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PERIGOSAS NACIONAIS

Áries

Ky Crossfire

Ficha Técnica

Capa: ML Capas

PERIGOSAS ACHERON
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Revisão: Lilia Lira

Esta é uma obra de ficção. Nomes,


personagens, lugares e acontecimentos descritos
são produtos da imaginação da autora. Qualquer
semelhança com a realidade é mera coincidência.

Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou


reproduzida sob quaisquer meios existentes —
tangíveis ou intangíveis — sem autorização da
autora. A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido na lei nº 9.610/98, punido pelo artigo
184 do código penal.

Copyright © 2019 Ky Crossfire

Todos os direitos reservados.

Conheça todas as obras da autora em

http://kycrossfire.com

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DEDICATÓRIA

Algumas pessoas levam a vida toda para


encontrar a plenitude no amor. A alma gêmea. Eu
tive a sorte de encontrar cedo. Dedico este livro a
você, meu amor. Sem você nada disso seria
possível!

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Aviso aos leitores


Sou uma autora independente, ou seja, não possuo
editora. Fica a meu cargo todo e qualquer gasto que
houve durante a criação desta obra até que o
trabalho final estivesse lindo e impecável em suas
mãos. Quando digo isso me refiro as horas que me
dediquei escrevendo esta história, as noites mal
dormidas, as crises de ansiedade pensando no rumo
em que a história seria conduzida. Este é o meu
trabalho. Faço com amor, mas é do meu bolso que
sai o dinheiro que paga a revisão do texto, a
diagramação, a capa. Sinto que vale a pena investir
cada centavo nisso pois é através da venda deste e-
book na Amazon que tiro o sustento da minha
família. Não adianta dizer “Vou ler em PDF e se eu
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gostar eu compro o livro físico depois...” Gente, eu


não tenho livro físico como eu recebo pelo meu
trabalho no qual eu me dediquei meses a fio se o e-
book ficar sendo distribuído livremente na internet?
Sabe quanto um autor recebe em média quando seu
livro é alugado pelo Kindle Unlimited?
Aproximadamente R$0,01 centavo por cada página
lida. Se o e-book é comprado o autor recebe
setenta por cento do preço final... isso dá em torno
de menos de nove reais.
Eu mereço receber pelo meu trabalho. Não é
oportunismo, não é ganância, é simplesmente justo.
Escrevo por amor, mas escrevo também porque é o
que paga as contas.
Peço encarecidamente, se você por acaso encontrar
o PDF sendo distribuído entre em contato com
juridico@kycrossfire.com

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AGRADECIMENTOS
Obrigada por me acompanharem. Um
agradecimento muito especial ao meu esposo
maravilindo e a ADM Malévola Grazi Krass, suas
palavras de apoio quando eu senti uma insegurança
gigante me deram força pra continuar. Eu sei que
eu quase enlouqueci você e o nosso marido...
(mentira, ele é só meu!) mas valeu a pena...
consegui concluir mais um romance e a única
sensação que tenho neste momento é de dever
cumprido. Não posso deixar de agradecer a todas as
Adms do grupo Malévolas, vocês são best Carla
Freitas, Naty Grey, Inês portuga, Emy e Aninha,
muito obrigada por estarem ao meu lado <3.
Gostaria de agradecer também a blogueira Rebecca
(ig @bolsadabecca) pela resenha maravilhosa, amei
tanto que tive que usar como sinopse srsrsr.
Também fica meu abraço apertado as mais de vinte
mil seguidoras lindas, o grupo só cresce , e eu
nunca serei capaz de agradecer o suficiente!

AMO TODAS VOCÊS !


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Não esqueçam de me seguir no Instagram e na


Fã Page pois lá coloco todos os dias uma novidade
sobre meus livros.

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Boa leitura!

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CONTEÚDO
Capa
Agradecimentos
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
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Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Epílogo
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Outras obras

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Prólogo
Mariana

Sentada num banco de madeira esperando o


freezer da minha geladeira descongelar eu dou um
suspiro de tédio. É. Minha geladeira é daquelas
antigas que só tem uma porta e o compartimento do
freezer tem que descongelar sempre que não dá pra
colocar mais nem as bandejinhas para formar gelo.
O pinga pinga do gelo derretendo me distrai. Eu sei
que eu deveria estudar, queria ser aquele tipo de
mulher obstinada. Sabe aquelas que quando coloca
uma coisa na cabeça e só para quando consegue?
Pois é, no momento eu não queria muita coisa não,
só passar no bendito concurso público. Eu já
conseguia até me imaginar entrando nas Casas
Bahia e trocando tudo da casa. Geladeira nova,
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frost free, lógico, e assim que eu fizesse isso ia


destruir a carroça invernal a minha frente com
ferozes marteladas. Trocaria também meu fogão.
Porque o coitado em que eu cozinho só tem duas
bocas funcionando, e se deixar a janela da cozinha
aberta o vento apaga o fogo acredita?!

Fogão... geladeira... sofá novo, tudo novinho e


pagar tudo até o fim da vida, porque eu iria me
afundar em parcelas, mas quer saber ? Dane-se eu
seria uma funcionária pública. Atualmente minha
situação financeira podia ser resumida em: “não
tem nem merda no cú pra cagar.”

Despretensiosa eu comecei a desenhar estrelas


na capa da grossa apostila. E quando percebi o que
estava fazendo rasurei cada uma das pequenas
estrelas, porque aqueles simples desenhos me
faziam lembrar dele.

Felipe.

Senti uma vontade louca de falar com ele. Eu


queria fazer mais que falar. Queria gritar com
Felipe, exigir respostas. Meu passado com ele

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ainda me atormentava. Por mais que eu tentasse eu


não conseguia esquecer a nossa primeira e última
noite. Bastava eu fechar os olhos e era arremetida
contra a minha vontade a quinze anos antes. Um
tempo onde eu não passava de uma adolescente
recém saída das fraldas, cheia de sonhos e
completamente apaixonada pelo vizinho bad boy de
corpo tatuado.

15 anos antes – Rio de Janeiro 2002

Eu ainda tinha o cheiro dele no meu corpo. Nós


estávamos em minha cama, eu deitada sobre o peito
dele, nervosa demais pra conseguir dizer qualquer
coisa.

— No que tá pensando galega. — Felipe me


pergunta e seus dedos vagueiam por meus cabelos
loiros, quase castanhos. — Está doendo ainda?

Engulo em seco e sinto um pouco de vergonha


mesmo que a preocupação que ele esteja sentindo
por ter tirado a minha virgindade seja algo fofo.

— Sei lá — Meu indicador desliza pela


tatuagem tribal que cobre o lado direito de seu
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peito. — Só em como vão ser as coisas a partir de


agora. — Tenho o cuidado de falar baixo para que
meus pais não nos escutem.

Ele afasta a cabeça para me encarar.

Felipe olha para o lado e estende o braço livre


na direção da minha agenda escolar e apanha a
caneta bic azul. Ele a destampa e responde em voz
baixa.

— Vou te dizer como as coisas vão ser. — Ele


diz com a voz rouca e pega a minha mão.

Felipe desenha pequenas estrelas enquanto fala.


— Vou te levar para a aula amanhã cedo. Te trazer
em casa e no final do dia quando seus pais
estiverem em casa. — Felipe começa a esboçar um
anel em meu dedo. — Eu vou vir até aqui falar com
eles e pedir você em namoro.

Eu sufoco uma risada.

— Eles não vão aceitar Lipe. Você tem


dezoito, eu tenho catorze. — Sussurro. — Perigo
até meu pai mandar te prender.
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— Então a gente foge. — Ele fala de um jeito


que eu quase acredito.

— Que foge Lipe... — Eu me viro para encará-


lo e fico hipnotizada por seus olhos cor de avelã. —
Eu vou dar algum jeito. — Ele diz confiante. —
Nós vamos ficar juntos.

Meu coração se alegra ao ouvi-lo dizer aquilo e


eu acredito com força em cada palavra que ele diz.
Porque isso que as idiotas apaixonadas fazem,
caem como patinhas na conversa de garotos como
Felipe.

— Promete?

Lipe se ajoelha na cama e puxa o lençol o


atirando no chão. Em seu olhar eu vejo um brilho
travesso.

Eu puxo minha camisola pra baixo e ele se


inclina sobre mim. Com a caneta ainda na mão ele
escreve em meu peito e fala.

— Eu prometo.

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— Para de me riscar toda , Felipe.

Ele apenas sorri e continua escrevendo. A ponta


da caneta faz cócegas.

Eu me sento na cama e mesmo com a pouca luz


que entra pela janela consigo ver o nome dele
escrito em letra cursiva minúscula e ao final do “e”
um pequeno coração.

Fingindo indignação eu tento tirar a caneta dele,


mas ele me pega pelos pulsos e prende minhas
mãos na cintura. Lipe não veste nada além de uma
cueca e contenho um gritinho assim que ele me
imobiliza e cola seu corpo ao meu.

— Que besta. — Xingo. — Agora vou ter que


acordar mais cedo pra tomar banho antes de ir pra
aula.

— Não toma nada. Deixa que todos saibam.—


Ele diz com naturalidade— Agora me dá um beijo
senão não vou embora.

Gritos vindos do lado de fora do quarto nos


deixaram em estado de alerta.
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— Vai vai vai. — Eu sussurro e gesticulo


agitando as mãos nervosamente.

Lipe pula da minha cama e recolhe as roupas


com rapidez.

A discussão entre meus pais se intensifica, é


difícil entender o que estão dizendo, minha mãe
está chorando e meu pai está com a voz engrolada
por causa da bebida.

— Te amo — Lipe sibila sem som algum ante


de pular a janela de meu quarto pela última vez.

Com o coração acelerado e o medo de ser pega


eu junto o lençol do chão e volto pra minha cama.

— Marianaaaaaa! Abre a porta. — Meu pai


mexe no trinco mas está trancada.

Arregalo os olhos e me ponho de pé, antes de


abrir olho uma outra vez para a cama desfeita e
percebo a mancha de sangue. Gelo

— Agora essa menina deu pra trancar a porta?


— Meu pai vocifera do outro lado.
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Ela não seria a primeira vez nem a última que


meu pai beberia todas no boteco da esquina e
depois voltaria pra casa, quebrando tudo,
descontando suas frustrações em minha mãe.

Corro e coloco o travesseiro sobre a mancha.


Em seguida destranco meu quarto.

— Saul você não está pensando direito. —


Minha mãe tenta segurá-lo assim que ele invade
meu quarto.

Ele a empurra com força o suficiente para que


ela se desequilibre e caia no colchão.

— Cala boca Catarina e só faz o que eu tô


mandando.

Olho para minha mãe sem saber o que está


acontecendo.

— Junta suas coisas Mariana. Pega as roupas


que der e enfia na mochila.

Eu podia sentir o cheiro da cachaça exalando


pelo corpo do meu pai.
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— Mãe?! — Chamo querendo que ela


intervenha de algum jeito.

— Vai você Saul. Nós não podemos deixar toda


nossa vida por causa das suas escolhas. — Ela se
levanta e o enfrenta como jamais tinha feito.

— Pai, porque o senhor tá fazendo isso? —


Pergunto mas ele nem me ouve o medo e a raiva o
cegam.

— Minhas escolhas? — Ele vai pra cima dela e


engata a mão em seus cabelos e dá um puxão. —
Você é minha mulher e vai comigo aonde eu for.
Agora faz a porra da mala antes que amanheça.

Ele a solta e eu cubro a boca pra engolir o


choro.

— Anda Catarina, junta as minhas roupas e as


suas e entra no carro.

Minha mãe obedece e sai do quarto. Meu pai


passa a mão pelo rosto banhado de suor.

— Filha faz o que eu tô mandando pelo amor


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de Deus.

— O que você fez pai?

Ele balança a cabeça em negação.

Olho para a janela do meu quarto em direção a


casa de Felipe. Todas as luzes lá estão apagadas.

Naquele instante eu entendi. Não haveria tempo


para despedidas, nem mesmo explicações.

— A gente vai recomeçar Nana. Eu vou parar


de beber, não vou mais jogar. Vou ser um pai
melhor, um marido melhor. Eu prometo minha
filha. MAS FAZ O QUE EU PAI TÁ
MANDANDO.

Aquela seria a noite das promessas quebradas.


A melhor e a pior noite de todas.

Eu não conseguia por isso assisti a cena toda


sem me mover. Meu pai despejou meus livros sobre
a cama e socou algumas roupas dentro da mochila.
Ele me segurou com força pelo braço e me enfiou
para dentro do carro. Minha mãe entrou menos de
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um minuto depois carregando com dificuldade duas


malas de roupas.

Meu pai girou a chave na ignição e deu partida.


Eu não vi o momento que a casa de Felipe foi
ficando cada vez mais distante. Eu só via a marca
das estrelas que ele havia desenhado em minha
mão. O esboço de um anel desenhado em meu
dedo. E aquilo só me causava dor porque assim que
aquelas marcas sumissem não me restaria nada de
Felipe. Era o que eu pensava.

✽✽✽

Dias atuais

Eu estava com aquela angustia no peito e a


única maneira que eu sabia aliviar aquele
sentimento era escrevendo. Abri a apostila e fui
direto para o final, onde havia algumas folhas
pautadas para que fossem feitas anotações. Então
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comecei a escrever a última carta. Como eu fazia


com todas as cartas que eu já havia escrito para
Felipe, eu colocava um número no canto alto
direito da folha, indicando o número de cartas que
eu já havia escrito.

180.

180 cartas. Aquele era meu limite.

Circulei o número mais vezes do que deveria e


pousei a ponta da caneta na primeira linha do papel.

“180

Durante quinze anos eu me vi escrevendo


extensas cartas, foram exatamente cento e oitenta
cartas. A ficha demorou a cair, mas agora eu
finalmente entendi. O fato de meu pai ter fugido
comigo e com a minha mãe no meio da madrugada
por causa de uma dívida de jogo só facilitou as
coisas pra você não é mesmo? Nunca houve
intenção nenhuma de haver um “nós” aquele
romantismo todo era só pra você conseguir o que
queria não é mesmo?! Agora que olho pra trás eu
vejo o tamanho da minha burrice.
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Só pra você saber, estou melhor sem você, meus


filhos estão quase criados, e eles são meus só meus,
você foi um simples colaborador de esperma. Nada
mais que isso.
Tenho ódio de você. Ódio pelas necessidades que
passei por sua causa. Ódio por ter me dado a uma
paixão juvenil e você fez tão pouco, me usou e
jogou fora.
Estou escrevendo a você só pra te lembrar que eu
ainda te odeio.
Claro que eu sei que você não vai ler essa carta, ou
lerá e irá ignorar como fez com todas as outras.
P.s: Ainda te odeio, Felipe!
Ass. Mariana”

Contemplei a carta recém escrita, e a arranquei.


Eu a amassei com o máximo de força possível. Até
que o papel ficasse pequeno entre meus dedos.
Com o corpo exausto eu me levantei da cadeira e
arremessei no lixo. Desta vez eu não me daria ao
trabalho de ir aos correios postar aquela última
carta.

Eu estava decidido a deixa-lo enterrado com


todas as lembranças ruins. Agora eu não era mais a
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mesma moleca e tinha dois filhos adolescentes pra


criar. Eles são a minha vida e mais ninguém.

E quando a gente acha que tem o controle da


vida. A vida vem e te dá uma rasteira bem bonita,
daquelas que te derruba e te deixa zonza. Eu não
sabia que Felipe voltaria para minha vida. Não
depois de tanto tempo. Eu não estava pronta para
confrontá-lo. Brigar por carta era mais fácil, as
palavras e xingamentos fluíam com mais facilidade.
Mas ficar cara a cara com ele. Ver o homem que
ele havia se tornado... aquilo era um desafio para
minha mente, meu coração e minha calcinha.

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Capítulo 1
FELIPE
Dias Atuais

Me ajeitei na cadeira e cruzei os braços em frente


ao peito. Esquadrinhando a sala de aula com um
olhar atento, sabendo que em algum momento um
dos trinta adolescentes a minha frente passaria um
pequeno papel para o colega do lado com as
possíveis respostas da prova.

Ser professor de matemática dos filhos da nata


carioca era um trabalho que exigia mais do que
minha paciência habitual. Veja bem. Eu sempre
conduzi minhas aulas com rigidez e controle, a
dificuldade da matéria e meu porte físico
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amedrontava um pouco os alunos. Claro que ao


longo desses anos de magistério ganhei apelidos
como carrasco, Vader. Eu não me importava muito
com isso. Também fazia questão de deixar
extritamente claro que jamais haveria qualquer
envolvimento que não fosse o esperado entre aluna
e professor. E apesar dos pesares, não havia um dia
que eu não recebesse bilhetinhos ousados, do tipo

“Com um professor como o senhor a


matemática ficou até mais interessante.”

“Quero aulas particulares, pode me ensinar no


meu quarto?”

Também tinha umas cantadas mais bagaceiras


como “Me mostra a tua régua que eu mostro a
minha X...”

Lógico que eu descartava todos e quando algo


do tipo acontecia eu castigava com baterias de
exercícios extra para toda a turma.

Como eu havia previsto um desesperado tentou


colar.

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—Pedro Santini — Rujo seu nome como um


xingamento e ele enfia o celular no estojo com
rapidez.

Eu me levanto da cadeira e caminho até ele.

— Pode assinar a prova e deixar em cima da


mesa. — Exijo com uma expressão séria.

O garoto ergue a sobrancelha com um pierging


e se faz de desentendido.

— mas prof.

Eu o interrompo.

— Agora.

— Isso é perseguição. — Ele se põe de pé com


um ar de indignação. — Só tá fazendo isso porque
eu sou gay.

Claro que aquilo era só uma tentativa de mudar


o foco da situação.

— Deixa a minha avó ficar sabendo disso. Sabe


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que sou eu quem paga o seu salário?

Eu rio.

— A sua opção sexual em nada me interessa


Santini. Se quiser pintar a bunda de vermelho e sair
saltitando como um unicórnio vomitando glitter por
aí por mim tudo bem. Mas enquanto estiver na
minha sala de aula vai respeitar as regras.

Pego a prova sobre a classe e confisco o estojo.

— Sala da diretoria. Aqui tem a prova da sua


cola. Só vou entregar diretamente a sua avó.

O garoto enrubesce e sai da sala furioso.

Me escoro na entrada da porta e fico cuidando


para saber se haverá mais algum com coragem o
suficiente para tentar colar.

✽✽✽

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As horas parecem passar mais devagar na sexta


feira. Durante o intervalo eu mexo no celular e
confiro onde será a festa. Não me relaciono muito
com o restante dos professores, melhor dizendo
professoras em sua maioria mulheres de meia idade
com a bunda que mal cabe na cadeira, que passam
o tempo comendo e falando mal dos alunos.

Assim que a nova professora de química entra


na sala de professores, as outras mulheres ali
trocam alguns olhares discretos, quando ela
atravessa o lugar e senta ao meu lado.

Valéria é uma morena gostosa pra caralho. Mas


não importa o quanto meu pau proteste eu não fodo
com ninguém do meu ambiente de trabalho, zona
proibida para alunas ninfetas, professoras, equipe
diretiva. Não importa o quão peituda e bunduda ela
seja, nem mesmo se aquela boca grossa pareça
perfeita para um boquete. É... Valéria tinha todos
esses atributos o que deixava o meu lado um pouco
mais complicado.

Ela pega a minha mão livre e olho para a


aliança em meu dedo.
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— Sabe que eu nunca lembro se a aliança de


casamento fica na mão esquerda ou direita.

Eu rio.

Valéria sorri exibindo dentes extremamente


brancos e solta a minha mão sentando meio de lado
para me encarar melhor. Ela dá uma cruzada de
pernas e brinca com alguns cachos negros do
cabelo esperando uma resposta.

— Noivado. — Respondo

A fala dela é meio arrastada o que me deixa


curioso sobre seu sotaque.

— E então — Ela olha para o meu crachá preso


a camisa e degusta meu nome me olhando
diretamente nos olhos. — Felipe, o que os
professores fazem pra se divertir na noite carioca.

— Isso depende, talvez a noite daqui tenha mais


adrenalina que as baianas.

Ela sorri jogando charme.

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— Adrenalina? Estou acostumada com coisas


picantes meu rei. — Ela abaixa o tom.

O fato de eu usar aliança não parecia fazer


diferença alguma para a morena. Aliança nunca
afastou mulher, pelo menos, não as safadas.

Adriana sabia exatamente como eu era quando


quis noivar comigo. Lembro dela rebolando o sexo
em meu pau. e tentando me convencer que aquilo
não era nada de mais, apenas simbólico. “Vai
continuar tudo a mesma coisa Lipe. Vou continuar
fazendo as minhas viagens a gente se vê de vez em
quando... se pega gostoso, você continua solto pra
pegar quem quiser... e você nem precisa usar o
anel...”

E eu não usava mesmo, só o colocava para dar


aulas para afugentar as alunas.

✽✽✽

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Depois do trabalho fui direto para a academia.


Duas horas de musculação por dia me garantiam
uma excelente forma física aos trinta e três, quase
beirando os trinta e quatro.

Assim que estava entrando Sandra a vizinha da


casa da frente se apressou em atravessar a rua
passando uma mão pelo vestido curto e na outra ela
carregava um pote plástico com tampa cor de rosa.
Nós já tínhamos trepado algumas vezes, mas nada
sério. Ela me conhecia o suficiente pra saber que
não haveria nada a mais do que um bom se
selvagem sexo sem compromisso.

— Lipe. — Ela apressa o passo e eu dou um


sorriso ao ver como seus mamilos se enrijecerem
através do tecido, a medida que ela chega mais
perto.

— Boa noite Sandra.

— Eu fiz bolo de chocolate com aquela


cobertura que você adora.

Pego o pote e dou uma piscadela.

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— Acho que você está querendo me engordar.

Ela dá um tapinha no meu braço.

— Eu... imagina. Você tá perfeito Lipe.


Esbanjando forma física.

Sandra passa a mão pelo peito e entre abre os


lábios. Eu sei o que ela quer.

— Sandrinha eu agradeço pelo bolo mas já


tenho um compromisso. Essa noite.

O sorriso dela se desfaz e eu emendo uma


mentira pra não deixar ela chateada.

— Cadernos de chamada. Fazer as médias de


— Olho para cima tentando chutar um número e
digo em seguida. — Uns duzentos alunos. Mas em
agradecimento pelo bolo nesse final de semana eu
passo na sua casa para cuidar do seu gramado.

Ela sorri e fica na ponta dos pés para me dar um


beijo rápido na bochecha.

— Tudo bem, mas não trabalha demais.


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A medida que ela se afasta eu admiro sua bunda


arredondada quase amostra naquele vestido ínfimo.

As trepadas com Sandra são gostosas mas eu


precisava conhecer mais de perto a minha nova
colega de trabalho e o quão picante ela poderia ser.

Quando entrei em casa já passava das sete da


noite. Então na uma hora que me restava tomei uma
longa ducha e me vesti. Coloquei um jeans e uma
camiseta preta, jeans e os coturnos. Por último a
jaqueta de couro.

Conferi se a barba estava boa e deixei os


cabelos levemente arrepiados. Fui até o criado
mudo ao lado da cama e abri a primeira gaveta .
Abasteci o bolso interno com uma tripa de
preservativos. A noite é uma criança e eu não
queria correr o risco do atacante ficar sem camisa
na hora do jogo.

De moto o trajeto até o pequeno apartamento de


Valéria não demorou muito.

— Nossa... — Ela me olha de cima a baixo. —


Que diferente do professor que conheci na escola.
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Eu a cumprimento com dois beijos no rosto e


dou uma boa olhada em seu corpo. A pele morena
clara realçada pelo vestido rosa claro sem alças
todo colado ao corpo de curvas bem feitas.

Entrei no modesto lugar e me sentei. Pouco


depois Valéria sentou ao meu lado trazendo uma
garrafa de vinho e duas taças. Eu abri a garrafa e
enchi nos copos.

A medida que o vinho foi acabando eu já sabia


quase tudo da morena de sorriso fácil. Sabia que
Valéria tinha sido modelo na adolescência, mis sei
lá o que em sua cidade natal, divorciada e sem
filhos. Soube também que ela teve que ir embora de
Salvador, porque um de seus alunos havia se
apaixonado por ela e a perseguia em todos os
lugares.

— Não dá pra culpar o garoto. — Digo


deixando minha taça vazia no tapete ao lado do
sofá — Se eu tivesse uma professora de química
assim nunca teria cabulado tantas aulas.

Ela gargalha alto e larga o copo sobre a


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pequena mesinha de centro.

— Vou pegar outra garrafa de vinho. — Ela se


levanta e me olha. — Felipe, Felipe... você tem
cara de que não vale nada.

— Nunca disse que prestava — Eu a puxo


contra meu corpo e ela cai em meu colo sentada de
lado.

Beijo sua boca carnuda, nossas línguas se


entrelaçam e minha mão desliza para dentro do
vestido da baiana. Aperto sua coxa e vou subindo
até que meus dedos toquem sua boceta. Ela não
está usando calcinha.

Eu acaricio seu sexo macio e depilado. Uma


umidade cremosa molha minha mão e eu não
interrompo o beijo, meu polegar esfrega a pequena
carne macia entre suas dobradas e a faço gemer
com a boca colada a minha.

Meto dois dedos e Valéria morde meu lábio


jogando a cabeça para trás.

— Gosta disso safada?


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Esfrego mais rápido e movimento os dedos com


mais velocidade, entrando e saindo de sua boceta.

— Isso aqui é só um ensaio. Logo vai sentir o


meu cacete arregaçando essa boceta melada. —
Rosno e continuo a provoca-la.

Valéria se contorce em meu colo e puxa o


vestido tomara que caia para baixo, ela aperta os
próprios seios para aguentar o tesão.

Me inclino e abocanho seus seio durinho. Sugo


o mamilo pontudo até que ela grite de prazer a
medida que meus dedos trabalhem em seu sexo até
o primeiro gozo dela.

— Ahhh.... Felipeeee. — Ela geme meu nome


de maneira manhosa.

Tiro os dedos de sua boceta. E dou pequenos


tapas na carne sensível.

— Eu já sei que essa boca beija bem. Agora eu


quero saber é se ela chupa um caralho grosso.

Valéria desliza para o tapete e se ajoelha de


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frente para mim

— Com prazer, professor.

Desafivelo o cinto e abro a calça, afasto a cueca


e puxo o cacete para fora, rígido e pronto pra foder
a noite toda.

Ela umedece os lábios carnudos e com o olhar


faminto ela chega mais perto. Engato a mão em sua
cabeleira crespa e Valéria abre a boca. Aos poucos
ela tenta engolir meu cacete.

Não é qualquer mulher que sabe mamar


gostoso. Ainda mais um cara bem dotado como eu.
E quando sem querer alguma raspa o dente ou o
aparelho na cabeça. Caralho... eu vejo estrelas.
Também tem umas com a boca seca que Deus me
livre. Nem toda mulher sabe , mas homem gosta é
de um boquete bem babado e se souber fazer uma
garganta profunda... maravilha!

— Relaxa... — Eu digo sentindo sua boca


quente e molhada.

Ela tenta um pouco mais acomodar tudo na


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boca mas não consegue.

Valéria domina a arte do boquete bem feito.


Usa a língua para acariciar a cabeça, lambe tudo,
passa a língua pelas veias grossas que circundam
meu cacete e volta a chupar gostoso engolindo um
pouco da porra que escorre enquanto ela me chupa.

— Nota oito. — Eu provoco .

Ela afasta a boca carnuda.

— Oito? Eu mereço dez. — Retruca com uma


leve indignação.

— Não colocou tudo na boca. — Debocho e a


puxo de maneira que ela caia de quatro sobre o
sofá.

Olho para sua bunda empinada. Com certeza


esse rabo merece um dez.

Tiro a jaqueta e a camisa com movimentos


rápidos. Pego no bolso de trás da calça um pacote
de camisinha. Rasgo a embalagem verde metálica e
em segundos já estou dentro dela bombeando com
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mais força cada fez que ela geme meu nome aos
gritos.

Abro sua bunda com as duas mãos e meto com


mais força.

Soco.

Soco.

Soco.

Estoco até que o suor escorra por nossos corpos


e continuo ditando um ritmo frenético até que
ambos atinjam a exaustão.

Saio de dentro dela com cuidado por causa da


camisinha lotada de porra.

Não tenho filhos e quero me manter assim.

— Onde é o banheiro?

— Naquela porta ali. — Ela diz ofegante.

Quando retorno começo a procurar minhas


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roupas.

Valeria aparece vestida apenas com minha


camiseta.

— Já vai embora?

— Não é tão cedo assim. — Aponto para meu


relógio de pulso. — Já está quase amanhecendo.

— Tudo bem, eu não vou te pedir pra ficar nem


pra dormir de conchinha se é o que está pensando.
— Ela exibe um sorriso. — Mas vou ficar com a
sua camiseta.

Visto a jaqueta e o resto da roupas. Sinto seu


olhar em mim.

— Por acaso sua noiva sabe onde você está


agora? — Ela questiona com uma pontinha de
ressentimento.

Enfio os coturnos e coloco as mãos no bolso do


jeans me certificando que estou com o celular e a
carteira.

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— Sabe sim. — Eu chego mais perto e a puxo


para os meus braços e com meu celular tiro uma
foto nossa. — Já que não estava de calcinha eu me
contento com uma selfie.

Valéria ri mas já não está mais feliz quanto


antes.

— Hum... então boa noite.

Eu a solto e guardo o celular outra vez.

— Boa noite, professora, ou melhor bom dia.

Sai de lá e pilotei direto até a praia. Deixei a


moto e o capacete em frente a uma padaria e
atravessei o calçadão. Ainda não havia amanhecido
e a praia estava deserta. O barulho que as ondas
faziam quando quebravam me fazia lembrar do som
da risada dela. E por mais irritado que eu ficasse
quando pensava em Mariana, eu não podia evitar.
Eu procurava a libertação e o prazer no corpo de
outras. Incontáveis vezes, mas nenhuma delas me
fazia sentir daquele jeito. Talvez eu devesse me
acostumar a viver anestesiado.

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Já haviam se passado quinze anos.

A medida que me aproximo vou tirando minhas


roupas e fico apenas com a cueca boxer.

Corri para o mar e mergulhei assim que as


ondas começaram a bater na cintura. A água fria
envolveu meu corpo, assim como as memórias
dela.

Os grandes olhos verde ocre, um pequeno


sorriso no rosto de molequinha.

“Promete?”

Posso ouvir a voz dela e minha mente.

“Prometo.”

Mas Mariana não me permitira cumprir minha


promessa. Ela simplesmente desaparecera de minha
vida sem deixar rastros.

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Capítulo 2
Mariana

— Levanta Maria Luiza! — Gritei da cozinha. —


Julianooooooo — Aumento a intensidade do grito
porque esse garoto dorme mais que a cama.

Adoço o café dos dois e aqueço na frigideira


dois pães franceses com um pouco de manteiga. Os
dois entram na cozinha se empurrando e se
xingando em voz baixa.

— Ei ei ei vocês dois. — Eu os repreendo — Se


continuarem com essas demonstrações excessivas
de carinho vou amarrar os dois juntos.

Eu sirvo as xícaras de café com leite e eles

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trocam olhares.

— Café com leite?!

— E o nescau? — Maria Luiza faz uma careta.

Volto para o fogão quando sinto o cheiro do gás


vazando pela única boca que estava até minutos
atrás funcionando e logo desligo o botão.

— É isso mesmo. Agora comam e bebam de


uma vez pra não se atrasar para a escola.

Nescau estava pela hora da morte e eu fazia


mágica para meu salário durar o mês todo. Mas
deixa eu te contar uma coisa. Eu não sou muito boa
com mágicas, estou sempre correndo atrás do
prejuízo.

Eles começam a comer e pego minha bolsa


sobre o pequeno balcão ao lado da pia. Pego uma
nota de vinte e a deixo ao lado do prato de Juliano.

— Valeu mãe. Já ia te pedir mesmo.

Antes que eu diga qualquer coisa Maria Luisa


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começa a retrucar?

— O que? Por que ele tá ganhando dinheiro e


eu não.

— Parem com isso! — Ordeno fuzilando-os


com olhar repressor. — Isso é pra seu irmão
comprar o papel higiênico. Compra aquele pacote
com vinte e quatro rolos que tá em promoção.

— Ah não Mãe. Eu não vou .

— Ele tá afim da nova empacotadora. — Ela o


entrega.

— Que afim o que . Juliano meu filho, você


tem que se dedicar agora pra quando for adulto não
ficar passando dificuldade.

Ele revira os olhos quando pensa que não estou


olhando e eu lhe dou um cascudo na parte de trás
da cabeça;

Ele bufa.

— TÁ MÃE... — Ele se dá por vencido. —


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Mas não vou comprar o pacotão gigante.

— Vai sim senhor! — Bato o pé.

— Mas aí ela vai pensar que eu tenho o cú


desenfreado.

Eu não consigo evitar o riso.

— Então ela vai pensar certo. — Maria alfineta.

E posso ouvir os dois se chutando por debaixo


da mesa.

Juliano e a irmã passavam boa parte do dia


discutindo e trocando farpas. Quando eu chegava
no início da noite ouvia as reclamações e queixas
que um tinha do outro. Eles almoçavam na escola e
voltavam para casa de a pé. A distância não era
grande mas era o suficiente pra me deixar com o
coração na mão todos os dias.

— Sejam bonzinhos. — Eu me aproximo deles


e dou um beijo no topo da cabeça de cada um. — E
NÃO SE MATEM.

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A alguns anos éramos apenas nós três. Minha


mãe falecerá poucos meses depois que nós tivemos
que nos mudar por causa dos erros de meu pai.
Menos de dois anos atrás foi a vez de perder meu
pai. O fígado dele não aguentou todos aqueles anos
de alcoolismo.

Eu já estava acostumada a ser a provedora da


casa desde de cedo. Quando meus pais souberam da
gravidez interrompi meus estudos e fui obrigada a
procurar uma maneira de ajudar com a renda da
minha família, já que o pouco dinheiro que meu pai
ganhava fazendo bicos ele gastava em bebida.

Trabalhei de tudo que você possa imaginar


menos puta. Nada contra as putas, afinal de contas
cada um sabe de si, mas eu nunca mais queria
transar na vida. Sério! Minha vida estava um caos e
sexo por dinheiro não estava nos meus planos.
NUNCA, aliás não sou muito resistente a dor se
alguém quisesse comer meu cu, eu ia acabar
desmaiada na cama. Mas... voltando a falar de
meus empregos. Meu currículo era uma verdadeira
salada de frutas de empregos. Panfleteira no
semáforo, já usei aquelas fantasias ridiculamente
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quentes e sufocantes em frente a lojas de


brinquedos. Faxinei. Trabalhei em farmácia...
nossa... fiz de tudo, QUASE TUDO e atualmente
eu estava trabalhando no shopping como vendedora
em uma loja de calçados.

Naquele dia resolvi gastar o dinheiro da


passagem de ida em dois bilhetes da loto fácil. Vai
que Deus tá generoso hoje e olha pra baixo e pensa
... “Hum... acho que já judiei demais daquela pobre
desgraçada. Tá na hora dela ganhar na loteria”

Entrei na lotérica fiz meu jogo e marquei os


números de sempre, a data do nascimento deles, o
dia que eles disseram mamãe pela primeira vez e
por último as dezenas dezessete e onze.

17 de novembro.

Minha primeira e última noite com ele.

Amassei o bilhete na frente da atendente.

— Tem gente que diz que isso dá azar.

Olho para o pequeno bilhete já com os números


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escolhidos.

— Azar porque?

— ORAS! Imagina se os números que são


sorteados são esses aí que a senhora jogou.

Ela disse senhora. E de repente me senti tão


velha quanto a Dercy Gonçalves.

— Tá tá.— Desamasso o papel e entrego pra


ela. Passo pela pequena abertura de acrílico uma
mão cheia de moedas.

Eu nem coloco os pés pra fora da lotérica e já


sei absolutamente tudo que vou fazer com o
dinheiro.

Ah.... sei...

É fácil fácil me imaginar entrando no shopping


carregada de sacolas. Sacolas chiques, aquelas de
boutiques. O vento suave agitando meus cabelos
enquanto caminho. Levaria a Maria Luiza e o
Juliano para comerem no melhor restaurante. Coisa
fina. Um outback da vida. Nada de cachorro quente
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partido ao meio para os dois dividirem. Comida


boa... banho de loja na família toda. Casa nova tudo
novo. E quando saíssemos do shopping eu
esbarraria no Jamie Jordan e seria amor a primeira
vista. O que?! Vai dizer como e com quem eu vou
sonhar agora? Hein... o sonho e o bilhete são meus.

Pronto. Vida milionária aí vou eu.

Eu rio sozinha de meus delírios, mas a vida não


é uma novela da globo. E os boletos não param de
chegar. E depois de meia hora caminhando vejo
minha melhor estragar. Pelo excesso de uso.

Rá! Valeu Deus! Hoje de manhã foi o fogão.


Agora o meu sapato. Que tal uma bala perdida?! Eu
praguejo mentalmente já arrependida por ter
comprado o bilhete em vez de ter ido de ônibus.

Quando finalmente entro na loja Susana, a


subgerente me faz um sinal batendo com o
indicador no relógio de pulso, indicando o meu
atraso. Com cara de tacho eu sigo com passos
rápidos até o relógio ponto e bato cartão, marcando
meu horário de entrada.

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— Hoje a Susana tá uma onça. — Meu colega


sussurra assim que eu me aproximo.

— Mas por que?

— O chefão está passando pelas filiais.


Primeiro Vem um falso cliente para testar o
atendimento e depois o Leonardo e uma equipe de
cima dão a avaliação de como está a loja e tal.

hUm que merda. Belo dia pra eu estar usando


um sapato furado e chegar atrasada.

E então o trabalho duro começou... final do mês


no sábado dentro de um shopping.... A loja estava
cuspindo gente para fora. Mulheres. Entrando e
saindo, experimentando uma porção de calçados.
Eu já não aguentava mais sentir o cheiro de pés
suados e no final do dia eu já estava só o bagaço de
cansada. Tinha decidido economizar o dinheiro do
almoço e compraria uma pizza se o super mercado
estivesse aberto.

— Senhora quer que eu traga um número


maior? — Pergunto gentilmente ao ver que ela
tenta socar uma lancha tamanho quarenta em um
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scarpin tamanho trinta e seis.

— Já vai entrar. — Ela diz começando a suar.

“A CHANCE DO SEU PÉ ENTRAR NESSE


SAPATO É TÃO GRANDE QUANTO O
BILHETE DA LOTOFÁCIL GUARDADO NO
MEU BOLSO SER O PREMIADO DESSA
NOITE. ACEITA QUE DOI MENOS MULHER!”

Claro que eu disse isso só na minha cabeça.

— A forma do sapato varia muito. — Digo


tentando convencê-la.

Mas a desgraça tá decidida a tornar o final do


meu dia mais difícil.

— Então me trás um trinta e sete.

Respiro fundo e sorrio contando mentalmente


até mil pois eu já sabia que aquele era o último par
na promoção. Não havia outro.

— Esse é o último. A senhora. Pode ver outros


modelos.
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— Ah já entendi tudo. — Ela estreita os olhos e


me encara — Isso é tática pra vender um produto
mais caro. Eu conheço essa conversa moça. Já
trabalhei no comércio.

Eu tiro forças do cú pra não revirar os olhos e


abro um sorriso.

— Vou conferir mais uma vez o estoque pra ter


certeza, a senhora pode ir olhando outros calçados
de seu agrado.

Me viro e sumo na direção do estoque.

Minha vontade é voltar lá e acertar uma


sapatada na cara dela. Quer sapato trinta e seis é
sua cadela ?! É MAIS FÁCIL ELE CABER NA
SUA BOCA DO QUE NESSE SEU PÉ,
DESGRAÇADA!

Me abano e faço um coque frouxo no alto da


cabeça.

Saio de lá e vejo que ela está sentada com um


bilhete amassado nas mãos.

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Ah não.

Chego mais perto e já tateio os bolsos da calça


jeans

Puta que pariu. Puta que pariu. A cadela tá com


o meu bilhete.

— Desculpa senhora, infelizmente esse é


realmente o último par deste modelo. — Engulo
em seco e aponto para o papel nas mãos dela
quando ela começa o guardar na bolsa. — Esse
bilhete é meu, poderia me devolver por favor.

— Que bilhete? — Ela apenas o enfia na bolsa.

Como assim Brasil?! Essa mulher tá me


roubando na cara dura.

Eu rio da situação. Fique claro que tô rindo de


nervosa.

— Senhora, esse bilhete caiu do meu bolso


enquanto eu estava ajudando a senhora a calçar o
sapato.

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A mulher se levanta e sinto os olhares de outros


clientes em nossa direção.

— Não estou acusando de nada.

Digo para a maloqueira barraqueira a minha


frente.

— Está vendo filha é por isso que você tem que


estudar. Isso é coisa de quem não tem estudo. Sem
qualificação a gente só arruma subempregos. —
Ouço uma cliente aconselhar alguém.

A humilhação nubla minha visão. Eu estava a


beira de um surto. Faminta. Sendo humilhada por
uma mulher que eu nunca tinha visto na vida. Eu
estava cansada, com sono e fervilhando de raiva e
frustração. Eu tinha que aguentar aquilo tudo por
causa de Juliano e Maria Luisa. Eles eram minha
prioridade desde o dia em que vieram ao mundo e
seriam até o dia em que eu morresse e mesmo
sabendo de tudo eu surtei.

— Escuta aqui minha senhora. Eu passei o dia


trabalhando, olhando pra joanetes de tudo quanto é
tamanho, unhas garranchudas, pés chulezentos.
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Mas eu dou graças a deus por ter esse trabalho pra


sustentar os meus dois filhos com o suor do meu
trabalho honesto! E a porra do bilhete que a
SENHORA COLOCOU DENTRO DA BOLSA É
MEU! EU FUREI MINHA SAPATILHA. — Tiro
meu sapato e ergo no alto. — Porque eu decidi
gastar o dinheiro da passagem no caralho desse
bilhete. Eu posso dizer de olhos fechados cada
número que tem nesse bendito papel. AGORA SE
A SENHORA SABENDO DE TODA ESSA
HISTÓRIA AINDA QUISER FICAR COM ESSE
BILHETE, PODE FICAR, SABE DO QUE MAIS?
Pega o papel e enfia ele no — Susana e outros dois
colegas meus me puxam para fora dali.

Eu rio e choro ao mesmo tempo. Surtada até o


último fio de cabelo. Eu sabia que depois daquele
desabafo eu merecidamente iria para a rua. Justa
causa. Eles fecharam a porta do estoque assim que
entramos e me colocaram no sofá ao lado do
frigobar.

— Mariana que cena foi aquela no meio da


loja?

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Eu cubro o rosto e choro por ter sucumbido.

— Me deixem a sós com ela. — Um homem


diz e eu não tenho nem cara de erguer o olhar pra
encarar de frente a minha demissão.

— Leonardo. — Ouço Susana tentar intervir.

— Por favor. — Ele diz e sinto ele sentar ao


meu lado no sofá.

Isso Mariana. Isso foi épico. Piti e choradeira


na frente do chefão. Porque não fecha seu último
dia cagando o banheiro todo e passando merda nas
paredes?!

— Eu já vou embora. Não precisa perder seu


tempo com sermão sobre a cena que eu fiz.
Também não precisa ficar preocupado que eu não
vou levar nada embora. — Digo enxugando as
lágrimas com as palmas das mãos. —

Ele se levanta vai até o frigobar e o abre. Meu


futuro ex -chefe olha por alguns segundos
avaliando as opções. Ele pega algumas coisas e
volta a sentar ao meu lado.
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Leonardo abre a lata de coca cola e me entrega.

— Vai, pega.

Eu aceito o refrigerante e bebo um gole


pequeno. Ele desenrola o sanduiche de um plástico
filme e arqueia a sobrancelha, me encarando com
os incrivelmente azuis.

— Nada disso aqui é meu. — Digo de bochecha


e volto a dar mordidas grandes.

Ele dá uma risada.

Eu como com mais pressa do que deveria, como


se a qualquer momento o dono daquele lanche
fosse entrar ali e me surrar por eu estar comendo
aquilo. Claro que aquilo não aconteceria, até
porque quem pegou foi o chefe... mas com a sorte
que eu tinha eu já não duvidava de mais nada.

— Conversa comigo Mariana. Me explica o que


aconteceu e a gente pensa juntos em um jeito de
melhorar essa situação.

— Ela pegou o meu bilhete. — Disse mesmo


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que aquilo soasse extremamente infantil.

Leonardo era um homem mais velho. Ele


deveria estar com uns cinquenta. Olhei em seus
olhos e percebi as marcas do tempo, mas as
pequenas rugas não apagavam sua beleza mesmo
com a idade que tinha.

Mesmo sem jamais tê-lo visto eu abri meu


coração. Contem das dificuldades que passei até o
bendito dia de hoje.

— Eu sei que agora sabendo de tudo isso além


de me demitir o senhor vai querer me internar.

Leonardo me analisa por algum tempo e então


rompe o silêncio que se faz entre nós.

— Mariana com o que aconteceu aqui eu não


posso te manter nessa loja. — Ele explica.

Eu balanço a cabeça sabendo que agora vem a


parte em que ele fala da demissão.

— Mas eu posso te realocar em outra filial.


Seria uma mudança muito drástica para você ir para
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o Rio de Janeiro?

Rio de Janeiro?!

E se eu acabasse encontrando com ele. Será que


eu o encontraria casado? Cheio de filhos?

— Mudar para o Rio?

— Sim, para a capital.

— Pode contar comigo. — Respondi


estendendo minha mão na direção da dele.

Nós apertamos as mãos.

Eu não sabia as mudanças que estavam por vir


eram mais fortes e intensas do que eu poderia
suportar. Mesmo assim resolvi correr o risco.

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Capítulo 3
Mariana

Eu estava terminando de passar um pano úmido ao


redor da máquina de lavar pois a tarde o Gerson do
Brick da esquina passaria aqui para avaliar e dizer o
quanto pagaria por ela. A joça em questão não era
nenhuma Brastemp mas até que dava para o gasto,
quando tinha que levar quilos e quilos de roupas
sujas. Tá certo que não era uma perfeição, tipo... só
dava pra deixar ela ligada se ficasse ali ao lado de
plantão na hora em que ela passava para o ciclo
centrifugar, porque senão... a bicha ganhava vida,
possuída pelo demônio, se batia nas parede e
jorrava água sem controle inundando a cozinha
toda.

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— Nana você ficou louca ?! — Nice exclamou


escorada na parede, o cigarro apagado entre os
dedos e uma expressão de preocupação no rosto.

Ela estava tentando parar de fumar então eu iria


desconsiderar o fato dela ter me chamado de louca.
Nós nos conhecíamos a anos. Ela sabia que podia
me chamar de vaca, cachorra, peste, teimosa, tudo,
menos louca.

Nice era uma índia linda, os cabelos lisos e


pretos sempre bem arrumados em penteados
elaborados que a deixavam extremamente chiques.
Com um metro e sessenta e o corpo perfeito, sem
nada fora do lugar, quem a visse não dava nem
trinta anos. Mas a desgraça da minha melhor amiga
já tinha trinta e nove. Com uma beleza exótica
como a dela eu achava muito difícil um homem
dizer não pra ela.

Representante farmacêutica. Essa era sua


profissão. Eu lembro do dia em que nos
conhecemos no hospital.

Eu estava chorando no corredor. Segurando as

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três receitas de medicamentos que Maria Luisa


precisava para poder se curar da pneumonia. Vendo
meu desespero ela simplesmente pegou as folhas da
minha mão. Talvez ela estivesse ouvindo tudo
quando o médico foi embora. Mas como se
soubesse o que estava acontecendo ela passou os
olhos negros pelas receitas médicas em seguida se
agachou e mexeu na mala que ela trazia consigo.

“Você pode usar isso, isso e isso” A partir


daquele dia começou nossa amizade. Nice era
como minha irmã mais velha e eu seguia a risca
seus conselhos. Nós nos conhecíamos a doze anos.

— Presta atenção Nana. Mudar assim pode


prejudicar o Juliano e a Maria Luisa na escola.
Como você vai sair desse jeito sem nenhum
planejamento.

— O Leonardo me falou que na mega store pra


qual eu vou ser transferida tem até um esquema de
bolsa auxílio educação. Vão poder estudar numa
das melhores escolas do Rio.

— Hum. — Ela murmura não muito

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convencida. — Você também foi bolsista e pelo


que me falou suas colegas não eram as mais
amigáveis pra você.

Interrompo nossa conversa e grito pra Juliano.

— Julianooooooo Hoje é o seu dia de lavar a


louça.

Segundos depois ele aparece todo escabelado e


mas se endireira todo quando vê Nice.

— Já lavei mãe.

Ele volta sua atenção pra Nice e diz.

— Massa essa Tatto Nice. — Ele chega mais


perto e se inclina vendo os detalhes da borboleta
tatuada no ombro de minha amiga. — Também
quero fazer uma. — Ele joga charme.

Juliano apesar de ainda estar no início da


adolescência já tinha quase um metro e oitenta e
apesar de ter os cabelos da cor dos meus os olhos
são verdes como os do pai.

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— Que tatuagem garoto! — Eu o repreendo. —


Nem se limpa direito e tá pensando em se tatuar?!
Vou tatuar é a marca das minhas havianas nessa sua
bunda se te ouvir falando nisso de novo. E se
enxerga moleque. A nice tem idade pra ser a sua
mãe!

Ele me lança um olhar mortal e sai bufando.

Nice dá risada do garoto e eu acabo rindo junto.

— E não vai muito longe porque eu sei que tu


escondeu louça suja na geladeira só pra não
precisar lavar. — Grito uma última vez.

— Meu Deus Nana, não sei como você


sobrevive a dois adolescentes, sozinha. Criar filho
sem pai? Eu já teria enlouquecido.

Não digo nada e continuo a limpeza.

— Falando em pai. Não me diz que você está


indo pra lá na tentativa de encontrar o “dito cujo”.

— Claro que não Nice. Felipe é página virada


na minha vida. Eu tô pensando é em dar uma vida
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melhor para os meus filhos.

— Sei... Mas e se você encontrar com ele?

Eu perco a paciência.

— Ai Nice. Não sei. Já disse que isso não é por


ele. Agora para de me atormentar.

— Tá bom, tá bom. Já não está mais aqui quem


falou. — Ela responde em tom de desculpas —
Agora me conta mais do Leonardo. Ele é tesudo?
Loiro? Moreno? Negão picudo? Parrudo?
Magricelo? Alto ? Baixo – Ela me inunda com
perguntas — Meu sexto sentido diz que ele tá afim
senão já tinha te demitido na hora que você mandou
a cliente tomar no cu.

— Meu Deus Nice! Você tá impossível hoje!

Ela ri mas gesticula com as mãos para que eu


conte mais detalhes da história.

— Ah nada a ver. Ele tem idade pra ser meu


pai. Bonito ele é mas não tem nada a ver mesmo —
Repito pra enfatizar. Sabe quem ele me lembra ?
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Aquele cara do missão impossível.

Ela arqueia as sobrancelhas grossas e bem


desenhadas e sorri.

— Nossa mas então ele é um velhão bonitão.


Completamente pegável. — Ela ri e mostra o
indicador subindo e descendo — Isso se ele hastear
a bandeira.

— Meu pai do céu. É uma merda atrás da outra.


Você não vale nada sua puta safada. — Eu xingo e
ela ri mais alto.

— É verdade. Não valho mesmo. Mas se o Leo


não der no coro eu posso ajudar com os azuizinhos.
A vida é curta demais pra você passar ao lado de
alguém que não te faça gozar bem gozado. E se o
cabra não faz direito pula para o próximo porque a
fila anda.

Ela senta na cadeira e começa a mexer no farto


cabelo preto a procura de pontas duplas.

— Aliás trouxe um livro pra você ler. Mas é pra


devolver senão te mato. — Ela tira da bolsa o livro
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e contempla a capa. — Hum... acho que não vou


emprestar depois você perde na mudança e nunca
mais me devolve.

Eu vou até ela e seco as mãos no avental. Tiro o


livro da mão dela e leio “CEO Amores Brutos”

— Já sabe né. Se amassar eu te mato. Se perder


eu te mato e se usar a orelha pra marcar a página.

— “Eu te mato” — imito sua voz e ela retruca

— Não. Esfolo viva, jogo sal nas feridas e


depois te mato!

Eu gargalho, o deixo sobre a mesa e vou para a


geladeira, onde começo a esvaziar os pratos sujos
guardados só com um restinho de comida e potes
com poucas sobras.

— Julianoooooo — Eu o chamo assim que


termino de lotar a pia com a louça escondida.

Com cara de bunda ele vem se arrastando e


começa o serviço mal terminado.

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— Tem que comer muito arroz e feijão pra me


enganar. — Respondo. — Enquanto você tá indo
com a farinha eu já tó voltando com o bolo.

✽✽✽

Por insistência de Nice nós fomos almoçar fora


de casa. Por conta dela. O almoço teve sabor de
despedida e por mais que eu jurasse que íamos
continuar nos vendo quando nos trouxe volta para
casa os abraços foram mais longos que o normal.
Nice era parte da nossa família.

Assim que voltamos para o apartamento nos


abraçamos apertado e ela me repreendeu uma
última vez.

— Vê se dá um jeito que comprar um celular.


Porque a gente tem que continuar se falando.

Juliano e Maria luisa entram e fecham a porta.

— Eu vou comprar. Estou sentindo que a partir


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de agora a minha vida vai mudar pra melhor Nice.


Você vai ver.

A expressão de tristeza dela estava me


agoniando. E mesmo sabendo que a distância não
era tão grande eu tinha a impressão que não voltaria
a vê-la. Pelos olhos marejados de lágrimas, ela
sentia a mesma coisa.

— Para com isso. Você sabe que eu sou uma


manteiga — Digo sentindo as lágrimas virem a
tona.

Ela enxuga as lágrimas e eu faço o mesmo.

— E quando você vai?

— Na próxima semana. Vou passar na escola


dos meninos, agilizar as coisas aqui, devolver a
chave do apartamento. Emfim tudo né...

— boa sorte. — Ela me dá um último abraço —


Se precisar de qualquer coisa, me liga, me liga a
cobrar, mas não deixa de me ligar.

— Obrigada Nice. — Eu digo sentindo a


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emoção vir novamente e me despeço de vez.

✽✽✽

Juliano e Maria Luisa estão sentados no sofá


eles estranham a minha cara de choro.

— Que foi mãe? — Maria Luiza pergunta em


tom preocupado.

— Deve ser tpm. — Ele fala cheio da razão. —


Quer que eu busque um chocolate mãe?

— Não Ju.

Caminho em direção ao sofá e sento entre os


dois. Com o controle remoto tiro o volume da
televisão.

— Eu preciso falar uma coisa com vocês.

— Ah não; Não vai me dizer que tá grávida de


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novo?— Juliano palpita — Porque outra mala sem


alça como a Maria Luisa eu não vou aguentar.

— Mãe?! — Ela diz indignada.

— Parem já. É sério.

Faço uma pausa e volto a falar.

— Nós vamos nos mudar para o Rio. Hoje a


tarde virá um senhor aqui em casa pra avaliar as
nossas coisas. Vou usar o dinheiro que conseguir
pra comprar as nossas passagens de ônibus. Vocês
irão para uma nova escola e

— Mas mãe a gente não pode se mudar, nossa


vida toda está aqui. — Minha filha protesta e logo
Juliano a apoia.

— Já está decidido. — Me mantenho firme —


Isso é o melhor pra vocês. É o melhor para todos
nós.

— MÃAAE . — Juliano tenta argumentar mas


eu os interrompo.

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— Eu não estou pedindo permissão de vocês.


Estou comunicando. Caso não se lembrem vocês só
tem catorze anos. Eu tomo as decisões nessa casa.

E durante a seguinte eles me puniram com


silêncio. Eu não podia culpa-los eu sabia
exatamente como estavam se sentindo. Eu já estive
no lugar deles a quinze anos.

✽✽✽

01

Oi Lipe. Tudo bem? Aconteceu alguma coisa


com seu telefone? Liguei para sua casa uma porção
de vezes. Não recebeu meus recados? Se eu
pudesse eu ligaria mais vezes pra poder conversar
ao menos pelo telefone. Mas já não tenho dinheiro
para comprar mais cartões telefônicos.

Meu pai nem tem deixado a gente sair muito de


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casa. Não sei direito o que aconteceu, mas pelo que


ouvi das brigas parece que tem alguma coisa a ver
com jogo. Dívidas, eu sei lá. Mas foi algo sério.

Aquela noite que nos vimos pela última vez


lembra? Assim que você saiu ele entrou no meu
quarto, e fez minha mala contra minha vontade. Eu
não sabia que ele estava me levando para tão longe.

Se você visse o apartamento que nós estamos...


parece um pulgueiro. Tudo é velho. TUDO. Estou
pensando em fugir daqui mas eu preciso que você
me dê ao menos um sinal.

Estou com muitas saudades.

Te amo <3

Galega

✽✽✽

Guardei a carta que eu havia escrito essa assim

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como centenas de outras haviam retornado intactas.


Recostei a cabeça no vidro do ônibus e tentei
dormir. Logo uma noite conturbada de lembranças
me engoliu.

— Mãe. — Sinto Juliano me balançar.

— Felipe? — Eu acordo dizendo o nome dele.

— Ã?— Ele não tinha ouvido o nome por sorte


por causa dos barulhos dos ônibus que
estacionavam ao lado do nosso.

— Já chegamos mãe. — Maria Luisa responde.


Logo percebo que ela está um pouco rouca. Talvez
vá ficar com dor de garganta. Ela sempre fora mais
sensível as trocas de temperatura. Já Juliano era
forte como um cavalo.

Eu me levanto meio desnorteada ajeito a bolsa


no ombro e enfio a alça da mochila no ombro.

— Acabou a minha punição de silêncio


absoluto? — Pergunto com a voz sentida.

Eles reviram os olhos e me abraçam


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— É né fazer o que... — Maria brinca fingindo


ainda estar ressentida.

— Talvez eu te perdoo se me deixar fazer


aquela tatto.

— Claro benzinho, já disse que tatuo havianas


sem cobrar nada .

✽✽✽

Depois de uma hora e meia dentro de um


ônibus lotado nós finalmente descemos a três
quadras de casa. Aquele bairro não tinha mudado
muito. As casas pareciam ter ficado maiores e mais
caras.

— Vai demorar muito? — Juliano resmunga


irritado. — Eu tô torrando nesse sol.

— Então fala menos e caminha mais. —


Respondo.

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Depois de mais algum tempo caminhando digo


parando em frente ao chalé de madeira.

— É AQUI!

Meu coração se enche de um sentimento


nostálgico. Eles olham para a casa e fazem uma
careta.

— Tem certeza? — Maria Luiza. — Isso não


parece muito habitável.

A tinta que cobre as paredes está gasta em


vários pontos. A cerca de madeira está quebrada e
pendurada por um arame, isso sem falar em
algumas telhas que faltam no alto do telhado.

Largo a mochila e entro no pátio. Tento abrir a


porta mas está trancada.

Bato com força na madeira da porta.

Mas ninguém responde.

As tábuas range debaixo dos meus pés quando


me viro para olhar para meus filhos que continuam
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parados na calçada assistindo a cena.

Dou a volta na casa e tento abrir a janela de


meu quarto, mas ela parece ter sido lacrada por
dentro.

Ouso olhar na direção da casa ao lado. A casa


que no passado fora de Felipe, diferente do meu
chalé. A casa que era dele está impecável. O
gramado bem aparado, a pintura em dia...

Começo a dar a volta no chalé a procura de algo


que me ajude a abrir a casa. Olho ao redor então
estaqueio.

Não, não, não, não pode ser.

Meu coração parou. Aquele homem não poderia


ser ele. Não. Meus olhos estavam me pregando
uma dolorosa peça. Os segundos seguintes se
passaram quase em câmera lenta. Bom... talvez eu
estivesse ficando louca, mas mesmo assim meu
corpo se recusava a se mexer. Eu não estava
respirando. Eu nem piscava. As batidas do meu
coração haviam parado. O meu mundo havia
congelado e a medida que ele chegava mais perto
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eu sentia meu corpo prestes a desmoronar.

Não. Não era Felipe.

Era um homem mais forte. Bem mais forte.


Uma barba fechada cobria seu maxilar. Os óculo
escuros escondiam seu olhar. O homem que se
aproximava mais imponente que o jovem que
pulava a minha janela a quinze anos atrás.

Ele usava uma camiseta preta e uma jaqueta


verde musgo quase em estilo militar, que
contrastavam com as calças rasgadas que
envolviam pernas fortes e musculosas.

Para de olhar Mariana. Para agora. Eu ordenava


a mim mesma, mas eu sabia que eu não conseguiria
parar. Assim como eu não conseguiria mover um
músculo, pelo menos não até ver os olhos daquele
estranho.

Seus passos largos estreitaram a distância entre


nós e o homem enorme a minha frente tirou os
óculos quando se aproximou.

Meu Deus.
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Não.

A voz dele me fez tremer quando sem sorrir.


Agora não havia mais dúvidas.

— Oi Mariana.

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CAPÍTULO 4
Felipe

Eu estava voltando da casa de Helena, de a pé. Era


a poucos quarteirões de distância e naquele bairro
onde ela morava era mais seguro ir andando. A
distância avistei dois adolescentes olhando na
direção da antiga casa de Mariana. Aquela não seria
a primeira vez que eu correria com casaiszinhos de
adolescentes que achavam que poderiam se
esconder no chalé para namorar, beber e usar
dorgas. Aliás aquele era o principal motivo por eu
mesmo ter pregado as janelas por dentro e trancado
todas as entradas.

Acelero o passo e me aproximo deles.

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— Procurando alguma coisa? — Indago e


coloco as mãos no bolso.

O garoto tem quase a minha altura responde


ficando mais a frente da menina como se fosse
protege-la.

— Nada não. — Ele me encara. Os cabelos cor


de mel fugindo rebeldes por debaixo do boné.

A menina é bem mais baixa que ele. Aparentam


ter uns quinze dezesseis anos.

— Estão procurando por alguém?

— Não. — O garoto me responde


monossilábico e extremamente mal humorado. As
maçãs de seu rosto estão vermelhas pelo calor.

— E então? — Pressiono um pouco mais e ele


estoura.

— O que cara? A gente só tá parado aqui pô,


agora desencana do nosso pé caramba! A rua é
pública.

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— Escuta aqui “menino” Já vou avisando de


antemão. — Advirto. — Se estão pensando em usar
essa casa abandonada para namorar é melhor irem
dando meia volta.

— Arghhh. — Os dois reagem juntos com uma


careta de nojo.

— Ela é minha irmã. — Ele me corrige.

A menina desvia o olhar e volta sua atenção


para os fundos da casa. Eu olho na mesma direção e
vejo a silhueta de uma terceira adolescente. Ela
tenta abrir as janelas pregadas e então desiste. A
garota tem cabelos claros, presos em um rabo de
cavalo. Ela veste um jeans surrado e uma baby look
preta.

A loira se afasta e se vira na minha direção. Sou


atingido por uma força descomunal que esmaga
meu peito e a incerteza cruel de que meus olhos
estão me pregando uma peça.

Depois de todos esses anos Mariana reaparece


assim, do nada. Meu corpo se movimenta sozinho,
eu caminho mais rápido em sua direção. Ela me
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devia tantas respostas. Mariana me devia uma


explicação.

O aperto no peito se tornou quase insuportável


quando ficamos a poucos metros de distância. Parei
diante dela e tirei meus óculos. Eu queria vê-la
mais de perto. Com um nó na garganta e uma
angustia engasgando cada palavra eu consegui
dizer.

— Oi, Mariana.

Incontáveis foram as vezes que eu sonhei com


ela. Em meus sonhos Mariana era a mesma menina
moleca de olhar sonhador e apaixonado. Cenários
diferentes , mas sempre do mesmo jeito. As vezes
sonhava que a reencontrava pulando sua janela uma
última vez, ou fazendo o mesmo trajeto que ela
fazia para a escola... as vezes em meus sonhos era
ela que vinha até mim e nosso encontro era selado
por um beijo apaixonado e um abraço tão apertado
quanto nossos corpos pudessem suportar. Eu meu
sonho eu nunca a soltava. Nunca. Porque eu sabia
que acordaria a seguir, era sempre assim.

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Agora não era sonho.

Era real.

O calor sobre nossas cabeças e o mormaço


vindo do chão.

Não houve abraços.

Não houve beijos.

E não haveria.

Nós ficamos parados nos encarando. O peso do


silêncio castigando a ambos. Porque nenhum de
nós era capaz de dizer qualquer coisa sobre o que
havia acontecido a quinze anos.

— Mãae! — A garota de cabelos crespos e pele


negra, engancha no braço de Mariana tirando a nós
dois de nossa íntima troca de olhares.

Mãe?!

Aquela menina era filha de Mariana?

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— Fala Maria Luisa. — Ela desvia o olhar do


meu e volta a atenção para a menina.

— Dá um dinheiro pra gente comprar uma


água. Estamos morrendo de calor .

Eu ainda estava processando a informação.


Mariana agora era mãe.

— Sua filha? — Eu digo sem esconder a


perplexidade.

O tempo não apagara em nada a beleza de


Mariana. Ela continuava tão bonita e doce quanto o
dia em que fora embora, o que tornava aquela
situação para mim uma verdadeira agonia.

A garota olha para ela, os olhos pretos


inquisitores, logo ela questiona.

— Vocês se conhecem.

— Sim. — Eu respondo e ao mesmo tempo ela


responde — Não.

— Já faz muito tempo. — Mariana emenda.


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— Ô mãe. Consegue dez pila pra gente ir ali


pegar alguma coisa pra beber.

FILHOS.

Mariana tinha dois. E eles não se pareciam em


absolutamente nada.

Com o gosto amargo atravessado na garganta


eu a encaro com frieza.

— Os dois são seus filhos?

— Sim. Saíram de mim. — Ela responde


abraçando a própria cintura. — Juliano e Maria
Luisa.

Tenciono o maxilar com força sem acreditar no


que estou vendo e ouvindo. Não era dessa maneira
que ela devia retornar. Não assim depois de tanto
tempo e com dois filhos adolescentes.

Eu respirei soltando o ar em uma bufada


irritada. Me virei de costas e caminhei em direção a
minha casa que era bem ao lado de sua antiga casa.

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— Aonde você vai? — Eu ouço Mariana me


chamar.

— Não vou fugir. — Rosno irritado. — Só


pegar a porra de um martelo. Ou você acha que
aqueles pregos vão se despregar sozinhos?

Bato a porta de minha casa antes que eu possa


ouvi-la me xingar de grosso.

✽✽✽

Mariana
— Mãe quem é esse cara hein? — Juliano
pergunta irritado.

— Meu antigo vizinho. — Respondo sem dar


muitas informações.

Nós ficamos ali plantados ao sol durante dez


minutos estou tão confusa com o reencontro com
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Felipe que respondo as incomodações de meus


filhos com frases curtas e vagas.

— ele tá demorando tanto que provavelmente


deve estar fabricando o martelo e fundindo o ferro.
— Juliano ironiza.

— Vocês eram amigos? — Maria Luisa me


questiona com mais interesse do que deveria.

Aceno com a cabeça confirmando sua pergunta.

— É porque esse cara é tão ogro que eu não te


imagino sendo amiga de alguém que nem ele.

Sentindo o rosto absurdamente quente e as


lágrimas querendo sair sem meu controle eu
disfarço mudando o assunto e esfregando o rosto.

— Nossa que calor infernal. A gente vai


derreter aqui fora.

Pego na bolsa uma nota de dez.

— Comprem umas garrafas de água e alguma


coisa para comer. Espero vocês aqui.
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Eles me olham meio desconfiados.

— Vão vão. Desinfetem. Não estavam


reclamando do calor?

Quando eles se afastam eu caminho até a casa


de Felipe e sou inundada por antigas lembranças
assim que piso sobre o capacho artesanal feito pela
mãe de Felipe.

✽✽✽

Rio de Janeiro /setembro de 2002

Paro com minha melissa de plástico cor de rosa


sobre o capacho. Trago enrolado um desenho que
eu havia feito para Felipe na aula de artes. Toco a
campainha e espero.

Dou uma olhadinha rápida em minha roupa. A


saia jeans é ganhada da minha prima. Ela é dois

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anos mais velha que eu, quando suas roupas deixam


de servir, minha mãe reaproveita quase todas. A
blusa é de crochê, toda branca, e deixa uma parte
da barriga de fora. Essa sim é nova feita pela minha
mãe, exclusivamente para mim.

Quando cheguei mais perto da porta para tocar


a campainha uma segunda vez eu pude ouvir Felipe
rugindo lá dentro.

— Não me importo se a família dela tem


dinheiro ou não.

Eu me afasto da porta com medo de ter ouvido


demais, mas logo me vejo quase com o ouvido
colado a porta para conseguir ouvir o restante da
discussão.

— Meu filho. — Edda, a mãe de Lipe tenta


argumentar. — O pai da garota é um bêbado
viciado em jogo. A mãe é uma sem vida. E aquela
menina deve estar sendo treinada para arrumar um
marido e engravidar na primeira oportunidade.
Você não vejo o que eu vejo porque não tem
maldade. Está iludido. Se um dia você casar com

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ela. — Eu a ouço dar três batidas na madeira. —


Vai acabar sustentando toda aquela família de
inúteis.

✽✽✽

A porta é aberta sem que eu bata. Me deparo


com Felipe já sem a jaqueta. Apenas usando a justa
camiseta branca, os jeans rasgados. Longas
tatuagens cobriam seu braço direito, os desenhos
enigmáticos e hipnotizantes iam até o pulso.

Ele pigarreia e em engulo em seco quando


percebo que sou pega observando os detalhes da
obra de arte tatuada em seu corpo.

— Entra. — Ele ordena.

— Não. — Respondo. — Vou esperar meus


filhos aqui fora.

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— Entra logo Mariana. Você já está com o


rosto todo vermelho. — Felipe me puxa pelo braço
e minhas pernas fraquejam pelo contato de pele
com pele.

Aquele contato era mais do que eu poderia


suportar. E toda aquela frieza vinda dele... aquilo
estava me consumindo.

— Lipeeee — Uma voz anasalada feminina,


rompe nossa bolha.

Uma mulher de cabelos pretos atravessa a rua


segurando uma travessa coberta por papel
laminado. Ela veste um mini shorts jeans com a
barra desfiada e top branco que quase faz seus seios
saltarem para fora de tão apertado.

Sério? Que tipo de mulher se veste assim? Ã?

A medida que elas sobe os degraus seu salto


estala no chão.

Eu puxo meu braço e apenas assisto a cena.

— Eu fiz aquela lasanha que você adora.


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Molho e massa caseiros.

“Tão caseira que provavelmente criou o boi e


matou com as próprias mãos depois moeu a carne
né QUE-RI-DA” Claro que isso eu só falei na
minha cabeça.

— Você não existe. — Felipe elogia e pega a


travessa das mãos da mulher.

“Ah existe sim, lá na Augusta tem umas


quantas assim. Só que elas cobram por hora!”

— Já achou o martelo? — Eu me sinto


extremamente desconfortável ali no meio deles.

Não sou o tipo de mulher que pega implicância


fácil, mas essazinha aí estava merecendo minha
antipatia.

A mulher olha Felipe esperando que ele


explique a minha presença ali. Será que ela tinha
alguma coisa com Felipe? Eu apostaria uma teta
que a “tal” já devia ter passado pela cama dele ou
pelo menos queria ter passado.

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Talvez fosse por isso que ele não teve nem


tempo para abrir minhas cartas. Ele estava ocupado
demais sendo gentil com as vizinhas.

— Eu posso ir aquecendo a lasanha — De


maneira oferecida ela apoia a mão sobre o peito de
Felipe — Enquanto você toma um banho pra se
refrescar porque este calor está insuportável.

— É realmente insuportável. — Enfatizo a


última palavra carregada de deboche.

— Sandra, mais tarde eu passo na sua casa e


nos refrescamos tomando uma cerva gelada. Agora
eu vou ajudar a Mariana aqui a abrir a casa.

Ela olha admirada para Felipe. Alguém dê um


babador pra essa mulher pelo amor de Deus?

— Ah... o Lipe é tão prestativo. — Ela agora se


agarra ao braço dele com muita intimidade.

Puta com certeza.

— A vizinhança toda adora os seus dotes.

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Arqueio a sobrancelha e só consigo responder


um...

— Ah sim... eu imagino. Só imagino.

Assim que a mulher a quem chamara de Sandra


toma seu rumo e vai pra puta que pariu, Maria
Luisa e Juliano retornam com uma garrafa coca
cola de três litros dois copinhos descartáveis
branco.

Meus filhos olham para a lasanha e claro,


Felipe percebe.

— Entrem, vamos comer.

— Não é melhor você convidar a Sandra?—


Digo com aspereza e uma pontada de um
sentimento que não deveria me pertencer. Afinal de
contas Felipe não era nada meu. Se todas as
vizinhas vadias quisessem cozinhar pra ele eu não
tinha nada a ver com isso.

15 ANOS de cartas não lidas era o suficiente


para deixar bem claro que não havia mais nada
entre nós.
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— NÃO. O meu assunto com ela é mais tarde.


— Ele respondeu. — Agora entrem.

Eu queria esfregar aquela lasanha na cara dele


por ele ser tão cara de pau e ordinário.

— O cheiro está bom. — Juliano elogia e segue


Felipe.

— Aham. — Maria Luisa concorda. — Mãe


você vai ter que aprender a fazer uma dessas.

— Cala boca Maria luisa. – Eu xingo mas ela


nem me ouve pois assim como Juliano seguem
Felipe direto para a cozinha.

Quase tudo na casa está diferente. Os móveis


antigos que pareciam de confessionários de igreja e
oratórios haviam sido substiuidos por outros, mais
modernos e sob medida para o lugar.

Na sala uma televisão de tele plana presa em


uma estante que cobria a parede principal, havia ali
alguns livros, e equipamentos eletrônicos. O sofá
era imenso, talvez coubessem umas oito pessoas
ali, talvez dez.
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Eu ouvi risadas vindas da cozinha.

— Conta aí como vocês se conheceram. — É


Maria Luisa quem pergunta.

— Eles eram vizinhos DÃAAA ! — Juliano


provoca a irmã como de costume. — Minha irmã e
a arte de perguntar o óbvio.

Eu me aproximo e paro na porta. Observo


Felipe colocar quatro pratos a mesa.

— Comam quietos. — Eu repreendo e me sento


entre Juliano e Felipe.

Felipe senta ao meu lado.

— Talvez sua mãe não lembre, mas eu lembro


bem daquele dia.

Eu me sirvo um pedaço e sirvo a meus filhos


também. Encho a boca com uma garfada e por mais
que eu tenha odiado a tal de Sandra, ela cozinhava
como um anjo. Aquela era a melhor lasanha da
minha vida.

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— Para Felipe. — Eu o interrompo. Não quero


que ele mexa nessas memórias.— Não.

— Ai manhê deixa ele falar.

E mesmo sem minha permissão ele começa a


narrar a primeira vez em que nossos caminhos se
cruzaram. E mesmo contra a minha vontade a voz
rouca de Felipe me fez desenterrar memórias que
eu tentava arduamente deixar escondidas. Bom...
agora ele estava trazendo o passado a tona.

E EU?

Não estava preparada para isso.

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Capítulo 5
Mariana

— Apesar do jeito fofo da mãe de vocês, ela


parecia um ímã de problemas. Ela sempre acabava
no meio de uma briga ou em algum perigo.
— Eu nunca pedi por sua proteção. — respondo
com o olhar baixo, os sentimentos adormecidos
todos voltando a tona.
— Eu sei, mas eu precisava te proteger, mesmo que
você não quisesse, mesmo que não pedisse por isso.

— A mãe fofa?! — Juliano dá uma risada de


deboche. — Deve estar falando de outra mulher. A
mãe quando quer faz até o diabo chorar.

— Diabo é você, né seu leso! — Maria Luisa


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xinga o irmão e volta a olhar para Felipe. — Conta


pra gente como se conheceram. A mãe não fala
muito de antes, do tempo que ela morava aqui no
Rio.

Fuzilo os dois com um olhar furioso dizendo


em pensamento “Vocês me pagam por isso suas
pestes”

15 ANOS ANTES... RIO DE JANEIRO

Minha adaptação na escola era sempre


complicada. Não sei se era por causa do meu jeito
mais fechado, com o nariz sempre enfiado no meio
dos livros, que eu nunca conseguia fazer parte de
grupinhos, as famosas panelinhas. Eu sempre
preferia a companhia dos livros a das meninas de
minha turma. Foi assim que consegui a fama de
nerd antipática. E quando meus pais conseguiram
uma bolsa de estudos no Concórdia, um dos
colégios mais caros do Rio de Janeiro eu realmente
achei que as coisas seriam diferentes.

Já deu pra perceber que eu me iludo fácil não é?


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Pois então... eu estava lá saindo da minha sala.


Quando um imbecil do terceiro ano me apelidou de
codorna. Pronto. A piada estava feita e eu torcia
para que em algum momento outra aluna virasse
alvo de chacota, porque eu não estava mais
aguentando.

Na hora do intervalo eu esperava a maioria dos


alunos entrar para suas salas, só então eu ia no
banheiro.

Assim que entrei um trio de colegas minhas


levaram um susto ao me ver e logo desistiram de
espantar a fumaça do baseado. Elas riram juntas
como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do
mundo.

— Relaxa que é só a codorna.

Eu ignorei o comentário e fui até a pia lavar as


lentes dos meus óculos.

Laís a líder do bandinho apagou o cigarro e


chegou mais perto. Ela era um pouco mais alta do
que. Os cabelos pretos e desfiados tinham as pontas
descoloridas e pintadas de azul.
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— Fala aí codorna... — Ela me puxa pelo braço


e faz uma careta de séria. — Não vai contar o nosso
segredinho ou vai.

— Não. — Digo puxando o braço de volta.

O celular de Laís toca dentro de uma pequena


bolsa transversal, celular naquela época não
significava a mesma coisa que significa agora. Em
dois mil e dois um celular era para bem poucos.

— O Adônis me mandando mensagem. — Ela


fala olhando para as amigas.

E as garotas vibram.

Eu aproveito a deixa para fechar a torneira e


sair.

— Ei eu ainda não terminei com você — Laís


me ameaça. — Se você contar.

— Eu já disse que não vou contar — Eu puxo o


braço e sem querer acerto a mão dela , e o celular
cai dentro da pia com água.
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Nós olhamos juntas para o celular mergulhado


na água.

— MEU CELULAR! SUA LOUCA! — Ela


grita e o tira de dentro da água.

— Me desculpa . — Digo nervosa.

— Você vai pagar por isso codorna.

— Vai nada. — Uma das garotas comenta. — É


só olhar para as roupas dela. O uniforme todo de
segunda mão. Essa aí não tem um tostão.

E a cada palavra dita Laís se enfurece mais


como se o fato de eu ser pobre fosse ofensivo a ela.

— Deve ser bolsista. — A terceira garota


comenta com desdém e jogo um chiclete na boca.

Uma das tias da limpeza entra no banheiro e as


garotas disfarçam. Eu aproveito a deixa para sumir
para a sala de aula tão rápido quanto posso.

Com o cú trancado de medo eu fico durinha na


cadeira. Olhando para a frente com cara de
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paisagem pensando na encrenca que eu havia me


metido. Apesar do ar condicionado da sala estar
mantendo a temperatura fresca eu estava suando
feito um bode.

Eu olhava para a professora de literatura e


apesar de parecer estar concentrada em cada
palavra que ela dizia eu estava me cagando de
medo. E se elas me surrassem? Ou pior poderiam
me segurar e cortar meus cabelos. Sim era isso que
aconteceria. Talvez eu devesse fingir um desmaio e
ir pra casa de ambulância. Não . Isso ia acabar
matando minha mãe do coração.

Eu ia ser forte e enfrentar a situação. Ia respirar


fundo e dizer com toda a coragem que havia em
mim e dizer pra ela “Escuta aqui guria, se tu deixou
o celular o problema é teu e se tu continuar me
enchendo o saco eu vou contar pra todo mundo que
tu é uma puta maconheira! E para de me chamar de
codorna porque eu tenho um nome!”

A quem eu estava enganando ? Eu não diria


porra nenhuma. Elas iam me trucidar. Mexer nas
minhas coisas e me fazer passar vergonha; Não
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tinha nada de valor pra que Laís pudesse se sentir


vingada pelo celular.

O DINHEIRO DAS CONTAS. Gelei ao


lembrar do envelope no fundo da mochila. Minha
mãe já não confiava no meu pai para pagar as
contas da casa. No final do mês ela ne dava um
maço de dinheiro que conseguia fazendo consertos
nas roupas da vizinhança. Eu ia até a lotérica e
pagava as contas.

E se Laís me roubasse? O que eu diria pra mim


mãe? !

Quando a gente quer que o tempo passe mais


devagar ele simplesmente passa voando. E foi
assim naquela tarde. As horas pareciam minutos. E
eu logo me vi sem saída quando o sinal tocou.

Saí tão rápido da sala que nem pedi desculpas


para as pessoas que esbarrei pelo caminho.

Mas logo um amontoado de alunos se acumulou


em frente aos portões e a minha tentativa de
escapar na velocidade da luz foi frustrada em
minutos.
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Começo a raciocinar rápido. Talvez seja melhor


que eu fique no meio de todo mundo. Aí eu passo
desapercebida e talvez elas esqueçam a promessa
que me fizeram no banheiro. Mas logo os alunos
começam a entrar nos luxuosos carros de suas
famílias.

E eu percebo que não terá outro jeito.

Sigo meu caminho pelo meio fio, calculando


mentalmente quanto ainda falta pra chegar na
lotérica; são quase vinte minutos caminhando.
Talvez eu consiga.

A cada três passos eu dou uma olhada rápida


pra trás.

Meu estômago revira quando vejo as três não


muito longe de mim.

Ah merda.

— Calma aí Codorna. — Laís grita e eu acelero


o passo.

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Posso ouvir ela e as amigas rindo.

— Não precisa correr. A gente só quer


conversar.

Aperto o passo e finjo que nem ouvi. Sigo


caminhando para baixo. Quando eu esbarro numa
parede e caio estatelada no chão.

— Opa. — Eu ouço o garoto dizer. — Ele enfia


o mp3 no bolso da bermuda.

Não era uma parede, mas era rígido e alto o


suficiente para me fazer cair como uma idiota no
chão.

— Você está bem? — Ele parece preocupado.

O sol atrapalha e muito minha visão. Cadê


meus óculos? Tateio o chão do asfalto a procura
deles mas logo o rapaz tatuada se agacha e fique na
altura dos meus olhos.

— Ei . Deixa eu te ajudar a levantar.

E pela primeira vez eu me vejo tão perto de um


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garoto. Ele tem sobrancelhas grossas e escuras,


seus olhos são verde ocre, quase puxados para o
castanho.

A risada das garotas agora está mais perto e


então eu volto para a realidade.

O rapaz se levanta e me puxa pelo braço para


que eu me levante.

Sinto as palmas das mãos arderem. Olho na


direção delas e elas param em uma árvore
provavelmente esperando que eu me afaste do
rapaz em que trombei.

Ele parece entender a situação.

— Elas estão te perturbando?

Eu passo a mão pelo short saia e o simples


movimento faz meus arranhões arderem.

— É . — Digo meio sem graça. — Mais ou


menos isso.

Com toda sua altura ele olha para as minhas


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colegas e volta a me encarar.

— Mas agora elas pararam.

Eu evito olhar para ele e olho apenas para meus


pés.

— Hum.. é que tipo... você e esse tamanho todo


deve tá colocando um pouco de medo nelas.

Ele acha graça e responde.

— Então pelo visto eu vou ter que te


acompanhar o resto do caminho.

Dou de ombros e ajeito a mochila nas costas.

— Não precisa. — Minto.

Mas por dentro eu queria gritar “precisa sim


moço. Me leva até a porta de casa. Porque eu to é
cagada de medo de ser roubada e levar uma surra
dessas vadias riquinhas.”

Ele passa a mão pela alça da minha mochila e


tira o peso de meus ombros.
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— Ah... — Eu percebo que não sei o nome dele


e ele completa.

— Felipe.

Eu fico quieta me sentindo completamente


idiota por toda essa situação.

— Não vai me dizer que eu devo te chamar de


codorna? — Ele brinca.

— Mariana. — Eu o corrijo rápido antes que


ele seja mais um a me chamar por esse apelido
horroroso.

Nós caminhamos lado a lado. E eu percebi


como era fácil conversar com Felipe. Contei para
ele a história toda, desde o dia de hoje e porque eu
estava fugindo de Laís , até a origem do apelido
que eu tanto odiava.

— Tinha que ser coisa do Adônis. — Ele fala


balançando a cabeça. — Ele tem um irmão gêmeo
né.

— Sim. — Confirmo irritada em saber que os


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dois são amigos.

— De onde vocês se conhecem? — Pergunto.

— A gente faz academia juntos.

— Hum... — Murmuro um pouco


decepcionada.

A medidas que caminhamos de volta para


minha casa eu já me imagino casando com Felipe.
Tudo nele é perfeito. Incluindo esses cabelos
despenteados e o ar bad boy capaz de matar
qualquer uma do coração.

— Eu fico por aqui. — Digo parando em frente


a minha casa.

Ele me devolve a mochila.

— Ah então é você que veio pra essa casa. —


Ele diz . — Ouvi minha mãe comentando sobre os
novos vizinhos.

— Sim. — Respondo — Estranho a gente não


ter se cruzado antes.
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— Saio mais a noite. — Ele explica colocando


as mãos no bolso. Meu olhar segue seus
movimentos e sem querer percebo o quanto seu
abdômen é bonito. —Durante o dia eu só estudo.
Estou me preparando para a federal.

— Hum... — Murmuro e desvio o olhar


sentindo as minhas bochechas arderem de
vergonha. — Boa sorte no vestibular e obrigada
pela escolta.

— Não foi nada. — Ele dá uma piscadela e


sorri.

E por mais que por fora eu pareça normal por


dentro estou me desmanchando em corações
apaixonados.

Eu caminho e subo os degraus até a porta da


entrada.

— Amanhã eu passo aqui depois do almoço.

Confusa eu olho pra ele sem entender nada;

— Não vou deixar ninguém mexer com a


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minha vizinha.

Ah... Felipe... eu já estava apaixonada. Desde o


momento do encontrão eu já estava estupidamente
apaixonada.

✽✽✽

Dias atuais

— Ah não , aí tu ficou de guarda costas da mãe


todos os dias?! — Maria Luisa pareceu surpresa.

Juliano estava repetindo pela terceira vez e


claro me matando de vergonha.

— Codorna. — Ele ri sozinho. — Acho que só


vou te chamar assim agora — ele debocha e volta a
comer.

— Chama. SE NÃO TIVER AMOR PELOS

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SEUS DENTES. — Ameaço.

Juliano aponta pra mim e olha para Felipe.

— Viu?! Minha mãe não precisa de proteção.

Eu e Felipe trocamos olhares durante uma


fração de segundos apenas e aquilo é demais para
nós dois.

Eu precisava de ar. Todas aquelas lembranças


ali estavam acabando comigo e ouvi-lo contar cada
detalhe do dia em que havíamos nos conhecido...
era demais.

— Se me dão licença. — Recolho o prato vazio


e coloco dentro da pia. — Maria Luiza e Juliano.
Por favor lavem a louça para não deixar nada sujo.
Felipe não tem obrigação de limpar a sujeira de
vocês.

Eles acenam em concordância e eu saio da


cozinha com a visão nublada pelas lágrimas.

Passo pela porta da frente e vou direto para o


pátio de minha casa. O mato está alto. Eu me
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ajoelho ali mesmo e começo a arrancar tudo com as


próprias mãos.

Felipe vem atrás de mim.

— Ai! — Corto a palma da mão em algo

— Mariana.

As lágrimas estão caindo e minha cabeça está


baixa. Já não consigo controlar o choro e eu uso a
mão cortada para disfarçar a avalanche de
sentimentos.

— Esse mato todo. — Digo e volto a puxar


tudo com as duas mãos. — É trabalho para um final
de semana todo.

— Para Mariana.

— Parar nada. — Digo com as lágrimas caindo


uma atrás da outra. — Que bom que eu tenho Maria
Luisa e Juliano ou eu não conseguiria. — Continuo
arrancando o capim com se eu quisesse arrancar
toda a dor e saudade dos anos que passei me
torturando por ele.
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— Eu já disse pra parar Mariana. — Ele ruge


irritado e me puxa contra seu corpo. Segurando
meus pulsos contra seu peito.

Ele em quase nada se parecia com o rapaz


esguio de quinze anos atrás, mas os olhos. Ah....
aqueles olhos, conservavam o brilho enigmático do
verde com pequenas pinceladas cor de avelã.

Talvez se meu pai não tivesse fugido de casa


nós ainda estaríamos juntos. Casados, apaixonados,
ele estaria aconselhando Juliano sobre as garotas,
coisa que eu ainda não tive coragem de fazer. Mas
a vida não é uma reta. Muito pelo contrário , é um
caminho cheio de curvas e desvios. E entre esses
desvios estava Maria Luisa. Ela e Juliano eram
meus amores. Era por eles que eu trabalhava como
um condenada. Felipe era parte do meu passado e
não havia mais espaço para ele em minha vida. Não
mais. Eu só precisava explicar isso para o meu
coração e para o dele.

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Capítulo 6
Mariana

— Onde você esteve esse tempo todo Mariana?


— Ele perguntou com a voz rouca. — Agora
reaparece assim com dois filhos adolescentes. Eu
mereço no mínimo uma explicação.

Me desvencilhei dos seus braços e dei um passo


para trás.

— Cadê o pais deles Mariana? Que homem em


sã consciência deixa a mulher e os filhos virem
morar em uma casa caindo aos pedaços? Preciso
conhecer esse traste que você escolheu depois de
fugir de mim.

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Com a verdade toda atravessada na garganta eu


estava tremendo diante de todas as perguntas
acusatórias, sendo fuzilada pelos olhos que tanto
amei um dia.

— Mãe? — Mariana me chamou parada na


porta assistindo a cena toda. Juliano estava um
passo a frente da irmã, como sempre protegendo-a.

—Tá tudo bem . Voltem pra dentro e terminem


de arrumar a cozinha juntos. — Respondo torcendo
para que minha voz não vacilasse.

— Tem certeza mãe? — Juliano dá alguns


passos em nossa direção sem tirar o olhar de Felipe,
em um enfrentamento silencioso.

— Eu já falei moleque. Desde quando eu tenho


que falar duas vezes com vocês? — Tento parecer
firme mas é difícil.

É quase impossível não desmoronar estando tão


perto de Felipe.

—Vem Ju. — Mariana chama o irmão. — Eu


lavo e você seca.
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— Obedece sua mãe garoto. — Felipe dá um


rosnado para Juliano — Eu sou a última pessoa no
mundo que faria algum mal a sua mãe.

Não muito satisfeito com o tom de Felipe, meu


filho acaba obedecendo e volta para dentro da casa
vizinha.

Eu respiro fundo e ignoro o corte que arde na


palma da minha mão. Aquele pequeno corte não é
nada comparado ao que estou sentindo.

Nada.

— Quero deixar uma coisa bem clara Felipe. —


Engulo em seco e ergo a cabeça para encarar o
homem enorme a minha frente. — Eu não sou a
mesma garotinha assustada e boba que você
conheceu a quinze anos atrás. Sou uma mulher
adulta. Muito bem resolvida. Não devo satisfações
a você nem a ninguém da minha vida sexual ou de
quantas homens eu dormi depois que te conheci.
Aliás. Eu não preciso que macho nenhum me
sustente. — Bato no peito — Eu aprendi a me virar
muito cedo, aos trancos e barrancos entendi como

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as coisas funcionam, Se eu quero algo eu vou lá


batalho honestamente pra ganhar. Eu só vim para
essa casa, porque é a casa dos meus pais. É aqui
que eu vou morar, você querendo ou não. Eu só
voltei para o Rio porque aqui tenho uma chance de
dar uma vida melhor para os meus filhos.

Ele não move um só músculo, não consigo


desviar meu olhar do dele.

✽✽✽

Felipe
Sem sombra de dúvida aquela não era a mesma
Mariana, algo havia lhe endurecido, deixado a
garota doce mais feroz.

— Eu percebi que você não é mais a menina de


antes. — Seus olhos verdes estão sustentando meu
olhar. — Então você casou ainda adolescente. —
Insisto por mais que eu sei que irei me arrepender,
porque no fundo eu não quero ouvir a resposta. —
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E o pai deles?

Mariana funga e prende a respiração como se


falar daquilo lhe trouxesse dor.Ela cruza os braços
finos na frente do corpo e esconde a mão
machucada a apertando com força; Apesar de
estarmos discutindo eu só queria abraça-la com
força e cuidar dela. Mas eu sabia que isso não era
mais possível.

— O pai deles morreu quando eles ainda eram


pequenos. Eu agradeço muito se não ficar tocando
no assunto. — Ela fungou de novo e sua voz saiu
mais trêmula. — Agora se você puder pegar aquele
martelo eu fico grata. Quero conseguir entrar na
minha casa ainda hoje.

✽✽✽

Mariana

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Era doloroso demais machucar Felipe daquela


maneira, mas no tempo em que precisei dele ele
não estava lá. E já havia se passado muito tempo,
não era apenas de nossas vidas que estávamos
falando.

Então eu menti. Eu já havia contado aquela


mentira antes.

Só que dessa vez era mais difícil. Eu quase não


consegui encará-lo. Esfreguei o nariz e funguei
tentando espantar o choro. Virei de costas e cheguei
perto da janela de meu antigo quarto.

— Nossa... essa casa vai me dar trabalho. —


Dou pequenas batidas na madeira oca roída por
cupins. Tentando miseravelmente não falhar e
demonstrar o quanto aquilo tudo está me
destruindo.

De soslaio eu o vejo a silhueta se afastar em


direção a sua garagem.

— Meu Deus. Meu Deus.... Me dá forças —


Rezo baixinho. Com as mãos espalmadas na
madeira com tinta descascada em alguns pontos e
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pichada em outros eu escoro minha cabeça ali


mesmo e fechos os olhos.

Alguns minutos se passam e eu ouço Juliano e


Maria Luiza se aproximarem.

— Feito. — Ju anuncia meio contrariado. —


Ah... e a Malu quebrou a travessa da lasanha. —
Ele delata a irmã e dá um sorriso.

Ela bate com o cotovelo nas costelas dele


indignada.

— Que bicho mentiroso. — Ela se indigna. —


Mãe ele comeu tudo o que sobrou e ainda deixou o
prato cair no chão.

— Deixei nada. Você que é tansa e pegou com


a mão toda ensaboada.

Ela rosna e revira os olhos.

— bABACA. Não tá vendo que a mãe tá


estressada,

— Ah... a mãe tá sempre estressada. — Ele


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retruca.

— Chega vocês dois, parem de brigar um


minuto por favor. Agora prestem atenção aqui. Vão
lá no mercadinho onde vocês compraram a coca
cola e comprem uns sacos de lixo e uns produtos de
limpeza, vassoura essas coisas todas porque vamos
precisar para colocar a casa em ordem.

— Acho melhor anotar. — Malu diz enfiando


as mãos no bolso da saia jeans.

— Na bunda moleque! — Eu xingo — Anota


na bunda se for preciso agora presta atenção: Traz
desinfetante, aqueles de cinco litros, água sanitária
grande, vassoura e sacos de lixo.

Mexo na bolsa e pego a penúltima nota de


cinquenta e entrego a Juliano.

Eles saem trocando farpas e se alfinetando até


que eu os perca de vista.

Ouço marteladas secas na porta da frente e sigo


na direção do barulho.

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Tento não me impressionar com os novos


desenhos tribais que cobrem as costas de Felipe e
se alongam por seus braços musculosos. Ele tinha
muito mais tatuagens do que antes, e muito mais
músculos também. Seu tronco bem mais largo, e
atlético.

Ele nem precisou fazer muita força com o


martelo para arrancar as madeiras que mantinham a
porta da frente trancada.

Depois de arrancar ele os jogou no gramado


que estava mais para um mato alto.

Felipe não dizia uma única palavra e acredito


que o seu silêncio era pior que sua ira. Ele tirou do
bolso uma chave e destrancou ,a porta rangeu
quando abriu.

— Pode deixar o martelo comigo que depois eu


devolvo.

Ele me ignorou.

O peso de seu corpo quando entrou no chalé fez


com que as madeiras debaixo de seus pés
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rangessem mais.

Eu o segui para dentro da casa.

O lugar todo fedia a mijo e baratas. Pelas


persiana de madeira entravam pequenos feixes de
raio de sol.

Eu caminho para mais perto dele e tento tirar o


martelo de sua mão.

— Não precisa fazer isso. — Digo. — Eu vou


usar e depois devolvo lá na sua casa.

Ele me dá um olhar gélido e eu solto sua mão


de imediato.

Aquele olhar eram seus olhos me mandam uma


mensagem furiosa: AFASTE-SE!

Mesmo sem querer eu me encolhi diante dele e


cruzei os braços ao redor do corpo.

O chão da sala estava coberto de poeira. Eu


desviava de pedaços de garrafa quebrados, tocos de
cigarros e algumas camisinhas usadas.
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O sofá de três lugares estava com o forro


rasgado.e parede onde ele estava encostado estava
pichada “FODA AQUI” e uma seta apontando para
o sofá. A televisão já não estava mais sobre o
raque, claro que não estaria. Nada mais era como
antes. NADA.

Felipe foi até a janela, e com a ponta de gancho


do martelo retirou os pregos que prendiam a
madeira ali. Ele empurrou as abas das persianas e a
luz entrou.

Não pude evitar de notar os contornos de seus


músculos reluzindo ao sol. Ele era a definição da
perfeição.

A luz do dia entrou inundando a sala, cobri um


pouco meus olhos que já estavam acostumados com
aquela penumbra.

O silêncio entre nós era uma tortura para


ambos. Mas não havia o que ser feito.

Não tinha mais nada que eu pudesse falar. Eu


apenas o segui sem dizer nada e esperei que ele
destrancasse casa cômodo.
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Felipe foi até a cozinha e começou a despregar


a janela, eu fiquei olhando para os armários com as
portas depredadas. Talvez depois da limpeza eles
ainda pudessem ser aproveitados, eu precisaria de
alguns parafusos pra coloca-los em ordem de novo.
A geladeira estava virada de lado e sua porta tinha
sido arrancada e escorada ao lado da bancada.

Era triste olhar para aquilo, mas não era isso


que realmente estava me arrasando por dento, era
Felipe e o fato de meu coração teimar em bater
diferente quando está perto dele não ajudava em
muita coisa.

Eu estava perto quando ele forçou e a janela se


abriu.

O sol invadiu.

Não vi direito quando uma sombra preta voou


em direção aos meus cabelos.

Era a porra de um rato voador,

Um morcego!
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— Aahhh... — Eu cubro a cabeça e me


encolho. Felipe me abraça no mesmo milésimo de
segundo, tão rápido quanto meu coração pode
aguentar. Fazendo uma coisa que ele fez desde
sempre. Me proteger.

Nós não nos movemos eu continuou encolhida,


com a cabeça encostada em seu peito, o seu
coração martelando tão forte, os braços envolvendo
meu corpo de maneira protetora. Me apertando bem
contra si de maneira que eu me sentisse segura.

Aquele abraço era tudo.

Eu tinha sentido tanta falta.

Meu coração se comprimiu no peito quando o


cheiro dele invadiu minhas narinas, aquele cheiro
que era só dele.

Então o nosso segundo junto se desfez quando


eu ouvi as vozes de Maria Luiza e Juliano vindas
da sala.

— Mãaae !

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Tão rápido nós nos afastamos que eu cheguei a


duvidar que realmente aquele abraço protetor
realmente tivesse acontecido.

— Estou aqui. — Digo em voz alta e sigo na


direção da voz deles porque não sou capaz de ficar
no mesmo cômodo que ele. Talvez não seja capaz
nem de ficar na casa ao lado.

Aquilo tinha sido um enorme erro.

— Ah esse vai ser o meu quarto — Vejo


Juliano se posicionar em frente ao meu quarto e
largar as pesadas sacolas de compras no chão.

Ele tira o boné e bagunça os cabelos cor de mel


e coloca outra vez na cabeça, dessa vez a aba
voltada para trás.

— Não é justo mãe o Juliano vai ter um quarto


só dele? Mas e eu ? — Maria Luiza protesta.

Felipe passa por nós e entra em meu quarto, ele


martela a janela e segundos depois ela está aberta.

— Esse quarto é meu. — Digo olhando para os


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dois. Vocês dois vão dividir o quarto que era dos


seus avós. Na segunda a gente vai no brick ver se
acha um beliche.

Eu ouço os dois bufarem mas logo Juliano


alfineta a irmã;

— A cama de cima vai ser minha.

— Só por cima do meu cadáver— Ela retruca.

— Posso providenciar isso. — Juliano continua


a briga.

— Vou amarrar vocês dois juntos. — Ameaço.


— Agora cada um pega um cômodo e começa a
limpar. Eu já volto.

Felipe já está cruzando o pátio em direção a sua


casa quando eu o alcanço.

— Espera Felipe.

Ele me ignora e continua andando em direção a


sua própria casa. Se eu estivesse mais atenta
perceberia que mais gente está assistindo a cena
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toda.

Seguro seu braço outra vez mesmo quando


todos os sinais são para que eu me afaste.

— Por favor. — Eu respiro ofegante e ele para.

Felipe se vira para mim e me encara. O olhar


duro dele me emudece.

— O que é? — Ele dá um rosnado irritado, e


olha para minha mão ferida segurando-o.

Eu o solto.

Como eu posso contar pra ele tudo o que


aconteceu? Por que ele não respondeu desde a
primeira carta? E os meus telefonemas? Se ele
tivesse respondido ao menos uma vez tudo seria
diferente.

— Obrigada. — Digo num tom baixo que não


sei se tenho certeza de que ele ouviu. Pigarreio e
repito. — Eu só queria dizer obrigada por ter
trancado tudo enquanto estávamos fora. — Faço
uma pausa quando o peso do silêncio dele me
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dilacera.

— Não foi nada. Eu faria isso por qualquer


vizinho. — Ele responde com aspereza e se vai.

Se eu contasse a verdade ele reagiria diferente


eu não tenho dúvidas, mas Maria Luiza não, nem
ela nem Juliano. As vezes é melhor deixar as coisas
como estão. Então naquele instante decidi
que eu manteria o meu silêncio. Porque a verdade
sobre o meu passado era uma bomba relógio, uma
granada potente capaz de arrasar a mim aos meus
filhos e inclusive a ele. Por isso eu a guardaria só
pra mim mesmo que eu já estivesse cansada de
segurar a responsabilidade deste segredo por tanto
tempo.

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Capítulo 7
Felipe
15 anos antes

O dia amanheceu como outro qualquer. Eu


levantei as seis e meia, o cheiro de rabanada frita e
café recém passado já se espalhavam pela casa. Eu
pude ouvir minha mãe repreendendo a empregada,
mas estava de muito bom humor para me meter na
briga das duas. Fui direto para o banheiro. Liguei o
chuveiro e pequenos pontos arderam em minhas
costas quando a água começou a jorrar sobre mim.

Eu sorri porque sabia que aquelas pequenas


marquinhas de unhas que senti eram as marcas
deixadas por Mariana na noite anterior. Fechei os
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olhos lembrando de como ela mordia o lábio com


força e mantinha os olhos bem apertados. Ela
estava com tanto medo.

Senti meu pau endurecer, e eu bati uma punheta


lembrando da sensação que era estar dentro de uma
bocetinha tão apertada. A barreira sendo rompida
aos poucos, meu cacete entrando devagar.

“Calma galeguinha...” Eu cubro seus lábios


com beijos e nossas bocas se encaixam.

Agua lava o gozo que não demora a vir quando


as imagens dela debaixo de meu corpo ainda são
tão frescas em minha mente.

Termino o banho e me visto. Vou direto para a


cozinha. Apenas minha mãe está sentada a mesa.
Ela beberica seu café e os olhos atentos não lhe
escapam nada.

— O que foi? — Digo já na defensiva , com um


sorriso no rosto.

— O que andou fazendo Lipe? — Ela larga a


xícara sobre o pires e me observa enquanto pego
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uma das rabanadas ainda quentes e dou uma farta


mordida.

— Nada. Por que? — Me sento e sirvo um copo


de suco de laranja.

Ela estreita o olhar.

— Que te deu hoje pra acordar bem humorado?


E tomar café da manhã na mesa? Canso de te
chamar pra comer comigo mas está sempre enfiado
no quarto estudando.

— Então está reclamando que seu filho estuda


demais “dona Eda”? — Mordou a rabanada frita
outra vez. — Mas já que quer saber o motivo do
meu bom humor, hoje é aniversario da galega.

Ela solta uma bufada impaciente.

— Você anda vendo essa menina com muita


frequência. — Ela começa com seu tom costumeiro
de repreensão.

— Ela minha namorada mãe. É assim que as


coisas funcionam. A gente se vê a gente namora. E
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mais pra frente a gente se casa.

—Deus me livre. — Ela dá batidas na mesa


com a mão fechada e coloca a mão no peito
fechando os olhos por poucos segundos— Deus
não vai dar um desgosto tão grande.

Começo a me irritar mas ela continua falando.

— Você é muito novo pra pensar uma coisa


dessas, no próximo semestre já vai estar na
universidade, garanto que lá você vai mudar os seus
conceitos quando conhecer outras garotas.

— Eu não quero outras mãe. — Rosno. — E do


jeito que você fala até parece que somos ricos.

— Ah meu filho, você tem que pensar com a


cabeça. — Ela se inclina pra frente e no olhar uma
súplica. — Matemática é um curso difícil. Acha
que vai conseguir dar trabalhar como monitor,
estudar e ainda ficar de namorico? Eu já vi isso um
milhão de vezes, o rapaz se apaixona a mocinha
engravida, vocês dois terão que largar os estudos e
vai ter que arrumar uns dois empregos para poder
se sustentar e sustentar família. A pensão que eu
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recebo do seu pai é o suficiente apenas para nós.

— Já chega mãe. — Com a mão aberta acerto


um tapa no tampo da mesa. — Perdi meu apetite.

Me levanto da mesa e sigo de volta para o


quarto, eu a ouço retrucar.

— Você pode ficar brabo mas sabe que no


fundo eu tenho razão.

✽✽✽

Com os livros abertos deixei que a matemática


consumisse toda a minha atenção, mesmo que
minha vontade real fosse pular a janela e ir
despertar Mariana com um beijo de bom dia.

As horas passaram... Faltavam poucos minutos


para leva-la a escola. Eu nem tinha almoçado,
comeria algo no shopping, já estava com tudo

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planejado em minha cabeça. Fingiria que tinha


esquecido seu aniversário, e no final do dia iria
busca-la na saída da aula com flores e um anel.

Calcei os tênis, enfiei a carteira no bolso. Passei


o perfume Dimitri que era o predileto da galega e
sai.

— Aonde está indo todo perfumado? — Minha


mãe indaga colocando a televisão no mudo quando
me vê passando.

— SAIR. — Respondo seco e bato a porta.

Olho para o chalé ao lado, todas as janelas


ainda estão fechadas.

Caminho até a porta da frente da casa de


Mariana e bato duas vezes.

NADA.

Olho no relógio para ver se está certo.

Meio dia e quarenta e cinco.

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A essa hora ela estaria parada com a mochila


nas costas esperando minha companhia.

Estranho.

Bato mais duas vezes e não ouço som em


resposta.

— Mariana! — Chamo em voz alta.

Aguardo um minuto então dou a volta na casa.


Paro diante da janela dela.

Bato com mais força do que antes e a chamo.

— Galeguinha.

Nossa empregada que estendia o tapete no muro


baixo me chama.

— Lipe. — Ela acena que eu chegue mais


perto.

Vou até ela.

Aura seca as mãos no avental e apoia a


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vassoura que usava para esfregar o tapete.

— Que foi Aura? — Pergunto meio sem


paciência.

— Tá procurando a Nana?

— Claro, não tá me vendo chamar por ela? —


Respondo de maneira grosseira. — Você a viu?

Ela balança a cabeça em negativa e faz um bico


torto com os lábios marcados por finas rugas ao
redor da boca.

— Não. E nem a mãe dela. Ela sempre fuma


comigo de manhã cedo um pouco antes de eu
chegar no trabalho. Será que aconteceu alguma
coisa?

Relembro do último momento em que a vi, seu


pai, aquele bêbado estava tendo uma briga com a
mãe de Mariana.

— Não sei. Vou passar na escola da Nana


agora.

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✽✽✽

O pânico foi me tomando aos poucos quando


confirmei com o guarda que Mariana realmente não
havia ido a aula naquela tarde. “A Nana deve estar
se escondendo das ovadas ” Lembro dele brincar,
mas ela não precisava se esconder de nada, não
quando estava ao meu lado.

Fui ao shopping e comprei o livro que ela tanto


queria, uma edição especial do Morro dos Ventos
uivantes. Comprei o anel e o coloquei entre a
primeira página do livro e a capa. Quando ela
abrisse veria que era sério. Eu não estava
brincando, queria Mariana em minha vida.

Quando retornei com o livro embalado em um


embrulho colorido e um botão de rosa vermelha, a
casa de Mariana ainda estava fechada.

Esperei durante horas, até o escurecer, fiquei


sentado nos degraus de madeira esperando que ela
retornasse.

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Quando a novela das oito terminou minha mãe


apareceu na porta de nossa casa.

— Vem pra dentro Lipe. Não vai passar a noite


aí na rua.

— Estou esperando a Mariana. — Digo


teimoso.

— Eles devem estar no hospital. — Minha mãe


alfineta. — Do jeito que bebe o pai dessa menina
isso não me espantaria.

Ela podia estar certa. Talvez da briga na noite


anterior ele tivesse passado mal. Recolhi o livro e a
rosa e voltei para minha casa. Folhei a lista
telefônica e liguei para todos os hospitais e pronto
socorro que estavam listados.

Não havia sinal deles.

Mariana desaparecera e eu já não sabia mais


onde poderia procurar por ela.

Então nas semanas seguintes eu me isolei. Não


houve um dia ou uma noite sequer que eu fechei
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minha janela. Eu tinha esperanças que ela voltasse


sabe-se lá de onde, primeiro eu a xingaria por me
deixar louco sem notícias depois eu a abraçaria
com força e não a soltaria.

Mas ela não apareceu.

Fazia um mês que eu não saía de casa, mal saia


do quarto, tinha dias que eu comia, outros não.
Minha mãe apelou para meu pai , mas ele já tinha
sua nova família para se preocupar.

— Que zona é essa carai. — Adônis entra em


meu quarto. — Tá fazendo treino pra virar
mendigo?

Ele me empurra com a ponta do pé.

Estou sentado no chão, escorado na parede


próximo a janela. Não posso mais ficar olhando
para a janela de Mariana. Eu já estava perdendo
meu juízo, não eram poucas as vezes que eu a via
ali chupando um pirulito e colando pôsteres nas
paredes, assim como a primeira vez em que eu a
espiei em seu quarto. Mas claro que ela não estava
lá. A janela ainda estava fechada e se manteria
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assim.

— Agora não cara.

— Como agora não?! — Ele me pergunta


indignado. — É sexta feira i velho liberou a casa e
um dinheiro pro findi e tu e o meu irmão só querem
saber de empatar tudo?!

— Não tô a fim.

— Ah... não tá a fim... o puto do Dimitri tá


assim também, tão focado no vestibular pra ser
“doutor” que acho que vai até virar padre. Sabe que
ele enfiou na cabeça que quer ser pediatra?

Adônis jogas as roupas que estão sobre a cama


e senta na beirada.

— Pensa só. — Ele faz sinal com o indicador e


passa a mão pela barba loira e rala. — Estudar uma
porrada da vida pra ouvir choro de criança o dia
inteiro e as únicas mulheres que vai ver são as
casadas que já tem barriga mole, com os peitos
todos flácidos de amamentar, isso sem falar
naquelas que tem a bunda do tamanho desse seu
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guarda-roupa. — Ele balança a cabeça negando .


— Não isso não é pra mim, eu vou fazer no
máximo uma educação física e deu. — Ele beija os
próprios bícepes — Manter essas armas aqui dá
trabalho.

— Boa sorte então. — Eu levanto e começo a


empurra-lo para fora do meu quarto. Ele é pesado e
não estou com muita força ou ânimo pra fazer
qualquer coisa — Vai cara. Hoje eu não tô pra
festa.

— Ah não puto. — Ele faz corpo mole e me


encara cruzando os braços na frente do corpo. —
Ainda tá na fossa por causa da cordorna?

Adônis parece espantado.

— VÉIO to espantado contigo. E aquele seu


lema de pega e não se apega? — Ele tenta me
convencer. — A garota não vai na escola a um mês
já.

— Eu já disse que hoje não vou sair caralho. —


Xingo. — Agora me deixa quieto.

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Minha mãe aparece no quarto quando ouve meu


alto tom de voz.

— Tentei dona Eda. — Adonis dá de ombros e


assim que ele sai eu bato a porta e tranco tudo.

A botão de rosa ainda está ali sobre a


escrivaninha, as pétalas agora murchas e quase
pretas, o livro está ao lado.

Com uma angustia que não cabe em mim eu


preciso de ar. Volto para minha janela e mantenho
a cabeça baixa. Eu preciso tanto saber o que
aconteceu?

Pulo minha janela e contorno a casa. Toco a


maçaneta e tento abrir. Está trancada. Inspiro fundo
e dou dois passos grandes para trás.

Arrebento a porta com um chute forte. Está


tudo escuro dentro da casa. Eu ando em silêncio
pela casa de Mariana. Tudo está no lugar.

Sigo para o quarto dela. A porta entreaberta.

A cama está desfeita.


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As portas do guarda roupa abertas. Chego mais


perto e abro as gavetas.

Tudo vazio.

Caminho para o quarto de seus pais e o assim


como o de Mariana, os guarda roupa também
estava vazio.

Era definitivo Mariana havia ido embora e não


se dera ao trabalho de terminar comigo nem com a
porra de uma simples carta.

Eu precisava sair dali porque a ausência dela


estava me esmagando.

Vi o carro de Adônis começar a cantar pneu.

— Espera aí porra! — Eu xingo e vou na


direção dele.

Entro no carro e sento no banco do passageiro


ao lado do motorista.

— Pra onde veado?

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— Qualquer lugar com música alta e bebida. —


Completo — Muita bebida.

✽✽✽

Quando voltei para casa no dia seguinte a


ressaca estava destruindo minha cabeça e me
queimando inteiro por dentro com uma azia
infernal.

— Mas será possível a audácia dessa — Minha


mãe para de falar e ajeita alguns papéis na mão.

A cabeça lateja com mais força.

— Cheguei. — Aviso e caminho em direção ao


meu quarto.

— Lipe meu filho, ela guarda algumas


correspondências na bolsa em seu colo e vem em
minha direção. — O que você tá sentindo meu
filho?

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— Nada. Estou anestesiado mãe, é só isso.

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Capítulo 8
Mariana

Com as mãos doloridas de tanto esfregar aquele


chão imundo eu estava tomando um pouco de ar. O
suor estava escorrendo por minhas costas, e o
cansaço dominando meu corpo. Malu estava
encerando o chão o antigo quarto de meus pais e
apesar de furioso Juliano limpava a cozinha.

Inspiro fundo olhando para os dois colchões


velhos escorados na parede do lado de fora do chalé
pegando um sol. Quando estava me virando para
voltar para a árdua faxina eu ouvi uma voz
feminina me chamando. Aquela que eu pouco
conhecia mas já não ia com a cara da fulaninha.

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— Vizinhaaaa — Ela me acena.

Eu considero fingir que não ouvi, entrar e


fechar a porta evitando fofoquinhas desnecessárias
e as perguntinhas que ela faria se começássemos a
conversar.

E como se sentisse que não estou nem um


pouco afim de socializar ela apressa o passo e me
alcança.

— Ah oi. — Digo sem vontade.

— Oi. — Ela me sorri tentando a política da


boa vizinhança e me estica uma cesta parecida com
as de piquenique que a gente vê nos desenhos
animados.

— Pra mim?! — Me surpreendo.

Achei que ela só fosse gentil com os “vizinhos”


em especial um tatuado com um metro e oitenta de
altura.

— É. — Ela balança a cabeça. — A gente nem


conversou direito aquela hora. E o Lipe estava tão
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distraído que nem nos apresentou.

Hum... deve ser bem intima pra ficar chamando


de “o Lipe”.

— Sou a Sandra.

— Mariana. — Digo. — Mas a maioria me


chama de Nana.

— Trouxe pra gente tomar café, vi que vocês


passaram a tarde trabalhando. — Ela explica
tentando espiar para dentro da casa discretamente.

Um silêncio permanece entre nós por poucos


segundos e percebo que ela está esperando que eu a
convide;

— Quer entrar?— Digo

— Claro. — Ela sorri entra avaliando tudo. —


Nunca tinha visto essa casa por dentro.

É vadivizinha agpra já está vendo.

Sandra passa o dedo pelo rack e uma camada


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grossa de pó se acumula na ponta do dedo dela.

— Nossa... você é corajosa hein.... — Ela fala


enquanto anda pela sala esquadrinhando tudo com
um olhar minuncioso. — Eu sou maníaca por
limpeza. Ela esfrega uma mão na outra pra tirar a
sujeira.— Se vocês precisarem de ajuda com a
limpeza. Posso pegar o lavajato do meu marido e ir
passando no lado de fora da casa.

Marido? O chifre deve ser tão grande que mal


deve passar na porta.

— Aos poucos vamos dar conta de tudo, mas


obrigada. — Dispenso sua ajuda .

— E pretende ficar aqui por muito tempo? —


Ela especula de maneira despretensiosa. — Vi que
vocês só chegaram de mochila.

Apoio a cesta com as guloseimas sobre o sofá e


pego a vassoura de volta pra começar a varrer,
quem sabe ela se toca que não estou afim de papo e
vai embora.

— Hum... — Ela se escora na janela e fica me


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olhando trabalhar. — Aqui é um bom lugar pra se


morar, a vizinhança é boa, Vai gostar de criar seus
filhos por aqui. — Ela para de falar. — Os dois são
seus?

— São sim.

— Nada contra quem tem um filho de cada pai.


Até a Laura que mora a três casas daqui tem, e ela
super boa gente.

Eu a interrompo.

— E quem disse que são de pais diferentes?! —


Paro de varrer.

— Bem... — Ela enfia as mãos nos bolsos do


micro shorts — é que. Eles são tão diferentes.

Eu já estava acostumada com esse tipo de


pergunta, isso não deveria mais me irritar mas me
irritava.

— Não tem muito mistério. Carlos era negro. A


Malu saiu mais parecida com ele e o Juliano saiu a
minha cara.
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— Era negro? Como assim era no passado? —


Agora ela nem consegue esconder a curiosidade.

— Porque ele morreu Sandra. — Eu desvio o


olhar dela e volto a trabalhar na limpeza.

— Nossa... meus pêsames.

Fico em silêncio rezando mentalmente para que


ela se dê satisfeita e vá embora, mas a curiosidade
dela parece não ter fim.

— Eu vi o Lipe vindo destrancar a casa. — Ela


sorri ao falar dele e mexe nos botões do top com
um olhar distraído. — Ele é tão prestativo.

Ah é... eu imagino o quão bom ele deve ser para


as vizinhas.

— Hum. — Murmuro sentindo uma irritação


crescer dentro de mim quando a ouço se desfazer
em elogios para ele.

— Sabe que ele é professor de matemática?


Nos finais de semana ele dá aulas para umas
crianças lá no morro acredita? Não sei como um
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homem desse continua solteiro. — Enquanto fala


começa a mexer nas unhas longas e bem pintadas.
— Quando eu cheguei aqui até achei que fosse gay.
Um homem sozinho bonito daquele jeito. Só podia
morder a fronha.

Revirei os olhos e comecei a jogar água com


desinfetante no chão.

— Ah é? E o que te fez mudar de ideia? —


Alfineto

Ela pigarreia e sorri.

— Ah... acabei conhecendo ele com mais calma


e vi que é só o jeito dele. Meio fechadão. Vive
trabalhando, e quando pode ainda ajuda a
vizinhança com o jardim.

— Nossa. Deve ser um santo. — Debocho mas


ela nem liga.

Durante quase uma hora ela me conta o detalhe


da vida de cada casa vizinha e toma fôlego pra
respirar.

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— Não gosto de comentar da vida de ninguém


sabe, mas é sempre bom saber um pouco sobre
quem mora perto da gente.

Não gosta de comentar da vida?!

Conta outa Sandra, além de vadia é fofoqueira.

Eu sabia que quando saísse da minha casa ela


iria fofocar sobre o pouco que sabia de mim para
todas que conheciam.

— Deixa eu te ajudar com alguma coisa —


Pede e vai até a cesta. — Pelo menos organizar a
mesa com um café pra gente. A cozinha fica ali?

Juliano aparece sem camisa o corpo esguio e os


cabelos loiros encharcados de suor. Ele carrega
dois sacos de lixo enormes em cada mão.

— Pronto mãe.

Ele ajeita a postura cansada de antes assim que


vê Sandra.

— Mas que prestativo. — Ela o elogia e os


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olhos de Ju brilham satisfeitos.

Esse garoto não tem jeito.

— Coloca isso lá na rua e vai se limpar, depois


chama sua irmã pra vir comer também.

Juliano faz o que peço e Sandra vai para a


cozinha. Eu a sigo já sem paciência.

— Você é bem nova pra ter filho desse tamanho


né? Qual a idade dele? Quinze ? Dezesseis?

— Catorze.

— Mas tá comendo fermento — ela tenta ser


simpática. — O pai devia ser alto, porque você não
é muito alta não.

— Pois é. — Esfrego as mãos em um pano de


prato e observo ela colocar a mesa com três pratos
plásticos e pequenos copos.

— E a outra qual a idade?

— A maria Luiza tem treze.


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Ela arqueia as sobrancelhas pretas e bem


desenhadas como se estivesse surpresa.

— Tá bem hein Nana.

Nana? Não sou sua amiga pra ter essa


intimidade.

— Quando tiver meus filhos quero ter essa


magreza aí. — Ela tira dois potes um com pasteis e
outro com bolo de chocolate.

— A propósito a lasanha estava ótima.

— Ah você provou?

— Sim, o Felipe insistiu que almoçássemos


com ele.

Ela não pareceu muito satisfeita ao ouvir isso


mas até que disfarçou bem.

Sandra puxou um dos bancos e passou um


guardanapo para tirar o pó.

A cozinha estava limpa, mas claro que ela tinha


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que dar o ar da graça dela.

— Não repara, é que eu sou perfeccionista —


Ela ri se desculpando – Não consigo sentar em nada
se eu não passar um paninho antes.

Dei de ombros e puxei uma cadeira.

— Cada louco com a sua mania. — Respondi.

Será que ela passava um paninho antes de


sentar no colo de Felipe?!

— Maluuuuuu! — Dou um grito e ela se


assusta. — Vem lanchar.

Pego um dos pasteis e como.

Maldita. Além de bonita ainda cozinhava


maravilhosamente bem. A massa crocante se partiu
e um recheio de carne com molho e pedaços de ovo
tocaram o interior da minha boca. Eu queria não ter
feito “huuuuummmmm” mas foi quase
involuntário.

— Conta aí Nana — Sandra pega um pastel


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também. — Quantos anos você tem? Deve ter


casado bem nova pra seus filhos terem esse
tamanho né.

Claro que o interrogatório ainda não havia


terminado.

— Comecei a namorar o Carlos com quinze,


logo engravidei.

Ela dá uma risadinha

— Nana safadinha. Só cara de santa.

Mordo o pastel outra vez e a observo abrir uma


caixa de suco de um litro. Sandra serve a nós duas.
O olhar atento esperando mais detalhes.

— Quando eu saí do Rio tinha catorze. Eu e


minha família fomos viver em São Paulo. Foi lá
que conheci o pai deles. Como éramos adolescentes
cada um continuou na própria casa, a gente era
muito apaixonado sabe?

Ela agita a cabeça concordando.

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— Bom engravidei pouco depois que Juliano


nasceu. Eu nem sabia que isso podia acontecer.

— Ah minha filha ... pobre é bem assim,


espirrou tá prenha. Espirrou duas vezes é gêmos.

Eu rio de Sandra e tomo um gole de suco.

— Tá mas e aí o que aconteceu?

— Carlos acabou morrendo por uma bala


perdida quando voltava do trabalho.

Ela estreitou as sobrancelhas escuras.

— E te deixou com duas crias pequenas. Nossa


que barra Mariana! — Ela para de comer —
Desculpa fazer você falar disso.

— Tudo bem só vamos mudar o assunto, não


quero eles ouvindo isso agora. Já está sendo bem
difícil para meus filhos deixar os amigos no Rio e a
vida que tinham lá para começar tudo do zero aqui.

Sandra faz uma careta com a boca e pega um


guardanapo para limpar a gordura dos dedos.
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— Claro, eu entendo.

— E você e o seu marido ? — Desconverso.

— Ahh... o Plinio é enfermeiro, passa mais no


hospital do que em casa. Tá sempre cansado
coitado, mas não posso reclamar dele. Hoje em dia
homem é bicho raro.

— Sei. — Termino o pastel e pego uma fatia de


bolo, que pra meu desgosto consegue ser o bolo
mais macio que já provei, isso sem falar na
cobertura cremosa e adocicada de chocolate e
granulados.

— Na verdade homem até tem mas os que


querem compromisso . — Ela joga a cabeça pra
trás e dá risada. — Esses correm quilômetros
quando ouvem essa palavra.

✽✽✽

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Quando Sandra foi embora já eram quase sete


da noite. Começava a escurecer quando eu Juliano
e Malu começamos a carregar os colchões de volta
pra dentro.

A casa estava habitável, não havia mais lixo


nem sujeira pelo chão. Cobri o sofá com um lençol
e o piso de madeira cheirava a cera. Tinhamos feito
um bom trabalho. Apesar das pichações nas
paredes o lugar estava começando a parecer um lar
outra vez.

Sentamos no sofá, exaustos e sujos.

— Putz e agora a gente não tem água nem luz


pra tomar banho? — Juliano reclama tirando o
boné e se abanando para espantar o calor.

— Você já deve estar acostumado. Toma um


banho por semana seu porco.

— Cala boca Maria Luiza e vai se pentear, que


com essa cabeleira aí tá parecendo uma louca
fugida da rua.

Belisco com força o braço de Juliano e fuzilo


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Malu com o olhar.

— Parem porque eu estou cansada e não tenho


mais energia pra nada. Mas se precisar dar uns
cascudos nos dois eu arranjo forças, podem ter
certeza.

Eles bufaram juntos.

— Tá e a gente vai ficar aqui no escuro? Sujos?


Sem tv? Sem nada?

— Vocês não estão cansados? — Pergunto. —


Então?! Vão dormir ora essa. Do jeito que
trabalhamos não vamos demorar a pegar no sono.
Malu Tu dorme na cama de solteiro o Ju na de casal
e eu no sofá. Amanhã ligo para a companhia de luz
e peço para eles virem religar a luz o quanto antes e
a água também.

— Domir as sete da noite? Mãe ?! Eu não tenho


sessenta anos. — Ju protesta

— Não perguntei. Agora desinfeta que amanhã


eu resolvo esses problemas.

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— Mas amanhã é domingo mãe?!

— Ai que seja... — Digo sem paciência. —


Mas deve ter alguém trabalhando. Agora vão vão
vocês dois que eu quero deitar.

Eles saem da sala e me deixam só.

Eu me reviro no sofá fedido e apesar do


cansaço não consigo me desligar. Fecho os olhos e
não consigo parar de pensar no homem feito que
Felipe se transformara, tão musculoso e imponente,
aquela barba escura combinava com seus traços
ainda mais másculos do que antes.

Apertei os olhos com mais força e me virei


outras duas vezes tentando achar alguma posição
mais confortável. Eu precisava de um docinho pra
me acalmar. Um chicletinho ou uma balinha que
fosse.

Levantei do sofá e o chão rangeu quando


caminhei. A casa já estava escura. Tateei até
encontrar a bolsa sobre o rack. Remexi dentro da
bolsa e achei uma última bala. Tirei-a do plástico e
coloquei na bolsa.
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Voltei para o sofá chupando minha balinha


sentindo o gosto doce da cereja.

Não dava pra dormir tranquila sabendo que


Felipe estava a poucos metros de distância , na casa
ao lado.

Para de pensar nele Nana! Ordenei a mim


mesma.

É só lembrar do que ele falou pra Sandra... bem


na sua frente. Que iria mais tarde tomar uma
cerveja gelada pra se refrescar.

Revirei no sofá outra vez.

Qual a parte de não pensar em FELIPE que


você não está entendendo Mariana. Para!

Nervosa comecei a mastigar a balinha e logo


ela se despedaçou.

Passado Mariana. Para de remoer.

Eu bufo sozinha e me encolho no sofá, os olhos


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arregalados no escuro.

Se aquela Sandra pensa que me engana com


aquela cesta de guloseimas e fofocas ela está bem
enganada, eu sei que ela só veio sondar pra ver se
eu falava alguma coisa sobre o “Lipe Santo”

Ouve uma batida na porta e arregalei ainda


mais os olhos. Eu não lembrava de ter passado a
tranca na porta.

As únicas pessoas que sabiam que eu estava ali


eram Nice, Sandra e Felipe. A essa hora Nice
estaria a quilômetros de distância se preparando
para a balada de sábado. Felipe e Sandra já deviam
estar na cama aproveitando cada minuto que o
coitado do Plinio está fora para fazer a festa. Talvez
fossem adolescentes testando pra ver se tem gente
em casa, ou sei lá . Talvez um mendigo procurando
abrigo.

Bom ... de qualquer jeito eu teria que ir checar.

Levanto do sofá e caminho devagar até a porta.


Não há uma segunda batida. Eu espero no escuro.

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Eu abro apenas uma fresta.

Felipe está descalço, o corpo dele está suado.


Ele respira ofegante.

Eu prendo a respiração ao vê-lo sob a luz da lua


e abro a porta.

— O que foi?! — Estranho o jeito como ele me


encara.

Eu arqueio as sobrancelhas e espero que fale


alguma coisa.

Ouso olhar para os músculos de seu peitoral


subindo e descendo em uma respiração acelerada.

— Fala alguma coisa Felipe.

Ele balança a cabeça em negativa.

Inspiro e prendo a respiração.

— Olha Felipe eu tenho que descansar. Hoje foi


um dia bem difícil pra mim. Boa noite. — Começo
a fechar a porta, mas mão dele segura a madeira e
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com o outro braço ele me puxa contra seu corpo.


Nossos lábios se encaixam em um beijo violento
que chega a doer.

É desesperado e quente.

Pela primeira vez em quinze anos meu corpo


arde de novo, com o poder daquele beijo roubado.

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Capítulo 9
Mariana
15 anos antes

As três cartas

“Oi Lipe espero que esteja tudo bem. Bom... eu


não sei se você recebeu minhas primeiras duas
cartas, por isso estou escrevendo a terceira. Não sei
por qual motivo você não me responde, talvez as
cartas não estejam chegando a você, talvez tenha
ido morar com seu pai. Eu sei lá... acho que talvez
já esteja ficando com outra ou sei lá. Minha letra
está horrível eu sei, mas estou tremendo demais e
não consigo controlar meu nervosismo.

Queria tanto que você estivesse aqui pra me dar


aquele abração apertado, queria tanto ouvir a sua
voz rouca sussurrando ao meu ouvido que tudo vai
ficar bem.

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Bem lá no fundo eu sei que não vai ficar.

Droga Felipe.

Se você soubesse o que eu acabei de fazer...

Estou com tanto medo.

Já faz alguns dias que eu não consigo comer


nada. Nada para em meu estômago.

Minha mãe está querendo me levar no médico.

Hoje faltei ao trabalho e passei numa farmácia.


Fiquei andando pelos corredores já sabendo o que
eu teria que comprar. Parei diante da prateleira e
peguei uma das muitas opções de testes de
gravidez. Agora estou sentada no chão do banheiro
escrevendo essa carta pra você. Não tive coragem
de olhar o resultado.

Eu sei que adiar não vai adiantar muita coisa.

Espera...

Ah meu Deus Lipe. Eu estou grávida. Estou


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esperando um filho seu, Felipe.

Por tudo que é mais sagrado responde essa


carta. Estou completamente perdida.

O que eu vou fazer? Como vou contar para


meus pais dessa gravidez? Eles vão me matar.

Não vou ter como esconder muito tempo.

Por favor não demore a responder, não aguento


mais essa agonia.

Te amo , Lipe.

✽✽✽

14 anos antes

Oi Felipe, o nosso filho já está com um ano. Ele


tem os cabelos claros como os meus. Ele é tão lindo
e fofo que as pessoas me param na rua para apertar
suas bochechas, sempre acham que eu sou a irmã

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(risos). Meus quase dezessete anos não me passam


muita credibilidade como adulta. Nossa vida está
começando a se ajeitar aos poucos.

Os primeiros meses foram os piores, criar o Ju


sem a ajuda de minha mãe foi pesado. Meu pai
gastava o pouco que recebia em garrafas de bebida.

Estou trabalhando em uma creche, na mesma


em que Juliano fica durante o dia. O salário não é
muito alto, mas estou conseguindo colocar as
contas em dia e comprar as coisinhas que ele
precisa.

Daqui alguns meses farei dezessete seria um


bom presente você me responder. Estou cansando
Lipe, cansando de escrever. Acho que vou criar
vergonha na cara e parar de escrever.

Não tenho mais espaço para você em nossas


vidas.

Eu sei que essa é só mais uma carta que você


não vai ler e assim como as outras vai voltar intacta
sem ser aberta, mas estou precisando te contar
sobre Maria Luiza.
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Eu estava voltando do trabalho com Ju em meu


colo apontando para o ar com a mãozinha fofa
encantado com tudo a sua volta. O trajeto até nossa
casa era longo, eu o mantinha bem agarrado a mim.
As calçadas aqui não são das melhores sabe... virei
o pé e nós dois fomos ao chão. Eu caí de joelhos,
mas nosso filho não se machucou. Tive que ficar
sentada no chão esperando que a pontada em meu
tornozelo aliviasse um pouco antes de ter que
recomeçar a caminhada.

Ju ficou de pé ao meu lado mexendo nos meus


cabelos. Até que ele disse “mãe o nhênhê”

Ele não parou até que eu olhasse no amontoado


de caixas próximo ao poste.

A primeira vista eu achei que fosse uma


boneca.

Ju se afastou de mim e começou a dar pequenos


passinhos na direção dela.

Eu me adiantei e mesmo com dor me ergui e o


agarrei no colo.
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Aquele foi o momento em que Maria Luiza


entrou em nossas vidas.

Quando eu a vi atirada em meio aquelas caixas,


jogada no lixo meu coração quase parou. Tirei da
mochila uma manta extra de Juliano e enrolei o
pequeno corpo da recém nascida.

Eu a trouxe para nosso apartamento. Meu pai


fez questão de enfatizar que eu estava ficando
louca. Já que eu mal sustento a nós. Eu não estou
nem aí para as ofensas que vem dele.

Vou dar todo amor que Maria Luiza merece eu


e Juliano estamos apaixonados pela pequena e
agora ela será parte de nossa família.

Eu sei que não devia dizer, mas ainda estou


com saudades.

Ass. Galega.

✽✽✽

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Dias atuais

“Prometo que essa vai ser a última carta. Última


vez que escrevo pra você. Só pra você saber, estou
melhor sem você, meus filhos estão quase criados,
e eles são meus só meus, você foi um simples
colaborador de esperma. Nada mais que isso.
Tenho ódio de você. Ódio pelas necessidades que
passei por sua causa. Ódio por ter me dado a uma
paixão juvenil e você fez tão pouco, me usou e
jogou fora.
Estou escrevendo a você só pra te lembrar que eu
ainda te odeio.
Claro que eu sei que você não vai ler essa carta, ou
lerá e irá ignorar como fez com todas as outras.
P.s: Ainda te odeio, Felipe!
Ass. Mariana”

✽✽✽

Felipe
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Algumas horas antes

Eu abri as janelas de minha casa que tinham


vista para o chalé de Mariana. A distância eu podia
ter um vislumbre das silhuetas dos filhos andando
pelo interior da casa, agitando vassouras, torcendo
panos...

Saí da janela e fui para a sala de estar. Liguei a


televisão esperando que o jogo me distraísse, mas
meu corpo e minha mente estavam irrequietos.
Como seria daqui pra frente com ela morando tão
perto ?

Eu não conseguia entender o motivo de sua


frieza comigo. Era ela quem tinha ido embora, ela
tinha recomeçado sua vida em outro lugar, sou eu
quem deveria estar puto!

Meu celular tocou era a professora de química


da semana passada.

“planos pra hoje?”

Eu me arrependo de ter visualizado a


mensagem. Pois agora terei que responder algo.
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“Sim. Bom final de semana.”

Ela responde com um emoticon de tristeza mas


eu apenas desligo o celular.

Pulo os canais mas nada prende minha atenção.


Não consigo tirá-la da minha cabeça. Saio para fora
da casa e vejo Sandra entrando logo atrás de
Mariana na casa. Meu coração bate mais rápido no
peito e eu não sei lidar com o que estou sentindo.
Bato a porta de casa e mesmo descalço eu inicio
uma corrida na tentativa insana de limpar meus
pensamentos.

Corro até que as solas de meus pés doam e o


suor escorra por meu corpo. As imagens da volta de
Mariana ainda permeiam meus pensamentos, o
modo como ela sorri quando olha para os filhos, a
maneira como seu corpo se aconchegou com medo
em meu peito.

Após horas correndo parei apenas quando meus


pés tocaram a areia morna da praia. Lembranças
mais antigas invadiram minha mente... e eu podia
ver como um espectador a nós dois mais jovens.

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“— Vem galega. Eu proíbo você de morar NO


Rio de Janeiro e não ter tomado um único banho de
mar nessa vida! É quase uma afronta! Quase não é
uma afronta! — Eu digo tirando meus tênis e
jogando a regata perto dela.

— Para com isso Felipe. — Ela abraça as


pernas e apoia o queixo nos joelhos. — Eu não
tenho a mínima vontade de entrar na água.

— Não! Eu não admito isso.

— Então vai andando aí pela praia que você


logo acha uma porção de amigas pra entrar com
você.

— Eu não quero uma porção de garotas. — Me


sento ao lado dela e despejo um punhado de areia
em seu cabelo. — Quero só uma.

— Felipeeeee. — Ela me xinga mas eu sorrio.

— Agora você tem que entrar pra tirar essa


areia.

— Que nada. Vou me limpar em casa. — Ela se


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levanta e eu fico de pé logo depois.

— Não gosto disso. Você sabe que eu tenho


medo de afogar. Agora para de insistir que eu não
vou entrar no mar.

Ela se vira e começa a ir embora. Eu a apanho


no colo e ela grita.

— Para Felipeeeee!

Eu caminho com ela debruçada em meu ombro


até a beira da água. A posiciono em meu colo de
maneira que seu rosto fique de frente pra mim, as
pernas enganchadas em minha cintura e os braços
ao redor do meu pescoço.

— Olha pra mim Galega.

Ela abaixa o rosto, emburrada mas suas pernas


se apertam em torno de minha cintura.

— Mariana. — Eu caminho com ela mais para


dentro da água. — Olha pra mim.

As ondas quebram em minhas panturrilhas.


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Ela ergue o rosto e me encara.

— Não vou deixar nada acontecer. Estou aqui


pra te proteger galega. Confia em mim?

Ela aperta os olhos com força a medida que


entramos mais e a água agora toca minha cintura, a
cada vez que as ondas quebram ela dá pequenos
gritinhos de pavor.

— Abre os olhos galega deixa de ser boba.

— Eu não sou — Mas antes que ela pudesse


terminar a frase roubei seu primeiro beijo. Ela
arregalou os olhos no segundo em que a beijei mas
voltou e fechá-los.

Meus braços a mantinham firme contra meu


corpo e sua boca macia e doce era devorada sem
pressa pela minha.”

Inspirei fundo me deleitando com as


lembranças de Mariana. Eu mergulhei uma última
vez antes de retomar a corrida para casa, talvez
mergulhar fundo e depois levar meu corpo a
exaustão fosse o suficiente para acalmar meus
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pensamentos por hora.

Com os pés latejando pelos quase vinte


quilômetros corridos, o suor escorrendo por meu
corpo outra vez. Já está escuro quando retorno eu
me vejo batendo na porta dela.

Cadê a porra do meu orgulho?

Numa noite de sábado qualquer a essa hora eu


estaria tomando banho e escolhendo onde passaria
boa parte da minha noite, mas agora eu só queria
me certificar que ela estava bem.

Ela não atende e eu chego a considerar que


sonhei tudo aquilo, que Mariana não voltara e
aquela ideia esmaga meu peito.

Bato uma segunda vez e a porta é aberta um


pouco.

Respiro ofegante.

O coração arrebentando no peito.

— O que foi?
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Quero poder inventar qualquer desculpa pra


poder manter a porta aberta por mais algum tempo.

— Fala alguma coisa Felipe! — Ela me exige.

Não consigo dizer nada.

Porra.

Não consigo organizar um droga de frase.

Nego balançando a cabeça.

Mariana me encara e começa a falar.

— Olha Felipe Eu tenho que descansar. Hoje


foi um dia bem difícil pra mim. Boa noite.— Ela
tenta fechar a porta, mas em um movimento
involuntário eu a impeço, e a puxo contra meu
corpo.

Abocanho seus lábios macios e a devoro em um


beijo furioso.

✽✽✽

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Mariana
Por mais que eu queira que aquele beijo dure
para sempre eu o empurro e nossas bocas se
separam.

— Não Felipe. Para com tudo isso. — Digo


ainda sentindo minha boca arder. — O que quer
que fosse que tínhamos a quinze anos atrás acabou
Felipe. Não há nada que eu ou você possamos
fazer pra mudar isso.

Bato a porta com força e giro a chave.

No escuro tateio até encontrar minha bolsa.


Tento engolir o choro e não alertar Juliano nem
Maria Luiza.

Contar a verdade para Felipe envolveria dizer


toda a verdade para Maria Luiza, começo a rasgar
as cartas que escrevi, uma a uma.

A catorze anos eu prometi amar e protege-la


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como se fosse minha, eu manteria minha decisão. A


felicidade e bem estar dos meus filhos sempre
viriam em primeiro lugar. Sempre!

Coloquei tudo no lixo e voltei para o sofá, eu


ainda estava tremendo, toquei os lábios e prometi a
mim mesma que aquilo jamais voltaria acontecer.
Eu só precisava me manter longe dele.

Essa era a parte difícil do negócio.

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Capítulo 10
Mariana

Não havia cristo que me fizesse pregar os olhos


naquela noite. Eu me levantei e fui espiar meus
filhos. Juliano estava esparramado na cama,
completamente exausto, tadinho. Na ponta dos pés
eu fui até o quarto de Maria Luiza, que assim como
o irmão estava desmaiada pelo cansaço.

Mesmo eu sempre tratando os dois como igual,


dando todo o carinho que uma mãe é capaz de dar a
seus filhos Malu ainda tinha seus receios. Ela era a
mais frágil dos dois, desde cedo teve lidar com o
preconceito por causa de sua cor. Eu odiava o fato
que as vezes ela apenas se fechava para não ter que
falar sobre as briguinhas na escola, e se um dia a
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verdade sobre ela ter sido encontrada no lixo sem


dúvidas a arrasaria. Era o meu dever de mãe
protege-la.

Voltei para o sofá e me abanei para espantar o


calor e os mosquitos. Fechei os olhos por alguns
segundos pensando em todas as cartas rasgadas
enfiadas em uma sacola de lixo . Era melhor assim
que eu desse fim aquilo, o momento em que elas
deveriam ser entregues já havia passado, agora elas
só precisavam desaparecer pra não trazer mais dor
a ninguém.

Me levantei e fui para fora , talvez um pouco de


ar me ajudasse a esquecer do beijo de Felipe.

Assim que coloco os pés para fora de casa meu


olhar vai direto para a casa ao lado. A casa dele.
Nossos olhares se cruzam e aquela força que me
toma o ar quando estou perto dele me invade.

Felipe está com as costas escoradas na porta


fechada. Ele segura uma garrafa de cerveja na mão.
Ele não fala nada, mas eu sei que ele me viu.
Talvez eu devesse ir lá e falar alguma coisa sobre o

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beijo.

É. Seria uma coisa adulta a fazer.

— Vai ficar me olhando muito tempo? — Ele


pergunta com rispidez e dá um gole na cerveja.

Eu desço os degraus e caminho até ele. Sinto


seu olhar acompanhar cada movimento de meu
corpo e de repente me sinto nua diante de sua
encarada.

— O que você quer Mariana? — Sua voz é


dura.

Ele me chama de Mariana, não de Nana , não


de Galega, agora eu era só Mariana. Era melhor
assim, visto que ele me beijara e eu simplesmente o
coloquei para correr da pior forma possível. Por
que mesmo que eu estava ali?!

Ficar perto dele me tirava qualquer linha de


raciocínio.

Ah é...

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— Eu vim só pra dizer que não quero mais que


a cena de horas atrás se repita. Eu tenho dois filhos
como você bem viu. Não vou fazer parte do seu
cardápio rotativo de vizinhas. Estamos entendidos?
— Tento parecer segura diante do homem gélido a
minha frente.

Ele me avalia e eu sustento seu olhar.

— Não. — Felipe Dá um rosnado e continua


me encarando.

— Não o que? Não estamos entendidos? —


Digo perplexa.

Ele balança a cabeça em negação.

—Não, não estamos entendidos. — Ele bebe


um último gole e atira a garrafa no gramado e dá
um passo em minha direção, estreitando a distância
entre nós. — E não. Você não veio aqui pra me
fazer um discurso de mãe preocupada.

Engulo em seco e um arrepio desce pela minha


nuca quando ele me olha diretamente nos olhos.
Estamos tão próximos que eu posso ver as
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pinceladas cor de avelã em enfeitando sua íris


esverdeada.

— Lógico que sim. — Retruco já sentindo as


pernas amolecerem com sua proximidade.

Ele nega e dá um passo mais a frente. A poucos


centímetros de distância de mim ele continua me
hipnotizando.

Sinto suas duas mãos deslizarem pela minha


cintura e descerem até a minha bunda.

Arregalo os olhos e as mãos dele me apertam


com mais força.

— Veio até aqui porque aquele beijo não foi o


suficiente. Porque no fundo você sabe o quanto
está louca pra me ter de novo dentro de você.

Felipe puxa meu corpo ainda para mais perto e


agora sinto sua ereção enorme e dura sendo
pressionada contra meu corpo.

— Você é um pervertido. — Consigo dizer.

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— Sou mesmo. — Ele mexe minha bunda


fazendo com que meu quadril esfregue
devagarzinho contra toda sua rigidez.

Meu clitóris lateja e sinto minha calcinha


encharcar.

— Nã – não. — Gaguejo e coloco as mãos


sobre seu peito tentando afastá-lo de mim.

Meus dedos tocam suas tatuagens, meu cérebro


manda mensagens urgentes para que minhas mãos
o empurrem e minhas pernas corram o mais rápido
para longe dele, mas meu corpo não me obedece.

— Não? Não quer o meu cacete atolando dentro


dessa sua bocetinha apertada?

E o ar Brasil? Cadê o oxigênio meu paizinho do


céu?!

— Não. — Digo em um tom fraco e ele rosna.

— Mentira. — Ele se inclina e sua boca quase


toca a minha. Uma de suas mãos solta minha bunda
e se enfia por dentro do meu shorts jeans. —
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Mentira? Então porque sua bocetinha está


encharcada?

Ele desliza os dedos passando a cremosidade


em meu clitóris.

Abro a boca para protestar mas a única coisa


que escapa por meus lábios é um gemido sofrido
quando ele atiça mais meu ponto de prazer.

Devagar ele vai me puxando para dentro de sua


casa, uma fera hipnotizando sua presa, me
mantendo refém pelo prazer.

— Isso... — Ele elogia e continua me


provocando. — Vou começar te fazer gozando só
com os dedos.

Felipe mordica meu lábio inferior e sorri.

— Depois eu vou lamber tudo, sugar essa sua


bocetinha até você me implorar para eu socar tudo
dentro de você.

— Felipe... — Gemo.

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Ele me pressiona contra a parede , mal percebo


que já estamos em sua sala de estar.

Felipe desliza os dedos por entre minhas dobras


e eu me seguro nele quando o prazer sobe pelo meu
corpo como uma febre louca me fazendo arder. Ele
enfia um dedo e depois o outro. Mordo seu peito
tatuado e o ouço sorrir.

— Tão apertadinha. Meu cacete não vai caber


aqui.

Ele enfia os dedos e meu sexo se contrai com


seu movimento.

Eu suspiro e ofego ao mesmo tempo.

— Felipe eu não .

— Shiuuu... — Ele me repreende e seus dedos


se movimentam mais rápido dentro de mim. — Não
quero ouvir não, só quero ouvir... sim... sim...
mais... mais...

Ele tira os dedos de dentro de mim e eu quase


choro. Felipe os leva a boca e sente meu gosto, ele
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faz isso sem tirar os olhos dos meus.

— Gostoso. Mas vai ser muito melhor provar


direto da sua boceta. — Ele diz descarado.

Eu estou derretida, não há mais nenhum


neurônio funcionando.

Ele parecia satisfeito com o efeito devastador


que estava tendo sobre mim. No rosto um sorriso
sacana que me deixava ainda mais excitada.

As mãos dele foram para as laterais da minha


regata folgada.

Ele tirou a peça de roupa e a deixou cair aos


nossos pés.

Suas mãos agarram meus seios com uma


pegada que chegou a amolecer minhas pernas.

Ele se inclinou, passou os polegares pelos


mamilos rosados e endurecidos. Inspirou minha
pele como se necessitasse de meu cheiro. Felipe
roçou a barba por entre meus seios e abocanhou o
mamilo, sugando e beijando a ponto de me levar a
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loucura outra vez.

— Ah meu deus.... — Exclamo baixinho


quando o tesão é demais para aguentar.

Felipe solta meus seios e suas mãos vão direto


para minha cintura. Ele me encara.

Ele me ergue sem fazer muito esforço e eu me


agarro a ele. Minhas pernas se enroscam em torno
dele.

— Eu não consigo mais esperar. — Imploro.

Felipe distribui beijos e mordidas por meu


pescoço enquanto me carrega para seu quarto.

Não consigo parar de beijá-lo, nossas bocas mal


conseguem ficar distantes uma da outra.

— Quer meu cacete dentro dessa sua bocetinha


quer?! — Ele diz enquanto me debruça na cama.

Mas eu me estatelo com força no chão. E num


piscar de olhos estou de volta em casa. Minha casa,
minha antiga casa.
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Um sonho!?

Um maldito sonho molhado aaaah...

— Mãe tá tudo bem? — Maria Luiza aparece


em seguida e se assusta ao me ver no chão —
Juliano corre aqui.

— Tá tudo bem , eu só caí do sofá. — Eu me


levanto e sinto o último ossinho da bunda latejar.

Me sento no sofá, Malu senta ao meu lado


ainda com o rosto inchado pelo sono.

— Não precisa fazer essa cara de assustada.

— É que fez um barulhão. — Ela ri.

— Ah... tudo nessa casa faz barulho. —


Justifico sem graça.

Juliano aparece minutos saindo do banheiro


com uma sacola de lixo .

— Que foi ?!

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— A mãe caiu do sofá . — Malu ri.

Ele me olha com olhar zombeteiro e debocha.

— Ah ... e eu não vi isso?!

— Tô bem arranjada de filhos. — Desconverso


e me levanto.

Pego a sacola de lixo que ele carrega e digo aos


dois.

— Vão se trocar. Hoje é domingo e a gente vai


tirar o dia pra aproveitar. Vamos as compras.

Eu mesma decido por colocar aquele lixo na rua


para não correr o risco de que Juliano por algum
motivo acabe encontrando as cartas.

Saio de casa e o sol já brilha alto no céu azul. A


rua ainda está deserta. Nem ouso olhar para a casa
de Felipe.

Gelo ao ver que o lixo estava quase todo ali.


Quase todo exceto a sacola com as cartas que eu
havia escrito durante esses quinze anos.
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- Não, não , não. — Digo baixinho e corro


descalça na direção do amontoado de lixo.

Me agacho e começo a remexer nos sacos de


lixo.

— Tem que estar aqui em algum lugar. —


Reviro as sacolas mas não encontro o que estou
procurando.

Tinha sumido. Merda, merda, merda! Eu


estava perdida.

Alguém tinha levado apenas aquela bendita


sacola. Mas quem? Quem faria uma coisa dessas?!

Fosse quem fosse eu só poderia rezar para que


estivesse longe.

De repente eu me dei conta que o controle sobre


aquela granada sobre a verdade toda não estava
mais apenas em minhas mãos , alguém mais tinha o
poder de devastar nossas vidas, mas sua identidade
ainda era uma incógnita, e isso tornava este alguém
ainda mais perigoso.

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Capítulo 11
Mariana

— Não pode ter sumido assim. — Digo em voz


baixa e remexo no lixo outra vez, toda a tralha e
sujeira que havíamos tirado da casa no dia anterior
ainda estava no mesmo lugar, ensacada em grandes
sacos plásticos pretos e amarrados com um nó na
ponta.

Mas cadê a sacola branca? A sacolinha de


supermercado que usei para guardar todas as cartas
rasgadas. Cadê?

Com o olhar perdido em meio ao lixo eu


vasculho na memória o último momento em que
me livrei delas. Pensa Nana. Pensa!
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Até pouco antes de Felipe aparecer logo depois


que anoiteceu e me roubar aquele beijo elas
estavam todas dentro da bolsa, seguras.

Eu consegui manter escondido durante tanto


tempo todas as cartas que eu havia enviado a Felipe
e retornado a mim sem serem abertas.

Foi culpa do beijo. Se Felipe não tivesse


aparecido eu não teria me desesperado. Não teria
chorado durante horas.

Não teria rasgado as cartas.

E depois do choro , o que eu fiz? O que?!

Amarro a sacola e sem fazer barulho a deixo na


frente da casa com o restante de todo o lixo.

— Droga. — Xingo baixinho. — Mas porque


ela não está aqui?

Continuo tentando lembrar do que eu fiz depois


de largar a sacola.

Eu dormi e sonhei com Felipe.


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Só isso.

De manhã peguei a sacola de lixo que Juliano


tirara do banheiro, e para ter certeza que ele não
chegaria nem perto dessas cartas eu mesma resolvi
colocar o lixo para rua.

— Tá procurando o que no lixo vizinha? Perdeu


alguma coisa? — Sandra ne provocou em alto e
bom tom.

Olho na direção da voz e a vadibiscate está


escorada na porta da casa, me olhando com um
sorrisinho debochado no rosto.

Não Deus, não faz uma filhadaputagem dessa.


Rezo mentalmente para que não tenha acontecido o
pior.

As cartas não poderiam estar com ela. Não


mesmo!

Eu me levanto e passo as mãos no shorts e


caminho na direção dela. Atravesso a rua sem olhar
para os lados e paro no portão.

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Sandra me olha de cima, o ar vitorioso


estampado no rosto

— Vem cá um pouquinho fazendo o favor. —


Digo já tremendo de nervosa.

Sandra veste um vestidinho leve de algodão


com estampa floral, ela anda e o som de sua
rasteirinha me provoca arrepios desagradáveis
assim como tudo nessa vagaranha. Meu santo não
tinha batido com o dela logo a primeira vista, não é
nem pelo fato dela ser uma fofoqueira, mas eu
sempre fui uma pessoa com sexto sentido pra essas
coisas e quando eu não ia com a cara da criatura
logo de cara é porque coisa boa não era.

— Por acaso você viu alguém mexendo no meu


lixo?

Ela estreita os olhos e faz uma careta pensativa


como se estivesse mesmo tentando puxar algum
fato naquela cara ordinária.

— Não. — Ela responde. — Não vi nada não.

— Tem certeza Sandra. — Insisto.


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— Lógico Nana, eu conheço todo mundo aqui


da rua e agora conheço você. — Ela sorri e ajeita o
cabelo em um coque.

— Como assim me conhece? — Gelo.

— Eu não fui tomar café na sua casa ontem.


Você me falou da sua vida dos seus filhos... Tá
louca mulher?

— Hum. — Murmuro sem acreditar em uma


palavra que sai de sua boca.

— Bom... o que você está procurando deve ser


muito importante pra te fazer revirar o lixo a essa
hora da manhã não é? Tem que cuidar as coisas que
coloca no lixo vai saber na mão de quem vai acabar
caindo né?!

Ela cruza os braços na frente do corpo e dá de


ombros.

— Agora vai saber né... tem gente que encontra


cada coisa no lixo.

Tamanho e força física era algo que eu era


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completamente desprovida e mesmo aparentando


ter a mesma altura que eu Sandra era mais
encorpada, mas eu não estava nem aí.

Eu mal percebi o momento exato em que


minhas mãos foram direto para seus cabelos, eu
agarrei com força e ela agarrou-se aos meus.

— Para sua loucaaaaa— Ela gritou.

— Conta — Grito e tento estapeá-la. — Cadê


as minhas cartas sua vadia.

Nós rolamos para o chão e Sandra fica por cima


e começa a tentar me arranhar no rosto.

— Você vai me devolver! — Grito e puxo seu


cabelo com mais força.

Sandra é arrancada de cima de mim e eu vejo


Felipe se interpor entre nós.

Um homem de meia idade todo vestido de


branco segura Sandra pela cintura.

— Calma bom bom. — Ele mantém a mulher


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afastada de mim.

Bom bom?! Meu Deus... esse deve ser o corno


do marido.

— O que deu em vocês?! — Felipe rosna


irritado e fuzila Sandra com o olhar enquanto passa
o braço em torno de minha cintura e me ajuda a
levantar.

— É bom você não se meter na minha. —


Ameaço e dou um passo a frente mas meu pé lateja
e Felipe me apanha antes que eu me vá ao chão. —
Ou você vai ver.

— Que ver o que sua loira aguada. Se o Felipe


não tivesse aparecido aí sim você ia ver uma coisa.

— Plinioo! Leva logo a sua mulher pra casa.


— Felipe ordena.

Sem entender muita coisa do que está


acontecendo o corno manso do Plínio volta para
dentro da casa e fecha a porta.

Quando percebo que ainda tenho o braço forte


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de Felipe me apoiando eu ne afasto dando um passo


para trás.

Mas meu tornozelo esquerdo dá uma fisgada


que me faz ver estrelas.

Ah não.

— Eu vou te levar pra casa vem que eu te


ajudo.

Imagens tórridas do sonho que tive com ele na


noite anterior me vem a cabeça então eu minto para
que ele não chegue perto.

— Não precisa, eu estou bem.

— Bem o caralho. — Ele xinga ainda irritado,


como se eu tivesse culpa da briga. Tá certo que eu
tinha começado a briga e estava perdendo feio, mas
meus motivos eram mais que excelentes, Felipe só
não precisava saber quais eram eles. Mesmo eu
tentando afastá-lo ele me agarra no colo do mesmo
modo que o marido carrega a esposa quando estão
prestes a entrar em casa logo após a cerimônia de
casamento.
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— Isso é completamente desnecessário. —


Digo ignorando o fato de que meu coração está
quase saltando pela boca.

— Eu não te perguntei. — Ele responde irritado


e segue carregando a mim como se eu fosse uma
donzela.

Ele atravessa a rua e logo meus filhos vem ao


nosso encontro.

— Mãe?! O que aconteceu?! — Eles nos


encaram com ar de preocupação estampado em
seus rostos.

— Sua mãe brigando na rua como uma moleca.


Isso aconteceu. — Felipe responde a eles e começa
a me levar pra sua casa.

O que?! Não era bem isso?!

Tá é exatamente isso, mas ele não precisa


contar para eles. Com que moral eu ia dar xingada
quando eles fizessem cagada? Se tem uma coisa
que eu aprendi depois que virei mãe é que os filhos
sempre usam as merdas dos pais pra jogar na cara
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quando estão em apuros.

— Pode me descer Felipe. O Ju e a Malu vão


me ajudar a entrar em casa.

Lógico que ele me ignorou e apenas me levou


para dentro de sua casa.

A medida que entravamos em casa me vi com


medo de dar de cara com a mãe dele.

— Tem certeza que quer que eu entre? Sua mãe


já não gostava de mim naquela época, agora com
certeza vai gostar menos ainda.

Eu o sinto bufar.

— Ela morreu há dois anos. Agora Por que


você só não para de falar?

— Grosso. — Xingo baixinho e ele coloca com


cuidado no sofá.

Malu e Juliano assistem a cena toda sem dizer


nada.
— Malu, pega minha bolsa que eu deixei no sofá e
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o meu chinelo por favor. Ju liga para um táxi que a


gente já está de saída, dentro da minha bolsa tem
um cartão telefônico, no final da quadra a gente
passou por um orelhão.

Eles trocam olhares e saem sem dizer nada.

Felipe sai da sala pisando duro e volta com


pequenos envelopes nas mãos e uma caixa plástica
branca.

Ele senta perto de meus pés e avalia o


tornozelo.

— Não é nada.

Ele me ignora outra vez.

Abre a caixa e tira um pacote de gaze e limpa


os arranhões e despeja um líquido transparente que
arde por alguns poucos segundos.

No mesmo instante e gemo de dor e Felipe se


inclina e assopra para aliviar o incomodo.

Quieto ele segue com os cuidados. Rasga dois


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envelopes e tira adesivos que cheiram a arnica


menta e hortelã. Com cuidado ele coloca sobre o
meu tornozelo.

Meu coração se aperta ao ver como ele me


protege e me enche de cuidados mesmo que sua
raiva seja explicita e quase palpável.

Ele apoia o meu pé em uma almofada e sai da


sala ainda sem falar nada.

Olho ao redor.

Não há fotos nas paredes nem mesmo porta


retratos na estante onde fica a televisão.

Alguns livros enfileirados em poucos nichos


suspensos presos as paredes da sala e nada mais.

Os móveis não lembram em nada aos


anteriores. A decoração é escura e quase fechada.

Tento me levantar mas paro quando percebo


que ele já está de volta com a cara tão fechada
quanto antes.

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Felipe me entrega um comprimido e meio copo


de água.

O cheiro de café recém passado invade a sala.

— O que é isso?

— Um boa noite cinderela, depois que você


tomar vai apagar eu vou te levar para meu quarto e
transar com você o dia todo.

Perplexa com sua rispidez ele emenda a


resposta.

— É anti-inflamatório. Agora pega a porra do


comprimido e toma de uma vez antes que seu
tornozelo comece a inchar.

Eu coloco o comprimido na boca e tomo um


gole de água. Ele pega o copo e o coloca sobre a
mesa de centro.

Ele senta próximo a mim. Próximo demais.

Felipe estala os dedos das mãos e passa os


dedos pelos cabelos em uma evidente irritação.
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— Por que você estava se engalfinhando na


calçada com a Sandra as oito da manhã?

— Não tem importância.— Resmungo.

— Ah tem.— Ele diz.

— Felipe, eu agradeço os cuidados, agradeço de


coração, mas os meus trinta anos na cara e
capacidade de criar dois filhos sozinha me
garantiram o poder de não escutar sermão de
ninguém. — tento sair do sofá mas ele é uma
barreira enorme no meu caminho.

— Você sabe a merda que fez Mariana? Eu não


quero você mais perto da Sandra ouviu? Se ela
passar por você na rua você só olha para o outro
lado, entendeu?

— Está com medo que eu machuque a sua


vizinha predileta? — Pergunto com mais ciúmes do
que eu deveria.

— Machuque? Quando eu cheguei lá você


estava levando a pior. — Ele responde irritado. —
Você faz nem ideia da encrenca em que se meteu
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não é?! O irmão da Sandra é bandido Mariana! Se


ela estiver fofocando pra ele dessa briga que vocês
tiveram hoje ... — Felipe para de falar com
dificuldade de terminar a frase.

— Como eu ia saber? — Me defendo; — Ela


revirou meu lixo sabia?!

— Hum... daí a coisa mais sensata que um


adulto poderia fazer era ir até ela e sair no tapa. —
Ele diz com desdém.

Reviro os olhos e ele rosna.

— Foda-se o lixo né Mariana, se fosse


importante não estaria na porra do lixo. Agora você
trata de ficar bem longe dela, pelo seu bem e pelo
bem dos seus filhos.

— Tá! — Digo irritada. — Eu entendi.

Malu e Juliano entraram juntos.

— Com licença. — Ela pediu assim que


passaram pela sala.

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— Tá aqui sua bolsa. — Juliano me entregou.

Felipe se afasta e pega o telefone na parede, ele


o entrega a meu filho.

— Pode usar pra ligar para o táxi. Não vai


precisar.

— Felipe eu tenho minhas coisas, tenho que


comprar comida pra casa, comprar as coisas que
estão faltando, eu não tenho uma vida pra me
importar, eu tenho três.

— É eu estou vendo. — Ele responde olhando


para Malu e Juliano. — Vocês já tomaram café?

Eles me encaram querendo saber se tem


permissão pra responder.

— Ainda não. A gente ia passar o dia fora. — É


Ju o primeiro a responder. — Mas o cheiro aqui
também está bom.

Estava pra nascer moleque mais cara de pau


que Juliano.

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✽✽✽

Meia hora depois estávamos nós quatro


tomando café juntos. Sobre a mesa um pote duplo
com frios fatiados. Um prato fundo com omelete
feito na manteiga e um cesto cheio de pão francês.

Malu contava Felipe sobre as olimpíadas de


matemática que tinha ganhado esse ano e claro que
Juliano se gabou.

— Claro né, com quem acha que ela aprendeu?


— Ele fala exibido e dá um batida no peito antes de
abocanhar o sanduiche. — Com o rei aqui.

— Vocês me dão licença por favor. — Peço e


me levanto mancando, sinto os olhos marejados. E
procuro desviar o olhar dos de Felipe.

Ver aquela felicidade que não iria durar me


abalou e eu precisei sair.
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— O que foi? — Felipe se levanta querendo me


seguir.

— Nada. Só vou usar o seu telefone para ligar


pra companhia de água e luz. Assim eles vem o
quanto antes.

Felipe concorda um pouco decepcionado mas


volta a conversar com Malu e Juliano.

Depois que eu telefono volto para o sofá e sento


por alguns minutos.

Fecho os olhos por instantes e mesmo sem


querer acabo pegando no sono.

Quando acordo percebo que Felipe havia me


deitado no sofá e colocado um lençol sobre meu
corpo.

Eu não estava com frio, mas até o lençol tinha o


cheiro dele. Tudo ali tinha e era maravilhoso.

O relógio digital ao lado da televisão marcava


quase meio dia.

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Eu havia dormido tudo isso?!

Um cheiro de fritura vinha da cozinha. Eu me


levantei e meu tornozelo não estava doendo tanto
quando tocava o chão.

Fui até a cozinha e encontrei Felipe mexendo


em panelas.

— Parece que o boa noite cinderela fez efeito


— ele brinca.

Eu rio.

—É... cadê a Malu e o Ju?

— Ele e a Maria Luiza estão jogando no


computador que tem no escritório.

—Hum... — Murmuro. — Precisa de ajuda aí.

— Não. — Ele larga o cabo da panela e a


espátula e limpa as mãos em um pano.—Tudo sob
controle.

Fico em silencio, ainda sem graça por tudo que


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está acontecendo e ele fala.

— Pode usar o meu banheiro para tomar um


banho. Eles já tomaram enquanto você estava
desmaiada no sofá. A Malu já deixou umas roupas
pra você sobre o vaso sanitário.

— Obrigada. — Digo em um tom baixo.

Ele não diz nada e volta a focar em cozinhar,


não podíamos dizer nada, apenas tínhamos que
sentir em silêncio. E foi o que nós dois fizemos.

✽✽✽

Deixei minhas roupas no chão do banheiro e


abri o registro. A água morna começou a jorrar. Eu
entrei debaixo do jato intenso e fiquei de olhos
fechados aproveitando aquela sensação.

Despejei um pouco de xampu na palma da mão

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e esfreguei em meu couro cabeludo. O xampu de


Felipe tinha cheiro de hortelã.

Com o sabonete nas mãos espalhei a espuma


pelo corpo aproveitando o banho por mais tempo
do que deveria.

Ouvi a porta de banheiro ser aberta e fechada


em seguida.

Felipe parou com a toalha nas mãos.

— Felipe — Eu o repreendo e cubro meus seios


com uma mão e meu sexo com a outra.

Ele larga a toalha sobre a pia e tranca a porta e


vem em minha direção.

Mesmo completamente vestido ele entra


debaixo do jato d’água, mas eu não consigo me
afastar, eu não quero me afastar.

As mãos dele pegam meus pulsos e me


prendem contra a parede fria do box.

Ele olha para meus seios ensaboados, os


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mamilos rígidos, o tesão chega a doer quando ele


me olha assim.

— A gente não pode.— Sussurro quando ele


aproxima a boca da minha para me beijar.

— Cala boca Mariana. Agora eu só quero uma


coisa.

Felipe pressiona a rigidez de seus músculos


contra meu corpo.

— Socar fundo na sua boceta. Sem parar até


ouvir você gozar gemendo meu nome.

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Capítulo 12
Mariana

Felipe inclinou a cabeça e sua boca ficou a


míseros centímetros da minha. Ele passou a segurar
meus pulsos no alto da cabeça com uma única mão
e com a mão livre ele acariciou o contorno de meu
rosto, os dedos foram descendo por meu pescoço,
acariciaram a lateram de meu corpo e ele
pressionou a imensidão musculosa e rígida de seu
corpo contra mim

— eu quero você. — Ele roça a boca na minha


e abocanha com um desejo que não pode ser
governado.

Seu toque é urgente e brutal. Seu beijo é duro e


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chega a doer.

Ele afasta os lábios dos meus e recosta a cabeça


na minha, a respiração tão ofegante quanto a
minha.

— Tenho que me controlar pra não te


machucar. — Ele sussurra. — Quero meter com
força, socar tudo na sua bocetinha. — Ele fala
enquanto desliza a mão para meu sexo.

Ele acaricia meu clitóris, massageando gostoso


meu ponto de prazer.

Fecho os olhos sentindo o tesão irradiando por


meu corpo crescendo como uma onda dentro de
mim.

E se for um sonho? E se eu ainda estiver


dormindo no sofá da sala dele?

— Felipe? — Gemo imersa em tesão.

Ele solta meus pulsos e meus dedos vão direto


para a camiseta branca molhada, os músculos todos
colados contra a roupa encharcada.
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Com as pontas dos dedos eu deslizo pelas


tatuagens que cobrem seus braços e vão até o seu
pescoço. Toco a barba preta cerrada que cobre seu
queixo quadrangular. Tudo nele exala
masculinidade bruta.

Não posso estar alucinando isso. Isso tem que


ser verdade.

— Me beija. Me faz acreditar que não estou


sonhando. — Imploro assim que ele desliza os
dedos grossos por minhas dobras e agarra meu sexo
com força.

Ele dá um sorriso sacana ante de me soltar e dar


um passo para trás.

— Então você sonha comigo.— Felipe tira a


camiseta e eu paro de respirar.

A água caindo em abundância pelo peitoral


tatuado, desenhos enigmáticos e assimétricos quase
tribais marcados em preto, tornando o homem a
minha frente ainda mais irresistível e sexy.

Felipe deixa a camiseta cair no chão do box.


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Ele abre a bermuda jeans e puxa para baixo,


puxando junto a cueca.

Meus olhos arregalaram quando me deparei


com o tamanho do “dote” O cacete dele saltara para
fora da roupa molhada completamente rígido e
ereto.

Inteiramente nu.

Não existe uma parte no corpo de Felipe que


não seja incrivelmente perfeita. Meu olhar
percorreu seu corpo com um fascínio que eu não
era capaz de disfarçar. As pernas fortes,
panturrilhas bem desenhadas, seguidas por coxas
musculosas como as dos jogadores futebol.
Bastava eu subir o olhar mais um pouco para me
deparar com o cacete grosso, as veias envolvendo-o
ao redor até chegar a cabeça polpuda.

Ai Jesus... eu já podia me imaginar ajoelhada


lambendo suas pesados bolas passando a língua por
tudo, depois sugando seu membro até sentir o gosto
de seu gozo enchendo minha boca.

Ele volta a se aproximar de mim outra vez. O


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sorriso sacana no rosto me faz corar.

Felipe pega meus pulsos e faz com que minhas


mãos toquem as tatuagens que cobrem seu peito,
ele vai guiando minha mão para que desça por seu
abdômen trincado, sinto a elevação de cada gomo
de músculo debaixo de meus dedos.

— Foi com o isso que você sonhou? — Ele


desce minha mão até o seu pau.

Suspiro e mordo o lábio sem coragem de


responder.

Nem em meus sonhos mais ousados eu


conseguiria imaginar seu corpo perfeito com aquela
riqueza de detalhes.

Seu cacete é grosso e quente, as veias pulsam


com mais força quando meus dedos se fecham ao
redor dele. Felipe me beija com força e captura
cada gemido.

Ele desce as mãos por meus seios molhados e


me aperta gostoso sem interromper o beijo
avassalador.
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Ele sorri com a boca colada a minha e mordisca


meu lábio fazendo-me arquejar.

Felipe agarra meus pulsos.

— Chega de brincar. — Ele me faz soltar seu


membro e me prende outra vez, imobilizando meus
pulsos para o alto com apenas uma mão. A outra da
tapinhas em minha boceta.

Felipe pega o cacete e esfrega a cabeça pelo


clitóris inchado.

— Rápido. — Eu quase imploro num sussurro


desesperado.

Ele usa o pau para castigar mais um pouco


quando vê o meu sofrimento.

— Quer rola galega? — Felipe esfrega o pau


entre minhas dobras e a cabeça desliza para perto
de minha entrada.

— Quero. Quero tudo.

Então ele mete e eu grito quando uma fisgada


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de dor se mistura com a deliciosa sensação de


preenchimento.

Cerro os dentes quando ele enfia tudo até o


final. Não posso gritar... não posso gemer ... tenho
que me controlar.

— Como é apertada essa bocetinha galeguinha.

Felipe se mexe devagar, moendo aos poucos


dentro de mim.

— Isso... — Gemo — Ah meu deus...

— Sente o caralho duro todo dentro de você .

Force para que ele solte os pulsos e Felipe me


liberta.

Deslizo as mãos com sofreguidão pelos


contornos de seus músculos e o unho quando o
prazer de tê-lo dentro de mim me dilacera.

— Isso.... — Ele rosna baixinho ao meu ouvido


mordendo meu pescoço , chupando minha pele. —
Goza Galega.
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Felipe abocanha minha boca outra vez e


começa a estocar com mais velocidade, suas mãos
afundam com força em meu quadril segurando-me
contra cada socada dura.

Mais.

Mais .

Mais.

Isso é demais.

Meus seios se esfregam contra a dureza de seu


peito e ele mete com mais força.

Meu corpo inteiro treme em extase com suas


estocadas e ele me agarra duro. Rosnando
obscenidades ao meu ouvido.

— Ah... caralho... — Ele rosna quando ele goza


dentro de mim, me apertando mais firme se
enterrando ao máximo até que eu mal possa mais
respirar.

Ainda dentro de mim, ele ergue meu queixo e


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beija meus lábios, dessa vez o beijo é mais suave.

Sinto minha boca mais inchado por causa dos


beijos e mordidas vorazes…

Posso sentir a intensidade das batidas de seu


coração misturadas as minhas.

Meu peito chega doer de felicidade, eu sorrio


quando seus olhos verdes me encaram.

— O que foi?

Ele sai devagar de dentro de mim e começa a


me beijar outra vez.

— ô mãaaaae!

Eu cubro sua boca para que ele não emita som


algum.

Felipe passa as duas mãos pelos meus mamilos


e me aperta.

— “Pa-ra” ! — Digo sem emitir som algum.

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— Que é Juliano?! Eu tô no banho. — Xingo.

— É que eu não tô achando o Felipe.

— Aqui dentro é que ele não está — Mantenho


o tom de xingamento.

Silêncio.

— Mas ô mãe.... — Juliano insiste com medo


da xingada.

— Mas será o pé do cabrito que eu não posso


nem me vestir. Fala logo Juliano.

— Tem um cara aí na porta querendo falar com


ele. O nome do cara é Adônis.

Claro que é...

Tinha que ser o Adônis.

— Já estou indo. — Digo afastando Felipe de


mim.

Saí do box e enfiei as roupas as pressas.


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Com os cabelos sem escovar e ainda


encharcados eu saio do banheiro e fecho a porta.

— Pode deixar que eu atendo. — Digo para


Juliano.

Ele acena com a cabeça e segue por um


corredor.

— Aonde tá indo?

— Escritório jogar. — Ele responde sem olhar


pra trás.

Inspiro fundo e caminho em direção a porta da


frente.

Espio pelo olho mágico.

— Ah não... — Digo baixinho. — Era só o que


me faltava.

Conhecem o velho ditado “alegria de pobre


dura pouco”? Pois é ... ele resume a minha vida
neste momento.

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Eu ouço estalos de beijos e algumas risadas.


Então Adônis grita mais impaciente.

— Boraaaa Lipeta, as garotas aqui estão


derretendo de calor.

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CAPÍTULO 13
Mariana

Eu abri a porta e me deparei com um homem alto


e pelo menos umas duas vezes mais forte que o
garoto esguio com cabelos loiros puxados para o
vermelho. Apesar dos quinze anos era possível
reconhece-lo, o sorriso sacana e os olhos azuis me
avaliaram como se ele estivesse me vendo pela
primeira vez.

— Adônis.

Ele ergue a sobrancelha ruiva aloirada e me


pergunta com um sorriso extremamente irritante no
rosto.

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— A gente se conhece?

Olho para as duas garotas que o acompanham.


Gêmeas com quase a altura de Adônis. Elas usam
micro biquínis fluorescentes, uma usa rosa e a outra
verde limão e mini saídas de praia quase
transparentes.

— Infelizmente sim. — Digo com uma irritação


que mal cabe em mim e volto a encará-lo.

Agora ele tem uma expressão pensativa no


rosto.

— Tem certeza? — Ele pergunta como se


tentasse buscar na memória enquanto entra na casa
passando por mim sem minha permissão.

As garotas se acomodam no sofá como se já


conhecessem a casa, tiram as sandálias de salto e
esticam as longas pernas malhadas sobre a mesa de
centro.

Adônis passa a mão pelo peito coberto pela


regata branca. Ele se inclina para mais perto como
se quisesse me contar um segredo?
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— Eu já te comi?

— Não! — Digo exaltada. — Meu Deus como


você é escroto!

Ele acha graça e coloca o braço musculoso a


minha frente impedindo que eu escape da sua
presença desagradável.

—Nem que você fosse o último homem do


mundo. — Digo irritada.

— Ah se você soubesse quantas vezes eu já


ouvi isso antes... e depois elas terminam sempre
pedindo por mais do loirão aqui. Agora diz loirinha
, da onde que a gente se conhece.

— Estudamos na mesma escola. — Digo


furiosa. — Você me colocou um apelido idiota.

Codorna, não lembra?!

Ele cai na gargalhada o que só me deixa mais


irritada. Porque ele tinha que estar aqui? Porque
tinha que trazer duas piranhas viradas em peito e
bunda, por que?! Pelo simples fato de Adonis ser
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um idiota. Simples assim.

— Não lembro não. — Ele diz quando


consegue conter o riso. — Mas deve ter sido eu.

Ele chega um pouco mais perto.

— Não fica brabinha não. Já ouviu aquele


ditado? Quem faz bico pede beijo.

Adônis me encurralou e me beijou de maneira


abusada. Seu corpo rígido prendendo meus braços
contra ele de uma maneira que eu não conseguia
empurrá-lo. Quando virei o rosto para o lado senti o
corpo dele sendo puxado para longe do meu.

— Calma brother — Ele ergue as mãos para


cima olhando para Felipe — Paz, paz… a gente só
estava relembrando os tempos de escola.

Eu não queria olhar para Felipe, ele tinha que


dar atenção para suas visitas.

— Estou indo pra minha casa. — Digo nervosa


e caminho na direção do escritório.

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Mas ele vem atrás de mim e me puxa para seu


quarto antes que eu consiga chegar no cômodo
onde estão meus filhos.

Felipe quase arrebenta a porta com a força da


batida e ele me impede de sair.

— As panicats lá na sala estão esperando por


sua companhia. — Digo com um ciúmes que eu
não deveria sentir.

Felipe veste apenas uma bermuda jeans que vai


até a altura dos joelhos. Algumas gotas que pingam
de seus cabelos molhados caem por seu tronco
tatuado.

— Abre a porta Felipe. — Exijo tentando fazer


com que minha voz não vacile.

Ele passa a chave e enfia no bolso e me fuzila


com um olhar furioso.

— Então me explica porque caralhos estava


beijando o Adônis, Mariana?!— Me questiona em
um rosnado baixo e irado.

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— Eu não tenho que te dar satisfação nenhuma,


Felipe. — Digo ofendida. — Mas você já viu o
tamanho daquele idiota?! Eu não estava esperando
que ele me beijasse. Sei lá esse cara só pode ser
louco.

— Agora abre a droga da porta que eu quero ir


embora.

— Não. Aonde você pensa que vai?

— Pro inferno. Pra qualquer lugar que seja


longe de você.

— Não. — Ele responde com rispidez e me


puxa contra seu corpo.

— Para Felipe. — Eu viro o rosto, mas ele me


carrega para sua cama sem fazer esforço algum.

Ele me deita na cama mas eu tento empurrá-lo.


Meus braços o afastam mas ele é pesado demais.

— Quieta. — Ele rosna agarrando meus pulsos


com uma mão só.

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— Por que não volta lá pra sala chama a Sandra


e assim vocês fazem a orgia que deviam estar
planejando ã? Assim você vai ter as três pra foder a
vontade.

— Cala boca galega. — Ele xinga com os


lábios quase colados aos meus. — A única mulher
que eu quero foder está aqui bem debaixo de mim.

Em seus olhos a ira é substituída por um desejo.

— Mentiroso. Eu olho pra você e sei que você


não vale nada.

Felipe sorri e desce a mão livre por meu corpo


até chegar a meu seio.

— Não valho mesmo. — Ele acaricia meu


mamilo por cima da roupa e o aperta até que eu
gema de prazer. — Eu amo sexo, bem sujo,
selvagem e duro. Gosto de foder por horas. E agora
eu quero tudo isso com você.

Felipe esfrega a rigidez de sua ereção Contra


meu corpo e sinto minha calcinha molhar.

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— Para com isso Felipe. — Digo fechando


meus olhos tentando não me entregar.

Ele beija o canto de meus lábios e mordisca


meu pescoço, intercalando entre beijos e mordidas.

— Não. — Ele suga o lóbulo de minha orelha e


um arrepio de prazer me sobe pela espinha. —
Primeiro eu vou socar tudo dentro de você.

Felipe solta meu seio e abre a bermuda e tira o


membro rígido para fora.

— Para Felipe. Meus filhos vão ouvir!

— Eles estão de fone. — Responde arrancando


meu shorts e a calcinha de uma única vez, se
debruçando sobre meu corpo outra vez.

Como diz não para um Deus como Felipe?


Como dizer não para um homem que domina seu
corpo desse jeito?

A gente não diz. A gente só aproveita.

Felipe meteu tudo e eu arranhei seus braços


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com mais força do que antes.

— Devagar — Pedi quando ele afundou o


cacete grosso em minha boceta.

— Pra você tudo Galega. — Ele sussurrou


mexendo o quadril em um movimento mais lento
como eu pedi.

O pau grosso atolado até o fundo. Meu sexo se


contraiu o apertando ainda mais quando ele
começou com os movimentos circulares, fazendo
com que eu me desmanchasse em prazer, a
cremosidade viçosa tornou a penetração ainda mais
intensa.

Meu sexo ainda estava sensível por causa do


banho... e cada movimento lento me levava para
mais perto do gozo inevitável.

— Eu. — Ele diz sem interromper o


movimento. — Sou o único que vai te beijar — Sua
boca devora a minha, no melhor beijo que pode
existir, possessivo e ciumento como nenhum outro
jamais seria.

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O gozo explode em mim e eu me derreto


debaixo de Felipe.

— Meladinha. — Ele rosna me beijando outra


vez. — Assim que eu gosto.

Agora ele muda a intensidade dos movimentos


e roça a barba por meu rosto quando ele cheira e
morde meu pescoço.

Felipe tira quase todo o pau de dentro de mim e


soca de novo.

Soca.

Soca.

Soca.

— Eu quase não consigo me controlar. — Ele


confessa estocando duro — Essa bocetinha.

Ele mete mais fundo. Entra e saindo de mim


num ritmo mais furioso e quente.

— Caralho Galega. — Ele rosna — Sente a


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porra toda. Sente meu cacete duro te enchendo de


porra quente.

E eu o sinto, mais duro e grosso, as veias


pulsando dentro de mim.

Eu gozo junto com ele .

O prazer escorre líquido por meu sexo


encharcado.

Felipe deposita pequenos beijos nos cantos de


meus lábios e bochechas.

Ele sai de mim e desaba ao meu lado. Ele


guarda o pau ainda ereto e abotoa a bermuda.

— Estou acabada. — Digo quase sem fôlego.

Ele ri satisfeito.

— Isso que eu ainda não te peguei de jeito. —


Felipe se gaba.

— Olha a putaria aí casal! — Adonis bate na


porta. — Pelo menos deixa eu e as garotas
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participarem.

Reviro os olhos e me levanto a procura de


minhas roupas. Visto tudo e Felipe se levanta.

Ele abre a porta do quarto com cara de poucos


amigos.

— Foi mal cara. —Ele se desculpa na hora. —


Foi só brincadeirinha. Tu me conhece, nem teve
língua.

— Sai da minha casa cara. — Ele diz irritado.

— Como assim “Lipeta”, olha o drama cara.


Trouxe as gêmeas, tô com as “cevas” no carro. —
Adônis olha para mim. — ô loirinha, foi mal.
Mulher de amigo meu é minha irmã. Vou ser um
santo a tarde toda. — Ele volta a olhar para Felipe.
— Um santo não vou ser Dimitri, agora bora beber
que o jogo já vai começar.

Eu saio do quarto e passo por entre os dois.


Abro a porta do escritório e encontro Ju e Malu
discutindo sobre um jogo.

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— Não aí seu burro — Ela xinga o irmão. —


Vai pelo cantinho que assim eles não te veem.

— Eu tô indo, mas tá difícil chegar naquela


parte ali.

— Bora cambada. — Chamo. — Vamos pra


casa.

— E o almoço? — Ju pergunta.

— A gente come na rua.

Juliano abaixa a tampa do notebook e eles me


seguem para fora.

— Mas é o flaflu cara, a gente sempre assiste


aqui, se mudar a tradição dá zica

— Putz! — Juliano xinga ao ouvir a discussão


dos dois.

— O que é?!

— O jogo mãe. O jogo é hoje e a gente tá sem


luz.
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Adônis se vira pra Juliano e pergunta

— Flamengo ou Fluminense?

— Mengão, lógico.

Felipe lança um olhar ameaçador pra Adônis.

— Tô vendo que aqui não vai rolar nada hoje.


— Ele me olha meio irritado. — Vou pra onde eu
sou querido.

Inferno? Penso mentalmente mas não digo


nada.

— Já entendi que hoje você tá afim de brincar


de casinha com a codorna.

Como se fosse a última gota Felipe o agarra


pelo braço e o leva para fora.

— E vocês o que estão esperando? — Ele rosna


furioso. — Andem ! Andem!

As gêmeas saem carregando os saltos na mão


cochichando o quanto Felipe é grosso.
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✽✽✽

O almoço é tranquilo, eu e Felipe quase não


conversamos, uma vez ou outra eu dou resposta
monossilábicas. Não consigo me concentrar em
nada. Quanto tempo levará para que o conteúdo das
cartas venha a tona?

Tinha a sensação de que minha felicidade era


temporária, assim como um castelo que era
construído na areia, não iria durar.

Quanto tempo levaria para que Sandra juntasse


todas as partes do quebra cabeça e contasse tudo
para Felipe?

Eu não conseguia relaxar e aproveitar aquele


momento.

Quando voltamos para casa já passava das sete


da noite. Foi estranho me despedir de Felipe como
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se fossemos amigos, quando ele chegou perto e eu


senti seu cheiro, flashes de nossos momentos
juntos, ele me possuindo com força no chuveiro, os
beijos duros que trocamos em seu quarto. A forma
como ele mexia em meu cabelo quando Juliano e
Malu estavam distraídos com a partida de futebol.

— Obrigada.

Felipe sorriu e eu quis abraça-lo outra vez, mas


meus filhos estavam olhando.

— Tchau! — Eles acenaram e foram na frente.

Eu não queria ir.

Queria ficar.

Sentir o cheiro delicioso que vinha dele e ficar


deslizando a ponta de meus dedos por cada
tatuagem.

— Vocês podem ficar aqui essa noite. — Ele


pede. — Meu sofá é confortável, tem um sofá
cama no escritório. E você pode ficar comigo.

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Eu ri daquele convite.

— Não, eu não posso, mas mesmo assim,


obrigada.

✽✽✽

Esperei por algumas horas até que Juliano e


Malu pegassem no sono pesado. Caminhei pela
casa escura e abri a porta da frente devagar para
não fazer barulho. Pela pequena abertura vejo
Sandra atravessar a rua na direção a casa de Felipe.

Meu coração quase para.

Abro um pouco mais a porta para conseguir


espiar sem ser vista.

Ela bate uma vez e a porta é aberta menos de


um minuto depois.

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Sandra olha na direção de minha casa e eu me


escondo rápido.

Não deixa ela entrar. Por favor.

Não deixa.

Bota essa vadizinha pra correr assim como você


fez hoje com as galinhas que Adônis trouxera.
Torço mentalmente.

Eu a ouço rir.

Não não não. Não pode rir. Tem que ter


choradeira, gritos dela histérica porque ela está
levando um fora, mas não é isso que acontece.

Sandra entra rebolando na casa de Felipe.

Ele não vale nada.

Ele é menos que nada. Eu já deveria saber, mas


ainda assim dói.

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Capítulo 14
Felipe

Depois que Mariana e os garotos se foram eu


fiquei com uma sensação estranha no peito. Eu já
tinha perdido as esperanças que ela voltasse, mas
agora ela estava ali a poucos metros de distância e
durante a tarde inteira ela fora minha. As carícias
que trocávamos escondidos a cada momento em
que Maria Luiza e Juliano estavam distraídos. Era
como se fossemos adolescentes outra vez.

15 anos antes

— Para Lipe. — Galega me puxa pelo braço


tentando me impedir que eu bata na porta. — Eu
não quero que fale com meus pais.
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— Calma Galeguinha. Os pais me amam.


Espera pra ver.

Bati na porta da casa de Mariana e eu pude ver


o medo e nervosismo tomar conta dela. Mariana
passou a mão pela saia do uniforme azul marinho e
ajeitou a camisa polo branca com nome da escola
bordado no canto esquerdo da manga.

— Isso é bem bobo, você sabe né. Ninguém


mais pede ninguém em namoro.

— Bobo? Bobo é eu não poder levar a minha


garota ao cinema. Isso sim é bem idiota na verdade.
— Eu respondo e entrelaço nossos dedos.

Mariana não diz nada. Seus cabelos estão


presos em um rabo de cavalo no alto da cabeça.

— Isso é uma bobagem, eu não preciso bater na


minha própria casa. — Ela solta minha mão e abre
a porta e entra.

— Mãeee, pode vir aqui na sala um pouquinho?

Quando ela se movimenta o tecido da saia se


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balança e posso ver uma pequena manchinha em


formato de raio em sua coxa esquerda.

Mariana me chama para entrar com um meneio


de cabeça e assim que cruzo a entrada eu a puxo
para um beijo rápido. Seus lábios são grossos e
macios, sempre que a beijo sinto o gosto doce de
cereja. Minha mão desce para sua bunda e eu
aproveito para apertar enquanto a beijo.

— O que é essa gritaria toda Nana? Sabe que eu


estou trabalhando. — Sua mãe responde da cozinha
e Mariana me empurra a tempo de limpar a boca.

É impossível ficar perto dela sem querer beijar


sua boca o tempo inteiro.

Tiro o boné e me endireito ajeitando minha


postura.

— Oi mãe. — Galega diz meio tímida. — Esse


é o Felipe. Aquele garoto que eu te falei.

— Boa tarde senhora Simone. — Dou alguns


passos na direção da mulher de meia idade. Ela
seca as mãos no avental e aceita meu aperto de
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mão. — Felipe Souza.

— Você é o filho da Eda? — Ela me questiona


com olhar avaliativo.

— Sim senhora. Moramos na casa ao lado.

Simone senta em uma poltrona e entrelaça os


dedos pousando as mãos ossudas sobre o colo. Em
seu rosto vejo marcas fundas de rugas e olheiras
escuras. Ela tem um aspecto de doente por sua
magreza, mas sua voz é firme quando se dirige a
mim.

— Mãe, Felipe é o garoto que evitou que eu


levasse uma surra das gurias da escola.

— Garoto? Que idade você tem?

— Dezoito. — Respondo considerando mentir


minha idade para um pouco menos.

— Então não é mais um “garoto”.

— Não senhora.

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Vejo Mariana arregalar os olhos para a mãe


para que pegue leve.

— Você sabe que a minha filha só tem catorze


anos.

— Eu vou fazer quinze semana que vem.

— Eu sei Nana, estava lá no dia do seu


nascimento. — Ela responde com certa rispidez e
me encara. — Já estou entendendo onde vocês dois
estão querendo chegar com essa conversa.

— Senhora Simone, eu respeito sua filha e


quero sua permissão pra namorar.

Sinto a mão de Mariana tremendo e eu aperto


um pouco mais forte para confortá-la.

— Sabe que eu poderia denunciá-lo a polícia. A


Mariana é menor de idade.

— Meu Deus mãeeee! —Ela exclama.

— Eu sei. Mas a Mariana não é qualquer uma,


eu poderia continuar me encontrando as escondidas
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sem que vocês soubessem, mas eu não gosto de


mentiras. Gosto muito da sua filha.

Simone olha para mim e depois para a filha e


finalmente diz.

— Preciso de um café. — Ela se levanta e some


na direção da cozinha.

Roubo mais um beijo de Mariana enquanto


estamos a sós e Galega dá um tapa em minha perna
para me afastar dela.

— Para . — Ela sussurra. — Minha mãe já vai


voltar.

Mexo na barra da saia de seu uniforme e espio a


marca em sua coxa.

— A culpa é sua. Esse uniforme está me tirando


toda a concentração.

Era uma gracinha como ela corava quando eu


dizia a ela o quanto era linda.

— Para — Ela ajeita a saia e exibe um sorriso


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doce.

— Calma que o pior já passou. Dou dois dias e


sua mãe já vai estar apaixonada por mim. O genro
que ela pediu a Deus. — Digo confiante.

Simone entra na sala com duas xícaras. Ela me


entrega uma e fica com a outra.

Ofereço um pouco para Mariana mas ela nega


com a cabeça.

— Obrigado. — Respondo agradecendo pelo


café.

Simone assopra um pouco sua própria xícara e


dá pequenos goles.

Eu aproximo a xícara da boca e nenhum calor


vem do líquido escuro.

A broaca me serviu café frio.

— Algum problema?

— Não.— Digo com um sorriso amistoso.


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Bebo o líquido amargo frio e levemente


salgado.

— Tudo perfeito. — Completo ao beber tudo de


um gole só.

Ela fica satisfeita ao me ver beber tudo e então


toma alguns poucos goles e sorri quando se levanta
e tenta pegar minha xícara.

— Não senhora, o mínimo que eu posso fazer é


lavar a louça depois desse café.

Ela acha graça e não consegue conter uma


risada.

— Cuida da minha menina Felipe. — Simone


diz ao parar de rir.

— Vou cuidar. Eu vou cuidar dela. Eu prometo.


— Respondo olhando Mariana nos olhos.

✽✽✽

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Dias Atuais

Em minha cama os lençóis tinham o cheiro


dela. Eu fiquei deitado ali lembrando de seu corpo
pequeno debaixo do meu, seus lábios gemendo
baixo e a forma como sua bocetinha apertada
engolia meu cacete até a base. Só de lembrar desses
momentos eu já estava ficando duro de novo.

Eu precisava de muito mais do que aquelas


trepadas rápidas. Queria Galega nua em minha
cama, por longas horas, suada e ardendo debaixo de
mim, se desmanchando de tanto prazer.

Senti o cacete endurecer. O ajeitei sem


conseguir tirar meus pensamentos dela.

Porra Mariana estava me tirando o juízo.

O sangue já estava sendo bombeado com força


para meu pau e eu não queria ter que me aliviar
como um adolescente cheio de hormônios.

Saí da cama e fui direto para o banheiro. Tirei a


cueca boxer e meu cacete saltou rígido e ereto para
fora.
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Liguei o chuveiro e tomei outro ducha, mas


aquilo foi pior, porque eu só conseguia pensar no
corpo nu escorregadio de Galega sendo pressionado
pelo meu. Sua bocetinha encharcada tremendo a
cada estocada funda, ela se apertando mais ao redor
do meu cacete.

Porra e o gozo violento vindo...

Eu bati punheta de olhos fechados lembrando


da sensação de socar tudo com mais força até que o
gozo explodisse e jatos quentes jorrassem pela
cabeça de meu pau.

Gozei pensando nela. Em seu corpo pequeno se


contorcendo de prazer, os mamilos rosados e
pequenos endurecidos entre meus lábios. Os
gemidinhos baixos saindo por sua boca carnuda...

Terminei o banho e enrolei uma toalha no


quadril. Escovei os dentes e passei um pente pelos
cabelos. Assim que saí do banheiro ouvi uma batida
na porta.

Claro que era minha galega querendo a noite de


sexo que eu havia prometido. Sem pensar duas
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vezes eu fui até a porta e abri sem nem mesmo ver


quem era.

Puta que pariu.

Sandra estava lá.

Os cabelos pretos lisos ​caiam pela altura dos


ombros. Ela usava uma blusa clara o decote indo
quase ao umbigo, deixando quase amostra seus
seios grandes e fartos.

— Oi Sandra. — Digo sem muito humor.

Ela olha para meu corpo molhado coberto


apenas pela toalha e ri alto.

— Nossa já me esperou pronto.

— Já estava indo deitar. — Respondo.

— Hum... Então cheguei bem na hora. — Ela


desliza as unhas pelo meu peito e entra em minha.

— Não Sandra. — Digo deixando a porta


entreaberta. — Essa noite não.
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Sandra fecha a porta.

— Para Lipe, não faz assim lindo. — Ela diz


acariciando minha barba. — Se você quiser a gente
pode só conversar.

Pego seu pulso e afasto sua mão.

— Ui... bruto... — Ela rebola para meu sofá. —


Adoro quando a gente brinca sim.

Sandra se deita em meu sofá e agita as pernas


longas e morneas para o ar.

— Eu me arrumei toda só pra vir aqui... — Ela


desliza as mãos pelas coxas e vai até o minúsculo
shorts jeans desfiado . — Plínio foi trabalhar de
novo e eu fiquei lá abandonada.

— Vou colocar uma roupa. — Digo mas ela se


antecipa.

— Nada , tá ótimo assim, não tem nada aí que


eu já não tenha visto antes. — Sandra me puxa para
que eu me sente no sofá. — Até parece que tá
fugindo de mim.
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Ela acomoda suas pernas torneadas sobre meu


colo e me encara.

— Não estou fugindo. Mas hoje eu acordei


cedo por causa da sua briga e da Mariana, lembra?
E amanhã tenho que ir trabalhar.

— Ah nem me lembra disso. — Ela diz


mexendo no decote da blusa que quase a deixa semi
nua. — Aquela mulher só pode ser louca.

Toco seu tornozelo e vou subindo por sua


panturrilha. Sandra mordisca o lábio inferior.

— E por que vocês brigaram? — Questiono


como quem não quer nada sem parar de acariciar
suas pernas;

— Você sabe que eu não gosto de fazer fofoca.


— Ela se defende e se esperguiça. Sandra estica a
perna e roça o tornozelo contra meu peito.

— Não é fofoca Sandrinha. — Digo levando


sua perna a minha boca. — Eu gosto de conversar
com você.

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Ela se contorce no sofá ao sentir minha barba


roçar por sua panturrilha.

— Para... Eu sei que cê tá querendo saber mais


da vizinha nova. Eu sei como a cabecinha dos
homens funcionam. É só aparecer carne nova que
vocês todos ficam louquinhos pra dar uma mordida.

Mordo sua perna e ela ri.

— Conta... eu sei que você está querendo. —


Insisto.

— Não sei muito. — Ela passa as mãos pelos


cabelos e desce pelos peitos. — Parece que ela
engravidou de um cara na adolescência. Um cara
que ela conheceu no Rio, tal de Carlos.

Ouço a tudo sem tentar demonstrar nenhum


interesse apesar de estar me roendo de ciúmes em
saber que não fui o único de Mariana.

— o cara acabou morrendo antes deles se


casarem e deixou ela com duas crianças pra criar.

— Hum... — Murmuro.
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Pelo menos o filho da puta estava morto. Penso


comigo mesmo.

— Estou dizendo Lipe. Essa Mariana me


contou cada coisa, mas você sabe como eu sou, não
gosto de ficar comentando. E hoje cedo veio tirar
satisfação querendo saber de umas tais cartas que
estavam no lixo e ainda veio me dizer que fui eu.
Agora olha pra minha cara e vê se eu tenho cara de
quem fica revirando lixo atrás de fofoca?

✽✽✽

Mariana
Saio de dentro de minha casa e aproveito
escuridão da rua e a ausência de Sandra para ir até
sua casa. Bato na porta algumas vezes, mas
ninguém me atende.

O cornudo do marido não deve estar em casa,


do contrário ela não estaria enfurnada na casa de
Felipe de novo.
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Mesmo cagada de medo de ser pega eu giro a


maçaneta e abro a porta. Espero que qualquer tipo
de alarme soe mas nada acontece. Entro tentando
não fazer barulho.

A casa de Sandra tem um cheiro suave de


limpeza e lavanda. Lembro dela limpando a cadeira
antes de sentar e sinto mais raiva. A verdade é que
não é aquela lembrança o que realmente está me
incomodando e sim o fato de Felipe tê-la deixado
entrar no meio da noite!

Tropeço no sofá e sigo meio que as cegas pela


casa. Tenho medo de acender a luz e o pior
acontecer. Quase não respiro com medo de ser
pega.

Quando chego no quarto continuo caminhando


as escuras e acerto com força a canela na cama.

— Puta merda! — Xingo baixinho.

Com os braços esticados tateio até encontrar


uma cômoda. Abro as gavetas e encontrou camisas
e calças bem dobradas. Não mexo em nada para
denunciar minha presença ali. Abro e fecho uma
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porção de gavetas, mas não encontro nada. A


última das gavetas está cheia de lingeries de renda.

Sinto vontade de vomitar só em pensar nela


usando essas roupas para Felipe. Afasto as roupas
fazendo uma careta de nojo até que meus dedos
toquem algo no fundo da gaveta.

É isso.

Gelo por dentro e fecho a gaveta.

Saio de lá o mais rápido que posso e quando


estou atravessando a rua percebo a luz da sala
acesa.

Mesmo sabendo que andar espiando as pessoas


no meio da madrugada era no mínimo ridículo e
patético eu o fiz. Com o coração acelerado eu
chego mais perto da janela e espio por entre as
frestas da persiana de madeira.

Eu preferia não ter visto.

Meu Deus ... como eu queria não ter visto.

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Capítulo 15
Felipe

— Sabe que eu até pensei em falar pro meu irmão


dessa “zinha” . Você sabe como ele é protetor
comigo.

Acaricio sua coxa um pouco mais para cima e


ela solta pequenos gemidinhos.

— Acho que isso não é necessário. —


Respondo tentando não parecer muito preocupado
com o fato dela tentar envolver o irmão bandido na
equação que já está complicada por si só.

Sandra estreita os olhos pretos e sorri como se


lesse meus pensamentos.

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— Você tá todo preocupado com ela, pensa que


eu não tô vendo.

Balanço a cabeça e dou uma risadinha.

— Isso é coisa dessa sua cabeça. —


Desconverso.

Ela suspira e salta para meu colo no segundo


seguinte.

— Ah é? Então por que você não foi mais cedo


lá em casa. Se sabe que domingo a noite o Plínio
tem plantão. Ontem você também não foi....

Sandra começa a rebolar sobre meu pau e sem


tirar os olhos ávidos por prazer dos meus.

Seguro seu quadril mas ela continua com as


reboladas lentas.

— Quer me fazer implorar pelo seu pau? —


Pergunta com a voz manhosa e desce do meu colo e
para a minha frente. — Tudo bem...

Sandra se vira de costas e começa a tirar o


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micro shorts jeans lentamente, exibindo um fio


preto, a bunda enorme rebolando bem próximo a
mim.

Em qualquer outro momento eu já estaria


socando com força aquele rabo arredondado com
minúsculas marquinhas brancas de biquíni. Não me
daria ao trabalho nem de tirar o fio dental que ela
estava usando como calcinha. Foderia Sandra ali
mesmo como já fiz tantas outras vezes, mas agora
era diferente.

— Vai dizer que o meu corpo. — Ela desliza as


mãos por suas curvas generosas e tira a própria
blusa. — Não é muito mais atraente que o daquela
loira magricela. — Ela se virou e acariciou os
próprios seios, exibindo-se pra mim.

O fato de Sandra ofender Mariana só fazia


minha irritação crescer.

— Para de falar da Mariana. — Adverti.

Ela faz um beicinho de frustração e abre o nó


da toalha, me deixando inteiramente nu.

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Sandra olha para meu pau, não está ereto.

— Desse jeito eu vou ficar com ciúmes. — Ela


protesta e senta em meu colo esfregando a boceta
sobre meu cacete. — Eu estou aqui toda toda pra
você e você nem aí pra mim. Não sou ciumenta
sabe, nem me importo de dividir você com todas as
outras, mas tem que ter um pouco pra mim né.

Ela rebola mais.

— Porque do mesmo jeito que essa loira


chegou ela pode ir embora, e vai acabar estragando
o nosso lance. Ainda mais se o Pedro ficar sabendo
que ela tentou me bater.

Porra ... ela está usando o irmão outra vez como


arma. Sandra sabia que eu fodia com outras, mas o
fato de não conseguir foder com ela depois da
chegada de Mariana a estava tirando do sério.

Agarro seus seios com uma pegada firme e


lambo seus mamilos, sugo de olhos fechados e a
ouço gemer.

— Hum... Lipe... Isso é tão gostoso.


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Ela rebola mais e joga o corpo pra trás,


esfregando os seios contra minha barba.

Por mais gostosa que Sandra fosse eu não


cogitava foder ela aquela madrugada.

Parei de chupar seus seios e soltei uma bufada


de constrangimento.

— Sandra. —Começo a falar. — Estou


passando por alguns problemas e até que eu
resolva...

Ela vai um pouco para trás e olha para meu


cacete que continua adormecido.

— Deixa eu te chupar gostoso que logo essa


delícia toda já vai estar toda dentro de mim.

Sandra desce mas eu impeço que ela continue.

— Não Sandra. — Eu a seguro pelo braço e não


deixo que se ajoelhe para o boquete.

Sandra não sabia mais nada sobre Mariana e


não tinha nenhum motivo continuar com essa porra.
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Ela me encara com certa indignação como a de


uma criança que foi privada do doce e eu insisto e
prendo a toalha ao redor do quadril outra vez e me
levanto.

— Hoje não.

Sandra não chegava nem aos pés de minha


galega e logo a ficha dela iria cair.

— Acho melhor você ir. Tenho uma semana


puxada de trabalho.

Ofendida, Sandra recolhe suas roupas e se veste


sem dizer nada.

Eu sabia que antes do raiar do dia a minha fama


de galã mudaria para o professor de matemática
broxa. Ela faria questão de fazer a notícia correr
bem rápido, mas eu estava pouco fodendo para que
as outras pensariam, no momento eu só precisava
me manter bem com a Mariana.

Eu abro a porta e Sandra sai sem pisando firme.


O salto agulha estalando sobre os degraus.

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Nem espero ela atravessar a rua e fecho a porta.

✽✽✽

Mariana

Não consigo acreditar que depois de ter passado


praticamente todo o dia comigo Felipe agora esteja
transando com Sandra. Não me admira que ele seja
amiga do escroto do Adônis.

Pela fresta pude ver de relance ela rebolando


em seu colo, ambos nus. Os gemidos que ela fazia
enquanto ele chupava seus seios me dava vontade
de vomitar.

— Hum... Lipe... Isso é tão gostoso.... — A


vadia gemeu alto e eu tive que sair dali porque eu
não aguentava mais me torturar daquele jeito.
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Felipe era um belo de um filho da puta, ele


merecia ficar com aquela puta barraqueira da
Sandra.

Com os olhos marejados de lágrimas eu volto


para casa. Fecho a porta e uso minha blusa para
secar as lágrimas que caem mais rápido do que eu
posso controlar.

Me seguro para que meu choro não acorde


meus filhos.

Com as mãos trêmulas eu abro a sacola.

Eu tinha que ver o lado bom... Pelo menos eu


havia recuperado as cartas. Digo para mim mesma.

Mas não eram as cartas que eu havia


recuperado.

Não eram as benditas cartas.

Fotos.

Várias fotos.

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Me levanto e chego perto da janela, para que a


luz que vem da rua ilumine o suficiente.

Selfies.

Uma porção delas.

Em todas o mesmo casal.

Felipe e Sandra.

Felipe segurando os seios de Sandra e ela


sentada com um sorriso bem aberto no rosto.

Passo para a foto seguinte.

Sandra debruçada de quatro enquanto Felipe a


fodia de frente para um espelho.

Passo para a próxima foto.

Sandra deitada e Felipe sugando sua boceta.

Eu não precisava ver mais.

Eu não queria ver mais.


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Momentos intímos dos dois registrados ali


agora em minhas mãos.

Coloquei tudo de volta na sacola e escondi


dentro de minha bolsa.

Eu afundei no sofá sentindo o peito doer. Os


acontecimentos daquela noite eram o suficientes
para matar qualquer amor que eu ainda sentia por
ele.

Talvez fosse melhor assim, mas isso não


mudava o fato de que eu estava sofrendo.

✽✽✽

Felipe
Quando levantei percebi que já passava das dez
da manhã. Ou seja eu tinha apenas duas horas para
malhar, almoçar e ir direto dar aula, mas claro que
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eu não faria nada disso sem antes roubar um beijo


da galeguinha. Se ela ainda mantinha os mesmos
hábitos de quando menina ela já deveria estar
acordada a horas.

Vesti uma bermuda tênis e meia. Coloquei uma


regata cavada e fui direto para a cozinha. Preparei
um copo de whey e comi com uma omelete de clara
preparada as pressas. Nem sentei para não perder
tempo.

Escovei os dentes antes de sair e fui direto para


a casa de Mariana, levando comigo apenas a
mochila com uma muda de roupas, carteira, chave
da moto e celular.

— Galega — Bato duas vezes mas ela não me


atende.

Eu não tinha nem o número do celular para


conseguir falar com ela.

Decido largar a mochila de volta em minha casa


e sair só com o celular e carteira. Talvez eu a
encontro no caminho para academia. Faço o trajeto
todo correndo mas não a encontro.
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Quando chego na academia Adônis me chama


assim que passo pela porta de entrada.

— Fala Lipeta. Veio malhar mais cedo.

— Vim. — Respondo seco.

Adônis bate em minhas costas. Percebo que ele


está com o olho roxo.

— Cara foi mal por ontem. Sabe que eu acabei


me desentendendo até com o Dimitri.

Sigo para esteira sem querer saber o motivo da


briga mas ele vem atrás querendo desabafar.

— Não foi nada demais, só porque eu levei a


filha dele pra fazer uma tattoo, ele também está
todo puto por causa da nova secretária gordinha,
que aliás tá treinando comigo nos últimos dias.

— Hum... — Respondo sem interesse e começo


a correr na esteira para aquecer.

Enquanto malho pesado Adônis fala o tempo


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inteiro, fala demais de uma tal de Janaína, e que


está pensando em dar uns pegas só pra irritar o
irmão.

Perto do meio dia termino de alongar e volto


para a casa correndo.

O caminho é longo e eu faço o mais rápido que


posso. O sol está castigando. Tiro a camisa e
retomo a corrida. Só paro quando chego em casa.
Fico aliviado ao ver Mariana a distância. Ela está
veste um shorts jeans, camiseta larga transformada
em regata, seus pés estão descalços.

— Não esquece de abrir as janelas Juliano! —


Ela grita enquanto passa o rolo de tinta pela parede
descascada, cobrindo boa parte das pichações com
um amarelo quase cor de areia.

Meu peito se enche de alegria ao ver que ela


ainda está ali. Que ela não havia sumido como
fizera a quinze anos atrás.

Ainda ofegante eu me aproximo dela e sorrio


dando um beliscão em sua bunda assim que chego
mais perto.
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Ela salta para trás e me lança um olhar furioso.

— O que você pensa que tá fazendo? —


Pergunta furiosa.

— Te dando bom dia. — Me inclino em sua


direção para beijá-la mas ela me afasta.

— PARA COM ISSO FELIPE! — Mariana


larga o rolo de tinta escorado no latão.

— Que isso galeguinha?

✽✽✽

Mariana
Como ele pode ser tão dissimulado? Mentiroso
e safado?! No mínimo ele deve me achar tão idiota
e corna quanto o Plínio.

— Sai Felipe. Não está vendo que eu estou


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trabalhando? — Digo com rispidez.

Com o corpo suado e sem camisa ele me


encurrala. Os braços fortes e tatuados me impedem
de sair.
— Confessa que sentiu minha falta. Falta dos meus
beijos e da minha boca em seu corpo.
Furiosa eu o enfrento, fuzilando-o com o olhar.
— Eu poderia até concordar com você, mas daí
seríamos nós dois falando besteira!

Eu o empurro com mais força impondo uma


distância entre nós.

— Eu não quero você perto de mim, não quer


ouvir a sua voz e não quero sentir o seu cheiro.—
Respondo cheia de raiva. — Você cheira a puta. —
Dou um passo para mais perto dele. — Você FEDE
A PUTA SEU CAFAJESTE.

Ele me olha como se eu tivesse ficado louca.

— Sai do meu pátio ! SAI!

— Galega — Ele tenta me acalmar, mas eu o


empurro de novo e de novo.
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— Para de me chamar assim, para Felipe, só


para! Vai pra sua casa — Eu continuo esmurrando
seu peito suado e ele vai recuando. Sai daqui.

Ele segura meus dois pulsos no ar com força o


suficiente para me impedir que eu o bata de novo.

— Eu não sou a idiota que vocês estão


pensando. Eu não sou fraca! Eu vi você com a
Sandra ontem.

Ele me encara aturdido.

— Não é isso.

— “Não é o que você está pensando” — Digo


com sarcasmo. — Foda-se Felipe você e toda essa
merda clichê.

— Eu não transei com ela. — Ele diz ofendido.

— Claro que não. Era eu que estava lá pelada


no seu colo no meio da madrugada. — Retruco. —
Me poupe tá bem?!

Puxo meus pulsos com mais força e me solto


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dele.

— Eu não transei com ela caralho. — Ele se


exalta.

— Eu não quero saber Felipe. Não quero


mesmo saber.

— Eu não estou mentindo Mariana.

— Também não minto quando digo que não


consigo olhar pra você sentir vontade de vomitar.

Me viro para sair dali mas ele me impede me


segurando com força pelos cotovelos.

— EU TE ODEIO FELIPE.

Então ele me soltou como se recebesse um


golpe físico. Era definitivo e explicito, o ódio que
eu sentia por ele era tão claro como o céu límpido
sobre nossas cabeças.

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Capítulo 16
Mariana

Voltei para dentro de casa com as palmas das


mãos doendo por ter batido no peito de Felipe.

Corri para o banheiro de cabeça baixa,


passando por Juliano que pintava a última parede
da sala .

— Que foi mãe?

Eu fecho a porta com força e tiro do gancho a


toalha de rosto para abafar meu choro.

Ouço os dois cochichando.

— Que foi Ju? — Malu pergunta.


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— Sei lá. Só sei que a mãe tá chorando.

Engulo meus soluços e aperto a toalha contra o


rosto tentando abafar qualquer som.

Um deles bate na porta e é a vez de Maria Luiza


investigar o que está acontecendo.

— Mãae? — Ela sonda. — Tá tudo bem?

— Claro que não sua burra, acabei de falar que


ela tá chorando.

— Eu já estou saindo. — Minto tentando me


manter calma. — Só esmaguei o dedo naquela
persiana da sala. Podem continuar com a pintura
que eu já vou sair.

Penduro a toalha de rosto de volta ao gancho do


lado do espelho e abro a torneira. Os primeiros
jatos de água que saem são escuros, mas a medida
que á agua começa a correr vai limpando aos
poucos.

Aquilo já era alguma coisa... A companhia de


água já havia reativado o registro.
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— Quer que a gente pegue alguma coisa na


farmácia? — Ju insiste.

Eu lavo o rosto umas três vezes para disfarçar a


vontade de chorar.

Minha vontade era de ficar sentada no chão do


banheiro chorando até que a dor finalmente
passasse, mas quando se é mãe tudo muda de
figura. Eu tinha que aguentar sem desabar por eles.

Abri a porta do banheiro e os dois me


encararam com ar assustado.

— Bora terminar essa função de pintura de uma


vez porque daqui a pouco o caminhão do brique
estaciona aí na frente.

Eles trocam alguns olhares mas não falam nada.

— Vamo gente. Tem muito o que fazer ainda


pra deixar esse lugar com cara de casa.

— Tem sim. — Ju concorda e debocha. —


Tem que derrubar e construir tudo de novo.

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— É ... até pode ser... mas por enquanto é isso


que o meu salário pode pagar. Isso e alguns móveis
e eletros de segunda mão. Agora voltem ao
trabalho.

✽✽✽

Já passava das duas quando o mini caminhão


estacionou em frente nossa casa. Eu fui até a
calçada para conferir se haviam trazido tudo. Vi
Sandra sair de sua casa e ir conversar com a vizinha
do lado.

— Dona Mariana Silveira? — Um homem com


pouco mais cinquenta vestindo uma regata
encardida colada ao corpo gordo e suado me
pergunta segurando uma prancheta na mão.

— Sim, eu mesma. — Respondo.

—Uma geladeira, um fogão, televisão e um


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beliche, isso?

Balanço a cabeça concordando.

Ele me entrega a prancheta e eu assino na linha


que ele indica.

Com a ajuda de Maria Luiza e Juliano


descarregamos tudo para dentro do chalé. Assim
que ajeitamos tudo no lugar, o senhor sai com meia
carranca por não ter ganhado gorjeta.

— Agora sim... — Juliano se esparrama pelo


sofá e liga a televisão.

Ele tira o boné da cabeça e puxa os cabelos


loiros para trás colocando o boné de volta, mas
dessa vez com a aba virada para trás.

— Nem se acomodem. — Digo parando a


porta. — Quero que vocês dois passem no
mercadinho, pra abastecer a geladeira, comprem
umas lâmpadas também.

— pô mãe a gente tá moído. — Juliano


reclama.
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— É isso ou vocês podem ir capinar o mato e


arrumar o jardim.

Malu pega a lista de compras e eles saem mal


humorados.

Pego alguns sacos de lixo vazios e volto para


rua. Uso o trabalho para ocupar minha cabeça, não
quero parar nem por um instante para não lembrar
dele.

Me ajoelho no chão e começo a limpeza. Sinto


o suor escorrendo por minha testa, mas não paro o
trabalho.

✽✽✽

Felipe

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Não consegui ir dar aula naquela tarde. Mariana


me colocou pra correr aos gritos.

— Pode usar a minha. — Ouvi Lucio a


distância.

— Tem certeza? — Mariana perguntou.

Eu fui até a janela espiar a conversa dos dois.

— Tenho sim. Já tem fio na máquina. — Ele


escora o cortador de grama no portão. — Aqui na
vizinhança todo mundo se ajuda.

Ah que piada, todo mundo na quadra sabia que


Lucio era um sovina que não dava nem um bom dia
quando passavam por ele na rua, e agora ele estava
todo solicito e oferecido.

— Obrigada. — Nana responde sem olhar


muito pra ele. — Pode deixar aí.

Mesmo a distância vejo Lucio olhar pra bunda


de Mariana e aquilo me sobe o sangue.

Eu saio de dentro de casa e caminho até ele.


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— Oi Felipe. — Lucio me cumprimenta

— Oi. — Digo sem nenhum humor.

Mariana ignora minha presença e continua


trabalhando como se eu não estivesse ali.

— Escuta Lucio, me empresta o seu cortador?


— Pego a máquina.

— É que já emprestei pra nossa vizinha nova.


— Ele sorri quando ela se inclina para arrancar o
mato.

Quero afundar um soco na fuça do filho da


puta, mas isso só vai deixar Nana mais braba.

Com a mão livre aperto com um pouco mais de


força do que deveria e o advirto.

— Sim eu sei... mas é como você disse aqui


todo mundo se ajuda não é? Eu corto a grama da
Nana e a minha.

Pelo meu tom Lucio engoliu em seco e deu


sorriso amarelo.
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— Tá certo. — Lucio se dá por vencido e eu


solto seu ombro.

Vaza filho da puta. É o que meus olhos dizem e


Lucio entende o recado.

Assim que ele se vai Mariana se levanta e passa


as mãos sujas de terra no shorts já manchado de
tinta.

— Qual a parte do ficar longe que você não


entendeu? — Ela tira a máquina de cortar grama de
minha mão.

— Você não viu mas o cara tava babando pra


sua bunda Mariana. Você é uma mulher sozinha
com dois filhos não pode passar a ideia errada.

Ela se enfurece.

— Eu passar a ideia errada? Foda-se você e


suas aulas de moralidade professor. Como é que
uma mulher deve fazer ã?! Ir até a casa do cara e
depois transar no sofá ?! Isso?!

Eu bufo...
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Porra!

— Não Mariana, não é isso. — Eu disse e


esfreguei o rosto com as palmas das mãos em um
gesto quase desesperado.

Mariana se vira e não me deixa terminar. Ela


volta para dentro de sua casa e quase arrebenta a
porta com a força da batida.

✽✽✽

Mariana

Meu coração disparava na presença dele, mas


agora era de ódio, e eu não queria chorar de novo,
não queria ter que inventar desculpas esfarrapadas
pra poder disfarçar meu choro quando Malu e
Juliano chegassem.

E não demorou muito para que eles voltassem


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com as compras.

Eles colocaram tudo sobre a mesa e começaram


a guardar tudo.

—Tomem banho que eu vou preparar a janta.


— Peço e dou um carinho sobre suas cabeças.

— Aleluia. — Eles comemoram .

— Eu primeiro.— Ju dispara na frente e Maria


Luiza o segue xingando.

Lavo as mãos e parte dos braços na pia e seco


com pano de prato. Preparo a omelete para nós três
e sirvo um pão francês para cada um. Deixo
coberto por um pano e vou para a sala. Sento no
sofá e ligo a televisão com o controle remoto, a
parte de trás está colada com uma fita adesiva preta
para que a tampinha do compartimento das pilhas
não caia.

Assim que dou a primeira mordida no pão, ouço


batidas na porta.

Ignoro e dou mais uma mordida tentando me


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concentrar na programação da televisão.

Da segunda vez a batida é mais forte.

Droga Felipe!

Eu me levanto descalça e vou atender a porta.

Não é Felipe, o que é um alívio para meu


coração.

Um alívio por pelo menos uma fração de


segundo.

Me depara com um homem alto, com a barba


por fazer, cobrindo a pele morena clara, os lábios
grossos se abrem pra soltar a fumaça do charuto e
então ele me indaga depois de me olhar de cima a
abaixo

— Então você é a vizinha que tá tirando o sono


da minha irmã?

Ele veste um conjunto todo vermelho, com o


símbolo do flamengo bordado no lado esquerdo do
peito.
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Na calçada vejo dois homens negros segurando


metralhadoras como se não fosse nada de mais.

Dou um passo para fora de casa e feche a porta


atrás de mim para que meus filhos não vejam a
cena.

É agora Jesus. Vou ser executada porque aquela


puta da Sandra foi reclamar para o irmão bandido.

— Olha... não sei o que sua irmã falou pra você


mas eu não quero confusão. — Me antecipo. — Eu
sou mãe solteira e tenho dois filhos pra criar. Agora
se me dá licença.

Ele joga o charuto na grama e apoia o braço na


porta se inclinando na minha direção.

— Calma aí moça a gente nem conversou. —


Ele diz com sotaque marrento.

Meu pai não me ensinou muita coisa nessa vida.


Mas ele tinha um ditado certeiro que eu levava
comigo sempre. “Quem se abaixa muito o cú
aparece.”

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— Calma não. — Digo sentindo o nervosismo


aumentar no peito.— Você vem na minha casa com
dois caras armados e diz que quer conversar? Isso é
pra me botar medo isso sim. Eu tô cansada, tô com
fome e cheirando a solvente de tinta, então já
entendi, pode dizer pra sua irmã que o recado já tá
dado. Pode dizer que ela pode ficar com o Felipe, e
todos os homens que ela quiser. Eu só quero paz,
mas se eu pegar ela revirando meu lixo de novo aí a
coisa vai ficar feia pra ela.

O homem achou graça e riu.

— O que foi?!

Ele se afasta com um sorriso no rosto.

— Nada. Tô rindo dessa boca dura. Já sei


porque se estranhou com minha irmã.

— Mariana — Felipe me chama e eu sinto


minhas pernas fraquejarem. — Tá tudo bem?

O irmão de Sandra olha na direção de Felipe e


depois volta a me encarar.

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— Claro que está. — Respondo.

— Tchau Mari. — Ele dá um pequeno belisco


no meu queixo e sorri — A gente se esbarra por aí.

Eu o encaro e ele sorri.

Ele volta para o jipe e quando dá partida eu o


vejo piscar para mim.

Felipe nem espera o carro sair e já vem em


minha direção mas eu fujo porque não quero vê-lo
nunca mais, não enquanto a ferida ainda estiver
aberta desse jeito.

✽✽✽

Quando Malu e Juliano foram para o quarto eu


avisei

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— Deixem as janelas abertas porque o cheiro


de tinta está forte demais.

Tomei um banho e o cansaço se instaurou.


Deitei na cama e comecei a ler o livro que Nilce
havia me emprestado antes da viagem.

Apesar da exaustão eu dizia a mim mesma. “Só


mais um capítulo, depois eu vou dormir.”

Barulhos vindos da janela me fizeram


interromper a leitura.

— Felipe! — Eu sussurrei sentindo a raiva toda


vir a tona outra vez.

Ele caminha sorrateiro até a porta de meu


quarto e o tranca.

— Pode voltar pra casa, já está quase na hora da


Sandra ir dançar no seu colo. — Cochicho irritada.

Felipe ignora meus pedidos e arranca as roupas


, primeiro a camiseta e depois a bermuda.

Eu encolho as pernas e tento sair da cama antes


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que ele chegue mais perto.

Felipe me puxa pelos tornozelos até a beirada


da cama e se debruça sobre mim. Seu corpo é
quente e seus músculos fazem pressão contra meu
corpo.

— Sai Felipe. Sai do meu quarto. Sai da minha


casa. SAI DA MINHA VIDA.

Ele agarra meus pulsos com força e sinto sua


respiração morna se misturar a minha.

— O que eu quero eu consigo Galeguinha. —


Ele sussurra ao meu ouvido distribuindo beijos por
meu pescoço — E agora eu quero a sua boceta.

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CAPÍTULO 17
Mariana

— Tira suas mãos de mim Felipe. — Ameaço


virando meu rosto para o lado a cada vez que ele
tenta me beijar. — Eu vou te chutar com força aí eu
quero ver você ser prestativo com as suas vizinhas.

Ele dá um sorriso sacana e mordisca meu


pescoço como se não estivesse nem ouvido minhas
manifestações furiosas sussurradas.

Tento me desvencilhar dele mas ele me impede


e se acomoda mais entre minhas pernas.

— Para de lutar galega. — Felipe esfrega o


volume rígido de sua ereção contra minha virilha e

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a sensação do prazer escapa por meus lábios em um


gemido que não posso controlar. — Sua bocetinha
tá querendo meu pau de novo.

Ele segura meus pulsos agora com uma única


mão e com a outra ele enfia por dentro da minha
calcinha.

Maldito!

Estou molhada.

Encharcada.

Seus dedos grossos tateiam minha intimidade


sem nenhum pudor.

— e eu. — Ele agarra meu sexo inteiro com a


mão e sua palma massageia meu clitóris com
movimentos lentos. — Não sou homem de deixar
mulher com vontade.

Com um ódio tão grande quanto o tesão que ele


está me causando eu viro o rosto outra vez quando
ele tenta me beijar e sinto sua barba roçar pela pele
do meu pescoço;
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Felipe desliza os dedos por minha boceta e


sussurra.

— E você galeguinha... está com muita


vontade.

Ele mete um dedo e depois o outro, entrando e


saindo sentindo meu tesão escorrendo por seus
dedos até que eu não consiga segurar.

— Isso. — Ele me rouba um beijo e continua


movimentando os dedos dentro e fora de mim. Sua
língua provoca a minha e o beijo possessivo me
domina com força. O encaixe de nossas bocas é
perfeito, não tem como resistir a isso.

É possível resistir a ele.

Não quando ele me beija com essa força.

Não quando Felipe me faz gozar em sua mão.

Ele da aquele sorriso cretino com os lábios


colados ao meu quando sente meu gozo entre seus
dedos.

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Felipe tira a mão de dentro da minha calcinha e


volta a pressionar sua ereção contra meu quadril.

Então ele chupa os dedos sentindo o meu gosto.

— Gosto de puta. — Ele sussurra ao meu


ouvido — Daquelas que deixa todos os homens
loucos.

— De puta você entende né!?

Despudorado ele abaixa a cueca e apenas afasta


minha calcinha para o lado.

— Entendo. — Felipe responde e soca tudo até


o fundo.

Seu membro é grosso e desliza para dentro de


meu sexo apertado. A cabeça grande abrindo
passagem para toda sua extensão.

— Ah meu Deus... — Eu sussurro quase sem


ar, eu não tinha me acostumado com a sensação de
preenchimento que ele me proporcionava. O peso
de seu corpo musculoso, a grossura de seu pau... o
tamanho... eram capaz de levar qualquer mulher a
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loucura.

E a forma como Felipe metia.... moendo


devagar dentro de mim sem mudar o movimento
até o gozo me arrebatar com mais força que o
primeiro.

Cravei as unhas com força em sua costas e o


prazer escorreu por meu sexo.

Felipe sorriu e afastou meus cabelos suados de


meu rosto, dando alguns segundos para que eu
recuperasse minha respiração.

Ele sai de dentro de mim e se ajoelha na cama.

Vejo a silhueta de seu corpo coberto de


músculos, o cacete ereto. A pouca luz do abajur me
permitem ver mais de perto suas tatuagens.

Felipe tira minha camiseta e arranca minha


calcinha com movimentos rápidos.

— Traz a boceta aqui agora. — Ele me ordena


em voz baixa.

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Com o sexo encharcado eu ouso teimar com o


gigante tatuado.

— Não.

Ele passa a mão pelo cacete longo e grosso e


masturba olhando para o meu corpo nu.

Que visão.

— Vem aqui. — Ele rosna num sussurro.

— Quero chupar sua boceta gozada.

— Não. — Respondo em voz baixa.

Felipe sorri e solta o pau rígido. Ele me puxa


pelos tornozelos e vira meu corpo sem fazer
esforço algum.

Estou de bruços na cama bagunçada.

Ele passa a mão por minha bunda e dá apertões


como força.

Felipe se inclina e escancara minhas pernas.


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Sinto sua língua passar por meu sexo molhado. Ele


se demora na entrada, sugando minha carne gozada
até que eu sufoque um gemido de prazer quando a
agonia de gozar em sua boca se torne quase
inevitável;

Felipe agarra minha bunda com mais força e


sua língua cada gota cremosa de gozo de meu sexo
até que minha carne fique trêmula e sensível diante
de uma simples respiração.

Eu não tenho mais condições de dizer não.


Estou entregue ao prazer insano que meu vizinho
depravado me proporciona sem dó.

Ele se debruça sobre meu corpo . Sinto os


músculos de seu peitoral e abdômen trincando
suado contra minhas costas.

— No cuzinho? — Ele sussurra roçando a


cabeça do pau em minha bunda.

— Não. — Digo sentindo o medo tomar conta


de meu corpo.

Mesmo sem vê-lo sei que está sorrindo.


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— Tem certeza? — Ele esfrega de novo a


cabeça em meu cú e eu tento estapeá-lo.

— Claro. — Xingo.

Felipe mete o cacete em minha boceta e eu arfo


com a sensação de tê-lo inteiro dentro de mim de
novo.

— Posso não comer seu cuzinho hoje. — Ele


morde minha nuca enquanto mete fundo. — Mas eu
vou comer... pensa só no meu cacete todo entrando
nessa bunda linda. Bem devagar até você
acostumar com o tamanho. — Ele continua dizendo
obscenidades e movimentando o quadril com
estocadas lentas e ritmadas. — E quando eu sentir o
gozo escorrendo pela bocetinha melada... aí eu vou
socar duro.

— Não para. — Sussurro para ele.

Apesar do medo aquilo está me excitando ainda


mais.

— Não vou parar Galeguinha.

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O Som da carne molhada, meu sexo latejando


com mais prazer do que posso suportar.

Me agarro nos lençóis e rebolo como posso


contra seu quadril.

— Isso galeguiha. — Ele rosna ao meu ouvido


— Mexe esse rabo e sente meu cacete marcando
sua bocetinha. Puta gostosa do caralho.

— Agora... — Confesso gozando — Ai meu


deus....

Meu coração está batendo com força no peito, e


ondas de prazer irradiam de meu clitóris por toda a
carne sensível.

Felipe sai de dentro de mim e se senta na cama.

— Meu deus... você não cansa — Digo me


virando pra ele e me deitando de lado para
contemplá-lo.

— Não. — Ele apoia um braço na cama e com


a outra mão acaricia o cacete rígido. — Agora senta
aqui.
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Dessa vez eu não nego.

Eu apenas obedeço.

Então monto em seu colo.

Sento em seu cacete rígido até que ele esteja


todo dentro de mim outra vez.

A penetração nessa posição é ainda mais


profunda e eu tenho que me mover devagar, aos
poucos minha boceta vai se acostumando ao seu
tamanho e ele pode recomeçar a tortura outra vez.

Felipe afasta meus cabelos para trás e com as


mãos ele apoia minhas costas de maneira que meus
seios fiquem mais expostos para seu ataque de
beijos.

Eu rebolo devagar enquanto ele chupa meus


mamilos. Sugando a pontinha sensível.

Rebolo mais.

Mais.

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Felipe chupa meus seios... um depois o outro e


recomeça tudo outra vez.

Ele inspira minha pele e roça a barba por meu


peito.

É bom demais.

— Isso gostosa. Rebola no meu caralho. — Ele


sussurra ao meu ouvido e sua boca se encontra com
a minha em um beijo tão faminto e irrefreável.

Neste momento não existe espaço para dúvidas,


não há palavras ou desculpas, apenas sexo puro
sedento e quente.

Eu me agarro a seu corpo com mais força que


posso porque preciso me segurar nele quando gozo
outra vez. Na segurança de seu corpo, de seus
músculos, em seu corpo suado e protetor.

Eu ofego com os lábios colados aos dele e ele


captura meu sorriso com beijos.

— Gozou de novo— As mãos de Felipe descem


por minhas costas e vão para meus quadris. —
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Assim mesmo que eu gosto.

Ainda montada nele e as pernas ao redor do


corpo dele eu não sei o que dizer... só consigo
sentir o prazer extasiando meu corpo com golpes
certeiros.

Meu corpo suado se esfrega ao dele e meus


seios deslizam por sua pele dura.

— Acho que eu não aguento mais. — Sussurro


sentindo pequenos choque irradiando de meu
clitóris, enquanto sons molhados se intensificam a
medida que Felipe segura nas laterais de meu
quadril e começa a movimentar o meu corpo para
cima e para baixo em uma cavalgada que começa
lenta.

— Aguenta sim. — Ele diz mordendo meu


pescoço. — Quica gostoso quica...

Felipe aumenta a movimentação de meu quadril


fazendo com que eu me mova mais rápido e mesmo
que eu mal tenha forças pra respirar ele me arranca
um último gozo, mais violento que todos os outros.

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Ele goza junto comigo e eu me desmancho em


prazer tendo meus gemidos engolidos por seus
beijos lentos e naquele instante eu até ousaria dizer,
apaixonados.

Sem um pingo de forças em meu corpo eu o


afasto e ele se deita como se fosse dono na minha
cama.

— Que visão. — Ele cruza os braços atrás da


cabeça e olha para meu corpo nu ainda montada
nele.

Eu saio de cima de Felipe e deito a seu lado.


Meus olhos fecham quase sozinhos.

— Vai embora Felipe, você não pode passar a


noite aqui. — Digo pouco antes de adormecer.

Sinto ele me puxar para mais perto de seu


corpo.

— Claro que posso. Aqui é o meu lugar. — Ele


responde inspirando em meus cabelos, mas eu
estava exausta demais para dizer qualquer coisa, eu
só fecharia os olhos por uns dois minutos e depois
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o mandaria embora.

✽✽✽

Felipe
Mariana praticamente desmaiara assim que eu a
aconcheguei em meu peito. Já estava quase
amanhecendo e por mais que eu quisesse ficar ali,
dormir e acordar com ela eu tinha que sair antes
que os filhos dela acordassem, as coisas tinham que
ser feitas do jeito certo.

Saí da cama com cuidado para não acordar


minha Galega. Vesti minhas roupas e cobri seu
corpo nu com lençol.

Fiquei admirado com a beleza crua e perfeita


dela, sem maquiagem, com os cabelos cor de mel
espalhados pelo travesseiro, Mariana era a mulher
mais exuberante que eu já havia visto.
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Me apoiei na cama e dei um beijo leve em sua


boca grossa e bem desenhada.

— Sonha comigo Galeguinha. — Sussurrei


antes de partir.

Pulei a janela e voltei para minha casa.

Assim que passei pela porta de entrada me


arrependi de ter saído do lado de Mariana. Me senti
canalha sair assim antes dela acordar, sem ao
menos dar uma explicação. Fui até o escritório e
escrevi um bilhete.

Voltei até a janela de Mariana e deixei um


bombom sobre o pequeno papel dobrado no
parapeito da janela. Retornei para casa e dormi
pensando nela, mas eu deveria ter seguido meu
instinto e não ter saído do lado dela. Do contrário o
dia que viria pela frente seria totalmente diferente,
mas no fundo eu não tinha como saber.

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CAPÍTULO 18
Mariana

Despertei com pequenas mordiscadas de Felipe


em meu pescoço, as mãos dele subindo pela minha
barriga até chegar em meu seio.

— Acorda galega, eu quero uma repetição da


nossa noite. — Ele sussurra me puxando para mais
perto de sua ereção.

Seu membro roça em minha bunda e eu sorrio


sem abrir os olhos.

— Como está essa bocetinha? — Ele me sonda


com a voz rouca e sua mão desliza para minha
intimidade. — Dolorida?

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Ele acaricia de leve meu clitóris e inspira em


meio aos meus cabelos.

— Dolorida. — Resmungo quando pequenas


pontadas de dor e prazer espalham-se por meu sexo
a medida que ele me provoca mais. — Acho que
vai doer até pra tomar banho.

— Hum... — Ele finge estar decepcionado. —


Tudo bem, eu me contento com o cuzinho.

Felipe minha bunda e me aperta um pouco mais


contra a ereção evidente.

— Não. De jeito nenhum. Aí sim que eu vou


ficar sem sentar por uma semana. E aliás você não
está merecendo

Me espreguiço e viro-me em sua direção.

— Coloco só a pontinha. — Ele me tenta, em


seus olhos verde ocre eu vejo a luxuria brilhando.
— Se doer eu paro.

— Mentiroso. — Digo deslizando as pontas dos


dedos sobre sua barba escura. — Eu não acredito
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em uma palavra do que você diz.

— E mesmo assim você está nua em meus


braços.

— Aff... se ela tá fazendo cu doce, deixa que eu


mato sua vontade Lipe. — É a voz de Sandra que
nos interrompe.

Eu só podia estar sonhando.

Correção.

Tendo a droga de um pesadelo.

Felipe se levantou da minha cama e eu usei o


lençol para cobrir meu corpo.

— Vem Lipe. — A vadia se virou contra a


porta e apoiou os braços na parede. — Mete
gostoso que eu não vou reclamar nadinha.

E para meu tormento, ele foi.

Felipe ergueu a barra do vestido e posicionou o


pau raspando-o na fenda de sua bunda.
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— Olha pra aprender vizinha. — Sandra


debochou.

Senti o estômago embrulhar . Eu queria atirar o


abajur ao lado da cama nos dois. Queria acabar
com aquele pesadelo, mas eu não conseguia me
mover.

O máximo que podia era fechar meus olhos,


mas a vagabunda da Sandra gemia mais alto, para
esfregar o prazer em minha cara.

Acorda Mariana.

Acorda!

Acorda agora!

— Olha pra nós vizinha. Acho que ela não está


gostando da performance. — Sandra me provoca.

— Não tem problema. Depois ela perdoa. A


galeguinha perdoa bem fácil. É só pegar ela de
jeito.

O som do sexo se intensificando, os gemidos


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mais incontroláveis.

Eu não podia fugir dali daquele pesadelo.

Acordei aos gritos.

E ouvi Juliano batendo na porta.

— Mãe?! Abre a porta.

Com o coração martelando no peito eu digo em


voz alta.

— Tudo bem Ju. Já vou sair.

— Tem certeza?

— Sim amor, foi só um pesadelo. Pede ajuda


da Malu pra ir colocando a mesa que eu já vou
levantar pra preparar nosso café.

Quando me levanto da cama ainda sinto uma


angustia por causa do pesadelo.

Enrolada no lençol vou até a janela para abaixar


o vidro.
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Encontro um papel dobrado preso por um


bombom.

“Galeguinha linda,

Nossa noite foi perfeita, queria estar aí para te


dar uma segunda rodada de sexo, mas tenho que
resolver algumas coisas antes . Nos vemos a noite.

Um beijo na boca e outro na boceta

Lipe ”

Amassei o bilhete e me vesti. No gancho atrás


da porta guardei o bilhete amassado junto com as
fotos que eu havia encontrado no apartamento da
vadia da Sandra.

Peguei a cartela de anticoncepcional do bolso


externo e tomei um comprimido a seco, assim
como eu fazia todas as manhãs.

Lembrar do sonho me revoltava porque no final


das contas tinha um fundo de verdade. Um dia,
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Felipe estava comigo, no mesmo estava com a


putiane da vizinha, no outro dia já estava comigo
outra vez e a idiota aqui perdoava fácil, bastava ele
se esfregar e pressionar o corpo coberto de
tatuagens que eu me tornava incapaz de dizer não.

Escovei meus cabelos e tirei um elástico preso


ao pulso. Fiz um rabo de cavalo no alto da cabeça e
tirei os lençóis da cama. Tirei inclusive as fronhas.

Tudo ali tinha uma mistura de nossos cheiros,


nossa noite.

Eu ainda não sabia o que Felipe realmente


queria comigo. Tinha minhas dúvidas se eu era
apenas mais uma na sua longa lista de foda fácil, ou
se ele queria algo mais. Nós ainda não tínhamos
conversado pra valer e mesmo que o fizéssemos eu
não seria capaz de contar para ele a verdade sobre
Juliano e Maria Luiza.

Começo a esticar um lençol limpo na cama e


prendo as pontas debaixo do colchão. Mesmo que
realmente tentássemos ter algo sério, nossa relação
seria construída na mentira. Meu Deus... eu não

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tinha saída.

Saí do quarto e fui direto para a cozinha.

Maria Luiza estava terminando de colocar as


xícaras sobre a mesa. Juliano colocou a sacola de
pão e o pote de margarina sem dizer nada.

— Bom dia amores. — Cumprimento sem


deixar transparecer minha angustia. — Dormiram
melhor essa noite no beliche? — Bocejo.

— Oi mãe. Aham.

— Como uma pedra. — Ju acrescenta

— A pedra roncaria menos. — Malu alfineta e


eles iniciam a manhã trocando farpas.

— Ei vocês dois. — Xingo dando outro bocejo.


— Maneirem na troca de carinhos a essa hora da
manhã.

Vou até o fogão e começo a passar o café.


Juliano já havia deixado uma chaleira cheia de água
fervendo e o bule já estava posicionado com o
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coador de pano e algumas porções de café em pó


servidas. Assim que a água quente tocou o pó, o
cheiro do café recém passado se espalhou pela
cozinha.

— Hum... eu adoro esse cheirinho. — Malu


elogia e corta um pão francês ao meio.

— Claro. Você já nasceu velha nerd. — Ju


implica e eu o fuzilo com o olhar.

— Ah cala boca moleque e você é um crianção


que gosta de Nescau. Que até a pouco tomava
numa mamadeira.
— Aquilo era um copo com tampa e canudo,
“árvore” — Ele implica com o cabelo armado de
Malu. — Que aliás eu sei que você quebrou de
propósito.

— Chora pela “dedeira” chora...

Eu ouço eles se chutarem por debaixo da mesa


e uso o pano de prato para bater nos dois.

— Quietos cambada. Isso não é jeito de


começar o dia.
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Sirvo três xícaras de café com leite e me sento


com o mal humor já instalado no ambiente.
Resolvo puxar conversa para apaziguar um pouco
os ares.

— Hoje vamos ao shopping de manhã, quero


passar na loja nova, pegar meu uniforme, a gente
pode almoçar por lá.

— Posso ficar em casa. — Juliano pergunta


enquanto tira o miolo do pão e come só a parte
macia, deixando um enorme buraco oco no pão
francês.

— Não. — Digo de sopetão.

— Então você não estava nos perguntando. —


Ele assopra o café e toma um gole antes de
começar a tirar o miolo do segundo pão.

— Não. Não estava. — Concordo com sua


lógica. — Depois do almoço irei até a escola nova
em que vocês irão estudar, a gente pega a lista dos
materiais, já vê o uniforme e provavelmente
amanhã vocês dois já possam começar pra não
perder muitos dias de aula.
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— Uniforme? É escola particular? — Malu se


interessa.

— É sim, uma das melhores do Rio.

— E vamos pagar com que cú? — Juliano


retruca meio irritado

Acerto um cascudo e o xingo.

— Com o meu! A mãe de vocês vai trabalhar


numa mega store que dá uma ajuda de custo para a
educação de quem tem filhos. Meu chefe também
falou que os funcionários tem um celular em
comodato.

Eles me olham sem entender a última parte e eu


rio.

— Vou ganhar um celular da empresa enquanto


eu estiver trabalhando lá, não é dado é emprestado.
Por isso hoje a tarde eu vou ver pra vocês. — mas
antes que eu termine de falar ele me interrompe

— Ah caramba Malu. — Juliano balança o


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braço da irmã. — Eu não to acreditando.

Ela dá risada e vejo os olhos dos brilharem.

Malu bate as mãos na mesa imitando o rufar de


tambores.

— A gente vai ganhar um celular! — Eles


comemoram juntos.

— Dependendo de quanto for e se der pra


parcelar bem parceladinho — Digo sentindo a
alegria deles me contagiar. — Vão sim. A gente
está num lugar novo, e eu preciso poder falar com
vocês a qualquer hora pra saber se estão bem.

Os dois se levantam e me abraçam cobrindo


minhas bochechas com beijos.

— Melhor – Beijos — Mãe! — Beijos – do-


Beijos – Mundo.

— Eu sei eu sei. — Brinco — Eu faço o que eu


posso.

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✽✽✽

Felipe
Fui malhar mais cedo do que o normal. O fato
de eu não ter conseguido contato com Adriana
estava me tirando do sério. Eu já tinha deixado
mensagem em sua caixa postal. Mandado
mensagens por whatssapp, mas ela não me
respondera. Eu sabia que ela passava boa parte do
tempo viajando e esse era um dos motivos pelo
qual eu tinha concordado com essa porra de
noivado.

Mas agora essa merda ia me comer pelo rabo se


a Galeguinha acabasse descobrindo.

Ergo o pneu de roda de caminhão e o empurro


pra frente.

— Bora Lipetaaa — Adônis me incentiva sem


tirar os olhos do cronômetro que segura nas mãos.
— Acha que Crossfit é tetinha é? — ele grita —
MAIS RÁPIDO! MAIS!
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Eu empurro o pneu que deve pesar uns oitenta


quilos até a outra extremidade do amlo salão da
academia.

— NA CORRENTE CARALHO! NA
CORRENTE!

Com os músculos dos braços quase rasgando eu


corro até as longas, grossas e pesadas correntes de
aço e começo a movimentá-las o mais rápido que
posso, agitando os braços para cima e para baixo.

— FORÇA! FORÇA!

— Arhhhhhhhhhhhhh— Urro sentindo o


treinamento puxado arder nos músculos suados.

— Pausa pra água. — Ele finalmente diz e eu


vou até o banco onde estão meus pertences.

Enxugo o suor que cobre meu corpo. Confiro o


celular para ver se Adriana já tinha visualizado as
mensagens.

Nada.

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Nem sinal dela.

Caralho.

Tomo água, quase a garrada toda.

Tento ligar mais uma vez.

Atende a porra do celular Adriana. Atende essa


merda.

— Volta! — Adônis grita. — APOIO!

Largo tudo e volto para o treino.

Começo a série de apoios.

— Cinquenta. Cinquenta! — Ele insisti. —


TEM QUE DOER.

Realizo os exercícios mas me perco na


contagem, não tenho cabeça pra continuar.

Me levanto e Adônis provoca

— Parou bebê? Volta pro chão e faz mais vinte!


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— Não cara. — Rosno ofegante. — Amanhã


eu compenso isso.

Eu o cumprimento e volto para pegar minhas


coisas.

Ouço uma voz familiar me chamar.

— Lipe.

É Sandra.

Merda.

Eu respiro fundo e me viro em sua direção.

Ela olha para meu peito suado e umedece os


lábios antes de dizer.

— A gente precisa conversar.

— A gente já conversou. — Digo com mais


rispidez do que deveria, e vejo ela se encolher,
cruzando os braços em volta do próprio corpo.

A última conversa com Sandra já tinha me


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rendido uma carreta de merda e uma puta discussão


com minha galega. Porém eu tinha algo que
esclarecer com Sandra, que ideia era aquela de
mandar o bandido do irmão aterrorizar a Mariana?!

— Mas é importante. — Ela diz em voz baixa.

Eu a fuzilo com um olhar irritado.

— Ou o que? Vai mandar seu irmão vir atrás de


mim e da Mariana? Eu vi ele ontem falando com a
Mariana. Agora me diz Sandra, porque caralho seu
irmão traficante foi falar com a Mariana e ainda por
cima com dois caras armados com metralhadoras.

Ela se encolhe um pouco mais com minha


exaltação.

— Lipe. Vamos conversar em algum lugar.


Aqui alguém pode ver.

Nunca tinha me passado pela cabeça tocar num


fio de cabelo de uma mulher, mas Sandra tinha me
deixado puto com essa merda toda de chantagem e
dissimulação.

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— Por favor. — Ela implora.

Eu recolho minhas coisas e envio na mochila


com pressa. Pego a chave da moto e o capacete e a
encaro.

— Vem. — Dou um rosnado baixo e ela me


segue para fora da academia.

Subo na moto e coloco o capacete preto. Sandra


ajeita o vestido curto e sobe logo depois. Ela se
agarra com força em minha cintura.

Dirijo até um motel mais afastado próximo a


br.

Tiro o capacete .

— Bom dia senhor. — A atendente me


cumprimenta, sua voz sai por um interfone
acoplado em um vidro fumê com uma pequena
abertura em forma de semi circulo. — Preferência
por alguma suíte?

— A mais barata. — Digo com a irritação


crescendo em mim.
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Sandra não fala nada.

— Suite 101, primeira a esquerda. A porta da


garagem já está aberta.

A cancela da portaria se abre e eu sigo de moto


para o interior do lugar.

Paro a moto na garagem indicada pela


atendente e Sandra é a primeira a descer.

Tiro o capacete e o penduro no guidão da moto.


Ela observa meus movimentos em completo
silêncio.

Desço e subo as escadas até o quarto.

A cama redonda tem um lençol branco e bem


esticado. Dois roupões pretos e um conjunto de
toalhas dobrados lado a lado. Era um motel como
outro qualquer, um matadouro, mas não hoje.

Sandra tira as sandálias de salto assim que entra


e se senta na cama.

— Nem se dê ao trabalho de tirar a roupa. —


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Respondo me antecipando.

— Meus pés estão doendo. — Ela justifica na


defensiva. — Eu caminhei de casa até a academia.

— Então não vamos perder tempo. Diga logo o


que tem pra dizer.

— Eu não estou entendendo porque você está


sendo tão grosso comigo, Lipe. É por causa
daquela loira az

— Olha como você fala da Mariana. —


Vocifero.

Com Sandra não haveriam mais joguinhos se


ela iria jogar sujo eu também iria.

Ela se encolhe e une as mãos mexendo


nervosamente na aliança na mão esquerda.

— Tá desculpa. TÔ vendo que você gosta dela.


Tá estampado na sua testa.

— O tempo está passando Sandra. Você não


veio aqui pra me dizer o óbvio. Tá fazendo eu
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perder o meu tempo e o seu.

Ela engole em seco. Seus olhos grandes e bem


maquiados me fitam marejados de lágrimas.

— Eu tô grávida Felipe. E o filho é seu.

✽✽✽

Mariana
Quando chegamos em casa eram quase seis da
tarde. Juliano e Maria Luiza dispararam na frente
com algumas sacolas de compras e o celulares semi
novos na mão, esperançosos em usar wi-fi dos
vizinhos.

Em ritimo lento e segui carregando o restante


das compras. Protelando o momento de ter que
encontrar com Felipe. Imersa em meus
pensamentos eu mal percebo quando as compras
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começam a ser puxadas de minhas mãos e eu posso


jurar que estou sendo assaltada a poucos metros de
distância de minha própria casa.

Olho na direção do homem.

O mesmo rapaz com sotaque marrento.

Eu não sabia o nome dele, mas sabia que ele era


perigoso.

— Falei que a gente ia se encontrar de novo.

E mesmo sabendo que aquilo não era o assalto


que eu pensava, eu ainda sentia que corria perigo
perto dele. Muito perigo.

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CAPÍTULO 19
Felipe

Sandra repetiu a sentença como se eu não tivesse


ouvido da primeira vez.

— Eu tô gravida Lipe. E o filho é seu.

Não me movo e ela dá alguns passos para mais


perto.

— Eu ia te contar mas estava com medo de


como você ia reagir.

Sandra pega minhas mãos e coloca sobre seu


ventre.

— Nosso filho. — Ela diz emocionada.


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— Você está esperando um filho meu? Cubro a


boca com a mão direita e esfrego a barba ainda
processando a notícia.

— Uhum. — Ela balança a cabeça.

— Fala alguma coisa Lipe.

Afasto minha mão de sua barriga e a olho


diretamente nos olhos.

—Você acha que eu sou algum idiota Sandra?

Vejo a felicidade se esvair de seus olhos assim


que pergunto.

— Como assim? — Ela tenta chegar mais perto

— Como assim? — Rujo irritado. — Quando


percebe que tenho algo mais sério com a Mariana
você me vem com essa merda de gravidez?! Acha
que eu sou imbecil o suficiente pra acreditar nessa
porra?

— Eu não estou mentindo. — Ela se ofende. —


Juro pelo que você quiser. Não tem nada a ver com
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aquela azi. — Sandra vai ofender Mariana mas para


no meio do xingamento quando sabe que aquilo me
deixará ainda mais furioso. — Você sabe que o
Plínio não pode ter filhos.

— Não me interessa se o cornô do seu marido é


brocha! — Vocifero — A única certeza é que se
você estiver esperando uma criança, o que eu
duvido que esteja... É QUE NÃO É MEU FILHO.

— Eu não tenho outros homens. — Ela se


defende e tenta vir me abraçar. — Você sabe como
a nossa química é.

Sandra esfrega o corpo contra o meu e tenta


beijar meu rosto.

— Não preciso de outro homem.

— Para com isso Sandra. — Eu a afasto


segurando pelos braços, impondo distância entre
nós. — Esse teatro é no mínimo ridículo e
humilhante pra nós dois.

— Estou falando sério sobre a gravidez. — Ela


tenta argumentar. — Eu fui no médico semana
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passada e estou com oito semanas. Posso te mostrar


os exames na minha bolsa. Eu não tô mentindo!

— Eu nunca te fodi sem camisinha caralho! —


Rujo mais irado por ela querer continuar com isso.
— Se estiver grávida não é meu. É do carteiro, do
açougueiro, de qualquer um menos meu!

— Por que você está me machucando assim. —


Ela se desmancha em choro e cai na cama. — Não
é justo o que está fazendo comigo. Eu nunca te
incomodei com coisas de ciúmes, sabia muito bem
que você tinha outras mulheres.

— Claro. Porque eu sou um homem solteiro.


Nunca te devi satisfação nenhuma. Sempre trepei
com quem eu quis.

— Porque você está querendo mudar as coisas?


— Ela passa a mão pelos olhos manchados de
maquiagem. — Estava dando tudo tão certo pra
nós.

— PORQUE EU AMO A MARIANA


PORRA! ESPEREI QUINZE ANOS POR ELA
CARALHO! E É COM ELA QUE EU QUERO
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FICAR.

Ela pega uma das toalhas dobradas e enxuga as


lágrimas.

— Ah é?! E como é que ela vai reagir quando


souber que você está esperando um filho meu ã?!

Esmurro a porta com força e a fuzilo com olhar.

— Não tem filho nenhum caralho. Para de ficar


repetindo isso. EU SEMPRE USO CAMISINHA.
SEMPRE.

Aquilo era verdade.

Eu sempre usava camisinha, exceto com a


Galega.

Tiro algumas notas da carteira e deixo sobre o


frigobar.

— Não tenho mais tempo pra perder. Aqui tem


dinheiro para o táxi e o suficiente pra pagar a suíte.
Tome um banho, se recomponha e vá pra sua casa
esperar pelo seu marido. Ou faça a merda que
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quiser.

— Não Lipe. — Ela sai da cama e cai de


joelhos me agarrando pelas pernas — Não faz
assim. — Ela se humilha aos prantos. — Esquece
tudo o que falei, eu tô nervosa, eu não quero que
isso acabe, por favor. Eu faço qualquer coisa por
você.

Sandra fica de pé e tenta me abraçar.

— Eu te amo Lipe. Te amo.

Eu a seguro com firmeza pelos braços


respondendo com dureza.

— Mas eu não te amo. Agora para com esse


teatro ridículo que eu tenho outras merdas pra
resolver.

Eu a solto e desço as escadas em direção a


garagem onde deixei minha moto.

— Você vai se arrepender disso Felipe. — Eu a


ouço gritar. — Eu prometo que vai.

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E eu já estava mesmo.

Arrependido de ter fodido com uma louca como


ela.

Enfio o capacete e subo na moto. Olho uma


última vez o celular antes de pilotar em direção a
minha casa.

Nenhuma ligação.

Nenhum sinal de que Adriana se quer tinha


recebido qualquer contato meu.

✽✽✽

Quando estava estacionando em frente a minha


casa vi Lucio bater na porta da frente da casa de
Mariana. Tirei o capacete e fui na direção dele, que

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nem disfarçou a decepção ao me ver.

— Algum problema? — Digo com aspereza.

— AH... boa tarde Felipe, vim falar com a


Mariana.

Nem me dou ao trabalho de responder seu


cumprimento.

— Sobre? — O encaro e cruzo os braços na


frente do corpo.

Ele olha para o mato alto.

— Achei que ela podia ter problemas com o


cortador, ele tem um botãozinho que as vezes
precisa de um jeitinho.

— Aham... botãozinho com defeito pode deixar


que eu aviso pra ela. Acho que eu já tinha te dito
ontem que eu mesmo ia cuidar do gramado da
Mariana.

— é... — Ele parece sem graça mas alfineta. —


Mas você já ajuda tantas vizinhas, achei que dessa
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nova eu podia cuidar.

Dou uma risadinha com deboche.

— Não amigo. — Dou um passo mais para


perto dele e ele recua um para trás engolindo em
seco. — Tudo que diz respeito a Mariana diz
respeito a mim também. Entendeu?

— Já entendi. — Lucio responde meio murcho


e se vai.

Vou até minha garagem e pego o meu cortador,


no dia anterior eu tinha mentido que não tinha um
só pra dar um corte no Lucio já que ele estava cheio
de segundas intenções e excesso de bondade pra
cima da minha Galega.

Ligo a extensão na tomada externa e começo a


cuidar do jardim de Mariana. Usaria minha tarde de
folga e faria uma surpresa a ela.

✽✽✽

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Mariana
— Olha moço. Eu não te conheço e o pouco
que eu sei me faz querer saber menos ainda. —
Digo tentando tomar as compras de volta.— Agora
pode deixar que eu carrego as minhas compras
sozinhas.

— Cezar. — Ele responde sem me devolver


minhas sacolas.

— ã?

— Cezar. Meu nome é Cezar.

Eu não queria saber o nome dele, não queria


saber nada do estranho de cabelos ondulados
penteados para trás e dentes brancos alinhados em
um sorriso fácil.

— Pra que essa violência. A gente chega na


“camaradage” pra fazer umas gentileza e é recebido
na pedrada. — Responde cheio de marra.
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— se você não me devolver vou achar que você


tá me assaltando.

Ele abre minhas sacolas e espia dentro.

— Quero roubar isso não. Talvez um sorriso de


uma loira braba. Isso eu quero. — Cezar devolve
minhas compras e eu começo a caminhar um pouco
mais rápido

Ele me segue, as mãos no bolso da calça jeans.

— Quer parar de andar atrás de mim, por favor.

— tô de boas... — Ele assobia. — Só


caminhando pra visitar a minha irmã.

A raputenga da Sandra. Reviro os olhos ao


lembrar dela.

— Sabe que eu fiquei sabendo? — Ele para de


assobiar — Que vou ser tio.

Eu tropeço e quase me vou ao chão mas Cezar


me impede que eu caia e eu me endireito um pouco
zonza com o que acabou de dizer.
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— Viu se eu não tivesse por aqui já tava


estabacada na calçada. E aqui no Rio... esses
mulequinho vê uma moça assim cheia de sacola um
alvo fácil fácil.

— De crime você entende. — Resmungo e sigo


com a cabeça baixa.

— Eu?! Não roubo não. — Ele faz pausa. —


Sou homem de negócios.

— Eu não preciso saber o que você faz. Não sei


nem porque você tá conversando comigo.

Digo sentindo o peito apertado.

— é que eu sou um cara muito sociável. — Ele


debocha. — Agora pelo visto a gente vai se ver
mais seguido, vou vir toda hora ver o molequinho
da Sandrinha.

Cada vez que ele falava da gravidez daquela


vagabunda eu sentia vontade de vomitar.

E se fosse Felipe o pai criança que ela estava


esperando? Eu não queria nem pensar nisso.
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— é bom eu marcar presença, mostrar pro cara


que a Sandrinha tem família por ela sabe?

— Eu não quero saber! — Respondo e continuo


caminhando.

— Porque sabe que tem uns cara por aí que faz


os filho e solta sem assumir... ah isso me deixa
louco. Cê deve saber né mó barra criar filho
sozinha.

— Não me compara com a sua irmã que você


não vai gostar do que eu tenho pra dizer.

Eu subo os degraus em direção a porta da frente


que já está entreaberta.

— Bom papo Mari. Beijo. — Ele responde


assim que bato a porta empurrando com o pé.
Largo as compras no chão e tranco a porta o mais
rápido que posso.

Juliano e Malu estão entretidos demais com os


celulares para perceberem meu estado.

Pego apenas minha bolsa e vou para meu


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quarto. Fecho a porta e tiro as sapatilhas antes de


deitar na cama. Meu travesseiro abafa meu choro
eu o tiro do rosto apenas quando consigo parar de
chorar…

Pego meu celular de serviço e adiciono o


contato de Nice. Falar com ela talvez me fizesse
bem.

Abri o whatsapp e mandei a primeira


mensagem.

Eu: Oi vagaba, aqui é a Nana falando.

Menos de cinco segundos depois ela manda


uma resposta.

NICE: O céu vai se abrir, tu comprou um


celular finalmente!

Eu: É emprestado do trabalho. Tô ficando


importante.

Nice: ahahahahah tá dando pro tesudo do


Leonardo e ganhou um celular novo, confessa.

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EU: Teu cu! Kkkkkk é por comodato quando


sair de lá tenho que devolver.

Nice: E aí como estão ? Já se instalaram na


casa? Ficaram na casa antiga ou foram pra outro
lugar.

Eu: Na casa onde passei minha infância. Eu e as


crias fizemos uma geral, pintamos... comprei umas
coisas de segunda mão parceladas em muitas e
muitas vezes.

Nice: Hum... E o tal do Felipe. Você chegou a


encontrar com ele?

Eu: Sim.

Nice: E aí?! Conta logo!

Eu: Resumo: ELE É O REI DOS CANALHAS.

Nice: Mas isso eu já sabia quando tu me contou


que as cartas voltaram.

Eu: Ele tem um caso com a vizinha da frente


que é casada. Tu tem que ver o marido, um
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pamonha que mal passa na porta por causa de tanto


chifre.

Nice manda um emoticon de espanto.

Eu: A gente ficou três vezes.

NICE: QUEEEE?????

Eu: Nossas brigas se transformavam em sexo.

Nice: Mulher tu tá louca????

Eu: Eu sei, mas foi uma coisa física intensa


demais, mas agora deu. Já deu no que tinha que dar.
Eu não sou louca de me envolver com um cara
como ele. Sabia que a mulher que ele sai chamou o
irmão traficante pra me assustar?!

Nice: PQP que babado. Fica longe desse cara


que é encrenca Nana.

Eu: Eu sei. Eu vou ficar. Ouvi dizer que essa


mulher casada ta gravida.

Nice enviada um emoticon com olhos


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arregalados.

Eu: Quando você vai vir me visitar?

Nice: Assim que der amiga, mas vê se te cuida


e fica longe desse Felipe que é fria.

Felipe é quente. Quente como o fogo e pelo


visto boa parte da população carioca já tinha
provado desse calor.

Eu: Amanhã a Malu e o Ju já começam a


estudar de novo e eu começo na nova loja. Tem que
ver a chiqueza que é o lugar. Ganhei até um kit de
maquiagem porque além do uniforme e sapatos de
salto fino eu tenho que estar bem maquiada. As
atendentes pareciam aeromoças que a gente vê nos
filmes.

Nice: kkkkkkkkkkkkk

Apesar da conversa com Nice estar me


distraindo um pouco eu não conseguia pensar em
outra coisa que não fosse a suposta gravidez de
Sandra. Felipe seria pai outra vez e dessa vez ele
saberia. Como ele teria reagido a notícia? Será que
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ele já sabia? Assumiria a criança?

— Mãeeeeee! — Juliano grita na porta.

— O que?!

— O vizinho aí do lado tá aí na frente.

Meu coração acelera no peito e eu salto da


cama.

— Já vou.

Inspiro fundo antes de abrir a porta e sair do


quarto.

— Mãe o que a gente vai jantar? — Ju me


indaga. — TÔ com fome.

— Vai na geladeira e pega uma fruta.

— Mas fruta não é comida.

Filhos... Para eles você não é nada mais do que


sinônimo de roupas limpas e barriga cheia.

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Eu o fuzilo com o olhar e ele retruca

— Vou fazer um miojo. — Responde amoado.

Juliano vai para a cozinha e eu sigo para a porta


da frente.

Eu abro a porta e encontro Felipe segurando um


girassol.

— Espero que não se importe. — Ele me


entrega a flor. — Roubei do seu jardim.

Jardim? Eu não tinha jardim, era um amontoado


de mato e grama alta.

Só então me surpreendo com a grama toda


aparada e grandes girassóis. Uma porção deles.

Eu saio para fora da casa e fecho a porta atrás


de mim.

Eu não havia notado quando praticamente


fugira da desagradável conversa com Cezar.

— Eu já sei sobre a gravidez.


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— Não é meu. — Ele se antecipa.

— Tanto faz.

Então eu decido em segundos arrancá-lo da


minha vida de uma vez por toda, porque se Felipe
ficasse mais... eu morreria ao perde-lo de novo.

— Olha Felipe, eu não me importo com o


tamanho da lista de mulheres que você já dormiu
com quantas você já teve filhos, com quantas não
teve. Eu só quero paz pra mim e pra minha família.
Eu não quero vadias loucas revirando o meu lixo,
não quero abrir a minha porta e dar de cara com um
jipe com homens armados, eu quero só me sentir
segura, quero segurança para os meus filhos. Eu
não quero mais estresses do que eu já tenho. Então
para de querer tentar recomeçar as coisas de onde a
gente parou, porque você não é o mesmo garoto por
quem eu me apaixonei e eu não sou mais aquela
garotinha. Vamos ser apenas vizinhos e nada mais.

Disse tudo sem desviar o olhar dos dele. Com o


coração sangrando eu mal respiro. Tenho que
manter a calma e mostrar a ele segurança em cada

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palavra.

— Boa noite, Felipe.

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Capítulo 20
Felipe

Com um nó na garganta eu voltei para casa depois


de Mariana ter dito com todas as letras que não
queria nada comigo. Em parte ela estava certa, eu já
tinha trepado com boa parte da vizinhas, as mais
gostosas lógico, mas isso era antes. Antes de sua
volta. O que ela queria que eu fizesse nesses quinze
anos sem nenhuma notícia nem nada, virasse
padre?

Afoguei minhas mágoas com sexo, incontáveis


vezes e durante anos fui me blindando contra
qualquer tipo de relacionamento a longo prazo.
Pelo menos até Adriana aparecer em minha vida,
ela e minha mãe se davam tão bem.
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A fragilidade de minha mãe e o modo como ela


se apegara em Adriana durante seus últimos
momentos foram decisivos para que eu acabasse
aceitando aquele absurdo de noivado, agora eu
estava atolado numa merda que não tinha tamanho.

Tomei mais um gole do vinho tinto e me


recostei mais na banheira, a água coberta com uma
grossa camada espuma subiram de nível. Inspirei
fundos e fechei os olhos tentando ne lembrar da
última vez que estive com Adriana, talvez
buscando na memória eu acabasse encontrando
alguma pista de seu paradeiro, mas não me vinha
nada a cabeça.

Merda!

Meu celular vibrou sobre a toalha que estava


dobrada no cesto quadro de vime, ao lado da
banheira.

O mais rápido que pude eu larguei a taça e


apanhei o celular. Tinha que ser Adriana, ela não
podia simplesmente ignorar o caralho das minhas
mensagens. Eu já tinha até perdido as contas de

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quantos áudios eu já havia mandado pra ela.

— Cacete. — Xingo ao perceber que a


mensagem recém recebida é de Valeria. A
professora nova de química que trabalhava comigo.

Valéria: Sozinho.

Ignoro a mensagem e volto a me acomodar na


banheira.

O celular vibra outra vez.

Valeria: Estive pensando em seu pau hoje.

Logo depois da mensagem explicita ela me


manda uma selfie onde aparece seus seios nus e sua
boca, os lábios entre abertos.

Valeria: O que acha de uma visitinha. Dessa


vez posso ser eu a conhecer a sua casa.

Seleciono o perfil dela e clico nos três


pontinhos no lado superior direito da tela de meu
celular. Escolho a opção “Bloquear” e coloco o
celular no silencioso.
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Eu não queria Valeria, não queria Sandra ou


qualquer outra mulher, eu queria Mariana, mas para
isso eu teria que resolver a porra de uma tormenta
como nome de ADRIANA. Eu sabia que uma hora
ou outra ela ia acabar aparecendo.

Ouvi estilhaços seguidos do som de vidro


caindo. O barulho viera da sala. E mais outro
estilhaço. E um terceiro!

Me levanto da banheira e enrolo a toalha na


cintura.

Descalço e com o corpo ainda pingando eu


caminho para a sala.

Os vidros da janelas estão quebrados.

Sobre o tapete da sala pedras quase do tamanho


de maçãs. Pedras brancas, as mesmas pedras que eu
havia comprado para enfeitar o jardim de Mariana.

— Que merda é essa? — Rosno sozinho e um


último estilhaço de meu quarto. Corro a tempo de
ver a silhueta de Juliano correndo de volta pra casa
antes de ser pego no flagra.
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— Mas que garoto ordinário. — Xingo.

Pego uma muda de roupa e me visto com


pressa.

Eu não queria discutir com a Nana sobre o


filho, mas o garoto precisava saber que não podia
sair por aí sem motivo algum e vandalizar o que
bem entendesse.

✽✽✽

Mariana
Eu lavava a louça da janta quando a porta ouvi
as batidas secas e rápidas na porta da frente.

Desta vez nem Ju nem mesmo Malu foram


atender. Enxuguei as mãos no pano de prato
esticado sobre o escorredor metálico e fui atender.

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Eu sabia que era Felipe. Eu apenas podia sentir


sua presença ali do outro lado da porta, mas mesmo
assim perguntei.

— Quem é?

— Sou eu.

— Vai embora Felipe. A gente já conversou


tudo que tinha pra conversar.

— Eu não vim falar sobre nós. É sobre o


Juliano.

Estremeço na possibilidade de Felipe já saber


de tudo. Mas como? Em tão pouco tempo? Talvez
Sandra tivesse resolvido jogar as cartas na mesa e
esfrega-las na cara de Felipe.

Destranco a porta e me deparo Felipe. Os


cabelos pretos pingando sobre a camiseta preta
colada ao corpo. O perfume que vem dele me
desconcerta por uma fração de segundos mas logo
eu volto a mim.

— O que tem pra falar sobre o meu filho. —


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Digo me segurando na porta.

— É melhor chamar ele aqui. Quero que ele


participe da conversa.

Minhas pernas bambeiam mas eu mantenho


contato visual, por mais que eu esteja
desmanchando de medo por dentro.

Meu Deus, ele sabe.

— Por que?

— Só chama ele Mariana.

Minha respiração se acelera e eu faço um


esforço sobre humano para me manter de pé.

— Primeiro me diz o motivo. — Insisto.

Felipe estende a mão na direção da própria


casa.

— Quero saber porque seu filho quebrou


praticamente todas as minhas janelas.

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Meu coração volta a bater num ritmo quase


normal e eu quase solto um suspiro de alívio.

Eu viro o rosto na direção da sala, mas nenhum


deles está ali então grito.

— Juliaaaaanooo vem cá!

Ele não me responde.

— Moleque eu vou te arrastar pelas orelhas se


você não vier aqui agora! — Ameaço.

Segundos depois ele aparece com a cara mais


deslavada e tira os fones de ouvido.

— Chamou mãe.

— Não Juliano, eu tô cantando seu nome aos


gritos porque é assim que eu passo as minhas horas
de descanso. Gritando que nem uma louca. Vem
aqui agora Juliano.

Assim que ele chega mais perto eu abro mais a


porta mostrando quem está ali. Eles trocam olhares
irritados mas sou eu que começo o interrogatório.
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— Foi você que quebrou as janelas do Felipe na


pedrada?

— Não. — Ele enfia o celular no bolso da


bermuda e capricha na cara de desentendido.

— Claro que foi. Eu te vi correndo agora a


pouco. — Felipe nos interrompe.

— o Ju estava comigo no quarto mãe. — Malu


se mete na conversa — A gente estava jogando
fortnite.

— “Fort” o que?

— Fortnite. — Malu explica. — Um jogo. —


Ela defende o irmão, mas tenho certeza que os dois
estão mentindo.

— Peçam desculpas ao Felipe.

— Mas mãeeee! — Eles protestam em coro e


eu lanço um olhar e ambos o encaram, contrariados
eles acabam obedecendo. — Desculpa.

— Amanhã você chama um vidraceiro que os


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dois vão pagar o conserto dos vidros.

— Com que dinheiro? — Juliano me questiona


arregalando os olhos esverdeados. — Não fiz nada
droga.

— Com o dinheiro que vocês vão ganhar


trabalhando no turno inverso da escola. Vão
trabalhar até pagar tudinho.

Me viro para Felipe.

— Não é pelo dinheiro. Eu só quero saber o


motivo do ataque gratuito.

Juliano o ignora e me encara furioso.

— Já entendi que vou trabalhar pra pagar.


Agora posso ir pro meu quarto?

— Vão vocês dois. Já vou lá ter uma


“conversa” com vocês dois.

Malu segue o irmão sem dizer nada e assim que


se afastam eu os ouço bater a porta.

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— Ahhhh que eu vou levar minhas havaianas


pra conversar de perto com vocês dois. — Ameaço
no grito.

— Pelo visto seus filhos também não vão muito


com a minha cara. — Felipe umedece os lábios e
passa as mãos pelos cabelos molhados.

— Desculpa por isso. Vou ter uma conversinha


com eles. Isso não vai mais acontecer.

— Já fiz bem pior na minha adolescência. Eu


não vim aqui pra brigar. A última coisa que eu
quero é brigar com você.

Meu coração se acelera de novo e eu sinto um


friozinho na barriga quando ele se aproxima.

— Você disse que não tem mais espaço pra


mim na sua vida. — Ele chega mais perto e toca
meu queixo. — Mas eu não acredito. Grava minhas
palavras Galega.

Felipe roça o polegar em meu lábio superior e


aquilo reflete direto no meu sexo.

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— Não importa o que você diga. — Ele desce


um pouco os dedos até o centro de meu peito. Sinto
meu coração arrebentando com força como se
estivesse prestes a explodir — Eu marquei você,
aqui.

Com o indicador ele dá leves batidas em meu


peito. E continua falando

— E também aqui. — Sua mão desce para meu


sexo e ele aperta minha boceta por cima do
shortinho surrado de algodão.

Meu sexo ainda está dolorido por causa de


nossa noite anterior

— Para com isso Felipe. — Minha voz sai


tremida e sem coragem.

Diabo de homem que sabe mexer comigo.

Fecho a porta antes que ele me puxe para seus


braços e me beije com força tomando-me com
força como ele adora fazer... e como eu adoro que
ele faça.

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O quão ruim mesmo isso seria?

Muito ruim Nana, muito muito muito ruim.


Tento convencer a mim mesma.

Vou para o banheiro e abro a torneira da pia.


Minhas mãos estão tremendo, e eu as uno para
fazer uma conchinha e lavar o rosto.

ÁGUA FRIA BEM FRIA PRA ACALMAR O


CORPO que não sabe se portar quando ele está
perto.

Eu tinha que manter minha posição, não


adiantava dizer que não o queria mas não conseguir
manter a palavra nem a calcinha seca quando ele
chegava mais perto.

Desliguei a torneira e sequei o rosto e a nuca.

Estava na hora de ser firme e ir lá tirar


satisfação com Juliano e Malu pela traquinagem.

Saí do banheiro e fui direto para o quarto deles.

Juliano estava na cama de cima do beliche e


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Maria Luiza na cama de baixo. Ambos guardaram o


celular debaixo do travesseiro assim que eu entrei ,
estavam com medo que eu tomasse o presente que
eles recém haviam ganhado.

— Alguém vai me falar o que aconteceu hoje?

Eles mantém-se unidos no silêncio.

— O que deu em você Juliano? E se você acerta


uma pedrada no Felipe ou sei lá quem? Quer ir
preso garoto?

Ele me fita com a cara emburrada, os cabelos


loiros bagunçados pelo boné.

— Eu não tenho dinheiro pra pagar advogado


pra te tirar da Febem! É Isso que você quer? Ir
preso? Porque é pra lá que marginal vai!

Coloco as mãos na cintura.

— E eu não criei filho marginal. Tá me ouvindo


Juliano.

— Mas o Ju tava comigo. — Malu tenta


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defender o irmão.

— Mentira! Mentira! Mentira! Eu conheço


vocês só pelo cheiro. Sei exatamente quando vocês
tão mentindo.

Ela se encolhe na cama com a xingada e eu


percebo que estou gritando.

— Amanhã depois do café vocês vão sair e só


vão aparecer de volta com algum bico aqui pela
vizinhança. E ai de vocês dois se me aparecerem
aqui sem nada. Vocês não me testem.

✽✽✽

Felipe

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No dia seguinte tive que passar boa parte de


minha manhã em conselho de classe e a outra
metade da manhã ouvindo da diretora que eu
deveria ser mais flexíveis com os alunos, menos
rígido.

Almocei em um restaurante em frente a escola.


Comecei a comer a ala minuta assim que o garçom
colocou meu prato sobre a mesa.

— Está faminto o senhor difícil. — Ouvi a voz


de Valéria atrás de mim.

Mastigo a comida e engulo. Ela se senta na


cadeira a minha frente mesmo sem ser convidada.

— Boa tarde Valéria. — Respondo irritado eu


não dou muita importância a sua presença ali.

— Achei que tinha esquecido até do meu nome.


— Ela pega uma de minhas batatas fritas e
mordisca. — Mandei mensagem ontem. Não
recebeu?

Ela sabe que sim.

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Afrouxo um dos botões de minha camisa e


continuo o almoço.

— Recebi, mas não estava no clima para


responder. Aliás quando conversamos aquela noite
achei que você entendesse bem o conceito de sexo
casual. Como um pedaço da carne e misturo o arroz
a salada e ao feijão.

— Meu Deus, você é um grosso.

Balanço a cabeça e engulo a comida.

— Grosso, cavalo. Ogro. Cafajeste. —


Acrescento mais alguns adjetivos. — Por que
mesmo estamos conversando? Achei que o fato de
eu não responder a seu pedido desesperado já fosse
um sinal explicito de que eu não queria mais nada
além da noite de sexo que a gente teve semanas
atrás.

Ela pega meu copo de água gelada e joga em


meu rosto.

— Filho da puta. — Ela se levanta ofendida. —


Vai pro inferno.
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— Com certeza. — Respondo com um sorriso


cínico e com o guardanapo eu enxugo o rosto.

✽✽✽

Volto para o interior da escola e caminho pelo


pátio sem pressa. O burburinho das vozes juvenis,
gritos e conversas passa por mim desapercebido.
Caminho pelos corredores em direção a sala do
nono ano. Uma das turmas mais tranquilas que eu
lecionava. Minha turma de regência.

13 horas.

O sinal já havia tocado.

Eu entrava em sala exatamente cinco minutos


após o primeiro alarme, e após a minha entrada o
aluno só poderia entrar com autorização expressa
dos pais ou da diretoria.

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Entrei na sala de aula e aos poucos o barulho


das conversa foi diminuindo a medida em que fui
me acomodando na cadeira e organizando meus
livros sobre a mesa.

13:05.

Me levanto fecho a porta e pego uma caneta


para expor no quadro uma situação problema
envolvendo trigonometria.

— Abram seus livros na página trezentos e


catorze. — Digo enquanto escrevo o extenso
problema no quadro branco.

Risadinhas e cochichos vem do fundo da sala.

— A conversa aí atrás parece excelente. —


Vocifero me virando para o grupinho de garotas
que estão viradas para trás.

— As senhoritas provavelmente não precisam


se concentrar na matéria, tenho certeza que se seu
abrir meu caderno de chamada verei que as duas
mocinhas falantes já devem ter nota sobrando na
média. Por que não vem até aqui a frente e mostram
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para seus colegas que estão interessados em


aprender e resolvem ao exercício.

Elas se calam e mesmo a distância posso vê-las


corando.

— Claro. — Juliano me responde.

O filho de Mariana está sentado praticamente


jogado na cadeira. Ele estreita os olhos verdes na
direção do quadro e tamborila os dedos sobre a
classe.

— Barbada, professor.

Juliano se levanta.

Ele é alto. Talvez um dos mais altos da turma.


Os olhares curiosos o acompanham enquanto ele
caminha em minha direção , desafiadoramente.
Ele pega uma caneta preta e começa a calcular.

O silêncio impera na sala. O único som ouvido


é o da caneta rabiscando extensos cálculos

Analiso tudo em silêncio.


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Minutos depois ele encerra o calculo e troca a


caneta preta por uma caneta azul e corrige com um
enorme símbolo de certo ao lado da resposta final.

Juliano se vira com um ar debochado e cruza os


dois braços na frente do peito fazendo uma
reverência na frente do peito, como um artista
agradecendo sua plateia.

— Pode se sentar. — Respondo e retomo a aula


que transcorre por duas horas seguintes sem mais
nenhuma interrupção.

Quando o alarme soa, os alunos se encaminham


as pressas para a saída , e assim que vejo Juliano
sair cercado por duas garotas eu o chamo.

— Você não. Preciso falar com você.

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CAPÍTULO 21
Felipe

Juliano cruzou os braços na frente do peito e ficou


me encarando de pé.

— Pode sentar.

— Tô bem de pé — Ele retruca quase de


imediato.

Largo a caneta sobre os cadernos de chamada.

— Está com a sua folha de transferência ?

Ele abre a pasta plástica e me entrega um


quadro de notas.

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— Uma coleção impressionante de notas. —


Avalio em voz baixa.

A maioria ali eram notas dez e nove e meio as


mais baixas. Não era a toa que ele esbanjava
petulância durante toda a aula e nem se dava ao
trabalho de erguer a cabeça enquanto eu explicava
a conteúdo para a turma.

— Só isso?

— Não.

Abro minha pasta de couro com alguns


exercícios e entrego a ele.

— Pra te manter ocupado. — Explico. — E


longe das minhas janelas.

— Sabe que essa merda aqui não é justo.

— Olha essa boca Juliano. Seus pais não te


ensinaram a respeitar os mais velhos?

Ele me fuzila com seus olhos esverdeados e eu


posso sentir a fúria de seu olhar.
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Me arrependo assim que menciono os pais dele


e adoto uma posição um pouco menos rígida.

— Isso comporá as suas notas e servirá para


que eu avalie se você pode ou não acompanhar a
turma.

— Sabe que eu dou banho nesse bando de


boboquinha mimado.

— Só vou saber quando você me entregar os


exercícios que te pedi.

Ele enfia os papeis com violência na pasta e


soca tudo dentro da mochila e caminha em direção
a porta.

— Espera.

Eu o ouço bufar.

— Por que esse ódio gratuito? — Eu questiono.

Juliano balança a cabeça sem acreditar.

— Gratuito?! — Ele volta e para na minha


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frente. — Eu não vou com a sua cara professor.


Sempre que você e minha mãe conversam eu a
ouço chorando depois. Então quer saber? É eu
arrebentei a porra das suas janelas sim. A gente
nunca tinha visto nossa mãe com cara de choro
antes de virmos pra cá e isso se tornou uma coisa
bem comum de uns dias pra cá.

Ele vira as costas e sai antes que eu tenha


qualquer coisa a dizer.

Juliano era genioso mas no fundo aquela fúria


toda tinha fundamento. Eu estava fazendo galega
sofrer. Mesmo sem querer, mas ainda assim ela
estava sofrendo, estava chorando... e eu era o
culpado.

Meu celular vibrou no bolso interno do blazer.

Uma nova mensagem.

Mensagem de Adriana.

“Oi amor, nos falamos assim que eu voltar.


Estou em uma conferência no Chile. Me manda
umas fotinhos das suas últimas saídas. Tenho que
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me entreter de algum jeito. O povo daqui é muito


feio.”

Eu tinha um relacionamento aberto com


Adriana. Ela era uma voyer e se excitava ao me ver
com outras mulheres. Eu já tinha perdido as contas
de quantas fotos eu já tinha mandado pra ela.

Adriana se masturbava vendo as fotos e vídeos


de minhas saídas com outras mulheres, segundo ela
aquilo era quase tão excitante quanto trepar.

O celular vibra e na tela recebo uma foto nossa


na banheira de minha casa.

Adriana: “Saudades dos nossos banhos”

Digito a mensagem e envio.

EU: Quando você volta. Porra Adriana você


não está do outro lado do mundo em algum abrigo
no subsolo que te impossibilite de atender o caralho
do celular. ME LIGA ! É URGENTE.

Mas a mensagem não foi visualizada.

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Tentei ligar mas a ligação nem é completada.

Eu não podia me envolver com a Nana


enquanto estivesse enforcado com esse bendito
noivado com Adriana. Tinha que ser rápido.

Mariana atraía aos homens de um jeito louco e


nem se dava conta disso. Lúcio, o irmão de
Sandra... Eu não podia esperar tanto.

✽✽✽

No intervalo fui para a sala dos professores e


me sentei no sofá próximo a janela com vista para o
pátio. Valéria conversava com o professor de física
sobre os novos alunos. Na verdade a transferência
de Maria Luiza e Juliano era o assunto da vez na
boca ágil das professoras que faziam pausas
pequenas para bebericar café e conversar sem
parar.

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— Você viu aquele garoto? Não parava de


conversar um minuto, foi quase impossível dar aula
no nono ano. A roda de meninas em volta dele...
Não sei o que está havendo com essa juventude.

— Hoje não tenho essa turma, só amanhã.

— Sorte a sua. — Valéria responde sem parar


de lixar as unhas. — Mas sabe que a irmã do garoto
é quieta. Nem parecem parentes.

—Eu vi. A Maria Luiza — Edna a professora


de religião se mete na conversa. — Eu não
transferiria meus filhos na metade do ano. Ainda
mais se eles estudaram a vida toda em escola
pública. Me diz como é que eles vão acompanhar o
ritmo dos daqui?

— É — Valéria concorda. — Depois não dão


conta e só ficam infernizando na sala de aula.

Eu decido intervir naquela diarreaia verbal mas


o coro de vozes clamando por briga vindo da rua
acaba me chamando a atenção. Afasto a cortina o
suficiente para ver a confusão formada.

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Juliano está montado em outro garoto


distribuindo socos enquanto o mantém agarrado
pela gola da camiseta do uniforme.

Saio da sala dos professores e passo por entre o


bolo de adolescentes em volta da briga.

Eu o agarro e o puxo para trás.

O garoto é forte mas consigo detê-lo.

— Chega Juliano. — O aperto com mais força


para contê-lo.

— Me solta porra!

— Solta ele “sor”! — A gurizada grita e as


garotas vibram com a briga.

Com custo cosigo tirá-lo dali e Maria luiza nos


segue.

✽✽✽

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Na ante sala da direção Juliano estava afundado


na cadeira, os olhos verdes irradiando raiva
suavizaram apenas quando pousaram sobre a irmã.

— Tá bem?

Maria Luiza concorda, no rosto uma expressão


assustada.

— A gente vai ser expulso, no primeiro dia. A


mãe vai nos matar.

Ele bufa e me encara.

— Vai ficar parado aí? —Rosna pra mim.

— Por que você bateu naquele garoto?

— Porque eu quis.

— Não. — A irmã dele o interrompe, e explica


com a cabeça baixa. — Ele enfio a mão por
debaixo da minha saia e me chamou de pretinha
linda.— Ela faz uma pausa — O Ju só estava me
defendendo.

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Assim que a porta ao meu lado é aberta, vejo o


corpo rechonchudo da diretora Martina.

— Martinha, quero falar com você antes. —


Intervenho e entro na sala.

Nos conhecíamos a quase vinte anos. Ela era


professora no tempo que eu ainda estudava nesta
escola. Depois de anos assumira a direção da escola
e apesar dos seus sessenta e poucos anos mantinha
a escola bem organizada.

— Vou ter que chamar a mãe desse garoto.


Acredita que elas fez a transferência ontem?
Expulsões são sempre um problema

— Eu sei. Mas você realmente acha que é caso


para expulsão? Isso pode ser resolvido com
diálogo.

— Que diálogo Felipe. O garoto espancado


perdeu dois dentes da frente. A qualquer minuto
eles estarão aqui querendo comer o fígado do
responsável.

— O garoto enfiou a mão por debaixo da saia


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da menina e ainda por cima a chamou de pretinha.


— Fico na defensiva. — Martina, os problemas só
irão aumentar se expulsarem esses dois.

— Nada justifica a violência. Você sabe muito


bem que a tolerância da escola é zero quando o
assunto é violência. Não podemos deixar isso
passar.

— E não deixem. Deem uma punição. O faça,


limpar as classes, mas expulsar o garoto que estava
defendendo a irmã?

Martina olha a ficha de Juliano.

— Toda essa defesa veemente é porque a mãe


do menino foi sua antiga namorada? — Ela ajeita
os óculos lendo o nome de Mariana nos dados.

— Não. Eu apenas estou pelo certo, pelo justo.


Deve ser punido sim, mas não ser privado da
melhor escola do Rio de Janeiro. Se fossem os seus
filhos Martina, não mereceriam gostaria que
recebessem uma segunda chance.

Martina me avalia por detrás dos óculos de


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armação vermelha.

Ela estreita os lábios finos, com fundas marcas


ao redor da boca e finalmente

— Nunca vi você defender nenhum aluno


desse jeito.

— Nunca achei um que merecesse ser


defendido. — Rebato.

A porta foi aberta outra vez. Um homem de


meia idade entrou sem ser anunciado e fechou a
porta atrás de si.

— Diretora, porque o garoto que espancou o


meu filho ainda está dentro da escola? Eu não
desembolso mais de três mil reais por MÊS , para o
meu filho ser agredido dentro da escola.

—Senhor Faro.

— Senhor Faro não, cadê os pais desse garoto,


quero a ficha completa, esse tipo de gente só
responde com processo.

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Martina me encara e volta a olhar para o


homem de terno cinza.

— Não vou fornecer dados pessoais do pais de


nossos alunos. Tudo será resolvido dentro do
ambiente escolar.

O homem calvo se indigna e eleva a voz.

— Eu trabalho no ministério público. É melhor


você pensar duas vezes de qual lado vai ficar
senhora. Porque assim fica mais fácil de processar
tudo.

— Senhor Faro. — Cruzo os braços e o


enfrento. — Primeiro o senhor abaixa o tom de voz,
e só depois conversaremos civilizadamente.

— E você quem é o pai? Por que se não for não


me interrompa mais, cada hora aqui é dinheiro que
eu estou perdendo, clientes que estou deixando de
atender.

— Não sou o pai. — Respondo. — Mas quero


resolver a situação. E como o senhor é advogado
vai ficar mais fácil sua compreensão. Os dois
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alunos serão punidos para que a situação não volte


mais a acontecer.

— Lesão corporal, querido. — O homem se


exalta. — Meu filho foi ferido. Ele não tem que ser
punido. Inclusive vou exigir um ressarcimento da
escola por todo esse transtorno.

— Eu não entendo muito de leis, mas até onde


eu me lembre racismo é crime, assédio sexual
também. Seu filho enfiou a mão por debaixo da
roupa de uma aluna e a chamou de “pretinha linda”.
Então se quer realmente levar isso a justiça também
pode deixar seus dados que eu pessoalmente
entregarei a mãe do Juliano, pois eu sei que ela
entrará com o devido processo.

Depois de quase uma hora de discussão o pai do


garoto agredido aceitou resolver o conflito sem
envolver a justiça. Dei a ele meu número para que
me mandasse as custas médicas com o garoto. Eu
não queria que Mariana se incomodasse com mais
isso.

Depois que Juliano e Maria Luiza saíram da

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sala da diretora Martina.

— Obrigada professor. — Malu me agradece e


cutuca o irmão para que ele faça o mesmo.

— É valeu. — Ele diz meio contrariado mas


mesmo assim o faz.

— Coloquei o meu na reta por vocês dois. —


Digo enquanto caminhamos pelos corredores. —
Então façam por merecer. A mãe de vocês vai vir
pegar vocês? — Olho no relógio de pulso, faltam
poucos minutos para o último sinal soar.

— Não, ela está trabalhando no shopping. Só


sai de lá as sete.

— Shopping? Que shopping?— Sondo.

— No Barra. Por que? Vai contar pra ela? —


Juliano questiona.

— Talvez. — Respondo. — Se minhas janelas


pararem de misteriosamente aparecerem quebradas
acho que posso esquecer desse assunto.

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Tiro a carteira do bolso de trás da calça e pego


uma nota de cinquenta.

Eles olham para a cédula e eu entrego a Juliano.

— Peguem um uber e sem mais confusão. Mal


conheço vocês e já tô sentindo os fios da minha
barba ficarem brancos. — Rosno.

Eles riem meio sem graça e aceitam o dinheiro.

— Agora voltem pras salas.

✽✽✽

Mariana
O primeiro dia de trabalho foi bem tranquilo.
Meu trabalho era exatamente o mesmo que na loja
em São Paulo, a diferença era ter que ir toda
maquiada, ah... e o uniforme também era bem mais
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bonito. Um tayer preto com botões dourados


discretos, no canto esquerdo do peito uma orquídea
dourada com a insígnia da boutique. Ah... e o
público também era bem diferente da loja anterior.
Mulheres lavadas de dinheiro. Aquelas que
chegam, experimentam e nem se dão ao trabalho de
espiar a etiqueta com o preço na sola do sapato.
Deus me livre eu experimentar sem ver o preço.
Quando eu ia a uma loja minhas mãos já iam direto
na etiqueta e se cabia no bolso eu experimentava,
só assim.

A manhã passou sem muito movimento e


Suiane, uma de minhas colegas me explicou que o
movimento começava mesmo só depois das três da
tarde, porque as madames que frequentavam a loja
só acordavam depois das onze. Como somos
comissionadas fazemos um revezamento, uma fica
na porta, atende a primeira que entrar a outra
atende a segunda e assim vamos trocando , dando a
chance de todas atenderem e fazerem um pezinho
de meia a mais.

Na hora do almoço, dispensei os convites para


almoçar com as colegas e quando estava sozinha na
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mini cozinha ao lado do depósito, discretamente


tirei meu pacote de miojo e um potinho plástico de
dentro da bolsa. Não ia me dar ao luxo de gastar o
dinheiro que eu nem havia ganhado em um almoço
quando um miojo mataria rapidinho minha fome e
me pouparia uns bons reais.

Comi rápido e me acomodei para continuar a


leitura do livro que Nice tinha me emprestado, já
estava acabando e com sorte terminaria antes do
meu horário de almoço. Os minutos passaram
voando e quando dei por mim já estava na hora de
voltar para o trabalho. Lavei meu pote e o sequei.
Guardei tudo dentro da bolsa e voltei para minha
posição de atendimento.

— Nana, pode passar um pano com álcool ali


na vitrine? — Suiane me pediu em voz baixa.

— Claro. — Respondi.

Peguei uma flanela debaixo do balcão de


atendimento do caixa e encharquei com limpa
vidros.

Saí para fora da boutique e me agachei na altura


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das pequenas marcas de mão.

Ouvi pequenos assovios quando me levantei,


seguidos de risadas.

— Essa não. — Digo pra mim mesma ao ver


Cézar se aproximar.

Ele usa uma camiseta de um vermelho vivo, e


uma bermuda larga da mesma cor. Cezar masca o
chiclete e ergue os óculos no alto da cabeça quando
me vê.

— Olha a pinta da Mari. — Ele balança a


cabeça e me avalia de cima abaixo.

— Cezar eu estou trabalhando.

— Uhum. Tô vendo.

— O que você está fazendo aqui?

Ele dá de ombros.

— Só porque eu moro no morro não quer dizer


que eu não goste de coisa fina.
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Engulo em seco e continuo a limpeza da vitrine.

— Cara se ficou com um bocão com esse batom


vermelho.

Fico constrangida e irritada com aquele elogio.


Ele só quer me desconcertar. Se bobear a Sandra
deve estar por aí assistindo tudo a distância.

— Com licença. — Digo engolindo em seco e


volto para o interior da loja.

Suiane cumprimenta Cezar educadamente.

— Boa tarde senhor, em que posso ajudar?

Cezar senta no longo sofá e apoia os braços no


encosto.

— Só aceito ser atendido por ela. — Ele exigiu.

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Capítulo 22
Mariana

— Nana. — Suiane me cochicha em voz baixa.


— Ele está pedindo por você.

— Eu ouvi. — Respondo no mesmo tom que


ela. — Mas é a sua venda. — Lembro a ela que
somos comissionadas, esse era um dos principais
motivos, e o outro ... bom eu não estava afim de
atender Cezar, nem conversar com ele e fingir
simpatia.

Suiane olhou de soslaio para Cezar e fez uma


careta de reprovação ao vê-lo com chinelos de
dedo.

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— Sem problema. Acho que ele só vai alugar


seu ouvido. Vai olhar olhar e não levar nada.

Quando percebi que Suiane também não estava


nem um pouco interessada em atende-lo eu inspirei
fundo e ajeitei mais para o alto o rabo de cavalo, de
maneira que o elástico ficasse mais firme em torno
do penteado.

Eu caminho até Cézar e o encaro.

— Em que posso ajuda-lo?

Ele coça a cabeça e morde o lábio carnudo


olhando para mim com certo divertimento.

— Em muita coisa. — Ele responde abrindo um


sorriso.

Decido ser mais direta.

— Tem preferência por algum modelo? — Com


a mão direita gesticulo para a nova coleção —
Noite. — Aponto para o lado. — Dia.

Cézar se levanta e esbarra em meu braço


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quando se aproxima dos scarpins.

— Não sei. — Ele finge interesse no saltos. —


O que você acha?

— Temos a opção de vale presente. — Sugiro


dando um passo para o lado para me afastar dele.

— Não não. Não quero essas paradas. Quero


uma coisa bonita saca? Deixar a mina boca aberta.

Por que ele está perdendo tempo aqui? Fazendo


essa palhaçada toda eu e ele sabíamos bem que ele
tinha entrado na loja só pra me azucrinar.

— Eu me amarro quando as mina usam aqueles


botão que vai até as coxas e um shortinho saca?

Vejo Suiane comentando com a gerente. Elas


conversam em voz baixa e vez ou outra soltam
algumas risadinhas.

— Então quer levar uma bota para ela? —


Sugiro— Temos alguns modelos em promoção.

Todos estes deste lado estão com quarenta por


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cento de desconto.

— Hum... — Ele murmura e volta a me encarar.


— Não tô preocupado com o preço. Me mostra as
coisas finas.

Faço um esforço sobrehumano para não revirar


os olhos e o acompanho até a última coleção de
primavera.

Cezar pega uma sandália, mexe nas tiras de


amarrar, olha o tamanho do salto, e cheira o enfeite
de flor.

— O que acha dessa? — Ele me pergunta com


um olhar convidativo.

— Muito bonita.

Ele faz uma cara de desconfiado.

— Não sei ... essa fiapeira aqui. Só vou saber


vendo no pé da mina.

— Posso deixa-la reservada até o final do dia e


depois o senhor a traz para que ela experimente.
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— Não. — Ele diz marrento. — Vai me quebrar


um galhão se tu experimentar.

Idiota ! Penso comigo mesma mas não falo


nada.

— É que tipo... tô querendo levar uma mina no


baile funk lá no morro e acho que tu pode me fazer
essa mão.

— Cezar. — Eu sussurro em voz baixa em tom


repressor. — Isso aqui não é brincadeira, é o meu
trabalho. Estou deixando de atender clientes que
realmente querem comprar pra ficar aqui ouvindo
sua conversa mole.

Seus olhos castanhos fixam-se aos meus.

— E quem disse que eu não vou comprar? —


Ele pega a carteira e tira um pequeno maço de
notas de cem e cinquenta dobradas ao meio.

— Está precisando de ajuda Nana? — Minha


gerente aparece ao perceber a tensão entre nós.

— Não Miriam.
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Ela percebe o maço de dinheiro segurado por


Cezar e a coisa muda de figura.

— O senhor aceita algo para beber? Um suco,


chá, uma espumante talvez?

— Nada não. — Ele ri ao perceber a simpatia


forçada pelo dinheiro. — Mas se você puder
convencer a moça aqui a experimentar eu agradeço.

Miriam me olha como quem diz “Prova logo o


sapato, e fecha a venda”

— Eu sei bem como é. As vezes peço para o


vendedor provar alguma roupa quando quero fazer
surpresa para o meu marido.

Mentira. Mentira deslavada, Miriam não era


casa, mas ela estava mais era preocupada em
agradar o cara do dinheiro. Cezar.

— Qualquer coisa que precisar é só me chamar.

Suspiro ao ver que não terei saída. Minha


gerente se afasta assim que me sento ele senta ao
meu lado e guarda de volta a carteira na cintura por
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debaixo da camiseta.

Tiro minha sapatilha e calço a sandália. Cruzo


as delicadas tiras que sobem pelo tornozelo e vão
até parte da panturrilha.

— As duas. — Ele exige se ajeitando mais


largado no sofá.

Eu calço a outra e fico de pé diante dele. Não


consigo evitar a cara fechada. Minha vontade é
fazê-lo engolir a sandália com flor e tudo.

Ele me avalia com um pequeno sorriso.

— Boa. — Ele diz cheio de malícia. — Muito


boa... a sandália.

— Satisfeito? — Digo sentindo o sangue


esquentar.

— Não. — Ele debocha.

Ele se coloca de pé e pega um salto agulha


vermelho e me entrega.

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— Quero ver esse aqui.

Eu me sento outra vez, tiro as sandálias de flor


que custam o equivalente a dois salários e provo o
que ele pediu.

— Acha que dá pra dançar com um negócio


desses? — Ele me questiona olhando para o
tamanho do salto de um terceiro sapato escolhido
por ele.

— Não sei. — Respondo furiosa. — Eu não


danço.

Ele me entrega um sandália preta estilo


gladiador.

— Para Cezar. Quantos calçados mais eu vou


ter que experimentar ?

— O Suficiente para eu te convencer a ir na laje


comigo. Tomar um cerva... dançar um pouco..

— Eu não vou a lugar nenhum com você. Nem


te conheço cara. — Xingo baixinho.

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— Ta aí mais um motivo. Sabe que eu vou vir


aqui todos os dias até te convencer.

Filho da puta.

O celular dele tocou e ele atendeu.

— Fala manooo — Ele responde em voz alta.


— Não não... pode falar. Tô terminando umas
paradas aqui.

Eu volto a calçar minhas sapatilhas e assim que


começo a recolher os calçados que ele me forçara a
experimentar, Cezar os tiras de minha mão.

— Esses não “Mari”.

Eu o vejo ir para o caixa e fazer o pagamento a


vista, sem interromper a ligação.

— Beleza, segura essa parada que em dois


tempos eu chego aí.

Cezar sai da boutique e finalmente eu respiro


aliviada. Algo na presença dele me desconcerta.

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— Que homão. — Suiane vem assim que


termina de atender uma senhora de meia idade. —
Você viu que ele deixou tudo lá pra você. Nana ...
que figura. — Ela ri.

— Nem me fala.

— Vai. Abre o jogo aí, quem era o malandro


que era a cara do Cauã Reymond, ã?

Eu rio da curiosidade dela.

— Um conhecido só, nem isso.

— Ah vá... ele gastou quase três mil reais em


sapatos com você. Não pode ser qualquer e ainda é
humilde , você viu o jeito que ele estava vestido?

Suiane parecia tão louca quanto Nice. A noite


contaria a loucura que tinha sido meu dia a ela e
cezar já ganharia pontos na escala de Nice, para ela
um homem só precisava de três coisas: bonito, bom
de cama e saber mimar uma mulher. Ela era
fanática por sapatos. Nice surtaria quando soubesse
que o galã bandido me presenteara com as
sandálias mais caras da loja.
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— Para deixa de besteira. Agora bora trabalhar


que ainda eu ainda não tô com a vida ganha. Tenho
em casa dois filhos adolescente que comem como
dois gafanhotos.

O dia transcorreu sem mais surpesas... entre um


cliente e outro eu escapava para a mini cozinha e
tomava um copinho de café bem doce, porque de
amargo já bastava a vida. Quando finalmente meu
dia de trabalho chegara ao fim eu peguei minha
bolsa e Suiane me seguiu.

— Vamos no restaurante novo que inaugurou


no domingo? — Ela convida — Eles aceitam o
nosso vale refeição. — Suiane balança o cartão em
um convite animado.

Como eu dispenso um segundo convite sem


parecer chata ou esnobe?

— Fica pra outro dia Sui. Tenho que voltar logo


pra casa. — Respondo — Dei meu cartão para
meus filhos usarem antes de irem para escola.

Olho as horas no celular.

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— Deixa eu ir que se eu perder o ônibus agora


sabe-se lá que horas vai passar outro.

Me despeço dela com um beijo no rosto e sigo


para fora da loja. Conto algumas moedas na palma
da mão enquanto desço a escada rolante e já deixo
o dinheiro da passagem separado.

Carregada de três sacolas, com a bolsa a tira


colo e a mão cheia de moedas eu caminho até a
parada em frente ao shopping. Está lotada, o que é
um bom sinal, ainda não tinha perdido o L217.

Por entre o trânsito caótico por causa do horário


de pico eu ouvi o som do motor de uma moto
cortando caminho por entre os carros. O homem
parou no meio fio, eu não precisava que ele tirasse
o capacete para saber quem era. Eu já havia
reconhecido suas tatuagens.

Felipe.

Meu coração bateu mais rápido e aquela


sensação estranha do bater de asas de borboletas na
boca do estômago se fez presente outra vez. Minha
respiração se acelerou quando eu ouvi o som de sua
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voz.

— Sobe Nana, eu vou te levar pra casa. — Ele


disse assim que ergueu o capacete preto no alto da
cabeça.

Eu chego aperto mais a bolsa contra o peito e


estrangulo o desejo de que tenho de subir na garupa
da moto e me agarrar a ele.

— Não precisa. — Respondo. — Estou cheia


de sacolas.

Ele desce da moto e sinto alguns olhares


curiosos sobre nós.

Felipe tira o capacete e o coloca em mim sem


minha permissão. Ele afivela tiras de modo que
fique ajustado e bem preso.

— Eu disse que não precisa. — Retruco e


começo a desafivelar as tiras do capacete. Algumas
moedas caem de minha mão com o movimento.

Ah porcaria...

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—Eu sei que não.— Felipe tira as sacolas de


minha mão e as ajeita no guidão da moto assim que
sobe. — Vem galega.

Galega.

Eu amo quando ele me chama assim.

Não é justo ele ser tão irresistível assim.

Que mal pode haver , é só uma carona, não?

Eu subi na moto e apoiei minhas mãos na parte


metálica da garupa. Ele balançou a cabeça e puxou
meus braços para em torno de sua cintura. Senti os
músculos rígidos por debaixo do tecido da camisa e
inspirei fundo quando o motor da moto roncou .

Tudo ficou para trás.

Naquele momento éramos apenas eu ele e a


incrível velocidade com que ele pilotava aquela
moto. Eu tive que me agarrar com mais força ao
seu corpo rígido e quente, só então me senti
protegida.

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— Você tem que ir tão rápido?

Ele não respondeu, mas eu sabia que ele tinha


me ouvido, senti os músculos de seu abdômen
contraindo quando ele riu.

Eu fechei os olhos e deixei que ele apenas me


levasse. Quando a moto finalmente parou percebi
que não estávamos em casa. Estávamos em frente a
uma lanchonete no meio do nada.

FACEBURGER.

O letreiro azul neon piscava.

— Você disse que ia me levar pra casa. —


Protesto tirando o capacete.

— E eu vou, mas primeiro vamos comer


alguma coisa.

— Eu não quero comer nada. — Digo sentindo


raiva por ele ter me enganado.

— Tudo bem. Só eu como então.

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Irritada desço da moto e logo Felipe desce e


pega minhas sacolas.

— Eu não sei você, mas eu tenho filhos me


esperando em casa. — Caminho atrás dele. —
Tenho hora pra chegar em casa.

— Eles estão bem. — Felipe responde e abre a


porta da lanchonete para que eu entre.

Arghh...

O lugar está quase vazio, a não ser pelo


caminhoneiro sentado perto da junkebox e uma
senhora de quase oitenta se esforçando para ler o
jornal.

Felipe escolhe a mesa e puxa a cadeira para que


eu me sente. Ele senta de frente pra mim.

A garçonete vem assim que nos acomodamos.

— Boa noite, bem vindos ao Faceburguer. —


Ela diz sem muita vontade e já posiciona a caneta
no papel. — Já sabem o que vão pedir?

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— O especial da casa e uma coca.

A mulher me encara esperando que eu fale algo.

— Pra mim nada. Obrigada.

— O mesmo pra ela e mais dois pra levar.

Ela anota tudo e sai sem dizer nada.

— Como foi o primeiro dia de trabalho?

— Cansativo e pra ajudar o irmão da sua amiga


Sandra foi lá onde trabalho. — Digo sentindo o
peso do cansaço no corpo.

Felipe se enrijece.

— O que ele queria. — Seu humor muda.

— Incomodar. — Digo. — Acredita que ele me


fez experimentar uma porção de sapatos? E ainda
teve a coragem de me convidar pra um baile funk
no morro? Vê se eu posso com isso? — Aponto
para as sacolas

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Felipe retesa.

— Filho da puta. — Ele rosna baixo. — Por


que você aceitou essas merdas Mariana?

— Fala baixo. — Digo — Primeiro eu não


preciso te dar satisfação de quem eu aceito
presentes ou não.

A garçonete retorna com uma bandeja plástica


repleta com dois hambúrgueres gigantes e batatas
fritas cobertas com queijo e orégano. O cheiro faz
meu estômago dar sinal de vida. E apesar de ter
dito que eu não queria nada eu como porque não
sou mulher que desperdiça comida.

Felipe se levanta e nem toca na comida. Eu o


observo sair da lancheria. Quero comer mas não
consigo sabendo que ele está furioso, mesmo ele
não tendo nenhuma moral para isso. Ouço o som
seco de batidas contra o metal.

Bebo um gole do refrigerante gelado e vou atrás


dele.

Já está escuro e o lugar é mal iluminado.


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O som do metal sendo batido ecoa outra vez.

Chego mais perto e vejo Felipe chutar a lixeira


com força.

— Para Felipe! — Eu o xingo. — Você ficou


louco?!

Ele me fulmina com um olhar furioso.

— Fiquei, Galega. — Felipe rosna me puxando


para um canto mais escuro. — E a culpa é sua.

Ele cola os lábios aos meus em um beijo cheio


de fúria e ciúmes tão intenso que nem um de nós é
capaz de controlar. Deixando que nossos corpos se
entendam da maneira mais crua possível. Com sexo
violento e duro.

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Capítulo 23
Mariana

As mãos de Felipe puxaram minha saia para cima


e ele usou o próprio corpo para me prender contra a
parede. Sua boca castigando a minha boca em beijo
duro. A barba roçando contra a pele de meu rosto
fazendo tudo pinicar. Seus movimentos eram tão
duros e possessivos que eu não tinha dúvidas que
sobrariam farrapos do meu novo uniforme.

— Estamos na rua.— Digo enquanto ele desce


os lábios por meu pescoço e me dá chupões por
toda a pele.

— Foda-se. — Ele rosna agarrando minha


perna esquerda até a altura de sua cintura e
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pressiona mais a ereção dura contra meu corpo.

Eu arfo sentindo minha calcinha encharcar com


a rigidez e voracidade que seu corpo me envolve.

A boca de Felipe engole cada gemido meu. Ele


enfia a mão por dentro de minha calcinha e segura
meu sexo com força.

— Aqui não. — Sussurro ofegante quando seus


dedos começam a trabalhar em um movimento
rápido, esfregando e apertando minha carne
molhada e trêmula.

— Aqui sim. — Ele mete dois dedos e os


movimenta dentro de mim até eu quase gozar em
sua mão, então ele para.

Meu clitóris lateja e meu sexo anseia por mais.


Muito mais daquele prazer despudorado que só ele
sabe me dar.

— Quer pau? — Ele abre a calça com rapidez e


puxa o cacete para fora.

A majestosamente grande e grosso.


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Ele afasta minha calcinha para o lado e


posiciona o pau na minha entrada e mete tudo de
uma vez só.

Eu grito mas ele cobre minha boca com um


beijo sedento de ciúmes.

O som molhado de seu membro desliza para


dentro de mim, abrindo caminho por meu sexo
apertado ainda dolorido de nossa última noite.

Felipe segurou-me com as duas mãos,


apertando minhas coxas contra seu quadril,
sustentando meu peso, socando com força num
ritmo alucinado e quente.

— Porra galeguinha. — Ele rosna ao meu


ouvido mordendo e chupando meu pescoço.— essa
bocetinha gulosa e apertada... Eu quero te foder o
tempo inteiro.

Felipe soca.

Soca.

Soca fundo.
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Meu sexo se contrai em torno de seu membro e


ele reage ao meu orgasmo fodendo mais duro.

Minhas costas ralam contra a parede externa da


lanchonete mas ele não para.

A mão de Felipe desliza das minhas coxas para


minha bunda e eu o aperto com mais força contra
meu corpo.

— Eu quero todo o seu corpo. — Ele exige em


um desejo quase cego.

Felipe me desce e me vira contra a parede.

— É agora que eu vou comer esse cuzinho.

Felipe esfrega a cabeça do cacete naquele lugar


e eu contraio de medo na hora.

Nice tinha me contado a história de uma garota


que tinha tentado dar o cú e tinha se cagado toda.
Ela jurava de pé junto que não era ela, mas Nice era
tão louca que eu não duvidava de nada do que ela
me contava. Deus me livre cagar no pau.

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— Relaxa. — Ele roçou a cabeça quente e


melada com meu gozo no meu cu.

— Não Felipe. — O xingo em voz baixa.

Mas ele começa a colocar devagarinho e a


sensação de que estou fazendo cocô ao contrário é a
única coisa que me vem a cabeça.

Então eu sou mais enfática.

— NO CU NÃO FELIPE!

Acordo com o suor escorrendo pela minha testa


Estou no ônibus.

No ônibus lotado.

Puta que pariu. Penso comigo mesma e me


levanto de meu lugar.

Pelo jeito como alguns me olhavam eu não


tinha dúvidas de que tinha gritado a última frase de
meu sonho em voz alta.

Assim que as portas do ônibus se abrem eu me


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esmago entre todos e escapo para fora dali.

A culpa era da Nice. Se eu não tivesse lendo o


bendito livro hot que ela tanto insistira eu não
estaria com essas coisas na cabeça. Tá... eu sei que
no fundo a culpa não era dela. Era de Felipe. Ele
era o culpado por eu estar pensando em sexo com
tanta frequência quanto uma ninfomaníaca.

Meu deus que vergonha. Caminho sentindo o


rubor no rosto.

Eu ainda estava a uma boa distância de casa, no


mínimo umas dez quadras.

Droga.

✽✽✽

Felipe

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Deixo a moto no estacionamento e levo comigo


apenas o capacete, debaixo do braço. Quando
encontro a loja onde Galega trabalha eu fico do
lado de fora esperando vê-la pela vitrine. Duas
atendentes conversam em um tom baixo mas ainda
assim posso ouvi-las.

— Você tinha que ver o cara que veio mais


cedo. Só queria ser atendido pela garota nova.

— Que garota? — A mais velha das duas


pergunta.

— A Mariana. Ela veio transferida de sampa.

— Hum.

Estão falando da minha galega.

— O cara tinha dinheiro. — A outra continua


contando.

— É?! — A colega se interessa.

— Aham. Tinha que ver o maço de dinheiro


que ele tinha.
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— De certo é algum ex dela. Chefe rico atrás de


secretaria.

O ciúme me corrói e quero chegar mais perto


para ouvir a conversa, mas temo que minha
proximidade as faça parar de falar. Então pego o
celular e finjo estar mexendo, mas minha atenção
continua toda na conversa das duas atendentes.

— Empresário nada. Do morro com certeza.


Ouvi ele convidando ela pra um baile funk. Fez ela
experimentar tudo e depois comprou tudo pra ela.

— Hum... aí tem. — A outra responde.

— Com certeza, e seu eu soubesse que ele ia


gastar tudo aquilo eu mesmo tinha atendido a
figura.

— Ai Sui. — Ela ri.

Não posso acreditar no que acabo de ouvir. O


gosto do ciúmes é amargo e eu não aguento e entro
na loja.

A tal vendedora a quem a outra chamara de


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“Sui” logo vem me atender com um sorriso largo e


prestativo no rosto.

— Boa noite senhor, em que posso ajuda-lo?

— Boa noite. Poderia chamar a Mariana por


favor?

Uma pontada de decepção é evidente no rosto


da vendedora, mas ela força um sorriso.

— A Mari saiu faz uma meia hora, é só com


ela?

— SiM. — Respondo com um mal humor


evidente. — Obrigado.

Quando estou saindo ouço as duas voltarem a


comentar.

— Essa Mariana tá podendo, dois num dia só.


Eu prefiro esse o outro tinha cara de bandido.

Com a irritação transbordando por cada poro eu


sigo meu caminho ao encontro dela.

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✽✽✽

A caminho de casa vejo a silhueta de Mariana.


Vou chegando mais perto e tenho certeza que ela.

Ergo a viseira do capacete e reduzo a


velocidade da moto que fique em seu ritmo.

Ela não parece feliz em me ver.

A voz de Juliano me vem a cabeça. “Sempre


que você e minha mãe conversam eu a ouço
chorando depois”

— Quer carona?

Apesar da minha irritação não quero que ela


fique andando sozinha.

Mariana dá uma risadinha como se aquilo lhe


fosse algo familiar.

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— Não obrigada. — Ela responde sem me


olhar.

Continuo a seguindo.

— Ainda tem uma boa distância até a sua casa.

— Eu estou acostumada a caminhar.

Olho para as sacolas que ela carrega na mão


esquerda e minha raiva aumenta.

— Foi as compras?

— Não. — Ela responde sem interromper a


caminhada.

— Presentes? — Digo tomado pelo ciúmes.

Ela fica quieta por alguns segundos.

— Presentes Mariana?

Seus olhos verdes fulminam os meus.

— São sim.
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Ela desvia os olhos e suspira cansada.

— Do César.

— Que porra de Cézar?

Ela estaqueia e me encara como se eu não


tivesse direito de fazer aquelas perguntas, eu sei
que no fundo eu não tinha, mas foda-se eu estava
apaixonado e tomado por um ciúmes que eu nunca
tinha me permitido sentir.

— Não que eu te deva alguma explicação, mas


César é o irmão da sua amiga. A vizinha sabe?
Sabe aquela que disse estar esperando um filho
seu?

Em um golpe tão certeiro quanto um belo chute


no saco, ela me acerta apenas com palavras e volta
a caminhar.

— Eu te falei que aquele cara é um bandido


MARIANA. O que ele queria?!

Claro que essa merda toda só podia ser a Sandra


do caralho querendo estragar as coisas entre mim e
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a Mariana.

— Queria me convencer a ir num baile funk.

Filho da puta!

— Mas você disse que não, não disse? —


Pergunto nervoso.

— Claro que não Felipe. Tu acha que eu tenho


tempo pra ir numa coisa dessas?

Sinto uma pequena pontada de alívio mas o fato


dela ainda estar com os presentes que ele comprara
pra ela ainda me deixa furioso.

— Eu vou ter que ir falar com esse cara. Não


quero que ele fique te cercando. — Rosno.

— Que falar Felipe?! Você é o meu vizinho, só


isso, a gente já transou algumas vezes, mas isso
você já fez com boa parte da vizinhança. Não
preciso que me defenda. Eu sei me cuidar.

— O CARA É UM BANDIDO MARIANA. O


que acha que ele vai querer depois?
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— Ah tá e você vai lá dar uma de macho, vai


bater no peito reivindicando uma mulher que nem é
sua pra começo de conversa e vai acabar tomando
um tiro. Eu não quero a sua morte na minha
consciência. Não , muito obrigada.

— Não é minha mulher porque você foi


embora. Eu queria ter casado com você. — Digo
com ressentimento. — Eu queria ter sido o pai dos
seus filhos.

Chegamos e percebo que ela está tão alterada


quanto eu.

— Então porque todas as cartas que eu escrevi


pra você voltaram? Se você nunca se mudou ã?!

— Que cartas.

Ela ri e seus olhos se enchem de lágrimas. Ela


inspira fundo como se quisesse contar.

— Onde eu conto tudo.

Desço da moto e me aproximo dela.

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— Tudo o que Mariana, do que você está


falando?

Ela balança a cabeça em negação como se não


pudesse dizer em voz alta.

— A verdade.

— Que verdade? — Chego mais perto e mesmo


sabendo que ela rejeitará meu toque eu a seguro
para que não fuja.

As lágrimas começam a rolar pelo rosto e eu me


sinto um canalha por estar fazendo ela chorar outra
vez.

Pelo campo de visão periférico vejo uma luz


vermelha seguida de uma sirene alta. A ambulância
sobe pela calçada a poucos metros de distância de
nós.

As portas traseiras são abertas e dois


paramédicos vestidos de branco seguem as pressas
para a casa de Mariana.

Ela me empurra com força e larga tudo pelo


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caminho.

— Nãooooooo! — Eu a ouço gritar com força.

Meu coração se esmaga no peito e corro para


alcança-la.

✽✽✽

Mariana
Eu não aguento mais guardar o segredo, era
como ter a sensação de estar prendendo a
respiração debaixo dágua, uma hora você tem que
respirar, ou a pressão no seu peito torna-se
insuportável, era exatamente como eu me sentia.
Dizer a verdade para Felipe seria como respirar
fundo depois de muito tempo. E naquele instante eu
precisava de ar mais do que qualquer coisa.

Inspirei fundo quando as lágrimas começaram a


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descer pelo contorno de meu rosto. Quando ouso


contar a sirene da ambulância subindo por cima de
meu jardim, partindo todos os girassóis plantados
por Felipe faz com que meu coração gele.

Não pode ser na minha casa.

Eles pararam no lugar errado.

Vejo dois homens vestidos de branco saírem as


pressas .

Meus filhos.

Maria Luiza.

Juliano.

Felipe ainda me segura.

Tudo acontece tão rápido.

Por que eles estão entrando na minha casa?

Tem que ser um engano.

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Empurro Felipe com força e corro atrás deles.

Entro na casa e me deparo com Juliano


ajoelhado ao lado da irmã. Os paramédicos
tentando reanima-la.

Maria Luiza.

Meu Deus.

Minha filha.

Em minha mente vinham rápidos flashes do dia


em que Juliano e eu a encontramos em uma caixa
de papelão no meio do lixo. O momento em que
deu seus primeiros passinhos de mãos dadas com
Ju, em minha direção.

Minha filha, não...

Eu quero chegar mais perto quero segurar sua


mão e dizer que eu já estava ao lado dela para o que
precisasse mas a cada passo que eu dava em sua
direção eu mal sentia o chão. Então tudo escureceu
e a última coisa que senti foram os braços fortes de
Felipe me protegendo como sempre fizera em todos
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os momentos em que esteve presente na minha


vida.

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Capítulo 24
Felipe

Eu a agarrei em meus braços quando ela desabou.


Meu cérebro foi registrando a cena em câmera
lenta. Era difícil e pesado demais pra processar tão
rápido tudo o que estava acontecendo.

O uniforme de Juliano sujo de sangue.

Os paramédicos tentando conter o sangue que


escorria pelos fundos cortes nos braços de Maria
Luiza. Grandes talhos vermelhos que iam dos
pulsos até quase metade do braço.

Eu mal podia ouvir o que eles falavam.

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Carreguei Mariana pela sala e a deitei no sofá.

Corri para a banheiro e encharquei a toalha de


rosto que estava pendurada em um gancho e voltei
para onde a havia deixado.

Me ajoelhei ao seu lado e fui molhando


gentilmente seu rosto , a água fria despertando sua
pele aos poucos. Passei por sua testa, pelas maçãs
do rosto e desci por seu pescoço.

— Galega. — Digo em voz baixa e afasto as


mechas loiras que grudam na pele úmida.

Mariana acorda num sobressalto quando ouve o


barulho da sirene soar outra vez.

— Maria Luiza. — É a primeira coisa que ela


diz ao acordar.

Ela não está me vendo. Os olhos verdes bem


arregalados fitam o lugar a procura da filha.

Um dos paramédicos aparece na porta.

— Estamos levando a menina para o hospital


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geral.

Ela se levanta as pressas. A voz tomada pelo


nervosismo.

— Eu vou junto.

O jovem paramédico faz um aceno com a


cabeça concordando e os dois seguem as pressas
para dentro da ambulância.

A vã hospitalar manobra de ré deixando o


jardim destruído e pega velocidade assim que toma
a rua.

O lugar todo cheira a sangue.

— Juliano. — O chamo, mas ele não me


responde.

Sigo na direção do som.

Ele está na cozinha.

As mãos sujas e trêmulas seguram um balde


que ele enche na torneira da pia.
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— JULIANO. — Repito, mas o garoto me


ignora e assim que o balde transborda ele desliga a
torneira com um movimento mecânico.

Ele pega o pano de chão e segue para a entrada.

Juliano se abaixa e começa a limpar.

— Precisamos ir para o hospital. — Digo


nervoso.

Quero estar ao lado de Mariana.

— Preciso limpar isso. — Ele responde ainda


em choque. — Tenho que arrumar essa bagunça.

— Agora não é hora Juliano. Vamos para o


hospital. — Exijo mas ele não está nem aí para uma
palavra do que digo.

Vendo que ele está irredutível eu pego na sala a


toalha molhada que a pouco havia usado para
despertar Mariana e me junto a ele em uma limpeza
as pressas.

Juntos limpamos tudo.


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A água do balde precisou ser trocada três vezes


até que tivéssemos terminado tudo.

— Ainda está sujo . Ainda tem cheiro de


sangue.. — Ele diz em voz baixa.

Tiro o pano de chão das mãos dele, o trapo


ficará avermelhado depois de tudo.

— Vai trocar de roupa. — Exijo. — Agora.

Ele baixa o olhar, me arrependo da dureza com


que o trato, mas agora Mariana precisa de mim, e
quero estar lá ao lado dela.

— Enquanto você se troca vou passar pano


mais uma vez.

Só então ele aceita e vai para o quarto.

Encharco os lugares que limpamos despejando


o desinfetante todo diretamente no chão.

O perfume de lavanda se sobrepõe ao cheiro do


sangue. Enxugo o mais rápido que posso, e despejo
a água suja no vaso sanitário.
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Juliano aparece vestindo uma camiseta de


manga curta verde musgo, seu jeans e tênis são
surrados.

Trancamos a casa antes de sair.

— Ela vai ficar bem, não vai? — Ele me


pergunta num tom de voz de fracasso.

— Claro que vai.

Ele parecia não ter acreditado.

Na verdade nem eu acreditava naquilo.

Era tanto o sague, que eu realmente não sabia.

Entrego meu capacete a ele e subo na moto.


Juliano sobe em seguida.

O caminho até o Hospital Geral dura minutos,


ultrapasso todos os sinais que posso e corto
caminho costurando por entre os carros.

Quando chegamos, vamos direto para o guichê


de informações.
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A senhora com uniforme hospitalar nos indica o


andar.

No terceiro piso encontramos Mariana sentada


na primeira fileira de bancos. Ela tem as mãos
unidas, os cotovelos apoiados nos joelhos, ela
parece estar rezando.

— Mãaae. — Juliano vai até ela.

Mariana abre os olhos ao ouvir a voz familiar


do filho.

Eles se abraçam.

Vejo seu rosto vermelho pelo choro. A


maquiagem borrada. Os lábios já sem batom, agora
mais inchados que o normal.

— Como ela está? — Digo assim que me


aproximo deles.

— Em cirurgia. — Ela responde, os dedos


vagueiam pelos cabelos loiros de Juliiano. — Mas
ela vai ficar bem. Você não sabe como aquela
menina é forte.
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Mariana parece prestes a desmaiar outra vez, eu


e Juliano a amparamos.

— Eu estou bem — Ela diz voltando a sentar.

Galega está pálida.

— Você comeu alguma coisa hoje?

Ela me encara, os olhos vermelhos.

— Eu não estou com fome.

— Não foi isso que eu te perguntei Mariana.


Qual foi a última vez que comeu.

Então ela estoura.

— Ah eu não sei! Droga. Um miojo ao meio


dia. Sei lá. Será que pode me deixar de rezar em
paz.

Mariana recosta a cabeça no ombro de Juliano e


fecha os olhos. Ela entrelaça os dedos nos dele e
não volta a olhar para mim.

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Não me importo com sua irritação, se ela


quisesse descontar toda sua dor batendo em mim,
eu aceitaria de peito aberto cada pancada, se aquilo
fosse deixa-la mais calma.

Desci os três lances de escadas com passos


rápidos . Eu sabia que se ficasse parado meu peito
explodiria. Atravessei a rua e fui direto a
lanchonete em frente ao hospital.

— Dois mistos quentes completos. — Peço


para a atendente. — Um café com leite e — Faço
uma pausa pensando se Juliano bebia ou não café
com leite. — e um Nescau.

A atendente anota o pedido.

— Não, não, Troca o Nescau por coca cola.

Ela torce a boca com a minha indecisão , faz


um rabisco no bloco e toma nota.

— Espera. — Digo antes que ela saia. — Tira a


coca e coloca o nescau de volta.

Voltei com o lanche. Mariana e Juliano estava


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no mesmo lugar. Ele com o braço em volta de seu


corpo. Ela com a cabeça em seu ombro. Um
consolando ao outro em silêncio.

— Alguma notícia? — Digo entregando a eles


um saco pardo para cada um.

Eu me sento na cadeira livre ao lado dela.

— Sim. Malu levou os pontos . Teve que


receber uma transfusão de sangue. — Ela
desembrulha o lanche sem muita vontade. —
Dentro de algumas horas ela vai para o quarto.

Juliano olha para o copo de isopor com tampa e


para a lata de coca.

— Eu não sabia se tomava Nescau. — Digo. —


Daí eu trouxe os dois.

Mariana olha para o misto quente.

— Eu disse que não estava com fome.

— eu sei. Mas você vai comer mesmo assim.


Não para me agradar, mas para estar de pé quando
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a Malu acordar. Pelo Juliano, para dar o exemplo.

Mariana tira o papel laminado do lanche e da a


primeira mordida.

Eu respiro aliviado quando ela come sem


protestar. Juliano faz o mesmo.

As horas se arrastam e nós ficamos ali sem


trocar uma palavra. Eu não precisava dizer nada.
Eu só precisava estar ali, por ela.

✽✽✽

Mariana
Eu não sabia o que tinha levado minha filha a
querer tirar a própria vida, os cortes tão brutais. A
imagem dela atirada no chão. O sangue manchando
as suas roupas e as de Juliano. Os olhos pretos sem
vida revirando nas órbitas.

Me sentia a pior das mulheres. A pior mãe por


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não saber o que estava acontecendo na própria casa.


Que tipo de aflição Malu tinha para tomar a atitude
mais desesperada de todas? E se ela tivesse achado
as cartas?

As malditas cartas que eu havia rasgado e


atirado no lixo, então como por mágica
desapareceram.

Se ela as tivesse encontrado, então ela sabia de


tudo.

Sabia que não era minha filha, sabia que Felipe


era pai de Juliano.

Sabia que a havíamos encontrado no lixo.

Estremeci com aquela possibilidade.

Não poderia ter sido ela. Que fosse Sandra, que


fosse Felipe, qualquer um menos ela.

Malu era a única razão por eu não contar nada a


ele, o único motivo de meu silêncio era a proteção
dela.

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E agora....

Agora provavelmente ela sabia de tudo e


preferia a morte.

Malu foi levada para o quarto semi privativo,


por causa de meu plano de saúde, porém Felipe
insistira para que fosse transferida para um quarto
particular. Por conta dele.

Eu não estava em condições de negar.

Eu só queria o melhor para a minha filha.

O quarto era quase do tamanho da sala de estar


da nossa casa. Uma cama hospitalar posicionada no
centro de uma parede azul clara, duas confortáveis
poltronas para os acompanhantes e um mini
frigobar ao lado da janela.

Lavei o rosto no banheiro que havia dentro do


novo quarto. Meus olhos arderem com o cansaço.
Era como se eu tivesse areia dentro deles.

Já passava da meia noite quando a trouxeram


para o quarto privativo.
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Ela estava dormindo.

Os cabelos negros e fartos tomavam boa parte


do travesseiro. Seu rostinho juvenil estava um
pouco inchado, a enfermeira falara que o leve
inchaço era normal e desapareceria nos próximos
dias quando ela tivesse alta.

— Meu bebê— Sussurro baixinho e beijo sua


testa.

Sua pele macia está fria.

Acaricio sua cabeleira e de leve passo a ponta


dos dedos pelo contorno de seu rosto.

“— Mã mã! — Lembro dela segurando uma


bolacha de maisena, a menina com os olhos mais
lindos do mundo, tum bebezão lindo e cheio de
vida.”

A lembrança faz meu peito doer. A angustia me


sufoca.

A mão pesada e grande de Felipe aperta meu


ombro me confortando.
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— Calma Galega. Ela é forte como a mãe.

Eu sinto a vontade de chorar aumentando mas


não posso desabar. Sinto o olhar de Juliano em nós.

— Preciso de ar.

Passo por Felipe e vou direto para fora do


quarto. Pressiono o botão do elevador mas ele
demora a vir. Uso a porta que leva a saída de
incêndio mas Felipe me alcança.

— Fico o Juliano e a Maria Luiza. — Peço sem


olha-lo diretamente nos olhos, do contrário ele verá
que estou chorando.

— Eles estão bem.

Me sento no degrau e cubro o rosto sentindo as


lágrimas quentes rolando outra vez sem minha
permissão. Elas apenas caem

— Calma Galeguinha . — O braço forte e


protetor de Felipe me envolve e eu o sinto afagar
meus cabelos. — A Malu está bem agora.

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— PARA DE ME PEDIR CALMA, PARA DE


DIZER QUE AS COISAS VÃO FICAR BEM
FELIPE.PORQUE ELAS NÃO VÃO.

O choro sai descontrolado.

— Porque você fica se metendo na nossa vida.


Porque você só não volta pras suas galinhagens, a
sua vida de festas e seja feliz. A gente não tem
nada juntos, NADA!

Eu o afasto.

— Só para com tudo isso. Quando eu precisei


de você a quinze anos atrás você não estava lá. —
Digo chorosa. — Todas as cartas que eu escrevi.

— Que cartas Mariana? Eu não recebi nenhuma


carta.

Seus olhos verde ocre me indagam por mais


respostas que eu não posso dar.

— Você acha que se eu tivesse recebido alguma


notícia sua eu não teria ido atrás de você?

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Felipe passa as mãos pelos cabelos pretos em


um gesto desesperado.

— Eu iria ao inferno por você. Fiquei um mês


sem sair do meu quarto eu não queria fechar a
minha janela, por medo que você aparecesse por
pouco tempo e eu perdesse a sua volta.

Enxugo os olhos e soluço ao ouvir a dor e


ressentimento em cada palavra.

— O que diziam nas cartas?

— Tudo.

— Tudo o que? — Ele insiste.

— Que meu pai era um alcoólatra, tinha


perdido o que tínhamos no jogo. A doença da
minha mãe.

Faço uma pausa.

— Contei por carta quando conheci o pai do


Juliano e da Maria Luiza. Eu queria que você
sentisse ciúmes e viesse tomar qualquer tipo de
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satisfação. Mas nada aconteceu.

Eu o ouço bufar , mas ele não sai do meu lado.

— Eu nunca recebi nada.

— Se sua falecida mãe estivesse aí poderíamos


tirar satisfação, mas você sabe que estou falando a
verdade. Claro que agora nada disso faz diferença.

Eu me levanto e enxugo outra vez as lágrimas.

Felipe fica de pé.

— Agora para de querer me proteger, porque


você não tem mais esse direito. Você não faz parte
da minha família, você não é meu namorado, meu
noivo, nem meu marido. Você não é porra
nenhuma meu. Agora se você está tão sozinho e
carente a ponte de querer uma mulher problemática
como eu com dois filhos adolescentes pra criar... —
Rio — Sinto muito, as coisas vão ser mais fáceis
com a Sandra ou qualquer uma aí da sua longa lista.

— Eu não posso fazer isso. — Ele me impede


de sair. A mão pressionando a porta para que eu
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não a abra. — Não posso parar de te proteger, eu


prometi a sua mãe que cuidaria de você.

— Minha mãe está morta. — Respondo, as


lágrimas tornam minha visão mais turva.

— Mas eu não estou. — Ele rosna.

✽✽✽

Felipe
Apesar de tudo, meu instinto era apenas
protege-la.

— Eu não quero outra mulher, eu não quero


outros filhos, eu quero você Mariana, só você, e se
o pacote inclui dois adolescentes... ótimo, crio os
dois! Mas não me peça para ficar longe, porque
isso. — Engulo em seco — Isso eu não consigo
fazer.
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CAPÍTULO 25
Mariana

— Eu tenho muita coisa na cabeça agora Felipe.


Desculpa, vamos nos limitar a sermos vizinhos, no
máximo amigos. Agora me deixa voltar para o
quarto que eu preciso ficar com a Malu.

Felipe tirou o braço que apoiava contra a porta


e eu desviei o olhar dos dele.

A passos largos eu saí dali e fui direto para o


banheiro. Lavei o rosto com água fria e sequei com
algumas toalhas de papel.

Assim que retornei para o quarto Felipe


conversava com Adônis logo na entrada.

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— O que você está fazendo aqui? — Digo já na


defensiva quando lembro do último encontro com
Adônis na casa de Felipe.

— Mariana, esse é o irmão do Adônis.

— Me desculpe. — Digo sentindo um pouco de


vergonha. — É que o seu irmão e eu...

— Tudo bem. — Ele exibe um sorriso gentil


como se não fosse a primeira vez que aquilo tivesse
acontecido. — Eu sei o efeito que o Adônis pode
ter quando quer.

Ele olha para a prancheta em sua mão.

— Sou o médico plantonista essa noite. Ao que


tudo indica sua filha já está fora de perigo, mas será
necessário que ela inicie um acompanhamento com
psicólogo para ver a fundo a raiz desse problema.

— Está certo, doutor. — Concordo. — Quando


o senhor acha que ela terá alta?

— Dentro de dois dias. — Ele altera algumas


folhas na prancheta. —Mais tarde passarei mais
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uma vez para checar como ela está.

— Obrigada doutor.

Entro no quarto e Juliano está dormindo


sentado em uma das poltronas.

Felipe entra logo depois de mim.

— Eu sei que eu não tenho nem cara de te pedir


qualquer coisa depois do que eu acabei de te dizer
— Digo para ele — Mas será que poderia levar o
Juliano para casa. Não quero que ele passe esses
dois dias aqui comigo. Ele tem que continuar indo a
escola.

— Tudo bem, eu fico com ele.

Felipe aceita e abaixa o tom.

— Aconteceu uma coisa na escola hoje.

Eu o encaro esperando que ele continue.

— Um garoto passou a mão em Maria Luiza e a


chamou de pretinha linda.— Ele faz uma pausa. —
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Juliano partiu para cima do garoto e lhe deu uma


surra. Eles tinham me pedido para que eu não
contasse, mas visto os acontecimentos e a saúde da
Maria Luiza.

— Claro que eu precisava saber. — Respondo

— Eu sei, é por isso que estou te contando.


Acho melhor você conversar com calma amanhã,
talvez Malu se abra. — Ele me encara e eu desvio o
olhar outra vez. — Não se preocupe com Juliano.
Tomo conta dele enquanto você estiver aqui.

— Obrigada. — Agradeço ainda sentindo uma


dor no peito pela nossa conversa de antes.

Caminho até Ju e toco seu ombro com


delicadeza.

— Filho. — Sussurro em voz baixa.

Ele abre os olhos e boceja logo depois de


esfregar o rosto para espantar o sono.

— Que foi mãe, aconteceu alguma coisa com a


Malu?— Ele jjá pergunta em alerta.
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— Não Ju, só quero que volte pra casa com o


Felipe. Não quero que passe a noite aqui.

— Mas mãe.

— Mas nada. — Eu o interrompo. — Vai que


amanhã você tem aula. Eu sou a mãe aqui. Pelo que
me lembro nunca precisei falar duas vezes com
vocês.

Sem discutir mais Juliano se levantou.

— Eu vou, mas eu volto amanhã.

— Eu te trago — Felipe intervém na conversa.


— Sua mãe tem razão, não há necessidade de os
dois ficarem aqui.

Deposito um beijo em sua bochecha e passo a


mão por seus cabelos tão claros quanto os meus.

— Boa noite filho, obrigada por proteger sua


irmã.

Assim que Juliano sai Felipe ainda permanece


ali me olhando.
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— É melhor eu salvar seu número. —Ele acena


com a cabeça na direção de onde eu havia deixado
meu celular.

Eu pego o aparelho de cima do frigobar e nós


salvamos os contatos um do outro.

— Amanhã passaremos aqui antes da escola e


na volta. Não hesite em me ligar, a qualquer
horário.

— Obrigada Felipe. — Agradeço uma última


vez antes dele partir.

✽✽✽

Felipe
Quando chegamos em minha casa Juliano
saltou da moto e foi direto para sua casa. Eu
preferia que ficássemos na minha casa, mas ele já
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havia passado por coisas demais hoje. Eu o segui e


entrei no chalé. Ele foi para o quarto e trancou a
porta, logo depois de bater.

Fui ao banheiro e encontrei seu uniforme sujo


sobre a pia. Peguei suas roupas e levei para minha
casa. Coloquei dentro da máquina de lavar e escolhi
o ciclo rápido.

Tomei um banho rápido para tirar o cheiro de


hospital, vesti uma cueca boxer e uma bermuda
larga.

Fui até a cozinha e deixei uma lasanha


descongelando no micro-ondas. Assim que tirei a
embalagem queimei a ponta dos dedos.

— Ai cacete! — Xingo sozinho e pego um pano


dentro da gaveta para conseguir manusear o prato
fumegante.

A máquina apita alertando o término da


lavagem e eu vou até a área de serviço. Coloco as
roupas de Juliano na enxuta e volto para a cozinha.

Calço os chinelos e segurando com um pano de


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prato o pote da lasanha eu volto para a casa de


Mariana.

Está silencioso.

Deixo tudo na pequena cozinha e vou até o


quarto de Juliano.

— Juliano. — Bato na porta. — Tem lasanha.

Ele não responde.

Encosto o ouvido na porta, mas não ouço som


algum.

Já deve estar dormindo. Penso comigo mesmo e


como a lasanha sozinho.

Enxaguo a boca com água e um pouco de pasta


de dente e vou para o sofá. O sono demora a vir,
me remexo tentando achar uma posição
confortável, mas o sofá é pequeno e duro. Não
durmo quase nada.

As sete da manhã meu celular vibra e eu me


levanto, tão cansado quanto ontem.
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Vou para a cozinha. Mariana não tem cafeteira.


Coloco a água para ferver e começo a abrir os
armários gastos e velhos. Quase todos vazios.

Lavo a louça que tem na pia e a queimadura na


mão feita na noite anterior incomoda um pouco.

Juliano aparece na cozinha. Os cabelos loiros


bagunçados e o rosto amassado de dormir.

— Bom dia.

— oi. — Ele responde ainda sonolento e senta a


mesa.

— Não achei o nescau — Respondo colocando


um copo de café com leite a sua frente.

— Café com leite tá bom. — Ele retruca meio


mal humorado. — Já falou com a minha mãe hoje?

Enxugo as mãos no pano de prato e me sento de


frente pra ele.

— Não. Achei que ela pudesse estar dormindo,


então preferi não acordar.
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Tomamos o café sem conversar muito.

Assim que ele terminou se levantou colocou a


xícara vazia dentro da pia.

— Aonde vai? — Pergunto antes que ele saia


da cozinha.

— Estudar. Um dos meu professores me atolou


de exercício até o cú.

Garoto mal criado e rebelde, só pode ter puxado


ao pai, porque a Mariana sempre foi um doce na
adolescência.

✽✽✽

Mariana
Quando uma moça entrou no quarto com a
bandeja do café da manhã de Maria Luiza, eu
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despertei. Malu acordou logo em seguida.

— ô minha filha... — Acaricio seus cabelos


quando ela acorda.Dou-lhe um beijo na testa. —
Como tá se sentindo ?

— Mole. — Me responde com a voz um pouco


rouca.

Pego a bandeja e apoio sobre uma espécie de


banqueta acoplada a cama

— Vou te ajudar a comer.

Pego o potinho de gelatina e com a colher


plástica dou algumas colheradas em sua boca.

Eu a alimento e assim que ela se dá por


satisfeita deixo tudo de lado e sento na beira de sua
cama.

— Conversa comigo minha filha. Eu preciso


saber o que está acontecendo. Quer matar a sua
mãe do coração?

— Mãe. — Ela baixa o olhar. — Desculpa.


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Afago sua mão com delicadeza.

— O que está te faltando Malu? Me fala por


favor. Onde é que eu estou errando como mãe,
porque eu não consigo imaginar o que levou a
minha filha a tentar tirar a própria vida.

— Eu não queria ter vindo pra cá Mãe, eu odiei


aquela escola, odiei a nossa casa, odiei tudo.
Porque eu não posso passar um tempo com a
família do meu pai? Eu estou cansada de me sentir
deslocada. É tudo muito mais fácil para o Juliano
mãe. Eu não aguento mais ficar ouvindo piadinhas
sobre o meu cabelo, sobre a minha cor, eu já ouvi
tanta coisa mãe. Me deixa ficar com os meus avós.
— Ela desaba no choro.

Eu sinto meu coração sangrar no peito ao ouvir


seu desabafo sofrido.

— Por que não me contou antes? Por que


deixou chegar a esse ponto Malu?

— Eu não queria ser mais um fardo mãe.

— Não fala mais isso Maria Luiza. — Eu chego


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mais perto. — Você não é nenhum fardo. Meu


Deus do céu, se passa por essa sua cabecinha o
tamanho do meu amor por você esse desatino
nunca teria passado pela sua cabeça. E daí se tem
gente que não gosta de você por causa do seu
cabelo ou da sua cor de pele, você vai deixar que
essas pessoas determinem como vai viver sua vida?

Ela solta minha mão e começa a secar as


lágrimas.

— Você é uma menina linda, inteligente e


qualquer um que disser o contrário é porque está
com inveja. —A olho direto nos olhos. — Escuta
bem minha filha, eu te amo mais que tudo, e presta
bem atenção nisso. — A gente é tratado na vida
como a gente permite. Eu demorei um pouco pra
aprender isso. — Nunca, em hipótese alguma deixe
que alguém te diminua.

Ela chora outra vez, mas eu a consolo.

— Promete pra mim que nunca mais vai fazer


uma coisa dessa Maria Luiza, por favor.

— Eu prometo. — Malu fala chorosa.


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Eu a abraço com força e beijo sua bochecha


úmida pelas lágrimas.

— Você é minha filha Maria Luiza, a única


coisa importante na minha vida é a sua felicidade e
felicidade do seu irmão.

Depois de ficarmos mais calmas, ajudei Malu a


se levantar. Arrumei seus cabelos em uma trança.

Doutor Dimitri passou no quarto as oito da


manhã. Diferente de seu irmão, ele era mais
reservado e sério. Olhou os curativos, examinou os
pontos e fez algumas anotações na prancheta.

— Como está se sentindo hoje Maria Luiza.

— Molenga. — Ela responde.

— Isso é por causa da anestesia e da perda de


sangue. — Ele explica e guarda a caneta no bolso
do jaleco branco.

— Quando eu vou poder ir para casa? — Malu


pergunta.
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— Se não houver nenhum tipo de desmaio...


tontura durante o dia, acredito que no final da tarde.
— Mariana, ela deve continuar tomando os
antibióticos e antiinflamatórios durante uma
semana, para evitar o risco de infecção, e também
deverá procurar o acompanhamento do qual
conversamos ontem.

Balanço a cabeça concordando com tudo o que


ele diz.

— Claro , claro . Doutor. — Respondo


sorrindo. — Vou cuidar muito bem da dona moça.

✽✽✽

Era perto do meio dia quando Felipe e Juliano


entraram no quarto. Ju vestia o uniforme da escola
e o boné preto com a aba voltada para trás, a
mochila pendurada num ombro só. Em seu rosto se
iluminou um sorriso ao ver que a irmã já estava
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sentada e comendo.

— Tudo isso pra ganhar comida na boca sua


fresquinha.

Ela ri

— Cala boca — Ela ri.

Felipe está com uma camisa social branca, os


punhos desabotoados e dobrados até os cotovelos
Alguns botões estão desabotoados e é possível ver
uma pequena parte da tatuagem preta marcada em
seu peito.

— Oi Mariana. — Sinto um arrepio ao ouvir a


voz dele. — Oi Malu.

— Oi. — Respondo carregando o prato de


almoço vazio para longe da cama.

— Posso ficar aqui depois da aula, para você


poder ir pra casa, tomar um banho... trocar de
roupa.

— Não vai ser necessário, mas obrigada.


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— Eu vou sair hoje no fim do dia

Felipe me encara, mas não consigo olhar para


ele por muito tempo.

— E vocês já almoçaram?

Felipe concorda com um aceno de cabeça e me


entrega um saco de papel pardo.

— Obrigada. — Agradeço de novo.

— Não por isso. — Ele responde quando aceito


o almoço. — Podemos conversar ali fora um
pouco?

Largo sobre o frigobar o saco com meu almoço


e o sigo para fora do quarto. Ele fecha a porta.

— Malu falou porque fez isso?

— Falou. — Explico — Disse que não


aguentava mais a pressão, nem o bulyng, as
mudanças só tinham piorado tudo. Amanhã vou
procurar um psicólogo pra ela se consultar.

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— Lipe?!

Ouço a voz insuportavelmente familiar.

Sandra.

Ela caminha em nossa direção com uma


expressão de grata surpresa. Ela carrega nas mãos
um grande envelope plástico

— O que você está fazendo aqui Sandra? —


Felipe diz com rispidez.

O sorriso dela se amplia e as unhas longas e


vermelhas batem no envelope.

— Hoje fiz a primeira ecografia. Nosso bebê é


tão pequeno. Gravei pra você ver.

Não pode ser.

Ela está mesmo grávida dele.

— Aqui ó, gravadinho. — Ela tira um CD e


algumas folhas de dentro do envelope. — Olha o
tamanho do pequeno.
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Eu não posso nem ver a cena. Volto para o


quarto e fecho a porta atrás de mim.

— Mãe ? — Juliano me chama.

— Nada filho. Tá tudo bem. — Minto.

Mas não estava nada bem.

Minha vida estava desmoronando. Eu ainda não


sabia quem havia pego minhas cartas, Malu tentara
o suicídio porque não aguentava mais se sentir
inferiorizada, e Felipe teria um filho com outra
mulher. Em parte aquilo era culpa minha, eu disse
para Felipe com todas as letras que não o queria.
Sabendo o quão Malu era frágil agora mais do que
nunca eu tinha certeza de que ela não suportaria a
ideia de ter sido encontrada no lixo, de que sua mãe
biológica a jogara fora.

Eu guardaria esse segredo pelo bem dela,


porque era o certo a fazer.

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Capítulo 26
Felipe

— O que você está fazendo aqui?— Rosno


furioso.

— Pré-natal, é muito importante fazer todos os


exames que o médico me pediu. — Ela coloca as
mãos no ventre. — Vou ser uma mãe muito zelosa
e você um pai babão.

— Pai o caralho Sandra. Para com essas


merdas eu já te avisei. — Digo a segurando pelo
braço. — Quero você bem longe da Mariana, aliás
você e o seu irmão.

Ela puxa o braço e me encara.

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— Que que tem o Cézar?

— Fica dando presentinhos, cercando a


Mariana, é bom deixar ele bem longe dela. —
Ameaço.

Então volto para o quarto de Malu antes que


Sandra resolva armar um barraco.

✽✽✽

Mariana
No final do dia, eu e Malu chegamos em casa
de uber. Paguei o motorista e descemos do carro.
Assim que pisamos na calçada o olhar de Malu
parou sobre o jardim de girassóis destruído.

— O que aconteceu? — Ela pergunta sem


entender o motivo.

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— A ambulância que o Ju chamou. — Explico.

— Hum. — Ela murmura envergonhada. —


Desculpa por isso também.

Eu a passo o braço por seu ombro e nós


caminhamos juntas para dentro de casa.

— Para de se desculpar Malu. A gente não se


desculpa por um sentimento. Aquela foi a maneira
que você encontrou para mostrar o quanto estava
sofrendo. Não foi a melhor, mas você percebeu que
está cercada de pessoas que te amam e morreriam
por você se fosse preciso.

Ela deu um sorriso triste e me abraçou mais


forte.

Quando entramos encontramos a sala vazia.

— Vou avisar para o Ju que a gente chegou.

— Tá. — Concordo deixando minha bolsa no


sofá e indo direto para a cozinha.

O lugar está todo limpo. Abro a geladeira para


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pegar a garrafa de água gelada, as prateleiras estão


lotadas de frutas, verduras e alguns potes.

Felipe.

Ele havia feito as compras.

Abro o armário onde ficam os copos.

Nada de copos.

Apenas mantimentos. Arroz, feij]ão... enlatados


e latas de pêssegos em conserva, muitas latas.

De imediato eu arremetida para o passado...


quinze anos antes...

“— Anda menina, corta esse pêssego em tiras.


Tem que ser mais rápida na cozinha. — Edna me
apura sem paciência.

Era a primeira vez que eu estava sozinha com a


mãe dele, e tinha me colocado a sua disposição
para ajuda-la no que fosse preciso antes do jantar.

Mas nada do que eu fazia estava bom o


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suficiente.

Quando ela me dava a mistura de ovos crus e


azeite para mexer e formar a maionese, minutos
depois ela arrancava da minha mão ...

— Tem que deixar duro, mexer rápido, não


pode ter o braço mole.

Descascando as batatas....

— Você está cortando muito pequeno... quando


misturar tudo vai parecer um purê e não uma
maionese. Sua mãe não te ensinou nada?

Eu dou de ombros completamente sem graça;

— Não sou muito boa na cozinha. Acho que


herdei isso dela.

Ela dá um resmungo e retruca:

— Deve ser por isso que ele bebe tanto.

Felipe entra na cozinha no momento em que


quero responder ao desaforo, mas ele me abraça e
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me dá um beijo apertado na bochecha, era para ser


na boca, mas do jeito que aqueles momentos com a
mãe dele estavam indo de mal a pior eu acho
melhor evitar demonstrações excessivas de carinho,
porque aquilo a deixava ainda mais irritada.

— Para Felipe. — Eu o reprendo e começo a


lavar as saladas enquanto a mãe dele separa os
ingredientes para o pavê sobre a mesa redonda.

— Mãe, não usa toda a lata de pêssegos para o


pavê. — Ele pede e rouba uma colherada do creme
adocicado de leite condensado com côco.

— Por que?

— A galega é alérgica a amendoim, mas adora


pêssego.

— Para Lipe. — Digo de antemão quando sinto


a raiva no olhar da broaca da mãe dele sobre mim.
— Nem sou tão fã assim. — Minto para tentar
agradar.

Eu amo pêssego em calda é meu doce favorito,


mas Deus me livre atrapalhar a sobremesa da velha.
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Ela já estava detestando minha presença ali,


imagina se eu dissesse como ela deveria fazer ou
não a sobremesa.

— Está bem. Deixa isso aí Mariana e começa a


cortar os pêssegos em pedaços bem pequenos que é
pra fazer render. — Ela responde mal humorada.

Felipe belisca minha bunda quando a mãe dele


se vira para mexer na geladeira e eu o empurro para
fora da cozinha.

— Sai daqui Lipe, tá estragando tudo. — Eu o


corro dali.

Apesar de saber que não tinha muita coisa pra


ser estragado. Não importava o que eu fizesse ali
pra impressionar a velha, eu não era boa o
suficiente e ponto final.

— Não precisa fazer nada. Pode ir pra sala que


eu já vi que o seu lugar não é na cozinha.

— Que isso dona Edna , quero ajudar. — Forço


um sorriso . — E o que eu não souber a senhora me
ensina.
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Ela bufa e com um meneio de cabeça indica a


tábua de vidro sobre a pia e os pêssegos a serem
fatiados.

Eu começo o trabalho e tento puxar conversa.

— A senhora aprendeu a fazer esse doce com a


mãe do seu marido? — Mas parece que toco num
ponto sensível que a deixa ainda mais irritada.

— A minha sogra era insuportável deve estar


fazendo companhia pro diabo a essa hora.

— Sei como é — Murmuro sem ela ouvir.

— O que? ! — Mas parece que a audição da


cobra é potente pra meu azar.

— Nada não. — Gaguejo e acelero o corte, a


lâmina descendo rápido, e a mão com a faca afiada
falseia alguns poucos centímetros para o lado.

— Ai. — Exclamo largando tudo. — Ah


porcaria. — Xingo balançando a mão ferida
tentando afastar a dor das pequenas agulhadas que
vinham do corte.
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— O que você está fazendo?! — Ela me xinga


— Imundiciando tudo menina!

Eu corro para fora da cozinha e saio porta a


fora.

Meus pais não falaram nada, estavam ocupados


demais discutindo. Me tranquei no quarto e enrolei
alguns lenços na mão para parar o sangue.

Alguns minutos depois Felipe pula a janela para


dentro de meu quarto.

— Que foi Galega? — Ele vem para a cama e


puxa a minha mão para ver o corte.

— Não é nada. Só sua mãe que me odeia. Só


isso.

— Odeia nada. Ela é só um pouco casca grossa,


mas depois de um tempo ela amolece.

— Eu não fico onde não me querem. — Digo.


— Não sou acostumada a ser maltratada.

— Ei ei? Quem tem que gostar de você sou eu;


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— Ele me rouba um beijo.

Seu hálito cheira a hortetã. Felipe estava


semore comendo clorets.

Ele me beija de novo e de novo e seus lábios


doces vão me envolvendo até que eu não consiga
pensar em mais nada, que não seja seu beijo
maravilhoso e quente.

A voz de Malu me traz de volta.

— Mãe, ele não está no quar— Ela para de falar


quando vê os armários com as portas aberta lotados
de comida. — Que comida é essa toda?

— O exagerado do Felipe. — Respondo


fechando as portas e volto a encarar Malu.

✽✽✽

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Eram quase seis da tarde quando eles


retornaram da escola. Juliano foi para o quarto que
era um furacão. Batendo porta por onde passou.

Felipe entrou logo em seguida.

— O que aconteceu?

— Seu filho. Passando cola pra uma garota.—


Ele parece irritado também. — Tive que tirar a
prova dele e a dela e dar zero.

— Ele vai ter que fazer por merecer Mariana,


não pode ficar com essas rebeldias. Eu arrisquei
meu emprego para defender ele. Por sua causa. Vai
ter que andar na linha agora.

— Eu vou falar com ele. — Respondo.

Felipe dá um suspiro resignado como se


estivesse tão cansado quanto eu.

— Obrigada por ficar ao meu lado. Eu sei que


você não precisava fazer isso. Não precisava fazer
as compras. Eu vou pagar tudo quando receber no
final do mês. Você não pode ficar gastando assim,
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ainda mais agora que vai ser pai.

Ele me fuzila com o olhar.

— Você sabe que aquele filho não é meu. Para


com isso. Eu fiz porque sabia que você não teria
tempo depois que voltasse do hospital. — Ele
coloca as mãos no bolso da calça jeans. — E como
está a Malu?

— Melhor, mais calma. Amanhã já voltará pra


escola para não perder as aulas, como ainda não vai
conseguir escrever vai tirar xerox do caderno das
colegas.

Ele balança a cabeça concordando comigo.

Quero pedir para ele ficar. Quero pular em seus


braços e deixar que ele me abrace com força, mas
as coisas não são simples assim.

— É melhor você ir. — Abro a porta .

Ele me olha nos olhos e eu desvio o olhar dos


dele.

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Felipe sai devagar e para na soleira.

Fica Felipe, eu te amo. Eu quero você do meu


lado. Eu preciso de você aqui. O Juliano é seu filho.
Sempre foi você. Eu nunca te esqueci. Era o que eu
deveria ter dito, mas não o fiz.

Então Felipe me encarou uma última vez.

— Tem mais uma coisa. — Ele disse com a voz


rouca.

Meu coração se apertou no peito.

Eu não podia ouvi-lo se declarar outra vez,


simplesmente não podia, porque daí eu não
aguentaria.

Mas ele não disse, ele fez.

Sua mão envolveu minha cintura me puxando


direto para si.

Beijos roubados. Sim, eles eram sua


especialidade.

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Meu coração bateu descompassado no peito,


meu corpo derretendo diante da intensidade de seu
beijo. Os lábios se encaixando aos meus com
perfeição. A língua quente macia exigindo
passagem, explorando minha boca, envolvendo em
uma nuvem de paixão da qual eu não podia resistir.

Ninguém poderia.

As mãos dele me apertaram com mais força


contra seu corpo, e os seus lábios castigaram os
meus em um beijo lento e longo. Eu sabia que
nenhuma homem jamais me beijaria de maneira tão
apaixonada.

Então nosso momento se desfez.

Ele me deu um último beijo no lábio inferior e


eu suspirei como uma adolescente apaixonada.

Eu sei que eu não era mais nenhuma


adolescente... mas ainda era apaixonada.

— Boa noite galega.

Felipe me soltou devagar e sorriu ao ver o quão


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atônita aquele beijo me deixara.

Eu fiquei vendo ele caminhar de volta para sua


casa.

Minha felicidade se desfez assim que vi Sandra


atravessar a rua na direção de minha casa.

Eu deveria ter fechado a porta e evitar uma


discussão desnecessária, mas esperei que ela viesse.

— Boa noite vizinha. — Eu disse com deboche.

— Eu sei o que você está fazendo Mariana, se


aproveitando da bondade do Felipe, sabe como ele
tem um coração bom e não sabe dizer não. Faz essa
cara de cadelinha sem dono, traz seus filhos
problemáticos, eu vi seu garoto quebrando as
janelas dele dias atrás... Joga conversinha mole pro
meu irmão...

— Como é que é?! — Dou um passo pra fora e


chego mais perto dela. — Repete o que você falou
dos meus filhos, repete? — Ameacei fechando a
porta atrás de mim.

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— Um marginal e uma piradi — Não deixei


que aquela vagabunda terminasse de insultar Maria
Luiza e Juliano. O tapa foi certeiro e estalado,
fazendo a palma inteira de minha mão estremecer.

— Fala de novo fala?! —Ameaço. — Abre essa


sua boca de puta pra falar mais uma ai dos meus
filhos e eu vou direto lá na sua casa pra falar com o
seu marido. Tenho umas fotos bem interessantes
pra mostrar pra ele.

Com a mão contra a bochecha em que eu a


havia estapeado, ela me olha cheia de ódio mas não
continua a briga.

— Agora some daqui vagabunda. — Eu a


expulso aos empurrões.

— Isso não vai ficar ficar assim. — Ela me


ameaça e coloca as mãos no ventre. — Eu vou dar
um filho pro Felipe. Quero só ver se ele vai
continuar te dando bola quando estiver como o
nosso filho nos braços.

— Vá pro diabo que te carregue. — Xingo. —


Caso você não tenha percebido. É ele que vem atrás
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de mim, é ele que me beija. Aceita que dói menos


vizinha. E para que já tá bem feio pra você.

Furiosa ela volta para sua casa e arrebenta a


porta quando entra. Também volto para minha
casa.

Meu celular está vibrando no sofá. São


mensagens de Nice

Nice: “Já voltaram do hospital? Como estão as


coisas por aí?”

Conto tudo a ela por whatsapp, desde o beijo de


Felipe até a briga com a puta da Sandra.

Nice: “Tapa na cara? Meu Deus dava uma teta


pra ver você se metendo numa briga
kkkkkkkkkkkkk”

Eu: “Palhaça ”

Nice:”Agora é sério... Nana muda teu foco


amiga, deixar Felipe entrar na tua vida de novo só
vai te trazer instabilidade, e agora isso é a última
coisa que você precisa”
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Eu: “Eu sei.”

Nice: “Não sei se é uma boa deixar ele entrar na


vida de vocês dessa maneira. Pelo que você me
contou ele é um baita galinha. As pessoas não
mudam assim Nana, ele vai acabar te fazendo
sofrer e pior, vai fazer seus filhos sofrerem
também.”

Eu: “é difícil Nice, ele é o meu vizinho, e o


nosso passado deixa tudo mais complicado.”

Nice:”Para com isso quem vive de passado é


museu Nana, você só é toda fissurada nesse cara
porque nunca teve outro. ”

Eu não queria mais falar com a Nice a conversa


toda estava me tirando do sério, mas e se ela tivesse
razão?

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CAPÍTULO 27
Mariana
Alguns dias depois

Já faziam três dias que eu havia retomado a minha


rotina. Acordar, tomar um banho rápido, me
aprontar para o trabalho e deixar o café pronto para
quando Malu e Ju antes de sair para o trabalho.
Exatas setenta e duas horas que Felipe não cruzava
o meu caminho, não aparecia de surpresa com
aquele ar de quem é cheio de si, setenta e duas
horas sem ter um beijo roubado por ele.

Eu estava sentindo falta disso. Muita falta. Pelo


menos em meus sonhos as coisas entre nós davam
certo, sonhos quentes e molhados que me faziam
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acordar quase sem ar. Durante o dia eu podia jurar


que ele estava por perto, esperando para m elevar
para casa, para cobrir meu corpo com beijos e
mordidas que somente ele sabia dar.

Eu mexi o miojo no pote. Ele meio que estava


queimado. Não... eu merecia um prêmio de melhor
cozinheira, quem era capaz de queimar uma comida
no micro-ondas que precisava apenas de cinco
minutos para ser feita?

Euzinha aqui.

Cutuquei com o garfo a massa meio preta, meio


dura e enchi com um pouco mais de água e despejei
o pacotinho de tempero, quem sabe o pozinho
amarelo sabor galinha caipira desse jeito na
gororoba?

Mal percebi quando Leonardo entrou na mini


cozinha que ficava ao lado do depósito.

— Nos falamos depois. — Ele desligou o


celular segundos depois de me ver e o guardou no
bolso de dentro do blazer.

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— Mariana!? — Ele parece surpreso ao me ver.

Largo meu potinho de miojo e aceito seu


cumprimento. Ele me dá três beijos rápidos e me
segura pelos ombros me encarando com
encantadores olhos azuis.

— Você está ótima. — Ele me elogia. — Tinha


esquecido que era para essa loja que você tinha
vindo trabalhar.

Eu retribuo seu sorriso gentil. Ele percebe que


está interrompendo meu almoço.

— Miojo? — Ele me encara. — Não recebeu


seu cartão alimentação? Se não eu ligo para o rh
para resolver.

— Não não. — Eu o interrompo. — Eu recebi


sim, mas almoço miojo porque dei o cartão para
meus filhos almoçarem no restaurante em frente a
escola.

— Entendo — Ele murmura mais


compreensivo.

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Sui entra na cozinha segurando uma lata de


coca-cola.

— Miojo de novo Nana? Não sei como você


consegue.

— Aff... tiraram o dia pra reclamar do meu


almoço. — Brinco fingindo indignação. —
Quando eu acerto e não queimo ele fica bem
gostoso, só pra vocês saberem.

— É todo santo dia miojo Léo. — Sui me


delata e toma um gole do refrigerante gelado.

Ele volta a me encarar com um sorriso no rosto.

— Hoje não. Deixa isso aí .

Contra a minha vontade eu cedo e aceito o


convite dele para almoçar. Claro que eu ouviria
uma senhora ladainha da Sui, desde que Cezar e
Felipe tinham vindo a loja a minha procura ela não
me dera um descanso.

✽✽✽

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O restaurante era um dos mais movimentados


da praça de alimentação do shopping, mas a comida
não demorou a chegar. Enquanto comíamos
Leonardo me contava que seria transferido
definitivamente para a boutique em que eu estava
trabalhando.

— Não tenho mais idade para ficar viajando —


Ele comenta e toma um gole do suco de abacaxi.

— Que besteira. — Respondo e corto a carne


em pedaços misturando tudo. — Quantos anos você
tem?

— Quantos anos você me dá? — Ele brinca.

— Ah não sei...— Rio.

Olho para alguns fios prateados em meio aos


cabelos castanhos escuros, ele não tem fios brancos
na barba, aliás ele nem usa barba. Percebo algumas
ruguinhas ao redor dos seus olhos.

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— Uns quarenta? — Chuto?

— Cinquenta e seis.

É inevitável não arregalar os olhos, lógico que


eu só me arrependo da expressão de espanto depois
que a faço.

Ele exibe um sorriso amplo, feliz pelo meu


palpite.

— Ganhei o dia. —Ele responde me encarando.


— Mas voltando o assunto sobre viagens... Rio de
Janeiro é vida. Quero isso pra mim. Me estabilizar
em uma casa. Não ficar uma semana num hotel,
outra semana em outro.... isso não é mais pra mim,
quando eu era mais novo esse emprego era o
máximo, mas aos poucos vai desgastando.

— Acho que sei o que quer dizer. Sua mulher


deve estar feliz que vai ficar em casa.

— Não sou casado. E relacionamentos a


distância na minha experiência não dão certo..

E eu não sei disso?


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— Mas e como está sua adaptação, já conseguiu


se instalar? Como estão seus filhos?

— Sim, estou na minha antiga casa. O início foi


meio conturbado, mas graças a Deus as coisas já
estão. — Percebo que Felipe está sentado a poucas
mesas de distância de nós. — Filho da

Não termino de xingar e logo emendo.

— Filho da trabalho. Mudar assim como dois


adolescentes.

Pigarreio e tento me concentrar na conversa,


mas é extremamente difícil sabendo que Felipe está
a poucos metros de nós.

Leonardo continuou falando e eu me esforcei


para me manter atenta e fazer parecer que eu
realmente estava prestando atenção no assunto.

Limpo a boca com o último guardanapo e meu


olhar desvia na direção de Felipe outra vez.

Ele está sentado. Os cotovelos apoiados sobre a


mesa vazia. O queixo proeminente e másculo
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apoiado sobre as mãos. No olhar ondas de ciúmes


encaminhadas diretamente para mim.

— A paleta mexicana desse lugar é incrível. —


Ele elogia — Você quer?

— Não precisa se incomodar. — Nego


educadamente, necessito sair o mais rápido dali
antes que Felipe faça alguma cena e eu acabe
perdendo meu emprego. — Acho melhor eu voltar
logo para a loja.

— Eu insisto. — Leonardo se levanta e abotoa


o blazer. — Morango, chocolate ou leite de
condensando?

Vendo que ele não se dará por vencido eu


aceito a última opção. Se tinha uma coisa mais
gostosa no mundo que chocolate e pêssego em
calda era leite condensado.

— Leite condensado. — Respondo.

— Eu já volto.

Assim que Leonardo segue para o interior do


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restaurante e me levanto e caminho a passos


rápidos na direção de Felipe.

— Meu Deus Felipe, você está me seguindo?!

— Quem é esse cara?! — Ele ignora minha


pergunta me fazendo outra.

— Meu chefe.

— O você almoça todos os dias com ele? —


Felipe me interroga num rosnado.

— Não é da sua conta VIZINHO. — Endureço


com a petulância dele.

Percebo que Leonardo está retornando com


uma paleta na mão esquerda e uma pequena taça de
sorvete na mão direita.

— Tenho que ir.

— Mas eu preciso falar com você.

— Agora não, Felipe. — Respondo com dureza


a sua insistência.
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Me viro e volto para a mesa em que eu estava


com Leonardo.

— O tamanho disso. — Digo espantada com o


tamanho do picolé.

Meu chefe ri e se senta de frente para mim


depois de me entregar a minha sobremesa.

Retiro do pacote plástico a paleta. Até o picolé


dos ricos é diferente do dos pobres. Picolé de pobre
é agua e suco de saquinho congelado, já aquela
paleta que se desmanchava cremosamente no
interior de minha boca, era quase um pedaço do céu
derretendo devagar na minha língua.

— Hum... — Murmurei me lambuzando. —


Nossa. Isso é realmente muito bom.

— Eu te disse. — Leonardo sorriu olhando para


mim com divertimento.

Meu celular vibrou na bolsa. Com a mão que


estava menos suja. Eu peguei o aparelho.

Era uma mensagem dele.


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Felipe: “Tem que comer essa porra de picolé


num local público?”

— Desculpa por isso. Nada de mais.

Ignoro a mensagem.

— Sem problemas.

Leonardo continua conversando animadamente,


ele me conta de surtos loucos de vendedoras se
agarrando nos cabelos de clientes, e outras histórias
cômicas que me faziam rir enquanto eu degustava
lentamente a sobremesa.

O celular vibrou de novo.

Felipe “Eu só consigo pensar nessa sua boca


chupando o meu cacete. E o que me deixa mais
louco é que esse fdp que está aí com você deve
estar pensando a mesma coisa.”

Eu passo a língua pelo lábio inferior capturando


uma gota do leite condensado que escorre.

Não era só a paleta que estava derretendo


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naquele momento. Ver Felipe todo enciumado, e a


mensagem que ele havia me mandado por último.

Eu chupando seu pau...

Minha calcinha molhara na hora.

— Essas propagandas ; — Minto justificando as


mensagens. Eu sempre olho porque pode ser um
dos meus filhos.

— Claro, claro.

Eu volto a rir quando Leonardo me conta outra


história e acabo sem querer virando o último
pedaço em minha blusa.

Duas mensagens chegam , mas dessa vez eu


não olho. De soslaio percebo o quanto Felipe está
furioso.

— Ai ai ai... porcaria! — Xingo balançando


minha blusa quando o pedaço de picolé desliza para
o meio de meus peitos. — Meu uniforme!

Tento enfiar a mão por dentro da roupa mas já é


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tarde, o doce se desmanchara entre meus seios.

— Leonardo. — Me levando segurando a blusa


com a ponta dos dedos para deixa-la afastada da
pele melada. — Preciso limpar isso urgente.

Ele exibe um sorriso compreensivo .

— Claro, vai, pode ir.

Caminho rápido para fora da praça de


alimentação.

— Aonde pensa que vai? — Ele me puxa antes


que eu consiga alcançar o banheiro feminino.

Seus dedos se fecham com firmeza em torno de


meu braço e ele me arrasta para dentro do banheiro
familiar.

Ele bate a porta e passa a chave.

— Meus Deus Felipe! Você ficou louco? — Eu


caminho na direção da pia e abro os botões de meu
uniforme para me limpar. —Fala logo o que você
queria me dizer antes. Tenho que voltar logo.
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Felipe me puxa contra parede e pressiona seu


corpo contra o meu.

— Eu até deixo você voltar, mas só depois que


essa sua bocetinha. — Ele desce a mão por meu
corpo e agarra meu sexo com força. — estiver com
o cheiro da minha porra.

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CAPÍTULO 28
Mariana

O olhar de Felipe desce para meu sutiã, uma


luxuaria pecaminosa quase febril me incendeia
quando ele lambe o doce do leite condensado ainda
lambuzado em minha pele. A língua dele é morna e
macia.

— Felipe... — Sussurro quando suas mãos vão


direto para o meu sutiã, puxando a peça íntima para
baixo sem qualquer delicadeza.

As mãos enormes dele agarram meus seios e ele


os chupa, passando a língua por tudo. Sugando o
mamilo com uma pressão perfeita que reflete em
curtas pontadas de prazer que se acumulam em meu
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clitóris.

Ele sobe os lábios na direção dos meus e me


beijo duro. Sinto o gosto suave em seus lábios
quando nosso beijo se intensifica e ele me
pressiona com mais força contra a parede, querendo
me possuir ali mesmo.

— Aqui não. — Imploro sentindo as batidas


aceleradas no peito rígido de Felipe, se misturando
as minhas.

— Eu sei que você quer Galeguinha. — Ele


aperta meus mamilos. — É pra isso que se labuzou
— ele se inclina e suga meus peitos de novo —
toda. — Felipe chupa gostoso fazendo minha
calcinha ficar ainda mais encharcada.

Ele dá um passo para trás e suas mãos vão


direto para a calça. Felipe desafivela o cinto, abre o
botão e o zíper sem tirar os olhos dos meus.

— Era isso que você queria chupar? — Ele


abaixa a cueca boxer puxando o membro
completamente rígido e pesado para fora.

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Eu salivo ao ver como ele está excitado.

Com a expressão mais ordinária do mundo


estampada em seus rosto másculo, Felipe volta a se
aproximar de mim. Eu prendo a respiração sem
conseguir desviar o olhar do dele.

— Quando você provoca um ariano — Felipe


chega ainda mais perto. Suas mãos sobem a saia de
meu uniforme até a cintura. Ele dá mais um passo
roçando o pau contra o meu baixo ventre — É bom
você estar preparada para o revide.

Ele pega a minha mão, e só quando ele me toca


percebo que estou tremendo. Felipe puxa minha
mão e coloca sobre a sua ereção.

— Você está? — Sua voz é grossa é


perigosamente baixa.

Sinto as veias grossas de seu membro pulsando


contra a palma de minha mão. Felipe era um grosso
em todos os sentidos possíveis.

Eu umedeço os lábios e um sorriso indecente


surge no rosto dele, quando a mão livre afasta
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minha calcinha e brinca com minha boceta


encharcada.

Ouço a maçaneta da porta sendo girada.

Alguém está tentando entrar.

Felipe não liga e se inclina mordiscando meu


pescoço enquanto sua mão dita os movimentos da
minha em torno de seu membro.

Meu Deus ... que delícia...

— Tá... — Tento formular uma frase que não


termine em gemido. — o — Os dedos dele
brincam mais rápido entre meu sexo molhado —
ocupaaaaaaa —Felipe soca um dedo em minha
bocetinha — do ! Vai em outro.

Ele sorri satisfeito e não para com meu martírio.


Minha punição por provoca-lo.

Seja quem fosse para de tentar entrar e vai


embora.

Felipe mete mais um dedo e eu me contorço de


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prazer.

— Abaixa. — Ele rosna soltando meu sexo. —


E mama gostoso.

Felipe era indecente, sexual e quente. Tudo nele


era perfeito para o sexo, mas seu pau era algo fora
do comum.

Eu abaixei, porque eu queria sentir o gosto dele


na minha boca.

Umedeci os lábios, com uma mãos acariciei


suas bolas pesadas e macias, e com a outra segurei
de leve mas com certa firmeza ao redor do cacete.
Passei a cabeça polpuda e rosada por meus lábios, e
senti que a sensação tinha se invertido, se antes era
ele quem me castigava com um prazer que eu mal
podia suportar, agora o poder todo estava
literalmente em minhas mãos.

Quando olhei para Felipe, ele estava com as


duas mãos apoiadas contra a parede e um olhar
sacana no rosto.

— Assim? — Provoquei e passei a língua pelo


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líquido perolado que gotejava de seu pau.

Eu o ouço rosnar um palavrão e com a mão


direita ele abre os botões da camisa com rapidez
como se a roupa o estivesse sufocando.

Me inclino mais para baixo e chupo suas bolas.

— Ah caralho Galeguinha. — Ele enrosca uma


mão em meus cabelos, e me força a olha-lo.

— Chupa gostosa.

Eu sorri.

Minha língua passou por toda a extensão de seu


membro. Senti cada centímetro cada veia pulsando.
Da base a cabeça eu o lambi, só quando cheguei na
cabeça de sua rola grossa eu o coloquei dentro da
minha boca e o suguei, tentando engolir tudo.

O gosto salgado e grosso escorria de seu


membro a medida que eu o chupava mais rápido.

Tentei engolir mais e engasguei quando seu


cacete roçou na minha garganta.
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— Puta que pariu. — Ele me puxa pelos


cabelos, não com força para machucar. — Vem
aqui porra!

Será que eu fiz errado?

— O que foi? — Pergunto querendo mais


daquele “castigo”

— Tive que parar senão ia encher sua boca de


porra.

Ele chega mais perto e me encurrala de novo


contra a parede.

— É? — Pergunto em um sussurro cheio de


malícia.

— Gostou de mamar né safada. — Felipe


segura o cacete e puxa minha calcinha para o lado.

Então ele mete.

Mete fundo.

Eu me agarro com força a seu corpo enorme e


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sufoco minha vontade de gritar de prazer quando


sinto seu pau socar fundo na minha boceta

Felipe engancha o braço e puxa minha perna


para o alto , e soca mais fundo.

— Era isso que você queria? — Ele rosna com


a boca quase colada a minha. — Queria me
provocar?

Ele soca mais rápido e meu sexo lateja.

— Não

— Mentira ! — Felipe estoca com força em um


ritmo que meu corpo não pode aguentar arrancando
tudo de mim em um orgasmo violento.

O gozo escorre de mim e os sons de nosso sexo


molhado se misturam a nossas respirações
ofegantes.

Com o corpo trêmulo, minha perna que está


apoiada no chão fraqueja, mas ele engancha o outro
braço, assim como fez com a outra, agora meus pés
não tocam mais o chão e meu corpo quica com
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força no cacete grosso e duro.

Ele não para de meter.

Seus braços me seguram e Felipe caminha


comigo até a outra parede, escorando meu corpo
contra a porta, ainda impedindo que eu apoie
minhas pernas.

— Olha — Ele me diz num sussurro. — Olha


no espelho eu comendo gostoso essa sua boceta
apertada.

Exibido e indecente.

Sobre seu ombro eu vi nosso reflexo refletido


no espelho redondo. As costas largas, a camisa
suada e o perfeito movimento das estocadas
dilacerando cada centímetro meu.

Minhas mãos puxaram sua camisa para cima.

— Assim... — Minha voz sai num fiapo de


gemido quando ele soca sem dó.

— Sente meu caralho duro entrando — Ele se


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afunda com mais força dentro de mim. — Sente.

E eu sinto.

Sinto nossos corpos suados e quentes.

Sinto seu gozo grosso se misturando ao meu


escorrendo pela minha boceta quando ele termina.

Durante alguns segundos ele permanece ainda


dentro de mim, a testa recostada contra a minha, os
olhos verde ocre lendo minha alma. Seus braços me
desceram devagar e novamente eu estava com os
pés no chão.

Outra vez alguém tenta abrir a porta e nosso


momento se desfaz.

Eu o afasto e ele sai de mim.

— Tá ocupado. — Digo em voz alta.

Felipe se arruma e eu abro a torneira e pego


alguns papeis para deixar a mão. Por sorte estamos
no banheiro familiar, então abro um armarinho com
fraldas e lenços umedecidos e pego alguns lenços
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para me limpar.

— Olha pra lá. — Xingo quando ele se vira


para me encarar.

Felipe ri e se vira, ficando de costas. Ele coloca


as mãos no bolso e espera que eu termine de me
arrumar.

— Droga. — Praguejo quando vejo minha


calcinha toda encharcada.

— O que foi? — Ele pergunta curioso.

— Minha calcinha. — Explico e jogo alguns


papeis no lixo. — Não dá pra usar. Tá toda
molhada.

Ele me olha por cima do ombro.

— Você não vai trabalhar sem calcinha. — Ele


rosna.

— Com essa molhada que não dá pra ficar.

— Ah é ? E o que sugere que eu faça?


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— Usa minha cueca. — Ele responde com


obviedade irritante.

— Claro que não né Felipe.

Ele dá uma bufada.

— Não sai daqui.

Ele sai do banheiro antes que eu possa dizer


qualquer coisa.

— Doido — Digo pra mim mesma e volto a


encarar meu reflexo no espelho. Refaço o meu rabo
de cavalo, e limpo o batom borrado do rosto.
Abotoo a camisa e percebo que está faltando um
botão, o que deixa o decote mais acentuado do que
deveria.

— Porcaria.

Espero por ele mais alguns minutos então


decido sair.

A calcinha molhada bem enrolada dentro da


bolsa.
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Dou de cara com ele.

— Eu disse pra não sair. — Ele me puxa de


volta para o banheiro.

— Só na sua cabeça que você manda em mim.


— Retruco.

Ele me lança um olhar irritado e tranca a porta.

Felipe me entrega uma sacolinha plástica cor de


rosa.

Uma lingerie. Ele me comprou uma lingerie.

Pego a sacola e abro.

— Sério?! — Tiro uma calçola cor bege da


sacolinha. Se minha vó ainda estivesse viva essa
seria a calcinha que ela usaria.

Ele ri.

— Achou que eu ia te dar um fio dental, ou


aquelas tangas enfiadas na bunda?

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— Você é completamente louco. — Digo


balançando a cabeça enquanto visto o calçolão.

Felipe tira do bolso um pacotinho de tridente


verde e coloca um chiclete na boca.

— Me dá um? — Digo assim que termino de


me arrumar.

— Não. — Ele responde com um sorriso no


rosto — Tem que fazer por merecer.

Ele me puxa para seus braços e suas mãos se


entrelaçam ao redor da minha cintura.

— Eu tenho que trabalhar e você também, Ju


me falou que seu apelido lá é carrascão.

Ele dá um risinho.

— É... um deles... mas não quero voltar e não


quero que você volte.

— Claro vamos ficar aqui no banheiro pelo


resto da tarde e vamos viver de amor.

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As mãos dele descem para minha bunda e ele


me aperta.

— Não... talvez possamos tarde no motel e a


gente termina o que começou.

— Não dá Felipe. Eu tenho que ir trabalhar. —


Enfio a mão no bolso onde ele guardara o trident e
pego o pacote.

O celular dele vibra mas ele não atende.

Eu me desvencilho de seus braços e passo as


mãos pelo uniforme de trabalho.

— Atende logo Felipe. Esse celular tocando


está me agoniando.

Ele tira o aparelho do bolso e tira o som do


toque, mas o celular continua vibrando.

— Tenho que ir. — Respondo sentindo a


irritação crescente quando não me resta dúvidas
que ele está ignorando a ligação de alguma mulher.
— Impressionante... — Saio resmungando do
banheiro.
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✽✽✽

As horas seguintes foram preenchidas por


trabalho e mais trabalho. Indo e voltando com
caixas de sapatos, não que eu estivesse reclamando,
até porque eu era comissionada e quanto mais
clientes melhor, mas o cansaço ao final do dia
parecia mais intenso que nos outros.

Com a mão escorando a cabeça em um evidente


gesto de exaustão eu ouço Suiane sussurrar.

— Hum... eu sei que esse aí é pra ti. — Ela me


cutuca e eu me endireito achando que Felipe tinha
voltado.

Mas a decepção é explicita quando percebo que


é o irmão de Sandra que entra na loja, usando
roupas chamativas vermelhas e grandes correntes
douradas penduradas no pescoço. Cheio de marra
ele abre os braços quando me vê e dá um sorriso
largo.

AH... NÃO.
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— Ah mina que eu queria ver hoje.

Cezar senta no sofá de forma atirada como se


fosse o dono do lugar.

Eu caminho até ele.

— Boa tarde, em que posso ajudar o senhor.

— Não não.... não vem com essas paradas de


senhor. — Ele mostra o braço bronzeado. — Chega
dá uns arrepio ruim.

— Em que posso ajudar, César? — Pergunto


sentindo a irritação aumentando.

— Sabe o que é. — Ele coça a parte de trás da


cabeça. — Essa mina que eu tô trovando pra sair
comigo. Ela é difícil pra carai saca? Comprei umas
paradas caras pra ela e nada.

— Eu não vou sair com você. — Respondo


com rispidez em uma altura que apenas ele me
ouve. Eu tenho filhos eu não te conheço, quer mais
motivos eu continuo com a lista.

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Cezar dá um assovio na direção de Suiane e a


chama com um aceno de cabeça.

Sem entender ela se aproxima.

— Sim, em que posso ajudar?

— É o seguinte — Ele tira a carteira do bolso e


olha diretamente para Sui. — Vai fazer o que nesse
sábado.

Ela me olha ainda confusa.

— Eu?

— Cézar para.

— Não esquenta que to tratando umas parada


com ela.

— Não sei. — Suiane responde. — Ainda não


pensei.

— Cinquenta? — Cezar tira a primeira nota


olhando pra Sui. — Pra cuidar dos filhos da Mari?

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Sui me encara com as sobrancelhas.

Cezar tira mais uma nota.

— Cem conto? ! — Ele sugere. — Vai facilita


aí.

— Para Cezar.

— Duzentos. —Ele fica de pé e pega a mão de


Suiane colocando o dinheiro em sua palma. — E
não fura hein.

— Vô continuar vindo até tu topa linda. — Ele


me responde.

Solto um suspiro resignado e Cezar sorri e me


encara com ar de satisfação de um negociante que
fecha um bom negócio.

— Te pego no sábado.

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Capítulo 29
Felipe

“— Recebi suas mensagens, o que aconteceu? —


Adriana suspira — Por que parou de me enviar as
fotos que tanto adoro? Estou sentindo que você está
meio estranho. Assim que der eu ligo de novo,
estou prestes a entrar no avião.”

— Porra! — Xingo sozinho no banheiro


familiar, quando ouço a mensagem de voz enviada
por Adriana.

Eu tinha que desatar o caralho desse nó de


noivado antes de me envolver com Mariana, do
contrário ela pensaria que é só mais uma das muitas
mulheres que passam por minha cama.
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Manter distância de Galega até que tudo


estivesse resolvido entre Adriana era praticamente
impossível já que eu queria estar com ela a todo
instante.

✽✽✽

Mariana
Depois de chegar encontro a casa silenciosa.

— Ju? Malu?

Largo a bolsa sobre o sofá da sala.

Lembro que eles haviam me avisado por


mensagem haviam conseguido um jeito de pagar
pelo estragos na janela da casa de Felipe. Eles
passeariam com o cachorro da Dona Geraldina,
uma idosa de quase oitenta anos que torcera o pé
em uma de suas caminhadas. Uma hora de
caminhada com o cachorro da vizinha durante
tempo o suficiente para pagar pelos danos
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causados. Eu não vi mal nenhum nisso.

Resolvo ligar para Malu para saber como está


indo. Deixo o celular no viva voz e começo a me
desmontar. Solto o cabelo e me livro dos sapatos de
salto. Tiro a saia e fico apenas com a camisa do
uniforme do trabalho.

— Alô. — Malu atende quase ao último toque


— Oi mãe.

Ouvir o som de felicidade em sua voz me faz


sorrir.

— Como estão as coisas por aí?

Ela dá risada e ao fundo posso ouvir Juliano


fazendo ânsia de vômito.

— Seu irmão está bem?

Ela ri mais alto.

— Está sim. Ele só está juntando o cocô do


cebolinha.

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Eu rio junto.

— Ah... ok, poupe-me dos detalhes sujos.

Juliano faz ânsia outra vez e eu o ouço xingar


Malu que cai na risada outra vez.

— Para de rir Maria Luiza me dá outra sacola


porra que essa sacolinha tava furada!

— Tá bom. Ajuda seu irmão aí senão depois


ninguém aguenta o mal humor dele. Beijos — Me
despeço .

— Beijos. Daqui a pouco já chegamos. Tchau

A ligação termina e eu caminho descalça até a


geladeira. Preparo um sanduiche com três andares,
pão queijo, presunto, tomate, alface e um pouco
mais de queijo, encho de catchup, separo um copo
de suco e levo tudo para sala.

Me acomodo no sofá e devoro tudo enquanto


assisto Grey’s Anatomy. Entre um episódio e outro
troco mensagens com Nice.

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Nice: “Eu sabia que você ia gostar dessa série.


É MARA.”

Eu: “Para não me conta que eu dispenso


spoiler.”

Ainda estou com fome mas é preguiça é maior


que a vontade de preparar mais um outro sanduiche
gigante.

Eu: “Nem te conto. :) :)”

Nice: “Fala logo vagaba e não faz suspense que


meu coração não aguenta essas coisas.”

Eu: “Felipe foi no shopping onde eu trabalho, aí


ele ficou todo enciumado porque eu estava
almoçando com o meu chefe.”

Nice me envia um emoticon de olhos


arregalados.

Eu: “A gente transou no banheiro familiar.”

Nice: “MEU DEUS NANA, IMAGINA SE


VOCÊS SÃO PEGOS! VOCÊ IA SER
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DEMITIDA E AINDA CORRIA O RISCO DE


SER PRESA!”

Eu: Eu sei. Mas as coisas aconteceram de um


jeito tão louco que não tinha como controlar. Tinha
que ver o ciúmes que ele estava.

Nice: Então as coisas estão ficando sérias?


Você vai mesmo voltar a se envolver com ele?

Me acomodo no sofá e pauso a série para não


perder nada.

Eu: “Não. Não é simples assim, tem a Malu e o


Juliano. Tem essa vizinha da frente que diz estar
grávida dele. Tem o Cezar que está indo direto no
meu trabalho me convidando pra ir em baile funk”

Nice “Que cezar?”

Eu: “Aquele que eu te contei outro dia, o que é


irmão da vizinha louca que é apaixonada pelo
Felipe.”

Nice: “Ele é gostoso?”

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Eu: É bonito mas não estou a fim dele.

Nice: Deixa de ser careta Nana, sai pra beber


com ele, dança e se diverte, depois diz que não está
num momento de se envolver e vai embora.

Eu: É isso que você faz?

Nice: “É... e tem dado certo. Agora chega de


falar de piroca que eu quero saber dos meus filhos”

Nice amava Malu e Ju como se fossem seus.


Éramos quase irmãs.

Eu: “Malu está bem melhor. Eles se adaptaram


bem a escola.”

Nice: “Acho que vou pegar eles esse final de


semana pra passar o sábado e domingo aqui em SP
que acha? Consegue uma folga no trabalho.”

EU: “Pior que não, faltei semana passada por


causa da Malu e não posso perder mais dias, mas
leva eles e depois me trás.”

Juliano entrou na sala espraguejando a irmã.


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— Ei ei ei... Isso é jeito de entrar?

Maria Luiza ainda estava rindo quando passou


pela porta da frente.

Juliano entra no banheiro, eu o ouço rosnando


alguns xingamentos furiosos.

— E aí como foi? — Pergunto.

— Aquela velha caduca só deu sacolas furadas.


— Ele responde indignado.

Sufoco o riso.

— Ai mãe... o Cebolinha é um amorzinho. —


Malu diz toda derretida sentando no braço do sofá.
— Fiquei com vontade de ter um.

— Nem pensar. — Ouço Juliano responder —


Só depois que eu sair de casa!

— Por que da fúria ?

— Por que? Só porque eu estava sendo


arrastado por um urso peludo e a cada esquina ele
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parava e fazia um quilo de bosta. — Os olhos


esverdeados de Juliano fulminam Malu — E a
bonita aí só dava risada.

— Não é culpa minha se o barulho de ânsia que


você faz quando tá juntando é muito engraçado.

O celular vibra , é outra mensagem de Nice.

Nice “Ah que chato, Mas vou buscar eles


mesmo assim, o dia das crianças passou e eu não
mandei nada pra eles. Me empresta os dois?”

Eu “Empresto.”

— Nice vai vir buscar vocês na sexta a noite


para saírem com elas no final de semana. Querem?

— CLARO. — Eles vibram.

Eu sorrio ao ver a felicidade deles.

— Ok... tomem banho um banho que o fedor


não tá dando pra aguentar. — Brinco.

Malu olha a televisão pausada e pergunta


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— Mãe depois libera a televisão pra eu assistir


Tvd?

— TV o que?

— The Vampires Diaries — Ela ri

E Julliano me interrompe.

— Ah não. Depois de juntar cinco quilos de


bosta eu mereço ficar com o controle e antes que
você peça eu não vou ver aquela série de vampiro
fresco.

— Shiuuuu — Repreendo. — Sumam os dois.


Só vou terminar o episódio aqui e depois viu
estudar um pouco.

✽✽✽

Alguns dias depois

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Sábado... último dia de minha longa semana de


trabalho. Caminho sentindo o cansaço no corpo e a
medida que chego mais perto de minha casa vejo
um silhueta forte e sem camisa, os músculos
brilhando sob a luz do sol que já não estava mais
tão forte.

Felipe havia cortado a grama.

Fui chegando e percebendo os detalhes.

Cortado a grama. Endireitado a cerca, e


replantado os girassóis.

Ele usava uma mangueira para molhar o jardim


que parecia ter ganhado vida outra vez.

Porém ele não estava sozinho.

Eu já tinha visto a mulher que o encarava com


repleta fascinação. Era uma das vizinhas, quando
passava por mim ela nem me cumprimentava e eu
sabia que Sandra tinha a ver com isso.

Felipe para de aguar o jardim e mira o jato de


água que sai da mangueira em sua boca;
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A vadia da vizinha só falta pular em cima dele.

— A dona do jardim chegou. — Ela anuncia e


eu sinto uma pontada de raiva em sua voz.

Felipe se vira na minha direção, o peito


molhado.

— Oi galega. — Ele acena com a cabeça na


direção da fileira dupla de girassóis.

Está lindo.

— Gostou? — Ele molha os cabelos com a


água e os puxa para trás.

Ele tinha que estar sem camisa?

— Ficou bom. — Respondo sem sorrir.

— Eu ia deixar pra plantar com a Malu e o


Juliano, mas não os encontrei depois da escola.

A vizinha nem pisca e minha raiva aumenta.

— Tinha que aproveitar hoje , a previsão diz


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que vai chover essa noite.

— Hum. — Murmuro. — Nem precisava se dar


ao trabalho. No final do mês vou chamar um
pedreiro para arrancar tudo e botar pedra.

— Mara divide o Lipe, sabe que faz semanas


que ele não passa lá em casa pra cuidar do meu
jardim. Aliás a vizinhança toda tá desfalcada de de
jardineiro.

— É MARIANA. — Eu a corrijo. — E pode


pegar o “Lipe” a vontade. Façam um revezamento,
cada uma usa num dia assim todas ficam satisfeitas.
Como eu disse antes. Vou arrancar tudo e
acimentar. Inclusive vou mandar cercar a casa com
muro.

Eu não tinha pensado em fazer nada disso, mas


agora aquilo me parecia uma ótima ideia, eu não
precisava de Felipe pulando minha janela, e
precisava muito menos dos olhares invejosos das
vizinhas fofocando sobre cada peido meu.

— Galega. — Ele larga a mangueira.

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— Agora se me dão licença eu tenho uma vida


pra cuidar. — Alfineto olhando para a vizinha. —
A minha vida.

Entro em casa e fecho a porta, sem bater


porque não quero mostrar o quanto estou irritada.

Desta vez eu estava sozinha em casa, Nice


havia pegado Juliano e Maria Luiza na saída da
escola.

Peguei minhas apostilas debaixo do rack da


televisão e fui para a cozinha. Abri a janela e deixei
a luz do final do dia entrar. Coloquei uma lasanha
para descongelar no micro-ondas e me sentei.

Três grossas apostilas para o concurso que


estava prestes a abrir dos correios.

É impressionante, quando a gente senta pra


estudar e olha para a quantidade de matéria que tem
pela frente até a mosca voando na janela parece
mais interessante do que o conteúdo que me
Aguarda.
— E esse olhar perdido vizinha? — Felipe se
escora no parapeito da janela com um sorriso fácil
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no rosto cretino. — pensando em mim?


— Vê se te enxerga Felipe! Tô pensando é nos
boletos que tenho pra pagar! — Replico irritada.

— É bom ver que eu não sou o único ciumento


na relação. — Ele debocha e minha vontade é
arremessar uma apostila nele.

— Relação? Ciúmes? — Eu me levanto e abro


o micro-ondas assim que a lasanha apronta. —
Faça-me o favor né... menos Felipe. Não viu a
vizinha lá chorando as pitangas que você não cuida
mais do gramado, vai lá vai...

— Eu só quero cuidar de um gramado. — Ele


dá um sorriso malicioso e sei que ele não está
falando de grama.

— Do meu gramado cuido eu.

— Cuida ? — Ele continua com tom


provocativo. — Isso é algo que eu quero ver. Você
se tocando e gemendo meu nome.

Suas provocações fizeram meus sexo palpitar.


Desgraçado.
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Caminho até a janela e abaixo o vidro, ele se


afasta a tempo e escapa antes que eu o acerte.

Felipe coloca a mão no peito tatuado como se


tivesse se ofendido e eu fecho a cortina para parar
de vê-lo,

Janto sozinha e estudo até desmaiar sobre os


livros. Já passa da meia noite e o vento faz as
persianas de madeira tremerem. Tomo um banho e
visto uma camiseta larga e a calcinha que Felipe
comprara dias atrás. Aquele calçolão tenebroso era
mais confortável do que eu queria admitir, não
apertava, não pinicava e o melhor de tudo, não
atolava na bunda.

Deitei no sofá da sala e adormeci nos primeiros


quinze minutos de Orgulho e Preconceito. Acordei
com água fria molhando meu rosto. Levei alguns
segundos para entender que o temporal havia
arrancado boa parte da calha de meu telhado.

Nem sei o que salvo primeiro. Está molhando


tudo! Televisão... poucos livros.

Corro para a cozinha e pego algumas sacolas


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plásticas para cobrir a televisão.

— Juliano. — O chamo aos gritos para que ele


me ajude a empurrar o sofá para longe da goteira.

Mas logo lembro que ele não está.

Estou só.

A água entra por todos os lados.

Merda.

Vou até a cozinha pego debaixo da pia um


pedaço de lona e saio para fora da casa. O vento já
havia diminuído mas a intensidade da chuva não. O
peso das gotas era forte e faziam a pele doer. A
água era fria.

Enfiei a lona por dentro da camiseta larga e me


pendurei como pude até conseguir escalar até o
telhado. Era quase impossível manter o equilíbrio
ali em cima. Até então eu não sabia que tinha medo
de altura, bom .... se antes eu não tinha ... agora eu
tinha!

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Agarrada as telhas que pareciam mais soltas


que presa eu engatinho com todo o cuidado até
encontrar o foco do problema. Afasto os cabelos do
rosto e a chuva atrapalha minha visão. Tiro a lona
dobrada de dentro da camiseta encharcada e prendo
como dá por entre as telhas.

Serviço meio porco, mas deve aguentar até


amanhã.

Começo a fazer o caminho inverso.

Devagar Nana.

A queda daqui de cima deve ser fatal. Penso e


afasto outra vez os cabelos que grudam no rosto.

Morre agora e amanhã todo mundo vai te ver


pelada com uma camiseta velha molhada e um
calçolão de idosa de oitenta anos.

— Quase lá — Digo pra mim mesma quando


meus pés estão chegando a ponta do telhado.

— Eu só preciso ter cuida— Mas não chego a


terminar a frase que é interrompida por meu
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próprio grito, quando me vejo deslizando com


rapidez pelo telhado .

Minhas mãos tateiam tentando se agarrar em


algo.

Eu estou caindo.

Meu Deus.

Vou morrer.

Vou ficar aleijada. Toda quebrada.

Milagrosamente consigo firmar a pegada na


calha de alumínio.

— Obrigada Deus!

Tento olhar a que distância estou do chão.

Puta que pariu. Ainda é bem alto. Se eu cair


quebro a perna ou o pé. Meus braços estão
cansando e não aguento muito o peso de meu
próprio corpo. Com a perna tento voltar para cima
do telhado, mas não consigo subir de volta.
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Então eu grito. Sabendo que ninguém me


ouvirá em meio aquele temporal.

— Ei!!!! — Grito! — Algueeeeeém!

Nada.

A chuva se intensifica e eu já não posso


aguentar.

— Ajudaaaaa! Preciso de ajuda. — Mas meus


pedidos de socorro são abafados pelo som de
trovões.

Então minhas mãos fraquejam e eu me solto


mesmo sem querer.

Fecho os olhos.

Minha cintura é agarrada por braços fortes que


aparam minha queda.

Felipe me desce devagar mas não me solta.

— Te peguei, Galeguinha.

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Capítulo 30
Mariana

— Pode me soltar agora. —Eu digo sentindo


minhas batidas descompassadas no peito se
misturando as batidas dele.

— Eu não vou te soltar.

Eu dou um risinho e coloco minhas mãos contra


seu peito tentando afastá-lo.

— Você precisa parar de fazer isso.

— O que? — Ele me aperta mais contra seu


corpo e eu posso sentir toda sua rigidez.

— Agir como se fosse meu príncipe.


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Ele ri.

— De príncipe você não tem nada. Eu não sou


do tipo de mulher que precisa ser salva.

Ele dá um meio sorriso como se não ligasse


para nada do que eu acabei de dizer.

— Você tem razão. — Felipe diz com um


sorriso sacana no rosto. — Eu não sou um príncipe.
— As mãos dele descem para minha bunda e
apertam minha carne com força. — Sou o cara que
vai te foder com força. E como você disse — Ele
faz uma pausa antes de me arremessar contra o
ombro, bruto e possessivo. — Sou um ogro.

Vejo tudo ficar de ponta cabeça enquanto ele


me carrega para dentro de sua casa.

— Para Felipe. — Eu grito estapeando suas


costas. — Eu tenho que voltar pra minha casa.

Ele não liga para meus protestos e continua me


carregando como um saco de batatas.

— Calma galeguinha? Já vou dar o seu


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calmante — Eu o ouço rir. — Uma pica bem dada


só pra você ficar bem tranquilinha.

— PARA FELIPE, está molhando tudo lá em


casa. — Eu protesto furiosa quando ele me
arremessa na cama sem fazer muito esforço .

Ele arqueia as sobrancelhas grossas. Seus olho


cor de avelã me fitam cheio de luxuria.

— O que tinha pra molhar já molhou. — Felipe


tira a camiseta branca toda encharcada.

Ele joga a roupa no chão.

— Não tem graça Felipe. — Protesto fugindo


dele. — A gente não vai transar quando você bem
entender.

Ele abre um sorriso sacana e me puxa pelos


tornozelos até a beirada da cama.

— Sabe que eu devia chutar o seu saco só pra


você deixar de ser abusado. Eu já disse que a gente
não vai fazer nada.

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Ele ri alto.

— Duvido que você queira estragar o seu


brinquedão. — Ele provoca puxando a bermuda
para baixo junto com a cueca.

Como ele pode já estar duro no meio de uma


briga?

— Meu brinquedo? — Eu rio irritada— Esse


playground aí é de domínio público.

Felipe sorri e acaricia o cacete sem tirar os


olhos de mim.

— Até era.— Ele responde e chega com o pau


bem próximo da minha boca. — Mas agora isso
tudo. — ele se masturba a pouco centímetros da
minha boca, e eu quero chupar tudo outra vez, ou
pelo menos quase tudo. — É só para o seu prazer
galeguinha.

— E quem disse que eu quero brincar com isso.


Não gosto de coisa usada. — Fuzilo-o com o olhar.

Felipe bate com o pau na lateral da minha boca


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e mesmo sem que eu queira meus lábios se abrem


pra que ele meta na minha boca.

— Mentirosa — Ele bate com o pau na minha


bochecha e faz a cabeça polpuda e úmida esfregar
até o canto de meus lábios. — Se eu pegar nessa
bocetinha agora vou sentir ela toda molhada.

— Claro eu estava na chuva.— Retruco


sentindo as palpitações em meu sexo aumentar e
Felipe continua a se masturbar a poucos
centímetros de mim.

O sorriso sacana em seu sorriso sem amplia e


ele solta o membro que continua completamente
ereto.

Não chupa Mariana.

Não cai de boca.

Você é bem mais forte.

Felipe se ajoelha no chão e suas mãos grandes


sobem por minhas coxas frias e molhadas.

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— Tem razão. — Ele sobe suas mãos me


apertando com lentidão. — Toda molhada e fria por
causa da chuva.

Os dedos dele se enfiam por dentro da minha


calcinha.

— Mas aqui. — Ele esfrega os dedos por


minhas dobras com a cara mais ordinária que um
homem pode ter. — Aqui está bem quente,

Felipe belisca meu clitóris que lateja com suas


carícias e eu engulo em seco.

— Aqui. — Ele soca dois dedos grossos. — Eu


conheço esse molhado. — Felipe soca os dedos,
entrando e saindo de minha boceta. — É cremoso.

Tenho que me agarrar aos lençóis.

Meu Jesus Cristo eu não posso gozar na mão


dele. Me contraio tentando segurar o prazer, mas
ele percebe e mete mais um dedo. Atiçando sem
tirar os olhos dos meus. Hipnótico e quente.

— Coloca os peitos pra fora. — Ele rosna num


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tom autoritário que quase me leva a loucura.

— As coisas não são como você quer. — Eu


respondo sentindo meu corpo se aproximar do
gozo.

— São sim . — Ele tira a mão da minha boceta


e com um movimento rápido me despe da enorme
camiseta molhada.

Felipe se debruça sobre o meu corpo devagar


fazendo com que eu me deite na cama aos poucos.

— Se eu digo que quero a sua boceta. — Ele


desce a mão e agarra meu sexo por inteiro. — Você
me dá.

A mão dele sobe por meu corpo seminu, indo


em direção aos meus seios.

—Se eu digo que quero seus peitos. — Felipe


belisca meu mamilo, segurando entre o polegar e o
indicador, com a pressão exata para me
enlouquecer de prazer. — Você me dá.

— Você não pode fazer isso comigo. — Digo


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manhosa.

Sinto seu pau roçando contra meu corpo.

Meu Deus estou a ponto de implorar para que


ele me coma.

— Posso. — Ele solta meu mamilo e ele inclina


a cabeça na direção do meu seio. Ele acaricia meu
mamilo e passa a língua pelo pequeno ponto
endurecido. — Esse corpo aqui — Felipe suga meu
mamilo e eu arqueio o corpo me esfregando mais
nele. — É meu.

Eu solto a respiração em um suspiro sofrido.

Felipe roça a barba por meu seio e vai traçando


uma trilha de beijos, por meu ventre.

Sinto vergonha quando seus beijos se


aproximam da cicatriz de minha cesariana. Minhas
estrias da gravidez.

Ele parece não ver nada disso.

Felipe dá uma risadinha.


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— Gostei da lingerie.

Lingerie?

Eu não estou usando uma lingerie.

Ah.... O calçolão bege da vovó.

Antes que eu diga qualquer coisa ele arranca a


última peça e joga com as outras.

Felipe suga minha boceta e suas mãos enormes


tratam de manter minhas pernas bem abertas para
que ele chupe tudo. Passando a língua quente de
cima a baixo. Absorvendo cada gota cremosa que
escorre de meu sexo. Ele me lambe inteira e suga
minhas dobras intercalando com pequenas
mordidas que me fazem soltar gritos rápidos e
súplicas por mais.

Meu sexo palpita e eu já não aguento a


angustia, necessito ter Felipe por inteiro dentro de
mim.

— Vem... Vem. — Imploro o puxando para


mim.
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— Quer meu pau, safada? — Ele dá um sorriso


libidinoso e posiciona o cacete em minha entrada.

Felipe esfrega a cabeça contra meu clitóris


sensível.

— A bocetinha gulosa quer o cacete duro, bem


fundo?

— Sim. Eu quero tudo. — Arqueio o corpo


tentando fazer que ele me coma mais rápido. — Me
fode com força.

E ele atendeu minha súplica e meteu.

Seu cacete entrou todo de uma vez e eu perdi o


fôlego, eu não tinha me acostumado ao seu
tamanho e grossura.

Choramingo. Quando sinto uma fisgadinha de


dor.

— Calma galeguinha. — Felipe se mexe


devagar dento de mim. — A gente tem a noite toda

Ele mói dentro de mim, o quadril fazendo


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circular, fazendo pressão enquanto meu sexo


acomoda seu cacete e ele me alarga aos poucos.

Felipe continua com o movimento lento, a cada


esfregada dele em mim seu quadril se pressiona
contra meu clitóris.

Lento.

Intenso.

A cremosidade escorre aos poucos de meus


sexo e o suor começa a banhar nossos corpos agora
quentes.

Felipe afasta meus cabelos do rosto.

— Isso galega gostosa. — Ele rosna moendo


lentamente dentro de mim. — A bocetinha chega
estar escorrendo.

Eu gozo me agarrando com força aos seus


braços. É como se eu estivesse caindo, afundando
no prazeres dele.

— Sente meu o cacete atolado fundo nessa


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bocetinha apertadinha. — Ele rosna e morde meu


pescoço me fazendo gritar de prazer.

Felipe sai de mim e me dá um beijo doce nos


lábios e desce até meu sexo.

— Toda encharcada. — Sua mão esfrega minha


boceta sensível .

Ele lambe os próprios dedos e como se aquilo


não fosse o suficiente ele vem e suga direto de
mim. Abocanhando tudo, lambendo a cremosidade
morna e viçosa até que eu já estivesse pronta para
gozar de novo.

— Vem aqui . — Felipe se senta e me puxa


para seu colo. — Senta aqui.

Felipe segura o pau em minha entrada e eu me


apoio em seus ombros para sentar em seu colo. Eu
rebolo sem pressa e jogo meu corpo para trás
inebriada com o extase que ele me proporciona.

— Senta safada. — As mãos de Felipe descem


por minhas costas e apertam minha bunda.

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Eu rebolo.

Minha boceta se esfrega nele e ele arremete


mais para dentro de mim.

Rebolo mais, sentido seu cacete enfiado até o


fundo.

Felipe desliza as mãos por meu corpo suado e


leva meus seios a boca. Chupando um e outro,
esfregando sua barba cerrada por minha pele,
respirando quase como um animal, quente e
enfurecido pelo sexo.

Nós dois estávamos.

Ele me apertava com mais força e eu não


conseguia parar de rebolar contra seu pau. O corpo
nu ondulando contra o dele.

Não havia música. Nem um outro som que não


fossem nossos gemidos, som de nossas pele se
chocando com força.

Eu grito quando ele puxa meu cabelo com força


e com o outro braço ele me puxa com mais dureza
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contra seu cacete.

Mais animal.

Mais Bruto.

Senti o gozo escorrendo de novo mas Felipe


não parou. Mesmo eu por cima ele começou a ditar
o ritmo.

E a batida ditava um único som.

Prazer.

Prazer.

Prazer.

Eu sorrio com os lábios colados aos dele e


Felipe me beija.

Ele faz com que eu me mova mais devagar para


que eu retome o fôlego.

— Eu não aguento.

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— Aguenta. — As mãos dele sobem por


minhas costas e ele puxa meu cabelo outra vez.

Meu sexo lateja.

Ele suga meus seios sua língua brinca com meu


mamilo sensível.

— AH Felipe... — Gemo sentindo os músculos


já exaustos.

Ele solta meus cabelos e nos gira. Quando


percebo ele está sobre mim outra vez.

Ajoelhado no colchão ao meu lado.

Os olhos encarando meu sexo molhado e


avermelhado.

— Toda vermelhinha. — A mão dele acaricia


minha coxa até chegar a boceta.

Eu gemo.

— Eu quero mais. — Felipe acaricia meu sexo


e se masturba ao mesmo tempo.
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— Agora não. — Choramingo sentindo o


prazer irradiando de seu toque. — Vai tomar um
banho frio.

Ele dá um sorriso sacana e ele parece ter tido


alguma ideia.

— Não saia daí. — Ele exige e sai da cama, nu


ele caminha para fora do quarto.

— Sair? — Digo sozinha — Não tem força nem


pra me virar.

Acaba eu fecho os olhos por alguns segundos.


Completamente nua eu nem me movo na cama.

Um estouro seco vindo de fora do quarto. Abro


um olho só.

Felipe não está.

Fecho os olhos de novo.

— Isso vai ajudar. — Ele responde e eu sinto o


colchão se movendo quando ele se aproxima de
meu corpo.
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Um líquido frio molha meu sexo.

De imediato eu abro os olhos e vejo Felipe


segurando uma garrafa de champanhe.

— Seu louco. — Eu grito mas logo ele se


inclina e suga tudo, chupando minha boceta com
força, lambendo e abocanhando tudo de novo e de
novo até eu estar pronta outra vez.

Felipe larga a garrafa de champanhe no chão na


beira da cama.

— Refrescou? — Ele pergunta num tom


provocativo e vindo para cima de mim outra vez ele
me beija

Meus dedos acariciam seus cabelos macios e


molhados enquanto eu provo de sua boca o sabor
suave da espumante com um leve sabor de sexo.

Sem me pedir permissão ele toma meu corpo e


mete.

Eu o aperto com força e o arranho.

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O ritmo começa lento. Entrando e saindo


devagar.

Sinto meu sexo quente ser tomado pela dureza


de seu pau outra vez e gemo alto.

Felipe se excita mais com meus gritos e


intensifica o ritmo.

O sexo se torna feroz.

Sinto suas bolas batendo em minha boceta a


cada vez que ele tira quase tudo e soca fundo outra
vez.

Minha boceta se contrai e eu o aperto meu sexo


querendo prendê-lo dentro de mim.

— Tão. — Ele estoca com firmeza — Tão —


mais rápido — apertada.

Sinto o membro dele se enrigencendo em


estocadas vigorosas que fazem minha boceta
tremer.

Eu grito quando ele arranca de mim minhas


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últimas forças e goza comigo. Rosnando palavrões


e promessas obscenas ao meu ouvido.

Nossas respirações ofegantes se misturam e ele


sai de mim com cuidado.

Faço uma careta quando sinto minha boceta


doer, mas o prazer.... o prazer era bem maior que a
dor.

Faço menção de me levantar para me limpar.


Felipe tinha me encharcado de porra.

— Não. Você não vai a lugar nenhum. — Ele


rosna e me puxa para o seu abraço e nós ficamos
deitados de conchinha.

Enfim as coisas estavam começando a dar


certo. Eu estava tomada por uma felicidade e êxtase
que não cabia em mim.

— Felipe. — Eu disse baixinho.

— Hum... — Ele murmura sonolento.

Eu fico quieta por alguns minutos querendo


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elaborar um jeito de contar a verdade.

— Eu quero dizer uma coisa. — Inspiro criando


coragem e ele me aperta mais contra seu corpo. - É
agora. Eu preciso te contar uma coisa que estou
segurando a muito tempo.

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Capítulo 31
Mariana

Os primeiros raios de sol começam a entrar pela


janela e o contorno dos móveis do quarto dele se
tornam mais evidentes.

— O que eu quero dizer. — Suspiro sentindo o


aconchego gostoso de seu corpo. — Quando meus
pais me levaram embora naquela noite. — Faço
uma pausa quando sinto as batidas em meu peito
tomarem um rimo louco. — Eu estava grávida.
Esperando um filho seu. — Entrelaço meus dedos
nos dele. — Juliano é seu filho, Felipe.

Ele não diz nada e o seu silêncio me faz


estremecer.
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Eu me viro para ele e o encontro dormindo


pesado.

Dormido!

Finalmente quando eu havia criado coragem


para contar meu maior segredo ele simplesmente
pegara no sono.

Se a coragem ainda estivesse comigo pela


manhã eu contaria tudo.

Me aconcheguei mais contra seu braços e dormi


sentindo o cheiro de seu corpo suado.

✽✽✽

Leonardo pigarreou e puxou sua cadeira para


mais perto da minha.

— Eu sei o quanto isso é inapropriado — Ele

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pegou minha mão que mexia no guardanapo —


Nos conhecemos a pouco tempo, e por mais que eu
queira eu não consegui suprimir os sentimentos que
tenho por você.

Ai caramba Léo... Não continua essa frase, não


diz o que eu penso que você vai dizer. Não estraga
tudo por favor. Rezei mentalmente.

Léo me encara com os olhos azuis faiscantes


em expectativa.

Droga porque ele está fazendo isso?! Minha


vida já não está complicada o suficiente Deus?!

Leonardo se inclina um pouco mais em minha


direção e a mão dele solta a minha e para sobre
minha coxa.

— Você pode crescer na empresa. — Ele me


sugere. — Ninguém precisa ficar sabendo de nós.

— LEONARDO! — Grito.

Mas uma voz mais poderosa e enciumada é o


que me desperta de meu pesadelo.
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— Que porra é essa Mariana?! Quem é esse


Leonardo? — Felipe me interroga irado.

Ainda meio zonza de sono eu demoro alguns


segundos até assimilar que estou de volta ao quarto
dele.

— ã?

— Não se faça de desentendida Mariana. Trepa


comigo e sonha com outro cara? — Sua voz é dura.

Felipe se levanta da cama completamente nu.

— Tava sonhando que o Leonardo estava te


comendo Mariana?

— NÃO!

Ele dá uma risadinha de escarnio e anda de um


lado para o outro no quarto.

Encaro o modo como ele marcha furioso. Os


músculos tensionados e o membro grosso semi
ereto.

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Eu me sento na cama e puxo o lençol para


cobrir meu corpo.

— Não é isso.

— Ah claro Mariana. Então você não estava


sonhando com esse tal de Leonardo. — Ele fala o
nome de meu chefe.

— Eu estava. — Digo a verdade.

Eu o ouço bufar furioso.

Lágrimas de frustração inundam meus olhos


quando o nosso momento de felicidade é desfeito
por um pesadelo idiota.

— E quem é esse Leonardo? — Felipe pergunta


num rosnado e chega mais perto da cama.

— Meu chefe. — Seco a primeira lágrima —


Mas não é nada di. — Ele não me deixa nem
terminar de explicar.

— Eu te fodo por horas e é com aquele velho


que você sonha Mariana?!
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Enxugo uma outra lágrima.

— Aquele velho que te levou pra almoçar esses


dias?

— Para Felipe — Digo com a voz pouco


chorosa. — Foi um pesadelo droga.

Desço da cama ofendida por ele não acreditar


em uma palavra que digo.

— Acha que é a primeira vez que tenho um


pesadelo assim? Quantas vezes você acha que eu já
tive que mudar de emprego porque meus chefes
queriam me dar benefícios extras, eu só precisava
ser “boazinha” Sabe o que é isso? Não você não
sabe, não sabe porque é homem, não sabe porque
nunca teve que ser responsável por ninguém além
de você mesmo. Eu vou pra minha casa. — Digo
sentindo as lágrimas rolarem por minhas bochechas
quentes.

Quando passo por Felipe, ele me segura com as


duas mãos firmes.

— Espera Galega. — Ele suaviza o tom. — Eu


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sou ciumento.

Não o encaro.

— Desculpa. — Felipe inclina meu queixo


forçando que eu o encare.

Ele me beija no lábios, mas eu não o beijo de


volta.

— Eu não te mereço. — Ele mordisca meu


lábio inferior e beija o superior bem de leve. —
Estou ficando doente de ciúmes.— Felipe me solta
e suas mãos cobrem as minhas, ele faz com que eu
solte o lençol que ainda seguro contra o corpo.

Ele pega minhas mãos e coloca sobre seu rosto.


A barba dele pinica contra as palmas de minha
mão.

— Desculpa seu ogro, galeguinha. — As mãos


dele descem pela lateral de meu corpo e ele me
puxa para mais perto. Ele roça o membro ereto e
duro contra minha barriga.

Eu não digo nada. Apenas encaro seus olhos cor


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avelã.

Felipe me ergue no colo e minhas pernas


engatam em sua cintura. Envolvo meus braços ao
redor de seu pescoço e ele me leva para o banheiro.

Com cuidado ele me coloca na banheira branca


e minha pele se arrepia ao tocar na porcelana fria.

— Eu não quero tomar banho agora.

— Não é um banho. — Ele responde abrindo


dois registros dourados.

— Ah é? — Encolho as pernas quando os jatos


de água começam a encher a banheira rapidamente
.

— É um pedido de desculpas. — Felipe despeja


pequenos frascos. O primeiro torna a água
efervescente. O segundo frasco lilás faz com que a
água cheire a lavanda, formando uma espuma
macia e delicada.

Ele desliga os jatos de água.

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— Não tem espaço pra você aqui, ogro.

Ele dá um sorriso sacana.

— Tem sim. É só você sentar no meu colo.

Ele acaricia o pau ereto olhando para meus


seios cobertos de espuma.

— Que visão. — Ele diz enquanto bate


punheta.

— Me convenceu. — Sorrio quando ele chega


mais perto e se acomoda dentro da banheira.

Ele se posiciona atrás de mim.

Um misto de água e espuma caem pelo chão do


banheiro mas ele nem liga.

Felipe pega o elástico preto em meu pulso e


prende meus cabelos em um coque frouxo no alto
da cabeça.

— O que está fazendo ?

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— Me desculpando. .

Recosto a cabeça em seu peito e o observo


esfregar o sabonete nas mãos enormes até formar
uma espuma branca e perfumada.

O sabonete cai na água mas ele não o pega.

Felipe esfrega delicadamente a espuma por


minha nuca, e suas mãos acariciam meus ombros
em uma massagem relaxante.

— Ah... Isso é muito bom... — Gemo fechando


os olhos.

Ele me acaricia ali em uma longa massagem,


subindo e descendo por meus braços.

Felipe mergulha a mão na água turva pela


espuma e bolhas e tateia a procura do sabonete.

— Achei. — Ele acaricia minha cocha até


chegar a minha virilha.

— Não está aí. — Rio.

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— Você nem sabe o que eu estou procurando.


— Ele mordisca minha nuca e sinto um arrepio me
subir pela espinha.

— Sei e ela está impossibilitada no momento.

— Certeza? — Sussurra ao meu ouvido e ele


captura o lóbulo de minha orelha esquerda entre os
lábios.

Gemo outra vez quando sinto seus dedos


roçarem por minhas dobras até encontrarem meu
clitóris.

Eu me movo e um pouco mais de água cai para


fora da banheira.

Então ele para.

— Achei. — Ele exibe o sabonete com a outra


mão.

— Meu Deus Galega. Você só pensa em sexo.


— Ele debocha e esfrega o sabonete que cai na
água outra vez.

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— Aham... eu né. — Rio me esfregando nele.


— Você não vale nada.

Felipe espalha a espuma que tem em suas mãos


em meus seios. Ele brinca demoradamente com
eles.

— Nunca disse que prestava. — Se defende e


roça os polegares pelos mamilos endurecidos e
escorregadios.

Tive que apertar uma coxa na outra pra conter a


excitação.

Com as mãos ensaboadas ele aperta meus seios


e eu sinto sua ereção roçar contra a curvatura de
meu quadril.

— Seu corpo é perfeito . — Ele sussurra e


morde minha nuca . — Toda perfeita. — Ele me
esfrega mais.

— Senta aqui senta. —Felipe convida para que


eu sente em seu colo.

— Não. Pode escorregar.


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— E eu comer seu cuzinho?

Felipe continua acariciando meu corpo


preguiçosamente, me ensaboando inteira.

— Você não vai comer meu cú, Felipe. Ainda


mais nessa posição. Vai me destruír toda.

— Se doer eu paro. — Eu o ouço argumentar


com uma voz sexy. — Bem devagarinho. Só a
cabecinha.

Eu rio alto.

— Eu não acredito.

— Mas no fundo você quer. Está louca pra


gozar de novo, só que dessa vez vai ser rebolando o
rabo no meu pau.

Felipe desce as mãos por meu quadril.

— Já imaginou meu cacete entrando nesse


cuzinho apertadinho?

— Não. O cú é zona proibida. Só de pensar e


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você metendo ali eu já sinto dor.

Felipe mexe o meu quadril em movimentos


circulares contra o seu cacete.

— Apoia as mãos ali na borda da banheira. —


Ele me instrui.

— Não. Eu não vou dar o meu cú pra você,


Felipe. Pode tirar esse sorrisinho sacana que não é
não.

— Porra Galeguinha. — Ele implora. — Olha o


meu estado?

Eu me inclino para trás e o vejo seu cacete


completamente ereto, estourando.

— Só a pontinha. — Ele pede, a mão direita


subindo e descendo pelo cacete.

— Eu não vou gozar se estiver com dor. E se


doer eu vou parar na hora!

— Tá. — Ele concorda com um sorriso aberto.


— Você dita o ritmo.
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Desconfiada eu me posiciono como ele pedira


antes. Braços apoiados contra a ponta da banheira,
os joelhos apoiados no fundo e a bunda na direção
dele.

Felipe acaricia meu cuzinho e aperta minha


bunda com a outra mão.

— Que rabo galeguinha. — Ele elogia e mete


um dedo.

A sensação é gostosa, eu rebolo e ele mete mais


um.

Opa... Já começo a ficar mais tensa.

Felipe tira os dedos de dentro de mim e agarra


os globos de minha bunda com as duas mãos.

De soslaio eu olho por cima do ombro. O olhar


luxurioso dele devorando cada centímetro de minha
pele, os músculos tatuados tensionados.

— Vem galeguinha. Traz o rabo aqui e senta no


meu pau .

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Devagar eu meio que engatinho de quatro


dentro da banheira e paro somente quando sinto o
membro dele cutucar meu cuzinho.

Felipe desliza a cabeça vagarosamente para


dentro e eu grito.

— Ai ai ai.... Para para. — Gemo — Não vou


aguentar.

A cabeça faz uma pressão enorme.

— Relaxa galeguinha. Não se mexe. — Ele


rosna . Olho para trás e ele está com aquele olhar
sacana no rosto.

Eu faço o que ele pede e quase nem respiro.


Quando começo a me acostumar com a sensação da
cabeça dele dentro de mim eu vou indo mais para
trás, deixando que o cacete entre , centímetro a
centímetro. Grosso e duro.

Ouço felipe rosnar alguns palavrões e apertar


minha bunda com mais força.

— Isso safada. Agora mexe esse rabo gostoso


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mexe. — Ele exige e estapeia minha bunda com


força.

Aos poucos o medo e a dor são substituídos


pela excitação de estar o levando a loucura, eu o
vejo se segurar para não gozar.

Quero que ele se descontrole.

— Gosta assim? — Eu rebolo bem devagarinho


e o prazer da provocação começa se acumular ali.

— Ah caralho. — Ele xinga — Assim. Isso


puta safada. Assim! — Felipe me aperta com mais
força.

— Eu sou puta? — Aumento um pouquinho o


ritmo das reboladas e sinto meu clitóris pulsando de
prazer.

— Minha puta. Só minha. — Ele solta minha


bunda e passa as mãos pelos cabelos em um gesto
desesperado.

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✽✽✽

Felipe
Mariana rebola mais contra meu pau e eu já não
posso aguentar muito. As ondas balançando
agitando as espumas a medida que ela treme a
bunda gostoso contra meu cacete.

— Então me enche de porra Felipe. — Ela me


provoca. — Agora comigo.

Ela geme enquanto rebola e sua bundinha se


movimenta pra cima e pra baixo em uma
verdadeira visão do paraíso.

O gozo quente jorra de meu cacete e eu encho


seu cuzinho de porra quando a ouço gemer
entregue ao prazer do clímax.

Ela desencaixa devagar e se vira para mim. Eu


a puxo para mais perto e ela passa as pernas por
minha cintura.

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Sua respiração é ofegante, as maçãs de seu


rosto estão rosadas.

—Fiz certo?

— Nunca tinha feito antes? — Arqueio as


sobrancelhas.

— Não.

Nem quero perguntar sobre antes por mais que


um ciúmes louco me corroa de vontade de
perguntar quantos ela teve depois de mim. Nem o
que ela fez com eles.

Eu a beijo sem pressa. Não me canso de beijar


sua boca carnuda e macia.

Mariana vira para o lado e cobre a boca quando


espirra.

— Desculpa. — Ela diz.

— vem. — Eu me levanto e estendo a mão para


ela.

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Pego duas toalhas.

— Eu estou bem. É só um espirro.

— Eu sei. Mas agora eu quero você seca e


quentinha na cama. — A enrolo e depois enrolo a
outra toalha em minha cintura..

Enquanto ela se seca no banheiro eu visto uma


cueca boxer branca, pego uma camiseta minha e
uma cueca boxer preta e entrego a Galega.

Ela volta para a cama bocejando e segundo


depois de envolve-la em meus braços ela cai num
sono tranquilo.

✽✽✽

Mariana
Acordei com o barulho de marteladas não muito
longe dali. Soltei um múrmuro em protesto e cobri
a cabeça com travesseiro.
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— Quem é o filho da mãe que tá martelando a


essa hora da manhã? — Praguejo pra Felipe mas
ele não me responde.

Descubro a cabeça e percebo que ele já não está


mais na cama.

Abro a janela do quarto dele e a claridade


incomoda meus olhos.

Sinto um cheiro de carne assada vindo da


cozinha. Descalça eu caminho pela casa a procura
de Felipe mas não o encontro.

Na cozinha a mesa está posta e alguns panos de


prato cobrem o café da manhã.

O cheiro da carne vem do forno.

Sirvo um copo de suco e preparo um sanduiche


bem caprichado com tudo que encontro na mesa,
queijo, peito de peru, um pouco de ovos mexidos
feitos com manteiga, o pão mal fecha de tanta
comida. Devoro tudo e faço mais um sanduiche
igual antes de me levantar da mesa.

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Me inclino e espio a carne assada com batatas


gratinadas e o armo daquele almoço só atiça mais
minha fome.

Andando com as pernas meio abertas eu sigo


para fora da casa e paro na varanda de Felipe.

Tomo um susto ao ver boa parte de meus


poucos móveis secando ao sol e claro, Felipe
trepado em meu telhado, sem camisa, usando
apenas um jeans velho e um boné voltado para trás.
Quando ele percebe que estou olhando, ele desce
por uma escada apoiada na lateral da casa e vem
em minha direção.

— Você está seminua. — Ele me puxa para


dentro de sua casa.

— Essa cueca é quase um shorts. — Me


defendo. — E essa camisa. — Digo antes de
morder o sanduiche. — É quase um vestido.

Ele ri ao me ver falar de boca cheia.

— Desculpa. Acordei com fome.

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— Estou vendo — Ele pega um pedaço de pão


que fica no canto da minha boca e come. — Já
estou terminando o telhado. Recoloquei a calha e
cobri algumas telhas quebradas com manta térmica.

Balanço a cabeça e dou mais uma mordida no


sanduiche já pela metade.

— Tinha que fazer tudo isso sem camiseta?

— Olha quem falando? Lembra que você saiu


ontem no temporal só de calcinha e camiseta?

— É mas estava escuro e não tinha ninguém e


você só está querendo se aparecer pras vizinhas.

Ele acha graça de meu ciúmes e provoca.

— Só tem uma vizinha pra qual eu quero me


aparecer.

Felipe me abraça todo suado e cobre meu


pescoço de beijos.

— Galeguinha, não deixa a carne que eu


coloquei queimar. Vou voltar lá pra cima e terminar
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o serviço.

Ele me dá um selinho mas não retribuo o beijo


porque estou de boca cheia.

Antes de ir ele me dá um tapinha na bunda o


que me faz lembrar da nossa noite anterior.

Mesmo sabendo que ele não quer que eu saia


daquele jeito eu corro até minha casa, entro e pego
o livro que Nice me emprestara. Volto as pressas
para a casa de Felipe e dou uma espiada no tal
assado que cheira divinamente bem.

Sem nada para fazer eu me sento no sofá da


sala dele e me perco na leitura, nem percebo
quando Felipe retorna.
— Então é esse tipo de livro que usa para passar o
tempo?— Ele toma meu livro novo em um
movimento rápido e se atira em meu sofá narrando
uma página em voz alta, em um tom debochado
que ele tinha e mais ninguém.
—"Seus dedos acariciando o clitóris inchado,
macio...". — Ele arqueia as sobrancelhas escuras e
me encara com divertimento antes de dar uma

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olhada na capa do livro. - Ceo Amores Brutos...


- Me dá isso Felipe! - Enfureci mas ele estava
pouco ligando para minha ira, eu conhecia aquele
risinho. Ele queria ver era as coisas pegando fogo.

O som de um alarme faz com que ele pare de


brincar. Felipe solta o livro e corre para a cozinha.
A fumaça preta que saia do forno se espalhava
rapidamente pelo lugar.

— Não fica perto. — Adverte pegando um pano


de prato e abrindo a tampa do forno com cuidado.

Mais fumaça.

Eu tusso e balanço as mãos tentando afastar a


fumaça.

— Desculpa, desculpa, desculpa. — Digo assim


que ele coloca a travessa com o que seria um belo e
farto almoço sobre a pia.

A suculenta carne assada agora não passava de


um carvão esturricado com pedaços menores ainda
de mini carvões, que antes seriam as batatas.

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— Desculpar? — Ele me encara com as


sobrancelhas grossas quase unidas e atira o pano
sobre a mesa. — Não vejo como posso perdoar
uma coisa dessas. — Ele chega mais perto — Sinto
que minha irritação só vai passar depois que eu
comer esse cuzinho de novo.

Eu estapeio seu peito suado e duro e dou risada

— Palhaço. Sem cú pra você. Sem nada na


verdade.

Ele enlaça minha cintura.

— Por que? Pelo que eu me lembre bem você


estava gostando tanto quanto eu.

— Sério. Hoje não vai ter nada, quase morri pra


fazer xixi.

— Sem bocetinha e nem cuzinho? Essa


boquinha vai ter que trabalhar então.

Eu bato em seu peito outra vez.

— Talvez... tudo depende do almoço.


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Felipe me solta e bate com força na minha


bunda.

— Então espera na sala, porque na cozinha


você é um perigo. — Felipe debocha.

✽✽✽

Depois de comermos a ala minuto preparada


por ele em tempo recorde, ficamos abraçados no
sofá assistindo a um filme antigo.

— Galega. — Ele entrelaçou a mão na minha e


me olhou como se eu fosse a mulher mais especial
do mundo, mas eu não era, já tinha perdido a
coragem de contar sobre Juliano e Maria Luiza.

— Fala ogro lindo. — Brinco me inclinando um


pouco para o lado para ouvir o que ele tem a dizer.

— Eu não posso mentir para você. — Ele


continua segurando minha mão na sua. — Eu não
suporto qualquer tipo de mentira, e mesmo que
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você se zangue, é melhor você saber por mim.

Estremeço com o tom de voz dele.

— Do que você está falando Felipe?

— Eu estou noivo.

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CAPÍTULO 32
Felipe

Era engraçado ver Mariana conversando com os


personagens do filme como se de alguma forma
eles pudessem ouvi-la.

— Ai caramba. Tu é um burro cara, não entra


aí!?

Ela se acomoda um pouco mais em meu peito e


eu a abraço querendo que poder sentir o perfume de
seus cabelos macios.

— Não , sério.... Porque ele vai entrar ali


naquela escuridão. Tá na cara que o assassino tá ali.

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Eu rio.

— Claro.... se fosse tudo simples e ele somente


desse as costas a porta misteriosa acabava o filme.

Ela toca uma pipoca.

— Meu Deus .... assistir filme de terror com


você é pior do que ver o Juliano. — Ela reclama.

Eu a abraço mas não consigo aproveitar nosso


momento juntos. Depois de tantas mensagens e
Adriana dizendo que estava voltando para o Rio de
Janeiro eu já não conseguia pensar em nada que
não fosse Mariana descobrindo da porra do noivado
da pior maneira possível.

Eu queria ser o seu porto seguro e para isso eu


precisava que ela soubesse de tudo. Por mais
dolorosa que fosse a verdade era o melhor caminho
para nós dois.

— Galega. — Entrelacei os dedos em suas


mãos pequenas e a puxei para que me encarasse.

— Fala ogro lindo. — Ela riu se inclinando


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mais para o meu lado.

Porra... como isso é difícil.

Tento não desviar os olhos de seu olhar alegre.

Não me odeie galega. Não me odeie.

— Eu não posso mentir para você. —


Continuo segurando suas mãos pequenas entre as
minhas. — Eu não suporto qualquer tipo de
mentira, e mesmo que você se zangue, é melhor
você saber por mim.

Aos poucos o ar de felicidade que segundos


antes transbordava de seu olhar é substituído por
confusão e dúvidas.

Merda...

— Do que você está falando Felipe? — Ela me


pergunta preocupada.

Rápido e objetivo.

— Eu estou noivo.
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As mãos dela escapam das minhas como se eu


fosse repugnante.

Ela nega com a cabeça, ainda não acreditando


no que eu acabei de dizer.

— Noivo?

A pergunta sai de seus lábios impregnada de


repulsa.

— Não é nada sério Galega. — Então pegar


suas mãos para que ela não escape de mim, mas
Mariana repele meu toque e se afasta mais para
trás.

— Se um noivado não é sério. — Ela ri e seus


olhos se enchem de lágrimas. — Eu sou o que pra
você?

— Não é isso Galeguinha.

— NÃO ME CHAMA ASSIM. — Ela grita.

— Para Mariana, me ouve. Isso foi antes. —


Tento explicar mas ela se levanta do sofá com
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rapidez. — Minha mãe estava no hospital.

— Ah claro... — Ela diz sarcástica e bate o pé


no chão com força tomada pela raiva — Tinha que
ter o seu dedo né dona EDA! Deve estar assistindo
tudo aí debaixo dos quintos,bem do ladinho do satã.

— Galega.

— Para de me chamar assim. — Dessa vez ela


berra.

— Guarda os apelidos carinhosos pra noiva.

Mariana passa as duas mãos pelos olhos


impedindo que as lágrimas caiam.

— Eu não vejo a Adr.— Mas Mariana me


interrompe aos gritos.

— Para que eu não quero saber. Estou aqui a


mais de um mês e já perdi as contas de quantas
vezes já chorei por você Felipe. Arghhhhhh Eu não
quero saber de nada, NADA.
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Mariana engole o choro.

— Meu Deus... e eu pensei em realmente... —


Ela nega com a cabeça. — Você não vale nada.
Mas eu pra você valho muito menos que nada não
é?

Sinto o ódio dela me atingindo com força.

— Como é que ia ser. Você ia casar com ela e


ficar comigo... com a Sandra... e a vizinhança toda,
ia comendo uma por semana? Isso?

— Não é isso Marina. — Respondo. — Minha


relação com a Adriana era mais baseada no
voyeurismo do que em qualquer outra coisa. Foi
mais um comodismo da parte de ambos.

Ela bate palmas.

— Ah claro... agora entendi tudinho. Que tola


eu sou — Ela dá um tapinha na testa em um gesto
irônico — E eu aqui fazendo tempestade em copo
dágua. Agora que você colocou dessa forma fica
muito mais claro de entender.

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— Mariana.

— Foda-se você e a sua noiva vadia. Que vocês


sejam bem felizes juntos desfrutando da putaria que
bem entenderem.

— Para Mariana. — Rujo — Você está


parecendo uma louca. — Eu a seguro quando ela
tenta sair.

O tapa que ela me acerta é ardido e eu a fúria


faiscando de seus olhos verdes faz com que eu a
solte.

— Nunca mais encosta o dedo em mim. — Ela


respira ofegante. — Aproveita tudo isso — Ela
gesticula para o meu corpo. — Não interessa
quantas mulheres você tenha, no final das contas
você vai estar sempre sozinho e talvez quando a
minha raiva passar eu consiga sentir um pouco de
pena, porque agora eu só consigo sentir ódio.

Mariana arrebenta a porta numa batida violenta.

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✽✽✽

Mariana
Saio tropeçando pelos degraus da varanda mas
não caio.. Me apoio no portão e sinto um enjoo
violento revirar meu estômago. Minha boca se
enche de saliva e segundos depois o almoço volta
em um jato de vomito que se espalha pela calçada.

— Mariana.

Felipe me segura enquanto vomito toda a


comida.

— Par— Quero dizer para que ele me solte mas


outro jato de vomito interrompe meu acesso de
fúria.

Quando meu estômago se contrai sem nada para


colocar para fora eu limpo a boca no braço .

— Deixa eu te ajudar. — Ele tenta me amparar


mas eu o empurro
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— Fica longe de mim. — Digo sentindo o gosto


amargo na língua. — Você não vê que você é o
meu problema?

Ele ouve a tudo calado.

— Você não é o meu herói, não é a porra de um


príncipe, você é o causador de todos os meus
problemas. Agora fica longe, droga! — Xingo e
sustento seu olhar, mas minha visão fica turva pelas
lágrimas. — Você não cansa de me fazer chorar?

Ele dá um passo para mais perto mas eu recuo.

Volto para minha casa e fecho a porta antes que


ele me siga. Rapidamente eu tranco todas as janelas
e me isolo de tudo.

Cheirando a vômito eu vou para o banheiro.


Tomo um banho frio. A água se mistura as minhas
lágrimas e eu permito-me que ele me faça sofrer
essa última vez. Desligo o chuveiro e me enrolo na
toalha presa ao gancho, escovo os dentes e pentei
os cabelos para trás.

Meu corpo está todo dolorido e eu preciso de


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minha cama. Volto para meu quarto e afundo no


colchão.

Noivo... Felipe noivo.

Em pensar que eu ia contar tudo pra ele, contar


de Juliano, sobre Maria Luiza. Ele não merecia
saber de Juliano. Maria Luiza também não merecia
sofrer descobrindo a verdade sobre sua origem por
causa de Felipe. Juliano ficaria bem sem ele.

— Noivo. — Resmungo sozinha no quarto,


encolhida na cama , agarrada ao travesseiro.

As horas passam e eu fico ali mergulhada em


um estado catatônico de dor e frustração. Odiando
Felipe por me fazer soluçar como uma criança.

Meu celular vibra debaixo de meu travesseiro.


É uma mensagem de Sui pelo Whatsapp

Suiane: “Oi, que tá fazendo?”

Eu: “nada”

Suiane: “Posso mandar áudio”


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Eu: “NÃO!”

Suiane: “Advinha quem me levou pra almoçar


hoje?”

Eu: “Não faço ideia.”

Suiane; “O Léo! \o/ ”

Eu: “Legal. No trabalho você me conta. Hoje


não estou bem.”

Suiane entende que não serei uma boa pessoa


para conversar e não manda mais mensagens.

Pressiono travesseiro contra a cabeça tentando


esquecer da última briga com Felipe.

“Minha relação com a Adriana era mais


baseada no voyeurismo do que em qualquer outra
coisa”

Nunca tinha ouvido nada parecido com aquela


palavra. Pego o celular outra vez e digito na busca
do google. Voyerysmo

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“Voyeurismo é uma prática que consiste num


indivíduo conseguir obter prazer sexual através da
observação de pessoas. ... A prática
do voyeurismo manifesta-se de várias formas,
embora uma das características-chave é que o
indivíduo não interage com o objeto; em vez disso,
observa-o tipicamente a uma relativa distância.”

O enjoo voltou outra vez, mas eu estava de


estõmago vazio.

Então era para isso que Felipe tirara aquelas


fotos com Sandra? Mal acreditei... Sandra também
deveria saber da tal noiva maluca. Que mulher se
excitaria com uma coisa dessas?

Apaguei a pesquisa do celular e quis afastar os


pensamentos daquela loucura pervertida e nojenta
na qual Felipe estava envolvido.

Digitei uma mensagem e enviei para Nice:

Eu: “Vão demorar a chegar?”

Nice “Sim. Estamos num puta engarrafamento.



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Eu: “Tô precisando de remédio pra enjoo. Traz


uma caixinha pra mim quando trouxer a Malu e o
Ju?”

Nice: “ ENJOO?! Não me diz que tá grávida!?”

Eu: “Não. Nem fala uma coisa dessas. Estou


tomando aquele anticoncepcional novo que você
me deu.”

Nice: “Hum... então seu corpo ainda não se


acostumou com a carga de hormônios. ”

Eu: “Como estão os garotos?”

Nice: “Bem... consumindo toda a minha


internet kkkkk ”

Nice me manda uma foto, Juliano e Malu estão


sentados com os olhos vidrados no celular.

Eu rio.

Nice: “Minha bunda vai ficar quadrada de tanto


ficar sentada aqui :/ Aproveitou o findi pra sair com
o bandidão? kkkkk”
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Eu: “Não né.”

Nice: “Sem filhos e passou sozinha o sábado a


noite e em casa?”

Eu: “Na verdade passei com Felipe. Na casa


dele.”

Nice: “o.o COMO ASSIM???”

Eu: “Bom... a gente ficou... mas ele é bem


como você falou. Ele está noivo.”

Nice: “PQP :/ que filho da mãe! Vou passar na


farmácia e no posto de conveniência, só sorvete pra
passar por isso.”

Deixo o celular sobre a cama e coloco um


shorts jeans surrado e uma camiseta preta. Ando
pela escuridão da casa. Eu nem havia percebido que
a noite já havia chegado. Destranco a porta e vejo
que minhas coisas ainda estão no quintal.

Sozinha eu trago tudo para dentro e organizo as


coisas em seus devidos lugares. Quando termino já
é quase dez da noite.
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Meu estômago protesta e eu me obrigo a


cozinhar, faço seis ovos mexidos na frigideira e
tempero apenas com sal . Como sozinha,
acomodada no canto do sofá da sala.

Nice chega em minha casa quase meia noite.

Ela me olha de cima abaixo e faz uma careta de


preocupação.

— Meu deus amiga. — Ela me abraça. — Você


tá um bagaço mulher.

Juliano e Maria Luiza vem carregados com


sacolas do shopping e alguns presentes.

— Isso é pra você. — Ela me entrega uma mini


sacola de grife. — Da próxima vez vê se me ouve.
Usa isso e sai poderosa.

Tiro o vestidinho preto de um tecido leve e


macio. Forço um sorriso e agradeço.

— Você não existe. — A elogio.

— É não existo mesmo — Ela me entrega a


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outra sacola.

Espio dentro.

O sorvete.

Nice tira da bolsa gigante que carrega a tiracolo


uma caixa de comprimidos.

— Toma, isso deve servir. Toma meia hora


antes das refeições até que o enjoo passe.

— Obrigada.

— Vai dormir aqui hoje?

— Não. De jeito nenhum. —ela se justifica. —


Vou dar uma passada na casa de meus pais e depois
volto para Sampa.

Eu a abraço mais uma vez antes de ela seguir


seu caminho.

— Se cuida vaca. E nada de ficar chorando por


cafajeste.

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Eu rio.

— Pode deixar.

Nice volta para o carro e eu fecho a porta outra


vez.

✽✽✽

Duas semanas passaram em modo quase


automático. Trabalho na boutique, trabalho em
casa, estudo. Mais trabalho. O buraco deixado por
Felipe ainda estava doendo e segundo Suiane eu
tentava acalmar meu mal humor com comida,
muita comida.

— Tá perdendo o corpo esguio em Nana . —


Sui me provoca quando o botão de meu uniforme
abre nos peitos pela terceira vez no mesmo dia. —
Você tá mais peituda hein.

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— Esse anticoncepcional que está me


engordando. — Me defendo abocanhando um
grande pedaço do misto quente que ela estava
lanchando.

— Aham, sei. — Ela ri e me dá o restante de


seu lanche. — Vai pode comer, ninguém aqui
aguenta te ver de mal humor. E aliás... o léo vai me
levar pra jantar num restaurante novo e eu quero
estar bem linda, acho que vou fazer dieta até
amanhã.

— Hum.... — Murmuro de boca cheia. —


Isso... se comer esse misto com rosbife você não
vai entrar no vestido, vai explodir de tão gorda.

Sui puxa meu cabelo de brincadeira e revira os


olhos.

— Ai... Bruxa. — Xingo.

— Ogra. — Ela retruca brincando.

Ogro. Ogro lindo. Sofro ao lembrar dele outra


vez, como se em algum momento eu tivesse
conseguido esquece-lo. Droga!
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Enfio tudo na boca e mastigo rápido para voltar


ao meu posto

Me posiciono logo na entrada da loja ainda


terminando de mastigar o último pedaço do
suculento sanduiche.

Eu não esperava encontrar com ele não depois


de tanto tempo. Achei que ele já tivesse esquecido.

— Tá aqui a loira que eu queria ver hoje. —


Cezar abre um sorriso quando me vê.

— Oi César.

Ele dá um assovio para Suiane e a chama como


um meneio de cabeça.

— Já paguei adiantado lembra. — Ele tira do


bolso a carteira e pega uma nota de cem. — Mais
cem conto pra tu vigiar as crias da Maricota aqui.

Suiane aceita meio receosa e pede licença assim


que Leonardo a chama em sua sala.

— Ué, não vai fazer marra?


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— Não. — Respondo o encarando. — Mas


dúvido que apareça já que não apareceu da outra
vez.

— Foi mal ... tive que resolver umas paradas


sinistras lá na boca, mas já tá tudo sussa. — Ele se
justifica e eu mal entendo o que ele diz. — Mas
agora tá tudo relax então — Ele cantarola a música
da ludimila — É hoje... É hoje...

— Menos Cézar. — Eu o repreendo em voz


baixa.

— Claro, loira. Do jeito que cê quiser. — Ele


dá um sorriso. — Te pego as onze.

Cézar me rouba um beijo rápido, um selinho e


sai da loja cantarolando

— É hoje... É hoje...

Ele é louco... só posso estar ficando louca de ter


aceitado o convite dele. Essa noite seria a borracha
que eu tanto precisava para apagar Felipe da minha
vida de uma vez por todas.

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Música, bebida e diversão. Era só disso que eu


precisava essa noite: Álcool e funk pesadão.

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Capítulo 33
Felipe

Mesmo com Mariana me odiando com todas as


forças eu não conseguia ficar longe, e a maneira
que encontrei de estar perto dela foi através de seus
filhos, mais de Maria Luiza do que de Juliano. O
garoto ainda não ia com a minha cara e não fazia
nenhum um esforço para esconder isso, mas com
Malu era diferente. No dia em que entrei na casa de
Mariana depois daquele temporal eu limpei a
bagunça causada pela chuva e em meio aos papéis
molhados no quarto da menina achei folhetos de
propagandas de aulas de violão, junto com algumas
poesias tristes que poderiam ser facilmente
transformadas em música.

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Me senti bem ao ver a felicidade de Malu


quando eu disse que a ensinaria o pouco que eu
ainda lembrava, e por todas as tardes seguintes nós
sentávamos na varanda com o meu antigo violão.
Tirando algumas melodias do instrumento.

Quando Mariana voltava do trabalho nós dois


ainda estávamos ali sentados, eu tocando e ela
cantando. Nana dava um beijo no topo da cabeça da
filha e me cumprimentava de maneira seca sem
nem sequer me olhar nos olhos.

Juliano não se interessava por música. Não


tínhamos nada em comum além da matemática, que
ele usava todos os dias para me desafiar durante as
minhas aulas. Ele não queria nada com nada.
Correção o interesse dele eram as garotas. Todos os
dias vinha uma garota diferente enquanto eu
ensinava Malu a tocar.

— Ta aqui. — Ele me interrompe enquanto


explico sobre a escala músical.

Juliano entrega algumas notas de cinquenta


meio amassadas.

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— Pelos vidros. — Ele explica .

Mexo as notas e conto as notas.

— Duzentos reais? — Pergunto surpreso. —


Tudo isso por limpar coco de cachorro? Acho que
vou mudar de profissão;

Ele não ri.

— Estou dando aulas particulares. — Ele se


gaba. — Quando a gente é bom ganha dinheiro
com o que sabe.

Vontade de dar um cascudo nesse garoto cheio


de si, quero responder mas Malu o xinga.

— Cala boca Ju. Sai daqui que tá atrapalhando .

✽✽✽

Mariana fizera questão de contratar um faz tudo


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para colocar grades nas janelas. Enquanto o homem


pegava as medidas, falava pelos cotovelos.

— Foi assaltada vizinha? Já é a quarta casa essa


semana que eu coloco grades nas janelas. A
violência aqui tá que tá.

— Graças a Deus não. — Ela responde.de


braços cruzados. — Mas tem um cachorro aqui na
vizinhança que teima em pular a minha janela..

— Cachorro pulando a janela? Essa eu nunca


tinha visto!— o faz-tudo ri e guarda a trena no
bolso da calça encardida.

— Pois é, mas esse cachorro pula. — Ela nem


me encara. — O senhor levanta muro? Porque
depois de gradear as janelas pode fazer a lista do
que vai precisar pra comprar o material pro muro.

— Sim senhora.

Malu me chama a atenção e eu volto olhar para


a menina.

— Ah.... acho que dessa vez eu peguei o jeito


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— Ela comemora. — Viu como eu troquei rápido


de uma nota pra outra.

Balanço a cabeça concordando mesmo sem ter


ouvido uma nota .

— Sim sim... ficou muito bom.

Conforme os dias foram passando o serviço


contratado por ela foi sendo feito.... primeiro as
grades em todas as janelas, e depois o muro.

✽✽✽

Mariana
Quando voltei para casa encontrei Cassiano
colocando os últimos tijolos que faltavam na
primeira metade do muro. Cumprimentei o faz-tudo
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com um breve aceno e deixei meus sapatos logo na


entrada. Entrei em casa descalça e larguei a
bolsa.sobre o sofá e fui direto para a geladeira,
peguei os restos da janta e deixei na mesa. Servi um
copo de limonada para mim e outro para Cassiano.

Meu celular vibra no bolso. Olho a mensagem.

Juliano “Mãe. A gente vai chegar um


pouquinho mais tarde, Tô na biblioteca com uns
colegas e a Malu vai me esperar.”

Digito uma resposta rápida.

Eu: “Ok, não venham tarde, se já estiver escuro


peguem um uber que eu pago quando vocês
chegarem.”

Dei algumas garfadas na massa fria e enchi a


boca.

— Humm... delícia... — Falo sozinha e como


mais duas garfadas da comida antes de sair para
fora da casa levando os dois copos de suco um em
cada mão.

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— ô coisa boa. — Cassiano me agradece


aceitando o copo de suco gelado.

Ele limpa a mão suja de cimento na calça e se


escora na parede do chalé bem próximo a onde
estou.

— Tá ficando bom o serviço. — Elogio dando


um passo mais para o lado querendo me afastar da
proximidade desagradável dele.

— é... — Ele concorda e bebe tudo de uma vez.


— Mais uma semana e eu termino tudo.

— Uma semana?!

Filho da mãe já estava se enrolando demais e o


infeliz ainda cobrava por dia trabalhado. Eu tinha
certeza que ele estava fazendo corpo mole pra
ganhar mais. E se ele estendesse o prazo ainda mais
o preço do serviço quase duplicaria.

— Mas o senhor me disse outra coisa? — Eu o


encaro. — Não foi isso que a gente combinou
quando acertou o serviço.

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Me abano sentindo calor.

— Eu sei dona, mas tem que entender que o


serviço é pesado. Mulher não entende essas coisas.
Nem sempre o cimento seca no tempo que a gente
quer.

— Acho que o senhor tá querendo é alongar um


serviço que já deveria estar difícil. Tá achando que
eu tenho cara de rica?

Me abano de novo sentindo o suor escorrer por


meu peito. Passa a mão e o botão da blusa se abre
sem que eu perceba.

— Então o senhora para que eu vou ter que


rever as minhas contas, porque se demorar tudo
isso eu não vou ter o dinheiro todo pra lhe pagar.

Cassiano larga o copo na janela e chega mais


perto umedecendo os lábios ressecados.

— Pode me pagar depois. — Ele pega o copo


de minha mão e o larga na janela. — A gente acaba
se acertando.

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— Que intimidade é essa Cassiano?! — Xingo


— Sai da minha casa agora.

Ele sorri e não parece se importar muito e seus


olhos descem para o botão aberto de minha blusa.
Eu imediatamente cubro o decote e o fuzilo com o
olhar.

— Um homem pode fazer falta pra uma moça


bonita morando sozinha.— Ele chega mais perto e
eu posso sentir o fedor de suor e cimento vindo
dele.

Cassiano acaricia meu braço e de leve seu


polegar toca meu seio por cima da blusa.

Eu o empurro mas seu corpo gordo mal se


move e a carícia leve se torna um apertão asqueroso
contra meu seio.

Cassiano me prende contra a parede da casa.

— Eu sei que você tá querendo. — Ele lambe


meu pescoço e cobre meu rosto de beijos.

Estamos nos fundos da casa e ninguém ouve


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meus gritos.

— Me solta seu porco nojento. — Tento afasta-


lo mas suas mãos continuam tateando por meu
corpo.

— A Sandra me falou — Ele diz ofegante


enquanto me beija e me lambe a força- Que você
não tinha coragem de me dizer.

Eu me debato sentindo o pânico tomando conta


de mim

— Me soltaaaaa — Grito chorosa.

Eu luto de olhos fechados sentindo a náusea e o


pavor na mesma proporção.

Então ele simplesmente para.

Abro os olhos e vejo Felipe desferindo um soco


atrás do outro. Golpes duros que fazem Cassiano
cair sobre alguns restos de construção.

Tomado por uma ira ele quase desmancha o


homem na pancada.
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Feroz e bruto como eu jamais o havia visto.

— Para. — Eu seguro quando seu braço. Seus


músculos estão quentes e eu posso sentir um calor
emanando dele por debaixo daquele blazer.

Cassiano foge mas eu impeço que Felipe o


persiga.

— Não.

Ainda tremendo ele me pega pelos braços e me


analisa procurando por qualquer ferimento.

— Ele te machucou?

— Não. Não. — Eu solto um suspiro — Você


chegou a tempo.

Enxugo algumas lágrimas e me desvencilho


dele.

— Tenho que fazer uma coisa.

É estranho quando estamos tomados pelo medo


porque a nossa cabeça de um modo totalmente
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instintivo, bom... agora eu estava tomada somente


pela raiva, o que era muito pior.

Descalça eu voltei para dentro da minha casa e


peguei minha bolsa.

Atravessei a rua sem olhar para os lados e fui


direto na casa dela. Bati na porta com violência e
segundos depois ela é aberta.

Sandra larga um esfregão que cheira a limpeza.

— O que você quer? — Ela apoia as mãos na


cintura.

— Seu marido está aí? — Eu olho por cima do


ombro dela para o interior de sua casa. —
Plínioooo!

Ela me empurra para fora e pede que eu faça


silêncio.

— Mariana. — Ouço Felipe me chamar mas eu


o ignoro.

— Eu sei que foi você que falou merda pro


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Cassiano, por culpa sua ele tentou me agarrar.


Agora sai da frente que eu vou passar por cima de
você.

— Eu hein... — Sandra impedir minha


passagem e continua entando me empurrar.

— Pliniooooooo— Berro.

— Tira essa louca da minha casa. — Sandra


apela para Felipe. — Não sei do que essa maluca tá
falando. Deve ter dado trela e agora ta aí se fazendo
de donzela abusada.

Eu avanço pra cima dela mas Felipe me agarra


e me puxa para trás.

— O que tá acontecendo bombom? — O


marido de Sandra finalmente aparece na porta.

— Nada doce de côco. — Ela o acalma —


Volta pra dentro.

Eu enfio a mão na bolsa e tiro todas as fotos


que eu havia pegado da casa de Sandra.

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— Tá aqui !— Jogo as fotos na cara dos dois e


os retratos eróticos de Sandra e Felipe se espalham
por aos pés deles.

Plínio sai do lado de Sandra e se agacha. Ele


recolhe algumas fotos e logo ela começa a se
justificar.

— Isso foi antes docinho.

— Já fala da gravidez vizinha! — Jogo mais


lenha na fogueira e Felipe me arrasta de volta para
minha casa me puxando pelo braço.

Plínio se levanta e ajeita os óculos com as mãos


trêmulas.

— Vem pra dentro Sandra. — Ele exige.

Ela me fulmina com um olhar raivoso.

— Quites vizinha. Agora estamos quites.

Sandra segue o marido e a porta se fecha.

— Chega Mariana. — Felipe rosna me puxando


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de volta para minha casa.

Eu puxo de volta o braço.

— Me solta. Droga. — Digo com a adrenalina


ainda fervendo em mim.

Subo os degraus de minha varanda e ele me


segue.

— Aonde pensa que vai? — Eu o paro.

— Não vou te deixar sozinha nesse estado.

Eu cruzo os braços e o encaro.

— Deixa eu te perguntar uma coisa. Você ainda


está noivo?

Ele não me responde.

— Então pode voltar pra sua casa. Estou muito


bem sozinha. Eu e Deus.

Entro em casa e bato a porta . Passo a chave na


porta
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✽✽✽

Felipe
Já passa das onze da noite e eu não consigo
fazer outra coisa que não seja pensar em Mariana.
Mal consigo tocar na comida. Guardo a janta no
micro-ondas e pego uma cerveja na geladeira.
Praguejo por não ter nada mais forte que isso.

Estou na segunda lata quando ouço uma batida


na porta.

É ela.

Eu sei que é Mariana.

Passo a mão pelos cabelos ainda molhados e


caminho até a porta.

Destranco a porta.

Porra do caralho.

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É Sandra. Sua pele morena está um pouco


arroxeada perto do olho, o lábio superior está
inchado, há um pouco de sangue acumulado no
canto de sua boca.

— O Plínio me deixou.

— Não quero saber. — Rosno já fechando a


porta.

Ela coloca o corpo contra a abertura pequena


que ainda resta.

— Me deixa entrar vai. — Ela implora. — Eu


tô machucada. Tô sozinha. Eu sei que você tá
sozinho também.

Sandra recosta a cabeça na porta e me encara.

— Você devia cuidar de mim. A Mariana não


vai voltar hoje.

Eu abro a porta.

— O QUE TEM A MARIANA?

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Ela suspira e tenta não parecer feliz enquanto


me conta.

— Ah você não sabe.

— Desembucha logo porra. — Rosno.

— Saiu com Cezar.

Ela faz uma careta de dor quando abre um


sorriso.

— Ah você não sabia que ela tinha ido pro baile


funk?

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Capítulo 34
Mariana

— Vem logo mãe! — Malu grita da sala.


— Já vou. — Respondo e termino de escoar o
óleo da segunda rodada de batatas fritas.

Salta óleo quente para todos os lados como sei


lá eu ... talvez uma gota vinda do além, pra salpicar
todo o fogão de azeite e engraxar o chão da
cozinha.

— Vem logo que ela já vai virar a cabeça. — É


a vez de Juliano me chamar.

Espalho o sal e capricho no queijo ralado

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fresco, para que derrete sobre as batatas ainda


quentes.

— Então pausa né. — Grito.

Volto para a sala equilibrando o refratário


lotado de batas e carrego os vidros de catchup e a
mostarda de baixo do braço.

Sento no meio deles e Ju coloca o filme para


rodar outra vez.

Batidas curtas e rápidas vem da porta da sala.

— Deve ser o Lipe. Não “despausa” Ele só vai


me entregar umas partituras. — Malu se levanta e
limpa as mãos engorduradas na camiseta do irmão
e aquilo já é motivo para a terceira guerra mundial.

— Ah não. — Juliano reclama. — Passa a mão


na bunda! Puta merda Malu!

Dou um peteleco em Juliano.

— Olha a boca moleque! — O repreendo. —


Maria Luiza não arruma encrenca faz favor? —
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Coloco algumas batatas na boca e me acomodo


mais no sofá.

Maria Luiza saiu saltitando em direção a porta e


logo eu a a ouvi gritar.

— Mãe ! É pra você.

Não seja o Cezar. Não seja o Cézar. Rezo


mentalmente. Depois do que havia acontecido eu já
tinha desistido de sair essa noite. Passaria
assistindo filmes de terror com meus filhos e
pronto. Muitas tretas e emoções para um único dia.
Agora eu só precisava de sossego, meus filhos e a
travessa gigante de batatas fritas com muito queijo
derretido. Só isso.

Malu voltou para o sofá e eu fui até a porta.

— Ué? ! — Suiane exclama ao me ver com um


camisetão folgado que eu gostava de usar em casa
como vestido. — Que roupa é essa?!

Abro a porta para que ela entre.

— Não vou mais sair. — Explico.


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— Mas por que?

— Não tô no clima.

— Ai meu Deus. — Ela segura no meu braço.


— Não faz isso comigo Nana. Você precisa sair
com esse cara.

— MÃAAAAAE tá perdendo todo o filme. —


Ju grita da sala.

— Já vou. — Respondo em voz alta.

— Pra que esse desespero para que eu saia? —


Estranho.

Ela responde meio sem graça.

— Eu tava guardando o dinheiro que o Cezar


tinha dado da outra vez pra devolver na próxima
vez que ele fosse lá na loja atrás de você. Mas aí
hoje ele deu mais dinheiro....

— E? — Temendo já saber o resto da história.

— Ai Nana... eu acabei gastando tudo em


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roupas. — Ela choraminga. — Tô lisinha no banco


e se ele quiser de volta porque você não vai sair eu
vou ter que devolver tudo.

Eu suspiro irritada.

— Ai Nana... sai com ele. — Sui balança minha


mão como uma criança fazendo manha para a mãe.
— Eu sei que eu tenho um problema, mas não me
odeia. Não tenho um tostão no banco pra devolver
o dinheiro.

— Droga Sui. Se eu morrer lá na favela por


causa de uma bala perdida você vai ter que
sustentar os meus filhos.

Ela pula de alegria e eu rio.

— Ah que drama... o máximo que vai acontecer


é você ficar toda dolorida de — Ela cantarola e
dança —“arrastar o placar no chão”

— Cala boca Suiane. — Xingo. — Eu não


danço. E funk muito menos.

Levo Sui para a sala e apresento ela a MaLU E


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Juliano. Na primeira oportunidade Ju sai da sala e


volta com uma das roupas novas que Nice tinha
comprado para ele . Todo gentil ele arruma espaço
no sofá para Suiane, até parece outro e não o
ogrinho brigão que a pouco estava batendo boca
com Maria Luiza. Ele tinha que ser tão tão tão
parecido com Felipe?

Volto para o meu quarto e começo a me


arrumar. Coloco o vestido de preto que Nice me
dera e calço a sandália de tiras com o enfeite de
flor. Faço uma maquiagem bem marcada nos olhos
e escovo os dentes e finalizo passando um batom
bem vermelho nos lábios. Solto os cabelos que
tinham passado presos desde de manhã e suaves
ondas douradas marcam os fios.

Sui bate na porta a abre.

— Ele che — Mas ela emenda a frase em um


elogio — Nossa Nana. Que produção.

— Demais? — Pergunto pegando minha bolsa.


— Acho que tá demais né.

— Não. Tá linda. — Ela me elogia. — Vai logo


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e boa festa.

Eu caminho até a sala mas Malu está no


banheiro e Juliano na cozinha.

— Volto mais tarde. Se comportem.

— Tá — Eles respondem quase juntos.

Abro a porta e Cézar coloca a mão no peito em


um gesto como se tivesse infartando.

— Porra Maricota! — Ele exclama — Cheia da


pinta.

— Mari. — Eu o corrijo. — Só Mari.

— O que quiser Deusa. — Ele me olha de cima


abaixo cheio de malícia e se inclina para me roubar
outro selinho como fez hoje cedo.

— Controla a boca.

Ele ri e debocha.

— Tá bom. — Seu sorrio se amplia quando ele


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estende a mão para mim. — Eu vou tentar.

Eu saio de casa e fecho a porta atrás de mim.

— Mas esse seu bocão vermelho parece que me


chama. Saca? Me beija... Me beija...

Eu rio das besteiras dele e entro no jipe. Meu


vestido sobe um pouco quando me sento no banco e
ele percebe.

— Dá controle Deus! — Ele debocha olhando


para o céu. — A mina tá saindo pra judiar.

César bateu a porta e deu a volta balançando a


cabeça rindo de seus próprios pensamentos.

Ele entrou no carro e balançou a camiseta preta


como se estivesse com calor.

— Nego do Borel? Curti? — Ele pergunta ao


ligar o rádio.

— Aham. — Digo sem nunca ter ouvido sequer


uma música e prendo meu cinto.

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Logo a música começa a vibrar

— Pode chegar , pode chegar... Que a festa vai


começar...— Ele cantou se mexendo de um jeito
engraçado e arrancou deixando um rastro de
fumaça preta dos pneus cantando no asfalto.

Cézar dirigia de um jeito louco, cantando e vez


ou outra largando o volante agitando os braços para
o alto no ritmo pancada da música.

Meu Deus eu ia morrer essa noite.

— Segura o volante. — Digo quando a música


termina

— Fica sussa Maricota, tá comigo tá com Deus.


— Ele pisca e mexe os ombros no ritmo de um
novo funk que começa . — Essas malandra
assanhadinha...

Que só quer vrau, só quer vrau

Só quer vrau, vrau, vrau

Vem pra favela ficar doidinha...


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✽✽✽

Cézar parou o Jipe e eu dei graças a Deus por


conseguido chegar viva. Desço do carro e ele me
acompanha.

Nós caminhamos em direção ao som que


reverbera não muito longe por entre as ruas
estreitas da favela. O meu salto agulha prende entre
frestas entre uma pedra e outra e ele me segura.

— Opaaaa. Peguei peguei.

— Obrigada — Tiro a mão dele que agarra


minha cintura e sigo ao seu lado.

A medida que subimos mais o morro a multidão


começa a se amontoar aos poucos. Homens e
mulheres dançando e bedendo.

— Por aqui. — Ele me puxa pela multidão. —

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Não com a ralé gata.

Cézar me puxa para mais perto do palco .

— Fala chefe. — Um garoto que regula com a


idade de Juliano o cumprimenta com um estranho
aperto de mão.

O garoto se mexe e posso ver de relance uma


arma presa a cintura.

— Dalmata. Traz umas cervas pra nós.

O garoto some em meio a multidão e volta


minutos depois carregando um balde cheio de
cervejas enterradas entre pedregulhos de gelo.

Cezar apoia o cooler metálico no palco onde


dançarinas usando micro shorts e topes que mal
cobrem os seios, dançam ao som de Anitta. Ele
abre a cerveja e me alcança a lata.

— Acho que eu estou meio desconfortável com


tudo isso. — Digo meio sem graça.

— BEBE QUE PASSA. — Ele grita e abre uma


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lata para si.

Então eu bebo.

Bebo.

E bebo mais um pouco.

O som alto torna quase impossível que a gente


converse mas mesmo assim eu falo.

Falo pelos cotovelos.

Me apoio em Cezar porque a sandália a todo


momento parece querer me derrubar.

—Te falei que lá em casa tinha um cachorro


pulando a minha janela.

César ri.

— Não.

— Um cachorro tatuado. — Digo já mais


alegre. — Felipe acha que eu não sei o que ele tá
fazendo. — Cutuco o peito dele. — Esse negócio
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de todo dia ensinar a Malu a tocar violão.

Cézar troca minha lata vazia por outra cheia e


eu continuo com os braços envolta de seu pescoço.

— O cara tá noivo acredita?! O puto do Felipe


tá noivo!?

Cezar arqueia as sobrancelhas e bebe outro gole


não muito interessado no que eu tenho a dizer.

— Você não tá noivo. Ou tá?

— Não . — Ele ri e faz com que meu corpo


roçe mais contra o dele.

— O que eu estava dizendo mesmo? — Faço


uma pausa quando as ideias começam a ficar
confusas em minha mente. — Ah é. Eu odeio o
Felipe. Sabe que ele comeu a vizinhança toda.
Inclusive a sua irmã. Mas agora eu não quero falar
dele.

Eu sinto uma vertigem quando jogo a cabeça


para trás e Cézar me segura.

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— Porra Maricota... tu não consegue tirar esse


cara da cabeça.

Eu puxo um zíper invisível na boca e sorrio.

— Consigo sim. — Digo sentindo o ambiente


ao meu redor ficar mais quente. — Não está mais
aqui quem falou.

Danço me segurando a ele.

— Essa noite eu só vou aproveitar com o


bandidão. — Rio quando percebo que acabei de
dizer. — Sabe que o Felipe é professor? E ainda é
professor do próprio.

Cézar me solta já sem paciência.

— Tá tá. Juro que parei.

Mas ele me dá as costas e some em meio a


multidão.

— Que brabo. — Resmungo sozinha. — Azar o


seu . Eu ia te tacar um beijão bem agora. —
Resmungo sozinha e largo a lata vazia no balde
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ainda bem abastecido .

— Vem.

Aquela voz me é familiar .

A mão firme de Felipe se fecha em torno de


meu braço e ele começa a me puxar.

— Me solta. — Eu tento fazer com que ele solte


meu braço.

— Vou te levar daqui nem que seja pelos


cabelos. — Ele rosna todo furioso.

— Vai dar ordem pras suas “nega”! Some daqui


cachorro. É isso que você é um ogro cachorro.

✽✽✽

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Felipe
Mariana estava completamente bêbada e só
poderia acontecer o pior naquele caralho de
inferninho onde ela havia se metido. Os seios
quase saltando daquele pedaço minúsculo preto que
ela usava como vestido?

— Você quer mais um filho sem pai? Porque é


isso que vai acontecer se continuar aqui vestida e
agindo como uma puta. Vai acabar sendo estupra

Mariana me desferiu um tapa com força.

— Vai SE FUDER FELIPE ! — Ela me


empurra e sobe no palco com as outras dançarinas.

Uma multidão vibrou quando ela subiu, o que te


me deixou ainda mais irado.

— Tá com ciúmes ? Tá com ciúmes ? ! Pega na


mão e assume. — Mariana cantarolou de cima do
palco enquanto imitava a dança das outras

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funkeiras.

Subi atrás dela e tentei agarra-la para arrancar


Mariana dali.

— Me solta!

— Não vou soltar porra nenhuma. Essa cena é


ridícula Mariana. Você está bêbada. Se alguma
coisa acontecer

— Se alguma a coisa acontecer é porque eu


quero! Sabe o que eu quero? É dar pro César.

Ela apoia em mim e tira os saltos.

— Some Felipe. Eu estava me divertindo


bastante até você chegar.

Mariana desceu cambaleando e logo eu a perdi


em meio a multidão;

— Deixa ela delicinha. — As dançarinas me


cercaram — Dança aqui com a gente.

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✽✽✽

Mariana
— Quem ele pensa que é? — Resmungo
sozinha quando sinto meu braço sendo segurado
outra vez.

Me viro para enfrentar Felipe.

— Já vai indo Maricota?

Eu fico na ponta dos pés e beijo César. Seus


lábios são carnudos e aquele beijo tem gosto de
cerveja.

— Quente. — Ele sorri afastando os lábios dos


meus.

Ele se inclina de novo para me beijar mas o


enjoo vem com mais força e uma golfada de
cerveja e batatas fritas semidigeridas jorram de
minha boca antes que eu possa virar para o lado.

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— Desculpa. — Digo ainda tomada pela


náusea .

Ele tira a camisa.

— Tem algum banheiro que eu possa ir?


Rápido?

Cézar tira a camiseta vomitada e faz um meneio


de cabeça indicando um banheiro químico a poucos
metros de nós.

Eu corro descalça e entro o mais rápido que


posso. A segunda onda de vomito é mais forte que
a primeira e eu me agarro ao vaso. O cheiro fétido
me enjoa ainda mais.

— Isso é culpa do Felipe. Eu já vou melhorar.


— Digo em voz alta. — Ele é um idiota. Não quero
que Juliano seja como ele.

Vômito outra vez e agora me sento no chão sujo


do banheiro minúsculo.

— Mas a fruta não cai muito longe da árvore


não é? — Digo com a voz meio enrolada. — Eles
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são tão parecidos que até assusta... a matemática, o


gênio, o fascínio por tatuagens... Tal pai tal filho

Escoro o queixo na tampa da privada e sinto


que o banheiro está girando.

— Em pensar que eu quase contei pra ele que o


Juliano era seu filho. Você não vai falar nada né
César?

Ele não responde. Deve ter me deixado sozinha


depois de que quase ter vomitado na boca dele.

Com dificuldade eu me pus de pé e empurrei a


porta.

Não era César que estava a minha espera.

Era Felipe.

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Capítulo 35
Felipe
Instantes antes

Despois que Mariana se recuperasse do porre eu a


mataria por se colocar em risco dessa maneira. Eu
pensava comigo mesmo enquanto a procurava em
meio a multidão que dançava e bebia ao som de um
funk pesado.

Alguns metros mais adiante vi o irmão de


Sandra puxando a camiseta para longe do corpo,
com uma careta de nojo, os outros três que o
acompanhavam davam risada. Fui chegando mais
perto e comecei a entender trechos da conversa dos
três.
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— A mina deu “PT” chefe?

Cezar tira a camiseta e joga no outro cara.

— Cala boca pelego! Essa aí não dá.

— Sussa chefe. A gente só tá zoando pô.

Eu chego mais perto e puxo Cézar pelo ombro e


faço com que ele se vire pra mim.

— Cadê a Mariana?! — Rosno fuzilando-o com


o olhar.

Os outros dois que o acompanham já sacam as


armas.

— Olha a marra do playboy. — César me olha


com ar debochado. — Cê tá na favela mermão.
Baixa essa tua bola. — Ele faz um meneio de
cabeça para um dos caras armados.

Sinto o cabo do revólver atingir minha têmpora


esquerda.

Caiu de Joelhos e apoio as mãos no chão.


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— Aqui na favela só tem dois jeitos de se


manter playboy. Ou de joelhos pro rei da boca. —
Ele sinaliza para si mesmo com os dois polegares.
Ou de pé junto. Qual vai ser? A Maricota curtiu
ficar de joelhos, mais ela vai ficar de quatro.

Eu puxo seus tornozelos e o derrubom me


avançando sobre o irmão de Sandra aos socos.

— Cadê a Mariana?

César me atinge um soco mas eu não paro. Não


até sentir a pontas das armas uma de cada lado das
têmporas.

— Chefe. Chefe. — Um garoto magrela com o


corpo tomado pela vitiligo — Os homi tão subindo
o morro.

César limpa o canto da boca sujo de sangue e


some com os comparsas por entre as vielas mal
iluminadas.

Ao longe o som da sirene e alguns disparos


secos.

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Tiros.

Caminho um pouco mais a procura dela.

A coronhada que levei está fazendo minha


cabeça latejar . Apoio no banheiro químico até que
a dor diminua um pouco.

— Isso é culpa do Felipe. Eu já vou melhorar.


— Ouço a voz de Mariana vindo de dentro do
banheiro. Sinto um alívio por tê-la encontrado. —
Ele é um idiota. Não quero que Juliano seja como
ele.

Ouço ela vomitar e tento abrir a porta.

— Mas a fruta não cai muito longe da árvore


não é? — Ela diz com a voz enrolada. — Eles são
tão parecidos que até assusta... a matemática, o
gênio, o fascínio por tatuagens... Tal pai tal filho

Aproximo o ouvido da porta para ouvi-la com


mais clareza

— Em pensar que eu quase contei pra ele que o


Juliano era seu filho. Você não vai falar nada né
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César?

Eu me afasto em completo estado de choque


com o que acabei de ouvir.

Juliano. Meu filho.

A dor de minha cabeça fica em último plano, e


as ideias borbulham em minha mente mais rápido
do que sou capaz de organiza-las.

A porta do banheiro é aberta.

Mariana está num estado deplorável. Os cabelos


melados de vômito, a maquiagem desfeita, as
pernas encardidas. Ela emudece ao me ver.

Ela não se move. O rosto tomado pela


vergonha.

✽✽✽

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Mariana

— O que você ouviu?

— Tudo — Ele responde alguns segundos


depois.

Não muito longe de onde estamos é possível


ouvir uma gritaria e troca de tiros. Dou dois passos
para fora do banheiro imundo.

Cambaleio e sento na calçada, escorada na


porta fechada de um boteco.

Cubro o rosto sentindo tudo a minha volta girar.


Por entre os dedos espio Felipe. Ele está me
encarando.

Tão frio.

Não posso sustentar seu olhar.

— Para de me olhar assim.

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Encolho as pernas e apoio a cabeça sobre os


joelhos, rezando para que aquilo tudo não passasse
de um pesadelo terrível. Se eu dormisse agora
acordaria no final do filme, Malu e Juliano ririam
de mim como sempre faziam quando eu pegava no
sono vendo televisão.

Senti os braços de Felipe envolvendo meu


corpo e segundos depois eu já não sentia mais as
costas apoiadas contra o metal frio da porta, ou
mesmo o chão irregular da calçada. Sentia apenas o
aconchego e a segurança de estar nos braços dele.

✽✽✽

Felipe
Entrei em minha casa com Mariana desmaiada
em meus braços. A levei direto para o banheiro e
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entrei com ela debaixo da ducha de água fria.

Ela choramingou em protesto e se encolheu.

— Para tá muito gelado.

Não consigo dizer nada.

Eu a largo no chão bem debaixo do jato do


chuveiro e ela se encolhe toda de frio.

— Não quero banho. Quero cama.

A irritação não me permita que eu exploda


agora. Ela não vai lembrar porra nenhuma.

Tiro seu vestido e sua calcinha preta rendada.

Deixo que suas roupas sujas caiam pelo chão do


box.

Despejo xampu na palma de minha mão e


esfrego por seus cabelos.

— Você me odeia? — Ela choraminga com os


olhos apertados quando a espuma perfumada e
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limpa começa a escorrer por seu rosto.

Não consigo responder a isso.

Meu Deus. Juliano é meu filho.

Esfrego seus cabelos de um jeito um pouco


bruto e ela reclama. Tiro toda a espuma e ela
continua reclamando embriagada.

— Eu sinto que você me odeia.

Eu deveria dizer que não, mas agora já não sei.

Como ela pode me esconder isso?

Passo condicionado em boa parte de seus


cabelos e pego a bucha vegetal. Esfrego o sabonete
e passo por sua pele até tirar toda a sujeira.

— Ai... tá me machucando. — Mariana reclama


quando esfrego suas pernas.

Desligo o chuveiro e a enrolo em uma toalha


seca.

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— Se você não vai falar comigo eu vou


embora. — Ela cambaleia pelo banheiro, podre de
bêbada.

Eu a levo para meu quarto e a faço se sentar na


cama.

Mal consigo olhar para Mariana.

Pego uma cueca boxer e uma camiseta preta no


guarda-roupa. Quando volto a olhar para ela
Mariana já está dormindo outra vez, encolhida
como uma criança, agarrada ao meu travesseiro.

Eu a visto, mas ela não se mexe, murmura


algumas reclamações mas não abre os olhos. Vou
até a cozinha e pego no armário a caixa de
remédios. Tomo dois analgésicos e apanho mais
alguns comprimidos. Remédio para enjoo e para a
dor. Encho um copo de água e deixo tudo sobre o
criado mudo ao lado da cama.

Mariana está num sono pesada e não acorda


com as batidas de porta ou barulhos que faço.
Troco minhas roupas molhadas por outras e me
sento na poltrona ao lado da janela.
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✽✽✽

Mariana
Acordo com som dos passarinhos bicando no
telhado.Mal abro os olhos. Está tudo tão claro que
não tenho coragem de abrir os olhos e ter a cabeça
esmagada por uma bigorna de uma tonelada
chamada ressaca.

Eu me viro na cama e abraço o travesseiro


macio. O perfume que sai dele é tão bom. Tem o
cheiro dele.

Felipe.

Abro um olho só e aos poucos reconheço o


quarto dele. E o que eu temia se torna real.

Abro o olho que faltava e percebo que não


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havia sido um terrível pesadelo.

Encontro Felipe sentado na poltrona, o maxilar


cerrado, os punhos fechados sobre os braços da
poltrona. Ele me encara e rápidos flashes começam
a surgir em minha mente, lembranças da noite
anterior.

Eu me sento na cama e sinto o estômago


embrulhar com o simples movimento de sentar.

Nunca mais vou beber na vida.

— Toma os comprimidos com pouca água. —


Felipe ordena num tom seco e faz um meneio de
cabeça para o criado mudo.

Estendo a mão para o lado e faço o que ele


quer. Coloco os três comprimidos na boca e tomo
um gole suficiente para que os remédios passem
pela garganta. Largo o copo de volta no lugar e
abaixo o olhar.

— Que horas são?

Questiono mexendo na barra da camiseta dele


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que estou vestindo. Estou limpa. Usando suas


roupas. Não lembro de ter tomado banho.

Eu ouço sua risada sarcástica mas não consigo


olhá-lo nos olhos.

— Vai querer falar das horas, do tempo? É


sobre isso que quer começar a falar? — Ele rosna
irritado e olha as horas no relógio de pulso. —
Meio dia, Mariana. Deve estar fazendo uns trinta
graus lá fora. — Seu tom sarcástico faz com que eu
me encolha.

Eu o ouço estalar os dedos das mãos.

— Agora que já conversamos sobre o tempo,


porque não começa falando sobre a noite de
ontem. — Ele olha as horas no relógio e volta a me
encarar. — Acredito que seja uma ótima hora para
falar disso

— Felipe. — Minha cabeça lateja quando ele


eleva o tom de voz.

— O que? Acha que não é um bom tópico de


conversa? Bom... se você não quiser conversar
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sobre no quão imbecil e imprudente é você se


enfiar na porra do morro, com um bandido e encher
a cara, nós também podemos passar para o assunto
seguinte! Se preferir pode começar falando sobre
Juliano ser meu filho.

Engulo em seco e sinto o rancor e desprezo em


cada palavra.

— Mas acho que esse assunto você prefere


tratar com a porra de um traficante porque ele sim
tem que saber quem é o pai do Juliano.

— Não foi assim Felipe. Não era para você


descobrir desse jeito

— Claro que não . — Ele rosna possesso. —


Não era nem para eu descobrir, não é?

Felipe se levanta da poltrona e fica de costas


para mim.

A tensão toda acumulada em suas costas. Ele


puxa os cabelos escuros para trás e não volta a me
encarar.

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Eu desço da cama e ouso me aproximar dele.

— Por que você mentiu para mim Mariana?

Eu não consigo dizer nada.

— Meu Deus Mariana. Se ao menos você


soubesse o quanto eu amei você. — Ele para de
falar.

— Maria luiza não iria aguentar saber a


verdade. VocÊ sabe o quanto ela é sensível. Se ela
soubesse que eu a achei no lixo. — Cubro a boca e
prendo a respiração tentando evitar que as lágrimas
comecem a cair. — Isso iria arrasar com ela.

Tento tocar seu braço.

— Então você decidiu por si mesma que em


benefício dela, eu jamais saberia de Juliano, e
Juliano também não saberia que tem um pai?

Seco algumas lágrimas quando ele se vira para


me encarar.

— Durante todo o tempo que esteve de volta


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nunca pensou em me contar a verdade? Foi se


enrolando em uma mentira atrás da outra Mariana.

— Eu quis, mas foi difícil.

— E você acha que foi fácil pra mim falar da


porra da noiva que eu não vejo a meses sabendo
que eu correria o risco de perder você de novo se
você soubesse do noivado de qualquer outro jeito?
Eu nunca menti pra você Mariana. — Felipe me
encara com a decepção evidente no olhar. —
Ontem a noite você perguntou se eu te odiava.

Eu lembrava vagamente disso.

— E você me odeia? — Perguntei com a voz


tomada pela emoção.

— Não, mas meu amor não é grande o


suficiente para perdoar suas mentiras.

Balancei a cabeça em silêncio e desviei o olhar


do dele.

— Tudo bem. Por favor não fale com o Juliano


agora. Eu vou arrumar um jeito de contar a verdade
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pra ele. — Engulo a vontade de chorar. — Eu sei


que o que eu fiz não tem desculpas.

— É melhor você voltar pra sua casa. Juliano e


Maria Luiza devem estar preocupados com você.

✽✽✽

Quando entrei em casa Maria Luiza cantava e


tocava no violão enquanto Juliano mexia no
celular. Eles mal viram quando entrei.

Suiane viu como eu estava vestida e logo


começou a me bombardear com perguntas.

— Não não não. Agora não Sui. — Eu me


fecho no quarto. — A gente conversa na loja
amanhã. Ressaca nível hard aqui.

Eu a ouço rir.

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— Tá bom... tô indo . Seus filhos são uns


amores. Beijo.

— Beijo. — Afundo na cama e cubro a cabeça


com travesseiro.

✽✽✽

Passei praticamente a semana inteira sem cruzar


com Felipe. Até mesmo as aulas de violão no final
do dia haviam terminado. Eu estava tão nervosa e
desestruturada nesses últimos dias que passava boa
parte do tempo com uma azia que parecia queimar
até minha alma.

— Isso é estresse. — Suiane dizia, lixando as


unhas enquanto esperávamos o ônibus juntas.

— Talvez. — Concordo. — Tenho dormido


mal. Meu vizinho nos últimos três dias deu uma
festa seguida da outra.
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— Ahhhh. — Ela exclama. — Lá na minha rua


é igualzinho. Chega sexta e sábado o pvc do meu
teto chega a tremer com a música alta. Eu já desisti
de brigar.

Gritos e um barulho de algazarra logo depois


das onze da noite tinham se tornado frequentes. Eu
sabia quem era o dono da festa, mas não conseguia
confrontá-lo.

Assim que meu ônibus chegou me despedi de


Sui e embarquei.

Lotado.

Me posicionei perto da porta e fiquei em pé


durante todo o trajeto. Quando desci a poucas
quadras de casa respirei aliviada por estar fora do
ônibus.

Sozinha fiz o trajeto em ritmo lento. Um


conversível passou a toda velocidade por mim.
Levei um susto com as buzinadas do carro
vermelho que estacionou na quadra seguinte, na
casa de Felipe.

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Fui chegando mais perto e os contornos foram


se tornando mais nítidos. Adônis pulando do carro
acompanhado de outras três garotas. Felipe
beijando uma... beijando outra e depois mais outra.

Os quatro entraram juntos, rindo e agitando.

Ele queria me fazer sofrer.

Ele estava cumprindo a missão com sucesso.

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Capítulo 36
Felipe
Alguns dias antes

Eu não sabia como tocar minha vida depois de


descobrir sobre Juliano. Não conseguia mais ver
Maria Luiza e continuar com as aulas de violão.
Era difícil olhar para ela e saber a verdade, saber
que ela havia sido achada no lixo. Dar aulas
naquela semana foi ainda pior. Eu deveria ter tirado
uma licença e colocado a vida nos eixos, mas isso
também significaria ter que me afastar de Juliano.
Pelo menos nas aulas nos víamos. Ele mantinha a
pose de turrão e continuava a me desafiar durante
as aulas sempre que tinha oportunidade.

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Sabia na pele o que era crescer sem pai, não que


eu não tivesse um... mas quando meu pai se
separou de minha mãe eu ainda era criança,
moleque rebelde assim como Juliano, entrando na
adolescência. Meu pai preferira ficar com a nova
esposa e com ela teve novos filhos que eu nunca fiz
questão de conhecer. Quando ele vinha me visitar
aos finais de semana eu pulava a janela e quebrava
os vidros do carro na pedrada, arranhava a lataria,
arrancava os retrovisores com um pedaço de
madeira que eu usava pra jogar taco com os garotos
na rua. Cada final de semana era um dano diferente,
até que depois de um tempo ele parou de tentar.

Não queria repetir o erro. Não queria que


Juliano me odiasse como eu odiava o meu pai, mas
infelizmente eu sabia que estava no mesmo
caminho.

Eu daria uma semana a Mariana para contar.


Depois disso eu não esperaria mais um segundo
sequer. As mentiras já tinham durado tempo
demais.

No meio da semana Adônis apareceu por volta


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da meia noite com uma garrafa de whisky numa


mão e uma loira carregando uma garrafa de
energético, a tira colo.

— Fala Lipeta! — Ele passa por mim e entra


como se fosse o dono da casa. — Essa casa aqui já
foi mais animada.

— É meio da semana Adônis. — Digo


fechando a porta.

— E? — Ele arqueia as sobrancelhas loiras e


sorri. — Por isso mesmo, tem que desestressar
Lipeta. Beber, relaxar pra aguentar o tranco a
semana toda.

Comecei a beber e quando percebi... menos de


uma hora depois a casa já estava lotada. A música
alta, garotas se beijando sobre o balcão da pia. Uns
caras jogando fifa na sala. Outros dançando... Se
fosse antes eu já teria levado as duas garotas que
estavam se agarrando para meu quarto e só sairia de
lá ao amanhecer, ou melhor elas saíriam.

Me senti um imbecil por não ter o mínimo de


vontade de levar as duas para a cama.
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— Sai. — Dei um rosnado e elas se afastaram


eu abri o armário que elas estavam na frente e
peguei uma garrafa de vodka.

Festa. Álcool . Música e mulheres fáceis. Era a


receita perfeita para a diversão certa. Mas não
estava funcionando.

Quanto mais lotada e barulhenta minha casa se


tornava nas noites seguintes, mais sozinho eu me
sentia. Quando eu pensava em Mariana mesmo
sem querer eu me lembrava dela na festa com o
irmão de Sandra, a bebedeira ela gritando que
transaria com quem quisesse... a verdade sendo
despejada da pior maneira possível.

✽✽✽

Ouvi o som da buzina insistente na frente de


casa. Fui até a porta da frente. Era a Adônis com
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mais três garotas. Eu já tinha começado a “festa”


sozinho. A garrafa de vodka já estava pela metade
sobre a mesa de centro da sala.

Mal entendi o que elas diziam, estrangeiras


talvez.

— Gringas lindas. — Adònis dá risada .

Vejo Mariana vindo a distância e sinto o


ressentimento ali todo vindo a tona outra vez, deixo
meu lado vingativo vir a tona e mesmo sem
vontade beijo cada uma das garotas que Adonis
trouxera.

Entro em casa com uma de cada lado e a garota


que vem logo depois com Adônis larga uma
pequena caixa de som e instantes depois a música
eletrônica começa a reverberar pela casa.

As garotas sorriem ao ver parte de minha


tatuagem.

— Beatiful. — A mais loira desliza os dedos


pelos meus botões e começa abri-lo.

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Eu quero aproveitar. Quero arrancar Mariana de


minha cabeça, mas eu não consigo. Não consigo
esquecer do olhar dela quando me viu beijando as
outras garotas. Eu me sentia a porra de um lixo
escroto.

Me desvencilhei das duas e peguei a garrafa de


vodka e voltei para meu quarto. Bebi até cair.

— MARIANA —

Voltei para casa e não bati a porta. Fechei com


cuidado e cumprimentei Malu e Juliano
rapidamente.

Felipe era tão tão tão cafajeste. Estava para


nascer homem pior e mais sádico do que ele, e eu
só poderia ser a idiota de uma masoquista por ainda
chorar por ele. Meu celular vibrou e eu o tirei de
dentro da bolsa.

Nice :“ Melhor da ressaca? Como estão as


coisas por aí?”

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Eu: “A ressaca já passou. Mas minha vida está


desmoronando Nice. Me diz que você tá no Rio.”

Nice: “Por que?”

Eu: “Um problema atrás do outro. Devia ter te


ouvido. Não deveria ter vindo para o Rio. Onde vc
tá?”

Nice: “Cheguei hoje no Rio e vou embora


amanhã no final do dia.”

Eu: “Tão rápido?”

Nice: “Sim, é só para um workshop de um


antidepressivo novo que eu vou começar a
representar também.”

EU: “Acho que eu vou precisar de umas


amostras de uns comprimidos desse também.”

Seco algumas lágrimas no rosto.

Eu “Preciso muito falar com você, por favor


Nice. Tô precisando conversar.”

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Ela demora alguns segundos digitando uma


resposta.

Nice: “Tudo bem chorona. Almoçamos juntas


amanhã.”

Ela me enviou uma última mensagem com o


endereço e eu criei coragem para levantar e fazer a
janta.

Apesar dos pesares o jantar não havia sido dos


piores... talvez eu cozinhasse melhor quando estava
triste. Eu repeti o prato bem servido de arroz feijão
e carne moída com molho e batatas cortadas em
cubo, duas vezes.

— A lombriga da mãe tá competindo com a sua


Juliano. — Malu provoca o irmão e da risada.

Ele gesticula com a mão direita.

— Vai tomar no seu.

— Juliano! — Grito. — Deixa de ser mal


humorado garoto.— Eu o fuzilo com o olhar e ele
levanta da mesa. — A louça é sua hoje.
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— Mas hoje não é o meu dia.

— Ah pois é... mas se castigo fosse bom não


era castigo. — Rebato.— Façam o favor de não se
matarem enquanto eu durmo um pouco. Vou deitar
mais cedo que a havia tá vindo mais forte agora.

Eu já não tinha mais dúvidas que estava com


uma senhora gastrite por causa de todo esse
estresse, Suiane tinha razão. Eu só precisava
encontrar tempo pra poder ir no médico.

Voltei para o meu quarto e quis ignorar a


música alta que vinha da casa ao lado.

— FELIPE —

Meu celular vibrou e eu atendi alguns toques


depois.

— Lipeta tá de ressaca? ! — Ele pergunta em


voz alta de propósito.

— Ah caralho. Tem que gritar?! — Rosno


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afastando o celular do ouvido prestes a desligar.

— É assim que você fala com seu brother


depois de três festas épicas? Se você não tivesse
sido uma putona chatona nesses últimos dias eu até
te dava a minha receita pra curar ressaca.

— Fala logo viado. Pra que tá me ligando a essa


hora?

Eu o ouço rir no outro lado da linha.

— Acabei de ver sua noiva aqui no hotel


quando vim deixar as gringas. Sabe que eu sou
quase um gentleman.

— Adriana? Você viu a Adriana? — Pergunto


sentando na cama.

— É cara. É. Ou você tá noivo de mais alguma


e eu não sei?

Aquela vagabunda. Se esquivando das minhas


mensagens pra não terminar a porra de um noivado
que nem devia ter começado.

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— Me passa o endereço.

Assim que peguei o nome do hotel desliguei o


telefone e fui direto para o banheiro. Tomei uma
ducha para tirar o cheiro de álcool que saia por
meus poros. Coloquei uma roupa as pressas e fui
direto ao encontro dela.

Esse noivado terminaria hoje.

— Mariana —

Foi um alívio abraçar Nice. Nos sentamos em


um confortável sofá e ela descalçou seus scarpins
preto aveludados e cruzou as pernas no sofá
sentando na posição de índio. Ela me entregou uma
caixinha de yaksoba de legumes com frango e
pegou a outra caixinha para si.

— Fala Nana. O que tá atormentando esse


coraçãozinha de pisciana sofrenilda.

Eu rio e uso os hashis para mexer a comida.

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— Sabe que eu deveria ter te ouvido. — Enrolo


a massa, mas o cheiro que levanta do shoyo me
enjoa. Disfarço mexendo um pouco na comida, não
quero fazer desfeita mas minha vontade de comer
aquilo é zero. — Eu nem sei por onde começar.

O celular dela vibra mas Nice não olha a


mensagem.

— Pelo início. O que tá te deixando desse jeito


Nana? VocÊ é a mulher mais forte que eu conheço
e agora sempre que eu a gente se fala você tá
deprimida, triste.

— É o Felipe. — Suspiro. — Ele me


desestabiliza. — Umas semanas atrás eu saí com o
César lembra?

— Aham. — O celular vibra de novo.— Eu


lembro... você bebeu todas e vomitou na boca do
cara.

— Não vomitei na boca, foi bem perto.

— Tá isso você já me contou, fatos novos


Nana. — Ela me apressa.
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— Bom... Naquela noite Felipe descobriu que o


Juliano é filho dele.

Nice arregala os olhos em espanto.

— Você nunca me contou isso.

— Não te contem isso nem que Malu foi achada


no lixo.

Pela terceira vez o celular de Nice vibra.

— Atende isso. — Digo impaciente.

Ela olha o celular e volta a me encarar não é


nada.

— Vai continua isso. — Nice me apressa


nervosa. — Como ele reagiu?

Largo a caixa de comida sobre a mesinha de


vidro assimétrica e pego uma lata de refri.

Tomo um gole e a encaro sem graça.

— Da pior forma possível. Ele já tinha me dito


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uma porção de vezes que odiava mentiras, sabe? —


Eu suspiro sentindo o peito apertar, falar daquilo
fazia as feridas recentes doerem com mais força. —
Agora eu não sei o que vai acontecer Nice. Ele está
me odiando, eu sei que a qualquer momento ele vai
acabar contando para O Juliano toda a verdade, isso
vai arrasar a Maria Luiza.

— Calma Nana. Não adianta se desesperar.


Tem que botar a cabeça pra pensar. — Ela também
larga a caixa e limpa os lábios com guardanapo. —
Concordo com você isso vai destruir a Malu. Por
que não fala com seu chefe pra ver se ele não
consegue te realocar em outro lugar. Em outro
estado talvez.

— Mudar?

— É... Fala pra ele que você não se adaptou,


fala que a Malu está tendo dificuldades na
adaptação sei lá... mente, some de lá Nana, esse
cara só tá te fazendo sofrer Mariana. É isso ou você
contar toda a verdade.

— Eu não tenho dinheiro Nice, já me endividei

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toda indo pra lá, pagando contas atrasadas


mobiliando a casa que já não tinha mais nada por
dentro. Tô devendo até o cú Nice.

Ela roe uma das unhas longas e bem pintadas


enquanto pensa.

— Eu tenho um pouco de dinheiro guardado.

— Não Nice, eu não vou pegar o seu dinheiro.

— Eu não estou usando. Lembra aquele médico


rico que eu saí por uns meses?

Balanço a cabeça concordando.

— Lembra que eu te falei que ele me comprou


um carro ?

— E daí? — pergunto sem entender. — Você


devolveu o carro, não?

Ela dá de ombros e sorri.

— Não me olha com essa cara. — Ela se


justifica. — A gente não devolve presente. Eu não
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te falei nada porque sabia que você ia ficar me


julgando. Eu vendi e apliquei o dinheiro. Vai saber
né... sou sozinha no mundo.

— Não é sozinha. Tem a mim, a Malu e o


Juliano.

Ela arqueia uma sobrancelha escura.

— Eu sei Nana, mas vocês são tão duros quanto


eu.

Ela olha no celular e se levanta.

— Eu vou te emprestar pra você recomeçar em


algum lugar aí, quem sabe lá no sul.

Nice me puxa pelo braço para que eu me


levante e aperta minhas bochechas.

— Desfaz essa cara de choro. Eu sei que vai dar


tudo certo. Vai vendo lá com o seu chefe tesudão
pra ver se ele consegue te levar pra uma loja no
interior ou em outro estado. Hoje a tarde depois do
workshop vou dar uma passada no banco e
transferir o dinheiro. Um empréstimo.
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Nice me abraça e vai me levando em direção a


porta.

— Eu queria poder ficar a tarde toda aqui


conversando mas não dá. Se eu perder o workshop
seremos nós duas sem emprego.

— Eu não sei Nice. — Digo um pouco confusa.

— Sabe sim. No fundo você sabe. — Ela me dá


um abraço apertado e me encara. — Desculpa não
ter mais tempo.

— Para ... eu sei. — Digo sem graça por estar


atrapalhando mesmo quando ela está atolada de
serviço.

Nice abre a porta e eu vejo Felipe parado ali,


tão surpreso quanto eu.

— Que porra é essa Adriana?!

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Capítulo 37
Mariana

Felipe entrou no apartamento e bateu a porta atrás


de si. Eu encarei Nice a procura de respostas. O
que Felipe estava fazendo no quarto de hotel de
Nice? Por que ele a chamara de Adriana? Por que
ela me olhava daquele jeito.

— Por que veio atrás da Mariana, Adriana?


Quer foder mais a minha vida? — A voz de Felipe
é o primeiro rosnado que corta o silêncio entre nós.

Felipe me encara.

— Não sei o que ela te disse, mas a tempo já


não há mais nada entre nós. — Ele diz na

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defensiva.

Eu me viro para Nice com a mente tomada pela


confusão.

Como assim? Eles já se conheciam?

— O que o Felipe tá fazendo aqui Nice?

Nice passa as mãos pelos cabelos longos e


escuros e aperta os olhos por alguns segundos
como se escolhesse a quem de nós dois ela
responderia primeiro.

— Fala alguma coisa Nice. Da onde que você


conhece o Felipe?! — Elevo a voz.

— Nós ficamos noivos Mariana, mas depois


que você voltou eu tentei de todas as formas
contato com ela, eu queria desmanchar o que não
devia nem ter começado, mas Adriana não
respondia minhas ligações.

Eu não podia acreditar no que eu estava


ouvindo. Caminhei até o sofá porque eu já não
confiava que poderia ficar de pé.
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Nice sentou ao meu lado e tentou pegar minha


mão, mas eu encolhi e recuei.

— Isso não pode ser verdade. —

— Eu não sou a monstra que você está


pensando Nana. Não era pra acontecer.

— Senta Felipe. — Ela pede. — Eu vou contar


toda a verdade.

Ele continua de pé, os braços cruzados.

— Conta a porra da verdade toda Adriana. —


Ele vocifera — Eu já não aguento mais ouvir
mentiras. — Felipe olha para mim e eu desvio o
olhar do dele.

Então Nice começou a falar...

— Tudo começo há alguns anos atrás. Em uma


das minhas viagens rotineiras. Uma entre tantas que
eu fazia para apresentar os medicamentos aos
médicos. — Nice mexe nervosamente nos grandes
anéis que enfeitam seus dedos. Ela tinha essa mania
quando estava nervosa. — Quando estava
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esperando para falar com uma médica. — Ela


suspira. — Eu vi você — Ela olha para Felipe com
ternura e ele retribui o olhar com ódio, então ela
me encara com vergonha e logo abaixa a cabeça e
volta a mexer nos anéis. — Felipe estava saindo do
quarto de dona Edha. De início ele nem me notou.
Estava tão transtornado. Eu ainda não sabia quem
ele era. Eu ouvi um pedido de socorro vindo de lá.
Encontrei dona Edha caída no chão. Ela tinha
tentado se levantar sozinha da cama.

Ouço tudo sentindo a repulsa por Nice crescer a


cada palavra.

— Felipe ficou grato a mim quando voltou. —


Ela explica.— Não foi por mal.

— Continua. — Ordeno.

— Nós saímos algumas noites. Eu percebi que


eu não era nada pra ele logo de início. Ele era o tipo
de homem que usa e joga fora e mesmo assim eu
me apaixonei por Felipe.

— Apaixonou o caralho. — Felipe rosna


irritado.
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— Fiquei amiga de sua mãe, eu a visitava


praticamente todos os dias. Mais para o final da
doença quando ela começou a delirar por causa dos
medicamentos e da dor eu passei a ficar mais tempo
a seu lado. Foi entre um desses delírios e lapsos de
lucidez que ela me confidenciou sobre cartas.

Estremeci.

— Ela me contara de uma menina que tentara


dar o golpe da barriga.

Velha Desgraçada.

— Foi aí que eu comecei a juntar as peças. Ela


me falou das cartas que você enviava Nana. Ela
abriu as primeiras e depois passou a devolver todas.
Mas quando eu soube que era a tal da menina já era
tarde.

— Por que você não me disse?

— Eu já estava apaixonada. — Nice. — Eu


sabia que se eu contasse perderia sua amizade de
vez. Você não me perdoaria por ter ficado com
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Felipe.

Ela suspira e aperta a nuca com a mão


esquerda.

— Eu sugeri que ficássemos noivos. Nada que


fosse realmente sério. Dona Edha viu o anel de
noivado que Felipe me dera em sua frente. Ele
estava feliz em realizar um último capricho da mãe,
mesmo que ela não soubesse como seria essa
relação.

— Que relação Adriana?! Puta que pariu porra.


— Ele puxa os cabelos para trás e passa a mão pela
barba. — Se eu soubesse. —Felipe rosna furioso.
— Esse tempo todo você sempre soube onde estava
Mariana.

Ele anda de um lado para o outro tomado pela


irritação.

— Quando Edha se foi eu quis continuar a


mentira, eu não queria perder nenhum dos dois.
Mas daí você tinha que voltar pro Rio. — Ela fala
como se a culpa fosse minha. — Eu sabia que no
fundo você só estava voltando por causa dele.
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— Por isso você não atendia minhas


mensagens.— Ele balança a cabeça sem acreditar.

Agora todas as cartas estavam na mesa, a


verdade havia sido exposta e eu não podia nem por
mais um segundo respirar o ar que ela.

Eu me levanto um pouco zonza e Nice tenta me


segurar.

— Espera Nana. — Ela me segura. — Irmãs


por opção lembra?

Eu acerto um tapa em seu rosto com a raiva


toda acumulada naquele gesto quase instintivo.

Os cabelos lisos e pretos se agitam e ela cobre a


bochecha, as marcas de meus dedos se erguendo
em vergões vermelhos sobre a pele morena

— Lembro. É por isso que está doendo tanto.


Eu podia esperar isso de qualquer mulher, mas não
de você. — Eu a fuzilo com o olhar. — Nunca mais
chega perto de mim ou da minha família.

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De repente minhas pernas vacilam outra vez.

Minha visão fica turva quando olho para Felipe.

Pisco algumas vezes e esfrego o rosto para que


aquele tormento passageiro passe.

Olho para baixo quando sinto o líquido


vermelho e morno escorrer por entre minhas
pernas.

— MARIANA! — Felipe me chama com a voz


alarmada.

Uma fisgada forte atinge meu baixo ventre e eu


me encolho cobrindo minha barriga.

— Eu preciso sent— Então meu corpo foi


envolvido pela dor e pela escuridão.

✽✽✽

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Felipe
Mariana desabou bem diante de meus olhos. Eu
a tirei do tapete, o corpo inerte e sem vida.

— Galega. — A chamo, deitando-a


cuidadosamente no sofá. — Olho pra mim
Galeguinha. — Dou tapas leves em seu rosto
tentando acordá-la.

Me aproximo de seu rosto e mal posso sentir


sua respiração.

— Não fica parada aí, caralho. Chama a porra


da Ambulância! — Ordeno com urgência.

Pego seu pulso fino e tento sentir seus


batimentos.

É tão fraco.

Adriana pega o celular na bolsa e começa a


ligar.

Olho para a grande mancha de sangue sobre o


tapete e não aguento esperar.
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Eu a carrego nos braços e saio com ela as


pressas dali.

— Estava com saudade de ser carregada assim?


— Converso com ela sentindo o nervosismo me
deixar atordoado. — Anda anda! Sai da frente
porra! — Rosno para um casal que está prestes a
entrar no elevador.

Passo na frente de todos e a lentidão com que


aquela merda desce andar por andar é inacreditável.

— É bom você acordar logo. Por que se


demorar eu vou levar o Juliano pra se tatuar todo.
— Rio de nervoso. — Acho que assim é um bom
jeito de estrear a paternidade atrasada.

Claro que Mariana não respondia a nenhuma de


minhas observações e ameaças idiotas. Não era
uma queda de pressão como da outra vez. Era mais
grave, eu sabia. E o sangue que escorria dela e
umedecia minha roupa apenas confirmava isso. Ela
estava morrendo em meus braços.

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Capítulo 38
Mariana

—Para Felipe. — Eu gritava agarrando-me a ele


com mais força. — Eu não quero entrar na água.

Ele apenas ria do meu medo bobo e me


carregava mais para dentro d’água.

As ondas quebravam contra nós com mais


força.

— Estou te segurando. É só ficar comigo.

Mas eu já não conseguia me manter agarrada a


ele, e eu comecei a afundar. Quanto mais eu era
puxada para o fundo, meu peito era tomado por

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uma dor lancinante, como se meu coração estivesse


prestes a explodir.

Eu já não aguentava mais prender a respiração.

Então eu respirei, mas o ar não veio.

Acordei num sobressalto, o coração martelando


contra o peito.

Felipe estava ao de minha cama. A mão


entrelaçada a minha e a cabeça recostando sobre o
colchão da cama de hospital.

— Graças a Deus. — Eu o ouvi agradecer em


um suspiro cansado.

Ele se inclina mais para perto e afasta meus


cabelos do rosto.

— O que aconteceu? — Pergunto sem entender


o por que de estar num quarto de hospital.

Meu braço ardeu quando me posicionei para


ficar um pouco mais sentada. E fisgadas de dor
vieram do acesso coberto por esparadrapos. Eu
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estava recebendo soro.

— A última coisa que eu me lembro foi de estar


no quarto de hotel, e depois o — Me esforço em
lembrar. — O sangue.

— Não mexe muito. — Ele fala olhando para


os vários pontos roxos em meu braço. — As
enfermeiras tiveram trabalho em achar uma veia
que não arrebentasse fácil.

Ele pega minha mão outra vez e roça


carinhosamente os polegares sobre minha pele.

— Eu achei que ia perder você. — Ele abaixa o


tom de voz e eu sinto a emoção em sua voz. Ele
funga e engole a vontade de chorar. — Você teve
um sangramento por causa da pré eclampsia.

Felipe não me encara.

— pré eclampsia?! — Digo sem entender.

— Pressão alta — ele me explica — o médico


explicou que pode aparecer no início da gestação.

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— Gestação?! — Exclamo e minha garganta


arde. — Eu não posso estar grávida. — Nego com a
cabeça.

Felipe solta minha mão e coloca sobre minha


barriga.

Ele olha para meu ventre.

— Estamos. — Felipe sorri ao dizer. —


Grávidos de doze semanas.

A porta é aberta e uma mulher de meia idade


de jaleco branco e um estetoscópio entra segurando
uma prancheta.

— Acordada! — A médica sorri para o Felipe


— Eu não disse que ela ia acordar bem?

A doutora chega mais perto da cama e checa a


medicação e me examina.

— O senhor Felipe quase botou o hospital


abaixo por causa da senhorita.

Felipe não fala nada.


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Eu conhecia aquela cara. Era a mesma cara que


Juliano fazia quando eu lhe dava uma bronca e
mesmo assim ele não perdia a pose de turrão
teimoso.

— A partir de agora a vai ter que se alimentar


melhor Mariana. — A médica assinala algo na
folha presa a prancheta. — Está com um grau
profundo de anemia. A pressão não está boa,
teremos que acompanhar de perto.

— Fala do nenê. — Felipe interrompe.

— Eu vou chegar lá. — Ela o adverte e volta a


me olhar com paciência. — Pré eclampsia é
realmente sério. O problema de pressão alto por si
só já é algo alarmante. — Ela faz uma pausa e olha
para minha barriga. — E no seu estado é ainda mais
grave Mariana. Vai precisar se fortalecer, usar
medicamentos para o controle da pressão e iniciar o
pré natal. Evite emoções fortes nas próximas
semanas e grandes esforços.

— Pode deixar doutora. — Felipe se mete outra


vez. — Vou fazer ela seguir tudo a risca.

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— Seu bebê está bem, apesar do sangramento.

— Mas eu não posso estar grávida doutora. —


Digo confusa. — Eu tomo anticoncepcional todos
os dias, tinha crises de enxaquecas por causa da
minha menstruação então ...

— Mariana, o anticoncepcional não é a prova


de falhas. E o bebezinho se desenvolvendo aí
dentro é a prova. Você não é a primeira e nem a
última mulher a engravidar fazendo uso da pílula;
Até a troca de um anticoncepcional por outro pode
afetar. Você trocou de anticoncepcional nos últimos
meses?

Fiquei em silêncio. Eu nunca comprava meus


anticoncepcionais, eram sempre caixas de amostras
grátis que Nice me trazia de seu trabalho.

— Troquei. — Respondo por fim.

— Amanhã pela manhã você já terá alta. Poderá


voltar para casa seguindo os cuidados que eu falei
para você. — A médica escreve algo num bloco
que tira do bolso do jaleco, ela arranca uma folha e
entrega a Felipe — Aqui tem algumas vitaminas
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que ela deve tomar todos os dias pela manhã, o


ácido fólico ela deveria ter começado três meses
antes de engravidar... mas é melhor tomar mesmo
assim, os debaixo são os remédios para a pressão,
um sublingual assim que acordar e outro a noite
antes de dormir. E faz essa mocinha descansar
muito.

— Vou fazer. — Ele responde determinado.

Assim que a médica saiu, Malu e Juliano


entraram.

— Meus amores. — Digo assim que os dois me


abraçam devagar para não bater na haste metálica
que deixa os medicamentos suspensos.

— Como vocês vieram pra cá?

— O Felipe. — Malu explica.

— Chamei um uber. Eles precisavam te ver.

Juliano dá uma encarada no pai como se ele


fosse o culpado e eu o chamo.

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— Aqui meus amores, olhem pra mim. —


Juliano senta de um lado da cama e Malu do outro.

— Está tudo bem. — Falo — Vai ficar bem.


Vou precisar da força de vocês dois agora.

— O que tá acontecendo mãe?

— Para mãe , tá assustando a gente. — Malu dá


um sorriso nervoso.

— Mariana. — Felipe percebe o que estou


prestes a fazer e tenta me impedir. — Agora não.

—Não. Precisa ser agora. — Insisto.

— Agora o que mãe?

Felipe caminha até a porta do quarto e assiste a


distância.

— Eu sei que vocês não lembram muito de seu


avô, e é até melhor que seja assim. Ele se foi
quando vocês eram bem novos.— Engulo em seco
quando as lembranças daquela época começam a
borbulhar todas em minha mente. — Meu pai era
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alcóolatra e viciado em jogo. Quando eu tinha


catorze anos e ainda morávamos aqui no Rio, ele
entrou no meu quarto no meio da madrugada, não
pude levar nada além de uma mochila com algumas
roupas. Nós mudamos para uma quitinete no
interior de São Paulo.

— A gente conhece essa história mãe. — Malu


me interrompe.

— Não. — Acaricio sua mão entre a minha. —


Essa parte vocês não conhecem. — Respiro fundo e
volto a falar. — Um mês depois descobri que
estava grávida.

Olho para Juliano e ele desvia o olhar do meu.

— Estava esperando você Ju. Eu tentei avisar


ao seu pai tudo o que estava acontecendo. Todas as
dificuldades pelas quais estávamos passando. —
Meus olhos ficam marejados e é como se eu
revivesse tudo outra vez. — As cartas voltaram.
Seu pai não recebeu nenhuma.

Sinto o olhar de Felipe sobre mim mas eu


continuo.
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— A mãe dele nunca deixou que as cartas


chegassem até seu destino. Eu acabei
amadurecendo na marra. Sozinha. Naquele ano
perdi minha mãe, meu pai continuou a beber, e eu
tive que arrumar um emprego. Arrumei vários na
verdade, mas quando percebiam que eu era uma
adolescente grávida eu logo era demitida, mas
vocês sabem que eu sou teimosa. — Percebi que
Malu já estava chorando. — Então Ju, você nasceu,
sem nenhum cabelo, fofo, perfeito e pela primeira
vez em muito tempo eu me senti feliz.

Senti ele apertar minha mão com mais força.

— Para mãe. — Ele me encarou. — Não faz


isso.

E quando olhei em seus olhos tão verdes quanto


os meus eu percebi que ele já sabia de tudo.

— O tempo foi passando e mesmo com o


coração sangrando por ter que me afastar de meu
bebê eu consegui uma vaga em uma creche pública
e durante algumas horas da noite você minha sendo
cuidado por uma vizinha. Eu tinha dois empregos.
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Estávamos nos virando como podíamos. Um dia


quando estávamos voltando nossa casa eu acabei
caindo. Tropecei na calçada irregular e me fui ao
chão. Eu sentei no meio fio e você começou a gritar
o “nhenhe nhenhe mãmã nhenhe” — Segurei a mão
de Malu na minha. — Foi nesse dia que você
entrou nas nossas vidas Maria Luiza. Você estava
em uma caixa de papelão, tão miúda e indefesa.

Maria Luiza chora mas eu continuo.

— Eu me apaixonei por você minha filha,


naquele instante eu me apaixonei por você.
Naquele segundo eu soube. Deus tinha me dado
uma menina, uma menina linda.

Malu solta a minha mão e cobre o rosto sem


conseguir controlar o choro.

— Me perdoa Maria Luiza, por nunca ter dito


nada. Eu não queria que você se magoasse. — Olho
para Juliano. — Eu não queria que nenhum dos
dois sofresse, então eu menti. Quando voltei com
vocês para o Rio, não imaginei que seu pai ainda
estaria na mesma casa, mas ele estava lá.

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— Eu nunca consegui me mudar. — Felipe


responde. — Eu sabia que você poderia voltar, e eu
queria estar lá.

Meu coração se apertou no peito ao ouvi-lo


dizer essas palavras tristes.

— Espero que vocês me perdoem. Eu amo tanto


vocês dois que chega a doer.

Juliano foi o primeiro a me abraçar, eu senti


como se ele fosse pequeno outra vez.

— Malu. — Minha voz falha e eu continuo com


o braço estendido para que ela também me abrace.
— Vem cá filha, esse lado do colo é seu.

Assim como Juliano ela também me abraça e


apesar da emoção explodindo em meu peito eu
sinto meu coração mais aliviado.

— Tem mais uma coisa que eu quero dizer. —


Fungo e suspiro com a respiração irregular.

— O quarto de vocês vai ganhar um bercinho.


— Sorrio ao dizer. — Vocês vão ganhar um
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irmãozinho.

— Irmãzinha. — Felipe me corrige. — Eu sei


que vai ser uma mini galaguinha.

Juliano e Malu colocaram as mãos sobre meu


ventre e eu podia sentir o amor. Puro e simples. Eu
sabia que não seria do dia para a noite que nossas
vidas voltariam para os trilhos outra vez, mas nós
conseguiríamos. Juntos e sem mais mentiras.

✽✽✽

No dia seguinte quando Felipe me trouxera de


volta para minha casa eu o parei logo na entrada.
Malu e Juliano já tinham ido para escola, então
seria mais fácil conversar.

— O que foi? — Felipe já fica em alerta —


Está sentindo alguma coisa?

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— Não. — Eu rio de sua preocupação


exagerada. — Eu sei que você tem o direito de
participar disso. — Coloco a mão em minha
barriga. — Eu não vou te privar. Mas as coisas
entre nós vão continuar como estão. — Inspiro . —
Agora eu não penso em ter nenhum
relacionamento. Mais pra frente talvez, mas com
um homem que me respeite, maduro, que apesar
das brigas que tivermos não será vingativo e
infantil ao ponto de me magoar como você fez
questão de fazer nos últimos dias. Eu preciso de um
homem. Um homem adulto. Não um cara de trinta
e cinco anos que age como um adolescente
pirracento. — Faço uma pausa. — A próxima
consulta será no mês que vem. Te mando a hora por
mensagem.

Destranco a porta.

— Obrigada por ter cuidado da Malu e do Ju


enquanto estive no hospital. Tchau Felipe.

Entro e fecho a porta antes que aquilo tudo se


torne mais difícil do que já é.

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Felipe não bate de volta. Não me chama. Eu o


escuto descer os degraus da varanda.

Tiro minhas sapatilhas e caminho descalça pela


casa. O piso de madeira havia sido encerado. A
casa estava visivelmente mais limpa e arrumada.
Os poucos móveis luzindo, e ainda cheirando a
lustra-móveis de lavanda. Deito no sofá e estico as
pernas. O remédio para enjoo já estava fazendo
efeito outra vez e quando estava prestes a cair no
sono, batidas curtas e secas me despertaram.

Abri a porta.

Felipe estava lá. Uma mochila sobre o ombro


direito.

Ele entrou sem pedir licença.

— Eu vim pra ficar. A médica falou que você


precisa de cuidados. — Anuncia com firmeza. —
Vou dormir no sofá, fazer a comida e cuidar dos
garotos. Eu não vou perder um minuto dessa
gravidez. — Ele dá um passo mais para frente e eu
posso sentir sua respiração.— Não vou te beijar.
Não vou te abraçar, o mais perto que eu vou chegar
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vai ser isso. — Felipe coloca as mãos em meu


ventre. — Só isso.

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Capítulo 39
Felipe

Senti Mariana tremer quando eu toquei seu ventre.


— Você não pode simplesmente se mudar pra
minha casa e esperar que eu aceite isso numa boa.
Uma hora você vai se entediar de brincar de
casinha e vai sentir falta da sua vida de festas.

— Para Mariana. — Soo um pouco mais duro.


— Tenho entretenimento o bastante bem aqui.
Fazer com que dois adolescentes me aceitem e
preparar tudo pra chegada da mini galeguinha. É só
o que eu preciso agora.

Ela se desvencilha de mim e vai para a sala.

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Contrariada ela se acomoda no sofá e liga a


televisão, quando percebe que não há argumentos
nesse mundo que me façam mudar de ideia.

Deixo a mochila ao lado do sofá e pego no


bolso externo um pacote guardado a tempo demais.
— Antes de seus pais te levarem pra longe eu tinha
comprado isso.— Entrego o livro embrulhado.

Ela abre um sorriso ao ver a edição especial de


capa dura de seu livro preferido.

— Obrigada. — Ela responde enquanto acaricia


as letras curvas e douradas do livro de capa
vermelha.

Mariana percebe que estou olhando para o seu


decote. Não que eu não estivesse satisfeito com os
peitos dela antes, mas agora ela estava com um
puta peitão. Pigarreio quando percebo que ela me
viu olhando para seus peitos.

— Vou dar uma saída. Qualquer coisa me liga.

— Aonde você vai. — Ela pergunta tentando


não dar muita importância.
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— Resolver umas coisas. — Respondo e me


inclino apoiando os braços em volta dela.

— Felipe! — Ela me xinga.

— Que é? — Eu sorrio e me abaixo um pouco


mais. — Só dando um beijo na minha filha.

Beijo sua barriga e Mariana revira os olhos.

Quando estou me erguendo roubo um beijo


rápido e logo fico de pé.

—Erro meu. — Ele coloca a mão no peito. —


Achei que esse biquinho que estava fazendo era pra
ganhar beijo também. Falha minha. Não vai se
repetir.

Saio dali antes que ela proteste.

✽✽✽

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Demoro quase três horas fora. Passo em frente a


escola e Malu e Juliano já estão saindo. Buzino e
eles demoram a reconhecer o carro que estou
dirigindo.

— Que carro é esse? — Malu pergunta se


aproximando da janela aberta.

— Bom... Não tinha como levar vocês cinco na


moto. — Tamborilo os dedos sobre o volante.
Então troquei por isso. Entrem aí. Vou levar vocês
pra casa.

Malu entra e senta no banco da frente.

— Vou de a pé. — Juliano retruca.

— Ai Ju. Vai morrer caminhando só pra


encrencar? Entra logo chatão. — Malu implica.

— Entra Juliano. Se você é teimoso eu também


sou. — Respondo.

Irritado ele entra e bate a porta .

Pelo retrovisor eu o vejo colocar o cinto e ficar


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olhando para a janela.

Eu começo a dirigir.

— Já trouxe a mãe de vocês para casa. Eu vou


ficar com vocês, vou dormir no sofá da sala e
ajudar no que for preciso. A Mariana não pode se
estressar nem fazer nenhum tipo de esforço físico.
Então o que vocês precisarem é só falar comigo.

Os dois ficam em silêncio.

— Eu sei que no início vai ser difícil mas aos


poucos a gente vai entrando no ritmo.

Paro no semáforo.

— Que cheiro é esse? — Malu é a primeira a


romper o silêncio.

— Algumas mudas de flores pra gente plantar a


noite. Aliás, troquei as cordas do violão por cordas
de nylon, se quiser continuar tocando, eu posso
continuar te ensinando.

— Pode ser. — Malu recosta a cabeça no banco


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e se distrai com a paisagem durante o trajeto.

— Como foi a aula Juliano? A monitoria que


está fazendo está dando resultado?

— Boa. — Ele responde monossilábico.— O


professor novo já começou hoje.

Pelo espelho vejo ele me encarar.

— Aquele cara saca de matemática.

Sinto uma pontada de ciúmes.

— Hum... — Murmuro.— Que bom.

Fico em silêncio por mais alguns instantes


durante o restante do caminho.

Não faço ideia de como chegar em Juliano. Ele


é tão turrão e teimoso.

—Sabe que eu aprendi a dirigir quando tinha a


sua idade. — Digo pra ele como quem não quer
nada.

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— Já deve fazer bastante tempo. — Ele


alfineta.

Eu estaciono em frente a casa de Mariana e


Malu é a primeira a descer.

— Se você quiser eu posso te ensinar.

Juliano solta o cinto.

— Não, valeu. — Ele responde sem me olhar.

Tiro a chave da ignição e estendo pra ele.

— Deixa de ser turrão moleque. Vem logo. —


Respondo. — Não estou pedindo pra você sentar no
meu colo e me chamar de papai.

Ele arregala os olhos verdes com uma


expressão ofendida no rosto

— Nem eu quero isso. Sai pra lá cara.

Eu rio.

— Eu não vou desistir de tentar Juliano. Vem...


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Anda logo; — Desço do carro e deixo a porta


aberta esperando que ele pegue meu lugar.

Meio contrariado ele desce do carro sem a


mochila e senta no lugar do motorista.

Dou a volta e entro. Coloco o cinto.

— Tá. — Ele espera instruções;

— Pisa na embreagem e engata a primeira —


Digo com calma. — Coloca o outro pé no
acelerador e aos poucos vai soltando a embreagem
e acelerando.

Ele faz exatamente o que eu digo e eu o vejo


sorrir confiante.

— Isso. Muito bom. — Elogio. — Agora faz a


mesma coisa pra engatar a segunda..

— Ah te mete. — Juliano ri sozinho e logo


engata a terceira sem eu pedir e acelera com tudo.

— Devagar! Devagar! — Grito segurando no


puta merda. — Menos.
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Ele diminui a velocidade.

E para quase três quadras depois.

— Puta merda moleque. — Coloco a mão no


peito sentindo o coração acelerado — Quer me
matar? Não pesa o pé no acelerador, pelo amor de
Deus.

Por mais uma hora nós ficamos ali sem


conversar sobre muita coisa, apenas indo e vindo,
de carro.

✽✽✽

Mariana
— Oi Mãe. — Malu me dá um beijo e eu
interrompo a leitura.

— Oi linda. Cadê seu irmão?


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— Tá lá fora aprendendo a dirigir com o Lipe.

— Juliano está de moto? — Largo o livro e


corro para a janela da sala.

— Não mãe. — Malu me explica com


paciência. — Parece que o Lipe trocou a moto por
um carro usado, pra poder caber todo mundo.

Mesmo com o coração na mão por saber que


Juliano está aprendendo a dirigir eu não me meto,
deixo que eles apenas se entendam do jeito deles.

✽✽✽

Malu e Felipe estão na varanda. Eu aproveito


que Juliano está sozinho no quarto e vou até ele.

Bato na porta.

— Entra. — Ele tira os fones quando me vê.

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— Malu me contou que começou a aprender a


dirigir.

— É. — Responde monossilábico.

Chego mais perto e sento na beira do beliche.

— Posso te perguntar uma coisa.

Ele suspira já suspeitando do que seja.

— Fala.

— No hospital você disse que já sabia. Foi você


quem achou as cartas, não foi?

Ele balança a cabeça concordando em silêncio.

— Quando? Como? — O interrogo.

— Foi logo no primeiro dia que a gente chegou


aqui. — Juliano me explica. — Depois da primeira
noite, levantei de manhã cedo, eu achei que Malu
tinha colocado fora meu caderno de desenhos,
porque depois da mudança eu não estava achando
em lugar nenhum. Fui até o lixo e abri algumas
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sacolas.

— Aí você achou as cartas.

— Aham. Achei que fossem coisas da Malu,


diário... sei lá... essas porcarias que ela escreve as
vezes, então quando eu ficava sozinho eu ia
juntando as partes. Depois que a Malu tentou se
matar eu vi que ela nunca ia poder ficar sabendo.
Então coloquei tudo fora.

Eu chego mais perto dele.

— Desculpa meu filho, por sem querer te fazer


guardar esse segredo tão difícil. — Eu o abraço e
beijo o topo de sua cabeça.

✽✽✽

Conforme os dias foram passando Felipe fazia


tudo em casa. Quando eu acordava de manhã o
café já estava na mesa bem servida. Pães, frios, um
bolo de padaria e algumas frutas cortadas.
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Durante as manhãs ele limpava a casa e


preparava o almoço. Era engraçado ver ele lutando
com a máquina que dia sim e outro também
despejava água pra tudo quanto era lado quando
começava a se debater na hora da centrifugação..

— Precisa de uma ajuda aí? — Eu dizia rindo.

Descalço e com a calça jeans dobrada até o


meio das fortes panturrilhas Felipe parava o que
estava fazendo e me olhava.

— Não. Pode voltar para o sofá que está tudo


sob controle. — Respondeu descolando a camiseta
branca agora encharcada de suor.

— Tem certeza?

Felipe passa as mãos pelos cabelos molhados e


tira a camiseta molhada.

Vejo todos os seus músculos bem trabalhados


escorregadios e molhados e de repente um calor
que não cabe em mim faz com que eu precise
muito de ar. Ou melhor. Que ele tire a calça e a
cueca e me foda com força sobre a máquina de
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lavar. Socando duro.

— ô mãaaaae! — Juliano berra. — cadê os


meus tênis?

Então a fantasia se desmancha.

— Estão secando lá nos fundos— Felipe me


responde.

— Ah tá. — Saio dali me abanando


discretamente.

✽✽✽

Um mês com ele ali, debaixo do mesmo teto, eu


estava subindo pelas paredes. Ver Felipe a todo
instante, estava me deixando maluca. Ele estava
cumprindo a sua parte do trato em não tentar nada.
Mas por Deus... como eu queria que ele esquecesse
disso e só me tomasse com força e ai ai ai...

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Fui deitar mais cedo que nos outros dias. Girei


na cama algumas vezes. As luzes apagadas, a não
ser pela do corredor. Eu ainda podia ouvir algumas
risadas e as conversas vindas da sala, mas eu não
queria ficar perto de Felipe. Não no meu estado.

Fechei os olhos e me forcei a dormir, mas o


som de algo estalando, mais precisamente raspando
em algo me fez ficar de olhos arregalados.

Aquilo só podia significar uma coisa.

Barata.

Então o pior que poderia acontecer naquele


instante aconteceu. O som do voo do demônio vem
direto para mim. As patas finas e com minúsculos
pelos rasparam contra meu pescoço e eu gritei e me
estapeei em pânico.

— Ahhhhhhhhhhhhhhhhh desgraçada! — Pulo


para fora da cama como se meu colchão estivesse
em chamas.

Felipe entra no quarto segundos depois seguido


de Malu e Juliano.
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— Uma barata — Explico ainda em pânico e


aponto para a cama.

Juliano dá uma risada.

— Eu falei.

Malu o segue e resta apenas Felipe.

— Não estou vendo nada. — Felipe puxa o


lençol e arrasta um pouco a cama.

— Não tá vendo mas ela tá aí. — Digo ainda


nervosa. — A demônia devia querer o meu sangue.

Ele ri.

— Tá rindo porque não foi em você que ela


voou. — Passo a mão pelo pescoço ainda sentindo
o corpo arrepiado pelo pavor.

— Viu... fica comendo doce na cama. — Felipe


ergue o colchão e procura por entre os estrados da
cama.

Ele coloca tudo de volta no lugar e estica o


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lençol.

— A essa altura a barata já está longe,


provavelmente morta de susto com seu berro, ou no
mínimo surda.

— Aham. Sei. Ela deve estar atrás do guarda


roupa.

— Ah não Galeguinha. Eu tô morto de cansaço


e esse bicho já tá longe.

— De que adianta esses músculos todos se não


pode matar uma mísera barata.

Felipe bufa sem paciçência e puxa o meu


guarda roupa para longe da parede.

— Satisfeita?

— Satisfeita eu estaria é se o corpo da


desgraçada estivesse esmigalhado debaixo do seu
chinelão.

Felipe para na porta e me encara. Ele veste


apenas uma bermuda larga.
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— Posso dormir aqui essa noite. Pra ter certeza


que ela não vai voltar.

— Não, muito obrigada. — Eu o empurro para


fora do quarto e fecho a porta.

Eu volto para minha cama e o sono demora a


vir. Mexo no celular mas alumas horas depois fico
sem bateria. Por que mesmo eu não aceitei que
Felipe viesse pra minha cama? Porque você é uma
anta Nana. Um mês resistindo aos encantos do
corpo tatuado de Felipe era de mais para o meu
psicológico.

Já não ouvia mais nenhum barulho vindo da


sala. Provavelmente todos já deveriam estar
dormindo. Me levantei, por mais que eu amasse
andar descalça, calcei os chinelos, vai que eu
poderia pisar na barata sem querer e era emoção
demais pra uma noite só.

Sai do quarto sem fazer barulho e fui até a sala.


Felipe tinha dormido com a televisão ligada. Eu
chego mais perto do sofá onde ele está deitado.
Inspiro o perfume gostoso que vem do corpo dele.

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Meu Deus... essas tatuagens e todos esses


músculos dá vontade de lamber e morder todinho.

Será que ele acorda se eu passar bem de leva a


ponta dos dedos pelos gominhos de seu tanquinho?
Bem de leve.

Sinto meu clitóris pulsar só com a possibilidade


de tocá-lo.

— Felipe — Sussurro.

Nada.

Ele continua dormindo pesado.

— Lipe. — Sussurro..

A respiração dele é ritmada.

Ai papai... só uma passada de mão por esse


peitoral e eu vou dormir. Digo a mim mesma e toco
seu peito e vou descendo pelo contorno de seus
músculos delineados e bem definidos.

Felipe acorda assustado assim que eu o toco.


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— O que aconteceu? — Ele se senta


preocupado e meu coração quase arrebenta no
peito.

— Não consigo dormir.

— Está sentindo alguma coisa?

— Fome. — Minto. Não posso dizer que estou


louca pra dar.

— O que você quer?

Você coberto de chantilly pode ser? Digo a


mim mesma, mas o que sai de minha boca é:

— Pizza de atum com sorvete.

— Sério? — Ele me encara ainda zonzo de


sono .

— Muito sério.

Felipe dá um suspiro resginado e se levanta. Tá


certo que eu estava maltratando ele desde que ele
viera para cá, noite sim e noite não eu o acordava
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de madrugada inventando algum desejo urgente só


pra vê-lo sair porta fora e voltar horas depois com o
meu pedido. As vezes eu pedia sorvete de pistache,
melancia com nutela. Eu ainda não tinha engolido a
redenção de Felipe, e não tinha conseguido
esquecer dele beijando outras na minha frente,
então eu o fiz sofrer um bocadinho, só um
bocadinho. Porém... agora era eu quem estava
sofrendo. De uma dura e ardentente abstinência
sexual e o fato de estarmos no Rio de Janeiro e ele
passar noventa por cento do dia sem camiseta não
me ajudava em nada.

Felipe vestiu uma regata e saiu.

Eu não estava aguentando de calor. Tomei um


banho frio e voltei para meu quarto. Ele voltou uma
hora depois. Bateu de leve na porta e entrou.

— Galega. A pizza está na mesa.

Eu finjo estar dormindo e me viro na cama. A


camiseta que estou usando sobe um pouco e eu sei
que ele ainda está me olhando.

— Ah cacete. — Eu o ouço praguejar e então


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sorrio sem fazer barulho.

Felipe entra no quarto e senta na beira da cama.

Sinto ele acariciar meus cabelos.

Abro os olhos e ele está ali.

— Já trouxe a pizza.

— Então fica.— Eu murmuro e me viro de


costas. — Vai que a barata aparece de novo.

Continuo de olhos fechados e eu o ouço se


despir antes de deitar.

Ainda fingindo sonolência eu me viro para ele e


me aconchego na dureza de seu corpo.

Não estou usando calcinha ou sutiã, apenas a


fina camiseta de algodão.

— Puta que pariu galega. — Ele rosna quando


coloco minha coxa sobre ele e meu sexo nu encosta
em sua perna. — Assim fica difícil se controlar.

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— Então não controla. — Digo já sabendo o


que virá a seguir.

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Capítulo 40
Mariana

A mão dele parou em minha coxa e ele apertou


com firmeza minha perna. Só aquilo foi o suficiente
para molhar a calcinha, isso se eu estivesse usando
uma. Esfrego meu sexo um pouco mais em sua
perna e Felipe não leva nem meio segundo para me
puxar para cima de seu corpo.

Estamos frente a frente. Os olhos deles nos


meus e uma promessa silenciosa de desejo puro. O
calor e a dureza de sua ereção me fazem arquejar
quando as mãos dele descem pelas laterais de meu
corpo e ele faz com que eu esfregue meu sexo nu e
depilado contra seu cacete rígido, coberto apenas
por uma cueca.
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Apesar da penumbra eu o vejo sorrir.

— Saudades? — Ele me provoca me


esfregando mais contra seu pau.

Solto um gemido e ele me beija. Sem urgência,


mesmo que nossos corpos estejam clamando por
voracidade, Felipe não tem pressa.

Nossas bocas se unem num encaixe mais que


perfeito, em um beijo profundo e lento. As mãos
dele deslizam para dentro de minha camiseta larga
e ele aperta meu corpo ainda fresco pelo banho de
antes.

Eu rebolo contra sua ereção tentando acalmar a


angústia que pulsa com força em meu clitóris e que
só aumenta com o calor de seus beijos e carícias.

Felipe apoia os braços no colchão e se senta


quase sem interromper nossos beijos molhados. Ele
puxa minha camiseta por cima e eu ergo os braços
para que a roupa saia com facilidade. Logo estou
inteiramente nua em seu colo.

As mãos dele vem direto para meus seios


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pesados e fartos e ele me beija inteira, inspirando e


esfregando a barba cerrada contra minha pele.
Felipe passa a língua pelos mamilos sensíveis e eu
aperto os músculos de suas costas com força.

Felipe me debruça no colchão e em instantes


ele se livra da cueca.

Mesmo com a pouca luz que entra pelas


persianas eu posso ver o contorno de sua ereção.
Meu Deus... todas as noites que eu sonhei com esse
pau.

Ele abre minhas pernas e afasta uma coxa da


outra. De joelhos Felipe esfrega meu sexo sentindo
a umidade escorrer por cada dobra dolorosamente
excitada e ele massageia meu clitóris até que eu
arqueie meu quadril quando o orgasmo se
aproxima. Enquanto me acaricia ele se masturba
sem tirar os olhos de meu corpo.

— Porra Galeguinha. — Ele rosna em um


sussurro baixo. — Meu pau tá estourando aqui.

— Então vem . — Eu o puxo com as pernas


para que ele venha por cima de mim e me envolva
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em sua imensidão de músculos, tatuagens e prazer.

Felipe endureceu e segurou minhas coxas.

— Ainda não. Primeiro eu quero sentir essa


bocetinha meladinha na minha boca.— Ele se
inclinou e sua língua vagueou de meu cuzinho,
lento... saboreando, parando por minhas dobras
sugando os lábios de minha boceta encharcada.

Me agarrei aos lençóis como se eu estivesse a


beira de cair.

Felipe sugou.

Chupou cada centímetro de meu sexo até sua


boca finalmente tocar meu clitóris. Sua língua
brincou ali, e ele o prendeu entre os seus lábios em
um movimento de sucção.

— Ah Lipe.... — Gemi sentindo o coração


palpitar. — Vem , vem agora. — Meus braços o
puxam e eu consigo fazer com que ele se deite
sobre mim.

— Não não. — Ele sussurra bem próximo ao


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meu ouvido. — Eu não vou te comer.

Eu quero gritar de frustração. Ele só pode estar


brincando comigo.

Claro que ele quer. Tanto quanto eu. O seu


cacete gotejando porra contra meu baixo ventre é a
prova de que ele quer isso tanto quanto eu.

— Nem brinca com isso Felipe. — Eu o


ameaço.

— O que? — Ele provoca e se apoia em apenas


um braço. Com o outro ele pega o cacete e passa
pela minha boceta molhada. — Não brincar? — Ele
passa a cabeça lisa por meu sexo e eu agarro sua
bunda tentando puxa-lo para que ele enfie logo
tudo.

Felipe sorri.

— Me fode. — Eu choramingo baixo — Eu


preciso. Preciso do seu pau bem enterrado na minha
boceta.

— Claro galeguinha.
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Satisfeito com a minha declaração ele mete


devagar e eu mal respiro quando seu pau entra e
desliza devagar. Posso sentir cada veia pulsando ao
redor de toda sua grossura. E nossa .... como era
grosso.

— Ai ai ai... — Gemo quando sinto uma


fisgadinha de dor em meu sexo

— É melhor parar . — Felipe começa a sair de


mim mas eu enrosco as minhas pernas em seu
quadril mantenho nossos corpos conectados.

— Não não não. — Imploro. — Só mais um


pouquinho. — Rebolo e seu pau desliza mais um
pouco para meu sexo que se contrai quando ele
entra mais.

— Como eu vou dizer não?— Ele diz tão baixo


que eu tenho quase certeza que nem era pra mim e
sim para si mesmo, tentando buscar algum auto
controle em sua mente.

Eu rebolo mais e seu pau entra aos poucos. As


bolas de Felipe roçam na entrada de minha boceta e
ele mal se mexe com medo de me machucar.
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— Isso. — Choramingo quando ele moi lento,


movimentos lentos e circulares, até o fundo. Sua
virilha roçando contra meu clitóris.

E o prazer vindo violento e feroz com o


movimento ritmado e lento que estava me fazendo
ver estrelas era mais intenso do que eu podia
suportar.

O gozo escorreu por meu sexo e Felipe mudou


o sentindo em que estava moendo. Suas mãos
deslizaram até o encontro das minhas e ele as
prendeu para o alto. A boca hábil em capturar
meus gemidos com beijos longos e ardentes.
Capturando para si meus suspiros, minha respiração
e minha alma.

E mesmo que nossos prazeres fossem


silenciosos, nossos corpos deslizavam suados um
contra o outro e instantes estávamos gozando
juntos, inertes no prazer do mais puro e absoluto
sexo.

Felipe saiu de mim com cuidado e me puxou


para seu abraço firme e protetor. Nossas
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respirações ainda se acalmando aos poucos.

— Não te machuquei? —

— Doeu só um pouquinho no início. —


Confesso — Mas só um pouco.

— Então é melhor não fazer mais até o final da


gravidez.

— Ah tá... — Debocho. — inventa uma coisa


dessas e um dia você vai acordar e vai perceber que
está sendo estuprado.´

Ele dá uma risada.

— Posso viver com isso.

Eu me desvencilho dos braços dele e ando nua


pelo quarto.

Ele dá um assovio de cantada quando me viro


de costas a procura de minha camiseta. Eu balanço
a cabeça e rio das bobagens dele. Desisto de achar
minha roupa e pego outra no guarda roupas. Me
visto e saio do quarto direto para o banheiro.
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Me limpo e passo uma água no rosto. Vejo meu


reflexo no espelho escabelada, a pele corada e um
sorriso que mal cabe em mim. Saio do banheiro e
vou direto para a cozinha. Pego a caixa de pizza
sobre a mesa e volto para meu quarto.

Felipe continua em minha cama, bem esticado


as pernas grossas e fortes bem estendidas pelo
colchão. Os braços tatuados apoiados contra a
cabeceira da cama.

— Tá brincando que você vai comer essa


nojeira. — Ele diz fazendo uma careta. — Só de
sentir esse cheiro já dá — Ele faz um barulho de
ânsia e eu rio por ele ser tão parecido com Juliano.

— Claro que vou. — Respondo e me acomodo


na cama ao seu lado. Tiro a tampa da caixa de
pizza, e encontro um disco coberto de queijo
derretido com bolas de sorvete e pequenas
sardinhas espalhadas.

Felipe faz ânsia de novo e salta da cama. Ele


caminha até a janela e fica ali enquanto eu me
delicio com a pizza.

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— Não consigo nem ver. — Ele se vira de


costas para mim e fica na janela respirando o ar
fresco noturno que vem da rua.

— Eu achei que você estava me castigando. —


Ele explica. — Por causa daquilo.

Como o terceiro pedaço.

— Você beijando um monte de mulheres na


minha frente? — Digo com um pontada de
ressentimento.

— É.

— Na verdade eu estava mesmo. Todos esses


desejos que eu tive, não surgiram no meio da
madrugada, a vontade aparecia ao longo do dia. —
Abocanho outro pedaço e falo de boca cheia. —
Mas daí eu deixava pra noite, pra...

— Me punir. — Ele completa a frase.

Eu o ouço tamborilar os dedos no batente da


janela.

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— Fique claro que aquelas festas foram dadas


pelo Adônis, eu não participei de nenhuma delas.
— Felipe se explica se virando para mim.

— Ah tá. E você quer que eu realmente acredite


nisso? — Limpo a boca no guardanapo e parto para
o penúltimo pedaço.

— Eu quis mesmo te magoar, mas depois que


eu beijei aquelas garotas na sua frente em me senti
um filho da puta desgraçado. Eu queria mesmo ter
aproveitado todas as festas que fizeram a minha
casa tremer mas eu não consegui. Fiquei bebendo e
remoendo tudo o que tinha acontecido naqueles
dias.

Felipe suspira.

— Depois que você voltou não havia espaço na


minha vida para outras mulheres.

Ele soa sincero e eu acredito em cada palavra.

Minha barriga dói um pouco agora, mas é de


tanto comer.

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Largo a caixa de pizza vazia no chão ao lado da


cama.

— E eu também não tive outro depois de você.


Nunca tive outro.

Ele se surpreende e arqueia as sobrancelhas


escuras, os olhos verde ocre me fuzilam incrédulos,

— Para não faz essa cara.

Felipe volta para a cama e me encurrala em


seus braços.

— Nunca? Nenhum outro?

— Para Felipe! — Eu bato nele . — Já beijei


outros caras, mas não mais que isso.

Ele continua me encarando.

— Dois filhos, casa e trabalho lembra? Não


tinha espaço pra muito namoro na minha vida. Já
você... — Alfineto enciumada. — Passou o rodo na
vizinhança toda .

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Ele segura o meu rosto em suas mãos e me


cobre de beijos.

— Isso foi antes Galeguinha. — Ele desce uma


trilha de beijos por meu pescoço. — Agora — Ele
vai descendo até chegar em minha barriga. — Eu
sou seu. — Felipe distribui beijos em meu ventre e
eu rio — todo seu.

Ele se deita em meu colo e fica com a mão em


minha barriga.

— A gente tem que pensar num nome. Não dá


pra ficar chamando de mini galeguinha.

Deslizo os dedos por entre seus cabelos curtos.

— Vai ser difícil achar um nome de uma


mulher que você não tenha dormido. — Alfineto de
novo.

— Felippa. — Ele sugere. — Não poderia ser


mais um nome mais lindo.

Ele sorri exibindo dentes brancos e bem


alinhados.
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— Meu Deus. Como você se acha. — Eu o


belisco no peito.

— Me acho não. — Ele se ofende. — Limpo a


casa, faço comida e domei dois adolescentes
rebeldes. E ainda por cima te engravidei sem fazer
muito esforço. Além de lindo sou inteligente.

— Hum... não esqueceu mais nenhum adjetivo?

— Pauzudo. — Ele responde descarado.

Eu rio até as lágrimas escorrerem pelos cantos


dos olhos.

— Só não sou CEO como os caras dos livros


que você lê, mas eu sei foder com força.

Eu gargalho e Felipe me faz mais cócegas.

— Para para... — digo sem fôlego — Vai


acordar a casa toda.

Ele se levanta vai até o interruptor ao lado da


porta e apaga a luz.

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Na penumbra eu o vejo tirar a cueca e voltar pra


cama.

— O que está fazendo? — Eu digo quando


consigo parar de rir.

— Indo dormir.

— Aqui?

— Claro Galeguinha, que você acha que vai te


proteger daquela barata? — Ele me puxa para si e
sinto seu cacete roçar contra meu traseiro.

— Tem que ser pelado?

—Lógico que tem.

✽✽✽

Alguns meses depois

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Enquanto Felipe estava no banho eu aproveitei


para tirar o lixo para rua. Ele não me deixava fazer
absolutamente nada em casa. Eu comia, assistia
televisão e lia enquanto ele fazia todo o resto e as
noites... bom as noites ele me possuía, lento, quente
e apaixonado.

Larguei as últimas sacolas na calçada e vi


Plínio saindo da casa da frente. Há tempos eu não
encontrava nem com ele nem mesmo com Sandra,
o que para ser sincera era um alívio, não por ele,
mas sim pela vadia da esposa.

As janelas da casa estavam todas fechadas, e ele


nem parecia ter me visto quando saiu. Plínio
chaveou a porta da frente e sentou no primeiro
degrau da varanda. Ele colocou as mãos sobre o
rosto e tirou os óculos de armação escura.

Me senti mal por ele. O gosto da traição era


amargo. Caminhei até ele , com uma das mãos
apoiando nas costas, porque a minha lombar estava
me matando nos últimos dias.

— Oi Plínio. — Digo me sentando a seu lado.

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— Oi Mariana. — Ele coloca os óculos.

— Como estão as coisas? — Sondo.

— Indo. Do jeito que estava não dava pra ficar.

Nós ficamos em silêncio durante alguns


minutos.

— Olha... eu queria te pedir desculpas por


aquele dia, eu não devia ter tocado aquelas fotos
pra cima daquele jeito.

Ele dá um suspiro cansado e me interrompe


querendo desabafar.

— Sabe que eu escolhi essa casa por causa da


Sandra. Mudei toda a minha vida por causa dela. —
Ele explica cheio de amargor. — Eu conheci
Sandra numa clínica de reabilitação onde eu
trabalhava, ela fez de mim seu porto seguro.

Plínio balança a cabeça em negação.

— Mas eu era mais um step. Fui um idiota.

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— Não Plínio você não foi. — Toco seu ombro


sem saber o que dizer diante de seu desabafo.

— As coisas só pioraram quando a Sandra


descobriu que tinha útero infantil. E o imbecil aqui
não quis ver os sinais.

— Não adianta se martirizar Plínio. A gente não


se conhece muito mas eu sinto que você é um cara
legal, vai achar uma mulher que te ame e te respeite
como você merece.

— Sabe que ela tem ido até o hospital fazer


escândalo? Pedindo aos gritos pra voltar.— Ele
conta derrotado. — Sandra está se drogando de
novo, mas eu não posso passar por tudo isso de
novo. É muita humilhação para um homem.

Ele balança a cabeça com tristeza.

— Nem sei porque estou te contando isso.

— As coisas vão melhorar. — Eu me levanto


quando ele também fica de pé.

— É.... Eu espero que sim.


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Volto para minha casa me sentindo mal pelo


desabafo de Plínio. Ele estava arrasado e ainda não
havia superado o término, eu torcia para que ele
superasse logo, a vadia da Sandra não merecia um
homem como ele.

✽✽✽

Fui até a cozinha e servi um copo cheio de


iogurte com granola. Não que eu fosse muito fã
desse tipo de comida, mas Felipe estava me
fazendo comer isso e frutas, muitas frutas, durantes
os lanches, por causa da gravidez. Faltava menos
de um mês para minha cesariana e ele estava mais
neurótico do que nunca com a minha saúde.

Assim que me acomodei no sofá uma bendita


alma bateu na porta. Me levantei e larguei o copo
sobre a mesinha.

— Eu atendo. — Digo para Felipe que está em


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nosso quarto montando o berço há quase três dias.

Ele colocara para correr o montador porque


disse que o cara estava olhando para os meus
peitos. Se existia um poço do ciúmes. Felipe havia
se lavado nele...

Abri a porta e me deparei com Nice.

Ela olha para minha barriga e me olha com uma


ternura que me enfurece.

— Meu Deus Nana, sua barriga está enorme.

— O que você está fazendo aqui Nice?

— Eu precisava ver como você estava?

Eu rio sem acreditar na cara de pau.

— Estou ótima. — Respondo começando a


fechar a porta, mas ela me impede.

— Não Nana, aquele dia que você mal, eu fui


até o hospital, nos dias seguintes eu tentei saber
como você estava, mas o Felipe me correu de lá.
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— Bem que ele fez. — Endureço.

— Eu sei que eu devia ter dito antes, mas não é


fácil e eu não espero que você me perdoe por isso
— Ela baixa o olhar — Vocês não fechavam em
nada juntos Nana, quando eu entendi o que estava
acontecendo .

— Para. — Eu a interrompo. — Eu não vou


guardar ódio de você por uma única razão, todas as
vezes que meus filhos adoeciam e eu tinha que
escolher entre colocar comida na mesa ou comprar
a medicação ... era você quem nos ajudava. Aquele
dia eu só não voei nos seus cabelos porque comecei
a passar mal.

— Nana.

— Cala essa boca e não me interrompe. —


Coloco as mãos na barriga — Se você sonhar em
chegar perto de mim e da minha família eu juro que
não vai ter cristo que me tire de cima de você.
Agora sai da minha casa e nunca mais coloca os
pés aqui.

Nice solta a porta e recua alguns passos sem


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dizer nada.

Eu bato a porta com violência e segundos


depois Felipe aparece sem camiseta, o peitoral todo
suado.

— Quem era?

— Ninguém. — Respondo e caminho em sua


direção.

Fico na ponta dos pés e ele me beija.

— Conseguiu montar o berço ou a Felippa vai


dormir na nossa cama?

Ele me envolve em seus braços mas a barriga


imensa está no meio.

— Estou sentindo você duvidar da minha


masculinidade. — Ele finge estar ofendido.

— Jamais. — Eu rio quando ele me beija e


belisca minha bunda. — A banheira que você
instalou no banheiro ficou perfeita.

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Felipe me puxa para o nosso quarto e me cobre


de beijos e cócegas e eu grito dando tapas....

— Para... isso não se faz com uma mulher


grávida.

Logo o brilho zombeteiro é substituído pela


luxúria e ele puxa a barra de meu vestido para
cima, agarrando meu sexo com a mão inteira.

— E isso se faz? — Ele provoca enquanto me


acaricia.

— Para! Eles vão chegar daqui a pouco da


escola.

Felipe olha o relógio e dá um sorriso sacana.

— Meia hora?! É tempo mais que suficiente pra


uma rapidinha.

✽✽✽

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Algumas semanas depois

Felipe tinha saído para levar Malu e Juliano


numa festa que aconteceria na casa de um dos
colegas de Ju. A muito custo eles conseguiram me
convencer de que não seria nada de mais. Felipe
levaria até a porta do condomínio e depois voltaria
para busca-los quando a festa terminasse.

Larguei o saco de pipoca vazio e tentei ligar


para Felipe para ele aproveitar e trazer um
refrigerante na volta pra casa, mas a ligação caiu
direto na caixa postal.

Provavelmente desligado ou sem bateria.

Começo a procurar o controle da televisão


perdido em alguma parte da sala quando ouço
batidas violentas na porta.

Tomo um susto com a brusquidão das batidas.

Me aproxima da janela da sala ainda aberta e


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espio para minha varanda.

Gelo ao ver Sandra ali.

— Abre a porta vizinha! — Ela bate com o


cabo da arma com força contra a porta. — A gente
precisa ter uma conversinha de mulher pra mulher.

Meu coração dispara no peito, porque eu não


lembro de ter trancado a porta quando Felipe saíra
para levar Malu e Juliano na festa.

Tiro os chinelos e caminho descalça até a porta.


Estremeço quando Sandra bate outra vez. Talvez
estivesse bêbado ou drogada, mas o que me deixava
em pânico era a arma que ela batia contra a porta.

Tranco a porta. E o barulho da chave girando


na fechadura é o suficiente para que ela me ouça.

— Eu sabia que cê tava em casa vagabunda! —


Sandra grita.

Não há para onde fugir. Não posso pular


nenhuma das janelas, há grades em todas elas. Não
existe outra saída além desta
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Então o som do tiro. O estampido arrebentando


contra a porta

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Capítulo 41

“Algumas coisas precisam de um final,


mesmo que as vezes não estejamos preparados.
Mesmo que lutemos, o pior as vezes apenas vem...
E aí ... você precisa viver com isso.”

Saltei para trás quando o primeiro tiro


atravessou pela porta da frente. Corri para a sala e
peguei meu celular. As mãos tremendo tornavam
quase impossível selecionar os três únicos números
capazes de mudar essa história.

190

Digitei e fui para meu quarto .

— Vizinhaaa — Sandra gritou e eu pude ouvi-


la bater outra vez com mais força contra a porta.
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Eu mal ouvi quando um homem com voz calma


atendeu a ligação.

— Polícia Civil, atendente Emiliano falando.


Qual a emergência?

— Tem alguém tentando entrar na minha casa.


— Digo o interrompendo o homem do outro lado
da linha.

— Fique calma senhora. — Ele me instrui —


Qual o seu nome?

— Mariana. — Respondo quando o pânico se


converte em fisgadas duras em meu ventre fazendo
minha barriga endurecer. — Aaaaaahhhh.... Vocês
tem que mandar alguém rápido. — Com a mão
livre eu abraço minha barriga e me encolho de dor.

— Mantenha a calma Mariana. O invasor está


armado?

Arghhhh me encolho de novo com a nova


contração.

— Sim é a minha vizinha. Meu Deus... Quanto


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vocês vão demorar? — Fecho a porta mas não


encontro a chave na fechadura.

— Confirma o endereço Mariana, Rua


Nascimento Gurgel?

— Sim. Casa amarela número 478

Então ouço mais dois tiros vindos da sala e eu


sufoco um grito com a mão.

—Rápido por favor.

—Temos uma viatura não muito longe daí


Mariana. Está aonde dentro da casa Mariana?

— No meu quarto. — Respondo chorando.

— Consegue se trancar aí até que a polícia


chegue. Se esconda de baixo da cama.

— Não consigo. — Respondo aos soluços. —


Agora não Felipa. — Seguro a barriga que se
contrai outra vez. — Estou entrando em trabalho de
parto, me ajuda por favor.

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— Fica calma Mariana, eu vou falar com você


o tempo todo. — O atendente me instrui mas calma
é a última coisa que consigo ter nesse instante. —
Acha que consegue ir para o banheiro?

Balanço a cabeça concordando.

— Acho que sim.

Com as pernas bambas e o coração quase


arrebentando no peito, sinto que mal posso respirar.
A cabeça começa a zunir e os grtos de Sandra me
apavoram ainda mais.

— Tô entrando vizinha! — Ela berra

Corro para o banheiro mas ela não me vê.

Fecho a porta sem fazer barulho e tranco com a


chave.

— Ela entrou. — Digo em pânico.

— Vai dar tudo certo Mariana, tem algum


móvel que você possa arrastar para frente da porta?

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Olho a meu redor. Não há nada ali que não


estivesse acimentado no chão.

— Não. — Sussurro. — Nada.

— Tem alguma banheira?

— Sim.

— Entre na banheira Mariana e fique deitada


nela. Não vai demorar muito Mariana.

Arghhhhhh

O intervalo entre as contrações diminui e as


dores beiram o insuportável.

— Meu peito está doendo. — Digo num


sussurro choroso.— Eu não posso morrer aqui.

— Você não vai morrer Mariana, a ajuda já está


a caminho. É o pânico Mariana, não deixa o pânico
tomar conta.

Não era uma crise de pânico. Era minha pressão


indo as alturas. Era o terror de que a louca da
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Sandra já estava dentro de minha casa. Quebrando


tudo a minha procura. O lugar não era muito grande
e uma coisa era certa. Ela não levaria muito tempo
pra me encontrar ali.

— Vizinhaaaaaa — Ela grita. — Para de se


esconder mulher. Vem cá que a gente tem umas
contas pra acertar.

Eu engulo o choro e aperto a boca para evitar


que minha respiração faça barulho demais.

— Eu devia colocar fogo nessa casa.

Ouço barulho de coisas caindo. Vidro


estilhaçando no chão.

— Ela está na sala. — Murmuro apertando o


celular entre os dedos. — Ela vai me achar aqui.

— Calma Mariana. Aguenta firme.

Posso ouvir a porta do quarto rangendo.

— Para de se esconder sua puta loira. —Sandra


me ameaça aos gritos.
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— Onde ela está Mariana? Consegue ouvi-la?


— O atendente me questiona.

— Acho que no quarto de meus filhos.

— Certo. Só mais alguns minutos e a viatura já


estará aí.

Uma fisgada lancinante em meu ventre fez com


que eu me contorcesse dentro da banheira. Eu não
tinha como esperar mais.

✽✽✽

Felipe

Algumas horas antes

Maria Luiza e Mariana repetiam a segunda taça

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de sorvete de flocos. Malu sentada ao lado do


irmão olhando atenta para o tabuleiro de xadrez.

— Ali Juliano. Come aquela torre seu tanso.

— Cala boca Malu. — Ele xinga e cobre a boca


com o punho direito fechado. — Isso é armadilha
dele.

— Estupidez? Quer falar direito com a sua


irmã?! — Galega o repreende e ele bufa irritado.

— Vocês falando desse jeito não dá pra jogar.

— É galega. Deixa o moleque pensar se não


fica muito fácil ganhar dele. — Provoco.

Aos poucos eu consegui vencer uma barreira


invisível que havia entre nós. Não conversávamos o
tempo todo, mas durante esses meses que passei a
morar com Mariana aprendi mais sobre
adolescentes do que nos meus dez anos de
magistério. As aulas de direção foram o ponta pé
inicial para que ele me deixasse chegar mais perto,
mas eram nossas disputas de xadrez depois do
jantar valendo tarefas domésticas desagradáveis
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que tornaram as coisas mais interessantes entre nós


dois, normalmente quem perdia tinha que lavar a
louça do jantar . Dava pra dizer que o placar entre
nós estava empatado. Ele ganhava uma... eu
outra...mas essa noite a partida valia algo que ele
queria muito, sair a noite e só voltar no outro dia
quando a festa acabasse.

Mariana largou o pote de sobremesa vazio e


afastou a cadeira da mesa para poder esticar as
pernas e apoias os pés descalços e inchados sobre
minhas pernas.

— Até quando vai a sua licença na escola?

Ela rompe o silêncio e Juliano a fuzila mas não


fala nada.

Aperto os pés de Mariana em uma massagem


enquanto espero Juliano fazer sua jogada.

— Volto no início do ano que vem. — Explico


— Mas nem quero pensar nisso agora.

Juliano movimenta a rainha e me dá um cheque.

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Ele sorri e cruza os braços jogando o corpo para


trás na cadeira.

— Eu sei... também não quero voltar. O


Leonardo me disse que tenho mais quatro meses
pra ficar em casa depois que a Felipa nascer, mas
depois tenho que voltar.

— Você tem falado com ele? — Digo meio


enciumado.

— Claro né. Ele é meu supervisor. Se não fosse


por ele eu já estaria no olho da rua.

— Santo Leonardo. — Debocho e jogo irritado.

—Ah esse jogo não vai terminar nunca. —


Malu reclama e se levanta pra lavar a louça do
jantar.

Mariana apoia as mãos na imensa barriga.

— Acha que eu tô gorda? — Ela mexe na


barriga.

— Claro que tá. Imensa. — Juliano provoca e


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dá uma risada.

Galega o fuzila com um olhar furioso e eu levo


seu pé a boca e dou um beijo.

— Nada Galeguinha. É a bolinha mais fofa que


eu já vi. O Juliano só tá azedo assim porque tá
perdendo.

— Ah não! — Malu exclama. — A pia entupiu


de novo. A água tá voltando toda.

—Viu só? Lá em casa não teríamos esses


problemas. — Faço minha jogada e me levanto
para ajudar Malu.

— Deus me livre! — Mariana bate na mesa de


madeira três vezes. — Sua mãe é capaz de
ressuscitar do inferno pra vir me atormentar.

Depois de desentupir a pia volto para meu


lugar. Juliano está com cara de quem está prestes a
aprontar. Olho para o tabuleiro e percebo a sua
jogada.

— Xeque mate! — Ele bate na mesa exultante.


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Mariana me olha mas não digo nada.

— Trato é trato. — Juliano ergue os braços


como um boxeador vitorioso. — Bora que hoje tem
festaaaaaa !

Eles saem comemorando da cozinha e Mariana


me encara.

— Você deixou ele ganhar só pra ele ir na festa


não é?

Eu gargalhei e Galega já sabia a resposta;

— Deixa eles se divertirem. Prometo que entro


lá, converso com os pais e depois busco os dois
inteiros.

✽✽✽

Em menos de duas horas os dois já estavam

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prontos e dentro do carro. Juliano apertava a buzina


a cada cinco segundos pra me apressar.

— Eu não quero ir junto. — Ela protesta. —


Quero ficar aqui deitada de pernas pra cima,
comendo pipoca e olhando tv.

— Não quero que fique sozinha. — Insisto. —


Não precisa nem trocar de roupa, você nem desce
do carro.

Mariana faz uma careta e teima outra vez.

— Para Lipe. É só você ir logo e voltar logo.


Vai vai. — Ela me manda beijos no ar e começa a
procurar o controle da televisão.

— Eu já volto. — Digo por fim.

Caminho até ela e dou um beijo em seus lábios


macios.

— Tranca a porta. — Peço antes de sair.

— Já vou. Só vou achar o controle.

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Fecho a porta saio e entro no carro. Juliano está


sentado no banco da frente e Malu no traseiro.

— Todos de cinto? — Pergunto prendendo meu


cinto.

— Yeap — ele responde e Malu apenas dá uma


mexida no próprio cinto para mostrar que sim.

Durante o trajeto Malu e Juliano não falam


absolutamente nada, apenas mexem no celular.

— Ju abre o porta luvas. — Peço enquanto


dirijo.

Ele guarda o celular no bolso e abre em


seguida.

— Quero pedir a mão da mãe de vocês em


casamento. — Explico assim que ele abre a
pequena caixa aveludada.

Ele olha para as alianças reluzindo e Malu se


agita.

— Deixa eu ver, daqui daqui. — Ela pede toda


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animada.

— Eu quero fazer parte da vida de vocês


quatro, quero estar presente ali para o que
precisarem.— Eu respiro fundo. — A quinze anos
eu pedi a pra vó de vocês, pra poder namorar com a
Mariana. Bebi café salgado e ainda sorri pra
agradar a sogra. A mãe de vocês valia o esforço.
Vale — Corrijo. — Vale todo esforço.

Paro o carro no acostamento e me inclino para


os dois.

— Eu sei que vocês já são perfeitos juntos, mas


eu vou me esforçar pra estar ali por vocês dois e
pela mini galeguinha que está vindo. Eu vou me
esforçar pra ser o pai que vocês merecem.

Juliano engole em seco e fecha a pequena caixa


de veludo e a guarda de volta no porta luvas.

— Ah... tá abafado aqui. — Ele disfarça e


abaixo o vidro da janela.

— Vocês me aceitam? — Insisto.

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Malu olha para o irmão e eu ambos esperamos


qualquer reação dele.

— Tá né. — Ele me dá um abraço rápido. —


Alguém tem que te ensinar a jogar xadrez, porque
ganhar direto já tá ficando chato. — Juliano
debocha.

— A gente aceita. — Malu solta o cinto e vem


para o abraço.

Sinto um aperto no peito de felicidade e não


consigo parar de sorrir.

Juliano é o primeiro a se soltar do abraço.

— tá vamo logo que desse jeito a gente só vai


chegar lá quando a festa estiver no fim.

Malu volta para trás e eu começo a dirigir outra


vez.

— O Ju? Tu recebeu a mensagem da Gabi? —


Maria Luiza pergunta, os dedos ágeis digitando
algo.

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— Não . O que ? — Ele se vira pra trás para


encarar a irmã.

— Os pais dela chegaram mais cedo . Não vai


ter festa.

— Puta que pariu. Ele xinga irritado.

Eu me intrometo na conversa.

— Voltar pra casa?

— Sim. — Malu — Diz decepcionada.

Eu sinalizo o retorno e começo fazer o trajeto


de volta.

Desço do carro e Maria Luiza e Juliana saem


logo depois.

As luzes da casa estão todas acesas. Dou mais


alguns passos e logo que chego na varanda
encontro a porta entre aberta.

Meu coração para quando vejo dois buracos de


tiros na porta. Seguro Malu e Juliano pelo braço .
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— Entrem no carro.

— Por que? — Ele pergunta mexendo no


celular, mas logo vê os furos na porta.

— Obedece porra. — Rosno com dureza. — Os


dois para o carro. Chamem a polícia.

Malu e Juliano correm para o carro e eu entro.


Empurro a porta e com cautela caminho pela sala.
Um copo de vidro vazio estilhaçado perto do sofá.

— Mariana!— Chamo em voz alta.

Caminho pelo corredor.

Está tudo fora do lugar.

— Mariana ! — Chamo outra vez.

A porta do quarto de Juliano e Maria Luiza está


escancarada . A livros e roupas no chão.

— Felipe! — Reconheço a voz de Mariana,


vinda do banheiro.

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Corro até o banheiro e tento abrir a porta.

Está trancada.

— Abre a porta Mariana. O que tá


acontecendo?

— A Sandra. — Ela diz aos prantos . — Ela


entrou armada.

Mariana soluça.

— Tá tudo bem amor. Ela já foi.

— Eu perdi nosso bebê Felipe. — O choro de


Mariana é cheio de dor. — Tá doendo tanto que eu
mal consigo respirar.

— Calma galeguinha abre a porta.

Ouço a chave girando na fechadura.

A porta é aberta e Mariana aparece os cabelos e


o corpo banhados de suor. O rosto inchado e
vermelho de choro.

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Mariana abraça a barriga, os olhos marejados.

— Eu não estou sentindo nosso bebê.

A olha de cima abaixo. Suas pernas estão sujas


de sangue.

— Galega. — Eu a abraço e ela fraqueja.

— Desculpa Felipe.

— Para amor. Eu vou te levar para o hospital.

Mariana chora e treme em meu peito.

— Amor?! — A voz de Sandra nos surpreende.


— Você nunca me chamou de amor. — Ela diz
transtornada.

Coloco Mariana para trás de meu corpo.

— Sandra abaixa a arma Sandra.

— VOCÊ ACABOU COM A MINHA VIDA


FELIPE.

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Com a maquiagem borrada no rosto e um olhar


alucinado, Sandra seca as lágrimas que caem mas
mantem a arma empunhada em nossa direção.

— Vai acabar fazendo uma besteira Sandra.


Abaixa a arma e me deixa levar a Mariana no
hospital.

— Ah o seu mundo gira em torno da Mariana.


— O rancor e mágoa transbordando em cada
palavra. — Como é que você chama essa puta?
Galega?

Sandra ri.

— Homem gosta é de ser côrno mesmo. Se


bobear esse filho aí é até do meu irmão.

Dou alguns passos para frente.

— Não chega mais perto. — Ela ameaça.

Mariana geme com dor e eu avanço mais um


passo.

— O plínio me largou. Por causa dela. Você me


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largou por causa dela. — Ela cospe o nome de


Mariana com repulsa. — Mariana .... mãe solteira
desamparada.

— Felipe. — Galega toca meu braço com as


mãos frias.

Dou mais um passo.

— Eu sei que você não é assim Sandra. Você é


boa. Vai me deixar passar e levar a Mariana para o
hospital.

— Então você não me conhece mesmo — Ela ri


— Porque eu quero mesmo é que essa vagabunda
morra.

O gatilho foi puxado. A primeira coisa que ouvi


foi o disparo seco e atordoante, o cheiro da pólvora
queimada e depois o pior dos cheiros, o do sangue.

✽✽✽

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Mariana
Eu cai com o corpo de Felipe pesando sobre o
meu. Meu protetor. Meus olhos estavam
entreabertos e eu já não sentia mais nenhuma dor,
apenas frio.

— Não! — Sandra berrou — Porque você tinha


que ficar na frente?!

Eu pisquei lentamente e me forcei a abrir os


olhos, era assim que era morrer? O ar quase não
entrando em meus pulmões. O peso de Felipe
esmagando meu corpo.

Sandra andava de um lado para o outro batendo


na própria cabeça com a arma ainda em punho.

— seu idiota. Seu idiota. Não acredito. Não


acredito. Desculpa Lipe. Desculpa.

Tomada por um louco desespero Sandra


posiciona a ponta da pistola debaixo do próprio
queixo. Pisco outra vez mas antes que eu consiga
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abrir os olhos ouço um último disparo e então ouço


corpo de Sandra cai inerte no chão.

— Acorda Lipe. — Minha voz sai fraca e


chorosa, mas ele já não pode mais me ouvir.

✽✽✽

Acordo na cama de hospital. O quarto está


vazio. A poltrona que outrora Felipe zelava por
meu sono em outro momento de nossas vidas agora
estava vazia. Coloco as mãos em meu ventre e
minha barriga está bem menor do que antes, apenas
um leve inchaço e alguns curativos.

Meu bebê.

Cadê meu bebê?!

Tiro o lenço que cobre meu corpo. Estou


vestindo apenas uma camisola verde água com as

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insígnias do hospital.

Uma senhora usando fones de ouvido entra no


quarto empurrando um balde com esfregão.

Eu me levanto da cama num movimento rápido


que não condiz com minha condição e logo todo o
quarto começa a girar. Eu me apoio nela e ela leva
um susto.

— Cadê o meu bebê?

Flashes me veem a memória e eu elevo a voz


com o desespero tomando meu corpo. Os tiros... o
corpo de Felipe caindo sobre o meu.

Eu havia perdido Felipe. Havia perdido meu


bebê.

— Eu acho que eu vou — Mal consigo


terminar a frase e o líquido amarelado e amargo
jorra de minha boca

—Enfermeira. — A mulher da limpeza grita e


me ajuda a voltar pra cama.

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A porta do quarto é aberta e vejo Felipe


caminhar em minha direção. Ele não consegue
parar de sorrir.

E eu posso jurar que ele carrega nossa filha nos


braços.

Eu mal acredito no que vejo.

Ele chega mais perto. Um de seus braços está


enfaixado.

— a mamãe acordou — Ele fala com uma voz


engraçada e fofinha

Já sentada na cama ele vem bem mais para


perto e exibe um pequeno bebê de bochechas
rosadas, grandes olhos verdes como os dele e
poucos fiapos loiros cobertos por uma faixa rosa.

— Oi amorzinho da mamãe. — Eu choro de


emoção ao vê-la. Ver os dois ali é demais pra mim.

Felipe beija o topo de minha cabeça enquanto a


mulher de uniforme limpa a sujeira recém feita por
mim.
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— Como assim. — Me recosto e pequenas


fisgadas de dor vem dos pontos da cesariana. — A
Sandra atirou em você, eu vi quando você caiu.

— Pegou no ombro. — Ele explica. — A bala


entrou e saiu. — Ele sorri ao admirar nossa filha.

— Ai papai. — Um enfermeiro de jeito


afeminado entra no quarto e repreende — VocÊ
tem que ficar quieto também, não pode ficar por aí
desfilando de bunda pelada pelo hospital, e se você
cair com essa coisinha linda no chão?

— Vou ficar nesse quarto aqui. — Felipe diz.


— Com as duas.

— Ai homem apaixonado assim. — O


enfermeiro suspira e me entrega um copo de água
com um comprimido. — Meu sonho de princesa.

Eu rio e fico mais aliviada por tirar o gosto


amargo da boca.

— Vou ver o que eu consigo, trocar vocês para


um quarto duplo. Se não um dos dois vai acabar
abrindo os pontos, transitando pelo hospital de um
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quarto para o outro.

O enfermeiro e a senhora da limpeza saiu.


Felipe continuou sentado na beira da cama.

— O que aconteceu depois? — Questiono.

— A polícia chegou encontrou o corpo de


Sandra. A ambulância nos trouxe as pressas para o
hospital e agora nós estamos aqui, juntos.

Felipe choraminga no colo do pai e eu estendo


os braços para pegá-la.

— Deixa eu pegar essas coisinha branquela que


parece um bichinho de côco.

Dou de mama e toco delicadamente sua


mãozinha minúscula e rosada, completamente
extasiada com sua perfeição.

Batidas leves na porta.

Malu abre uma pequena fresta.

— A gente pode entrar?


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— Claro. — Digo em voz baixa.

Juliano e Malu entram no quarto.

— Mãe você tá muito inchada. — É a primeira


coisa que Juliano diz.

Malu dá uma cotovelada nele e eles se


aproximam da cama.

— Aihn mãe ela é muito linda. — Malu elogia.

— Aham. — Juliano concorda. — Que bom


que puxou o lado bom da família.

Ele dá uma risadinha provocando Felipe.

— Que você tá falando garoto? Você é a minha


cara. Só o cabelo loiro e a chatice são da sua mãe, o
resto é todo meu.

Felipe se ergue e sai caminhando em direção ao


armário embutido na parede. Ele o abre e se inclina
para pegar uma bolsa.

A abertura da camisola do hospital que fecha


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atrás abre e Juliano faz uma careta de nojo.

— Puta que pariu. Tapa essas bolas pelo amor


de Deus.

Eu controlo uma crises de risos e Malu não se


segura.

— Pois foi daqui que você saiu. — Felipe


resmunga e volta trazendo um celular. — Amor
guarda esse seio que essa vai ser a primeira foto em
família e eu não vou poder exibir se você estiver
com esse peitão de fora.

Reviro os olhos e rio, mesmo que os poucos


movimentos que eu faça reflitam direto nos pontos
da cesariana.

— Dá isso — Juliano pega o celular de Felipe


— Tá todo estrupiado. Deixa que eu bato essa foto.

Ele sobe na cama fica de costas para nós.

— De tênis na cama!?

— Olha a selfie! — Ele diz em voz alta e assim


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nossa primeira foto em família é registrada. Apenas


os grandes olhos esverdeados de Juliano e o topo de
sua cabeça acabam aparecendo em evidência.
Logo mais atrás, eu com Felipa nos braços e Felipe
e Malu ao meu lado.

Juliano olha a tela do celular e diz

— Pera pera pera. Junta todo mundo de novo


que a teta da mãe saiu na foto.

— Então deleta e tira outra. — Felipe retruca


puxando minha camisola para cima.

Então o retrato oficial é tirado. A primeira de


muitas. A foto perfeita. Perfeita porque era nossa.
Nossa família.

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EPÍLOGO
Mariana
2 anos depois

Estava terminando de organizar os últimos


pedidos de estoque quando Suiane bateu na porta
de minha sala.

— Aqui que é a sala da gerente? Tenho uma


reclamação a fazer. — Ela debocha e entra — Não
aguento mais entrar nessa loja e ser atendida por
vendedores homens.

Nós não éramos mais colegas. Assim que


chegou aos ouvidos do dono que o Leonardo estava
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saindo com uma das funcionárias ele foi realocado


para o administrativo e Sui começou a trabalhar em
uma boutique especializada em roupas finas para
bebês.

— Vou contar para o Leonardo. — Provoco e


assino alguns papéis.

— Ah... tá se achando que agora é chefa. — Sui


mexe na minha bolsa e acha um dos meus
esconderijos de chocolate.

Ela rasga o pacote de snickers e começa a


comer o meu doce, sem a minha permissão.

— Hum. — Ela fala de boca cheia fazendo


barulhos cômicos enquanto descola o chocolate dos
dentes. — Você viu quem apareceu no jornal ontem
a noite?

— Não, quem?

— Aquele cara todo marrento que vinha direto


aqui na loja pra te convidar pra sair.

— César. — Paro o que estou fazendo. — Não


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vi nada.

— Foi preso ontem. Não ouvi a notícia toda,


alguma coisa a ver com o chefe do trafico.

— Nossa.

Ela abocanha o chocolate.

— Viu só. Se tivesse escolhido o traficante em


vez do professor de matemática a essa hora você ia
estar indo visitar o marido no xilindró.

— Cala boca Sui. Vira essa boca pra lá e para


de comer meu chocolate vaca!

Suiane dá risada e esconde o chocolate como se


eu fosse tirar o doce dela.

— Tá parei. — Ela ri. — Como está a


mudança? Quando é que eu vou conhecer o apê
novo?

Eu suspiro e me jogo na cadeira que reclina um


pouco com meu peso.

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— Ahhhh nem me fala. O apartamento é lindo,


todo mobiliado. — Solto o coque apertado e meus
cabelos caem pelos ombros. — Mas ainda está tudo
nas caixas. É tanta roupa e brinquedo pra colocar
no lugar.

— Já tô louca pra conhecer. Ta ganhando bem


pra mudar para um apezão todo mobiliado.

Eu rio e pego o último chocolate dentro da


bolsa antes que ela o coma também.

— O salário é bom sim, com o meu terreno e o


do Lipe a gente financiou em mil anos — Explico.
— Mas valeu a pena, aquelas casas tinham tantas
lembranças ruins e nós precisávamos recomeçar
num lugar só nosso. Sem vizinhas de olho gordo
cuidando cada espirro que dávamos. Vez ou outra
ainda vinha umas oferecidas perguntar pro Lipe na
maior cara de pau, “Quando que ele iria cuidar do
jardim delas...”

— Aff. — Sui revira os olhos. — Mulher


vagabunda é o que mais tem por aí.

— Aham. — Concordo mas mudo de assunto


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porque falar das exs de Felipe é algo que me irrita.


— Nem sabe, a Malu apareceu semana passada
cusco de rua que é o verdadeiro anticristo.

Suiane ri e joga o papel na lata de lixo ao lado


da mesa, em um arremesso certeiro.

— Sério. Juliano chama o bicho de Satã. Ele rói


tudo. Mija e faz coco por tudo.

— Felipe tá louco pra expulsar o pentelho.

Sui gargalha ao ouvir o nome do cachorro.

— Meu Deus. — Ela ri alto.

— Ri porque não é você que acorda no meio da


noite e pisa em morrinhos de cocô pela casa.

O ataque de risos de Suiane faz com que eu


acabe rindo junto.

— Comer, cagar e destruir. — Gesticulo com a


mão mostrando o tamanho — O pentelho tá por um
fio. É bom ele se endireitar logo porque se não eu
vou tratar da educação dele na base da havaiana.
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Sui seca as lágrimas e pega o celular dentro da


bolsa.

— Ai Nana. A conversa tá ótima mas tenho que


voltar. Menti pra gerente que ia dar uma saidinha
pra fumar para poder vir colocar a conversa em dia.

Ela se levanta e vai até a porta.

— Nana, seu namorido tá aí. — Ela responde


quando avista Felipe. — E tá sendo atendido pela
Antonella. Sabe que aquela lá não vale o aplique
loiro que usa…

Sui tinha ódio mortal de Antonella. Leonardo se


envolverá com ela antes de ficar com Sui, e até hoje
ela jura de pés juntos que a loira é que tinha
denunciado o relacionamento deles pro Rh.

Eu me ergo da cadeira .

— Arrasa lá amiga. — Sui dá uma risadinha e


dá um tapa na minha bunda. — Mostra quem é que
manda pra essa vagaba.

Eu mal vejo Sui sair da loja. Na verdade eu não


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vejo nada além do excesso de simpatia de


Antonella e o sorriso fácil de Felipe enquanto olha
para uma sandália de salto agulha toda branca.

— Oi amor. — Enfatizo no amor e Felipe já se


apruma.

— Oi galeguinha. — Ele sorri ao me ver e


minha vontade é arrancar cada fio daquela cara
ordinária dele.

— Obrigado Antonella. — Ele agradece. —


Qualquer coisa eu peço ajuda.

Minha mão voando na sua cara que vai, Felipe.

— Tem certeza, por que posso ver no sistema


se tem outro modelo.

— Ele tem certeza Antonella. — Digo com


rispidez e o sorri em meu rosto não condiz com a
fúria de meus olhos . — Agora vai limpar a vitrine
querida, está cheia de marquinhas de dedos sujos de
doce.

Ela concorda meio sem graça e sai.


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— Eu já disse que não gosto que você venha no


meu trabalho.

O celular dele vibra e de soslaio com um


movimento rápido ele olha a mensagem recebida,
mas logo guarda no bolso da calça.

Ele viu algo que não gostou no celular.

— Só um pouco galega. — Ele se afasta de


mim alguns passos e eu o vejo mexer no celular de
novo.

— Vem na minha sala um pouquinho . — Digo


tomada pela irritação e desconfiança. Eu o pego
pelo braço forte e cravo minhas unhas
discretamente em sua pele.

Felipe digita uma mensagem.

— Quem é Felipe? — Digo tentando não


parecer uma louca ciumenta, assim que fecho a
porta e ficamos apenas nós dois.

— Quem é o que amor? É do futebol de


domingo. O time do prédio. Nada demais. — Felipe
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se explica e suas mãos vem direto pra minha


cintura. — Sabe que eu fico de pau duro quando
você fica assim toda bravinha.

Felipe dá mais alguns passos e sinto meu


traseiro bater na mesa.

— Ah futebol? — Ainda não acredito. —


Então deixa eu ver.

Coloco a mão no peito para afasta-lo mas ele


me aperta mais contra o seu corpo e eu sinto a
rigidez de sua ereção.

— Tenho algo que você vai aproveitar mais do


que um grupo de whatts. — Felipe roça o pau
contra meu baixo ventre e suas mãos apertam
minha bunda com firmeza.

Eu gemo e ele me beija.

Eu não quero beijar, mas mesmo assim ele me


rouba um beijo duro quente e apaixonado.

— Da a porra do celular Felipe.

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— Vou te dar é outro tipo de porra. — Ele puxa


minha saia para cima e com movimentos rápidos
Felipe abre a calça e abaixa a cueca.

Eu vejo seu cacete rosado, a cabeça rosada já


coroada com uma gota de porra. Não tem como não
ficar excitada com esse maldito filho da mãe.

— A gente não vai transar. — O fuzilo furiosa.


Odeio quando ele faz isso. Transforma nossas
brigas em sexo.

Felipe sorri e sua mão puxa minha calcinha


para o lado.

— Então porque sua bocetinha já tá molhada?

Não tenho argumentos.

— Eu disse — Mas não consigo terminar de


protestar . Não com Felipe me erguendo contra a
mesa e metendo com força o pau até o fundo da
minha boceta.

Apoio os braços para trás e as pilhas de papéis


se espalham.
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Felipe soca fundo, me encarando cheio de


tesão, o cacete apertado deslizando para dentro e
para fora em movimentos rápidos.

— Goza. — Ele sussurra baixinho um rosnado


que me deixa louca.

Engancho minhas pernas em sua cintura e ele


soca até que o gozo quente escorra por nossos
sexos latejantes.

Felipe sai de mim e ainda estou tremendo com


o orgasmo, quero mais quero tudo dele, mas ele
fecha as calças e dá um sorriso sacana.

— Vou te esperar no carro ciumentinha.

✽✽✽

Juliano
— Maria Luiza! Sai do banheiro demônia!
Tenho que me arrumar também.
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— Vai no outro. — Ela responde sem me dar


muita importância.

— Eu quero pegar o gel que tá nesse aí caralho.


Abre logo isso porra.

Ouço o barulho de água. Ela deve estar saindo


da banheira.

— Anda peste. — Xingo puto da cara com sua


demora. Ela sempre fazia isso. Escolhia o melhor
banheiro e morria na banheira.

— Ah garoto chato! — Ela abre a porta


enrolada numa toalha e eu faço uma careta de nojo
quando vejo a máscara verde que ela usa no rosto
pra sei lá o que. — Ah diaba. Porque não me avisa
pra eu me preparar por susto.

— Seu cú Juliano. — Ela xinga. — Anda logo.


Pega tudo de uma vez e para de gritar porque se
acordar a Felipa é você quem vai cuidar dela,
porque eu tô me arrumando.

— Tá tá chatona. — Entro no banheiro e pego o


secador uma pomada e o desodorante.
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— Já dá uma olhadinha nela pra mim. — Malu


pede — Eu não posso sair, vou molhar a casa toda.

— Tá garota. — Rosno. — Não é melhor


acordar ela pra já deixar vestida.

— Eu já vesti. — Malu explica. — É só ter


certeza que os travesseiros ainda estão ali perto do
sofá. E não faz barulho pra não acordar ela.

Malu fecha a porta e eu saio resmungando


baixo. Tudo quieto na sala. As almofadas ainda
estão ali formando uma barreira protetora para que
Felipa não caia enquanto dorme.

Chego mais perto para ver ela dormindo. Eu


gosto de ver a boquinha dela tremendo e rosada as
vezes dá uma tremidinha quando ela dorme.

Essa não.

— Puta que pariu! — Xingo. — MARIA


LUIZA! — Berro. — O PENTELHO CAGOU NA
FELIPA!

Faço ânsia ao ver o amontoado de troços


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marrons sobre o vestido de minha irmã.

Malu vem as pressas para a sala.

— Limpa essa merd— a ânsia vem e eu saio


dali rápido.

Abro a janela e a brisa noturna dá um alívio.

— Limpa essa merda que o pai vai te matar.

Nem olho enquanto ela limpa.

— Ai Ju. Me ajuda aqui.— Ela pede nervosa.

Felipa acorda mal humorada por causa dos


nossos gritos.

— Eu não quero saber disso. — Me esquivo. —


O pentelho é seu. A merda que ele fez também é
sua. Não quero nem saber!

— Droga juliano.

Felipe começa a chorar quando percebe que


está sem o vestido de “pincesa”
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— Te vira Malu. — Vou para o banheiro e


começo a arrumar os cabelos.

— Só acalma a Felipa — Malu vem atrás de


mim com ela chorando nos braços.

Maria Luiza sabe que ela me quebra quando


vejo o chorinho de Felipe.

— Tá peste. — Xingo — Vem cá com mano.


— Digo mudando um pouco a entonação da voz
para acalmá-la. — Bora ver a mana “limpa totó do
pentelho”?

Maria Luiza pega a toalha de rosto e enxarca de


água e sabonete líquido.

— Ai Juliano. — Ela se desespera. — Não tá


saindo.

— Era uma vez uma Malu. — Continuo com


entonação infantil e Felipa presta atença. — Um dia
o a auau dela fez totô numa pincesa e aí ninguém
nunca mais ouviu falar dela.

—Para Ju. — Maria Luiza me olha aterrorizada.


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— Manda um whats pro pai e conta que o que


aconteceu.

— Eu não. Tá louca? Conta você.

— Por favor Ju. Eu te defendi quando você


quebrou aquelas janelas lembra.

Bufo irritado e pego o celular. Digito uma


mensagem:

Eu:: PAI ACONTECEU UM NEGÓCIO.

Ele visualiza mas não responde.

Envio uma segunda mensagem.

Eu: O Pentelho cagou no vestido de daminha


da Felipa.

— Tá. Ele visualizou e não disse nada. —


Respondo. — Te prepara pra morrer por estragar o
casamento.

— Para Ju.— Malu começa a chorar e me


arrependo de ter zoado muito.
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— Tá tá chatona. — Eu a acalmo. — vamos ver


se a gente acha alguma coisa nas caixas.

Alguns minutos depois meu celular toca, paro


de remexer nas caixas e atendo a ligação.

— Oi pai.

— Me diz que vocês tão de sacanagem só pra


me deixar nervoso.

— Não.

— Eu vou matar esse cachorro.

— A Malu tá chorando aqui a Felipa também


porque quer colocar o vestido da princesa. —
Explico.

— Não vai adiantar desesperar depois da merda


feita. — Ele responde — Só coloca um vestido
bonito na Felipa e não se atrasem. Daqui a meia
hora vou chamar o uber pra vocês. Estejam prontos.

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✽✽✽

Felipe
Mariana ficou em silêncio durante o trajeto. Eu
tinha deixado em sua sala um vestido branco de um
tecido bem leve, simples e bonito, mas ela nem se
quer abrirá o pacote. Estava enciumada e furiosa,
ainda usando o uniforme do trabalho.

— Pra que a gente parou aqui. — Ela pergunta


irritada. — Eu quero ir direto pra casa.

— Você ainda está brava comigo, depois


daquela foda incrível? — Eu provoco e desço do
carro.

Dou a volta e abro a porta para que ela desça.

— Eu já disse que quero ir pra casa.

— Mas não vai.— Insisto. — Vai me beijar e


vai prometer que vai me amar pra sempre bem ali
em frente aquele mar lindo.
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— Vai sozinho e já aproveita pra entrar no mar


e esfriar o fogo desse pau. Eu vi você cheio de
sorrisos pra Antonella hoje, e as mensagens do
celular que você não me mostrou? — Mariana
cruza os braços e continua olhando para frente.

Eu a puxo para fora do carro e a carrego no


colo.

— Para com isso Felipe. — Ela me repreende


me fuzilando com os olhos verdes cheios de fúria e
ciúmes. — Se você acha que a gente vai transar na
praia e você vai me acalmar com sexo.

Nego com a cabeça e sorrio.

— Não galeguinha. A gente não vai transar—


Com um meneio de cabeça indico os convidados
todos ali na areia, olhando enquanto eu a carrego
em direção ao reverendo. — A gente vai casar
galeguinha.

✽✽✽

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Mariana
Eu paro de falar. Meu coração se acelera no
peito e sinto uma vontade de chorar e rir ao mesmo
tempo. Minha música preferida estava sendo
tocada no violão por Malu. Sua voz doce
encantando a todos, Quelqu’um M’a Dit era tudo o
que podíamos ouvir além do suave som das ondas
quebrando na areia.

De um lado estão meus colegas de trabalho,


Suiane e Leonardo e mais algumas vendedoras que
trabalham comigo de outro estão as colegas de
Felipe, alguns colegas de Malu e Juliano.
Maria Luiza, Juliano estão vestindo roupas claras e
Felipa, está usando uma fantasia de pepa pig.

— Está chegando uma noiva furiosa. — Felipe


sorri me coloca no chão.

Ele dá uma olhadela para Felipa e o ouço


sussurra para Juliano.

— Pepa pig?
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— Foi a única que ela aceitou colocar. — Ele


responde, mas não entendo muito da conversa.

O reverendo inicia a cerimônia e Felipe segura


minha mão, ele entrelaça os dedos nos meus, posso
ver o amor refletido em seus olhos.

Não consigo parar de sorrir. Eu tremo tanto que


ele mal consegue colocar a aliança em meu dedo.
As lágrimas escorrem eu já não consigo mais ver
muita coisa.

Felipe me puxa para seus braços e um de seus


alunos grita

— Vai carrasco Taca aquele beijaço.

Nós rimos, e Felipe me encara.

— Te amo Galeguinha.

— Te amo. — E antes que eu possa conseguir


expressar em palavras a felicidade que mal cabe em
mim ele me rouba um beijo.

E estranhamente aquele era o melhor beijo de


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todos os que ele já me dera, aquele era o beijo do


meu marido.

FIM!

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Outras obras

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Prólogo

— Olhe para mim enquanto eu falo com você,


peão ignorante! — grito, sentindo a histeria tomar
conta de meu corpo. Aquele maldito tinha o poder
de me irritar.
Henrique se vira de costas e começa a desencilhar a
imensa égua à nossa frente, fingindo não ouvir
meus berros.
A égua a quem apelidara de Moa não dava um
relincho sequer. Apenas eram ouvidos os meus
gritos ecoando pelo galpão e os trovões que
anunciavam o temporal que estava por vir.
Puxo Henrique pelo braço para que vire para me
encarar. Ele me lança um olhar furioso, seus olhos
negros me fuzilam, fazendo que eu me cale.
— O que quer que eu diga, “doutora Carolina
Ferraz”? — ele cospe meu nome quase como um
xingamento. — Você já deixou bem claro o quanto
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me odeia e odeia esse lugar. Então, por que você


não pega esse seu narizinho empinado e esse
traseiro e some da minha vida de uma vez?!
Àquela altura do campeonato, contar até mil para
tentar me acalmar era uma tarefa impossível. Eu
queria apenas esganá-lo com a maldita corda que
pendia sobre seu ombro musculoso e suado.
— Escute aqui, seu cavalão, você disse que eu
odeio tudo nesse lugar, mas odeio, principalmente,
você pelo que me fez passar nesse mês! Você pode
ser um partidão para essas vadias caipiras que não
podem ver você passar e já fazem chuva de
calcinhas. Para mim, você não passa de um
grosseirão, burro e teimoso.
Ele cruza os braços na frente do corpo e dá uma
gargalhada alta. Meus olhos me traíram e deram
uma espiada rápida nos músculos do peitoral
belamente talhado pelo trabalho duro.
Sinto meus saltos Prada afundarem um pouco mais
naquela palha fedida e nojenta que cobre o lugar.
Absolutamente tudo ali me irritava ao extremo, mas
o brucutu à minha frente fazia meu corpo ferver de
raiva em milésimos de segundos. Eu só posso ter
jogado pedra na cruz. Não... pior... para um carma
como esse homem, eu devo ter mijado na cruz.
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— E você, doutora? Cadê o seu marido? Até onde


minha baixa Inteligência me permite saber, a
aliança deve ser usada no dedo — me ataca com
desdém e segura minha mão esquerda no alto, me
ridicularizando pelo fato de eu carregar um par de
alianças em uma gargantilha que uso no pescoço.
— O pobre coitado não deve ter aguentado seus
chiliques.
Eu puxo minha mão da sua.
“Como ele ousa?”
— Esse mau humor todo deve ser falta de homem!
Filho da mãe cretino!
Minha mão direita estala com força em um tapa
forte em seu rosto, punição imediata pela maneira
como ele havia ousado falar do que não tinha
conhecimento. Minha mão doeu na hora em que
acertou seu rosto. Bom... dizer que doeu é apelido,
latejou com força e o formigamento doloroso se
espalhou pela palma, pontas dos dedos e pulso. Se
estivesse doendo nele um centésimo do que estava
doendo em mim, eu já ficaria feliz.
— Não sou homem que bate em mulher —
Henrique vocifera e me agarra pelos braços com
força, obrigando-me a olhar para ele. Seus dedos
afundam em minha carne. — Mas você está
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merecendo umas palmadas bem dadas nessa sua


bunda!
— Se você encostar em mim, eu arranco seu saco
com a faca que você leva na cintura — eu replico
sustentando seu olhar. Estamos tão próximos que
posso sentir sua respiração em bufadas quentes.
Ele é um selvagem. Deus, como o odeio.
— Isso é uma coisa que você gostaria de ver, não
é?
Uns trinta centímetros mais alto que eu e com uma
senhora quantidade de músculos, eu estou à sua
mercê, mas não me deixo intimidar por seu
tamanho.
— O quê?! — grito, tentando me desvencilhar de
seus braços.
— Eu vejo como você me olha. Posso até apostar
dinheiro que você está querendo meu pau
enterrando em você.
Desgraçado! Esse cavalão está se achando.
— Além de ignorante, é louco. Assim, você facilita
as coisas para mim peão. Vou alegar sua insanidade
e eu mesma vou me encarregar de vender essa
fazenda.
Eu acerto uma joelhada na parte interna de sua
coxa. Henrique me solta na hora e protege as partes
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baixas.
Droga! Queria ter acertado as bolas desse maldito!
— Nunca mais encoste em mim, ouviu? Eu odeio
você, Henrique!
Moa relincha alto e empina as patas da frente,
ficando apenas com as patas traseiras no chão.
— Agora me dá a porra da chave que eu vou voltar
para casa — ordeno em voz alta e estico a mão com
a palma para cima.
— Shiuuu... Calma, menina. — Henrique amansa a
égua e volta a me ignorar. — Essa vaca louca não
vai lhe fazer mal. Você já devia estar acostumada
com os gritos dela. Ela grita o tempo todo.
Como é que é?
Vaca louca?!
Esse peão não tem amor pela vida.
— Vá se foder, brucutu! — Não sou uma pessoa
que fala muitos palavrões, mas esse babaca tem o
dom de despertar o pior em mim. Em meu
cotidiano, eu estou acostumada a debater
civilizadamente e ganhar as disputas no tribunal
apenas com eloquentes e persuasivos discursos,
mas com ele ter qualquer conversa é praticamente
impossível! Será que já deu para perceber o quanto
eu o odeio?
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Saio pisando o mais duro que posso e paro na porta


do celeiro de madeira.
— Se estiver pensando em ir a pé, já te aviso antes,
quando a noite cai, as cobras aparecem. Então, faça
bastante barulho quando pisar com esses saltos para
tentar mantê-las longe.
Droga!
Não havia um ponto de luz no céu, uma vez ou
outra, relâmpagos clareavam por um segundo ou
dois. Eu não precisava ser uma caipira da fazenda
para saber que o céu estava prestes a desabar. Peão
maldito. Bufo furiosamente, rezando para que Jesus
tenha pena de mim e faça com que um raio caia em
Henrique.
— Quanto tempo você vai demorar? — grito sem
olhar para ele.
— O tempo que for preciso — retruca. — Pode ir
caminhando se estiver com muita pressa. Se
pegarmos pesado juntos, a coisa fica melhor.
O quê?
Esse peão está brincando com a minha cara!
Rio alto.
— Nem em mil vidas vou revirar bosta com você
— xingo, estreitando o olhar. Tento matá-lo apenas
com a força do pensamento.
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Henrique havia deixado, em cima de uns troncos


secos, seu chapéu e o molho de chaves.
Um sorriso malicioso como o do gato de Alice
surge em meu rosto.
Vamos ver quem vai voltar a pé para casa... Rio
comigo mesma e, a passos lentos, eu me aproximo,
afastando os mosquitos que só faltam fazer fila à
espera de sua vez.
Com o auxílio de uma pá, Henrique retirava palha
de um monte e a distribuía entre as baias dos
animais. Ele não usava camisa naquele momento.
Meu olhar se concentrou no movimento dos
músculos de suas costas à medida em que ele fazia
força, brilhava de suor. Meu olhar desceu um
pouco mais, parando sobre seu traseiro, apesar de
usar uma calça jeans e botas de cowboy, dava para
ver perfeitamente bem os músculos de suas pernas.
— Se tirar uma foto, vai poder ficar admirando
quando voltar para São Paulo.
— Vá se ferrar, peão! — eu xingo. — Você
precisaria reencarnar umas mil vidas antes de ter
alguma chance comigo.
Ele crava a pá no monte de feno e a deixa ali.
Enquanto caminha em minha direção, ele esfrega as
mãos na calça, tirando o excesso de sujeira.
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É um porco relaxado.
Ofego e meu coração martela no peito com sua
proximidade. Droga! Será que ele percebeu que
estou tentando furtar as chaves da caminhonete?
A pouco centímetros de mim, seu olhar se arrasta
pelo meu corpo, passando preguiçosamente pelos
seios, debaixo do collant, e param em meu quadril.
Ele umedece descaradamente o lábio e um sorriso
sacana se forma em seu rosto quando ele volta a me
encarar.
Henrique se inclina um pouco e estica o braço, que
roça em minha cintura. Fecho os olhos por um
segundo.
— Licença, doutora. — Ele ri. — Só precisava
pegar meu chapéu.
Cerro os dentes e bufo de raiva.
Peão maldito!
Moa relincha, e não sei por que diabos aquilo me
parece uma risada. Peão idiota! Égua idiota! Era só
o que me faltava.
Henrique acomoda o chapéu na cabeça e volta ao
trabalho com um sorriso de satisfação estampado
no rosto. Quando ele se vira, apanho as chaves e
corro para fora do celeiro na velocidade em que
meus lindos scarpins Prada me permitem.
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— Volte aqui sua peste. — Ouço ele me gritar à


distância.
Sinto um dos saltos se quebrando enquanto o outro
afunda na grama molhada pela chuva intensa que
cai.
—Merda!
Manco para o carro pisando em falso por causa dos
sapatos. O molho de chaves balança em minha
mão, estou nervosa demais para raciocinar. Olho
para trás e vejo Henrique me perseguindo em meio
ao temporal. O som dos trovões abafa os
xingamentos que ele provavelmente está gritando.
Consigo abrir a porta da caminhonete que deve ter
quase trinta anos. Bato o trinco e sorrio triunfante
ao ver que ele não chegou a tempo de me impedir.
Mostro a língua em um ato ligeiramente infantil,
mas dane-se, esse peão burro me tira do sério. Com
a boca, deixo que minha respiração quente embace
o carro.
— Saia daí, Carolina! — ordena já ensopado pela
chuva.
Com a ponta do dedo indicador, escrevo no vidro
que nos separa:
FODA-SE!
Não consigo parar de rir. Queria poder filmar a cara
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de ódio de Henrique, sim, essa cena deveria ser


eternizada.
Aceno divertidamente para ele e encaixo a chave na
ignição.
Ele soca a lataria da porta, e eu dou um pulo por
causa do susto.
Henrique vai até a frente do carro e abre o capô.
— Não, não, não! — grito quando percebo que ele
está sabotando minha fuga perfeita.
— Seu cavalão maldito! — xingo quando ele bate a
tampa metálica do capô.
A porra da caminhonete velha não liga e não tenho
dúvidas de que é graças a um cabo arrancado que
ele exibe na mão direita como um troféu. Meus
ombros caem e um ar de derrota me invade.
— Abra! — rosna sem paciência.
Eu bufo contrariada e, apesar de não ter nada que
marque quanto tempo eu o deixei ali na chuva
esperando, eu sabia que era o suficiente para ele
botar em prática as palmadas que ele havia me
prometido há menos de uma hora. Merda, eu havia
cometido o erro fatal, eu havia subestimado meu
inimigo.
Fiquei o encarando através do vidro, sustentando
seu olhar, como feras, nenhum de nós queria
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recuar. Talvez a única coisa que temos em comum


seja a teimosia.
O quê? Eu não acredito que admiti isso, mesmo que
mentalmente.
Destravo o pino. Henrique abriu a porta e me
arrancou de dentro do carro com uma velocidade
que quase não vi como ele havia feito aquilo.
— Odeio você! — Sua voz é dura como aço.
— Odeio você infinitamente mais — Retruco com
raiva.
Ergo os punhos fechados para acertar seu peito nu e
afastá-lo com a intenção de sair correndo, mas ele é
mais rápido e me segura pelos pulsos, prensando
seu corpo duro contra o meu, fazendo minhas
costas se chocarem com a lataria da caminhonete.
Abro a boca para protestar, mas o grosseirão
atrevido me cala com um beijo duro e possessivo.
Sua língua invade minha boca explorando cada
milímetro meu, sugando minha língua,
mordiscando meus lábios, eu poderia mordê-lo,
mas minha única reação foi me entregar àquele
beijo feroz. Se é que aquilo poderia ser chamado de
beijo, nossas línguas brigavam sensualmente em
uma disputa por território. E quando dei por mim,
eu já estava deslizando minhas mãos por seus
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músculos molhados enquanto ele continuava a me


possuir com os lábios, sim, essa era a palavra
adequada, possessão.
Maldito corpo, eu havia sido traída por mim mesma
quando descobri que meu corpo estava clamando
por seu toque bruto. Aquele era o início do fim de
tudo o que eu acreditava, eu apenas não sabia.

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Prólogo
Isa Oliveira Brandão

Espalhei a farinha sobre o tampo de granito,


remoendo em voz baixa nossa última briga.
— Você não faz nada direito... Tem que retrucar
cada palavra que eu digo? — eu resmungo tentando
imitar sua voz.
Tiro a massa do pão da tigela de vidro e começo a
socá-la com força. Eu esmurro a bolota de massa
crua, descontando toda minha raiva ali.
— Quer me demitir, seu cachorro? — Soco de
novo, dando golpes fortes até que minhas mãos
formiguem. — Sinto muito — soco de novo — se
eu não consigo falar na porra do tom que você está
acostumado. — Aperto e estico a massa outra vez.
Salta farinha para todos os lados.
— Então me demita, cachorro safado. — Bofetada
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no pão.
— Eu — bofetada — te... — Antes que eu desça a
mão para concluir a última surra no pão em que,
mentalmente, apelidei de Nick, sinto meu pulso ser
segurado no ar, impedindo que eu aplique o último
golpe.
Nick me vira com um puxão sem soltar meu braço.
— Você o quê? — Ele me encara, sinto o calor
irradiando pelo corpo dele, o imenso e musculoso
corpo de Nick.
— Solte-me — eu ameaço.
— Temos assuntos mal resolvidos. — Sua voz é
firme, mas ele mantém o mesmo tom controlador
de sempre.
— Não tenho merda nenhuma para tratar com você,
nós não somos mais amigos, na verdade, nunca
fomos. Você é apenas o meu chefe e minha única
função é limpar a casa e cuidar do seu filho —
respondo quase aos gritos.
— Por que se esforça tanto para me manter longe
de você quando eu tenho exatamente o que o seu
corpo precisa?
— Ah... Vá tomar bem no meio do seu cu, Nicolas
— me descontrolo. — Eu sou sua empregada, nem
mais nem menos. Agora, solte a porra do meu
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braço antes que acerte uma joelhada bem dada nas


suas bolas, aí, sim, você vai ver o que é bom pra
tosse.
Ele ri como se eu não tivesse coragem, e o deboche
dele é o suficiente para me deixar de sangue
quente.
Eu tento acertá-lo, mas ele desvia de meu golpe e
agora me prensa contra a bancada, usando seu
corpo para me manter ali, encurralada.
— Passou perto — debocha.
A última chance que tenho é usar a mão esquerda
que ainda está livre para estapeá-lo com força,
aquele tapa estalado que a gente vê nas novelas.
Tento atingi-lo, mas ele me impede outra vez.
— Solte-me, filho da puta — eu rosno.
Nick segura meus dois pulsos com força suficiente
para que eu não consiga me soltar e se coloca entre
minhas pernas para que eu não possa chutá-lo.
— Tire essas ferraduras, Isa — ele brinca.
Maldito, por que ele está tão feliz, não vejo a hora
de tirar o sorrisinho da cara dele.
— Vou te mostrar as ferraduras já, já, quando eu
enfiar a porra desse rolo no teu cu.
Nick ainda está sem camisa. O corpo suado e
quente pressionado contra o meu.
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— Não sei como uma boca grossa e gostosa como a


sua pode ser tão desaforada. — Ele olha para meus
lábios. — Ele sorri outra vez, exibindo dentes
brancos e alinhados.
— Por que não me dá ao menos um beijo de
aniversário?
— É fácil, seu imbecil. Porque eu não sou dessas
que você está acostumado a pegar e jogar fora.
— Um beijo inocente, e eu a solto — ele propõe,
inclinando a cabeça de leve para o lado, a ponto de
quase encaixar a boca na minha. — Só um.
Antes que eu pudesse mandar ele lavar o furico e
me deixar em paz, Nick abocanhou meus lábios,
seus lábios tinham um sabor fresco de hortelã e
pêssego. Pela primeira vez na vida, eu fiquei sem
palavras, sem reação e com os sentimentos à flor da
pele. Todo o ódio que eu nutri por ele esses meses
se transformou em desejo, louco e sedento, para
que aquele beijo não terminasse jamais, porque o
sabor dos lábios do Nick e a forma dura e
apaixonada como ele me beijava era intensa
demais, insuportavelmente sufocante, e eu sabia o
que ele estava fazendo, arrancando minhas defesas.
À medida que ele tomava meus lábios, eu me via
mais perdida, um sentimento avassalador como
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aquele mudava tudo.


Porra! Ele tinha o beijo mais gostoso do mundo, e
olha que eu já tinha beijado pra caramba na
adolescência, e o meu ex, o Jorge, também tinha
jeito para a coisa, mas beijar desse jeito jamais.
As mãos que antes imobilizavam meus pulsos
tomavam outro rumo; uma, embrenhava-se em
meus cabelos, e a outra, agarrava minha cintura, me
pressionando ainda mais contra seu corpo. Já as
minhas, continuavam caídas ao lado do meu corpo,
porque eu não tinha controle algum sobre mim
naquele momento. Eu sei que a poucos minutos eu
estava querendo chutar seu saco e dar uns bons
tabefes, daqueles que fazem a palma da mão
arder... mas agora... agora, minha amiga confidente,
eu só estou louca pela intensidade daquele beijo,
furioso, quente e louco.
O problema todo era o que viria a seguir, talvez
fosse o motivo pelo qual eu resistia tanto a ele,
sempre fui uma mulher absoluta, meio termo não é
algo que faça parte da minha vida, comigo é oito ou
oitenta, e o que estava acontecendo naquele
momento me deixaria totalmente despreparada para
o que aconteceria a seguir.
Contos de fadas e “Felizes para sempre” a gente só
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vê nos filmes e livros. Na vida real, a porra toda é


bem diferente e, agora, eu estava lá, deixando Nick
dominar meu corpo e minha mente com aquele
único beijo. Eu bem que tentei, tentei com todas as
forças, caralho, você será testemunha do meu
tormento.
Se eu soubesse que doeria tanto, se eu tivesse o
poder de voltar no tempo e dizer a mim mesma:
corra, vá para bem longe dele, eu diria, porque se
eu soubesse o que o futuro me guardava, eu jamais
teria aceitado esse emprego, jamais teria deixado
Nick mexer comigo dessa maneira.
Porque, quando eu amo, eu me entrego, e Nick
seria o homem que me destruiria por completo, ele
não sabia disso ainda, porra, nem eu sabia.
Nick desceu as mãos por minhas costas, acariciou
meu traseiro com um apertão e me ergueu, fazendo
com que eu me sentasse na bancada fria.
— Nick, por favor — disse quase sem fôlego
quando ele descolou os lábios dos meus por um
segundo ou dois.
— Cale a boca, Isa, cale a boca e me beije.
Caralho, aquele era o início do fim. Só que o mais
ferido de nós dois seria a besta que vos fala, e não o
gigante sexy barbudo e com longos cabelos cor de
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mel. Mas me diga, quem ouve a voz da razão


quando está com tesão e zonza de paixão? E
euzinha não era uma exceção.
Por isso, eu deixei, foi assim que eu sucumbi ao
desejo insano, aquela noite ficaria gravada na
história, na nossa curta, quente e conturbada
história de amor.

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Sinopse

Maxwell era conhecido como a perdição entre as


mulheres, um luxo que poucas podiam se dar ao
desfrute de possuir. Ele estava disposto a realizar
qualquer fantasia sexual, mas é claro, cobrava caro
por isso.
Quando ele passou pela porta do luxuoso quarto de
hotel achou que a ruiva a sua frente era apenas mais
uma mulher atrás de uma noite de sexo espetacular.
Rebecca Parker queria muito mais, ela queria
aprender com o melhor, e faria de tudo para tê-lo
como seu professor.

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Prólogo

Eu trabalhava há um ano na hot dreams e estava


perdidamente louca por meu chefe. Pense em um
homem gostoso e lindo de morrer. Agora,
multiplique por um bilhão, aí então você terá uma
rasa noção da beleza do Chris. Um e noventa de
pura gostosura, músculos lindamente bem
distribuídos em um porte atlético perfeito; na pele,
um bronzeado dourado; os cabelos em um loiro
mel, harmonizando com os traços de sua beleza
nórdica. Era um absurdo um homem ser bonito de
tal jeito. Minha melhor amiga, Rebecca, dizia que
ele era a cara do ator que faz Thor, mas, para mim,
ele era muito melhor. Acreditem ou não, até um
romance eu escrevi pensando nele.
— Chefinho. Tenho uma coisa pra pedir, mas você
tem que ter mente aberta. Promete?
Chris se reclina na cadeira e puxa os cabelos loiros
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com a mão, e, em seus olhos, vejo um brilho de


curiosidade.
Respiro fundo e torço para que a ideia de Max saia
como planejado.
— Estou trabalhando em um projeto novo. —
Sorrio e umedeço os lábios. — É ousado, mas é
completamente novo.
Inspiro fundo, criando coragem, enquanto ele
continua a se arrumar a poucos metros de distância.
— Seria um Kama Sutra mais ousado, envolvendo
itens escolhidos pelas leitoras e, a partir daí,
desenvolver uma história em cima desse ambiente
sexual. Minhas leitoras tem muita curiosidade sobre
isso, acho que vai ser bem bacana, se você puder
me ajudar com isso.
Eu observei os movimentos de meu chefe com
demasiada atenção. Ele andava pela sala com a
camisa aberta até metade do peito, deixando à
mercê de minha imaginação o que viria logo abaixo
do peitoral musculoso e definido. Um tanquinho
dourado e trincado de músculos? Tatuagens?
Me ergui da cadeira e caminhei até Chris,
lembrando do primeiro conselho de Max:
"Segurança. Mostre para o bastardo a mulher
decidida que você é, mas não demais pra não
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assustar o cara....”
Minhas mãos estavam tremendo, e minha vontade
era chegar mais perto e fazer o nó de sua gravata,
ou, melhor ainda, abrir com violência os botões que
mantinham a camisa branca fechada, me impedindo
assim de ver o que minha mente fértil não parava
de imaginar.
Dei alguns passos e me esforcei para parecer
despretensiosa quando fizesse a pergunta.
—Por acaso esconde alguma namorada que
desaprovaria minha proposta?
Um sorriso surge em seu rosto e meu corpo inteiro
se aquece com a ideia do que aquela boca seria
capaz de fazer.
— Não, Sel. — Sel... só ele me chamava desse
jeito, e eu? Me derretia todinha, lógico. Ele espirra
o perfume contra o peito. Um aroma agradável
chega até mim.
Queria ter a visão de uma ave de rapina pra
enxergar o nome da fragrância. Eu compraria um
igual, borrifaria no meu travesseiro e dormiria
agarrada sentindo o cheirinho dele...Patético, eu
sei...
Ele colocou o frasco sobre a mesa de carvalho e
voltou a falar.
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— Minhas relações são bem mais simples: eu pago


por noite. E isso dispensa qualquer tipo de ligação
no dia seguinte... E qualquer outro inconveniente
que qualquer namoro envolveria.
Nesse momento, eu quis dar um tapa bem forte
naquela cara estupidamente linda, mas a voz de
Max me aconselhou e eu disse por fim:
— Achei que tivesse a mente aberta o suficiente. —
umedeço os lábios e o encaro. — Talvez Max tenha
algum amigo que possa me ajudar com isso.
— Max? Nem me fale desse cara, Becca arrumaria
coisa muito melhor — Sinto uma fisgadinha de
ciúmes e volto para meu lugar.
Rebeca era minha melhor amiga, mas, muito antes
disso, ela passou por maus bocados quando saiu da
casa dos pais. Acredite ou não, ela contratou um
homem para lhe ensinar sobre sexo. Como se essa
história já não fosse complicada o suficiente, Chris,
meu chefe, contratou Becca mais tarde, mas, sei lá
eu como, ela teve coragem de sair correndo da suíte
de hotel.
Essa não! Percebi um fio puxado subindo pela
coxa! Calma Sel, isso não é motivo para pânico!
Você tem questões muito mais importantes agora
do que isso!
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Com as mãos cruzadas sobre o colo, arrependida


até o íntimo da alma por ter escolhido colocar saia
e meia calça, eu discretamente tento encobrir o fio
puxado da peça.
Volto minha atenção para o semideus nórdico e
Nossa ... eu ainda não havia me acostumado com
sua beleza máscula e o ar juvenil que tomava seu
rosto quando ele sorria assim.
Eu me levanto e sorrio, meio sem graça, rezando
mentalmente para que um raio certeiro caia bem em
cima de mim neste momento. Só Max para me
convencer que esse era um bom plano.
— Se for se sentir melhor, pode esquecer que
tivemos essa conversa. Vou conversar com o John
sobre assunto. — Forço um outro sorriso e puxo
meus cabelos castanhos para o lado. — Já não está
mais aqui quem falou. Com licença.
Me viro e sigo em direção a porta, as pernas mais
bambas que pudim mole.
— Selena.
Eu me viro para encará-lo. Sr. Fox se ergue de sua
cadeira e caminha até mim.
— Esquece Chris, eu só pedi para você porque,
além da Becca e do Max, você é o único que
conhece o meu pseudônimo.
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Me viro outra vez e toco a maçaneta.


— Você não vai nem esperar a minha resposta?
Sinto minhas bochechas arderem e o coração bater
com força no peito. Vai, Deus, me mata agora. Se o
Senhor existe, seja certeiro com esse raio.
— Deixe-me ver se eu entendi direito: nós vamos
transar e usar os brinquedos eróticos que suas
leitoras sugerirem, é isso?
— É ... basicamente isso.
Chris dá um sorriso sacana.
— É ousado e provocante. Confesso que fiquei
surpreso, mas a o apelo comercial disso... — Ele
olha para minha boca enquanto fala — é bom estar
preparada para ter o nome no USA Today e no
Times.
— Então, você topa? — Minha voz sai quase num
sussurro.
— Se é para fazer isso, que façamos direito então.
— a proximidade e o tom de sua voz quando
engatou a mão entre meus cabelos e me fez olhar
diretamente para ele, fez meu corpo inteiro
amolecer e minha calcinha encharcar.
Ele já visitava meus sonhos todas as noites, mas
nada que eu já tinha lido ou escrito me prepararia
para o que viria a seguir.
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