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O currículo no cotidiano escolar

Aline Basílio Vieira

RESUMO

O objetivo da pesquisa é fazer uma análise da função do currículo escolar na escola


e na sociedade, onde muitas vezes a escola fragmenta o currículo, não o valorizando
como uma construção histórico-cultural, social e educacional, e também
compreender a importância e a abrangência do currículo escolar na aprendizagem
dos alunos no contexto formal e informal. O currículo escolar é o grande norteador
de todo processo educacional. Um currículo escolar é organizado para orientar
professores e os diferentes níveis de ensino , é um eixo significativo na execução
das metas estabelecidas na escola, o qual deve ser repensado, analisado, elaborado
e planejado coletivamente, na busca da escola obter um ensino-aprendizagem
construtivo, mais próximo possível da vida e da realidade social dos educandos que
chegam até a escola.
Palavras chaves: Currículo. Escola. Planejamento.

1-INTRODUÇÃO

O que é currículo escolar? O currículo escolar nos dá um caminho a ser


percorrido. Ele envolve todas as situações da vida escolar do aluno e interage com
todos os processos que interferem na vida do aluno na escola.
O currículo não visa apenas o que se é ensinado em sala de aula, mas a formação
do aluno como um todo. O currículo escolar objetiva a construção do conhecimento
de acordo com os saberes históricos e os conhecimentos relacionados à vivência do
discente em parâmetro com a realidade regional. O currículo está sempre em
construção adaptando-se as mudanças da humanidade, o currículo não é algo
estático, e sim está em constante evolução e atividade, pois deve acompanhar as
mudanças do mundo. O currículo faz esse elo entre a cultura, a sociedade e a
escola. 
Existem normas em vigor para organizar um currículo escolar, é bom ter esses
aspectos para existir padrões como um guia.
Como podemos compreender a relação entre o currículo e o cotidiano escolar.
Como os valores do cotidiano da escola influenciam as práticas escolares? Antes de
respondermos essas perguntas vamos entender o que é um currículo escolar, como
se dá a sua construção ao longo da história.

A construção histórica do currículo: Segundo Goodson (1995) acerca da


construção histórica do currículo, a etimologia de origem latina que significa Scurrere
que significa curso, correr, indica que currículo é um caminho a ser seguido. O autor
pontua que o vínculo existente entre currículo e prescrição foi fortalecido em estreita
relação com o calvinismo que fornecia as bases para a ideia de disciplina em
sociedade, trazendo a relação entre conhecimento e controle. O currículo assim
seria organizado sob as bases da ordem que lhe forneceria sequência interna e
disciplina e que lhe daria coerência estrutural. No preceito calvinista a disciplina seria
uma regra de vida, como elemento de coesão da escola. Assim, o ensino seria
ministrado dentro de um plano rigoroso com professores destinados a cada área de
estudo que também supervisionariam os alunos. A estes caberiam normas e conduta
e promoções condicionadas aos processos obtidos e ao cumprimento das normas
estabelecidas aos progressos obtidos e ao cumprimento das normas estabelecidas.

2- PLANEJAMENTO DO CURRÍCULO

Com a nova formação familiar e com um numero maior de alunos nas salas de
aula, sujeitos ao controle e supervisão, institucionalizou a educação para grupos em
detrimento da educação individual. A educação da esfera familiar foi transferida para
a esfera do sistema escolar em que o ensinar e o cuidar se mesclavam. Como forma
de atender as exigências do processo produtivo em curso, os currículos também
conferiam a conformações as novas necessidades.

Assim, o currículo se forjou dessa forma, como função diferenciadora constatada


na organização escolar secundária da Inglaterra, uma vez que, para os filhos das
famílias de boa renda, a orientação clássica configurava uma formação até os 18 ou
19 anos de idade. Para os filhos das classes mercantis a orientação era mais prática
até os 16 anos de idade e para os filhos de pequenos proprietários agrícolas,
pequenos comerciantes e artesãos superiores até os 14 anos de idade. Nesse
período a formação era calcada nos três erres (R): ler, escrever e contar.

A partir da Segunda Guerra Mundial, vinculada as necessidades da era industrial,


o currículo se constituiria como instrumento pedagógico de massificação. Assim, nos
países de língua inglesa e francesa, o currículo, em sua origem, era compreendido
como um programa de estudos. Esse sentido sofreu um crescimento e o currículo
começou a ser visto de outro modo, como algo que poderia ser inserido no campo da
socialização escolar dizendo respeito a conteúdos, saberes, valores e outros. A
elaboração do currículo tem elementos da cultura que são desejados ser ensinados.
Convertesse o mundo ao nosso redor, isto é nossa cultura em uma cultura escolar, e
essa cultura é organizada em conteúdos culturais segundo as prioridades
determinadas e sua disposição para ser ensinada em sala de aula. A definição de
currículo foi repensada, o material existente funciona de matéria prima para criação e
recriação.
A formação de um currículo e determinada pela cultura. Para se entender o que é
um currículo deve-se entender o que é cultura. A educação e a cultura estão sempre
ligadas. A cultura não é algo acabado, ela como o currículo são construídos
coletivamente e estão em constante transformação.
Na elaboração de um currículo aparecem várias perguntas:
• A cultura de nossos alunos é
homogênea?
• A cultura dentro das escolas pode ser
homogênea?
• Como lidar com os diferentes tipos de
cultura dentro de nossas escolas?
São muitas perguntas a serem feitas para se planejar e implementar um currículo
na rotina escola.
Temos a certeza de que currículo escolar está ligado diretamente a aprendizagem.
Mas como planejar um bom currículo? Como implementar um currículo?
Existem normas a serem seguidas na criação de um currículo?
O cotidiano da escola está ligado ao currículo?
Como o planejamento se configura dentro da escola através do currículo?
Segundo Malagolli e Cerminaro (2014), os planejamentos curriculares nas escolas
devem considerar os parâmetros curriculares nacionais e a concepção de educação
da escola. Esses planejamentos devem seguir um planejamento da instituição
escolar, o currículo de cada disciplina ou área de conhecimento deve expressar a
proposta pedagógica como um todo.
Embora a legislação estabeleça parâmetros não obrigatórios para o currículo
escolar, as políticas educacionais estabeleceram o sistema nacional de avaliação do
currículo mínimo e cobram esse conteúdo em avaliações nacionais.
O planejamento do currículo deve estar embasado também sobre a cultura dos
alunos e deve-se com isso definir a estratégia de ensino para esse currículo.
Segundo Malagolli e Cerminaro 2014):
O planejamento curricular faz parte do processo de elaboração da proposta
pedagógica da escola e deve expressar os princípios e concepções dessa
proposta. A organização curricular deve prever a integração vertical e
horizontal dos conteúdos e projetos de ensino. Há que se contemplar,
também, o critério de flexibilidade, de modo que, o currículo desenhado
possibilite, a partir dos dados obtidos por meio de avaliações sistemáticas,
adequações curriculares. (p. 202).

Precisa-se considerar na organização de um currículo que ele não é um


instrumento neutro. O currículo também passa uma ideologia, o currículo não deve
ser separado do contexto social, por estar historicamente situado e culturalmente
determinado.
A transmissão de um currículo se dá pelo contexto cultural. Interação entre
currículo e cultura, um fator importante .
Para Moreira, Silva, (1999):
O currículo pode ser movimentado por intenções oficiais de transmissão de
uma cultura oficial, mas o resultado nunca será o intencionado porque,
precisamente, essa transmissão se dá em um contexto cultural de
significação ativa dos materiais recebidos. A cultura e o cultural, nesse
sentido, não estão tanto naquilo que se transmite quanto naquilo que se faz
com o que se transmite. (p.27)

O currículo é uma ferramenta de integração, que reduz a distancia que há entre


as disciplinas. O currículo vem para apresentar uma visão de mundo, entender que
normas e valores sociais são transmitidos pelos materiais e livros didáticos, pelo
ambiente escolar, na relação pedagógica, na rotina escolar e outros.
Segundo Malagolli e Cerminaro (2014), os conhecimentos veiculados pela escola,
que seguem a reforma curricular efetivada pelo Ministério da Educação, estão
voltados mais para um aprendizado que busca atender às necessidades imediatas
do mercado, como também, para os conteúdos exigidos nas avaliações como
Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), Exame Nacional do Ensino
Médio (ENEM), vestibular e outros.
Depois de compreendermos a importância do planejamento e execução do
currículo, deve-se estabelecer a relação entre a avaliação curricular e a proposta
pedagógica da escola.
Segundo Veiga, 1998, p.32):
a avaliação, do ponto de vista crítico, não pode ser instrumento de exclusão
dos alunos provenientes das classes trabalhadoras. Portanto, deve ser
democrática, deve favorecer o desenvolvimento da capacidade do aluno de
apropriar-se de conhecimentos científicos, sociais e tecnológicos produzidos
historicamente e deve ser resultado de um processo coletivo de avaliação
diagnóstica.

Para Malagolli e Cerminaro a colocação em dos objetivos nacionais leva em conta


as situações locais e necessidades específicas dos alunos. Um simples cardápio
atraente é proposto aos alunos e pais visto unicamente como consumidores. O
processo de avaliação deve ter um conjunto de objetivos concretos e realistas, pois
uma carta de intenções ou um manifesto de caráter abstrato, como ocorre com as
avaliações da política educacional atual, torna impossível qualquer implementação
ou avaliação.
A avaliação do currículo deve ser realizada por uma equipe responsável decidida
a fazer um trabalho em conjunto, o currículo não pode ser avaliado por um só
responsável ou por algum grupo restrito. Para a avaliação é necessário um programa
plurianual, um calendário com uma programação, prazos precisos para cada fase e
um conjunto de ações concebidas para os alunos.
De acordo com Veiga (1988), o currículo na educação básica deve ser definido
coletivamente quando do processo de elaboração da proposta pedagógica. A
implementação da proposta pedagógica, no contexto da gestão colegiada e de
processos participativos de tomada de decisões, deve considerar :
• A análise dos conflitos;
• A neutralização das relações corporativas e autoritárias;
• O rompimento da burocracia excessiva;
• A reformulação da divisão do trabalho, reduzindo o modelo fragmentado, que
reforça as diferenças e hierarquiza os poderes de decisões, em favor da
• Responsabilidade compartilhada e direcionada a resultados de interesse de
todos.
Podemos dizer que a qualidade da educação pública é o resultado do trabalho de
toda comunidade escolar. A proposta pedagógica é o rumo estabelecido pela
comunidade escolar, para orientar as práticas do dia a dia e sustentar as ações da
escola.
Como foi dito anteriormente sobre trabalho em comunidade e comunidade sempre
nos remete a coletivo, projeto pedagógico será coletivo ou ele não será pedagógico.
A proposta pedagógica sempre visa o coletivo. Segundo Cambi (1999,p.560), “o’
coletivo’ é um ‘organismo social vivo’ colocado, ao mesmo tempo, como meio e fim
da educação.”A proposta pedagógica abrange: currículo, planejamento, avaliação,
organização, funcionamento da instituição, relacionamentos externos e outros.
Na elaboração da proposta pedagógica, Veiga (1998) distingue as seguintes etapas:
o marco referencial, o diagnóstico, a programação e a avaliação.
Ter um currículo dinâmico não pode significar perda de padrão. Pois a escola
precisa estabelecer uma linha a seguir. Todas as turmas de um mesmo ano devem
aprender o mesmo conteúdo. A forma pode variar de acordo com cada professor,
mas a essência tem que ser a mesma. Esses padrões são definidos a partir da Base
Nacional Comum Curricular e dos valores e missão da instituição. Afinal, é possível
que o estudante precise mudar de escola mais de uma vez ao longo da sua vida, e
ele deve poder acompanhar o ritmo dos demais colegas em todas elas.

O cotidiano da escola também está diretamente relacionado com o currículo, se


pensarmos que o currículo inclui práticas escolares, rituais, crenças entre outros
aspectos. Nesse sentido, inclui o denominado currículo oculto, práticas escolares e
conhecimento transmitido de forma indireta no cotidiano da escola.

Segundo Nóvoa (1995), o currículo oculto, não está necessariamente tão oculto
assim, corresponde ao funcionamento normal das escolas, o que há de mais
evidente, de mais comum e tradicional, o que se tornou tão familiar que já não nos
chama a atenção. Este currículo se expressa no cotidiano da escola: no lugar
concedido aos alunos e o seu estatuto individual e grupal; na maneira de definir e de
coordenar o seu trabalho; nos métodos de manutenção da ordem de gestão das
multidões; no agrupamento dos alunos; na organização do tempo e dos espaços; na
estratégia de escolha e de construção escolar dos saberes a transmitir; na regulação
das práticas pedagógicas etc.
O currículo deve passar formação da consciência humana e não apenas
desempenho de tarefas de preparar os alunos para o mercado de trabalho. De
acordo com Winby, Favaro e Lima (2007), a luta pela garantia de uma escola de
melhor qualidade possível , que supere os projetos pedagógicos capitalistas, o
paradigma de mercado aplicado a educação, indo além da função de preparar para o
mercado de trabalho ou universidade. O objetivo deve ser o de assegurar aos
indivíduos a apropriação dos conhecimentos sistematizados, ou seja, da ciência,
propiciando o desenvolvimento de uma concepção mais elaborada do mundo, que
possibilite sua compreensão, a apreensão de suas múltiplas e complexas
dimensões, para uma atuação humana mais racional e consciente.
E o papel do professor nesse cotidiano escolar? Para Malagolli e Cerminaro
(2014, p.41), ”uma escola, diferentemente de uma empresa comercial, não pode de
contentar apenas com um administrador, mas precisa de um educador que lidere.” O
professor tem um importante papel na escola, relacionando a atuação deste
professor com o projeto pedagógico e a importância da escola em desenvolver a
proposta pedagógica coletivamente. São os professores lideram a realização do
projeto. São eles que geram as modificações.
O professor é um dos responsáveis de gerar uma nova visão de escola nos
alunos de tornar o clima mas confortável para que o aluno goste de estar ali.
De acordo com Malagolli e Cerminaro (2014, p.41),” é importante gerar
modificações no clima e na imagem da escola, através de atividades
extracurriculares envolventes que valorizem o papel da escola diante dos seus
alunos.”
Professores têm o difícil trabalho de valorizar o papel da escola, que não é um
papel fácil para os educadores. Os educadores encontram-se diante do desafio de
gerenciar a equipe e os recursos com o objetivo de construir. O professor precisa
estimular a aprendizagem nos alunos e não trazer informações curriculares. Esse é
uma grande desafio para o educador que tem que por todos seus conhecimentos,
criatividade e tentar o máximo de acerto em suas tomadas de decisões.
Portanto, estimular a aprendizagem exige que o educador tenha clareza em suas
finalidades, do ponto de vista dos objetivos e dos paradigmas do contexto social
econômico e cultural em que a escola está inserida.

3- CONSIDERAÇÕES FINAIS

o currículo escolar não é algo engessado. Ele deve acompanhar as mudanças na


sociedade e os avanços tecnológicos. Vivemos a revolução 4.0, na qual as
máquinas ganham cada vez mais espaço, e é preciso preparar os estudantes para
um futuro no qual a força de trabalho será cada vez mais intelectual e menos física,
além disso, aspectos sociais, como a tolerância às diversidades e a inclusão de
todos os indivíduos, também devem ser abordados no currículo para que esses
trabalhadores do futuro sejam, também, cidadãos colaborativos. Afinal, as escolas
têm uma grande responsabilidade com a formação da sociedade. A escola precisa estar
sempre atualizada sobre o que as demais instituições estão realizando. Além disso, deve
acompanhar as evoluções tecnológicas, pois crianças e adolescentes estão cada vez mais
inseridos no mundo digital e se desinteressam rapidamente pelas aulas que não oferecem
recursos inovadores. É importante introduzir novas práticas a cada ano letivo ou mesmo ao longo
do período, para manter o interesse dos estudantes e prepará-los para o mundo do trabalho com
uma visão de futuro.

4-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Editora Unesp, 1991.

GOODSON, Ivor. Currículo: teoria e história. Petrópole: Vozes, 1995.


MOREIRA, Antônio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da. Sociologia e teoria crítica do

currículo: uma introdução. São Paulo: Cortez, 2008.

MALAGOLLI, Gabriela Maffei; CERMINARO, Maria Cecília. As linguagens

artísticas, os currículos e os projetos. Ribeirão Preto – SP: UNISEB, 2014.


NÓVOA, Antônio. As organizações escolares em análise. Lisboa: Publicações

Dom Quixote

– Instituto de inovação educacional, 1995.

VEIGA, Ilma Passos. (org.) Projeto político – pedagógico da escola: uma

construção possível. Campinas – SP: Papirus, 1996.

WIHBY,A; FAVARO, N. A. L. G; LIMA, M. F. Escola e os limites e possibilidades

para a formação da consciência humana. Mangarí, 2007 .Disponivel em:

http://www.cipsi.uem.br/anais2007/trabalho/getdoc.php?tid=109

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