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paÍecem ter dificuldade em refletir sobre as mudanças extensas e profundas que

essa nova epistemologia vem requerer também em sua área.


Por isso, acho que, infelizmente, aquilo que disse Glasersfeld (1991a) -
também um ciberneticista de segunda ordem - e que já citei na Introdução, conti-
nua válido, dez anos depois: "até hoje, somente poucos tomaram plena consciên-
cia de toda a extensão dos efeitos das 'revoluções' científicas ocorridas no de*
coffer dos últimos cem anos" (p. 18).

PENSANDO O PENSAMENTO SISTÊIUICO


COMO O NOVO PARADIGMA ON CrÊúôIN,
O CIENTISTA NOVO.PARADIGMÁTrCI -

Desde que afirmei pela primeira yez,


em rggs,que vejo ,,o pensamento
sistêmico como o novo paradigma da
ciência" (Esteves de Vasconcellos l99;a),
tenho ouvido muitas vezes a pergunta: .,como
assim? por que o pensamento
sistêmico é o novo paradigm a da ciência?,,.

Interessante que rogo no


ano seguinte, capra (1gg6)pubricou
vida' uma nova compreensão científica A teia da
dos sistemas vivos.Algumas pessoas
então comentaram comigo: "você
viu? capra também está falando de um
paradigma sistêmico"' Mais adiante novo
vou focali zaÍ asdiferenças que distingo
tre as colocações dele e a proposta que en-
estou desenvolvendo aqui.
Tendo acompanhado comigo a descrição
que fiz doparadigma da ciência
novo-paradigmática emergente você, járpode
, ter percebido iue há d;;,
de responder à pergunta que me fazem:porque -aneiras
pensar sistemicamente é pensar a
complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade;
ou porque os pressupostos
da complgxidade, da instabilidade
e da intersubjetividade constituem
em conjun-
to uma visão de mundo sistêmica. De
fato, não são mais do que duas formuraçõçs
da mesma resposta.

Para adotar uma organização mais lógica


deste texto, ditada por uma ró_
gica ortodoxa, da ciência tradiciona
l, talvezdevesse começar este capítulo com a

146 | Papirus Editora Pensamento sistêmico I 147


apresentação da noção de sistema. Entretanto, optei por deixar essa tarefa para participar na conversação da equipe terapêutica,
responsabilizando ou
mais adiante, continuando aqui mais um pouco com a questão da transformação culpando um membro da família.
do paradigma de ciência. Penso que, por agora,basta-nos tomar de Wilden (1972) Nessa conversação, durante todo o tempo,
não se pode usar o verbo ,,ser,,
a ideia de que "o conceito de sistema se refere aos modos em que acontecem a§ ao descrever o que se está observando. É preciso
falar sobre o que se vê, mas
relações ou conexões entre os elementos e as relações entre as relações" (p. 204), o verbo ser é um verbo proibido. É proibido
dizer,por exemplo, ..essa família
ou então aafrmaçáo de Cecchin (1991) de que'oo que vemos como sistema é-sim' é,..","amãe é..." etc.
plesmente o encaixe de seus membros uns com os outros" (p. 13). A noção de 3. Ainda, nessa conversação, ninguém pode responder
à fala do colega dizendo
sistema está abordada de modo mais detalhado no capítulo 6. "não concordo"- ou seja, ninguém pode começaÍ
sua própri a faradizendo
"não". Deve-se simplesmente dizercomo
Hoje, quando falo de pensamento sistêmico, estou me referindo a uma se vê a situação, sem contradizer o
que outros já disseram.
visão de mundo que contempla as três dimensões que distingo na ciência con-
temporânea. Então, nesse caso, um cientista ou um profissional é sistêmico ou você pode estar se perguntando: o que isso tem
a ver com ..pensamento
vê o mundo e atua nele - as implicações sistêmico" ou com "novo paradigma de ciência"?
é novo-paradigmático, quando vive - vou então me deter um pouco
em cada um desses pontos, comentando cada
de ter assumido para si esses novos pressupostos. um deles.
1' É rucilperceber que o primeiro exercício ajudaráo terapeuta
Trata-se evidentemente de alguém que mudou seu paradigma. em form ação a
ampliar o foco da observação. Até então, ele provavelmente
No "Encontro Internacional Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade", teráaprendido a
observar apenas o cliente e, nesse caso, observaria
a famíria. Mas agora,
o terapeuta de família italiano Gianfranco Cecchin (1991) enfatizou a necessidade além de certamente estarjá interessado em
ver como interagem os membros
de exercitarmos sempre a maneira sistêmica de pensar e sugeriu o que ele chamou da família, está sendo levado a observar também
a relação entre o cliente e o
de "exercícios para manter sua mente sistêmica". Embora se tratando de exercícios terapeuta de campo. Eteráque ampliar ainda
mais o foco, quando observar a
usados por ele no contexto da formação de terapeutas sistêmicos de família, a conversação entre o terapeuta de campo e
a equip e atrâs do espelho,
meu ver, podem ser ampliados e estendidos para qualquer outro contexto. Distin- focalizando as suas próprias (da equipe de que
ele também é parte) relações
gui na proposta de Cecchin três aspectos: com a família. Então, mantendo-se sempre interessado
pelas rerações, o
1. Todos os terapeutas/alunos em formação estão observando - de uma sala terapeuta ampria o foco, até incluir-se a si próprio
na observ ação.
contígua, através de um espelho de visão unilateral - o terapeuta de campo Já vimos que, de acordo com o paradigma
tradicional, nossa tendência a
que está com a família, na sala de atendimento. Constituem, todos, a equipe procurar uma causa para o fenômeno que
obseryamos nos faz pensar numa
terapêutica. Os terapeutas/alunos são instruídos a focaltzar, em sua causalidade linear, localizando em um ponto
da sequência de interações a
observação, não só as interações entre os membros da família, mas também causa do que está acontecendo. se cada
membro da equipe, de acordo com a
as interações do terapeuta com os clientes. Num dado momento, o terapeuta instrução recebida, busca a causa, ou a ,.culpa,,,
em um dos membros da
de campo interrompe a conversa com a família e vai à outra sala para famflia, isso pode ajudar a equipe a perceber que
cada membro do sistema
conversaÍ com a equipe de trás do espelho. Durante essa conversação, familiar está contribuindo a seu modo, ou pode estar
sendo um pouco
parte da equipe estará conversando com o terapeuta de campo e os outros responsável, tornando-se possível pensarmos
numa causalidade circular para
estarão observando essa interação entre membros da equipe de terapeutas. o que está ocorrendo.
Além disso, como em geral todos temos tendência de buscar causas para
a 2' sendo proibido usar o verbo ser, o observador
será levado a usar, em suas
o que vemos acontecer, os terapeutas costumam ver um dos membros da descrições, o verbo estar. Ao observar as
interações, em yezde dizer, por
família como a causa, como o responsável ou o culpddo pelo que acontece. exemplo, 'oessa família é agressiva", ou "essa
criança é desobediente,,. dirá:
Então, Cecchin pede que cada membro da equipe terapêutica procure "essa famíIia está agressiva" ou ..essa
criança está desobediente,,.

l
148 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I l4g
mr
linguagem constitui a realidadc:'/ validade de todas as distinções, a equipe poderá elaborar uma hipótesc
você se lembra de que dissemos que nossa
ver não uma situação estática ott integradora, que abra mais perspectivas para o prosseguimento da
Pois bem, esse novo modo de falar nos tará
de estudo' mas característicLts conversação com a família.
características definitivas de nosso objeto
algo que está acontecendo. quc
que estão se manifestando nesse momento,
estáemprocesso.Issonospermitirápensarqueasituaçãoestáassim,mas Distingui esses três exercícios, na proposta de Cecchin, porque eles nos
a perguntar: em que condições essa
poderá vir a estar diferente e nos levará remetem às três dimensões do paradigma emergente da ciência, integrantes do
Essa é uma pergunta pelo contexto
característica que distingui se manifesta'? quadro de referência com que estamos trabalhando, como se vê no 22:Quadro
emqlleofenômenoacontece;umaperguntapelasrelaçõesqueo,Í.en1meno
também acontecendo' E uma
distinguido tem com outras coisas que estão Quadro 22 - Como manter uma mente sistêmica
perguntaquetambérnabreperspectivasparaapossibilidadedemudanças
de outro jeito' Quando' ao
acontecerem, das coisas poderem vir a acontecer
é causado por uma
contrário, Se concebe que algo acontece porque i

característica intrínseca, inerente à nature


za do sistema - por exemplo'
que F
i :lti:' : P:: t :i::r::: r.. -. ) i|
-"**-vf complexidad. I
I
I
que eSSa característicatrá Sempre
fez isso porque é autottt/ario - acreditaremos
I descrever com o verbo estar )
determinarqueaquiloaconteçaequepoucopoderáserfeitoparamudaro -\
que está acontecendo'
Alémclisso,essaperguntapelocontextomuitoprovavelmentelevaráo i
,l
I
u.ui* ouio, J.r.r'ná., I
l\
N

que está observando' Por exemplo'


observador a se perceber como parte do
meu filho está desobediente'/" ou
se um pai se pergurata: "em que contexto ..está Ao contextualizar o fenômeno, ampliando o foco, o observadorpode perceber
e responde
..meu filho está desobediente na relação Com quem?,, em que circunstâncias o fenômeno acontece, verá relações intrassistêmicas e
desobediente na relação comigo", será
levado a se perguntar: "qual a minha intersistêmicas, verá não mais um fenômeno, mas uma teia de fenômenos
ou "como eu posso mudar' para
contribuição para essa desobe<liência dele?" recursivamente interligados e, poftanto , terá drante de si a complexiclacte do sistema.
pai terá se tornado' portanto' peça
que ele se torne mais obediente?". Esse
Ao distinguir o dinamismo das relações presentes no sistema, o obser-
para o filho, e concluirá que, só mudando
essencial da mudança que ele deseja
vador estará vendo um processo em curso, um sistema em constante mudança
asipróprio,poderáobservaralgumamudançanofilho.NoutroCaso,o
e evolução, auto-organizador, com o qual não poderá pretender ter uma interação
observadorpodeSerumterapeutaque,fazendoasperguntaspelocontexto,
sua forma de agir' instrutiva, e estará portanto assumindo a ínsÍabilidade, a imprevisibilidade e a
concluique "o cliente está resistente na relação comigo"'
como agiria se atuasse incontrolabilidade do sistema.
apartir daí, será necessariamente diferente da forma
é uma característica que
partindo do pressuposto de que a "resistência" Ao reconhecer sua própria participação na constituição da "realidade" com
algumas pessoas têm - algumas pessoas são "resistentes" - e costLlmam que está trabalhando, e ao validar as possíveis realidades instaladas por distinções
manifestar na situação de terapia' diferentes, o observador se inclui verdadeiramente no sistema que distinguiu, com
a fala usanclo o "não" vai
3. Finalmente, a reconTlendação para não começarmos o qual passa a se perceber em acoplamento estrutural, e estará atuando nesse
valorizar mais nossa própria
também contra uma tendência forte que temos de espaço de intersubietividade que constitui com o sistema com que trabalha (no
visão,ouopinião,doqueadooutroedeargumentarmosnosentidode caso da terapia, o sistema terapêutico, constituído pelo conjunto dos membros
Na situação criada por
mostrar que a nossa é mais válida, mais verdadeira' da família com os terapeutas).
que distinguiu e' respeitada a
Cecchin, cada aluno colocará a "realidade"

I 50 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I 151


Por tudo isso, penso ser impossível um cientista adotar qualquer um desses
Então, resumindo, podemos dizer que o cientista novo-paradigmático as- pressupostos epistemológicos sem assumir também os outros. Para me referir a essa
sume as três dimensões do novo paradigma da ciência' relação recursiva entre as três dimensões do novo paradigma da ciência, tenho pa-

cientista novo-paradigmático rafraseado aquela afirmação de Foerster (1974) a que me referi no Capítulo 4
Quadro 23 -O - -
sobre as relações entre o observador, a linguagem e a sociedade, e tenho dito que
"entre as três dimensões
- a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade -
se estabelece uma conexão não trivial, isto é, uma relação triádica fechada, em que
se necessita das três para se ter cada uma das três" (Esteves de Vasconcellos 7997 a;
1997b;1997c).

Não é fácil representar graficamente, num plano, essa relação recursiva entre
os três pressupostos novo-paradigmáticos. Por enquanto, tenho representado
assim:

Quadro 24 - Uma relação triádica Íechada entre


as dimensões do novo paradigma

A ênfase que tenho dado à existência de três dimensões no novo paradig-


ma da ciência pode parecer compartimentadora. Entretanto, no início do Capítulo
já antecipei que seria difícil tratar separadamente os três pressupostos, no caso
4,
pontua-
dessa ciência novo-paradigmáticaemergente: tenho sempre distinguido e
do uma relação de recursividade entre as três dimensões.
Conceber a complexidade das relações causais recursivas nas redes de
redes que constituem a nafixeza em todos os seus níveis introduz necessaria-
mente a incerteza, a imprevisibilidade. E a consciência da destruição da certeza
remete necessariamente ao pensamento relacional: se não é verdadeiro em
si, é
E também por distinguir essas relações recursivas e articuladoras entre as
verdadeiro em relação a quê? A quem?
três dimensões que, desde lgg2,tenho preferido falar do "novo paradigma da ciên-
pensar a instabilidade, a irreversibilidade, a evolução, associadas aos pro-
cta" e não de novos paradigmas da ciência (Esteves de Vasconcellos 1992; l9g5b).
cessos de auto-or ganizaçáo, exige de nós uma ampliação de foco, um foco
mais
um pensa- De fato, o que se tem encontrado na literatura são referências a vários novos
abrangente que permita incluir o tempo irreversível' Ou seja, requer
paradigmas, aparecendo, entre outras, as expressões: 'oparadigma da complexida-
mento complexo, integrador, que afaste a disjunção, a simplificação'
de" ,"paÍadigma da auto-org anizaçáo" , "paradigma da ordem a partir da flutuação,,,
Alóm disso, como já vimos, é o pensador sistêmico quem distingue a ins- "paradigma do construtivismo". Além disso, essas expressões aparecem associa-
tabilidade e a complexidade - já que um observador pode ou não distingui-las
das a diferentes cientistas. Assim: o paradigma da complexidade de Morin; o pa-
num sisterflâ -, o que nos remete à referência necess ârra ao observador.
radigma das estruturas dissipativas (ou da ordem apartirda flutuação) de prigogine;
por outro lado, a construção intersubjetiva do conhecimento também in-
o paradigma do construtivismo de Foerster, de Watzlawick, de Glasersfeld; o pa-
troduz instabilidade: se não há leis definitivas sobre a realidade, se só temos afir- radigma da construção social da realidade de Berger e Luckmann (1966), o para-
mações consensuais, não teremos mais as expectativas de previsibilidade e digma do construcionismo social de Gergen (1994) etc.
controlabilidade. E encontrar diferentes afirmações nos levarâ a perguntar pelas
condições, pelo contexto em que foram feitas'

Pensameíto sistêmico. I 153


152 I Papirus Editora
Penso, entretanto, QUe falar de vários paradigmas seria privilegiar a
disjunção e a fragmentação e concordo com Morin (Ig82), quando nos exorta você pode ter percebido
a que, ao comentar os três exercícios de
conceber e trabalhar por uma integração que não elimine as diferenças. Acho para desenvolver o pensamento cecchin
im- sistêmico, preocupei-me
emfazeros comentários
portante que nos perguntemos então: por que não enfatizar arntegração de modo que ficasse evidente,
dessa di- em todos os três, a participação
versidade, dessas diferentes dimensões hoje presentes na proposta de pensarmos seja, a terceira dimensão do observador, ou
do meu quadro de referência.
o mundo e de fazermos ciência? Já vimos também que
Foerster fala dessa referência
Por isso, quando falo de novo paradigma da ciência, estou implicitamente vador' chamada de visão necessária
ao obser-
de segunda ordem, porque
reconheça sua participação ela exige que o observador
falando desses vários "paradigmas pós-modernos" ou dessas várias no processo e se observe
"epistemologias pós-modenlas"l e propondo pensarmos sempre em sua essa visão exige que observando. ou seja, que
articula- haja uma ampr iaçãodo
sistema observado, o qual,
ção. Afinal, distinguir as conexões e articulações também é uma característica da inclusão do observador, com a
se transfo rmaránum
sistema observante.
forma sistêmica de pensar. Tenho usado o quadro abaixo para sugerir que ficam Acontr
todas as "novidades", todos os "novos paradigmas" contemplados na expres- nãoconre-r,;;::f ',::il:;:Tf "J::,x::::Tffi ',:ffi
são "novo paradigma da ciência". implicações essas que
nada têm de fiviais. v";umo.
:]il"",H1',ffi
:
como isso tem acontecido.
Quadro 25 - Três dimensões num único Parece-me perfeitamente
possível um cientista
"novo paradigma da ciência,, simplificador e fragmentador rever seu pressuposto
da ,.realidade,,,
mas de sisremas, sistemas Ourr* ampliar o foco, a ver siste_
a
aninhados em sistem"r,
sem assumir as implicações ;;#;:;;r*idade, mas
de admitir que essa comprexidade
sistema ou no mundo não está rá, no
que ele observa, independentemente
Nesse caso' o cientista de ele distingui-la.
corre o risco ae trauathar
coisificad o (res com um sistema reificado ou
=coisa' em latim), como se o sistema
mo' como tal' Penso que dvesse existência em si
alguns ecologistas e ambientalistas mes-
profissionais que dizemfabalhar e também alguns
com uma visão sistêmica
presariais estão se colocando das organizações em-
nessa postura e se dizendo ..sistêmicos,,.
Tâmbém me parece possível
pensar os sistem:
esrudar sua insrabilidade,
Acabo de mostrar, então, que considero o pensamento sistêmico como o_ sobre eles' mantendo-se
seus sartos quarirarivo,
"
numa postura de objetividade
#;:ililj:;:TiffiH"J;
novo paradigma da ciência: concebo um pensamento sistêmico novo-par adigmá muitos físicos e biólogos, sem parênteses. penso que
.
que estão reconhecendo e
tico como um modo de pensar que implica ter assumido os três novos pressupos- trabarhando com sistemas
an rêm - s e n u m a p
tos que constituem esse "novo paradigma de ciência,,. ;Hil?"T."#11'r?ll,:*,m o s rura o bj e ri vi s ta, em bora ab or-
Entretanto, já disse na Introdução que, a meu ver, nem tudo que se tem Aliás, até
apresentado hoje como pensamento sistêmico pode ser considerado como o'novo enrreaqueres*Iil;i::il:,T;::,,:,*?TrH::i:"J",T.HI):T;:
paradigma da ciência". Ou seja, nem tudo que se apresenta hoje como sistêmico Foerster' parece haver
arguns que não assumiram
é novo-paradigmático. vamos ver o que quero dizer com isso. para varer sua participação
constituição da "realidade". na
Assim, continuam errralguns
tal modo que parecem momentos atuando de
1. Pós-moderno aqui tem apenas o sentido de algo que veio após o paradigma se conceber
moderno, da giado a determinados ,.aspecros tendo um acesso privle-
ciência tradicional, sem outras conotações que o termo costuma ter. ,^'::;r:#"::;:;:,
meta os sistemas com que
ffabatham. pero menos,
154 I Papirus Editora
isso é dffiiff;'#:J
Pensamento sistêmico
I 155
pela forma como falam de §eu trabalho, de seu suposto controle sobre o sistema, Capta (idem) refere-se a uma mudança de paradigma
ocorrendo na ciência,
decorrente de seu saber solbre "arealidade". fala de um novo paradigma na ciência, assim como
fala também de pensamento
Por que será, então,, que tantos pensadores, cientistas, profissionais que sistêmico, concepções sistêmicas, pensamento
de rede e abordagem sistêmica da
se dizem ou querem ser sisüêmicos não incorporam o pressuposto da construção ciência' No entanto, o que ele explicita como meta
de seu trabalho é a elaboração
da realidade em sua forma @e pensar/agir? de uma "síntese das teorias e modelos atuais (ou)
um esboço de uma teoriaemer-
gente sobre os sistemas vivos,que oferece
Parece-me que, em nnuitos casos, anáo inclusão de si próprio como obser- uma visão unificada de mente, matéria
e vida" (pp.49,20,46,73,47,20, grifos
vador pode dever-se às difipuldades naturais de mudar de paradigma. Apesar de meus).
ter tido contato com as prc)postas construtivistas, apesar de ter lido Maturaua, Apesar de seu foco ser uma teoria dos sistemas
vivos, ele apresenta o que
chama de "çritérios", 'ocaracterísticas-chave,,
apesar de saber dos quest[ionamentos contemporâneos aos pressupostos da ou .,grandes fios,, do pensamento
objetividade e do realismo flo universo, paÍece que a pessoa tem grande dificul- sistêmico' Segundo ele,hádois "grandes fios": primeiro,
o pensamento sistêmico é
dade em mudar seu paradigma: mantém-se, portanto, com sua visão de mundo um pensamento "contextual" e, segundo, o pensamento
sistêmico é um pensamen_
tradicional, no que se refer€ à forma como podemos conhecer o mundo. Afinal to "processual" (capra rgg6,p. 50), o que
corresponde às minhas duasprimeiras
não é fácil admitir que s rng,ndo não está láparaser conhecido, que o especialista dimensões do novo paradigma.
Quanto terceira dimensão, ele não parece ter
à
assumido que a objetividade é impossível que
não detém um conhecimento especial desse mundo. Também, náo é fácil admitir e não existe a realidade indepen-
dente de um observador. Vamosver por que
que sua proposta de soluçãd, a proposta do especialista, para uma dificuldade de digo isso.
um sistema não é, por princ:ípio, melhor do que as propostas dos próprios mem- Capta (idem) apresenta a teoria da cognição
de Santiago, de Maturana e
bros do sistema. Ou admitir que sua voz, naquele caso, não é mais importante do Varela, e afirma que "entre suas implicações,
sua contribuição à epistemologia, o
que a dos demais especialistas, que afinal tendem a ser vistos como especialistas ramo da filosofia que tatadanaturezado nosso
conhecimento a respeito do mundo,
em outros aspectos da reaHclade, não naquele em que o profissional se sente es- étalvez o seu aspecto mais radical e controvertido,, (p.2l3).Note_se
que, além de
pecialista considerar que a contribuição dessa teoria da
cognição se refere à filosofia/epis-
temologia, não à ciência, elefazafirmações que preservam
e
Em muitos outros çêsos, parece que a não inclusão do observador se a existência da reali-
dade objetiva, apossibilidade de um uni_verso:
deve a um desconhecimento desses desenvolvimentos científicos recentes nas
áreas da biologia e da çi6grnética, uma vez que os autores não se referem a ("') o que torna possível converter a abordagem sistêmica
numa ciênc ia é a
eles, ao apresentar suas pfopostas sistêmicas: limitam-se então a propostas descoberta de que há conhecimento aproximado;
(...) no novo paradigma é
que só contemplam as dimLensões da complexidade e da instabilidade (auto- reconhecido que todas as concepções e todas
as teorias científicas são limitadas
e aproximadas; ('..) na ciência lidamos com
organização). Parece que €ssas pessoas não tiveram ainda oportunidade de descrições limitadas e aproximadas
da realidade. (Capra 1996, pp. 49_50, grifo meu)
deparar com os questionaslentos científicos à objetividade, que nos convidam
a uma revisão radical ds ngs;sâs crenças sobre o 'ocomo coúecemos o mundo". Essa ideia de "conhecimento aproximado
da realidade" não corresponde
E ainda, em outros referências a esses desenvolvimen-
s@sos, apesar das evidentemente à noção de construção conjunta
do conhecimento num espaço de
tos, parece que os cientistas não se detiveram em suas implicações ou ainda não intersubjetividade, por diferentes sujeitos/observadores.
se permitiram refletir a respOito. Parecem ver neles apenas novas teorias, não per-
Assim, Capra não chega a incluir a ,,objetividade
cebendo as fortes implicaçOes epistemológicas desses desenvolvimentos. entre parênteses,,, ou a
intersubjetividade, como mais um "grande fio"
do pensamento sistêmico. portan-
Posso pontuar agora as diferenças que distingo entre as colocações de to, o que ele apresenta como pensamento sistêmico
não é ainda,a meu ver, um
Capra (1996), emA teia da yida. Uma nova compreensão cientffica dos sistemas "pensamento sistêmico novo paradigmático",
por não incluir o terceiro e funda-
vivos, e a concepção de pensamento sistêmico que estou desenvolvendo aqui. mental "grande fio". Para mim, além de ser um pensamento .,contexfual,,
e um pensa_
156 I Papirus Editora
Pensamento sistêmico I 157
inabaláveis, rnas não caiu nem no ceticismo, nem num divertimento lúdico" e está
é também Um
mento "pÍOcessual", o "pensamentO Sistêmico novo-p atadtgmítticO" "longe de ter aliança com a mística" (Rodrigues 1983, pp 49-50, grifo meu). O
relacionado aO
pensamento "relacional", no sentido de estar necessariamente próprio Morin (1990) considera que muitos cientistas têm procurado transcender
sujeito/observador. a complexidade, a contradição, por meio de uma nova metafísica. Considera que
"ecologia profunda"
capra (lggz)associa a mudança de paradigma a uma eles tentam escapar da complexidade por meio do misticismo, acreditando encon-
humano como fundamen-
- cuja percepção espiritual ou religiosa concebe o ser trar ali uma unidade fundamental, onde tudo está ligado, tudo é harmonia. Entre-
"ecologia antropocêntrica" -
talmente inserido no universo - diferente de uma tanto, ele propõe que se mantenha um pensamento científico, porém complexo,
(pp' 25'26)' Com
rasa ou superficial - que vê o homem fora ou acima danatureza em que seja possível distinguir sem isolar, mantendo as conexões e fazendo co-
isso, ele está se referindo à divisão homem/mundo ou naturezalnafxezahumana' municar o que é distinto. Segundo ele, o pensamento místico é diferente disso,
do novO
Entretanto, isso não corresponde, a meu ver, à minha terceira dimensão porque ultrapassa as distinções e transforÍna comunicação em comunhão. Usan-
paradigma da ciência. do a terminologia de Maturana, diríamos que pensamento místico e pensamento
cientista
Ao adotar uma visão de mundo sistêmica novo-paradigmática, o científico coÍrespondem a domínios linguísticos diferentes.
seuparadigma ou Sua vi-
- o profissional, o homem comum -Íeút ultrapassado Bem, se não se trata de uma mudança de paradigma que destrói ou que
sistêmico ou essa nova
são de mundo tradicional, adotando esse novo paradigma vemttazer algo novo para substituir o antigo, parece natural que, a partir do para-
epistemologia sistêmica. digmatradicional (atitude "ou-ou"), as pessoas perguntem: e agora? o que o cien-
Tenho usado o termo ultrapassagem com um sentido bem
específico' que tista novo-paradigmático vaifazer com a ciência tradicional? Como vai lidar com

preciso agora esclarecer. tudo que a ciência produziu de conhecimento, de teorias sobre o mundo, de tec-
na ciência' nologias?
Alguns autores têm falado de uma "revolução paradigmâÍica"
uma grande revolução nas premissas (Morin 1983; 1991)'
Entretanto' termo re-
o Já vimos que o pensador sistêmico foca as relações e, naturalmente, tendo
Por exemplo, uma
volução contém a ideia de que é preciso destruir para substituir. ultrapassado uma forma de pensar disjuntiva e adotado a atitude "e-e",ele pensa-
político para colo-
revolução política significa eliminar completamente um sistema rá a afirculação.
autores discutindo o
car outro no lugar. Talvezpor isso se encontrem hoje alguns Entretanto, apalavra articulação vem sendo tradicionalmente associada a
"fim da ciência". uma forma de articular que é própna da ciência tradicional, a dialética: tendo-se
Uma dis'
Em 1996, Horgan lançon um livro, com o título O frm da ciência' uma tese e apresentando-se uma antítese, será necessária uma terceira alternati-
que motivou controvérsias
cussdo sobre os limites do conhecimento científico, va, para se encaÍregar da síntese. Mas não é desse tipo de articulação que estou
paleontologia, embriologia' falando. Morin (1990) comenta que o pensamento hegeliano, dialético, aspira à
e manifestações de especialistas em neurologia,
datetra,inteligên-
neurobiologia, física, imunologia, ciências do cérebro, ciências totalidade, à verdade e que no pensamento complexo que ele{ropOe. deve acon-
pela mídia como uma
cia artificial, química, neuroquímica, astronomia, associadas tecer a confrontação de contradições, mas não a síntese. Também não estou fa-
.,guerra do paradig ma" (Folha de s. Paulo,set. 1996). Será que uma mudança de lando de complementaridade, nem de uma simples justaposição eclética.
paradigma significa o fim da ciência? Você pode estar se perguntando, então, que outro tipo de articulação seria
Enquanto isso, outros - cientistas e filósofos da ciência - se
manifestam possível.
paradigma remete a uma
preocupados com aS frequentes sugestões de que o novo Em O método. A natureza da naÍureza,Morin (1977) introduz a ideia de
associação dessa nova ciência com misticismo' uma articulação que é inerente à ultrapassagem, ou seja, de uma ultrapassagem
com Morin'
Um dos físicos que participaram do debate sobre complexidade que já implica uma articulação. Falando dos limites da Cibernética - quando se
conhecimentos
em Lisboa, já pontuava que a física hoje conhece os limites
dos tenta usá-lap'aÍa pensar os sistemas naturais e não apenas os sistemas artificiais -,
absoluta e dos fundamentos
que desenvolve e já "perdeu a angústia da verdade
Pensamento sistêmico I 159
158 I Papirus Editora
ele nos exorta a ultrapassá-la numa Si-Cibernética. O prefixo si (do grego sun = Num artigo intitulado "A mosca e o caça-moscas,,, em que aborda os para-
com) marca as ideias de reunião no espaço e no tempo, de obrigação recíproca doxos e a "teoria dos tipos lógicos", Watzlawick (1981b) refere-se
a uma forma de
entre as partes. A grande novidade que percebi nesse conceito é ade que, quan- ultrapassagem proposta por spencer Brown. segundo a lógica
de Brown,
do se faz atltrapassagem , jáestáfeita a articulação. A Sl-Cibernética, sendo mais
abrangente do que a Cibernética, ultrapassa-a e incorpora-a.2 ('..) um sistema conceitual pode "transcender', seu próprio marco,
Não costuma ser fáctlparanós, que estamos habituados a um pensamento contemplar-se a partir de fora em sua totalidade e em seguida
voltar a ,,eÍrtÍar,,
em si mesmo, já com a informação assim àdquirida. (...) visto
disjuntivo e apenas a tentativas de articular alternativas que se excluem, entender de fora, esse
marco se manifesta como uma armadilha; visto de dentro, como
um universo
que ultrapassar não significa renegar. Por isso, muitas vezes as pessoas costu- aparentemente fechado e livre de contradições. (p. 204)
mam me perguntar, espantadas: "Como é possível que você, que se dedicou tan-
tos anos à pesquisa e ao ensino de uma psicologia experimental, rigorosamente
Acho interessante pontuar aqui essa ideia de poder transitar entre qua-
científica, esteja agora descartando tudo que fez por tanto tempo?". dros de referência conceituais como uma mudança de níveis lógicos.
Considero que, assim como a Si-Cibernética é concebida por Morin como
Para compreender melhor essa ultrapassagem, precisamos focalizar
uma
um desenvolvimento da própria Cibernéttca, também essa nova ciência coffes- distinção que tenho proposto entre: ciência novo-paradigmática e cientista
novo-
ponde aos desenvolvimentos contemporâneos da própria ciência. Assim, conce- paradigmático. Você pode ter percebido que, no decorrer deste
Capítulo, só tenho
bo, nesse caso, uma ultrapassagem articuladora. Ao fazet essa ultrapassagem, ao me referido ao profissionaUcientista novo-paradigmático,
e não a uma ciência novo-
ter-se tornado novo-paradigmático, o cientista resgata e integra a ciência tradi- paradigmática. Que diferença faz isso?
cional, porém tendo agora um olhar novo sobre ela'
Vimos que, desde Descartes, ficou definido que o estudo, as reflexões
Tenho representado assim esse resgate e essa integração da ciência tradi-
e as especulações sobre o sujeito do conhecimento caberiam
à filosofla, en-
cional pelo cientista novo-paradigmático: quanto à ciência caberia atingir o conhecimento do objeto, o
conhecimento
Quadro 26 - Articulação novo paradigma/ciência tradicional objetivo da natureza. Assim, desde então, a ciôncia tradicional não
tem tido
lugar para o sujeito, que deve se eclipsar paradeixar falar o objeto.
A ciência
se desenvolveu então sem tratar desses questionamentos
sobre o sujeito,
CI ENTI STA NOVO-PARAD G MATI CO sobre sua epistemologia, sobre seu paradigma. Essas questões fbram
I
abor-
dadas pela filosofia, numa epistemologia filosófica, com "teorias
. complexidade filosóficas
sobre o observador".
. instabilidade
Nesse caso, pode-se falar então da ciência como uma acumulação
. intersubjetividade gradativa
de fatos científicos. Essa construção do "edifício científico" pode
dar-se gradual-
mente, sem que os cientistas estejam se preocupando ou pensando
todo o tempo
na epistemologia. Não sendo da alçada da ciência, a epistemologia
fica mesmo
subjacente ao trabalho que realízamos cientistas, seja a elaboração
de teorias sobre
a natureza, sobre o mundo, seja a derivação de suas práticas.

2. Mais adiante, no Capítulo 6, falarei mais da Si-Cibernética e dos outros rótulos que têm sido Costuma-se representar assim a relação tradicional entre epistemologia,
usados para os recentes avanços da Cibernética. teoria e prática..

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Pensamento sistêmico I 161
Feita a ultrapassagem, ou seja, a mudança de paradigma, o cientista
Quadro2T_Eplstemologia,teoriaepráttcanaciênciatradicional sistêmico amplia o foco, resgata e integra a ciência tradicional. Entretanto, o que
cle resgata náo é mais a mesma ciência tradicional, porque ele próprio não ,á mais

Prática científica / Aplicação da ciência


() mesmo, reviu seus pressupostos, tem um novo modo de estar no mundo. Este
Çiência,, ., sim, o cientista, e não a ciência, passou por uma metamorfose e agora viverá seus
', :1.-,.,.,; ..1.-,r,,t. ,,
ircoplamentos estruturais a partir dessa sua nova estrutura.

,Filosofiá,,'r,
A meu ver, o cientista não pode resgatar a epistemologia da ciência tradi-
pressupostos epistemológicos da Ciência cional. Pode resgatar apenas suas teorias? suas técnicas. Mas essas jâ náo serão
Epistemologia -
as mesmas, uma vez que também se transformaram na relação com esse novo
cientista, que agora tem um olhar novo sobre elas.
Costumo dizer que o cientista novo-paradigmático carÍega, numa sacola a
Hojeassumimosqueomundoquecriamos,queconstituímoscomnoSSaS tiracolo, as técnicas, os recursos e os conhecimentos desenvolvidos pela ciência
pessoal (determinismo estrutural) ' Ota'
distinções, depende de nossa estrutura tradicional e sente-se livre para usá-los quando quiser. Porém, usá-los-á de modo
do cientista, o mundo que este cria depende
se o paradigma fazparteda estrutura completamente diferente de como ofaziaantes dessa ultrapassagem. Por exemplo,
no
de seus valores e crenças' E é nele'
de seu paradigma, à" ,rru epistemologia, pode'
um psicólogo sistêmico novo-paradigmáttico poderá usar um teste psicológico,
paradig ma.Éele, e não a ciência, que
cientista, que se produz a mudança de mas suas crenças a respeito do papel do teste no trabalho que está desenvolven-
É *uir, as mudanças estruturais, evolutivas'
ou não, tornar-se novo-paÍadigmático. do com o cliente já serão radicalmente diferentes, como também a forma como
parece impensável que, depois de ter incorpo-
nos seres vivos são irreversíveis e contextuahzará e desenvolverá esse novo uso. Ou um administrador sistêmico
entre parênteses' uma pessoa volte
rado em sua estrutu raaçreflçana objetividade novo-paradigmático poderá usar, nas atividades de treinamento, técnicas desen-
em si, independente do observador' Essa
a acreditar na existência da realidade volvidas pela ciência tradicional, mas já, não terá as mesmas expectativas sobre
seu
pessoa poderia até continuar agindo
como antes, mas se revir efetivamente seus efeitos. Em resumo, depois que se conhecem as regras do jogo, já não se
penso que esse será um caminho sem
volta'
pressuposto, pode jogar ingenuamente.
diária normalmente nos movemos
Maturana (lgg7 )considera que "na vida Penso que, antes que o profissional tenha efetivamente optado pelos
acor-
inconscientemente de um caminho explicativo a outro ("') e fazemos isso de novos pressupostos epistemológicos, manter-se usando teorias e técnicas da
docomofluxodenossasemoçõesedesejosemnossasrelaçõesinterpessoais" ciência tradicional pode constituir-lhe uma dificuldade a mais na realízação da
(p.26s). ultrapassagem do paradigma.
não depende de argumen-
Importante termos presente que essa mudança Como enfattzaMorin (1990), nada mais fácil do que usff as premissas que já
tos racionais, mas de aceitação. Só
qru,do o cientista aceita a pergunta sobre a admitimos há longo tempo e nada mais difícil do que mudar os pontos de partida
e Se permite refletir' é que aparecem
oS
observação como um fenômeno natural, do raciocínio, do que modificar conceitos angulares que sustentam nossa forma
caminhosdaobjetividadeentreparêntesesedaobjetividadesemparênteses.Você de pensar. A dificuldade de ultrapassar efetivamente o paradigma tradicional pode
se lembra de que, no Capítulo 1,
vimos que Maturana e Varela (1983) pontuam manifestar-se de várias maneiras.
uma visão de mundo' que nos permitamos
como é fundamental, para mudarmos Naquele colóquio de Cérisy sobre a complexidade, Atlan (1984), apesar de
quando o cientista se permite refletir
refletir sobre nossas experiências? Então, elogiar a iniciativa dos organizadores de reunirem especialistas de disciplinas tão
ontológicas desses dois caminhos' ele
sobre as implicações epistemológicas e pre- diferentes, manifesta sua preocupação com as condições de intercâmbio entre es-
poderá aceitar e escolher um dos dois.
sua postura dependerá' pois' de sua
o domí- ses especialistas. Destaca que, de um lado, estão os matemáticos, físicos,
premissas básicas que constituem
ferência (emoção de aceitação) pelas informaticistas, e, de outro, os biólogos, psicólogos, sociólogos e filósofos. Isso
nio no qual ele vai operar (Maturana 1997)'
.,
i

Pensamento sistêmico I 163


162 I PaPirus Editora
parece sugerir que, apesar de a complexidade ser um tema que atravessa as várias lar e é claro que o fará no espaço intersubjetivo constituído com outros cientis-

disciplinas, continua sendo abordada de modo compartimentador. Aliás, é o que las que também tenham feito a ultrapassagem do paradigma. Penso que a pergun-

se percebe também pela forma como foram organtzados os anais do encontro, refle- lit, muitas vezes colocada pelos cientistas, "que metodologia deverá ser agora usa-
cla, dentro desse novo paradigma?" está sendo feita a partir da perspectiva do pa-
tindo exatamente a divisão tradicional das disciplinas científicas: 1) formaLtzaçáo
radigma tradicional, na expeçtativa de
da complexidade; 2) física e complexidade; 3) complexidade em biologia;4) com- 1m
conjunto de regras preestabelecidas, a
serem devidamente seguidas. Essa pergunta não seria feita, nesses termos, por
plexidade, psiquismo e sociedade. Superar essa compartimentação não tem sido
cientistas que já tivessem feito a ultrapassagem do paradigma. Esses já teriam
fáctl,nem mesmo para os cientistas que já se mostram dispostos a uma revisão de
admitido que não há uma melhor metodologia, previamente definida, e que tam-
seus pressupostos.
bém a metodologia será coconstruída pelos cientistas.
Também a necessidade de apoiar-se em alguma verdade, ainda que seja
Na outra situação, questionava-se a pesquisadora por ter colhido os da-
probabilística, tem se manifestado em muitos contextos e mesmo entre aqueles
dos com uma metodologia reconhecida como pós-moderna e por ter sido muito
que se dedicam à reflexão sobre o conhecimento. A ideia de probabilidade reflete
moderna, tradicional, ao atuar como organizadora do conhecimento: a índole muito
a ideia de maior ou menor aproximação à verdade sobre a realidade. Morin (1983),
sistemática do trabalho, seu rigor conceitual, seu caráúer didático estavam sendo
por exemplo, apesar de enfatizar que o observador esuá presente em todo ato cognitivo,
considerados como critérios da modernidade, que não deveriam ser privilegia-
parece, em alguns momentos, ainda tentar preservar alguma objetividade:
dos num discurso pós-moderno. Diante das críticas de que seu trabalho mostra-
va uma disjunção, de que não lhe fora possível ser estritamente pós-moderna, a
(...) será necessário mostrar como é possível ao conhecimento científico pesquisadora manifestou estar chocada: todo o tempo, disse, havia procurado
alcançar um nível de objetividade superior à do senso comum. Se é preciso
livrar-se do 'pecado original" de ter iniciado suas atividades profissionais dentro do
ultrapassar a visão idealizante de uma ciência sem sujeito, não podemos cair
na aporia de uma ciência sem objeto... (p. 93)
paradigma tradicional. Fiquei imaginando que, se Morin (1990) estivesse ali,talvez
tivesse comentado que "estamos ainda submetidos a modos mutilantes e disjuntivos
de pensamento e é ainda muito difícil pensar de maneira complexa" (p. 163), acrescen-
A comunidade acadêmica também parece ainda muito insegura em relação
ao significado dessa mudança de paradigma. Em l999,tive oportunidade de assistir
tando provavelmente que o'o pensamento complexo não rejeita, de maneira alguma, a

a duas defesas de teses de doutorado, numa importante universidade brasileira, e clateza, a ordem, o determinismo, mas os sabe insuficientes,, (p. 1 17).

em ambas as situações distingui um incômodo, um mal-estar entre examinadores e Também nossos hábitos linguísticos podem, por um lado, manifestar uma
examinando, que relacionei a essa mudança de paradigma que estamos vivendo. dificuldade de ultrapassagem e, por outro, contribuir para essa dificuldade. por
Numa das situações, a discussão girava em tomo de dever-se usar metodolo- exemplo, quando uma pessoa usa as expressões "análise complexa" ou "análise
gia qualitativa ou quantitativa. Sugeria-se que se poderia ter feito uma análise qualita- sistêmica" , estáassociando contraditoriamente aspectos de um pensamento novo-
tiva e que a metodologia experimental havia aprisionado a pesquisadora. Mas, por paradigmáttico, como a complexidade, o sistema, com um procedimento que épró-
outro lado, perguntava-se o que se faria então com tantos dados disponíveis e já prio do paradigma tradicional, a análise.
quantificados: "seria o caso de jogá-los para cima?". Percebo aí uma atitude "ou-ou", De fato, o cientista que se coloca numa postura de análise não costuma
a dificuldade de resgatar e de articular uma metodologia tradicional. pensar a articulação, cuidando antes da separação do que é distinguido como
De fato, penso que não se trata de optar agorapor uma ou outra metodo- diferente. Como vimos, o risco seria, ao sair dessa postura, cair no extremo oposto,
logia. Pelo que tenho observado, mesmo as "análises qualitativas" têm sido mui- da síntese, em que se tende a não legitimar as diferenças, admitindo-se que desapa-
to frequentemente propostas, nos trabalhos científicos, como uma novidade, po- reçam como tais, na síntese. O desafio será o de manter as diferenças como legíti-
rém ainda como uma forma melhor de atingir "a verdade", ou seja, mantendo-se mas, fazendo-as comunicarem-se, ou seja, admitindo efetivamente o multi-versa.

uma epistemologia tradicional. Parece que isso evidencia que a questão não está na Outro hábito linguístico que pode nos trazer dificuldades é o de usarmos
Íécnica,no método, mas na postura do cientista. Ele é que precisa se permitir articu- mais o substantivo do que o verbo. você observou que, no capítulo 4, usei nos
't

164 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I 165


subtítulos o gerúndio do verbo pressupor? Em vez de dizer "o pressuposto da cxplicativo da objetividade entre parênteses e da construção intersubjetiva do
complexidade", escrevi "pressupondo a complexidade". Foi em Foerster ( 1991b) que conhecimento.
encontrei a observação de que usar o verbo ajuda o observador a evitar a reifica-
Quero enfattzat, mais uma vez, que a novidade não é o questionamento da
ção ou coisificação do que ele observa, ajuda a evitar que se tratem como objetos objetividade, mas o seu questionamento vindo de dentro da própria ciência e não
o que na realidade são processos. Costuma ser difícil captarmos o conceito de mais da filosofia, da psicologia, das ciências humanas. Já vimos que essas ciências,
processo, quando este desaparece e fica perdido entre as coisas. por terem como objeto o sujeito, acabaram por se identificar mais com a filosofia
Além disso, penso que evita o referir-se ao observado como se existisse - a quem cabe, desde Descartes, estudar o sujeito do conhecimento - do que com
1á, independente dele, ocultando o fato de que o observado só existe em relação aum a ciência - incumbida de estudar o objeto, o mundo.
observador. Quando uso o verbo, a açáo precisa ter um sujeito e isso necessaria- A objetividade entre parênteses é então a dimensão do novo paradigma
mente me implica; alguém está pressupondo a complexidade: eu é que a estou qaetraz o sujeito do conhecimento para o âmbito da ciência, superando-se a rup-
distinguindo. Portanto, mudar nossa forma de falar também pode nos ajudar afazer tura que nos foi legada por Descartes. A ciência agora pode tratar cientificamente
a ultrapassagem do paradigma tradicional. tanto do objeto quanto do sujeito do conhecimento.

Penso que esse tipo de ultrapassagem de que estamos falando conduzirá Aliás, na introdução que escreveu para o livro Ás sementes da cibernéti-
os cientistas a irem além de um simples resgate da ciência tradicional e afazerem ca. Obras escolhidas de Heinzvon Foerster,pakman (1991b) considera que essa
revisões radicais das formas até então correntes de utilização do conhecimento preocupação por uma "naturalizaçáo da epistemologia"iá vinha se manifestando

científico. no trabalho de diversos cientistas. Diz ele:

A essa altura, náo é mais nenhuma novidade para você eu dtzer que muita
Warren McCulloch era um neurofisiólogo e neuropsiquiatra, empenhado em
coisa muda com essa mudança de paradigma. Mas quero destacar alguns aspec-
assentar as bases para uma epistemologia experimental que faria desse ramo
tos que considero fundamentais, em tantas mudanças acontecendo. do conhecimento uma empresa científic a, para além de um ramo da
especulação filosófica. Tal empresa, por caminhos diversos, vinha ocupando
Quando falei de epistemologia, no Capítulo 1, fiquei de retomar essa no-
também a .Iean Piaget na área da gênese do conhecimento (o trabalho de
ção, para vermos como ela muda, quando muda o paradigma da ciência. Vimos, há
Piaget é conhecido como epistemologia genética) e a Konrad Lorenz na área
pouco, que a ciência tradicional deixa o tema da epistemologia para ser tratado da etologia. (p. t9)
pela filosofia, sendo a epistemologia um dos ramos da filosofia, e que a epistemo-
logia fica de fato subjacente ao trabalho dos cientistas, como um conjunto de
Então, esses cientistas já estavam trabalhando para trazer o sujeito, com
pressupostos raramente explicitado. A resposta à pergunta epistemológica sobre
sua epistemologia, seu modo de conhecer, para o âmbito da ciência.
o "como conhecemos" é então respondida com base em alguma "teoria filosófica
sobre o observador". Assim é que foi abordada a epistemologia, no Capítulo 1, na A propósito, é interessante lembrar que Maturana questionou a possibili-
perspectiva da ciência tradicional. dade do conhecimento objetivo do mundo (epistemologia) e nos remeteu ao reco-
nhecimento de que constituímos o mundo ao distingui-lo (ontologia), não falan-
A partir dos trabalhos de Maturana, a que ele mesmo chama de "Biologia
do como um filósofo e sim como um biólogo, e abordando então cientificamente
do Conhecer", desenvolvida em laboratórios de pesquisa biológica, a ciência
questões até então reservadas à filosofia e negligenciadas pela ciência.
passou a dispor de uma "teoria científica sobre o observador", mostrando-nos
como conhecemos, como seres biológicos humanos, como seres vivos que têm Parece que o direito de abordar cientificamente a questão do conheci-
como característica fundamental o fechamento estrutural. A meu ver, uma mento do mundo tem sido reivindicado também pelos físicos, havendo "cientistas
consequôncia dessa teoria científica, que é uma consequência epistemológrca, é que argumentam hoje que a física quântica nada mais fez do que sequestrar
a
o questionamento da objetividade e a abertura, para os cientistas, do caminho epistemologia, saqueando a filosofia,, (Strathern 199g, p. g4).
i
166 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I 161
A física contribuiu, sim, para trazer a questão do sujeito do conhecimento Quadro 28 - As três dimensões do novo paradigma da ciência
para dentro da própria ciência, mas manteve a crença no realismo do universo e não em três congressos interdisciplinares
implicou o sujeito na constituição da realidade: apenas reiterou cientificamente a
interdição de o sujeito a ela se referir. Em 1912, Foerster já prenunciava que, assim DATA /.LOEAL Elí.fglf61. TEI/IA§ENTRAL
como no primeiro quarto do século a revisão das noções científicas partiu dos físi-
cos, no último quarto do século os biólogos é que iriam forçar a revisão de noções Colóquio lnternacional de Cérisy
1984 - França
"As Teorias da Complexidade,,
complexidade
básicas. Penso que, de fato, a abordagem científica de como conhecemos o mundo
aconteceu efetivamente com Maturana. Foi ele que, segundo Dell (1985), nos fez Colóquio lnternacional de Cérisy
voltar às raízes biológicas de nossa existência - porém de forma não reducionista,
1983 - França
"A Auto-Organização, da Física à política' instabilidade

e sim em termos de uma biologia ontológica, capaz de revolucionar inclusive nos-


Simpósio lnternacional de Belo Horizonte
sas crenças sobre o realismo do nrundo e de incluir definitivamente o sujeito na 1997 - Brasil "Autopoiese: Biologia, Cognição, intersubjetividade
constituição da realidade que ele conhece. Linguagem e Sociedade"
De tudo isso, decorre a fundamental importância da terceira dimensão do
novo paradigma da ciência. Em 1996, participando numa mesa-redonda, colo-
Ao admitir efetivamente que tanto a complexidade quanto a auto-
quei, como título de minha apresentação, a pergunta: "Teoria ou epistemologia
organtzação são aspectos que ele próprio, como observador, distingue
sistêmica?" (Esteves de Vasconcellos 1996). Naquela ocasião, enfatizei que, no mundo
que observa, o cientista passará necessariamente a ter também
apesar de se poder(em) desenvolver teoria(s) sistêmica(s), quando me refiro a duas dimen-
essas
sões do novo paradigma como dimensões de sua própria epistemologia.
pensamento sistêmico como novo paradigma da ciência estou falando de epis-
temologia sistêmica e não de uma nova teoria sistêmica. Então, ao falarmos de um pensamento sistêmico novo-paradigmático,
es-
Hoje, entretanto, preciso especificar mais algumas distinções a esse respeito. taremos falando de uma epistemologia que implica distinções do
observador nas
Já vimos que as dimensões da complexidade e da instabilidade podem ser pensadas três dimensões: de um cientista que pensa ou distingue
- -a complexidade, sem
como teorias, por pessoas que ainda não tenham ultrapassado seu pressuposto da tentar simplificar ou reduzir, buscando entender as conexões; de
um cientista que
objetividade. Mas, ao adotar o "camiúo da objetividade entre parênteses", ou seja, pensa - ou distingue a auto-organização como característica
- de todos os siste-
ao assumir essa terceira dimensão do novo paradigma, o cientista passará a ter tam- mas da natuteza e assume as implicações de distingui-la; de um
cientista que se
bém as duas outras dimensões como pressupostos epistemológicos e não mais como pensa - ou .te distingue como parte de todo e qualquer
"teoria(s) da complexidade" ou "teoria(s) da auto-organizaçáo".
- sistema com que esteja
trabalhando, o qual se constitui (ou se constrói) para ele, a partir
de suas próprias
No Capítulo 4, referi-me a três grandes congressos internacionais interdiscipli- distinções.
nares, relacionando-os às frês dimensões do meu quadro de referência para o novo
Por isso, tendo a recusar o uso da expressão "sistêmico-construtivista,,,
paradigma. Só no terceiro congressq distingui a presença de uma preocupação episte-
que tem sido bastante usada ultimamente. Para mim, como já
mológica. Aliás, no evento de 1984,
próprio título foi "As Teorias da Complexidade".
o
concebo uma ..cone-
xão triádica fechada" entre as três dimensões, em que "se necessita
Tâmbém no de 1983, "AAuto-Organizaçáo, da Física à Política", não me pareceu que os das três para
se ter cada uma das três", fica redundante essa expressão, porque
trabalhos ali apresentados focalizassem a auto-orgaru:zaçáo ou a instabilidade dos sis- o pressuposto
da "construção intersubjetiva da realidade", ou pressuposto construtivista, já
temas como dimensão epistemológica: seus participantes provavelmente não se inco- está
modariam se o título do evento fosse "As Teorias daAuto-Organizaçáo".Apenas no de contido na minha noção de pensamento sistêmico. Reconheço que talvez,por
uns
1997, "Autopoiese: Biologia, Cognição, Linguageme Sociedade", Maturanae suaper- tempos ainda, tenhamos que adjetivar esse pensamento sistêmico,
com o adjeti-
gunta epistemológica pergunta pelo coúecimento, sobre como o ser vivo coúece, vo novo-paradigmático, para distingui-lo daquelas outras propostas sistêmicas
- a

feita de dentro da própria ciência que não contemplam as três dimensões do novo paradigma.
- estiveram no centro das discussões.

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Pensamento sistêmico I 169
Em seu l\vro Sobre a reconstrução do significado' Uma análise
episte- Claro que qualqter teoria psicológica - qtrff construtivista, quer constru-
- sobre como as pessoas constroem seu conhecimento do mundo tem es-
mológica e hermenêutica da prática clínica, a psicóloga Marilene
Grandesso r'ionista

(2000) faz tmacuidadosa e elaborada revisão sobre o tema do construtivismo, trcita relação com o (ou poderíamos dizer que se funda no) pressuposto episte-
(p' 58)' Distingue diversas rrrológico da intersubjetividade ou da objetividade entre parênteses.
com um "recorte (...) restrito ao campo da psicologia"
com diferen-
propostas construtivistas, identificadas pelos respectivos autores Parece importante ressaltar que essas teorias psicológicas construtivis-
crítico ou psicológico' cons-
tes nomes: construtivismo radical, construtivismo lrrs/construcionistas não são o mesmo que chamei pouco atrás de uma "teoria
alternativismo
trutivismo trivial, construtivismo moderado, construtivismo social, t'icntífica sobre o observador", a "Biologia do Conhecer", de Maturana. A meu
construti-
construtivo, construtivismo cultural, construtivismo epistemológico, vcr, essa última é que, ao mostrar a forma como so,mos - ou como estamos cons-
social e
vismo hermenêutico, construtivismo terapêutico, construcionismo tituídos biologicamente e como somos humanos na linguagem - põe em evidência
construcionismo social responsivo-retórico' rr impossibilidade da objetividade e nos convida a assumir que construímos aÍea-
A autora aborda cada um desses construtivismos, mostrando divergências lidade, com todas as implicações que daí advêm. Por isso, tenho sempre pontua-
que Se
e Convergências entre eles, propondo-se a analisar "os dois grandes grupos rlo a dimensão epistemológica da teoria de Maturana. Essa sim nos oferece o que
(usado de forma genérica) e o Construcionismo Social" poderíamos chamar de uma "epistemologia científica", correspondendo àquele
destacam - o Construtivismo
so-
(p. 58).Tendo identificado, tanto no construtivismo quanto no construcionismo rlesejo de "naturahzaçáo da epistemologia", que Pakman identificou em
diferenças do que em possí-
cial, uma tendência de colocar mais ênfase em suas McCulloch, Piaget e Lorenz.
em pensar a integração'
veis convergências, e certamente movida por seu interesse Entretanto, penso que qualquer cientista pode colocar a objetividade en-
ela sugere que tre parênteses, e, portanto, mudar seu paradigma de ciência, sem se deter nas
teorias construtivistas/construcionistas que, como teorias psicológicas, não interes-
(.'.)oatualpanoramanoscamposdoconstruÍivismoedoconstrucionismo
para uma sam necessariamente a todo e qualquer cientista novo-paradigmático. Todos os
social (...segundo penso"') representa um momento de transição
as diferenças,
nova síntese que possa favorecer a convivência e o diálogo entre
cientistas novo-paradigmáticos são de fato "construtivistas", mas apenas num
(p' 111,
enquanto condizentes e coerentes com uma metateoria unificadora'
sentido estritamente epistemológico/ontológico, ou seja, no sentido de terem
grifos meus)
ultrapassado sua crença na objetividade e de terem escolhido trilhar o caminho
essas duas da objetividade entre parênteses. Como já vimos, Foerster sugere que se use o
Apesar de consideraÍ que "mais do que teorias ou abordagens,
definidas como pro- termo ontogenetismo, em vez de construtivismo.
correntes (construtivista e construcionista social) têm sido
postas epistemológicas distintas", Grandesso (2000, p. 56) também mostra que Nesse sentido de "construtivismo" como pressuposto epistemológico, é
ambas têm sido consideradas, por diversos autores, como
teorias ou metateorias' que tenho proposto contextualizá-lo no quadro da ciência novo-paradigmática.
Diz, por exemplo, que "Gergen (um construcionista social) considera
o
Assim é que esse aspecto esteve presente em diversos textos que elaborei:
uma das teo-
construcionismo Social como uma metateoria,reconhecendo como "Contextualizando o construtivismo no quadro da ciência novo-paradtgmátrca"
a ação humana
rias que mais lhe são compatíveis a teoria relacional , que explica (Esteves de Vasconcellos 1997a),preparado inicialmente para uma mesa-redonda
(idem' p' 91' grifos
para além do indivíduo singular, no processo de relacionamento" em São Paulo e também apresentado no "XXVI Congresso Interamericano de
"Ltma metateoria
meus). Fjla dtz ainda entender que há autores reconheceÍrdo Psicologia"; "O poder na terapia familiar sistêmico-si-cibernética" (Esteves de
tipos de cons-
construtiv ista para a psicologia, q.tle pudesse incluir os diferentes Vasconcellos 1997b), apresentado no "III Congreso Europeo de Terapia Familiar";
trutivismo, geralmente encontrados na literatura da ârea, inclusive
o
"Contextualizatdo as propostas construtivistas/construcionistas sociais no qua-
a partir da revi-
construcionismo social" (idem,p. 95, grifos meus). Concluo, pois, dro da ciência novo-paradigmática" (Esteves de Vasconcellos 1997c), apresentado
desenvolvido, no
são de Grandesso, que construtivismo/construcionismo têm-se no "Simpósio Intemacional sobre Autopoiese".
âmbito da psicologia, especialmente como teorias psicológicas'
Pensamento sistêmico I ll l
170 I Papirus Editora
Dada a situação de disputa identificada por Grandesso nos "campos do rra abordagem da saúde, das empresas, da ecologia, das políticas assistenciais,
construtivismo e do construcionismo social", teríamos então mais um motivo para rro direito, nas relações internacionais (Esteves de Vasconcellos 1998a).
falarmos de "sistêmico novo-paradigmático", em vezde "sistêmico-construtivista": Por isso, sinto-me incomodada quando vejo Morin (1982; 1984) falando
seria o de evitarmos nos envolver nessas polêmicas e contraposições, nessa ne- orn "mandamentos da complexidade" ou "imperativos da complexidade" e listando
cessidade de delimitação de territórios entre construtivistas e construcionistas, nas tum conjunto de regras para o pensamento complexo, apesar de antes ter-se refe-
críticas de uns aos outros e na necessidade de responder às críticas recebidas, como rido ao pensamento complexo como uma epistemologia (pp.246 e296). Para mim,
bem identificou e explicitou essa autora, em sua minuciosa análise do tema. rnandamentos, imperativos têm uma conotação de algo que vem de fora do sujeito
Aliás, penso que essa disputa só ocorre porque se desenvolve no nível c que ele teria que seguir. Ao contrário, penso que não é necessário ninguém
das teorias: não ocorreria se se estivesse tratando de pressupostos epistemoló- rnandar alguém fazer algo que é uma implicação de sua própria epistemologia. Por
gicos. Já vimos que, segundo Maturana, a adoção do caminho da objetividade exemplo, ninguém precisa mandar uma pessoa separar o lixo e levá-lo aos recep-
enfre parênteses é uma questão de preferência (emoção de aceitação) e não de argu- tores de coleta seletiva ou juntar folhas de papel jáúadas parafazer rascunho, se
mentação racional. E mais, para quem adotou efetivamente esse pressuposto epis- ela já se permitiu refletir,
a partir de alguma experiência forte, e se sua estrutura -
temológico, a constatação de diferenças entre os cientistas seria antes um convite então modificada eincorporando uma nova visão de mundo - agoralhe permite
já,
à conversação e não um convite a tentar demonstrar sua própria superioridade. Será não só distinguir a entropia no funcionamento do universo, como ter uma forma
que os construtivistas/construcionistas que estão se colocando nessas dispu- nova de acoplamento com seu ambiente.
tas assumiram de fato (emoção de aceitação) o construtivismo como pressuposto Posso concordar com Morin ( 1990), se ele estiver querendo se referir a im-
epistemológico, com todas as suas implicações? perativos ou mandamentos que venham do próprio sujeito, como uma implicação
Por falar em implicações, parece oportuno destacar a fundamental diferen- de sua postura epistemológrca. Ele afirma que entramos numa época de "revolu-
ça entre aplicações e implicações.Umateoria pode ter aplicações, regras ou prin- ção paradigmática profunda, mais radical do que a dos séculos XVI e XVII' (p.
cípios, dela derivados, paÍa a prática. Por exemplo, as aplicações da teoria 156) e que a complexidade exige "reverter as perspectivas epistemológicas do
construtivista de Piaget, em situações de ensino e aprendizagem. E, por outro lado, observador" (p. 60). Entretanto, não descreve - como o faz Maturana - o cami-
uma teoria pode também ser tomada como epistemologia. Por exemplo, quando se nho para que isso aconteça; não propõe uma descrição científica, ou uma forma de
concebeu a família como um sistema análogo a um sistema cibernético, a Teoria explicar essa mudança de paradigma num sujeito qualquer.
Cibernética foi tomada, pelos estudiosos da família, como uma epistemologia: um A necessidade de explicitar a própria epistemologia tambóm já é implicação
conjunto de crenças sobre um funcionamento cibernético do sistema familiar. Por da mudança de paradigma ou da nova epistemologia, havendo aqui uma relação de
isso, desde minha dissertação de mestrado tenho procurado explicitar as bases recursividade. Com a mudança de paradigma, a epistemologia deixa de ser subja-
epistemológicas da terapia familiar, ou seja, as implicações da epistemologia ci- cente à ciência e passa a estar duplamente presente na ciência: primeiro, porque a
bernética para essas práticas clínicas (Esteves de Vasconcellos 1992; 1994b; ciência agora responde à pergunta epistemológica sobre o sujeito do conhecimen-
199sb). to, sobre o como conhecemos como seres biológicos humanos; segundo, porque o
Entretanto, é preciso ficar claro que uma epistemologia, como tal, não pode cientista vive e age no mundo - não apenas aofazer ciência, mas inclusive ao fazer
ter aplicações, mas apenas implicações. Não se trata aqui de uma escolha entre ciência - a partir de sua epistemologia: suas crenças e seus valores, inclusive seu
termos equivalentes. Implicações são consequências necessárias e inevitáveis entendimento sobre que significa conhecer o mundo. Como diz Pakman (1994, p.
de se ter adotado uma determinada epistemologia. Por exemplo, certas crenças e l8), "quando começamos a buscar entender o mundo (...) é a nós mesmos que en-
certos valores dos pais sobre educação de filhos implicarão necessariamente que contramos, é a nós mesmos que descobrimos e é conosco que contamos".
apliquem castigos rigorosos aos filhos. Assim também uma epistemologia sistêmica A nova epistemologia extrapola o contexto do trabalho científico e implica
terá fortes e inevitáveis implicações para as práticas profissionais na educação, necessariamente a pessoa que adotou efetivamente o caminho da obietividade

l72l Papnus Editora Pensamento sistêmico I 173


entre parênteses: o cientista agora será novo-paradigmático, mas não apenas Os cientistas, enquanto escolhem mover-se no domínio linguístico da
quando estiver sendo cientista ou profissional da ciência. Essas são implicações r'iôncia, compartilham uma epistemologia - que agora pode ser fundada nos
tlcsenvolvimentos da própria ciência -, compartilham os critérios de valida-
de identificarmos cognição com vida, como o fez Maturana: viver é conhecer,
conhecer é viver. Assim o cientista novo-paradigmático teráagoruuma nova epis- çiio da verdade desse domínio e, de acordo com esses critérios, constroem
rrtersubjetivamente suas realidades.
temologia para seu viver, para uma nova forma de ver e agir no mundo, baseado em
i

sua única convicção possível: a da inexistência da "realidade" e da "verdade" Por isso, essa nova epistemologia não é mais subjacente ao trabalho do
(Esteves de Vasconcellos 2000a; 2000b). cicntista, não é mais um ramo da filosofia, nem é mais uma epistemologia só para
lirzer ciênc ia.É agorauma epistemolígia científica, que precisa ser explicitada no
Aliás, Pakman ( 1991b) também ressalta que, desde o Paraíso, a árvore do coúe-
rrrrrbito da atividade científica novo-paradigmática, com a qual o cientista desen-
cimento não tem sido a mesma árvore da vida, mas que uma teoria do conhecimento
volve seu conhe cer I vler I afazer científico.
terá fracassado, se não contribuir para articulá-las. Para ele, Foerster se esforçou por
essa articulação. Poderíamos então transformar o Quadro 27 , sobre as relações entre epis-
temologia, teoria e prátíca - que ainda vale para a ciência tradicional -, tor-
O cientista avança, pois, de uma epistemologia filosófica para a ciência -paÍa
nando-o assim para o cientista novo-paradigmático:
conhecer e atuar cientificamente - em direção a uma epistemologia científicaparaa
vida - para estar e agir no mundo, inclusive para conhecer e atuar cientificamente. Quadro 30 - Epistemologia, teoria e prática para o
cientista novo-parad igmático

Quadro 29 - De uma epistemologia Íilosófica para


uma ePistemologia cientíÍica

Ciência tradicional Cientista novo-paradi g mático

epistemologia filosófica epistemologia científica


(Filosofia da Ciência) (Ciência da Ciência)

epistemologia para a ciência epistemologia Para o viver


(para conhecer e (para estar e agir no mundo,
atuar cientificamente) inclusive para fazer ciência)

A epistemologia do cientista precisa agora ser descrita, dentro do âmbito


da ciência, exatamente porque se admite o multi-versa'. o cientista precisa explicitar
Já disse que a novidade não é o questionamento da objetividade, e sim o sua própria versão (sou versum, em latim), inclusive porque sabe - e os respeita -
seu questionamento vindo de dentro da própria ciência, e não mais da filosofia. que muitos ainda continuam adotando a epistemologia tradicional.
Agora, quero enfatizar especialmente que não estou querendo dizer que a ciên- Parece claro, então, que só quando as três dimensões do novo paradig-
cia seja superior à filosofia. Estou apenas concordando com Maturana, quando ele ma se tornam dimensões epistemológicas, a partir da escolha do caminho
diz que, como seres humanos, dotados de linguagem e emoção, nos movemos em espa- explicativo da objetividade entre parênteses, o pensamento sistêmico, então
ços de conversação e constituímos diferentes
domínios linguísticos, com diferentes cri-
novo-paradigmático, terá implicações e não aplicações.
térios de validação da verdade. Assim, a filosofia, as ciências da natureza, atehgtáo,
falando de implicações e se reconhecemos que ter uma episte-
Se estamos
o direito são apenas domínios linguísticos diferentes, sern superioridade de um em
mologia qualquer implica uma forma de estar no mundo, podemos destacar,
relação aos outros. E podemos escolher estar num ou noutro domínio.

174 I Papirus Editora


Pensamento sistêmico I I7 5
entre as implicações dessa nova epistemologia sistêmica de que estamos tratan- ccossistemas, os princípios de organização de comunidades ecológicas,
susten-
do, a concepção de ética. Essa também é uma noção que muda muito com nossa táveis. Entretanto, ele fala de uma aplicação de ecoimpostos e afirma não
só que
mudança de paradigma de ciência. "administradores e empresários precisarão tornar-se ecologicamente
alfabetiza-
No colóquio de Cérisy, sobre auto-organização, Morin (1984) coloca que dos, para manter a competitividade nesse novo sistema", como também
qte,,aptá-
"a éttca não tem qualquer fundamento científico, na concepção clássica, por- t ica recém-desenvolvida da ' ecofiscarização'
será de suprema importânc ia,, (p. 233,
que a ética supõe o sujeito" (p.325) e, como vimos, a ciência tradicional exclui grifos meus). Parece que não leva em consideração aqui nem a auto-orga nização
o sujeito. Aliás, nos cursos de ciências aplicadas, quando existe a disciplina do sistema, nem a inclusão do observador no sistema com que trabalha,
apesar
"étrcaprofissional", elaé geralmente ministrada por filósofos. Trata-se em geral de, como já vimos, ter falado em seu
livro sobre a "Teoria da Cognição de Santiago,,.
de uma disciplina em que se discutem as concepções de bem e mal, direito e de- Além do mais, é estranho que Capr/esteja falando de visão sistêmica de mundo
ver, público e privado, certo e errado, consciência moral e consciência ética, dis- o de ecologia, como requisitos para "manter a competitividade,,.

cussão que desemboca, na maioria das vezes, numa ética normativa, consubs- Na perspectiva do novo paradigma, a postura ética do cientista é uma
tanciada num "código de ética" para os profissionais daquela especialidade. E, implicação necessária e inevitável dos seus novos pressupostos epistemológicos,
na solenidade de colação de grau, o formando, o novo profissional, jura obede- especialmente do pressuposto da coconstrução da realidade, exatamente o pres-
cer a um código de ética, um conjunto de regras paÍa a ação, de normas para o suposto que trouxe o sujeito do conhecimento para o âmbito da ciência.
Não
seu estar no mundo, de cuja construção não participou. Sem se identificar com cabe pensar que a solução para os problemas estará na existência
de códigos e
ele ou sem se reconhecer nele, o profissional poderâ até aplicá-lo e sentir-se estatutos (ou de ecoimpostos), elaborados por experts, a serem aplicados
ou pos-
seguro, não tendo que tomar decisões em momentos críticos, uma vez que es- tos em vigor a pattir de sua promulgação por autoridades competentes
e cujo
sas estarão previamente indicadas pelo código. Mas assim ele próprio não se cumprimento seria obtido por meio de algum tipo de fiscalização, como seria
uma
implicará eticamente nas situações. ecofiscalização.
Hoje se fala muito em ética, em diferentes contextos. Recentemente, uma Interessante que exatamente os dois cientistas cujas contribuições distin-
educadora se manifestava, por meio de um artigo em jornal, intitulado "Violência, gui como especialmente importantes paÍa a ultrapassagem do pressuposto
da
emoção e ética", preocupada com comportamentos, por ela considerados não objetividade, Maturana e Foerster, trazem-nos colocações e propostas de refle-
éticos, exibidos pelos jovens no contexto escolar. E então se perguntava: como xão sobre as implicações éticas da nova epistemologia.
osjovens vão adquirir uma consciência de si e dos outros e reconhecer o outro
Seremos sempre éticos se efetivamente aceitarmos o outro "como legíti-
como igual em direitos? Como preparar os jovens para uma autonomia, entendida
mo outro na convivência" (Maturana 1990, p.25). Essa emoção de aceitação
como capacidade interna, própria de indivíduos que agem com liberdade, porém
decorre exatamente da convicção de que cada sujeito, em sua relação com
o
necessariamente política? Como incluir felicidade, ética, autonomia num projeto
mundo, faz emergir uma realidade e de que, não havendo um critério de
verdade,
educativo? Ela própria responde, sugerindo que uma das possibilidades seria o a única alternativa é a convivência na conversação e no respeito pela
verdade
uso dos "contos de fadas" e dos "ritos de passagem" como recursos educativos.
do outro.
Assim, está intuitivamente reconhecendo a insuficiência de qualquer ética normativa,
A isso podemos acrescentar a consideração de Foerster (1973) sobre ser
ou de qualquer tentativa, por parte de educadores, de ter com o jovem uma interação
ético. Apesar de cair na mesma armadilha em que caiu Morin, usando a expressão
instrutiva.
"imperativo ético construtivista", ele define o que esse "imperativo',
estabelece:
Por isso mesmo, achei inconsistente a proposta de Capra (1996), do que "atua sempre de modo a aumentar o número total de alternativas
para o siste-
ele chama de "alfabetização ecológica". Essa alfabetização consistiria, segundo
rna" (p. 55). Assim, o "especialista" estará sempre se interrogando:
com essas
ele, em ensinar os princípios básicos da ecologia, as lições extraídas do estudo dos
minhas ações estou abrindo alternativas para que esse sistema família, gru-
I
-
176 I Papirus Editora
Pensamento sistêmico I 177
po de trabalho, comunidade, nação - possa escolher autonomamente um caml- Outra noção que fiquei de retomar e que tem sido constantemente
nho melhor parasi mesmo? Minha ação está condizente com minhas crenças em irssociada às transformações em curso na ciência novo-paradigmática é ade trans-

que o sistema é auto-org anizadoçem que não posso dirigi-lo, nem instruí-lo e em rli,sciplinaridade. Têm-se organizado congressos sobre o tema, como um.,con-
gresso Mundial de Transdisciplinaridade"; já houve declaração da Unesco
que o sistema está criando para si uma realidade, da qual inevitavelmente partici- a res-
po? Estou levando em consideração as conexões intersistêmicas e as possíveis lrcito e já foi formulado um "Manifesto da Transdisciplinari d,ad,e"; jáse têm criado
repercussões de minha ação em outros pontos da rede ou do sistema de siste- institutos de estudos transdisciplinares.

mas? É claro que essas respostas ele só terá por meio de sua constante interação Entretanto, tenho deparado com as mais diversas concepções de trans-
conversacional com o sistema. tlisciplinaridade. Em geral, para falar de transdisciplinaridade, fala-se antes de
Essapreocupação ética do profissionalfarácom que ele jamais tente impor tl isciplinaridade, de multi ou pluridisciplinaridade, e de interdisciplinaridade.

ao sistema aquelas soluções que a priori poderia considerar serem as melho- Disciplinaridade é usadá para se referir à compartimentação do conheci-
res. Ele estará sempre atento às suas próprias motivações - que estão na base rnento do mundo entre as diversas disciplinas científicas.
de seus hábitos de pontuação ou distinção -, lembrando-se de que o que cada Multi ou pluridisciplinaridade refere-se a uma justaposição de disciplinas
um diz fala mais de si do que da coisa observada. Ele tem presente que, como t;ue não se comunicam, por exemplo, num curso em que se ministram disciplinas
ressalta Foerster (1991b), "há um deslizamento da noção de propriedades de um tle diferentes áreas.
objeto, que deixam de conceber-se como pertencentes ao objeto e passam a ser
Interdisciplinaridade, em geral,é usado para se referir à situação em que
percebidas como pertencentes ao observador" (p. 111)'
hír algum tipo de interação entre duas ou mais disciplinas que se comunicam,
que
Esse profissional não será um especialista em soluções, mas será, na expres- lentam aproximar seus discursos, ambicionando mesmo uma transferência de
são deAun (1996), um "especialista na criação de contextos de autonomia", contex- conhecimentos.
tos em que o próprio sistema possa construir a melhor solução para si, naquele
Já a transdisciplinaridade tem aparecido com diversas definições, por exemplo:
momentO. Ele será W"experf em relações" e nãO tÍn"experl em Conteúdos".
it) o reconhecimento da interdependência de todos os aspectos da realidade, sen-
Os educadores poderiam então trabalhar pelo desenvolvimento de uma
do a consequência normal da síntese dialética provocada por uma interdisci-
postura ética dos jovens, propiciando-lhes experiências fortes, em que possam plinaridade bem-sucedida; b) uma fase superior à interdisciplinaridade, que
não
perceber que não há uma melhor verdade previamente estabelecida e que é fun-
se contentarta em atingir interações ou reciprocidades entre pesquisas
damental a participação de todos na construção das melhores soluções, aque- cspecializadas, mas situaria tais ligações no interior de um sistema total, sem
las que respeitem a todos os outros, inclusive as gerações vindouras, como lionteiras estáveis entre as disciplinas; c) aefetívaçáo de uma axiomática comum
nossos legítimos outros. Penso que uma forma de trabalhar pelo desenvolvimen- (axiomas = princípios subjacentes) entre um conjunto de disciplinas,
havendo,
to dessa postura étiçaé arealizaçáo de exercícios ou vivências várias que permi-
pois, transdisciplinaridades e não uma única transdisciplinaridade; d) a
efetiva-
tam experimentar as características sistêmicas de nossa inserção no universo,
ção de uma axiomática comum entre ciência, arte,
filosofia e tradições sapienciais,
em todas as suas dimensões. Hoje isso já pode ser propiciado com base no implicando necessariamente uma visão holística; e) a busca de harmonia entre
contexto da ciência, de experiências científicas realizadas em laboratório, por tnentalidades e saberes, entre, através e além das disciplinas; f) saberes transitan-
exemplo, a experiência da emergência das cores. Muitos experimentos sobre do entre disciplinas, transformando-se a multiplicidade em unidade e vice-versa.
nossa percepção (de cores, de formas, de profundidade, de movimento etc.), até
Depois de encontrar todas essas detinições, seria natural nos perguntarmos:
afi-
então apresentados como demonstração de ilusões perceptuais (como nossos nal, a que se refere o termo transdisciplinaridade?
sentidos podem estar enganados), podem agora ser retomados como evidências
Também os motivos apontados para a busca da transdisciplinaridade são
de que as características que o mundo apresenta estão em relação às caracterís-
tls mais variados, havendo inclusive, como já vimos, a colocação de que a transdisci-
ticas que o sujeito aPresenta

178 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I 179


Só essa terceira dimensão do novo paradigma é que dá ao cientista o pri-
plinaridade estaria se desenvolvendo pelo fato de os cientistas estarem se res-
vilégio de estar em relação com outros cientistas. Na ciência tradicional, o cientis-
sentindo por terem se tornado estranhos uns aos outros, a partir de sua especiali-
ta tem uma posição privilegiada, que é a que lhe dá um acesso privilegiado ao
zaçáoextremada. Será que a solidão do cientista seria motivo suficiente para ele
objeto. Assim, cada cientista, a partir de sua disciplina, tem vma"relação" privi-
empenhar-se numa proposta tão complexa e tão exigente como a da transdisci-
legiada com seu objeto. Mas relação aqui só no sentido de que "veria melhor"
plinaridade?
seu objeto, melhor do que os demais cientistas.
EmLg12,Morin falava de uma antiga e de uma nova transdisciplinaridade.
Mas, ao fazq a ultrapassagem do_pçradigmâ, ao admitir a construção
para ele, a ciência ocidental, desde o século XVII, foi transdisciplinar, no sentido
intersubjetiva do conhecimento da natureza, da qual ele agora fazparte,a posição
de que a crênçiacompartilhava os mesmos pressupostos em todas as disciplinas.
privilegiada do cientista é a de estar em relação privilegiada (em acoplamento
Entretanto , diz ele,foram exatamente os princípios de objetividade, matemattzaçáo,
estrutural, em didlogo) com outros cientistas que, apesar de suas diftrentes
formalização, que promoveram o enclausuramento disciplinar, tornando-se neces- disciplinas, acreditam todos que estão constituindo o mundo que estudam. Só
sária então uma nova transdisciplinaridade paÍa superar a compartimentação- assim, acredito, tornam-se possíveis verdadeiros encontros conversacionais
Considerando que "o problema do regresso do sujeito é um problema fundamen- transdiscíplinares.
tal que está na ordem do dia", ele associa uma nova transdisciplinaridade a uma
Finalmente, uma última
e fundamental consequência de conceberÍnos o pen-
formulação do "problema desta disjunção total objeto-sujeito, onde o monopólio
samento sistêmico novo-paradigmático como novo paradigma da ciência. No
do sujeito é entregue à especulação filosófica" (p. 218). Denunciando a disjunção,
Capítulo 1, associamos a noção de paradigma à noção dos "certos" ou das certe-
ele se mostra preocupado em como fazer comunicar os domínios da física, da biolo-
o'enraizat a esfera zas de uma pessoa ou de uma comunidade. Agora, deparamos com uma contradi-
gia e da antropossociologia. Sugere que será preciso
ção: temos um paradigma em que não cabe mais a ideia de paradigma como "cer-
antropossocial na esfera biológica" e de igual modo "enÍaizar a esfera viva na teza". A ideia de paradigma também muda quando falamos desse novo paradig-
physis" ,porém sem operar uma redução, mas reconhecendo níveis de emergência ma: ele não passa de uma construção consensual dos cientistas que reviram efe-
(p.219).Adverte também sobre a dificuldade de criarmos um quadro conceitual tivamente sua concepção de conhecimento científico.
transdisciplinar e sobre a impossibilidade de consegui-lo no quadro de qualquer
Então, penso poder tranquilizar algumas pessoas que já me manifestaram
disciplina instituída.
seu temor de que, adotando o novo paradigma, estivessem aderindo a uma "nova
por tudo que temos visto até aqui, podemos considerar que, na antiga trans- religião": por sua própria natnreza, o novo paradigma não poderia ser jamais "uma
disciplinaridade a que se refere Morin, havia um compartilhar de pressupostos religião", náo terá *papa", "guru".
nem
epistemológicos, mantendo-se, entretanto, a exclusão do sujeito, com a manuten- J.
E isso também o que acontece com esse quadro de referência que lhe es-
ção da objetividade sem parênteses.
E que a inclusão do sujeito, possibilitada por
tou apresentando. "Tenho certeza"3 de que ele não representa uma nova ou me-
Maturana, com sua "teoria científica sobre o observador", vem viabiltzar a nova lhor certeza, qüe pudesse substituir certezas anteriores. Por isso é que usei o
transdisciplinaridade desejada por Morin. geÚndio no título deste Capítulo - e gostaria de tê-lo usado também no título do
portanto, não concordo com os que afirmam que o pensamento complexo livro. Assim, deixo claro que sou eu que estou pensando assim e convidando você,
é a condição básica para pôr em prática a transdisciplinaridade. Penso
que o pen- é claro, para uma conversação sobre essa forma de pensar.
samento complexo é fundamental sim, mas apenas se for pensado como uma di-
mensão do pensamento sistêmico novo-paradigmático. Um pensamento comple- 3 - Essa é a única ceÍteza possível a um cientista novo-paradigmático. E essa cerÍeza só é
possível para quem é novo-paradigmático. E aqui está mais uma contradição inerente ao
xo não dará conta dereahzar a transdisciplinaridade se náofizer também a inclu- novo paradigma: embora sistemicamente devêssemos dizer que "ele está novo-paradigmá-
são do sujeito, assumindo a objetividade entre parênteses. tico", aqui somos levados a dizer que "ele á novo-paradigmático" porque, como já vimos,
não é possível ir e voltar entre a antiga e a nova epistemologia.
j

180 I Papirus Editora Pensamenlo sistêmico I 181


Desde que elaborei esse quadro de referência, ele me tem sido muito útil também muito importante, que é perceber que esse quadro de referência tem sido

como uma forma de organizar mou quadro conceitual. Tem me ajudado a ler as utilizado por outros autores em suas descrições e reflexões sobre os fundamen-
colocações de outros autores, a fazer distinções e a perceber conexões e tos de suas práticas contemporâneas.

interligações no sistema de ideias que constitui a ciência contemporânea. Em 1996, minha colega Juliana Gontijo Aun, por quem tenho grande apre-
Você pode ter percebido que em diversos momentos, ao longo deste texto, ço e cujo trabalho se reveste de grande rigor e cientificidade, desenvolveu, na Pre-
utilizei meu quadro de referência: para pensar a facilidade/dificuldade das diferentes Í'eitura Municipal de Belo Horizonte, uma experiência pioneira de coconstrução, que,
disciplinas científicas - físicas, biológicas e humanas - em adotar o paradigma da a meu ver, evidenciou a possibilidade de adoção do novo paradigma aqui descri-
ciência tradicional (Capítulo 3);paracompreender as contribuições trazidas pela fí- to, no contexto das práticas sociais: no desenvolvimento de políticas públicas. A
sica para iniciar a revisão do paradigma de ciência vigente (Capítulo A);para desta- descrição e a compreensão dessa experiência, que constitui sua dissertação de
car características paradigmáticas de grandes congressos interdisciplinares (Capí- rnestrado, basearam-se no quadro de referência que elaborei e estão sintetizadas
tulos 4 e 5); para considerar como novo-paradigmáticas, ou não, diversas propos- num artigo intitulado: "O processo de coconstrução como um contexto para auto-
tas apresentadas como sistêmicas (Capítulo 5); para entender os exercícios de nomia: Uma alternativa para as políticas de assistência ao portador de deficiên-
Cecchin paÍa o desenvolvimento de uma mente sistêmica, como propostas sistêmicas cia" (Aun 1998).
novo-paradigmáticas (Capítulo 5).
Para mim, é também muito importante constatar que Carlos Sluzki
- psiquiatra
Entretanto, se eu fosse a única referência para esse quadro de referência, e terapeuta de família argentino, radicado nos Estados Unidos está se utilizando
-
estaria caindo no solipsismo. Você pode ter percebido, pelas citações e referências, desse quadro de referência. Sluzki sempre foi um autor de referên éiupurumim,
que, paÍa elaborá-lo, há muito venho dialogando com muitos e diversos autores desde que conheci seus escritos. Mas, a partir de 1991, quando o conheci pessoal-
(multiplicidade e diversidade). Mas, além disso, foram de fundamental importân- mente em Buenos Aires, cresceu ainda mais minha admiração pela pessoa que
cia as interações que há muito venho tendo em torno desse tema e cujos partici- distingui: tornou-se um amigo e um incentivador. Não posso deixar de dizer que
pantes infelizmente não tenho condições de nomear. Eles coconstruíram comigo
ele está entre aqueles que me estimularam a transformar em livro minha disserta-
esse quadro de referência, fazendo comentários ou simplesmente balançando a
ção de mestrado e que me orgulho de ter uma apreciação sua na capa do meu livro
cabeça em sinal de concordância, fazendo-me perguntas, colocando dúvidas e
Terapiafamiliar sistêmica. Bases cibernéticas (Esteves de Vasconcellos 1995b).
questionamentos muitas vezes desafiadores, em cursos, palestras e seminários,
Por isso, foi muito bom encontraÍ, na revista argentina Sistemas Familiares, de
vivendo comigo experiências de coconstrução em workshops ou em sessões de
março de l999,um artigo de Sluzki em que afirma que a terapia de família "evoluiu
terapia, ouvindo-me pacientemente, sugerindo-me leituras, enviando-me recortes,
para prá,trcas orientadas progressivamente para uma epistemologia sistêmica
estimulando-me a prosseguir, dando os mais variados tipos de retorno às minhas
imbuída das noções da complexidade (...), da instabitidade (...) e da intersubje-
colocações, nos mais variados contextos: nos intervalos pata cafezinho, durante
tividade..." (Sluzki 1999,p. 18).
as refeições ou em outros momentos delazer, dentro do carro em viagens longas
ou em curtos deslocamentos, ouvindo atentamente minha leitura de pequenos Por fim, permito-me compartilhar ainda com você como fico feliz de poder

trechos já escritos ou de capítulos inteiros, lendo-os e comentando-os comigo. incluir, entre os cientistas que estão usando meu quadro de referência para o
Agora, preste bastante atenção: se você se reconhece em alguma dessas situa- novo paradigma da ciência, o meu filho Mateus Esteves-Vasconcellos. Ainda

ções, é nossa a coconstrução desse quadro de referência. como estudante em dois cursos de graduação, ele começou a se basear nesse

Para mim, tudo isso é muito importante, porque caracterizaum trabalho de- quadro para elaborar suas duas monografias de fim de curso. Em dezembro de

senvolvido num espaço consensual de intersubjetividade. Mas há ainda algo 2000 defendeu sua mono grafia para o curso de Relações Internacionais

182 I Papirus Editora Pensamento sistêmico I 183


(Esteves-Vasconcellos 2000b), na qual discutiu a questão da inserção acadê-
mico-científica de um curso, que pretenderia focar as relações, num contexto
acadêmico tradicional que compartimenta as disciplinas, com base nos con- Um adendo necessário:
teúdos que elas enfocam. Para o curso de Direito, ele pretende utilizar o mes- Teorias de sistemas
mo quadro de referência - uma epistemologia sistêmica novo-paradigmática
- parajustificar epistemologicamente propostas alternativas, não litigiosas,
paÍa a solução de conflitos entre os homens, entre as comunidades, entre as
organízações, entre as nações.

Fico feliz em ver crescendo o grupo de participantes nessas conversações


em que "pensamos o pensamento sistêmico como o novo paradigma da ciência".
Embora esse quadro de referência não seja e nunca vá ser "a verdade", enquanto
estiver sendo útil e compartilhado num espaço consensual intersubjetivo, poderá RASTREANDO AS ORIGENS DAS
ir continuando como "a nossa verdade". ABORDAGENS TEORICAS DOS SISTEMAS

Distinguindo a necessidade deste adendo

Espero que, a esta artura, você esteja


considerando, como eu, que a pro_
llclsta fundamental deste livro - a de pensarmos o pensamento
ttovo paradigma da ciência
,i.tÀ*i.o.oro ,,
- jáfoicumprida. Essa proposta não incluiu a aborda-
gem de teorias sobre sistemas.

Mas, por outro lado, preciso reconhecer


um ouffo aspecto de minha pro_
p.sta -o de possibilitar que aqueles ainda não
familiarizados com o tema possam
irvançar em seus estudos, partindo
do nosso quadro de referên cia parao pensa-
ttlento sistêmico, de modo a lidar
mais facilmente com a literaturajá existente. pen-
so que esse objetivo não está ainda
completamente atingido.
Acontece que a literatura disponível nem
sempre deixa claraessa distin-
ç'iro entre visão/epistemologia/pensamento
sistêmico, de um rado, e teoria(s)
sistêmica(s), de outro' Além disso,
as noções teóricas sobre
sistemas se associam
,rdiversas práticas sistêmicas, que vêm
sendo propostas hát décadas, especialmen_
tc a partir da segunda metade do século
XX.
Para se introduzir ao pensamento sistêmico,
como visão, como pressuposto
cpistemológico, não foi necessário você
estudar teoria(s) sistêmica(s). Entretan-

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Pensamento sístêmico I 185

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