Você está na página 1de 357

Copyright © 2020 de Thais Oliveira

Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra pode ser


reproduzida, distribuída ou transmitida por qualquer forma ou por qualquer
meio, incluindo fotocopias, gravações ou outros métodos eletrônicos ou
mecânicos, sem a previa autorização por escrito do editor, exceto em casos
breves de citações em resenhas ou alguns outros usos não comerciais
permitidos pela lei de direitos autorais. Este livro é um trabalho de ficção.
Todos os nomes, personagens, locais e incidentes são frutos da imaginação
da autora. Qualquer semelhança com a realidade, pessoas vivas ou mortas, é
mera coincidência.
1° edição: 2020
___________________________________________________
Capa: TG Design.
Revisão: Kátia Regina Souza.
Diagramação: TG Design.
___________________________________________________
Oliveira, Thais: O casamento do CEO / Thais Oliveira
1. Romance | 2. Ficção brasileira
ALTAMIRA PARÁ
Sumário
NOTA DA AUTORA
SINOPSE
PARTE UM
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
PARTE DOIS
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
CAPÍTULO 41
CAPÍTULO 42
CAPÍTULO 43
CAPÍTULO 44
CAPÍTULO 45
CAPÍTULO 46
EPÍLOGO
Olá, leitor, se você chegou até aqui agradeço por dá uma chance a
Valentina e Javier. Esse livro é muito especial para mim, afinal o clichê do
CEO é um dos que mais amo e pensei que nunca escreveria um enredo que
me agradasse, até que Javier chegou com sua arrogância e seu toque de
“nunca me casarei” e mudou tudo.
Espero sinceramente que vocês gostem!
E meu muito obrigada a cada pessoa que fez parte desta jornada e a
todos os meus leitores, que fizeram deste meu livro mais lido do wattpad.
Vocês são incríveis, obrigada por embarcar a cada nova aventura comigo.
Ah, se quiser compartilhar sua leitura comigo, só me marcar no
instagram: @thaisoliveira.autora
Javier Garcia sabe bem o que deseja. Sempre soube: continuamente
almejou o topo do mundo em que foi criado, e nada o impediria de subir até
lá. Nem mesmo um casamento arranjado, o tipo de coisa que ele abomina.
Valentina Ferraz é filha única de um dos sócios da Garcia & Ferraz
— empreendimento por meio do qual a família de Javier conquistou sua
fortuna — e se vê perdida ao ser jogada nos braços de um homem que
repudia. Javier representa tudo que ela não quer em um marido. E, para
início de conversa, ela nem ao menos desejava se casar, mas, ainda assim,
será obrigada a estar ao seu lado.
Uma mulher empoderada busca provar seu valor em meio a uma
sociedade marcada por tradições ultrapassadas.
Um homem obstinado procura não ceder à tentação, mesmo que ela
venha embrulhada da maneira dos seus sonhos.
Para quem nunca amou, é difícil reconhecer
o verdadeiro amor. Ele chega devagar, se
espalha em seu peito e quando você percebe,
fica questionando tudo o que sente.
Reconhecer faz parte do crescimento,
mas muitas vezes estamos cegos demais para notar.
VALENTINA
Ano 2000
Estremeci pelo medo que corria em minhas veias; pensei que não
daria conta de ficar em pé. Minhas pernas tremiam e meu coração batia
forte, parecia querer saltar do meu peito. Meus olhos ardiam na medida em
que os gritos se intensificavam. O barulho de algo se partindo apertou ainda
mais meu coração. “Mamãe!”, meu interior exclamou, temendo pelo que
poderia acontecer.
Eu não queria causar aquilo. Eu não queria. Eu juro. Mas por que
ele gritava tanto? Não éramos uma família? Não deveria sentar e conversar
conosco quando as coisas saíam do planejado?
Era o que vovó dizia.
— Isso não está em discussão, Vânia! — meu pai bradou.
Corri novamente para a cama, me enfiando embaixo da coberta
espessa e escondendo meu rosto. Tudo o que ouvi segundos depois foram
os sapatos batendo forte contra o piso de madeira e seguindo direto pela
porta do meu quarto.
Esperei.
Esperei.
Esperei.
Tempo demais para uma pessoa que continuava a tremer pelo medo.
Quando a casa se encheu de silêncio, me levantei e segui adiante, abrindo a
porta e procurando por minha mãe, sabendo que poderia abraçá-la e secar
suas lágrimas. Provavelmente, não teria nenhum ferimento aparente, mas eu
sabia dos machucados que ele deixava em sua alma. Aqueles eram os mais
dolorosos. E eu aprendi isso em cada vez que a vi chorar. Por minha causa.
Por causa dele. Por tudo.
Eu só queria arrancar aquela dor de seu peito, abraçar seu corpo e
dizer que ficaria tudo bem. Mas, na verdade, eu não fazia ideia se realmente
ficaria.
VALENTINA
Abri os olhos, encarando o teto da casa dos Garcias enquanto sentia
meu corpo dolorido. Sentei-me, enfiando o rosto entre as palmas das
minhas mãos e puxando uma respiração profunda. Não. Não. Não. Aquilo
não estava acontecendo. Fitei meus dedos e vi o peso daquela peça
delicadamente talhada com o gosto da derrota.
A verdade era que sempre disse que isso seria uma boa saída. Que
poderia virar a situação. Entretanto, não estava preparada. Não estava
preparada para enfrentar uma vida ao lado daquele homem.
A inquietação avançou sobre mim. Roí as unhas ao passo que
relembrava os últimos momentos. O convite para jantar com os Garcias foi
repentino: estava chegando de Minas Gerais, quando papai ordenou que
fosse diretamente para casa.
Tinha viajado por horas. Sentia os pés inchados pelo tempo passado
no ônibus, meu cabelo parecia um ninho de rato e meus olhos ardiam de
sono. Chegar e ver tudo armado, como se um casamento forçado fosse a
melhor coisa do mundo, não era uma surpresa muito boa. Mas a situação
correra bem, e me convenci de que estava fazendo o certo.
De qualquer maneira, considerava qualquer casamento uma
bobagem, então aquela saída era uma das poucas opções.
Não queria virar a senhora Garcia, viver ao lado de Javier, nem
aguentar a mãe dele, só que, em contrapartida, havia a minha própria
família.
Minha mãe fugiu. Depois de anos sofrendo nas mãos de papai, ela
se foi e nem sequer se lembrou de mim. Passei anos desejando que ela
tivesse ao menos a decência de se despedir antes de ir, mas não, mamãe foi
sozinha, alimentando a fama de egoísta de que papai gostava de acusá-la.
Meu pai era um desgraçado. Deveria amá-lo — e talvez uma parte
de mim o amasse, afinal, continuava sendo minha família —, mas com o
passar dos anos e as privações aumentando, meu ódio cresceu junto.
Repudiava esse sentimento, pois me fazia mal. Porém, toda vez que
eu tentava mudar, ele destruía meus sonhos.
— Você está bem? — Levantei a cabeça, dando de cara com o
homem culpado por parte das minhas preocupações. — Desmaiou em frente
a todos, Valentina. Pelo amor de Deus, que vexame.
Suspirei, encarando meu pai.
— Eu viajei quase dez horas, papai, estou morta de cansaço, e você
nem ao menos teve a preocupação de adiar o jantar.
Ele balançou as mãos no ar.
— Isso não é importante, Valentina. Temos um contrato. São
negócios. Suas frescuras não estão em pauta no momento. — Abri a boca,
em choque, mas me contive. — O casamento será daqui a duas semanas, e
eu não quero mais ter que lidar com esse tipo de situação.
O medo correu por meu corpo.
— DUAS SEMANAS? — praticamente gritei.
Papai revirou os olhos.
— Sim, duas semanas. Sua madrasta e a mãe de Javier vão cuidar de
tudo. Você só vai ter que aparecer e sorrir, ser a noiva perfeita. — Engoli
em seco. — Não me faça mais passar vergonha, já basta sua roupa em um
momento tão importante quanto este.
Desci meus olhos para a calça jeans justa em meu corpo,
acompanhada de uma camiseta que tinha o símbolo do meu signo.
Definitivamente, não era o look ideal para um noivado, porém, era perfeito
para irritar o meu pai.
— Entendi. Sobre o casamento… Eu quero ajudar. Vou me casar
uma vez na vida, gostaria que fosse da minha maneira — impus, vendo-o
arquear a sobrancelha. — O quê? Se não posso fugir nem me matar, vou me
casar com Javier Garcia sem reclamar. — Abri meu sorriso mais angelical.
Encarou-me de maneira desconfiada.
— Você está aceitando isso muito facilmente.
— Quer que eu grite?
— Não, sabe que eu detesto drama — rebateu, me fazendo rir.
— Então, papai… — Ergui-me e pousei as mãos em seus ombros.
— Eu vou me casar.
Mariano Ferraz esperava que eu desse um show, que eu gritasse e
batesse o pé, só para ele ter o prazer de me castigar por isso. Mas eu não o
faria. Aquele casamento já seria castigo o suficiente, entretanto, eu usaria
sua maldade para me sobressair, tornando-me a mulher com que eu sempre
sonhei.
Ele não teve tempo para responder, porque a porta voltou a abrir,
revelando minha madrasta, Rúbia Ferraz. Ao me ver, ela sorriu e acariciou
meu rosto.
— Como você está, querida?
Durante muito tempo, eu quis odiar aquela mulher, pois não aceitava
o fato de que papai a tratava melhor do que um dia tratou minha mãe e eu,
contudo, ela era um amor, sempre atenciosa. A única parte boa em ainda
viver com Mariano era Rúbia.
— Meio tonta, mas bem. Eu estava dizendo que quero fazer parte de
toda a organização do casamento.
— Sério?! — A surpresa veio acompanhada de um sorriso alegre.
Papai se afastou, saindo do quarto sem dizer nem uma palavra. — Vai ser
incrível. — Alisou meus cabelos. — Será a noiva mais linda de todas. —
Sorri, e ela beijou meu rosto. — Como foi sua viagem? Tem certeza de que
está mesmo se sentindo bem?
Não entendia por que Rúbia me tratava com tanto carinho, mas eu
gostava. Mamãe não ligava mais para mim; desde que partiu escondida,
tentei contato de diversas maneiras, até que compreendi que ela não queria
ter nenhuma relação com o sobrenome Ferraz. E isso incluía a própria filha.
Então simplesmente deixei de me importar.
— Foi só o susto. A viagem foi incrível. O melhor presente do
mundo.
Deu uma risadinha, e eu a abracei, contente por ela conhecer meu
desejo de escapar das ordens do meu pai. Eu sabia bem que a ameaça que
recebi anos atrás dele fechar todas as portas de emprego para mim em São
Paulo era verdadeira. O medo me dominava.
— Ah, sabia que iria adorar. Na próxima fuga, eu a coloco em um
jatinho direto para Nova Iorque — brincou. — Bom, se bem que até lá você
já vai estar casada com Javier — falou com um ar sonhador. — Muito bem-
servida, aliás. Qualquer problema com o seu pai será a última coisa que
passará na sua cabeça.
Muito bem-servida.
Eu tinha noção do que ela queria dizer com isso. Para um homem
como Javier, o casamento era uma lástima. Bonito, rico, bem-sucedido,
atraindo atenção por onde passava… Pena que era um crápula. Para mim,
isso significava a expectativa de atender perfeitamente às necessidades de
meu marido. E eu nem sabia como começar a explicar o quão ultrapassada
era essa visão…

Entrei na cafeteria movimentada, vendo Rachel sentada em uma das


mesas, mexendo no celular enquanto levava a xícara de café aos lábios. Ela
não percebeu que eu me aproximava e pulou de susto ao me ver sentar à sua
frente, colocando as mãos sobre o peito.
O sol quente queimava minha pele, e eu estava suando, mais de
nervosismo do que de qualquer outra coisa. Saíra ontem da casa dos Garcias
preocupada, mas agradeci quando não encontrei com Javier pelo caminho,
não desejando lidar com mais um homem cuja cabeça permanecia no século
passado.
— Pelo amor de Deus, mulher! — exclamou. — Sabe que sou
cardíaca.
— Sei — debochei, roubando um dos biscoitos de polvilho de seu
prato. — Bom, espero que esteja feliz em me ver, pois eu não estou feliz em
voltar.
Minha melhor amiga riu.
— Você é sempre tão doce.
— Eu sei.
— Mas sim, estou feliz que tenha voltado. Como foram as férias? E
me diga que seu pai não armou nenhuma cena.
Suspirei. As férias em Minas Gerais foram incríveis. Não era o
destino dos meus sonhos, mas foi o que minha madrasta conseguiu
escondido de papai. Em um belo dia, ele acordou, procurou por mim, e eu
não estava mais lá.
— Bom, quando eu cheguei em Minas, eu finalmente atendi ao
telefone — expliquei, fazendo uma pausa para pedir um café com leite.
Precisava de uma dose de cafeína, mas não tanto, senão não dormiria tão
cedo. — Aí ele gritou por meia hora sobre como eu era irresponsável, uma
garota mimada. Disse para eu voltar. Não voltei. E só atendi de novo
quando Rúbia falou que era urgente.
— E era realmente urgente? — Franziu o cenho.
— Eu vou me casar, acho que isso pode ser categorizado como uma
emergência.
Rachel se engasgou, tossindo enquanto se abanava. Eu balancei a
mão na qual ostentava o anel que Javier colocou em meu dedo.
— O QUÊ?! — conseguiu dizer. — Casar? Como assim? Ficou
louca? Ai, meu Deus, eu estou tonta.
Segurei a risada.
— Não querendo atrapalhar seu momento, mas eu fiz um drama
maior. Desmaiei segundos depois do homem botar a aliança no meu dedo.
— Sério?! Drama não faz seu estilo.
Sorri.
— Não, mas de fato não me segurei. Acabei caindo. Minha cabeça
começou a girar.
— E você está calma aqui, falando sobre como reagiu a um pedido
de casamento que claramente aceitou? Como consegue?
— Talvez eu tenha tomado um calmante da Rúbia — confessei, e
ela riu, pegando a minha mão. — O noivo em questão é Javier Garcia. Sinto
muito… — Esta parte soava dolorosa: Rachel e Javier eram amigos há
muito tempo, e um envolvimento rápido a deixou apaixonada por ele.
Não queria chegar jogando aquela bomba em cima da minha melhor
amiga. Porém, resolvi dizer a verdade logo de cara, em vez de esconder e
acabar complicando tudo.
— Não se preocupe com isso. Estou bem, Javier é um caso
complicado, jamais daríamos certo. — Revirou os olhos. — Lamento mais
por você. Nunca se entenderam muito.
Ela tinha razão. Eu e Javier nos encontramos poucas vezes na vida
— com a noite anterior, um total de três. Nunca pensei que poderia ver nele
algo além do filho da puta que sempre vi.
— Como eu disse, tomei um calmante. Foi um negócio entre os
Garcias e Ferrazes. Vai ser minha chance de sair da casa do meu pai e,
quando eu estiver estabilizada o suficiente, pedirei o divórcio. Ninguém
pode me obrigar a continuar casada. Javier ainda ficará feliz, pois a empresa
será praticamente dele.
— Parece o plano perfeito.
Eu ri.
— Não é. O plano perfeito seria ter coragem e cortar laços com o
meu pai, seguindo a minha vida. Infelizmente, eu nunca fui forte o
suficiente para isso.
Ela me encarou com a típica pena que eu costumava receber por
causa dessa situação. Não fui à faculdade, não podia passear como a mulher
de vinte e cinco anos que eu era e não tinha a minha independência
financeira.
Nada me faltava dentro daquela casa. Porém, quando as coisas são
fáceis demais, perdem seu valor.
— Quando vai ser o casamento?
— Em duas semanas. Organizado por Rúbia e Alba, e eu me incluí
junto. Quero controlar ao menos esse aspecto da minha própria vida,
mesmo que não seja num contexto ideal.
Rachel sorriu de lado.
— Sinto muito.
— Eu sei.
— Serei sua madrinha, né? — indagou, em expectativa.
— Claro! Vou adorar ver a cara de desconforto de Javier no altar.
Ela riu.
— Você não presta, Val. — Fazia mais de cinco anos que Rachel e
ele tiveram algo. Minha amiga dizia ter superado, e Javier parecia também
(se é que em algum momento se importou com ela). — Mas acha mesmo
que é uma boa ideia afrontar Javier? Ele não é um cara ruim, só é muito
temperamental. Gosta das coisas com um certo tipo de rigidez e…
— Eu sei que pode ser uma péssima ideia, Rach. Mas não pretendo
entrar nessa agindo como uma boneca de porcelana. Se ele quer um
casamento arranjado, precisa aguentar o pacote completo. Papai achou que
me casando com ele faria a empresa ficar longe das minhas mãos, mas está
muito enganado.
— O que planeja? — murmurou, parecendo meio amedrontada.
— Tudo. Só não posso divulgar. Ainda não.
Acreditava na fidelidade de Rachel, porém, aqueles planos
representavam minha única carta na manga. Não poderia arriscar, ou eu
estaria completamente perdida.
JAVIER
Eu não deveria pensar apenas no prêmio final, mas fui criado para
isso, para ganhar o mundo, ter tudo aos meus pés. E no decorrer do dia do
noivado, mesmo sendo uma situação cada vez mais patética, senti que
poderia me casar com Valentina Ferraz. Não era uma mulher feia, na
verdade, era o oposto disso, do tipo que você olha e percebe logo que faria
sua vida virar de cabeça para baixo.
— Pronto? — A voz do meu melhor amigo me tirou dos meus
devaneios. Encarei a fachada da boate Lux com curiosidade, me
perguntando se era correto eu estar ali. — Esperei você por meia hora. Quer
mais alguns minutos para terminar a maquiagem?
O tom de debochado de Mateus me fez pular para fora do carro,
batendo a porta enquanto fechava o botão do paletó e caminhava em
direção à boate lotada. Era algo incomum: eu não costumava ir a festas
durante a semana, pois sabia o quanto isso comprometia meu serviço.
Entretanto, depois de toda aquela palhaçada do noivado, precisava mesmo
de uma boa foda e álcool no sangue. Pensando nisso, tirei a aliança presa
em meu anelar; aquele treco era feito sob medida para não ser perdido de
vista. Deslizei o objeto ao meu bolso, ciente de que perder um anel tão caro
me traria problemas.
Meu pai era quem estava por trás de todas as artimanhas do
casamento. O acordo que firmou minha união com Valentina Ferraz foi
feito diretamente com Mariano, quando papai precisou pedir sua
aposentadoria e designar alguém para representá-lo dentro da empresa
construída pelos Ferrazes e Garcias.
Eu ainda conseguia recordar a cena que meu sogro protagonizou.
A Garcia & Ferraz, popularmente conhecida por G&F, era uma das
maiores produtoras de petróleo do Brasil, tendo apenas uma concorrente
de força similar. Por isso, eu objetivava alcançar o topo; quanto mais alto
eu ia, mais poderosos nos tornávamos.
Em uma tarde qualquer, alguém bateu à porta do meu escritório.
Virei a cadeira, autorizei a entrada e vi Mariano Ferraz parado ali, com
um olhar sério, comum para o homem de meia-idade.
— Não sabia que havia chegado no Brasil, Mariano. — Relaxei
diante de sua presença.
— O meu voo acabou de pousar.
Arqueei a sobrancelha. Considerando o seu histórico, sabia que
meu escritório não seria o primeiro lugar aonde Mariano iria caso ele
tivesse recém-chegado de uma viagem pela Europa.
— O que deseja? Problemas?
— Não. Tudo sob controle — comentou.
Dividíamos a presidência desde que meu pai decidiu se aposentar,
me dando a minha primeira chance em anos.
— Eu fiquei sabendo que a VMJ… — comecei a contar a notícia
sobre uma queda no mercado de ações, mas fui cortado.
— Não vim falar de negócios, Javier.
Encarei-o. Lembrava-me de quando Mariano começou a frequentar
a nossa casa. Ele era um dos melhores amigos do meu pai, fundaram juntos
a G&F.
— Na realidade, é sim sobre negócios, mas digamos que… são
negócios além dos negócios.
Franzi o cenho com sua explicação sem nexo.
— Estou confuso…
— Eu quero me aposentar, Javier — jogou a bomba sobre mim. Eu
antecipara que essa hora estava chegando. Ele já não ia tanto à empresa,
executando a maioria do serviço em home office. — E não quero que
ninguém assuma o meu lugar.
— Então como pretende fazer a transição? A empresa não é apenas
dos Garcias, você é parte primordial.
— Casando você com minha filha.
As palavras levaram o ar dos meus pulmões. Por um instante, eu
pensei ter escutado errado. Quase sorri, dizendo que ele realmente havia
conseguido me assustar, contudo, vi que sua expressão passava muita
seriedade. Ele não estava mentindo.
— Que diabos… — tudo que saiu foi um sussurro.
Ele riu.
— Sabe que só tenho uma filha. — Sim, eu conhecia Valentina por
causa de Mateus, que era loucamente apaixonado por ela. — Eu a amo,
mas não a vejo como minha representante. — Engoli em seco. — Com o
casamento, você se tornará um integrante da minha família e poderá
assumir a empresa por completo.
Pisquei, tentando focar, algo nada fácil no momento. Era a proposta
do século. Melhor do que isso, impossível.
A vida inteira, almejei controlar sozinho a G&F, sendo o único
presidente, sem necessitar prestar contas a ninguém. Agora eu estava ali,
diante de meu maior sonho, o cargo de CEO, e meu pior pesadelo, um
casamento.
— Ei! — Mateus me trouxe de volta ao presente, batendo levemente
em meu ombro.
Percebi que já havia adentrado a Lux, inclusive tinha uma bebida à
minha frente. Sorri e tomei um gole do uísque, observando a pista liberada
da boate e levantando a cabeça para olhar o setor VIP; existia uma enorme
diferença entre os dois locais.
Notando meu incômodo, ele acrescentou:
— Não precisa ficar aqui, sei que prefere a área VIP.
— Por que você está trabalhando no andar de baixo?
Encabulado, Mateus sorriu. Meu amigo de infância era alto, com os
cabelos loiros cortados rentes à cabeça, num estilo militar, e um monte de
tatuagens marcando sua pele clara. Fazia o serviço de barman por não
querer ceder aos desejos de seu pai.
— Arrumei uma pequena confusão na noite passada. — Coçou a
nuca, dando a entender de que omitia algo da história. — Uma cliente fez
uma cena, e eu fui castigado com o turno da pista.
Sorri de lado.
— Você transou com ela, né, safado?
Ele teve a decência de corar, me fazendo rir ainda mais. Porém, no
instante em que fiz isso, também virei o rosto, dando de cara com alguém
que entrava no bar. Senti o mundo parar.
Era a última pessoa que eu esperava ver naquele dia. Em um lugar
onde eu achava que não haveria a menor chance de encontrá-la, estava
Valentina, caminhando em meio à multidão com outras duas garotas. Tinha
os cabelos cacheados presos num coque no alto da cabeça e seu corpo
coberto por um conjunto claro, meio rendado, que destacava sua pele negra
e a deixava incrivelmente atraente. A pergunta que não saía da minha mente
era: o que diabos ela fazia ali?
Valentina não me viu. Ao lado das amigas, andava tranquila sobre
saltos enormes, o que tornava a mulher baixinha ainda mais chamativa. Eu
não entendia o motivo para meus olhos não desgrudarem da garota, em
especial de suas pernas torneadas, que poderia facilmente visualizar
enroladas ao redor do meu corpo. Eu nunca pensara nela desta forma.
Era oito anos mais velho que Valentina. Agora estávamos noivos,
com um casamento marcado, e minha mente repleta de imagens sensuais de
seu corpo que tanto se desenvolvera.
— Vendo o que vai consumir depois do casamento? — Mateus
zombou, me fazendo virar rapidamente. Recostado no balcão, ele bebia um
gole de água enquanto observava a mulher que seria minha em poucos dias.
— Se bem me lembro, você comeu a amiga dela, não? — Indicou Rachel,
que ria de algo dito pela terceira garota, alheia à nossa inspeção.
— Não foi exatamente um namoro para ficar uma situação estranha
— menti, pois sabia que havia sido bem mais do que isso. Rachel era louca
por mim, mas eu queria somente algumas noites de diversão.
— Não disse que seria estranho, apenas perguntei.
Não respondi, bebendo um pouco mais do uísque e vendo quando a
mão de um cara enlaçou a cintura de Valentina. A surpresa passou pelo
rosto bem maquiado da mulher. Ela não parecia nem um pouco acostumada
àquilo tudo.
— Isso não me surpreende…
— O quê?
— Ela não fazer ideia de que é desejada — comentou. — Resultado
da proteção do pai, imagino.
Eu não achava que Mariano protegia Valentina, mas não conhecia
direito sua história. Durante quase uma vida inteira, sempre vi Mateus atrás
da garota, falando com ela, querendo que Valentina visse nele algo além de
um amigo.
— Tem certeza de que está ok com esse casamento? — Eu o encarei
e notei seu maxilar se contrair.
— Ela é minha amiga, Javier. — Não acreditava nisso, mas não
refutaria. — E se você fizer algo que a machuque, eu quebrarei a sua cara.
Enxerguei verdade nos olhos esverdeados do homem, focados em
mim. As luzes da boate lhe davam um ar perigoso. Eu quase ri, mas me
segurei, sabendo que Mateus cumpriria a ameaça.
— Não há como quebrar uma pessoa que você não ama.
Ele gargalhou.
— Se eu não soubesse que você é um babaca incorrigível, este seria
o momento perfeito para uma lição de moral.
Revirei os olhos, pousando o copo sobre o balcão, e me levantei,
seguindo para a ala VIP, sem nenhuma vontade de ficar ouvindo Mateus
falar e observando Valentina flertar. Subi a escadaria e parei na entrada,
onde um cara grandalhão me olhou de cima a baixo. Passei meu cartão na
catraca, liberando o acesso, e busquei um local para me sentar. A casa
estava cheia, algo normal para o porte da boate.
A rede Lux pertencia a uma família influente, tendo as melhores
casas de show e boates por todo o Brasil. Chegava ao nível dos cassinos das
grandes metrópoles, só que sem os jogos de azar e a prostituição. Ao menos
oficialmente: havia boatos de que o negócio servia de fachada para os
esquemas ilegais do playboy Vitor Galvani. Eu era cliente do local há mais
de oito anos, mas nunca quis procurar saber muito a respeito do assunto.
Odiaria me envolver em outros problemas. Meu foco principal era a G&F
— além, claro, de algumas mulheres.
Reparei que um grupo de garotas perto de mim me encarava.
Sentavam-se no mesmo sofá que eu. Todavia, mantive minha atenção na
música e pedi uma bebida, enquanto reconhecia alguns famosos ao meu
redor, atores e atrizes de filmes e novelas.
Um barman colocou um uísque sobre a mesinha redonda e pequena
à minha frente. Bebi um pouco mais e, antes que tivesse a chance de me
conter, meus olhos já vasculhavam a pista logo abaixo, procurando por ela.
Então a vi no bar, conversando amigavelmente com Mateus, bebendo um
drink coloridinho.
— Olá — disse uma loira magra e alta, que me encarava com
evidente interesse. — Poderia me juntar a você? — Indicou o espaço vago
ao meu lado.
O movimento discreto dos meus ombros denunciou a resposta:
“Tanto faz”. Ela se sentou, segurando um copo com algo parecido com o
que eu observara nas mãos de Valentina havia poucos segundos.
Eu teria companhia no fim da noite, e isto me agradava. Não
gostava de voltar para casa sozinho. Sexo sempre me ajudou a controlar
minhas preocupações.
Ela não falou mais nada, muito menos eu. Bebi mais do uísque, e a
mulher pediu uma nova rodada do seu drink. Afoita, passou a deslizar a
perna contra a minha, atiçando-me lentamente. No entanto, eu me distraía
vendo Valentina dançar, movendo os quadris de leve, o que atraiu minha
atenção àquela região. Ela era tão gostosa assim antes?
Seu short curto bastava para deixar meu pau duro. A barriga lisa,
aparecendo devido à blusa levantada graças ao modelo, também não
ajudava.
Congelei ao ver uma mão a tocando. Ela pareceu reproduzir minha
reação, parando de dançar automaticamente. Mas ao perceber que se tratava
do cara com quem flertou ao entrar, sorriu e voltou a dançar, colada nele.
Os quadris do homem se moviam contra os dela. Senti minha
garganta doer. A vontade doentia de caminhar até lá ameaçava irromper de
dentro de mim, mas não o fiz. Não o fiz porque ela era apenas minha futura
esposa arranjada, nada mais.
— Vamos sair daqui. — A voz feminina contra meu ouvido
estimulou a excitação que corria no meu corpo.
— Claro, baby.
Eu me levantei e enlacei sua mão delicada na minha. Apenas me
dirigi para fora da Lux, chegando à conclusão de que tudo terminaria bem.
O completo oposto de como havia começado.
VALENTINA
Minha cabeça doía de maneira insana, pensei que iria morrer
naquele exato momento, enquanto me arrastava sobre a cama de Rachel, em
busca do meu celular. A fuga da noite anterior havia sido terminantemente
calculada. Combinar de dormir na casa da minha melhor amiga era a única
forma de ter uma despedida de solteira de verdade. Porém, tudo saiu do
controle muito rápido e, entre um drink e outro, dançando com as meninas,
conversando com alguns caras que se aproximavam, perdi o controle.
Quando vi, Mateus estava nos colocando em um táxi.
— Bom dia, florzinha. — A voz debochada e masculina me fez
virar tão rápido que quase caí no chão. Encarei meu melhor amigo parado
no meio do quarto, segurando uma xícara de café, com um sorriso
enviesado. — Rachel está no quarto ao lado. Felizmente, dormindo como
um cordeiro.
Ele estendeu um analgésico em minha direção, que aceitei de bom
grado. Em seguida, apontou para um copo de água abandonado em cima da
mesa de cabeceira ligada à cama box. Não pensei duas vezes antes de
ingerir, ainda confusa sobre estar no apartamento de Mateus, e não no de
Rachel.
Mateus Santana era meu amigo de infância. Tendo somente um ano
de diferença, crescemos juntos. Eu o amava, mas não da maneira que ele
queria. Há uns dois anos, tentamos engatar uma espécie de namoro,
entretanto, não funcionou. Eu não me sentia preparada para admitir ao
mundo que estávamos mesmo fazendo aquilo. Tinha medo, passei a vida
toda ouvindo do meu próprio pai que mulheres não eram amadas de
verdade, e que uma paixonite poderia acabar com qualquer pessoa.
Levantei-me, afastando esses pensamentos, e caminhei pelo quarto.
O relógio digital sobre a mesinha marcava oito da manhã. Arrumei meus
cabelos ao passo que Mateus me observava, atento a cada movimento.
— Vai mesmo se casar, Valentina?
Tremi. Suas palavras carregavam muita mágoa.
— Pensei que houvesse superado isso, Mat. — Fui sincera. O tempo
passara, imaginei que ele já tivesse aceitado que não era para ser. Nós nem
sequer transamos. Nosso relacionamento se resumiu a um breve namoro
escondido, sem nenhuma complicação.
— Eu não estou apaixonado por você, Valentina. — Arqueei a
sobrancelha ante a resposta. — Mas você é minha amiga e me preocupo
com o que faz. Além do mais, Javier é…
— Eu sei lidar com Javier, Mateus — rebati. Na realidade, eu não
tinha a mínima ideia de como lidar com o meu futuro marido. — É um
homem. A vida toda vi minha mãe conviver com as atitudes imbecis do
meu pai em um casamento infeliz. Eu me sairei bem.
Ele riu com uma dose de ceticismo.
— É isso que a consola?
Para ser exata, o que me consolava era que, em algum momento,
Javier pediria o divórcio, pois depois do casamento a empresa seria dele e
tudo estaria bem, como papai desejava. E, se ele não o fizesse, eu daria um
jeito nisso.
— Sim. É o que me consola — menti e mudei de assunto: — Como
viemos parar aqui?
— Você queria ir para o apartamento de um cara desconhecido —
respondeu. Corei de vergonha. — Eu intervi, para que não acabasse fazendo
algo de que se arrependeria.
Fiquei calada algum tempo, ouvindo-o falar acerca das
consequências de beber demais. Quando argumentou que papai tinha razão
ao me superproteger, as palavras explodiram da minha boca, assustando-o.
— Como você pôde fazer isso?! Talvez eu quisesse algo. Não sou
uma criança indefesa, Mateus.
Assumiu novamente seu tom zombeteiro.
— Não parecia uma mulher de vinte e cinco anos na noite anterior.
Estava tão bêbada que tropeçava nos próprios pés.
Senti meu rosto ardendo pela raiva.
— E achou que poderia decidir algo por mim?! Eu passei a vida
toda assim, com as pessoas resolvendo as coisas sem sequer me comunicar.
— Apontei o dedo à sua cara. — Você não tinha o direito!
Ele segurou meu pulso com delicadeza, obrigando-me encará-lo.
— Eu posso não amar você como há dois anos, eu posso ter todo o
seu ódio, mas se qualquer homem ousar tocá-la de maneira indevida, sem o
seu real consentimento, eu a defenderei. — Os olhos claros de Mateus,
geralmente amigáveis e pacíficos, faiscavam. — Mesmo que queira minha
cabeça depois. Eu a vi crescer, eu sou a porra do seu amigo, não a deixaria
sofrer com as marcas de um trauma imenso.
Meu coração balançou — o tipo de sentimento que divide nossa
opinião. Não sabia se me sentia protegida pela posição do meu amigo ou
violada por sua interferência.
Então apenas dei um passo para trás, fugindo do seu aperto, e rumei
ao quarto de visitas. Rachel ainda dormia em meio aos lençóis. Certifiquei-
me de que ela estava bem antes de dar meia-volta e sair do apartamento.
Mateus não tentou falar comigo, e eu achei melhor assim. Eu o
amava demais para ficar decepcionada com ele. Era o único homem em
quem eu confiava. Nunca tive esse tipo de relação de amizade com
nenhuma outra pessoa, exceto Rach.
Só que tudo tinha limites.
Eu não precisava de proteção.
Pedi um carro pelo aplicativo e logo estava a caminho de casa. Papai
ainda dispunha de total controle sobre mim: não me deixava trabalhar ou
estudar, logo, eu não tinha dinheiro. Até mesmo minha despedida de
solteira fajuta foi na calada da noite.
Havia sido ideia de Rachel comemorar juntamente à Tatiana, uma
amiga em comum. Porém, as boates da rede Lux eram de um luxo
incalculável, então ficamos na pista, diminuindo uns bons reais na nossa
fatura do cartão de crédito. Nem pensei em me preocupar com a loucura
que seria quando papai averiguasse minhas contas do mês. A essa altura, eu
já estaria casada e não seria mais sua preocupação.
Entrei em casa pela porta dos fundos, passando pela lavanderia e a
cozinha. Finalmente, alcancei as escadas, subindo cada degrau com
cuidado, como se minha existência dependesse daquilo. Sorri ao chegar no
quarto, fechando a porta às minhas costas.
Caminhei até a cama, primeiro descartando as roupas sujas, e me
deitei só de peças íntimas. Cansada demais para pensar, deixei minha
cabeça pender para o lado. Meus olhos pesaram e minha mente se tornou
apenas névoa.

— Ei… — A voz branda me fez abrir apenas um olho, encontrando


a expressão meiga de minha madrasta. — Sei que deve estar cansada, mas
estamos esperando você. — Não me movi, continuei com a cabeça
afundada no travesseiro e vendo tudo de maneira desfocada. — Tome um
banho. Eu trouxe café, vai lhe ajudar na ressaca.
Isso acendeu um alarme em minha mente.
— Como sabe que estou de ressaca?
Ela riu.
— Eu sei de tudo, querida. — Alisou meus cabelos. — E não se
preocupe. Seu pai não tem ideia.
O ar saiu mais leve dos meus pulmões, e Rúbia logo se foi, me
deixando sozinha no quarto. Virei de lado e me ergui, terminando de tirar
minhas roupas. Segui para o banheiro anexado ao meu quarto.
Assim que a água caiu em meu corpo, minha cabeça latejou em
sincronia. Havia esquecido completamente o compromisso daquele dia: era
a prova do vestido. Passaria a manhã inteira ao lado da mãe de Javier e de
minha madrasta, tentando colocar tudo de acordo para os próximos passos.
Eu não poderia estar mais infeliz, concluí, deslizando o sabonete
por meu corpo. A manhã já começara infernal com meu confronto com
Mateus; estava desandando muito rápido.
Tinha uma leve impressão de que a minha futura sogra não gostava
de mim. Já recebi muitos olhares de ódio ao longo da vida, então sabia
detectar o preconceito velado em pequenos gestos.
Ou seja, meu futuro seria infernal. Javier e a mãe eram próximos o
suficiente para ela estar envolvida na organização da cerimônia, então
também teria de aguentá-la com frequência durante nossos anos casados.
Eu tinha planos. Planos perfeitos para cada um seguir seu rumo, sem
ninguém se machucar. Porém, cada vez mais, via que tudo poderia sair
rapidamente do meu controle.
A respiração falhou e tentei focar. Pensar positivo.
Mas não existia nada de positivo em ser forçada a se casar em pleno
século XXI.
Terminei meu banho, vestindo algo leve, e prendi meus cabelos.
Sentia minha mente cansada, meu corpo pedindo líquido e comida, e decidi
que precisava de água. Muita água. Não queria ser tachada de “noiva
bêbada” pela minha sogra.

— Acho que este vai ficar melhor em você.


Alba me tirou de meus devaneios enquanto eu alisava a peça em
frente ao amplo espelho do quarto de hóspedes. Estava rodeada por vestidos
brancos mais caros do que eu poderia gastar em um ano. Eram da marca Isis
Design, conceituada e maravilhosa. O modelo em meu corpo era perfeito,
diferente do que Alba Garcia estendia em minha direção.
Eu usava um vestido justo na cintura, que marcava bem o meu
busto. Não tinha mangas, apenas duas pequenas alcinhas em cristal para
sustentar a peça “tomara que caia”, ressaltando o vale dos meus seios.
Descia contornando meu corpo e soltava-se ao final, em uma cauda de
sereia.
Se caminharia rumo ao meu pesadelo, seria trajando aquele vestido.
— Não gostei tanto — sussurrei em tom de desculpas sobre o
modelo fechado e sem tantos adereços que minha sogra exibia. — Já este
aqui é lindo.
— Uma ótima escolha — a responsável por trazer os vestidos até a
minha casa sorriu ao dizer.
— Ficou perfeito em você, querida — Rúbia completou.
Alba não falou nada diante da minha recusa. Ela estava se
comportando tão bem naquela manhã que me parecia até estranho. Em
nenhum momento me lançou um olhar desdenhoso.
Mas, aparentemente, elogiei cedo demais, pois ao me virar, notei os
olhos de Alba descendo sobre mim.
— Isso não está muito chamativo para a mulher de um homem
como Javier?
Engoli em seco.
— Acredito que condiz com a ocasião, senhora Garcia — comecei,
e minha madrasta interveio:
— Claro que condiz! Como Alba disse, você é a mulher de um
homem influente. — Eu quis acrescentar que ainda não era a mulher dele,
porque, por enquanto, graças aos céus, eu não era de ninguém, mas me
contive. Rúbia precisava usar argumentos ultrapassados para convencer
alguém como Alba. — Ela deve estar à altura dele. É um homem bonito,
cobiçado. — Brincou com meus cachos.
— Mas isso não significa que Valentina deva parecer uma mulher da
noite — Alba rebateu, ácida. Quando a encarei, assustada com suas
palavras, vi o choque passando em sua face. — Sinto muito, não quis
dizer…
— Você quis — repliquei, a encarando. — Não entrarei em um
embate com a senhora, mas pretendo usar o vestido que escolhi. Seu
julgamento escroto não vai me impedir.
Levantei a barra do vestido e caminhei de volta para o provador,
sentindo meu rosto arder — de raiva, vergonha e indignação, tudo
misturado.
Não me alongaria em um discurso sobre como isso era uma
babaquice da sociedade, pois aquela mulher não merecia meu tempo.
Conseguia antecipar que minha jornada ao lado de Javier,
considerando a bagagem de sua família, seria insana. Esperava que ele nem
ligasse para o que eu fazia e que Alba me ignorasse o suficiente, assim, a
minha vida se tornaria suportável, se Deus quisesse.
Era a filha negra de um homem importante. Passei por situações de
preconceito dentro da minha própria casa, com meu próprio pai; nem
entendia como ele chegou a se casar com a minha mãe. Claramente se
apaixonou, para não deixar seu orgulho falar mais alto. Mas comigo,
resultado de uma paixão que se esvaiu rápido, ele não tinha motivos para
ser carinhoso. Aos seus olhos, eu representava apenas desgosto,
transformando-me em um alvo fácil.
JAVIER
Alguns dias depois, a caminho de Angra dos Reis
O grande momento havia chegado. Senti meus músculos travando
ao pensar que, em algumas horas, não seria mais um homem solteiro. Eu
me casaria com Valentina e tudo que sabia sobre ela era o que minha mãe
dizia. E isso se resumia a uma única coisa: “Ela será uma péssima esposa.
Péssima escolha. Garotinha petulante”. Perguntava-me o motivo para
Valentina despertar tanto o ódio dela.
Estávamos a caminho da Praia da Cachoeira, em Angra dos Reis,
local escolhido para a festa. A cerimônia civil aconteceria lá também, antes,
em um espaço mais reservado. A festa era apenas simbólica, pois o
casamento oficial ocorria perante a justiça.
Notei a cabeça de Valentina tombada levemente para o lado, no
jatinho que abrigava toda a minha família, juntamente à sua.
Havíamos trocado amenidades básicas.
Pousaríamos em breve, e eu estava ansioso para poder dormir até o
horário da cerimônia. Os últimos dias tinham sido infernais. Os problemas
na empresa se multiplicavam com uma rapidez espantosa; perdi horas de
sono resolvendo-os para conseguir terminar a tempo, antes de ser enfiado
nesta situação.
— Cadê sua aliança? — Valentina me encarava com certa
curiosidade. Ela vestia uma blusa com a estampa de alguma série
desconhecida e shorts curtos, mostrando as pernas que tanto me atraíram na
boate. — Javier! Está tudo bem?
Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos.
— É claro que está tudo bem. Por que não estaria? — Ela apenas
franziu o cenho em resposta e passou por mim, sentando-se na poltrona do
lado da janela. — O que faz aqui, Valentina?
— Eu lhe fiz uma pergunta — rebateu, me encarando.
— Que pergunta? — Nem recordava mais.
A mulher revirou os olhos, impaciente.
— Cadê sua aliança, Javier? — Segurou a minha mão, balançando-a
no ar para indicar a ausência do anel. — Eu odeio a minha, me lembra a
todo instante da merda que é isto, mas eu a uso, porque aceitei e vou até o
fim.
Sua determinação me assustou. A Valentina que eu conhecia
costumava ser calada, nunca se expressava.
— Está no meu bolso.
— Coloque.
— Vou colocar, se acalme.
— Estou calma, exceto pelo fato de que quando descermos deste
avião, eu terei que me agarrar em seu braço e fingir que somos um casal.
— Para quê? Só vamos encontrar a equipe de organização da festa.
— Ordens da sua mãe. Segundo ela, pode ter algum fofoqueiro que
queira um furo para um jornal. — Soltou a minha mão, e minha pele voltou
a se tornar fria. — Ela disse que devemos ser um casal apaixonadinho.
Eu ri.
— Esse deboche todo estava guardado onde? — brinquei, pegando a
aliança e enfiando em meu dedo. Era apertada e incomodava, dando uma
falsa impressão de pesar demais.
Esperei que Valentina retornasse ao seu lugar, mas a mulher apenas
se afundou na cadeira, pondo o cinto de segurança.
— Precisamos conversar.
— Aqui? — Arqueei a sobrancelha.
— Sim, sei que vai sumir quando chegarmos, e só vou vê-lo na
cerimônia civil. Depois disso, já estaremos casados, o que é uma coisa
enorme para se engolir. — Encostou a cabeça no banco e fechou os olhos,
respirando fundo.
— O que quer dizer? — Olhei ao redor, reparando que apenas
mamãe nos mirava discretamente.
— Não está cansado? — Fitou-me. — Ou é um jogo fácil para
você?
Queria dizer que era fácil, porém, não acreditava nisso. Iria me
casar, pelo amor de Deus!
— Não. É o Inferno — confessei. — Mas eu já aceitei, não vou
voltar atrás.
Ela sorriu de lado.
— Também não vou, Javier. Por isso quero deixar claros os meus
termos.
— Termos?
— Sim, por exemplo: onde iremos morar? Papai não me disse nada
sobre isso. Preciso saber se há a possibilidade de dormirmos em quartos
separados.
— Não tem. Moraremos por um tempo na mesma casa que meus
pais. — Ela congelou. — Sinto muito, mas dividiremos o quarto.
A mulher continuou parada, em choque.
— Por que viveremos com seus pais, Javier?
Sorri de lado, meio descontente em ter que dizer a verdade.
— Mamãe não quer que eu vá para longe. — Isso não era tudo.
Minha mãe não lidava bem com o meu casamento, ou melhor, com a minha
noiva. Além disso, sua solidão naquela casa imensa me preocupava.
— Você já mora sozinho! Em um apartamento. Por que não
podemos ir para ele?
Fechei os olhos.
— Olha, ela só pediu para passarmos um tempo lá, ok? Até as coisas
se assentarem.
Ela soltou um suspiro resignado.
— Não acredito nisso. Era tudo de que eu precisava. — Afundou o
rosto entre as mãos.
— Algum termo a mais? — indaguei, impaciente.
Não podia ficar explicando que meus pais não viviam juntos como
um casal havia muito tempo. O meu casamento com Valentina fez papai
pedir o divórcio de vez, já que mamãe ficou irredutível com a situação. Por
isso ela queria a companhia do único filho. Eu evitaria contrariá-la.
— Já que o Inferno está montado — ela se voltou para mim —,
vamos tentar agir de maneira madura, certo? Somos adultos, conseguiremos
conviver sem brigar.
Pensando a respeito disso, eu acreditava que não havia maneira de
esse casamento ser fácil.
— Nada de saídas noturnas — rebati. — Aceito qualquer termo, se
você concordar com não ficar me traindo por aí.
Valentina riu.
— Não vai me controlar, Javier.
— Será minha esposa, não quero você em bares, bebendo e
dançando com outros homens. Se quiser passear, eu mesmo a levarei. —
Ela abriu a boca de leve, atraindo minha atenção aos lábios rosados pelo
batom. — Faremos todas as malditas coisas de marido e mulher que você
desejar. Mas não desrespeite os votos de fidelidade…
— Isso vale mais para você, com toda a sua fama. Eu posso ser uma
esposa perfeita — aproximou-se —, contanto que não me faça de corna.
Ri, me inclinando em sua direção. Era uma área de risco, eu sabia
bem, mas no instante em que meu rosto encontrou os pequenos cachos
revoltos de Valentina, meus sentidos se bagunçaram, inebriados pelo
perfume da mulher. Tinha cheiro de morango. Até aquele momento, eu
desconhecia que apreciava esse tipo de bobagem.
— Se me satisfizer em casa, eu não sairei procurando algo —
sussurrei próximo à sua orelha.
Vi seu corpo se tensionar e os pelos se arrepiarem. Por mais que
fôssemos praticamente desconhecidos, ela reagia a mim.
Tocou meu ombro, me empurrando com delicadeza. O rosto da
mulher logo se desfigurou em uma expressão raivosa. Ela me encarou como
se fosse me matar naquele exato instante.
— Nunca — a voracidade com que disse isso me levou a rir.
Segurei seu maxilar, sentindo a pele macia contra meus dedos.
— Calma, é só uma ideia. Mas não reclame se eu for atrás de
diversão.
Os olhos escuros faiscaram pela raiva.
— Ótimo, se prefere assim. Sendo discretos, nós dois poderemos
nos divertir com outras pessoas.
Voltei para o meu lugar ao escutar o piloto anunciando o pouso.
Passei a ignorar a presença de Valentina e botei meus óculos de sol,
escondendo qualquer emoção diante de suas palavras.
Eu estava bem com isso, os termos colocados na mesa. Tudo daria
certo.
Ou, pelo menos, era o que eu pensava.
A Praia da Cachoeira foi fechada para a nossa cerimônia; custou
uma nota alta.
Pisando na pista de aterrissagem, senti o vento frio batendo contra o
meu rosto. Entramos no carro e saímos dali, cada família em seu respectivo
veículo alugado.
— Ao chegarmos, a impressa estará por lá — mamãe cortou o
silêncio do ambiente. — Se vai mesmo fazer isso, indico que segure a mão
da garota, ajam como um casal. — Bufou. — Já não basta ter que casar
você com ela, ainda preciso fornecer dicas de comportamento…
Sorri.
— Não sei por que a odeia tanto, é uma boa garota, Alba — meu pai
a defendeu.
— Não é. Você não viu o vestido que ela escolheu, roupa de
vigarista barata prestes a dar o golpe do baú.
Senti uma pontada no meu estômago. Estava nervoso, e sempre que
ficava assim, minha gastrite me afetava em um nível considerável.
— Por favor, parem de brigar. Vamos passar o fim de semana ao
lado dos Ferrazes, tente não fazer nada alarmante, mamãe. Eu amo você,
mas não desejo começar uma guerra.
— Ouça o garoto, Alba. Ele escolheu Valentina e, por mais que
saibamos as condições disto tudo, é melhor assim. Um casamento arranjado
pode acabar se tornando bem mais do que isso.
Fiz uma careta. Duvidava muito que nossa relação evoluísse para
uma amizade.
— Eu acho que…
— Deve ficar aberto às oportunidades que a vida lhe dá, meu filho.
Entendo que você e Valentina são opostos, mas vão conviver por muito
tempo. Tentar ser feliz é primordial.
Mamãe bufou novamente.
— Como dá um conselho desses ao seu filho, Santiago? Ele é um
homem de respeito, não vai se apaixonar pela filha daquela desqualificada!
— praticamente berrou.
Avançamos mais em direção à ilha.
— Então é isso? Seu problema de verdade é com a mãe da garota?
Por Deus, quanto tempo faz que você e ela brigaram? — Eu estava perdido
no assunto.
— Não interessa. Eu não me reconciliaria com aquela mulher,
Santiago Garcia! Nem que minha vida dependesse disso. — Levantou o
dedo, puta da cara com o rumo de tudo.
Retirei os fones do bolso do meu terno e conectei ao celular,
colocando um podcast sobre empreendedorismo, enquanto os deixava
discutirem todos os problemas entre os Garcias e os Ferrazes.
A amizade que ligava nossas famílias se limitava aos nossos pais. E
não estava a fim de tentar entender a situação.

A ilha era linda, tinha um clima fresco e um mar sem muitas ondas.
Desci do carro, tirando os óculos ao ver a Valentina fazer o mesmo do outro
lado. Meu olhar recaiu mais uma vez em suas pernas. Nem eu compreendia
minha fascinação por elas.
— Ei, querido, venha cá — chamou, se aproximando. — Vamos
tirar uma foto. — Deu o tipo de sorriso doce que sabia que nunca dirigiria
verdadeiramente a mim. Enlaçou o braço em minha cintura e mexeu no
celular, cochichando: — Desculpe, perguntei à minha madrasta como agir, e
ela tagarelou por minutos sobre o que casais felizes fazem.
A ilha estava movimentada. A equipe de decoradores ia e vinha, e
os fotógrafos já se encontravam por ali. A banda também organizava seus
instrumentos no palco. Tudo muito ordenado para que nada saísse do
controle.
Valentina tirou a foto. Forcei um sorriso enquanto sentia seus
cabelos perto do meu nariz. Cheiro de morango. Maldito cheiro de
morango!
— Ótimo, vou entrelaçar minha mão à sua — avisei, pegando a
minha mala pequena com a outra mão. — Andaremos como um casalzinho.
Ela deu uma risada breve. Caminhamos até a cabana alugada,
passando pelo trapiche que ficava sobre as pedras.
— Ei — ela me alertou para a presença de fotógrafos nas
proximidades.
Valentina então sorriu e encostou a cabeça no meu ombro. Minha
mão livre percorreu seu corpo, puxando-o ao encontro do meu. Beijei o
topo de sua cabeça como o bom homem que fingia ser, tentando passar a
imagem de alguém apaixonado, embora fizesse aquilo por puro egoísmo.
— Talvez sejamos bons nisso — comentou baixo ante o olhar de
aprovação de todos.
— Talvez.
Entramos na cabana e pudemos finalmente nos afastar. Coloquei a
mala de lado e estendi os tendões, relaxando meus músculos tensos.
Valentina se sentou e retirou as sandálias de tiras.
— Tudo sob controle — minha mãe falou, adentrando o local. — Os
fotógrafos ficaram contentes com as imagens que a chegada rendeu.
Tornei a pegar a mala e andei ao quarto, vendo que o nome de cada
um fora fixado nas portas. Deixei minha mãe e toda a família para trás,
fechando a porta, cansado demais para pensar.
Rastejei à cama confortável e me deitei, encarando o teto. Não sabia
se gostava do rumo dos meus pensamentos, notando coisas estúpidas como
o cheiro da mulher que jamais seria minha de verdade.
Como ela mesma afirmou: nunca aconteceria.
Fechei os olhos, cobrindo meu rosto com o travesseiro e abafando
um grito estrangulado. Não deveria desejar saber como ela era ao receber
prazer, não deveria desejar dar isso a ela e nem querer entender cada
terminação nervosa do corpo de Valentina.
Considerava inadmissível.
Era apenas a pressão do casamento. Apenas pressão. E a clara falta
de sexo. O trabalho me deixou tão ocupado que não transava com ninguém
desde a minha falsa despedida de solteiro.
A primeira coisa que faria quando essa festa acabasse seria arrumar
uma mulher maravilhosa para afastar qualquer pensamento ligado à minha
futura esposa. Um plano perfeito. Em pouco tempo, nem me lembraria
desses sentimentos confusos.
VALENTINA
Estava na hora. Na verdade, havia passado da hora. O casamento
civil já ocorrera. E quanto mais tempo transcorria, mais nervosa eu ficava.
Imaginei que nem pensaria duas vezes ao caminhar em direção ao altar, pois
não era um casamento de verdade; eu não precisava jurar amor eterno
àquele homem.
Era só ver tudo da maneira mais prática possível. Repetia isso para
mim nos últimos dias. Mas ali estava, parada em frente ao espelho, sentindo
cada parte do meu corpo reclamando do nervosismo.
Iria me casar. Nunca imaginei que esse dia chegaria, muito menos
que seria assim.
Meu cabelo fora preso no alto da cabeça em um coque elegante,
com apenas alguns cachinhos caindo ao lado do meu rosto. “Chique”, como
Alba havia dito. O vestido realçava meu corpo e era uma peça divina. No
entanto, sentia um aperto no peito, e a vontade de chorar me acometeu,
fazendo meus olhos arderem.
Uma coisa me faltava. Javier parecia inatingível, o CEO frio e
calculista que eu conheci a vida toda. E, além disso, ele era um homem. Um
homem que dormia com mais mulheres do que eu poderia contar. Um
homem que entendia sobre os prazeres da vida. Em contrapartida, eu mal
sabia o que significava ser tocada.
Experienciava um turbilhão de sentimentos. Não precisava dormir
com ele, mas não conhecia muito da sua índole. E se ele forçasse algo? E
se, e se, e se… As múltiplas indagações passaram a me desesperar. Não
havia ninguém com quem eu pudesse sentar, conversar e receber uma
resposta como “Você não precisa fazer isso”.
É irônico como nós, mulheres, sempre estamos à mercê de alguém.
Mesmo quando nos encontramos em suposta segurança, com as pessoas da
nossa família, somos submetidas a decisões que não queremos tomar.
— Ei, princesa. — Virei rapidamente, dando de cara com Rúbia
sorrindo em minha direção. — Vim lhe trazer algo. — Balançou a mão no
ar e fechou a porta, sentando-se ao meu lado. — Eu sei que não é nada
convencional hoje em dia, mas acho que toda noiva deve ter isso.
Sorri de leve, enfiando todos os meus medos garganta adentro.
— Primeiro, algo novo — prosseguiu, entregando-me uma sacola.
— Para seguir a tradição. — Abri e vi algumas peças ali dentro, as quais
tirei com cuidado. Tratava-se de uma lingerie digna de uma noite de
núpcias. — Sei que formou uma decisão sobre isso, mas uma mulher
sempre pode mudar de ideia. Sem pressão, claro.
Neguei, mas aceitei o presente, agradecida, mesmo ciente de que
não o usaria.
— Isto é algo velho. — Colocou o item entre os meus dedos. —
Fiquei dias pensando em no que lhe dar, procurei por toda a casa, e a única
coisa boa que achei foi isto. Era da sua mãe. — Observei o pingente oval de
ouro, bem conservado. Abrindo-o, enxerguei uma imagem que aqueceu
meu peito. — É uma foto sua, ainda pequena, jogando bola com alguns
garotos. — Rimos. — Para você nunca se esquecer do quão especial é.
As palavras tocaram meu coração, e uma lágrima solitária escorreu
por meu rosto.
— Obrigada. Eu amei. — Apertei o pingente contra o meu peito.
— Agora, algo azul. Para mim, a cor simboliza o recomeço. —
Estendeu-me um pequeno grampo de cabelo com flores em um azul
vibrante. Pôs o acessório em meus fios. — Por fim, algo emprestado. São
meus. Ganhei do meu primeiro amor. — Alcançou-me um par de brincos.
— E enquanto ele viveu, eu fui a mulher mais feliz do mundo. — Seus
olhos se umedeceram, transbordando de emoção. — Eu sinto muito pela
maneira como se casará, mas saiba que pode contar comigo.
— Obrigada, Rúbia. Eu nunca conseguirei agradecer o suficiente
por tudo que faz por mim. — Abracei-a, descansando a cabeça em seu
ombro e sentindo o cheiro familiar do seu perfume. — Você será uma mãe
incrível assim que decidir ter um bebezinho.
Rimos.
— Isso é impossível, mas fico feliz por seu apoio. — Beijou a
minha testa. — Seja feliz, senhora Garcia.
Suas palavras me travaram. Ela saiu, deixando-me sozinha com
meus pensamentos.
Senhora Garcia. Senhora Garcia…
Ai. Meu. Deus. Agora eu era oficialmente a senhora Garcia.

JAVIER
Eu me tornara, de fato, parte da família Ferraz, marido de Valentina
e único CEO da G&F. Naquele momento, não havia no mundo homem mais
feliz do que eu. Imaginava a vida plena que teria pela frente, imbatível;
nada me pararia.
— Feliz? — Mateus questionou.
Voltei a encarar todos os convidados acomodados em cadeiras
minúsculas, bebendo champanhe e aguardando a entrada da noiva. Rachel
estava parada do outro lado do altar e me desafiava com um olhar.
— Extremamente — debochei, mas com um fundo de verdade.
Mateus sabia da oportunidade que o casamento me traria e parecia
conformado com isso.
Escutei a marcha nupcial e esperei pela noiva. Quando vi Valentina
Ferraz Garcia entrando, com o braço entrelaçado ao do pai e o rosto
estampando um sorriso amplo, eu me senti aturdido. Pensei que me
preparara para isso, mas não, porque ela não estava apenas bonita: era a
noiva mais linda da face da Terra. Agora, eu me achava estúpido por me
casar com a mulher somente por um acordo, pois não poderia tirar todas
aquelas camadas de pano que escondiam seu corpo torneado.
Quanto mais ela se aproximava, mais nervoso eu ficava. Ao tomar
sua mão, notei sua inquietude também. Valentina suava, parecendo que
desfaleceria ali mesmo. Mas agi da mesma maneira de sempre, indiferente,
e foquei no plano inicial: ignorar a atração gritante que sentia por ela.
A cerimônia foi rápida, mas intensa. Estávamos tensos. Quase todos
ali tinham um certo conhecimento de que não existia amor, nem mesmo
paixão, porém, senti meu pau reclamando enquanto o cerimonialista falava.
“Ao menos paixão existe”, ele quis dizer.
Quando o discurso acabou e liberaram o beijo entre os noivos,
encarei Valentina. Vi o sorriso vacilar em seus lábios. Ela congelou, exceto
pelas mãos, tremendo entre as minhas. Segurei seu rosto e me inclinei;
contudo, notando ela fazer menção a dar um passo para trás, beijei sua testa.
Tempo o suficiente para acalmá-la e senti-la agarrar minha cintura,
sorrindo.
Então me afastei para poder mirá-la. Em meio a uma salva de
palmas, nos abraçamos. Atuando como um casal feliz, descemos os
pequenos degraus do altar montado na praia, enquanto uma chuva de arroz
caía sobre nós.
— E acabou — ela sussurrou. — Agora sou sua esposa.
Fitei seu rosto com um leve temor.
— E eu, seu marido. — Botei para o lado uma mecha do seu cabelo,
que voava com o vento.
Ouvimos um burburinho às nossas costas e nos viramos, dando de
cara com o nosso pequeno círculo de convidados, os quais debatiam entre
si.
— Queremos um beijo de verdade! — Mateus tomou a frente, rindo
com um copo de champanhe entre os dedos, claramente um pouco alterado.
Valentina ficou tensa.
— Vamos ter que dar isso a eles — murmurou, ainda em aparente
negação.
— É só um beijo. Prometo que você não vai morrer.
O sorriso de aprovação da minha esposa me levou a tomar seu rosto
em minhas mãos, deslizando os dedos por sua pele. Ela se arrepiou. Enlacei
sua cintura antes de colar meus lábios nos seus.
Minha língua pediu passagem, e Valentina me recebeu, pondo os
braços em torno do meu pescoço. Foi um beijo de verdade. Um beijo que
nunca pensei que daria na frente de todos e, principalmente, com aquela
mulher em especial.
Tinha gosto de champanhe.
Tinha gosto de perdição.
Afrouxou seu aperto, e nossas bocas se separaram. Enxerguei a
surpresa brilhando em seu rosto e senti minha face queimando. Mas as
pessoas contentes nos fizeram lembrar o porquê de estarmos ali. Depois
disso, tudo voltou a ser puramente profissional.
— Você é um bom mentiroso, Javier. — Uma voz feminina me fez
levantar a cabeça. Estava sozinho na mesa: meus pais foram à pista, e
Mateus tirou a madrasta de Valentina para dançar, enquanto a noiva valsava
com o pai.
Encarei Rachel.
— Posso saber o porquê?
Ela usava um vestido vermelho justo, com um decote marcante
destacando os seios avantajados. Eu poderia ficar com Rachel novamente,
mas seria um erro que colocaria tudo a perder.
— Você não a ama, Javier. Só quer brincar com os sentimentos de
Valentina e ter sua vitória.
— E quer dizer que eu amo você? — zombei.
— Não seja debochado comigo. Eu sei bem o que está fazendo, e
não, não estou dizendo que você me ama. E nem que eu o amo. Apenas sei
que Valentina é uma pessoa maravilhosa; não vou deixar que você pise no
coração dela.
— Ela é minha esposa, Rachel. Acho que sei bem como levar meu
casamento.
— Não, você não tem ideia do que significa isso…
— O que está acontecendo? — Valentina fitou a melhor amiga com
desconfiança.
— Estava falando com Javier.
— Parece que brigaram — minha esposa rebateu. — Eu amo você,
Rachel. Entendo o que teve com Javier, mas estamos na minha festa de
casamento. Só por um momento eu quero dançar como se esta loucura fosse
normal.
Sorri e estendi a mão para ela.
— Então dance comigo. — Havia dúvida em seu olhar. — Prometo
guiá-la direitinho.
Riu e entrelaçou nossos dedos, puxando-me para o meio do salão e
levando Rachel de arrasto. A decoração, escolhida por Valentina, estava
impecável.
— Precisaremos aprender a lidar com essa merda toda — eu disse,
dando os primeiros passos de dança.
— Não temos nada com que lidar. — Não vi sua reação, pois seus
olhos se fixavam em nossos pés, acompanhando cada movimento.
— Fique tranquila, não vou pisar nos seus pés.
Valentina gargalhou.
— Você está muito risonha hoje — comentei.
— Talvez eu tenha tomado um pouco de vodca para conseguir sair
do quarto. Champanhe também — confidenciou, em voz baixa. Arregalei os
olhos diante da revelação. Segurei sua cintura com firmeza quando ela
vacilou, inclinando a cabeça para trás ao rir. — E talvez, a cada taça de
champanhe, isso só fique mais intenso.
— Ah, Valentina… — gemi, aterrorizado por desconhecer a versão
bêbada daquela mulher.
Ela apenas sorriu e continuou dançando. Encostou a cabeça em meu
peito de maneira tão genuína que deixei o medo se esvair e cumpri minha
promessa: eu a guiei pelo salão já vazio, sabendo que éramos o foco de
todos ali.
Os convidados incluíam familiares mais próximos e amigos dos
Garcias e Ferrazes, bem como nossos clientes mais fiéis. Todos tinham
noção de que o noivado foi repentino; decerto, alguns até esperavam um
vacilo para ser capturado pelos inúmeros fotógrafos no lugar.
Queríamos tudo aquilo. Toda aquela mídia e atenção. O casamento
de duas grandes famílias do nosso ramo sem uma grande repercussão seria
encarado com maus olhos.
— Marido… — Valentina estava de olhos fechados e lábios
entreabertos.
— Sim, esposa? — brinquei, concluindo que a versão bêbada da
mulher era sonolenta e divertida.
— Se você me levar para o quarto agora, será que os convidados
considerarão um ultraje?
Beijei o topo da sua cabeça.
— Acho que só vamos ser vistos como um casal apaixonado.
Ela bocejou.
— Me carregue para o quarto, Javier — sussurrou.
Eu não pensei direito quando a peguei nos braços, leve como uma
pluma. Carreguei-a para a saída do salão de festas, em direção à cabana
onde estávamos hospedados, sem me importar com as consequências.
A verdade era que, ao ouvir aquilo, imaginei Valentina falando isso
em outras circunstâncias. Mas, neste cenário, ela estaria acordada, lúcida e
me desejando tanto quanto eu a desejara nas últimas horas.
VALENTINA
Movi-me com lentidão, puxando o lençol contra meu corpo.
Afundei minha cabeça no travesseiro; sentindo uma pontada de dor, gemi,
cansada demais para averiguar o motivo de tamanha enxaqueca. Minha
boca estava seca, eu poderia tomar litros de água. Esse pensamento foi
cortado por um barulho de algo abrindo e fechando e uma constante
movimentação no quarto.
Tirei o lençol do meu rosto e encarei Javier, parado, com uma toalha
pendurada no pescoço e uma calça caindo levemente na cintura. Não deixei
de notar seu olhar concentrado no jornal entre os dedos.
Esforcei-me para recordar o que aconteceu na noite anterior, sem
surtar pelo homem seminu. E me lembrei de tudo. Da chegada à ilha, das
nossas famílias juntas, da conversa com Rúbia e de cada detalhe daquela
cerimônia. Do beijo, principalmente dele. Da nossa dança, do que
aconteceu até que ele me trouxesse ao quarto.
Só que as lembranças acabavam aí. Por isso me levantei
rapidamente, fazendo o lençol cair sobre meu colo e liberar meu busto
apenas com o sutiã. Arregalei os olhos, conferindo se vestia algo mais…
Sim, usava todo o meu conjunto de lingerie.
— Bom dia — falou, rouco, mas não se atreveu a me encarar.
Sentou-se na outra ponta da cama, enquanto eu continuava ali, rígida, com
os olhos quase saindo do meu rosto.
— O que aconteceu ontem, Javier? — sussurrei, e ele travou,
colocando o jornal de lado para me encarar.
— Você dormiu, Valentina. Apenas isso. Eu a trouxe para o meu
quarto porque é o mais próximo.
— Por que estou só de sutiã? — Minha voz tinha um tom
aterrorizado.
Ele riu.
— Você achou que seria legal tirar a roupa. Eu poderia dizer que fez
um striptease, mas acho que isso a mataria — divertiu-se. — Então, falarei
que só tirou o vestido e, no processo, caiu na cama desmaiada. Eu nem
toquei na peça, está ali. — Apontou para o monte de panos no canto do
quarto, e observei seus olhos indo diretamente para alguns centímetros
abaixo do meu rosto.
Eu mostrava o sutiã escuro, com meus seios quase pulando para
fora. Escondi-me atrás do lençol branco e vi o sorriso safado nascer no
canto dos lábios de Javier.
— Nossos pais já viajaram — avisou. — Temos o resto do dia na
ilha, amanhã cedo voaremos para Fernando de Noronha. — Havia me
esquecido disso. Papai e Santiago assumiram temporariamente a empresa
para que Javier tirasse uma folga de uma semana. Precisava ser um
casamento completo, com lua de mel e tudo. — Vou sair e não sei que horas
retorno.
Franzi o cenho. Era uma ilha fechada; enquanto estivéssemos lá, ele
não teria como se divertir com ninguém.
— Tudo bem — eu me limitei a dizer.
Ergui-me enrolada ao lençol e caminhei até o banheiro, trancando a
porta às minhas costas. Deixei o tecido cair no chão e analisei meu rosto:
não parecia derrotada, e sim exausta por beber muito na noite passada e
acordar de ressaca.
Entrei no banho, ignorando qualquer pensamento sobre o
casamento. Decidi encarar aquilo de maneira madura. Contudo, a aliança
pesou em meu dedo e foi impossível não a notar, sentindo um nó na minha
garganta.
O clima da ilha me animou assim que pisei os pés na areia e senti o
sol batendo em meu rosto. Tapei o excesso de luminosidade com a mão para
ver o barco parado na margem, com Javier em cima dele. Aproximei-me,
puxando as laterais da saída de praia para me cobrir melhor, sabendo que
ele com toda a certeza me lançaria um daqueles olhares maliciosos e me
deixaria morta de vergonha.
— O que está fazendo? — perguntei, e ele parou, me encarando. Na
verdade, não dava para saber o que mirava, pois o homem usava um óculos
escuro aviador, conferindo-lhe um charme especial.
— Pedi que trouxessem um barco. Vou até Angra. — Espantei-me.
— Aqui é o fim do mundo. Muito reservado. Angra tem mais gente. Se
quiser vir comigo, fique à vontade.
Ponderei por alguns instantes: continuar na ilha sozinha ou ir com
Javier para Angra dos Reis, onde ele arranjaria alguma mulher?
— Eu vou — decidi, subindo no barco. Parei quando vi uma mesa
com cadeiras no deque. — Quem vai pilotar esta coisa?
Javier deu um risinho.
— Eu, baby — disse, daquela maneira simples e conquistadora
como fazia tudo na vida. — Sente-se. Tem vinho e cerveja na caixa. —
Enxerguei uma mesinha com cadeiras almofadadas, um sofá e uma cama,
além da cabine do piloto. — É um barco legal. — A voz do meu “marido”
se chocou contra a minha pele, causando arrepios inesperados.
Busquei uma fuga que não denotasse o fato de eu querer me afastar
do perigo. Alegrei-me ao ver uma garrafa de vinho aberta sobre a mesa,
com uma taça ao lado. Caminhei até lá, servindo uma dose generosa na
taça, embora houvesse reparado que fora usada anteriormente.
— Você que usou? — Arqueei a sobrancelha em sua direção.
— Sim. Vai curar a ressaca com álcool?
Sorri com sua indagação.
— Não é o que os homens fazem?
Javier riu de leve, com sua atenção focada em mim. Bebi um gole
do líquido, apreciando o quão bom aquilo era. Fechei os olhos por breves
segundos e, quando tornei a abrir, ele não estava mais ali. Acomodei-me no
sofá confortável do barco.
O cara logo retornou, segurando uma garrafa de cerveja,
contrariando tudo que eu sabia sobre homens da sua classe, acostumados a
bebidas finas e tal. Mas não, ali estava ele, calçando algo simples, vestindo
calças jeans desgastadas e uma camiseta que não era social.
Desviei o olhar, não querendo que me pegasse observando, e abri
um aplicativo de mensagens. Tinha uma dúzia de Rachel, nas quais falava
sobre o embate dela com Javier na noite anterior, mencionando que eu
deveria ter cuidado, pois gente como ele brinca com garotas como nós.
Sorri e não respondi. Ela estava certa, mas a verdade era que eu
nunca me envolveria desta maneira com Javier, não conscientemente. Teria
que ficar muito bêbada para irmos além e, num caso desses, não acreditava
que ele ousaria me tocar.

JAVIER
Observei pelo pequeno espelho da cabine que Valentina bebia vinho
enquanto jogava no celular. Eram onze da manhã, não havíamos tomado
café direito e estávamos a caminho de Angra. Ainda lembrava o olhar
confuso dela, sentada na cama, com o lençol amontoado na cintura e
exibindo os seios fartos, perfeitos para caber em minhas mãos. Uma
imagem e tanto.
Mas a mulher à minha frente significava perigos que eu não queria
correr, então foquei apenas em ser um marido distante. Não cairia na
tentação de tê-la em meus braços. Deixar-se levar pela luxúria acarretava
erros incalculáveis, como ser amarrado para o resto da vida. Eu pretendia
ficar naquele casamento por um tempo específico (e curto).
Angra dos Reis era o destino perfeito. A praia, cheia de turistas de
todas as partes do Brasil, estaria tão cheia que acabaríamos por passar
despercebidos em meio às pessoas. Procuraria alguém para me divertir, e
Valentina faria seja lá o que gostasse de fazer. Conhecia pouquíssimo sobre
sua vida.
— Você sabe mesmo pilotar esta coisa. — Não era uma pergunta.
Ela parou ao meu lado, observando-me mexer no painel do barco. Sua saída
de praia estava meio aberta e revelava uma parte dos seios atraentes. Ah,
merda, se não queria me deixar de pau duro, que não me provocasse.
— Surpresa? — rebati, bebendo um gole da cerveja.
— Sei lá, sempre me pareceu um tanto mimado, pensei que tivesse
gente para fazer tudo.
— Não sou mimado. Se há uma pessoa mimada aqui é você, que
jamais saiu das asinhas do seu papai — debochei. Vi ela juntar os lábios em
duas linhas rígidas, contendo sua raiva. — Tem vinte e cinco anos e nunca
trabalhou, aposto.
— Você não sabe nada da minha vida, Javier.
— Nem você da minha — retruquei. — Chegou aqui me ofendendo
e não quer ouvir nada em retorno?
Valentina bufou, colocando a taça vazia na mesa e me encarando
furiosa.
— Eu estava tentado falar com meu marido. — Apontou o dedo
para mim. — Mas tem razão, não sei nada sobre você, muito menos tenho
vontade. Esse tempo indeterminado que passaremos juntos será melhor
desta forma.
— Não é indeterminado, acredite. Não planejo passar a vida toda ao
seu lado.
— Como se eu quisesse isso! — Quase consegui ver a fumaça
saindo da sua cabeça. — E acho ótimo que não durará para sempre, pois
você é um hipócrita ao me acusar de não sair das asinhas do meu pai,
enquanto segue numa empresa que Santiago e Mariano construíram. Faz
tudo para ganhar algum mérito, mas sem se esforçar.
Sorri e me virei, deixando o barco navegar sozinho.
— Já lutou para iniciar algo que realmente valesse a pena,
Valentina? Eu garanto que é muito melhor lutar para crescer do que para
começar do zero.
Soltou uma risada de puro escárnio.
— Não me importa se vale alguma coisa ou não. Lutar em um
contexto justo é sempre melhor do chegar no topo com peso na consciência
— enfrentou-me. — Você verá isso uma hora ou outra, Javier.
Deu meia-volta, saindo do interior do barco e sumindo no deque.
Encarei o local onde ela estava poucos minutos antes e tentei entender
como chegamos a uma briga sobre justiça. Não compreendia o que
Valentina aflorava em mim, mas parecia se resumir a tesão e raiva.
Nunca conseguiria explicar.
Ela sempre se escondeu atrás da família. Jamais lutou pelo que
desejava — não interessava o que fosse —, logo, a meu ver, não tinha o
direito de debater comigo a respeito de mérito.
Na cabine, concentrei-me em navegar enquanto bebia minha
cerveja, esquecendo o que Valentina dissera. Eu já estava no topo, por que
bateria o pé como uma criança mimada para recomeçar? Não fazia o
mínimo sentido.
Atraquei no cais e fiz o procedimento necessário antes de sair.
Quando desci, procurei por minha esposa de mentira e a vi caminhar em
meio aos turistas, quase alcançando o primeiro quiosque. Eu a segui, pois
precisava me alimentar antes de buscar algo para fazer.
Tentaria ao máximo manter minha mente distanciada de minha nova
situação. Alcancei-a no instante em que pedia um café da manhã para o
garçom, me sentei à mesa que ela havia encontrado e notei o espanto em
sua face.
— Vou querer o mesmo, obrigado — informei ao homem, que
lançava um olhar de cobiça à Valentina.
— O que está fazendo aqui? — rosnou quando o cara saiu.
— Vim tomar café. Não comi nada.
— Sim, mas há milhões de quiosques nesta ilha, você não tem que
estar perto de mim o tempo inteiro.
— A última coisa que quero é ficar perto de você, Valentina —
rebati, seco. — Mas somos só nós dois aqui. Vamos tentar ser civilizados?
— Você sabe ser civilizado?
— Uma dica: me alfinetar não é civilizado.
Ela riu e afundou o rosto entre as mãos. Os cabelos cacheados
estavam soltos, diferente da noite anterior. Eu adorava aquela bagunça de
cachos definidos. Eram bonitos.
Porém, não tive tempo de dizer nada, pois uma voz feminina
chamou minha atenção.
— Javier Garcia?! — Virei-me, me deparando com uma loira alta,
magra e totalmente apavorante. Ela se aproximou. — Você por aqui? Pensei
que estaria…
— Estou em lua de mel — apressei-me em dizer. Ao me levantar,
senti os olhos de Valentina me acompanhando.
— Javier, casado? Isso é realmente surpreendente.
Com o comentário da mulher, minha esposa se ergueu e estendeu a
mão em sua direção.
— Valentina Garcia, prazer. — Sorriu, tão dócil que nem parecia ter
gritado segundos antes.
— Thaeme Brandão — apresentou-se, apertando a mão da outra.
Eu supus que morreria em breve. Ou por Thaeme estar perto demais,
ou pelo desafio brilhando nos olhos de Valentina.
Nunca fui um cara medroso, mas, naquele instante, senti um certo
temor despertando em meu corpo.
VALENTINA
— Não sabia que havia se casado. — A mulher se sentou sem pedir
permissão.
Minha sobrancelha automaticamente se arqueou. Encostei-me na
mesa, tocando a mão de Javier.
— Foi uma cerimônia bem íntima. — Fiz minha melhor expressão
angelical, a mesma a que aderi durante a festa de casamento.
Javier enlaçou nossos dedos, sorrindo para mim.
— Sim, não divulgamos ao público. Queríamos algo mais
reservado. — Entrou no jogo, e eu agradeci.
Thaeme abriu um sorriso cheio de falsidade. Eu sabia que aquele
tipo de mulher era a cara de Javier, porém, não me deixaria abater.
A cada pergunta que ela dirigia a ele, eu tentava mostrar que não
aceitaria vê-la flertar com meu marido. Ok, era um marido de mentira, mas
ela não conhecia a verdade.
O sol se intensificou e começou a bater na minha parte da mesa.
Javier parou de ouvir a tal loira e puxou a cadeira ao seu lado.
— Querida, sente-se aqui. Tem muito sol aí.
Eu sorri, assentindo. Fui para perto dele, vendo o olhar da mulher
atento a tudo. Javier pousou a mão suavemente sobre a minha coxa; nosso
teatro de casal perfeito nem denunciava que gritávamos um com o outro
havia menos de meia hora.
Surpreendente.
— Obrigada — sussurrei, beijando seu ombro em um ato íntimo.
Se continuássemos assim, nenhuma vaca acharia que eu era a esposa
chifruda de um canalha.

O vento quente de Angra batia em minha pele enquanto me


reclinava sobre a cadeira de praia, com os olhos fechados. O horário
avançava, e Javier ainda não retornara. Depois da tal Thaeme deixar nossa
mesa, fui aproveitar a ilha, porém, meus pensamentos acerca de uma
possível traição não paravam nem um instante.
O sol queimava minha pele. Estava quase na hora do almoço, e eu
precisava comer algo, então desisti de ficar ali e me levantei. Sentia-me
terrivelmente sozinha; seria assim mesmo dali em diante.
— Ei! — Dei de cara com uma moça jovem, de cabelos escuros. —
Você é a Valentina Ferraz? — Tirou os óculos, se aproximando.
Não tinha a menor ideia de quem era aquela mulher.
— Sou sim, e você?
— Sou Marília! — exclamou, apontando para si mesma. —
Estudamos juntas. Minha mãe trabalhou para o seu pai por muitos anos. —
Sorri com a vaga lembrança de uma garotinha em minha infância. —
Nossa, nunca pensei que a reconheceria.
— Marília! — Eu a abracei. — Impossível esquecer o bolo de milho
da sua mãe. — Ela deu uma risadinha. — O que faz em Angra?
— Estou de férias, saí um pouco de São Paulo, às vezes as situações
sufocam a gente. — Inclinei a cabeça para o lado, sabendo bem o que
aquilo significava. — E você? O que faz aqui?
Pensei em dizer que era minha lua de mel, mas ficaria difícil
explicar por que minha aliança não estava em meu dedo.
— Férias. É isso, estou de férias também — menti, sorrindo de
orelha a orelha.
Marília era alta. Seus cabelos escuros caíam pelos ombros. Vestia
uma saída de praia vermelha, contrastando com a pele clara.
— Que maravilha! Tem uma festa hoje, é o aniversário de uma das
minhas amigas. Você deveria ir. E precisamos almoçar juntas. Faz quantos
anos mesmo que não nos vemos?
Pensei por um instante.
— Mais de dezessete — concluí. Agíamos com muita intimidade
para duas pessoas que não se encontravam havia quase duas décadas.
— Nossa… Vou almoçar naquele quiosque ali. — Apontou para um
dos vários locais que serviam frutos do mar. — Quer me acompanhar?
A situação era complicada. Estava sozinha em uma ilha, como
nunca estive em toda a minha vida; ter companhia me passava uma
sensação de segurança.
— Claro. — Peguei meu celular e os óculos de sol. Caminhamos
lado a lado em direção ao local. — Está trabalhando com o quê?
— Sou advogada. — Sorriu, orgulhosa. — Lembra que sempre me
vestia de advogada na infância?
A lembrança não veio.
— Sim, sim.
— Era o meu sonho, consegui tudo que almejava.
Vi um anel brilhando em seu dedo.
— Está noiva? — obriguei-me a inquirir.
— Sim! Vamos nos casar em breve. Infelizmente, ele não teve como
vir comigo na viagem, por um conflito de agendas.
Entramos no restaurante e nos sentamos em uma das mesas. Ela
questionou:
— E você? Casada? Namorando? Se formou em quê?
Engoli em seco, pensando em mentir sobre tudo.
— Trabalho com o meu pai. — Sentia-me em um filme de terror. —
Eu me formei em Administração. Não, não estou namorando, nem pretendo
casar.
Quando eu veria Marília novamente? Jamais. Passamos dezessete
anos morando na mesma cidade e nossos caminhos nunca se cruzaram.
— Ah, mas eu sempre pensei que você fosse se casar com o Mateus.
— Tirei os olhos rapidamente do cardápio. — Eram tão unidos. Lembro
como ele morria de ciúmes de tudo, mesmo sendo supernovinhos.
Sorri.
— Mateus se tornou um bom amigo.
— Nunca foi além disso? — indagou, descompromissada, decidindo
seu pedido.
— Até tentamos, mas eu não estava preparada para nada sério. —
Lamentava pela dor de tê-lo e não o amar da maneira que ele desejava. —
Mas finalmente colocamos as coisas nos trilhos.
— Fico feliz por você. Nossa, será o destino? Moramos por anos na
mesma cidade e nunca nos vemos, agora estamos aqui!
Sorri com sua entonação.
— Deve ser. — Se fosse mesmo o destino, ele com certeza me
odiava. Preferiria que me levasse a encontrar pessoas do meu passado em
São Paulo, e não em uma lua de mel com Javier.
Por falar no Diabo… A sua imagem veio forte em meus
pensamentos. Perguntei-me o que ele estaria fazendo; talvez transando com
a tal Thaeme. Juntamente a esse, surgiram outros mil questionamentos, mas
apenas balancei a cabeça; suas ações não deveriam me interessar.

JAVIER
Empurrei a porta do quarto, sentindo certa dificuldade de me manter
sobre meus próprios pés. Enxerguei um vulto no local. Acendi as luzes,
sendo abalado com a visão subsequente.
Puta que pariu.
— Oi. — Valentina me lançou um olhar rápido, sorrindo de lado
enquanto terminava de colocar os brincos na orelha. Segurando a barra do
vestido colado, puxou-o para baixo, cobrindo melhor as coxas e atraindo
minha atenção para seu corpo naquela roupa que parecia mais uma segunda
pele. — Estou de saída. — Passou por mim batendo os saltos no assoalho
da cabana e seguiu para a sala, deixando um rasto de perfume para trás.
Não me preocupei em falar nada, apenas permiti que fosse, pois não
tinha direito nenhum de questionar sobre seu destino, da mesma forma que
ela não perguntou onde eu passara o dia.
Já eram quase dez da noite, estava bêbado e um pouco cansado, mas
achava que conseguiria tomar mais uma garrafa de cerveja e ver um jogo
antes de capotar. Não era um homem com muitos desses hábitos, tomava
pouquíssima cerveja e, quanto ao esporte, preferia praticá-lo. Porém, estava
em lua de mel. O que faria além de me divertir sozinho?
Se bem que me divertir acompanhado vinha sendo uma opção muito
melhor, mas não do modo como ocorreu naquele dia. Passei quase o tempo
inteiro preso em um quarto de hotel em Angra, com Thaeme colada ao meu
corpo, sabendo bem que eu não fazia o tipo de marido certinho e fiel.
No entanto, por que diabos a imagem de Valentina estava na minha
mente? Ela toda maquiada, os lábios chamativos, grossos e atraentes. O
corpo delineado pelo vestido vermelho justo, com um decote em coração
que realçava o vale dos seios.
Perfeita. Incrivelmente perfeita. Não poderia ser qualquer outra
mulher do mundo? Tinha que ser aquela que me repudiava? Que me
causava sentimentos de raiva e desejo ao mesmo tempo?

Ouvi algo caindo e levantei a cabeça, ligando o abajur da sala de


estar enquanto escutava a música balançando o sistema de som. Dei de cara
com um par de olhos cor de amêndoa, arregalados. Valentina estava com o
vestido no meio das coxas, os sapatos na mão e uma expressão de criança
traquina, de quem havia acabado de ser pega no flagra.
Sentei no sofá e a vi me encarar, deslizando os olhos por meu corpo
quase nu. Pensei que ela não voltaria para casa e não me importei em vestir
uma camiseta, contudo, claramente fora uma péssima ideia.
— Ja-avier — gaguejou.
Notei seus olhos nublados, sinal de que havia bebido além da conta.
— O que faz aqui? Foi a Angra e pegou sozinha um barco de volta
para cá? — Acendi a luz.
Ela riu, dando uma voltinha para me encarar.
— Nãoooo. Eu vim com os meus abigos. — Soluçou, rindo. —
Sabe que eu fiz abigos, Javier? Eu nem sou chataaaa. — A bebida afetava
a fala de Valentina, coisa que não acontecera na noite anterior.
— Você está bêbada feito um gambá. — Já eu me encontrava lúcido
devido à ingestão de uma quantidade estúpida de café. — Venha, tem café
forte na cozinha. Isso vai me ajudar a controlar você.
Gargalhou.
— Não tô bêbada!
Seria fácil de acreditar, se ela não falasse de modo arrastado e
caminhasse toda torta. Forcei-a a ficar sentada em uma das cadeiras da
cozinha e servi o café preparado há pouco tempo, visto que a primeira jarra
acabara e achei que precisaria de mais.
Queria estar sóbrio no dia seguinte. E, de tanto pensar em Valentina
nua, considerei prudente me manter consciente sempre que ela estivesse por
perto.
— Aqui. — Estendi a xícara a ela, que a colocou sobre a bancada,
como uma criança birrenta. Suspirei e refiz o gesto. — Beba, Valentina.
Deu um risinho.
— Não, papai — disse, petulante.
Respirei fundo, me perguntando se tivera uma filha há vinte e cinco
anos e não sabia. Os céus só poderiam estar me castigando para me forçar a
cuidar dela bêbada.
— Valentina, tome o café, por favor. — Nunca recorrera a um “por
favor” para algo tão banal. Ela se recusava a tomar um maldito café.
— Não quero café, Jav — usou um apelido estranho, tocando meu
peito, ao que endureci. — É ruim, parece água suxa.
Sorri e coloquei a xícara próximo aos seus lábios.
— Tome. Por mim. — Esse incentivo não valia de nada, mas
mantive um olhar piedoso em sua direção.
Ela pareceu pensar muito para alguém que estava caindo de bêbada,
porém, com a minha ajuda, tomou alguns goles do café morno. Até que ela
mesma assumiu o controle da situação, fazendo uma careta a cada gole.
— Ruim.
— Eu sei, pequena bêbada, mas é o que vai fazer você ficar sã
novamente — brinquei, me permitindo rir da situação. — Vai me dizer onde
estava?
Mais uma vez, me encarou, ponderando.
— Não. — E voltou a beber o café.
Assenti e me afastei, caminhando para o quarto. Isso valia como
minha boa ação do dia? Compensava o fato dela aparecer nua em meus
pensamentos? Esperava que sim.
Deitei na cama e a deixei de lado; não poderia continuar muito
perto, ou qualquer movimento em falso me levaria a jogar tudo para os ares.
Fechei os olhos para descansar a cabeça.
Não sabia quanto tempo havia ficado naquela posição, mas escutei
quando ela entrou no banheiro e, minutos depois, senti a cama afundar com
seu peso. Arrastou-se ao meu lado, com sua respiração em meu ouvido.
Virei o rosto e me deparei com o contorno do seu corpo, que
cheirava a sabonete.
— Valentina…
— Hum?
Acendi o abajur sem me levantar. Ela estava de olhos fechados, a
cabeça encostada no travesseiro, vestindo apenas um roupão. A peça,
entreaberta, exibia parte de suas curvas.
— Espaço. Você está invad…
Colocou um dedo em minha boca.
— Quieto, marido. Estou tentando dormir.
Como ela parecia tão calma ao meu redor? Mostrava-se bem menos
bêbada do que ao entrar em casa.
Chegou ainda mais perto e jogou as pernas sobre as minhas, me
fazendo congelar. Pousou uma das mãos em meu peito. Assim, meu braço,
de modo automático, enlaçou suas costas, puxando-a levemente contra
mim.
— Conchinha. Quem dilia, Javier.
Sorri, mais pelo erro em sua fala do que pelo que disse.
— Você começou, sua bebum — acusei, e ela riu baixinho.
— Fique quieto. Quando tá caladinho, eu nem sinto vontade de
matar você.
Sem querer, afundei o rosto em seus fios cacheados. Morangos.
Com certeza, meu costume de cheirar os cabelos de Valentina se devia ao
fato de que eu desejava comer malditos morangos. No dia seguinte,
providenciaria isso. Ou até antes.
Porém, achava muito difícil sair da cama naquele momento, com ela
enrolada em mim e seus cabelos brincando contra meu rosto. Os morangos
poderiam esperar.
JAVIER
Valentina estava me ignorando. Desde que saímos da cama às dez,
acordamos com nossos corpos tão emaranhados que não sabíamos onde um
começava e o outro terminava. A culpa era exclusivamente dela, todavia,
não quis falar sobre isso, fugindo de qualquer assunto que não fosse nossa
viagem.
Seis horas depois, estávamos finalmente em Fernando de Noronha.
Era segunda-feira, o sol se escondia no horizonte, passava das seis e meia
da tarde.
Ela tirava as roupas da pequena mala e colocava dentro do closet.
Caminhei pelo quarto, pegando o envelope vermelho abandonado ali. Abri,
lendo o rápido convite que indicava que teríamos cinco dias cheios neste
hotel.
Sentia-me cansado. Não queria arriscar sair em nenhuma matéria
mal-intencionada sobre meu casamento, mas também não poderia ficar em
um apartamento minúsculo com Valentina, sabendo bem dos meus
pensamentos.
— O que é isso? — indagou, se aproximando. Colocou de lado a
roupa que segurava. Estendi o convite em sua direção. Baixou a cabeça,
atenta a todas as palavras. — Iremos? — Fitou-me; pela primeira vez no
dia, teve coragem de me olhar nos olhos.
— Acredito que sim. Passaremos cinco dias aqui, é muito tempo
para ficar trancados no quarto.
Ela sorriu.
— É verdade. Podemos ir separados. Talvez seja mais fácil, é uma
festa onde ninguém nos conhece.
Peguei o envelope novamente e chequei o convite.
— Não são convites individuais, e sim para o casal. Iremos juntos.
Fique pronta, vou sair um pouco e volto para buscar você.
— O que devo vestir? — perguntou. Estava quase partindo quando a
escutei.
— Nunca foi a uma festa do tipo? — Encontrei seu olhar
amedrontado.
— Faz muito, muito tempo. — Parecia envergonhada. — Não quero
me sentir deslocada, Javier. Por favor, você sabe o que as mulheres usam.
Eu não tinha a mínima ideia do que as mulheres vestiam.
Preocupava-me mais com o conteúdo embaixo das roupas.
— Sei lá — confessei. — Coisas justas, em cores provocativas,
imagino.
Valentina inclinou a cabeça para o lado.
— Não me ajudou muito.
Sorri, conferindo se minha carteira estava no bolso.
— Você vai se sair bem, Valentina. — Pisquei, rumando ao corredor
do apartamento e entrando na sala conjugada com uma minúscula cozinha.
A ideia de reservar um quarto maior viera do meu pai, que disse que
precisaríamos de privacidade em um momento tão delicado.
Se ele ao menos entendesse que eu nunca tocaria em Valentina…

VALENTINA
Assim que Javier saiu, pude me jogar na cama, fechando os olhos e
pensando na nossa situação. O que acontecera na noite anterior? Tudo era
um pouco borrado, mas me lembrava de chegar na cabana bêbada, e Javier
me fazer tomar algumas xícaras de café. Em seguida, deitamos juntos, e
acordei com meu corpo tão colado ao do homem que parecíamos realmente
um casal.
Confuso, muito confuso. Tanto que evitei encará-lo durante toda a
viagem. Agora me via ali, com os olhos grudados ao teto, cansada, tentando
entender o que havia acontecido. Nós nos encontrávamos no Hotel Fontana,
em um apartamento com uma vista agradável para o mar. Entretanto, meu
humor estava péssimo.
Tinha a bendita festa, e eu não fazia ideia do que vestir. Não levara
comigo nada chamativo, então cogitava sair do quarto e sumir por algumas
horas, assim não precisaria explicar meu fracasso social ao meu marido.
A campainha tocou, me fazendo levantar a cabeça. Caminhei até a
sala e destranquei a porta, vendo uma mulher parada ali, com algumas
sacolas no braço, juntamente a um jovem, que carregava maletas.
Franzi o cenho.
— Posso ajudá-los?
— Javier Garcia nos enviou, ele disse para prepará-la para a noite.
— Balançou a sacola no ar, me deixando confusa. Meu marido saíra havia
pouco menos de meia hora e já conseguira pessoas para me aprontar? Que
diabos era isso?
— Só um instante. — Tornei a fechar a porta, pegando meu celular
no bolso da calça. Disquei o número de Javier, roendo as unhas em pura
ansiedade.
— Olá.
— Quem raios é essa mulher aqui?
— Ah, eu a contratei. Ela vai ajudar você com o cabelo, o vestido e
a maquiagem.
— Não preciso disso! — rebati, sentindo meu orgulho ferido.
— Aceite, Valentina, pare de ser teimosa. — Eu sorri. — É uma
coisa boa, eu juro. Você disse que não frequenta esses locais, então me
lembrei de que realmente nunca a vi em nenhuma das festas da empresa.
Javier me procurava nas festas? Com certeza, essa era uma análise
equivocada. De qualquer modo, senti o sorriso se expandir em meus lábios,
pois queria mesmo ir à festa sem me sentir diminuída.
— Obrigada.
Ele disse que precisava ir e desligou. Não me importei, estava
agradecida por um início de amizade crescer entre nós, pois seria muito
mais difícil se continuássemos nos comportando como no barco.
Deixei a mulher entrar. Logo a sala do apartamento foi ficando
cheia. Na mesa, botara inúmeras maquiagens e, no sofá, várias opções de
vestido. Percebi tudo aquilo que nunca tive: finalmente conquistara a
liberdade de ir a uma festa, de vestir algo bonito e de me sentir bem comigo
mesma.
— Ah, você vai ficar perfeita! — O assistente me fez rir, ao passo
que me empurrava ao quarto.
Já eram quase sete. Apareceríamos por lá mais de uma hora
atrasados, mas não me importava. E isso parecia não incomodar Javier
também.

Olhei-me uma segunda vez no espelho, sentindo meu corpo todo


reclamando com a ideia de que iria estar no meio de tantas pessoas vestida
assim. Não era vulgar demais? Poderia apostar que Alba reprovaria meu
visual ao lado de um homem poderoso como Javier.
Ele retornara mais cedo e estava trancado no quarto desde então. O
pessoal que me ajudou com a maquiagem e o vestido já fora embora havia
uns cinco minutos. O relógio marcava oito e dez da noite, e eu com medo
de chamar meu marido.
Ele concordaria com sua mãe?
Estremeci. Não deveria me importar, mas não conseguia controlar
minha mente.
— Ouvi eles se despedindo. Você está pronta? — Javier, parado a
alguns passos de mim, mexia nos botões do terno escuro, me fazendo ficar
ainda mais ansiosa.
— Sim — sussurrei e o vi levantar a cabeça. Seus olhos foram dos
meus pés ao meu rosto; demorou alguns segundos analisando o modelito.
Engoli em seco. — Estou bem?
Dei uma voltinha, fazendo o tecido esvoaçante e amarelo rodar ao
meu redor. O vestido era solto da cintura para baixo, deixando um bom
espaço de pele à mostra. As duas alças abertas davam uma visão agradável
dos meus seios presos dentro do bojo; eles ficavam maiores desta maneira.
Eu me senti uma mulher provocante com o olhar de Javier sobre mim.
— Vo-você… — Sorri por ele não conseguir formular a frase e me
aproximei. — Está bonita.
Senti seu hálito quente contra a minha pele e apoiei as mãos em seu
peito, subindo-as sem desviar o olhar. Quando finalmente alcancei a
gravata-borboleta que usava, ajustei a peça, deixando-a reta.
— Obrigada. Por tudo. — Careci de coragem para agradecer a
Javier, pois ele poderia debochar de mim e ser rude. Neste caso, nada me
impediria de socá-lo. — Você foi um ótimo marido hoje.
Ele riu baixinho.
— Vão gostar de saber que sou um bom marido. — Brincou com
uma mecha do meu cabelo antes de se afastar. — Vamos?
Assenti, enganchando o braço ao seu.
— Qual é mesmo o motivo para a festa?
— Pelo que fiquei sabendo, é apenas parte da programação rotineira
do hotel. Há atividades diversas durante a semana inteira.
Entramos no elevador. Algo acontecia entre nós. Não sabia o que
era; talvez fossem os pequenos momentos sem farpas trocadas.
Eu gostava disso. Se durasse um pouco mais, eu não me importaria.
Porém, desci os olhos por suas mãos, enquanto ele mexia no celular, e vi
que não usava aliança. Tornei a mirar o meu próprio dedo, vendo ali o anel
de casamento que era meu martírio. Removi o item, guardando-o dentro da
pequena clutch rosê.

JAVIER
A sensação de estar sendo sufocado começou no instante em que
fitei Valentina. Não tinha ideia do quão maravilhosa ela estava, e isto me
deixou puto, pois ela não fazia o mínimo esforço para ser linda. Queria
encontrar algo que repudiasse na mulher; queria sentir a raiva e o desprezo
de sempre. Entretanto, tudo me encaminhava à sensação doentia de desejá-
la cada vez mais.
Eu a vi deslizar sua aliança para dentro da pequena bolsa, alheia à
minha observação. Nem me dei ao trabalho de julgá-la, já que a minha
também não estava em meu dedo. No instante em que chegássemos lá
embaixo, ela atrairia atenção, e nem mesmo eu poderia livrá-la disso.
O elevador apitou, abrindo e revelando o corredor trifurcado. O
caminho do meio levava ao salão de festas bem iluminado.
— Vamos? — Estendi o braço para ela, o qual segurou sem
problema.
Guiando-a, mandava avisos constantes aos meus instintos, já
cansados de lutar contra a tentação.
Andamos pelo salão extenso observando as pessoas dançarem,
misturando-se à medida que a banda tocava um instrumental lento.
— Ah, que lindo — Valentina murmurou, olhando para o lustre
enorme acima de si. — Perfeito.
Sorri e me afastei ao notar o bar.
— Vou buscar uma bebida, ok? — Ela aquiesceu antes de pegar um
lugar à mesa. — O que você prefere? — Eu até gostava da versão bêbada
de Valentina, mas não a que deitava sobre mim.
— Champanhe. — Sorriu.
Tentei me manter neutro diante das emoções. No bar, parei ao lado
de algumas pessoas, inclinando-me em cima do balcão enquanto pensava no
trabalho em São Paulo. Na maior parte do tempo, minha mente focava
nisso.
Tornando-me o único presidente da G&F, a pressão seria intensa e,
as horas de trabalho, mais longas. Eu me mataria com a responsabilidade de
viabilizar lucro recaindo exclusivamente sobre os meus ombros. Mas
sempre sonhei com aquilo, por isso aceitei fazer tantas coisas insanas para
alcançar meu objetivo.
Pedi um uísque com gelo e um champanhe. Ao me virar, enxerguei
Valentina sorrindo para um homem, que segurava sua mão em um
cumprimento. Apertei a barra do balcão de mármore, sem conseguir
desgrudar os olhos dos dois.
Seria sempre assim.
Eu não sabia por que me incomodava tanto, se a garota era minha
apenas em papel.
Eu a queria.
Só não estava disposto a abrir mão de tudo por uma mulher. Não
estava disposto a arriscar fazê-la acreditar em um casamento perfeito
quando, no fim, eu talvez fosse embora sem pensar duas vezes.
VALENTINA
— Espero que reserve uma dança para mim. — O homem sorriu,
atraente em seu terno escuro e com os cabelos loiros caindo sobre os olhos.
Senti uma mão na minha cintura e fiquei tensa. Javier me lançou um
sorrisinho, daqueles que os homens não deveriam usar, pois são apenas uma
curva em um dos lados da bochecha e os tornam quase irresistíveis. Tremi
ao vê-lo se inclinar em minha direção.
— Seu champanhe, querida — disse, antes de beijar o canto da
minha boca e se afastar, como se não houvesse feito isso.
Aceitei a taça, bebericando um pouco do líquido.
— Este é Samuel, acabamos de nos conhecer. — Indiquei a minha
companhia de poucos minutos. Meu marido e o homem apertaram as mãos.
— Prazer, Samuel. Sou Javier Garcia. — A firmeza de Javier me
causou arrepios. Perguntei-me se, alguma vez, perdeu o controle em
público. Eu só o vi alterado na ilha, quando gritamos um com o outro a
respeito de nossas diferenças. — Sinto muito pela dança, não será possível.
Prometo deixar minha esposa ocupada a noite toda. — A mão firme em
torno da minha cintura me puxou levemente para si.
Tentei parecer confiante com o ato, não demostrando o quão insana
era aquela atitude, dado o nosso passado.
— Desculpe, não sabia que ela era casada, cara. — Bateu no ombro
de Javier, me fazendo franzir o cenho, confusa. Ele nem mesmo se dignou a
se desculpar comigo! Enraivecida, vi o homem se distanciar.
— Filho da puta — resmunguei e atraí o olhar assustado de Javier.
— Ele se desculpou com você! E não com a pessoa que precisou aguentar
sua paquera.
Javier jogou a cabeça para trás, rindo.
— Calma, baixinha. Agora que eu já dei uma de bom marido,
precisamos mesmo dançar. — Apontou para a pista.
Sorri, mordendo o interior da bochecha, em dúvida.
— Claro. — Deixei o champanhe sobre a mesa e lhe estendi a mão.
Ele entrelaçou nossos dedos e me conduziu junto ao seu corpo. Javier com
certeza sentiria meu coração acelerado.
Inspirei fundo e dei um passo para trás, tentando não transparecer o
quão afetada estava. Caminhamos até o meio do salão e paramos um de
frente para o outro, com uma ansiedade crescente.
A mão de Javier desceu à minha cintura, segurando firme.
Estremeci.
Era impressão minha ou combinávamos perfeitamente?

Já passava da meia-noite, havíamos jantado juntos, e o efeito do


vinho e champanhe em meu corpo me deixou leve. Parecia que a bebida
fizera o mesmo com Javier. Ele ria mais, compartilhava histórias que nunca
imaginei.
— Alba sempre surtou com isso. — Colocou uma mecha do meu
cabelo para trás, roçando seus dedos em meu rosto. — Ela odeia que meu
pai tenha um filho fora do casamento e que ele o ame.
Suspirei. Não fazia ideia do quão bêbado Javier estava àquela altura.
O pai dele tinha outro filho?
— Vocês se dão bem? — Fechei os olhos, aproveitando seu carinho;
alisava levemente a minha pele. Era o tipo de momento que nunca
aconteceria com ambos lúcidos.
— Sim, só que ele é praticamente filho de outro homem, registrado
com o nome do cara e tudo. Apesar de papai querê-lo por perto, já se passou
muito tempo para formarem laços.
Fazia sentido.
— Sim… — Encarei-o, e Javier se inclinou um pouco em minha
direção, me observando atentamente. Senti meu rosto esquentar na medida
em que era analisada. — O que você está olhando? — sussurrei, e ele deu
seu característico sorriso irresistível.
— Parece que você não faz ideia do quão linda é. — Sua
sinceridade me pegou desprevenida. Ele ainda tinha a mão contra a minha
bochecha, e estávamos em um local meio escuro e afastado.
Então se aproximou ainda mais, passando os lábios delicadamente
sobre os meus, para depois cobrir minha boca por inteiro, com fome. Prendi
a respiração e permiti o contato, segurando seu rosto com firmeza enquanto
sua língua me invadia.
Doce.
Perfeito.
Devastador.
Foram palavras que pularam em meus pensamentos enquanto
enlaçava meu braço ao redor do seu pescoço, beijando-o da maneira que
desejava no momento, sem me importar com nada além disso.
Suspirei quando se afastou, pedindo ar. Seus olhos brilhavam com
algo desconhecido. O sorriso de lado de Javier causou novos arrepios por
todo o meu corpo.
Nós nos encaramos por alguns segundos, e senti o medo recomeçar
a correr dentro de mim.
— Vamos subir? — sussurrou, surpreendendo-me.
Antes que eu tivesse tempo de falar algo mais, seus lábios tomaram
os meus novamente. Só que, desta vez, foi lento, intenso.
Suspirei, segurando seu maxilar quadrado. Ele prosseguiu:
— Preciso beijar você sem toda essa gente ao redor.
O medo deveria me fazer ficar, mas a excitação em minhas veias me
levou a levantar e estender a mão para Javier. Ele aceitou, e caminhamos
juntos, apressados, até alcançarmos o elevador. Quando as portas se
fecharam, nossas bocas voltaram a se unir. Encostou-me na parede metálica,
descendo por minha pele com seus lábios.
Eu o agarrava contra mim. Atingiu o vale dos meus seios e passou a
língua pela região sensível. Ofeguei com a carícia; seus dentes rasparam o
local, e estremeci.
O elevador apitou, abrindo rapidamente. Ele me puxou ao quarto e,
assim que a porta bateu às nossas costas, as bocas voltaram a se encontrar.
Com seus lábios famintos e suas mãos em cada parte do meu corpo, eu já
não tinha nem sequer um pensamento coerente. Meus dedos procuraram
pelo terno que Javier vestia, retirando o tecido e deixando o caminho livre
para desabotoar a camisa branca impecável.
Observei o corpo do meu marido, ao passo que formigava com seus
toques. Eu poderia ir além, poderia me afogar naquele erro.
E eu nem me arrependeria.
— Venha cá. — Alisei seu peito, na ponta dos pés para enlaçar seu
pescoço com o braço.
Coloquei as pernas em torno da sua cintura, e ele me firmou,
fazendo o vestido subir. Dois passos adiante, caímos na cama, com Javier
pairando sobre mim e seu membro crescendo contra a minha perna. A boca
descia lentamente em minha pele, e os dedos abriam o zíper traseiro do
vestido, liberando o acesso aos meus peitos. Chupava e mordia um dos
bicos, deslizando a língua experiente, conduzindo-me a uma explosão de
prazer.
Gemi.
— Javier… — balbuciei com dificuldade, enlouquecida com seu
corpo imprensado ao meu, pesando, afinal, era um homem de um metro e
noventa, cheio de músculos. Senti sua respiração entre os meus seios;
soprou o local, ao que estremeci.
— Perfeita — disse antes de tomar o segundo mamilo entre os
lábios, brincando com o outro. — Perfeita. Absurdamente gostosa,
Valentina. — Praguejou algumas palavras, e um sorriso se estendeu em
meus lábios.
Inexistiam pensamentos racionais enquanto ele descia seus dedos
pelo tecido do vestido, puxando-o para baixo. Sua boca beijou o caminho
até a minha intimidade, mordiscando a barriga.
Por fim, descobriu meus quadris. A peça caiu aos meus pés,
exibindo a lingerie que ganhei de Rúbia. Senti o olhar de desejo do homem
à minha frente.
Seus dedos desceram por minha coxa, no interior delas, tocando por
cima da calcinha frágil. Fiquei tensa pelo desejo. Afastou o tecido para o
lado e me tocou. Fechei os olhos, antecipando o que viria. Brincou com
meu clitóris, e soltei um gemido baixinho. A vontade crescia, até que meus
sentidos nublaram e precisei conter um grito de prazer, jogando a cabeça
para trás.
— Ainda mais gostosa ao gozar. — A voz grave de Javier me fez
abrir os olhos, observando-o levar os dedos aos lábios e provar meu gosto.
— Pare com isso… — sussurrei, sentindo uma pontada de excitação
correndo em mim.
— Com o quê? Não tem interesse em saber seu gosto? Spoiler: é
maravilhoso. — Lançou-me um sorrisinho sem-vergonha, abaixado-se entre
as minhas pernas.
Eu ri, cobrindo meu rosto com o braço. Ele subiu novamente na
cama, deitando-se sobre mim.
A ardência deixou meu sistema, ligado para não ceder ao cansaço.
Javier continuava parcialmente vestido e seus lábios brincaram com os
meus. Eu percorri seu peitoral, parando no cós da calça social; deslizei a
fivela do cinto com dificuldade pela posição. Enfim consegui jogar a peça
longe, desfazendo o botão da calça e alcançando a cueca, puxando as duas
para baixo de uma vez só. Ele estava quase todo nu.
Javier se afastou o suficiente para me encarar e percebeu meu olhar
curioso para seu pau. O homem era abençoado, fazia jus à sua fama.
Toquei-o, e ele recuou, tenso.
— Quero tocar em você — murmurei, acariciando toda a extensão
dura. Estremeceu quando eu refiz o movimento algumas vezes, então ele
grunhiu e segurou as minhas mãos.
— Pare — rosnou.
— Por quê?
— Porque eu quero me enterrar em você neste exato instante.
Sorri de lado, afagando suas costas fortes.
— Pois faça. Eu o quero — confessei, passando minhas pernas ao
redor da sua cintura.
Ele me fitou antes de se aproximar novamente, beijando-me.
Encostamos nossos sexos, aproveitando ao máximo a preliminar.
— Mas tem uma coisa que precisa saber… — disse, nervosa.
Javier me encarou.
— O que, Valentina?
Fechei os olhos, temerosa com sua reação.
— Primeira vez.
— O quê?!
Envergonhei-me.
— Primeira vez, Javier — tornei a falar. Não abri os olhos, evitando
saber o que ele estava pensando.
Deixou uma distância segura entre nós, supus, pois parei de sentir
seu calor.
— É sua primeira vez, Valentina?
— Sim.
Ele tocou meu rosto.
— Abra os olhos. — Acatei a ordem, e o vi sorrindo. Carinhoso,
beijou meus lábios e deitou ao meu lado, posicionando-me em seu peito. —
Não vamos fazer da sua primeira vez uma lembrança, bêbada, Valentina.
— Não estamos tão bêbados — sussurrei, lamentosa.
— Quando eu entrar em você, quero que se lembre de cada detalhe.
— Sua firmeza dava indícios de que não aceitaria contestação.
Beijei seu peito, ciente de que me enfiava em um beco sem saída ao
lado daquele homem.
JAVIER
Observei-a dormir, sabendo que já havia perdido trinta minutos do
meu tempo só naquela posição. Não conseguia sair dali, queria que
Valentina acordasse, queria beijá-la.
Enfiei a cabeça no travesseiro ante esse pensamento ridículo.
Provavelmente, a mulher ao meu lado inventaria um monte de loucuras para
o que acontecera na noite anterior.
“O álcool, foi o álcool!”, até a escutava dizendo.
Decidi tomar um caminho ousado, de modo a não me atrasar para a
videoconferência em uma hora: puxei o lençol, revelando o corpo nu. Vi o
formato perfeito da bunda empinada e me aproximei, deslizando meus
lábios por suas costas e subindo em direção ao seu pescoço, que tinha
cheiro de mulher e era o paraíso.
A reação instantânea de Valentina foi se virar. Eu me encaixei entre
suas pernas, passando por sua barriga chapada, e parei nos seios fartos,
levando um mamilo à boca e trabalhando para acordá-la da melhor maneira
possível.
O gemido baixinho veio acompanhado com suas mãos em meus
cabelos, me forçando a ficar ali. Sorri enquanto lhe dava prazer e a toquei
mais embaixo, sentindo a carne quente, excitada. Trabalhei lentamente na
área, pondo o dedo na boceta depilada, sentindo seu clitóris pulsando.
Gozou gritando meu nome, o que me encheu de satisfação.
Valentina parecia uma maldita deusa, deitada na cama com os
cabelos cacheados caindo sobre o lençol branco, os lábios rosados
entreabertos e cada curva convidativa.
— Bom dia — sussurrei, vendo-a cobrir os olhos com o lençol e
sorrir.
— Bom dia — respondeu. Eu continuava encaixado entre suas
pernas. — Jeito diferente de acordar.
— Posso tornar este o padrão. — Afundei meus lábios nos seus e a
ouvi suspirar.
— Adoraria uma rotina dessas. — Pôs as pernas em torno da minha
cintura, tornando o contato mais íntimo e difícil de resistir. — Vou à praia
hoje. Talvez só volte à noite.
— Ótimo. Tenho que resolver umas coisas do trabalho e não sei
quanto tempo levarei. — Brinquei com seus cabelos. — Podemos jantar
juntos mais tarde?
Ela franziu o cenho.
— Quando foi que passamos de rivais a amigos? Ou quase isso.
Sorri.
— Acho que não passamos, apenas aceitamos a realidade. — Fui
sincero. — Ficar brigando não adianta nada, se vamos passar cinco dias
aqui, sozinhos.
— É uma boa solução. — Riu, me jogou para o lado e se levantou,
arrastando o lençol consigo. Pegou o celular em cima da mesinha de
cabeceira, checando o horário. — Podemos jantar, sim. — Olhou-me sobre
os ombros, sorrindo. — Quanto ao que houve ontem, acredito que não
estávamos bêbados o suficiente para colocar a culpa no álcool.
— De fato — concordei.
— Não vai negar nem nada do tipo?
— Nunca faço isso quando sei bem o que desejo.
Ela me encarou, enquanto eu vestia minha cueca e ficava quase
pronto para enfrentar mais um dia. Havia tomado banho ao acordar, apenas
não controlei a tentação de voltar à cama.
— Entrar nas minhas calças? — zombou.
— Sim, algum problema?
Sorriu, um tanto envergonhada.
— Não, queria tirar as suas também.
Arqueei uma sobrancelha.
— Queria ou ainda quer?
Valentina virou de costas, pegando o robe pendurado na porta do
quarto, o qual vestiu rapidamente, sem me dar sequer uma última visão do
seu corpo nu. Nem sabia como ela conseguiu.
— Isso você vai ter que descobrir, Javier. — A mulher piscou e saiu
do quarto como se nada tivesse acontecido.
Suspirei, encarando o local que ela ocupava havia poucos minutos.
Eu precisaria descobrir? Já fizera minha análise ao acordá-la entre gemidos.
Na minha vasta experiência no assunto, aprendi que quando se dá um
orgasmo para uma mulher às oito da manhã, você pode esperar um período
de diversão muito promissor ao seu lado.
Eu não tinha nada a descobrir.

VALENTINA
— Ei! Como está a lua de mel? — Rachel perguntou ao telefone. Eu
terminara de ligar a máquina de café e me recostara ao balcão, ainda
enrolada no robe e com os pensamentos no que ocorrera ao acordar. Sua
boca e suas mãos em meu corpo foram a melhor recepção matinal do
mundo. — VALENTINA!
Balancei a cabeça, desvirtuando as imagens pecaminosas de meu
marido.
— Intensa… — concluí. Se havia uma palavra para definir tudo, era
essa. Jamais quisemos ser amigos, jamais quisemos nos envolver, mas
existia sempre aquela corrente de atração nos cercando.
— Intensa? Caso não conhecesse os dois, imaginaria um romance,
daqueles que deixam marcas na gente, tanto emocionais quanto sexuais, se
é que me entende. — Riu. Diante do meu silêncio, continuou: — Quero
uma ex… — Ela se calou, finalmente entendendo. — Uau! Você e Javier?!
Jura?
Fechei os olhos. Não queria nem pensar muito sobre esse triângulo
ridículo que se formava entre nós três.
— Não, não aconteceu nada. É intenso apenas por termos que
conviver. Sabe o quão difícil é? Pensar que isto é só uma amostra da vida
toda é o que mais me preocupa.
— Tudo vai ficar bem, você verá — garantiu. — Mas tem uma
coisa… sobre vocês dois…
— Não existe “nós dois”, Rachel — menti. — E não falarei disso,
não com você.
— Vai falar com quem? Mateus? Eu sou sua única amiga para esses
assuntos.
Sorri.
— Se eu estiver precisando de conselhos sobre meu casamento,
procuro a minha madrasta. Ela entende disso — rebati, cansada. Temia
magoar minha amiga. — Estou de saída, Rach, nos falamos depois.
Finalizei a ligação, jogando o telefone de lado, e segui para o quarto,
vendo Javier já vestido e pegando seus documentos na mesinha. Entrei no
banheiro e fiz minha higiene matinal. Após, fui à cozinha com ele em meu
encalço e lhe estendi uma xícara de café.
— Para mim? — Surpreendeu-se, me fazendo rir.
— Sim. Sem açúcar.
Aparentou desconfiança, mas, mesmo assim, pegou a xícara.
Observei a gravata torta em seu terno.
— O que há de errado? Você está me encarando.
Eu me aproximei enquanto ele bebia o café. Ajustei sua gravata,
sentindo sua mão cair à minha cintura. Novamente, a atração por ele se
intensificou.
— Estava torta. — Alisei seu terno, que escondia os músculos do
homem.
Javier riu de lado.
— Obrigado. — Colocou a xícara na bancada e se afastou, saindo
depressa.
A porta bateu, e me perguntei por que questionava o fato de que
nem nos beijamos naquela manhã. Relembrei que era um casamento falso;
eu não devia confundir sexo com amor.
Odiaria amar Javier. Isso me traria problemas demais.
JAVIER
— Como vai, querido? — Mamãe entrou na linha assim que atendi à
videochamada, vendo-a sentada na área de fora da casa em São Paulo. —
Está sendo uma boa lua de mel?
A última coisa que queria era falar com mamãe sobre minha lua de
mel.
— Tudo sob controle.
Ela franziu o cenho com a minha resposta curta.
— Valentina é exatamente aquilo que eu falei, né?
Suspirei, sentindo uma pontada de dor de cabeça. Alba era uma
mulher rígida com nossa postura em sociedade. Por ter passado a vida
inteira seguindo regras, almejava que fizéssemos o mesmo.
— Mamãe, estou casado há menos de uma semana, pelo amor de
Deus.
— Eu me preocupo com você. Sempre viveu próximo a mim… Tem
certeza de que está se alimentando bem? — Eu tinha mais de trinta anos e
ainda precisava ouvir isso. Uma parte de mim dizia que não podia ficar
brabo, era preocupação de mãe, algo normal. Só que começava a ser
incômodo uma hora ou outra.
— Estou sim. Tem restaurantes ótimos aqui. — Sorri, checando o
horário no telefone: quase quatro da tarde. — Inclusive, preciso ir. Fiz uma
reserva para o jantar.
Ela aparentou espanto.
— Você e Valentina estão fazendo disso um casamento de verdade,
Javier? — O tom de repreensão não deixava dúvidas relativas ao seu
posicionamento.
— Não, mas não temos conhecidos na ilha. Vamos ficar cinco dias
aqui, então unimos forças para tornar os dias agradáveis. — Cocei a cabeça,
pensando no fato de que preferia mil vezes estar em São Paulo, cuidando
dos meus negócios.
Alba suavizou o olhar desconfiado.
— Cadê o papai? Preciso me certificar de que ele recebeu um
documento via e-mail — desconversei.
Bufou.
— Saiu com Juliano. — Notei seu desconforto. — Parece que o
garoto tem uma novidade. Não sei que tipo de novidade deixaria seu pai tão
ouriçado. A verdade é que ele não…
— Não me venha com a história de que ele não presta, mamãe. Se
você se esforçasse, salvaria seu casamento e ganharia um bom enteado.
Ela me encarou, furiosa.
— Não vou discutir por causa do seu pai. Foi ele quem jogou nossa
vida fora. E Juliano nem teve a decência de aparecer no seu casamento! —
resmungou. — Que tipo de irmão faz isso?
— Você não mandou o convite junto com os outros, mamãe. Lembra
que só foi enviado porque papai a forçou?
Ela me ignorou e mudou de assunto. Não deixei a conversa fluir,
finalizei a chamada. Com a cabeça no estofado do sofá, coloquei o
notebook de lado.
O dia passara rápido, acabei ficando a manhã toda em reunião. Parei
somente para o almoço; pedi comida no quarto antes de me afundar mais
uma vez no trabalho, revisando contratos e verificando valores, atento às
novas negociações.
Sentia a concretude da tensão sobre o futuro da empresa em meus
ombros. A obrigação de fazer tudo dar certo agora era unicamente minha.

Caminhei pela praia, olhando de longe para ver se localizava


Valentina. Eu a vi sentada num dos balcões do resort, bebendo um drink
enquanto observava o quebrar das ondas na margem. O sorriso em meus
lábios se estendeu quando nossa conversa matutina voltou à memória.
Segui determinado em sua direção. Ela nem mesmo reparou em
minha presença, ao menos não até eu enlaçar sua cintura franzina, colando
meu corpo ao seu. O pequeno pulinho demostrou um susto; em seguida,
relaxou.
Esparramei minha mão em sua barriga, acariciando a pele arrepiada.
Beijei o lóbulo da orelha, gesto correspondido com um suspiro afetado
devido à minha chegada inesperada.
— O que faz aqui? — sussurrou.
— Tentando encontrar uma resposta para sua provocação pela
manhã — brinquei.
Ela virou o rosto, fitando-me.
— Bom, você vai ter que se esforçar um pouco mais. — Mordisquei
os lábios rosados. O que estávamos fazendo decerto arruinaria nosso futuro,
mas não conseguia me conter, não com aquela pequena amostra da noite
anterior. — Terminou mais cedo o trabalho? — indagou ao me ver sentar
consigo.
Aquiesci, sorrindo.
— Sim, inclusive falei com mamãe. Ela disse que Rúbia a visitou.
— Valentina não comentou mais nada, apenas bebeu o drink. — Você se dá
bem com sua madrasta? — tal pergunta a congelou.
Mirou a televisão do resort, como se tivesse todo o tempo do mundo
para responder àquela indagação.
— Sim. Ela é como a mãe que nunca tive — murmurou. — Muito
melhor do que a minha mãe biológica. — Eu lembrava pouco da mãe de
Valentina, mas levando em conta as histórias de Alba, eu não gostava da
mulher. — Só não curto quando ela me dá conselhos sobre sexo.
Eu ri.
— Certas coisas não podem ser alteradas. — Bati delicadamente em
seu ombro.
Ela franziu os olhos em pequenas frestas ao me analisar.
— O que é isto, Javier? O que estamos fazendo? Sei que deveria
deixar a situação fluir, mas não sou capaz. Parte de mim insiste em buscar
uma resposta.
Fechei os olhos, tentando responder àquilo da maneira mais simples
possível. Porém, a tarefa era cada vez mais complicada.
VALENTINA
Ele sorriu de lado, encolhendo os ombros enquanto puxava a cadeira
do restaurante próximo ao hotel. Era italiano e servia uma massa incrível,
segundo Javier. A conversa que tivemos no resort ainda se repetia em
minha mente; não conseguia afastar as palavras dele sobre o fato opostos se
atraírem.
— O que faremos quando isto acabar? Digo, a atração. — Movi o
canudo do drink dentro do copo, tensa.
— O caminho natural para duas pessoas atraídas uma pela outra é
que elas criem uma amizade ou uma inimizade. Já temos a inimizade, o
máximo que pode sair daqui é nos tornamos amigos. — Acompanhei seu
raciocínio. — Quando a atração acabar, restará a amizade. O que é mais
fácil para se ter um casamento como o nosso.
Sorri de lado, acatando sua resposta e deixando o assunto se perder.
Agora eu estava ali, o vendo analisar o cardápio com cuidado à
medida que bebericava um pouco do Santori, pensando sobre tudo que
ouvira a respeito de Javier Garcia. Casara-me com um homem que
costumava ser meu inimigo.
Eu sempre escutei todos comentarem acerca de sua prepotência,
egoísmo e ambição. Mas a cada minuto que passava, mais eu questionava
se estava ouvindo as pessoas corretas.
— Você está me encarando há muito tempo, devo ficar com medo?
— Fechou o cardápio, me fitando com seus olhos castanhos.
Abaixei a cabeça, envergonhada, mas voltei a encará-lo, tomando
coragem para questionar aquilo que me perturbava.
— Sim. Um pouco, talvez. — Ele riu. — Eu sempre ouvi umas
coisas sobre você, mas tem algo que quero perguntar.
— Pergunte — disse, colocando o cardápio de lado.
— O que este casamento acrescenta em sua vida? Eu tenho muitas
versões da mesma história. Tem a do meu pai, a da minha madrasta, a dos
empregados da minha antiga casa — sorriu com ironia — e a dos meus
amigos. Quero saber a sua.
Javier me mirou por longos instantes, ponderando o que me diria.
Eu já esperava uma mentira.
— A minha versão é que o casamento me acrescenta poder,
Valentina. — A pontada em meu estômago denunciou uma reação esperada
à sua sinceridade. — A empresa, que antes era Garcia e Ferraz, agora é
apenas Garcia Ferraz. Somos famílias mais poderosas quando unidas. —
Engoli em seco, desviando o olhar. — Desculpe a sinceridade, mas acho
que não faz sentido mentir se sabemos por que estamos aqui.
Tornei a encarar Javier, sorrindo enviesado.
— Não faz sentido mentir — confirmei suas palavras. — Obrigada
pela sinceridade.
Ele assentiu, e o garçom se aproximou para recolher os pedidos.
Assim que o homem se foi, voltei a me sentir desconfortável.
— Eu tenho algumas versões sobre você também, Valentina.
— Tem?
Ele riu.
— Todos a conhecem, todos comentam, deveria saber disso.
— E eu sei — rebati. — Nunca fui poupada do que acontece quando
saio da sala. Muitas vezes, nem esperaram eu sair para deixar claro o que
sentiam.
Javier suspirou.
— Por que aceitou se casar? Tem vinte e cinco anos, é jovem, tem
dinheiro e…
— Eu não tenho dinheiro. Meu pai tem — tratei de responder. —
Não sou orgulhosa, nem vou dizer que agradeço a ele por me criar. Não
posso afirmar que tudo de Mariano é meu também. Nunca foi e nunca será.
— Estou confuso.
— Meu pai armou o casamento para que você pudesse subir à
presidência, pois ele prefere a morte do que uma filha tentando assumir os
negócios da família. Não é segredo. Aceitei me casar porque foi a única
chance de liberdade que tive em anos.
— Liberdade?
— Liberdade distorcida, mas ainda sim, liberdade. Diante de tudo
que já vivi, é o mais próximo que cheguei da independência.
Deixei o homem confuso.
— Não compreendo.
— Não precisa tentar compreender. É coisa minha.
Ele não discutiu, se servindo um pouco mais do vinho maravilhoso
disposto à mesa. Bebeu um gole, passando os olhos pelo restaurante,
parando em uma das clientes.
Abaixei a cabeça dada a sua inspeção nada discreta da mulher; não
deveria me incomodar. Não era porque talvez dormiríamos juntos que o
teria só para mim. Nem sequer o queria. Javier não fazia o meu tipo, eu
procurava um homem fiel.
Nunca tive algo só meu. Não seria agora que dividiria.

JAVIER
O fim da noite chegou. Enquanto a via tirar os saltos e ficar
novamente alguns centímetros mais baixa que eu, relembrava nossa
conversa durante o jantar. A questão de amizade e inimizade finalmente
fazia um pouco de sentido: confirmamos que poderíamos conversar sem
xingar um ao outro.
— Quase meia-noite — sussurrou.
Eu me aproximei, tocando sua cintura e afundando o rosto naquele
emaranhado de cachos. Ela inclinou o corpo contra o meu, e aproveitei para
abraçá-la.
Valentina suspirou.
— Estamos finalizando a noite sem xingamentos.
Riu.
— Isso não é bem verdade. Lembra que o chamei de babaca no
restaurante?
— Dado nosso histórico, isso é fichinha — brinquei. Ela se virou
para mim, com os braços em volta do meu pescoço e a boca roçando na
minha. — Não pode me provocar e depois dizer que não me deseja.
— Não pretendia falar nada — redarguiu, deslizando as mãos por
meus ombros e descendo para os botões da camisa social, desfazendo cada
casa lentamente, até que os dedos pequenos e delicados tocaram meu peito,
me levando a encará-la. — Você é quem precisa fazer alguma coisa.
Pousei a mão sobre o vestido rodado e branco que ela colocou antes
de irmos para o restaurante. Puxei a peça levemente para cima, amontoando
o tecido em sua cintura e revelando a bunda redonda. Toquei-a, dando ainda
um tapa leve.
— Estou fazendo — murmurei, a ouvindo suspirar baixinho.
Desceu os lábios por meu pescoço, causando arrepios em minha
pele. Interrompi sua carícia, suspendendo-a em meu colo.
Caminhei até o quarto. Empurrando a porta rapidamente, deixei que
nossos corpos caíssem na cama. Tratando-se da primeira vez dela, queria
que fosse confortável, uma boa experiência.
— Me beije — sussurrou.
Afundei meus lábios nos seus, sendo recebido de maneira desejosa e
sentindo gosto de vinho. Gemi, tocando suas curvas delicadas, apalpando
cada uma lentamente, sabendo que precisaria de bem mais que uma noite
para explorar o corpo de Valentina.
Seu vestido subiu o suficiente para ser retirado; logo ela estava
parcialmente nua embaixo de mim, com o sutiã escuro prendendo os seios
fartos. Apertei-os, escutando-a arfar, e quando libertei os mamilos, não
perdi tempo, levando um deles à boca para brincar com o bico excitado.
Meu corpo queimava em antecipação. Aquilo tudo parecia absurdamente
certo.
Fiquei duro dentro da cueca e me movi, esfregando minha pélvis
contra sua boceta. De olhos fechados, Valentina arqueava os quadris em
minha direção.
Sorri, adorando a maneira como se entregava ao momento. Com as
mãos em sua cintura e a boca junto à pele negra, inalei o aroma
enlouquecedor de sabonete e morangos.
Tão logo alcancei sua intimidade, puxei a calcinha para o lado e me
diverti com a carne quente. Ela tremeu ao sentir meus dedos em seu clitóris.
Abaixei-me entre suas pernas, deslizando a língua por toda a extensão,
degustando-a. Refiz o ato e a vi jogar a cabeça para trás.
— Ja-avi-er — balbuciou.
Sorri.
— Sim, baby? — Voltei a chupá-la, brincando com a língua em sua
entrada.
Valentina se contorceu na cama, apertando o lençol até ficar com o
nó dos dedos esbranquiçados. Aproveitei para adentrá-la com o indicador,
movendo uma vez e seguindo adiante, observando cada reação involuntária
aos gestos. Ela estava molhada, perfeita para me ter.
Meu pau reclamou pela demora e foi acompanhado pelo grito de
Valentina gozando. Levei meus dedos melados diretamente à boca. Notei
que isso a afetava, ao vê-la comprimir os olhos em minha direção.
Sorri e me levantei, ficando totalmente nu à sua frente. Valentina
não havia demonstrado nenhuma reação contrária na noite anterior, muito
menos nesta: olhava para o meu pau duro ao passo que minhas mãos
trabalhavam sobre a carne excitada.
— Se toque — ordenei, ao observar algum temor. — Precisa ficar
excitada para não doer tanto.
Ela se sentou, perto dos movimentos ritmados da minha mão sobre
meu próprio prazer. Colocou os dedos sobre os meus, movendo-os comigo e
me encarando. Estremeci, sentindo que explodiria a qualquer instante só
pela forma como me fitava. Deixei que minha mão a guiasse; a combinação
da pele sedosa de Valentina contra meu pau me fez soltar um grunhido de
prazer.
Abaixei-me o suficiente para abrir suas pernas e encontrar o sexo
excitado, estocando com os dedos para lhe dar a melhor sensação possível.
Os nossos gemidos se misturaram. Afastei suas mãos, ficando de frente para
ela, e procurei o preservativo que deixei na carteira, me protegendo.
— Deite-se. Prometo ser cuidadoso. — Sorri ao vê-la me olhar com
desconfiança.
Subi na cama, abrindo suas pernas. A visão era tentadora; queria
poder eternizar o momento para apreciar a vista por mais alguns segundos.
Puxei Valentina contra mim, beijando o topo da sua cabeça. Ela enlaçou o
meu quadril.
— Eu sinto que isso não vai ser um bom encaixe…
Uma risada escapou dos meus lábios.
— Será sim, eu juro. — Movi a cabeça do meu pau contra sua
entrada, sentindo-a tensa. — Relaxe. Só relaxe. — Ela suspirou, e eu a
beijei, numa tentativa de dominar seus sentidos.
Puxou-me, colando os peitos em mim, permitindo que meu pau
entrasse mais.
Valentina tensionou, e eu parei de me mexer. Continuei a beijá-la,
acariciando seu corpo e voltando ao ritmo com leveza. Por fim, me vi
completamente dentro dela e senti o hímen romper. Seu gritinho me fez
congelar.
— Calma, me desculpe… Já passou. — Alisei seus cabelos, meio
aterrorizado com o caminho das coisas.
Eu tive poucas experiências com situações do tipo; na verdade,
quase nenhuma, pois sempre procurava mulheres com um estilo de vida
similar ao meu. Era a primeira vez de Valentina. Comigo. Em um
casamento arranjado.
Ela respirou fundo, deslizando as mãos por minhas costas.
— Acho que pode se mover — sussurrou, me fazendo sorrir quando
suas mãos tocaram minha bunda, apertando-a de leve. — Sua bunda é
terrivelmente sexy.
Gargalhei.
— Bom saber que impressiono você. — Eu me movi dentro dela,
repetindo o processo até sentir seus pés ajudando meu quadril a ir e vir. As
estocadas então se tornaram mais rápidas, mais necessitadas, apertadas na
medida certa.
Enlouquecedoras.
Uma perdição.
Poderia ficar por horas ali, ouvindo-a gemer, chamando meu nome,
com o corpo à disposição dos meus lábios e das minhas mãos.
— JAVIER! — gritou, gozando pela segunda vez na noite.
Já eu segui em busca da libertação. Movi meus quadris para ter meu
próprio prazer e, quando aconteceu, não evitei dizer seu nome.
— Valentina… — sussurrei, rouco, desacreditado que um dos
melhores orgasmos da minha vida foi com aquela mulher. — Ai, Deus. —
Deitei sobre ela, apertando-a contra mim, com meu pau ainda sendo
abraçado por sua boceta. Perfeito.
Droga. Tive o gosto de uma primeira vez. O que faria agora para
segurar o impulso de tocá-la?
— Obrigada — ela murmurou, me fazendo levantar a cabeça.
— Pelo quê?
O sorriso tímido se ampliou em seu rosto.
— Por se controlar. Por fazer ser bom.
Beijei-a.
— Acho que não teria como ser diferente, Valentina. Não com você.
— Mesmo assim, você foi ótimo.
— Meu desempenho ou meu cavalheirismo? — provoquei.
Jogou a cabeça para trás, rindo.
— Os dois — respondeu, antes de me puxar contra si, beijando
meus lábios novamente e afundando os dedos em meus cabelos.
Senti que poderia começar outra rodada sem nem mesmo ter
terminado aquela direito.
VALENTINA
Cansada demais para me mover, apenas abri os olhos e continuei na
mesma posição, com a cabeça enterrada no peitoral de Javier, analisando o
caminho percorrido para chegarmos ali. Era somente o terceiro dia da lua de
mel e já havíamos quebrado nossas primeiras impressões negativas.
— Você está pensando demais.
Eu o fitei, vendo o quão bonito parecia pela manhã, com os cabelos
bagunçados depois da noite anterior e a cara amassada de quem dormiu
igual a uma pedra.
Sorri de lado.
— Bom dia. Não consigo ignorar minha cabeça. — Tocou meu rosto
e afastou meus cachos para trás. — Há pouco menos de quarenta e oito
horas estávamos gritando um com o outro.
— Já ouviu falar que o amor e o ódio andam lado a lado, Valentina?
Não estou dizendo que é amor, mas que a situação de atração é parecida. —
Apoiei a mão em seu peito e encostei a cabeça ali, enquanto seu braços
enlaçavam minha cintura. — Você está bem? Acho que passei dos limites
ontem.
— Sim, mas de um jeito excelente. — Ri, maliciosa. — Estou bem.
— Desenhei linhas imaginárias em seu peitoral, e ele suspirou.
— Despertei um monstro.
Subi nele, pegando suas mãos e levando acima da cabeça. Rebolei
em seu colo. Não usávamos nada de roupa, então meus seios tentavam seu
olhar, e nossos sexos se tocavam, em uma ficção prazerosa.
— Você pode ser privilegiado com isso — sussurrei, sentindo uma
pontada de leve entre as pernas, sinal de que ele estivera em mim muitas
vezes durante a noite. Colei meu peito ao seu, ainda segurando seus braços,
impedindo que me tocasse. — Mas, se reclamar, posso…
Não tive tempo de finalizar, pois no instante seguinte Javier me
jogou sobre a cama, invertendo nossas posições.
— Não brinque assim, não quando eu não posso encostar em você.
Ri com a maneira como falou isso.
— Por quê? Vai ficar brabo? Furioso? Vai me castigar? — Com as
pernas livres, puxei seu corpo contra o meu, movendo os quadris.
— Com toda a certeza — brincou, esfregando nossas partes íntimas.
Soltei um gemido baixinho com o contato mais intenso e senti
quando ele desceu a mão entre nós, passando a cabeça do membro
levemente contra a minha entrada. Prendi a respiração, esperando, mas nada
aconteceu. Javier apenas se afastou, me deixando deitada sobre a cama,
sozinha e excitada.
— Cedo demais para começar com os exercícios. Você…
— Eu sei o que aguento.
— Não estou dizendo que não aguenta — rebateu, divertido. — Só
quero que fique bem para mais tarde.
Franzi o cenho.
— O que tem mais tarde?
— Passeio de barco. Vamos ficar em alto-mar a noite toda; preciso
de você inteira, Valentina. — Aproximou-se, segurando meu rosto e me
forçando a encará-lo. Beijou meus lábios e deslizou a mão sobre a minha
cintura, apalpando minha bunda e depositando um tapa rápido no local. —
Gosta disso? — Os dedos emaranhados em meus cabelos me puxaram em
sua direção, e eu sorri.
— Não sei, você terá que descobrir. — Empurrei-o ao banheiro e
fugi, mas ele me virou, colando minha bunda em seu corpo.
— Venha comigo. — Soava alegre.
— Se entrarmos aí, vamos sair só mais tarde. Vou pedir café. —
Fiquei na ponta dos pés e vi que já eram quase nove da manhã.
Deixei o quarto, me enrolando no robe, e segui à cozinha, sabendo
bem que precisaria cuidar de cada detalhe para não acabar ainda mais
confusa.
O celular tocou sobre o sofá: uma ligação de Rúbia. Atendi,
sentando-me.
— Olá.
— Querida! Fiquei preocupada, não ligou desde o casamento. Como
andam as coisas?
Encostei a cabeça na almofada e pensei no quão irônico era tudo
aquilo. Eu tinha uma família em São Paulo, mas não poderia contar com ela
para falar sobre problemas do meu casamento.
— Tudo sob controle, Rúbia. E você, como está?
Ela suspirou.
— Enlouquecida com a loja. Mas, como gosta de dizer, tudo sob
controle. E Javier tem tratado você bem? Ele é mesmo aquilo que
escutamos?
Fiz uma breve retrospectiva mental sobre o que aconteceu desde o
momento em que ficamos sozinhos na ilha. Era terça-feira, nos casáramos
havia cinco dias. Tanta coisa ocorreu que nem conseguiria começar a
explicar.
— Ele é Javier, Rúbia. Nunca o entenderei plenamente — disse,
sincera. — Porém, conforme falei, está tudo sob controle.
— Não sei por que não acredito nisso.
Escondi um sorriso com o tecido do robe e mudei de assunto, não
querendo contar que Javier e eu havíamos alterado o rumo do nosso
“relacionamento”. Revelar aquilo poderia lhe dar esperanças acerca de um
romance.
Não vivíamos um romance, e sim um contrato. Nós nos divertirmos
era um bônus bem-vindo.
Senti a presença de alguém e o vi caminhar em minha direção,
vestindo calças folgadas. Com um olhar sério, parou atrás de mim e tocou
meus cabelos, juntando os cachos de lado e levantando-os suavemente. A
boca quente encostou em minha pele. Meu corpo se acendia à medida que
Javier mordiscava a pele sensível.
Um gemido baixinho escapou.
— Valentina, você está bem? — A voz da minha madrasta me fez
fechar os olhos e estender o braço para bater em meu marido, mas tudo que
escutava era sua risada baixa.
— Cla-claro. Claro. Estou bem. Só com uma dor de cabeça leve. —
Puxei-o pela mão para se sentar ao meu lado, porém, o homem ficou no
braço do sofá e continuou brincando comigo, me beijando. Suas mãos
desceram pelo robe entreaberto e tocaram meus mamilos. — Ainda não
tomei café. Ligo mais tarde. Amo você. — Desliguei para soltar outro
gemido quando seus dedos beliscaram o bico do meu peito. — Que diabos
você está fazendo?
— Tocando em você. — Sorriu, novamente daquele jeito divertido.
— Não vou trabalhar hoje, então se acostume.
Aconcheguei-me em seu peito e fechei os olhos por alguns instantes.
O que Rúbia e Rachel diriam sobre isso? Sabia que Alba surtaria ao saber
que o casamento estava indo bem além das aparências.

JAVIER
O celular tocou na mesinha de centro e vi o nome de Mateus
brilhando na tela. A imagem fez a recordação de Valentina em cima de
mim, gemendo meu nome, voltar. Não queria nem pensar no quanto Mateus
surtaria. Ele sempre foi louco pela mulher, só que nunca tinham ido além,
claramente.
Houve uma época em que pensei que existisse um relacionamento
mais profundo. Porém, os últimos acontecimentos negaram toda essa
situação.
— Oi — atendi, cansado, evitando dar bandeira.
— O que está fazendo? Trabalhando?
Observei a mulher agora adormecida em meus braços.
— Na verdade, não — sussurrei. Já passava da uma da tarde.
Havíamos acabado de almoçar e estávamos deitados juntos. Ela acabou
adormecendo, e eu deixei. — Pode ligar depois? Não é uma boa hora.
— Está tudo bem, Javier?
Sorri.
— Tudo ótimo. — Na verdade, estava mesmo. Finalizei a ligação
sem fornecer muitas informações e pus o celular de lado. Valentina se
moveu e abriu os olhos. — Desculpe, precisava atender.
Ela sorriu.
— Ok. Desculpe dormir em cima de você — disse, se virando para o
outro lado da cama e afundando no travesseiro.
Observei-a por alguns minutos e pensei no que fazia. A situação
ficava mais séria a cada segundo.
Eu não era o cara que costumava se preocupar com uma mulher
depois da primeira noite juntos. Não ficava vendo ninguém dormir, muito
menos fazia atos impensados, como excitá-la enquanto estava ao telefone.
Levantei-me com cuidado, pegando o celular, e saí da cama,
fechando a porta calmamente. Vesti uma das camisas abandonadas sobre o
sofá e fui para fora, respirando fundo de modo a pensar com clareza.
Iria para a praia e ficaria lá até ter certeza de minhas ações.
Precisava respirar, entender o que era aquela conexão insana com Valentina.
Foi só pararmos de tocar em nossos problemas para a conversa fluir, a
atração se intensificar e tudo mudar.
Senti alguém tombar em meu ombro e levantei a cabeça, dando de
cara com uma mulher.
— Javier! — exclamou, sorrindo. — Que surpresa, você por aqui.
Faz séculos que não vem a Fernando de Noronha.
Forcei um sorriso. Eu a conhecia de outras viagens à ilha.
— Sim, não tive como vir antes. Estou em lua de mel. — Balancei a
mão no ar, a vendo abrir a boca, espantada. — Pelo jeito, você ainda
gerencia o hotel. — Apontei para o seu crachá, e ela sorriu.
— Sim, sim. Alessandro não consegue me tirar daqui — gabou-se
Anita, contente. — Vai para o bar? Podemos tomar um drink. Faz séculos
que não nos vemos.
Sorri e me forcei a concordar; um drink não me mataria. Além do
mais, necessitava de uma bebida forte para clarear minhas ideias.
— Vá na frente. Apareço em um instante.
Ela assentiu, sumindo no corredor. Peguei o celular e digitei uma
mensagem rápida à Valentina. A distância, no momento, era o melhor para
ambos. Teríamos a noite toda juntos.
VALENTINA
Ele não havia retornado ao quarto desde a mensagem que chegou
em meu celular. Então me aprontei para a nossa noite em alto-mar e tentei
não pensar no que aquilo significava. Vesti a lingerie que Rúbia me dera e
me senti como me sentia sempre que Javier me olhava: poderosa.
Rumei ao cais, a alguns metros do hotel. Segurava meu celular entre
os dedos, checando o horário para ver se ele já estava a caminho. Encarei o
barco parado à margem: no deque, havia um senhor observando o mar
calmamente.
Estremeci, me sentando em uma das banquetas. Esperava havia
cerca de uma hora, pois fui pontual, conforme ele pediu na mensagem:
“Vou ficar trabalhando o restante do dia. Aconteceu uma pequena
emergência na empresa. Encontro você no cais às seis”.
Olhei ao redor e decidi voltar ao hotel, para verificar se Javier estava
por lá, antes de decidir o que fazer. Enquanto caminhava, senti uma
decepção boba brincando dentro de mim, levantando o dedo em acusação
pela minha inocência.
Acreditar em Javier seria besteira.
Fechei os olhos, xingando. Não tiraria conclusões precipitadas, ele
poderia estar preso em alguma reunião. Ciente do homem obstinado que
era, não abandonaria a G&F apenas por algumas horas de prazer.
Passei pelo bar do hotel e parei ali, observando o local onde poucas
pessoas circulavam. Travei com meus olhos colados à mesa no canto: um
homem e uma mulher, lado a lado, conversavam e bebiam algo.
Engoli em seco. Notando os cabelos de Javier um tanto
desgovernados, meu coração se apertou. Como sempre, eu facilitara minhas
próprias desilusões.
Dei meia-volta e retornei ao cais. A praia estava movimentada.
Decidi que passaria a noite lá, por não querer voltar ao apartamento que
dividíamos.
Por ora, o mais indicado era ignorar o problema. Entretanto, a
vozinha debochada em meu subconsciente insistiu em dizer: “Você sabia
que não iria a lugar nenhum; não deveria ficar braba por algo que não lhe
pertence”.
JAVIER
A noite fora um pouco confusa. Eu me senti um filho da puta ao
acordar e perceber o que havia feito. Estava deitado no meu quarto de hotel
e não me recordava de ter visto Valentina ao chegar, apenas desmaiei de tão
bêbado. O celular não mostrava nenhuma chamada. Já no banho, comecei a
ficar preocupado.
Uma certeza eu tinha: não transei com ninguém na noite anterior.
Apenas fiquei bêbado demais e perdi a noção do tempo, porém, isso não me
tornava menos culpado. Não deveria ter seguido Anita para o bar, pois não
queria conversar. E quanto mais ela falava, mais eu bebia e pensava sobre
tudo que estava acontecendo entre Valentina e eu. Nenhuma conclusão
havia sido animadora.
Escutei a porta abrir e enrolei a toalha em torno da minha cintura,
caminhando em direção à sala. Ouvi quando algo caiu no chão. Apressei o
passo e enxerguei Valentina deitada no sofá, com o rosto afundado na
almofada e os saltos jogados de lado.
Ela estava arrumada e parecia cansada.
— Bom dia — sussurrei. — Sinto muito por não aparecer…
Minhas palavras a fizeram levantar a cabeça, apoiando o maxilar na
mão, ao passo que o cotovelo a sustentava no sofá.
— Tudo bem — disse, simplesmente, erguendo-se e caminhando até
o quarto.
Fiquei congelado no meio da sala, absorvendo o som das duas
palavras, como se eu não a tivesse deixado esperando.
Segui-a.
— Falo sério. Quero me desculpar, podemos fazer algo hoje,
almoçar juntos, ir à praia ou…
— Javier — Valentina me cortou, segurando minhas mãos —, está
tudo bem. Seja lá o que fez, não importa. Eu esperei por você, que não
apareceu, mas isso não significa que me deva uma explicação nem nada do
tipo. Além do mais — sorriu de lado —, eu tive uma noite realmente ótima.
Franzi o cenho.
— Certo — concluí, duvidoso. — Mas será que poderíamos ao
menos sair para jantar hoje?
— Não vai dar. Conheci um pessoal na praia e marquei de encontrá-
los. — Afastou-se, pegando o robe e começando a tirar as roupas.
Continuei ali, parado, encarando o rumo que as coisas tomaram em
apenas uma decisão. Quem ela conhecera na praia? Isso não parava de
passar na minha cabeça.
— Pode pedir um café para nós? Preciso de uma dose antes de sair.
— A mulher sumiu no banheiro.
Peguei o telefone do gancho e disquei o número da cozinha do hotel,
solicitando um café da manhã para dois, ainda perturbado.
Será que eu precisaria ir ao tal jantar dela para descobrir quem eram
seus novos amigos? Valentina não me levaria, então minha única saída seria
ir escondido.

O restaurante que ela escolheu servia comida mexicana. Enquanto


aguardava a jovem liberar uma mesa para mim, analisei a mulher sentada
no bar do local. Valentina vestia uma calça jeans apertada e uma camisa
vermelha solta ao redor do corpo, tendo os cabelos presos em um elástico
no alto da cabeça, com seus cachos bagunçados de modo chamativo.
Ela estava linda, o que já era uma conclusão clichê.
— Sua mesa ficou disponível, senhor. — A voz feminina me fez
virar e sorrir em agradecimento.
Fui levado aos fundos do restaurante, à mesa perfeita para olhar
Valentina sem ser percebido. Sentei-me e pedi um dos vinhos da casa,
pegando o cardápio; já que estava ali, teria que comer — se ela por acaso
me visse lá e sem nenhum prato, não haveria desculpa para o meu
comportamento.

VALENTINA
Falar tudo aquilo a Javier foi difícil, pois eu queria gritar e exigir
uma explicação, revelar que o vi com uma mulher no bar e o quanto o
desprezava por isso. Mas engoli meu orgulho e fiz a linha da racionalidade,
aceitando que ele não me pertencia para eu exigir algo.
A ideia de me perder entre a lógica e a loucura me atormentava. Era
nisso que pensava enquanto bebia meu drink e aguardava minha
companhia. Acabara conhecendo um grupo de pessoas na noite anterior,
todas muito divertidas, e logo me enturmei à sua pequena festa na praia,
bebendo, comendo e conversando.
— Boa noite. — A voz baixa chegou por trás.
Virei-me rapidamente, sorrindo ao encontrar Cristian.
— Oi! Boa noite. — Beijei sua bochecha, me equilibrando em cima
da banqueta. — Cadê o pessoal?
— As meninas se atrasaram, mandaram eu vir primeiro para guardar
a reserva. Vamos à mesa, ou ainda não ficou disponível?
— Já está, mas não queria sentar sozinha. — Pulei do banco,
pegando meu drink. Na mesa, ele puxou a cadeira para eu me sentar; após,
fez o mesmo ao meu lado. — Quando retornarão ao México?
— Em cinco dias. Precisamos voltar à vida real, infelizmente. —
Sorriu de lado. Cristian e as duas irmãs estavam de férias em Fernando de
Noronha. Ele falava um portunhol arranhado. — E você? Quando viaja?
Era quarta-feira, só tínhamos mais um dia na cidade antes de rumar
a São Paulo.
— Depois de amanhã. Sairemos cedo.
— “Sairemos”? Pensei que estava sozinha aqui.
Baixei a cabeça, envergonhada. Não havia dito a nenhum deles que,
na verdade, era casada.
— Estou com um amigo.
Ele arqueou a sobrancelha. Cristian tinha cabelos loiros em um corte
despojado, olhos azuis-claros e um corpo alto e atlético. Tudo isso lhe
conferia certa intensidade.
— Apenas amigo? — inquiriu.
Rapidamente pensei no que fizemos e em como aquilo definia
Javier.
— Claro, só um amigo. — Eu me surpreendi quando minha voz saiu
tão firme.
Ele não teve tempo de falar mais nada, pois suas irmãs
interromperam nosso diálogo. Recepcionei Maitê e Ruby, sabendo que
seriam meu bote salva-vidas para não dar mais informações sobre meu
amigo.
Era uma mentira e tanto. Apesar de ter mentido muitas vezes ao meu
pai, quando se tratava do relacionamento com Javier, tudo era incerto.

— Preciso ir ao toalete — sussurrei, afastando a taça de vinho, e me


levantei, colocando a toalha em cima da mesa enquanto andava em direção
aos fundos do restaurante.
A conversa fluía bem com aquelas pessoas, achava divertido papear
com quem conhecia havia pouco tempo, pois não faziam ideia de como era
a minha vida. As minhas únicas companhias sempre foram Rachel e Rúbia.
Minha vida estava mudando rápido. Eu, agora, tinha o direito de ir e
vir normalmente e… Travei, encarando a cena sem acreditar naquilo.
Javier! Maldito Javier Garcia!
— O que faz aqui? — indaguei, batendo a palma das mãos em uma
das mesas a caminho do banheiro.
Ele me encarou com os olhos arregalados.
— Vim jantar, oras. Inclusive, boa noite, esposa — debochou,
bebendo um gole de vinho.
Semicerrei os olhos.
— Isto não é coincidência, Javier. Por acaso está me seguindo?
Ele abriu a boca, ultrajado.
— É claro que não a segui! Queria comida mexicana e, por acaso,
escolhi o mesmo restaurante que você. Uma coisa interessante a respeito do
mundo é que ele não é exclusivamente seu.
Quase rosnei para ele, desviando da mesa e continuando meu
trajeto. Bati a porta do banheiro com força, me obrigando a respirar
calmamente.
Merda. Merda. Merda. Eu não queria ser tão neurótica, mas a ideia
de alguém me seguindo e controlando de novo a minha vida me
atormentava.
— Você está bem? — Javier entrara no recinto, chaveando a porta.
— Tem razão.
Franzi o cenho.
— No que exatamente?
— Quanto ao fato de eu a seguir. — Tocou meu rosto, fazendo a
raiva aumentar. — Eu precisava entender com quem você sairia. Isso ficou
me atormentando.
Sorri amarelo.
— Você não tem motivo para se sentir mal. Não estamos em um
relacionamento de ver…
Segurou meus quadris e me colocou contra a parede, se mantendo
tão perto que sentia seu hálito.
— Sim. Não estamos em um relacionamento de verdade —
murmurou. — Mas enquanto desejar transar comigo, será apenas minha,
Valentina.
— Não desejo.
— Tem certeza? — Deu o tipo de sorriso perverso que levava meu
estômago a se revirar em protesto. — Se eu tocar em você, não vou senti-la
quente e pulsando para me ter? — Roçou meus lábios com os seus.
Denunciei meu estado ao encolher os joelhos, reprimindo o desejo
involuntário que sempre ocorria quando ele se aproximava.
— Na-não — gaguejei.
Javier sorriu, afastando-se.
— Vamos embora — decidiu, abrindo a porta.
Eu o fitei com seriedade.
— Não vou a lugar nenhum. Estou jantando com amigos.
— Se não for embora comigo, vou me sentar à mesa com você —
rebateu, desafiador.
— Não deixarei que controle a minha vida, Javier.
Ele riu.
— Não quero controlar nada. Quero que você saia comigo, quero
recompensá-la pelo que aconteceu ontem.
Eu me senti confusa sobre o que fazer. De cabeça baixa, mirei meus
saltos por mais tempo do que o necessário, mergulhando naquela decisão.
— Ok — respondi brevemente, sabendo que uma grande parte de
mim almejava estar com aquele homem. — Só tem um detalhe.
Javier aparentou confusão.
— O quê?
Desci a mão por seu peitoral, parando um pouco acima da virilha.
— Eu o vi na noite anterior. No bar. Com outra mulher. E enquanto
quiser ficar comigo — toquei-o por cima da calça —, terá apenas eu.
Demorou alguns segundos para assimilar minhas palavras.
— Não sabia que fazia o tipo possessiva.
Gargalhei.
— Não faço. Mas se eu não posso ter outro, você também não pode.
Direitos iguais.
Ele segurou meu rosto de maneira que não me dava jeito de fugir e
mordeu meu lábio inferior, puxando-o levemente. Soltei um suspiro baixo
antes do homem tomar minha boca por completo em um beijo. Suas mãos
desceram para a minha cintura, à medida que sua língua mergulhava em
minha boca. Então me levantou e me sentou na borda da pia, se encaixando
entre as minhas pernas.
A língua bailava junto à minha, sensual. E meu ventre se comprimiu
em resposta.
— Sou seu. Até segunda ordem — brincou, sussurrando entre meus
lábios, e se afastou. Pulei da pia, e caminhamos para fora do banheiro. —
Se despeça dos seus amigos, eu a encontrarei lá fora — disse, indo ao
balcão do restaurante.
Dei adeus ao pessoal, pedindo desculpas pela pressa e pagando a
minha parte da conta.
Assim que saí, o carro que Javier havia alugado já aguardava por
mim. Entrei no banco do carona, colocando minha bolsa no painel, e retirei
meus saltos, que machucavam meus pés. Ele dirigia.
— Aonde estamos indo? — perguntei.
— De volta para o hotel.
Entendi bem o que ele queria: enterrar-se nos lençóis por algumas
horas. O tipo de programa de casais que compartilham apenas sexo.
— Ok.
Peguei meu celular, checando as mensagens. Vi um monte de
Rachel falando dos planos para o fim de semana. Iríamos embora na sexta-
feira e, no sábado, eu estaria em casa. Mas depois de uma semana ao lado
de Javier, eu não sabia se queria ver minha melhor amiga. Ela me lembrava
de que o homem era quase proibido.
Enxerguei o hotel, e logo meu marido estacionou, me ajudando a
descer e levando consigo meus saltos. A imagem me fez rir, mas não falei
nada, enlaçando nossas mãos. Esperava que fôssemos ao elevador, mas
Javier mudou de rota, me levando na direção contrária, aos fundos do local.
Assim que a porta dupla se abriu, revelou uma área aberta. A piscina
sob o céu iluminado de estrelas e uma lua vibrante me impressionou. Uma
imagem linda.
— Venha — chamou, me guiando à cadeira enorme, que lembrava
uma cama, cheia de almofadas. Sentamo-nos ali, e ele jogou meus sapatos
do lado do móvel, me puxando para si. — O passeio de barco não deu certo,
e não tive tempo de preparar nada mais elaborado, mas espero que goste.
Sorri.
— Não precisa se preocupar. — Acariciei sua barba, com a cabeça
encostada em seu peito.
Javier me beijou, afundando meu corpo em meio às almofadas.
Permiti-me relaxar, sabendo bem que poderia me perder ali por alguns
instantes.
A porta tornou a se abrir, e o barulho me afastou de Javier. Um
homem empurrando um carrinho de refeição nos cumprimentou com um
boa-noite solícito antes de ir embora, largando a comida lá.
— Champanhe? — Javier indagou, se levantando.
Assenti e me sentei, enquanto ele caminhava até o carinho, pegando
a garrafa de champanhe do balde de gelo. Olhei ao redor, indecisa sobre o
que fazer.
— Estamos mesmo sozinhos?
Ele me encarou sobre os ombros.
— Sim, pedi que ninguém nos incomodasse. — Voltou a focar na
garrafa.
Aproveitei para segurar a barra da blusa, removendo a peça e
revelando minha lingerie. Esperei que Javier se virasse.
A explosão da garrafa veio, e o vi servir duas taças, se virando para
mim com um sorriso, que morreu lentamente ao me enxergar parcialmente
nua.
— Quer bagunçar meus sentidos?
Aceitei a taça estendida.
— Talvez. Ou quem sabe eu só esteja com calor — respondi,
bebericando o líquido.
Ele pegou algo dentro do carrinho, trazendo junto ao se deitar
comigo. Encostou-se na cabeceira do móvel, e eu me aproximei.
Aquela era a situação mais aleatória que jamais pensaria viver com
Javier.
— O que passa nesta cabecinha inquieta? — Alisou minhas
têmporas.
— Nunca me imaginei assim, com você em especial. — Sorri,
sabendo que ele não poderia ver.
— Sendo sincero, eu também não. — Afundou o rosto em meus
cabelos. — Aliás, o que usa no seu cabelo?
Franzi o cenho.
— Xampu, por quê?
Ele riu.
— Xampu de quê? Tem um cheiro ótimo. — Mordeu um morango.
— De morango. — Segurei a risada. — Bem o que você está
comendo.
Tomou meu rosto, beijando-me. Sua boca com gosto de champanhe
e morango era o paraíso.
— É perfeito.
Um suspiro discreto escapou dos meus lábios. Não me contive.
JAVIER
— O que faremos? — ela questionou, se aproximando de mim e
passando os braços em torno da minha cintura. Beijou minhas costas.
Entrelacei nossos dedos, sem me preocupar com nada além de mantê-la
com os seios esmagados contra mim. — Está acabando, não sei se gosto da
ideia de voltar para São Paulo.
Sorri, me virando para segurá-la; observávamos a ilha. Havíamos
passado o dia em um tour por Fernando de Noronha, em vários lugares
bonitos.
— De qual gostou mais? — Alisei seus cabelos, enfiando os dedos
em meio aos cachos.
— O mergulho junto aos corais. — Suspirou. — Foi perfeito. Quase
chorei.
Sim, eu reparara em sua emoção ao ver a vida marinha.
— Retomar a realidade é sempre doloroso. — Brinquei com os
botões da minha camisa em seu corpo. — Mas necessário.
Valentina se virou para mim, agarrando meu pescoço. Apertei sua
bunda, encaixando-a melhor. Era interessante como nossos tamanhos
combinavam.
Ela me beijou, deslizando as mãos por meus cabelos. Um gemido
baixinho escapou dos meus lábios. Valentina era a minha perdição. A
perdição que me levou a cair diversas vezes durante esses cinco dias e em
que queria me afundar um pouco mais nas próximas semanas. Ou meses.
Não sabia se havia a possibilidade dessa conexão acabar.
Normalmente, sentia uma atração irracional e momentânea por alguém, que
terminava depois da nossa primeira vez. No entanto, tratando-se dessa
mulher tudo era mais intenso, mais dilacerante e enlouquecedor.

O avião pousou em São Paulo às cinco da tarde. Aguardei Valentina


se recompor da viagem; ela disfarçara as marcas em seu pescoço com
bastante maquiagem.
Agora, iniciaria a verdadeira batalha. Ela não me falou muito acerca
do assunto, mas sabia que sua relação com a minha mãe não era das
melhores.
— Vamos — sussurrou, segurando minha mão enquanto descíamos
do avião particular. Paramos na pista da sede da G&F, sem nos preocupar
com nenhum tipo de mídia por perto.
— O seu carro está no estacionamento, senhor — um dos nossos
funcionários falou, estendendo a chave em minha direção.
— Obrigado, Alfred. — Peguei-a, caminhando junto à Valentina
rumo ao elevador privativo. Notei que ela esfregava as mãos, nervosa. —
Você tem que se acalmar; é como se estivesse voltando para a guerra.
A mulher riu.
— Em parte, estou. Todos esperavam que o casamento fosse por
aparência: Rachel, sua mãe, meu pai e os demais — tagarelava. — Eu não
sei se consigo disfarçar muito bem o fato de estar transando com você.
Segurei seu rosto.
— Ninguém tem nada a ver com isso. Você é minha esposa, a
decisão é apenas nossa. — Beijei seus lábios e abracei seu corpo.
O celular de Valentina tocou, e ela se afastou para atender.
— Oi. — Fez uma careta. — Acabei de chegar. Sim, sim. Ok. Vejo
você em breve.
Encarei-a, mas ela não falou nada, somente fez, mais uma vez, uma
expressão de quem iria morrer.
Liguei meu próprio aparelho, que começou a apitar com mil e uma
mensagens de clientes e sócios, cientes de que eu já estava por perto. A
ideia era retornar ao trabalho apenas na segunda, mas, com toda a certeza,
isso seria impossível.
— Se importaria em ir para casa sozinha? O trabalho já está
agarrando minhas pernas. — Balancei o celular no ar.
— Não, tudo bem — limitou-se a dizer.

VALENTINA
Ele não entendia mesmo o que a mãe dele significava para mim.
Javier pensava que nossa relação se resumia a um desentendimento bobo,
que logo passaria. Mas quanto mais o carro se aproximava da mansão dos
Garcias, mais nervosa eu ficava. Estava sozinha, indo morar com a minha
sogra. Além disso, minha melhor amiga resolveu me visitar em um péssimo
momento.
Eu amava Rachel, mas o fato de sempre ter sido dependente de sua
amizade a fez ver que eu não tinha opções; que eu me tornaria solitária sem
ela. Ou seja, Rach dispunha de livre acesso para se meter em minha vida.
Isso era sufocante.
O motorista estacionou o carro na garagem. Continuei ali,
observando o jardim de rosas claras com uma fixação estúpida, pensando se
havia alguma maneira de sobreviver ao Inferno. Os cinco dias em Fernando
de Noronha agora eram apenas uma memória.
A partir do momento em que entrasse naquela casa, teria de colocar
em prática meus planos iniciais para me tornar independente, a mulher que
almejava ser. Meus desejos por Javier não poderiam me atrapalhar.
— A senhora irá ficar aí? — o motorista indagou.
— Por favor, me chame só de Valentina. — Sorri e abri a porta,
segurando a bolsa com firmeza. Deveria ter convidado Rúbia… Seria muito
melhor se ela estivesse ao meu lado. Porém, eu precisava aprender a me
proteger sozinha.
Andei até a entrada da casa e deslizei a mão pela maçaneta,
revelando a porta aberta. Ao pisar na sala de estar, ampla e bem decorada,
vi Alba e Rachel sentadas perto do piano, tocando uma canção.
Fiquei ali, em silêncio, esperando finalizarem, evitando atrapalhar o
momento.
— Valentina já não deveria ter chegado? — Rachel sussurrou,
afastando os dedos do instrumento. Ela tocava muito bem, não era à toa que
se tornara tão famosa, repleta de shows.
— Sim. — Alba suspirou. — Não me surpreende que esteja
atrasada. Isso é apenas uma amostra dos próximos anos.
Minha amiga franziu o cenho. Senti a vergonha me pinicar dada a
crítica de minha sogra.
— Como assim, senhora Garcia?
— Meu filho nunca deveria ter escolhido Valentina. Ele é um
homem de classe, tem pais influentes e…
— A família de Val também é influente.
— Sim! Mas pelo lado do pai, já a mãe é uma negação. Uma preta
sem-vergonha.
Meu coração se apertou. Tentei entender por que ainda me sentia
ofendida. Engoli em seco, dando meia-volta e saindo dali sem ouvir mais
nada.
A porta da sala se fechou levemente às minhas costas. Chamei o
motorista, pedindo que me levasse para outro lugar.
Alba odiaria a minha presença. E eu era uma mulher livre, poderia ir
aonde quisesse.
— Qual o destino, Valentina?
— Este endereço. — Entreguei-lhe um pequeno papel com o
endereço da antiga casa de minha mãe.
Ela não tinha mais posse do lugar; com seu sumiço, virou uma
propriedade de um dos meus tios maternos. Eles não sabiam que eu
frequentava o local, nem precisavam saber. Estava sempre abandonado. E
foi o meu refúgio durante muitos anos.

JAVIER
— Filho! Que bom revê-lo, pensei que estenderia mais alguns dias a
viagem. — Papai me pegou desprevenido. Arregalei os olhos, guardando o
celular. Não queria que ele visse a foto de Valentina ali, adormecida em
uma das noites nas quais dividimos a cama. — Como anda Valentina?
Espero que estejam se dando bem.
— Tudo sob controle. — Sorri.
— Tudo sob controle — tossiu, debochando. — É o que os dois
adoram repetir. Ela falou a mesma coisa à Rúbia. Nenhuma novidade? São
jovens, muito bonitos, deveriam se sentir atraídos.
— Mamãe lhe bateria se ouvisse isso.
Gargalhou. Peguei alguns documentos do trabalho e enfiei na pasta,
colocando meu terno no lugar e me aprontando para sair. Já eram quase dez
da noite, estava cansado.
— Vamos jantar em algum lugar?
— Tem certeza? Sua mãe deve ter preparado algo. Além do mais, é
recém-casado, deveria jantar com sua esposa.
Revirei os olhos, em uma mensagem clara.
— Mamãe vai superar uma falta. E acabei de avisar Valentina de
que jantarei com você.
Ele aquiesceu, me seguindo para fora.
— Gosto de você assim. Parece relaxado, os dias fora lhe fizeram
bem. — Sorri. O elevador se fechou. — A vaga para a presidência é sua,
sabe disso, mas haverá uma votação entre os acionistas, por mera
formalidade.
— Eu sei. É o procedimento padrão. — Remexi-me inquieto ao
lembrar.
— Não há o que temer, Javier. — Bate em meu ombro. — Você
sacrificou muito para ter mais do que metade da empresa. A decisão dos
acionistas deve ser considerada, mas não são eles quem decidem no final.
Sorri.
— Eu sei, papai. Obrigado pelo apoio. — Apertei sua mão. —
Vamos jantar no Santa Massa?
— Parece uma boa ideia.
Ficar um tempinho longe de Valentina ajudaria nós dois. Eu poderia
clarear as ideias e parar de agir como um moleque, e ela teria a chance de se
acertar com mamãe, já que viveriam sob o mesmo teto.
Mas, no momento, eu me sentia culpado, como se eu devesse estar
em casa, ajudando minha esposa a se adaptar à mudança.
— Não pretende comprar uma casa, Javier? Talvez um apartamento
já esteja de bom tamanho — comentou ao entrarmos no carro, parecendo ler
meus pensamentos.
— Não, mamãe pediu ao menos cinco meses lá, e eu aceitei. Acho
que passará rápido, logo poderemos decidir o que fazer em seguida. —
Liguei o veículo, dirigindo pelas ruas movimentadas de São Paulo. O
trânsito intragável a essa hora da noite me deixava irritado.
— Isso não é certo. Se vocês têm condições de morarem sozinhos,
deveriam fazê-lo. Manter outras pessoas por perto, assistindo ao seu
relacionamento, pode lhes fazer muito mal — forneceu sua opinião. —
Problemas no matrimônio são entre o casal, exceto quando envolvem algum
tipo de abuso.
— Não estou abusando de ninguém.
Ele jogou a cabeça para trás, rindo.
— Eu sei que não, filho.

Papai acabou indo para o seu apartamento no centro, já que ele e


mamãe não andavam bem havia muito tempo. Estacionei o carro na
garagem e tirei a chave da ignição, descendo do veículo rapidamente.
Chequei as horas no relógio enquanto abria a porta de casa: passava das
onze da noite. Vi a sala iluminada e estranhei; neste horário, mamãe já
estaria dormindo. Porém, a imagem de Rúbia, Mariano, Rachel, Mateus e
Alba reunidos enviou um choque pelo meu corpo.
— O que aconteceu? — questionei.
— Onde está Valentina? — a madrasta foi a primeira a indagar.
— Aqui. Ela veio de carro há mais de cinco horas.
Rúbia cobriu a boca, em choque. Os olhos preocupados da mulher
deixavam claro que algo não estava nada bem.
— O que aconteceu, por Deus?
— Ela nunca chegou em casa, Javier — Rachel começou. —
Achamos que estivesse com você, já que não atendeu ao celular.
Resolvi checar, ligando para ela, sem sucesso. Passei a me
preocupar, com a cabeça rodando.
— Tem algum lugar aonde ela possa ter ido? Faculdade? Trabalho?
Amigos? — O medo se alastrava dentro de mim. Todos ali pareciam
estupidamente calmos para a situação.
— Não há nenhum lugar que Valentina frequente além da nossa casa
e a de vocês — Mariano disse, me fazendo calar. Como assim, nenhum
lugar?
— Eu vou encontrá-la — decidi, pois ninguém faria nada.
Dei meia-volta, entrando novamente no carro. Disquei o número da
última pessoa que vira Valentina: o motorista. Ele deveria saber de algo.
Qualquer coisa. Um detalhe já ajudaria a conter o meu pavor.
VALENTINA
Retirei o casaco que vesti durante a viagem e joguei-o no chão da
área, encostando minha cabeça ali enquanto puxava a pequena coberta
sobre meu corpo, na tentativa falha de me esquentar. Já passava das onze da
noite, meu celular havia descarregado há cerca de duas horas e eu não podia
sair de lá, já que dispensei o motorista e estava sem nenhum dinheiro.
Entretanto, apesar do frio, me sentia bem. Não tinha ninguém para
falar mal de mim e me olhar torto. E o tempo sozinha me ajudava a pensar
com mais clareza nos meus objetivos antes do casamento. Eu queria crescer,
longe do meu pai; para isso, era preciso persistência.
— VALENTINA! — Sentei-me em um salto, arregalando os olhos
ao tentar decifrar de onde vinha o grito. — VALENTINA! — Estremeci,
chegando à conclusão de que se originava da entrada, juntamente ao
barulho constante de alguém batendo à porta.
Levantei-me, caminhando na direção da voz de Javier. O medo
começou a se instalar, pois nunca havia visto sua versão realmente braba.
Como seria essa explosão? Minha intenção não era o irritar, e sim
sobreviver ao primeiro dia de volta à realidade.
Destranquei o portão da casa, antes que ele acordasse toda a
vizinhança. Assim que me encarou, o homem soltou o ar rapidamente,
bufando.
— Você vai me deixar louco! — exclamou.
— De raiva?
Ele riu.
— Também. O que está fazendo aqui? Por que não foi para casa?
Não desejava contar a ele tudo que ouvira, pois Javier e a mãe
tinham uma ligação forte. Se, em algum momento, ele precisasse escolher
entre nós duas, seria óbvia a sua decisão.
— Eu estou bem. Venho para cá quando preciso pensar. — Abracei
sua cintura, beijando o espaço onde a camisa se abriu, que revelava o
peitoral. Ele passou os braços ao redor de mim. — Não quero voltar, não
agora. Aposto que deixei todos loucos.
— Deveria ter me ligado.
— Fiquei sem bateria, sem dinheiro e sem um carro. É longe daqui
até a casa dos Garcias. — Ele assentiu. — Não quero voltar, Javier. Se
preferir, pode ir, vou dormir aqui.
Ele negou.
— Deixe-me ver onde dormirá — pediu. Levei-o para dentro do
apartamento, situado no centro de São Paulo, bem localizado. — De quem é
este imóvel?
— Era da minha mãe. Quando ela se foi, ficou para a minha família
materna, mas como ninguém necessita dele, é praticamente abandonado. —
Entrei na sala, mostrando o local vazio e empoeirado. — Eu estava na
varanda. É o ambiente mais limpo e bonito. — Puxei sua mão, conduzindo-
o à sacada com vista para o céu escuro e as pequenas estrelas.
Era um bom lugar. Dificilmente se consegue enxergar o céu de um
apartamento.
— Agora sei por que gosta daqui. — Apertou-me em seus braços,
encostando-se contra a parede. — Tem certeza de que está mesmo bem para
dormir no apartamento?
— Sim, estou ótima. — Minha barriga roncou em protesto, e Javier
riu.
— Vou pedir comida. — Pegou o celular, digitando algo na tela
antes de finalizar a operação e guardá-lo. Começou a tirar o terno
perfeitamente alinhado, fazendo o mesmo com o cinto da calça.
— O que está acontecendo?
— Não acha que vou deixar você dormir sozinha, né? — Arqueou a
sobrancelha, jogando o terno ao lado do meu casaco e tirando o sapato
social para se sentar. — Se você quer ficar, eu vou também.
Sorri.
— Não…
— Nem comece. Sente-se comigo. — Bateu no espaço vazio ao seu
lado. — Já, já nosso jantar chega. Pedi vinho, ok? — Aquiesci e caminhei
até ele, me sentando sobre os panos e aconchegando-me em seu peito.
Javier entrelaçou nossos dedos e beijou os nós das mãos. — Conte-me o
que aconteceu, sei que tem algo mais que não quer falar.
— Como assim?
— Mamãe lhe disse alguma coisa? Não precisa me poupar disso,
conheço minha família, Valentina.
Odiaria estragar nosso momento perfeito mencionando sua mãe.
— Minha vida em São Paulo nunca foi perfeita ou alinhada. Voltar
para cá fez a pressão retornar, pois os dias em Fernando de Noronha me
levaram a pensar em como eu poderia finalmente ser livre. — As palavras
apertavam meu peito; não eram totalmente mentira. Eu me sentia desse
modo.
— Você é livre.
— Eu sei. Mas livre de outra maneira. Não vou chorar nem
espernear sobre o casamento — fechei os olhos —, mas me pergunto como
teria sido se eu dispusesse da chance de trilhar meu próprio caminho.
Suas mãos continuaram segurando as minhas, em um apoio
silencioso.
— Pode fazer o que quiser agora — sussurrou.
— Eu sei. Obrigada.
Beijou minha têmpora.
— Sou parte da sua prisão, não me agradeça…
Deixei o instante fluir. O vento frio de São Paulo levava a gente a se
apertar ainda mais.
O sono começou a chegar; o cansaço de pensar em demasia pesou
em meus ombros. Mas fui despertada pelo barulho da campainha, avisando
que alguém chegava.
Javier se levantou. Eu permaneci ali, observando o homem trocar
breves palavras com o entregador antes de retornar. Havia três sacolas de
um restaurante gaúcho situado a algumas ruas do apartamento.
— Comida gaúcha — anunciou, sentando-se ao meu lado.
Ajudei-o a colocar tudo para fora das embalagens e a abrir o vinho.
Não tínhamos pratos nem copos, apenas duas colheres enviadas pelo
restaurante. Nunca imaginei que veria Javier sentado no chão, dividindo
uma marmita comigo.
— O que você tanto olha? — indagou, meio indignado.
Sorri.
— Nada. — Inclinei-me, beijando seus lábios. Após, peguei a
garrafa de vinho e tomei um gole generoso. A vida começava a me
surpreender.

JAVIER
Entramos em casa em silêncio, carregando uma bolsa pequena.
Valentina segurava os saltos, e eu lhe indiquei as escadas, sabendo que
mamãe só acordaria mais tarde, então teríamos tempo para nos aprontar.
Porém, a imagem de Rachel e Mateus adormecidos na sala de estar me
deixou confuso.
— O que eles fazem aqui? — Valentina sussurrou, me olhando
desconfiada. Dei de ombros, pois não fazia a menor ideia, e subimos as
escadas.
Apontei para o último quarto do corredor, uma das suítes da casa; a
segunda ficava com meus pais. Abri a porta, e Valentina entrou, observando
cada detalhe ao redor.
— Gostou? — Ela assentiu, jogando os saltos de lado enquanto
tirava a calça jeans. — Fico feliz que esteja se sentindo à vontade —
brinquei, também me despindo.
A noite havia sido boa demais para quem dormira no chão duro.
Não conseguiria negar que fora um dos momentos em que mais me senti em
paz ao longo de toda a vida. Para a minha cabeça hiperativa, a tranquilidade
nunca se fazia presente.
— Venha. — Puxou-me pela mão, só de calcinha e sutiã. Valentina
tinha os quadris largos e chamativos, a cintura fina e os seios cheios, meu
ponto fraco. — Quero uma primeira lembrança boa daqui — sussurrou,
removendo minha calça. No processo, suas mãos afoitas me livraram
também da cueca.
Rumamos ao banheiro. Liguei o chuveiro, que derramou uma
quantidade generosa de água em meu corpo, enquanto a mulher ainda se
livrava do sutiã e da calcinha. Nua, caminhou em minha direção, fechando
o box atrás de si.
Seus dedos deslizaram sobre meu pau, segurando a base
firmemente, com uma segurança de quem tinha experiência. Rodeou a parte
superior, fazendo um suspiro sair dos meus lábios. Aproveitei para ensaboar
os dedos, deslizando-os sobre os seios fartos e beliscando o mamilo
endurecido.
Ela soltou um gemido baixinho, enquanto minhas mãos desciam
mais abaixo, tocando seu ventre, sua intimidade e um pouco além, em busca
da entrada. Então senti sua boceta quente e excitada; os gemidos de
Valentina me deram carga para continuar, indo e vindo repetidas vezes. Ela
abandonou meu pau e segurou meu corpo contra o seu, com os lábios
colados em minha boca. Gozou em meus dedos.
Eu a virei de costas, contra o azulejo, pondo a mão em meu próprio
membro, brincando com a cabeça. Entrei naquela mulher apertada e
escorregadia. O gemido alto recebido em resposta foi um bônus.
Estoquei dentro dela, segurando sua cintura com firmeza. Enfim
notei meu corpo tremendo e meus sentidos ficando turvos, conforme nossos
gritos de prazer se misturavam. Quando ela gozou pela segunda vez, eu a
acompanhei, sentindo o mundo se encaixando novamente.
— Gostosa…
Deu uma risadinha.
— Você também não é de se jogar fora. — Saí de dentro de
Valentina, observando que havíamos feito sexo sem proteção. Aquilo nunca
acontecera comigo. Ela percebeu a minha preocupação. — Fique tranquilo.
Não tomo anticoncepcional, mas faço a “tabelinha”. E pretendo tomar uma
pílula do dia seguinte. Tudo vai ficar bem.
A explicação veio acompanhada de suas mãos ensaboadas em meu
peitoral, assim, esqueci qualquer problema. Beijei seus lábios com carinho.
Iniciávamos o dia com o pé direito. Sexo de manhã sempre me
deixava de bom humor.
— Temos um evento hoje. — Beijei suas costas. — Você irá
comigo.
— Como devo me vestir?
— Da mesma maneira irresistível da festa no hotel — brinquei,
abraçando seu corpo por trás e deixando que minhas mãos deslizassem por
sua pele ensaboada. — Na verdade, está irresistível agora, mas não acho
uma boa ideia ir assim. Chamaria muita atenção.
Valentina riu.
— Dica anotada com sucesso.

Descemos para o café da manhã faltando pouco para as oito e meia.


Aos sábados, eu geralmente trabalhava em casa até tarde, mas minha rotina
estava completamente insana desde que Valentina entrou em minha vida.
— Aí está ele! — A voz de Mateus atraiu minha atenção.
Entramos na sala de jantar. Observei mamãe, papai, Rachel e
Mateus sentados à mesa.
— E você não tem mais casa, não? — zombei, puxando a cadeira
para Valentina, que sorriu em agradecimento.
— Bom dia a todos — sussurrou, envergonhada.
— Finalmente apareceu — mamãe rebateu, enquanto eu beijava o
topo da sua cabeça. — Por onde andava? Sabe que uma mulher casada não
deve ficar…
— Alba, por favor… — papai cortou a briga que começava a se
formar.
— Não se preocupem. Valentina havia ido resolver um assunto para
mim. — Sentei-me ao lado de minha esposa, servindo um pouco de café
puro para nós dois. — Com o trabalho na empresa, acabei me esquecendo
completamente disso. Só lembrei quando vi a mensagem dela no meu
celular.
Todos escutaram minha explicação em silêncio, como se a qualquer
momento eu fosse falar algo que denunciasse minha mentira. Valentina
sorriu em minha direção.
— E a viagem foi boa? Fernando de Noronha é o destino perfeito —
Rachel perguntou, findando o clima ruim.
— Ótima. O lugar é realmente lindo — Valentina disse, com um
sorriso falso no rosto. Eu passava tanto tempo observando pequenos sinais
na mulher que já sabia quando ela mentia.
Rachel não pareceu gostar da resposta sucinta, mas se contentou
com isso. Todos ali eram amigos da família: Mateus cresceu comigo, e
Rachel era filha da melhor amiga da minha mãe. Era normal estarem ali,
mas não terem dormido na sala de estar.
— E Mateus, como está seu pai? Faz muito tempo que não o vejo.
— Papai mudou de assunto, removendo a tensão em meus ombros.
Bebi um pouco do café amargo, pousando a mão sobre a perna,
vislumbrando como seriam os próximos meses. A mão de Valentina apertou
a minha, e eu retribuí o gesto.
Havia acontecido alguma coisa que ela não queria me falar, mas eu
descobriria. Meus instintos apontavam para uma gafe de minha mãe. Era
sempre ela.
VALENTINA
Rúbia me olhava em reprovação. Eu sentia o riso ameaçar a
borbulhar em meu corpo. Estávamos no Santa Massa. Ela me analisava da
cabeça aos pés, mas tentei ignorar isso, sabendo que, se parecesse muito
intrigada, acabaria confessando que havia ido para a cama com Javier.
— Você está diferente — decretou, me fazendo rir.
— Não sei por que, mas espero que seja um “diferente” bom.
— Você vivia triste, Valentina! Agora, sorriu umas dez vezes desde
que saímos da casa dos Garcias.
Envergonhei-me.
— Eu amei a viagem a Fernando de Noronha, foi uma experiência
incrível. — Não menti, sentindo até meus olhos se encherem de lágrimas ao
lembrar. — Me fez ver o que tem lá fora; passei tantos anos presa.
— Não gosto quando fala que estava presa.
— Mas eu estava. Tinha mais de dezoito anos e nunca havia ido a
uma boate, a restaurantes chiques. Lá, conheci a culinária de vários países
— tagarelei. — Descobri tanta coisa em cinco dias… Isso me mostrou a
vida que eu quero.
— Espero que essa vida me inclua. — Rúbia tinha os cabelos presos
no alto da cabeça em um rabo de cavalo estiloso. Usava o look de sempre:
um terninho preto, no qual ficava incrível.
— É claro que inclui. Estive pensando em iniciar a faculdade. —
Tomei um gole da água. — Nunca trabalhei por causa do papai, agora posso
buscar um serviço também. Javier não se importaria.
Ela riu.
— Tenho certeza de que ele aprovaria. Vocês parecem mais
próximos, o homem ficou louco quando não retornou na noite anterior.
— A gente escolheu viver em paz em vez de se matar — brinquei,
encurtando a história. A frase me lembrou do que aconteceu durante a
manhã: a clara tentativa de Alba em me afrontar, o café na presença de
Mateus, Rachel e Santiago. Uma amostra do que viria. — Moraremos com
Alba, não adianta eu ficar brigando com a sogra e o marido.
— Ainda não entendi por que vão morar com aquela cobra. — O
apelido venenoso partindo de Rúbia me pegou de surpresa. — Sinto muito,
mas ela é uma cobra. Não perde a chance de colocar as pessoas para baixo.
Você sabe por que ela odeia tanto a sua mãe?
Encolhi os ombros.
— Não faço a menor ideia. Acho bom ficar de fora, é uma discussão
do passado, mamãe que se vire com as suas inimigas. — Sorri enviesado.
— Afinal, ela nunca comprou a minha briga; lutei sozinha.
— Deveria falar com sua mãe sobre isso — rebateu, usando o
mesmo conselho que me deu a vida toda.
Eu não sabia nem sequer onde mamãe morava, não valia a pena me
esforçar por ela.

Abri a porta da casa, passando pela sala rapidamente. Ao alcançar as


escadas, ouvi vozes sussurradas na cozinha. Contrariando tudo que me
ensinaram, me aproximei, sem conseguir conter a curiosidade. Tentei
espichar meus ouvidos o suficiente para escutar o que falavam.
— Pelo amor de Deus, mamãe. Pare com isso… — Javier soava
sério, controlado.
— Só quando você me contar o que pretende. Quer levá-la para a
cama por que, Javier? Ela já está em suas mãos, não há mais nada que possa
ganhar dessa família se envolvendo com Valentina. Não acha que já nos
envergonhou o suficiente?
— Por que os envergonharia? Eu me casei muito bem. Os Ferrazes
são tão bem-aceitos na sociedade como nós, não há motivo para…
— Casado com uma negra! Onde já se viu! — Estremeci. — Quero
que tome cuidado. Não posso controlar sua vida para sempre, mas fique
atento ao que irá fazer. Não quero meus netos todos negros e…
— Pare com isso! — ele rebateu. — Estou cansado desta conversa
ridícula. Casei com Valentina, ela é minha esposa, goste você ou não…
Não terminei de ouvir. Continuei subindo as escadas, alcancei o
corredor e parei ao escutar meu nome. Travei, pensando ter sido pega no
flagra.
— Valentina? — Virei-me, vendo Javier se aproximando. — Ouviu
alguma coisa? — Parecia levemente perturbado.
— Não, acabei de chegar. — Beijei seus lábios, sabendo que Alba
poderia estar assistindo àquilo. — Preciso de água, comprei a pílula —
sussurrei contra seus lábios, e ele suspirou.
— Vá para o quarto. Estarei lá em um instante.
Assenti e segui meu caminho. Coloquei de lado a sacola com o
vestido que adquiri com a ajuda de Rúbia e comecei a tirar minhas roupas,
trocando por algo mais leve. Subi na cama, segurando o cartão que recebera
mais cedo de Javier, o qual usei apenas para aquele bendito vestido. Não
queria isto, eu me sentia mal por usar seu dinheiro, embora tudo que
pertencia a ele também fosse meu, por direito — e, em tese, de maneira
dupla, pelo casamento e pela empresa de nossos pais.
— Você está pensativa.
Sorri e coloquei o cartão em cima da mesinha de cabeceira, o vendo
subir na cama. Joguei a pílula do dia seguinte na boca e aceitei a água,
bebendo depressa. Coloquei o copo ao lado do cartão e suspirei.
— Problema resolvido. — Encostei-me no travesseiro, fechando os
olhos e sentindo uma pontada leve de dor de cabeça.
— Por que seu cartão está ali? — indagou, deitando comigo.
— Não o quero. Usei só para comprar o vestido por não ter nada
adequado para a festa, mas não preciso do cartão.
— Precisa de dinheiro, Valentina, ninguém vive sem isso.
— Se fosse por meu pai, eu nunca tocaria no dinheiro da empresa, e
eu sei que metade de tudo que é seu, também é dele. Pode parecer loucura,
mas não quero ligação com isso. — Beijei sua mão entrelaçada à minha. —
Não necessito de um cartão com um limite absurdo. Ele não vai fazer meus
problemas desaparecerem.
— Fique com ele. Não estou sempre por perto, pode precisar para
emergências.
— Não…
— Sem conversa, Valentina. Isso é uma exigência. Se não quiser,
não use, mas leve consigo. Eu me sinto mais relaxado sabendo que tem a
opção de sair de problemas que a falta de dinheiro pode causar.
Sorri.
— Ok. Não vou usar. Mas se isso o deixa mais calmo…
— Sim, muito mais. — Inclinou-se, beijando a ponta do meu nariz.
Enrolei ainda mais meu corpo ao seu. — Já almoçou?
— Sim, sim. Só quero dormir um pouco. — E esquecer as palavras
da sua mãe.

JAVIER
O hotel dos Bernadi era um dos mais bonitos de São Paulo, palco de
eventos da alta-sociedade paulistana. Naquele dia, sediava a festa de vinte e
cinco anos do Grupo Harrison, cujo presidente, Anthony Harrison, era um
dos meus companheiros de negócios.
Adentrei o salão com a mão na cintura de Valentina, sentindo os
olhares se voltando para nós. Alcancei a mesa reservada aos Garcias e
Ferrazes e puxei a cadeira para ela, me sentando ao seu lado, recebendo o
olhar de desaprovação de mamãe e sorrisos amigáveis de Rúbia e papai.
— Boa noite — cumprimentei-os.
— Bo-boa noite — Valentina gaguejou ao falar, tensa. Eu passara os
últimos dias notando seu nervosismo; em algum momento, ela explodiria.
— Você está linda, querida — Rúbia disse, sorrindo. E Valentina
realmente estava, com um vestido rosa clarinho; se não me engano, uma cor
chamada de rose gold. Tinha uma parte mais solta, contracenando com a
saia justa. Alisara os cabelos, que caíam em uma cascata ao redor dos
ombros. Já o rosto trazia um batom vermelho e olhos bem maquiados. —
Mas odeia seu cabelo assim, não entendo por que alisar seus cachos hoje —
Rúbia sussurrou em seguida.
Papai e Mariano falavam sobre assuntos banais. O ritmo na mesa
permanecia tenso. Brinquei com os dedos de Valentina, pousados sobre a
minha perna, e a vi sorrir levemente, conversando com Rúbia baixinho.
— Javier. — A voz masculina me fez virar, dando de cara com
Heitor Harrison parado à minha frente. Ele sorria, algo raro no rosto sempre
sério do homem. — Até perguntei para Anthony se veria você hoje. Pensei
que ainda estivesse viajando. — Levantei-me, apertando sua mão. — Boa
noite a todos. — Sorriu à minha família.
— Estava. Chegamos ontem. — Pousei a mão no ombro de
Valentina. — Minha família e os Ferrazes você já conhece, mas esta é
minha esposa, Valentina. Esse é Heitor Harrison, um dos donos do Grupo
Harrison.
Ela se levantou, estendendo a mão para apertar a de Heitor, que
desceu os olhos pelo corpo da mulher de maneira desagradável.
— É um prazer conhecê-la. — Beijou o dorso da mão.
Valentina riu.
— O prazer é meu. — Segurei sua cintura. — Vou pegar uma
bebida, ok? — disse, beijando o canto da minha boca, e saiu dali,
caminhando em direção ao bar.
Heitor gesticulou para indicar que queria falar comigo, e eu o segui
para longe da mesa.
— Uma boa escolha — cochichou, me fazendo rir.
— Você nem disfarça o quão desprezível é.
O homem teve a audácia de parecer ofendido.
— Eu não posso evitar. Ela é linda, fora do seu padrão, mas muito
bonita. — Focou os olhos em minha mulher, no bar do evento. — Aposto
que teve muito dinheiro envolvido nesse casamento falso.
Sorri.
— Quer parar de babar em cima dela?
Ele apenas encolheu os ombros.
— Apreciando a vista — disse antes de sermos alcançados por
Anthony, que sorriu ao me fitar.
— Javier! É bom revê-lo. — Olhar para os dois homens juntos era
como comparar vinho tinto e branco. Heitor tinha uma aura sombria, quase
perigosa, enquanto Anthony aparentava um ar mais clássico e discreto.
Surpreendia-me que houvessem saído da mesma mulher. — Fiquei sabendo
que se casou, meus parabéns.
Heitor riu.
— Ela está vindo, Tony. Não olhe demais, que ele fica puto — o
irmão do loiro sussurrou, observando Valentina se aproximar.
Mas ela não chegou até nós, sendo parada por mamãe no meio do
caminho. Alba conversava com outra mulher e parecia apresentá-la à
Valentina, então relaxei, pois elas precisavam de espaço para começar a se
darem bem. E eu desejava deixar minha esposa longe dos olhares dos
irmãos Harrison.

VALENTINA
O fim da noite finalmente veio. Assistindo aos convidados rumarem
ao estacionamento pegar seus carros, senti meu coração apertado. Era a
minha primeira vez no meio de todas aquelas pessoas e nunca tive tanta
raiva do meu pai: aquele deveria ser o meu mundo, afinal, era sua única
herdeira, mas me sentia uma estranha tentando me encaixar.
Olhei sobre meu ombro e vi Javier conversando com Anna, uma
empresária que Alba me apresentara durante a festa. Fiquei constrangida
por não conseguir me enturmar com elas.
Mas tudo daria certo. Em breve, Javier pararia de me trazer a esses
eventos, como a mãe dele mesmo deixava claro. Assim, não me sentiria
mais deslocada.
— Ei! — Ele me alcançou, me abraçando por trás. — O que faz
aqui sozinha?
— Descansando. Dor de cabeça. — Encostei-me em seu ombro.
— Vamos para casa, cuidarei de você. — Afastou-se e tirou o terno,
jogando-o por cima de mim e prendendo alguns botões com cuidado. Sorri
com a cena e deixei que me levasse ao carro, me permitindo aproveitar os
pequenos gestos.
A noite foi um turbilhão de emoções. Deu-me a ideia clara de como
Alba podia ser perversa mesmo em meio a tantas pessoas. Vi que estava à
mercê do meu marido agora. Era uma amarra diferente, porém, não menos
sufocante.
Javier me puxou contra seu peito enquanto o motorista dirigia em
silêncio. Brinquei com os botões da sua camisa, vivendo algo que tinha um
prazo para acabar. Poderíamos ter um casamento de cinco anos ou dez,
apenas por aparências. Mas, uma hora, chegaria ao fim.
JAVIER
Uma semana depois
— Tem certeza de que quer isso? — indaguei, enquanto colocava
minha gravata e ouvia a movimentação de Valentina no quarto.
Ela parou ao meu lado, dividindo o espelho largo, e bagunçou os
cabelos para deixar os cachos mais volumosos.
— Sim. Esperei muito por essa oportunidade — falou tão rápido que
tive dificuldade para entender. — Eu quero um trabalho. Não dá para ficar a
vida toda em casa, preciso aprender a ser útil em alguma c…
— Você é útil em muitas coisas, Valentina. — Segurei suas mãos.
Ela riu.
— Falar que presto para o sexo não vai me acalmar.
Não evitei a risada.
— Não é isso. Claro, você é muito boa nesse sentido, mas não me
refiro a esse aspecto, Tina…
Ela colou o dedo em meus lábios, me calando rapidamente. Tinha
um sorriso malandro no rosto.
— Agora é você quem está tagarelando. — Rimos. — Estou bem,
juro. Só um pouco nervosa. É minha primeira entrevista, e se não gostarem
de mim? Ai meu Deus, não posso perder essa chance.
Segurei seu rosto e esmaguei meus lábios contra os seus. Mesmo
surpresa, abriu a boca e recebeu minha língua. Senti meu corpo tremendo
com o desejo. Nem parecia que havia passado boa parte da noite dentro
dela.
Separamo-nos, ofegantes. Ela encostou a testa contra a minha e
sorriu.
— Ok. Boa maneira de me calar.
Afastei-me.
— Vou deixá-la na empresa.
— Posso ir sozinha, não se preocu…
— Vai pegar um ônibus a essa hora? Acabará se atrasando. E Uber
não é seguro…
— Ok, ok. Nada de sermão. — Agarrou a bolsa sobre a cama. —
Estou pronta. — Aproximou-se, me ajudando a ajustar a gravata. — Vai
tomar café antes de sair? Se eu colocar algo na boca, acho que vomito, juro.
— Não, não vou tomar nada — respondi, segurando sua mão e a
puxando para fora do quarto.
Descemos as escadas e, assim que saímos de casa, entramos no
carro para o nosso destino. A última semana passou rapidamente, já era
segunda-feira. Eu ainda tentava entender como a minha rotina mudara
tanto. Mas tudo parecia nos eixos desta maneira, então eu nem mesmo
reclamava.
— Vou almoçar com papai hoje. Quer vir conosco? Posso pegar
você.
Ela sorriu.
— Não, obrigada. Rúbia me chamou para ir à casa dela. Disse que
precisa de ajuda com algo.
Aquiesci, ciente de que ela e a madrasta tinham uma ligação forte.

VALENTINA
A empresa que havia me chamado para uma entrevista era a Escobar
Design, tendo como dono Matteo Escobar, um homem simplesmente lindo
que sempre parecia irresistível aos olhos de todos. Já havia pesquisado tanto
na noite anterior que não conseguia deixar o nervosismo de lado. A família
Escobar aparentava ter saído direto de um catálogo de moda, todos eram
bonitos. E, enquanto estava ali, de frente à mulher responsável pela
entrevista, sentia minhas pernas tremendo.
— Iremos entrar em contato no prazo de vinte e quatro horas,
senhora Garcia — disse, sorrindo de lado enquanto fechava o caderno no
qual fez inúmeras anotações.
Levantei-me e me despedi, saindo ligeiro da sala. Encostei-me na
parede gelada e me permiti respirar fundo, pensando no que faria agora.
Esperar vinte e quatro horas seria como tortura.
A vaga era para o financeiro, e eu precisava dela, precisava de um
trabalho. Porém, sabia que não devia ficar esperançosa. Muitas coisas
poderiam dar errado.
Peguei os trocados que haviam sobrado da minha poupança e
caminhei em direção à saída. Iria de ônibus para casa, mas antes, decidi
passar em um café e pedir uma xícara, optando pelo amargo que tanto me
lembrava de Javier.
Assim que me sentei à mesa, senti meus ombros caírem.
— Valentina? — Era Marília. Abri a boca em choque, a vendo
sorrir. — Meu Deus, que surpresa! Estou feliz por encontrar você.
Estremeci ao senti-la me abraçar. Havia mentido sobre minha
situação atual para a mulher, quando nos encontramos na ilha. Não queria
que ela descobrisse tudo e assumisse que não podia confiar em mim.
— Sim, que surpresa boa… — Forcei um sorriso ao vê-la se sentar à
mesa, trazendo consigo seu café e um bolinho.
— Ah, fico muito alegre. Não tenho amigas na cidade, sempre fui
meio chata para amizades. Quero seu telefone, esqueci de pegar lá na
viagem.
Afundei na cadeira, pensando que não havia mesmo uma maneira de
fazê-la sair da minha vida. Não que eu não gostasse de Marília, ela era
legal, divertida e lembrava as brincadeiras da infância. No entanto, eu havia
contado mentiras quando nos encontramos; gostava de como minha vida
soou naquele cenário inventado. A realidade, por outro lado, era detestável.
Tomei um café com Marília até ela decidir que precisava ir. Falei
que iria também, e saímos juntas do estabelecimento, situado em frente a
uma banca de revistas. Eu a via observar as manchetes quando seus olhos se
fixaram em uma edição antiga do jornal VIVA. Tremi.
— Você é casada, Valentina? — Sua curiosidade me fez levantar a
cabeça e encará-la, disposta a explicar o que aquilo significava. Contudo,
notei que não havia mágoa em sua expressão. — Por que mentiu para mim?
Sorri de lado, envergonhada.
— Eu odeio a minha vida. Desde que isso aconteceu, ela está vinte e
cinco por cento melhor, digamos, mas ainda não alivia o fato de que eu
realmente odeio a minha vida.
Marília sorriu.
— Venha, me conte isso direito — pediu, caminhando lado a lado
comigo.

Entrei na casa do meu pai depois de uma longa manhã explicando à


Marília tudo que acontecera nos últimos anos. Disse a ela que não havia
sido uma pessoa bem-sucedida na carreira.
— Ei! — Rúbia me alcançou, sorrindo de orelha a orelha. — Como
foi sua manhã?
— Um caos. Mas a parte pior é que vou ter que esperar vinte e
quatro horas para obter uma resposta.
Ela suspirou e me chamou para a sala de jantar. Andamos em
direção à cozinha e alcançamos o jardim dos fundos, sentando-nos à mesa
na beira da piscina.
— Cadê o papai?
Durante todo o seu casamento com Rúbia, ele nunca faltara a um
almoço.
— Viajando. Infelizmente, não tem data para retorno. — Franzi o
cenho, mas não indaguei o que acontecera. Servimos um pouco da lasanha
de frango que só Nina conseguia fazer. Era perfeita. — Acho que deveria
relaxar.
Sorri para a minha madrasta.
— Não consigo. Estou tensa demais. Preocupada demais. É minha
primeira entrevista e…
— Os Escobares são ótimos patrões. Com a minha indicação, tudo
dará certo. — Abaixei a cabeça, desconfortável com a menção. — Não
precisa ficar desconfortável com isso, Valentina. Por Deus, você é filha de
um dos homens mais importantes de São Paulo, deveria usar sua influência.
Encarei-a.
— Eu adoro você, Rub. Mas a minha vida toda meu pai nunca quis
se associar publicamente a mim. Se hoje posso trabalhar, é justamente
porque não tenho mais essa ligação direta com ele. Sou problema dos
Garcias agora. — Revirei os olhos, e ela riu.
— Eu sei que seu pai foi incompreensível com você, querida, mas
deveria falar com ele. Qual foi a última vez que conversaram com
sinceridade sobre o que sentiam?
— Quando eu tinha doze anos. Ele me xingou dizendo que eu era
igual à minha mãe. Eu nem fazia ideia do que significava parte das suas
ofensas. — Ela se encolheu. — Foi antes de você chegar e me fazer amá-la.
Rúbia sorriu, emocionada.
— E de você me fazer amá-la como uma filha.
— Ainda acho que me deve um irmão — brinquei, pois sabia que tal
desejo sempre fora presente em Rúbia, mas papai nunca quis, alegando que
sua única experiência com herdeiros era desastrosa.
— Seu pai surtaria.
Apesar de Mariano ser um desgraçado, ele amava Rúbia de verdade,
à sua maneira. Se ela tivesse um filho seu, o amor que papai sentia pela
esposa se estenderia ao bebê.
Claro, eu apenas não sabia se suportaria ver outra pessoa tendo tudo
que sempre desejei. Seria ruim demais invejar um inocente.

Javier ainda não havia voltado para casa e já passava das oito. Seu
horário sempre era até sete e meia; seu espírito de CEO estava tão enraizado
que ele era o último a sair da empresa.
Levantei-me, tirando o vestido e me enrolando no roupão para entrar
no banho.
Deixei a água fria cair em meu corpo, demorando-me até meu
marido chegar, assim não precisar jantar sozinha com Alba. Não estava com
disposição para isso.
— Ei… — A voz sexy contra o meu ouvido me fez abrir os olhos,
sentindo suas mãos subindo em meu corpo, contornando minha cintura e
brincando com meus mamilos. Arrepiada, joguei a cabeça para trás,
recostando-me no ombro de Javier.
— Oi. — Suspirei, aproveitando seu peitoral nu. Ele estava sem
nenhuma peça de roupa, e eu nem mesmo o vi chegar. — Por que demorou?
Roçou a boca em meus lábios.
— Tive uma reunião de última hora.
Assenti, sem me importar tanto, focada nas reações aos seus toques,
um misto de sensações.
E eu não estava disposta a analisar nenhuma delas.

JAVIER
Observei Valentina dormir ao meu lado. Jantamos juntos no quarto,
então precisei me inclinar para fora da cama e retirar a mesinha que usamos
para servir a comida. Levantei-me, saindo do quarto e a deixando descansar.
Desci as escadas e pus tudo na cozinha, antes de me trancar no
escritório. A videochamada de Mateus apontava na tela do celular. Sentei-
me na cadeira macia de couro, atendendo.
— O que quer? Já está tarde.
O homem sorriu.
— Falei com Anna ainda há pouco. Fiquei sabendo que vocês se
encontraram na empresa. — Revirei os olhos brevemente, entendendo que
tipo de pensamento passava em sua mente. — Ah, fala sério, vai dizer que
não rolou nada? Você e Anna sempre flertaram. E não pode usar a desculpa
do casamento, pois nem mesmo transa com sua esposa.
Se ele soubesse…
— É claro. Eu estive com Anna à tarde — afirmei; a mentira seria
melhor para ambos no momento. Vi a porta do escritório se movendo e
levantei a cabeça. — Um instante. — Saí da cadeira e andei até o corredor,
mas não enxerguei ninguém bisbilhotando minha conversa com Mateus.
Suspirei, aliviado.
Tudo que menos queria era um problema por causa disso.
JAVIER
Abri a porta do closet, pegando uma peça de terno azul-marinho,
enquanto ouvia Valentina se movendo pelo quarto. Ela estava calada, mal
respondeu ao meu bom-dia. Comecei a me questionar se estava tudo bem.
Valentina era a parte mais alegre e falante do nosso casamento.
Eu teria um dia cheio de reuniões. Preocupava-me com a decisão da
diretoria sobre o presidente, porém, pensava positivo. Não havia chance de
dar errado, eu seria o novo CEO, sem dúvida.
— Você está bem? — perguntei, terminando de ajustar a gravata
preta e parando à sua frente.
Ela sorriu de lado e fez o mesmo movimento costumeiro,
auxiliando-me com a peça em meu pescoço. Na verdade, eu só a deixava
torta pois sabia que ela faria aquilo.
— Estou ótima. Vou passar o dia com Rachel, não conseguiria ficar
em casa esperando uma resposta. — Pegou seu relógio dentro da caixinha
prateada ao lado da nossa cama.
— Pensei que poderíamos almoçar juntos. — Toquei seu ombro,
alisando a pele tensa, mas não a vi relaxar, demostrando que seu “estou
ótima” não era tão sincero assim. — O que aconteceu, Valentina? Por favor,
me diga.
Ela apenas balançou a cabeça, caminhando para longe. Tentei falar
algo mais, porém, quando vi, minha esposa já havia pegado sua bolsa e
saído porta afora, não dando tempo de lhe oferecer uma carona ao seu
destino.
Suspirei, esforçando-me para entender o que ocorrera, mas nada me
vinha à mente. Depois de falar com Mateus, voltei para o quarto, mas Tina
já dormia, então não conversamos. Era estranho todo aquele silêncio,
contudo, não poderia exigir que ela falasse comigo.
Nos últimos tempos, Valentina e eu vivíamos dormindo juntos,
conversando, jantando, e isso tudo em meio ao sexo que compartilhávamos.
Logo, a situação era esquisita.
Desci as escadas e vi mamãe sentada no sofá, folheando uma revista
de moda enquanto bebericava o café servido em uma porcelana que só
usava quando tínhamos visitas. Na outra extensão do móvel, estava uma
mulher mais velha, que eu conhecia muito bem.
— Filho, bom dia. — Alba me lançou um sorriso de orelha a orelha.
— Lembra-se de Alicia?
Aproximei-me.
— Bom dia. — Sorri. — Claro que sim. — Era a mãe de Anna Júlia
e uma das melhores amigas de Alba. Como poderia esquecer? Durante
muito tempo fui sufocado com ideias de que deveria me casar com Anna,
pois faríamos um par perfeito.
— Anna fala tanto de você, querido. — Forcei outro sorriso. Anna
não era uma mulher dada a muitas demonstrações de afeto, e eu sabia disso.
— Espero que o casamento não os impeça de continuarem amigos.
— Mas é claro que não — mamãe interveio por mim.
— Preciso ir. Tenham um bom-dia. — Queria dizer que um homem
casado não deveria ficar conversando com outras mulheres, pois isso ia
contra tudo que meus pais haviam me ensinado. Porém, quando se tratava
dos interesses de Alba, ela não ligava para suas ideias ultrapassadas.
Entrei no carro, afastando qualquer pensamento sobre Alba e Alicia,
e dirigi à empresa. Depois me certificaria com Valentina se estava tudo bem
mesmo. Não gostava da sensação de ser ignorado.

VALENTINA
Encostei-me na pilastra redonda perto da escada, respirando fundo
algumas vezes, apavorada com a perspectiva de que Javier me visse ali.
Quando a porta do escritório se fechou, voltei a me acalmar, subindo as
escadas rapidamente.
Anna era a mulher que Alba me apresentara na festa, semanas
atrás. Não conseguia nem conceber a imagem dos dois juntos sem me sentir
enjoada. Não entendia o porquê dessa reação, quase involuntária. Era
impossível conter meus sentimentos ao pensar em Javier com outra.
Voltei a me deitar. Ele saiu do quarto e não retornou, por isso fui
procurá-lo, mas ao chegar próximo ao escritório e acidentalmente ouvir
sua conversa com Mateus, não pude anunciar minha presença. Seria
humilhante demais assumir em definitivo o papel de corna.
Balancei a cabeça para afastar a memória e abri a porta do quarto de
Rachel. Adentrei o local, ouvindo a música baixa na voz de Taylor Swift.
Minha amiga estava deitada na cama, em meio a uma pilha de roupas. Eu
sorri, me aproximando.
— Bom dia. Sua mãe me deixou entrar. — Rachel morava com a
mãe em um apartamento. Depois do divórcio dos pais, elas decidiriam ficar
juntas, já que uma fazia companhia para a outra. — O que houve? Para que
tantos vestidos?
— Mário me chamou para jantar. Não faço ideia do que vestir. —
Levantou-se, pegando as peças e balançando no ar, antes de se afundar entre
elas. — Eu espero há meses por esse convite e, quando finalmente acontece,
não sei o que decidir.
— Não entendo sua fixação com Mário. Ele é um babaca.
Ela riu.
— Ele é rico. Mamãe me mata se eu me interessar por alguém com
menos que isso.
Arqueei a sobrancelha.
— Vale a pena o sacrifício de ficar com alguém apenas para agradar
outra pessoa?
Rach me encarou, sorrindo de lado.
— Vale a pena se casar com quem não ama apenas porque seu pai é
um machista de merda? — Rachel era assim. Ariana de sangue quente,
falava na cara e não recuava.
— Ok, já entendi. — Peguei um dos vestidos, olhando o modelo
com cuidado. — Todos ficam bem em você. Não é novidade. Vamos deixar
você tão maravilhosa que Mário não conseguirá nem balbuciar um boa-
noite.
A risada de Rachel me contagiava. Na maior parte do tempo, tinha
um pé atrás com ela, ainda mais na posição de esposa de Javier, porém, não
havia como ignorar: era a minha melhor amiga, alguém que cresceu
comigo.
— Pegue, vista este. — Estendeu um modelo vermelho em minha
direção. — É novo. Eu odiei, mas você sempre fica maravilhosa nesta cor.
Sacudi a cabeça em negação.
— Sabe que eu não gosto…
— Não precisa ficar com ele. Apenas vista. Não vou desfilar
sozinha. — Revirou os olhos, tirando o pijama de bolinhas e jogando de
lado, enquanto eu fazia o mesmo com minha calça e camisa folgada.
Entrei no vestido vermelho justo de Rachel. Paramos no espelho,
lado a lado, colocando as mãos na cintura e fazendo uma expressão cheia de
marra para o reflexo. Em seguida, rimos.
— Suba o zíper — pedi, virando para ela, já que sustentava o
vestido com as mãos. Senti seus dedos em minhas costas, afastando meus
cabelos.
— Você tem ficado com alguém, Valentina?
Endureci.
— Na-não. Claro que não — engasguei, confusa.
Ela riu e segurou meus ombros, me forçando a encará-la.
— Não minta para mim. Sabe que pode me contar qualquer coisa.
— Suspirei, tremendo. — É Javier? — A menção ao meu marido me levou
a arregalar os olhos. — Sério, vocês dois? — Não pareceu surpresa, nem
decepcionada.
— E-eu… — tentei mentir, mas, novamente, nada veio. Nervosa,
sentia-me traindo Rachel de alguma maneira.
Deixou-me ainda mais tensa ao segurar minhas mãos.
— Ei, está tudo bem. Eu meio que esperava que vocês dois ficassem
juntos. — Encolheu os ombros. — O que tivemos me transformou em uma
pessoa um tanto obsessiva com Javier, mas já passou. Você é maravilhosa, e
ele merece alguém que o deixe louco.
— Não vou enlouquecer Javier — resmunguei, e ela riu.
— Pode apostar que vai.
Um celular tocou entre as roupas. Reconheci a música de fundo e
procurei minha bolsa sobre a cama, pegando meu aparelho e atendendo,
trêmula.
— Oi.
— Valentina? — A voz feminina soava séria. — É da Escobar
Design. Como é da política da empresa dar uma resposta a todos que
passam por nosso processo seletivo, ligamos para dizer que, infelizmente,
não foi uma das selecionadas para a vaga.
Meu coração afundou.
— Certo. Obrigada mesmo assim pela oportunidade.
Mirei o celular, sentindo uma tristeza profunda me dominando.
Perguntava-me o que fizera de errado para não me considerarem uma boa
opção.
Rachel não percebera o que houve. Continuava na frente do espelho,
apreciando o vestido vinho em seu corpo e prendendo os fios loiros acima
da cabeça, imitando um penteado.
Permiti que as coisas banais entrassem em minha mente e afastei a
minha dor.

Entrei em casa, cansada só de pensar em voltar àquela mentira. Vi


Alba e Javier sentados na sala. Ambos me encararam com as sobrancelhas
arqueadas, em uma indagação silenciosa.
— Boa noite. — Eram quase nove horas. Estivera com Rachel
durante todo o dia e, quando estava quase saindo, a mãe dela me convidou
para jantar.
Comecei a subir as escadas, mas parei ao ouvir a voz do meu
marido.
— Não vai jantar?
Forcei um sorriso.
— Jantei com Rachel mais cedo — disse antes de continuar
subindo. Não queria ficar perto dele, senão acabaria jogando em sua cara o
quão mentiroso o maldito era.
Assim que fechei a porta e passei a me despir, Javier adentrou o
quarto. Parou a alguns passos de mim, observando cada movimento meu.
Nem me importei com isso. Não tinha vergonha do meu corpo quando se
tratava do meu suposto marido.
— Vai me dizer o que está acontecendo?
Abaixei a cabeça, prendendo meus cachos. Ele se aproximou,
tocando minhas costas levemente, subindo seus dedos de maneira delicada
em minha pele. Estremeci — uma reação involuntária. Por que nossos
corpos têm de ser tão traiçoeiros?
— Nada. — Dei um passo à frente.
Escutei-o suspirar.
— Fale, Valentina. Não gosto desta situação. Não somos um casal
normal, mas divido a cama com você e…
— Seu mentiroso! — as palavras pularam da minha boca.
Javier se calou, assustado. Apertei o laço do robe em minha cintura.
— O quê? Quando foi que menti, mulher?
Deixei um sorriso de escárnio escapar.
— Mentiu, não. Omitiu. Omitiu o fato de que é um canalha!
Cruzou os braços, arqueando a sobrancelha de maneira prepotente.
— Eu nunca disse que não era um canalha. — Sorriu, sacana.
— Sua postura arrogante não está ajudando, Javier.
Seus braços caíram ao lado do corpo.
— O que eu fiz para ser um canalha aos seus olhos?
— Você sempre foi um canalha aos meus olhos. Isso não mudou
apenas por transar comigo e… — Comecei a me alterar, e ele segurou meus
pulsos.
— Fale, por favor. De forma coerente, sem gritar.
Suspirei.
— Eu disse que só me deitaria com você novamente se fosse meu
enquanto durasse. Esperava um pouco de sinceridade sobre sua relação com
Anna…
— Eu não fiz sexo com Anna, Valentina.
Bufei.
— Agora sim você está mentindo. Pensei que ser canalha já fosse o
suficiente.
— Retrocedemos ao período em que ficávamos nos xingando?
— Estou pedindo a verdade, Javier! Quero que seja honesto pelo
menos uma vez na vida. — Fechei os olhos, desejando fugir daquela
posição horrível. Não gostava da sensação que corria em minhas veias,
deixando-me cega, enraivecida e um tanto insana.
— Você está com ciúmes, Valentina? — Javier sussurrou, com um
sorriso ameaçando apontar em seus lábios.
Estremeci. Eu estava? Não. Era claro que não.
— Nunca teria ciúmes de você. — Seu sorriso sumiu. — Talvez
sentiria isso se estivesse em um relacionamento saudável com qualquer
outro homem.
— Deveria ter ciúmes de quem entra em suas saias. — Puxou-me
pelo laço do robe, fazendo nossos corpos se chocarem. Voltei a fechar os
olhos para não me perder em sua beleza. — Deveria ter ciúmes do que eu
posso fazer com outra mulher, se você é tão imune a mim. — Desceu a mão
para a minha bunda, apalpando-a. — Eu não transei com Anna Júlia. Mas,
talvez, deveria.
— Faça o que preferir. Mas caso se envolva com qualquer mulher,
pode me esquecer — declarei, lembrando a nossa conversa em Fernando de
Noronha. — Eu não divido. Da mesma maneira que você não gostaria de
me compartilhar com mais ninguém.
Apertou as minhas nádegas em resposta.
— Ninguém terá o que eu tenho.
Sorri.
— Isso serve para ambos, seu canalha mentiroso. — Afastei-me. —
Por que diabos falou a Mateus que estava com ela? Por acaso perdeu a
noção?!
Ele abriu a boca, ofendido.
— Andou me espionando?! — rebateu.
O ar começou a fugir dos meus pulmões. Fiz perguntas bem mais
preocupantes que a dele, contudo, não parava de me sentir encurralada.
Cada vez mais, Javier percebia meus sentimentos conflitantes.
Odiaria admitir, mas pensar nele com Anna Júlia me enchia de
ciúmes.
JAVIER
— O que está acontecendo aqui? — Mamãe invadiu o quarto, e
Valentina deu um passo para trás, esfregando o rosto de modo irritado. Ela
me devia uma explicação por bisbilhotar, mas eu também precisava lhe
esclarecer que aquilo tudo com Anna Júlia não passava de uma loucura. —
Não pode falar assim com Javier, Valentina.
Minha esposa expressou choque. Recuperando-se, avançou alguns
centímetros à frente.
— Se ele estiver achando ruim, que se explique melhor. Esta é uma
conversa entre marido e mulher, você não tem nada a ver com isso. — Suas
palavras pegaram dona Alba de surpresa.
— Vai deixar essa menina falar assim comigo? Sou sua mãe, estou
lhe defendendo.
— Não vou entrar entre vocês duas.
Valentina me olhou, arqueando a sobrancelha. Percebi, naquele
exato momento, que havia tomado a decisão errada. Era seu marido, deveria
defendê-la.
— Tina…
Pegou a bolsa sobre a cama, juntando suas roupas no caminho.
— Vou facilitar as coisas para você, Javier. Fique com sua mãe,
debata sobre seu casamento com ela. — Sorriu amarelo.
E antes que eu tivesse a chance de dizer algo, ela se foi, batendo a
porta às suas costas.
— O que diabos você fez?! — perguntei à Alba, furioso.
Valentina precisaria se trocar primeiro, se quisesse sair de casa. Eu
dispunha de alguns minutos para alcançá-la.
— É um casamento arranjado, ela não…
— Ninguém tem que se meter! Eu amo você, mamãe, mas o assunto
é entre mim e Valentina. Não diz respeito a ninguém além de nós. — Peguei
meu celular, saindo do quarto e a deixando para trás.
Chequei os cômodos de cima antes de descer as escadas, mas não a
encontrei em nenhum lugar da casa. Chamei por seu nome, confuso, e
escutei quando o portão de ferro foi acionado, ligando um alarme em minha
cabeça.
No jardim, vi um dos carros saindo. O motorista dirigia, então sabia
que ela não estaria sozinha.
— Caralho — xinguei, passando a mão nos cabelos e rumando a um
veículo que não usava havia mais de dois anos. Sem me importar com a
poeira sobre a garupa, botei um dos capacetes, espantado pela motocicleta
ainda funcionar perfeitamente. Nossos funcionários eram realmente
competentes, mantendo a ordem.
Saí de casa, seguindo pelo mesmo caminho que o carro, situado
alguns metros à minha frente, e fui desviando, passando pelos veículos,
esperando que o motorista parasse em um sinal. Isso não aconteceu, e
quanto mais eu tentava ir atrás, mais se distanciavam. Até que um caminhão
cortou meu trajeto, e eu os perdi totalmente de vista.
— Caralho, Valentina! — exclamei, baixando a viseira do capacete.
— Não complique tudo, por favor… — Na verdade, quem complicara tudo
havia sido eu. Falei para o seu melhor amigo que transei com outra. E, além
disso, não a defendi do atrevimento de minha mãe.
Eu era um imbecil quando se tratava do sexo feminino, ao menos
em termos de relacionamentos. Cada nova situação com Valentina
representava um quebra-cabeças a ser desvendado.
Desisti quando passei pela quinta esquina e não tive nenhum sinal
deles. Parei no acostamento, pegando o celular no bolso traseiro da calça e
discando o número do motorista. Ele me forneceria a localização de
Valentina.
Que raios ela tinha na cabeça ao sair enrolada em um robe na rua?
Não compreendia o mundo em que vivíamos? Nem sequer conseguia
pensar em qual problema era mais grave em nossa situação.
Isso tudo se tornava mais complicado a cada dia. O que era para ser
só sexo virara um emaranhado de sentimentos que não estavam nos planos.

VALENTINA
Eu estava sendo irracional?
Sinceramente, não fazia ideia. No meu ponto de vista, desde que
ouvi Javier falando a Mateus que havia ido para a cama com Anna Júlia, só
consegui sentir a irracionalidade me dominando. Ciúmes, Valentina, isso é
ciúmes.
Uma parte de mim insistia nessa ideia, e eu achava esta parte de
uma burrice colossal. Afinal, não teria ciúmes de Javier, né? Por Deus, com
tantos homens no mundo, eu não…
Poderia, sim. Com toda a certeza, poderia confundir tudo que Javier
despertava em mim com amor. Mas não queria deixar isso acontecer…
Joguei a cabeça para trás, sentindo o banco frio da praça contra meu
corpo.
Depois que Alba invadiu nossa discussão e Javier não se posicionou,
fiquei enfurecida. Precisava sair de lá. O problema da minha vida era que
nem poderia fugir do meu marido, pois não tinha ninguém para me apoiar
num momento do tipo.
Se fosse para a casa de papai, ele me mandaria de volta no mesmo
instante. Para Rachel, eu teria que explicar essa confusão toda. E Mateus eu
nem cogitava como opção; não choraria nos braços do meu ex-namorado.
Por Deus.
Saí de casa enrolada no meu robe e segurando minhas roupas. Na
bolsa, tinha meu celular, meus documentos e o maldito cartão que Javier me
dera no outro dia, porém, me recusava a usá-lo. Não faria isso.
O motorista, Alison, me olhou assustado quando apareci em sua
frente praticamente nua. Notei seu desconforto enquanto eu me trocava. E
ali estava ele, parado a alguns metros, sem sair do carro.
Tinha que dispensá-lo. Alison era o motorista de Alba, e ela ficaria
enfurecida se eu tomasse muito do seu tempo.
— Valentina! — A voz do meu marido fez todo o meu corpo ficar
tenso. — Que diabos você pensa que está fazendo? — Ele parou ao lado do
banco, me encarando.
Levantei o olhar, sentindo sua ira. Javier estava vermelho, com o
rosto tão sério que lembrava meu pai, quando zangado. Seus cabelos
desgovernados lhe conferiam um ar ainda mais sombrio.
— Estou fazendo o que eu quero. Sou uma mulher livre —
enfrentei-o, e ele bufou.
— Você é inacreditável.
— Eu?! Posso não ser perfeita, mas não aceito que ninguém diga
como devo agir com meu marido. Eu tenho uma melhor amiga que é louca
por você. Divido meu melhor amigo com você. Meu pai me entregou a você
como uma moeda de troca. Todos estão do seu lado, Javier, todos têm uma
opinião sobre nosso casamento. — Meus olhos se encheram de lágrimas. —
Mas eu não aceito nada disso, pois sabia que, no instante em que me
casasse, meu esposo se tornaria a única pessoa com quem compartilharia
meus planos e desejos. — Baixei a cabeça, exausta.
Não queria falar aquilo. Sentia-me exposta. E fiquei nervosa quando
o vi se sentando ao meu lado. Permanecemos em silêncio por muito tempo.
Eu observava um casal interagir no outro extremo da praça, sentados
no banco, abraçados; comportavam-se como se não existisse nada ao redor.
Suspirei. Aquilo não seria o tipo de coisa que eu teria. Afinal,
quando saísse desta situação com Javier, não pensaria em me casar
novamente tão cedo. Viveria apenas para mim.
— Você… realmente pensou isso? — Soava temeroso.
Sorri.
— Sim. Afinal, você é meu marido. — Revirei os olhos.
— Eu sei que deveria ter ficado ao seu lado, mas ela…
— …é sua mãe. — Dei de ombros, abatida. — Eu sou apenas a
mulher com quem transa. Mas naquele momento eu precisava que você se
impusesse. Estávamos falando de nós. Não me importo se apoiá-la em
qualquer outra coisa, só não quero dividir nossos problemas com ninguém.
Não falou nada; cheguei a pensar que o assunto acabara.
— E…
— Não precisa ficar repetindo que você é apenas a mulher com
quem faço sexo, Valentina.
— Mas eu…
— Pelo amor de Deus! — explodiu. — Me deixe falar por um
instante. Não estou dizendo que a amo, nem nada do tipo, mas continuar
agindo como se fôssemos um casal de estranhos que às vezes transa não vai
ajudar em nada. Eu sei que mereço a sua raiva neste instante…
— Você merece a minha raiva em muitos instantes.
Javier riu.
— Sinto muito.
Sorri.
— Também sinto. Por ouvir sua conversa. Eu pretendia ir falar com
você e escutei aquilo. Combinamos que…
— Eu não transei com ninguém. E ficaria igualmente puto se você
se relacionasse com outro.
Levantei a sobrancelha.
— Ficaria?
— É claro. Você é minha, e eu sou seu, até que decidamos o
contrário. — Senti minhas bochechas ardendo de vergonha. — Talvez seja
melhor voltar para casa. Ainda precisamos falar sobre o fato de você ter
saído quase nua.
— Não estou nua agora.
— Mas saiu vestindo seu robe, Valentina! Por Deus, não seja tão
inconsequente. Imagine se estivesse sozinha e alguém fizesse algo com
você…
O meu celular tocou e o peguei, aproveitando para fugir do seu
sermão.
— Preciso atender. — Na verdade, eu não fazia ideia de quem
estava ligando, mas atendi mesmo assim. — Valentina. O que deseja?
— Filha! — Congelei da cabeça aos pés. — Que saudade de você,
eu estou…
— Saudade? Eu não a vejo há anos. — Reconheceria a voz de Vânia
a quilômetros de distância. De tempos em tempos, ela passava em minha
mente, sempre com uma nova desculpa para partir sem olhar para trás.
— É claro que sinto saudade de você.
— Como conseguiu meu número? — Fechei os olhos, cobrindo meu
rosto com a mão livre e sentindo uma dor de cabeça se aproximando. —
Faz tanto tempo…
— Nunca deixei de acompanhar sua vida, Valentina. Sou sua mãe.
Entendo que esteja magoada, mas precisamos conversar.
Eu tinha um milhão de coisas para perguntar a ela, mas sempre que
pensava em Vânia, a raiva e a mágoa me dominavam. Não gostava da
combinação desses sentimentos.
— Não acho que seja uma boa ideia.
— Não vou desistir, Valentina. Estou chegando no Brasil em alguns
dias. Se bloquear meu número, procurarei o seu pai, a sua madrasta, os
Garcias, não importa. E resolveremos tudo.
— Eu não quero falar com você. — Uma lágrima escorreu ao me
lembrar da dor que sentia todos os dias desde que ela se foi. De tudo que
passei ao lado do meu pai, sozinha. — Você fugiu, me abandonou, sabendo
que me deixaria nas mãos de Mariano, um tirano machista.
Silenciou por um segundo.
— Não vou conversar com você pelo telefone. Liguei para avisar
que estou chegando. E repito: não vou desistir. Também quero que saiba
que seu pai a ama, querida. Entendo que…
— Ele não me ama. Quem ama não quebra o outro por dentro. —
Finalizei a chamada, pois aquilo servia para ambos. Meus pais eram bons
em magoar as pessoas. A diferença era que Mariano o fazia com suas
palavras, e Vânia pela ausência.
— Você está bem? — Javier tocou meu ombro.
Eu me virei para ele; não queria falar sobre isso, mas não tinha com
quem dividir aquilo.
— Minha mãe está voltando para o Brasil.
— Isso não é bom?
Ri.
— Isso é péssimo. Não sei se percebeu, mas sua mãe odeia a minha.
Enfrentar Vânia e Alba juntas, compartilhando a mesma cidade…
— São Paulo é enorme. Talvez elas nem se encontrem.
— São Paulo é enorme, mas menor que o ego das duas. Sua mãe é
daquela maneira, e a minha é orgulhosa e não mede esforços quando
alguém ou algo entra em seu caminho.
Foi sua vez de cerrar os olhos, suspirando.
— Teremos uma guerra, então? — zombou.
— Com toda a certeza. — Encostei a cabeça em seu ombro,
cansada. Sempre que fugia, ele me encontrava. E sempre me fazia ficar
calma. Maldito Javier.
— E não vou transar com mais ninguém, Valentina. Pare de se
preocupar com isso. Eu prometi a você. — Sua voz estava distante e seus
dedos uniram aos meus. — Posso ser ambicioso, orgulhoso e um pouco
canalha, mas não quebro promessas.
Sorri.
— Só “um pouco” canalha? — zombei.
— Não abuse, Tina. Não abuse — resmungou, sorrindo. A
tempestade estava a caminho, pressentia pelo andar da carruagem, então
aproveitaria os momentos de paz enquanto podia. — Mas tem uma coisa
que eu preciso mostrar a você — disse, segurando a minha mão.
Suspirei e assenti, sendo conduzida a uma moto parada a alguns
metros. Surpreendi-me ao ver Javier sentando na garupa e estendendo um
capacete em minha direção.
— Vai me explicar você e essa moto?
Ele riu.
— Suba, depois conversaremos. Alison vai levar o carro de volta
para casa.
Obedeci, segurando sua cintura. O capacete ficou um pouco
folgado, mas ele apertou melhor a fita em minha cabeça. E se inclinou,
beijando meus lábios.
Com um sorrisinho de lado, afastou-se.
— Segure-se. — Acelerou a moto, me fazendo soltar um gritinho
pelo susto. Apertei meu corpo contra o seu, encostando a cabeça em suas
costas, enquanto Javier desviava do trânsito caótico de São Paulo.

JAVIER
Paramos em frente a um dos prédios na Vila Nova Conceição, um
dos bairros mais recomendados dentro de São Paulo. Valentina desceu da
moto, olhando ao redor com curiosidade. Sorri e desliguei o veículo,
parando ao seu lado.
— Vamos visitar alguém?
Balancei a cabeça em confirmação, sabendo que se abrisse a boca
acabaria contando a ela. Prendi os dois capacetes na moto e segurei sua
mão, caminhando pela calçada. Subimos uma escadaria antes de
adentrarmos o hall do local. Cumprimentei o porteiro sorrindo, e Valentina
me fitou de maneira duvidosa.
— Aonde estamos indo? — sussurrou, me fazendo sorrir.
— Calma, você vai gostar.
Ela não pareceu acreditar muito, mas, mesmo assim, entrou no
elevador com algumas pessoas. Em minutos, subimos para o nono andar, já
que os primeiros estavam completamente ocupados.
Assim que as portas se abriram, andamos pelo corredor até pararmos
diante de uma porta de madeira amarelada e envernizada. Valentina não
falou nada, mas arregalou os olhos quando enfiei a chave na fechadura.
— Eu sei que a situação em casa está difícil. Pensei que
eventualmente poderia ficar melhor… — Toquei seu rosto. — Mas quanto
mais tempo passamos lá, mais vejo que você e minha mãe vão se matar se
conviverem sob o mesmo teto. Não quero ter que escolher uma das duas.
Puxei-a para dentro. A sala extensa, com vista para a rua, estava
vazia e era dividida da copa por um balcão de mármore. O corredor levava
aos quartos do apartamento.
— Vamos morar aqui? — murmurou.
— Sim, baby. Não quero brigar com você de novo. — Beijei seu
ombro, enlaçando sua cintura.
Valentina me encarou, sorridente.
— Vou poder dizer que tenho uma casa. Finalmente.
Ri, embora fosse triste a forma como ela colocou isso. Foquei em
sua alegria e a beijei.
— Sim. Podemos nos mudar e começar a mobilhar. Os papéis de
locação ainda não foram finalizados, mas o proprietário é um amigo
próximo, e ele me deu total acesso ao imóvel.
Ela se virou, me abraçando e beijando primeiro minha bochecha,
depois o canto da minha boca.
— Obrigada. Obrigada!
E, merda, eu fiquei imensamente feliz por vê-la sorrindo tanto.
JAVIER
Entrei na cozinha, vendo a mulher preparando algo no fogão.
Valentina vestia uma das minhas camisas, alheia à minha observação
minuciosa. As pernas torneadas se destacavam, mas logo subi os olhos,
parando na bunda redonda. Há mais de quatro semanas, nos mudamos
oficialmente para o apartamento; foi isso que manteve minha esposa
ocupada.
Ela fez tudo, desde a decoração e a mudança até as contratações.
Quando eu menos esperava, os problemas estavam resolvidos. Segundo ela,
a falta de um trabalho formal lhe dava muito tempo extra.
— Ficar me secando não faz seu estilo. — Ela me olhou por cima
dos ombros, sorrindo de lado. Eu me aproximei, enlaçando sua cintura e
colando minha virilha contra sua bunda. Tina suspirou. Deslizei os dedos
por sua perna, subindo por baixo da camiseta entreaberta e sentindo a pele
quente. — Preciso terminar o café, Javier. Os ovos vão queimar…
Sorri e a virei para mim, desligando o fogão e a colocando sobre o
balcão. Encaixei-me entre suas pernas. Segurei seu rosto, beijando sua boca
e sentindo seu corpo relaxar. Acariciei suas costas e apertei a bunda, ao que
gemeu.
— Bom dia.
Ela riu.
— Bom dia. Fiz café. Está sem açúcar.
Eu nunca descobri como Valentina sabia que gostava do meu café
forte e sem açúcar, mas ela sempre fazia assim, e eu jamais reclamava.
— Obrigado. — Afastei-me, servindo um pouco enquanto ela descia
do balcão e voltava para terminar seu lanche. Colocou uma porção pequena
de ovos em meu prato, juntamente a torradas. — Eu a buscarei para
almoçarmos hoje.
— Ok.
Havíamos criado uma rotina. Às vezes, eu a pegava em casa e íamos
comer juntos. Mas Valentina ficava muito tempo no apartamento, já que não
havia conseguido um emprego.
Eu até daria um jeito dela entrar na empresa, mas isso foi o único
pedido de Mariano para mim. Na hora, como ainda não sentia nada por
Tina, não questionei a solicitação, que levantava tantas perguntas.
— Está maravilhoso — falei, provando sua comida. Valentina
povoava boa parte dos meus dias; passou a ser aquela com quem eu
conversava sobre tudo: trabalho, amigos e coisas bobas do cotidiano. —
Mateus nos convidou para irmos à fazenda no fim de semana.
Ela suspirou.
— Acha uma boa ideia? Na última vez que falei com Mateus, não
fui muito racional.
Espantei-me.
— O que você disse?
Sorriu, envergonhada.
— Ele tentou me ajudar no dia em que fiquei bêbada, e eu disse que
aquilo não era problema dele, pois poderia me virar sozinha. — Suspirou.
— Depois entendi que ele só queria me proteger.
— E ele estava certo, parcialmente. Tentou intervir, mas ignorou o
fato de que todos os dias sai acompanhado do bar com uma mulher
diferente. E, geralmente, bêbada. — Encolheu os ombros. — Ambos sabem
bem o que fazem…
— Mas havia outro problema. Eu queria ter minha primeira vez com
um desconhecido, ele tinha razão.
Sorri.
— No entanto, Mateus foi hipócrita. — Ela sorriu. — Mas isso
apenas quer dizer que ele a ama muito e…
Ela congelou, com o garfo parando no ar.
— Ele me ama? — A confusão em seu rosto me deixou
desconfortável, pois percebi finalmente o que estava dizendo. Falei que
meu melhor amigo amava minha esposa. Por Deus, Javier.
— Sim. Como amigo. E como homem. Sabe disso, não é segredo.
Afastou o prato, suspirando.
— Ele disse que não me amava mais desta forma — sussurrou,
confusa.
Xinguei-me em pensamento.
— Mas isso muda algo para você? — sondei, com medo da
resposta.
— Claro que não. Só fico pensando em como ele se sente. —
Esfregou o rosto. — Ele cresceu comigo, não quero magoar Mateus.
— Se souber o que houve entre nós, vai ficar mal…
— Ele já deve saber. Rachel e Mateus estão próximos, e Rachel
descobriu.
— Rachel descobriu? Quando? Por quê?
— Calma, soldado — brincou, sorrindo. — Estávamos trocando de
roupas, e ela viu uma coisa. — Alisou o pescoço, desconfortável, e percebi
a que se referia. — Não consigo mentir para Rachel. Ela sabe tudo sobre
mim.
— Não tem por que mentir. Pensei que ela ficaria mais braba, mas
mentir não é a melhor saída. Uma hora isso vai parar de ser um segredo…
— Calei-me, percebendo o rumo da conversa.
Valentina voltou a comer e me encarou.
— E o quê?
— Oi? — fingi não ter dito nada.
— Você estava falando e parou.
Sorri.
— Não é nada. Temos um evento do Grupo Harrison em duas
semanas, aviso com antecedência para ficar preparada, sei que se sente
tensa nessas situações. — Ela sorriu, agradecida. — E os homens Harrison
são um tanto indiscretos; não importa o quanto ameace quebrar a cara do
Heitor, ele não vai parar de cantar toda e qualquer mulher.
— Você o ameaçou? — Arregalou os olhos.
— Talvez. — Dei de ombros.
— Por Deus, homem! Não quero ir tirar você da cadeia, Javier.
Gargalhei com seu exagero.
— Não será preciso. Prometo. — Beijei seus lábios antes de me
levantar. Peguei meu terno na cadeira ao lado e me vesti, com os olhos dela
atentos em mim. Não demoraria muito para…
Valentina se ergueu, alinhando a gravata da maneira que eu previ.
Segurei sua cintura, e ela beijou meus lábios.
— Me deseje sorte. Tenho uma entrevista hoje — sussurrou.
Acariciei seu rosto.
— Toda a sorte do mundo — disse, antes de sair do apartamento.
Peguei o celular no bolso da calça e segui para o elevador. A
mensagem de Mariano indagando sobre a situação da empresa me fez
suspirar. O homem estava havia muito tempo fora da cidade e não explicava
direito o motivo à sua filha, deixando toda a carga da G&F em cima de
mim. Não reclamei à Valentina, sabendo que só a deixaria preocupada.

VALENTINA
A entrevista foi um sucesso, pelo menos na minha lógica. Marília
conseguiu uma entrevista em uma empresa que trabalhava com móveis
planejados. Não era o meu sonho no momento, mas serviria, a experiência
abriria outras portas.
Entrei no apartamento, jogando minha bolsa de lado enquanto
caminhava para o quarto. Já eram quase onze horas, tinha alguns minutos
antes de tomar banho e esperar Javier. Sentia-me cansada, mas não
recusaria o convite de estar ao lado do homem.
Prendi os cabelos em um coque e descartei minhas roupas,
observando a decoração ao redor.
Ele me deixou escolher tudo. Havia uma cama em estilo colonial
junto à parede, com uma estampa de pequenas flores delicadas, e um
quadro que Marília me ajudou a encontrar, romântico e minimalista. O local
era arejado, com vista para uma praça.
Nem acreditava que fazia um mês inteiro que não via Alba. Na
verdade, nesse período, não encontrei também Rachel, muito menos Rúbia.
Prendi-me em casa e não tirei o pé dali.
O interfone tocou no instante em que enrolei a toalha em meu corpo.
Franzi o cenho, conferindo o horário no celular para ver se era Javier me
chamando para descer. Duvidava muito, pois ele só sairia em uns quinze
minutos e levaria ao menos mais trinta para chegar em casa.
Fui à sala atender o interfone.
— Oi.
— Senhora Garcia, a sua sogra está aqui. Alba Garcia. Quer falar
com o filho.
Fechei os olhos, batendo a cabeça contra a porta e pensando em uma
boa desculpa para mandá-la embora. Porém, se fizesse isso, não resultaria
em algo bom.
— Ele não está. Se ela quiser subir, pode deixar. Obrigada.
Botei o interfone de lado. Andei até o quarto, torcendo para que a
situação com Alba não se agravasse. Porém, no instante seguinte, o
interfone voltou a tocar.
Atendi.
— Oi.
— Sua sogra subiu, senhora Garcia.
— Ok, obr…
— E sua mãe disse que queria ver você. A senhora Vânia Camargo.
— Gelei no mesmo instante. O que diabos ela fazia ali? — Falou que não
vai sair daqui e…
— Não vou ir embora, Valentina. Terá que me deixar no seu prédio
por tempo indeterminado, pois uma hora você vai sair de casa, e eu falarei
com você.
Estremeci perante a ideia de Alba e Vânia no mesmo espaço.
— Alba está vindo para o meu apartamento, não posso receber você
agora.
— Receba e a mande voltar outra hora.
Suspirei. O interfone retornou ao porteiro, que perguntou o que
fazer.
— Pode deixá-la subir, por favor.
Finalizei a chamada e rumei ao quarto, pegando minhas roupas sujas
e jogando no cesto. Separei algumas peças limpas, e a campainha tocou.
Abri a porta, ainda enrolada na toalha.
— Javier disse que viria para o almoço, vou aguardá-lo aqui.
— Almoçaremos fora, Alba.
Ela não esperou que eu a deixasse entrar, apenas invadiu o
apartamento e se sentou no sofá. Arqueei a sobrancelha, encostando a porta.
— Eu apenas preciso falar com o meu filho. Não vim tirar seu sexo
regular, Valentina.
Bufei, cansada.
— Você usar as palavras “filho” e “sexo” na mesma frase é
estranho, mas minha mãe está subindo neste exato momento, tenho certeza
de que odiaria encontrá-la.
Ela aparentou estar em choque.
— O que Vânia faz aqui?
— Você sabe o nome dela? Pensei que só sabia abrir a boca para
ofender.
Alba riu.
— Finalmente mostrando as garrinhas… Logo meu filho vai se dar
conta do tipo de mulher que você é, igualzinha à sua mãe.
A porta se abriu e me virei, dando de cara com a mulher que me
gerou. Nem compreendia por que ficava surpresa ao perceber o quanto
éramos parecidas; isso sempre foi predominante.
Engoli em seco.
Fazia anos que não a via. E, na sua primeira vez à minha frente em
tanto tempo, não foi a mim que dirigiu sua atenção, e sim à Alba, sua arqui-
inimiga.
— Achei que teria vergonha de retornar — Alba alfinetou, sorrindo
para Vânia. Eu não conseguia a chamar de “mãe”, parecia errado.
— Precisa ir, Alba — falei à minha sogra, regressando ao quarto,
meio confusa com a situação. — Vou me trocar. Quando voltar, não quero
você aqui.
Ela não se deu ao trabalho de parecer ofendida.
Entrei no quarto e fechei a porta, encostando minha cabeça na
madeira fria.
Vânia estava na sala. Ali. A alguns metros de mim. A pessoa que
não teve a decência de ser uma mãe de verdade.
Não permiti que as lágrimas caíssem. Peguei um vestido leve e
entrei na peça, cansada demais para me produzir. Ouvi vozes alteradas
provenientes da sala e decidi voltar. Quanto mais me aproximava, mais elas
falavam.
— Você é uma vagabunda! — Alba se descontrolou, pulando de pé
e apontando o dedo à Vânia. — Nunca teve decência. Sempre procurou
meu marido e nunca assumiu para todos que, na verdade, a filha do seu
casamento perfeito é fruto de uma traição! Filha do melhor amigo do seu
marido!
O mundo congelou. Fiquei tão dura que nem mesmo sabia se teria a
capacidade de me mover novamente. Minha cabeça girava. Busquei me
apoiar.
Tentei respirar, mas não consegui. Meus sentidos bagunçados me
impediam de pensar de forma coesa.
— O que… vo-você disse? — gaguejei, encarando Alba.
Ela ficou em choque.
— Valentina… — Vânia tentou se aproximar.
— Não encoste em mim! — gritei. — Me diga que isso não é
verdade. — Desta vez, não contive as lágrimas.
— Você não é filha de Mariano — Alba falou. — Faça um teste.
Faça um teste de DNA para entender o real valor de sua querida mãe. — A
mulher pegou a bolsa sobre o sofá e saiu antes que eu dissesse algo.
Minhas pernas tremeram.
— Valentina… — Vânia repetiu.
— Não toque em mim — sussurrei. — A única coisa que quero de
você é que me diga que isso não é verdade. — Fitei-a, esperando por uma
resposta que nunca veio.
Eu não acreditava. Meu coração doía tanto que pensei que cairia ao
chão, incapaz de me reerguer.
Caminhei em direção à porta, batendo ela às minhas costas. Corri
até as escadas. Descer nove andares não me faria bem, mas não ligava. Só
desejava ficar longe de Vânia.
E quanto mais me afastava, mais difícil se tornava pensar sobre isso.
Pensar sobre as palavras de Alba.
Pensar no silêncio da minha mãe.
VALENTINA
Esperei em frente à porta de madeira, sentindo minha cabeça
latejando enquanto tentava controlar a situação. Peguei um táxi para a casa
de Marília, pois ela não tinha nada a ver com todo aquele caos, então seria a
única que poderia me ajudar.
— Valentina? Meu Deus, o que houve? — Foi assim que abriu a
porta. Deixei as lágrimas voltarem e me joguei nos seus braços, com ela
alisando minhas costas em conforto. — Calma. Calma. Venha, vamos
entrar.
Solucei, seguindo para dentro e me afastando do seu abraço. Marília
ainda morava com a mãe em um apartamento a alguns quilômetros do meu
prédio. Inesperadamente, éramos quase vizinhas.
— Sente-se aqui. — Guiou-me para o sofá. Caí em cima do
estofado, afundando ali. Minhas mãos foram à minha boca, para conter o
choque. — Você veio até aqui neste estado? Sozinha?
Não ouvia muito. Minha mente se fixava no que Alba havia dito e
no que mamãe não havia negado. Meu estômago se revirava só de pensar
mais calmamente sobre aquilo.
Eu não era filha de Mariano. Eu nunca fui filha dele. Talvez tenha
sido esse o motivo dele ter me odiado a vida toda.
Eu era filha de Santiago, pai de Javier. O que…
Engasguei, sentindo vontade de vomitar. Mas me controlei,
apertando o estofado entre os dedos e me forçando a focar meus
pensamentos em meus problemas.
Javier e eu éramos irmãos? Não. Eles não poderiam ser tão
maldosos a esse ponto. Eles não fariam tamanho absurdo. Não fariam.
Recusava-me a aceitar isso.
— Vai me contar o que aconteceu? — indagou com um sorriso
acalentador.
— Falar em voz alta dói… — sussurrei, e ela apertou minhas mãos.
— Então não fale.
Fechei os olhos, grata pela compreensão.
A dor em meu peito era dilacerante, porém, não maior do que o
nojo.

MARÍLIA
Valentina estava parada em meu sofá, encarando o nada e apertando
o estofado entre os dedos. As lamentações não cessavam um só instante.
Quanto mais tempo passava, mais eu ficava nervosa.
— Val, quer se deitar?
Ela tremia. Tentou se levantar, mas antes que eu a alcançasse, foi ao
chão. Corri em sua direção, chamando seu nome e checando seu pulso.
Estava apenas desacordada.
Angustiada, busquei o celular em meu bolso e disquei o número de
Marcos, sabendo que ele me ajudaria neste momento. Meu primo atendeu
no segundo toque.
— Por favor, venha para o meu apartamento. Por favor.
— Mari, está tudo bem? — Ouvi o barulho de algo caindo enquanto
ele corria pela casa.
— Uma amiga passou mal. Estou desesperada.
Valentina respirava com dificuldade. Marcos morava no andar de
cima, surgiria em poucos segundos.
— Calma, estou chegando.
Agradeci, colocando o telefone de lado. Nem mesmo sabia o motivo
do seu ataque, mas me preocupava cada vez mais.
— Cheguei! — Entrou, segurando sua maleta. — O que aconteceu?
— Tirou o estetoscópio da bolsa, checando Valentina.
— Ela apareceu aqui muito nervosa. Estava chorando e não me
falou o motivo.
— Melhor ligar para alguém da família. Parece um desmaio comum,
vou tentar acordá-la.
Na bolsa de Valentina, procurei seu celular e o desbloqueei,
agradecendo pelo fato de não ter senha. Vi ali inúmeras chamadas de Javier
e percebi que algo muito errado ocorrera entre os dois.
Retornei a ligação.
— Valentina! Por Deus, onde voc…
Cortei-o:
— Não é a Valentina. É a Marília, somos amigas. Ela chegou aqui
em casa muito nervosa e, em seguida, desmaiou. Não conseguimos acordá-
la. — Observei Marcos ainda tentando.
— Por favor, me passe o endereço, estou a caminho. — A voz do
homem denunciava nervosíssimo, e assim o fiz.
Em alguns minutos, liberei sua entrada, e ele invadiu meu
apartamento.
— Ela ainda está desacordada? — alarmou-se, dando pequenos
tapinhas no rosto de Val.
Marcos recomendou que a colocássemos em uma posição melhor
para a sua corrente sanguínea ou algo do tipo. Obedecemos e, em questão
de minutos, ela abriu os olhos.
— Vou levá-la ao hospital — Javier decretou.
— Eu acho que não é… — Marcos tentou dizer.
— Não importa, ela desmaiou, vou levá-la ao hospital — reforçou,
nada disposto a ceder.
Valentina, meio grogue, não reclamou quando ele a pegou nos
braços, caminhando em direção à porta.

JAVIER
O hospital particular a alguns quilômetros do bairro onde
morávamos foi nossa primeira parada. Estacionei e, ao sair do carro, notei
que Valentina voltara a adormecer. Peguei-a nos braços, caminhando por
toda a escadaria.
Eu havia tomado um bom susto. Quando cheguei no apartamento
para buscá-la, tudo que encontrei foi uma mulher idêntica à minha esposa,
mas alguns anos mais velha. Ela disse que Alba falou algo para Valentina,
que simplesmente desapareceu na sequência. Ainda desconhecia o que
mamãe dissera, mas eu pretendia descobrir.
— Javier, o que faz aqui? — Eu me virei, enxergando Juliana.
— Minha esposa desmaiou.
Ela se aproximou, preocupada.
— Eu estou bem. — Valentina suspirou.
— Você está pálida, querida — a médica conhecida me deu razão.
— Vamos deixá-la em observação. Diga-me se sente tontura ou enjoo.
— Sim. Eu estava muito nervosa — Val sussurrou. — Pode ter sido
isso, né?
Juliana sorriu de lado.
— Pode, sim. Às vezes, nosso sistema se sobrecarrega e pede
descanso. Só a colocarei em observação, um soro na veia não vai prejudicar
você…
— E exames, precisamos fazer exames.
— Não quero fazer exames, Javier — replicou.
— Um hemograma seria o suficiente. Assim você deixa o seu
marido relaxado e checa como está sua imunidade, depois pode voltar
rapidinho para casa. — Valentina não se opôs, e Juliana indicou o caminho,
nos levando para um dos quartos no primeiro andar. Pediu que eu deixasse
minha esposa na cama. — Faça a ficha dela na recepção. Enquanto isso,
vou aplicar um soro na veia e pegar uma amostra de sangue para o exame.
Apertei a mão de Tina, num sinal de conforto, e saí do quarto.
Conhecia Juliana havia muito tempo. Desde que me tornei
independente, fazia consultas periódicas naquele hospital, do qual sua
família era dona. Os Nogueiras Fontanas tinham muita influência, tanto no
Sudeste quanto no Sul do país.
— Filho! — Alba exclamou. Fitei-a parada a alguns metros, ao
passo que eu mexia no celular, bebericando o café adquirido na lanchonete
do hospital. — Josué disse que viu você entrando aqui, fiquei tão
preocupada… O que houve, Javier? Por que está me olhando assim?
— O que você disse à Valentina, mamãe? Ela foi desesperada na
casa de uma amiga e passou mal.
Alba gesticulou com desprezo.
— Muito cheia de cena, essa garota. Não tinha nada de mais, era
algo de se esperar, dado o histórico da mãe dela. — Encolheu os ombros.
— Seja direta, não gosto que me enrole.
— Não estou enrolando, Javier. Valentina é filha de outro homem,
não de Mariano, e ela não aguentou a verdade. — Sua firmeza me fez
vacilar. Deveria ou não acreditar nas palavras dela?
— Como sabe disso?
— Porque peguei seu pai e Vânia na cama. — Estendeu algo em
minha direção. — Em algum momento tudo isso viria à tona. Guardei
provas. Tentei impedir o casamento mais errado da história e…
Não escutava mais nada, segurando o envelope. Tirei dali algumas
fotografias antigas, acompanhadas de uma carta escrita à mão.
A foto de Vânia e meu pai juntos me nauseou.
— Ela e Mariano ainda não estavam casados, mas eu e Santiago,
sim. Ele me traiu. Desde então, vivemos como estamos — contou. — Por
isso eu não queria que se cassasse com a filha da mulher que destruiu nossa
família.
Valentina.
Valentina.
Valentina era minha meia-irmã?
Tudo começava a desmoronar muito rápido.
Não conseguia me mover. Não conseguia reagir.
Eles não poderiam ter feito isso. Não poderiam ser tão perversos a
este ponto. Ou… poderiam?
VALENTINA
Abri os olhos no instante em que escutei passos no quarto. Encarei a
loira ali, mexendo no meu soro. Sorriu ao me ver acordada. Ela era bonita,
vestia um jaleco branco com uma plaquinha onde se lia seu nome: Juliana.
— Tenho os resultados dos exames. Acabei pedindo que fizessem
um beta hCG também, pois poderia ser um dos motivos pelo qual passou
mal. — Apertou minha mão. — Preciso lhe explicar…
— E-exame de hCG… — gaguejei. — É de gravidez, não?
Ela assentiu.
— Qual o resultado? — Estremeci, amedrontada.
— Positivo — sussurrou. — Você parece muito bem, com a
imunidade alta, sem anemia. A única notícia é que agora tem um bebezinho
crescendo aí.
Pus a mão sobre a minha barriga e senti tudo rodar.
A doutora fez menção de sair.
— Po-pode-ria… não falar ao Javier?
Juliana me observou por alguns instantes, pensando no que acabara
de ouvir.
— É claro — a confirmação veio acompanhada de um sorriso leve.
E a porta se fechou.
As primeiras lágrimas caíram. Eu afundava em um poço sem fim.
Doía de maneira torturante. Tentava entender por que eles fariam isso
conosco, por que nos juntariam sabendo de tudo. Não parecia justo.
Soava tão cruel que quebraria o coração de uma pessoa normal.
Como o da pessoa que agora carregava um filho de um relacionamento
proibido. E que nunca poderia dizer a verdade ao homem que amava.
A porta se abriu devagar. Limpei meu rosto, tentando parecer bem.
Minha mão livre do soro foi rápida ao pegar o exame sobre a mesa ao lado.
Javier não me encarava, parado a certa distância, de cabeça baixa.
— Você está bem? — A voz dele chegou até mim.
— Sim. — Escondi o resultado em meio aos lençóis. — Obrigada
por tudo.
Ele levantou a cabeça, finalmente me mirando. Parecia atormentado,
quase derrotado. Engoli em seco.
Eu o amava. Mas isso era impossível. Eu deveria aceitar que nunca
poderia amar Javier, deveria me arrepender de ter me deitado ao seu lado,
mas essa não era a realidade.
Meios-irmãos.
Um segredo que impôs uma barreira ainda maior entre nós dois.
— Vou levá-la para casa — avisou, esfregando o próprio rosto,
parecendo exausto.
Guardei o envelope dentro do meu sutiã, sem bolsa para outro
esconderijo. Não falaria a Javier a respeito desta criança. Mas contaria a ele
o segredo devastador de nossos pais e colocaria um fim naquele casamento
absurdo.
— Você está ok? — questionei.
— Sim, foi um dia intenso. — Sorriu, estendendo a mão e me
ajudando a levantar.
Seguimos para fora e logo alcançamos o carro. Acomodei-me no
banco e deixei minha cabeça pender para o lado.
Tinha tantas perguntas. Tanta coisa para entender.
Não conseguia nem imaginar por que papai me casaria com Javier,
meu meio-irmão. Como achar uma explicação para o fato de Mariano
seguir sendo amigo de Santiago, depois de tudo? Por que Vânia não
impediu meu casamento, sabendo a verdade?
Eram inúmeras indagações.
Tentei relaxar, encontrar uma solução. Minha vida se tornara ainda
mais complicada. Não bastava esse episódio caótico, havia agora uma
criança envolvida.
A partir daquele dia, não importava aonde eu fosse, sempre me
lembraria de Javier, pois o bebê crescendo em meu ventre não tinha culpa
da maldade que nossas famílias cometeram ao nos unir.
Iria até o fim com ele. Sozinha.
Não interessava se isso me fizesse sangrar.
Ser mãe solteira é difícil, mas eu cresci praticamente sem mãe e com
um pai ausente, tinha experiência no que não fazer caso quisesse criar um
filho feliz.
E, com certeza, essa criança seria.
Mas… e quanto a mim?
JAVIER
Entramos em casa, com Valentina na frente. Ela não falou nada do
caminho do hospital até ali, e eu agradeci por isso. Tudo que mamãe me
revelou estava preso em minha garganta; sentia que, a qualquer momento, o
mundo começaria a desmoronar.
— O que pensam que estão fazendo? — A voz séria de Alba me fez
virar, dando de cara com ela, Vânia e Santiago com olhares acusatórios em
nossa direção.
— Alba, já chega — Santiago falou ao ver Valentina soltar um
soluço baixinho.
— Não! Não podemos deixar que eles sigam suas vidas como se
nada tivesse acontecendo — mamãe rebateu, zangada. — Ela dormiu com
ele. Entende a dimensão disso tudo?
— Alba…
— Não me venha com essa. Deveria ter pensado nisso antes de se
relacionar com outra mulher — acusou.
— Javier não sabe… — Valentina iniciou, e mamãe riu.
— É claro que sabe. Eu imaginei que você tentaria manipular meu
filho para ficar com ele mesmo nesta situação repugnante — atacou. — Eu
não vou deixar.
— Não tentei manipular ninguém! — Valentina exclamou, com o
rosto molhado por lágrimas. — Não fui eu quem casou os filhos com esse
segredo escondido.
— Vocês nunca deveriam ter se aproximado.
— É por isso? Você se sente mal por seu filho dormir com a filha da
mulher que destruiu seu casamento? Que se dane! Eu não mandei Vânia e
Santiago transarem. — Ela tremia. — Nunca quis que você sofresse, Alba.
Eu nunca a machuquei. Mas você passou o tempo todo falando de mim, me
olhando torto, me culpando por algo de que eu nem sabia — sussurrou,
cansada.
Eu continuava estático, descrente daquele cenário.
— Você não deveria ter nascido — Alba falou.
— Eu não aceito que ofenda a minha filha — Vânia interveio.
— Você não é minha mãe! — Valentina gritou. — Uma mãe não me
abandonaria. Uma mãe não me deixaria casar com um homem que eu nunca
poderia ter. — Deu meia-volta, entrando no corredor do apartamento. A
porta do quarto se bateu.
Eu não tive a chance de expor o que pensava, mas achei melhor
assim, pois não fazia ideia do que falar.
— Você vai para casa comigo, Javier.
Encarei Alba.
— Eu não vou a lugar nenhum com quem mente — confrontei-a,
saindo do apartamento. Não podia ficar ao lado dos meus pais; não podia
ficar ao lado de Valentina. Tudo doía.
Jamais a tocaria de novo, pois nosso relacionamento configurava um
pecado. Quando a tive pela primeira vez, experienciei a sensação de estar
no céu — perfeita, delicada, pura.
Agora, não poderia ficar perto de Valentina nunca mais.

— Você está bem? — Anna Júlia, parada atrás de mim, perguntou.


O bar do Ivan era um dos pontos que eu frequentava em momentos
difíceis, por estar sempre aberto, de segunda a segunda.
— Sim, só com algumas coisas explodindo ao meu redor.
Ela riu, se sentando comigo. Anna Júlia estava sempre naquele
local, e todos sabiam o motivo: ela deixava claro que Ivan um dia seria
dela. Mas o cara continuamente escapava da morena.
— Pode me dizer o que está acontecendo. Deve ser muito ruim se o
fez vir ao Ivan.
Olhei em volta. O bar não era inferior, pelo contrário, era amplo e
bastante movimentado.
— Muitas, muitas coisas. A mais importante foi descobrir que
minha esposa é, na verdade, minha meia-irmã.
Ela arregalou os olhos.
— Sua aparência está péssima. Agora faz sentido. — Forcei um
sorriso. Ivan se aproximou, colocando uma cerveja na frente da mulher. —
Seu filho quer ver você — ela disse ao homem, mencionando o garotinho
que tiveram há algum tempo.
— Posso pegá-lo amanhã, bem cedo — respondeu, sumindo logo
em direção aos fundos.
Ela suspirou, afundando na cadeira do balcão.
— Ele nunca vai mudar? — a pergunta foi mais para si do que para
mim.
— Acho que não é uma questão de conseguir mudar, e sim de
querer. — Toquei sua perna coberta pelo jeans. Ivan não era uma pessoa
ruim, mas ele pouco ligava para Anna, preocupando-se apenas com o filho.
— Não importa, vamos beber. — Entornou um gole generoso.
Repeti o gesto, encostando o cotovelo no balcão e deixando minha
mente vagar por alguns minutos.
Em determinado momento eu teria que falar com Valentina, mas não
naquele instante. Só de pensar nisso, já me sentia sufocado.
Tentei entender aquilo como uma salvação, uma mensagem do
universo me dizendo para pisar no freio. Mas precisava acontecer de um
modo tão doloroso?
— Ei — ela puxou meu ombro —, vai me explicar que merda é essa
com sua esposa?
— Primeiro, ela pensou que eu havia transado com você. — Anna
revirou os olhos. — Depois, mamãe revelou que, na verdade, meu pai pulou
a cerca há muito tempo, resultando em Valentina. O que nos faz meios-
irmãos.
— Merda, mas por que você se casou com ela? Já fizeram um teste
de DNA?
— Casamento arranjado. O que não entendo é por que papai me
deixou fazer isso e por que mamãe não revelou nada antes! Realizaremos
um exame de DNA uma hora ou outra. Só que ela está devastada. Ficou tão
mal que foi parar num hospital.
— Só saberá as respostas se perguntar.
— Não quero ver nenhum deles. Principalmente Valentina.
— Mas ela é sua esposa…
— E minha meia-irmã. — Bati na mesa. — Odiaria vê-la agora, é
angustiante pensar nela nesta posição. Tão nojento… Não me sinto seu
irmão, e sim o cara que gosta dela.
— Parece que encontrou a mulher que vai tirar o seu chão.
Encarei-a, confuso.
— Não, encontrei a mulher que me fez pecar.
Ela riu.
— Você não entendeu…
— Não, Anna, quem não entendeu foi você. Eu desejo fazer coisas
que só Jesus pode criticar com minha irmã, minha meia-irmã! Ver isso
como encontrar a mulher que me tirou o chão não é legal. É quase
romantizar o incesto.
Ela suspirou ao meu lado.
— Acho que precisa se acalmar. Nem tudo é caos o tempo todo. —
Afundei meu rosto em minhas mãos. — Venha, pegue essa cerveja, que
logo ela aliviará o sofrimento. — Sorri e aceitei, bebericando um pouco. —
Mas fale com Valentina, ela também é parte disso. Aposto que deve estar se
sentindo tão quebrada quanto você.
— Minha mãe disse que ela manteria isso em segredo para me
manipular.
— E você acreditou?
Mirei a estante de bebidas do outro lado do bar.
— Não. Nem por um segundo. Isso machucaria nós dois. E
Valentina é sincera. — Era uma das coisas que aprendera sobre ela desde
que nos casamos.
— Então tem a resposta. Converse com ela. Se tudo acabar, se for
confirmado, pelo menos não guardarão mágoas um do outro. — Apertou
meu ombro para me confortar.
Aquiesci. Precisávamos tirar tudo isso a limpo, mas só de imaginar a
confirmação, já ficava perturbado.

VALENTINA
Vânia e Rúbia estavam em meu quarto. Eu não queria ver a mulher
que era o motivo das minhas dores, então pedi que ela fosse embora,
deixando apenas minha madrasta, que de alguma maneira descobrira o que
aconteceu e viera me socorrer. Alisava meus cabelos lentamente,
oferecendo-me um conforto bem-vindo.
Sentia meu coração doendo, mas as lágrimas já não se faziam mais
presentes. Devagar, minha mente exausta se anuviava.
— Fale com sua mãe, querida.
— Você sabia disso? — sussurrei.
— Não, mas Vânia me chamou, dizendo você precisaria de alguém
que amasse.
Eu necessitava mesmo era de Javier, mas eu não o teria, nem agora,
nem nunca.
Alguém bateu à porta, e eu pulei, encarando-a em expectativa.
— Javier?
Contudo, ela se abriu e revelou Rachel, que sorriu triste para mim.
— Não, mas eu a amo e lhe trouxe um colo. — Meus olhos se
encheram de lágrimas, e Rúbia se afastou, avisando que nos deixaria
sozinhas enquanto preparava o jantar. — Ei, não chore. — Rachel fechou a
porta do quarto, se aproximando. — Odeio ver você assim.
Abraçou-me, deitando minha cabeça em seu colo.
— Es-estou be-em…
Ela riu.
— Falar que está bem é um exagero. — Beijou meus cabelos. —
Pode sentir sua dor, só não se perca nela para sempre.
Permaneci ali, sentindo os dedos da minha amiga escovando meus
cachos. Meus olhos estavam pesados e eu quase adormecera quando ouvi
passos novamente. Pulei de pé, mais uma vez pensando ser Javier, mas a
voz de Vânia no apartamento arruinou minhas esperanças.
— Ele não falou com você sobre o que aconteceu? — Rachel
indagou.
— Não. Isso está me matando. — Fechei os olhos. Tinha duas
grandes preocupações. — E há outra coisa…
— A paternidade?
— Bom, no caso, são três coisas então. — Mirei-a, vendo a loira
franzir o cenho.
— O que quer dizer?
A notícia da gravidez me corroía, então me movi sobre a cama,
pegando o teste escondido embaixo do colchão e estendendo em sua
direção. Confusa e receosa, Rachel conferiu o conteúdo.
— Você está grávida? — Assenti. — Contou a ele?
Inspirei uma lufada de ar.
— Não. E você não pode falar a ninguém sobre o bebê.
— Por quê? É uma criança, Javier deve saber que vai ser…
— Não somos mais apenas um casal que está junto de maneira
arranjada, Rachel. Somos meios-irmãos. Meu filho será visto como um
pecado. Inclusive pelo pai. — Funguei, sentindo as lágrimas molhando meu
rosto. — E não quero que alguém o tire de mim. Ele não tem culpa de nada.
Ela me abraçou.
— Shhh, acalme-se. Farei o que você pedir. — Apertou meus
ombros. — Se acha que a melhor decisão é não contar, cuidaremos sozinhas
do meu sobrinho.
— Não posso ficar com essas pessoas de agora em diante. Não
posso ficar nesta cidade, Rachel.
Fitou-me, amedrontada.
— O que isso significa?
— Preciso de um lugar onde não me encontrem. Mas, primeiro,
quero falar com uma pessoa. Descobrir a verdade.
Assentiu, atarantada. Felizmente, eu sabia que Rachel era minha
parceira para qualquer momento.

— O que deseja, querida? — Santiago perguntou.


Eu estava no escritório de Javier, na empresa que ele tanto amava.
Confesso que pedi para encontrar meu sogro ali pois sabia que havia uma
grande chance de ver meu “marido”. Porém, não o achei em lugar nenhum.
O senhor Garcia prosseguiu:
— Se quiser falar com Javier, podemos pedir informações, um
amigo está sempre de olho nele, claro, por motivos de segurança e…
— Eu quero falar com você — cortei-o, ao que me encarou,
surpreso. — Não precisa fingir que nada daquilo aconteceu. A verdade é
dolorosa, mas é sempre a melhor opção.
— Podemos fazer um teste de DNA.
— Sim, acredito que seja o ideal. — Ele pegou o celular, digitando
algo. — O que está fazendo?
— Chamando um amigo de confiança para isso. Ele virá à empresa
e poderemos verificar essa questão depressa, deixar tudo em pratos limpos.
— Concordei. — Tem outra coisa que preciso falar a você.
Fiquei tensa.
— O quê?
— Sobre Javier.
— Eu sei que somos meios-irmãos e que está tudo um caos. —
Funguei. — Mas eu não posso mudar nada, metade da culpa é de vocês por
nos colocar juntos e mentir a vida…
— Ele não é seu meio-irmão.
Congelei com a revelação. Tentei organizar meus pensamentos,
querendo que aquilo fosse verdade, mas nenhuma explicação coerente me
vinha à cabeça. Sentia-me instável diante de toda a situação.
— Ma-mas… como?
Ele suspirou, desconfortável. Mexeu em algo na gaveta e tirou de lá
uma pasta, que minha mão trêmula segurou.
— Nós deixamos que o casamento acontecesse, Vânia e eu, pois
queríamos manter esse segredo de Mariano. Afinal, eu odiaria magoá-lo.
Porém, há um detalhe do qual Alba nunca soube.
Não me movi para checar os papéis.
— Que detalhe?
— Javier nem sequer tem nosso sangue. Perdi meu filho durante o
parto de Alba. Ela estava muito mal com todas as minhas traições, e eu me
senti culpado. Na época, eu fiz algo que nunca contei a ela.
Encarei-o, em choque.
— O que você fez?
— Eu adotei um garoto.

JAVIER
A porta se abriu e eu me movi até lá, colocando a cabeça para fora.
Tratava-se de uma visita inesperada. Não trocara mais do que três palavras
com Vânia desde que a conheci, mas sabia que Valentina e a mãe tinham
um histórico intenso.
— O que quer aqui? — Ela entrou no apartamento que antes era
meu, e agora pertencia a Mateus, onde eu me escondera nos últimos dias.
Sentou-se no sofá. — E como me encontrou?
— Conversar. — Encarou-me, e eu me sentei à sua frente. — Os
homens da sua família são previsíveis, foi fácil achar seu endereço.
— Você não parece o tipo de mulher que pede civilizadamente para
dialogar com alguém.
Ela riu.
— Tem razão. Faço mais o tipo da sua mãe, que joga uma bomba e
quebra o coração de várias pessoas no processo.
— Não quero saber da sua competição com a minha mãe, Vânia.
Estou com mil e um problemas no momento, pensar nisso não é minha
prioridade.
Arqueou a sobrancelha.
— Nem se for algo que pode mudar a situação? — Tirou uma pasta
da bolsa, jogando-a sobre a mesa de centro. — Tem tudo sobre sua vida aí,
Javier.
— Por que está fazendo isso? E como conseguiu essas informações?
— Porque quando eu ouvi que Valentina iria se casar, precisava
saber o tipo de homem com quem ela estava se envolvendo. Arranjar uma
maneira de impedir o casamento, um segredo de família ou qualquer coisa
do gênero. — Não peguei a pasta. — Mas o que encontrei foi muito melhor.
— Eu duvido muito, já que nos casamos — zombei.
— Não tem a ver com impedir o seu casamento, e sim com a
solução para alguns dos seus problemas, ao menos os relacionados à minha
filha. Isso se estiver disposto a descobrir que as pessoas em quem acreditou
a vida toda sempre mentiram para você. — Pegou a bolsa sobre o sofá e se
levantou. — Pode ficar com isso, não é minha única cópia.
E saiu, tão cheia de si como quando entrou.
Observei a pasta, temendo segurá-la, mas a curiosidade venceu o
medo. Minhas mãos tremiam enquanto averiguava os documentos. Estava
tudo ali: inúmeras fotos de família, de meu pai com uma criança nos braços,
e mais um monte de papéis.
O que atraiu a minha atenção foi algo plastificado, bem conservado.
Li rapidamente a certidão. Meu estômago se revirou e meu rosto esquentou.
Senti uma vontade insana de gritar.
Estava no limite.
Não podia acreditar nisso.
Não.
Não.
Minha vida inteira havia sido uma mentira.
Pulei do sofá, caminhando pela sala em círculos. Não. Não! Aquilo
não era verdade. Eu acordaria deste novo pesadelo.
A porta tornou a se abrir. Virei-me rapidamente, dando de cara com
Mateus.
— Você está bem? — perguntou. Andei em direção aos papéis e
embolei todos eles juntos. — Aconteceu algo?
— Estou — falei, inspirando profundamente. — Preciso conversar
com meu pai.
E realmente precisava muito. Saí do apartamento e segui para o
elevador. Existia uma explicação. Mentira de Alba, de Vânia, de Santiago,
tanto faz! Eu não era filho de outras pessoas.
Bati meu ombro contra algo ao caminhar e senti quando uma mão
segurou meu pulso, me fazendo parar. Abri a boca, querendo gritar por toda
a minha frustração.
— Javier, precisava falar… — começou papai.
— Que porra é essa? — Joguei os papéis em sua direção,
espalhando-os por todos os lados. — Me diga que isso é uma mentira! Me
diga… — o pedido saiu mais como uma súplica ao final.
Santiago baixou os olhos, juntando tudo.
— Quem lhe entregou isto, filho? — Soava arrependido, o que
deixava tudo mais difícil.
— Não importa. Eu quero a verdade.
Ele se levantou, após reunir os documentos com paciência, no hall
do prédio, atraindo alguns poucos olhares à nossa cena.
— Você já tem a verdade, filho.
Eu nunca havia sentido meu coração se partindo, eu nunca sofrera o
suficiente por nada.
Até aquele instante.
— Não acredito.
— No fundo, é algo bom, querido. Impede que você perca a mulher
que ama e…
— Não tem um lado bom! — rugi, em choque. — É doentio. Eu
passei a vida toda acreditando em algo por culpa de vocês. Fiz tudo para
nunca decepcionar a família e, no fim, descubro que não sou nem ao menos
sangue do seu sangue.
— Você sempre vai ser meu filho, Javier. A adoção não muda isso.
Eu o criei, lhe dei meu nome e meu amor. O sangue que corre em suas veias
não altera a nossa história… — Não esperei por seu discurso bem-
intencionado, somente virei de costas e me distanciei. Santiago ainda tentou
gritar: — Fale com sua esposa! Ela está sofrendo. E sei que você também
está. Não deixe nossos erros quebrarem a sua relação.
Não faria nada que ele pedisse.
VALENTINA
Permaneci em choque. Com meus olhos pregados na geladeira do
apartamento, minha mente vagueava para cinco dias atrás, quando Santiago
me contou a verdade. Minha cabeça doía desde a madrugada; meu corpo
cansou devido às noites mal dormidas.
Javier não aparecera em casa. E Santiago não o encontrava. As
coisas estavam um caos, e eu nem mesmo conseguia falar com meu marido
sobre tudo que descobri nesse meio-tempo.
— Você está bem? — Marília indagou, abrindo os pacotes da
comida que pedimos para almoçar. Sorri de lado e balancei a cabeça em
confirmação. — Tem que se alimentar, não pode descuidar agora.
A lembrança me fez descer a mão rapidamente, tocando minha
barriga plana. Como aquilo aconteceu? Passamos muitas noites juntos e
poucas foram desprotegidas; e, nestes casos, eu recorria à pílula do dia
seguinte. Porém, sabe-se que isso não é cem por cento eficaz. Mas tentar
descobrir de que modo engravidei não era meu foco no momento.
— Prometo me cuidar. — Peguei minha parte, levando uma porção
de arroz à boca, voltando a divagar.
Vânia e eu havíamos brigado na última vez que estivemos próximas.
Ela nunca seria a mãe que eu queria, e eu não aceitaria sobras.
Já no primeiro instante em que reapareceu, não se dignou a me
olhar, a falar comigo. Sua briga com Alba era mais importante que o amor
da própria filha.
— Vai ficar tudo bem, você verá. — Mari apertou minha mão por
cima da mesa. — Já decidiu o que fazer agora?
Trilhar um novo caminho parecia difícil, ainda mais com o
desaparecimento de Javier. Eu não fazia ideia do meu futuro.
Tudo que mais desejava era falar com ele. Explicar que poderíamos
ficar juntos para cuidar daquele bebê, mas eu não tinha notícias suas, e isto
me machucava.
— Não sei — sussurrei. — Eu queria tanto falar com Javier. Contar
sobre o filho dele. Isso me sufoca. — Limpei uma lágrima solitária. — Não
sei se devo ir. Não quero ficar. Mas…
— Você quer que o Javier tenha a chance de decidir se será pai da
criança — afirmou corretamente. Aquiesci, revirando a comida. —
Compreensível, querida. É claro que está certa. Crescer sem um pai ou uma
mãe é difícil sim. E todos têm o direito de saber que serão pais.
Eu sorri. Esperaria por ele. Só não podia esperar o resto da vida.
Marília vinha se mostrando uma boa fonte de apoio diante do caos
da minha vida. Mateus também me ajudou muito, sendo o companheiro de
que eu precisava naquela situação. Mas nem mesmo o melhor amigo de
Javier conseguiu me dizer onde ele estava. Desconfiava que soubesse,
contudo, como sempre, demonstrava mais fidelidade ao meu marido do que
a mim.

A campainha tocou. Abri a porta do apartamento, sentindo meu


corpo todo em chamas por medo do resultado do teste de DNA. Santiago
estava parado ali, sorrindo com compaixão.
— Se você não se acalmar, eu não abrirei nada — falou,
acomodando-se no sofá.
Papai não aparecera desde os últimos acontecimentos. Rúbia disse
que não contou a verdade a ele e que nem pretendia, pois isso deveria partir
de mim.
Mas não, eu não queria aproximação com Mariano. Tentar falar com
ele sobre os anos de cão que passei ao seu lado era um problema para outro
dia. Ou outro século. Evitaria destrinchar tanto rancor.
— Tem uma coisa que eu gostaria de saber. — Sentei-me em frente
a Santiago.
— Acho que eu devo contar tudo a você, então pergunte. — Sorriu.
— Duas coisas, na verdade. — Meu rosto ardia de vergonha. —
Mas o mais importante: Mariano não sabia mesmo sobre você e Vânia? E
que eu não era filha legítima dele?
— Alba diz que nunca chegou a falar. Se ele sabia, jamais levou isso
a público. — Caso soubesse, seu desprezo por mim seria, em parte,
justificável, forçando muito a barra. — Está tentando entender a relação de
vocês, né?
Encarei Santiago e encolhi os ombros.
— Meu sangue pode falar uma coisa, senhor Garcia, mas eu cresci
acreditando que era filha de outro homem. — Meus olhos se encheram de
lágrimas. — E Mariano me machucou muito. Adoraria que houvesse um
motivo para isso, por menor que fosse. Mas fico cada vez mais confusa.
Outra coisa: Alba desconhecia que Javier era adotado, certo? Então ela
lutava contra nosso casamento com razão.
— No início, sim. Nunca havia dito à Alba. Ela passou um longo
período tentando engravidar e, quando conseguiu, perdeu o bebê. Foi uma
trajetória difícil. A criança nasceu com vida, mas morreu algumas horas
depois, de parada cardíaca devido a uma má formação no coração.
— Sinto muito. — Meu peito se apertou.
— Eu fiquei desesperado. Como contaria a ela que a criança que
desejou por anos havia partido? — sussurrou, atormentado. — Tudo
aconteceu de repente. E, num instante, me vi adotando um filho.
Substituindo uma criança pela outra.
— Isso levaria meses…
— A adoção de Javier só foi oficializada tempos depois. Usei
muitos de meus contatos para possibilitar tudo sem o conhecimento de
minha esposa. Morávamos no México naquela época, minha família é
mexicana. Não contei à Alba que aquela criança não era a mesma que
gerou.
— Quando ela descobriu? — Meu coração doeu novamente.
— No dia do seu casamento Alba já sabia. Disse que encontrou os
documentos na época da minha mudança. — Engoli em seco. — Alba tinha
os motivos dela para odiar você. Não eram justos, mas tinha.
— Eu meio que entendo. Apesar de doer.
— Agora Javier já sabe sobre as origens dele. Falta você conhecer
as suas. — Estendeu o envelope em minha direção. — Este teste deveria ter
sido feito há muito tempo, quando você ainda estava no ventre da sua mãe.
Mas me acovardei e, hoje, tudo explodiu na minha cara. Entendo que nunca
vou ser um pai para você, da mesma maneira que Javier jamais deixará de
ser meu filho.
Respeitava Santiago por ele sempre ter sido bondoso comigo, a
despeito de seus erros no passado; dentro de mim, inexistia raiva por ele.
Mas dizer que um dia seríamos pai e filha era demais.
Tentei abrir o envelope, e ele teve que terminar, pois minhas mãos
tremiam. Santiago desceu os olhos pela página e parou, ficando em silêncio
por longos minutos.
Não me dei ao trabalho de indagar, esperando pacientemente por sua
reação.
— Positivo.
A palavra não surtiu efeito nenhum. Os últimos dias haviam sido
terríveis. Esse “positivo” era previsível.
— Isso muda tudo, mas acredito que…
— Temos problemas maiores. Não vou fazer disso grande coisa,
Santiago. — Sorri. — Não pretendo tentar virar uma Garcia por meu
sangue, muito menos me transformar em sua filha. Não quero nada disso.
Só preciso encontrar Javier. Tenho muito a falar com ele.
O homem sorriu.
— Eu sei. Mas não consegui achar meu filho, nosso último encontro
foi difícil. De alguma maneira, ele soube da adoção por outra pessoa. —
Apertou minhas mãos. — Não o vejo há tempos, estou começando a me
preocupar. Javier é um homem moldado para dores, ele é forte. Costumava
dizer que seu corpo era de ferro, porque nunca o enxergara desmoronar um
segundo sequer. — As lágrimas surgiram em meus olhos. — Só que toda
força tem seu limite. Se ele não se permitir absorver tudo, vai explodir.
Sim. Conhecia Javier o suficiente para saber que isso era verdade.
Esperava que ele estivesse bem. Precisávamos continuar o que havíamos
começado. Se não fosse por mim, pela criança que crescia em meu ventre.
— Acha que vai conseguir encontrá-lo? Eu tenho mesmo uma coisa
muito importante para falar com ele.
— Farei o possível, querida. — Sorriu. — Sabe que pode contar
comigo para tudo, né?
Assenti. Não forçaríamos laços, no entanto, ele sempre agira com
carinho comigo, inclusive me defendendo de Alba. Poderia me concentrar
no fato de que tive mais um pai ausente ou poderia tentar manter uma
relação saudável com uma pessoa que, na sua essência, era boa. Escolhi a
segunda opção.
— Obrigada.
— Não me agradeça. — Levantou-se e saiu, me deixando sozinha.

A porta da sala se abriu de repente, enquanto eu organizava as


roupas lavadas em uma pilha na bancada da cozinha. Franzi o cenho,
caminhando depressa, porque a única pessoa com total acesso ao
apartamento era Javier. A peça de roupa entre meus dedos caiu no chão no
instante em que o vi parado ali, com as mãos contra a madeira, respirando
fundo.
A camisa preta de gola polo acentuava seus músculos. Ele parecia
bem: as roupas estavam limpas, mas os cabelos precisavam de um corte e
de um pente. Tirando isso, não havia nada de anormal no homem.
— Você está ok?
Demorou a responder, continuando a olhar para a porta.
— Não. — Evitou me encarar.
— Quer conversar?
— Também não.
Estremeci com sua seriedade.
— Eu preciso falar com você, Javier. — Finalmente me fitou. E eu
notei algo que nunca vira em sua expressão: ódio. Uma tempestade prestes
a desabar. — Tem uma…
— Não quero ouvir nada, Valentina. Nada que venha de você.
Meu corpo ficou tenso.
— Por que não quer falar comigo? Não lhe fiz…
— Não me venha com essa. Eu disse que não quero ouvir! — gritou,
e eu pulei para trás, tremendo da cabeça aos pés. Não entendia o que
acontecera. Passou ligeiro por mim. — Preciso que saia do apartamento.
Congelei no lugar.
— Jav…
— Não há nada para falar. Não vou morar sob o mesmo teto que
você — declarou. — Saia. Agora. — Fitou-me uma última vez antes de
caminhar até o quarto, batendo a porta.
A vontade de chorar se aproximava, enchendo meus olhos de água,
mas não me permiti fazer isso.
Por que me aproximaria para perguntar o motivo de sua raiva?
Temia que a resposta doesse ainda mais. Então peguei minhas roupas do
chão e coloquei sobre o sofá. Com a bolsa e as minhas chaves em mãos,
escrevi um bilhete rápido para ele.
Saí antes que algo mais ocorresse.
Não sabia o que tinha dado nele. Mas também não me sujeitaria a
me quebrar de vez por sua causa. Talvez, quando eu voltasse, Javier estaria
mais calmo, e eu conseguiria falar sobre o bebê.
Jamais continuaria naquele apartamento sendo tratada dessa
maneira.

Andar por São Paulo sem um destino pode parecer patético, mas foi
o que fiz. Não tinha aonde ir, e isto estava virando um clichê. Não sentia
vontade de procurar Rúbia, pois carecia de distância de qualquer pessoa da
minha família.
Sentei-me na calçada do prédio onde morava, terminando de tomar
um sorvete de chocolate enquanto analisava minhas opções. Não tinha
muitas, mas se precisasse seguir sozinha, tudo bem.
Não conhecia o homem que me expulsara do apartamento. Pensei
que os poucos dias que passamos casados haviam nos fornecido
informações suficientes, mas estava enganada. Terrivelmente enganada.
— Boa tarde, menina. Melhor entrar, parece que vai vir uma chuva
daquelas — o porteiro disse, sorrindo.
Acatei sua dica e descartei o pote de sorvete na lixeira, caminhando
até o elevador. Apertei o botão e me remexi inquieta à medida que a caixa
de metal se movia.
Seria agora. Eu falaria tudo a ele. De uma vez. Como tirar um
curativo, certo? Só puxar. No fim, eu iria perceber que a dor nem era tanta.
O elevador se abriu e saí, sentindo minhas mãos trêmulas. Enfiei a
chave na fechadura e não precisei destrancar, pois a porta estava
entreaberta.
Adentrei o local, olhando ao redor. Vi algumas malas e escutei vozes
provenientes da cozinha. Um passo de cada vez, me aproximei, em silêncio.
— Você tem certeza disso? Não acho que seja uma boa ideia. — A
voz feminina me fez gelar.
Observei Anna Júlia ao lado de Javier, tocando seu rosto. Um
enjoou subiu à minha garganta quando ela passou a mão levemente nos
lábios do homem.
— Tenho. Combinamos tudo antes. — Inclinou-se, beijando a testa
da mulher. Eles trocaram um sorriso.
Continuei parada, incapaz de me mexer.
Ele não merecia saber. Ele não merecia nada disso.
Dei meia-volta e fugi, deixando para trás a certeza de que Javier
Garcia não valorizaria um filho nosso.
Daquele minuto em diante, seríamos apenas meu bebê e eu. Sempre
estive sozinha, mas, agora, haveria outra pessoa nesta equação. Uma pessoa
que já amava com todas as minhas forças, muito mais do que um dia
poderia amar qualquer homem.
Assim que o vento frio bateu em meu rosto, o estrondo no céu me
levou a pular. A chuva desabou sobre mim, que caminhava na calçada,
passando por fachadas de lojas e prédios sem me importar com o quanto
estava molhada. Sentia-me fortalecida, resistente a mágoas. Nem tive
vontade de chorar.
Além do amor desmedido pelo bebê, um sentimento cruel de
obstinação se avolumava no meu interior, relativo a todos aqueles que
haviam me machucado.
Entrei no primeiro táxi que encontrei, pedindo que me levasse ao
hotel mais próximo. Precisava de um lugar para ficar até definir os
próximos passos. Não correria para os braços de Mariano, nem da minha
madrasta.
A única pessoa que deveria ter o mínimo de interesse pelo que
acontecia acabara de tomar uma decisão. Escolheu não ouvir. Escolheu ferir
quem o amava.
Encarei a aliança em meu dedo e inspirei fundo antes de tirar o
objeto. Abri a janela do carro, pensando no que fazer. Poderia facilmente
descartar o anel, colocando no passado o que vivera ao lado dessa gente,
mas necessitava de qualquer ajuda financeira.
Fora comprada pelo pai do meu bebê. E serviria para sustentá-lo,
enquanto tudo ainda desmoronava sobre mim.
JAVIER
— Pegue. — Anna estendeu o copo de vidro em minha direção,
enquanto eu encarava o nada. — Sabe que o que fez não é justo. Deveria ter
ouvido ela, nem mesmo descobriu o que tinha de tão importante para
resolverem.
— Não quero ver Valentina. Eu sei que ela não tem culpa, mas, ao
mesmo tempo, significa tudo que perdi. — Fechei os olhos, bebendo um
gole generoso do uísque que Anna me serviu. — Além do fato de que…
Calei-me, forçando aquela informação a ficar presa apenas em
minhas ideias. Ainda era muito surreal que Valentina tivesse coragem para
tal ato, mas eu não poderia me dar ao luxo de duvidar.
Ela sempre sofreu na mão do pai adotivo; claramente, ter alguém
como Santiago na sua família serviria para alguma coisa.
— Não acho que tenha algo realmente valioso para me falar.
— Se uma mulher fica cinco dias sem ver o marido, sofrendo com
uma notícia que abalou ambos, e ainda o espera de braços abertos, existe
um motivo, sim. — Bebericou seu café.
Anna me ajudou muito nos últimos dias. Diferente do que todos
pensavam, ela não era a “vaca” que a alta-sociedade supunha. Era apenas
uma mulher solteira, uma mãe sem nenhuma vergonha de correr atrás dos
seus objetivos. Eu conhecia bem nosso círculo social: homens temem
mulheres poderosas. Apavoram-se com a sua obstinação, pois sabem que
são moldadas para tudo e, na realidade, estão muito mais aptas a conquistar
seus sonhos do que esses próprios caras.
— Vamos ficar bem. Eu preciso resolver coisas mais importantes.
— Minha mente estava longe, precisamente na Cidade do México, ou
Ciudad de México, onde me originara. — Acha que é muito difícil
conseguir iniciar uma empresa no México?
Anna franziu o cenho.
— O que diabos está passando na sua cabeça?
Uma risada escapou.
— Preciso ir para lá. Vou pedir demissão da G&F, não posso
continuar nela.
— Você vai abrir mão disso? Javier, a empresa é sua vida! —
exclamou, em choque. — Sempre fez tudo por aquele lugar. É praticamente
o ar que você respira.
— Eu sei, mas não é minha, Anna. Nada naquele lugar me pertence.
— Silenciei por uns segundos. — Por incrível que pareça, agora entendo o
que Valentina me disse em nossa lua de mel. Que um dia eu perceberia que
o topo do meu mundo não foi construído por mim. E que isso não me faria
feliz. — Ri, sarcástico. — Irônico, agora que ela é a dona de tudo.
— E você acha que a G&F será importante para ela?
Calei-me ante a indagação de Anna.
Sim, aquela mudança brusca em nosso destino havia sido muito
importante para Valentina.
— Não sei, só preciso ir em busca daquilo que me atormenta.
Encontrar aqueles que têm meu sangue.
— Isso o fará feliz, Javier? Eu não vou ajudar você a se machucar.
Encarei Anna, tentando conter todas as mentiras prontas para saltar
dos meus lábios.
— Sim, me fará feliz. — Mentira. Eu gostaria de saber de onde vim,
mas meu mundo perfeito ruíra, logo, conhecer minhas origens não
consertaria meu coração quebrado.
Sentia uma tempestade de sentimentos a tomar conta de mim.
O celular tocou, e vi o nome de Alba na tela. Já era a décima
chamada só naquele dia, todas elas recusadas. Estava no apartamento de
Anna, pois minha “mãe” não me encontraria ali. Não queria nenhuma
ligação com minha antiga família.
Minha vida se tornaria bem diferente dos luxos que os Garcias me
trouxeram, mas, desta maneira, eu aprenderia sobre o mundo real.

VALENTINA
— Ei, bom dia. — A voz de Marília me fez virar. Terminava de
lavar a louça do café da manhã que sua mãe havia preparado. Sorri,
deixando a panela sobre o escorredor, e enxuguei minhas mãos. — Falei
com aquele amigo que mencionei, ele está precisando de alguém para
trabalhar na nova filial.
— Sério?! — Meus olhos se arregalaram. Animava-me com
qualquer notícia, afinal, estando grávida, conseguir um emprego seria
difícil. — Mas você contou a…
— Sim. Eu contei. José é um homem muito gente boa. Ele
concordou em fazer uma entrevista e tentar encontrar a melhor maneira de
trabalharem juntos, caso você seja ideal para a vaga. — O alívio correu em
meu corpo. — Não se preocupe, ele é respeitoso, tem uma esposa
maravilhosa e sempre me tratou como uma filha.
— Obrigada, sério, muito obrigada. Não tem ideia do quanto essa
oportunidade significa para mim — agradeci. Vinha fazendo isso desde que
ela me abrigara na noite anterior.
— Não se preocupe. Somos amigas. — Balançou os ombros. —
Mas não me deixou completar. O serviço é fora do estado, Val.
— O quão fora? — Tremi. As únicas vezes que saí do estado foram
na viagem a Minas Gerais e na minha lua de mel. Em ambas me senti em
um mundo paralelo.
— Curitiba. Eles vão criar uma filial e precisam de alguém de
confiança. A família de José vai passar algum tempo lá, já que a filha se
mudou para a cidade, e um pai quer sempre estar perto dos filhos… —
Parou de falar ao se dar conta do fora que dera.
— Eu aceito qualquer coisa. — Ignorei a parte sobre pais e filhos;
não fora mal-intencionada.
— Mas, Val, Curitiba é longe, você vai…
— …ficar o mais longe possível dessas pessoas, Mari. Eu quero
isso. Um recomeço será bom. — Fechei os olhos. — Os próximos anos
envolverão muita luta, afinal, estarei com um bebê em um lugar
desconhecido, mas eu preciso tentar. Não posso me acomodar aqui e correr
o risco de ter essa gente por perto. Eles…
— …só servem para magoar você. Eu sei. — Sorriu, limpando
minhas lágrimas. — E entendo, claro. Quero que fique bem; você é quase
como uma irmã. Ajudarei no que for preciso.
Respirei fundo.
Se isso desse mesmo certo, eu começaria uma vida do zero já com
uma criança a caminho. Em algum lugar do meu subconsciente, havia uma
parte negativa rindo e debochando da inviabilidade do meu plano, tendo
duas bocas para alimentar, mas…
Eu não podia desistir.
Desejei ser independente ao longo da minha vida inteira.
Esse era o momento ideal para provar que eu seria capaz.
VÂNIA
De volta ao passado
Observei o nada, sentindo um aperto em meu peito. Não deveria ter
feito aquilo, mas agora não havia mais como voltar atrás, não tinha como
explicar a Mariano que o bebê em meu ventre não era dele. Por mais que
não fosse uma traição, pois não estávamos juntos quando me deitei com
outro, ainda assim colocaria tudo a perder.
Ele acabaria com a parceria da G&F sem pensar duas vezes — uma
decisão ruim, quase desastrosa.
— Você… — A voz rancorosa de Alba me fez levantar a cabeça, a
encarando estática na porta do quarto. Eu não a culpava por me odiar, mas
também não aceitaria que ela me destratasse.
— Não vim brigar com você, Alba. — Levantei-me, puxando a
blusa levemente para baixo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Mas com certeza deve querer falar com meu marido. — Neguei,
apontando em direção ao elevador que se abriu e revelou Mariano. — O
que vocês fazem aqui?
Estávamos no prédio onde seria a sede da empresa que Mariano e
Santiago montavam juntos. Alba, como sempre, não escondeu a raiva que
sentia de mim. Eu morria de medo de que percebesse que eu esperava um
bebê, associando-o ao seu marido.
Alba e Santiago eram casados quando cometi aquele erro, mas eu só
me envolvi com Mariano algumas semanas mais tarde. Nunca pensei que
acabaria nesta situação estranha.
— Ei, Alba, boa tarde — meu namorado disse, apertando a mão da
mulher. — Não ficaram sabendo? Santiago e eu acabamos de fechar um
grande negócio. Agora sim esta empresa vai adiante.
Aquela foi a confirmação de que eu não poderia contar a verdade.
Mariano não merecia perder o empreendimento dos seus sonhos.
Alba não merecia ter o casamento arruinado.
Javier não merecia viver em uma família destruída.
E eu era o pior tipo de mulher. Embora não minimizasse a culpa de
Santiago, lidaria sozinha com as consequências dos meus erros.

Horas mais tarde, entramos no apartamento que dividíamos havia


mais de dois meses. Eu finalizava meu terceiro trimestre de gravidez, e a
barriga começava a apontar. Claramente não daria mais para esconder.
Considerei solucionar aquilo em algum outro país, contudo, já amava a
criança dentro de mim.
Mariano falava algo sobre a empresa, e eu o encarei, sorrindo pela
maneira apaixonada como enunciava cada palavra. Era um homem muito
bonito, sem dúvida nenhuma: os cabelos loiros caindo levemente na testa,
alto, forte e de olhos claros. Com toda a certeza atraía atenção por onde
passava, e não foi diferente comigo.
— Ei — chamei-o, e ele sorriu. Estendeu um copo com bebida para
mim, o qual neguei. — Não posso.
Mariano arqueou a sobrancelha.
— Mas é seu preferido.
Sorri.
— Nem assim.
Parou alguns minutos, pensando no que eu havia dito, e se sentou ao
meu lado, deixando a bebida de canto.
— O que está acontecendo? — Apertava a minha coxa coberta.
Deslizei até ele, entrelaçando nossos dedos e pousando-os suavemente
sobre o meu ventre.
— Eu estou grávida. — Arregalou os olhos, em choque. — Não sei
se entra nos seus planos, mas…
— Vamos ter um filho, Vânia! — praticamente gritou, sorrindo de
orelha a orelha . Nem questionou o fato de estarmos há pouco tempo juntos.
Abaixou-se e sorriu, tão lindo…
— Pode ser uma filha também — falei, tocando seus cabelos.
Mariano negou prontamente.
— Não, será um menino. — Beijou meu rosto e alisou minha
barriga. — Nosso herdeiro tem que ser um menino, Vânia.
Sorri e aceitei que as coisas acabariam bem. À época, não cogitaria
problematizar uma frase daquelas.
Mariano seria um bom pai. Santiago nunca precisaria saber e, deste
jeito, Alba e Javier não sofreriam. Preferi manter o segredo para mim,
afinal, já havia errado tanto…
— Papai vai ficar em êxtase com a notícia. Ele sempre disse:
“Mariano, me providencie um neto, você precisa de herdeiros” — imitou a
voz sisuda do pai.
Beijei seus lábios.
— Trabalhamos bem nisso — sussurrei, mentirosa.
Por Deus, eu iria queimar no Inferno.
JAVIER
Presente
Não havia sido uma decisão fácil deixar tudo para trás, decidir que
precisava colocar um fim no que havia acontecido com Valentina. Na
verdade, ela simplesmente sumiu da minha vida ao me ver com Anna Júlia
na cozinha. O plano fora bem-sucedido, e eu não me sentia nem um pouco
em paz.
— Você vai morrer de remorso — a morena disse, colocando um
pouco do vinho em minha taça.
Estávamos no Rio de Janeiro havia dois dias, trabalhando juntos em
um novo projeto. Tinha cerca de dois meses desde que vira Valentina pela
última vez; ainda me perguntava se acertara naquela decisão.
— Não vou. — Beberiquei o vinho, observando a situação ao meu
redor. Abdicar o cargo de presidente na empresa foi o ponto alto da minha
iniciativa. Não me sentia mais qualificado para ser o CEO da G&F. — Acha
que vamos conseguir agilizar os trâmites legais?
Como um bom empreendedor, eu não parava um instante. Fiz aquilo
pelo que Valentina sempre me criticou: passei a caminhar com minhas
próprias pernas. Abandonei qualquer ligação à empresa de meus pais
adotivos e estava em processo de criar meu próprio império.
Com a ajuda de Anna Júlia, isso seria fácil.
Porém, nem tudo era simples. Trabalhar parecia a única saída para o
que vivenciara nos últimos meses. Os pensamentos. As investigações. Isso
me deixava um caco.
Não lidava bem com emoções.
— Claro, falei com Fabiano, e ele disse que não seria problema
nenhum. — Ela checou o horário no relógio bonito em seu pulso. —
Preciso ir. Prometi falar com Henrique antes dele adormecer, Ivan ficou
cuidando dele.
Assenti. Anna se levantou e saiu do bar do hotel.
Recostei-me à cadeira confortável e notei uma novela brasileira
rodando na televisão. A protagonista era negra e tinha os cabelos cacheados
presos no alto da cabeça. Instantaneamente, me lembrei dela. Procurei a
força que tive para afastá-la, mas não a encontrei.
Amar alguém me tornava fraco. Naquele momento, precisava me
transformar na melhor versão de mim mesmo.
A ideia de voltar para o ponto anterior me atormentava. Não
conseguia pensar em nada do meu mundo passado, do qual tanto sentia
falta, além de penar por Valentina.
A verdade brilhava perante os meus olhos, arrebentando tudo dentro
de mim. Não queria ser capacho de ninguém, por mais que nenhuma outra
mulher tivesse mexido comigo como ela fez.
Balancei a cabeça para afastar tais pensamentos.
Decidi ir dormir e vi um grupo de mulheres me fitando. Não estava
com muita paciência para isso, então apenas rumei ao elevador, que subiu
rapidamente ao meu andar. Saindo dali, entrei no quarto e descartei minhas
roupas dentro da mala.
Na próxima manhã, pegaria um voo para fora do país, com o único
objetivo de me tornar o que desejava. Ficar neste local só me traria más
memórias das minhas origens. Alba e Santiago, eventualmente, se
tornariam uma recordação antiga. Assim como Valentina e os dois meses
que passei ao seu lado.
Nunca é tarde para ser uma pessoa melhor.
Nunca é tarde para alcançar seus sonhos.
Nunca é tarde para se redimir.
JAVIER
Quatro anos depois
O mundo não era meu. Com muita luta, aprendi que as pessoas não
poderiam ser dominadas e que o que vai sempre volta. Tornei-me o tipo de
homem que não enxergava felicidade nas coisas que vinham facilmente,
atormentado pelas minhas próprias ações.
— Ei — Anna Júlia me chamou, abrindo a porta do quarto enquanto
eu terminava de me vestir. Minha parceira de negócios parou a alguns
passos de mim, me encarando com intensidade. — Hoje temos a reunião
com os fornecedores. — Eu sorri enviesado. — Acho que vai ser incrível.
Anna sempre achava que tudo seria incrível. Nós nos tornamos bons
amigos com o passar dos anos. Quando as coisas saíram do controle, foi ela
quem me ajudou.
— Obrigado, Anna. Será que é uma boa ideia fechar negócio com a
nova filial? Não sei se o Brasil é o local correto para colocar um dos hotéis.
— Apertei a gravata em meu pescoço; no espelho, vi refletida a imagem da
aliança grossa em meu dedo. Nunca consegui retirar aquilo. Além do fato
de que sempre me salvava de situações chatas, a aliança era a marca de que
um dia Valentina existiu. De que um dia cheguei perto de amar alguém.
— O Brasil é enorme, vamos enfrentar uma batalha árdua para
manter tantas filiais. — A rede Bella Mia ia um pouco mais a fundo do que
um hotel padrão; trazia um certo ar de cassino com jogos de azar e uma
liberdade extra para quem queria se divertir.
Foi muito complicado montar todo esse império, afinal, não se
construía um empreendimento imenso do nada. Mas havíamos conseguido,
e eu devia isso à minha sócia. Anna não morava comigo na cidade, ela
ainda residia no Brasil e levava uma boa vida no país, passando sempre
entre quinze dias lá e quinze no México. O trabalho se intensificava quando
ela partia.
Escolhera a Cidade do México por causa da minha dupla cidadania,
já que parte da família do meu pai adotivo era de lá. Também moramos ali
por um tempo antes de nos mudarmos para o Brasil. Inclusive, com a
descoberta da paternidade, veio também a de que nasci no México.
— Mas repito: será uma parceria incrível. E você nem vai precisar ir
ao Brasil. — Ela encostou a cabeça no meu ombro, entrelaçando nossos
dedos. Sorri, ciente do quanto confiava em Anna. Não falávamos sobre
sentimentos; raras foram as vezes, mas o tempo fez a gente se conhecer. —
Acho que é o momento de tirá-la. — Segurou meu dedo, brincando com a
aliança.
— Ela me livra de muitas coisas — falei, me afastando, e terminei
de vestir meu paletó preto. Odiava outras cores.
— Você sempre diz que somos casados, Javier. Isso não é legal. —
Bateu o pé no chão, fazendo os cabelos escuros balançarem com seu
gingado.
Eu ri.
— É claro que não é. Mas me ajuda.
— Você sabe quantos clientes maravilhosos eu perdi em minha
cama conta por causa disso? — rebateu, me encarando com uma expressão
que evidenciava sua mentira.
— Um monte. Desculpe atrapalhar sua farra — brinquei.
Eu nunca confessaria que não tirava a aliança devido às lembranças.
Porém, sabia que uma hora teria que deixar Valentina no passado.
Mas não naquele dia.

Bella Mia era um dos locais mais populares dentro da cidade. Havia
uma filial em Las Vegas, e pensávamos em abrir uma com trabalhos
reduzidos no Brasil, já que lá o sistema de jogos de azar era proibido.
Foram quatro anos para montar o que tínhamos hoje; a fortuna de Anna deu
o pontapé inicial, já que eu não levei nada da empresa de Santiago.
Passei os dois primeiros anos trabalhando apenas para pagar, com a
minha parte dos lucros, o que ela gastou de investimento. Já os dois últimos
serviram para expandir a empresa, pois, segundo ela, eu tinha um olho
melhor para negócios. Uma bobagem: Anna era mais talentosa do que eu.
E eu finalmente entendi o que Valentina queria dizer ao gritar
comigo para que eu conquistasse as coisas por mérito próprio. Embora,
claro, eu reconhecesse que, nem assim, comecei exatamente do zero:
contava com o privilégio de conhecer uma pessoa competente e com capital
suficiente para dar início ao projeto, oportunidade que um sujeito comum
não teria.
Sorri e dobrei pelo corredor, caminhando em direção ao elevador
privativo que me levava à sala da presidência. Não éramos apenas um
cassino, abrigávamos ali um hotel também, já que a frequência dos
convidados poderia ser intensificada com a junção das duas funções.
Alinhei meu paletó e meu telefone tocou. Peguei-o, vendo o número
de abuela na tela do aparelho. Eu a encontrara havia cerca de dois anos.
Descobrir que não era filho de Santiago e Alba me destruiu. Precisava
entender o porquê de uma pessoa entregar seu bebê a alguém sem sentir o
menor remorso.
Por fim, não achei meus pais biológicos — segundo Guadalupe, eles
tinham morrido há muito tempo —, mas sim minha abuela, com quem criei
um laço indescritível.
— Abuela — falei, usando o famigerado espanhol que ela tanto
amava.
Sua risada alegre preencheu meu coração.
— Quando virá me ver, ninõ? — perguntou, enrolando-se em um
portunhol.
— Em breve. — Sorri. Foi preciso um exame de DNA para
acreditar que era mesmo parte daquela família. Considerava Guadalupe
uma mulher incrível; eu não perderia a chance de me aproximar dela.
Tornara-me uma pessoa diferente. Aprendi com muita dor que meu
orgulho valia bem menos que a honra.
— Você sempre fala isso, Jav… — ela continuou monologando tão
rapidamente que me senti tonto.
Nunca mais conversei com Alba ou Santiago, pois não acreditava
que eles me deixaram casar com Valentina, a filha verdadeira do meu dito
pai, além de me levarem a crer que cometera um pecado.
Não, eu não seguia nenhuma religião específica; referia-me a pecar
em termos morais — não é preciso uma crença espiritual para considerar
incesto algo absurdo.
Eu havia me perdido no meio do caminho.
— Estou no trabalho, abuela. Passo aí no jantar. Não se preocupe
em preparar algo, eu mesmo levo a comida. — Bufou, contrariada, pois
odiava qualquer refeição que não fosse feita por ela. — Amo você.
Pela primeira vez na vida, tive coragem de dizer que amava alguém.
Finalizei a chamada, e o elevador se abriu, revelando o corredor
com um extenso carpete preto e portas com detalhes dourados, cada uma
ostentando placas identificando o objetivo das salas.
Aquele era o meu mundo agora. E nada sairia do controle. Nada me
obrigaria a abrir mão da estabilidade obtida a duras penas.

VALENTINA
— Acho que você deveria aceitar — Marília falou, sorrindo,
enquanto remexia a panela no fogão.
Suspirei, encostando a cabeça contra a almofada em formato de
coração e sufocando um gritinho confuso. Não, pelo amor de Deus, não
poderia me envolver com alguém enquanto estivesse casada com outra
pessoa.
Voltara a São Paulo pela primeira vez em quatro anos. A primeira
pessoa com quem tive o prazer de falar foi Marília. E a única, na verdade,
pois não queria ver ninguém da minha antiga vida.
Nem aceitar um convite para sair. Muito menos do vizinho
paquerador de uma amiga.
— Não posso. Ainda sou casada, sabe disso. — Nunca tive coragem
de enviar o pedido de divórcio a Javier ou solicitar uma anulação do
casamento, pois seja lá onde ele estivesse, não queria atrair sua atenção.
Tudo andava perfeito desde que fui embora e nada poderia me parar. —
Mas não importa, vou viajar este final de semana, não tenho como me
relacionar com uma pessoa de tão longe.
Ela me encarou, arqueando a sobrancelha.
— Aonde vai? Pensei que ficaria mais um tempo.
Chegara na cidade havia uma semana, mas tive que cortar minha
visita pela metade com a ligação do meu chefe.
— O senhor Gonçalves pediu para eu ir com ele a uma viagem de
trabalho. — Sorri, me aproximando da mesa e levando uma uva aos meus
lábios.
Muita coisa aconteceu nesse ínterim. Agora, tinha vinte e nove anos
e um filho de três anos e três meses, a luz dos meus olhos e uma memória
constante de Javier. Ele não me deixava esquecer meu ex-marido.
— Ah, que incrível. Você alcançou tudo o que desejava.
O sorriso em meu rosto ficou ainda maior. Como mãe solteira, foi
difícil subir na vida; tive que abrir mão de inúmeros momentos com o meu
filho apenas para dar o melhor a ele.
Logo depois do abandono de Javier, Marília me ajudou, me
indicando a um dos seus clientes do Rio de Janeiro. Senhor Gonçalves foi
um anjo, me acolhendo grávida em sua empresa e não me deixando faltar
nada. Eu o considerava o pai que nunca tive.
Usei os primeiros meses de gravidez para entrar em um curso à
distância de Administração, o qual concluí no final do ano passado. A essa
altura, eu não era mais uma assistente, já fora promovida à administradora.
O cartão que Javier me entregou no início do casamento — como se
jogar dinheiro em tudo resolvesse qualquer problema — foi usado
unicamente para suprir as necessidades de meu filho, afinal, eu não fizera
um bebê sozinha. Realizei um saque considerável apenas uma vez e nunca
mais mexi naquela conta.
— Eu sei, e devo tudo isso a você.
Minha amiga sorriu. Em seguida, Júlio, marido de Marília, entrou
pela porta da sala, nos dando um boa-noite e beijando os lábios da esposa.
A babá eletrônica me mostrou Martin se sentando na cama. Pulei,
pronta para impedir que ele caísse novamente no chão. Estava cada vez
maior e mais impulsivo.
— Qual será a guerra desta vez? — brinquei, correndo até o quarto.
Vi meu pequeno sentado em meio a todos os travesseiros usados
como proteção. Ele tinha duas lágrimas descendo pela face branquinha
como a do pai. Os cabelos escuros e levemente cacheados se espetavam
para todos os lados, e um bico enorme de birra se formava em seu rosto.
Não havia dúvida, era idêntico a Javier. Até mesmo no
temperamento.
— Cadê meu bebê? — indaguei, pegando a mamadeira feita há
alguns minutos e me aproximando. Catei brinquedos e coloquei à sua
frente, beijando o topo da cabeça que ainda mantinha o cheirinho de bebê.
Ele se agarrou a mim, chamando por meu nome. Martin era a minha
vida. Dei tudo de mim por ele.
— Oi, meu amor. — Sentei-o em meu colo. — Pegue o leitinho. —
Deslizei o bico em seus lábios, e ele logo agarrou a mamadeira, esfomeado.
Nada lhe faltava. Nem mesmo um pai. Ou uma família. Meus
amigos, meu patrão e as demais pessoas que me apoiaram se transformaram
em nossa família.
Finalmente entendi que família não se limita apenas àqueles que têm
nosso sangue, mas sim a quem nos auxilia quando nada parece certo,
quando tudo está desmoronando.
Martin tinha os olhos castanho-escuros, iguais aos de Javier, algo
tão massacrante que me sufocava. Jamais pedi o divórcio pois teria de
enfrentar o passado, e se ele descobrisse nosso filho, todo meu esforço
estaria perdido.
Meu garoto terminou de mamar, se arrastando sobre a cama para
pegar a chupeta jogada do outro lado. Enfiou entre os lábios e a sugou, me
encarando.
Eu odiava o objeto. E ele era tão afrontoso que sempre o colocava
na boca com aquela expressão de quem me desafiava a contrariá-lo.
Sorri.
— Vamos viajar, meu amor — sussurrei, beijando sua bochecha.
— Já?
— Sim, com o vovô José. — Eu não levava meu filho para viagens
de trabalho dentro do Brasil, mas como sairíamos do país e passaríamos
algumas semanas lá, seria impossível deixá-lo.
Não teria tempo para estar com ele a todo momento, então chamei
também nossa babá, que aceitou nos acompanhar.
— Gosto do vovô. Cadê a Lili? — Curioso, procurava a mulher. Ela
ficava com ele durante o dia, e Martin a adorava.
— Lili está em casa, lembra? Mas ela virá em breve. — Beijei sua
bochecha antes de tirá-lo da cama para um banho.
Trabalhava em uma empresa que importava bebidas. Estávamos
fechando uma grande parceria com uma rede de cassinos estrangeira. Eu
não poderia perder aquela oportunidade; o senhor Gonçalves precisava que
eu desse meu melhor nessa viagem.
E seria isso que faria.
JAVIER
Abuela Guadalupe era uma senhora de quase oitenta anos, com os
cabelos presos em um coque apertado e esbranquiçado, devido à idade. Ela
carregava uma bengala de um lado para o outro e nunca deixava de
perguntar sobre a aliança em meu dedo. Então naquele dia em particular,
abandonei a aliança, uma péssima decisão.
Ela estava com visitas. E não era uma visita qualquer, era uma
mulher.
No instante em que Guadalupe bateu os olhos em meu dedo
desprovido do anel, assumiu que algo mudou. E isso deu a ela a brilhante
ideia de começar a me indicar como suposto homem disponível a qualquer
tipo de relacionamento.
— Querido, essa é a menina que tanto falei que me ajudava — disse,
quando a garota reapareceu na sala segurando uma bandeja com café. Ela
não deveria ter mais do que vinte e cinco anos e era muito bonita, sem
dúvida.
— Ah, sim — murmurei, sorrindo levemente enquanto pegava a
xícara que a mulher estendeu em minha direção. Olhei o líquido e fiz uma
careta interna, pois me recusava a tomar café. Era uma das pequenas coisas
que evitava para não pensar em Valentina. Estranhamente, ela estava em
tudo, mesmo a quilômetros de distância.
— Obrigado. Irá jantar conosco? — perguntei.
— Sim, sim. — Ela era claramente inexperiente, pois corou de
maneira automática, o que me fez rir de leve.
Pedi comida para ser entregue na casa de minha avó, mas talvez
fosse uma boa ideia inventar uma desculpa para ir embora mais rápido. Não
queria que nenhuma das duas pensasse que estava aberto a qualquer
relação, mas também não gostaria de soar grosseiro. Na minha versão atual,
não almejava parecer o Deus do mundo, e sim ser um homem com meu
dinheiro, minha profissão e pessoas boas ao meu lado.
O antigo Javier era massacrado pelo próprio ego. Só via a fortuna e
o sucesso. Assim, acabei sem nada, inclusive sem minha família, por
ignorar nossos problemas e focar em aparentar perfeição perante a alta-
sociedade.
Meu celular tocou e pedi licença, atendendo a ligação de Anna.
— Ei. Cadê você?
— Estou com Guadalupe.
— Oras, Javier, você me prometeu! — rugiu, e eu franzi o cenho.
— Prometi o quê?
— Que viria ao evento comigo. Sabe como eu não suporto os
Sanchez, e que eles adoram você.
Sorri. A família Sanchez era uma das mais influentes dentro da
Cidade do México. O patriarca e seus filhos frequentavam fielmente nossos
hotéis. E era verdade, eles me amavam.
— Estou a caminho. Sinto muito, acabei esquecendo. — Eu me
despedi de Anna e voltei para dentro de casa. — Abuela, preciso ir. — A
senhora me olhou assustada. — Prometi à Anna que a acompanharia a um
evento. Ela acabou de ligar me xingando em dez idiomas — exagerei,
vendo-a suspirar.
— Vá cuidar da menina Anna. — Aproximou-se, segurando meu
rosto com determinação. — Mas não pense que vai fugir de mim, garoto.
Quero saber o motivo daquilo ter sumido do seu dedo. — Referiu-se à
aliança. — E se está tudo bem com esse coração.
Tocou meu peito com carinho.
Sorri.
Mal sabia ela que, havia muito tempo, nada estava bem dentro de
mim.
Mas essa porta não poderia ser aberta; uma vez feito isso, não teria
volta.

As festas dos Sanchez eram sempre um verdadeiro evento. Digno de


aparições de atrizes famosas e outras pessoas influentes, usualmente
rendendo algum investimento grande.
— Tenho uma notícia bombástica. — Anna me alcançou assim que
pisei na entrada. Usava um vestido vermelho que abraçava suas curvas e,
com toda a certeza, a cor caía como uma luva à mulher magra. Já os cabelos
escuros estavam soltos em pequenos cachos, deixando-a ainda mais bela.
Os lábios vermelho-sangue se destacavam no rosto bem maquiado,
conferindo-lhe um charme irresistível.
— Sim? — indaguei, enlaçando seu braço ao meu enquanto
caminhávamos juntos para dentro, atraindo alguns olhares curiosos.
— José Gonçalves veio hoje. Adiantou sua viagem — sussurrou.
Nós nos dirigíamos à mesa onde se sentavam alguns empresários amigos.
— Ele disse que está ansioso para conhecê-lo. — Indicou um homem
parado no bar.
Causar boa impressão era essencial.
— Já falou com ele?
— Sim. Muito simpático, como quase todos os brasileiros.
Ri, cético quanto à simpatia dos brasileiros.
Alcançamos o tal do José e, assim que paramos à sua frente, o
homem me encarou.
— Javier Garcia? — inquiriu, sorrindo.
— Eu mesmo. O senhor deve ser o famoso José? — Estendi a mão
para cumprimentá-lo.
— Famoso não sei, mas sou eu mesmo — brincou, dando tapinhas
em minhas costas.
Pedi uma bebida ao pessoal do bar e deixei que Anna se sentasse na
banqueta ao lado do homem. Pousei a mão suavemente na cintura da
morena.
A aliança voltara ao meu dedo porque, em algum momento,
provavelmente precisaria dizer que era casado.
— Você e sua esposa formam um casal lindo, minha menina vai
adorar trabalhar com vocês. — Ergui a sobrancelha. — Minha filha chegará
no fim de semana, vamos trabalhar juntos. Ela é administradora na empresa
e tem uma mente genial.
Sorri em resposta.
— Estou curioso para conhecer sua equipe, senhor. Ouvi falar
maravilhas da sua empresa.
— E eu da sua. Não consegui me hospedar no Bella Mia quando
cheguei, já estava lotado. Mas espero que antes da viagem de volta tenha a
chance de aproveitar as maravilhas do lugar. Dizem que é incrível.
E realmente era.
— Vou solucionar isso neste momento, senhor — Anna se
prontificou, levantando e caminhando pelo salão logo depois.
— O que ela irá fazer? — José franziu o cenho.
— Certificar-se de que vocês tenham a melhor estadia da Cidade do
México. — Sorri, brindando com o homem, que parecia satisfeito.
Com toda a minha experiência profissional, sabia que os clientes
gostavam de serem tratados de maneira única.

VALENTINA
— E José foi mais cedo? — Marília indagou.
Meu chefe estivera ali na noite anterior para avisar que iria antes à
Cidade do México.
— Sim, levou a esposa para passar alguns dias com ela. — Sorri,
estendendo a colherzinha com algumas frutas para Martin, que a abocanhou
rapidamente. Meu filho, graças a Deus, não tinha tantos problemas para se
alimentar; comia de tudo.
— Ah, que fofo. — Pousou a cabeça sobre o balcão. — O México é
lindo, fui para lá com Júlio nas férias. Adorei.
Estava ansiosa para conhecer meu primeiro destino internacional.
— A babá de Martin aprontou tudo para a viagem. Sairemos no
sábado, bem cedo. — Ela assentiu. — Acha que devo comprar algumas
roupinhas de frio para Martin? Talvez não esteja levando o suficiente.
Meu filho balançou uma boneca em sua mão, derrubando alguns
carrinhos no chão. A mesa de Marília se encontrava abarrotada de
brinquedos, pois sem isso ele estaria rodando pela casa comigo em seu
calcanhar tentando o alimentar. Os carrinhos e uma boneca Barbie eram
meu segredo para deixá-lo quieto.
A Barbie fora comprada em uma loja em Curitiba, quando ele se
apaixonou pelo brinquedo; nem me preocupei em contrariá-lo. Primeiro,
porque era apenas um objeto qualquer. E, em segundo lugar, Martin tinha
sempre uma expressão de quem explodiria a qualquer momento.
Meu Deus, herdou direitinho o temperamento do pai.
— E essa Barbie, hein, Martin? — Marília pegou a boneca,
brincando com os cabelos dela, e ele fez um bico enorme.
— Barbie. — Estendeu a mão, pedindo a boneca de volta. Minha
amiga devolveu, sorrindo. — Minha Barbie, tia Mari. Não pode pegar.
— Como isso aconteceu?
— Ele simplesmente escolheu. Sabe como ele é, às vezes eu tenho
medo — trocei, encolhendo os ombros. — Além do mais, é só um
brinquedo. — Mexi nos cabelos do meu menino.
— Eu sei, mas tem noção de que se Alba visse o filho de Javier com
uma dessas ela surtaria, né? — Riu.
Nunca pensava nos Garcias ao educar meu garoto. Ele seria
diferente.
— Alba foi criada em um ambiente machista e, com o seu filho,
seguiu exatamente o que aprendeu. Mas não é essa a educação que quero
para Martin. — Beijei a bochecha da minha criança. — Ele vai aprender
que uma mulher nunca está abaixo de um homem. Que nunca deve ser
desvalorizada ou humilhada.
Encarou-me, sorrindo.
— Admiro sua força. Você é o máximo.
Senti-me agradecida. Por mais que diariamente eu tentasse me
lembrar da minha própria força, alguns momentos ainda eram difíceis. Mas
depois de tudo que passei, depois de todos os monstros que enfrentei, por
mim, por meu filho, sabia que jamais deveria me subestimar.
Coloquei Martin no berço, depois de deixá-lo brincar o suficiente
para se cansar, e me deitei na cama, encarando o teto. Nunca voltei a falar
com Mariano, Santiago, Rúbia e minha mãe. Apaguei-os da minha vida de
uma maneira que nem mesmo eu conseguia explicar.
Não criara redes sociais e me mantinha em anonimato. Se um dia
eles me encontrassem, nada de bom viria disso.
Perguntava-me como andava Javier, se estava contente com sua
vida. Eu me considerava feliz com a minha. Foi complicado enfrentar meus
sentimentos por ele, mas necessário para concretizar meu desejo de me
tornar independente. No fim, a forma como me quebrou me fez crescer.
Afastei esses pensamentos e me virei, desligando o abajur. Afofei o
travesseiro, confortável à medida que meus olhos se fechavam lentamente,
numa verdadeira sensação de paz.

Acordei duas vezes durante a madrugada por causa de Martin —


algo tão normal que seria estranho se não acontecesse. No momento, o
observava correr na grama do parque a algumas quadras do apartamento de
Marília.
Eram apenas dez da manhã, e o clima estava fresco em São Paulo.
Aproveitei para sair de casa pois Martin sentia falta da rotina em Curitiba,
onde sempre passeava durante o dia.
— Ele é lindo. — A voz masculina me congelou no lugar. Eu não
precisei me virar para saber de quem se tratava. — A cara de Javier.
Fitei Mateus em desaprovação. Odiava a lembrança constante de
que Martin era a cópia do pai.
— O que você quer? Como me encontrou?
Suspirou e se sentou ao meu lado.
— Foi o acaso. Eu vim trazer Ashley ao parque. — Apontou para a
garotinha pequena correndo pela grama. Espantei-me ao focar nos traços da
loirinha. — Sim, é de Rachel. Nossa, na verdade.
Engoli em seco, com mil e uma perguntas passando na cabeça.
— Foi uma noite apenas. Rendeu isso. — Riu, indicando a filha. —
E quando você retornou para São Paulo?
Fechei os olhos, tremendo. Eu viajaria dentro de alguns dias, mas
não poderia ficar mais um segundo na cidade com alguém da minha antiga
vida sabendo da minha chegada.
— Só vim ver uns amigos. Vou embora ainda hoje — menti.
— Você e Javier continuam juntos? — Mirou minha mão,
procurando pela aliança.
Encarei o homem, confusa. Mateus parecia diferente, mais forte,
mais velho; diria até mais maduro.
— É claro que não. Um casamento arranjado não duraria quatro
anos inteiros. — Revirei os olhos.
— Pensei que as coisas houvessem mudado.
— Da mesma maneira que mudaram para você e Rachel.
— Não fiz por…
— Não me deve explicação, Mateus — rebati, cansada. — Fico feliz
por vocês. E sinto muito por ter fugido sem explicação. Por favor, diga isso
à Rachel. Eu só necessitava… — suspirei — de espaço.
Levantei-me, caminhando em direção a Martin, disposta a tirar meu
filho dali o mais rápido possível. Mas não fui ligeira o bastante: Ashley o
alcançou, sorrindo alegre para o meu menino sempre tão ranzinza.
— Ela ri para tudo. — Mateus aparentava orgulho. — Ele é de
Javier, né? A cara de brabo não nega.
Eu sorri.
— É sim — confirmei, sabendo que a paternidade de meu menino
deixava de ser segredo quando se olhava para Martin. — A cara do pai. Em
tudo.
— Javier não sabe? — Mateus sussurrou.
— Não sabe e nunca vai saber — declarei, vendo a menina se
afastar. — Desculpe, preciso ir. — Finalmente peguei meu filho, partindo
sem olhar para trás.
Rachel e Mateus haviam tido uma filha. O quão insano era isso? E o
que mais aconteceu nesses quatro anos longe? Por que ele não sabia da
minha separação com Javier, sendo o melhor amigo do meu ex?
Nada fazia sentido.
JAVIER
Anna não demorou muito a conseguir um quarto para José. Nos
próximos dias, vi o homem e a esposa aproveitando o hotel. Segundo ele,
viera mais cedo para comemorar os quarenta anos de casados, já que, em
meio ao trabalho, não podia tirar um tempo para celebrar como deveria.
Encarei a janela do meu escritório ao me lembrar da nossa conversa.
O casamento do homem parecia tipicamente feliz, daqueles enjoativos,
como eu nunca havia visto em minha vida. Meu exemplo de matrimônio era
o dos meus pais, ou seja, uma merda.
Novamente, meus pensamentos me traíram, voltando aos quatro
anos longe de Valentina. Achava inexplicável o sentimento de deslealdade
que experienciei ao saber que justamente ela era a real filha de meu pai.
Misturou-se a todos os erros no meio do caminho, levando-me a agir de
modo irracional.
Quanto ao nosso casamento, estava claro desde o início que não era
para ser.
Nunca cheguei a procurar por ela, afinal, significaria abrir uma
ferida enorme. A princípio, monitorei o cartão que ela usava quando estava
conosco, mas tudo que sabia era que houve um grande saque antes dele ser
bloqueado pelos Garcias.
Ergui a cabeça com alguém batendo na porta e liberei a entrada,
ouvindo minha assistente narrando todos os compromissos do dia; também
me entregou alguns documentos antes de sair.
Ao tornar a ficar sozinho, meu dedo deslizou pela aliança, rodando-
a. Fiz menção de retirá-la, mas travei, como todas as vezes, e voltei a
colocá-la, dando a desculpa de que ela sempre me livrava de situações
difíceis.
O tempo passou rápido. Logo recebi uma chamada de Anna pedindo
para encontrá-la no restaurante do Bella Mia, dizendo que precisava me
falar algo importante. E, se ela afirmou isso, de fato deveria se tratar de algo
crítico; Anna era prática.
— Ei — cumprimentei-a, me sentando em uma das mesas do
estabelecimento. Anna abriu um sorriso alegre, empurrando o novo contrato
fechado em minha direção. — Bom trabalho.
— Eu sempre faço um bom trabalho — rebateu, balançando os
ombros. — Vou ter que adiantar minha viagem ao Brasil, Javier. Assim que
impressionarmos o tal José, eu irei embora para verificar algumas coisas
com meu filho. — Anna Júlia e Ivan ainda não haviam acertado uma
dinâmica para lidar com a criança, mas se esforçavam para isso. — Ivan
está em um momento difícil e pediu para que eu me adiantasse. — Eu a
conhecia bem: Anna poderia xingar o homem, mas nunca conseguiria dizer
“não” a um pedido de ajuda seu.
— Tranquilo. Depois de tudo acertado com José, consigo lidar até
sua volta.
Sorriu de orelha a orelha.
— Obrigada. Nem sei o que seria de mim sem você.
Dei o mesmo sorriso insolente que ela me lançava ao receber
elogios.
— De nada.
Anna estendeu a perna, me chutando por debaixo da mesa.

A família Gonçalves me esperava para almoçar. Eu e os vi sentados


em uma das mesas do restaurante do hotel. Rita era uma mulher jovem para
a idade, com os cabelos meio esbranquiçados, o rosto levemente marcado e
as vestes casuais demais para a esposa de um empresário. O que me
lembrava de Alba, que com toda a certeza a reprovaria sem pensar duas
vezes.
— Boa tarde — falei, puxando uma cadeira e sorrindo para ambos.
Havíamos combinado de falar sobre o projeto do Bella Mia no Brasil, um
ponto delicado, pois eu relutava em levar a rede de hotéis e cassinos para lá,
devido ao passado. Saí daquele lugar com um enorme peso nos ombros, não
queria retornar e ter tudo novamente caindo sobre mim.
— Olá, querido. Quando José disse que você era jovem, não
imaginei que fosse tão lindo. Cadê sua esposa? — Rita foi simpática e me
fez sorrir. Seus cabelos cacheados estavam soltos ao redor do rosto redondo
e bronzeado.
— Anna está fora do Bella Mia no momento — acostumado a
mentir sobre meu falso casamento, nem mesmo tremi ao dizer isso.
Mas quando Rita jogou os cachos para trás, o movimento trouxe
uma memória à minha mente: Valentina. Eu evitava pensar nela, contudo,
sempre acontecia. Lembrava-me dos cachos, do sorriso, da maneira especial
como preparava meu café e alinhava minha gravata. Eram tão poucos
detalhes, porém, se enraizaram dentro de mim.
— Ah, Martin já está com Lilian! — a mulher exclamou, sorrindo
ao checar algo no celular.
— Que bom, graças a Deus. Diga à menina para descansar, amanhã
começamos os trabalhos.
Não me importei o suficiente para perguntar de quem eles estavam
falando — e seria indelicado interferir na conversa.
Dispensei a imagem de Valentina, focando na reunião.
— Bella Mia ainda está em fase de análise para a filial brasileira.
Como sabem, sou de lá, mas infelizmente não tenho boas perspectivas sobre
montar um hotel deste porte no país.
— Afinal, seus maiores ganhos aqui provêm de jogos de azar —
José concluiu, sorrindo de lado.
Concordei, balançando a cabeça.
— Sim, mas é um dinheiro limpo. Colocamos nossos serviços na
mesa, e o cliente paga por eles. Além do mais, o ramo de prostituição não é
algo em que pretendo enfiar as mãos. — A mulher me observava enquanto
eu citava os lados positivos de um contrato entre as duas empresas, dando o
melhor de mim no único e verdadeiro casamento que eu teria: com meu
trabalho.
— Como eu disse, senhor Javier, achei toda a estrutura de vocês
muito agradável. É um negócio promissor. Andei pesquisando, vendo se
está tudo de acordo com as leis vigentes no país — ele me surpreendeu ao
falar. — Mas eu só fecho negócios diante da aprovação de uma funcionária
em especial.
— Sua filha? — arrisquei.
Riu, assentindo.
— Ela é um gênio. Você e Anna vão adorá-la. — Não dispensava
elogios à filha, levando-me a pensar que tipo de pessoa essa garota era.
Uma workaholic, decerto. — Desde que começou a trabalhar na empresa,
nunca mais fiz negócios sem ela por perto. Só tem uma coisa, senhor
Javier… — Arqueei a sobrancelha. — Ela é bem rígida com o trabalho. —
Fitou-me de maneira ameaçadora, e segurei a risada.
Eu era um homem com mais experiência que idade, que presidira
uma multinacional e me dera bem nisso. Agora, tinha uma rede de hotéis.
Ele achava que eu não agiria de modo sério o suficiente?
— Eu sei lidar com rigidez, senhor Gonçalves. — Pisquei, bebendo
um pouco da água servida em meu copo e o fazendo sorrir, antes de chamar
o garçom para servir nosso almoço.

VALENTINA
Abri a porta do carro em frente ao enorme prédio do Bella Mia e
deixei minha cabeça pender levemente para trás. Fiquei boba perante a
fachada preta com letras douradas e chamativas.
Inclinei-me para pegar Martin em meus braços, e Lilian segurou
uma mala de mão. Agarrei o corpinho do meu filho com firmeza,
equilibrando também minha bolsa com meus documentos. O motorista
tirava as bagagens do porta-malas, ao passo que um dos empregados do
hotel trazia um carrinho para acomodar tudo.
Iríamos ficar uma semana ali. Seria mais fácil se fosse sozinha, mas
Martin precisava de milhões de coisas, e suprir as necessidades do meu
filho vinha em primeiro lugar.
— Mamãe! — ele exclamou, tirando a chupeta da boca e sorrindo
ao apontar para um cachorro que passava na rua, conduzido por sua dona.
— Au-au.
— Sim, querido. É um cachorrinho. — Beijei sua bochecha,
entrando no hall. Era lindo, bem iluminado, com um papel de parede preto
e cor de ouro. O enorme lustre em cima de nós garantia uma visão perfeita
do local. Sorri, apaixonada pela estrutura. — Lili, seu quarto é ao lado do
nosso. Não sei como ficará minha agenda esta semana, então vamos
seguindo a loucura — avisei a babá.
Ela riu.
— Ok, Val. — Com o tempo, desenvolvemos uma amizade, então
era fácil trabalhar com a jovem. Eu lhe confiava plenamente a segurança do
meu filho.
— Boa tarde, senhora. — A recepcionista me fez virar rapidamente.
— Oi. Boa tarde. — Meu espanhol era meio arranhado, mas fiquei
tão nervosa com a viagem que passei dias treinando para me sair bem.
Ela apontou em direção a um balcão com cadeiras confortáveis
espalhadas ao redor, falando:
— Fiquem à vontade para se sentarem enquanto busco seu cadastro
e suas chaves. — Sorriu como se eu fosse alguém muito importante. Gostei
disso e aceitei a dica, pois Martin era enorme e estava muito preguiçoso
para andar. Ao menos no colo não corria para todos os lados. — Qual é o
seu nome, senhora?
Sorri.
— Valentina Ferraz. — Ainda usava o sobrenome do meu pai, mas,
se pudesse, me apresentaria somente com o primeiro nome, já que o dele
me trazia lembranças terríveis.
Depois de alguns minutos, a recepcionista voltou.
— Seus dormitórios se situam no quarto andar, números cinquenta e
três e cinquenta e quatro. — Assenti, aceitando o cartão magnético de
ambos os quartos. — Juan levará suas malas para os seus aposentos.
Martin finalmente ficou de pé para caminhar sozinho, e pude esticar
minhas pernas tranquilamente. Ele vestia uma calça jeans minúscula e uma
camiseta azul-marinho. Os cabelos cacheados estavam caóticos e, os olhos,
atentos às pessoas que passavam por nós.
— Ele é uma lindeza, senhora — a moça disse, sorrindo para o meu
filho.
— É sim. E a coisinha mais reclamona do mundo — adicionei, com
meu Martin puxando a barra do meu vestido.
A recepcionista riu. Lilian, meu pequeno e eu seguimos para o
elevador. Apertei o botão e aguardei. Ao entrarmos, selecionei o quarto
andar daquele prédio enorme.
A parceria de seu José com o Bella Mia seria um ótimo negócio,
mas para dar minha decisão completa, primeiro necessitava conhecer os
donos, pois qualquer opinião que emitisse poderia influenciar meu
emprego. Conhecia pouco sobre a empresa. Sabia que a fundadora era uma
tal de Júlia Maldonado, mas foquei mais em rendimento do que na história
de sua origem. Não costumava fechar negócios puxando o saco de gente
rica; valorizava somente sua competência e o potencial de lucro que uma
sociedade acarretaria à nossa firma.
Precisava me esforçar. Meus chefes me adoravam, mas isto não
significava que estava sempre a salvo.
O elevador se abriu no andar em que ficaríamos. Não tive tempo de
segurar Martin, que saiu correndo, soltando gritinhos animados. Lilian e eu
caminhamos rapidamente rumo ao meu pequeno fujão, quando ele tombou
em algo, caindo no chão.
Aproximei-me, vendo meu menino abrir a boca e começar a chorar.
Nem me preocupei com quem estava ali, só o peguei nos braços,
encostando sua cabeça contra meu peito e sussurrando-lhe palavras de
conforto. Ele nem havia se machucado, mas o susto da queda interrompera
sua alegria.
Eu pretendia levantar a cabeça, preparada para me desculpar com a
pessoa, mas acabei entrando em choque ao ouvi-la dizer meu nome:
— Valentina? — Martin ainda soluçava contra meu ombro, e eu
alisava seus cachinhos, mirando a mulher. — De quem é esse menino?
O nome de Anna continuava vivo em minha mente, mesmo depois
de quatro anos.
— Meu — respondi, seca, empinando o rosto marcado pelo espanto,
sentimento também refletido nela. — O que faz aqui, Anna Júlia?
— Estou a trabalho na cidade. Sinto muito por… — Sinalizou para a
situação em que nos encontrávamos. E Martin escolheu um péssimo
momento para encará-la com uma expressão zangada.
— Ela machucou o Martin, mamãe.
Beijei sua bochecha.
— Ok, querido. Não fez por mal. — Segurei a risada ao dizer isso.
— Vamos tomar um banho. — Anna não identificaria a semelhança entre
meu filho e Javier… E não me importava, pois não fui eu quem o traiu.
Distanciei-me da mulher e enfiei o cartão magnético no leitor, abrindo a
porta. — Vejo você em breve, Lili — sussurrei à minha amiga, entrando de
vez em meu quarto.
Coloquei meu filho na cama e tirei suas roupas, anunciando que
tomaria banho.
O quarto tinha uma cama de casal grande, vista para uma rua
movimentada da Cidade do México e paredes revestidas com um papel
cheio de flores delicadas. Além de uma mesinha penteadeira chique, devido
ao alto padrão do local, um closet e um banheiro com direito à
hidromassagem.
Enchi a banheira. Martin amaria brincar em meio à tanta água.
— Venha, nenê — falei, estendendo a mão para pegá-lo nos braços.
Meu filho me lançou um sorriso sapeca e engatinhou na cama, ficando
longe de mim. — Ah, seu danadinho! — Segurei seus tornozelos, puxando-
os levemente e ouvindo sua gargalhada.
Eram raras as vezes que ele ria, mas sempre que o fazia, iluminava a
minha vida. Subi na cama e o encaixei entre as minhas pernas, beijando a
barriga repleta de curvas. Os beijos faziam barulhos divertidos, que o
motivavam a rir ainda mais.
— Mamãe! — gritou, agarrando meu rosto e me forçando a parar.
— Tá bo-o-om… — balbuciou, cansado e com as bochechas vermelhas.
Beijei a pontinha do seu nariz.
— Então venha, pequeno gafanhoto, tem uma banheira enorme
esperando por você.
Animou-se, selecionando os brinquedos que poderia molhar, feliz
demais com a novidade.
VALENTINA
Acordei cedo para poder preparar as coisas de Martin antes de
deixá-lo com Lilian. Vi meu filho dormindo calmamente enquanto eu
terminava de definir meus cachos, com os braços reclamando em razão do
movimento repetitivo.
Terminei alguns minutos depois e chequei minha maquiagem. Vestia
meu típico terninho de trabalho e usava saltos altos escuros, pronta para
qualquer situação, fosse ela profissional ou materna — ou não, porque às
vezes os sapatos machucavam tanto os meus pés que eu queria jogá-los na
lixeira mais próxima.
Saltos nos dão uma falsa sensação de poder. São uma enganação.
— Ei, príncipe — chamei-o, me aproximando, mas a batida à porta
me impediu de seguir. Lilian sorria do outro lado. — Já ia no seu quarto.
Martin parece ter desmaiado em um sono profundo.
Adentrou o ambiente.
— Pode ir, fico com ele até acordar e o apronto para o café.
— Ok, mais tarde lhe mando uma mensagem, poderemos almoçar
todos juntos.
Lili aquiesceu. Peguei minha pasta de trabalho e saí. Lilian estava
comigo desde que Martin nasceu e conhecia bem a rotina do meu filho.
Logo, não me preocupei em deixá-los sozinhos sem muitas orientações.
Entrei no elevador, apertando o botão do penúltimo andar. Segundo
José, era onde me esperava.
Estava ansiosa. Seria meu primeiro negócio fora do Brasil; almejava
que ocorresse de modo impecável. Aprendi muito em meus poucos anos de
experiência. Eu me reconhecia como uma pessoa inteligente, pois sempre
via maneiras de aumentar o percentual de lucro de um negócio. Mesmo
assim, ainda tinha um longo caminho pela frente. Havia tanto para estudar!
O elevador apitou. Segundos depois, passei pela porta, vendo o
movimento leve de funcionários no corredor. Pelo que sabia, aquele andar
era todo fechado para o escritório presidencial do Bella Mia.
Passei por algumas portas cerradas e vi uma pequena sala de estar
com sofás e uma mesinha de centro. As janelas de vidro que iam do chão ao
teto davam uma visão magnífica da cidade, me fazendo sorrir de leve e
concluir que precisava visitar o lugar se sobrasse um tempo.
— Querida, que bom que chegou. — Virei ao escutar dona Rita,
sorrindo ao vê-la se avizinhar. Minha patroa me abraçou bem apertado,
beijando minha bochecha com carinho.
— Oi, dona Rita. Como está sendo a viagem? Divertiram-se na
cidade?
Suspirou.
— Tem pontos turísticos incríveis, você não pode perder a chance de
ver. — Colocou a bolsa sobre o sofá para segurar o meu rosto. — José está
esperando na sala do senhor Maldonado.
Franzi o cenho, pois pensei que a reunião seria com a senhora
Maldonado, mas não levantei nenhum questionamento.
— Obrigada, Rita. No almoço falaremos sobre seu tour pela cidade.
— Joguei beijinhos amigáveis para a senhora, que me indicou a direção da
sala.
Bati duas vezes antes de minha entrada ser liberada. Não estava
atrasada, então não me envergonhei ao empurrar a porta e adentrar o local.
Meu salto ressoava pelo chão. Observei novamente as janelas indo
de uma ponta à outra, com as persianas fechadas para impedir que o sol
acertasse nossos rostos.
A mesa do tal senhor Maldonado era alta, de madeira, revestida por
uma pintura comum. Enxerguei primeiramente meu chefe, sorrindo para
mim. Retribuí o sorriso e procurei o olhar do segundo homem.
Então tudo congelou.
Não conseguia me mover.
— Valentina, meu amor! — A voz de José soava distante, mas ele
estava apenas a alguns passos de mim. Todavia, eu mantinha meu foco no
outro cara.
Deslizei o olhar para a placa em sua mesa, onde se lia em letras
garrafais: “JAVIER MALDONADO”. Javier. Javier. O mesmo Javier que
dormiu ao meu lado inúmeras vezes. O primeiro homem da minha vida. O
meu marido.
— Olá — ele disse, após uma longa pausa.
Minhas pernas tremeram e quase fui ao chão, incapaz de agir
normalmente em sua presença. Senti meu corpo tombar para o lado e ser
amparado por José. Vi o brilho de raiva nos olhos de Javier; ele não
moveria um músculo para tentar explicar esta situação.
Viajei milhares de quilômetros para acabar ali, diante do pai do meu
filho.
— Querida, você está bem? — o senhor Gonçalves murmurou, me
sentando no sofá pequeno no canto da parede.
Enxergava tudo desfocado, e o enjoou em meu estômago era insano.
— Preciso de água — pedi, num fio de voz, desesperada.
José se afastou para pegá-la, mas Javier foi mais rápido, estendendo
um copo cheio em minha direção. Aceitei, claramente afetada.
Fazia total sentido o fato de Anna estar no hotel. Agora tudo se
encaixava com perfeição. Qual era mesmo o sobrenome de Anna? Por que
Javier usava o sobrenome de outra pessoa? Tudo era uma névoa confusa até
que meus olhos se voltaram ao anel em seu dedo.
— Val, necessita de ajuda? — meu patrão perguntou, alisando meus
cachos com carinho.
Sorri para ele, tentando lhe passar confiança.
— Estou ok, foi só um susto — sussurrei.
— Então essa é a sua filha, senhor Gonçalves? — Javier inquiriu,
sorrindo de lado.
José tinha o costume de me apresentar como filha deles; a confusão
estava armada.
— Ela mesma. Tenho certeza de que Valentina vai amar trabalhar
com você e sua esposa, Javier. — Bateu em seu ombro, enquanto minha
mente se concentrava em suas palavras, principalmente em uma: “esposa”.
— Garantirei isso — afirmou.
Levantei a cabeça a tempo de perceber o sorriso irônico
preenchendo o rosto de Javier.
Poderiam se passar dias, meses ou anos, e ele permanecia lindo. Só
que a lembrança de meu “marido” beijando aquela mulher no nosso
apartamento logo depois de me mandar embora gritava em minha memória.
De nada interessava um exterior tão belo: a alma de Javier era
sombria.

JAVIER
Eu estava bobo. Nunca na vida pensei que voltaria a ver Valentina,
ainda mais ali, vestida para matar e me encarando com determinação. Era
claro que ela havia sido bem-sucedida depois que saí da sua vida; eu podia
até enxergar o quão feliz ficou em saber que não era filha de Mariano, tendo
a chance de ser alguém com um pai como Santiago.
Ela estava perfeita. Os cabelos mais cacheados e volumosos agora
batiam no meio das costas. Trajava um terninho sério, escuro, usava saltos
altos e parecia bem maquiada.
A típica mulher da alta-sociedade. Mas a mesma que me
enlouqueceu uma vez e, vira e mexe, andava em meus pensamentos.
A raiva pela maneira que tudo terminou se inflou dentro de mim no
instante em que ela me encarou, aceitando o copo de água que eu estendia.
Sua mão tremeu, deixando claro que o choque era para ambos.
— Então essa é a sua filha, senhor Gonçalves? — indaguei,
cruzando os braços e tentando entender a relação estranha entre os dois.
— Ela mesma. Tenho certeza de que Valentina vai amar trabalhar
com você e sua esposa, Javier. — José bateu em meu ombro, feliz da vida,
sem a menor ideia do tipo de laço que já nos unira, e continuava a me
assombrar.
Valentina fitou minha aliança e engoliu em seco.
Sorri.
— Garantirei isso.
Não daria à Valentina a chance de entrar em minha vida novamente,
portanto, precisava ser implacável, não facilitar as negociações. Nunca
cederia aos encantos da mulher; não desta vez. Eu era imune à Valentina
Ferraz.
E foi aí que me perdi, porque ela se recuperou e direcionou toda a
reunião com punho firme, analisando os papéis, os níveis de lucro e os
gastos. Como uma boa administradora, pontuou o que poderia dar errado
em nossos negócios.
Encostei o braço na mesa e pousei meu maxilar sobre minhas mãos
unidas, a observando falar algo a José, que sorriu e assentiu. Valentina
estava tão diferente.
A porta se abriu, e Anna colocou a cabeça para dentro, sorrindo para
nós. Nem mesmo ficou surpresa com a presença da mulher à minha frente,
apenas caminhou pela sala desejando um bom-dia alegre e parou ao lado da
minha cadeira, pousando a mão em meu ombro.
— Oi, Valentina — minha sócia a cumprimentou, cordial.
— Olá, Anna. É bom revê-la. — Valentina sorriu de um modo tão
angelical que me deixou rapidamente cego.
— Já conhece a esposa de Javier, querida? — O termo “querida”,
usado constantemente por José, começava a me irritar.
— Mas é claro — rebateu, me encarando com as sobrancelhas
arqueadas.
— Querido, vim avisar que estou de saída. Tive que adiantar a
viagem. — Mirei Anna, assentindo. — Nos veremos em breve. Qualquer
coisa, é só me ligar, estou sempre disponível.
Sorri para ela.
Anna fez menção de sair da sala, sabendo que nunca me sujeitaria a
beijá-la, ainda que fosse para mentir à Valentina, devido ao novo contexto.
Já com a mão na maçaneta, José a parou:
— Mas o que é isso…?
— O que houve, senhor José? — perguntou, preocupada.
— Um casal nunca deve se despedir assim. Andem, deem um beijo.
Nunca se sabe o que pode acontecer — falou, assertivo. Tremi da cabeça
aos pés e vi Valentina segurar uma risada, se divertindo às minhas custas.
— Não acha, Val?
Ela levantou a cabeça ao ser solicitada.
— Sim?
— Todo casal deve se despedir com um beijo.
Valentina sorriu.
— Não sei, senhor José, minhas experiências amorosas não são
dignas de se tirar como exemplo — alfinetou, o fazendo rir. — Mas se um
casal se ama, é claro que deve se despedir com um beijo — disse, olhando
no fundo dos meus olhos.
Anna tornou a se aproximar.
— Já que fazem tamanha questão. — Segurou meu rosto com as
duas mãos, a fim de bloquear o campo de visão, aproximando os lábios dos
meus. Não os encostou, mas a ação durou tempo suficiente para se
assemelhar a um beijo de verdade.
Anna era uma boa atriz, o que eu já esperava.
— Agora sim, menina. Faça uma boa viagem — José falou ao vê-la
se afastar.
Valentina sorria, nem um pouco afetada. Claramente, tudo que eu
supunha do passado era correto: nosso relacionamento fora uma grande
mentira, muito além do que eu havia imaginado.
— Podemos voltar aos negócios? — disse, tornando a pegar os
papéis.
— Não falei? Ela está sempre me trazendo trabalho — José
zombou, fazendo ela dar tapinhas amigáveis em seu ombro. A cumplicidade
entre os dois me sufocava.
Não deveria ficar pensando nisso, afinal, eu não representava nada
para ela. E aquele senhor era anos mais velho que Valentina, além de muito
apaixonado pela esposa.
Entretanto, nunca sabemos o que se passa na mente das pessoas.
A reunião logo se encerrou, e Valentina se ergueu, pegando o celular
que apitou com uma mensagem. Falou que levaria os papéis para analisar
com calma e devolveria antes do fim do dia.
— Deixe-os com a minha assistente ao terminar — avisei, evitando
qualquer contato com ela.
— Certo, obrigada, senhor Maldonado. — Estendeu a mão. —
Tenho certeza de que, com alguns ajustes, será um prazer fazer negócios
com você.
Era como um universo paralelo. Nunca me imaginei fechando
negócios com Valentina. E agora ela estava ali, vestida naquele terninho
apertado, com uma saia que não cobria as pernas torneadas de maneira
adequada e me fazia imaginar mil e um cenários.
— Vamos almoçar, Rita disse que quer me mostrar tudo na Cidade
do México — comentou ao chefe após se despediram de mim, abrindo a
porta de saída.
Caí para trás, encostando minha cadeira na janela de vidro do
escritório, ainda tendo a visão da bunda de Valentina dentro da saia
justíssima. A verdade era que sentia raiva, quase um ódio adormecido
dentro de mim, mas, ao mesmo tempo, existia aquela atração inegável que
nos conectava.
Decidi me levantar, pegando o celular a tempo de ligar para Anna.
Ela não deveria ter pego o jatinho de volta para o Rio de Janeiro. Saí do
escritório, vendo a família Gonçalves e Valentina conversando na sala de
estar.
— Anna! Preciso falar com você — bradei ao telefone, brabo por
ela não ter me dito que a mulher que acompanharia José em todas as
negociações era minha esposa. Sem contar o fato de que, na cabeça de
Valentina, eu agora era casado com Anna.
Uma loucura atrás da outra.
JAVIER
Anna Júlia estava entrando no avião particular da Bella Mia quando
a chamei, correndo em sua direção. Ela vestia a mesma roupa com que
apareceu em meu escritório mais cedo e abriu um sorriso largo ao ver meu
desespero.
— Oi, marido. Finalmente vai pedir nosso divórcio? — debochou,
enquanto descia os degraus que a levavam para dentro do jatinho e parava à
minha frente.
Franzi o cenho, observando sua expressão nem um pouco abalada.
— Você sabia! — exclamei, em choque. — Sabia que Valentina
estava por trás disto tudo.
Anna riu.
— Não acha que contrataria um serviço sem checar o histórico da
empresa, né? — Aquele não poderia ser o verdadeiro motivo. Anna inspirou
fundo algumas vezes, fechando os olhos. — Eu sabia. Queria trazê-la para
cá.
— Por quê? Maldição, Anna, isso não é legal. Você me traiu, traiu
minha confiança e…
— Não pode continuar acreditando nas mentiras de Alba, Javier. Se
você um dia amou uma mulher, esta pessoa é a sua esposa. E a real, não eu
— alfinetou, baixando a guarda quando seus olhos lacrimejaram. — Eu não
deveria ter me metido, mas aprendi muito nos últimos anos. Sei o que é
amar alguém sem ser correspondida. Você e Valentina tinham tudo para se
tornarem parceiros, no sentido amplo da palavra. Amantes, amigos,
confidentes. Eu só queria uma chance de mostrar a Ivan que posso ser a
mulher que ele quer e… — Soluçou, e eu a abracei.
— Não chore, eu não consigo lidar com lágrimas.
Ela riu.
— Trouxe Valentina pois vocês têm muitos assuntos pendentes. Ela
não o perdoará tão facilmente, mas se eu estivesse no seu lugar, tentaria. O
mundo é maldoso demais, um completo caos; não dá para desperdiçar a
chance de sermos felizes quando encontramos alguém que amamos.
Afastei-me, a encarando.
— Não sou Ivan, nem Valentina é você. As coisas não vão se
resolver num passo de mágica.
— Claro. Eu e Ivan cometemos um erro no passado, e isto gerou
nosso filho. Embora eu nunca tenha me imaginado sendo mãe de uma
criança que não fosse dele. — Fitou-me, e limpei a lágrima que caía do seu
rosto. — Mas o que tenho com Ivan é uma coisa platônica, alimentada
exclusivamente por mim. É doloroso amar e não ser recíproco. — Sorriu.
— Só que você e Valentina se amavam, eu sei que sim. Jogar a chance fora
só complica a vida, sabe? E ela já é tão difícil…
— Vai falar com Ivan sobre isso? — encorajei, apertando suas mãos.
Anna jogou a cabeça para trás, rindo.
— Ele vai se casar. — Encarou-me. — Com uma loira aguada que
tem cara de certinha. — O deboche me fez soltar uma risada de leve,
porém, eu me sentia triste por Anna. — Eu vou agora ao Brasil para ajudar
meu filho, ele não está lidando bem com o casamento do pai.
— Isso tem dedo seu?
Fingiu ultraje.
— Óbvio que não. Sim, por muito tempo, quis ficar com ele, mas
acho que é hora de deixá-lo ir. — Parou, pensativa. — Deve existir outro
homem que faça meu mundo balançar, né? Bem, se balançar minhas
paredes já serve.
Uma risada escapou.
— Você é terrível. Nem consigo sentir raiva por ter feito tudo pelas
minhas costas.
— Bom, há outras coisas que você deveria saber, mas meu trabalho
de fada madrinha acaba aqui. — Sorriu de maneira angelical. — Volto em
quinze dias. Espero que seja tempo o suficiente para ver a renovação dos
seus votos de casamento assim que eu retornar.
Beijou minha bochecha, comentando:
— Valentina deve me odiar em vários sentidos. E, pior, ela está
certa. Além de forjarmos uma traição, até sua mãe e a minha deixavam
evidente que nos queriam juntos. — Fez uma careta. — Isso deve ter sido
péssimo para ela. Jogue a culpa em mim, deve ajudar em alguma coisa.
— Nunca faria isso, a culpa é apenas minha — falei com
sinceridade. — Você só me auxiliou. Sabe que pode contar sempre comigo?
— Sei sim. — Abraçou-me. — Faça o certo, Javier. Eu imploro,
pelo menos uma vez não deixe seus instintos levarem a melhor. — Afastou-
se, caminhando até o avião. — A vida sempre pode surpreender. Lembre-se
disso, ok?
— Ei — gritei, e Anna parou. — Já que me pediu isso, posso pedir
algo também? — Eu me aproximei.
A morena revirou os olhos.
— Fale. Só não esqueça que minha bondade tem limite.
— Não tem, não. Você é boa, o mundo é que não aguenta sua força.
— Igual à Valentina. Ela é forte também.
A lembrança me levou a rir.
— Sim. Ela é — admiti; a história de Valentina não fora fácil. —
Mas já que pediu para não seguir meus instintos, que tal você não seguir os
seus? Fale com Ivan sobre como se sente.
Anna gargalhou.
— Eu tive anos para isso. E eu não aguento mais. Ivan sabia o que
eu sentia, ele só não sente o mesmo. Paciência. Não se preocupe comigo,
vou ficar bem. Beijo, e não faça besteira.
A porta do jatinho se fechou. Observei a decolagem. As palavras de
Anna Júlia se repetiam em minha mente, me sufocando. Caralho. Eu
parecia uma criança de cinco anos, só fazendo besteiras.
VALENTINA
Merda. Merda. Merda. Mil vezes merda!
Como eu ficaria no mesmo espaço que Javier? A qualquer instante
ele poderia descobrir tudo que escondi por quatro anos! Em minha defesa,
ele nunca me deu a chance de falar sobre nosso bebê.
Desconfortável, eu me movi até o elevador daquele andar, apertando
o botão que me levaria ao restaurante. Precisava decidir se mandaria Lilian
e Martin para outro hotel. Poderia continuar no Bella Mia e sair durante a
noite para dormir com meu filho.
Não queria contar a José sobre o passado. Na verdade, sentia uma
vergonha imensa por ter sido sujeitada àquilo, em especial Javier me
mandar embora. A situação era ridícula.
A porta do elevador se abriu e, no instante em que saí, Martin correu
em minha direção, abraçando minhas pernas.
— Senti saudade, mamãe — disse, num português difícil de
entender.
Sorri, me abaixando para pegá-lo no colo. Beijei a bochecha
gordinha do meu filho e caminhei lado a lado com Lilian. O tempo de folga
em São Paulo deixou Martin acostumado à minha presença.
No restaurante, colocamos meu garoto na cadeirinha infantil para
almoçar, mas ele se debatia tanto que quase acabava caindo no chão. Optei
por segurá-lo em meus braços enquanto comia.
Não sabia o que fazer: manter Martin distante ou permitir que o caos
se instaurasse livremente?
O que Javier faria ao descobrir que tem um filho? Eu não conhecia
mais nada a seu respeito. A vida perfeita que imaginei para ele em São
Paulo, como presidente da empresa do pai adotivo, não era mais uma
verdade. E eu estava sem ideias quanto ao que havia acontecido.
— Você está bem, Val? — A voz de Lilian me tirou do devaneio.
— Sim, estou apenas pensando. — Na melhor solução para manter
meu filho a salvo das garras do pai.
Odiaria que Javier estragasse a única coisa boa com que me
presenteara. Meu filho era minha vida, minha única família. Não queria que
sofresse.
Beijei os cabelos de Martin, estendendo o legume amassado na
colher em sua direção. Foi receptivo, como sempre era quando se tratava de
comida.

— Você tem certeza disso? — Lilian tornou a indagar, me vendo


colocar vários pertences em uma mala.
Encarei minhas mãos, cheias de brinquedos do meu filho, e o
observei dormir.
— Não posso deixar o pai dele vê-lo — confessei, cansada. —
Pensei que Javier estava distante, com sua vida perfeita em São Paulo, junto
à Anna… — Lilian sabia bastante da minha trajetória. — Agora ele está
aqui, desordenando tudo. Quebrando meu mundo de novo.
Ela pousou a mão em meu ombro.
— Não acha que seria melhor ele conhecer o pai, Val?
Sorri.
— Você não entende. Se fosse qualquer homem do mundo, seria
simples, pois se resumiria a apresentar um filho ao pai. Tenho certeza de
que o homem não o amaria no primeiro instante, nem que prometeria amá-
lo eternamente, mas ele seria cordial, por envolver o sentimento de uma
criança inocente. — Solucei; só então percebi que chorava. Pela primeira
vez em quatro anos, eu me desfazia em lágrimas por causa de Javier. —
Isso é ridículo, sabe? Javier nunca foi o tipo que sente condolências ou se
preocupa pela tristeza de terceiros. Não é empático. Provou isso pela forma
como me tratou. Teve uma época em que pensei que poderia mudar, mas…
O telefone tocou, me fazendo pular. Era uma ligação da assistente da
presidência do hotel. Estremeci ao me lembrar de quem estava por trás da
rede Bella Mia.
— Coisas do trabalho, um instante. — Distanciei-me de Lilian,
atendendo à ligação. — Oi. Precisa de mim?
— Venha até a minha sala — Javier ordenou.
Disparei um olhar em direção a Martin, assumindo que era
impossível o homem ter descoberto da existência dele, mas, mesmo assim,
tremi de medo.
— Pode me informar o que precisa, analisarei e passarei ao senhor
José.
— Venha até a minha sala — repetiu, sério.
— Não trabalho para você, Javier — repliquei, exausta, procurando
uma saída para aquela situação.
— Por favor, venha. Tenho certeza de que o seu chefe gostará de
saber que você está cuidando dos interesses de negócios de ambas as partes
— chantageou-me, ciente da minha ambição.
Apenas desliguei, enfiando o telefone no bolso do terno.
— Guarde as coisas que tirei da mala, por favor, Lilian. Vou ver o
que o CEO deseja e volto para mandá-la a um hotel decente. — Abri a porta
e saí rapidamente dali.
Durante toda a reunião com Javier e José, deixei claro que seria
profissional. Afinal, o presidente era uma das muitas pessoas que me
subestimou no passado.
Esperei o elevador e passei pela porta, caminhando em direção à
sala do tal senhor Maldonado, ainda me questionando o que diabos ele
queria comigo. Definitivamente, não pretendia me parabenizar pelo meu
bom desempenho.
Parei em frente à mesa da secretária e sorri. Ela me encarou com a
sobrancelha arqueada.
— Preciso falar com Javier. — Gostaria de conseguir dizer “senhor
Maldonado” ou algo mais profissional, mas ficava difícil quando o conhecia
de forma tão íntima.
— Tem hora marcada?
— Não, mas ele mesmo me chamou aqui.
— Senhora, sabe quantas garotas por dia falam que foram chamadas
pelo meu chefe? — rebateu, espertinha, me fazendo suspirar.
— Ele pode até ser muito solicitado pelas mulheres, querida, o que
não é nenhuma novidade, mas eu não sou uma das fãs do senhor
Maldonado — ironizei, ao que ela riu.
A porta se abriu, e o homem apareceu.
— Deixe-a entrar, Pauline — disse, sério. — Venha, Valentina.
Uma onda de temor invadiu meu corpo. O que ele queria? Era
trabalho? Ou havia descoberto sobre Martin?
Forcei meus pés a caminharem e adentrei a sala onde estivera
poucas horas antes. Javier se encontrava de costas para mim, vestindo um
terno preto de três peças. Isso me fez recordar que sua cor preferida sempre
fora azul.
— O que você quer?
— Por que raios pediu checkout do hotel?
Emudeci, lembrando que a reserva do quarto de Lilian não estava
em seu nome, mas sim no meu.
— Não me sinto confortável aqui.
— Veio a trabalho, Valentina. Como conhecerá nossos serviços se
não ficar? — Usou novamente um tom profissional.
— Tem mais alguma informação acerca do contrato para falar
comigo? Sobre minha estadia no Bella Mia, eu o certifico de que a distância
não mudará minha opinião acerca dos negócios. Se for proveitoso para os
interesses da família Gonçalves, não pensarei duas vezes em fornecer a José
as melhores recomendações. — Dei meia-volta para sair dali.
— Você se acha muito esperta aparecendo aqui, né? — debochou,
me congelando no lugar. — Quatro anos depois, vestida com roupas de
grife, como alguém de confiança de um homem importante. Interessante
não ter se tornado uma Garcia, afinal, é filha de Santiago. Mas quantos
pauzinhos ele teve que mexer para tudo na sua vida ser…
Virei-me tão rapidamente enquanto ele falava que nem consegui
controlar a minha mão direita, a qual foi parar na sua cara, estralando. As
marcas dos meus cinco dedos ficaram bem visíveis em questão de
segundos.
Tremi. Merda, eu não deveria ter seguido meus instintos, isso
poderia causar minha demissão.
Javier abaixou a cabeça, respirando profundamente, ao passo que eu
me recuperava do choque.

JAVIER
Meu rosto ardeu no local esbofeteado por Valentina. Observei a
madeira encerada da mesa. Inspirei fundo algumas vezes, buscando a
paciência de que precisava naquele momento.
— Você não tem mais o direito de dirigir a palavra a mim, a não ser
para assuntos pertinentes ao trabalho — sussurrou, enraivecida. — Perdeu
isso há quatro anos. Eu nunca viria até você de propósito, Javier. Sinto
muito orgulho do que conquistei, sozinha, sem a ajuda de qualquer Garcia
ou Ferraz. Espero que agora se envergonhe o suficiente para aceitar que,
neste contexto, somos apenas profissionais trabalhando em prol de nossas
empresas.
Caminhou para fora da sala. Pensei em deixar para lá, mas a mão
pesada da mulher tornou a arder, lembrando-me do motivo da minha raiva.
Então a segui, vendo-a entrar no elevador juntamente a alguns funcionários.
Decidi pegar o elevador privado, apertando o número do andar onde
ela se hospedara. Ao saber que Valentina estava ali, tomei precações para
evitar encontros indesejados entre nós. Mas ao descobrir sobre seu pedido
de checkout, enlouqueci, e em um minuto já a chamara à minha sala.
O elevador privativo parou no quarto andar no instante em que ela
abria a porta do seu quarto. Comecei a andar depressa em sua direção, e os
barulhos do meu sapato batendo contra o assoalho a fizeram levantar a
cabeça. Vi o brilho de raiva em seu olhar.
— Sem tempo, senhor Maldonado. — Toda vez que mencionava
meu sobrenome falso, soava como um deboche diferente.
Aproximei-me para segurar seu braço com firmeza, a impedindo de
entrar.
— O que você pensa que está fazendo?
— O que eu penso?! Não penso nada. Estou aqui a trabalho, você
que é um filho da puta insuportável e não sabe lidar com o fato de que o
mundo não gira ao seu redor.
— VOCÊ NÃO SABE NADA SOBRE MIM! — gritei,
descontrolado. Valentina sempre demonstrara o dom de despertar meus
sentimentos mais contrastantes.
— De fato. Eu não sei nada sobre você. — Afastou-se. — Vá
embora, Javier. — Tornou a fechar sua porta, andando novamente até o
elevador.
Observei-a ir sem saber o que fazer, preocupado com a minha
reação. Inspirei fundo, pronto para regressar à minha mesa e me julgar pelo
restante do dia. Mas a porta atrás de mim se abriu e, no segundo seguinte,
alguém passou correndo por ela.
— MAMÃE! — a figurinha berrou a plenos pulmões.
Valentina ainda esperava o elevador quando olhou sobre os ombros,
enxergando a pessoa minúscula.
— Martin! — disse de maneira repreensiva.
O toquinho de gente arregalou os olhos e voltou ao quarto. Movia-se
rápido, a despeito das pernas tão pequenas.
Ela, assustada, colocou a mão sobre o peito.
Pensei na situação.
— Quem é esse garoto? — O hotel não costumava receber muitas
crianças, não era um local indicado para elas.
— Ninguém — Valentina falou, regressando ao quarto.
O menino colocou seu rostinho oval na brecha da porta. Tinha
cabelos negros, caindo levemente em pequenos cachos, as bochechas
rosadas e a boca no mesmo formato que…
Era como se eu visse uma foto minha.
— Esse menino é… — Engasguei.
— …meu filho — Valentina completou, me encarando com raiva.
Meus olhos quase saltaram do rosto, em choque. — Lembra quando não
quis ouvir nada do que eu tinha a falar?
Ofeguei. Ela… Ela teve um filho? Um filho nosso?
— Martin, venha — chamou o garoto, pegando-o nos braços. —
Vamos, Lilian, mando alguém pegar as malas depois. — E passou por mim,
batendo os saltos altos no chão.
Enxerguei a criança me encarando. Ele era idêntico a mim.
Impossível não notar.
A confirmação me fez procurar um encosto para me manter de pé.
Porém, sabia que se Valentina se distanciasse, eu não teria outra chance de
entender o que aconteceu nesses quatro anos longe dela.
Peguei o celular no bolso da calça.
— Lujan, siga o carro da senhora Ferraz. Ela está com um garoto e
uma moça. Preciso saber aonde vão.
Em que hotel se hospedariam? Ela voltaria para continuarmos as
negociações ou sumiria para sempre? O que seria do seu… do nosso
menino? Eram tantas perguntas…
VALENTINA
Abri a porta do quarto em um dos hotéis mais bem avaliados da
Cidade do México. Martin ainda estava dormindo, e eu dividia um único
quarto com Lilian, já que éramos próximas.
Comecei a caminhar pelo corredor do hotel, mexendo no celular e
respondendo a algumas mensagens. Javier não tentara me contatar sobre o
episódio anterior, e eu agradeci por isso, confirmando que, para ele, um
filho não fazia diferença.
O celular tocou. Não reconheci o número, mas poderia ser alguém
do trabalho, então não pensei duas vezes em aceitar a chamada.
— Valentina Ferraz, bom dia. — Apertei o botão do elevador, rumo
ao térreo.
— Valentina. Sou eu.
Meus pés instantaneamente perderam a habilidade de se mover.
Fazia quanto tempo que não escutava essa voz?
— Ma-Mariano… — gaguejei, em choque. Imaginei que nunca
mais o veria ou falaria com esse homem.
— Estou na Cidade do México, quero conversar com você.
— Como sabe que estou aqui?!
— Mateus contou que a viu na casa da sua amiga. — Fechei os
olhos, xingando baixinho. Mateus com certeza me seguiu para saber onde
estava hospedada. — E ela me disse que você viajou para a Cidade do
México poucos dias depois.
Engoli em seco. Para Marília passar minha localização, ele deveria
tê-la pressionado.
— Quero falar com você.
— Não temos nada a discutir.
— Claro que temos! Passei anos engolindo esse segredo, que foi
revelado sem a minha supervisão, e você sumiu do mapa.
Realmente, eu desaparecera sem falar com ninguém além de
Marília. E sempre fui o mais discreta possível. Mas não era impossível me
achar, ele apenas não tentou o suficiente.
— Não quero falar com você, Mariano.
— Não importa. Todos esses anos de merda merecem um ponto
final.
Sabia bem o tipo de coisa que ouviria dele.
— Não me procure. — Finalizei a ligação, enfiando o celular no
bolso do terninho enquanto a porta do elevador se abria.
Mariano ainda era o homem que, a vida inteira, acreditei ser meu
pai. Aquele com quem passei a minha infância, esforçando-me para
entender o motivo do seu ódio. Ele tinha passe livre para me magoar. Tudo
que vinha dele poderia ferir meu coração. Eu sempre fiz o que ele desejava,
pois no fundo, bem no fundo, sabia que o amava.
Mamãe me magoou ao me abandonar, e o segredo dela destruiu toda
a felicidade que eu pensara ter encontrado. Mas com Mariano… era
diferente. Não queria enfrentar seu rancor, explorando mágoas passadas.
Chamei um táxi por um aplicativo, enfiando o meu nervosismo
garganta abaixo.

Entrei no andar da presidência carregando alguns papéis que


precisava entregar à secretária de Javier antes da reunião. Parei à sua frente,
estendendo a pasta. Ela pegou, anotando meu nome. Então ouvi uma voz
feminina atrás de mim.
— Cadê o Javier, minha jovem? — a mulher falou em um espanhol
fluído, segurando uma forma com algo tampado com um guardanapo.
— O senhor Maldonado acabou de sair, senhora — a moça disse,
sorrindo.
A mulher era mais velha, vestia roupas coloridas e rodadas. Tinha o
rosto marcado pela idade e os cabelos presos em um coque alto. Observei-a
calmamente, pensando no que ela queria com alguém como Javier.
— Preciso falar com meu neto, querida. Ele vai demorar?
Abri a boca, em choque, e dei alguns passos atrás, procurando sair
dali. Sentei-me num dos sofás da sala de espera.
A velhinha debatia com a recepcionista para ligar para Javier. Ela
era mesmo a avó do homem? Não conhecia as origens da família Garcia e
tinha medo de pensar muito acerca disso.
— Senhora, o senhor Maldonado deu ordens expressas para não ser
perturbado.
— Ok, já que não vai ligar — ela empinou o nariz —, eu vou sentar
do lado daquela moça bonitinha bem ali. E me traga um café — falou,
apontando para mim. A recepcionista assentiu, meio amedrontada. Segurei
a risada, vendo a mulher se aproximar do sofá que eu ocupava e se sentar ao
meu lado. — E você, filha? Como está?
Sorri, nervosa. De que maneira eu iria embora? Sabia que deveria
ter ficado no quarto, esperando José me encontrar.
— Ótima, e a senhora? — devolvi a gentileza.
— Ah, esta velha aqui não tem mais pique para correr a cidade
inteira. Só que eu preparei tacos e lembrei que Javier os adora, além do
mais, ele sempre come tão mal, apenas essas porcarias feitas em
restaurantes. — Bufou, contrariada.
— Acho que vale a pena atravessar a cidade para agradar alguém
que você ama.
Ela sorriu.
— Sim, sim. — Bateu em minha perna carinhosamente. — Com
toda a certeza vale. Mas e você? Não é mexicana, com esse sotaque.
— Sou brasileira. Estou aqui a trabalho. — José apareceu ao fundo,
andando em minha direção. — Meu chefe acabou de chegar. — Fiz menção
de levantar, mas ele gesticulou para que me sentasse.
— Vou sair para levar Rita a um lugar. Volto em alguns minutos. O
senhor Maldonado disse que se atrasará para a reunião. — Arqueei a
sobrancelha. — Ele é profissional, Val. Não faça essa cara.
Assenti, sorrindo de lado. José se afastou depois de se despedir. E a
mulher me encarou com uma expressão pensativa.
— Por acaso não gosta do meu neto?
Segurei a risada, sabendo que havia entrado em uma fria. Como
explicaria àquela senhora que não era bem uma situação de gostar, mas sim
dele ter arruinado a minha vida?
— Não é exatamente isso…
— Javier é um bom garoto, menina. Não faça essa cara. Ele seria
um excelente marido, se tirasse aquela aliança maldita do dedo! —
exclamou, me fazendo congelar.
— Mas o senhor Maldonado é casado, senhora — completei,
franzindo o cenho. — Estamos falando do mesmo homem?
Ela gargalhou.
— Claro que estamos. E como meu neto se casou, sem eu nem
fiquei sabendo? Acha que eu não participaria do casamento do meu próprio
neto, menina? — Soava um tanto ameaçadora, mas não deixava de ser
engraçada.
— Desculpe. Óbvio que a senhora saberia. Devemos estar nos
referindo a pessoas diferentes.
Ela sorriu, aceitando a justificativa.
— Ainda vou arrumar a mulher perfeita para ele — garantiu,
olhando para frente com determinação. — Não vai ser nenhum dos rabos de
saia que os homens costumam ter. Será alguém como você. Inteligente,
bonita, jovem, que possa lhe dar muitos filhos. Javier necessita de uma
moça distinta, com um futuro brilhante. — Pausou por um segundo, me
avaliando. — Quer que eu lhe arrume um marido também?
— Pelo amor de Deus, não! — exclamei, fazendo a mulher rir.
De onde saíra aquela pessoa? Eu não tinha a menor ideia.

JAVIER
Bati à porta do quarto em que Valentina estava hospedada e esperei
por notícias. Conseguir entrar ali foi uma luta, tive que reservar um local ao
lado para chegar o mais perto possível da criança.
Tremi quando uma pessoa desconhecida surgiu. Deveria ser a babá,
pois arregalou os olhos e tentou fechar a porta novamente. Eu a impedi,
pondo a mão sobre a madeira pesada.
— Deixe-me ver o menino.
Ela parecia assustada.
— Não. Não conheço você. Saia, por favor.
Sorri.
— Você sabe muito bem quem eu sou — afrontei-a, porque seu
susto denunciara isso. E ela acompanhara meu embate com Valentina.
Entrei no quarto, em uma antessala. Não enxerguei o menino.
— Vou chamar a polícia — ameaçou.
— Chame, eu sou um homem influente nesta cidade, conheço
muitos policiais. — Dei de ombros, me encostando no sofá da suíte. —
Vocês são apenas turistas.
Ela suspirou.
— O que quer aqui?
A garota era pequena. Se eu estivesse disposto, seria fácil tirá-la do
meu caminho.
— Eu sou Javier. Você deve saber disso, sou pai do menino…
— Martin. Ele tem nome.
— Isso, Martin. Eu só quero vê-lo.
— Não vou deixar. Trabalho para Valentina. Se ela liberar sua
entrada, tudo bem.
Alguém bateu à porta às suas costas e a fez calar. O barulho foi
acompanhado de um choro alto, meio desesperado.
— Lili! Mamãe! — Martin gritava. A babá abriu a porta, suspirando
resignada ao pegar o menino nos braços, acalmando-o. — Mamãe, Lili, eu
quero minha mamãe — sussurrou, choroso.
— Calma, querido, sua mãe está no trabalho. — Beijou os fios
castanho-escuros do menino, mas ele não se aquietou.
Aproximei-me alguns passos. Seus olhos vermelhos se enchiam de
lágrimas. O choro impedia que meus pensamentos se formassem de maneira
coerente.
Toquei a bochecha delicada da criança, limpando-a.
Martin era tão parecido comigo.
— Ele… — comecei. — Ele não para de chorar?
A mulher me olhou, braba.
— Está com saudade de Valentina. Ela teve folga nos últimos dias,
então Martin ficou mais apegado. — Tentei tocar os fios do garotinho. —
Vá embora, não encoste nele.
— Eu não vou levar o menino. Muito menos lhe fazer mal! —
rosnei. — Só me deixe vê-lo.
A porta da sala se abriu. Nós três nos viramos, dando de cara com
uma Valentina estática. O menino, vendo a mãe, pediu para ir ao chão,
chamando-a.
— O que ele faz aqui?! — praticamente gritou, pegando Martin nos
braços. Lilian explicou, mas como o garoto ainda não se acalmara,
Valentina caminhou com ele para dentro do quarto.
Encarei Lilian, que me fitava irada.
— Se eu for demitida por sua causa…
— Não vai — rebati, seguindo Valentina. Empurrei a porta do
quarto e a vi sentada em uma poltrona de frente para a janela, fornecendo-
lhes uma visão da cidade.
Segurava Martin, agarrado em uma mamadeira, em seus braços. O
cuidado de alisar os cabelos dele ao sussurrar coisas para o tranquilizar me
levou a sorrir. Valentina não percebeu minha presença. E eu fiquei ali,
absorvendo a maneira como o sol batia nos cachos de ambos, inflando um
sentimento desconhecido em meu peito.
Eu tinha um filho.
Eu tinha um filho com Valentina.
Ele era tão parecido comigo… Doía pensar que existia uma cópia de
mim por aí havia quatro anos, sem que eu soubesse.
— Qual a idade dele? — sussurrei, e ela me encarou, irada. — Não
vim brigar. Estou só curioso.
— Três anos e três meses — sussurrou, voltando a prestar atenção
no menino.
— É normal ele ainda tomar mamadeira? — Foi o jeito que
encontrei de puxar assunto.
— Não tem prazo, mas eu nunca consegui tirar. — Sorriu de lado.
— Ele é meio temperamental, e a mamadeira o acalma.
A informação me fez sorrir. Sem dúvida nenhuma, eu me
apaixonara pela segunda vez.
Foi naquele momento.
Por aquele menino.
Valentina colocou um Martin agora sereno num cercadinho,
arrumando sua roupa desalinhada. Após, prendeu os próprios cabelos num
rabo de cavalo alto. Eu a observava com curiosidade, sem nem mesmo
entender como minhas barreiras começaram a cair tão rapidamente.
— O que faz aqui, Javier?
— Eu não consegui dormir sabendo que ele… — Desviei o foco
para Martin, que brincava com um carinho. — Existia. — Fechei os olhos,
lembrando-me da nossa última conversa, quando me implorou para que eu a
ouvisse. — Era isso que queria me dizer quatro anos atrás?
Valentina riu de leve, balançando os ombros suavemente.
— Sim, era isso.
Perdi mais de três anos da vida do meu filho por meu egoísmo.
Perdi tudo sobre ele. O primeiro ultrassom. O primeiro chute. A descoberta
do sexo. A oportunidade de apoiar Valentina no período tão delicado da
gravidez.
Martin ficou em pé dentro do cercado e começou a se pendurar ali,
atraindo a atenção da mãe.
Eles se conectavam tão bem. E eu, ao mesmo tempo que sentia que
aquele era o meu lugar, me via demasiadamente deslocado. Uma parte
importante da equação, mas que nunca foi encontrada para ajudar a
solucioná-la.
— Mamãe, ele. — Apontou para mim.
— Sim, querido? — Abaixou-se ao seu lado. — Esse é Javier.
Martin me mirou de soslaio, sorrindo. Eu me aproximei a passos
pequenos.
— Ei, garoto — falei, suavemente. Como se fazia isso? Nunca me
vira sendo pai. Havia um manual de instruções? — Ai, caralho, por que
você é tão parecido comigo? — perguntei a mim mesmo, acidentalmente
em voz alta.
— Mamãe, caralho! — ele exclamou, arregalando os olhos.
— Javier! — Valentina rebateu, braba, e eu ri, sem me conter,
embora me culpasse. A primeira coisa que ensinei ao meu filho foi um
palavrão. Isso não poderia ser mais errado.
— Ei, desculpe. Não pode falar isso, ok, garotão? Caralho não pode.
Nome feio.
— Caralho? — voltou a dizer.
Tapei meu rosto com as mãos ao ouvi-lo repetir como um gravador.
A mãe dele me dirigiu um olhar repreensivo, e eu me xinguei em
pensamento.
Isso seria uma experiência alucinante.
— Não. Não. Não. Pense em outra coisa, certo? — Tentei mudar de
assunto, pegando uma Barbie abandonada ao seu lado e estendendo-a em
sua direção. Encarei minha antiga esposa e a notei pensativa. — Precisamos
conversar, Valentina. Desta vez, com sinceridade.
— Eu não tenho culpa. Foi você quem me afastou — disse com
determinação.
— Eu sei, eu sei. Mas temos que falar sobre essa minicópia minha
que vem atormentando minha cabeça.
Mirou o filho, em silêncio.
Tentei ser imune àquela mulher, mas como faria isso quando, dentro
destas quatro paredes, estava tudo de que eu precisara desde sempre?
VALENTINA
Javier se sentou na beirada da cama e me observou com atenção.
Martin estava agitado, então assim que o soltei do cercadinho, deu passos
trôpegos em direção ao pai, interagindo com curiosidade. Ele segurava a
chupeta entre os lábios. Vi Lilian me olhando da porta. Sorri, dizendo que
estava tudo sob controle e que ela poderia ficar calma. Deixou-nos
sozinhos.
Fitei o homem.
— Vai ficar apenas nos encarando?
Ele não tirava os olhos de Martin que, determinado, devolvia o
olhar.
— Não sei o que dizer. É tão surreal — murmurou. — Por que ele se
parece tanto comigo? — tornou a perguntar.
Segurei a risada ante a sua confusão.
— Talvez porque você doou espermatozoide. Mas eu garanto que é
a única participação que é obrigado a ter. — Ele não recebeu bem meu
comentário. — Estou sendo sincera. Trabalhei muito nos últimos quatro
anos, passei sono, fiz economias, chorei de desespero. Vivi muita coisa para
que Martin nunca tivesse que precisar de ninguém além de mim.
— Não estou dizendo que ele precisa. Só que estou em choque. —
Fechou os olhos, e o menino se aproximou, ficando entre as pernas do pai.
Ele estendeu a mãozinha, tocando o rosto de Javier, que voltou a olhá-lo. —
Ele é a coisinha mais linda, Valentina.
Era mesmo, mas eu não disse nada.
E antes que eu tivesse a chance de impedir, Martin lhe estendeu os
bracinhos, pedindo colo. Javier não pensou duas vezes: levantando-o do
chão, colocou meu menino na frente dos seus olhos.
— Oi — sussurrou. — Eu sou o Javier.
— Javier? — indagou. — Sou Martin. — E riu da expressão de
espanto do pai.
Ele adorou o homem. Percebi isso no instante em que Martin sorriu.
Mesmo que Javier, muito sério pela emoção, tenha apenas se apresentado.
— Eu o quero na minha vida — Javier balbuciou. — Sei que errei.
Sei que há muita história entre nós, mas quero Martin na minha vida. —
Meu filho brincava com a gravata dele.
Congelei no lugar. Porque a imagem era tudo que eu queria quatro
anos atrás, quando descobri que Javier não era meu irmão e que poderíamos
sim formar uma família.
Uma lágrima caiu.
— Não vou deixar você o machucar, Javier, é meu filho. Uma
criança não merece sofrer.
— Teremos que brigar por isso também?
Respirei fundo.
— Não. Mas ele voltará comigo para o Brasil no fim da negociação.
Assentiu.
— Voltaremos juntos. Ele precisa ter meu nome, afinal.
— Ele tem. Ainda somos casados, caso não lembre — alfinetei, já
que Javier desfilava por aí dizendo ser casado com outra.
— Não sei como faremos isso, mas sem chance de eu ficar longe
dele, Valentina. — Levantou-se, caminhando para fora do quarto com
Martin encaixado no seu braço e com a cabeça em seu ombro, como se
fosse uma criança calma.
Indignei-me perante aquela tranquilidade toda e fui atrás dele.
— Volte aqui. Aonde vai com o meu filho?
— Podemos almoçar. Estou com fome.
Já eram quase onze. Martin acabava dormindo em parcelas, o que
explicava o fato dele acordar àquela hora da manhã.
Depois de eu esperar por Javier a manhã inteira no seu hotel, resolvi
retornar para almoçar com meu filho, mas o homem estragou os meus
planos.
— Você tem uma reunião, Javier — lembrei-o. — José espera por
nós.
Ele pegou o celular, digitando uma mensagem rápida, e voltou a me
encarar.
— Cancelei a reunião. Venha. Vou levar ele para almoçar comigo —
declarou, já na porta da sala.
Fitei Lilian antes de correr atrás do homem, enfurecida por ele agir
como se não existisse nenhum problema na vida.
Javier parou quando seu celular tocou; estávamos perto do elevador.
— Oi, abuela — sussurrou, me fazendo franzir o cenho. — Sim,
sim, estou a caminho. Pego você aí. Posso levar uma pessoa? Na verdade,
são duas.
A confusão se apoderou de mim. Aonde ele achava que eu iria?
— Ok, amo você. Beijo. — Ele se virou para mim, guardando o
celular. — Vamos almoçar com uma pessoa. Ela cozinha muito bem, os dois
vão adorar.
— Não almoçaremos com você. Pode ser que não queira trabalhar,
mas eu preciso fazer meu serviço.
— Falei a José que você estava comigo. — Piscou, entrando no
elevador.
Inspirei fundo, cansada, e o segui, pois ele ainda carregava meu
filho.
— Pode me dar Martin.
Arqueou a sobrancelha.
— Ele está bem aqui. — Meu menino, de olhos fechados,
aproveitava o embalo do pai. — Nós vamos ter que lidar com tudo.
— Ok, já que propôs isso, realmente precisamos lidar com nossas
diferenças. — Enormes, aliás. — E tem uma coisa que eu desejo fazer sobre
o passado.
— O quê? — Javier sussurrou, próximo demais para eu considerar
seguro.
Dei um passo para trás, impondo certa distância entre nós.
— Um pedido de divórcio — falei, engolindo em seco.

JAVIER
Eu imaginei que Valentina poderia sim me apunhalar de maneira
dolorosa, mas nunca pensei que ela usaria isso. O divórcio significava muita
coisa, algumas que eu nem sabia como explicar.
Fiquei abalado. Minha mente trabalhava de maneira lenta. Desci os
olhos para a aliança em meu dedo, evidência do peso de que aquele
casamento ainda tinha sobre mim.
— Tudo bem — concordei, amargurado, sabendo que não poderia
brigar nem falar nada.
— Ótimo, tenho um advogado. Ele entrará em contato com você.
— Por que não fez isso nos últimos quatro anos?
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Eu tenho um filho, um filho cuja existência você desconhecia. E
você me mandou embora, Javier, sem me ouvir. — Franzi o cenho,
aceitando a culpa. — Poderia pedir a anulação, mas eu simplesmente passei
por problemas demais para me preocupar com isso.
— Sinto muito por…
— Não me peça desculpas. — Olhava no fundo dos meus olhos. —
Desculpas não vão mudar nada. Você me deve desculpas por inúmeros
erros, mas isso não altera o passado.
— Eu não fiz nada para você além disso.
Ela riu.
— Não, claro, afinal você é o rei do mundo, todas as suas ações são
perfeitamente aceitáveis — debochou. — Me expulsar do nosso
apartamento não foi a pior delas, Javier.
Tentei mudar o rumo do assunto, porque não estava preparado para
aquilo:
— Pegue suas coisas, não tem motivo para gastar com dois hotéis.
— Não se preocupe, vou gastar só com um. Não pretendo continuar
no seu. Com você sabendo de tudo, terei de explicar a José de um jeito ou
de outro.
Abri a porta do carro para que Valentina entrasse e botei Martin em
seu colo. A aproximação foi rápida, mas me permitiu sentir o seu perfume.
Afastei-me, dando a volta e entrando no lado do motorista. Parti em
direção à casa de abuela. Martin estendeu a mãozinha para mim, me
chamando, e Valentina revirou os olhos, talvez chateada com a interação
voluntária do filho comigo.
Um sorriso escapou dos meus lábios.
Não voltaríamos a ser um casal. Mas eu já aceitava totalmente a
ideia de ter um filho. Afinal, havia sido com Valentina; impossível existir
combinação melhor.
E a prova viva disso era Martin.

Estacionei o carro, destravando as portas e contornando o automóvel


para abrir a de Valentina, mas ela já o fizera. Encarava a fachada simples do
local.
— Venha. É seguro. — Eu a conduzi à entrada. Subimos a escadaria
rodeada por flores, e ela parou na área.
— Não disse que não era seguro. Mas não parece o tipo de lugar que
você frequentaria. — Martin continuava em seus braços.
— Pode colocá-lo no chão, se quiser.
Ela negou, abraçando o filho com mais força. Transformava-se em
uma leoa pelo menino.
— Estou bem.
Toquei a campainha e aguardei a chegada de abuela, que destrancou
a porta segundos depois, abrindo os braços para me envolver no seu aperto.
— Meu querido! Eu fui ao seu trabalho, e acredita que a mocinha
não quis chamá-lo? — resmungou e se afastou.
— Tive um compromisso importante.
— O compromisso importante era invadir meu quarto de hotel —
Valentina completou, ácida, atraindo toda a atenção da minha abuela.
Contudo, minha quase ex-esposa pareceu espantada ao olhar bem
para o rosto de vovó. Abuela tinha uma expressão similar à sua.
— O que essa jovem faz aqui? — vovó perguntou. Após, notou
Martin. — E quem é esse menino?
Reconheci a minha culpa na confusão que se formara. Levei Martin
e Valentina à casa de Guadalupe sem nenhum preparo de ambas — uma
queria me casar e, a outra, achava que eu estava casado com Anna.
Onde enfiara a cabeça? Maldita impulsividade.
— Esse menino é meu filho — Valentina falou.
Abuela abriu a boca, em espanto. Mas se recuperou, chamando-nos
para dentro com a mão:
— Venham, venham. Que coisa, você tão novinha e já com um
menino… E o marido, minha filha? Onde está? Homem hoje em dia não
tem responsabilidade, são raros os que não fogem… — e seguiu
monologando, como sempre fazia.
Nós nos sentamos no sofá da minha abuela, enquanto ela continuava
a querer saber da vida de Valentina e, junto, reclamava do “sumiço” do pai.
Valentina, de cabeça baixa, segurava a risada.
— Eu até tentei esperar, dona…
— Guadalupe.
— Dona Guadalupe. Mas meio que me forçaram. — Deu de
ombros, me fazendo revirar os olhos.
Minha avó ofegou.
— Violaram você, menina?!
— NÃO! — gritou minha ainda esposa, desesperada. — O
casamento. O casamento foi arranjado.
Encostei-me no sofá e vi Martin sair dos braços da mãe, pulando no
chão para desvendar a sala da sua bisavó. Valentina tentou controlá-lo, mas
o menino respondia com um bico e os braços cruzados.
— Venha aqui, Martin! — exclamou.
Ele começou a chorar, contrariado, mas foi para os braços da mãe.
— Pode me dar ele? — pedi. Valentina cedeu.
Peguei o garotinho e me levantei, balançando seu pequeno corpo de
um lado para o outro, até que as lágrimas findaram. Busquei um dos
bonecos de enfeite de abuela e entreguei-o a Martin, para entretê-lo.
— Então quer dizer que foi obrigada, querida? Que tristeza! —
Revirei os olhos ante a conversa. — Como se encontraram? E por que a
menina me disse mais cedo que você é casado, Javier?
Virei-me, curioso.
— Quem lhe disse isso?
— Ela. — Apontou para Valentina. — Quando eu estava falando em
arranjar a mulher perfeita para você.
Isso fez meu coração disparar. De fato, eu já estava casado com uma
pessoa que atendia a todos os requisitos de abuela.
Olhei para Valentina.
— Eu só repassei a informação que recebi, senhor Maldonado. —
Deu de ombros.
— Por Deus, eu não sou casado!
— E qual é o motivo para usar uma aliança? — vovó me afrontou,
fazendo a pergunta que ela sempre quis, desde que nos conhecemos.
Encarei Valentina, entre a cruz e a espada.
Ou contava que nunca consegui tirar aquilo porque não havia
ninguém em minha vida além da mãe do meu filho, ou mentia à minha avó,
dizendo que me casei com Anna.
Caralho, era uma confusão sem fim.
VALENTINA
Observei-o parado no meio da sala de estar da sua avó. De fato,
havia mais de uma versão sobre o tal casamento de Javier, conforme
descobríramos em nossa conversa mais cedo.
Ele moveu o pé de maneira encabulada. Nem parecia o mesmo
homem que eu conhecera anos atrás.
— Não sou casado — revelou, me encarando. — Sim, eu sou
casado. Mas não, não moro com ninguém.
— Não entendi nada, menino! — exclamou Guadalupe, batendo a
mão no encosto do sofá.
Javier colocou Martin no chão e entregou-lhe um boneco para
deixar meu menino entretido.
Retirou a aliança que usava, levantando-a no ar, exibindo seu
interior. Preguei meus olhos no objeto e não consegui desviar a visão.
— Você se lembra disso, Valentina? — Engoli em seco. — A
aliança é a do nosso casamento. — Meu corpo inteiro tremeu. Insistia em
dizer a mim mesma que isso não significava nada, mas a minha parte
irracional se concentrava no valor do gesto. — Fui casado com Valentina há
quatro anos, abuela. Não pedimos o divórcio, então sempre me vi na
obrigação de usar o anel.
— Mas é claro! São casados. Por que não me disse antes, querido?
Javier riu.
— Não era importante.
— Eu não entendo. Todos falam que você e Anna… — comecei,
confusa. — Até meu chefe os achou um casal lindo. — Fiquei de pé, com a
cabeça rodando. — É muita lou…
— Não é loucura nenhuma. Eu nunca fiquei com Anna, Valentina!
— Não aceito que você minta sobre o passado, Javier. Sobre as
coisas que eu vi.
— Eu…
— Não. Não quero escutar nada.
Abuela entrou no meio, afastando o homem.
— Acalmem-se. Quer dizer que aquele danadinho ali é filho de
Javier? — sussurrou, apontando para Martin, que espichava as perninhas
para alcançar a estante de livros.
— Sim. Ele é filho de Javier — revelei à senhora, que primeiro me
olhou assustada e, depois, me abraçou.
— Ah, querida, bem-vinda à família! Eu sou bisa! Vou perturbar
tanto os dois, já peço desculpas antecipadas. — Segurei a risada. — E como
vão criar uma criança? Ela é brasileira, e você mora aqui.
Tornei a me sentar, sabendo que não poderia ignorar a gentileza de
dona Guadalupe.
— Não posso ficar no México, eu vivo no Brasil e toda minha vida
está lá. A de Martin também. Javier sabe que pode participar, mas não
consigo mudar de país. — Ela aquiesceu e pegou meu filho nos braços,
beijando a bochecha do menino, que não gostava daquilo e passou a se
debater. — Ele é um pouco zangado — comentei, sorrindo.
— Menos comigo — Javier acrescentou, segurando Martin
novamente e fazendo cócegas no nosso garoto, que jogou a cabeça para trás
e gargalhou. — Olhe, Martin, olhe. É a sua abuela. — Apontou para a
mulher.
Inspirei fundo. Em menos de vinte e quatro horas com o filho,
Martin já o tratava desta maneira. Quando eu perderia meu bebê
definitivamente?
— Abubela? — Martin falou tudo errado, fazendo a senhora rir.
— Ah, Deus, Martin. Você é a coisa mais preciosa do mundo. —
Tocou o rostinho do meu menino com carinho. — Você agora tem uma
missão, pequeno. — Ele a encarou, curioso com o portunhol falado
rapidamente. — Fazer esses dois decidirem o melhor para você. E o melhor
para uma criança…— Desviou os olhos para nós, me deixando temerosa.
— É sempre estar com os pais. Juntos. — Aquilo enviou uma onda de
desespero para o meu peito.
Não poderia voltar a me relacionar com Javier, mesmo que ele não
tivesse se casado com Anna. Mesmo que tivesse usado a nossa aliança por
anos.
Ele ainda era o cara que havia levado a amante para a nossa casa.

Terminei no quarto do Bella Mia no fim da tarde. Depois da situação


tensa com Javier na casa da avó, ele me levou para lá e insistiu para que eu
ficasse. Pelo bem de Martin, que parecia gostar do contato com o pai, eu
concordei, embora relutante.
Lilian bateu à porta e liberei a entrada, ciente de que ela viria.
Sorriu, vendo Martin bagunçando minha penteadeira. Nem me importei em
controlar a criança; eu permanecia em estado de choque desde que
encontrei Javier no outro hotel.
— Ei, sinto muito. Não o coloquei para fora, ele ficou insistindo,
nem sei como entrou no hotel e…
— Tudo bem, Lilian. Ele é assim. — Bufei. — Vamos passar a noite
aqui. Hoje tenho um jantar com José e Rita, eles me convidaram. Sabe
que…
— …nunca recusa um convite deles — Riu.
Assenti, sorrindo, e abri minha mala. Havia poucas peças de noite
ali. Só duas, na verdade: um vestido vermelho e um azul-marinho. Optei
pelo azul, uma cor mais discreta.
Coloquei a roupa sobre a cama, enquanto Lilian pegava Martin e o
levava para o banho. Escolhi um escarpim preto e botei ao lado do vestido.
Acertaria alguns detalhes de trabalho até o horário de descer.
No entanto, travei ao ouvir Martin gritando de dentro da banheira.
Aproximei-me, vendo que ele ria e batia palmas, animado.
— Papai… — começou, me levando a congelar na porta. — Pai.
Cadê o papai, Lili?! — indagou.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Não havíamos dito a ele quem
Javier era, apenas deixei que meu filho conhecesse o homem. O menino
adorava seu colo.
— Seu pai, Martin? — Lilian inquiriu.
— Sim. Javi. — Sorriu de lado.
Lili buscou ajuda com um olhar desesperado. Eu lhe alcancei um
brinquedo para distrair Martin, ao passo que ela se aproximou de mim,
cochichando:
— Contou tudo a ele?
— Não, mas acredito que ele saiba, de alguma forma. — Encolhi os
ombros, descontente, também falando baixo. — E Javier parece entender
tudo que Martin quer. O que é tão irritante!
Lilian riu.
— Você só está braba porque nunca precisou dividir seu filho —
acusou.
— Se Javier quer um filho, por que não faz com a Anna? —
resmunguei e saí dali, ouvindo a mulher rindo alto. Sim, estava sendo
infantil, mas eu sentia ciúmes. De Martin, de Anna, de Javier… Do mundo
inteiro, aparentemente.
Depois da revelação da aliança, a minha cabeça virara uma
confusão. O que diabos era aquilo? Por todos tratavam eles como um casal
de verdade?
Lilian tinha razão. Desde que Martin nasceu, eu fui sua base. Logo,
me deixava enciumada que, do nada, Javier aparecesse e meu filho já
estivesse todo apaixonado por ele.
— Eu estou é ferrada. Os dois se identificam, só pode. — Revirei os
olhos enquanto pegava meu celular e abria a caixa de e-mail, chegando à
conclusão de que agora teria que dividir meu filho com aquele homem. Ou
seja, Javier estaria na minha vida para sempre.
Essa era a parte mais perturbadora.

Abri a porta de vidro que dividia a área do restaurante e procurei


pela mesa onde José e Rita me esperavam. Vi os dois sentados mais à frente
e, instantaneamente, sorri. O local estava cheio.
Parei ao lado do meu chefe.
— Boa noite.
— Boa noite, querida! — disseram, quase em uníssono.
— Sente-se — Rita complementou, batendo na cadeira ao seu lado.
Assim fiz, colocando meu cabelo para trás. Ele estava solto, com um
volume considerável; tive um trabalho a mais para definir os cachos. —
Temos companhia hoje.
Arqueei a sobrancelha.
— Boa noite. — Escutei uma voz masculina.
Olhei para o homem alto ao lado da nossa mesa. De cabelos loiros,
lábios naturalmente rosados, rosto oval e com um maxilar forte, bem
marcado. Era lindo.
— Boa noite — respondi, envergonhada.
— Val, esse é Alejandro. Um amigo que mora na cidade, empresário
também. — Rita bateu nas costas do homem. — Sente-se, querido. Essa é
Valentina, sobre quem eu comentei com você. Uma mulher maravilhosa!
— É um prazer conhecê-la. — Estendeu a mão, apertando a minha
levemente entre as suas.
Pegou-me de surpresa ao me lançar um sorriso charmoso. Nestes
quatro anos, eu nunca havia flertado com ninguém, mas observar as pessoas
ao meu redor me deu uma certa experiência com isso.
— Ele está voltando para o Brasil. Acho que deveríamos marcar um
jantar, até para comemorar nosso novo contrato. — José dava indícios de
que realmente estava interessado em seu negócio com Javier.
Sorri.
— Perfeito — falei, já sabendo que, no fim, a resposta para tudo
isso seria positiva. O homem era bom quando se tratava de negócios.

JAVIER
Olhei-a de longe. Valentina sentava-se à mesa com José, Rita e um
homem desconhecido, que falava com ela sem poupar esforços para
despejar toda a atenção do mundo à mulher. Inspirei fundo, levando um
gole do vinho à boca enquanto cogitava se deveria me aproximar ou não.
Uma decisão difícil, já que não tinha nenhum tipo de ligação com ela, além
do trabalho — ao menos aos olhos do senhor Gonçalves. Como apareceria
lá? Sem sentido nenhum.
Eu precisava de foco.
Eu precisava me lembrar do motivo de nunca ter voltado.
— Sei que não quer me ver. — Ouvir Alba atrás de mim me
congelou. Peguei o café que uma moça estendia em minha direção. Estava
na lanchonete a algumas quadras do meu apartamento. — Mas eu sou sua
mãe, Javier.
— Claro, uma mãe que nunca contou a verdadeira origem do filho.
Alba se remexeu, desconfortável.
— Eu não sabia. Seu pai me fez acreditar a vida toda que você era o
bebê que eu gerava no ventre.
— Nunca descobriu isso? Jura?
— Sim. Eu descobri pouco antes de você se casar com Valentina —
falou, fazendo careta.
— Então por que não tentou impedir o casamento?
— Porque ela é como a mãe, Javier. Você não entende, Vânia
dormiu com meu marido e mentiu para o dela. Valentina fez muito pior com
você e sabe disso.
— Valentina não me fez nada. Nem a vi nos últimos dias.
Ela riu.
— Essa garota e seu pai andaram se falando. Pensei que soubesse,
já que está por dentro de tudo da empresa. — Franzi o cenho. Fazia dias
que não entrava em contato com ninguém de lá. — Ela entrou para o
conselho da G&F. Pergunte à Hilda, você confia nela — incentivou.
— Não acredito em você. Não preciso checar nada. Valentina não
faria isso — defendi minha esposa, levando Alba a gargalhar mais uma vez.
— Você se tornou cego. Pensei que havia criado um homem melhor.
— Não, você criou uma pessoa mesquinha, mamãe. — Sorri. — Mas
agradeço por ao menos ter me criado. Talvez meu inconsciente soubesse
que não tínhamos uma ligação de sangue. Sempre me forcei a ser bondoso
aos seus olhos e fazer suas vontades. Meu instinto estava correto. Deveria
respeitar os Garcias, afinal, eu era só uma criança que foi dada à família
em troca de dinheiro. Algo realmente triste, né?
Ela começou a falar, mas eu já caminhava à porta. Não queria
ouvir nada.
Entrei no veículo emprestado de Anna e encarei a rua à minha
frente. Não, Valentina não faria isso.
O celular apitou sobre o visor e enxerguei uma mensagem de Hilda
brilhando na tela: “A senhora Garcia (sua esposa) estava à sua procura. O
seu pai pediu para acomodá-la em sua sala, até que tudo seja
reorganizado. E você tem uma reunião com os acionistas hoje”.
Tremi da cabeça aos pés.
Saí depressa do restaurante, antes que a raiva inflasse demais para
ser suportada. Caminhei por todo o corredor e observei a varanda com uma
vista para a cidade. Parei ali, olhando ao redor. O cassino ficava nos andares
superiores; ali embaixo, a calmaria era excelente para me ajudar a pensar.
Só que quanto mais eu pensava, mais Valentina não saía da minha
mente e mais ridículo eu me sentia.
Eu não queria voltar para ela. Mesmo assim, a mulher me deixava
insano! Da mesma maneira que eu ficava quatro anos antes.
Na varanda, aproveitei a brisa batendo em meu rosto por um bom
tempo. Ponderei sobre o caminho trilhado após descobrir a existência de
Martin. E suspirei, reforçando a conclusão de que estava encantado por
aquele garoto.
O almoço com abuela não poderia ter sido pior. Ela se apaixonou
por Valentina e Martin. Consequentemente, usou todas as suas forças para
impressionar a mulher.
E não pude ignorar seu conselho final, falado ao meu ouvido quando
estávamos saindo: “Não sei o que houve no passado, mas o destino colocou
essa menina sentada ao meu lado hoje na sua empresa. Ela é especial,
Javier, de uma maneira que sei que homens estúpidos não percebem. Fique
atento aos seus sentimentos e aos dela. Machucá-la não vai lhe trazer
felicidade”.
Suas palavras se repetiam em minha mente a todo instante.
Voltei para dentro do hotel, entrando no bar ao lado do restaurante.
Meus olhos se fixaram na cena de Valentina sentada na banqueta com o tal
homem ao seu lado. Ela bebia uísque, uma mudança brusca do seu antigo
gosto.
Pensei em me aproximar, mas fiquei a alguns passos dela. Pedi outra
dose, pois seria necessária para sobreviver a esse tipo de imagem. Ela riu
mais alto, jogando a cabeça para trás.
Isso me pinicou em algum lugar. Que maldição era essa?!
— Isso! — o homem disse, concordando com o que Valentina
falava. Eu estava a cinco banquetas deles, e ela nem sequer havia notado a
minha presença. — Onde você reside no Brasil?
— Em Curitiba. Morei desde pequena em São Paulo e, quando
precisei de um lugar para ir, uma amiga me conseguiu um emprego lá.
Acabei me mudando sem pensar duas vezes. Adoro a cidade — contou com
certa admiração.
Fingi beber meu conhaque.
— Curitiba… Já fui para o Rio, fiquei um tempo. No Carnaval.
Revirei os olhos, chegando à conclusão de que era apenas mais um
dos gringos que iam ao Brasil apenas pelo Carnaval.
— Nunca fui. Como disse, tenho um bebê, e ele é um tanto
temperamental, então quando estou em casa, tento passar a maior parte do
tempo com meu filho. Mas o Carnaval do Rio é popular mesmo. — Sorriu.
Foi uma amiga que arrumou um emprego para ela em Curitiba?
E ela falava do filho tão abertamente perante um estranho?
— Você tem um bebê? Minha irmã tem dois, gêmeos, são as coisas
mais lindas do mundo. Mas sempre acho que vão colocar a casa abaixo. —
Ela riu, e o homem se inclinou, retirando uma mecha dos cachos definidos
de cima da testa de Valentina.
O gesto me irritou e, antes que conseguisse impedir, pulei de pé e
empurrei a cadeira para trás, atraindo a atenção indesejada do pessoal no
bar. Valentina me encarou, assustada.
— Preciso falar com você — disse a ela, sem pensar no resultado.
Apenas a queria longe dele.
VALENTINA
Javier parou a alguns passos de mim. Pulei da banqueta quando vi
seu rosto cheio de raiva. O que estava acontecendo? Caminhei em sua
direção, confusa.
— O que você quer? — rosnei.
— É Martin! — falou, rápido. — Eu ia vê-lo, mas ele chorava
muito. Não parava de chorar, e vim atrás de você quando Lilian disse que
estava no hotel.
Mirei-o desconfiada.
— Ok. Obrigada. Vou ver meu filho. Você pode ir. — Eu me virei,
sorrindo, para Alejandro. — Desculpe. Deveres de mãe. Vejo você em
breve. — Beijei a bochecha do homem.
— Com toda a certeza. Você tem meu número. — Piscou, charmoso,
enquanto eu me afastava. Javier nem se moveu, lançando a Alejandro um
olhar cheio de raiva. — Boa noite, Val.
Sorri.
— Boa noite.
Passei pelo meu ainda marido e saí do bar, caminhando pelo
corredor amplo. Parei em frente ao elevador, esperando. Ouvi passos às
minhas costas e cheguei à conclusão de que deveria ser Javier.
— Que merda é essa? — sussurrou, parando ao meu lado.
— Não sei, você que parece estar em todos os lugares — rebati,
entrando na caixa metálica. — Pode ir, cuido do meu filho.
Ele não me ouviu, entrando junto e me fazendo suspirar.
— Vou pegar o privativo do quarto andar — alfinetou, me deixando
confusa.
— Você não deveria ir para casa, dormir ou algo do tipo? — falei,
checando o celular e não vendo nenhuma mensagem de Lilian.
— Não. Eu durmo na cobertura. Moro lá. — A meu ver, isso
confirmava que ele e Anna deveriam viver sozinhos lá em cima,
consequentemente, rolava algum tipo de relacionamento aberto. Ou até
mesmo um monógamo.
— Ok — murmurei, esperando o elevador abrir no meu andar.
Andei até meu quarto, sem me despedir do homem. Bati à porta do
meu quarto e, olhando sobre meu ombro, encontrei os olhos castanhos que
tanto me encantaram quatro anos atrás.
Uma onda de desespero inundou meu corpo.
Ele era um traidor.
Ele não era fiel.
Ele se casou comigo porque queria poder.
Ele nunca me amaria.
Meus olhos se encheram de lágrimas por causa dos ressentimentos
antigos. Passei o cartão na leitora. Isso nunca acontecerá novamente,
decretei, entrando no quarto.
Porém, a visão de Lilian e Martin adormecidos na minha cama
chegou aos meus olhos. E percebi que Javier mentiu. Virei-me rapidamente
com a esperança de ainda encontrá-lo ali, mas ele já se fora.
Por que o homem faria isso?

Dois dias depois do episódio no bar, estava pronta para mais uma
noite na cidade. Passei o dia todo cuidando de Martin, durante a minha
folga, garantindo à Lilian seu merecido descanso.
Antes que tivesse chance de fazer planos para a noite, recebi uma
mensagem de Alejandro me convidando para jantar. Tentei recusar, dizendo
que estava com meu filho, mas ele disse que eu poderia levá-lo e, assim,
mudaríamos os planos para algo adequado a uma criança.
Aceitei. E enquanto terminava de aprontar Martin, alguém bateu à
porta do meu quarto.
— Fique aqui — sussurrei ao meu garoto, que assentiu, todo
obediente. Só Deus sabia que ele nem sempre agia desse modo.
Estávamos no hotel que paguei para ficar longe do Bella Mia. Não
aguentei compartilhar o espaço com Javier. Ele não falou nada, então eu
acreditava que aceitara bem. Havia mudado de hotel depois de falar com
José sobre toda aquela situação, logo, não esperava a visita de ninguém.
Abri a porta, terminando de colocar um par de brincos pequenos —
meu minúsculo terrorista amava puxá-los; não queria perder uma orelha.
Assustei-me com a visão de Javier ali, vestindo calças jeans e uma
blusa casual.
— Boa noite. — Observou-me da cabeça aos pés.
— O que faz aqui? — Franzi o cenho, jogando os cabelos para trás.
Eu vestia algo rodado e com pequenas flores, além de uma jaqueta de couro
devido ao frio.
Martin apareceu na porta. Nem me assustei com sua agilidade para
sair da cama sozinho.
— Javi chegou! — Sorriu, fazendo o mesmo sorriso se expandir nos
lábios de Javier.
— Vim pegar vocês — falou meu quase ex, segurando o menino nos
braços como se aquilo fosse corriqueiro.
— Não vai dar, estamos de saída. Marquei com uma pessoa.
— E Martin vai junto? — Arqueou a sobrancelha.
— É claro que sim.
— Levará nosso filho a um encontro?
— Não é um encontro! Ok, talvez seja um encontro — tagarelei,
confusa. — Mas se eu vou sair com um homem, não quer dizer que eu vá
— cochichei a próxima parte — dormir com ele. E eu tenho um filho,
qualquer pessoa que entre em minha vida precisa ter ciência disto.
Ele me encarava.
— Você não vai.
— É claro que vou. Quem é você para decidir por mim? —
debochei.
— Ligue para ele e marque para depois. Eu até posso ficar com
Martin, se quiser, mas hoje você vai sair comigo.
— Eu não vou sair com você — declarei.
— Ok. Então eu não deixarei a sua porta, até termos uma conversa
decente.
— Você não tem poder aqui, Javier. Não estamos em seu hotel.
— Mas eu conheço os donos e sei bem que…
— O que diabos você quer?! — praticamente gritei, assustando meu
filho, que começou a chorar. A frustração atingiu meu corpo. Antes que eu
tivesse a chance de me controlar, já estava chorando junto. — Merda, meu
filho fica assustado com minhas loucuras, e você só sabe deixar meus
nervos à flor da pele.
Peguei Martin dos seus braços, fechando a porta rapidamente em
sua cara. Meu corpo pendeu ao chão, com Martin grudado em minha
cintura, e beijei seu rostinho, pedindo calma.
Ele se tranquilizou, lentamente, encostando a cabeça em meu peito.
— Eu não quero machucar você. — A voz veio do outro lado da
porta. — Sinto muito se faço isso. Desde sempre fiz, mas eu sinto muito…
Distraí Martin com brinquedos antes de responder à Javier:
— Sente muito também por levar sua amante para a nossa casa?
Ele se calou.
— Não quero falar coisas que machuquem você.
— Tem razão, saber que dormiu com ela no mesmo local em que
esteve comigo me machuca, sim. — Martin andava pelo quarto, pegando os
brinquedos e, estranhamente, guardando-os dentro da caixa apropriada. —
Eu não quero você na minha vida, Javier. Quando você entra nela, me faz
confiar, só para depois quebrar tudo o que eu sinto.
— Você sente? — Riu. — Não, você nunca sentiu nada, Valentina.
Sorri, sarcástica.
— Realmente, você não me conhece nem um pouquinho. Vá
embora.
— Não até aceitar minhas desculpas.
— Por quê? Qual é a desculpa da vez? Anna enfiou a língua na sua
boca sem querer naquele dia? Escorregou numa casca de banana e
acidentalmente me mandou embora como uma das mulheres aleatórias com
quem costumava ficar? Ou foi bem-intencionado ao mentir dizendo que
meu filho precisava de mim, enquanto eu conversava com um cara legal?
Ele riu.
— Eu não sei. Tudo que faço é loucura. Vejo você e fico insano,
querendo tocá-la. Vejo você com outro e sinto raiva. Era eu quem
costumava mexer nos seus cachos. — Inspirei fundo, e as lágrimas caíram
novamente. — Aí me lembro de que nós dois acabamos com tudo. Do que
eu senti, e você parece nunca ter reciprocado.
— Eu senti. Por muito tempo. Queria lhe contar no dia em que
também diria que teríamos um bebê, no mesmo dia em que descobri que
não éramos irmãos. — Solucei. — Você me mandou embora. Você estava
com ela ali, e era tão desesperador que eu nem sequer soube o que fazer, só
jurei que nunca mais sentiria algo por você.
— O erro não foi só meu. É um motivo estúpido, mas minha
empresa era tudo que eu tinha. E, do nada, você estava lá, recebendo tudo
pelo que lutei.
Franzi o cenho.
— Você acabou nosso relacionamento por ciúmes do que eu poderia
ter?! — Abri a porta. O homem, que estava encostado na madeira, caiu para
trás rapidamente, arregalando os olhos pelo susto. — E quem lhe disse uma
merda dessas? — Coloquei as mãos sobre seu peito, obrigando-o a me
olhar.
— Alba. E minha funcionária — sussurrou, com meus cabelos ao
seu redor.
Martin, voltando a tocar o terror pelo quarto, nem percebeu o fato de
que não estávamos correndo atrás para corrigir suas bagunças.
— Eu estou com tanta vontade de bater em você agora! — exclamei,
braba. — Foi um babaca por acreditar nisso. Sim, eu queria acabar com a
dependência do meu pai, mas eu nunca me sentiria superior por você estar
perdendo algo que amava. Muito menos precisei de Santiago!
Tocou meu rosto, secando minhas lágrimas.
— Você também acreditou que eu estava com Anna.
— É diferente. Eu sempre tive motivos para acreditar que era a
corna da relação. Você costumava ser um homem livre, transou com
inúmeras mulheres. Inclusive com alguém no dia da nossa lua de mel. —
acusei, falando rápido e aos cochichos. — Mas eu…
Ele me calou, segurando meu rosto e afundando os lábios contra os
meus. Acariciou meus cachos, puxando-me levemente para me fazer soltar
um gemido baixinho. Sua língua mergulhava na minha boca, beijando-me
intensamente.
Tomei seu rosto em minhas mãos, deslizando os dedos pela barba
por fazer.
Quatro anos. Quatro anos sem beijar Javier. Sem tocar em qualquer
homem. E meu corpo se derretia perto do seu. Um suspiro escapou junto a
um gemido baixinho quando ele mordiscou meu lábio.
Tinha gosto de menta.
De desejo.
Era sensual.
Suave.
E findava todos os meus pensamentos.
Afastamo-nos lentamente, e me sentei no chão, encarando meu
filho, alheio à situação, subindo na minha penteadeira.
Voltei ao meu dever de mãe e o tirei dali.
— Isso não aconteceu — sussurrei, de costas para ele e com Martin
nos meus braços. — Não sei o que houve entre você e Anna. Mas eu nunca
aceitei nada que viesse da sua família adotiva. Se quiser saber, pergunte à
Marília, a José, eles vão falar tudo. Até o dinheiro que deixou no cartão que
me entregou foi usado para uma única coisa: seu filho.
— Eu sinto muito. Não preciso saber de nada.
Encarei-o.
— Você foi manipulado. — Sorri, recebendo um olhar sério do
homem. — Como sempre. Sempre acreditou mais no que Alba dizia, nem
sei por que não desconfiei. E saber de tudo isso não muda nada… — Tornei
a chorar. — Não conseguimos mais conviver normalmente sem xingar um
ao outro. Não dá para simplesmente esquecermos o que passou. Não somos
aparelhos, não basta resetar as configurações para tudo voltar a ser como
antes. E é melhor assim.
— Assim como?
— Tentando nos manter civilizados por causa da única coisa que vai
nos unir para sempre. — Seu olhar recaiu sobre Martin. — Ele é seu filho.
Voltaremos para o Brasil em breve, mas ele estará à sua disposição, se
quiser vê-lo.
— E se eu não desejar ficar longe dele?
— Você iria para o Brasil? — rebati, séria. — Eu lutei anos por um
lugar lá, não posso dispensar tudo porque você quer recuperar o tempo
perdido com Martin.
— Não… — concluiu. — Não consigo me mudar para o Brasil.
Eu sorri, triste.
— Então Martin continuará apenas comigo.

JAVIER
Encarei-a, em choque com o que saiu dos seus lábios. Não
conseguia parar de pensar no que ela me disse, que me viu com Anna — e
sim, aquele fora o propósito. Sabia que Valentina só iria embora se eu a
traísse; precisava colocar certa distância entre nós, pois queria machucá-la
da mesma maneira que me senti ferido quando me falaram tudo sobre a
G&F.
— Não mereço a chance de conhecer um pouco meu filho? —
apelei em relação a Martin, ciente de que ela nunca abriria mão do que tinha
no Brasil para viver no México.
As palavras dela sobre todos estarem contra nós era o que ainda doía
lá no fundo, dilacerando-me rapidamente.
— Merece, sim. Mas eu não sei se confio em você sozinho com ele.
— Fitou-me, me fazendo rir.
— Então venha comigo. Vamos jantar, ir a um parquinho infantil e
fazer algo mais que crianças gostem. — Estendi a mão para ela, vendo a
dúvida brilhando nos seus olhos.
Até que Valentina sorriu. O tipo de sorriso que me daria quatro anos
atrás.
— Ok — respondeu, entregando Martin em meus braços. — Por
favor, me espere lá fora, vou fazer uma ligação.
Assenti e saí do quarto, balançando o menino para frente e para trás.
Ele choramingou, e eu o encarei.
— Ei, campeão, não fique assim. — Limpei seu rostinho e recebi
um sorrisinho. — Cadê aquela risada linda, idêntica à da sua mamãe, hein?
— Fiz cócegas leves, e ele se jogou para trás, segurando meu rosto de modo
a se apoiar.
— Pare, papai! — gritou, risonho, me congelando.
— O que você disse? — Arregalei os olhos, fixos em Martin. —
Fale de novo, Martin. — Coloquei-o à minha frente, pendurado no ar pelos
meus braços.
Ele me encarou com desconfiança.
— Mamãe.
— Não, você falou outra coisa — incentivei.
— Mamãe.
— Não, Martin. Você disse outra coisa — repeti, ouvindo a porta do
quarto se fechando.
— O que ele disse? — Valentina indagou, pondo-o no chão para
arrumar a roupa que nosso filho vestia.
— Papai! — exclamou mais uma vez, e meus olhos quase saltaram
do meu rosto.
— É, querido. É o seu papai. — A mulher apontou em minha
direção.
— Valentina… ele disse… ele disse…
Ela riu.
— Sim. Ele disse “papai”. Anda falando desde que vocês se
conheceram — sussurrou, segurando o rostinho do filho. — Acho que ele
sabia. Não sei como, ele apenas sabia. Eu não falei nada.
Engoli em seco.
— Vamos sair, papai? — ele perguntou, batendo palmas.
Eu me abaixei, emocionado, tentando não demostrar demais para
não o assustar.
— Isso, querido. Isso. Sou o seu papai.
Riu, me abraçando.
— Ele é o papai. — Era o som mais lindo do mundo.
— Sua mãe vai ficar com ciúmes de você — falei a Martin,
brincando, segurando sua mãozinha e pondo a minha outra nas costas de
Valentina, guiando-os ao elevador. Meu gesto a deixou tensa, mas não se
afastou.
— Não fiquei, não — resmungou.
— Sua Valentina está com ciúmes de você, Martin!
— Minha Valentina tem ciúme. — Ele riu, faceiro, fazendo a mãe
revirar os olhos.
— Ok. Talvez eu esteja. — Fitou-me ao entrarmos no elevador.
Eu entendia seus motivos.
— Você o tem desde que estava em sua barriga. Ele a ama
imensamente, e eu sou só o homem que ele conheceu há três dias,
Valentina. — Queria acalmá-la. — Por um tempo, eu serei apenas uma
lembrança distante de férias. Você não tem mesmo com o que se preocupar
— falei a última parte com pesar.
— A questão é que você o conhece há três dias, e ele parece amá-lo
há séculos. — Observei o menino, que andava brincando pelo elevador. —
E eu sei como meu filho é, ele não ama com facilidade. — Era impressão
minha, ou ela estava tentando me consolar também?
E talvez esse desapego fosse uma das coisas que Martin herdara de
mim. Infelizmente.
— Você será sempre a mãe dele. Acredite, não há nada mais forte
que isso.
Ela sorriu com minhas palavras, ao passo que eu mirava Martin,
pensativo sobre o que falei.
Não queria ser só uma lembrança distante. Queria ser seu pai.
VALENTINA
— José, eu já disse que precisamos… — A voz de Rita sumiu no
instante em que abri a porta. Eles estavam sentados juntos na pequena mesa
no canto do quarto de hotel. — Olá, querida. É bom vê-la.
Sorri com isso.
— Posso voltar depois.
— Não, entre, estávamos falando de você. — Arqueei a sobrancelha
de maneira instintiva. Não queria nem imaginar o que conversavam sobre
mim. Fazia dois dias desde que saíra com Javier e Martin, desmarcando
meu encontro com Alejandro. Voltei a marcar com o homem para mais
tarde naquele dia, mas não disse nada a ninguém além de Lilian. —
Estávamos discutindo como ficarão as coisas quando o trabalho aqui acabar.
Sentei-me, intrigada.
— Como assim?
— Você e Javier… — José fez uma careta divertida — têm um
passado e um filho juntos. Acredito que queiram organizar as coisas.
A conversa de dois dias antes estava viva em minha mente.
— Javier disse que não pode voltar agora para o Brasil devido ao
trabalho nesta cidade. Combinamos que Martin estará sempre disponível se
ele desejar ver o filho. — Isso era ridículo, na minha opinião, mas não
poderia fazer nada. Meu filho cresceria com a imagem constante do pai
indo e vindo a todo instante. Mas a decisão cabia a Javier e, infelizmente,
eu não tinha como impedir. — Ele não pode abandonar o Bella Mia, seria
uma mudança muito brusca. E eu não pretendo deixar o que tenho no Brasil
por nada.
José sorriu.
— Tem certeza? Nem pela chance de ter uma família ao seu lado?
— Como sabe que Javier e Anna não se envolveram? Eu nunca mais
vou voltar a ser algo desse homem — rebati, cansada. — Inclusive entrei
em contato com o senhor Gustavo para pedir o divórcio. Ele disse que vai
facilitar as coisas para mim.
— Isso é ótimo, querida. E eu sei sobre ele e Anna porque Javier me
contou.
Abri a boca.
— Quando?
— Você é como uma filha para nós. Ontem, eu estava em reunião
com ele — não havia sido informada disto —, e acabei perguntando. Fiquei
preocupado com vocês. Acho que deveriam tentar resolver os problemas.
Sorri.
— Javier acredita em qualquer coisa que lhe digam, mas nunca em
mim. Não posso ficar ao lado de uma pessoa que, a qualquer momento, vai
se deixar abalar por outra mentira. — Esfreguei o rosto, confusa. — Mas eu
me proíbo de ficar falando isso. Já deu. Águas passadas. Vamos voltar ao
trabalho.
Rita e José trocaram um olhar de quem não acreditava muito, e
comecei a me sentir mal. Não era bacana misturar trabalho e vida pessoal.
— Claro, retornaremos ao Brasil daqui a dois dias. Precisamos de
uma decisão final sobre o trabalho do Bella Mia.
Sorri ao ouvir isso.
— Acho que vocês já devem imaginar a resposta. Que fique claro:
fui imparcial. — Encolhi os ombros. — Javier e Anna trabalham bem. É
uma parceria lucrativa.
— Sim, eu a acompanhei de perto. — Empurrei a José a pasta com
alguns arquivos sobre o Bella Mia. — O que é isso?
— São todas as informações de que precisam saber. Separei
documentos, pontos positivos e negativos. Javier e eu temos nossas
diferenças, mas ele é um excelente profissional — admiti, sentindo meu
rosto esquentar.
— Fico muito feliz em ouvir isso. — A voz masculina me fez virar
rapidamente. Javier segurava Martin nos braços. — Você disse para Lilian
que, caso eu aparecesse, poderia deixar o menino comigo.
Assenti, vendo ele se sentar na cadeira livre ao lado de Rita,
colocando Martin sobre as pernas. Meu filho logo tentava alcançar o chão.
— Chamei vocês aqui pois acho que é o momento certo — José se
adiantou. — Eu falei que só fecharia um negócio com a opinião de
Valentina e, graças a Deus, o parecer dela foi ótimo.
Sorri.
— Será um prazer trabalhar com vocês, senhor. — Javier abriu um
sorriso de lado. — Anna volta em alguns dias e, se ficarem, podemos iniciar
as operações.
— Eu não vejo problemas em esperar um pouco mais. Mas
Valentina precisa voltar ao Brasil, não confio naquela empresa com ela
tanto tempo longe.
Senti-me agradecida pelas palavras de José. Eu não queria ficar mais
alguns dias no México, porque a proximidade com Javier começava a me
atormentar.
— Claro, claro — Javier concordou. Vi Martin tentar pegar algo da
penteadeira no quarto e me levantei para intervir. — Pode deixar que eu
cuido disso, Valentina. Vou ficar com Martin hoje, tudo bem?
— Certo. Trará ele de volta quando?
— Talvez à noite. Se quiser vir, posso…
— Eu preciso terminar alguns trabalhos — falei mais rápido,
lembrando que sairia com Alejandro. Não compartilharia tanto da minha
vida com Javier. — Espero que se divirtam.
— Nós vamos, né, Martin? — Pegou-o nos braços, impedindo que
ele mexesse nas coisas. — Agora dê um beijo na mamãe para a gente ir. —
Aproximou-se, e meu filho me abraçou de maneira desajeitada, beijando
minha bochecha.
— Tchau, meu amor. Cuidado. — Alisei seus cachinhos.
— Papai vai me levar pra andar de tavalo — dedurou.
— Cavalo, Javier?! Pelo amor de Deus.
— Ei, calma. É num clube. Está tudo sob controle. Prometo que não
vai faltar nenhum pedaço dele quando devolvê-lo. — Sorriu em minha
direção. — Tenham um bom-dia.
— Bom dia — saudamos de volta, e observei os dois indo embora,
já conformada. Eu tinha um ciúme doentio do meu filho com o pai, mas
Martin o amava tanto que era impossível não sentir o coração apertando
com a perspectiva de que, talvez, ele não dispusesse disso constantemente.
— Um filho dividido entre um pai e uma mãe é sempre difícil —
José comentou. — Eu fui criado assim. Não é ruim, meus pais me amavam.
Queriam me fazer feliz. Mas meu coração sempre se quebrava ao me
despedir de um ou do outro.
Limpei a lágrima que caiu.
— Eu sei. Sinto tanto por ele. — No fim, era Martin quem sofreria
por nossos erros.

— Como eu estou? — indaguei, dando uma voltinha em frente ao


espelho.
Lilian sorriu.
— Linda. Amei a cor.
Eu usava um vestido preto, recém-adquirido, justo no corpo e sem
mangas, se mantendo apertado acima dos seios. Meus cabelos estavam
soltos ao redor dos ombros em uma cascata volumosa.
O celular vibrou sobre a penteadeira, e vi o nome de Alejandro na
tela.
— Oi, boa noite. Estou quase pronta — sorri ao dizer.
— Olá! Estou chegando. — Soava risonho, fazendo uma onda de
ansiedade percorrer meu corpo.
Finalizei a chamada e encarei meu reflexo no espelho. Meu Deus, eu
tinha um encontro. O quanto isso era insano? Eu nunca fora a um encontro
oficial.
Comecei a suar frio.
— Você está bem, Valentina?
Virei-me, encarando Lilian.
— Nunca fui a um encontro. O que as pessoas fazem? — indaguei,
confusa, e ela riu. — É sério, eu vivi boa parte da vida sob as ordens do
meu pai. Depois, me casei com Javier. E, quando fui embora, eu tinha um
filho na barriga e zero tempo para encontros — tagarelei. — E se eu
estragar tudo?
Lilian se aproximou.
— Calma, ok? Respire. Se Alejandro for mesmo um cara legal, nada
o afastará. E você é adorável, Val, não tem como não a amar.
— Não sei… — Roí as unhas de maneira nervosa.
— Não faça isso, vai estragar o esmalte — ralhou comigo,
segurando minhas mãos. — Também não sou muito experiente, mas tente
respirar fundo. E se o cara fizer algo contra sua vontade, dê um chute entre
as pernas dele. Nunca falha.
Gargalhei.
— Ótimo conselho — disse, irônica.
— Eu sei, eu sei — devolveu, toda convencida.
Uma mensagem de Javier surgiu no meu telefone. Nem me
surpreendi, ele havia conseguido meu número de alguma forma e passou o
dia todo enviando fotos de Martin no tal clube. “Qualquer coisa, me ligue”,
mandei rapidamente, deixando claro que estava à disposição.
Respondeu: “Tranquilo, Martin está adorando. Vamos jantar e voltar
para a cidade”. Suspirei.
— Ok. Eu vou ficar bem — falei um pouco para mim, um pouco
para Lili, vendo Alejandro me informar de sua chegada.
— Vai sim. Na pior das hipóteses, perceberá que ama o pai do seu
filho e que vocês deveriam fazer mais alminhas zangadas como Martin.
Revirei os olhos.
— Por Deus, você também?
— Não estou insinuando nada — replicou, angelical.
— Sei, sei. — Peguei minha bolsa e coloquei o celular dentro.
Saí do quarto, movendo-me de maneira inquieta até o elevador.
Assim que as portas se abriram na recepção, vi o homem sorrindo para
mim. E não foi como eu imaginava.
O nervosismo deixou meu corpo, dando lugar a uma sensação
estranha, cômoda. Não senti borboletas no estômago, nem calor. Nada
intenso. E foi bom, pois algo não precisa parecer avassalador para ser
verdadeiro, né?
— Ei, boa noite. — Beijei sua bochecha. — Está lindo — falei,
meio tímida, mas tentando me soltar.
— Obrigado. Você está maravilhosa. — Olhou-me de cima a baixo.
— Pensei em jantarmos. Depois, você escolhe aonde quer ir. Há lugares
incríveis na cidade.
Sorri.
— Parece ótimo.

— Você vai para o Brasil, certo? — indaguei, bebericando um


pouco do vinho servido em minha taça.
— Sim, estou fechando um contrato grande lá. Vou ficar em São
Paulo, no primeiro momento. — Coçou a nuca. — Fiz negócios com
Anthony Harrison. Conhece?
— O nome não me é estranho, mas não recordo bem.
— Bom, Anthony tem uma empresa de tecnologia, além de alguns
outros negócios, e fechamos uma parceria. — Assenti. — Quem sabe não
me estendo até Curitiba.
Ergui o olhar, encontrando o de Alejandro, e experienciei um breve
temor. Forcei um sorriso.
— Quem sabe — limitei-me a dizer, pensando naquilo. Alejandro,
sem dúvida nenhuma, era muito bonito. Mas por que eu não sentia nada?
O fim da noite finalmente chegou. Enquanto eu me afastava do meu
companheiro, sentia o cansaço avançando sobre mim. O jantar foi legal,
passeamos por algumas ruas da cidade e acabamos em um bar, degustando
drinks locais.
Vi a imagem de Javier se revelar no elevador e senti meu cenho se
franzindo.
— Que merda é essa, Valentina? — Estendeu o celular em minha
direção. Só tive tempo de pegar e ver que se tratava de um e-mail de
Gustavo, com as documentações do pedido de divórcio. — E você foi a um
encontro?! — perguntou, alguns tons acima do normal.
Virei-me discretamente para ver se Alejandro continuava ali, mas o
homem já caminhara para fora, sem perceber o que se passara.
— Sim. Eu fui a um encontro. — Encarei meu marido. Javier fechou
os olhos, contando de um a dez de maneira repetitiva, inspirando fundo
algumas vezes. — O que está fazendo?
— Me acalmando. Evitando seguir meus instintos.
— Que diabos isso quer dizer?
— Quando sigo meus instintos, eu só faço merda — declarou,
finalmente me fitando. — Agora me explique por que tem um advogado me
enviando o pedido de divórcio.
— Você sabia disso. Eu avisei. Desconheço o motivo da surpresa.
— Não vamos nos divorciar, Valentina!
— Por que não? Você só pode ter enlouquecido. Faz merda até
quando não segue seus instintos?
— Não zombe de mim. E não pretendo ceder, não vou assinar.
— Isso não depende de você. Os tempos mudaram, não preciso ficar
presa a ninguém.
Tentei passar por ele, mas sua mão me alcançou. Segurando meu
pulso, puxou-me gentilmente em sua direção, encostando meu corpo contra
o seu peito. Senti sua respiração na pele desnuda dos meus ombros.
— Eu realmente não quero deixar outro homem ter o que eu tive —
sussurrou, me fazendo estremecer.
Sorri.
— A decisão não cabe a você. Se não assinar, farei do meu jeito.
— Você…
— O que, Javier? — Eu o mirei, irada. — Não pode controlar a
minha vida. Eu me livrei de um homem assim quando me casei com você e,
talvez, tenha só ganhado um pior. Mas, hoje, tudo mudou. Assine os papéis,
sabe que não funcionaríamos juntos. Nunca daria certo, conhecíamos este
fato desde o princípio.
Livrei meu braço do seu aperto e caminhei até o elevador. Vi o
homem parado encarando o nada, e meu peito se retorceu.
Ah, merda. Por que eu não podia sentir algo do tipo por um cara
como o Alejandro?
Maldito Javier.
JAVIER
Encarei o e-mail com o nome do advogado e senti a raiva nublando
meus sentidos. Fechei os olhos. O celular vibrou sobre a mesa, e o nome de
Anna apareceu na tela. Atendi.
— Bom dia, bonitão.
Sorri com isso.
— Bom dia. Como você está?
— Indo. E as coisas por aí? — perguntou.
Rapidamente me afundei na minha atual situação. Passei dois dias
tentando falar com Valentina sobre esse maldito pedido de divórcio. E ela
andava tendo encontros com outro homem, o que fodia a minha mente.
A mulher ignorou qualquer contato, conversando comigo apenas
sobre Martin, decidida de que nunca consertaríamos os erros do passado.
Em outra circunstância, eu até lhe daria razão, mas não naquela.
Agora, reconhecia que Valentina e Martin eram as melhores coisas em
minha vida.
Sim, fui um bosta em todos os sentidos. Machuquei-a. E me permiti
ser manipulado como uma marionete por Alba. Mas poderíamos superar
essa história.
Bastava que me desse uma chance.
— De mal a pior — concluí, pegando o mouse do computador,
pronto para responder com uma mensagem rabugenta ao tal advogado.
Desisti. Apenas excluí o e-mail. — Acabei de apagar o pedido de divórcio
da minha caixa de entrada.
Anna ficou alguns segundos em silêncio e, em seguida, riu baixinho.
— E você fala isso nessa calma? O que houve, por que o divórcio?
— Valentina quer se separar.
— Você sabe que ela pode fazer isso sem você, né? Não é mais um
problema.
— Eu sei. — Mas eu não facilitaria as coisas.
— Bom, e por que diabos está reclamando para mim, em vez de
consertar seu casamento?
— Valentina não fala comigo a respeito disso. Conversamos sobre
nossas pendências de uma forma estranha. Ela só disse que não daríamos
certo. — Revirei os olhos. — Ignora tudo relacionado a nós dois.
— Como mulher, entendo ela. Você não foi o melhor, Jav. Sei que
estava magoado e com a vida desmoronando ao seu redor, mas pense no
que Valentina passou. Ela não tinha ninguém e, ainda por cima, carregava
uma criança na barriga.
Suspirei. Eu compreendia também.
O que Valentina enfrentou não foi fácil. Ela teve de trabalhar pelo
filho e sobreviver sozinha, entrementes, eu agia como um moleque imaturo.
— Eu sei.
— Por que não tenta ser sincero com ela? Fale que a ama.
Franzi o cenho.
— Não disse que a amava.
Anna riu.
— Se não a ama, por que não assina a merda desse divórcio?
Criarão uma criança separados, e tudo bem, Valentina merece alguém que
cuide dela.
— Anna! — quase gritei ao telefone.
— Não entendo vocês, homens. São um bando de babacas! Não
quer admitir que é louco por ela, mas também não quer deixar a coitada em
paz para que encontre outro. Sua birra não o levará a lugar nenhum. Já tem
quase quarenta anos, pelo amor de Deus, seja homem e assuma sua mulher.
Construa uma casa para vocês e seu filho, pare de ficar pensando que é
melhor viver sozinho com sua dor — ralhou.
— Eu gosto de Valentina… — sussurrei, confuso. — Desde quando
nos casamos. Não quero que ela tenha outra pessoa. Não quero que meu
filho tenha a merda de um padrasto.
— Gostar não vai funcionar, bonitão. Vocês já passaram desta fase.
— O que você quer ouvir, Anna?
— Eu não quero ouvir nada. Mas se você quiser sua esposa, vai
precisar de bem mais do que isso.
— Ok, eu a amo. Satisfeita? Simplesmente não consigo aceitar o
fato de que ela tenha outro homem em sua vida. Não consigo nem pensar no
quanto ficarei triste quando ela for embora. E não apenas por Martin;
odiaria me distanciar de Valentina. Os dois são tudo para mim.
— Eu sei, Jav. Por que não vem para o Brasil resolver as coisas?
— Não posso. A empresa…
— Família em primeiro lugar, bonitão. Eu vou para o México
temporariamente, se precisar, mas você precisa se ajeitar com Valentina.
— Não. No momento, não. Vou tentar falar com ela.
— Você é tão cabeça-dura!

Caminhei pelo corredor amplo do hotel onde Valentina estava


hospedada e vi duas malas na porta, o que apertou meu peito. Passei o dia
todo ligando para o seu celular, mas não obtive resposta. Na única
mensagem que me enviara, dizia estar separando as coisas para a viagem e
perguntava se eu iria ver Martin antes de partirem.
Parei em frente à porta do quarto e a enxerguei sentada no sofá,
segurando o telefone contra a orelha e se abaixando para colocar o sapato
alto no pé. Aproximei-me em silêncio e me abaixei diante dela, encaixando
o seu outro sapato.
Ela me encarou depressa.
Os cachos estavam presos num coque bagunçado, dando uma visão
perfeita do seu rosto expressivo. A boca vermelha fora aberta em sinal
surpresa. Eu me perguntei se ela me bateria, caso a beijasse. O desejo era
enorme.
— Eu… — comecei, engasgando no meio da frase.
— O quê? — Finalizou a chamada e jogou o celular de lado.
— Não posso deixar você ir sem falar.
— Falar o quê? — Seu olhar desceu até seu pé, onde minha mão se
encontrava, segurando firme sua panturrilha, como se Valentina pudesse
fugir.
— Que eu a amo. — Ela franziu o cenho. — E quero que fique
comigo. Caso se afaste novamente por minha burrice…
— Já falamos sobre isso, Jav. É muito difícil manter um
relacionamento no qual não há confiança.
— Eu sei. Mas temos a vida toda, Val. A vida toda para tentar fazer
o certo. Acha melhor viver para sempre imaginando o que poderia
acontecer? — Toquei seu rosto, ficando entre suas pernas. — Vai me dizer
que não sente nada? Se for verdade, eu aceitarei.
Ela me fitou.
— Aceitaria sem nunca mais me incomodar? — Sua dúvida era
palpável.
Assenti lentamente.
— Sim, um homem tem que saber perder uma hora ou outra.
Notei o pequeno sorriso em seus lábios.
— Eu amei você, Javier. Muito. Nunca pensei que amaria alguém
desse jeito. Em meio ao caos em que nos casamos, você foi bom para mim.
— Vi uma lágrima descer.
— Não ama mais?
Valentina riu.
— Eu não sei. Tudo está uma bagunça — confessou, abaixando a
cabeça. — Sinto como se, a qualquer momento, fosse me tornar fraca de
novo apenas por sentir coisas por você e…
— Que coisas, Valentina? — Sentia sua respiração batendo contra o
meu rosto, a ponto de beijá-la. — Fale para mim.
— Meu coração dispara. Minhas mãos suam. Tudo sai de foco. — A
voz falhava. E ela acabara de descrever meu próprio estado.
— O que isso quer dizer?
— Que talvez eu ame você, Javier — admitiu. — Mas não a ponto
de abandonar tudo que construí no Brasil. — Mirou-me com os olhos
repletos de lágrimas. — Eu sonhei durante anos com um trabalho, uma casa
que não fosse cheia de regras. Não posso largar isso. E você disse que não
retornaria ao Brasil.
— O Bella Mia. Não posso. O combinado com Anna sempre foi que
eu ficaria no México, pois ela não pode interromper a vida do filho no
Brasil.
Valentina aquiesceu, sorrindo entristecida.
— Então, infelizmente, tudo que sinto não vai passar disso,
sentimentos. E sim, seria melhor tentar do que viver imaginando nossa
família perfeita, completa, mas não é viável. Desejamos coisas diferentes.
Aproximei-me ainda mais, encostando meus lábios nos seus, em um
beijo lento. Valentina apoiou as mãos em meus ombros, me puxando para
perto de si.
Tinha gosto de despedida.
Sem mágoas do passado.
Era bom. Delicioso. Como sempre foi.
Levantei seu corpo do sofá, nos colocando de pé sem afastar nossas
bocas. Agarrei sua cintura contra meu peitoral e senti sua língua brincar
com a minha.
Meu pau reclamava dentro da cueca, afinal, passei anos sem sexo.
Meu corpo pegava fogo enquanto Valentina me beijava. Apalpei sua bunda
por cima da calça jeans e a ouvi gemer.
Um choro alto cortou o momento. Ela encostou a testa contra a
minha bochecha, sorrindo desanimada.
— Martin acordou. Acho bom ir se despedir.
Passei os dedos ao redor dos seus lábios, limpando o batom borrado.
— Eu não tive coragem de falar antes, mas eu sempre amei você. Só
não sabia disso.
Valentina sorriu.
— Também o amei. — Pausou. — Ele está no quarto. — Afastou-se
e voltou ao telefone.
Suspirando, segui para o quarto com aquela nuvem negra sobre
minha cabeça. Abri a porta e enxerguei Martin descendo do móvel. Peguei-
o antes que alcançasse o chão e caí na cama, ganhando uma gargalhada
gostosa.
— Ei, meu garoto. — Levantei-o no ar e o vi arregalando os olhos.
— Aviãozinho! — Imitei um avião, recebendo uma expressão feliz em
retorno.
— Papai chegou! — exclamou assim que pousei seu corpo sobre o
meu.
— Sim, o papai veio ver você.
— Papai, vamos viajar — disse de maneirar desajeitada e pulou em
meu peito, me deixando sem ar.
— Eu sei, pequeno. Vai sentir saudade do papai?
Ficou pensativo.
— Saudade?
— É, saudade.
— Não — falou com simplicidade, e isto me fez rir
automaticamente. — O que é saudade?
Tão inocente…
— É quando você ama muito uma pessoa… — Alisei seus cachos.
— E, quando ela fica longe, seu peito dói, com vontade de estar bem
pertinho dela. Igual quando a mamãe vai trabalhar e deixa você com Lilian.
Martin parou, pensativo.
— Papai não vai com a gente?
Engoli em seco e senti meus olhos umedecerem.
— Não. Papai não vai com vocês.
Ele fez um bico enorme.
— Não gosto de você, papai — decretou, saindo de cima do meu
colo e já começando a chorar, correndo para fora do quarto. — Mamãe,
Martin não gosta do papai!
Escutei Valentina rir baixinho e saí do quarto, observando-a com o
menino nos braços.
— O que houve? Por que Martin não gosta mais do papai?
— Porque ele vai deixar o Martin e a mamãe com saudade —
sussurrou, choroso, abraçado à mãe.
Aquilo foi a gota d’água. Encarei Valentina e a vi com os olhos
repletos de lágrimas, refletindo meu próprio estado.
— Fique — supliquei.
— Eu não posso — murmurou de volta.
Virei de costas, me escorando na parede que dividia a sala e o quarto
da suíte. Deixei as lágrimas escorrerem livremente pela primeira vez em
quatro anos. Merda, estava perdendo tudo mais uma vez.
O ar faltou.
O coração quebrou.
Minhas pernas falharam e não tive forças para ficar de pé.
— Fale para o papai que você o ama, Martin. — Senti Valentina às
minhas costas.
— Martin não ama.
— Ama sim, você disse isso ontem. — Encarei-os por cima do
ombro. — Ele não vai deixar a gente. Só vamos demorar um pouco mais
para ver o papai agora. Igual quando a gente vai ver a tia Marília.
— Mas… — Meu menino começou a chorar. — Andar de tavalo.
Ele leva Martin pra andar de tavalo.
O riso se misturou às minhas lágrimas.
— Sim, querido. E vocês vão sempre fazer isso quando papai for
nos visitar. — Val beijou os fios cacheados do nosso filho.
Encaixei ambos em meus braços, sentindo que, nesta situação, nem
mesmo o trabalho ocuparia o buraco que os dois fariam em minha vida.
— Amo você, Martin. Espero que me perdoe.
Senti a mãozinha do meu filho em minha bochecha.
— Martin ama o papai — falou.
E meu coração voltou a se aquecer.
VALENTINA
Encarei Javier, sorrindo de lado. Faltavam poucos minutos para
embarcar e já podia ouvir pelos alto-falantes as primeiras chamadas do voo.
O homem mantinha uma expressão séria e segurava Martin, adormecido,
firmemente contra seu corpo.
— Eu acho que tenho que ir — sussurrei com o coração doendo. A
cena na sala de estar do hotel se repetia em minha mente. Eu sentia meu
estômago balançado à medida que o horário do embarque se aproximava.
Javier não queria voltar ao Brasil, e uma parte de mim entendia que,
no México, ele tinha sua empresa, construída com suas próprias mãos, e isto
era admirável — assim como eu não podia largar minha carreira. Já outra
parte estava magoada por ele escolher o trabalho mais uma vez. Eu tentava
me confortar com a desculpa de que existiam coisas mais importantes que o
amor.
— Sim. Vou com você até a sala de embarque. — Sorriu e passou o
braço por minhas costas, segurando minha cintura enquanto andávamos
lado a lado.
Havia me despedido de dona Guadalupe mais cedo; não fora fácil,
mas necessário. A senhora se mostrara uma boa companhia em minha
estadia.
Parei diante das portas que dividiam o saguão do aeroporto e a área
de embarque, me aproximando para pegar Martin dos braços do pai. E senti
quando a mão de Javier enlaçou minha cintura, colando nossos corpos e me
apertando contra si.
Não disse nada. Antes de se afastar, me entregou nosso filho.
Encarou o menino com os olhos marejados e se inclinou, beijando a
bochecha de Martin.
— Eu amo você — sussurrou e me encarou.
Sorri de lado.
— Cuide-se. — Fiquei na ponta dos pés, beijando sua bochecha com
carinho. A interação entre nós era complicada, tudo mudou com sua
confissão, mas eu precisava partir e não queria me sentir ainda mais
perturbada com nossa situação.
Usei todas as minhas forças para dar meia-volta e me distanciar de
Javier. Inspirei fundo algumas vezes. Meus olhos ardiam. Merda, essa
viagem ao México era para ser uma experiência nova, sem dores. Só que
Javier estava ali, e ele foi tudo que desejei quatro anos atrás.
Ao me casar, planejei dar um rumo à minha vida, estudar, ter um
futuro. Contudo, de repente, me envolvi com aquele homem e perdi o foco.
Quando acabou, eu não tinha uma base na qual me recolher. Tive que ser
forte por dois. Não podia permitir que isso acontecesse novamente. Que eu
fosse a única a abrir mão de tudo.
Mas… E se eu precisasse dar uma chance aos meus sentimentos?
Meus pés travaram no meio do caminho. Sobre meus ombros, vi
Javier de cabeça baixa. De súbito, porém, me fitou. O rosto marcado pelas
lágrimas rapidamente se mostrou cheio de expectativa.
Ele me amava. Amava Martin. Mas não éramos o suficiente para ele
renunciar a tudo?
Solucei, me sentindo tola por acreditar que aquele homem não me
quebraria mais. Ali estava eu, devastada.
Forcei um sorriso e tornei a caminhar, seguindo as orientações para
entrar no avião. Se o amor dele não bastava para abdicar de algo, paciência.
Eu já tinha sacrificado muito.

Doze horas depois, o avião pousou em São Paulo. Sentia meu corpo
dolorido e os músculos reclamando devido à viagem, e Martin parecia nem
mesmo notar que o dia avançara.
Era fim de semana, e eu só partiria para Curitiba na segunda-feira.
Ficaria com Marília durante dois dias e falaria sobre tudo que aconteceu.
Cerrei meus olhos de leve quando reparei em duas mulheres me
aguardando no saguão. Anna e Marília estavam lado a lado. A imagem era
um tanto conflitante. Minha amiga exalava muita simpatia; já de Anna eu
sentia medo. Todas as últimas cenas na sua presença tinham sido
perturbadoras: o reencontro após anos; a mentira sobre o casamento; a
traição no apartamento com Javier.
— O que fazem aqui?
Meu filho se soltou e correu em direção à Mari, cumprimentando a
“tia”.
— Pensei em vir buscar você. Achei que poderíamos conversar.
Tenho uma coisa a lhe falar.
Franzi o cenho com seu tom sério e assenti.
— Claro. — Desviei o olhar para Anna. — E você?
— O aeroporto é público — rebateu, mas em seu rosto trazia um
sorriso brincalhão. Arqueei a sobrancelha, demostrando que não estava
bem-humorada. — Ok, forcei a Marília a me dar informações sobre sua
chegada. Pensei que Javier estaria com você.
Sorri.
— A empresa é mais importante.
— Não. Não pode ser o mais importante! — exclamou, pegando
minha mão e me puxando por alguns metros, nos deixando sozinhas. —
Sabe que ele ama você, né?
— Foi o que ele disse — falei, desconfortável, cruzando os braços.
Anna poderia não ser a pior pessoa do mundo — afinal, o único
culpado pela traição era Javier, sendo ela uma mulher solteira —, mas os
desencontros e as pontas soltas transformavam nossa relação em algo
confuso.
— Eu sei que você provavelmente me odeia…
— Não a odeio — repliquei. — Eu até poderia odiá-la por estar com
meu marido em nosso apartamento, mas Javier sempre foi um safado. Não
me admirei por ele fazer algo do tipo.
— Nunca rolou nada entre nós. Ele pediu ajuda para dar um basta
no relacionamento de vocês. — Revirou os olhos. — Eu não deveria ter
aceitado, sinto muito por ajudá-lo. Quem me conhece de verdade sabe que
nunca transaria com Javier. Eu amo outro homem, mesmo que ele não
acredite nisso — sussurrou a última frase com um sorriso triste.
— Por que está me falando essas coisas?
— Porque sou amiga de Javier. Eu sei, não parece. Mas ele é bom,
só foi criado com base em maus ensinamentos. — Sorriu. — Ele se
recusava a tirar a aliança. Em quatro anos, nunca o vi com nenhuma mulher.
Mentia sobre um casamento falso. Isso tudo para afastar qualquer pessoa.
— Anna, eu não quero que você o defenda. Conversamos sobre isso.
Eu estava aberta a tentar, mas não posso renunciar a tudo por ele. E ele não
me ama o suficiente para se sacrificar nem ao menos um por cento por mim
e pelo filho. — Vi Martin sentado com Marília a alguns metros. —
Devemos seguir nossas vidas.
— Ah, graças a Deus! — a exclamação me assustou.
— O que houve?
— Pensei que não chegaria nunca. Estava maluca — falou e segurou
meus ombros. — Ele não a ama nem um pouquinho para fazer um
sacrifício, né?
Não tive tempo de responder, pois a mulher me fez virar. Travei ao
vê-lo ali, com as mãos nos bolsos e um sorriso de canto nos lábios. Sem
nenhum tipo de mala.
— Um dos dois teria que ceder — Anna narrou. — Sou fã do amor,
querida. É minha sina. Deixei o jatinho pronto. E estou preparada para
assumir a Bella Mia do México, caso Javier queira assumir a vida ao lado
da mulher que ama.
Ele se aproximou e parou à minha frente. Tudo parecia acontecer em
câmera lenta. Eu sentia que desfaleceria a qualquer momento.
— Ai, estou me sentindo o próprio cupido! — a exclamação me fez
rir. — Só me faltam as asas.
— Eu sei que errei. Peço perdão. Caralho, eu sempre tenho que
pedir desculpa.
— É o negócio do instinto, Jav — Anna falou às nossas costas. —
Você não tem que seguir ele.
— Realmente, é um bom conselho — Javier ironizou, tão leve ao
sorrir. — Agora o cupido pode deixar o destino agir?
— Mas é claro, meus amores. Val, boa sorte com esse cabeça-dura.
— Eu ri. — Beijos, jovens. Não façam nada que eu não faria. — E se foi,
balançando a mão para nós.
Os dedos de Javier seguraram os meus. Eu tinha a sensação de que
ainda estava sonhando.
— O que você está fazendo? — Fitei-o.
— Pegando minha mulher de volta. — Puxou minha cintura para si.
— Eu fiz muita burrada. Não ouvi você. Não fui um bom marido em vários
sentidos. — Um bolo de ansiedade se formava em minha garganta. — Não
pretendo enumerar todas elas em voz alta, para evitar a possibilidade de
você não me querer mais. Eu morreria se isso acontecesse. — Acariciou
meus cabelos. — Você e Martin são as melhores coisas da minha vida.
Iniciamos de um modo todo errado, completamente às avessas e, mesmo
assim, aquele casamento despertou em mim os sentimentos mais puros que
já experienciei.
Uma lágrima fininha caiu. Javier continuou:
— Não sei como vou fazer isso. Como consertar tudo. — Fechou os
olhos, encostando a testa na minha. — Não posso prometer ser perfeito,
mas consigo tentar. Basta que me diga sim. — Seus lábios roçaram nos
meus. — Por você. Por nosso filho. Já perdi tanto tempo longe dos dois…
— Meu Deus, não acredito que está aqui. A empresa…
— Anna dará conta. Vou trabalhar no Brasil. Abuela vai se mudar,
não a deixaria lá sozinha. — Abri a boca, em choque. — Ela quer ver o neto
crescer. E adorou você. — Sorriu.
— É meio impossível não me adorar, sou o máximo — brinquei.
Sua risada alta me arrepiou. Eu me senti em casa.
— Quero minha resposta, Val. Não vou deixar você se afastar sem
ela.
Troquei o peso de uma perna para a outra, nervosa.
— Eu quero você. Mas eu tenho medo. — Mais lágrimas desceram.
— Podemos ir com calma.
— Somos totalmente o oposto da calma.
— Eu sei, mas não consigo mais ficar sem você.
— Tem que me prometer que não vai acreditar em tudo que os
outros falam. — Ele assentiu. — E que vai me dizer quando tiver dúvidas
sobre o que sente.
— Sim, claro. Sim para tudo.
Sorri.
— Você nem sabe o que mais eu pretendo pedir!
— Tratando-se de ter você, não me importo com as exigências.
Perdi muito, muito tempo. — Segurou a base da minha coluna, quase em
minha bunda. — Quantos dias tem até voltar para o trabalho?
— Dois.
— Ótimo. O jatinho está preparado para ir em direção a Fernando de
Noronha. Que tal? — Encarei-o, vendo um sorrisinho. — Eu e você,
sozinhos com Martin. E cadê a Lilian?
— Ela veio em outro voo. Não conseguimos lugares no mesmo
avião. E Fernando de Noronha? Parece uma boa ideia.
Deslizou as mãos por meus cabelos e parou ao ouvirmos o grito
animado de Martin.
— Tia, é o papai do Martin! — berrou a plenos pulmões, correndo.
Javier riu e se abaixou para pegá-lo, rodando nosso filho no ar. — Papai,
você veio! — disse, cheio de carinho, abraçando o pescoço do homem.
— Papai ficou com saudade.
— Martin ama o papai.
Rimos.
— Ok, já que Martin ama o papai, que tal irmos para a praia? Você
gosta de praia, Martin? — Com nosso garoto no colo, envolveu meu corpo,
nos guiando para próximo de Marília.
— Martin gosta — ele nunca tinha ido, mas respondeu prontamente.
— Pelo visto, tudo se organizou. — Marília sorriu. — Olá, Javier.
— Marília — disse meu marido, balançando a cabeça. — O voo é à
noite. Temos tempo para nos preparar até lá.
Inspirei fundo.
— Você ao menos trouxe uma mala, Javier?
— Não. Deixei tudo no México, vou ter que comprar roupas — foi o
que disse sobre o assunto. — Vou pegar um táxi para nós.
— Ok — falei, aturdida, e o vi caminhar para longe, colocando
Martin no chão, de mãos dadas consigo.
— Eu estou em choque. Ele voltou. O que aconteceu, meu Deus? —
Marília sussurrou.
— Tenho tanta coisa para lhe falar. Eu não sei o que estou fazendo.
— Baguncei meus cabelos. — Sou besta por aceitá-lo de volta?
— É um risco, Val, mas não vai descobrir se não viver essa
experiência.
Sorri.
— Obrigada. O que tinha para me falar?
— Seu pai voltou. O adotivo, não o de sangue. — Agitou a cabeça,
confusa. — Sei lá como definir isso.
Tremi.
— O que ele queria?
— Bom, comigo, nada. Mas ele queria falar com você, foi bem
ameaçador, inclusive. Fiquei com medo e acabei revelando algumas coisas,
desculpe.
— Ele me ligou. No México. Não aceitei conversar, sempre que
faço isso me magoo.
Mari sorriu como se entendesse.
— Ok. Eu vou para casa, queria apenas alertá-la, por via das
dúvidas. As coisas neste mundo são meio instáveis. — Assenti. — Tenha
uma boa viagem. Se quiser se trocar lá em casa, é só aparecer. Amo você, e
acho que está fazendo o certo dando uma chance ao seu casamento. —
Apertou-me em seus braços com carinho.
— Obrigada. Também a amo.
Ela sorriu e foi embora. Enquanto eu esperava Javier e Martin
retornarem, um pensamento não saía da minha mente: o que Mariano
queria? Não bastava tudo que ele já havia feito?
JAVIER
— Ficaremos no hotel? — Valentina perguntou, entrando no quarto
de hóspedes da casa de Marília. Era tão estranho estar ali depois de quatro
anos, como se tudo se encontrasse fora do lugar.
— Sim. Meu irmão mora lá, mas não sei se é uma boa ficarmos
juntos — falou, meio encabulado. — Ele está trabalhando no Hotel
Fontana. Fez uma sociedade com Alessandro.
Não fazia ideia de quem era Alessandro, mas me recordava de que
Fontana era o nome do hotel onde Javier e eu nos hospedamos na primeira
vez.
— Por quê? Você não tem falado com ele?
— Não. Eu e Juliano sempre tivemos uma boa relação, falamos
poucas vezes sobre o que aconteceu com os Garcias, mas é como se nada se
encaixasse. — Val assentiu e tirou os saltos. — Quer levar Lilian conosco?
Ela me encarou, voltando ao assunto:
— Como a relação de vocês mudou tanto?
— Eu o considero meu irmão, mas sei que não é. — Fitou-me. —
No entanto, é o seu meio-irmão. Acha que é uma boa ideia conhecê-lo?
Val sorriu, recusando.
— Não. Impossível ter um laço bom com qualquer um que tenha
parentesco comigo. — Suspirou. — Aprendi uma coisa na vida, Javier: a
ligação de sangue não serve de nada. Encontrei meu lar em pessoas que não
são parentes consanguíneos. O coração é bem mais forte.
Sorri.
— Eu sei.
— Mas você deveria falar com ele.
— Talvez eu fale. — Aproximei-me e segurei seu maxilar, vendo
que Martin acabou adormecendo no caminho para o apartamento. — Quem
sabe devêssemos alugar um apartamento.
— Eu tenho um apartamento em Curitiba. — Fechou os olhos.
— Bom, então inclua meu nome no contrato de aluguel — brinquei,
vendo-a abrir os olhos. — Não vou embora, Valentina. Cuidarei da filial no
Brasil. Em algum momento, farei viagens ao México, mas meu lar é com
você e nosso filho.
Ela sorriu.
— Sempre pode ir sabendo que tem sua família. — Os olhos cor de
amêndoa brilhavam.
Não resisti, juntando nossos lábios em um beijo delicado. Valentina
relaxou em meus braços, e meu corpo acordou, com saudade de seu toque.
Ela nos separou, sorrindo.
— Cadê seu anel? — Notei sua mão.
— Eu o vendi. — Tinha no rosto uma expressão adorável de criança
traquina.
— Foi feito com tanto amor e você vendeu, Valentina…
Gargalhou.
— Não me venha com essa, nós dois sabemos que aquilo foi
encomendado pelo Santiago — falou, e eu ri também.
— Sim. — Beijei a pontinha do seu nariz. — Vou sair rapidinho.
Tome um banho, volto em alguns minutos.
O voo fora remarcado para algumas horas mais tarde, então ainda
tínhamos um tempo em São Paulo antes de pegar o avião. Tirei o celular do
bolso da calça enquanto entrava no elevador, procurando o número de Irina
Fontenele, precisando urgentemente de uma aliança para ocupar o dedo da
minha esposa.
Depois de conseguir um táxi e enfrentar o trânsito infernal da capital
paulista, cheguei a uma das lojas Fontenele. O prédio com fachada escura
era muito bonito e se destacava. Entrei sorrindo ao ver Ivan conversando
com a irmã no balcão.
— Javier! — Meu amigo se alegrou com a minha presença.
— Ivan. — Balancei a cabeça, batendo de leve em seu ombro.
— Quando voltou?
— Hoje mesmo.
— Mas Anna não estava no Brasil? — Franziu o cenho.
— Ainda está. Ela só vai voltar quando ajeitar a vida aqui. Deixei
meus funcionários tomando conta do Bella. Se tudo sair bem, nem vamos
ter explosões. — Ivan riu. — Irina — cumprimentei-a.
— Jav, é bom ver você. — A família Fontenele era muito influente
no Brasil, dona de uma das maiores redes de joias do país. — Precisa de
alguma peça especial?
— Quero ver sua coleção exclusiva, Irina.
— Vai se casar? — perguntou Ivan, depois de ver a irmã se afastar.
— Não. Minha esposa precisa de um anel.
— Mas você não tinha se divorciado? — Parecia confuso.
— Não. Nunca me divorciei. Estamos juntos.
— Tipo uma novela mexicana?
Sorri.
— Quase isso — falei. Após, resumi minha história com Valentina
em poucas frases.
— Anna falou que você tem um filho.
— Sim, Martin. A coisa mais linda. — Sorri de um modo bobo ao
me lembrar do meu garoto.
— Ah, eu tinha esse mesmo sorriso quando Henrique nasceu. —
Ficou pensativo com a memória do nascimento do seu filho com Anna.
— E nunca mais o vi. Como andam as coisas com Anna? —
indaguei, aparentando desconhecer o assunto.
— Ele continua fingindo que ela não é a mulher certa. — Irina
apareceu às suas costas carregando algo similar a uma bandeja, cheia de
anéis.
Ivan revirou os olhos.
— Quieta, Irina. Deixe o homem escolher uma aliança.
Eu ri, embora me sentisse tão inconformado quanto Irina. Ivan era
cego, da mesma maneira que fui por muito tempo. Ele não percebia a
mulher maravilhosa que tinha ao seu lado. E, quando o fizesse, seria tarde
demais.

VALENTINA
Senti uma mão deslizando por minha pele, enrolando um dos meus
cachos entre os dedos. Sorri, achando ser Martin, e procurei sua mãozinha,
mas foi uma mão masculina e quente que encontrei, me fazendo saltar.
— Ei, voltei — Javier sussurrou. Estava parcialmente deitado em
minha cama e mantinha um sorriso implacável em seu rosto. O tipo de
sorriso que ele deveria ser proibido de usar.
— O que foi fazer? Estamos atrasados? — Cocei meus olhos.
Ele riu e se aproximou.
— Cheguei para pegar vocês. Estavam dormindo tão tranquilamente
que fiquei com pena de acordá-los. — Aconcheguei-me no seu peito e senti
um beijo no topo da minha cabeça. — Martin acordou primeiro, e eu lhe dei
a papinha. Agora está brincando na sala.
— Ah… — Continuava confusa com esse novo (e maravilhoso)
cenário. — Vou me arrumar.
— Claro.
Encostei a perna em meio às suas e abracei seu corpo, afundando o
rosto em seu peito.
— Só mais cinco minutinhos na cama… — Havia tomado um banho
rápido e me deitado junto a Martin, adormecendo em questão de segundos.
Estava cansada.
— Ok. — Foi tudo que escutei. Fechei os olhos, pegando no sono
rapidamente.
Ao acordar, estávamos atrasados, então apenas botei um vestido
leve. Javier segurava Martin nos braços e usava um óculos aviador sobre o
rosto, cobrindo qualquer reação sua.
Eu me avizinhei, com a bolsa do meu filho pendurada no ombro.
— Deixe que eu carrego isso — falou, pegando a maleta pequena, e
saímos do quarto. — Pedi que Lilian nos acompanhasse. Consegui uma
passagem de última hora.
Sorri.
— Isso é ótimo, obrigada.
Realmente era muito bom. Lilian morava com a tia, minha vizinha
de apartamento. Consequentemente, a mulher confiava que a garota viajasse
comigo sempre que necessário. Era muito difícil fazer qualquer atividade
adulta com um bebê por perto, e apesar de amar meu filho, certas coisas não
se misturam.
Peguei meu celular e minha carteira antes de sair do apartamento.
Fechamos tudo e descemos pelo elevador.
Aquele parecia um mundo paralelo. Nunca na vida pensei que
estaria com Javier fazendo uma viagem de lazer que não envolvesse
nenhuma armação.
— O que houve? Está pensativa — ele disse, balançando Martin
para o manter no colo.
— Isso é surreal.
— O que, Val? — O apelido sempre fazia um sorriso se expandir em
meu rosto.
— Nós. A situação. Jamais imaginei que faríamos algo que não
fosse para o benefício de terceiros.
Observou-me com seriedade.
— Também não. Sempre assumi que estávamos condenados àquilo.
Entrelacei nossos dedos e beijei seu ombro, notando os olhos de
Martin atentos ao óculos do pai.
— Ele vai pegar seus óculos — avisei e, no instante seguinte, o
menino puxou o item com rapidez, tentando colocar no próprio rosto, sem
sucesso.
— Venha aqui, meu amor — Javier falou, se abaixando no elevador
com Martin quieto. Tomou o objeto dos seus dedos gordinhos. — Isso,
deixe o papai colocar. — Ajustou os óculos em seu rosto e a risada foi
inevitável, pois ficou a coisa mais fofa do mundo. — Olhe para a mamãe e
pergunte se agora você vai arrasar na praia. — Fez um gesto divertido,
cruzando os braços de modo desleixado.
— Arrasar na praia, mamãe! — meu filho repetiu, se entortando
para imitá-lo. Joguei a cabeça para trás.
— Você está lindo demais! — exclamei, boba, sabendo que
precisava aproveitar aqueles momentos, pois ele crescia tão rápido que em
breve não caberia em meu colo.

A viagem levou quase cinco horas. Segundo Javier, o jatinho era


propriedade do Bella Mia, com isso conseguimos um voo privado e sem
escalas. Martin estava adormecido em meus braços e esticava as perninhas
no colo do pai.
Lilian dormiu no meio da viagem e, assim que pousamos, a acordei,
chamando-a para pegarmos o carro até o hotel. Javier havia reservado o
mesmo quarto da nossa lua de mel.
— Achei que poderia gostar — falou, se inclinando em minha
direção enquanto dirigia o carro alugado. — Foi aqui que tudo mudou.
Espero que, desta vez, mude novamente. Para melhor — sussurrou em tom
de segredo.
Era inevitável não me sentir apaixonada.
Quando estacionou, saiu primeiro para abrir a porta para nós.
Entramos no local, observando com calma tudo ao redor. Sentia as
memórias explodindo em minha mente.
— Vamos? Lilian já subiu. — Javier me encarou, e percebi que
parei no meio da recepção, segurando um Martin que roncava em meus
braços. Assenti, e ele pegou nossas coisas, colocando num carrinho. Um
dos funcionários do hotel se disponibilizou a subir com as malas. — Me dê
Martin. Ele é pequeno, mas é pesado.
Nem protestei — minhas costas agradeceram.

O quarto de hotel era de frente para o mar. Sorri, abrindo os braços.


Senti quando as mãos de Javier circundaram minha cintura e sua boca
beijou meu ombro. Apreciei a sensação do seu corpo contra o meu.
— Eu acho que estou viciado em abraçar você.
Sorri, boba.
— Eu gosto que me abrace. — Virei-me para encará-lo, sentindo sua
boca beijando a ponte do meu nariz. — Não tive a chance de falar no
México… — Alisei seu rosto com carinho. — Sabe quando eu disse que
você não construiu um império sozinho, no barco, na nossa lua de mel?
— Sim. O que tem a ver?
— Vi o quanto você conquistou e senti orgulho do homem que se
tornou, Javier. — Alisei sua barba por fazer. — Você é talentoso quando se
trata de negócios, eu só nunca tinha percebido isso antes.
Ele respirou fundo.
— Quando eu descobri que não era filho dos Garcias, fiquei
decepcionado, primeiro porque nunca me contaram sobre as minhas
origens. Apesar deles serem ótimos pais, eu merecia saber. — Sua mão
segurou a minha e a puxou em direção à poltrona no canto da varanda.
Sentou-se e me pôs em seu colo. Apoiei a cabeça em seu ombro, brincando
com o fio solto da sua camisa. — Eu nunca pensei que poderia me sentir tão
traído como quando eles me fizeram acreditar que você era minha irmã. —
Entrelaçou nossos dedos. — Precisava respirar, me soltar das amarras da
minha família.
— Então foi para o México.
— Junto à Anna, eu fiz o projeto do negócio, e ela tinha o dinheiro.
Eu não quis investir nada que consegui meramente por ser “filho” dos
Garcias. Por isso adotei o sobrenome dela.
— Queria algo seu.
— Sim. E agora tenho o Bella Mia. Não sei se um dia vou perdoar
Alba e Santiago. Até certo nível, sou grato por terem me criado. Não era o
melhor dos ambientes, mas amor nunca me faltou. Só ainda não superei a
omissão de tanta coisa.
— E dona Guadalupe? Como ela entra nisso tudo?
Ele riu.
— Ela é meu anjo, Valentina. Vive me perturbando para contar
sobre o passado, falando sobre casamento e tudo, mas é um anjo em minha
vida. — Sorriu. — Meus pais me levaram do México para o Brasil de modo
a substituir um filho que Alba perdeu no parto. Eu fui para lá exatamente
por causa disso… — Fez uma pausa.
— Para conhecer suas origens.
Beijou o dorso da minha mão.
— Sim. E dona Guadalupe foi tudo que encontrei. Meus pais
biológicos morreram há alguns anos.
— Ela é mesmo abençoada — disse, lembrando-me da senhora
falante.
— É, sim. — Abraçou-me mais forte. — E agora tem um bisneto.
— Desviou os olhos para Martin, adormecido na nossa cama. — E está em
surto para que haja uma nora também.
Uma risada baixinha escapou de mim.
— Ela meio que tem. Mas apenas no papel. — Fitei Javier, notando
um sorriso nascendo em seus lábios.
— Não precisa ser. — Beijou-me suavemente, me levando a
suspirar.
— Não mesmo — concordei.
Encostou a testa na minha.
— Tenho uma coisa para você. — Mexeu no bolso do casaco leve
que vestia, retirando uma caixinha preta dali. Fiquei tonta. — Eu sei que
talvez não queira usar, mas é sua. Quando estiver pronta para ser minha
esposa novamente.
Estremeci da cabeça aos pés e mirei seus olhos cheios de
expectativa, temendo a intensidade do que sentia por esse homem. Com um
único movimento seu, meu mundo inteiro começava a balançar.
E Javier sabia bem disso.
JAVIER
Valentina fixara os olhos na aliança, enquanto eu sentia meu corpo
todo tenso à espera de seu próximo ato. Essa mulher tinha meu coração na
palma da sua mão. Para mim, o momento era bem decisivo.
Eu me decepcionaria se ela recusasse, mas respeitaria seu tempo.
Não forçaria minha entrada em sua vida.
Vi seus dedos tremerem ao tocar o anel. E observei quando os olhos
se encheram de lágrimas.
— Pode colocar em mim? — Ante aquelas palavras, meu ar se foi
tão rápido que pensei estar morrendo. Sorri. — Não parece muito normal a
noiva… — Revirou os olhos, corrigindo-se: — A esposa botar o próprio
anel.
Peguei a peça delicada. Era um solitário com um diamante que
lembrava a cor do mar, todo decorado de maneira sutil. Baixei a mão e
segurei a sua.
— Com prazer. — Sorri e deslizei a peça em seu anelar, de onde a
aliança nunca deveria ter saído. Entrelacei nossos dedos e beijei o dorso da
sua mão. — Eu a amo demais, Val. Provavelmente você e Martin são
algumas das poucas pessoas que já ouviram isso.
— E abuela. Você fala sempre para ela. — Sorriu.
— Sim, ela também. — Fitei-a por um segundo. — Sabia que
quando alguém fala que a ama, geralmente, é educado devolver o
sentimento?
Valentina jogou a cabeça para trás, rindo, e enlaçou meu pescoço.
Sua bunda contra meu pau não formava uma combinação muito boa com
uma criança no quarto, mas eu não era louco para tirá-la dali.
— Por acaso deu para ser inseguro? — Encostou sua testa na minha.
— Acho que sempre fui um pouco quando se trata de você.
— Não devia. — Segurou um sorriso. — Sou sua esposa. Tem que
confiar em mim.
Suspirei.
— Sim, mas eu nunca tive algo tão bom quanto você, Valentina.
Tudo era mais ou menos até você chegar, tão inocente e mandona.
Afundou o rosto na curva do meu pescoço e beijou minha pele.
— Eu não era inocente.
— Era, sim. — Sorri, lembrando-me da nossa primeira vez.
— Ah, sobre aquilo. Mas não quanto ao resto.
Ri baixinho.
— Por curiosidade, como raios você era virgem com aquela idade?
Notei seus ombros tremendo.
— Namorei com Mateus escondido por um tempo. — Continuou
com a cabeça em meu pescoço e as minhas mãos ao redor da sua cintura. —
Só que nunca quis dar um passo à frente. Não me sentia atraída o suficiente.
E depois que terminamos, nenhum cara me interessou. Sempre fui muito
presa na casa dos Ferrazes.
— Sinto muito. — Beijei seu ombro.
— Não. Está tudo bem. Quando me casei com você, eu era
inexperiente, mas sabia bem em que mundo vivíamos. E pretendia tirar
algum tipo de proveito do tal casamento. — Suspirou.
— Como assim?
— Eu queria estudar. Queria um emprego. Queria não depender de
um homem — sussurrou e se afastou, me encarando. — Papai sempre disse
que, se tentasse, fecharia as portas de qualquer chance de futuro para mim.
Ele evitava que eu fugisse da sua “segurança”. — Fez aspas com os dedos.
Franzi o cenho.
— Mariano a ameaçava?
— Como você acha que ele conseguiu me obrigar a casar? — Riu.
— Era a única maneira de sair daquela casa. Dependendo de alguém que
não se importasse comigo, eu teria mais liberdade.
— Eu me importava com você.
Encolheu os ombros.
— Eu sei. Você foi bom para mim. Foi bom até tudo desmoronar. —
Toquei seu rosto com carinho. — Nós dois erramos. Eu deveria ter
enfrentado seu ódio naquele dia e dito que Martin crescia dentro de mim —
murmurou, pensativa. — Só que não consegui. Eu saí de casa. Depois
voltei. Vi você com a Anna e imaginei milhões de coisas. Fui tão estúpida.
Coloquei o indicador sobre seus lábios.
— Shhh. Acho melhor deixar tudo isso para trás. Se eu tivesse
ouvido você, não teria passado quatro anos criando nosso filho sozinha. —
Puxei-a mais contra mim, friccionando nossos corpos. Estava complicado;
perdera a conta de quantos banhos gelados eu tomava por dia desde que
Valentina entrou em minha vida novamente. — É hora de desapegar do
passado. Não somos mais tão infantis. Não será fácil, mas temos a vida toda
para tentar.
— Sim. — Inclinou-se e passou os lábios sobre os meus. Meus
dedos foram diretamente aos seus cabelos, agarrando-os para que se
deitasse em cima mim.
A cadeira era desconfortável, mas o espaço limitado ajudava a nos
aproximar ao máximo.
Sua língua brincou com a minha e suas mãos seguraram meu rosto
de maneira possessiva. Eu sentia que poderia morrer naquele exato
momento. As coisas em torno de nós pareciam um tanto desfocadas. E meu
membro deu sinal de vida, cada vez mais excitado com ela se movendo
sobre mim.
Segurei os quadris de Valentina com força, firmando-a no lugar para
que se aquietasse.
— Pare — rosnei.
Ela sorriu.
— Por quê?
— Porque Martin está no quarto.
Ela voltou à realidade, frustrada, e se apoiou em mim, encarando o
nosso filho adormecido na cama.
— Ah, eu tinha esquecido. — Soltou um lamurio baixo que me fez
rir. — Não ria.
— Não estou rindo — respondi, cobrindo a boca com a mão.
— Sei… — Olhou-me, desconfiada. — Pais não fazem sexo, né? —
reclamou, ainda concentrada em Martin.
— Acho que é por isso que muitos dizem para não termos filhos.
Val riu.
— Sim. — Inclinou a cabeça para o lado. — Mas olhe aqueles
pezinhos? E a bochecha? Ah, fica tão fofo quando afunda o rosto no
travesseiro e deixa a boca entreaberta.
Eu sorri.
— A coisa mais perfeita do mundo — concluí. — Talvez não seja
ruim ter filhos.
— Sim. Só… nada de sexo.
— É. Nada de sexo, com certeza — reafirmei, brincando, e ela se
foi, saindo do meu colo e seguindo para o quarto.
Recostado na cadeira, observei a paisagem. Nada de sexo, repeti o
mantra ao meu amigo dos Países Baixos. Por hoje, continuaremos com o
banho gelado.
Ainda não aprendera o segredo de como se transar tendo um filho.
Será que encontraria a resposta na internet, igual a um tutorial de receita?
Talvez fosse melhor pesquisar.
Peguei meu celular, abandonado na mesinha ao lado, e busquei
exatamente isso. Um trilhão de vídeos pipocaram à minha frente. Passei o
dedo pela tela, observando com calma qual deles parecia ter o melhor
conteúdo.
— Não acredito que esteja pesquisando isso. — A voz de Valentina
me fez pular de susto.
Botei o celular contra o peito, vendo-a rir escorada na pilastra,
gargalhando tanto que se curvava.
— Pelo amor de Deus, mulher, do que você está rindo? Não tem
nada de engraçado.
— Ah, faça-me o favor! — exclamou, contendo o riso e se
aproximando. — Me dê o celular.
— Não.
— Por que não? Se não tenho razão para rir, não vai se importar.
— Porque eu não quero.
Ela arqueou a sobrancelha e tirou o celular da minha mão. Não
relutei, seria inútil.
Acompanhei um sorrisinho voltando a surgir em seu rosto.
— Vai me dizer que não está nem um pouquinho preocupada?
Ela me mirou.
— Não.
— Ok. Isso feriu meu ego. Mas eu estou; e não ligo se pareço
desesperado para tocar você da maneira que desejo.
Val desligou a tela do telefone e o colocou de volta sobre a mesinha,
regressando para perto de mim.
— Não estou preocupada.
— Isso não me anima, esposa. Na verdade, é como receber um soco
no saco.
Ela gargalhou.
— Pare com isso, seu bobo. Não estou preocupada pois sei que é
assim, mas vamos dar um jeitinho. Lilian veio para ajudar. — Beijou meu
pescoço, ficando na ponta dos pés e esfregando todo seu corpo sutilmente
no meu.
— Sinceramente, são quatro anos sem nada. Você em cima de mim
não ajuda.
— Não vai morrer se precisar tomar mais um banho gelado. —
Beijou meus lábios e se distanciou. — Martin continua dormindo, vou pedir
jantar no quarto.
— Eu acho que estou morrendo, viu? Sinto até meu pulso fraco —
falei, checando meus batimentos em tom de brincadeira.
— Você não era tão dramático antes — acusou, e eu ri. — O que
quer jantar?
Pensei em falar o que (ou quem) eu realmente queria comer, mas
evitei a resposta crassa. Suspirei, resignado, e segui para dentro.
Sabia bem que a vida ao lado de Valentina e Martin seria perfeita.
Formaríamos a família com que nunca sonhei, mas da qual precisava.
O jantar passou rápido, e logo Martin acordou, sentando-se na cama
com os cabelos cacheados revoltos e parecendo um tanto zangado.
Valentina tentou colocar a mamadeira em sua boca, mas tudo que obteve foi
um resmungo e uma expressão chateada.
— Martin não foi à plaia — falou. — Papai prometeu. Martin não
foi.
— Vamos amanhã, meu amor. Agora já é noite. Você tem que tomar
o leite — Val tentou novamente. — Olhe a barriguinha do Martin. Vazia,
vazia.
Ele suspirou e levantou a camiseta, exibindo a barriga rechonchuda.
— Não, mamãe. Olha! — Pegou as pequenas gordurinhas laterais.
— Dordinho. Martin tá dordinho!
A gargalhada de Valentina preencheu todo o quarto.
— Filho, você é bebê. Bebês são gordinhos. Fofinhos. Se você não
for assim, o que eu vou apertar de noite?
— O papai — intervim por interesses próprios.
Ela me olhou com uma expressão debochada.
— Não. Martin abraça a mamãe — meu filho reclamou, batendo na
cama de maneira irritada.
— Sim. Apenas o Martin. Por isso tem que comer. Ou acordou
chateado porque tem gordurinhas na sua barriga? — Tomou o menino em
seus braços e se deitou no meio da cama. Eu os acompanhei, sentado na
beirada, enfeitiçado pela dinâmica dos dois.
Martin se jogou no colchão.
— Quer brincar.
— Está tarde, filho. Venha aqui. Não. Não vai brincar a essa hora.
— Valentina agarrou o calcanhar dele, fazendo o garoto cair novamente,
gargalhando alto.
Inclinei-me sobre ele e mordi levemente a barriga gordinha, fazendo
cócegas.
— Ahhh! Maldade, mamãe. Matando o Martin! — gritou, e eu ri,
me afastando. Ele segurava meus cabelos com força.
Agora era Valentina quem, da ponta da cama, nos observava.
— O que foi? — perguntei, me sentando com o garoto entre as
minhas pernas.
Ela encolheu os ombros e balançou a cabeça.
— Nada. É só que… — Fez uma pausa. — É perfeito — finalizou
com um sorriso.
— Me deixe tentar. — Estiquei a mão em sua direção, pedindo a
mamadeira.
— Boa sorte com isso. Vou tomar um banho, será rápido. —
Levantou-se e me entregou a mamadeira, seguindo para o banheiro.
— Venha cá, campeão. Venha. — Encostei sua cabeça no braço. —
Vamos tomar um aviãozinho de leite?
— Viãozinho? — Franziu o cenho. — Viãozinho são de felo, papai.
Mamãe me explicou.
— Entendi. Mas sabe… — Passei a mamadeira levemente em seus
lábios. — No universo do Martin eles são de leite! E deliciosos. O Martin é
um super-herói. Você gosta de super-heróis, meu amor?
— Igual ao Hulk? Ele é fortão.
Sorri com seu tom cheio de animação.
— Sim, sim. Igual a ele. Sabia que o Hulk não nasceu fortão? Ele
tomava leite para ficar assim e se tornar um super-herói.
Martin parou, pensativo.
— Mas papai, o Hulk não bate em tudo? Eu acho que ele não é
super-herói.
Ah, pronto, meu filho achou um problema no universo Marvel.
Como sair dessa? Pense, Javier.
Ele continuou negando a mamadeira.
— Certo, é porque os super-heróis, às vezes, como as pessoas, não
são perfeitos. Ninguém é. Acontecem coisas que não podem prever, aí são
levados pelo instinto. Entendeu? Mas não significa que o Hulk não seja
bom.
— Acho que vô pedi pra mamãe pra ver o Homem-Alanha —
respondeu, saindo da cama.
Segurei-o depressa.
— Mamãe está no banho, ok? Se você tomar o leitinho — balancei a
mamadeira na frente dos seus olhos —, deixo você assistir ao Homem-
Aranha. E se transformará em um super-herói bem fortão, como ele.
Martin riu. A barganha não era a melhor tática parental, mas eu
estava aprendendo.
— Eba! — Finalmente se jogou na cama, aceitando o leite já quase
gelado.
Alguns minutos depois, Valentina apareceu vestindo um roupão
branco.
— Você conseguiu — disse, sorrindo.
— Eu sou um ótimo pai — respondi, orgulhoso, e ela sacudiu a
cabeça em negação. Mal sabia que consegui isso à base de suborno.
JAVIER
— Assim, pequeno. — Segurei as mãozinhas do meu filho e afofei a
areia da praia para finalizar o pequeno castelo que montamos próximo ao
mar.
Martin deu um gritinho quando uma onda bateu em suas costas,
rindo em seguida.
Procurei por sua mãe e a vi caminhando na beira da praia, a alguns
metros de nós. Usava um biquíni minúsculo que mostrava todas as curvas
do seu corpo embaixo da saída de praia transparente.
Era uma merda, me deixava de pau duro só de olhar, mas tentei
focar no propósito de mostrar um outro lado de nossa relação à Valentina, já
que tivemos pouco disso. Sem contar que, agora, dispúnhamos de um
pequeno terrorista que até dormia, mas nunca estava distante.
— Castelinho caiu. A mamãe voltou — falou, apontando em direção
à mãe.
Ele se levantou, meio trôpego por causa da areia, e começou a
correr. Alcançou-a antes que eu conseguisse fazer o mesmo, abraçando as
pernas da mulher, que riu do filho.
— Ei, meu amor, fez seu castelo?
Peguei o menino nos braços e olhei sobre os ombros, vendo que a
onda já levara tudo que montamos.
— Não somos bons construtores.
Ela riu, tirando Martin de mim e entrando no mar. Brincou com
nosso filho, descendo a um certo nível da água e subindo novamente. Fui
atrás para participar, e Val colocou Martin em meus ombros, com cuidado
para o menino não cair.
Ele gritou, feliz, batendo palmas. Estava animado, com as
bochechas coradas e o corpo sujo de areia. Juro: aquele era um dos
melhores momentos da minha história. Já experienciara muita coisa, mas
nunca desta maneira.
— Eu amo você — sussurrei para Martin, sorrindo ao pé do seu
ouvido, e ele riu, sem fazer a menor ideia do que aquilo significava.
Ele era a surpresa mais inesperada da minha vida.
E a mais amada.

VALENTINA
Terminei o banho de Martin, colocando-o sobre a cama protegida
com o lençol encapado, e o sequei com dificuldade, pois o menino estava
agitado. Passamos boa parte do dia fora.
Vi quando Javier entrou no quarto, trazendo a mamadeira dele
pronta.
— Aqui. — Estendeu em minha direção. Agradeci, pondo-a sobre a
bancada. O movimento deu liberdade ao meu filho para fugir pelo outro
lado, mas foi impedido pelo pai, que o jogou no ombro.
— NÃO! Papai. Não! — protestou. Javier segurou o pequeno
pestinha, enquanto eu terminei de vesti-lo. — Mamá, mamãe — Martin
sussurrou, levantando a camisa e mostrando a barriga empinada.
— Ah, você está com fome, né? — Javier o deitou em seus braços e
pegou a mamadeira, colocando entre os lábios do filho. — Ontem foi um
show. Hoje está pedindo comida. Pode tomar banho, Val. Eu cuido dele.
Sorri, entrando no banheiro. Descartei as roupas no cesto e liguei o
chuveiro, sentindo a água molhar meu corpo.
A viagem com uma criança, com toda a certeza, estava
decepcionando Javier, porém, ele aparentava lidar bem com tudo. Mas não
era a mesma coisa de quando estávamos em lua de mel e tínhamos apenas
que cuidar das nossas próprias vidas.
Fiquei tempo demais no banheiro. Ao sair, Javier adormecera no
meio da cama, com o filho sobre o peito. Sorri, e meu coração se encheu de
amor.
Eles estavam tão conectados.
De uma maneira que parecia tão certa… Isso me fazia pensar em
tudo que ambos perderam nesses quatro anos.
Eram apenas oito da noite, decerto Martin começaria a chorar lá
pela meia-noite.
Aproximei-me do homem deitado na cama. Apoiei meu corpo
levemente nele, beijando seu rosto.
— Ei — chamei, e ele resmungou, pedindo para dormir um pouco
mais. — Jav. Acorde. Martin dormiu.
Alisei seu rosto, e ele nem mesmo se moveu. Sorri e me inclinei,
beijando os lábios rosados lentamente. Um suspiro veio acompanhado de
sua mão, me puxando sobre seu corpo.
— Estava esperando por isso. — Sorriu, abrindo os olhos. Brinquei
com os cabelos rebeldes. Javier tornou a fechar as pálpebras. — Vamos
tomar um banho?
— Acabei de fazer isso.
— Mas não comigo. — Riu. Fiquei pensativa, analisando bem o que
aquilo significava. — Não vamos fazer nada, só nos banhar. — Entrelaçou
nossos dedos e beijou os nós.
— Pode ir. Vou pensar — zombei.
Ele se levantou, esticando o corpo lentamente. Tirou a camisa e a
calça. Olhei sobre os ombros, vendo o corpo do homem completamente
desnudo, e inspirei fundo, sabendo bem que não poderia entrar num
banheiro com Javier. Conhecia meus instintos ao seu lado. Martin dormia
ali, não faríamos nada.
Mas assim que a água começou a cair no banheiro, puxei os laços do
roupão de banho e caminhei até ele. A porta estava encostada. Embaixo da
água, o homem se apoiava na parede, lavando os cabelos.
Sorri em silêncio, deixando o roupão pesado cair no chão. Abri o
box e abracei suas costas, encostando meus seios desnudos contra sua pele.
Beijei o local e o ouvi suspirar.
— Mudou de ideia?
— Sim — sussurrei.
Javier se virou, abraçando-me e levando a mão ao meu rosto. Tirou
uma mecha insistente que caía ali.
— Venha. Não se preocupe — falou, indicando seu membro
excitado contra minha perna. A risada escapou antes que tivesse a chance
de contê-la. — Você ri, mas não sabe o que são quatro anos sem tocar em
você, Valentina.
Agarrei-me ao seu pescoço.
— Mas sei o que são quatro anos sem tocar em você, Javier —
murmurei, beijando seus lábios.
Ele suspirou, se afastando. Encostou a testa contra a minha e beijou
meu nariz.
— Bom, nós dois estamos no mesmo barco, então. — Deslizei
minhas mãos por seu corpo e apertei sua bunda. Javier riu. — Sempre teve
uma tara por essa área.
— É bem redondinha — brinquei.
Revirou os olhos e desligou a água, pegando um sabonete no anexo
do banheiro e esfregando-o nas mãos. Gerou uma quantidade considerável
de espuma.
Acariciou meus ombros, descendo sobre o vale dos meus seios. Meu
corpo todo tensionou enquanto ele tocava meu mamilo endurecido. Era para
ser apenas um banho, mas senti uma pontada direta em meu ventre,
contraindo minha intimidade em excitação.
Javier demorava mais do que o necessário em meus peitos. Soltei
um gemido baixinho quando ele beliscou o mamilo de leve. A sensibilidade
ali se tornara menor devido ao período de amamentação, mas considerando
o tempo que ficamos sem nos tocar, isso não configurava um problema.
Encostei na cabeça do seu pau, deslizando com cuidado, e desci até
a base, refazendo o processo. Era grande. Grosso. E maravilhoso. Logo,
nenhuma novidade.
Sua boca tomou a minha, me encostando à parede. Suas mãos
passearam por minha barriga, enfim tocando minhas costas.
Encostou na cicatriz da cesariana. Rememorei o nascimento de
Martin.
— Foi cesárea — sussurrou.
— Não dilatei o suficiente — respondi, fechando os olhos com a
memória.
— Sinto muito por não estar lá. — Beijou minha têmpora.
Não respondi, pois continuava a tocá-lo, cada vez mais rápido.
Então o homem jogou a cabeça para trás, gemendo meu nome. Senti o gozo
contra a minha mão e sorri.
— No limite, Jav? — brinquei, ficando na ponta dos pés para
morder seu pescoço.
— Estou sempre no limite quando se trata de você.
Abaixou as mãos pelas minhas costas, beijando e sugando meus
seios. Um gemido baixinho escapou. Controlar os barulhos era
indispensável, afinal, deveríamos estar atentos a cada movimento de
Martin.
A babá eletrônica sobre o mármore da pia me daria qualquer
informação.
Soprou entre minhas pernas, e minha cabeça tombou. Um arrepio
percorreu todo o meu sistema, reduzindo meu corpo à tensão. Tocou-me,
alisando a pele sensível. Meus músculos reclamaram quando um dos dedos
de Javier me penetrou; mordi os lábios para segurar o gemido.
Minhas mãos foram instantaneamente aos seus cabelos, me
equilibrando, e vi o sorriso sacana nascer em seus lábios enquanto entrava e
saía de mim com o dedo. Com minha boceta tão apertada, o prazer se
tornou maior, nublando meus sentidos. Tão logo comecei a estremecer,
gozei em seus dedos. Os segundos passaram lentamente até que ele saiu de
dentro de mim.
Abri os olhos em frestas, apenas para vê-lo levar os dedos ao lábio,
provando meu gosto.
— Deliciosa…
Se eu tivesse alguma decência, coraria.
— Venha aqui — chamei-o, e ele se levantou, colado a mim. Enlacei
a pernas em sua cintura, me mantendo longe do chão e encostada entre a
parede e Javier. Seus lábios beijaram meu ombro.
— Não é o suficiente para matar a saudade de você, Val. Mas já
basta para saber que ainda desejamos a mesma coisa. — Encarou-me,
sorrindo de lado.
— Sim. — Acariciei seu rosto. — Mas…
Não terminei de falar, pois o choro de Martin invadiu nossos
ouvidos e nos fez sair da nossa bolha. Afastei-me de Javier, ligando o
chuveiro rapidamente. Deixei a água molhar meu corpo apenas para
remover o sabão e saí do box, vestindo o roupão.
Corri para o quarto, assistindo a Martin no berço, ponderando se
dormia ou se mantinha-se acordado. Acordara no susto, eu imaginava.
Peguei-o nos braços e o balancei de um lado para o outro, deitando-
me na cama confortável Botando-o sobre o meu peito, alisei seus cachinhos.
Nunca pensara em como seria a vida sexual de uma mãe. Cheguei
até a me questionar: que tipo de mãe eu era fazendo essas coisas a poucos
metros do meu filho?
Nem sabia se queria ouvir uma resposta. Sendo sincera, precisava
urgentemente de um manual que me ensinasse a ser uma boa mãe e esposa.
No dia seguinte, por volta das onze, pegaríamos o voo a Curitiba.
Estava com medo de chegar lá e tudo ser destruído. Gostava das coisas
assim.

Ele já estava adormecido havia alguns minutos, e eu permanecia ali,


encarando o homem com um medo percorrendo meu corpo. Toquei seu
rosto com carinho e deslizei a mão por seus cabelos, alisando-os. Javier se
moveu, e travei, saindo lentamente da cama.
Eu me sentia mal com a situação. Amava ver tudo se acertando, mas
sempre que voltávamos para a vida real, os acontecimentos fugiam do
controle.
Não queria rever aquele filme.
Peguei o casaco grosso dentro da mala e o vesti, enfiando a babá
eletrônica no bolso. Saí do quarto, guardando o cartão magnético junto. Não
sabia aonde iria, apenas desci pelo elevador e parei na área de lazer do
hotel, precisando respirar um pouco.
No térreo, encontrei alguns seguranças. Caminhei por ali, notando
um jardim enorme, com uma área de piscina mais adiante. Sorri e me sentei
numa cadeira de praia, afundando os pés na grama fresca e deixando meus
olhos se fecharem. A brisa fria da madrugada abraçava meu corpo,
reconfortante.
Um guarda passou por mim e me lançou um olhar duvidoso, mas
logo se afastou.
Ai, Valentina, você não pode viver com medo, dizia-me a primeira
voz em meus pensamentos.
Pelo amor de Deus, cale a boca! Se você se casasse com Javier,
também teria medo, uma segunda retrucava.
O debate em minha mente se aflorava cada vez mais.
— Deve estar se perguntando como será voltar para casa quando
tudo acabar. — A voz masculina chegou ao meu ouvido. — Eu sei bem o
que passa em sua cabeça, Valentina. — Virei-me rapidamente, encarando
Mariano, apoiado em uma muleta.
— O quê? Como me encontrou? — O medo me cercava, e ele riu.
— Não a sequestrarei, Valentina — falou, debochado. — Mas nós
dois temos assuntos pendentes; sabe bem disto. — Dei alguns passos para
trás ante sua aproximação. — Ainda tenho muito que falar sobre você.
Passei uma vida toda escondendo. Agora, finalmente, chegou o momento.
Acreditava que aquele não seria um bom encontro.
— O que você quer? — sussurrei.
Mariano parou à minha frente.
— Falar o que desejo. Despejar o que sinto. — Tocou meus cachos
soltos ao redor dos meus ombros. Automaticamente, eu me encolhi. —
Sabe quantas vezes, no passado, precisei conter a raiva por conta de você
ser apenas uma criança?
Havia sido uma péssima ideia sair tão tarde.
— O que…
— Eu quero os anos que se foram de volta, Valentina. Você, garota
imprestável, sempre esteve no meu caminho. Tudo isso para, no fim, nunca
me dar o que eu desejava!
— O que você desejava? — Sua voz nada branda contrastava com a
minha.
— Que tivesse morrido na barriga da sua mãe — murmurou. — Que
parasse de assombrar meu casamento.
— Não fui eu quem assombrou seu casamento, e sim Vânia, que
transou com outro homem e nunca contou a verdade.
— Acha que eu não sabia que era filha de Santiago? Descobri já no
princípio, mas nem para ser um herdeiro você serviu. Nasceu mulher e
imprestável.
Estapeei a sua cara.
— Não vou permitir…
— E quem a defenderá? O seu maridinho? Pensa mesmo que ele se
importa com você a ponto de vir como um príncipe encantado salvá-la do
rei perverso? — debochou, me fazendo estremecer. — O mundo não é um
conto de fadas, Valentina. — Sorriu.
— Eu nunca pensei que fosse, Mariano. Você sempre deixou isso
claro ao pisar em meus sentimentos.
Ele se aproximou de maneira ameaçadora.
— Ao longo de anos, tentei deixar sua vida o pior possível. Algo
merecido, afinal, nem sequer nasceu homem. E se achava superior; decerto
puxou ao seu pai. Ele sempre se julgou muito inteligente por esconder os
filhos fora do casamento. — Meu peito doía à medida que o medo
aumentava. — Você se acha especial, por toda aquela baboseira feminista
que as pessoas colocam na cabeça das mulheres. — Revirou os olhos. —
Mas sabe a verdade, Valentina? Ninguém se importa com você. Seu próprio
pai nunca moveu um dedo para reconhecê-la como filha. Sua mãe contou
mentiras para proteger o casamento, mesmo sabendo que isso acarretaria
sérias consequências. Seu marido, no fim, nunca acreditou em você, porque
não a amava o suficiente.
Distanciei-me dele, mas algo atingiu minhas pernas e me levou ao
chão. Caí na grama, sentindo a dor pelo susto invadindo meus sentidos.
— Acha mesmo que a deixaria fugir? — Pressionou a bengala
contra as minhas costas, me forçando a ficar. Fechei os olhos, chegando à
conclusão de que não haveria ninguém para me ajudar. Ele tinha razão: eu
lutava sozinha. — Esperei muito tempo, você não vai se safar tão
facilmente.
O ar começava a faltar. Sufocada, esforçava-me para me levantar,
mas algo mais me segurava.
Merda. Não queria dar razão a Mariano… Mas estava sozinha neste
momento. O que poderia acontecer? Só Deus sabia…
JAVIER
Virei-me na cama, procurando por Valentina, mas não a encontrei.
Martin dormia no berço. Questionei-me aonde ela teria ido a essa hora da
noite. Peguei o celular, discando o número de um dos seguranças que havia
contratado quando Marília mencionou a aparição de Mariano. Fiquei em
alerta. Não gostava de me sentir procurado e estava preocupado com a
segurança da minha família.
— Viu minha esposa nos arredores do hotel? — indaguei.
— Sim. Estava no jardim, próximo à piscina.
Pisquei, confuso. O que Valentina fora fazer tão tarde no jardim?
Ponderava meus passos seguintes. Martin estava no berço e ficava
desesperado quando acordava e não via ninguém ao redor. Mas seria rápido,
apenas confirmaria a segurança de Val e voltaria no mesmo instante.
Não teria tempo para chamar Lilian, levaria muitos minutos até a
mulher estar pronta.
Decidi, notando que ela havia levado a babá eletrônica, e saí do
quarto, fechando a porta por segurança. Entrei no elevador, descendo para a
área de lazer do hotel. As luzes estavam acesas. Andei pela grama, molhada
devido ao sistema de irrigação.
Aproximei-me cada vez mais até que a cena me cegou por um
instante.
— Se pensa que vai sair bem desta situação, está enganada.
— Você não teria coragem de me matar.
Mariano pressionou com mais força a bengala no corpo da mulher.
— É claro que teria. Já fiz tanta coisa em sua vida que a morte só
seria o xeque-mate.
Quando minhas pernas finalmente receberam meu comando, eu me
movi.
— SOLTE-A! — gritei, desesperado, e Mariano levantou a cabeça,
me encarando.
Nunca imaginei que voltaria a ver aquele homem, mas ali ele estava,
com a bengala mantendo Valentina contra a grama molhada e os olhos
brilhando de maneira demoníaca. Um segundo cara o acompanhava.
— Vai fazer o quê? — debochou. — Tenho seguranças cercando o
local. Não pode me impedir.
— Você não sabe do que eu sou capaz, Mariano — rebati.
Ele enfiou a mão no bolso do paletó, tirando uma pistola pequena e
apontando para mim.
— Eu não estou brincando, garoto. Cansei de vocês. Da sua família.
De Valentina. Desse conto de fadas que pensam existir.
— Não consegue aceitar que ela seja feliz com a armadilha que você
montou para destruí-la — concluí, sentindo o suor descendo em meu rosto.
O tempo estava passando. Ouvia o sussurro dela para que eu me afastasse.
— Igual à mãe dela, Valentina não será feliz. Eu não vou permitir.
O gemido que Val soltou enviou uma onda de desespero por meu
corpo. Não poderia socorrê-la e arriscar que Mariano atirasse em ambos.
— Só porque você não foi feliz? Não temos culpa do passado.
— Têm, sim. Se ela não existisse, eu seria feliz! — rugiu,
descontrolado.
Valentina aproveitou a distração para pegar impulso e empurrar a
bengala. Mariano cambaleou para trás.
Ela rolou na grama, e eu lhe estendi a mão, pegando-a do chão e
puxando-a contra mim.
— Não há como escaparem. Você é tão estúpido que não trouxe nem
uma arma — Mariano falou, e Val se encolheu. Parou a poucos metros de
nós. — Não tenho mais nada a perder com isso, Javier. Se quiser ir, tudo
bem. Eu só preciso dela.
Envolvi Valentina em um aperto determinado.
— Não vou a lugar nenhum. — Vi um dos seguranças que contratei
vindo por detrás deles e, no instante seguinte, um tiro ecoou.
Valentina gritou, assustada, com o rosto enterrado em meu pescoço.
Mas foi Mariano quem tombou, com uma bala na perna. O local se tornou
uma bagunça, com os seguranças do hotel também amontoados ao nosso
redor.
— E-eu… — ela gaguejava, confusa.
Sorri e segurei seu rosto.
— Ei, você está bem, ok?
Desviei meus olhos para o homem no chão a tempo de ver seu
próximo movimento. Agindo por impulso de proteção, joguei Valentina
para o lado. Ela caiu na grama, enquanto um segundo tiro soou.
Atingiu meu abdome, me desequilibrando. Os seguranças levaram o
homem embora, e escutei Valentina berrar. Aos poucos, a dor cegava meus
sentidos.
— Jav. Jav. Javier… — sussurrava. — Fale comigo. Por favor, fale
comigo.
Sorri ao ouvi-la.
— Eu amo você, sabia? — murmurei. Ela riu, mas o som parecia
distante. — Ah, caralho, isso dói.
— Eu também o amo. — Abaixou-se, encostando a cabeça contra
meu peito. — Por isso você não pode me deixar, fique comigo. Fique um
pouco mais. Eles já estão pedindo ajuda… por favor. Por favor, Javier. Por
Martin. Pelo seu filho.
Eu me sentia cada vez mais sonolento. E tudo se esvaiu.

VALENTINA
Ouvi os paramédicos chegando rapidamente. Meu mundo rodava
quando eles me afastaram, levando Javier consigo. Minhas pernas pareciam
gelatina e caí contra a grama, escutando a voz conhecida de Lilian ao longe.
O barulho de tiro atraiu vários hóspedes para fora. Sentia meu corpo
congelado na grama fria.
— Val. Val — me chamou. — Venha, está frio aqui. É perigoso. —
Ajudou-me a levantar.
— Preciso… Preciso ver Javier. Preciso ir até Martin. —
Necessitava de tantas coisas naquele momento.
— Irei levá-la ao hospital, senhora. — Escutei uma voz masculina
em segundo plano. — Sou o segurança pessoal do senhor Javier.
— Ele não tem segurança pessoal. Não vou com você a lugar
nenhum — repliquei, confusa.
— Na verdade, ele tem. — Retirou um documento do bolso,
apresentando-o para mim. — Aqui está o comprovante de prestação de
serviços da nossa empresa.
— Pode ir com ele, Val — outro desconhecido falava comigo, agora
um homem alto e moreno. — Sou Juliano. Trabalho no hotel.
Franzi o cenho.
— Não confio em vocês. Vou pegar meu filho e ver meu marido. —
Lili me auxiliou a levantar e me distanciei, quando uma mão segurou a
minha.
— Aqui está a minha identidade. Meu nome é Juliano Garcia, acho
que meu irmão já deve ter falado de mim. Afinal…
— Sim. Ele falou de você. — Fixei o olhar na foto. — Mas eu não o
conheço. Uma pessoa que conheci a vida inteira acabou de atirar no meu
marido, então não vou a lugar nenhum com um estranho — decretei,
entrando com Lilian no hotel. Buscando o ar restante em meus pulmões,
tentava acalmar meu corpo, que tremia da cabeça aos pés. — Fique com
Martin, ok? Não saia do hotel — pedi à Lilian. Observei minhas roupas
sujas de sangue. — Não tenho tempo para me trocar, meu Deus. Preciso
saber aonde levaram ele.
— Claro, eu fico com Martin — Lili se apressou a dizer. Entreguei-
lhe a chave do quarto. — Vá ver como seu marido está.
Assenti, cansada. Deixei meus instintos me guiarem. Corri em
direção ao primeiro funcionário que encontrei, perguntando aonde a
ambulância levara Javier.
— Aceite a minha ajuda, Valentina — Juliano tentou de novo. —
Sei que está com medo. Mas eu conheço Fernando de Noronha melhor do
que você, posso ser útil.
— Me diga algo que só um filho do Garcia saberia — desafiei-o.
— Você é minha meia-irmã biológica. Javier foi adotado. Nada
disso saiu na mídia — disse, sério. — Apenas uma pessoa da nossa família
conheceria a verdade.
Suspirei, frustrada. Não acreditava que diria aquilo:
— Ok. Aceito sua ajuda. Mas se for um mentiroso, eu acabo com
você — ameacei, braba demais para me importar com nossa diferença de
tamanho.
Não me preocupava com o estado de Mariano, apenas desejava
achar Javier.
— Foram para o hospital mais próximo. A cerca de meia hora daqui.
— Já estávamos no estacionamento do hotel, e ele abriu a porta de um carro
para mim.
— Ótimo. Vamos lá — falei, mexendo na barra do meu casaco,
nervosa demais para ficar quieta.
Ele não poderia me deixar. Não agora.
Não demorou muito para alcançarmos a ambulância que levava
Javier. Juliano dirigia rápido.
Até me senti mais confortável ao observar que o homem batucava os
dedos no volante de maneira ansiosa, refletindo o movimento constante das
minhas pernas.
— Ele vai ficar bem — Juliano cortou o silêncio.
— Precisa ficar. Jav tem um filho…
— …e tem você. — Encarei-o. — Não é um bom momento, mas
todos que convivem com Javier sabem o quanto você mudou a vida dele.
Há quatro anos, ele era apenas um homem egoísta, se achava o dono do
mundo. Então tudo caiu, e ele se tornou esse cara de hoje, uma versão
melhor de si mesmo. Merece aproveitar isso por muito tempo com o filho e
a mulher que ama.
Funguei.
— Merece, sim.

A cirurgia levou algumas horas. Enfim o médico saiu da sala, dando


a notícia de que o quadro de Jav era estável. Foi como se um peso
gigantesco saísse dos meus ombros. Juliano sorriu de orelha a orelha e me
abraçou apertado, compartilhando aquele alívio mútuo.
As quatro horas que passamos lado a lado na sala de espera não
foram muito boas. O silêncio era incômodo, mas ele agiu de modo sincero
ao me levar ali, o que me fez gostar dele.
— Quando posso vê-lo? — indaguei, curiosa.
— Será enviado para o quarto, e você poderá ficar com ele. É o que
do paciente?
— Sua esposa. Valentina Garcia — falei, sorrindo. Fazia tanto
tempo que não usava aquele sobrenome.
— Certo, senhora. Ele será transferido, em breve poderá vê-lo.
Assenti e o vi se distanciar. Finalmente conseguiria me sentar e
respirar aliviada.
— Agora posso falar com você sem esse nervosismo… — Juliano
comentou, me levando a sorrir. — Valentina Garcia. — Pousou a mão
suavemente no queixo, sorrindo de lado.
— É, sua meia-irmã.
— Estranha essa equação entre nós, certo?
— Muito. Mas, na verdade, acho que minha vida sempre foi
estranha. Essa história de outro pai é só a cereja do bolo. — Esfreguei os
olhos, exausta. Lembrei-me de Lilian e Martin no hotel; precisava falar com
ela.
— Quer conversar sobre o que aconteceu? — ofereceu, solícito.
Inspirei fundo, recordando os momentos de tensão passados com
Mariano no jardim.
— Não. Acho que só um terapeuta me ajudaria com isso —
brinquei, tendo um fundo de verdade. — O importante é que ninguém se
machucou.
— E Mariano foi preso. Em flagrante. — O mundo se tornaria um
lugar muito mais alegre sem aquele homem nele. — Eu sempre serei irmão
de Javier, Valentina. Ele é um cara incrível. Mas isso não quer dizer que não
possamos ser amigos.
Fitei Juliano.
— Gosto de você, apesar de odiar assumir que sou uma Garcia. Será
legal conhecê-lo, Juliano, mas nunca vamos ter o laço que você e Javier
compartilham. Santiago não foi meu pai; ninguém foi. — Respirei fundo.
— A única pessoa por quem eu guardava um restinho de amor paterno
acabou totalmente com isso.
Apertou meu ombro, em sinal de conforto.
Falei com Lilian por alguns minutos. A boa notícia era que Martin
não estava nervoso com a situação.
Fui liberada para adentrar o quarto do hospital. Javier estava sedado
e continuaria assim pelas próximas horas.
Eu me aproximei da maca, fechando a porta às minhas costas.
Toquei os fios grossos do seu cabelo com carinho, me lembrando das suas
palavras sussurradas antes de adormecer.
O medo correndo em minhas veias ao ver o homem desfalecendo
ainda podia ser sentido. O tiro de Mariano foi quase certeiro para me
atingir, e rápido demais para que Javier se salvasse também.
— Quem diria, hein — brinquei, escovando a barba por fazer com
meus dedos. — Você sendo do tipo que se joga na frente de uma bala por
mim. Não é bem o final perfeito para um contos de fadas, então esta história
ainda não acabou.
Beijei sua bochecha com carinho. Apoiei a cabeça ali, inalando seu
cheiro. O medo de perdê-lo, agora, se sobrepunha ao medo do que poderia
acontecer entre nós. A solução era viver o presente e esquecer um pouco o
futuro.

— Ei… — A voz grogue me fez levantar a cabeça quando os dedos


deslizaram lentamente em meus cabelos. Encarei um Javier sonolento e
mirei o relógio. Passava da uma da tarde. — O que aconteceu?
— Você quase me matou do coração — resumi, vendo um sorriso
escapar dos seus lábios. — Depois, tudo ficou bem.
Franziu o cenho.
— Mariano…
— …está na cadeia. A polícia fez o trabalho dela. Sente alguma
dor? Quer que eu chame o médico? É hora do almoço, deve estar com
fome… — Ele me calou, colocando o indicador perante meus lábios.
— Estou bem. — Sorriu.
— Mas tão pálido… Não me parece bem.
— Bom, eu tenho uma infinidade de fios em mim e todos esses
aparelhos aqui em volta, então devo estar pálido mesmo — resmungou. —
Foi muito feio?
— Segundo o médico, atingiu uma área perigosa, mas não chegou a
nenhum órgão. Passou por algumas horas de cirurgia. — Entrelacei nossos
dedos.
— Quem a trouxe aqui?
— Juliano. Ele se apresentou e, apesar do medo, eu aceitei a
companhia. Não tinha saída.
Javier estava de olhos fechados.
— Não pode ficar pegando carona com estranhos, Val.
Eu sorri.
— Estou do seu lado, não estou? — Ele assentiu, aceitando o
carinho dos meus dedos em seu rosto. Inclinei-me, beijando o dorso da sua
mão. — Eu quase morri, Javier.
— Eu também quase morri ao ver aquela arma na sua direção. —
Fechei os olhos e deixei as lágrimas caírem. — Você nunca mais vai sair do
meu lado sem avisar, ok? — falava isso de maneira tão tranquila que nem
mesmo se dignou a abrir os olhos.
— Ok — respondi, nada relutante. Ele até me encarou, assustado. —
Eu percebi que não importa pelo que terei de lutar; quero estar ao seu lado.
Meu marido sorriu.
— Odeio ser brega, mas eu amo você, Valentina.
Inspirei fundo e, na ponta dos pés, alcancei seus lábios, depositando
um selinho ali.
— Não é brega. Eu inclusive queria ouvir de novo para não pensar
que estou ficando louca — confessei, e ele riu. — Eu também amo você.
E, de alguma maneira, sabia agora que poderíamos enfrentar tudo.
Juntos.
VALENTINA
Voltar para São Paulo não foi um trabalho fácil. Javier estava com
os pontos, e só conseguimos retornar alguns dias depois dele receber alta.
Nesse meio-tempo, falei com José sobre minha ausência na empresa, e
ficou tudo bem.
Senhor Gonçalves marcou um encontro para dali a uma semana,
quando ele chegasse no Brasil. Eu estava até nervosa com isso. Seria na
capital paulista, onde ele ficaria um tempinho resolvendo as questões da
parceria com Javier.
Nosso avião havia pousado no dia anterior. Alugamos um quarto de
hotel, já que não tínhamos onde nos hospedar na cidade.
Observei o móvel no meio da sala, que abrigava meu filho
adormecido. Eram apenas oito da manhã. Precisaria correr antes que
acordasse, afinal, estava sozinha com ele.
Lilian retornara a Curitiba; seria inviável mantê-la conosco. Já
tínhamos feito uma viagem insana pela Cidade do México, por São Paulo e
por Fernando de Noronha.
Virei-me, caminhando até o quarto, onde Javier tentava se levantar.
Os cabelos estavam maiores e a barba por fazer, após dois dias sem apará-
la. Ficou terrivelmente bonito assim, apesar de passar o dia na cama,
seguindo recomendações médicas.
— Ei, quais são as orientações mesmo? — falei, me apoiando na
porta do quarto.
Ele me encarou, arqueando a sobrancelha, e fez uma careta
divertida.
— Tomar banho e fazer a barba.
Soltei um barulhinho descontente com a boca.
— Eu lembro bem que não foi isso. — Acheguei-me, tocando seu
rosto. — Se não ficar quieto, vai demorar mais para cicatrizar. — Beijei seu
rosto com carinho.
Suas mãos foram para a minha cintura e me apertaram levemente.
— Estou só perdendo tempo.
— Não, você está se cuidando. É diferente. — Ajudei-o a se
levantar e caminhamos até o banheiro. Ele estava com um curativo no
abdome, recente demais para movimentos bruscos. Então eu colocava um
banco no meio do banheiro e o auxiliava. — Em breve poderá correr para
todos os lados. Enquanto isso, deixe-me cuidar de você — falei, me
inclinado para tirar sua calça do pijama.
— Eu não me importaria nem um pouco se você cuidasse de mim de
outra maneira. — Javier deu um sorriso safado. Era muita falta de vergonha
na cara!
— Nem em seus sonhos, bonitão. O nosso menino acorda em pouco
tempo, sabe a loucura completa em que ficaremos.
Sentou-se e deixou que eu o banhasse.
Dona Guadalupe surtara com a notícia e estava vindo ao Brasil para
cuidar do neto. Adoraria tê-la ali; amava aquela senhora tagarela.

Martin brincava com a barba do pai, deitado ao seu lado na cama


enquanto apreciávamos o fim da manhã se estender. Já havíamos almoçado.
Em breve, meu filho tiraria a soneca da tarde, mas ele estava tão feliz
conversando com Javier que era impossível afastá-los.
A campainha tocou, e eu me levantei.
— Vou ver quem é.
Guadalupe irrompeu porta adentro. Consigo, puxava uma mala
enorme.
— Cadê o meu neto?
— Eu não ia buscar a senhora no aeroporto?
Dona Guadalupe estreitou os olhos.
— Meu neto levou um tiro. Eu posso andar de táxi.
Segurei a risada.
— Nunca disse o contrário.
Ela me abraçou de leve, beijando minha bochecha.
— Saudade de você, minha menina. — Afastou-se. — Onde estão
meus garotos?
— Na cama, pode ir lá. Vou pegar um café. — Apontei para o
quarto, e ela apertou minhas mãos em agradecimento antes de correr em
direção ao local.
Era uma suíte espaçosa, com uma pequena cozinha anexada.
Integrava a rede de hotéis dos Harrisons na cidade, uma das melhores de
São Paulo. Segundo meu marido, Anthony e Heitor Harrison eram primos
de Anna Júlia e homens influentes. Eu os conheci numa festa em que fomos
quatro anos antes.
Comecei a preparar um café. Ao terminar, servi três xícaras,
procurando por uma bandeja para colocá-las. Assim que encontrei, ouvi
passos na sala.
— Isso, sente-se aí. — Segui para o local. Guadalupe conduzira
Javier ao sofá, como um garotinho, e agora fazia o mesmo com Martin, este
em seu colo. — Trouxe ele para a sala, tadinho. Ficar no mesmo espaço
deixa a gente tão abatido.
Javier evidentemente se sentia mimado, parecendo uma criança com
toda a atenção voltada para ele.
— Fiz café.
— Coado ou na máquina?
Fitei-a, sorrindo.
— Coado. Do jeitinho brasileiro.
Ela riu, jogando a cabeça para trás.
— Ah, Deus ouviu minhas preces — sussurrou, experimentando o
café e ampliando o sorriso. Mirou Javier. — Nem acredito que você
finalmente sossegou.
— Mas eu não era problemático — resmungou meu marido.
Martin saiu do colo da avó e foi brincar no chão, enquanto eu
estendia o café para Javier e pegava o meu próprio. O clima estava quente
na cidade, mas um café nunca era demais.
— Sim, você só não tinha uma esposa. Uma motivação — retrucou.
— Somos criaturas sociais, Javier. Nascemos para viver junto a alguém.
Um homem sozinho é sempre solitário.
Quis dizer que aquilo não era verdade, porém, evitei contrariar sua
experiência.
Encostei a cabeça no ombro de Javier, e ele entrelaçou as nossas
mãos, enquanto conversava com a avó. Senti quando seu dedo brincou com
o meu, procurando um anel.
— Cadê sua aliança? — indagou, arqueando a sobrancelha.
— No quarto, tive que tirar para fazer umas coisas. Perdi o costume
— desculpei-me, o fazendo rir.
— Alianças são feitas para ficarem no dedo, meu amor. — Inclinou-
se, beijando minha bochecha.
— São mesmo. E deveriam renovar os votos, isso sim — dona
Guadalupe reclamou.
— Ficamos quatro anos separados, não faria sentido — contrapus.
— Precisam de uma festinha para comemorar o retorno!
Martin se aproximou, pondo-se entre as pernas do pai e estendendo-
lhe um carrinho. Mais cedo, eu ouvira Javier sussurrar a ele que, tão logo
estivesse melhor, os dois fariam tudo que nunca fizeram antes. Eu sabia que
o homem odiava estar machucado demais para poder curtir o filho
apropriadamente.
— O pequeno é apaixonado por ele — Guadalupe falou, sorrindo
para o neto.
— Totalmente. Javier parece ser a única pessoa capaz de acalmar
essa alminha cheia de raiva — brinquei, alisando os cachos do meu filho. O
gesto interrompeu sua brincadeira, e ele me encarou com um biquinho. Não
pude deixar de rir. — Ele é a sua cara — eu disse a Javier, que encolheu os
ombros.
— Não sou tão zangado assim.
Revirei os olhos.
— Só na maior parte do tempo — zombei, e ele tentou conter um
sorriso.

JAVIER
Valentina se deitou ao meu lado depois de finalmente conseguir
colocar Martin para dormir. Já eram quase duas da manhã, e o garoto não
havia parado um instante. Ela tinha um olhar cansado ao montar uma
barreira de travesseiros ao nosso redor, como sempre fazia para não acabar
em cima de mim.
— Tem que contratar alguém para ajudá-la, amor — falei,
acariciando seus cabelos. Ela estava de olhos fechados e bocejava, cansada.
— Eu vou, amanhã começo a pensar nisso — respondeu, sonolenta.
Inclinei-me levemente, sentindo um desconforto cortando meu
corpo com o movimento, mas beijei os cabelos da minha esposa com
carinho.
— Cansada… — balbuciou.
— Eu sei, descanse. Se tudo der certo, Martin dormirá como um
anjo hoje.
Ela sorriu de lado e, em instantes, estava completamente apagada.
Continuei ali, a observando dormir enquanto os analgésicos não faziam
efeito.
Beijei seu dorso, concentrado neste sonho que nunca pensei em
viver. Nem fazia ideia de que almejava aquilo tudo até encontrá-los. Nossa
realidade era perfeita demais.
Poderia viver assim para sempre.

Martin chorou por volta das cinco da manhã. Valentina nem mesmo
se mexeu, adormecida pela exaustão. Movi-me devagar, com medo de
romper os pontos, e me ergui, apoiado no colchão.
A passos lentos, alcancei a divisão que fizemos no quarto de hotel
para abrigar Martin.
Não deveria me levantar, mas Valentina andava segurando as pontas
por nós dois; merecia uma noite de sono completa. Parei na porta do quarto,
vendo meu filho sentado no berço, com os olhos cheios de lágrimas e uma
careta pidona.
— Ei, meu amor. — Sentei na poltrona que Val colocou ali para
fazê-lo dormir. — Vamos combinar o seguinte: eu fico com você, e
deixamos a mamãe descansar um pouco, ok? — Peguei a mamadeira em
cima da mesinha ao meu lado. O leite esfriara, ele se recusaria a tomar. —
Papai terá que dar um jeitinho nisto, Martin — falei, tirando-o do berço.
Nosso filho caminhava pelo quarto, e eu o seguia, devagar demais
para cuidar daquele menino. Ele foi à sala, pegando a primeira coisa que viu
pela frente para brincar.
Permiti que fizesse isso e rumei à cozinha, colocando a mamadeira
para esquentar em banho-maria. Retornando à sala, vi o menino sentado no
meio do tapete, brincando com carrinhos e um objeto de decoração em
porcelana.
— Ei — chamei-o, me mantendo de pé, pois precisaria buscar a
mamadeira. Ele me encarou e sorriu de lado. — Temos um trato, viu,
malandrinho? Nada de lágrimas. Você cansou a mamãe.
— Mamãe briga comigo. — Apontou para a porcelana.
— Sim, sua mãe briga se vê você brincando com a decoração —
respondi, sorrindo, e voltei à cozinha.
Chequei a temperatura da mamadeira e esperei ali até que estivesse
da maneira correta. Retirei-a de dentro da vasilha e, já na sala, me sentei
com cuidado. Chamei Martin, mas ele não veio, continuando sentado entre
minhas pernas. Pus a mamadeira em seus lábios, e o menino aceitou,
segurando-a com toda sua independência de três anos e meio.
Sorri. As próximas duas horas seriam corridas e angustiantes, afinal,
eu não estava na minha melhor condição para cuidar de Martin, mas o faria
mesmo assim.
— Sim, sim. Eu posso cuidar de você sozinho, né? — falei,
sorrindo.
— Pode — ele sussurrou, afastando o bico dos lábios. — Você pode
cuidar do Martin sozinho, papai.
— É, eu posso. — Limpei o leite que caiu na sua bochecha. —
Porque eu vou ser um pai legal, né? Vou levar você na fazenda para
aprender a montar. E mamãe irá junto, já que ela não o solta para nada. —
Ri.
— Levar mamãe pra andar de tavalo. — Fez uma expressão feliz.
— “Ca-va-lo”. Fale “cavalo” — incentivei, sorrindo.
— Tavalo.
Uma risada escapou. Passaria a madrugada toda conversando com
um garoto de três anos e lhe ensinando a pronúncia correta das palavras que
ele ainda não sabia. E isso era uma das melhores coisas da vida.
VALENTINA
Uma semana depois, eu continuava na luta para cuidar de Javier e
Martin. Após dias me sentindo esgotada, acabei ganhando a ajuda de dona
Guadalupe, que era simplesmente um anjo falante.
Peguei um panfleto sobre o balcão do hotel, aguardando uma
resposta da atendente, e vi ali o nome de Rachel estampado de maneira
delicada, ao lado de uma foto sua sentada diante de um piano, com os
cabelos soltos ao redor dos ombros e um vestido vermelho rendado.
A saudade apertou meu peito. Fazia tanto tempo que não a via…
Poderia abraçá-la por horas. Porém, a ideia de colocar meus receios de lado
para encontrá-la me deixava temerosa.
Enfiei o panfleto dentro do bolso da calça e comecei a caminhar em
direção ao elevador. Porém, senti meu corpo sendo impulsionado para a
frente quando alguém bateu em meu ombro.
Dei de cara com um homem mais velho, que me pediu desculpas e
rapidamente me reconheceu.
— Valentina? — Santiago falou, e notei um segundo homem se
aproximando: Juliano. — O que faz aqui?
— Ah, é, me esqueci de dizer. Quando encontrei Javier, ele estava
com Valentina — Juliano comentou como se falasse sobre o tempo. — E
com Martin, filho deles.
— Filho?! — Santiago se assustou.
— Sim. — Segurei a risada.
— Juliano disse que Mariano tentou matar Javier. — Arregalou os
olhos. — Deus, que loucura. E por onde você andou, menina? Como estão
as coisas?
— Val! — A voz de Javier me fez travar. Ele saía do elevador,
segurando a mão de Martin, que nem olhava por onde andava, focado num
joguinho no celular do pai.
Jav começara a sair do quarto naquele mesmo dia; depois de uma
semana comigo brigando para que ficasse quieto, não consegui mais segurá-
lo.
— O garoto é a cara dele — Santiago concluiu, sorrindo.
— Sim, e a personalidade também. — Aproximei-me do meu
marido, pois não sabia como ele reagiria ao ver o pai. Javier e Juliano
haviam trocado amenidades no hospital, mas o caso de Santiago era
diferente. — Ei, você tem visitas.
Seu olhar encontrou o do senhor Garcia. O sorriso que dirigia a mim
rapidamente se apagou.
— Não vim brigar — meu sogro se apressou a dizer. — Eu só queria
saber se estava bem. Fiquei preocupado. Nesses quatro anos, sempre assumi
que se manteve seguro, pois conseguiria se virar, mas Juliano me deu a
notícia de…
— Alba pediu para vir? — cortou-o. Não havia nenhuma raiva na
voz de Javier, ele apenas parecia desprovido de emoções.
— Não. Alba não mora mais no Brasil. Assinamos de vez o
divórcio, e ela se mudou para Nova Iorque. — Santiago encolheu os
ombros. — Bom, acho melhor eu ir. Tenho uma celebração hoje no bar do
Ivan, comemoro mais um aniversário. Adoraria se comparecessem.
— Não acho uma boa ideia — Javier replicou.
— Eu sei que nada é como antes, filho. Mas estou disposto a me
esforçar. Não posso mudar o passado, mas posso tentar ser uma pessoa
melhor. — Olhou para nossas mãos entrelaçadas. — Você, mais do que
ninguém, deve saber o quão preciosa é uma segunda chance.
Javier suspirou, me fitando.
— Temos Martin e estamos sem babá no momento.
— Não é uma festa adulta. Apenas uma reunião com amigos e um
jantar. O bar do Ivan foi fechado para isso, pois é um local seguro e que
todos conhecemos. Espero os três lá, se possível. Tenham um bom-dia. E se
cuidem.
Santiago sorriu e se afastou. Juliano continuou conosco.
— Então esse é o Martin? — Indicou meu filho. Ele não o conheceu
em Fernando de Noronha. — A sua cara, irmão. Atentado igual a você
quando era pequeno?
— Claro que não. Martin é danadinho, eu era uma criança calma —
Javier respondeu ligeiro, fazendo o irmão rir.
— Óbvio, óbvio. Bom, eu tenho que ir. — Ficou sério. — Sei que
você está magoado com Santiago, mas acho que não deveria se preocupar
com os laços de sangue. Ele o ama muito, Jav. E pense que, se vocês nunca
tivessem se encontrado, hoje você não teria sua família. — Apontou para
Martin e eu. — Estaremos entre amigos íntimos: Ivan, Anna, Mateus,
Rachel… — Senti-me tensa. — Seria bom ter vocês conosco. Esqueça o
passado.
Sorri de leve ao vê-lo se distanciar. Olhei de soslaio para Javier e o
notei pensativo. Ele já estava bem melhor, os pontos seriam retirados em
breve, e as dores não eram mais persistentes. A recuperação foi bem-
sucedida, graças a Deus.
— O que você acha? — Parecia claramente dividido.
— Bom, siga seu coração. — Lançou-me um olhar contrariado e me
fez rir de leve. — Ele é seu pai, Javier. O fato de não ter seu sangue não
muda nada, já disse o que acho sobre isso. É claro que nada vai voltar a ser
como antes, mas não podemos viver em meio a tantas mágoas. Tem sorte de
contar com pessoas que se importam com você.
— Eu me importo com você.
Sorri.
— Eu sei, mas não quis dizer isso…
— Sim. Mas se eu for, você vem comigo. Podemos deixar Martin
com abuela. Não vamos ficar muito tempo.
Beijei sua bochecha.
— Será ótimo. Venha, vamos almoçar. Cadê a dona Guadalupe?
— Deu uma saída. Disse que voltaria mais tarde. — Passou o braço
em minha cintura e reparou no papel em meu bolso. Martin, ainda distraído,
segurava o celular de Javier. — O que é isso? — Pegou o panfleto do show
de Rachel. — Mantém contato com ela?
— Não. Vi e fiquei pensativa. Mateus disse que eles tiveram algo
durante o tempo que passamos longe.
Javier se espantou.
— Tiveram?
— E isso resultou em uma coisa pequena e loira — falei, risonha.
Busquei meu celular no bolso do short e procurei por Rachel nas redes
sociais.
Minha melhor amiga — ou ex-melhor amiga, pois não nos
encontrávamos havia muito tempo — sempre amou cantar; desde pequena
demonstrava um dom inquestionável para a música. Contudo, quatro anos
atrás ela não tinha nem metade da sua fama atual. Percebi isso ao conferir
seu Instagram.
Desci um pouco para encontrar uma foto dela com a filha e mostrei
a Javier, que permanecia chocado com a informação.
— Esta é Ashley. Ela estava com Mateus quando o vi antes de ir
para o México.
— Rachel e Mateus? Mateus e Rachel?
A risada foi inevitável.
— Dizem que amor e ódio andam lado a lado — concluí, me
aproximando de Martin. — Filho, dê o celular para a mamãe, vamos
almoçar agora.
Ele me encarou, arqueando apenas uma das sobrancelhas.
— Papai deixou.
Eu me virei para Javier. Já o alertara de que não podia deixar Martin
fazer tudo que quisesse.
— Ok, vou dar um jeito — disse meu marido, antes de seguir
pedindo o celular, desta vez com seu melhor tom de persuasão.
Eu me afastei ao sentir meu próprio telefone vibrar. O nome de José
apareceu na tela; atendi sem pensar duas vezes.
— Valentina, querida! — A voz de Rita preencheu meus ouvidos.
— Oi, dona Rita, precisa de algo?
— José está no banho, pediu que ligasse. Acabamos de chegar em
São Paulo. Podemos nos encontrar à tarde? Anna disse que tentaria
comparecer.
Sorri.
— Seria ótimo, Rita. Basta enviar o endereço.
— Claro. Até breve, querida.
— Até.
Javier havia tirado o aparelho de Martin. Não sabia como ele
conseguia dobrar nosso filho de modo tão fácil, mas minha hipótese
envolvia subornos.

Enxerguei José e Rita sentados juntos em uma mesa nos fundos. O


local se chamava Santa Massa e, a essa hora, já estava fechado, pois
passava das três da tarde. Mas, segundo meu chefe, o dono era um amigo
íntimo da família, logo, cedeu o lugar para a reunião.
Javier vinha mais atrás, com Martin consigo. Dona Guadalupe não
retornou para o hotel, ou seja, levamos nosso pequeno terrorista para o
trabalho.
— Boa tarde! Como foi a viagem? — Beijei a bochecha de Rita.
— Ótima, querida. E a sua estadia em São Paulo? Javier, filho, está
melhor? — Haviam ficado preocupados com a situação do meu marido.
— Melhor do que nunca, Rita. José. — Apertou a mão do homem e
se sentou numa das cadeiras. — O que desejam? Anna disse que não
poderia vir, apenas me informou que José me deixaria por dentro de tudo.
O outro sorriu de leve.
— Sim. Bom, não havíamos definido onde seria a filial do Bella
Mia… — começou. Procurei me sentar, colocando Martin na cadeira livre e
lhe entregando um tablet para o distrair por alguns minutos. — Depois de
muito conversar com Anna, chegamos à conclusão de que São Paulo é o
local ideal. — Notei Javier ficar tenso. — É o centro do comércio do Brasil.
Curitiba seria viável, sim, mas nada comparado a esta cidade. — Gesticulou
ao seu redor. — E, como sabemos que vocês estão tentando fazer o
relacionamento dar certo, decidimos oferecer à Valentina o cargo
administrativo dentro da filial.
Eu congelei, sem conseguir responder. José prosseguiu:
— Será uma excelente parceria. Uma sociedade. No fim, Val já está
inserida apenas por ser sua esposa, mas como sei que a vida dela é o
trabalho, atuar ao lado do marido pode ser uma boa solução.
Abri a boca, em choque. Encarei Javier, que sorria de lado. Não
acreditava que José, Rita e Anna tiveram o cuidado de pensar em nós ao
planejar o futuro de suas empresas.
— Acho que seria… incrível! — meu marido exclamou. Fitou-me.
— Pense só no quanto isso facilitaria as coisas. Você não ficaria sufocada
com o trabalho, poderia ter tempo para Martin e ainda ajudaria nossa
parceria a dar certo, como a boa administradora que é.
— Tem certeza? Misturar trabalho e vida pessoal pode complicar
tudo. — Sorri, envergonhada. Não queria simplesmente me jogar em seu
mundo, atrapalhando Javier.
— Absoluta. A não ser que não queira…
Eu ri.
— Seria ótimo. — Segurei sua mão, apertando-a. Ele entrelaçou
nossos dedos.
— Então está decidido. — José também sorria. — Fico muito feliz
por vocês. Mas não acredito que a levei ao México apenas para perdê-la
para Javier.
Rimos juntos.
— Bom, não vai me perder por inteiro. Ainda é a sua empresa.
— No caso, a empresa é de todos nós — brincou, afinal, estávamos
entre casais. — Viajaremos a Curitiba no fim do dia. Rita se disponibilizou
para preparar tudo lá e enviar pela transportadora. Não sabemos bem como
vão querer fazer a transição.
— Não tenho muito que me prenda à cidade, José. Só o
apartamento, os móveis e algumas questões de contas em aberto.
— Não se preocupe, querida. Busquem se estabilizar aqui,
resolveremos o restante depois — Rita interveio.
— Obrigada, gente. Sou muito grata por todo o apoio.
Rita e José foram mais meus pais do que qualquer pessoa neste
mundo. Sentia um carinho incomensurável por eles.
— Definir o local da empresa era o último ponto faltante. Agora,
estamos oficialmente voltando a Curitiba; nos veremos em breve, claro,
mas vamos sentir saudade, Val. — Eu me levantei, abraçando-os. —
Amamos você como uma filha. Sabe que sempre pode voltar para casa, se
precisar.
Sorri.
— É recíproco. Obrigada. — Funguei. — Por tudo.
Eles se afastaram.
— Apenas seja feliz, ok? — Assenti, emocionada. — Vou beijar
meu netinho antes de ir — brincou José, se aproximando de Martin.
Javier se ergueu, segurando minha cintura e me puxando contra seu
corpo. Encostei a cabeça em seu peito e suspirei.
— Viu? No fim, o destino sabe o que faz.
— Sim. O destino não se confunde. — Mirei-o, contente.
Seus lábios beijaram levemente os meus.
— Precisamos organizar a vida. Arranjar uma casa, para começo de
conversa — falou.
Soltei mais um suspiro apaixonado.
— Acho perfeito.
Era mais do que desejei desde o princípio. Martin, Javier e eu, sob o
mesmo teto. Sim: o destino, com certeza, sabe o que faz.
JAVIER
Valentina desceu do carro em frente ao bar do Ivan. Eu continuei ali,
parado e encarando a rua à minha frente. E se tudo fosse terrivelmente
estranho? Caralho, sabia que era uma péssima decisão encontrar meus
antigos amigos.
— Venha. Já estamos aqui. — Olhei para a minha esposa. Devido à
minha situação atual, eu não estava dirigindo o carro que alugamos para
suprir nossas necessidades nesses dias em São Paulo. — Não vai saber
como é se nunca tentar.
Sorri. Agora que, de fato, retornaríamos à cidade, depois de quatro
anos longe, a qualquer instante poderia me deparar com Santiago, Ivan,
Rachel e Mateus nos locais que frequentava. Fazíamos parte do mesmo
círculo social, por mais que eu desejasse o oposto.
Abri a porta do carro e caminhei em sua direção. Martin havia
ficado com abuela no hotel. Após a conversa com José, decidimos começar
a procurar uma casa à venda. Conhecia bons lugares, mas queria um
especial, afinal, a ocasião pedia isso.
— Venha. — Val enlaçou o braço ao meu e sorriu. — É só ser você,
não tem nada de mais. E se for chato, podemos ir embora no mesmo
instante.
Beijei o topo de sua cabeça.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer.
Passei a mão em volta da sua cintura e andamos ao bar. Empurrei a
porta do local; estava claro, diferente do comum. Tinha algumas mesas com
convidados. Vi o dono do outro lado do balcão. Ele sorriu ao me enxergar.
Rapidamente, passei a identificar diversas pessoas ali.
Mateus conversava com Anthony e Heitor Harrison. E senti meu
corpo tenso ao encontrar o olhar de meu “irmão”: Juliano sorriu, se
levantou e veio me abraçar de leve.
— Ótimo que veio. Papai está falando com os Galvanis.
— Os Galvanis estão aqui? — Franzi o cenho, procurando-os. Vitor
e o irmão se sentavam a uma das mesas, rindo com Santiago. A surpresa
não poderia ser maior, afinal, nunca eram vistos em público. A família
sempre fora reservada.
— É. Parece que Ivan é amigo deles. — Balançou os ombros.
Notei Mateus olhando em nossa direção. O choque em seu rosto me
levou a sorrir de leve.
Era estranho estar de volta.
— Sua cerveja, Javier. — Ivan pôs a garrafa sobre o balcão. — O
que vai querer, querida? — perguntou de maneira galanteadora para
Valentina, que sorriu e pediu um drink.
— Val. — Juliano beijou a bochecha dela. Talvez a convivência
tenha nos tornado parecidos. Os cabelos de Juliano Garcia eram de um
castanho bem escuro, cortados de maneira a fazer pequenas mechas caírem
ao redor do rosto. Tinha uma barba rala e olhos negros. De fato, muito
bonito. — Fico feliz com a presença de vocês. Venham, sentem-se conosco.
— Apontou para a mesa.
Pegamos nossas bebidas e rumamos aos fundos, buscando uma
mesa ao lado da de Juliano.
Santiago finalmente reparou em nós e se aproximou, sorrindo.
— Ei, vieram. — Riu, pegando uma cadeira. — Rúbia foi
convidada, Val. Espero que não se importe.
Minha esposa deu de ombros ao tomar um pouco da sua bebida.
— Não. Claro que não — respondeu. — Rúbia nunca me fez nada.
Ela sempre foi maravilhosa.
Santiago sorriu.
— Fico feliz. Cadê o Martin?
— Está com Guadalupe.
— E quem é Guadalupe? — Juliano indagou, curioso.
Eu sorri de lado.
— Minha avó. — Ambos se mostraram surpresos. — Eu a conheci
no México, quando fui encontrar coisas sobre o passado — revelei e vi
papai assentindo.
— Encontrou o que procurava?
— Não. Mas foi uma viagem necessária — defini o que aconteceu
em quatro anos apenas nestas palavras. Era a verdade. Não foi fácil abrir
mão de tudo, não foi fácil renunciar ao que sentia. Muito poderia ter sido
diferente, contudo, ao menos me levara à minha real família e a uma versão
melhor de mim mesmo.
— Cheguei! — Rachel estava parada na porta do bar, com um
homem desconhecido segurando sua cintura. A primeira pessoa em que ela
colocou os olhos foi Valentina. Em seguida, beijou a bochecha do homem e
caminhou até nós. — Minha nossa senhora, pensei que nunca mais veria
você — falou antes de puxar a amiga para um abraço.
A forma simples como abraçou Valentina descomplicou tudo. Um
sorriso emocionado escapou de Val; minha esposa sentia falta da amiga.
— Ah, que saudade! Fiquei sabendo que teve um mini Javier.
Nossa, ele deve ser tão ranzinza. — A risada contagiou a todos. — Está
linda, meu amor. — Afastou-se, segurando o rosto de Val.
— Obrigada. Você está incrível também. E sim, ele é ranzinza, às
vezes me dá medo — brincou, arregalando os olhos ao falar. — Como você
está?
— Bem. Vai morar em São Paulo agora? — inquiriu, puxando uma
cadeira para se sentar. — Ai, que cabeça a minha. Parabéns, Santiago. —
Abraçou meu pai com carinho.
— Não se preocupe, querida. Obrigado, também estou feliz igual a
você. — Direcionou o olhar a nós. Eu suspirei, alegre. Sim, é bom estar
com pessoas que conhecemos, mesmo que nossas relações tenham mudado.
— Cadê sua loirinha?
— Ficou com a mamãe. Está agitada hoje e ainda não aceitou
Andreas muito bem. — Fez careta, sentando-se perto de Val. — Mas me
diga, onde vocês vão morar? Fiquei sabendo por Anna que voltaram para o
Brasil.
— As notícias correm — comentei, sorrindo, e Rachel me encarou.
— Por mais incrível que pareça, eu até senti saudade de você. — A
sinceridade da mulher me divertia.
— Também senti sua falta, Rachel. Principalmente da delicadeza ao
falar que me odeia.
Ela gargalhou.
— Não odeio ninguém. Só não sou delicada.
— E sim, vamos morar no Brasil. Aqui em São Paulo — revelei,
voltando a conversa para um assunto mais brando. — A filial do Bella Mia
será montada na cidade, Valentina vai trabalhar conosco na administração.
— Muito bom. Juntos, poderão oferecer o melhor para Martin —
Santiago opinou.
— Sim, será perfeito. Mas ainda vou dividir o tempo entre o Brasil e
o México. Anna não pode ficar sozinha lá. — Senti alguém se aproximando
e virei a cabeça, observando Mateus ali, segurando uma garrafa de cerveja.
Eram muitas pessoas com quem falar… Havia diversas questões pendentes.
— Mateus. — Analisei as vestes do homem e não resisti a fazer uma careta.
— Está… diferente.
Ele riu.
— É. Tive que assumir as empresas do meu pai. — A revelação me
espantou. — É bom ter vocês de volta. — Sorriu.
— Obrigado, cara — sussurrei, logo notando que ele fitava
Valentina, que estava séria.
— Posso falar com você, Valentina? — Mateus questionou.
Ela forçou um sorriso.
— Depois, Mateus — limitou-se a dizer, bebendo outro gole do seu
drink.
O homem que chegara com Rachel se juntou a nós.
— Andreas, sente aqui — a loira falou, acenando. — Pessoal, esse é
o Andreas. Meu namorado.
Foquei minha atenção em Mateus e o vi bufar. Ri e me levantei,
apertando a mão de Andreas.
— Prazer, cara. Brasileiro?
— Não, mas tenho família aqui. — O sotaque não passava
despercebido.
Com minha cerveja em mãos, eu me afastei da mesa, procurando
Ivan. Uma música moderada preenchia o bar.
— Ei. Cadê Anna? — perguntei.
— Acabou de estacionar. — Apontou à porta. A mulher saía do
carro, jogando os cabelos escuros para trás. — Brigamos na noite anterior.
Ela não está muito bem com o casamento.
— Sempre pensei que, uma hora ou outra, vocês se casariam.
— Você também não… — zangou-se.
— Todos pensamos. — Mateus se avizinhou, sorrindo. — É o tipo
de casal que cria expectativas. Achei que cederia.
Ivan arqueou a sobrancelha para ele.
— Não se faça de santo, sabemos bem que você e Rachel deveriam
estar juntos.
Mateus bufou em desdém.
— O quê? Só por termos uma filha? Isso não é nada. Não é regra.
— É, mas estão há quatro anos nessa enrolação. E você fica
incomodado toda vez que ela aparece com um namorado novo.
Mateus abriu a boca, ofendido.
— Não fico, não.
— Então quer dizer que está de boa?
— Quem está de boa? — Anna pousou a bolsa preta sobre o balcão,
sorrindo.
— Mateus, com o namorado novo de Rachel — expliquei. Era
estranhamente reconfortante estar de volta.
— Ah… — Ela mirou Andreas. — Nossa. Ele é lindo, vejam
aqueles olhos. Deus amado, essa mulher não é besta não.
Ivan pareceu contrariado às suas costas.
— Foco, Anna — Mateus interveio.
— Oh, querido, não fique assim. Você é maravilhoso, mas aquele
grego ali não é de se jogar fora, e uma mulher tem necessidades.
— Como sabe que ele é grego?
— Já se hospedou em um dos nossos hotéis — disse antes de beijar
a bochecha de Mateus. — Vou falar com Santiago. — Não dirigiu uma só
palavra a Ivan.
— Ela está me dando um gelo. — Encostou-se no balcão. — Pedi
que me deixasse levar Henrique num jantar na casa dos meus sogros, e
começamos a brigar.
— Deveriam conversar — reiterei. — Anna ama o Henrique mais
do que qualquer coisa, Ivan, vai proteger o filho de tudo.
— Eu sei. Devo desculpas a ela, falei umas coisas que não devia.
— E quanto a você, abra os olhos — recomendei a Mateus,
indicando com a cabeça Rachel; a mulher ria de algo que o tal Andreas
dizia.
— Não tem o direito de me julgar. Nem todo mundo é uma
Valentina ou um Javier.
Sorri.
— Espero realmente que você não seja. — Terminei minha cerveja.
— Vou ali. — Dei meia-volta. Quase alcançando Valentina, acabei parando
ao vê-la rindo de algo que Juliano lhe contava. Parecia muito à vontade com
ele, o que me animou.
— Fico feliz com a alegria dela. — Uma voz feminina me fez virar.
Encarei Rúbia, um tanto em choque. — Boa noite, Javier.
— Rúbia… estou…
— Surpreso? — Assenti. — Pedi o divórcio, pouco depois de Val ir
embora. Mariano ficou louco com isso e passou a procurá-la, desesperado.
Tornou-se muito violento.
Engoli em seco.
— Rúbia? — A comoção de Val nos congelou. — Você veio! —
Abraçou a ex-madrasta com carinho.
— Sim. Não têm ideia do quão feliz fiquei por saber que estão bem!
— Digo o mesmo de você. — Minha esposa suspirou, passando o
braço em volta da minha cintura e encostando a cabeça em meu peito.
— Deveria me fazer uma visita qualquer dia desses… Anna contou
que vão ficar em São Paulo.
— Anna fala demais — resmunguei, e ela se materializou ao meu
lado.
— Eu sou a melhor parte da vida de vocês, aceitem isso. — Riu.
— Mas como sabia que iríamos aceitar? — Val indagou, confusa,
afinal, Anna planejou tudo com José e nunca nos comunicou sobre nada.
— Vocês queriam a melhor solução, e São Paulo é o lugar mais
saudável para construírem sua família. De quebra, ficam perto dos amigos.
— Gesticulou para a sala movimentada.
— Você estava certa. Obrigada — Valentina falou com um sorriso.
— De nada, querida.
— Anna! — Ivan cortou o clima. Minha amiga revirou os olhos de
leve. — Posso falar com você?
— Claro! — exclamou com falsa simpatia antes de se afastar.
Nós nos viramos para Rúbia.
— Sobre a visita… — Val falou de maneira temerosa. — Não acho
que seja uma boa ideia.
Rúbia sorriu de leve.
— Compreendo. Mas eu não vivo mais na casa do seu pai. — Uma
menção a Mariano sempre nos deixava tensos. — Faz mais de três anos. Eu
me divorciei logo que você foi embora. O homem ficou insano. Muito
violento…
— Ele a machucou?! — Minha esposa inquiriu.
Rúbia corou.
— Infelizmente, sim. Em uma das nossas brigas, acabei perdendo
um bebê. Estava no quinto mês, e ele ainda não sabia…
— Sinto muito, Rúbia. — Estendeu a mão à mulher. As duas quase
choravam.
— Eu sei, obrigada, querida. O importante é que nós duas
escapamos disso. Você tem sua família, agora é feliz. As portas da minha
casa e da minha vida sempre estarão abertas.
Val sorriu.
— Das nossas também.
Entre os indivíduos reunidos naquele bar, muitos tinham suas
diferenças. No entanto, perguntava-me: quem nunca errou? Valentina e eu
compreendíamos melhor do que ninguém o quanto as pessoas não são
perfeitas e que segundas chances são necessárias.
VALENTINA
A festa de Santiago ainda não tinha acabado quando decidimos ir
embora. Rachel havia me passado seu novo telefone — e praticamente
todos os outros fizeram o mesmo. Foi uma situação muito agradável, pois
apesar de todo o caos, pareciam dispostos a seguirem juntos.
Era excelente a sensação de ter com quem contar. Conforme dizem,
a vida com amigos se torna mais fácil, pois mesmo quando tudo desaba,
eles nos oferecem força. Acreditava nisso.
Balancei a cabeça, desfazendo-me dos pensamentos, e abri a porta
do carro. Javier ainda se despedia do pessoal, e aproveitei para ver se não
tinha nenhuma chamada perdida de Guadalupe em meu celular.
— Valentina! — Mateus me chamou, comigo prestes a entrar no
veículo. Encarei-o por cima do ombro, intrigada. — Queria falar com você.
Sobre Mariano.
— Ah, sobre você ser um fofoqueiro? — afrontei-o, cruzando os
braços. Ele foi a única pessoa que me viu em São Paulo, isto é, era o
culpado por revelar minha localização ao homem. Marília fora ameaçada,
mas meu dito pai não intimidaria Mateus.
— Sinto muito, eu não contei a ele. Estava na empresa, falando com
Rachel ao telefone, quando Mariano ouviu.
— Isso é loucura, Mateus. Por que ele estaria na empresa do seu
pai?
Mateus vestia um terno escuro que escondia bem as suas tatuagens.
O cabelo seguia cortado rente à cabeça, e ele parecia uma porta de tão forte.
— Eles estavam trabalhando juntos num projeto. Juro por Deus que
nunca contaria de propósito…
— Como posso acreditar em você?
— Não tenho provas. Mas, Val, você é a melhor pessoa, minha
melhor amiga, sabe que nunca a magoaria.
Sorri, no entanto, balancei a cabeça em negação. Mateus não
entendia que a confiança entre nós já não era a mesma havia muito tempo.
— Não pode falar isso, eu sei que você sempre escolheria Javier em
vez de mim. Lembra quando lhe liguei, há quatro anos, perguntando se
sabia onde Javier estava? Eu tenho certeza de que sabia.
Mateus riu, baixando a cabeça de maneira envergonhada.
— Sim, eu sabia, mas me colocaram em uma posição difícil. Eu
amo os dois, morreria se precisasse escolher apenas um — afirmou,
dramático. — Javier é meu melhor amigo. Nada vai mudar isso. Da mesma
forma que sei que você é minha melhor amiga. Mas entendo que levará um
tempo para confiar em mim.
— Bom, já dei muitas segundas chances a pessoas que não
mereciam, uma a mais não vai fazer diferença. — A porta do bar se abriu, e
Javier apareceu, arqueando a sobrancelha em nossa direção. — Confio em
você. E não temos como alterar o passado.
Ele sorriu e beijou levemente a minha testa.
— Eu amo você. Marcaremos um jantar qualquer dia. — Afastou-
se. — Cuide desse curativo, mocinho. Não vá fazer arte — falou a Javier,
batendo de leve em seu ombro, antes de voltar ao bar.
— Vamos? — indaguei ao meu marido, que me olhava meio
desconfiado, mas não disse nada, entrando no carro.
Foi um dia insano. Ainda não acreditava que estava no meio dessas
pessoas novamente.
— O que achou da festa?
— Intensa — disse, e sorrimos.
— Foi boa.
— Foi, sim. — Completou: — Melhor do que pensei que seria.
Inclinei-me e beijei seus lábios.
— Amo você — sussurrei, encostando a testa na sua. Não falávamos
isso constantemente, pois, no fim, atos eram mais preciosos do que
palavras, mas o momento pedia.
— Também a amo, Val. Vamos para o hotel, ver se Martin já
conseguiu colocar fogo nas coisas. — Ri. — Marquei uma visita a umas
casas com um amigo corretor.
— Sério? Ah, isso é ótimo. — Suspirei, feliz demais para me conter.
— O que Mateus queria? — a pergunta veio segundos após começar
a dirigir. A curiosidade de Javier era palpável.
— Nada de mais.
— Sério que vai me deixar curioso?
— O quê? Não era nada. Nem sei por que você ficou todo
desconfiado.
— Preciso explicar seu histórico com Mateus, Valentina?
Sorri.
— Ok, eu sei que ele era um pouco focado no que tivemos, mas isso
ficou no passado. Aliás, ele parece enciumado com a situação de Rachel.
No fundo, gosta dela, só não quer ceder.
— Não me respondeu ainda.
— Ele queria falar sobre como Mariano descobriu minha
localização — resmunguei, cansada. — Eu me chateei pois Mateus era a
única pessoa, além de Marília, ciente da minha passagem por São Paulo. E
Marília só contou algo porque ele a ameaçou.
— Já pensou que talvez esse merda tivesse pessoas a observando?
— Sim. Mas Mateus disse que Mariano ouviu uma conversa dele
com Rachel… — Suspirei. — Preferi acreditar que nosso amigo não tenha
culpa. A tal da segunda chance.
— Todos buscando uma segunda chance, hein… — comentou de
maneira brincalhona.
— Sim. Sempre precisamos disso, em um momento ou outro. —
Busquei seu olhar, e sorrimos.
A jornada adiante não seria fácil; quem sabe até se tornasse mais
desafiadora. Todavia, quando confiamos nas pessoas ao nosso redor, tudo se
simplifica.
Poderíamos sim ser felizes sozinhos, mas dispor de companhia
nessa caminhada nos ajudava a prosperar.

Observei Martin adormecido no berço montado no meio da suíte do


hotel. A divisão entre a pequena cozinha e a sala dava uma certa
privacidade a quem ficava no dormitório. Dona Guadalupe foi se deitar
assim que chegamos, em um quarto a algumas portas do nosso. Meu filho
sugava a chupeta diversas vezes e ressonava baixinho.
Senti quando Javier enlaçou minha cintura e me puxou contra seu
corpo, beijando meu ombro.
— Hora de descansar. — Relaxei, suspirando enquanto seus dedos
brincavam com a fita do meu robe.
— Descansar? — sussurrei, pensativa.
Ele apertou minha cintura em resposta.
— Tudo depende do quão cansada você está.
Sorri e me virei em sua direção, passando os braços em volta do seu
pescoço.
— Relate sobre a situação do seu curativo.
— Tranquilíssimo. Consultei o Google e, segundo ele, um sexo bom
e suave não cairia mal.
A risada baixinha escapou antes que conseguisse me conter.
— Vamos sair daqui. Ele pode acordar. — Peguei a babá eletrônica
e puxei sua mão em direção ao quarto, fechando a porta às nossas costas.
— Vai acatar minha dica? — Encostei minha mão no meio do seu
peitoral, empurrando-o com delicadeza até que seus joelhos batessem na
cama e seu corpo caísse sobre o lençol. Javier sorriu de leve. — Ah, você
fazer o trabalho também pode vir a calhar.
— Eu consigo lidar com isso. — Subi em cima dele, puxando as
laterais do robe para me sentar sobre seu colo. Sorri de lado ao vê-lo me
observando, entretido. — O que foi? — sussurrei, passando os dedos pela
barra da sua camisa e tocando sua pele.
— Como você consegue ficar cada dia mais gostosa? — questionou,
me fazendo rir.
— Acho que você está vendo coisas.
— Não. — Sua mão tocou meus quadris, apertando-os. — Está cada
vez mais maravilhosa, Valentina. — Aproximou a boca da minha. — Tem
ideia de como você é a mulher mais linda em todos os lugares?
— Sou? — Tão atraída por ele, não conseguia desviar o olhar.
— Sim. Fico doido só de pensar em tocá-la. — Roçou seu membro
contra mim, forçando meus quadris a intensificar o toque. Meu corpo
tremeu, incapaz de se manter imune a ele.
Tomei seus lábios, afundando a língua em sua boca. Senti suas mãos
subindo por mim, retirando a única peça que me cobria, esquentando-me
inteira. Ah, Deus, havia passado muito tempo sem senti-lo. Saudade e
desejo se acumulavam.
O robe caiu, deixando-me completamente nua. Afastei-me, puxando
parte da camisa de Javier e revelando o peitoral com o curativo. Tomando
cuidado para não o machucar, encostei meus seios nele, beijando seu
pescoço enquanto suas mãos desciam por minhas costas em uma carícia
lenta.
— Ah, mulher. Vai me deixar louco.
Rebolei em seu colo, sentindo seu pau duro dentro da calça
moletom. Sorri.
— Um pouco de loucura pode cair bem. — Movi-me para sair de
cima dele e o chamei com o dedo.
Javier não pensou duas vezes: levantou-se. Então puxei a sua calça
para baixo, expondo o membro endurecido. Deslizei meus dedos sobre a
carne quente, sentindo-o se enrijecer ainda mais.
— Estou sempre excitado, acho que é efeito do clima.
Ri e beijei seus lábios.
— Temos um filho agora, não há tempo para enrolar. — Brinquei
por toda a extensão do seu pau, descendo e subindo.
Meu marido segurou meus quadris com força, me virando em
direção à cama e me fazendo cair sobre o colchão. O susto evidente o fez
rir.
— Quero tocá-la. — Abaixou-se entre as minhas pernas.
— Seu curativo…
— Estou bem. Prometo ir com calma.
Sorri, mas parei quando afastou minhas pernas. Seus dedos subiram
por minha coxa, encontrando um ponto delicado por ali.
Joguei a cabeça para trás, gemendo. Jav afastou os lábios da minha
vagina e me tocou de maneira íntima. Divertiu-se com minha entrada, me
atiçando, levando uma corrente de prazer a percorrer meu corpo.
Seus dedos em mim se moviam de um jeito ideal. Mexi meus
quadris, sussurrando seu nome. Eu o queria. Estava bom, mas desejava
Javier dentro de mim.
— Não faça isso.
— O quê? — murmurou.
— Quero você aqui. Agora.
Riu e se achegou, mordendo a parte interna da minha coxa direita.
— O que preferir, amor. O que preferir. — Ele nunca havia me
chamado assim, mas deixei isso de lado e foquei apenas em Javier beijando
minha barriga até seus dedos deixarem meu centro.
Sobre mim, tomou meus lábios enquanto seu corpo roçava a minha
entrada, ocupando todo o espaço. Suspirei ao senti-lo se movimentar.
— Ah, caralho — xingou, encostando a testa na minha. — Você é
perfeita.
— Não sou, não — falei, sorrindo. Beijei seu pescoço, puxando seu
corpo contra o meu, focada naquela conexão, no prazer daquele instante.
— Quando digo que é perfeita, Valentina, é porque é. Não se
oponha.
— Então é uma lei?
— É. E uma lei não pode ser contestada. — Moveu-se mais rápido,
balançando meu mundo, conduzindo meu corpo em direção ao paraíso.
Era perfeito. Como todas as vezes. Bastava ser com Javier.
Quando acabou, senti o peso do seu corpo sobre o meu, sua mão
junto à minha, seu coração batendo descompassado, sua respiração contra o
meu pescoço.
— Vou ser o primeiro e o último homem da sua vida, amor.
Sorri.
— Promete?
— Prometo tudo que quiser. — Beijou minha pele, girando para o
lado e me levando consigo.
Apoiei minha cabeça em seu peito. Javier acariciava meus cachos,
fazendo meus olhos pesarem. E continuou até que adormeci em seus braços.
JAVIER
Fazenda Sol de la Mañana, dois anos depois
Estava parado em frente a um altar montado embaixo de duas
árvores imensas, no meio da entrada da fazenda, com o sol do fim de tarde
batendo contra o meu rosto. Senti um sorriso se expandir ao ver Valentina
se movendo entre nossos convidados. Ela segurava Martin pela mão, rindo
quando seus olhos pousaram em Anna.
— Elas viraram amigas — Mateus falou, chegando por trás de mim,
segurando a mão de Ashley.
— De uma forma bem engraçada, sim.
Dois anos se passaram desde que Valentina cruzou meu caminho na
Cidade do México, e depois disso tudo mudou.
Segurava a pequena Isabella Garcia em meus braços, balançando-a
de um lado para o outro, enquanto ela ressonava baixinho, alheia à
movimentação ao nosso redor.
Os fios cacheados de Bella pendiam por toda a parte, exibindo o
rostinho redondo e pacífico. Beijei sua testa, bobo com a maneira como ela
ainda conseguia dormir em meus braços como se nada no mundo
importasse.
O amor que sentia por Martin era imensurável. Não saberia colocar
em palavras tudo que meu filho despertava em mim. E isso também ocorreu
com Bella. Era como se eu vivesse para me tornar um homem melhor para
ela. Para eles. Temia ao pensar que, quando ela crescesse, passaria pelas
mesmas coisas que a mãe passou. Logo, eu lutaria contra isso todos os dias
da minha vida.
Isabella era idêntica à Valentina, tal qual Martin se parecia comigo.
Minha Val em miniatura era a coisa mais linda do universo.
Jamais poderia amar alguém mais do que amava meus filhos —
exceto Valentina, claro, a origem desta maravilhosa história.
O parto de Isabella foi, de fato, um dos momentos mais marcantes
da minha trajetória. Tanto pela tensão que se instaurou com o medo de
perdê-la quanto por finalmente poder experienciar aquilo que não vivi com
Martin. Queria que fosse perfeito.
Mas não foi.
Val teve uma segunda gravidez conturbada, quase perdemos
Isabella.
E, sim, eu sentia uma vontade insana de ter mais um filho. Porém, se
significava colocar em risco a vida da minha mulher, não valia a pena.
— E Isabella dormiu, Ashley — Mateus disse, indicando à filha
meu bebê adormecido. Tinha um ano e cinco meses; descobrimos a
gravidez pouco tempo depois da filial do Bella Mia ser inserida no Brasil.
Houve um surto coletivo ao sabermos que a família iria aumentar. —
Planejando encomendar mais um?
— Adoraria, mas Val nem sonha com isso. Se falar para Valentina,
ela morre. Diz que nunca mais vai passar por um parto.
Mateus riu.
Enxerguei Martin correndo em meio aos convidados, balançando os
cachos de maneira enérgica e parando diante de mim.
— Papai! A Lolo não quer brincar comigo — disse, apontando para
a prima de apenas dois anos, filha de Juliano.
— Lolo é pequena… Por que você não brinca com Ashley? —
Indiquei a loirinha de Rachel e Mateus. — Ela é da sua idade e consegue
entender todas as brincadeiras.
— Não. Ela é chata. — Martin continuava do mesmo jeito.
Reclamava de tudo e não gostava muito de ser contrariado (o que acontecia
o tempo inteiro, já que tinha apenas cinco anos).
Naquele dia, sua pele estava bronzeada pelo sol aproveitado durante
as férias na fazenda da avó. E seus cachos haviam crescido; ele os adorava,
não permitia que cortássemos com frequência.
Ademais, permanecia apaixonado pela mãe, ciumento até o último
fio de cabelo. Deveria ser algo genético, pois com Isabella agia da mesma
forma.
— Não sou chata — Ashley rebateu, cruzando os braços. Duas
xuxas prendiam os fios loiros, uma de cada lado da cabeça. O vestido
vermelho e rodado lhe dava um ar angelical. — Pai, me leve de volta à
mamãe — pediu, encostando a cabeça na perna de Mateus, que riu e
caminhou em direção à Rachel.
Todos se reuniam na fazenda Sol de la Mañana, projeto de dona
Guadalupe, que desistiu da vida na cidade e mudou-se para a área rural,
dizendo que não era jovem o suficiente para uma metrópole.
— Viu? Perdeu a chance de brincar com ela — comentei ao meu
filho.
Ele e Ashley nunca se deram bem. A verdade era que a menina,
assim como a mãe, esbanjava cor e sorrisos, parecendo uma pequena
Barbie. Enquanto meu jovem Martin se mostrava zangado com a vida,
apesar de sabermos que suas únicas preocupações envolviam sua coleção de
carrinhos e a escola.
— Eu não gosto dela. — Cruzou os braços também.
— Ah, essas crianças — abuela falou, batendo a bengala no chão.
— Sempre reclamando que não gostam de Fulano, de Ciclano.
— Vovó! — Martin exclamou, abraçando a bisa, que riu, contente.
Era um dia feliz para a senhora Guadalupe: após dois anos de
insistência, conseguiu que eu e Valentina renovássemos os votos.
Aproveitamos a situação para celebrar as nossas bodas de alguma coisa —
nunca me recordaria de todas elas.
Entendíamos agora que existiam motivos o bastante para
comemoramos todos os dias, pois cada um trazia um novo desafio. No
entanto, com as pessoas certas ao nosso lado, nada disso representava um
problema.
— Ela está linda hoje, né? — vovó observou.
Sorri e mirei Valentina em seu vestido rosa esvoaçante e com os
cabelos soltos, parecendo uma rainha. Ria de maneira contida, esbanjando
elegância.
— Ele é a mulher mais linda de todos os lugares. Sempre —
concluí. O efeito de Val sobre mim não havia esmaecido. Mais do que
minha esposa, era meu braço direito no Bella Mia, porque depois de anos de
muito trabalho, Anna finalmente se desligou dos hotéis, assumindo apenas
sua empresa no Brasil.
A filial do México ainda existia, e a vida seguia conturbada com as
viagens constantes. Quando queremos algo, fazemos dar certo; aprendi isso
com o tempo. A verdadeira felicidade é encontrada ao longo do caminho, e
não no final.

VALENTINA
Senti duas mãos enlaçarem minha cintura enquanto observava
Martin correndo por entre as mesas. Meu esposo afundou a cabeça em meio
aos meus cabelos. Virei automaticamente, segurando seus ombros largos e
beijando seus lábios.
— Olá, senhor Garcia.
— Oi, senhora Garcia — brincou, rindo.
— Cadê Isabella?
Ele beijou minha têmpora, apertando meus quadris.
— Deixei com a babá. Ela adormeceu.
Suspirei.
— Ótimo, vai passar a noite acordada.
Rimos. Isabella era bem mais calma que Martin, porém, não deixava
de ser criança — e, pior, uma criança com os genes de Javier Garcia.
Ouvia-se uma música leve no ambiente, e o fim da tarde trouxe um
vento amigável, levando consigo medos e tristezas. Nos últimos dois anos,
fui mais feliz do que um dia imaginei ser possível. E sabia que, nos
próximos, haveria momentos bons e ruins, mas, independentemente da
situação, estaríamos juntos.
Na ponta dos pés, beijei Javier, afastando-me quando alguém puxou
meu vestido.
— Mamãe, pare de beijar o papai — Martin resmungou, insatisfeito
com a demonstração pública de afeto.
— Quer um beijo também, querido? — brinquei, me inclinando.
Ele soltou um gritinho e voltou a correr.
— Ele não quer que me beije, mas também não quer que eu o beije
— reclamei, fingindo estar chateada. — É sempre parecido com você. —
Tornei a abraçá-lo, encostando a cabeça em seu peito.
— Talvez devêssemos tentar de novo, quem sabe saia um mini
Valentino… — Rimos.
— Nem em seus melhores sonhos — garanti, aterrorizada. O parto
de Bella foi bem difícil, e cuidar de duas crianças não era nada fácil.
Javier sorriu, beijando o dorso da minha mão.
— A família precisa crescer, querida.
— Você está querendo montar um time de futebol, e não uma
família.
— Se for com você, aceito tudo.
Suspirei.
— Não dizemos muito isso, Jav — comecei, me afastando —, mas
eu o amo. Demais.
— Demonstramos o suficiente o que sentimos, amor. Mas eu
também a amo. Para sempre. — Beijou a pontinha do meu nariz.
Ansiava por todos os dias ao seu lado. Ainda não era capaz de
acreditar que um casamento arranjado me trouxe o amor da minha vida.
Abracei seu corpo, não querendo soltar nunca mais. Finalmente
encontrei a felicidade que tanto procurei.
— Acho que não deveria querer tanto aumentar a família. — Sorri
com a ideia que passava em minha mente.
— Por quê?
— Sabe que se vier outra menina você vai sofrer horrores, né?
— Não. Isabella é tão fofinha, calma, dócil e…
— É. Mas elas crescem. Martin será uma minicópia sua, já é
atentado desde o berço… E Bella? Uma hora ela também vai crescer, se
tornar uma mulher e se casar.
Ficou sério por alguns instantes.
— Não tinha pensado por esse lado.
— Sim. Meninas também namoram. E se vamos incentivar nosso
filho a ter uma vida social e sexual ativa, nossa filha receberá o mesmo
tratamento.
Fitou-me de maneira aterrorizada.
— É… Melhor deixar a família como está — declarou, me fazendo
segurar o riso. — Meu Deus, pensar em “Bella” e “sexo” na mesma frase
soa errado. Tão errado.
— Ué, será um direito dela, oras…
— Eu sei. Por que você acha que me preocupo? Não posso nem
impedir!
Gargalhei, e ele me encarou ligeiramente zangado.
— Do que está rindo?
— Você deveria ver a sua cara! Pobre Bella, tem o pai mais
ciumento de todos.
— Não é ciúme. É cuidado.
— E agirá da mesma forma com Martin?
— É claro — rebateu, e balancei a cabeça em concordância.
No fim, sabia que meus filhos teriam a melhor criação possível,
diferente da que Javier e eu recebemos. Uma vida repleta de amor,
cumplicidade e amizade. Nada superaria aquilo.
Aliás, nunca voltei a falar com a minha mãe e me desvinculei de
qualquer laço com Mariano. Assim, minha história se encaminhava da
maneira saudável que eu tanto desejei.
Mas como eu disse certa vez a Javier: família é bem mais do que
sangue. É carinho, é doação. Não adianta nada haver uma ligação
consanguínea se faltar amor.
Veja só o meu caso.
Santiago Garcia nunca seria realmente meu pai, contudo, era um
sogro maravilhoso.
Dona Guadalupe, Rúbia e Rita foram minhas mães em diversos
momentos, sempre amorosas, não deixando que nada me faltasse. E, seu
José, uma figura paterna.
Marília, Anna e Rachel eram minhas irmãs; tínhamos uma conexão
absurda. E Mateus, é claro, meu irmão.
Para Javier, funcionava do mesmo modo. Nossa família era extensa
e diversificada. Como deveria ser. Como o destino quis.
FIM.
Quer fazer parte do grupo de leitoras no whatsapp?
Me chame clicando AQUI
Me siga nas redes sociais:
FACEBOOK
INSTAGRAM
TWITTER
GRUPO NO FACEBOOK
Email: thaisoliversz43@gmail.com
THAIS OLIVEIRA

É estudante de pedagogia, nascida no sudeste do Pará, se apaixonou por


livros ainda na adolescente por meio das fantasias de Rick Riordan e
Cassandra Clare, mas acabou encontrando seu refúgio em romances
dramáticos. Começou a escrever por meio de fanfics e quando viu já estava
desejando criar seu próprio livro. Com mais de dez títulos lançados, adora
boas histórias que juntam: drama, comédia e suspense.

Outros títulos:
Nove meses depois
Raio de felicidade
Miguel
Para sempre ao seu lado
Para sempre você
Para sempre nós dois
Amor Maior
Quando te encontrei
Louisa
Table of Contents
NOTA DA AUTORA
SINOPSE
PARTE UM
PRÓLOGO
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
PARTE DOIS
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
CAPÍTULO 41
CAPÍTULO 42
CAPÍTULO 43
CAPÍTULO 44
CAPÍTULO 45
CAPÍTULO 46
EPÍLOGO

Você também pode gostar