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JOSÉ OSMIR FIORELLI

ROSANA CATHYA RAGAZZONI MANGINI

PSICOLOGIA
JURÍDICA
10ª
edição
revista,
atualizada e
reformulada

MATERIAL SUPLEMENTAR
JOSÉ OSMIR FIORELLI
ROSANA CATHYA RAGAZZONI MANGINI

PSICOLOGIA
JURÍDICA
10ª
edição
revista,
atualizada e
reformulada

MATERIAL SUPLEMENTAR
MATERIAL SUPLEMENTAR
A. Relação dos casos
B. Filmes recomendados
C. Entrevista e interrogatório – Algumas considerações
D. Análise do filme Doze homens e uma sentença
E. As vicissitudes da Justiça
F. Temas para reflexão
G. Sinopses dos vídeos (QR Code)
4  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

A. Relação dos casos


Caso Título Tema
1 Colisão na rotatória Testemunhos aparentemente conflitantes.
Fenômenos da percepção.
2 Entre tapas e beijos Separação, conflito entre cônjuges.
3 Luciana: encontro Violência sexual. Memória. Mecanismo de
com a violência defesa.
4 No varal fica fácil Pensamento concreto.
5 Cego pela paixão Crime passional. Memória.
6 O ato falho Lapso de memória.
7 Carol, a bem amada Mecanismo de defesa. Característica de
personalidade histriônica. Emoção.
8 Guguinha e o id Limites. Responsabilidade. Personalidade
veloz dependente.
9 Cleuza, mamãe Motivação. Desenvolvimento psicológico.
camisa 10 Função materna.
10 Uma Flor com um só Comportamento violento. Condicionamento
marido operante.
11 O motoboy machão Conflito conjugal, violência e alcoolismo.
12 Tal pai, tal filho Estrutura de crenças. Esquemas de
pensamento. Mecanismo de defesa.
13 Trocada pela TV Características de personalidade.
Expectativas. Fronteiras impermeáveis.
14 Entre a emoção e a Psicose puerperal, infanticídio.
razão
15 O bar da cirrose Alcoolismo. Predisposição genética e
desencadeante.
16 Mudanças possíveis Alcoolismo. Influências ambientais no
desenvolvimento.
17 Em legítima defesa Transtornos do pensamento e da percepção:
alucinação, ilusão. Esquizofrenia.
18 A enfermeira legal Simulação. Mentira patológica. Vítima
igualmente culpada.
19 Os inocentes no Exame do Estado Mental. Perturbação
lugar errado da saúde mental
20 “Curtindo a vida” Personalidade. Subsistemas. Permeabilidade
de fronteiras. Limites.
Material Suplementar  5

21 Janaína, promíscua e Síndrome do pequeno poder. Estrutura de


saudosa pensamento. Personalidade.
22 O homem de Instituições de exclusão. Relações
Severina familiares.
23 Reclamando em Personalidade antissocial. Pensamento
berço esplêndido obsessivo. Dependência. O gozo no
sofrimento do outro.
24 Corrupção antidroga Reação emocional. Estresse. Expectativa de
não punição.
25 O torturador de Tortura. Transtorno de personalidade
idosos antissocial.

26 A filha de Violência sexual. Raiva. Inveja. Expectativa de


Godofredo não punição. Mecanismo de defesa.
27 Agressão no Impulsividade. Expectativa de impunidade.
trânsito: Aguinaldo,
o valente
28 G.: à espera de um Violências. Vulnerabilidade. Gênese
milagre da violência
29 A raiva de Maria Perícia. Inveja. Utilização da criança para
Helena atingir o cônjuge. Alienação parental.
30 A lei acima da Integridade psicológica da criança.
criança?
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B. Filmes recomendados
O uso de filmes para debates técnicos e culturais, em grupo de
amigos ou sala de aula, constitui valiosa ferramenta para a discus-
são de temas transversais e de interesse geral. Possibilita polemizar e
aprofundar o conhecimento e a compreensão de situações que fazem
parte do cotidiano social.
Ao relacionar o enredo do filme com os aspectos didáticos da
disciplina lecionada, o professor tem a oportunidade de facilitar a
construção de conhecimento imediatamente relacionado a aspectos
práticos e vivenciais, principalmente quando se trata do campo das
ciências humanas, como é o caso do Direito, tema recorrente em pelí-
culas dos mais diversos gêneros.
No quadro a seguir, apresenta-se uma relação de filmes (longa e
curta-metragem) de interesse da psicologia jurídica; em geral, são pro-
duções de qualidade, facilmente localizáveis em streaming de filmes.

TÍTULO ANO E DIREÇÃO TEMAS DE INTERESSE


Acorda Raimundo… 1990 – Alfredo Alves Curta-metragem. Relacionamento
Acorda! conjugal. Diversidade de gênero.
À meia-luz 1944 – George Cukor Obra-prima a respeito do pro-
(Gaslight) cesso de destruição gradativa do
equilíbrio emocional, levando a
vítima a acreditar na própria lou-
cura. Assédio moral.
Advogado do diabo, 1997 – Taylor Hackford “Crime de colarinho branco”.
O Trabalho e relacionamento fami-
liar. Transtorno emocional.
Vitimização.
Águias em chamas 1949 – Henry King Motivação. Liderança, compor-
tamento em grupo, comporta-
mento e papel.
Babá quase 1993 – Chris Columbus Dificuldades que envolvem a sepa-
perfeita, Uma ração e o quotidiano da guarda
de filhos.
Bicho de sete 2000 – Laís Bondanzky Sistema manicomial. Hospitaliza-
cabeças ção. Preconceito contra usuário
de droga. Relações familiares.
Bonitinha mas 1981 – Braz Chediak Estupro, prostituição, pederastia
ordinária e suborno.
Material Suplementar  7

TÍTULO ANO E DIREÇÃO TEMAS DE INTERESSE


Carandiru 2002 – Hector Babenco Fenômenos socioculturais em
torno de instituição fechada (de
exclusão). Linguagem. Simbo-
lismo. Trocas com o ambiente.
Violência. Valores. Motivação
e sobrevivência em condições
limites.
Cela, A 2000 – Tarsem Singh Transtorno mental. Crime. Priva-
ção da liberdade.
Cidade de Deus 2002 – Fernando Violência. Diferenciação pela lin-
Meirelles guagem. Influência de mode-
los sobre os comportamentos e
expectativas. Liderança e coesão
da equipe.
Como nascem os 1996 – Murilo Sales Interessante percurso de adoles-
anjos centes em uma sociedade desi-
gual e preconceituosa.
Copacabana 2001 – Carla Camurati O envelhecimento e relaciona-
mentos familiares.
Dia do Chacal, O 1973 – Fred Zinneman Heroização do criminoso: o poder
do carisma.
Doze homens e 1957 – Sidney Lumet O filme mostra uma sessão do júri.
uma sentença 1997 – William Friedkin Mecanismos de defesa, crenças irra-
cionais, figura e fundo, preconceito,
condicionamento, liderança, compor-
tamento em grupo (entre outros).
Duas faces de um 1996 – Gregory Hoblit Relacionamento advogado-cliente.
crime, As Doença mental e crime. Simu-
lação. Dupla personalidade.
Entre quatro 2001 – Todd Field Crime passional. Reação emocio-
paredes nal a evento traumático. Crime e
castigo.
Escolha de Sofia, A 1982 – Alan J. Pakula O peso do sentimento de culpa
ocasionado por uma decisão em
situação de paradoxo insolúvel.
Conflito de sentimentos.
Espera de um 1999 – Frank Darabont Preconceito racial. Pena de morte.
milagre, À
Eu, Christiane F., 1981 – Ulrich Edel Minucioso relato da evolução da
13 anos, drogada e drogadição, desde o álcool até
prostituída a droga pesada. Prostituição. A
vítima permanece dependente.
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TÍTULO ANO E DIREÇÃO TEMAS DE INTERESSE


Experiência, A 2001 – Oliver Contundente experiência com
Hirschbiegel seres humanos confinados em
uma prisão experimental. Poder e
humi­lhação.
Festa de família 1998 – Thomas Conflitos familiares.
Vinterberg
Grande esperança 1970 – Martin Ritt Preconceito de cor. Casamento
branca, A entre negro e branca. Valores.
Reação ao estresse. Desestabiliza-
ção emocional.
Guerra dos Roses, A 1989 – Danny de Vito Conflitos em torno do divórcio.
Ódio e vingança.
Inquilino, O 1976 – Roman Polanski Pensamento obsessivo. Esquizo-
frenia (confronte-se com Uma
mente brilhante).
Instinto secreto 2007 – Bruce A. Evans Dupla personalidade. Serial killer.
Julgamento em 1961 – Stanley Kramer Valores morais. Ética jurídica.
Nuremberg
Julgamento final, O 1991 – Michael Apted Corrupção e ética jurídica.
Relacio­namento familiar.
Kramer vs Kramer 1979 – Robert Benton Valores familiares. Diferenças de
percepções. Crise pessoal e crise
do casamento. Guarda de filhos.
Lavador de almas, O 2006 – Adrian Shergold História real do carrasco Albert
Perrepoint. Discute pena de morte
e dilemas morais.
Letra escarlate, A 1995 – Gary Oldman Relacionamento social. Precon-
ceito e discriminação.
M…Butterfly 1993 – David O poder da paixão levado ao
Cronenberg extremo. O efeito da paixão sobre
a percepção, o raciocínio, a inter-
pretação dos fatos.
Marcos do silêncio 1996 – Anjelica Huston Violência doméstica. Abuso sexual.
Marnie, confissões 1964 – Alfred Hitchcock Chega-se à origem do comporta-
de uma ladra mento de uma ladra. Transtorno
dissociativo. Memória.
Melhor é impossível 1997 – James L. Brooks Transtorno obsessivo-compulsivo;
falta de compaixão, incapacidade
de se colocar no lugar do outro,
homossexualismo e racismo.
Material Suplementar  9

TÍTULO ANO E DIREÇÃO TEMAS DE INTERESSE


Mente brilhante, 2001 – John Howard História do matemático John Nash.
Uma Esquizofrenia.
Delírios, alucinações.
Meu pai, eterno 1984 – Paul Newman Conflito de personalidades.
amigo Dife­renças de visão de mundo.
Dificuldades de comunicação
intergeracional.
Minority Report 2002 – Steven Spielberg Prevenção ao delito. Investigação.
Repressão.
Olga 2004 – Jayme Discussão sobre regimes ditatoriais
Monjardim e liberdade de expressão.
Pai patrão 1977 – Paolo e Vittorio Família patriarcal. Relacionamento
Taviani pai e filho. Busca da independência.
Perfume 2006 – Tom Tykwer Crime. Transtorno antissocial.
Exclusão social. Hipocrisia social.
Psicopata 2000 – Mary Harron Psicopatia e relacionamento
americano social.
Quanto vale ou é 2005 – Sérgio Bianchi Superfaturamento, dignidade
por quilo? do trabalhador, valor da vida
humana, princípios morais.
Rain man 1988 – Barry Levinson Relacionamento entre cuidador
(irmão) e dependente autista.
Repulsa ao sexo 1965 – Roman Polanski Depressão, alucinação, transtorno
da sexualidade.
Segredos e mentiras 1996 – Mike Leigh Adoção. Preconceito. Relações
familiares. Ocultação. Aparências.
Seven 1995 – David Fincher O gozo de fazer sofrer de um
serial killer.
Sociopatia. A inteligência do
sociopata, sempre à frente dos
investigadores.
Silêncio dos 1991 – Jonathan Crime, transtorno de personali-
inocentes, O Demme dade, aspectos emocionais do rela-
cionamento com o psicopata.
Sin City 2005 – Frank Miller e Filmagem baseada na graphic
Robert Rodriguez novel homônima.
Indução à violência com sórdidos
requintes.
Síndrome de Caim 1992 – Brian de Palma Comportamento humano. Experi-
ência científica. Ciúmes.
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TÍTULO ANO E DIREÇÃO TEMAS DE INTERESSE


Sociedade dos 1989 – Peter Weir Relacionamento interpessoal. Téc-
poetas mortos nicas de ensino-aprendizagem.
Sonho de liberdade, 1994 – Frank Darabont A transformação da visão de
Um mundo ocasionada pela instituição
total. Motivação e comportamento.
Tudo sobre minha 1999 – Pedro Moralismo. Relações familiares.
mãe Almodóvar Preconceito.
Um bonde chamado 1951 – Elia Kazan Obra-prima a respeito da sexua-
desejo lidade e do desequilíbrio mental,
que se agrava pouco a pouco.
Assédio moral. Dano moral. A
vítima eterna. Valores morais.
Vestida para matar 1980 – Brian de Palma Transtorno dissociativo de perso­
nalidade (Hyde e Jekill). A vítima
que se expõe ao perigo.
Vida de David Gale 2003 – Alan Parker Dicotomias do sistema judicial. O
combate à pena de morte.
Vida em família 1971 – Ken Loach Transtorno mental. Desospitaliza-
ção. Repressão familiar.
Vidas sem rumo 1983 – Francis Ford Conflito entre classes sociais.
Coppola Marginalização e preconceito.

EXERCÍCIOS
1) A personalidade antissocial está descrita no DSM como des-
respeito e violação dos direitos dos outros. Identifique no
filme Perfume comportamentos do protagonista sugestivos
de aspectos da personalidade antissocial (item 3.2.5), que no
meio jurídico é usualmente denominada como psicopatia.
2) No filme A armadilha, os protagonistas são criminosos sedu-
tores que instigam a imaginação do espectador. Identifique
aspectos relacionados à importância dos modelos (item 2.6)
que podem despertar outros a seguirem no mesmo caminho.
3) O desenvolvimento humano dá-se ao longo de toda a vida,
mas há fases, como a adolescência, em que os desafios são
intensos e podem refletir no modo como o adolescente esta-
belecerá seus relacionamentos interpessoais. Identifique no
filme Como nascem os anjos aspectos relacionados à subjetivi-
dade e à responsabilidade (item 4.2.2).
Material Suplementar  11

4) O exercício da paternidade tem ganhado novos contornos. Nas


disputas de guarda de filhos, não raras vezes observam-se pais
que desejam cuidar de seus filhos. No filme Uma babá quase per-
feita, o protagonista leva esse desejo às últimas consequências.
Relacione o comportamento do pai aos indicativos apontados
no item 8.5 – Paternidade e reconhecimento de filhos.
5) As disputas que permeiam muitos dos rompimentos conju-
gais constituem litígios que tramitam na Justiça com elevada
frequência. Identifique no filme A guerra dos Roses questões
relativas à união e à separação conjugal (item 8.4).
6) No filme O julgamento de Nuremberg, a trama desenvolve-se
apontando graves violações de Direitos Humanos. Conforme
o que se estudou no capítulo 10, identifique aspectos que pos-
sam assegurar a garantia de direitos.
7) No filme Melhor é impossível, o personagem principal personi-
fica vários comportamentos que indicam transtorno mental,
identifique-os de acordo com o exposto no capítulo 3.
8) O instigante filme O advogado do diabo traz em seu enredo
dilemas vividos por profissionais do mundo jurídico. O item
5.1.2 remete à emoção que pode permear a atuação desses
profissionais. Identifique aspectos relacionados ao persona-
gem principal e o modo como ele se deixa influenciar pela
emoção.
9) A violência é tema recorrente na filmografia. O filme A expe-
riência proporciona o exercício dos sentidos e sentimentos
que ela desperta. O capítulo 7 auxilia a compreender o fenô-
meno. É possível identificar por meio desse filme aspectos
relacionados ao condicionamento por reforço positivo, anali-
sando as contingências proporcionadas pelos proponentes da
“experiência”.
10) O controle e a diminuição da violência são desejados pela
sociedade, que, muitas vezes, fazem as pessoas clamarem
por mecanismos cada vez mais repressivos. O filme A vida de
David Gale provoca a reflexão sobre a pena de morte. Analise
o tema tendo por base os apontamentos dos capítulos 10 e
11, relacionando direitos humanos e métodos alternativos de
resolução de conflitos.
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C. Entrevista e interrogatório –
Algumas considerações
Ao longo do texto, em vários capítulos, foram feitas referências e
dadas orientações específicas a respeito da realização de entrevistas.
Neste apêndice, faz-se uma consolidação geral do tema e apre-
sentam-se orientações adicionais de interesse de psicólogos, advo-
gados e profissionais que se deparam com a tarefa de entrevistar
pessoas.

1  ESTRUTURA DA ENTREVISTA
A entrevista (ou interrogatório) pode ser estruturada de diferen-
tes maneiras, como sugere-se a seguir.

Quanto ao tipo de perguntas:

a) abertas (“fale a respeito de…”).


b) fechadas (“você viu ou não viu…?”).

Quanto à condução:

a) estruturada (o entrevistador segue um roteiro predefini-


do);
b) não estruturada (o entrevistador elabora as perguntas a
partir das respostas que vai obtendo);
c) semiestruturada (combina as formas anteriores).

Quanto ao registro das informações:

a) oral com anotações manuscritas;


b) oral com gravação;
c) perguntas e respostas por escrito;
d) combinação dos anteriores.
Material Suplementar  13

Estas e outras modalidades combinam-se, de maneira que existe


uma extensa diversidade de formas de conduzir entrevistas, cada
uma delas propiciando diferentes resultados. A escolha da estratégia
deve levar em consideração, no mínimo:

• o assunto;
• as características do entrevistado;
• a natureza das informações que se pretende coletar;
• a duração da entrevista.

2  CUIDADOS GERAIS
“A entrevista é um campo de trabalho no qual se investiga a
conduta e a personalidade dos seres humanos” e, por isso, “uma uti-
lização correta da entrevista integra na mesma pessoa e no mesmo
ato o profissional e o pesquisador” (BLEGER, 1989b, p. 21).
Autoconhecimento, identificação dos próprios preconceitos, fal-
sas crenças a respeito de pessoas e acontecimentos, pensamentos
automáticos e experiências anteriores que o identifiquem ou opo-
nham ao entrevistado são cuidados essenciais do entrevistador.
O entrevistador deve compreender que ansiedade e emoções
(raiva, repugnância, medo, piedade, amor) afetarão a memória, a
compreensão dos fatos e a capacidade de se expressar do entrevis-
tado. Esses estados emocionais produzem, amiúde, mecanismos de
defesa que devem ser neutralizados (distração, negação da reali-
dade, regressão, fantasia constituem exemplos comuns).
“Na entrevista, a passagem do normal ao patológico acontece
de modo insensível” assinala Bleger (1989b, p. 27). Podem surgir
fixações de pensamentos, fobias, defesas obsessivas e muitos outros
comportamentos (do entrevistador e do entrevistado), inclusive a
projeção de conflitos do entrevistador sobre o entrevistado (BLE-
GER, 1989b, p. 28), por exemplo, quando aquele percebe que o outro
realizou algo que ele nunca conseguiu fazer por falta de coragem ou
competência.
Outro risco do entrevistador é incorrer em estereotipia. A entre-
vista perde-se em uma rotina que oculta as diferenças individuais e
que conduz à generalização, à negação da diversidade, ao tratamento
homogêneo de pessoas diferentes. A percepção do entrevistado
14  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

segundo padrões estereotipados cerceia a criatividade do entrevista-


dor, delimita os temas, dirige o pensamento no sentido de confirmar
suposições preconcebidas.
O ambiente, sem dúvida, constitui um fator importante a ser con-
siderado. Ele pode inibir, amedrontar, estimular, produzir ansie-
dade, dependendo de como se dispõem os instrumentos, os móveis,
a posição relativa de entrevistador e entrevistado, a decoração etc.
O ambiente de um interrogatório, nas dependências policiais, por
exemplo, induz um estado emocional muito diferente daquele que
seria obtido nas instalações de um escritório de advocacia.

3  O ENTREVISTADO
O entrevistador deve considerar que a ansiedade elevada pode
ocasionar alterações transitórias de características de personalidade.
A pessoa pode apresentar-se anormalmente “histriônica”,
“obsessiva”, “narcisista”, “paranoica”, “dependente”, “evitativa”,
“esquizotípica” etc., transmitindo uma imagem que não corres-
ponde à sua “normalidade”.
O comportamento do entrevistador pode acentuar essas trans-
formações que impedem a melhor investigação dos acontecimentos.
Por exemplo, se ele eleva a voz, gesticula ostensiva ou agressiva-
mente, aproxima-se do entrevistado, aponta-lhe o dedo, esmurra a
mesa, coloca os pés sobre ela, fuma etc.; cada um desses compor-
tamentos afeta o estado emocional do entrevistado de diferentes
maneiras e intensidades, dependendo das características emocio-
nais deste, de suas experiências anteriores com entrevistas, de suas
expectativas quanto ao que acontecerá no encontro, em geral dificul-
tando a fiel coleta de dados.
A ansiedade elevada combina-se com a emoção para afetar pro-
fundamente a memória: é comum que acentue alguns detalhes e
oculte outros. Pode provocar confabulações. As características de
personalidade influenciam na forma como essa reação à emoção e à
ansiedade acontece (o dependente reage de modo diferente do nar-
cisista, por exemplo).
A presença ou não de acompanhante é importante (BLEGER,
1989b, p. 31). Pode indicar o funcionamento familiar (fronteiras, coa-
lizões, momento do ciclo vital etc.), relações de dependências, rede
de influências etc. Em depoimentos de crianças e adolescentes, faz-
-se imprescindível a presença de alguém de confiança do depoente.
Material Suplementar  15

Também o estado emocional pode gerar mecanismos psicológicos


de defesa; o esquecimento, a confabulação e o bloqueio da fala são
exemplos bastante conhecidos. O silêncio do entrevistado, segundo
Bleger, é o “o fantasma do entrevistador”.
Contudo, “se o silêncio total não é o melhor da entrevista…, tampouco
o é a catarse intensa” (BLEGER, 1989b, p. 34), quando a fala jorra des-
controlada e, no fundo, nada é dito (como acontece em muitos depoi-
mentos a respeito do relacionamento conjugal), o que pode indicar
tanto um mecanismo psicológico de defesa como um comporta-
mento de dissimulação, quando se trata de pessoas com experiência
nesse tipo de situação.
Outra questão fundamental a ser considerada é o nível de pen-
samento do entrevistado. De nada adianta conduzir a entrevista por
meio de termos, ideias e conceitos abstratos quando o entrevistado
se encontra fixado no estágio operatório concreto; a pergunta é colo-
cada em um nível ao qual o indivíduo simplesmente não possui
acesso do ponto de vista cognitivo.

4  CONDUÇÃO DA ENTREVISTA
A observação de detalhes físicos e comportamentais do entrevis-
tado (postura, gestos, vestimenta) possibilita, ao entrevistador, esta-
belecer o tom que dará à entrevista.
O entrevistado revela, inconscientemente, temperamento e
características comportamentais que orientarão o comportamento
do entrevistador. É importante essa sintonia emocional para que a
entrevista resulte produtiva.
Um entrevistado evitativo solicita um comportamento muito
diferente de outro narcisista; um antissocial pede uma postura dife-
rente de alguém socialmente correto.
A história do indivíduo e o conhecimento das características de
personalidade proporcionam bons subsídios para entrevistadores.
A entrevista, conforme se mencionou anteriormente, pode ser
conduzida por meio de perguntas abertas ou fechadas, quando
não se opta pelo relato espontâneo já comentado. Esses métodos
podem ser combinados vantajosamente: admite-se o relato, passa-
-se a perguntas fechadas, deriva-se para perguntas abertas e assim
sucessivamente.
16  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

Pode ser mais conveniente iniciar-se com perguntas abertas e


delas colher informações para estabelecer perguntas fechadas, que
dirigem o foco da atenção.
A entrevista também pode seguir uma alternância entre a con-
dução estruturada, não estruturada e semiestruturada, dependendo
do assunto, da situação e do entrevistado. Este, por suas característi-
cas, pode favorecer o uso mais intenso de uma forma ou outra.
Quando se trata de uma pessoa muito tímida, com grande difi-
culdade de se expressar, é recomendável iniciar a entrevista de
maneira estruturada e com perguntas fechadas, promovendo a desi-
nibição gradativamente. Uma pessoa falante, extrovertida, pode
sugerir um início não estruturado, por meio de relato espontâneo ou
perguntas abertas, porém, dependendo dos objetivos da entrevista,
pode ser necessário, após esse momento inicial de relato espontâneo,
estruturar e direcionar a entrevista de tal modo que o entrevistado
mais extrovertido consiga focar naquilo que é essencial.
O entrevistador que se mantém preso a uma forma estereoti-
pada de perguntar e dirigir o procedimento corre o risco de perder
informações, embora acredite que possa poupar tempo. Portanto, é
sempre interessante uma breve análise das vantagens e desvanta-
gens das formas de entrevistar e dos tipos de entrevista para cada
tipo de situação. Um acidente de veículos com vítimas é muito dife-
rente de um sequestro ou um estupro.
As perguntas constituem um componente essencial de toda
entrevista. Manzi (2007) recomenda que o entrevistador utilize uma
vasta gama de perguntas, para bem explorar as respostas e evitar a
ocorrência de falhas, conforme comentado anteriormente, ajustan-
do-as aos temas e às respostas, com flexibilidade e inteligência.
As perguntas abertas podem ser:

• ambíguas ou ardilosas;
• comparativas;
• dedutivas;
• dialéticas;
• explorativas;
• extensivas ou de reforço;
• espelhadas ou invertidas;
• hipotéticas ou fantasiosas;
Material Suplementar  17

• indutivas;
• investigadoras;
• objetivas (quem, quando, onde, como, o quê, por quê).

As perguntas fechadas podem referir-se a:

• duas únicas alternativas (sim ou não);


• uma escolha entre alternativas ou possibilidades (do tipo
teste de múltipla escolha).

A arte de perguntar desenvolve-se conjugando sensibilidade,


prática e atenção concentrada no que fala. O entrevistador sabe que
existe a chance de simulação, de má intenção, de distorção dos fatos
e a diversidade de maneiras de perguntar constitui um artifício para
levar a pessoa ou a se contradizer, ou a se expressar com sinceridade
quando há a possibilidade de que isso não aconteça.
O entrevistador deve certificar-se, ao escutar as respostas, de que:

• a pessoa disse o que pretendia dizer: muitas vezes, faltam pa-


lavras ou escolhem-se termos inadequados por deficiência
de conhecimento técnico ou de escassez de vocabulário do
entrevistado;
• entendeu realmente o que a pessoa disse: o entendimento
enganoso pode ocorrer por vários motivos, atribuíveis ao
entrevistado e/ou ao entrevistador; evita-se que isso acon-
teça por meio da repetição do que foi dito com outras pa-
lavras (paráfrase), por exemplo; pode-se, também, solicitar
que o entrevistado explique de outra maneira etc.

5  O ESTILO DO ENTREVISTADOR
O entrevistador pode optar por diferentes estilos na condução
da entrevista. Cada um deles apresenta vantagens e desvantagens e
a escolha deve levar em consideração:

• as características do entrevistado;
• a natureza do problema (um homicídio sugere estilo mui-
to diferente de um crime administrativo ou de um divór-
cio);
18  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

• o momento em que ocorre a entrevista ou inquérito; lapso


temporal decorrido desde o fato e a realização da entrevis-
ta;
• as consequências das respostas para o entrevistado e para
outras pessoas;
• os sentimentos do próprio entrevistador.

Não existe uma “receita de bolo” para sugerir este ou aquele


estilo, porém, a prática, neste caso, é boa conselheira; às vezes, a deci-
são a respeito do estilo a adotar acaba sendo tomada no momento
exato da entrevista quando o entrevistador toma contato com o
entrevistado. Por exemplo, no caso de pessoas na fase de pensa-
mento operatório concreto, será difícil atuar com questionamentos
muito amplos ou metafóricos; estas pessoas pedem entrevista mais
estruturada e perguntas objetivas para facilitar a compreensão e a
evocação das memórias. Sinais físicos e fisiológicos (indumentária,
postura, expressão do olhar, suor, tiques, gesticulação, maquiagem
etc.) compõem um quadro que orienta a pessoa, tanto mais quanto
maior sua experiência.
O andamento da entrevista (ou interrogatório) também leva
o entrevistador a modificar o estilo adotado; assim, ajusta-se ao
desempenho do entrevistado e às informações que vão surgindo ao
longo do diálogo. Por exemplo, a forma como ele responde, a agres-
sividade, as manifestações emocionais, permitem ao entrevistador
rever constantemente seus próprios comportamentos.
Alguns estilos marcantes são os seguintes (todos eles pos-
suem suas vantagens ou desvantagens dependendo do objetivo, do
momento, do assunto, das características do entrevistado):

Agressivo
O entrevistador opta pela intimidação. Esmurra a mesa, apro-
xima-se ostensivamente do entrevistado; demonstra desprezo, anti-
patia ou ódio. A agressividade não precisa ser manifesta por gestos,
podendo limitar-se à escolha do vocabulário que faça esse efeito.

Histriônico
A entrevista transforma-se em um teatro de exibicionismo do
entrevistador. Usa a técnica de sedução. Cria uma falsa intimidade.
Material Suplementar  19

Narcísico
Roupas, gestos, maquiagem e outros detalhes são organizados
para demonstrar a grande superioridade intelectual e econômica,
além do poder, do entrevistador.

Esquizoide
O entrevistador mostra-se frio, arredio e distante da situação. As
perguntas e comentários empregam frases lacônicas; as palavras são
economizadas. Passa a impressão de que apenas suporta a atividade
e pretende encerrá-la assim que possível.

Persecutório
A desconfiança é o sentimento que permeia a entrevista. O
entrevistador, ainda que não o demonstre claramente, adota com-
portamentos de controle e verificação, assumindo que o entrevis-
tado estará sempre propenso a enganá-lo ou a lhe transmitir infor-
mações falsas.

Paternalista
O entrevistado é convidado, implicitamente, a se colocar sob
a proteção do entrevistador, que não hesita em chamá-lo de filho.
Gestos de carinho paternal acompanham palavras de estímulo e
conforto. Por outro lado, esta atitude pode ser reconhecida como
negativa pelo entrevistado. O estilo paternalista, apesar de parecer
positivo à primeira vista, deve ser usado com muita parcimônia.

Empático
O entrevistador procura colocar-se no lugar do outro, esforçando-
-se para compreender o ponto de vista dele. A demonstração de sim-
patia é limitada ao necessário para esse objetivo.
Esses e outros estilos aplicam-se à entrevista como um todo ou
a momentos dela. O entrevistador pode iniciar com um comporta-
mento paternalista, migrar para agressividade e concluir com empatia,
por exemplo.
Mudanças de estilo ao longo da entrevista desconcertam o entre-
vistado, retiram-lhe referências, minam-lhe a autoconfiança e colo-
cam-no à mercê do entrevistador.
20  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

Obviamente, as características do entrevistado serão de funda-


mental importância para orientar o comportamento do entrevista-
dor no transcorrer desse teatro interpessoal.
A presença de observadores, ainda que não participantes da
entrevista, também desempenha importante papel em seu anda-
mento. Se forem percebidos como inimigos ou fonte de riscos pelo
entrevistado, suas presenças servirão para desestabilizá-lo ainda
mais.

6  INTERROGATÓRIO: ALGUMAS PARTICULARIDADES


Uma entrevista pode ter uma finalidade específica, mas pode
também, e isso acontece com frequência, objetivar a coleta de grande
quantidade de dados e informações para compor o conhecimento a
respeito do entrevistado e de situações que se investiga. Por exem-
plo, a entrevista com um detento para avaliar suas condições emo-
cionais e estabelecer prognóstico comportamental.
O interrogatório, entretanto, em muitas situações, pode ser obje-
tivo, com uma única finalidade. Ele pode ser conduzido, por exem-
plo, durante inquérito policial e, também, pelo advogado, na entre-
vista com o cliente, com o propósito de conhecer detalhes de sua
participação em um delito do qual é acusado. Nos processos e pro-
cedimentos judiciais, ressalte-se, são comuns comportamentos que
sugerem dissimulação; em alguns casos, pode-se chegar ao trans-
torno factício, estudado no Capítulo 3.
Nesta situação, as questões podem assumir configurações espe-
cialmente desenhadas para o objetivo que o entrevistador tem em
mente. Tem-se, então, o interrogatório:

• dirigido: o entrevistador explicita o conflito entre o que o


sujeito sabe e o que lhe é perguntado. “Por que você deu
uma punhalada em João?”;
• aberto: abre-se mais espaço para divagações, porém, foca-
lizando ainda o acontecimento. “O que aconteceu no inte-
rior daquele bar?”;
• centrífugo ou centrípeto: o indivíduo pode negar a per-
gunta direta, mas pode proporcionar a informação indi-
retamente, atingindo-se o resultado desejado; o caminho
Material Suplementar  21

pode ir em direção ao tema (centrípeto) ou dando a apa-


rência de distanciar-se dele (centrífugo).

O entrevistador pode, também, valer-se de questões condicio-


nais (afirmativas ou negativas) com o propósito de confundir o pen-
samento do entrevistado e alterar seu curso:
“Você então, não estava naquele local, sim?” “Você disse que iria
lá, não?” A negativa e a afirmativa na mesma sentença criam dubie-
dade e circularidade.
O interrogatório pode esbarrar em lapsos de memória e esqueci-
mentos; diversas situações foram apresentadas no estudo da memó-
ria, indicando-se que técnicas sofisticadas de recuperação devem ser
aplicadas por especialistas, para evitar a criação de falsas memórias,
confabulações e outras distorções.
De maneira geral, a associação de fatos pode facilitar a recupera-
ção de dados da memória.
O entrevistador deve considerar que a resposta objetiva, direta,
será tanto mais difícil quanto maior o potencial prejuízo (real ou
idealizado) para o que responde; daí o uso de perguntar de maneira
indireta ou, em vez de perguntas, utilizar-se a solicitação de “infor-
mações a respeito do assunto”, que conduz a resultados positivos
mais prováveis.
“Você conhece o bar …. onde Fulano e Ciclano costumavam ir?”
“Como foi quando você esteve lá pela última vez?” etc.
Nos interrogatórios, é comum a utilização do tempo como um
aliado do entrevistador, porque ao cansaço físico segue-se o psíquico.
A habilidade de entrevistar ou interrogar desenvolve-se, prin-
cipalmente, com a prática. As técnicas devem estar suficientemente
memorizadas, entretanto, nada melhor do que o exercício para
desenvolver a competência.
Uma estratégia recomendável é o acompanhamento de entre-
vistas e interrogatórios, para conhecer os procedimentos de pessoas
mais experientes e aprender com eles.
22  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

D. Análise do filme
Doze homens e uma sentença
Filme dirigido em 1957 por Sidney Lumet, baseado em peça de
Reginald Rose, mostra uma sessão do júri.
Ganhou versão para a televisão norte-americana, em 1997, diri-
gida por William Friedkin.
Mecanismos de defesa, crenças irracionais, fenômenos de per-
cepção (figura e fundo), preconceito, condicionamento, liderança,
comportamento em grupo são temas que permeiam o transcorrer
da película.
É essencial, para o entendimento do filme, que se compreendam
duas premissas:

• a decisão do júri deve ser por unanimidade;


• o júri deve decidir se o réu é “culpado” ou “não culpado”;
na existência de uma “dúvida razoável” a respeito da cul-
pa do réu, ele deverá ser designado como “não culpado”.

Este filme marcou a história do cinema em relação aos filmes


relacionados com temas jurídicos. Ele aparece entre os 100 melho-
res de todos os tempos, em todas as mais importantes classificações.
Em 2007, essa película foi selecionada para ser preservada no
Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados
Unidos por ser considerada “significante estética, histórica e cultu-
ralmente” (fonte: Wikipédia).
A sala de jurados não é confortável. A conservação do ambiente
está longe de ser convidativa; o calor oprime; o ar-condicionado está
estragado; tudo demonstra precariedade. A “figura” na percepção
de todos passa a ser a “preservação do bem-estar”. O réu é um abor-
recimento; relegado a segundo plano, seu status beira a inconveniên-
cia para alguns dos jurados.
O ambiente convida os participantes a saírem dali o mais cedo
possível e essa impressão provocada pela estética do local (vejam-
-se os comentários a respeito de instituições de exclusão neste livro)
transmite-se para o estado de espírito dos presentes – de todos,
menos de um.
Material Suplementar  23

Convida-se o leitor a atentar para os seguintes pontos:

1. O papel do líder burocrático (o jurado número 1)


Instituído por norma. Coloca o processo em funcionamento, mas
sua liderança não basta para influenciar significativamente na decisão.
Algumas de suas intervenções têm a função de demonstrar sua
qualidade de líder formal. Nisso, consegue obediência, não só por
aspectos intrínsecos à liderança, mas também por uma subserviên-
cia aos procedimentos jurídicos.

2. A influência pela agressividade


O papel da intimidação. O mecanismo de defesa inconsciente
adotado pelos participantes em relação às ideias do jurado agres-
sivo; a aversão ao conflito.

3. A dificuldade para se estabelecer a liderança por mérito


A percepção inicial que desperta a pessoa que se propõe a
liderar (jurado número 8): o estereótipo de alguém “do contra”, o
“aborrecido”.

4. O difícil caminho trilhado pelo líder


para obter o reconhecimento
O papel da perícia (da especialidade) e da empatia com rela-
ção aos demais. Destaque-se o comportamento do líder (jurado 8)
dando apoio a um dos jurados mais fragilizados; o fator emocional
que marca essa diferença. Ao conseguir o primeiro aliado, o líder
começa a ganhar força.

5. A transformação da liderança
Com a demonstração de competência, o jurado número 8 torna-
-se, pouco a pouco, carismático. Ele conjuga, com habilidade, duas
formas de liderança: a demonstração de suas habilidades de explicar
e de raciocinar, e o carisma.

6. A técnica utilizada para o aprofundamento nos conhecimentos


Utiliza-se o fenômeno de criar figuras e fechá-las, dando lugar
a novas figuras que assumem a posição da anterior (psicologia da
24  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

Gestalt). A preocupação em eliminar o que não interessa para focar a


atenção no que é figura.

7. A importância do exemplo dado pelo jurado número 8


Surge a função de modelo, fazendo com que as pessoas modifi-
quem seus comportamentos para se aproximar daquele apresentado
pelo líder.

8. A tentativa de formação de coalizões


As pessoas utilizam-se, para isso, do único espaço de que dispõem:
o banheiro; ali, elas acabam não se concretizando porque os potenciais
interessados não apresentam pontos de convergência nem emocionais,
nem pragmáticos, para se organizarem. Confirma-se a ideia de que,
para se formar uma equipe, é necessário vínculo emocional.

9. A liderança dá exemplo da importância de se dar espaço às


pessoas para demonstrarem suas respectivas competências
Isso acontece em diversas ocasiões, em que alguns dos jurados
demonstram satisfação ou orgulho de se manifestar e provar seus
pontos de vista.

10. A revelação do motivo da agressividade do jurado número 2


Ele traz a ideia preconcebida, o esquema rígido de pensamento.
O mecanismo de defesa do indivíduo escancara-se: projeta no réu o
drama pessoal que o corrói; a foto do filho é o ícone que espelha as
profundas mágoas do relacionamento entre ambos. Inicialmente frio
e insensível, alega buscar a “verdade” dos fatos, sem lhes questio-
nar, entretanto, a comprovação fundamentada. Irrita-se com a pro-
lixidade dos advogados. Por outro lado, o esquema de pensamento
que ele apresenta mostra-se conveniente: é mais fácil aderir a ele do
que pensar e apresentar uma contraproposta.

11. Fanatismo
As discussões permitem aflorar o preconceito de um dos jurados
em relação às pessoas como o réu. O preconceito evidencia-se pelo
estereótipo: “jovens dos cortiços são normalmente violentos”, “sel-
vagens”, não necessitam de motivo para matar o pai.
Material Suplementar  25

Desponta a figura do fanático – impossível de ser convencido de


qualquer coisa que fuja à sua crença. As tentativas de convencimento
são eloquentes para demonstrar a impossibilidade de sucesso. Con-
segue-se alterar seu voto, mas não seu pensamento.

12. Mudança da estratégia de comunicação do jurado agressivo


Ele muda a estratégia de comunicação quando vê que a agres-
sividade perde sua força de expressão. Vem o sarcasmo; em lugar
de demonstrar força, procura sugerir fraquezas naqueles que ele vê
como oponentes.

13. Comportamento do idoso


O jurado número 9, senhor bastante idoso, dá uma aula magis-
tral a respeito de três coisas:

a) a acurada percepção de detalhes da pessoa idosa, que se


concentra em alguns aspectos, embora perca outros;
b) a importância de se considerarem os aspectos comporta-
mentais das testemunhas; trata-se, no caso, da presença de
uma senhora na corte, com tudo o que o imaginário des-
sa situação pode lhe promover; de repente, ela conquista
seus minutos de glória e prepara-se para isso; o réu, nesse
momento, é o que menos conta;
c) o fenômeno da percepção é dissecado: o depoimento da
testemunha – que diz o que acredita ter visto (reconhecen-
do o réu), não o que realmente viu. Isso pode acontecer
quando uma testemunha encontra-se sob pressão; incons-
cientemente ou não, preenche as lacunas de sua memória
de acordo com sua própria história.

14. Crença e percepção


Diversas situações retratam a importância da crença sobre a per-
cepção; percebe-se aquilo que ratifica o que se idealiza. O estereótipo
domina o pensamento: “se o réu é … então, só pode ser culpado”.

15. Linguagem
A linguagem, não apenas falada, mas a manifesta em gestos
e comportamentos, é magnificamente demonstrada em algumas
26  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

situações; a maneira como o idoso se expressa demonstra sua difi-


culdade em concatenar os pensamentos, estabelecer uma lógica e,
ainda, conseguir ligá-los com a fala – isso vem a exigir uma tolerân-
cia e disposição para escuta que não é o comum entre pessoas mais
jovens. O resultado é a perda de opiniões dos mais idosos; o jurado
número 8 sabe disso e lhe dá o suporte emocional.

16. A importância da contextualização


A necessidade de se compreender o fato dentro do contexto fica
bem ilustrada quando um dos jurados interpreta a ação de aplicar
o golpe com o canivete, por meio do qual a vítima é assassinada.
Esse quadro também demonstra como a fixação da atenção (“aten-
ção seletiva”) depende de experiências anteriores do sujeito; o que é
visível para alguns mostra-se invisível para outros.

17. Valor e condicionamento


É exemplar o comportamento do jurado que “precisa” comparecer
ao jogo; ele não se envolve, acorrentado a uma “urgência” que outorga
ao jogo de futebol o comando de suas ações. Não sobra espaço para um
compromisso com o próximo; encontra-se ali fisicamente, porém, sua
motivação é outra. Esse é o tipo de valor que lhe agrega à situação.

18. Superficialidade e indecisão


O profissional de marketing e comunicação faz o papel da pes-
soa que não consegue olhar em profundidade sobre o que quer que
seja. Tenta participar, mas faltam-lhe valores humanos e emocionais
e essa fragilidade o torna indeciso e irritante para os demais jurados.

19. Características de personalidade


As diversas características de personalidade são investigadas.
Assim, o ritualismo do comportamento inicial civilizado vai, pouco
a pouco, cedendo espaço para que aflorem as diferenças entre os
integrantes do júri, tais como as seguintes:

• praticidade, organização (jurado 1);


• obsessão (jurado 3);
• racionalidade, autoconfiança (jurado 4);
Material Suplementar  27

• consciência social (jurado 6);


• superficialidade, indiferença (jurado 7);
• antissocial (jurado 10);
• histrionismo (jurado 12).

20. O papel da emoção


Ele é minuciosamente explicitado. A emoção funciona como o
disparador das mudanças de comportamento, seja a favor, seja contra
a condenação do réu. A emoção negativa do fanático mostra-se uma
barreira indestrutível; o comportamento amorfo do indiferente, tam-
bém, pois nada consegue emocioná-lo.

21. A dificuldade de conseguir que as pessoas pensem


É o grande desafio do jurado 8; a barreira encontra-se nos pen-
samentos automáticos, nos esquemas rígidos, que levam a erros de
julgamento notáveis e notórios. Fica no ar a pergunta: por que as
pessoas se recusam a pensar? Condicionamento? Falta de modelos
de pessoas que pensam? Mecanismos de defesa?

22. A influência do grupo


Demonstra-se pelas votações. Surge a tendência de acompanhar
o voto da maioria. A situação demonstra que a coesão do grupo em
torno do valor dominante nem sempre traz o resultado mais eficaz.

23. Papel crítico das “pausas” no trabalho


Quando modificam suas posições físicas, as pessoas também
predispõem a mente para rever as ideias; a relação entre a posição
física e o pensamento é bastante conhecida e funciona nos dois sen-
tidos: o pensamento pode interpretar determinadas posturas como
uma “postura que predispõe para determinados pensamentos”.
As pausas também são momentos de reconfigurar os subgru-
pos; na mesa, privam-se os presentes do contato com os que seriam
mais semelhantes; no momento de relaxamento estes se aproximam
e trocam ideias, ainda que de maneira sutil.
Um subproduto das movimentações nos momentos de pausa é a
interpretação do significado das posições nas mesas. Verifica-se que
28  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

as pessoas, quando podem movimentar-se, conseguem realizar arti-


culações que não ocorreriam na sala de reunião.

24. A reunião encarada como um processo, com fases de ciclo vital


A primeira fase é a abertura. É um momento de perplexidade
e temor; o papel do número 1 é fundamental nessa fase. Outro
momento importante é aquele em que se faz cada votação. Toda reu-
nião passa por um ponto de saturação em que a resistência física e
psíquica é contestada; à medida que cada jurado tem seu momento-
-limite atingido, torna-se mais fácil convencê-lo.
O momento de confronto entre os dois líderes – o carismático e o
agressivo – é outro de grande importância e que decide quem fica no
comando, vale dizer, quem dará o estilo definitivo à reunião.

25. Finalmente, sugere-se uma atenção ao encerramento dos


trabalhos, que se faz com uma sutil mensagem final a respeito
do sistema que existiu, por algum tempo, naquela sala.
Material Suplementar  29

E. As vicissitudes da Justiça
A sociedade contemporânea brasileira assemelha-se, por seus
comportamentos, à mitológica Hidra de Lerna, bravamente comba-
tida por Hércules, durante a execução de seus doze dificílimos tra-
balhos. O exótico animal possuía, como bem se sabe, sete ferozes
cabeças.
À maneira dela, nossa sociedade apresenta várias “cabeças”,
cada uma delas com características totalmente diferentes das demais,
o que enseja comportamentos paradoxais e incongruentes entre si,
capazes de surpreender aqueles que se atrevem a analisá-los.
Vê-se o heroico trabalhador assalariado, paladino das madruga-
das, contumaz observador dos nasceres e pores de sol na demanda
pelo ganha-pão diário. Pretensamente protegido por uma bateria de
leis trabalhistas, convive com salários incompatíveis com o que se
poderia esperar para uma qualidade de vida satisfatória. Satisfaz-
-se na terapia do churrasco de final de semana. Alguns dias na praia
completam o requinte.
Vê-se o autônomo, empregado de todos os clientes, no safári
urbano para matar o leão de cada dia, do qual extrai a sobrevivên-
cia. São multidões de vendedores e prestadores de serviços que se
espalham pelas artérias vivas, à mercê do trânsito e de meliantes,
desbravando subúrbios e enfrentando a soberba de sem número de
contratantes. Quiçá o churrasco, quiçá o pagode. Férias na praia ali-
mentam os sonhos das noites de verão.
Vê-se a juventude – expandida até a terceira década de vida –
em busca de saídas, tentando manter o poder aquisitivo e quebrar o
tenebroso paradigma “pais da classe média/filhos remediados”. Na
tentativa de se definir e definir o que serão ou não, tateiam novos
e complexos relacionamentos, amparando-se na bengala virtual da
Internet. Nesse caminhar, produzem precocemente uma nova gera-
ção de famílias divididas, espalhadas, plurais e outras. Na balada e
na bebida barata, a terapia necessária.
Vê-se o pequeno empresário, convidado a apresentar-se “bem-
-sucedido” enquanto recheia o sanduíche do crédito, do fornece-
dor e do atraso de pagamentos. Entre a ostentação e a prudência
garimpa o caminho da realização pessoal, do crescimento econô-
mico e do autodesenvolvimento; enfrenta o desafio da tecnologia
30  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

mutante, da burocracia, da corrupção e da sangria dos impostos. Na


balada, no luxo eventual, no esporte radical tenta escapar do torni-
quete psíquico. No desvio, na droga, há sempre uma resposta eficaz
– ainda que deletéria.
Vê-se a grande classe ociosa de Max Weber (“Teoria da Classe
Ociosa”) a espreguiçar-se nos shoppings centers, nos salões de beleza,
nas instalações militares, nos mosteiros e conventos, nos clubes
esportivos, nos museus e galerias de arte, ocupando espaços, preen-
chendo a lacuna enganosamente infinita da vida e reciclando os
superávits dos que podem e dos que não podem. Ao desenhar os
contornos do ócio, essa multidão também esculpe fronteiras sociais,
dita costumes, prognostica os caminhos da cultura e estabelece valo-
res. Na psicoterapia acomoda os incômodos dos próprios paradoxos
psíquicos.
Vê-se a multidão de crianças, vestida de curiosidade, mergu-
lhada nas telinhas que lhes trazem o infinito e, ao mesmo tempo,
o nada, a solicitar respostas, a pedir terra firme para seus pezinhos
delicados, oxigênio puro para poder aspirar os ares do mundo,
conhecimentos para enfrentar a juventude. Multidão que desco-
bre pais atarefados, distantes, eventuais, insensíveis e lhes solicita
tempo e espaço. Na escola fracassada consolidam a aridez de conhe-
cimentos que comporá seus futuros currículos.
Vê-se a geração de idosos, cada vez mais consciente de suas
depreciações psíquicas, físicas e fisiológicas, guardiã de valores
e ideias que o tempo, as cores dos novos costumes e a tecnologia
incumbem-se de rotular ultrapassados, ineficazes, destinados ao
desaparecimento com seus portadores. Uma geração que percebe
carga econômica, social e psicológica para os que agora comandam
e constroem a vida. No burilar suas lembranças procuram caminhos
confortáveis.
Veem-se os poderosos, os mais diversos, empresários, políticos,
traficantes, religiosos, uma complexa teia de pessoas que deixa pen-
der seus cordões para, nesses, garrotear as marionetes que os sus-
tentam – uma espécie de “curva de Moebius” social. Eventualmente,
convencem-se da oportunidade de mudanças e, aos poucos, talvez
pela premonição de Adam Smith (“A Riqueza das Nações”) parti-
cipam da melhoria social, gradativa, circunstancial, cautelosa, limi-
tada, porém, pela incomensurável falta de conhecimentos essenciais
da grande massa conduzida pelo poder da comunicação. Comple-
tam-se na impermeabilidade de suas próprias fronteiras.
Material Suplementar  31

Com essa imensa colcha de retalhos que compõem os fragmen-


tos do caleidoscópio social, depara-se a Justiça.
Somente ela consegue estabelecer condições de diálogo e de
convivência entre todos esses magníficos, sofisticados, gigantescos,
desafiadores segmentos. Para isso, precisa intervir.
A Justiça brasileira, particularmente a partir do final do século
XX, vem deixando o confortável espaço de observadora, para ser
colocada no cada vez mais incômodo lugar de vitrine. Nos meios
de comunicação, suas ações e seus operadores passam a ocupar
com inusitada frequência as principais manchetes. O foco, sempre
tão localizado nos criminosos e nas vítimas, passa agora a incluir e
a incomodar aqueles que julgam, em todos os níveis. Isso acontece
ao mesmo tempo – e talvez por tal motivo – que os operadores da
Justiça se percebem com notável poder de ação, muito além do que
seria de se esperar considerando-se apenas o que se lhes encontra
atribuído institucionalmente. Nota-se, cada vez com maior frequên-
cia, a ação jurisdicional sobre questões que deveriam ser soluciona-
das em outras esferas: judicializa-se a educação, a saúde, a vida.
As movimentações dos ocupantes das cadeiras dos órgãos supe-
riores da Justiça demonstram, com clareza, que as grandes forças
políticas e econômicas que detêm o poder encontram-se cuidadosa-
mente atentas a esse fato e não mais hesitam – além disso, fazem-no
abertamente – em tentar exercer influência sobre as decisões.
Setores esclarecidos da população, por outro lado, percebem
que o teor das indicações influencia a natureza das decisões – a
reversão de resultados de julgamentos importantíssimos o demons-
tra de maneira inequívoca, tal como acontece com os condenados do
“Mensalão” (julgamento que se estendeu de 2007 a 2012 no Supremo
Tribunal Federal).
A população também percebe que a interpretação dos disposi-
tivos legais possui inegável vinculação com as qualificações sociais,
econômicas e políticas. Desde sempre, sabe-se que a lei é rigorosa
com o indivíduo que pouco tem. Contudo, as decisões favorecedo-
ras das classes privilegiadas vêm sendo destacadas na imprensa:
fenômeno absolutamente recorrente e atual. Os casos sucedem-se,
indicando que a Justiça precisa assegurar que os ventos do poder
econômico não soprem através dos seus sacrossantos umbrais.
Esse estado de coisas traz importantes mensagens para os ope-
radores do Direito, em todas as suas importantíssimas funções.
32  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

A longo prazo, por menos culta e mais submissa que seja a socie-
dade brasileira atual, serão solicitadas mudanças de postura. Se isso
não acontecer pelo poder das massas, ocorrerá pela força de grupos
que se antagonizam. Para isso, contribuem alguns fatos.
Em primeiro lugar, observa-se uma minuciosidade legal. Tenta-
-se redigir a lei considerando detalhes tais que nada possa escapar
de suas determinações. Obviamente, quanto mais detalhada a lei,
menor o grau de liberdade para interpretá-la. Isso, que parece ser
bom, apresenta grave inconveniente: priva o decisor da responsabili-
dade sobre os resultados e pode tornar-se perigoso limitante à contex-
tualização dos acontecimentos. Impõe-se reverter essa tendência! O
texto legal não deve ser um obstáculo ao exercício da inteligência e
não será pelas minúcias que impedirá a má-fé, os interesses ocultos,
a ação impregnada de malícia, as manipulações nas brechas da lei.
Em segundo lugar, evidencia-se o exagero legislativo. Em todas
as áreas, há excesso de leis, dando-se a nítida impressão de que
se pretende, pela via legislativa, resolver as inúmeras mazelas de
valores e princípios que impregnam a sociedade. Não será pela via
legal que se respeitará o próximo, eliminará o preconceito, atingirá
a igualdade de oportunidades, conseguirá solucionar os dramas
familiares. As leis não devem ser camisas de força para imobilizar os
movimentos sociais. Exemplo notável ocorre no Direito de Família.
A esse respeito, o Dr. Jurandir Freire Costa, em entrevista ao IBD-
FAM, comenta: “Judicializar a vida familiar pode ser uma bengala
para dias difíceis, mas se dependermos disso para existir como indi-
víduos sociais, ou muda a Justiça ou muda a Família” (Costa, 2012).
Em terceiro lugar, destaquem-se as leis que vão contra os anseios
da sociedade. Emitidas para conceder benefícios a minorias (inúmeras
na área fiscal), proteger determinados segmentos da sociedade ou
setores da economia, satisfazer interesses pessoais de alguns gover-
nantes ou celebridades, ou caem no esquecimento, ou dependem de
custosos processos de controle para lhes garantir a execução sau-
dável. A emissão de normas supérfluas ou desprovidas de sentido
ético enfraquece os emitentes.
Todas essas questões encontram-se interconectadas, em um pro-
cesso complexo de mútua influência, como se fossem uma sofisti-
cada “cama de gato”, aquela brincadeira de criança em que fios tran-
çados transitam de mão em mão, modificando caprichosamente o
desenho que formam. Todos os fios dependem de todos os fios. Não
Material Suplementar  33

há, e nem se deve, como ignorar essa interdependência, pois, essen-


cialmente, trata-se de um único e longo fio.

(CAMA DE GATO. Fonte: Wikipedia)


Os operadores do Direito são convidados a refletir a respeito
desse contexto social e psicológico. Social, pois se tratam das per-
cepções de amplos setores da sociedade. Psicológico, pois cada indi-
víduo é afetado, de alguma forma, pelas ações do Judiciário e, por-
tanto, compõe uma imagem pessoal do que ele significa, de como
atua e o que representam seus integrantes. O conjunto dessas ima-
gens é decisivo para estabelecer as características daqueles que se
interessarão, no futuro, pelo ingresso no campo do Direito. O Judi-
ciário de hoje produz o DNA do Judiciário de amanhã. Todo cuidado
é pouco para que a cama de gato não se transforme em nó górdio.
34  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

F. Temas para reflexão


Os temas para reflexão permitem várias utilizações pelo profes-
sor e/ou alunos:

a) Elaboração de dissertações breves;


b) Produção de trabalho escolar individual ou em grupo;
c) Atividade de grupos em sala de aula.

TEMA 1 – EXPLOSÃO EMOCIONAL (item 1.6.4)

Sabidamente, as explosões emocionais encontram-se por trás


de agressões físicas, de violência verbal ou psicológica. Nem
sempre aparentes, podem estar na gênese de transtornos de
personalidade ou transtornos mentais diversos.
A explosão emocional apresenta-se dentro de um “contínuo”
em cujos extremos encontramos dois comportamentos opos-
tos:
a) Reforço: a explosão emocional apresenta-se como a exacer-
bação de um comportamento predominante (o agressivo
torna-se exponencialmente mais agressivo, por exemplo;
o obsessivo leva a obsessão ao extremo, a ponto de perder
a funcionalidade).
b) Negação: a explosão emocional dá-se pela apresentação
de comportamento oposto ao usual (o indivíduo depen-
dente rompe os laços; o indivíduo tímido torna-se hiperex-
pansivo).

TEMA 2 – SÍMBOLOS (item 2.1.4)

A riqueza da comunicação contemporânea, que tem o con-


dão de atingir todos os pontos do planeta por meio das re-
des sociais e outros mecanismos, propicia autêntica geração
de “símbolos”, notadamente relacionados com o marketing de
produtos e serviços.
Material Suplementar  35

A estratégia tem dupla face: de um lado, os novos símbolos


apresentam-se como extremamente fortes, poderosos e, ini-
cialmente perenes; de outro lado, os criadores cuidam de eli-
miná-los de modo estratégico, promovendo sua substituição
por outros “atualizados”.
Ocorre em todas as idades, com todas as pessoas. O caráter
subliminar das mensagens encarrega-se de inviabilizá-las.
Nada mais exemplificativo do que os jogos on-line.
Notadamente na infância e na juventude, sem que isso exclua
a idade adulta, existem consequências conceituais e compor-
tamentais dignas de consideração.

TEMA 3 – CUIDADOS MATERNOS (item 2.2.1)

David Winnicott estudou a relação entre a mãe e a criança ba-


sicamente na primeira metade do século XX. Os conceitos por
ele emitidos a respeito da importância dos cuidados maternos
são amplamente respeitados.
Possivelmente, a desatenção ao que Winnicott preconiza te-
nha muito a ver com aspectos ligados à delinquência, à vio-
lência e a transtornos mentais da idade adulta.
De lá para cá, o exercício da função materna sofreu profundas
alterações quanto à sua forma, quanto à disponibilidade da
mãe, quanto à oferta de meios para cuidar das crianças pe-
quenas.
A forma contemporânea de cuidar da criança adquire novas
feições, tanto para a criança em si – à qual se oferecem as fa-
cilidades da comunicação – como para os cuidadores, que en-
contram meios agradáveis (à sua ótica) para ocupar o tempo.
A figura já clássica é a da família, à mesma mesa, mas em
mundos diferentes – cada um com o seu aparelho de comuni-
cação. O “mundo de longe” está mais perto do que o “mundo
próximo”.
As características dos cuidados parentais da novíssima gera-
ção não repetem as da geração anterior. A tecnologia e os cos-
tumes levaram a outras soluções. Há que se indagar a respei-
to do impacto disso sobre o equilíbrio emocional das novas
gerações.
36  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

TEMA 4 – INTIMIDADE (item 2.2.2, letra f)

Eric Ericsson destaca a importância da “etapa da intimidade”


para o desenvolvimento saudável do psiquismo, no caminho
da maturidade.
Na sociedade contemporânea, a aproximação que leva à in-
timidade ganha novas características que, em seu conjunto,
conduzem a características bastante distintas do que se prati-
cava há poucas décadas.
A facilidade com que ocorrem os relacionamentos, a redução
de exigências para uma aproximação física e o exercício pre-
coce da sexualidade constituem fatores distintivos da cultura
contemporânea.
Ao mesmo tempo, o rompimento de laços, o distanciamento e
a troca de parceiros apresentam-se como a outra face desse pro-
cesso. O que facilmente se faz, com igual facilidade se desfaz.
Há de se investigar as consequências dessa nova forma de re-
lacionamento sobre a etapa da “generatividade”, preconizada
por Ericsson e, mais além, sobre a futura “integridade do ego”.
É relevante a presença de filhos, em decorrência do aumento
de intimidade física, sem, entretanto, a correspondente inti-
midade emocional, dada a volatilidade dos relacionamentos.
As consequências sobre o sistema familiar são de grande im-
portância.

TEMA 5 – AUTORREALIZAÇÃO (itens 2.3.2 e 2.3.3)

As teorias de Goldestein (2.3.2), Maslow (2.3.3) e Rogers (2.3.4)


aplicam-se ao comportamento do indivíduo em grupos ou em
equipes, assim entendendo-se um conjunto de indivíduos que
desempenham atividades voltadas para um (ou mais) objeti-
vo comum a todos.
Em essência, há uma convergência das teorias a respeito da
importância da autorrealização.
Raras são as atividades em que o desempenho se dá sem a
existência de alguma equipe ou grupo que o viabilize. Mes-
mo pessoas que trabalham de maneira aparentemente isola-
da possuem algum tipo de estrutura que viabiliza sua ação e,
Material Suplementar  37

na interação com essa estrutura, caracteriza-se a existência de


grupo ou equipe.
Em síntese, para cada tipo de equipe, existem fatores que pos-
sibilitam aos indivíduos atingirem um grau de autorrealiza-
ção capaz de mantê-los motivados. Esses fatores diferem de
uma equipe para outra.
Algumas formas paradigmáticas de equipes: orquestra sinfô-
nica, grupo musical, equipe de vôlei, equipe de futebol, equi-
pe de revezamento 4 x 4, dupla de tênis, equipe de automobi-
lismo, entre outras.
Constitui um interessante exercício compreender a riqueza de
percepções que leva à autorrealização dos integrantes dessas
equipes. Graças a eles, as mais diversas formas de atuação po-
dem ser consideradas estimulantes.

TEMA 6 – O PODER DA CRENÇA (item 2.5)

A formação das crenças e as interpretações correspondentes (item


2.5.1) constituem um tema desafiador para a compreensão
das características do pensamento humano.
Afinal, as crenças não são inatas: elas formam-se desde os pri-
meiros contatos com outras pessoas e seus conteúdos também
não são absolutos: dependem de como aquele que recebe as
informações, interpreta-as e as armazena. O material armaze-
nado também não é estático.
Dois fatores combinam-se quando se trata do estabelecimento
de crenças individuais:
– A intenção do que transmite o conceito; e
– A intenção do que recebe o conteúdo transmitido.
No primeiro caso, destaque-se a possível intenção de condicio-
nar do modelo (o transmissor de uma crença necessariamente
desempenha papel de modelo), a qual conduz a uma situação
híbrida: o indivíduo comporta-se para seguir um modelo e
este comporta-se de forma tal que faça o indivíduo segui-lo.
Essa situação inclui os movimentos ligados a entidades políti-
cas, religiosas e outras, ancoradas em personalidades marcan-
tes (modelos) com interesse na condução do comportamento
dos seguidores segundo interesses pessoais ou corporativos.
38  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

TEMA 7 – D
 ISSONÂNCIA COGNITIVA E
ARREPENDIMENTO (item 2.5.3)

O fenômeno da dissonância cognitiva sugere reflexões aplicá-


veis ao instituto da “delação premiada”.
De um lado, a pessoa que cometeu um delito. De outro, a Jus-
tiça a lhe acenar com a possibilidade de uma pena mais redu-
zida, em troca de informações.
Seria a dissonância cognitiva um fator psicológico que a im-
pulsiona a esse tipo de acordo: a possibilidade do apazigua-
mento interior, do reequilíbrio emocional? Que tipo de valores
estariam provocando esse conflito, tratando-se de um indiví-
duo que, sistematicamente, comete determinados delitos?
Ou, em vez disso, tudo não passaria de uma contabilidade
simples: o custo financeiro da delação insignificante em rela-
ção aos ganhos já auferidos?
Haveria uma convergência entre o racional, econômico e o
sentir emocional?

TEMA 8 – VISÃO SISTÊMICA (item 2.7)

Reportamo-nos ao texto “Conciliação e Mediação: a impor-


tância da visão sistêmica”, que se encontra em <http://genju-
ridico.com.br/2016/07/15/conciliacao-e-mediacao-a-impor-
tancia-da-visao-sistemica/>.
No texto, apresenta-se um acordo celebrado sem esse neces-
sário cuidado, em sessão de conciliação, e suas possíveis con-
sequências.
Semelhante análise pode se aplicar a outras áreas, enfocando
as questões associadas aos danos diretos e indiretos e às con-
sequências da punição, por exemplo.

TEMA 9 – CICLOS VITAIS (item 2.7.4)

Uma crise do ciclo vital assume diferentes características de-


pendendo da natureza da crise em si.
Quando ela se instala, costumam surgir, em cada um dos en-
volvidos, transformações (algumas profundas) de natureza
Material Suplementar  39

psíquica, envolvendo princípios, valores, crenças, condicio-


namentos, motivações etc.
Isso acontece porque uma crise coloca o indivíduo perante si-
tuações para as quais tudo aquilo em que ele se fundamenta-
va, consciente ou inconscientemente, para decidir e/ou agir,
pode revelar-se inadequado ou insuficiente.
Compreender o impacto dos ciclos vitais sobre os indivíduos
proporciona importantes elementos para analisar, entender e
buscar soluções para inúmeros conflitos.

TEMA 9 – FRONTEIRAS ENTRE SISTEMAS (item 2.7.5)

A existência da rede social virtual, considerada como uma es-


trutura social composta por pessoas conectadas independentemente
de local, compartilhando interesses comuns com variáveis objetivos,
permite instigantes reflexões a respeito das teorias que tratam
de sistemas e subsistemas.
Isso se dá particularmente no que diz respeito às fronteiras,
tanto entre sistemas como entre subsistemas dentro de um
mesmo sistema.
Características como capilaridade, abertura, porosidade, horizon-
talidade, durabilidade são, naturalmente, afetadas.
Os impactos sobre valores, crenças, padrões comportamen-
tais, modelos de referência – apenas para citar alguns tópicos
– são inevitáveis pela força de comunicação representada pela
rede social virtual.

TEMA 10 – TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE (item 3.2.4)

Os transtornos de personalidade consistem, basicamente,


na exacerbação de algumas das características normalmente
apresentadas pelo indivíduo.
Ocorrem em situações de estresse. As pessoas, submetidas a
tensões emocionais elevadas, podem modificar inconsciente-
mente seus comportamentos e agir de maneira não usual.
Não se estranhe, pois, que esses transtornos se encontrem
presentes nas situações de interação entre advogados e seus
clientes.
40  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

Quando isso acontece, surgem inúmeras dificuldades para o


estabelecimento de uma interação eficiente e eficaz. Cada ca-
racterística de personalidade pode, potencialmente, alterar-se
e será útil ao advogado saber como isso ocorre e de que forma
deverá reagir nessa situação.
O comportamento do advogado pode ser de grande relevância
para auxiliar o cliente a recuperar o equilíbrio emocional perdido.

TEMA 11 – ADOLESCÊNCIA (item 4)

Algumas transformações que ocorrem na adolescência afetam


os valores, os princípios, as crenças, as motivações e os com-
portamentos dos indivíduos de maneira única.
Na adolescência, são comuns a experimentação de drogas psi-
coativas, a participação em atividades ainda pouco ou total-
mente desconhecidas, o convívio – presencial ou virtual – com
pessoas e grupos totalmente fora dos círculos de relaciona-
mento anteriores. Por outro lado, o futuro acena ao adolescen-
te com a incerteza, com indefinições e desafios.
Daí a importância de se compreender os fatores que influen-
ciam nessas transformações: sua natureza e prováveis conse-
quências.
O período de adolescência, nos dias atuais, ganha novas ca-
racterísticas em relação ao que, até o início deste século, lhe
era atribuído.
A independência em relação aos pais protela-se. Uma nova
família, nos moldes tradicionais (pai, mãe e criança), sur-
ge como uma possibilidade – não mais um objetivo de vida;
quando ocorre, não necessariamente significa a saída do lar
ou a presença de filhos.

TEMA 12 – O DESAFIO DE JULGAR (item 5.1.1)

O cotidiano social provoca a todos com inúmeros compor-


tamentos, potencialmente sujeitos a conflitar com valores e
princípios até então sacralizados.
A história comportamental dos indivíduos e grupos faz par-
te da matéria-prima com que se elaboram os estatutos legais.
Material Suplementar  41

Estes, portanto, refletem percepções de um passado, enquan-


to os comportamentos ajustam-se, transformam-se, modifi-
cam-se segundo as percepções do presente ou antecipações
de um futuro idealizado ou desejado.
No ato de avaliar e interpretar a realidade dos fatos, os julga-
dores, em todos os níveis, encontram-se na situação de fazê-lo
estando imerso em um estado da arte legal, quando os agentes
atuam em um estado da arte social, que afeta profundamente
suas concepções.
Esses “estados da arte” confrontam-se nas muitas instâncias
do processo. A questão premente que se coloca é: como ajustá-
-los um ao outro? Qual é o significado disso para o que julga e
para o que é julgado? Como o tempo do processo pode afetar
as pessoas que se encontram no tempo prático e premente de
seus conflitos?
As respostas a essas questões trazem reflexos para as pessoas
dos magistrados.

TEMA 13 – JULGADORES E VÍTIMAS (itens 5.1 e 5. 2)

Fato corriqueiro: veredictos antecipados nas manchetes dos di-


versos meios de comunicação.
Para isso, concorre a linguagem utilizada na divulgação dos pre-
tensos fatos – invariavelmente, de forma relativamente limita-
da, tanto pela imposição da ritualística que cerca as apurações
como pela dificuldade inerente ao procedimento jornalístico,
que se desenvolve a partir de um evento e limitado à periferia dos
acontecimentos, na grande maioria dos casos, além de, invaria-
velmente, buscar o sensacionalismo que vende a notícia.
Uma vez estabelecido o veredicto da mídia, absorvido de ime-
diato pela sociedade desprovida de outras informações que não
aquelas divulgadas, desenvolve-se um clima de expectativa pela
confirmação do pré-julgamento, embutido naquele veredicto.
Cria-se, pois, um estado de espírito em relação ao caso.
Questiona-se, então, o possível impacto desse comportamen-
to midiático sobre os operadores do Direito. Reforça-se essa
percepção de que tal impacto é real e possui poder, pelas deci-
sões ágeis e contundentes, amplamente divulgadas, a respei-
42  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

to de acontecimentos que envolvem personalidades e alguns


casos “eleitos” como especiais pelos canais de comunicação.

TEMA 14 – DELINQUÊNCIA (itens 6.2 e 9.3.3)

Um dos aspectos inquietantes relacionados com a gênese da


delinquência é a tolerância para com os pequenos delitos que
permeiam o cotidiano da população.
Existe uma percepção generalizada de que um delito:

a) sendo de pequena proporção (um julgamento, sem dúvi-


da, subjetivo daquele que o comete), é “aceitável”;
b) sendo praticado por muitos, é ainda mais tolerável.

De um lado, atuam os mecanismos psicológicos de defesa do ego,


eficazes em imprimir a competente absolvição pelo delito e
suas consequências; de outro, a relação figura e fundo, por meio
da qual empresta-se invisibilidade a tais comportamentos.
Outros importantes aspectos psicológicos contribuem para vali-
dar e cronificar os inumeráveis comportamentos dessa natureza.
Uma questão que se apresenta é o tratamento jurídico a ser
dado a esses comportamentos, de tal maneira que os benefí-
cios psicológicos que os mecanismos indicados propiciam se-
jam substituídos por outros, socialmente mais adequados e
inibidores dessas ações.

TEMA 15 – CRIME E CONSEQUÊNCIA (item 6.2.10)

Remete-se ao texto inserido em <http://genjuridico.com.


br/2016/06/15/efeito-demonstracao/>, “Efeito Demonstra-
ção”, assim resumido:
“As decisões da Justiça ocasionam diversos efeitos. Elas po-
dem dissuadir, estimular, punir; podem provocar sentimentos
de segurança, revolta, arrependimento, compreensão, dúvida,
receio, certeza. Tudo isso de maneira complexa e, simultanea-
mente, em poucas ou muitas pessoas. Seguramente, elas sem-
pre ocasionam algum tipo de impacto social. À Lei somam-se
a Cultura e o Costume, pilares sobre os quais a sociedade fun-
Material Suplementar  43

ciona. No caso aqui comentado, ocorrido no interior do Esta-


do de São Paulo, estes elementos combinam-se.”
O texto nos alerta para o fato de que as consequências de um
crime vão além dos indivíduos e grupos diretamente envol-
vidos, para incluir imponderáveis parcelas da sociedade, de-
pendendo de como transcorre o julgamento, da extensão e do
impacto das decisões da Justiça, de como as pessoas percebem
satisfeitas suas expectativas quanto a tais decisões e de quan-
to a decisão poderá estimular (ou não) a repetição do fato.

TEMA 16 – O ASSÉDIO MORAL NA FAMÍLIA (item 7.4.2)

Em <http://genjuridico.com.br/2016/04/28/assedio-moral-
-processo-e-virus/>, o texto “Assédio Moral: vírus e processo
destaca aspectos desse tipo de comportamento”, cuja presen-
ça na sociedade encontra-se longe de estar dimensionada e
compreendida.
Por um lado, ainda há pouca pesquisa sobre o tema. De outro,
a gestão de pessoas, corriqueiramente, acentua a competitivi-
dade, sem a mesma ênfase aos comportamentos éticos. É evi-
dente que, no interior da selva administrativa que caracteriza
incontáveis organizações, o relacionamento pessoal saudável
não recebe a necessária prioridade.
Cumpre estabelecer o adequado entendimento do processo
de realimentação que ocorre entre os comportamentos de as-
sédio moral na família e nas organizações: onde e como se
aprende e de que maneira são reforçados.
Outro aspecto importante é a falta de percepção da existência
do comportamento de assédio moral por estar ele entre aque-
les socialmente aceitos ou tolerados, tornando-se, pois, invi-
sível – mancha epidérmica à qual o indivíduo acostumou-se.
Pode evoluir para melanoma.

TEMA 17 – P
 ATERNIDADE OU MATERNIDADE
AFETIVA (item 8.5)

As funções paterna e/ou materna vão muito além do reco-


nhecimento formal, como bem se sabe.
44  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

Funções complexas exigem dedicação, esforço e doação. A


pessoa que se dispõe a exercê-las abre mão de conveniên-
cias e facilidades da vida, além de previsíveis consequên-
cias financeiras.
Essas funções encontram correspondência em laços emocio-
nais que ligam a pessoa à criança e que constituem o lastro
psíquico indispensável ao seu exercício; sem este, o naufrágio
da relação parental torna-se inevitável.
Conclui-se que o exercício pleno da função materna ou paterna
estará sempre sujeito a fatores relacionados com as percepções
da pessoa a respeito do significado da criança em sua vida.
Tais percepções devem ser compreendidas dentro do panora-
ma psicológico em que se inserem os genitores e para isso de-
vem ser consideradas as características dos relacionamentos
contemporâneos em que, com frequência, desenham-se solu-
ções que se distanciam do conceito tradicional de família, le-
galmente constituída, habitando sob o mesmo teto e identifi-
cada pelo trinômio casamento, sexo e procriação.

TEMA 18 – PRIVACIDADE (itens 8.3 a 8.5)

Espaço familiar por excelência, a moradia perdeu sua caracte-


rística diferenciada de “local de isolamento”.
Até bem pouco tempo, uma vez recolhida ao lar, a pessoa via
limitada sua comunicação com o mundo – o telefone era o
único e limitado canal para praticá-la.
Nos dias atuais, graças aos novos equipamentos e meios de
comunicação, a troca de informações realiza-se continuamen-
te e o espaço da moradia pouco ou nada se distingue dos de-
mais sob essa ótica.
A fronteira familiar ganha notável permeabilidade graças aos
meios de comunicação – abrangentes, de baixo custo, ampla-
mente disseminados.
Inevitáveis os efeitos sobre os valores, as crenças, as aspira-
ções e os comportamentos dos integrantes do núcleo fami-
liar, com possíveis consequências sobre a unidade e a uni-
formidade dos conteúdos – tão características das famílias
tradicionais.
Material Suplementar  45

TEMA 19 – DOLOSO OU CULPOSO (item 9.3.2)

Em <http://genjuridico.com.br/2016/06/15/efeito-demons-
tracao/>, apresenta-se o caso “Efeito Demonstração”, em que
se encontra em pauta a classificação de um delito como culpo-
so ou doloso. O artigo deixa a conclusão para o leitor, sugerin-
do fatores que podem afetá-la.
46  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

G. Sinopses dos vídeos (QR Code)

EXPLOSÃO EMOCIONAL (ITEM 1.6.4)


Do relacionamento entre as pessoas, surgem emoções associadas
aos sentimentos de alegria, paixão, medo, raiva, desprezo, inveja,
compaixão e tantos outros.
As emoções acumulam-se e combinam-se das mais diversas,
inusitadas e complexas maneiras. Elas influenciam o funcionamento
do psiquismo, para o bem ou para o mal. Devemos a elas a geração
de poderosas energias que o psiquismo armazena.
O psiquismo atua para dissipar a energia armazenada. Quando
não encontra meios para manifestá-las, por meio de ações concre-
tas, elas permanecem nos meandros psíquicos, aguardando o gati-
lho capaz de colocá-la em ação.
O detalhe certo, o impulso adequado e a oportunidade perce-
bida podem provocar-lhe a explosão.
A forma como isso acontecerá poderá ser benigna – uma garga-
lhada, uma aventura prazerosa. Tratam-se aqui das manifestações
agradáveis, que proporcionam prazer.
Poderá, entretanto, resultar em ação maligna – potencial-
mente prejudicial ao próprio indivíduo e/ou a outros. Em sua
forma deletéria, a explosão emocional manifesta-se por meio de
comportamentos agressivos, perda de controle, estados fisiológi-
cos ou psicológicos indesejáveis. Podem ocorrer, igualmente, efei-
tos fisiológicos incontroláveis: descontrole de batimento cardíaco,
elevação da pressão arterial. Dentro da normalidade, após a tem-
pestade, surge a calmaria que propicia ao indivíduo retomar o con-
trole de seus comportamentos – embora, muitas vezes, os danos
sejam irreversíveis.
Explosões emocionais benignas podem ser incentivadas em
alguns ambientes, por exemplo, no teatro ou na prática esportiva.
Elas beneficiam os que as praticam e os que se aproveitam de seus
efeitos. Em outras situações – na agressão física, na condução irres-
ponsável de veículos, nos transtornos fisiológicos, por exemplo –,
podem gerar graves consequências para quem as manifesta e/ou
sofre seus efeitos.
Material Suplementar  47

CONDICIONAMENTO (item 2.4)

É inquestionável a predominância do condicionamento como


a estratégia das organizações em geral para exercer influência
sobre indivíduos e grupos. Condicionar, muitas vezes, é mais
simples do que procurar argumentos racionais para conven-
cer pessoas a adotar algum comportamento específico.
Nas empresas de produção, o condicionamento é prática do-
minante para assegurar que os operadores de máquinas e
equipamentos cumpram os requisitos das tarefas, de manei-
ra a obter qualidade, produtividade e segurança no trabalho.
Essa opção consolida-se ainda mais pela força da tecnologia
de informação: os mecanismos existentes para se levar mensa-
gens a todas as pessoas são de tal variedade e penetração que
se torna, virtualmente, impossível delas ocultarem-se.
Essas mensagens, em sua essência, buscam condicionar os que as
recebem a agir de alguma forma satisfatória para os emitentes.
O condicionamento é praticado com tamanha frequência e en-
contra-se de tal forma arraigado na sociedade que raramente
consegue-se ter consciência de sua presença e intensidade, au-
tomatizando pessoas e seus comportamentos.

A INFLUÊNCIA DAS EXPECTATIVAS (item 2.2.4)

O psicanalista Jung percebia a existência de um “inconsciente


coletivo”, que transcendia tempo e fronteiras. Seus conteúdos
psíquicos influenciariam o comportamento de todos, em to-
das as sociedades.
Símbolos universais, presentes em todos os povos, seriam um
reflexo desse inconsciente.
Apoiado nessa percepção de Jung, pode-se admitir a existên-
cia de um “inconsciente coletivo social”, inerente aos indiví-
duos de uma determinada sociedade.
Todos participariam, em algum grau, de um estado de espírito
– nas intenções, na estética e nas preferências. Muito além dos
modismos sugeridos pelo marketing.
Esse estado de espírito explicaria porque certos comporta-
mentos, crenças e preferências generalizam-se e cronificam-
48  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

-se, sem que seja necessário que algo ou alguém os tornem


explícitos.
É possível que esse inconsciente coletivo social exerça poderosa
influência sobre as expectativas das pessoas, na forma proposta
por George Kelly.
Uma das hipóteses a respeito da existência desse inconscien-
te coletivo social pode ser buscada nas teorias a respeito das
mensagens subliminares. Não explícitas, são transmitidas de ge-
ração para geração e se incorporam à cultura geral.
Esse tipo de questão diz respeito aos legisladores e a todos os
que lidam com o psiquismo humano, pois às ideias seguem-se
os comportamentos.
Aquilo que seria intolerável dentro de um contexto sociopsi-
cológico, em pouco tempo pode ser considerado não apenas
tolerável, como amplamente aceitável, desde que se incorpore
ao inconsciente coletivo social.
No caso do Direito, nem sempre a legislação e seus operado-
res, vistos em suas individualidades, conseguem acompanhar
esse estado de espírito geral com a agilidade e a flexibilidade
que lhes permitiriam sintonizar com as expectativas e os com-
portamentos da coletividade.

A IMPORTÂNCIA DOS MODELOS (item 2.6)

Os indivíduos tendem a reproduzir ou imitar o comporta-


mento de pessoas por eles consideradas especiais: os modelos.
Muitos fatores conduzem alguém a desempenhar esse papel,
particularmente notável nas grandes transformações e movi-
mentos sociais, políticos e religiosos.
A influência dessas pessoas, além da mera replicação de com-
portamentos, inclui a aceitação de seus valores e crenças, o
que leva o seguidor a buscar uma identidade emocional com
o modelo por ele eleito.
Seguir um modelo significa, pois, alinhar-se à sua filosofia e à
sua ideologia.
No extremo, surge o fanatismo, de consequências imprevisí-
veis, como bem o demonstra a História recente. O fanático,
necessariamente, rejeita a diferença.
Material Suplementar  49

Existem os modelos socialmente adequados e os opostos. Entre


estes, encontram-se os líderes do tráfico e de drogas e os arti-
culadores dos mais diversos crimes.
Suas ações prejudicam o relacionamento entre as pessoas.
Elas geram delinquência e criminalidade; no plano individu-
al, produzem isolamento, egocentrismo e sociopatias.
O estímulo ao surgimento de bons modelos inicia-se com o
exemplo. Como, porém, desconstruir modelos nocivos, cujas
ações prejudicam a todos?
O modelo nocivo, para seus seguidores, apresenta-se invaria-
velmente como um benfeitor. Hábil na manipulação das pes-
soas, na condição extrema, exerce uma dominação messiâni-
ca. É tarefa das mais complexas substituí-lo por outro.
Fica evidente a importância da compreensão do papel dos
modelos, para os operadores do Direito, e dos mecanismos
psicológicos que conduzem os indivíduos a escolher seus mo-
delos, muitos dos quais os acompanham por toda a vida.

SAÚDE METAL E TRANSTORNO MENTAL (Cap. 3)

São reconhecidamente tênues os limites entre os estados de


saúde mental e transtorno mental.
Esse tema, preocupação natural de psiquiatras e psicólogos,
interessa aos operadores do Direito.
O operador do Direito, seja ele advogado, promotor, juiz, in-
vade em maior ou menor grau a privacidade das pessoas, em
busca de informações necessárias à análise dos fatos. Requer,
pois, respostas e informações.
A qualidade do que receberá depende de como o indivíduo
percebe e elabora as questões e solicitações. Essa percepção en-
contra-se estreitamente ligada ao estado mental do indivíduo.
O estado mental de cada pessoa influencia a sua compreensão
dos acontecimentos, a interpretação dos fatos, o teor e a quali-
dade dos depoimentos. Ele tem a ver com a maneira como ela
reagirá às pressões emocionais e ao estresse natural em situa-
ções de conflito.
Por esses motivos, estudam-se no texto a personalidade, as al-
terações de suas características e os transtornos mentais mais
comuns.
50  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

O estudo da personalidade e a maneira habitual de o indiví-


duo comportar-se alertam para as diferentes características.
As alterações dessas características, comuns em situações car-
regadas de estresse, são de grande importância em diversas
situações.
Os transtornos mentais retratam os comportamentos que fo-
gem aos padrões de normalidade. O indivíduo acometido de
algum tipo de transtorno mental pode desconhecer como se
comporta e interpreta os acontecimentos.
Portanto, o conhecimento de conceitos básicos relacionados
a esses temas proporciona, ao operador do Direito, melhores
condições para interpretar as comunicações, notadamente na
presença de fatores traumáticos.

JULGADORES, VÍTIMAS E INSTITUIÇÕES


DE EXCLUSÃO (Cap. 5)

A sociedade, vista sob a ótica dos costumes e de suas práticas,


evolui em ritmo acelerado, se comparada com as disposições
normativas e legais que regem a prática do Direito.
Essa evolução, nos dias atuais, ocorre impulsionada pela tec-
nologia, cujas transformações – veja-se a internet, a realidade
ampliada, as redes sociais – acontecem em velocidade surpre-
endente.
Não bastasse esse fato, e em parte devido a ele, a sociedade
vive uma contínua revisão de seus valores, princípios e cren-
ças, em diversidade e profundidade nunca vistas, o que intro-
duz novos comportamentos, costumes e aspirações aos reper-
tórios das pessoas e dos grupos.
Essa dinâmica acentuou-se a tal ponto que se torna um desa-
fio contínuo acompanhar as transformações. Citem-se os cam-
pos da religião e da sexualidade.
Tal panorama traz um desafio evidente para aqueles que atu-
am no árduo trabalho de julgar e avaliar pessoas e comporta-
mentos: como compatibilizar os ditames legais com suas per-
cepções individuais e com as transformações socioculturais?
Compreender a extensão e a natureza desse desafio requer o
estudo continuado dos fatores que movem as pessoas; do por-
Material Suplementar  51

quê elas fazem o que fazem e quais forças psicológicas encon-


tram-se presentes nessas situações.
Sem essa permanente atualização, o operador do Direito esta-
rá cada vez mais circunscrito a seus próprios valores e a suas
estruturas de crenças e percepções. Suas interpretações da le-
gislação e dos fatos que lhes são apresentados ficarão compro-
metidas caso se distanciem da compreensão minuciosa dos
elementos que compõem o complexo mosaico psicológico ao
qual denomina-se o estado de espírito da sociedade.

DELINQUÊNCIA (Cap. 6)

A delinquência, a se avaliar pelos índices elevados, seria uma


das preocupações fulcrais da sociedade brasileira.
Paradoxalmente, os esforços efetivos para combatê-la mostram-
-se tímidos, considerando-se o custo social que acarreta e a
vasta gama de ações possíveis, além daquelas já desenvolvi-
das no âmbito estritamente criminal.
A sociedade brasileira aparenta estar acostumada à “presença
do delinquente”, ator involuntário a atrair milhões de espec-
tadores que se comprazem com a contemplação na mídia do
espetáculo de suas ações.
Existe um fenômeno de cegueira psicológica relacionado com
tamanha complacência. As recentes ações de combate à cor-
rupção revelam a extensão desse fenômeno, sinalizando para
uma interminável rede que permeia a sociedade, envolvida
na prática de semelhante delito.
Essa complacência acentua-se dependendo da natureza do
delito e do segmento da sociedade por ele afetado. Chega-se
ao ponto de se atribuir status de personalidade a determina-
dos delinquentes, endeusados pela mídia e admirados pelas
multidões. Quando isso acontece, o delinquente torna-se mo-
delo, com as consequências anteriormente discutidas.
A situação agrava-se quando se retira o olhar do macro para
focá-lo nas microrrelações. O delinquente, em seu território,
não apenas conquista tolerância e reconhecimento: ele ascen-
de à condição de símbolo daquela sociedade que lhe é próxi-
ma. Nela, encontra refúgio e condições para continuar a de-
52  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

linquir: no tráfico de drogas esta situação apresenta-se com


muita clareza.
A delinquência constitui um traço indelével presente na socie-
dade brasileira, visto como inexorável e aceitável, desde que
mantido dentro de elásticos limites culturalmente estabele-
cidos. As teorias de Psicologia constituem rico material para
sua análise e melhor compreensão.

ADOLESCÊNCIA (item 6.2.5)

Marcam a adolescência importantes transformações físicas, fi-


siológicas e psicológicas nos indivíduos.
Entre elas, destaque-se a ressignificação dos conteúdos psí-
quicos que compõem as crenças e os valores da pessoa.
Trata-se, portanto, de um período de grande instabilidade
emocional e vulnerabilidade psíquica.
Os modelos são questionados e, muitas vezes, totalmente mo-
dificados. Grupos, inclusive os virtuais, ganham inusitada
importância. Novos líderes aparecem com novas ideias e ide-
ais, novos comportamentos e diferentes expectativas. Surgem
os primeiros objetivos para a vida futura. Os relacionamen-
tos afetivos iniciam-se. E esse complexo de elementos afetará
toda a vida posterior do indivíduo.
Os repertórios comportamentais recebem significativo enri-
quecimento, acompanhando as transformações físicas, fisio-
lógicas e estéticas.
Os comportamentos adquiridos podem sofrer transformações ra-
dicais, a ponto de se alterarem condicionamentos e caracte-
rísticas de personalidade que se poderia considerar perenes.
A visão de mundo extrapola definitivamente os limites do sis-
tema familiar e passa a incluir fronteiras muito mais amplas,
com forte influência dos modelos e das novas perspectivas de
ação que o desenvolvimento físico/fisiológico traz.
Todo esse conjunto de elementos alimenta as motivações, as
expectativas e propicia o estabelecimento de projetos de vida.
Reduz-se, pois, a importância do núcleo familiar como fator
quase exclusivo de influência sobre a pessoa.
Material Suplementar  53

Esse quadro, complexo e sofisticado, propicia condições de


vulnerabilidade a possíveis comportamentos que escapem ao
social e legalmente corretos. O adolescente, por exemplo, é o
alvo, por excelência, do traficante e do vendedor de drogas.
Abre-se, aqui, um perigoso espaço para a delinquência.

VIOLÊNCIA (Cap. 7)

A violência – física, verbal e emocional – encontra-se disse-


minada na sociedade brasileira. Ela faz parte do “espírito da
época”.
Sabe-se que não percebemos as coisas com as quais estamos
totalmente acostumados. Por esse motivo, existe uma ceguei-
ra psicológica coletiva à violência. As pessoas comportam-se
como se ela simplesmente não existisse – os outros – encon-
tram-se sujeitos a ela.
Na verdade, existe um surpreendente custo econômico, social
e psicológico da violência.
O que faz, entretanto, que ela não apenas exista, mas se acen-
tue continuadamente?
As teorias de condicionamento sugerem que a prática e a convi-
vência com atos agressivos fazem com que estes se incorpo-
rem ao repertório das pessoas. Inicia-se com pequenos atos.
É notável como os indivíduos respondem com agressivida-
de, física ou verbal, automaticamente, a estímulos negativos
banais. São respostas e pensamentos automáticos, difíceis de
controlar.
As teorias da comunicação chamam a atenção para a fortíssima
presença da “mídia da violência”, que alega retratar a reali-
dade, porém, ao mesmo tempo, fortalece o comportamento
por lhe conferir exposição pública. A exposição excessiva, em
lugar de enfraquecer, contribui para banalizar a violência, por
incorporá-la ao cotidiano e, paradoxalmente, estimular sua
prática – reforçada pela sensação de impunidade.
Além disso, a sociedade contemporânea mostra-se fértil em
estimular e premiar comportamentos agressivos e em pro-
mover personalidades cujo prestígio encontra-se calcado na
prática de atos de violência. Determinados filmes e práticas
54  Psicologia Jurídica  •  Fiorelli e Mangini

“esportivas” ratificam esse fato. Criam-se modelos. Seus admi-


radores buscam repetir-lhes os comportamentos.
Muitos outros fatores alinham-se entre esses, contribuindo
para tornar a violência inerente à vida. Longo e difícil será o
caminho para a paz.