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Copyright © 2017 Diane Bergher

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos


descritos, são produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança
com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
Revisão: Camille Chiquetti
Capa: Layce Design
Diagramação Digital: Layce Design
Todos os direitos reservados.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte
dessa obra, através de quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o
consentimento escrito da autora.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela lei nº. 9.610./98
e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Edição Digital | Criado no Brasil.
Bônus
Capítulo 01
Capítulo 02
Capítulo 03
Capítulo 04
Capítulo 05
Capítulo 06
Capítulo 07
Capítulo 08
Capítulo 09
Eu quero ela
Prólogo
Capítulo 01
Capítulo 02
Capítulo 03
Capítulo 04
Capítulo 05
Capítulo 06
Capítulo 07
Capítulo 08
Capítulo 09
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Epílogo
Nota da autora
Agradecimentos
Outras obras
Sobre a autora
Contato
Sarah é acordada com cócegas em sua barriga. Era a barba
crescida de Heitor. Amava quando seu marido a acordava dessa maneira. A
boca de Heitor abocanhava um de seus mamilos e uma explosão de desejo
percorria seu corpo. Quatro anos de casamento e Heitor conseguia, ainda,
surpreendê-la. — Bom dia, meu amor! – O engenheiro saiu debaixo do lençol
e abriu um sorriso safado.
— Bom dia, amor! – Sarah respondeu, abraçando-o e puxando-o para
um beijo. Toda manhã acordava determinada a não o deixar beijá-la antes de
escovar os dentes, mas Heitor era impossível e não colaborava muito. — Não
sei como me suporta toda manhã! – Sarah sorriu.
— Já falei milhões de vezes que é linda quando acorda e quando está
corada de desejo, fica ainda mais apetitosa. – Heitor mordeu a carne delicada
do pescoço e lentamente penetrou Sarah. Ela estava quente, suave e
preparada para recebê-lo. Em outra época, havia sido um tolo em negar que
havia se apaixonado por ela. A doçura e inocência de Sarah, de início, o
assustaram. Agora, porém, não havia outro lugar em que gostaria de estar, a
não ser nos braços dela. Ela era linda, perfeita e feita para ele. Perder-se em
seus olhos azuis, que pendiam levemente para os acinzentados, havia virado
seu vício. Prometeu amá-la, respeitá-la e protegê-la para todo sempre, e assim
estava cumprindo sua promessa. Nada era mais importante do que sua esposa
e seu filho.
— Às vezes, me pergunto o que viu em mim, Heitor? Como pode um
homem como você ter se apaixonado por mim? Uma mulher sem graça, que
passou grande parte da juventude dentro da confeitaria de um convento?
— Sem graça? Toda manhã, acordo da mesma forma, louco de desejo
por você, amor! E mesmo assim ainda não consegui convencê-la do quanto é
importante para mim, Sarah. Eu a amo mais do que tudo na vida. – Heitor
enrolou um dos caracóis negros dela em seu dedo.
— Você é tão tolo, às vezes, Heitor.
— Ah... Assim você me magoa. – Heitor enrugou a testa e retirou-se
de dentro do corpo de Sarah, que reclamou imediatamente. — Não seja
manhosa, princesa! Apena diga-me que me ama e darei o que deseja.
— Seu safado! Você sabe muito bem como me convencer! – Ela
sorriu e Heitor não aguentou, invadindo-a novamente com estocadas rápidas
e firmes até fazê-la gemer. — Eu o amo, Heitor. – Ele a beijou orgulhoso. —
Ainda é convencido. – Sarah mordiscou seu pescoço e ele gemeu. Sempre
havia sido dessa forma com Sarah, desde a primeira vez, as provocações, a
sedução e o prazer de estar enterrado nela faziam-no um homem realizado.
Ele havia sido o primeiro homem de Sarah, com ele, ela havia aprendido a
amar e entregar-se, sem amarras, sem arrependimento, e em troca ela o
ensinara a amar e a ser amado na mesma proporção. Um mundo sem Sarah
não lhe era mais concebido.
Após fazerem amor, tomaram o café da manhã em família. Com
Sarah, Heitor havia encontrado seu lugar no mundo. As coisas não vieram
fáceis para ele, órfão de pais, foi criado pela avó, que veio a falecer pouco
tempo depois de seu aniversário de 18 anos, assim, teve que batalhar muito
para crescer na vida. Devia muito ao entusiasmo e apoio de Murilo ao
chamar-lhe para trabalhar no escritório de arquitetura. Conheceu Murilo
ainda na Faculdade de Arquitetura e desde então tornou-se seu grande amigo.
Eram duas almas atormentadas, compartilhavam também a ambição para
crescer na vida e um gosto impressionante para se envolver em encrencas.
Logo nos primeiros semestres da faculdade, percebeu que não tinha dom para
Arquitetura e transferiu seu curso para a Engenharia Civil, sua verdadeira
paixão.
— Tenho uma reunião importante logo cedo. – Heitor puxou Sarah
para um beijo um tanto pecaminoso demais para o horário.
— Heitor, não seja tão safado na frente do Juninho. Não quero que
nosso filho aprenda essas indecências.
— Bem sei que você gosta das minhas indecências. – Presunçoso,
Heitor sorriu. — Além disso, Juninho já vai tomando aulas de como tratar
muito bem uma mulher. – Levou um tapa de Sarah.
— Entende, agora, o porquê vivo te perguntando o que viu em mim?!
— Esse assunto de novo, Sarah! – Heitor estava cansado de explicar-
lhe que estava satisfeito e feliz com ela, mas Sarah era atormentada pela
insegurança. Ele precisava fazer algo, sabia disso. Precisava terminar com
essa paranoia de Sarah.
— Irei mais tarde para o Café, querido!
— Dispensando minha carona?
— Não seja dramático, amor! Apenas quero organizar algumas coisas
em casa e ficar com Juninho. Hoje não o levarei para a creche. Acho melhor,
esteve febril ontem. Vou acompanhá-lo até a porta.
Heitor despediu-se do filho, prometendo-lhe que à noite jogariam
futebol de botões. Sarah não se cansava de admirar a interação entre os dois,
os dois homens de sua vida. Amava-os tanto que chegava a doer. Às vezes,
precisava se beliscar para acreditar que não era um sonho. Havia crescido
numa família sem amor e desajustada, fora fruto de uma conveniência social.
Não lembrava de um sorriso afável de sua mãe. Quando completou 12 anos,
foi enviada para um convento. Sua mãe havia sido forçada a se casar com seu
pai e nunca havia se conformado em não ter seguido a vocação religiosa. Mas
Sarah nunca teve vocação para ser freira, queria outras coisas, outro tipo de
vida. Sua vida só não foi pior na clausura do internato porque havia a
confeitaria, e foi lá que se apaixonou pela culinária. E graças a solidariedade
e generosidade de Murilo, seu meio irmão, conseguiu ir para a França, onde
estudou para tornar-se uma maître pâtissier.
— Ui... – Sarah gemeu assim que Heitor a levantou e depositou-a no
aparador que decorava o hall da entrada. Cartas e alguns papéis foram
arremessados para o chão. Sarah havia desistido de colocar enfeites ou vasos
ali, pois Heitor sempre dava um jeito de quebrá-los. — Você é tão injusto,
Heitor. Faz questão de provocar-me, não é? Justo quando está impecável
dentro de um terno e gravata e não posso desarrumá-lo. – Heitor puxou a
camisola de Sarah para cima, acariciando suas pernas despudoradamente. Tê-
la sob seu jugo, à mercê de sua luxúria, deixava-lhe excitado, beirava à
loucura de tão excitado.
— Não me aguento, amor!
— Eu sei. – Sarah o puxou pela gravata, grudando-se em sua boca,
exigindo que ele a beijasse. Suas línguas encontravam-se numa dança sensual
e pecaminosa.
— Deus, mulher, você vai me deixar duro pelo o resto do dia!
— Bem feito! Da próxima vez, você pensa antes de me jogar em cima
desse aparador. Já perdemos duas empregadas, no último mês, em razão das
suas estripulias. – Sarah riu.
— Que se fodam as empregadas... Dobre os salários se esse for o
problema, porque não deixarei de apreciar e satisfazer minha esposa dentro
de minha própria casa.
— Ai Heitor, você é um exagerado. – Sarah riu e o engenheiro subiu
com as mãos até chegar aos mamilos, demorando-se em carícias exigentes e
afundando sua língua dentro da boca da esposa.
— Preciso ir, princesa! Terminamos isso quando voltar. – Heitor
abraçou-a e colocou-a de volta ao chão. Tratou de sair antes que pegasse
Sarah no colo e a levasse de volta para a cama.
Sarah se recompôs, olhou para as correspondências no chão e
resolveu juntá-las. Juninho havia ficado com a empregada, aparentemente
estava tranquilo, então, decidiu separar as cartas. Uma delas lhe chamou a
atenção, era um envelope preto com letras douradas e endereçado à Senhora e
Senhor Telles. Muito curioso, pensou. Era um convite muito elegante para
uma festa.
O Clube Pandora tem a honra de convidar Vossas Senhorias para a mais
inebriante e prazerosa noite de gala do ano, A Noite das Fantasias Quentes.
Sarah precisou ler duas vezes para ter certeza de que não havia
trocado as palavras: mais inebriante e prazerosa noite. O que viria a ser isso e
o que seria, de fato, esse Clube Pandora? Continuou a ler atentamente. Atrás
do cartão, encontrou uma mensagem escrita à mão.
Heitor, meu querido, será um imenso prazer rememorar os velhos tempos.
Estou com saudades! Sua esposa será muito bem recebida.
Beijinho, Antonela.
Ódio foi o que Sarah sentiu ao ver o nome da ex-mulher de Heitor
gravado no elegante pedaço de papel. Sabia pouco a respeito dela ou do
primeiro casamento de Heitor, mas boa coisa não deveria ter sido, pois Heitor
evitava a todo custo falar nela. Nunca havia se preocupado ou se importado
com o fato de Heitor já ter sido casado, mas não gostou nem um pouco do
que a fulana havia escrito para seu marido. Com certeza, havia enviado para o
endereço de sua casa propositalmente, para que Sarah lesse o convite. Sarah
podia ser ingênua para as coisas mundanas da vida, mas não era uma tola.
— Mamãe! – Juninho corria em sua direção e Sarah tratou de guardar
o convite em sua bolsa, mais tarde tiraria um tempinho para pesquisar sobre o
tal do Clube Pandora.
Sarah chegou cedo ao café e tratou de ir para cozinha assim
que chegou. Precisava testar algumas receitas que estava desenvolvendo
antes de Camila, sua cunhada casada com Murilo, e Maria Lúcia, a esposa de
Eduardo, que todos chamavam por Malu, também sócio de Heitor, chegarem.
Elas trariam as crianças para brincar com Juninho. Sarah tinha muito orgulho
de seu café, era um negócio próspero e havia se tornado um badalado lugar
de encontro no Centro do Rio de Janeiro, além de ficar próximo ao trabalho
de Heitor e da escola de Juninho. O local foi projetado por Murilo e também
contava com um cantinho para Juninho ficar quando não estivesse na creche.
Havia uma babá para tomar conta dele.
Quando Sarah entrava em sua cozinha, desligava-se completamente
do mundo e entregava-se ao prazer da criação. Amava confeitar e criar novos
sabores. A confeitaria francesa era sua especialidade. No momento,
trabalhava numa nova receita de macaron e havia convidado Camila para
prová-lo.
— Pelos deuses da doçura! Este macaron está sensacional. – Camila
falou animada.
— Ainda acho que posso aprimorar a cor, essa tonalidade de verde
ficou muito pálida. A aparência do doce é importante. – Falou Sarah.
— Com certeza! – Pontuou Malu. – O que os olhos não vêm, a boca
não sente. – Matheus Eduardo agarrou-se no macaron que estava na mão da
mãe.
— Meu Deus, Malu, você e suas teorias. Devo dizer que a
maternidade apenas lhe deixou mais paradoxal. – Mariana que estava no colo
de Camila tirou o biscoito da mãozinha de Matheus Eduardo.
— Mariana herdou toda a sua genética de gulosa, Camila! – Malu riu,
entregando outro biscoito para o filho.
— Nem me fale! Mariana é uma draga como a mãe quando o assunto
é doce. Mas e você, Sarah? Parece-me tão pensativa, algum problema? –
Camila perguntou à cunhada. Em geral, Sarah não era muito de falar, mas
hoje estava mais quieta do que o habitual, havia ficado encucada com o
convite do Clube Pandora.
— Recebemos um convite para um baile em um tal de Clube Pandora
e isso está acabando comigo, porque no verso tinha um recado para Heitor de
sua ex-mulher. – Sarah desabafou com as amigas.
— A defunta ressuscitou dos mortos? Não acredito! – Camila
exclamou.
— Como assim, defunta? – Curiosa, Malu perguntou.
— É só uma maneira de falar, Malu. De fato, ela não morreu, mas
Murilo a chama de defunta, então, acabou virando um apelido para a bruaca.
Porque posso garantir que essa mulher é uma bruaca. – Camila bateu na
mesa.
— Pelo jeito, aquela lá está mais para zumbi do que qualquer outra
coisa! – Sarah revirou os olhos. — Pesquisei na internet o que vinha a ser
este tal de Clube Pandora e nada, não encontrei nada. – Sarah não se
conformava com o fato de não ter encontrado nada a respeito do Clube, pois,
no mundo de hoje, tudo estava na internet.
— Você falou Clube Pandora? – Sarah olhou para Malu e mexeu a
cabeça em sinal de concordância. — É um clube de sexo. – Malu soltou.
— Como você sabe disso? – Camila não perdeu tempo.
— Fui lá com o Edu, naquela noite em que pretendíamos ir para um
ménage a trois.
— A noite da confusão? – Malu assentiu envergonhada. — Por Deus,
você não havia me contado detalhes do tal do clube, sua traidora. Ai meu
Deus, se Heitor recebeu um convite e Edu levou você para lá, ai meu Deus,
eu vou matar o Murilo... É claro que ele também deve ter coisa com esse
clube.
— Eu não entendi metade do que vocês falaram! – Sarah comentou
frustrada.
— Só te digo uma coisa Sarah, seu irmão está enrascado e o Heitor
também.
— Camila, não coloque mais lenha na fogueira. A Sarah já está toda
preocupada e você consegue atiçá-la ainda mais. – Malu chamou a atenção da
amiga.
— Mas Camila tem razão, Malu. É um clube de sexo, não tenho nem
ideia do que se faça em um clube de sexo, além de sexo, é óbvio, mas boa
coisa não deva ser e nossos maridos estão metidos nisso. – Sarah desabou na
cadeira.
— Por que vocês não vão até lá? – Malu perguntou para Sarah.
— Heitor não me levará, tenho certeza. Ele me trata com tanto
melindre. Ele foi meu primeiro e único homem e ainda tem o fato de eu ter
sido uma noviça. – Tímida, ela corou. — Não que ele não faça algumas
brincadeiras safadas comigo, mas é sempre tão cuidadoso para não me
chocar. – Sarah também tinha a leve impressão de que o marido lhe escondia
certos detalhes do passado, mas não se sentia segura o suficiente para se abrir
com as amigas. Perto de Camila e Malu, ela se sentia inexperiente e tinha um
pouco de receio de falar alguma bobagem.
— Pois eu tenho uma ideia. O que acham de nós três irmos nesse
baile e descobrirmos o que nossos maridos faziam lá? Na noite em que estive
lá, mal consegui ver além de um corredor muito fedido e um quarto com uma
decoração terrível. Você iria odiar a decoração, Camila.
— E você se contentou só com isso, Malu? – Camila gargalhou.
— Claro que não, mas evito falar desta noite com o Edu... Ele fica tão
nervoso. Dê-me o convite, Sarah. – A confeiteira foi até seu escritório e
pegou o convite, retornando rapidamente e entregando-o a Malu. —
Precisamos de roupas apropriadas para o dia. Aqui diz que é fantasia de gala.
– Malu falou, sem tirar os olhos do luxuoso papel. — Deixe comigo, a Ana
vai me ajudar com isso.
— Quanto aos nossos maridos, deixe comigo! – Camila tomou para si
a responsabilidade de despistar os cônjuges.
— Ai Meu Pai do Céu! Não sei se isso vai dar certo, mas enfim, estou
louca para pegar o Heitor com a boca na botija. – Agoniada, Sarah soltou.
Assim, as três amigas planejaram os detalhes de sua investigação e,
dentro de algumas noites, estariam dentro do Pandora, o clube de sexo mais
exclusivo do Rio de Janeiro, conforme palavras de Malu. Era bom ter amigas
inteligentes e de atitude como Camila e Malu, pensou.

Enquanto isso, na sede do Alcântara, Telles & Neves Arquitetura e


Engenharia, Heitor repassava alguns orçamentos com Edu quando Murilo
chegou. — Qual é o problema da vez para me tirarem de minha sala? –
Murilo se sentou ao lado de Edu.
— Precisamos que você dê seu Ok para as despesas com a reforma do
andar dos arquitetos. – Heitor falou, entregando os orçamentos para o sócio.
— Por mim, está tudo ok! – Edu falou, já se levantando. — Pretendo
responder alguns e-mails e zarpar para casa. Quero passar no supermercado
para comprar alguns ingredientes, fiquei de preparar um peixe para Malu.
— Edu, o dono de casa! – Heitor brincou.
— Pois pode rir à vontade. Gosto muito de preparar o jantar para
minha esposa. Falando em Malu, vou buscá-la no Le Bohème.
— Ah sim, Sarah me falou que ela e Camila iriam levar as crianças
para brincarem no Café. – Heitor respondeu. — Só acho que está na hora de
comprar um carro para sua esposa, Edu. – Heitor gozou do amigo.
— Malu se recusa a me deixar vender a caixa de fósforo. – Heitor riu
da colocação de Edu ao se referir ao carro compacto de apenas dois lugares
da esposa. — Eu que não vou deixar ela levar meu filho dentro daquilo. Para
ser sincero, prefiro levá-los para onde desejam do que deixá-la dirigir, nunca
vi mulher mais desligada. Malu parece viver dentro de uma caixinha de
números e fórmulas. Até suspeito de que Matheus vai pronunciar o pi antes
de mamãe.
— Cara, nem me fale! Preferia que Camila fosse como Malu. Ela
dirige como uma louca, melhor, ela corre feito um piloto de fórmula 1. Sorte
tem você, Heitor! Minha irmã é uma verdadeira Lady, cozinha
maravilhosamente bem, dirige com cuidado e é um poço de tranquilidade.
— Nem parece ser sua irmã, você quer dizer! – Heitor não podia
perder a oportunidade de alfinetar o cunhado. Mas Murilo tinha razão, ele era
um puto de um sortudo. Sarah era seu anjo, linda, delicada e carinhosa na
medida certa, não era geniosa como Camila e nem maluca como Malu. Os
sócios passaram um bocado para conquistá-las, não que ele não tenha se
empenhado para conquistar a esposa, longe disso, o jeito acanhado e inseguro
de Sarah havia lhe dado muitas dores de cabeça, principalmente quando
descobriu a gravidez. No entanto, não teve que passar pelo sufoco de Murilo
com o sequestro e o atentado de Camila ou enfrentar o ex-marido delinquente
e drogado de Malu. — Sarah é perfeita, eu sei. Sou um puto de um cara de
sorte, confesso. É claro que eu merecia uma mulher como Sarah, depois do
fiasco do meu primeiro casamento.
— Está coberto de razão. – Murilo bateu nas costas do amigo. —
Antonela era fútil e mesquinha demais.
— Resumindo, uma vaca! – Edu foi menos educado ao referir-se à
mulher, que somente havia trazido dores de cabeça para a vida do
engenheiro.
Edu se despediu e deixou os dois sócios para trás.
— Não considerando o fato de Sarah ser minha irmã, mas ela é
incrível mesmo. Você tem feito um bom trabalho, Heitor, tem a feito feliz.
Minha irmã não poderia ter escolhido melhor.
— Cara, você está doente ou algo do tipo? – Heitor ficou perplexo
com a observação de Murilo, pois não era comum receber elogios do
cunhado. — Já sei, Camila te colocou de castigo, sem sexo por uma semana,
por alguma besteira que você fez. – Os dois gargalharam.
Heitor chegou em casa já passado das 19 horas. Encontrou
Juninho brincando na sala e Sarah preparando o jantar. Sem qualquer dúvida,
ele era um homem de sorte. Apesar de todas as loucuras e coisas erradas que
fez, ainda foi abençoado com uma família incrível. Sarah era o sonho de
qualquer homem, uma mulher que jamais o aceitaria, caso descobrisse seus
fetiches sexuais excêntricos e nada convencionais que ditaram o rumo de sua
vida no passado. Mudou em nome do amor, em nome da sua mulher
maravilhosa. Sarah merecia o melhor dele, a sua melhor parte, e assim havia
tomado a decisão de deixar no passado os fetiches sexuais e a prática do
sadomasoquismo. Simplesmente, não precisava mais daquilo para ser feliz.
Heitor tinha suas dúvidas se, de fato, algum dia precisou de todos os jogos e
orgias que o mundo BDSM lhe ofereceu. Talvez apenas tivesse passado por
uma fase de tédio momentâneo e tal universo representou uma diversão, uma
fuga para sua rotina cansativa.
— Boa noite, princesa! – Heitor pegou o filho no colo e foi em
direção à esposa para beijá-la. Sarah acabou por levar um susto. Estava
absorta na ideia de conhecer o Pandora. Nunca tinha ouvido falar de
estabelecimentos deste tipo.
— Boa noite, Heitor! – Sarah tentou disfarçar sua apreensão. Sentia-
se péssima por omitir fatos do marido. Sempre havia sido sincera com Heitor,
pois o amou desde o dia em que o conheceu. Nunca imaginara que um
homem como Heitor fosse se interessar por ela. Por ser 14 anos mais nova
que Heitor, Sarah se julgava muito imatura e sem graça para um homem
vivido como ele.
— Algum problema, amor? – O engenheiro perguntou preocupado.
Sarah estava abatida.
— Não, apenas cansaço.
Heitor larga o filho no chão e vai ao encontro da esposa, prensando-a
contra o balcão da cozinha. — O que acha de jantarmos junto à piscina, à luz
de velas, amor? – Heitor fala, olhando para fora. A cozinha estilo americana
era o ponto alto da decoração moderna da casa. O espaço era conjugado a
uma ampla sala de estar com acesso para uma varanda, de onde se tinha uma
deslumbrante vista da piscina.
— Acredito ser uma ideia incrível. – Sarah respondeu. De fato, havia
se empolgado com a proposta. Heitor tinha esse efeito sob ela, era
extremamente gentil e sedutor, fazendo-a se sentir desejada e apreciada. —
Juninho já jantou e se me der um tempinho, irei colocá-lo na cama.
— Deixe que eu o faço! Suba e descanse um pouco. Quero-a inteira e
com as energias renovadas, princesa. Colocarei Juninho na cama e depois
arrumarei a mesa lá fora. – Sarah não pensou duas vezes e aceitou de bom
grado o que o marido ofereceu. A promessa implícita do que fariam depois da
janta aqueceu seu sangue. Podia ter sido uma noviça, esteve prestes a fazer
seus votos, mas havia deixado a puritana para trás desde que encontrou
Heitor e com ele descobriu os prazeres do sexo.
Um tempo depois, Sarah encontrou Heitor no jardim. Ele havia feito
um bom trabalho. A mesa estava impecável, decorada com velas e um lindo
vasinho de rosas. Heitor era assim, detalhista ao extremo. Jogou as sapatilhas
para o lado e correu para os braços do marido. Toda a preocupação com o
Clube de Sexo esvaiu-se por completo, naquele momento eram somente os
dois e todo o amor que sentia por ele.
— Também senti sua falta, amor! – Heitor a pegou pelo rosto, a fim
de fitar os lindos e brilhantes olhos acinzentados de Sarah. Ela estava linda,
era linda para ele, sempre fora a mulher mais bela em que havia posto os
olhos. O frescor e a delicadeza de Sarah haviam lhe encantado e fisgado seu
coração. — Você é minha preciosidade, Sarah. Eu a amo tanto, mas tanto...
— Eu também amo você, Heitor! – Sarah deixou-se beijar, desejava
sentir o sabor de seu marido e perder-se no delírio de uma boca feita para
beijar e dar prazer. — O que você acha de pularmos o jantar e passarmos
direto para a sobremesa? – Propôs assim que o beijo terminou.
— Hum... Minha esposa anda safada, é!
— Não fala assim, você sabe que morro de vergonha. – Sarah corou e
Heitor riu.
— Amo seu jeito meigo! – Heitor deslizou sua língua por toda a
extensão do pescoço da mulher. — Você consegue ser meiga e encantadora
até mesmo quando quer ser safada, e isso me excita para caramba, Sarah.
Com você é sempre como se fosse a primeira vez, é como se eu voltasse a ter
18 anos e não 40 e poucos.
— Você é um bobo, Heitor!
— Um bobo apaixonado e feliz, na verdade. Venha! – O engenheiro a
puxou pela mão até a borda da piscina e gentilmente tirou seu vestido floral.
Sarah não era apenas delicada nos seus gestos, mas também na forma de se
vestir, preferia vestidos curtos e rodados em tons sóbrios e românticos. Tinha
por hábito prender os cabelos em um coque alto, deixando sempre à mostra
seu pescoço esguio. Heitor tirou sua camisa e depois a calça e foi para perto
de Sarah, queria ajudá-la a livrar-se da lingerie rosada. Ela o ajudou com a
cueca, liberando seu membro viril. Sarah não precisava de muito para excitá-
lo, apenas seu calor, sua existência o deixava pronto para ela, para degustá-la
lentamente. A noite seria dela, totalmente dedicada ao seu prazer, queria levá-
la ao paraíso. — Venha! – Heitor a pegou no colo e jogou-se para dentro da
piscina, carregando-a com ele. Ela soltou um grito abafado, pois não queria
chamar a atenção de ninguém. Os dois mergulharam e emergiram da água
felizes. — Sabe o que penso? – Ela negou com a cabeça. — Que ainda
comprarei uma ilha deserta só para vê-la sem roupas o dia todo. Você sem
nada é suficiente para me deixar subindo pelas paredes, amor.
— Você é um exagerado!
— Quando se trata de você, não existe exagero, Sarah. – Ele a
encarou sério e decidido. Sarah sentiu um tremor atravessar seu corpo de
ponta a ponta, um tremor delicioso, uma espécie de frenesi prenunciando o
êxtase que viria depois. Heitor lhe provocava calafrios ao mesmo tempo em
que sentia seu sangue aquecer-se com a promessa da luxúria, o que lhe era
um total paradoxo. As mãos de Heitor vagavam por todas as partes do corpo
da mulher, deixando-a à beira de um colapso nervoso. Era torturante e
delicioso ao mesmo tempo. Era uma dor boa, ela queria mais daquilo. Ao
sentir as coxas serem acariciadas, Sarah arfou numa súplica indecorosa de
que necessitava mais daquilo. — Você me quer, princesa? – Ela apenas
assentiu, pois não foi capaz de reunir as letras da singela palavra “sim”. —
Fale que me deseja, Sarah.
— Santo Deus... – Mais um gemido foi extraído de Sarah. — Faça
alguma coisa. Não suporto mais, não aguento mais... – Os dedos de Heitor
encontraram a carne macia da esposa e perderam-se na sua suavidade. A cada
arfada de Sarah, o desejo dele apenas aumentava. Anos de orgias, haviam
feito de Heitor um perito em extrair tudo que queria de uma mulher. Antes de
Sarah, houveram muitas, mas nenhuma o enlouqueceu como sua Sarah o
enlouquecia, simplesmente porque ela se entregava de corpo e alma,
confiando nele em todos os sentidos.
Com muito cuidado, Heitor saiu da piscina e conduziu Sarah em seus
braços até um futon, onde a deitou. Queria-a confortável para o que viria a
seguir. Era lua cheia e a luz clara batia na pele molhada de Sarah, que estava
arrepiada pela brisa que soprava. Amá-la sob a luz do luar era para Heitor o
elixir afrodisíaco mais potente. Não podia acreditar o quanto de tempo havia
perdido em orgias sadomasoquistas em sua vida. Com Sarah, tudo era mais
simples, mais completo, absolutamente perfeito.
— Abra-se para mim, princesa! – Sarah atendeu, abrindo suas pernas,
sem pudor ou qualquer receio. Confiava em Heitor e sabia que ele lhe daria o
paraíso, a levaria para o céu em questões de segundos. O roçar da barba
recém-nascida de Heitor em sua coxa, fizeram-na estremecer. Agarrou-se nas
almofadas na tentativa frustrada de manter-se consciente, pois precisava
apegar-se a um fio de sanidade. Toda mulher deveria ter o privilégio de
provar uma vez na vida a boca de um homem em sua intimidade, pensou,
com o pouco juízo que foi capaz de reunir. Deixou-se levar na cadência do
desejo do marido e entregou-se ao mais puro e real prazer que um homem
poderia oferecer a uma mulher. Seu corpo havia se transformado num templo,
sentia-se admirada e venerada, o que potencializava o prazer a que havia sido
jogada. Sarah sentiu quando Heitor a penetrou, invadindo-a e completando-a
em estocadas rápidas e firmes. Toda vez que ele a tomava e exigia seu corpo
conectado ao dele, Sarah deixava-se levar pela imaginação da perfeição do
momento, na dureza aveludada do corpo do marido. Era neste exato momento
que um sentimento de poder a tomava e passava a ditar as regras do jogo da
sedução. Ela tinha Heitor sob seu jugo, sob seu poder, ele era dela e ninguém
lhe roubaria.
Saciados, Heitor puxou Sarah para seu abraço, espalhando beijos em
seus cabelos perfumados. — Amor, sexta-feira teremos uma noite só para as
meninas. – Sarah deslizou um dedo sobre o tórax definido do marido. — Eu,
Camila e Malu achamos que precisamos de um tempo só para nós, sem
maridos, sem crianças... Há algum problema para você?
— Nenhum! Será bom para você sair e se divertir. Às vezes, acho que
nosso casamento foi muito apressado e você não teve tempo de aproveitar sua
vida. Você tinha apenas 24 anos quando nos casamos, Sarah. Além disso,
você viveu enfurnada num convento toda sua adolescência.
— Já falei que isso nunca foi um problema para mim.
— Quero que você saia e se divirta, princesa! Não será nenhum
problema ficar com Juninho. Convidarei Murilo e Edu para algum programa
de pai.
— Estamos pensando em dar um pulinho num spa. – Sarah lembrou-
se da ideia de Camila para justificar a ausência delas durante praticamente
toda a noite. — O que significa que só voltaremos para casa no sábado. Tem
algum problema?
— Claro que não! É lógico que eu Juninho morreremos de saudades
de você, amor. Mas será um momento só para vocês e depois de horas num
spa, você voltará mais gostosa para mim e me recompensará com muito sexo.
– Heitor sentiu mais uma vez a excitação manifestar-se no meio de suas
pernas.
— Você é insaciável e indecente. – Sarah mordiscou a barriga de
Heitor. — Mas eu gosto.
Passados dois dias, Sarah e Camila chegavam no apartamento
de Malu, onde combinaram de trocar de roupas. Os maridos iriam se reunir
na mansão Castro de Alcântara, na companhia das crianças. Nenhum deles
desconfiou das mentirinhas que suas esposas contaram.
— Por Einstein, Sarah! Você está muito gostosa. Se eu fosse homem,
te pegava. – Malu falou.
— Não precisa ser homem para pegar uma mulher, apenas tem que
ser, no mínimo, bissexual. – Camila brincou e Malu mostrou a língua.
— Só vocês duas mesmo para me fazerem rir num momento destes...
Estou me sentindo uma prostituta nestas roupas. – Sarah se olhou no espelho.
O vestido de couro era justo e muito curto, com um decote ousado, diferente
das roupas que estava acostumada a usar. O conjunto da roupa e do acessório
na cabeça lembravam uma gata. Camila estava fantasiada de dançarina de
cancan, uma dançarina muito sexy. Murilo teria um ataque cardíaco se a
viesse naquelas roupas, era um ciumento incorrigível. A arquiteta não podia
estar mais bonita, pensou Sarah. Por fim, Malu preferiu uma fantasia de
diabinha, toda em couro, era um conjunto de calça e espartilho vermelho,
com direito à rabinho e chifres.
As três foram até o Clube Pandora no carro de Camila. Camila não
parou de falar durante todo o trajeto, fez mil promessas de que se Murilo
tivesse alguma coisa a ver com o clube ele se arrependeria amargamente.
Malu, com seu jeito intelectual, parecia estar traçando detalhadamente um
plano. Já Sarah não conseguia parar de tremer e suar frio. Era uma loucura,
pensou, uma loucura que poderia muito bem custar seu casamento.
Na recepção, Sarah entregou o convite, mas os seguranças não as
deixaram entrar, já que Camila e Malu não tinham convites.
— Quem você pensa que é para barrar as esposas de Murilo
Mendonça Castro de Alcântara e Eduardo Botelho Neves? – Enfezada,
Camila encarou o armário de três portas que era o segurança.
— Perdoe-me, senhora! Não sabia que se tratava da esposa do Senhor
Murilo e do Senhor Eduardo. – O segurança respondeu, dando passagem para
as três mulheres.
— Primeira confirmação acaba de chegar! Meu marido sem-vergonha
é sócio de um clube de sexo. – Camila desabafou.
— Por Deus, Camila! Você tinha alguma dúvida disso? – Malu caiu
na gargalhada, chamando atenção mais do que deveria para as três.
— Não, mas sei lá, a esperança é a última que morre, nunca se sabe,
não é? – A ruiva bufou zangada. — Mas Murilo que me aguarde...
Enquanto Camila e Malu engatavam uma conversa animada, Sarah
apenas observava o cenário a sua volta. Era um espaçoso hall com cartazes e
pôsteres eróticos colados nas paredes, dentre eles havia um com uma frase de
Freud, o pai da psicanálise: “A maior perversão sexual é a abstinência”.
Algumas pessoas aos pares ou em grupos trocavam carícias ousadas pelos
cantos ou pelos futons espalhados ao longo do ambiente. Haviam também
cestas com preservativos espalhadas por todo o lugar. Numa espécie de
portal, duas dançarinas com poucas roupas, que se lambiam e se acariciavam,
recebiam os convidados. Sarah foi puxada por Camila através daquela porta.
Do outro lado, o cenário era ainda mais assustador para Sarah. O tema
daquele ambiente era zoológico. Uma placa luminosa com as palavras “Área
Zoo” confirmou as suas suspeitas. Mulheres com lingeries provocantes e com
tiaras com orelhas de porquinhas desfilavam entre as mesas. Além das
orelhas, elas usavam máscaras com focinhos de porquinhas e meias rosas.
Outras estavam fantasiadas de gatinhas, cachorrinhas e até mesmo
coelhinhas. Haviam leoazinhas também. Uma das porquinhas dirigia olhares
lascivos para uma mulher, provocando-a enquanto o namorado ofegava
diante da perspectiva de sexo a três. Na sala seguinte, um minotauro com
pouca roupa movia os quadris sobre o corpo de uma japonesa em cima de
uma cama com dossel. Espectadores em elegantes smokings e com um copo
de uísque nas mãos se aglomeravam ao redor de uma mulher atada à uma
cadeira em estilo antigo com as pernas abertas. Pareciam que iam leiloá-la.
Aquilo era o parque temático do sexo, uma espécie de parque de diversões
pervertido, pensou Sarah.
Chegaram a um corredor que dava acesso a outra área que parecia
mais restrita. Um novo minotauro recebendo sexo oral de uma negra assustou
Sarah, que foi pega desprevenida. Uma luz ofuscante a cegou, era uma
espécie de carrossel com barras, onde mulheres com corpos pintados
dançavam.
— Tem mais lá em cima. – Malu tocou em Sarah. — Vamos, Camila
já subiu.
Subiram os degraus com cuidado para não atrapalharem o casal que
transava embaixo da escada em espiral. Ao chegar no andar seguinte, Sarah
ficou espantada com a presença de várias pessoas transando e trocando de
parceiros indiscriminadamente. Um dos cantos oferecia uma vista
panorâmica da festa que rolava solta no piso inferior. Para se ter acesso a
outra sala, era necessário atravessar um túnel no qual as paredes abriam-se
em buracos. Alguns desses buracos eram preenchidos por mãos e outros por
pênis de homens que estavam do outro lado da parede.
— Meu senhor, o que é isso? – Sarah leva a mão ao coração. Estava
chocada.
— Chama-se Glory Hole. – Malu respondeu, empolgada. —
Basicamente, funciona da seguinte maneira: alguém do outro lado da parede
oferece seu membro para alguém deste lado chupar, o oposto também é
válido. Veja aquela mulher! – A cientista apontou. — Ela está oferecendo
seus seios para a pessoa do outro lado da parede apalpá-los. Não é
interessante? – Só mesmo Malu poderia achar aquilo uma experiência
interessante.
— Como você pode achar isso uma experiência interessante, Malu? –
Camila perguntou perplexa. — É tão impessoal. É como se o homem fosse
apenas um pênis. Ah não... Gosto muito do instrumento do Murilo, mas se eu
não pudesse vê-lo na hora do sexo, não seria a mesma coisa. Isso é muito
para minha cabeça. Duvido que o Edu lhe deixaria testar essa experiência! E
você Sarah, o que pensa? – Sarah não pensava nada para falar a verdade, tudo
era tão novo e surpreendente ao mesmo tempo.
— Não sei o que pensar! – Exclama. — Até vinte minutos atrás, eu
nem sabia que isso existia. – Levanta as mãos para o alto num misto de
admiração e espanto.
Saíram do túnel e entraram numa área com vários televisores
espalhados, onde estava rodando filmes pornôs dos mais variados gêneros.
Haviam também poltronas espalhadas, onde casais se beijavam e transavam,
sem qualquer pudor.
— Veja! – Camila aponta para uma placa que indicava a área BDSM.
— É lá que Heitor costumava frequentar.
— Como? – Sarah para abruptamente. — Heitor fazia o que? – Sarah
mal sabia o que era BDSM, devia ser a sigla de alguma coisa.
— BDSM é um acrônimo para Bondage e Disciplina, Dominação e
Submissão, Sadismo e Masoquismo. – Malu explica.
— Menos Malu... É melhor traduzir! – Camila revirou os olhos. — É
uma prática sexual, onde um dos parceiros gosta de apanhar e o outro gosta
de bater. – Sarah arregalou os olhos. Seu marido não podia gostar daquilo,
não conseguia acreditar.
— Não é bem assim, Camila. O BDSM tem o intuito de trazer prazer
sexual através da troca erótica de poder, que pode ou não envolver dor,
submissão, tortura psicológica, cócegas e outros meios. Por padrão, a prática
é provocada por um dominador e sentida por um submisso. Por exemplo, a
dor, a prisão, a submissão e até mesmo as cócegas são, geralmente, infligidas
nas pessoas contra a sua vontade, provocando essas sensações desagradáveis.
Contudo, no contexto BSDM, estas práticas são levadas a cabo com o
consentimento mútuo entre os participantes, levando-os a desfrutarem
mutuamente. Atividades de BDSM não envolvem necessariamente a
penetração mas, de forma geral, o BDSM é uma atividade erótica e as sessões
geralmente são permeadas de sexo. – Como Malu conseguia ser tão objetiva
com tantas coisas acontecendo a sua volta, Sarah refletiu.
— E meu marido fazia isso? – Sarah precisou sentar-se em um banco
que avistou. Estava chocada. Bem que sua intuição lhe dizia que Heitor
escondia coisas.
— Bem... – Camila se enrolou. — Foi Murilo quem me contou. –
Então, só podia ser verdade. — Camila desaba ao lado da cunhada.
— Vocês duas pensam em ficar aqui sentadas com todo esse universo
luxurioso para explorar? Não mesmo! – Malu colocou as mãos na cintura,
estufou o peito e empinou o bumbum, o que chamou a atenção de um
cavalheiro mascarado.
— Procurando prazer, garotas? – Um rapaz apenas de calça jeans
falou sedutoramente. Malu tratou de desconversar e despachar o homem para
longe. A experiência se restringiria a apenas observar. Era imprescindível
manter distância dos objetos de estudo para o bem do casamento de todas.
Na área BDSM, uma loira com um quepe militar e botas de cano alto
submetia um homem gordo e calvo a uma sessão de palmadas no traseiro. O
cavalheiro gemia demais para o gosto de Sarah. Atrás de uma parede de
vidro, uma mulher estava sendo amarrada num cano por um homem com
calças de couro.
— Peça para ele te amarrar e masturbar você. – Empolgada, uma
senhora de meia idade falou para Camila. — Ele fez comigo e foi
maravilhoso. – Contou com um sorriso no rosto. A ruiva engoliu em seco,
mas Malu resolveu submeter a mulher a um questionário completo.
Sarah, sem querer, acabou por afastar-se das amigas. Um rapaz magro
passou por ela e apertou-lhe o traseiro. — Vamos para um dos quartos,
gatinha? – Sussurrou em seu ouvido, o que provocou arrepios em Sarah, mas
não foram arrepios de desejo como Heitor lhe provocava. Uma dor
atravessou o coração de Sarah. Não sabia se seria capaz de tornar-se uma
dessas mulheres, caso Heitor desejasse. Sua cabeça dava voltas e mais voltas,
ela queria saber o porquê de Heitor gostar desse tipo de coisa. Lágrimas
escorreram pelo seu rosto. Como pôde ser tão ingênua, pensou. Queria se
livrar do homem magro, mas uma espécie de catatonia havia tomado conta de
seu corpo. Fechou os olhos e rezou. Era uma das coisas que havia aprendido
no convento, rezar e pedir a Deus proteção.
— Senhor! – Sarah abriu os olhos e viu uma mulher muito bonita e
extremamente sexy. Ela falou alguma coisa para o rapaz magro que se retirou.
— Obrigada! – Sarah agradeceu.
— Não precisa agradecer, Senhora Sarah. – A mulher sabia seu nome,
para o espanto de Sarah. — Sou Valquíria. Quer que a acompanhe até seu
marido?
— Vim apenas com algumas amigas. – A confeiteira soltou,
arrependendo-se em seguida, deveria ter mentido que estava na companhia de
Heitor.
— Se a senhora não veio acompanhada de Heitor, é melhor me seguir.
Este lugar não é adequado para a senhora – Sarah não gostou muito da
intimidade com que Valquíria tratou seu marido. Sentiu raiva de Heitor, era
um sem vergonha mesmo. E não era somente Murilo que estava metido numa
confusão com a esposa, Heitor também acabava de meter-se numa e das
grandes.
Na mansão Castro de Alcântara, lar da família de Murilo,
Heitor passava horas agradáveis com os amigos e seus filhos. Como as
esposas não estavam para lembrá-los constantemente de que as crianças
deveriam estar na cama cedo, aproveitaram para colocar a conversa em dia,
enquanto os pequenos faziam a maior bagunça.
— Pai... – Benjamim chegava com Mariana no colo. A menina estava
com o rosto todo lambuzado de batom. — A Clara passou o batom da mamãe
no rosto da Mariana.
— Dê-me ela e vai atrás de sua irmã. Clara não toma jeito! –
Cansado, Murilo falou. — O que fizeram com você, bebê? – O arquiteto
beijou a cabeleira ruiva e encaracolada da caçula, que sorriu para o pai, sem
ter a mínima noção do que havia acontecido. — Vocês sabem como se limpa
marcas de batom do rosto de um bebê? – Murilo sentou no sofá com a filha
no colo.
— Não faço a mínima ideia! – Edu respondeu rindo do estrago que
Clara fez no rosto da irmã.
— Nem olhe para mim! – Heitor levantou os braços. — O único que
teve filhas foi você, já devia estar acostumado com essas coisas de mulher. –
O engenheiro gargalhou.
— Cara, tenho pena de você! Essas meninas ainda acabarão com seu
juízo, Murilo. – Edu também entrou na brincadeira.
Benjamim voltou com Clara a tiracolo tão ou mais lambuzada de
batom que a irmã. — Caramba... – Murilo suspirou. — Uma já me dá
trabalho, mas duas, cara, duas estão acabando comigo.
Edu levantou da poltrona com Matheus Eduardo dormindo no colo e o
colocou no carrinho. — E elas são pequenas ainda! Imagina quando
crescerem e aparecerem com o batom borrado por darem uns “amassos” por
aí.
— Para com isso, Edu! Vamos por etapas, ok? Uma coisa de cada
vez. Além disso, minhas filhas não darão “amassos” por aí. – Benjamim
entregou Clara para o pai, que a sentou em sua outra perna. Mariana esfregou
os olhinhos de sono. — Hora de caminha, não é minhas princesas? – Murilo
se derreteu todo ao falar com as filhas.
Juninho também chegou e pediu colo ao pai. Uma por uma, as
crianças adormeceram e os três sócios conseguiram relaxar um pouco. As
babás de Clara e Mariana vieram buscá-las para levá-las para seus berços.
Matheus Eduardo dormia profundamente, só havia dado uns resmungos
quando perdeu a chupeta. Juninho dormia nos braços de Heitor e Murilo
sugeriu que o levasse para um dos quartos. Mas preferiu mantê-lo ali, junto
de si.
— Não precisa! Logo, pretendo ir para casa. Já está tarde e Sarah vai
me matar se descobrir que o Juninho não foi para cama cedo. – Heitor
respondeu, olhando no seu celular. — Cara, esse spa deve ser realmente
muito bom, nenhuma mensagem da Sarah. – Os sócios puxaram seus
celulares dos bolsos para conferirem se alguma das esposas havia deixado
alguma mensagem e nada.
— Nada de Camila!
— Nem de Malu!
O celular de Murilo tocou. — Alô! Sim, é ele. – Uma pausa se seguiu.
— Como assim, no Pandora? Minha esposa está no Pandora? – O coração de
Heitor disparou no peito. Se Camila estava no Pandora, era muito provável
que Sarah também estivesse. — Tudo bem, estou... Estamos indo para lá. – O
arquiteto encerrou a chamada com semblante preocupado.
— Desembucha logo, Murilo! – Edu exigiu.
— Caras, vocês dois não vão acreditar! – Murilo passou as mãos entre
seus cabelos encaracolados. — Nossas esposas estão no Pandora, todas elas,
Camila, Sarah e Malu. – Heitor levantou da poltrona em sinal de apreensão.
— Senta Heitor, é melhor! Você também, Edu. – Murilo recomendou. —
Hoje é a noite das Fantasias Quentes.
— Caraca! – Edu engoliu em seco.
— Das Fantasias Quentes? Mas é a noite em que tudo é liberado, meu
Deus... – O tempo parecia ter parado para Heitor. A noite das Fantasias
Quentes era uma das principais festas do Clube Pandora, onde os convidados
se escondiam sob máscaras para satisfazer suas fantasias sexuais mais
depravadas. O engenheiro não podia acreditar que sua doce e angelical Sarah
estava à mercê de um bando de machos e fêmeas esfomeados. — Precisamos
ir para lá.
— Isso está mal contado. – Edu bufou. Estava nervoso, pois sabia a
confusão que foi quando levou Malu para o Pandora para o ménage a tróis
frustrado. — Como estas três conseguiram entrar no Pandora?
— A única que sabia até então era Malu! – Murilo respondeu. — Mas
isso agora não tem importância alguma. Vou para lá imediatamente, porque
tenho certeza de que algum engraçadinho depravado vai querer tirar uma
casquinha do meu encanto.
— Não podemos sair, inferno! O que faremos com as crianças? – Edu
praguejou. — Como elas conseguem dar conta de tudo? – Somente um
cérebro feminino, multifacetado e dotado de alto QI, poderia dar conta de
tantas coisas ao mesmo tempo.
— Théo ainda está acordado e tem as babás. Vamos! – Os três sócios
deixaram as crianças aos cuidados das duas babás. Murilo avisou Théo que se
dispôs a ajudá-las caso as crianças acordassem. Edu deu mil e uma instruções
de como deveria ser preparada a mamadeira do filho.
— Merda, Edu! Dá para você agilizar as coisas?! – Heitor chamou a
atenção do amigo. — A cada minuto que perdemos aqui... Nem quero nem
pensar.
Cada um dos homens foi em seu carro até o Clube Pandora. Entraram
feito uns doidos e não foram barrados pelo segurança, que já os conhecia de
outras épocas. — Puta que pariu! Como fui esquecer dessa maldita noite de
gala?! – Murilo bufou. — Maldita hora que me associei nesse clube. – O
arquiteto olhava em todas as direções e nada de encontrar sua ruiva.
— Ferrado estou eu! – Heitor soltou. — Sarah não tem nem ideia dos
meus gostos incomuns. Não quero nem pensar se ela descobriu que...
— Gostava de bater em mulheres? – Edu completou a frase do amigo.
— Eu não batia em mulheres, Eduardo. Ao menos, não batia sem elas
concordarem.
— Nossa é uma diferença enorme! – Edu riu. — Mas olha só isso,
todo mundo se comendo e eu não estou nem aí. Em outras épocas, meu pau
estaria armado e pronto para o ataque. Mas hoje nem sinal do vivente se
manifestar, só penso em encontrar minha Malu. Cara, a primeira e a última
vez que a trouxe para cá foi foda... Não gosto nem de lembrar, porque vou
dizer uma coisa, embaixo daquele jeito todo intelectual, tem um mulherão.
— Que no momento está vestida de diaba vermelha. – Murilo apontou
para uma mesa, onde uma mulher morena dentro de uma roupa vermelha
muito justa, parecia ser um macacão, jogava pôquer com um bando de
homens sedentos por uma casquinha da morena.
— É hoje que eu pego essa diaba de jeito. – Edu gargalhou e saiu em
direção da esposa.
— Diga-me uma coisa, Heitor! – Murilo bateu no braço do amigo. —
Como o Edu consegue não sentir ciúmes da Malu? Os caras estão comendo a
mulher dele com os olhos.
— Você que é o perito em ciúmes, Murilo! – Heitor riu e levou as
mãos ao bolso. — Edu levou Malu para um ménage, malsucedido, mas levou,
o que me parece que ele não sinta nem um terço do seu ciúme possessivo. Se
fosse Camila ali, você já tinha quebrado a cara dos babões de plantão. – Os
dois olharam em direção ao casal. Edu já tinha tirado Malu da mesa, que
aparentemente tinha ganhado a partida, pois exibia um punhado de dólares
em uma das mãos.
Heitor e Murilo ouviram um grito vindo do piso superior. — Parece a
voz de Camila! – Heitor falou.
— Parece não, é a voz de Camila. – Murilo correu para as escadas,
sendo seguido por Heitor. Encontraram Camila sendo prensada contra uma
parede por um homem e com a saia levantada. — Larga ela! – Murilo gritou,
arremessando o estranho na direção de uma mesa.
Heitor pensou em ajudar Murilo, mas não o fez, precisava encontrar a
esposa o mais rápido possível. Estava até evitando pensar muito para não
enlouquecer depois de ver Malu e Camila em trajes tão ousados. Alguns
seguranças chegaram para conter Murilo que bufava como um cão raivoso. A
ruiva, por sua vez, xingava o marido, por não ter lhe contado sobre o
Pandora, prometendo que lhe faria dormir no quarto de hóspedes por uma
semana.
Heitor observava a cena e pensava qual direção tomaria para
encontrar Sarah, quando Valquíria, uma das promoters do Pandora, disse para
segui-lo. — Boa noite, Heitor! Sua esposa está em meu escritório. Julguei
melhor levá-la para lá. Já iria fazer o mesmo com as esposas dos seus sócios
quando os avistei. – Heitor sentiu alívio, sua esposa estava segura e longe do
olhar de cobiça de todas as pessoas que frequentavam o Pandora para saciar
seus desejos mais obscuros e reprimidos. Pela primeira vez, depois que pisou
no Pandora, conseguiu respirar.
Heitor entrou na sala de Valquíria e encontrou Sarah sentada
em uma das poltronas de veludo vermelho que havia ali. Era a personificação
do pecado. Sentiu o sangue se aquecer e um onda de desejo tomar seu corpo.
A esposa estava sexy dentro de um roupa que marcava indecentemente suas
curvas. O vestido de couro agarrado no corpo era um convite irrecusável para
se perder naquelas curvas. Sarah se levantou e Heitor não teve dúvidas de que
sua esposa havia sido feita para o pecado da luxúria. Uma breve onda de fúria
o tomou. Agora entendia o ciúme de Murilo. Apenas pensar no fato de que
outros colocaram os olhos em cima da mulher que é sua era suficiente para
tirar qualquer homem do eixo.
— Sarah, acredito que me deva explicações! – Heitor bufou num
misto de alívio e desespero.
— Você que tem um passado marcado por depravações e jogos
sexuais e eu é quem deve explicações? – Sarah fecha as mãos em punho. —
Não acha que quem deve dar satisfações aqui é você? – De fato, Sarah estava
nervosa e furiosa.
— Isso é passado! – Tomado de um forte sentimento de temor, Heitor
fala. — Tudo isso não importa mais.
— Então, explique-me por que nos convidaram para isso aqui? –
Sarah levanta as mãos para o alto. — Ai, Heitor, tenho tantas perguntas,
tantas dúvidas. Na verdade, sempre tive dúvidas, sempre senti receio de que
você precisasse mais do que eu poderia te dar. Agora, vejo que não eram
dúvidas sem fundamento. Minha intuição berrava para mim que havia algo
que você me escondia. – Lágrimas brotam nos olhos de Sarah. Heitor quer se
aproximar para acariciá-la e dizer que tudo passará, que tudo não passou de
um mal-entendido. Porém, Sarah não deixa. — Não me toque mais, Heitor.
— Amor, não faça isso comigo... Conosco!
— Estou com nojo de você! – Descontrolada, Sarah grita. Estava
cansada de bancar a mocinha perfeita e compreensiva.
— Meu Deus, Sarah... – Heitor passa as mãos pelo rosto em sinal de
cansaço e derrota. — Eu sabia que você não iria aceitar isso, eu sabia que
quando eu lhe contasse que eu era um “filha da puta” de um pervertido, você
não iria me perdoar e sairia da minha vida. Que merda, Sarah! Como você
queria que eu contasse para uma mulher como você?
— Como eu? Só porque fui uma noviça e quase fiz meus votos?
Posso ser ingênua e até ignorante em algumas coisas, Heitor, mas não sou
uma idiota. Se você tivesse me contado, teria evitado tudo isso, porque acima
de tudo, eu confiaria em você. Por que, Heitor, por que bater em mulheres?
— Eu não batia em mulheres! – O engenheiro não sabia como
explicar. — Olha, eu batia em mulheres sim, mas era para o prazer delas
também. Merda! Eu não batia em qualquer mulher, Sarah. Elas aceitavam
levar uma surra ou palmadas porque sentiam prazer. Não fazia nada que não
fosse consentido, seguro e saudável para minha parceira.
— Para de falar palavrão, Heitor! Você sabe que eu detesto palavrões.
Com certeza foi aqui que você aprendeu essas palavras que eu havia
esquecido que pronunciava.
— Perdão, amor! – Heitor lembrou-se de que Sarah não suportava o
uso de palavras de baixo calão. Sempre havia sido sua maior reclamação em
relação ao marido. — Por favor, vamos para casa e deixe-me explicar tudo.
Contar-lhe-ei tudo.
— Talvez outro dia deixarei que me conte, Heitor! Mas hoje não.
Estou cansada de tudo isso, de você e de seu passado. Quero somente ir para
casa e ficar ao lado do meu filho. – Heitor se aproximou da esposa, mas ela o
interrompeu no meio do caminho. — Não me toque, sei caminhar
perfeitamente.
Heitor seguiu Sarah para fora da sala. No caminho, encontrou
Valquíria. — Como minha esposa entrou no Pandora e ainda mais na Noite
das Fantasias Quentes? – Heitor estava muito bravo com toda a situação.
— Ela tinha um convite! – A promoter respondeu. — Antonela
enviou para vocês.
— Antonela está de volta? – Só podia ter sido a mente maquiavélica
da ex-esposa. Heitor conhecia Antonela melhor do que ninguém, alguma
coisa ela queria com ele. E isso lhe cheirava a problemas a quilômetros de
distância.
— Sim, há duas semanas. Foi ela quem organizou a festa deste ano.
Tome cuidado, Heitor! – Valquíria tocou no braço do engenheiro em sinal de
apoio.
— Murilo, você é um... – Camila xingava o marido sem parar,
enquanto Malu e Edu, empolgados, trocavam carícias intensas no meio de
todos. Sarah estava encostada numa mesa, aguardando uma brecha para
conversar com a cunhada. Heitor se aproximou da esposa.
— Vamos para casa, amor!
— Não! – Mulheres conseguiam ser cansativas, às vezes. — Irei para
a casa do meu irmão. Preciso ficar sozinha por algum tempo.
— Está louca se vou deixá-la longe de mim, Sarah! – Heitor estava
frustrado e arrependido também.
— Ah vai sim! – Sarah bateu com o dedo no peito do marido. Heitor
nunca havia visto Sarah tão brava em sua vida a dois. Sempre tão calma e
tranquila. Mas ali era como uma deusa vingadora, pensou.
— Vamos, Sarah! – Camila pegou a cunhada pela mão e a arrastou
em direção à saída. — Iremos para casa, Murilo. Nem pense em me impedir.
E reze, mas reze muito para que eu consiga me acalmar até chegar em casa,
porque, hoje, você vai dormir no quarto de hóspedes, naquele que fica do
outro lado da mansão. – As duas saíram como furacões do clube.
— Estamos “fodidos”, Heitor! – Murilo suspirou, passando as mãos
no cabelo.
— Nem me fale... – Heitor suspirou. — Acho que preciso de alguma
bebida. Nunca vi sua irmã tão brava antes.
— Bem-vindo ao clube dos maridos de mulher brava, amigo! –
Murilo bateu nas costas do sócio. — E vai por mim, deixa essa bebida para
depois, porque se não chegarmos logo atrás delas, cabeças vão rolar, te
garanto.
— E esses dois? – O engenheiro perguntou apontando para Edu e
Malu, que estavam praticamente fazendo sexo em cima de uma das mesas
espalhadas pelo salão.
— Pelo clima, acho que vão aproveitar mais um pouco. Ao menos,
alguém de nós vai se dar bem. – Murilo falou.

Ao chegar à mansão Castro de Alcântara, Murilo subiu as escadas


correndo atrás da esposa. Camila era estourada por natureza, não levava
desaforo para casa e já havia se metido várias vezes em encrenca em razão do
seu gênio difícil. Porém, Murilo sabia lidar com a esposa, o que não
acontecia com Heitor. Sarah sempre havia sido uma mulher compreensiva e
sensata. Não tinha a menor ideia de como agiria ao ver esse novo lado da
mulher.
— Sarah, vamos pegar o Juninho e vamos para casa. Não faz sentido
algum você ficar aqui, não há porque discutir aqui quando podemos fazê-lo
em nossa casa. – Heitor tentou chamar a esposa à razão.
— Não! Ficarei, eu e Juninho. Preciso de espaço para colocar as
ideias no lugar e, em casa, você não me dará o espaço de que preciso. –
Heitor se aproximou e acariciou o rosto de Sarah. Era seu anjo e não
aguentaria passar uma noite longe dela. Sarah deu um passo para trás,
precisava se manter distante, pois sabia o efeito que o toque de Heitor tinha
sob sua pele.
— Eu durmo no quarto de hóspedes, no sofá! Faço qualquer coisa,
mas diga-me que vai para casa. – Heitor implorou, mas ela não cedeu.
— Você não entende, Heitor! Tudo isso mexeu muito comigo. Preciso
pensar longe de você! – Sarah estava confusa. Sempre havia se sentido menos
para Heitor. Era um homem vivido e cheio de malícia. Agora percebia que o
marido havia a posto num pedestal, uma espécie de santuário, a tratava como
uma santa, quando ela na verdade queria mais, queria se libertar do estigma
de ter sido uma noviça. Tudo estava muito confuso para ela, precisava pensar
e refletir sobre tudo, incluindo sobre suas escolhas.
— Tudo bem! – Sentindo-se vencido e sem saber o que mais falar
para fazê-la mudar de ideia, Heitor concordou. — Irei para casa, mas amanhã,
retornarei e nós dois conversaremos, Sarah. Trarei roupas para você e
Juninho. – Heitor beijou a testa da mulher e retirou-se.
Sarah deixou-se cair no sofá. Estava cansada de conter as lágrimas.
Chorou, pois naquele momento só lhe restavam as lágrimas. Sentiu um aperto
no coração ao lembrar-se das duras palavras de Antonela mais cedo. A
primeira esposa de Heitor, havia lhe encontrado na sala de Valquíria e
destilara seu veneno da melhor forma que pôde.
— Achei que Heitor havia lhe tornado uma submissa. – A mulher
loira e alta falou. — Sempre foi assim! Eu fui a primeira e todas que vieram
depois de mim também o foram. Mas pelo que vejo, com você foi apenas
sexo docinho, do tipo papai e mamãe.
— Não há razões para lhe dar detalhes da nossa vida conjugal. –
Tentando se manter altiva, Sarah respondeu.
— Mas devia, pois posso lhe dar dicas preciosas como ex. – Antonela
gargalhou. — Heitor é um homem bruto, posso lhe garantir como a primeira
Senhora Telles. Na cama e fora dela, é um predador, gosta de submeter e
mandar. Foi o melhor dom que tivemos aqui no clube. – Sarah não tinha ideia
do que seria um dom, mas era esperta e pressupôs que tinha algo em comum
com a palavra dominação. — Se ele se casou com você, querida, foi apenas
para manter as aparências e em razão do filho. Você foi esperta ao
engravidar. – Sorriu sarcasticamente. — Logo, ele precisará de tudo isso
novamente e você não será capaz de dar porque é uma sonsa, uma mulher
como outra qualquer, que acha que o amor pode bastar para um homem como
Heitor.
Antonela havia pisado em seu ego, havia tocado em sua ferida. E
aquilo a machucou, deixou-a sem chão. Seu maior medo era de que Heitor a
deixasse por não ser suficiente para ele. Estava cansada de viver com isso,
como se uma adaga estivesse prestes a cair sobre sua cabeça. Precisava dar
um fim nisso antes que enlouquecesse.
Heitor amanheceu com uma forte dor de cabeça. Havia
afogado as mágoas na bebida na madrugada anterior. Em quatro anos de
casamento, jamais havia discutido com Sarah, jamais haviam dormido
separados. Maldita Antonela, maldito Clube Pandora. Passou horas sentado
no chão da sala entre os brinquedos de Juninho, pensando numa razão
plausível para o comportamento de Sarah. De fato, havia omitido parte do seu
passado, mas com o intuito de protegê-la daquela sujeira toda. Aquele estilo
de vida havia ficado para trás e apenas queria manter Sarah longe daquilo, ela
era muito importante e bastava-lhe. Ela e Juninho passaram a ser as suas
únicas razões de sua vida. Precisava fazer algo a respeito, precisava trazê-los
de volta. Não suportaria uma vida sem eles, tudo se resumia a um vazio
doloroso sem o sorriso do filho e sem o aconchego de Sarah, sua Sarah.
Levantou do chão e foi atrás do seu celular. — Alô, Murilo! – Seu
cunhado respondeu. — Sarah acordou?
— Sim! Mas cara ela está muito mal. Camila está com ela, tentando a
consolar. A vaca da tua ex foi longe demais. – Murilo lhe repreendeu.
— Eu sei. Preciso me entender com minha mulher! – Heitor suspirou.
Sentia-se cansado e tomar um porre não havia ajudado em nada, pensou. —
Com Antonela me acerto depois. Porque se ela acha que vou deixar essa
merda passar batida, ela está enganada. – Antonela era ardilosa o suficiente
para ter planejado tudo. A mulher podia gostar de se submeter na cama, mas
fora dela era muito perigosa e não media esforços para conquistar o que
desejava. Nunca havia se conformado com o fim do casamento dos dois e sua
determinação em reatar retornou com força depois que Heitor tornou-se bem-
sucedido na profissão. — E Camila e você? – O engenheiro se lembrou de
que a ruiva estava soltando fogo pelas ventas.
— Estamos bem, mas foi difícil. Camila é o cão chupando manga
quando está brava.
— Você que é expert em domar esposas furiosas, dê-me uma sugestão
do que fazer com Sarah!
— Como você bem disse sou expert em lidar com esposas furiosas e
não decepcionadas, Heitor. Sarah não está furiosa! Acredito que esteja triste e
decepcionada por você esconder o Pandora e seu antigo estilo de vida.
Escuta, Camila acha que minha irmã se sente menos do que as suas
submissas, que ela não o satisfaz. Heitor, pense um pouco, Sarah quase fez
seus votos e tornou-se uma freira. Até você entrar na vida dela, tudo era
muito simples e girava em torno de orações e doces
— Mas eu a amo do jeito que é, merda! Amo tudo na Sarah, não
quero que ela mude em absolutamente nada, porque se ela mudar algo, se ela
deixar de ser a Sarah pela qual me apaixonei, ela não será mais a minha
Sarah. Eu mudei por ela, porque a amei desde o primeiro dia e isso me basta,
não quero mais jogos, brincadeiras e a puta que pariu do BDSM. – Heitor
desabafou. Precisava colocar para fora ou enlouqueceria.
— Então, fale para ela. Melhor, demonstre para ela o quanto você a
ama do jeito que é. Mas vai por mim, livre-se do Pandora o mais rápido
possível. Já o fiz. Enviei um e-mail pedindo meu desligamento daquele lugar.
Camila é mais importante para mim.
Heitor encerrou a chamada e subiu para uma ducha rápida. Estava
determinado a trazer sua esposa de volta, custasse o que custasse, doesse a
quem doesse. Murilo tinha razão, precisava convencê-la de uma vez por todas
de que ela era a mulher de sua vida. Não precisava de cordas ou chicotes para
ser feliz.
Na Mansão Castro de Alcântara, Camila tentava acalmar o coração da
cunhada. Sarah sentia-se confusa com tudo o que havia descoberto acerca do
marido. — Camila, não sei o que fazer... Sei que Heitor logo estará aqui, mas
não sei se estou preparada para enfrentá-lo.
— Querida! Sinto tão tanto por você. – Camila a abraçou. — Eu e
Malu não devíamos ter-lhe incentivado para irmos ao Pandora.
— Não sinta! Estava na hora de eu deixar de ser uma sonsa. Sempre
reclamo do fato de que as pessoas me tratam como uma eterna noviça,
sempre todas cheias de dedos e cuidado para falar, contar-me as coisas, e
quando tenho a oportunidade, olha o que faço! Corro para as asas do meu
irmão.
— Murilo e eu estamos aqui para isso, Sarah!
— Não Camila! Sou uma mulher casada e mãe, devia ter sido mais
firme e ter enfrentado Heitor de uma vez por todas.
— Olha Sarah... – Camila limpou a garganta. — Nossos maridos
tiveram um passado nada agradável. Nenhum deles serve de modelo para
príncipe encantado ao estilo “conto de fadas”. Chego a ter urticárias só em
imaginar o quanto Murilo já aprontou por aí. Mas eles são humanos, Sarah!
Nos amam e se importam com a família e amigos. Heitor te ama, pois do
contrário, não teriam vivido até agora juntos e felizes.
— Mas ele sente prazer em bater em mulheres? – Sarah falou
desiludida. — Ele nem me deu a chance de conhecê-lo e tentar...
— Ser uma submissa? Acho que é assim que se chamam... – Sarah
concordou com a cabeça. — Você estaria disposta a isso?
— Não sei! Tudo está tão confuso na minha cabeça. Sinto-me cansada
de tanto pensar.
— Seu irmão pode não sentir prazer em bater em mulheres, Sarah,
mas não pense que é menos pervertido do que o Heitor. Para ter uma ideia,
ele e Edu levavam a mesma mulher para cama e quando digo isso, me refiro
ao fato de que era ao mesmo tempo. Não fui uma noviça como você, nem
Murilo foi meu primeiro homem como Heitor foi para você, porém, perto de
Murilo, estou longe de ser experiente no assunto sexo. Murilo fez coisas com
outras mulheres que eu sequer imaginava ser possível fazer.
— Ocorre que ele não escondeu isso de você, não é, Camila?
— Ledo engano! Ele escondeu e ainda esconde certas coisas, como
ele mesmo diz, ele omite para o bem da minha sanidade. Confesso que eu
fico louca com isso, em saber que ele tocou outras antes de mim, mas não dá
para ficar nisso, pois nossa vida seria insuportável. Por isso, apenas pego para
mim o que ele tem a me oferecer.
— O que me sugere, então?
— Quem sabe você deixa Heitor lhe contar sua versão, apenas o
escute e abra seu coração para ele também, conte-lhe tudo, suas dúvidas,
frustrações e desejos. Sei que sou estourada e não levo desaforo para casa,
mas vai por mim, o diálogo ainda é o melhor caminho.
Sarah fez uma pausa para tomar fôlego. — Tem razão! Quando Heitor
chegar, terei uma conversa com ele, sem meias verdades.

Do outro lado da cidade, Heitor bateu na porta do apartamento de


Antonela, a ex-esposa e ex-submissa. — Sabia que não iria demorar para me
procurar. – A loira falou ao abrir a porta.
— Sem jogos, Antonela! Quero conversar com você. Não vai me
convidar para entrar? – Heitor a fitou com olhar taciturno. Vestia uma calça
jeans e uma camisa polo. Havia feito a barba também, pois depois de dar um
basta na ex, queria correr para os braços da esposa.
Antonela fez sinal para que entrasse. — A casa é sua! – De fato, o
apartamento havia sido dos dois e foi passado para o nome da mulher, assim
que o divórcio saiu. — O que quer de mim, Heitor? Saudades de uma boa
submissa?!
— Sem gracinhas, Antonela! Estou aqui para dar-lhe um aviso e será
apenas uma vez. Afaste-se de minha esposa e de minha família ou não será
nada difícil acabar com sua carreira de decoradora.
— Você não teria coragem! – Ela respondeu.
— Eu faria pior que isso, por eles eu faria qualquer coisa, Antonela.
Você machucou minha mulher, foi egoísta e mesquinha e isso jamais se
repetirá, porque se um dia se repetir e eu descobrir que você está envolvida,
esmagarei você como uma barata, sem dó e sem piedade. – Heitor pegou
Antonela pelos braços. Antonela era uma masoquista e gemeu de prazer com
a promessa de uma surra. Sua fúria era grande demais e temeu em não se
controlar. Soltou-a rapidamente.
— O que ela fez com você? – A mulher fala frustrada. — Em outras
épocas, você teria terminado e teria se saciado na minha cama depois.
Heitor tomou fôlego. — Em outra época, você era minha esposa, em
outra época, estaríamos de acordo com o que aconteceria. Hoje, não! Hoje,
não a quero e nunca mais irei querer. Porque há uma diferença agora. Agora,
eu amo Sarah e sei que ela me ama. E não importa se ela é ou não é uma
submissa, uma dome ou switcher. E serei o que ela quiser que eu seja. Isso
tudo não importa mais, porque ela é para sempre no meu coração. – Heitor
saiu, batendo a porta na cara de Antonela. Agora, era hora de consertar as
coisas com Sarah e levá-la para casa.
Sarah acabava de sair do banho quando Heitor entrou no
quarto em que ela passou a noite. Era nítida sua apreensão. — Que susto,
Heitor! – Sarah levou a mão ao coração. Não esperava ver o marido tão cedo.
— Por favor, Sarah, vamos conversar. – Heitor estava abatido e Sarah
percebeu as olheiras profundas que contornavam os olhos do marido.
— Sim, precisamos conversar, Heitor. – Heitor queria aproximar-se
da esposa, mas não conseguiu. Era como se Sarah houvesse estabelecido uma
linha divisória entre eles e isso estava sendo insuportável para Heitor.
— Desculpe-me, princesa! Desculpe-me por ter escondido de você
meu passado. Desculpe-me por fazê-la acreditar num homem que de fato eu
não era. Mas eu tinha medo, muito medo de perdê-la... – Heitor estava
nervoso. — Você era uma noviça, Sarah! Uma noviça e eu... Bem eu era um
praticamente de BDSM, um cara que sentia prazer em dominar numa relação,
em mandar. Eu achei que quando você descobrisse do que eu gostava, sairia
de minha vida para nunca mais voltar e não queria você fora dela... Merda, eu
não quero você fora da minha vida.
— Por que você não quis que me tornasse uma das suas submissas? –
Sarah sussurrou. Falar com Camila a respeito disso foi mais fácil, mas sua
determinação na frente do marido parecia ter se esvaído.
— Eu quis, logo que nos conhecemos! Você era dócil e tranquila ao
mesmo tempo que exalava atitude e confiança, sem falar que poderia moldá-
la à minha maneira. É claro que eu precisei ir com calma para não a assustar e
foi justamente nesse meio tempo que eu me apaixonei por você. Você era tão
especial, amor, tão diferente das outras, tão inocente, mas também cheia de
vida e de vontade de viver. Você me cativou de um jeito que não havia mais
motivos para torná-la algo que a afastaria da sua candura tão natural. – Heitor
reduziu a distância entre eles, pegou-a pela mão e levou-a até a cama para
que os dois se sentassem. — Quando julguei que você estava pronta para o
próximo passo, depois que eu lhe ensinei aquilo que chamamos de sexo
baunilha, eu travei, não consegui seguir com meus planos, porque eu gostava
do sexo baunilha com você, Sarah. Eu ainda gosto do sexo baunilha, porque
você é o meu melhor e mais potente afrodisíaco.
— Mas Heitor...
— Não há “mas”, nem “porém”, nem “entretanto”, amor! Só há você
para mim, do jeitinho que você é. Não quero você ajoelhada diante de mim,
não quero que você use uma coleira com meu nome nela... Se você quiser, eu
te darei isso! Mas não é necessário. – Heitor afasta uma mecha do cabelo de
Sarah, prendendo-o atrás da orelha.
— Eu não consigo entender! Como alguém pode mudar assim de uma
hora para outra?
— Eu comecei a gostar do BDSM sem saber o que o era, para ser
sincero. O prazer que o domínio me prometia me conduziu a tudo isso.
Exercer a posse e o poder sobre outro ser humano me excitava. Eu sou assim,
Sarah! Sei que é assustador, mas faz parte de quem eu sou de verdade. Punir
minha parceira por ela ter quebrado a regra era apenas uma consequência.
Também era prazeroso, mas não deixava de ser uma consequência do que
fazíamos. Porque também sentia prazer quando ela me obedecia e eu a
recompensava por isso.
— Tudo é tão confuso, Heitor! Tão doentio. – Sarah soltou sua
frustração e abaixou a cabeça a fim de evitar olhar para o marido. — Você
aproximou-se de mim por meu jeito apagado, eu lhe dei a ideia de que
poderia ser facilmente manipulada.
— Não, pelo contrário! A visão que as pessoas têm de submissão
dentro de uma relação BDSM é equivocada e romantizada pelos livros. A
mulher submissa precisa ser mais forte e ter uma personalidade segura.
Minhas antigas submissas, mesmo minha ex eram líderes no dia-a-dia,
ocupavam posições de relevância.
— Agora sim que minha cabeça ficou mais confusa ainda! – Sarah
exclamou.
— Amor, essas mulheres são fortes e decididas, na maioria das vezes,
encontram na submissão sexual o equilíbrio que lhes faltavam para serem
mulheres, fêmeas. Toda mulher deseja ser cuidada, protegida, você me
entende?
— Estou tentando, Heitor!
— Há algo que devo esclarecer! – Heitor puxou o rosto de Sarah para
cima. Precisava olhá-la nos olhos para que não restassem dúvidas. — Não
sou um doente, nunca obriguei ou subjuguei uma mulher sem sua aceitação.
No BDSM, é fundamental que os dois queiram e concordem com os termos.
Toda relação BDSM pressupõe a tríade SSC: seguro, saudável e consensual.
— Meu Deus, mas eu não compreendo como alguém pode achar
prazeroso sentir dor. – Sarah estava chocada.
Mas sente! A isso se chama masoquismo. Dentro do BDSM, um
sádico necessitará da presença de um masoquista. Uma submissa ou submisso
será o masoquista da relação, enquanto o dom ou dome cumprirá o papel do
sádico. O livre arbítrio, volto a falar, é essencial para o BDSM. Eu não sou
um psicopata, amor! Porque nunca obriguei uma mulher a fazer o que não
estivesse disposta a fazer.
— E se eu quiser ser uma submissa, Heitor? Você aceitará fazer de
mim sua submissa? – Encorajada, Sarah resolveu perguntar.
— Se isto for seu desejo e para seu prazer, eu a torno minha submissa.
Dou-lhe até uma coleira para marcá-la como minha. No entanto, se não
quiser, nada mudará entre nós dois, você continuará sendo o amor da minha
vida, Sarah. Eu amo você e quero que você compreenda que não haverá
submissa ou qualquer outra mulher que me fará amá-la menos, princesa! –
Heitor puxou Sarah para seu colo, queria amá-la, enchê-la de mimos naquele
momento. A mulher não impediu a aproximação, ao contrário, abraçou Heitor
com desejo e deixou-se levar pela paixão. Bastava de afastamento, os dois
haviam sido feitos um para o outro. Heitor já havia feito burrada demais,
havia demorado demais para encontrar sua metade da laranja. Ela era dele e
ele era dela e não haveria nada, nem ninguém capaz de afastá-los, porque eles
se amavam. — Eu amo você, Sarah! Sinto que falhei com você, amor. Falhei
ao demonstrar o quanto a amo nestes anos todos, pois você ainda se sente
insegura em relação aos meus sentimentos.
— Não, você não tem culpa! Sou eu que sou uma burra, minha
insegurança acaba por atrapalhar na maioria das vezes. – Sarah encostou a
cabeça no peito do marido. Naquela altura, Heitor já havia deitado na cama e
puxado-a para junto do seu corpo. — Eu não tenho muitas amigas, você sabe!
Camila e Malu, por exemplo, são tão donas de si, eu as vejo tão cheias de
vida e disposição que não fica difícil imaginar o porquê de Murilo e Edu as
amarem. E eu, bem... Eu sou tão sem sal, sem cor, sem graça.
— Sem sal? Deixe-me provar. – Heitor puxou Sarah mais para cima e
mordiscou o lóbulo da sua orelha. — Hum... Realmente, é sem sal, mas isso é
bom! Sal em excesso faz mal ao coração e à saúde. – Sarah soltou uma
gargalhada, quando as mãos de Heitor chegaram à barriga, por debaixo da
toalha. — De fato, não há cor aqui, mas eu prefiro o preto e branco. Em você
o preto e o branco ficam divinos. Olhe para sua pele, amor, tão perfeita, tão
branquinha, um perfeito contraste com o negro dos seus cabelos
encaracolados. Quanto ao “sem graça”, discordo completamente! Você é a
personificação da graça, amor. Tudo em você é gracioso. – Heitor, em um
gesto rápido, inverteu as posições, colocando-se sobre o corpo da esposa e
jogando a toalha para longe.
— Você me ama mesmo? – Ela o ajuda a tirar a camisa.
— Eu amo muito você! – Heitor falou pausadamente para que não
restasse qualquer dúvida. — Eu amo tanto você, amor, que me tornaria até
um submisso se assim você desejar. E isso é grande coisa para mim. – Sarah
abriu um dos seus sorrisos, daqueles que somente eram dados para Heitor.
— Não me diga que você já tentou ser um submisso?
—Ah sim e foi um total desastre! Até em situação de submissão, eu
consigo dominar. – Heitor abriu a braguilha da calça e, rapidamente, tirou-a.
— Mas eu gosto de ser dominada por você, Heitor! Ao menos na
cama, é uma delícia. Como é mesmo que vocês chamam? Sexo baunilha. Eu
simplesmente amo o sabor baunilha. É claro que umas pimentinhas, de vez
ou outra combinam muito bem. – Heitor entendeu o recado e usando de sua
boca foi descendo até o meio das coxas de Sarah. Ele sabia do que ela
gostava, sua Sarah também sabia ser safada e pervertida quando queria, a sua
maneira, sim, e era justamente a maneira de Sarah que o encantava e que
havia o arruinado para as outras. Sarah se entregava, sempre havia se
entregado para ele, desde a primeira vez, era uma entrega real e excitante, que
o deixava a beira de um abismo indecifrável de prazer. Ela gemeu e Heitor
afundou a língua no meio das pernas de Sarah, chicoteando-a sem dó, nem
piedade, torturando-a até fazê-la ofegar sob seu jugo. Heitor a dominava de
forma potente e realizadora e Sarah obedecia, sem pestanejar, sem temer. Era
um encaixe natural e perfeito.
— Ai meu Santo Anjo do Senhor! – Sarah gritou assim que uma onda
eletrizante de prazer se apoderou de seu corpo.
Heitor subiu até chegar à altura dos olhos da esposa, queria admirá-la
quando seus corpos se encaixassem. Para que chicotes, amarras, velas e
agulhas quando se tinha Sarah?! Nada daquilo, toda a parafernália do BDSM
não mais fazia sentido para Heitor. Bastava Sarah nua, quente e doce.
Afundou-se nela e sentiu-a estremecer. Suas estocadas eram fortes e duras,
pois não era um homem delicado na hora do sexo, isso era sua natureza, mas
eram repletas de amor e devoção. Sarah se mexeu e deixou escapar um rouco
e tímido gemido, o que foi suficiente para Heitor libertar-se e derramar-se
dentro dela.
Sarah respirava tranquilamente sobre o peito de Heitor,
que a admirava. Estava corada e com um semblante de satisfeita. Alívio era o
que Heitor sentia naquele momento. Foram as horas mais difíceis que teve
que enfrentar em mais de 40 primaveras de vida. Sarah estava coberta de
razão, ele também vivia sufocado com as omissões de seu antigo estilo de
vida. Com tudo às claras, não haveria mais nada entre os dois, nada a impedir
a felicidade de sua família.
— Senti tanto medo de te perder! – Heitor afagou os cabelos da
mulher. Ela resmungou como uma gatinha manhosa. — Não suportaria viver
longe de você, amor.
— Eu também não, Heitor! Você é meu tudo. Amo tanto você, mas
tanto mesmo que não cabe dentro do meu peito. Também senti muito medo
de ficar sem você. Esse negócio todo, de BDSM, clube de sexo foi muito para
mim. – Sarah desabafou, abraçando-o ainda mais forte.
— Eu sei, amor!
— O que mais me apavorou foi não ser capaz de ser o que você
precisa. Não sei se seria capaz de me tornar uma... Bem você sabe o que! –
Sarah escondeu seu rosto no peito do marido.
— Você não precisa! Quero-a e sempre vou querê-la do jeito que é.
Você não precisa aprender nada, não precisa se tornar nada que você não
queira ou não esteja preparada.
Sarah levantou-se para se vestir. Estava tarde e ainda não tinham visto
o filho. Heitor a seguiu e logo estavam reunidos com Camila e Murilo, os
donos da casa, e Malu e Edu que acabavam de chegar para buscar o filho.
Tiago, o filho adolescente de Edu, estava com os dois.
— Vejo que se entenderam? – Camila sorriu para a cunhada.
— Sim e vocês também! – Heitor se referiu não somente a Murilo e
Camila, mas também a Malu e Edu, que pareciam estar mais apaixonados do
que nunca.
— Não sei quanto a vocês, mas eu e Malu não nos desentendemos,
não é, pequena? – A cientista concordou com um leve aceno de cabeça. —
Aquela fantasia de diaba me deixou louco. – Edu deu uma tapa no traseiro da
esposa enquanto ela se afastava para pegar o filho do carrinho.
— Por Einstein, Edu! Quantas vezes já falei que não quero que você
me dê tapas na bunda?! Isso doeu.
— Quanto a mim, minha ruiva aqui deu o maior trabalho! – Camila
encarou Murilo zangada. — Mas valeu a pena, porque o final compensou. –
O arquiteto puxou a esposa para seu abraço, que se derreteu toda, puxando-a
para um beijo apaixonado. Murilo tinha sua fera muito bem dominada, Heitor
pensou e soltou uma risada, puxando Sarah para um beijo.
— Volte aqui, Malu! Não vou deixar estes dois me passarem para
trás. Todos estão beijando as suas respectivas, também quero beijar a minha!
– Edu soltou e todos caíram na gargalhada. O amor chegou relativamente
tarde na vida dos três sócios, mas Heitor pensava que a demora havia valido a
pena. Cada uma delas se encaixava perfeitamente em cada um deles. Camila
era tão intensa que somente Murilo para fazer-lhe par; Malu era a leveza de
que Edu tanto ansiou e Sarah, bem Sarah, era seu anjo, e essa palavra era
suficiente para descrever Sarah na vida de Heitor.
Os casais almoçaram na mansão secular dos Castro de Alcântara em
clima descontraído e feliz. As crianças fizeram muita lambança na mesa.
Clara e Mariana eram as mais empolgadas, o que fazia Heitor ter a certeza de
que iriam deixar seu pai de cabelos em pé quando crescidas, principalmente
Clara, que bateu o pé até conseguir que sua cadeira fosse levada para o lado
de Tiago. Murilo não gostava dessa aproximação dos dois, era um pai
ciumento ao extremo. O que não era nenhuma novidade, pois nutria um
ciúme doentio pelas mulheres de sua vida.
— O que foi, amor? – Sarah perguntou ao marido, assim que notou
um sorriso se formar nos seus lábios.
— Apenas pensando que não podemos ficar para trás destes dois! – O
engenheiro apontou para os sócios. — Todos eles me passaram na frente no
número de filhos. Isso é uma ofensa, amor, já estou no meu segundo
casamento e apenas um filho.
— Você é impossível e tão competitivo! – Sarah riu e encostou a
cabeça no ombro do marido. — Mas adoraria ter mais um filho seu.
— Sério?
— Muito sério! – Ela acariciou a barba rala dele, com carinho. — O
Café está indo muito bem, os funcionários pegaram rapidamente as receitas e
têm feito um excelente trabalho, não há melhor momento para um segundo
filho. Quem sabe uma menina! – Sarah estava segura do que acabava de falar
para o marido. Colocar os pingos nos “is”, falar sobre seus receios para
Heitor, assim como escutá-lo, deu-lhe a confiança de que necessitava para dar
o próximo passo no seu relacionamento com o engenheiro. Queria viver as
emoções de uma gravidez planejada. Não que não tivesse se emocionado com
o nascimento do seu primogênito, longe disso, mas a notícia da sua gravidez
repentina deixou-a insegura e dessa vez não iria permitir que a insegurança
atrapalhasse sua vida. — Então, o que você me diz, Heitor? – Sarah sussurrou
no ouvido de um Heitor petrificado.
— O que posso lhe dizer, princesa? É claro que quero ter mais um
filho com você, vários aliás. E sabe de uma coisa, desejo que seja uma
menina, mesmo que saiba que minha vida ficará toda bagunçada no meio de
tantos laços e florzinhas.
— Você será um ótimo pai para nossa filha. Não tenho dúvidas disso!
– Sarah mordiscou o queixo de Heitor.
— Como você pode ter tanta certeza? – Heitor perguntou arqueando
uma sobrancelha.
— Porque eu o sei! Você é maravilhoso como marido, carinhoso e
protetor comigo e com Juninho, por que não o seria com nossa filha?
— Você despertou o melhor em mim, Sarah! Sem você, nada disso
seria possível. Prometa-me que nunca mais dormirá longe de mim? Quero-a
junto de mim para sempre, porque você é para sempre e disso nunca abrirei
mão. Você me mostrou o que é o amor, Sarah! Com você, eu sinto o que é o
amor.
— Eu amo você, Heitor! – Sarah sussurra colando sua boca na de
Heitor.
Fim.
Junho de 2014
— Leandro, é sua noiva... Ela está aqui! – Apavorada,
Tatiana olhou para Leandro. Era o dia de seu casamento com a herdeira dos
Rossini, o casamento mais aguardado pela sociedade porto-alegrense na
última década. O filho único do mais conceituado cardiologista de Porto
Alegre se casaria com a herdeira dos Rossini. Seus pais não iriam perdoá-lo
por ter abandonado Camila no dia do casamento. Ele estava encrencado,
muito encrencado. Estavam no aeroporto prestes a embarcar no avião que os
levaria ao Canadá, ele e uma das suas alunas do mestrado.
— Vá, Tatiana! Tentarei contornar a situação. Se não conseguir
embarcar neste voo, eu a encontrarei em Toronto dentro de 2 dias. – Tatiana o
abraçou e saiu em direção ao portão de embarque. Leandro sabia que algo do
tipo poderia vir a acontecer.
— Eu vou te matar, Leandro! – Um furacão ruivo vestida de noiva se
colocava na sua frente. Camila cuspia raiva. Ele não queria ter marcado o
casamento, mas Camila era impossível quando colocava alguma coisa na
cabeça. Se ela tivesse sido um pouco mais compreensiva, não teriam chegado
a este ponto. — Você me traiu, Leandro! Eu nunca serei capaz de perdoá-lo,
Leandro! Por quê? Por que me deixou marcar toda essa palhaçada de
casamento? – A ruiva arrancou a tiara que prendia o véu na cabeça e jogou na
cara de Leandro.
— Para com isso, Camila! Estamos chamando a atenção de todos. –
Os curiosos começaram a aglomerar-se ao redor do casal.
— Pouco me importa o escândalo... Você é um babaca, Leandro!
Exijo uma explicação, seu... – Camila avançou para cima de Leandro, com o
fim de desferir-lhe uma bofetada, mas ele a impediu. — Como pôde fazer
uma coisa dessas comigo, depois de 10 anos juntos, Leandro?!
— Para de histerismo, Camila! Eu preciso de um tempo, este seu jeito
mandão de querer as coisas do jeito que quer me sufoca, merda!
— Leandro! – A ruiva suspirou.
— Eu não tenho certeza se quero me casar com você, Camila! Eu
gosto de você, da sua companhia, mas casamento é um passo importante.
Casamento é para a vida toda e não sei se estou preparado para isso no
momento! Eu quero sair, conhecer pessoas diferentes, culturas diferentes...
Um silêncio constrangedor dominou o recinto. Camila encolheu-se
abatida e foi amparada por Malu e Isabela. — Se você não queria o
casamento, você deveria ter me falado antes. Mas como sempre, você foi um
bundão, Leandro! Você acabou de acusar-me de ser uma controladora, pois
bem, eu sou mesmo, mas você é um fraco. Pois embarque nessa porra de
avião, vá viver sua fábula ao lado da aluna gostosa e nunca mais apareça na
minha frente. Perdi meu tempo com você, que ódio. – Camila desprendeu-se
do amparo das amigas, deu meia volta e com a pose de uma rainha pisou duro
em direção à saída do aeroporto.
— Que Deus me ajude! – Leandro suspirou, sabendo que a sorte havia
sido lançada.
4 anos depois...
Completava três dias desde que Leandro havia chegado ao
Rio de Janeiro, mas estava sem coragem de procurar os amigos. Sentia-se
culpado pelos acontecimentos do dia de seu casamento. Havia agido no
impulso quando decidiu por largar Camila no altar e fugir com uma de suas
alunas para o Canadá. Até hoje se pergunta onde estava com a cabeça para
deixar uma mulher como Camila plantada no altar a sua espera. Agora a
arquiteta estava casada e feliz. Fabrício, um de seus melhores amigos, havia o
colocado a par dos acontecimentos. Camila havia se casado com um dos
maiores arquitetos do país e era mãe de três filhos. Ele sabia que ela merecia
ser feliz, mas saber que ela havia encontrado um substituto tão rápido acabou
por machucá-lo. Mas era bem feito para ele, ele merecia mais pela enorme
burrada que cometeu. Não teria sua ruivinha de volta, era certo, mas
precisava ao menos tentar se desculpar.
Determinado, Leandro saiu do hotel e entrou no táxi que o aguardava.
— Recreio do Bandeirantes, por favor! – Era chegado o momento de encarar
o passado e rever seus amigos. Era o aniversário de sua querida afilhada
Beatriz e estava disposto a se reaproximar de todos. As coisas haviam
mudado muito e também sabia que seria difícil reconquistar a confiança de
todos.
O táxi estacionou na frente da casa de Fabrício e Isabela. Após pagar
pela corrida, Leandro pegou seu pacote com os presentes da afilhada e olhou
para a fachada da casa dos amigos. Seu estômago embrulhou perante a
expectativa do que iria encontrar no interior, se iria ser bem recebido.
Respirou profundamente, a fim de reunir coragem suficiente para encarar o
que viesse pela frente. Sempre havia sido um homem paciente e racional,
nunca havia se deixado levar pelas emoções ou tomado decisões no calor do
momento. A única vez que agiu dessa forma, acabou por se colocar numa
tremenda de uma saia justa, havia colocado em xeque anos de amizade e
havia afastado a mulher com quem desejou dividir uma vida. Na época do
rompimento com Camila, estava confuso e deixou-se levar pelo frescor e
alegria juvenis de Tatiana, uma de suas alunas.
Tocou a campanhia e foi atendido por uma Isabela em estado de
choque. — Leandro?
— Boa tarde, Isabela! Desculpe-me vir sem avisar, mas eu achei que
não haveria maiores problemas.
— Claro... – Isabela o abraçou sem jeito. — É que não esperávamos
que você...
— Que eu tivesse coragem de aparecer? Eu sei que eu agi como um
adolescente inconsequente, mas me arrependi e quero recomeçar.
Fabrício se aproximou e cumprimentou o amigo. — Cara, seja bem-
vindo! Eu senti falta de você. Bia, filha! Veja quem veio para seu aniversário!
– A menina correu até o pai e ao avistar o padrinho, grudou-se em seu
pescoço.
— Baixinha da minha vida! – Beatriz soltou uma gargalhada assim
que Leandro a atirou para o alto. — Deixe-me olhá-la, Beatriz! Você cresceu
muito nestes últimos anos.
— Dindo! Você voltou para o meu aniversário.
— Sim e trouxe presentes, um para cada aniversário que perdi.
Beatriz pegou o padrinho pela mão e o levou até o jardim, onde todos
os convidados estavam reunidos. — A dinda não vai acreditar quando ficar
sabendo que você voltou, dindo! Dinda... – Leandro tentou impedir que
Beatriz chamasse a atenção da madrinha, mas foi impossível. Dentro de
poucos segundos, Camila virou-se para os dois. Ela estava ainda mais linda.
A maternidade apenas havia lhe deixado mais bela do que era. De fato, ele
havia sido um bundão, as palavras de Camila nunca mais deixaram de
atormentar-lhe e haviam se tornado uma lembrança marcante durante os anos
em que esteve distante.
— Leandro! – Malu se aproximou e o abraçou. — O que faz aqui?
Por Einstein, Leandro, onde você estava com a cabeça, seu maluco? –
Leandro não conseguia prestar atenção no que Malu dizia, pois toda sua
atenção voltou-se para Camila, que se aproximava.
— O que faz aqui, Leandro? – A ruiva fitou o ex-noivo com olhos de
sangue.
— Olá Camila! – Leandro estendeu a mão, mas Camila cruzou os
braços.
— Não seja cara de pau, Leandro! O que faz aqui?
— Meu Deus, vocês dois tentem se controlar! – Malu pediu para os
dois amigos. — Não esqueçam que isso é uma festa de crianças.
— O que acontece aqui? – Edu se aproximou da esposa. — Quem é
este daí?
— É o Leandro! – Malu respondeu.
— O noivo fujão da Camila. – Camila concordou com a cabeça e
Malu deu um beliscão no marido. — Puta merda! Murilo vai surtar quando
chegar e encontrá-lo aqui. – Malu puxou Edu para um canto afastado, antes
que a terceira guerra mundial fosse declarada. Camila e Leandro ficaram ali
se encarando até Fabrício levá-lo para junto de alguns conhecidos de outras
épocas.
— Camila, precisamos conversar! – Leandro falou antes de afastar-se.
— Não tenho nada para conversar com você, Leandro! Não pretendo
agir como uma histérica. – Leandro sentiu a mágoa nas palavras. — Mas
também não pretendo ficar trocando agrados com você, você foi um idiota
comigo e não merece um pingo de minha consideração.
Leandro afastou-se e incapaz de desviar os olhos da ruiva, não
conseguiu se concentrar na conversa do grupo de amigos que o cercava
querendo saber as novidades do Canadá. Camila sorria feliz ao redor de duas
menininhas, a de cabelos negros era mais agitada, enquanto a ruivinha
levantava os bracinhos para Camila.
— Vejo que está arrependido! – Fabrício para ao lado do amigo. —
As coisas andaram para Camila, parceiro. Aquelas são suas filhas, Clara e
Mariana, elas têm um pouco mais de 1 ano de diferença.
— Eu nunca pensei que Camila...
— Viria a se tornar mãe algum dia? – Fabrício completou o
pensamento de Leandro. — Mas ela se tornou e uma mãe daquelas do tipo
pata, amigo. Até adotou o filho do Murilo.
— Presumo que Murilo é o marido de Camila. – Fabrício assentiu. —
Olha, não agi certo com Camila, mas quero ter a chance de consertar as
coisas.
— Que porra é essa, Leandro?! De que jeito você quer consertar as
coisas? A ruivinha está casada e diga-se de passagem, muito bem casada. O
marido dela é capaz de matar se souber que você a quer de volta.
— Eu não pretendo a ter de volta, Fabrício! Que espécie de homem
você acha que sou? Até parece que você não me conhece!
— Olha para ser bem sincero, depois do fiasco do teu casamento,
tenho lá minhas dúvidas se realmente te conheço.
— Cara, eu vou provar para vocês que continuo o mesmo. Foi um
momento de insensatez, do qual eu me arrependo muito.
— Esse é o meu velho amigo! – Fabrício bateu nas costas do amigo.
— Seja bem-vindo de volta, Leandro. Você sabe que poderá contar comigo
para tudo. Agora, me dê licença, mas o marido da ruivinha acabou de chegar
com as irmãs e um dos seus sócios.
Leandro acompanhou com o olhar Fabrício que cumprimentava seus
convidados com um afetuoso sorriso no rosto. Como um dos homens estava
de mãos dadas com uma mulher, presumiu que o sujeito grandalhão com
cabelos encaracolados era o marido de Camila. Suspeita que foi confirmada
assim que o homem puxou Camila para um beijo. O semblante carrancudo da
ruivinha deu lugar a um dos seus lindos sorrisos. Mas era um sorriso
diferente, Leandro percebeu, um sorriso repleto de alegria e promessas
pecaminosas. Um sorriso que Camila nunca foi capaz de dar para ele. As
duas menininhas foram para o colo do pai também felizes e um garoto
abraçou Camila. Eram uma família feliz, ele percebeu. Uma família que
poderia ter sido sua se não tivesse tido a infeliz ideia de ficar confuso.
Leandro era um cientista, um astrofísico renomado tanto no Brasil
quanto fora e isso se devia a sua mente sagaz e curiosa. Uma mente que
questionava mais do que qualquer um, que não se satisfazia com uma
resposta simplória, ele sempre ansiou por mais, sempre ansiou por desvendar
os mistérios do universo. Porém, quando o assunto eram os sentimentos, toda
a racionalidade e objetividade não eram suficientes. Em geral, o cientista
cedia espaço a um homem atrapalhado e confuso, segundo sempre lhe falava
Camila.
— Dindo! – Beatriz se aproximou feliz. — Vamos, o tio Murilo
acabou de chegar. Você precisa conhecer o pai da Clarinha e da Mariana. – A
menina o puxou. Era chegada a hora de encarar a fera, o tão temível marido
de Camila. Mas ele foi confiante ao encontro, afinal, ele havia namorado
quase uma década a ruivinha e estava para nascer ser humano mais
temperamental que Camila.
— Tio Murilo! – Beatriz falou alto para que o arquiteto
percebesse a sua presença e do padrinho. Leandro, sem jeito, falou um rápido
“olá”. — Este é meu dindo Leandro!
Murilo que estava com Mariana no colo e virado de costas para
Beatriz e Leandro, rapidamente virou-se. Queria conhecer o frouxo que havia
abandonado uma mulher como Camila no altar. Camila, ao perceber o
desconforto do marido, tratou de apertar sua mão.
— Vou te matar! – Murilo falou assim que se livrou do aperto de
Camila e entregou Mariana à mãe. Em questão de segundos, Leandro estava
no chão. Murilo, no calor da emoção, havia desferido um forte soco no
cientista.
— Está louco, Murilo! – Fabrício falou e foi ao socorro do amigo. —
Não admitirei confusão na minha casa e justo num dia que deve ser de
comemoração.
— Tudo bem, Fabrício! Espero que todos se sintam vingados pela
ruivinha. – Leandro falou colocando a mão no queixo.
— Cara, você é louco, só pode! – Murilo ameaçou partir novamente
para cima do cientista, mas Heitor se interpôs entre os dois. — Sai da frente,
Heitor! Ele chamou a Camila de ruivinha.
— Deixe-o, Murilo! Além disso, ele terá que enfrentar a ira do
Daniel. Aquele sim tem mão pesada. – Heitor puxou Murilo para longe de
Fabrício. O arquiteto pareceu acalmar-se diante da lembrança de que seu
cunhado daria conta de vingar a irmã.
— Você está bem? – Fabrício perguntou ao amigo, empurrando os
óculos para cima. Leandro confirmou um sim com a cabeça. — Olha... Para o
seu bem e de todos, mantenha distância deles. Os três juntos são encrenca
pura. – Fabrício, visivelmente nervoso, referiu-se aos três sócios da
Alcântara, Telles & Neves, a empresa de arquitetura do marido de Camila, no
qual também eram sócios, Eduardo, o marido de Malu e Heitor, que também
era amigo de Daniel, o irmão de Camila. Fabrício lembrou-se do engenheiro
da época em que esteve em visita a Porto Alegre.
— Tentarei, amigo! Mas também, não irei ser saco de pancadas de
ninguém, droga! Você me conhece, Fabrício, nunca fui metido a brigão e não
será agora que serei.
— Vá para a cozinha e veja se consegue um pedaço de bife ou um
pouco de gelo para colocar no queixo. – Fabrício recomendou e Leandro saiu
em direção à cozinha.
No caminho, encontrou Isabela que o acompanhou e ajudou-o a
preparar um saco de gelo. — Puxa vida, Leandro! Vai ficar muito feio. –
Isabela continuava a ser a mãezona de todos, pensou Leandro. — Mas, vou
ser sincera, bem feito para você! Não senti nenhuma pena de você. Mereceu o
punho do Murilo na sua cara, Leandro. Até hoje, me pergunto o que levou
você a fazer o que fez com a Camila. – Fabrício tratou apenas de escutar, pois
sabia que quando Isabela entrava no modo reprimenda de ser, ninguém era
capaz de detê-la. — Bem sei que Camila nunca foi uma santa, sempre muito
mandona e controladora e que a relação de vocês de fato estava desgastada,
mas nada justifica você a ter deixado marcar aquele bendito casamento,
Leandro.
— Ai Isabela! – Leandro reclamou.
— Ai nada, tira a mão daí, seu teimoso! Vai ficar muito feio,
Leandro! – Isabela entregou o saco de gelos para o amigo e sentou-se na
banqueta ao lado. — A pimentinha não merecia aquilo, Lê. Se coloca no
lugar dela! Você até pode achar exagero da minha parte, mas Camila sofreu
muito e começou a tomar decisões precipitadas uma atrás da outra e o pior de
tudo é que nem eu, nem Malu pudemos ficar com ela. Por outro lado, se não
fosse a sua insensatez de deixá-la, ela talvez não teria encontrado o Murilo e
não estaria feliz com a família que formou. – Isabela levantou-se e foi até a
geladeira para pegar uma cerveja.
— Isso Bela! Jogue a felicidade da ruivinha na minha cara, já não
basta o soco do homem de Neandertal, vem você e dá a punhalada final...
— Sem dramas, Lê! Você nunca foi dado a fricotes antes e não é
agora, depois de ter feito a maior merda da vida, que vai dar uma de
dramático. Ninguém mandou ter deixado para última hora. – Isabela cruzou
os braços e abriu um sorriso. — Embora você sempre foi de deixar tudo para
a última hora. Lembro-me muito bem de que você deixava a pimentinha de
cabelos em pé com sua mania de deixar tudo para amanhã. – A loira
depositou a mão no braço do amigo, afinal, eram amigos de longa data e não
seria tão fácil assim deixá-lo de lado. — Espero, sinceramente, que você e
Camila possam superar as diferenças... Senti sua falta, amigo! – Isabela deu
um beijo na bochecha de Leandro e voltou para a festa, deixando o cientista
imerso em seus pensamentos.

Enquanto isso no jardim, Ana colocava mais lenha na fogueira,


deixando Murilo mais nervoso do que estava. — Por favor, Ana, pare de
meter ideias na cabeça de seu irmão! – Camila implorou pela última vez. —
Eu que fui a mais prejudicada pelo egoísmo do Leandro, estou disposta a
virar a página...
— Nem vem Camila! Esse insensível do seu ex te machucou... Eu não
vou deixar você deixar barato. – Murilo reclamou.
— Murilo, pense comigo, amor! – Camila entregou Mariana que
dormia à Ana e sentou-se no colo do marido. – Se ele não tivesse rompido
comigo, nós dois jamais estaríamos casados. Reflita sobre isso, Murilo.
Nossa felicidade de certa forma foi abençoada pela atitude mesquinha do
Leandro.
— Abençoada? – Murilo tomou fôlego. — Está certo que o asno
colaborou para que eu te encontrasse. É fato inquestionável. Porém, ele não
precisava ter feito o que fez. Nem eu, o maior e mais incorrigível mulherengo
do Rio de Janeiro... Se bem que o Edu e o Heitor estão praticamente em
empate técnico... Enfim, nunca fiz esse tipo de coisa. – Camila beliscou o
marido. — Encanto, isso doeu! – O arquiteto reclamou.
— Bem feito que doeu! Mania irritante que você tem de lembrar-me
de que era um mulherengo. – Camila ameaçou sair do colo de Murilo, mas
foi impedida por ele.
— Murilo tem razão, Camila! – Malu se aproximou com Edu e o
pequeno Matheus no colo do pai.
— Até tu Brutus! – Camila revirou os olhos. — Malu, juro que não
entendo sua passividade com o fato dos nossos maridos terem sido os
maiores “galinhas” da face da terra.
— Sejamos racionais, amiga! Nenhum deles, por mais galinha que
foi, abandonou uma noiva no altar ou fez falsas promessas.
— Toca aqui, baixinha! – Murilo estendeu a mão para que Malu
batesse nela. — Em resumo, o Doutor Asno é o maior canalha de todos os
tempos.
— Também não é assim, Murilo! – Malu levou as mãos até sua
cintura. — Leandro agiu errado com a Camila, mas foi seu único pecado e
todo pecador tem direito à redenção. Se não fosse assim, nem você, nem Edu
teriam tido a oportunidade de encontrar a redenção.
— Até para mim acabou sobrando! Nem vem Malu! – Edu reclamou.
— Olha, esse papo de vocês é cansativo! – Ana falou e depositou um
beijo na cabeça da sobrinha. — Esse ser chamado Leandro pisou na bola e
não tem o direito de cair de paraquedas na nossa linda e perfeita vida. Quero
mais é que ele exploda, para falar a verdade. – Ana, sem medo de se expor ou
ferir alguém, manifestou-se. A garota era assim mesmo, não tinha medo de
cara feia e sempre estava disposta a brigar por aqueles a quem amava. Se
fosse necessário, ela mesma iria dar um jeito de colocar o sujeitinho no lugar.
— Ana! – Edu a interrompeu. — Você e meu irmão Gabriel estão
juntos?
— Depende do ângulo que você olha, Edu! – O arquiteto gesticulou
exigindo que Ana prosseguisse com a explicação. — Bem... Se você acha que
dar uns amassos de vez ou outra e ter sexo casual em outras, for estar juntos,
sim estamos. No entanto, eu não o classifico dessa forma. Eu diria que eu e
Gabriel estamos curtindo a vida, somos jovens, maiores, livres e
desimpedidos.
— Por Deus, Ana! É hoje que seu irmão morre de um infarto. –
Camila tapou os ouvidos do marido.
— Eu já ouvi! – Murilo praticamente gritou, levantando-se de
supetão.
Ana entregou Mariana de volta para a mãe e tratou de despistar o
irmão antes que ele passasse o maior sermão do mundo. Murilo conseguia ser
irritante e grudento quando queria. Ana andava sem paciência para o controle
do irmão. Ele deveria se acostumar com a ideia de que ela já não era uma
mocinha indefesa, gostava de sair, dançar, encontrar pessoas e namorar.

Minutos depois...
Ana brincava feliz com as meninas de salão de beleza. Amava seus
sobrinhos e os filhos de Isabela também ocupavam um lugar especial em seu
coração. Crianças eram tudo de bom, pensou a jovem.
— O tio Lê também quer pintar a unha, Ana! – Vitória, a segunda
filha de Fabrício e Isabela, acabava de chegar acompanhada do “doutor
bundão”, pensou Ana. Apesar de Murilo ser um chato, não gostava nem um
pouco de imaginar que o tal do Leandro pudesse ter voltado para atrapalhar a
felicidade do irmão. Ela não iria permitir que o infeliz se intrometesse no
casamento do irmão, por essa razão, acabava de tomar uma decisão: iria ficar
de olho no maluco, sim, porque só mesmo um doidivanas poderia abandonar
no altar uma mulher incrível como Camila. — Ana! – Vitória bate no ombro
da jovem. — Tio Lê quer pintar as unhas na cor azul.
— Azul? – Ele estava falando sério mesmo, percebeu Ana. Leandro
acabava de sentar-se na cadeira a sua frente.
— Bem, acho que não nos apresentamos! – Leandro sorriu e Ana foi
capturada pelos belos olhos azuis do homem. Nunca havia cruzado com um
par de olhos tão lindos na vida, para ser sincera, nem os de Edu chamavam
tanta atenção assim. Deviam ser os cabelos negros que evidenciavam ainda
mais o olhar azulado do cientista. — Sou Leandro, é um prazer...
— Eu sei quem você é, infelizmente! – Ana foi seca e fez questão de
fechar a cara, não mostraria os dentes para um ser tão desprezível. — E não é
nenhum prazer em conhecê-lo, para ser justa. Meu nome é Ana e sou irmã do
marido de Camila. – Fez questão de frisar a palavra marido.
— O tio Lê e a tia Camila quase casaram, Ana! – Vitória se meteu na
conversa.
— Mas agora ela está casada com outro homem, Vic. E não acho
legal você e suas irmãs ficarem lembrando que eu e Camila quase nos
casamos. O marido da sua tia poderá ficar triste. – Leandro, com jeito,
explicou para a criança.
— Vejo que o soco do meu irmão colocou um pouco de juízo na sua
cabeça. – Leandro arregalou os olhos e tentou retrucar, mas foi impedido pela
língua afiada de Ana. — E já vou avisando que não permitirei que estrague o
casamento feliz do meu irmão. Ele e Camila foram feitos um para o outro,
nem sei como minha cunhada conseguiu ficar quase uma década ao seu lado.
— Ah é? Você parece muito entendida em relacionamentos
amorosos... – Ana puxou a mão de Leandro para poder pintar suas unhas. Era
a coisa mais estranha que tinha visto na vida, um homem de unhas pintadas e
ainda de azul neon, mas precisava dar o braço a torcer que era a coisa mais
fofa que alguém poderia fazer por uma criança.
— Olha, eu posso ser jovem e tal, mas não sou cega, isso é certo!
Camila é mulher demais para seu caminhãozinho.
— Impressão minha ou a senhorita “sabe tudo” acabou de duvidar da
minha masculinidade? – Leandro sorriu de canto. Estava longe de ser um
garanhão, pois o mundo das ciências sempre lhe atraiu mais do que qualquer
coisa, mas também não era assexuado e muito menos homossexual, sabia
despertar desejo em uma mulher e se bem lembrava, Camila nunca havia
reclamado quanto ao seu desempenho.
— Pois você interprete do jeito que quiser! Só sei de uma coisa, se
ousar cruzar o caminho de Camila e fazer com que ela brigue com meu
irmão, juro que arranco esses seus olhos azuis que mais parecem duas bolitas
do que olhos e jogo gude com eles.
Leandro levantou-se irritado. Ela havia passado todos os limites
imagináveis, nunca havia se deparado com mulher mais bocuda e louca em
sua vida. — A senhorita é muito atrevida.
— Tenho nome, sabe! É Ana. E sou atrevida mesmo, o senhor não viu
nada ainda. – Ana meteu o dedo no nariz de Leandro e saiu pisando duro.
Nem Camila conseguia ser tão temperamental e sem noção quanto essa
garota, pensou Leandro. Uma coisa era certa, era melhor manter-se afastado
dela, pois bem sabia que mulheres como ela eram encrenca na certa.
Mais tarde, naquele mesmo dia...
Ana havia combinado de encontrar algumas amigas em uma
badalada boate. Era seu último semestre na faculdade e, dentro de pouco mais
de dois meses, seria uma arquiteta. Ana estava atrasada no curso, pois havia
trancado dois semestres, época em que decidiu fazer intercâmbio na
Inglaterra. Agora, com seus 24 anos, sentia-se mais madura para seguir seus
sonhos, desejava tornar-se uma paisagista. Sempre foi um espírito livre e
romântico, amante da natureza e ecologista por vocação, por essa razão,
amava projetar espaços verdes, criar cenários verdejantes e floridos para que
as pessoas pudessem vir a desfrutar de momentos inspiradores e prazerosos.
— Adivinha quem é? – Ana sentiu duas mãos taparem sua visão e
uma voz masculina chegar aos seus ouvidos. Inalou o perfume de oceano, ela
conhecia aquele cheiro.
— Gabriel!
— Poxa, Ana! Estragou a surpresa! – Gabriel falou.
— Já pensou em trocar o perfume, Gabriel?! O que faz aqui? –
Definitivamente, Ana não estava com humor para ficar trocando gracinhas
com o fotógrafo. Desde o casamento de Malu e Edu, onde foram padrinhos
juntos, ela e o irmão mais novo de Edu saíam juntos para curtir a companhia
um do outro.
— Caracas! Quanta delicadeza, Ana! Vim até aqui só para te ver. –
Gabriel puxou Ana para um abraço e ela não o impediu.
— Desculpe, Gabi! Estou estressada por umas coisas que andaram
acontecendo, que nem dizem respeito a mim... – Ana sentiu-se culpada por
descontar sua frustração com o “sem noção” do Leandro em Gabriel.
Gabriel Botelho Neves era um fotógrafo renomado e membro de uma
das mais tradicionais famílias, um dos solteiros mais cobiçados do Rio de
Janeiro, que poderia estar aproveitando a noite com uma beldade a tiracolo ao
invés de ter que aguentá-la de mal humor. Por outro lado, ela também já
estava cansada com o constante assédio dele.
— Venha... Vamos dançar! – O fotógrafo a puxou para o meio da
pista. Ana era festeira, daquelas que se acabava de tanto dançar. A dança era
o elixir para as dores da alma da garota. Nada poderia superar o prazer de
sentir as fortes batidas em seus tímpanos, a emoção que transbordava toda
vez que se entregava aos movimentos rítmicos. Sempre havia sido dessa
forma para Ana. Quando criança, pedia para que sua mãe a matriculasse em
todas as aulas de dança que ficasse sabendo. Aprendeu do balé clássico às
danças de ruas e ciganas. Não existiria uma Ana sem a dança e sem as batidas
de uma boa música.

Enquanto isso no bar da boate, Leandro estava entediado. Não foi


uma boa ideia aceitar o convite dos alunos de Fabrício para esticar a festa
numa boate. Nunca havia se sentido bem em ambientes como esse. Era um
péssimo dançarino, se é que algum dia pudesse ser qualificado como um
dançarino. Aproximou-se do balcão do bar e pediu uma cerveja. Beber
também não era um hábito para Leandro. Evitava as bebidas alcoólicas, não
que não gostasse, apenas achava o ato de embriagar-se totalmente
dispensável. No entanto, estava determinado a mudar seus velhos hábitos,
queria ter uma vida social e bebidas faziam parte das confraternizações.
Encostou as costas no balcão e tomou um longo gole de cerveja. Ao
correr os olhos pela pista de dança, avistou uma linda morena dançando como
se o mundo fosse acabar a qualquer momento. Foi incapaz de desviar os
olhos para outro lugar. Estava totalmente vidrado pela garota. Ela usava um
vestido justo preto, totalmente agarrado em suas curvas e, diga-se de
passagem, eram as mais perfeitas curvas que havia conhecido na vida. Seus
cabelos caiam lisos por suas costas encobrindo um decote ousado. Aquela
garota era ousada, Leandro podia perceber apenas no seu jeito de requebrar.
Abandonou a cerveja em cima do balcão e deixou-se levar pelo desejo de
aproximar-se dela. Afinal, havia ido para aquele lugar para alguma coisa e
que mal haveria em poder aproveitar um pouco. Leandro até pensou em
desistir de aproximar-se quando percebeu que ela estava acompanhada de um
homem loiro, mas o cara a deixou sozinha e foi impossível resistir ao impulso
de tocar a mulher.
— Boa noite! – O cientista sussurrou no ouvido da garota e, assim
que ela se virou para ele, foi incapaz de conter sua admiração. Ela era mais
linda ainda. Usava um batom vermelho que deixavam os seus lábios ainda
mais bonitos. Seus dedos coçavam para tocá-la e sua boca salivava para
beijá-la.
— Não acredito! Você deve estar me seguindo, só pode! – E o
encanto havia sido quebrado, pensou Leandro. — Tantas boates no Rio de
Janeiro e você tinha que vir justo nessa.
— Muito azar mesmo. – O cientista respondeu frustrado. Aquela
garota era infernal de birrenta e teimosa.
— Você poderia fazer o favor de tirar suas “patinhas” da minha
cintura?! – Além de tudo, era muito abusada e mal criada, pensou o cientista.
Olhou em direção as suas mãos e novamente a encarou nos olhos. Iria soltá-
la, era o mais óbvio a ser feito. Talvez em outras épocas a soltasse, mas não
hoje. Sem pensar duas vezes, puxou-a para junto de seu corpo e deixou-se
levar pela vontade de enterrar-se naquela boca suja e mal criada, queria sentir
o sabor dela, queria provar o quanto era quente. E o fez como se nada além
dos dois existisse.
Ana tentou se soltar, inutilmente, pois Leandro era forte e delicioso,
pensou. Sentiu-se confortável no seu abraço e até que ele não beijava tão mal.
Mas não podia se deixar levar pela vontade louca de beijá-lo. Ele era o ex-
noivo de sua cunhada, da mulher de seu querido irmão, além de um patife. É
claro que ela podia dar o troco. Seria hilário dar esperanças para ele e depois
dar um pé na bunda dele. Os pensamentos de Ana oscilavam entre o certo e o
errado, entre o que ser feito e o que ser evitado. Era uma confusão total de
sentimentos. Leandro a puxou ainda mais contra sua parede de músculos,
levando-a a um abismo de sentimentos e emoções que jamais havia provado
antes. A boca do infeliz era o inferno de uma boca boa de beijar e embora
tentasse interromper o beijo, Ana não conseguia encontrar forças suficientes
para fazê-lo.
— Ana! – Gabriel aproximou-se perplexo. — Achei que estávamos
juntos!
— Gabriel, eu posso explicar! – Ana empurrou Leandro para longe e
aproximou-se de Gabriel. Apesar de não ter prometido nada para o fotógrafo,
envergonhou-se, afinal, ninguém merecia passar por isso.
— Para mim já deu! – Gabriel bufou, deixando-os a sós.
— Viu o que você fez? – Ana dá um tapa na cara de Leandro.
— Ah sim... Tudo culpa minha, não é?! Beijei sozinho!
— Não seja cínico, seu ogro abandonador de noivas! É claro que você
tem culpa nisso. Não se sai beijando mulheres por aí, sem a permissão delas.
– Leandro soltou uma gargalhada e Ana se enfureceu. — E tire esse
sorrisinho do rosto, se não... – Ela ergueu a mão a fim de esbofeteá-lo
novamente, mas foi impedida por Leandro que a puxou para seus braços
novamente.
— Se não o que, dona encrenca? – O cientista não aguardou a
resposta de Ana, trazendo-a para um novo beijo. Dessa vez, foi um beijo
exigente e suculento. Se havia algo que Leandro apreciava era um bom beijo
e Ana beijava muito bem. — Nega agora que gostou do beijo? – Leandro
sussurrou no ouvido de Ana.
— Mas é um abusado mesmo! Não sei como Camila conseguiu ficar
com você por quase uma década...
— Pelo beijo.
— O que?
— Falei que Camila gostava do meu beijo. – Leandro sabia que a
estava provocando além do devido, mas provocá-la era divertido e excitante.
Fazia tempo que não se sentia tão vivo.
— Abusado! – E mais um tabefe foi desferido no rosto de Leandro.
— Você até pode negar, mas gostou do beijo.
— É lógico que não...
— Então, por que gemeu?
— Eu gemi? Imagine, você está louco, eu não gemi de jeito maneira!
Além de abandonador de noiva, é um fofoqueiro, que fica inventando intrigas
e me prejudicando.
— Eu fofoqueiro? Garota, você não tem noção mesmo! É isso que dá
me envolver com crianças.
— Eu não sou criança!
— Claro que é! Quer saber, você nem beija tão bem assim. – Leandro
virou as costas determinado a ir embora. Não tinha a menor vocação ou
paciência para discussões. Na época em que namorava Camila, deixava-a
discutir sozinha e recolhia-se na sua bolha, onde só havia espaço para as
estrelas e o universo.
— Pensa que vai onde? – Ana se colocou na frente de Leandro. —
Acha que me ofende e vai sair assim como se nada tivesse acontecido, pois o
senhor doutor patife está a falar com Ana Margarida Mendonça Marcuzzi.
— Ana Margarida... – Aquele nome era muito delicado para a sua
dona, pensou Leandro. — O que foi agora?
— Não permitirei que saia dizendo que meu beijo é ruim. – Ana
sentia-se despeitada, nunca ninguém antes se atreveu a falar que seu beijo era
ruim, bem pelo contrário, todos sempre ansiaram por repeti-los. E não seria
um metido como Leandro que colocaria em xeque sua boa fama de
beijoqueira. Determinada, aproximou-se do cientista, colocando-se na ponta
dos pés, já que era vários centímetros menor que ele e encostou os lábios em
sua boca. Dessa vez, foi ela quem invadiu-o com a língua e o desgraçado
correspondeu. Ambos estavam determinados a beijar melhor que o outro,
provocando-se com mordidinhas nos lábios de vez ou outra. Ela queria
extrair dele um gemido, um bem mais vergonhoso daquele que ela deixou
escapar. Essa seria sua vingança, o colocaria de quatro aos seus pés, faria ele
rastejar para ela e depois o chutaria e seria um chute bem dado e bem no
traseiro, aliás o infeliz era dono de um traseiro maravilhoso, pensou. Ana
deslizou as mãos por baixo da camisa polo, arranhando com as unhas as
costas e nada de gemido.
— O que acha disso? – Ana sussurrou no ouvido de Leandro, tratando
de abrir o zíper das suas calças. Aproveitando-se da distração, Ana voltou a
beijá-lo e apertou o seu membro. Leandro não foi capaz mais de pensar com
clareza e soltou um delicioso gemido. Havia entrado num estado de frenesi
descompassado, onde todos os hormônios haviam entrado em ebulição,
queria-a muito e blasfemou em pensamento por estarem em público.
— Xeque-mate, “doutor bundão”! – Ana soltou uma gargalhada
atrevida. — Diga-me que não gostou do beijo! – Ajeitou o vestido que estava
fora do lugar, jogou os cabelos para trás e partiu como se nada tivesse
acontecido, deixando um rastro marcante de seu perfume doce, com um
fundo amadeirado, e Leandro totalmente excitado e num estado vergonhoso.
Dois dias depois, Leandro se mudava do hotel para o antigo
apartamento de Malu. Antes de retornar para Porto Alegre, queria acertar as
coisas com Camila. Devia desculpas à ruiva e ainda queria explicar-lhe
alguns pontos. Sentiu-se mal com as insinuações que ouvira na festa de
Beatriz.
— Obrigada por ceder o loft, Malu! – Leandro depositou as malas na
sala.
— Não há o que agradecer, Lê! Tem certeza de que quer dar
seguimento a essa ideia maluca de aproximar-se de Camila? Poxa, Lê... –
Malu ergueu os óculos com o dedo. — A Ka seguiu com sua vida. Não sei se
é uma boa ideia você chegar, sabe, pode melar tudo. O Murilo é muito
ciumento e ainda tem o Daniel. Ele está namorando uma das arquitetas do
escritório e vem muito ao Rio de Janeiro.
— Malu, não quero me afastar dos meus amigos ou me sentir
desconfortável toda vez que estivermos todos juntos. A verdade é que senti
falta de vocês, senti falta dos nossos encontros.
— Mas nunca mais será o mesmo, Lê! Nós todos mudamos e temos
que nos acostumar com o fato de que cada um tomou suas decisões e seguiu
seu rumo.
Leandro estava cansado das pessoas lhe lembrarem que as coisas
haviam mudado. Era óbvio que ele mesmo havia chegado sozinho a essa
conclusão.
— Eu sei que as coisas mudaram e nunca mais serão as mesmas. Sou
um cientista e tenho a exata compreensão de tempo e espaço, Maria Lúcia. A
questão aqui não é reconquistar a Camila! Apenas quero me desculpar e
tentar manter um convívio amistoso. Eu errei e arrependo-me muito de a ter
abandonado no altar. – Leandro deixou-se cair no sofá. Tentar se explicar
começava a ficar cansativo. — Malu, eu me sinto péssimo, um desalmado por
ter deixado a ruivinha para trás daquele jeito. Não nego que não tenha me
sentido aliviado quando pisei no avião. Eu não tinha certeza se queria me
casar com ela, não depois dela ter mudado tanto. A construtora a transformou
numa pessoa diferente do que costumava ser. Abandonou os seus sonhos
para...
— Ela precisou! – Malu defendeu a amiga.
— Eu sei, mas Daniel se recuperou e ela foi incapaz de deixar a
construtora para trás. Mas não foi só isso, nossa relação estava desgastada. –
O cientista respirou profundamente a fim de tomar coragem para continuar
sua explanação. Malu sentou-se ao seu lado. — Depois que a adrenalina
baixou e eu entrei numa rotina de casa, trabalho e pesquisa, a ficha caiu. O
remorso tem me corroído desde então. Eu não sou assim, Malu! Eu nunca fui
assim, nunca sequer fiz mal a uma formiga. Jamais faria mal à mulher que
esteve ao meu lado por tanto tempo.
— Mas você fez, Lê!
— Eu sei... Eu agi como um cafajeste! – Leandro não era capaz de
negar.
— Olha, eu não sou ninguém para julgá-lo, até porque também
escondi de Edu meu primeiro casamento. Porém, quero que reflita sobre seus
próximos passos. Camila está casada e feliz. Eu gosto de você, Lê. Nossa
amizade é de longa data, mas se tiver que escolher entre você e Camila, não
hesitarei em escolher o lado de Camila, ela é minha irmã, você sabe que ela e
a Bela são a família que eu nunca tive.
— Eu sei e não exijo outra coisa de você.
— Então, você também deve saber que não moverei um dedo para
ajudá-lo. Desculpe, mas você criou a confusão e nada mais justo do que você
sair dela, se é que você conseguirá consertar alguma coisa. Sinceramente,
tenho pena de você, Lê. Camila nunca foi uma pessoa das mais fáceis de se
lidar e Murilo, acredite, Murilo consegue ser tão ou mais difícil que ela.
— Tudo bem, Malu! Apenas me dê o telefone ou endereço da
ruivinha, por favor!
Malu levantou-se, foi até o armário da cozinha e tirou de lá um bloco
de anotação para escrever o endereço da amiga. — Aqui! – Malu entregou o
pedaço de papel ao amigo. — É o endereço do escritório da Camila.
— Mas ela não trabalha com o marido?!
— Alguns dias da semana apenas. A maior parte do tempo, ela fica no
seu próprio escritório. Murilo lhe deu um solar antigo de presente de
casamento. Camila reformou e, além de abrir seu escritório de arquitetura, ela
mantém seu ateliê lá.
— Ela voltou a pintar! – Leandro não conseguiu acreditar. Fazia uma
vida que Camila não pintava, aliás, sequer lembrava que sua ex-noiva um dia
pintou.
— E não foi só isso, Camila agora se dedica à restauração e
conservação. – Isso sim que era notável para Leandro. — Talvez Camila
apenas precisasse de um incentivo, coisa que você não teve o tato de fazê-lo.
— Isso Malu, pise no defunto!
— Mas é a mais pura verdade, Lê! Seu mundo se resumia às estrelas e
quando não eram as estrelas, eram as equações. Você falou e falou e pelo o
que percebi toda a culpa caiu sobre os ombros da Camila, não é? E você,
além de se escafeder para o Canadá, parou para pensar onde ficou sua
responsabilidade nisso tudo? Um relacionamento não se faz apenas com uma
pessoa.
Malu estava certa. Leandro não podia negar a verdade por trás das
palavras sinceras da amiga. De certa forma, também foi omisso com o
relacionamento. Havia se acomodado na rotina e, de fato, era meio desligado
para certos assuntos. Também nunca foi um homem apreciador de festas e da
noite. Seu mundo se resumia a estudar e observar as estrelas. Dedicava a
maior parte do seu dia e da sua noite a desvendar os mistérios do universo.
Era até estranho imaginar que Camila se sentisse desconfortável a respeito de
sua profissão, sem falar que a arquiteta nunca havia sido explícita quanto ao
fato de Leandro não a incentivar. O que o levou a próxima conclusão: a falta
de diálogo entre ele e Camila apenas dificultou ainda mais as coisas.
— Preciso ir, Lê! Deixei Matheus com o pai no escritório e Edu tem
uma reunião daqui a pouco. – Leandro riu ao imaginar o homem de terno e
gravata com um bebê no colo.
— Nunca imaginei você mãe! – Leandro comentou feliz pela amiga.
Gostava de Malu. Além de uma boa amiga, era uma das mulheres mais
inteligentes que conheceu. Seus trabalhos científicos na área de física nuclear
tinham reconhecimento internacional.
— Para ser sincera, nem eu! Às vezes, acho que Matheus merecia
uma mãe melhor, pois acredite, eu ainda tenho dificuldades para trocar
fraldas. Ainda bem que tenho o Eduardo, sabe! Ele é um marido maravilhoso
e um pai exemplar.
Malu despediu-se de Leandro, deixando-o com alguns
questionamentos para serem refletidos. A verdade lhe pareceu cruel, de
início. Ouvir a versão dos fatos de Malu, por mais difícil e dolorido, foi
necessário para a compreensão de tudo e, bem assim, para elaborar
estratégias para seus próximos passos. Era um cientista e como tal pensava
como um. Paciência e calma sempre foram seus principais atributos e, agora,
mais do que nunca seriam importantes.

No mesmo dia...
Leandro pegou um táxi e chegou ao escritório de Camila. Sua
intenção era resolver as coisas com a ex-noiva de uma vez por todas e seguir
com sua vida. Dentro de alguns meses, deveria assumir a cátedra que o
esperava em Porto Alegre. O solar antigo era a cara de Camila, pensou. A
ruivinha era muito talentosa na restauração, ela havia feito bem em retomar
os seus antigos projetos.
— Boa tarde! Em que posso ajudá-lo? – Solícita, uma jovem senhora
perguntou.
— Olá... Camila se encontra? Sou um antigo conhecido e gostaria de
conversar com ela... – Leandro estava um pouco nervoso, mas não iria voltar
atrás em sua decisão. Queria muito explicar as coisas para Camila e teria que
fazer isso a sós, sem a presença de seu marido pré-histórico.
— Infelizmente, a Dona Camila não se encontra! – A recepcionista
sorriu. — Ela foi chamada às pressas no escritório do marido. Não sei se o
senhor sabe, mas a Dona Camila ainda trabalha para o marido. – Leandro
assentiu com a cabeça. — No entanto, poderá conversar com sua assistente.
— Cris, preciso que você... – Ana entrou na recepção como um
furacão e sentiu o sangue ferver quando encontrou Leandro. — Não acredito
que você teve a petulância de vir até aqui para importunar minha cunhada!
— Boa tarde para a senhorita também! – Leandro sorriu de canto, ao
lembrar o que a atrevida havia lhe feito na noite em que a encontrou na boate.
— A senhorita costuma ser assim tão receptiva com seus potenciais clientes?
— Sem ironia, pois nós dois sabemos que você não é um cliente,
muito menos um em potencial. – Ana respondeu mais furiosa do que antes e
Leandro sentiu prazer em vê-la corada, ficava tão linda que era irresistível
contrariá-la. Sabia que não devia, mas a morena mexia com algo dentro de si
que lhe era estranho.
— Realmente vim até aqui para conversar com Camila. Preciso ter
uma conversa séria com minha ex-noiva. – A recepcionista arregalou os
olhos. — E não será você que me impedirá de falar com ela... Acontece que
acabo de perceber que não perdi a viagem, afinal, eu e a senhorita também
temos assuntos inacabados para tratar.
— Assuntos inacabados? – Ana o fitou nervosa.
— Sim, senhorita! Ou esquece que você começou algo e não
terminou? – Ana engoliu em seco diante do atrevimento do cientista. Ao
perceber o olhar curioso da recepcionista, a jovem pegou Leandro pela mão e
o puxou até a sua sala. Não existia homem mais irritante do que esse
Leandro, pensou Ana, fechando a porta praticamente na cara da
recepcionista.
— Então, você trabalha com a Camila! – Leandro olhou as paredes da
sala de Ana. Era recheada de quadros com imagens de plantas e árvores.
Haviam também vários vasos com flores espalhados pelo ambiente, tudo era
muito colorido para seu gosto. Leandro preferia cores mais sóbrias.
— Eu ajudo Camila no paisagismo dos projetos de restauração que ela
toca. Mas também trabalho no escritório do meu irmão.
— E qual você prefere? Sim, pois acredito que vai ter que decidir por
um deles... – Leandro, sentindo-se à vontade, sentou-se em uma das
confortáveis e modernas poltronas.
— Bem... Eu sou apaixonada por paisagismo e, aqui com Camila,
tenho mais oportunidades de crescer como paisagista, então... Ah não! Quem
o convidou para se sentar, posso saber?
Leandro levantou-se imediatamente. — Ana, você é a pessoa mais
irritante que eu já conheci, além de muito grossa e mal-educada. – Leandro
sabia que devia manter distância, mas ela o atraía como ímã. Suas mãos
coçavam para tocá-la e sua língua desejava sentir novamente o sabor de
menta de sua boca. — Quer saber... Apesar de tantos defeitos, você beija
muito bem! Ao contrário de você, dona encrenca, eu reconsiderei e admito
que nosso beijo é bom.
— Seu abusado... – Leandro deu mais dois passos e puxou Ana para
seus braços, iria beijá-la novamente e que o mundo se explodisse, porque
aquela mulher tinha a boca mais carnuda e deliciosa que havia tido a
oportunidade de conhecer. Ana tentou se soltar, de início, mas vencida pelo
cansaço ou talvez apenas por ter se rendido ao prazer, entregou-se e deixou-
se beijar. Nunca havia beijado uma mulher que se entregava como Ana ao
mesmo tempo em que exigia ser acariciada e protegida. Leandro acabava de
se viciar no sabor do beijo de Ana e isso não era uma boa coisa, pois a garota
era irmã do marido de sua ex-noiva.
Alguns dias depois...
— Não acredito que você teve coragem de aceitar um convite
desses? – Sabrina, a melhor amiga de Ana, perguntou perplexa.
— Eu sei que é arriscado! Mas não permitirei que aquele doutorzinho
estrague a felicidade do meu irmão. – Ana respondeu para a amiga.
— Pois eu acho que você vai se meter numa enrascada! Quando
Murilo descobrir vai te matar e nem vou falar que você pode se apaixonar
pelo tal do Leandro. – Sabrina era o oposto de Ana em muitas coisas. Dizem
que os opostos se atraem, o que era uma máxima que se encaixava à
perfeição para descrever a amizade entre as duas jovens.
— É claro que não me apaixonarei, Sabrina! – Ana soltou uma
gargalhada. — Se até hoje não aconteceu, não será por um homem como
Leandro. Além de mais velho, é um nerd completo. Precisa ver como ele se
veste, tão sem graça.
— Ana! – Sabrina não acreditava no que acabara de ouvir. Sua amiga
era exagerada, ela sabia, mas quando estava com raiva de algo ou alguém,
não havia limites para Ana.
— Mas é verdade, amiga! Não sei como um ser como aquele
conseguiu fisgar um peixão como a Camila. Porque sejamos justas, minha
cunhada é uma das mulheres mais lindas e cheias de atitude que conheci.
— Devo lembrá-la de que você acabou de falar que ele beija bem! –
Sabrina revirou os olhos e deu um gole em seu cappuccino.
— É... De fato, ele tem um beijo muito bom e uma pegada boa
também! Mas isso não significa que corro o risco de me apaixonar por ele.
Sarah, meia-irmã de Murilo se aproximou. Ana e Sabrina haviam
combinado de se encontrar no Café de Sarah. O Le Bohème era famoso pelos
doces e pães franceses. — Olá garotas! Estão servidas à contento?
— Oi Sarah! – Ana abraçou Sarah com carinho, a considerava uma
irmã. — Como está o afilhado mais lindo do mundo? – Ana e Murilo eram os
padrinhos do pequeno Juninho, filho de Sarah e Heitor.
— Seu afilhado está com saudades, Ana! – Sarah sorriu.
— Sarah, ajude-me a colocar um pouco de juízo na cabeça dessa
louca desvairada. – Sabrina pediu socorro à Sarah.
— Ai meu Deus... Não me diga que se meteu em mais uma confusão?
– Sarah colocou o dedo na testa. — Deixe-me ver o que foi dessa vez! Mais
uma conquista ou entrou para mais uma ONG em defesa dos direitos das
plantas em extinção? Espera, já sei! Dispensou o irmão do Edu.
— Antes fosse uma dessas coisas. – Sabrina suspirou. — Conte você
para sua irmã, Ana! Pois não tenho coragem... – Sarah acabou por enrugar a
testa.
— Aceitei um convite para sair com o Leandro! – Os olhos de Sarah
quase saíram para fora, tamanho foi seu espanto. — Nem vem, Sarah! Antes
que me xingue, já adianto que é por uma boa causa. Aliás, você deveria me
agradecer, pois estou apenas defendendo os interesses do nosso irmão mais
velho, que aliás é um pateta quando o assunto são os sentimentos.
— Ana! Você é louca! – Sarah desabafou. — O Leandro? Mas ele é o
ex-noivo da Camila.
— Sim... É o próprio. Chega de dramas, meninas! É apenas um
encontro. Um encontro para despistá-lo e tirá-lo do pé da Camila.
— Se o Murilo desconfiar disso, ele vai te matar, Ana! E toda aquela
história de querer morar sozinha. Seus pais nunca lhe darão um apartamento
se desconfiarem que você vai se meter nisso... – Sarah tentou chamar a
amiga, a quem considerava uma irmã mais nova, à razão.
— Eles não precisam saber! É apenas um encontro, talvez, uns dois...
Nada me fará mudar de ideia. Murilo demorou uma vida inteira para
encontrar uma esposa e não será um tolo como aquele que arruinará a
felicidade do meu irmão. Agora, por favor, mudemos de assunto!
— Está bem, não está mais aqui quem falou! – Sarah acabava de
desistir de colocar um pouco de juízo na cabeça de Ana, pois sabia que ela
era muito teimosa para admitir que poderia estar se colocando numa
enrascada, sem falar que Ana tinha o dom para se envolver em encrencas. —
E quanto ao Gabriel?
— Quantas vezes eu terei que falar que eu e Gabriel não temos nada,
além de uns amassos vez ou outra! Foram apenas umas ficadas e pronto, não
quero namorar com ele.
— Desisto também! – Sabrina falou com a boca cheia.
— Você não tem uma sessão de fotos daqui dois dias? – Ana
estranhou o desespero da amiga para comer. Parecia uma morta de fome.
— Tenho, mas estes doces são irresistíveis... Depois eu passo à base
de sopa e salada! Aliás, é Gabriel quem vai me fotografar. – Sabrina era uma
modelo muito bem-sucedida, embora tenha se lançado na carreira apenas para
poder pagar por sua faculdade.
— Depois eu que sou a louca, não é?! – Ana soltou e as três riram. —
Aproveita e dá em cima do Gabriel, viu! Quem sabe assim, ele larga do meu
pé.

Naquele mesmo dia, Ana esperava impacientemente por Leandro.


Havia combinado de encontrá-lo num badalado bar que ficava perto da sua
universidade. Um ponto a menos para ele, pensou a jovem. Não tinha a
menor paciência para esperar. Ana era daquelas pessoas que se entediava
facilmente com as coisas, amava a agitação e sempre estava envolvida com
mil e uma atividades. Estava prestes a se levantar para ir embora quando
avistou Leandro. Uma verdade devia ser admitida, o cara era bonito, mesmo
com aquelas roupas sem graça que ele usava, ele era de tirar o fôlego e todas
as mulheres do recinto quase quebraram o pescoço para observá-lo.
— Aqui! – Ana não perderia a oportunidade de chamar a atenção e
deixar claro que aquele homem lindo seria sua companhia.
— Desculpe o atraso! – Leandro colocou as mãos no bolso. Era uma
das suas manias quando se sentia intimidado.
— Estava prestes a ir embora! – Ana estava sem paciência e acabou
por ser antipática.
— Acabei de pedir desculpas! Dá para ser mais agradável? – Leandro
nem sabia o motivo de a ter convidado para sair, para ser sincero consigo
mesmo.
— Não costumo ser educada com quem me deixa esperando, amor! –
Ana o encarou com raiva nos olhos.
— Esse ambiente é muito barulhento! – Leandro apontou para uma
banda de rock cover que se apresentava no palco. As luzes piscantes em
excesso também não lhe agradaram. — Pensei que...
— Doutor, sou jovem e jovens amam barulho! É claro que o vovô não
se lembra mais do que é ser jovem.
— Engraçadinha! – Mas era uma atrevida mesmo, pensou o cientista.
Ana sorriu de forma sarcástica e bebeu um gole de sua cerveja.
— Senta aí e relaxa, doutor! O que quer beber? – Ana sorriu e
Leandro foi capturado pela imagem da boca carnuda da garota, o que o
conduziu às lembranças do quanto ela beijava bem. — Então, pensou melhor
a respeito de desistir da ideia incabível de fazer as pazes com Camila?
— E o que ganharia em troca se desistisse da ideia? – Leandro não era
burro e muito menos idiota. Aquela garota lhe atraía como mulher, por que
não tirar vantagem da situação?
— O que você quer em troca? – Ana o encarou com o sorriso mais
sedutor possível. O atrevimento de Ana apenas deixava Leandro mais tentado
a entrar no seu jogo.
— Você! – Não pensou duas vezes e soltou. Leandro não costumava
agir no calor do momento, era um sujeito centrado, que estudava muito bem
cada passo a ser dado, mas naquele momento, agir com cautela não fazia o
menor sentido. Ela era provocante e evitá-la havia se tornado impossível.
— Eu? Como? – Ana não era uma covarde e, por mais que aquilo
estivesse passando dos limites, não era mulher de acovardar-se. Não seria a
Ana se jogasse a tolha. Leandro poderia ser um gênio da física, mas ela era
esperta também.
— Toda você! Quero ver até onde seu atrevimento pode chegar, Ana
Margarida! – Pela primeira vez, a jovem sentiu prazer ao ouvir seu nome
completo. Odiava seu nome e, por essa razão, preferia ser chamada apenas
por Ana. Mas na boca de Leandro soou sexy, sentiu-se desejada.
— Não há limites para o meu atrevimento, doutor! – Era o sinal de
que Leandro precisava para continuar.
— Pois então, seja atrevida e me convença a abandonar meus planos
em relação à sua cunhada. – Um breve silêncio pairou no ar.
— Está me desafiando? – Ana o fitou novamente e um leve brilho em
seus olhos castanhos escuros demonstrava que talvez estivesse hesitante.
— Interprete da maneira que julgar melhor.
— Pois acredito que acabou de me desafiar! Aceito o desafio e
garanto que me sairei muito bem em convencê-lo. – A garota se levantou e
foi para o colo de Leandro, deixando-o atiçado e excitado, além do decoro.
Os lábios de Ana foram até o pescoço de Leandro e leves mordidinhas
seguidas de beijos suculentos foram deixados ali. Era a hora de Ana mostrar
que não estava para brincadeiras.
— Você vai implorar por mais, Leandro, e quando você implorar, eu
vou te dar o maior pé na bunda. – Ela cochichou e Leandro gemeu. Não sabia
ao certo o porquê de ter gemido, se de prazer ou de frustração. Ana tinha uma
boca grande demais para o seu gosto, mas era uma boca forjada para o
pecado da carne, feita para o prazer de um homem. Sua boca salivava por
aquela mulher atrevida. Puxou-a pelo queixo e invadiu-a determinado a
extrair tudo o que podia daquela boca quente e irritante.
Leandro afrouxou o beijo, mas sem desgrudar completamente da boca
de Ana, sussurrou. — Veremos se serei chutado, Ana Margarida! – Meteu as
mãos dentro da blusa de Ana e acariciou delicadamente as costas da bela
mulher. Ela era macia demais, perfeita demais. Sabia que era errado, que
aquilo só lhe traria mais problemas do que tinha, mas não conseguiu se conter
e que Deus o ajudasse, porque estava louco para ter mais do que apenas
beijos com ela.
Ana afastou-se de Leandro e fitou-o. O brilho dos seus olhos azuis a
cegaram por um breve momento. Era incapaz de raciocinar sobre o próximo
passo a ser dado. Queria ir além com Leandro, queria entregar-se àquele
sentimento maluco que acabava de experimentar. O beijo do homem era bom
demais para uma simples mortal como ela. Mas a sua consciência gritava
para que recobrasse o juízo. Que se danasse o juízo, pensou. Nunca foi de
ligar para os gritos de sua consciência e não seria agora, quando havia
encontrado o homem com o beijo mais perfeito do mundo, que iria sucumbir
aos ditames da razão. Ana era movida pela emoção, amava sentir a adrenalina
correndo por suas veias e não pensou duas vezes ao entregar-se ao momento
de corpo e alma. No entanto, não seria Ana se não o fizesse com estilo.
— O que está esperando para me convidar para sair daqui, doutor? –
A morena mordiscou o queixo de Leandro, extraindo dele um gemido rouco.
Leandro não sabia o que fazer. Era novo nessa coisa da paquera e
sedução, melhor dizendo, era inexperiente, pois apenas namorou uma única
vez. Camila era uma mulher decidida, que não esperava por convites, fazia as
coisas a sua maneira.
— Para onde quer ir? – Leandro perguntou ainda com Ana em seu
colo.
— Você é sem noção mesmo, doutor! – Para o constrangimento de
Leandro, Ana gargalhou chamando a atenção para os dois.
— Olha... Eu não sei muito bem o que devo fazer... – Leandro ficou
sem jeito.
— Tudo bem! – Ana saltou do colo do cientista, puxando-a pela mão.
— Vou facilitar as coisas para o seu lado, mas não se acostume mal, porque
gosto de ser muito bem tratada, afinal, sou mulher e mulheres amam ser
mimadas.
Ana parou em frente ao toalete feminino. — Você enlouqueceu, só
pode! Não vou entrar aí, de jeito maneira!
— Está com medo, Leandro? – Ana o fitou com semblante divertido.
— É claro que não, mas... – Leandro, na verdade, não sabia o que
responder. Nunca esteve numa situação tão constrangedora antes. Estava
louco de vontade de dar o próximo passo, mas ao mesmo tempo, sentiu-se
desconfortável em ter que fazê-lo dentro de um banheiro de um bar. — É
pegar ou largar! Ninguém mandou não pensar nisso. Ah... Mas o senhor
gênio da matemática, doutor da física, não teve espaço na sua agenda...
— É astrofísico! – Ana o olhou de esguelha. — Tenho pós-doutorado
em astrofísica.
— Que seja... Para o que vamos fazer não precisa nem o ensino
fundamental. – Ela era impossível mesmo, pensou Leandro. Ana o puxou
para dentro do banheiro. Leandro, deixou-se levar pela emoção e a vontade
de colocar um ponto-final naquela confusão de sentimentos que a morena lhe
despertava desde o primeiro dia.
Entre tropeços e beijos, meteram-se dentro de um dos box. Ana
abaixou a tampa do vaso sanitário e subiu nela de modo que conseguisse ficar
na altura de Leandro. A adrenalina corria pelas veias de Leandro e todo seu
sangue parecia ter migrado para as partes mais baixas de seu corpo.
— Me diga que você trouxe camisinha? – Ana perguntou, sem
paciência. Seria um banho de água fria, mas era uma garota responsável,
maluca sim, mas com responsabilidade. Leandro hesitou e congelou por um
momento. — Puta que pariu, você não trouxe camisinha! – Ana deu um
empurrão em Leandro e saiu como um foguete do box. — Sem camisinha, a
noite terminou, cara!
— Calma, garota!
— Calma nada! Você é muito sem noção mesmo. – Ana saiu do
banheiro deixando o cientista embasbacado para trás, com uma vontade
sobrenatural de esmurrar a parede. Como pôde ir para um encontro com uma
gata como Ana e esquecer os preservativos?
Os dias passaram e Leandro não conseguia tirar Ana dos seus
pensamentos. Nunca uma mulher havia mexido tanto com ele quanto Ana.
Nada e ninguém foram capazes de o fazer sair de sua zona de conforto até
então. Estava obcecado pela linda morena. Tentou se concentrar no trabalho,
tomou um banho de mar, matriculou-se numa academia e nada foi capaz de
afastar a garota dos pensamentos.
Deitado de costas na cama, olhando para o teto, Leandro riu de sua
situação. A danada havia lhe dito que iria afastá-lo de Camila e não é que
estava certa? Malditos 10 dias no Rio de Janeiro e nem sequer havia
lembrado de Camila e de sua determinação em ajeitar as coisas com a
ruivinha.
Aquela situação já havia passado dos limites e não havia alternativa a
não ser resolver seu primeiro problema, um problema com um corpo
escultural, uma boca malditamente feita para o beijo e que era uma diaba
difícil de domar.
Uma ideia surgiu em sua mente. Pegou o celular que estava ao seu
lado e discou para Malu. — Lê! – Malu atendeu na primeira chamada.
— Boa tarde, Malu! Preciso de um favor seu! – Leandro pediu o
número de telefone de Ana. A amiga era a pessoa certa para se pedir uma
gentileza como essa. Malu não costumava exigir explicações ou julgar as
pessoas pelos seus atos sem ter uma exata noção de tudo e Leandro não
queria envolver mais pessoas na delicada relação que mantinha com a irmã de
Murilo.
Assim que se despediu de Malu e encerrou a ligação, digitou uma
mensagem e enviou para Ana, convidando-a para um jantar. Talvez não fosse
o mais apropriado para uma jovem de 20 e poucos anos, mas era o que
Leandro sabia fazer. Abriu o notebook para pesquisar um lugar agradável
para se levar uma mulher. Um bipe chamou sua atenção. Era Ana.
Depende! Se você prometer não me deixar na mão, talvez eu aceite.
Malcriada como sempre, pensou o cientista. Não sabia o que
responder. Desejou ser sarcástico na resposta, mas reconsiderou, pois
precisava tirar a prova dos nove e Ana de sua cabeça. Apenas se limitou a
responder um “prometo”. Quase que instantaneamente, uma nova mensagem
chegou.
Passa me buscar a que horas?
Leandro acabava de se colocar em uma saia justa, em outras das
muitas que havia se metido desde que desembarcou no Rio de Janeiro. Seu
carro estava em Porto Alegre. Os anos de namoro com Camila acostumaram
mal Leandro. A arquiteta sempre estava a par das suas necessidades, decidia
os lugares onde jantariam e, na maioria das vezes, Leandro sequer precisava
se preocupar com o transporte.
Pela demora na resposta, parece que o doutor bundão não tem meios para
chegar até mim.
Me passa seu endereço que passo para te buscar, de preferência rápido,
antes que eu acabe mudando de ideia.
Leandro bufou diante da tela do telefone, tamanha era o atrevimento
da garota. Sentiu-se despeitado e ferido em sua masculinidade. Era certo que
não estava acostumado a paquerar, mas também não era necessário partir para
ofensas, pensou. Por outro lado, talvez seus amigos estivessem certos e
realmente fosse o verdadeiro culpado pelo desgaste de sua relação com
Camila. Ana poderia lhe ser de grande ajuda, ao final. Com ela, poderia
aprimorar e refinar as técnicas da conquista.
Depois de acertar seu encontro com Ana, Leandro se barbeou e tomou
banho. Procurou uma roupa mais elegante e moderna para vestir. Sem querer,
vestiu uma camisa polo azul, um dos últimos presentes de Camila. Ela dizia
que o azul realçava seus olhos e contrastava com seus cabelos negros.
Provavelmente, Ana escolheria um restaurante despojado e acreditou que
suas vestimentas estavam apropriadas. Nunca, antes, havia se preocupado
com a aparência ou com as roupas que vestia, mas queria chamar a atenção
da morena. E isso era uma total loucura.
Para não irritar Ana, desceu 5 minutos antes do horário combinado.
Ela havia sido muito clara quando disse que não tolerava atrasos. Sentou nas
escadas em frente ao edifício localizado em Ipanema e respirou a brisa fresca
da noite. Olhou para o céu e perdeu-se entre a infinidade das estrelas. Sabia
de cor e salteado o nome de cada uma das constelações e imaginou-se a
contá-las junto a Ana.
Uma buzina o despertou para a realidade e uma triste conclusão lhe
chegou: Ana era muito barulhenta para apreciar o silêncio da noite.
— Vamos! – Ana baixou o vidro e praticamente gritou. Era óbvio que
o carro seria de uma cor chamativa. Amarelo não estava entre as suas cores
preferidas mas combinava com a alegria de Ana.
— Boa noite! – Já acomodado no carro, Leandro fechou a porta e
inclinou-se para dar um beijo no rosto da jovem. — Está muito bonita. – Ana
vestia uma calça jeans desbotada com uma blusa vermelha. Seus cabelos
estavam soltos e levemente enrolados nas pontas.
— Olha.... Você teve sorte, sabe! Jamais sairia com um ser tão
insensível se não estivesse tão obstinada a mantê-lo fora do alcance de minha
cunhada. – Ana não perdeu tempo em provocá-lo.
— Você precisa quebrar o clima sempre, não é!?
— Clima! Você é um tremendo de um cara de pau mesmo. Não há
nenhum clima para ser quebrado. Já te falei que uma mulher gosta de ser
mimada e surpreendida. Dei todas as dicas, mas você como sempre é um
tremendo de um sem noção. Um ogro, daqueles bem ogros, sabe... Pois bem,
um ogro consegue ser mais sedutor e romântico que você.
— Você também não me motiva muito para ser romântico! – Se não
fosse a vontade louca de levá-la para cama, Leandro a teria deixado falando
sozinha. Era uma atrevida mesmo. — Mas você gosta dos meus beijos, eu
sendo ogro ou não! – Ana mostrou a língua e o cientista riu apesar de se
sentir desconfortável.
Já que Leandro não fazia a mínima ideia de onde ir, Ana o levou para
um barzinho que servia o melhor hambúrguer da cidade. Um pouco de
gordura e carboidrato lhe faria bem, pensou a jovem.
— Você sempre come essas porcarias? – Perplexo, Leandro
perguntou.
— Umas duas ou três vezes por mês. Nem me olhe com essa cara,
doutor, porcaria até pode não fazer bem ao coração, mas faz bem para a alma.
– Olhando por este ângulo, ela tinha razão, pensou o cientista.
— Tem uma coisa que não sai da minha cabeça, Ana! O porquê de
você querer tanto me manter afastado de Camila?
— Achei que fosse inteligente o suficiente para saber que quero
assegurar a felicidade do meu irmão. – Ana pegou uma batata frita e molhou
no milk shake. Leandro não conteve sua cara de nojo. — Eu se fosse você
experimentaria, misturar o doce com o salgado é muito bom. – A cara de
prazer em Ana, o despertou para o desejo. A morena molhou mais uma batata
frita no líquido gelado e cremoso e levou até a boca de Leandro. Não
resistindo, Leandro pegou a mão de Ana e beijou-a delicadamente. Aquele
gestou foi meloso demais, mas tão quente, pensou. — E aí, gostou?
— Delicioso, mas nada se compara ao sabor do seu beijo! – Leandro
sorriu sedutoramente e Ana estremeceu. Ele era quente como o inferno e
sentiu uma vontade de beijá-lo. Mas não devia, não neste momento.
Precisava descobrir suas reais intenções com Camila.
— Por que você quer se reconciliar com Camila? Por que agora que
ela está casada e feliz? – Tratou de ir direto ao ponto.
— Temos que acertar os ponteiros, mocinha! – Leandro falou sem
largar a mão de Ana. — Não quero destruir o casamento de Camila com seu
irmão. Ela fez a sua escolha e quero que seja feliz, mas não posso conviver
com esse peso nas costas, Ana. Eu tive uma história de vida com Camila,
foram anos de companheirismo.... Eu fui um canalha por deixá-la para trás.
— Mas você não a ama mais?
— Olha Ana... – Leandro pareceu nervoso e hesitante demais aos
olhos de Ana. — Eu fui apaixonado pela Camila. Quem não se apaixonaria
por uma mulher tão linda e inteligente quanto ela? Assim que a vi, me
apaixonei. Ela era a garota mais disputada da Universidade e por uma sorte
do destino ou talvez um erro mesmo, ela me escolheu dentre os caras mais
fodas que a queriam. Começamos a namorar e não podia estar mais
encantado com uma garota como estava por ela.
— Então o que aconteceu para você a deixar no dia do casamento?
— Você pode achar estranho ou julgar que eu irei mentir para você,
mas Camila mudou muito. Aquela ruivinha sonhadora e idealista por quem
me apaixonei deu lugar a uma mulher extremamente controladora e ocupada.
Nosso relacionamento caiu numa monotonia, onde ela decidia tudo e eu
acatava e foi assim que, em um dia, me vi com o casamento marcado e rumo
a uma vida que eu não sabia se queria para o resto dos meus dias. – Leandro
pegou uma batata frita e molhou no milk shake, imitando o gesto de Ana.
Degustou com prazer. A mistura realmente era gostosa.
— Deixa ver... Você está me dizendo que não quer Camila de volta,
mas que apenas quer pedir desculpas para se livrar do remorso e seguir em
frente? – Ana ficou estarrecida com a revelação do cientista. Poucos homens
que conheceu teriam esse tipo de consideração. — Eu não entendo! Para que
tanto esforço se você não a quer de volta?
— Ana, eu e Camila temos amigos em comum, amigos queridos,
temos uma afilhada, a Beatriz, como você já deve saber.... Isso nos conduz a
conviver juntos e do jeito que as coisas estão, não é possível, sempre existirá
esse assunto mal resolvido a pairar sobre nós. – Ana ficou em silêncio, sem
saber ao certo o que pensar e muito menos o que dizer, pois Leandro poderia
muito bem estar mentindo apenas para tirar proveito de sua boa vontade. —
O que foi? Não acredita em mim?
— Não sei se devo acreditar em você, Leandro! – Ao menos ela o
chamou pelo nome, pensou. — Na verdade, eu mal sei o que de fato
aconteceu entre você e Camila. Ela nunca tocou no assunto comigo. Por outro
lado, eu sei que Murilo nunca suportou a mera menção do seu nome e ainda
tem Daniel, que o dia em que o ver, vai quebrar seu nariz.
— Eu sei! – Leandro jogou-se na cadeira. — Daniel é a versão
masculina da Camila. Com certeza, não vai deixar barato. – Ana riu e
Leandro não deixou de perceber o quanto ficava bonita ao sorrir.
— Você precisava ver o que ele fez com o Murilo! Foram em duas
oportunidades diferentes, para ser mais exata. Uma no hospital quando ele
descobriu que Murilo havia engravidado a irmã, logo após o resgaste de
Camila. Você sabe que Camila foi sequestrada por uma das antigas amantes
do meu irmão, não é? – Apesar de não saber com detalhes, Leandro
concordou com a cabeça. — A segunda vez foi no dia do casamento deles.
Camila estava desmaiada e sangrando aos pés da escada da mansão do meu
irmão. Murilo havia entrado num estado catatônico e Daniel foi lá e meteu a
mão na cara do meu irmão.
— Não duvido que Daniel tenha feito isso! Era um pitbull aquele lá. –
Ana sorriu novamente e Leandro se levantou de modo a ir sentar-se ao lado
da morena.
— Eu posso?
— Claro. – Ana respondeu sem jeito, não esperava por isso.
— Você é linda, Ana Margarida! Você tem povoado meus
pensamentos o tempo todo e não sei ao certo o motivo disso... E para ser
sincero e contrariando todas as recomendações, eu quero muito saber para
onde esse sentimento me levará. Eu queria muito que você me desse a chance
de experimentar essa coisa nova que você desperta em mim.
— Oh...
Leandro puxou o rosto de Ana de maneira que pudesse fitá-la nos
olhos. — Eu sei que não sou o tipo de homem que você está acostumada a
sair, que me visto mal, sou nerd demais, atrapalhado e atrasado na maioria
das vezes, mas eu gostaria muito que me desse uma chance, de verdade, não
pelo fato de querer me afastar de Camila ou para defender a felicidade de seu
irmão. Me dê uma chance e uma oportunidade de tentar conquistá-la.
O coração de Ana pareceu sair pela boca. Leandro era tudo o que ela
nunca quis em um namorado, mas era tão fofo e lindo que não resistiu e
beijou-o. Ele havia admitido seus erros e Ana sabia que para um homem era
difícil fazê-lo sem ferir seus brios de macho. Leandro pareceu verdadeiro e
seria uma tola se não admitisse que ele mexia com ela. Todas as
probabilidades indicavam que se envolver com Leandro iria se converter num
desastre de proporções homéricas, mas não aguentava mais lutar contra o
instinto de entregar-se a ele. E assim o fez, deixou-se levar pelo desejo e
entregou-se de corpo e alma ao beijo de Leandro e que os anjos os
abençoassem porque iriam precisar.
O ambiente do bar havia ficado abafado e carregado de tensão
sexual. As carícias se intensificavam na medida em que Ana e Leandro
entregavam-se aos instintos mais carnais. Os beijos tornaram-se pecaminosos
demais, mesmo para um bar despojado e frequentado por jovens
universitários.
— Temos que sair daqui! – Leandro resmungou sem se afastar da
boca da morena.
— Não vai dar tempo! – Ela respondeu ofegante.
— O que pretende?
— Vamos para o banheiro! – Lá vinha ela novamente com a ideia do
banheiro.
— Isso não é certo. – O cientista tentou chamá-la à razão, mas ela não
ligou ou se preocupou em dar atenção. Era uma maluca mesmo, uma maluca
totalmente deliciosa na sua opinião.
— Venha... Não seja chato! Se vamos avançar o sinal que seja com
estilo, doutor! Não seja um bundão, Leandro! – Leandro odiava que o
chamassem de bundão.
— Vamos ver quem é o bundão, Ana Margarida!
— Não me chame por meu nome completo. Eu o detesto!
— Então estamos quites, pois doutor bundão não é meu apelido
favorito, Ana Margarida!
— Cala a boca, Leandro! – Ana o puxou para fora da mesa, tomando
a direção dos banheiros. Leandro estava a ponto de cometer a maior
insanidade da sua vida, sabia que não era o certo a ser feito, mas não
conseguia pará-la. Desejava-a e necessitava senti-la por inteiro.
— Mas no banheiro feminino!? – Definitivamente, a morena era
louca.
— Me recuso a ir para o banheiro masculino... A higiene é péssima e
além disso sou uma menina. – Ana era muito determinada e acabou por
arrastar Leandro para dentro do banheiro feminino, precisamente para dentro
de um dos box, como na outra noite.
Fagulhas percorriam o corpo do cientista de ponta a ponta, deixando-o
excitado como nunca havia estado antes. Sua tão típica racionalidade cedeu
lugar a mais pura e inebriante luxúria. Ana estava de calças jeans e isso não
ajudaria em nada, mas pouco importava se tivesse que a despir por completo,
o faria, pois a desejava mais do que qualquer coisa. Incapaz de se conter por
mais um minuto sequer, Leandro deslizou suas mãos por baixo da blusa da
jovem e ao chegar ao sutiã, desprendeu os ganchos, liberando seus seios do
aperto torturante, envolvendo-os com suas fortes mãos. Ana gemeu e fincou
as unhas no pescoço de Leandro.
— Não tenho preservativo! – Leandro bufou. Era um verdadeiro asno,
mesmo tendo um QI muito desenvolvido. Como pudera falhar novamente?
— Por que será que isso não me é uma surpresa? – Ana mordiscou o
lóbulo da orelha de Leandro.
— Você tem pouca fé em mim, Ana!
— Você só me deu motivos para isso! Eu tenho preservativos, doutor!
— Boa garota!
— Mas já adianto que é camisinha feminina. – Leandro arregalou os
olhos. — Nem me olhe assim, Leandro! Se eu tenho que ser a que se ocupa
deste tipo de assunto, nada mais justo de que eu escolha o modelo.
— Porra, Ana! Camisinha feminina é muito complicada de colocar. –
Leandro era um sujeito paciente e calmo, mas naquele momento não havia
tempo para esperar, estava disposto a abrir uma exceção e transar com uma
garota maluca dentro de um banheiro de bar, o que era uma tremenda de uma
loucura, ele sabia.
— Quem disse que terei que colocar qualquer coisa?! Sou uma garota
preparada, diferente de certos doutores que conheço por aí... – Leandro a
calou com um beijo provocativo.
— Sua danada, você já veio ao meu encontro com segundas
intenções. – Só mesmo uma garota como Ana seria capaz de tamanho
atrevimento, pensou o cientista.
— Como falei... Quero você afastado da minha cunhada, para o bem
do meu irmão. Tem mais uma coisa. – A morena se afastou um pouco do
cientista, de forma a abrir a bolsa e tirar de lá um tubo que foi entregue ao
homem. Era um tubo de gel lubrificante. —Acho melhor usar isso.
— Você veio preparada para uma guerra e não para uma transa! –
Leandro não conteve o riso e soltou uma gargalhada.
— Sou uma mulher prática e nada boba. Já que vamos fazer isso que
seja prazeroso para os dois... A camisinha feminina não é a mais apropriada
quando o assunto é lubrificação. – Ana acabava de abrir o zíper das suas
calças.
— Então, porque não comprou preservativos masculinos? Parecem-
me mais práticos.
— Porque sou menina! Recuso-me a entrar numa farmácia para
comprar coisas de meninos. – Leandro entendeu a mensagem que a morena
deixou nas entrelinhas; deveria ser mais cuidadoso e tratar de comprar
preservativos.
As calças de Ana deslizaram para baixo e Leandro a virou de forma
que ficasse de costas para ele. Era o jeito mais prático e rápido para tê-la, pois
não aguentava mais e queria muito avançar para seu interior macio e quente.
A morena puxou seus cabelos para o lado e Leandro mordiscou toda a
extensão do seu pescoço. Ela era cheirosa demais, gostosa demais, forjada no
calor do prazer e perfeita para saciar os desejos mais primitivos de um
homem, pensou.
— Isso é loucura! – Leandro soltou assim que sentiu o aperto de Ana
sobre sua rigidez.
— Arrependido? – Ela perguntou provocativa, pois Ana era assim,
provocativa e sedutora como nenhuma mulher conseguiria ser.
— Porra, Ana! É claro que não estou arrependido... Você é gostosa
demais. – Intensificou as investidas, extraindo da morena um gemido. —
Vem cá! – Leandro saiu de dentro do corpo da garota, virando-a de maneira
que ficasse de frente para ele. — Quero-a assim! Quero-a de frente para mim,
para poder beijá-la. Eu sou totalmente louco pelos seus beijos. Você é uma
delícia! – Leandro grudou-se na boca de Ana, desejava invadi-la de todas as
formas possíveis e prensá-la contra a parede. — Livre-se das calças, delícia!
– Ana atendeu o pedido sem hesitar e isso a assustava muito, pois jamais um
homem havia despertado tanto desejo nela quanto Leandro. Ele poderia ser
um abandonador de noivas e um bundão, mas era um tremendo de um
gostoso. Podia se vestir sem estilo ou preocupação, mas era bom de se pegar
e tocar.
— Boa garota! – Leandro empurrou o corpo de Ana contra a parede e
a ergueu no colo. — Você me deixa louco, Ana Margarida! Não precisou
nem do lubrificante...
— Não?!
— Não... Você é deliciosa demais, para que lubrificante!
— Leandro?
— Fala! Sou todo seu...
— Quero mais forte! – Ela queria mais forte e o simples pedido que
saiu dos lábios mais quentes que havia provado foi o elixir de que Leandro
necessitava para se perder no corpo da morena. Com arremetidas fortes e
rápidas, o pulsar do coração de Leandro aumentava consideravelmente. Ana,
por sua vez, gemia e pronunciava palavras desconexas, mas muito sensuais
para os ouvidos do cientista. A entrega de Ana fascinava Leandro, nunca
havia sido assim com Camila. A ruiva sempre tomou para si o que desejava,
mas com Ana era diferente, ela exigia que ele a satisfizesse, que ele a
contemplasse e amasse como nunca antes outra havia o feito querer amar uma
mulher. Estava perdido, ele sabia.
— Porra, Ana! Você é apertada demais... – Ele exclamou ofegante.
— Você ainda não viu nada, doutor fodão!
— Gostei do doutor fodão! Só me deu mais vontade ainda de me
acabar dentro de você!
— Então se acabe, doutor fodão! – Ana o provocou e Leandro não foi
capaz de se conter mais, liberando-se dentro de Ana. Ela era linda, quente,
deliciosa e perfeita demais para o sexo.
Leandro sentou no vaso sanitário, levando consigo a bela
universitária. Ana estava corada, ofegante e suada, resultado da mais louca e
inebriante transa. Leandro estava em êxtase com o que acabara de acontecer.
Sentia-se aliviado da tensão dos últimos dias. A troca de insultos e
provocações dos últimos dias havia tirado sua paz e tudo não passou da mais
forte tensão sexual de sua vida. Sentia-se pleno agora, com sua morena em
seu colo.
— Precisamos sair daqui! – Ana puxou Leandro de volta para a
realidade. Por que ela tinha que ser tão irritante? Pensou o cientista.
No dia seguinte, Ana despertou ofegante e suada. Havia
sonhado com o cientista abandonador de noivas no altar e, para seu
desespero, ela havia gostado do que sonhou. Saltou da cama, determinada a
tomar uma ducha e tirar Leandro dos seus pensamentos. Aquele homem não
era certo para ela, nem aqui, nem na China. Só o que faltava, pensou,
apaixonar-se justo pelo cara que brincou com os sentimentos de Camila.
— Bom dia, minha filha! – Carlos levantou da mesa, a fim de puxar a
cadeira para a filha. Era um cavalheiro e sempre havia tratado ela e sua mãe
de forma elegante e carinhosa.
— Bom dia, pai! Bom dia, mãe! – Ana exclamou.
— Parece cansada, minha filha! – Letícia olhou de maneira
preocupada para sua caçula.
— Dormi um pouco mal! Tive pesadelos horríveis. – E muito
indecentes, pensou a jovem.
— Tem certeza de que só foi uma noite mal dormida? – Letícia
perguntou, pois sua filha não era dada a pesadelos ou insônia.
— Tenho sim, mãe!
— Não está para ficar resfriada? – Carlos também perguntou.
— Meu Deus, vocês acordaram mais médicos do que nunca... – Ana
jogou as mãos para o alto, um pouco cansada com o interrogatório dos pais.
— Foi apenas uma noite mal dormida! Tenho passado por muito estresse,
final de faculdade, TCC para entregar, os dois escritórios e ainda tenho que
decidir qual carreira quero seguir. – E para fechar com chave de ouro, havia
se metido numa confusão com um moreno maravilhoso de olhos azuis, mas
isso Ana preferiu omitir.
— Você sabe muito bem que pode esperar para decidir a carreira mais
adiante! – Letícia falou com seu jeito objetivo. — Nem eu, nem seu pai
estamos exigindo nada.
— Eu sei. – Ana desabou na cadeira. — Acontece que já estou com
24 anos e está mais do que na hora de dar um rumo na minha vida.
— Fico orgulhoso de que pense dessa maneira, querida! – Carlos
acariciou a mão da filha, que descansava em cima da mesa. — Porém, é ainda
muito nova e não há o porquê se apressar.
— Olha... – Ana revirou os olhos, precisava manter a calma e não
explodir. — Não é um bom dia para este tipo de discussão. – Ana levantou da
mesa, pegando uma fruta para comer no caminho. Não queria chegar atrasada
no trabalho. Era o dia em que faria expediente na empresa do irmão.
Ao chegar na Alcântara, Telles & Neves, cumprimentou rapidamente
Dona Olga, a secretaria fofinha e simpática dos arquitetos e foi para a sala de
Elisa, sua chefe, que a aguardava para discutir um projeto importante. Elisa
Almeida Lopes era uma brilhante e bem-sucedida arquiteta e designer de
interiores, viúva de um dos amigos do irmão de Ana e mãe de Tiago, o garoto
que todos achavam ser filho do falecido e que, na realidade, era filho de Edu.
Depois do sufoco pelo qual passou com a saúde do filho, Elisa merecia ser
feliz ao lado do homem que amava. Esse homem era o irmão de Camila,
Daniel Rossini. E para fechar a confusão, Edu havia se casado com Malu, que
por sua vez, teve um affair com Daniel. Era muita confusão para a cabeça de
uma pessoa comum, pensava Ana.
— Olá, Ana! – Elisa sorriu mais bela do que nunca. Ana desejava
chegar aos 40 anos com o mesmo charme da chefe. — Está bem?
— Devo estar péssima, pois não é a primeira pessoa que me fala isso!
Enfim... Apenas uma noite mal dormida e final de faculdade.
— Entendo! Ana, preciso contar uma novidade!
— Ai meu Deus... Não me diga que...
— Sim! – Elisa sorriu feliz. — Daniel me pediu em casamento e eu
aceitei. – Ana correu para abraçar a chefe, que acima de tudo, era uma
querida amiga.
— Fico feliz por você, muito feliz! – E Ana ficava mesmo. Não havia
coisa mais prazerosa na vida do que ver seus entes queridos felizes. — E
como vocês irão fazer? Daniel se mudará para o Rio de Janeiro?
— Oh não! Daniel não pode se mudar para cá, Ana! Ele é o presidente
da Construtora Rossini e com Camila aqui também, não há como ele deixar
os negócios em Porto Alegre.
— Ele pode muito bem abrir uma filial aqui no Rio, Elisa!
— Sim, ele pode! Porém, não se faz apropriado no momento, diante
da crise econômica pelo qual o país passa. Além disso, a construtora tem toda
uma tradição.
— Você não fica chateada por isso? Sei lá, Elisa, não sei se eu teria
coragem de largar minha vida para seguir um homem.
— Talvez seja porque você ainda não encontrou o homem que a fez
querer largar qualquer coisa, o homem pelo qual seu coração dispara e sente
vontade de cometer loucuras o tempo todo. – Talvez, Elisa estivesse coberta
de razão, pensou Ana.
— Uau, Elisa! Você está muito apaixonada pelo Daniel.
— Eu o amo, Ana! Tenho certeza de que logo você encontrará alguém
e conseguirá me compreender. – Os pensamentos de Ana foram direto para
Leandro, mas ela preferiu desviar sua atenção para outra coisa. Não era bom
ficar pensando no inútil, mas muito gostoso, do cientista.
— E o seu trabalho?
— Pretendo seguir carreira solo... Nem sei se é assim que se fala!
Daniel já contratou um corretor para encontrar um imóvel bem localizado
onde eu possa abrir meu escritório. Quanto a minha vaga aqui, pretendo
indicar seu nome para ocupá-la. Ainda não conversei com os sócios, mas
acredito que nenhum deles levantará objeção. – Ana gelou, pois não sabia se
queria ser designer de interiores.
— E o casamento será aqui ou em Porto Alegre? – A morena trocou
de assunto, não estava preparada para dar uma reposta para Elisa e muito
menos para os sócios. Quando o momento chegasse, iria se preocupar.
— É lógico que é aqui! Disso não abro mão. Tiago também está
muito animado em viver em Porto Alegre e depois ele tem o pai aqui e
poderá voltar sempre que desejar.
— Então, quem diria que Tiago fosse se dar tão bem com o Edu, ele
tem sido um pai incrível. – Elisa concordou com a cabeça. — Malu também o
adora, não é?!

Enquanto isso...
Leandro e Fabrício conversavam animadamente na sala de
professores da faculdade onde Fabrício lecionava. O assunto era a
participação do astrofísico na aula do amigo. O universo sempre era um tema
fascinante e despertava a curiosidade dos alunos.
— Onde esteve ontem à noite? – Fabrício perguntou, empurrando os
óculos em cima do nariz.
— Eu saí! – Surpreso, Fabrício o olhou com ar inquiridor. — O que
foi, Fabrício? Eu saí com uma garota!
— Não foi nada demais, apenas achei estranho você sair e com uma
garota. Mas a vida é sua, não é, não me deve satisfações...
— Tudo bem, eu quero falar a respeito. Cara, isso está me
consumindo...
— Por que estaria? Penso que você tem que tocar sua vida...
— Às vezes, me pergunto o porquê a minha vida não foi tão simples
como a sua. Você e Isabela se amam desde o primeiro olhar, casaram,
tiveram filhos, dividiram sonhos...
— Não é bem assim, temos problemas, Leandro! Problemas como
qualquer outro casal. A diferença é que a gente tenta resolver as coisas com
diálogo e muito respeito.
— Isso foi uma indireta para mim?
— Interprete da maneira que julgar apropriado. – Fabrício se serviu
de um café. — Posso saber quem foi a eleita?
— A Ana Margarida! – Leandro soltou logo, antes que se
arrependesse.
— Opa... Não vai me dizer que... Não! Para! Você pegou a irmã do
marido de sua ex-noiva? – Leandro concordou com um simples balançar de
cabeça. — Você está fodido, homem!
— Eu sei! O pior de tudo é que eu achei que saindo com ela, eu a
tiraria da cabeça, mas só piorou, cara!
— Bah... Você gosta de arrumar sarna para se coçar, Leandro! A Ana
é uma garota linda, eu sei, mas é irmã do Murilo e nem vou falar que a garota
é atrevida, “tu tá ferrado”! Sei lá, acho que você deve saltar fora antes que
seja tarde!
— Já é tarde... – Leandro colocou as mãos nos bolsos, uma mania
adquirida há tempo. — Eu gostei de estar com ela e bem, ela é gostosa
demais.
— Para! Não vai me dizer que você dormiu com a Ana?! – Fabrício
arregalou os olhos claros diante do choque com a constatação. — Olha, só
tenho uma coisa para dizer, você só pega gata, irmão!
— Quem só pega gata? – Malu acabava de juntar-se aos amigos.
— O Leandro, Malu! – Fabrício sorriu para a amiga e foi ao seu
encontro para um abraço. — Achei que não viesse mais.
— Imagine que perderia uma palestra do nosso astrofísico. Estou
louca para saber as novidades. Voltando ao assunto, quem Leandro pegou? –
Maria Lúcia era muito chegada aos amigos e sentia-se em casa na presença
dos dois.
— Ninguém! – Leandro não achava prudente revelar o nome da
garota justo para Malu que era uma das melhores amigas de Camila.
— Como ninguém?! Fabrício acabou de afirmar, eu ouvi bem, que
você pegou uma gata.
— Pois é melhor contar logo para a Malu! – Fabrício comentou. —
Quando esse rolo vier à tona, é melhor ter a Malu por aliada!
— Por Einstein, agora fiquei com medo! – Malu olhou séria para os
amigos e um silêncio constrangedor se fez presente entre os três cientistas. —
Olha, não querem me contar, tudo bem! É claro que eu irei descobrir quem é
a gata misteriosa do Leandro, é só uma questão de tempo.
— Foi a Ana! – Leandro soltou sem pensar muito. Além disso,
confiava na amiga. Ela sabia separar muito bem a amizade que mantinha com
os rapazes da amizade que mantinha com as garotas. Sempre havia
funcionado muito bem e não seria agora que as coisas seriam diferentes. Ele
precisava do conselho dos amigos, não queria cometer os mesmos erros do
passado.
— A Ana? A minha amiga Ana? A Ana, cunhada da Camila? Irmã do
Murilo? – Malu puxou uma cadeira e sentou-se extasiada com a confissão de
Leandro. — “Puta que pariu!” Com tanta mulher por aí, você foi se envolver
com a Ana.
Apreensivo, Leandro sentou-se do outro lado da mesa, de frente à
amiga. — Malu, por favor, não comente com ninguém, muito menos com
Camila ou Isabela.
— Claro que não comentarei! Temos um código de honra, afinal.
Assuntos dos meninos ficam entre os meninos e assuntos das meninas, ficam
somente entre as meninas. Sempre foi assim e não pretendo quebrar. Ocorre
que você acabou de se meter numa encrenca sem tamanho e nem falo da Ana,
mas também do fato de que você quer se entender com a Camila. Diga como
conseguirá as duas coisas? Sim, porque há uma pessoa no meio delas que vai
surtar quando descobrir. – Malu se referia à Murilo, ao ciumento e possessivo
marido de Camila.
— Eu já falei isso para ele, Malu! – Fabrício também se sentou. Os
três pareciam discutir uma nova teoria acerca da matéria negra e não a vida
sentimental confusa de Leandro.
— Pessoal, vocês falam como se fosse algo simples, como se evitar o
que sinto por ela fosse a coisa mais lógica a ser feito. Bem... – Leandro
levantou de supetão. Sentia-se sufocado. Não era um homem que sabia lidar
bem com os sentimentos. — De fato, é a coisa lógica a ser feita, mas eu não
consigo, porra.
— Ele está ferrado, Malu! – Fabrício soltou uma gargalhada.
— Literalmente e absolutamente, ferrado! – Malu falou ainda
extasiada com a confissão do amigo.
Alguns dias depois...
Ana estava na porta da escola das sobrinhas, segurando Clara
pela mão e Mariana no colo. As duas agora frequentavam uma creche no
período vespertino e, de tempo em tempo, Ana buscava as meninas para levá-
las para sua casa a fim de que pudessem passar algumas horas na companhia
dos avôs.
— Clarinha, sua danadinha, volte aqui! – Clara se soltou da mão da
tia e saiu correndo em direção ao parquinho da escola. Bagunça devia
integrar o enorme nome da menina, pensou Ana.
— Vem também, Titia! – Clara gritou entre risadas.
— Ah se eu te pegar, menina, vou te fazer tantas cócegas! Vamos
Mari, vamos pegar sua irmã. – Mariana gargalhou. A caçulinha era mais
tímida e meiga que sua irmã, mas também muito disposta para uma bagunça.
Enquanto Clara brincava na casinha de bonecas, Ana embalava
Mariana em um dos balanços para bebês. Todas as mães e pais acabavam por
parar para elogiar a bebê, era tão fofinha. Mariana havia herdado o cabelo
encaracolado de Murilo e o ruivo de Camila, sem falar nos lindos olhos
esverdeados, era uma princesinha. Clarinha também não ficava para trás, com
os cabelos e olhos negros como a noite, cativava com seu jeitinho sapeca. Era
a molequinha da família. As amava muito. Clara e Mariana haviam se
convertido no centro das atenções da família e, sem qualquer dúvida, eram os
melhores projetos de Murilo.
— Oi! – Um menininho loirinho puxou a blusa de Ana. Era Pedro, o
caçula de Fabrício e Isabela.
— Olá, Pedrinho! O que faz aqui sozinho? Onde está mamãe? – A
morena estranhou a ausência de Isabela.
— Tio Lê quem veio pegar eu! – O menino respondeu e Ana olhou
para o lado à procura de Leandro. Um misto de sentimentos tomou conta de
sua alma naquele momento. — Onde está a Clarinha? – Pedro perguntou
sorridente.
— Está lá dentro da casinha! – Pedro saiu correndo. — Não corra... –
Pouco adiantou chamar a atenção do menino e ele acabou por cair no chão.
Leandro foi ao seu socorro muito prestativo. Ana não conseguiu
desviar a atenção de Leandro. Ele era bonito e que Deus a perdoasse, mas um
pedaço de mal caminho, sua boca salivou ao recordar do que fizeram no
banheiro do bar. Leandro era o tipo de homem que chamava a atenção pela
sua beleza natural, ele não precisava de muito, pois era dono de um porte
físico invejável e traços masculinos na medida certa, o queixo era de uma
simetria irritadamente perfeita, não havia excessos nem ausências. Não era
como seu irmão Murilo ou mesmo Edu ou Heitor, do tipo macho alfa, que
chamavam a atenção pelo excesso de testosterona que exalavam. A
serenidade de Leandro era capaz de abalar qualquer mulher e ele nem tinha
noção disso, o que lhe deixava ainda mais atraente.
O cientista pegou no colo Pedrinho e, assim que ergueu a cabeça, seus
olhos encontraram Ana, que só faltava secar a baba, mas ele nem percebeu o
olhar com segundas intenções da garota, porque Leandro era assim,
desligado, desconectado da realidade que o cercava e do quanto era bonito.
— Boa tarde, Ana Margarida! – Leandro se aproximou sorridente e
Ana sentiu vontade de sair correndo, talvez assim evitasse se jogar em seus
braços, sim, porque sua vontade era grudar-se em Leandro e beijá-lo. Existia
uma verdade inquestionável entre os dois e Ana não seria capaz de negar:
Leandro beijava muito bem.
— Em algum momento você consegue livrar-se do cientista que
habita seu corpo e deixar as formalidades de lado? – Leandro a olhou de
esguelha, um tanto confuso com a colocação da morena.
— Eu apenas lhe desejei boa tarde!
— Eu sei e também lhe desejo uma boa tarde, Leandro! Mas já somos
íntimos o suficiente para que me chame apenas por Ana.
— Ok! – Leandro respondeu sem jeito. Sentia-se incomodado com as
insinuações da garota, mas ao mesmo tempo queria tocá-la e falar-lhe o
quanto a achava bonita. Porém, nunca foi muito bom com as palavras e
desconfiava de que era muito menos com os gestos. Talvez, Camila tivesse
razão e de fato era um “bundão”, mas não queria ser um “bundão”, não para
Ana Margarida, a garota que fazia seu coração saltitar quando abria aquele
sorriso e o levava a pensamentos prazerosos do quanto era bom beijá-la. —
Esta é Mariana? – Perguntou a fim de mudar o foco da conversa e desfazer a
sensação de que havia sido um tolo.
— É sim, além de ser a princesinha da tia! – Ana pegou a menininha
no colo. — Ela é tão meiga e carinhosa.
— Ela se parece muito com a Camila! – Das duas filhas, Mariana era
a que mais lembrava a ex-noiva de Leandro, tanto pela cor do cabelo quanto
pela cor dos olhos.
— Verdade! Mas Clarinha também tem traços da Camila, ao menos,
eu acho.
— Onde está ela?
— Dentro da casinha de bonecas! Aquela lá parece que tem duas
dentro dela, não para quieta um minuto. – Ana riu e Leandro acabou rindo
junto.
— Em resumo, Clara é uma mini Camila. – Clara saiu da casinha de
bonecas e veio ao encontro de Pedro, chamando-o para se juntar à
brincadeira. — Ela se parece com você, Ana!
— Sério? – Ana perguntou encabulada.
— Muito sério! Tirando os cabelos lisos da Camila, ela lembra muito
você e não me surpreendo se pegar uma foto sua de quando criança e achar
que é a Clara. Você é linda... – Leandro se aproximou e acariciou o rosto de
Ana com o dorso de sua mão. — Eu senti sua falta! – Aquelas palavras e
aquele toque inesperado, um gesto tão autêntico e verdadeiro, mexeram com
as bases da morena. No entanto, ela não podia se deixar levar pelos
sentimentos, sentimentos que ela sabia não serem os mais corretos.
— Você não acha estranho... Falar das filhas da mulher que você
almejou dividir uma vida? Elas podiam ser suas filhas, Leandro! – Jogar
Camila na conversa parecia ser a solução para Ana, afinal, ela não poderia
esquecer que Leandro havia a abandonado no altar.
— Não sei descrever o que sinto, Ana! Eu sei que pode parecer uma
loucura, mas eu não sei descrever. Eu sei que fiz tudo errado com Camila e
me arrependo do que fiz... – Leandro afastou-se um pouco e colocou as mãos
no bolso. — Não me arrependo de ter posto um fim em toda aquela história
de casamento, sabe... Meu arrependimento está no fato de ter deixado para
fazê-lo no último momento, fui um covarde, embora eu não intencionasse ser
um. Você consegue me entender?
— Sinceramente, não! – Leandro era tão confuso ao descrever seus
sentimentos que Ana começava a duvidar de que o homem fosse um cientista.
— Ana, eu sou muito desligado para as coisas da vida, meio perdido,
eu diria, mas não é por mal. É meu jeito! Eu sempre achei que estar aí para
Camila fosse o suficiente, sabe! Que o simples fato de estarmos juntos, era o
suficiente, mas hoje eu vejo que ela ansiava por mais e, sinceramente, eu não
sei se, de fato eu queria ser o homem certo para Camila. A verdade é mais
clara do que a luz solar ou tão certa quanto um mais um são dois, seu irmão é
o homem certo para Camila. No dia da festa da Beatriz, eu percebi, pois sou
péssimo com as palavras, mas muito bom em observar, que ela se transforma
na presença de Murilo, ela emanava uma luz que me fez recordar da Camila
aos seus 20 poucos anos, a Camila pela qual me apaixonei. E o pior é que
essa luz foi apagada com o passar dos tempos e eu não fiz nada para reverter
isso, porque eu não era o homem certo para ela.
— Caraca... – Ana precisava tomar fôlego diante do que acabava de
ouvir. — Até que não foi tão ruim assim colocar para fora seus sentimentos,
não é?! Com um pouco mais de treino, você conseguirá grandes avanços. –
Leandro soltou uma gargalhada gostosa de se ouvir, pensou a morena.
— Não se anime, provavelmente, foi sua presença que me inspirou!
— Eu? Imagine só... – Hoje era o dia de Ana sentir-se encabulada,
nunca foi mulher de intimidar-se antes.
— Vamos sair novamente? – Leandro soltou, pegando Ana
desprevenida. Mariana remexeu-se no colo da tia, queria voltar para o
balanço. Ana afastou-se de Leandro, de modo a colocar a menininha no
balanço e Leandro a seguiu. — Então, Ana, o que acha? Vamos sair
novamente?
— Não é uma boa ideia! – Respondeu sem jeito.
— Por quê? – Leandro perguntou tímido. — Por que fui noivo da
esposa do seu irmão?
— Não somente por isso, Leandro! Mas também porque você não faz
meu tipo. – Leandro abaixou a cabeça em sinal de derrota e Ana sentiu-se
péssima por isso. — Olha, não é nada pessoal, sabe! É que eu e você somos
incompatíveis e também você não faz meu tipo... Eu gosto de homens mais
objetivos...
— Não te entendo! Temos química e nosso beijo é bom. – Leandro
soltou, dessa vez frustrado.
— É, até temos uma boa química, nossa noite foi boa e tudo mais... –
Ana parecia dar voltas em torno de si mesma e não conseguia concluir seu
pensamento. — É que você é muito enrolado, Leandro! Gosto de ser mimada
e me sentir o centro do cara com quem fico e você só consegue me deixar
frustrada, nem camisinha você teve a decência de levar. – Não que tivesse se
convertido em problema irreparável a falta de preservativo, mas era uma gafe
de qualquer jeito, uma gafe que poderia ter acabado com a noite dos dois, não
fosse o fato da universitária ser uma garota antenada e precavida.
— E se eu prometer que será diferente, se eu prometer que você terá a
melhor noite de sua vida?! – Leandro não sabia como iria fazer isso
acontecer, mas estava disposto a tentar. Ana despertava em Leandro
sentimentos nunca antes sentidos, sentimentos que o faziam querer superar
obstáculos para ser o melhor parceiro da vida de Ana, nem que para isso ele
precisasse assistir vídeos na internet. Dizem que não há o que não possa ser
encontrado na internet. Leandro se aproximou da jovem e pegou-a pela
cintura, trazendo-a para mais perto do seu corpo. Deixou-se levar pelos
instintos como se fosse a coisa mais certa a ser feita. Queria convencê-la a
aceitar seu convite e trazê-la para junto de seu corpo significava lembrá-la o
quanto era bom os dois juntos, o quanto haviam desfrutado dos momentos a
dois. — Vamos, Ana Margarida, aceite vai!
— Está bem! – Ela não resistiu. Um dos motivos de que não queria
que a chamasse por seu nome completo é que seus pelos se eriçavam. Odiava
o Margarida de seu nome, mas na boca de Leandro era um afrodisíaco,
despertando sensações e pensamentos luxuriosos demais.
— Jura, Ana Margarida?! – Impressão ou não, Ana pressentiu que
Leandro descobriu seu ponto fraco.
— Está prometido, agora, por favor, afasta-se um pouco... Toda essa
proximidade tem me dado... – A morena não conseguiu encontrar as palavras
corretas.
— Confessa que você sente o mesmo que eu, delícia! – Leandro
sussurrou no ouvido dela. Pronto, agora ele havia jogado sujo. — Que está
louca para repetir a dose, repetir nossos beijos.
— Sim... – Ana soltou a confissão sem perceber e odiou-se por isso.
— Quer dizer, um pouco, mas um pouquinho dos pouquinhos. Porque até que
você “trepa” bem. – Na verdade, ele era muito bom no sexo, mas Ana não ia
dar o braço a torcer. Afastou-se de Leandro, tirando Mariana do balanço e
pegando-a no colo, para evitar que o cientista voltasse a se aproximar.
— Jogando sujo! Isso não vale! – Leandro apontou para a menina no
colo da garota.
— Cada um usa as armas das quais dispõe, doutor “bundão”!
— Te pego às 8 no sábado, Ana Margarida! Só me mande seu
endereço por mensagem. Tenha certeza de que dessa vez não vou falhar. –
Leandro deu um beijo em Mariana que abriu um lindo sorriso e depois um
em Ana, deixando-a novamente corada.
Leandro estava uma pilha de nervos. Faltava pouco mais de
uma hora para sair e ir ao encontro de Ana. Ele havia passado os dois últimos
dias preparando seu encontro com a morena. Queria que tudo saísse mais do
que perfeito. Já havia pisado na bola e não queria repetir os mesmos fiascos
de outrora. Ana Margarida era o tipo de garota que gostava de ser paparicada
e bajulada e estava determinado a mimá-la. Olhou ao redor para conferir se
faltava alguma coisa. As margaridas espalhadas pelo apartamento haviam
sido sua cartada de mestre, ideia da florista que o atendeu na floricultura.
Haviam diversos arranjos espalhados pela casa, como se o pequeno loft
houvesse se transformado numa estufa de margaridas. Com a ajuda de
Isabela, conseguiu encomendar uma comida especial, que havia sido entregue
minutos antes e estava no forno.
Para que tudo saísse perfeito, Leandro fez uma lista e repassou todas
as dicas que Isabela havia lhe ditado horas antes pelo telefone, desde a cor da
toalha e colocação das louças e talheres na mesa. Leandro não poupou
esforços para deixar tudo digno de Ana, pois não queria dar motivos para que
ela arrumasse uma desculpa e lhe desse um fora. Todo seu esforço teria que
valer a pena, afinal, até em uma loja de artigos para o lar, Leandro teve que ir.
Também passou na farmácia e comprou um grande estoque de preservativos.
Olhou-se no espelho para conferir se estava apresentável e sentiu-se
um tanto incomodado com isso. Era certo de que queria deixar uma boa
impressão à Ana, mas também não queria se converter num daqueles tipos de
homem que chamam de metrossexual e que fazem de sua aparência o centro
de suas vidas. Ana que o desculpasse, mas isso ele não seria capaz. Pegou as
chaves do carro em cima da mesinha de cabeceira e foi para seu destino, pois
a sorte estava lançada.
Ao chegar no endereço que Ana lhe passou, Leandro não deixou de
perceber a beleza e o requinte do prédio em que a morena morava. O porteiro
anunciou sua chegada e Leandro pediu para que avisasse Ana de que a
aguardaria no saguão. Dentro de poucos minutos, ela desceria, avisou o
porteiro.
— Boa noite! – Leandro avistou a jovem. Ana estava perfeita aos
olhos de Leandro. Vestia um vestido azul simples, mas de muito bom gosto
que realçava as suas curvas na medida certa, sem aparentar qualquer
vulgaridade.
— Boa noite, Ana Margarida! – O cientista se levantou e foi para
perto dela, abraçando-a e depositando um beijinho casto na bochecha de Ana.
— Vamos? – Leandro estendeu o braço para que a morena enganchasse nele
e como um perfeito cavalheiro a pajeou até o carro.
— Vejo que providenciou uma carruagem para sua dama? – Ana
soltou uma gargalhada abafada para não chamar a atenção de alguns
moradores do prédio que passavam no momento.
— Comprei ontem e especialmente para você. Espero que seja de seu
agrado, minha princesa! – O cientista entrou na brincadeira.
— Como comprou ontem? Você comprou um carro? Um carro desse
tamanho e ainda por cima importado... – O queixo de Ana caiu. — E apenas
para me levar até nosso encontro?
— Sim!
— Você é louco, só pode!
— Sempre fui conhecido pela minha racionalidade e objetividade,
mas quando se trata de você, é como se essas duas qualidades sumissem do
meu cérebro. Então, sim, sou de fato louco, mas apenas por você. – Leandro
corou diante de sua confissão e Ana acabou por sorrir.
— Você não precisava ter comprado um carro de luxo para vir me
buscar... Bastava me dizer... Nós podíamos ir com o meu carro, Leandro!
— Esquece isso, Ana! Comprei o carro e pronto. Depois, eu volto
dirigindo para Porto Alegre.
— Como esquecer? Esse carro deve ter custado uma fortuna!
— Para alguma coisa o dinheiro deve servir, não é!? – Leandro devia
ser muito rico, pensou Ana. Claro que ele era rico. Lembrou-se por cima do
que Patrícia, a sogra do irmão, contou-lhe, incluindo que a união das duas
mais ricas famílias de Porto Alegre havia sido muito ansiada pela sociedade
porto-alegrense.
Leandro fechou a porta e deu a volta no carro, acomodando-se ao lado
de Ana Margarida. — O que foi, Ana? Não vai me dizer que você não gostou
do carro! – O cientista falou frustrado.
— Não é isso! Apenas estou chocada, ainda acho que você não
precisava comprar um carro. Perdoe-me se dei a entender que um carro era
necessário. Eu não sou assim, Leandro! Não é o tamanho do carro ou da
conta bancária que me fazem aceitar um convite de um cara. Se minha mãe
estivesse aqui, ela iria me dar o maior dos sermões e com razão. Sinto-me
péssima!
— Esquece isso, Ana! Eu precisava mesmo de um carro mais
espaçoso. – Leandro puxou o rosto de Ana de modo que pudesse olhá-la nos
olhos. Sem resistir a vontade de beijá-la, puxou-a para perto do seu corpo e
grudou-se em seus lábios, perdendo-se na perfeição do beijo de Ana, que se
abriu por completo para acolher a língua atrevida de Leandro. O beijo era a
melhor parte daquele encontro, pensaram praticamente em simultâneo. —
Agora, vamos logo! – Leandro afastou-se, a contragosto, e deu a partida no
carro.
— Oh... Senhor... – Ana arregalou os olhos e suspirou diante da
produção que a aguardava. — Tem certeza de que você é o Leandro, aquele
ser insensível que abandonou minha cunhada no altar? – Leandro a olhou
sem jeito e Ana teve a certeza de que havia falado demais. — Ai... Desculpa,
Leandro! Desculpa mesmo. – Ela foi ao encontro do cientista e o abraçou. —
Eu falo demais, às vezes, quer dizer, eu sempre falo demais.
— Tudo bem! Eu somente queria surpreendê-la! – Leandro falou
derrotado.
— E me surpreendeu! – Ana encostou a cabeça no tórax de Leandro e
um sentimento de pertencimento cruzou seu corpo, como se aquele fosse seu
lugar na vida, nos braços e no coração de Leandro.
— Eu amei tudo, juro! As margaridas são tão lindas, ninguém...
Nunca me deram margaridas de presente. Foi um gesto tão lindo, Leandro! –
E havia sido realmente um gesto muito lindo, ninguém havia sido tão
delicado e externado tanto por sua pessoa, pensou. Os arranjos de margaridas
estavam por todas as partes. Velinhas vermelhas flutuavam dentro de
potinhos cheios de água e inalavam um delicioso aroma de baunilha.
Também haviam estrelinhas decorando o ambiente. — Por que as
estrelinhas? – Curiosa, Ana perguntou.
— Porque amo as estrelas e achei que margaridas e estrelas fariam um
bonito conjunto! Afinal, somos eu e você, Ana! – O coração de Ana pareceu
sair pela boca. Leandro era o homem mais tímido e sem jeito com quem
havia se envolvido, mas era tão meigo e fofo que seria praticamente
impossível não ficar vidrada nele. E isso era praticamente uma aberração para
Ana, pois esta não era a imagem que a jovem mantinha do rapaz. — O que
foi, Ana? – Leandro perguntou diante do silêncio momentâneo da morena,
era sempre tão faladeira.
— É estranho! – Leandro a conduziu até a mesa, puxando a cadeira
para que pudesse se acomodar. — É que sempre imaginei que você fosse o
homem mais insensível do planeta... Bem...
— Ana! – O cientista a interrompeu. — Por favor, vamos esquecer a
história do meu casamento fracassado, ao menos por esta noite, sejamos
apenas eu e você?!
Ana concordou, apesar de que no íntimo queria fazer muitas
perguntas à Leandro. Mas seria injusto com ele se não atendesse ao seu
pedido, não depois de tanto esforço para agradá-la, não custava nada deixar
as perguntas para depois.
— Então, você é filha de médicos? – Leandro sorriu.
— Aham... – Ana respondeu com a boca cheia. Leandro havia pedido
lasanha à bolonhesa, seu prato favorito.
— Meu pai também é médico!
— Não acredito!
— Sim. É um dos melhores cardiologistas do sul do país, eu até acho
que do Brasil.
— É muita coincidência, você não acha?! – Leandro concordou com a
cabeça, levando sua mão até Ana Margarida e entrelaçando os dedos. — Por
que me trouxe para seu apartamento? – Ana perguntou timidamente.
— Porque fiquei com medo de fazer algo de errado em outro
ambiente... Sou um homem tímido, Ana! Também um pouco atrapalhado e
muito introvertido. Ambientes tumultuados demais tendem a deixar-me
nervoso e não queria correr o risco de estragar nossa noite. O que foi? –
Leandro perguntou.
— O que foi o quê?
— Você me olha como...
— Quisesse te beijar! – Ana soltou sem pensar muito. Porém, pela
primeira vez não se arrependeu de falar o que sentia. — Você tem os olhos
mais lindos que eu vi na vida.
— Por isso ameaçou jogar gude com eles, é?! – Leandro sorriu e foi
um sorriso verdadeiro, percebeu a jovem, um sorriso carregado de
sinceridade.
— Eu ainda posso jogar gude com eles! – Ana gargalhou e Leandro
juntou-se a ela nos risos. — Deixe-me ajudá-lo com a sobremesa! – Ana se
prontificou.
— Espero que goste de sorvete! – Leandro estava preocupado com a
simplicidade da sobremesa, mas sua falta de jeito com a cozinha não lhe
deixou alternativa a não ser comprar um pote de sorvete.
— Eu amo sorvete! Sou a doida do napolitano, Leandro! – Ana não o
havia chamado nenhuma vez de doutor “bundão” e aquilo representou muito
para Leandro. Que ele estava fazendo as coisas certas dessa vez. — Não
precisa tigela não! Traga duas colheres e vamos nos afogar nesse pote... –
Falou uma Ana moleca.
— Gosta de cerejas em calda, Ana?
— Traga-as também! – Ana ordenou feliz. Um bom pote de sorvete
era o fim dos problemas e das amarguras de qualquer um, pensou a jovem.
Leandro voltou com duas colheres e um vidro de cerejas em calda e
sentou-se no sofá ao lado de Ana que já estava com o pote de sorvete na mão.
— Leandro, não seja guloso e pare de comer as cerejas! – Ana repreendeu o
cientista, porque do jeito que ia, não sobraria nenhuma cereja para ela.
— Tome uma! – Leandro levou uma cereja até a boca de Ana, que
sem querer acabou chupando os dedos do cientista. Aquilo foi como um
atiçador de brasas em Leandro, seu corpo parecia febril do nada. O biquinho
suculento que Ana havia feito o deixou excitado e sua risadinha rouca levou
seus pensamentos para longe, fazendo-o esquecer por completo da
sobremesa.
— Já te falei que você é uma delícia, não é? – Ana apenas gemeu e
Leandro, incapaz de deter seus instintos mais carnais, aproximou-se ainda
mais da jovem e abocanhou-a num beijo feroz e faminto. — Eu acho sorvete
e cereja em calda uma combinação perfeita, mas sorvete, cereja em calda e
você é mais do que perfeito, fui para o céu só com passagem de ida. –
Leandro sussurrou no ouvido de Ana, descendo com pequenas mordidas pela
extensão do pescoço e chegando até o vale entre os seios, aqueles seios eram
sua perdição, aliás, todo o conjunto de Ana havia se tornado um vício que o
conduzia para sua perdição e ele não se importava nem um pouco em se
perder naquele paraíso que atendia pelo nome de Ana Margarida.
— Filho da mãe! – Ana gemeu novamente, assim que Leandro abriu
os botões do seu vestido e deleitou-se com os seios perfeitamente empinados.
— Posso parar, se preferir!
— Oh... Não... É claro que não! Termine o que começou... – Leandro
agradeceu ao universo pela ajudinha, pois jamais seria capaz de parar, não
agora que se sentia totalmente quente e envolvido por Ana.
Decidido, Leandro levantou, levando consigo a garota, a teria sim,
pois não havia mais volta para os dois, mas a teria do jeito certo, na cama e
com todo o tempo do mundo.
— Mais margaridas! – Ana falou extasiada com a
quantidade de flores que adornavam todo o apartamento. Como se tratava de
um loft e não haviam paredes a dividir os espaços, o ambiente lembrava uma
grande estufa. — Até parece que você me trouxe para uma estufa de flores!
— Bem... Então, cumpri com meu objetivo e com louvor, presumo?!
– Leandro a depositou na cama, empurrando-a contra os lençóis, levando uma
de suas mãos à nuca da morena e a boca na curva deliciosa de seu pescoço.
Ana entregou-se, uma entrega doce, carregada de paixão e desejo, uma
entrega que colocava todo o mundo de Leandro em ruínas. Ela havia o
enfeitiçado com seu jeito moleque e sedutor ao mesmo tempo. — Você é
muito doce, Ana Margarida! – A pronúncia de seu nome completo na boca
daquele homem mexeu com algo dentro da morena. Ela estava prestes a
jogar-se numa imensidão cujo prazer e a luxúria apenas eram o prenúncio de
algo maior que estava prestes a acontecer, algo que a levaria para o abismo,
ela deveria fugir antes que fosse tarde, mas seu corpo a traía miseravelmente
e apenas um gemido rouco e sensual saiu de sua boca, um gemido que atiçou
ainda mais Leandro. Ele sentiu-se vivo, tão vivo como nunca havia se
sentido. — Caralho! Você é linda demais, delícia!
— Ai senhor! Eu amo quando você me chama de delícia! Entro em
combustão... – Ana tratou de livrar-se do vestido. Era muito pano para seu
gosto e depois começou a desabotoar a camisa de Leandro. Suas mãos
comichavam para tocar o peitoral definido dele.
— Você vai me matar, mulher!
— Espero que de tesão, viu! – Ana soltou uma gargalhada e jogou a
camisa de Leandro para longe. — Sinto-me uma rainha no meio de tantas
margaridas e velas perfumadas. Vem cá logo.
— Vem cá nada, sua danada! Quero degustar de toda sua delícia
lentamente, Ana Margarida! Devagar, calmamente, para que seu cheiro e seu
sabor fiquem gravados para sempre no meu olfato e no meu paladar... – Ana
sentiu seu corpo amolecer diante do toque de Leandro. O beijo do homem era
espetacular, mas o resto também não deixava nada a desejar. Tudo estava
completamente fora do eixo e pouco importava para Ana, nunca havia sido
uma pudica em relação ao sexo e ao prazer, e não seria agora que iria se
comportar como uma noviça, não quando havia encontrado alguém que de
fato a fazia subir pelas paredes. Leandro soltou os ganchos que prendiam o
sutiã rendado de Ana, revelando o que muito ansiou por ver.
— Gosta do que vê, seu safado? – Ana perguntou atrevidamente para
desespero de Leandro. A cada provocação da garota, uma parte do corpo de
Leandro era atraído ainda mais para o jogo de sedução que ela acabava de
enredá-lo.
— Preciso mesmo responder? – Devolveu com outra pergunta,
tratando de calá-la com um beijo exigente e voluptuoso além da medida.
— Claro que precisa! – Ana revirou os olhos, como se aquilo fosse o
mais óbvio a ser feito. É claro que para o calado e tímido Leandro não era o
mais óbvio, pensou.
— Misericórdia! Estou mais para um cão babão do que para um
homem neste momento e nem vou falar que mal consigo pensar de maneira
lógica o suficiente para raciocinar o que tem me perguntado nos últimos 10
minutos.
— Gostei dessa sua versão cão babão, muito melhor do que doutor
bundão! – Ana falou e Leandro a prendeu contra o colchão.
— Você não toma jeito mesmo, mas quer saber de uma verdade?!
Não me importa nem um pouco qual versão te agrade mais. Posso ser o que
você quiser, desde que me deixe desfrutar de toda sua doçura, amor! –
Leandro afastou-se lentamente do corpo de Ana, de forma a tomar espaço
para conseguir livrar-se do resto de suas roupas. Ana aproveitou e tirou sua
calcinha, jogando-a na cara do cientista. — Caralho, Ana! Isso foi quente! –
Leandro pegou a calcinha, cheirou-a e jogou-a para trás, tratando de voltar
para junto do corpo de sua delícia. Aquela mulher era o pecado em forma de
gente, pensou, onde já se viu cheirar uma calcinha. Nunca havia cheirado
uma calcinha antes. O pior de tudo é que havia gostado muito de cheirar a
calcinha de Ana. Era uma calcinha de renda vermelha cheia de lacinhos e
que, em outros tempos, ou melhor, em outra mulher, não teria mexido tanto
com sua libido.
— Lê! – Ana praticamente ronronou como uma gata.
— O que, paixão?
— Venha logo para cá, homem! Não aguento mais esperar por você e
por sua boca gostosa grudada em todas as partes do meu corpo. – Mas era
mesmo uma atrevida essa garota, pensou Leandro. Não que estivesse
reclamando, longe disso, cada palavra provocante que saía da boca de Ana
agia como pólvora a queimar o corpo de Leandro.
Leandro não esperou mais e levou sua boca até os seios de Ana,
túrgidos e perfeitos para serem sugados, um por um, delicadamente e
prazerosamente. As mãos de Leandro envolveram os quadris de Ana,
puxando-a para junto de seu corpo. Ela correspondeu com paixão e desejo,
envolvendo suas pernas em torno do quadril dele.
— Beije-me mais, Lê! – Ana implorou, sedenta por mais de Leandro.
Ele queria dar mais para Ana, dar tudo que ela fosse capaz de
suportar. Era tanto desejo envolvido que Leandro seguiu o instinto de macho
contido em algum canto de sua alma atrapalhada e atendeu o chamado
irresistível da garota. Sua boca parecia ter criado vida própria, sua língua não
encontrava mais freios, beijar, sugar e mordiscar era isso que Leandro queria
e foi isso que Leandro fez, deixando-se levar por um frenesi de sensações
prazerosas, onde a volúpia de dois corpos prestes a encontrar o paraíso ditava
os acontecimentos do porvir. Mais um gemido, mais um sussurro de “eu
quero mais” saiu da boca da morena e foi suficiente para que Leandro
afastasse as pernas de Ana e levasse seus lábios sedentos até o centro de sua
feminilidade. Se a calcinha o havia deixado louco de tesão, a tenra e delicada
carne de Ana o deixou prestes a jogar-se num precipício. Ela era viciante, seu
sabor de baunilha era intoxicante, seus sussurros eram melodias para o
ouvido, sua pele arrepiada era o melhor afrodisíaco de todos, o mais potente.
Tudo era Ana, naquele momento, tudo se resumia a Ana e era para Ana.
— Caralho... Você é gostosa demais!
— Eu sei! Agora, vem para cima, por favor, que é sua vez. – Ela
acabava de se doar para ele, deixando-o perplexo, feliz e totalmente louco
para meter-se dentro dela. Leandro tirou a camisinha de dentro da gaveta e a
vestiu, sem perda de tempo, não queria perder tempo. Mas de uma coisa não
abriria mão, sentir aos poucos o aperto de Ana para que pudesse gravar na
memória e em cada pedacinho de sua pele, o prazer que era invadi-la,
tomando-a para si.
— Te farei minha, Ana Margarida! – Falou baixo, quase um sussurro
de tão baixo, conquistando aos poucos o direito de tomá-la, pois Leandro era
assim, acima de tudo um cavalheiro. Queria-a sim, mas de forma terna e
delicada. Assim que a sentiu relaxada, aumentou o ritmo das estocadas,
deixando-se embriagar pelo cheiro, gosto e toque de Ana. A entrega da
morena o exultava, levando-o ao mais puro e perfeito êxtase.
Saciado, Leandro caiu para o lado na cama, levando consigo Ana.
Não a queria longe, de jeito algum. Queria-a colada ao seu corpo. Queria que
o momento se eternizasse, embora soubesse que teria que a deixar ir.
— Já falei que amo seu sotaque sulino? – Ana ergueu a cabeça,
abrindo um sorriso que fez o coração do cientista pular no peito.
— É o meu charme, delícia!
— Convencido você, hein! – Ana bocejou e aninhou-se nos braços de
Leandro. Sentia-se exausta, relaxada e muito feliz. Nenhuma das suas
experiências sexuais anteriores foram tão boas quanto a que tinha acabado de
viver com Leandro. Ele a havia levado às nuvens de uma forma incrível,
pensou a jovem. A adrenalina pela qual acabava de passar ainda corria quente
pelas suas veias. A saciedade a conduzia ao sono, uma paz nunca antes
sentida invadiu sua alma, uma alma que cantitava feliz ao som do ritmo das
batidas do coração de Leandro. Algo devia estar errado, pensou Ana. Leandro
havia se comportado de forma vil e mesquinha com Camila. Era, no mínimo
questionável, tudo o que havia preparado e feito para ela. Sabia que, em
algum momento, teria que refletir melhor sobre tudo, mas decidiu deixar para
depois e permitiu-se ser embalada pelas doces palavras de Leandro que lhe
diziam que ela era a mulher mais perfeita do mundo, linda e bela como uma
estrela a brilhar na vastidão do céu.

Leandro desperta de madrugada com Ana enrolada em seu corpo e um


sentimento de completude tomou sua alma. Sentiu-se feliz por tê-la junto de
si, por a ter feito dele. Ana despertou uma versão de si mesmo que jamais
poderia imaginar existir. Leandro, pela primeira vez, tomou uma mulher da
forma correta, pensou, sem arrependimentos, sem amarras, sem receios de
fazer o errado, de não estar agradando. Com Ana, tudo parecia mais simples,
mais apaixonante, mais fácil. Não que com Camila, o sexo não fosse bom ou
prazeroso. Camila era o sonho de qualquer homem, linda e com uma
personalidade forte, arrancava suspiros de admiração por onde passava.
Camila era como fogos de artifícios em constante explosão e na cama não era
diferente. A ruiva dominava e não tinha muita paciência para as carícias e
trocas de afeto e muitas vezes, Leandro se sentia desencorajado de ser mais
atrevido. Nunca havia rolado sexo oral com Camila. Ela não lhe dava espaço
para isso. A verdade era que Camila era o furacão que Leandro não sabia
controlar e nem queria, para ser honesto consigo mesmo, quando o que mais
desejava era uma brisa de verão como Ana para esquentar seu corpo e sua
libido.
Ana se mexeu, afastando-se para o outro lado da cama. Os olhos azuis
de Leandro se perderam no corpo da morena que acabava de se revelar. Ana
lhe atraía como uma força nunca antes experimentada. Beijou-a no ombro e
deslizou suas mãos pela cintura fina da mulher, puxando-a para si novamente.
Queria-a ali para sempre, não haveria mais como deixá-la se afastar. A
questão era como mantê-la ao seu lado quando Ana estava determinada a
repeli-lo e novamente o peso da culpa por ter largado Camila no altar o
atingiu como uma flecha. Precisava dar um jeito de consertar as coisas, antes
que a única burrada que havia feito na vida estragasse um futuro com Ana.
Porque se havia algo que estava certo em toda a confusão de sua vida era que
havia se apaixonado perdidamente pela morena de boca grande e atrevida e
não desejava afastá-la, quando a sua única certeza era tê-la ao seu lado para
sempre.
— Fica comigo! – Leandro sussurrou no ouvido da morena, pois sabia
que ela havia despertado pronta para ser amada novamente. Sim, Leandro a
amaria novamente e quantas vezes mais ela o deixasse.
— Hum... Você sabe que não posso me demorar mais! Infelizmente,
ainda moro com meus pais e devo satisfações para eles.
— Te levo para casa antes do amanhecer! Afinal, agora tenho um
carro, um lindo, luxuoso carro. – Leandro riu.
— Seu bobo! – Ana se virou de maneira a ficar de frente para
Leandro. Queria perder-se novamente na imensidão de seus olhos azuis. —
Sinto-me péssima com essa história do carro. Nunca sairia ou deixaria de sair
com alguém por um carro.
— Então, a senhorita confessa que só falou o que falou quanto a
minha ausência de carro para me contrariar?!
— Mais ou menos! Confesso apenas que queria atingi-lo, pois há algo
que não mudará nunca, Leandro, você abandonou Camila no altar e isso não
se faz com nenhuma mulher. Sejamos honestos, não podemos ficar juntos!
Não quando você quase ferrou com a vida dela. – Ana se levantou da cama
levando consigo os lençóis, pois não podia mais estender aquele momento,
ela precisava ir embora, afastar-se de Leandro antes que as coisas se
complicassem ainda mais. Talvez Sabrina e Sarah estivessem certas, talvez,
era o momento de escutá-las. — Eu preciso ir, Leandro! Não precisa se
preocupar, eu pego um táxi...
— Nunca que a deixarei sair sozinha tão tarde! Poxa Ana, estamos no
Rio de Janeiro!
— Eu sei! Mas também não é uma selva como os noticiários pregam.
Isso daqui é o meu lugar e sei muito bem me cuidar.
— Te levarei e não vamos brigar por isso! Tudo foi tão perfeito, não
vamos estragar com uma discussão desnecessária.
— Desnecessária? – Ana enrugou a testa em sinal de apreensão.
— Por favor, Ana Margarida!
— Não me chame por meu nome completo... – Leandro se
aproximou, derrubando-a de volta na cama. — Tira a mão daí, seu ogro. –
Ana tentou afastá-lo, mas sua determinação estava prestes a ruir.
— Convenhamos, delícia, de ogro eu não tenho nada! – Leandro
encarou-a, tirando o lençol que os separava. Estava determinado a perder-se
novamente nas curvas da morena e nada lhe faria mudar de ideia, nem a boca
suja e grande dela.
Uma semana depois...
Leandro não conseguiu tirar Ana Margarida da cabeça.
Haviam trocado algumas mensagens, mas ela se recusava a vê-lo novamente
e isso estava acabando com sua sanidade. Não conseguia pensar em nada a
não ser na garota. Por mais que se esforçasse e tentasse se focar em outras
coisas, ela sempre aparecia do nada para tumultuar sua rotina. Respirou e
suspirou por Ana por tempo demais e estava cansado de apenas levar um não,
precisava pensar em algo ou enlouqueceria. Determinado a dar um basta
naquilo, Leandro pegou o celular e discou para Malu, que o atendeu.
— Oi, Leandro! Só um pouquinho que irei colocar o Matheus no
berço. – Malu respondeu. — Pronto, pode falar!
— Oi Malu! Preciso de um favor seu!
— Ai Lê... Se for em relação à Camila, nem pense...
— Calma, não é em relação à ruivinha!
— Por Einstein, Doutor Leandro, pare de chamá-la de ruivinha! Isso
não vai prestar!
— Vou tentar, mas é difícil! Olha só, eu preciso que você me passe os
horários da Ana. – Um silêncio se seguiu. — Malu, ainda está aí?
— Estou sim! – A cientista respondeu. — Para que você quer saber os
horários da Ana, Leandro Navarro?
— Quero vê-la e ela tem se recusado a aceitar meus convites.
— Ah, claro! E então você lembrou da pobre Malu! Não quero
confusão para o meu lado, já falei!
— Puxa Malu, são apenas informações e ninguém saberá que foi você
quem me passou.
— Sei não! Não acho uma boa você se envolver com a irmã do
marido de sua ex-noiva. Sinta a novela mexicana que isso vai virar!
Leandro tinha plena consciência das implicações, mas o que poderia
fazer se estava apaixonado e totalmente vidrado na morena de boca grande.
— Malu, eu sei que não é aconselhável me aproximar da Ana
Margarida. Mas, caramba, eu não consigo parar de pensar nela. Estou
apaixonado por aquela baixinha de sangue quente. – Novamente, o silêncio
do outro lado da linha. — Fala alguma coisa, Malu!
— Meu queixo caiu aqui! Precisei até me sentar, tamanho foi meu
choque. Não acredito que o Doutor Leandro Navarro, astrofísico renomado, o
brilhante cientista que conheço, acabou de dizer que está apaixonado. Tem
certeza de que não te trocaram no Canadá? Que você não foi vítima de um
experimento científico e enviaram seu clone para o Brasil? – Leandro riu. —
Não ria Leandro! Estou, de fato, chocada com o que acabou de me falar,
homem! Tem certeza de que você está apaixonado pela Ana?
— Nunca estive tão certo de algo quanto estou agora! – Leandro
respondeu muito seguro. Precisou deixar claro para a amiga de que realmente
seus sentimentos por Ana eram reais e não fruto de uma confusão
sentimental, que tem sido sua marca registrada por muito tempo. — Malu, eu
sei que não fui o mais seguro quanto os meus sentimentos... Mas... Bem, eu
quero a Ana, e juro para você que desta vez não deixarei minhas dúvidas e
receios colocarem tudo a perder.
— Puxa, não queria me envolver nisso... Eu não sei os horários da
Ana, na verdade. Mas, não vou me meter nesse rolo de vocês. Já fiz demais
em te emprestar o apartamento e voltar a falar com você. Além disso, Ana é
uma boa garota, meio maluca, eu sei, mas nunca vi uma pessoa com o
coração do tamanho do dela. Não espero vê-la sofrer!
— De fato, você perdeu a confiança em mim. – Leandro suspirou
preocupado.
— Como já falei antes, as coisas mudaram e não será de uma hora
para outra que vão voltar ao normal. Quer minha confiança de volta, faça-a
por merecer. – Leandro percebeu que Malu estava sendo verdadeira e embora
ressentido com as palavras da amiga, eram-lhe totalmente justas. — Já falei
também que não me intrometerei em seu caminho e se você quer a Ana, tenha
certeza de que você terá um caminho e tanto para percorrer, e não falo só em
chegar ao coração da Ana, mas também em resolver toda essa confusão que
você provocou com a Camila. Não vai dar para ter algo com ela, sem resolver
seu passado com a Camila.
— Eu sei! – Leandro respondeu pensativo. Assim que conseguisse se
entender com Ana, concentraria energia para se desculpar com Camila. Sabia
que não seria uma tarefa simples ou das mais fáceis, mas precisava encarar o
problema com dignidade ao menos. Os tempos seriam difíceis, tanto para
conquistar o coração de Ana quanto para ter o perdão de Camila. Com
certeza, o homem de Neandertal, o qual atendia pelo nome de Murilo, seria
seu maior empecilho, além de um marido ciumento, era um irmão protetor.
Leandro encerrou a chamada, determinado a encontrar uma maneira
de obter mais informações da morena. Se Malu se recusava a ajudá-lo, teria
que continuar a mandar mensagens pelo celular, uma hora ou outra, ela
cansaria e cederia, pensou.

Mais tarde, naquele mesmo dia...


— Ana! – Sabrina chamou a amiga, pois a aula havia acabado. —
Ana Margarida, em que mundo você está? – Tocou a amiga para que
despertasse do transe.
— Que susto, Sabrina! – Respondeu Ana. — O que foi?
— O professor acabou há... – Sabrina olhou no relógio. — Há 5
minutos , todos já se foram, só eu e você que ficamos. Pergunto-me se você
prestou atenção em alguma coisa?
— Sinceramente, em nada, a única coisa que sei é que a aula começou
e terminou num piscar de olhos. – Ana soltou sem jeito.
— Piscar de olhos? Bem sabe que a aula do professor Ludovico é a
mais chata e que o tempo custa a passar...
— Era aula do professor Ludovico? – Ana reuniu seu material, pegou
a bolsa e levantou-se da carteira.
— Você está bem, amiga? – Sabrina perguntou preocupada. Era
estranho ver Ana, sempre tão agitada, silenciosa e presa em seus
pensamentos. — O que pensa sobre o trabalho?
— Trabalho? Que trabalho? – Ana não havia prestado atenção na
aula, pois certo alguém, mais conhecido por abandonador de noivas, havia
ocupado seus pensamentos durante a primeira parte da aula. E não bastasse
ocupar seus pensamentos, Leandro ainda resolveu perturbá-la com
mensagens enviadas ao seu celular pelo restante da noite.
— Olha, preciso te dizer uma coisa! Desde que você saiu com o tal do
ex-noivo da sua cunhada, você anda estranha.
— Eu, estranha? Imagina! – As duas acabavam de descer a escadaria
que dava acesso à porta principal da faculdade.
— Não minta, Ana! Com quem trocava mensagens?
— Leandro! – A morena soltou, não para responder à amiga, mas sim
porque avistou Leandro na entrada principal, escorado em uma parede.
Engoliu em seco de maneira a não pensar indecências. A verdade era que
Leandro mexia com os sentimentos de Ana e isso a deixava irritada demais.
— Eu sabia! – Sabrina sorriu vitoriosa.
— Virgem Maria, ele está aqui! – Ana pegou no braço da amiga. Não
acreditou que Leandro teria a coragem de vir até sua faculdade. — Não, ele
não veio por mim! – Ana desatou a falar. — Ele é um acadêmico,
provavelmente está aqui para encontrar algum conhecido. – Ou conhecida,
pensou Ana com ciúmes.
— Não entendi metade do que falou! – Sabrina exclamou, achando
cada vez mais graça do estado da amiga.
— Você não vai acreditar, Sabrina, mas o Leandro quer sair comigo
de novo! – Ana cochichou para a amiga, puxando-a para o lado oposto em
que estava o cientista. Talvez, as duas pudessem sair despercebidas. — Não
quero que ele me veja! – Ana apontou com a cabeça na direção de Leandro.
— Por que não? Não era você quem queria dar uma lição no “doutor
bundão”?
— Disse bem, queria! Não quero mais, pois percebi que me meter
com esse daí é encrenca na certa.
— Ai meu Deus! – Sabrina interrompeu o passo e encarou a amiga.
— Você se apaixonou por ele!
— Fala baixo, Sabrina! Assim, você vai chamar atenção.... – Mas era
tarde, Leandro já havia avistado as duas e ia para o seu encontro.
— Puxa vida! – Sabrina olhou para o lado, uma vez que Ana parecia
vidrada em algo. — Meu pai, abriram as porteiras do Olimpo! Vou desmaiar,
Ana, esse Leandro é gato demais. Jesus, acuda-me...
— Boa noite, Ana Margarida! – Leandro abriu um lindo sorriso e Ana
foi incapaz de não retribuir. O desgraçado podia ser um abandonador de
noivas, mas era dono de um sorriso espetacular. — Então, casualmente,
estava passando e lembrei-me de que estudava aqui... – Leandro colocou as
mãos no bolso, mania que revelava o quanto era tímido. — Então, pensei em
entrar e tentar encontrá-la.
— Mentir é feio, Leandro! Bem sei que está me perseguindo. – Ana
levou uma cotovelada de Sabrina, mas não se intimidou, queria afastá-lo
logo, antes que cedesse aos encantos do patife. — Se não estivesse me
perseguindo, não teria passado a noite toda me enviando mensagens. – A
morena revirou os olhos e soltou um resmungo. — Suas mensagens me
tiraram o foco, Leandro! Mal pude prestar a atenção na aula.
— Ninguém presta atenção na aula do Ludovico mesmo! – Sabrina
falou e Ana a repreendeu com os olhos. — Quer dizer...
— Sabrina, bem sabe que estamos no último semestre da faculdade e
temos que prestar atenção em todas as aulas.
— Eu entendi, Ana! Peço desculpas pelo transtorno, mas se estiver
tentando me afastar, saiba que não conseguirá. Estou aqui com um propósito
e não me darei por vencido facilmente.
— Pelo visto não largará do meu pé tão cedo!? Então, vamos logo,
desembucha o que quer! – Era hora de recitar um dos seus mantras para
desviar sua atenção daquilo que lhe estava atormentando e que atendia pelo
nome de Leandro Navarro, pensou Ana.
— Vim convidá-la para observar estrelas!
— Uau.... Observar estrelas é tão romântico! – Sabrina soltou sem
querer.
— Cala a boca, Sabrina!
— Vamos Ana! Deixe-me mostrar um pouquinho da minha vida para
você, quem sabe assim você me compreenda! – Havia uma parte de Ana que
desejava muito compreender o homem por trás da lenda que era Leandro, o
abandonador de noivas. Depois da noite de amor que viveu com Leandro,
dúvidas e mais dúvidas permeavam sua cabeça, dia após dia, noite após noite.
— Não sei se devo! – Ana respondeu pensativa.
Leandro estava determinado a levá-la consigo e, sem pensar duas
vezes, usou de sua última artimanha para convencê-la. — Se não vier
comigo, Ana Margarida, serei obrigado a procurar Camila ainda hoje. – O
cientista sabia que não era a coisa mais digna a ser feita, mas estava disposto
a brigar com o mundo para ter Ana para si, nem que para isso precisasse usar
de meios nada gentis, pensou. Sempre havia sido um bom sujeito, um filho
obediente, um namorado respeitador e isso só o levou a reprimir todas as suas
vontades dentro de si, levando-o a entrar em colapso, praticamente. Como se
todas as suas frustrações tivessem ganhado vida e saído de dentro dele no dia
em que deveria ter subido ao altar e feito de Camila sua esposa. Reprimir
sentimentos não foi uma boa experiência, definitivamente, o efeito foi
catastrófico e tinha impressão de que pagaria por isso pelo resto da vida.
— Você está me chantageando? – Ana o olhou daquela forma
atrevida que fazia o sangue de Leandro se aquecer, dando-lhe a certeza de
que ela não recuaria.
— Entenda como quiser! Apenas quero sua companhia.... Tenha por
certo que é você que eu quero.
— Eu vou! – Ana respondeu determinada e um tanto mexida com as
palavras de Leandro. Afinal, havia um homem por trás da fachada do
cientista brilhante, um homem determinado a buscar o que queria e isso lhe
era empolgante. Apenas precisava tomar o cuidado para chutá-lo para fora no
momento certo. — Sabrina, pegue as chaves do meu carro. – A morena
despediu-se da amiga e partiu junto ao cientista. A guerra havia sido
declarada, pensou, e que vencesse o melhor, de preferência ela. Daria uma
boa lição para o ogro abandonador de noivas, apenas precisava focar no seu
objetivo maior, afastar Leandro de Camila e depois dar-lhe um belo de um
chute na bunda, afinal, ela era Ana Margarida Mendonça Marcuzzi.
Ana e Leandro chegaram a um local onde Fabrício
costumava acampar com os seus alunos para observar as estrelas. Leandro já
havia estado algumas vezes lá com os amigos. Observar estrelas, num
passado não tão distante, era o principal programa deles, o que incluía as
garotas.
— Nossa... Você preparou tudo! – Ana ficou admirada com a
organização do cientista. Todos os equipamentos e malas estavam muito
bem-dispostos e etiquetados dentro do porta-malas do carro. Etiquetas eram o
cúmulo da organização, pensou.
— A maioria dos equipamentos de camping e telescópios são do
Fabrício. Pouca coisa é minha. Na verdade, a maior parte dos meus estão em
Porto Alegre. – Leandro falava empolgado e Ana seria uma mentirosa se
negasse que a versão relaxada de Leandro era ainda mais atraente do que a
tímida.
— Há uma pergunta que não quer calar! Quanto ganha um físico no
Brasil? – Ana era uma curiosa, pensou Leandro.
— O suficiente para viver!
— E ainda comprar todos esses aparelhos? – Leandro riu da pergunta.
O jeito descomplicado da garota o fascinava cada vez mais.
— Bem.... Nosso principal campo de atuação é a pesquisa e o ensino
superior. Ganhamos relativamente bem para vivermos com dignidade e
conforto, Ana, considerando a dura realidade do Brasil. Por outro lado, não
vamos ficar milionários com o que ganhamos. Tanto eu quanto Fabrício, e até
mesmo a Malu somos privilegiados, uma vez que nossas famílias ocupam
uma ótima posição na pirâmide social. – Ana notou desconforto em Leandro
ao falar sobre a família. — Sinceramente, não me importa o quanto ganho,
Ana! O importante é que vivo bem com o que ganho, não passo necessidade e
não preciso recorrer ao meu pai para pedir dinheiro. Minhas necessidades se
satisfazem com coisas simples.
— Pois penso o mesmo que você! As pessoas passam a vida toda
correndo atrás do dinheiro, tudo é quantificado em dinheiro. Uma pessoa de
sucesso é aquela que mora numa mansão, que têm vários carros na garagem,
que compra nas melhores lojas e assim vai. Esquecem que dinheiro é
passageiro e o que fica é o que guardamos dentro da gente, as pessoas que
amamos, sabe! É claro que penso que todos nós precisamos de um pouco de
ambição; sem ambição, a vida seria muito chata. Meu irmão costuma dizer
que a ambição move o mundo.
— Preciso concordar com o homem de Neandertal, ambição na
medida certa opera milagres. Mas não podemos nos esquecer que há uma
linha muito tênue entre ambição e egoísmo, Ana! Quando ambicionamos em
excesso, acabamos por esquecer o outro que está ao nosso lado e agimos
como malditos egoístas. – Leandro abriu uma caixa preta para retirar uma
luneta de lá.
— Estranho esse seu comentário, pois você foi um “puto” de um
egoísta ao deixar a Camila no dia do casamento.
— Então, falo por experiência própria! O pior é que somente
recentemente me dei conta de que meu maior ato egoísta nem foi ter
abandonado Camila no dia do nosso casamento, mas sim responsabilizá-la
como única culpada pelo fracasso do nosso relacionamento, e não ter
percebido antes que Camila não era a mulher da minha vida.
— Você é estranho, Leandro! – Ana se aproximou de Leandro e o
fitou nos olhos. Perdeu-se com facilidade na tormenta de sentimentos que
emanava daquele par de olhos azuis como o oceano. As pontas dos dedos de
Ana tocaram o maxilar de Leandro e o raspar da barba por fazer a deixou
excitada.
— Eu quero você, Ana! – Leandro largou a luneta e abraçou-a pela
cintura, encostando lentamente a sua testa na dela. — Nunca quis tanto
alguém na vida como eu quero você! – Ana envolveu-o em seus braços,
puxando-o para perto de sua boca. Ondas de prazer atravessaram-na e uma
ansiedade desesperadora de beijá-lo nublavam sua capacidade de pensar.
— Eu não posso, eu não devo ficar com você.... Você nunca seria
aceito por minha família, nem por mim, para ser exata, vai contra meus
princípios. – Ela sussurrou. — Além de tudo, você fez tanto mal para a
Camila... E se você fizer o mesmo comigo e se...
— Não farei! E se eu prometer que consertarei tudo com a Camila, se
prometer que resolverei toda essa merda que deixei para trás.... Você me dará
uma chance? – Leandro queria uma chance com Ana. Algo dentro dele, algo
que nunca antes foi tão certo, dizia que Ana era a mulher de sua vida.
— Ai Leandro... – Ela se entregou ao beijo, pois seu corpo queimava
de paixão por ele. A paixão era implacável uma vez despertada, pensou Ana.
Como poderia lutar contra ela? Também era ingrata e cheia de artimanhas,
deveria ser repelida e evitada a todo custo, mas como fazê-lo quando o
homem que a despertava estava na sua frente oferecendo toda a sua devoção
para ela?
Os dois entregaram-se àquele momento como se não existisse um
depois, pois o que realmente importava era o que estavam dividindo. A
sincronia entre os dois ia além dos corpos, era como se os dois estivessem
predestinados a se encontrar em algum momento da existência. Beijar Ana
era como viajar entre as estrelas, pensou Leandro. E essa comparação dizia
muito para um homem amante das estrelas e do universo. Ana havia se
convertido no seu universo naquele momento e desejava se perder nele para
sempre, sem qualquer chance de ser encontrado. As carícias se
intensificaram, prenunciando um prazer avassalador prestes a consumir a
alma dos dois. Ana gemeu, abandonando-se à mais pura e inebriante luxúria.
O toque de Leandro era quente e suave, tenro e potente, um misto de
qualidades, que em qualquer outra pessoa conflitariam, mas em Leandro não,
tudo se encaixava à perfeição.
— Não devíamos estar vendo as estrelas? – A morena conseguiu
falar, com muita dificuldade, entre gemidos de excitação. Uma excitação
agoniante, que a mataria se algo não fosse feito logo, pensou.
— Astrofísicos são fascinados pelo universo, pela imensidão
desconhecida que na qual fazemos parte. Astrofísicos perseguem novas
estrelas, anseiam por novas estrelas a serem descobertas e quando eles as
descobrem, Ana Margarida, um mundo novo se abre aos pés deles e eles
fazem dessas estrelas recém-descobertas seu mundo. Você é minha estrela,
Ana Margarida! A minha maior e mais perfeita estrela descoberta.
Ana suspirou diante da mais bela declaração que ouviu na vida.
Sempre fora uma garota decidida, segura de suas escolhas e de seus
princípios. Houve um tempo em que a acusaram de ser fria demais, por não
ser capaz de amar, houve um tempo em que acreditou que ninguém pudesse
vir a surpreendê-la da maneira que desejava. Apesar de arredia e encrenqueira
como alguns a consideravam, Ana sonhava com seu príncipe encantado,
sonhava com um homem capaz de fazê-la sentir um formigamento e enxergar
estrelinhas quando a beijasse, sonhava com um homem que a fizesse
estremecer e cometer loucuras. Havia perdido as esperanças, sim, pois havia
completado 24 anos e nunca foi capaz de amar alguém da maneira que a
fizesse se entregar de corpo e alma. O momento da entrega, da sua entrega
havia chegado, mas quis o destino que não fosse o homem certo. O momento
era aquele, pensou, mas Leandro estava longe de ser o seu homem ideal, ao
menos o homem que havia idealizado. Mas Ana estava muito envolvida para
ser capaz de repeli-lo. A tormenta de sentimentos que a avassalaram não a
deixava afastá-lo. E mesmo que Leandro não tivesse lhe dito aquelas palavras
tão perfeitas, mesmo assim Ana não conseguiria pará-lo, pois cada toque de
Leandro, cada beijo e cada carícia incendiava seu corpo e nada seria capaz de
apagar o fogo que a consumia naquele momento.
— Eu sei que me arrependerei mais tarde! – Ana desprendeu-se da
boca sedutora do cientista. Se soubesse que cientistas beijavam tão bem....
Não era capaz de pensar conexamente, percebeu. — Vem cá, Leandro, e
termina o que começou, porque.... Porque se você não fizer algo, morrerei... –
E morreria mesmo, pensou um tanto aflita.
O cientista sentou-se, puxando-a para seu colo, e sem desgrudar de
Ana, apalpou a grama a fim de encontrar os cobertores que havia trazido. De
forma ágil, Ana desabotoou sua camisa, revelando a delicadeza da pele que
Leandro tanto ansiou. Peças começaram a voar por todos os lados.
Parcialmente nus, Leandro se deitou de costas sobre o cobertor, levando
consigo uma Ana sedenta por mais dele. Ele a queria e Leandro se doaria
para ela na mesma proporção que ela se entregaria para ele, numa sincronia
perfeita de corpos, suor, prazer e volúpia.
— Você é tão lindo, Leandro! Bem sei que não deveria admitir o
quanto você é lindo, mas o que posso fazer se você é o ogro mais lindo que
eu conheci? – A morena gargalhou de uma maneira que colocava à prova a
capacidade de controle de Leandro.
As mãos dele se concentravam em despi-la, liberando-a do martírio
do tecido que a cobria, queria-a como veio ao mundo para que pudesse sentir
cada pedacinho de seu corpo pecaminoso, onde se perderia no mais puro e
excitante prazer, um corpo feito para ele se perder, pensou Leandro. Ana o
ajudou com as calças, na medida em que os beijos trocados ultrapassavam os
limites da boca e transformavam-se em mordidinhas indecentes e
pecaminosas, que se espalhavam por todas as partes de seus corpos
descobertos e arrepiados pela fresca brisa da noite. As línguas haviam se
tornado objetos de fetiche e nenhum dos dois se recusou a usá-las para o
deleite do outro. Ana exigia, Leandro a atendia. Leandro a queria e Ana se
entregava. Uma dança magnífica, uma união de corpos, uma sinfonia de
almas, embalada por gemidos sussurrados ao pé do ouvido e abençoada pelas
estrelas.
— Ame-me, Leandro! – Ana implorou num breve gemido rouco. —
Ame-me antes que o mundo se acabe.
— O mundo não se acabará, delícia! Não antes de marcá-la como
minha, Ana Margarida! Não antes de levá-la ao céu, pois lhe prometi estrelas
e estrelas lhe darei, amor! – Leandro a virou para que pudesse ficar sobre o
corpo da morena e o contemplasse banhado pela luz do luar. Encaixou-se
entre suas pernas e penetrou-a delicadamente e demoradamente.
— A camisinha! – Pediu preocupada.
— Coloquei-a! – Leandro respondeu, colando seus lábios na boca de
Ana, a boca mais grande, gostosa e perfeita que teve o prazer de tocar,
saborear e se perder, pensou.
— Essas suas paradinhas no meio do caminho, são incríveis demais! –
Ana confessou e um sorriso bobo se abriu no rosto de Leandro.
— Você gosta é, sua safadinha!
— Sou safada mesmo, Lê! E nem um pouco boba, também!
— O que acha disso? – Leandro encaixou-se por completo,
enterrando-se dentro da morena, a sua morena atrevida, tratando de provocá-
la com leves mexidinhas.
— É divino! Quero mais! – Ana puxou-o para mais perto, cravando
suas unhas no pescoço de Leandro. — Um pouquinho mais rápido, Lê! – Ele
atendeu, sem hesitar, pois ela merecia o seu melhor. — Ai... Ui... Isso... Mais
para o ladinho, vou gritar! – Ela declarou entre risos e lágrimas.
— Ergue as pernas, delícia! – Leandro a instruiu, ajudando-a a
levantar as pernas, de forma a ficarem dobradas, deixando-a aberta para ele.
— Irei aumentar o ritmo, amor! – As mãos de Ana vagavam desesperadas
pelo corpo do cientista. Eram mãos pequenas e delicadas, mas poderosas e
em cada toque, um rastro de fogo queimava a pele de Leandro. — Quero de
você tudo, delícia, absolutamente, tudo! – Ela falaria se não fosse a boca de
Leandro a calá-la com um beijo molhado e suculento. A união estava
completa e alcançar o paraíso seria uma questão de minutos. Com estocadas
no ritmo das batidas do coração, ele exigia, ela entregava, ele dava, ela
recebia, e juntos entregaram-se ao mais puro e perfeito êxtase.

Saciados, extasiados, abandonados um nos braços do outro, Ana e


Leandro admiravam o céu pingado de estrelas como se olhassem para uma
bela obra de arte. Leandro sussurrava o nome das estrelas, das constelações
como um menino realizado. Um cobertor extra os aquecia da friagem da
noite.
— Por que as estrelas? – Ana perguntou ainda perdida no prazer que
lhe havia sido proporcionado.
— Porque as estrelas, assim como o espaço sideral, contém todo o
mistério acerca do universo, Ana! Milhares destes pontinhos incandescentes
estão a nos assistir há milênios de anos. O que somos, de onde viemos e para
onde vamos, as respostas para todas essas coisas que têm intrigado o homem
ao longo da história está lá em cima.
— Isso é poético, Leandro! – Ana sorriu para o cientista,
aconchegando-se ainda mais nele. Leandro a envolveu carinhosamente,
queria-a protegida em seus braços, queria que o tempo congelasse e que
aquele momento não acabasse nunca.
— Você é a primeira pessoa a considerar meu trabalho como poesia,
Ana!
— Mas é mesmo! Camila não te acompanhava não?
— Ela acompanhava sim. Eu, Fabrício e Malu sempre organizávamos
este tipo de programa e ela e Isabela, sem muita escolha, acabavam por nos
acompanhar. Isabela dizia não gostar, porém, entrava no clima e acabava se
divertindo. Já Camila só reclamava, o tempo todo para ser mais exato. Na
maioria das vezes, deixava-a sozinha em nossa barraca.
— Como tenho dito uma vez ogro, sempre ogro!
— Não havia como dormir na mesma barraca que Camila, ela usava
tanto repelente que era praticamente impossível respirar dentro da barraca.
Isso que eu e você acabamos de viver, nunca aconteceu com a Camila, Ana!
— Nunca? Nunca mesmo? – A morena não conseguiu acreditar.
— Nunca, nunca com a Camila e nunca com mais ninguém. É como
se tivesse que ser com você, Ana. – Ela sorriu para ele, orgulhosa e feliz,
aquele momento seria apenas dos dois e nada e ninguém macularia a
recordação.
— Leandro, o que vamos fazer? Eu não posso ficar com você como se
não existisse Camila entre a gente. Ela faz parte da minha família e ela quase
foi sua esposa, vocês tiveram uma vida em comum, uma história em comum,
amigos em comum, até uma afilhada vocês dividem...
— Eu sei! E isso tem me consumido, Ana! Até semana passada, eu
daria minha vida para voltar no tempo, inventar uma máquina ao estilo “De
volta para o Futuro”, para mudar tudo. Hoje, depois de você, depois deste
momento, eu não quero mudar mais nada. Pois toda essa confusão que
provoquei apenas me levou até você. Sem aquele meu ato desesperado, se eu
não tivesse comprado aquela passagem de última hora, eu nunca estaria com
você, aqui.
O que Leandro acabava de dizer era uma verdade e Ana tinha a exata
noção do quanto o passado de Leandro levou-o até ela. Porém, sentia-se uma
traidora em transar com alguém que fez Camila sofrer, a esposa de seu amado
irmão Murilo e a quem havia aprendido a amar como uma irmã. Mesmo que
Ana aceitasse Leandro em sua vida, sempre haveria o peso do que havia
acontecido entre ele e Camila a ditar os rumos do seu relacionamento. Sem
falar que não suportaria ver Murilo sofrendo, pois até onde conhecia do
irmão, Murilo não suportava a ideia de Camila ter pertencido a outro homem
de forma íntima.
— O que foi, Ana? – Leandro puxou seu rosto. — O que passa em sua
cabeça? Conheço-a o suficiente para saber que algo a incomoda.
— Você é meu segredo sujo, Leandro! Um segredo sujo, mas
irresistível, doutor! E não sei o que farei com você! Se eu o mandar embora
da minha vida, você irá se afastar? – Séria, Ana pergunta.
— Não serei capaz... Prefiro ser teu segredo sujo! – Ele pareceu
sincero, concluiu a jovem, ainda agarrada ao corpo de Leandro, pois era
incapaz de afastar-se. Era uma loucura, pensou. Havia perguntado se ele era
capaz de afastar-se quando ela própria não era.
— Mas essa situação não pode durar para sempre, Leandro! Não sou
uma garota de esconder segredos, muito menos um tão sujo quanto você! –
Ele riu diante da sinceridade da garota. Em outra mulher, talvez Leandro não
acharia atraente tamanho atrevimento, mas em Ana Margarida, era só mais
uma parte dela que Leandro desejava. — Também não quero que você ou
nosso caso traga problemas para o meu irmão. Eu o amo demais e não
suportarei se algo afastá-lo de Camila.
— Já te falei que não quero Camila de volta, Ana!
— Eu sei!
— Não parece! – Leandro beijou a testa da morena.
— Porque você não o conhece! Murilo é impossível quando se trata
de Camila. Imagine um homem ciumento, multiplique por mil e eleve na
décima potência, o resultado é o Murilo. Mesmo que você se entenda com a
Camila, eu duvido que meu irmão nos aceitará juntos.
— Você não acha que está preocupada demais com seu irmão,
delícia? Afinal, ele é bem grandinho para se cuidar e se entender com a
mulher.
Leandro poderia estar certo quanto a Murilo. Mesmo assim, Ana
ainda não tinha certeza de que ficar com Leandro e assumir uma relação com
ele fosse o mais apropriado. Trazê-lo para sua vida poderia significar o caos
em sua família e ela realmente não estava preparada para isso, não depois dos
sufocos que haviam passado, não depois de quase perder a cunhada e a
sobrinha e ver seu irmão tão transtornado. Daria sua vida para que nada
daquilo voltasse a acontecer. Precisava dar um basta e determinada,
desprendeu-se dos braços do cientista e foi ao encontro de suas roupas.
— Isso não pode acontecer de novo! O sexo é magnífico com você,
mas nunca passará de sexo, de mais um sexo casual, só mais um com quem
me divirto. – Ana havia sido firme e insolente de propósito para que não
restassem dúvidas de que Leandro era apenas mais um e que não havia
possibilidade de seguirem adiante. — Quero ir para casa agora, Leandro! –
Leandro tentou falar, mas ela não deixou. — Agora, Leandro! Estou cansada
demais.
No dia seguinte, Ana despertou cansada por ter dormido pouco.
Seu humor não estava dos melhores. Havia desfrutado da companhia de
Leandro e não havia mais como negar que gostava da companhia dele, o
problema era que o cientista não era o homem mais apropriado para ser
apresentado à família como namorado. Não queria nem imaginar a reação do
irmão. Ela precisava dar um basta naquela relação, por mais que seu corpo
traidor desejasse por mais daquilo, ela não poderia ceder.
— Oi Ana! – Camila entrava na sua sala, linda e majestosa como
sempre. — Que carinha é essa? – A ruiva perguntou realmente preocupada.
— Não é nada demais, Camila! Tenho dormido mal, muito estresse
com o final da faculdade. – Precisava soar convincente e tratou de melhorar
sua cara, sorrindo, mesmo que fosse um dos sorrisos mais falsos que deu na
vida.
— Sei não, noites mal dormidas não seriam capazes de deixá-la tão
abatida. Bem sei, desde que a conheci, disposição para a balada nunca lhe
faltou! O que seria um mísero final de curso?! – Era difícil esconder as coisas
da cunhada. Camila era daquelas pessoas que farejavam uma mentira a
quilômetros de distância. Coitado do Murilo, pensou a morena. — Murilo
mesmo anda preocupado com você, Ana!
— Murilo é um exagerado! Sempre foi! – Ana revirou os olhos,
jogando-se na cadeira.
— Cris comentou comigo que Leandro esteve aqui me procurando e
você o atendeu!
— Que fofoqueira! – Ana soltou, arrependendo-se depois.
— Cris apenas cumpriu minhas ordens, Ana! – Camila repreendeu a
jovem, sentando-se na poltrona que ficava em frente à mesa de Ana. — O
que o meu ex-noivo queria? – A ruiva fitou Ana, na expectativa de uma
reposta, resposta que Ana preferia evitar, mas conhecia a cunhada e sabia que
não sairia dali até estar satisfeita.
— Falar com você! Ele sempre quer falar com você... – Era melhor
falar, decidiu Ana. — Quer te pedir desculpas, pois está arrependido de ter te
largado no dia do casamento. Mas eu não acho isso a melhor coisa a ser feita,
Camila, não agora que você encontrou meu irmão, não agora que vocês dois
construíram uma família. Esse ogro abandonador de noivas não merece uma
oportunidade, pronto falei!
— Pelos Deuses, Ana! Você já pensou em ter feito Direito? Daria
uma excelente promotora. – Camila riu.
— E você ainda ri, Camila! – Ana bufou. Definitivamente, não era um
bom dia para falar de Leandro, ainda mais depois da noite maravilhosa e das
coisas lindas que ele havia lhe dito.
— Já sofri demais por este assunto de casamento, Ana! Tenho me
dado o direito de rir. – Camila olhou para um dos quadros de plantas que
enfeitavam a sala da cunhada. — Para ser sincera, eu preferia que Leandro
tivesse ficado bem longe de mim, há coisas cuja recordação não nos fazem
bem. Leandro faz parte de um passado que prefiro esquecer. Ocorre que ele
está aí e não posso fazer de conta que ele não existe e nunca existiu. Não
seria eu se assim agisse, Ana! Sempre enfrentei tudo de cabeça erguida e se
assim não fosse, não conseguiria ter superado tantas dificuldades para ficar
ao lado do seu irmão.
— Murilo não vai aceitar isso nunca! – Ana suspirou, mais
introspectiva do que nunca. Sabia que o irmão não a compreenderia se
assumisse seu caso com Leandro, não com Leandro que magoou sua ruiva.
Camila era tudo para Murilo e isso cortava o coração de Ana, a deixava
dividida.
— Não podemos esquecer que eu quase morri, Clara quase morreu e
tudo em razão do passado de Murilo, Ana! – Camila estava coberta de razão.
Ana sabia que Leandro não seria capaz de colocar em risco a vida de
ninguém, não depois dos momentos que dividiu com ele. Porém, não seria
Ana se desse o braço a torcer. Ela precisava se agarrar em alguma coisa, caso
contrário, cederia aos encantos dele e se isso viesse a acontecer, não se
perdoaria nunca.
— O que pretende fazer, então? – Ana perguntou, ansiosa por saber
mais sobre o ex-noivo de Camila. Havia uma pergunta implícita ali, uma
pergunta que Ana não tinha a coragem de fazê-la.
— Nada! Não pretendo fazer nada, Ana! Leandro faz parte do meu
passado, como tenho dito, um passado que ficou para trás, junto com um
monte de outras coisas. Vivo feliz e nada será capaz de abalar minha
felicidade ou colocar em risco o que sinto por seu irmão se é isso que a
preocupa. – De fato era uma delas, mas não a única. O problema maior é que
ela havia se apaixonado por Leandro, nunca havia se apaixonado antes e
quando aconteceu tinha que ter sido justo por alguém com um passado tão
complicado, era muito azar, Ana não se conformava com isso.
— Mas ele quer conversar com você! – Ana prosseguiu. Estava
determinada a extrair mais informações da ruiva.
— Problema dele! Não tenho a mínima intenção de conversar com
ele. Olha Ana... – Camila se mexeu na poltrona. — Já faz algum tempo que
me conformei com o fato de que eu e Leandro teríamos que nos suportar,
afinal, dividimos amigos em comum, temos uma afilhada e quando falo em
amigos, que fique bem claro que nenhum de nós dois iria abrir mão da
amizade de Malu, Isabela ou Fabrício. Éramos como uma família e seria
muito injusto exigir deles que tomassem partido nessa história. Quanto ao
Murilo, se eu aprendi a conviver com a montanha de merdas que ele fez, ele
terá que aprender a lidar com meu passado. No fundo, Murilo está louco de
ciúmes de Leandro, porque antes dele, foi Leandro quem esteve comigo. O
que é um tanto esquizofrênico, não acha? – Ana riu diante da colocação da
ruiva. — Não pense que para mim é fácil olhar para outras mulheres e ficar
imaginando quais Murilo levou para cama. Seu irmão foi medalhista de ouro
em safadeza.
— Vocês dois são loucos! – Ana gargalhou. — Um mais ciumento
que o outro.
— Não sou ciumenta, Ana! Apenas uma mulher apaixonada e
confesso que ver Murilo com um pouquinho de ciúmes, mesmo que tudo não
passe de fantasia, pois jamais o deixaria para voltar para Leandro, me faz
sentir muito poderosa.
— Você é terrível, Camila! Só mesmo você para fazer par com meu
irmão! – Ana respirou fundo e tomou coragem para uma pergunta que não
parava de atormentá-la. — Você e Leandro.... Bem.... Vocês namoraram por
muito tempo, mas você quase não comenta a respeito. Eu pensei que...
— Ana, se não falo de Leandro é porque, de fato, não me importa
mais o que passou. Já me importou, para ser justa, e muito. Também não há
muito o que comentar a respeito. Namorei Leandro desde muito nova e criei
um mundo perfeito na minha cabeça, um relacionamento perfeito. Ele era um
sujeito calmo, introspectivo e muito na dele, ao passo que eu sempre fui
muito intensa em tudo que me propunha a fazer e realizar. Já conversei muito
sobre isso com Malu e Isabela e as duas como boas amigas que o são sempre
me apoiaram, mas também me fizeram enxergar o quanto foi bom alguém ter
tomado a iniciativa de pôr um ponto-final naquela relação. Nem eu, nem
Leandro seríamos felizes, Ana.
— Mas os fins não justificam os meios! – A morena ficou perplexa
diante das palavras de Camila. Era inconcebível que alguém pudesse sair
humilhado ou machucado de algo quando era tão mais simples resolver as
coisas com diálogo. — Ele podia ter terminado com você antes.
— Verdade! É por essa razão que, talvez, eu nunca conseguirei
perdoá-lo pelo que fez. Mas mesmo assim, Ana, mesmo que eu tenha me
sentido a pior mulher da face da terra, se ele não tivesse tomado aquela
iniciativa, eu estaria casada com Leandro e não teria encontrado o homem da
minha vida, o homem pelo qual sou capaz de morrer. Eu passaria por tudo de
novo, de olhos fechados e sem hesitar, se ao final, Murilo estivesse lá me
esperando.
— Que lindo, Camila! – Ana secou uma lágrima que foi incapaz de
segurar. Murilo havia encontrado a sorte grande, não poderia existir outra
mulher mais perfeita, mais determinada e forte que Camila.
As duas ainda trocaram conversa fiada até que Camila se despediu
pois havia uma reunião importante para conduzir. Era mais um possível
projeto de restauração e isso poderia colocar o escritório entre os mais
renomados no ramo. A ruiva, inclusive, pensava em contratar mais uma
arquiteta especialista em restauração para ajudá-las.
Ana pegou uma de suas revistas sobre jardinagem e enquanto
folheava, repassou e repassou as palavras de Camila, tudo o que havia falado
a respeito de Leandro. Incapaz de concentrar-se em nada, agindo pelo
impulso, pegou o telefone e discou o ramal de Camila. — Camila, estive
pensando a respeito do que me falou e quero te pedir uma coisa!
— Pois pergunte, Ana!
— Seu ex-noivo é um homem bom? – Camila estranhou a pergunta,
mas resolveu respondê-la mesmo assim, já estava acostumada com o jeito
espevitado e nada convencional da garota.
— Leandro não é capaz de matar uma abelha, acredite! É o sujeito
mais pacifista que conheci na vida. Fabrício o chamava de Suíça, por sempre
agir como um pacificador. É um poço de tranquilidade aquele lá, chegava a
ser irritante. Malu costuma dizer que Leandro me deixou a ver navios por
medo de ver a mágoa em meu semblante. Eu ainda não estou totalmente
convencida a respeito.... Mas para que quer saber? – Ana se engasgou. —
Está bem, Ana?
— Me engasguei com uma bala! Obrigada por responder. – Despediu-
se novamente da cunhada e colocou o telefone de volta no gancho. Um bipe
soou em seu celular. Era Leandro e ficou dividida entre conferir ou ignorar o
chamado. Optou por ignorar. Determinação que foi quebrada pela vontade de
checar a mensagem.
Vou te buscar na faculdade! Posso? Precisamos conversar...
Ana foi para a faculdade determinada a dar uma basta em sua relação
com Leandro. Aquela situação não poderia continuar e, além do mais, não ia
prestar ter um caso com Leandro. Por isso, aceitou o convite de Leandro. Iria
encontrar o cientista e terminar tudo. Já havia passado por situações parecidas
antes e tiraria de letra.
— Boa noite, Ana Margarida! – Leandro a recebeu com um sorriso
lindo e a determinação de Ana parecia querer falhar. — Já te falei que você é
linda quando veste vermelho?! – Pronto, agora ele havia sido sedutor e isso
não era muito bom para os planos da jovem. Leandro era homem que seduzia
pela simplicidade das palavras, elas eram naturais e muito espontâneas.
Apesar do pouco convívio, Ana percebeu desde o início que os elogios de
Leandro eram sinceros. Era um homem de poucas palavras e quando as
soltava eram verdadeiras. Tudo isso apenas o deixava mais atraente e muito
fofo, pensou. — Estou preocupado com você! – Leandro continuou, pegou
uma das mãos de Ana e levou-as até os lábios.
— Por que deveria? – Ana tratou de quebrar o contato visual entre
eles. Não queria ficar vulnerável ou parecer hesitante, não quando estava
determinada a dar um basta naquilo tudo. Não poderiam ter nada, não
poderiam insistir em algo que havia nascido fadado ao fracasso.
— Estávamos tão bem ontem... – Leandro colocou as mãos no bolso
em sinal de apreensão. Não era fácil para Leandro se abrir e expor seus
sentimentos para oura pessoa. — Eu pensei que você havia gostado da nossa
noite, mas então, você mudou do nada e quis ir embora...
— Não podemos ficar juntos, Leandro! – Ana se afastou, precisava de
espaço ou seria incapaz de fazer o que era preciso.
Leandro sentiu um nó se formar no estômago e um misto de
sentimentos nublou seus pensamentos. Sentiu medo, um medo jamais antes
sentido. Um medo de perder a única mulher que havia rompido todas as suas
barreiras. A verdade era que nunca havia acreditado no amor ou na sua
existência. Havia crescido com os pais afastados e poucos gestos de carinho
ou apreço entre eles foram assistidos por Leandro. Eram um casal perfeito,
diziam as colunas sociais de Porto Alegre, mas um casal perfeito aos olhos
dos outros e não aos seus olhos. Seus pais eram distantes, cada um envolto
em suas preocupações profissionais e não havia espaço para ele ou para a
família. Assim havia crescido Leandro, para ser o espelho da perfeição,
mesmo que precisasse esconder a tormenta de sentimentos que o perseguia.
— Você precisará me convencer disso, Ana Margarida! Precisará me
provar que não podemos ficar juntos. – Ele não se daria por vencido, não
desta vez, não quando estava determinado pela primeira vez em sua vida em
ter alguém para si. Leandro queria Ana e lutaria por ela, doesse a quem
doesse.
— Ana! – Uma voz grave masculina chamou a atenção dos dois.
— Gabriel, o que faz aqui? – Ana perguntou, sem jeito. Gabriel se
aproximou e depositou um beijo no rosto da morena. O sangue de Leandro
ferveu. Era ciúme, percebeu, um ciúme nunca antes sentido com tanta
intensidade, um ciúme avassalador.
— Pensei em fazer uma surpresa! – O loiro respondeu, muito
sorridente para o gosto de Leandro. — É sexta-feira, o que acha de darmos
uma esticada?
— Você não vai com ele! – Leandro foi incapaz de conter a
possessividade que sentia em relação à garota. Pela primeira vez.... Outra
primeira vez, pensou! Desejou jogar Ana nos ombros e tirá-la dali, queria
afastá-la daquele miserável, queria bater nele e depois trancar Ana em um
quarto até que fosse capaz de convencê-la que ela era dele e só dele, que
havia sido feita para ele e mais ninguém.
— Você está saindo com este daí? – Gabriel olhou de ponta a ponta
Leandro, com desdém. Leandro deu um passo para frente e, institivamente,
enlaçou a cintura de Ana, puxando-a para perto de si. Tinha a exata noção
que agia como um cachorro delimitando o território, mas não se importava
com isso.
— Olha só vocês dois... – Ana se desprendeu do aperto de Leandro.
Estava esgotada e cansada com tudo, com toda aquela encenação. Detestava
quando dois homens agiam como homens das cavernas, não era um pedaço
de carne para ser disputada por dois predadores. — Estou cansada, quero ir
para casa e vou para casa sozinha. Então, por favor, não me sigam! Se
quiserem brigar, façam-no, mas por favor, quando eu estiver no conforto da
minha cama. – Era disso que Ana precisava, de sua quente e agradável cama.
Desde que Leandro havia cruzado seu caminho no aniversário de Beatriz, não
havia feito outra coisa a não ser pensar e Ana não gostava de perder tanto
tempo com pensamentos. Aquilo que não tinha remédio, remediado estava,
era essa sua filosofia de vida, uma filosofia de vida que havia funcionado até
então.
No dia seguinte, Ana chegou à Alcântara, Telles & Botelho e
encontrou o andar dos sócios em polvorosa. Dona Olga, a secretária dos 3
sócios, parecia nervosa.
— O que acontece por aqui? – Perguntou perplexa.
— Problemas e mais problemas, minha jovem! – A secretária
respondeu afoita, com o telefone na orelha e discando um número.
— Cruzes! – Ana fez o sinal da cruz e uma prece. Não era uma
religiosa fervorosa, mas toda ajuda sempre era bem-vinda!
— Vou matar aquele traste! – Murilo saiu da sala de Edu com os
cabelos desalinhados e com as mangas da camisa arregaçadas. Estava furioso,
Ana percebeu. Sabia que não era bom cutucar o irmão, pois sabia do gênio
temperamental dele, mas não aguentaria de curiosidade e precisava descobrir
o que tanto incomodava Murilo. Partiu atrás do irmão, sem pensar duas
vezes. Os afazeres do dia que esperassem, pensou. — Não estou com cabeça
para falar, Ana! – Murilo soltou sem paciência, mas Ana não era mulher de
se deixar intimidar com um simples não, ainda mais vindo de Murilo.
— Ao que percebo Camila te mandou dormir na casinha do cachorro!
– Murilo levantou a cabeça e ergueu uma das sobrancelhas. — Posso saber
quem será sua próxima vítima? – A jovem riu do próprio comentário ao
lembrar da novela a Próxima Vítima de Silvio de Abreu. Era uma amante das
telenovelas, daquelas com enredo dramático.
— Sem gracinhas, Ana Margarida! Meu dia começou muito mal, pior
impossível! – Murilo só podia estar muito irritado para chamá-la por seu
nome completo e isso apenas a fez pensar em Leandro.
— Está bem, não está mais aqui quem falou! – Ana se jogou na
poltrona. — O que foi que aconteceu para o velho Murilo rabugento voltar à
ativa?
— Camila está em perigo novamente! – O coração de Ana disparou
no peito. Não devia ser coisa de Leandro. Ele não teria coragem de procurar
Camila apenas para se vingar de ter sido dispensado na noite anterior, além
disso, ele não era nenhum criminoso; até onde sabia abandonar noivas no
altar não era nenhum crime, mas bem que podia ser.
— Puta merda, Murilo! Não vai me dizer que a louca da Eleonora
ressuscitou?! – Murilo acabou rindo do comentário da irmã.
— Irmãzinha, você tem assistido muitas séries, isso não faz bem!
Zumbis ainda não existem! – Murilo reassumiu a seriedade de antes, mas Ana
já o sentia mais relaxado. Falar bobagens com o irmão sempre havia
funcionado.
— Nunca se sabe, Murilo! A ciência tem progredido a passos
espantosos. Não me admiro se um dia acordar com a notícia de que
descobriram a fórmula da vida eterna... Mas me conte logo, o que está
acontecendo com Camila?!
— Ontem, ela percebeu que um carro a seguiu. E se não bastasse isso,
hoje cedo fui acordado com um bipe do meu celular, era uma mensagem
anônima, ameaçando a vida de minha esposa.
— Jesus! Isso é sério, Murilo! – Ana estava estarrecida. — Você
desconfia quem seja?
— Desconfio sim! Só pode ser o Senador Armando Cavalcante. Ele
era um dos comparsas de Eleonora no sequestro de Camila.
— Não sei nem o que dizer! – E Ana não sabia mesmo o que falar
para o irmão. Sentiu um aperto no peito ao lembrar de Leandro, do quanto se
empenhou em mantê-lo afastado de Camila, a fim de proteger o casamento
feliz de Murilo, ao passo que o verdadeiro perigo estava longe de seu
controle.
— O que foi? Ana, você está branca! – De fato, Ana havia ficado
subitamente pálida. Todos os momentos ruins do passado, a angústia que
sentiu ao ver o irmão preocupado e acabado, os dias em que Camila
permanecera desaparecida, grávida e sem qualquer notícia do seu paradeiro
invadiu seus pensamentos, deixando-a aflita em demasia.
— Ai Murilo, você precisa fazer alguma coisa! – Ana se levantou de
supetão, agarrando o colarinho da camisa de Murilo. — Não suportarei passar
por aquela agonia de novo, Murilo. – Murilo puxou a irmã para o aconchego
dos braços.
— Providências foram tomadas, irmãzinha! Darei minha vida para
protegê-la. Prefiro morrer do que passar por todo aquele sufoco novamente.
— Não fala assim! – Ana se desprendeu um pouco dos braços firmes
do irmão, de modo a dar um tapa nele. — Não podemos perder a fé, Murilo!
E desta vez, não haverá o fator surpresa para complicar tudo.
— Isso me preocupa na mesma proporção, pois Cavalcante é dono de
uma mente maquiavélica. Dele podemos esperar qualquer coisa! – Murilo
afagou os cabelos de Ana.
— E Camila como está? – Ana perguntou ainda chocada com as
notícias.
— Nervosa! Camila não suporta viver com seguranças colados 24
horas do dia. Sempre foi uma mulher independente, uma verdadeira
guerreira, daquelas que vai para a batalha com a cabeça levantada. A proibi
de ir para o Solar, achei prudente que trabalhasse aqui ou em casa, se bem
que não se consegue proibir nada para a ruiva.
— E ela aceitou?
— Aceitou trabalhar em casa depois de praticamente esgotar meus
argumentos. Nada é simples com Camila! – Murilo deposita um beijo na testa
da irmã e volta para a cadeira.
— Por que você deixou Camila entrar em seu coração e outras não,
Murilo? – Ana precisava saber, apesar do momento não ser o mais
apropriado. Talvez se entendesse os sentimentos do irmão, poderia vir a
entender Leandro e o fracasso do seu casamento com a ruiva.
— É complicado explicar, Ana! – Murilo se inclinou na cadeira de
modo relaxado, com o olhar perdido para as fotos da família que decoravam
sua mesa de trabalho. — Além de dona de uma beleza única, Camila é dona
de uma personalidade forte e destemida. Jamais esquecerei o dia em que
aquele par de olhos verdes me fitou com fúria e se apresentou com a
segurança e a tranquilidade que jamais encontrei em outra mulher. Eu havia
acabado de chamá-la de solteirona, Ana! Para qualquer outra mulher, seria
motivo para as lágrimas ou vergonha, mas não para a minha Camila. Eu
queria dobrar aquela mulher, era uma questão de honra, mas acabei
apaixonado e de quatro pela ruiva. – Murilo riu e Ana sentiu as lágrimas
inundarem seus olhos. Sabia que não era fácil para Murilo admitir seus
sentimentos diante dos outros. — A cada provocação que me respondia com
altivez, a cada vez que ela me repelia, eu a queria mais e mais perto de mim a
ponto de impregnar de um jeito na minha pele que não havia mais espaço
para outra.
— Que lindo, Murilo! Camila te fez muito bem!
— Não sabe o quanto, Ana! Camila me devolveu a capacidade de
acreditar no “felizes para sempre”. Ouso dizer que na receita de Camila
estava escrito feita para ser do Murilo. É claro que a mulher perfeita para
mim, não seria uma simples e delicada espécie de fêmea.
— Você é um safado, irmão! – Ana riu, secando as lágrimas que
escorriam pelo rosto. — Camila foi feita para você, mas você também foi
feito para Camila. Somente um homem cheio de personalidade como você
poderia fazê-la feliz. – Era uma máxima que agora fazia ainda mais sentido
para Ana. O jeito pacífico e introspectivo de Leandro jamais conseguiria
domar a personalidade forte e confiante de Camila, não combinava com o
pragmatismo dela, percebeu. Aquilo agora parecia tomar clareza na mente
confusa de Ana. E o fato de Leandro não ser como Murilo, não o fazia pior
ou melhor, apenas diferente. Leandro havia se revelado um romântico
sonhador e Ana precisava admitir que isso a fascinava e a deixava com as
pernas bambas na maioria das vezes.
— Sou mesmo! Um safado de uma mulher só! – Os dois se juntaram
às risadas. — Obrigado pela conversa, Ana. Você me ajudou a relaxar.
— Imagina! – Ana estendeu as mãos, colocando-as sobre a mesa,
Murilo as envolveu num ato terno de amor e apoio fraternal. — Eu amo você,
Murilo! Seu bem-estar é o meu bem-estar. – Murilo estava para conhecer
pessoa mais leal do que sua irmã Ana. Sabia que como irmão mais velho era
amado por Ana de forma incondicional e devolvia na mesma proporção todo
o amor que lhe era ofertado e desejava do fundo do coração que sua
menininha fosse feliz. Ana não merecia menos.

Para Leandro, as horas custavam a passar e nada era capaz de prender


sua atenção. Não era um homem ansioso ou incapaz de se concentrar em
qualquer coisa, não quando estivesse determinado a resolver um complicado
cálculo. Mas estava tão absorto em Ana Margarida que nada e ninguém o
faziam acalmar os pensamentos. Não havia dormido direito, imaginando mil
e uma coisas, o que ela poderia estar fazendo e com quem. Também não era
um homem ciumento, não o fora com Camila, sua única namorada séria. Ana
havia entrado na sua organizada e monótona vida sem aviso prévio. Era-lhe
certo o quanto sua vida havia sido sem sentido e sem cor até então. A verdade
era crua e clara, pensou Leandro. Havia se apaixonado por Ana Margarida.
Toda a atração que sentia pela garota havia se transformado numa paixão
avassaladora, daquelas capazes de abalar o juízo e a inteligência de homens
centrados como ele.
Fora criado para ser um homem responsável e bem-sucedido e quando
decidiu pela carreira acadêmica, lhe era certo de que deveria ser o melhor
astrofísico do país, pois assim os pais queriam. Não lhe era permitido
desapontá-los novamente, não quando Leandro não havia escolhido a
Medicina como o pai ou o Direito como a mãe, que sonhava que o filho se
tornasse um importante político para honrar gerações de importantes
figurões, uma dinastia de políticos, que se iniciara com o avô materno de
Leandro.
— Se é para seguir carreira acadêmica, o faça bem feito, Leandro! –
Sua mãe lhe disse, em um momento de fúria. — Seu avô estaria
envergonhado de você, Leandro!
Leandro Navarro devia ser o orgulho dos pais e não poderia frustrá-
los, não quando gerações de bom nome e fama estavam em jogo. Sempre
havia sido assim desde criança. Quando apresentou Camila para os pais, teve
a certeza de que havia feito a coisa certa. A herdeira dos Rossini, a pupila da
sociedade porto-alegrense, era a nora dos sonhos dos Navarro. Foi a primeira
vez que viu nos olhos dos pais a aprovação pela qual tanto ansiou. E tudo não
havia passado de uma mentira, uma mentira que ele tentou acreditar e que, no
final, acabou por magoar não somente a ele, mas a Camila também.
O cientista estava cansado de pensar e não encontrar uma explicação
lógica. Resolveu sair, sem rumo, na tentativa de afastar tantos conflitos de
sua cabeça. Foi até a praia de Ipanema, caminhou por alguns minutos,
sentindo a agradável brisa da noite. Encontrou um bar aberto, resolveu entrar
e pediu por alguma bebida, qualquer bebida forte que desse um jeito de fazê-
lo esquecer os problemas, mesmo que lhe fosse certo a ressaca no dia
seguinte.
— Vejo que os problemas se acumulam, parceiro! – Horas depois,
restavam apenas Leandro, alguns garçons e uma mulher que parecia ser a
gerente do bar.
— Nem te conto! – Leandro respondeu num sotaque sulino mais
perceptível em razão da possível embriaguez depois de alguns copos de
bebida destilada barata.
— Mulher no pedaço? – O garçom puxou uma cadeira, sentando-se
na frente de Leandro, que assentiu com um leve chacoalhar de cabeça.
— Mulheres são seres criados especialmente para infernizar nossas
cabeças, parceiro! Uma vez que entram aqui. – Apontou para a cabeça. —
Nunca mais saem e se você tiver a sorte de tirá-las da cabeça, você nunca
mais será o mesmo. Prazer, meu nome é Rodrigo! – Estendeu a mão para
cumprimentar Leandro. — Amigo, esse daí que teve sorte! – Rodrigo
apontou para a televisão, que antes passava um jogo de futebol e agora estava
ligada em algum canal de fofoca.
— A ruiva aí foi minha noiva!
— Parceiro, agora entendo você!
— A mulher do homem de Neandertal foi minha noiva, acredite! Mas
não é por ela que estou na fossa.
— Tem certeza? – O garçom, surpreso, encarou Leandro. — Essa
ruiva é um avião!
— Absoluta certeza! Preciso beber para esquecer uma morena de
boca grande e não uma ruiva, que é uma pimenta de “braba”. – Rodrigo
soltou uma gargalhada. — Não ria! Essa ruiva é mesmo uma pimenta de
“braba”!
— E o que aconteceu para ela te dispensar e acabar nos braços de
Murilo Mendonça Castro de Alcântara?
— Fui eu quem a dispensou! Acredite, mas eu a deixei no dia do
casamento.
— Você é louco, só pode! Largar uma ruiva gostosa dessas no altar!
— Ela está melhor agora! – Leandro prestou atenção na notícia e teve
a certeza de que fizera um favor para Camila quando decidiu pôr um fim no
casamento. — Olhe para o sorriso dela! – Apontou para a tela da televisão.
— O que você vê? Uma mulher feliz, não é! Ela é mais feliz ao lado dele do
que ao meu.
— E essa morena? – O garçom perguntou curioso.
— Assunto complicado! Ela não me quer porque eu abandonei a ruiva
no altar...
— Bem... – Rodrigo secou a testa suada e passou a mão entre os
cabelos já oleosos pela longa noite de trabalho. — Convenhamos, até eu
ficaria com um pé atrás com você!
— Cara, não sou um psicopata ou coisa do tipo que passa 10 anos
com uma mulher só para sentir prazer em abandoná-la no dia do casamento. –
Leandro fez uma pausa e bebeu o último gole de seu uísque. — É uma longa
história, sabe!
— Pires, traga mais uma dose para a gente! O amigo aqui precisa
desabafar.

Maio de 2014
— Camila, precisamos conversar! – Leandro entrou na sala da vice-
presidência da Construtora Rossini. Não poderia mais esperar, precisava
esclarecer algumas coisas com a noiva. Camila ergueu a cabeça e fitou
Leandro contrariada. Sempre reagia da mesma maneira quando lhe tiravam a
concentração de algo importante.
— O que é tão importante que não pode aguardar? – Camila se
levantou e foi ao encontro do noivo para cumprimentá-lo com um beijo na
bochecha. Desde que o irmão havia se acidentado gravemente, Camila agia e
comportava-se como uma executiva. Ela era brilhante e, sem qualquer
questionamento, fazia um ótimo trabalho na gestão da empresa. — Estou com
muito trabalho e ainda preciso me organizar para uma importante reunião
com o grupo de investidores da Argentina, Leandro! Tem certeza de que não
pode esperar seja lá o que tenha para me falar?
— Recebi um e-mail estranho para que eu confirmasse os doces do
casamento!
— Doces do casamento? Mas isso devia ter sido enviado para o meu
e-mail e não para o seu. – Camila falou, alisando a saia lápis. Desde que
havia assumido a presidência do grupo, Camila vestia-se impecavelmente,
com roupas sóbrias e sapatos de salto. — Não se preocupe com os doces!
Estou cuidando de tudo, querido!
— Como cuidando de tudo, Camila?! – Leandro se sentia pressionado
por não estar preparado para o casamento, mas também não sabia como falar
com a noiva acerca do assunto. Não queria machucá-la, não depois de tudo o
que Camila teve que suportar. O acidente do irmão e a doença da mãe
exigiram de Camila mais do que qualquer jovem poderia suportar. — Olha...
Eu acho que devíamos ao menos esperar um pouco!
— Esperar mais um pouco, Leandro?! Estamos juntos há uma
eternidade! – Camila bufou.
— Não seja exagerada, Camila!
— Exagerada, eu? Estou prestes a fazer 30 anos, Leandro. 30 anos!
Você sabe o que significa 30 anos para uma mulher? É claro que não! Não
posso viver um noivado eterno com você!
Leandro se afastou de Camila, de modo a conseguir respirar e
organizar as ideias. Camila era uma mulher intensa, segura e muito firme de
suas decisões. Era sabido que quando metia algo na cabeça, nada seria capaz
de dobrá-la ou convencê-la do contrário. Leandro via nisso uma qualidade,
qualidade que a fez vencer na vida e se tornar uma das promessas
empresariais do ramo da construção civil, no entanto, a determinação de
Camila, não raros casos, transformava-se em teimosia e quando tal coisa
acontecia, tornava-se cansativo tentar argumentar com ela.
— Se eu te disser que quero um tempo... Um tempo para respirar de
tudo, você compreenderia?
— Não! – Camila o encarou com os olhos mais verdes do que nunca.
Um não de Camila não era fácil de se enfrentar. Mas Leandro precisava fazê-
lo.
— É sempre assim, Camila! Você discute comigo, alega que não
dialogo com você, que não discuto meus problemas, que não divido minhas
angústias com você, não é?! No entanto, quando tento o fazer, você se mostra
intransigente.
— Leandro, por favor! Não é o momento, nem o lugar para se ter este
tipo de conversa. Estou assoberbada... – A ruiva virou as costas e voltou para
sua mesa. — Não tenho cabeça para discutir nosso casamento agora, quando
preciso e devo me concentrar no projeto de expansão da construtora. Os
doces e tudo mais que digam respeito ao casamento, não há com o que se
preocupar, contratei uma profissional para cuidar de tudo e sua mãe se dispôs
a me ajudar. Então... – O cientista a interrompeu.
— Então... – Leandro respirou profundamente. Estava alterado
emocionalmente, havia ido até a noiva para dizer-lhe que não queria se casar,
não ao menos dentro de pouco mais de um mês. Porém, sempre teve
dificuldades de externar os sentimentos, talvez por medo de ser julgado ou
mesmo de machucar os outros. — Então, não diga que eu não tentei, Camila!
— Por Deus, Leandro, não faça de tudo um drama! Se for a tensão
nervosa ou o fato de que nosso casamento possa exigir mais do que está
disposto a suportar, fique tranquilo, querido! – Camila se levantou e foi para
perto do noivo, tocando-o nos ombros. — Um simples e-mail sobre os doces,
equivocadamente enviado para seu endereço eletrônico, não é motivo para
tanto, Leandro! Bem sei que dedica todo seu tempo ao seu projeto de
pesquisa.
Leandro pegou nas mãos de Camila, de maneira a afastá-las do seu
corpo. Precisava manter distância dela naquele momento. — Quando terá um
tempo para conversar, Camila? – Leandro perguntou agoniado, pois talvez,
em outro momento, sua coragem não se fizesse mais presente. — Já que
agora não é um bom momento, diga-me, quando será?!
— Possivelmente apenas no final de semana. Não te entendo,
Leandro! Lembro-me muito bem de ter te avisado de que teria uma semana
intensa de trabalho...
— Tudo bem, Camila! Quando tiver tempo para mim, avise-me,
saberá onde me encontrar.
Leandro saiu da sala sem ao menos se despedir de Camila. Ela não se
importou. Parecia estar mais preocupada com os negócios da construtora do
que com qualquer outra coisa. Estava cansado com o jeito controlador da
noiva. E que Deus o ajudasse, porque estava seriamente inclinado a tomar
uma atitude drástica.
No dia seguinte, Leandro amanheceu com uma dor de cabeça
terrível e com uma ressaca insuportável. No entanto, não havia
arrependimento, pois os garçons na noite anterior ouviram-no pacientemente
e, pela primeira vez na vida, colocou para fora tudo o que havia lhe agoniado
durante anos. Assim que se livrasse do incômodo e do mal-estar da ressaca,
elaboraria um plano para conquistar o coração de Ana Margarida. Haveria de
ser uma estratégia muito bem pensada para que sua morena de boca grande
aceitasse seu amor sem qualquer receio. Era um cientista e um dos bons e não
poderia ser tão difícil, pensou.
Após tomar uma ducha e um analgésico, sem pensar duas vezes, abriu
o notebook e digitou tudo aquilo que havia pensado. Projeto Ter o Amor de
Ana em 5 Passos era o nome do arquivo que salvou. Sua mente funcionava
melhor no modo cientista, sem falar que as ideias fluíam com mais
naturalidade. O objetivo de sua estadia no Rio de Janeiro passou a ser
conquistar Ana Margarida e provar para ela que ele merecia uma segunda
chance. Para tanto, estabeleceu 5 diretrizes básicas a serem seguidas à risca
para o sucesso da operação.
Primeiro objetivo a ser cumprido:
Mudar o visual e comprar roupas novas
Operação banho de loja
Ajudante escolhida: Isabela
Segundo objetivo a ser cumprido:
Aprender a dançar com a finalidade de surpreender Ana
Operação dançarino sexy
Ajudante escolhida: a definir (considerar pesquisa na internet)
Terceiro objetivo a ser cumprido:
Criar o cenário perfeito para a mais bela e romântica noite
Operação noite romântica
Ajudante escolhida: Isabela e Fabrício
Quarto objetivo a ser cumprido:
Pedir perdão para Camila
Operação pedido de desculpas
Sem ajudante.
Quinto objetivo a ser cumprido:
Pedir Ana em namoro
Operação eu quero ela
Sem ajudante.
Leandro salvou o documento e mandou imprimir várias cópias do
mesmo. Levaria consigo uma no bolso como um talismã e uma lembrança de
que estava disposto a tudo para ter Ana ao seu lado, queria compartilhar uma
vida com ela. Nunca esteve mais certo e convicto do que queria na vida. —
Eu quero ela! – Foi a resposta que deu para Rodrigo, o garçom que o atendeu
na noite anterior. E, se antes, não esteve tão determinado na vida,
simplesmente foi porque não havia encontrado sua alma gêmea, a mulher que
fazia seu coração pulsar em ritmo frenético, a mulher que era seu aconchego
e que o fazia entender o seu lugar no mundo. Ana era essa mulher e nada e
ninguém o fariam desistir sem lutar. Nunca havia desistido antes de algo, ao
menos não quando dizia respeito às estrelas, sua grande paixão. Mas
desconfiava que Ana estivesse acima delas, Ana havia se convertido em sua
maior e mais brilhante estrela. Ana era o seu sol e por um sol estava disposto
a vencer seus medos, sua insegurança e se superar.
A dor de cabeça já estava mais leve e não poderia perder mais tempo.
Digitou uma mensagem rápida para Isabela e combinou de encontrá-la no
shopping mais perto da casa da amiga. Fabrício se comprometeu a cuidar das
crianças, uma vez que estava de folga. Tudo parecia conspirar a favor do
cientista e isso só podia ser um bom sinal, pensou. O otimismo voltou a fazer
parte, novamente, da vida de Leandro e ele se sentiu mais animado.

Mais tarde...
— Então você trouxe reforço, Bela! – Leandro abraço Malu. —
Gostei da ideia!
— Não sei no que posso ser útil, mas vim mesmo assim! – Malu
sorriu sem jeito, não gostava muito de fazer compras no shopping.
— Pois acabei de ter uma ideia, irá me ajudar em algo! Você é a
pessoa perfeita. – O cientista lembrou do terceiro objetivo e Malu poderia lhe
ajudar com ele. Uma mente curiosa como a da Malu, além de ser uma
mulher, poderia lhe dar dicas infalíveis.
— Chega de papo vocês dois, vamos logo! – Isabela ordenou. —
Temos muito o que fazer. Pensei em comprar umas camisas bem transadas
para você, Doutor Leandro, além de alguns pares de sapatos mais estilosos.
Também consegui uma hora com um cabeleireiro super badalado.
— Cabeleireiro de mulher? – Leandro pareceu chocado. — Eu havia
pensado em procurar um barbeiro.
— Deixa de ser fresco, Lê! Estamos falando de Ana, você acha que
ela vai se impressionar com qualquer coisa, homem? Claro que não! Aquela
garota é descolada, super moderna e cheia de atitude. Se você quer conquistá-
la, é melhor pensar grande.
— A Bela está certa! Mas também não precisamos exagerar, pois
Leandro tem seus encantos. Acredito que é apenas dar uma melhorada, sei lá!
– Malu exclamou, fazendo um gesto de ombros logo em seguida.
— Malu, te chamei para ajudar e não para atrapalhar.
— Olha só... Não precisam brigar, vocês duas! Entrego minha pessoa
aos cuidados de vocês. Então, vamos logo, antes que me arrependa. –
Leandro falou entre risadas. Estar entre as amigas novamente lhe animou.
Fazia tempo que não se sentia tão relaxado.
Leandro, sempre com a aprovação de Isabela e Malu, comprou várias
calças, casacos, camisas e camisetas, além de sapatos, cintos e cuecas. Apesar
da timidez inicial, conseguiu se soltar e foi protagonista de olhares cobiçosos
quando Isabela o fez provar modelos de cuecas. No entanto, o que mais
gostou foi do cabeleireiro. Isabela havia marcado hora com o cabeleireiro de
Ana e foi muito fácil extrair dele informações preciosas sobre a garota.
— Lê, quero comprar um livro que acabou de ser lançado! Importa se
entrarmos na livraria? – Isabela perguntou. Leandro, apesar de cansado,
concordou.
— Vamos lá, Lê! – Malu o puxou pela mão. — Quero ver os
lançamentos na área da Física.
Depois que Leandro e Malu encontraram o que queriam, foram ao
encontro de Isabela que estava em um dos cantos da movimentada livraria, na
seção dos romances. — Ainda não escolheu? – Malu perguntou à amiga.
— Ah sim, mas não resisti e acabei procurando outros. Você não tem
noção o que é para uma mãe de 4 filhos conseguir vir sozinha numa livraria!
Estou emocionada, confesso. – Isabela sorriu com o olhar perdido nos livros.
— Separei estes para vocês, Lê! – Isabela entregou uma pilha de livros para o
cientista, pegando os de física e astronomia das mãos dele e entregando para
um dos atendentes que passava. — Nada de cálculos e teorias pelos próximos
dias, Lê!
— Bela, você vai me fazer ler romances de mulherzinha?!
— Claro e não são apenas romances de mulherzinhas! – Malu soltou
uma gargalhada por ter compreendido as intenções da amiga. — São
romances eróticos. Estes livros contém uma enciclopédia de A-Z de como
deixar uma mulher feliz e totalmente satisfeita.
— Que exagero, Bela! – Malu riu.
— Você fala isso porque está casada com o homem literário dos
sonhos de qualquer mulher, não é, Malu!? Com certeza, Edu faz tudo o que
está escrito nestes livros. – Malu só conseguiu rir do exagero de Isabela
enquanto Leandro pareceu se interessar pelos livros.
— Ai senhor... Por Einstein, não me diga que você vai comprar estes
livros, Leandro? – Malu perguntou sem parar de rir.
— Claro que vou! Se a Isabela falou que vai me ajudar, por que não
deveria comprá-los?!
— Aproveita leva um dessa autora incrível! – Isabela colocou o livro
na pilha que Leandro carregava. — Essa escritora é intensa demais. Pare de
rir, Malu!
— Não consigo, Bela! Você é safadinha! – Malu respondeu.
— Olha quem fala! Não sou eu a frequentadora de clube de sexo! –
Foi a vez de Leandro rir. Bem a cara da Malu, pensou. — Tem as autoras
nacionais que também são ótimas, Lê. – Mais dois livros foram colocados na
pilha de Leandro.
— Olha que interessante! – Malu pegou um dos livros e leu o título.
— O enredo falava sobre uma mulher traída e o quanto a traição lhe
propiciou uma vida mais feliz. — Acho que devíamos levar um para Camila.
Leandro engoliu em seco e sentiu o rosto esquentar. — O que você
falou? – Perguntou aflito, na esperança de ter escutado errado.
— Que devíamos levar um para Camila! – Isabela deu uma
cotovelada em Malu. — Ai Isabela isso doeu! Não falei nada demais, afinal,
todos sabemos que Camila... Ai meu Deus, desculpe, Leandro, eu não
queria...
— Não... Espera um pouco! Você... – Leandro colocou os livros de
volta na prateleira e levou as mãos dentro do bolso. — Vocês acham que eu
traí a Camila?! – As duas concordaram com a cabeça um pouco encabuladas
pela gafe. — Porra, se vocês acham que eu traí a Camila... A Camila também
acredita que eu a traí! E o pior, a Ana também acredita que eu traí minha ex-
noiva.
— Na verdade, ela não acha não, ela tem certeza! – Malu resolveu ser
sincera. — Aliás, todos nós tínhamos certeza.
— Mas eu não traí a Camila! De onde foram tirar uma coisa absurda
dessas? – A resposta nem precisou ser dada, pois Leandro era inteligente o
suficiente para saber que as três o viram se despedir de Tatiana, sua aluna do
mestrado. — Pera aí vocês duas! Eu nunca traí a Camila!
— E aquela garota do aeroporto? – Isabela o fitou séria.
— Eu nunca tive nada com ela! Aquela garota do aeroporto era minha
aluna do mestrado e eu podia levar uma estagiária comigo para o programa
de pós-doutorado no Canadá. Nunca tive nada com ela. Eu juro! – Agora
Leandro conseguiu entender a indiferença dos amigos e até a mágoa de
Camila e toda a relutância de Ana em aceitá-lo. — Meu Deus, o que fui
fazer? – Leandro levou as mãos aos cabelos. Estava frustrado e com raiva
dele mesmo.
— Doutor Leandro Navarro, você merece uns tabefes! Como pôde
nos deixar tão às cegas desse jeito?! – Isabela lhe deu um tapa no braço. —
Se eu não estivesse tão aliviada com o que você acabou de confessar, eu juro
que eu te dava umas cintadas, você foi pior que moleque birrento, Leandro.
Ser deixada no dia do casamento já é ruim o suficiente, imagine acreditar que
foi trocada por outra mais jovem, Leandro?! Camila enlouqueceu... Você não
faz ideia do quanto ela ficou mal, ela já estava toda sensível porque estava
prestes a completar 30 anos!
Leandro não pôde acreditar no tamanho da confusão que havia
deixado para trás. Não havia sido justo com Camila e agora, mais do que
nunca, precisava procurá-la para esclarecer tudo e implorar por um perdão.
Era um homem, afinal. Um homem atrapalhado, tímido, introvertido, mas era
um homem e merecia honrar as calças que vestia. Faria isso por Camila, por
ele e por Ana, a quem amava mais do que tudo e que devia estar pensando o
pior dele.
— Apesar de estar muito brava com você, Leandro, nunca consegui
aceitar ou mesmo compreender o fato de você ter traído a Camila! Porque,
caramba, você pode ser várias coisas, mas nunca desceria tão baixo. Foi
difícil para todos nós! Puxa vida, você e Camila eram e ainda são nossos
amigos, vocês são família, Lê! – Malu abraçou o amigo, como se um peso
houvesse sido tirado das costas dela. Mais de ano tentando odiar Leandro sem
êxito, tentando encontrar uma justificativa para afastá-lo em nome do amor
que sempre sentiu por Camila. — Por Einstein, você precisa consertar as
coisas com a Camila! – Malu suspirou com lágrimas nos olhos.
— Eu sei e eu vou consertar! Quero que saibam que respeito e admiro
muito a Camila. Mesmo que eu não a tenha traído como deixei a entender
anos atrás, eu errei com ela... Errei feio e errei com vocês também, que
sempre estiveram ao nosso lado. No momento em que decidi aceitar a vaga
no Canadá, eu só pensei em mim, fui um puto de um egoísta! – Leandro não
seria digno de Ana se não conseguisse esclarecer os fatos, desculpar-se com
Camila. Estava determinado a dar um jeito em tudo, nem que fosse a última
coisa que fizesse na vida. — Eu prometo para vocês! Darei um jeito em tudo.
— Leandro, por Deus, olhe o que você irá fazer!
O cientista não ficou surpreso com a falta de fé de Isabela em sua
pessoa. — Dessa vez, não irei falhar, Isabela! Darei o meu melhor e por falar
em melhor, preciso que me indique uma academia de dança.
— Academia de dança? Eu ouvi bem? – Malu arregalou os olhos em
sinal de surpresa. — Não sei no que aprender dançar lhe ajudará com a merda
que você fez, Leandro!
— Nunca estive tão certo de algo em minha vida, Malu! E, no
momento, eu preciso e quero aprender a dançar.
— Eu conheço uma muito boa! Te passo o endereço, mas vamos logo
pagar estes livros, que preciso voltar para casa ou encontrarei tudo destruído,
pois bem sei o quanto Fabrício bagunça aquela casa quando fica com as
crianças.
— Coitado, Bela! Ele se esforça, não seja injusta. – Malu tentou
amenizar o drama da amiga.
— Malu, já falei que sua opinião não conta! Você casou com o
melhor partido do Rio de Janeiro, nem supermercado você faz, amiga! Mas
Malu está certa, Leandro terá que nos explicar direitinho o porquê resolveu
aprender a dançar nessas alturas da vida.
Uma semana depois...
— Está perfeito, Leandro! – Sheila, a professora de dança
contratada pelo cientista, parecia satisfeita com o desempenho do aluno. —
Ela vai amar a performance!
— Não sei não, Sheila! Lembro muito bem da minha ex-namorada
dizer que eu era péssimo na dança.
— Bem, ela também não devia ser a melhor dançarina, porque você
foi ótimo. – Leandro riu de forma tímida. — Não esqueça do que te falei!
Você é poderoso! Foque no seu objetivo e não o perca de vista em nenhum
momento.
Leandro se despediu da professora e foi direito para casa. Estava
cansado e com fome. Nunca imaginou que aprender a dançar requeresse tanta
energia. Com a ajuda da professora de dança, conseguiu pôr em prática as
ideias para a realização do segundo objetivo de sua lista: aprender a dançar
com a finalidade de surpreender Ana. As roupas já estavam separadas e tinha
certeza de que a morena apreciaria a surpresa. Porque Leandro era do tipo de
homem que uma vez empenhado em algo, nenhuma falha seria admitida, era
muito perfeccionista e dedicado, se não fosse assim jamais teria aprendido os
passos e sequências da coreografia montada pela professora. Ana ficaria de
queixo caído, e só em pensar nisso, era suficiente para Leandro ficar ainda
mais empolgado. Sheila também havia conseguido o local perfeito para o
grande dia, ou melhor a grande noite. Mas ainda faltava convencer Ana a ir
ao seu encontro e nada melhor do que Sabrina, a melhor amiga de Ana.
— Alô! Sabrina?
— Sim! – A modelo respondeu do outro lado da linha.
— Aqui é Leandro! Lembra de mim?
— Claro que lembro. O amigo de Ana! – Não era bem amigo que
desejava ser, mas diante das circunstâncias era melhor do que nada.
— Preciso de um favor seu.
— Opa! Como conseguiu meu telefone? Não lembro de ter te
passado! – E não tinha mesmo, pensou Leandro.
— Foi fácil, Sabrina! – Não podia falar que havia hackeado e
quebrado alguns códigos criptografados. Leandro era um bom sujeito, muito
certinho, mas isso não queria dizer que não tivesse cometido sua cota de
infrações, dentre as quais estava hackear quando adolescente. Hábito
abandonado há muitos anos para o bem da imagem da família. Leandro
pensava que sua mãe não iria sobreviver caso o filhinho perfeito fosse
descoberto.
— Mas para que precisa de mim? – Gostou dela, direta e objetiva,
pensou Leandro.
— Quero fazer uma surpresa para a Ana e preciso que você a
convença a ir para um lugar hoje à noite... – Leandro explicou os detalhes do
plano para a melhor amiga de Ana, torcendo para que ela não o delatasse,
porque o sucesso da operação dependeria do elemento surpresa.
— Gente, a Ana vai pirar! Ela vai amar! – Leandro se encheu de
esperança, se a melhor amiga de Ana havia gostado, as probabilidades de
Ana também gostar eram altas. — Ao menos, eu gostaria de uma surpresa
dessas.
— Mas Ana sequer pode desconfiar, Sabrina!
— Confie em mim, Leandro! Minha boca é um túmulo. E depois tem
outra coisa, tenho para mim que farei um favor para minha amiga. Pois ela
passa o dia falando de você!
— Ela fala de mim? – Aquela conversa estava sendo melhor que o
esperado para o cientista.
— É claro que ela te xinga a maior parte do tempo, mas também fala
que você é lindo de morrer. Não aguento mais! Onde já se viu uma mulher
ficar tão indecisa por um homem! Só te dou um conselho, se você quer ficar
com a Ana, corre, mas seja rápido, porque a fila está para andar.
— Como assim a fila está para andar? – Leandro lembrou do loiro
bonitão do outro dia e um amargor corroeu sua boca. Maldito ciúme, pensou.
Ter ciúmes não lhe facilitava em nada a vida, apenas o deixava nervoso e
quando nervoso, não conseguia pensar direito.
— Ah... É claro que você entendeu, Leandro! Ana é uma garota
bonita, atraente e nunca fica muito tempo sem namorado ou como ela mesmo
chama “ficante”. Então corre porque tem “ficante” na espreita e um bem
poderoso.
— O loiro azedo?
— Se você fala do Gabriel, é o próprio! Olha só... Me passa o
endereço do lugar e tenha certeza que darei um jeito de Ana estar lá na hora
marcada. Agora, por favor, cria juízo e não resolva sumir no dia. Vai ser o
maior mico da minha vida. Nem comento que irei te perseguir até o fim do
mundo, se for necessário.
— Obrigado, Sabrina!
— Não me agradeça e trate de fazer minha amiga feliz. – Sabrina
desligou o telefone e Leandro tratou de agilizar tudo para a grande noite, a
noite em que se transformaria no maior e melhor dançarino que o mundo já
viu.
Horas depois...
— Não me lembro dessa prima! – Ana respondeu à amiga. — Pois
acredito que nunca a vi mais gorda ou mais magra. Aliás, nem sabia que você
tinha primas, Sabrina!
— Pois claro que tenho, Ana! Todo mundo tem primas. Então, ela vai
fazer uma despedida de solteira e me convidou, mas como nós duas nunca
fomos muito chegadas, quero que você vá comigo.
— Ai não sei! Eu fiquei de sair com o Gabriel!
— Nem pense nisso! Que amiga é você, hein! Depois quando você
precisar de mim... – Ana se sentiu uma péssima amiga, pois Sabrina já havia
quebrado vários galhos para ela.
— Está bem, sua chantagista! Vou nessa bendita despedida de
solteira. Nem estava com vontade de sair com o Gabriel mesmo. Ele é muito
chiclete e não gosto de homens chicletes.
— Principalmente quando certos físicos lindos e sarados andam
povoando os pensamentos, não é amiga?!
— Leandro? Imagina só que penso naquele ogro abandonador de
noiva! – Sabrina arranhou a garganta. — Está bem, só um pouquinho, mas só
porque ele é bom de cama.
— Ana, minha amiga, admita que você se apaixonou pelo cara que
dói menos!
— Como dói menos, Sabrina? Não posso estar apaixonada pelo cara
que abandonou minha cunhada no altar. – Ana estava cansada de ter que
explicar sempre a mesma coisa para a amiga.
— Ele abandonou Camila e não você, Ana Margarida!
— Não me chame assim, você sabe que não suporto o Margarida do
meu nome!
— E tem outra, Camila está muito bem casada com o Murilo. Então,
deixa de reclamar, faça menos drama, garanto que você vai curtir a noite!
— Tomara mesmo, porque ando sem ânimo para a balada, amiga! – A
verdade é que Leandro a perturbava mais do que ela desejava.
Sabrina passou o endereço da boate para Ana. — Não atrase, Ana!
Minha prima é daquelas mulheres loucas por pontualidade. Esteja lá às 10
horas em ponto. E, por ventura, se eu atrasar, aproveite e se divirta.
A morena desligou o telefone aos resmungos. — Era só o que me
faltava mesmo! Entrar de penetra numa festa e ainda ficar sozinha. Sabrina
não toma jeito mesmo! – Aproveitou que estava com o celular em mãos e
mandou uma mensagem rápida desmarcando o compromisso com o irmão de
Edu. Uma verdade deveria ser admitida: a despedida de solteira da prima de
Sabrina foi uma graça enviada dos céus, pois Ana não estava com a mínima
vontade de sair com Gabriel. Ela era uma doida e não tinha mais como negar.
O cara era lindo, boa praça, educado, sedutor, além de um dos homens mais
disputados da noite carioca, mas ela só tinha olhos e pensamentos para
Leandro. No último final de semana, ela e Gabriel foram ao cinema e até que
rolou alguns beijos, mas nada muito comprometedor ou empolgante, porque
Ana podia ser uma garota moderna e desencanada, mas nunca do tipo que
ficava com um pensando no outro. Por isso, abreviou o encontro e acabou
chegando em casa antes da meia noite para o espanto dos pais. E quando
pensava que afundaria as mágoas num bom pote de sorvete napolitano,
novamente, o ogro abandonador de noiva tomou conta dos pensamentos.
Nunca mais um napolitano teria o mesmo sabor para Ana, não depois de
dividir um pote do melhor napolitano com Leandro.
Para piorar a situação, o cientista havia tomado chá de sumiço. Mas
também o que ela esperaria dele, é lógico que não iria voltar a procurá-la, não
depois de dispensá-lo. Uma parte de Ana sabia que havia tomado a decisão
correta. O melhor e mais lógico a ser feito para o bem de todos. Porém, outra
parte de Ana, aquela parte mais sem-vergonha e ingrata dela, desejava mais
de Leandro. — Se ele gostasse mesmo de você, teria insistido mais! – Ana
falou olhando para o espelho enquanto retocava o batom vermelho. — Você
ficou louca, Ana Margarida Mendonça Marcuzzi! Completamente louca e
fodida! – Fechou o espelho e o guardou na bolsa. Ouviu um bipe do celular.
Puxa Ana, estou cansado de levar bolo teu!
A mensagem havia sido mandada por Gabriel. Homem tolo! Pensou a
morena. Não gostava de homens que se achavam o gás do refrigerante
dietético, já que refrigerante comum engordava. Gabriel Botelho Neves podia
ser um ótimo partido e lindo de morrer, mas seu jeito “sou a última bolacha
recheada do pacote”, a entediava. Leandro não era assim, percebeu. Era um
dos homens mais lindos que havia conhecido e não tinha a menor pretensão
de se utilizar da beleza ou mesmo se achava a última bolacha recheada do
pacote. Era um sujeito calmo, pacífico, introvertido demais sim, mas
charmoso no seu jeito de ser e também era um romântico. Ana soltou um
suspiro, mania que havia adquirido nas últimas semanas sempre que se
lembrava do físico.
— Menina, você está com cara de quem viu passarinho verde!
— Passarinho verde não, Cris, vi uma arara azul para ser sincera, uma
linda arara azul!
— Eita menina! Bem que a Camila me falou que você está
apaixonada.
— Está tão na cara assim? – A recepcionista concordou com a cabeça,
deixando um sorrisinho de canto se abrir. — Caramba! Preciso fazer algo a
respeito!
— Fazer o que, menina? Se está apaixonada, pois viva esta paixão,
mulher!
— Não posso! – Ana se debruçou sobre a mesa. — Ele é proibido
para mim! – Por que ele não podia ter um passado mais simples ou mesmo
abandonado outra mulher que não fosse a esposa do seu querido irmão,
pensou a jovem. Aquilo estava acabando com o juízo de Ana.
— Ô gente... – Cris esbarrou no sotaque baiano. — Vai me dizer que
o príncipe encantado já tem uma princesa?
— Não, ele não tem ninguém, ao menos não na atualidade, Cris!
— Então qual é o problema? Se você está apaixonada e o cara é livre,
porque não investir na conquista, Ana?
— É complicado, Cris. Você não entenderia!
— Quem sabe se me contar! – Cris puxou a cadeira, sentando na
frente de Ana.
— Não vale a pena, Cris! É uma longa e complicada história, acho
melhor deixar para lá. E depois, tenho uma festa para ir, vou ocupar a mente
com a promessa de diversão e passará, tudo passa com uma boa festa.
— Você quem sabe, Ana! Mas estou aqui, caso quiser desabafar.
— Obrigada! Camila não virá novamente? – Ana perguntou a fim de
mudar o assunto da conversa. Já havia dedicado muito do seu tempo e
pensamentos em Leandro e não queria perder mais do seu dia com ele. De
fato, o cientista não era merecedor de tanto alarde.
— Não! Trabalhará de casa mesmo. Qualquer urgência, ela estará no
celular. Problemas com as crianças?
— Não! Antes fosse uma dor de barriga ou uma gripe dos meus
sobrinhos. Camila voltou a ser ameaçada e meu irmão está louco com isso.
Mas eu entendo ele, Cris! Quando Camila ficou sumida foi um sufoco do
capeta. Pois penso que meu irmão não deve descuidar da proteção de Camila!
— Não pensava que fosse tão sério, Ana! Por isso, os armários
enviados para vigiar o solar! – A recepcionista se referiu aos seguranças
enviados por Murilo para fazer a guarda do solar.
— Pois há coisa muito séria por trás do sequestro de Camila, Cris!
Pessoas poderosas, sabe! Na época, meu irmão e os sócios fizeram de tudo
para abafar o caso e a notícia não se espalhar. Meu irmão é um homem de
sucesso e isso por si só atrai inimigos, mas Camila também não fica para trás
e sei que colecionou desafetos. Mamãe desconfia que a união dos dois não foi
bem vista pelo Senador Cavalcante.
— Aquele cujos tabloides ligaram ao tráfico internacional de
mulheres?
— O próprio! O velho é obcecado pela minha cunhada. Há indícios e
muito fortes, eu mesma ouvi um dos policiais falando, que o senador estava
por trás do sequestro de Camila. A desgraçada da Eleonora fez o trabalho
sujo em sequestrá-la, mas era quase certo que Camila seria entregue para o
Cavalcante em troca de uma alta soma em dinheiro. O plano da mocreia era
perfeito demais, vamos admitir, Cris! Além de embolsar uma grana preta
ainda ficaria com o campo livre para ter meu irmão de volta. Pense numa
velha assanhada. Credo, quando penso que meu irmão teve coragem de se
envolver com aquela lá, só por Deus!
— Que arda no fogo do inferno! – Cris fez o sinal da cruz.
— Infelizmente, a mocreia não fez o favor de levar o “demo” do
Cavalcante junto. Tenho para mim que essas ameaças são “coisa” dele, Cris.
— Cruzes, Ana! Vira a boca para lá! Nem é bom pensar essas coisas.
— Sei não! Meu irmão tem que ficar ligado!
Ana digitou no GPS do carro o endereço da boate que Sabrina
ficou de encontrá-la, partindo logo em seguida. Pelo o que havia pesquisado
na internet se tratava de uma boate de strip-tease, uma dedicada ao público
feminino na verdade, uma espécie de Clube das Mulheres. Nunca havia
estado numa festa do tipo antes, apesar de se considerar uma mulher
descolada. Conseguiu estacionar o carro sem maiores problemas, estranhando
a falta de movimentação para uma sexta-feira à noite, embora a boate poderia
ter sido fechada para a festa da prima de Sabrina. Mesmo assim tudo parecia
quieto demais à medida que adentrava no recinto. Conversou com um homem
forte e careca, um segurança na certa, que o levou até o salão principal.
Pensou que poderia estar muito adiantada. Conferiu o horário no celular e já
passava 10 minutos das 10. Talvez seria uma festa surpresa para a noiva, uma
despedida de solteira surpresa. Quando estava prestes a ligar para Sabrina,
luzes foram acessas, iluminando o palco e uma música começou a tocar, uma
música com batidas fortes e ritmadas, que com o jogo de luzes deixavam o
ambiente misterioso, sofisticado e muito sensual.
— A senhorita pode sentar! – Um garçom entrou e entregou um copo
de coquetel para Ana. — O show está para começar. – Ana não fazia a
mínima ideia do que se tratava. O garçom sumiu assim que Ana pensou em
perguntar pelas outras convidadas. Uma despedida de solteira devia ser feita
por várias mulheres e não por uma só. Tudo estava muito estranho.
A música deu lugar a outra ainda mais sensual. Ana reconheceu a voz
da cantora. Era uma cantora britânica de voz rouca, cuja sensualidade da voz
fazia arrepiar qualquer pessoa. A voz da cantora era sexy para caramba,
pensou. As cortinas pretas se abriram e um homem de costas surgiu. O cara
era quente, percebeu eufórica. Dentro de um macacão feito em jeans e muito
justo, demarcando a perfeição de uma bunda feita para ser apertada. Ele se
virou de frente, mas o jogo de luzes e o grande chapéu de palha esconderam o
rosto.
— Caramba! – Ana engoliu em seco, notou que o cara dançava bem
demais. A coreografia era perfeita e digna de aplausos. Ana entendia de
dança e coreografias e o dançarino devia ter ensaiado muito para chegar
naquela perfeição de movimentos.
Pelas luvas e a grande tesoura que carregava nas mãos concluiu que
ele havia se fantasiado de jardineiro. Já tinha ouvido falar de lugares como
este, onde os homens dançavam fantasiados para as mulheres. Sabrina ficaria
louca quando contasse o que havia perdido, mas ainda havia algo estanho, ela
continuava a ser a única mulher na plateia, ou melhor, o único ser vivo a
apreciar aquele pedaço de gostosura em forma de homem.
— Uhuuu!!!! – Ana gritou empolgada e um pequeno sorriso pareceu
surgir por debaixo do chapéu. Os agudos da voz rouca da cantora foram
dando lugar às batidas mais suaves e uma troca quase imperceptível de ritmo
parecia ter ocorrido. Tratava-se de uma regravação do clássico It’s Raining,
mas Ana não lembrava quem era a artista, embora a mixagem e a voz da
cantora imprimiam a mesma atmosfera da música anterior. O dançarino
largou a tesoura em um dos cantos, enquanto um grande globo descia ao
centro do palco, as luzes tornaram-se mais piscantes e coloridas. Ele tirou as
luvas e as jogou para longe e os próximos movimentos indicavam que iria se
livrar do chapéu, certeza que Ana teve assim que as mãos dele foram até as
grandes abas, enquanto seu quadril parecia se quebrar num ritmo frenético e
extremamente sedutor.
— Jesus! Que lugar é esse?! Tira tudo! – Gritou, sentindo o coração
pulsar e a adrenalina correr pelas veias. Ela sempre havia sido amante da
música e da dança e aquilo poderia se comparar ao paraíso.
Do nada, o chapéu voou para o colo de Ana, deixando-a totalmente
estática com o que acabava de descobrir. O dançarino sexy e poderoso, de
passos perfeitos e mais quentes que o inferno era Leandro, o seu ogro
abandonador de noiva. As alças do macacão deslizaram pelos ombros,
deixando à mostra todo o abdome muito bem definido do cientista.
Aproximando-se, Leandro ofereceu a mão para Ana, que foi incapaz de
recusar, não quando ele havia dançado lindamente para ela e roubado mais
um pouquinho do seu determinado coração. Ele a puxou para cima do palco
sem, em nenhum momento, deixar de se mover ao ritmo da música, que havia
novamente mudado. Tocava um hip hop agora e Leandro arrasou novamente,
pegando as mãos de Ana e levando-as até seu peito de forma sedutora, sem
desviar o olhar dela em nenhum momento.
Leandro soube desde o primeiro grito de Ana que havia feito bonito, o
que o fez querer romper qualquer barreira, entregando-se ao ritmo das batidas
da música assim como sua professora havia dito durante a semana. Tudo era
para Ana e não havia inibição ou timidez que fosse suficiente para freá-lo,
não naquele momento, em que o mais lindo e perfeito sorriso se estampava
no rosto da mulher amada, a sua Ana.
— Você é um louco! – Ana gritou.
— Já falei que sou louco por você, Ana Margarida! – Ela começou a
requebrar junto de Leandro, porque seu corpo assim como seu coração a
mandavam se entregar ao ritmo impaciente da música, do momento.
— Você está gostoso demais! – Ana se aproximou do ouvido de
Leandro, ao mesmo tempo que os braços envolveram o pescoço dele,
puxando-o para perto de sua boca, porque para aquele paraíso ser perfeito só
precisava um beijo dele, um daqueles que faziam suas pernas tremeram e
cada partícula do seu corpo desejar Leandro.
— Sou teu jardineiro, delícia! – Respondeu com os olhos mais
brilhantes do que nunca, revelando um abismo de promessas pecaminosas e
no qual Ana iria se perder com facilidade, por ser incapaz de resistir a tudo o
que ele lhe oferecia.
— Nunca mais olharei um jardim sem pensar em você dançando para
mim, seu... – Ele a calou com um beijo, invadindo sua boca com
determinação, pois ele a queria muito e ele a teria. Beijar Ana era como fazer
uma viagem intergaláctica, uma verdadeira jornada em busca do sabor
potente de sua estrela, sua Ana.
— Gostou?
— Se gostei? Claro que gostei, Leandro! – Já não adiantava negar,
não quando ele havia feito o impossível, seria a maior perda de tempo dar
uma de teimosa e negar que havia gostado. — Caramba, Lê, estou subindo
pelas paredes!
— Isso é bom, eu acho!
— Claro que é bom, Doutor Fodão! – Ana gargalhou. — Não tem um
lugar mais reservado, não?! – Leandro conhecia muito bem aquele olhar de
safada e o que ela desejava.
— Aqui é reservado, Ana Margarida! A boate é nossa, o palco é nosso
e eu sou teu para o que desejar.
— Ai meu Deus, um Clube das Mulheres só para mim, com um
stripper só meu, para fazer o que eu quiser! Chama os bombeiros! – Ela era
impossível, pensou Leandro. Mas não seria sua Ana se assim não fosse. Sua
boca era maior que tudo, não somente pelos lábios carnudos e deliciosos, mas
também por não ter qualquer inibição em falar o que pensava.
— Para que chamar os bombeiros, delícia, se você tem a mim para
apagar teu fogo?! Embora, confesso, que prefiro não apagar, mas me queimar
nele, porque, Ana Margarida, você é quente e gostosa demais!
— Eu sei!
— É claro que você sabe! – Leandro gargalhou, tratando de puxá-la
para mais perto do seu corpo e bem assim poder senti-la em toda sua
plenitude.
Ana notou que Leandro fez um sinal para alguém que estava na
cabine de som, dispensando-o. Ele havia pensado em tudo, o maluco. A boate
era deles e Ana aproveitaria o momento e toda paixão que ele lhe prometeu.
— Tira o resto, Lê! – Ela exigiu e ele de forma sedutora afastou-se,
abrindo o zíper do macacão, de maneira a deixar revelar a rigidez de sua
masculinidade dentro de uma cueca box coladinha. Até na cueca, ele havia
pensado. Não era mais aqueles modelos horríveis que não valorizavam em
nada a beleza masculina do cientista. — Caramba, Leandro, essa cueca
valoriza teu “pacote”!
— Pacote? – Leandro não entendeu e Ana apontou para seu pênis,
fazendo-o gargalhar. — Você me enlouquece, delícia! – Soltou feliz e seu
“pacote” ficou ainda mais animado com o que ela lhe prometia. O cientista
reduziu a distância que os separavam, levando as mãos até as coxas firmes e
deliciosas da morena para depois subir até a cintura fina e firmar o aperto ali.
Mas a intenção de Leandro era chegar até os seios dela e perder-se ali mesmo
por um bom tempo.
— Calma, Doutor! – Ana tentou se separar do corpo dele. — Você
ainda não terminou o espetáculo. Vou descer do palco, sentar naquela
cadeira. Vim aqui para assistir um show de striptease e não devo sair
insatisfeita. – Era uma provocadora, pensou Leandro. Mas tudo era para ela e
não deixaria a timidez ou mesmo a vontade louca de se enterrar nela colocar a
perder sua performance.
— Pois sente, senhorita, que o show vai continuar! – As músicas com
batidas sexys, assim como as luzes piscantes, continuavam a garantir a
atmosfera quente e sedutora de antes. Leandro focou em sua morena e no
quanto ele a queria e perdeu-se nas batidas da música. Havia ensaiado outros
passos com a professora e fez bonito para Ana. A cada gemido indecente que
a jovem soltava, uma chama parecia acender no corpo de Leandro. A cada
mordida de lábios que ela dava, uma explosão de testosterona acontecia
dentro de Leandro. Num ato desesperado, desceu do palco e foi ao encontro
dela, porque estava esfomeado e precisava dela mais do que nunca. Forçou-a
a se levantar da cadeira e virando-a de costas para si, Leandro a deitou sobre
a mesa. Ergueu a saia sem qualquer cuidado. Afastou a pequena calcinha
vermelha e deixou os mais puros e inebriantes instintos o guiarem. Sem
qualquer delicadeza passou um dos seus dedos na fenda úmida de Ana, sua
doce descoberta, sua estrela. Ela gemeu, primeiro. Depois, tremeu, pois
Leandro foi impiedoso com ela. E sem pensar duas vezes, desceu a cueca e
colocou-se entre as pernas dela, invadindo-a com estocadas rápidas e
profundas, fazendo questão de marcá-la como sua. Ana estava pronta para
recebê-lo e assim que Leandro tocou-a lá no fundo e todo seu membro foi
tomado pelo conforto da penetração, seu desejo foi de permanecer ali para
sempre ao mesmo tempo em que um furacão dentro de si o fazia se mover
freneticamente em busca por mais dela.
— Não para agora! – Ela ofegou.
— Não vou parar, delícia! – Leandro inflou o peito de orgulho. O
poder que sentiu e a satisfação de ter Ana sob seu jugo, dominando-a de todas
as maneiras possíveis se juntaram ao sentimento de posse. Ana era sua
mulher naquele momento e para sempre. Mais um gemido rouco e delirante
dela e ele se perdeu no êxtase, um êxtase intenso, profundo e arrebatador. O
paraíso tinha nome e sobrenome, pensou.

— Como aprendeu a dançar tão rápido? – Ana perguntou, aninhada


ao peito de Leandro. Descansavam deitados sobre o palco, contemplando a
beleza das luzes a piscar no teto. O hip hop se revezava com outros ritmos
nos alto-falantes e quebravam o silêncio da boate vazia.
— Fui aprender, Ana! Passei uma semana fazendo aulas de dança
com uma professora que a Isabela me indicou. Foi ela quem montou a
coreografia que encenei para você.
— Não acredito! – Ana ergueu a cabeça e sorriu para Leandro.
— É verdade! Foi ela quem me deu a ideia da fantasia de jardineiro
quando mencionei que você ambiciona se tornar uma paisagista. Também me
ajudou a encontrar esse lugar.
— Eu gostei daqui! Tem um estilo retrô!
— Isabela também foi de grande ajuda quando mencionei o que
pretendia fazer. Me entregou uma lista de filmes e tinha um que me chamou
muito a atenção e no qual me inspirei confesso. Foi um com um ator famoso,
um desses bonitões que vocês garotas babam só em ver. O cara é um
stripper!
— Não acredito que você assistiu um filme sobre striptease! – Ana
afundou o rosto no peitoral de Leandro de modo a esconder o sorriso.
— Muitos, confesso! Foram de grande utilidade. Você gostou
mesmo?
— Claro que gostei! Você deveria se inscrever num concurso,
Leandro! Você dança muito bem.
— Dançar para você é uma coisa, não sei se teria desenvoltura
suficiente para encarar um grande público. – Leandro riu, puxando Ana para
mais perto. Queria perder-se no cheiro dela.
— Sabe o que penso? Imagino como seria se tivéssemos nos
encontrado em outras circunstâncias!
— Ana, por favor, só por hoje, ao menos só por hoje, deixemos meu
passado para trás, tua família para lá. Não quero estragar o que temos aqui e
agora com recordações que farão você se afastar de mim. – Leandro não
permitiria que ela fugisse dele, não naquele momento, um momento em que a
teve plena, um momento feito apenas para os dois e do qual ficaria gravado
na eternidade de sua memória.
— Tem razão! Não serei eu a estraga-prazeres!
Leandro desejou falar para Ana o quanto a amava e o quanto a
desejava ao seu lado. Porém, não era o momento apropriado. Acabava de ter
conseguido romper as barreiras erguidas pela morena e uma trégua parecia ter
sido dada. Poderia ser um homem desajeitado com os sentimentos, mas era
um bom estrategista e não colocaria tudo a perder portando-se como um
adolescente afoito e sem paciência. O “eu te amo” ficaria guardado para outro
momento e seria um momento perfeito e único, disso ele tinha certeza.
— Conte-me sobre você, Ana! Teus gostos, desejos, passatempos, o
que gosta de assistir, quais países pretende visitar. Quero saber mais sobre
você, delícia!
— Sou uma garota comum! Gosto de baladas, dançar, sair com meus
amigos, estar com minha família. Não sou tão inteligente quanto você...
Nunca fui a melhor aluna e jamais ganhei qualquer feira de ciências. Gosto de
sorvete de napolitano e quase morri quando você me serviu ele outro dia. –
Os dois riram. — Amo fazer compras. Sou a doida das bolsas e sapatos.
Troco qualquer programa por um dia de beleza num luxuoso spa. Sou uma
patricinha da cabeça aos pés, Leandro. Já parou para pensar que você acabou
de transar com uma patricinha mimada?!
— Você não é mimada, Ana!
— Fala isso porque não somos suficientemente íntimos, caso
contrário, era mais um a se juntar no coro: “Ana tenha juízo!”
— Como não somos íntimos? Para mim, o que acabamos de viver
significa intimidade.
— Pode ser! – Ana o encarou, perdendo-se na imensidão azulada que
eram os olhos de Leandro. Haviam rajadas mais violetas que se mesclavam
de forma harmônica com nuances de um azul mais claro, percebeu. Aqueles
olhos haviam se transformado num elixir, uma espécie de calmante que a
deixavam zonza e tranquila. Nos braços de Leandro, a agitação de Ana cedia
lugar à mansidão; uma mansidão que ela sequer soubesse que desejava para
si; um aconchego que só ele poderia lhe proporcionar.
— Conte-me mais, delícia! – Leandro a beijou na testa. — Que
cultura te fascina, que país deseja visitar.
— Amo a Índia! Infelizmente, ainda não a visitei. Sou fascinada por
culturas exóticas, Leandro. Nem comento que as roupas das indianas são
lindas. – Ana se calou por um instante. — Você está muito falador, Doutor
Fodão!
— É você que me inspira! – Leandro deslizou a mão por baixo da
blusa de Ana, fazendo-a se contorcer de cócegas.
— Também tomou aulas de sedução, é?! – Ele girou ela para que
ficasse embaixo do seu corpo, prensando-a de propósito para que tomasse
consciência de quem era a verdadeira sedutora.
— Diga sim!
— Como diga sim!? Não sou garota de dizer sim sem saber do que se
trata!
— Que aceitará jantar comigo amanhã! – Beijou atrás da orelha de
Ana, pressionando toda a extensão de seu membro enrijecido contra a
calcinha já molhada dela. Ela o desejava de novo, tanto quanto ele a desejava.
Jamais sairia daquele lugar, sem um sim de Ana Margarida, não quando
havia chegado tão longe.
— Não posso acreditar que me deixei convencer por você
mais uma vez! – Ana soltou assim que fechou a porta do carro de Leandro.
— Boa noite, delícia! – Sem perder tempo, Leandro a puxou para um
abraço caloroso, colando seus lábios na boca carnuda de Ana. Aos poucos,
ela cedeu, liberando toda a tensão acumulada por não se sentir segura em ter
aceitado sair novamente com o cientista.
— Inferno de beijo bom!
— Eu sabia que gostava dos nossos beijos! – Leandro a fitou
profundamente, encarando-a de modo a demonstrar o quanto ela o satisfazia,
o quanto ter a companhia de Ana era prazeroso e empolgante para ele. —
Não há beijo mais perfeito que o teu, Ana Margarida! – Soltou de forma
tranquila, utilizando-se de um timbre de voz mais grave e despertando o
desejo dentro da jovem, um desejo de entrega e desespero que Ana nunca
antes havia sentido por ninguém. Estava perdida, completamente apaixonada
e completamente ferrada, pensou. Não sabia mais o que fazer para se ver livre
de Leandro, o homem havia se impregnado não só nos pensamentos ao se
recusar a sair de sua cabeça, mas também na sua pele.
— Diabo, Leandro! Por que você tem que ser tão gostoso? – Ela
soltou resmungos, vários deles enquanto era invadida pela língua dele, alguns
de prazer, outros de frustração por ser tão fraca. — Maldito desejo traidor...
Inferno de vida... Caraca, Lê, isso é bom! – As mãos de Leandro vagavam
desesperadoramente por todas as partes descobertas do corpo de Ana. Ela
usava um vestido colado e como sempre com uma calcinha minúscula, estava
afoito para provocá-la com uma carícia atrevida e nada apropriada para o
lugar. Incapaz de se conter, Ana foi para cima do colo de Leandro, abrindo as
pernas e acomodando-se rapidamente. Ela o queria dentro dela, numa ânsia
ousada de ser preenchida, de ser saciada, sua fome por ele não encontrava
limites. Queria-o dentro dela naquele momento. As mãos de Ana foram para
o zíper da calça dele. Nada mais importava, não importava se estavam no
meio de uma rua, na frente do condomínio onde morava com os pais, apenas
importava seu desejo cruel, insensato e totalmente desmedido por Leandro.
Uma batida no vidro os tirou completamente do estupor em que se
encontravam, fazendo-os retornar à realidade. Ana voltou para o banco do
caroneiro e Leandro desceu o vidro do carro. Ambos estavam inibidos por
terem sido quase flagrados.
— Desculpe, senhores, mas não é o local apropriado para namorarem!
– Um homem fardado, um policial, falou de forma objetiva. — Não é seguro
para vocês e também há senhoras e crianças transitando na rua.
— Desculpe-nos! – Sem jeito, Leandro respondeu, dando a partida no
carro e arrancando sem perda de tempo. Nunca antes havia se metido em
situação tão desconfortável, nem quando era um garoto com os hormônios
em ebulição. O pior de tudo era que havia gostado de sentir a adrenalina
correr pelo sangue, a emoção de fazer algo proibido apenas o deixou mais
excitado. Estava louco, só podia.
O silêncio reinou entre eles até Ana resolver quebrá-lo. — Calma, Lê!
– Depositou a mão na coxa de Leandro de modo a ajudá-lo relaxar. — Não
aconteceu nada demais, nem chegamos a ser pegos fazendo aquilo!
— Eu sei, delícia! – Falou levando a mão de Ana até sua boca,
sugando um dedo de cada vez e fazendo-a se perder novamente na promessa
do porvir. — Porra Ana, eu queria ter chegado lá e não me importaria nada
em ter sido preso por isso.
— Então pare o carro, Doutor Fodão! – Ana se virou no banco de
maneira provocativa, o fez de propósito.
— Não posso e não quero estragar nossa noite romântica, delícia! –
Leandro soltou a mão de Ana, voltando a se concentrar na direção do carro e
na estrada. — Porque se eu parar o carro, Ana Margarida, vou me perder em
você, no teu calor, no teu aconchego e todo o meu esforço em conquistá-la irá
por água abaixo e nem falo pelo esforço, porque sei que valerá a pena cada
suor gasto em te fazer minha, mas falo porque você não é uma transa apenas
ou mesmo a realização de um fetiche, você é a mulher que eu quero ao meu
lado e quero mimá-la e mostrar para você que eu te mereço na minha vida.
Ana procurou alguma arma escondida em algum canto de sua
apaixonada alma para lutar contra todo o sentimento que lhe tomou no exato
momento em que Leandro se declarou. Ela não podia, ela não queria entregar
seu coração a ele, bastava o corpo ingrato que havia se viciado no toque dele,
o coração deveria permanecer intacto, apaixonado sim, pois paixões eram
passageiras como fogo alimentado por papel. Não podia entregar seu amor a
ele, não quando tanto estava no meio deles. Porém, ele não facilitava em
nada. Na noite anterior, havia sido um exímio e sexy dançarino e, hoje, estava
disposto a levá-la para uma noite romântica, além de ter pego a mania
irritante de falar-lhe palavras intensas, mas ao mesmo tão doces.

Ana estranhou quando Leandro recebeu o cartão de acesso para uma


das suítes presidenciais do Copacabana Palace. Assim que o cientista
estacionou o carro em frente ao luxuoso hotel, imaginara que iriam apenas
jantar no restaurante. Dentro do elevador, o corpo ingrato de Ana dava sinais
de que a trairia mais uma vez. Rezou para que não tivesse napolitano de
novo, porque Leandro, napolitano e cerejas em calda era a combinação dos
deuses, ou melhor, dos infernos. “Juízo Ana, tenha juízo!” A consciência
gritava insistentemente para que Ana corresse para casa e se escondesse
embaixo do seu quente e confortável edredom, mas era tarde para dar uma de
medrosa e nunca havia sido uma medrosa, de fato nem um homem a fez
voltar atrás antes e não seria um abandonador de noiva que a faria.
— Calma, Ana Margarida! – Leandro falou carinhosamente,
deslizando o dorso da mão na face rosada da morena.
— Não estou nervosa!
— Com medo, então?
— Olha bem se sou mulher de ter medo! – Leandro chacoalhou a
cabeça e riu. O elevador se abriu e ele cedeu lugar para que ela saísse.
Conduziu-a até o interior da luxuosa e confortável suíte, que foi decorada em
motivos indianos. Todo o colorido dos tecidos e tapetes espalhados deixaram
Ana fascinada. A suíte era dividida em dois ambientes, num deles ficava a
grande cama com dossel também adornada com motivos indianos, havia uma
grande banheira de hidromassagem em um dos cantos do quarto e muitas
pétalas de flores e velas espalhadas por todos os cantos. Ana estava encantada
com tudo, com cada detalhe milimetricamente pensado; a explosão de cores e
o aroma das velas que se misturavam ao dos incensos a transportou para a
Índia. Ficou ali perdida em tudo e nem percebeu o tempo passar.
— Gostou da surpresa? – Leandro perguntou. Assustada, Ana se virou
e seu olhar caiu sobre o abdome nu de Leandro. Ele havia trocado de roupa,
percebeu, livrando-se completamente das roupas ocidentais. Usava uma fina
calça branca, feita de um tecido muito delicado e um turbante na cabeça.
— Leandro! – Ana soltou, levando as mãos à boca a fim de conter a
surpresa.
— Se não pode ir à Índia, a Índia vem até você! Serei teu príncipe
indiano nesta noite. – Com gestos elegantes e firmes, Leandro se moveu para
perto da morena, oferecendo o braço. Um lindo sorriso foi aberto por ele e
Ana foi tomada por um turbilhão de emoções que jamais seria capaz de
conter, não quando sempre havia vivido o sabor do momento, sempre havia
perseguido momentos como aquele e por mais que o homem que oferecia a
realização de suas fantasias mais íntimas não ser o certo, não havia mais
como freá-lo, não quando desejava se perder no momento, no seu “príncipe
indiano de olhos azuis”.
Saborearam os mais variados pratos da culinária indiana, todos muito
bem temperados e afrodisíacos, conforme garantiu o cientista. As especiarias
das Índias eram famosas em todo o mundo. Houve o tempo em que valiam
mais do que ouro. A exuberância dos sabores aguçou ainda mais os sentidos
de Ana, fazendo-a ansiosa por mais, por algo que ela sabia o que era, mas que
não tinha coragem de admitir, não para ele.
— Venha! – Leandro estendeu a mão para Ana, seduzindo-a e sem
deixar qualquer possibilidade de arrependimento. Ana engoliu em seco em
busca de ar. O ambiente, a comida, o perfume, tudo a conduzia para os braços
dele. Sabia que estava perdida, completamente enfeitiçada e, por isso, agarrou
a mão dele e deixou-se levar, entregou-se e apenas confiou nele.
Seguro do que fazia, Leandro a ergueu nos braços e levou-a até a
enorme cama com dossel, uma cama digna de sua princesa, sua Ana.
Lentamente, sem deixar de fitá-la por um segundo sequer, despiu-a
completamente. Sem calcinhas, sem sutiã, deixou-a como veio ao mundo, na
sua forma mais formosa e plena.
— Vire, delícia! – Movida pelo poder da sedução de Leandro, Ana
obedeceu, virando-se e acomodando-se na suavidade dos lençóis de seda.
Sentiu um líquido quente cair sobre suas costas e logo em seguida o deslizar
eletrizante das mãos de Leandro. Mais líquido quente, mais mãos e uma
descida maravilhosa entre suas pernas. O paraíso tinha nome, cheiro e sabor,
pensou confusa, entusiasmada e perdida, sim estava perdida e que Deus a
perdoasse, que o mundo se explodisse, mas iria se entregar de corpo e alma
ao momento e ao prazer que lhe fora prometido. As mãos dele chegaram à
cintura e rapidamente a viraram, foi então que Ana percebeu que ele tinha em
mãos uma pequena vela. Leandro deixou um pingo da vela cair no vale entre
os seios de Ana para em seguida espalhar todo o óleo em gestos precisos e
delicados. O friccionar da mão de Leandro na pele delicada e tenra de Ana,
conduziram-na ao indescritível. Ana já não era mais capaz de pensar ou
mesmo saber onde se encontrava, como se sua alma tivesse se desprendido do
corpo e se elevado para algo sublime, sagrado diria mais tarde.
— Não sabia que era massagista! – Ela soltou. — Um dos melhores,
preciso confessar.
— Passei o dia estudando sobre as práticas milenares dos indianos,
delícia, e descobri que Príncipes Indianos eram excelentes amantes.
— Ah é?
— Sim! Você é uma sortuda, Ana Margarida! Veja as vantagens em
ter um cientista por amante, delícia. Minha mente curiosa e focada em
compreender o desconhecido poderá ser de grande utilidade.
— Senhor, te transformei em um monstro, Doutor Fodão!
— Sem sombras de dúvidas, me transformou no teu Fodão. – Ele
falou sério e Ana percebeu a intensidade daquelas palavras, embora parte dela
negasse que fosse responsável por tudo aquilo. — Venha! – Ele a pegou
novamente no colo, deixando-a frustrada, pois queria mais da massagem
exótica e sexy. — Ainda pensa em coisas, delícia, coisas das quais não gosto,
coisas que te fazem ir para longe de mim. Ainda não teve o bastante para se
perder em mim, não é? Mas vim preparado, Ana Margarida, preparado para
pegar teu coração para mim e não falharei. – Colocou-a dentro da banheira e
logo em seguida afastou-se para pegar uma garrafa de vinho tinto e despejar
dentro da banheira. — Vinho é afrodisíaco também!
— Você é louco, só pode!
— Já falei que sou louco por você, delícia, a minha delícia!
Leandro livrou-se das calças, revelando o esplendor de sua
masculinidade. O olhar de Ana perdeu-se no que acabava de ver e não sabia
dizer em que momento Leandro havia deixado de ser um intelectual chato e
malvestido para se transformar no homem mais intenso que havia conhecido
até então. Ele era perfeito, nada faltava, nada excedia. Simplesmente perfeito
e todo disponível para ela. Sentiu o poder de fêmea correr entre as veias
assim que o viu deslizar a camisinha no pênis, dando-lhe coragem para
chamá-lo para seus braços, para acolhê-lo no seu interior e perder-se em tudo
o que ele estava disposto a oferecer, embebida pelo odor do vinho tinto, ainda
sentindo a intensidade do sabor do curry na boca e o poder sedutor das mãos
de Leandro sob sua pele.
Ele atendeu ao chamado de sua estrela e meteu-se dentro da banheira,
seguro e determinado a tê-la para si. Deslizou as pernas, forçando Ana a se
levantar por um breve momento e ir para cima do seu colo. Penetrou-a sem
deixá-la pensar em mais nada, forte e duro, sem temer machucá-la, pois sabia
que estava pronta para recebê-lo e envolvê-lo por completo. Estar dentro de
Ana lembrava um aconchego, um toque aveludado, delicado. Estar nos
braços dela enquanto se afundava em seu interior era como tocar o céu e
perder-se na imensidão das estrelas que tanto lhe fascinavam.
— Eu amo você, Ana Margarida, minha delícia, minha estrela! –
Falou ao mesmo tempo que a fez gemer e pulsar de tesão. — Eu amo você e
meu coração sabe que é para sempre! – Repetiu e deixou-se embalar na
cadência das batidas do seu coração enquanto a venerava e deixava-se levar
pelo mais potente orgasmo de sua vida.
Há coisas que acontecem porque devem acontecer, pensou
Leandro, ao entrar em casa depois de ter vivido a melhor noite de sua vida.
Saltou e dançou por estar em êxtase. A adrenalina ainda corria por suas veias
e cada pensamento seu era dela, de sua estrela cadente, de seu sol, sua Ana.
Ele a amava e sabia que lá no fundo ela também o amava, apenas não tinha se
dado conta ou mesmo podia ter se dado conta, mas era muito teimosa para
admitir. Tirou do bolso a lista com os objetivos do Projeto Ter o Amor de
Ana em 5 Passos. Assim como fez com os dois anteriores, riscou o terceiro
objetivo. Estava pronto para o próximo deles: pedir desculpas à Camila,
talvez o mais complicado de todos eles, refletiu. Não se entregaria na
primeira dificuldade, não quando estava tão perto de ter o coração de Ana.
Era certo de que Ana permanecera calada durante todo o trajeto para casa,
mas também não havia sido indiferente como nas outras vezes.
— Não será um “não” que me impedirá de ter você, Ana Margarida! –
Leandro falou assim que estacionou o carro na frente do condomínio da
morena. — Eu quero você e isto é tão certo para mim como respirar ou
comer.
— Não devemos, Leandro! Eu não estou preparada para isso, não
ainda! – Ana respondeu confusa, sem saber quando seu cérebro havia parado
de funcionar. Ainda estava estática com tudo o que havia acontecido, com a
noite perfeita que havia dividido com Leandro.
— Te darei o tempo que precisar, delícia! – Leandro soltou o cinto de
segurança e virou para a jovem universitária, de modo a encará-la e para que
não restasse qualquer dúvida quanto ao que lhe diria. — Não aceito que te
afaste de mim, Ana! – Pegou a mão dela e levou aos lábios, num gesto
carinhoso e terno. Ana era mais do que uma conquista para Leandro e apesar
de toda a atração sexual que emanava dos dois quando estavam juntos, sabia
que era mais do que paixão, era amor o que sentia por Ana. — Posso me
sujeitar a ser teu segredo sujo, posso aceitar me encontrar às escondidas, mas
jamais aceitarei que te afaste de mim... Porque eu a amo. – Aquelas palavras
nunca combinaram tanto com uma mulher, pensou seguro do que sentia e de
quem era a dona deles.
— Para, por favor! Não quero ouvir mais nada! – Ana puxou as mãos
para longe do contato com o cientista, levando-as aos ouvidos. Não queria
mais ouvir, não quando o coração já estava tão inundado por ele.
— Não adianta te comportar como criança, Ana! Nós dois juntos é o
mais certo e te darei o tempo que for necessário para te acostumar com tudo.
Quanto ao problema que te afasta de mim, eu prometo que darei um jeito
também.
— Não podemos, Leandro! Com que cara olharei para minha
cunhada, para meu irmão, para minha família, para meus amigos? Eu não
posso ter nada sério com você!
— Já te falei que por hora me basta ter um caso, Ana!
Leandro a prensou contra o banco do carro, com uma mão na sua
cintura e outra no pescoço, beijou-a, determinado a selar um acordo tácito,
um acordo de esperança para os dois. Não a deixaria sair daquele carro sem
se comprometer com ele. — Vamos nos ver de novo! – Afirmou sem dar a
ela a chance de uma negativa.
— Se eu responder não, de nada adiantará, não é?! – Ele negou com a
cabeça. — Tudo bem! Mas por favor, não dê bandeira! – Ele assentiu,
perdendo-se novamente no doce sabor de Ana, no prazer de beijá-la, um beijo
ardente, que o fazia perder o controle, que o viciava cada vez mais, que o
fazia perder o juízo. Ela também o queria, percebeu afoito. E, apesar do
magnetismo que os atraía cada vez mais um para os braços do outro, ela
conseguiu se soltar e sair do carro, ofegante e suada, em passos lentos e com
um sorriso bobo no rosto.
E assim Leandro havia chego em casa, no seu pequeno e bem
estruturado loft emprestado por Malu, exaltando alegria e felicidade por todos
os poros do corpo, girando e dançando como uma criança travessa que
acabara de ganhar um brinquedo novo. Ele sabia dançar agora, também havia
conseguido ser sedutor e atraente. — Eu sei dançar! E fazer massagens
também! – Gritou para as paredes como se elas pudessem testemunhar sua
façanha. — Eu quero ela e terei ela para mim! – Continuou a bailar, agora
com a vassoura que encontrou na lavanderia. Sabia que precisava se acalmar
para poder esmiuçar um plano que o levasse ao encontro do perdão de
Camila. Também que a empolgação não lhe era benéfica, mas o que poderia
fazer se estava feliz e realizado. Era um novo homem agora, mais completo,
realizado e feliz.
O telefone vibrou no bolso, interrompendo a performance de Leandro.
— Alô! – Falou. — Claro que irei, Malu! Se Ana estiver lá, de certo que não
deixarei passar a oportunidade. – Leandro encerrou a chamada ainda mais
empolgado com tudo. Em pouco menos de 2 horas, voltaria a vê-la. Nada
mais importava, pensou. Haveria Camila e seu marido Neandertal, sim, mas
não importava, era apenas um fato a mais, o que importava era que Ana, sua
estrela, sua delícia, estaria no almoço na casa de Isabela e Fabrício.

Duas horas depois...


Empolgado, Leandro atravessou a casa de Isabela e Fabrício rumo ao
jardim. Sua euforia era contagiante. A adrenalina aumentava à medida que
seus olhos procuravam por ela, por Ana.
— Onde ela está? – Leandro perguntou apressado.
— Ela não virá, acabou de me avisar que dará uma passadinha mais
tarde! – Isabela falou e o coração do cientista se apertou tamanha foi sua
decepção. Ana tinha o dom de fazê-lo sair do êxtase para logo em seguida ser
jogado numa torrente nervosa de agonia e confusão. Nos últimos dias,
Leandro vivia numa constante montanha-russa de emoções, que o deixavam
na maior parte do tempo à beira da insanidade, nunca antes uma mulher havia
conseguido abalá-lo de uma maneira que o fez até se esquecer dos estudos,
das teorias, das estrelas. Mas era algo óbvio, pois estava por perseguir a
maior de todas as estrelas. — Na verdade, eu e Malu pensamos que seria uma
ótima oportunidade de você conversar com Camila, Lê! – Isabela
interrompeu o passo, depositando uma das mãos no braço de Leandro. —
Camila merece saber a verdade. Eu e Malu pensamos sobre o assunto, sabe!
Chegamos à conclusão de que é você quem deve esclarecer tudo com ela, por
mais difícil que seja para os dois, terão que se acertar. – Leandro agradeceu à
Isabela pela ajuda. Um almoço entre amigos era a desculpa perfeita para se
aproximar de Camila. Precisava focar na ruiva e esquecer por um momento a
morena que deixava sua cabeça virada, pensou.
Alguns minutos depois, Camila chegava acompanhada dos filhos.
Estava sorridente até o momento em que seu olhar cruzou com Leandro. Era
nítido o desconforto da ruiva. Ela conversava com Isabela e pela cara nada
amistosa, Leandro sabia que reclamava de sua presença. Isabela, por outro
lado, gesticulava tranquilamente como se estivesse falando com uma criança
pequena birrenta. Para o cientista, a amizade das três era algo a ser estudado.
Camila, Isabela e Malu eram muito diferentes, não só na aparência, mas na
personalidade e, mesmo assim, não se desgrudavam. Tinham diferenças de
opiniões e gostos também, carreiras e projetos diferentes, mas se amavam
como irmãs, o que as levavam a brigar como irmãs também.
— Camila não gostou de me encontrar aqui, não é?! – Leandro
perguntou para Malu, que acabava de chegar com o filho nos braços.
— Nem um pouco! Camila não é de esconder os sentimentos, você
bem sabe! Olha só para ela, aí está a “Dona Pimenta”! – Os dois riram. —
Mas a Bela avisou que você viria, Lê! Só espero que você aproveite a
oportunidade e tente conversar com ela, melhor que você consiga conversar
com Camila, de preferência antes do Murilo chegar.
— Ele não veio?
— Ele e Edu chegarão mais tarde! Uma urgência os levou para o
escritório em pleno domingo. Edu passou para buscar Murilo na mansão e
nos deixou lá.
— Posso pegá-lo? – Leandro estendeu os braços para o pequeno
Matheus Eduardo. — Ele é muito parecido com você, Malu! – Ela sorriu,
concordando com a cabeça. Leandro nunca havia pensado na possibilidade de
se tornar pai, embora gostasse muito de crianças. Mas naquele momento, a
possibilidade passou a fazer parte de sua vida. Filhos com Ana Margarida.
Não era o pensamento mais apropriado, não quando ainda nem havia
conseguido fazê-la sua namorada, mas pouco importava, queria muito ter
uma vida, uma família com Ana e se permitiria a desfrutar o doce sabor de
um sonho feliz.
— Ai gente! – Isabela se aproximou com uma cara nada boa,
percebeu Leandro. — Camila não quer conversar com você, Leandro! Nunca
vi mais teimosa na vida!
— Mas ela tem razão, Isabela! Pense no quanto ela se decepcionou
com o Leandro. Não é fácil para Camila! – Malu falou em defesa da amiga.
— Eu sei, mas sei lá, eu precisava tentar!
— Entendo vocês e agradeço muito! – Leandro olhou para as amigas.
— Não quero que se indisponham com a Camila. O que vocês têm é bonito
demais para correr o risco de acabar por um erro meu. Se alguém tem que
resolver essa porra, sou eu. – Leandro não se perdoaria nunca por provocar
um rompimento, não quando as três eram tão unidas.
Sem êxito, Leandro tentou se aproximar de Camila. A ruiva se
mostrava intransigente e procurava se afastar quando percebia a aproximação.
Talvez tivesse que reconsiderar sua estratégia e procurá-la no escritório, onde
estaria longe de todos. Mas uma coisa lhe era certa, não desistiria do seu
intento e mais cedo ou mais tarde venceria Camila no cansaço. Conhecia-a
muito bem e isso lhe era uma vantagem.
Depois de jogar conversa fora com Fabrício e brincar com as crianças,
Leandro avistou Ana chegando com o irmão e o marido de Malu. Ela sorria
feliz, ao menos até avistá-lo. Estava linda, percebeu. Usava um vestido
soltinho e sapatilhas. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo. Não
havia mulher mais bonita do que ela, concluiu feliz e excitado ao imaginar
que poderia puxá-la para um canto, ali a beijaria e se perderia nas curvas
perfeitas de Ana. Camila foi para junto do marido, assim como Malu,
deixando-a sozinha, ocasião perfeita para se aproximar dela. Sem pensar duas
vezes, contornou o jardim e discretamente foi ao encontro de Ana.
— Oi! – Ela disse de forma um tanto tímida. Era estranho vê-la
intimidada. Nunca, até então, a tinha visto envergonhada.
— Senti tua falta! – Sussurrou assim que conseguiu se aproximar
mais. — Poderíamos ter vindo juntos?
— Está louco, Leandro? É claro que não poderíamos.
— Vem comigo! – Olhou para os lados e como ninguém os
observava, pegou-a pela mão, puxando-a para trás de um cercado de arbustos
que ficava mais distante dos olhares.
— Meu Deus, você enlouqueceu, só pode! – Ana exclamou extasiada
com a atitude dele. — Se alguém nos pegar... – Foi calada por um beijo
molhado que a deixou excitada e pronta para mais. Se já era difícil resistir à
Leandro na versão tímida, tornou-se praticamente impossível quando
resolveu se soltar. — Caraca... – Soltou um pouco frustrada assim que
Leandro desgrudou de sua boca, agarrando o tecido da camiseta de Leandro
para que pudesse puxá-lo para junto de seu corpo novamente. — Vem cá,
Doutor Fodão!
— Calma, delícia! Sou todo seu já! – E aí ficaram, perdidos entre
beijos pecaminosos e uma troca de carícias intensa. A luxúria passava a
dominar as ações dos dois, nada mais importando a não ser os dois e sua
atração irresistível. Uma vibração ditava o ritmo da dança que os dois
pareciam executar, uma dança habilidosa, sensual, repleta de sedução e
desejo, onde o sabor de uma paixão proibida lhes infligia que continuassem
cada vez mais profundo e poderoso, estavam envolvidos e nada seria capaz
de tirá-los do devaneio em que haviam se atirado.
— Solta ela! – Leandro foi puxado por mãos firmes para longe de
Ana e quase caiu, não fosse o fato de ter conseguido se agarrar no galho de
uma árvore. Murilo partiria para cima dele se não fosse Edu a segurá-lo. —
Quem você pensa que é, doutor sei lá do que? Ela é minha irmã e você um
filho da puta...
— Para, Murilo! – Ana gritou aflita e envergonhada por ter sido pega
em flagrante. — Ele apenas estava me ajudando.
— Não nasci ontem, Ana Margarida! Bem sei o que ele estava
fazendo! – Murilo respondeu furioso.
— O que acontece aqui? – Camila perguntou assim que chegou.
— Esse fulano que um dia foi seu noivo, Camila... Me solte, Edu! –
Murilo se soltou do aperto do amigo e passou a mão entre os cabelos,
deixando-os totalmente bagunçados. — Ele seduziu minha irmã, Camila!
— Leandro seduziu a Ana?! – Camila arregalou os olhos, sem
acreditar no que os ouvidos haviam acabado de escutar. — Deve ser uma
mal-entendido!
— Não foi um mal-entendido, Camila! – Murilo insistiu.
— Pois também acho que não foi um mal-entendido! – Edu falou,
também indignado. — Eu vi muito bem com estes olhos que a terra há de
comer um dia! Eles estavam se pegando e numa daquelas pegadas... – Malu
deu um soco nas costelas do marido. — Puta que pariu, Malu! Isso doeu.
— Bem feito! Quem mandou se meter onde não foi chamado. – Malu
fechou a cara, mas o marido parecia não ter entendido o recado e continuou a
falar como uma fofoqueira.
— Bem que Gabriel me falou que Ana estava envolvida com outro! –
Malu se colocou na ponta dos pés e deu um beliscão no marido, um bem
apertado. Edu pareceu entender o recado implícito contido no beliscão.
Murilo continuava a encarar Leandro como um cão raivoso. Leandro,
por sua vez, encarou-o de volta, determinado a colocar tudo em pratos
limpos. A confusão estava armada mesmo e mais enrascado do que estava,
não iria ficar. Aos olhos de todos, inclusive de Ana, ele era o pior sujeito, o
abandonador de noivas aflitas no altar.
— Tenho uma pergunta para você, doutorzinho! Por que não ficou
onde estava? Ou melhor, por que não voltou para Porto Alegre? Minha irmã
não é para o seu bico, não é para o bico de professores tarados!
Leandro limpou a camiseta e estufou o peito. Sempre foi um bom
ouvinte, um sujeito que evitava confusões, um apreciador da paz, porém, o
homem de Neandertal havia se superado em grossura e falta de sensatez.
Poderia aguentar que o chamassem de abandonador de noivas, pois de fato o
era, mas nunca havia seduzido uma de suas alunas como supunha Murilo.
— Você cale a boca antes de me acusar de algo! – Alterado, Leandro
apontou o dedo para um Murilo ainda mais bravo com o descaramento do
cientista. — Você não é e nunca foi um Santo para me julgar. – Fabrício
tentou o conter. — Pode não ter abandonado uma noiva no altar, mas quase a
perdeu no dia do casamento porque um dos teus casinhos quase a matou.
— Deixe-o vir, Fabrício! Vamos ver do que o doutorzinho é capaz! –
O arquiteto o incitava, deixando Ana apavorada e sem saber o que fazer.
Camila se colocou na frente do marido enquanto Isabela levava as
crianças para dentro. — Chega, Murilo! Não vê que as crianças estão
assustadas? E que Ana está a ponto de mergulhar nas próprias lágrimas.
— Sai da frente, Camila! – Murilo bradou ainda muito irritado.
— Não saio mesmo!
— O que foi, Camila? Você também protege a dama de cuecas? É
isso? Que porra é essa?
— Não seja infantil, Murilo! Estou apenas pedindo para você parar,
porque você é meu marido, droga! – Camila meteu o dedo no peito de
Murilo, que bufava tamanho era o seu nervosismo. — Mas se você prefere
que eu vá implorar para Leandro, posso fazê-lo, com certeza ele me atenderá!
– Cansada de discutir, Camila virou as costas, deixando um Murilo
petrificado para trás.
— Camila, volte aqui! Eu não acredito que ouvi isso!
Ela interrompeu a caminhada e virou-se muito brava. — Pois te digo,
Murilo, que Leandro pode ser um monte de coisas, mas nunca se envolveu
numa briga antes e sempre me ouviu, fique sabendo!
— Encanto!
— Não me venha com encanto agora! Será que você não vê o estado
de sua irmã, Murilo?! – Camila apontou para Ana que chorava
compulsivamente abraçada ao próprio corpo. Foi ao encontro da cunhada e
abraçou-a, pedindo para que se acalmasse. — Quanto a você, Leandro, vá
embora!
— Mas não vou mesmo! – Camila o encarou furiosa. — Nem vem,
Camila! Dessa vez, estou disposto a tudo.
— Por todos os Deuses, não seja teimoso, Leandro! – Camila ergueu
um dos braços para o céu. Aquela confusão havia passado dos limites.
Leandro nunca havia agido de forma tão teimosa antes, por que simplesmente
não voltava a ser o mesmo Leandro, aquele que ela conhecia tão bem?
— Até sei o que pensa, Camila! E a resposta é não. Hoje, e a partir de
agora, não serei mais aquele Leandro previsível, que dizia amém para tudo.
— Quer saber! – Camila bufou. — Se vocês dois querem se matar,
pois se matem, só esperem eu e Ana sairmos, seus... Quer saber? Vão para o
inferno!
Camila andava de um lado para o outro na sala de Isabela,
enquanto Ana secava as lágrimas dos olhos. — O que foi aquilo, Ana?
— Ai Camila, não fale, por favor! – Ana voltou a chorar, era um
pranto dolorido, repleto de angústias, receios e dúvidas. De uma hora para
outra, tudo estava confuso, nada no lugar, sentia-se cansada em lutar contra
os sentimentos, contra a paixão desenfreada que sentia por Leandro e que
parecia crescer cada dia mais.
— Desculpe, Ana! – Camila sentou ao lado da jovem e abraçou-a. —
Não é hora de reprimendas, eu sei, meu bem! Mas seu irmão me deixa louca
quando resolve agir como um homem das cavernas. O que aconteceu, Ana?
Você e Leandro... O que acontece entre vocês dois?
— Não quero falar sobre isso! – Envergonhada, Ana praticamente
implorou. Não estava preparada para falar, muito menos confessar algo que
nem ela conseguiu admitir para si. Sua cabeça estava virada numa bagunça,
uma confusão total. Seus princípios continuavam intactos, assim sua razão
acreditava, mas o coração mandava outra mensagem. — Estou cansada e
quero ir para casa!
— Tudo bem, Ana! Não quer falar, não precisa! Apenas quero que
saiba que estou do seu lado e que pode contar comigo para tudo, mesmo que
isso signifique abrir seu coração para algo que não esperava. – A intuição de
Camila falava que havia muito a ser explicado e que Ana e Leandro poderiam
estar envolvidos sentimentalmente. Os indícios eram muitos, começando pela
forma com que o ex-noivo reagiu às investidas de Murilo. — Vou pedir para
que um dos seguranças te leve para casa! – A ruiva levantou e seguiu em
busca da bolsa, também na intenção de encontrar uma das amigas, Malu e
Bela tinham muito a explicar, mas acabou sendo interrompida por Murilo,
que a puxou como um louco para o interior da casa.
— Nem pense em fugir de mim, Camila! – Murilo falou firme, sem
perceber a presença de Ana na sala.
Ao ver a cena, um sentimento de alívio tomou conta da alma de Ana.
Camila e Murilo se entenderiam no final e pouco importava se estava
despedaçada. Uma coisa havia ficado claro, não poderia nem pensar em um
dia ter algo mais sério com Leandro, pois Murilo acabaria por matá-lo.
Precisava ir para casa, queria sumir logo, se pudesse se enfiaria num buraco.
Quando criança, costumava se esconder dentro dos armários para evitar ter
que enfrentar uma bronca dos pais. Naquele momento, daria tudo para voltar
a ser criança e se esconder dentro de um armário. Pegou o telefone e mandou
uma mensagem rápida para que Sabrina viesse buscá-la. Com certeza, Camila
esqueceria dela e isso não era de todo ruim. Sabrina respondeu a mensagem,
prometendo que dentro de 20 minutos estaria com o carro estacionado em
frente da casa de Isabela. Enxugou as lágrimas com a barra do vestido e
levantou, o melhor a ser feito era se retirar antes que alguém notasse sua
presença, além de envergonhada pelo ocorrido, também não queria ter de
enfrentar os olhares questionadores de todos. Por mais que negasse ou
inventasse uma desculpa para o que todos enxergaram, ninguém era tão tolo
em acreditar. Meu Deus, ela própria não acreditaria, pensou ainda exacerbada
com tudo.
Ao chegar à porta da frente, ouviu uma voz que muito bem conhecia.
Fechou os olhos e inspirou o ar de modo a criar coragem para se virar e
encarar quem não queria, ao menos quem não desejava encarar depois de
tudo, depois do momento constrangedor que dividiu com ele. — Ana! Por
favor, não vá antes de podermos conversar.
— Conversar o quê? Não há nada mais que ser dito! Será que você
não consegue entender?!
— Porra... Ana, desculpe pelo o que aconteceu! Eu sei que prometi
que ninguém ficaria sabendo, mas não resisti e...
— E fodeu com tudo! Eu sei!
— Não! Você não sabe! – Leandro se aproximou, mas num gesto
brusco, Ana deu dois passos para trás, saindo da casa e recusando-se a escutá-
lo. — Ana, não vou deixar você me dar as costas desse jeito! Inferno de
mulher teimosa.
— Já falei, não há mais nada a ser dito! Será que não entendeu ainda
que nós dois juntos não dá, não é certo?! Que merda, Leandro! Já não bastou
toda a cena de minutos atrás, meu irmão possesso com você, o que foi
aquilo?
— Tá bem, eu agi sem pensar, no calor do momento, mas que inferno,
Ana! – Leandro gesticulava nervoso, os olhos pareciam mais azuis do que
nunca e sua fala externava uma irritação nunca antes notada. — Também
tenho sangue nas veias! Eu amo você, Ana! Será que você não compreende
isso?
— De que adianta você me amar, de que adianta tentarmos alguma
coisa mesmo que escondido, se nunca você será capaz de apagar a merda que
fez?! – Ana não queria voltar a chorar, não quando havia conseguido reunir o
pingo de dignidade que lhe restara, não quando precisava se manter forte e
determinada para dar um basta na confusão que havia armado; maldita hora
em que teve a ideia de dar uma lição no ogro abandonador de noiva. Era
muito azar mesmo! Apaixonar-se por quem não devia não fazia parte dos
planos, pensou atormentada.
— Que porra é essa, Ana! Tudo o que vivemos não foi suficiente, não
é suficiente para você? Eu sei que fiz a maior merda da minha vida, poxa!
Mas será que para sempre isso vai ditar o rumo da minha vida? – Leandro
não sabia mais o que falar ou fazer, havia dado tudo de si para conquistá-la,
aprendeu a dançar, mudou o visual, comprou roupas novas, até cuecas novas
ele comprou e nada parecia ser suficiente para ela, porque sempre haveria seu
passado a estragar com tudo, com qualquer esforço. — Não vou aceitar isso,
Ana Margarida!
— Pois terá que aceitar! Não há futuro para nós. Será que você não
percebe que sempre haverá meu irmão e minha cunhada no meio de nós?!
Leandro tentou se aproximar, mas foi repelido. Ana estava decidida e
nada a faria voltar atrás. O carro de Sabrina estacionou e com passos firmes,
Ana se afastou, levando consigo o coração de Leandro, deixando-o para trás
com um desespero nunca antes sentido. Talvez foi isso que Camila sentiu
quando ele a deixou para trás no dia do casamento e se assim foi, era bem
feito para ele. — Para com isso, Leandro! Chega de se penalizar por algo que
não tem mais volta! – Falou alto na intenção de se convencer de que valeria a
pena lutar por Ana, que apenas uma batalha havia sido vencida, mas a guerra
não estava perdida. Colocou a mão no bolso e apertou o papel que continha
os 5 objetivos traçados para ter o amor de Ana. Precisava se apegar em algo e
aquele papel representava muito para ele, um cientista experiente. Faltavam
apenas 2 objetivos e não seria justo desistir agora, mesmo que tivesse que
realizar o mais difícil de todos e que atendia pelo nome de Camila Rossini, ah
sim, agora Camila Rossini Mendonça Castro de Alcântara.
— O que pretende fazer? – Isabela fitou Leandro com semblante
preocupado.
— Encontrar a ruivinha e resolver essa porra toda!
— Nem pense nisso! Camila e Murilo se enfiaram no laboratório de
Fabrício e passaram a chave na porta.
— E daí? – Leandro perguntou sem paciência, ansioso pôr colocar um
basta na confusão do seu passado com a ruiva.
— Você quer morrer, só acho! Murilo vai te esfolar vivo se você o
interromper numa das suas tentativas de aplacar a fúria da Dona Pimenta. –
Leandro soltou um sorriso de canto, foi um sorriso tímido, sim, mas que
deixava claro o quanto estava satisfeito com a notícia. O homem de
Neandertal merecia uma mulher brava e nada melhor do que Camila na sua
melhor forma, pensou.
— Deixemos para Camila dar um jeito no marido pré-histórico!
— Não seja irônico, Doutor Leandro! Bem sabe que Camila
enfurecida não é páreo para ninguém, mas se tem alguém que sabe dar jeito
na “brabeza” dela é Murilo. E você, conseguiu falar com a Ana? – Leandro
negou com a cabeça, deixando claro que estava tudo terminado. — Sinto
muito, Lê! Eu e Malu, nós duas pensamos que ajudaríamos com o almoço...
— Tudo bem, Bela! A culpa de tudo isso é minha, mesmo! Eu ferrei
com tudo naquela maldita tarde de junho. Quer saber, eu mereço tudo isso.
— Não fala assim!
— Mas é a verdade, Bela! O que fiz da minha vida até agora!? Nada
que valesse a pena!
— Não é bem assim, amigo! – Fabrício se aproximou de Isabela
abraçando-a com carinho. Ver a cumplicidade do casal foi dolorido para
Leandro. Ele queria dividir uma vida, uma família com Ana, talvez tenha
sonhado muito alto, pensou.
— Bem sei que falará dos meus prêmios e do quanto sou brilhante no
que faço, Fabrício! Mas de que adianta tudo isso, se eu consegui ferrar com o
resto?! Nunca amei alguém como amo a Ana, nunca me foi tão certo o que
sinto por Ana e aqui estou, sem saber o que fazer, porque a mulher com quem
eu iria me casar se encontra trancada num quarto com o marido, que é irmão
da mulher que eu amo. Isso é dramático para não dizer que é trágico.
— Tantas mulheres nesse mundo e você precisava ter se apaixonado
pela Ana, Leandro?
— Cala a boca, Fabrício! – Isabela deu um tapa na cabeça do marido.
— Nunca fala, mas quando fala é sempre nas horas mais inapropriadas... Que
chato isso! – A loira revirou os olhos. — Mas não desista, Lê!
— Não quero desistir! Mas meu tempo está se esgotando. Logo
precisarei voltar para Porto Alegre, tenho uma cátedra para assumir. Já devia
ter voltado, e para ser sincero, protelei tudo que pude.
— De toda forma, não acredito que deva conversar com Camila
agora. – É claro que Isabela estava com razão, sempre foi a mais sensata de
todos eles, aquela que fazia o papel de irmã mais velha, sempre disposta a dar
um colo ou mesmo oferecer o ombro nos momentos mais difíceis.
— Eu sei! Vou para casa! – O cientista suspirou num misto de
apreensão e tristeza. — Se alguém tem que ser feliz no meio dessa zona que
tudo se transformou, que seja a ruivinha. Se alguém tem que ser infeliz, que
seja eu, aquele que a abandonou. – Leandro era realista, sempre fora. Era-lhe
certo que Camila merecia a felicidade mais do que ele.
Os dias custavam a passar para Ana. Vivia uma tormenta de
sentimentos o tempo todo. Haviam horas em que o desejo de ver Leandro era
muito forte, em outras apenas queria esquecê-lo e tocar a vida, desejava sua
vida de volta, seu jeito de encarar tudo de forma leve e alegre, mas nada mais
parecia fazer sentido sem a presença dele. Ele a infernizava com mensagens
enviadas pelo celular e teve um momento que sem poder mais aguentar,
desligou o aparelho e foi em busca de um novo número.
— Não sei por que não admite que o ama, Ana? – Sabrina encarou a
amiga na esperança de vê-la sair do marasmo em que se encontrava há dias.
— Não quero falar sobre isso, muito menos sobre ele! – Ana sorveu
um longo gole de seu milk-shake.
— Ele tem nome, você bem sabe! Há dias que você parece uma
morta-viva, Ana!
— Apenas estou focada nas provas finais! – Sabrina olhou-a por cima
dos óculos de sol. — Logo, volto à ativa, Sabrina! Até combinei de sair com
o Gabriel.
— Gabriel?
— Sim, Gabriel! Além de ser um gato, é atencioso e sempre andou na
minha espreita. Estou decidida a aceitar seu pedido de namoro. – O queixo de
Sabrina caiu. — Não me olhe dessa forma!
— E o cientista e todo o sex appeal que há entre vocês? Caramba,
Ana, o cara aprendeu a dançar por você!
— Nem vem com isso de novo! Aliás, maldita hora em que você
ajudou aquele lá a me seduzir!
— Eu ajudei Leandro a seduzir você?! Está brincando, só pode! –
Sabrina riu da cara feia da amiga. — Você já estava na dele antes mesmo de
eu ajudá-lo.
— Não importa! Foi bom enquanto durou, mas agora me decidi a
namorar com o Gabi! Daqui uma semana é nossa formatura e pretendo
apresentar Gabriel como meu namorado.
— Ana, isso não vai prestar! Eu sei que o Gabriel é um metido e bem
que merece uma lição. Eu mesma adoraria ver a cara dele quando for trocado
por um nerd, mas sejamos justas, ninguém merece ser usado para esquecer
outro.
— Quem disse que estou usando Gabriel para esquecer o Leandro?! –
Ana bufou em frustração. Estava cansada de ouvir a mesma fala de Sabrina.
Apoio nessas horas eram mais bem-vindos do que reprimendas.
— Vira o disco! – Respondeu irritada.
— Não sou disco para virar, Dona Ana Margarida Mendonça
Marcuzzi! – Sabrina inalou profundamente o ar, precisava encontrar
paciência para uma vez mais tentar pôr juízo na cabeça teimosa da amiga. Era
sua melhor e mais querida amiga, mas conseguia ser a pessoa mais teimosa e
obstinada do mundo. — Por que não conversa com Camila? Abra o coração
para ela, tenho para mim que sua cunhada irá compreender você, Ana! Ela
parece ser uma mulher justa e equilibrada. O que aconteceu entre ela e
Leandro não pode ser mais forte do que o carinho que ela parece ter por ti,
Ana!
— Não incomodarei Camila por uma questão tão tola! Ela tem mais
com o que se ocupar.
— Sabe o que acho? Que você está com medo, Ana! Medo de ser
feliz ao lado de quem ama.
— De que adianta insistir em algo que está fadado ao fracasso?! –
Ana secou uma lágrima e voltou a colocar os óculos de sol no rosto. De uns
tempos para cá, usava óculos escuros mais do que o habitual para esconder os
olhos vermelhos e a cara marcada pelo choro. — Mesmo que eu queira ficar
com ele, tenho certeza de que me farão escolher entre ele e minha família e
isso está fora de cogitação, minha família vem em primeiro lugar.
— Uma coisa não tem nada em comum com outra. Pois você está
sendo uma exagerada!
— Sabe de uma coisa? Para mim já deu, Sabrina! Vou embora, pois
não aguento mais ouvir você cacarejar sempre a mesma coisa! – Ana
levantou, pegou a bolsa determinada a ir embora antes que brigasse com
Sabrina. — Vou embora para não brigarmos, Sabrina! Tenho para mim que
isso tudo vai passar, é só uma fase e Gabriel vai me ajudar a esquecer! – Deu
um abraço na amiga e saiu do bar.
Quando estava prestes a abrir a porta do carro, sentiu um toque na
mão, impedindo-a de atingir seu intento. Era ele, ela sabia, conhecia aquele
toque como ninguém, o cheiro delicioso de erva molhada pela brisa também
o denunciava.
— Por que não atendeu meus chamados, Ana Margarida? – Leandro
perguntou enquanto Ana se perdia no intenso azul dos seus olhos. Ele estava
mais abatido, percebeu, mas mesmo assim continuava lindo.
— Porque não tenho nada para falar! – Altiva, ergueu a cabeça e o
encarou. Precisava ser mais forte do que nunca, pois seu corpo ansiava por se
jogar nos braços dele e se perder no sabor da sua boca. — Tudo o que
tínhamos para falar, foi falado! Então, com licença, preciso ir.
— Não! – Leandro a prendeu contra o carro, pressionando-a de modo
que não restassem dúvidas de que o corpo dela lhe pertencia, porque assim
era o certo, assim queria. As mãos grandes e fortes de Leandro deslizaram
por debaixo dos cabelos sedosos dela, enquanto o polegar acariciava seus
lábios macios, queria gravar todos os seus traços. Embebido por um forte
sentimento de posse, grudou-se na boca de Ana, enfiando sua língua para
dentro e num jogo habilidoso e sincronizado, envolveu-a numa excitante
dança, uma troca ensandecida de sabores, onde não havia possibilidade de
recusa. Ele determinava o ritmo do beijo, enquanto suas mãos dividiam-se
entre acariciar e prendê-la agarrada ao seu corpo.
— Para! – Ana o afastou com as mãos, a muito custo, verdade seja
dita, porque ele sempre a levava ao paraíso e isso lhe era dolorido de admitir,
dolorido quando precisava se manter com os pés no chão, principalmente
quando sua fama era de ser uma avoada, fama que nunca fez questão de
desdizer, pois era de fato uma sonhadora e sempre havia desfrutado da
esperança de um feliz e alegre final para sua vida. — Não quero mais te ver,
Leandro! NUNCA mais!
— Por que não? – Leandro perguntou na esperança de que ainda a
faria mudar de ideia, que a faria entender que o que dividiam era forte demais
para ser deixado de lado. Ele precisava se esforçar só mais um pouco.
— Porque estou namorando agora! – Ela mentiu descaradamente, mas
seu coração pareceu se quebrar em cacos, cacos que jamais poderiam ser
colados, quando o fitou e viu a dor tomar conta do semblante de Leandro até
o ponto de fazê-lo enrugar a testa e contrair os lábios num gesto claro de
derrota e tristeza. Vê-lo abaixar a cabeça em sinal de pesar, machucou-a e
uma dor jamais antes sentida varreu a alma de Ana.
Leandro se afastou de Ana, liberando espaço para que ela pudesse
respirar e clarear os pensamentos. Estava a um passo de reconsiderar o que
acabava de falar, mas devia ser forte e continuar com seu plano ardil de
humilhá-lo, o momento de chutá-lo para fora de sua vida, com um belo pé na
bunda havia chegado. Houve o tempo em que acreditou que iria se deliciar
quando a hora chegasse, porém, nada mais restava a não ser uma dor
indescritível dentro dela, uma dor que corroía até as entranhas e a fazia
questionar sua própria capacidade de se manter em pé, inabalável e pronta
para seguir em frente.
— Você não o ama! Pode não me amar, Ana! Mas também não ama
aquele loiro azedo – Leandro colocou as mãos no bolso, agarrando o papel
com seu Projeto Ter o Amor de Ana. — Se o amasse, não teríamos chegado
onde chegamos, não teríamos dividido os momentos que dividimos... Porra,
Ana! Minha vida virou do avesso por você, estou fazendo coisas que jamais
fiz por ninguém, porque nunca alguém entrou na minha cabeça do jeito que
você entrou, nunca ninguém me fez querer algo tanto quanto você me faz te
querer. Mas nada disso é suficiente e mesmo que eu venha a te dar as estrelas,
você nunca iria me dar uma chance de verdade, de demonstrar que não sou o
monstro que você pintou, que sou um sujeito qualquer, com defeitos e
qualidades como outro qualquer, talvez com mais defeitos do que
qualidades... O pior de tudo é que nada será suficiente, não enquanto existir
meu passado a me atormentar, não enquanto existir Camila, a amada esposa
do teu irmão. Desculpe, Ana, desculpe-me por oferecer toda a minha
adoração, todo o meu amor para você, de uma forma que nunca fiz antes! –
Virou-se e foi embora, deixando Ana para trás, numa tormenta dolorosa,
numa angústia nunca antes sentida, na certeza de que nunca viria a amar
alguém como o amava. Sim, ela o amava e precisava enterrar esse amor em
algum lugar da alma, num canto escuro da mente para que se perdesse entre
as muitas recordações. Levá-lo-ia para sempre guardado com ela, todas as
lembranças felizes dos pequenos momentos partilhados.

Minutos depois, Leandro cruzava a majestosa e imponente porta de


madeira de lei, uma relíquia antiga do solar onde Camila trabalhava.
Decidido, parou em frente ao balcão da recepção e perguntou pela arquiteta.
— Diga-lhe que não sairei enquanto não me atender! – Olhou em volta
enquanto aguardava o retorno da mulher. Tudo era muito bem-disposto e
organizado, uma perfeita e agradável mistura do velho com o novo. Poltronas
modernas e confortáveis em cores neutras faziam um bonito conjunto com
móveis em estilo antigo, as luminárias também lembravam lustres antigos,
pensou. O convívio com Camila lhe fez um entendedor da arquitetura e da
história.
— Ela o aguarda! – A secretária falou, indicando para que a seguisse.
Adentrou a sala e encontrou um par de olhos verdes a encará-lo num
misto de raiva e curiosidade. A conhecia bem, a ponto de saber que Camila
não mediria as palavras nem mesmo a frieza para abordá-lo. As lembranças o
conduziram ao passado, um passado que preferia não ter acontecido, onde
Camila Rossini era sua linda e bem-sucedida noiva, um passado onde as
escolhas foram feitas na intenção de agradar os outros, que o fizeram um
escravo, preso num turbilhão de sentimentos revoltos e incompreendidos.
— A que devo a honra, Doutor Leandro Navarro? – A ruiva levantou
e indicou a cadeira a sua frente.
— Não seja sarcástica, Camila! Bem sabe o motivo de estar aqui,
tanto sabe que tem me evitado, melhor, fugido como o diabo foge da cruz!
— Não nego, Leandro! Não há motivos para um encontro ou uma
simples troca de palavras, não quando você representa um passado que
enterrei. Mortos e enterrados não falam! Mas já que dei uma descida ao
inferno, aproveite a ocasião e diga o que tem para dizer.
— É muito engraçado! – Leandro riu, na verdade, um riso de
frustração e cansaço. — Você nunca teve tempo para mim, Camila, e
continua a não ter.
— Olha, Leandro, não estou com humor para gracinhas e acusações
de algo que ficou para trás. Mesmo assim, se antes não tinha tempo para
você, por que acha que agora terei? Justo agora que refiz minha vida, que me
casei e cujo marido não suporta a ideia de saber que tive um noivo. Mas
Murilo não é a questão aqui! Mesmo que ele não se importasse com você, o
que não é o caso, eu não quero conversar com você e ponto-final. Você teve a
oportunidade de fazê-lo e não o fez quando devia.
— Pois pretendo ser rápido! – Leandro enrugou a testa e coçou o
queixo. — O que fiz com você foi errado e nunca serei capaz de me perdoar
pelo que a fiz passar. Tem razão quando me chamou de fraco, pois o fui em
diversas ocasiões, inclusive, quando se fez necessário contradizê-la...
Simplesmente, me era mais fácil dizer um “amém” para você do que
enfrentá-la. Em diversos momentos, eu tentei te falar que não estava
preparado para o casamento, mas em nenhuma delas eu fui forte o suficiente
para dizer com todas as letras o que sentia.
— Por quê? – Camila ergueu o queixo, estava determinada a colocar
os pingos nos “is”.
— Porque eu e você, juntos, era o esperado, sempre foi, por tua mãe,
pelos meus pais, por nossos amigos, Camila. Eu senti medo de decepcioná-
los, medo de machucar você também!
— Sim, devo acreditar que você sentiu medo por me machucar?!
Justo você que me fez passar por uma situação humilhante ou você acredita
que foi a melhor coisa que me aconteceu usar um vestido de noiva e não ter
um noivo me esperando no altar, ter que ler meu nome em todas as colunas
sociais de Porto Alegre... Inferno, Leandro, eu sofri muito com tudo o que
aconteceu, eu chorei, eu me desesperei e me perguntei o que tinha feito de
errado para merecer ser largada e traída.
— Eis a questão, Camila! Eu não te traí!
— O que você falou? – Camila se reclinou na cadeira extasiada com o
que acabava de escutar. Sabia que Leandro não mentiria com algo tão sério.
10 anos em sua companhia foi o suficiente para conhecê-lo bem e apesar de
tudo, sempre havia sido um homem íntegro e responsável, a ponto de deixar a
sociedade estarrecida com o comportamento de anos antes.
— Eu não traí você, Camila! A moça do aeroporto era minha
estagiária, o nome dela é Tatiana. Você inclusive a conheceu, cheguei a te
apresentar, mas no dia você estava transtornada e com certeza não a
reconheceu. Alguns meses antes do casamento, recebi a mensagem de que fui
aceito para o programa de pós-doutorado no Canadá e tentei te falar, mas
como sempre você não tinha tempo para me ouvir e quando nos
encontrávamos, você apenas tinha olhos e ouvidos para os assuntos do
casamento. Mas isso não vem ao caso e muito menos justifica meu
comportamento desprezível! Estou aqui para pedir desculpas para você e
admitir que errei feio quando te deixei no dia do casamento.
— Está fazendo isso por causa de Ana, não é?
— Também! – Não adiantava negar para Camila, era muito
inteligente, sempre o fora e não seria agora que deixaria de ser, não depois do
acontecido do último domingo. — Há uma coisa que deve saber, voltei para o
Brasil determinado a te encontrar e pedir perdão... – Camila tentou
interrompê-lo, mas ele não deixou. — Deixe-me falar! Ao menos uma vez na
vida, não me interrompa, não quando me determinei a tirar minha armadura e
abrir meu coração para você. – Inalou o ar e prosseguiu. — Fui para o
Canadá, tentei esquecer toda a merda que eu havia feito, tentei me concentrar
na minha pesquisa, nas estrelas. No início, foi fácil, o fascínio e a
empolgação ocuparam meu tempo. Mas logo, o peso do remorso e o senso de
responsabilidade que sempre tive com tudo e todos me conduziu a viver
amargurado com o que tinha feito, eu nunca quis machucá-la, Camila, nunca
quis o teu mal. Quando cheguei ao Rio, não entendia os olhares rancorosos e
o tratamento distante dos nossos amigos. Sabia que nenhum deles passaria a
mão em minha cabeça, mas dava para perceber que havia algo a mais que os
incomodava, algo que ia além do mal-estar que nossos encontros
ocasionavam, em especial, quando estava acompanhada por Murilo.
Recentemente, descobri por meio de Malu e Bela que todos acreditavam que
eu tive um caso com Tatiana, e que fugi para viver um romance com ela,
tendo por desculpa o pós-doutorado.
— Isso não muda em nada minha situação, Leandro! – Camila bufou
apertando uma caneta fortemente. — Alivia, talvez sim, mas não muda,
entenda isso. Você ainda podia ter sido honesto comigo. Foi um inferno!
Todos aqueles repórteres no nosso pé, dia e noite na frente da minha casa,
minha mãe a bronquear nos meus ouvidos o tempo todo, acusando-me de ter
perdido o melhor partido de Porto Alegre. Eu não sei se estou preparada para
perdoá-lo, Leandro! Parar para escutá-lo já foi muito para mim, bem sabe que
perdoá-lo exigirá de mim voltar ao passado, rever coisas e pôr na balança
outras. Não quero fazê-lo, ao menos não agora, quando me permiti viver a
vida que sempre sonhei para mim, faço o que gosto, tenho um marido que
amo, uma família só minha para cuidar e zelar. Talvez num futuro eu consiga,
mas não agora, não estou preparada.
— Tudo bem! Ao menos, você me escutou e deu-me esperanças de
um perdão. Viverei para o ter e farei por merecer. – Leandro levantou para
tomar o rumo da saída, mas foi interrompido por um chamado de Camila.
— Eu já aceitei você, sua presença entre nossos amigos, porque, em
primeiro lugar, eles não têm culpa do que construímos e destruímos juntos.
Estou consciente da parcela de culpa que carrego pelo fracasso de nossa
relação. Não sou uma mulher injusta, nunca fui, apesar de estourada e de
personalidade forte. Em segundo lugar, o fiz por Ana. Há algo entre vocês
dois e não serei eu a estragar o que vocês têm. Espero que esteja certo do que
sente por ela, se é que sente, e faça por merecer. – Leandro agradeceu a
compreensão de Camila com um rápido gesto de cabeça, retirando-se logo
em seguida, sentindo-se mais leve por deixar para trás um peso que o
acompanhava sem dó nem piedade. A consciência era algo injusto, percebeu.
Aqueles que os tinham eram movidos por ela e não dar ouvidos a ela era uma
das tarefas mais difíceis a se cumprir.
Duas semanas depois...
Ana estava eufórica com sua colação de grau. Depois de anos
de dedicação, havia conseguido concluir a Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo, não com o louvor que talvez seus pais esperavam, mas com
dignidade, e isso já lhe bastava. Nunca foi uma daquelas alunas exemplares,
mas não havia feito feio, pensou. Camila e Murilo haviam oferecido uma
festa na mansão Castro de Alcântara e tudo parecia estar perfeito não fosse o
aperto no coração toda vez que lembrava de Leandro. Não havia tido notícias
do cientista e não sabia se tinha voltado para Porto Alegre, embora sua
curiosidade fosse maior do que qualquer coisa. Esquecer Leandro havia se
tornado um desafio, um desafio que estava difícil de vencer.
— Ana, venha logo! – Camila a chamava feliz para brindar. A festa
estava perfeita e todos que de fato lhe eram importantes se faziam presentes.
Olhar para as pessoas a sua volta, em especial, seu irmão, lhe confortava pela
escolha que havia feito: a família em detrimento de Leandro. Nunca pôde ter
os dois e nunca viria a abrir mão de sua família para viver algo que estava
fadado ao fracasso. Alguns poderiam a ter por pessimista, mas não se
importava com o que os outros pensariam a respeito. — Melhore essa cara,
Ana! Nem parece que acabou de se formar, guria!
— É claro que estou feliz, Camila! Apenas pensativa... – Ana sorriu
para a cunhada, sem saber o que dizer, enquanto Murilo fazia seu pequeno
discurso no qual falava sobre o amor pela irmã e o quanto se orgulhava dela
para os convidados.
Murilo fez questão de convidar vários nomes da arquitetura local,
sempre havia sido um exibicionista e não seria diferente quando se tratava de
mostrar a conquista da irmã menor. Todos pareciam felizes, menos Ana, cujo
coração parecia se despedaçar mais à medida em que o momento de anunciar
o namoro com Gabriel se aproximava. Malu repreendeu-a com o olhar, pois
era uma das poucas que sabia do seu envolvimento com o cientista. Assim
que a valsa fosse anunciada na pequena pista de dança montada nos jardins
da mansão, todos teriam certeza de que Gabriel havia sido o seu escolhido. É
claro que teria que dançar com o pai e com o irmão, mas logo em seguida
seria a vez de Gabriel, que havia passado a ocupar a vaga de namorado dois
dias antes. Sabia que devia estar feliz, mas não estava, não quando passava a
maior parte do tempo pensando em um cientista maluco e muito sedutor.
Havia se apaixonado por Leandro, lhe era sabido, mas estava lutando como
louca para arrancá-lo do coração. Gabriel se esforçava e parecia gostar de
Ana de verdade e queria dar uma chance para eles.
— Vamos, Ana! – Gabriel estendeu a mão, pois havia chegado o
momento. As emoções de Ana estavam tão alteradas que sequer desfrutou da
companhia do pai e do irmão. Sentiu ódio por Leandro ter entrado em sua
cabeça a ponto de perturbá-la em um momento tão especial quanto sua festa
de formatura. — Não parece feliz! – Gabriel sussurrou no seu ouvido.
— Claro que estou feliz, Gabi! Quem não ficaria feliz no dia de sua
formatura? Não seja tolo! – Respondeu sem ânimo, fato que foi percebido
pelo jovem.
— Sinceramente, você é a formanda mais para baixo que conheci!
Anime-se, garota!
— Estou apenas preocupada, Gabi! Preocupada com o que farei de
agora em diante. – Ana tentou mudar o rumo da conversa, pois algo dentro
dela anunciava que soltaria toda a tormenta de emoções pela qual passou e
um rio de lágrimas poderia colocar abaixo a muralha que havia erguido para
se proteger dos próprios sentimentos.
— Não há o que temer, amor! Poucos têm a chance de ter dois
caminhos para escolher e qualquer um que você decidir seguir é promissor. –
Gabriel se referia à vaga na empresa de Murilo, cujo convite havia chegado
também dois dias antes. Murilo e os sócios a convidaram para assumir a vaga
aberta por Elisa, que se mudaria para Porto Alegre. E isso havia se tornado
em um grande dilema para Ana, pois sabia que não conseguiria conciliar o
trabalho na Alacântara, Telles & Neves com o trabalho que prestava para
Camila.
— Não é disso que falo, Gabi! Não me refiro ao trabalho, pois sei que
será uma questão de tempo para me decidir e confesso que estou mais
inclinada a seguir com meus sonhos de ser uma grande paisagista.
— Então qual é o motivo de tamanha preocupação? Pois há algo
grande que incomoda você, Ana!
— Somos nós! – Soltou antes que se arrependesse. Não era justo
envolver uma pessoa no meio de sua confusão com o ex-noivo da cunhada.
— Não amo você, nem mesmo gosto de você o suficiente para começar um
namoro, Gabriel! – O fotógrafo bufou.
— Isso de novo, Ana! Quantas vezes teremos que conversar sobre
isso, inferno!
— Não grite comigo!
— Eu não gritei!
— Claro que gritou! Não sou uma das suas paqueras para que fale
comigo desse jeito. Que merda é essa? – Ana se desprendeu dos braços de
Gabriel sem se importar com o olhar dos curiosos que se aglomeravam em
torno da pista de dança para vê-la valsar com o caçula do poderoso Jorge
Botelho Neves.
— Ana, volte aqui! – Gabriel gritou, mas nada foi capaz de fazê-la
parar de correr em direção à casa do irmão, toda a agitação e sua luta ferrenha
em não pensar em Leandro haviam lhe tirado qualquer juízo ou mesmo
vontade de voltar e enfrentar os convidados. Era uma idiota sabia, mas nada
mais importava a não ser se enfiar em algum quarto da mansão e ficar lá,
sozinha e quieta para chorar toda a mágoa e toda frustração que sentia.
Não olhou em nenhum momento para trás ou se importou com o que
pensariam dela, apenas queria sumir dali e não seria nada mal se um buraco
se abrisse do nada para se enfiar dentro. Maldita ideia quando deixou Murilo
lhe presentear com uma festa. Todos estranharam quando se negou a fazer
uma formatura tradicional com colação de grau e baile, pois todos a
conheciam muito bem e sabiam que nunca dispensaria um bom motivo para
comemorar. Talvez em outros tempos, um tempo não tão distante, um em que
ela não havia sido marcada por um ogro abandonador de noiva, essa Ana
teria tido sua festa de formatura; não agora quando somente queria afundar as
mágoas no travesseiro.
Quando estava prestes a entrar na residência do irmão, Ana sentiu um
aperto forte em seu braço. — Você? – Falou ofegante e com os olhos cheios
de lágrimas por toda a emoção que já não conseguia reprimir ou mesmo
segurar dentro de si.
— Vim me despedir, Ana Margarida! Embarco para Porto Alegre
amanhã no final do dia! – Ana engoliu em seco, totalmente estática pela força
do que acabava de sentir. Leandro significava bem mais do que uma transa,
um caso passageiro ou mesmo uma paixão, ele era seu amor. — Também
para te desejar sucesso, Ana!
— Você vai voltar para casa? – Perguntou um tanto atrapalhada.
— Sim, não há mais o que fazer aqui! Você tomou sua decisão e fez
sua escolha, Ana. Estou cansado de tanto correr atrás de você e me dou por
vencido. Meu passado... Meu pecado foi mais forte do que o amor que sinto
por você e não há mais o que ser feito... – Leandro deixou uma lágrima
escorrer. — Eu falhei miseravelmente! Falhei com você, falhei com Camila e
acredito que tudo o que fiz foi por nada no final de tudo... Mas faria tudo de
novo! Porque foi a melhor coisa que me aconteceu e foi muito bom enquanto
durou. – Leandro se aproximou de Ana e beijou-a na testa, dessa vez foi um
beijo terno e carinhoso, um beijo de despedida, Ana percebeu. Aos poucos,
Leandro se afastou em meio aos arbustos do grande jardim dos Castro de
Alcântara e parte de Ana queria que ela corresse para junto dele, para que
confessasse o quanto o amava também. Porém, o orgulho lhe era mais forte
do que tudo e acreditou piamente que o ponto-final havia sido dado.
Leandro não imaginava o quanto poderia sair despedaçado do Rio de
Janeiro, muito menos que deixaria parte do seu coração naquele lugar quente
e ensolarado. Havia abandonado a noiva no altar sim, mas havia pagado com
a alma seu erro. Passou duas semanas inteiras, sem descanso, nas tentativas
de poder conversar com Ana, precisava vê-la mais uma vez, nem que fosse
para uma simples despedida. Seu prazo se esgotava e precisava retornar para
Porto Alegre e para seus alunos, antes que fosse demitido. Sabia que o
trabalho seria seu único alento e se dar ao luxo de perder mais isso não lhe
era uma possibilidade. Se não podia ter seu sol, sua estrela maior, as estrelas
teriam que lhe bastar, pensou amargurado enquanto se afastava daquela que
havia roubado seu coração.
Sem saber o que fazer e perdido na tormenta de amor que sentia,
Leandro havia tomado a decisão de ir até a festa de formatura de Ana
Margarida. Dessa vez, não precisou da ajuda de ninguém, pois os sites de
fofocas e celebridades noticiaram a grande comemoração oferecida pelo
arquiteto Murilo Mendonça Castro de Alcântara pela passagem da formatura
da irmã. Também não queria envolver mais ninguém na sua confusa vida
sentimental. Seria injusto exigir de Malu ou mesmo de Bela mais do que elas
já haviam feito. Foi então que invadiu o sistema de segurança da mansão se
utilizando de seus conhecimentos como hacker e conseguiu entrar sem ser
notado. Escondido, ficou a observando entre os convidados, estava mais linda
do que nunca e um desejo forte de posse impulsionou-o para que se juntasse a
ela, que a pegasse nos braços e a levasse para longe. Em diversos momentos,
considerou a hipótese como a mais acertada, pois sabia que a levando para
longe de tudo e de todos, poderia convencê-la de que o certo eram os dois
juntos, mas então a viu chamando o loiro azedo para dançar a valsa, a valsa
que seria sua por direito e não de outro. Naquele momento, toda a fé e
esperança se esvaiu e tudo pareceu ficar mais preto do que branco, não havia
mais futuro para os dois. Ana havia feito sua escolha.
Sentindo-se derrotado, Leandro se despediu de Ana. Foi um adeus
dolorido, o mais difícil adeus que foi capaz de dar na vida. Nunca havia
passado por uma perda tão grande antes, nem quando os avôs morreram se
sentiu tão desamparado. Talvez havia sido seu castigo por toda a merda que
havia feito para Camila. Cruzou o jardim e foi para o canteiro onde havia
deixado seu tablete, precisava dele para fazer o sistema de segurança voltar a
funcionar depois que saísse da mansão para nunca mais voltar.
— Leandro! – Virou para trás e avistou Camila correndo como uma
louca. Talvez fosse melhor fingir que não a tinha visto, mas não poderia virar
as costas para ela mais uma vez. — Inferno, Leandro! Não tem noção do
quanto é ruim correr com salto nessas pedras?! – Não seria Camila se não o
xingasse, pensou, abrindo um sorriso tímido.
— O que quer, Camila? Já estou de saída mesmo e não precisa
chamar teu marido...
— Espere! – A ruiva depositou a mão sobre o braço do cientista. —
Quero falar com você... – Ela ofegou cansada pela corrida. — Eu vi quando
você... Bem, eu vi você e Ana...
— E?
— E acho que você não deveria desistir dela!
— Agora é tarde, Camila! Ana não me perdoa porque você não me
perdoa!
— Pelos deuses, Ana é dramática demais, o fato de eu e você... – Ela
cora, retirando sua mão como se o toque em Leandro fosse algo proibido, o
que de fato era mesmo, pensou o cientista. — Bem, você sabe! Se a
felicidade de Ana for você, quem sou eu para impedir isso?!
— Ana se preocupa com o irmão! – Leandro respondeu sentando-se
em um dos bancos ali próximos.
— Murilo não tem nada que meter o bedelho no assunto! Se Ana ama
você e você a ama, quem somos nós para impedir que vocês fiquem juntos?!
— Ela não voltará atrás, Camila!
— Leandro, por Deus, se você ama a Ana, você precisa lutar por ela.
Pois o que eu vi nos olhos dos dois minutos atrás foi amor.
— Como sabe?
— Oras, como sei?! Sabendo... E tem outra coisa que preciso te dizer
e vou te dizer isso não porque estou com pena de você, viu? – Camila deu-lhe
um tapa. — Bem sabe que quem tem pena é galinha. – Os dois riram e
Leandro teve certeza de que o casamento havia recuperado o melhor de sua
ruivinha. Camila sempre seria sua ruivinha, não havia homem de Neandertal
que pudesse mudar isso. Não a amava mais como mulher, acreditava que
nunca a havia amado dessa forma, mas sentia um carinho enorme por ela e
desejava toda a felicidade do mundo para ela. Camila merecia cada gota de
felicidade que havia conquistado nos últimos anos.
— Pois diga logo!
— Eu te perdoo, Leandro! Quer saber mais, até te agradeço por ter
saído correndo no dia do nosso casamento. Percebi isso depois que você saiu
do meu escritório dias atrás. Se tivéssemos dado seguimento naquele
absurdo, teríamos sido infelizes, Leandro. – Ele assentiu com a cabeça.
— De verdade? – Leandro a fitou, precisava ter certeza de que ela o
havia perdoado.
— De verdade! Chega de tudo isso, Leandro! Nós dois não demos
certo e pronto. Recomecei minha vida e não quero levar essa mágoa comigo
para sempre. Eu te perdoo sim, até acho que te perdoei faz tempo, mas bem
sabe que nunca fui uma mulher fácil de lidar e que não daria o braço a torcer
tão fácil. Eu sou feliz e quero que você também seja.
— Obrigado, Camila! Você não sabe o quanto me sinto aliviado.
Posso não ter o amor de Ana, mas já valeu a pena por ter tido seu perdão.
Posso te abraçar? – Camila pareceu hesitar, mas acabou concordando com a
cabeça.
Um abraço de irmãos foi dado, um abraço para selar a paz entre eles e
a promessa de um futuro melhor, sem mágoas e ressentimentos.
— Seja feliz, Leandro! – Camila se despediu para voltar para a festa
antes que Murilo desconfiasse de algo. Conhecia muito bem o marido e
omitir o acontecido por hora ainda era o mais indicado, ao menos até o fim da
festa, quando contaria tudo, sem deixar nada de fora. Seu casamento era
baseado também na confiança e não correria o risco de perder a dele, não
depois de verdades não ditas que colocaram em risco sua vida.
— Também te desejo a felicidade, Camila! – A ruiva levantou e
tomou o rumo da festa. Um peso havia sido tirado das costas de Leandro, um
peso imenso que havia tirado sua tranquilidade por tanto tempo. Também
levantou, pois precisava sair antes de ser notado. Porém, um grito de Camila
chamou sua atenção. O coração de Leandro disparou no peito e um medo
enorme embrulhou seu estômago quando a viu nos braços de um
desconhecido com uma arma apontada na cabeça; ela não podia morrer, não
agora quando os dois haviam encontrado o perdão e a redenção.
— Camila! – Leandro gritou, correndo em direção à ruiva,
desesperado para tirá-la das mãos daquele homem. Ele conhecia-o muito bem
e lembrava do quanto Camila odiava o Senador Cavalcante.
— Não se aproxime ou a ruiva morre! – Nunca que ele deixaria algo
de ruim acontecer com Camila. Blasfemou olhando para o céu, pois não fazia
ideia do que faria para livrar Camila daquilo sem expô-la ainda mais ao
perigo.
— Não se aproxime, Leandro! – Camila tentou se soltar sem êxito, já
que seu algoz era alguns centímetros mais alto, além de mais forte. — Inferno
de homem que não larga do meu pé! Quando Murilo souber que você está
aqui, ele vai te matar.
— Gosto de mulheres brabas, as ruivas brabas então, são as minhas
preferidas! – Cavalcante firmou ainda mais o aperto. — Domar potrancas
arredias é minha especialidade.
— Você é um doente, Cavalcante! – Leandro tentou se aproximar
ainda mais dos dois embora estivesse temeroso pela vida de Camila.
— O noivinho agora resolveu aparecer! – O homem soltou uma
gargalhada. — Não tem vergonha na cara, meu rapaz?! Não é por nada que
essa belezura aqui andava à solta pelos quatro cantos do país...
— Cala a boca, seu idiota! – Enraivecida, Camila soltou. — Nunca fui
uma qualquer para se referir à mim desse jeito, seu maldito.
Leandro sentiu o sangue ferver nas veias. O cara poderia estar com
uma arma apontada para a cabeça de Camila, mas nada lhe dava o direito de
faltar com o respeito com a mulher, muito menos fazer pouco de sua
virilidade. — Pois fique você sabendo que sei muito bem o que fez com
Camila, da maneira pouco respeitosa que a tratou... Abaixe essa arma e venha
conversar comigo como homem.
— Não converso com frangotes! – Cavalcante respondeu abrindo um
sorriso de canto. — Vou sair daqui com a ruiva e ninguém será capaz de
impedir-me, caso contrário, ela morre. E você, potranca, cale sua boca,
porque não quero o imbecil do Murilo no nosso encalço.
Leandro percebeu que Camila tentava lhe dizer algo, mas não
conseguia entendê-la. De certo, ela havia um plano de fuga em mente, mas
era um simples cientista e ainda não tinha feito curso de leitura labial.
Precisava fazer algo, mas o que? Avançou alguns passos, mas foi barrado por
Cavalcante que passou a mirá-lo com a pistola. Ao menos, a arma não estava
mais apontada para a cabeça de Camila.
— Cara, você não pode entrar na mansão dos Castro de Alcântara e
achar que sairá vivo daqui com a esposa do dono da casa! Convenhamos, até
para o poderoso Senador Cavalcante é muito. Pense o que acontecerá quando
os eleitores souberem disso! Imagine teu nome estampado em todas as
manchetes dos principais jornais do país: “O poderoso Senador Armando
Cavalcante rapta esposa de renomado arquiteto.” Que vergonha! – Sem
pensar duas vezes, Leandro apelou para o sarcasmo, precisava distraí-lo de
alguma forma, nem que para isso precisasse se tornar o principal alvo da ira
de Cavalcante, pois além de loucura, a fúria estava estampada na fisionomia
do senador.
— Já avisei! Nada me deterá em levá-la comigo, Camila! –
Cavalcante entregou Camila para um dos seus capangas que acabava de
chegar. — Você é minha propriedade a partir de agora! Não sou homem
como estes daí por quem você caiu de amores, primeiro esse frangote, depois
o burro do Murilo, que sempre foi uma marionete nas mãos de Eleonora. Sou
homem de verdade e tomo para mim o que quero. E você sempre foi minha
desde o primeiro dia em que coloquei os olhos em você! – Camila cuspiu na
cara do homem. Bem que ele mereceu, pensou Leandro, por outro lado,
acabou por irritá-lo ainda mais. — Continue a se comportar como uma
piranha, benzinho, estou louco para dar seu primeiro corretivo. Limeira, leve-
a direto para o hangar! Não quero perder mais tempo no Brasil, o que farei
com a ruiva deve ser feito longe daqui. – Leandro sentiu uma raiva
descomunal com o que acabava de ouvir. Lembrou de tudo que Camila havia
lhe contado anos antes, das investidas dele, das propostas indecentes e das
perseguições que teve que suportar. Cavalcante era um sádico e não se
perdoaria se algo de ruim acontecesse com Camila. — Vá logo, homem! Eu
mesmo quero dar um fim no frangote aqui!
— Ah, mas não vou mesmo! – Camila pareceu ter acertado o capanga
com um pontapé e correu para perto de Leandro.
— Se você não ficar comigo, não será com mais ninguém! –
Cavalcante gritou e um clique da arma foi ouvido por todos. Ele iria matá-la,
sem dó, nem piedade, sem pensar nas crianças que ficariam órfãs. Leandro
não poderia deixar isso acontecer, não agora que Camila havia encontrado a
felicidade ao lado do amor de sua vida, ao lado de seus filhos. Leandro não
deixaria nada de mal acontecer com a ruivinha e sem hesitar, abraçou-a,
girando-a rapidamente para o lado oposto em que havia sido dado o disparo,
protegendo-a com seu corpo.
Uma dor excruciante atingiu seu pescoço e uma dormência muito
forte percorreu todo seu corpo. As pernas já não eram mais capazes de o
manter em pé. Deixou-se cair, levando consigo Camila. Tudo parecia querer
nublar por mais que se esforçasse para manter a visão focada. Conseguiu
apenas ver os olhos verdes de Camila repletos de lágrimas. Ela estava viva,
era o que importava para Leandro naquele momento. Protegeu-a com seu
corpo, poderia sim ter se machucado com o impacto da queda e com o peso
do corpo do cientista sobre o seu, mas o que importava era que estava viva.
Ouviu o latido de cachorros se aproximando e vozes que pareciam cada vez
mais distantes.
— Por Deus, Leandro, não morra! Não se mova, sim! – Camila
fungou inconsolável com o deslinde de tudo. — Está doendo, não está?!
— Escute-me, ruivinha! Não dói mais do que a dor que você suportou
quando te abandonei e logo vai passar, já até está passando conforme enxergo
uma luz, é uma luz perfeita, a luz da minha redenção, Camila!
— Não! – Camila gritou. — Não olhe para a luz, inferno, fica comigo,
não vai embora!
— Apenas diga para ela... – Leandro não conseguia mais encontrar as
palavras, mas queria dizê-las como sua última vontade, pois sabia que não
sairia disso com vida. — Diga para Ana... – Fez mais um esforço. — Que eu
a amo mais do que tudo! – E a luz o envolveu por completo, pois não tinha
mais forças para fugir dela, não quando a dor era mais forte do que tudo.
Apenas queria descansar.
— Acorde Leandro! – Camila estava desesperada, precisava fazê-lo
responder. Leandro não podia morrer, não por ela. Se algo de ruim
acontecesse com Leandro, não se perdoaria nunca. Fechou os olhos e rezou,
por não saber mais o que fazer, sendo apenas acordada pelo chamado de
Murilo.
— Camila! O que aconteceu aqui?!
— Estou bem... Foi o Cavalcante! Ele não deve estar longe...
— Não fale mais, encanto! Passou, tudo passou, ai meu Deus, Camila,
eu... – Murilo levantou e deu ordens para que não deixassem Cavalcante sair
da propriedade. Em pouco tempo, várias pessoas se aglomeravam em torno
de Leandro e Camila. A arquiteta estava nervosa e não deixava ninguém tocar
no cientista por medo de que agravassem o seu ferimento.
— Inferno, Camila! Você não pode ficar embaixo dele!
— Cala a boca, Murilo, e chame sua mãe, logo! Será que não vê que
Leandro salvou minha vida? Que senão fosse ele ter se colocado na minha
frente, eu estaria morta?!
Uma confusão havia se formado ao redor de Leandro e Camila.
Quando Letícia e Carlos conseguiram chegar para prestar os primeiros
socorros, os batimentos cardíacos de Leandro estavam muito fracos.
— Precisamos removê-lo para o hospital mais perto. – Carlos falou
para a esposa que atendia Camila. — A bala pode ter atingido a coluna
cervical, Letícia! Preciso de sua ajuda aqui para tentar estancar o sangue. –
Letícia deixou Camila aos cuidados de Murilo e foi para junto do marido,
pois o caso de Leandro parecia ser mais delicado. Precisavam lutar contra o
tempo para salvar a vida de Leandro.
— Ele vai sobreviver? – Camila perguntou ainda chorando pelo
choque, mas não teve qualquer resposta.
— O que aconteceu aqui? – Malu arregalou os olhos assim que
colocou os olhos no vestido ensanguentado de Camila. Isabela que vinha logo
atrás acabou por ampará-la, já que Malu não suportava ver sangue.
— Eu juro que eu não queria que tivesse acontecido isso! – Camila
apontou para onde estava o corpo imóvel de Leandro. As três amigas se
abraçaram aos prantos. — Eu não desejei isso!
— Por favor, nós sabemos que você não desejou isso! – Isabela
limpou as lágrimas que escorriam pelo rosto da amiga, enquanto Malu
permanecia sem se mexer ou mesmo pronunciar qualquer palavra. — Onde
está Murilo? – Isabela perguntou aflita, mas Malu foi capaz apenas de negar
com a cabeça. Ao ver Edu, pediu para que tirasse Malu dali antes que caísse
dura ou entrasse em uma crise de pânico. — Depois volte para levar Camila
para dentro! – Ordenou sem se importar com gentilezas.
— Bela, me diga que ele vai sobreviver? – Camila falou e se sentou
ao chão sobre os pés, totalmente absorta no desespero, sem ser capaz de
raciocinar mais. — Não aguento mais isso, Bela! – A loira, então, se ajoelhou
diante da amiga e a abraçou, por não saber mais o que fazer ou dizer. A vida
era ingrata e pregava peças de mau gosto, pensou.
— Não sei, meu bem! Mas não podemos perder a fé! Veja, Camila,
ele já foi levado para a ambulância, ainda não o perdemos. Me recuso a
acreditar que o perdemos.

Ao descer as escadas da mansão, Ana, aflita, foi ao encontro de Malu


e Edu. Sua amiga estava mais pálida que um pedaço de pano alvejado e Edu
parecia agitado além da conta. — O que aconteceu? – Nenhum dos dois foi
capaz de responder e o desespero de Ana só aumentou. — Edu, o que
aconteceu com a Malu?
— Ana, fica com ela! – Edu falou e saiu apressado em direção ao
jardim, onde acontecia a sua festa de formatura. — Por favor, não a pressione
para saber o que aconteceu. Malu está a ponto de entrar em uma crise de
pânico. – O arquiteto gritou de fora.
— Malu, querida, tente respirar e me dizer o que aconteceu. – Ana
não se daria por vencida, precisava saber o que estava acontecendo, mas
também sabia que não podia pressionar a amiga, não quando estava prestes a
entrar numa crise de pânico, uma das sequelas da violência que sofreu
quando casada com seu primeiro marido.
Malu continuou estática e sentada na poltrona, com o olhar perdido,
sendo incapaz de pronunciar qualquer palavra de alento para o coração de
Ana. Ela tinha quase certeza de que algo muito sério havia acontecido, caso
contrário, Malu não estaria tão afetada. Queria sair para fora e ver o que
acontecera, mas não podia deixar a amiga sozinha. Reconsiderou e decidiu
procurar pelo mordomo do irmão, mas foi impedida pela chegada de Edu e
Camila, que chorava desesperadamente abraçada ao amigo.
— Meu Deus! O que aconteceu com você, Camila? – O vestido de
festa de Camila estava sujo de sangue, mas não era uma simples marca de
sangue, toda a parte da frente havia sido tomada pelo intenso vermelho da cor
do sangue.
— Foi Cavalcante! – Edu a sentou no estofado, deixando que Ana a
consolasse, pois precisava ir para junto da esposa que continuava estática. —
Ele tentou me raptar... – Os soluços de Camila aumentavam conforme ela
tentava narrar o acontecido. — Eu consegui fugir e Cavalcante disparou e ele
tentou me proteger e acabou sendo atingido. – O pensamento de Ana foi
direto para o irmão e um aperto no coração se formou.
— Foi Murilo? Foi Murilo que foi baleado, por Deus, Camila, diga-
me! – Ana quase agarrou a cunhada pelos braços e a chacoalhou, precisava
saber o que havia acontecido com seu irmão.
— Não foi Murilo, Ana! Foi Leandro. Leandro salvou minha vida. –
Ana engoliu em seco e sentiu as pernas afrouxarem. Leandro havia sido
baleado, havia salvo a vida de Camila, havia arriscado sua vida para salvar a
vida de Camila. Não podia ser verdade! Deixou um soluço escapar, tentou
manter-se centrada, mas o desespero parecia querer tomá-la a qualquer
momento. A culpa a atingiu com tudo, uma culpa que jamais seria capaz de
superar caso acontecesse algo com ele.
— Camila, onde está Leandro? – Encarou a cunhada, desesperada por
notícias do cientista.
— Agora não, Ana! – Murilo entrou como um furacão, afastando-a da
esposa de forma protetora. — Camila passou por muito, não é o momento de
pressioná-la, que merda! – Pegou Camila nos braços e a levou para o andar
superior, sem nem ao menos olhar para trás. Ana não o culpava por amar
demais a esposa e se preocupar com ela. Olhou para o lado e viu que Edu
acalentava Malu com carícias nos cabelos enquanto Malu chorava baixinho,
ao menos ela havia saído do estado de torpor em que se encontrava. Ela havia
sobrado e precisava fazer algo, precisava de notícias, mas mão conseguia
encontrar as forças de suas pernas para levá-la para fora. Ela havia colocado o
amor de sua vida em risco por ser teimosa e inconsequente. Ele havia
devotado tudo de si e mesmo assim, ela havia o expulsado de sua vida e
agora, talvez, ele pudesse estar morto e ela nunca mais poderia voltar atrás.
Deixou-se levar pelo desespero e pelo arrependimento e chorou em torrentes
nervosas, toda a dor que jamais poderia ser possível sentir um dia, assim que
seus olhos cruzaram com os de Sarah.
— Diga que é mentira?! – Perguntou à irmã, pois Ana a amava como
uma irmã. Sarah negou com um gesto de cabeça e sentou ao lado de Ana,
puxando-a para um abraço que deveria ter sido reconfortante, mas apenas fez
Ana se sentir ainda pior com tudo. Ela havia contado para Sarah sobre seu
envolvimento com Leandro e não foi necessário mais do que uma troca de
olhares para que Sarah entendesse.
— Escute, Ana! Você precisa ser forte agora!
— Mas ele... – Não foi capaz de fazer a pergunta, recusava-se a
acreditar que Leandro estava morto.
— Não, mas seu estado é grave. Doutor Carlos foi com ele na
ambulância, parece que a bala atingiu a coluna cervical e a situação parece
não ser boa.
— A culpa foi minha!
— Como a culpa foi sua, Ana? É claro que não!
— É sim, ele veio até aqui por mim, ele veio se despedir, se eu não
tivesse me envolvido com ele, se não tivesse me apaixonado por ele, nada
disso teria acontecido.
— Não diga tolices, Ana! Ele veio porque quis e se envolveu com
você porque assim o quis também. Foi uma fatalidade!
— Eu quero ir para junto dele. Por favor, Sarah, me leve até o
hospital, quero vê-lo, quero vê-lo antes que... Ai meu Deus, ele pode não ter
sobrevivido. – A dor parecia crescer cada vez mais no peito de Ana, uma dor
nunca antes sentida. Havia passado dias brigando contra o amor que sentia
por Leandro, temendo pelo fracasso do casamento do irmão, mas jamais
poderia imaginar que o medo e a dor da perda do homem de sua vida
pudessem ser tão fortes e implacáveis. Leandro era o homem de sua vida, não
podia mais negar para si, não quando seu coração batia descompassadamente
toda vez que o via sorrir, e agora batia dolorido por imaginar uma vida sem
ele.
— Não posso deixá-la ir sozinha. Não pode dirigir tão nervosa, Ana!
Também não posso sair daqui, preciso cuidar das crianças.
— Eu a levo! – Gabriel se aproximou, mas Ana nem percebeu, pois
estava perdida no seu desespero e na ânsia por saber notícias de Leandro. Ele
estendeu a mão para a jovem, que aceitou sem hesitar ou reclamar. Mais
tarde, trataria de pedir desculpas à Gabriel por ter o usado para esquecer
Leandro.
Três dias depois...
Leandro havia sido operado e mantido sedado na Unidade de
Terapia Intensiva, e seu quadro parecia evoluir bem, embora nenhum
especialista se arriscasse a dar esperanças para a família e amigos, pois havia
um risco muito grande de ter perdido parte ou todos os movimentos, uma vez
que a bala havia se alojado próximo à medula espinal cervical. Os boletins
médicos, apesar de animadores, não eram otimistas quanto ao fato de
Leandro se recuperar sem sequelas, certeza que somente seria tida quando ele
acordasse do coma induzido.
Ana não havia deixado o hospital por nada e procurava trocar de
roupas ou mesmo descansar nas salas dos seus pais. Ter o pai entre um dos
melhores cirurgiões foi de grande utilidade. Por outro lado, a chegada dos
pais de Leandro apenas a deixaram mais apreensiva. Eles queriam a todo
custo transferi-lo para Porto Alegre, o que poderia complicar ainda mais o
quadro de Leandro. Não bastasse toda a agonia e preocupação, a jovem ainda
precisava conviver com o remorso de não ter escutado o chamado do seu
coração.
— Ana! – Camila acabava de entrar. — Como Leandro tem passado?
– Naquelas alturas, todos já sabiam do seu envolvimento com o cientista, não
que tivesse falado algo, mas também não tinha desmentido os pensamentos
que pareciam passar pelas cabeças daqueles que presenciaram o seu
desespero dos últimos dias.
— Seu quadro é estável!
— Penso que devia ir para casa, Ana! Você está muito abatida.
— Quero estar aqui quando ele acordar! – Ana encheu os olhos de
lágrimas. Chorar havia se tornado um hábito, nem ela imaginava ter tanto
para chorar, não ela que era conhecida como baladeira.
— Eu preciso conversar com você. O que acha de irmos até a cantina
do hospital? Assim você aproveita e come alguma coisa... Quem sabe, eu
consigo fazê-la mudar de ideia e você perceba que precisa ir para casa e ter
um pouco de descanso.
Ana concordou e as duas foram até a cantina. Ana não tinha apetite
para nada e Camila acabou fazendo os pedidos pelas duas.
— Querida, preciso contar para você como tudo aconteceu! – A ruiva
apertou a mão de Ana que se encontrava descansando em cima da mesa. —
Desculpe por não ter vindo antes! Há uma coisa que você precisa saber e não
quero mais deixar isso para depois. Quando você saiu da festa totalmente
alterada, Murilo quis ir atrás de você... Eu não o deixei e me dispus ir eu
mesma atrás de você! Acontece que quando cheguei, eu surpreendi você e
Leandro e todas as dúvidas que tinha desapareceram, ficou claro que algo
entre vocês acontecia.
— Então, você já sabia?
— Eu suspeitava, Ana! A troca de olhares entre vocês dois era muito
intensa. Também teve o fato de que dias antes, Leandro me procurou para
pedir perdão, eu insinuei o caso de vocês e ele não negou e ver os dois na
noite da festa de sua formatura apenas foi a confirmação de que os dois
mantinham algo. Desculpe, mas eu acabei escutando o que ele te disse e fui
atrás dele. Nós tivemos uma conversa, Ana! Eu o perdoei por ter me
abandonado no altar.
— Não precisava! – Ana secou uma lágrima.
— Não foi por você! Foi por mim. Não perdoei Leandro porque
precisava, o perdoei porque o quis, por mim, Ana! Nutrir rancor ou qualquer
outro sentimento não me levaria a lugar algum e por que eu não o perdoaria?
Por que não poderia perdoá-lo quando ele apenas queria o meu perdão para
seguir em frente com você? Eu sou feliz, eu estou feliz e não seria justo ou
mesmo nobre da minha parte, não o deixar ser feliz.
— Eu tinha medo de que ele atrapalhasse seu casamento com meu
irmão!
— Eu sei, Ana! Em parte, agradeço por se preocupar tanto conosco,
mas você não podia ter aberto mão de sua felicidade por nós. Mesmo que eu
não perdoasse Leandro, mesmo assim, eu acredito que a sua felicidade
sempre foi mais importante, e se Leandro é ela, por que não ficar com ele?
Confie em mim, Ana, quando te falo que ninguém tem o direito de nos
desviar daquilo que desejamos para a gente, nem eu, nem seu irmão. Se eu
não tivesse pensado assim, não teria ficado com seu irmão, não teria
perdoado tudo que me aconteceu, nem lutado por ele com minha vida, Ana.
Depois que Leandro saiu do meu escritório, sem o meu perdão, já que fui
incapaz de fazê-lo, suas palavras me deixaram pensativa no quanto eu
também colaborei para o fracasso de nossa relação. Ele errou comigo? Sim,
ele errou, mas eu também errei com ele. Estava tão cega e imersa em minha
maluquice de ser uma grande executiva, que não percebi o quanto eu e
Leandro não éramos compatíveis. Foi preciso ele ter sido um “puta” de um
egoísta para abrir meus olhos do quanto eu estava sendo infiel comigo mesma
e o quanto eu havia abnegado de minha essência em nome de coisas que
sequer um dia eu sonhei para mim. Foi graças à fuga de Leandro que Murilo
chegou em minha vida e você na vida de Leandro. Eu encontrei a minha alma
gêmea e por que ele não poderia ter o mesmo que eu?
— Mas e meu irmão?
— Seu irmão é um problema de que cuidarei, Ana! Ele irá aceitar,
caso contrário, o colocarei dormir na casinha do cachorro pelos próximos 15
anos. – Ana acabou sorrindo em meio às lágrimas que insistiam cair. —
Ainda tem mais! No dia em que Leandro foi baleado para me proteger, ele
deixou cair o tablete e este bilhete. – Camila tirou um papel amassado de
dentro da bolsa e entregou para a cunhada. — As últimas palavras de
Leandro quando sua vida se esvaia sobre o meu corpo foram para você, Ana
Margarida! Ele me pediu para dizer para você que a ama muito. E se você
não acreditar nas palavras que acabei de falar, este papel é a prova do quanto
ele a amou e ainda a ama.
Ana desdobrou o papel e as lágrimas caíam cada vez mais à medida
que lia as palavras de Leandro. Ele havia colocado todo seu sentimento por
ela em forma de projeto, como focado cientista que o era. Havia traçado
objetivos e para espanto de Ana quase todos eles haviam sido cumpridos de
forma impecável e de maneira original. O pensamento de Ana foi
transportado para todos os momentos prazerosos que dividiram, o carinho
que sentiu em cada toque que recebeu de Leandro, nas palavras de amor que
confessou em sua última noite, a noite em que um príncipe indiano de olhos
azuis havia marcado não somente seu corpo, mas também seu coração.
— Ele estava quase lá! – Ana fungou e enxugou as lágrimas com as
mangas da camiseta. Estava dentro de uma calça jeans e uma blusinha
simples. Quem a visse naqueles trajes jamais a reconheceria. Sempre se
preocupou em estar bem vestida e na moda, mas nada mais fazia sentido, não
quando o amor de sua vida lutava pela vida, desacordado e achando que ela
não o amava na mesma proporção que ele a amava. Se arrependimento
matasse, estava morta e enterrada, pensou.
— Mais um objetivo, Ana, apenas mais um para o final feliz dele! Eu
sei que parece estranho tudo isso... Mas conhecendo Leandro como conheço,
tenho para mim que o que escreveu neste pedaço amassado de papel foi
verdadeiro. Pense, Ana, Leandro é uma mente inteligente, uma promessa da
astrofísica, genial é pouco para descrevê-lo, mas quando o assunto é entender
os próprios sentimentos, é a pessoa mais confusa que conheci... Apesar disso,
ele se esforçou e encontrou uma maneira de chegar até você, apesar de todas
as barreiras que você levantou.
— O que eu faço, Camila? Estou tão confusa... Eu o amo tanto!
— Dê para Leandro o que tanto ele quis, Ana! Dê o seu amor para ele,
faça-o entender que ele tem que voltar para receber o que tanto desejou. Ele
merece, meu bem! Esqueça tudo e todos, vocês merecem viver o amor que
existe entre vocês. E se fizer alguma diferença ainda, saiba que vocês têm a
minha benção.
— Obrigada, Camila! – Ana abraçou a cunhada e foi um abraço
repleto de ternura e emoção. O perdão de Camila lhe era importante, pois
sabia que podia contar com seu apoio para fazer o irmão aceitar Leandro em
sua vida. Por outro lado, sabia que a ausência do perdão não seria suficiente
para enterrar todo o amor que sentia por Leandro. Ele havia criado raízes
profundas em seu coração, estava impregnado em sua alma e que Deus a
ajudasse porque nada e ninguém a fariam desistir do que sentia e queria viver
ao lado dele.
Despediu-se de Camila e foi direito ao encontro da mãe. Somente sua
mãe seria capaz de entender uma alma atormentada e como integrante do
corpo médico do hospital conseguiria colocá-la dentro da UTI, precisava ver,
tocar e falar com Leandro.
— Mãe, por favor, eu preciso que a senhora dê um jeito para que eu
veja Leandro! – Implorou afoita. Um não estava fora de cogitação.
— Minha filha, já falei que o melhor que tem a fazer é ir para casa.
— Que merda, mãe! Qual é a parte que a senhora não entendeu? Eu
quero ver Leandro, porque ele é o homem da minha vida.
— Minha filha... Sinto muito, mas a família de Leandro proibiu sua
entrada. – Ana desabou no chão sem se importar com as pessoas que
passavam e a olhavam com pena. Ela apenas queria ver Leandro, eles não
teriam coragem de não a deixar ao menos se despedir. Três malditos dias em
que não saiu de perto dele, sempre na espreita para poder vê-lo e agora isso.
— Ana, querida, eu não posso passar por cima do protocolo do hospital!
Você tem que se conformar e esperar que Leandro se recupere. Eles não a
querem perto do filho, meu bem! – Ana soltou um grito dolorido.
— Eles me culpam, não é? – O silêncio de Letícia foi a resposta de
que Ana precisava e nada podia ter sido mais doloroso e difícil na vida. —
Eles têm razão, mãe! Se ele não tivesse ido atrás de mim, ele não teria sido
ferido, Camila não teria ido atrás dele e ele não teria levado o tiro, a senhora
não entende.
— Vamos! – Letícia a levantou e a levou até uma sala que era
destinada ao descanso dos médicos. — Minha filha, você precisa se acalmar!
— Eu o amo! A senhora precisa entender que eu o amo e não quero
que o levem para longe de mim. Vão transferi-lo, não é?
— A decisão dos pais de Leandro já foi tomada. Assim que a sedação
for reduzida e Leandro retornar à consciência, será transferido para Porto
Alegre.
— Não! – Ana se desprendeu dos braços da mãe, indo em direção à
janela, pois precisava de ar puro. — Papai é o médico de Leandro. É só ele
não autorizar!
— Minha filha!
— Não, mãe, a senhora não entende! Se ele for embora sem eu poder
dizer-lhe o quanto o amo... Eu preciso, mamãe!
Diante do desespero da filha, Letícia deixou Ana, prometendo que
daria um jeito de colocá-la dentro da UTI, mesmo que seu cargo no hospital
estivesse em jogo. Como médica sabia que era errado, mas uma mãe não
conseguiria ver o sofrimento de um filho de braços cruzados. Dentro de 15
minutos voltou e levou Ana até o encontro de Leandro, deixando-a sozinha
para que pudesse se despedir daquele a quem dizia amar mais do que tudo.
— Não se demore, minha filha! Apenas 10 minutos.
Ana acenou com a cabeça, sem desgrudar os olhos de Leandro. Ele
parecia um anjo dormindo, parecia um sono tranquilo apesar do colar cervical
instalado em seu pescoço e o bipe frenético de todos os aparelhos ligados a
ele. Queria tocá-lo, mas sentia medo de machucá-lo ainda mais ou mesmo
piorar seu delicado estado. Pensou que tudo poderia ser apenas um pesadelo
ruim ou mesmo que pudesse voltar no tempo para poder dizer o quanto o
amava. Mas isso não lhe era possível, a realidade lhe era cruel e nada mais
lhe restava a não ser tentar conversar com ele ali, deitado, talvez ele não a
escutasse, mas não fazia mal, não quando havia derrubado todas as barreiras
e preconceitos que havia construído como uma forma de proteger-se contra o
amor que não queria sentir por Leandro.
— Eu sei que você é um abandonador de noivas, Lê! Também sei que
você é desajeitado, nerd demais e até mesmo parado demais para o meu
gosto... Mas mesmo assim, você me conquistou desde a primeira vez que
saímos, sabe, você tem feito parte dos meus sonhos e dos meus anseios. Cada
minuto que eu dividi com você ou cada vez que você devotou seu amor para
mim, eu te desejei na mesma proporção e fui uma tola por não ter aceitado
isso antes. E agora, você está distante de mim e vão te levar ainda mais longe,
meu amor! Eu não sei se quando você acordar vai se lembrar desse momento,
nem sei se ainda sou merecedora do seu amor, mas se você acordar e me
quiser ainda, eu estarei de braços abertos para recebê-lo, mesmo que você não
volte inteiro para mim. – As lágrimas de Ana caíam sobre o lençol azul que
cobria o corpo de Leandro. Nem mesmo a palidez conseguia afastar a beleza
dele, pensou Ana, enquanto acariciava sua face. Os pelos da barba já
crescidos espetavam a delicada mão de Ana e remetiam à pensamentos do
quanto foi amada por ele. Daria sua vida para poder vê-lo sorrir, para poder
uma vez mais se perder no azul perfeito de seus olhos. — Eu amo você,
Leandro, e aceito ser sua namorada se ainda me quiser! – Os monitores
passaram a fazer um barulho estranho e Ana jurava que sentiu a mão de
Leandro apertar a sua. — Eu sei que você é forte, Lê! Não esqueça que
espero por você, Doutor Fodão! – Letícia a puxou para fora da sala enquanto
a enfermeira plantonista atendia Leandro. De fato, havia ocorrido uma
alteração na frequência cardíaca e uma centelha de esperança atravessou a
alma atormentada da jovem. Ele sairia dessa e ela devotaria o restante de seus
dias para vê-lo feliz, fazê-lo feliz.
O barulho estridente apenas o deixava ainda mais nervoso.
Leandro não lembrava de muitas coisas, apenas que havia sido atingido por
um tiro para proteger Camila da mente perturbada de um lunático. Morto não
estava, pensou, pois o céu não deveria ser tão barulhento.
— Como se sente? – Uma senhora de branco o observava com olhos
perspicazes. Não havia morrido, percebeu.
— Não sei dizer ao certo! – Leandro respondeu confuso, sentindo
todo o corpo mais pesado do que desejava. — Quanto tempo passou?
— Desde o dia em que o senhor chegou ao hospital? – Leandro piscou
os olhos em sinal de concordância. — 10 dias. Seus sinais vitais estão
perfeitos. Por favor, mantenha-se quieto, irei chamar o médico para a
primeira avaliação.
Leandro não queria ser avaliado, pois um certo receio permeava seus
pensamentos desde o momento em que abriu os olhos. Algo poderia não estar
bem, ninguém saia ileso de um tiro no pescoço sem sequelas. Lembrou muito
bem da dor forte que sentiu quando a bala atingiu o pescoço.
— Bom dia, Leandro! – Um senhor alto e forte se aproximou do
cientista. Os traços do homem lhe pareciam familiares. — Sou o Doutor
Carlos Marcuzzi. – O senhor respondeu com um sotaque italiano carregado.
Foi então que desconfiou se tratar do pai de Ana Margarida. Isabela havia
contado que o pai de sua delícia era um legítimo italiano.
— O senhor é o pai de Ana Margarida? – Leandro sentiu as batidas do
coração mais fortes.
— Sim! Percebo que está ansioso para vê-la. – O italiano abriu um
sorriso de canto, como se tivesse lido os pensamentos de Leandro. —
Deixemos o assunto minha filha para depois, meu jovem! Agora, quero que
me diga se consegue mexer os braços e depois as pernas. Vamos, tente mover
os dedos! – O médico o incentivou e Leandro conseguiu mexer os dedos da
mão de forma descoordenada. Ficou feliz pelo feito. — Muito bem, Leandro!
— Sinto meu corpo amortecido!
— É natural! Esteve em coma. Vamos ver como reage aos testes de
toque! – Doutor Carlos espetou uma agulha na sola dos dois pés de Leandro e
um pequeno e discreto movimento foi observado. — Muito bom! Tenho para
mim que o senhor teve mais sorte do que outros o tiveram. Nem todos
sobrevivem a uma bala na medula espinal sem sequelas.
— O senhor está me dizendo que não ficarei paraplégico? – Sabia as
complicações de um ferimento tão sério e seria um tolo se não agisse com o
realismo que o caso pedia.
— Não tenho como afirmar com total certeza, mas seus primeiros
testes são animadores.
— Doutor, por favor, sei que é o padrasto de Murilo. Como está
Camila?
— Graças a você, Camila está muito bem! Seremos eternamente
gratos pelo que fez por minha nora.
— E Cavalcante?
— Preso! Murilo agiu rápido e conseguiram impedi-lo de fugir.
Espero que não o libertem tão cedo. Camila prestou depoimento e confirmou
que foi Cavalcante que deu o disparo. O infeliz responde por muitas
acusações, mas ao menos de tentativa de sequestro e homicídio, espero não
que não se safe. Seus pais estão lá fora e querem vê-lo. – Leandro não sabia
se estava preparado para ver os pais. Com certeza, o repreenderiam por ter
sido inconsequente de não voltar direto para Porto Alegre. Já conhecia a
ladainha de cor e salteado, estava cansado de ouvir sempre a mesma coisa.
— Não sei se quero vê-los! – Respondeu de volta para o médico. —
Prefiro ver sua filha antes de qualquer um. – Foi sincero. Um homem que
enfrentou a morte tinha o direito de ser sincero uma vez na vida e, bem assim,
realizar o desejo de seu coração. Havia ficado apagado por dias, mas algo
dentro dele, ou melhor, a lembrança dela, o fizeram sair da escuridão. A
presença de Ana, em algum canto de sua cabeça adormecida, o chamava para
a vida.
— Meu jovem, minha filha não está mais no hospital. Seus pais
proibiram a entrada de Ana e eu e minha esposa a convencemos a esperar por
notícias em nossa casa.
— Quem eles pensam que são para proibir a mulher da minha vida de
me ver? – O ritmo cardíaco de Leandro se alterou tamanha foi a raiva que
sentiu dos pais. A primeira coisa que faria logo que saísse da cama do
hospital seria deixar claro para eles que não era mais uma criança, era um
homem apto a tomar suas próprias decisões. — Pois diga para os senhores
meus pais, os todos poderosos reis do mundo, que somente os verei com Ana
ao meu lado.
— Não se exalte, por favor! Darei os recados, com prazer! – Doutor
Carlos sorriu e Leandro desconfiou de que o médico sentiria prazer em
confrontar os velhos. Conhecia-os suficientemente para saber o quanto eram
soberbos e antipáticos com aqueles que não julgavam merecedores de sua
atenção.
— Doutor, preciso confessar uma coisa! Eu amo sua filha e se eu sair
daqui inteiro, prometo que farei de tudo para tê-la ao meu lado, não permitirei
que ninguém a afaste de mim, nem meus pais, nem Murilo, muito menos o
loiro azedo. – Leandro bufou ao se lembrar de sua delícia morena nos braços
de Gabriel, dançando com ela a valsa que devia ter sido sua. Estava cansado
de deixar passar as coisas como se não lhe machucassem ou mesmo
importassem. Era um homem de carne e osso e com sentimentos. Se voltou à
vida, que fosse para valer à pena.
— Deve falar de Gabriel! – O médico cruzou os braços. — Minha
filha terminou com ele. – Leandro sentiu um alívio invadir sua alma e a
esperança renascer. Havia sim, uma esperança para os dois. — Acredito que
vocês dois precisem conversar, pois te digo, meu rapaz, não serei eu a me
intrometer nos assuntos de vocês dois, mas não permitirei que seus pais a
tratem mal. Eu e minha esposa fizemos de tudo para afastá-la do hospital e
dos olhos vingativos deles.
— O que meus pais fizeram com Ana?
— Nada! Mas teriam feito, se não a tivéssemos afastado daqui.
— Não entendo, Doutor! Eles não sabiam do meu envolvimento com
sua filha.
— Ninguém sabia, mas desde o dia em que foi baleado, Ana não tem
feito outra coisa a não ser se culpar... Para um bom entendedor, meia palavra
basta!
— Traga-a até mim, por favor! – Queria junto de si, por mais que não
fosse mais o mesmo homem, por mais que não pudesse mais andar, queria
vê-la e dizer uma vez mais que a amava.
— Trarei, mas farei isso por minha filha! Não aguento mais vê-la
sofrer. Não sei em que momento você roubou o coração de Ana e nem sei da
missa a metade do que de fato aconteceu entre vocês dois, mas desde que foi
baleado, a alegria do rosto de minha filha sumiu e isso tem nos feito sofrer,
eu e a mãe dela. Ana sempre foi nossa maior riqueza. É minha filha única, a
minha princesa. Então, serei direto e objetivo, meu rapaz! Trate de levantar
dessa cama o mais rápido possível, e faça-a feliz. Dentro de instantes, a
enfermeira virá buscá-lo para os exames.
O médico virou as costas para Leandro e saiu sem dizer mais nada.
Leandro queria muito falar mais com o pai de Ana Margarida, mas, por hora,
devia se contentar com o que conseguiu descobrir e com a promessa de que a
traria até ele.
Ana saltitava feliz como uma pipoca na panela por todos os lugares da
casa. Seu pai acabava de falar-lhe que Leandro havia despertado do coma,
como previsto e que os primeiros testes haviam sido animadores.
— Silvia! – Gritou, chamando pela empregada da casa. — Ele
acordou!
— Ele quem? – A velha senhora de cara enrugada enxugou suas mãos
no avental.
— Leandro! E ele quer me ver... Pense numa garota feliz! Eu! Sabe
que pensei que poderia levar para ele aquele bolo de chocolate que você fez
hoje, aquele que lá no Sul vocês chamam de Nega Maluca. Tenho certeza de
que Leandro irá gostar.
— Menina, não sei se é aconselhável um doente comer bolo de
chocolate. – Silvia a olhou de canto, na vã tentativa de conter a empolgação
de Ana. Por outro lado, estava feliz em vê-la animada depois de dias
enfurnada no quarto.
— Claro que é! Pense, Silvia, ele deve estar com fome e nada melhor
do que um bolo de chocolate.
— Vou cortar um pedaço e embrulhar... Mas pela senhorita, não
aguentava mais vê-la tão tristinha.
Ana saiu da cozinha e subiu as escadas correndo, pois precisava
chegar ao hospital o quanto antes. Não haveria cara feia de mulher mandona
que a fizesse sair de lá. Não chegou a falar com a mãe de Leandro mais do
que um bom dia, boa tarde ou boa noite, mas os olhares que a mulher lhe
lançava não eram os mais receptivos e depois da proibição que lhe
impuseram em ver Leandro, não restou alternativa a não ser se manter
afastada do hospital. Porém, hoje, seria diferente. Ele havia perguntado por
ela e o melhor, chamado por ela.
Saiu apressada do quarto e acabou por esquecer uma coisa que lhe era
importante demais. Correu de volta, remexeu entre os vários objetos em cima
de sua mesa de estudo para encontrar a listinha de Leandro.
— Pronto, aqui está o bolo! – Silvia entregou um pequeno embrulho.
— Separei os melhores pedaços para seu príncipe, minha princesa!
— Obrigada! Você é a melhor de todas! – Ana estalou um beijo em
cada bochecha da empregada e saiu como um furacão de casa. Não via a hora
de se perder nos dois oceanos azuis que eram os olhos de seu Leandro, o seu
amor.

Quase uma hora depois...


Leandro parecia cada vez mais nervoso pela demora em Ana
Margarida chegar. Precisava vê-la com os próprios olhos, ver que estava bem
e que, de fato, havia terminado tudo com o loiro azedo. Desde que acordara,
havia se recusado a ver qualquer pessoa, nem mesmo seus amigos mais
queridos. Ana era mais especial que qualquer coisa e precisava vê-la antes de
qualquer um e renovar as palavras de amor que havia lhe feito. Se humilharia
mais uma vez para ela, mas pouco lhe importava a humilhação. Havia
aprendido que o amor verdadeiro chegava apenas uma vez na vida e
humilhação não combinava em nada com o que sentia por ela.
— Oi! – Ana acabara de abrir a porta, colocando a cabeça para dentro,
abrindo o sorriso mais encantador que Leandro havia visto. Estava mais
apaixonado do que nunca, perdido de paixão pela morena.
— Oi! – Respondeu sem qualquer timidez.
— Eu trouxe Nega Maluca! – Falou entre lágrimas.
— Como sabia que Nega Maluca é meu bolo favorito? – Ana deu de
ombros em sinal de que apenas tinha chutado.
— Será que as enfermeiras irão deixar você provar o bolo de
chocolate?
— Eu como escondido! Vem para perto de mim, delícia! Este colar
não me deixa movimentar direito e quero te ver melhor.
Ana se aproximou de forma tímida para perto da cama em que
Leandro se encontrava, sentindo cada batida de seu coração, o pulsar
frenético do sangue a correr pelas veias e a adrenalina percorrer cada
centímetro de sua pele. 10 dias na expectativa de vê-lo, rezando para todos os
Santos, fazendo promessas e mais promessas, tudo para vê-lo sorrir de novo e
acordado para que pudesse dizer-lhe o quanto o amava.
— Ei, fiquei tão preocupada! Você foi um louco, onde já se viu se
colocar na mira daquele louco do senador! – Incapaz de conter o desejo, Ana
acariciou o rosto de Leandro. — Nunca mais faça isso! – Deixou a cabeça
cair sobre o peito dele e chorou sem pudor ou vergonha, pois Deus havia lhe
concedido um milagre, havia o trazido de volta. Jamais desperdiçaria a
chance de poder ser feliz ao lado do homem de sua vida, mesmo que antes
dela tivesse se comportado como o pior canalha do mundo.
— Ana, meu amor, não chore! – Leandro confortou-a com carícias
suaves na cabeça.
— Sei que não mereço ser seu amor, Leandro! Que fui infantil e até
tola... – Fungou, secando uma lágrima que teimava em escorrer. — Mas...
— Olhe para mim, Ana Margarida! – Ela o atendeu sem hesitar,
perdendo-se na imensidão azul dos olhos mais lindos que alguém poderia ter.
— Não há mais nada entre nós e podemos ficar juntos.
— Não fale assim, eu me sinto tão culpada! Se não tivesse metido na
cabeça que não poderíamos ficar juntos por Camila...
— Você não é culpada por nada. Se alguém tem que ser culpado, que
seja eu! Fui eu quem agiu como um idiota ao fugir como criança para o
Canadá, porque assim me era mais fácil do que ficar e enfrentar a verdade de
que não queria me casar com Camila. Nada disso importa mais, meu amor! E
se você me quiser, mesmo que eu... – Leandro travou ao pensar que talvez
não pudesse ser um homem inteiro outra vez.
— Claro que você irá voltar a andar e fazer todas as coisas que
sempre fez! – Ana se adiantou. — E também se não acontecer, não me
importa, porque eu amo você, Leandro! Eu amo tanto você, mas tanto, que
não consegui tirar o que sinto por você de dentro de mim. – Foi a vez dele
chorar e não foi um choro qualquer, mas sim um choro de alívio e felicidade,
pois ela o amava e seriam felizes. Ana levantou a cabeça de modo a poder
fitá-lo nos olhos, nas profundezas azuis de seus olhos, para que ele
compreendesse o quanto estava sendo verdadeira. — Eu amo você, Leandro
Navarro! E já não importa seu passado ou se fugiu deixando outra para trás,
porque o mais importante é que estamos juntos, aqui e agora. Eu quero ser o
seu presente e seu futuro, para que seu passado nunca mais volte a ditar o
rumo de nossas vidas. – Beijou-o na testa, assim como ele havia feito na noite
em que foi baleado, pegando sua mão em seguida, onde deixou um
amontoado de papel.
— O que é isso?
— Abra e leia.
Leandro o fez e um sorriso se formou em seu rosto ao constatar um
risco em caneta rosa em cima do quinto objetivo de seu Projeto Ter o Amor
de Ana em 5 Passos. Um sorriso maior ainda se abriu no rosto, enfeitado por
lágrimas de êxtase quando leu as palavras que Ana havia escrito:
Quinto objetivo a ser cumprido:
Pedir Ana em namoro
Operação eu quero ela
P. S. O coração de Ana pertence à Leandro, por isso, só falta o pedido.
— Faz o pedido, Lê! – Ela falou sorridente, secando as lágrimas que
escorriam pelo rosto já vermelho de tanto ser esfregado pelas mãos.
— Ana Margarida, você aceita namorar comigo?
— Sim, sim! – Ela tentou abraçá-lo, mas não conseguiu em razão do
colar cervical. — Eu quero ser sua namorada, Lê! Também quero você! É tão
bom falar isso. – Gritou várias vezes e ambos caíram na gargalhada, felizes
pela segunda chance que lhes fora concedida e por terem percebido que todos
merecem sim uma segunda chance.
— Sabe o que penso? – Ana negou com a cabeça. — Que a vida nos
prega peças, que cometemos erros, que nos culpamos por coisas que
deixamos de fazer, que muitas vezes somos cegos e até mesmo ignorantes
para compreender que as coisas são mais simples do que parecem, mas, no
final, quando tudo parece não ter mais solução, um mundo novo se abre...
Você foi o meu mundo novo, Ana! Um mundo novo que ansiei por
conquistar, que quero fazer parte dele, quero vivê-lo. Eu amo você, sempre
amei você, desde o primeiro dia! Foi na festa de Beatriz que meu coração
caiu aos seus pés e nunca mais foi o mesmo. Até dançarino me tornei por
você! – Ela sorriu ainda mais. — Por você, me tornei um homem melhor e,
por você, me tornarei ainda melhor.
— Você já é o melhor para mim! – Ana se juntou a ele na cama, sem
se importar com a política do hospital. Que todos fossem para o inferno,
pensou, jogando as sapatilhas para longe. Estava com saudades dele e queria
apenas senti-lo perto.
— E o bolo de chocolate?
— Lê, deixa para depois, sim?! Agora, quero apenas ficar aqui com
você!
— Amor, preciso te perguntar uma coisa! – O melhor era aproveitar a
sinceridade com que conversavam. — E Murilo? – Perguntou pensativo.
— Não sei, para ser honesta! Tenho evitado falar com ele, mas
Camila me falou que ele sacou tudo entre nós. Meu irmão não é um burro.
Talvez, não seja tão inteligente quanto você, mas é esperto e ligou os pontos.
— E você, o que pensa disso tudo?
— Ele terá que aceitar, Lê! Nós dois somos uma verdade que não
cabe a ele contestar. Camila me fez perceber isso, sabe. Me fez perceber que
a nossa felicidade só depende de nós dois. E quer saber mais, ele tem a
ruivinha dele para cuidar.
— E eu, a minha morena!
6 meses depois...
— Tem certeza de que você não quer um casamento
tradicional? Um vestido de noiva tradicional, com véu, grinalda e tudo mais
que mulheres sonham desde sempre? – Leandro perguntou pela centésima
vez a mesma coisa pelos cálculos de Ana.
— Claro que tenho! Não te entendo, amor! Primeiro me convida para
fugir para Las Vegas escondido e agora fica todo preocupado por não estar
fazendo o certo.
— Eu quero realizar todos os teus sonhos, delícia! E se casar numa
igreja como manda a tradição for teu sonho, eu o farei.
— Você me mima demais, Lê! Não se cansa de me surpreender. – Os
pensamentos de Ana voltaram para dois dias antes, quando Leandro a pediu
em casamento, na verdade, foi o pedido mais louco que alguém poderia fazer.
Leandro havia se vestido de Sheik arábe e a raptado para um final de semana
romântico. Nunca imaginou que Leandro fosse se revelar um romântico
incurável. Era terrível quando resolvia a surpreender. — É um louco de
pedra!
— Já te falei que sou louco, mas apenas para você e por você!
— Só quero ver qual será a surpresa do ano que vem! Pois não pense
que me esquecerei da promessa de um casamento todo ano.
— Nem eu esquecerei, amor! Nos casaremos todo o ano e todo ano
em um local diferente! Quero renovar meus votos de amor eterno de todas as
formas possíveis.
— Senhores! – A comissária de bordo se aproximou com um balde e
duas taças em mãos. — Em cumprimento pela passagem de data tão
importante para os senhores. – Entregou um cartão para Leandro, para logo
em seguida servir o líquido borbulhante para os dois.
— Deixe-me ver, Lê! – Ana tirou o papel das mãos de Leandro. — É
de Camila.
— O que falei sobre não contar para ninguém?
— Só foi para a Camila, amor! E depois eu pensei que ela merecia
saber... – Ana beijou o rosto do cientista, pois sabia que ele não conseguiria
resistir e acabaria por desfazer a cara de zangado. — Olha que fofa! –
Empolgada, Ana começou a ler o bilhete.
Ana e Leandro,
Que a vida de vocês seja repleta de alegria e que o amor que nasceu entre
vocês apenas cresça cada dia mais.
Sei que não queriam presentes, mas não resisti! Há uma suíte em Nova
Iorque reservada para os dois. Já que estarão nos Estados Unidos, custa
nada um pulinho lá!
Curtam muito a lua de mel. É um presente meu e de Murilo (sim, vocês leram
certo, mas confesso que precisei usar dos meus direitos conjugais para
convencê-lo e desviei seu foco com a notícia de que teremos mais um bebê).
Com carinho,
Camila.
Ana soltou um grito de felicidade. — Mais um sobrinho ou sobrinha,
Lê! Meu irmão estará ocupado pelos próximos 9 meses. – Leandro fez uma
cara de quem não havia entendido nada. — Camila grávida é um atentado
contra a sanidade mental do meu irmão! Pense numa mulher enjoada e ainda
chorando sem parar! Pensou? – Leandro assentiu. — Então multiplique por
10 e terá a Camila. – Leandro se juntou à risada de Ana. — Camila não existe
mesmo! Ela até me deu dicas de como conquistar Dona Inês!
— Minha mãe não é fácil, mas tenho para mim que ela ainda cairá de
amores pela nora. – Ana soltou uma gargalhada chamando atenção dos
demais passageiros. — Não ria, Ana!
— Como não rir? Sua mãe é o cão chupando manga, como bem diz
meu irmão! Pense só quando contarmos para ela que irei morar com você em
Porto Alegre.
— Amor, tem certeza de que quer se mudar para Porto Alegre?
Podemos pensar em algo diferente.
— Tenho sim! Já acertei tudo com Elisa, amor! Somos boas como
equipe, uma bela dupla. E o melhor, continuarei com Camila e os meus
projetos de paisagismo. Será melhor para todo mundo. Você e meu irmão
juntos por mais de duas horas, é morte na certa.
— Murilo é um verdadeiro homem das cavernas!
— Você não colabora em nada, Lê! Custa controlar a língua e não
chamar Camila de ruivinha? Às vezes, penso que faz de propósito só para
provocar meu irmão.
— Não tenho culpa se conheço a mulher dele a mais tempo que ele! –
Ana deu um tapa no braço de Leandro, que enrugou a testa. — É difícil
mudar velhos hábitos, amor!
— Sei!
— Nunca pensei que fosse dizer isso, mas aqueles dois se merecem!
— Foram feitos um para o outro.
— Mesmo que não tivessem sido feitos um para o outro, os faria
ficarem juntos. Lembra que essa foi a condição para que me aceitasse em sua
vida, Ana?
— Fui uma tola mesmo! – Ana escondeu o rosto no peito de Leandro.
— Não foi mesmo! Você apenas me ama demais e só agradeço as
forças do Universo por me trazê-la para minha vida. Eu amo você, Ana
Margarida, com todo meu coração.
— Eu também te amo muito!

Ana e Leandro desembarcaram e após realizarem o check-in no hotel,


correram para o Marriage License Bureau para obterem a licença para casar e
dessa forma oficializarem o casamento. Leandro não correria o risco de seu
casamento com Ana ser tido como de mentirinha. Documentos oficiais eram
imprescindíveis para regularizar sua união com Ana no Brasil. Apesar de
Murilo ter aceitado o namoro dos dois, assim como Gabriel ter compreendido
as razões de Ana, não se sentia seguro até que não oficializasse a união dos
dois. Os receios e dúvidas que o atormentaram na época de seu noivado com
Camila haviam ficado no passado. Amava Ana Margarida e a queria como
esposa, tanto é que lhe prometeu uma cerimônia por ano como forma de
reafirmar seu amor por ela.
— Não demore, delícia! – Leandro se despediu de Ana e partiu para a
suíte que passariam a noite de núpcias, pois Ana fez questão de se arrumar no
salão de beleza do hotel.
— Caramba, Lê, só você mesmo para pedir para uma noiva, mesmo
que em fuga, se apressar para ficar pronta. – Ana se colocou na ponta dos pés
para poder alcançar os lábios de seu noivo. — Vê se não esquece as alianças!
— Nunca, amor!
Duas horas depois, os dois se encontravam no saguão principal do
luxuoso hotel cassino em que haviam se hospedado. O coração de Leandro
pareceu parar de bater quando a viu, sua morena, mais linda do que nunca.
Haviam combinado de não ser um casal de noivos comuns, mas jamais
pensou que ela conseguiria surpreendê-lo tanto.
— Se não desejasse tanto me casar com você, delícia, pularia o
casamento e iria direto para a noite de núpcias. Caramba, Ana, você está sexy
demais!
Ana havia escolhido um vestido com corte sereia que embelezava
ainda mais suas curvas naturais. O corpo era trabalhado em renda com um
enorme decote que deixava à mostra mais do que devia, mas Leandro não se
importava, não era um ciumento e confiava no seu taco. Os cabelos estavam
presos num coque baixo e a boca grande e carnuda estava do jeito que
Leandro gostava: delicadamente contornada por um batom vermelho.
— Não podia fazer feio, mesmo que nosso casamento seja em Las
Vegas, sou uma patricinha da cabeça aos pés e há coisas da qual não abro
mão. Você também está divino!
Leandro deu uma volta, exibindo-se para sua noiva. Também havia
optado pelo tradicional e um terno de corte impecável, apesar de lhe fazer
suar, ainda era o mais apropriado para um casamento.
— Vamos! – Orgulhoso, ofereceu o braço e foram para a limusine que
os aguardava. — Você se importará se eu tirar esse batom delicioso de sua
boca ainda mais deliciosa?
— Nem pense nisso, Doutor Fodão! Esse batom vermelho deu
trabalho para ficar impecável, então, beijos estão proibidos, embora morra
por um beijo seu.
O elegante carro preto estacionou na frente da Wee Kirk o’the
Heather, uma pequena e tradicional capela de Las Vegas, onde um cantor
vestido de Elvis Presley os aguardava e ao som de “Can’t help falling in
Love”, chegaram até o celebrante que os casou. Um prometeu ao outro
dividir uma vida juntos repleta de amor e felicidade.
— Já diziam os sábios que apenas os tolos se apaixonam! – Leandro
repetiu a letra da música de Elvis Presley em português com lágrimas nos
olhos. — Mas eu não consigo evitar de sempre me apaixonar por você! – Ana
também sentiu os olhos marejados pelas lágrimas que tentava conter para não
borrar sua impecável e perfeita maquiagem. — O que posso dizer para a
morena mais perfeita que Deus criou? Que só faço amá-la cada vez mais! O
que posso dizer para a minha delícia, cujos lábios me conduzem para o céu
toda vez que os toco? Que prometo fazê-la feliz para todo o sempre! O que
posso dizer para o meu amor? Que a quero para sempre! – O cientista levou a
mão de Ana aos lábios. — Prometo a você, Ana, meu amor, que me
esforçarei cada segundo dos meus dias para ser merecedor de seu amor.
— Ai Lê! – Ana o abraçou, incapaz de segurar as lágrimas. — Nossa
história começou torta e desajeitada. Eu tentei fugir de todas as maneiras do
amor que você despertou em meu coração. Sim... Eu queria fugir de um certo
cientista atrapalhado e confuso, mas que de tão fofo que foi, roubou meu
coração para si. Sou teimosa, entre vários outros defeitos, mas você foi
persistente o bastante para me conquistar. Aprendi com você que o amor não
encontra barreiras e nada é mais forte que ele. O seu amor chegou a meu
coração e hoje te entrego meu coração, prometendo amá-lo e respeitá-lo todos
dos dias de minha vida!
Leandro a puxou para seus braços e beijou-a, marcando-a como sua,
sem preocupar com o batom vermelho, que ficaria borrado. Um casamento
sem um beijo ardente em sua morena não seria perfeito e inesquecível.
Afinal, foi o beijo dado nela que o despertou para o amor de sua vida. Pegou-
a no colo e saiu da pequena e inusitada capela para o que seria a mais incrível
lua de mel de todos os tempos.
— Vocês dois vão parar com essa palhaçada? – Ana fuzilou o
irmão e o marido com os olhos. Seu pequeno milagre da vida, seu pequeno
Antônio, acabava de ser batizado e todos se encontravam na Mansão Castro
de Alcântara para uma confraternização em família, que Camila e Murilo, os
padrinhos do bebê, fizeram questão de oferecer. — Nunca que deixaria
Leandro chamar nosso filho de Isaac Newton! Isaac até seria aceitável, mas
Isaac Newton é tão sem charme.
— Desista destes dois, Ana! – Camila falou com a pequena Lívia nos
braços, sua caçulinha. — Eu já desisti faz tempo.
Leandro e Murilo não passavam dois minutos no mesmo ambiente
sem dar uma alfinetada um no outro. Eram impossíveis juntos, mas
conviviam pacificamente desde que anunciaram o casamento de Leandro com
Ana para os familiares.
— Apesar do pai que tem, até que meu sobrinho nasceu bonitinho! –
Murilo soltou, pegando seu afilhado no colo, sem se importar com o beliscão
que recebeu de Camila.
— Engraçadinho! – Leandro revirou os olhos. — E você, cunhado, já
fechou a produção em série de meninas?
— Pois te digo, Leandro, que a fábrica foi fechada definitivamente. –
Camila se adiantou na resposta, sob o olhar atento dos outros amigos que
acabavam de se juntar na conversa.
— Não acredito, Camila! Bem me lembro que você falou isso das
outras vezes. – Malu gargalhou.
— Agora é oficial! Sem mais filhos. Murilo fez vasectomia há dois
meses.
— Camila, não era para contar! A fama de boca grande é da Ana e
não sua. – Murilo a repreendeu, mas todos já haviam caído na gargalhada.
— Como assim, parceiro, manda cortar a chave de ignição e não
avisa?! – Edu bateu nas costas do amigo, que continuava indignado com a
boca grande da ruiva.
— Se bem que o mundo agradecerá! – Heitor se meteu na conversa
embora os olhares de Sarah lhe dissessem para não o fazer. — O mundo não
daria conta de tantas Castro de Alcântara! E você, amigo, morreria antes da
hora por excesso de ciúmes.
— Outro engraçadinho! – Murilo resmungou. — Minhas meninas são
as mais lindas e isso é um bem para a humanidade, que precisa de gente
bonita.
— Menos, Murilo! – Camila beijou o marido.
— Mas é verdade, encanto! Olhe para nossas meninas e perceba quem
conseguirá fazer três meninas lindas como as nossas? Uma morena, uma
ruiva e outra loira! – Lívia havia nascido com os cabelos castanhos claros
levemente avermelhados e ondulados nas pontas, com algumas sardinhas na
ponta do nariz.
— Eu acho que você devia fazer o mesmo, Edu! Acho que dois filhos
estão de bom tamanho... – Malu falou acariciando a enorme barriga de 7
meses.
— Ah não, Malu! Você acha que ficarei para trás de Murilo? Nunca!
Precisamos equilibrar a balança, fazendo mais meninos! É claro, só depois da
nossa princesinha aqui. – Edu acariciou a barriga da esposa, que revirou os
olhos, pois o exagero de Edu apenas parecia crescer à medida que o tempo
passava.
Leandro pegou Antônio dos braços de Murilo e o levou até Ana para
que pudesse amamentá-lo. Sempre fazia questão quando podia vê-la
alimentando seu rebento. Amava-os mais do que tudo e não se cansava de
idolatrá-los. Enquanto isso, as crianças maiores corriam pelos jardins da
Mansão dos Castro de Alcântara e os gritos de euforia espalhavam-se por
todos os cantos, enquanto seu pensamento vibrava cada vez mais ao ritmo da
felicidade que havia se transformado sua vida. Era feliz como jamais supôs
um dia sê-lo.
Mais um livro termina e mais um sonho é concretizado, um
grande sonho dessa vez, pois a Trilogia Ela foi concluída. Tornar-me
escritora nunca fez parte dos meus planos, por outro lado, reconhecer-me
como uma, só me trouxe felicidades e a certeza de que todos nós temos uma
missão a cumprir. A minha é espalhar esperança por meio das palavras.
Eu quero ela, até então, foi um dos livros que mais exigiu de mim
como escritora. Não exigiu grandes pesquisas, muito menos horas de escrita,
mas por outro lado, desafiou-me a desvendar a alma humana como nenhuma
outra estória por mim construída foi capaz de fazê-lo.
Leandro Navarro foi dentre todos os meus protagonistas aquele que
mais me desafiou na construção de sua personalidade. Tímido, introvertido,
confuso e por vezes atrapalhado quanto aos próprios sentimentos, fez-me
navegar em águas profundas da psiquê humana. Pessoas inteligentes
costumam ser introvertidas e presas em seu mundinho particular, mas
Leandro foi além disso, um personagem polêmico que precisou entender seus
próprios sentimentos para conseguir ter seu final feliz.
Toda a Trilogia Ela girou em torno do encontro de casais de mundos
diferentes, com gostos e perspectivas de vida diferentes, cujo amor os ligaria
para a conquista de seu “felizes para sempre”. E não poderia ter sido diferente
para Leandro e Ana Margarida, opostos que se viram atraídos e cuja paixão
os fez questionar valores e ideais. Leandro precisou se superar em todos os
aspectos, sair da casca tão bem construída que o protegia do mundo real, sair
do plano das ideias para concretizar o caminho de sua felicidade ao lado da
mulher que ama. Já, Ana Margarida, sendo o oposto de Leandro e muito
convicta de suas escolhas e do quanto merecia ser feliz, precisou abrir o
coração para o novo, desfazendo-se de versões pré-concebidas para entender
que há coisas que fogem do controle. Ana precisou entender que todos
merecem uma segunda chance para aceitar Leandro em sua vida.
A vida é uma viagem para frente, costumo dizer! Uma viagem repleta
de curvas e pedras. É justamente isso que nos torna especiais. Felicidade é
um momento, assim como a tristeza. Já dizia certo pensador que devemos
sorrir mesmo que venha a ser um sorriso triste, porque por mais triste que
seja o sorriso é a tristeza de não saber sorrir. Então, devemos sorrir
simplesmente pelo fato de que temos um amanhã para viver.
A Trilogia Ela chegou ao fim e sinto que cumpri com meu dever. A
história que havia me proposto a contar foi desenvolvida com muito carinho e
repleta de romantismo.
Há possibilidade de outras estórias, Diane? A resposta é: sempre há
possibilidade, meninas! Porque a minha mente é uma caixinha repleta de
imaginação. E contar a estória dos filhos ou mesmo fazer um prequel podem
futuramente se tornar uma realidade.
Com carinho,
Diane Bergher.
Agradeço imensamente o carinho, paciência e apoio de duas
pessoas especiais em minha vida e que me ajudaram incondicionalmente,
desde o início, a concretizar o sonho desta Série: Ana e Susi, as minhas beta-
readers, Safira e Esmeralda.
Susi, obrigada por fazer parte de minha vida e acreditar em mim
quando nem eu mesma acreditava.
Ana (a Ana Margarida que inspirou a do livro), obrigada por me
auxiliar na revisão dos capítulos, nas sugestões que sempre foram perspicazes
e decisivas para a boa receptividade da Série. Obrigada, também, por ouvir
meus desabafos nos momentos mais difíceis.
Agradeço também à querida Julia Lollo, que se juntou ao time de
beta-readers enquanto escrevia Eu quero ela. Obrigada pelo apoio nos
momentos em que dúvidas e inseguranças fizeram-me questionar o que
estava escrevendo e trazendo conforto para uma escritora em crise.
Agradeço também à uma pessoinha que me acompanha desde sempre:
minha querida naturóloga e amiga, Fernanda Verzola. Obrigada por discutir
comigo os personagens e por rir junto comigo das minhas ideias
mirabolantes.
Agradeço ao time de estrelas que fazem parte de minha vida e que me
motivam a escrever: Laizy Shaine e Camille Chiquetti. Obrigada pela
companhia e por trazerem brilho aos meus livros.
Por fim, agradeço à todas as leitoras que conquistei ao longo da
criação da Trilogia Ela. Não citarei nomes para não correr o risco de esquecer
nenhuma de vocês. Todas vocês fazem parte da minha vida e tem um
pedacinho do meu coração.
UM AMOR PARA PENÉLOPE
Belle Époque, livro 1

Disponível em e-Book
Compre aqui!
Em breve no formato físico no site: www.editorafragmentos.com.br
SINOPSE
A vida fez de Penélope uma mulher forte e tenaz. No início do século
XX, o sonho de toda mulher é ter um bom casamento e filhos, exceto para
Penélope. Prestes a completar 25 anos, Penélope apenas quer receber a
herança deixada pelo pai, um inglês que a deixou no Brasil ainda menina, e
abrir uma escola para moças em São Paulo. Prestes a realizar seu sonho,
Penélope é chamada por sua madrinha Violeta para que acompanhe a jovem
Flora nos eventos sociais do Rio de Janeiro. Sem poder negar um pedido de
sua amada madrinha, Penélope parte para o Rio de Janeiro, onde é acolhida
pela tradicional família Gusmão de Albuquerque.
Dona de uma beleza incomum e de uma inteligência irreverente,
Penélope acaba por ser cortejada por vários cavalheiros, o que desperta
ciúmes no solitário e responsável Felipe Gusmão de Albuquerque, o
primogênito de Violeta. Viúvo e com uma filha pequena para educar, Felipe
não esperava se apaixonar pela afilhada da mãe e fará de tudo para mantê-la
distante de sua organizada e planejada vida. Felipe entende que Penélope não
reúne as qualidades necessárias para ser a esposa de um rico banqueiro e
chefe de uma das mais tradicionais famílias do Rio de Janeiro.
Atormentados pela forte atração que sentem um pelo outro, Penélope
e Felipe sucumbirão ao desejo e um forte sentimento nascerá entre eles.
UMA PAIXÃO PARA FLORA
Belle Époque, livro 2

Disponível em e-Book
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SINOPSE
O sonho de Flora sempre foi fazer uma grande estreia na sociedade
carioca. O que aconteceu tardiamente, apenas aos 17 anos, pois sua família,
diferente das outras da época, deseja que Flora tenha um casamento por
amor, sem interesses superficiais.
Em meio à confusão de pretendentes ao coração de Penélope, afilhada
de sua mãe, a caçula dos Gusmão de Albuquerque conhece Yuri Volkov, um
imigrante russo que fez fortuna no Brasil ao se dedicar ao mundo do
entretenimento. Yuri enxerga em Flora uma oportunidade de ser aceito pela
nata social carioca e a seduz, forçando um casamento entre eles. Os planos do
empresário não saem como o esperado e ele se vê apaixonado pela
esposa, fazendo-o lutar para conseguir protegê-la de um passado marcado por
atos ilícitos.
Atormentados pela forte paixão que sentem um pelo outro, Flora e
Yuri terão que superar vários obstáculos para terem o merecido final feliz.

UMA AVENTURA PARA ELOÍSE


Spin-off, série Belle Époque

Disponível em e-Book
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SINOPSE
Em 1922, o sonho de Eloíse é se tornar uma Médica Veterinária e
desbravar o mundo em busca de aventuras. Apaixonada por animais desde
menina e convicta de que as mulheres podem e devem ser mais do que
apenas esposas, Eloíse vê numa expedição científica para a Amazônia a
chance de viver uma grande experiência e aperfeiçoar seus estudos na área
das Ciências Naturais. Para tanto, precisará convencer seu pai a deixá-la se
reunir aos Parker, um casal de cientistas norte-americanos. O que Eloíse não
esperava, era se meter numa confusão com Adrian, o sobrinho dos Parker.
Após um encontro inesperado, Eloíse e Adrian se veem às voltas com uma
forte atração que ditará o rumo de suas vidas.
Uma Aventura para Eloíse é um spin-off da Série Belle Époque,
ansiosamente aguardada pelas fãs da saga, que em formato de conto, narra
parte da mocidade de Eloíse, a filha sapeca de Felipe Gusmão de
Albuquerque e uma das personagens mais cativantes da Série.

UM MARIDO PARA LENITA


Spin-off, série Belle Époque

Disponível em e-Book
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SINOPSE
O sonho de Lenita é se casar com um homem honrado e viver feliz
para sempre. Como é a caçula da família, o pai de Lenita exige que suas
irmãs mais velhas se casem antes, rejeitando, assim, todos os candidatos à
mão da jovem. Quando sequestrada, Lenita conhece Dimitri Petrova, um
mafioso russo que foi enviado ao Brasil para convencer Yuri Volkov a
retomar os negócios da Máfia Russa. Prática e cheia de vida, Lenita se
apaixona pelo seu sequestrador em meio às confusões arranjadas por Flora,
sua melhor amiga.
Um Marido para Lenita é o spin-off de Uma Paixão para Flora, o livro 2 da
Série Belle Époque. Os acontecimentos deste conto são narrados pela
destemida e determinada Lenita Moreira Sales, mais uma personagem
fascinante da Saga.

QUANDO ELA CHEGOU


Trilogia Ela, 1

Disponível em e-Book
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SINOPSE
Apaixonada por arquitetura e história, Camila Rossini sonhava se
tornar uma arquiteta para trabalhar com restauração e conservação de prédios
históricos. Jovem, linda, de personalidade forte e destemida, perfeccionista e
detalhista ao extremo, Camila precisou assumir a presidência da construtora
da família quando seu irmão mais velho sofreu um grave acidente de trânsito.
Empenhada em manter os negócios da família, Camila deixa de lado
seus sonhos e passa a viver para a empresa durante anos. Depois de um longo
noivado, é abandonada no altar, o que a leva a questionar as escolhas que fez
na vida e a embarcar numa viagem para o exterior.
Ao retornar para o Brasil, Camila decide recomeçar sua vida e realizar
seus antigos sonhos. Muda-se para o Rio de Janeiro e aceita o cargo de
assistente do genioso e controlador Murilo Mendonça Castro de Alcântara,
um arquiteto talentoso e um mulherengo incorrigível. Uma forte atração
surgirá entre os dois, fazendo-os sucumbir a uma tórrida paixão, que poderá
mudar o curso de suas vidas para sempre.
Quando ela chegou é o primeiro livro da Triologia Ela, que narra os
encontros de casais de mundos diferentes que descobrem no amor seu elo
mais profundo.

ELA É MINHA
Trilogia Ela, 2

Disponível em e-Book
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SINOPSE
Em Quando ela chegou, o livro 1 da Trilogia Ela, conhecemos o
charmoso e divertido arquiteto Eduardo Botelho Neves, o Edu. Abalado com
o casamento de Murilo e Camila, a quem nutria uma paixão, Edu prefere se
afastar dos amigos.
Depois de muita insistência, Edu aceita o convite de Murilo para uma
confraternização em sua casa, onde conhece Maria Lúcia Oliveira de Souza, a
Malu, uma cientista com doutorado em física nuclear, que retorna ao Brasil
para resolver pendências de seu misterioso passado.
O que Edu não esperava era se ver às voltas com a cientista e
apaixonar-se por ela. Porém, Malu não quer se relacionar com ninguém,
dificultando e criando barreiras para que Edu se aproxime.
Edu, um conquistador nato e um sedutor experiente, não mede
esforços para conquistar Malu, usando todas as suas habilidades para atrai-la
para sua cama. Ele a quer muito e ela se deixa levar pelo prazer. A atração
entre os dois passa a ser irresistível e uma perseguição entre eles se inicia,
levando-os a descobrir e a experimentar sentimentos nunca antes vividos.
Ela é minha é o segundo livro da Trilogia Ela, que narra os encontros
de casais de mundos diferentes que descobrem no amor seu elo mais
profundo.
Faz parte desta edição, como bônus especial, o conto Ela é Perfeita.
SEMPRE FOI VOCÊ
Disponível em e-Book
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SINOPSE
Depois de uma década e de escolhas erradas, Pedro reencontra a
mulher de sua vida. Pedro e Melissa foram namorados na juventude, mas o
destino os impediu de ficar juntos. Melissa casou-se com o melhor amigo de
Pedro após ter fugido para o exterior. Pedro, por sua vez, casou-se com a
irmã mais nova de Melissa. Com o retorno de Melissa ao Brasil, agora viúva,
a paixão adormecida entre os dois renasce ainda mais forte.
Preso a um casamento fracassado, Pedro precisará lutar para
reconquistar o amor e a confiança de Melissa. Em meio a segredos e intrigas
familiares, poderá o amor ser capaz de vencer?
AO SR. L, COM AMOR
Disponível em e-Book
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SINOPSE
Através de cartas não enviadas ao Senhor L., o amor idealizado da
Senhorita S., conheceremos a transformação de uma menina tímida em uma
mulher realizada e segura de suas escolhas. A primeira carta foi escrita no
aniversário de 15 anos e, a partir de então, a cada 5 anos, a Senhorita S.
escreveu uma nova carta, onde relatou os principais fatos, conquistas e
sentimentos dos últimos anos de sua vida e as marcas que um amor não
correspondido deixou em sua alma. A última e derradeira carta foi escrita,
após um encontro dos dois, 20 anos depois da primeira carta. Na última carta,
a senhorita S. despede-se definitivamente da menina que um dia foi e dá
boas-vindas à mulher madura e feliz que se tornou.
Diane Bergher é gaúcha de nascimento. Adotou Florianópolis
como o lugar para viver com o marido e filho. É advogada com duas
especializações na área e formação em coaching e mentoring. Uma leitora
compulsiva e escritora por vocação, acredita que sonhar acordada, fantasiar
mundos e transformar realidades é a vocação da sua alma. Quando Ela
Chegou, sua primeira obra, foi lançada na internet. Com um texto delicado e
sensível, o romance conquistou o público feminino do site em que está
hospedado.
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