Você está na página 1de 112

ANTÔNIA KARINA MOTA SIMPLÍCIO

GÉRISON KÉZIO FERNANDES LOPES

Libras
ANTÔNIA KARINA MOTA SIMPLÍCIO
GÉRISON KÉZIO FERNANDES LOPES

LIBRAS

1ª EDIÇÃO

Sobral/2016
INTA - Instituto Superior de Teologia Aplicada
PRODIPE - Pró-Diretoria de Inovação Pedagógica

Diretor-Presidente das Faculdades INTA Revisora de Português


Dr. Oscar Rodrigues Júnior Neudiane Moreira Félix

Pró-Diretor de Inovação Pedagógica Revisora Crítica/Analista de Qualidade


Prof. PHD João José Saraiva da Fonseca Anaisa Alves de Moura

Coordenadora Pedagógica e de Avaliação Diagramadores


Profª. Sonia Henrique Pereira da Fonseca Fábio de Sousa Fernandes
José Edwalcyr Santos
Professores Conteudistas
Antônia Karina Mota Simplício Diagramador Web
Gérison Kézio Fernandes Lopes Luiz Henrique Barbosa Lima

Assessoria Pedagógica Produção Audiovisual


Sonia Henrique Pereira da Fonseca Francisco Sidney Souza de Almeida (Editor)
Evaneide Dourado Martins
Operador de Câmera
Design Instrucional José Antônio Castro Braga
Sonia Henrique Pereira da Fonseca

Libras 5
Palavra do Professor autor .................................................................................... 09
Sobre os Autores .................................................................................................... 11
Ambientação............................................................................................................ 12
Trocando ideias com os autores............................................................................ 14
Problematizando..................................................................................................... 16

1 Marcos na História Educacional dos Surdos

A importância de conhecer a História da Educação dos Surdos ....................................21


A História dos surdos na Idade Antiga.......................................................................................21
Na Idade Média...................................................................................................................................23
Na Idade Moderna.............................................................................................................................24
Na Idade Contemporânea ..............................................................................................................26
Decadência na Educação dos Surdos.........................................................................................27
Oralismo.................................................................................................................................................30
Comunicação Total.............................................................................................................................32
Bilinguismo para Surdos..................................................................................................................37

2 LIBRAS e Cultura Surda

Cultura e Identidade do povo surdo...........................................................................................43


A luta pela conscientização.............................................................................................................44
Conhecendo a Surdez e suas causas...........................................................................................46
Surdez: Graus e perdas.....................................................................................................................46
Linguagem e Surdez..........................................................................................................................48
Bilinguismo, Linguagem, Língua de Sinais e Educação........................................................49
A Escola e o ensino de LIBRAS......................................................................................................54
Gramática da Língua de Sinais......................................................................................................55
O tradutor intérprete de Língua de Sinais................................................................................61
3
Prática de LIBRAS

Alfabeto..................................................................................................................................................7 2
Saudações..............................................................................................................................................7 3
Dias da semana e mês .................................................................................................................... 78
Números.................................................................................................................................................8 0
Membros da família...........................................................................................................................8 1
Adjetivos.................................................................................................................................................8 2
Materiais escolares.............................................................................................................................8 4
Expressões faciais e movimentos com o corpo......................................................................8 5
Alimentos...............................................................................................................................................8 5
Frutas.......................................................................................................................................................8 6
Animais ................................................................................................................................................. 87
Verbos......................................................................................................................................................8 7
Condições climáticas.........................................................................................................................8 8
Cores........................................................................................................................................................8 9
Profissões...............................................................................................................................................9 0
Estados Brasileiros..............................................................................................................................9 0

Revisando................................................................................................................ 98
Autoavaliação....................................................................................................... 104
Bibliografia........................................................................................................... 108
Bibliografia Web.................................................................................................. 111
Palavra do Professor autor

Olá estudantes,

Você perceberá no decorrer de nossos estudos que os surdos eram vistos pela
sociedade como pessoas incapazes, eram tratadas com piedade, compaixão, como
pessoas castigadas pelos deuses, como seres enfeitiçados e discriminados.

A história cultural das pessoas surdas não era reconhecida, essas pessoas eram
vistas como deficientes, anormais, doentes ou marginais. Sua história de luta e con-
quista só veio a ser reconhecida após o reconhecimento da Língua de Sinais como
língua natural das comunidades surdas. Os estudos sobre a identidade surda e sua
subjetividade são caracterizados por posições político-culturais que revelam mani-
festos e ideais de poder e imposição da comunidade surda, que busca a concretiza-
ção de suas conquistas.

Conhecer a história dos surdos lhe proporcionará além de conhecimento o


auxilio na reflexão de diversos fatos que ocorreram, relacionados à educação dos
surdos.

Você poderá se perguntar por que apesar de todo trabalho realizado sobre
inclusão ainda existe pessoas surdas excluídas da sociedade?

A educação de surdos, hoje em dia, advoga a solidariedade e o respeito mútuo


às diferenças individuais, cujo ponto central está na relevância da sociedade apren-
der a conviver com as diferenças.

Contudo, muitos problemas são enfrentados na implementação desta propos-


ta, já que a pessoa surda é considerada como sendo diferente, incapaz de realizar
atividades do dia a dia e o atendimento às suas características particulares implica
formação, cuidados individualizados e revisões curriculares que não ocorrem ape-
nas pelo empenho do professor, mas que dependem de um trabalho de discussão e
formação que envolve custos e que tem sido muito pouco realizado.

Os autores!

Libras 9
Sobre os autores

Antônia Karina Mota Simplício

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Vale do


Acaraú – UVA, é especialista em Educação Inclusiva e Gestão Educacio-
nal pela Universidade Estadual Vale do Acaraú- UVA, formada em Aten-
dimento Educacional Especializado pela Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG e curso em LIBRAS e Braile pela SEDUC. Atualmente é
professora na SEDUC – CE na sala de Recursos Multifuncional e defen-
sora da Educação Especial, é professora da Graduação na Faculdade de
Educação Teológica – IFETE e no Instituto de Estudos e Pesquisas do Vale
do Acaraú – IVA.

Gérison Késio Fernandes Lopes

Graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual Vale do


Acaraú - UVA, é especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional -
pela Universidade Estadual do Ceará - UECE, formado em Professor Tutor
para Educação à Distância pelo Centro FAPAZ de Ensino e Formação de
Professores - CEFOP e cursista do Curso de Extensão de Formação em
Tutores Bilíngues pela UFC Virtual, possui o Exame Nacional para Certi-
ficação de Proficiência no Uso e no Ensino da LIBRAS e na Tradução e
Interpretação da LIBRAS/Português/LIBRAS - PROLIBRAS, Bacharel em
Letras LIBRAS pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC com
pólo na Universidade Federal do Ceará - UFC. Atualmente é professor da
Graduação, Pós-Graduação e da Extensão do Instituto Superior de Teo-
logia Aplicada - INTA, professor substituto da Universidade Estadual Vale
do Acaraú - UVA, em Sobral-Ce e Mestrando em Ciências da Educação.

Libras 11
AMBIENTAÇÃO À
DISCIPLINA
Este ícone indica que você deverá ler o texto para ter
uma visão panorâmica sobre o conteúdo da disciplina. a
O termo língua natural é utilizado para distinguir as línguas faladas por se-
res humanos e usada como instrumento de comunicação, das línguas que são lin-
guagens formais construídas, tais como as linguagens de programação de com-
putadores e as linguagens utilizadas pela lógica formal ou lógica matemática. As
línguas apresentam diferentes modalidades. Uma língua falada é oral-auditiva, ou
seja, utiliza a audição e a articulação através do aparelho vocal para a compreensão
e produção dos sons que formam as palavras dessas línguas. Uma língua sinalizada
é visual-espacial e neste caso utiliza a visão e o espaço para compreender e produzir
os sinais que formam as palavras nessas línguas.

As pessoas surdas têm direito a uma educação bilíngue, definida como a edu-
cação que se propõe tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. A
educação bilíngue procura promover na criança surda um desenvolvimento cog-
nitivo e linguístico equivalente ao conseguido pela criança ouvinte, estabelecendo
assim uma relação de harmonia com os ouvintes. Essa heterogeneidade deve ser
perspectivada como uma oportunidade de aprendizado coletivo e não como um
obstáculo. A Língua Portuguesa é a L1 das crianças ouvintes brasileiras e deverá ser
ensinada de modo diferente para crianças surdas que a adquirirão como L2.

A língua de sinais não pode ser estudada tendo como base a língua portugue-
sa, porque ela tem gramática diferenciada, independente da língua oral. Apresen-
tando a criança falta de audição, ela até poderá vir a adquirir essa língua, mas nunca
de forma natural e espontânea como ocorre com a língua de sinais. A proposta bilín-
gue deve ponderar o fato da maioria dos surdos que chegam à escola, serem filhos
de pais ouvintes e que, a criança precisa ter contato com surdos adultos. A presença
de surdos adultos apresenta vantagens dentro da proposta bilíngue.

A língua portuguesa apresenta uma ameaça para os surdos, pois essa é a lín-
gua institucionalizada, sendo que as políticas públicas determinam que os surdos
devem aprender português; porém os surdos lutam pelo direito de serem ensinados
na sua primeira língua – a língua de sinais. Sendo assim, torna-se necessário a revi-
são do status do português pelos próprios surdos; a reconstrução de um significado
social a partir dos mesmos de forma que o aprendizado da língua portuguesa seja
considerado como algo significativo para os surdos.

Esta visão do aprendizado das LIBRAS e da língua portuguesa é defendida por


Ronice Müller de Quadros, pesquisadora na área da educação inclusiva de crianças
surdas, na sua obra: “Em Língua de Sinais Brasileira: Estudos Linguísticos”, cuja leitu-
ra se recomenda.

QUADROS, Ronice Muller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de Sinais Bra-
sileira: Estudos Linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Libras 13
ti
TROCANDO IDEIAS
COM OS AUTORES
A intenção é que seja feita a leitura das obras indicadas
pelos(as) professores(as) autores(as), numa tentativa de
dialogar com os teóricos sobre o assunto.
Agora é o momento de trocar ideias com os autores

Sugerimos que faça a leitura da obra Educação de Surdos, cuja


autora apresenta os princípios do trabalho com pessoas surdas, em
especial no ambiente escolar, tais como: aspectos sociais e culturais de
uma proposta educacional, língua de sinais e aspectos relacionados à
sua estrutura e aquisição da língua portuguesa.

QUADROS, Ronice Müller de. Educação de surdos: aquisição da


linguagem. Porto Alegre: Artmed, 2008. 126 p.

Propomos também a leitura da obra Atualidade da educação


bilíngue para surdos: interfaces entre pedagogia e linguística.
Esta obra apresenta relatos de educadores com a alfabetização dos
surdos, com a escrita e a leitura e da relação com os pais ouvintes
e suas famílias. Aborda fundamentos teórico-práticos norteadores de
experiências em instituições educacionais.

SKLIAR, CARLOS (ORG.). Atualidade da educação bilingue para surdos: interfaces


entre pedagogia e linguística. Porto Alegre: Mediação, 1999. 1 v. 207 p.

Após a leitura das obras escolha uma e faça uma resenha crítica e
compartilhe com seus colegas na sala virtual.

Libras 15
PROBLEMATIZANDO
É apresentada uma situação problema onde será feito
um texto expondo uma solução para o problema
abordado, articulando a teoria e a prática profissional. PL
Existem pessoas surdas em todo o Brasil. O primeiro contato com uma pessoa
surda pode ocasionar espanto, sentimento de pena ou mesmo incompreensão. No
entanto, após uma aproximação, estes sujeitos, deixam de provocar curiosidade e
passam a motivar principalmente respeito. Contudo, algumas questões frequentes,
tais como: Como conseguem falar tão rápido com as mãos? Como decorre o pro-
cesso de desenvolvimento da aprendizagem dos surdos? Deverão os surdos apren-
der a falar oralmente ou só deverão usar a Libras ou aprender as duas coisas? Para
adquirir a capacidade de ler é necessário saber falar? Os surdos podem se tornar
produtores de textos em Língua Portuguesa? A pessoa surda deve se apropriar da
língua oral ou da língua de sinais? Essas indagações remetem a uma análise dos
paradigmas do trabalho de alfabetização de surdos.

Após fazer uma reflexão sobre as pessoas surdas responda os


questionamentos acima citados e comente com seus colegas na sala virtual.

Libras 17
APRENDENDO A PENSAR
O estudante deverá analisar o tema da disciplina
em estudo a partir das ideias organizadas pelos
professores autores do material didático.
Ap
1
MARCOS NA HISTÓRIA EDUCACIONAL
DOS SURDOS
CONHECIMENTOS
Conhecer os fundamentos históricos educacionais dos surdos, bem como as
metodologias aplicadas nesse processo.

HABILIDADES
Identificar as características do processo histórico educacional dos surdos;
Reconhecer o surdo dentro da sociedade como cidadão consciente
de sua identidade.

ATITUDES
Desenvolver o poder de conscientização no que diz respeito ao processo
educacional dos surdos.
A importância de conhecer a História da Educação
dos Surdos

Nesta unidade de estudo você terá a oportunidade de entender a importância


da Educação dos Surdos, como eram encaradas pela sociedade, quais as transfor-
mações que passaram até os dias de hoje, quem são eles e como a comunidade
surda surgiu.

Você já teve a curiosidade de saber sobre a história dos surdos?


A história dos surdos lhe dará prazer.

Estudar história em geral é importante, pois através desta conhecemos o pas-


sado de uma sociedade, como os homens se organizam e se relacionam, no caso,
estudar a história dos surdos nos dará a oportunidade de conhecer o povo surdo,
quais as transformações que enfrentaram e o surgimento das comunidades surdas.

A educação do surdo só pode ser compreendida a partir de uma perspectiva


mais ampla que abranja a sua história e que mostre quais as fundamentações teó-
ricas, filosóficas, políticas e ideológicas que a embasaram desde o seu início. Você é
convidado a partir de agora a viajar nas raízes da história dos surdos.

A História dos Surdos na Idade Antiga

Na história dos surdos, vários povos como os gregos, os egípcios, chineses e


romanos os viam com um olhar diferente um dos outros. Vamos elencar cada um
deles com suas respectivas visões:

Os gregos viam os surdos como animais, pois para eles o pensamento se dava
mediante a fala. Sem a audição eles na época ficavam fora dos ensinamentos e com
isso, não adquiriam o conhecimento, por isso eram lançados do alto dos rochedos.

Libras 21
No Egito eram vistos como deuses, pois serviam de mediadores entre os deu-
ses e os Faraós, sendo temidos e respeitados pela população. Mas essa admiração
e respeito se limitavam apenas ao Egito, na cultura dos chineses eles deviam ser
lançados ao mar. O conjunto de populações celtas que viviam na Gália lançava os
surdos ao mar em sacrifício aos deuses Teutates.

Os Romanos privavam os surdos de direitos legais, eles não se casavam, não


herdavam os bens da família eram vistos como imperfeitos, sem direito de pertencer
à sociedade e diante da religião, a igreja católica considerava os surdos sem salva-
ção, ou seja, não iriam para o reino de Deus após a morte.

Na Roma, o surdo, as pessoas com déficit intelectual e os cegos exerciam tare-


fas a serviço da corte, tais tarefas eram praticamente iguais, eram serviçais e bobos
da corte que eram mantidos nas vilas ou nas propriedades das famílias patrícias
como protegidos do pater, que vem do Latim e significa “pai da família”, termo este
que se refere a um território ou jurisdição governada por um patriarca.

Pode-se dizer que a condição do sujeito surdo era a mais miserável de todas,
pois a sociedade os considerava como imbecis, anormais, incompetentes.

Você pode perceber que a sociedade pregava o homem como um ser forte, sa-
dio e que não cedia à pressão, por tal razão, agia dessa forma, pois acreditavam não
ser bom nem para a criança e nem para a República que ela vivesse, já que desde o
parto mostrava-se fraca e má constituída e essa seria assim por toda a sua vida. Con-
forme Carus, poeta e filósofo latino que viveu no século I a.C., era comum lançarem
as crianças surdas ao rio Tibre, para serem cuidadas pelas Ninfas, deusas-espíritos
naturais femininos, em especial as crianças pobres.

Alguns dos grandes filósofos da Antiguidade também estavam em sintonia


com estes procedimentos, em Atenas. Segundo Platão (428 - 348 a.C.), afirma que
os que recebiam um corpo com qualquer deformidade eram levados a um paradeiro
desconhecido. (PLATÃO apud SILVA 1986, p.124).

Aristóteles (384 - 322 a.C.), dizia que “quanto, a saber, quais as crianças que se
deve abandonar ou educar, deve haver uma lei que proíba alimentar toda criança
disforme”. (ARISTÓTELES apud SILVA, 1986, p.124).

Pessoas cegas, surdas, deficientes intelectuais, deficientes físicos e outros tipos


de pessoas nascidas com “má formação,” às vezes, também, eram ligadas a casas
comerciais como as tavernas, bordéis, desenvolvendo atividades em circos romanos,

22 Libras
em alguns casos serviços simples e em outros humilhantes. Esse costume foi adota-
do por muitos séculos na História da Humanidade.

Na Idade Média

A Igreja Católica na Idade Média era a principal organização política e econô-


mica da época, a qual mantinha muitas instituições como asilos, hospitais, hospícios,
entre outros. Algumas dessas instituições também eram mantidas por ricos senho-
res, ambos mantinham nos aposentos das instituições pessoas idosas, doentes que
não foram agraciados com boas condições de vida, algumas pessoas deficientes
eram retiradas do convívio social e também eram mantidas nesses estabelecimen-
tos, passando a viver junto a doentes e moribundos.

Acreditava-se que a pessoa com deficiência tinha que ser conservada e cuida-
da, transformando a rejeição numa duvidosa proteção discriminatória que estava
dividida entre a caridade e o castigo. Para a organização social e cultural, o castigo
vinha com o desconforto das algemas, da promiscuidade, a caridade era dizer a
estes, que no asilo que estavam, tinha direito a um teto, a uma alimentação. Para os
cristãos o castigo é a caridade, pois o melhor meio de salvar a alma de um cristão
das garras do demônio era livrando a sociedade de suas condutas indecorosas ou
antissocial que o “monstruoso” apresentava.

Santo Agostinho (354-430 D.c) foi um filósofo, escritor, teólogo, responsável


pela filosofia patrística e pelo pensamento cristão medieval. Aderiu o pensamento
maniqueísta que pregava o bem e o mal.

A ideia defendida por Santo Agostinho era de que os pais de filhos surdos es-
tavam a pagar por algum pecado que haviam cometido. A Igreja Católica, até mea-
dos da Idade Média, acreditava que os surdos não possuíam uma alma imortal, uma
vez que eram incapazes de proferir os sacramentos. Conforme Silva, (2008: 19), “na
Antiguidade, passando pelos gregos, pelos romanos e pela igreja, de Santo Agosti-
no até a Idade Média, os surdos eram considerados seres inferiores e, portanto, não
tinham chance de salvação”.

Durante um longo período, no mundo todo, as pessoas deficientes estavam


situadas à margem da educação. Estudantes com deficiência eram atendidos sepa-
radamente ou exclusos do processo educacional, pois esses não se enquadravam
nos padrões de normalidade.

Libras 23
Na história encontramos uma situação que é pouco citada em obras publica-
das sobre a história do processo educativo dos surdos. Trata-se de um fato ocorrido
antes do Século XVI. Assim como muitas metodologias e técnicas de ensino apren-
dizagem foram sucumbidas, com o tempo as estratégias educacionais utilizadas
pelo Bispo John of Bervely em meados de 700 a 637 d.C., ficaram desconhecidas. Ele
conseguiu fazer um surdo falar de forma clara e a igreja considera esse feito como
um milagre tomando para si a autoria do fato.

A Idade Moderna

A mudança dessa situação só começou a ser remediada a partir do século XVI,


pois nobres que tinham filhos surdos passaram a querer que estes recebessem suas
heranças, a nobreza então passou a se preocupar em educá-los para que quando
morressem não fosse negado aos seus próprios filhos, o que a eles pertenciam.
Surgiu, nessa época, vários educadores como o Monge Beneditino Pedro Ponce de
Léon e o Abade Charles Michael de L’Epée .

Dentre os demais educadores e pesquisadores da surdez se destacam o espa-


nhol Juan Pablo Bonet (1579-1629), o alemão Samuel Heinicke (1727- 1790), fundador
da primeira escola oral de surdos na Alemanha, o francês Sicard (1742-1822), suces-
sor de L’Epée, na direção do Instituto Nacional de Surdos-Mudos, o médico cirurgião
francês Jean Marc Itard (1774-1838), o americano Thomas Gallaudet (1787-1851), que
juntamente com o professor surdo francês, Laurent Clerc (1785 – 1869), fundaram a
primeira escola pública para surdos em Hartford, o escocês Alexander Graham Bell
(1847-1922), criador do telefone que casou-se com Mabel, surda oralizada.

No Século XVI, na Espanha, foi registrado um fato realizado por um monge


beneditino Pedro Ponce de Leon (1520-1584), que dedicou a sua vida a ensinar
surdos dos filhos de nobres para que pudessem ter acesso aos bens familiares e a
herança continuar no seio da família. Ensinou a falar diversas línguas como grego,
latim e italiano, além de conceitos de Física e Astronomia, desenvolvendo métodos
para a educação de pessoas surdas, incluindo a datilologia (representação manual
das letras do alfabeto), a escrita e a oralização, criando uma escola de professores
surdos, com atendimento individualizado e particular.

24 Libras
No período de 1620, na Espanha, Juan Pablo Bonet, segue os passos de Leon e
escreve sobre a deficiência auditiva e os problemas de comunicação e em seu livro
Reduction de Las Letras y Arte para Ensenar a Hablarlos Mudos, condena os mé-
todos brutais utilizados para o ensino de surdos e apresenta o alfabeto manual, pela
primeira vez. Em seu trabalho com surdos proibia os gestos e optava pelo método
oral.

No século XVIII, surgiram as primeiras iniciativas de educação coletiva para


surdos e os primeiros educadores: o abade francês, Charles Michel de L’Epée, o ale-
mão, Samuel Heinicke, e o inglês, Thomas Braidwood, que por intermédio de suas
pesquisas, desenvolveram métodos para que a educação de surdos acontecesse. No
ano de 1750, na França, o Abade L’Epée se destacou bastante na educação de sur-
dos, ensinou e apoiou os surdos, criando uma escola pública, o Instituto Nacional de
Jovens Surdos-Mudos, em Paris, educando os surdos através do método combinado
ou sinais metódicos.

Além disso, proporcionou a passagem da educação individual para a educação


coletiva. Aprendeu a Língua Gestual utilizada pelos surdos parisienses, à chamada
“Antiga Língua Gestual Francesa” e utilizava-a nas aulas adicionando outros gestos
que inventou e que lhe permitiram “cunhar” conceitos do francês escrito para os
quais, aparentemente, não existiam equivalentes em Língua Gestual. Esta situação
deve destacar-se porque durante muito tempo, em todo mundo e mesmo na França,
a comunidade surda atribuía a L’Épée a criação da “Langue dês Signes Françaises”.

Nascido por volta de 1712, Charles Michel de L’Epée, ensinava os surdos, por
motivos religiosos, através do método manualista ou gestualista, reconhecendo que
a Língua de Sinais realmente existia e que ela se desenvolvia, embora não a consi-
derasse uma língua com aspectos gramaticais.

A História Educacional de Surdos mostra que nas ruas da cidade de Paris,


perambulavam surdos, foi então que L’Epée se aproximou dos surdos e com eles
aprendeu a Língua de Sinais, criando os “sinais metódicos”, uma combinação de
Língua de Sinais com gramática francesa. Com o imenso sucesso na educação de
surdos, o Abade transformou sua casa em escola pública, que de 1771 a 1785 pas-
sou a atender 75 estudantes, número bastante elevado na época.

Charles de L’Epée acreditava que os surdos, independentemente de seu nível


social, deveriam ter direito a educação de qualidade e que a mesma deveria ser

Libras 25
gratuita. Pensamento que também foi adotado por Roch-Ambroise Cucurron Sicard
foi um abade francês, seguidor dos pensamentos de Abade L’Épée, ficou conhecido
pelo seu trabalho em educar surdos, fundando a escola de surdos de Bordéus, no
ano de 1782, e depois sucedeu L’Epée em seu instituto, como diretor.

Também no período de 1750, Samuel Heinicke, na Alemanha, através de suas


pesquisas deu os primeiros passos da Filosofia Educacional Oralista, que tem como
objetivo principal o ensino de língua oral sem auxílio da língua de sinais, sendo ele
precursor e fundador de escolas de orientação oralista que em sua maioria conta-
vam com pequenas quantidades de estudantes (de 9 a 10).

Na Idade Contemporânea

O século XVIII é considerado por muitos estudiosos na área da surdez como


o período mais fértil da educação dos surdos. Este século foi marcado pelo grande
impulso, no sentido de quantidade, com o aumento de escolas para surdos, e quali-
dade, já que através de sinais, surdos podiam aprender e dominar diversos assuntos
e exercer várias profissões. A educação de surdos ficou mais vista pela sociedade, a
partir de ações do Abade e seus seguidores que lutavam para o progresso da edu-
cação dessa comunidade, surgindo novas perspectivas educacionais para surdos.

Por outro lado, o Abade era considerado como bom educador, pois conseguia
educar com qualidade os surdos, sendo a sua escola escolhida pelo governo para
poder receber subsídios e então poder expandir-se em outras fontes, foi responsá-
vel por ocasionar o sucesso de numerosos professores educadores de surdos. Antes
de sua morte em 1789, Abade já havia fundado 21 escolas para pessoas surdas na
França e em outros lugares da Europa.

No ano de 1815, Thomas Hopkins Gallaudet (1787 – 1851), professor ameri-


cano interessado em obter informações sobre a educação de surdos, seguiu para
Inglaterra e encontrou-se com a família Braidwood. Eles utilizavam apenas a língua
oral na educação de pessoas surdas, sendo que a informação dessa técnica foi ne-
gada, fazendo com que fosse então buscar esses subsídios nas escolas gestualistas,
que passou a conhecer a língua dos surdos franceses e os métodos de trabalho da
escola.

26 Libras
Conhecendo Laurent Clerc, um surdo, professor de surdos, decidiu viajar aos
Estados Unidos com Gallaudet, para ajudá-lo em seu projeto. Ao acompanhar Tho-
mas Hopkins Gallaudet aos EUA, Laurent Clerc abriu uma escola para surdos em
abril de 1817, a Escola de Hartford. Gallaudet instituiu a Língua Gestual Americana
que, ainda, passou a ser usado o inglês escrito e o alfabeto manual. A partir de me-
ados de 1821, as escolas americanas nortearam suas ações com direção a American
Sign Languagem – ASL, sendo que neste período houve uma elevação no grau de
escolarização dos surdos que podiam aprender com facilidade as disciplinas minis-
tradas em língua de sinais.

Todavia, como os avanços tecnológicos facilitaram a aprendizagem da fala, isso


fez com que em 1860 o enfoque oralista se difundisse ganhando forças, motivando
os profissionais a tentarem investir na oralização de surdos, sendo o oralismo um
método que, ainda hoje em dia, alguns profissionais defendem, sustentando a ideia
de que a língua de sinais é prejudicial para aprendizagem de um estudante surdo.

A filosofia oralista se difundiu proclamando a importância da língua oral e a


não importância da língua de sinais. A abolição dos sinais na educação de surdos
pela filosofia oralista, baseava-se na concepção de língua, pela maioria dos linguís-
tas, como sendo exclusivamente a língua oral, reconhecendo os sinais como meras
“mímicas”, sem qualquer valor linguístico, e precisam ser evitados a todo custo, a
fim de que o aprendizado da língua oral, por parte do surdo, não fosse estorvado.

A abordagem oral dominou os educadores por muitos anos. Esse era o mé-
todo mais natural para os ouvintes e como os professores geralmente faziam parte
desse grupo usava a fala em sala de aula não conhecendo e nem adotando a com-
petência dos sinais.

Decadência na Educação dos Surdos

Em 1880 no Congresso de Milão representou um momento obscuro na história


dos surdos, uma vez que lá um grupo de ouvintes tomou a decisão de excluir a língua
gestual do ensino de surdos, substituindo-a pelo oralismo (método de ensino para
surdos, no qual se defende que a maneira mais eficaz de ensinar o surdo é através
da língua oral, ou falada). Em consequência disso, o oralismo foi a técnica preferida
na educação dos surdos durante fins do século XIX e grande parte do século XX.

Libras 27
Essa decisão causou um retrocesso, pois se esses estudantes utilizassem a língua
gestual eram punidos. Essas punições consistiam em amarrar as mãos, trancá-los
em porões, armários e até mesmo serem castigados fisicamente ou ridicularizados
em público.

Contudo, o problema estava bem mais além das severas punições e da distância
de familiares, que por consequência da falta de comunicação se afastavam desses
estudantes. A privação da língua nos surdos na infância levou a níveis bastante altos
de doenças mentais na faixa etária de 30 e poucos anos.

A partir da morte de Laurent Clerc, forte defensor da Língua de Sinais, o


Oralismo ganhou forças, através de Alexander Graham Bell (inventor do telefone e do
audiômetro), um dos maiores defensores do Oralismo. Graham Bell era casado com
uma surda que se chamava Mabel, ele acreditava que os surdos não deveriam casar
entre si, pois se acomodariam e não iriam aprender a língua oral. Ele caracterizava a
Língua de Sinais inferior a fala e que só deveria ser usada como um apoio.

No início do século XX todas as escolas deixaram de utilizar a língua de sinais


passando a oralizar todos os estudantes surdos, pois o aprendizado da língua oral
passa a ser o grande objetivo dos educadores de surdos. Acreditavam que poderiam
desenvolver-se como os ouvintes no aprendizado da fala.

Mesmo com o Congresso de Milão proibindo, por muito tempo, as pessoas


surdas de usarem a língua de sinais, ela resistiu devido à obstinação de seu povo.
Dentro das escolas de surdos, muitas crianças praticavam às escondidas entre si,
de forma que não fossem percebidos. A atriz francesa Emmanuelle Laboritt (com
surdez profunda e congênita recebeu o prêmio Moliéri do teatro).

Em sua obra autobiográfica diz que: “Quando o professor se virava para


escrever no quadro-negro, tínhamos hábito de trocar informações na língua de
sinais, persuadidos de que ele não nos escutava, já que não nos via. Ora, no começo,
ele se voltava todas às vezes, era estranho, não compreendíamos imediatamente
por quê. Com o passar do tempo, dei-me conta de que, ao falar com as mãos,
sem saber, emitimos ruídos com a boca. A partir daí cuidamos de não mais emitir
nenhum som e, desde aquele dia, trocamos nossas lições o mais tranquilamente
possível” (LABORITT, 1994:84).

O ensino das disciplinas como História, Geografia, Matemática, entre outras,


foi deixado em segundo plano ocorrendo então uma queda nos aperfeiçoamentos
desses surdos. Ficando resistente até 1970, o oralismo dominou todo o ensino do
mundo, até que William Stokoe publicou o artigo “Sign Language Structure: Na Out

28 Libras
line of the visual Comunication System of the American Deaf,” demonstrando que
American Sign Language (língua de sinais americana) é uma língua com características
iguais às das línguas orais.

William C. Stokoe Jr. (1919 - 2000), foi um estudioso que em seus estudos
pesquisou extensivamente a Língua de Sinais Americana – ASL, enquanto trabalhava
na Universidade Gallaudet, como professor e chefe do departamento de Inglês, em
meados de 1955 a 1970. Dentre suas obras podemos citar a publicação da Estrutura
da Língua Gestual e a coautoria do Dicionário de Língua Gestual Americana, que
ao abordar seus princípios linguísticos, dava prestígio a ASL nos círculos acadêmicos
e pedagógicos.

A publicação de suas obras foi fundamental na mudança da percepção da ASL,


que partiu de uma versão simplificada ou incompleta do Inglês para uma complexa e
próspera língua natural, com fonética, fonologia, morfologia e sintaxe independente
como qualquer língua falada no mundo.

Logo em seguida apareceram diversas pesquisas baseadas na publicação de


Stokoe, a qual mostrava a língua de sinais e a sua aplicação na educação e vida de
pessoas surdas.

Dorothy Schifflet, professora e mãe de surdos, começou a utilizar e divulgar


um método onde a língua de sinais e a língua oral, leitura labial, alfabeto manual
(datilologia), treino auditivo estavam presentes na educação de pessoas surdas,
fazendo surgir e denominando assim, o seu trabalho de Total Approach, ou seja,
abordagem total.

Ainda na década de 60, Ray Hoolean adotou o método de ensino total “approach”,
mudando seu nome para “total comunication”, originando a filosofia Comunicação
Total. Uma filosofia que utiliza variadas formas possíveis de comunicação para que
ocorra sucesso na educação de surdos, acredita nas totais formas de comunicação
possíveis na educação escolar do surdo, acreditando que a Comunicação Total não é
língua e sim uma Filosofia Educacional.

Já utilizando o inglês sinalizado, a Universidade Gallaudet adotou a Comunicação


Total, tornando-se o maior centro de pesquisa da área. Na década de 1970, alguns
países tais como Inglaterra e Suécia, perceberam que a Língua de Sinais deveria ser
utilizada independentemente de uma língua oral, onde em algumas ocasiões, a língua
oral deveria ser utilizada e em outros momentos a Língua de Sinais, e não as duas em
igual momento como já estavam sendo desenvolvidas em algumas entidades.

Libras 29
Em meados de 1980 a 1990, surge então a filosofia Bilíngue, afirmando que o
surdo deve adquirir sua língua materna, a Língua de Sinais. Essa filosofia a cada dia
vem ganhando mais adeptos em todos os lugares do mundo.

Hoje em dia os estudos sobre as Línguas de Sinais, possibilitam que crianças


surdas tenham acesso a esta língua como a primeira, o mais cedo possível, tendo
como a língua oral de seus pais, a segunda, ou seja, uma abordagem bilíngue para
a educação de surdos.

Oralismo

A modalidade oralista baseia-se na crença de que é a única forma desejável de


comunicação para o sujeito surdo, e a Língua de Sinais deve ser evitada a todo custo
porque atrapalha o desenvolvimento da oralização. Essa técnica de leitura labial: ”ler”
a posição dos lábios e captar os movimentos dos lábios de alguém que está falando
é só útil quando o interlocutor formula as palavras de frente com clareza e devagar.

Quando médicos, professores e um grupo de ouvintes tomaram a decisão


de excluir a língua gestual do ensino de surdos, o oralismo ganhou força e desse
modo foi a técnica preferida na educação dos surdos durante fins do século XIX e
grande parte do século XX. Ao abolir a Língua de Sinais na Educação de Surdos, se
deu a concepção de que os sinais não tinham valores linguísticos, não passavam
de mímicas, e que essa necessitava ser evitada, estabelecendo então, que todas as
disciplinas escolares fossem repassadas através da Língua Oral.

Para o Oralismo, surdez é uma deficiência que necessita ser minimizada, visando
que o surdo viva e seja igual ao ouvinte. A fim de atingir sua meta os oralistas
trabalham com um conjunto de especialistas médicos e terapêuticos, tais como
neurologistas, fonoaudiólogos, psicólogos e otorrinolaringologistas, aproveitando
resíduos auditivos caso existam (por meio do aparelho).

O Método Oralista tornou-se dominante e, consequentemente, a Educação


Oral apoderou-se, expulsando do meio educacional os professores surdos e
banindo a Língua de Sinais que fora considerada uma ameaça para a oralização.
Essa metodologia busca o ensino de palavras respaldadas na afirmação de que o
surdo tem dificuldade de abstração. O aprendizado da fala se torna mais importante
que a aquisição da leitura e da escrita considerando o surdo como um deficiente
que precisa ser curado, corrigido, recuperado.

30 Libras
Repercutindo a valorização do Método Oral, as línguas de sinais eram
consideradas como método tradicional e essa visão acomodou o surdo, o desmotivou
a falar, passando a viver numa “subcultura ”. Os surdos eram vistos unicamente como
deficientes, e não como um povo, com cultura própria. Com a ênfase dessa filosofia,
os surdos eram rotulados como: “surdos-mudos”. Entretanto, a Educação de Surdos
com o Método Oral não obteve bons resultados.

Pesquisas revelam resultados esmagadores no requisito da vida acadêmica


desses estudantes, foi observado um rebaixamento significativo no desempenho
cognitivo dos surdos. Uma pesquisa realizada pelo colégio Gallaudetno no ano de
1972 mostra que o nível de leitura entre os graduados de dezoito anos nas escolas
secundárias nos EUA equivalia ao quarto ano do Ensino Fundamental.

O psicólogo R. Conrado, em suas pesquisas evidencia que na Inglaterra o nível


dos estudantes surdos de graduação liam a nível de crianças de nove anos de idade.
Foi observado, também, que estudantes surdos de 15 a 16 anos que participavam
do ensino oral, apenas 25% (vinte e cinco por cento) conseguiam articular a fala de
modo compreensível. No quesito leitura e escrita menos de 10% (dez por cento)
apresentava um nível de leitura apropriado para a sua idade e 30% (trinta por cento)
eram analfabetos. As habilidades de leitura labial eram insatisfatórias.

O processo educacional de surdos norteados pela filosofia oralista não era


suficiente para o bom aprendizado da leitura e da escrita de estudantes surdos.
Conforme a trajetória educacional dos surdos a língua oral não deu conta das
necessidades da comunidade surda e muitos aspectos importantes para o
desenvolvimento foram deixados de lado. Quando as línguas de sinais passaram
a ser disseminadas, as pessoas surdas puderam se desenvolver intelectualmente,
profissionalmente e socialmente.

O Método Oral enfatizou a escrita de forma mecânica, onde o estudante era


condicionado à repetição sucessiva de textos, o ensino de surdos através desse
método não deu conta da demanda de necessidades por eles apresentadas,
formando discentes com baixa compreensão na leitura e na escrita, devido ao
vocabulário reduzido, a maioria teve um processo de fala ilegível.

Uma criança só pode construir uma língua se participar inteiramente de uma


sociedade, compartilhando seus conceitos, não apenas da aprendizagem imposta
da língua oral, que é proposta pelo Oralismo. Essa aprendizagem não pode ser
comparada a aquisição espontânea, pois não garante a formação de um sistema
que alcance níveis abstratos, já que a aprendizagem da língua oral pela criança
surda ocorre de forma sistemática.

Libras 31
Raríssimo são os surdos, que apenas, oralizados conseguem ter bom
desempenho em Língua Portuguesa, a não ser aqueles que adquiriram a surdez
quando já haviam iniciado o processo de aquisição do Português ou que apresentam
surdez leve. Mas mesmo esses apresentam dificuldade na produção de um texto
escrito, entretanto no Brasil, assim como em outros países, foram evidenciados no
sujeito surdo oralizado dificuldades na aquisição e desenvolvimentos da linguagem
e da escrita, assim como um vocabulário limitado.

O surdo sofre atraso na linguagem e sem contato com uma língua natural,
não tem condições de adquirir pelo ensino formal, conceitos científicos. O oralismo
parece ignorar essas dificuldades que o atraso da linguagem proporciona e continua
a posicionar a necessidade do surdo em ser oralizado.

Mesmo alcançando sua meta, o oralismo é insuficiente, pois parte de uma


noção de língua e linguagem, que provoca nos surdos um atraso de linguagem
e suas consequências, não considera os aspectos cognitivos determinados pela
linguagem e pela cultura, prendendo-se ao canal auditivo para a transmissão de
conteúdos. Os surdos que não obtêm o sucesso determinado são considerados
fracassados, incapazes e perdedores.

Surdos, oralizados ou não, sentem a necessidade de conviver com outros


surdos. Essa necessidade de se integrar é uma razão de extrema importância para
que a LIBRAS lhes seja oferecida desde cedo. Ao conhecermos a comunidade surda
percebemos que muitos, mesmo na idade adulta, sentem a necessidade de aprender
LIBRAS e fazer parte da comunidade surda, gerando uma mudança nas atitudes de
surdos e educadores perante a Língua de Sinais e suas condições particulares diante
a linguística.

Comunicação Total

Nos anos Setenta e Oitenta, a Comunicação Total foi utilizada por muitos países.
Utilizando de vários artifícios, essa Filosofia Educacional, tem como objetivo integrar o
surdo na sociedade ouvinte, acreditando que ele terá uma boa comunicação seja atra-
vés da fala, sinais ou escrita. E quando comparada ao Oralismo, por meio de estudos
e avaliações, chegaram à conclusão de que os surdos obtiveram melhor desempenho
na compreensão e comunicação, apesar das dificuldades em expressar os sentimentos
e ideias.

32 Libras
Acredita-se que para o surdo obter uma leitura e uma escrita satisfatória, neces-
sitará de diversos artifícios para chegar a uma boa comunicação na língua de seu país.
Preocupada com a comunicação de surdos com surdos, surdos com ouvintes e com
a aprendizagem da língua oral, que é considerada por esta Filosofia, de grande rele-
vância para o desenvolvimento dos aspectos sociais, cognitivos e emocionais, defende
também, a utilização de recursos viso manuais.

Essa visão postula a valorização de abordagens alternativas que permitam ao sur-


do trocar ideias, sentimentos e informações com ouvintes. A Comunicação Total possui
objetivos básicos, o de facilitar a integração do surdo com o meio, e fornecer condições
adequadas para o bom desenvolvimento psicolinguístico. Seja pela linguagem oral, por
meio dos sinais, datilologia ou pela combinação de todos os métodos, a Comunicação
Total permite uma aproximação entre as pessoas envolvidas na educação dos surdos.

Na Comunicação Total se utiliza muito o alfabeto manual para chegar a uma co-
municação com os ouvintes, também conhecido como datilologia. A sua difusão gera,
entre muitos ouvintes, a pressuposição de que o alfabeto é a própria Língua de Sinais,
mas esse é apenas um suplemento dessa língua, sua função é a soletração de nomes,
siglas, aqui no Brasil, este possui 27 (vinte e sete) configurações, incluindo as letras k,
w, y, e também o ç.

Libras 33
Veja abaixo a representação do alfabeto:

34 Libras
O Alfabeto Manual é um sistema gestual e cada letra do alfabeto escrita
corresponde a uma configuração específica da mão, é um sistema de escrita no
espaço. Ao fazermos a datilologia de um nome, a mão realiza diversas configurações
e cada uma representa uma letra da sequência do nome.

Os seguidores dessa filosofia vêem o surdo de forma diferente do oralismo, não


como um portador de uma patologia de ordem médica que deveria ser eliminada
e sim como uma pessoa normal, permitido assim a aquisição e o desenvolvimento
normais da linguagem, afirmando que tudo e qualquer meio que façam o surdo
aprender é de suma importância, inclusive, os sinais. Essa filosofia relata que o uso
de todos os meios que possam facilitar a comunicação é necessário, desde a fala,
passando por todos os sistemas artificiais, até a Língua de Sinais, abrindo canais
para comunicações diversas.

A Comunicação Total trabalha simultaneamente com a língua oral e a sinalizada,


denominando essa forma comunicativa de bimodalismo , um dos recursos utilizados
por essa filosofia no processo de aquisição da linguagem pela criança e na facilitação
da comunicação entre surdos e ouvintes. Acredita-se que essa forma de ensino
permitirá o estudante surdo decodificar as regras da língua falada na escrita, que
deverá aprender por intermédio da língua de sinais. Embora a comunicação entre
surdos e ouvintes estivesse melhorando, foi observado que as habilidades de escrita
e leitura ainda continuavam abaixo do esperado.

O surdo enfrenta dificuldades em aprender significados, quando ouvintes se


comunicam com ele por meio do bimodalismo, uso dos sinais e da fala de forma
simultânea. A visão do surdo se sobrecarrega ao tentar ler os lábios do interlocutor,
a fim de perceber palavras, e ao mesmo tempo, olhar os formatos das configurações
das mãos.

Essa combinação de língua oral com língua de sinais impede o surdo de


perceber e distinguir a estrutura sintática da língua oral e de sinais. Por esse motivo,
o aprendizado da leitura e da escrita fica prejudicado, consequentemente, os surdos
não sabem ler, nem mesmo textos breves e simples e ao escreverem na língua oral
de seu país transportam para essa língua a estrutura sintática da Língua de Sinais.

É interessante observar que, mesmo utilizando a Língua de Sinais, a Comunicação


Total continuou apresentando dificuldades de aprendizagem no quesito leitura e
escrita. Pode-se então, concluir que isso aconteça em virtude de que, a Língua de
Sinais, ao ser usado nas práticas dessa filosofia, suas características linguísticas não
tenham sido respeitadas como uma verdadeira língua, sendo então utilizada apenas

Libras 35
como um subsídio para aprendizagem e não como um elemento principal para o
acontecimento da aprendizagem.

Procurando descobrir se o ensino oral e sinalizado estava acontecendo,


com efeito, na produção da leitura e escrita, os pesquisadores decidiram filmar os
professores no ato da ministração da sua aula, percebendo que a educação não
acontecia de forma perfeita.

Com essa filosofia, os surdos despertaram para a valorização da Língua de


Sinais, pois o ensino com sinalização não era de forma plena como era para ser, logo
emergiu a posição em que a Filosofia da Comunicação Total deveria ser substituída
pelo bilinguismo para surdos, o qual afirma que a Língua de Sinais e a língua falada
podem viver lado a lado, mas não simultaneamente.

Foi então a partir dessa prática, que a língua de sinais passou a ocupar certo
destaque como meio de comunicação efetivo nas Comunidades Surdas. Em alguns
países como Suécia e Inglaterra, perceberam que essa língua deveria ser utilizada
independentemente da língua oral, e não as duas em momentos iguais, como eram
utilizadas. Surge então, a Filosofia Bilíngue, que, ao contrário do Oralismo e da
Comunicação Total, defende o respeito e o valor que deve ser dado à Língua de
Sinais.

A Comunicação Total admitia na escola o uso dos sinais, não como uma língua
de direito do surdo, mas para auxiliar a aquisição da língua oral escrita e falada, mas
com o passar do tempo, a língua falada não parecia mais suprir as necessidades da
comunidade surda, professores ouvintes de surdos começaram a abrir os olhos para
a riqueza das línguas de sinais. As experiências práticas forneceram questionamentos
metodológicos para considerar uma nova metodologia, o bilinguismo para surdos.

A combinação Língua Oral e Língua de Sinais foi um obstáculo para o surdo


discernir as estruturas de uma língua para a outra, tendo como consequência o
aprendizado da leitura e da escrita prejudicado, tornando o surdo um leitor não
competente e um escritor limitado a textos pequenos.

A Comunicação Total tem aspectos positivos e negativos, ela ampliou a visão


do surdo e da surdez, deslocando a necessidade do surdo ser oralizado e ajudou o
processo da utilização dos sinais, mas não a viabilizou suficientemente. Essa filosofia
considerou o surdo uma pessoa capaz e a surdez repercutiu nas relações sociais e
no desenvolvimento afetivo e cognitivo do surdo.

36 Libras
Bilinguismo para Surdos

Na Comunicação Total ocorre a utilização simultânea da linguagem oral e


gestual, empregando todas as formas possíveis de comunicação, usando a fala,
leitura labial, língua oral sinalizada, alfabeto manual, audição residual, e outros,
diferenciando-se do bilinguismo que aborda as duas línguas, de forma que, elas
sejam usadas sem que uma interfira ou prejudique no aprendizado da outra.
Portanto, as línguas seriam usadas em momentos diferentes.

O bilinguismo percebe o surdo de forma diferente do Oralismo e da


Comunicação Total, pois nessa filosofia o surdo não necessita almejar uma vida igual
a do ouvinte, podendo assumir sua surdez formando uma comunidade, com cultura
e língua.

A origem do bilinguismo se dá pela insatisfação de surdos com a proibição


da Língua de Sinais e a mobilização de diversas comunidades em prol do uso
dessa língua, aliado aos estudos linguísticos, comprovando o status dessa língua.
Utilizando, neste viés, a surdez para denominar um grupo linguístico e cultural, e
para denominar um grupo por condição física e falta de audição. O bilinguismo tem
como foco principal os surdos atendendo-os em sua língua, cultura e aceitando sua
forma de agir e pensar.

Quando se fala de bilinguismo no campo da educação de surdos, relata-se à


existência de duas línguas nesse ambiente, ou seja, a Língua Oral dos ouvintes, no
caso do Brasil, o Português Brasileiro e a Língua de Sinais no caso dos surdos do
Brasil, a LIBRAS.

A escrita da língua oral pode ser adquirida de forma plena pela pessoa surda,
a metodologia para a aquisição da escrita precisa ser visual, evidenciando a LIBRAS
sem focar a relação letra-som, sendo similares às abordadas no ensino de segunda
língua. A fala apresenta um papel fundamental na aquisição da escrita, no que se
refere aos conceitos e ideias, podendo ser substituído pelos sinais que é a “fala” das
línguas de sinais, língua de modalidade gestual visual.

Essa tendência traz como objetivo uma educação que permite aos indivíduos um
acesso completo a uma língua natural, que seria a língua de sinais. Após a aquisição
desta, seria introduzido a eles a língua escrita de seu país, e seria viabilizada por
intermédio da língua de sinais. Na educação de crianças surdas essa abordagem

Libras 37
exige um profissional ouvinte, conhecedor da língua de sinais e participante da
comunidade surda, que se torna responsável pela transmissão da língua oral e um
profissional surdo responsável pela transmissão da língua de sinais.

Esse novo olhar para a Educação de Surdos vem superando muitas dificuldades
provenientes dos antigos planos educacionais, sendo apoiado por sua comunidade
que pressupõe o reconhecimento de expressão da língua de sinais como ponto
central para o desenvolvimento educacional.

Considerando a língua de sinais como a primeira língua dos surdos e a língua


da sociedade em que está inserida sua segunda língua, a leitura e a escrita da
segunda língua seria uma forma de integração de surdos com ouvintes e essa como
já falada será repassada pela Língua de Sinais.

Ao adquirir a língua de sinais, essa língua assume um papel fundamental na


aquisição da segunda, a língua oral, possibilitando a construção do conhecimento de
mundo, compreendendo o significado da leitura e da escrita, deixando de ser apenas
decodificador da escrita que pode ser totalmente acessível à visão, considerada
necessária para a construção das habilidades de língua.

O bilinguismo relata que se o surdo não adquirir logo nos primeiros anos de
vida a língua de sinais, eles sofrerão consequências como a perda da oportunidade
de usar a linguagem. Como o surdo não pode fazer uma leitura do mundo pela fala,
então é imprescindível que a outra forma de se comunicar com o mundo seja pela
Língua de Sinais. Assim, ele ficará inteirado do mundo. A Língua de Sinais, para os
surdos, assim como a língua oral, para os ouvintes, fornece um aparato linguístico
cognitivo.

A aquisição de uma primeira língua deve ser assegurada a uma criança, sendo
ela surda ou ouvinte, se ela não puder ter uma participação ativa em sua situação
comunicativa não poderá contar com um desenvolvimento normal dessa primeira
língua, que deverá ser de fácil acesso.

O passo mais importante para concretizar o bilinguismo foi dado na Suécia,


o primeiro país a reconhecer, politicamente, o sujeito surdo como uma minoria
linguística, com seus direitos políticos assegurando a educação na língua de sinais
e na língua falada.

O bilinguismo foi constatado com sucesso na Dinamarca, onde pesquisadores


acompanharam durante oito anos, nove crianças surdas, de seis aos quatorze anos
de idade, obtendo bons resultados na leitura e escrita. O primeiro ano foi dedicado,

38 Libras
exclusivamente, ao desenvolvimento da Língua de Sinais usando inicialmente
descrições de desenhos animados. Depois de dois anos constataram que sete das
nove já se comunicavam fluentemente em sinais, mostrando um vocábulo elevado
correspondente a sua idade.

A partir do segundo ano de pesquisa, a língua dinamarquesa falada e escrita foi


introduzida como primeira língua estrangeira, alguns já tinham grandes habilidades
devido os programas de leitura precoce. Neste ensino de leitura e escrita foram
usados vários recursos entre esses, está à sinalização, a língua falada e os textos
escritos.

Houve uma expansão excelente, aos doze anos de idade, cinco das nove
tinham nível de leitura conforme o das crianças ouvintes, sendo que ao chegarem
aos quatorze anos de idade, nove das crianças conseguiam ler com certa fluência.
Foi através desse programa que o bilinguismo, hoje em dia, tem grande aceitação
na Dinamarca, por todas as escolas e comunidades em geral.

Como esse é um exemplo do resultado mais eficaz no ensino de pessoas


surdas, é necessário colocar essa proposta educacional para os surdos o mais cedo
possível, pois, em contato com a língua de sinais, o estudante aparecerá com um
desenvolvimento rico e pleno da linguagem, assim logo após a linguagem oficial de
seu país será ensinada com base nos conhecimentos adquiridos por intermédio da
língua de sinais.

Libras 39
2
LIBRAS E CULTURA SURDA
CONHECIMENTOS
Compreender a gramática da Língua de Sinais e compreender como ocorre o
processo de aquisição da linguagem do sujeito surdo;
Conhecer sobre o profissional Tradutor Intérprete de Língua de Sinais.

HABILIDADES
Reconhecer a dimensão real das lutas do povo surdo e sua difusão da cultura
e da identidade surda.

ATITUDES
Aplicar os conhecimentos adquiridos no processo de aquisição da criança surda
e contribuir para o desenvolvimento como estudante e cidadão nas Línguas
Brasileiras de Sinais.

Libras 41
Cultura e Identidade do Povo Surdo

Você sabe o que é cultura? A definição de cultura no sentido amplo são com-
portamentos de um grupo que vivenciam os mesmos valores, regras comportamen-
tais, tradições e uma língua, compartilhando metas, responsabilidades e ideais.

Podemos definir cultura surda como a forma de entender o mundo, e torná-lo


apto a viver em sociedade com identidades ajustadas à sua cultura e também a uma
língua diferente dos demais que vivem no mesmo ambiente social.

As releituras do sentido constituído de identidade surda envolvem a língua,


ideias, crenças, hábitos e costumes do povo surdo. “A cultura surda é então a di-
ferença que contém a prática social dos surdos e que comunica um significado”
(PERLIN, 2004, p. 77).

Segundo Perlin, as identidades surdas adotam as definições a seguir:

As releituras do sentido constituído de identidade surda envolvem a lín-


gua, ideias, crenças, hábitos e costumes do povo surdo. “A cultura surda é
então a diferença que contém a prática social dos surdos e que comunica
um significado” (PERLIN, 2004, p. 77).

As identidades surdas dentro dos aspectos da cultura surda se adaptam de acor-


do com a receptividade cultural. E através de tal receptividade protegem-se contra a
inclusão entre os deficientes, e a sensação de serem recebidos como inválidos.

A comunidade surda é formada por surdos membros da família, tradu-


tora intérprete, professores, amigos e demais que compartilham suas
ideias. A surdez ultrapassa a condição médica, ser surdo é pertencer a
uma cultura, a uma língua gestual, ao seu idioma natural.

Libras 43
LEITURA OBRIGATÓRIA

STROBEL, Karin Lilian. As imagens do outro sobre a Cultura Surda.Florianópolis:Editora


da UFSC, 2008.

Os surdos, aglutinados em um mesmo espaço escolar têm possibilidades de


trocar ideias, experiências. A partir dessa convivência podem ser criados novos
valores dentro de um grupo linguístico comum.

A luta pela conscientização

Você conhece algum surdo? Como a família, a sociedade e a escola, o vê?

Conforme visto em nossos estudos, na antiguidade os surdos eram


discriminados, e somente após o reconhecimento das línguas de sinais, o povo
surdo começou a se destacar e lutar por seus direitos políticos e culturais, através
das línguas de sinais o surdo pode construir sua identidade.

Segundo Perlin, o adulto surdo em contato com outro surdo adotam as


definições a seguir:

O grupo onde entram os surdos que fazem uso com experiência visual
propriamente dita. O adulto Surdo, em contato com outros Surdos, vai
construir sua identidade fortemente centrada no ser Surdo (a Cultura
Surda), “a identidade política surda”. É a consciência de ser definitivamente
diferente e de necessitar de implicações e recursos completamente visuais.
(PERLIN, 2004, p. 77-78).

Muitos surdos, no Brasil, usam e desenvolvem a LIBRAS, alguns vivem isolados


ou em locais onde não existe ou não se conhece a comunidade surda, e se comunicam
através de mímicas ou gestos soltos que se fazem compreendidos por aqueles que
vivem ao seu redor. A construção da identidade da pessoa surda ocorre inicialmente
através de sua aceitação, reconhecimento do seu “eu” como surdo, esse processo

44 Libras
ocorre de forma gradativa, muitas vezes na infância ou na fase adulta, com contato
com surdos e participação na comunidade surda.

Muitos fatores podem contribuir para o andamento desse processo, dentre


estes, podemos destacar a família, que dependendo de sua formação e envolvimento,
poderá ajudá-lo a se encontrar como sujeito surdo, pois geralmente quando uma
família descobre que tem um filho com surdez essa entra em estado de choque e
mistura emoções, tristeza, culpa, surpresa, dúvidas, dentre outros fatores.

Essa reação inicial é comum, pois a maioria dos ouvintes não conhece as
possibilidades de desenvolvimento do surdo e acredita que em sua família possui
um deficiente e não um sujeito diferente, com língua diferente, mas com a mesma
capacidade intelectual de qualquer outra pessoa dita “normal”. Muitas famílias
superprotegem seus filhos não os deixando ser independentes ou não acreditando
que são capazes de levar uma vida comum, sem a presença de outra pessoa para
acompanhá-lo à escola, trabalho, associações, lazeres...

Podemos destacar outro ponto importante para nossa discussão que é a forma
como é repassada essa informação para a família pelos profissionais da saúde, pois
muitos dizem que o surdo precisa urgente de treinamento de voz, para que esse se
ajuste a sociedade através da correção da fala, dos exercícios terapêuticos, leitura
labial. É preciso que os profissionais da área da saúde estejam também conscientes
da cultura surda, em orientar a família de forma adequada e não criando mitos
como: a LIBRAS prejudica a capacidade intelectual, cognitiva da pessoa surda e a
desestimula a falar.

O sujeito surdo pode perfeitamente fazer treinamento auditivo, impostação


de voz e usar LIBRAS como sua língua natural, mas se este for o seu desejo e de sua
família, pois a língua de sinais não impede o desenvolvimento da fala do surdo.

Mas existem fatores que podem dificultar o desenvolvimento do surdo,


podemos citar:

• Período em que a surdez é descoberta;

• Encaminhamentos equivocados;

• Filosofias, pensamentos educacionais equivocadas;

• O envolvimento da família com a educação do filho;

• Metodologia educacional escolhida, entre outros.

Libras 45
O processo de conscientização e esclarecimento é demorado, mas precisamos
trabalhar para fazer a diferença na vida de pessoas surdas, pois muitas vezes a própria
família acha ‘feia’ a LIBRAS e é nesse momento que a Cultura Surda faz a diferença
juntamente com os ouvintes da família do surdo, amigos, até mesmo a sociedade,
somente a partir desses elementos envolvidos a Educação dos Surdos pode avançar.

Conhecendo a Surdez e suas Causas

Estima-se que pelo menos uma em cada mil crianças nasce profundamente
surda. Muitas pessoas desenvolvem problemas auditivos ao longo da vida, por causa
de acidentes ou doenças.

Existem dois tipos principais de problemas auditivos. O primeiro afeta o


ouvido externo ou médio e provoca dificuldades auditivas “condutivas” (também
denominadas de “transmissão”), normalmente tratáveis e curáveis. O outro tipo
envolve o ouvido interno ou o nervo auditivo. Chama-se surdez neurossensorial.

Surdez: Graus e Perdas

Em média noventa por cento das pessoas com surdez nascem de famílias
ouvintes, ou seja, que ouvem, sem restrições auditivas e noventa por cento das
pessoas surdas tem filhos ouvintes, por isso devemos realçar o papel fundamental
das escolas, que atendem crianças surdas, a transmissão da língua e da cultura da
comunidade surda.

Caros estudantes, para começarmos nossa unidade que aborda assuntos


relacionados à cultura, linguagem, o significado e a importância da LIBRAS para a
comunidade surda é preciso conhecer e entender os tipos de surdez, sabendo que
para a educação de pessoas surdas, o enfoque central é a LIBRAS, independente de
seu grau de perda auditiva, ela visa socializar e integrar o surdo à sociedade.

46 Libras
Veja o quadro, a seguir, e conheça a Surdez Condutiva, Sensório-Neural, Mista
e Central:

Surdez Condutiva Interferência na transmissão do som desde o conduto auditivo


externo à orelha interna, conhecida como cóclea. A cóclea possui sua
capacidade funcional normal, mas não é estimulada pela vibração
sonora, que poderá ocorrer com o aumento da intensidade do
estímulo sonoro.
Surdez Sensório-Neural Impossibilidade de recepção do som por lesão das células ciliadas da
cóclea ou nervo auditivo.
Surdez Mista Ocorrida pela alteração na condução do som até o órgão terminal
sensorial associado à lesão do órgão sensorial ou do nervo auditivo.
Surdez Central Esse tipo de surdez não, necessariamente, acompanha uma
diminuição da sensitividade auditiva, mas se manifesta por graus
diversos de dificuldade de compreensão de informações sonoras
devido às alterações nos mecanismos de processamento da
informação sonora no sistema nervoso central.

Surdez e perdas auditivas:

• Surdez leve: perda auditiva entre 25db e 40db;

• Surdez moderada: perda auditiva entre 41db e 55db;

• Surdez acentuada: perda auditiva entre 56db e 70db;

• Surdez severa: perda auditiva entre 71db e 90db;

• Surdez profunda: perda auditiva acima de 91db.

Podemos definir essa classificação, basicamente assim:

• Surdez Leve: Distinção da linguagem falada;

• Surdez Média: Distingue barulhos;

• Surdez Profunda: Não percebe nem os grandes ruídos.

Libras 47
Linguagem e Surdez

Conforme a teoria de Vygotsky a linguagem surge inicialmente como um meio


de comunicação entre a criança e as pessoas em seu ambiente. Sabe-se que essa
linguagem está presente no comportamento dos homens. A linguagem é o meio
de comunicação dos homens, sendo o modo de se comunicar natural ou artificial.

A criança surda não nasce muda, nasce chorando como qualquer outra, por isso
não podemos dizer que existem surdos-mudos. Assim como uma criança ouvinte, a
surda possui suas cordas vocais em perfeito estado. Ao nascer, a criança busca imitar
todas as ações do adulto, inclusive a fala, mas se essa não recebe estímulo auditivo,
logo não conseguirá imitar, produzir a fala igual a dos adultos ouvintes, enquanto a
criança ouvinte automaticamente, sem esforços, reproduzirá.

As crianças surdas passam por um período inicial que se assemelham ao balbucio


das crianças ouvintes. É nessa fase que produz sequências que, fonologicamente,
assemelham-se a sinais do mesmo modo de desenvolvimento. Período apresentado
desde o nascimento, até por volta dos quatorze meses de idade. O balbucio é fruto
da capacidade inata da linguagem, manifestada não só através de sons, mas também
por sinais, bebês surdos possuem balbucios manuais: silábicos e gesticulação. Os
silábicos apresentam combinações fonéticas das LS, enquanto que as gesticulações
não apresentam organizações internas.

O surdo aprende a nomear e unir o sinal ao objeto, produzindo suas primeiras


“palavras”. Assim como a criança ouvinte não pronuncia corretamente as palavras
nesta fase, as crianças surdas também fazem os sinais com erros nos parâmetros,
alterando a configuração das mãos, o ponto de articulação ou o movimento, mas o
adulto surdo, assim como o ouvinte, compreende o que está sendo falado.

Em torno dos dois anos e meio, a criança começa a produzir frases de dois
sinais, essa fase continua até os cinco anos quando já produz frases maiores e mais
complexas. Pode-se perceber que o processo de aquisição da língua de sinais é
semelhante ao da língua oral-auditiva e quanto mais cedo ela entrar nesse processo,
mais “natural” será. A leitura e a escrita da Língua Portuguesa para o surdo deve ser
ensinada como uma segunda língua e o estudante necessita ter domínio de sua
língua “natural” para que este processo ocorra de forma eficaz.

48 Libras
O processo aquisitivo da língua de sinais é igual ao da língua oral-auditiva. À
medida que a criança se desenvolve e interage de forma contextualizada e “natural”
com os usuários da língua, ela vai se apropriando e desenvolvendo a compreensão
e expressão desse sistema.

A criança ouvinte percebe através da audição o que está acontecendo ao seu


redor e vai desenvolvendo sua personalidade conforme as experiências vividas.
Mas a linguagem não se desenvolve unicamente através da audição, mas sim
da oportunidade de comunicação. O uso das LS não nega o surdo o direito de
integração na sociedade, pelo contrário, quanto mais cedo o seu uso, mais rápido
se desenvolverá cognitivamente e emocionalmente.

Bilinguismo, Linguagem, Língua de Sinais e Educação

Podemos definir língua comzo uma linguagem, sistema abstrato e repleto de


regras e conceitos indicando uma estrutura em diversos planos. Para que isso ocorra,
ela deve ser acessível, eficaz e praticável. A língua de sinais é estruturada pelo o
processo visual do cérebro que processa estímulos eficientes. Através dessa língua
o surdo pode comunicar-se livremente, pois, novas informações são processadas e
compreendidas, sendo capaz de receber e decodificar significados. Essas estruturas
e significados tornam a língua possível.

Portanto, a língua é uma forma de linguagem, pois, está dentre os diversos


meios de comunicação. Como a língua oral, a Língua de Sinais Brasileira possui
gramática própria, sua estrutura é diferenciada da Língua Portuguesa Brasileira,
sendo enfatizada como natural, ou seja, não artificial, por possuir equivalência a
qualquer outra língua natural conhecida.

Como não existe apenas uma língua oral no mundo, também não há uma só
Língua de Sinais, mas existem várias comunidades linguísticas, conforme a língua
oral. Muitas pessoas pensam que a Língua de Sinais é o Português nas mãos, no
qual os sinais substituem as palavras, crendo que é limitada, expressando apenas
situações concretas, não sendo capaz de transmitir ideias abstratas.

A língua de sinais não é uma decodificação da língua oral, pelo contrário, tem
a sua própria estrutura gramatical que deve ser aprendida igual a todas as outras
línguas, diferencia-se da língua oral, pois, seu canal comunicativo é a visão e não a
audição como na língua oral utilizada por ouvintes.

Libras 49
Ao aprender a língua de sinais, a criança surda desenvolve de forma mais
rápida a língua oral na modalidade escrita, além de compreender o mundo em que
está inserido. A escola deve proporcionar oportunidades na qual a criança possa
desenvolver também sua identidade pessoal.

A imensa quantidade de surdos que não tem direito de se educar com


qualidade ou até mesmo de não se educar, no sentido literal, vem revelando um
quadro apavorante. A esses surdos são privadas a possibilidade de exercerem sua
cidadania e identidade como uma pessoa normal. De acordo com dados oferecidos
pela Comissão de Direitos Humanos da Federação Mundial dos Surdos (World
Federation of the Deaf, WFD), no ano de 1995, aproximadamente 80% das pessoas
surdas do terceiro mundo não recebem nenhuma educação básica.

50 Libras
COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS DA CONFEDERAÇÃO MUNDIAL DOS
SURDOS : A Federação Mundial dos Surdos (FMS), os seus membros e os 2.100
participantes de 125 países no Mundial XVI Congresso da Federação Mundial de
Surdos em Durban, África do Sul, 18-24 Julho de 2011.

Recordando a Declaração do Alto Comissariado da ONU para os Direitos


Humanos na Cerimônia de Abertura do Congresso Mundial“, a participação é um
princípio fundamental dos direitos humanos. No entanto, sem acesso adequado
à interpretação em língua de sinais, educação bilíngue e o reconhecimento da
língua de sinais como língua, há importantes barreiras para o pleno exercício
por pessoas surdas de seus direitos humanos. Reafirmando a importância da
Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e
seu Protocolo Facultativo, especificamente:

Artigo 3: o respeito pela diferença e pela aceitação das pessoas surdas


como parte da diversidade humana e da humanidade;

Artigo 9: possibilitar às pessoas com deficiência participar plenamente


em todos os aspectos da vida, incluindo acesso à informação e comunicação,
incluindo fornecimento de intérpretes profissionais de língua de sinais;

Artigo 21: reconhecer e promover o uso de línguas de sinais;

Artigo 24: garantir que a educação de crianças surdas seja ministrada


nas línguas mais adequada para o indivíduo e no ambiente que maximiza o
desenvolvimento acadêmico e social e empregando professores que são
qualificados em língua de sinais;

Artigo 25: garantir às pessoas surdas o direito ao gozo do mais alto nível
possível de saúde sem discriminação;

Artigo 30: reconhecer o direito das pessoas surdas a participar em pé de


igualdade com os outros na vida cultural, incluindo o reconhecimento e apoio
de línguas de sinais e cultura; surda,

Lembrando também que as mulheres surdas e as meninas são


frequentemente vítimas de discriminações múltiplas e enfatizando a necessidade
de incorporar uma perspectiva de gênero em todos os esforços para promover
o pleno gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais pelas pessoas
com deficiência.

Leia mais em: http://www.inclusive.org.br/?p=20850

Libras 51
O bilinguismo defende que a língua de sinais e a língua oral sejam utilizadas
pelos surdos sem que uma prejudique a outra, tendo como objetivo principal do
enfoque bilíngue, que o surdo aprenda comunicar-se pelas duas línguas. Acredita-
se que, por intermédio da língua materna do surdo (língua de sinais), este possa
desenvolver-se linguisticamente e cognitivamente sem enfrentar tantas dificuldades.
Essa ideologia é de postura política, cultural, social e educacional, não se resumindo
apenas à aquisição de duas línguas.

É necessário que os profissionais percebam a importância da Língua de Sinais


para o desenvolvimento do surdo. Pois, essa é a língua que pode ser adquirida de
forma espontânea através das relações sociais e diálogos do cotidiano. O bilinguismo
é simples e eficaz, pois o surdo adquire a Língua de Sinais na mesma rapidez que o
ouvinte adquire a língua oral. Sua origem se dá pela insatisfação dos surdos com a
proibição da língua de sinais e através das mobilizações em busca das conquistas
de direitos linguísticos.

A proposta bilíngue para surdos é definida como uma oposição às práticas


características da educação e da escolarização dos surdos nas últimas décadas. Todos
os que compõem o estabelecimento de ensino necessitam preparar-se melhor para
atender esses estudantes. Esses profissionais devem utilizar-se da língua de sinais
para que o discente possa melhor aprender, percebendo que essa língua é visual,
podendo desenvolver através do ver, tocar, descobrir o mundo a sua volta, trazendo
o meio social em que ele está inserido para as práticas de ensino.

Como um estabelecimento de ensino, a escola deve estar preparada para


atender os estudantes surdos, disponibilizando professores, administradores e
profissionais preparados e capacitados para adequar-se a essa realidade.

A escola tem que estar preparada para o repasse de conteúdos, incentivando


os familiares a compartilharem da vida escolar de seus filhos, participando também
no processo de ensino de LIBRAS, (no caso de pais ouvintes não conhecedores da
Língua de Sinais) e conhecer mais da Cultura Surda para haver uma melhor interação
na comunicação familiar. Este incentivo e estímulo são um grande apoio por parte
da família para com esses estudantes.

O grupo de educadores de surdos, por sua vez, deve repassar aos familiares
a importância da língua de sinais para o estudante surdo, explicando que este
poderá aprender a língua oral, assim como o estudante ouvinte, pois existe uma
comunicação visual (a língua de sinais), que ao ser utilizada pelo surdo permite o
desenvolvimento da linguagem, podendo descobrir o mundo de diversos sentidos
que está ao seu redor.

52 Libras
A escola tem um papel importante para o estudante surdo e seus familiares;
o de propagar que uma pessoa surda não tem um mundo de tragédias pela frente,
pelo fato desta não se comunicar como a pessoa ouvinte, mas sim com um mundo
de possibilidades, pois estão à frente de uma forma diferente de comunicação que
envolve uma cultura e uma língua visual-espacial.

Nessa proposta de ensino, a língua oral deve ser baseada em técnicas de


aprendizagem de segunda língua, enfatizando a leitura e a escrita como modalidades
de acesso a língua majoritária (em oposição ao acesso através da metodologia oral).

A língua oral deve ser ensinada em momentos específicos das aulas e os


estudantes deverão saber que estão trabalhando com o objetivo de desenvolvê-la,
trabalhando a leitura e a escrita.

A proposta bilíngue concebe o seu desenvolvimento, baseando-se em


técnicas de ensino de segunda língua, ou seja, o ensino da língua oral deverá ser
ministrado enfatizando a escrita, considerando que o canal de aprendizagem do
estudante surdo é o visual, podendo este ter acesso ao processo de aprendizagem
e do desenvolvimento linguístico e cognitivo. Essa técnica parte das habilidades
interativas e cognitivas já adquiridas pela criança ao longo de suas experiências
naturais com a língua de sinais, que é considerada como primeira língua. A língua
de seu país será considerada como segunda língua.

A escola precisa atender o surdo como um membro pertencente a sua


comunidade cultural, social e linguística, ou seja, precisa haver interação entre a
criança surda e a escola, um surdo adulto ou um Intérprete/Tradutor de Língua
de Sinais. Essa presença terá grande valor no desenvolvimento do estudante,
possibilitando que ele construa sua própria identidade e consequentemente
desenvolva a sua língua natural.

Por meio da interação, adulto / criança ou criança / criança, o sujeito reage,


constrói e organiza seu conhecimento. Ao transmitir seus conhecimentos para as
crianças, o adulto acaba por interferir no desenvolvimento da cognição e propicia
o desenvolvimento linguístico da mesma. Na situação de interação com o outro,
a linguagem é construída em conjunto, e, por intermédio de alguns processos
dialógicos, a criança se torna um ser na linguagem.

O principal propósito de uma língua é a transferência de informações entre


duas ou mais pessoas. Através da interação, a criança aprende com o adulto a sua
língua. Na vida das crianças surdas é crucial esse entrosamento entre o adulto e a

Libras 53
criança para obter a aprendizagem dessa língua de modalidade gesto visual, que
traz movimentos expressivos que, por sua vez, são interpretados pela visão.

Para que o estudante possa desenvolver a linguagem e o seu pensamento,


a escola deve proporcionar a ele um ambiente favorável que o levará ao ensino
da segunda língua, esse ensino deve ser específico, sempre mostrando o que está
sendo trabalhado e sua finalidade, tendo como objetivo principal desenvolver a
língua oral. A língua de sinais é capaz de fazer com que o surdo possa perceber um
mundo repleto de aprendizagens que por ele pode ser conquistado.

Observa-se que a maioria dos surdos é exposta à língua oral e não à língua de
sinais e, por eles não dominarem a língua oral e nem terem experiências linguísticas
ricas na língua de sinais, acabam por adquirir a escrita de maneira insatisfatória,
trazendo para esta última alguns aspectos característicos da LS, além das indequações
linguísticas vivenciadas na língua oral

A Língua de Sinais é a única língua na qual um surdo tem condições para


poder aprender e garantir um desenvolvimento sem atraso. A LS é indispensável à
apropriação da linguagem pela criança surda. Somente a língua de sinais permite
que seja estabelecida, para a criança surda, as condições naturais de apropriação
da linguagem devendo, portanto, ser a linguagem materna de todos os indivíduos
surdos.

A Escola e o ensino de LIBRAS

Educação Bilíngue para surdos deve se manifestar nos espaços escolares,


nas descrições formais e metodológicas situadas dentro e fora da proposta
pedagógica. As Escolas de Surdos possuem naturalmente responsabilidades extras
no desenvolvimento da primeira língua de seus estudantes, já que a maioria não
possui a língua de sinais como sua língua materna no sentido mais exato.

Atualmente na Educação de Surdos, é comum professores não acreditarem


que o surdo possa ser dispensado do processo tradicional de aprender a língua oral.
LIBRAS, por sua vez, sendo abordada como primeira língua em casa e na escola,
originam grandes benefícios para surdos brasileiros. Podemos mencionar, neste
caso específico, o fato de as informações poderem ser facilmente assimiladas, sem
esforços, fazendo com que as crianças surdas desenvolvam a língua de sinais da
mesma forma que as crianças ouvintes desenvolvem a língua oral.

54 Libras
Entende-se que o professor tem um papel importante nessa proposta,
como também se acredita que um professor não é formado por uma única
pessoa e sim por uma equipe de docentes que procura partir de um trabalho
constante de investigação e revisão de sua própria prática em confronto com
as percepções dos outros membros da equipe procurando o melhor método de
ensinar.

O componente metodológico tem uma função essencial, a visão bilíngue


de aprendizagem envolve tanto o conhecimento de línguas quanto a capacidade
de usá-la em qualquer contexto social. Ao estudante precisa ser apresentado, em
sala de aula, diversas situações de construção de significados para que ele possa
desenvolver suas habilidades, ativar seu conhecimento de língua e fazer sentido a
leitura e o texto que produzir.

O objetivo final dessa proposta é levar o estudante a continuar a aprender


por si mesmo, fora da escola e fora da sala de aula. Com essa proposta, bem
fundamentada, é possível reverter o quadro de apatia e fracasso em que parece
estar mergulhada a educação de nossos surdos.

Gramática da Língua de Sinais

A língua de sinais para o surdo pode ser adquirida espontaneamente. Ela é


composta de uma gramática construída de fonética, fonologia, morfologia, sintaxe,
semântica que apresentam especificidades e princípios básicos, possibilitando a
produção de uma infinidade de construções a partir de um número finito de regras.

Libras 55
Nas Línguas de Sinais podemos encontrar os seguintes parâmetros:

Formas exercidas pela mão na sinalização. Podem ser usa-


Configuração das as configurações do alfabeto, números ou pelas duas
de Mãos mãos (dependendo do significado do sinal). Sinais com a
mesma configuração pode ter significado diferente, con-
forme a produção dos movimentos e demais parâmetros.

Movimentos Os sinais podem ou não apresentar esse parâmetro.


Ponto de Local no espaço neutro ou no corpo que o sinal é desen-
Articulação volvido.
Orientação – Os sinais precisam ter uma orientação em relação aos
Direção demais parâmetros.
Expressões É de fundamental importância para a compreensão do
Faciais e sentido real do sinal e é comparada a entonação da voz
Corporais na língua oral.
FERREIRA, Brito, 1995

56 Libras
A configuração das mãos é a forma que as mãos assumem ao sinalizar
movimento, orientação direcional, ponto de articulação, localização do sinal no eixo
corporal e as expressões faciais. Um simples movimento de sobrancelha, duração do
olhar, pode expressar ideias totalmente diferentes, assim como os ouvintes mudam
a entonação de voz indicando na frase pronunciada elogio, desprezo, alegria ou até
mesmo tristeza, o surdo também pode através do olhar, expressar o mesmo.

A comunicação pode ocorrer de diversas maneiras, nem sempre recorremos à


linguagem falada ou sinalizada para nos expressarmos. Quando duas pessoas não
falam a mesma língua elas buscam meios que facilitem a sua comunicação seja
apontando, desenhando ou até mesmo fazendo gestos e mímicas para expressar
suas ideias.

As expressões faciais e corporais fazem parte da comunicação humana,


através destas, podemos revelar emoções, sentimentos e nossas intenções para o
receptor da imagem. No caso da língua de sinais essas desempenham um papel de
suma importância e são chamadas de marcadores não manuais.

Em LIBRAS os marcadores não manuais, ou expressões faciais podem ser


separados em dois grupos:

Expressões Afetivas Usadas para expressão de sentimentos como alegria,


tristeza, raiva, angústia, entre outros, podendo ou não
ocorrer simultaneamente com um ou mais item lexical.
Expressões Relacionam-se com estruturas específicas, tanto na
Gramaticais morfológica quanto na sintaxe. São obrigatórias nas
línguas de sinais em contextos específicos.

Assim como as línguas orais auditivas apresentam um sistema de estrutura,


formação das palavras e divisão em classes, a língua de sinais, também, apresenta essa
estrutura como morfologia que seria o espaço central, a forma semântica que seria
as expressões corporais e a sintática, as configurações de mãos. Nomes são situados
em pontos arbitrários em frente ao corpo do sinalizador e a referência subsequente
é expressa pelo movimento de apontar o lugar previamente estabelecido no espaço.

As classes de palavras (substantivos, adjetivos, verbos e advérbios) são


determinadas pelo contexto linguístico, alguns verbos são flexionados, marcando o
sujeito e o objeto, pela direção, ponto inicial e final do movimento do sinal. Os graus
aumentativos e diminutivos podem ser obtidos por expressões faciais acompanhadas

Libras 57
por sinais, a direcionalidade estabelece as relações características das preposições
e conjunções.

Fazendo parte do conjunto dos marcadores não manuais as expressões


faciais são acompanhadas de determinadas estruturas. Quando falamos sobre
o nível morfológico, algumas marcações não manuais são relacionadas ao grau,
apresentando estrutura padrão nos sinais que estão sendo produzidos.

Podendo assumir a função de adjetivo, as expressões faciais, podem incorporar


o substantivo independentemente da produção de um adjetivo, incorporando o
grau de tamanho, nos substantivos. A marcação de grau apresenta um padrão, uma
variação gradual de intensidade ou de tamanho.

• Podemos citar como exemplo de intensidade: amor, amorzinho e amorzão.

• Podemos citar como exemplo de tamanho: carro, carrinho e carrão.

As marcações não manuais são graduais, isto é, não são fixas, são produzidas
com diferentes intensidades, demonstrando tamanhos diversos, ou seja, pode
modificar a produção do sinal, quanto ao grau ou tamanho. Como exemplo,
podemos citar as modificações na configuração da mão.

Quanto à sintaxe, essas são responsáveis pela indicação das construções das
sentenças:

• Sentenças Afirmativas;

• Sentenças Negativas;

• Sentenças Interrogativas;

• Sentenças de Condição;

• Sentença de Relação, entre outras.

Dentro dessas expressões podemos citar os movimentos:

Movimentos da cabeça quando a sentença é afirmativa ou negativa, elevação ou


abaixamento da cabeça, franzir da testa, elevação de sobrancelha, direção do olhar,
piscar de olhos, movimentação dos lábios diferenciando os tipos de interrogativas,
entre outros movimentos.

58 Libras
Caros estudantes, dentro de uma sentença em LIBRAS é possível ter mais de
uma marcação não manual e sua ausência a deixa agramatical. Cada expressão
associa-se a uma estrutura sintática apresentando uma meta definida. Em relação à
sentença negativa esta pode apresentar-se de duas formas:

• ovimento de cabeça – apresenta uma distribuição mais ampla das


M
expressões faciais realizando apenas o “não” junto ao verbo, a sentença
completa ou se estende para além do último sinal da sentença;

• odificações no contorno da boca – abaixamento dos cantos da boca


M
ou arredondamento dos lábios, que está associado ao abaixamento das
sobrancelhas com um leve abaixamento da cabeça.

A sintaxe é o movimento de uma localização a outra, indicando a relação sujeito-


objeto, produzindo o movimento no sentindo locutor-interlocutor. A combinação
dos sinais apresenta suas próprias regras, que caracteriza a língua de sinais como
língua. A sintaxe estuda as inter-relações dos elementos estruturais da frase e das
regras que regem a combinação das sentenças.

A condição simétrica da sintaxe na língua de sinais estabelece o movimento


das duas mãos na produção do sinal, ambas com a mesma configuração, simetria
e movimento simultâneo ou alternado. No caso da configuração de mãos serem
diferentes, apenas uma das mãos se move, sendo esta considerada ativa, pois a
outra servirá de apoio.

Determinados em qualquer língua, quanto ao seu uso pelo contexto, os traços


semânticos, todas essas relações contribuem e interferem na relação da significação
e do uso, características que ocorrem naturalmente nas línguas de sinais, podendo
aparecer através das expressões faciais, manuais (caso o sinal seja feito lento, rápido,
suave...) ou corporais.

Abordaremos agora a fonologia que é um sistema de unidades distintivas


que constituem os sinais. O nível fonológico apresenta regras e combinações, entre
parâmetros de configuração de mão, movimento, localização e orientação das
palmas das mãos na formação dos sinais. Os sinais de pontuação como vírgulas,
ponto final, de exclamação, interrogação, são realizados através das expressões
faciais. Preposições e outras classes de palavras são inseridas na sinalização por
meio dos movimentos.

Libras 59
O eixo linearidade e a simultaneidade fazem parte da fonética, fonologia
das línguas de sinais. Linearidade são sequências de suspensões e movimentos.
Suspensões ocorrem quando os sinais são realizados com a(s) mão(s) parada(s)
e os movimentos ocorrem quando os sinais são realizados com a(s) mão(s) em
movimento.

Conforme as pesquisas sobre a gramática das línguas de sinais, alguns


estudos revelam que na morfologia desta também são encontrados os sufixos e os
prefixos, outro exemplo de derivação morfológica é a incorporação do numeral na
sentença, como podemos verificar em: UMA-SEMANA, DUAS-HORAS. Um processo
morfológico que ocorre na língua oral e, também, ocorre nas línguas de sinais é a
reduplicação, ou seja, a repetição do sinal para dar significado a uma expressão,
como podemos perceber em: TODO-DIA. Temos ainda, na morfologia, o sinal
composto como no sinal de escola: CASA+ESTUDAR=ESCOLA.

Podemos dizer que morfema é o menor signo linguístico, ou seja, a função que
une um significante a um significado. Uma palavra pode ser dividida em unidades
menores e cada unidade corresponde a um significante e um significado, esses
ajudam a formar uma nova palavra com um novo significado.

A área que estuda a sentença e sua estrutura chama-se sintaxe, seus estudos
estão centrados na ordem das palavras. Nas Línguas de Sinais, as sentenças que
mostram alterações da ordem Sujeito-Verbo-Objeto – SVO geralmente estão
acompanhadas de uma marcação não manual. A estrutura SVO pode ser alterada
na LS, a ordem mais comum diante essa alteração é a OSV. Podemos citar como
exemplo a sentença: CASA, MARIA, IR.

As línguas de sinais apresentam várias acepções como o uso de expressões


idiomáticas, metafóricas, figurativas, estilísticos e contextualizações que aceitam a
pressuposição e implícitos, que dá as LS o status de língua natural, em seu aspecto
gramatical e nas manifestações do simbólico. Como qualquer outra língua, a Língua
de Sinais vem aumentando o seu vocabulário para acompanhar o mundo atual,
mudanças culturais, tecnológicas, entre outras.

Ao aprender uma língua, adquirimos também os hábitos que fazem parte


daquela cultura, na cultura surda existem alguns elementos que são importantes,
por isso vamos destacá-los e comentá-los:

60 Libras
O Tradutor Intérprete de Língua de Sinais

Tradução, uma das atividades mais antigas do mundo, a origem desta palavra
deriva do latim traducere e, segundo o dicionário Aurélio, seu significado expressa
“conduzir além”, “transferir”. As discussões sobre o intérprete, enquanto profissional,
são relativamente recentes. No Congresso da Federação Mundial de Surdos, realiza-
do na Finlândia em 1987, houve a recomendação para que a formação de intérpre-
tes de língua de sinais contasse com as mesmas exigências daquelas vinculadas aos
intérpretes das línguas estrangeiras orais.

No período de 1995, em uma conferência ocorrida na Áustria, organizada


pela mesma Federação, foi estabelecida uma Comissão de Interpretação, o que
demonstrou um avanço nas discussões da comunidade surda mundial.

Com a Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002 e do Decreto nº L de 22 de dezembro


de 2005, regularizaram a Língua Brasileira de Sinais como a primeira língua oficial
do surdo, o tradutor/intérprete vem conquistando cada dia mais espaço no cenário
educacional brasileiro.

É através desse decreto, que considera como tradutor e intérprete da língua


de sinais e da língua portuguesa, aquele que interpreta de uma língua fonte para
uma língua alvo. Segundo tal decreto, a formação desse intérprete deve efetivar-
se por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em
LIBRAS/ língua portuguesa. Essa formação permite que o intérprete em LIBRAS atue
na educação infantil, na educação fundamental, ensino médio e na universidade.

Esse decreto evidenciou o papel do profissional intérprete de LIBRAS como


meio legal de garantir as propostas de inclusão do surdo previstas nas leis, neste
contexto de inclusão socioeducacional, a atuação desse profissional é de suma
influência para a pessoa surda e para a sociedade de modo geral.

Assim, a atuação do TILS (Tradutor intérprete de língua de sinais), é citada no


Decreto lei 5.296, de 2 de dezembro de 2004, que regulamenta a Lei 10.048, de 8
de novembro de 2000, que prioriza o atendimento às pessoas com necessidade
de mobilidade, idosos, gestantes, e 10.098, de 19 de Dezembro de 2000, idem,
expressa no seu artigo Art. 6º, capítulo III - serviços de atendimento para pessoas
com deficiência auditiva, prestado por intérpretes ou pessoas capacitadas em Língua
Brasileira de Sinais - LIBRAS e no trato com aquelas que não se comuniquem em
LIBRAS, e para pessoas surdas-cegas, prestado por guias-intérpretes ou pessoas
capacitadas neste tipo de atendimento.

Libras 61
DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art.


84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto nas Leis nos 10.048, de 8 de
novembro de 2000, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000.

§ 1o Considera-se, para os efeitos deste Decreto:

I - pessoa portadora de deficiência, além daquelas previstas na Lei no 10.690,


de 16 de junho de 2003, a que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de
atividade e se enquadra nas seguintes categorias:

a) deficiência física: alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos


do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-
se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia,
tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou
ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita
ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades
para o desempenho de funções;

b) deficiência auditiva: perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um


decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz, 1.000Hz,
2.000Hz e 3.000Hz;

c) deficiência visual: cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que


0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade
visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais
a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o;
ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores;

d) deficiência mental: funcionamento intelectual significativamente inferior à


média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais
áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação; cuidado pessoal; habilidades
sociais, utilização dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades
acadêmicas, lazer; trabalho;

e) deficiência múltipla - associação de duas ou mais deficiências; e

II - pessoa com mobilidade reduzida, aquela que, não se enquadrando no


conceito de pessoa portadora de deficiência, tenha, por qualquer motivo, dificuldade
de movimentar-se, permanente ou temporariamente, gerando redução efetiva da
mobilidade, flexibilidade, coordenação motora e percepção.

Leia mais em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/


d5296.htm

62 Libras
O intérprete de língua de sinais precisa se familiarizar nos discursos das
duas línguas em questão, neste caso, a LIBRAS e a Língua Portuguesa, buscando
conhecimento do vocabulário de palavras ou signos que ainda não possuem sinais
com significados equivalentes pelo fato de ser novo e desconhecido para uma
determinada comunidade surda, em decorrência do não acesso às informações.

Geralmente o não acesso a determinados vocabulários ocorre pelo fato deste


não fazer parte do convívio social e cultural, ou devido aos próprios fenômenos
linguísticos naturais em todas as línguas orais e de sinais, tornando-se assim,
de pouco interesse. Com a aparição de novos signos em virtude da evolução ou
surgimento de novas necessidades, sejam de cunho científico, de mercado de
trabalho ou tecnológico, o intérprete precisa estar capacitado para poder atender a
essa demanda, por isso este deve procurar uma formação.

O profissional tradutor é muito mais do que um especialista competente em


duas ou mais línguas, pois a tradução envolve uma aproximação ao texto de partida
com conhecimento de causa e sensibilidade, bem como uma percepção do lugar
que a tradução pretende ocupar no sistema da língua de chegada.

Quem desconhece o processo de tradução, possivelmente pode vir a tratar o


profissional tradutor como mero conhecedor de dois ou mais idiomas, mas traduzir
é bem mais complexo, pois além de envolver dois idiomas, as áreas ou tipos de
textos traduzidos são variados e nem sempre um bom tradutor de um determinado
tema será bom em outro.

Podemos definir tradução/interpretação como uma “transposição de


significados” entre textos e falas e/ou sinais de um idioma para outro. Um dos
primeiros escritores a desenvolver uma teoria que explicasse as funções, princípios
de um tradutor e o que seria a tradução, foi o humanista francês Etienne Dolet
(1509-1546), este afirma que tradução é “a maneira de bem traduzir de uma língua
para outra”.

Libras 63
Etienne Dolet

Pequeno tratado de Dolet é muito curto, pouco mais de 1.000


palavras. Goza a honra de ser o primeiro geral tratado teórico sobre
tradução escrita em vernáculo da Europa Ocidental. Há textos anteriores
em latim, e há também textos ocasionais, como prefácios, dedicatórias e
críticas, em várias línguas vernáculas, mas esta é a primeira reflexão geral
sobre a tradução em um vernáculo europeu.

Ele apareceu num momento em que a tradução para as línguas


vernáculas estava entrando em um período de aumento espetacular
na Europa, parte das momentosas mudanças sociais, econômicas,
tecnológicas, intelectuais e outros marcando a transição do medieval
ao início dos tempos modernos. Este foi também o período em que os
Estados-nação estavam sendo formadas. (Na Inglaterra, França e Espanha,
por exemplo). Entre eles, esses dois processos nos fornecer um general
contexto e uma causa imediata para nos ajudar a apreciar o tratado de
Dolet como pouco mais do que um general declaração sobre a tradução.

Vamos começar com uma leitura rápida, superficial. O que o


documento diz? Um resumo

Parece muito fácil, especialmente porque o tratado é muito bem


estruturado e sinalizado. O tradutor deve:

1.compreender o objeto do original;

2 estar familiarizado com as duas línguas envolvidas;

3 não traduzir palavra por palavra;

4 Siga uso comum, tanto quanto possível;

5 usar um estilo agradável.

Leia mais em: http://translate.google.com.br/translate?hl=ptBR&s-


l=en&u=http://www.ucl.ac.uk/translation-studies/translation-in-history/
documents/Hermans_pdf&prev=/search%3Fq%3Dbiografia%2Bde-
%2BEtienne%2BDolet%26newwindow%3D1

64 Libras
Algumas funções e atribuições do Tradutor:

• Deve compreender o sentido e a matéria do que está sendo traduzido;

• Deve conhecer a língua fonte e a língua alvo;

• O tradutor não deve fazer a tradução de palavra por palavra;

• Deve fazer uso de palavras usuais;

• Deve observar a harmonia do discurso.

Entre as funções deste profissional, está à elaboração de versões escritas em


livros, documentos e textos em geral, de uma língua para outra. A tradução sempre
foi uma atividade humana e esta também pode ser entendida como o ato de mape-
ar um texto, compreendê-lo e transportá-lo de um domínio a outro.

Tradução é uma atividade que abrange a interpretação do significado de um


texto em uma língua, o texto fonte, e a produção de um novo texto em outra língua,
mas que manifeste, na língua de destino, o mesmo sentido do texto original e da
forma mais exata possível. O texto resultante desse processo, também é denomina-
do tradução.

Já a interpretação é uma ação que consiste em estabelecer, simultânea ou con-


secutivamente, comunicação verbal ou não verbal entre duas comunidades que não
usam o mesmo código linguístico. É um termo que pode ter mais de um sentido,
tanto podendo referir-se ao processo quanto ao seu resultado.

Portanto, a interpretação consiste na descoberta do sentido e significado de


algo geralmente fruto da ação humana. Intérprete é aquela pessoa que interpreta,
isto é, que estabelece, simultânea ou consecutivamente, comunicação verbal entre
duas ou mais pessoas que não falam ou sinalizam a mesma língua. O intérprete
da Língua de Sinais, pode traduzir um discurso tanto oralmente como de forma
sinalizada podendo traduzir palestras, discursos, reuniões, videoconferências, entre
outras atividades que exija a sua presença.

Para isso, esse especialista precisa dominar o vocabulário, a gramática, as gírias


e as expressões coloquiais da língua oral e da língua de sinais oficial de seu país.
Também é necessário que este conheça os costumes, as tradições, história e a cul-
tura dos povos surdos assim como a linguística, gramática e compreensão de textos
escritos, oralizados ou sinalizados.

Libras 65
Entre todas essas questões teóricas está também, uma questão imprescindível,
a prática, dispondo de habilidade metodológica para realizar escolhas lexicais,
estruturais e semânticas apropriadas às duas línguas, possibilitando tanto ao emissor
quanto ao receptor compreender e ser compreendido nas línguas envolvidas.

No mercado de trabalho a demanda por tradutores/intérpretes de Língua de


Sinais cresce a cada dia. Este profissional pode, além de ser tradutor, especializar-
se em diversos temas e áreas, como Pedagogia, Fonoaudiologia, Psicopedagogia,
Língua Portuguesa, Direito, Medicina, entre outras áreas em que possa desenvolver
junto ao sujeito surdo um trabalho de excelência, lidando com a linguagem e os
termos próprios dos vários campos de atuação suprindo a necessidade em várias
áreas de atuação: seja em instituições educacionais, jurídica, de saúde, comerciais,
científicas ou até mesmo tecnológicas, dentre outras.

Os artigos 2º e 3º da Lei nº 10436, de 24 de Abril de 2002, reconhecida pelo


decreto de nº 5626 de 22 de dezembro de 2005, garante o direito à efetivação da
comunicação do surdo: “Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e
empresas concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar
o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS como meio de comunicação
objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil [...]”. As instituições
públicas e empresas concessionárias de serviços públicos de assistência à saúde
devem garantir atendimento e tratamento adequado aos portadores de deficiência
auditiva, de acordo com as normas legais em vigor.

A presença deste profissional nas instituições de ensino, principalmente nas


salas de aulas, é de suma importância para o aprendizado dos estudantes surdos
que têm como primeira língua a Língua de Sinais a utilizam como mediadora do
acesso aos conteúdos estudados em sala de aula. O intermédio entre língua de
sinais e língua oral contribui para o desenvolvimento e a melhor compreensão dos
conteúdos além de atender e respeitar à diversidade linguística e sociocultural
desses estudantes. 

O conhecimento e o desenvolvimento deste profissional se dá, muitas vezes,


através de trabalhos voluntários, ou seja, no acompanhamento do surdo em seu dia
a dia.

A legislação é a representação e concretização de uma etapa fundamental


na longa estrada pelo processo de reconhecimento e formação do profissional
intérprete/tradutor de língua de sinais, assim como, da sua inserção oficial no
mercado de trabalho.

66 Libras
Mas mesmo antes de ser respaldado de forma legal, ou seja, do reconhecimento
da lei, o intérprete/tradutor já se fazia presente na comunidade surda estabelecendo
interação, comunicação e divulgação da língua de sinais, buscando a efetivação da
comunicação do surdo entre a língua oral e a língua de sinais.

Esse profissional está diante das pessoas surdas como um representante visual
e sonoro compartilhando, muitas vezes, o mesmo espaço e abrindo as cortinas do
mundo incógnito. De acordo com Quadros e Stumpf (2008), o intérprete de Língua
de Sinais, quando em meio aos surdos deixa de ser vidente para ser visível. Sendo
assim percebido tanto pelas pessoas surdas, como pelas não surdas.

As Línguas de Sinais por possuírem uma modalidade visual espacial, torna-se


ainda mais complexa a sua interpretação. A interpretação/tradução implica em um
processo mental de compreensão e apropriação da mensagem no discurso, além de
contar com a agilidade técnica e motora.

O intérprete do idioma oral é reconhecido como profissional proficiente


em uma língua estrangeira, ou seja, um profissional realmente capacitado para a
realização de um trabalho que exige competência, agilidade, memória e raciocínio
rápido, assim como o tradutor de línguas de sinais, sendo que este, ainda, para uma
determinada parte da sociedade, não tem sua função firmada, pois este é definido
como apoio didático e recurso estratégico de comunicação com o surdo, este que,
em muitas situações e por muitas instituições, ainda é rotulado como um portador
de uma patologia ou deficiência.

Libras 67
68 Libras
3
PRÁTICA DE LIBRAS
CONHECIMENTO
Conhecer a Língua de Sinais na prática e compreender como alguns sinais são
semelhantes; Entender a importância da prática de LIBRAS para os sujeitos surdos
e ouvintes;
Compreender os diversos contextos em que a Língua de Sinais pode ser usada
e as diferentes situações que um sinal pode ser empregado.

HABILIDADES
Reconhecer a importante repercussão que a LIBRAS representa para a Comunidade
Surda e ouvintes;
Identificar a importância de LIBRAS para o processo de escolarização
do estudante com surdez.

ATITUDES
Praticar os sinais aprendidos e se comunicar com os sujeitos surdos da sociedade;
Levar o estudante a ser um profissional diferenciado, capacitado e conhecedor
da prática e teoria da Língua de Sinais;
Despertar no estudante o interesse em conhecer mais sobre a prática da Língua
de Sinais, mostrando que, hoje em dia, saber sinalizar é uma necessidade.

Libras 69
Iremos a partir de agora visualizar a LIBRAS na prática!

Vamos aprender? O alfabeto, saudações, semana, meses, números de 0 a 9,


verbos na LIBRAS, família, boas maneiras (por favor, obrigada, licença), adjetivos,
alimentos, frutas e estados.

Vamos iniciar essa unidade de ensino falando da importância da datilologia, pois


significa: soletração de uma palavra usando o alfabeto manual de LIBRAS. É realizado
por diferentes formatos das mãos que representam as letras do alfabeto e é utilizado
para escrever no ar, soletrar no espaço neutro palavras que não possuem sinal.

Libras 71
Alfabeto

72 Libras
Porém a soletração de uma palavra em português pode ocorrer em pelo me-
nos dois casos:
Na LIBRAS existem palavras que não tem o sinal, tais como acontece em:

MAIO

Agora é a hora de treinar seu nome! Observe todas as letras e pratique seu
nome e ensine as pessoas o que você aprendeu!

KARINA

Saudações

O movimento envolve uma alargada rede de formas e direções, envolvendo os


movimentos internos da mão, os movimentos do pulso, os movimentos direcionais
no espaço e os conjuntos de movimentos no mesmo sinal. O movimento que as
mãos descrevem no espaço ou sobre o corpo pode acontecer em linhas retas, cur-
vas sinuosas ou circulares em várias direções e posições (FERREIRA BRITO, 1995).

Libras 73
No que diz respeito à direcionalidade os movimentos durante a realização de
um sinal, podem ser:

• Unidirecional: movimento em uma direção no espaço;

• Bidirecional: movimento realizado por uma ou ambas as mãos, em duas


direções diferentes;

• Multidirecional: movimentos que exploram várias direções no espaço.

Observe agora as saudações:

Bom Dia!

Boa Tarde!

Boa Noite!

74 Libras
Tudo bem? Tudo Bem!

Conversa! Desculpe!

Esperar Lá fora!

Libras 75
Mais ou menos Nome

Oi! Ok!

Ouvinte Precisar

76 Libras
Ruim Sinal

Surdo Também

Tradutor de Intérprete

Libras 77
Vamos? Vim até aqui!

Dias da semana e meses

Vamos conhecer os sinais de dias da semana e mês em LIBRAS? Depois pratique


com seus colegas!

Dias da semana

Segunda-feira Terça-feira Quarta-feira

78 Libras
Quinta-feira Sexta-feira Sábado

Domingo

Meses do Ano

Janeiro Fevereiro Março

Abril Maio Junho

Libras 79
Julho Agosto Setembro

Outubro Novembro Dezembro

Números

Conheça agora os números quando os relacionamos a quantidades:

80 Libras
Membros da família

Para aprofundar mais o seu conhecimento, você vai aprender os sinais dos
principais membros da família em LIBRAS!

Família

Pai

Mãe

Libras 81
Irmão

Vovô

Vovó

Adjetivos
Aprendendo os adjetivos em LIBRAS! Você verá alguns dos mais importantes,
tais como alto, baixo, bonito, feio, gordo e magro. Vamos ver como os surdos
reconhecem a característica de algumas pessoas? Fiquem atentos para aprender!

82 Libras
Alto Baixo Estreito

Feio Largo

Lindo

Libras 83
Materiais escolares

Apresentaremos os materiais escolares em LIBRAS, para que você aprenda


todos eles!

Apontador Borracha Cadeira

Caneta Lápis Papel

Tesoura

84 Libras
Expressões faciais e movimentos com o corpo

As expressões faciais têm fundamental importância para o entendimento


real do sinal. Muitos sinais apresentam também como elemento diferenciador a
expressão facial e corporal, traduzindo sentimentos e atribuindo desse modo
mais sentido ao enunciado e em muitas situações determinando o significado do
sinal. As expressões faciais são muito importantes para os surdos, pois facilitam a
comunicação dos mesmos e o entendimento das palavras.

Ela pode também expressar as diferenças entre sentenças afirmativas,


interrogativas, exclamativas e negativas. Agora vocês irão conhecer vários tipos de
frases (interrogativas, afirmativas, negativas).

Alimentos

Você conhecerá alguns sinais de alimentos e aprenderá!

Arroz Feijão

Libras 85
Macarrão Biscoito

Frutas

Depois de ter aprendido alguns alimentos em LIBRAS, vamos conhecer as


frutas?

Laranja Limão


Maracujá Melão

86 Libras
Animais

Você conhecerá alguns animais e seus sinais em LIBRAS. Então atenção e


pratique!

Aranha Cachorro

Elefante Vaca

Verbos

Você aprenderá alguns verbos e seus respectivos sinais!

Brincar Ler

Libras 87
Querer Trabalhar

Condições climáticas

Você irá conhecer alguns sinais de condições climáticas e aprender seus sinais.

Calor Chuva

Frio Vento

88 Libras
Cores

Vamos aprender as cores em LIBRAS? Então vamos lá e atenção!

Laranja Amarelo

Azul Branco

Preto Rosa

Vermelho

Libras 89
Profissões
Agora verá algumas profissões em LIBRAS, vamos exercitar.

Digitador Fotógrafo

Juiz Médico

Estados Brasileiros
Agora vamos viajar pelos Estados brasileiros e conhecer o nome de todos eles
em LIBRAS?

Acre Rio Branco

90 Libras
Alagoas Maceió

Amapá Macapá

Amazonas Manaus

Bahia Salvador

Libras 91
Ceará Fortaleza

Distrito Ferderal Brasília

Espírito Santo Vitória

Goiás Goiânia

92 Libras
Maranhão São Luís

Mato Grosso do Sul Campo Grande

Mato Grosso Cuiabá

Minas Gerais Belo Horizonte

Libras 93
Pará Belém

Paraíba João Pessoa

Paraná Curitiba

Pernambuco Recife

94 Libras
Piauí Teresina

Rio Grande do Sul Porto Alegre

Rio de Janeiro Rio de Janeiro

Rio Grande do Norte Natal

Libras 95
Rondônia Porto Velho

Roraima Boa Vista

Santa Catarina Florianópolis

São Paulo SP

96 Libras
Sergipe Aracajú

Tocantins Palmas

Libras 97
Rs
REVISANDO
É uma síntese dos temas abordados com a
intenção de possibilitar uma oportunidade
para rever os pontos fundamentais da
disciplina e avaliar a aprendizagem.
Vimos nessa unidade de ensino que na história dos surdos eles eram vistos
com olhares diferentes, pois eram rotulados como uma aberração, inatos, isolados,
não casavam, não herdavam a herança da família e a igreja os considerava sem sal-
vação.

No Egito eram vistos como mediadores entre os deuses e os Faraós, os ro-


manos privavam dos direitos legais, os gregos os lançavam do alto dos rochedos.
Alguns filósofos antigos como Platão e Aristóteles estavam também em sintonia
com eles. Santo Agostinho tinha a ideia de que os pais dos surdos haviam cometido
algum pecado e estavam pagando por isso.

Ao longo do período da história, os estudantes eram exclusos da educação. A


partir do século XVI, os nobres que tinham filhos surdos passaram a se preocupar
com a educação, pois tinham receio de que quando morressem seus filhos não her-
dassem o direito dos seus bens.

A partir daí, surgiram vários educadores e pesquisadores da surdez que se


destacaram. Podemos citar Pedro Ponce de Leon que se dedicou a ensinar os surdos
filhos dos nobres, ensinando-os a falar diversas línguas inclusive a datilologia.

Abade L’Epée se destacou bastante na educação de surdos, ensinou e os


apoiou , criando uma escola pública, o Instituto Nacional de Jovens Surdos-Mudos,
em Paris, educando os surdos através do método combinado ou sinais metódicos.

Ele aprendeu a língua gestual pelos franceses e utilizava em suas aulas acres-
centando gestos que ele mesmo criava. Acreditava na Língua de Sinais, embora não
considerasse a língua com aspectos gramaticais. Ele se aproximou dos surdos crian-
do sinais metódicos, uma mistura da Língua de Sinais com a gramática francesa.

O século XVIII foi um período que houve um grande aumento nas escolas de
surdos, e através de sinais podiam se comunicar e se integrar a sociedade dominan-
do diversos assuntos e exercer várias profissões.

Na Alemanha, por volta de 1750 Samuel Heinicke inseriu a Filosofia Educacio-


nal Oralista, que tinha como objetivo a sua utilização sem o uso da Língua de Sinais.

Com os avanços tecnológicos, a oralização ganhou força motivando profissio-


nais a investir neste método, pois muitos achavam e ainda acham que a Língua de
Sinais é prejudicial ao estudante surdo.

Libras 99
A Oralização dominou por muito tempo, mas foi a partir de 1880 no Congres-
so em Milão que um grupo de ouvintes decidiu excluir a Língua de Sinais a adotar
somente a Oralização. Os estudantes que eram vistos utilizando a Língua de Sinais
eram castigados.

O método da oralização rebaixou o nível acadêmico desses estudantes, pois


essa língua não era o suficiente para o aprendizado da escrita e da leitura devido ao
vocabulário reduzido.

O ensino das outras disciplinas foi deixado de lado e houve uma queda no
aproveitamento dos estudantes surdos. William C. Stokoe Jr. pesquisador da Língua
de Sinais enfatizou que essa é uma língua com características iguais às das línguas
orais.

Na década de 60, Ray Hoolean adotou a Comunicação Total, na qual eram uti-
lizadas várias formas de comunicação. Alguns países perceberam que a Língua de
Sinais não deveria ser utilizada junto com a língua oral.

A Comunicação Total possui objetivos básicos, o de facilitar a integração do


surdo com o meio, e fornecer condições adequadas para o bom desenvolvimento
psicolinguístico. Seja pela linguagem oral, por meio dos sinais, datilologia ou pela
combinação de todos os métodos, a Comunicação Total permite uma aproximação
entre as pessoas envolvidas na educação dos surdos.

Em meados de 1980 a 1990 surge a Filosofia Bilingue, em que os surdos te-


nham como sua primeira língua a Língua de Sinais e tendo a língua oral como a
segunda língua de seus pais.

Foi percebido que mesmo utilizando a Língua de Sinais a Comunicação Total


apresentou dificuldades no quesito escrita e leitura, foi constatado que a utilização
das duas línguas, tanto a oral e a Língua de Sinais podiam andar juntas, mas não
simultaneamente.

Nesta unidade de estudo podemos conhecer um pouco sobre a aquisição da


linguagem pelas pessoas surdas, a estrutura gramatical das línguas de sinais e um
pouco sobre a cultura e identidade do povo surdo.

Em nossos estudos percebemos que é importante que seja visto na surdez


primeiramente a pessoa surda, ou seja, ver o surdo como pessoa e não como um
“deficiente”, ver que este é um sujeito que usa uma comunicação diferente, mas que
esta forma diferente de comunicação não o priva de se relacionar, pensar e agir. A
comunicação humana faz com que o ser humano se relacione no meio em que vive

100 Libras
e com mundo, seja esta comunicação realizada através da fala, mímicas, gestos, de-
senhos, tanto na área da educação, como nas demais esferas de atividade humana.

Dentre as várias possibilidades de comunicação, destacamos os textos escritos


e neste ponto, a leitura destes textos é um dos meios pelo qual se obtém conheci-
mento das mais diversas áreas, facilitando então a argumentação e o vocabulário
para uma posterior produção de um texto escrito.

A obra Diretrizes Nacionais Para a Educação Especial na Educação Básica. Se-


cretaria de Educação Especial, (2001) reflete que a educação é o principal alicerce da
vida social. Ela conduz amplia a cultura estende a cidadania, constrói saberes para o
trabalho. Mais do que isso, ela é capaz de ampliar as margens da liberdade humana,
à medida que a relação pedagógica adote como compromisso e horizonte ético
político, a solidariedade e a emancipação.

O aprendizado e a aquisição da linguagem são necessários à vida daquele que


busca o conhecimento, através destes, é possível formar um pensamento crítico, ter
opinião própria e ter argumentação para se defender nas mais diversas situações
impostas pela vida, e no caso da pessoa surda, não são diferentes.

E a escola tem grande parcela de responsabilidade para com o incentivo à lei-


tura, pois promove este hábito nas crianças, estas irão crescer sabendo que a leitura
enriquece o conhecimento e exerce fundamental relevância na vida do ser humano,
o mesmo acontece com o surdo que aprende a LIBRAS.

É por meio da linguagem que o homem dimensiona o seu mundo interior, o


mundo ao seu redor, o mundo pelo qual sonha, criando valores, relações sociais,
aspirações de justiça e liberdade, ou seja, a linguagem afirma a pessoa e a humani-
dade como sujeitos de seu próprio destino. A linguagem permite ir além dos limites
individuais saindo do mundo pessoal expressando as individualidades, acolhendo
diferenças, descobrindo através das interações, construindo e compartilhando um
mundo melhor.

Os estudantes surdos estão inseridos nas instituições de ensino, sejam estas


especiais, regulares/inclusivas, na Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio
e Superior e a partir de sua inserção na escola, surgem propostas metodologias,
adaptações e mudanças, pois estes possuem direito a apoio tecnológico e humano,
no último, caso encontra-se o tradutor/interprete.

A presença, o trabalho e a função do Intérprete/Tradutor de Língua de Sinais


ainda não são bastante conhecidos e reconhecidos no âmbito institucional. No Bra-
sil, ainda há poucos estudos que respaldam esse profissional, assim como profis-
sionais capacitados para atuarem em diversas áreas que precise de sua atuação,
exercer essa função vai além da busca de solucionar as lacunas da comunicação.

Na busca de solucionar as dificuldades de comunicação e de ensino aprendi-


zagem apresentadas por seus estudantes surdos, as instituições escolares precisam
ir em busca de desenvolver novas propostas de apoio específico, de forma perma-
nente ou temporária, para alcançar as metas educacionais propostas por ela, e uma

Libras 101
delas é a presença do TILS, já que participa ativamente da realidade educacional
dessa instituição de ensino há vários anos, na construção do processo de ensino
aprendizagem de seus estudantes surdos.

Segundo o artigo 205 da Constituição Federal de 1988, os objetivos da edu-


cação é levar o indivíduo ao pleno desenvolvimento pessoal e o seu preparo para o
exercício da cidadania, além de sua qualificação para o trabalho, e por isso a gestão
desse conhecimento deve ser entendida como um processo de construção e auto-
nomia de todo indivíduo.

A escola deve promover essa construção para que estudantes, professores e


gestores possam executar os objetivos da educação, apresentados em lei pela Cons-
tituição Federal.

102 Libras
Libras 103
AUTOAVALIAÇÃO
Momento de parar e fazer uma análise sobre o que o
estudante aprendeu durante a disciplina. Av
1. Você sabe o que significa a sigla LIBRAS?

2. Por que as expressões faciais e corporais são tão importantes para os


surdos e sua comunidade?

3. Quais as características principais da comunidade surda?

4. Caros estudantes, aprendemos que a grande maioria das crianças surdas


que chegam às escolas são filhas de pais ouvintes não conhecedores da
língua de sinais e que não possuem contato com surdos e não sabem o
que fazer para se comunicar com seus filhos.

• Como esse surdo conseguirá aprender sua língua?

• Como poderá este obter um ensino eficaz da língua oral?

5. Uma grande realidade são os obstáculos para o ensino da língua oral e a


questão do desenvolvimento psicossocial da criança surda, essas dificul-
dades podem gerar consequências negativas que poderão ser irreversí-
veis em seu desenvolvimento, se não for oferecido o adequado acesso à
aquisição de uma língua de forma natural.

A ausência de qualquer modalidade de linguagem interfere de modo significa-


tivo no desenvolvimento do indivíduo, podendo provocar modificações
comportamentais com consequências sérias em relação à formação de
identidade do surdo... Com referência aos surdos filhos de pais ouvintes,
existe uma situação de comunicação muito difícil. Em geral, há defasa-
gem e falta de motivação da criança surda para se comunicar, causando
uma situação de frustração, prejudicando e interferindo no desenvolvi-
mento de sua linguagem. Vamos refletir?

• O que deve ser feito para reverter esse quadro?

• Como a escola deve se posicionar diante desse problema?

6. Leia com atenção o depoimento desta surda que iremos chamá-la de F e


teça seus comentários:

“Vou dizer-te o que entendo sobre a integração do surdo em nosso Estado. É


provável que a educação especial, no sentido como estava sendo efetua-
do, com uma presença marcante de fonos, médicos, psicólogos, assistên-
cia social, assim sendo, o surdo tinha uma assistência totalmente voltada

Libras 105
para a oralização: aprendizagem da fala, leitura labial, treinamento auditi-
vo, aprendizagem de português escrito, uso de prótese para captar restos
auditivos... Todos os profissionais citados tiveram seu tempo na educação
do surdo. E este método educacional era dispendioso. Uma outra opção
é a das APAES que possuem atendimento coletivo aos deficientes em
suas instituições. Os surdos que saem desta instituição são marcados
pelos sinais exteriores que captam no cego, no deficiente mental. Eles
parecem não aprender”.

Feito isso, se conseguiu ver o surdo como uma pessoa que aprende normal-
mente e sem gastos maiores ele poderia muito bem estar junto a pessoas
consideradas “normais”.

Nós da FENEIS, consideramos que a educação do surdo está muito pobre. Nós
intuímos que a educação do surdo não deve ser bimodal ou bilingual
(bilingue), deve ter por base a língua de sinais, mesmo que seja para toda
e qualquer transmissão de conhecimentos tem de ser na língua de sinais.

Queremos uma educação do surdo dentro da língua de sinais, como língua de


base para a aprendizagem, com professor surdo. “O governo, não desce
até nós, não lhe interessa nossa proposta (F.).”

7. Quais as vantagens e desvantagens na inclusão dos surdos em escolas


comuns e a educação de surdos em escolas de surdos?

8. O ensino bilíngue para surdos realmente ocorre nas escolas regulares?

9. Como podemos definir a educação de surdos na atualidade?

10. Quais os movimentos surdos da atualidade?

11. Quais as marcas do oralismo na educação de surdos hoje?

106 Libras
Libras 107
BIBLIOGRAFIA
Indicação de livros e sites que foram utilizados para a
construção do material didático da disciplina. Bb
ALMEIDA, E. O. C. ; DUARTE, P. M. Atividades Ilustradas em sinais da LIBRAS. 1. ed.
Rio deJaneiro: Revinter, 2004.

BRASIL. Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Brasília: MEC, 2005.

BRASIL, Ministério da Educação. Estratégias e Orientações Pedagógicas para a


Educação de Crianças com Necessidades Educacionais Especiais: Dificuldades de
Comunicação e Sinalização – Surdez. Brasília: MEC/SEESP, 2002.

__________ Diretrizes Nacionais Para a Educação Especial na Educação Básica. Se-


cretaria de Educação Especial: MEC/SEESP, 2001.

BRITO, L. F. Língua Brasileira de Sinais. In RINALDI, G. Programa de Capacitação


de Recursos Humanos do Ensino Fundamental. Língua Brasileira de Sinais. Edu-
cação Especial: Língua Brasileira de Sinais. V III, Fascículo 7, Série: Atualidades
Pedagógicas, n 4. Brasília; MEC, SEESP, 1998, 19 – 22.

BRITO, Lucinda Ferreira. Por uma gramática de línguas de sinais. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro 1995.

CAPOVILLA, F. C. ; Raphael, W. D. Dicionario enciclopédico ilustrado trilíngue da


língua de sinais brasileira 3a.ed., Vol 1: Sinais de A a L. 3a. ed.São Paulo, SP: Edusp,
MEC-FNDE, 2006.

CAPOVILLA, F. C. ; Raphael, W. D. ; Mauricio, A. C. Novo Deit-Libras: Dicionário


enciclopédico ilustrado trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) baseado em
Linguística e Neurociências Cognitivas. 2. ed. São Paulo, SP: Edusp, 2012.

FELIPE, Tanya A. Libras em contexto: curso básico, livro do estudante cursista/pro-


grama nacional de apoio à educação de surdos. Brasília: MEC/SEESP, 2004.

LABORITT, E. O vôo da gaivota. São Paulo: Best Seller – Círculo do livro, 1994.

PERLIN, Teresinha Gládis. O lugar da cultura surda. In: THOMA, Adriana da Silva;
LOPES, Maura Corcini (Orgs.). A invenção da surdez: cultura, alteridade, identida-
des e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004.

Libras 109
QUADROS, R. M. Aquisição da Linguagem por Crianças Surdas. In RINALDI, G. Pro-
grama de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental. Língua
Brasileira de Sinais. Educação Especial: Língua Brasileira de Sinais. V III, Fascículo
7, Série: Atualidades Pedagógicas, n 4. Brasília; MEC, SEESP, 1998,63 – 80.

QUADROS, Ronice Müller de. Educação de surdos: aquisição da linguagem. Porto


Alegre: Artmed, 2008. 126 p.

__________. O Tradutor-Intérprete de Língua de Sinais Brasileira. Brasília: MEC,


2002.

__________; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de Sinais Brasileira: Estudos Linguísti-


cos. Porto Alegre: Artmed, 2004.

__________ (Org.). Estudos Surdos I. Petrópolis – RJ.: Arara Azul, 2006.

__________. Educação de Surdos: A Aquisição da Linguagem. Porto Alegre: artes Mé-


dicas, 1997.

SACKS, O. Vendo Vozes: Uma Viagem ao Mundo dos Surdos. Tradução: Laura Tei-
xeira. São Paulo: Companha das Letras, 1998.

SILVA, Otto Marques da.A Epopéia Ignorada: a pessoa deficiente na história do


mundo de ontem e hoje. São Paulo: Dedas, 1986.

SILVA, A.C.; NEMBRI, A.G. Ouvindo o silêncio: Surdez, Linguagem e Educação. Porto
Alegre: Mediação, 2008.

SKLIAR, C. (Org). Atualidade da Educação Bilíngue para Surdos. 2v.Porto Alegre:


Mediação, 1999.

110 Libras
__________. A Surdez Um Olhar Sobre as Diferenças. Porto Alegre: Editora Media-
ção, 2013.

STROBEL, K. As Imagens do outro sobre a Cultura Surda. Florianópolis: Ed. Da


UFSC, 2008.

STUMPF, M.R.; QUADROS, R.M. (Org) Estudos Surdos III – Série Pesquisas.
Rio de Janeiro: Arara Azul, 2008.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 7 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Bibliografia Web

Cinco perguntas e respostas sobre inclusão de alunos surdos. In: Revista Nova Esco-
la, 2010. Disponível em: http://novaescola.org.br/formacao/5-perguntas-respostas-
-politicas-publicas-inclusao-surdos-613409.shtml

PEREIRA, Marta Aparecida de Mello. Educação Escolar de Pessoas com Surdez, 2014.
Disponível em: http://pt.slideshare.net/martamello/ps-t26a-texto-para-o-blog-ps

QUADROS, Ronice Muller de; KARNOPP, Lodenir Becker. Língua de Sinais Brasilei-
ra: Estudos Linguísticos. Porto Alegre: Artmed, 2007. Disponível em: https://books.
google.com.br/books?id=_EJvlxL7Cd0C&printsec=frontcover&dq=%E2%80%-
9CEm+L%C3%ADngua+de+Sinais+Brasileira&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwj-
Cpb77uMvNAhXLgpAKHeiqB7UQ6AEILzAA#v=onepage&q=%E2%80%9CEm%20
L%C3%ADngua%20de%20Sinais%20Brasileira&f=false

Libras 111
112 Libras

Você também pode gostar