vocês
são contemplados por uma salva de palmas de uma família, maluca, esquisita e perfeita.
Minha família maluca, esquisita e perfeita.
Três meses depois...

Anna

Estamos sentados no jardim da nossa casa em uma toalha estendida perto das roseiras, meu
lugar preferido do jardim quando Nicholas entra correndo pela passagem que divide as casas
germinadas e vem em nossa direção sendo rebocado por Valentina, as bochechas dela ardem em
expectativa e as deles coram de vergonha. O que será que aprontaram dessa vez?
— Adoro quando Ian os vê de mãos dadas — sussurra Augusto passando suas mãos por minha
cintura, estou sentada à sua frente e aproveito para me recostar sobre seu peito, no exato lugar onde
tem uma marca do seu amor por mim. — Adoro principalmente todos os tons de vermelho que seu
rosto exibe — murmura divertido pelos ciúmes que o melhor amigo tem da filha, ciúmes esse que
parece não afetar o meu filho em nada.
— Titio, o Nick quer te perguntar uma coisa — anuncia Valentina empurrando Nicholas
delicadamente para frente enquanto ele olha para o chão.
— O que foi, garoto? — pergunta Augusto parecendo curioso.
— Eu... é... — gagueja e olha para ela, que o incentiva a continuar com um balançar de
cachinhos loiros. — O papai da Tina é o tio Ian, não é? — Sinto Augusto se mexer, provavelmente
está balançando a cabeça afirmativamente, seus braços me apertam mais em expectativa para
descobrir aonde essa conversa vai dar. É impressão minha ou ele está ansioso? Me viro para ver sua
reação quando a pergunta chegar aos seus ouvidos, porque sei exatamente qual vai ser. — Se eu moro
com você, Monsto, isso quer dizer que você é o meu papai? — Augusto abre a boca para responder
uma, duas, três vezes, mas nada sai de dentro dela. Ele pisca atordoado enquanto meu menino o olha
com expectativa e eu também, embora tente esconder. Por fim, seus olhos se enchem de lágrimas e,
em contrapartida os meus também. Ah, Monstro, quem te viu, quem te vê, não?
— Sou — diz puxando Nick para seus braços, ele aperta forte meu filho e sorri pra mim
enxugando o olho antes que escape algo dele. — Eu sou o seu papai, garoto.
— Amo você, Monsto — murmura Nick se soltando e agarrando a mão de Valentina, saindo
correndo pela mesma entrada pela qual vieram.
— Eu também — murmura Augusto baixinho para si mesmo. Antes que eu possa comentar sobre
o assunto, escutamos Bárbara gritar.
— Ian, melhor aterrar a piscina e fazer aquele maldito abrigo nuclear. Isso ou vamos ter que
internar o meu irmão. — Quando nos damos conta estamos rindo.
— Eu fiz mal em lhe dizer aquilo? — pergunta no meu ouvido quando volto a me aconchegar em
seu corpo, transbordando de orgulho dele.
— Não, você é o melhor pai que ele poderia ter.
— Bom, o outro era um assassino, não tinha como ser pior, não é? — pergunta fazendo graça.
Incrivelmente eu rio, mas é engraçado como algo que te machuca a vida toda se anula quando você
conhece a felicidade, daquelas de verdade que tem o poder de colorir seu mundo com um único
sorriso torto.
— A questão é, por que você deixou? Pelo que eu soube você sempre disse para quem quisesse
ouvir que Ian era um... como você chama mesmo? Ah é, capacho! — Ele se enrijece às minhas costas
enquanto eu prendo a respiração aguardando por sua resposta.
— Porque ele é meu — diz duramente. — só meu. Hoje eu entendo exatamente o que Ian sente.
— Você tem razão, querida, um abrigo vai ser mesmo necessário. É uma pena, Gustavo ama essa
piscina! — berra Ian, indicando que, como sempre, estão ouvindo atrás das portas, ou muro no caso.
— Ele que se foda, aquele traidor comedor de piranhas falsas... — E lá vamos nós outra vez.
— Essa briga só vai acabar quando ele largar a menina ou quando Bárbara a matar, não é? —
pergunto com um sorriso.
— Exatamente. — Ele beija meu pescoço me fazendo esquecer por um minuto do que ia dizer.
— Acho que eu vou matá-la, então! — proponho querendo acabar com o problema de uma vez.
— Se for pra fazer minha irmã ficar feliz e calar a sua maldita boca, eu ajudo — concorda
rapidamente colocando uma mecha dos meus cabelos atrás da orelha.
— Obrigada, uma ajudinha seria muito bem-vinda! — berra ela de volta por cima do muro. —
Eu já até tenho tudo planejado, só faltavam os cúmplices!
Augusto decide ignorar sua família e me vira em sua direção me beijando com doçura, eu
respondo ao beijo pensando nos maravilhosos meses que estamos passando juntos. Não me contenho
de orgulho por ver sua mudança. Ele ainda é um ogro rude e mal-humorado, mas agora é um ogro
rude e mal-humorado de uma mulher só: eu. Ele ainda tem dificuldade de falar sobre sentimentos,
mas todos os dias me prova com suas ações o quanto sou amada e sim, certa noite ele trouxe flores
para casa. Quanto ao altar, bom... Vamos caminhar um passo de cada vez.
— Acho que eu deveria começar a procurar um trabalho — falo de supetão pensativamente, não
era muito solitário ficar em casa o dia todo, mas logo Bárbara voltaria a trabalhar e eu ficaria
sozinha.
— Não quero que você trabalhe — diz fazendo uma careta, que faz par com a minha. Não quero
depender do dinheiro dele, não é certo.
— Você quer que eu limpe a casa, faça a comida e te espere sem calcinha todos os dias? —
pergunto sarcasticamente cruzando os braços em frente ao corpo.
— Isso seria incrível — responde de forma sonhadora ganhando um tapa no braço. —, mas,
além disso, eu quero que você estude — diz com um sorriso fazendo com que eu me esqueça de que
estava brava. — Você terminou o colégio? — Eu tinha medo dessa pergunta, nego com a cabeça e um
lampejo de tristeza passa por seu olhar. — Então vamos procurar uma escola para você fazer
supletivo à noite, eu fico com Nick para você estudar e quando terminar pode fazer faculdade. Pode
se formar no que quiser — diz de maneira objetiva, mas o acordo para a realidade.
— O dinheiro que ainda resta na maleta daria para pouco mais de um ano, não mais do que isso
— lamento fazendo as contas de quanto acho que deve custar uma mensalidade de faculdade.
— O dinheiro na maleta é a sua reserva, não quero que mexa nele. — Abro a boca para lhe
perguntar o que devo fazer então, quando ele responde. — Eu vou pagar pelos seus estudos e tudo o
mais que você precisar. Anna, eu quero que você faça e tenha tudo o que lhe foi negado. Quero que
construa a carreira dos seus sonhos, trabalhe em algo que ame e não limpe o chão de pessoas para
viver, é um trabalho digno, mas essa época da sua vida acabou. Você é minha agora.
— Você faria isso por mim, pagaria os meus estudos? — pergunto boquiaberta constatando que
ele ainda tinha o poder de me surpreender. O que, claro, não deveria ser surpresa alguma porque ele
não deixava nada faltar, nem para Nicholas nem para mim. Não que eu lhe pedisse alguma coisa, ele
simplesmente dava. Ele sabia quando eu queria algo pelo olhar e tinha também as notas dobradas
todos os dias sobre a mesa quando eu acordava.
— Eu faço qualquer coisa por você, achei que tinha deixado isso claro. Eu amo tanto você,
garota sem nome — diz voltando a encostar seus lábios nos meus, dessa vez com mais gana.
Interrompo o beijo e retiro suas mãos dos meus seios com agilidade com um segredo preso na ponta
da língua. Faz algum tempo que a verdade estava presa em minha garganta então decido que esse é
um momento certo para lhe contar.
— Helena — digo olhando para o céu como se estivesse nomeando uma das estrelas brilhantes
que nos contemplam. Augusto também olha para cima por um momento e se vira em minha direção.
Sinto seu olhar me queimar, respiro fundo e me volto para ele, vejo a interrogação em seu olhar. —
Meu nome é Helena. — Ele sorri, sabe que quebramos a última barreira, sabe que confio nele o
suficiente para lhe mostrar o meu mais precioso segredo, minha verdadeira identidade. O nome da
minha mãe.
Hoje não sou mais a garota sem nome, hoje eu sou a Helena, a dona do coração do garoto que
tinha asas. A mulher que transformou a Fera em príncipe e lhe mostrou que ele não somente sabia
amar, como seria feliz ao fazê-lo.
— Helena — sussurra maravilhado, mas ainda não terminei. Tenho mais uma coisa para contar
para ele. Mais um segredo. Esse eu descobri há poucos dias com a ajuda de Bárbara, que era bem
mais calejada nessa vida do que eu.
— Monstro? — Ele me olha com afeição. — Tem mais um segredo que eu preciso te contar —
lhe digo ansiosa.
— Você pode me contar qualquer coisa, anjo. — Essa eu queria ver.
— Você vai ser pai. — A cor some de seu rosto e seus olhos se arregalam, ele tenta falar, mas
não sai nada de dentro da sua boca. Vejo a compreensão da notícia e a surpresa, pouco depois vejo o
medo que se transforma em pavor, ele está tendo uma convulsão?
— O que... quê? — gagueja. Então cai.
Perfeito, eu digo que estou grávida e ele desmaia!
— Ele desmaiou, não foi? — pergunta Bárbara colocando a cabeça na passagem, não se
aguentando de excitação e júbilo.
— Na mosca! — Rio divertida, só com um pouco, um pouquinho mesmo de dó dele.
— Ian! — grita chamando a atenção do marido. — Você me deve cinquenta paus. — Ela ri e se
volta pra mim. — Vamos ficar ricas, porque Bernardo apostou que ele sairia correndo e a Vivian que
ele ia chorar. Só nós sabíamos que ele ia desmaiar.
— Coloca cem na conta da sua avó, ela apostou que ele ia finalmente me pedir em casamento.
— Acho graça de sua ilusão. Ele mudou, mas não tanto assim.
— Você... — diz ele quase um minuto depois despertando, interrompendo uma discussão que eu
e Bárbara estávamos tendo sobre como gastar nossa pequena fortuna. — Você disse que... — gagueja
ainda pálido. — disse que...
— Estou grávida? — Rio achando graça de sua falta de palavras. — Sim, eu disse.
Para minha surpresa, ele se levanta em um pulo, agarra uma rosa de qualquer jeito sem nem
mesmo se importar com os espinhos e se ajoelha à minha frente, me olhando de maneira encantada e
apaixonada como eu nunca o havia visto antes.
Meu coração para.
— Ah, não — murmura Bárbara se entristecendo. — acho que vamos voltar a ficar pobres. A
vovó nunca erra, que safada!
— Casa comigo, Helena? — pergunta abrindo um sorriso atordoado e cheio de expectativas. O
sorriso mais lindo do mundo, o sorriso de um anjo.
— Sim. — Pulo em seu pescoço na velocidade da luz abraçando minha rendição, meu perdão,
meu porto seguro, minha âncora.
Porque com ele eu mergulho em qualquer vida nova sem medo...
O garoto dos olhos azuis foi criado como um livro único. Mas a cada leitor que insistia por
uma continuação uma fagulha se criava dentro de mim, até que, por fim, me vi tomada de uma
necessidade absurda de mergulhar mais uma vez na vida das famílias Bittencourt e Vitorazzi, sem
saber ao certo se eu conseguiria voltar para a pele daquelas pessoas mesmo depois de tê-las
abandonado há mais de um ano e, por mais que eu tivesse dúvidas, foi incrivelmente prazeroso
reencontrá-las e voltar a me apaixonar por cada uma delas.
O primeiro agradecimento sempre será destinado à minha base, minha família. Agradeço
imensamente aos meus pais por nunca deixarem de me apoiar e ao meu marido que não deixa de me
incentivar, mesmo quando passo semanas em um relacionamento sério com minhas paixões literárias.
Obrigada por me fazer acreditar nos meus sonhos e emprestar uma parcela da sua personalidade para
o Augusto, Anna e eu agradecemos. Obrigada ao meu principezinho por ser a criança mais incrível
do mundo, ele é a razão pela qual eu faço tudo e qualquer coisa, o grande amor da minha vida.
Mas, como eu estava dizendo, eu tinha lá minhas dúvidas de que esse livro ia ser escrito. A
primeira pessoa a me dizer “Para de drama, vai fundo que você vai conseguir!” foi a Helena
Matarezio, minha amiga, leitora beta e fiel escudeira que sabe das minhas histórias antes mesmo de
elas passarem para o papel e as lê capítulo a capítulo. Mais uma vez foi o seu empurrão (ou no caso,
chute na bunda) que me fez ir em frente, então obrigada. Espero que você tenha gostado da
homenagem, depois de quatro livros, já estava na hora, né?! Eu também gostaria de agradecer a
Alexia Dayglee, mais uma amiga incrível que acompanhou o Augusto e Anna de perto, obrigada por
sempre me doar o seu tempo e os seus ouvidos, porque eu sei que falo bastante e você parece nunca
se cansar de me escutar. Sua paciência merece um troféu, amiga, sério!
Obrigada a Bruna Gomes e Ana Flávia Ribeiro, amigas e idealizadoras do projeto Livro
Viajante que está levando O Garoto dos Olhos Azuis para um passeio pelo Brasil pelas mãos de
cinquenta meninas. Obrigada pelo carinho, pelo apoio e por se apaixonarem pelo Augusto junto
comigo. Bruna, você é uma linda, obrigada por todo carinho que você dedicou a essa história. Ana,
seus surtos pela madrugada foram uma das maiores razões que fizeram a escrita desse livro ser tão
gratificante. Obrigada a todas as meninas do projeto por serem tão incríveis.
Obrigada às demais leitoras betas deste livro: Jay Schu por todo o apoio e confiança no meu
trabalho e Bianca Machado, adoro nossas conversas divertidas e os e-mails dramáticos cheios de
amor e ódio que recebo sempre que você termina uma leitura.
As minhas amigas de convivência que me escutaram falar dele por intermináveis semanas sem
perderem a paciência e terem engolido cada uma das minhas mentiras para não sair de casa (juro que
o cachorro pegou fogo mesmo, gente!): Henry Pereira, Marcela Guedes, Fabiula Vitorino e Tais
Gonçalvez. Gratidão e amor infinito define o que sinto por cada uma de vocês.
Meus sinceros agradecimentos ao time que me ajudou a deixar esse livro pronto, em especial a
Carla Fernanda que trabalhou incansavelmente para que essa história estivesse em suas mãos com
uma revisão de primeira e, por fim, um agradecimento especial recheado de beijos a todos os meus
parceiros. Sem vocês eu nunca teria ido tão longe e a todos os meus leitores, os velhos e os novos.
Espero que se encantem e topem com um cavalo de qualquer cor por aí.
Obrigada, Deus!
Vejam uma prévia do que vem por aí, no terceiro volume da trilogia: O Garoto que eu abandonei.

Bárbara

Eu daria qualquer coisa para ser filha única: minha orelha esquerda, o dinheiro que tenho na
poupança, meus pares de sapatos e todos os sorvetes que tem escondidos no meu freezer, embora eles
não sejam de fato meus. Porque vou te dizer, ter irmãos é um pé no saco, principalmente dois tão
cabeças-duras como os meus. O que minha mãe estava pensando quando resolveu ficar com eles ao
invés de colocá-los em uma cestinha e deixar na porta de uma igreja qualquer é um mistério pra mim,
ou nem tanto, ela vive em outra dimensão a maior parte do tempo. Se eu fosse julgar diria que ela só
se deu conta do tamanho da burrada quando já era tarde demais.
Augusto, meu irmão mais velho, hoje em dia é o menor dos meus problemas, já que ele foi
domesticado. E pensar que ele era o mais descrente em se tratando de amor. Achei que mulher
nenhuma teria o poder de mudá-lo (ele com certeza pensava o mesmo), mas não contávamos com a
doce e tímida Anna entrando em nossas vidas, tomando conta de seu coração à força e fincando uma
bandeira de encoleirado nele. Hoje, ele havia se transformado e exibia uma postura muito diferente
do homem mulherengo que não valia nem uma moeda de um centavo de antes. Uma postura de homem
de família. Meus olhos se enchiam de água todas as vezes em que ele abraçava sua noiva e passava
as mãos por sua barriga minúscula que abrigava uma vida.
A vida deles.
Eu sempre quis que eles se acertassem na vida, encontrassem uma garota boazinha de quem eu
obrigatoriamente gostasse e montassem no cavalo branco por elas. Eu sei, eu sei, eu e os cavalos.
Meu maior problema é que Gustavo, meu irmão do meio, fez diferente, em vez de montar em um
cavalo ele encontrou e se apaixonou por uma égua. Ele era minha maior decepção, ele e aquele
creme mágico que prometia diminuir celulites e não passou de perda de tempo.
Só de pensar que ele estava namorando justo ela, a mulher que tentou destruir a minha felicidade
e me fez passar pela maior humilhação que já passei em toda minha vida, eu tinha vontade de gritar,
de me jogar no chão e fazer birra que nem aquelas criancinhas medonhas fazem no supermercado.
Nossa família é estruturada, é uma unidade indivisível e inabalável. Eu morreria pelos meus
irmãos, mas no momento tudo o que eu tenho vontade de fazer é matar um deles. Não posso,
simplesmente não posso vê-lo jogando a vida fora por um amor que não é de verdade e eu vou fazer
o que for preciso para protegê-lo.
Se para isso eu tiver que jogar sujo, que seja. Mas uma coisa eu digo, com aquela mulher
Gustavo não se casa, ou meu nome não é Bárbara Vitorazzi.
Raiza Varella nasceu em São Paulo, Capital. É apaixonada por livros e animais quase tanto
quanto é apaixonada por Supernatural, Dr. House e fast-food, quase! Tem preferência por finais
felizes e ainda teima em acreditar em abóboras e fadas-madrinhas, tanto que decidiu escrever seus
próprios contos de fadas.
O Garoto dos Olhos Azuis, seu romance de estreia, provou que ela tem a fórmula perfeita para
mesclar comédia e romance no ponto certo para agradar do começo ao fim. O Garoto que tinha Asas
é o segundo livro dos seus Encantados.
Formada em Direito e fissurada por amores impossíveis, mora na cidade natal com o marido e o
filho, um cão e uma gata dotados de personalidades próprias e muita criatividade para o mal.

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O GAROTO DOS OLHOS AZUIS
Trilogia Encantados – Vol. 1
O príncipe encantado existe?

Bárbara é linda, loira e bem-sucedida. Desde que assistiu a uma cerimônia de casamento pela
primeira vez, ainda criança, seu sonho é apenas um: percorrer o tapete vermelho da igreja, vestida de
noiva. Porém, contrariando todas as suas expectativas, ao ser abandonada no altar, a vida de Bárbara
desmorona. Ela decide voltar à cidade natal e passa a viver com os irmãos e mais dois amigos.
Todos homens. Com a ajuda de Vivian, uma espécie de Barbie Malibu, Bárbara tenta superar sua
decepção amorosa recente e uma da adolescência, que volta com tudo à sua memória: o garoto dos
olhos azuis. Será que o cavalo branco só passa uma vez? É isso que Bárbara vai descobrir com bom
humor, jogo de cintura e uma pitada de neurose, em O Garoto dos Olhos Azuis, romance de estreia de
Raiza Varella.

À VENDA:
IMPRESSO:
Autografado direto com a autora através do e-mail contato@raizavarella.com

E-BOOK: http://www.amazon.com.br/dp/B00SLB6EO6
O ÚLTIMO ADEUS
(Conto)

Annabel está perdendo alguém importante, será ela corajosa o suficiente para dar seu último
adeus?

À VENDA:
E-BOOK:
http://www.amazon.com.br/dp/B011SJ2A0O