Você está na página 1de 14

SERVIÇO SOCIAL CONTEMPORÂNEO: UMA ANÁLISE A RESPEITO DAS

TEORIAS QUE SE MOSTRAM AOS ASSISTENTES SOCIAIS

Cynthia Santos Ferrarez1

RESUMO

O presente artigo aborda a associação da teoria social marxista com a intervenção profissional
do(a) assistente social, enfatizando as influências de três matrizes de pensamento que se
mostram como desafios para a hegemonia do projeto ético-político profissional, sendo elas o
neopositivismo, o pensamento weberiano e o pragmatismo. Historicamente, o Serviço Social
foi perpassado por diversas formas interventivas, porém, a partir da década de 1980 se
renovou e vem construindo coletivamente o projeto profissional. Sendo assim, torna-se
imprescindível discutir sobre a relação teoria e prática, observando como esta se mostra diante
das demandas postas aos assistentes sociais na contemporaneidade.

PALAVRAS-CHAVE: Serviço Social. Neopositivismo. Weber. Pragmatismo.

1
Doutoranda e Mestre em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
com bolsa Capes. Especialista em Serviço Social: direitos sociais e competências
profissionais por CFESS/ABEPSS e UnB, graduada em Serviço Social pela Faculdade de
Minas – FAMINAS. Atuou como Professora dos cursos de graduação em Serviço Social e
Direito da FAMINAS e do curso de Serviço Social da Escola de Estudos Superiores de
Viçosa - ESUV, e ministrou aulas de pós-graduação em Gestão da Política de Assistência
Social - SUAS e Gestão Ambiental.

1
1 INTRODUÇÃO

O Serviço Social se configura na sociedade burguesa como um ramo especifico na


divisão social e técnica do trabalho, como uma especialização do trabalho coletivo, tendo
objetos de intervenção bem definidos, sendo eles determinados segmentos da população e
suas condições de vida, e embasamento para intervir no contexto social que está inserido. Para
isso, o assistente social utiliza instrumentais próprios, desenvolvendo métodos que objetivem
o acesso a direitos dos usuários das políticas públicas, mas esse profissional não é munido
somente de instrumental, ele também desenvolve uma instrumentalidade específica, onde o
mesmo reflete e se organiza para intervir de forma crítica na realidade social.
Buscando entender a sociedade em sua totalidade o assistente social tende a romper com
o conceito do conhecimento “aparente” e a utilizar de um conhecimento que vá além de sua
utilização imediata, ou seja, esse profissional faz uma crítica ao cotidiano e intervém de forma
aprofundada e, observando as questões intrínsecas, pensa alternativas para a resolução da
demanda apresentada e não em amenizar a mesma.
Os assistentes sociais nas últimas quatro décadas vêm procurando compreender o
significado da sua prática profissional no contexto em que está inserido, permitindo-lhe uma
visão da expansão de sua intervenção, resultando na superação da imediaticidade e do
aparente.
O que se aborda no presente artigo é a dificuldade de associação da teoria social
marxista com a intervenção e de vislumbrar uma sociedade para além do capital. Discute-se,
então, as influências de três matrizes de pensamento que se mostram como desafios para o
projeto ético-político profissional, sendo elas o neopositivo, o pensamento weberiano e o
pragmatismo.
Por fim, discute-se sobre a relação teoria e prática e que as mesmas não podem ser
interpretadas de forma dicotômica. Ressaltando a importância desse pensamento para o
fortalecimento do projeto ético-político e para a atuação profissional do assistente social.

2
2. SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO: A BUSCA POR UM SIGNIFICADO SÓCIO-
HISTÓRICO DA PROFISSÃO

A compreensão do significado histórico do Serviço Social remete a inserção da


profissão na sociedade, situando-a na lógica das relações sociais manipuladas pelo capital e
articulando-a aos valores que a legitimam, à sua "atribuição" social e seus objetivos,
conhecimentos teóricos, metodológicos, dentre outros.
O processo de inserção do Serviço Social no Brasil foi marcado por uma forte
influência da Igreja Católica e manifestos recursos mobilizados pelo Estado e pelo
empresariado, como forma de regulação da Questão Sociali que se expressa a partir da década
de 1930.
Nesse momento a percepção sobre a questão social partia do pensamento social da
Igreja, sendo ela moralizante, individual, conservadora e psicologizante, com
posicionamentos de cunho “humanista conservador” do sistema social e financeiro da vigente
nesse período, consistindo em uma contrariedade aos ideários liberal e marxista, pois visava à
recuperação da hegemonia da Igreja Católica sob ações no âmbito privado.
O Estado brasileiroii, também busca legitimação durante esse processo, procurando
congregar parte das reivindicações dos trabalhadores à agenda política, trazendo para o foco
as leis sociais, sindicais e trabalhistas, abrindo, ao lado das instituições assistenciais, um
emergente mercado de trabalho para o Serviço Social.
Durante os anos de 1940 o Serviço Social brasileiro começa a avançar tecnicamente,
apropriando-se de procedimentos norte-americanos e da teoria social positivistaiii.
A partir da década de 1960, novas configurações do capitalismo fizeram com que o
mesmo se expandisse mundialmente, trazendo consigo mudanças relevantes para o contexto
econômico, político, social e cultural, impondo à América Latina um subdesenvolvimento.
Sendo assim, a profissão começa a questionar sua própria intervenção na realidade e a
apropriar-se de teorias que melhor contemplariam suas intervenções, tudo isso através de um
movimento de renovação proposto pelos assistentes sociais.
A Renovação se dá em vários países do mundo, devido à configuração do
desenvolvimento capitalista naquele momento histórico, que engendrava expressivas
mudanças sociais. Diante disso, Netto (2006 p. 131) conceitua que "a renovação implica a
construção de um pluralismo profissional, radicado nos procedimentos diferentes que
embasam a legitimação prática e a validação teórica, bem como nas matrizes teóricas a que
elas se predem".

3
Segundo Netto (2006) a Renovação profissional se configura a partir de dois processos:
o não compromisso imediato com tarefas pragmáticas e o comprometimento de um corpo
docente militante. Quatro processos caracterizam a renovação profissional:

a) a instauração do pluralismo teórico, ideológico e político no marco profissional,


deslocando uma sólida tradição de monolitismo ideal; b) a crescente diferenciação
das concepções profissionais (natureza, funções, objeto, objetivos e práticas do
Serviço Social), derivada do recurso diversificado a matrizes teórico-metodológicas
alternativas, rompendo com o viés de que a profissionalidade implicaria uma
homogeneidade (identidade) de visões e de práticas; c) a sintonia da polêmica
teórico-metodológica profissional com as discussões em curso no conjunto das
ciências sociais, inserindo o Serviço Social na interlocução acadêmica e cultural
contemporânea como protagonista que tenta cortar com a subalteridade (intelectual)
posta por funções meramente executivas; d) a constituição de segmentos de
vanguarda, sobretudo, mas não exclusivamente inserido na vida acadêmica, voltados
para a investigação e a pesquisa. (NETTO, 2006 ps. 135-136)

A América Latina desenvolveu um movimento específico de discussão sobre a


profissão, conhecido como Reconceituação. De acordo com Ortiz (2010) a Reconceituação foi
um episódio, que se mostra como uma expressão da renovação profissional, que aconteceu no
período de 1965iv a 1975, exclusivamente na América Latina. Este movimento tinha diretrizes
diferentes, mas todas contra o imperialismo Norte-americano.
A Reconceituação se dá devido às semelhanças dos países latino-americanos, em
especial por se caracterizarem naquele momento sendo de Terceiro mundo
(subdesenvolvidos), governados por ditaduras (voltadas para os ditames do FMI) e sujeitos ao
imperialismo norte-americano.
Vale destacar que a Reconceituação é uma parte importante da erosão do Serviço Social
"tradicional" e tem frutos relevantes, pois proporcionou aos assistentes sociais uma
aproximação com a tradição marxista, mas como ressalta Netto (2006), essa aproximação não
aconteceu sem problemas de fundo, pelo contrário presenciou equívocos do marxismo sem
Marxv.
A Reconceituação se exaure em 1975, explicitando uma heterogeneidade, mas é criado
o Centro Latino-Americano de Trabalho Social (CELATS), no Peru, para tentar dar
continuidade ao processo e à interlocução entre os países.
O processo de renovação do Serviço Social se expressa no mesmo contexto em que o
Brasil se encontra em plena privação de direitos civis e políticos, ou seja, ao Brasil estava
imposto um regime ditatorial militar, onde as reivindicações e aglomerações populares eram
contra a lei e a ordem nacional. Mas isso não impediu que os assistentes sociais tentassem
redirecionar a atuação profissional, sendo assim aconteceram vários encontros e congresso

4
que se expressaram, no decorrer das décadas de 1960 e 1970, em três vertentes profissionais,
ao que se segue cronologicamente.
A primeira vertente a ser destacada é a Perspectiva modernizadora caracterizada pela
incorporação de abordagens funcionalistas e estruturalistas, de matriz positivista apoiada na
modernização conservadora. Visava o desenvolvimento social, do enfrentamento da
marginalidade e da pobreza na perspectiva de integração da sociedade, fortemente embasada
na modernização tecnológica e em processos e relacionamentos interpessoais.
Cabe destacar, ainda, que este projeto tecnocrático fundava-se na eficiência e na eficácia
para orientar a produção do conhecimento e a intervenção profissional. Documentos de Araxá
e Teresópolis são resultado dessa discussão.
A segunda vertente é a Reatualização do Conservadorismo, sendo uma nova roupagem
do conservadorismo, inspirada na fenomenologia, demonstrando a tendência do Serviço
Social priorizar as concepções pessoa, diálogo e transformação social dos sujeitos, retomando
o pensamento inicial da profissão. Demonstrando ideias de retomada da centralização na
dinâmica individual, sendo os documentos de Sumaré e Alto da Boa Vista sua grande
expressão.
A terceira vertente é a Intenção de Ruptura, que traz consigo a necessidade da
consciência do profissional com relação a sua inserção na sociedade de classes, que em
primeiro momento se mostra próxima ao marxismo, mas demonstra os mesmos problemas,
destacados por Netto (2006), da Reconceituação Latino-Americana, sem recurso efetivo ao
pensamento de Marx. Esta vertente emerge com o Método BHvi e ganha espaço,
principalmente no campo universitário.
O "Congresso da Virada", realizado de 23 a 28 de setembro de 1979, promovido pelo
Conselho Federal de Assistentes Sociais – CFAS, conhecido hoje como Conselho Federal de
Serviço Social (CFESS), em São Paulo, mostrou-se um marco na historia do Serviço Social,
principalmente no que diz respeito à postura profissional e a busca por um projeto ético-
político condizente com as aspirações dos assistentes sociais.
Referenciando Netto (1989), o contato dos assistentes sociais com a tradição marxista se
deu de forma específica com três traços marcantes:

Em primeiro lugar, tratou-se de uma de uma aproximação que se realizou sob


exigências teóricas muito reduzidas – as requisições que a comandavam foram de
natureza sobretudo ídeo-políticas, donde um cariz fortemente instrumental nessa
interlocução. Em segundo lugar, e decorrentemente, a referência à tradição marxista
era muito seletiva e vinha determinada menos pela relevância da sua contribuição
crítico-analítica do que pela vinculação a determinadas perspectivas prático-políticas
e organizacional-partidárias. Enfim, a aproximação não se deu às fontes marxianas

5
e/ou aos "clássicos" da tradição marxista, mas especialmente a divulgadores e pela
via de manuais de qualidades e níveis discutíveis. (NETTO, 1989 p. 97)

O entendimento desta profissão e sua opção por adotar o pensamento crítico marxiano
como norte para as interpretações no cotidiano profissional é de suma importante para o
entendimento dos rumos que a mesma seguiu nas últimas décadas, lidando com a
problemática da falta de reconhecimento profissional, em seus mais diversos campos de
trabalho, e com a "invasão" ou "fusão" de outras vertentes de pensamento com o marxismo.

3. AS INFLUÊNCIAS DE OUTRAS CONCEPÇÕES TEÓRICAS PARA O SERVIÇO


SOCIAL: concepções que ameaçam a hegemonia do pensamento marxiano na profissão

A breve apresentação supracitada do Serviço Social demonstra como os profissionais


vêm se articulando nas últimas décadas, com a hegemonia do pensamento marxiano como
norte para as intervenções profissionais, expresso claramente no Código de Ética de 1993
(atualmente em vigor) e nas Diretrizes Curriculares para a formação profissional.
Mesmo obtendo um caráter hegemônico, o fato de se adotar a teoria marxista como
método de interpretação da realidade, não isentou os profissionais de lidarem com influências
e, até mesmo, "confusão" com outras teorias.
Comecemos por identificar, em primeiro momento, a influência do neopositivismo,
sendo uma teoria dos signos, ou símbolos, que adota o método experimental e tem o caráter
de "verdade" baseado nas consequências, na necessidade.
Lukács (1988) ressalta a existência de teorias que cada vez mais estão dadas a
manipulação do capital, não importando a veracidade, mas a utilidade para o capital.
Entendendo que o neopositivismo retoma elementos do positivismo e traz consigo novas
características, surgindo com objetivo de encortinar o conflito entre as classes.
Mas porque Lukács afirma essa propriedade do neopositivismo? Ora o positivismo nada
mais é do que a expressão ideal do Ser Social Burguês baseada na linguagem
matemática/signos (Semiótica), a quantificação da vida social.
É possível notar o Empirismo lógico, ou fisicalismo presente nesse pensamento, em que
a verificação das coisas está em seu conceito, questionando-se a metafísica, não reconhecendo
nada além da física. O neopositivismo traz consigo a compreensão das diferentes teorias
através do Nomotético (do particular para o universal) e Idiográfico (singular).
Em segundo momento, analisa-se a influência de Webervii, ou como denomina Guerra
(1993) "marxismo weberiano", enfatizando que a história busca investigar os sujeitos

6
singulares, sendo a Sociologia interessada em conhecer as ações do sujeito naquele contexto,
ações orientadas para um fim ou ações causais. Então não é o objeto que se mostra ao sujeito,
mas o sujeito sempre incide sobre o objeto, o constrói a partir de sua subjetividade, ou seja,
quem determina a ação é o sujeito e não há neutralidade sobre o objeto, mas o resultado tem
que ser universalizado para todas as sociedades.
Em terceiro momento, a influência para o Serviço Social, que vem contribuindo para
um distanciamento entre o pensar e o fazer, é o Pragmatismoviii. Haja vista que na visão
pragmática a sociedade é quantificável em toda sua extensão.
O Pragmatismo é um novo modo para resolver velhos problemas, sendo um novo nome
para velhas formas de pensar, passando pelas teorias e mantendo contato com "todas". Na
verdade o que se pode constatar é que experiência, aparência e fenômeno estão postos na
realidade, mas o fenômeno é ele mesmo, não concebendo que há uma essência para a
manifestação de tal.
É através da experiência que se tem ideias e somente através da prática elas se fazem
valer, o resultado da vida se dá no plano prático-social (utilitário e acrítico). Tendo o
Pragmatismo um núcleo categorial agnósticoix que, de acordo com Pogrebinschi (2005), é
baseado em três eixos.
O primeiro eixo é o antifuncionalismo que expressa não existirem verdades universais
(objetivas), são sempre relativas e não se preocupa com a origem, ou seja, tem aversão aos
fundamentos.
O segundo eixo é o consequencialismo que atribui o caráter de verdade às
consequências, não ao sujeito ou ao objeto. Demonstrando, com isso, a aferição, constatação e
influência da prática, principalmente nos sujeitos, modificando comportamentos e adaptando
novas experiências. A Teoria da Ação se sobrepõe a qualquer outra teoria já existente, pois
objetiva a formulação de um guia para as ações.
O terceiro eixo é o contextualismo que requisita da Educação (enquanto instituição) a
adaptação do sujeito à cultura/postura da ação, reforçando o ponto de vista do senso comum,
com um tipo determinado de teoria/prática. O sujeito é estabelecido conforme a sociedade se
cria o hábito, normas e valores aplicados na educação pragmática. A educação para adaptar o
indivíduo ao meio, como resolução de problemas.
O pragmatismo está presente em todos os espaços sociocupacionais na ordem burguesa,
em tudo que é desejável para a manutenção da ordem burguesa e o Serviço Social não é
diferente. Em que o útil é visto como sinônimo do verdadeiro, evidenciando a eficiência e a
eficácia, pois as respostas pragmáticas são fragmentadas e pontuais.

7
A prática no marxismo é uma ação transformadora que modifica a natureza e o sujeitox,
deixando um legado para as próximas gerações diferentemente do que é dado pelo
pragmatismo, não compactuando com a concepção de que o conhecimento é útil na medida
em que dá respostas úteis para a prática.
Segundo Guerra (2013) há uma invasão do pragmatismo no marxismo, ou seja, um
reforço da concepção que o pragmático é o ideal do imediatismo burguês. Obseva-se, com
isso, um pragmatismo prático profissional justificado pelas condições de inserção na divisão
sócio-técnica do trabalho, aonde ele irá se materializar. O cotidiano é o espaço do
pragmatismo, onde ele se ajusta e para a consciência comum o prático é o que tem valor,
porque nessa perspectiva o prático que é produtivo, é o que dá resultado, não ultrapassando o
campo da imediaticidade.
Diante do exposto podemos observa a materialização de uma Teoria do Resultado, que
fez com que o Serviço Social negasse, durante muito tempo, os fundamentos, o que não quer
dizer que isso não se materialize hoje, principalmente quando se afirma que existe o campo da
prática isolado do campo da academia.

4. DICOTOMIA ENTRE TEORIA E PRÁTICA?

O assistente social, assim como outras categorias profissionais, se depara


cotidianamente com novas demandas – todas elas ligadas ao processo de reestruturação
produtiva no Brasil, como exemplo: a precarização do trabalho, o desemprego, o subemprego,
as novas formas de contratação – que vêm de vários seguimentos sociais (desde a classe
dominante aos usuários e instituições que está diretamente ligado) exigindo desse profissional
novas competências e qualidade nas intervenções e mediações profissionais, ficando sujeito à
lógica do mercado que perpassa os serviços sociais e as políticas sociais.
A competência profissional se expande na esfera pública, não sendo mais visto como
um executor de políticas públicas, mas como um profissional formulador e fiscalizador de
projetos sociais, exemplo disso é a atuação do assistente social na gestão de políticas públicas
e nos conselhos – Conselhos sendo órgãos de controle social exercido pela população, pelo
Estado, pelas instituições, garantido pela Constituição de 1988 – Iamamoto (2006) afirma que
estes são os campos de atuação efetiva do profissional de Serviço Social, trazendo para a
agenda pública questões pertinentes ao enfrentamento das desigualdades sociais.
Esse contexto que esse profissional se insere faz com que o mesmo tenda a pesquisar
sobre os fenômenos da realidade, "mas não como esses fenômenos se expressam nas

8
demandas que chegam ao Serviço Social. Não busca conhecer nem como o fenômeno se
manifesta nos sujeitos, nem as possibilidades de intervenção ante as expressões da questão
social" (SANTOS, 2010 p. 29). Evidenciando, com isso, a tendência do profissional não fazer
o "caminho de volta", ou seja, de agir de acordo com o que lhe é exigido imediatamente, não
indo à essência desses fenômenos.
Segundo Santos (2010) os fenômenos têm uma dupla condição, pois são objetos
necessários de conhecimento, sendo eles processos sociais, e são objetos de intervenção.
Diante disso o assistente social deve estudá-los como processos sociais e indicações de
intervenção. Isso, ao ver da referida autora, possibilita a relação teoria/prática.
Outro ponto importante a ser destacado é que o critério de verdadexi está na prática,
diferentemente da visão pragmática, só se torna possível descobri-lo através da relação
propriamente teórica com a práticaxii. O que vai caracterizar a prática é a ação direcionada de
objeto e finalidade, principalmente ao transformar o primeiro em algo previsto inicialmente,
mesmo que não se tenha consciência disso.
A prática profissional do Serviço Social, que não possui uma teoria própria, na verdade
ela depende do conhecimento dos fins e estabelecimento dos meios. Haja vista que o Serviço
Social deve ser pensado, segundo Iamamoto (2005), no conjunto de contradições presentes na
relação capital e trabalho, em que o profissional atua, em sua maioria, como trabalhador
assalariado, com salários baixos, de prática institucionalizada e que não é requisitado pelo
usuário – pois não é ele que o contrata – não detendo os meios para a realização de seu
trabalho, mas portador de uma relativa autonomia.
Esse quadro favorece o discurso de que na prática a teoria é outra, de acordo com
Guerra (1995 p. 170) o enquadramento funcional do assistente social eminentemente técnico,
que desempenhando funções meramente executivas "pensa poder eximir-se da reflexão
teórica in totum e fixar seu foco de preocupações no seu cotidiano profissional, para o que os
modelos analíticos e interventivos, testados e cristalizados pelas suas experiências e de
outrem, são suficientes".
Há correspondência entre teoria e prática no Serviço Social? A invasão pragmática
conseguiu ninar a necessidade de uma teoria crítica para compreensão e intervenção na
realidade? Uma profissão como o Serviço Social precisa de tanta teoria assim?
Estes questionamentos se fazem presentes a todo instante, desde a graduação até a
atuação profissional, e para responder aos mesmos Forti e Guerra (2009) destacam a
necessidade da busca de conhecimentos teórico-metodológicos e ético-políticos para dar
sentido ao papel do profissional na realidade social, ora "isso requer a busca por

9
conhecimentos que qualifiquem intelectualmente o profissional para a escolha responsável do
rumo que ele irá tomar".
Cabe salientar que o Código de Ética (1993) é muito claro com relação às aspirações
dos assistentes sociais e, não só isso, com relação a opção teórica que a categoria estabeleceu.
O projeto ético-político profissional não é material, mas por se tratar de uma opção de atuação
contra a ordem do capital, depara-se com inúmeros desafios e contradições presentes na
realidade social.

5. CONCLUSÃO

O processo de renovação o Serviço Social supera a configuração de caso, grupo e


comunidade e sua concepção de profissão apolítica e neutra, que não poderia se deixar
influenciar por teorias. Repõe a racionalidade formal abstrata no fazer profissional.
O que não isentou a esta profissão de cometer equívocos teóricos, pois a aproximação
com valores de esquerda não se deu na mesma medida que a aproximação com as teorias de
esquerda, ocorrendo uma invasão pragmática no marxismo, ou seja, adotava-se um discurso
de esquerda e com atitude de direitaxiii.
O processo de trabalho ao qual está inserido o assistente social não é exclusivamente da
profissão, nas palavras de Iamamoto (2005), “é preciso evitar uma superestimação artificial da
profissão, pois este é um profissional chamado desempenhar suas atribuições em um processo
coletivo de trabalho”. Novos espaços sócio-ocupacionais abrindo um conjunto de
especializações profissionais, não só para assistentes sociais, mas para sociólogos, cientistas
políticos, educadores e etc.
Essa configuração demonstra a necessidade que os profissionais têm de se afirmar, nos
mais diversos campos de trabalho, enquanto trabalhadores que detém intervenções e
instrumentais próprios. Buscando a cada dia mais a legitimação do projeto ético-político
profissional, que é contraposto à ordem vigente e muitas vezes repelido por outras categorias
profissionais – categorias estas fazem parte do processo de trabalho coletivo que os
assistentes sociais estão inseridos. Até porque muitas atribuições contatadas por Santos (1993)
ainda se fazem presentes na atuação profissional, fazendo com que este não consiga se
desvencilhar da ideia de que "ele faz tudo e ao mesmo tempo não faz nada".

Suas funções se encontram, geralmente, em trabalhos tais como: classificação


socioeconômica dos usuários dos serviços, organizador ou assessor de grupos de
trabalho, promotor de ações tendentes a conseguir recursos da própria comunidade,
união entre a comunidade e o Estado, para agilizar a prestação de serviços e para

10
explicar a legislação e o funcionamento dos programas, executor de tarefas, culturais
e recreativas, articulador das relações humanas, etc., e ainda, em certos casos, na
verdade poucos, é o distribuidor de alimentos e ocupações desse gênero. (SANTOS,
1993 p. 115)

Os apontamentos realizados no presente artigo mostram a influência do neopositivismo,


do conservadorismo e do pragmatismo na atuação profissional, demonstrando uma tendência
de retrocesso de conquistas historicamente importantes da categoria profissional. Demonstra,
também, a tendência do resgate da tese endogenista da profissão como um tipo de
racionalização da assistência.
Será este um novo modo para resolver velhos problemas? Um novo nome para velhas
formas de pensar?
É de suma importânca entender que o pragmatismo é uma forma de pensar burguesa,
coletiva, que aliena e não busca os fundamentos das coisas, em que o sujeito se encontra em
um grau tão evoluído de alienação que não consegue resgatar a sua condição humano
genéricaxiv.
Os assistentes sociais vêm se desenvolvendo consideráveis pesquisas a respeito do fazer
profissional, sobre as políticas em que estão inseridos e sobre as bases teóricas de pensamento
social – a exemplo disso temos a imensa gama de publicações nas últimas décadas e sua
grande relevância não só para o Serviço Social, mas para outras tantas categorias
profissionais.
Afirmar que existe um "abismo" entre teoria e prática no Serviço Social é afirmar que
este mesmo se expressa na relação "academia" e "campo da prática", o que não é verdade,
pois os dois se complementam. O movimento de aproximação com a realidade é uma busca
constante da categoria, em que o maior limite se materializa nas condições que são dadas o
trabalho profissional e as possibilidades de almejar uma mudança que realmente revolucione
as bases produtivas vigentes.
As condições em que as políticas sociais estão colocadas favorecem cada vez mais o
perfil de um profissional que atenda as requisições do capital, pois a dimensão de superação
do mesmo fica comprometida pelo imediatismo das intervenções.
O assistente social busca, cotidianamente, sua legitimação profissional (busca da
unidade na diversidade), não na ótica individualista posta pelo ajuste neoliberal, mas como
sujeitos coletivos, de lutas coletivas, não podendo perder de vista o seu trabalho e o quanto
este é importante para a intervenção na realidade existente.

11
Pensar o projeto profissional é pensar as lutas cotidianas travadas pelas mais diversas
expressões da classe trabalhadora, de forma crítica e sem perder a perspectiva de superação da
ordem do capital, mesmo que ela não se mostre fácil de ser alcançada.
O fato é que o Serviço Social é uma profissão na contracorrente da ordem do capital e
para que este profissional consiga intervir nessa realidade ele tem que se munir de arcabouços
teórico-metodológico, ético-político e técnico-operativo, visando romper com a prática
imediatista e fundamentada no “aparente”, para não cair na armadilha do retrocesso
profissional com “práticas renovadas" ao lado de "velhas práticas”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORTI, Valéria e GUERRA, Yolanda. Na prática a teoria é outra? IN: Forti e Guerra (org.)
Serviço Social: Temas, Textos e Contextos. Coletânea Nova de Serviço Social. Rio de
Janeiro: Lumen Júris Editora, 2009.

GUERRA, Yolanda. "A força histórico-ontológica e crítico-analítico dos fundamentos". In:


Revista Praia Vermelha: Estudos de Política e Teoria Social, nº 10, Programa de Pós
Graduação em Serviço Social, UFRJ, Rio de Janeiro, 2004.

GUERRA, Yolanda. "Expressões do pragmatismo no Serviço Social: reflexões preliminares".


Revista Katalysis, 2013. no prelo

GUERRA, Yolanda. A instrumentalidade do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995.

GUERRA, Yolanda. A questão da razão em Weber. Revista Serviço Social e Sociedade nº 42.
São Paulo: Cotez, 1993.

IAMAMOTO, Marilda Villela. Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação


profissional. 9ª ed. São Paulo: Cortez, 2005.

IAMAMOTO, Marilda Villela; CARVALHO, Raul de. Relações sociais e serviço social no
Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 19ª ed. São Paulo: Cortez, 2006.

LUKÁCS, G. "O Neopositivismo". In: Teoria e Política nº 9. São Paulo: Brasil Debates, 1988.

NETTO, José P. O Serviço Social e a tradição marxista. IN: Revista Serviço Social e
Sociedade nº 30. São Paulo: Cortez, 1989 (b).

NETTO, José Paulo. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-
64. 9ª ed. São Paulo: Cortez, 2006.

POGREBINSCHI, Thamy. Pragmatismo: Teoria Social e Política. Relime Dumará, Rio de


Janeiro, 2005.

QUIROGA, Consuelo. Invasão Positivista no marxismo. São Paulo: Cortez, 1991.

12
SANTOS, Cláudia Mônica. Na Prática a teoria é outra? Mitos e dilemas na relação ente
teoria, prática, instrumentos e técnicas no Serviço Social. Rio de Janeiro: Lumen Júris
Editora, 2010.

SANTOS, Leila L. Metodologismo: Explosão de uma época. IN: SANTOS, L.L. Textos de
Serviço Social, 5ª ed. São Paulo: Cortez, 1993.

VAZQUEZ, Sanches A. Filosofia da Práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

YAZBEK, Maria Carmelita. Fundamentos históricos e teórico-metodológico o Serviço Social.


In: CFESS/ABEPSS. Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília:
CFESS/ABEPSS, 2009.

YAZBEK, Maria Carmelita. O Significado sócio-histórico da profissão. In: CFESS/ABEPSS.


Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS,
2009.

i
A Questão Social em suas variadas expressões, em especial, quando se manifesta nas condições objetivas de
vida dos segmentos mais empobrecidos da população, é, portanto, a "matéria-prima" e a justificativa da
constituição do espaço do Serviço Social na divisão sociotécnica do trabalho e na construção/atribuição da
identidade da profissão (YAZBEK, 2009 p.129).
ii
Estado brasileiro que, nesse momento, apresenta fortes características paternalistas e repressivas, reforçadoras
da ideia de um Estado humanitário e benemerente, tenderá e se expressar, nas décadas seguintes, através de
Políticas Sociais inoperantes, que, reproduzindo a luta política mais geral da sociedade com suas contradições e
ambiguidades, se caracterizará por sua pouca efetividade social e por sua crescente subordinação a interesses
econômicos. (YAZBEK, 2009 p. 132)
iii
E acordo com Quiroga (1991) o entendimento de "Ciência Positiva" para Émile Durkheim requer um estudo
metódico para propiciar o estabelecimento de leis originárias da experimentação, considerando os fatos como
coisas.
iv
Contemporâneos e protagonistas do movimento são Associação Latino-Americana de Escolas de Serviço
Social (ALAETS), criada em 1965, e o apoio institucional de um organismo ligado à Fundação Konrad
Adenauer, da democracia-cristã germano-ocidental, o Instituto de Solidariedade Internacional (ISI). (NETTO,
2006 p. 147)
v
Grande parte das fontes dos materiais utilizados eram questionáveis e perpassadas pela "contaminação"
neopositivista. Estes materiais da reconceituação, muitas vezes, identificam o trabalho de Althusser (dos anos
1970) com o marxismo e o "Método BH".
vi
No decorrer do movimento reconceituador, num primeiro momento, a ideologia é entendida como motivadora
para o desenvolvimento profissional e, talvez mais do que isso, identificada com o conhecimento científico. Para
chegar a tal concepção, começou-se a condenar o caráter positivo e neutro da clássica prática profissional,
posição esta que, sendo em si mesma correta, despertou a conhecida rejeição pelo trabalho institucional, visto
que as instituições, como veículos reprodutores do sistema, cristalizam os interesses das classes dominantes. A
"fuga" das instituições, por sua vez, gerou o "trabalho de base em comunidades abertas" dentro de uma
perspectiva supostamente resguardada do "contágio" da ideologia dominante. Portanto, durante a
Reconceituação, a rejeição às instituições foi assumida como posição política decorrente de uma suposta
compreensão científica das mesmas. (SANTOS, 1993 p. 112)
vii
Weber não é positivista, pois concebe o relativismo da história mais a história para cada sujeito.

13
viii
Pragmatismo é modo de ser do Ser Social na imediaticidade, que apreende a realidade na fenomenalidade
expressa pelo modo de vida norte-americano, sendo, também uma teoria política com conceitos de democracia,
militarismo e instrumentalismo.
ix
Tipo de saber da cotidianidade e voltado para a imediaticidade.
x
Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis. Quando Marx assinala que o idealismo, ao contrário
do materialismo, admite o lado ativo da relação sujeito-objeto, e quando acentua, por outro lado, seu defeito –
não ver essa atividade como prática – ele nos adverte contra qualquer tentativa de estabelecer um sinal de
igualdade entre atividade e práxis. (VÁZQUEZ, 1990 p. 185)
xi
A razão dialética, crítica e radical, pelo seu substrato ontológico materialista, porque fundada pela e na práxis,
tem na perspectiva da totalidade a sua categoria central. A totalidade aqui é entendida a partir da compreensão
lukacsiana: "um complexo construído de complexos subordinados". Como categoria objetiva, a totalidade está
presente em qualquer realidade, "independente o sujeito". (GUERRA, 2004 p. 23)
xii
Tal afirmativa contesta tanto a concepção idealista – para quem a teoria carrega em si mesma o critério de sua
verdade – quanto empiricista – para quem a prática proporciona de forma direta e imediata o critério de verdade
da teoria. (SANTOS, 2010 p. 31)
xiii
Um passar de olhos sobre a literatura de Serviço Social no período de Reconceituação e uma revisão de suas
experiências no campo de pesquisa mostram uma nítida ausência d análise da realidade e de sistematização
teórica de sua ação concreta, substituída por uma constante e rotineira repetição de um serviço social libertador,
transformador e revolucionário ou de uma prática de investigar tão inflexível que acaba por enfraquecer a
intenção ideológica assumida. (SANTOS, 1993 p. 111)
xiv
Não cabe aqui esgotar o assunto, mas para uma melhor apropriação do mesmo indica-se SANTOS, B. S. Pela
mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1997.

14

Você também pode gostar