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AULA 5

TEORIAS DA APRENDIZAGEM
(PIAGET, VYGOTSKY, WALLON,
AUSBEL, COMPORTAMENTAL
COGNITIVA)

Profª Wiviany Mattozo de Araujo


CONVERSA INICIAL

Bem-vindo à aula 5 da disciplina de Teorias da Aprendizagem! Nesta aula


vamos discutir sobre o processo de formação de conceitos para Lev Vygotsky,
com enfoque principal na palavra como instrumento mediador para a construção
do conhecimento. Vamos construir um paralelo entre Lev Vygotsky e Jean Piaget,
pois estes importantes teóricos influenciam muitas das atividades escolares
atuais; nessa relação vamos entender quais são os pontos convergentes entre as
ideias e as diferenças existentes.
No terceiro tema, vamos abordar a teoria da afetividade de Henri Wallon,
buscando entender a afetividade não pelo senso comum, mas como um elemento
essencial para o desenvolvimento humano. Ao propor sua teoria, Wallon divide o
desenvolvimento em cinco estágios e nós iremos analisar as principais
características de cada fase.
Por fim, vamos abordar dois conceitos que nos farão compreender o
pensamento infantil: o conceito de sincretismo e o de emoção nas diferentes fases
da vida.

CONTEXTUALIZANDO

Ao falar sobre a formação de conceitos, o que vem à cabeça? Além dos


conceitos, devemos pensar sobre como as palavras funcionam em nossas vidas,
assim, o que significam as palavras? Como são entendidas? Como se
transformam em elementos mediadores da nossa aprendizagem ao longo da
vida? Como as palavras criam um universo em nossas mentes?
Todos esses questionamentos servem para refletirmos sobre o poder das
palavras. Essa discussão é feita pelo senso comum e por algumas áreas do
conhecimento. Mas devemos contextualizar para o processo de ensino-
-aprendizagem, afinal é por meio da linguagem expressa na maior parte do tempo
em palavras que nos comunicamos.

TEMA 1 – A FORMAÇÃO DE CONCEITOS EM VYGOTSKY

Vygotsky formulou sua teoria tendo por base o desenvolvimento do sujeito


como consequência de um processo histórico-social, dando destaque para o
papel da linguagem, do pensamento e da aprendizagem, e que o conhecimento é
adquirido pela interação do indivíduo com o meio.

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Sobre o processo de formação de conceitos, estes estão diretamente
relacionados ao pensamento e à linguagem, além das questões culturais que
servem como subsídio para a construção dos significados, do sentido das
palavras, além de se envolverem no processo de internalização do conhecimento.
Para isso, o autor propõe que nossas funções psíquicas superiores são mediadas
pelos processos culturais, e que a forma como aprendemos no ambiente escolar
vai ser diferente do que aprendemos na vida cotidiana.
Nessa concepção, o funcionamento do cérebro é entendido numa base
biológica com limites e possibilidades de desenvolvimento. Por exemplo, a
linguagem e a memória são construídas no convívio social por meio das suas
relações com o mundo e, desse modo, podemos definir estas ações como
conscientes e intencionais que auxiliam na organização da sociedade.
Como vimos na aula anterior, a mediação e a linguagem são essenciais
para entender o processo de aprendizagem proposto por Vygotsky, mas outro
elemento essencial que devemos explorar é a cultura, pois é esta quem fornece
ao indivíduo os sistemas simbólicos necessários para compreensão da realidade.
Isso envolve um universo de significações que nos permitem entender e
interpretar o mundo real, nos dando suporte para construir nossas próprias
relações, histórias e ressignificações de conceitos e informações.
O processo de internalização é essencial para que a informação externa
seja apropriada e assimilada, para isso as funções mentais, como pensamento,
memória, percepção, atenção, dentre outras, sejam ativadas. Por isso, a interação
social e a linguagem são fundamentais para a aprendizagem. E o que
desencadeia o pensamento? Podemos dizer que o pensamento é motivado por
interesse, afeto, desejo, necessidades etc., e que dentro do processo de
aprendizagem podem ser despertados por meio de diferentes instrumentos.
Esses instrumentos podem ser fornecidos pelos hábitos culturais,
lembrando que para esse teórico, o sujeito deve ser ativo e interativo no processo
de aprendizagem, e que os instrumentos são usados como mediação para que o
indivíduo se aproprie do conhecimento e o transforme internamente.
Já que a linguagem possui papel tão relevante no processo da
aprendizagem, é preciso compreender que para nós ela serve como comunicação
e forma nossa estrutura de pensamento generalizada. Portanto, é por meio da
linguagem que nos comunicamos com as outras pessoas de modo simples e estas
experiências nos permitem criar categorias, conceitos, abstrações, dentre outros;

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assim, ao falar a palavra sapo, a qual conceito somos lembrados? Um animal? Ou
à ideia da transformação de um príncipe?
Desse modo, as palavras podem ser entendidas como signos mediadores,
em que cada palavra fará parte de uma categoria ou classe de objetos, que
representará um determinado signo, em uma representação na classe e desse
conceito. No entanto, os conceitos são construções culturais e nesse processo de
internalização e aprendizagem, muitos atributos são construídos e as categorias
vão sendo ampliadas. Como exemplo, podemos pensar na palavra cadeira. Qual
o significado para a criança ao aprender este conceito? Em quantas categorias
esta palavra se enquadra? Este exercício pode ser feito com outras palavras do
nosso cotidiano e que vão nos mostrar a amplitude das categorias que criamos
com os conceitos das palavras.
Para Vygotsky, o pensamento verbal não nasce conosco e nossos
conceitos são construções das vivências sociais e das internalizações que
ocorrem ao longo da vida. E na proposta de Vygotsky para a formação de
conceitos são utilizados dois estímulos: o objeto da atividade e o papel do signo;
para o desenvolvimento do pensamento conceitual é preciso três fases: o
pensamento sincrético, o pensamento por complexos e o pensamento por
conceitos. Vamos analisá-los a seguir.
O pensamento sincrético é o estágio em que a criança consegue juntar
objetos, mas sem relação concreta, ou seja, os objetos se aproximam por
semelhança que a própria criança estabelece. Já o pensamento por complexos
pode ser definido quando a criança cria ligações concretas por meio das
experiências vividas socialmente, mas ainda sem abstrações efetivas.
A diferença entre o pensamento complexo e um conceito reside na ideia de
que o conceito agrupa elementos e conexões entre os elementos, sem a
necessidade de existir uma ligação direta e concreta. O pensamento por complexo
pode ser associativo (figuras geométricas quadradas), por coleções (animais),
difuso (diferentes formas e cores de figuras geométricas) e pseudo conceito, que
é a ligação entre o pensamento complexo e a formação de conceitos.
A partir do pensamento complexo com a criação da abstração se
estabelece o pensamento por conceitos, que nada mais é do que o
amadurecimento em relação aos signos, pois as palavras servem para diferentes
construções intelectuais e permitem a comunicação social.
A palavra é um signo mediador na formação de conceitos e depois se
tornam símbolos, que são categorizadas culturalmente por meio dos diferentes
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modos de vida. E desse modo, a palavra nos auxilia na organização das ideias e
pensamentos.
A palavra codifica a experiência, possibilita a transmissão da experiência
de indivíduo a indivíduo e a assimilação dos conceitos. É preciso entender que a
palavra não é somente um estereótipo e possui muitos significados, como
exemplo podemos citar as palavras manga, sonho, braço. A palavra funciona
como um elo que traz uma rede de conexões e significados, que conduz o
pensamento.
Estes conceitos podem ser espontâneos ou científicos. Os espontâneos
são adquiridos na vida cotidiana e a partir das interações imediatas na família e
na comunidade; os conceitos científicos são adquiridos no ambiente escolar, na
universidade, de modo formal com o auxílio de um adulto.

TEMA 2 – A RELAÇÃO ENTRE PIAGET E VYGOTSKY

Estudar Jean Piaget e Lev Vygotsky nos permite compreender a evolução


da ciência, além de entender o processo de aprendizagem. Neste tema vamos
criar paralelos entre os dois teóricos, estabelecer comparações entre suas
principais semelhanças e diferenças, e a aplicação de suas ideias no ambiente
escolar.
Piaget e Vygotsky foram contemporâneos, ambos nasceram no final do
século XIX e desenvolveram seus estudos no século XX, com a diferença que
Vygotsky morreu jovem aos 34 anos e Piaget veio a falecer em 1980. Ambos
realizaram experiências com crianças de diferentes idades para construir suas
teorias.
No processo de aprendizagem, as teorias se baseiam na cognição. Para
Piaget, a palavra-chave para suas ideias é a construção do conhecimento e os
conceitos principais envolvem a assimilação, acomodação, além dos esquemas
mentais, os estados de equilíbrio e o entendimento sobre os estágios de
desenvolvimento em cada fase da vida. Para Vygotsky, a palavra-chave é a
interação social, e os principais conceitos abordados são a mediação simbólica,
com o uso de instrumentos e signos que servem para estimular a zona de
desenvolvimento proximal.
Os dois teóricos discutiram sobre a relação do indivíduo com o mundo e
como essa influência é relevante para o processo de aprendizagem. Piaget usava
o termo adaptação para expressar a importância do conhecimento prévio, e como

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este não poderia ser deixado de lado, pois a todo instante estamos aprendendo e
evoluindo com essas novas informações que são adquiridas. Vygotsky reforçava
a ideia de que a aprendizagem é fruto do processo de socialização do indivíduo
com o mundo, e que o conhecimento é adquirido de partes para o todo.
Nessa questão, o papel dos fatores internos e externos ao desenvolvimento
é visto de modo diferente nas duas teorias. Para Piaget, este é um processo de
maturação biológica e na construção do entendimento do que é real, o
conhecimento parte do individual para o social, sendo um movimento espontâneo,
ou seja, a criança o elabora espontaneamente de acordo com seu estágio de
desenvolvimento.
Em relação aos fatores internos e externos que influenciam no
desenvolvimento, Vygotsky privilegia o ambiente social como fator preponderante
ao processo de aprendizagem e, na construção do real, parte da ideia de que é
do social para o individual que o conhecimento acontece, a partir das relações
interpessoais num primeiro momento e, na sequência, da internalização da
informação. Assim, os elementos culturais ganham destaque no processo, bem
como o contexto e o modo de vida do indivíduo.
Quando os autores discutem sobre o papel da linguagem no
desenvolvimento e a relação entre liguagem e pensamento, há diferenças: na
teoria piagetiana, o pensamento aparece antes da linguagem e, em Vygotsky,
esse é um processo simultâneo, em que pensamento e linguagem aparecem
juntos. Também no papel da aprendizagem, Vygotsky propõe que esta ocorre
antes do desenvolvimento, enquanto para Piaget esse é um movimento contrário,
em que primeiro há o desenvolvimento e, na sequência, a aprendizagem.
Outras diferenças encontradas são que, para Piaget, as ajudas externas
não eram aceitas para mensurar a evolução mental do indivíduo, pois isso poderia
influenciar no resultado, já Vygotsky as aceitava e considerava as interferências
externas essenciais para o processo evolutivo do sujeito.
O papel do professor e da escola é muito discutido para ambos. O processo
piagetiano envolvia a ideia de que desequilibrar os esquemas mentais dos alunos
a partir do conhecimento prévio traria muito resultado no processo de
aprendizagem, já para Vygotsky a proposta compreendia a ideia de intervir na
zona de desenvolvimento proximal, sendo que isto influenciaria na distância entre
o que o aluno sabe, domina e o que ele pode fazer com o auxílio de um mediador.
E se falamos do papel do professor e da escola, qual seria o perfil dos
alunos para estes teóricos? E este é um ponto de convergência entre Piaget e
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Vygotsky! Para ambos, os alunos devem ser participantes ativos no processo de
construção do conhecimento, sendo coautores responsáveis pelo seu
aprendizado, sendo questionadores. Estratégias como leitura pela associação de
imagens, dedução de conceitos por meio da lógica sem exercícios de fixação,
aprendizado de regras por meio de leitura e entendimento do mundo real eram
fundamentais. Por fim, os erros devem ser respeitados como um processo de
crescimento e elaboração do conhecimento.

TEMA 3 – HENRI WALLON E A TEORIA DA AFETIVIDADE

Falar em afetividade no processo de aprendizagem é uma das questões


mais relevantes na atualidade. O educador Henri Wallon (1879-1962) se
aprofundou nessa questão estudando a criança e “construiu sua teoria baseando-
-se em um enfoque interacionista, em que os aspectos do desenvolvimento
surgem na interação de predisposições genéticas com a variedade dos fatores
ambientais” (Nogueira, 2015, p. 175). Sendo essenciais, assim, a relação entre a
vida cotidiana e as questões específicas determinada pela sociedade e cultura em
que o sujeito está inserido.
Para este autor, é preciso compreender o indivíduo em sua totalidade, seu
processo de aprendizagem – que envolve instrumentos que auxiliam na
construção do conhecimento, da atividade motora e principalmente, da
afetividade. Ao longo da sua vida, Wallon participou das duas grandes guerras
mundiais, como médico na primeira e como resistência ao nazismo na segunda.
Esses, dentre outros fatos de sua trajetória, marcam a forma de construção de
sua teoria, como a influência humanista recebida da família e de suas posições e
escolhas políticas.
Muitos exemplos podem ser usados para ilustrar as ideias de Wallon, um
deles é quando o adulto cuidador incentiva o bebê a andar, sejam os pais, avós,
tios. Imagine a seguinte situação, o adulto começa a estimular a criança colocando
objetos no caminho que sirvam como apoio e ao mesmo tempo, ao perceber que
a criança começa a se equilibrar sozinha, expressa em gestos a vontade de
recebê-la e qual é a reação da criança? É a tentativa de caminhar em sua direção.
Esse exemplo mostra como um estímulo é usado para que a criança amplie
seu conhecimento, no caso aprender a andar, podendo até apresentar
dificuldades iniciais que, com o incentivo, são superadas, resultando no
desenvolvimento mais rápido da criança. Pensando nesse exemplo, todos nós

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somos afetados por elementos externos a nós, seja por outras pessoas, por
objetos que temos contato e/ou informações que recebemos do ambiente em que
estamos inseridos; além das influências internas que se relacionam com nossos
sentimentos, como alegria, medos, expectativas e que nos fazem reagir.
Essas questões supracitadas fazem parte da condição humana de vida
afetiva e são essenciais para nosso desenvolvimento. Assim, a teoria de Wallon
traz importantes contribuições, mas é preciso cuidar “para não cairmos em uma
visão reducionista, que fragmenta a pessoa” (Nogueira, 2015, p. 181), e nem para
não associar o conceito à ideia de amor e carinho somente. Lembrando que o
indivíduo recebe influências e estímulos afetivos a todo instante, podendo estes
ser positivos ou negativos.
A teoria walloniana propõe dois fatores, são estes orgânicos e sociais, e
que juntos compõem as condições de desenvolvimento das diferentes fases da
vida. Assim, ao estudar sobre a criança, a inteligência não deve ser o fator
fundamental para o desenvolvimento, mas sim que três áreas conjuntas atuem de
forma associada, são elas as áreas motora, afetiva e cognitiva.
Desse modo, a depender do estágio de desenvolvimento, a criança pode
não ter plena consciência, mas o estímulo recebido associado ao aprendizado
alcançado não regride. Assim, quando um bebê é presenteado com um jogo de
formas geométricas para montar, toda vez que recebe um estímulo e acerta,
aprende qual é o caminho, mas ao contrário, se ao errar receber uma repressão
oral ou gestual, como uma bronca, isso poderia fazer com que a aprendizagem se
torne mais lenta e até mesmo problemática.
Então, se o desenvolvimento depende da capacidade biológica do indivíduo
e do meio em que este se insere, todo seu processo de aprendizagem dependerá
dos estímulos recebidos. Uma criança em perfeitas condições só vai aprender a
jogar se neste ambiente houver pessoas que estabeleçam essa troca, ou vai
aprender a falar e a reproduzir falas dos adultos se estiver num meio que desperte
isso. Nesse sentido, há o processo imitativo da criança, no qual esta reproduz
desde os movimentos gestuais, como a fala dos adultos com quem convive, e
suas potencialidades serão desenvolvidas a depender destas relações.
Assim a infância pode ser considerada um momento diferenciado de
crescimento e amadurecimento, em que serão desenvolvidas características
próprias a cada pessoa e de sua personalidade, e que serão bases fundamentais
e constituintes desse sujeito quando adulto. Por isso, é preciso refletir sobre o

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tratamento dado às crianças e não compará-las aos comportamentos adultos, pois
a criança tem sua própria maneira de interpretar o mundo em que se insere.
Portanto, o autor observa que o comportamento da criança é uma evolução
e com o passar da idade suas funções se tornam mais complexas e capazes de
novas aprendizagens em conexão com o conhecimento já adquirido. Para
entender os estágios, é preciso descrever os conjuntos básicos que sustentam
essa teoria, que são os conjuntos: motor, afetivo e cognitivo.
No conjunto motor temos as funções pelos movimentos do corpo,
essenciais pela questão do equilíbrio e do deslocamento têmporo-espacial, sendo
estes necessários para que a aprendizagem ocorra! É preciso movimentar o corpo
no processo de aprendizagem, mas um engano pode ocorrer aqui: ao falar desse
movimento não é somente fazer esportes ou deslocar o corpo rapidamento pelo
tempo e espaço, de fato, envolve todas nossas ações, pois ao ler um livro ou fazer
uma atividade concentrada estamos usando nosso conjunto motor.
Ainda sobre a motricidade, a imitação não ocorre na hora da observação,
vale lembrar que a reprodução dos movimentos a serem imitados podem levar
dias ou semanas para acontecer (Nogueira, 2015, p. 187).
No conjunto afetivo temos as funções relacionadas à emoção e aos
sentimentos: “as emoções consistem essencialmente em sistemas de atitudes
que respondem a uma determinada espécie de situação” (Wallon, 2005, p. 140
citado por Nogueira, 2015, p. 189). Assim, nossas emoções são responsáveis por
parte do nosso processo de aprendizagem e interferem diretamente no nosso
bem-estar e comportamento.
Saber lidar com as emoções e os sentimentos é necessário, pois cada fase
tem uma forma de passar por esses conflitos, por exemplo, ao nascer, a criança
é totalmente dependente e se entende como uma extensão do corpo da mãe. No
entanto, com o passar dos anos essa noção vai aumentando e a criança passa a
experimentar vários tipos de sentimentos, como ciúmes, empatia, egoísmo, dentre
outros, e desse modo se estabelecem os valores morais que são aprendidos na
vida familiar e em sociedade.
No conjunto cognitivo temos as funções relacionadas à aquisição e
transformação do conhecimento, pocesso esse que envolve nossa memória,
linguagem, atenção, aprendizagem etc., além do desenvolvimento, que é a
resposta da união entre os fatores biológicos e sociais. Em resumo, Wallon propõe
que o desenvolvimento da cognição se dá desde o nascimento e que nossas
funções intelectuais se aprimoram ao longo da vida.
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O autor divide o entendimento sobre os estágios de desenvolvimento em
cinco partes em que a afetividade e a inteligência vão se alternar. São estas: o
estágio impulsivo-emocional, sensório-motor e projetivo sendo o segundo,
personalismo, categorial e puberdade e adolescência. Veremos sobre estas fases
no próximo tema.
Por fim, no início da vida a afetividade é usada para a interação com as
pessoas e para expressar os sentimentos, depois a criança começa a andar e a
manipular os objetos, e assim por diante. Essas mudanças mostram como
evoluímos e vamos aumentando nossas funções ao longo do tempo.

TEMA 4 – OS ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO

Como citamos, para Wallon existem estágios de desenvolvimento


marcados pela relação entre a maturação orgânica do indivíduo com as condições
ambientais. Para isso, cada fase é composta por características próprias, ritmo
descontínuo marcado por rupturas que mudam o perfil do indivíduo a cada etapa
da vida. As rupturas são necessárias e associadas com a maturidade alcançada
em cada fase, sendo o desenvolvimento um ato progressivo. Para entender
melhor sobre os estágios de desenvolvimento propostos por Wallon, vamos
explorar as características principais de cada fase.
No estágio denominado de impulsivo-emocional, que vai do nascimento até
o primeiro ano de idade, a criança demonstra sua afetividade por meio dos
movimentos involuntários e descoordenados, reage ao contato corporal pela
sensibilidade dos músculos e dos órgãos. Nessa fase, a criança é totalmente
dependente do meio externo e é incapaz de resolver seus problemas sozinha, ou
seja, é preciso que um adulto esteja sempre próximo, seja a mãe ou um cuidador.
Num primeiro momento, que representa o impulsivo, a criança responde às
necessidades do organismo. Após os três meses de idade, a criança inicia o
desenvolvimento da comunicação por meio das relações emocionais, das trocas
estabelecidas com quem está mais próximo e principalmente por atividades que
desenvolvem a compreensão do corpo, atividades circulares em que a repetição
leva ao conhecimento de objetos e ações. Nessa fase é relevante que a criança
seja acariciada, carregada e embalada para o seu bom desenvolvimento.
A ruptura para o estágio sensório-motor e projetivo, que vai de um a três
anos de idade, ocorre com a criança falando e andando (mesmo com dificuldade),
e esta começa a ter curiosidade pelo mundo exterior. Por isso, quando a criança

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começa a andar se inicia a fase em que ela quer ir para todos os lados, explorar
todos os ambientes, estabelecendo uma interação constante com os objetos, além
de se tornarem curiosas para aprender nomes, como funcionam as coisas, e
porque estão naquele local e condição, sendo a linguagem fator essencial para a
aprendizagem.
No terceiro estágio, denominado de personalismo, que vai dos três aos seis
anos, a criança passa a entender a diferença entre ela, outras crianças e os
adultos e é nessa fase também que ocorre a construção da personalidade e um
aprofundamento da consciência corporal. Num primeiro momento a criança
aprende a confrontar para se afirmar e a demonstrar um forte sentimento de
posse; depois vem a sedução e uma forte necessidade em ser admirada,
aprendendo a lidar com os sentimentos de sucesso e fracasso; e finalmente, a
imitação, quando ela não se satisfaz mais com suas próprias qualidades e busca
no outro o modelo do que ela gostaria de ser, além de criar uma vida secreta e
dissimular sentimentos quando necessário.
O próximo estágio é o categorial, que vai dos seis aos onze anos de idade,
e se caracteriza pela criança continuar seu desenvolvimento afetivo, motor e
cognitivo, em que suas atividades estão voltadas para as atividades intelectuais.
A criança aprende a se entender como pessoa em diferentes grupos, como na
família, nos grupos sociais, na escola, e que em cada local haverá um papel a ser
exercido, seja como filho, aluno, colega de classe, dentre outros.
No quinto estágio, chamado de puberdade e adolescência, que ocorre
aproximadamente aos onze ou doze anos de idade, a característica predominante
é de ruptura entre a criança e o adulto, crise que afeta as dimensões afetiva,
cognitiva e motora. A ruptura se dá pela necessidade do jovem em se apropriar
do corpo e das ideias em transformação, pois toda essa mudança exigirá uma
nova compreensão de quem ele é para construir seu lugar na sociedade, sua
identidade autônoma, sua autoafirmação e seus questionamentos.
Nessa fase é natural que os adolescentes deem mais importância aos seus
pares do que a outros adultos para suas afirmações perante as perguntas: Quem
sou eu? Quais são meus valores? E quem quero ser no futuro? Toda essa relação
conflituosa é necessária para que a criança dê vez ao adolescente questionador,
para que seus valores morais sejam estabelecidos e auxiliem o convívio em
sociedade.
Por fim, os estágios são marcações temporais que expressam o
desenvolvimento do sujeito, sendo que a afetividade se torna uma facilitadora do
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processo de ensino-aprendizagem. E é relevante pensar que, mesmo quando
adultos, a afetividade exerce importante papel nas nossas relações,
possibilidades, limitações, motivações, dentre outros, a diferença essencial deve
residir na ideia de que o adulto consegue, em teoria, estabecer a ideia concreta
de quem é como pessoa inserida num contexto social, com seus valores, suas
decisões e escolhas.

TEMA 5 – OS CONCEITOS DE EMOÇÃO E SINCRETISMO

Neste tema vamos discutir dois conceitos utilizados por Henri Wallon, a
emoção e o sincretismo. Primeiro abordaremos a emoção, pois a afetividade é
expressa pela emoção, e esta pode ser resumida como a primeira expressão da
afetividade, sendo uma ação orgânica do corpo, não controlada pela razão,
expressa pela tensão muscular, alteração dos batimentos cardíacos e até mesmo
da respiração.
Como exemplo, temos desde um bebê que tem suas emoções ativadas por
estímulos viscerais e pelo toque da pele, ou seja, chora porque sente dor ou fome,
sorri quando recebe um carinho que desperta boas sensações. Ou uma situação
de perigo, no caso, uma pessoa adulta sofre uma violência na rua e age de acordo
com suas emoções (pode sair correndo, gritar, tudo sem pensar muito nas
consequências do ato).
Não há dúvidas de que a emoção é a forma mais significativa da
afetividade, pois as emoções servem como indicadores para nossa vida em
sociedade, seja por expressões de euforia, felicidade, ou de cansaço e
desmotivação. Essa situação é válida para vários segmentos da vida cotidiana,
seja no emprego, nas relações amorosas e para os docentes, na sala de aula,
assim, compreenderem o que motiva e o que cansa os alunos facilitando no
controle e planejamento das atividades e das relações diárias.
As emoções podem ser definidas como um complexo composto de
atitudes, sendo expressas pelo tensionamento das relações e da intenção
empregada na situação, pois cada atitude pode ser relacionada com uma ou mais
situações do cotidiano. É ela a responsável em dar rapidez às respostas do
organismo, com determinados padrões em que são liberados maior ou menor
intensidade nessas emoções, sendo um instrumento de sociabilização entre os
sujeitos.

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Podemos dizer então que a emoção propicia relações entre os indivíduos,
seja por meio do amor, amizade, raiva, dentre outras circunstâncias exteriores.
Um exemplo que podemos aplicar é quando uma criança faz birra; essa atitude é
um momento de crise para a criança, em que suas emoções estão afloradas e em
conflito; a reação do adulto quando não compreende a situação da criança e perde
o controle é um erro, não há como conversar com a criança no meio do conflito, é
preciso esperar para conversar depois sobre o acontecido, pois a criança não age
com intencionalidade, ela apenas ainda não sabe lidar com todas as emoções que
sente.
Nessa questão, entramos no conceito de sincretismo, que nada mais é do
que o jeito de pensar das crianças, que parece ser sem lógica para os adultos. O
conceito representa o processo de reunir ideias para explicar as coisas,
misturando sem um limite distinto a realidade e a fantasia, enxergando o mundo
de modo único e generalizado.
Por exemplo, ao nascer temos uma percepção grosseira do nosso entorno
e aos poucos, adquirindo informações e conhecimento, essa percepção vai
melhorando até desenvolvermos o pensamento em categorias, em que a criança
passa a ser capaz de explicar os objetos e elementos. A criança evolui seu
pensamento sincrético por meio de suas capacidades cognitivas e pelos estímulos
que recebe do meio; também o pensamento infantil é feito em pares
complementares, ou seja, a criança relaciona objetos para poder explicá-los.
E é assim que surgem as famosas mirabolantes explicações infantis!

FINALIZANDO

Nessa aula abordamos conteúdos relacionados a três grandes teóricos da


pedagogia. No primeiro tema discutimos o processo de formação de conceitos e
de como estes estão diretamente ligados ao pensamento e à linguagem, bem
como se relacionam com as questões culturais que servem como base para a
construção dos significados, do sentido das palavras.
Vimos também que Vygotsky propõe que as funções psicológicas
superiores são mediadas pelos processos culturais, e que a forma como
aprendemos no ambiente escolar vai ser diferente do que aprendemos na vida
cotidiana. Outro ponto a ser lembrado é sobre como a palavra funciona como um
signo mediador na formação de conceitos, tornando-se símbolos, e que podem

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ser categorizadas culturalmente, auxiliando na organização das ideias e
pensamentos.
No segundo tema construímos uma relação entre as teorias de Piaget e
Vygotsky, uma vez que ambos teóricos se baseiam nos processos cognitivos para
suas ideias. Uma diferença discutida é que para Piaget a palavra-chave é a
construção do conhecimento e os conceitos principais envolvem a assimilação,
acomodação, além dos esquemas mentais, os estados de equilíbrio e o
entendimento sobre os estágios de desenvolvimento em cada fase da vida. Já
para Vygotsky, a palavra-chave é a interação social, e os principais conceitos
abordados são a mediação simbólica, com o uso de intrumentos e signos que
servem para estimular a zona de desenvolvimento proximal.
No terceiro tema abordamos as ideias de Henri Wallon, importante
educador francês que propõe que é preciso compreender o indivíduo em sua
totalidade, e que seu processo de aprendizagem envolve instrumentos para a
construção do conhecimento, além da atividade motora e da afetividade.
Wallon divide o desenvolvimento humano em estágios em que a afetividade
e a inteligência vão se alternar. São estes: o estágio impulsivo-emocional,
sensório-motor e projetivo, personalismo, categorial e puberdade e adolescência.
Por fim, vimos que o conceito de emoção e sincretismo são relevantes para
entender a aprendizagem, pois o pensamento sincrético nos acompanha durante
a infância e as emoções farão parte de nossas vidas em sociedade.

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REFERÊNCIAS

BARONE, L. M. C.; MARTINS, L. C. B.; CASTANHO, M. I. S. Psicopedagogia:


teorias da aprendizagem. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.

LAKOMY, A. M. Teorias cognitivas da aprendizagem. Curitiba: InterSaberes,


2014.

NOGUEIRA, M. O. G.; LEAL, D. Teorias da aprendizagem: um encontro entre


os pensamentos filosóficos, pedagógicos e psicológicos. Curitiba: InterSaberes,
2015.
PILETTI, N. Aprendizagem: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2013.

REMOR, I. Behaviorismo na educação. Filosofia do cotidiano. Disponível em:


<http://filosofiadocotidiano.org/behaviorismo-na-educacao/>. Acesso em: 6 nov.
2017.

SANTOMAURO, B. Inatismo, empirismo e construtivismo: três ideias sobre a


aprendizagem. Revista Nova Escola. 2010. Disponível em:
<https://novaescola.org.br/conteudo/41/inatismo-empirismo-e-construtivismo-
tres-ideias-sobre-a-aprendizagem>. Acesso em: 3 nov. 2017.

VYGOTSKY, L. A formaçao social da mente: o desenvolvimento dos processos


psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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