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Ficha técnica

Autores Diego da Silva Moura


Diego Moura Murillo Pissoli Chamusca
Murillo Chamusca Thiago Sichieroli de Oliveira
Thiago de Oliveira
Orientadores Professores Dr.ª Rosana Schwartz e Ms.
Professores Dr.ª Ro Carlos Sandano

Colaboração Amelinha Teles, Ana Bursztyn-miranda,


Ariel Castro, Elio Gaspari, Jessie Jane,
Luci Buff, Lucio França, Luiza Erundi-
na, Maria Sallas, Rosa Maria Cardoso,
Rosalina Santa Cruz, Rose Nogueira,
Thais Barreto

Fotografia Diego da Silva Moura


Thiago Sichieroli de Oliveira

Designer Gráfico João Guilherme Mascarenhas

Ilustrador Paulo Stocker

Revisão Monique Buzatto dos Santos

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ÀS PORTAS DO INFERNO 05

UM GOLPE, VÁRIOS DESTINOS 23

UMA NOITE FEMININA 71

CULPADA POR SER MÃE 111

Sumário AS POETISAS GUERRILHEIRAS 149

CAMINHOS OPOSTOS, MESMO DESTINO 211

PASSADO AINDA PRESENTE 245

RAPAZES FALAM DE MULHERES 273

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 289

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Às portas do inferno Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Às portas
do inferno

Lasciate ogne speranza, voi ch’entrate.

(Inf. III, V. 9)

Deixai toda esperança, ó vós que entrais.

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Às portas do inferno Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Na entrada do inferno dantesco, sempre de portas escancara- sileira podia dar suporte a essas visões.
das para quem quiser descer e entrar, mas impossível de retornar, Os próprios militares que cometeram a “heresia” de se afastar
um aviso é colocado: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais.” do regime, colocando-se contra ele, foram torturados. Traidores
Nas sessões de interrogatório durante a ditadura militar brasileira do país, os chamados “subversivos”, em sua maioria militantes de
(1964-1985), este parece ser o sentimento daqueles que foram tor- esquerda, eram tratados como escória humana. Estuprados. Es-
turados física e psicologicamente. Com tamanha crueldade e sa- pancados. Humilhados. Mortos. As marcas físicas, com o tempo,
dismo que poderia ser inserido em um dos nove círculos infernais foram se curando na medida do possível: ou a pessoa se adaptava
escritos por Dante Alighieri. às sequelas e seguia a vida ou punha um ponto final nela. Contu-
A vontade de morrer e acabar com aquilo falava mais alto. do, os danos psicológicos de sofrer e presenciar aqueles horrores
Muitos sucumbiram a esse sentimento e se suicidaram durante ficaram vivos até hoje. Nunca saber a verdadeira história do desa-
ou após a prisão, como Solange Lourenço Gomes, uma das parecimento de um irmão; ficar longe de um filho recém-nascido;
personagens deste livro. perder a capacidade de engravidar; ser mostrada aos filhos espan-
Sob o lema “Segurança e Desenvolvimento”, o ditador e general cada após ser torturada são algumas das histórias que serão con-
Emílio Garrastazu Médici, que governou o Brasil de 1969 a 1974, tadas neste livro-reportagem feito como Trabalho de Conclusão
desenvolveu um aparato de órgãos “de segurança, com caracterís- de Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, da
ticas de poder autônomo, que levará aos cárceres políticos milhares Universidade Presbiteriana Mackenzie. O profissional de jornalis-
de cidadãos, transformando a tortura e o assassinato numa rotina”, mo trabalha com a memória de proximidade temporal, auxiliando
como bem conta o livro Brasil: Nunca Mais, uma investigação so- na construção da História ao ser uma fonte de documentos para o
bre casos com histórias de vítimas da repressão. futuro e por contextualizar e discutir o agora e suas conexões com
Crianças. Mulheres. Homens. Todos sofreram atrocidades nos tempos distantes.
braços da repressão, por meio de suas organizações: o DOI-CODI Com a instauração da Comissão Nacional da Verdade (CNV)
(Destacamento de Operações de Informações - Centro de Ope- pela presidente Dilma Rousseff em 2011, a temática ganhou desta-
rações de Defesa Interna) e o DOPS (Departamento de Ordem que na agenda da mídia, enquanto trabalhos realizados pelas Co-
Política e Social) espalhados pelo Brasil - inclusas aí a Operação missões de Anistia e a de Familiares de Mortos e Desaparecidos,
Bandeirante, que seria incorporada ao DOI-CODI, e as “Casas além de grupos como o Tortura Nunca Mais, caiam no esque-
da Morte”. cimento deste limbo democrático o qual ainda vivemos. Muitas
O inferno estava aqui no Brasil aos olhos da sociedade, e não brasileiras e muitos brasileiros, dos mais jovens até aos mais velhos,
é justo, portanto, dizer que as torturas eram feitas “nos porões”. não conhecem esse passado e suas consequências para o Brasil,
Boa parte do país sabia, mas preferia ignorar, muitas vezes por como a cultura da violência policial e militar nos períodos de dita-
medo, é verdade, e outras vezes por preconceito, permanente até dura – nas décadas de 1930 (Governo Vargas) e 1970 (militares) - e
no período democrático brasileiro. Retomar a vida após a prisão uma corrupção desenfreada dos mais diversos segmentos políticos,
não era fácil. Além do mais, a crença de que o regime combatia não se restringindo exclusivamente à esquerda ou à direita, hoje
comunistas, subversivos, terroristas, comedores de criancinhas que ressignificadas ideologicamente.
queriam instalar um regime stalinista e acabar com a família bra- Há necessidade de o país reconhecer e contar o seu passado,

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Às portas do inferno Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

reforçando nossa democracia. Precisamos passar pelo purgatório Teles, Ana Bursztyn-miranda, Jessie Jane, Maria Sallas, Rosalina
antes de alcançarmos o paraíso, ou ao menos saber “verdades” Santa Cruz e Rose Nogueira. Indiretamente, além de suas próprias
sobre a nossa História. As múltiplas faces da verdade nada mais histórias, essas mulheres trazem dezenas de personagens conecta-
são do que os frutos de um trabalho decorrente da checagem de dos de maneira indissociável às suas vidas.
documentos escritos, imagéticos e orais, traduzidos pelo olhar de E sim, este livro defende um lado. Não foram apenas as unhas – As
quem a escreveu, abrindo inúmeras interpretações sobre o tema; mulheres no inferno da ditadura está do lado das mulheres barbara-
seja por questões geracionais ou de gênero, por exemplo. Assim, os mente torturadas e contra seus algozes. Seus carrascos escreveram a
depoimentos dos envolvidos no período militar para a Comissões história e pactuaram durante a transição democrática. E ao contrário
geram um movimento entre passado e presente, uma memória, do que disse o cantor Lobão, em uma palestra na cidade de São Paulo
uma verdade. em 2011, não foram apenas umas “unhazinhas arrancadas”. Foram
Mas será que ele é efetivo? Como têm sido os trabalhos das Co- choques, espancamentos, esterilizações, situações limite.
missões da Verdade no Brasil? Como os personagens envolvidos Empregamos nossa subjetividade (e das mulheres que nos abri-
diretamente veem os resultados? ram suas dolorosas histórias), impressões que carregamos e, de ma-
Para responder a essas perguntas, não deixamos de ter em mente o neira involuntária, grande influência de nosso meio social e de nos-
que nos contou o historiador Eric Hobsbawm em seu livro A história so tempo. Isso abraçamos de Marialva Barbosa. Já em Jacques Le
do tempo presente. Temos consciência de que os aspectos “geracionais” Goff emprestamos “a crítica da noção de fato histórico”, que não é
que permearão o texto - ou seja, a dificuldade das gerações em perceber objeto “dado e acabado” já que é produto da “construção”, somado
“intuitivamente” como era o mundo antes - se fazem presentes. Neste ao fato de que “documento não é um material bruto, objetivo e
caso, sabemos não ter a visão de cidadãos que viveram e sentiram as inocente”. Especialmente o testemunho, amplamente utilizado nos
consequências diretas do período ditatorial brasileiro, mas tentaremos trabalhos da Comissão da Verdade e na construção deste livro.
aproximar o leitor dessa sensação por meio da narrativa. Este livro-re- A lembrança “pessoal” está impregnada de “pontos de referên-
portagem foi realizado no andamento dos trabalhos das comissões, en- cia” bastante subjetivos e interiorizados: “aos sons, aos cheiros, às
quanto a história está sendo desvelada e construída, com depoimentos cores.” “Dessa forma,” continua Barbosa, “essas imagens, sejam
e o entrelaçamento de uma grande diversidade documental, um dos nos filmes ou nas fotografias, tornam-se instrumentos poderosos
desafios de se trabalhar com a história do presente. para os rearranjos sucessivos da memória coletiva (...)”.
Neste cenário, optamos por fazer, primeiramente, um livro con- E partimos da premissa de que há certo descaso com as histó-
tendo o perfil dos sete comissionários da Comissão Nacional da rias das mulheres que lutaram contra a ditadura. Uma das razões
Verdade. Contudo, essa ideia se dissipou e, após uma audiência para isso pode ser resultado da quantidade relativamente pequena
da própria CNV em conjunto com a Comissão da Verdade de São de pessoas do gênero feminino que tomaram parte no combate
Paulo sobre violência de gênero, decidimos realizar uma releitura em organizações de esquerda. De acordo com dados do Projeto
de casos de mulheres torturadas durante a ditadura militar, pois Brasil: Nunca Mais, citados por Marcelo Ridenti em seu estudo As
achamos mais pertinente para o exercício da cidadania e de nossas mulheres na política brasileira: os anos de chumbo, para Revista de
profissões, fora nossa satisfação em poder contar histórias de mu- Sociologia da USP, sobre a participação feminina em movimentos
lheres tão fantásticas. Escolhemos como entrevistadas: Amelinha favoráveis e contrários à ditadura militar, nos anos 1960 e 1970,

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dos 4.124 processados pelo governo por fazerem parte de movi- de expansão das universidades e especialmente de aber-
mentos de combate ao regime, 3.464 (84,0%) eram homens. tura dos estudos universitários às mulheres. Importante
O estudo de Ridenti também é utilizado no livro de Luiz lembrar ainda que cursos como Ciências Sociais, Histó-
Maklouf Carvalho Mulheres que foram à luta armada, no qual se ria, Filosofia, Letras e Psicologia eram aceitos como viáveis
afirma que o porcentual de mulheres nas organizações de esquerda para as mulheres e, por outro lado, pelo cunho político de
variava entre 15 a 20%. Por exemplo, na Ação Libertadora Nacio- sua discussão disciplinar, eram muitas vezes focos de recru-
nal (ALN) 76 mulheres foram processadas, representando 15,4% tamento para o movimento estudantil.
da organização; o Partido Comunista do Brasil teve 18,1% (47) e
a Vanguarda Popular Revolucionária, por sua vez, 24,1%, com um Ainda de acordo com Wolff, percebendo este fato e as potencia-
total de 35 mulheres processadas. Carvalho ainda pondera que a lidades “subversivas” que as universidades poderiam comportar, o
presença feminina estava limitada a alguns estados, no caso São governo brasileiro passou a vigiar com mais rigor o ambiente acadê-
Paulo, Rio de Janeiro e poucas capitais nordestinas. mico, propenso a agentes infiltrados e políticas de delação.
Aqui propomos “desmasculinizar” o termo “sujeito histórico” e Mas nem toda participação feminina foi em organizações de
inserir as mulheres como “sujeitas históricas”, um grande desafio, esquerda. Ridenti também analisa o papel que tiveram as mulheres
pois este livro é escrito por homens. do outro lado do combate: à direita e defensoras do golpe civil-
Mas quem eram e o que faziam essas mulheres atacadas pelo militar. Ele nos conta que mulheres saíram às ruas para dar legiti-
Estado brasileiro? É interessante notar que parte significativa da midade e sustentação à tomada forçada de poder. Porém esse mo-
parcela menos abastada foi incriminada por ter alguma relação vimento feminino já começara anos antes, corroendo as beiradas
com participantes de movimentos antiditadura – mães, irmãs ou do governo do presidente João Goulart. O ápice foi a “Marcha da
esposas – e não tinha ação direta em atividades ditas “subversivas” Família com Deus pela Liberdade”, que culminaria com o golpe.
pelos militares, “ao contrário das mulheres intelectualizadas pro- As senhoras estavam na linha de frente. “É a ‘mulher-mãe-dona-
cessadas, as quais, em geral, participavam ativamente das ações da de-casa-brasileira’ que anuncia à nação, com grande estardalhaço,
esquerda, inclusive das armadas. Apenas 10 das processadas eram sua disposição de deixar a proteção do lar e se lançar às ruas e
trabalhadoras manuais, rurais e urbanas”, diz Ridenti. praças públicas”, diz.
E as estudantes e professoras perfaziam a maior parte das denun- Associações de mulheres se formaram. As “mães de família” que
ciadas pelo Estado: 52%. Portanto, infere-se a partir deste dado derrubaram Jango agora tinham que legitimar o golpe. As mulheres
que o movimento estudantil, especialmente entre os anos 1966 e foram “manobradas” para “a intervenção militar aparecer como fruto
1968, foi fundamental para a formação da parcela feminina que de um ‘chamamento popular’ contra a ação dos ‘comunistas’ e dos
combatia entre as esquerdas. ‘corruptos’”. Entretanto, o que era para ser temporário permaneceu:
Podemos saber disso pela leitura de Joana Maria Pedro e Cristi-
na Scheibe Wolff na obra Gênero, feminismos e ditaduras no Cone Na medida em que este se perpetuava e [o regime] cres-
Sul. Segundo as autoras: centemente se militarizava, sem solucionar imediatamente
a crise econômica, exacerbando seu caráter repressivo, o re-
As décadas de 1960 e 1970 foram mesmo um momento gime tendia a perder suas bases de apoio popular, de modo

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Às portas do inferno Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

que as associações de mulheres golpistas ficavam cada vez em cargos de direção etc, afirma Ridenti. Apesar destes avanços,
mais isoladas e suscetíveis a cisões internas desagregadoras. a liberação feminina não era pauta naquele momento, queriam-
se construir “homens e mulheres novos”, em uma nova sociedade
De volta às mulheres de esquerda. O exílio delas teve papel fun- brasileira. Esses “homem e mulheres novos” eram inspirados em
damental na criação de uma consciência legitimamente “feminis- sociedades nas quais o comunismo/socialismo havia vingado: a
ta” e, a partir disso, passaram a questionar – ou pelo menos perce- cubana e a soviética.
ber – o machismo que infiltrava as organizações de esquerda. É importante assinalar que apesar de a mulher ocupar papéis na
A militante Sonia conta a Albertina Costa, em Memórias das linha de frente e, às vezes, em posições de comando ou com certa
mulheres no exílio, que alguns pensavam nas mulheres como inca- voz de discussão, a ela eram reservados papéis considerados social-
pazes de realizar determinadas ações. Então, segundo ela, algumas mente “femininos”. É o que conta Vera Sílvia Magalhães a Ridenti,
vezes, faziam determinadas coisas movidas “muito mais por uma ex-militante carioca que chegou a comandar o MR-8:
necessidade de afirmação como mulher dentro daquele grupo do
que por um ideal político”. Eu era mulher, portanto, fazia todos os levantamentos
Em depoimento no livro Mulheres que foram à luta armada, com o papel de mulher que a sociedade me atribuía. Por
Sônia Lafoz afirma que “as próprias organizações questionavam a exemplo, eu seduzia o gerente do banco para uma con-
participação da mulher em determinadas atividades (sem pegar em versa, para ir jantar à noite, saber as informações do dia
armas)”, tornando complicada a conquista do espaço. Ainda no li- de pagamento, etc. Eu que me virasse, se não quisesse dar
vro de Carvalho, Lafoz dá o exemplo de Darci Rodrigues, sargento o desfecho àquela conversa inicial, o que evidentemente
desertor, importante no quadro militar da VAR e amigo pessoal de não iria querer. O interesse era só pelas informações. Mas
Lamarca, no qual afirma: “o Darci era machista – ‘Como é que a vivi situações bastante complicadas, sozinha.
gente vai fazer com mulher menstruada na guerrilha’, costumava
perguntar”. Mesmo assim, considera que havia um grande respeito Ernesto Che Guevara, em seu livro Guerra de Guerrilhas - que
entre os dois. dá inúmeros detalhes acerca da Revolução Cubana – trata, em um
A primeira vez que uma mulher participou da linha de frente em subcapítulo, sobre o papel que teve a mulher para o processo re-
uma ação foi no dia 1º de agosto de 1968, quando Renata Guerra de volucionário. O líder guerrilheiro considera que as mulheres são
Andrade tornara-se a “loura dos assaltos”. Segundo a própria militan- capazes de lutar ao lado dos homens, todavia têm funções menos
te, no livro de Luiz Maklouf Carvalho, a organização (VPR) a utili- envolvidas com o combate direto: enfermeira, médica, mensageira.
zou para mostrar que havia mulheres dentro da esquerda brasileira. No quesito de legitimação de status quo, a imprensa teve res-
Porém, se por um lado existe este machismo, reinante na socie- ponsabilidade significativa. Episódios relativamente recorrentes
dade brasileira e, consequentemente, incutido nos homens comba- tratavam de estereotipar inúmeras mulheres que participaram de
tentes dentro das organizações de esquerda, além de certo moralis- ações armadas: “bela do terror”, “loira dos assaltos”, “loura da
mo, por outro houve espaço para a quebra de alguns paradigmas: metralhadora”. Era a mulher acusada de ser mulher, já que as
serviços domésticos divididos, questionamentos de natureza sexual acusações “criminais” eram ralas e superficiais nas páginas dos
(fim da monogamia e virgindade feminina, por exemplo), mulheres periódicos, como nos diz Albertina de Oliveira Costa em Memó-

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rias das mulheres do exílio. ra afirmam que os principais “pecados” da mulher brasileira aos
Um exemplo disso ocorre em uma passagem do livro de Luiz olhos dos repressores eram “se insurgir contra a política golpista,
Maklouf Carvalho com uma matéria da revista Veja na edição de 27 fazendo-lhe oposição e de desconsiderar o lugar destinado à mu-
de novembro de 1968: “As formas e as medidas, as covinhas e as per- lher, rompendo os padrões estabelecidos para os dois sexos”.
nas de uma loura nunca vista estão sendo permanentemente analisa- Gebara traduz o tratamento que as mulheres tiveram e o que
das com rigor pelos investigadores de uma delegacia de subúrbio”.
Ivone Gebara, teóloga e estudiosa de gênero, alerta-nos para Ouviram de seus algozes: ‘Puta, você está aqui porque
o funcionamento da “verdade histórica” que “quer na sua rela- quer’ ou ‘Puta, você saiu do fogão e agora paga’. Muitas
ção com as coisas simples da vida cotidiana, quer na religião, na de nós fomos penalizadas porque ocupamos lugares con-
política e nos cárceres é marcada pelas relações de poder entre siderados impróprios às mulheres porque eram possessões
mulheres e homens”. Portanto, como vimos acima, a proporção masculinas garantidas pela natureza. Sem dúvida uma
de homens e mulheres na luta armada tem ampla relação com concepção patriarcal de natureza que ainda subsiste em
a própria sociedade brasileira e mundial ao desvendarmos o que muitos meios.
comporta a relação entre gêneros: o poder.
Os papéis sociais reservados ao que era considerado ser homem O estudo de tal violência abrange aspectos mais traumáticos do
e mulher, visíveis na sociedade em geral, eram reproduzidos na que em relação aos homens, principalmente no que se refere à for-
esfera das organizações de combate à ditadura. Para “não despertar ma de violação sexual e à utilização da maternidade e dos filhos
suspeitas” ou evitar falatórios, casais que atuavam juntos nas orga- como instrumentos de terror psicológico. Veremos nas histórias
nizações tinham que reproduzir com maestria as funções sociais contadas aqui os estragos provocados pelas torturas, com destaque
que eram designadas ao masculino e ao feminino. para as feitas “sob medida” para o gênero feminino.
Outro ponto interessante a ser destacado é que por mais que “a Para a teóloga Ivone Gebara, o agressor revela uma intenção
moral e os bons costumes” sejam, por tradição, ligados ao conser- de reduzir a mulher “a pedaços, entregue, submissa, gemendo
vadorismo, à direita e, portanto, à ditadura (isso no imaginário quase sem vida”, e sangrá-la “provoca uma complexa mistura de
coletivo), havia uma preocupação significativa com o comporta- poderes e sentimentos”.
mento dentro de determinadas organizações de esquerda. “A essa “A mulher violada frente ao violador deixa de ser um ser hu-
‘questão moral’ que envolvia especialmente as práticas sexuais e mano semelhante e diferente. Deixa de ser parecida com a mãe, a
também as maneiras como as mulheres deveriam se portar”, diz esposa ou a filha para tornar-se coisa, objeto a ser subjugado e con-
Wolff. Algumas organizações, extremamente moralistas, puniam tido à força”. E Gebara prossegue: “denunciar os crimes cometidos
com advertências e até mesmo com expulsão quem, por exem- contra as mulheres nas prisões da ditadura é denunciar ao mesmo
plo, mantivesse relações sexuais com parceiros diferentes do que tempo uma cultura hierárquica da superioridade masculina que
havia sido combinado no início da ação ou da participação dos continua presente em nossa sociedade, na política e nas religiões”.
membros nas organizações. A predominância do gênero masculino se dava, inclusive, na tor-
Para o regime ditatorial militar, a quebra do papel socialmente tura. “A tal ponto que a tortura teve um rasgo de perversão sexual
reservado às mulheres era o que mais importava. Colling e Geba- em relação às mulheres. Os torturadores adoravam riscar os seios das

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mulheres, queimar ponta de cigarros nos seios, nos genitais; estupro para lembrar. A memória e a história são rivais. Enfrentam
não só na forma do corpo a corpo, mas com pau, cabo de vassoura.” uma espécie de concorrência, “porque nem sempre a história
Havia uma espécie de sadismo no torturador – todos homens . consegue acreditar na memória, e a memória desconfia de uma
No Brasil, não há registros de mulheres torturadoras (na Argenti- reconstituição que não coloque em seu centro os direitos da
na, um ou dois casos). Mulheres que faziam parte da guarda, em lembrança (direitos de vida, de justiça, de subjetividade)”, diz
prisões femininas, da cozinha, apenas ofícios domésticos. Beatriz Sarlo, em seu texto Tempo passado: cultura da memória
Ainda de acordo com Gebara, isso é muito significativo para e guinada subjetiva.
verificar como a divisão social atuava. “A ditadura militar foi para E mais do que simplesmente lembrar, atenta Susan Sontag, é pre-
o movimento feminista uma escola de verificação do tipo de socie- ciso entender. E para isso é essencial não esquecer. Pois, de acordo
dade patriarcal na qual a gente vivia. Muitas das feministas que, com Le Goff, “a amnésia (...), voluntária ou involuntária, da memó-
hoje, estão na faixa dos 60 anos para cima fomos também militan- ria coletiva nos povos e nas nações que pode determinar perturba-
tes antiditadura.” ções graves da identidade coletiva”. E quando se fala em períodos
Este patriarcalismo está impresso num episódio de 1967 que ainda obscuros da História (principalmente da brasileira, sobre o
envolveu a revista Realidade, fundada em 1966, cuja equipe não regime militar) deve-se levar em conta que diversos atores sociais
fugia das polêmicas. Tanto foi assim que a edição de número dez ainda em atuação no país não querem lembrar, mas sim sepultar
falava apenas das mulheres. A reportagem foi à cidade de Bento sob as teias do passado o que aconteceu. Esses sujeitos desejam tor-
Gonçalves, no Rio Grande do Sul, onde os nascimentos eram rea- nar-se “senhores da memória e do esquecimento”.
lizados por uma parteira. Entretanto, quando os historiadores abordam um tema próximo
O grande “problema” foi uma das fotos de Claudia Andujar. temporalmente no chamado “passado recente”, são incorporadas téc-
Ela fotografou, frontalmente, uma mulher dando à luz. Na foto, a nicas jornalísticas de apuração, como o diálogo com os personagens,
mãe, deitada, tinha a cabeça do bebê saindo por entre suas pernas libertando-se da limitação que apenas o documento poderia dar.
sob o amparo de dona Odila, a parteira. O historiador, assim como o jornalista, pode conciliar a história
A fotografia causou escândalo entre os conservadores, ou seja, oral sem esquecer-se da relevância dos documentos. Beatriz Kushnir,
os detentores do poder. O autor de Realidade – História da revista autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constitui-
que virou lenda, Mylton Severiano, traz o que o homem forte da ção de 1988, pondera que os depoimentos devem ser muito bem ana-
revista disse à revista Bravo!: “O cardeal ficou escandalizado, ligou lisados por causa do “espectro da memória e os vestígios do passado
para o governador, o governador ligou para o juiz de Menores, e o no presente”, que podem interferir na construção da história.
juiz apreendeu a revista”. E ligado a isso, mesmo que sobre a ditadura na Argentina, Bea-
Cartas enviadas à redação: mulheres aplaudindo a iniciativa do triz Sarlo traz um contexto intelectual de pensamento da história
juiz em defesa da “moral brasileira” contra a “pornografia” vendida aplicável ao Brasil. “Durante a ditadura militar”, diz, “algumas
por Realidade. E Paulo Patarra, segundo Severiano, em seu diário: questões não podiam ser pensadas a fundo, eram examinadas
“O que mais perturbou juízes e aliados foi a moça dando à luz [...] com cautela ou afastadas à espera de que as condições políticas
a sacralidade do parto os injuriava”. mudassem.” Portanto, os testemunhos trazem à tona, hoje, só
O passado é um tempo de conflito; e o presente, próprio começou a acontecer “sem chantagens morais”, com a transição

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democrática. Oras, como desconsiderar esse testemunho por ele trazer “certe-
No caso brasileiro, a espera foi maior: apenas mais de 20 anos zas” em vez de “hipóteses”? Serão as marcas das violências psicoló-
depois, com a consolidação da Comissão Nacional da Verdade, gica e física, retratadas por meio de um depoimento, insatisfatórias?
passou-se a tratar do período de maneira aprofundada pelo Estado Outro exemplo que ilustra esta discordância é da militante Rose
– ainda assim sem caráter punitivo. Nogueira. Então repórter da Folha da Tarde, em 1969, escondia
As histórias aqui contadas têm como cerne a sujeita que narra outras pessoas contrárias ao regime militar em sua casa. Foi presa
sua vida, seja para “conservar a lembrança” ou para reparar uma pelo “esquadrão da morte” do delegado Sérgio Paranhos Fleury e
“identidade machucada”, como conceitua Sarlo. torturada barbaramente. Devido a uma infecção pós-parto (teve
Entretanto, aqui, talvez, devamos discordar em parte de Beatriz um filho na prisão e não lhe foi concedido nenhum recurso médi-
Sarlo sobre sua perspectiva crítica do testemunho. A autora diz co ou de higiene), não pode mais ter filhos.
que a história baseada nos testemunhos, como boa parte do ma- O presente trabalho se utilizará da ideia de “balanceamento”
terial em produção pela Comissão Nacional da Verdade, pode ser entre as fontes de consulta, checando, consultando e contrapondo
considerada como menos regulada “pelo ofício e pelo método, em eventuais depoimentos, documentos históricos estatais, matérias
função de necessidades presentes, intelectuais, afetivas, morais ou jornalísticas, etc. Pois, aqui, será considerado que nenhuma fonte
políticas”. Vai mais longe ao dizer que esta modalidade de história detém completamente a verdade, pois este é um conceito com for-
se sustenta e está sustentada no senso comum dos leitores e, “ao tes traços de subjetividade e submetido aos desígnios das experiên-
contrário da boa história acadêmica”, pode não oferecer “um siste- cias individuais e coletivas construídas ao longo da vida.
ma de hipóteses, mas certezas”. No mais, não temos pretensões de abarcar a história em sua
Inês Etienne Romeu, militante da Vanguarda Popular Revolu- totalidade, pois isto seria impossível. Visa-se, aqui, recuperar parte
cionária, em maio de 1971, foi presa pelo regime acusada de parti- dela com o intuito de refletir, e não de apontar conclusões, porque
cipar do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. “nem todas as posições poderão ser percorridas e sua acumulação
Inês dá seu depoimento sobre sua passagem pela prisão, publicado tampouco resulta numa totalidade. O princípio de um diálogo so-
no jornal carioca O Pasquim. Aqui, percebe-se como é rico de sub- bre a história baseia-se no reconhecimento de seu caráter incom-
jetividade e de experiência, além de singular: pleto”, concordamos com Sarlo.
O que será executado nas próximas páginas é um exercício de “pós-
Espancaram-me no rosto até que ficar desfigurada. O memória”, ou seja, “lembraremos” de algo que não nos aconteceu;
“Márcio” invadia minha cela para “examinar” meu ânus traremos esse “algo” sob o prisma dos que realmente viveram, o que
e verificar se o “Camarão” havia praticado sodomia comi- não deixa de ser um exercício de “pós-memória”. O “lembrar”, com
go. Esse mesmo “Márcio” obrigou-me a segurar seu pênis, aspas, é a lembrança do não-vivido: “memória da geração seguinte
enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período àquela que sofreu ou protagonizou os acontecimentos”, como nos diz
fui estuprada duas vezes pelo “Camarão” e era obrigada a Le Goff. Os autores desta pesquisa nasceram já no período democrá-
limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e tico, pós-ditadura e, portanto, “se lembram” do regime militar por
obscenidades, os mais grosseiros. meio de experiências de outrem, das quais não participaram.
O princípio que norteará esta jornada está também em Le Goff,

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quando diz que “a memória, onde cresce a história, que por sua
vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o
futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva
para a libertação e não para a servidão dos homens”.
As páginas a seguir não deixam de ser um tributo a todas as
mulheres que lutaram por um Brasil mais justo e igual. Ana Maria
Colling, em As mulheres e a ditadura militar no Brasil, dá-nos este
que é o ponto-chave de nosso livro.

A história da repressão durante a ditadura militar e as-


sim como a oposição a ela é uma história masculina, assim
como toda a história política, basta que olhemos a literatura
existente sobre o período. As relações de gênero estão aí ex-
cluídas, apesar de sabermos que tantas mulheres, juntamen-
te com os homens, lutaram pela redemocratização do país.

Depois de nossa segunda entrevista com Rosalina, no hall de


entrada do prédio onde mora, ao som das crianças brincando, na
área de lazer, despediu-se de nós com um agradecimento: “Obri-
gada por contar as nossas histórias”, enquanto, na verdade, somos
nós três, autores deste livro, que devemos agradecê-las por deixa-
rem que as contemos. Esperamos que esta obra sirva para resga-
tar minimamente uma parte da história brasileira. História a qual
muitos lutam para sepultar, mas permacem como chagas abertas,
sangrando sempre.
E nossa primeira história começa em um apartamento não muito
longe dali. Reafirmamos: deixai toda a esperança, ó vós que entrais.

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Um golpe, vários destinos Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

um golpe,
vários destinos

Guai a voi, anime prave!


Non isperate mai veder ló cielo:
i’ vegno per menarvi a l’altra riva

(Inf. III, Vs. 84-86)

Vós, sombras más, gritou com voz tonante,


não espereis mais ver o céu de cima;
levar-vos-ei às trevas infinitas

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Um golpe, vários destinos Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

A porta de carvalho é aberta por uma moça que não aparenta pai dizia: ‘quem vai mobilizar o Brasil e levar esse país a ser um dos
mais de 30 anos. Loura de olhos verdes, sabemos mais tarde que é melhores do mundo vai ser quem estuda’”.
descendente de alemães. Trabalha numa dessas empresas que cui- O ano é 1921 quando a pequena Vila Goulart, na região Oeste
dam de idosos. Miriam, que se reveza com Isabel, é uma das respon- do Estado de São Paulo, emancipa-se e vira Presidente Prudente.
sáveis por cuidar da senhorinha de cabelos brancos sentada no sofá. As terras são tão baratas que imediatamente atraem vários com-
Maria Sallas Dib carrega o sindicalismo nas veias. Quem pradores, inclusive a família Sallas, que chegada ao Rio de Janeiro
olha para a pequena senhora afundada nas almofadas no apar- havia-se mudado para Cunha, no interior de São Paulo.
tamento da Bela Vista não imagina a força que seus 86 anos de Quando fala do pai, alfabetizado aos quatro anos, Maria Sallas
lutas ainda carregam. Uma das fundadoras do Sindicato dos emerge do sofá. Fica próxima, como se quisesse que nos aproximás-
Aposentados, seu ativismo, no momento, está concentrado em semos e o conhecêssemos, com seu largo conhecimento do mundo.
auxiliar os companheiros do Sindicato dos Metalúrgicos na “Depois, quando mudamos pra Prudente, eu descobri onde que
documentação de sua história, naquilo que chama de Memó- ele aprendia tanta coisa, que era no partido. O Partido Comunista
ria Sindical. Depois de muitos anos no Partido Comunista do ensinava, fazia debate, sabe? Com treze anos eu entrei pra luta, e
Brasil, deixa aquele que já fez parte do “Partidão” para militar descobrimos que meu pai era comunista.”
no PPS (Partido Popular Socialista), no qual está desde 1992. Quando vêm de Presidente Prudente para São Paulo, o pai de
Havia grupos muitos radicais lá dentro, segundo ela, por isso Maria Sallas compra uma casa perto da Igreja da Penha. “Um vizi-
a mudança. Seu ideal é que “o comunismo é muito evoluído, nho nos levou e fez sócios do Clube Esportivo da Penha. Naquela
precisa a maioria dos países ser socialista pra poder mudar, época, a gente podia nadar, pescar. Era limpinha a água do rio
porque as regras já são outras”. [Tietê]”, conta cheia de saudade.
Lembra-se com energia do ano de 1953, quando, diz, pararam A família de Dona Maria é, de certa forma, uma crônica das
São Paulo. E garante: houve delegado e juiz que fugiram da capital mudanças pelas quais o país passa: da lavoura à cidade, isso tudo
incendiada pela grande greve no começo dos anos 50. “Nós unimos lidando com trabalhos sindicais.
nove categorias de trabalhadores. As maiores, partindo dos meta- O pai de Sallas abraça o comunismo em Presidente Prudente.
lúrgicos, têxteis. Naquela época, a categoria têxtil era a maior de Lá, o “doutor Campos” recruta pessoas que se destacam por seus
São Paulo. A batalha era por aumento salarial, e a gente apanhava.” feitos para o partido. Nesta trilha, chega ao pai de Dona Maria.
E dona Maria, uma peça viva da História brasileira, acompanha as Entretanto, apenas sua mãe, dona Josefa Navarro Sallas, sabe das
mudanças pelas quais o Brasil e o mundo passam no século XX. preleções partidárias do cônjuge; os filhos, não.
O pai é seu maior exemplo. Nascido em 13 de abril de 1898 e fi- Um dia, sem mais delongas, enquadram o pai e perguntam o
lho dos imigrantes espanhóis Luiza Molina e Ginês Sallas, Orestes motivo de ele ser tão ovacionado no clube do qual fazem parte:
Sallas tem como compromisso a preocupação com os outros. “Meu
pai era um homem extraordinário”, diz com orgulho. O pioneiris- - Papai, precisamos conversar. Quando você chegou no comitê você
mo e o amor do homem pelo aprendizado refletem diretamente na foi carregado pra dentro, ovacionado. Por quê? O senhor esconde al-
vida de dona Maria desde o começo de sua formação: estuda na guma coisa da gente? Alguma coisa existe.
escola primária fundada pelo pai na fazenda de café da avó. “Meu

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- Senta aí que nós vamos conversar. A repercussão pelo mundo é tão grande que, em 1947, Maria
Sallas é presa com o namorado em um movimento de suporte às
A mãe leva os filhos pequenos para o quarto, e o pai começa a manifestações contra a bomba atômica. Namorava ninguém me-
se explicar: nos do que João Saldanha, técnico da seleção brasileira até uma
semana antes da Copa do Mundo de 1970, quando é demitido
- Eu sou do Partido Comunista, e eles tão sabendo quem eu sou e o pelo ditador Emílio Garrastazu Médici. Teria sido dispensado por
que eu fiz em Prudente, aquela cooperativa que eu fundei, tudo aquilo. dizer: “O Médici que nomeie os ministros, eu escalo a seleção.”
Está na biografia João Saldanha - Uma Vida em Jogo. Dona Maria
Espantadas, as meninas não esboçam outra reação senão a pergunta: apanha o livro e nos mostra a passagem que fala sobre sua prisão.
Recheia as páginas com detalhes que a memória não apaga.
- Pai, o senhor, então, come criancinhas? Passa das dez da noite quando a polícia chega. Seu irmão de
doze anos está com ela. O pai, bastante rígido, não permite que an-
Mesmo com a negativa, passam a noite em claro. dem pelas ruas à noite. Todos são postos no camburão. Ali, Dona
Maria Sallas entra no Partido Comunista do Brasil quando já está Maria começa a mastigar. Estranhando o fato, perguntam o que
em São Paulo, por influência paterna. Imbuída do espírito sindical, ela está comendo, incrédulos de que há comida ali em algum lugar.
passa a agir de maneira proeminente e, com isso, tem conquistas im- “Ah, é que eu procurei no meu bolso, e tem um pedaço de papel lá,
portantes. Uma delas é a ida para a União das Repúblicas Socialistas sabe? E papel é gostoso!” Os mais experientes entendem o recado
Soviéticas (URSS) para estudar Sociologia na Universidade Russa da e transmitem para os outros, novatos. “Todo mundo limpou os
Amizade dos Povos (URAP), em Moscou, muito procurada por es- bolsos. Se você leva qualquer coisinha tem que decifrar aquilo.”
trangeiros e uma das instituições mais prestigiadas, de 1953 a 1956. Levados para a delegacia da Penha, ficam lá até às duas horas da
Pouco antes disso, seu ativismo rende várias detenções ainda na Era manhã. Isso com a polícia comum. Depois disso, chega um cam-
Vargas, mas não passam disso: detenções. Ficam horas na prisão, mas burão maior do Departamento de Ordem e Política Social, o temi-
são liberados. “Todo fim de semana a gente fazia uma passeata. Se do DOPS. Os policiais querem dispensar o garoto de doze anos, já
reunia na Praça da Sé e saia em passeata. Daí vinha a polícia a cavalo que, legalmente, ele não pode ficar preso, e Dona Maria bate o pé.
e batia na gente com aquelas coronhadas. E às vezes detinham a gente. É alta madrugada, a criança não pode andar na rua, argumenta.
Não era bem prisão, porque a gente nem dormia. Mas a repressão era Discute com o delegado. O homem da lei, de trás de sua escrivani-
terrível, sabe? Você nem imagina.” Saem do ponto inicial com “50, nha, manda chamar dois soldados.
100 pessoas” e chegam ao destino, a Praça da República, com quase O par, cada um de um lado da moça, enche-a de pontapés. Os
1.500. “Era uma beleza, viu? Eles não conseguiam vencer a gente.” chutes são tão fortes que “destroem” seu aparelho genital e lhe
As manifestações são pelo mais variados motivos. Nessa época, proporcionam uma hérnia de disco tão perto dos nervos da coluna
a questão nuclear está em voga, já que alguns anos antes, quando vertebral que médico nenhum se arrisca a operar. Por muito tempo
os relógios japoneses marcam 8h15, no ensolarado seis de agosto de sofre com hemorragias ginecológicas, até ser tratada por um mé-
1945 os Estados Unidos bombardeiam a cidade de Hiroshima. Na- dico alagoano, doutor Milton Barbosa, sujeito comunista. “Fiquei
gasaki tem o mesmo destino três dias depois. Começa a era atômica. internada vinte e um dias sem poder mexer uma colher”, conta.

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De sua vida, também pode ser destacado o fato de que toma para Após muito debate e negociação, Jango aceita uma “fórmula
si a causa do petróleo no Brasil, encabeçada pelo escritor Monteiro pela qual se fabricou um humilhante regime parlamentarista cuja
Lobato. Não só o conhece como milita ao seu lado, durante o go- essência residia em permitir que ocupasse a Presidência desde que
verno de Getúlio Vargas. não lhe fosse entregue o poder”, como diz o jornalista Elio Gaspa-
No começo da década de 1950, Sallas casa-se com o jornalista ri no primeiro volume (A Ditadura Envergonhada) de sua trilogia
Khalil Dib. Depois de um período morando em Sorocaba e em sobre o período militar. O parlamentarismo cai em 1963 depois de
São Paulo, surge a oportunidade de ir para Goiânia. Em 1954, um plebiscito que devolve os poderes a Goulart.
dona Maria e seu marido enchem um caminhão com seus perten- O presidente, no entanto, não conta com o apoio do Congresso
ces e rumam para rincões do país. Nacional e nem mesmo da esquerda brasileira. Na tentativa de
Logo que chegam, Sallas e Dib realizam um trabalho de pesqui- frear o radicalismo do governador da Guanabara, Carlos Lacerda,
sa para conhecer Goiás. “Colhemos um monte de dados por mais ouve militares em cargos de comando e encaminha uma proposta
de três meses. O IBGE nesses estados por aí não tem trabalho.” E de estado de sítio ao palácio de Lacerda, o qual deveria durar 30
apesar da miséria e das precárias condições de trabalho, encanta-se dias. Entretanto, esquerda e direita, com medo de eventuais conse-
com o pedaço do Brasil até então esquecido pelas grandes metró- quências repressoras que isso poderia gerar, abandonam Goulart.
poles. “Eu não gostava de música sertaneja, de nada disso. Seis Nem seus colegas do PTB aceitam. Soma-se a isso a grave situação
meses depois que eu tava em Goiás tava adorando. Até hoje no econômica do país. Neste cenário, Jango tentou fazer o que fica-
domingo eu assisto a Inezita Barroso.” ram conhecidas como as “reformas de base”, uma série de medidas
Deixa um salário de 14 mil cruzeiros na direção do sindicato, que visavam à melhoria de educação e outros setores basilares do
em São Paulo, para ganhar... nada, na Secretaria do Trabalho. Não Brasil. Por isso, acabou entrando em atrito com a linha conserva-
há verba para pagá-la, até que o governador de Goiás em pessoa dora do Congresso e os conservadores paulistas.
manda abrir um concurso para comportar pessoas na situação de Em 1961, quando Jânio Quadros renuncia e os militares amea-
Dona Maria e de gente que não era concursada. Abraça Goiânia çam não endossar a posse do vice, João Goulart, Leonel Brizola,
por dez anos. Só sai porque é presa pelo regime que apeia João então governando o Rio Grande do Sul, encampa a porto-alegrense
Goulart do poder para se instalar. Rádio Guaíba e passa a transmitir mensagens legalistas para o Bra-
Antes do 1º de abril de 1964, os militares esboçam tentativas sil e, posteriormente, para o exterior. Dona Maria participa da for-
de golpe de Estado duas vezes: em 1954, quando Getúlio Vargas mação da “rede da legalidade”, cujas ondas curtas alcançam Goiás.
comete suicídio, e em 1961, ano em que Jânio Quadros (União “Nós tínhamos rádio. Aí organizamos a mulherada toda, falei pro
Democrática Nacional) renuncia à presidência. Seu vice-presiden- secretário: ‘ó, o senhor é do PTB. Esse golpe aí é contra o Jango.”
te, João Goulart (Partido Trabalhista Brasileiro), deveria assumir Por causa da proposta reformista e do atrito com as Forças
o cargo. Entretanto, seu nome é duramente combatido pelos mi- Armadas, Jango, eleito democraticamente pelo povo brasileiro,
litares, o que quase leva o país a uma guerra civil. Jango, como sofre um golpe de Estado na noite do dia 31 de março para 1º de
era chamado Goulart, já havia entrado em rota de colisão com as abril do ano de 1964.
Forças Armadas em 1954, quando o então ministro do Trabalho O golpe é a consumação de um clima de apreensão no país.
deixa o posto por causa de um manifesto de coronéis. Para esquerdistas, a sensação de hostilidade é grande e começa al-

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guns dias antes. Nestes dias, ocorre uma grande manifestação de que não falava golpe, né? Falava revolução. Falava revo-
mulheres lideradas pela Igreja, pelo exército e pelos latifundiários, lução pra confundir o povo, porque quem falava em revo-
que convocam a maioria das suas empregadas domésticas, “mui- lução éramos nós; nós que chamávamos o povo pra fazer
tas delas faveladas, negras, pobres e religiosas – para lutar contra a revolução. Existia até uma discussão na esquerda se era
o feminismo”, conta Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida uma revolução democrática popular ou se era uma revolu-
como Amelinha. No dia 19 de março de 1964, quando centenas ção socialista. E existia também uma dúvida: se nós íamos
de milhares de pessoas saem às ruas em São Paulo, Rio de Janeiro e pegar em armas pra fazer essa revolução ou se essa revolu-
Belo Horizonte, ela está na capital mineira. É a Marcha com Deus ção seria pacífica. E nessa discussão que a gente fazia muito
pela Família e Pela Liberdade. E contra os comunistas. nas ruas existia já um projeto articulado e consolidado das
As tropas lideradas pelo general Mourão Filho rumam para classes dominantes junto com o imperialismo americano de
o Rio de Janeiro, saídas de Belo Horizonte, e Amelinha, que dar um golpe. Então, logo que houve esse golpe, no outro
é militante feminista e integrante do Partido Comunista desde dia foi considerado feriado nacional e nem podia sair pra
cedo – como seu pai, irmã e marido – assiste à movimentação trabalhar. Nós fomos procurar pessoas do nosso partido,
militar de camarote. Hoje assessora a Comissão Estadual da Ver- pra saber como a gente seria orientado e aí muitos tan-
dade “Rubens Paiva”, que funciona na Assembleia Legislativa do ques do exército na rua, muito militar na rua, proibindo
Estado de São Paulo. qualquer fala... as pessoas eram presas, qualquer fala mais
Entra no Partido Comunista do Brasil com quinze anos. “Sem- exaltada na rua as pessoas eram presas de imediato.”
pre convivi com os comunistas, desde pequena. Porque meu pai
era estivador aqui em Santos. Eu nasci justamente no fim da Se- Na outra ponta, esperando pelas tropas de Mourão Filho, está o
gunda Guerra Mundial. Acaba a ditadura do Estado Novo, o Rio de Janeiro. E em Copacabana, Ana Bursztyn-miranda, então
Partido passa a ser legal. Há um apogeu dos comunistas depois com 14 anos. “Meu pai não era do partido, mas era um cara inte-
da Segunda Guerra, apesar do holocausto ter matado um monte ressado, socialista. Eu não era de uma família de esquerda, mas meu
de comunistas no mundo inteiro, eles têm uma certa liberdade. E pai era progressista do partido e votava nas pessoas indicadas pelo
depois em 1947 é fechado o partido e começa a perseguição dos partido. Era uma rede grande. E desde criança eu frequentava uma
comunistas de novo. Quer dizer, os comunistas mal viveram dois colônia de férias e tinham pessoas de esquerda. Por exemplo, a gente
anos em liberdade e já tiveram de novo a perseguição.” tinha uma noitada dos quartos e em uma delas cada quarto preparava
alguma coisa. E eu me lembro do pessoal mais velho fazendo o Ope-
Eu fui trabalhar. Quando foi no outro dia, à noite, rário em Construção, do Vinicius de Moraes. Eu tive muita influência,
essas tropas que saíram de Minas dirigidas por esses gene- mas não era uma pessoa que militava. Com 14 anos eu ouvia em casa
rais chegaram lá no Rio. E já deram a ordem do golpe. Eu que a barra pesou. Mas não era uma coisa que eu prestava tanta aten-
liguei o rádio – eu ouvia muito rádio, nem tinha televisão; ção assim.” O outro elo com o comunismo vinha pela irmã mais ve-
na verdade já tinha televisão, mas eu que não tinha, por- lha, que já namorava o atual marido. “Os pais dele eram comunistas
que só rico tinha televisão no Brasil – e nós ouvimos falar. de carteirinha do Partido Comunista do Brasil.” Lembra-se de uma
E já até tocavam uma marcha no rádio, falando do golpe, confusão muito grande: “eu morava em Copacabana e estudava na

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Tijuca, perto da Praça da Bandeira. Depois do comício da Central do Sallas e o marido procuram um jovem recém-chegado do Rio de
Brasil, em 13 de março de 1964, que o Jango SÓ falou das reformas Janeiro para ajudar nas tarefas e trabalhos do partido. Chegam
de base! E até hoje não foram feitas”, observa entre risos irônicos. ao hotel onde o rapaz está hospedado e o convocam para ajudar
Como é decretado feriado no dia da “revolução conservadora”, a localizar os integrantes partidários, para marcar uma reunião
as aulas no colégio de Ana foram suspensas. “A confusão era bem emergencial, “nem que fosse às cinco horas da manhã”.
grande. Na cozinha, meu pai e meu cunhado grudados no rádio.
O dia inteiro, a noite inteira. Porque o rádio era a grande mídia da - Sem problemas! Vocês me dão o nome e o telefone das pessoas que
época. Notícias chegando: quem foi preso, quem não foi. Aquela eu convido. Em uma hora eu chamo todo mundo.
sensação de catástrofe, um terremoto sobre a terra. Não se sabia
quanto tempo ia durar. E só tentando saber se ‘fulano’ saiu do país, Caíram na gargalhada. Em Goiás, telefone? “Não, aqui a gente
foi preso. E, ao mesmo tempo, meu pai, por exemplo, ouvia muito tem que mandar fulano para tal radial do Estado.” E o que se aven-
o Carlos Lacerda que era um grande orador de direita. E ele tinha tura nisso deve estar disposto a ir de bicicleta, a cavalo.
ficado no Palácio Guanabara, que era sede do governo.” O partido aprova, por unanimidade, que Maria Sallas deve per-
Em 1963, um ano antes do golpe militar, no mesmo Rio de Ja- manecer na legalidade, já que ela “conhecia todo mundo”. Isso le-
neiro de Ana, Gilberto Lourenço Gomes e suas irmãs frequentam vará à sua prisão, desenvolvida dentro da secretaria do Trabalho.
um curso de marxismo na casa de uma amiga. Tal fato é uma das Nem as duas datilógrafas, e até mesmo o secretário, escapam da
influências para Solange Lourenço Gomes entrar na militância. cadeia: são presos a caminho do Rio de Janeiro.
“Nesse curso nos ensinaram que a maneira de realizar esse sonho Por ter sido escolhida para ficar legal, Dona Maria tem de orientar
seria implantar no Brasil uma ditadura do proletariado. Não sei até as pessoas de dentro e de fora do partido a como procederem na nova
que ponto ela ficou convencida nesse momento. Mas certamente situação política. O objetivo é esclarecer dúvidas, também, com relação
acreditou nisso quando em 1969 resolveu entrar na luta armada. a algumas posturas partidárias, como a negação da guerrilha.
Nesse meio tempo, havia tido o golpe de 64 e o AI-5 em 68. Essa Foram oito homens destacados para executar a ordem de prisão.
luta não visava derrotar a ditadura para reinstaurar um regime de- “Tirei os sapatos, subi na cadeira e subi na minha mesa. E gritei,
mocrático. Minha irmã e seus companheiros queriam instaurar porque era um salão muito grande, e no corredor tinha cada seção.
no país um regime marxista-leninista que representavam os seus E na minha, como era muita gente e tinha muita fila, eu gritei:
ideias de justiça social, liberdade e fraternidade”, conta Gilberto.
Solange tem uma história forte, que será desvendada à frente. - Meus queridos colegas! Eu estou sendo presa.
Portanto, esse é o cenário em ebulição que domina os mora-
dores do Rio de Janeiro, cidade a qual deixara há pouco de ser a De pronto, o chefe da operação, com certo desespero na voz,
Capital Federal. Entretanto, ainda representava o centro do po- fala, querendo negar o óbvio:
der, já que a transferência de vários comandos e ministérios ainda
não tinha sido feita. - Não! Pelo amor de Deus, mas a senhora não está sendo presa! O
O mesmo ocorre em Goiás quando é anunciado pelo rádio que doutor Rivadali lhe convidou.
o Brasil está sob intervenção e o golpe, se consumando. Maria

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A experiência marcada
na pele de Maria Sallas.

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Doutor Rivadali é secretário de Segurança Pública do Estado, lá. E aí nós fomos levadas para o quartel do exército – eu e minha
comandando, em nome do governo militar recém instalado, a lim- irmã – presas. Era até engraçado, porque tinha pouquíssimas mu-
peza das ideias contrárias. lheres. Tudo era homem, jovens. Eu tinha o quê? 18, 19 anos.”
Maria Sallas, muito bem relacionada com fotojornalistas e jor- A participação de mulheres, bastante incipiente durante a luta con-
nalistas da região, pede que avisem aos profissionais de sua prisão. tra a ditadura em termos quantitativos, é ainda menor no começo do
São anos e anos construindo esse relacionamento, ao abastecê-los golpe e alcança todas as regiões. Sallas é a única mulher presa na ala
com materiais da secretaria. da penitenciária de Goiânia, até a prisão de Eveline Singer, que fica
E é levada. “Achei que ia tá sozinha nesse lugar, mas me sur- no presídio uma semana apenas. “Quase me enlouqueceu aquilo lá.”
preendi com a quantidade de gente me visitando. Tinha um cara, A presença de mulheres no quartel do Barro Preto, na rua Juiz
procurador do Estado, que ia lá e levava aqueles queijos, deste ta- de Fora, capital mineira, gera estranhamento dos agentes do Esta-
manho”, e sinaliza com as mãos fazendo a circunferência similar a do. “Nós, as mulheres, eles não sabiam o que faziam”, conta Ame-
um queijo de tamanho considerável. “O que ele levava pros filhos linha com um ar de riso.
levava pra mim.”
Em Belo Horizonte o cerco também aperta. Primeiro, o pai. Eles punham [a gente] dentro de uma sala, um quarto,
Estivador nas docas de Santos, perde o emprego e vai pra Minas sei lá o que é aquilo, quartel é muito cheio de coisa assim,
Gerais ser ferroviário, sempre ligado aos comunistas. Depois a pró- parece escritório, tem um monte de porta. Então tinha
pria Amelinha entra na cadeia. Não encontram os dirigentes dos umas salas com um sofá, daí eles punham a gente sentada
partidos, pois já estão todos presos também. lá no sofá, depois diziam ‘não! Tem que sair daí’. Man-
daram a gente pro corredor, depois mandavam pra sala
Muitas pessoas que apoiavam a luta, advogados, porque de interrogatório onde estavam o tenente-coronel Grossi
nós fomos procurar advogados pra ver se pedia um habeas e o outro, o primeiro nome era Afonso. Eles não tinham
corpus, pro meu pai ou pra outros... os escritórios estavam acusação pra fazer pra gente: a gente era comunista, fa-
fechados. Alguns já estavam em embaixadas, fugindo do zia reunião. Não era legal o partido comunista, mas todo
Brasil, porque viram que não tinha condições. Então al- mundo sabia que existia e onde a gente se reunia. A gente
guns foram pro exílio, outros tavam presos e outros esta- saía de lá com uns jornais pra vender na porta de fábrica.”
vam impossibilitados. O que nós fizemos foi ajuntar pes-
soas pra defender quem tava preso ou denunciar. Mas não E Amelinha denuncia: viu diversos companheiros sofrendo bar-
tinha...a imprensa falava ainda alguma coisa, nos jornais, baramente com torturas, gente que conhece bem, colegas de parti-
e a gente buscava informações nesses jornais, mas dificil- do, cheia de vergões, com a pele em carne viva.
mente eles davam voz pra nós. A trama de conspiração pela qual a mineira e os colegas são
acusados é bastante grave: planos para melhorar a educação, trazer
Depois de um tempo, o pai sai da prisão inicial, mas não se sabe mais saúde ao povo, garantir moradia a todos e, talvez, a acusação
para onde. “Eles não diziam. Nós fomos de quartel em quartel da mais severa, de que o capitalismo não resolve os problemas sociais.
polícia, depois fomos no DOPS, mas eles falavam que não tava “Precisa-se de um novo sistema”, sentencia Amelinha. Esse é o mo-

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mento em que a industrialização chega forte ao Brasil, começa o da capital pernambucana naquele 1º de abril de 1964.
inchaço das cidades, moradia precária, devido ao êxodo rural. A terra recifense é palco de grande foco de resistência devido ao
governo de Miguel Arraes (Partido Social Trabalhista). Rosalina
Eles vinham dizer que a gente queria pegar em ar- credita ao Rio Grande do Sul - na época dirigido por Brizola - e
mas, fazer luta armada. Nós até discutíamos, mas não a Pernambuco o título de polos de efervescência política. “Minha
fazíamos ainda. Então eles queriam criar uma acusação atuação política começa aí, num trabalho com o Paulo Freire, que
pra nós, inventaram que a gente queria botar veneno na pegava estudantes secundaristas, estudantes, camponeses, operá-
caixa d’ água de Belo Horizonte pra matar todo mundo. rios. E é aí que ele começa a construir a pedagogia dele, o próprio
Eu lembro que quando esse coronel falou comigo, eu falei método dele, onde ele começa a usar palavras do cotidiano das
‘gente, mas da onde vocês tiraram isso?’ Nós nunca dis- pessoas para alfabetizar. Não era usar mais a frase ‘Vovô viu a uva’,
cutimos isso na nossa vida! Nós tamos preocupados que mas sim, começar com a palavra tijolo.”
o povo seja alfabetizado. Eu mesma ia pra uma favela No dia do golpe, a cidade é muito perseguida. “O Arraes fica
pra alfabetizar o pessoal. Ensinar. Ensinar como escreve tipo o [Salvador] Allende [presidente do Chile deposto por milita-
‘tijolo’. A maioria era pedreiro, eu lembro bem, trabalha- res que bombardearam o Palácio da Moneda, onde estava], no pa-
vam construindo e não sabiam escrever a palavra ‘tijolo’. lácio, tentando resistir.” E o apoio é dado por estudantes que saem
Ensinava a escrever o nome, a ler. de várias faculdades e colégios diretamente para as ruas recifenses
numa passeata em direção ao Palácio do Campo das Princesas,
Em Goiânia, conta dona Maria, existiam vários grupos radicais sede do poder executivo, para garantir a legalidade do governador.
de esquerda. “Eram grupelhos que queriam luta armada. E qual Entretanto, o grupo depara com um pelotão do Exército, do qual
era a orientação? Nós éramos contra a guerrilha. Meu partido foi saem disparos que acertam Ivan da Rocha Aguiar e Jonas José de
contra.” Segundo ela, dada a amplitude do golpe militar não havia Albuquerque Barros, presidente do Grêmio da Escola de Engenha-
possibilidade de vencer. “Então era o Exército todinho. E os solda- ria do Recife. E Rosalina está lá, nos conta em seu apartamento
dos do Exército recebem [ordens]. Então tinha grupos que queriam banhado pelo sol. “Foi uma comoção em Recife. No outro dia
a força. Mas o partido falou não.” fomos na casa dele, no velório. E depois há uma ofensiva repressi-
Neste momento, Amelinha enfrenta o terror psicológico. “Eles fi- va muito forte aos estudantes e, principalmente, aos camponeses,
zeram horrores com a gente. Ameaçaram de paredão. Diziam ‘vocês porque Recife tinha movimentos camponeses muito fortes, como a
defendem Cuba?’. Eu falava assim ‘eu acho bom que a revolução te- Liga Camponesa, do Francisco Julião, e os sindicatos, do Gregório
nha dado educação pra todo mundo, saúde. Nós queremos isso pro Bezerra. A gente participou da resistência, porque quando chegou
povo brasileiro também. Se Cuba pode dar, porque o Brasil não?’.” a notícia do Brasil inteiro, o Arraes é imediatamente preso e come-
Na ensolarada Recife, a pancada é mais forte e a resistência, ça a haver uma repressão muito forte.”
maior. Rosalina Santa Cruz, na transição de estudante secunda- E Pernambuco cai.
rista à faculdade tem uma “atuação pequena”. Estuda no Santa Já em São Paulo, a resistência parece ser menor. A cidade, poucos
Gertrudes, colégio mantido e dirigido por freiras beneditinas, em dias antes, tem nas ruas mais de meio milhão de pessoas em defesa
Olinda. Depois de entrar na faculdade de Serviço Social vai às ruas da “família” e da “democracia”. É o que nos contam a jornalista Rose

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Nogueira e a professora de História da Universidade Federal do Rio de mo e do alinhamento com as políticas israelenses, a família soma
Janeiro (UFRJ) Jessie Jane, ambas em São Paulo no momento do gol- judeus progressistas.
pe. Hoje, Rose permanece na capital Paulista e Jessie vive em Niterói.
Em 1964, Rose Nogueira, com 17 anos, está em seu primeiro Quando eu entrei na Universidade em 1967, já en-
emprego no Jornalismo. Atua na revista Intervalo, que traz horá- trei procurando saber onde era o diretório. O que tinha
rios e programação da televisão, na Editora Abril. Jessie é mais pra fazer. E eu tinha recebido uma influência do colégio
nova. Com 13 anos cuida dos irmãos em casa, enquanto o pai aplicação da UFRJ, que tinha alguns excelentes professores
trabalha na Lapa: tarefa da irmã mais velha. de esquerda que foram perseguidos e cassados. Uma foi
“Eu me lembro do meu pai chegar muito nervoso e jogar a mar- presa e torturadíssima, dona Maria Cerqueira. Isso foi no
mita dele. E foi pro rádio. Daí nós começamos a acompanhar pelo ambiente da Praia Vermelha, onde havia, além do meu
rádio – meu pai era do partido e minha mãe também. E meu curso, Farmácia, Economia, Educação Física, Psicologia,
pai tava há muitos meses dizendo que ia ter golpe, que ia ter um Química e no final a escola de Medicina onde eu tinha
golpe. E eu me lembro muito fortemente desse dia pelo ambiente aula. Ali juntava todo mundo e ainda tinha o pessoal do
familiar. Ficamos ouvindo a noite toda. A polícia entrando na casa IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais). A gen-
do Prestes, em São Paulo”, diz Jessie com voz firme, sentada no te formava um conjunto no movimento estudantil era o
sofá do apartamento de Ana, em Botafogo. O pai, Washington pessoal da praia e do IFCS com outros grupos. A minha
Alves da Silva, já escondia militantes da ALN (Ação Libertadora faculdade era pequena e conservadora com três diretores
Nacional) em sua casa, e o alto escalão do grupo de combate ao que se revezavam. Tanto é que, em 1967, eu fui de calça
regime militar frequentava a residência: Marighella, Toledo. Nesse e falaram que o diretor não ia gostar. Como eu não fui
clima, Jessie se cria. “Costumo dizer o seguinte: diferente da maio- banida e nem nada, neguinho começou a usar também.
ria das pessoas, eu nunca precisei de uma compreensão intelectual Mas não era comum porque o diretor não gostava.
sobre o que é a esquerda. Eu já nasci nisso. Se eu tivesse ido para
a direita, eu precisaria de um grande esforço intelectual. Isso era No começo, Rose se lembra de como se envolve na política dos par-
uma coisa natural. O mundo pra mim era muito preto e branco. tidos quando, com 18 anos e trabalhando na Editora Abril, conhece
Havia comunistas e anticomunistas. Eu era muito simplória nis- Paulo Viana, jornalista de 32 anos com quem engata um namoro.
so. O meu mundo era muito simples. Eu entendi a complexidade
disso quando eu fui presa com o convívio com companheiros que Eu me apaixonei, naturalmente, porque eu era mocinha
tinham pais de direita. Meu pai saiu do partido em 1958. Aí veio e ele era uma pessoa de muita experiência... Eu me senti
a ALN, um grupo comunista de São Paulo, em 1966, e o meu pai mulher: ‘meu Deus, um homem desse apaixonado assim por
era um deles”, esclarece Jessie. O marido ela conhece na organiza- mim...’. Eu só tinha tido namoradinhos assim de dançar
ção. Colombo Vieira de Souza Júnior ficara escondido em sua casa domingo à tarde. De repente um puta homem, sabe? Além
por uns tempos. de tudo, ele era do “Partidão” e eu tinha uma grande admi-
Já Ana, que começara no Partido Comunista Brasileiro Revo- ração pelo Prestes, pela Coluna Prestes... Eu gostaria de ter
lucionário (PCBR), é de família judia. Longe do conservadoris- sido mesmo era da Última Hora, que era do PTB do Getú-

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lio. E meu padrasto era Vogal da Justiça do Trabalho, hoje parte de sua visão de mundo. Paulo Henrique da Rocha Lins, da
chamado de Juiz Classista. Então a gente via em casa essas ALN, a convence a trocar de organização. Agora semiclandestina,
coisas de sindicato, trabalhismo, a Última Hora tem essa o casal desenvolve várias ações armadas.
coisa trabalhista. Minha vó com 30 anos era getulista. En- O cenário do golpe, apesar de hostilidade palpável, guarda his-
tão eu tinha uma grande simpatia por ideias mais à esquer- tórias engraçadas. E mesmo com a tensão militarista, a derrubada
da. E aí, de repente, eu conheci uma pessoa do “Partidão” de Jango proporciona o surgimento de outro tipo de aproveitadores.
de verdade, eu nem acreditava, né? Porque era clandestino. “Lá em casa já tinha tevê. Era a TV Tupi, tinha aquele tal ‘pas-
Depois do golpe, mais ainda. E ele era irmão do dirigente sarinho’, um repórter. Era um jornalista desses de direita, histé-
do “partidão” em São Paulo, o Cícero Silveira Viana. rico. E logo em seguida a ditadura montou uma coisa chamada
‘doe ouro para o bem do Brasil’.” O “passarinho” em questão é
Aí veio o golpe e eu acompanhei os problemas da família o repórter José Carlos de Moraes, repórter dos Diários Associados,
dele, com a clandestinidade dele, escondendo ele, porque a conhecido por Tico-tico. Sua biografia dá conta de inúmeros furos
polícia começou a ir atrás dele. Do irmão do meu namora- de reportagem, em uma atuação que desconhecia limites. Certa
do. Meu namorado não era assim. Ele era da editora Abril, vez, Tico-tico subiu no para-lama do carro oficial do presidente
um homem já feito, mas não era assim de grande impor- estadunidense Dwight Eisenhower para entrevistá-lo.
tância no partido. Mas, pela proximidade com o Cícero, eu “E esse ‘Passarinho’, uma espécie de Carlos Lacerda lá de São
participava de várias atividades do partido. Tinham ativi- Paulo, pequenininho, anticomunista, anti-Jango, uma coisa hor-
dades inclusive de almoços e coisas assim... Tudo pra cha- rorosa, era o locutor disso. E aí começou aquela gente toda doar as
mar pessoas novas... Aí veio o golpe de 64 e a coisa ficou bem suas alianças. E vocês sabem que isso tudo foi roubado, né?”
séria e eu passei a participar ativamente dessa coisa séria Ana, sentada numa cadeira na diagonal de Jessie, exclama, estupefata:
com a família dele. De ver gente indo pro exílio, ver gente
que tinha que se esconder, ver gente perseguida, presa... Eu - Não!
ajudava o Paulo a esconder as pessoas. Eu mesma não podia
fazer isso. Morava na casa do meu pai, era mocinha, a mi- - Verdade! Teve um grande escândalo desse assunto, com o Passsarinho.
nha família era contra eu trabalhar. Então, eu não tinha...
Na minha família, antes de casar, mulher não apitava. A campanha engendrada pelo dono dos Diários Associados, o ba-
rão da imprensa Assis Chateaubriand, consiste em usar sua cadeia
A partir daí, eu comecei a entender melhor o Brasil. de comunicação, que inclui rádios, a TV Tupi e inúmeros jornais para
Comecei a estudar. Aliás, um dos primeiros livros dessa pedir aos brasileiros que deem suas alianças, joias e, em alguns casos, até
fase que eu estava estudando era exatamente sobre a “teo- dinheiro do próprio bolso para ajudar a “nação brasileira”. Com os cofres
ria da dependência”, do Fernando Henrique. Ele era con- públicos depauperados, uma inflação galopante e inúmeros problemas
siderado um grande cara de esquerda. cambiais, o Brasil está falido. E os cidadãos, especialmente os mais po-
bres, sentem a necessidade do dever cívico. Cada doador recebe um anel
Também por influência de um namorado Ana modifica uma de latão e um diploma com a inscrição: “Doei ouro pelo bem do Brasil”.

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A manobra, um engodo de Chatô, buscando se mostrar simpático ao promovida pelos Diários Associados, “Ouro para o bem
regime, faz como que se forme uma fila na porta da sede dos Diários Asso- do Brasil”, como resultados das primeiras 2 semanas de
ciados. Rose está na trabalhando na editora que na época ficava algumas vigília cívica que teve início às 18 horas do último dia
ruas acima, e é avisada por colegas da confusão na Rua Sete de Abril. 13. A campanha que é o primeiro grande movimento dos
“Legionários da Democracia”, foi aberta com a presen-
“No dia do golpe, em 64, deu um pau na telefônica e ça do Senador Auro de Moura Andrade, presidente do
prenderam um monte de gente ali na frente dos Diários. Congresso Nacional, que recebeu do Sr. Edmundo Mon-
Eu tenho certeza que foi o povo dos Diários que chamou teiro, diretor-presidente dos Associados paulistas, a chave
a polícia ali, porque apareceram uns caras dizendo assim: do cofre em que seriam colocados o ouro e doações em
‘não vamos entregar a telefônica’, assim como ficaram nos dinheiro, para entregá-las, posteriormente, ao Presidente
Correios os caras da Marinha, no Rio. O almirante Ara- Humberto de Alencar Castello Branco.
gão, que o Lacerda xinga de ‘assassino’, ‘cachorro’, man-
dou todos os caras da Marinha guardarem as estatais. Longe do episódio, hoje cômico, a casa de Jane está apreensiva.

E quem que queria...? Já estava decidido. Estava até no Lembro dos meus pais nervosos. Meu pai puto da vida.
jornal, nós podíamos ler as matérias. A [empresa de tele- Me lembro muito, porque era uma coisa que afetava
fonia] americana já estava se considerando dona da Com- muito a minha família e as pessoas com as quais nós con-
panhia Telefônica Brasileira, dos Correios... Então ficou vivíamos. Em algumas horas começaram a chegar pessoas
gente na porta dos Correios, da Telefônica, do Banco do do partido, do comitê municipal, procurando lugar pra
Brasil, pra dizer: ‘aqui eles não entram’. Resistindo. E ali se esconder. Meu pai escondendo gente. Até na casa da
na frente dos Diários, que era a Telefônica, teve um pau. minha avó ficou gente escondida. Era uma tragédia que
A gente estava ali na Editora Abril, quando eu fazia essa se abatia. Meu pai ouvia a BBC e lia o Estadão, e ele
coisa dos horários, e o pessoal veio chamar correndo e nós estava há muito tempo dizendo que ia ter um golpe. Ele
subimos correndo a Ladeira da Memória. E a gente subiu estava acompanhando com muita acuidade aquilo. E me
correndo na 7 de Abril, pra ver o que estava acontecendo. A lembro que poucos dias antes do golpe do [Luis Carlos]
polícia chegou lá, prendeu um montão de gente e do outro Prestes ter ido a São Miguel Paulista, com o comitê fa-
lado estava a turma dando ouro ‘para o bem do Brasil’.” zendo uma feijoada.

A revista O Cruzeiro de 13 de junho de 1964 traz um balan- O pai, quando a filha chega com a rifa para a festa, chama aqui-
ço da campanha: lo de loucura, pois segundo ele o golpe é, de fato, iminente.
Dada a propensão do pai a entrar na Ação Libertadora Nacional,
Mais de 400 quilos de ouro e cêrca de meio bilhão seu ingresso é “natural.” “Eu fui entrando na ALN e aquele mundo
de cruzeiros foram doados ao Brasil pelo povo paulis- familiar. Meus tios foram presos em 1935 e eu fui criada por esses
ta e autoridades civis e militares, dentro da campanha, caras, e na ditadura militar também foram presos e ficaram na ala

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vermelha do presídio Tiradentes.” para audiências, acareações. Ao perceber que vai ser condenada no
Ana Miranda, que cursa Farmácia à época, considera que entre julgamento, resolve entrar para a clandestinidade.
1966 e 1968 há certa repressão, “mas não era tão barra pesada.” Ir “Quando a gente vai preso tem que manter duas coisas”, ensina
para a rua é possível. “Em 66 a Medicina foi invadida e começam Dona Maria. “Não abrir a boca pra denunciar ninguém se você
a entrar os estudantes em cena. Só que ainda não estão torturando. tem consciência do que você faz, e nem [denunciar] os inimigos,
Até que chegou 69”, conta. nem os inimigos, sabe? Eu não denunciei ninguém.” Por esse mo-
Jessie discorda em partes da amiga. “Uma coisa é nesse ambien- tivo “ganhou o coronel”, que prefere manter anônimo. Homem
te urbano do estudante. Mas em 67 teve a greve de Contagem e responsável por sua salvação e seu interrogatório. Ele e uma fileira
que teve uma repressão brutal. O ambiente urbano do estudante é de mais quatro homens graduados do Exército. “Eu não conhecia
diferente do ambiente do trabalhador. Eles atingiam camadas da o coronel, só de nome”, recorda Sallas.
sociedade que não tinham voz. Quantos camponeses não foram
mortos até depois da ditadura?” - Dona Maria, eu quero que a senhora colabore. Eu já conhecia a
O pai de Jessie é preso no dia primeiro de janeiro de 1970 em senhora, li todas as entrevistas da senhora, toda a semana eu via os
casa na passagem de ano, e ela saíra de casa na véspera. “Ele foi ba- jornais, mas eu queria que a senhora colaborasse.
nido do país no sequestro do [embaixador] suíço no final de 1970.
Na minha casa todo mundo foi preso – somos cinco irmãos – só - Se é pra não prejudicar alguém do povo, eu colaboro. Agora, se for
o menor não foi preso aqui, mas foi preso no Chile. Nós tivemos pra prejudicar, o senhor me perdoe, eu não vou falar. O senhor pode
17 processos”, enumera Jessie. “Quando o Toledo [João Câmara me matar que eu não vou falar.
Ferreira, comandante da ALN, que substitui Carlos Marighella]
morre, minha mãe vai pro Chile se encontrar com o meu pai e lá, “Nunca fiz isso. Meu pai nos ensinou assim, entende? Como eu
com o golpe, meu pai e meu irmão são presos. Eu fiquei pouco sempre fui do movimento sindical, vira e mexe a gente ia preso, eu
tempo na ilegalidade. Uma rede de pessoas foram presas, os nossos aprendi a fazer isso.”
contatos em São Paulo, como Guiomar Silva Lopes comandante
do nosso grupo de fogo. Nós íamos aos pontos e ninguém apare- - Mas por que, dona Maria? Olha eu só queria que a senhora...nem
cia. Então a gente foi pro Rio de Janeiro e bolamos o sequestro do precisa ir buscar, não. Eu mando dois soldados buscarem. Eu quero as
avião.” O sequestro ao qual Jessie se refere levou à sua prisão. 51 atas que a senhora organizou aqui – a maioria delas de camponeses.

Mudança de rumo Olha bem para o fundo dos olhos dele e pergunta:

Amelinha, enquanto acaricia sua cadelinha Macabeia, conta so- - Qual a patente do senhor?
bre sua submissão ao IPM (Inquérito Policial Militar). Os militares
excluem sua irmã, porque, na época, tem apenas 16 anos. Apesar - Coronel.
de responder em liberdade, tem que ir diversas vezes à Justiça Mili-
tar. Não importa que ela seja civil: o juiz – militar - manda chamar - Coronel, a maioria dessa gente, ou são camponeses ou operá-

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A agitadora Maria Sallas foi presa


com João Saldanha por desordem.

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rios, mora num barraco que não é digno de o ser humano viver na secretaria. Como? “Ah, quando os secretários se reúnem, eles
– porque o ser humano é o material mais precioso. trocam informações”, diz o diretor. “Mas só tem uma condição”,
pontua Sallas. “Só vou trabalhar se a maioria dos meus colegas [de
E como se não quisesse nada, Sallas pergunta: cela] aprovar.” Reúnem-se. Alguns, estudantes principalmente, são
contrários ao trabalho. Creem que ela vai trabalhar para o regime.
- Coronel, o senhor gosta de bife? Dona Maria argumenta: “Uma coisa é o governo do Estado; outra
é o diretor. Você não vê como ele me trata?”.
- Gosto, claro! Quem não vai gostar dum bife? Outro episódio que fica marcado em sua memória no tempo
de carceragem é uma mulher anônima que levava, numa lata de
- E de arroz e feijão? biscoitos, farofa de carne seca. “Aquilo lá era uma delícia! Você
enchia o prato de feijão.”
- Claro, Dona Maria. É nossa comida brasileira! Como não vou Na época, o Estado tinha 1.700 presos. “Cidadão que roubava
gostar de arroz e feijão? uma banana ia preso. Quando saía da cadeia, os pais não queriam
ele mais, porque era um bandido, tinha roubado. Mas ele saía da
- Pois é. Essa gente que tá nas atas, que tão assinadas por toda a roça, não queria ficar mais lá. Ia pra cidade. Na cidade você não
diretoria, eles são é essa gente que cria o boi – porque quem cria o boi arranja emprego assim. Então eles iam morar embaixo da ponte.
não é o dono do boi, não. É esse coitado, que anda descalço, de roupa Cidadão tinha fome, não tinha dinheiro, então roubava.”
toda remendada, entende? E o arroz e feijão também, são eles que Na penitenciária, 35 quilômetros distantes de Goiânia, tinha
plantam. E nós estamos aqui na sombra. Não estamos? Como é que o hábito de ler e escrever cartas para outros presos. Até que um
vou entregar as atas pro senhor? dia o sargento responsável por vigiar os trinta ou quarenta prisio-
neiros que ficam em área livre durante o dia a alerta de que está
“Eu não dei as pastas pra ele, e ele passou a me respeitar. Do ajudando um sujeito que matara dez pessoas. Dona Maria não se
quinto dia de interrogatório em diante, passou a me chamar de intimida. No outro dia pergunta ao condenado se aquilo é verda-
Maria Callas.” O trocadilho faz referência à cantora lírica de as- de. Diante da resposta positiva, indaga o porquê. Descobre que o
cendência grega nascida em Nova Iorque. Quase homônima, das homem é uma vítima do sistema: aos doze anos foge de casa e, na
mais afamadas. “Meus pais compravam todos os discos dela. Era rua, passando necessidades, rouba frutas numa quitanda. É preso
a melhor voz do mundo. E o coronel falava que admirava a Maria pela primeira vez. Os parentes todos ficam sabendo. A vergonha
Callas, como me admirava também. E foi ele quem me soltou”. que os pais têm dele o impede de pisar em casa. Torna a roubar,
Além disso, a cantora tinha a fama de ser “indomável” e não rece- mas, desta vez, mata. É preso novamente.
ber ordens de ninguém. Carregando estas e outras histórias, quando sai da prisão, Maria
Na cadeia, um homem queria que ensinasse marxismo a ele. Sallas vai para São Paulo trabalhar numa cooperativa da Universidade
Sugere ao sujeito que compre O Capital e estude por conta. Em se- Mackenzie. Pouco tempo depois morre seu cunhado. “Eu tive grandes
guida, é convidada a lecionar arquivismo à irmã do diretor do pre- amigos do Mackenzie, sabe? Eles organizaram uma cooperativa dos
sídio. Sabia que Dona Maria organizara bibliotecas e documentos professores. E eu entrei. Conversava muito com doutor Mauro. Ele era

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chefe da cátedra de Português. Quando eu cheguei aqui, depois que saí ro dele, que o atinge. Falece no hospital, depois de seis meses, em
da cadeia, ele foi como um pai pra mim.” consequência do esmagamento. Meire, sua esposa, registra em um
Dona Maria ainda não entende o motivo de sua soltura. Mais livro de visitas os mais de 6.000 nomes que passam pelo hospital
tarde ele fica claro e, de fato, o coronel a salvara. “Esse homem me durante sua internação.
salvou a vida. Por que ele me soltou naquele dia? No outro dia, Destino parecido tem a irmã de Dona Maria, Maura Sallas Al-
eu já tava em Minas quando saiu a notícia de que ele tinha sido ves. “Minha irmã morava em Águas de Lindoia, daí ela ia indo
chamado urgente a Brasília, e viria outro pra substituí-lo. Ele não num Fusca. Ia ter o dia de Finados e ela ia comprar coisa, porque
tinha batido em mim e ninguém que ele interrogou, sabe? Depois o pessoal do interior faz muita coroa, muitas flores, pra levar no
é que eu fui saber disso.” cemitério, né? Aí durante uma hora quatro pessoas telefonaram
Na saída, alguns cadetes estão lá sentados, inclusive um capitão querendo saber que horas ela ia sair. Então, quando ela ia com o
que havia namorado a prima de seu marido. Ninguém fez perguntas. Fusquinha dela cheio de mercadorias no alto da serra tinha uma
O coronel pôs a mão no ombro de Dona Maria e falou: jamanta. Devagarinho, devagarinho. Deu sinal, e ela foi passar,
porque ela tava com pressa, não queria que anoitecesse. Isso era a
- Dona Maria Callas, eu quero que a senhora vá pra suuua casa. tardinha.” Ao ultrapassar o veículo, o caminhoneiro, provavelmen-
Pra sua. A senhora me entendeu? te a serviço da repressão, joga o carro dela no abismo. “Uma pena.
Uma pena mesmo. Ela era tão bonita, tão ativa. Ajudava muito.
Repetiu quatro vezes o “pra sua casa”. Era líder sindical. Loura, dos olhos azuis”, diz uma Dona Maria
com a voz embargada. “É. Foi muito duro.”
“Porque ele sabia que eu era de São Paulo, e minha família era de lá.” Mal teve tempo de se recuperar da perda da irmã. O irmão, à
época trabalhando na Eletropaulo, é preso, também por sua atua-
Seu pai falece quatro meses depois de ela pisar na Pauliceia. “Ele ção no sindicato. Querem que ele dê a diretoria da instituição.
me abraçou, me beijou, dançou um pouco comigo. Minha mãe Como não fala, pegam um caibro – peça de madeira usada na
veio também, abraçou junto. Daí ele falou: ‘senta aqui pertinho de construção de telhados – com um prego na ponta e espetam seu
mim. Vamos conversar. Eu quero saber como você se comportou pênis ali. “Quando soltaram ele, o órgão sexual dele era só sangue.
na prisão. Você entregou alguém? Entregou algum papel?’ Falei Ele mal podia andar saindo da cadeia.” Ainda tiveram a ousadia de
‘não, papel eu comi’.” dar o dinheiro do táxi para ele retornar para casa.
Dentre tudo aquilo que o pai ensina, dona Maria fala do valor
da solidariedade. “Na minha casa nunca chegou alguém que saísse Contra o golpe, pelo Brasil
sem comer alguma coisa.” É o grande valor dado à vida de outrem.
Por estas e outras não esquece do marido de uma das suas cole- Militante do Partidão quando há o racha entre PCB e PCdoB (opta
gas da secretaria, professor de cardiologia na Universidade Federal pelo último) surge a necessidade de se criar um veículo de imprensa
de Goiás e militante sindical assassinado pelos militares. Ao chegar para o partido. Amelinha Teles, seu marido e o amigo e dirigente co-
em casa, o homem desce do carro para abrir o portão da garagem. munista Carlos Nicolau Danielli passam, então, a operar uma oficina
Então homens do serviço de inteligência do Estado batem no car- de impressão clandestina até 28 de dezembro de 1972, ano em que é

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presa. “Aí eu fui presa e torturada, mesmo! Porque em 1964 eu só fui ma de também atingir Dom Hélder. E eu fiquei no Recife,
ameaçada. Meu pai foi muito torturado: quebrou um braço, quase atuando como Ação Popular, basicamente fazia educação
ficou cego na prisão; ele sofreu muito. Morreu há dez anos”. Segundo popular, com camponeses, com o pessoal das favelas. E
ela, morre com o braço torto, calcificado de maneira incorreta. quando eu termino a faculdade, eu já tô na Ação Popular.
Rosalina, que chega a fazer parte do comando regional da VAR Quando eu me formo é que tem o golpe dentro do golpe,
-Palmares, cuida do suporte operacional. Instala em seu apartamen- que é 68. Então, até 68 eu tinha uma atuação estudantil
to uma gráfica clandestina da organização com um mimeógrafo a e uma atuação, assim, muito ligada à educação popular, à
tinta, “um sucesso”. Mas a aquisição é difícil, pois o comprador do alfabetização de adultos, pra recuperar o movimento que
trambolho deveria ter a ficha criminal limpa. “Era um cheiro do tinha se esfacelado pelo golpe militar.
cão”, Rosa lembra. “Um barulho infernal”, similar a uma máquina
de costuras. “A gente fazia toda a parte de documentação, então Conheci o Paulo Freire. Ele foi meu professor na fa-
tinha que ir nos lugares onde tinham perdido documentos e trazer culdade de Assistência Social, e a gente atuava com o
documentos, que era pra você falsificar. Passava no ferro, assim”, e método dele. Já havia uma pressão para não se usar mais
simula com as mãos o movimento do ferro de passar. “Porque eles o método Paulo Freire. Porque antes mesmo já havia
não plastificavam a carteira; plastificavam, mas era da forma mais todo um trabalho de cultura popular, de formação polí-
artesanal possível.” tica, de camponeses, estudantes, operários, intelectuais.
Em ambos os trabalhos de Amelinha e Rosalina, todo cuidado é E isso até mesmo antes do golpe. O pós-golpe foi uma
pouco. No período em que a primeira está presa, encontra pessoas tentativa de se reorganizar. E a partir de 68 é que a re-
que acreditava estar do seu lado. Entretanto, não passam de cola- pressão passa a mostra sua face mais cruel. E a impedir
boradores do regime. “Eu não era da guerrilha, mas todo mundo a organização dos movimentos sociais.
tinha que usar arma. Porque a orientação era essa. A gente pelo
menos tentar ver se existe possibilidade de disparar uma arma pra Depois de 1968, começa a atuar na luta armada.
se proteger ou proteger o aparelho você usa. Como último recurso.
Eu treinei pra usar essa arma, uma arma pequena, mas nunca usei, Antes de 64 eram poucos grupos de esquerda que
nunca disparei contra ninguém.” defendiam a luta armada; nós acreditávamos naque-
E se por um lado Amelinha não está na guerrilha, Rosalina tran- le momento, toda a esquerda brasileira acreditava que
sita entre a militância pacífica e a luta armada. Entra na universi- era possível conseguir transformar o Brasil em socialista,
dade logo após o golpe, ainda em 1964, e tem uma participação através da luta de massas, da luta institucional, elegen-
ativa no movimento estudantil. Entra para a Juventude Operária do, por exemplo, o Arraes, o Brizola, o Jango, fazendo as
Católica e, depois, segue para a AP (Ação Popular). reformas de base. O golpe é exatamente para impedir que
essa revolução aconteça. Claro que tinhas relações com
O assistente nosso na Juventude Católica é um padre Moscou. Era uma luta de esquerda mais tradicional. A
chamado Henrique, que também é morto no Recife. Ele nova esquerda vai ter mais reflexo no mundo a partir
era um assessor de Dom Hélder [Câmara]. Era uma for- de 68. Porque em 68 é que começam as barricadas de

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Paris, o Fidel se reunindo com os partidos comunistas nem camponesa, com um grupo pequeno de pessoas. E
latino-americanos e dizendo ser possível fazer um, dois, Fulgêncio Batista, que era um velho, saiu correndo, claro,
três ‘Vietnãs’, a gente pode tornar a América Latina so- e os EUA não ocuparam porque não acreditaram que iam
cialista como Cuba fez em 59. Cuba fez com quantos enfrentá-los. Depois disso vem o Vietnã. Um país pobre,
homens? 60 homens? Era um modelo de revolução. Mas pequeno, que consegue enfrentar esse gigante dos EUA.
essa história de se fazer a revolução vem depois do gol-
pe, porque antes se faria revolução institucionalmente, Assim que acaba a faculdade de Assistência Social tem dúvidas
inclusive com as Forças Armadas junto. Mas não que sobre seu destino. Com a militância na AP e o próprio exercício
precisaria usar as armas para fazer a revolução. de sua profissão em “crise existencial”, procura Evany Mendonça,
diretora de seu curso e expõe a ela seus anseios. Eis que Mendonça
Um dos recursos usados para mobilizar as pessoas e, assim, criar oferece uma bolsa na área de serviço social em um curso da Orga-
uma identidade revolucionária no brasileiro são os teatros popula- nização dos Estados Americanos (OEA), na Venezuela.
res. “Tinha muito o sentimento de que a injustiça era tão grande Aceita partir para o país vizinho. A viagem e o descrédito que
que as pessoas iam reconhecer e construir um novo país, uma nova já dava às ações “de massa” levam ao desligamento da organiza-
pátria. E isso acontecia através de sindicatos, das escolas. Em 68 ção. “Nossos companheiros da Ação Popular estavam indo para o
fica impossível isso. Mostra que o caminho das massas, de uma campo. Tinha-se uma ideia, nessa época, de que todos os pequeno
revolução que fosse organizando forças para construir uma socie- -burgueses antes de se tornarem revolucionários teriam que viver
dade socialista era impossível”, conta Rosalina. no meio do povo”, conta. Gente que, muitas vezes, é designada
para o campo e não sabe nem plantar. O objetivo é aprender com
Quais são as revoluções radicais que transformavam as pessoas. “Muitos dos meus amigos foram. Eu não fui. Eu disse
um país capitalista em um país socialista? Na época, esta- ‘ah, não quero’. Tinha que ir para uma fábrica, tal.”
vam em confronto essas duas ideias no mundo, que era da Chega em Barquisimeto, a quinta maior cidade da Venezuela,
Guerra Fria. Tem aqueles que querem um mundo cris- onde o curso Problemas de Planejamento e Ação em Autoconstru-
tão, onde haja exploração, explorado, explorador e tem ção acontece. O projeto da OEA é trazer um mutirão de projetos
aqueles que querem uma sociedade de homens livres, de habitacionais para o Brasil. Seu trabalho de conclusão de curso
homens iguais. Socialismo versus capitalismo. Comunis- fora, justamente, em habitação.
mo versus capitalismo. E quais eram esses países? Antes da Dos cinco colegas brasileiros, um é João Sampaio, arquiteto e
guerra só tinha a União Soviética, em 1917. Depois disso prefeito da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, e militante do
em 48, 49 tem a Revolução Chinesa, e a revolução é feita Partido Comunista do Brasil. O outro, antagônico no campo po-
pelos camponeses, com uma radicalidade muito grande, lítico-ideológico, era parente do general Antonio Carlos da Silva
para acabar com todos os vestígios burgueses numa socie- Muricy, chefe do Estado-Maior do exército.
dade antiga, cheia de tradições, de uma cultura milenar, Sampaio e Muricy integram o Banco Nacional de Habitação,
conservadora, religiosa, foi difícil. E, depois em 1959, órgão federal responsável pela moradia no Brasil. A responsabilida-
Cuba, que fez uma revolução que não foi nem operária de de ambos é trazer o projeto de construção em mutirões para o

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cenário brasileiro sob financiamento da Organização dos Estados tiça, um mundo onde um homem não dominasse o outro, valia a
Americanos. Apesar da aparente capa popular do projeto, Rosalina pena você dar a sua vida por isso.” Acreditam na vitória, “ninguém
classifica a “ideologia” como “muito pronta”, já que as habitações achava que ia morrer”, garante. A luta por uma América Latina
populares são para poucos e com construção que não tem partici- socialista, “repetir a experiência cubana”, falha. “Alguns talvez te-
pação do povo. nham tentado um pouco mais timidamente e outros tentaram mais
Além da habitação, o que a deixa impressionada no país boli- ‘avançadamente’, mas todos foram nessa utopia.” A ex-presa política
variano é a guerrilha que brota verdejante por lá: guerrilheiros nas considera que a história desta “primeira geração” (dirigentes comu-
cidades e no campo. “O que me mostrou? Que essas coisas que a nistas com idade superior a 30 anos, em geral) só pode ser contada
gente discutia em Olinda, no meu círculo, na minha igreja e no pelas vozes da “segunda geração”, machucada, mas sobrevivente.
centro acadêmico da minha faculdade eram algo que os estudan- Cheia de ideias, volta da Venezuela e reintegra-se aos quadros da AP
tes no mundo tavam discutindo. E na Venezuela, que começou a como simpatizante, não antes de ir a Recife, onde mora sua família. E
luta armada antes da gente. Tavam brigando. Na Universidade de seu namorado, com o qual termina. Livre, mas com pouco dinheiro
Caracas tinha um hospital só para atender guerrilheiros, porque já no bolso, compra a passagem de ônibus que leva ao desembarque no
tinha tido a OLAS [Organização Latino Americana de Solidarie- Rio de Janeiro, com uma bagagem cheia de convicção ainda mais for-
dade] em 67, reunião que o Fidel faz com os líderes comunistas da talecida de que a luta armada é o melhor caminho. Entretanto, diz não
América Latina. Daqui do Brasil vão vários, como o Carlos Ma- considerar a luta armada e o ensino do socialismo “ao povo” como op-
righella, o Maurício Grabois, o Mario Alves, todos os mais velhos ções mutuamente excludentes; podem ser atividades complementares.
no Partido Comunista vão nessa reunião e saem de lá dizendo ‘aca- E procura um conhecido que “era seminarista em Recife, fazia
bou esse alinhamento com a União Soviética, acabou esse negócio parte da organização e eu sabia que ele era pároco em Cachoeiras
de fazer partido de massas, vamos fazer a luta armada. Vamos fazer do Macacu”, lembra. O município, na Baixada Fluminense, é local
um, dois três Vietnãs nessa América Latina!” Sublinha as últimas de forte agitação política. A transgressão às normas sociais tam-
palavras com os dentes cerrados e sobe a voz, empolgando-se. bém motiva sua ida para as terras fluminenses. “Eu queria transar
“E não só foi a gente. O Che Guevara era ministro, era médico, sem casar, sair da casa dos meus pais, ter uma profissão diferente
já tinha lutado em vários lugares, na Argentina, tava em Cuba, e morar no Rio.”
era ministro! Saiu pra ir pra Bolívia e morreu naquelas condições, Ana também está no meio das transgressões às normas. “No final
isolado, sozinho. Ele morreu, porque achou que esse era o caminho de 1967 e início de 1968, eu comprava uns rolos de papel de embru-
pra revolução.” Na sequência cita Mario Alves, Carlos Lamarca e lho e escrevia sobre a desnacionalização da indústria farmacêutica,
Carlos Marighella, segundo ela, mortos da mesma maneira. Im- que na época tava muito ‘brava’, porque estavam entrando grupos
pressiona ver a fúria que parece borbulhar das palavras de Ro- de saúde privados. A gente discutia revindicações mais gerais e essas
salina. Com seu forte sotaque pernambucano, sua fala fica mais menores. Tinha o Vietnã e um monte de coisa acontecendo, Cuba,
exaltada, áspera, como que querendo ferir aqueles que mataram Che Guevara. E nesse bolo tinha uma efervescência cultural sobre
os companheiros de luta. “Morreu uma geração de pessoas que sair de casa, não sair de casa. Ir morar com alguém sem casar. Vir-
acreditaram que ia ser assim a revolução. E que como valia a pena gindade.” E Jessie complementa: “era uma revolução de costumes”.
ter um mundo socialista, um mundo de iguais, um mundo de jus- Claro que o motivo de Rosalina mudar para uma cidade tão dis-

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tante de sua Recife quanto o Rio de Janeiro não é só uma luta pela informação. E é nesse contexto que entra o jornal Terra Livre, publi-
independência pessoal e de gênero: o convite de Sampaio e Muricy cado desde 1949 pela ULTAB (União dos Lavradores e Trabalha-
para que ocupasse um cargo na equipe deles no BNH fala alto. “O dores Agrícolas do Brasil) e, em Goiânia, conduzido pelas mãos do
que era uma coisa completamente contraditória, porque ir para o cunhado, Joaquim Alves, e da irmã dela. Alves, diretor do jornal,
BNH era ser coordenada pela ditadura, um órgão expressivo da dita- participa da guerrilha com Carlos Marighella. Fuzilado pelos mi-
dura. O Banco Nacional da Habitação queria fazer autoconstrução, litares com um tiro na cabeça, tem seu corpo jogado num matagal
a construção das favelas, usar o Fundo de Garantia [por Tempo de no bairro de Vila Esperança, zona Leste de São Paulo. Dona Maria
Serviço, FGTS] pra fazer uma habitação popular nos moldes novos pronuncia as últimas palavras com dificuldade e, com a voz trêmu-
que eram da ditadura militar. Meu chefe era um general, porque la, dá um longo suspiro. Os pequenos olhos castanhos estão cheios
todos esses lugares públicos eram generais. E durante a semana eu d’água. “Ele também fazia trabalho camponês, gostava demais do
vestia uma roupa de executiva e ia para o banco, e trabalhava com trabalho.” O método era similar ao empregado pela Ação Popular.
esse general. Durante o dia eu cobria ponto o dia inteiro da organi- Entretanto, com vários amigos na organização, Rosalina acre-
zação. Eu entrei em contato com o padre e entrei em contato com dita que a VAR-Palmares “tinha mais razão” do que a Ação Po-
a organização armada no Rio de Janeiro, que era a VAR-Palmares.” pular. E, embora mais difícil, o caminho das armas daria mais
É interessante notar que Rosalina e Maria Sallas, apesar de resultados. E é em busca desses resultados que vai todo o final de
completamente díspares no tratamento dado à luta armada, têm semana para a Baixada Fluminense, ao encontro do padre Gérson
semelhanças: trabalho em órgão público e forte relação com cam- da Conceição. Além do pároco, que ainda acreditava na ação de
poneses e sem terra. massas, há cerca de 20 camponeses. “Então aqueles camponeses
Sallas lembra-se com saudades do ano de 1950 – muito antes de todos estavam ali aprendendo o socialismo, o que tinha a ver Deus
Rosalina - quando o PCdoB organiza uma tomada de terras em e Marx, os ensinamentos da própria igreja tinham a ver com o
Goiás. Ela se envolve indiretamente na luta, daqui de São Paulo mundo socialista, você ‘amar o outro como a si mesmo’ significava
numa rede solidariedade, com o camponês Zé Porfírio. Gregório você querer que todos fossem iguais.”
Bezerra, também expoente na questão da terra, apesar da idade já Depois do contato com o padre, os camponeses e o “pessoal” da
avançada, dá seu apoio. “Aprendi muito com ele [Gregório]. Ti- VAR-Palmares chamam os trabalhadores rurais para uma discus-
nha uma habilidade para trabalhar com o camponês que você não são. Concluem que o melhor é, de fato, a luta armada. “Daí eu le-
tem ideia. Ele usava Deus, usava a religião, tudo isso. Porque o vei os camponeses pro Rio de Janeiro”, conta. “Eles não conheciam
camponês pensa assim.” Rosalina Santa Cruz também atua, pos- o Rio, quando eles entraram no meu apartamento não sabiam o
teriormente, ao lado de Gregório em Recife. E relembra do senhor que era um elevador. Naquela época era mais difícil essa relação da
que, mesmo preso, sob custódia do Estado e já com certa idade, é cidade com o campo.”
arrastado pela capital pernambucana, em seus calções vermelhos. Rosa relembra com risos essa ocasião. Diante do chão brilhante
Na primeira reunião de camponeses da qual Sallas participa, com sinteco, um dos camponeses, pitando seu cachimbo, vira-se
poucos sabem escrever. “Isso é muito bom”, dizia. “Porque vocês para ela e pergunta:
que sabem, no sábado e domingo vão ensinar os colegas que não
sabem.” Alfabetizar essas pessoas é fundamental. Letras significam - Onde é que eu vou cuspir? Não tem terra aqui!

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E lá vai Rosalina procurar uma xícara para o rapaz se aliviar pessoa não soubesse. Pra que ela não pudesse entregar, porque,
com a cusparada. “O menino chegou lá, o dirigente da Ação Po- mesmo que ela apanhasse muito, ela não sabia. Então, você ti-
pular, tava todo arrumado, aí discutimos o que era a luta armada nha que rodar, rodar pra ela pensar que tava em outro bairro. E a
e tal.” Depois de umas pitadas, os camponeses resolvem aderir à maioria das pessoas não sabiam, porque no fundo a gente não foi
modalidade de combate. “O padre ficou em dúvida, mas depois eu entregue. Era importantíssima a casa da gente por isso.”
soube que ele também tinha optado.” Quando Rose Nogueira é presa, em 1969, trabalha como repór-
Para não despertar suspeitas, volta para a cidade. “Na cidade fiz ter da Folha da Tarde chefiada por Frei Betto e está casada com o
mil contatos, também tem ações urbanas que eu fiz, já militando na colega Luiz Roberto Clauset. Com o marido na clandestinidade,
VAR-Palmares, na construção de uma saída através da luta armada.” Rose, legal, integra um grupo de apoio logístico da ALN. E, assim
“A gente teve uma vantagem enorme. Até quase o final da nossa como Rosalina, hospeda pessoas em sua casa, cede o espaço para
militância e a gente ser preso, nós éramos legais. Eu e Geraldo, reuniões. Dentre os companheiros para os quais dá guarida estão o
que era meu companheiro”, conta Rosa. O marido, Geraldo Leite, guerrilheiro Carlos Marighella, “comandante da ALN e o homem
conhecido com o codinome Marcelo, conhece quando chega às mais procurado do Brasil na época, dizia que a gente tinha que
terras cariocas. “Geraldo era engenheiro; eu era assistente social. E fazer revolução com poesia”, conta Rose. Lembra com carinho do
tínhamos carros legais, então isso era algo que nos colocava, assim, homem que durante sua gravidez leva o livro Parto sem dor e com
como superimportantes na organização”, ri. “Porque ninguém era ela começa a fazer exercícios de respiração para dar à luz com mais
militante legal. Legal era só simpatizante. Agora, chegar à militân- tranquilidade.
cia e não ter sido descoberto pela repressão era caso raríssimo. A No caso de Rosalina, em razão de seu marido Geraldo ser do
repressão sabia da gente.” INCRA o trabalho dele disfarça as atividades que envolvem cam-
Esse status “diferenciado” permite a Rosa e seu companheiro poneses, dando um manto verídico de legalidade. “Inclusive, as
que atuem em atividades impensáveis para outros membros. “Por informações da região, ele tinha tudo, porque ele era agrônomo.
exemplo, eu podia levar [colegas da organização para se reunir Era essa a nossa militância”, aponta Rosa.
com] Lamarca em Curitiba. Num carro legal. Lá atrás a gente “Os camponeses tavam na cidade e fizeram um treinamento mi-
passava por fronteiras, eles pediam documentos da gente, o carro litar na área. E isso foi descoberto. O Exército foi lá, invadiu a área
totalmente legal”, enfatiza Rosalina. Outro ponto é que podem e matou dois dos camponeses. Nesse momento, o padre não teve
transportar membros de ações, gente com dinheiro, que precisa acesso à área, porque ficou toda cercada por militares.”
fugir do local onde executa sua tarefa. E isso tudo sob o véu da Os “meninos” sobreviventes, como se refere aos camponeses, con-
legalidade. “E, qualquer coisa, a gente era funcionário do BNH. seguem sair da área. “Nós fomos pra lá, pra buscá-los, pra resgatá-los.
Naquele dia tava trabalhando. A gente entrava às 8h, saía pra fazer Fomos eu e Geraldo, porque conhecíamos a região, conhecíamos
essas coisas [e] voltava pro trabalho. Acima de qualquer suspeita.” eles e também éramos legais.” Rodam por toda Cachoeiras de Ma-
Mesmo a casa de Rosalina se constituindo como um “aparelho”, cacu procurando os remanescentes. Encontram ‘seu Pedro’, o mais
por ser legal, pode receber as pessoas “mais complicadas. “Só que velho deles, disfarçado de cego, com óculos escuros, uma bengala,
pra ter essa legalidade, ninguém podia entrar em nossa casa que pedindo esmolas. Geraldo e Rosalina vão falar com ele. Nesse mo-
não fosse com os olhos vendados, escondido no carro, pra que a mento, Rosa baixa a voz e passa a nos contar a história aos sussurros:

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Um golpe, vários destinos Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

- Seu Pedro, somos nós. dindo para nos soltarem a noite inteira. E nos soltaram
aos poucos. Isso desencadeou a passeata dos 100 mil. A
- Cuidado, que o demônio está por aqui...me encontra à noite. gente ia organizado. Eu levava gente da minha facul-
dade, grupo de dez. Saia junto e marcava um lugar pra
“Aí, de noite nós fomos lá, no lugar que eles tavam dormindo. ver se ninguém tinha sido preso, se tava tudo bem. Dis-
Tava ele, a família – uma menina que tava grávida. E ele contava cutíamos o que ia ser feito. Fechar a rua. Depois teve a
a história fantasiosa de que houve um tiroteio enorme lá, que o passeata dos 50 mil. E lá por julho e agosto a coisa engros-
filho dele matou não sei quantos. E não é verdade. No fundo, ele sou. Duas passeatas depois, quando tinha bastante gente,
fantasiou aquilo lá, porque quem morreu foram eles. A repressão saímos em uma rua e a polícia atirou na gente e pessoas
arrasou, queimou a casa. Fez o diabo com eles. Aí a gente tirou eles morreram. Aí a coisa engrossou, porque uma coisa é a
dali. Alugamos, em Teresópolis, noutro lugar da região, um sítio gente jogar bolinha de gude contra cavalo, vinagre contra
pra eles ficarem enquanto a organização não dizia pra onde eles gás lacrimogêneo e outra é os caras virem atirando.
iam. Aí discutimos com eles, queriam continuar na organização.
Daí foram pra área. Levamos eles pra Bahia, de onde eles foram Na sequência, o congresso de Ibiúna, que Ana classifica como uma
para a área que a VAR tinha, de guerrilha. Pra começar a guerri- loucura. “E essa foi a minha segunda prisão. Aquilo foi uma loucura.
lha, porque ainda não tinha nenhuma guerrilha lá. [Da Bahia] Os 1967 e 1968, pra mim, foram pessoas nas ruas, greves nas fábricas.
camponeses foram para Imperatriz, no Maranhão.” Não foi luta armada como alguns defendem. Tinha uma coisa ou ou-
tra, mas a gente não estava ligada. A gente já discutia se precisava ou
Repressão engrossa não da luta armada para derrubar a ditadura. Mas eram discussões
teóricas do que está por vir, do que um dia ia acontecer”, conta.
Alguns anos antes a efervescência política carioca se reflete em Rosalina continua a militância no Rio de Janeiro, na VAR-Pal-
manifestações contra o governo militar. Essa luta leva à passeata mares. Realizam um congresso no Recife, onde discutem a certe-
dos 100 mil, em 1968. “Aí eu tive a minha primeira prisão no cam- za dos caminhos que vêm adotando na luta política. “O Lamarca
po do Botafogo com mais 300. Nessa época a gente fazia muito já tava superqueimado. Ele não era da nossa organização, era da
comício relâmpago, a gente ia e voltava. E em um dia dessas vezes, VPR.” A VAR-Palmares dá origem à VPR, organização, segundo
na hora do almoço, fizemos isso e voltamos para a faculdade para Rosalina, mais “militarista” do que a sua. “Nós achávamos que não
discutir o que faríamos, como pichação. Quando chegou no meio dava para começar uma luta armada com ações diretas nesse mo-
da tarde, chegaram boatos que a cidade tava pegando fogo. Que mento.” Expõe as duas modalidades de ações mais realizadas: se-
começaram a virar carro e jogar coisa na polícia. Tava uma loucura questros e desapropriações, para “manter os companheiros vivos”.
e a gente tinha voltado pra faculdade pra discutir”, Ana conta e ri. “Chegava uma hora em que as pessoas não tinham aonde ir, porque
Ajeita-se na cadeira e prossegue seu relato. não podiam chegar em casa que eram presas; não podiam trabalhar,
tavam superqueimadas, usando nomes frios. Tinha que morar em al-
Fomos pro Dops com 300 estudantes, maioria de classe gum lugar! Lugares precaríssimos, tinha que comer. E como é que
média, virou uma zona com advogados, pais e mães pe- você mantinha uma organização? Você mantinha com ações! Se você

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pensar pelo tempo de ações armadas, nós fizemos muito poucas.” veio o AI-5 e eu já tinha sido presa duas vezes. Minha barra tava
pesada. Nas faculdades, todo mundo tava de férias, o que nos des-
Ditadura cerra os punhos mobilizou. Uma parte saiu do país e outra foram fazer trabalhos
nas fábricas, ou entrou em clandestinidade fazendo outras coisas.
O sufoco causado pelo regime que se vai fechando mais e mais E nesse meio tempo, eu entrei na ALN no meio de 1969. Foi tudo
e culmina no dia 13 de setembro de 1968, com o AI-5, o “golpe muito rápido, porque os laços foram cortados. O que a gente fazia
dentro do golpe”, leva Maria Sallas, que viu a repressão de Getúlio na faculdade ficou impossível. Fecharam os centros acadêmicos.”
Vargas, a escolher a turma de 1964 como pior e mais cruel. “Ah, No fim de 1969, sai de casa e vai morar num apartamento tornado
sem dúvida. Matou muita gente. A do Getúlio matou também, aparelho, com três companheiros procurados.
mas foi mais ‘leve’. Eles acabaram com Trombas e Formoso.” Ci- E Amelinha completa: “Eu fui pra clandestinidade porque nós pen-
dade atacada pela ditadura, era “exemplo de reforma agrária para samos: nós temos que continuar a luta, mais do que nunca. Se a gente ti-
o Brasil inteiro e para outros países”. Deram terras e, talvez o mais nha motivos para lutar antes, a gente tem mais motivos pra lutar agora”.
importante no sistema capitalista, crédito no banco. “E tudo o que Uma experiência de sonho e de utopia. E nisso acreditou a ban-
produzia era pra eles.” O prefeito só queria agrimensores e enge- cária Inês Etienne Romeu, única sobrevivente de uma sucursal do
nheiros comunistas, pois estes “não se vendem”. E desta terra sente inferno na Terra: a Casa da Morte de Petrópolis.
saudades quando vai para o exílio em Paris e em Moscou. “Meu
Deus... A gente sonha com o Brasil! Nossa. Eu sonhava que tava
no Viaduto do Chá, fazendo agitação; que eu tava no sindicato
fazendo assembleia, falando.”
Mulheres marcadas pela militância e pela tortura. A tortura físi-
ca e a tortura psicológica, quando não as duas combinadas, numa
dose em que o ser humano chega a todos os seus limites, exige luta.
Essa é a palavra que traduz as próximas páginas. Mulheres que
deixaram sua vida em modo de espera para lutar por um Brasil
que para cada uma delas representava um modelo de democracia,
justiça e igualdade. As mudanças ensaiadas antes do golpe de 1964
congelam por completo.
Momentos antes de deixarmos o apartamento de Dona Maria, ela
se levanta e nos dá um abraço afetuoso. E deixa um recado: “É dureza.
Se um dia se vocês quiserem ser batalhadores, lutar por mudar alguma
coisa que tiver que mudar, como tem milhares, a começar pela refor-
ma agrária, e como a saúde que tá uma calamidade, vocês sabem que
é duro. É duro. Mas pra consciência da gente é muito bom.”
“A vida não vai ser mais como era”, resume Ana Miranda. “Aí

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Célebre frase pendurada na


parede da sala de Rosalina Santa Cruz.

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Uma noite
feminina

Or incomincian Le dolenti note


a farmisi sentire; or son venuto
là dove molto piantomi percuote.
Io venni in loco d’ogne luce muto,
che mugghia come fa mar per tempesta

(Inf. V, Vs. 25-29)

Dos prantos ao lugar então cheguei;


notas de dor, gemidos lancinantes,
que me empalideceram, escutei:
lugar de trevas densas, abundantes,
brabando qual o mar em tempestade

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O geógrafo, quase economista (deixou a faculdade de Econo- espanto e a dor das memórias ali reveladas. Um imenso desnudar-se.
mia no terceiro ano) e professor Paulo Kobayashi, que empresta Expõem suas feridas, que ainda lutam para fechar – e o mais
seu nome ao auditório da Assembleia Legislativa do Estado de São importante: a fim de impedir que outras pessoas possam viver
Paulo (ALESP) - onde é realizada a audiência pública de verdade barbáries semelhantes.
e gênero - se ali estivesse, certamente estaria emocionado. Ironica- Essa é uma das metas da Comissão Nacional da Verdade
mente, o prédio que abriga a sala fica dentro do chamado “Círculo (CNV) e, em especial, do Grupo de Trabalho (GT) “Ditadura e
Militar”. Gênero”. O comissionário Paulo Sérgio Pinheiro comanda o grupo
A noite daquela segunda-feira começa cheia de dúvidas e ex- de sete pesquisadoras, com destaque para as consultoras Glenda
pectativas, sobretudo para as dezenas de pessoas que aos poucos Mezarobba e Maria Luci Buff Migliori, duas das espectadoras dos
se acomodam em uma das sete longas fileiras de poltronas verdes depoimentos que seriam feitos na noite de 25 de março de 2013.
dispostas de forma semicircular. Com os olhares curiosos voltados Paulo Sérgio Pinheiro é um senhor de 69 anos com cabelos e barba
para uma longa mesa sobre o palco à frente da sala, jornalistas e grisalhos. Seu olhar se torna mais contido por detrás de seus óculos
estudantes se misturam à plateia, composta também por parentes e com a armação redonda. O então coordenador da CNV compõe a
amigos das mulheres que compartilhariam suas dolorosas histórias mesa ao lado das mulheres depoentes. Escuta com atenção os relatos
e seus difíceis depoimentos. tocantes de Amélia Teles, Inês Etienne Romeu e de Eleonora Menicuc-
Enquanto ninguém anuncia o início do evento, aqui e ali microfo- ci de Oliveira, hoje ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres
nes e câmeras são posicionados e canetas começam a rabiscar os pa- e torturada nos porões da ditadura, que conta sua história também.
péis. O som moderado das conversas no auditório mantém um clima Doutor em Ciência Política pela Universidade de Paris, Pinheiro
de tranquilidade, que logo se tornaria de comoção. Todos se preparam foi nomeado, em janeiro de 2010, pelo então presidente Luiz Iná-
de alguma forma para o que estão prestes a ouvir, lembrar e reviver. cio Lula da Silva, para representar a sociedade civil num grupo de
Posicionados mais ao fundo, com cadernos e gravadores em trabalho preparatório de um projeto de Comissão da Verdade no
mãos, tentamos reconhecer as personalidades e personagens que Brasil.
aparecem na sala. Até que em um momento de distração, absortos Após sua instauração, em 16 de maio de 2012, numa cerimônia
na troca de ideias, um folheto sobre a audiência se estende sob nos- com todos os ex-presidentes do Brasil vivos na época1, Paulo Sérgio
sos olhos. Uma jovem de cabelos longos e olhar sereno entrega o foi nomeado pela presidente Dilma Rousseff para integrar o colegiado
papel e se senta na ponta da poltrona mais próxima. Thaís Barreto da CNV junto a mais seis membros: os juristas José Carlos Dias, José
se apresenta rapidamente como assessora de imprensa da Comissão Paulo Cavalcanti Filho, Cláudio Fonteles e Gilson Langaro Dipp.
Estadual da Verdade “Rubens Paiva” e indaga nossa atividade ali. Além deles, Maria Rita Kehl e Rosa Cardoso também compõem a
“Percebi que faziam anotações”, explica, “creio que este material comissão. A CNV ainda tem 14 assessores, e o seu quadro geral, con-
possa ajudar”. Sem delongas, sai em direção ao que pareciam ou- tando com consultores e colaboradores, chega a 50 pessoas.
tros jornalistas ou estudantes próximos.
Mal sabia ela, mas abria-nos as portas do que seria uma noite fe-
1. José Sarney (1985-1990); Fernando Collor de Mello (1990-1992); Fernando
minina. Uma noite imersa nas emoções de um passado incômodo e Henrique Cardoso (1995-2002); Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010); e Dilma
triste das mulheres que se posicionam à mesa e depõem. Respira-se o Rousseff (2011- 2014.)

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Respeitado dentro e fora do país, Pinheiro divide as atenções ções e a tomada de depoimentos de acusados de envolvimen-
da CNV com a Organização das Nações Unidas (ONU), na qual to das graves violações dos direitos humanos no período2.
ingressou em 1995. Nela, o cientista político preside uma comis- A mobilização em torno da audiência de hoje reflete o
são internacional nomeada para investigar violações dos direitos esforço que vem sendo desenvolvido nesses dez primeiros
humanos na Síria. Entretanto, esse reconhecimento no âmbito na- meses de trabalho da Comissão no cumprimento do seu
cional parece estar arranhado, pois seu trabalho na comissão brasi- mandato3 de examinar e esclarecer as violações de direi-
leira é bastante contestado, assim como o próprio órgão. tos humanos [pausa e aumento da voz] – das mulheres,
Em meio ao auditório carregado emocionalmente depois das his- inclusive. O que nos traz aqui é a certeza de que audiên-
tórias de Amélia Teles (ou Amelinha, como é conhecida) e Eleonora cias públicas como essa são fundamentais para as vítimas
Menicucci, as quais serão contadas no decorrer deste livro, Paulo Sér- da violência política, do arbítrio e para seus familiares
gio começa o seu discurso receoso, ao ficar em silêncio no começo, por constituírem um fórum público e que os sobreviven-
para depois afirmar não haver o que acrescentar. Sua voz, que carrega tes tenham a oportunidade de narrar o que viveram. É
um sotaque português, é forte e alterna variações de maior rispidez justamente em uma comissão da verdade que aqueles que
com um tom mais ameno, buscando a reflexão de todos os presentes. previamente sofreram nas mãos do Estado podem se tornar
Didática de um professor universitário e com carreira acadêmica valo- as mais críveis testemunhas e as vozes mais confiáveis de
rizada, seu discurso traz um teor mais oficial, quase propagandístico, e eventos traumáticos contestados até hoje. Nessa noite as
pouco emociona – são vocábulos, em sua maioria, frios saídos de uma vozes são, principalmente, femininas. As mulheres preci-
folha de papel escrita por um homem que domina a teoria e consegue sam ser redescobertas. É um compromisso desde a primeira
sintetizar os motivos da criação da CNV e do GT de gênero. hora da Comissão Nacional da Verdade, porque nós não
quisemos ser como algumas das comissões da verdade do
Caros amigos e caras amigas, depois desses depoimentos o continente, que de repente, no último mês, descobriram
que eu deveria fazer era não falar nada. Mas não fica bem, que não falavam das mulheres. Aí contrata uma assessoria
né? Eu estar aqui e não dizer alguma coisa. Em nome da para tapar essa dificuldade. Não. Desde o primeiro mo-
Comissão da Verdade, queria agradecer a presença de todos mento, todos os comissionários e comissionárias têm plena
e todas e destacar o grande empenho da Comissão Estadual certeza da necessidade dessa redescoberta. Essas vozes vêm
da Verdade Rubens Paiva [de São Paulo] pela promoção e ecoando desde os primeiros crimes cometidos pelo aparato
realização desta audiência conjunta, sublinhando o esforço repressivo. Essas vozes trazem o sofrimento, desespero, a
de Amelinha Teles. Estamos dando continuidade à agenda persistência das mulheres em busca de seus maridos. Em
de audiências públicas da Comissão Nacional da Verdade busca de seus filhos. As vozes femininas sussurram a de-
desenvolvida em todas as regiões do país, incluindo o teste- terminação e a tenacidade de tantas mulheres. As vozes
munho de vitimas, sobreviventes, seus familiares, investiga- femininas esta noite não calam sobre a tortura, assassina-

2. A CNV deverá examinar e esclarecer os crimes contra os direitos humanos de 18 3. A Comissão Nacional terá o prazo de dois anos para a conclusão do trabalho,
de setembro de 1946 a 5 de outubro de 1988. segundo a Lei 12.528/2011, no seu artigo 11.

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tos, das mortes e dos desaparecimentos de tantas mulheres. outras a mentira deixará, afinal, de ser a verdade.
Sem muito esforço, podemos examinar o grito que tornara
preso na garganta das mulheres que sobreviveram à vio- Além de Pinheiro, suas colegas de comissão, Rosa Maria Car-
lência do Estado nos quatro cantos do país. Certamente foi doso e Maria Rita Kehl, também prestigiam a audiência. As duas
pensando nelas que a presidenta Dilma Rousseff instalou comissionárias, fisicamente parecidas e com um corte de cabelo
a Comissão Nacional da Verdade e vem apoiando, incon- similar, encontram-se sentadas na plateia e distantes uma da outra.
dicionalmente, o cumprimento do seu mandato. Eu, que Alguns metros à frente, sentado à mesa da audiência, estava
conheço algumas comissões da verdade deste continente e Adriano Diogo. Com sua voz rouca e modos contidos, o deputa-
do mundo, poucas delas têm contado com o apoio tão deci- do estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e presidente da
sivo do Estado como a Comissão Nacional da Verdade. E, Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”, então, anuncia a
por determinação mesma da presidenta, o Governo deve composição da segunda mesa: a advogada Rosa Maria Cardoso e
dar apoio, mas não deve se intrometer. Até hoje, nenhum a psicanalista Maria Rita Kehl, integrantes da Comissão Nacional
membro do governo nos disse algo que devemos fazer. Foi da Verdade; somada a elas, a teóloga, especialista em gênero e frei-
pensando em dar voz a todas elas que a Comissão Nacio- ra Ivone Gebara, que traz um texto preparado para sua palestra.
nal da Verdade estabeleceu o grupo de trabalho ‘Ditadura Adriano Diogo, ao centro, pede antes que Ivone Gebara faça a apre-
e Gênero’, que tem como objetivo dar visibilidade ao so- sentação, “pra Maria Rita Kehl e pra doutora Rosa Cardoso fazerem
frimento das mulheres diretamente envolvidas nos confli- uma breve saudação, em nome da Comissão Nacional da Verdade,
tos, das que participaram de movimentos da resistência como mulheres que integram a comissão e que tão bem representam”.
e daquelas cujos familiares foram vítimas da perseguição O único som que se ouve é do zumbido constante dos aparelhos
política, foram mortos ou seguem desaparecidos. A ausên- eletrônicos de transmissão do evento e do projetor de imagens. Fora
cia de Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da ‘Casa isso, o silêncio por alguns instantes reina absoluto. Nesse curto es-
da Morte de Petrópolis’, aqui nesta noite, fala por si só. paço de tempo, após a conclusão do pedido pelo deputado petista,
Não cala o sofrimento, mas sobretudo diz da dignidade as faces de Cardoso e Kehl deixavam transparecer um misto de des-
e coragem da Inês. Deve ser ouvida como um convite do conforto e inquietação. Dedos inquietos procuram um papel, uma
Estado brasileiro a todas as mulheres que querem narrar nota, um apontamento. Entreolhares entre os membros da mesa.
o que lhes ocorreu. Afinal, é por causa do futuro que esta- Advogada, Rosa Maria Cardoso, de 63 anos, ganha notoriedade
mos olhando para o passado. É por causa da persistência durante o regime militar ao se especializar em defender presos po-
da violência, estatal ou não, contra a mulher. Precisamos líticos, entre eles a atual presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e al-
lidar com essa questão. Certamente nas recomendações gumas das personagens presentes neste livro. Eleonora Menicucci
do relatório final da Comissão Nacional da Verdade essa elogia a atuação e a coragem de Rosa Cardoso ao lutar pelos presos
violência contra a mulher será intensamente considerada. políticos durante o regime militar. “Não posso deixar de, em nome
A luta, a verdade, e a justiça são substantivos femininos. da Rosa Cardoso, reconhecer aqui o papel de todas as advogadas
Isso não pode ser esquecido. E nós estamos convencidos que mulheres e advogados homens, principalmente as mulheres que
depois dos trabalhos de nossas comissões da verdade e de

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Uma noite feminina Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

sofriam também muita ameaça por estarem nos defendendo. Ter- Jabuti na área de educação. Neste mesmo ano, Maria Rita entra
mos essas pessoas do nosso lado legitima e reconhece toda a nossa em uma polêmica ao ser demitida de o Estado de S. Paulo, no qual
história”. Por causa de sua atuação no período militar, Cardoso mantinha uma coluna quinzenal no Caderno 2, após a publicação
tem sido criticada pelos militares que a consideram “revanchista”. do texto Dois Pesos.. às vésperas das eleições daquele ano.
“Eu, na verdade, não preparei nada, nem sabia que seria chama- Engajada politicamente, Kehl reflete no artigo, usando como
da pra aqui, né?”, arremata Rosa Maria Cardoso. A profunda co- gancho as correntes eleitorais na internet, sobre como a reação de
moção e o silêncio pesado que caíam sobre a sala são interrompidos pessoas das classes D e E contrastam com as das demais classes
por risos da plateia. depois de programas como o Bolsa Família. Critica a soberba dos
A sobriedade volta à face indecifrável de Rosa Cardoso. Seu jeito mais ricos quanto ao voto, porque os “dos pobres a favor da con-
tranquilo esconde uma voz forte, decidida. tinuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de
governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão
“Me sinto tão comovida como cada um de vocês com consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do
essa história. Essas coisas nós, cada um, assistimos, vive- que parte da oposição chama de bolsa-esmola.”
mos, passamos...quer dizer, não passei pessoalmente, mas Ao ser chamada às falas, a psicanalista, que “também não conta-
fui testemunha delas como advogada de presos políticos, va” com o fato de ter de se pronunciar, levanta outra questão acerca
mas não é com naturalidade que nós ouvimos a repetição da violência de gênero: o que podemos considerar como uma vio-
de tudo isso. E é muito importante, de qualquer forma, lência específica de gênero?
recordar que essas coisas acontecem, né? Porque não só De acordo com o pensamento que lhe ocorre – o qual divide
em regimes ditatoriais elas acontecem, mas a violência num bilhetinho com Pedro Pontual, então secretário-executivo da
contra as mulheres acontece também na sociedade, na Comissão Nacional da Verdade: “se homens e mulheres foram es-
vida cotidiana. E é preciso que a gente dê destaque a tuprados na tortura, o que é uma violência específica de gênero?”.
isso, para que essa violência não se apague, como uma A resposta de Pontual, segundo Kehl, é de que “a violência sexual
violência normal entre os sexos.” está associada à mulher, porque nessas condições fica muito clara a
lógica da submissão, que vale tanto para mulheres quanto homens”.
Campineira, Maria Rita Kehl carrega um semblante leve em A partir disso, a psicanalista traz à tona a “resolução deste pen-
meio ao clima pesado que percorre aquele auditório. Assim como samento”, ao sugerir que também com os homens, a humilhação
Pinheiro, destoa de Rosa Cardoso quanto à participação durante sexual na cadeia, “diante do poder, do arbítrio, da força bruta”
o período militar. Enquanto ainda cursava a graduação em Psi- ainda hoje está ligada a fazer os prisioneiros de “mulher”, como
cologia na Universidade de São Paulo à época, Kehl atua como a maior humilhação à qual um ser humano do sexo masculino
jornalista na imprensa alternativa– alcança o posto de editora do pode ser submetido.
jornal Movimento, uma das trincheiras de combate ao regime mi-
litar da imprensa alternativa. O que dá pra pensar numa condição especificamente
Em 2010, recebe o Prêmio Direitos Humanos do Governo Fe- que eu posso chamar em termos simbólicos de feminina
deral na categoria Mídia e Direitos Humanos, além do prêmio não necessariamente é sofrida somente pelas mulheres, o

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Assembleia Legislativa
do Estado de São Paulo.

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que nos faz refletir um pouco sobre uma natureza secun- certo desinteresse pelo poder, pela política, pela luta dos
dária dos regimes autoritários que é, sim, eles são parceiros homens, não é? Nós tivemos um pouco condenadas a con-
sempre do que nós chamamos vulgarmente de um certo tinuar representando isso mesmo que muitas gerações de
machismo. Ou seja, não há regime autoritário que convi- mulheres, desde a década de 50, já tenham recusado esse
va bem com a igualdade entre homens e mulheres. E aí nos papel. Então, a luta contra a ditadura, aqui no Brasil,
faz pensar também por que a coragem das mulheres parece coincidiu com essa grande onda libertária, que mudou de-
mais intolerável para aqueles que são seus algozes do que finitivamente a condição das mulheres no ocidente. Claro
a coragem dos homens? Por que a militante, a guerrilheira que, com isso, eu não quero justificar absolutamente a sa-
ou mesmo a menina que estava protestando na rua e foi nha com que os agentes do Estado se dedicaram a torturar
presa desperta uma ira mais profunda nos seus algozes? e abusar sexualmente das prisioneiras, mas era, talvez,
Não é necessariamente pelo que nós somos, no sentido da intolerável que debaixo ainda do poder, da força bruta,
natureza feminina, que como sujeitos os nossos desejos, so- da prisão, das armas, etc. que sujeitavam as prisioneiras,
nhos, anseios, dores, prazeres, etc. nós somos muito mais tanto quanto os prisioneiros, elas ainda pudessem opor re-
semelhantes do que diferentes dos homens; nós temos muito sistência à força, se recusando a falar, por exemplo, não é?
mais semelhanças entre nós do que diferenças com os nossos Corajosas como homens, entre aspas. Talvez todos os pri-
queridos companheiros homens, não é? Então, não é pelo sioneiros assujeitados tenham-se visto em algum momento
que nós somos, mas certamente pelo que as mulheres ainda numa condição que, simbolicamente, ainda se chama de
representam historicamente. E tem aí uma inércia históri- feminina, a condição do assujeitamento, de estar diante
ca da sociedade, que as mulheres hoje em dia já estão em do mais forte, na posição do mais fraco, de quem sempre
pé de igualdade, no entanto, a humilhação contra as mu- se espera submissão, cordura, medo, covardia, então aqui
lheres nas cadeias continua, e a feminilização dos prisio- não se trata do masculino e feminino; o masculino e o fe-
neiros, pela humilhação, sexual e pelo estupro, continua, minino se amam, se desejam, se atraem, se complementam,
não é? Ou seja, historicamente as mulheres estavam con- se entendem; se trata da posição do bruto contra a projeção
denadas a representar coisas que até nós gostamos muito, do fragilizado; a posição do prepotente, aqui representada
como doçura, delicadeza e os homens também não gostam? como masculina, contra a posição do submetido à força; se
Nós representamos a doçura e a delicadeza mesmo quando trata da posição de quem tem o poder diante da posição da-
muitas vezes os nossos parceiros são mais doces e delicados quele a quem falta poder. Ou seja, essa é a condição huma-
do que nós em algumas situações, não é? Representamos a na. Mas, pelo menos pra psicanálise (e é aqui que eu quero
capacidade de cuidar e proteger, pela condição da mater- terminar pra não ficar chato), a diferença sexual também
nidade, mesmo quando muitos homens possam se mostrar fez com que muitos homens se achassem poderosos ou mais
mais protetores e cuidadores do que nós. Mas pela nossa poderosos até do que suas próprias mulheres amadas.
condição histórica, pelo menos até o século XX, nós repre-
sentamos também, mesmo que não gostemos disso, submis- Antes mesmo de terminarem os aplausos, a voz rouca de Adria-
são, obediência, covardia, medo, uma certa alienação, um no ressurge na audiência para anunciar a especialista em gênero do

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evento: Ivone Gebara. Prontamente, a senhora passa a organizar uma consequências. Era notório o impacto dos pouco menos de dois
pilha de folhas que em instantes ganham vida em sua voz aguda. anos que passaram trabalhando juntas.
Freira. Teóloga. Educadora. Doutora. Feminista. São vários os voca- Um dos métodos que emprega hoje com seus alunos veio da peda-
tivos da senhora de 69 anos que hoje reside em São Paulo. gogia analítica herdada da colega: não aceita “palavras feitas”. “Se fala
Filha de pais imigrantes libaneses e sírios, Ivone, na década de libertação. ‘O que você tá dizendo com isso?’ ‘Isto é a verdade’. Mas,
1960, estuda Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São peraí... o que que é? Pensa um pouco. Como é que você se implica
Paulo (PUC-SP). E apesar de não fazer parte de nenhum grupo nessa palavra ‘verdade’? Tentar, digamos assim, não só personalizar,
de combate direto ao regime ditatorial instalado durante sua gra- mas descobrir o significado pra você, pra sua existência, dessas coisas.”
duação – milita como estudante - fica fortemente marcada pelos Entretanto, para a ditadura militar, boas ações não ficam impunes.
acontecimentos advindos das políticas repressoras do Estado.
Hoje, com os cabelos prateados, marcados pelas memórias de Essa professora me dava carona pra casa. E saindo da
anos difíceis e combativos, a feminista destes dias, quando conclui aula, que era à noite, tinha uns jovens... naquele tempo,
a graduação, em 1967, entra para a Congregação das Irmãs de Nossa os jovens de colégio do Estado usavam uma bata branca.
Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Lá passa dois anos estudando De bata branca, esperando por ela. Eu imagine que fossem
as leis divinas. Enquanto isso, aqui fora, as leis dos homens pioram. alunos, e aí quando eu vi eram da polícia, porque fizeram
No começo dos anos 1970, com o caldo repressivo engrossado questão de entrar no carro com ela, não queriam deixar
pelo Ato Institucional N° 5, na sexta-feira de 13 de dezembro de que eu entrasse. Eu acabei entrando e disse ‘não, eu vou
1968, Ivone Gebara começa a lecionar Filosofia na Escola Estadual com ela’. E fomos pra casa dela. Eu fui na frente, e os três
Prof. Jacomo Stávale, na Freguesia do Ó, bairro da Zona Norte da foram atrás. Tinha outro carro também. Eles não estavam
capital paulista. Conhece uma professora que mudaria sua vida: fardados. E a coisa começou a ficar mais tenebrosa, por-
Carmen, que ministrava aulas de Física. Sua metodologia de ensi- que um deles tirou a arma e apontava pra gente, né? Aí
no revolucionária interessa de primeira à jovem professora Ivone. entramos na casa dela; ela tinha uma tia bem velhinha.
“Ela era uma grande pedagoga, era professora de Física, então Eu mal consegui abrir a porta da casa, porque eu fiquei
ela fazia coisas assim que, pra mim, era tudo novidade. Ela expli- muito nervosa... e foi o próprio policial que abriu, né? Eles
cava, por exemplo, teorias... a Teoria da Relatividade, Einstein, etc. prenderam a Carmen, ela passou mais de mês na prisão.
e tal, e direcionava pro social: ‘como as grandes conquistas da ci- E depois que ela saiu, durou pouco tempo e morreu. Ela
ência podem ser direcionadas pra bomba atômica, pra destruição, foi muito torturada. Então, desde este tempo eu tive uma
no regime militar. Então o que ela me contava era a pedagogia do atenção muito especial com esta problemática.
ensino da Física com a política antimilitar. Eu ficava espantadíssi-
ma! Eu tinha 21, 22 anos... eu tava boquiaberta. Pra mim, Física Ivone nunca soube a qual organização pertencia sua colega de
era Física, Filosofia, Filosofia.” trabalho. Não chega, sequer, a saber seu sobrenome. As poucas in-
Com ela, Ivone começa a aprender como preparar suas aulas formações que tem dão conta de que o pai de Carmen, diretor de
de Filosofia da mesma maneira emancipatória que Carmen fazia. escola pública à época, jamais apoia a filha. Tamanho seu desprezo
Ensinar Platão, Aristóteles, Hegel, Kant e mostrar esse aspecto das e mágoa que sequer foi ao enterro dela.

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Podemos especular que a história de Carmen fomenta a partici- podemos dizer que a “verdade” tem história, e uma histó-
pação da teóloga na militância religiosa contrária ao regime. E essa ria sem fim na própria história da humanidade.
atenção à problemática das mulheres torturadas durante a ditadura
se reflete no convite para integrar a primeira audiência pública so- A verdade histórica, quer na sua relação com as coisas
bre gênero. De acordo com Ivone, sua presença se deve a trabalhos simples da vida cotidiana, quer na religião, na política e
de Anivaldo Padilha, ex-preso político e militante metodista, hoje nos cárceres, é marcada pelas relações de poder entre mu-
membro do grupo de trabalho da CNV que investiga o papel das lheres e homens. Relações de gênero são relações de poder
igrejas durante o regime militar, e Luci Buff e Glenda Mezarobba, que atravessam o conjunto de nossa história em diferentes
do grupo de gênero. Ivone é do mesmo grupo de Anivaldo. “Como direções e intensidades. Essas relações são expressas através
eu trabalho com a questão de gênero há muito tempo, resolvemos de comportamentos, valores e práticas culturais que de certa
juntar gênero e religião. Depois desses depoimentos que nós ouvi- forma foram naturalizadas. Em outros termos foram inter-
mos aqui, eu fiquei me perguntando se a minha reflexão era mes- pretadas como sendo próprias da natureza feminina ou da
mo apropriada para o momento, mas, em todo o caso, vai desse natureza masculina e, por isso mesmo, consideradas quase
jeito, porque eu não tava ciente de toda essa carga emotiva que nós imutáveis. Por exemplo, se fala das necessidades sexuais dos
íamos viver com os depoimentos.” homens como algo evidente enquanto as necessidades sexu-
Com seus óculos postos começa a leitura. ais das mulheres como algo secundário. De forma que se
vai permitir aos homens uma prática sexual que mesmo
O que queremos dizer quando buscamos a verdade ou sendo desrespeitosa poderá ser justificada pela necessidade
quando criamos uma Comissão Nacional da Verdade? que a natureza lhes impôs. O mesmo em relação ao exercí-
Num primeiro momento podemos dizer que se estamos bus- cio do poder político, antes considerado como prerrogativa
cando a verdade é porque vivemos uma injustiça, um erro, da natureza masculina. Essa concepção naturalista tenta a
um equívoco, uma mentira, uma situação dúbia, um en- desculpar os homens de eventuais deslizes e culpabilizar as
godo, uma falta de clareza que nos impedem de viver com mulheres por comportamentos semelhantes.
dignidade e no respeito à nossa história. Nessa linha temos
que perguntar: “quem é esse “nós” que vive nessa situação Trata-se da questão de gênero nos processos repressivos
precisa?” Há um nós pessoal, um nós grupal e um nós na- e nos processos de restauração da verdade. Falar da ques-
cional mais amplo. Quando se trata de um “nós” nacional, tão de gênero nos processos repressivos é indicar a presença
parece que se quer corrigir uma história escrita e contada, de uma relação particular entre mulheres vítimas e ho-
se quer fazer aparecer o que não está presente na oficialida- mens torturadores ou inquisidores. Poderia ser o contrá-
de contada em um tempo determinado, se quer lembrar o rio também, mas creio que isto aconteceu bem pouco nos
que permaneceu esquecido, embora vivo na memória e nos calabouços da ditadura brasileira. O mais comum foi as
corpos de muitas e de muitos. E, nesse processo, queremos mulheres sofrerem sevícias sexuais especialmente nas áreas
restaurar algo que chamamos verdade. Mas que verdade é mais sensíveis de sua genitalidade, nos seus seios e mamilos
esta? O que é essa verdade? A quem pertence? Nesse sentido ou serem testemunhas de sevícias feitas as suas crianças.

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A primeira coisa que gostaria de chamar a atenção é A teóloga, concentrada nas palavras rodopiantes, sem desgru-
o fato de que a presença das mulheres nas lutas contra a dar os olhos da folha e sem fazer pausas, continua sua participa-
ditadura, nas organizações clandestinas e nas prisões ter ção na audiência.
sido considerada uma espécie de aberração. Nós, mulheres,
pela simples participação nessas lutas, já estávamos fugin- Além disso, continuamos a ser objetos de prazer fácil
do do destino doméstico que a natureza nos reservou. Pelo mesmo nas situações trágicas de uma sessão de tortura.
simples fato de estarmos lutando já éramos consideradas Quantas mulheres testemunharam a masturbação dos al-
“ desnaturadas” ou traidoras da natureza, desobedientes gozes diante de seus corpos nus! Quantas não se sentiram
aos papéis sociais aos quais deveríamos obedecer. Estar usadas pelas palavras e gestos obscenos que reduziam seus
ali era de certa forma querer igualar-se a um macho, era corpos a objetos de consumo imediato! Até nas prisões os
simbolicamente querer subir de categoria antropológica e corpos femininos continuaram a ser utilizados como obje-
social metendo-nos num lugar que não poderia ser o nosso. tos de prazer, uma forma de prazer que denuncia as zonas
Éramos simplesmente intrusas. obscuras de algumas masculinidades perversas.

Por isso, despertávamos uma raiva irracional quase in- Não é aqui o lugar de enumerarmos as muitas formas des-
contida por parte de muitos homens. Quantas mulheres ses crimes, mas de refletir como e por que os corpos femininos
presas não ouviram de seus algozes: “Puta, você está aqui tiveram um tratamento diferenciado visto que não foram
porque quer” ou “Puta, você saiu do fogão e agora paga”. apenas torturados para extrair deles confissões políticas ou
Muitas de nós fomos penalizadas porque ocupamos luga- como castigo por pertenceram a algum grupo político contra
res considerados impróprios às mulheres porque eram pos- a ditadura dominante. Uma forma de perversão e de ódio
sessões masculinas garantidas pela natureza. Sem dúvida se manifestou igualmente. Um ódio e uma atração quase
uma concepção patriarcal de natureza que ainda subsiste ancestral em relação ao corpo feminino. Uma vontade de
em muitos meios. possuir e destruir para além dos motivos aparentes alegados.

Semanas depois da audiência, encontramos Ivone no café da Chamo de ódio e atração ancestral a um comportamento
Livraria Cultura. Entre o cheiros do grão expresso e o perfume cultural verificado por algumas estudiosas desse fenômeno
dos milhares de livros novos, por mais de uma hora nos detalha a de agressão do masculino contra o feminino nas situações as
ditadura sob uma perspectiva feminista. Com o mesmo jeito tran- mais inusitadas. Para além da reconhecida simetria entre
quilo e a voz aguda, apagada, mas intensa, relata um Estado com os seres humanos, há uma assimetria fundamental entre fe-
um grau machista tão grande que, além da vertente apontada por minino e masculino que permite a agressão da genitalidade
Gebara em seu discurso, não houve mulheres torturadoras ou com especialmente da vagina, o orifício visível condutor de vida.
papéis preponderantes da organização repressora. O papel femini- É a vagina que é penetrada tantas vezes, sangrada, ferida
no institucional do regime, nos diz Ivone, está ligado à mulher en- como se o agressor quisesse destruir algo que o incomoda, algo
quanto enfermeira, cozinheira, carcereira. Profissões “cuidadoras”. que tem a ver com a força vital feminina e com a própria

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À esquerda a no-
tícia como saiu no
Estado de São Pau-
lo em 04/10/1973;
à direita, a versão
censurada, com de-
núncias de tortura.
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história biológica masculina. A mulher violada frente ao figura da ex-presa política nos anos 1970.
violador deixa de ser um ser humano semelhante e diferente. Estar lá e poder discutir sobre o assunto com duas comissões da
Deixa de ser parecida com a mãe, a esposa ou a filha para verdade instaladas e funcionando e, principalmente, homenage-
tornar-se coisa, objeto a ser subjugado e contido à força. ar Inês Etienne Romeu são motivos de alegria. “Nesse momento
do ato, fui convidada para homenagear uma grande mulher. Uma
Denunciar os crimes cometidos contra as mulheres nas grande amiga. E uma grande companheira. Inês Etienne.” Com a
prisões da ditadura é denunciar ao mesmo tempo uma voz marejada, mas ainda forte, Eleonora faz uma pausa de alguns
cultura hierárquica da superioridade masculina que con- segundos. Decide agradecer, em seu nome e de sua filha, a duas
tinua presente em nossa sociedade, na política e nas reli- pessoas que estavam sentadas na plateia: Expedito Prado e Regina,
giões. É denunciar não só o tráfico continuado de corpos, que cuidaram de sua filha enquanto esteve presa.
mas a demarcação da territorialidade do poder masculino Estar ali, entretanto, também faz com que as mulheres sofram.
através da posse das mulheres, sobretudo das jovens. Há “Sofrimento porque cada momento que falamos desse passado tão
muito caminho a andar para que nossa humanidade se presente, ele nos torna a viver. E como o Walter Benjamin fala, é
torne húmus criador uns para os outros. muito importante lembrar para não esquecer e não repetir. Lem-
brar para avançar.”
As mineiras O tom da ministra sobe, ganha em volume para então deixar as
suas palavras. “Falar de Inês é muito forte. Nos conhecemos há muitos
“Boa noite a todas e a todos.” Se o machismo está, também, na e muitos anos. Inês era a minha guru”, começa a ministra com um
língua Portuguesa, há formas de burlá-lo. Essas construções frasais sorriso no rosto que desapareceria com o decorrer de seu depoimento.
– as mulheres sempre saudadas primeiro – ficam mais evidentes “Inês era uma pessoa de fácil diálogo quando ela acreditava nas
com a eleição da primeira mulher para a presidência da República, pessoas que estavam ao lado dela. Era naquela época, e continua
que oficializou a nomenclatura presidenta. sendo, uma pessoa muito generosa. Tão generosa foi ela que sobre-
Na sequência, os cumprimentos protocolares a Paulo Sérgio Pi- viveu à Casa da Morte em Petrópolis. Foi ela! Através do seu sofri-
nheiro e ao deputado Adriano Diogo dão lugar a uma emotiva su- mento! Conseguiu lapidar esse sofrimento, fazendo a denúncia da
cessão de elogios na primeira fala da ministra Eleonora Menicucci Casa da Morte em Petrópolis.”
em relação à sua “querida amiga, eterna e reconhecida batalhadora A ministra reflete sobre a Casa da Morte, que também marca
na luta pela visibilidade, memória e o não esquecimento dos mor- outra personagem deste livro, Rosalina Santa Cruz. Os espectado-
tos e desaparecidos, Amelinha”. res seguem em silêncio e atentos a cada palavra e gesto de Eleonora,
Alegria e sofrimento. Esse é o misto de sentimentos que banham que segurava a mão de Amelinha para ganhar mais força.
a mineira de Belo Horizonte no evento. De terninho preto com A “Casa da Morte”, em Petrópolis, funciona como instituição
bolinhas brancas e um discreto colar de pérolas, Eleonora tem a clandestina do Centro de Informação do Exército (CIE) na década
voz tranquila. Pontua cada palavra. Seus olhos fundos dão uma de 1970. São executados pelo menos 22 presos por lá. O sobra-
aparência de cansaço às suas feições trabalhadas pelo tempo de do aparentemente inofensivo, emprestado direto do proprietário,
prisão. O cabelo curto e todo o penteado para cima completam a é apenas mais um dos vários lugares com a mesma função e tem

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a aparência de uma casa normal. O chamado “centro de conve- ajuda de fisioterapeutas e outros profissionais de saúde.
niência”, como diz Paulo Malhães, tenente-coronel reformado, o “Não havia pessoa mais merecedora da abertura dessa série de
“Doutor Pablo”, ao jornal O Globo, é usado para convencer mili- violência de gênero do que a Inês”, afirma de forma convicta e com
tantes a abandonarem suas crenças e virarem agentes infiltrados, tom taxativo, para depois seguir falando da ex-bancária que aban-
colaboradores do regime. A existência do local de tortura, que dona tudo para entrar na luta armada nos anos 1960.
em geral abrigava um preso por vez, só existe hoje porque Inês “Inês, como toda mineira, e nós duas somos, é ressabiada. Olha
Etienne, fingindo ter-se convencido a atuar como infiltrada, deixa pra frente; olha pra trás; olha pro lado. Mas na hora em que decide
a casa, transferida para um presídio no Rio de Janeiro. Ao sair da seguir um caminho não tem volta. Não tem retorno. Me lembro
prisão, em 1979, pesando pouco mais de 30 quilos, faz a denúncia. que recentemente eu proporcionei o reencontro dela com uma co-
“Inês se revitalizou de uma maneira impressionante. Eu morava na lega de faculdade.” Eleonora para de falar e fica fitando a plateia
Paraíba e Inês estava em Fortaleza, na casa de uma irmã. Lá estava para depois fazer um desabafo. “Não tá fácil.” Retoma a força com
estruturando todo esse processo de denúncia. Muito cuidadosa. Muito a ajuda de Amelinha, sempre ao seu lado e cochichando em seu
zelosa da tarefa dela. Compartilhou isso com pouquíssimas pessoas. ouvido quando percebe a necessidade de apoio à ministra.
Inês tem um depoimento sobre violência sexual ocorrido com ela dos “Lá em Niterói. Foi como se ela tivesse saído de Minas Gerais
mais fortes que eu já ouvi. Como nós, ela também teve muita dificul- naquele momento, ao reencontrar, né? Então eu como ministra
dade de falar sobre isso. Pois falar de violência sexual é se desnudar. E de Estado para políticas para mulheres, hoje eu não estou aqui
Inês, ao desnudar-se contando, entregou a toda sociedade brasileira a nessa posição, e sim de mulher. De ex-presa política. De amiga
denúncia da Casa da Morte. Como ela sobreviveu à Casa da Morte nós da Inês. E compartilhei com ela vários momentos de sua vida.
não sabemos. Mas ela tem a certeza absoluta da importância desse ato.” Vários. E esse traumático da denúncia da Casa da Morte. Nós
Eleonora toma fôlego. Respira fundo para continuar a história não teríamos nenhuma pista dos companheiros e companheiras
da amiga que muitos dos jovens sentados nas cadeiras do auditório assassinados se Inês não existisse.”
desconheciam e escutam com perplexidade. Mais uma vez Eleonora toma fôlego para seguir a sua fala, cada
“Às vezes eu encontro Inês. E o que ela passa, hoje, com todas as vez mais falha e marejada. “Eu fui testemunha de um assassinato
dificuldades que está vivendo; físicas e de memória. Este ato deu do Luis Eduardo da Rocha Merlino, na Oban. Eu sei o quanto isso
uma nova vida a ela. E isso, como mulher, é completamente excep- é forte. O quanto isso é pesado. O quanto isso é duro. O quanto
cional e absolutamente exemplar. Não teve Adriano, Paulo Sérgio isso é sofrido. Mas quanto isso; quanto! Esses testemunhos nos
e Amelinha.” Inês Etienne se dizia perseguida, amigos revelam. dão força para seguir. E ela não foi de uma pessoa só. Foram vá-
Ninguém considerava plausíveis os medos dela. Até que, em 10 rias.”, reflete Eleonora colocando a sua própria experiência antes
de setembro de 2003, sofre um acidente inexplicável em sua casa. de finalizar sua homenagem a amiga Inês e começar a contar um
Depois de receber um marceneiro, Inês é encontrada agonizando pouco mais de si.
no chão de seu apartamento, na Rua Maria Antonia, Centro de “Então, homenagear a Inês hoje. Dar a ela essa oportunidade
São Paulo. Com mobilidade e raciocínio afetados pelos “múltiplos de abrir esse ciclo de verdade de gênero, é o reconhecimento da
golpes” que o laudo dos médicos que a atenderam apontou, vive existência dela; da luta dela, e da certeza de que Inês estava certa.
reclusa em Niterói, Rio de Janeiro, tentando se recuperar, com a Que nós estávamos certos. Quero dizer que Inês representa todas

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Audiência em homenagem a Inês Etienne


Romeu; da esquerda para a direita:
Paulo Sérgio Pinheiro, Adriano Diogo,
Amelinha Teles e Eleonora Menicucci.

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as Marias; todas Amelinhas (nesse momento foi possível ouvir um lembradas, celebradas nesta luta.”
cochicho de Amelinha dizendo “vai devagar”); todas e todos nós O prontuário número 2.866 no Arquivo Público do Estado de
que tivemos, que passamos por isso.” São Paulo dá conta das informações sobre a soltura de Eleonora
Era 27 de abril de 1972 quando a Folha de S. Paulo noticiava (alvará, fichas, etc.). Os documentos são datados de 12 de outubro
que Oscar do Prado Quirzo, procurador da Justiça Militar, ofere- de 1973, quando foi solta. Anexa, está uma folha de “informa-
cera denúncia e pedia a prisão preventiva de 41 pessoas militantes ções reservadas”. Nela, um entrevistador do DEOPS pergunta o
do Partido Operário Comunista (POC). que fará a “liberada” agora que saiu da cadeia: estudar e trabalhar
A notícia, uma extensão do discurso da Lei de Segurança Nacio- como professora, “não tendo ainda um lugar certo, apenas em vis-
nal e do procurador, dava conta de que entre os nomes incluídos na ta.” O papel diz ainda que ela pretende residir com a mãe, Estela
prisão dos membros da organização “subversivo-terrorista” estava o Minucci de Oliveira, três irmãos e a filha, já com 4 anos de idade,
de Eleonora Menicucci. em Belo Horizonte.
O que a matéria não conta é que a ministra, estudante de So- Seu marido à época, Ricardo Prata Soares cumpria pena “tam-
ciologia e professora do ensino fundamental à época, já havia bém por infringir dispositivo da Lei de Segurança Nacional.”
sido presa em 11 de julho de 1971, com seu ex-marido Ricardo Quando o marido sair, diz a folha amarelada pelo tempo, “irão
Prata. Passara pela Operação Bandeirante (Oban), onde fora tor- estudar onde deverão ficar”.
turada. Inclusive pelo escrivão da Polícia Civil Lourival Gaeta, O delegado Alcides Singillo, que assina o documento, conclui:
vulgo Mangabeira (o mesmo que também torturou Amelinha
Teles). Nem sua filha de um ano e dez meses escapou da sala de A liberada não abandonou os seus ideais, porém o fun-
tortura: de acordo com ela, a criança era ameaçada com uma damental para ela, pelo menos por enquanto, é criar sua
máquina de dar choques, apenas de fraldas e no frio. Hoje, Gaeta filha e criar condições materiais para ela, a fim de que
é delegado de polícia em Presidente Prudente, interior paulista. lhe seja dada uma boa educação. Indagada a liberada de
Além do pau de arara, cadeira do dragão e choques elétricos por que se alguém da subversão lhe procurasse qual seria sua
todo o corpo, torturas sofridas nos órgãos de repressão, está o fato atitude, respondeu que diria o que disse acima, todavia
de, com outros presos, ter testemunhado a morte do jornalista Luiz o receberia sempre que fosse procurada, sem, no entanto,
Eduardo da Rocha Merlino nas dependências da Oban. “Não é se envolver pelo que já passou, pois considera-se bastante
verdade quando se diz que a tortura é só física. A tortura psicoló- consciente para não dar nova investida nas vias ilegais.
gica, emocional é absolutamente violenta.”
Não esquece o abraço afetuoso que ganhou da companheira de Um ano e três meses depois, a ministra estava livre do cárcere.
cela – e hoje presidente da República – Dilma Rousseff. Nas pa- Diz que a saída foi inesquecível. “Nós não sabíamos para onde
lavras da ministra, mulheres guerreiras que deram sua juventude estávamos saindo.” Emocionada, e com as fungadas se multipli-
pela democracia e pela busca de justiça social, liberdade, contra a cando pelo auditório, Eleonora finaliza sua fala.
ditadura. “Deixamos no armário, guardados, todos os sonhos da
juventude para lutar. E é por isso que estar aqui me ajuda a dizer As mulheres precisam ser redescobertas na luta contra
‘valeu a pena’. As mulheres precisam, sem dúvida nenhuma, ser a ditadura, na tortura, para recuperar a memória. Não

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Uma noite feminina Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

se recupera a memória nesse país se não recupera as mu- de tortura comandados e praticados pelo coronel Ustra nas de-
lheres que participaram dessa história. E que escreveram pendências do DOI-CODI, em São Paulo. Tatiana é a autora do
essa história. Escreveram com sangue, escreveram com dor, livro Luta, substantivo feminino.
escreveram com sofrimento, mas escreveram também com
uma tenacidade enorme de transformar o sofrimento do Inês Etienne Romeu nasceu em 1942, em Pouso Alegre,
cotidiano da prisão em uma alegria que nem nós consegui- sul de Minas Gerais. Ainda Jovem mudou-se para Belo Ho-
ríamos imaginar. E por que conseguimos isso? Porque nós rizonte, onde estudou história e trabalhou como bancária.
tínhamos certeza do que nós estávamos fazendo. Em vários
momentos ali a mentira era a verdade. Porque ao mentir Foi militante da Polop e da Vanguarda Popular Revolucio-
você protegia companheiros, companheiras. Eu não posso nária (VPR). Em 5 de maio de 1971, foi presa em São Paulo
deixar de, em nome da Rosa Cardoso, reconhecer aqui o pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, acusada de participação
papel que todas as advogadas mulheres e advogados homens, no sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
principalmente as mulheres que sofriam também muita ame-
aça por estarem nos defendendo. Então, termos essas pessoas Inês foi levada para a Casa da Morte, centro clandestino
do nosso lado legitima e reconhece toda nossa história. É o re- de tortura e extermínio localizado na cidade de Petrópolis,
conhecimento de uma dívida para com as mulheres que luta- Rio de Janeiro, na Rua Artur Barbosa, número 668.
ram. Muitas morreram de morte morrida, outras morreram
assassinadas. Muitas deveriam os nomes estarem aqui, mas Durante os 96 dias em que esteve presa na Casa da
somos muitas. A idade chega. As doenças chegam. Agora, tem Morte, ela foi torturada, humilhada e estuprada. Inês
uma coisa que é importante reconhecer. Nós temos muita for- Etienne é a única sobrevivente do centro de extermí-
ça, mas muitas das nossas doenças são decorrentes do que nós nio, onde inúmeros presos políticos foram torturados e
passamos na cadeia. Por outro lado, a nossa força vem de lá; executados clandestinamente.
a nossa disciplina, a nossa determinação e a nossa ética com
a coisa pública. Tenham em mim uma eterna companheira, Quando saiu do cárcere, após terceira tentativa de suicí-
solidária, pronta para ajudar. Eu não tenho mais condições dio cortando os pulsos, Inês estava 20 quilos mais magra. Ela
de continuar a falar. Muito obrigada. só foi libertada após fingir que iria atuar como colaboracio-
nista infiltrada para o Centro de Informações do Exército.
Repetindo a cena que ocorreu no presídio Tiradentes com Dilma
e Eleonora, Amelinha abraça afetuosamente a companheira ministra. Foi a partir de seu corajoso depoimento escrito em 1971 e
A seguir, Adriano Diogo retoma a fala para anunciar a leitu- entregue à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 1979,
ra do memorando de Inês Etienne Romeu feito pela jornalista quando ela terminou de cumprir a pena, que se tomou co-
da assessoria da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo nhecimento da Casa da Morte. Só então foi possível localizar
“Rubens Paiva”, Tatiana Merlino, sobrinha do também jorna- o centro de extermínio de Petrópolis e reconhecer parte dos
lista Luiz Eduardo Merlino, que morreu em 1971 devido a atos torturadores e agentes que trabalhavam no local, entre eles,

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Uma noite feminina Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Na homanenagem a Inês, a segunda mesa;


da esquerda para a direita: Rosa Cardoso,
Maria Rita Kehl, Adriano Diogo, Ivone
Gebara e e Eleonora Menicucci.

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o médico Amílcar Lobo. Ela também denunciou a passagem público. Propôs-me então que eu me atirasse embaixo de
de alguns militantes desaparecidos pela Casa da Morte, como um ônibus, como eu já fizera. No momento em que deveria
Aluísio Palhano, Carlos Alberto Soares de Freitas, Heleny atirar-me sob as rodas de um ônibus, agachei-me e segurei
Guariba, Mariano Joaquim da Silva e Paulo Tarso Celestino. as pernas de um deles, chorando e gritando. Por não ter
me matado, fui violentamente castigada: uma semana de
Em 2009, Inês recebeu o prêmio Nacional de Direitos choques elétricos, banhos gelados de madrugada, ‘telefones’,
Humanos, na categoria Direito à Memória e à Verdade. palmatórias. Espancaram-me no rosto até eu ficar desfigu-
Hoje, Inês vive em Niterói, Rio de Janeiro. rada. O ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu
ânus [nesse momento a leitora segura o choro] e verificar
Aplausos. Todavia, é agora o momento de maior comoção da se o ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo.
noite com a leitura do depoimento de Inês sobre a Casa da Morte.
O deputado Adriano Diogo convida Margareth Rago, historiado- Esse mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis,
ra e livre docente da Unicamp, que estuda feminismo, anarquismo enquanto se contorcia obscenamente. Durante esse período
e sexualidade. Curiosamente, uma semana depois, Paulo Sérgio fui estuprada duas vezes pelo ‘Camarão’ e era obrigada a
Pinheiro escuta esse mesmo depoimento, com a música “Cale-se”, limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e
de Chico Buarque, ao fundo no aniversário de 49 anos do golpe obscenidades, os mais grosseiros.
militar, 1º de abril, como forma de protesto de manifestantes que
criticavam a Comissão Nacional da Verdade. Aqui, não aguenta. Sua voz que tremeluzente durante o texto,
falha por completo. Engole o choro. Parece que vai rebentar em
Fui conduzida para uma casa em Petrópolis. O Dr. lágrimas, tal o peso que o depoimento traz. Inês representa todas
Roberto, um dos mais brutais torturadores, arrastou-me as mulheres. Com lágrimas nos olhos e um fio de voz, conclui a
pelo chão, segurando-me pelos cabelos. Depois, tentou me leitura, para depois ser amparada por amigos.
estrangular e só me largou quando perdi os sentidos. Esbo-
fetearam-me e deram-me pancadas na cabeça. Fui várias Uma porta que se abre
vezes espancada e levava choques elétricos na cabeça, nos
pés, nas mãos e nos seios. A certa altura, o Dr. Roberto O tímido mexer nas cadeiras logo se torna uma crescente movi-
me disse que eles não queriam mais informação alguma; mentação no auditório. As pessoas, ainda perplexas pela tensão ge-
estavam praticando o mais puro sadismo, pois eu já havia rada pelos depoimentos, buscam um alento nos que estão à volta.
sido condenada à morte e ele, Dr. Roberto, decidira que Muitos se dirigem imediatamente às protagonistas da noite. Abra-
ela seria a mais lenta e cruel possível, tal o ódio que sen- ços, beijos, saudações, gravadores, câmeras e microfones. Logo os
tia pelos ‘terroristas’. Alguns dias depois, apareceu o Dr. representantes das Comissões da Verdade, bem como as autorida-
Teixeira, oferecendo-me uma saída ‘ humana’: o suicídio. des e convidados presentes estão cercados pelos amigos, jornalistas
Aceitei e pedi um revólver, pois já não suportava mais. e curiosos, enquanto tentam, com mais ou menos pressa, dirigir-se
Entretanto, o Dr. Teixeira queria que o meu suicídio fosse à saída mais próxima.

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O auditório Paulo Kobayashi,


palco de nossas descobertas.

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Uma noite feminina Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Em meio ao barulho das conversas, agora em tom mais acalora- parte do grupo de apoio da Aliança de Libertação Nacional à épo-
do, notamos uma mulher jovial de paletó azul e um grande lenço ca da ditadura. Naqueles tempos, abrigava, em sua casa, hóspedes
laranja em torno do pescoço que, diferentemente dos outros pre- e reuniões do grupo de resistência. Um dos que estiveram por lá
sentes no ambiente, não parece mais interessada no aglomerado na foi o próprio comandante da ALN, Carlos Marighella. Por sinal,
parte frontal da sala do que em nós. Em nós? Vem em nossa dire- marido de Clara Charf.
ção com um bloquinho e uma caneta em riste. Encosta-se na pol-
trona já desocupada ao nosso lado e já lança as perguntas. Depois
de entender nossa opinião a respeito de tudo o que foi apresenta-
do, a correspondente em São Paulo pelo jornal francês Libération,
Chantal Rayes, faz a indagação mais contundente quanto ao nosso
estudo e à nossa presença ali: “Mas por que três rapazes se interes-
sam em desenvolver um estudo sobre mulheres?”.
A pergunta ainda fresca na cabeça e a escassez de respostas nos
levariam a mergulhar na história mais profundamente do que po-
deríamos imaginar. A começar daquelas que surgem à vista assim
que chegamos à parte frontal do auditório. A plateia, que aos pou-
cos se dispersa, também carrega e confirma a memória dos tempos
de luta. Ainda sentada na poltrona central da primeira fila está
uma senhora elegante, de paletó escarlate e sorriso muito simpá-
tico. Por detrás dos cabelos branquinhos e dos largos óculos de
armação azul, está uma integrante da resistência à ditadura de 64,
Clara Charf. Também de pé na parte frontal da sala está outra
mulher discreta, de cabelos escuros e olhar perspicaz ao lado de um
homem de bigode e ar muito sério, o doutor Lucio França, mem-
bro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados
do Brasil, em São Paulo, e presidente do grupo de informação e
apoio à denúncia e combate à tortura, o Tortura Nunca Mais.
Bem como no caso das pessoas que haviam compartilhado suas
lembranças naquela noite, as que assistiam também têm suas histó-
rias entrelaçadas. Ao conversarmos com Lucio, o ar de seriedade se
transforma em ar de confidência e acolhimento. O advogado é tão
simpático que não hesita em nos direcionar à mulher que estava ao
seu lado, sua amiga Rose Nogueira. A jornalista de 67 anos, que Entre os gabinetes dos deputados
se mostra um poço de lembranças tão vivas quanto o presente, fez memórias eram reveladas.

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Culpada por ser mãe Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Culpada
por ser mãe

Cio avvenia di duol sanza martìri,


ch’avean le turbe, ch’eran molte e grandi,
d’ infanti e di femmine e di viri.

(Inf. IV, Vs. 28-30)

Angústias, não martírios, afligiam


grandes turbas de infantes, numerosas
mulheres e varões que lá gemiam.

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Culpada por ser mãe Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

“O Carlos Marighella era um dos maiores libertadores das mu- set, e o Frei Betto era nosso chefe de reportagem na Folha
lheres. Na ALN nunca teve nenhum problema de homem com da Tarde. Eu tinha me casado e estava grávida. No meu
mulher, mulher com homem. Era tudo igual”, lembra Rose No- casamento, o Frei Betto, que já estava sendo procurado
gueira. Com as costas apoiadas em uma almofada, a jornalista está (já nos primeiros dias ele foi procurado pela polícia lá no
sentada na cama improvisada na sala da casa. Ao seu lado direito, jornal), iria fazer o sermão, mas teve de mandar por escrito
uma mesa entulhada de papéis, livros e fotografias. “Bagunças das e isso entrou no meu processo como prova de subversão...
últimas mudanças feitas na casa”. Do lado esquerdo, um sofá ocu- Entende? Um sermão de um padre para um casal de noivos.
pado por dois companheiros inseparáveis de Rose, dois cachorros Então o Frei Betto, que estava clandestino, procurou a gente
magros e de médio porte, muito mansos. “O malhado é o Rex, a e ficou na minha casa escondido por um tempo. Ele pediu
outra é a Pretinha. O nome de verdade é Baja, mas eu chamo de se podíamos ceder a casa em Pinheiros para as reuniões da
Pretinha”. Da porta ao fundo da sala, o som de água fervendo e de ALN, que estava montando um apoio logístico em casas de
panelas batendo levemente trazia um ar aconchegante ao ambiente pessoas, pra poder esconder todo mundo. A gente concordou.
iluminado por abajures e o pouco sol de uma manhã chuvosa. Ao Então o Marighella fazia reuniões com os padres dominica-
pé da cama, acomodamo-nos em poltronas. A voz acolhedora de nos na minha casa e, quando eles caíram, antes da gente,
Rose lembra uma sábia avó. Suas ideias mantêm a vivacidade dos eles abriram isso. A gente não participava das reuniões.
tempos de juventude. Antes que qualquer pergunta seja feita, ela já
explica sua condição. O Marighella dormia lá de vez em quando. Pra não cor-
rer risco na rua... Ele tinha dois metros de altura, era o cara
Eu estou doente, com uma fratura de coluna. Agora apa- mais procurado... Ele ficava em casa, depois alguém vinha
receram mais nódulos. Depois do dia em que me acidentei, pegar ele pela garagem... Mas eu não sei nem quem vinha.
21 de abril, fiquei 15 dias sem saber se ia voltar a andar.
Eu caí de costas, estou com osteoporose e tive essa fratura. Foi por tudo isso que eu fui presa. E fui presa no dia em
Foram 45 dias olhando pro guarda-roupa. Vou fazer 50 que mataram o Marighella. Eu estava lá quando saíram
anos de profissão, 67 de idade... Se eu morro amanhã, não dizendo que iriam matá-lo, mas a gente não acreditava.
vou falar isso pra vocês. Tenho que falar correndo. Diziam tantas barbaridades, que aquilo só podia ser pres-
são psicológica, essas coisas... E tinha muita gente presa.
E fala mesmo. O que parece um início de entrevista, em um Muita gente presa nesse dia: 4 de novembro de 1969. Fui
primeiro momento, dissolve-se em uma gostosa troca de saberes e pega na minha casa, de noite, pelo próprio Esquadrão da
experiências. “Estamos fazendo aqui uma reunião de pauta”, diz, Morte. Pelo delegado Fleury em pessoa. Ele foi o pior brasi-
em meio a risos, antes de voltar ao amigo “grandão”, Marighella. leiro que já nasceu. Fui levada direto para o DOPS, onde
ele era diretor. Não fui para o DOI-CODI. Fiquei lá qua-
Eu fui presa no dia em que mataram o Marighella. se 50 dias. Saí de lá às vésperas do natal, mais ou menos,
Já tinha trocado de namorado, já estava namorando o quando teve a primeira visita e minha família foi me ver.
homem que foi pai do meu filho, o Luiz Roberto Clau-

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O olhar de Rose, por mais fixo que estivesse aos nossos, viajava Rose começa a folhear o livro em busca de alguma página em específico.
pelos acontecimentos passados. Era como se um filme passasse à
sua frente. Após uma breve pausa, Rose olha para a mesinha de Para introduzir a questão da mulher, aquele era o mo-
centro da sala, também cheia de livros, como se procurasse algo. mento de descoberta da pílula, de amor livre, de abando-
no de conceitos como virgindade etc. e tal. Então as mu-
- Algum de vocês pode, por favor, pegar aquele livro laranja. Mari- lheres entraram na luta também como coisa de igualdade.
ghella. Isso. Agora pra mim é assim: sempre bom ter alguém que possa Estava aparecendo o feminismo. Ele estava atingindo mais
ficar de pé. pessoas através da comunicação e mais mulheres também
entraram na luta. Agora, as mulheres camponesas sempre
Com o livro de capa laranja em mãos, a biografia escrita pelo entraram, mas o que elas eram? Dois por cento dos cam-
jornalista Mário Magalhães, Rose volta às suas memórias. poneses. As mulheres das lutas urbanas eram em número
muito maior. Na resistência brasileira, foi a primeira vez
No dia em que fui presa no DOPS, os caras saíram de lá que homens e mulheres foram iguais. Não existia essa dis-
dizendo: ‘Hoje é o último dia do chefe!’. Um cara que esta- tinção. Tanto que a Dilma, na organização dela, a Var
va preso, que eu nunca tinha visto, chamava ‘Marinheiro’. -Palmares, tinha um papel de grande destaque. Foram
Ele me escreveu: ‘Companheira, você descreve direitinho o iguais tanto na luta quanto na colaboração teórica, na
que aconteceu, porque você pôde ver’. Tinha muita gente colaboração de ação mesmo e, na repressão, foram tratadas
e o Fleury chegou pra ele e disse: ‘Cadê o Marighella?’. Ele também de maneira igual. Foram pro pau do mesmo jei-
bravo, o Marinheiro, disse: ‘Ué, você não é macho? Vá bus- to. Agora, existia esse viés, do fato de ser mulher. Comigo,
car’. O Fleury desceu a mão nele. Ele caiu no chão e davam por exemplo, eu tinha um bebê de um mês, tinha leite e
chutes nele. Espancaram ele na nossa frente. O Fleury fala- quando a gente tem bebê vem um grande sangramento
va: ‘Eu vou mesmo! Hoje é o último dia dele’. A gente não que dura vários dias, uma semana... As mulheres mais
podia imaginar, né? Achava que era tortura psicológica. velhas falavam pra gente: ‘ é a dieta’. Chama dieta esse
Quando os caras saíram, tocou o telefone lá e diziam: ‘Ele período no qual o organismo se livra, vamos dizer, das im-
entrou, ele entrou! Vamos embora!’. Aí eles mataram mes- purezas do parto. É muito dolorido e é muito sangramen-
mo o Marighella. Mandaram a gente pras celas e a gente to. Eu tinha 23 anos e passei a dieta na cadeia, no DOPS.
não estava sabendo de nada. À noite chegaram berrando
lá: ‘Matamos o chefe! Não tem mais chefe! Pode rezar pro No DOPS tinham quatro celas pequenas que chama-
chefe!’ A gente ainda duvidou. Aí chegou a repórter que vam ‘o fundão’. Lá eles prendiam as mulheres. Eu fiquei
trabalhou comigo, Makiko Kishi, presa porque tinha foto- com várias pessoas. Fiquei na cela quatro, que era no canto,
grafado o Marighella morto. Todos os fotógrafos que tira- fiquei na cela um, de frente ao corredor... Ficou presa junto
ram fotos daquilo lá, eles prenderam. A Makiko chegou e comigo uma moça chamada Vera Lúcia Nicoletti. Ela era
confirmou... Por conta disso, do rolo que deu, a gente foi muito mocinha, tinha 18 ou 19 anos, e foi presa com o ma-
esquecida. Só foram chamar a gente uns dias depois. rido. Tinha acabado de casar. Um dia trouxeram a Vera

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desmaiada. A cela era pequenininha, só tinha uma cama calcinha. Aí eu botava um montão de papel higiênico e
de concreto e um colchão de palha, onde jogaram a Vera. ficava até sem a calcinha, sentada no papel higiênico,
Eu achei que ela tinha morrido, porque coloquei a mão na porque saía aquela coisa que eu nunca tinha visto, nem
cabeça dela e saiu sangue. Eu comecei a gritar que ela tinha nada... E o Tralli me batia porque eu estava cheirando
morrido. O pessoal começou a gritar e vieram buscá-la de- mal. É até difícil falar disso. Ele me virava nua em cima
sacordada. Levaram ela para uma sala lá na frente. da mesa, enfiava a mão em mim, me arrebentou... Não
sei como explicar.
Tinha um cara da polícia do Exército, que ficava no
corredor, e eu perguntei: ‘Cadê a moça que estava aqui co- A voz de Rose fica mais forte.
migo?’ Eu só sabia o primeiro nome dela: Vera. Ele falou:
‘Ela está lá na frente, na sala dos investigadores, que tem Tarado. Um deixava o outro ser tarado, ter suas piores
um beliche, descansando’. Acha que eu ia acreditar? Ima- coisas aparecendo, entende? Eu não fui torturada no pau-
gina... Eu pensei: ‘ela morreu, sumiram com ela.’ Ela está de-arara e nem levei choque. O negócio deles era o abuso
numa sala, descansando em um beliche? Ela e o marido. desse cara, o Tralli. Tinha um tal de Nelsinho, um tal de
Bateram muito neles. Eu passei a vida toda achando que Rubinho também. Era um horror.
ela tinha morrido. Nunca mais vi nem nada... Mas há
uns dez anos, quando começou a ter e-mail, ela me achou. O meu marido também foi torturado, não como eu,
mas ele apanhou muito. Não tinham coisas como ca-
Também fiquei presa com a Elza Ferreira Lobo, hoje deira do dragão... isso era do DOI-CODI. O DOPS
ouvidora da secretaria de Saúde. Professora Elza, eles era mais pancada, porrada, soco, abuso... Era assim,
chamavam. A cela era muito pequena e cheia de baratas. depois eles ‘sofisticaram’.
Quando ela chegou, eu lembro que pude tomar banho.
O Romeu Tuma era diretor do DOPS. O secretário de
A expressão no rosto de Rose fica mais séria. O olhar se estreita segurança era o Cintra Bueno. Quem mandava no país
como se visse um inimigo. era o Esquadrão da Morte e o DOPS rivalizava com o
DOI-CODI pra ver quem prendia mais. Porque quem
Porque antes eu não podia me limpar. O tal de Tralli é prendia mais recebia mais dinheiro.
que toda hora me chamava. Ele se incomodava com o fato
de eu ter leite. Como não podia tomar banho, eu apanhava Uma vez o Tralli trouxe um jornal com a notícia de
por estar cheirando mal. Cheiro de leite azedo, de sangue uma vaca que tinha ganhado um prêmio em uma exposi-
pisado... Não tinha absorvente. Era muito sangue, muito ção de gados no Parque da Água Branca. A vaca chamava
sangue pisado, como dizia minha mãe: ‘a sujeira do parto, ‘Miss Brasil’. Ele trouxe o jornal e esfregava a página em
que não saiu com o bebê, até os 40 dias vai saindo’. E eles mim e dizia: ‘Você que é a Miss Brasil! Vaca leiteira! Vaca
não deixaram levar roupa nem pra trocar. Eu tinha uma terrorista!’ Picou o jornal, acabou com o jornal em cima

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do meu corpo. A partir desse dia, todos eles me chamavam Nas fotos, uma moça jovem com uma criança: Rose e seu filho
de ‘Miss Brasil’. Todo mundo é bonitinho aos vinte anos Carlos Guilherme Clauset, o Cacá. “Foram tiradas em casa, dois
e o Tralli se engraçou comigo. A única vez em que ele dias depois que saí da prisão, pelo jornalista Tonico Ferreira”, lem-
teve razão foi quando ele me disse que marca de tortura bra. “Estava conhecendo meu filho... Ele ficou com a minha sogra,
não passa. Ele sabia. Psicopata. Um permitia que o outro então só fui conhecer ele direito quando saí. Ele já estava come-
mostrasse sua bestialidade total e ainda riam. O Romeu çando a andar. Ficava de pé”. Rose percorre as fotos com um olhar
Tuma é um monstro também. Ele entrou na sala e eu o vi maternal. “Isso aqui era da minha sogra e essas fotos ela mandava
com a camisa dobrada... Nunca mais vou esquecer, é o que pra mim no presídio. Ele tinha uns quatro ou cinco meses aqui.
eu mais guardo dele. Ele entrou, falou qualquer coisa e Ela me visitava e levava ele”.
saiu. Ele me viu nua, sendo massacrada por aqueles caras Madalena retorna com algumas xícaras e um bule de café fumegante.
e não fez nada. Quando eu fui trabalhar no senado, com
o senador Suplicy, não falei nada pra ele, mas pensei: ‘Se o - Rose, vou sair para comprar alguns remédios, quer alguma coisa?
Romeu Tuma olhar na minha cara... Se me cumprimen-
tar, não vou responder, porque eu não cumprimento assas- - Pode trazer cigarro, por favor.
sino. Mas, se ele falar uma palavra, se dirigir a palavra a
mim, ele está perdido’. Eu não podia nem vê-lo lá. Eu vi Como que para se explicar, Rose diz que o café é o vício dos
uma vez só, na verdade, lá em Brasília. jornalistas e o cigarro... “Comecei a fumar na prisão. Quando saí
da cadeia, aí eu comecei a comprar cigarros. Na prisão, a mãe de
Os outros, Nelsinho, Rubinho, esses caras só algema- todo mundo levava cigarro. Eu dormia no mesmo quarto que a
vam a gente, levavam pra lá e pra cá. Mas eles viam tudo minha irmã e quase a socava. Eu não queria que ela fumasse. Eu
e riam. Eles na verdade morriam de medo também do era contra o cigarro e fui eu que fumei. E agora ela parou de fumar
Tralli, do Fleury... Esses eram assassinos mesmo. Falavam e eu continuo. Ainda mais quando estou parada: parece que falta
que mataram e iam matar mais. alguma coisa...”. As fotos voltam à sua atenção.

Rose fecha os olhos, levanta a cabeça e respira fundo, como que Quando o Fleury chegou em casa pra me prender, ele
enterrando as más lembranças, em um silêncio que só é interrom- falou: ‘Vocês estão presos e o menino vai para o juizado
pido pela chuva que fustiga a ampla janela de vidro na frente da de menores’. Eu falei: ‘Não vai! Não vai! Então não vou
sala e pelo choro do Rex, que tem medo da chuva. De repente, vem presa’. Pronto. Sabe só quem faz isso? Mãe. Quando você
da cozinha uma mulher mais jovem com um sorriso simpático vê a cadela, quando você vê a gata, tenta mexer com a cria
nos lábios. Retribuindo o sorriso, Rose pede: “Madalena, traz um delas. Ela morre, mas não deixa.
cafezinho”. A moça cuida de Rose enquanto está incapacitada de
se locomover pela casa. Enquanto ela volta à cozinha, que agora é Usaram o Cacá duas vezes. Eles ligavam pra minha
fonte de um agradável aroma de carne cozida com gengibre, Rose sogra, iam buscar, não sei direito... Eles falavam que ti-
pede que alcancemos umas fotos que estão sobre a mesa. nha visita e, enquanto eles estavam lá em cima, pegavam

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Amelinha Teles em sua casa,


na cidade de São Paulo.

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a Vera e levavam lá pra ela ver que o meu filho estava sagrado é esse que ele tinha que abusar? Eu tive uma infec-
realmente lá, mas eu não. Lá embaixo na cela me diziam ção puerperal, porque não me deixaram tomar banho um
assim: ‘Ó, o chefe lá é ruim, hein... Ele é muito ruim. tempão. Meu médico disse que foi infecção puerperal que
Pra ele quebrar a perna do seu filho, ou não, é a mesma eu tive. No meio daquela sujeira toda, eu ficava lá com as
coisa. Queimar...’ Faziam isso por prazer sádico. Faziam baratas e tudo... E eu nunca mais pude ter filhos. Nunca.
com meu marido também. Em uma das vezes depois eles
chamaram a gente e realmente nós pudemos ver a minha O cozido de Madalena fica pronto e somos convidados para al-
sogra, meu sogro, minha mãe, meu pai e o meu filho. moçar com Rose. Todos sentam à mesa e, naquele momento, não
Nunca fizeram nada com ele. Só falavam que iam fazer. mais falamos sobre os tempos da ditadura. O assunto, indigesto,
E a minha sogra ficava lá em cima esperando, de boba, soava mais do que indelicado perante o cheiro forte de gengibre.
achando que a gente ia ter visita. Após o almoço, Rose parece um pouco cansada por ter de cami-
nhar com dificuldade, de volta à sala, ajudada por Madalena. Sua
E a minha mãe, sabe o que ela fez? Coisa de mulher, fala, entretanto, continua vivaz.
sabe coisa de mulher? Tinha um delegado chamado Ivair
de Freitas Garcia, que virou deputado depois. Como um Depois do DOPS, foram mais sete meses no presídio Ti-
delegado do DOPS vira deputado? Alguém vai votar? Era radentes. Foi lá que eu conheci a Dilma. Ela deve ter che-
uma eleição, entre aspas... Ele era espírita, depois disseram gado em março, abril, por aí. Nós vimos a Copa do Mundo
pra gente. E a minha mãe, quando ela me viu, nesse dia [de 1970] juntas. A ditadura fez uma grande manipulação
em que a gente pôde subir, ela veio me abraçar, chorar... da Copa, pra esquecerem a repressão e tudo. Aqui no mer-
Minha mãe falou assim pra ele: ‘Amaldiçoado’. Sabe, coi- cado apareceram as televisões de 14 polegadas e, na época
sa de mãe também... ‘Amaldiçoado! Em nome da Virgem da Copa, vendia muito. Lembro que o juiz autorizou as
Maria, eu amaldiçoo o senhor!’, falou pra ele. ‘Porque tirou famílias a levar os aparelhos lá, porque era uma pressão da
a mãe do filho quando estava amamentando. Quem tira gente... Apareceram uns três ou quatro. Ele não autoriza-
o filho do peito da mãe é amaldiçoado, em nome da Vir- va livros, mas autorizou a TV pra ver a Copa do Mundo.
gem Maria’. Falou isso. E foi dramático. Depois esse cara Porque era Copa, Brasil, Médici, aquela lou-cu-ra. E ficou
me chamou, em outro dia... Chamou. Chamou é assim: ia por muito tempo aquela confusão: torcer pelo Brasil era ser
buscar você lá, ainda punha algema. Pra gente subir era patriota. E não tinha nada a ver com nada. Agora que estão
terrível. Ele falou assim: ‘Olha, eu vou buscar tua mãe e dissociando. A gente assistia de tudo: jornal, novela... Tinha
você vai fazer ela tirar aquela maldição’. É... E quando ele a novela ‘Irmãos coragem’...
morreu, eu fiquei sabendo, falei: ‘Amaldiçoado! Pra eter-
nidade’. Entende? Eles eram assim. Então essa relação com No dia do meu julgamento eles prenderam só os pa-
mulher, maternidade, era toda nojenta, ruim ao mesmo dres, que já tinham sido condenados. Eles já tinham as
tempo em que era sagrado. Aquela mulher pelada ali na sentenças prontas: quem é padre, condena, quem não é,
frente dele, que era eu, tinha leite escorrendo do peito. Que absolve. Só que as pessoas já tinham cumprido pena. Os

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Culpada por ser mãe Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

outros já tinham ficado na prisão, como eu, nove meses, tro Rodas’. Mais tarde fui editora de textos da ‘Enciclopé-
mas o meu marido ficou um ano e oito meses. Teve gente dia Abril’. Trabalhei na ‘TV Cultura’ e na ‘Globo’.
que ficou dois anos em cadeia, um ano... Eu saí e fiquei
em liberdade vigiada, que eles chamavam de ‘ménage’. Saí do presídio Tiradentes no dia 3 de agosto de 1970. A
Então toda semana tinha que assinar a auditoria militar, Rosa Maria Cardoso foi minha advogada. O marido dela
não podia sair da cidade, não podia trabalhar, não podia era amigo do meu marido, o Clauset, e nosso advogado.
chegar depois das dez em casa. Foi muito difícil voltar a Ele passou os casos das mulheres para a Rosa e defendeu
viver em sociedade, porque a polícia tinha roubado tudo meu marido. Então foi marido, mulher, marido, mulher.
lá de casa. Eles paravam com um caminhão e pegavam Mas o meu caso era tecnicamente simples. Fui processada
tudo. Não era só da minha casa, era de todo mundo. A em três artigos da Lei de Segurança nacional. Três muito
vizinha que falou pra minha mãe que botaram o cami- parecidos e não paguei por nenhum. ‘Tentativa de derru-
nhão lá e levaram muita coisa. bar o regime por meios violentos’... Eu jamais fiz isso e fui
absolvida depois. Só que eles destruíram minha vida.
A voz de Rose falha um pouco.
Ainda nesse contexto de utilização da maternidade pelos tortu-
Enquanto eu estava presa, meu pai, meu padrasto, radores, ou seja, pelo Estado brasileiro, por ficar responsável pela
morreu do coração. Minha mãe ainda tinha minhas ir- defesa dos casos de mulheres, a advogada Rosa Maria Cardoso este-
mãs, que eram menores e eu tive que trabalhar. Meu ma- ve muito envolvida com essa questão durante os anos de repressão.
rido ainda estava preso, a gente não tinha casa, eu tinha Assim como Rose, Amelinha Teles foi outra das mulheres ligadas à
um bebê... Eu estava conhecendo ele. resistência à ditadura, com filhos pequenos na época, cujo caso Rosa
defendeu.
Fui trabalhar no Bom Retiro, em uma revista técnica de Hoje, Amelinha ainda tem dificuldades em falar das situações
construção civil da editora ‘Pini’. Foi meu primeiro cargo sofridas nos anos de prisão. “Tem quarenta anos que esses fatos
de chefia. Eu era secretária de redação da revista. Mas, aconteceram comigo. Eu não gosto de falar disso, mas eu vejo a im-
logo após meu julgamento, fui um dia pra redação e o por- portância desse momento, de tratar a verdade e o gênero, pensando
teiro me barrou e disse que eu não poderia entrar, porque nessas desigualdades entre homens e mulheres em que os agentes do
diziam que eu era terrorista, olha só. Fui ao sindicato dos estado, usaram dessa desigualdade para nos torturar mais.”
jornalistas e um dos donos da editora lá foi atrás de mim É domingo de manhã. A pequena rua sem saída no bairro da
pra dizer que eu não merecia nem homologação por ser ter- Bela Vista, em São Paulo, dá trabalho para ser encontrada. O
rorista. Ainda tinha um cara que me seguia, sabia quando mapa informa uma localização enquanto a realidade indica outra.
eu entrava na editora ou não, me observava pra, um tempo “É que eles fecharam essa rua aqui, antes ela ligava lá embaixo”,
depois, dizer que eu não oferecia riscos. A liberdade vigia- Amelinha Teles nos esclarece.
da era como uma prisão preventiva. Depois de um tempo a Ela ainda não está em casa quando chegamos. Tinha dado uma rá-
editora Abril me chamou e fui trabalhar na revista ‘Qua- pida saída. Enfim chegou e abriu o portão. Plantas de diversas espécies

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no quintal e pelas paredes. Uma minifloresta que esconde um grande me beijar e ficavam sem saber, ao mesmo tempo, porque
cachorro, todo saltitante, nos recepcionando. É a Macabeia. nunca tinham me visto naquele estado. E o major falando
Naquele domingo tranquilo, Amelinha começa a abrir suas me- ‘ah, ela tá num hospital’. Daí eu falei ‘mas aqui não é
mórias para nós. Depois de uma longa trajetória política, sob o hospital’. Aquilo ali foram alguns minutos. Meu marido
fantasma de ser presa e torturada. Afinal de contas, aqueles que tinha estado em estado de coma à noite, tava saindo do
passam pelos porões nem tão ocultos assim e retornam, contam a coma, tava muito abatido. Daí eles [os filhos] pergun-
todos os companheiros seus suplícios e barra ia pesando. E não era taram: ‘mãe, porque o pai ficou verde e você, azul?’ Daí
com surpresa que vinha a tortura. Discutia-se sobre isso nas reuni- eu olho pro meu corpo e vejo que a tortura me fez mudar
ões partidárias. Os militantes presos, ao sair da cadeia, relatavam de cor. Eu tô cheia de hematoma pelo corpo. Eu fiquei as-
a barbárie conduzida pelos agentes do Estado. “A gente achava que sim, amarrada [mostra como ficou amarrada na cadeira
ia ser assassinado quando ia pra prisão. Fiquei na clandestinidade onde está sentada, com os punhos amarrados na cadei-
até ser presa em 1972. Aí eu fui presa e torturada, mesmo! Porque ra], com os fios levando choque. Fio na vagina, no ânus,
em 1964 eu só fui ameaçada. eles deixam um fio solto, que eles vão passando no mamilo,
É presa com o marido, César Augusto Teles e o companheiro de no umbigo, nos ouvidos. Você levando choque direto. Na
partido, Carlos Nicolau Danielli. Dirigente comunista e figura im- boca. Levava choque em tudo...nas mãos, nos dedos, nos
portante nos quadros partidários, foi assassinado dentro do DOI- pulsos. E eu não sabia nem o que responder. E o major
CODI, do 2º Exército, em São Paulo, então sob a batuta do então viu que ele já tinha perguntado demais, me levou embora.
major Carlos Alberto Brilhante Ustra (hoje, coronel da reserva).
Amelinha não sabe quanto tempo seu marido ficara naquele esta-
Eles foram até esse aparelho onde eu ficava, na impren- do. Mas, apesar de não ter ideia se era dia ou noite, imagina que algo
sa, onde estavam meus filhos de cinco e quatro anos. Le- estava clareando ali. “Lá a noção de tempo é muito complicada, né?
varam meus filhos e minha irmã grávida de sete meses, Ainda mais que tudo isso que eu tô falando pra vocês já tem mais de
para o DOI-CODI. E lá no DOI-CODI nós fomos mui- quarenta anos, então é bastante complicado você lembrar de tudo.”
to torturados. Meus filhos, e eu sempre digo isso, que eu Nunca soube para onde levaram seus filhos. Sabe que ficam sob
espero que eles não tenham sido torturados fisicamente, a guarda de certa “tenente Bia”. As crianças contam que ficaram
porque psicologicamente eles foram, eles foram levados de em um lugar onde havia um corredor muito comprido e inúmeras
imediato. O major Ustra levou meus filhos para dentro portas num quarto com uma cama de lona, na qual dormiam, e
de uma sala onde eu estava sendo interrogada, tortura- para ir ao banheiro ou receber comida precisam bater na porta.
da, amarrada na cadeira do dragão, nua, toda vomitada, Um homem traz a refeição ou leva os filhos de Amelinha para fazer
com fezes, urina, era sangue, suor, tudo o que você possa suas necessidades. Para as crianças, a prisão tem sabor de guaraná
imaginar. Eu amarrada, eles levaram meus filhos assim e sanduíche, refeição servida pelos agentes da repressão da qual se
na porta, e eu olhando meus filhos sem poder...nem sa- lembram.
bia o que falar. E eles estranhando de ver tudo aquilo. E Hoje, como diz Amelinha, os dois se “dedicam à causa”. Ele,
eles falavam, meus filhos queriam me abraçar, queriam Edson Luis de Almeida Teles, é professor de Filosofia Política e

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trata da memória política, na Universidade Federal de São Pau- sa internacional comunista, que você não poderia escrever
lo (UNIFESP). Sua filha, Janaína de Almeida Teles, também é um endereço conhecido, pela repressão. Então, você tinha
historiadora – sempre estudou a ditadura militar – e está fazendo que guardar tudo na cabeça, e eram nomes estrangeiros,
pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), igualmente cheios de consoantes. Era dificílimo. Você tinha que fa-
sobre a ditadura militar. zer um treinamento de memória, porque você não podia
escrever isso pra não cair. Então você ver esse amigo sen-
Meus filhos sofreram muito. E acho que pra mim, tudo do morto dentro da sala de tortura, encostado na parede,
na tortura foi muito sofrimento, mas os dois momentos escorregando, caindo, com as calças no meio da pernas,
mais terríveis foi ver meus filhos dentro da sala de tortura, saindo sangue pela boca, pelo nariz – hemorragia interna
e eu tenho a impressão de que eles só fizeram isso comigo, – a barriga deste tamanho [sinaliza com as mãos como
e não fizeram com o César. Ele não lembra disso. Eu sofri se fosse uma barriga de grávida prestes a dar à luz]. Ele
vários tipos de tortura, mas esse momento é terrível. Você era muito magro, muito magro. Chama a atenção. Como
ver seus filhos, duas crianças, duas crianças, te olhando e é que a barriga cresce desse tamanho assim em dois dias de
você olhando pra eles e não saber o que falar e nem eles. Eu tortura? Assim, o tanto de chute que ele levou na barriga.
tenho muito claro que o Ustra fez isso pra mostrar, por- Arrebentaram ele por dentro.
que a noite inteira, quando eles me torturam, eles falaram
que iam matar meus filhos, e tinha hora que eles falavam Apesar de não ver o momento da morte de Danielli, Amelinha
que meus filhos tinham sido mortos. E que a Janaina se e César estão no andar de cima, e a todo o momento são levados
encontrava num caixão, essa que tinha cinco anos. Então para o piso inferior, onde o companheiro de partido é torturado.
ele levou lá e falou: ‘oh, aqui, seus filhos tão vivos’. Ele Porém, os agentes do Estado cuidam para que eles não se encon-
não falou isso, mas eu senti que a mensagem era essa. E trem – transferem Nicolau Danielli para o “cofre” (espécie de so-
até hoje eu sinto que a mensagem era essa: ‘Aqui estão seus litária) ou outro local. Tanta precaução, um dia, falha. A certa
filhos, vivos. Mas estão nas nossas mãos. Nunca se esqueça altura, levam Amelinha para a mesma sala onde seu companheiro
disso. E nós podemos fazer o que quiser com eles. Então de imprensa está morrendo. “Pra mim, ele já tava até morto. Eles
você pense bem. Ou você colabora ou nós liquidamos seus fizeram isso pra mostrar pra mim: ‘olha o que aconteceu com ele;
filhos. Entendeu?’. Essa é a leitura que eu faço. pode acontecer com você também’. Era mais um recado”.
“Daí no outro dia ou alguns dias depois eles me mostram
A outra situação terrível, aliás são todas terríveis, mas um jornal, escrito: ‘Terrorista morto em tiroteio’. Fizeram uma
assim, é terrível você ver um amigo seu, que você trabalha manchete. Eles é que faziam a notícia ali, produziam a notícia
com ele...trabalhei com ele desde 1965 até 1972, na im- pra todos os jornais publicarem, veicularem aquelas notícias.”
prensa, como rádio escuta, escrevendo texto, imprimindo Capitão Ubirajara pega o jornal e diz:
texto, fazendo revisão – porque a gente fazia de tudo –
distribuindo material da imprensa, fazendo publicação, - Lê isso aqui.
fazendo um trabalho difícil que é você colocar pra impren-

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“Terrorista morto em tiroteio”, lê Amelinha em voz baixa. ram numa máquina de datilografia:

- Lê em voz alta. Eu, Maria Amélia de Almeida Teles, autorizo o aborto


que será feito na minha irmã, Crimeia Alice Schmidt de
Retruca: Almeida, e me responsabilizo por quaisquer resultados.

- Isso aqui é um absurdo! Bota que esse homem morreu em tiroteio, E punha lá ‘São Paulo, dia tal, 1973’, pra eu assinar.
mas ele morreu aqui nessa sala. E ainda punha embaixo meu nome, datilografado, e me
davam uma caneta pra eu assinar. Falei ‘ jamais vou as-
Era um jornal tipo a Folha da Tarde, desses que faziam o jogo da sinar uma coisa dessas, se vocês querem matar as pessoas
repressão. – porque eles queriam matá-la, né? Porque um aborto
é a morte, numa mulher com sete pra oito meses de gra-
- Pois então. Pra você ver. Aqui a gente dá a versão que a gente videz. E como é que seria feito essa aborto? Na porrada?
quiser pras mortes de vocês. Essa é a versão que nós tamos dando pra Não seria num hospital com anestesia. Seria na porrada.
morte dele. E você também pode ganhar uma manchete igual. Ama- E minha irmã firme. Aí eles me punham no pau de arara,
nhã pode sair isso aqui, ó. Igualzinho pra você. porque eu não assinava. Na cadeira do dragão, me espan-
cavam, me batiam com palmatória. Palmatória, você não
“Ele falou assim pra mim com todas as letras. Isso dói. Por isso imagina o que que é isso. A palmatória é um pau, cheio de
que eu sempre denunciei o assassinato do Danielli mesmo em furinhos. Então cada vez que bate com força sua pele sobe
condições adversas. Eu nunca deixei de denunciar. Você pode ver e vai arrancando. Você fica toda lixada. Você fica com a
em todos os meus depoimentos que você achar, eu tô denuncian- pele toda em carne viva. Porque era muito forte...aqueles
do. E se não tem é porque as pessoas às vezes omitem, elas põem homens eram muito fortes. Eram treinados pra isso. Eu
só um pedaço da sua fala.” tenho a impressão que cada vez que eles vinham torturar,
Sentada em sua cadeira e cercada por diplomas de prêmios de vinham oito homens numa sala. Aí me punham na cadei-
direitos humanos, recorda daquilo que luta para o mundo não se ra do dragão. E esses homens tudo em volta. A hora que
esquecer – e não repetir. Lembra de outro ponto doloroso de sua um cansa, ele dá pro outro. Entendeu? Porque ele cansa.
tortura: a tortura de sua irmã. “Foi muito duro pra mim. Ver minha Agora, você é uma só. Você imagina. Eles vão se revezando
irmã, grávida. Porque eu vi meu marido em estado de coma. Eles me porque eles não aguentam ficar torturando a gente o tempo
chamaram, falaram assim: ‘esse homem tá morto. Não é seu mari- todos, que eles querem descansar. São três equipes. Elas vão
do?’. Daí eu pensei: ‘nossa, que bom que a gente morre rápido aqui se revezando. Em determinados momentos, fica um sozinho
dentro’, naquela esperança que eu ia morrer rápido. Hoje eu tenho pra te torturar. Aí esse um, sozinho, é que vem com abuso,
muita clareza disso. É muito difícil morrer, não é fácil.” violência sexual contra você. Geralmente, eu pelo menos, as
“Eles torturaram minha irmã grávida. Deixaram ela muito tor- violências sexuais que eu sofri, não tinha mais de um.
turada. Uma coisa absurda, absurda, absurda. Eles ainda escreve-

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Crimeia de Almeida,
irmã de Amelinha.

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Há um sujeito que ameaça Amelinha de estupro, “mas não che- do PCdoB, e engravida. Quando engata o romance, não sabe o
gou às vias de fato”. Já outras não tinham a mesma sorte. nome verdadeiro dele: “eu era Alice; ele, Zé Carlos. Isso é clan-
destinidade”, ressalta.
E tinha um outro que você ficava amarrada na cadeira “Era uma região terrível. Foi inteiramente desmatada com des-
do dragão e ele se masturbando, batendo punheta, e jo- folhante laranja, além das madeireiras e mineradoras. Era uma re-
gando a porra em cima de você. Ou então eles te batiam gião muito hostil que a gente chamava de fim de fim de mundo”,
tanto que você caia no chão. Eles te jogavam no chão, né? conta a combatente também em audiência da Comissão Estadual
E tinha esse menino, da cadeira do dragão, que subia em de São Paulo. O trajeto até lá tem muitas escalas: Rio de Janeiro,
cima e dizia que tava te massageando. Te esfregando e São Paulo, Anápolis (GO), Imperatriz (MA) e São João do Ara-
vindo como se tivesse numa relação sexual. guaia. Por causa disso, em 1973, deixa os combates nas terras do
rio Araguaia e vai morar com a irmã, na gráfica clandestina em
Até a primeira audiência, contada no capítulo dois, Amelinha São Paulo estourada pela equipe de Ustra.
não falara para ninguém ainda de todas as violências sexuais co- É presa com os filhos de Amelinha e, para tentar escapar, pas-
metidas contra ela; é a primeira vez que externa aquilo, especial- sa-se por babá das crianças. Isso com uma gravidez em estágio
mente a um auditório. É a tortura levada a cabo que ainda persiste. avançado: sete meses. Mesmo torturados, a irmã e o cunhado
Lá, nas salas do DOPS, as torturas eram coletivas. “Eles usavam não revelam o paradeiro de Crimeia. “Com um serviço de análise,
esse vínculo afetivo que você tem com as pessoas como uma maneira acabaram descobrindo na Oban que Alice Ferreira era Crimeia
de intensificar a tortura; você ver o seu companheiro torturado, ver sua Schmidt de Almeida”, conta. Isso no dia 29 de dezembro de 1972.
irmã sendo torturada, ou você ver seus filhos na sala de tortura, você A barriga de grávida não impedia a tortura. “O médico dizia:
ver seu amigo assassinado ali, sob tortura.” O marido e a irmã de Ame- ‘não, ela aguenta. É só não espancar a barriga e nem dar choque
linha eram torturados enquanto ela observava, e vice-versa. “Você fica na vagina. Mas nas mãos e nos pés...’” E assim foi. Com Crimeia
destroçada, acabada. Você vê o absurdo que é tudo aquilo. E tem horas completamente nua, as sessões de espancamento nas solas dos pés
que você nem acredita que é você que tá vendo tudo aquilo”, conta. e das mãos, além da cabeça prosseguiam. “E a tortura psicológica.
Crimeia é guerrilheira do Araguaia por quatro anos. E se para Então, é o seguinte. Eles torturavam a minha irmã, meu cunha-
Rose ser mulher dentro da organização não é problema, a irmã de do, para me interrogar. Eles me punham num carro, no carro do
Amelinha discorda. “Eu fui a primeira mulher jovem que chegou meu cunhado, que tinha sido apreendido: ‘hoje você vai morrer na
lá. Inclusive o João Amazonas disse que era importante como eu Serra das Araras, você vai sofrer um acidente, o carro vai cair na
ia me desempenhar lá no Araguaia, porque do meu desempenho serra e pegar fogo. Eu passava a noite sentada no carro.” Então, os
dependeria a ida de mulheres para a guerrilha”. Responde com sar- torturadores dizem que não dá certo. “Na próxima noite, a gente
casmo: “então quer dizer que se os homens não desempenharem tenta.” E prosseguem com esse terror noite após noite. Mesclam
bem suas funções aqui não vai ter homem na guerrilha? Ser mu- com a “roleta russa”, método pelo qual um soldado coloca apenas
lher na esquerda não era fácil”. uma bala no revólver, gira o tambor e dispara.
Na época da guerrilha, em 1969, com 22 anos casa-se com Presa no isolamento, é transferida para Brasília. “Não podia to-
André Grabois, filho de Maurício Grabois, um dos dirigentes mar banho, não podia ir no banheiro. Tinha que fazer as necessi-

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dades na cela.” Dispõe de duas latas: uma para beber água e outra - Mas meu filho não vai aguentar.
para urinar. “Ambas eram idênticas e igualmente sujas”, conta. O
vizinho no xadrez ao lado é um militar, condenado por tráfico de - Não tem importância, é um comunista a menos.
drogas e armas. Quando sabe que é vizinho de uma mulher grávida,
“muda todo o seu comportamento”. Abandona o linguajar chulo e Na porta, um guarda com metralhadora. O médico, mais ou-
passa a se solidarizar com Crimeia, valendo-se do bom relaciona- tros guardas e enfermeiros contém a fúria de Crimeia, que não
mento com outros militares para trazer itens a ela. A ironia é grande, quer ser medicada para retardar o trabalho de parto. Amarrada na
pois trata-se de um bandido que oferece sua escova de dentes para cama, resolve que o melhor é se acalmar. “Eu fiquei mansinha, e
aliviar o sofrimento da moça grávida. “Tinha um tratamento mais quando eles saíram eu cortei o soro com os dentes, embaixo do len-
respeitoso do que o Exército brasileiro”, diz. Come arroz e feijão cru, çol pra eles não verem, claro.” Apesar de ter ficado completamente
os legumes com casca e uma grande vértebra de boi compunham encharcada com a medicação, tem êxito: seu filho vai nascer.
as refeições diárias na capital federal. “Isso para uma gestante, né.” Volta o doutor Trindade. Ele faz o parto, mas não mostra
“Minha cela tinha muita barata. Muita, mas muita mesmo. Eu a criança à mãe. “Tiraram a criança, eu só ouvi que chorou”,
só tinha cuidado de dormir com um pano na minha boca, porque relembra. Outro médico, doutor Cury, limita-se a dizer que a
eu tinha medo de que elas entrassem na minha boca”, diz Crimeia. criança é “um menino normal”. Suturam o corte feito em sua va-
Pausa para tomar um gole d’água e ri. Um riso impensável para gina sem anestesia. “Mais tarde eu descobri que não fizeram com
qualquer um de nós que tivesse enfrentado tamanha condição ad- um fio comum, que é mais fino, absorvível. E eles fizeram com
versa. “Quando rompeu a bolsa, gente, as baratas se assanharam, um fio cromado e bem grosso. Então eu andava e sentia como se
porque ficava escorrendo líquido amniótico, então elas vinham eu tivesse alfinetes dentro da vagina.” Foi dopada com morfina
voando, andando, mas era muita barata”, diz com profundo nojo. sintética. Anestesia, foi-lhe negada.
Exige um médico já que o nascimento do filho é questão de O filho fica no berçário, longe da mãe. Mais tarde descobre que
horas. O médico quer examiná-la ali, na cela. Crimeia bate o pé João Carlos Schmidt de Almeida Grabois é dopado com um tran-
e se nega. “Aqui não. E se o senhor tentar me examinar aqui eu quilizante chamado luminaleta, que é uma dose pediátrica de dia-
denuncio como violência sexual... não sei pra quem, né.” No Hos- zepan. “Eu percebia que meu filho não mamava, meu filho não
pital de Base de Brasília, o plantonista, que se identifica apenas chorava, aí uma atendente disse: ‘seu filho toma luminaleta’”. De-
como professor de obstetrícia, diz que a bolsa não está rompida. pois da briga com o pediatra, consegue que coloquem um berço ao
“É só urina”, e pede para o enfermeiro preparar uma benzetacil. É lado de sua cama. Nega-se a responder interrogatórios enquanto o
mandada de volta ao quartel. filho “não estiver em segurança”. “Daí tiravam meu filho e diziam:
Depois de gritar – seguida por todos os presos dos xadrezes em volta ‘ele vai pra FEBEM’ [atual Fundação CASA, prisão para menores
– vem o doutor Trindade, médico do Hospital de Guarnição de Brasília. infratores]’. E ficava dois, três dias sem ver ele. Daí ele voltava com
gastrenterite, diarreia. Descobri que eles davam leite glória instan-
- É trabalho de parto, mas eu não estou de plantão, então não vou tâneo. Não era nem o não instantâneo”. João Carlos passa 52 dias
fazer esse parto. preso. O resultado se reflete diretamente em seu peso: nasce com
3,1 quilos. Com dois meses está pesando pouco mais de dois quilos.

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Com o caso denunciado na Anistia Internacional, no começo incorporada a essa história oficial. Mas é difícil, é mui-
de abril de 1973 soltam seu filho, que vai morar com uma tia em to difícil. Porque são muitas histórias, muitos episódios.
Belo Horizonte. Os militares, alegando que João está em seguran- Os torturadores tinham várias técnicas, eles mudavam de
ça começam os interrogatórios. “Os interrogatórios eram assim. O organização pra organização, por exemplo, uma coisa é
general Antonio Bandeira batia uma [ponto] 45 na mesa e fazia o o pessoal do PCdoB, outra ALN. Para cada organização
questionário.” Enfrenta aí sessões de cinema nas quais os filmes eles davam um tratamento, um tipo de tortura, uma di-
exibidos não têm nada de entretenimento: militares seguram cabe- nâmica. Cada período também. Você vai ver, 1970 é uma
ças cortadas “com sangue coagulado no pescoço” de guerrilheiros coisa, 71 é uma coisa, 72, o período que eu fiquei é outra
e outros combatentes. Enquanto um passa os slides, outro, de fren- coisa, e eu tô vendo isso. Outros já vivenciaram outros
te para Crimeia, examinava suas reações. No fim do mês, é avisada momentos. Porque a repressão usou de várias táticas pra
que ganhará a liberdade. Sem documentos e sem dinheiro. confundir, para que nunca houvesse esse momento que nós
Amelinha é enfática ao afirmar que nada se compara à vivência estamos vivendo agora, que é a construção da memória
destes momentos “Quando você tá lá, você tá vivendo isso. Por nacional, da consciência nacional. Você confunde o tem-
mais que você prepare algo, imagine as consequências, quando po todo as pessoas pra elas nunca contarem a história, ou
você vive diretamente é outra coisa. A experiência na carne, na então elas contam e parece que uma é diferente da outra.
pele, não tem nada, não tem nenhum filme, nenhum livro, nenhu- Mas qual tá falando a verdade? É que cada uma viveu um
ma discussão que substitua, né? Não compara.” Essa dimensão é momento.
intraduzível.
O que acontece nas salas forradas com eucatex (por sinal produto
- Você vem almoçar? de uma das empresa da família de Paulo Maluf, ligado à Arena –
Aliança Renovadora Nacional, partido dos militares) – como forma
Então, Amelinha nos apresenta César e Crimeia, que passam de abafar os gritos não deve sair. Há uma escrivaninha com uma
por lá e a chamam para o almoço. Ficamos assustados: já são quase “maricota”, pequena máquina de dar choques, guardada dentro da
13h e o tempo parece ter voado durante a conversa. Prosseguimos. gaveta. Além dos cavaletes usados para o pau de arara no corredor.
Uma cadeira do dragão (forrada com placas metálicas) e uma cadeira
É muito difícil você não se surpreender com o que escre- comum na escrivaninha, onde os torturadores sentam. Quase como
vem sobre você. É muito difícil você aquilatar, sentir, ava- um enfeite macabro, a máquina de escrever repousa tranquila sobre a
liar, sistematizar uma experiência desse tipo. E eu acho mesa de trabalho, esperando para colher um depoimento que nunca
muito bom que agora tá todo mundo escrevendo sobre isso, viria. “Responder o quê? Com a tortura que se fazia não havia como.
fazendo audiências, e eu ouço audiência o tempo todo na Eles queriam muito mais te humilhar, te ofender, do que obter qual-
Comissão da Verdade, e acho necessário essa catarse, da quer informação, se você quer saber, viu? Num primeiro momento
história do Brasil, da sociedade brasileira. A gente tem era informação, mas depois era te ofender, te humilhar mesmo.”
que contar isto, recontar essa história. Essa história tem
que se inscrever nessa história do Brasil, ela tem que ser A gente chega lá, apanhando feito louco, sem racioci-

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O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra


sob o olhar de Amelinha.

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nar. Você nunca entrou naquele lugar, vive clandestino e do, ficou. Mas outros homens tavam lá presos. Tanto é que
por mais que tenha informação, não sabe como é o negó- tinha uma cela das mulheres, a x6. Agora eu não sei se é
cio lá dentro. Eles escolhiam os quadros mais competentes a x6 ou se é a x1. O primeiro xadrez era o das mulheres.
para torturar. Que fossem capazes de torturar, porque não Eram três de um lado e três de outro. E tinha uma que era
é qualquer um que tem essa, digamos, essa característica de chamada de cofre, ou solitária, que é aquela toda fechada.
ficar torturando uma pessoa indefesa, dominada, batendo
nela até matar. Nenhum é inocente. Todos eles foram esco- Outro fato curioso é a maneira de titular os torturadores. De
lhidos, sabiam o que iam fazer e fizeram com todo o empe- acordo com a Amelinha, está provado que os doutores, que pensa-
nho, com todo o esforço. Eram cidadãos acima de qualquer vam ser delegados de polícia, “já que as torturas ocorriam nas dele-
suspeita. Se você olhasse na rua talvez não desconfiasse que gacias”, eram oficiais do Exército, da Marinha ou da Aeronáutica –
era um torturador. Eram pais de família? Provavelmente. principalmente do Exército, pois “era o 2º Exército que mandava”.
Tem gente que fala que eles eram psicopatas. Eu não acho. Os “capitães”, esses sim era delegados de polícia – “por exemplo,
o capitão Ubirajara, que era delegado de Polícia Civil, cujo nome
Mesmo conversando com outras mulheres elas falavam verdadeiro era Aparecido Laerte Calandra.”
‘ é melhor a gente nem falar disso [da violência sexual]’. É A pequena cela pequena tem apenas uma cama. Enquanto espera
muito dolorido, é muito humilhante. Foi quase como um pela próxima tortura, um dos torturadores, que abusara de Ameli-
acordo que nós fizemos, de não tocar nisso. Ou tocar nis- nha duas vezes, chega até lá. É o escrivão de polícia Lourival Gaeta,
so de uma forma muito sutil, muito disfarçada, pra não ou Mangabeira como era conhecido. Aproxima-se das grades e diz:
sofrer. Mas aí nós começamos a pensar: ‘agora é a hora da
verdade, falar, e a gente tem que mostrar que as mulheres - Você tá com raiva de mim, né, Maria?
tiveram um tratamento desigual em relação aos homens.
Eles usaram a maternidade, usaram nossa condição de Silêncio.
ser mãe tanto quanto de estar grávida, eu tô falando da
maternidade como um tudo. Eles usaram nossa condição - Não, não fica com raiva não. Eu sei que as suas ideias é que são
de ser jovem. Nossa condição de ter relações afetivas com boas pra humanidade, que se quer justiça social. Isso é muito bom.
homens, como se a gente fosse a mais despudorada, a mais
puta. Eles não tratavam a gente como pessoas, nós éramos - Ah, deixa de ser cínico, né? O senhor vir falar isso aqui comigo é
sempre tratadas como amantes, putas. Isso foi uma des- demais. Não precisa exagerar, né?
qualificação. Eles procuravam desqualificar a nossa parti-
cipação nessa luta. Sempre foram menos mulheres do que - Sabe o que que é? Você pode não acreditar, eu acho isso. Eu acre-
homens nas prisões. Como minha irmã era guerrilheira do dito que quem luta pela liberdade, pela justiça é que tá certo, porque
Araguaia mandaram ela pra Brasília. Eu fiquei com pou- é isso que a humanidade quer.
cas mulheres, e muitas vezes fiquei sozinha. Eu mesma fui
presa com dois homens. Um foi morto; o outro, meu mari- Provocar ou irritar. Era isso. Só podia ser. Achando que ia ser

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Culpada por ser mãe Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

atacada por ele, Amelinha levantou da cama. E que era um torturador também. Ficou lá...sofreram muito
meus filhos. Porque aí meus filhos começaram a entender um
- Eu faço isso que eu faço porque eu sou pago, eu sou um profissio- pouco mais, assim, que eles tavam vivendo uma situação de
nal. Eu sou pago pra exterminar com vocês. Mas eu sei que historica- muita pressão, eles começaram a perceber.
mente vocês é que tão com a razão.
João, sobrinho de Amelinha, tem quarenta anos. Sofre antes de
Amelinha não sabe se ele pensa assim de fato ou o que o leva a nascer, devido à tortura. Tem muitas convulsões ao nascer e até
dizer aquelas palavras. Mas ali, naquele momento, compreende que completar um ano e meio, tomando medicamentos e é muito cui-
esses agentes tinham plena consciência do que faziam e teve a prova dado pela família. “Eu que tinha entrado na prisão sem nenhum [fi-
prática de que eles eram parte da estratégia de um Estado terrorista. lho], saí de lá com três, tá certo? E todos eles com problema”, lembra
Punição aos torturadores. “Enquanto não houver punição aos tor- Crimeia com sua voz mole, tranquila, muito parecida com a da sua
turadores, as Forças Armadas e todos aqueles que participaram da re- irmã. Quando deixa a cadeia vai em busca dos filhos de Amelinha.
pressão têm as mãos sujas de sangue do povo brasileiro, de maneira O delegado dizia às crianças que elas haviam sido abandonadas
impune.” pelos pais porque eles eram terroristas. Amelinha nos conta.
“Depois eu fui pra presídio feminino, uma ala das mulheres. Aí a
gente fez [contato] sim. Fiquei no Hipódromo, no DOPS e às vezes Isso foi muito forte, muito pesado pra eles. Daí ele não
tinha mulheres lá também, na cela três, que era das mulheres. Você queria entregar de volta meus filhos, mas aí a advoga-
vê, tinham várias celas e uma só era das mulheres, porque tinha bem da conseguiu garantir a guarda pra minha irmã. Minha
menos.” irmã ficou com os filhos, levou pros meus pais que mora-
Pelo perfil dos atingidos do Brasil: Nunca Mais, só 12% dos vam no Rio. Então eu saí daqui, arrumei emprego e fui
processados são mulheres. “Uma proporção bem desigual. Mas as pro Rio buscar meus filhos pra viver comigo. Foi todo um
mulheres participaram, mas eram 12%. No presídio do Hipódro- processo. E aí foi outra fase, eles tiveram que fazer trata-
mo e no Carandiru eu convivi com mulheres.” mento psicoterapêutico, porque eles estavam muitos deses-
Em 1975, no dia do julgamento faz a denúncia da prisão da irmã truturados emocionalmente, os dois. Minha filha amadu-
grávida, da tortura dos filhos e do assassinato de Carlos Nicolau receu muito depressa, como forma de proteger o irmão.
Danielli. Absolvida, desse dia em diante visita todo o sábado o Ela sentia quase que uma obrigação de ser a mãe dele. E
marido e outros presos políticos de outros estados. o irmão regrediu, voltou como se fosse um bebê. Foi assim,
um disparate. Então minha filha com sete anos, se eu não
Tive que lutar [para conseguir os filhos de volta]. Tive que tratasse dela, se não tivesse os médicos pra tratar, ela já ia
arrumar um emprego. A minha irmã, via minha advogada, ficar menstruada. Tanto é que ela entrou na menopausa
que é a Rosa Cardoso, nós conseguimos retomar meus filhos. muito nova, antes dos 30 anos de idade. E meu filho e
Porque meus filhos ficaram um tempo com a repressão aqui ela ficaram com muitas dificuldades de entender o mundo
em São Paulo, depois foram entregues a um delegado de po- político. E eu como tinha dificuldade financeira tive que
lícia lá em Minas Gerais, que era cunhado do meu marido. pôr ela numa escola pública. E na escola pública tinha

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Culpada por ser mãe Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

a foto do Médici ou do Geisel, que era o presidente.


Eu só sei que era um ditador militar. E ela falava:
‘mamãe, como é que você me põe numa escola que é o
ditador que manda, que tá lá a foto dele’. E eu não
tinha outra escola pra por, porque outra escola é paga.
Ela tinha muita contradição. Como é que você luta
contra o governo e põe em um escola do governo? Que
ela tinha razão, né? Eu queria que ela aprendesse a
ler, a escrever. Como é que ela vai ficar sem escola?
Eu tive que fazer uma discussão com a professora dela.
Eu falei: ‘uma hora eu tenho que abrir o jogo pra essa
professora’. Eu nunca contei nada pra ela. Mas eu vou
contar. Ou ela vai ficar do meu lado ou vai ficar mi-
nha inimiga. Ela vai decidir. E ela ficou do meu lado.
Aí ela falou: ‘eu vou falar com ela, vou levar ela na
minha casa e falar com ela, olha aqui a gente não pode
falar que é contra o governo, porque é ditadura, mas
eu também tô do seu lado’. E ela explicou isso pra ela.
Então minha filha sentiu que tinham outras pessoas
ali, além de mim, que também pensavam assim. Vai
entender o que que é governo, o que é ditadura quando
você tem seis anos de idade. E eu acho que as consequ-
ências são pra sempre. Eu sempre falo isso. Tanto pra
minha filha, quanto pro meu filho, quanto pro meu
marido, quanto pra mim. Nós todos. A tortura é para
sempre.

A tortura é para sempre. E as marcas nunca se apagam, como


no caso de Solange Lourenço Gomes. Nas páginas seguintes, a
história da mulher que adorava poesias.

Crimeia, torturada grávida de oito meses.

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

As poetisas
guerrilheiras

E um de’ tristi de La fredda crosta


gridò a noi: “O anime crudeli
tanto che data v’ è l’ultima posta,
levatemi dal viso e duri veli,
sì chïo sfoghi ‘ l duol che ‘ l cor m’ imprena,
um poco, pria che ‘ l pianto si raggli.”

(Inf. XXXIII, Vs. 109-115)

Dos tristes da geleira, entre milhares,


gritou-nos um: “Ó sombras destitosas,
que mereceis dos infernais lugares
o mais baixo, arrancai-me as dolorosas
lágrimas regeladas que aliviar
eu possa minhas dores angustiosas,
antes que o frio as torne a congelar.”

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

O auditório Paulo Kobayashi contrasta com a noite de certo vogado de presos políticos e ex-secretário de Justiça, Belisário dos
“glamour” vivido com a Comissão Nacional da Verdade. Sem o Santos Júnior, que deu o seu voto como relator do caso de Solange
prestígio da mídia, a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva na Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da
realiza a audiência sobre Solange Lourenço Gomes, com pouco Secretaria de Direitos Humanos e, hoje, lê o seu discurso do dia
mais de 20 pessoas, andando livremente pela sala. 22 de abril de 2004, quando Solange fora reconhecida, por una-
Paradas em frente a uma foto em preto e branco de sete mulheres nimidade, como prisioneira política e morta por motivos políticos.
projetada em um telão, encontram-se aos risos Jessie Jane Vieira de Belisário se ajeita na ultima cadeira do lado direito. Troca algu-
Souza e Rosalina Santa Cruz, companheiras de prisão. Ambas têm mas palavras com Jessie Jane, enquanto mexe no seu celular para
o cabelo curto, mas de cores diferentes. Jessie tem os fios cor prata, visualizar o seu discurso. O auditório fica em silêncio para ouvir
enquanto Rosalina tem o castanho como tonalidade. Amigas, as uma voz rouca e forte, acompanhada de gestos com a mão esquer-
duas se lembram dos tempos de “coletivo”, como se fossem primas da, livre do microfone.
recordando as viagens em família na infância: apontam; gesticu-
lam; sorriem; e se confortam. Não há dor naquele momento. Solange nasceu em maio de 1947 e morreu no dia 1 de
Zanzando pelo auditório está outra companheira de prisão: Ze- agosto de 1982. E o requerimento dava conta que Solan-
naide Machado de Oliveira. A cada momento se senta sobre uma ge havia sofrido abusos, maus tratos físicos e psicológicos
cadeira diferente. Parece ansiosa, diferente de Denilson Ferreira de quando presa em 1971 sob dependência de policiais do
Vasconcelos. O baiano está calmo, decifrando um jornal e pouco Regime Militar. Suicidando-se em 82. A data conta que
chama atenção mesmo com a camisa mostarda. por conta de sua prisão os órgãos de segurança divulgaram
Amelinha organiza os últimos preparativos para começar a au- intensamente o depoimento de que ela se dizia arrependi-
diência. O presidente da comissão, deputado Adriano Diogo, entra da, renegando a sua condição de militante política contra
na sala com trajes escuros. Coloca-se no mesmo lugar onde fica o Regime Militar. Solange passou a ser mal vista. Essa era
na noite de Inês: no centro. Os poucos cochichos na sala acabam a propaganda que se fazia. Perseguida mesmo por antigos
para ouvi-lo. Com sua costumeira voz rouca, convoca os depoentes companheiros de militância. Solange foi usada pela re-
sobre o curioso e triste caso de Solange. Seu irmão, o psicólogo pressão para a propaganda política. Sai da prisão aniqui-
Gilberto Lourenço Gomes, é o primeiro a ser chamado e fica ao lada psicologicamente, precisando de tratamento e junto
lado do parlamentar. do requerimento vem o laudo e declaração do médico Car-
“Denilson que militou com Solange em Salvador, na Bahia. Fa- los Alberto Ambrosio e documentos da imprensa da época.
vor fique à minha esquerda. Jessie Jane, nossa, essa mulher tem his-
tória! Historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Belisário respira fundo. Parece estar revivendo o dia do reque-
Janeiro.” Diogo anuncia os nomes de Rosalina e Zenaide, mas se rimento de Solange com grande intensidade. Todos o olham fixa-
atrapalha na última. “A Ana Miranda veio?” Surge uma voz mui- mente para escutá-lo sobre a tortura. “Há uma ingênua ideia de
to simpática do lado direito da plateia. É Ana. Ela se encaminha que a tortura é dividida em alguns graus. Algumas pessoas são
para a mesa recebendo os aplausos dos presentes para se juntar às mais torturadas do que outras. Isso não existe! Já demonstramos
companheiras na mesa, a qual termina sua composição com o ad- sucessivos estudos e várias comissões demonstraram que não há

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

grau de tortura. Aquele sentimento da pessoa que vai para o DOI- cuperar do grave quadro psiquiátrico decorrente da sua prisão e,
CODI, uma coisa absolutamente ilegal, re-gu-la-ri-za-da, mas pior, da intensa perseguição que sofria. Ela não resistiu à tortura,
completamente ilegal”, segue o relator de Solange com a voz a cada real ou imaginária. Ela se sentia culpada pela morte de pessoas,
palavra mais ríspida e indignada. mesmo que não fosse. Solange conseguiu melhoras significati-
“A estrutura formal do Exército se senta e sabe, ela sabe, pelos vas, mas que não conseguiu viver com tantas marcas insuperáveis
relatos que já havia na época; a sociedade não desconhecia a tortura. para continuar viva. Com a edição de uma medida pouco antes
Sabia que ali se praticava a tortura. No Rio de Janeiro era intensa a de meu voto, introduziu-se no mundo jurídico a possibilidade
tortura. A pessoa recolhida ali, mesmo em grau de um evento psicó- de reconhecer as pessoas que se suicidam em função da tortura
tico em curso, ela sabia que seria amplamente torturada. A tortura como pessoas que morreram na tortura. Em função disso, por
consistia a submissão da pessoa àquela possibilidade de tratamen- unanimidade, concedemos o reconhecimento da morte de Solan-
to”, reflete Belisário com as mulheres sentadas na mesa concordan- ge por motivos políticos”.
do gestualmente com a sua linha de raciocínio “Nem era às vezes A voz de Belisário fica embargada de emoção e falha, sem a força
necessário que se tocasse na pessoa para que ela se sentisse como demonstrada antes. A luz do celular apaga, pois já não há o que ler
se sentiram as pessoas mais violentamente torturadas e estupradas. nele. “Aqui eu venho me reencontrar com esse voto. Foi um dos
Porque para aquela pessoa sentada ali, à disposição das forças da primeiros que eu produzi. E, enfim; me reencontrando com vocês
repressão política, aquela pessoa encarnava todas as demais pessoas eu me reencontro com essa pessoa que eu nunca conheci.” Puxa o
torturadas e recebia por algum mecanismo psicológico, toda a tor- ar e finaliza a fala. “Mas pela qual, pela imagem, eu tenho muito
tura que tinha sido praticada contra os presos políticos”. carinho. Muito obrigado.” O auditório o aplaude fazendo grande
O advogado de presos políticos na ditadura, sempre com a tela barulho no ambiente, carregado emocionalmente.
azul de seu celular ligada, com convicção afirma que os relatórios
policiais se referiam a Solange “como uma fria assassina”, mesmo Mas, quem, afinal é Solange?
quando ela havia se entregado espontaneamente. Nesse ponto sua
voz aumenta e ele levanta uma questão que vai ser amplamente As dúvidas que pairam em nossas cabeças são: qual a história
debatida naquela tarde: Solange realmente se entregou? de Solange para cometer o suicídio quase dez anos depois de ser
Belisário é tomado por uma emoção no final da leitura de seu solta e quem eram as mulheres na foto projetada nos dois telões
voto ao relembrar a frase de uma ex-presa política: “A tortura do auditório? A resposta da segunda pergunta vem rapidamente
é uma marca que não sai!”. “Todo individuo que tenha sofrido quando Amelinha pega o microfone sem fio. “Bom, essa primeira
qualquer tipo de tortura apresentará, pra sempre, danos psicoló- é a Solange. A segunda é a Lúcia Murat. E na sequência é: Wanda,
gicos. Ele vai conviver com o dano psicológico; pode ser bem ou Inês Ettiene, Zenaide. Abigail e a Jessie Jane.” A foto foi tirada no
mal, mas ele será afetado permanentemente por causa da tortura presídio de Bangu, no Rio de Janeiro, entre 1972 e 1973. Nin-
que pode derivar medo ou dor também, não é?”, explica com guém sabe a data exata. A foto, acha Jessie, foi feita pela mãe de
inquietação ao abrir os braços. Jessie Jane, emocionada, enxuga Lúcia Murat. “Ela sempre tinha a audácia de entrar na marra com
as lágrimas do rosto ouvindo Belisário. “Um médico que a acom- uma máquina fotográfica. Dona Nina fazia coisas inacreditáveis”,
panhava testemunhou o enorme esforço que ela fez para se re- recorda Jessie com um sorriso no rosto. Francisca Abigail Barreto

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Paranhos e Wanda Cozetti Marinho morreram em decorrência de a solidariedade e a alegria valessem mais do que o dinheiro.”
câncer. O irmão de Solange, sempre carinhoso nas palavras e com um
Adriano retoma a fala e passa a palavra para o irmão de Solange. tom de voz muito afetuoso, segue contando a história intrigante
Gilberto Lourenço Gomes tem a pele bronzeada e os cabelos bran- e, em certos momentos, contraditória, de sua irmã marcada pela
cos. Veste uma jaqueta de couro marrom e segura uma dezena de ditadura. “Ao ir para a clandestinidade, tinha 22 anos e tinha com-
folhas na mão direita para não se esquecer de nada sobre sua irmã. pletado o terceiro ano de psicologia na UFRJ. Quem a conhecia,
Respira fundo e suspira para dar início à fala. como eu, sabia que a luta armada era algo contrário à sua natureza.
“Solange era uma pessoa diferente, mas que não queria ser di- Mas naquela época isso seria considerado um argumento pequeno
ferente. Queria ser apenas uma pessoa como as outras. E se esfor- -burguês. Achava-se que a ideologia fazia as pessoas. Assim, Solan-
çou para isso. Impossível descrever Solange sem fazer referência à ge tentou fazer de si mesma uma guerrilheira urbana. E conseguiu!
poesia. Em criança, e no começo da adolescência, Solange escre- Junto com a ideologia havia o amor. Solange viveu no seu primeiro
via poesias. Depois parou, mas continuou a ler e se nutrir dela. ano de clandestinidade e ações revolucionárias, o grande amor de
Na prisão, Solange copiou uma poesia de Cecília Meireles.” A voz sua vida com Daniel Aarão Reis Filho. Sem dúvida foi uma vida
com sotaque carioca de Gilberto, com um largo sorriso no rosto de de muito estresse, sempre correndo da prisão; da tortura; da morte.
quem se lembra com carinho da irmã, cala-se por uma eternidade Mas compensada pelo amor e pela aventura de lutar por um ideal.
de nove segundos e retorna com mais força para declamar o poema. E de um dia para outro essa vida se acaba com a prisão de Daniel”.
Gilberto para de ler, puxa o ar para dentro de seus pulmões e
Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; retoma a fala com a voz muito mais potente do que antes. “Um
grande trauma da vida de Solange, anterior ao trauma da sua
- depois, abri o mar com as mãos, própria prisão, foi o da prisão de Daniel. Ela deixou de ter o
homem que amava. Não podia mais voltar para casa e também
para o meu sonho naufragar não podia buscar o apoio de sua família. Ele não podia mais
existir em sua vida. Não tinha morrido, mas Solange não po-
Chorarei quanto for preciso, dia vê-lo e nem se comunicar com ele. Não podia ter quaisquer
perspectivas sobre a relação dos dois.”
para fazer com que o mar cresça, Solange fazia parte da Dissidência da Guanabara, mais tarde
chamado de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8)
e o meu navio chegue ao fundo e, ao ficar sabendo da intenção de sua organização fazer o seques-
tro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969,
e o meu sonho desapareça. coloca-se contra a ideia, por achar que isso traria a CIA (Agên-
cia de Inteligência dos Estados Unidos) para assessorar a repressão
Novamente só se escuta a respiração profunda de Gilberto, visi- brasileira. Daniel, um dos membros da diretoria, possivelmente
velmente emocionado, com o olhar perdido nas folhas em sua mão. influenciado por ela, também fica contrário à missão, que ganha
“Um dos sonhos de Solange era de um mundo sem miséria em que na votação e é executada.

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As mãos de Rosalina Santa Cruz, que


tateiam em busca do irmão desaparecido.

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Daniel entrou para a militância, em 1965, também na organiza- tantes da Bahia com o Rio de Janeiro. Tem contato com Lamarca
ção Dissidência Guanabara, do Partido Comunista Brasileiro, com- e sua namorada, Iara Iavelberg na ida do ex-militar para o interior
posta principalmente por estudantes. Em 1969 foi suspenso da sua da Bahia. Longe de Daniel, relaciona-se com outras pessoas e na
faculdade - a Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do nova cidade conhece Denílson, que dentro da organização cuidava
Rio de Janeiro) - onde cursava Direito. Não completa os estudos no da imprensa e de trabalhos políticos em bairros populares. Viver
país. naquela época na clandestinidade é complicado até para os relacio-
O namorado de Solange é liberado para o exílio em junho de namentos amorosos, como nos confidencia Denílson ao auditório.
1970 em consequência do terceiro sequestro de diplomatas, o do “Até os encontros para namorar eram clandestinos. Tínhamos que
embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holle- nos esconder dos militares e de nossos companheiros.”
ben. Do exílio, em Angola, Daniel manda uma carta na qual abre Naquela época, Solange se sente perseguida, chegando a pedir
a possibilidade de os dois se juntarem. A resposta foi negativa, pois conselhos para Valmira, dona da pensão onde morava. Denílson
a luta estava aqui. Tempos depois, Solange descobre que houve uma afirma que a então namorada tem, no Rio de Janeiro, um ponto
segunda carta interceptada no caminho pelo seu novo companheiro. com a organização para cobrir poucos dias antes do seu surto psi-
Daniel termina sua graduação, agora em História, exilado em Pa- cótico e de se entregar à polícia, decorrente do episódio do estádio
ris. Retorna ao Brasil em 1979 com a Lei de Anistia e é um dos fun- de futebol Octávio Mangabeira, conhecido como Fonte Nova, em
dadores do Partido dos Trabalhadores, no início da década de 1980. quatro de março de 1971.
Mesmo com os sucessivos pedidos de Rosalina, uma das or- Solange está do lado de fora do campo esportivo fazendo panfleta-
ganizadoras do evento, Daniel não comparece à audiência para gem, numa ação que não é comunicada a ninguém da organização.
prestar depoimento sobre Solange. Ela nos conta isso no hall do Na ocasião, o estádio passa por reformas para sua ampliação. No
prédio onde mora, em São Paulo. Segundo ela, possivelmente meio do segundo tempo do jogo entre Vitória e Grêmio, um dos re-
Daniel se sente desconfortável por muitas pessoas terem sido pre- fletores estoura e a multidão dentro da Fonte Nova entra em pânico,
sas por causa de sua ex-namorada, sendo ela, como disse Gilber- pensando que o lugar vai cair. Pessoas são pisoteadas na confusão,
to, mal vista pela esquerda brasileira. enquanto outras se jogam de uma altura equivalente a um prédio
Outro trauma, desta vez dentro da família, conta-nos Gilberto, de quatro andares numa “cachoeira humana”, como registram os
já a havia afetado de maneira brutal: o suicídio da irmã mais velha, jornais da época. Parte do público quebra o alambrado para entrar
Eliana Lourenço Gomes, em 1967, após quatro anos de doença no gramado, misturando-se aos jogadores. Não se sabe ao certo o
mental. “A forma deste suicídio foi a mesma pela qual Solange, 15 número, mas a estimativa é de 2.086 feridos e dois mortos.
anos mais tarde, se matou. Após sofrer 11 anos da mesma doença.” A ação que Solange fazia é “estranha” para Denílson. Ele para de fa-
Contudo, Solange segue em frente movida pelo seu ideal, que a lar tomado pela emoção e pela dificuldade em tratar do assunto, sem-
leva para Salvador, onde substitui parcialmente Lúcia Murat. Co- pre levantando suspeitas sobre o caso da Fonte Nova, marcante para
nhecidas desde o movimento estudantil no Rio de Janeiro, são da ela, como avalia Gilberto. “Houve uma apropriação por parte dela,
mesma organização. Neste mesmo período, Ana Bursztyn-miranda, delirante, que aquilo era por sua culpa. E por isso ela sofreu muito”.
estudante de Farmácia na Universidade do Brasil, conhece Solange. No mesmo dia, de acordo com um documento em posse de
Em Salvador, a função de Solange é ser a ponte entre os mili- Gilberto - um cartão de visitas de familiares - Solange se entrega à

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polícia na Delegacia de Jogos e Costumes de Salvador, no momen- sem o direito de defesa. Em circunstâncias que caracterizam uma
to de um surto psicótico. “Só após três meses, nós de sua família tortura psicológica, além do estado mental dela que, talvez, fosse
fomos informados pelo Exército de sua prisão. Ao chegarmos a a maior das torturas”, enfatiza Gilberto em meio a um auditório
Salvador, ela tinha começado a ser atendida por um psiquiatra do todo voltado às suas palavras sobre a irmã. Ele levanta uma teoria
Exército e estava medicada”, relata Gilberto, ainda atestando que o sobre a reação dos militares quando ela se apresenta à polícia.
estado mental da irmã era péssimo. “Como se entregou em uma delegacia comum e estava visivel-
Neste período, sem contato com a família, Solange é usada pela mente perturbada, devem ter custado a dar crédito à sua história.
repressão para prender Denílson e outros companheiros. No dia Solange chegou a fugir da delegacia onde se entregou e pensou em
12 de março de 1971, uma quarta-feira de cinzas, Denílson tem se matar no mar, mas acabou recapturada.” Foi então encaminha-
um ponto com Solange no bairro da Fonte Nova. Quando estava da ao órgão de repressão do Exército. Ela narrou toda a sua traje-
indo em direção à companheira, percebe não haver nenhuma rea- tória no movimento, incluindo os vários assaltos à mão armada de
ção emocional. Vira-se para fugir, mas não consegue. É sequestra- que participou. A repressão pôde então unificar as suas diversas
do e espancado na rua mesmo. Até o dia 29 de março, vaga pelos identidades, das quais eles sabiam de depoimentos extraídos de
quartéis, torturado, para depois ser efetivamente considerado um outros companheiros. Ironicamente, se Solange tivesse apenas ido
preso político, ficando até 1974 nesta condição. para a casa de sua família, não teria sido presa.
Denílson retoma a palavra, com muito esforço, pois tem dificul- No dia 28 de julho de 1971, é publicada na grande imprensa,
dades de se comunicar em público, por causa das torturas sofridas. como o Jornal do Brasil, uma matéria cuja manchete em muitos ve-
“Alguns dias depois de ser preso, eu e o Renato da Silveira fomos ículos de comunicação é “Sexo é arma para atrair jovens à subver-
levados para um simulacro de enforcamento no quartel da polícia são”. Fortemente prejudicial ao movimento, atinge em cheio ainda
do Exército na última vez em que eu vi Solange viva. Eles a leva- mais Solange. A reportagem é preparada pelos militares com mui-
ram com uma roupa estranha, um vestido grande que cobria boa tos dos mitos que ela busca dar aos movimentos de oposição. “Ela
parte do corpo. Não sei se foi para cobrir marcas. Foi aí que eu narrou aos investigadores uma história delirante de que nosso pai
percebi que ela estava louca, porque simularam o enforcamento [Alcides Lourenço Gomes], que nunca teve qualquer atuação po-
e ela não esboçou a menor reação. Pra uma pessoa que, além dos lítica, sendo apenas simpatizante da esquerda, era o chefe de uma
laços políticos, tinha laços afetivos muito fortes, né? Então ela foi organização subversiva. Eles sabiam que isso era delírio e nunca o
usada como instrumento de tortura. Não sei se funcionou com ela, incomodaram. Entretanto, depois divulgaram esse relato nos jor-
mas comigo com certeza surtiu efeito”. nais sem fazer referências à sua doença mental, comprometendo
Segundo Gilberto, o psiquiatra indicou uma série de aplicações mais ainda a sua imagem pública.”
de elétrons, num tratamento conhecido como convulsoterapia, “No depoimento, ela tratava os amigos como se todos tivessem
acarretando a melhora no quadro clínico de Solange. Com isso, relações sexuais a todo tempo. A repressão foi de uma covardia ao
ela é transferida para o Hospital Psiquiátrico Santa Mônica, onde usar uma pessoa naquele estado psicológico sem o menor critério.
as visitas são mais frequentes. A sensação que eu tenho é a de que usaram Solange até um deter-
“Solange, ao que eu saiba, não sofreu as torturas físicas como minado limite e depois jogaram fora”, disse Lúcia Murat no seu
outros. Mas ela ficou três meses sem o contato com a família e depoimento em vídeo.

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Rosalina segue a mesma linha de raciocínio quanto ao episódio. queria estar no meio deles. Brincando com eles. Eu sou
“Solange se entregou enlouquecida e foi usada da forma mais cruel uma mistura esquisita de cultura e simplicidade. É tão
que um ser humano pode ser usado”. Zenaide, por sua vez, propõe difícil, será tão difícil encontrar o meu caminho.
que a Comissão da Verdade de São Paulo se dirija aos jornais, pe-
dindo a retratação por veicularem aquela “aberração infame”. Em dezembro de 1971, escreve nova carta a Osório na qual lhe
Dada sua perturbação mental, chegando ao ponto de começar a informa uma melhora no seu quadro, mas ainda segue com inse-
imaginar irrealidades, os militares não têm dificuldades em extrair gurança quanto aos seus familiares. Ainda está desconfiada de que
dela todas as informações desejadas, causando sucessivas quedas eles foram trocados por sósias. Transferida para o Rio de Janeiro,
dentro do MR-8, como a de Lucia Murat. Solange fica presa inicialmente na Base Aérea do Galeão, depois na
No Hospital Psiquiátrico de Salvador, Solange conhece Osório, Vila Militar, onde estavam presas Rosalina, Zenaide e Lúcia Murat.
que havia tentado o suicídio, e se apaixonam. Fazem planos de se Hoje, Lúcia é cineasta e autora do filme Que bom te ver viva, que
casar. Do Rio de Janeiro, escreve uma carta para ele: conta sucessivas histórias de mulheres vítimas da ditadura. É presa
em março de 1971 e fica no cárcere até junho de 1974. Lucia Murat é
Querido Osório, eu mentia quando dizia que tinha torturada e, em meio às séries animalescas praticadas pela repressão,
me esquecido de Daniel. O que havia era bloqueio. Pois percebe que havia caído por causa de Solange, gerando uma grande
quanto mais tempo passa, mais parece ele presente. Quan- mágoa da carioca. Lúcia não comparece à audiência, mas dá seu de-
do toca uma música de amor, é nele que eu penso. Hoje poimento em vídeo exibido para todos os presentes no auditório.
aconteceu isso. Tocou uma música muito bonita e eu pen- As duas se reencontram no coletivo quando, relata a cineasta,
sei nele e comecei a chorar. Chorar por Daniel e aquele Solange chega muito dopada e abatida. A relação entre as duas
amor muito querido o qual não consigo deixar de amar. é extremamente difícil: primeiro a denúncia que leva à queda de
Parece que estou chorando diante de um muro, que é um Murat; segundo pelo delírio de que os companheiros de organi-
destino irremediável. Sei que tenho que reencontrá-lo de zação de Solange não eram mais eles mesmos. Não só os familia-
novo, mesmo que em outra vida. Outro planeta. Ele é tão res, mas também os colegas de organização estão todos presos e
meu que sinto como se fôssemos almas irmãs. E mesmo mortos: o que ela vê são sósias a serviço da repressão, em quem as
sabendo que não posso tê-lo de novo, não posso deixar de memórias dos entes queridos foram transplantadas.
amá-lo. Tento te colocar no lugar dele, mas sei que não “Era muito complicado. Eu tentei defender a Solange de mim
consigo fazer isso. Seria uma injustiça com você. Estou mesma. Só que a grande dificuldade é que para justificar aquilo
chorando, sabe? Estou deprimida. Desarticulada. Não me tudo, ela criou uma história na qual éramos pessoas da repressão
sinto ligada a esse mundo. Eu queria sentir mais o povo, que tínhamos passado por uma operação plástica e recebido a nossa
o que nós sempre, eu e Daniel, procuramos tanto, mesmo memória original. Então eu não era eu. Era uma pessoa da repres-
com toda a nossa ingenuidade. Aquilo tudo acabou e eu são. A partir daí ficou impossível a relação. Por mais que a gente
me sinto aniquilada. Desligada a não ser pelo sofrimento. tentasse”. Todos os presentes no auditório assistem ao vídeo calados.
A alegria que eu quero é a alegria dos pobres. [Silêncio e Na mesa só ficam Gilberto, Adriano e Denílson. Ana, Rosalina,
uma respiração trêmula de Gilberto lendo a carta]. Eu Zenaide e Jessie Jane, além de Amelinha, estão sentadas na plateia.

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“Em uma dessas mudanças de quartéis, nós nos despedimos e ela porque ele não podia entrar na cela da gente. Aí Solange disse: ‘o
olhou pra mim, com os olhos cheios de lágrimas: ‘você não acredita que a gente faz?’ E eu respondi: ‘Nada, né Solange?! A gente não
no que eu estou falando, não é?’ Foi terrível isso, porque no mo- deixa mais eles entrarem aqui, porque vai ser preso esse quartel
mento em que ela me perguntou isso era claramente uma situação inteiro e depois pode haver uma repressão com relação à gente’”.
impossível de ser resolvida. Ela estava dolorida por eu não acreditar Rosalina conta essa história aos risos, trazendo um clima mais
naquela história que ela estava contando de que eu não era eu”. alegre para aquela audiência cheia de incertezas e indagações.
Conhece Rosalina e Zenaide neste “liquidificador de quartéis”, Lembra-se de outra história com Solange quando três militares
como se refere às constantes mudanças. Zenaide é bastante pragmá- caem das árvores onde estavam pendurados para vê-las. Os curio-
tica, isso notamos na voz que lê o depoimento previamente escrito. sos também vão presos. “Esse quartel teve muitos problemas por
“Chegou ao nosso coletivo no Campo de Instrução de Gericinó, quar- causa da nossa presença ali”, diz.
tel do Exército na Vila Militar em estado de desestabilização emocio- Contudo, Solange seguia com o delírio sobre os sósias com o “cal-
nal e psicológica. Somos testemunhas do enorme esforço de Solange dinho da memória”, como se referia à substituição das memórias,
para se integrar à convivência conosco, às regras e à vida na prisão. para companheiras de prisão e à sua família, especialmente ao pai.
Procurou manter vivos os seus vínculos e interesses: estudava, lia mui- Rosalina Santa Cruz conta então que uma vez Solange vai receber a
to e nos ensinava matemática e inglês. Gostava de poesia, de rir e de visita de seu pai na prisão. A visita dura pouquíssimo. Quando retor-
cantar”. Zenaide aproveita a oportunidade para delatar a ocorrência na, Rosalina, intrigada com o retorno precoce da amiga, pergunta:
de sequestros dentro das instituições carcerárias para interrogatórios.
Em uma dessas mudanças de quartéis, fica pela segunda vez pre- - Solange, o que aconteceu? Por que você voltou tão rápido?
sa com Rosalina. Anteriormente, as duas não têm muito contato,
pois são seis pessoas juntas distribuídas em beliches dentro da cela - Não é meu pai!
pequena. Agora, entretanto, a relação se estreitara, porque ficam
presas somente três mulheres: Solange, Rosalina e Márcia. - Como assim não é seu pai? Para com isso!
“Pensei: ‘é agora!’ Eu não conheço a Solange e eu sei que existe
uma suspeita sobre o seu comportamento. Mas foi uma convivên- - Não é! Ele está com um olho verde e o outro azul.
cia muito leve. A Solange era uma pessoa linda, cheia de vida. Gos-
tava de cantar e de jogar xadrez ”, lembra uma saudosa Rosalina. - Ah Solange. Um olho verde e outro azul. Para com isso.
Desse jogo, nasce uma história curiosa de Solange no quartel.
As presas ficam fechadas e pouco são vistas. Saem para o banho de Para o espanto de Rosalina, que ironiza muito o tal “caldinho da
sol às quartas-feiras e aos sábados, quando os soldados já não estão memória”, Solange responde: “É, você não recebeu caldinho não!
lá. A comida é entregue por tenentes na cela delas. Você é você mesma”. Rosalina, mais uma vez, cai na gargalhada,
“Quando eu vejo, Solange está conversando com o tenente, que gostosa e arrastada, marca da pernambucana. O auditório faz o
entra na nossa cela e começa a jogar xadrez com a Solange, en- mesmo, o que dá um clima mais ameno, mesmo naquele ambien-
quanto eu e a Márcia torcíamos para ela: ‘vamos Solange, ganha!’ te pesado pela busca das verdades. Gilberto, pouco antes, contara
No fim ele foi embora e veio a notícia: o tenente havia sido preso, que os olhos de seu pai não tinham uma cor definida, mas com

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um tom acinzentado. Isso confunde a irmã naquele momento tão - Ai, por que você fica chorando, que a gente se contamina, né?
complicado de sua saúde mental. Agora lá vou eu chorar também. Não quero!
Em seis de julho de 1972, Solange é julgada pela Justiça Militar,
na 2ª Auditoria do Exército, no Rio de Janeiro. Na ocasião, fica - Só sobrevivi porque sempre chorei muito.
determinada sua internação em manicômio judiciário pelo prazo
mínimo de dois anos. Seu advogado consegue, entretanto, que ela Semanas depois, em sua casa, em meio aos quadros pintados
continue na prisão, a melhor opção para os familiares. por ela mesma e às bonecas artesanais que desenvolve, Rosalina
Solange, assim como outras presas, é transferida para Bangu reflete sobre esse momento. “Talvez se a Solange tivesse falado e
com o decorrer do tempo. Lá seu caminho iria cruzar com o de chorado mais, ela tivesse sobrevivido, né? Porque na cadeia ela
Jessie Jane, já presa política daquela prisão. “Chegaram com Solan- tinha uma relação muito cordial com a gente, mas não encarava
ge, Zenaide, Lúcia Murat e Inês Etienne Romeu. Não me lembro discutir profundamente o que ela passou. Um absurdo o que ela
se chegaram juntas, mas me marcou a preocupação com Solange passou! Eu não tinha a compreensão quando eu lia aquilo naque-
e Inês. Preocupação manifestada principalmente por aquelas com- la época. Eu acho que você vai falando e as coisas vão se desmis-
panheiras que haviam convivido com ambas na Vila Militar. Pre- tificando. O mote é: qual o limite entre a loucura e a sanidade na
ocupação e cuidado oriundos de situações diferentes. Solange pela questão da tortura? E eu acho que não tem limite, porque você
doença e Inês pela gravidade do que ela havia sofrido”, conta Jessie. atravessa pra lá e pra cá o tempo inteiro. E tem gente que não
Ana, antes sentada na última cadeira oposta a Jessie no auditório, deixa fazer isso. Não chora, não fala. Enlouquece por dentro.”
escuta com atenção e agora ocupa a primeira fileira da plateia. Completados os dois anos da medida de segurança, Solange é sub-
No presídio, Solange desenvolve grande amizade com Inês, po- metida à perícia psiquiátrica, na qual se atesta que não apresenta peri-
rém não participa das atividades políticas do coletivo. “Não havia culosidade. É, então, libertada em 1973. Durante o período de prisão,
qualquer cobrança da nossa parte para isso e ela não demonstrava ela recebe tratamento psiquiátrico particular pago pelo pai. Após al-
interesse também naquelas intermináveis discussões políticas, que gum tempo de ser posta em liberdade, tem uma internação psiquiátri-
naquele momento julgávamos ser absolutamente necessárias”. Jes- ca na clínica Vila Pinheiros, de onde sai de tratamento psicanalítico,
sie Jane segue o seu depoimento segurando o choro devido à emo- prolongado até o seu suicídio, além do acompanhamento psiquiátrico.
ção de falar da amiga. “Tínhamos um grande carinho por Solan-
ge. Ela era nossa companheira e como todas nós havia se despojado Não quis retomar a faculdade de Psicologia e, em 1975,
por inteiro ao assumir a luta contra a ditadura e sofrer as dores dos fez curso vestibular para prestar Medicina, onde foi alu-
porões e é com esse sentimento que me recordo de Solange. De uma na do seu pai, professor de Biologia. Conheceu, namorou
linda jovem com quem convivi e que nunca entendi o seu mundo, e casou-se com Celso Pohlmann Livi. Desenvolveu novas
sua dimensão da vida. Mas com certeza, uma boa memória”. amizades e se manteve próxima à família. Formou-se mé-
Enquanto Amelinha se encaminha para entregar o microfone dica em 1981. Teve surtos psicóticos durantes estes anos
para Rosalina, Jessie cai no choro. Do outro lado da mesa, as duas que foram controlados com medicação. Poucos anos de seu
começam um diálogo no meio da audiência, chamando a atenção suicídio estava bem e havia feito uma tentativa de parar
para o perfil de Jessie. os remédios com o objetivo de engravidar. Mas Solange

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168 Cartas e desenhos de Rosalina, que com boa


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vontade nos abriu sua pasta de recordações.
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170 No fundo, as bonecas


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que Rosa dedica a vida a produzir.
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entrou novamente em surto, num momento em que eu tenho um irmão desaparecido e você uma irmã que perdeu.”
estava em viagem de férias. Foi ao seu psiquiatra, mas não
aceitou a dose recomendada, pedindo uma dose menor, Sonho e utopia
que não conseguiu conter o surto que em uma semana a
levou ao suicídio. [Gilberto fala pausadamente sobre a Rosalina Santa Cruz, como vimos no primeiro capítulo, depois de
irmã]. um longo período na Ação Popular, vai para a VAR-Palmares, com-
bater a ditadura com ações armadas.
No dia 1º de agosto de 1982, Solange atira-se da janela de seu Lincoln de Santa Cruz Oliveira, seu pai, é sanitarista e tem a ca-
apartamento, no terceiro andar da rua Barão da Torre, no Rio de beça aberta. “Sempre criou a gente nesse princípio, do médico dos
Janeiro. Falece no hospital Miguel Couto. Antes dessa tragédia, pobres, de que dinheiro não vale nada, o que vale é a cultura. Isso
encontra-se com as amigas Lúcia Murat e Ana Miranda. Ana refle- não significa que ele apoiasse essa coisa, mas quando aconteceu
te sobre o caso de Solange não ser o único: muitos presos políticos com meu irmão, Marcelo, que foi expulso da faculdade de Direito,
não suportam a tortura e acabam cometendo suicídio. onde estudou meu avô. Ele tava no quarto ano de Direito e foi
“Eu reencontrei Solange, se eu não me engano em 76, quando expulso pelo decreto 477.” Rosalina se refere ao decreto-lei nº 477,
eu retornei à faculdade e ela havia ingressado na Medicina. Por um de 26 de fevereiro de 1969, baixado pelo ditador Artur da Costa e
acaso a encontrei em um seminário sobre saúde na faculdade. Me Silva. É conhecido como o AI-5 das universidades, pois executava
sentei do lado dela e foi muito bom a gente ter se reencontrado. Ela punições sumárias a alunos, professores e funcionários considera-
vinha sendo tratada, voltando a estudar. Foi muito bom revê-la!”. dos subversivos. Docentes ficam impedidos de lecionar por cinco
Com Lúcia Murat, Solange encontra pouco antes de se suicidar. anos; discentes, de estudar por três anos. Vai para Genebra, onde
“Eu vivia um momento muito legal, porque eu tinha acabado de fica pelos três anos em “exílio acadêmico”. Terminado o período,
ter a minha filha e ela ficou muito feliz de ver a minha filha. E me retorna ao Brasil, conclui o curso no Rio de Janeiro e vira vereador
disse que queria ter um filho, o que infelizmente não foi possível”. em Olinda. Pouco depois, o irmão Fernando é preso e encami-
Rosalina pede a palavra, fechando aquela tarde de depoimentos nhado ao juizado de menores em uma passeata estudantil. E, para
sobre o caso da esfinge Solange, como a chamara Jessie Jane du- completar a trinca, Rosalina é detida no Rio de Janeiro. “Meu pai
rante seu depoimento. “A gente ainda tá, em todas as comissões da todo orgulhoso: ‘minha filha, no BNH [Banco Nacional de Ha-
verdade do Brasil, na fase de memória. Hoje fica claro aqui, temos bitação]’. Aí fui presa.” E por último, Fernando desaparece. “Mi-
que passar pra fase da verdade e da justiça. E a verdade a gente só nha família é muito marcada por essa história”, lamenta Rosalina.
vai saber se conseguirmos trazer os torturadores, os responsáveis “Atingiu toda a família”. Dos dez filhos, apenas os três são presos.
por esses centros para serem ouvidos e perguntados. Enquanto esti- Sua mãe, dona Elzita de Santa Cruz Oliveira, dona de casa, é ar-
vermos ainda nessa primeira fase, a gente não vai chegar a esclarecer retada. Hoje com 99 anos esbanja saúde. Tanta saúde que inspira
questões como as que ficaram aqui hoje, importantes para a memó- até comentários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Explico.
ria e justiça, como na história da companheira Solange.” Rosalina Na cerimônia em homenagem à luta de dona Elzita em busca do
olha para Gilberto ao seu lado e segura em sua mão para seguir sua filho desaparecido, o então homem do Planalto abraça a senhora e
reflexão. “Eu sei como deve ser a sua dor. Porque é a minha. Eu cochicha algo em seu ouvido. No fim, todos querem saber:

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- Mamãe, o que o Lula disse pra senhora? era Dr. Rui), numa ação espetacular: em 28 minutos, inicialmente
passando-se por policiais, os guerrilheiros levam embora o cofre de
Séria, a mãe despeja a bomba. 350 quilos recheado com 2,5 milhões de dólares – uma quantia cor-
rigida, hoje, de mais de 20 milhões de dólares. Até Dilma Rousseff
- Ele me desejou a morte. participa. Segundo o livro O Cofre do Dr. Rui, a presidente teria se
passado por estrangeira para trocar dólares em uma casa de câmbio.
A família fica estarrecida. Entretanto, a última ação de Rosalina não teve nada de espeta-
cular. “Era uma ação de subsistência”, lembra. As pessoas caindo,
- Como assim, mamãe? Ele desejou a morte da senhora? ficando marcadas e pulando de pensão em pensão, vaga em vaga.
O clima é de total desespero mesmo. São informados de que num
- Sim. Ele me disse ‘Dona Elzita, desejo que a senhora viva cem anos!” certo cofre há joias e dólares. Ambos os itens são complicados, já
que a possibilidade de vender os artefatos é quase nula e, com re-
“A gente teve uma vantagem enorme. Até quase o final da nossa lação aos dólares, é preciso saber se eles não são de algum banco,
militância e a gente ser preso, nós éramos legais. Eu e Geraldo, que era se tem numeração, etc.. “Os do Adhemar eram frios, ele roubou,
meu companheiro”, conta Rosa. O marido, Geraldo Leite, conhecido então não tinha número.”
com o codinome Marcelo, conhecera quando chegou às terras cariocas. Em 1971, depois do almoço, um companheiro de Rosa vindo da
“Geraldo era engenheiro; eu era assistente social. E tínhamos carros le- Ala Vermelha vai até o apartamento portando um falso mandado
gais, então isso era algo que nos colocava, assim, como superimportan- de busca e apreensão, assim como na “desapropriação” do cofre
tes na organização”, ri. “Porque ninguém era militante legal. Legal era de Adhemar de Barros, e até uma carteira policial, feita no apar-
só simpatizante. Agora, chegar à militância e não ter sido descoberto tamento de Rosa. James Allen Luz sobe, chega ao apartamento e
pela repressão era caso raríssimo. A repressão sabia da gente. ‘Prende- interpela o dono:
mos o casal’. Todo mundo sabia do casal, mas não sabia quem era.”
Desespero. Esse é o sentimento que Rosalina usa para classificar - Sou da Polícia Federal.
a última ação na qual se envolve. “Um parente, um amigo disse:
‘olha, tem um apartamento em Irajá com um senhor que tem um - Mas aqui não tenho nada – diz o senhor com arma de preocu-
cofre cheio de dinheiro em casa”, conta. E brinca dizendo que não pação.
era o “cofre do Adhemar”.
Rosa refere-se à ação que leva ao roubo de um cofre que per- Então, o sujeito fala do cofre e o senhor, finalmente, permite que ele
tenceu ao piracicabano Adhemar de Barros. Interventor e, mais entre no apartamento. Caminham pela residência e o “velhinho” leva
tarde, eleito governador de São Paulo, Adhemar é acusado de des- o falso policial ao local onde estão seus valores. Assim que a porta se
viar milhões de dólares. Tal dinheiro ia se acumulando em cofres abre, o guerrilheiro começa a transferir os bens para um saco de lixo.
espalhados pelo Brasil. Um deles, localizado pela VPR de Lamar- Chorando, desesperado, o velho exclama pelas suas economias
ca, conseguiu ser retirado da mansão da amante de Barros, Ana de uma vida toda. Juntando as pessoas que estão na casa, o mili-
Capriglione (cujo pseudônimo designado pelo próprio governador tante da VAR-Palmares explica:

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- Mas isso aqui é pra revolução. Isso aqui é pras pessoas que tão lu- tavelmente dizem à repressão que existe um casal na legalidade.
tando para que o seu país seja melhor. E a gente vai desapropriar essas Porém, os agentes do Estado não conseguem avançar mais do que
joias. O senhor não usa... tá aqui no seu cofre. Esse dinheiro... isso. “Um companheiro nosso faltou a vários encontros. Ele era um
cara da direção nacional, o Breno”, relembra. Rosalina, Geraldo e
- Esse dinheiro é MEU dinheiro! o companheiro de militância Miguel precisam recuperar as anota-
ções estratégicas deixadas para o Breno na pensão onde ele mora
- Sim, é do senhor, mas agora vai ser da revolução. Quando a revolução até o momento do sumiço. Na impossibilidade de entrar desarma-
tiver sido vitoriosa eu lhe garanto com a gente vai lhe devolver esse dinheiro. do, Miguel combina com o casal Marcelo e Maria, codinomes de
Geraldo e Rosalina: vão buscar um revólver 38 em casa. Quando
O homem ainda tenta implorar mais uma vez. Mas é inútil. voltam se desenrola a cena que nos conta Cristina Chacel, em Seu
“Quando foram descendo a escada, tinha um cara escondido amigo esteve aqui: A história do desaparecido político Carlos Alberto
no quarto dele. Um empregado do velho, que tava dormindo. Aí Soares de Freitas.
ele saiu gritando atrás do menino. James atira nas nádegas do
empregado, de raspão. O pessoal que tava na rua abriu as armas! Maria vai fazer hora no bar Jangadeiros, ali perto,
E podia ter morrido todo mundo por essa coisa idiota. Podia ter enquanto Marcelo e Miguel seguem de carro para a rua
morrido todo mundo.” O engraçado, conta Rosa, é que o James Farme de Amoedo, que àquela hora, nove e meia da noite,
Allen Luz está usando um terno marrom, bem cortado: o mesmo ainda tinha muito movimento. Miguel sai do carro. Mar-
com o qual Geraldo se casara meses antes. “Tivemos que quei- celo, do outro lado da rua, faz campana. Tudo acontece
mar o terno depois”, lamenta Rosa aos risos. rápido. Miguel chega à pensão, encontra a porta do peque-
Eles saem, apesar da confusão. “Essa mala cheia de coisa foi no prédio sem tranca, entra no hall. O silêncio é absoluto.
pra minha casa. Chegando em casa, [fomos ver que] todas as joias Em um átimo de segundo, ele percebe uma janela aberta
eram antigas, sabe? Pedaço de joia, coisas que você não conseguia e pensa: ali pode ser uma rota de fuga. Delicadamente,
vender, porque tinha marca, tinha nome. Então a gente teve que encosta o ouvido na porta do quarto de Breno, na inten-
ficar batendo, separando ouro, separando pedrinha, pra ir vender ção de ouvir algum ruído. Nesse instante a porta se abre.
por ‘nada’ nesses ‘vendo ouro’. E correndo o risco de morrer. Se Miguel é preso e levado para o DOI-CODI.
fosse pego, morria.”
“Então quer dizer, a esquerda chegou num ponto que era sobre- Miguel é, na realidade, Sergio Emanuel Dias Campos; Breno,
vivência, pra manter a militância, quando terminou a luta armada.” Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto. Maria e Marcelo escapam
Uma experiência de sonho e de utopia. por pouco. “Pegamos o carro e saímos. A gente não soube de nada.
O que o cara da repressão disse é que perceberam o carro; viram
A queda que era um casal, que devia ser o ‘casal legal’. E que ele chegou a
atirar, mas a metralhadora falhou.” Rosalina ri da sorte e do que o
Às vésperas da prisão, percebem que o cerco está se fechando, agente da ditadura diz quando ela é presa:
já que muitos companheiros têm sido presos. E, todos eles, inevi-

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- Vocês não morreram por pouco. Gérson está viajando quando é preso. Levado para Deodoro, na
Vila Militar, no Rio de Janeiro, é mantido incomunicável. “E pau
Depois do episódio, seguem na militância no Rio de Janeiro. Eis no padre, né? O padre ainda segurou por uns dias, tentando avisar
que após um ano sem vê-los, os camponeses, que deixa na Bahia e são a gente. E não conseguiu, então eles vieram na gente.”
levados para a “área” no Maranhão, são presos pelo Exército em um
foco de guerrilha, na região do Araguaia. Apesar de ignorar a locali- - A Rosa é Rosalina Santa Cruz e trabalha no BNH.
zação dos trabalhadores rurais guerrilheiros, “os camponeses sabiam
de mim”, conta Rosalina. “Porque eles me conheciam, mas conhe- “Os caras foram no BNH e foram na seção de pessoal. Pega-
ciam pouco. Sabiam que eu era amiga do padre.” E isso é suficiente ram meu nome, minha foto. Ficaram na porta e me esperaram
para extrair mais informações, por menos detalhadas que sejam: “se sair. Ficaram atrás de mim três dias.” Só não pegam dirigentes do
você sabe de alguma coisa, eles vão te matar até arrancar de você”. partido e figuras mais graúdas, segundo Rosalina, por burrice.
Os camponeses são identificados como forasteiros e os agentes “Eles achavam que a gente entrava no trabalho às 8h e saía só ao
tentam identificá-los a todo custo. “‘Quem são vocês que tão aqui?’ meio-dia e às cinco. A maioria dos pontos que a gente cobria era
Pau de arara, tortura. E tinha camponês velho, camponês novo. durante o expediente”, ri.
‘Qual o nome de vocês? O nome de vocês eu sei que vocês sabem. Ao terceiro dia, à noite, cercam o apartamento do casal, no ano
Não tem pra onde fugir. Se você disser que é Julio, Pedro. Vou de 1971. “Eles entraram pela área de serviço e pegaram a gente
provar... até você me dizer seu nome e depois de onde você veio’”. no quarto. A gente dormindo. Quando acordei tinha mais de dez
Por fim, os homens do campo cedem e finalmente revelam suas caras dentro do apartamento, arrancando tudo e já batendo na
origens: Cachoeiras de Macacu. gente dentro do apartamento, atrás de armas. Daí depois a gente
soube como tinha sido preso. Porque até o momento a gente não
- E quem foi que tirou vocês de lá e botou essas ideias na cabeça de vocês? sabia. Pros próprios interrogatórios a gente nem sabia, porque nem
lembrava mais dos camponeses”.
Não sabem onde fica o apartamento de Rosalina, entretanto há Com 24 anos de idade, é levada para o DOPS Guanabara. “E no
um elemento que liga a militante ao trabalho feito com os campo- começo, no primeiro dia do DOPS, eles não sabiam direito quem a
neses: o padre Gérson da Conceição. “Quem começou essas ideias gente era. Isso foi bom pra gente, só descobriram isso [a história dos
foi o padre”, dizem. camponeses] depois. Rapidamente as pessoas souberam [que] nós
estávamos presos, porque a gente deixou de cobrir os pontos.” Um
- E ele fazia isso sozinho? vizinho que vê a prisão e avisa à família de Rosa. A parte cômica é
o momento de registrar as armas encontradas na residência do casal
- Tem uma moça lá chamada Rosa, e ela é amiga do padre. E legal: dentre outros artefatos, a periculosidade de um livro de Mao
tinha um namorado que vinha com ela que é engenheiro, com um Tse Tung e uma máquina de escrever. Simbólicas armas intelectuais.
negócio de terra lá, porque ele que explicava pra gente. Os dois “Onde vocês moram?’ Você vai dizer ‘não, não sei’. Ganhava tem-
são amigos do padre. po. Ganhava uma hora, duas horas, três horas. Porque é isso que eu
fazia, por exemplo. Primeiro você dizia ‘não abro nada’. Depois que

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Quase como um espelho


que dá para o passado.

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a gente viu que não dava pra não abrir nada. Você era preso, dizia como se fôssemos troféus, verdadeiros animais de caça”, explica em
‘num abro’. Quando fui presa foi a primeira coisa que falaram: depoimento emocionado – e emocionante – que deu à Comissão da
Verdade do Rio de Janeiro.
- Seu nome. Caso exemplar dessa disputa é o que acontece entre o DOPS, do de-
legado Sérgio Paranhos Fleury, e o DOI-CODI, do Exército. O acirra-
- Não digo. mento dos ânimos estoura a tal ponto de um destacamento dos milita-
res invadirem instalações da Polícia Civil para resgatar um prisioneiro.
- Ah, não diz? Tudo começa, segundo o jornalista Antonio Carlos Fon, em seu
livro Tortura – A história da repressão política no Brasil – publicado
Três tapas na cara. ainda durante o regime – que a Oban (embrião do DOI-CODI de
São Paulo) está infeliz com a manobra de captura e morte de Car-
- Não diz ainda? Fica nua. los Marighella conduzida por Fleury e pelo Centro de Informações
da Marinha. O desfecho é um “sucesso”, entretanto, a Oban é a úl-
- Eu não vou ficar nua. tima a saber dos planos, o que enfurece os responsáveis pelo órgão.
Não muito depois disso, os serviços repressores estão atrás de
- Não vai não? Então tá bom. “Mario Japa”, em contato com Carlos Lamarca. O que vem a
seguir é estarrecedor.
“Daí me rasgaram a roupa inteira.”
Depois da morte de Marighella, Lamarca havia se
- Tá bom, agora? E onde você mora? Ah, não sabe? Vai saber agora. transformado, com o jornalista Joaquim Câmara Fer-
reira, no principal alvo dos órgãos de segurança. Ainda
Com a voz forte, mas cortada, Rosalina conta um pouco do su- enciumados com o sucesso de Fleury nas investigações para
plício. “Te empurram, te dão choque, enfiam coisa na tua vagina, localização de Marighella, os homens da “Operação Ban-
no teu ouvido.” Quanto maior a resistência, mais tempo se ganha. deirantes” exigiram que ele lhes entregasse o preso. Fleury
O importante é “segurar” até que chegue a hora do “ponto”: se der recusou-se e, na noite de primeiro de março de 1970,
a hora e o sujeito não aparecer para o encontro, começa-se a des- um destacamento da ‘Operação Bandeirantes’ invadiu o
confiar de sua prisão e, imediatamente, a notícia se espalha entre DOPS à procura de Shizuo Ozawa. Antes de, finalmen-
os membros da organização. te, aceder em entregar o prisioneiro aos militares, porém,
E Lúcia Murat completa. “Eles se comportavam o tempo todo Fleury obrigou ‘Mario Japa’ a deitar-se no chão e saltou
como se estivessem disputando um campeonato. E o que estava em com os dois pés sobre seu peito, quebrando-lhe várias cos-
jogo podia ser uma prisão, a morte de alguém da oposição considera- telas, para impedir que os militares pudessem torturá-lo e
do importante, o fato de alguém ter falado. Assim, o pessoal do DOI- descobrir onde estava Lamarca.
CODI disputava com a Aeronáutica, que disputava com a polícia...
O pessoal do Rio disputava com a Bahia, etc... Eles nos disputavam E nessa disputa cujos únicos vencedores eram a dor e o sofrimento,

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ofegante, Rosa prossegue: é eletrocutada nos seios e na vagina. E uma dos contatos. De tudo o que a gente tinha em casa. Do casal, já sabiam
das piores partes é ser levada para ver o companheiro, na sala ao lado. daquela história.” Produto de um minucioso estudo e cruzamento de
Geraldo está pendurado no pau de arara e ouvindo gracejos e piadas dos informações, a caçada ao “casal legal” chega ao fim.
torturadores: defecara após ser submetido a sucessivos choques elétricos “Puseram a gente numa sala e então começou uma tortura enor-
no ânus. “A gente ficou à noite toda nisso, sem sair pra nada”, lembra. me. Eles me penduraram na parede e chutavam a minha barriga
Levados para uma área do Departamento de Ordem Política e sem parar. Eu comecei a sangrar, aí o pessoal do DOPS começou
Social com presos comuns e políticos. “Entrei chorando, tava su- a brigar com eles, na nossa vista, porque não podia fazer aquilo
pernervosa. Aí no fundo uma menina me chamou. Era uma me- lá”, reforça. Senso de humanidade? Não. “Eles não iam se respon-
nina da AP. ‘Me dá seu nome’, ela falou. Inclusive a cunhada dela sabilizar. Se a gente morresse lá, a gente tava legal, com todos os
era mulher do [cartunista] Henfil. Era Giuciane o nome dela.” documentos, sob responsabilidade deles. Que eles levassem a gente
Giuciane, quando recebe visita de familiares, pede para que a pro DOI-CODI, mas que ali não podia fazer isso. Então teve uma
família de Rosa seja avisada do paradeiro dela. “Minha irmã foi disputa muito grande.”
ao DOPS e disseram: ‘aqui não está, nunca foi presa’. E isso eles “E nesse momento um dos caras me chamou e perguntou ‘tua
podiam fazer durante um mês normalmente, eles podiam fazer. menstruação tá vindo certa? Porque a gente tá com a desconfiança
Até pela Lei de Segurança Nacional.” de que você tá grávida.’ Aí começou essa história da gravidez. A
Três dias depois, num sábado, são conduzidos por policiais e maior dúvida [era] se eu tava grávida realmente. Começaram a me
passam algemados dentro do Iate Clube do Rio de Janeiro, onde bater o tempo todo na barriga. Eu fiquei numa enfermaria desse
são colocados dentro de um barco. Rosalina tem certeza da coni- lugar. Depois voltamos, aí eles me deram a água quente, coisa pra
vência dos donos da instituição com a ditadura. Dentro da em- por na barriga. Fiquei livre da tortura durante um dia. Depois
barcação, são pisados constantemente pelos agentes. “Nunca tive voltei novamente pra tortura. Eu e Geraldo direto. Quem tortura-
tanto medo assim. Puta... acho que eles vão jogar a gente no meio va eram esses caras de fora. Os caras de lá faziam tortura do tipo
da baía [de Guanabara]. E a gente ouvia que joga preso político no ameaça, mais tortura psicológica.”
mar e mata. Só que do outro lado da baía tinha um carro. Botaram Até hoje não tem certeza se, de fato, esteve grávida e perdeu
a gente dentro do carro e levaram pro DOPS Niterói.” o bebê dada a quantidade de pancadas. “Mas isso foi uma coisa
“Quando nós chegamos no DOPS Niterói, os caras de lá não que eu denunciei muito, porque eu fiquei, inclusive, depois disso,
pareciam receber muito preso. Eles tavam meio perdidos. E nós fiquei oito meses sem menstruar. Pode ser que tenha havido um
percebemos que tinha um preso lá. E um dos presos era o padre. aborto. Porque eu acho que a pressão que eles fizeram também é
O padre tava preso no mesmo lugar. Eles já queriam a história de de que havia um aborto.”
Cachoeiras de Macacu, o que tinha acontecido. Então eles tavam A barbaridade é tamanha que ameaçam o casal com um jacaré.
desfocados da coisa atual, da nossa ação. Mais ou menos no segun- A historiadora Dulce Pandolfi, no mesmo dia em que depôs Lúcia,
do dia, quando a gente tá lá, chegam uns caras do cão. Era um cara diz que também ter sido não só ameaçada, mas ter tido um jaca-
que a gente soube depois que era da Marinha e uns caras do DOI- ré andando sobre seu corpo. “Acho isso muito importante porque
CODI. E com todos os dados que eles tinham pego na nossa casa, demonstra também que essa equipe de torturadores estudava os
que eram os dados do congresso, da VAR atual, das nossas conversas, métodos que eles eufemisticamente chamavam de ‘técnica de in-

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

terrogatório’. Não era simplesmente uma explosão de um sádico de cionado. Lembro- e eu tinha apenas 22 anos - que quando
plantão. Num segundo momento, então, a tortura era progressiva, entrei na sala todos os juízes militares baixaram a cabeça.
feita de idas e vindas, de ameaças e da nossa certeza, permanente- Não tiveram a coragem de me encarar. Como também
mente alimentada por eles, que tudo poderia recomeçar a qualquer não tiveram a coragem – apesar de todos os esforços do meu
momento”, reforça Lúcia Murat. advogado – de me mandarem para o Hospital Militar e,
O objetivo é, segundo ela, pouco a pouco, de anular os presos mais uma vez, eu fui levada para o DOI-CODI. Eu tre-
“como pessoas e como militantes”. mia muito pois imaginava o que me esperava depois de ter
denunciado tortura. Eu disse para o meu advogado: ‘Eles
Foi nesse quadro, na volta, que o próprio Nagib, fez o que ele vão me matar’. A impotência estampada nos olhos dele era
chamava de tortura sexual científica. Eu ficava nua, com um o retrato desse país.
capuz na cabeça, uma corda enrolada do pescoço passando pe-
las costas até as mãos, que estavam amarradas atrás da cintura. Apesar da desumanidade reinante nos centros de tortura, há
Enquanto o torturador ficava mexendo nos meios seios, na minha bons soldados ainda, que se sensibilizam com a situação de pessoas
vagina, penetrando com o dedo na vagina, eu ficava impossibi- tão jovens e maltratadas como aquelas. “Um cara deles pede pra eu
litada de me defender, pois se eu movimentasse meus braços para fazer um bilhete pra minha mãe. Ele disse ‘eu trabalho aqui, você
me proteger, eu me enforcava e instintivamente voltava atrás. Ou é uma menina, parece com a minha irmã. Você não quer fazer um
seja, eles inventaram um método tão perverso em que aparente- bilhete pra tua mãe saber que você tá aqui?’ Eu mandei um bilhete
mente nós não reagíamos, como se fôssemos cúmplices de nossa dor. falando... depois minha mãe recebeu, eu soube. Mas nesse interva-
Isso durava horas ou noites, não sei bem. lo levaram a gente pro DOI-CODI. Aí já fazia quase 20 dias que a
gente tava preso. Então não tinha muita informação concreta pra
Seu advogado, Dr. Tecio Lins e Silva, luta e consegue que Lúcia dar, né?”
seja apresentada na Auditoria da Marinha. Aparecer perante os juí- Por causa disso, ficam irados. Afinal de contas “perderam muito
zes significava atestar oficialmente a prisão, o que evitaria um even- tempo”, pois aqueles que Rosa conhece já estão longe, sabendo de
tual assassinato. Eis que um dia mandam que se vista com roupas sua prisão e que poderiam cair a qualquer momento. Para Lúcia,
diferentes do macacão usado na prisão e é levada por um grupo de o mesmo. “Dois soldados são inesquecíveis por terem conseguido
soldados da Polícia do Exército para a Auditoria da Marinha. manter sua humanidade. E eu queria lembrá-los hoje, mesmo sem
saber seus nomes, porque o que estamos fazendo é um exercício de
Eu pedi, por favor, para que eles tentassem me tirar do humanidade. Um soldado se ofereceu para levar um bilhete para
DOI-CODI e me levassem para o Hospital Militar. Eu minha família. E levou. O outro foi o enfermeiro que na minha
sabia também que aquele momento era a única chance primeira noite na enfermaria passou todo o tempo acordado colo-
que eu teria de denunciar as torturas com uma prova real. cando panos quentes para tentar amenizar a dor da minha perna.
Eu era a prova real da tortura. E apesar do medo imen- Lembro que ele só repetia. ‘Quando eu terminar o serviço militar,
so que sentia eu denunciei que estava naquele estado por quero esquecer tudo isso’.”
causa das torturas, num depoimento extremamente emo- Mas estes são casos episódicos. Como resultado da ira de seus

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

algozes, Rosalina foi condenada a ir para a “geladeira”. “Uma cela mais choque, mais água. E dessa vez entraram as baratas.
preta, toda preta. Que você abre o olho, fecha o olho, e não sabe Puseram baratas passeando pelo meu corpo. Colocaram
se é dia ou se é noite. Vai perdendo a noção de tudo. Porque ela é uma barata na minha vagina. Hoje, parece loucura. Mas
de Eucatex preta”, e sinaliza o tamanho: pouco maior do que uma um dos torturadores de nome de guerra Gugu, tinha uma
geladeira convencional. “Você ficava emparedado. De pé, sem rou- caixa onde ele guardava as baratas amarradas por bar-
pa nenhuma. E um ar gelado, gelado, gelado. E ao mesmo tempo bantes. E através do barbante ele conseguia manipular as
muitas vozes gritando, gente chorando, gemendo. Você vai se deses- baratas no meu corpo. Eu queria morrer e não conseguia
truturando, né? Sem beber água.” O máximo possível é agachar-se. morrer. Mas nisso praticamente eu já tinha ganho o tempo
E nem esse movimento Rosa tem permissão de executar. Por meio necessário para liberar os pontos com a organização. E a
de um olho mágico, o torturador vê e, de imediato, dá o grito para Marilena Vilas Boas, que mais tarde foi barbaramente
que ela se levante. “Você não comia... aí pelo chão tinha umas coisas, assassinada, que era com quem eu tinha os encontros, con-
que você não sabia se era cocô, o que que era. Aí uma hora o cara seguiu avisar minha família de que eu tinha sido presa.
abriu a geladeira e jogou um monte de água na minha cara. Parecia
que era salgada.” Não sabe quanto tempo permanece trancafiada na Rosalina continua na geladeira. Certa noite, algo inesperado
geladeira. Um dia abrem a porta e colocam uma barata dentro da – e, mais uma vez, episódico – acontece. “Um cara abriu a gela-
pequena cela. “Eu sabia que já tinham colocado baratas no corpo deira, eu fiquei com muito medo. Pensei que ele ia me estuprar,
da Lúcia Murat. E quando ele acendeu a luz que eu vi a barata, eu me bater, fazer alguma coisa.”
matei ela com o pé. Tava descalça. Eu acho que hoje se eu tivesse
que matar uma barata com o pé descalço eu ia gritar, mas ali não - Você não quer sair um pouco?
era nada fazer aquilo. Ali, sou capaz de comê-la ou até de beijar essa
barata pra não ter um monte de barata no corpo. O pior do episódio - Não, não quero.
não é ter a barata ali, é você depois pensar sobre isso, ver, lembrar,
porque naquela hora você não sente nem nojo nem nada. Você tá - Pode sair. Se você quiser sair, eu deixo. Eu to condoído. Você é
numa guerra, numa coisa interna. Por isso eu acho que a dimensão uma menina. Vá ali, vá. Pode ir no banheiro.
[da tortura] é uma dimensão individual também, né? É uma coisa...”
A cineasta Lúcia Murat enfrenta algo parecido com um desses Vai ao banheiro, mas fica na dúvida: será que isso é algo da
filmes baratos, no qual o vilão desenvolve o enredo buscando o natureza dele ou faz parte de um teatro, montado pela repressão?
mais puro sadismo com suas vítimas.
- Daqui a pouco chega alguém, então, por favor, não fala nada sobre isso.
As lembranças são confusas. Não sei como era possí-
vel, mas tudo ficou pior. Eles estavam histéricos. Sabiam “Não sei quanto tempo eu fiquei lá. Mas um dia eu fui tirada da
que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas senão geladeira e caí no chão. E eu tava muito mal, com ânsia de vômito,
perderiam meu contato. Gritavam, me xingavam e me mas não tinha mais água. Aí veio um médico. Fiquei toda anima-
puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, da, peguei a mão dele.

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Processo de Rosalina Santa Cruz

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Carta escrita ao marido, Geraldo Leite, preso em outro quartel.
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- Ai, doutor. Eu to muito mal, não tô conseguindo respirar. Não sei fosse ele seria outro, que ele era apenas um membro de uma en-
quanto tempo eu fiquei aí. grenagem. Eu me lembro que respondi: muitos disseram isso em
Nuremberg [tribuna que julgou os crimes de guerra dos nazistas].”
O médico pede para que Rosa espere um pouco. Depois de pa- E nesse contexto, não demora, Rosa volta para a geladeira. “Aí
cientemente examiná-la, cospe: quando saí me deram um pouquinho de feijão. O feijão mais gos-
toso da minha vida. Só um pouquinho de água, ‘pra você não
- Tá ótima! É pura manha. Batimento tá ótimo, pressão. morrer’.” Fica 52 dias sem que a família saiba de seu paradeiro.
“Praticamente isolada”, diz.
Um ódio se apossa de Rosalina, que começa a arrancar os ca- “Reside” na parte superior do prédio. A sala de interrogatórios
belos. “Por que eu fiz isso!? Por que eu dei a mão pra esse filho da fica no piso inferior, em uma sala toda a branca, onde dois homens
puta?” O médico em questão é Amílcar Lobo. se revezam. Um à frente e outro atrás. Se houvesse divergência de
Esse mesmo médico, que também tratara Amelinha Teles, tam- informação, o sujeito de trás gritava “é mentira!”, e dava um soco
bém cuida de Lúcia Murat. Ela conta em seu depoimento ao ple- no ouvido de Rosalina, o chamado “telefone”.
nário lotado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. “Uma pressão do cão”, diz. “Daí eu voltei lá pra cima. E com
essa história toda, eu acho que eu fiquei muito enlouquecida. Pri-
Na enfermaria, depois de algum tempo, comecei a tomar meiro, porque eu acho que na tortura cada um vai pro limite do
antibióticos. Não podia andar, minha perna direita estava que você é, das tuas características.” Na frente dos torturadores,
muito inchada e não mexia, meus pulsos estavam feridos, um medo descomunal; na cela, a revolta aflora. A raiva é por ter
assim como os seios e os pés. Não podia comer porque ti- dado informações aos torturadores. “Batia na porta, totalmente
nha levado muito choque na língua e se engolia alguma sem senso e gritava: ‘vem agora me perguntar!’. Aí o cara vinha. Eu
coisa, vomitava. Médicos mais tarde calcularam que se eu corria e me enfiava embaixo da cama, de tanto medo que eu ficava
não tivesse começado a ser medicada, eu teria morrido em de ir pra afronta. Eu entrava em disputa com eles, mas, ao mesmo
poucos dias. Isso é uma questão importante. As circunstân- tempo, não aguentava. Então isso era um desgaste muito grande.
cias. Com certeza eu fui salva por circunstâncias, não pela Eu cheguei a pesar 36 quilos.” Além disso, é obrigada a ouvir gritos
vontade deles. Podíamos morrer a qualquer momento e por dos torturadores, seguidos por risos:
isso nos mantinham incomunicáveis em todo esse período e
negavam nossa prisão. Para eles, que eram donos de nossas - Sua tábua! Olha, a mulher não tem peito!
vidas e de nossas mortes, seria apenas mais um ‘acidente’,
como tantos que aconteceram. Na enfermaria, os médicos Depois disso é levada para vários quartéis. “Quando estava há
que me trataram eram os mesmos que nos ‘assistiam’ na dez meses presa, caiu uma pessoa no Rio de Janeiro, que tinha a
sala de tortura: Amilcar Lobo e Ricardo Fayal. ver comigo, que eu conhecia. E eles me sequestraram da minha
cela. Então vai sair alguém.”
Ao ser questionado por Lúcia como um médico e psicanalista Na cabeça a frase de Sylvio Frota, comandante do 1º Exército e
“se permitia àquele papel”, Amílcar Lobo respondeu que “se não ministro do Exército durante o governo Ernesto Geisel. Na visão

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de Frota, Rosalina não fora torturada, mas apenas “pressionada”, Mãos que não se tocam,
porque “geladeira não é tortura, é pressão”, repete as palavras do
general com nojo. Olhares que não se olham.
Se os tempos no DOPS e no DOI-CODI são terríveis, o pre-
sídio é quase um alento. Especialmente pela convivência “ótima” Enquanto isso, o inimigo nos espreita,
com suas colegas de cela. “Tem muita carta inclusive. A gente ti-
nha uma vida muito intensa. O banho de sol era uma vez por Nos ameaça, nos cerca.
semana; às vezes duas, dependendo do quartel. Tinha dia que o
quartel tava vazio.” E se não pega, pega nossa alma,

Papo de cadeia Nossa calma.

Viver dias felizes na cadeia Esta cela triste está triste hoje.

As emoções à flor da pele Minha alma está presa,

Contando histórias da infância, Não consigo olhar minhas companheiras,

De Olinda, da praia, do mar, Que estão tristes, caladas.

Dos sonhos de liberdade, Deve ser a chuva.

As raivas nos encontros. Na infância, eu corria na chuva com meu pai.

Amigos, companheiros, Quero flores na cama, na vida.

Inimigos, amados. Quero saber, saber de sabedoria,

Uma dureza interna, Saber de conhecer, saber de amar.

Um coração partido. Quero filhos, quero filhas.

Um rosto que nem se mostra, Quero amores incondicionais,

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Pedaços de mim e de ti. Jessie Jane, uma das prisioneiras colegas de Rosalina: a vida na
prisão é um espelho do que se passa lá fora.
Quero filhos, quero filhas. O sistema entre elas é simples: uma colega ensina a outra: inglês,
português. “Outra fazia as regras da casa, discutia, brigava, sonha-
Quero um mundo justo, livre e bonito, va, desenhava. Eu comecei a desenhar e a pintar na cadeia. Pintava
todas as cartas que eu mandava.” Uma alegria toma conta de Rosa-
Para meus filhos, para meus amores, infinitos. lina nesse momento. Lembra com ternura das colegas. Tudo o que
faziam dependia do quartel em que estavam. “Tem quartel que
Quero flores na cama, na vida. não podia entrar nada de fora: livro, nada. Tem quartel que podia.
Era meio... o que eu acho era isso. Tinha muita briga política, mui-
Sempre amores livres. ta história dentro... da sua tia, da sua avó, da infância. E ficamos
amigas. As minhas colegas de cadeia são minhas amigas até hoje.
Quero a liberdade A Lúcia Murat, a Zenaide, a Solange, que se matou. Porque a gente
passou um tempo importante das nossas vidas, né?”
(1972) Rosalina dedica-se ao artesanato na prisão. É um dos “efeitos cola-
terais” de seu período reclusa: poemas, desenhos, bonecas, tapeçarias.
No pavilhão de presas políticas - dentro da cela - a interação é São esses itens que enfeitam, hoje, seu alegre apartamento e davam o
das melhores. “Bangu tava inaugurando, então eles pegavam uma tom às suas cartas para Geraldo. Serve para mandar notícias e dividir
ala e fechavam inteira pra gente. Tinha vantagem disso. A gente as angústias de uma vida carcerária. A cineasta Lúcia Murat ensina
tinha tudo cela individual. E as presas comuns tinham acesso ao inglês, e Inês Eienne, em apoio à professora, não acredita no futuro de
nosso lugar. E elas gritavam ‘por favor, presas políticas, avisem seus Rosa com fluência no idioma anglo-saxão. “A Inês fala que eu nunca
advogados, nós tamos sendo torturadas’. Elas sabiam que a gente vou aprender a falar inglês direito por causa do meu sotaque nordesti-
tinha um certo acesso, que elas não tinham.” Em compensação, as no”, ri. “Eu tava no camburão, saindo pela primeira vez depois de 50
presas comuns têm regalias não permitidas às políticas: local para e tantos dias de tortura, e tem uma moça dentro do camburão que vai
fazer cabelo e as unhas. Entretanto, o contato não era direto. “Eles comigo, e é ela. E ela é a primeira pessoa que fala assim na Casa da
tinham medo de que a gente pudesse influenciar.” E o controle Morte. ‘Eu passei por um lugar que Carlos Alberto Soares de Freitas
das notícias externas também tem rigor. “Eu me lembro quando a teve lá. O Breno passou por lá; o Mariano’, que era outro cara. E de-
Leila Diniz morreu. Minha irmã que me disse. O cara quase sus- pois a gente desce no mesmo presídio. Ficamos um tempo. Depois fo-
pendeu a sessão: ‘poxa! Não pode trazer notícia de fora!’” mos para um presídio menor. Eu, ela e uma moça chamada Márcia.”
Com o tempo e a mudança de quartéis, o grau de permissões “A Inês era muito complicada. Muito... marcada por essa histó-
varia. Por exemplo, a chegada da televisão se resume a “mostrar ria de ter passado por tantas torturas sozinha, tortura sexual, por
companheiros presos”, num instrumento diretamente a favor do ter feito um vídeo, de ter esse segredo que nem tinha, que era o en-
regime. Depois, passa a ser distração. O fato de o aparelho entrar dereço da Casa da Morte. E ela conseguiu ter o endereço, porque
no presídio dá mostras de que algo muda lá fora. Como nos diz os caras estupravam ela. Por causa disso, ela ficou sabendo. Porque

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Plateia de bonecas
observa Rosalina.

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eles telefonavam, eles faziam ela limpar a cozinha nua...” De longe e de muito perto.
Recorda achando graça de um episódio. “Eu me lembro que
uma vez a Inês queria que eu comesse a comida dela, porque ela Não são mais assustadores,
suspeitou que tava envenenada. Eu disse ‘Inês, você tá biruta? O
veneno é universal! Agora eu vou comer, só porque você acha que Sem história, são só fantasmas.
tá envenenada? Nem morta!”, e dá uma risada forte.
Quando vão assinar seu inquérito, o coronel desqualifica Ge- A utopia é a saída.
raldo e Rosalina. Diz que ambos não passam de “masturbadores
intelectuais”, influenciados por gente que “gosta de ficar inventan- O mundo não pode ser calmo,
do história pra pensar”, mas que no fundo “não são nada”. Aguar-
dando do lado de fora, estão os pais de ambos. O juiz militar pede Pois a vida pode ser simples.
aos pais de Geraldo que façam com o que o filho colabore, porque
“ele é um cara que não é terrorista, é influenciado por essas ideias”. Preciso deste convite pra ser feliz.
“Então, os pais do Geraldo dizem ‘meu filho é um ótimo filho,
passou em 6º lugar no vestibular, nunca nos deu trabalho, e nós Convite para passear nas nuvens,
achamos que ele realmente possa estar sendo influenciado por essas
ideias, mas isso é dos jovens, porque ele é um jovem muito bom. Esquecida das lembranças.
Aí chamou minha mãe. Eu pensei ‘puta, essa ‘veia’ é doida, vai ser
presa aqui’.”, diz rindo. “Ela disse ‘olha, eu gostaria de dizer que o [...]
senhor está pedindo pra eu pedir pra minha filha colaborar, dedu-
rar os companheiros? Eu não criei filha pra ser dedo duro. Ela pode As lembranças da consciência são minhas,
dizer o que ela fez, agora falar dos outros, se é isso que o senhor
está insinuando, ela jamais fará, porque eu não criei ela pra isso. E Só minhas.
se fizesse, eu estaria envergonhada’.”
O meu sonho de justiça e liberdade é meu,
Preciso saber esperar,
Só meu.
Sem desesperar.
Não sou mais supermulher maravilha,
É possível que os demônios voltem
Sou a mulher sem...
Hoje à noite.
O poema fica inconcluso. A folha colorida, do alto de seu ama-
Virão, eu sei, relado, não deixa ver o que está ali rasurado pelo tempo.

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Sai da prisão em março de 1973. As disputas internas no co- E André fica sozinho, sob custódia de cinco “caras” armados. Deses-
mando militar já estão expostas. “Tinha um médico me esperando perada, Rosalina grita pelo filho quando chega à prisão. Seu irmão, Mar-
no quartel. E era o mesmo quartel do Exército, do Sylvio Frota. [O celo, advogado chega no outro dia. “Quando ele chegou no apartamento,
médico estava lá] pra me auscultar, pra saber se eu podia entrar, ele foi preso.” Os agentes da repressão dizem, ao tirar André do berço:
com receio de que alguém morresse.”
Muda-se para São Paulo. Na Pauliceia, consegue por intermédio - Agora o titio vai ver ele pular pela janela.
de contatos um emprego na Prefeitura. E, em liberdade condi-
cional, inicia o mestrado na Pontifícia Universidade Católica em A empregada de Rosalina, que cuida do filho da militan-
Ciências Sociais. O trabalho trata da “mulher metalúrgica”, das te, está apavorada. Pensam que ela também é “do bando”. Isso
questões de gênero envolvendo operárias. Em 1980, vai trabalhar porque quando os agentes chegaram ao apartamento, a moça,
na própria PUC. “Depois da prisão do meu irmão, em 74, eu fui numa vã tentativa de avisar a patroa, atira um bilhete pela jane-
presa novamente, aqui no, DOI-CODI, na Operação Bandeirante, la: “Dona Rosa: não suba.”
da Tutoia”, conta Rosa. Fica uma semana apenas. “Só que teve um “Por fim, levaram o Marcelo na Operação Bandeirante. Quan-
problema muito sério nessa prisão, que é a prisão do meu filho. O do chegou lá, disseram pra ele: ‘você pode pegar seu sobrinho, ago-
meu primeiro filho tinha cinco meses. E eles mantêm [o filho] em ra sua irmã vai ficar, muito tempo’. Aí o Marcelo pediu um papel.
cárcere privado, aqui dentro do apartamento. E eu lá na prisão, E eu dei um papel dizendo que ele podia levar o André. Ele foi
enlouquecida. Porque eles dão muita palmatória, prendem a gente pra minha casa, aí ele disse que quando chegou a menina estava
na cadeira do dragão. E eu com leite tive que parar de amamen- toda pronta, e eles tinham ido embora.” A moça, toda vestida, está
tar. O André ficou com uma menina que trabalha em casa. E eles pronta para voltar a Minas Gerais, criar a criança, crente de que
montaram, pra prender as pessoas que chegavam, um negócio lá, não voltariam mais, afinal, é isso que os agentes disseram a ela: os
uma máquina, dentro do apartamento.” “Nós tivemos o André patrões são terroristas, bandidos.
logo que a gente saiu da cadeia”, conta. Geraldo deixa o presídio “Quando eu saí, pensei que nada pior pudesse me acontecer. E
em novembro de 1973. depois acontece a prisão do meu irmão e o desaparecimento dele.
“Foi uma coisa muito difícil. Porque nós fomos ao 2º Exército Meu irmão era da AP, era estudante de Direito na [Universidade
perguntar por Fernando.” Dão a informação de que ele não está Federal] Fluminense. Aí, Fernando vai preso. Ele tem um ponto
em São Paulo, mas sim no Rio de Janeiro. “A gente volta pra casa com o amigo. Vai encontrar e é preso. E a gente nunca mais sabe
normal. Aí quando chega em casa que tentamos abrir a porta, apa- dele. Nunca. Nunca mais. Nada. Desde o dia da prisão. Eles dis-
receram dois revólveres e tal. A gente olhou pra dentro da casa, seram ‘não fomos nós que prendemos, não prendemos... e nunca
pequena – sala e quarto – e tava o André no berço, e a moça deita- soubemos nada até hoje oficial.”
da no chão. A gente entrou e eu falei ‘pelo amor de Deus, deixa a Com a voz fanha, Rosa prossegue. Embargada pela tristeza,
gente pegar o André pra levar pra algum lugar’.” com seus olhos rasos d’água.
“Aí tem o extraoficial, que é estarrecedor. Que é assim. Fernan-
- E comunista gosta de filho, é? do foi preso junto com um companheiro dele. O menino era estu-
dante de medicina, só que tinha parado e tava na clandestinidade.

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Fernando vai pra esse ponto pra encontrar o Duda e passar para o “Aí uma era o sargento do Exército, Marival, que se apresenta
dirigente da organização – os dois dirigentes, um casal de dirigen- na década de 80. Sai na Veja, dizendo que gostaria de falar, porque
tes – que o Duda tava perdido da organização. E o ponto de reen- ele sabia sobre os anos da ditadura.” Marival Dias Chaves do Can-
contro dele era o Fernando. Aí o Fernando foi lá encontrar com to sempre trabalhou com análise de informações e cruzamentos
ele, pra fazer essa passagem. Então, Fernando tinha um encontro de dados fornecidos por presos políticos (colaboradores ou não da
com as outras pessoas, né? Primeiro com esses dois que ele ia pas- repressão; os primeiros chamados de “cachorros”, pelos militares):
sar o Duda. Fernando vai preso. No mesmo dia a gente percebe, atuou no DOI-Codi paulista entre 1968 e 1976, nos Batalhões
porque tinha combinado com ele pra ir pra praia, e ele não aparece de Infantaria de Selva, de Imperatriz e de Manaus, entre 1977
na casa da minha irmã. Daí meu irmão disse: ‘oxente, ele tá com a 1980, e por fim, de 1981 a 1985 no Centro de Informação do
vocês’. Digo ‘não tá’. Aí, a minha cunhada sabia o ponto com essa Exército. Marival pede demissão do Exército em 1985.
pessoa. Nós fomos no outro dia e avisamos: ‘Fernando tá preso.’ Em entrevista à revista IstoÉ, em 2004, revela nomes de figurões
As pessoas foram ao ponto; Fernando não foi. A partir disso, a que torturavam e eram bem conhecidos por seus “bons serviços” pres-
gente procura interminavelmente Fernando. Tem pistas dadas pela tados ao regime. Fala inclusive de torturadores da Casa da Morte de
repressão. As pistas nossas são muito poucas. Uma é a pista duma Petrópolis, onde Inês Etienne sofre barbaramente. São vários “douto-
sacola que a gente entregou na Oban, porque a gente recebeu a res”, como eram chamados coronéis envolvidos na repressão. À Co-
notícia de que ele taria em São Paulo. Aí nós fomos à Oban. E a missão Nacional da Verdade, em 2013, Chaves revela mais detalhes
minha irmã foi lá, e um carcereiro recebeu a sacola dizendo ‘Fer- sobre a estrutura de comando e financiamento dos órgãos repressores
nando tá aqui. Depois a gente manda dizer da visita’. Aí no outro por empresários, além de indicar nomes que podem esclarecer desa-
dia mesmo veio e disse ‘não, não está, foi um engano. Vá no 2º parecimentos. Nesta audiência, em Brasília, ele esteve ao lado do co-
Exército e recebe sua sacola de volta’. Bem, então, por muito tempo ronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, também convocado
a gente pensou que ele esteve na Oban. Aí depois disso a gente não para esclarecer suas participações no processo de repressão.
tinha informação. Nada. Nada. Aí 'nós tivemos duas pistas, dadas Marival, diz Rosalina, saberia informações sobre desaparecidos
pela própria repressão. Uma pelo...” políticos, incluso aí seu irmão. De acordo com o ex-sargento, ele
teria sido “esquartejado e colocado em sacos plásticos diferentes e
- Rafael, não. enterrado em cemitérios na região da casa da morte”. Essa é práti-
ca comum, segundo ele. Nessa mesma entrevista à IstoÉ, Chaves
Seu neto, que havia descido para brincar no playground do condomí- conta do “Doutor Magno”, codinome do cabo Félix Freire Dias,
nio, retorna ao apartamento e vai ligar televisão da sala. Retruca a avó. que atuava na Casa da Morte de Petrópolis. Ele “sentia um prazer
mórbido em me contar que apostava com outro carcereiro quantos
- Ah, eu acabei de chegar. Demorei pra caramba. pedaços ia dar o corpo de determinado prisioneiro executado. As
impressões digitais eram as primeiras partes a serem cortadas’, con-
Liga a televisão, e a avó protesta. Tranquilizamos: daquele volu- ta Marival.” E a versão dada ao desaparecimento de Fernando bate
me não tem problema, o gravador é potente e consegue captar com com a prática da Casa da Morte: “O destino daqueles corpos tam-
clareza a voz de Rosalina. Ela, então, prossegue. bém foi relatado por Doutor Magno: ‘Ele me disse que os pedaços

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

dos corpos, cortados nas juntas, eram colocados em sacos plásticos também, porque nunca achamos o corpo.”
e enterrados em lugares diferentes para dificultar a localização.’” “Temos a certeza absoluta da morte. O governo já deu em 96,
“A gente foi ter contato com eles, achando estranha a conversa. por uma lei, um atestado de óbito pra gente, dizendo que Fernan-
Não tinha muito como comprovar. Pedimos que o governo brasi- do foi morto. E segundo o decreto 44 tem direito a indenização,
leiro, que na época já era o governo Lula, que tentasse investigar”, reparação econômica para a família. Mas não esclarece as circuns-
relata Rosa. “O governo considerou que não era importante e de- tâncias do local onde ele está. A Casa da Morte já foi, desde 83,
sistiu. Não quis investigação.” quando a Inês Etienne Romeu falou onde era a Casa da Morte, o
Na época em que some Fernando, Lúcia Murat acredita que o endereço, as torturas que ela passou lá. Hoje, todas denúncias vêm
DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita, completamente remode- de que Fernando foi pra Casa da Morte.”
lado, está “reservado para presos que passariam por esse ‘interroga-
tório científico’. Ao mesmo tempo, os militantes das organizações - Onde tem papel pra pintar?
armadas considerados chave foram sumariamente condenados à
morte. Não iam mais para o DOI-CODI. Iam ser torturados e as- Rafael quer saber.
sassinados em outros lugares, como a Casa da Morte de Petrópolis, A avó, pacientemente, interrompe o raciocínio e indica uma pi-
cuja única sobrevivente foi Inês Etienne Romeu. Foi assim com lha de folhas em branco sobre a mesa. Pede-nos e fazemos uma
Sérgio Furtado, com Paulo Ribeiro Bastos, com Fernando Santa corrente, passando o material até ele chegar às mãos do sobrinho-
Cruz e muitos outros companheiros que constam da lista de ‘desa- neto que Fernando não conheceu.
parecidos’. A pena de morte foi decretada também para os comba-
tentes urbanos nesse período, assim como foi para os militantes da - Ó os lápis, Rafa.
Guerrilha do Araguaia. Não posso provar que houve uma decisão
de matar os poucos sobreviventes das organizações armadas, mas é “Mas é isso. Essa busca pra gente é interminável. Todos os cemité-
o que deduzo do que vivi nessa época”, diz Lúcia. rios: Vila Alpina, Penha. A gente ir lá, procurar. Livro por livro. Ver
E a segunda pista que Rosalina tem sobre o paradeiro do irmão se tinha coincidências; recebia uma ligação de alguém que dizia ‘olha,
também é dada por um agente da repressão: Cláudio Guerra. tem aqui uma foto parecidíssima com Fernando’, aí ia lá e não era.
“Ele é um delegado que resolve falar. E diz que não. Que o Ma- Quer dizer, essa investigação as famílias inclusive fazem a vida intei-
rival se enganou, e Fernando Santa Cruz e os outros 14 desa- ra, né?” E a Comissão Nacional da Verdade está investigando o desa-
parecidos políticos que ele fala foram incinerados na Usina de parecimento dele. “Já tem até um relatório parcial”, conta Rosalina.
Carapebus, em Campos. Que ele pegava os corpos na Casa da Desde que saiu da cadeia dedica-se às lutas em movimentos sociais.
Morte e levava pra serem incinerados, e que o Fernando não foi Na mesma época, conhece Amelinha Teles no movimento, quando
esquartejado, jogado, foi incinerado. E uma dessas informações, voltam à luta. E, juntas, descobrem uma forma de militância tão for-
mesmo com a Comissão da Verdade, com várias fontes que já te quanto as outras: o movimento de mulheres. “Além de ser mais
ouviram o Cláudio Guerra, não consegue comprovar. Primeiro protegido, era uma luta que se tornou muito importante nas nossas
a incineração, porque você não tem como comprovar, tem que vidas. Porque começamos com isso no negócio do feminismo e depois
confiar na palavra dele. Ele tem vacilações quando fala. O outro no dos desaparecidos. Porque a Amelinha sempre foi do movimento,

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As poetisas guerrilheiras Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

eu também, desde que meu irmão desapareceu começou a estruturar das situações difíceis.”
essa questão do movimento, que é ligado ao movimento de Anistia.
Visitei muito presídio com a Amelinha, fizemos muita pesquisa sobre
mortos e desaparecidos. Sou muito amiga da Amelinha. E a Jane por
ser minha colega de cadeia.”

Muitas vezes eu achei que a pior coisa foi ter sido presa
com o André com cinco meses. E me tirarem de dentro da
casa, deixar sozinho com eles, com a empregada, com o
leite pingando. Eu acho isso uma coisa enorme, embora
tenha sido uma prisão menor. Outra coisa eu acho que
talvez tenha sido o tempo que eu fiquei sozinha, incomu-
nicável, nesses lugares, o tempo que eu fiquei na primeira
prisão. É uma coisa terrível você ser torturada e não ter
um acolhimento, não ter ninguém. É só você e eles. Você
e eles. Você não se alimenta com a sanidade com os seus
companheiros, alguém do seu lado. Você só tá falando
com o cara da repressão. E o outro momento que eu tam-
bém acho pior é quando você não consegue controlar seu
corpo. Não consegue controlar de mijar, de tremer, de
chorar. Isso é o pior também. Você não querer e fazer
determinadas coisas.

A família de Rosalina segue na luta. Ao contrário da Antígona do


dramaturgo grego Sófocles, que desafiando o soberano Creonte e o
Estado, enterra seu irmão morto e impede que ele seja condenado a
vagar pelo Rio dos Mortos por um século, Fernando Santa Cruz nem
lá está. Pois sem sepultamento, o Estado continua lhe negando o di-
reito ao último descanso. Mesmo assim, o jovem está imortalizado na
figura do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal
Fluminense, que leva seu nome. É como Rosa escreve em uma das
muitas cartas a Geraldo durante a prisão de ambos: “Nêgo, tudo isso
é duro, porém nós sabemos que a firmeza se forja no enfrentamento.

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Caminhos opostos, mesmo destino Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Caminhos opostos,
mesmo destino

Già eran desti, e l’ora s’appressava


che ‘ l cibo ne solëa essere addotto,
e per suo sogno ciascun dubitava;
e io senti’ chiavar l’uscio di sotto
a l’orribile torre; ond’ io guardai
nel viso a’ mie’ figliuoi sanza for motto.

(Inf. XXXIII, Vs. 43-49)

Acordados estávamos já
e a hora já passava do mísero alimento.
Cada um de nós a causa da demora
interpretava por seu sonho. Atento,
ouvi fechar da horrível torre a porta;
calei-me, olhei e vi o sentimento
tristes dos filhos meus na face morta.

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Caminhos opostos, mesmo destino Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Somos recepcionados por Jessie Jane na sala da casa de Ana Bur- Silva Lopes, chefe do seu grupo. E, como vimos antes, faltar aos
sztyn-miranda em Botafogo, Rio de Janeiro, com uma vista ma- pontos significa apenas uma coisa: prisão. Nestes cenários desfavo-
ravilhosa: do lado esquerdo de quem entra está o Pão de Açúcar, ráveis, as duas planejam sair do país de maneiras completamente
enquanto no direito é o Corcovado com o Cristo no alto abenço- distintas.
ando aquela bela tarde carioca de céu completamente limpo. Não Eduardo Collen Leite, o Bacuri, figura importante da ALN, so-
foi por acaso que Jessie, moradora de Niterói, decidiu ficar próxima licita ao líder da organização após a morte de Carlos Marighella,
à cidade após sair da prisão. Ela fala com muito carinho do Rio Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, pedido para que Ana saia do
com um largo sorriso estampado do rosto. Brasil. Com a autorização, vai morar com Bacuri e sua esposa, De-
Após alguns minutos conversando somente com Jessie, a dona nise Crispim, grávida, enquanto se preparam para a viagem.
da casa aparece na sala para se juntar a nós, ainda deslumbrada Jessie, por sua vez, junto do seu namorado, Colombo Vieira de
com sua recente visita ao Chile, quando foram completados, no Souza, com quem é casada até hoje, e os irmãos Heraldo e Fer-
dia 11 de setembro, 40 anos do Golpe Militar que derrubou o nando Palha Freire, planejam o sequestro de um avião para irem
presidente do país, Salvador Allende. O marido de Ana se despede, a Cuba. No dia 1º de julho de 1970, entram armados tranquila-
prometendo voltar com uma surpresa. mente no Caravelle PP-PDX da Cruzeiro do Sul, cujos destinos são
Efusiva com a “descomemoração” desse trágico dia, que resul- São Paulo e, depois, Buenos Aires, na Argentina. Jessie vestia uma
tou no massacre de milhares de pessoas por 17 anos, Ana se senta roupa de grávida para esconder a arma. O grupo considera fácil
em uma cadeira gesticulando muito sobre as experiências recentes sequestrar um avião, levá-lo para a ilha de Fidel Castro e conseguir
no país vizinho e sobre como o povo chileno tem forte no espírito trocar presos políticos pelos passageiros do voo: um projeto ousado
a memória do regime militar, para que isso não volte a acontecer. que poderia tirar o pai de Jessie da prisão.
Jessie fica sentada no sofá escutando a amiga e fazendo alguns co- Aos risos, Jessie nos conta que a ação foi um desastre. “Na ver-
mentários didáticos, “hábitos da sala de aula”. dade, quem foram os sequestrados fomos nós. Fizemos escolhas
As histórias de Ana e Jessie se cruzam, mesmo que não tenham erradas, porque não conhecíamos o aparato da repressão. Voltamos
militado ou ficado presas juntas, e nas próximas horas de entrevista para a boca do leão”, explica Jessie ao fazer uma avaliação daquele
conjunta descobrem muitos pontos em comum. As duas tiveram dia, parecendo se arrepender de não ter ouvido o comandante da
que sair de suas cidades por estarem “queimadas”. Ana trocou as aeronave.
praias do Rio de Janeiro por uma São Paulo cinzenta junto com “Naquela época os aviões não tinham autonomia de combustí-
Carlos Eugênio Paz, conhecido como Clemente, e José Milton veis e o comandante disse: ‘Não, vamos para Manaus. Lá a gente
Barbosa (Zé Milton), que foi morto durante sua militância. “Aí foi reabastece e vamos para Cuba. Se voltarmos vocês serão presos’.
total clandestinidade. Morava em qualquer canto com nome frio. Mas não optamos por isso, porque queríamos trocar presos que
Ficou difícil a vida.” Na capital paulista, chega a ficar em vários estavam em São Paulo”.
lugares, inclusive com Zé Milton em Itaquera. O Caravelle retorna com seus 34 passageiros para o aeroporto
No mesmo período, Jessie faz o caminho inverso, ao sair de São do Galeão, completamente tomado por militares da Força Aérea,
Paulo e ir para o Rio de Janeiro, pois os seus contatos da ALN na e logo tem os seus pneus metralhados. Carros e ambulâncias cir-
capital paulista não estão comparecendo aos pontos, como Guiomar culam pelo local e começam as negociações de Jessie e seu grupo

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com o brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, chefe do Coman-


do de Transportes Aéreos. Fechado para o diálogo, dá o prazo de
15 horas para a rendição dos “subversivos”. O clima é tenso para
os sequestradores. “Percebemos que aquilo tudo era um absurdo,
porque jamais iríamos matar alguém. Ficamos horas na pista nego-
ciando com a base aérea cercando o avião. Nós conversamos com
os passageiros para esclarecer sobre o que se tratava o sequestro.
E eles tinham mais medo da polícia do que da gente. Tinha um
exército em torno que dava medo da invasão”.
Brasília havia liberado a decolagem, pois um dos passageiros
era Leigh Norman Shakland, correio diplomático da embaixada
do Canadá. Jessie acredita que isso tenha motivado a decisão da
capital, mas sem ter muita certeza da afirmação. Entretanto, o
avião segue no chão por causa da negativa de Burnier, sedento
em mostrar serviço.
Cerca de cinco horas depois, por volta das três da tarde, o Ca-
ravelle é coberto por espuma; o pouco que se consegue enxergar
lá dentro é logo interrompido pela invasão, como depõe Burnier
numa entrevista para Celso Castro e Maria Celina D’Araujo em
trabalho realizado pela Fundação Getúlio Vargas, no ano de 1993.
“O sequestro foi abortado, porque inclusive houve o ataque ao
avião, nós cobrimos o avião com espuma contra incêndio, depois
um dos nossos agentes entrou no avião, houve um tiroteio interno,
um dos subversivos usou a própria arma contra si matando-se, e a
Jessie Jane e mais um outro foram presos quando foi evacuado o
avião; eles foram presos na pista do Galeão”.
“Não me lembro de como foi a ação. Só de quando eu estou na
pista e eles começam a tirar a minha roupa. Prenderam e bateram
em muita gente. Levaram jovens para a tortura. Os militares não Matéria de
jornal com
tinham muita certeza de quem eram os sequestradores”. Contudo, informações
Jessie possui uma opinião diferente quanto ao "suicídio" de Eraldo “mentirosas”.
Segundo
Palha Freire. “Essa invasão podia ter matado gente à beça. Tanto Jessie, ela
é que o nosso companheiro Eraldo foi metralhado e levado, ainda foi obrigada
a falar da
vivo, para o DOI-CODI, onde mataram ele lá”. maneira
contada no
Estadão.
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O Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) havia acabado


de ser construído na cabeceira da pista do Galeão. O local, que
começa a ser usado para tortura, estreia justamente com os envol-
vidos no sequestro do avião e, num caso raro, com os torturadores
usando roupas oficiais durante o “interrogatório”. Durante a noite,
Jessie e seus companheiros são remanejados para o DOI-CODI
do Rio de Janeiro, onde ficam por 18 dias. “No DOI-CODI, eles
tinham um ditado: ‘joga na parede, se miar é gato’”, lembra Jessie,
registrando um pouco da atmosfera do local.
O prédio de dois andares onde ainda hoje funciona o Pelotão
de Investigações Criminais (PIC) fica no 1º Batalhão de Polícia
do Exército, na rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, zona
norte do Rio de Janeiro. O segundo piso continha pequenas celas
individuais, enquanto no primeiro ficavam, no fundo do corredor,
recintos com grades abertas, além das salas de torturas, um espaço
grande para o pau de arara e outros instrumentos para torturar.
“Não me lembro muito bem. Imagina isso, você tá quase desa-
cordado. E lá dentro era o de praxe, né. Tudo que vocês já ouviram
falar”. Jessie não gosta muito de entrar em detalhes sobre a tortura.
Evita o assunto, diferente de outras companheiras – um aspecto
que devemos respeitar. Todavia, ela nos conta um pouco da rotina.

Toda manhã, no DOI-CODI, reuniam os soldados no


pátio para preleção, cantavam o Hino Nacional e eu esta-
va no segundo andar com as celas ‘abertas’, de grade. Aí
o Fiúza [Comandante Adyr Fiúza de Castro], ou outro
cara, fazia um discurso. Os meninos estavam entrando.
Eles ficavam de guarda no corredor, de frente as celas. À
noite, os meninos estavam trocando informações e eu tinha
o cabelo curtinho naquela época.

- Aquilo é homem ou mulher?

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- É mulher. No dia 20 de outubro, dois meses depois da mi-


nha prisão e já dividindo a cela com outras pre-
- Nossa, mas fazem isso com mulher também? sas, servi de cobaia para uma aula de tortura.
O professor, diante dos seus alunos, fazia demons-
- Nem fala, nem fala. trações com o meu corpo. Era uma espécie de aula
prática, com algumas dicas teóricas. Enquan-
Esses meninos recebiam a preleção de amor à pátria que to eu levava choques elétricos, pendurada no tal
a gente era terrorista perigoso. Toda aquela lavagem ce- do pau de arara, ouvi o professor dizer: 'essa é a téc-
rebral. E tinha um cabo que levava a gente pra tortura, nica mais eficaz'. Acho que o professor tinha razão.
cabo Gil, e nessa época tinha uma música do Erasmo Car- Como comecei a passar mal, a aula foi interrompida e fui
los que dizia: ‘esperei uma hora e meia e a Maria não veio’ levada para a cela. Alguns minutos depois, vários oficiais en-
e ele vinha cantando. Era jovem, mas tinha instinto pro traram na cela e pediram para o médico medir minha pressão.
negócio [torturar]. Depois eles tiraram esse garotos. Um
dos motivos dessas casas da morte devia ser por causa desses As meninas gritavam, imploravam, tentando, em vão,
meninos. Eles não eram desse esquema de bater. impedir que a aula continuasse. A resposta do médico
Amilcar Lobo, diante dos torturadores e de todas nós,
Porém, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, Dulce foi: 'ela ainda aguenta'. E, de fato, a aula continuou.
Chaves Pandolfi, presa política usada como “instrumento didático” para A segunda parte da aula foi no pátio. O mesmo
a tortura conta uma história envolvendo este ritual no DOI-CODI. onde os soldados, diariamente, faziam juramen-
to à bandeira, cantavam o Hino Nacional. Ali fi-
Durante o tempo que fiquei sozinha na tal cela gran- quei um bom tempo amarrada num poste, com o tal
de do segundo andar, com muita dor, sem ter absoluta- do capuz preto na cabeça. Fizeram um pouco de tudo.
mente nada para fazer, achava que ia enlouquecer. Para No final, comunicaram que como eu era irrecuperável eles
passar o tempo, inventei duas atividades: contar os ladri- iriam me matar, que eu ia virar 'presunto', termo usado pelo
lhos do chão e fazer pequenas tranças com palhas retira- Esquadrão da Morte. Ali simularam meu fuzilamento.
das dos colchões. Foi nessa mesma cela que, naqueles pri-
meiros dias, fui acolhida, durante alguns minutos, por Levantaram rapidamente o capuz, me mostraram um
Ana Bursztyn, encarregada de dar meu primeiro banho. revólver, apenas com uma bala, e ficaram brincando de ro-
Depois de algum tempo, chegaram ou passaram por lá Ce- leta russa. Imagino que os alunos se revezavam no manejo
cília Coimbra, que também me ajudava no banho, Mar- do revólver porque a “brincadeira” foi repetida várias vezes.
garida Solero, a canadense Tânia Chao, Maria do Carmo
Menezes, Carmela Pezzutti, Vânia, Marcia e Josi. Todas Enquanto nossa sequestradora acusada de matar Erasmo já se
igualmente torturadas. Juntas, totalmente apoiadas umas encontra nas mãos dos agentes da repressão e espera por seu julga-
nas outras, chorávamos, cantávamos e rezávamos muito. mento - em 30 dias -, Ana faz os últimos ajustes para sair do Bra-

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sil, mas é presa no dia 14 de julho, “em uma situação esdrúxula”, do Chá e mal entrou no local, já recebeu choques. “Depois me
como se refere. desceram e o pau comeu com dois caras completamente idiotas
me fazendo perguntas estúpidas. ‘De onde eu era?’ Essas coisas.
Do Mappin à sádica Oban Mas o pau comeu ali. Fui estuprada com cassetete."
Em um determinado momento, os militares pegam o telefone
Toledo passa o contato para Ana, que tem um ponto justamen- para conversar com um médico, para fazer uma pressão psico-
te para resolver as últimas pendências antes de ir para a Europa, lógica. “Mas pra mim era bom, porque tava passando o tempo
porém acaba encontrando com Clemente e sua amiga Ana Maria e o pessoal da organização ia perceber que eu caí, porque tinha
Nacinovic, a quem levou para a militância. Nacinovic seria morta marcado um ponto com a Ana Maria, de tarde”.
com “requintes de crueldade”, diz Ana, com um semblante triste No DOPS descobrem que Nádia Zanini era na verdade Ana
que daria lugar em instantes ao sorriso por lembrar da amiga. “E Bursztyn, integrante da ALN com inúmeras operações na militân-
eu não sabia que ela estava lá. A gente se gostava muito e fazia tem- cia. “Me levaram pro Fleury, no quarto andar. Foi uma sensação
po que a gente não se via. Ficamos conversando muito e eu tinha de bem-estar [respira fundo, como estivesse lembrando com alívio
um ponto às onze horas com alguém que eu não sabia quem era, daquele momento], porque aquela equipe sanguinária do Fleury
mas perdi o tempo com a Ana Maria e cheguei atrasada”. não podia tocar em mim. Eu era presa do Exército. Eles se jogavam
Ana passa o tempo andando pelo Centro de São Paulo até che- aos meus pés para eu dar alguma coisinha pra eles, porque tinha
gar o horário do ponto alternativo, duas horas depois. Como preci- sido um escândalo. Falaram que eu era ladra. Na Veja saiu que eu
sa comprar utensílios para viagem, entra na loja de departamentos era terrorista. Os meus pais viram no Jornal Nacional."
Mappin usando uma peruca para não ser reconhecida. Na fila do Na Operação Bandeirantes estão comemorando a captura de
caixa para pagar a compra, os seguranças da loja vêm em sua dire- Ana. Ela é muito torturada e encontra uma figura ambígua: Ho-
ção para lhe informar que o pagamento será realizado no 7º andar. mero César Machado, capitão de Artilharia do Exército. “Um dos
“Aí eu comecei a gelar. Me levaram até o andar e quiseram me líderes era o Major Valdir Coelho e capitão Homero era a ‘sua
revistar. Mostrei o dinheiro e nada adiantou. Eles queriam, por- menina dos olhos de ouro’, porque ele dava aula para os milita-
que queriam me revistar e eu estava com um ponto 38 cano curto res. Era muito inteligente e cheio de contradições. Eu tinha aca-
raspado com 18 cápsulas na bolsa. Como eu ia explicar? E ficamos bado de ser torturada na cadeira do dragão, estava pelada e ele
num deixa; não deixa; e eu tentando impedir aquilo com três se- vinha me cobrir com uma coberta. Ele aguentava umas coisas,
gurança lá. Racionalmente, não tinha nada que levasse o cara a mas outras não. Dizem que esse cara piorou muito com o tempo”.
desconfiar de mim”. Homero encarna o papel de chefe da equipe de interrogatório da
Acuada, ela reage à tentativa de revista quando os seguranças Oban e, como prêmio por suas qualidades de torturador, recebe a
pulam em sua direção. “Acabei atirando e a bala passou de raspão Medalha do Mérito Policial.
em um dos seguranças, Isidoro Zambaldi”. Em seu prontuário, No terceiro dia, encaminham Ana para o Hospital Geral Mi-
Ana é acusada de tentativa de homicídio, além de ser conside- litar devido às fortes torturas que vem sofrendo. Seu pai foi a São
rada terrorista e subversiva. Nádia Zanini – seu nome falso na Paulo e começou a mostrar as radiografias dos rins da filha para os
identidade – é encaminhada para o 1º Distrito, perto do Viaduto militares. O médico, após fazer os exames nela, faz uma avaliação

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grotesca antes de mandá-la de volta à Oban: outubro de 1970. Ana, diferente da amiga, não ficou em uma cela
no DOI-CODI, e sim em um quarto, sozinha, ao lado de dois cô-
- Aqui nós temos dois critérios: um é o senso de dever como médico. modos usados para a tortura. Para buscar informações dos compa-
O outro é o de amor pela pátria. Pelo que você fez, você não merece nheiros, retira da parede o interruptor e acaba ouvindo também os
a primeira consideração. Essa moça tem que beber líquido e não pode horrores da tortura. Assim, descobre o nome de um colega de luta
apanhar nos rins, o resto é com vocês! que havia sido aberto para os militares e logo dá um jeito de passar
a informação para fora dos muros da repressão. “Na época, minha
Os militares seguem a sádica recomendação do médico e fazem mãe ficava no pátio gritando: ‘quero ver a minha filha viva!’. E ela
um litro de chá na noite em que Ana, conta-nos com esforço, por trocava as minhas roupas sujas por lavadas. Então eu coloquei na
causa da emoção, foi mais torturada com a presença até de integran- bainha da roupa, pedindo para avisar ele que o nome tava aberto.
tes do Corpo de Bombeiros. O meu pai fez isso e ele foi para o Chile”.
“Na Oban eles sempre avisavam que amanhã iria piorar e sem- No DOI-CODI fica sozinha por um mês, sem poder contar
pre piorava. Era meio teatrinho, mas uma personalidade psicopata com o companheirismo e a solidariedade dos colegas de militân-
se desenvolve bem nessa época, fica feliz”, fala aos risos depois de cia, conhecidos ou não. “Era de manhã, de tarde e de noite só
se recompor (há uma grande variante emocional das entrevistadas torturador. Quando você tá com um companheiro, muda tudo. A
durante os seus depoimentos). “A gente ouvia muito o outro ser presença, poder lamber as feridas dos outros. Temos em quem nos
torturado, humilhado. A tortura é para te destruir como pessoa, apoiar, dividir um pedaço de comida horroroso. Pequenos gestos
que você não é mais ninguém. Ela não é apenas para tirar a infor- que eram maravilhosos.”
mação.” Jessie pôde presenciar no mesmo DOI-CODI ao ficar presa per-
Jessie prontamente complementa a amiga, que naquela época to de dois homens em um episódio o qual a marcou muito. “Um
ainda não conhece. O destino as uniria em um momento muito era jornalista e eu nunca via a sua cara. Ele foi convocado e se
importante da vida de uma delas. “A tortura não é dirigida ape- apresentou ao DOI-CODI e, quando cheguei, dizia que estava lá
nas para aquela pessoa, e sim para a sociedade. Para amedrontar, há 40 dias e que nunca tinha sido interrogado. Ao lado dele tinha
porque eles sabiam que éramos presos e torturados. Isso gerava um um jovem, estudante de medicina da UFRJ, especialista em psi-
medo. A tortura nunca é só clandestina. Ela tem um lado clandes- quiatria, Sergio Dario Seibel que era uma pessoa extraordinária.
tino e outro público, porque se não, não funciona”. Nunca vi o rosto dele também.”
Depois de dez dias presa na Oban, por causa dos processos no Rio Ana então interrompe Jessie para dizer que conhecia Sergio des-
de Janeiro, Ana fica no DOI-CODI carioca, passando por uma simu- de jovem, pois seus pais eram amigos. “Cheguei a encontrar ele em
lação de fuzilamento no caminho feita pela celerada equipe do Fleury. um camburão com o braço quebrado e fingimos nesse dia que não
nos conhecíamos. Ele ficará feliz de saber que somos amigas.” Ana,
Companheirismo no DOI-CODI sempre mexendo no seu celular, o dirige em direção à Jessie.

Agora ambas estão presas no Rio de Janeiro no mesmo momen- - Ó ele aqui. Está velhinho. Será que a gente está assim também?
to, mas em locais diferentes. Jessie retorna ao CISA, onde fica até

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- Claro, Ana! Jane fica sabendo do diagnóstico e entra com uma ação com o juiz
auditor, o mesmo que a julgou pelo sequestro do avião. No primeiro
As duas começam a planejar, por alto, de visitar Sergio, em São contato com ele, a recém-presa faz um pedido e recebe uma respos-
Paulo. Todavia, logo a ideia se perde e Jessie retoma a história: ta inusitada. “Quando cheguei à auditoria, pedi água e o juiz disse:
“O jornalista chorava por causa da mãe, queria dar logo o seu ‘terrorista não tem sede’”. Contudo, dessa vez o juiz não lhe nega o
depoimento e sair de lá. Toda manhã o comandante Adyr Fiúza pedido, e Jessie vai para o Instituto Estadual de Diabetes e Endocri-
de Castro passava de cela em cela e ele dizia: ‘calma que o senhor nologia.
será ouvido’. E o médico [Sergio] passava o tempo todo tentando “Cheguei a ir para o hospital e entro na sala do diretor, Dr.
passar tranquilidade a ele e outros presos. Quando eu saí os dois Hélion Povoa Filho, que me fala que eu não tinha nada, porque
ainda ficaram lá, e eu ficava pensando: ‘o que será que aconteceu eu não estaria conseguindo andar. Fizeram os exames em mim.
com eles?’ Eu sabia o motivo de estar ali e o Sergio também sabia, Ele me chamou sozinha para me dar o laudo antes do juiz audi-
mas o outro não! Este cara deve ter saído com muito mais sequela tor, diagnosticando ter ovário policístico, quando o seu ovário tem
do que eu, mesmo não sendo torturado fisicamente”. uma membrana que não permite que você ovule e assim engravi-
Jessie abaixa o olhar com a fisionomia bastante reflexiva. “Na de.”
única vez que eu falei com o Sergio, por telefone, eu perguntei o Ana também não está bem. Após mais duas semanas no DOPS,
que tinha acontecido com o rapaz. Ele não sabia também.” Ana no mês de junho de 1971, faz a primeira cirurgia e, um ano depois,
complementa que milhares de pessoas são presas e depois soltas a segunda devido a uma nefrite (infecção renal) que já enfrentava,
sem processo. “Vocês acham que a minha irmã de 14 anos, que mas estava controlada até passar pelas sessões de tortura. “Como
passou uma noite sendo torturada no DOI-CODI, recebeu pro- eu levei muita porrada, uma parte do rim necrosou e eu tive que
cesso?” tirar. Eles disseram que iriam me levar para fazer todo mês um
Quando Ana Miranda retorna do Rio para a Oban, onde fica controle, porque houve a tentativa de fazer uma cirurgia mais con-
por mais um mês, Brilhante Ustra já havia sido incorporado como servadora e deixaram uns pedaços. Comecei a piorar, mas nunca
agente daquele centro. “Voltei para a Oban por um mês, fui para me levaram para o controle. Quando eu entrei em emergência,
o DOPS e cheguei ao presídio Tiradentes. É como eles diziam: ‘A perguntaram quando eu ia sair, se iria ser rápido e eu disse que não.
Oban era o inferno; DOPS, o purgatório; e o Tiradentes, o paraí- Nem tinha sido julgada ainda. Aí me internaram no Hospital das
so’”. Clinicas onde fui super bem tratada. Na entrada tinham dois cam-
burões e sempre tinha alguém dentro do quarto para me vigiar. Fiz
Problemas de saúde e o convívio no “paraíso” a cirurgia para tirar o rim”.
Após isso, Ana é encaminhada pela segunda vez para o “paraíso”,
Em 1971, Ana em São Paulo e Jessie no Rio de Janeiro passam o presídio Tiradentes. Sua primeira passagem, no final de 1970,
por problemas de saúde. Jessie, já no presídio Talavera Bruce, em dura apenas duas semanas. Na chamada “Torre das Donzelas”, lo-
Bangu, fica muito doente. Descobrem um tumor suprarrenal, con- cal onde ficam as presas políticas, Ana passa frio, apenas físico,
tudo omitem a informação, e a prisioneira fica sem o tratamento pois encontra o calor afetivo ao conviver com mais de 60 colegas.
adequado. Por causa de uma assistente social, a família de Jessie “É outra coisa! A gente tinha uma cela pequena que virou a nossa

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Jessie Jane escuta Ana Bursztyn-miran-


da com atenção; embaixo, o presidente
chileno Salvador Allende espia.

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cozinha. A gente se revezava lá. Uma dupla lava e outra cozinhava. mens presos. Outro problema no período é a falta de informação
Algumas a comida era boa e de outras era muito ruim. A Dilma do lado de fora dos presídios. Com o tempo, a Torre das Donzelas
Rousseff e a Cida Costa faziam uma péssima comida. Quando passou de 60 para 13 presas.
vinha o dia delas a gente sabia que iria vir uma gororoba horroro-
sa”, diz Ana, sorridente dando mais detalhes da convivência com a Ficamos sabendo da Guerrilha do Araguaia depois de
atual presidente do Brasil. “A Dilma era uma companheira como muitos meses em uma matéria do Estadão. Bem depois co-
várias outras. Era muito inteligente e irônica. Colocava apelido em meçaram a chegar os sobreviventes, como a Rioko Kayano,
todo mundo. Ela me chamava de Ajax, o furacão branco.” mulher do José Genoino. Eu não cheguei a ficar com essas
Se Dilma deixa a desejar na culinária, sobressai-se ao organi- pessoas, porque fui transferida para o Carandiru, onde
zar as festas de ano novo com a ministra Eleonora Menicucci e fiquei por dois anos, com a Guiomar. Ficamos com mais
a ensinar economia às companheiras de coletivo, além da solida- 80 presas comuns e três presas políticas. Lá eu aprendi a
riedade, comum às presas da torre. Ana lembra com certo sau- cozinhar alguma coisa, além de assistir a TV, que era con-
dosismo daqueles tempos, menos difíceis do que os de outrora. trolada pelas freiras. Eu tinha horror ao Jornal Nacional!
“Nos organizávamos para dar aula. Tinha um pátio pequeno Eles faziam matérias falsas sobre os nossos companheiros”.
onde a gente lavava a roupa. Quando estávamos atacadas, limpá-
vamos a torre de cima a baixo. Eu recebia visitas mais espaçadas, Em Bangu, diz Jessie, só ficam sabendo do Araguaia com a che-
assim como a Dilma. Nossas famílias eram de fora. Dia da visita gada de Norma em 1975.
era animadíssimo. A mãe de uma trazia empadão, e a gente co-
mia cada uma um pedaço. Ficávamos fofocando até tarde sobre Bangu e seu inferno particular
as nossas vidas.”
Esse espírito de ajuda não se limita apenas à torre. A dentista Quando Jessie chega a Bangu, há um anexo com duas alas. Na
Marlene Soccas, vítima dos apelidos de Dilma – chamada de Chi- direita, ficam as presas com problemas psicológicos, porque não há
nesa por causa da admiração pelo líder comunista Mao Tsé-tung manicômio lá. É um corredor de 40 celas para onde a mandam.
– decide fazer atendimentos aos presos comuns para obter como “Fui passando pelo corredor, e elas foram ficando em silêncio. Ti-
contrapartida a possibilidade de fazer os mesmos procedimentos raram a minha roupa e me mandaram entrar. Elas começaram
odontológicos nos presos políticos. Como Ana trabalha no setor berrar: ‘seu lugar não é aqui, não. As subversivas estão do outro
de saúde, pois cursou os primeiros anos de Farmácia, foi chama- lado’”. Essas presas, que sofriam constantes espancamentos dos
da para ser a auxiliar nessa empreitada. “Arranquei dente, fazia policiais demonstram, uma grande compaixão com Jessie, que se
anestesia, massinha. E com isso a gente tinha mais contato com os emociona ao contar essa história.
meninos, que era primordial para termos informações”.
Jessie, como uma boa professora, explica que em São Paulo, o Começaram a me instruir: ‘você não sai daí. Fica quie-
Esquadrão da Morte comandado pelo delegado Sergio Fleury “ti- tinha encostada na parede e quando trouxerem a comida,
rava presos políticos de dentro do Tiradentes para matá-los”. não pegue, porque vêm os ratos e eles podem te morder. De-
Ana conta da greve de fome feminina para tentar ajudar os ho- pois da meia-noite, todo mundo vai começar a gritar para

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que as suas colegas ouçam que tem uma subversiva aqui. destaca-se esse de Paz: “Demos um tiro de fuzil para fazê
Seu lugar não é aqui!’ E assim fizeram. Foi um bonito ges- -lo sair do automóvel. Pegou de raspão na cabeça. Mesmo
to. Mas antes da meia-noite me tiraram para o outro lado ferido, ele tentou correr. Dois guerrilheiros saíram atrás
onde eu fiquei em uma cela individual por um ano. dele atirando pelas costas. Ele caiu.” Faltava o tiro de
misericórdia, à queima-roupa. Paz disparou. Boilesen, o
As presas tomam banho de sol uma de cada vez. Em uma tarde, empresário que gostava de pessoalmente descer aos porões
Jessie anda pelo pátio e uma garota chamada Lucas, que era tu- para ouvir as vítimas gritarem, estava justiçado. Morto.
berculosa, fala: “Ô subversiva, eu vou me matar!” “Ela havia sido
espancada e começou a distribuir os seus bens entre as presas. Na Após esse esclarecimento histórico, retornamos aos depoimen-
manhã seguinte ela se enforcou”. tos de Ana e Jessie sobre os tempos de prisão:
Após ficar nessas celas solitárias, nas quais Estrela (a mesma do
casamento de Ana) fica, Jessie é transferida para a área na qual ficam - A gente pensava no coletivo com a rigidez que precisava na épo-
as outras presas políticas, havendo certa liberdade dependendo de ca. Éramos prisioneiros de guerra e usávamos as leis internacionais
como está o momento político no país, como explicam Jessie e Ana: da ONU. Achávamos isso! Essa era a nossa postura. Naquela época
algumas coisas eram necessárias. A gente não podia fumar maconha
- O clima da prisão era um reflexo da sociedade. As celas ficavam naquele contexto. Isso iria ser desmoralização do cão. A sociedade
abertas, por exemplo. No Médici a gente não tinha acesso a nada. De- de hoje é muito diferente daquela época. Hoje a homossexualidade é
pois isso foi mudando, foram chegando rádios, televisão – conta Jessie. melhor aceita. Só que se uma companheira fosse pega com a outra na
época isso daria um estardalhaço.
- Quando o Boilisen foi justiçado, suspenderam as visitas, davam
batidas para pegar os rádios, televisão. - Eles usavam tudo para nos desmoralizar perante a sociedade.

O empresário “justiçado” é Henning Albert Boilesen, dinamar- - Nós éramos as putas! Era assim que nos pintavam. A nossa so-
quês e presidente da Ultragás. O sujeito, colaborador financeiro de ciedade tinha valores morais muito conservadores – exalta-se Ana,
carteirinha da Oban, é tão fanático pelo regime que manda trazer batendo na perna, para depois lembrar de como foi retratada na
da Europa uma novidade que fica conhecida como “pianola Boile- imprensa da época..
sen”: simplesmente uma máquina de dar choques. Em matéria da
revista IstoÉ, sabemos mais sobre o figurão. - Primeira coisa que o meu pai leu quando eu fui presa é que eu era
amante do Lamarca e do Bacuri.
Financiar, no caso, não é eufemismo, pois Boilesen man-
dou mesmo vir do Exterior uma perversa engenhoca que - Nós somos a geração de mulheres que pegou em armas. Isso em um
dava choques elétricos nos prisioneiros subindo automa- país machista. Eram meninas estudantes de classe média, mulheres
ticamente a intensidade. Entre os depoimentos que estão muitas vezes lindas, pegando em armas. Imagina como foi.
no documentário Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski,

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Jessie, então, em um raro momento, fala de Inês de maneira porque eles fizeram um anexo no complexo do Frei Caneca só para
espontânea. “Eu lembro quando chegou a televisão. Foi um acon- presos políticos. Até então éramos considerados presos comuns,
tecimento. A Inês ficava o dia inteiro assistindo e fazia tapete. A terroristas. No Brasil não tinha preso político.”
Inês tinha uma família grande, né? E a sua família levava bastante Na mudança de governo, a Secretaria de Justiça retorna ao co-
coisa pra Inês. Então ela tinha bastante coisa no seu cubículo. Os mando do sistema penitenciário. Havia uma reivindicação na épo-
guardas chamavam de Rei da Voz, uma espécie de Casas Bahia ca para que casais presos pudessem se encontrar, como Jessie e
da época. Eu me lembro da Inês, ela gostava de carnaval, e nessa Colombo. O novo superintendente, um jurista liberal, foi visitar os
época ficava vendo o desfile comendo pipoca”. detentos nos presídios. “Quando nos encontramos ele disse: ‘se o
No apartamento em Botafogo, a porta se abre, rompendo a ten- juiz auditor liberar, você vai ter o encontro com o seu marido’”. O
são do clima pesado daquele momento. É o marido de Ana com a advogado do casal entra com uma ação junto ao juiz auditor, que
surpresa prometida horas antes: a netinha deles, Clara, que estava a concede a visita, de maneira inesperada.
quatro dias de completar um mês. Com seus olhos grandes e azuis,
todos na sala se derretem pelo bebê, principalmente Jessie, pois não a O juiz era uma figura contraditória, porque com o
conhecia. Liga para o marido Colombo e conta a novidade fazendo tempo ele foi me concedendo esse tipo de beneficio. Na vés-
inveja ao companheiro com quem se casara em 1973. “Eu tive que me pera da reforma da lei de segurança [Nacional], que foi
casar para ter visita. Fiquei muito tempo sem. E aí as famílias levavam pela qual eu fui solta, ele entrou em contato com a minha
muitas coisas, queijo. O pai da Abgail, nem sei como conseguiu, inje- tia, pedindo para entrarmos com um pedido de soltura,
tava bebida na lata da Lanjal. Então todo o fim de semana ele levava porque ele queria que eu fosse a primeira a ser liberada. Aí
pra gente. E as meninas iam jogar baralho. Eu nunca gostei de jogo. ele contou a história que ele tinha um sobrinho que fazia
Entravam numa cela e começavam a jogar e beber”. Não via Colombo parte da ALN de São Paulo e que havia sido assassinado.
desde 1971, quando formalizam a união que resulta numa improvável A família desse sobrinho tinha rompido com ele. Ele que-
gravidez. ria me encontrar quando fosse solta, mas nunca fiz isso.

A epopeia do nascimento de Leta Advogados que não são associados aos órgãos de repressão
assumem os presídios. Antes, a diretora do presídio era “barra
Jessie gosta de defender a tese de que o nascimento de Leta, pesada”: quando dirigia o Instituto de Educação suspende Ana
sua filha, é a crônica da mudança da ditadura. Durante o governo Miranda e Lúcia Murat.
Médici, o sistema penitenciário do Rio de Janeiro, tutelado pela Em Bangu vai ser diretor “um sujeito que era uma boa pessoa”,
Secretária da Justiça, foi passado para a Secretária de Segurança. cujo nome não foi possível achar. “Hoje eu percebo que ele era um
Quando o general Ernesto Geisel assume a presidência no ano de sujeito muito humano, procurando melhorar as nossas condições.
1975, os homens fazem uma greve de fome para serem transferidos Ele foi até investigado pelo DOPS por deixar a gente ter acesso
de Ilha Grande, Instituto Penal Cândido Mendes, para o conti- ao telefone. Mas o víamos como nosso inimigo. Fizemos greve de
nente, conseguindo êxito nessa pequena luta por direitos. “Foi a fome e derrubamos ele. Mas foi [ele] que me disse que eu tava
primeira vez que o regime reconheceu que havia presos políticos, grávida. ‘Você tá grávida passando mal desse jeito. É gravidez!’ Ele

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Prontuário de Ana Bursztyn-miranda.

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comprou a minha gravidez! Me deu uma cela para fazer um quarto burão algemada. Me deixaram sozinha numa cela nesse
de criança. Foi muito interessante”. hospital. Sem eu saber, entrei em trabalho de parto um
“Eu não podia ter filho no sistema, e os hospitais militares não dia antes da visita ao meu marido no Frei Caneca. Fui
me aceitaram. Então o juiz me autorizou a fazer o parto em um para lá sem conseguir andar direito. A minha sogra tava
hospital privado”, conta Jessie. O médico responsável pelo parto de lá e disse que eu estava em trabalho de parto. Fui levada
Leta é o mesmo que traz Ana à luz e, mais tarde, seus filhos. com a escolta da PM para o Hospital São Sebastião. Che-
Neste período, Ana já havia sido solta em São Paulo e voltado ao gando lá, estavam os companheiros que já haviam sido
Rio de Janeiro para retomar sua vida. Contudo, isso não é tarefa fá- soltos, como o Bocão. Ele estava usando uma capanga e os
cil. “A universidade tinha perdido o meu processo. Então nenhuma PMs acharam que ele era da polícia, e o Bocão começou
disciplina que eu tinha feito contava. A cada 15 dias eu tinha que as- a comandar a escolta. Me levaram para o quarto, todo
sinar a condicional.” É nesta ocasião que as duas mulheres sentadas inspecionado. O Dr. Jeferson tentou induzir o parto, mas
conosco naquela ensolarada tarde carioca se conhecem. eu não conseguia ter a dilatação. De noite, lá pela meia-
Abgail fica presa com Jessie em Bangu e leva Ana, funcioná- noite, me levaram para o centro cirúrgico. No elevador, os
ria do Laboratório da Beneficência Portuguesa, para fazer o único dois PMs e o Bocão estavam discutindo qual seria o nome
exame pré-natal da então grávida e presa política, Jessie Jane, cau- e se seria homem ou mulher. Eles, policiais, queriam en-
sando espanto em Ana quase 40 anos depois do encontro: trar na sala, mas o Dr. Jeferson não deixou e eles ficaram
na porta com as metralhadoras.
- Eles não tinham feito nenhum exame?
Quando tive a minha filha, eu fui para o quarto. No dia
- Não. seguinte, de tarde, tinha um telefone na minha cabeceira e
eu falei com o meus pais na Suécia. Fiquei super emocio-
- Que absurdo! - Ana bate com a mão na coxa enquanto está nada e dormi. Quando acordei, me deparei com dois PMs
com a neta no colo, que ouve tudo com atenção, com os olhos bem com metralhadoras no quarto. Eu entrei em pânico e liguei
abertos. para a minha advogada, a Abga [Abgail], que consegue
tirar eles. Aí ficou tensa a situação. À noite um grupo anti-
- A Ana foi lá e fez os exames. Geisel sequestrou o Dom Hipólito, bispo de Nova Iguaçu.
Deixaram ele nu e fizeram um monte de coisa. Cortaram
- Fui, colhi o material que nem era a minha fun- o meu telefone e não traziam a minha filha para mamar, e
ção, porque a gente não colhe – recorda-se aos risos Ana. eles me ameaçando. Diziam que iam jogar bomba no hospi-
tal. Chegaram até a quebrar o escritório do Dr. Jeferson. O
Jessie toma fôlego e nos conta a epopeia do nascimento de Leta: médico entrou no quarto e falou: ‘você vai sair daqui agora!
Não fala nada que eu vou fazer o curativo’.
Quando faltavam 40 dias para eu ter a minha filha,
fui levada ao hospital penitenciário no centro, de cam- A assistente social do presídio me aprontou e começamos

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a ir embora com as ‘madames’ me xingando de terrorista. da cidade. Ele queria fazer um boletim diocesano, e eu iria montar
'Você colocou as nossas vidas em risco!' E a Leta ficou lá até com ele isso. Fiquei até o final de 1980. Fomos muitos rejeitados
de noite e a Iná, com dificuldade, tira ela do hospital e a pelos padres. Foi horrível. Chamavam a gente de ‘o casal terroris-
leva pra mim em Bangu. ta’. Voltamos pro Rio e eu trabalhei em uma revista [chamada]
Cadernos do Terceiro Mundo. Lá eu consegui estudar, fiz graduação
Eu fiquei três meses com a guarda da minha filha e de- e hoje trabalho dando aula de História da UFRJ.”
pois ela ficou com a minha sogra, Iná Meirelles de Souza. Jessie trabalha na Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer da
Ela tinha, bom, essa é a parte mais difícil pra mim. Na Prefeitura de Volta Redonda, no período de 1989. Também atua
verdade, de todas as coisas que eu já vivi, a mais dila- como diretora do Departamento de Serviços Gerais da Secretaria
cerante foi isso: entregar a minha filha. [Jessie pausa e de Administração da Prefeitura de Vitória – Espírito Santo, como
chora um pouco, perdendo o fôlego para depois seguir responsável pela montagem inicial do Arquivo Público daquela
com a história]. Mas eu podia ter ficado com ela, porque cidade. Retorna à Cidade Maravilhosa para ser assessora da Se-
havia uma creche no presídio onde ficavam os filhos das cretaria Estadual do Trabalho do Estado do Rio do Janeiro e, por
presas comuns. As crianças ficavam até os sete anos lá, mas fim, ainda recebe o cargo de diretora-geral do Arquivo Público do
eu jamais deixaria a minha filha lá. Ela foi criada pela Estado do Rio de Janeiro.
minha sogra até os dois anos e pouco. Mesmo se radicando no Estado do Rio de Janeiro, Jessie sempre
pensou em viver em São Paulo. “Acabei decidindo morar aqui no Rio.
Jessie fica muito emocionada. Enquanto Ana conversa com a Essa cidade é linda!” Ana, não podendo perder a oportunidade de
nora e cuida do bebê em um dos quartos, pausamos ali a entrevis- brincar com a amiga, alfineta: “você mora do outro lado da ponte,
ta para o almoço, sentindo que se não fosse pela falta de tempo, em Niterói. Ali não é Rio de Janeiro”. Jessie fecha o semblante com a
seriam inesgotáveis as histórias dessas duas mulheres. Momentos brincadeira antes de começar a rir para rebater a amiga. "Faça-me o
depois de comermos – após provar a iguaria carioca do cuscuz favor, Ana. Sem bairrismo."
doce – e antes de irmos embora, com a noite caindo no Rio de Ana também passou por problemas com a aceitação da socieda-
Janeiro, as duas relatam a vida após saírem da prisão. de e com integrantes da Igreja. Ela fez um concurso para o depar-
tamento de Saúde do Estado, passando em terceiro lugar.
Pós-prisão e os resquícios da ditadura
Eles pediam atestados de bons antecedentes. Os meus
Depois da reforma da Lei de Segurança Nacional, Jessie é solta, eram maus. E um atestado ideológico pedindo uma boa
enquanto Inês Etienne fica sozinha em Bangu. Quando chega a ideologia, porque a minha não era boa para eles. O pro-
Lei da Anistia, finalmente a sobrevivente da Casa da Morte de blema eram os bons antecedentes, porque antecedentes to-
Petrópolis deixa a prisão. Jessie, nesta época, está no interior do dos temos. Mas era complicado.
Rio de Janeiro.
“Saí do presídio quase que direto para Volta Redonda para tra- Passei no concurso em terceiro lugar, saiu no Diário
balhar com o Dom Waldir Calheiros de Novaes, que era o bispo Oficial. Aí eu fui aonde? Fui procurar o Dom Eugênio

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Salles, que quer mudar a sua biografia. Queria saber como Em 1985, Ana Miranda vai morar fora do Brasil com seu mari-
eu fazia para conseguir os atestados. Primeiro o que me do, precisando desse atestado “de boa índole” para conseguir o vis-
impressionou foi a roupa dele: sapato e roupas impecáveis! to para entrar na Bélgica. “Mas nunca me deram nada. Ninguém
tava interessado na Bélgica se eu tinha sido presa política. Eles
- Um príncipe da Igreja! - complementa Jessie. queriam saber se a Interpol não estava me procurando. Mas nunca
me deram atestado nenhum. Eu entrei como turista e deu muitos
Então, o "príncipe" começa um interrogatório que lembra os problemas para mim e as crianças. Isso em 1985. Teoricamente a
tempos de auditoria. ditadura tinha acabado”, conta estarrecida.
Quando já estávamos nos preparando para ir embora, depois de
- Você faria as mesmas coisas que fez anteriormente? (levei um sus- ficarmos horas conversando com as duas, Jessie se recorda de uma
to, porque isso era o que me perguntavam na auditoria). situação inusitada que viveu no início dos anos 80.
Jana, uma das presas colegas de Jessie em Bangu, liga para lhe
- Bom, as circunstâncias mudam... contar que uma outra prisioneira, comum, mas que circulava na
ala das presas políticas e costumava ajudar Jessie com as fraldas,
- Eu quero saber se você se arrepende e se faria tudo aquilo de novo? está passando apuros na cadeia. "Ao chegar lá, perguntaram o que
eu era dela e respondi que fui sua patroa, e mandaram eu e o
- Hoje estamos em um outro tempo. Temos que analisar... Ele per- Colombo subirmos para a sala do delegado. O delegado nos disse
guntou pela terceira vez, pegou o telefone e ligou para os caras do que ela era acusada de roubo e perguntou o que a gente era dela",
Terceiro Exército. 'Essa menina não tem jeito não. Continua a ser o lembra Jessie.
que era'. E desligou o telefone.
- Sou a patroa dela.
Ana diz ter trabalhado por um ano com plantões de 24 horas
sem receber nada. Ao final do contrato, dois amigos - seus ad- - E a senhora como é que se chama? Me passa os seus documentos.
vogados Abgail e o marido, que já morreram - convencem-na a
entrar com um processo. - Sou Jessie Jane, tá aqui meus documentos.
“Primeira coisa que fizeram: desapareceram com o cartão de pon-
to. Continuamos e um juiz disse: ‘Tá aqui no diário oficial. Porque Desapareceram todos da sala para depois aparecerem um monte.
ela não vai receber?’ Um promotor começou a ameaçar o juiz. ‘Olha,
você não sabe com quem está lidando. O senhor não está entenden- - Os senhores já estiveram presos?
do onde está se metendo.’” Quinze dias depois chega um papel em
que o juiz se considera incompetente para julgar o caso. “Eu precisa- - Sim, já estivemos.
va do estágio para me formar. Quando foram pegar o meu atestado
falaram: ‘pra gente é como se você nunca tivesse existido’. E nisso eu Eles tinham tirado as nossas fichas e queriam prender dois terroris-
já tinha saído. Era para eu ‘me recuperar para a sociedade.’" tas. E nós começamos a rir. E eles seguiram com aquilo:

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- Vocês têm mandado de prisão.

- Já cumprimos a pena e somos cidadãos. Estamos aqui para saber


informação do que houve com essa senhora.

- Os senhores esperem aqui.

Ficaram mais de seis horas nessa delegacia, conta Jessie. "Aí abri-
ram as portas e disseram que a gente podia sair. O delegado nos
pediu desculpas, que houve um engano. Eles estavam eufóricos
porque acharam que tinham prendido dois terroristas. Pode uma
coisa dessas?"

- Pode. Isso é Brasil!

Não conseguimos conter as gargalhadas, pelo erro tragicômico.

242 Ana e um dos tesouros trazidos das 243


“ descomemorações” do golpe no Chile:
a bandeira do povo mapuche.
Passado ainda presente Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Passado
ainda presente

Sì trapassammo per sozza mistura


de l’ombre e de La pioggia, a passi lenti,
toccando um poco La vita futura;
per ch’ io dissi: “Maestro, esti tormenti
crescerann’ ei dopo La gran sentenza
o fier minori, o saran sì concenti?”

(Inf. VI, Vs. 100-105)

Assim atravessamos a mistura,


sujas de ombras e chuva, a passo lento,
falando sobre a vida que é futura;
pelo que eu disse: “Mestre, esse tormento
será mais leve, mais cruel ou igual
após o irrevogável julgamento?”

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Passado ainda presente Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

O sol brilha do lado de fora da Assembleia Legislativa do Estado tos e desaparecidos políticos, mas à própria sociedade
de São Paulo. Lá dentro, em nosso já conhecido auditório Paulo civil, e ela tá se comportando como um conjunto de pes-
Kobayashi, está prestes a se iniciar a 64ª Audiência da Comissão da quisadores que foi nomeado pela presidente para fazer
Verdade “Rubens Paiva”, que trata da entrega das peças do processo uma série de pesquisas sobre a história do Brasil. Como
movido pelas famílias Teles e Merlino contra o coronel reformado se fosse uma comissão acadêmica, na data ‘x’ apresenta
Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado em segunda instância um relatório final. Por isso mesmo eu queria registrar
como torturador. O jovem advogado das famílias, Aníbal Castro aqui o valor da atual coordenadora, doutora Rosa Ma-
de Souza, porá os blocos de papel nas mãos da Comissão Nacional ria Cardoso, que não participa dessa visão.
da Verdade, ali representada pela advogada Rosa Maria Cardoso.
Em um vídeo bastante denso, conhecemos o jovem jornalista Luiz A Comissão Nacional da Verdade tem seu primeiro revés com
Eduardo da Rocha Merlino, interpretado pelo ator Celso Frateschi. a primeira saída: Gilson Dipp. Em matéria do dia 29 de abril de
Nascido em Santos, Merlino é preso em 15 de julho de 1971 2013, o site da Agência Brasil noticia que Rosa Maria Cardoso
e levado para o DOI-CODI de São Paulo, o terrível prédio da anunciara que o vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça
Rua Tutoia. Torturado por 24 horas no pau de arara e jogado em estava deixando a Comissão Nacional da Verdade. Há sete meses
uma solitária morre, quatro dias depois, por gangrena nas per- licenciado por motivos de saúde, Dipp iria formalizar dali alguns
nas. Integra com sua companheira, Ângela Mendes de Almeida, dias sua saída oficial da CNV à presidente Dilma Rousseff.
o Partido Operário Comunista. Mas não era só o ministro do STJ que estava doente. A Comis-
Ângela, a primeira a falar, parabeniza Rosa Cardoso por esta audi- são Nacional da Verdade, dois meses depois de sua saída, demons-
ência e pelo trabalho realizado, até então, como coordenadora à fren- traria que também padece de seu próprio mal: um forte racha entre
te da CNV. Entretanto, critica veementemente o fato de a audiência seus integrantes, além de uma briga de visões – e, aparentemente,
pública com o coronel Ustra ter-se dado sem que fossem convidados de egos – que estampa matérias de jornais, portais, artigos e outras
vítimas ou parentes de pessoas torturadas por ele e sua equipe duran- exibições públicas. E foi esse racha que levou o ex-Procurador Ge-
te a ditadura. “Inaceitável”, diz. “Só tivemos a presença do vereador ral da República Cláudio Fonteles a deixar a comissão, em 18 de
Gilberto Natalini, porque ele se apresentou lá sem ser convidado. Foi junho de 2013. Em dois de setembro de 2013, Dilma nomeou o
a única voz que se contrapôs ao depoimento do Ustra.” advogado Pedro Dallari para o seu lugar.
Afirmando motivos “absolutamente pessoais”, Fonteles disse
Eu acho inaceitável, e até escandaloso, que na Comissão ao portal G1:
Nacional da Verdade exista uma posição majoritária, pelo
que se lê na imprensa, de que a maneira de trabalhar da Considerei que meu trabalho na Comissão da Verda-
CNV seria a de audiências de torturadores e outras ativi- de cumpriu-se, chegou ao fim. Então, entendi, por razões
dades em sigilo. E só ao final do período seria apresentado absolutamente pessoais, que era o tempo de encerrar. Eu
um relatório. Eu acho essa posição escandalosa, porque fiz um trabalho, sem ter viés pessoal, participei de vários
essa comissão foi nomeada pela presidente da República debates, produzi textos, tem mais de 150 textos escritos por
[e tem que] prestar contas não só aos familiares de mor- mim. Tudo na vida tem seu tempo, acho que foi meu tempo.

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Esse choque de “filosofias de trabalhos” esbarra em duas corren- çou o processo. E o processo tem erros terríveis. O primeiro
tes dentro da CNV, apontadas pelas mulheres com as quais con- é você ver o enunciado, o próprio enunciado da Comissão
versamos: um dos segmentos, representado até então por Cláudio da Verdade. Ali você sente que existe uma aversão contra
Fonteles e Rosa Cardoso, quer mais visibilidade ao que é produzi- as vítimas muito grande. Você vê que eles ouviram o Ustra
do pela comissão, em outras palavras, quer tornar mais transparen- e não me chamaram. Eles tinham que me chamar. Eu
te o processo de coletas de depoimentos, os relatórios gerados, etc.; tenho um processo contra o Ustra que ganhou na primeira
e a segunda corrente, cujo expoente é o diplomata Paulo Sérgio instância e na segunda instância, gente! O processo que
Pinheiro, quer mais sigilo e menos publicidade quanto for possível. ganha na instância segunda lá no Tribunal de Justiça é
O prognóstico de Amelinha e de Rosalina é pessimista. “A Co- Estado, não é aqui na minha casa que todo mundo conde-
missão Nacional está muito mal, de um modo geral. Seja em relação nou o Ustra, não. É lá. Lá no Estado. Então como é que
a gênero, seja em relação a qualquer outra perspectiva. A Comissão uma Comissão Nacional da Verdade, que é do Estado,
Nacional tem que ser urgentemente mudada. Tem que sofrer aí uma não reconhece o próprio Estado na sua apuração dos cri-
intervenção da Dilma pra poder funcionar. Ela tá muito mal. Ali mes da ditadura?
tem dois integrantes que respeitaram a trajetória das vítimas, que
escutam as vítimas, que são a Rosa Cardoso e o Cláudio Fonteles. O tom conciliador proposto pelo enunciado da CNV tam-
O Cláudio Fonteles pediu demissão recentemente. A Rosa Cardoso bém é criticado. “É igual ao da Anistia, que foi feita durante a di-
sozinha? É querer demais de uma pessoa”, exaspera-se Amelinha. tadura. Porque se a gente tá na ditadura, a gente tem que aceitar que
“Ela chegou atrasadíssima, porque todos os outros países [que] co- a Anistia diga assim ‘A Anistia visa a conciliação nacional, ela é um
meçaram a ditadura depois da gente já tinham feito. A Argentina fez perdão para aqueles...’ Agora a gente fazer uma comissão do mesmo
mais de uma. O Chile, o Uruguai, a Guatemala, a África do Sul. O jeito, com um mesmo enunciado. Já tem um lado totalmente julgado.
Brasil não faz. Mas diz assim ‘ah, a política de transição, nós tamos fa- E a gente quer a responsabilização dos culpados. Aí, eu acho que a co-
zendo através da reparação econômica’. A comissão demorou”, pontua missão veio tarde, porque podia ter vindo muito antes. Ela é importan-
Rosalina. tíssima pra nação brasileira, no entanto é muito pequena! Sete pessoas
A pernambucana gesticula enquanto fala, quer enfatizar cada pa- é um absurdo. Tá faltando. Não tá dando conta. Outra coisa que eu
lavra. “Aí o que tivemos que fazer? Nós tivemos que ir, os familiares, acho é que tem que ter transparência. Não pode fazer uma coisa que
principalmente os familiares do Araguaia, tiveram que deixar a luta eles vão dar um relatório no final. No final já acabou. O relatório tem
e ir pra fora do país: pra Guatemala, pra Comissão Interamericana que ser JÁ! Relatório é agora, já. A sociedade tá junto, saber, ser público.
[de Direitos Humanos], dizer: ‘olha, o Brasil não cumpre o tratado Eu acho que tem muito problema a comissão... Ficar com seis pessoas
que ele fez, não cumpre a palavra’. E foi lá o Itamarati e o governo a comissão. Isso é ridículo, né? Eu espero que ela consiga superar esses
brasileiro dizer ‘não, isto é mentira. Cumprimos sim’”. problemas, porque sem superar ela não vai ter êxito”, pondera Rosalina.
Os parentes, diz Rosalina, têm de brigar para mostrar que o O afastamento de um dos principais assessores de Rosa Cardo-
Brasil não realizara a Comissão Nacional da Verdade até então. so, o jornalista Luiz Cláudio Cunha, expôs ainda mais a fratura
do grupo. Cunha publicou artigo no Sul 21, reproduzido no Ob-
Aí foi obrigado a fazer. Sendo obrigado a fazer, come- servatório da Imprensa, no qual criticava um dos membros da co-

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missão, José Carlos Dias, por se pronunciar sobre a recomendação cífico sobre a violência sexual, que vem sendo utilizado
da revisão da Lei da Anistia pela Comissão Nacional da Verdade: em todos os casos em que as vítimas indicam terem sido
submetidas a tais práticas criminosas ou relatem haverem
‘Não cabe à CNV fazer este tipo de recomendação’, dis- testemunhado eventos dessa natureza. A CNV promoveu
se ele, atropelando os limites de um relatório que o país só em conjunto com a Comissão da Verdade Rubens Paiva,
conhecerá no final de 2014. Papel feio para um ex-advo- do Estado de São Paulo a primeira audiência pública te-
gado de 700 presos políticos e ex-ministro da Justiça que mática, dedicada à questão.
não pode esquecer que o Brasil assina lá fora tratados in-
ternacionais contra crimes de lesa-humanidade que não Ustra: torturador
cumpre aqui dentro
Em seguida, Ângela Mendes puxa um papel e anuncia a leitura
De acordo com o jornalista, em outro artigo, no jornal O Glo- de uma carta endereçada à Comissão Nacional da Verdade que
bo, seu desligamento se deveu ao “crime de discordar”. Em novo cobra providências e esclarecimentos pontuais da morte de Luiz
texto faz supostas revelações de bastidores sobre o temperamento Eduardo Merlino. A voz dela falha em diversos momentos. As pa-
de Pinheiro, com “um estilo centralizador, exasperado, irritadiço, lavras engasgadas deixam transbordar a gana por respostas, como
que explode em chiliques e gritos que transbordam as finas paredes se o engasgo fosse muito além da leitura: histórias mal contadas,
do segundo andar do CCBB [Centro Cultural Banco do Brasil], coronéis e torturadores estão atravessados na garganta da família
em Brasília, onde funciona a CNV” com suposta “pretensão de ser Merlino, em uma chaga que não fecha.
uma espécie de tutor sobre os outros comissários”. Isso comprome- Falando na sequência, Amelinha reforça o discurso de Ângela
teria os trabalhos da CNV e seria responsável pela saída de Cláu- e sugere a reconvocação do coronel Ustra. “Eu acho importante
dio Fonteles e pelo isolamento, cada vez maior, de Rosa Cardoso. ressaltar que é o único torturador condenado no Brasil”, reafirma.
Nem tão longe das divisões que acirram os ânimos da Comissão Torturador este que usava codinomes como doutor Tibiriçá e dou-
Nacional da Verdade, está o grupo Ditadura e Gênero, cuja coordena- tor Silva durante o tempo em que comandou o DOI-CODI de São
ção é de responsabilidade de Paulo Sérgio Pinheiro, segundo consta no Paulo, de acordo com Amelinha.
site da CNV. Pinheiro nos indicou Luci Buff, pesquisadora responsá-
vel pelo levantamento de casos envolvendo a violência de gênero. O Judiciário já condenou. O Judiciário é o Estado
A própria Comissão Nacional da Verdade delegou apenas um brasileiro, então a Comissão Nacional da Verdade tem
parágrafo de seu balanço parcial de um ano dos trabalhos, feito em que partir da premissa do que já aconteceu pra desen-
maio de 2013, à violência contra a mulher. Ele ainda é inconclusivo: volver sua investigação após os fatos que já foram cons-
truídos, que já foram confirmados pela Justiça em outro
Essa temática representa também o desafio à CNV de momento. Então nós entendemos que o Ustra deve ser
incorporar, transversalmente, a questão de gênero em seu convocado como condenado e na obrigação de esclarecer
Relatório Final. Para esse fim, foi realizada oficina com todos esses crimes pelos quais ele foi condenado.
especialistas, bem como desenvolvido questionário espe-

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Ainda de acordo com o que nos conta, Amelinha diz que a Co- ais da guerra contrarrevolucionária, assumindo o discurso
missão Nacional da Verdade “não pode ignorar que tem várias conspiratório norte-americano, que acusava o comunismo
iniciativas buscando esclarecer os fatos e crimes da ditadura há soviético, e depois o cubano (que a rigor não foi comunismo),
muitos e muitos anos. Ela não tá começando do zero. Porque ape- de ser responsável por um programa de destruição de signifi-
sar do Estado não ter tomado a iniciativa de criar uma Comissão cativas conquistas sociais: a civilização cristã, a democracia
Nacional da Verdade, ou Estadual, muitas iniciativas aconteceram ocidental, o exercício das liberdades construídas no âmbito
pra esclarecer esses fatos. Inclusive do próprio Estado. O único do Estado de Direito e os valores familiares tradicionais.
processo que condena o Ustra na primeira e segunda instância é
o meu. É uma hostilidade às vitimas, uma incapacidade de escu- Ampliando o conceito de comunismo, Ustra hipostasiou
tar as vítimas que compromete todo o trabalho de construção da na figura do inimigo interno, ou seja, no que, a seu juí-
verdade”. zo, aliou-se a ideologias exógenas e subversivas, o alvo do
Última a falar, a advogada Rosa Cardoso “recolhe” as críticas combate a ser travado. Ustra identificaria, então, o ini-
feitas ao trabalho da Comissão Nacional da Verdade como “intei- migo interno nos integrantes das organizações armadas de
ramente pertinentes e procedentes” e diz que a forma da audiência esquerda, nos membros de grupos desarmados da oposição,
de Ustra é “fruto de inexperiência e falta de clareza”. Ela reforça nos setores progressistas da Igreja, nos órgãos de classe, nos
o papel dos familiares nos trabalhos desenvolvidos nesse terreno, trabalhadores, nos estudantes, nos suspeitos e nos que po-
pois sem ele há muitos “equívocos”. O “fracasso” da audiência cul- deriam ser considerados suspeitos.
mina com a saída de Pedro Pontual, que a organizou.
Rosa Cardoso lê um texto preparado para a ocasião em que re- Arauto desta visão totalitária, sob o pretexto preservar
sume a figura de Brilhante Ustra e do trabalho que tem sido feito a segurança e a ordem, Ustra opor-se-á e combaterá o pró-
para reconhecê-lo com torturador condenado pela Justiça. prio sistema democrático, o Estado de Direito, as liberda-
des públicas, os direitos humanos. Na implementação da
A respeito do Comandante Ustra, não é possível dizer, guerra interna que travou, tornar-se-á o grande líder e o
precisamente, quando abandonou os princípios básicos da grande símbolo do Terror de Estado praticado no Brasil.
moralidade humana e passou a comportar-se como um
agente robotizado dos objetivos e práticas da Doutrina de Consagrar-se-ia, por fim, como o inquestionável maes-
Segurança Nacional. tro da desfiguração e da destruição humana, processada no
DOI-CODI e onde este comando estendeu os seus tentáculos.
Alinhava-se essa doutrina a posturas assumidas pelo
império norte-americano durante a Guerra Fria, funda- Quase 50 anos depois de se ter imposto a ditadura, com a
mentando-se em estratégias designadas como contrarrevo- qual ele se confunde, em maio de 2013, depondo na Comis-
lucionárias ou contrainsurgentes. são Nacional da Verdade, em carta/discurso feita para os seus
pais, Ustra defende anacronicamente os ideais da Guerra
Nos anos 60, o Comandante Ustra incorporou os ide- Fria. Insisto: Ustra, macabro herói tropical da Guerra Fria

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continua em 2013 a defendê-la. Afirma, então: ção no Brasil; do outro, atua fortemente no Congresso, na figura
da Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça, dentre ou-
- Sim, nós atuávamos para preservar a democracia e contra o comu- tras causas, pela reinterpretação da Lei da Anistia por meio de um
nismo. Cumpri a minha missão. Não é o Cel. Carlos Alberto Brilhan- Projeto de Lei que tramita na Casa. Uma lei reinterpretada garante
te Ustra que se encontra aqui, é o Exército Brasileiro. É o Exército que “que os benefícios dela não se estendam aos responsáveis por esses
recebeu a ordem de combater o terrorista. crimes, mas que a Anistia se restrinja apenas às vitimas das viola-
ções de direitos humanos”.
E continuando a exercitar a retórica da falsificação dos Como conquista recente, Erundina se envolve na sessão solene
fatos, própria do Terror de Estado, prossegue: que devolveu, ainda que simbolicamente, os mandatos a deputados
cassados pela ditadura.
- Agi com a consciência tranquila. Nunca ocultei cadáver, não co- E lá está ela, vinda da capital federal para a audiência. Senta-se
meti assassinato, tortura e sequestro. Nenhuma tortura foi cometida na primeira fila, ao lado de Amelinha. Depois, chamada à mesa
dentro das instalações do órgão de repressão do governo militar. pelo deputado Adriano Diogo, posiciona-se ao lado de Rosa Car-
doso. Fez um discurso forte, onde reafirma seu comprometimento
Hoje, entretanto, as famílias Teles e Merlino oferecem com as causas difíceis às quais se dedica.
à Comissão Nacional da Verdade e à sociedade brasileira Com sua voz grossa, firme, marcada pelo sotaque paraibano que
as provas de que Ustra sequestrou, torturou e assassinou não a abandona por completo, pede para que esperemos. “Peraí, mer-
como mandante ou em forma direta. mão. Vou falar com a tevê ali, rapidinho.” Seus modos ágeis ocultam
as quase oito décadas de vida. Num piscar de olhos, está de volta.
Quem o diz e o condena é o Poder Judiciário Brasileiro.
Nós temos que ter um foco nessa busca da verdade
Visivelmente emocionado, o deputado Adriano Diogo encerra a histórica e no resgate da memória, que são os casos das
sessão: “hoje demos mais um passo importante aqui”. crianças que foram sequestradas e das mulheres que, mais
diretamente com a sensibilidade que em geral nós temos,
Caleidoscópio opinativo sofrem mais e ainda têm muita mágoa, muita dor por
conta da tortura e das violações a que foram submetidas.
Enquanto aguardamos Rosa Cardoso, imediatamente cercada Então temos que ouvir todas as vítimas. E mais do que
por repórteres e espectadores da audiência pública, conversamos ouvir, registrar a responsabilidade dos que são direta ou
com a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP). indiretamente autores desses crimes, que eles sejam julga-
Com 79 anos, a paraibana de Uiraúna radicada em São Pau- dos e sejam devidamente punidos porque é o que se espera
lo não tem medo de mexer em vespeiros. De um lado, coordena da reparação de um período, de um longo período, de 21
a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito a anos de ditadura. Depois de 40 anos se está buscando as
Comunicação com Participação Popular (FRENTECOM), cujos revelações desses fatos. É preciso que se chegue à Justiça, e
desdobramentos vão atingir os impérios familiares da comunica- não apenas à reconciliação com tá previsto na lei que cria

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a Comissão Nacional da Verdade. e expansiva. É a tortura mais a humilhação, mais a de-


gradação feita aproveitando a cultura que existe e a dife-
A multidão que envolve Rosa Cardoso se dispersa. Aproxima- renciação que existe de gêneros para duplicar, é como uma
mo-nos. “Vocês não querem puxar umas cadeiras?” E assim fize- dupla jornada, entendeu? É importante que as comissões
mos. Pegamos duas cadeiras que ali estavam, atrás da bancada. da verdade, e uma comissão da verdade de 2013, tenham
Acordamos a entrevista com a então coordenadora da Comissão contemporaneidade de distinguir os tipos de tortura, in-
Nacional da Verdade, advogada Rosa Maria Cardoso, no começo clusive as torturas de gênero. Que é também contra os ho-
da audiência pública. mens. Tortura mais a humilhação sexual. Por exemplo, a
No início do evento, Rosa Maria ainda coordenava a CNV. morte do Mário Alves por empalamento. Ele foi empalado
Menos de uma hora depois, quase no final das falas, comunica a com um cabo de vassoura que foi introduzido no ânus
passagem da cadeira rotativa ao colega José Carlos Dias. O cenho dele cheio de pregos. Mas por que no ânus e não na boca?
franzido da advogada se deve ao fato de ela ter sido informada da Era pra matá-lo de qualquer forma, porque uma coisa
troca “pelo jornal”, e só depois receber um telefonema do novo que entra rasgando vai sangrar de qualquer forma. Tinha
coordenador da comissão. uma conotação aí, também, de humilhação sexual. Para
Rosa aparenta cansaço, dormiu pouco na noite anterior. Seu poder se repetir para os outros: ‘você também mais ser en-
rosto fino tenta manter a iluminação que a biografia e o desafio rabado’, como eles falavam. Fizeram isso sabendo que iam
carregam, mas sua blusa laranja reforça as leves olheiras por detrás aproveitar aquilo como uma forma de intimidação futura
dos óculos de armação fina. Também pudera. Somente no curto aproveitando essa questão sexual. Que é grave, pesada e,
espaço de tempo, os acontecimentos que se sucedem sobre ela pare- portanto, deve ser desvendada.
cem não ter fim: depois de falar por quase vinte minutos durante a
audiência, dar uma entrevista coletiva à meia dúzia de repórteres e Para Rosa Cardoso o papel das torturas de gênero é preponde-
aos demais interessados de gravador em punho que estavam no au- rante nos trabalhos da comissão da verdade. Entretanto, a execução
ditório, conversar com o assessor de imprensa da comissão, dar oi da prática parece deixar a desejar. Amelinha, que assessora direta-
e adeus a vários dos presentes – amigos, amigas, colegas, concluir mente o trabalho da Comissão Estadual “Rubens Paiva”, considera
uma conversa e, finalmente, despedir-se de Anivaldo Padilha, a que as comissões devem trabalhar em conjunto e faz críticas à abor-
advogada que defendeu, entre outras mulheres, a presidente Dilma dagem das questões de gênero. “Porque, por exemplo, pra convocar
Rousseff durante a ditadura, chama-nos para conversar. um torturador a Estadual não tem essa competência legal, e a outra
tem. Entendeu? Mais uma razão pra ela funcionar. E na questão de
Essa análise de gênero torna visível um tipo de violência gênero a Estadual é única que está trabalhando de fato. É a única.
que até hoje tava diluída como graves violações, não se Qual outra que tá trabalhando? Não conheço. É a única que traz a
mostrava. Chamava de graves violações tortura, assassi- questão das mulheres e a questão das crianças”, diz.
nato, ocultação de cadáver, desaparecimento forçado. Fi- Mãe, mulher e criança são termos indissociáveis. “Você não
cava tudo dentro do termo tortura, mas a violência sexual pode falar das crianças presas sem as mulheres, porque nenhuma
contra a mulher, feita na tortura, é uma forma particular criança foi presa se a mãe não foi presa. Dificilmente eles pegaram

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Amelinha e a deputada
Luiza Erundina.

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alguma criança aí na rua e levaram lá pra Oban. E a ditadura não das comissões Nacional e Estadual da Verdade. “Querem provar re-
poupou as crianças, não poupou as mulheres, então você tem que almente que os militares fizeram um golpe doloroso, que matou, da
ter um enfoque de gênero pra entender o que foi o tamanho do minha casa, três pessoas. Três pessoas. Eu acho que a Comissão Na-
estrago que essa ditadura cometeu contra o povo brasileiro.” cional é boa, mas é eclética e tá demorando demais. Hoje, nós temos
Quando Rosa Cardoso defendia presas políticas, diz ela, ape- um governo que eu pensei que ia ser melhor do que é, mas não tá sa-
sar de certa expansão feminista nos anos 1950 e 1960, as mu- bendo resolver. De qualquer maneira, eu acho que foi bom começar,
lheres não tinham por hábito “discriminar”, aprofundar para o organizar essa comissão, sabe? Foi bom. Claro que nem todo mundo
advogado as torturas sexuais às quais eram submetidas. Era um lá dentro pensa a mesma coisa, outro dia saiu isso nos jornais.”
tabu falar sobre esse assunto, sob o risco de as mulheres – e os “Por que a Comissão Nacional é importante?”, pergunta retori-
homens – ficarem estigmatizados. camente Rose Nogueira. Na sua visão, não deve haver competição
“Talvez por uma visão...” A advogada é então interrompida. entre as várias comissões criadas, mas parcerias para que o traba-
Mais pessoas estão se despedindo. Beijos e abraços depois, ela volta lho alcance bons resultados.
à conversa. Ajeita-se na cadeira, que range. “Sim? Onde estáva-
mos?”, ela pergunta. Começo a refazer o questionamento, a ad- Eu lamento a saída do Cláudio Fonteles da Comis-
vogada me interrompe. “Pera, deixa eu só perguntar a você...” E são. Eu fui uma das que assinou o abaixo assinado pra
se dirige ao assessor de imprensa da comissão, Marcelo Zoyd. Ele que ele ficasse. A Comissão Nacional pode não ser a me-
vai transcrever o discurso de Rosa Cardoso, feito à mão. “Se tiver lhor, mas a gente não tem o direito de julgar alguém que
algum problema eu te falo.” O problema, no caso, é o não enten- esteja no mesmo trabalho. Eu não consigo julgar. Todos
dimento da letra. Ela prossegue. sabíamos que dois anos era muito pouco. Todos lutamos
contra isso. Vai ter mais prorrogação? Foi prorrogado até
Elas não tinham muito essa visão clara de que deveriam o fim do ano que vem, né? Agora, sei lá se eles estão tra-
expor essa questão sexual. Esse aproveitamento sexual que balhando... E nós do Tortura Nunca Mais que pegamos
os torturadores faziam. Algumas inclusive foram estupra- os índios aqui em São Paulo e fizemos um puta trabalho.
das mesmo, e não diziam isso, não contavam. Talvez hou- Os índios na ditadura. Estamos na frente da Comissão
vesse até uma perturbação, porque elas tinham companhei- Estadual. Eles não aceitaram índios e nós entregamos
ros e não sabiam como isso seria uma fonte de sofrimento direto pra Maria Rita Khel. Direto pra Comissão Na-
pra eles, uma tortura pra eles. Porque as gerações passadas, cional. Então, não tem ninguém melhor que ninguém.
e talvez as presentes, têm ainda em certas áreas uma cul- Cada um faz o seu e pronto. Eu fico de longe muito cha-
tura, um sentimento de que poderia ser uma perturbação, teada com essa concorrência entre a gente. Não tem que ter
um ciúme, dúvida, de angústia, e elas negassem isso para concorrência. É nacional, estadual... Sei lá. É do Rio Gran-
que pudessem retomar a vida com eles e com os filhos. de do Sul, Ceará, sei lá... De repente está na frente, mas
depois atrasa, porque depende do que se consegue, né? Essa
Dona Maria Sallas, que sofre com a morte de três pessoas de sua concorrência é feia.
família, adota um tom mais conciliador ao se referir aos trabalhos

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Rosalina Santa Cruz tem posição favorável e elogiosa ao tra- rações no dia primeiro de abril para celebrar o golpe. Ima-
balho feito pela comissão de São Paulo, da amiga Amelinha. “Eu gina, somente há dois anos acabaram com isso. Em todos
acho boa. Eu gosto muito. Eu acho que ela tem uma vantagem os quartéis vinham com aqueles discursos que salvaram o
enorme, pelo assessoramento do Ivan [Seixas] e da Amelinha, que país do comunismo. Esse é um papel relevante que ela teve.
são pessoas que são companheiros que pesquisam muito sobre isso
e sabem muito. Eu acho que fará muito bem. E tem a de Recife Segundo Jessie, isso é produto da coalizão herdada do presidente
que é muito boa também. A de Recife tá com uma metodologia de Luiz Inácio Lula da Silva, “que ela não montou”. E o mensalão
investigação, de pegar caso por caso.” “trouxe a direita pra cima da esquerda e a Dilma está presa por
Maria Amélia de Almeida Teles apela à presidente Dilma que causa das alianças que o Lula fez. Ele não tem compromisso com
“mude” a comissão, “que ela escute as vítimas e familiares de ví- isso [desmistificar o golpe militar]”.
timas da ditadura e ponha uma comissão que seja capaz de ouvir
essas pessoas! Tem que ouvir. Como você vai escrever a história O problema da comissão não é a sua composição. Qual
desse país sem ouvir as vítimas? Como? Não tem como. Não tem, é a política de Estado quanto ao passado? O judiciário é
não tem. O grupo de trabalho é pequeno, os integrantes não foram completamente conivente com isso. É um poder que não
acertados. Eles não se acertam nem entre eles. As divergências en- teve reforma. O Celso de Melo, no dia da votação da dis-
tre eles aparecem aí na imprensa. Não sou eu que to falando. Eu to cussão do crime conexo, ele defendeu o golpe! O discurso
constatando, né? Pra você ver que é tudo desarticulado”. dele defendeu o golpe. Ele é um cara que é contemporâneo
A pergunta feita a Ana Miranda e Jessie Jane gera um pequeno ao Zé Dirceu, moravam na mesma pensão os dois e fa-
debate entre as duas amigas militantes. Sob as vistas do Cristo ziam Direito. E ele é um homem de direita convicto.
Redentor, Ana defende Dilma.
O pacto do esquecimento dentro da lei de Anistia está
A Dilma peitou os chefes das forças armadas para abrir sacramentado pelas forças que assumiram o Estado. As
os arquivos do Exército, da Aeronáutica e da Marinha. A Comissões de Mortos e Desaparecidos e a da Anistia foram
Aeronáutica deu alguma coisa bem peneirada. Ela tentou, soluços e agora a Comissão da Verdade. Existe um pacto
tenta. Acho que é um momento muito importante, mes- de silêncio e o Lula fortaleceu isso. A Dilma é prisioneira.
mo com as nossas críticas. Gostaria que ela estivesse mais à Não acredito que na próxima eleição, não sei se vai con-
frente, com um discurso para que os centros de tortura vi- seguir romper com isso. Como você vai falar de punição
rassem memoriais de resistência. Promover grandes eventos com a família Sarney e o Delfim Neto no meio disso tudo.
sobre os 50 anos do golpe. Queria que ela fosse mais ativa,
como ocorre no Chile, Argentina. Um discurso mais pro- - Eu fiquei muito emocionada quando a Dilma foi eleita –
ativo nas questões da memória; da verdade; e da justiça. confidencia Jessie.
Ela já tomou algumas medidas importantes. Hoje nós não
temos um governo de esquerda e sim um de coalizões ma- - Eu também, principalmente quando ela passou em revista à tropa.
lucas. Só! Há dois anos atrás é que acabaram as comemo-

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- Foi muito simbólica a eleição da Dilma nesse aspecto. começo de 2014 haverá divulgações significativas. E quando per-
guntada sobre eventual prorrogação dos trabalhos, levanta a pos-
- É como se a gente estivesse lá. sibilidade de que o funcionamento da CNV pode-se estender até
novembro. “Mas estamos trabalhando com o prazo de finalização
- Eu fui no dia da posse da Comissão Nacional da Verdade. Fiquei de maio”, conclui.
muito emocionada. A Dilma também estava bastante emocionada. Ana, recém chegada das “descomemorações” dos 40 anos do
golpe militar no Chile, crê que a mobilização no Brasil deve ser
O caminho para Ana, assim como defende Erundina, é a rein- como é a do país vizinho. “Aí você tem que ir pro Chile. Uma das
terpretação da Lei de Anistia. Além disso, é necessário mudar “essa faixas em uma ponte no Chile era ‘que rompam o pacto do silên-
cultura de violência que a gente vive”. Portanto, acredita que nas cio’. ‘Este é um passado que segue sendo parte de nosso presente’.”
recomendações da Comissão Nacional da Verdade isso precisa “es-
tar absolutamente claro” e que haja “uma reforma das estruturas - As pessoas não percebem que essa violência policial é uma herança
policiais como cultura. Isso é importante para o nosso país. A gen- da ditadura – diz Jessie, contrariada.
te vive um meio a meio”.
Jessie Jane incorpora a professora do curso de História, com a - Não percebem, mas a gente segue falando.
voz límpida, alta e clara. “A Comissão da Verdade cumpriu o [de-
ver] de reatualizar a agenda. Essa bandeira estava esquecida, mas - Pode falar o quanto quiser. Não somos formadores de opinião, Ana!
sempre foi levantada pela Comissão de Mortos e Desaparecidos.
Sobretudo as famílias. Carregaram isso durante todas essas déca- - Mas se me chamam eu continuo falando!
das e certamente estão muito frustradas.”
Luci Buff, consultora que atua no grupo de trabalho de gênero Entretanto, apesar do pessimismo, ainda há esperança. “Eu que-
da Comissão Nacional da Verdade, diz que os trabalhos vêm sendo ro que a comissão seja corrigida a tempo porque eu acho que é uma
desenvolvidos com velocidade máxima, tanto quanto é possível. necessidade histórica do país. É uma reivindicação antiga dos fa-
“Não se trata de plantar abóbora, mas plantar carvalho.” miliares e uma necessidade histórica. Não se constrói a verdade via
A integração de ferramentas digitais aos processos de investigação uma comissão só. Ela é um start, um instrumento essencial. Mas
de arquivos e tomada de depoimentos somada à contratação de sete ela tem que ser construída coletivamente. Tem um papel de fazer
pesquisadores (até então voluntários) tem dado celeridade às pesqui- um novo registro da história oficial e um papel pedagógico. Nós
sas, cujo foco e prioridade são os mortos e desaparecidos políticos. temos que trazer essa sociedade a discutir esses fatos.”
Com relação à transparência e divulgação de resultados, Luci E Lúcia Murat, ao final de seu depoimento na Comissão da
garante que os fatos encontrados não serão “represados” e apenas Verdade do Rio de Janeiro, dá a tônica do que acha que deve ser
liberados no final, mas sim que haverá divulgações parciais, com a o trabalho desses organismos na recuperação da história brasilei-
comunicação de resultados intermediários. “Já foi deliberado isso. ra. “Restaram pequenas cicatrizes no meu corpo, um problema de
Há um consenso de que haverá divulgações públicas”, o contrário sensibilidade na minha perna direta e essa história. Uma história
é história “requentada” e já superada, segundo ela. Estima que no que compartilho com vocês não por desejo de vingança ou maso-

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quismo, mas porque acredito que a única maneira de fortalecemos rido no (nem tão longínquo assim) ano de 1968, na reunião mi-
a democracia nesse país e conhecendo nosso passado. nisterial que instalou o AI-5. A única voz contrária foi a do vice
-presidente de Artur da Costa e Silva, Pedro Aleixo. Ele expressou
Sequelas para o país sua preocupação sobre como um poder tão grande seria aplicado. O
que o preocupava não era o presidente, mas o “guarda da esquina”, o
“Porque a ditadura criou uma cultura de violência. Em relação sujeito na “base da pirâmide” de comando que, investido desse po-
aos mais pobres, mais ainda. Em relação aos intelectuais, aos que der, sairia cometendo arbitrariedades. O delegado Sergio Paranhos
pensavam, se organizavam e faziam resistência, depois aos mais Fleury era um deles. Hoje, nós temos sujeitos assim às pencas.
pobres”, sentencia a jornalista Rose Nogueira. E, dessa cultura de “A única maneira de combater aqueles que ainda torturam por
organização intelectual, hoje, criminosos aproveitaram-se dela. esse país afora é mostrar que esse é – e sempre foi – um crime de lesa
Rosalina Santa Cruz nos dá o exemplo do Comando Vermelho, -humanidade. Espero que a Comissão possa ouvir os [torturadores]
grupo criminoso ligado ao tráfico de drogas e à violência no Rio que ainda estão vivos e a todos aqueles que foram reconhecidos para
de Janeiro: nasceu nos presídios e absorveu elementos das organi- que possamos revelar por inteiro esse período”, propõe Lúcia Murat.
zações de esquerda devido à proximidade entre presos “comuns” e Mudam-se os donos, mas a essência da loja é a mesma. E é isso
“políticos”. E para combater os “criminosos”, o Estado se recicla. que temos que lutar para mudar. Lembrar para não repetir deve ser
E é justamente nesse cenário de redescoberta de crimes do pas- o foco, e não esquecer de ninguém – especialmente das minorias
sado (que, assim como a frase sobre a ponte chilena, ainda estão massacradas, inclusas aí as mulheres – jamais.
presentes) que a pergunta “onde está Fernando Santa Cruz?”, por
exemplo, ganha mais e mais sujeitos a cada dia. O caso do ajudante
de pedreiro Amarildo Dias de Souza, infelizmente, é apenas mais
um nos últimos anos.
Amarildo está desaparecido desde 14 de julho de 2013, quando foi
conduzido por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP)
na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Tudo indica que Amarildo
foi torturado e assassinado por policiais: vinte e cinco policiais foram
denunciados e indiciados por esses crimes. Os familiares seguem lu-
tando por Justiça e pelo direito de sepultar seu parente.
A única diferença entre essas histórias e as dezenas contadas ao
longo deste livro é que os milhares de “Amarildos” e “Amarildas”
desaparecidos nos últimos 25 anos sumiram sob os olhos da de-
mocracia. O Estado, agora democrático, provido de instrumentos
que são, em tese, de participação popular não consegue garantir ou
mesmo controlar a capilaridade de seu braço armado.
O que vivemos hoje é traduzido na essência pelo episódio ocor-

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Passado ainda presente Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Da esquerda para a direita: Rosa Cardoso,


Amelinha Teles, Adriano Diogo,Angela
Almeida e Aníbal de Souza.

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Rapazes falam
de mulheres

Per me si va ne la città dolente,


Per me si va ne la l’etterno dolore,
Per me si va tra La perduta gente.
Giustizia mosse Il mio alto fattore;

(Inf. III, Vs. 1-4)

Por mim se vai à terra dolorida,


Por mim se vai onde é eterna a dor,
Por mim se vai à gente perdida,
Moveu justiça a meu divino autor;

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Rapazes falam de mulheres Não foram apenas as unhas - As mulheres no inferno da ditadura

Resta apenas mais uma pergunta. A jornalista de paletó azul, os demônios que rugem reprimidos dentro de si, o instinto
com um grande lenço laranja no pescoço, fita-nos com um olhar de agressão, a libido sádica de e a vontade de dominação.
muito curioso, ignorando o som das conversas, que aumentava no Conhece o que significa descer ao inferno, não o dantesco
auditório. “Mas por que três rapazes se interessam em desenvolver que já é terrível, mas aquele de Jesus Cristo, conservado
um estudo sobre mulheres?”. A pergunta de Chantal Rayes ecoa no Credo cristão: é a descida a terrível solidão humana,
durante toda nossa trajetória de pesquisas e descobertas no assom- aquela solidão produzida pelo ódio. São os gritos dos tor-
broso tema da violência de gênero. “Por que três rapazes?” Três turados, são os uivos animalescos dos torturadores, é a per-
rapazes? Até mesmo as entrevistadas ficavam curiosas com essa da do sentido de tempo.
peculiaridade e refaziam a pergunta: “Por que três rapazes?”. Al-
guns meses depois a visão se torna mais clara. As histórias de cada Suplício físico. Suplício psicológico. Desamparo. Solidão. Me-
uma das mulheres em mente iluminam as respostas que estiveram do-pânico. Abandono. Perda da percepção e da memória. Desti-
em nós desde o princípio. tuição do humano. São esses alguns aspectos que Marilena Chauí
“A literatura é sempre uma expedição à verdade”. Com essa frase nos aponta quando se entra no inferno da tortura, os quais acaba-
de Franz Kafka em nossas cabeças, aceitamos embarcar em um mos por conhecer ao ouvir as histórias contidas neste livro.
mundo desconhecido. E, seguindo o conselho de Dante, e que E dentro dessas perspectivas de os torturados “descerem/atravessa-
reforçamos no início, deixamos toda a esperança. rem o inferno” e da desumanização do ser humano, resolvemos an-
Entramos. dar ao lado de Dante Alighieri, dentro de sua concepção de inferno.
A epígrafe que dá início à nossa jornada é a inscrição na porta,
De Dante a Virgílio sempre aberta, do inferno de Dante: Lasciate ogne speranza, voi ch’en-
trate (Deixai toda esperança, ó vós que entrais). E a que fecha são os
Decifrar o complexo. Ou chegar perto disso, pelo menos. Por se primeiros quatro versos desta mensagem contida na entrada do dan-
tratar de uma temática de viver o horrível, o inferno esteve presen- tesco. Por este livro passamos por uma terra dolorida, na qual a dor é
te em nossas vidas durante a construção da narrativa deste livro, eterna, não se cura como as cicatrizes; fica! Principalmente na perda
porque desde a Grécia Antiga ele simboliza o que de pior pode de uma pessoa querida.
sofrer um ser humano – nele perde-se a humanidade. Por isso, Buscamos com esse trabalho mover justiça às nossas autoras. Fo-
adotamos visões compartilhadas no livro Tortura Nunca Mais, ram elas as criadoras deste trabalho. Coube a nós, com técnicas de
organizado por Branca Eloysa. Na obra, o frei Leonardo Boff e jornalismo aprendidas da faculdade e no exercício da profissão, orga-
a filósofa Marilena Chauí comparam a vivência do torturado, em nizar o livro.
meio à tortura, com uma descida ao inferno. Ao contarmos suas histórias reforçamos e incorporamos o espírito
Boff acredita que a tortura é: do “Nunca Mais” para que pessoas com semelhantes casos, durante a
ditadura ou hoje com os resquícios daquele período, não passem em
Uma dança de paixão, de gritos, de dor, de sangue e branco ou voltem a acontecer essas atrocidades.
até de morte e um processo horroroso da desumanização Adotamos um discurso narrativo em primeira pessoa com tre-
não somente do torturado. O torturador precisa liberar chos de depoimentos das mulheres que acompanhamos ao longo

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Ouvir e desvendar histórias;


mergulhar nas memórias de cada uma
das mulheres com quem conversamos.

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dos meses e cujas vidas aceitaram compartilhar conosco. Como na insiste em apagá-las. Nossa proposta ao escolher o caminho de
vida, há uma mudança constante de tempo ao longo do caminho Dante foi trazer à tona as histórias dessas mulheres, muitas vezes
que estamos percorrendo. Ousamos pegar emprestado o estilo do esquecidas e somente celebradas em efemérides.
poeta Dante, como esclarece João Adolfo Hansen, que introduz a O eixo de nossa trilha foi trazer histórias humanas, ricas, emo-
edição d’A Divina Comédia a qual tomamos como livro da cabe- cionantes e áridas. E assim seríamos apresentados àquele que do-
ceira. “Seguem viagem até encontrarem outra alma em nova cena, minaria nossos sonhos, medos e pequenas e grandes alegrias nos
quando novo diálogo, nova explicação, nova intervenção de Virgí- últimos meses: no dia 25 de março, comparecemos à audiência pú-
lio (ou Beatriz) acontecem”, diz. Optamos por este caminho para blica sobre “Verdade e Gênero – A violência da ditadura contra as
que palmilhemos juntos, “andando com os personagens em uma mulheres”, realizada no Auditório Paulo Kobayashi da Assembleia
galeria extensa, detendo-se a intervalos regulares para ver cenas, Legislativa de São Paulo. Entramos com um espírito; saímos com
participar da ação dramatizada nelas e continuar, até a seguinte”. outro diferente. Nossas almas estavam irreconhecíveis.
Com maestria, Hansen nos explica em seu prefácio da Divina Tivemos a oportunidade de ouvir Maria Amélia de Almeida
Comédia a influência de Dante para descer ao inferno. “Loren- Teles, seguida da jornalista Rose Nogueira e de Rosalina Santa
zo de’ Medici, podestà de Florença, dizia que Homero fez Ulisses Cruz. Rosa ainda nos ofereceu algo mais: abriu sua pastinha cheia
descer ao Hades, na Odisseia, e que Virgílio o imitou, mandando de cartas e desenhos produzidos e trocados durante a prisão, pre-
Eneias descer ao Averno na Eneida, para que Dante, imitando Vir- servados ao longo dos anos de chumbo. As últimas mulheres que
gílio, mandasse a si mesmo a descer ao inferno para ascender ao ouvimos foram Maria Sallas, que lutou contra o governo Vargas e
‘Paraíso’”. Agora somos nós que imitamos Dante ao descermos ao os sucessivos governos militares, e na Cidade Maravilhosa, um dia
inferno que essas mulheres sofreram na ditadura. todo com Ana Miranda e Jessie Jane.
Quem guia Dante pelo Inferno é o poeta romano Virgílio. Assim A impaciência para que esse momento chegue logo e se possa,
como o escritor italiano, não sofremos as torturas infernais, mas enfim, realizar a tão esperada Justiça de que viemos tratando ao
sentimos com elas. Num primeiro momento somos Dante, cami- longo desta jornada. Quanto mais rápido pudermos saber dos re-
nhando com Virgílio e compartilhando da dor e do sofrimento dos sultados alcançados por aqueles que investigam as torturas contra
condenados. Quando chegamos ao fim e apresentamos a você que as mulheres, melhor. Visto que o impacto da violência praticada
leu estas linhas passamos a Virgílio, guiando e mostrando. durante o período militar contra as mulheres é refletido, fortemen-
O sofrer do outro tão explícito ali, tão exposto, causa-nos dor e te, nos dias atuais. Destacamos aqui as consequências vividas pelos
estranheza. Visitamos ao longo dos meses os órgãos de repressão parentes, amigos e todas as pessoas mais próximas das vítimas di-
do governo militar: DOI-CODI, DOPS, Oban, Casa da Morte. retas do período repressivo. Exemplo disso são os filhos das vítimas
Fomos levados por cada uma de nossas personagens a lugares em que seguiram uma carreira dedicada à luta contra a violência e a
que o mais sádico teria arrepios ao simplesmente pensar em sua violação dos direitos humanos. Deve-se notar que essas vítimas,
existência. Mas, Chantal, porque as mulheres? dentro da temática de gênero e violência, foram tanto mulheres
Porque as mulheres não são lembradas. Lutaram. Foram presas. envolvidas diretamente com o combate às formas de repressão,
Torturadas, violadas. Abdicaram da maternidade – voluntária ou como as guerrilheiras, quanto mulheres vinculadas aos partidos de
involuntariamente. E a História, que só tem de feminina o gênero, esquerda e de oposição à ditadura.

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Estar atentos para aquilo que nos contaram;


trabalhar a matéria-prima de forma responsável,
cuidadosa e humana.

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Se é tarefa difícil saber dizer por que resolvemos nos juntar às res. Muitas, não só na época da prisão, mas ainda hoje, se tratam
histórias dessas mulheres que optamos por seguir nos últimos me- como familiares, como Rosalina, Jessie e Ana. Esta nos disse que
ses, mais complicado ainda é quantificar o impacto de um aspecto a tortura é menos difícil de ser enfrentada se há um companheiro
tão subjetivo como a tortura. O sofrimento das mulheres entre- ou companheira lá, ter alguém para “lamber as feridas” faz com
vistadas (e das milhares aqui representadas pelas personagens de que a resistência aumente, e os agentes tenham muito mais traba-
nosso livro) não se pode definir com precisão, não há quilogramas lho para “quebrar” os presos.
ou metros que deem peso à violência. Existe uma grande cumplicidade entre muitas dessas mulhe-
Cada experiência foi muito particular, assim como a facilidade, ou res, mesmo tendo se conhecido no período pós-ditadura. Não por
não, de compartilhá-la. Por exemplo, na entrevista simultânea feita com acaso Amelinha e Rosalina, que se conheceram depois da cadeia,
Jessie Jane e Ana Bursztyn, a forma de encarar as torturas foi muito dís- lançaram um livro com uma homenagem a Inês Etienne Romeu.
par: a primeira não conseguiu conter as lágrimas por pelo menos três Outros importantes desdobramentos advindos da competição
vezes; já a segunda conseguia contar fatos escabrosos em meio a risos. “memória” e “esquecimento” são os trabalhos desenvolvidos pelas
É evidente que as sequelas ficaram e machucaram – as machu- comissões e o caráter de não repetição das graves violações dos
cam ainda – muito mais que as feridas antes existentes, feitas nas direitos humanos. Incansavelmente dito nesta pesquisa, é preciso
celas dos órgãos de repressão. Perder familiares e amigos, além da lembrar, não esquecer e compreender o que foram os anos que
presença psicológica constante da tortura e de, como no caso de vieram à luz (ou às trevas) com o golpe de 1964. Por isso é tão im-
Rose Nogueira, tornar-se estéril, machuca, e também à sua famí- portante, como nos defendeu Jessie Jane, desconstruir a tomada de
lia, de maneira inimaginável. Rose perguntou a nós uma questão poder dos militares, analisando-a em suas estruturas e não apenas
dirigida ao Estado brasileiro: quanto pode valer a capacidade de como acontecimento superficial.
ser mãe? Não há indenizações em dinheiro que paguem o fato do Não temos condições de responder à pergunta de Chantal de ma-
roubo da maternidade. neira completa se estivermos sozinhos, por isso nos apoiamos em
E é aí que entra o conceito de Justiça: elas querem (e nós tam- uma frase nos dita por Amelinha Teles em uma de nossas muitas
bém) ver seus algozes no banco dos réus, respondendo pelos cri- conversas: “Só assim a história poderá fazer justiça às mulheres, a par-
mes cometidos. Contudo, fica clara a insatisfação da maioria delas cela mais esquecida e menos visível da humanidade. Não basta ouvir
quanto ao tratamento do Estado ao assunto e à falta de penalida- as mulheres, será preciso senti-las em toda a dimensão de suas ações”.
des aos praticantes da tortura. A Lei de Anistia, em sua aparente
“reconciliação” para ambos os lados, mantém a ferida aberta, qual
como as sessões de tortura fizeram. Assim como a ausência de po-
líticas para o esclarecimento do que foi o regime militar e de recon-
ciliação da memória histórica brasileira com aquele período. “Não
se trata de reconciliação, mas sim de Justiça”, pontuou a deputada
Luiza Erundina
Esse espírito de luta do “nunca mais” acabou gerando chamati-
vos e fortes laços de empatia e companheirismo entre essas mulhe-

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