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PRÍNCIPESPerversos

KARINE VIDAL



























Para a minha avó, Ieda Imaculada de Sousa Pereira, com todo o meu amor.


















CAPÍTULO 1

Escondida dentro de um mar de montanhas, existia uma cidadezinha
insignificante. Tão desconhecida como outras várias.
Para os desavisados, Campina Bela não tinha nada de especial. Todavia,
olhos sensíveis podiam enxergar sua beleza e poesia.
Situada no interior de Minas Gerais, em Campina cada casinha colorida
contava sua própria história. A praça central e a Igreja guardavam seus contos –
e as ruas de paralelepípedos também sussurravam suas histórias do passado.
Um lugar onde o próprio tempo parava, sentava-se e tomava um café.
Morei em Campina Bela por toda a minha vida, e pouco me aventurei para
fora dela nos meus vinte e um anos. Como podem perceber, minha vida não era
lá muito animada.
Eu morava sozinha, em uma casinha de fundos. Era uma segunda-feira
quando o relógio despertou às sete horas da manhã.
– Que droga – estendi a mão para desligá-lo. – Já entendi.
Por mais que eu acordasse cedo há anos, nunca me acostumaria. Nunca.
Tomei um banho, passei um café e fui me arrumar para o trabalho. O
espelho me devolveu uma imagem pouco animadora. Uma garota pálida, cabelos
e olhos castanhos claros, sem muito de especial.
Coloquei o uniforme da farmácia e fui trabalhar. Desde os meus dezoito
anos, eu trabalhava como caixa da farmácia da dona Cristina – uma senhora
idosa e gentil que me deixava morar em um pequeno sobrado anexo à farmácia,
pagando um aluguel irrisório.
Antes de mim, a caixa da farmácia era a minha mãe. Entretanto, quando ela
morreu de ataque cardíaco três anos atrás, eu tive que me virar. Dona Cristina me
contratou para a mesma função – e aqui estava eu, há três anos. Estagnada no
mesmo lugar.
Minha vida era bem simplória.
Nunca tive pai, e precisava me sustentar sozinha. Trabalhava de oito às
dezessete horas, saía da farmácia e ia para a academia (ou melhor, o que por aqui
chamávamos de academia). Era apenas um galpão com alguns aparelhos.
Eu não malhava ou corria em esteiras, se é o que estão pensando... Não tinha
tempo para isso.
Nos fundos do lugar, havia um compartimento onde aconteciam aulas de
karatê; isso era minha paixão. Aquelas aulas diárias de uma hora eram o que me
mantinham respirando. Eu as frequentava há quase seis anos, e estava em vias
de adquirir minha faixa preta. Aquela era uma vitória só minha, e apenas eu
sabia o quanto significava.
Eu precisava daquele momento só meu, pois era o meu único hobby. Ali,
meu corpo podia ser quem realmente era. Naquelas horas, eu despejava toda a
minha frustração, raiva e medo do futuro. Medo de ficar presa para sempre aqui,
medo de não conseguir me tornar alguém...
Após as aulas, eu voltava para casa (exausta), tomava um banho e começava
minha rotina de estudos. A verdade era um tanto vergonhosa: eu estava tentando
passar no vestibular de medicina há três anos.
E, sim: eu sei o que vocês devem estar pensando... Quem eu achava que era
para tentar ser uma médica?
Eu não era ninguém. Apenas Ana Lívia Villar, uma garotinha do interior,
sem dinheiro e sem pais.
Ao saberem do meu sonho, as pessoas pensavam: ela nunca frequentou um
cursinho, e ainda precisa trabalhar oito horas por dia. Como ela acha que irá
concorrer com todos os filhinhos de papai? Estudando com materiais de segunda
mão, sem acesso à internet?
Não dava. Na minha cabeça, eu sabia disso – mas meu coração se recusava
a aceitar. Era o meu sonho, a minha esperança de mudar de vida, de conhecer o
mundo lá fora. Só mais um ano, só mais uma vez – eu repetia para mim mesma,
toda vez que me deparava com mais uma reprovação.
Às vezes, tarde da noite, eu largava os livros e começava a chorar de
cansaço. Eu não tinha tempo livre aos finais de semana, nem tempo para
namorados ou amigos. Nada. Minha vida era só trabalhar, treinar e estudar.
Já era meia noite quando decidi fechar o livro de química e ir dormir.
Apaguei a luz do abajur e virei para um canto, caindo no sono em questão de
minutos. Ainda teria sete horas para dormir. Bom. Muito bom.
Naquela noite, sonhei com a minha mãe. Isso foi estranho. Desde que Cecília
morreu, ela nunca havia aparecido nos meus sonhos. Foi um sonho
estranhamente realista – ela estava sentada ao meu lado na cama, no pequeno
quartinho. Acariciava o meu cabelo e dizia:
Fique tranquila, minha filha. Você não ficará sozinha por muito mais tempo.
Ela está vindo te buscar.
No meu sonho, eu perguntava:
Como assim, mãe? Quem está vindo me buscar?
Minha mãe sorriu com benevolência.
Você logo verá, Lívia, sua vida vai mudar. Confie em mim.
Na outra manhã, quando acordei, franzi a testa ao lembrar-me do sonho. Meu
peito estava angustiado. Eu sentia algo de errado – uma intuição, um
pressentimento. Meus sonhos nunca me enganavam.
Saí para trabalhar com apenas uma certeza. Alguma coisa crucial estava em
vias de acontecer.

Naquele dia, o sonho me perseguiu. Não consegui prestar atenção no
trabalho. Quem poderia estar vindo me buscar? Eu não tinha parentes vivos.
Minha mãe morreu, nunca conheci meu pai. Não tinha avós, ou mesmo amigos...
Solitária por natureza.
A não ser...
Não. Balancei a cabeça para me livrar da ideia. Para ser totalmente honesta,
eu tinha um único parente vivo (mas era loucura demais pensar nisso).
Minha mãe nunca escondeu de mim o fato de eu ter tido uma irmã gêmea.
Vinte e um anos atrás, minha mãe deu à luz a duas meninas: Ana Lívia e Maria
Clara.
Na ocasião, minha mãe se encontrava abandonada e desempregada, sem
condições de nos criar. Nesse ínterim, um casal apareceu procurando um filho
para adotar. Dona Cristina intermediou tudo. Naquela época, e numa cidade do
interior, as coisas eram bem mais simplórias.
O casal queria apenas uma menina, e escolheram uma dentre as bebês –
Maria Clara. Minha mãe não pôde negar. Precisava dar a chance para uma de
suas filhas sair dessa vida miserável.
E foi assim que Maria Clara tinha sido adotada e ido embora com o casal,
tornando-me filha única.
Dona Cristina era a madrinha de batismo da minha mãe. Após o acontecido,
ela deixou Cecília e eu morarmos na casinha dos fundos, anexa à farmácia – e
deu um emprego para minha mãe.
Todas as noites, minha mãe e eu rezávamos para a Clara estar vivendo bem e
feliz, em algum lugar do mundo. Nenhuma de nós duas tinha esperança de revê-
la.
Eu não me ressentia disso. Cecília, minha mãe, tinha me provido com uma
vida alegre. Simples, porém boa. Nunca nos faltou comida, conforto ou amor.
Éramos só nós duas, morando em uma casinha pequena, sem qualquer luxo –
mas tínhamos uma à outra. E isso bastava.
Isto é, até ela morrer. Depois da morte de Cecília, eu nunca mais fui a mesma;
já fazia três anos desde a última vez em que eu havia me sentido realmente feliz.
Já nos últimos cinco minutos do expediente, um sedã preto parou na porta da
farmácia. Um carro luxuoso demais para ser de alguém dessa cidade. Um
homem de meia idade, forte e de óculos escuros desceu do banco do motorista.
Atravessou a rua e entrou na farmácia; tirou os óculos e se fixou em mim.
Analisou-me de cima a baixo, parecendo estarrecido.
– Boa tarde, senhor – cumprimentei. – Posso ajudá-lo? Estamos quase
fechando.
Ele murmurou, perplexo.
– Meu Deus. Então você existe mesmo.
Eu franzi o cenho.
– Como?
Ele não fez rodeios.
– Você é a Ana Lívia Villar? Filha de Cecília Villar?
Meu coração disparou – aí estava. Minha intuição nunca mentia.
– Sim – respondi, desconfiada, pois não podia ser boa coisa. – Por que quer
saber?
– Não, não. Não sou eu quem quero saber, é outra pessoa. E ela está bem
ali, naquele carro – apontou para o sedã luxuoso. – Ela quer te conhecer, veio até
aqui só para isso. Porque não vai até ela?
Olhei para o carro, sentindo-me acuada. Essa gente muito rica me deixava
desconfortável.
– Se a pessoa quer me ver, diga a ela para vir até aqui. Eu não vou entrar no
carro de um desconhecido.
Não sou idiota. E se fosse um traficante de mulheres? Um sequestrador? Um
maluco?
– Confie em mim, Ana Lívia – o homem tinha um quê de autoridade. – Quem
está ali é alguém que você gostará de conhecer.
Naquele momento, alguém no banco de trás do carro desceu o vidro escuro.
Era uma garota com porte refinado e óculos de sol. A garota ergueu os óculos e
mirou seus olhos em mim. Parecia chocada.
Perdi o ar ao vê-la.
– Puta merda.
Ela era exatamente igual a mim.
Maria Clara.


Não podia ser.
Eu me levantei lentamente, perplexa demais para reagir.
– Já sabe quem é, imagino. Por que você não vai até ela? Eu tomo conta do
lugar para você. – Garantiu o homem.
Olhei ao redor; não havia ninguém na farmácia, nenhum cliente.
– Tudo bem. – Com o coração disparado, atravessei a rua e parei bem à frente
da porta do carro.
Isso estava mesmo acontecendo? Nunca pensei que a veria outra vez.
Maria Clara me analisou de cima a baixo, tão mortificada quanto eu. Era
como olhar para um espelho. Éramos gêmeas univitelinas – absolutamente
idênticas.
Clara tinha um sorriso malicioso nos lábios.
– Que. Loucura.
Embora fossemos idênticas, minha irmã era uma versão melhorada de mim.
Não, falar isso era bondade demais; Maria Clara era uma versão altamente
melhorada. Sua pele era bem cuidada, e usava maquiagem e roupas visivelmente
muito caras. Seu cabelo caía em ondas macias e hidratadas até o meio das costas.
Uma mulher linda.
Já as minhas roupas eram de ponta de estoque. Minha pele nunca viu uma
esteticista na vida. E o meu cabelo? Bem, parecia mais uma bomba nuclear, sem
corte e cheio de frizz. Encolhi-me de constrangimento; doía olhar para ela, e ter a
noção exata da minha própria insignificância.
– Então eu finalmente te encontrei – ela disse.
– Não acredito que seja realmente você... – murmurei, atônita.
Ela bufou.
– Digo o mesmo, irmãzinha. Isso é bizarro.
– Por que... Por que você está aqui? – era como falar com um espelho.
Chocante.
Ela não estava aqui para conhecer Cecília, estava? Deus... Como eu contaria
para minha irmã que nossa mãe havia falecido?
– Entre no carro e conversaremos. É melhor assim.
Eu concordei com a cabeça e dei a volta no carro. Sentei-me no banco de trás
ao lado dela, mantendo certa distância. Isso era estranho demais. Tudo o que a
cercava – desde suas roupas até seu carro – pareciam caros em excesso. Muito
diferente do que eu conhecia.
Clara virou-se para mim e ergueu uma sobrancelha, analisando minhas
roupas, meu cabelo...
– Meu Deus. Que tipo de vida você levou nesse lugar?
Não gostei do seu tom desdenhoso. Senti o ímpeto de me defender.
– A vida que deu para levar. Eu fiz o melhor que pude. Não me envergonho
de nada, portanto pare de me medir.
Ela pendeu a cabeça para um lado, um sorriso estranho estampando o rosto.
Franziu a testa, tentando me entender (como se estivesse diante de um animal
selvagem).
– Que arisca. Já percebi que somos bem diferentes.
– Pois é. – Respondi secamente.
Ela ergueu uma sobrancelha.
– Você poderia ter me procurado. Eu tentaria te... Ajudar. Se é que existe
uma forma.
– Obrigada. Você está somente vinte e um anos atrasada.
Ela estalou a língua, divertindo-se com minha acidez.
– Bom, Ana Lívia, temos muito o que conversar. Eu fiquei sabendo sobre o
falecimento da Cecília, e sei tudo sobre a vida que você leva aqui. Seu emprego,
seu hobby no karatê, seus planos para a faculdade de Medicina...
– O quê? Espera – interrompi. – Como você sabe sobre tudo isso?
Sou arredia e desconfiada por natureza, pois a vida me ensinou a ser assim.
Nunca me deram nada na mão, sempre tive que lutar. Essa garota entrou na
minha vida de paraquedas e já sabia tudo sobre mim? Não gostei nem um pouco.
Maria Clara revirou os olhos.
– Hoje em dia existe uma ferramenta maravilhosa chamada: detetive
particular. Várias pessoas adotadas usam desse meio para encontrarem suas
famílias biológicas. Não foi grande coisa.
Ela comunicou o falecimento de nossa mãe com completa indiferença. Isso
fez com que eu me perguntasse: com que tipo de pessoa eu estava lidando aqui?
Maria Clara possuía uma astúcia, uma malícia que não havia dentro de mim.
Falar com ela era como falar com um general. Ela tinha uma voz de comando,
totalmente repleta de autoconfiança. Era como se a garota tivesse o mundo
inteiro domado sob os seus pés.
Perguntei.
– Se você já sabe que nossa mãe morreu, por que está aqui? Não foi só para
me conhecer, foi?
A verdade é que eu amaria conhecer (e abrir o meu coração) para ter uma
irmã de verdade. Não obstante, a zombaria nos olhos de Clara me entregava a
verdade pura e simples: ela não viera com intenções tão altruístas. Essa garota
não veio até aqui criar laços.
Essa garota armava.
Ela sorriu, ardilosa.
– Ah, não, Aninha, infelizmente não. Eu não quero uma amiga, já tenho
amigas demais... Eu quero uma aliada. Preciso de você para me ajudar.
– E o que você quer de mim? – fitei-a de soslaio, cheia de suspeita.
Maldito instinto, sempre acertava.
Ela suspirou, teatral.
– Como eu posso dizer isso sem soar muito chocante? – inclinou a cabeça
para um lado. – Não tem jeito, então sejamos diretas. Eu tenho muito dinheiro
para te dar, mas em troca você precisa fazer um favorzinho para mim.
Lá estava. Eu sabia que ela não estava aqui à toa.
– E o que seria?
– Eu preciso sumir por três meses, desparecer do mapa. Eu quero que você
assuma a minha vida e se passe por mim. Por três meses, fique no meu lugar.



CAPÍTULO 2

Meu queixo caiu.
Então era isso: minha irmã gêmea era maluca.
– O que você disse? Pirou? Está usando drogas?
Ela deu um sorrisinho sagaz, como se já esperasse minha reação.
– Eu sei que parece loucura, não sou idiota. Mas raciocine comigo: já faz três
anos que você tenta passar no vestibular. E não um vestibular qualquer: e sim o
mais concorrido. Você não tem tempo para estudar, não tem quem te apoie ou te
banque, e nunca terá. As pessoas que concorrem com você são dez vezes mais
preparadas. Não importa o quanto você tente as alcançar, se você não parar de
trabalhar e frequentar um cursinho de qualidade, nunca irá conseguir, entendeu?
Engoli em seco, pois ela estava tocando em uma ferida. Eu não estava
tentando há três dias – e sim há três anos. Várias derrotas consecutivas. Isso me
machucava, e Clara sabia disso.
Ela continuou.
– Eu sei que, por causa dos estudos, você não tem vida própria. Sei que é
desgastante e difícil. Meu detetive conversou com as pessoas que te cercam... Eu
sei que você não está feliz, Lívia. E eu posso te ajudar a realizar o seu sonho,
mas acontece que uma mão lava a outra, você sabe.
Eu me mexi, desconfortável.
A garota sabia tudo sobre a minha vida. Sentia-me invadida – e triste, e
sozinha. Ela escancarava meus maiores medos, e eu não tinha uma resposta.
Porque era verdade.
– E no que isso implica para mim?
Ela respondeu simplesmente.
– Eu posso pagar uma faculdade particular de Medicina para você.
– O quê?!
– Isso mesmo que ouviu – ergueu uma sobrancelha. – O vestibular de uma
faculdade de medicina particular é difícil? Sim, mas nem se compara ao de uma
federal. Você tem experiência, e passaria tranquilamente. Eu pagaria o custo
integralmente e de uma só vez. Você entraria na faculdade já com todas as
mensalidades do curso pagas, incluindo o material. Além do mais, posso te dar
mais 200 mil reais para você se manter nesses seis anos. Dá para você morar em
uma república e se alimentar, sem precisar trabalhar. Pode escolher a cidade que
quiser.
Eu a encarei, perplexa.
Isso facilmente somaria uns seiscentos mil reais.
– Você tem tanto dinheiro assim?!
– Tenho – deu de ombros. – Minha família adotiva é muito rica, e minha
conta poupança bastante gorda. Meus pais colocam dinheiro lá há anos. Se você
assumir a minha vida por três meses, passando-se por mim, todo esse dinheiro
pode ser seu. Seu futuro ficará garantido. Você vai ser uma médica e viverá
muito bem.
Massageei as pálpebras, pensando e repensando.
A oferta era tentadora, mas...
– Não, não dá, é loucura demais. Simplesmente não dá. Além do mais, isso
deve ser crime. – Não estávamos em um filme de Hollywood, pelo amor de
Deus. Coisas assim não aconteciam na vida real.
Clara respondeu.
– E é um crime. Mas não se preocupe, irmãzinha: se nós fizermos tudo
direitinho, ninguém irá descobrir. Além do mais, são apenas três meses; é muito
simples. Pense no seu futuro, não valeria a pena?
Valeria. Mas era loucura demais.
– Por que você está me propondo isso, afinal? A troco de quê? – encarei-a
com estranheza. Que tipo de louco pensaria em tal hipótese? – Por que você
precisa sumir? Por acaso está fugindo da polícia? Está indo cometer algum
crime?
Eu não queria ir para a cadeia, obrigada.
Ela revirou os olhos.
– Não é nada disso, não fique paranoica. Eu preciso cuidar de uns assuntos
pessoais, mas ninguém pode saber (nem mesmo minha família). É coisa minha.
Se você ficar no meu lugar por três meses, vivendo a minha vida em segredo,
ninguém sairá prejudicado. Eu faço o que tenho que fazer, e você garante o seu
futuro. Ninguém precisará saber da sua existência. Você vai embora da minha
vida da mesma forma que entrou: em segredo e silenciosamente.
Eu me recostei no banco do carro, confusa.
– Não sei, não. Isso é insano.
Tinha tudo para dar errado.
Maria Clara suspirou.
– Vamos fazer o seguinte, então: não precisa me responder agora. – Tirou um
cartão de visitas da bolsa e o estendeu para mim. – Tome, fique com o meu
número, eu te dou vinte e quatro horas para pensar. Se decidir entrar nessa
comigo, me ligue.
– Tudo bem – peguei o cartão, querendo sair dali e ficar sozinha com meus
pensamentos. Precisava digerir aquilo. – Eu tenho que ir, preciso fechar a
farmácia.
Ela segurou meu braço enquanto eu saía do carro.
– Pense bem, irmãzinha, pense muito bem. Minha proposta pode mudar a sua
vida.
Eu sabia disso.
– Pensarei.
E então eu saí do carro, entrei na farmácia e observei minha irmã ir embora
com seu motorista. Eu teria que ser uma pessoa muito louca para aceitar aquela
proposta... Ou muito decidida.
Maria Clara conseguiu dar um tiro de mestre. Acontece que eu era um pouco
dos dois.

Eu pensei e repensei mil vezes no que havia acontecido.
Quando mais ponderava, mais confusa ficava.
Não consegui pregar os olhos naquela noite. No outro dia, fui até a única lan
house da cidade e acessei a internet. Pesquisei no Google sobre que tipo de
crime configuraria se passar por outra pessoa. O primeiro site me mostrou o
seguinte:
CRIME DE FALSA IDENTIDADE (Artigo 307, Código Penal).

Atribuir-se ou atribuir a terceiro falsa identidade para obter vantagem em


proveito próprio ou alheio, ou para causar dano a outrem: Pena: Detenção, de 3
(três) meses a 1 (um) ano, ou multa, se o fato não constitui elemento de crime
mais grave.

– Cacete – enterrei o rosto nas mãos.
Detenção de três meses a um ano.
Mas era o meu futuro em jogo. Uma faculdade de medicina, dinheiro para me
manter por seis anos (sem ter que trabalhar à noite ou finais de semanas). Eu
realizaria o meu sonho, e mudaria a minha vida. Essa seria a minha única chance
de sair daqui, de ser alguém diferente.
Naquele dia, avisei Dona Cristina que não estava me sentindo bem, e faltei
ao trabalho. Como eu nunca faltava, ela não reclamou.
Tentei fazer o que eu nunca tinha tempo: tirar um cochilo na parte da tarde,
mas minha mente não permitiu. Rolei pela cama por horas – pensando e
repensando.
Eu poderia aceitar aquela proposta? Que tipo de vida Maria Clara levava?
Quem eu teria que enganar? E se fôssemos descobertas?
Ela tinha uma família rica e poderia pagar os melhores advogados. Eu, não.
Exaurida, acabei pegando no sono horas depois. E, então, tive o mesmo
sonho da noite passada: minha mãe sentada ao meu lado na cama, me passando
um aviso incomum.
Fique tranquila, minha filha. Você não ficará sozinha por muito mais tempo.
Ela estava vindo te buscar. Sua vida vai mudar, confie em mim.
Acordei de repente, sobressaltada – meu Deus, como eu não havia percebido
antes?! De onde quer que estivesse, minha mãe estava me mandando um aviso!
Confie em mim, ela dissera. E eu confiava em Cecília mais do que tudo
nessa vida. E, se ela acreditava em Maria Clara, então eu já tinha tomado uma
decisão. Era o meu futuro em jogo, então eu precisava tentar.
Peguei meu celular antigo e disquei o número do cartão de visitas. Maria
Clara atendeu com uma risada maliciosa.
– Eu sabia – estalou a língua. – Você foi rápida, irmãzinha.
Ignorei seu sarcasmo. Sou o tipo de pessoa que vai direto ao ponto.
– Eu aceito sua proposta, mas tenho os meus termos. Pode vir me buscar.



No outro dia, o carrão de Maria Clara estacionou na porta da minha casa.
Eu desci com uma mala simples. Já havia deixado uma mensagem para a Dona
Cristina, avisando que passaria três meses fora.
Inventei uma história qualquer sobre um cursinho pré-vestibular na cidade
vizinha; não podia gerar suspeitas.
Clara estava hospedada em Belo Horizonte, a cidade grande mais próxima
de Campina Bela (apenas uma hora de distância). No caminho para lá, minha
irmã me contou sobre os aspectos da sua vida, e o que eu teria que fazer ou não
fazer.
Clara me contou que morava em São Paulo, capital. Ela tinha sido adotada
por um casal rico, dono de uma rede de Hotéis espalhados pelo Brasil. Seus pais
se chamavam Stela e Tomás Santorini, e ela não tinha outros irmãos.
Cursava faculdade de Gestão de Negócios em uma rede de ensino particular
– a mais cara e mais seletiva de São Paulo (apenas para a elite). Estava no
segundo ano.
Ela também me contou sobre suas duas melhores amigas e seu namorado.
Essa última parte me intimidou, pois eu não tinha muita... Experiência. Nunca
tive namorado ou muitos amigos. As pessoas me achavam esquisita.
E elas tinham toda razão: eu era esquisita. No entanto, eu possuía um motivo
muito justo para sê-lo. Um segredo que eu não contaria para ninguém.
Mas isso é um assunto para mais tarde.
Resmunguei:
– Essa história de namorado não vai dar certo...
– Relaxe – Clara revirou os olhos. – São só três meses, e o Thales não vai te
causar problemas. Ele não é obcecado com... Hã, contato físico. Ele é bem seco
em relação a isso, na verdade. Deve ter outras por aí, mas eu não estou nem aí.
Se ele te procurar sexualmente, invente uma desculpa. Ele não vai ficar pegando
no seu pé. Sabe entender quando leva um não. Você vai gostar muito dele, na
verdade... É um cara carismático. Apenas vá levando a situação nesses três
meses, e logo vai acabar. E, claro, não destrua o meu relacionamento. Quero
voltar e encontrar a minha vida absolutamente intacta, entendeu?
Bufei.
– Eu vou fazer o meu melhor, mas não posso prometer nada. Apesar de termos
a mesma cara, eu não sou você.
Ela me encarou de cima a baixo.
– Percebe-se.
Cerrei os dentes. Odiava aquele olhar que ela me lançava – como se eu
pertencesse a uma espécie inferior da raça humana. Ou como se eu fosse um
inseto.
Maria Clara não era a pessoa que eu esperava que fosse (e isso me deflagrava
certo medo). Como seriam as pessoas de sua vida? Seriam tão cínicas e maldosas
quanto ela?
Eu aguentaria o tranco? Suspirei, abrindo uma garrafa de água e tomando um
gole. Só mesmo pagando para ver.
Ela continuou a falar e falar, autoritária e pretensiosa, contando os detalhes
da vida que levava.
– Ah, a propósito... Meu nome não é mais Maria Clara. Meus pais me
registraram com outro nome: Mia Santorini.
Eu quase cuspi a água que estava bebendo. Quem diabos se chamava Mia?
Eu hein. Essa gente rica não bate muito bem.
– Hã, ok.
Ela não se abalou.
– Pode rir, mas levar o nome Santorini tem um peso magnífico. Em breve
você verá. A sociedade paulista respeita muito minha família. Temos dinheiro,
dignidade e classe. Logo, você deve agir como tal, não estrague tudo.
Segurei um rosnar.
– Mais alguma ordem, general?
– Sim. Precisamos dar um jeito na sua cara, e na sua sobrancelha, e, puta
merda, no seu cabelo... Santo Pai, você precisa de uma revolução. Ou de um
milagre.
Quando eu achava que essa garota não podia piorar, ela me surpreendia.
Decidi tentar parar de gostar de Maria Clara – era uma tarefa impossível.
Melhor focar apenas no plano.
Enquanto adentrávamos nos primeiros bairros de Belo Horizonte, Clara... Ou
melhor, Mia, me perguntou.
– Existe alguma coisa sobre você que eu precise saber? Já estou com o plano
todo arquitetado na cabeça. Não quero ser pega de surpresa.
Eu engoli em seco, fitando-a de soslaio. Lembrei-me do meu segredo. Além
de Cecília, ninguém nunca soube da minha... Peculiaridade. E nunca saberiam.
Minha mãe sempre me orientou: Lívia, nunca conte isso para ninguém, ficou
claro? Eles vão te taxar de louca, te excluir. Leve esse segredo para o túmulo
com você. É para o seu próprio bem.
E minha mãe tinha toda a razão. Esse segredo, eu guardaria a sete chaves.
– Não – menti. –Você já sabe tudo o que é crucial.
– Ótimo – ela não desconfiou, e voltou a tagarelar sobre sua vida.
Ao chegarmos à linda Belo Horizonte, Mia, eu e seu motorista, Félix, fomos
a um restaurante.
Félix tinha cerca de cinquenta anos, e parecia conhecer Mia há muito tempo.
Eles tinham uma relação paternal. Ao contrário de Mia, Félix era uma pessoa
centrada, justa e sensata. Mia era a bomba atômica que ele tentava controlar.
Aparentemente, Félix era o seu comparsa em toda essa loucura. O único
que sabia sobre a minha existência e advento do nosso plano. Todavia, eu
desconhecia sua razão para apoiar Mia nessa empreitada. Por que um homem tão
sensato embarcara em tal insanidade?
Bom, ele deveria ter os seus motivos...
Mia deixou bem claro que não me contaria sobre suas próprias motivações
para querer sumir, e eu não perguntei. Afinal, eu também guardava os meus
segredos.
Após almoçarmos, fomos até um salão de beleza. Situava-se na região mais
luxuosa de Belo Horizonte (um lugar que, em outras circunstâncias, eu nunca
pisaria).
Mia orientou o cabeleireiro sobre minha transformação – e então a tortura
começou.
Me beliscaram, cutucaram, lavaram e esfoliaram até a alma. Fiz as
sobrancelhas, retirei cada pelo do corpo, pintei as unhas, limpei a pele... Foi
quase um filme de terror. Mia parecia em êxtase – e, eu, como se estivesse sendo
torturada.
Mia e eu tínhamos cabelos longos, até o meio das costas. Os dela, entretanto,
possuíam mexas cor de mel, que lhe conferiam brilho e vivacidade (ao contrário
do meu castanho opaco). Ela tinha um corte luxuoso e os fios hidratados.
Já os meus, não possuíam corte nenhum – nem cor, nem vontade de viver.
Um desastre sísmico. O cabeleireiro quase chorou (e eu também).
Não obstante, após algumas horas, ele cortou, pintou e hidratou nos lugares
certos. Quando terminou, virou minha cadeira e eu me olhei no espelho.
Então meu queixo caiu e quicou no chão.
– Puta merda.
Eu estava... Linda. Pela primeira vez na vida.
Sobrancelhas bem-feitas e arqueadas; pele brilhante, cabelos macios...
Parecia outra pessoa.
Mia tinha a expressão perplexa.
– Armando, você operou um milagre.
O cabeleireiro revirou os olhos e abanou o ar, orgulhoso.
– Eu sei, queridinha. É isso o que eu faço.
Mia se abaixou e ficamos lado a lado na frente do espelho do salão. Ambas
percebemos a mesma coisa: nós estávamos idênticas. Meu corte de cabelo,
sobrancelhas e maquiagem eram exatamente iguais aos dela.
Poderíamos ser a mesma pessoa.
Ela abriu um sorriso ardiloso.
– Agora sim, irmãzinha. Vamos colocar nosso plano em ação.



Já no quarto do hotel, Mia me entregou cópias dos seus documentos: uma
identidade, um passaporte e uma carteira de motoristas falsificadas. Ela
precisaria levar consigo as originais.
Soltei uma risada meio histérica.
– Ah, que bom! Falsificação de documentos. Mais um crime para a nossa
lista! Sinto-me bem mais tranquila.
Ela rosnou:
– Argh, pare de ser tão covarde. Nós já vamos burlar a lei mesmo, o que é um
crime a mais e outro a menos? Não faz diferença.
– Fale por você. Você provavelmente está indo de férias para o Caribe, mas
eu estou assumindo a identidade de outra pessoa. Não é nenhum parque de
diversões.
Mia me mostrou um mapa da sua faculdade e do caminho da sua casa.
Também me entregou a chave do seu carro. Por sorte, eu sabia dirigir – Dona
Cristina pagou as aulas para que eu conseguisse me habilitar. Eventualmente,
precisava fazer algumas entregas de remédios.
Também me entregou seu celular. Como eu nunca tive nenhuma rede social,
Mia teve que me ensinar o passo a passo.
Como minha gêmea deixaria todos os seus itens pessoais comigo, ela
resolveu fazer compras. Celular, bolsa, uma mala cheia de roupas... Normal.
Mia me mostrou suas fotos no celular e apresentou, analiticamente, detalhes
do seu estilo de se vestir. Ela adorou a aula, e eu detestei. Para não levantar
suspeitas, eu teria que me vestir como ela – e não errar. Mia Santorini tinha uma
reputação a zelar (segundo a própria).
Já para mim, aquilo não passava de um monte de bobagem.
Nós ficamos cerca de quatro dias no hotel, preparando-nos para a empreitada.
Mia me ensinou alguns princípios básicos do seu curso – um apanhado geral, de
modo que eu não passasse vergonha nas aulas da faculdade. Contou-me sobre a
personalidade dos seus amigos, quem pertencia a qual grupo, quem namorava
com quem...
E o mais importante: Mia sabia lidar com todas as variáveis do plano. Ela
tinha a consciência de que, mais hora, menos hora, eu iria deslizar. E ela estava
preparada para isso.
Nós inventaríamos uma pequena mentirinha.
Para os pais, Mia estava em Florianópolis, aproveitando o feriado
prolongado em algum resort. No entanto, ela sofreria um pequeno acidente de
carro. Bateria com a cabeça e ficaria um tanto quanto... Confusa. Teria amnésia
temporária, e esqueceria algumas coisas. Nada demais. Apenas precisávamos
que eles acreditassem que minha mudança de personalidade se devia ao acidente.
Compramos curativos e arquitetamos a farsa. Eu teria até uma tala no braço
esquerdo – ideia dela.
Deus, essa garota era realmente louca.
No quarto dia, Félix foi até a locadora de carros devolver o sedã luxuoso.
Enquanto o esperávamos, Mia ligou para o seus pais e contou do acidente. Ouvi
muitos gritos advindos do outro lado do telefone. Mia chorou de forma
profissional; ela era uma atriz digna do Oscar, e enganava os pais com a maior
facilidade.
Totalmente dissimulada.
Em seguida, foi a vez de ligar para as amigas e encenar a farsa. Ela queria
garantir que, quando eu chegasse, não tivesse que me explicar. Mia considerava
suas duas melhores amigas os maiores desafios de nosso plano (pois ambas a
conheciam bem demais).
Quando Félix retornou, pegamos um táxi até o aeroporto. De lá, embarcamos
em um avião para São Paulo.
Eu não tinha passaporte – e duas Mias Santorinis não poderiam embarcar ao
mesmo tempo, é claro. Entretanto, viagens em solo nacional apenas exigiam a
carteira de identidade.
A viagem foi muito rápida. Ao desembarcarmos, meu coração disparou no
peito.
Eu estava mesmo fazendo isso? Que loucura.
No banheiro do aeroporto de São Paulo, começamos os preparativos. Eu
troquei de roupa e coloquei a tala no braço. Passei maquiagem e troquei meus
tênis por saltos altos. Mia jogou minhas roupas antigas no lixo sem piedade (e eu
poderia socá-la por isso).
Quando fiquei pronta, nos despedimos. Ela colocou as mãos sobre meus
ombros.
– Fique calma, vai dar tudo certo. Eu já te passei o número do meu novo
celular, e se tiver alguma dúvida, é só me ligar. No mais, apenas siga o plano,
ok? O Félix estará do seu lado para ajudar.
– Ok. – Não confiava na minha voz.
Agora que isso estava acontecendo, eu percebia o tamanho da loucura. Eu
repetia como um mantra: duzentos mil reais, faculdade de medicina.
Ela continuou.
– Vamos repassar as regras uma última vez: mantenha os meus
relacionamentos intactos. Quero a minha vida exatamente igual à que eu deixei.
Não se relacione com mais ninguém, foque no plano. Não se destaque muito,
nem me cause problemas. E o mais importante: sob hipótese alguma, conte a
verdade a alguém. Nem se colocarem uma arma na sua cabeça, entendeu? Isso
sim irá nos ferrar.
– Arma na minha cabeça? – quase berrei.
Eu estava um pouco histérica (talvez um tapa ajudasse).
– É só forma de falar, imbecil. Agora vá, Félix irá te levar para a minha casa.
Respirei fundo, colocando os óculos escuros.
– Então é isso, até mais. Te vejo em três meses.
Ela se recostou na pia, expressão diabólica e um pouco insana, como se
estivesse se divertindo. Mia devia ter algum traço de psicopatia.
– Tchau, irmãzinha, boa sorte. Divirta-se sendo eu.
Eu acenei com a cabeça e saí do banheiro, o coração disparado. Enquanto eu
andava pelo aeroporto – com minhas roupas caras, salto alto e óculos escuros –
as pessoas me olhavam.
Aquilo foi uma experiência totalmente nova para mim, vez que nunca chamei
a atenção na vida.
Os homens me olhavam com desejo – e, algumas mulheres, com inveja. Mia
Santorini realmente tinha estilo. Depilada, esfoliada, escovada e maquiada, eu
acabei me tornando uma mulher linda.
Esses primeiros minutos na pele dela já estavam sendo interessantes. Só
esperava não estragar tudo e terminar na cadeia, obrigada.
Félix me esperava na porta do aeroporto.
Ergueu uma sobrancelha quando me viu.
– Ana Lívia ou Mia? Até eu estou confuso.
– Eu sou... – minha frase foi interrompida por um leve tropeço com o salto
alto. – Merda.
Maldita ferramenta de tortura.
– Ah, é Ana Lívia. Não precisa nem responder – ergueu a mão, com uma
careta de divertimento. – Vamos para a casa. Teremos que ir de táxi, sinto muito.
O carro ficou na mansão.
Ah, sim: o carro ficou na mansão. Normal.
Após pegarmos um táxi e adentrarmos na cidade, meu queixo caiu no chão.
São Paulo era uma cidade imensa – repleta de prédios altos e luxuosos,
barulho de buzinas, diversidade e sofisticação. Havia imensas avenidas, praças e
pontes para todos os lados. Deslumbrada, eu encarava a cidade fervilhante
através da janela do táxi.
Então essa era a vida que a Mia levava? Meu Deus.
Descobri que a viagem de carro de um bairro a outro em São Paulo poderia
demorar horas. Eu não estava acostumada. Na minha cidade, você poderia ir
para qualquer lugar a pé.
Meu coração quase pulou para fora do peito quando chegamos ao bairro em
que Mia morava: Vila Nova Conceição, um dos bairros mais caros de São Paulo.
Adentramos em um condomínio fechado. Em meio às dezenas de mansões
luxuosas, a de Mia se destacava. Consistia em uma enorme casa branca, com
dois andares, janelas imensas e colunas suntuosas. À frente, havia uma escadaria
e um jardim (não acreditei que pessoas realmente pudessem morar em lugares
assim).
Paguei o táxi com o dinheiro da carteira de Mia e descemos. Eram três horas
da tarde, e, segundo meu estudo detalhado da rotina de Mia, seus pais estariam
trabalhando. Melhor assim.
Félix levou-me até a porta e entregou-me a chave. Ele se despediu e me
desejou boa sorte. Relembrou-me por três vezes sobre manter o segredo, não
errar e não ferrar com tudo. Félix era realmente fiel à Mia.
Enquanto ele me passava o sermão, eu acenei nas horas certas, pois não
conseguia falar – minhas pernas tremiam.
Que diabos de situação eu estava me metendo aqui?
Quando fui deixada sozinha, virei-me para a porta e respirei fundo.
– Mia Santorini, aí vou eu – murmurei e abri a porta.
Ai. Meu. Deus. Olhem essa casa.
O interior da casa de Mia era escandalosamente caro. Piso brilhante, móveis
luxuosos, lustres, uma escadaria central... Tudo pensado com muito refinamento.
Mia contou-me que sua mãe era dotada de um enorme bom gosto.
Stela, sua mãe adotiva, era uma advogada especialista em direito
empresarial. Trabalhava para as melhores firmas de São Paulo. Seu pai, Tomás,
era o herdeiro da rede de hotéis Santorini, e trabalhava administrando a mesma.
Eu sentia uma crise de pânico chegando só de pensar em encontrá-los. Será
que eles não perceberiam que sua própria filha havia sido trocada? Não sei,
não... Mia estava os subestimando demais.
Três empregadas trabalhavam na região principal da casa. Acabei dando de
cara com elas enquanto subia as escadas. Usavam uniformes e me fitavam com
certo amedrontamento; claramente, Mia metia medo nelas.
– Senhorita Mia – uma delas me cumprimentou, abaixando a cabeça.
Senhorita? Estávamos no século XIX?
Lembrei-me das ordens de Mia: aja como eu agiria. Então, apenas acenei
com a cabeça indiferentemente.
Outra dentre as três empregadas se manifestou.
– Você gostaria que levássemos sua mala para o seu quarto?
Falem sério. A garota não carregava nem a própria mala?
– Hã, deixem-na na porta do meu quarto, por favor – balbuciei. Eles
paralisaram diante do meu por favor. Aparentemente, Mia não era tão educada.
Clareei a garganta e adicionei: – E não me chamem para nada. Não quero ser
incomodada.
Então dei as costas a elas e saí correndo escada acima. Eu só estava há dois
minutos nessa casa, e já tinha começado errando.
Muito bem, Ana Lívia. Vamos sair daqui direto para a prisão.
No imenso corredor, demorei algum tempo para encontrar o meu quarto.
Quando finalmente o encontrei, fiquei deslumbrada; Mia não brincava em
serviço.
O quarto consistia em um ambiente amplo, com janelas de fora a fora.
Cortinas brancas e suaves, papel de parede cor creme, enfeitado por minúsculas
flores cor-de-rosa. Havia um lustre central e uma enorme cama box king, repleta
de almofadas.
Ao canto, havia uma porta que desembocava no closet. Quando adentrei no
lugar, segurei um palavrão. Não parecia real.
Fileiras e fileiras de sapatos, roupas, acessórios, bolsas... O closet de uma
rainha. Mas, no fim das contas, era exatamente nessa categoria em que Mia
Santorini se enquadrava, não é? Uma rainha moderna.
Luxo, estilo, poder e dinheiro: ela tinha tudo isso. Sentei-me no chão do
closet, admirando toda aquela riqueza. Como algumas pessoas tinham tudo,
enquanto outras tinham nada?
Fiquei lá por um bom tempo, pensando no que estaria por vir. Empurrei o
medo para o fundo da garganta, tentando me convencer de que não deveria ser
tão difícil fingir ser Mia... Eu poderia fazer isso.
Não – eu teria que fazer isso. Por mim, pelo meu futuro.
A verdade era que eu não queria nenhum luxo na vida. Eu só queria conseguir
me formar na profissão que eu amava, comprar um pequeno apartamento, e
talvez... Talvez até tentar ser feliz. Fazer alguns amigos.
Viver, e não apenas sobreviver.
Esconda o seu segredo – relembrei a mim mesma. E não apenas o segredo de
estar usurpando a vida de Mia Santorini. Meu segredo principal era algo bem
pior. Algo que me impedia de sair de casa, de fazer amigos...
Três batidas na porta interromperam meus pensamentos. Era uma das
empregadas com uma bandeja de comida: croissants, suco de laranja, salada de
frutas. Revirei os olhos quando a ajudante foi embora – até a comida dos ricos
era diferenciada.
Após comer, tomei um banho, vesti um dos pijamas de seda guardados no
closet e fui desbravar os cantos do quarto. No interior da gaveta da penteadeira,
encontrei um diário.
Uau, isso era ouro para mim! Saber informações íntimas da minha gêmea me
viabilizaria entendê-la profundamente. Só assim eu poderia me passar por ela
com total veracidade.
– Sinto muito, irmãzinha – murmurei desculpas, vez que estaria invadindo sua
privacidade.
Mas negócios eram negócios. Deitei-me na cama e passei quarenta minutos
lendo os detalhes da sua vida.
Para minha surpresa, embora Mia Santorini fosse uma princesa moderna, ela
não era uma garota feliz.
Primeiramente: ela não tinha paciência para lidar com os pais. Além do mais,
sabia que suas melhores amigas a odiavam em segredo – o lado ruim de ser uma
abelha-rainha.
Contudo, o mais surpreendente eram as considerações sobre seu namorado,
Thales Mourão.
Eles namoravam há um ano, mas Thales não era o homem que ela amava.
Pelo que Mia escreveu no diário, Thales era um dos mais ricos e populares da
faculdade – portanto o primeiro alvo óbvio para ela. Thales era carinhoso, mas
os dois não eram apaixonados. Eram mais amigos do que tudo. Thales não a
procurava para relações íntimas, portanto Mia concluiu que ele também estava
com ela por conveniência.
Nesse meio de pessoas muito ricas, namoros eram contratos de negócios.
Os Mourão eram donos de uma imensa agência de turismo internacional, e os
Santorini eram donos de uma rede de hotéis. O namoro de Mia e Thales foi um
laço de negócios oportuno, que aproximou as duas famílias (e fez ambas
lucrarem rios de dinheiro).
Os pais de Mia não a pressionaram a isso – foi ela quem viu a oportunidade e a
agarrou. Mia não se importava com amor: ela se importava com poder. E status,
e hierarquia. Em seu meio social, havia uma hierarquia definida, e o namoro com
Thales a possibilitou ascender na cadeia social de forma estratosférica.
Bom para o seu status, bom para o bolso de sua família.
Mia, é claro, traía Thales com frequência. Ela narrava detalhadamente suas
aventuras íntimas com vários caras que conhecia nas baladas de São Paulo.
Todavia, sua consciência não pesava, pois tinha certeza que Thales também
pulava a cerca.
Afastei o diário, a testa franzida. Peguei-me sentindo um pouco de pena da
minha irmã.
A vida dela era uma teia de falsidade e de interesses. Seu namorado não a
amava; e, suas amigas, também não. Ela era temida, e não querida.
Com leve repulsa, fechei o diário e...
A porta explodiu de repente – e eu quase caí da cama. Uma mulher eufórica
entrou no quarto.
Ah, não. Eu sabia quem era.
– Filha! – Stela avançou para a cama, um sorriso rasgando o rosto. Não tive
tempo de pensar, pois ela me enganchou em um abraço. – Que saudade! –
plantou beijos na minha cabeça. Era um ataque de amor. – Meu Deus, você está
machucada... Me conta tudo sobre o acidente, eu e seu pai quase morremos de
preocupação.
Eu tentei me desvencilhar, muito constrangida. A mãe de Mia ergueu as
palmas e se afastou, rolando os olhos.
– Eu sei, eu sei, você não gosta de contato físico. E nem que invadam seu
quarto. Vou bater da próxima vez. É que eu estava morrendo de preocupação.
Observei Stela: era uma mulher esguia e bonita; cabelos castanhos, olhos
claros e rosto delicado. Usava um terninho de advogada. Tinha um perfume
estranhamente reconfortante... Ela me fitava com preocupação e amor evidentes.
Agora que eu a conhecia pessoalmente, ficava mais difícil ainda enganá-la.
Ela não merecia isso.
– Hã – coloquei uma mexa de cabelo atrás da orelha, tentando esconder meu
desconforto. – Não foi nada demais, é sério.
Ela franziu o cenho.
– Você está estranha, está passando mal? Fez alguma besteira? Ah, não –
arregalou os olhos. – Foi parar na cadeia por dirigir bêbada outra vez, não é?
Pode falar.
Eu ri diante do desespero dela. Mia deveria ser mesmo um furacão criador de
problemas.
– Não foi nada disso, mãe.
– Mãe?! – ela se chocou. – De onde veio isso? Você só me chama de Stela.
Puta merda, que furo.
– Eu disse mãe? – ri um tanto histérica. – É que o acidente me deixou
desorientada, bati com a cabeça.
– Só assim mesmo para você me chamar de mãe – parecia decepcionada.
Sentou-se na beirada da cama. – Me conte sobre o acidente em detalhes. Você já
me falou por telefone, mas eu quero ouvir outra vez.
Repeti a história combinada com Mia: eu estava em Florianópolis, indo
encontrar umas amigas na praia. Peguei um Uber – mas no trajeto, o carro bateu
na traseira de outro carro. Eu estava no banco de trás, sem cinto de segurança.
Machuquei o braço e bati a cabeça no banco à minha frente.
A leve concussão me deixou desorientada, e eu poderia ter esquecido alguns
detalhes da minha rotina. A tala em meu braço só ficaria por mais uma semana.
Stela me fez repetir a história várias vezes, enchendo-me de perguntas.
Preocupação estampava seu rosto. Enquanto eu ouvia ela me passar um sermão
(e chorar no meio do mesmo), percebi que Mia era muito amada. Stela a adorava
de todo o coração – e essa era a verdadeira riqueza de Mia.
Depois que a minha mãe morreu, eu não tive muito amor na vida. Só
estudava e trabalhava, e era muito solitária. Fazia anos que eu não abraçava
ninguém. Aquele furacão de amor que Stela estava me dando, deixou-me um
tanto... Balançada.
Algum tempo depois, foi a vez do pai de Mia explodir pela porta.
– Mia Santorini! – ele apontou um dedo para mim, avançando para a cama. –
Você está encrencada.
Enquanto eu engolia em seco, ele emendou.
– Mas podemos deixar o castigo para depois – e me enganchou em um
abraço. Mais uma dose cavalar de amor.
Tomás era um homenzarrão – com feições fortes, mas olhos gentis. Tinha
cabelos escuros, que se mesclavam aos fios grisalhos. Ele me encheu de
perguntas: você foi ao hospital? Quer algum remédio? Acha de deveria ser
internada? Parecia altamente preocupado.
Enquanto isso, eu aproveitava aquela experiência totalmente nova – a de ter
um pai. Isso eu nunca tinha experimentado. Foi a primeira vez que realmente
senti inveja da vida de Mia.
Tomás também comentou sobre minha mudança de comportamento.
Segundo ele, eu estava mais calma e mais paciente. Ele estranhou o fato de eu
ainda não tê-los expulsado do quarto. Aparentemente, Mia não tinha paciência
para conversar com os pais.
Apesar disso, eles não desconfiaram de nada. Eu tinha a concussão como
desculpa para a mudança de comportamento, afinal; logo, eles concluíram que
eu estava apenas confusa.
Por mais que eu tentasse, não podia imitar Mia cem por cento. Embora
fôssemos idênticas, cada uma tinha um tom de voz, um trejeito, uma forma de
reagir... Mia foi genial ao inventar a história do acidente.
De noite, após o jantar, Stela e Tomás assistiram a um filme na sala de estar.
Perguntaram-me se eu queria me juntar a eles, e eu aceitei. Ambos ficaram muito
surpresos.
Stela se empolgou.
– Sério?!
– Você está mesmo bem? – Tomás estreitou as pálpebras. – Acho melhor te
levarmos ao médico.

Revirei os olhos, fingindo não me importar.
– É só um filme, gente – revirei os olhos, fingindo não me importar. –
Aproveitem enquanto ainda estou boazinha. Nunca se sabe até quando o efeito
dessa concussão irá durar.
Os pais de Mia não reclamaram mais. Felizes, me deixaram até escolher o
filme.
Nós nos sentamos aninhados no enorme sofá da mansão, as luzes apagadas e
um balde de pipoca no colo. Stela e Tomás gargalhavam com a comédia que
escolhi, mas eu não prestei muita atenção ao enredo.
Meu coração estava preso àquele momento único: assistir a um filme junto
aos meus pais. Mesmo que fossem pais de mentira. Eu era uma órfã e nunca
mais teria um momento desses na vida. Em breve, a farsa acabaria, e eu voltaria
a ser sozinha no mundo.
Por isso, aproveitei cada segundo daquela experiência.
Aqueles dois amavam e cuidavam da Mia. Se ela precisasse de comida, de
educação ou de socorro, eles estenderiam a mão. Eles eram sua âncora na vida, e
enquanto estivessem aqui, ela jamais estaria sozinha.
Eles me entregavam a pipoca, perguntavam a minha opinião sobre o filme e,
vez ou outra, faziam um leve carinho em meus cabelos. Por um momento, eu
fingi que aquela garota que eles amavam era eu.
Guarde na memória, Lívia.
E eu guardei. Observando-os, cravei aquele momento nas reentrâncias mais
profundas do meu coração.










CAPÍTULO 3

No outro dia, acordei cedo para me preparar para o dia de aula.
Mia estudava na Universidade São Valentim, uma das mais tradicionais de
São Paulo. Sua mensalidade custava uma pequena fortuna, e apenas a nata
paulistana poderia pisar naquele lugar. Eles eram muito seletivos.
Os filhos dos empresários ricos estudavam com os filhos de outros
empresários ricos por um motivo: contatos. Nada era por acaso. A rede de ensino
São Valentim começava no primário, indo até o nível universitário. De lá, os
alunos saíam mais que amigos: era uma verdadeira fábrica de parceiros de
negócios.
Curiosamente, não havia aulas de manhã – os alunos riquinhos não iriam
acordar cedo, é claro. Também não havia aulas à noite, vez que ninguém
precisava trabalhar durante o dia. Todas as aulas aconteciam na parte da tarde; só
mesmo um lugar de elite poderia se dar a tamanho luxo.
Eu me vesti segundo as orientações de Mia: uma saia branca de seda e uma
blusa cor-de-rosa, com caimento suave – sem deixar de ser sensual. Brincos,
saltos altos e maquiagem. Tentei imitar exatamente o que Mia me obrigou a
aprender sobre todo aquele pó que ela passava na cara. Não foi fácil.
Uma bolsa Fendi completava o visual. Ao olhar-me no espelho, dei uma
gargalhada.
Quem diria que eu, Ana Lívia, algum dia me vestiria assim, cheia de
frescura? Esse era um momento histórico!
Stela e Tomás estavam no trabalho, por isso não tive que me despedir deles
ao sair de casa. Que bom. Quanto menos contato, menos a chance de escorregar
no meu disfarce (além do mais, eles amoleciam o meu coração e tiravam o meu
foco).
Adentrei na garagem da mansão e reconheci o carro de Mia: um Mini Cooper
Coupé amarelo. Elegante e berrante.
Bufei – isso era a cara da minha irmã. Toda patricinha paulistana de respeito
deveria ter um desses.
Liguei o GPS e saí da mansão, os nervos em frangalhos.
Aí vamos nós.
Dirigir o carro da Mia foi fácil, vez que consistia em um modelo automático.
Difícil mesmo foi me acostumar ao trânsito caótico de São Paulo. Parecia uma
selva de pedra enlouquecida, e eu não estava acostumada a isso. Mesmo com o
GPS, errei várias vezes e fiquei dando voltas; felizmente, tinha saído cedo e não
me atrasei.
A Universidade São Valentim ficava em um bairro tão luxuoso quanto o da
casa de Mia. Quando adentrei em seus portões de ferro, engoli em seco – que
lugar.
Consistia em um conjunto de prédios elegantes, construções de tijolos
vermelhos ao estilo neoislâmico – o que conferia ao lugar ares românticos e
opulentos, típicos de séculos passados. Os prédios eram ladeados por árvores
bem cuidadas, bancos de pedra e um imenso gramado central.
Havia também um estacionamento repleto de carros chiques; parecia uma
competição de quem tinha mais dinheiro.
Estacionei em uma vaga e saí do carro (meio apavorada). Não sabia o que
esperar daquele lugar. Eu tinha um mapa mental dos corredores na cabeça, bem
como o nome de todos os amigos da Mia – mas vê-los pessoalmente seria
diferente da teoria. Eu não poderia me dar ao luxo de deslizar.
Nunca fui fraca ou tive medo de desafios; os últimos anos foram duros
comigo, e eu soube aguentar o tranco. Os tapas na cara que a vida me deu
construíram uma muralha dentro de mim. Mas o que eu estava fazendo agora era
um crime, e poderia ter consequências aterradoras.
No entanto, eu já tinha me metido nessa até o pescoço, e não dava para voltar
atrás. Respirei fundo e empurrei o medo para dentro.
Comecei a andar em direção à entrada do prédio principal.
– Ei, Mia! – alguém gritou.
Merda. Congelei.
Olhei para a esquerda e vi duas garotas sentadas em um banco de pedra no
gramado.
– Estamos aqui! – uma delas acenou.
Eram as duas melhores amigas de Mia. Reconheci-as pela descrição.
A primeira era Antonela D’Ávila, uma filha de banqueiros ricaços. Negra e
com um rosto escultural, seus longos cabelos escuros caíam em uma cascata de
cachos por sobre os ombros, até o meio das costas. Ela os jogava para o lado de
forma charmosa. Uma garota linda.
A segunda era mais baixinha e esguia: Vívian Alencar. Possuía cabelos curtos,
repicados e louros. Tinha um rosto delicado e era muito estilosa. Mia me contou
que Vívian dominava todas as tendências da moda, vez que sua mãe era dona de
várias boutiques em São Paulo.
As duas cursavam Gestão de Negócios com minha gêmea. Eu coloquei um
sorriso forçado no rosto e me aproximei delas; por dentro, tremia.
Deus me ajude.
Vívian saltou do banco na hora, como se eu fosse sua chefe. Estendeu um
copo de café tampado.
– E aí, vadia – sorriu maliciosamente. – Quanto tempo não te vejo. Toma, do
jeito que você gosta: com leite e chantilly.
Vadia? Ok, então.
Peguei o café.
– Hã, obrigada. Quanto eu te devo?
Vívian arqueou uma sobrancelha.
– Que pergunta é essa? Eu hein.
Antonela revirou os olhos e se levantou.
– Tem anos que você nos obriga a pagar seu café, e de repente quer se fingir
de santa? Nos poupe – ela riu e passou um braço no meu. – Você está perdendo o
jeito de ser uma rainha má. Não nos decepcione.
Vívian entrelaçou-se em meu outro braço, evitando o contato com a tala.
Fiquei encurralada entre elas, e as duas me arrastaram pelo campus sem
qualquer cerimônia.
Vívian não parava de tagarelar.
– Esse acidente mexeu mesmo com a sua cabeça. Aliás, você tem que nos
contar tudo em detalhes.
Enquanto entrávamos no prédio da Gestão de Negócios, eu repetia a história
do suposto acidente para elas. Elas me encheram de perguntas e, em seguida,
fofocas sobre os acontecimentos que eu havia perdido na semana. Quem
terminou com quem, que traiu quem... Nomes que não significavam nada para
mim.
Pela forma como as duas me seguiam, concluí que Mia liderava o grupo. Elas
não tinham uma relação de amizade saudável, entre iguais. Percebi que Mia
estava acostumada a mandar.
Também não deixei de notar o comportamento das pessoas ao redor.
Enquanto eu passava pelo corredor, os alunos saíam do caminho, amedrontados.
Então eu entendi: Mia era uma espécie de abelha-rainha naquele lugar, e por
isso se preocupava tanto com sua reputação. Mantenha a minha vida intacta, ela
ordenara, e agora eu entendia. As pessoas observavam seus passos de perto.
Junto à Antonela e Vívian, assisti às duas primeiras aulas. Consegui entender
o básico do que o professor falava – mas só. As garotas se surpreenderam pelo
fato de eu estar tomando notas; em geral, alguém anotava tudo para Mia.
Antonela, a beldade de pele negra, me observou de soslaio – ostentando uma
careta de estranheza.
– Você realmente não está bem.
Após uma hora e quarenta de aula, o sinal do intervalo tocou. Fui arrastada
até a cafeteria principal da universidade, onde todos os alunos se reuniam. Mia já
tinha me avisado que aquele era um momento social, e os grupos tinham lugares
definidos.
A cafeteria ficava no térreo do prédio principal.
Um local imenso e bem descolado, repleto de mesas de madeira. Sua
fachada frontal era toda de vidro – e podíamos enxergar o estacionamento lá
fora, bem como o imenso gramado central. As outras paredes eram compostas de
tijolos vermelhos, acompanhando o estilo do resto da Universidade.
Nós adentramos na cafeteria e as garotas foram direto para uma mesa central,
com visão privilegiada lá de fora. Eu apenas as segui. Algumas pessoas se
sentavam à mesa escolhida – mas, ao nos verem, simplesmente se levantaram na
hora. E saíram, caladas.
Eu ergui uma sobrancelha – uau. Esse trio tinha mesmo um poder
intimidador.
Nós nos sentamos e Vívian, a loura baixinha, chamou a garçonete. Pediu o de
sempre para nós três.
Não sabia o que seria o “de sempre”, mas não contestei. Tudo por aqui era
muito caro, mas Mia me contou que a conta da cafeteria chegava mensalmente
em sua casa, anexa à mensalidade da Universidade.
Os riquinhos não podiam enfrentar fila para pagarem pelos lanches. Coitados.
Quando a garçonete saiu, Vívian se virou para mim, empolgada.
– E aí, vamos falar sobre o que interessa. Quantas bocas você beijou em
Floripa?
Eu quase engasguei.
– Q-quê? Nenhuma, ficou louca? Eu tenho namorado.
Antonela interviu, erguendo uma sobrancelha.
– E daí?
Vívian revirou os olhos.
– Isso nunca te impediu antes.
Então as amigas sabiam do caráter duvidoso de Mia. Ufa, menos um
segredo.
Dei de ombros.
– Beijei uns caras aleatórios na balada, nada demais. Não lembro o nome de
nenhum – adicionei, fazendo uma careta de desdém e dando uma risadinha
maliciosa.
Antonela retribuiu o sorrisinho ardiloso.
– Agora sim.
Vívian estava prestes a adicionar algo – mas, de repente, estagnou. Lançou
um olhar à frente. Virou o rosto, rindo para mim.
– Encerrem o assunto, namorado à vista.
Eu olhei para a entrada da cafeteria e segurei um palavrão. Ah, não: Thales,
o namorado da Mia.
Eu o reconheci devido à foto que Mia me mostrara. Ele vinha direto em
nossa direção. Thales Mourão era um garoto pálido e certinho, de cabelos e
olhos castanhos escuros. Usava roupas sociais e tinha o cabelo penteado para o
lado. Possuía traços bonitos, mas o estilo ultraconservador era como um balde de
água fria em seu sex appel.
Apesar de bonito, era esguio e de aparência frágil. Aparentemente, golfe seria
seu único esporte; ou críquete. Agora, eu compreendia porque Mia saía para
buscar aventuras nas baladas (embora não justificasse).
Já próximo à nossa mesa, ele abriu um sorriso afável.
Sentou-se ao meu lado e deu um beijo em minha bochecha.
– E aí, linda.
– E aí – embora estivesse em pânico, me forcei a um sorriso. Thales seria
meu maior desafio.
– Como foi a viagem? – ele passou um braço sobre meus ombros. Ai, não.
Contato físico. – Uma pena ter rolado esse acidente – indicou a tala em meu
braço. – Ontem você me contou os detalhes por telefone, mas ainda estou
preocupado. Está se sentindo bem?
Então Mia já tinha ligado para ele e preparado o território. Que bom.
– Não estou sentindo dor, só estou um pouco confusa. Não me lembro de
algumas coisas.
– Ela está estranhíssima! – Vívian adicionou, achando graça. –Até fez
anotações nas aulas, foi bizarro.
Thales se chocou.
– O quê?! Isso sim é estanho.
Eu dei de ombros.
– Eu disse, não estou legal.
Eles continuaram a conversar sobre meu comportamento diferenciado. Como,
por exemplo, o fato de ainda não ter debochado de ninguém. Ou como não
roubei a vaga de deficientes no estacionamento, e não conversei durante as aulas,
etc.
Eu me lembrava das informações passadas por minha irmã; ela me inteirou
sobre sua vida social.
Além dela, quatro pessoas compunham seu grupo de amigos. Antonela,
Vívian, Thales e Téo. As duas garotas cursavam Gestão de Negócios junto à
Mia, e Téo e Thales cursavam Engenharia.
Téo Aguiar era o melhor amigo de Thales. Ele era um garoto de ascendência
asiática e cabelo artificialmente platinado; ostentava um piercing na sobrancelha.
Segundo as fotos que minha irmã mostrara, Téo era o menos engomadinho do
grupo. Tinha uma pitada de tempero na alma – graças a Deus.
Não aguentava mais aquela chuva de mocassins e camisas polo.
Eu precisava desviar o foco do assunto de mim, pois era perigoso. Interrompi
algo que o Thales falava:
– Cadê o Téo, gente? Ainda não o vi hoje.
Thales abria uma Coca-Cola enquanto respondia.
– Ainda na Califórnia. Foi passar o feriado lá com a família, não sei quando
volta... Talvez amanhã.
Antonela perguntou:
– Por que você não foi com ele? Vocês não se desgrudam.
Thales parou no meio de um movimento, parecendo tenso. Não entendi a
razão. Desviou os olhos.
– Queria aproveitar o feriado na fazenda.
– Ah, entendi. – Antonela se deu por satisfeita.
A garçonete interrompeu o momento, trazendo nossos lanches: três
sanduíches naturais e sucos de frutas. Aparentemente, Mia era preocupadíssima
com sua boa forma.
Thales virou-se para mim.
– Uma pena você não gostar do interior, linda. Nós poderíamos ter curtido a
o feriado na minha fazenda, juntos.
A família de Thales era dona de uma enorme fazenda de gado no interior de
São Paulo.
Falei o que Mia falaria.
– Mato não é para mim.
Todos riram, inclusive Thales; ele revirou os olhos.
– Eu sei. Você já disse que, se dependesse de você, cimentaria a Amazônia
inteira.
Dei um sorrisinho falso.
– Pois é. Meu negócio é concreto. – Mia era mesmo uma vaca insensível.
O intervalo seguiu tranquilo depois disso; consegui interpretar bem o meu
papel. Era só fazer as observações mais imorais – e ficava tudo bem. Eles
acreditavam que eu era Mia Santorini.
Depois das últimas duas aulas, as garotas me obrigaram a ir ao shopping.
Tive que comprar algumas peças de roupas para elas não desconfiarem. Escolhi
o que Mia escolheria: o mais caro e engomadinho das lojas.
Não foi um passeio de todo ruim.
Na verdade, Antonela e Vívian eram bem engraçadas. Faziam observações
espirituosas – e, por vezes, debochadas. Olhavam para mim buscando aprovação
(mas, quando eu nada respondia, os deboches foram diminuindo; sentia que elas
se adaptavam a mim).
Então eu percebi: ambas só agiam de forma cruel porque Mia agia de forma
cruel. Elas queriam ser aceitas. Quando Mia não demonstrava seu lado ruim, elas
se sentiam mais à vontade para serem quem eram – e, no fundo, elas não eram
garotas más.
Terminei o dia gostando mais delas.
Se Mia parasse de agir como uma vaca sem escrúpulos, suas amigas não
teriam motivo para odiá-la em segredo. Se ela fosse humana, aberta e honesta,
suas amigas poderiam até, algum dia, amá-la de verdade. Será que a minha irmã
não percebia isso?
Cheguei em casa bem tarde. Tomei um banho e deitei-me na cama de Mia,
ligando a TV. Para um primeiro dia, até que não foi de todo ruim... Tive alguns
deslizes, mas dei o melhor de mim.
Nesse ínterim, três batidas ressoaram na porta.
Stela colocou a cabeça para dentro.
– Oi. Agora que você bateu a cabeça, vou tentar a sorte: quer passar um
tempo juntas? Trouxe o jantar – ela entrou com uma bandeja de comida na mão.
Um olhar de expectativa.
Coitada da Stela... Não merecia a filha que tinha; Mia devia ser mesmo
inacessível.
Dei três tapinhas na cama.
– Claro, senta aqui comigo.
Stela ficou animada, e sentou-se ao meu lado, aninhando-se; nós comemos o
jantar e assistimos à TV juntas. Ela perguntou sobre Thales e sobre a faculdade.
Eu respondi de forma evasiva, para não me comprometer. Tentei induzi-a a
falar mais sobre si, e deu certo. Ela me contou do dia no trabalho e de como
passou o feriado.
No geral, foi um tempo bem gostoso. Ter um pai e uma mãe era o aspecto
mais fantástico da vida da minha irmã.
No outro dia, eu fui para a faculdade com maior segurança. Não errei o
caminho e encontrei as garotas no banco de sempre. Dessa vez, reembolsei
Vívian pelo café; ela se surpreendeu, mas não contestou.
Avisei:
– Aproveitem os efeitos do meu acidente. Nunca se sabe quando a Rainha Má
irá voltar.
Ambas riram. Coitadas; não sabiam que eu não estava brincando.
Juntas, assistimos às duas primeiras aulas. Dessa vez, fui contra meus
princípios e não tomei notas, pois não queria gerar mais desconfianças.
Na hora do intervalo, sentamo-nos na mesa de sempre. Thales entrou pela
porta principal, mas não se encontrava sozinho. Dessa vez, Téo estava com ele, e
ambos se sentaram à nossa mesa:
– E aí, gatas – Téo cumprimentou. Ele era o mais descolado do grupo.
Vívian piscou.
– Chegou o rei da Califórnia... Pensei que abandonaria a faculdade. Não
apareceu mais.
– Bem que eu queria... Por mim, ficaria por lá mesmo, mas meus pais me
obrigaram a voltar. Ganhei uma missão aqui.
– Como assim? – Antonela ficou curiosa, retirando os fones de ouvido.
– Hã, então... – Téo coçou o pescoço, desconfortável. – Eu tenho uma notícia
para vocês, não sei como irão reagir. É meio... Bombástica. Estava esperando
estarmos todos reunidos para contar.
Thales virou-se para ele, a face preocupada.
– Fala logo, cara.
– Vocês sabem que eu sou primo da família Feron, não sabem? Por parte de
mãe.
Todos ficaram tensos. Percebi que aquele era um assunto polêmico no grupo.
Thales franziu a testa.
– E daí?
Téo coçou o queixo, incomodado por ser o vetor da informação.
– E daí que eu sei todas as notícias sobre eles, em primeira mão. Nesse
feriado, eu encontrei parte da família, e os Feron estão morando na Califórnia.
Mas não por muito tempo. Minha mãe me obrigou a ficar no Brasil, porque ela
acha que eu posso ajudar a controlar o meu primo.
Thales empalideceu.
– Como assim?
Téo fez uma careta tensa (como quem está dando a notícia de uma morte).
– Não surtem, mas o Feron está voltando para o Brasil. E vai estudar aqui.
“O quê?!”, todos gritaram em coro, perplexos.
– Espera aí – Antonela apoiou as mãos na mesa, como se estivesse
recebendo o comunicado de uma guerra nuclear. – Você está falando sobre
aquele Feron?
Vívian tinha o queixo caído.
– Ele vai voltar a estudar aqui? – em seguida, balançou a cabeça,
recuperando-se. – Meu Deus, esse é o acontecimento da década.
Téo confirmou com a cabeça, parecendo culpado.
Antonela encontrava-se imóvel, olhos arregalados.
– Então é isso... Ferrou.
Vívian estalou a língua, a face obscura; não havia brincadeira em seu tom.
– Parece que os tempos sombrios voltarão.
Téo suspirou.
– Não vai ser fácil. Não é novidade para ninguém o quanto ele é difícil, mas
pelo menos nós somos seus amigos. Não precisamos ficar com medo. Eu tenho
pena mesmo é deles – indicou com a cabeça o restante dos alunos. – Esses
sofrerão.
Havia uma tensão no ar, e eu não entendia a razão. Quem seria esse tal de
Feron?
Os garotos citavam seu nome com medo, como se falassem sobre um
entidade maléfica.
– Você não tem nada a dizer, Thales? – Vívian interferiu, notando o silêncio
do garoto. – O Feron era o seu melhor amigo, afinal.
Thales tinha os braços cruzados e o olhar sombrio – não parecia nada feliz.
Deu de ombros.
– Que venha. Não tenho medo dele.
A reação na mesa foi puro silêncio; todos sabiam que ele estava mentindo.
Thales tinha a expressão mal-humorada, e o corpo inteiramente tenso. A notícia
o perturbara.
Por isso ele não tinha ido para a Califórnia com Téo? Por que sabia que
poderia encontrar o tal de Feron?
Esse garoto metia medo até nos mais poderosos da São Valentim. Que tipo
de pessoa ele era? Mia não me falou nada sobre ele.
A curiosidade me dominou, então tive que perguntar.
– Quem é Feron?
Se a pergunta soasse estranha, culparia a perda de memória.
Antonela interviu.
– Ah, é! Mia não o conheceu. Ele saiu ao final do segundo ano do ensino
médio, e você entrou na São Valentim no começo do terceiro ano. Por pouco não
se cruzaram.
– Graças a Deus – murmurou Vívian. – Nós já falamos dele para você, não
se recorda? Ele não é do tipo facilmente esquecido.
Apontei para a cabeça.
– Concussão, lembram? Ontem esqueci até o caminho da minha casa. Mas
quem é esse cara, afinal?
– Ele era o melhor amigo dos meninos – Antonela contou, apontando para
Thales e Téo. – Mas foi embora para morar na Califórnia três anos atrás. Desde
então, não ouvimos notícias dele. Na época do ensino médio, ele dominava a
escola com punho de ferro. Um verdadeiro ditador.
– Que bizarro – franzi o cenho. – Mas, ditador? Vocês não estão
exagerando? Isso não existe mais. Ninguém comanda ninguém.
Téo bufou.
– Você não sabe de nada, Santorini. Antes de você aparecer por aqui, a
hierarquia era outra. Os tempos eram negros. O Feron comandava, e massacrava
quem estivesse em seu caminho. Não era algo bonito de se ver.
Vívian engoliu em seco.
– Era o caos.
Antonela emendou.
– Conte para ela, Thales... Você conheceu o Feron melhor que ninguém.
Thales permanecia com os braços cruzados e a expressão sombria.
– O nome dele é Felipe Feron. Mais conhecido como o próprio diabo.



Fui absorvendo as informações aos poucos.
Felipe Feron era um garoto de vinte e um anos, herdeiro de uma rede de
construtoras milionária. A construtora foi criada no Brasil, e se expandiu pela
América Latina e Estados Unidos.
Três anos atrás, sua sede se mudou para a Califórnia. Por essa razão, a família
de Feron se mudou do Brasil para lá, levando o filho junto.
Esse tal de Feron estudou com os amigos de Mia desde o ensino
fundamental. Ele era um playboy cruel e arrogante, que passou todos os anos
escolares dominando o local. O garoto tinha um imenso senso de liderança,
muito dinheiro e nenhum escrúpulo. Praticava bullying para manter a todos
domados – e conseguia.
Agora, eu entendia melhor a dinâmica social da São Valentim. Todos os
alunos daqui eram extremamente ricos – verdadeiros príncipes e princesas
modernos. Ninguém por aqui tinha muito escrúpulo; eram cruéis sem razão.
O mundinho de Mia era composto de verdadeiros príncipes e princesas
perversos.
Havia um boato que se espalhara desde a partida de Felipe Feron. O garoto
não havia ido para a Califórnia por causa da família – e sim porque ele já tinha
aprontado demais na São Valentim. Várias advertências e suspensões; vários
inimigos. Isso apenas com dezoito anos.
A rede de ensino não queria expulsar um herdeiro milionário, e por isso
fechava os olhos para suas atitudes. Não obstante, seus próprios pais acharam
melhor levarem-no embora do Brasil. Ele era cruel e insubordinado, e castigos
não o domavam. Por isso, ele precisava de um recomeço.
Felipe Feron deixou feridas e inimigos para trás – e apenas a sua memória
fazia as pessoas tremerem. Seu nome era dito com respeito e medo na boca de
todos. O cara conservava um poder incompreensível sobre os alunos da São
Valentim – como um déspota dominador.
Sua ditadura foi perversa, e deixou marcas para trás.
– E tem mais – Téo completou. – Ele está vindo cursar Medicina.
Thales se estarreceu.
– O quê?! Esse é o vestibular mais difícil da São Valentim... Como ele
passou?
Vívian estava em choque.
– Dinheiro não pode comprar uma vaga aqui. Ele teria que... Estudar. –
Falou como se o ato consistisse no maior dos sacrilégios.
Téo deu de ombros.
– Aparentemente, ele estudou.
Antonela bufou, incrédula.
– Mas ele nunca fez isso na vida!
– O que tem isso, gente? – interferi. – Não é nada demais alguém começar a
estudar.
Por fim, foi Antonela quem concluiu.
– Não tem como você entender a razão da nossa reação. Só conhecendo o
Feron para saber como era.
E, em breve, eu iria.
– Bom, fico feliz por vocês terem me avisado. Pelo menos eu já estou
preparada.
Torcia para que esse garoto não complicasse o meu disfarce; eu não queria
confusão.
Vívian estalou a língua, a face sombria.
– Ninguém está preparada para conhecer o demônio.
Tremi. O modo como ela falou... Não sei, arrepiou minha espinha.
Alguns dias se passaram, e uma aluna ouviu a secretária da faculdade
comentando sobre a matrícula de Felipe Feron. A aluna, é claro, não segurou a
fofoca – e o assunto se espalhou como fogo no palheiro. Logo as redes sociais da
São Valentim se lotaram de especulações a respeito do garoto.
Quando ele volta?
Por que ele volta?
Como será que ele irá comandar dessa vez?
Algumas pessoas estavam com medo – e outras, eufóricas. Alguns gostavam
de ver o circo pegar fogo, e Felipe Feron era pura pólvora. Onde ele estava,
havia caos (e hierarquia, e comando). Fosse quem fosse, esse garoto causava
reações intensas.
Acompanhando os comentários na rede social da São Valentim, percebi que
Téo, Thales e Feron compunham o que os alunos mais antigos chamavam de
Trindade. Três garotos poderosos e muito ricos que comandavam a vida social da
São Valentim. Feron, é claro, era o líder deles.
Acompanhei os comentários (muitos, anônimos):
O diabo vai voltar? Estamos todos ferrados.
Pilar Monferrari o aguarda ansiosa. E o resto das garotas da São Valentim
também.
Não acredito nisso, esse garoto precisava desaparecer. A São Valentim está
melhor sem ele!
Agora a Trindade ficará completa. Bem-vindos ao inferno, calouros: o
comando está de volta.
Faziam seis dias desde a notícia de que o garoto iria voltar. As pessoas
estavam ficando nervosas e impacientes, vez que não sabíamos a data certa.
Poderia ser a qualquer momento.
Naquela noite, deitada na cama da Mia, meu celular tocou. Era a minha
gêmea. Vez ou outra, Mia me ligava para saber como estavam as coisas – e me
passar algumas ordens.
– Alô? – atendi.
Ela não fez rodeios.
– Fiquei sabendo da notícia bombástica, estou acompanhando a rede social da
São Valentim. O Feron vai voltar.
– Eu sei – suspirei.
As pessoas só falavam disso, e eu já estava ficando entediada. Esse cara era
realmente tão especial assim?!
– Ele é o melhor amigo do Thales, então vai conviver com você. Isso pode ser
perigoso para a gente. Graças a Deus, o Feron não me conhece, então não vai
desconfiar de nada. É só você não entrar no caminho dele, e tudo ficará bem.
Não mexa com ele, e ele não irá mexer com você, ficou claro?
– Sim – trinquei os dentes; detestava quando ela me dava ordens. – Eu vou
ficar na minha.
– Ótimo, boa garota. Agora vou desligar.
– Espera! Tenho uma pergunta... Quem é Pilar Monferrari? Suas amigas não
param de falar dela. E pelo tom venenoso, parece ser seu desafeto. Mas eu não
tenho a menor ideia de quem seja, e isso está me complicando nas conversas.
Estou fingindo saber.
Mia grunhiu.
– Argh, a vaca da Monferrari. Ela cursa Moda na São Valentim, é uma das
mais populares do lugar... É a minha inimiga número um, a gente se detesta.
– Por quê?
Apesar de que, se pensarmos bem, não era difícil detestar Mia.
– Ela me copia, rouba os caras de quem estou a fim, fala mal de mim para a
faculdade inteira... Essas coisas. Eu, é claro, revido na mesma moeda. Mas isso
não é importante, apenas fique longe dela. Lido com essa vadia quando eu voltar.
Mas por que perguntou?
Mia era uma das mais populares da São Valentim; obviamente, outra garota
popular poderia vê-la como ameaça. Eu estava entendendo melhor a dinâmica
social daquele círculo de riquinhos.
Expliquei:
– Ela está sendo muito citada nas conversas ultimamente... Parece que ela e
esse tal de Feron têm algum envolvimento.
Mia soltou uma gargalhada de desdém.
– Só se for na cabeça dela! A Pilar sempre foi apaixonada pelo Feron, e todo
mundo sabe disso. Mas ele nunca quis nada com ela. Agora que ela ficou mais
bonitinha, deve estar com esperanças de fisgá-lo. Eu duvido muito, mas deixe-a
sonhar... Feron é inalcançável e todo mundo sabe disso. Ele só namora beldades.
Isto é, se namora: é muito seletivo. Além do mais, é um libertino lendário.
Revirei os olhos: apenas mais um garoto rico egocêntrico.
Após mais algumas recomendações (que soavam mais como ameaças), Mia
desligou. Ela reiterou as ordens: não faça besteira e fique na sua. Mantenha
meus relacionamentos intactos.
Tentei dormir, mas fiquei me revirando na cama. Um pensamento martelava
na minha cabeça: como um cara, sozinho, poderia causar tanto frenesi em um
lugar? Que tipo de poder esse garoto possuía, para domar tanta gente sob seus
pés? Isso era ridículo.
Agora que eu tinha aprendido a usar as redes sociais, me ocorreu uma ideia.
Peguei o celular e entrei no Instagram. Comecei reconhecendo o território
inimigo, pois precisava estar preparada. Digitei: PILAR MONFERRARI no
espaço de busca, e seu perfil apareceu.
Pelas fotos, Pilar revelava-se mais uma garota nascida em berço de ouro, com
privilégios que não merecia. Era uma garota de longos cabelos negros e olhos
azuis – incontestavelmente linda. Suas fotos consistiam basicamente em baladas,
viagens e looks carérrimos, que alimentariam uma família de classe média por
um mês.
Grunhi, ressentida: aí estava mais uma garota que não sabia nada sobre o que
era lutar para sobreviver.
Guardei sua fisionomia na minha cabeça. Ok, inimiga computada com
sucesso. Se eu a visse na São Valentim, passaria longe.
Eu já estava guardando o celular sobre o criado-mudo quando me ocorreu a
ideia. Mordi o lábio, a curiosidade me vencendo. Se fosse para conhecer o
território inimigo, melhor fazer o serviço completo. Entrei outra vez no
Instagram e digitei no espaço de busca: FELIPE FERON.
O perfil dele foi o primeiro a aparecer. Cliquei, sem saber o que esperar.
Mas o quê...
Arfei, sentando-me na cama com brusquidão.
– Puta merda.
O nome dele é Felipe Feron, mais conhecido como o próprio diabo.
Eu esperava me deparar com o protótipo perfeito de um riquinho mimado –
mas não. O garoto passava longe disso.
Felipe Feron era uma figura impressionante; alto, musculoso e bronzeado.
Em todas as fotos, conservava uma expressão diabólica e um sorrisinho de
desdém. Muito longe de ser mais um dos ricos engomadinhos, parecia-se
exatamente com o playboy cruel que me descreveram.
Arrogante, dominador.
Ao contrário dos outros garotos da São Valentim, seu estilo não era
conservador. Ostentava uma aparência selvagem, e exalava masculinidade.
Tatuagens ferozes subiam pelo antebraço – desafiadoras. Ele não era nenhum
nerd certinho.
Possuía cabelos castanhos-intensos, macios e bagunçados. Seu rosto
ostentava traços retos, angulosos e fortes. Traços de um imperador da
Antiguidade – poderoso e dominante. Sua figura metia medo, e algo nele me
lembrava um animal selvagem e indomável – advindo de terras inabitadas.
Talvez fosse a pele dourada, talvez o sorrisinho arrogante... Não sabia dizer.
Só sabia que fervia.
No entanto, sua característica mais marcante eram os olhos. Olhos diabólicos.
Suas íris eram tão verdes quanto o próprio mar do Caribe; diamantinas e
estranhamente... Intensas. Cravavam-se em você como uma faca na jugular.
Um olhar dominador. E muito, muito feroz.
Ele me encarava de todas as fotos com quê de desafio. O verde vibrante das
íris contrastava com o bronzeado da pele, formando uma combinação
perturbadora – exótica e diferencial.
Algo nele me inspirava à necessidade de me calar e obedecer. Era uma
sensação bizarra, e somente agora eu entendia o motivo da comoção. Felipe
Feron inspirava medo: irracional e visceral. Possuía um estranho poder de te
domar, só para depois te massacrar.
Observando seu sorrisinho predatório, um instinto visceral me avisou:
cuidado com ele. Esse homem é perigoso.
Ele usava peças de roupas que não combinavam com o estilo engomadinho
da São Valentim. Toucas, bonés, calças rasgadas, óculos escuros. Atlético e
tatuado, parecia um predador em meio a cordeirinhos.
Coitados dos alunos da São Valentim... Eu não queria estar em suas peles,
pois Felipe Feron os massacraria. Se a faculdade fosse uma selva, ele seria o
lobo – e os alunos, suas presas.
Não havia muitas fotos. Aparentemente, ele não tinha muita paciência para
redes sociais. As poucas fotos postadas eram em festas, ou na praia, segurando
uma prancha de surf (isso explicaria o bronzeado).
Sentindo-me intimidada diante daquele olhar feroz advindo de cada foto,
guardei o celular. Eu estava um pouco... Perplexa.
O garoto era selvagem, musculoso, arrogante e... Lindo. Eu não esperava por
isso. Uma pessoa cruel como esse Feron não tinha o direito de ser tão ostentar
tanta beleza (onde estava a justiça no mundo?!)
Grunhi, indignada, e então virei para um canto e resolvi dormir. Eu não
gostava dessas pessoas que tinham o mundo domado debaixo dos pés; elas não
sabiam nada sobre lutar e sofrer na vida.
Eventualmente, Felipe Feron voltaria. Saber disso fez um medo estranho
assolar minhas veias, e eu finalmente entendia os outros alunos da São Valentim.
O garoto era realmente... Assustador. Músculos intimidadores, olhos cruéis,
sorriso de deboche. Um pacote completo para a confusão.
Lembrei-me da mensagem anônima postada por um aluno sobre seu retorno:
o diabo vai voltar. Bem-vindos ao inferno, calouros: o comando está de volta.
Eu tinha o dom de pressentir problemas. E esse garoto traria o caos.

















CAPÍTULO 4

No outro dia, eu estava com Vívian e Antonela sentada no banco de sempre
da faculdade. O dia começara um tanto melhor, vez que pude retirar a maldita
tala do braço.
Esperávamos o primeiro sinal para o começo das aulas. Vívian tagarelava
sobre algum evento de moda que estava por vir, enquanto Antonela bebericava
seu café. Eu apenas ouvia, girando meu café desanimadamente; não tinha
dormido muito bem.
Nossos celulares apitaram no mesmo momento.
– Nossa! Isso foi bizarro. – Antonela retirou o celular do bolso, enquanto
Vívian e eu fazíamos o mesmo. – Uma mensagem anônima? – Antonela ergueu
as sobrancelhas.
Vívian emendou.
– A minha também é de um anônimo. E a sua, Mia?
– Também – abri a mensagem de texto, franzindo o cenho.
A mensagem consistia apenas em uma lista com cinco nomes.
1 – Mia Santorini
2 – Pilar Monferrari
3 - Pietra de Bragança
4 – Maria Ísis Cavalcanti
5 – Nicole Pimenta
Eu me choquei.
– O que diabos seria isso?
Nesse momento, Téo se aproximou, jogando a mochila sobre um ombro.
Mostrou a tela do seu próprio celular para a gente; também recebera a mesma
mensagem.
– Vocês viram isso? Está todo mundo recebendo.
– O que será que significa? – tentei controlar o nervosismo. Mia havia sido
bem clara: não chame atenção para si mesma.
Vívian revirou os olhos, mas tinha um sorrisinho se espalhando pelo rosto.
– Gente, está óbvio sobre o que se trata: é uma lista das mais populares da
São Valentim. A Mia, é claro, está no topo.
Antonela gargalhou.
– Ah, meu Deus! A Pilar ficou em segundo? Ela deve estar arrancando os
cabelos!
Vívian me deu uma cotovelada camarada.
– Alguém reconheceu seu primeiro lugar. E aí, como se sente? Sempre foi o
seu sonho.
Bufei, guardando o celular. Que bobagem.
– É só uma batalha estúpida de egos.
As garotas, entretanto, me fitaram com incredulidade. Mia não reagiria com
tamanha indiferença, portanto tive que emendar:
– Mas não posso negar que é interessante ver a Pilar perder para mim.
Aquela... Vaca. – Adicionei, de modo a ficar mais convincente.
As duas riram.
Téo revirou os olhos, murmurando um: “Garotas...”
Engatamos em uma conversa sobre a lista, e eu fiquei sabendo detalhes sobre
cada uma das alunas citadas.
Nicole e Pietra eram veteranas do Direito, enquanto Maria Ísis cursava
Biomedicina. Já a Pilar, arqui-inimiga da Mia, cursava Moda. A São Valentim
tinha uma gama muito ampla de cursos.
Momentos depois, Thales chegou, passando um braços sobre meus ombros.
– E aí, galera. – Ele plantou um beijo em minha bochecha; Thales era sempre
muito respeitoso. Nesta semana em que passei na pele de Mia, ele jamais se
insinuou sexualmente para mim.
Acabei por concluir que Mia tinha razão: ou ele não era heterossexual, ou
tinha outras garotas por aí.
O relacionamento de Mia e Thales era algo sem qualquer fogo ou atração
sexual – química zero. Thales tratava Mia mais como a uma amiga ou uma irmã;
e fora uns beijos na bochecha e umas mensagem de boa noite, nada mais
acontecia. Zero tesão, zero necessidade um do outro.
Tão apaixonados quanto um pé de couve.
Eu até compreendia um pouco minha gêmea. Thales era bonito, sim – mas
consistia em uma beleza delicada demais, conservadora demais. Ele não tinha...
Sex Appel. Não que eu soubesse muito sobre isso.
Não obstante, eu não reclamava por sua indiferença – pelo contrário, dava
graças aos céus. Tinha feito um acordo com Mia, sim, mas eu possuía meus
limites (e vender meu corpo não estava nos termos).
Nós batíamos papo quando aconteceu.
Ouvimos o ronco alto de um motor, e um Range Rover enorme e monstruoso
adentrou pelos portões da São Valentim. O carro negro e luxuoso parou numa
vaga no estacionamento, fazendo um barulho alto de freios, e assustando as
pessoas ao redor.
Como o estacionamento ficava bem ao lado do gramado, nós podíamos ver a
cena com clareza. A porta do motorista foi aberta, e um garoto alto e musculoso
saiu, batendo a porta com rudez.
Todos ofegaram. Meu sangue gelou.
Vívian murmurou, meio apavorada.
– Ah, não.
Thales estava tenso, olhos sombrios.
– É ele.
Antonela engoliu em seco.
– O retorno do diabo.
Felipe Feron veio caminhando pelo estacionamento com passos rápidos e
decididos. Óculos escuros, cabelos rebeldes, tatuagens ferozes pelo braço e um
sorrisinho de desdém. Ele era enorme, musculoso e intimidador. As pessoas
saiam de seu caminho, apavoradas; murmúrios admirados se alastraram pelo
campus.
Um predador em meio a cordeirinhos.
Feron se adiantou pelo estacionamento em direção ao prédio principal, onde
ficava a secretaria e a cafeteria. Tinha o queixo erguido arrogantemente, sem
olhar para ninguém; vestia uma calça rasgada nos joelhos e uma blusa preta –
nem perto do estilo entediante dos demais alunos.
Revela-se uma figura completamente insubordinada. Afinal, ele não obedecia
– ele mandava.
No meio do caminho, no entanto, alguém gritou o seu nome. Ele parou e se
virou; um grupo de garotos acenava para ele. Eles eram quatro, e eu reconhecia
vagamente seus rostos (pois compunham parte do time de futebol da São
Valentim).
Feron fez uma continência descolada com dois dedos e foi em direção aos
garotos. Eles se cumprimentaram com uma batida de mão, que terminava
encostando os ombros.
– E aí, meu camarada – cumprimentou um dos garotos. A maioria sorria para
Feron, e o garoto devolvia a camaradagem.
Aparentemente, o grupinho do time de futebol fazia parte da parcela de
alunos que ansiava pelo retorno do garoto. Ou seja: o grupo que gostava de
ditaduras e hierarquias (pois se beneficiavam delas).
Téo perguntou para Thales.
– Nós não vamos até ele?
Mas o namorado da Mia não se moveu; fitava Feron com um misto de
ressentimento e seriedade.
– Não irei até ele. Se ele quiser, que venha me encontrar.
Antonela deu de ombros.
– Isso irá acontecer em breve. Os caras do futebol são apenas colegas, e
daqui há pouco o Feron irá perguntar sobre você.
Aquilo fez todos estremecerem.
Pelo que eu já havia descoberto, no passado, Thales era o único amigo de
verdade com quem Feron se importava. O garoto cruel não ouvia ninguém –
apenas seu melhor amigo. Eles eram como carne e unha (e, por vezes, Thales
tinha que controlar o amigo para não se meter em mais problemas).
Feron, entretanto, tinha causado muita dor e confusão na São Valentim por
vários anos – e Thales não estava feliz por tê-lo de volta. Afinal, sua paz de
espírito acabaria.
Thales era um garoto conservador, que gostava de tranquilidade e ordem. Já
Feron? Bom, ele era um furacão indomável, e um imã para problemas. Acontece
que Thales havia amadurecido, e não queria aquela vida de volta. Enquanto
Felipe Feron permanecia um comandante, Thales havia mudado (e não estava
mais disposto a obedecer).
Eu observava, tensa, a interação do garoto com os jogadores de futebol. Eles
davam risadas e tapinhas no ombro, enquanto Feron contava suas aventuras na
Califórnia.
Nesse ínterim, um calouro franzino passou ao lado do grupo, subindo as
escadas em direção ao prédio principal. Cabeça baixa, tensão sobre os ombros.
– Ei, você! – Feron o convocou.
Ah, não. Estremeci diante de sua voz apimentada e poderosa.
O calouro engoliu em seco e se virou.
– Sim?
Feron retirou algumas notas do bolso.
– Compre um energético para mim na cafeteria. Você tem cinco minutos –
ordenou simplesmente.
O calouro não discutiu. Amedrontado, pegou as notas e saiu correndo escada
acima, apavorado para cumprir a ordem.
Eu trinquei os dentes vendo aquilo. Maldito arrogante. Quem ele pensava
que era? Ninguém tinha o direito de mandar nos outros; nós não éramos seus
súditos.
Vívian estalou a língua.
– Vejam só... Já chegou dando ordens, não mudou nada.
O clima tinha ficado tenso demais para retornarmos à conversa. A verdade
era que todos estávamos atentos aos movimentos do Feron, há alguns metros de
nós. Para nossa sorte, ele ainda não tinha nos visto.
E enquanto isso, eu aproveitava o fato de ninguém estar prestando atenção em
mim para observar em silêncio o garoto enigmático.
Pessoalmente, ele era ainda mais lindo e impressionante que nas fotos.
Músculos poderosos e bronzeados; maxilar musculoso, trincado; cabelos fartos
em um tom intenso de castanho. Os fios caíam para todos os lados, rebeldes –
como o próprio dono. O garoto era um palmo mais alto que os colegas ao seu
redor, e duas vezes mais forte.
Até quando sorria de uma piada, seu sorriso parecia cruel – diabólico e
predatório. Por causa dos Ray Bans escuros, não pude ver seus olhos. Mas
apostava que eram tão ferozes quanto toda a sua figura.
Ao seu redor, os garotos mantinham um passo de distância dele, como se
respeitassem e reconhecessem um líder.
Ele era o próprio comando.
Cinco minutos depois, o calouro franzino voltou carregando uma lata de
energético nas mãos. Para demonstrar eficiência, já foi logo abrindo a tampa. A
lata fez um barulho de líquido espumando e o conteúdo caiu para todos os lados.
Nervoso, o calouro tropeçou nos próprios pés; inclinou-se para frente e acabou
jogando o líquido na camisa do Feron.
Todo mundo ficou em silêncio. A tensão tomou o ar.
O calouro arregalou os olhos, apavorado.
– Puta que pariu – Antonela esganiçou. – Agora ele está ferrado.
Feron trincou os dentes e olhou o garoto de cima. Parecia um tigre encarando
seu jantar.
– O que. Você. Acabou. De. Fazer? – sibilou, perigoso; a voz era puro
veneno.
O calouro se apavorou.
– E-eu... Não foi proposital, me desculpe.
Feron deu um sorrisinho lateral, perverso.
– Desculpar você? Por acaso eu sou a sua mamãe?
O calouro tinha a expressão estrangulada.
– Não foi o que...
– Calado, não mandei você falar. Você não acha que ficarei assim o dia
inteiro, acha? – indicou a camisa encharcada. – Me dê a sua camisa. Agora.
O garoto arregalou os olhos.
– Mas eu tenho uma prova para fazer agora, não posso entrar seminu na aula.
As pessoas ao redor murmuraram.
Ah, não, cara – eu pensei comigo mesma. Esse calouro estava mesmo
cavando a própria cova. Provavelmente, ele não tinha acompanhado os tempos
cruéis do ensino médio, e não tinha ideia de quem o Feron poderia ser. Deve ter
apenas ouvido os boatos.
Feron inclinou a cabeça para um lado, o sorriso perverso aumentando.
– Ah, é? Então nesse caso terei que me contentar com as suas desculpas. –
Quando o calouro estava prestes a agradecer, aliviado, Feron adicionou: – Faça o
seguinte, então... Ajoelhe-se.
O quê?!
– Q-quê? – o calouro se chocou.
– Existe uma hierarquia nesse lugar e eu faço questão de manter a ordem.
Ajoelhe-se e peça perdão. Caso contrário, eu irei te perseguir pelo resto desse
curso, e farei da sua vida um inferno. Pode escolher.
O calouro olhou ao redor, desesperado.
As pessoas observavam tudo, caladas e omissas. Elas simplesmente
deixariam aquela barbaridade acontecer. Eu não estava acreditando naquilo...
Em pleno século vinte e um... Eu tinha sofrido bullying na escola por ser
estranha e introspectiva. Sabia como doía ser maltratada, e aquela era uma ferida
antiga no meu coração.
Na época de escola, eu era frágil e não sabia como me defender de valentões.
Hoje, não mais.
Eu me lembrava dos ensinamentos do meu professor de karatê: essa arte
marcial não serve para atacar os mais fracos. É uma arte para se defender e, se
for necessário, fazer justiça. Usem com sabedoria. Eu era uma das melhores
alunas, e quase faixa preta.
Humilhado, o calouro decidiu se ajoelhar. Ele sabia que ser perseguido por
Feron era o equivalente a uma morte social. E, talvez, anos e anos de mais
traumas e humilhações públicas.
Não obstante, enquanto ele se ajoelhava, meu sangue ferveu. Foi como se eu
estivesse revivendo toda a humilhação do meu passado naquele momento.
Minha visão ficou vermelha, e senti a adrenalina nas veias me ordenando: faça
alguma coisa.
A vontade de me vingar drenou minha sanidade – e eu já não estava mais no
controle do meu corpo. Como um animal selvagem, agi por puro instinto; não
era mais eu.
Sem pensar, avancei na direção de Felipe Feron.
– Ei, Mia! Aonde você vai?! – Vívian gritou, mas eu já estava me afastando
do grupo. Com passos rápidos, aproximei-me pelas costas do garoto.
Tudo aconteceu muito rápido, e ele não notou minha aproximação. Eu pulei
sobre seu corpo e enganchei minhas pernas em sua cintura musculosa. Com
meus braços, envolvi seu pescoço e lhe dominei com um mata-leão.
As pessoas ao redor gritaram, perplexas (algumas apavoradas, outras,
eufóricas).
Eu era magra – mas forte como um animal. Feron arfou, pego de surpresa
diante daquela violência. Eu o icei para trás; no chão, seria mais fácil dominá-lo
completamente. Nós dois caímos. Eu dei a volta ao redor de seu corpo e parei
por cima dele, minhas duas pernas enganchando em seu pescoço.
As pessoas ao redor soltavam palavrões, incrédulas. Felipe Feron estava
dominado.
Rosnei para ele:
– Mande alguém se ajoelhar agora, seu merda.
As pessoas ao redor arfavam, assoviavam ou xingavam, estarrecidas.
– Ela é louca! – alguém gritou.
Mas o garoto encontrava-se perplexo demais para se mover; seu queixo
estava escancarado, tamanho o choque diante da situação.
Meu coração batia com fúria, no ápice do pico de adrenalina. Eu estava
arfante, e lentamente fui me acalmando.
Quando parte da minha sanidade voltou, parei de ver tudo vermelho e
afrouxei o aperto, libertando o pescoço do Feron. No entanto, ainda me
encontrava montada por cima dele.
Todo mundo permaneceu em um silêncio sepulcral, esperando a reação do
garoto. Feron retirou os óculos escuros, o queixo escancarado. Nunca devia ter
experienciado algo semelhante na vida. Sem os óculos, dei de cara com seus
olhos verdes arregalados; tão intensos e ferozes que me atingiram direto na
jugular.
– Mas o quê...? Que porra foi essa?!
O pico de adrenalina passou e eu me dei conta da insanidade do que eu
fizera.
Meu. Deus. Estou ferrada.
Mas ninguém precisava saber disso. Coloquei o cabelo para trás da orelha e
ergui o queixo, tentando manter a minha dignidade.
– Não vou me explicar. Meu recado já foi dado.
Ele trincou os dentes, olhos verdes ardendo em fúria.
– Saia de cima de mim, sua cretina louca.
Ergui as mãos.
– Não precisa pedir duas vezes – e saí de cima do garoto, levantando-me e
arrumando a confusão do meu cabelo. Sentia o olhar chocado das pessoas ao
redor, julgando-me. Ou ele é muito insana, ou muito corajosa.
Mantive o queixo erguido, apesar de meu coração bater furiosamente; até eu
mesma me encontrava incrédula diante do acontecido.
Não acredito que fiz isso. Mia irá me matar.
Feron se levantou, ficando de frente para mim. Ele ela muito mais alto e mais
forte, mas não dei nenhum passo para trás. Seu olhar me perfurou como uma
metralhadora – chocado e indignado. No entanto, sustentei o impacto de suas íris
ardentes.
Ele rosnou:
– Quem diabos é você, garota?
Cruzei os braços.
– Não vejo por que isso te diz respeito.
Ele me encarou, perplexo diante da minha ousadia – mas em seguida apenas
sorriu de lado com escárnio.
Lá estava: aquele sorriso cruel, como o de um predador diante da presa. Ele
me esmagaria.
– É aí que você se engana: agora me diz respeito sim. Você não tem noção do
que acabou de fazer, menina. Cavou sua própria cova, e eu vou te destruir. Não
precisa falar o seu nome, eu descobrirei. Você não vai durar muito mais tempo
nesse lugar, porque eu irei te perseguir até você sair correndo da São Valentim, e
até da própria cidade. Acredite, essa é a minha especialidade; sua vida social
acabou.
Engoli em seco; fingi uma segurança que não tinha, e dei de ombros.
– Pode vir, Feron. Não tenho medo de você.
Mentira. Minhas veias estavam assoladas por puro pânico diante daquele
homem cruel.
Ele negou com a cabeça, incrédulo – olhos brilhando em maldade.
– Você acabou de assinar sua sentença, garota.
– Na verdade, Feron – uma voz chegou pelas minhas costas, e Thales passou
um braço sobre meus ombros – você não irá fazer nada contra ela. Essa é Mia
Santorini, a minha namorada.
Feron estagnou quando viu Thales; era a primeira vez que revia o amigo em
anos. Suas íris voaram de mim para ele, compreendendo a situação.
Ele franziu o cenho, exasperado.
– Espere aí... Essa louca é a sua namorada?
Thales tinha a expressão pétrea e convicta; ele não abaixaria a cabeça.
Naquele momento, eu o respeitei. Não conhecia esse seu lado.
– Isso mesmo, tudo o que você fizer contra ela, estará fazendo contra mim. A
escolha é sua.
Feron trincou os dentes, fervendo de raiva.
– Não era assim que eu queria reencontrar você, cara. Você sabe muito bem o
valor que nossa amizade tem para mim. Ela me desafiou e me humilhou, e em
circunstâncias normais eu a destruiria. Mas... – ele parou e massageou as
têmporas, controlando o raiva. – Levando em conta quem ela é para você,
deixarei esse episódio passar. É o meu presente de boas-vindas para você. –
Feron recolocou os óculos escuros, rosnando para mim. – Considere-se com
sorte. Se você fosse qualquer outra pessoa, já estaria acabada.
E então o garoto virou as costas e foi embora, entrando no prédio principal.
Queixo erguido, emanando ódio.
Por um segundo, todos ficaram em silêncio – e, de repente, uma confusão se
instaurou. Todo mundo falando ao mesmo tempo, perplexos e até eufóricos.
Feron já havia chegado causando uma imensa confusão (porém, não da estirpe
que os alunos esperavam).
Todos me fitavam com diversas reações. Alguns, com rancor e escárnio –
eles não gostavam de ver seu líder confrontado. Outros, com sincera admiração –
afinal, eu fizera o que ninguém jamais tivera a coragem para fazer.
E embora por dentro eu estivesse em pânico, sustentei a expressão de
indiferença. Não podia deixar que o garoto soubesse que sua ameaça havia, sim,
me abalado. Felipe Feron era um inimigo que ninguém gostaria de ter.
E, agora, eu tinha comprado uma guerra contra ele.
O sino da primeira aula bateu e todos se dispersaram.
Thales tirou a mão dos meus ombros, fitando-me com descrença.
– Que loucura foi aquela? Não sei o que deu em você para fazer algo
assim...
– Não sei, foi a adrenalina.
Thales vincou a testa.
– Aquilo foi muito... Incomum para você. Mas não se preocupe: eu conheço
o Feron, ele não faria nada contra mim. Estando comigo, você ficará segura.
Não pude esconder a preocupação.
– O que ele poderia realmente fazer comigo? – até onde iriam os limites do
garoto cruel?
Thales deu de ombros.
– Espalhar notícias falsas que faliriam a empresa do seu pai. Mandar hackear
todos os seus dados na internet, desde redes sociais até contas bancárias. Proibir
que você entre nos melhores eventos e casas noturnas de São Paulo, acabar com
a sua imagem perante a sociedade paulistana...
Ergui a mão.
– Ok, entendi. Vou ficar fora do caminho dele de agora em diante.
Até porque, se eu não o fizesse, Mia me mataria com as próprias mãos.
Thales jogou a mochila sobre um dos ombros.
– Melhor assim. Vou para a aula, nos encontraremos no intervalo e
conversaremos melhor, tudo bem? – fez um carinho amigável na minha
bochecha e saiu. Vindo de Thales, não se poderia esperar nenhum toque além
daquele.
Quando o namorado de Mia se afastou, Antonela e Vívian se aproximaram
correndo.
Antonela tinha o queixo escancarado.
– Mas o que foi aquilo?!
Olhem... Nem eu sabia.
Vívian estava em êxtase:
– Puta merda! Você agiu como uma louca! Uma louca maravilhosa? Sim!
Mas ainda assim uma louca.
– Nunca imaginei isso vindo de você.... – Antonela encontrava-se meio
histérica. – E, espera aí... Desde quando você entende alguma coisa sobre artes
marciais?!
Tive que pensar rápido. Inventei qualquer história minimamente plausível.
– Eu aprendi com meu pai quando era adolescente. Tenho meus truques.
– E por que não nos contou? – parecia chocada.
– Eu não conto tudo para vocês. Tenho uma vida particular, sabiam? – rolei
os olhos da forma que minha gêmea sempre fazia. – Eu me precipitei atacando o
Feron, admito totalmente; mas não podia deixa-lo humilhar o calouro daquela
forma. Foi horrível e cruel. Para o bem dele, melhor que não faça isso na minha
frente outra vez.
Antonela estalou a língua, franzindo a testa; analisava-me com cautela.
– Que loucura. Nem parece você falando.
Exatamente. O que eu fiz não era do feitio de Mia, e eu precisava parar de
escorregar no meu disfarce – pois estava brincando com fogo.
Conviver com Feron era perigoso; o garoto retirava meu senso de
racionalidade. Devido ao meu passado experienciando ser uma vítima de
bullying e rejeição social, não conseguia lidar com sua maldade. Todo o mal que
ele fazia aos outros me ofendia pessoalmente – e para mim, era impossível vê-lo
sendo perverso e permanecer indiferente.
Era como um instinto primitivo rugindo em meu âmago, exigindo ser
ouvido. Aquilo me dominava.
Se um lado meu gostava de ter feito o arrogante Felipe Feron sofrer, outro
lado mais cauteloso se encontrava apavorado. Mia tinha sido bem clara em suas
ordens: não faça besteira, fique na sua, mantenha meus relacionamentos
intactos.
Bom, eu obedeci à todas as suas ordens – porém ao contrário. Maravilha.
Eu tinha consciência de não poderia ceder aos meus impulsos e deixar a
máscara cair. Havia pessoas demais me observando.
Vívian era uma garota alegre, ingênua e distraída – ela não duvidaria de mim
sem um motivo sólido. No entanto.... Antonela era diferente. Esperta, ágil e
inteligente, eu não a enganaria tão facilmente. Teria que melhorar minha atuação
para não despertar sua desconfiança.
Suspirei teatralmente.
– Vejam, já foi drama o suficiente para mim por hoje, e não quero ter que me
explicar. Podemos esquecer isso? Quando eu me recuperar do estresse da
situação, explicarei tudo. Não quero ter que ficar remoendo as consequências
agora. Sei que provavelmente estou ferrada, mas não vou sofrer por antecipação
– pelo bem da minha sanidade mental, ok? Isso é deixar o Feron me subjugar,
então ele vai conseguir exatamente o que quer.
Vívian grunhiu.
– Você acabou de dominar Felipe Feron no chão e quer esquecer o assunto? É
só o acontecimento mais escandaloso do ano, mas tudo bem. Fazer o que, não é?
– deu de ombros, decepcionada.
Antonela suspirou.
– Privadas dos detalhes do maior escândalo da São Valentim... Lamentável.
Bufei, sorrindo.
– Não façam drama. Contarei quando a adrenalina passar.
Juntas, fomos para a primeira aula. Eu sentia seus olhares curiosos sobre
mim. As duas notaram como Mia havia mudado: não fazia mais piadas cruéis,
nem debochava mais dos outros.
Além do mais, Mia jamais bateria em Felipe Feron para defender um calouro.
Ela era uma garotinha egoísta e mimada (e obrigava suas amigas a serem
exatamente como ela).
Fora da influência da verdadeira Mia, Antonela e Vívian podiam ser mais
como elas mesmas. Pessoas comuns, com defeitos – mas também acertos. Não
faziam mais comentários perversos, e sentiam-se mais livres para falar o que
realmente sentiam em seus corações... Eu não as manipulava, apenas não as
obrigava a se moldarem a mim.
Comigo, elas eram livres para ser quem queriam ser. Eu as dava espaço, e
isso fazia toda a diferença.
Quando você sai da zona de influência de uma pessoa ruim, você começa a
perceber que, apenas talvez, aquela maldade toda não era sua. Existem amizades
tóxicas. Perto dessa nova versão da Mia, sentia que suas amigas se sentiam
mais... Confortáveis, felizes.
Longe do campo de controle da minha gêmea, eu obtive a percepção
incontroversa: Vívian e Antonela não eram pessoas ruins. Elas eram criativas,
inteligentes e cheias de conteúdo; conversar com elas era muito divertido. Vívian
era sonhadora – e, muitas vezes, gentil. Antonela era honesta, leal e de espírito
forte.
Em algum universo paralelo, eu gostaria que elas fossem minhas amigas de
verdade. Conhecessem e amassem a mim, Ana Lívia – e não a abelha-rainha Mia
Santorini.
Infelizmente, a verdadeira Mia em breve retornaria para as suas vidas. Eu
havia começado a gostar das garotas de forma sincera, e me sentia triste por elas.
Mia não era uma boa companhia, pois ela não queria amigas – queria cães
adestrados. E, submetidas à essa relação tóxica, suas amigas apenas sofriam.
Nesse ínterim, a fofoca sobre o acontecido entre mim e Feron se espalhou
rapidamente – e, por onde eu passava, havia encaradas e murmúrios. Desde
enraivecidos, até fascinados.
Não consegui prestar atenção à aula. Meus pensamentos divagavam por mares
revoltos (da cor de certas íris verdes e diamantinas).
Intensas como poesia, mas caóticas como um furacão.
Quando Feron me encarou pela primeira vez, senti o impacto em todos os
meus ossos. Ele era o próprio comando. Não chegara à tal posição à toa.
Verdadeiros líderes te dominam apenas com o olhar, e o garoto possuía esse
curioso poder – de intimidar, impressionar, submeter.
Se de um lado do meu peito ódio borbulhava ao relembrar sua figura
arrogante, do outro lado havia um certo.... Senso de respeito pela sua liderança –
como um inimigo medindo o outro. Eu lutei muito na vida e por isso me tornei
uma muralha de ferro.
E, ao vê-lo pela primeira vez, uma chama se inflamou em meu peito,
confirmando: você encontrou alguém tão forte quanto você. Esse homem é um
igual. Será uma batalha perigosa.
E isso, meus amigos, era o presságio para uma guerra.



Na hora do intervalo, nos reunimos na cafeteria, como sempre. Podia sentir
todos os olhares sobre mim.
As pessoas cochichavam, ainda atônitas diante do acontecido. Dando uma
rápida conferida no celular de Mia, confirmei meu maior temor no momento.
Sim, a notícia e as fotos de minha pequena vias de fato com Feron já estavam
postadas na rede social de fofocas da São Valentim.
Ou seja: minha gêmea em breve saberia.
Imaginei quantos dias de vida ainda me restavam. Mia não era exatamente do
tipo que perdoava – era mais do tipo que decepava sua cabeça e dava para os
porcos comerem.
Que bom. Uma perspectiva maravilhosa.
Enquanto Antonela e Vívian conversavam, eu me mantive calada; girava
desanimadamente meu copo de café, perdida nos pensamentos.
Minutos depois, Thales e Téo sentaram-se à mesa.
– Como vai nossa lutadora preferida? – Téo tirou sarro de mim.
– Nem comece – revirei os olhos, fingindo indiferença. – Já ouvi demais
dessas duas aqui – apontei para as garotas.
– Sinceramente? O Feron é meu amigo, sim, mas aquilo foi simplesmente
sensacional. Não conhecia esse seu lado, Santorini.
– E nem eu – Thales franziu a testa para mim.
Ele estava levemente desconfiado.
Dei de ombros.
– É porque eu nunca precisei mostrar esse lado para vocês. Vocês sabiam que
o meu pai é faixa preta de karatê? – inventei. – Ele me ensinou muito quando eu
era adolescente. Sei que é difícil acreditar, mas tenho vida além das baladas e das
compras.
Antonela estalou a língua.
– Loucura. Por essa ninguém esperava.
– Muito menos eu – uma voz grave e poderosa respondeu.
Olhei para cima e dei de cara com o meu inferno pessoal. Feron. Ah, não,
merda. Carregando uma bandeja de comida, sentou-se em nossa mesa sem
qualquer cerimônia – pois, na verdade, era o chefe dali. Não precisava de
permissões.
Ao lado de seus músculos e autoridade, Téo e Thales pareciam cordeirinhos.
O garoto sentou-se ao lado de Thales, bem de frente para mim. A presença
dele drenava a paz do ambiente. Seus olhos verde-cristalinos me perfuravam
com desdém.
– Foi um show maravilhoso o que você deu lá fora, Santorini. Uma pena que
o seu namorado esteja te protegendo, e eu não poderei retribuir o favor.
Raiva ferveu em meu peito. O ar de superioridade e frieza era o traço marcante
do garoto (e eu odiava isso).
– Feron... – Thales começou em tom de aviso.
– Não – cortei-o. – Eu te agradeço, Thales, mas não preciso que me
defendam. Sei me virar sozinha. – Virei-me para o garoto arrogante, contendo o
ódio: – Eu te enfrentei, sim, e farei isso de novo quantas vezes for preciso. Não
aceito injustiças e não tenho medo de você. Portanto, quando for cometer suas
atrocidades, não as faça na minha frente, porque você pode acabar com a cara
imprensada no asfalto outra vez. Ficou claro, Feron? – devolvi o tom de desdém.
Quem estava falando naquele momento não era eu: era outra Ana Lívia,
movida pela fúria e pelo sentimento de justiça. Visceral. Todos na mesa ficaram
mudos, estarrecidos diante da minha ousadia.
Feron reduziu os olhos a fendas, pendendo a cabeça para um lado ao
analisar-me. Todos aguardavam, tensos, sua reação.
Suas íris continham a potência de mil vulcões, e ardiam com violência.
– Você é insanamente corajosa, garota. Não tem medo de morrer?
– Tenho sim, só não tenho medo de você.
Mentira. Mas ele não precisava saber.
O garoto ergueu as sobrancelhas perfeitas, um tanto perplexo. Analisou-me
de cima à baixo, expressão enigmática. Virou-se para Thales:
– Você arrumou uma namorada bem... Peculiar, cara. Detestável, é claro,
mas corajosa. Tenho que admitir.
Thales deu de ombros, fitando-me com um traço de orgulho.
– Ela é quem quer ser, eu não me meto.
Não importava a ocasião: Feron sempre ostentava aquela expressão maliciosa
e desdenhosa – de quem comanda o mundo e sabe disso.
Ele juntou as mãos e as apoiou sobre à mesa, inclinando-se para a frente. Os
músculos dos seus braços tatuados se flexionaram, acompanhando o movimento.
Olhou-me nos olhos. Esse cara sempre fazia isso: descarregava toda a potência
das íris verdes nas pessoas – dominadoras.
Naquele momento, tive vontade de me calar e obedecê-lo. E mais nada.
– Você é interessante, Mia Santorini. Me pegou de surpresa hoje e, em
ocasiões normais, quem sairia humilhada seria você. Mas eu não faço mais isso;
meu passado negro ficou para trás. Façamos o seguinte: esse é o meu grupo de
amigos, e sempre será – ele marcou o território. – Porém, como agora você está
inserida nele, te darei uma trégua para que convivamos em paz. Nunca irei
gostar de você, é evidente, mas no mínimo não irei te massacrar. Isso é um favor
pessoal para o meu melhor amigo, nada além disso. Sem o Thales, você estaria
destruída. Ficou claro, Santorini? – devolveu minhas palavras. Sua voz destilava
veneno.
– Ficou cristalino. – Devolvi no tom mais seco que consegui.
Ele deu um sorrisinho de escárnio. Maldito arrogante.
– Ótimo, então estamos resolvidos.
Por trás de seus olhos, puro ódio. Feron era uma criatura selvagem, e aquela
aparente civilidade configurava apenas em uma máscara. Eu sabia que ele queria
me massacrar, e só não o fazia em respeito ao melhor amigo.
Ficamos nos encarando por vários segundos, medindo forças; ninguém
desviou o olhar.
Téo pigarreou, interrompendo o clima estranho.
– Se a sessão de encaradas já terminou, podemos voltar ao normal?
Ninguém respondeu. Ele continuou.
– Ótimo, então tudo está resolvido. Agora podemos comer em paz...
Garçonete! – ergueu uma mão, chamando a atendente e fazendo seus pedidos.
Senti que todos ao nosso redor respiraram, aliviados.
Enquanto isso, Feron me encarava do outro lado da mesa, fixa e
obsessivamente. Parecia um tigre fitando a presa. Sua mensagem era clara: você
ainda irá se ver comigo.
E embora meu coração estivesse disparado, sustentei a potência do seu olhar,
sem desviar o rosto.
A garçonete foi embora e Antonela tentou aliviar o clima pesado.
– Bom... Agora que a paz foi declarada, mudemos de assunto – virou-se para
o garoto. – Então, Feron... O que você quis dizer com o seu passado negro ficou
para trás? Nós vimos o que você fez com o calouro hoje. Não parece que mudou
muito.
Feron suspirou.
– Você, como sempre, Antonela, nunca me dá uma voto de confiança, não é
mesmo? – despreocupadamente, abriu a lata de Coca-Cola e bebeu um gole,
parecendo dominar a mesa. – Bom, eu não sou mais o mesmo de antes. Aprendi
uma ou duas lições sobre a vida enquanto estive fora. Eu sei que eu fui um
déspota nesse lugar e que cometi várias atrocidades – mas hoje em dia, não mais.
Sei que tem vários alunos na São Valentim ansiosos pelo retorno do meu
comando – mas, se for para comandar, será pela justiça. Eu não vou deixar que o
resto dos alunos maltratem uns aos outros. Eles querem um líder? Tudo bem,
mas agora meus decretos serão outros. Não sou mais adolescente, nem vocês. Eu
simplesmente... Cresci. – Deu de ombros.
A reação dos meus amigos foi um silêncio sepulcral. Ninguém esperava por
aquele discurso.
Thales deu um sorriso amargurado, desviando os olhos e cruzando os braços.
– Desculpa, cara, mas eu só acredito vendo. Seu histórico advoga contra
você.
Feron deu de ombros.
– Tudo bem. Eu não um homem de meias palavras. Vocês têm o direito de
não acreditar; eu tenho o direito de provar. Não virei nenhum santo, lógico que
não. Mas eu não sou mais aquele cara cruel sem motivos. Como eu disse, nesses
últimos anos, a vida me ensinou algumas lições (e de formas bem cruéis). Eu
provei do meu próprio veneno e não quero isso para mais ninguém.
Vívian franziu o cenho.
– E o que foi aquela demonstração de hierarquia lá fora, mandando o calouro
se ajoelhar?
Quando Feron virou seu olhos ferventes para ela, Vívian se arrependeu e
engoliu em seco, abaixando o rosto. Feron à intimidava, e ela não tinha a mesma
coragem de Antonela. Diferente da amiga, Vívian era doce, sonhadora e um
tanto medrosa.
– Aquilo foi só uma encenação. Os caras do time de futebol com quem eu
conversava esperavam uma demonstração de força da minha parte. Uma espécie
de... Demarcação de território. Você realmente não conhece os alunos da São
Valentim? Eles só respeitam pelo medo. Primeiro, eu preciso mostrar para eles
quem é que manda. Fiquei muito tempo fora e eles precisam ser relembrados de
como funciona a hierarquia desse lugar. Depois que eu obtiver o temor de todos
eles, poderei começar a refazer minhas regras. Eles estão esperando um déspota,
mas não terão. Eu irei refazer a ordem: sem bullying, sem exclusão de classes,
sem ameaças. Eu conheço as pessoas da São Valentim desde criança, sei que elas
não são boa gente; elas precisam de um líder para impor os limites. Mesmo sem
pedir, eu fui o escolhido, então o mínimo que eu posso fazer é usar isso para o
bem.
Antonela negou com a cabeça, exasperada.
– Mas você é o rei do bullying.
Feron recostou-se na cadeira e cruzou os braços.
– Era. Todos têm o direito de mudar, inclusive eu. Eu amadureci, Antonela,
não sou mais um moleque.
Téo o encarava de soslaio, meio desconfiado.
– Não sei não... É estranho demais isso vindo de você.
Feron deu de ombros.
– Não estou pedindo para acreditarem em mim, não é do meu feitio. Eu não
peço, apresento evidências. Então apenas esperem e observem. – E então ele se
levantou, carregando sua bandeja de comida. – Vou até a secretaria acertar minha
matrícula, até.
Sem mais uma palavra, virou-se e foi embora. Queixo erguido, olhos
arrogantes e ardendo.
Esse homem era mesmo um líder nato – nada o abalava. Ele não queria se
provar, pois suas palavras eram ordens. Como alguém conseguia ter um poder
assim? Absurdo... Irreal. A autossegurança e o ar desdenhoso completavam o
pacote, e transformavam Felipe Feron no que ele era: uma lenda inatingível.
Se Feron ordenasse que, a partir de agora, o regime seria justo e pacífico, o
regime seria justo e pacífico. E ponto final.
Foi só aí que eu compreendi que meus atos nessa tarde se voltaram contra
mim. Feron precisava daquela demonstração de liderança para impor,
posteriormente, o regime pacífico e justo que ele queria. Se o cara realmente
estivesse falando a verdade, eu tinha atrapalhado tudo.
Suspirei.
Estúpida inconsequente.
Quando ele se foi da mesa, levou embora consigo a pimenta e imponência que
emanava dele. De repente, a mesa dos meus amigos pareceu muito
desinteressante. Sua ausência deixava rastros – e cheiros, e sensações... Minha
pele reagia, querendo mais. Era interessante demais estar naquela presença
selvagem.
Paralisei. Espera aí... Mas que diabos eu estou pensando? Eu queria a
presença de Feron?
Balancei a cabeça para afastar aqueles pensamentos estranhos e me envolvi na
conversa dos amigos de Mia, tentando aparentar normalidade. Não deixaria o
garoto desviar-me do meu propósito original.
Naquela semana, na faculdade, haveria a Semana Científica. Consistia em um
programa de cursos e palestras que aconteceriam durante à noite. Cada presença
valia um ponto, e precisávamos ficar mais horas na São Valentim assistindo à
tais palestras.
Junto às meninas, assisti duas palestras no âmbito da Gestão de Negócios
(não que eu tivesse entendido muita coisa). Mia tinha sorte por ter acesso à tanto
conhecimento – assim, de mãos beijadas. Muitos de nós nunca conseguiríamos
isso. Eu mesma estudava com materiais usados e não podia pagar sequer um
cursinho pré-vestibular.
Já eram oito e meia da noite quando saímos da São Valentim. Todos os
demais alunos seguiam saindo de seus respectivos prédios, caminhando para o
estacionamento central, ao lado do grande gramado.
Foi então que aconteceu – pessoas começaram a gritar e arfar. Uma multidão
se aglomerava no gramado.
– O que está havendo? – Vívian se assustou.
– Não sei – franzi o cenho. – Vamos até lá saber – comecei a empurrar as
pessoas que se aglomeravam no caminho e chegamos até o gramado central.
Ao lado do banco de pedra em que eu e minhas amigas sempre nos
sentávamos, havia uma imensa árvore – que nos dava sombra e refrescava nas
tardes de calor.
Acontece que, em um dos galhos do imenso carvalho, havia uma corda
pendurada. Nessa corda, o corpo de uma garota pendia enforcado, balançando de
um lado para o outro macabramente.
Pescoço quebrado, olhos esbugalhados.
Morta.
Comecei a sentir o pânico vindo à tona. Vívian gritou, e Antonela a abraçou e
tampou seus olhos, igualmente apavorada.
– Não olhe – sussurrou.
As pessoas começaram a se desesperar e fazer ligações. Talvez uma
ambulância, talvez a polícia, não sabia dizer. Eu estava em choque encarando o
cadáver.
A garota era loira. Sua pele estava arroxeada, e sangue fresco descia de seu
nariz – que parecia quebrado. Além do mais, sua roupa havia sido tirada; quem a
matou, deixou-a apenas de calcinha e sutiã. Contusões arroxeadas feriam toda a
sua pele, provando que não foi uma morte indolor.
– Ah, meu Deus... É a Nicole! – alguém gritou.
Diversos alunos arfaram ao reconhecê-la. E então meu celular apitou;
peguei-o na bolsa e observei a mensagem de texto anônima. Era a mesma lista
enviada mais cedo (porém o nome da Nicole estava cortado).
1 – Mia Santorini
2 – Pilar Monferrari
3 - Pietra de Bragança
4 – Maria Ísis Cavalcanti
5 – Nicole Pimenta
Ofeguei, a compreensão me assolando. Tudo agora fazia sentido!
Aquela não era uma lista das mais populares... Aquela era uma lista das
garotas que estavam marcadas para morrer, uma por uma.
Havia um assassino nessa faculdade. E meu nome estava no topo da sua
lista.



O corpo morto da menina ainda pairava sobre nós, encarando-nos com
olhos arregalados e vazios.
Meu coração disparou. Não, não, eu não podia ver corpos mortos, não
podia... O pânico foi ficando mais intenso e comecei a ofegar, pois sabia o que
viria a seguir.
Havia um segredo que eu guardara por toda a minha vida. Além da minha
própria mãe, ninguém nunca descobriu. Do lado de um defunto recém-morto,
sempre estava o seu espírito.
Eu podia ver fantasmas.
Ao lado do corpo enforcado, o espírito de Nicole se encontrava parado no
gramado. Ela era uma figura translúcida, que emanava uma luz azul-pálida.
Olhos arregalados (fitando, acima de si, seu próprio corpo dependurado). Ela
agarrava a raiz dos cabelos e chorava, sem acreditar.
O fato de eu poder ver fantasmas era o meu segredo guardado à sete chaves.
Por isso eu não saía de casa e não tinha amigos – eles estavam por toda à parte.
E se percebessem que eu podia os ver, começavam a me perturbar. Me seguir,
fazer pedidos, me assombrar.
Era horrível.
As pessoas começaram a erguer os celulares e fazerem o inevitável: tirarem
fotos. Flashes de câmeras explodiram por todo o campus, gravando e
fotografando a cena macabra. Ninguém tentou ajuda-la ou tirar seu corpo dali.
As pessoas estavam simplesmente postando o acontecimento mais trágico de
sua existência. Assistindo de camarote.
O fantasma de Nicole soluçava – contudo, ao perceber o sessão de fotos,
parou de chorar. Sua dor foi substituída por indignação.
– Mas o que vocês estão fazendo?! – berrou. Ela avançou para as pessoas
mais próximas, tentando retirar os celulares de suas mãos. No entanto, seu corpo
transcendental simplesmente atravessava as pessoas; ela não conseguia tocá-los.
Seu desespero ficou maior.
– Essa é a porra do meu corpo! Eu fui assassinada! – a garota gritava, mas
ninguém a ouvia. – Parem de tirar fotos! Parem com isso agora mesmo! – Era
inútil, pois ninguém podia escutá-la. Chocada, arrasada e humilhada diante
daquela exposição cruel, Nicole caiu de joelhos no chão. – Parem, por favor,
parem... – soluçava baixinho, já sem forças para sofrer mais. Escondeu o rosto
nas mãos. – Só tirem meu corpo daqui. Alguém me ajude.
A cena estraçalhou meu coração. Eu encarava o fantasma da garota
fixamente, e uma lágrima desceu dos meus olhos; aquilo era triste demais.
Alguém precisava ajudá-la, recolher o corpo e levá-lo à sua família.
Durante todos os últimos anos, eu aprendi uma lição: fantasmas também
sentem; também sofrem, anseiam e choram.
Observando a garota ajoelhada e humilhada no gramado, um instinto visceral
inflamou meu peito. Eu precisava fazer justiça, e dar um fim àquela maldade. Se
não fosse eu, ninguém mais ajudaria o espírito da garota.
– Parem com essa merda! – gritei de rompante, e todos me encararam
chocados. Comecei a arremessar os celulares das pessoas ao meu redor no chão.
– Não tirem fotos do corpo! Ela merece respeito! Vocês estão a humilhando!
Naquele momento, Nicole ergueu o rosto e me fitou, perplexa. Meus olhos
encontraram os seus, e ela arfou, compreendendo.
– Você pode me ver?! – levantou-se com um salto. Ah, não.
Quando eles percebiam que eu os enxergava, minha vida virava o inferno.
Eu fiz um sinal de silêncio com um dedo sobre os lábios. Ninguém podia
descobrir. Ela se aproximou correndo, agarrando-se à minha blusa.
– Por favor, me ajude – implorou.
Eu apenas assenti com a cabeça, discretamente.
Olhei ao redor. Algumas poucas pessoas haviam abaixado seus celulares,
envergonhadas – mas a maioria não se tocou com meu discurso. Aproximei-me
de um garoto especialmente arrogante, que empinava o celular em direção ao
corpo e gravava um vídeo.
– Você! – apontei um dedo na sua cara. – Eu mandei parar de tirar fotos!
O garoto me fitou de cima, desdenhoso. Era alguém do time de futebol.
– Saia da minha frente, Santorini. O celular é meu, e você não tem nada a ver
com isso.
Eu ri com amargura – agora ele estava pedindo.
Peguei o braço do garoto e o torci. Senti os ossos estalando, e o celular caiu
no chão; o garoto gritou de dor.
– Mas o quê...?! Me solta, sua cretina!
– Eu. Mandei. Parar – rosnei, apertando meu golpe. As pessoas me
encaravam estarrecidas. Aparentemente, essa era uma das reações que eu mais
causava por aqui.
– Ok, ok! – o garoto guinchou, e eu soltei meu golpe. Empurrei-o para longe
e ele caiu no chão, segurando o braço machucado. Encarou-me horrorizado. –
Sua estúpida insana. Você vai me pagar.
– Mas não vai mesmo – uma voz poderosa ressoou atrás de mim. Profunda e
quente (não havia meios de confundir). Feron.
Virei-me para trás e dei de cara com o garoto. Olhos verdes ardendo, postura
de comando. Todos ao redor deram um passo para trás, intimidados diante de
seus músculos.
– Feron – o garoto do time de futebol exalou, indignado. – Essa vaca me
atacou do nada. Ela é louca!
Feron me fitou de soslaio. Engoli em seco, sentindo toda a potência das íris
diamantinas.
Seu tom era misterioso quando sussurrou:
– Ela faz muito isso. – Cruzou os braços, virando-se para o garoto. –
Acontece que, dessa vez, a Santorini tem razão. Você agiu errado e ela fez o que
era necessário para te parar. Um erro pagou o outro, fim de história.
– Mas...
– Mas? – Feron rosnou. – Eu decretei fim de história. Qual parte você não
entendeu?
O garoto se indignou, mesmo sabendo que já havia perdido a batalha.
– Mas, isso... Isso não é justo!
Feron ergueu uma sobrancelha.
– A justiça aqui sou eu.
O garoto estreitou os olhos, enfurecido – mas se calou na hora, abaixando a
cabeça. Até ele sabia reconhecer hierarquias.
Enquanto isso, Feron se virou para a multidão e fez sua melhor expressão
ameaçadora; parecia um general comunicando ordens.
– Se vocês não querem ouvir a Santorini, ótimo, agora a ordem é minha. Não
tirem fotos, não postem em lugar nenhum. A tragédia já é grande demais para
expormos o corpo da garota. Ela merece nosso respeito. Vocês estão proibidos de
repassarem essas fotos, e quem não obedecer, vai se ver pessoalmente comigo.
Ficou claro?
Um silêncio pesado se abateu sobre o lugar. Algumas pessoas desviram o
rosto, constrangidas; outras, assentiram, submissas. Um predador em meio à
cordeirinhos.
De soslaio, observei o fantasma de Nicole suspirar, aliviado.
– Obrigada – ela sussurrou para mim.
Eu assenti uma vez. Sua dor me comovera – e armar outra cena, dessa vez,
não tinha sido em vão. Fantasmas estão sempre muito perdidos e sozinhos.
Senti um toque quente em minhas costas. Para o meu espanto, Feron apoiou
sua mão na base da minha coluna, e todo o meu corpo se arrepiou. Ordenou:
– Vamos sair daqui – guiando-me entre a multidão. Ao passarmos por minhas
amigas, Feron as convocou. – Vívian, Antonela, venham comigo também.
Elas nos seguiram imediatamente.
Quando chegamos ao estacionamento, Vívian encontrava-se pálida.
– Meu Deus, o que acabou de acontecer aqui?
Feron cruzou os braços, recostando-se em um carro. Era um conversível azul,
provavelmente de Téo.
– Está óbvio: ela foi assassinada. Viram as contusões por todo o corpo?
Aquilo foi uma briga feia.
Antonela torcia os dedos, expressão preocupada.
– Isso vai dar muita confusão. Ela é filha de gente importante do governo... A
São Valentim pode até fechar as portas.
Naquele momento, Téo e Thales atravessaram o estacionamento e se juntaram
a nós. Téo também estava pálido e nervoso.
– Tem um corpo enforcado naquela árvore! – apontou para o gramado, voz
estrangulada.
Thales também não parecia nada bem.
– A Nicole não merecia aquilo. Quem foi o desgraçado que poderia ter feito
isso com ela?
Feron seguia recostado no carro, braços cruzados e olhos fervendo. Lançou-
me um olhar enigmático.
– Pergunte à sua namoradinha, Thales. Ela gosta de se meter no que não a diz
respeito.
Thales franziu o cenho, olhando de mim para o garoto.
– Como assim?
Feron suspirou, desencostando-se do carro; retirou a chave do seu Range
Rover do bolso e falou.
– Tanto faz. Espero vocês dois lá em casa mais tarde. Vamos jogar e encher a
cara, estou precisando. – E então ele nos deu às costas, fazendo uma continência
descolada e indo embora para o seu próprio carro.
Quando se afastou, seu cheiro misterioso ainda impregnava o ar. Fervente.
Ele era o próprio diabo, me disseram. Mas quem diria que o diabo poderia ter
olhos tão penetrantes? Em desdém ou profundidade, as íris de Feron sempre se
cravavam em mim como facas na jugular.
E eu entendia a razão de as pessoas o obedecerem: seus olhos eram
hipnotizantes.
Após sua partida, ainda ficamos conversando algum tempo no
estacionamento. Não contei sobre a lista para ninguém – mas não pude evitar a
sensação de medo que assolou minhas veias. Minha vida estava em perigo nesse
lugar.
Quando cheguei em casa naquela noite, Stela e Tomás assistiam ao noticiário.
A notícia do assassinato de Nicole já estava em todos os jornais. Ela era filha de
um deputado federal, o que causou imensa confusão.
Stela surtou quando me viu passar pela porta, correndo até mim e me
amassando dentro do seu abraço.
– Filha! Você está bem? O vídeo já está por toda a internet. Vimos o que você
fez pela garota... Foi muito corajosa...
Então alguém desobedecera a ordem de Feron e postara o vídeo? Bom, talvez
tenha sido o cara do time de futebol (ressentido pela minha agressão e querendo
reaver o ego ferido).
No fim, ele teria que se ver com o Feron, e eu não queria estar em sua pele.
Tomás também me abraçou, parecendo preocupado.
– Aquilo foi horrível de se presenciar. Você está bem? Estou muito orgulhoso
da sua postura, parabéns.
– Foi uma reação automática – dei de ombros. – Não pensei, só agi.
E esse estava sendo meu maior problema ultimamente. Maldita impulsividade.
Logo em seguida, nós jantamos juntos na sala de jantar. Tomás me contou
que suspeitava das motivações do crime. O deputado federal, pai de Nicole,
poderia estar sendo ameaçado, envolvido em algum esquema perigoso... Era
possível que o assassinato da sua filha tenha sido um recado.
Deixei que ele falasse e omiti o assunto sobre a lista. Os pais de Mia pirariam
se soubessem.
Se essa lista viesse à público, eu estaria em meio à uma investigação como
possível vítima. Mas eu não era Mia Santorini, e não poderia me envolver com a
polícia. Não quando eu mesma estava cometendo um crime.
Às onze e meia da noite, meu celular tocou. Droga, eu reconhecia o número.
Mia sabia que, à essa hora, seus pais já tinham ido para a cama.
Quando atendi, minha gêmea já foi logo rosnando.
– Se prepare, porque eu vou te matar.
Suspirei, sentando-me na cama e me preparando para o sermão. Em apenas
um dia, eu tinha exposto minha irmã por duas vezes seguidas, em situações nada
agradáveis. A verdadeira Mia jamais faria isso.
Ouvi o sermão calada, pois sabia que merecia.
– E mais uma coisa – ela emendou após vinte minutos de discurso. – Fique
longe do maldito Feron, ficou claro? Ele é perigoso demais para a gente. Se ele
não gostar de você, pode influenciar o Thales e jogar meu relacionamento no
lixo. E quando o Feron quer alguma coisa, ele consegue. Thales me fornece
muitos benefícios nos negócios e na vida social – ele é ouro para mim. Não o
deixe escapar de jeito nenhum.
– Feron poderia te dar mais benefícios – comentei (mas me arrependi na
mesma hora).
Por que eu falei isso?
Mia jamais cogitaria um relacionamento com ele... Cogitaria?
Ela bufou em escárnio.
– Esquece, maninha. Feron é um deus? É sim. Dez mil vezes mais rico e mais
sexy que o Thales, mas ele não escolhe mulher alguma. Talvez, apenas modelos
e beldades. Ele está em outro patamar, é um objetivo inatingível... Prefiro manter
meu benefício certo, a me arriscar em uma aventura impossível.
Eu concordei apenas para que ela parasse de falar.
Aquelas palavras me incomodaram... Não sabia o porquê. Eu tinha a
consciência de que o garoto era inalcançável, mas ver Mia consolidando a
informação tornava tudo mais real. Por algum motivo, não me senti feliz.
Por que eu queria ser vista por Felipe Feron?
Seriam.... Aqueles olhos?
Bufei, balançando a cabeça para clarear as ideias.
– Pare de pensar merda – grunhi para mim mesma, entrando no banheiro.
Contudo, ao abrir a porta, brequei de susto.
Do outro lado, estava ninguém menos que o fantasma de Nicole. Brilhava no
escuro, de forma translúcida e macabra.
– Santorini, você precisa me ajudar. Eu sei que você consegue me ver.












ADENDO DO CAPÍTULO
SOB A VISÃO DE TÉO

A cobertura da família Feron situava-se no bairro mais caro de São Paulo.
Consistia em um edifício de trinta andares, mármore negro e enormes janelas
espelhadas.
Uma verdadeira ode ao dinheiro.
No salão de jogos da cobertura, Thales, Téo e o próprio Feron jogavam
pôquer e bebiam juntos. Lá pela meia-noite, Thales ficou bêbado demais com o
uísque para continuar, decidindo ir embora. No entanto, Téo só partia quando a
bebida acabava.
Téo e Feron disputavam mais uma partida de pôquer. Téo notou que Feron se
encontrava silencioso e pensativo.
Entre uma jogada e outra, ele bebia um gole de uísque, olhos sérios e
atormentados; alguma ideia parecia o perturbar.
Téo tinha um palpite do que poderia ser.
– Então... – começou casualmente, descendo algumas cartas. – Você e Thales
estão estranhos um com o outro, não é? Acho que ele não digeriu ainda a sua
volta.
Feron soltou um sorriso amargurado.
– Ele não vai me perdoar tão facilmente pelas coisas que eu fiz no passado.
Sei que eu tornei a vida dele bem difícil. Era complicado me controlar naquela
época.
Téo deu de ombros.
– Relaxa, cara, ele vai te perdoar. Mas será aos poucos, tenha paciência. Foi
você mesmo quem disse: nós amadurecemos, não somos mais os moleques do
passado. Daqui há uns dias, tudo vai estar normal. Ele ainda está se acostumando
com a sua presença.
– Hum... – Feron murmurou, rodando o uísque na mão. Tinha a testa vincada,
incomodado. Olhou para Téo de soslaio, medindo as palavras. – Ele e aquela
garota... A Santorini... Estão juntos há quanto tempo?
Téo notou o lampejo de interesse nos olhos diamantinos do amigo. Ele queria
manter a expressão impassível, mas sua postura tensa o entregava. Quando ele
falava de Mia, seu maxilar se contraía; ele trincava os dentes.
A garota o afetava.
– Ah, não, cara – Téo resmungou. – Eu conheço esse olhar no seu rosto. É o
olhar de quem tem um inimigo.
Feron ergueu uma sobrancelha e levantou as palmas das mãos.
– Só estou perguntando.
Téo temeu pela amiga. Quando Feron estava com raiva, não era algo bonito de
se ver.
Mia era uma garota forte, sim – mas Feron era de aço. Ela seria massacrada.
– Sei – Téo bufou, dando mais uma golada em seu uísque. – Eu te conheço
bem demais para acreditar em você. Nesse momento, você está com ódio.
Feron soltou aquele sorrisinho de desdém de sempre. Por baixo da superfície,
suas íris ardiam em desprezo.
– Ela me desafiou e me humilhou em público. O que você acha que eu quero
fazer com ela? Oferecer flores?
Téo colocou o copo na mesa, ficando sério de repente.
– Eu sei que você está puto, mas quer um conselho? Não mexa com a Mia,
porque o Thales não irá te perdoar. Eles são namorados agora. Qualquer mal que
você fizer a ela, estará fazendo a ele; não tem como separar.
O sorrisinho de desdém de Feron também morreu. Ele desviou os olhos,
bebendo uma golada de seu uísque; a face ficou sombria.
– Eu sei – murmurou roucamente.
Téo vislumbrou a perturbação em seus traços. Feron não estava apenas
remoendo um sentimento de vingança – ele também se encontrava...
Amargurado. Alguma coisa naquela situação o transtornava profundamente.
Téo franziu o cenho.
– O que está acontecendo, cara? Você não ficaria tão amargurado por causa de
uma briga.
Feron fitava a cidade lá fora; olhos perdidos através da janela, face sombria.
Não pareceu sequer ouvir a pergunta do amigo.
– Eles se amam? – disparou de repente.
Téo quase engasgou com o uísque.
– O quê?
Feron virou-se para o amigo, perfurando-o com as íris felinas.
Repetiu com acidez:
– Eles se amam?
Téo franziu o cenho.
– Por que o interesse repentino?
Isso era estranho, Téo constatou. No passado, Feron jamais se importou com
as namoradas dos amigos. Na vida dele, só passavam mulheres de uma única
noite. Garotas que ele conhecia na balada e se despedia na manhã seguinte, sem
nunca mais ligar de volta.
Além do mais, Feron nunca perguntou sobre sentimentos antes.
Feron ergueu o maxilar, na defensiva.
– Ela é o meu melhor amigo, tenho direito de perguntar.
– Bem... – Téo deu de ombros, aceitando o argumento do amigo. Enquanto
arrumava as cartas em sua mão, contou a história de forma automática. – Não se
amam exatamente. Aquilo é mais uma amizade que virou um acordo de
negócios. O Thales fez a Mia ficar mais popular, e a Mia abriu as portas da rede
de hotéis Santorini para a família dele. A agência de turismo do Thales tem
lucrado bastante com essa parceria. Eles namoram, mas fazem o que querem
quando ninguém está olhando. Todo mundo saiu ganhando.
E então, silêncio. Téo estranhou a falta de reação do amigo, e ergueu os olhos
para encará-lo.
Do outro lado da mesa, Feron se encontrava de braços cruzados; íris ardendo
em interesse.
– Como você sabe disso?
Ah, não. Lá estava novamente: o lampejo nos olhos dele. O interesse de um
caçador sobre sua presa. Se Mia e Feron entrassem em guerra, a São Valentim
explodiria.
Téo abaixou as cartas, preocupado.
– Não entendo por que você está tão interessado. Já te avisei, cara: não se
vingue da Santorini. Isso vai dar muita confusão.
– Eu não quero confusão com ela.
O quê?
Téo vincou a testa, desconfiado.
– Então o que você quer, Feron?
Com a expressão sombria, Feron bebeu um gole do seu uísque. Desviou os
olhos para a janela.
– Nem eu sei.
– Como assim? – agora Téo se encontrava receoso de verdade. Nunca vira o
amigo agir assim por causa de uma mulher.
Feron ergueu uma sobrancelha.
– Aquela garota é... Desafiadora. Nunca conheci ninguém igual.
Então Téo chegou à uma conclusão perturbadora – uma ideia que ele não
queria ter tido.
Feron não estava acostumado a ser desafiado; e o fato de Mia tê-lo encarado,
poderia ter gerado uma impressão intensa sobre ele. Se Feron a considerasse
uma igual, passaria a respeitá-la – e, talvez desse respeito... Pudesse nascer algo
mais.
Algo mais profundo.
Téo franziu o cenho, observando o amigo atentamente. Calculou muito bem as
palavras.
– Você está perguntando sobre a Mia por que está com ódio dela, não é?
Feron não respondeu. Apenas sorriu amargamente, íris obscuras, bebendo um
gole de seu uísque.
Téo continuou, tenso.
– Não seria por que você ficou... Interessado nela... Não é? – reafirmou.
Feron quase cuspiu o uísque que bebia; olhou para o amigo com ultraje e ódio.
– Mas que porra você está falando?
– É só que... É estranho. Seu rosto muda quando você fala dela.
Feron quase rosnou.
– É porque eu a odeio! Não repita essa insanidade outra vez. Eu nunca iria
desejar a mulher do meu melhor amigo.
Téo relaxou um pouco – mas só um pouco.
– Foi só uma hipótese. Agora que ela é a namorada do Thales, sei que é
intocável. Você pode ser um cretino, mas é leal aos seus amigos.
Feron desceu algumas cartas, furioso; o assunto o perturbava.
– Que bom que você sabe. Não quero ter que ficar me explicando.
Téo riu.
– Relaxa, meu camarada, não leve tão à sério. Hoje você está muito
estressado... Você não é assim.
Ainda com o semblante amargurado, Feron pegou o copo para dar mais um
gole. Ele estava exagerando naquela noite.
No entanto, a bebida havia acabado. O amigo grunhiu, com mais ódio que o
necessário.
– Que ótimo, a merda do uísque acabou. Vou pegar mais uma garrafa no bar
do meu pai, fique bem aí. Ainda é a minha vez. – Feron largou as cartas sobre a
mesa, saindo do salão.
Téo sabia que ele se encaminhava para o primeiro andar, onde ficava o bar
particular do pai de Feron. Na adolescência, eles furtaram muitas vodcas daquele
estoque sagrado.
Quando o amigo saiu, Téo flexionou as costas, sentindo o cansaço e letargia
da bebida baterem no corpo. Feron era praticamente de aço, e demorava horas
para ficar realmente bêbado. Enquanto Thales era o mais fraco, o próprio Téo
ficava no meio termo entre os dois. Não se derrubava rápido – mas também não
era de aço.
No intuito de saber as horas, procurou qualquer relógio nos arredores. Não
havia. Tateou os bolsos à procura do celular, mas não estava lá. Devia ter
esquecido no carro. Observou ao redor e avistou o celular de Feron por sobre a
lareira. Portanto, aproximou-se e clicou no único botão da tela.
Ela se acendeu na hora, pois não havia senha. Feron não era do tipo que
escondia as sujeiras que fazia.
Quando a tela se acendeu, mostrou exatamente a última página na internet que
o amigo havia visitado.
Téo arregalou os olhos, exalando.
– Puta merda.
A última página que Feron havia visitado era, nada menos, que a rede social
da Santorini. Lá estavam todas as fotos dela: das viagens, das amigas, da
família...
Fotos que, provavelmente, Feron analisou uma por uma.
Ele estava... Buscando saber mais sobre ela? Como assim?
Anteriormente, ele nunca havia se dado ao trabalho de pesquisar sobre a vida
de ninguém (nem mesmo dos muitos inimigos que colecionava). Feron
simplesmente não se importava o suficiente com quem quer que fosse... Essa era
a primeira vez.
Téo se afastou do celular, preocupação fechando sua garganta. Sem querer,
havia descoberto algo que não desejava saber – mesmo. Agora, aquele se tornaria
um segredo incômodo e confuso que seria obrigado a guardar.
Feron estava mentindo.
No fundo, ele estava interessado sim em Mia Santorini.
























CAPÍTULO 5

Mostrei para Nicole a mensagem misteriosa que eu havia recebido.
Nós conversávamos, sentadas na cama da Mia. Se alguém chegasse agora,
pensaria que eu era algum tipo de louca – sentada na cama, falando sozinha.
– Eu também recebi essa mensagem – Nicole olhava para a tela do meu
celular, testa vincada. – Recebi uma mensagem com a lista mais cedo. Se você
também recebeu, é provável que também tenha sido enviada para as outras
meninas da lista. Nós temos um inimigo em comum.
– Vamos conversar com elas e descobrir.
Nicole cruzou os braços, me encarando.
Pigarreei.
– Aliás, eu vou conversar com elas. – Nicole estava morta demais para
qualquer debate em grupo. – Você conhece alguma delas?
– Só de vista. Você pode contatá-las através da caixa de mensagens das suas
redes sociais. É só procurar: Pietra de Bragança, Maria Ísis Cavalcanti e Pilar
Monferrari.
Ah, que ótimo. A Pilar: arqui-inimiga da minha gêmea. Seria um bate-papo
maravilhoso.
– Você não lembra nada mesmo sobre o momento da sua morte? – perguntei
outra vez.
Fantasmas sempre esqueciam o momento de suas mortes, se essas tivessem
sido muito traumáticas. Aprendi isso da pior forma possível ao longo dos anos.
– Não – ela reafirmou. – Saí da palestra de Direito Penal mais cedo, estava
com enxaqueca. Fui pegar meu carro no estacionamento: aquele da ala oeste,
perto da biblioteca. Ele é o mais vazio. Estava escuro e já era bem tarde, não
tinha ninguém por perto. Ouvi passos atrás de mim, mas quando me virei,
alguém me acertou bem na cabeça. Parecia um pedaço de pau. Depois disso,
desmaiei e não vi mais nada. Só lembro de ter acordado do lado do meu corpo
enforcado, sem entender porque diabos eu estava pendurada ali. Seminua e
espancada.
Engoli em seco; foi realmente brutal.
– Mas e sobre todos aqueles machucados no seu corpo? Pensei que seriam
evidências de uma luta.
– Não houve luta; ele deve ter me espancado depois de me apagar. Essa
pessoa deve ter muita raiva de mim. Não queria só me matar... Queria me
destruir da forma mais cruel possível. – Ela suspirou, massageando as têmporas;
a expressão destruída. – Uma hora dessas deve estar acontecendo meu velório.
Coitada da minha mãe... – uma lágrima desceu pelo seu rosto.
Eu sabia que Nicole não tinha muito mais lágrimas para chorar. As olheiras
embaixo de seus olhos denunciavam: o fantasma já havia chorado demais.
Aquilo tocou meu coração, pois era sempre muito triste vê-los sofrendo.
Peguei sua mão; ela era gelada e tinha uma textura estranha.
– Nós vamos pegar esse maldito, Nicole, eu te prometo. Ele vai pagar pelo
que fez.
Nicole suspirou, desviando os olhos. Ela era uma garota muito séria e sensata,
e não gostava de chorar na frente dos outros.
– À essa altura, eles já fizeram o exame de corpo de delito. Mas eu duvido
que o assassino tenha sido burro o suficiente para deixar evidências para trás.
Daqui a pouco a polícia vai instaurar um inquérito para investigar o caso. Eles já
devem ter visto as mensagens no meu celular... Com certeza farão a conexão. É
possível que você e as outras três meninas sejam chamadas para prestar
depoimento na delegacia. Afinal, o nome de vocês também está naquela lista.
– O quê?! – quase engasguei.
Ah, não, polícia não! Eu não podia dar as caras em uma delegacia quando eu
mesma estava cometendo um crime. Era arriscado demais.
– Não entre em pânico, Santorini. Se você não é o assassino, não tem por
que ter medo da polícia.
Engoli em seco, desviando os olhos.
– É que eu não gosto disso.
– Não quer se envolver com a polícia? Só tem um jeito: vamos descobrir
primeiro quem é o assassino. Afinal, eu fui apenas a primeira... Seu pescoço
também está em jogo.
Era a minha única saída.
Na mesma hora, peguei o celular e encontrei as outras três garotas em suas
respectivas redes sociais. Enviei uma mensagem para cada uma delas,
solicitando um encontro conjunto no outro dia.
Se todas nós pensássemos juntas, talvez conseguíssemos chegar a uma
resposta.
Quem poderia nos odiar tanto, a ponto de querer nos ver mortas?



Na outra manhã, acordei e liguei meu celular.
Todas as três garotas haviam respondido minha mensagem, confirmando o
encontro.
Depois do assassinato de ontem, Stela ficou paranoica com a minha
segurança. Principalmente por causa das palestras durante à noite, ocasião em
que éramos liberados tarde demais. Ela não me deixou ir dirigindo para a
faculdade – Félix, o motorista, iria me levar e buscar por pelo menos uma
semana.
Foi muito bom rever o Félix; afinal, ele era a única pessoa que sabia que eu
não era Mia Santorini. Nós conversamos de forma muito natural, sem máscaras.
Estava me esquecendo como era ser eu mesma.
Naquela dia, não consegui prestar atenção às aulas.
A hora do intervalo chegou, e juntamente às amigas de Mia, sentei-me em
nossa mesa na cafeteria. Minutos depois, Thales e Téo adentraram no salão.
Thales sentou ao meu lado e plantou um beijo na minha bochecha.
– Você está bem? Nem conversamos sobre o que aconteceu ontem. Você deve
ter entrado em choque.
– Agora eu tô legal – dei de ombros. Puro fingimento. – Eu me revoltei
apenas na hora, tive que tomar uma atitude.
Téo soltou um sorrisinho.
– Você tem feito isso muito, Santorini. Comprando a briga dos fracos e
oprimidos... Não conhecíamos esse seu lado.
Hoje eu não estava com paciência para conversinhas no papel de Mia
Santorini.
– Pois é. Agora vocês conhecem – cortei-o, tomando uma colherada do meu
iogurte.
Não queria ser rude com Téo (ele era um cara legal) mas já havia
preocupações demais sobre meus ombros naquele dia. Não queria ficar me
explicando.
Naquele exato momento, um cheiro exótico de oceano e terras quentes
inundou o ambiente.
Ergui os olhos e dei de cara com ele. Feron. Essa tarde, ele usava uma camisa
azul marinho e um boné preto, virado para trás.
– Vejo que o mau humor é um traço intrínseco da sua personalidade, Santorini
– disparou. Ele me encarava de cima, aqueles olhos ardendo. Eram olhos
estranhos e intensos, e eu nunca iria me acostumar.
Aquela profundidade me deixava... Incomodada. Eram mares escuros, que
guardavam milhares de segredos. Feron tinha mais dentro de si do que deixava
as pessoas perceberem.
Bufei.
– Só quando eu te vejo, Feron – e baixei o rosto para o meu iogurte. Tentei
fingir casualidade (embora meu coração estivesse disparado).
Aquele maldito garoto fazia o meu pulso acelerar; não conseguia relaxar
diante da sua presença selvagem.
Ele se sentou à minha frente, abrindo uma lata de energético. Arqueou uma
sobrancelha e soltou aquele típico sorrisinho lateral – que fervia em malícia e em
arrogância.
– Ótimo, é sempre bom fazer novos inimigos. Já estava ficando entediado por
aqui.
Vívian soltou uma risada.
– Essa frase realmente tem a sua marca.
Feron olhou para ela, piscando.
– Não é?
Depois disso, o assunto foi tomando outros contornos. Meus amigos debatiam
sobre a morte de Nicole, elaborando as teorias mais mirabolantes. Téo conseguiu
a informação de que as câmeras na noite da morte haviam sido desligadas
estrategicamente. O assassino não era estúpido.
Feron, entretanto, encontrava-se calado, sem participar da conversa.
Eu o observava furtivamente, quando ninguém estava prestando atenção em
mim.
Ele tinha o maxilar tenso e os olhos sombrios. Em determinado momento, se
recostou na cadeira e virou o boné para a frente; cruzou os braços – uma postura
arrogante e defensiva. Enquanto meus amigos tagarelavam, ele se mantinha em
um silêncio sombrio, misterioso.
Quando todos estavam envolvidos em uma conversa, Feron direcionou
furtivamente seu olhar para mim. Por baixo da aba do boné, quase escondidos,
suas íris diamantinas ardiam. Cravavam-se em mim, selvagens e dominadoras.
Feron me encarava abertamente, sem tentar esconder. Os segundos se
passaram e ele continuou me olhando.
O que diabos ele estava querendo de mim?
O momento ficou estranho e eu desviei o rosto, bebendo um gole do meu
suco ainda intocado. Meu pulso estava acelerado. A atenção dele, tão
escancarada e dominadora, fazia partes peculiares do meu corpo ferverem.
De soslaio, observei que Thales, ao meu lado, percebera nossa estranha
interação. Ele vincou a testa para Feron, e passou um braço sobre meus ombros –
marcando território.
Bufei.
Homens podiam ser muito infantis.
Feron soltou um sorrisinho amargurado e desviou o olhar.
– Você está bem? – Thales sussurrou para mim.
Ele notara o olhar perturbador de Feron em minha direção. Sabia que aquilo
poderia me apavorar.
– Estou sim – garanti, embora não fosse verdade. Aquele olhar penetrante
havia mexido comigo, e bagunçando as sensações em meu interior.
Só quem já foi alvo do olhar apimentado de Felipe Feron poderia descrever a
sensação... Era apavorante. Era extraordinário.
Thales estava errado: eu não estava com medo do Feron. Pois no olhar do
garoto, eu não vi apenas ódio, apenas veneno. Quando me encaravam, suas íris
misteriosas refletiam alguma espécie de...
Interesse peculiar.
Ele queria alguma coisa de mim. Eu só ainda não sabia o quê.



A última palestra terminou pontualmente às dez horas da noite. Marquei com
as garotas naquele exato horário. O local do encontro seria o banheiro do terceiro
andar, situado no prédio de Gestão de Negócios.
Eu sabia que aquele era um banheiro pouco visitado; logo, teríamos
privacidade.
Tive que mentir para Antonela e Vívian, de modo a irem embora sem mim.
Inventei um compromisso qualquer na secretaria, e elas não desconfiaram.
Quando se foram, corri para o terceiro andar.
Abri a porta do banheiro e todas as garotas já estavam lá, me esperando.
Pietra, Maria Ísis e Pilar – as três beldades que compunham a lista. Pietra e
Maris Ísis se recostavam na pia de mármore e conversavam. Já Pilar se apoiava
contra à parede, teclando furiosamente no celular e ignorando as outras duas.
Por dois segundos, apenas as observei. O que as três tinham em comum com a
Mia? Por que seus nomes foram parar naquela lista?
Bom, para começar: todas as três eram ícones de beleza. Também eram muito
ricas e populares; it girls ditadoras de moda, que massacrariam quem estivesse
em seu caminho.
Acontece que Mia também era uma ditadora (e gostava de massacrar as
rivais). Igualmente, consistia em uma das mais populares... Talvez daí proviesse
o vínculo entre elas.
Maria Ísis era uma garota ruiva, de cachos sensuais. Pietra era uma garota
negra, com cabelos alisados até a cintura e traços faciais perfeitos. Já Pilar...
Bem, a garota era uma verdadeira beldade – de cabelos negros, pele pálida e
olhos azuis-gelo. Tão linda quanto cruel.
Dava medo olhar para ela (mas eu não conseguia parar de encarar).
– Gosta do que vê, Santorini? – Pilar Monferrari ergueu os olhos para mim,
um sorrisinho cruel do rosto. – Imagino que sim. Deve ser por isso que você
copia cada detalhe da minha vida.
Argh. Pela primeira vez, eu concordava com a minha gêmea: Pilar era mesmo
uma vaca.
Portanto, dei meu melhor sorrisinho falso (bem ao estilo Mia Santorini).
– Só não consigo parar de encarar essas suas sobrancelhas malfeitas. Não sei
se você conhece uma invenção recente ultramoderna... Chama-se pinça.
Pilar perdeu o sorrisinho na hora. Quando abriu a boca para responder, foi
interrompida por Pietra; a beldade de pele negra ergueu uma mão.
– Parem, meninas. Não é o momento para isso.
Logo percebi que Pietra era mais sensata dali.
Maria Ísis, a ruiva, concordou.
– Ela tem razão. Deixemos nossas rivalidades de lado, temos um problema
maior agora – virou-se para mim. – Santorini, você também recebeu aquela
mensagem?
– Como o nome da Nicole cortado? Sim, e acho que só pode ser um recado.
Nicole foi a primeira, nós seremos as próximas. Ninguém mais recebeu-a além
de nós.
Pilar revirou os olhos, murmurando.
– Até que não é tão burra.
Pietra a ignorou por completo.
– Também chegamos à mesma conclusão. Estamos tentando encontrar um
inimigo em comum, mas até agora não pensamos em ninguém. Sugestões?
Ficamos cerca de meia hora conversando, mas não chegamos à nenhuma
conclusão sólida.
As possibilidades eram escassas. Um psicopata tarado pelas mais populares?
Uma garota ressentida? Nada disso fazia sentido, vez que aquelas garotas não
tinham inimigos verdadeiros – elas tinham rivais (mas só). Nada que justificasse
um assassinato.
Combinamos de manter contato e contar umas às outras qualquer novidade.
Deixei que as três fossem primeiro; cansada, lavei meu rosto na pia e fiquei uns
quinze minutos pensando sozinha.
No que eu fui me meter? Ser Mia Santorini estava saindo mais difícil que o
esperado.
Então eu me lembrei que o Félix estava no estacionamento me esperando.
Como eu estava meia hora atrasada, ele não deveria estar soltando fogos de
artifício. Pelo menos eu havia mandado uma mensagem, avisando que iria me
atrasar.
Saí do banheiro, correndo para o estacionamento lá fora. No entanto, quando
desci as escadarias do prédio, não havia carro nenhum me esperando. Olhei ao
redor: a faculdade encontrava-se escura e vazia; silêncio sepulcral, neblina.
De súbito, senti medo. Uma garota havia morrido bem aqui, na noite
anterior... E nessa mesma situação.
Droga, como eu iria embora agora?
Naquele momento, um carro virou a esquina. Seus faróis me cegaram por
alguns segundos, portanto protegi meus olhos com uma mão. O carro parou bem
na porta do prédio em que eu me encontrava; era um Range Rover preto e
enorme. O motorista abaixou o vidro do carona, ficando cara à cara comigo.
Para o meu total espanto, Felipe Feron me encarava do seu lugar ao volante.
Sob à luz azulada do painel do carro, seus olhos reluziam – diamantinos e
sinistros. Mais perigosos do que deveriam.
Ah, não. Isso não.
Meu coração se encolheu, apavorado.
Feron me encarava com malícia. Sua voz era pura pimenta, com timbres
misteriosos.
– Sozinha aqui, à essa hora da noite, Santorini?
Engoli em seco. Baixei a mão, a postura tensa. Olhei ao redor e não havia
ninguém; tudo estava escuro. Até os funcionários já tinham ido embora.
Contudo, nenhuma ameaça revelava-se mais perigosa que o garoto à minha
frente. E nós estávamos sozinhos aqui – só eu ele. Ele poderia fazer o que
quisesse comigo.
Poderia se vingar.
Ele era inescrupuloso e selvagem, e essa seria sua chance perfeita. Clareei a
garganta, procurando não demostrar medo.
– Estou esperando meu motorista. Ele se atrasou, mas já está chegando –
menti. Queria transmitir a mensagem: não estou sozinha aqui. Se você me fizer
mal, alguém virá me ajudar.
Ele ergueu uma sobrancelha, ainda com um sorrisinho no canto dos lábios.
Parecia estar gostando da situação – pois era ele quem estava no comando.
– Seu motorista já foi embora há meia hora. Eu mesmo o vi saindo depois de
receber uma ligação. Não pareceu que pretendia voltar.
Ah, meu deus, estou ferrada.
– Então eu vou pegar um táxi.
Ele negou com a cabeça.
– Não tem ponto de táxi aqui por perto, nem transporte público. É um bairro
inóspito e já são dez da noite. A faculdade está vazia, é perigoso ficar sozinha
por aqui; tem um maluco à solta.
Bufei.
Você é o mais perigoso de todos os malucos, quis adicionar.
Então Feron estava preocupado com minha segurança? Sei. Provavelmente só
estava querendo me amedrontar.
Não dei o braço a torcer.
– Não estou sozinha aqui por opção. Vou ligar para os meus pais – comecei a
pegar o celular na bolsa. Essa era uma boa hora para se ter pais; Mia tinha muita
sorte. Pessoas sozinhas como eu não tinham a quem recorrer.
Ele franziu o cenho, mantendo a expressão arrogante de sempre.
– Vai mesmo tirar os seus pais da cama, e os fazer atravessar a cidade para te
buscar?
Comecei a ficar nervosa. Afinal, por que ele estava se metendo?
– Não vejo o que você tenha a ver com isso, Feron.
Ele desviou os olhos, os traços sombrios.
– E nem eu – concordou. Não entendi a amargura repentina que feria sua voz.
No entanto, logo em seguida ele olhou outra vez para mim. Tomou uma decisão.
– Entre no meu carro. Te darei uma carona para casa.
Choquei-me.
– O quê?! – choquei-me.
Ele olhou ao redor, dando de ombros.
– Não tem ninguém nos vendo, estamos sozinhos aqui. Ninguém veria essa
pequena trégua. Seria um... Segredo só nosso.
Segredo só nosso. Por algum motivo, aquela frase me arrepiou.
Encarei-o, desconfiada.
– Pensei que você me odiasse.
– E odeio. Mas você é uma garota sozinha num lugar perigoso, não posso te
abandonar aqui. Nem eu sou tão cretino assim.
Quase bufei.
– Você é sim.
Ele deu um sorrisinho lateral, ardiloso.
– Talvez seja. Mas isso não vem ao caso agora. Entre, Santorini – inclinou-se
e abriu a porta do carona para mim. Fiquei encarando o banco de couro (meio
perplexa, meio apavorada). Ele ergueu uma sobrancelha. – Terei que te jogar
sobre um dos ombros? Pensei que fôssemos adultos aqui. Eu não vou te morder.
Ergui meus olhos para ele. À meia luz do carro, só podia ver metade do seu
rosto. Lá de dentro, ele me fitava como um predador fita a presa; olhos cruéis,
cheios de segredos.
O garoto era musculoso e enorme – e tudo nele destilava maldade. Seria uma
estupidez entrar naquele carro.
Mas, em contrapartida... Seria uma estupidez maior ainda ficar aqui: sozinha
nessa faculdade, com um assassino à solta.
Suspirei, derrotada.
– Ok. Só dessa vez – então entrei no carro, batendo a porta.
Coloquei o cinto e olhei para Feron; ele me fitava de soslaio (um olhar
misterioso, mas satisfeito). Soltou um meio sorriso enigmático, então se virou
para a frente e não falou mais nada.
Enquanto ele dava a partida, observei ao redor. O cheiro dele estava
impregnado por todo o carro: aroma de oceano e terras quentes – terras
misteriosas. Lugares paradisíacos e selvagens, que eu não ousaria pisar.
Seu carro era tão grande e intimidador quanto o dono. Enquanto ele
manobrava o volante com destreza, observei as tatuagens que subiam por seus
antebraços. Eram desenhos intrincados e ferozes, exatamente como ele.
Meus olhos bebiam daquela imagem, incontroláveis. Os músculos definidos,
as tatuagens rebeldes, o perfil reto e perfeito – exalando testosterona. O porte de
comando... Deus, aquilo fazia partes curiosas dentro de mim ferverem.
– Pare de me encarar – ele disse de repente. – Ou eu vou acabar entendendo
errado.
Estagnei, pega de surpresa; virei-me para a frente, nervosa e calada.
Esse garoto maldito desencadeava reações bizarras em mim. Eu nunca tinha
visto um homem igual – tão dominador, perigoso e... Malditamente sensual.
Depois de um tempo, ele cortou o silêncio. Era sempre uma experiência
extraordinária ouvir sua voz apimentada e rouca.
– Então... Por que o Thales te deixou sozinha na faculdade? Pensei que cuidar
de você fosse responsabilidade dele como namorado.
Não queria que ele soubesse como me afetava. Por isso, coloquei uma
máscara de indiferença, e assim fiquei.
– O Thales não é o meu chofer, e isso não é papel de um namorado.
– Esse não é o ponto. É sobre cuidado, consideração... Até eu sei disso,
Santorini.
Grunhi.
– Não preciso de babá.
Ele ficou em silêncio por algum tempo. Depois, falou algo estarrecedor; tom
baixo, olhando para a frente.
– Se eu fosse o seu namorado, cuidaria de você.
Paralisei.
A intensidade que havia naquele tom... Era como se Feron não estivesse
falando de forma hipotética. Havia verdade em cada palavra – ele estava sendo
sincero. Como se estivesse... Sofrendo. Bem lá no fundo, nas reentrâncias
secretas do seu peito.
Onde moravam as vontades proibidas, e as confissões que não poderiam ser
feitas.
Um silêncio constrangido se abateu sobre o carro.
Respirei fundo, respondendo qualquer coisa.
– Meu relacionamento com o Thales é diferente. Não ficamos grudados o
tempo todo, somos muito independentes.
Feron sorriu com acidez; no entanto, havia uma tristeza peculiar no gesto.
– Ou talvez ele simplesmente não te ame.
Quase engasguei.
– O quê?! Do que diabos você está falando? – o desgraçado sabia de tudo.
Maldito perspicaz.
– Quando vocês se olham, não tem chama nenhuma. É um completo tédio. –
Me encarou de soslaio. – Por que está irritada? Sei que não está nem aí. Você
também não o ama.
Droga, o garoto conseguia me ler em segundos.
Ativei o modo defensivo, uma vez que era o meu dever proteger os segredos
de Mia.
– Você não tem nada a ver com isso. Que direito você tem de dizer quem eu
amo? Não sabe nada sobre mim.
Se isso chegasse aos ouvidos de Thales, seria o caos.
– Humm, tem razão... – concordou, olhando para a estrada à frente. V Mas de
uma coisa eu sei: paixão é fogo, Santorini. Estar apaixonado é ter alguém que
prende cada grama do seu interesse. – Em seguida, Feron me lançou um olhar,
despejando toda a potência das íris felinas sobre mim. Encarava-me com
intensidade, como se eu fosse a mais interessante dentre todas as criaturas. – E
quando essa pessoa está sentada exatamente ao seu lado, nada mais no mundo
importa.
Aquilo me arrepiou até a alma. Engoli em seco, desviando o rosto para a
janela.
Murmurei.
– Você não sabe nada sobre isso.
O lendário Felipe Feron não se apaixonava, pois apaixonar-se é mesmo que
tornar-se um refém. Seria o equivalente a se render – e Feron não se rendia a
ninguém. Nunca.
Ele deu de ombros, a expressão arrogante e maliciosa.
– Isso é porque você ainda não sentiu na pele o que eu estou falando. Quando
acontecer, você vai saber. Seu corpo vai te mostrar. – Fitou-me de soslaio, a voz
fervente. – O corpo fala, Santorini. Será que você está ouvindo o que seu está te
dizendo?
O que diabos esse garoto estava tentando dizer? Havia uma mensagem oculta
por trás de suas palavras – era evidente. Ele estava brincando comigo?
Juntei toda a minha coragem e me virei para ele. Encarei-o, olho no olho.
– O que você acha que o meu corpo está querendo me dizer, Feron?
Ele devolveu meu olhar com seriedade.
– Que você está com o homem errado – respondeu simplesmente.
Meu coração quase parou. Tentei não gaguejar.
– E quem seria o homem certo?
Sua expressão era enigmática.
– Nós dois sabemos quem.
Arfei, atônita. Será que eu estava entendendo errado? Imaginando coisas?
Não seria possível...
– Não... Não sei do que está falando.
Ele ergueu uma sobrancelha, olhando para a frente; traços amargurados.
– Sabe sim, você também sente. Só que é loucura demais para admitir, e
causaria o caos.
Naquele momento, meu celular tocou. Graças a Deus. Peguei-o dentro da
bolsa, e era o pai de Mia ligando; logo, atendi com aflição.
– Alô?
– Filha...? Onde você está? São quase onze horas e você ainda não chegou...
Sua mãe e eu estamos preocupados. Quer que eu te busque?
– Não, hã, pai – acrescentei. Ainda era difícil lembrar-me de chamar Tomás
de pai. – Eu estou a caminho de casa, peguei carona com um... Amigo. Chego
em vinte minutos.
– Ok, então, tome cuidado. Vamos te esperar acordados.
Quando Tomás desligou, o silêncio se abateu sobre o carro outra vez.
Por fim, Feron perguntou sarcástico.
– Amigo?
Bufei.
– Queria que eu dissesse o quê? Que peguei carona com um inimigo? Ele
estaria chamando a polícia nesse exato momento, Tomás é superprotetor.
Feron me olhou, curioso.
– Não chama o seu pai de pai?
Droga, tinha deslizado feio; dei de ombros.
– É complicado. – Eu não podia simplesmente dizer para ele: é complicado
porque eu não sou a verdadeira filha do Tomás. Sou uma impostora que tomou o
lugar da Mia e está enganando todo mundo – inclusive você. Mas não vá
espalhar.
Acho que ele não reagiria muito bem, não é?
Feron parecia pensativo; olhava a estrada à frente, maxilar contraído. Depois
de um tempo, falou.
– O que seu pai pensaria se você trocasse de namorado de repente?
Ah, não... Lá estava ele outra vez, insinuando. Aquele joguinho de palavras
subtendidas estava me enlouquecendo. Eu desconfiava do que Feron estava
querendo dizer – mas, ao mesmo tempo, era muita insanidade.
Só podia ser minha imaginação.
Fingi um suspiro cansado, massageando as pálpebras.
– Pare de se meter na minha vida, Feron.
Ele me olhou com seriedade. Eu estava imaginando, ou... Um ferida relanceou
em seus olhos?
– Se é o que você quer – murmurou por fim. Virou-se para frente e não falou
mais nada.
No carro, silêncio pesado e sepulcral.
Fitei seu perfil de soslaio. O rosto perfeito se contraía em uma expressão
austera e mal-humorada; íris sombrias. Ele não estava nada feliz.
Por algum motivo, ele já sabia o bairro onde eu morava. Apenas expliquei
rapidamente como chegar à minha rua. Ele não falou nada, somente assentiu
com a cabeça uma vez.
Minutos depois, Feron parou o carro na porta da minha casa; ele cruzou os
braços e esperou, silencioso. Desafivelei meu cinto e virei-me para encará-lo.
Ele parecia um deus da fúria sentado em seu banco, olhos ardendo em rancor.
Aparentemente, eu o havia ofendido.
Clareei a garganta, quase podendo sentir o ódio pairando no ar.
– Hã, então tchau. E obrigada.
Ele se manteve olhando para a frente, expressão sombria.
– Não há de quê – respondeu, cortante.
A indiferença da resposta me magoou. Calada, saí do carro e bati a porta; ele
acelerou à uma velocidade insana e foi embora, sem olhar para trás. Foi então
que me senti subitamente sozinha; a falta da presença dominadora dele causava
vazios estranhos.
Quando entrei na mansão, Stela e Tomás comiam na imensa mesa de jantar.
– Pai, mãe – cumprimentei-os ao entrar na copa da mansão; tirei os sapatos,
desanimada.
– Filha! – Tomás se animou ao me ver. – Venha comer, pedimos comida
japonesa, tem uma porção para você. Pedimos o que você mais gosta.
– Ah, que ótimo – fui até a pia e lavei as mãos.
Não tinha nada de ótimo. Meu humor estava péssimo.
Sentei-me na mesa junto a eles, comendo desanimadamente.
– Aliás, mocinha – Stela começou, erguendo os óculos de grau que ela usava
para trabalhar. – Não gostei nadinha do que você fez hoje. Nós pagamos o Félix
para ficar até tarde da noite, só para te buscar na faculdade. E você simplesmente
o dispensou? Coitado do homem.
Encarei Stela sem entender.
– Como assim? – eu não havia dispensado o motorista, pelo contrário.
Mandei uma mensagem em seu celular, avisando que iria me atrasar.
Stela continuou.
– Ele me disse que um amigo seu foi ao encontro dele no estacionamento e o
mandou ir embora. Segundo o Félix, o garoto falou que ele mesmo te levaria
para casa. E que, inclusive, vocês dois já haviam combinado.
– O quê?! – minha voz saiu estrangulada. Não podia ser.
Tomás vincou a testa para mim.
– Com quem você está andando agora, mocinha? Félix falou que o sujeito era
muito mal-encarado. Cheio de tatuagens, cara de assassino. Não quero você
andando com esse tipo de gente.
Desviei os olhos, sem conseguir responder – estava imersa demais em choque.
Então não havia sido coincidência: Feron havia armado toda aquela situação. De
propósito, ele não foi embora após o fim das aulas, e me esperou sair. Dispensou
meu motorista, enganando-o sem pestanejar.
Feron era ardiloso.
Não havia mais como negar: ele queria uma desculpa para passar um tempo
sozinho comigo (pois talvez não houvesse outra oportunidade). Estávamos
sempre cercados de gente.
Você está com o homem errado, ele afirmara com convicção. Não sabia como
meu coração reagia a isso.
Agora, a verdade tinha sido escancarada.
Por algum motivo absurdo, Felipe Feron achava que o homem certo para mim
era ele.



















CAPÍTULO 6

A partir daquele dia, as coisas ficaram... Estranhas.
Para começar, acordei com o celular tocando de forma insistente. Quando
atendi, Mia berrava do outro lado da linha.
– Você pode me explicar o que diabos você está fazendo com a minha vida?
– O quê? – murmurei, ainda sonolenta. – Pensei que já tivesse me passado
esse sermão anteontem.
Outra vez? Ninguém merece.
– Meu Deus, as vezes você é muito estúpida – ela grunhiu. – Olhe a rede
social da São Valentim, agora. Depois me explique o que está acontecendo. Será
melhor que você ter uma ótima desculpa, caso contrário já pode ir preparando
seu enterro. – E então ela desligou na minha cara.
Tão carinhosa.
Confusa, entrei na rede social de fofocas da São Valentim através do celular.
A notícia mais recente havia sido postada naquela madrugada.
Para o meu espanto, lá estava eu outra vez: protagonizando outro escândalo.
Era uma foto minha entrando no carro do Feron. Apesar de embaçada e
escura, dava para notar o meu perfil – inconfundível. A placa do carro do Feron
também era visível; ninguém mais na São Valentim tinha um Range Rover
preto.
A postagem era anônima. Na legenda, uma chamada polêmica: Mia Santorini
e Felipe Feron ontem à noite, sozinhos. Tirem suas próprias conclusões.
Os comentários eram cruéis.
Thales vai perder para o Feron outra vez.
O Feron quer tudo o que é do amigo.
A Santorini é uma oportunista. Agora que o comandante chegou, ela não vai
querer ficar com um mero soldado.
Larguei o celular, indignada. Então nós não estávamos sozinhos ontem – havia
alguém observando; provavelmente um aluno fofoqueiro.
Droga, suspirei. Minha vida estava ficando mais complicada do que eu
esperava. Mandei uma mensagem para Mia explicando que aquilo havia sido
uma coincidência. Também mandei uma mensagem para o Thales, dizendo: não
é o que você pensa, eu posso explicar. O Feron só me deu uma carona.
Quando cheguei à faculdade, Vívian e Antonela me esperavam no banco de
sempre, no gramado.
Antonela me entregou o copo de café e foi direto ao ponto.
– Você vai explicar, ou teremos que arrancar a resposta de você?
Suspirei de cansaço mental. Sentei-me no banco e expliquei a coincidência
para elas.
Feron propôs uma trégua passageira – e só.
– Humm... Tudo bem então – Vívian aceitou, bebericando seu café. – Vamos
acreditar em você. Na verdade, era uma especulação estúpida mesmo; um
envolvimento entre vocês não tem fundamento. O Feron quer te matar, não te
beijar.
– Pois é – concordei (embora não acreditasse nas minhas próprias palavras).
Até ontem, eu também pensava que Feron me odiava. Mas hoje já não tenho
tanta certeza – por mais absurdo que fosse. Dei de ombros. – Eu acho que ele só
está querendo reconquistar a confiança do Thales. Foi o único motivo para ele
ter sido gentil comigo.
– Pois é, mas agora as fofocas se espalharam... Feron e gentileza são duas
palavras que não cabem na mesma frase. Os alunos daqui vão pensar besteira.
Antonela interferiu:
– Ela só deve satisfações para o Thales. O resto dos alunos podem pensar o
que quiser – então ela se levantou do banco e puxou o meu pulso. Levantei-me e
ela passou um braço no meu. – Esquece isso, ok? Eles são apenas um bando de
fofoqueiros. Vamos para a aula.
Sorri, tocada por sua demonstração de lealdade.
Durante a segunda aula, Thales me mandou uma mensagem, pedindo para me
encontrar no corredor. Essa foi sua única resposta.
De imediato, saí da aula e fui ao seu encontro, pois precisava esclarecer o
mal-entendido. Ele me esperava recostado contra a parede, perto da porta da
minha sala. Braços cruzados, expressão mal-humorada.
Eu precisava salvar o relacionamento da Mia.
Ergui as duas mãos, em um gesto de trégua.
– Sei o que você está pensando, mas as fofocas não são reais. Por favor,
apenas me ouça.
– Calma – o garoto suspirou, parecendo cansado. Desencostou-se da parede,
jogando a mochila nos ombros. – Relaxe, ok? Eu sei que você não me trairia – e
então ele vincou a testa, repensando. – Bom, pelo menos não com o meu melhor
amigo. Você é cretina com os outros. Comigo, não.
Não tinha como discordar. Thales conhecia Mia bem demais.
– Eu jamais nos envolveria num escândalo desses, fique tranquilo. Foi só uma
coincidência. Ele me tratou bem porque quer fazer as pazes com você.
Thales desviou o rosto, um sorriso ácido no canto dos lábios.
– Sinceramente, eu não sei do que ele é capaz. O Feron do passado podia ser
muito cafajeste, acredite.
– Mas ele mudou – insisti.
Na verdade, realmente acreditava nisso. Eu via a mudança nos olhos do
garoto... Ele ainda era perigoso? Sim, mas não era mais o déspota de antes.
Thales ergueu uma sobrancelha.
– Isso é o que veremos. Bom, vou para a minha aula, até mais – bagunçou
meu cabelo carinhosamente, virando as costas e sumindo no corredor.
Na hora do intervalo, Feron e Téo já estavam sentados em nossa mesa de
sempre. Thales não ainda não havia aparecido.
Junto às meninas, sentei-me na mesma mesa, de frente para os garotos. Todos
os alunos ao redor nos olhavam de soslaio, fofocando.
– E aí, meninas – Téo nos cumprimentou.
– Vívian, Antonela – Feron acenou com a cabeça uma vez, sem citar o meu
nome. Hoje, usava uma touca cinza, os fios castanhos e macios caindo pela testa.
Tinha os olhos baixados para a mesa, a expressão furiosa – como se quisesse
assassinar alguém. Comia em silêncio, e não me olhou sequer uma vez.
Que ótimo. Então era isso: ele estava me ignorando.
Suas palavras da noite passada ainda me assombravam: você está com o
homem errado. Se eu fosse o seu namorado, cuidaria de você. Impossível
acreditar que aquelas palavras realmente saíram da boca dele.
Todos notaram a tensão no ar.
Para aliviar o clima constrangedor, Vívian inventou um assunto qualquer.
Antonela e Téo logo entraram no clima, engatando em uma conversa divertida
sobre os planos deles para as férias. Eles sempre viajavam em grupo. Para onde
iríamos dessa vez? Ibiza, Aspen?
As opções eram infinitas.
Feron emitia eventuais opiniões na conversa, mas não olhava para mim; era
como se eu nem estivesse naquela mesa. Além do mais, sempre desviava o rosto
quando eu falava alguma coisa – gelado e arrogante.
Ontem, mandei ele não se meter mais na minha vida, e ignorei as palavras
comprometedoras que ele dissera para mim. Acho que ele levou meu conselho à
sério demais. Então, Feron resolveu me arrancar da sua vida, e eu não era mais
digna da sua atenção.
Sua frieza me feriu. Encolhi-me na cadeira e fiquei calada a partir de então.
Não entendia por que sua indiferença me machucava tanto. O garoto me
causava sentimentos... Turbulentos. A presença selvagem dele me intimidava, e
sua ausência deixava rastros (vazios estanhos em mim).
Sua atenção possessiva me escandalizava... E sua indiferença? Me
machucava. Jamais vivera tamanha confusão de sensações dentro do peito, e isso
era apavorante.
Minutos depois, Thales chegou. Agiu como se nada tivesse acontecido. No
entanto, Thales fez questão de se sentar ao meu lado na mesa, e passar um braço
sobre meus ombros, possessivo.
De novo, ele estava demarcando território.
Olhou para Feron furtivamente, querendo ter certeza de que o amigo estava
vendo. Feron apenas desviou o rosto, nos ignorando por completo.
Quando o sinal tocou, Feron foi o primeiro a se levantar, despedindo-se de
todos – menos de mim. Aquilo foi outro golpe dolorido; afinal, por que eu me
importava?
Antes de irmos para a próxima aula, fui até o banheiro na companhia das
garotas. Enquanto Antonela usava a cabine, Vívian passava um batom na frente
do espelho. Eu apenas me recostava na pia, desanimada.
Vívian falou de repente.
– Você fez alguma coisa para chatear o Feron?
Encarei-a, alarmada. Ninguém poderia descobrir.
– O quê? Claro que não, por quê?
Ela franziu o cenho, retocando o batom com minúcia.
– Não sei, ele estava estranho. Te ignorava completamente, não percebeu?
Parecia chateado.
– Parecia com raiva, você quer dizer – corrigi.
Ela guardou o batom na bolsa e me olhou.
– Não, ele parecia ferido. O Feron é assim mesmo: ele não sabe demonstrar
sentimentos. Se estivesse com raiva, já teria acabado com você, mas não falou
sequer uma palavra. Aquilo não é ódio. Acho que ele está... Magoado.
Tentei esconder minha expressão consternada.
Então eu havia mesmo magoado o garoto na noite anterior. Inventei qualquer
coisa para desviar do assunto.
– Deve ter alguma coisa acontecendo na casa dele... Não é comigo, tenho
certeza. Nós mal nos falamos no carro.
Na pele de Mia Santorini, eu estava virando uma especialista em mentiras.
Vívian deu de ombros.
– É... Deve ser – aceitou. Ela não tinha razões para desconfiar.
Nesse interstício de tempo, mais de uma semana se passou. Feron se
encontrava cada vez mais frio, sem me encarar ou me dirigir qualquer palavra na
faculdade. Era como se eu não existisse.
Todos os dias, ele chegava na São Valentim com olheiras sob os olhos.
Passava todas as noites na balada. Quando Téo perguntava quem tinha sido a
isca da vez (ou seja, a garota com quem ele dormira naquela noite), Feron apenas
soltava um sorrisinho cruel.
– Não se meta nos meus assuntos, cara – falava para o amigo e todos riam.
Feron jamais contava vantagem ou expunha as mulheres com que se
relacionava.
– Você não tem jeito mesmo – Antonela estalava a língua. – Só essa semana
já foram quantas. Quatro, cinco?
Ele deu de ombros.
– Eu não conto. Não significam nada para mim.
De repente, Thales disparou.
– E alguém significa, Feron? – encarava o amigo de forma muito séria.
O sorrisinho cruel de Feron morreu na hora, e seus traços ficaram sombrios.
– Não mais. Estou com asco do amor.
Engoli em seco, baixando o rosto para a mesa. Não sei por que aquilo me
feriu tanto.
– Ótimo – Thales me puxou para perto, possessivo.
Feron fez uma careta de escárnio, parecendo pronto para assassinar alguém.
O clima na mesa ficou pesado.
Mas naquele momento, o sinal tocou – deixando todos aliviados.
Levantamo-nos para ir embora. Feron virou as costas e saiu, sem sequer me
olhar uma única vez (isso já estava virando rotina).
No outro dia, já era sábado. Aquela data estava me deixando nervosa há dias.
Isso porque, na última quarta-feira, Feron havia anunciado uma festa em sua
casa – que ocorreria exatamente nesse sábado. Seus pais tinham viajado para a
Califórnia e deixado a casa livre.
Thales, é claro, não ficaria de fora dessa festa. E na posição de sua namorada,
eu também seria obrigada a comparecer.
Que maravilha. Tudo o que eu precisava era isso: adentrar no covil dos Feron,
com o garoto querendo me devorar.
Vívian e Antonela foram se arrumar na minha casa. Eu não tinha muito senso
de estilo, por isso pedi para Vívian, uma fashionista nata, escolher uma roupa
para mim. Afinal, não podia fazer a Mia passar vergonha. Ela se importava
demais com todas essas frescuras.
Maravilhada por poder me fazer de cobaia, Vívian escolheu um vestido preto
no meu closet – um modelo, ao mesmo tempo, elegante e sensual, que se abria
em uma fenda na coxa. Saltos altos e brincos dourados completavam o visual.
Antonela fez a minha maquiagem, e lá pela meia-noite já estávamos prontas.
Eu tinha que admitir: passar uma noite com minhas novas amigas tinha sido
divertido.
Vívian e Antonela tinham mudado – ficando mais gentis e menos
debochadas. Longe da influência da verdadeira Mia, elas se transformavam,
pouco a pouco, em pessoas do bem. Ou seja: quem elas sempre foram de
verdade. Garotas sonhadoras e divertidas.
Stela adorou as companhias, levando-nos lanchinhos e nos dando opiniões
sobre as roupas. Tempos depois, foi a vez de Tomás entrar no quarto. Ele quase
chorou ao ver o tamanho do meu vestido. Em seguida, obrigou que nos
sentássemos na cama e ouvíssemos um longo discurso – que incluía o perigo das
drogas e a importância da educação sexual.
– Ai, Tomás! – Stela revirou os olhos. – Não estrague a nossa festa.
Stela teve que retirá-lo do quarto aos empurrões, enquanto o marido gritava lá
da porta:
– Abstinência sexual é o melhor caminho! Não quero ser vovô ainda,
ouviram, mocinhas?
Stela e as meninas caíram na gargalhada. Stela estalou a língua.
– Um pai sendo um pai.
Stela e as garotas envolveram-se em uma conversa divertida. Eu as fitava com
carinho, apenas observando; em meu coração, uma onda de amor.
Eu sabia que aquela mãe não era minha, e muito menos aquelas amigas. Mas
todas eram tão gentis e leais que... Não sei. Feria-me não pertencer de verdade
àquela bolha de amor. Havia tempo demais que não experimentava nada disso.
Cravei o momento em meu coração, pois em breve ele me seria tirado.
Quando eu voltasse para a minha vida real, estaria sozinha outra vez. Por isso,
guardei como um relicário aquela memória preciosa.
Meia noite e quinze, Thales passou para nos buscar. As festas de Feron
começavam sempre muito tarde. Pelo que eu soube, anos atrás, Feron sempre
dera festas lendárias.
Durante todo o trajeto, permaneci nervosa, sem saber o que esperar.
Tempos depois, chegamos ao bairro elegante de Feron. Thales estacionou na
frente de uma imenso prédio de mármore negro – talvez o mais luxuoso no
quarteirão. Junto à vários outros convidados, passamos pela portaria e
adentramos no elevador. Thales não teve que se apresentar, pois já era conhecido
da casa.
Feron morava na cobertura; o elevador se abriu e desembocamos em um hall
elegante, feito de mármore. Seu apartamento ocupava todo o andar, e por isso a
porta da sala já estava aberta.
Lá dentro, ouvia-se batidas pulsantes de música, vozes e risadas.
Quando adentramos pela porta da sala, meu coração disparou. Essa era a casa
dele. A cobertura mostrava-se tão luxuosa quanto a mansão de Mia – senão mais.
A família Feron era lendariamente rica.
A música eletrônica pulsava no ar. As luzes estavam semiapagadas, deixando
o ambiente misterioso e aconchegante. Ao redor, pessoas se sentavam nos sofás
de couro caríssimos, enquanto outras dançavam em grupos.
Bandos de lindas garotas conversavam com as amigas, bebendo e dançando.
Grupos de caras musculosos andavam pela imensa sala, bebendo copos de vodca
e flertando com as mulheres.
Eu nunca tinha visto tanta gente linda e requintada no mesmo lugar; um
grupo muito seleto. Então essa era a vida que Feron levava? Meu Deus. Era
como ser uma espécie de celebridade.
Rapidamente nosso grupo se enturmou. Pessoas de outras faculdades
igualmente caras vinham falar conosco, e todos nos conheciam pelo nome.
Aparentemente, eles também acompanhavam a vida social da São Valentim
pelas redes sociais.
Não sei por que se preocupavam com esse tipo de bobagem, mas acabei por
concluir que: gente rica gosta de acompanhar a vida de outras pessoas ricas.
Eram oligarquias – fechadas e seletas.
Olhei ao redor. Estava escuro e cheio demais, e não vi Feron em lugar algum.
Por algum motivo, sentia-me angustiada por vê-lo ao menos uma vez.
Naquele ínterim, Thales me serviu uma dose de vodca com energético.
Não pude recusar. Tive que ficar bebericando devagar, pois eu não tinha
nenhuma experiência com bebidas alcóolicas. Não obstante, eu bem sabia que a
verdadeira Mia entornava uma garrafa de vodca sozinha, sem reclamar. Não
podia deixar que suspeitassem.
– Onde será que está o Feron? – Téo ergueu o pescoço para enxergar por
sobre as cabeças da multidão.
Fiquei imediatamente atenta à conversa, pois o nome dele despertava
instintos profundos em mim.
Vívian bebia um gole de sua vodca, despreocupada.
– Deve estar se agarrando com alguma caloura por aí.
Antonela rolou os olhos.
– Deixem o garoto em paz, gente. Ele é adulto e sabe o que faz.
Aquilo foi a gota d’água para mim.
Levemente bêbada (e, por algum motivo bizarro, muito enfurecida), saí do
grupo, avisando que precisava usar o banheiro. Ninguém contestou. Fiquei
rodando pela imensa sala, procurando um banheiro. Finalmente encontrei um
corredor discreto, que desembocava ao lado de uma lareira; entrei ali, querendo
escapar da multidão sufocante.
Mas quando virei a esquina para o corredor escuro, dei de cara com uma cena
chocante.
Estagnei – ah, não. Isso não. Feron se encontrava recostado contra a parede,
rodando um copo de uísque na mão, olhos sombrios, expressão de desdém.
Enquanto isso, uma morena escultural se pendurava a ele, cochichando em seu
ouvido. Acariciava seu peitoral com uma mão, de forma sedutora. Não obstante,
Feron não estava nem aí para a garota. Apenas encarava a parede à frente, face
mal-humorada, olhos faiscando em amargura.
Embora não reagisse, ele também não se movia. Apenas ficava ali, deixando a
morena o apalpar.
Olhando mais de perto, percebi que a garota era ninguém menos que Pilar
Monferrari: a arqui-inimiga da Mia.
Acho que exalei de indignação, uma vez que Feron ergueu os olhos para mim
abruptamente. A vida que faltava em suas íris, de repente, se acendeu. Ele ficou
alarmado, movendo Pilar para longe.
– Santorini – foi só o que falou; sua voz se rasgava em alarme e... Culpa?
Eu estava meio bêbada e com muita, muita raiva. Apenas passei por eles, sem
olhar para trás.
– Vá se ferrar – disparei.
Entrei na primeira porta que vi pela frente, batendo-a com força (graças aos
céus, era um banheiro). Sentei-me na privada, arfante de raiva.
Mas por que diabos eu estava tendo aquela reação ridícula?! Que ódio era
aquele borbulhando em meu peito? O garoto possuía o dom de causar um
furacão insano de emoções dentro de mim. Uma verdadeira turbulência
emocional.
Fiquei no banheiro por uns bons vinte minutos – pensando e me acalmando.
No entanto, quando saí de lá, outra surpresa:
Feron me esperava recostado à parede à frente; braços cruzados e olhos
fervendo. Tinha dispensado a Pilar.
Ele se empertigou de repente ao me ver.
– Santorini, vamos conversar.
De rompante, fui tomada pela raiva enlouquecida novamente.
– Eu disse: vá se ferrar. Qual foi a parte que você não entendeu? – passei por
ele com passos pesados. Ele tocou meu braço, mas me desvencilhei de seus
dedos, furiosa. – Não me toque, droga! – gritei. Era a vodca falando, e não eu. –
Saía da minha cabeça, saia da minha vida!
E então dei um jeito de escapar daquele corredor com passos rápidos. Ele
estava me seguindo – portanto fui em direção ao único lugar seguro para mim no
momento. Um lugar onde Feron não ousaria me alcançar: bem ao lado de
Thales.
Thales me recebeu, preocupado.
– Onde você estava?
– No banheiro... A fila estava imensa – menti. Ele não teve razões para
desconfiar.
Olhei ao redor e não vi nenhum sinal de Feron; só então pude respirar,
aliviada.
Observei a sala, procurando minhas amigas. Num sofá próximo, Antonela
encontrava-se aos beijos com um louro bronzeado.
Já Vívian conversava animadamente com um grupo de meninas perto da
sacada. Ela jogava a cabeça para trás e ria – muito bêbada, imaginei.
Téo e Thales conversavam e bebiam com um grupo de garotos de outra
faculdade. Eles eram todos tatuados e pareciam mais velhos que nós.
– Aqui, Santorini – um dos garotos tirou o copo da minha mão e me entregou
outro copo, sem aviso prévio. Ele tinha um sorrisinho maldoso nos lábios;
cabelos com dreads e olhos negros frios. – Chega dessa vodca ultrapassada,
experimente uma coisinha melhor – os garotos ao redor riram, inclusive Thales.
O namorado de Mia também não estava completamente sóbrio.
Não contestei. Cheirei o líquido âmbar discretamente; acho que era uísque.
Como Thales não estava prestando atenção em mim, minhas amigas se
encontravam ocupadas, e meu sangue fervia de raiva, fui jogando o líquido para
dentro.
Dane-se. A noite já estava péssima mesmo; seria ótimo ter um alívio
momentâneo.
O tempo foi passando. Os garotos me serviam mais uísque e eu fui bebendo.
E então meu corpo começou a ficar... Estranho. Minha pele ficou sensível, e
tudo começou a rodar. Não era o mesmo efeito da vodka – não mesmo. As cores
e os sons ao meu redor tornaram-se líquidas; comecei a ofegar, sentindo-me
tonta.
– Vou... Tomar um ar – comuniquei, indo em direção à sacada. Ninguém se
importou.
Avancei tropegamente em direção à varanda da cobertura. Era um ambiente
imenso, com vista para toda a cidade lá embaixo. Como a sacada de um castelo.
Apoiei as duas mãos no batente, ofegando. Enxergava tudo embaçado, cabeça
rodando.
O que estava acontecendo comigo?, comecei a me desesperar.
– Já bateu a onda, gata? – uma voz chegou por trás de mim. Olhei de soslaio e
me deparei com o mesmo garoto que me servira uísque (várias vezes). Ele tinha
traços maliciosos. – Esse êxtase foi dos fortes, dose cavalar. Dissolvi na garrafa
de uísque.
– O-o quê? – me apavorei, mal conseguindo falar.
O garoto franziu o cenho.
– Você gostou da última vez, lembra? Na festa da Vívian. Aliás, aquela noite
foi deliciosa, quer repetir a dose? Vamos sair juntos pela porta dos fundos, eu e
você. O Thales não vai nem perceber, está louco demais.
Meu Deus, o garoto havia me drogado.
– Seu maluco... – ofeguei, tentando fazer minha boca se mover. – O que você
fez comigo?
Eu nunca tinha bebido ou usado drogas na vida (e a sensação era terrível).
– A dose foi demais para você? Relaxa, gata, você irá se acostumar. Vamos
sair para um lugar mais reservado, que tal?
Tudo ficou confuso; as coisas ao meu redor giravam. Senti o mundo inverter-
se em seu eixo, e caí no chão.
– Mas que porra...? – o garoto exalou. – Está louca, Santorini? Levanta!
– Não consigo – murmurei, me perdendo em mim mesma. O piso era frio
contra minha bochecha. – Meu Deus... Preciso de ajuda.
Tudo rodava, meus olhos se fechavam. Vozes começaram a chegar ao meu
redor.
– Caramba! O que ela tomou? – alguém perguntou.
– Não é a Mia Santorini? Meu Deus, que vexame.
– Alguém tire ela do chão.
Uma mão tocou no meu braço, mas eu não confiava neles. Eram todos
homens – o mesmo grupo de garotos que havia inserido drogas na bebida.
– Não me toquem! – gritei. Não sabia quem eram eles. Mais pessoas foram
chegando, e tudo virava um caos. Eu precisava de alguém em quem eu confiasse
para me tirar daqui... Então, uma ideia chegou de repente. – Eu preciso do Feron.
– O quê? – o garoto estranhou meu pedido. – Ele não está aqui agora. Eu
posso te ajudar, gata, vem comigo – e começou e tentar me erguer do chão.
– Não! – gritei, fora de controle. – Não me toque! Eu quero o Feron, agora!
Só ele vai colocar a mão em mim.
– Cacete, Santorini, pare de escândalo – e avançou para cima de mim.
– Mas o que diabos está acontecendo na minha casa?! – uma voz
inconfundível chegou.
Olhei para cima e lá estava ele, atravessando a multidão que me cercava. O
único que eu queria ver: Feron.
Quando ele olhou para baixo e me viu caída do chão, arregalou as pálpebras,
perplexo.
– Mas o que...? Meu Deus – e correu em minha direção, empurrando quem
estivesse na frente. – O que vocês fizeram com ela, seus malditos?! – vociferava,
descontrolado.
Ele se ajoelhou ao meu lado, encarando-me com tristeza e espanto. E então
passou um braço pelas minhas pernas e outro pelas minhas costas, erguendo-me
do chão.
Agarrei-me na gola de sua camisa, desesperada.
– Tem algo de errado comigo, me ajuda.
Feron me apertou contra seu peito. Um abraço carinhoso, possessivo e
protetor.
– Fique calma, amor. Eu estou com você agora.
Amor. Aquilo acalmou todo o meu medo e aqueceu meu coração. Sim, sim,
pensava descontrolada. Eu queria ser o amor dele.
O garoto que me drogara grunhiu.
– Que escândalo desnecessário, foi só uma dose de êxtase. Ela nunca foi fraca
para isso.
Feron o lançou um olhar venenoso; praticamente cuspia fogo.
– Cale a boca, seu cretino, acerto minhas contas com você depois. Saia da
minha casa. Ou melhor, saia da cidade: porque quando eu te encontrar, você vai
desejar estar morto – ameaçou.
E todo mundo sabia que aquilo era a mais pura verdade.
O garoto retrocedeu, pego de surpresa. Não esperava uma reação tão furiosa
advinda do anfitrião.
Eu me agarrava ao corpo de Feron, bebendo daquele calor maravilhoso dos
seus músculos. Seus braços ao meu redor eram protetores e gentis, e ele me
apertava como se eu fosse um relicário precioso.
Naquele momento, Thales chegou. Encarou-me nos braços de Feron,
apavorado.
– O quê...? Mia! O que houve?! – aproximou-se, perplexo, estendendo os
braços. – Passe ela para mim, vou levá-la ao hospital.
Feron me apertou mais, alarmado; claramente não queria se separar de mim.
– Não. Você está bêbado.
Thales grunhiu.
– Não importa, passe ela para mim.
– Não! – implorei, abraçando o pescoço do garoto.
Aquele cheiro de pimenta e oceano me invadiu – e me dominou. Eu era uma
refém daquele cheiro, e eu não queria sair dos braços do garoto. Aquele era o
meu lugar, e ele era o único em quem eu confiava.
As pessoas ao redor começaram a murmurar, chocadas.
Surpreendido, Feron me abraçou de volta. Senti que ele cheirava o meu cabelo
também – aproveitando o momento, assim como eu fazia. Um momento de
contato raro e único.
Seu abraço era o paraíso. Como eu não havia percebido antes? Isso era tudo
o que eu ansiava – tudo o que o meu coração desejava.
– Mia, não faça isso – ouvi a voz ferida de Thales. – Eu sou seu namorado,
não ele. Venha comigo, vou cuidar de você... Você precisa ir para um hospital.
Apertei meu abraço no pescoço de Feron, enterrando meu rosto em sua
clavícula. Tudo ainda rodava; e se Feron me soltasse, eu me perderia dentro de
mim.
– Não! Só ele vai me tocar, não aceito mais ninguém.
Não era eu quem estava falando: era o meu coração desesperado, tendo voz
através do delírio daquela droga. Todas as máscaras caíram do meu rosto, e eu só
queria estar dentro do abraço daquele homem.
Só ele poderia me salvar nesse momento.
– Vai ser assim, então? – senti que Thales se encontrava estarrecido.
Apenas confirmei com a cabeça, mantendo meu abraço firme. Não queria me
separar desse homem, não agora.
A voz de Feron era culpada e triste – mas também havia uma emoção
desconhecida ali, por trás das palavras. Como se ele estivesse emocionado por
ter sido escolhido.
– Ela escolheu, Thales. E se ela quer assim, ninguém vai tirá-la de mim neste
momento. Eu vou cuidar dela – e então Feron começou a andar, saindo da
multidão.
De longe, Thales gritou.
– Feron, não faça isso! Você está comprando uma guerra comigo.
Feron virou-se para trás, olhos tristes.
– Sinto muito, cara. Você é o meu melhor amigo, mas agora ela é tudo o que
me importa.
E então deu às costas a todos. Deixamos uma horda de cochichos estarrecidos
para trás.
Ainda abraçada a ele, senti que subíamos uma escada. Minutos depois, Feron
abriu uma porta.
Olhei ao redor: estávamos em um quarto amplo e escuro, e apenas a luz do
abajur de uma escrivaninha iluminava o local. Feron entrou e fechou a porta;
sentou-se na beirada da cama de casal. Eu permanecia sentada em seu colo,
aninhada dentro do seu abraço.
Ele me envolvia, protetor.
– Não estou me sentindo bem – choraminguei, perdida naquelas sensações.
Todo o meu corpo formigava.
– Eu sei, amor – ele me balançava, ninando-me. – Eu estou com você, isso vai
passar daqui há pouco. – Gentilmente, empurrou minha cabeça contra sua
clavícula, aninhando-me mais. – Descanse. – Sua voz encontrava-se destruída;
ele não gostava de me ver naquela situação.
Parecia estar sofrendo junto comigo.
Escondi o rosto em seu pescoço, agarrando a gola da sua camisa.
– Não sei o que está acontecendo comigo... Estou com medo.
– Se estiver com medo, segure-se em mim. Nada de ruim pode te acontecer
enquanto eu estiver aqui. Não irei deixar.
A essa altura, eu já estava chorando.
– Então fique comigo... – sentia as lágrimas rolando pelas bochechas,
descontroladas.
– Ficarei – ele assegurou, apertando-me mais. – Ninguém vai me tirar do seu
lado. Nunca mais.
E assim ficamos por um tempo; ele me aninhava em seus braços, os
músculos tornando-se uma muralha ao meu redor. Balançava-me com carinho,
de modo a me acalmar, enquanto acariciava meus cabelos. Não aparentava ser o
mesmo Feron que todo mundo conhecia.
Na verdade...
Parecia que o garoto havia aberto uma fenda para mim em seu misterioso
coração.
Eu me perdia na sensação da minha pele contra a dele. Sua respiração tão
perto, e o cheiro dominante de pimenta e oceano – extraordinário. Nunca estive
em um lugar melhor.
O garoto cumpriu sua palavra. Enquanto eu estava à deriva das sensações
desnorteadoras, ele não me soltou por nenhum momento. Permaneceu ao meu
lado, uma muralha fiel.
E o tempo passou; uma hora, duas... Não me lembro de mais nada. Só me
recordo de ter adormecido em seu abraço quente.
Sentindo que, ali dentro, havia encontrado o meu lar.

























CAPÍTULO 7

Acordei sem saber onde estava. Dor de cabeça, boca seca.
Deus, eu havia tomado um porre? Era isso?
Esfregando os olhos, sentei-me na cama e olhei ao redor. Franzi o cenho: que
quarto era aquele?
Consistia em um imenso quarto luxuoso e masculino; paredes escuras e
móveis modernos. Uma imensa TV ocupava a parede central. Olhei ao redor,
absorvendo: um closet, um videogame, uma estante de livros. Vários troféus
sobre prateleiras na parede, bem como uma imensa sacada (com vista para toda a
cidade).
Baixei o rosto para me auto observar. Estava completamente vestida, e um
cobertor quentinho havia sido colocado sobre mim.
As memórias foram voltando aos poucos.
Ah, meu Deus.
Ah, meu Deus. Eu não fiz isso!
Fui lembrando de tudo: meu corpo caído no chão, drogado. Feron me
colocando nos braços (enquanto eu me agarrava ao seu corpo, como se minha
vida dependesse daquilo). Thales sendo colocado para escanteio, e as pessoas ao
redor murmurando, chocadas.
Aquilo era um escândalo.
E, por fim, Feron me aninhando nos braços e cuidando de mim – a noite
inteira.
Ofeguei, pulando daquela cama imensa. Olhei ao redor, finalmente
percebendo: aquele era o quarto do Feron!
Como os lençóis ao meu lado estavam completamente arrumados, concluí
que ele não havia dormido aqui. Apavorada, constatei: ele poderia voltar a
qualquer momento!
– Cacete. Droga, droga – peguei meus sapatos no chão e saí correndo daquele
quarto.
Dei de cara com um imenso corredor, lotado de portas elegantes. Tentando me
lembrar do caminho, desci uma escada e acabei parando na sala principal da casa
– onde havia ocorrido a festa.
O local já havia sido completamente limpo. À luz do dia, a sala era um
ambiente completamente diferente. Paredes claras, móveis luxuosos, sofás
brancos e cortinas esvoaçantes. Havia também quadros caríssimos e imensos
arranjos de flores, depositados em vasos de cristal.
Uma casa linda.
Porém, para o meu completo terror, a sala não se encontrava vazia. Uma
garota – de aparentemente uns quinze anos – encontrava-se deitada no sofá. Pés
para cima, segurando um controle remoto e zapeando pelos canais de televisão,
despreocupada.
Ela notou meus movimentos e se sentou.
Quando me viu parada no meio da sala, abriu um sorriso brilhante.
– Ah! Então você deve ser a Mia!
Como ela sabia disso?, desesperei-me. Mas isso não era crucial agora.
Meu Deus – Feron deveria estar em algum lugar nessa casa. Eu tinha duas
opções: ficar ou correr.
A garota ainda sorria para mim; possuía cabelos castanhos e olhos verde-
cristalinos, idênticos aos de Feron. Traços faciais luxuriantes, tão lindos quanto
os dele.
Aquela família era mesmo a realeza.
– Hã, sou – murmurei, embora quisesse simplesmente fingir demência e sair
correndo.
Ela se levantou com um salto, parecendo feliz.
– Meu irmão me falou muito sobre você. Sou a Elisa, muito prazer. – Ela
pendeu a cabeça para um lado, curiosa. – Então, vocês dois estão namorando?
– O quê?! – quase berrei, voz estrangulada. – Não, de jeito nenhum.
Nunca. Jamais. Não nessa vida.
Ela ficou visivelmente decepcionada.
– Ah... Então acho que ele está se iludindo, coitado – estalou a língua.
Apontou para um corredor à esquerda. – O Felipe está na cozinha preparando o
seu café da manhã. Pode ir até lá encontrá-lo, se quiser. Como ele mesmo
ordenou: a casa é sua.
Quase pari um filho por ali mesmo.
Ele estava preparando o meu café da manhã? Não, não podia encontrá-lo! Eu
estava envergonhada demais!
O que eu faço? Saio correndo? Simulo um desmaio?
Resolvi tentar manter minha última gota de dignidade. Coloquei uma mexa
de cabelo para trás da orelha.
– Hã... Será que você poderia ir até lá chamá-lo para mim? Não fico à
vontade andando por aí na casa dele. Sou tímida.
Tímida? Ha-ha. Na hora de se jogar no chão e se agarrar ao pescoço de um
homem, não restava timidez nenhuma, não é?
Ela deu de ombros.
– Claro. Pode ver TV enquanto isso, já volto. – E então a garota desapareceu
pelo corredor.
Não esperei outra chance.
Assim que ela sumiu, corri como uma louca porta à fora. Apertei o botão do
elevador desesperadamente, e, em segundos, o elevador chegou ao último andar.
Graças a Deus.
Sim, eu teria que passar pela humilhação de enfrentar Feron cara à cara –
mas não seria hoje. Nesse dia, eu só queria sofrer em silêncio, encolhida como
uma bola na minha própria cama.
Imaginei Feron chegando na sala e não me encontrando. Ele captaria na hora
que eu havia fugido. Coitada da sua irmã (deveria estar pensando que eu não
gozava de todo o meu potencial mental).
O elevador desceu todos os trinta andares e chegou ao térreo. Com os saltos
ainda na mão, saí correndo pelo hall à fora, deixando um porteiro muito chocado
para trás. Já na calçada da rua, fiz sinal para o primeiro táxi que passou. Quando
saímos da avenida de Feron, respirei em alívio.
Deus, eu parecia uma fugitiva. Mas eu não tinha cometido um crime, tinha?
Não...
Apenas havia me humilhado em público, me declarado para um homem que
me odeia, e perdido qualquer resquício de dignidade.
É o que eu sempre digo: se for para fazer, que seja um trabalho bem feito.
Ainda eram dez e meia da manhã quando pisei em casa. Por ser domingo, os
pais da Mia ainda dormiam; eles gostavam de acordar tarde aos finais de
semana. Fui direto para o meu quarto, sem fazer barulho.
Por uma obra caridosa do destino, meu celular ficara sem bateria. Não ousei
carregá-lo – pois sabia o que estaria me esperando por lá. Mensagens chocadas
das minhas amigas; ligações furiosas da Mia; comentários cruéis sobre ontem
nas redes sociais da São Valentim...
E o Thales...
Meu Deus, o Thales. Eu o havia humilhado em público. Eu estava muito,
muito encrencada.
A verdade era uma só: eu perdera o controle sobre essa farsa. Seguia
envolvendo a Mia em vários escândalos, destruindo seus relacionamentos e
reputação. Eu perdi o juízo? Precisava fincar meus dois pés no chão, e me situar:
essa não era a minha vida, e eu não podia fazer o que quisesse com ela.
Eu estava aqui cumprindo um acordo, nada mais. Em breve, esse sonho
glamouroso acabaria. A verdadeira Mia Santorini retornaria ao seu lugar de
direito, e eu teria que ir embora, desaparecer.
Mia era a verdadeira protagonista – eu era apenas uma ninguém. Não podia
tomar decisões que alterariam radicalmente a vida dela, pois isso não cabia a
mim. Portanto, precisava tomar uma atitude e desfazer o caos que criei.
Entrei no banho, decidida a reverter aquela situação. Enquanto eu me lavava,
não pude ignorar o cheiro que havia se impregnado em mim: aroma de pimenta e
oceano – o cheiro dele.
Por toda aquela noite, os olhos diamantinos de Feron se fixaram em mim,
carinhosos e possessivos – como se eu fosse a única mulher para ele no universo.
A memória da sua voz ainda sussurrava no meu ouvido: fique calma, amor. Eu
estou com você agora.
Aquela voz causava um incêndio no meu coração.
Mas eu, Ana Lívia, não passava de uma fraude – e essa vida não pertencia a
mim. Eu não poderia viver aquela história. Por isso, suprimi o sentimento
massacrante à sete chaves dentro do meu coração, e resolvi cumprir o meu papel
como Mia Santorini.
Contudo, pelo resto do dia, lágrimas silenciosas escaparam de mim. Em luto
por todas as coisas que eu não poderia viver.








ADENDO DE CAPÍTULO
SOB A VISÃO DE THALES

Eram cerca de onze horas da manhã naquele domingo, quando o celular de
Thales começou a tocar. Malditamente insistente.
Ainda um pouco bêbado, Thales tateou na escrivaninha ao lado da cama,
encontrando seu celular. Olhou para a tela: era o número do Feron.
Rosnou, ressentido, recusando-se a atender.
Thales podia ser bonzinho, mas não era idiota. Há dias percebera o olhar de
Feron para Mia; um olhar curioso e possessivo. Thales conhecia o amigo há
anos, e nunca o vira dedicar tamanha atenção a ninguém.
Uma atenção silenciosa e cautelosa? Sim. Mas isso porque Feron sabia que
Mia era uma garota proibida. Dentre as várias que o seguiam, ela era a única que
o desafiaria – e a única que ele não poderia ter.
Só havia uma pessoa no mundo em que Feron respeitava à níveis de
reverência, e essa pessoa era Thales. Ele nunca seria um cretino com o próprio
melhor amigo.
O celular tocou de forma insistente por toda a manhã, mas Thales não
atendeu. Por volta das duas da tarde, uma das ajudantes da casa de Thales bateu
à porta do seu quarto. Avisou que Feron estava lá embaixo, esperando-o para
conversar.
Merda.
Thales colocou uma camisa e desceu as escadarias da mansão.
Feron se encontrava na sala de estar; estava de costas, perto de uma grande
vidraça, observando o jardim lá fora. Tinha as mãos nos bolsos e a postura tensa.
Quando sentiu a presença do amigo, virou-se para encará-lo.
Thales trincou o maxilar, cruzando os braços; uma postura defensiva.
Enquanto isso, Feron abaixou a cabeça, olhos tristes e culpados.
– Nem sei o que te dizer, cara. Queria poder me defender, mas não tenho
meios.
Thales sorriu amargamente.
– Não há o que dizer. Só um idiota ainda não percebeu: você está cobiçando a
minha namorada.
Os olhos de Feron ficaram sombrios.
Qualquer um teria dado um passo para trás diante de sua figura assustadora –
mas Thales, não. Ele estava acostumado.
Feron respondeu:
– Eu não estou a cobiçando. Isso não tem nada a ver com querer o que é seu.
Thales ergueu uma sobrancelha.
– Então o que está acontecendo? Por acaso você... Se apaixonou por ela? –
aquilo era impossível. O amigo havia causado muito caos e corações partidos no
passado; sua frieza era lendária.
Será que alguém tinha finalmente conseguido tocar o seu gelado coração?
Feron trincou o maxilar, desviando os olhos. Parecia constrangido, perdido
nos próprios sentimentos.
– Nem eu sei.
Ou ele não sabia nomear o que estava sentindo, ou não conseguia admitir.
Feron olhou para Thales, continuando.
– Mas de uma coisa não tenho dúvidas: você não a ama, nem nunca amará.
Eu não consigo entender... A Santorini é... – ele perdeu as palavras por um
momento, fechando os olhos (traços contorcidos em angústia). – Ela é tudo.
Como é que você não consegue enxergar isso?
Thales bufou:
– Você está querendo me ensinar a como tratar minha namorada? – só faltava
essa!
Antes do Feron voltar, eles viviam em paz. Por que esse furacão criador de
caos tinha que reaparecer em suas vidas?
– Eu só estou dizendo que ela merece estar com alguém que queira, de
verdade, ser o homem dela.
– E esse homem seria você? – Thales cortou friamente.
O amigo baixou os olhos, sombrios outra vez; demorou um tempo para
reorganizar a mente.
Toda vez que Thales insinuava que o amigo se apaixonara, Feron recuava.
Aparentemente, o garoto estava vivenciando um conflito de sentimentos, e nem
ele mesmo sabia o que sentia – só sabia que era potente.
Feron suspirou.
– Eu adoro você, cara. Você é o meu melhor amigo de infância, passamos por
tudo juntos. Sei que você me odeia nesse momento, mas você é a única pessoa
nessa vida que eu não quero ferir. Eu estou lutando contra esses... Sentimentos
insanos pela Santorini, juro que estou. Acontece que isso está fugindo do meu
controle. Não sei quando surgiram, mas está tirando o meu eixo. Não sei o que
fazer.
Thales se consternou.
– O que você quer, Feron?! O meu maldito aval para tentar conquistá-la? Para
se declarar para ela? É isso?
Feron negou com a cabeça, destruído.
– Não, só quero ser verdadeiro com você... Não posso esconder o que venho
sentindo. É tóxico, vai destruir nossa amizade.
Thales desviou o rosto, amargurado.
– Nossa amizade já acabou há um bom tempo. Só você ainda não percebeu.
Feron vincou a testa e recuou, ferido.
– Eu estou tentando recuperá-la. Ela significa muito para mim.
Thales fitou-o com dureza.
– Então pare de tentar, não me interessa mais.
Feron ergueu o maxilar, rancor tomando o lugar da tristeza.
– É a sua palavra final?
– Sim.
– Se é assim que você quer – rosnou com desdém, virando-se e indo embora
da casa. Bateu a porta com rudez.
Toda vez que se encontrava verdadeiramente magoado, Feron agia com
brusquidão – pois ele não sabia extravasar sentimentos, e nem os nominar. Por
isso o furacão Mia, que despencou em sua vida, estava o causando tanto caos
interior.
Feron era uma criança no amor.
Thales se jogou no sofá, suspirando em cansaço mental. Ele mesmo nunca
havia amado a Mia – isso era um fato. Consistia em uma relação de pura
conveniência. Eles mal se beijaram, pelo amor de Deus.
O que doía não era perder a namorada. Mas o fato de que Feron a queria,
dentre todas, o consternava.
Por que justo a sua mulher?
Havia outras beldades naquela faculdade – mais lindas, interessantes e até
mais ricas. Então por que Mia? Por que agora?
Aquilo era uma confusão sem precedentes, e Thales sabia que muito caos
ainda estava por vir. Feron era obstinado – mas Mia Santorini poderia ser muito,
muito pior.

























CAPÍTULO 8

Na segunda feira de manhã, não pude mais evitar as ligações da Mia.
Ela estava certa, afinal... Eu tinha errado feio.
Minha gêmea não aceitou muito bem meu pequeno, hã, vexame.
Evidentemente, ela acompanhou as notícias sobre a festa na rede social da São
Valentim. No final das contas, depois de um longo sermão e alguns berros
consideráveis, ela me brindou com algumas ordens finais (que não seriam nada
fáceis de cumprir).
Mia não aceitava perder seu passe de ouro: Thales Mourão.
Embora Feron fosse mais rico e mais popular, Mia não confiava nele. Ele era
um libertino lendário: volúvel, e não sabia manter relacionamentos sérios. Era
um homem historicamente complicado de se lidar.
Problemático, polêmico e estragado.
Além do mais, Thales a presenteava com toda a liberdade que uma garota
como ela – que adorava pular a cerca – precisava.
Já Feron não seria tão estúpido assim. Quando queria, o garoto podia ser
dominador demais – e Mia não gostava de arreios.
Suas ordens finais foram claras: fique longe de Felipe Feron. A partir de
agora, você está proibida de dirigir qualquer palavra a ele.
Quando perguntei sobre o que faríamos a respeito de Thales, ela foi curta e
grossa.
– Se vire. Você estragou o meu namoro, então você mesma irá consertá-lo. Eu
não sou sua mamãe para te dar conselhos, então dê o seu jeito. Nós temos um
acordo, e será melhor que você cumpra.
Em seguida, desligou. Muito dócil.
Dessa vez, ela tinha se irritado de verdade.
Também tive que responder as mensagens das minhas amigas.
Vívian e Antonela queriam saber se eu estava bem, como cheguei em casa
naquela noite, se o Feron realmente cuidou de mim com atenção e respeito...
Elas também se desculparam. As duas tinham ingerido álcool demais, e não
estavam em condições de me ajudar na ocasião.
Elas só ficaram sabendo do acontecido horas depois.
Meu discurso estava pronto (um discurso falso, é claro).
Expliquei para elas que, naquela noite, eu estava sob o efeito de uma droga.
Logo, nada do que havia saído da minha boca possuía qualquer sentido. E não,
eu não ruminava sentimentos secretos pelo Feron – apenas estava dominava pelo
delírio do êxtase. Nada além. Poderia muito bem ter me autodeclarado um
Power Ranger, no lugar de chamar por Feron (vez que eu estava fora de mim).
As duas acreditaram – ou fingiram que acreditaram. Não queriam me
pressionar.
Mas eu sabia que, em algum momento, elas me cobrariam a verdade; eram
perceptivas demais. Não sabia até quando conseguiria esconder meus...
Sentimentos.
Sim, sentimentos. Sempre fui uma garota reclusa e sem amigos, e não possuía
nenhuma experiência de vida. Todavia, a mera lembrança do Feron me causava
um frenesi de adrenalina nas veias – e até eu sabia que essa reação tinha uma
razão de ser.
Uma verdade inconveniente; eu não queria admitir, porque causaria uma
confusão.
O garoto tinha razão: você sabe sim, só que é loucura demais para admitir. E
causaria o caos.
A hora de ir para a São Valentim chegou. Suspirei, pois não seria fácil.
Me arrumei rapidamente e desci para o primeiro andar. A chave do carro da
Mia estava sumida – mas não preocupei (pelo menos por enquanto). Naquela
noite, eu pretendia revirar o quarto; eventualmente, acabaria encontrando-a
dentro de alguma das centenas de bolsas da Mia.
Seguindo as ordens da Stela, Félix, o motorista, deveria estar me esperando lá
embaixo.
Saí de casa com uma decisão tomada: eu procuraria por Thales e imploraria o
seu perdão. Mia tinha razão: aquela vida não era minha, portanto, não podia
destruí-la.
Fechei a porta principal – mas, quando me virei para descer as escadas da
mansão, estagnei.
Uma cena chocante me esperava.
Ah, não. Isso não estava acontecendo.
Meu queixo caiu.
Parado bem na porta da casa, encontrava-se um Range Rover preto e
brilhante. Recostado no carro, ninguém menos que o próprio Feron.
Braços cruzados, expressão arrogante; as tatuagens selvagens subiam pelos
braços, intimidadoras. O boné que ele usava cobria metade do rosto – e por
baixo da aba, seus olhos ardiam, incendiários e sinistros.
Encarando-me obsessivamente.
Não consegui me mover.
Mas o que diabos...
Ao notar o meu choque, ele ergueu uma sobrancelha. Traços sombrios, voz
ameaçadora. Perguntou:
– Até quando você vai fugir de mim?
Engoli em seco, pois a forma como ele me olhava não era nada amigável.
Feron estava magoado. Nós passamos uma noite extremamente íntima juntos
– com pele, toque e carinho –, e eu simplesmente fugi (sem dar qualquer
explicação).
Aquela noite tinha se cravado no meu âmago, e eu jamais iria esquecê-la. Foi
a experiência mais malditamente romântica da minha vida.
Diante de seu olhar dominador, meu coração disparou. Estar na presença dele
era adrenalina direto nas veias.
Porém, antes que eu pudesse responder, um sedã prateado virou a esquina e
parou na porta da casa, bem ao lado do Range Rover.
Era o carro da Stela. A mãe da Mia saiu e bateu a porta, olhando de mim para
Feron. Abriu um sorriso para o garoto.
– Ah... Olá. Você é amigo da minha filha?
Feron me lançou um olhar enigmático, mas logo virou-se para Stela. Em
segundos, desfez a carranca e assumiu uma postura educada.
– Sou sim, muito prazer. Você é a Stela, não é? – e estendeu uma mão para
ela.
Deus, o garoto sabia tudo sobre a vida da Mia.
Impressionada diante da postura de comando de Feron, Stela apertou sua
mão.
– Sou sim. Mia falou sobre mim? – Stela parecia nas nuvens; ela era muito
carente em relação ao amor da filha. – Que maravilha. Bem... Você veio dar-lhe
uma carona? – inclinou a cabeça, curiosa. E então virou-se para mim. – Mas e o
Thales? Por que não veio também?
Bom... Ótima pergunta.
Stela achava peculiar outro garoto vir me buscar em casa, quando o meu
próprio namorado não o fazia.
– Hã... – comecei a inventar qualquer história, lutando para não gaguejar.
Queria derreter e me fundir ao chão por ali mesmo (só para escapar daquela
situação).
– Não, não foi isso – Feron tomou à frente. – Na verdade, só vim entregar
uma coisa para ela – então ele abriu a porta do carro e pegou uma bolsa lá de
dentro. A bolsa Louis Vuitton de couro da Mia (uma coisinha preta brilhante e
minúscula). Ele se virou para mim, falando com autoridade. – Você esqueceu
isso na minha festa no sábado. Tem documentos e uma chave de carro dentro,
logo pensei que fosse precisar. Não estou planejando ir à aula hoje, tenho um
compromisso. Por isso resolvi passar aqui para te entregar a bolsa, rapidamente.
Peguei a bolsa da sua mão, evitando encostar em seus dedos bronzeados. Não
ousei olhar em seus olhos.
– Obrigada – murmurei.
– Ah, sim, que ótimo! – Stela se convenceu na hora. – Muito gentil da sua
parte. Qual é o seu nome mesmo?
Feron olhou para Stela, nada abalado.
– Feron. Felipe Feron.
Stela arregalou os olhos.
– Da família Feron? Donos da Construtora Amorim & Feron?
– Isso mesmo.
Stela piscou, tentando se recuperar. O nome tinha impacto para ela, vez que a
empresa do garoto era nacionalmente famosa.
– Ah, sim, interessante. Já ouvi falar muito sobre vocês.
Feron soltou um sorrisinho lateral, mas não parecia feliz.
– Espero que tenha ouvido coisas boas. Bom... Agora tenho que ir. Até logo,
Stela, foi um prazer – e então se virou para mim. De imediato, suas íris ficaram
escuras outra vez. A voz, cortante. Acenou uma vez com a cabeça, despedindo-
se. – Santorini.
Em seguida, entrou no seu carro, acelerou e foi embora.
Eu fiquei parada ali, observando-o partir.
De repente, uma tristeza me inundou. Tantas coisas não ditas... Tantos
sentimentos mal resolvidos... Tantas palavras entaladas na minha garganta. Não
vá embora. Eu não quero te afastar, nem fugir de você. Só estou fazendo isso
porque não tenho opção, pois essa vida não é minha.
A vida da Mia tinha sido estrategicamente planejada – e não cabia a mim
tomar decisões por ela.
– Uau! – Stela comentou, alheia aos meus pensamentos. – Aquele garoto é um
espetáculo. Viu aqueles olhos? – ela balançou a cabeça, impressionada. –
Fascinante. Se eu fosse uns vinte anos mais nova...
– Mãe! – cortei-a, exasperada.
Ela ergueu as palmas, gargalhando.
– Só estou brincando. Sou muito bem casada, ok? – ela se aproximou e me
lascou um beijo na bochecha. – Você está muito tensa hoje, relaxe.
Tensa era um eufemismo – eu estava com os nervos em frangalhos.
Naquele momento, Félix chegou, dirigindo o carrão preto de sempre. Parou
na porta da casa e buzinou para mim, acenando.
– Tenho que ir para a faculdade, até mais tarde – me despedi de Stela,
entrando no carro.
No caminho até a São Valentim, não parei de pensar se reencontraria o garoto.
Na verdade, deveria estar armando um plano para reconquistar Thales (mas não
era nisso em que meu coração realmente queria se focar).
No fim das contas, foi inútil me preocupar: nem Feron, nem Thales
apareceram na faculdade. Thales, inclusive, não respondia minhas mensagens há
dois dias.
Entre uma aula e outra, Antonela pegou seu celular e arfou.
– Ai, meu Deus! Meninas, venham ver isso. – Vívian e eu nos unimos a ela,
curiosas. Antonela nos mostrou a tela do celular. – Não são nem duas horas da
tarde e o Feron já está aprontando.
Na rede social da São Valentim, alguém postara uma foto do garoto recostado
em seu carro, braços cruzados e expressão assassina.
Ele se encontrava na porta da faculdade Monte Carlo – uma outra instituição
de elite de São Paulo. Muitos alunos da Monte Carlo estiveram em sua festa no
sábado.
Inclusive os garotos que me drogaram.
Vívian se inquietou.
– Ah, não... O Yuri Beltrão estuda lá. Vocês também estão pensando no que
estou pensando?
Antonela ergueu uma sobrancelha.
– Que o Feron está lá para se vingar? Óbvio. Ele não deixa débitos pendentes.
Intrometi-me, preocupada.
– Quem é Yuri?
Vívian franziu o cenho para mim.
– Você não sabe? Vocês costumavam ser íntimos... Esse acidente mexeu
mesmo com a sua cabeça. Ele é o garoto que colocou êxtase nas nossas bebidas.
O Feron nunca aceitou drogas na casa dele, e todo mundo sabe disso. Mas o Yuri
quis se mostrar esperto, e acabou causando aquele caos. Agora, o Feron vai se
vingar.
– Ou já se vingou – completou Antonela, tocando a tela do celular com o
indicador. – Vejam, essa foto foi postada há quase uma hora. Feron devia estar
esperando o Yuri chegar. Eles já devem ter resolvido a pendência.
As garotas falavam sobre aquilo como se fosse algo normal.
Na São Valentim, essas situações eram corriqueiras. Feron era um
comandante, e deixava claro o respeito ao seu território; as garotas tinham se
acostumado.
Vívian estava pensativa.
– Eu só não entendo por que o Feron está querendo vingança. Nós sempre
tivemos uma boa relação com os alunos da Monte Carlo. Ele está querendo
sacrificar essa aliança por causa de um garoto qualquer? As besteiras que o Yuri
Beltrão faz não valem o suficiente para renunciar nossa parceria.
Eu sabia que Vívian não se referia apenas à uma aliança de amizade – mas
sim à uma aliança de negócios.
Antonela discordou.
– O que aconteceu com a Mia foi algo sério, Vi. O Feron deve ter ficado
impressionado. Afinal, foi ele quem cuidou dela.
– Esperem – interrompi, perplexa. – O Feron foi tomar satisfações com o
garoto por causa de mim?
Antonela deu de ombros.
– Provavelmente. Caso contrário, ele apenas mandaria um aviso verbal. Se
ele foi até a Monte Carlo acertar as contas pessoalmente com o Yuri... Bem, ele
deve estar muito furioso.
Engoli em seco.
– E no que consiste, exatamente, esse acerto de contas?
– O que o Feron decidir. Ele dita as regras por aqui, sempre foi assim.
– Até as outras faculdades o respeitam?
Vívian interviu.
– O nome dele é uma lenda, e qualquer aluno da elite paulista o conhece. A
palavra dele é lei, e ninguém seria estúpido o suficiente para enfrentá-lo.
Recostei-me na minha cadeira, perturbada.
Deus... Em que confusão eu havia me metido?
Na hora do intervalo, nos sentamos na mesa de sempre na cafeteria. Minutos
depois, Téo se juntou a nós – sozinho. Por vinte minutos, pude relaxar e
conversar com meus amigos.
No entanto, o inevitável aconteceu.
Feron entrou na cafeteria; óculos escuros, porte arrogante. Pegou sua bandeja
de comida no balcão e, minutos depois, se sentou ao lado do Téo.
– E aí – ele cumprimentou a todos na mesa (mas não olhou para mim sequer
uma vez).
– E aí... – Téo respondeu. – Ficamos sabendo do seu pequeno episódio de
fúria na Monte Carlo. Está voltando de lá?
– Sim – confirmou, despreocupado, enquanto abria uma garrafa de água
com gás. – Nosso amiguinho Yuri não poderá sair do hospital por umas três
semanas. Uma pena.
E então ele retirou os óculos escuros. Seu olho esquerdo ostentava um
hematoma arroxeado – que não estava lá, horas atrás.
Téo suspirou, balançando a cabeça.
– Ai, cara... O que eu faço com você?
Feron o lançou um olhar sombrio de soslaio.
– Ele trouxe drogas para a minha casa, Téo. Ele quase matou a Santorini.
Levou uma surra, sim; e foi misericordiosa, se comparada ao que ele merecia.
Téo ergueu as mãos.
– Tudo bem. Sua casa, suas regras, não irei me meter. Você anda muito
estressado ultimamente, precisa relaxar... Que tal uma partida de futebol no
clube hoje à noite?
– Ótimo, bebeu um gole da garrafa. – Preciso mesmo colocar essa raiva para
fora. Minha vida anda... Conturbada.
Antonela mexia sua salada de frutas com a colher, distraidamente.
– E por quê? Nada de novo aconteceu.
Feron desviou os olhos, soltando um sorriso amargurado.
– Problemas pessoais.
– Hummm – Vívian apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou para frente,
piscando maliciosamente. – E esse problema tem nome?
Feron se recostou na sua cadeira, encarando-a.
– Tem sim, Vi. Mas se eu te contasse, você ficaria em choque.
Vívian piscou, pega de surpresa.
– Como assim?
Todos prestaram atenção na conversa, intrigados. Aquilo não era típico do
garoto.
Feron me lançou um olhar sinistro, mas em seguida desviou o rosto.
– Esqueçam.
Vívian suspirou.
– Conheço essa expressão... Parece que terei que me resignar com a
curiosidade. Nada vai te fazer falar, não é?
– Não. Se eu falar, pessoas demais sairão feridas.
Antonela era perceptiva demais para deixar aquele comentário passar.
Estreitou os olhos, observando o garoto com atenção.
– Inclusive você?
Feron soltou um meio sorriso triste, baixando os olhos para a mesa.
– Para mim, já não há mais saída.
A amargura na voz dele me machucava. Não havia subterfúgios para nós, pois
aquela seria uma história impossível de ser vivida. Portanto, os sentimentos
teriam que ser escondidos à sete chaves – sufocados e enclausurados.
Assustada, notei meus olhos ficando marejados. Aquilo estava acabando
comigo (jamais sentira algo tão potente). Um turbilhão de sensações.
–Vou indo na frente – me levantei de rompante – preciso passar no banheiro.
Vejo vocês na aula.
De cabeça baixa para esconder o resquício de lágrimas, corri até o banheiro do
terceiro andar – o mais vazio do prédio. Já dentro da cabine, sentei-me no vaso e
finalmente me permiti chorar. Intensamente.
Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Nunca havia chorado por um
homem antes. Por que Felipe Feron causava esse furacão de sentimentos
confusos no meu coração?
Seria aquela voz poderosa? Aquele cheiro enigmático?
Ou, talvez... Aqueles olhos de mistério – tão profundos e tão sérios? Havia um
enigma que pairava sobre ele... Um enigma que eu ansiava por desvendar.
Mas, infelizmente, precisava continuar encenando o meu papel. Necessitava
arrancar as garras do Felipe Feron do meu coração. Eu era só uma garotinha do
interior – e não tinha direito à um homem como aquele.
Decidida, peguei o celular e liguei para o Thales; ele atendeu na terceira
chamada.
– Mia. – Cumprimentou secamente.
– Por favor, me ouça. Não desligue. Eu tenho muito para te falar, vamos
conversar.
Do outro lado da linha, Thales suspirou.
– Fale, Mia. Vamos ver se algo do que você tem a dizer pode desfazer o que
aconteceu.
E então eu botei em prática todo o meu discurso planejado.
Eu estava fora de mim, não estava pensando com clareza. Nada do que eu
disse naquela noite tem fundamento. Não tenho sentimentos pelo Feron. Por
favor, não termine comigo.
Cada palavra era uma traição ao meu coração. Mesmo assim, engoli a tristeza
e me forcei a falar cada uma delas.
Por fim, Thales parecia exausto.
– Quer saber? Melhor não tomarmos nenhuma decisão agora. Vamos fazer
uma experiência... Tentar mais uma vez. Se você não me expor ao ridículo
novamente, então decidiremos se iremos continuar.
– Então nós não terminamos?
– Por enquanto, não.
Por lado, fiquei aliviada. Mas, por outro...
– Ótimo, então. Obrigada por isso, ok? Esse voto de confiança significa muito
para mim.
A voz dele era séria e triste.
– Ok, apenas o faça valer a pena.
Após desligarmos, suspirei: pelo menos uma situação tinha sido resolvida.
Mandei uma mensagem para Mia, informando-a do acontecido. Eu tinha
conseguido desfazer parte da confusão. Minutos depois, ela respondeu: muito
bem. A partir de agora, certifique-se de não ferrar com a minha vida outra vez.
– Não ferrarei, irmãzinha – murmurei, amargurada.



E o tempo passou.
Nesse ínterim, Thales voltou para a faculdade – mas o clima encontrava-se
estranho.
Quando nosso grupo se reunia, Thales não conversava com Feron. Vez ou
outra, quando Feron estava por perto, Thales passava o braço por sobre os meus
ombros, querendo demarcar território.
Todo o meu corpo rejeitava aquele toque. Todavia, eu apenas abaixava a
cabeça, impotente.
Repetia para mim mesma: essa vida não é sua, Lívia. Você não tem permissão
para escolher o que quer.
A cada dia que se passava, Feron ficava mais sombrio e calado. Em suas íris,
eu podia ver a mágoa e a raiva reprimidas. Vez ou outra, ele olhava para Thales
junto a mim e soltava pequenos sorrisos amargurados, sem qualquer felicidade.
Thales estava constantemente se exibindo – só para ferir o amigo; isso deixava
o garoto enfurecido.
Mas não era só isso. Também podia notar o olhar magoado de Feron em
minha direção – afinal, eu seguia permitindo tudo aquilo. Não me esquivava dos
toques do Thales.
Os olhos de Feron ferviam em minha direção, sussurrando sem palavras:
traição.
Feron e eu vivemos uma noite intensa, reveladora de sentimentos. Entretanto,
nos dias seguintes, eu o ignorei – como se nada houvesse acontecido. Rejeitei
seus sentimentos (ainda que silenciosamente).
Perceptivo, Feron entendeu o recado, e nunca mais olhou para mim. Aquilo
foi o deixando mais duro e arisco, e o garoto me ignorava completamente.
Nesse ínterim, eu fui murchando. Ver o garoto sofrer e se endurecer acabava
comigo. Chorava toda noite – na consciência de que, no outro dia, eu estaria
dentro do abraço do homem errado. Mais uma vez.
Meus amigos notaram minha mudança. Eu conversava pouco, e ria menos
ainda; minha expressão perdeu o brilho. Eu não falava nada comprometedor –
porém, não conseguia esconder a infelicidade (pois aquilo era maior que eu).
Minhas amigas tentavam me pressionar para desabafar, mas segui firme e
silenciosa.
Eu estou bem, isso é coisa da cabeça de vocês, repetia. Elas não acreditavam.
Stela e Tomás também perceberam minha mudança, e começaram a me rondar
todos os dias, preocupados. Eu tentava ao máximo disfarçar a tristeza, porém os
pais da Mia não eram estúpidos.
Restava óbvio: eu seguia definhando.
Cerca de um mês depois, Thales me ligou numa segunda-feira à noite. Quando
atendi, ele anunciou que estava me esperando na porta da minha casa. Franzi o
cenho, estranhando... Aquilo não era típico do namorado de Mia. Ele não fazia
visitas surpresas.
Olhando através da janela, pude ver o carrão dele estacionado na porta da
minha casa. Coloquei um casaco e desci para encontrá-lo. Ao entrar no carro,
Thales se encontrava de braços cruzados e expressão séria; olhava para a frente,
enfurecido.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntei, receosa. Nunca o vira daquele jeito.
Ele se virou para mim abruptamente.
– Eu estou te forçando a ficar comigo?
– O quê?
– Desde que nós voltamos, você mudou. Não é a mesma Mia de antes. Está
evidente que você não está feliz, principalmente quando está comigo. Está nesse
namoro por obrigação, é isso?
Me desesperei.
– Claro que não, Thales, eu adoro você. Você me faz muito feliz – forcei-me a
falar.
Thales soltou um sorriso irônico, triste. E então massageou as têmporas.
– Ah, Mia... Não comece, eu não sou tão estúpido assim. Não subestime
minha inteligência.
Baixei o rosto, sentindo os olhos marejados.
– Não sei o que mais você quer de mim. Estou fazendo o que posso.
Thales me olhou de soslaio, expressão arrasada.
– Isso é sobre ele, não é?
Engoli em seco, paralisando.
Quando não respondi, Thales compreendeu. Gargalhou – em raiva, tristeza e
desdém.
– Meu Deus... Aquele maldito é realmente um furacão causador de caos. Veja
o que ele fez com as nossas vidas.
– Não fale assim do Feron – senti o ímpeto de defendê-lo.
Feron já estava carregando o seu próprio fardo. Em respeito ao amigo, nunca
mais sequer olhou em minha direção; por isso, não era justo Thales ofendê-lo.
Feron sempre quis ser fiel a ele, recuperar sua amizade.
O garoto devolveu, cortante.
– Mas em que momento eu citei o nome do Feron?
Droga. Abri a boca para responder, mas não encontrava as palavras; eu havia
me entregado.
Thales balançou a cabeça, ressentido.
– Está vendo? Não dá mais, Mia. Eu tentei salvar a nossa relação, tentei não te
entregar de bandeja para ele... Mas não quero mais fazer papel de idiota. Chega,
nossa relação acabou.
Meu Deus... Meu Deus. Agora eu estava realmente encrencada.
Não havia mais como contornar essa situação... Eu tinha estragado a vida da
Mia.
Não ousei tentar persuadir Thales, pois ele estava com raiva demais – e tinha
toda a razão para tal. Além disso, o garoto não merecia passar por aquilo. Cabia
a mim agora lidar com as consequências dos meus atos.
– É isso mesmo o que você quer?
Ele estava convicto.
– Sim, acabou para mim.
– Tudo bem – murmurei, destruída. – Me perdoe por tudo, você é um homem
bom. Sou eu quem está simplesmente... Estragada.
Thales não respondeu; olhava para a frente, ressentido.
– Ok, então – resignada, saí do carro.
O garoto acelerou, indo embora e sumindo numa esquina escura.
Entrei em casa chorando. Stela se levantou do sofá, assustada.
– Filha...? Filha! – gritou quando saí correndo, dando-lhe as costas.
Eu não chorava pelo fim do relacionamento da Mia. Chorava por ter errado
tanto e estragado tudo. Chorava por estar experimentando sentimentos que não
deveriam estar aqui.
Stela bateu à porta do meu quarto e entrou. Perguntou-me o que estava
acontecendo, preocupada. Eu somente neguei com a cabeça, recusando-me a
contar. Então Stela não me pressionou mais; apenas deitou-se comigo na cama,
fazendo carinho em meu cabelo – enquanto eu deixava as lágrimas rolarem.
No abraço dela, senti-me acolhida. Fazia muito tempo que eu não sabia o que
era ter uma mãe. E saber que aquilo seria tomado de mim muito em breve, só me
fez chorar mais.
No outro dia, as notícias sobre meu término com Thales já haviam se
espalhado. Fotos do garoto foram postadas na rede social de fofocas da
faculdade.
A foto não mentia: Thales estava beijando uma garota em alguma casa noturna
de São Paulo, na noite de ontem. A legenda consistia em uma chamada
polêmica: término ou traição?
Abaixo da foto, uma chuva de comentários especulativos. Todavia, o próprio
Thales surpreendeu a todos e postou um comentário – bem curto e grosso:
“Término.”
E nada além. Exalei, meio perplexa, pois aquela atitude não era típica de sua
personalidade discreta. Thales devia estar mesmo furioso.
Antes de nos encontrarmos na faculdade, Antonela me ligou, perguntando se
eu estava me sentindo bem. Vívian mandou uma mensagem, dizendo que sentia
muito e que conversaríamos melhor na São Valentim.
Em meu íntimo, sentia que as meninas haviam mudado.
Quando conheci Antonela e Vívian, elas não amavam minha gêmea – apenas
a adulavam e a obedeciam. Contudo, o vínculo havia mudado. Agora, eu sentia
que as duas verdadeiramente se preocupavam comigo (assim como amigas de
verdade).
Torcia para que Mia não estragasse tudo ao retornar, abusando de sua
personalidade horrível.
Bom, pelo menos em um aspecto eu não havia estragado sua vida perfeita.
Antes de ir para a faculdade, meu celular apitou; era uma mensagem de um
número desconhecido. Quando cliquei na foto do perfil da pessoa, meu queixo se
escancarou:
Era ninguém menos que o próprio Feron.
A mensagem era curta e direta. Dizia: Realmente acabou?
Ele nunca – nunca – havia falado comigo assim. Nunca me ligou ou mandou
mensagem. Há mais de um mês ele não me dirigia sequer um olhar, pelo amor de
Deus.
Eu não sabia o que fazer. O que seria o certo? Me explicar? Pedir desculpas
por todo o sofrimento do último mês? Eu não podia contar a verdade, no fim das
contas.
Então, simplesmente respondi: Sim.
Feron visualizou minha mensagem, mas não se deu ao trabalho de responder.
Eu não tinha ideia do que ele estava pensando, pois sua mente era um enigma.
Aquilo ficou me perturbando por horas.
Stela já me permitia dirigir outra vez. Quando entrei no carro para ir até a
faculdade, recebi uma mensagem ríspida da Mia. É claro que ela já sabia das
notícias.
A mensagem dizia (de forma bem carinhosa, como sempre): você é mesmo
uma incompetente. Não faça mais nada, resolverei tudo quando chegar.
Suspirei, dando partida no carro. Nem me dei ao trabalho de responder, pois
nada do que eu falasse poderia resolver o problema mesmo... Eu estava errada e
sabia disso.
Quando cheguei à São Valentim, Antonela e Vívian me esperavam no banco
de sempre, à sombra da grande árvore. As duas me abraçaram e consolaram.
Quando as vi, não consegui segurar, e deixei escapar algumas lágrimas – mas
não pelos motivos que ambas pressupunham.
Eu estava de luto por outra história; uma história que não me seria permitida
viver. No final das contas, minha passagem pela vida de Mia só serviu para
deixar vários corações partidos.
Inclusive o meu.
Junto às meninas, entrei na sala de aula e sentei em meu lugar; faltava cerca
de cinco minutos para o professor chegar. Os alunos iam se acomodando em seus
lugares, e a sala seguia enchendo-se.
Sem qualquer alegria, abri meu caderno e esperei, rodando na mão meu copo
de café. Vívian e Antonela conversavam, mas eu não tinha ânimo para participar.
Foi então que aconteceu.
A porta da sala se abriu abruptamente. Feron estava parado lá – uma massa de
músculos intimidadora e perigosa. Todo mundo se calou.
Aquela não era a sala de aula dele. O que diabos ele estava fazendo aqui?
Para o meu espanto, o garoto fixou os olhos em mim, obsessivamente. Suas
íris verdes ardiam, tomadas por alguma decisão. Ele andou em minha direção
com passos rápidos e obstinados, uma mochila dependurada em um dos ombros.
Parou bem na minha frente.
Todos na sala seguravam o fôlego.
Senti toda a potência de suas íris sendo descarregadas em cima de mim.
Diamantinas e apimentadas. Intimidada, ergui o rosto para encará-lo; sua
expressão encontrava-se intensa e decida – e não me deixava saber o que esperar.
Ou ele iria me beijar, ou me matar.
Meu coração batia furiosamente.
Mas não foi nada disso que aconteceu.
Com sua voz de comando, Feron me encarou e ordenou.
– Namora comigo.
O quê?!
Ouvi um ofegar geral. Vívian e Antonela ficaram perplexas – pegas de
surpresa; elas não tinham ideia do que se passava. Enquanto isso, as pessoas na
sala começaram a murmurar.
Meu coração quase saía pela boca.
Meu Deus, que situação era aquela? Engoli o choque e tentei manter a
compostura.
– Isso é um pedido ou uma ordem?
Ele não titubeou.
– O que você quiser. Apenas seja a minha mulher.
Sim!, meu coração gritava. Eu já pertenço a você há muito tempo. Eu
ansiava por tudo sobre ele – desesperadamente. O cheiro, a voz, os olhos de
mistério, a presença selvagem...
Todavia, mais uma vez o grilhão acorrentado em minhas pernas me impediu.
Feron havia se apaixonado pela princesa moderna: Mia Santorini. E não por
mim, a garotinha do interior. Aquela vida de luxo não era minha, e eu era só um
personagem.
Mia não queria nada daquilo. Eu não poderia aceitar os sentimentos de Feron
em nome da garota, pois a decisão não competia a mim.
Meu coração se partiu em pedaços. A resposta saiu da minha garganta com
bordas afiadas – machucando tudo aqui por dentro.
Baixei os olhos e murmurei, destruída.
– Não.
Um silêncio pesado se abateu sobre a sala – todos se encontravam chocados.
De soslaio, notei a expressão de Feron: ele tinha sido pego de surpresa, e um
relance de mágoa vislumbrou em seus traços. Em seguida, o garoto trincou o
maxilar e fechou os olhos por um segundo.
Um comandante lendário sendo derrotado.
Então, abriu as pálpebras e me encarou. A voz, sombria.
– É isso mesmo o que você quer?
– Sim – murmurei. Traição!, meu coração gritou.
Feron me encarou consternado e ressentido. Sua feição se endureceu, e senti
que ele havia tomado uma decisão.
– Que seja assim então, Santorini. Não correrei mais atrás de você. – Ele
jogou a mochila sobre um dos ombros. – Sinto muito tomar o seu tempo – e
virou as costas, indo embora com passos furiosos.
O clima na sala ficou tenso. Vívian e Antonela me observavam, consternadas
e sem palavras. Calada, eu observei o garoto partir.
Enquanto ele levava consigo os destroços do meu coração.










CAPÍTULO 6

Após o acontecimento, não consegui mais ficar na aula. Esperei alguns
minutos, de modo ao Feron já estar longe do prédio. Afobada, juntei todas as
minhas coisas e saí correndo da sala.
Sentia os olhares sobre mim, mas não me importei.
Corri para o banheiro vazio do terceiro andar e entrei em um cabine. Sentei-
me sobre a privada e deixei as lágrimas rolarem, incontroláveis.
A memória era dolorosa. Namora comigo, ele pediu. O tom de comando era
intrínseco à sua personalidade – mas, mesmo assim, eu podia ver a insegurança
por trás das palavras.
Feron estava arriscando tudo naquele momento. Ele não tinha certeza sobre a
minha aceitação (talvez pela primeira vez em sua vida).
Recordar seu olhar ferido diante no meu “não” só me fez chorar ainda mais.
Enquanto isso, passos soaram no banheiro e pessoas entraram; alguém bateu na
porta da minha cabine.
– Mia? – Antonela chamou delicadamente. – Saia, vamos conversar. Deixa a
gente te ajudar.
Em seguida, Vívian falou, num tom igualmente triste.
– Você não precisa chorar sozinha, estamos aqui por você.
O apoio tão honesto das duas me comoveu. Saí da cabine e abracei a primeira
que vi pela frente – acho que era a Antonela.
– Shhh – Antonela afagou meus cabelos, enquanto eu chorava em seu ombro.
– Vai ficar tudo bem.
Depois que eu me acalmei um pouco, Vívian apertou uma das minhas mãos e
me olhou com seriedade.
– Tem alguma coisa muito estranha acontecendo, e você não está nos
contando. Fale a verdade para nós.
– Nós não vamos te julgar. – Antonela completou com sinceridade.
Sequei as lágrimas, tomei fôlego e contei para elas parte da verdade.
Feron estava demonstrando interesse por mim há um tempo; minha relação
com Thales tinha se abalado por causa disso. E eu não tinha certeza mais do que
estava sentindo.
Entretanto, não poderia contar a elas sobre meu real impedimento em relação
à Feron. Eu não sou quem vocês pensam. A verdadeira Mia me proibiu de
aceitar os sentimentos de Feron. Acontece que ele não se apaixonou por mim –
ele se apaixonou por ela. Eu, a verdadeira Ana Lívia, nunca terei esse homem.
E por isso meu coração se partia – como jamais se partiu em toda a minha
vida.
As meninas ficaram estarrecidas, mas como prometido, não me julgaram. Elas
me perguntaram por que eu simplesmente não iria até Feron e conversava com
ele. Propondo que fôssemos devagar, que fôssemos nos conhecendo, esperando a
poeira da confusão abaixar...
Elas não sabiam que Mia havia me proibido disso.
Portanto, tive que mentir. Disse que Feron me intimidava, e que eu não sentia
nada por ele; estava chorando porque o garoto conseguiu destruir minha vida
perfeita, estrategicamente planejada.
As meninas não engoliram aquilo muito bem. Eu parecia destruída demais.
Contudo, mais uma vez elas não perguntaram nada, resolvendo me dar espaço.
Depois disso, dias tenebrosos se passaram. A notícia de que Feron havia sido
rejeitado em público se espalhou como pólvora.
Feron humilhado na frente de todos, anunciava a manchete da fofoca.
Mesmo assim, o garoto seguiu indo às aulas, sem abaixar a cabeça para
ninguém. Nenhum dos alunos ousou tocar no assunto, é claro.
Nesse ínterim, nosso grupo acabou se separando. Antonela, Vívian e eu nos
sentávamos no banco do gramado na hora dos intervalos. Vez ou outra, eu
conseguia ver Thales e Téo sentados na mesa de sempre da cafeteria. Thales me
ignorava completamente, e Téo parecia simplesmente triste com a situação toda;
ele não gostava de ver o grupo desfeito.
Durante aquele mês subsequente, eu raramente avistava o Feron. Ele não se
sentava mais conosco nos intervalos. Vez ou outra, conseguia vê-lo de relance
pelos corredores da São Valentim; ele passava por mim com o maxilar erguido e
olhos ardendo – raivosos e feridos.
Nunca mais me dirigiu uma palavra.
Nesse meio tempo, fiquei sabendo que Pilar Monferrari se declarou para ele.
As notícias correram pela faculdade rapidamente, e parece que o episódio
aconteceu em plena cafeteria lotada.
Eu não estava presente, mas uma informante de Vívian contou tudo em
detalhes. Pilar parou na frente da mesa em que Feron se sentava, e simplesmente
se declarou (daquele jeitinho elitista e arrogante que só ela sabia ter).
“Nós somos os melhores daqui, é natural que fiquemos juntos.”
Após a declaração surpresa, Feron rejeitou Pilar de forma fria, mas educada.
“Desculpe, você é... Ótima. Mas eu não estou nem um pouco interessado.”
Acontece que a faculdade inteira presenciou aquilo. Enlouquecida e
humilhada, Pilar arremessou um copo de café nele.
Bom, acho que Pilar não estava acostumada a levar muitos “nãos.”
Feron apenas a encarou, silencioso como um tigre prestes a atacar. Respirou
fundo e simplesmente tirou a camisa molhada na frente de todo mundo. Jogou-a
sobre os ombros e saiu da cafeteria; ninguém mais o viu na faculdade naquele
dia.
Era de conhecimento geral que Pilar ruminava uma paixão por Feron desde o
ensino médio (e talvez todas as outras garotas da São Valentim e adjacências).
Depois que Feron teve um contato mais “íntimo” com ela em sua festa, Pilar
entendeu tudo errado.
Depois de ser rejeitada, Pilar espalhou para todo mundo que Feron a havia
usado. Colocou-se no papel de vítima, e disse que se vingaria. Ninguém
acreditou nela. Pilar era uma garota linda? Sim, mas também lendariamente
chantagista e mimada. Ela mesma já havia rejeitado outros garotos em público (e
de forma muito mais cruel).
Desde que se tornou linda, ela usava os homens e os descartava. Não havia um
pingo de bondade naqueles olhos azul-gelo.
Se fosse qualquer outra levando um fora em público, eu sentiria pena (mas
como era Pilar, não me compadeci).
A estratégia dela tinha sido ardilosa. Declarou-se em público para Feron, de
modo a colocá-lo em uma posição difícil. Seria complicado para ele rejeitá-la na
frente de todos – portanto, tenderia a aceitar.
Mas, se em seguida ele simplesmente a dispensasse, ela faria o papel da
vítima abandonada.
Todavia, joguinhos de manipulação não funcionavam com o garoto (ele era
esperto demais). Fez Pilar beber do seu próprio veneno, uma vez que conhecia
bem aquele tipinho. Lidou com garotas mimadas a vida inteira.
No fim das contas, Pilar saiu humilhada – e prometendo se vingar.



Feron ficou alguns dias sumido. Não apareceu na faculdade, nem em lugar
algum.
Vívian e Antonela ainda mantinham contato com Téo, e o garoto dissera que
Feron também não atendia suas ligações.
Dias depois, ele por fim apareceu na São Valentim. Não andava mais junto à
Thales e Téo, porém estava sempre cercado de amigos; garotos do time de
futebol, atletas da natação, e assim por diante.
O garoto estava cumprindo muito bem o seu papel de me ignorar. Se nos
encontrássemos por acaso no estacionamento, cafeteria ou corredores da
faculdade, ele nem sequer se dignava a me olhar; passava por mim com o
maxilar erguido e os olhos fervendo em indiferença. Era como se eu não
existisse mais.
Restava óbvio que ele resolvera me cortar da sua vida.
Não irei mais correr atrás de você.
Bom, Felipe Feron era um homem de palavra. É claro que ele não iria querer
ser meu amiguinho... Não. Pessoas intensas não compreendem esse conceito.
Amor ou ódio – e nada além; afinal, eu o havia humilhado.
Era uma segunda-feira à tarde, bem na hora do nosso intervalo. Vívian,
Antonela e eu batíamos papo, sentadas em nosso banco de sempre no gramado.
O sol estava quentinho, e as folhas da grande árvore nos regava de sombra. Foi
então que nossos telefones apitaram, e todas recebemos uma mesma mensagem
em vídeo.
Peguei o celular e abri a mensagem.
O título era: vaza vídeo de Mia Santorini com Yuri Beltrão. Fiquei
imediatamente alerta.
Ah, não, Mia... O que você fez?
Yuri era o garoto que havia colocado êxtase na minha bebida. As meninas
começaram a murmurar, tensas.
– Ai, meu Deus... – Vívian estava receosa.
Antonela engoliu em seco, clicando no vídeo.
– Não pode ser boa coisa.
Juntamos as cabeças para ver o vídeo na tela do celular de Antonela. De
repente, me deparei com uma imagem chocante: Mia e Yuri no que parecia ser
um quarto escuro. Ambos completamente nus, tendo relações íntimas. Embora
houvesse quase nenhuma luz, dava para ver claramente que, sim: a garota no
vídeo era a própria Mia.
Vívian tinha a voz estrangulada.
– Puta merda! – Olhou para mim, meio apavorada. – E agora? O que vamos
fazer?
Tentei controlar o pânico. Agora a reputação da Mia estava mesmo
destruída. Isso deve ter acontecido bem antes de Mia me conhecer.
– Tem como apagar isso?
Antonela me fitou com tristeza.
– Não, à essa altura já se espalhou até para as outras faculdades. Vamos sair
daqui e ir direto procurar um advogado. Sua mãe pode ajudar.
Ao meu redor, alunos que transitavam pelo gramado começaram a cochichar,
me lançando olhares de julgamento; quase todos tinham seus celulares nas mãos.
Maldita era digital.
Fechei os olhos por um momento, tentando não chorar. Eu não morria de
amores pela minha gêmea (contudo, mulher nenhuma merecia aquilo). Yuri não
seria punido – mas Mia seria.
Essa era a realidade do mundo patriarcal em que vivíamos; um mundo onde
as mulheres são altamente sexualizadas (mas não têm nenhum direito sexual).
Um mundo criado e pensado para os homens. Yuri sairia da situação com sua
dignidade ilesa. Por outro lado, Mia seria massacrada – embora eles tivessem
feito a mesma coisa.
Enquanto isso, Vívian ponderava.
– Antes de tomarmos qualquer medida, precisamos descobrir quem foi que
deixou esse vídeo vazar. Você não disse que o Yuri havia prometido não contar
nada para ninguém sobre o vídeo?
Então as meninas sabiam que, no passado, Mia traiu Thales com esse tal de
Yuri. Bom... Não só traiu, como fez questão de gravar o ato.
Tentei encontrar uma explicação.
– Eu o dispensei na última festa. Ele deve estar querendo se vingar de mim.
Vívian ergueu uma sobrancelha.
– Ou se vingar do Feron.
Aquilo me apavorou.
– Como assim? O que o Feron tem a ver com isso?
– Bom, ele tem sentimentos por você. Quando você se fere, ele se fere
também, e quem vazou esse vídeo sabe disso.
Ai, meu Deus, a situação só ficava pior...
Antonela segurou minha mão.
– Você quer ir embora? Daqui há pouco, esse lugar vai virar uma selva para
você.
Eu respirei fundo e ergui a cabeça.
– Não, eu sou a vítima aqui, não a culpada. Não importa se eu estava ou não
traindo, o Yuri não tinha o direito de me expor. Não irei sair correndo como uma
fugitiva. Vou ficar nessa faculdade e mostrar para eles que não podem me tratar
como escória. – Senti o ódio flamejando em meu peito. Minha gêmea não se
intimidaria em uma hora dessas (Mia era uma vaca, sim – mas era muito
corajosa). – Eu sou a porra da Mia Santorini, afinal.
Isso tinha que servir para alguma coisa.
Vívian bateu palmas, orgulhosa.
– É isso aí!
Antonela se levantou, energias renovadas.
– Erga a cabeça, então! Vamos enfrentar isso juntas.
E foi isso o que fizemos.
Durante o fim daquele dia, comentários cruéis foram postados na rede social
da São Valentim, e eu seguia recebendo olhares reprovadores. Os garotos me
fitavam com malícia – e, as garotas, com desdém. Não era fácil ser uma mulher
nessa situação.
Não obstante, eu não fugi; enfrentei o dia de cabeça erguida, pois sabia que eu
era uma vítima, e não uma culpada.
Se Mia estava traindo o Thales, ela deveria resolver isso com o Thales – e
mais ninguém. Não importavam as circunstâncias em que Mia gravou aquele
vídeo – se ela não autorizou, não deveria ter sido exposta. Aquilo era claramente
uma vingança.
No último horário, eu cursava uma aula diferente das minhas amigas. Como
Mia não se dignava a estudar, ela acabou ficando atrasada em uma matéria.
Logo, separei-me das meninas e fui assistir à bendita aula. O professor falava
sem parar, e acabou nos liberando vinte minutos mais tarde que o horário
habitual.
Ao final da aula, joguei minha bolsa sobre o ombro, suspirando e me
levantando da carteira. À essa altura, Vívian e Antonela já teriam ido embora. A
sala de aula ficava no segundo andar do prédio de Gestão de Negócios, e junto
aos demais alunos, desci as escadarias até a saída no primeiro andar. Não
conversei com ninguém – é obvio. Todos me lançavam olhares recriminadores.
Portanto, acelerei o passo e fingi não notar os murmúrios ao meu redor.
Bem na entrada do prédio de Gestão, havia um conversível vermelho berrante.
Uma garota loura e esguia se recostava nesse carro; usava óculos escuros
caríssimos, e tinha os braços cruzados – ostentando no rosto uma expressão
furiosa.
Enquanto eu passava por ela, a garota me surpreendeu.
– Ei, você! – chamou.
Aquilo era comigo? Virei-me para olhá-la.
– Sim? – tentei ficar calma, pois não sabia quem ela era. Mia não me passara
essa informação.
Ela retirou os óculos, encarando-me de forma assassina.
– Eu sou a Valentina Brandão.
Vasculhei meu cérebro em busca do nome, mas não encontrei nada.
– Hã... Quem?
A garota ferveu de raiva.
– Como assim quem? A namorada do Yuri! E você é a vaca que o ajudou a
me trair!
Ai, meu Deus – só me faltava essa! Quer dizer que o Yuri também tinha uma
namorada?
Ele e Mia realmente se mereciam.
As pessoas ao redor tinham parado para observar o escândalo. A garota
retirou algum objeto da bolsa: um pequeno vidro de spray preto. Ela sorriu com
maldade, avançando para cima de mim.
– Eu tenho um recadinho para te dar.
E então, de repente, ela espirrou o líquido do bem no meio do meu rosto. De
imediato, senti os olhos lacrimejarem a garganta pegar fogo. Caí no chão com
um grito esganiçado – aquilo era um spray de pimenta!
Horrível, sufocante!
De repente, senti chutes nas minhas costelas. As pontas dos saltos da garota
feriam minha pele, e eu me contorcia de dor.
À cada chute, a garota gritava: “Isso-é-para—você-aprender-a-não-encostar-
no-namorado-dos-outros!”
Eu não conseguia me defender! Nem levantar, nem correr.
Minha garganta pegava fogo, e me faltava oxigênio. Senti ânsia de vomito, e
não conseguia sequer abrir os olhos – pois tudo estava queimando. A dor em
minhas costelas era lancinante, e a garota não parava de me agredir.
Jamais vivenciei uma violência tão covarde. A garota sabia que eu era uma
lutadora, portanto não teria chance contra mim. Usou um meio insidioso para me
debilitar – enquanto me agredia sem piedade. Ela era ardilosa.
Valentina me xingava e chutava.
As pessoas ao redor arfavam, chocadas, mas ninguém teve coragem para
interferir.
De repente, ouvi um grito poderoso e desesperado.
– Pare com isso! – a voz era inconfundível: Feron! Só ele ostentava esse
timbre rouco e autoritário.
Ouvi um arfar meio apavorado – que só poderia ter advindo de Valentina.
Encontrar Feron nesse momento seria seu pior pesadelo. Os chutes pararam na
hora, mas eu ainda gemia de dor no chão, sem conseguir erguer as pálpebras. As
costelas doíam, e a garganta queimava.
Por todos os lados, dor, dor e mais dor. Insuportável!
Entretanto, naquele momento, senti braços fortes me erguendo do chão. O
cheiro dele era inconfundível. Feron me aninhou nos braços, apertando-me de
forma protetora.
– Desculpe, linda – sussurrou para mim, voz arrasada. – Desculpe não estar
aqui para te proteger.
Eu apenas me aninhei ainda mais em seu peito musculoso, lágrimas
escapando dos meus olhos.
– Me tire daqui – implorei.
– Antonela – Feron convocou com autoridade. Minhas amigas deviam estar
por perto. – Eu não posso encostar um dedo nessa garota, mas você pode. Faça
as honras.
Em seguida, ouvi passos.
– Será um prazer – Antonela respondeu, furiosa. E então eu ouvi o barulho de
um tapa forte, seguido de um grito de surpresa.
Abri os olhos por único segundo e observei Valentina retroceder, chocada.
Mãos sobre o rosto – agora avermelhado. Antonela tinha dado um tapa na cara
de Valentina!
Ouvi também um grito empolgado, que só pode ter partido de Vívian.
Antonela rosnou.
– Saia da nossa faculdade, vaca. Se você ficar aqui por mais um minuto, nós
vamos te pegar.
Em seguida, ouvi a voz de Feron – destilando como veneno. O garoto fervia,
no mais refinado ódio.
– Aproveite seus últimos dias na cidade, Valentina, porque eu irei destruir a
sua vida. Guarde minhas palavras: comigo nessa cidade, você não irá conseguir
sobreviver.
Ninguém ousou contestar – pois sabiam que era verdade.
– Vocês são um bando de loucos – ouvi Valentina murmurar. Mesmo assim,
saiu apressada em direção ao seu carro. Ouvi a porta do carro batendo, enquanto
a garota acelerava desesperadamente, correndo para fora da São Valentim.
Com Feron no comando, Valentina não tinha mais chances – era melhor
correr.
Quando ela se foi, Feron pediu com urgência.
– Vívian, traga três garrafas de água gelada para mim, e depois me encontre
no meu carro. Antonela, venha comigo. – E então Feron saiu correndo,
carregando-me ainda nos braços. Eu ainda tinha os olhos fechados, mas imaginei
que ele avançava em direção ao estacionamento.
Momentos depois, fui depositada sobre o banco de carona de um carro. Pelo
couro e pelo cheiro, deduzi que era o Range Rover do garoto. Eu arfava e tossia,
tentando me livrar da queimação; me esforçava para não vomitar.
Feron estava do lado de fora, parado bem na minha frente.
Segurou meu rosto com as duas mãos, falando suavemente.
– Fique calma para mim, ok? Isso vai passar, eu prometo. Estou com você.
Eu apenas assenti, tentando manter a calma. Em seguida, Vívian chegou
correndo.
– Aqui está a água! – entregou uma garrafa para Feron.
Com cuidado, o garoto foi despejando o líquido em meus olhos e rosto.
– Shhh, fique calma – reiterava. Me orientava a piscar, gargarejar a água e
cuspir.
Ao nosso redor, Vívian e Antonela estavam tensas, observando o garoto me
ajudar.
Feron limpou o meu rosto com o que parecia ser alguma de suas camisas
guardadas no carro. Quando finalmente consegui abrir um pouco os olhos, dei de
cara com sua expressão preocupada, bem na minha frente.
– Melhor?
– Um pouco – murmurei. – Ainda arde, mas agora está suportável.
Ela exalou em alívio.
– Que bom – então virou-se para minhas amigas. – Eu cuidarei dela a partir
de agora, meninas, não se preocupem. Vou providenciar um médico.
Vívian olhou para Antonela, buscando sua aprovação.
Antonela franziu o cenho, ponderando – a decisão final era dela. Antonela
sabia que eu não me sentiria confortável.
– Hã... Não sei se é uma boa ideia, Feron. Melhor nós duas cuidarmos disso.
– Não – discordei de repente, surpreendendo a todos. Minha garganta
queimava, mas tentei botar as palavras para fora. – Não quero envolver meus
pais nisso. O Feron vai saber o que fazer.
Se Stela e Tomás vissem a filha exposta em um vídeo sexual... Deus, eles
ficariam arrasados.
Além do mais, eu me sentia tão vulnerável e humilhada naquele momento,
que precisava do garoto perto de mim. Ele seria a minha âncora.
Feron virou-se para as meninas.
– Vocês a ouviram, é assim que ela quer. Fiquem tranquilas, a partir de agora
eu assumirei. – E então fechou a porta do carona, dando a volta no carro e
adentrando no banco do motorista.
O cheiro dele invadiu o ambiente; deu partida no carro, acelerando de forma
feroz e saindo às pressas da São Valentim.
De relance, observei Vívian e Antonela ainda paradas no estacionamento,
sendo deixadas para trás. As duas ostentavam expressões preocupadas.
Eu ainda não conseguia manter meus olhos abertos por muito tempo. Entre
uma piscada e outra, observei Feron apertar alguns botões no painel do carro.
Ele estava telefonando para alguém, através do dispositivo do carro conectado ao
seu celular.
Notei que seu perfil se encontrava sério e urgente.
Segundos depois, uma garota atendeu à chamada.
– Alô, maninho.
– Elisa, você está em casa? Pode fazer um favor para mim? É uma
emergência.
Ai, não... Elisa: a irmã adolescente de Feron. Eu a conhecera alguns dias
atrás (naquela manhã vergonhosa).
– Claro – ela respondeu na hora, notando o tom alarmado do irmão.
– Vá até a farmácia e compre álcool, óleo de canola e um vidro de Maalox.
– Ai, meu Deus. Por que você quer itens de primeiros socorros contra spray
de pimenta? Você está bem?
– Sim, te explicarei tudo em casa. Apenas compre o que pedi. Chegarei em
vinte minutos.
Elisa concordou e desligou a ligação. Em seguida, Feron apertou mais alguns
botões no painel do carro, e outra chamada se iniciou. Em segundos, uma voz
masculina atendeu.
– Felipe, meu garoto.
Feron não fez rodeios.
– Doutor Marcos, preciso de você com urgência. Por favor, você poderia ir
até a minha casa nesse momento?
Do outro lado da linha, o homem concordou de imediato. Seria um médico?
A família Feron tinha um profissional particular?
Virei-me para o garoto, ousando dirigir-lhe a palavra diretamente, pela
primeira vez.
– Não precisa chamar um médico para mim. O efeito do spray irá passar
sozinho.
Agora que eu me sentia melhor, Feron voltou à sua frieza de sempre. Não
olhava para mim, mantendo a voz gelada.
– Mas as pancadas nas suas costelas, não.
Não queria ser um fardo para ele. Suspirei mentalmente – eu estava sempre
causando problemas na vida do garoto.
– Apenas me deixe em um hospital.
Ele sorriu com amargura.
– Sem chance. E não repita isso para mim outra vez.
A partir de então, não falei mais nada; a tensão tomava conta do ar. Ele
continuava claramente ressentido comigo, ignorando-me – mas, mesmo assim,
cuidava de mim.
Vinte minutos depois, chegamos ao seu prédio; entramos pela garagem e
subimos pelo elevador. Como eu não enxergava quase nada, ele me guiou,
colocando uma mão sobre a base da minha coluna. Um toque constrangido.
Rapidamente chegamos à sua cobertura, e Elisa já nos esperava na porta de
entrada.
–Ai, meu Deus – ela se exasperou quando viu meu estado. Eu era pálida como
uma folha de papel (mas, agora, provavelmente me encontrava com a cara toda
vermelha, e os olhos inchados).
Feron tomou à frente da situação.
– Elisa, ela precisa tomar um banho e tirar essa roupa contaminada. Leve-a
para o meu banheiro e ajude-a, por favor.
– É pra já! – Elisa pegou a minha mão, guiando-me. – Venha comigo, vou te
ajudar.
Pelo pouco que eu conseguia enxergar, a irmã do Feron me levou até o quarto
dele. Adentramos em um enorme banheiro de mármore escuro.
Elisa me ajudou a tirar as roupas e me colocou debaixo do chuveiro. Após o
banho, ajudou-me a me enxugar e me entregou uma camisa larga. Pelo cheiro
penetrante, pude deduzir que a peça pertencia ao Feron. Também me entregou
uma calça de moletom – ambas de tons escuros.
Quando eu já estava vestida, sentei-me na beirada da cama do Feron. Elisa
ligou para ele, avisando que já poderia vir ao nosso encontro. Quase tentei
impedi-la – mas não percebi que não fazia sentido. Eu já estava na casa dele, no
quarto dele... Não havia como fugir.
Elisa secava o meu cabelo com uma toalha, quando murmurou. “Então quer
dizer que não estão namorando, não é...?”, riu baixinho. Tinha o tom amigável,
como uma colega implicando com outra.
Senti o ímpeto de me defender.
– Não é o que você está pensando!
Mas por que eu estava aqui, dentre todos os lugares? Não havia mesmo
explicação. Feron e eu não éramos íntimos, nem amigos, nem família.
Elisa continuou.
– Bom, na minha opinião, vocês já estão namorando – mas não sabem disso.
– O quê?! – que conclusão mais absurda!
Ela deu de ombros.
– O vínculo já aconteceu, só vocês ainda não perceberam. Amor não pede
permissão, cunhadinha.
Eu quase engasguei diante do cunhadinha – mas Feron apareceu na porta do
quarto naquele exato momento.
Por isso, calei-me, constrangida.
Enquanto isso, ele entrou no quarto, parecendo igualmente deslocado (e com
raiva, e ressentido).
– Preparei a mistura do Maalox, ele vai tirar e queimação dos seus olhos e
garganta. Incline a cabeça para trás.
Aquiesci. Feron foi pingando o remédio em meus olhos e boca; eu piscava e
gargarejava, enquanto a queimação ia se esvaindo.
Após o procedimento, ele se virou para Elisa.
– Pode deixar comigo a partir de agora. Obrigado pela ajuda, Lis.
Elisa bateu uma continência descolada com dois dedos.
– Estou aqui para isso – em seguida, piscou para mim. – Te vejo mais tarde –
e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si.
Quando ficamos sozinhos, Feron desviou os olhos, deslocado.
– Agora temos que limpar a sua pele. Ela deve estar ardendo também.
– Sim – murmurei, embaraçada. – Obrigada.
Ele não respondeu. Levantou-se da cama, indo até uma escrivaninha ao lado,
onde estavam depositados o óleo e o álcool que Elisa comprara. Molhou um
pedaço de algodão nos compostos.
E então o garoto ficou de pé diante de mim, limpando meu rosto com um
algodão.
A mistura era gelada, fazendo um contraponto com o rastro quente dos seus
dedos – quando os mesmos me tocavam por acidente.
Enquanto ele limpava, eu mantinha os olhos baixados para o chão. Encarar
aqueles traços selvagens era constrangedor demais.
Apesar de sua raiva, cada um dos seus toques continha imenso cuidado (como
se eu fosse frágil e preciosa). Um carinho que não deveria estar ali. Aquele
sentimento era um constrangimento para nós dois.
Infelizmente, Elisa tinha razão... O amor não pede licença.
Clareei a garganta, tentando cortar o silêncio pesado.
– Por que você entende tanto sobre remédios para spray de pimenta?
Ele não me olhava nos olhos; ostentava a expressão pétrea, e a voz fria.
– Meu passado é negro. Vivi situações das quais não me orgulho.
– Hum... – estava difícil ultrapassar a muralha que Feron construíra em seu
coração para me bloquear. Embora fosse irresponsável, algo em mim queria
desfazer aquele muro emocional (ferozmente). – E como você apareceu tão
rápido para me ajudar, hoje mais cedo?
– Eu estava conversando com Vívian e Antonela no gramado. Deu para ver
tudo.
– Pensei que estivesse nos ignorando.
– Cortei relações com o Thales, não com elas ou com o Téo. São meus
amigos de anos.
Aquilo me feriu. Por causa de mim, Feron perdeu a amizade do amigo que
mais estimava (o melhor amigo).
Eu era mesmo um furacão causador de problemas... Iria embora em cerca de
um mês – mas deixaria muitas feridas para trás.
Tanto nos outros, quanto em mim mesma.
O garoto ainda limpava meu rosto com o algodão, e a mistura estava gerando
um alívio na ardência; eu quase não sentia mais nada. Por um momento, ficamos
em silêncio – mas, em seguida, reuni coragem para falar.
Foi apenas um sussurro.
– Desculpe por tudo que eu fiz você passar.
Desculpe por todo esse sofrimento e confusão. Nunca quis te fazer mal – eu
só não tive outra escolha. Em outra vida, em outras circunstâncias, eu jamais te
afastaria.
Por um segundo, Feron petrificou, e foi a primeira vez que olhou em meus
olhos. Ali, eu vi orgulho e ressentimento (além de uma enigmática tristeza). Seu
tom era cortante.
– Não quero mais saber desse assunto. Você já deu a sua resposta, e eu
entendi. Está acabado.
A dureza da resposta me atingiu bem na jugular. Recuei, ferida.
– Ok – murmurei. E então a certeza me atingiu: eu havia perdido esse
homem.
Contudo... Em algum momento Feron havia sido meu? De verdade?
Não, pois o coração dele pertencia à Mia. Essa garota linda, rica e
glamourosa não era eu. Havia um abismo imenso entre a verdadeira Ana Lívia e
Felipe Feron. Ele era um príncipe moderno – e, Mia, uma princesa; fazia sentido
que ficassem juntos.
– Sobre aquele vídeo... – comecei.
– Não precisa se justificar. Sua vida íntima só diz respeito a você, ninguém
deve se meter. O único culpado foi quem vazou o vídeo sem a sua permissão.
Suspirei, aliviada.
– Obrigada por não me julgar.
– O mundo não precisa de mais um machista babaca. Já tem às pencas.
O momento foi interrompido por três batidas na porta. Logo em seguida, um
homem negro, de cabelos grisalhos, entrou no quarto.
– Olá, estou aqui – acenou gentilmente.
Feron largou os remédios e se virou para dar-lhe um aperto de mãos.
– Doutor Marcos, obrigado por vir tão rápido. A minha... – parou por um
momento, me fitando de soslaio sombriamente. – A minha amiga precisa da sua
ajuda. Ela levou diversos chutes nas costelas. Você poderia analisar?
– É claro, deite-se, senhorita – o médico pediu.
E assim eu fiz.
Deitei-me na cama, enquanto o médico retirava um estetoscópio e outros
instrumentos da sua maleta. Ouviu meu coração e mediu minha pressão.
Analisou minha garganta e tocou em regiões do meu abdômen, perguntando
onde doía e não doía.
Após a consulta, concluiu.
– Bom, à princípio não posso dizer se houve ou não alguma fratura. Como ela
não está sentindo muita dor, acredito que seja apenas superficial. Mas faço
questão que ela vá até um hospital e faça um exame; só para termos certeza de
que não houveram danos mais sérios.
– Claro, ela irá – Feron confirmou.
– Ótimo. Quanto ao spray de pimenta... Bem, ele causa sintomas realmente
horríveis, mas passam. Inflama a mucosa do nariz e da garganta, por isso arde
tanto. Mas você agiu certo com os primeiros socorros, Felipe, e dentro de uma
hora ela não estará sentindo mais nada.
– Que bom, obrigado.
E então o médico se despediu. Após ele sair, eu me levantei da cama e peguei
minha bolsa.
Feron ergueu uma sobrancelha.
– Aonde vai?
– Para casa. Não dá para abusar mais da sua boa vontade. Desculpe o
transtorno... Vou indo agora.
Ele franziu o cenho, contrariado.
– Eu posso te levar até a sua casa.
Eu só queria sair daquela situação o mais rápido possível.
– Não precisa, pegarei um táxi. Devolvo suas roupas assim que possível.
Ah... E agradeça à Elisa por mim, por favor.
E então saí do quarto quase correndo, deixando um Feron atordoado para trás.
Felizmente, perto da portaria do seu prédio havia um ponto de táxi; entrei no
primeiro que avistei.
Na viagem até a minha casa, não pude resistir. Ergui a gola da blusa e senti o
cheiro dele, impregnado no tecido... O aroma de oceano e pimenta era
inebriante, e quase fechei os olhos para aproveitar o momento.
Um cheiro indescritível, de um homem único no mundo.
Infelizmente, o grilhão que me acorrentava às vontades da Mia, nunca me
permitiria viver aquela história. Eu estava algemada à minha própria mentira.
Naquele momento, meu celular apitou. Peguei-o na bolsa. Além de várias
mensagens das minhas amigas, havia uma recém recebida – de nada menos que
o próprio Feron.
A mensagem era concisa: você precisa ir a um hospital. Se não quiser que
seus pais saibam, eu posso te levar.
Eu precisava parar de tornar o garoto a minha babá; tinha que cair na
realidade.
Respondi: não precisa, Vívian ou Antonela irão comigo. Obrigada por tudo
o que você fez por mim hoje.
Mais uma vez, eu o afastava. E ele não respondeu mais.







ADENDO DE CAPÍTULO
SOB A VISÃO DE ANTONELA

Naquela noite, Antonela ainda não havia ido embora da São Valentim.
Acontece que Antonela adorava nadar – era uma nadadora profissional. Já
havia ganhado várias medalhas em torneios interescolares. Tudo isso aconteceu
no ensino médio, enquanto representava a São Valentim.
A faculdade possuía uma imensa estrutura para esportes, o que incluía:
quadras de tênis, futebol, vôlei, além de uma enorme piscina olímpica. Afinal, a
mensalidade do lugar custava uma pequena fortuna.
A piscina situava-se dentro de um enorme galpão, coberto e aquecido; na sala
ao lado, ficava a academia.
Antonela tinha uma piscina em casa, mas não tão imensa quanto a da São
Valentim. Essa era uma piscina para competidores profissionais; por isso,
Antonela preferia nadar aqui, três vezes na semana.
Enquanto nadava, Antonela pensava nos acontecimentos do dia. Valentina
Brandão atacando Mia... Deus, aquilo foi uma loucura.
No entanto, Antonela entendia que o episódio era algo inevitável. Mia sabia
que Yuri tinha namorada – e ela estava brincando com fogo há tempos demais.
Valentina já carregava a fama de ser explosiva.
Acontece que esse fato tornava tudo mais interessante para Mia, pois ela
adorava o perigo. O caso já vinha acontecendo há meses.
Yuri Beltrão não passava de um cafajeste assumido (o que Mia adorava). É
claro que Yuri não era exclusivo para ela... Mia colecionava muitos contatos por
aí. Enquanto isso, Thales fingia não saber de suas escapadas.
Mas, tudo bem. Antonela sabia que Thales também guardava uma vida
paralela. O relacionamento dos dois consistia em pura fachada, e tudo era
questão de status.
Por vezes, a vida na São Valentim poderia ser muito fútil. Antonela não era
uma pessoa rasa, mas acabou ficando assim quando entrou nesse lugar.
A época do ensino médio foram tempos difíceis. Feron comandava o lugar
com punho de ferro, uma verdadeira ditadura. Thales e Téo o acompanhavam,
seguindo seus comandos – e formavam a Trindade. Um trio que impunha ordem
e respeito, mas nem sempre por meios gentis.
Quando queria, Feron podia ser cruel; a própria Antonela presenciou vários
episódios complicados do seu comando.
Todavia, o garoto havia mudado, mas poucas pessoas sabiam a verdade sobre
isso. Apenas o círculo de amigos mais íntimos de Feron conheciam a situação
real.
No segundo ano do ensino médio, a mãe de Feron, Clarisse, descobriu uma
doença complicada – em vias de ser fatal. A situação era tão séria que não havia
tratamento no Brasil. Então a família Feron decidiu se mudar para os Estados
Unidos (único lugar onde a mãe do garoto teria acesso ao tratamento).
Após quase três anos de luta, a mãe do Feron finalmente se curou. Mas a
doença dela havia deixado uma marca profunda em toda família – enquanto os
filhos e o marido pensavam que Clarisse poderia, de fato, morrer.
Antonela conhecia bem a família Feron, e Clarisse era o esteio da família. A
matriarca exercia um papel fundamental para manter a complicada família unida.
Sem ela, os Feron desmoronariam.
O médico de Clarisse orientou a família: a partir daquele momento, nada
deveria desencadear estresse na paciente. Acontece que as confusões de Feron
eram uma fonte constante de desgosto para a mãe.
Então, por amor à Clarisse (e temendo perdê-la), Feron mudou.
O garoto viu a morte se aproximar assustadoramente de sua mãe. Então, a
vida o ensinou uma lição de humildade da forma bem cruel. Naqueles anos
difíceis, Feron se tornou mais humano e mais sensato – uma mudança de dentro
para fora. O garoto percebeu que nem mesmo o grande Felipe Feron estava
imune às decisões da vida.
Às vezes, o sofrimento podia vir a ser um grande mestre.
As pessoas pensavam que Feron se mudara para a Califórnia para apagar as
confusões que aprontara por aqui. Mas não era bem assim. Quando Feron voltou,
bastou alguns dias para Antonela perceber: o garoto realmente havia mudado;
ela podia notar a transformação em seus olhos.
Ele não era mais cruel e desumano. Ainda um líder nato, ainda perigoso?
Sim. Mas Feron aprendeu uma ou duas lições sobre a justiça natural da vida, e
ele não faria mais o mal sem razão.
Três anos de sofrimento o fizeram amadurecer profundamente.
Antonela pensou com carinho: bom, talvez agora o seu amigo estivesse pronto
para conhecer o amor. E ele de fato conheceu.
Foi uma grande surpresa para todos Feron se apaixonar por Mia. Anos atrás,
ele já havia rejeitado mulheres muito mais lindas. Além do mais, Feron podia ter
milhões de defeitos – mas era fiel aos amigos. Principalmente ao Thales.
Antonela e Vívian resolveram não contar à Mia sobre a mãe do Feron. As
duas eram amigas de Feron há muitos anos, e não queriam ser desleais. Aquele
segredo não pertencia a elas; quando chegasse o momento, o próprio garoto
contaria a verdade.
Agora que estava pensando em Mia, Antonela refletia sobre a amiga. Depois
do acidente, Mia mudou muito.
Tornara-se menos cruel, menos fútil e menos rude. Antonela não entendia qual
foi o gatilho para tal mudança – mas se sentia muito aliviada. Era um estresse
constante ser amiga de Mia Santorini; antigamente, ela era um furacão causador
de problemas.
Quando Mia chegou à São Valentim, imediatamente se aproximou de Vívian e
Antonela. Com seu jeito carismático e dominador, rapidamente as aliciou.
Sim, aliciou.
No começo, Antonela não havia percebido a manipulação da garota, bem
como seu caráter distorcido. Mia não queria amigas – queria seguidoras. Quando
Vívian e Antonela perceberam essa verdade, já era tarde demais.
Mia já tinha se infiltrado em seu grupo de amigos. Ela fazia joguinhos
psicológicos e manipulava as amigas, de modo a mantê-las por perto.
Secretamente, Antonela se sentia sufocada na presença dela (e sabia que Vívian
compartilhava do sentimento).
A manipulação psicológica era difícil de explicar. Antonela não sabia muito
bem porque ela e Vívian obedeciam à Mia. A dominação era sutil – mas eficaz;
Mia ditava o caminho, e as amigas só tinham que a seguir. Enquanto isso,
Antonela ia deixando pedaços de si mesma para trás. Seus sonhos secretos, seus
anseios reais...
Mas, então, tudo mudou.
Nesses últimos tempos, Mia mostrou seu outro lado. Mais gentil, mais
verdadeiro. Quando Antonela falava, Mia realmente ouvia – como uma
verdadeira amiga. Parou com as manipulações, parou com as maldades.
Com o passar do tempo, Mia foi derrubando as barreiras no coração de
Antonela... E a garota realmente passou a amá-la como a uma irmã.
Antonela sabia que Vívian também pensava o mesmo. Agora, as três não era
mais simples aliadas – eram amigas de verdade. Antonela sorriu, sentindo uma
onda de carinho pelas duas.
Enquanto dava mais uma volta na piscina, Antonela chegou à conclusão que
Mia precisava ser feliz. Ela tinha que se permitir conhecer o amor! A amiga
sempre negava corresponder aos sentimentos de Feron – mas Antonela sabia que
era mentira.
Antonela era muito perspicaz. Sensível, conseguia ler os sentimentos das
pessoas ao redor – pela linguagem corporal, pelos olhares...
Antonela percebeu que, por algum motivo, Mia estava mentindo. Ela amava o
Feron sim (e aquela situação já estava ficando ridícula).
Thales nunca amou Mia, e só estava com o orgulho ferido. Então, por que
Feron e Mia não paravam de perder tempo, e se permitiam viver aquele amor? O
sentimento estava escancarado – e só eles não percebiam!
Então, Antonela tomou uma decisão.
Às vezes, é necessário tomar uma atitude em nome de quem amamos, mesmo
que eles não queiram.
– Isso é para o seu bem, Mia – Antonela murmurou, saindo da piscina.
Enxugou-se em uma toalha e pegou sua bolsa no vestiário; tirou seu celular lá de
dentro e ligou para o Feron.
Mia irá me matar, Antonela pensou; mas ela respirou fundo e não perdeu a
coragem.
No terceiro toque, o garoto atendeu.
– Alô?
Antonela não fez rodeios.
– Feron, preciso falar com você sobre a Mia. Eu tenho um plano, mas preciso
da sua ajuda.
Por um momento, ele ficou em silêncio do outro lado da linha. Mas então
respondeu:
– Estou ouvindo.












CAPÍTULO 7

Quando cheguei em casa, já eram sete da noite.
Stela e Tomás haviam chegado do trabalho, e sentavam-se no imenso sofá da
sala de estar, conversando. Pelas expressões preocupadas, pude notar que era
uma conversa séria.
Assim que pisei na sala e notei suas expressões, percebi: eles já sabiam sobre
o vídeo. Engoli em seco, sem saber como reagiriam. Ficariam com raiva? Me
condenariam?
Mas não foi nada disso o que aconteceu; Tomás se levantou do sofá e apenas
me abraçou.
– Eu sinto muito, filha.
Logo em seguida, Stela se juntou ao abraço triplo.
– Nós vamos punir esse desgraçado.
– Vocês não estão com raiva de mim?
Tomás suspirou, afastando-se; colocou as duas mãos sobre meus ombros.
– Você é jovem e livre, sabemos que tem sua vida particular. Eu só peço para
que, de hoje em diante, você não confie em qualquer um. Pessoas ruins existem
em qualquer lugar – inclusive entre quem consideramos nosso amigos,
entendeu? Em todo caso, você não tem culpa de nada, não tinha como prever que
o garoto seria tão imoral. É a vítima aqui.
A reação dos dois me emocionou, pois ao invés de me culparem, me encheram
de amor.
Mia não sabia a sorte que tinha na vida... Uma pena que ela não soubesse
valorizar.
Tive que contar aos pais da Mia sobre o acontecido. Eu disse que não queria
processar a Valentina por agressão – pelo menos por enquanto. Em meu íntimo,
sabia que quando Mia voltasse, ela tomaria providências (daquele jeitinho
carinhoso, bem inerente à sua personalidade).
Provavelmente Valentina terminaria com a cara arrastada no asfalto.
Stela e Tomás prometeram entrar com um processo contra Yuri, e eu suspirei.
Aquilo ainda geraria muita confusão.
Após a conversa, subi para o meu quarto. Tomei um banho demorado e em
seguida peguei o celular. Com certeza Mia já estaria sabendo do acontecido (e eu
aguardava sua ligação furiosa).
No entanto, só havia uma mensagem de um número desconhecido. O texto
dizia: gostou do meu presentinho para você, cretina?
Cliquei na foto do perfil para saber de quem se tratava, e meu queixo caiu:
Pilar!
Ela havia exposto o vídeo? Mas, como? Ela e Yuri eram amigos? Não seria
surpresa... Nesse meio elitista, todos se conheciam.
Respondi a mensagem.
Você não é muito esperta. Acabou de me conceder uma prova contra você em
um processo.
Minutos depois, recebi sua resposta.
Há, há. Processo? Acho que você esqueceu de todos os podres que sei sobre
você. Se me processar, vai acabar se afundando mais.
Pilar não estava com medo de um processo. Ela disse que se vingaria do
Feron, mas não podia atingi-lo por nenhum meio. O garoto não tinha pontos
fracos (a não ser... Eu). Pilar então resolveu feri-lo pela única via que encontrou
– atingindo a mim.
Resolvi não a responder, pois aquela briga não era minha; Mia que resolvesse
suas próprias pendências.
Mandei uma mensagem para a minha gêmea: você já deve estar sabendo de
tudo. Quem vazou o vídeo foi a Pilar.
A resposta dela não demorou: já estou sabendo. Não faça nada, acertarei
minhas contas com a cretina quando eu voltar. Pilar só fez isso porque você se
envolveu com o Feron; ela sempre foi obcecada por ele.
Apesar de não ter especial afeição por minha gêmea, senti a necessidade de
me desculpar. Desculpe por toda a confusão que eu causei na sua vida.
Ela respondeu. Agora, tanto faz. Você já estragou meu relacionamento com
Thales, mesmo... Esse vídeo só vai me dar mais ibope. Não me importo com a
exposição, eu já fiz coisa pior. Pilar só me rendeu mais mídia.
Meu Deus, Mia Santorini realmente era uma garota estranha.
Toda aquela situação feriria profundamente uma mulher normal – mas não
minha gêmea. Ela não tinha o menor senso de autopreservação e privacidade.
Não... Ela só queria fama.
Por um momento, fiquei com pena da minha irmã: por ser uma pessoa tão
rasa. Mas então me lembrei de que ela era capaz de cometer atos muito piores
(como fazer as amigas de escravas, trair o namorado sem culpa...), e então a
piedade passou.
Quando Vívian me ligou mais tarde, contei a ela sobre a mensagem da Pilar.
Ao final da conversa, minha amiga perguntou.
– Você vai contar isso ao Feron?
– Não... Não somos íntimos para isso. – Nem amigos, nem namorados, nem
nada.
Minha amiga suspirou.
– Ai, Mia... Ele ficará sabendo de qualquer forma. Acha mesmo que o Feron
deixará o culpado sair impune? Claro que não! Você não o conhece como eu...
Sua fama de ditador não nasceu à toa.
– Mas ele está mudado agora.
– Está, sim, isso é um fato. Mas isso não significa que não protegerá aqueles
que ama.
Quase engasguei diante do: protegerá aqueles que ama. Minha voz saiu
estrangulada.
– Não acho que eu me encaixe nesse grupo. – Assim que falei as palavras,
meu coração gritou: mentirosa.
Vívian riu carinhosamente.
– Ok... Se você quer continuar se enganando, quem sou eu para te parar?
Eu não era idiota. Sabia muito bem que, por algum motivo absurdo, Feron
desenvolvera sentimentos por mim. Todavia, admitir isso perante minhas amigas
seria pior – pois colocaria mais lenha na fogueira. Pelo bem das ordens de Mia,
eu precisava fazer o assunto morrer (mesmo que aquilo quebrasse o meu
coração).
Após desligarmos, Antonela me mandou uma mensagem perguntando se
estava tudo bem. Ela disse que já havia conversado ao telefone com o Feron,
mais cedo. Ele garantiu que eu já estava melhor, embora fizesse questão que eu
fosse à um hospital.
No outro dia, Stela e Tomás me levaram ao hospital mais próximo para fazer
exames. Nada havia sido fraturado – ainda bem. Mesmo assim, resolvi tirar
alguns dias de folga da faculdade.
Nesse interstício de tempo, eu acompanhava as notícias da São Valentim
através da sua rede social de fofocas. Durante aquela semana, notícias
bombásticas tomaram conta da rede.
Meu queixo caía à cada postagem.
Empresa da família de Valentina Brandão vai à falência, devido à descoberta
de várias irregularidades. Família terá que vender todos os seus bens.
Pai de Yuri Beltrão, ministro do governo, é acusado de lavagem de dinheiro e
corrupção passiva. Família Beltrão, humilhada, deixa São Paulo e se refugia no
interior.
Pilar Monferrari resolve sair da São Valentim por motivo misterioso.
Em todas as notícias, eu conseguia enxergar a influência de Feron. Como ele
fez tudo aquilo?
O garoto não brincava na hora de se vingar.
Na quinta-feira daquela semana, eu resolvi ir à aula. Ainda recebia encaradas
e murmúrios por onde quer que passasse (mas, aos poucos, a situação ia se
acalmando).
Na hora do intervalo, Téo se juntou a mim e minhas amigas no gramado –
uma vez que Thales não tinha aparecido na aula. Feron não estava em lugar
nenhum.
Ao final da tarde, as aulas terminaram. Vívian tinha um compromisso com a
mãe e foi embora; contudo, Antonela ainda ficaria mais um tempo na São
Valentim. Em alguns dias da semana, ela treinava na piscina olímpica da
faculdade. Era uma nadadora talentosa.
Nós descíamos as escadarias do prédio de Gestão quando Antonela me
convidou para acompanhá-la.
Ponderei:
– Mas eu nem trouxe biquíni. Além disso, não quero atrapalhar o seu treino.
Ela deu de ombros.
– Não tem problema, você pode usar meu maiô extra. Hoje eu não estou a fim
de nadar, só quero relaxar. A piscina é aquecida e a água é calmante. Nós duas
merecemos um descanso, não acha?
Bom... Naquele tempo frio, uma água quente poderia mesmo ser relaxante.
Eu não tinha mais nada para fazer em casa, e adoraria passar mais um tempo
com Antonela. Eu me sentia confortável em sua companhia acolhedora. No
passado, não tive muitas amigas – e ter alguém com quem conversar de verdade
era uma experiência totalmente nova para mim.
Não faria mal aproveitar essa faceta maravilhosa da vida de Mia, não é? Em
breve, tudo aquilo seria tirado de mim. A família, os amigos...
Então, decidi aproveitar aqueles momentos enquanto podia, e os cravaria em
meu coração.
Antonela comprou algumas cervejas caras na lanchonete da faculdade e nós
fomos para o galpão onde ficava a piscina olímpica. Ela vestiu um maiô cinza, e
me emprestou seu maiô preto. Não nos damos ao trabalho de colocar toucas ou
óculos de natação.
Entramos na piscina, e a água realmente se encontrava deliciosa. Mergulhei na
água quente – e, lá embaixo, havia um silêncio pacífico. Nadei e nadei,
permitindo-me sentir prazer só por um momento. Todo o caos da vida da Mia
poderia esperar.
Satisfeita e relaxada, voltei à superfície. Fui até a beirada da piscina,
encontrando Antonela. Ela apoiava os dois braços na beirada, os pés dançando
na água atrás de si. Bebia sua cerveja importada, parecendo tranquila.
Eu também apoiei os braços na beirada, colocando-me ao seu lado.
Suspirei, feliz.
Antonela soltou um sorriso.
– Relaxante, não é? Eu disse.
– Sim, estou me sentindo bem melhor. – Meu coração batia tranquilo.
– Por isso venho sempre aqui. Às vezes a São Valentim pode ser muito
estressante. É bom reservar para si mesmo esses momentos de paz.
Concordei com um aceno, apoiando a cabeça nos braços e fechando os olhos.
Ao nosso redor, a água era quentinha.
De repente, Antonela disse.
– Seu coração está em paz, Mia?
Abri os olhos, encarando minha amiga. Que pergunta peculiar.
– Como assim?
Antonela suspirou.
– Eu sinto que você está tentando esconder alguma coisa de mim. Você apenas
finge estar bem; só que, dentro dos seus olhos, eu vejo uma turbulência. Não
precisa passar por isso sozinha, sabe? Eu estou aqui por você... É para isso que
servem os amigos.
Engoli em seco, sentindo a garganta ficar apertada e os olhos marejados.
Sim, Antonela tinha razão: havia um sofrimento secreto em meu peito; o luto
por um amor que eu jamais poderia viver. E toda vez que eu fechava os olhos,
imagens de tristes íris diamantinas vinham à minha mente.
Até quando você irá fugir de mim?
Antonela notou minha expressão arrasada e olhos marejados. Colocou uma
mão sobre meu ombro, e sua voz era gentil.
– Não precisa mais carregar esse fardo sozinha. Pode me contar a verdade.
Você... Ama o Feron, não ama?
Desviei os olhos, lutando contra a turbulência em meu peito. Por fim, apenas
suspirei, me rendendo; Antonela já sabia a verdade – e negar seria em vão. Eu
precisava colocar aquilo para fora.
– Sim, eu o amo demais.
Antonela soltou um meio sorriso tristonho.
– Então por que você não aceita o amor dele?
Eu neguei com a cabeça, lutando contra as malditas lágrimas que ameaçavam
aparecer.
Porque essa vida não me pertence, e eu não posso tomar decisões. Porque ele
não está apaixonado por mim, e sim por Mia.
O grilhão que me acorrentava me fez murmurar.
– É complicado.
Antonela negou com a cabeça.
– Eu não sei o que está te impedindo, mas o amor pode dar uma solução para
tudo.
Suspirei. Não para isso.
Antonela me olhou nos olhos com seriedade.
– Só me responda uma coisa: no fundo, você quer ser a mulher dele?
Minha amiga era perspicaz demais, e já tinha me desvendado. Destruída,
confirmei com a cabeça – e respondi com todo o coração.
– É o que eu mais quero na vida.
De repente, uma voz apimentada e poderosa ressoou bem perto de nós. Feron
disparou.
– Isso é tudo o que eu precisava saber.
Arfei, olhando para cima. O garoto se encontrava recostado em uma parede
próxima, braços cruzados e um sorrisinho de vitória nos lábios.
Arregalei os olhos, estarrecida.
– Mas o quê...
Antonela ergueu as mãos, também sorrindo.
– Sinto muito. Precisei fazer isso para o seu bem.
Meu queixo se escancarou; envergonhada e perplexa, eu gritei.
– Vocês armaram tudo isso?!
Eu acabei de me declarar para Feron, na frente dele?! Meu Deus, queria
morrer! Derreter no chão e sumir!
O garoto ainda ostentava o sorrisinho enigmático no canto da boca.
– Te vejo mais tarde, Santorini. Então acertaremos nossas pendências. –
Feron piscou para mim, desencostando-se da parede e indo embora. Mãos nos
bolsos, completamente sem culpa.
Fiquei alguns segundos encarando o lugar onde havia estado, chocada. Meu
coração estava disparado – isso realmente aconteceu?
Em seguida, olhei para Antonela ao meu lado. Ela mordia os lábios, culpada
– porém feliz.
Soltei um grito:
– Eu vou te matar!
Ela jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Depois, mergulhou na água, nadando para longe e fugindo de mim. Mas não
sem antes gritar:
– Não se você não puder me pegar!



Já eram sete horas da noite quando cheguei em casa. Stela e Tomás jantavam
por volta das oito da noite, e deviam estar chegando do trabalho a qualquer
momento. Logo, corri para o meu quarto e tomei banho.
Debaixo do chuveiro, analisava as mais variadas formas de matar Antonela.
Eu ainda me encontrava consternada diante do acontecido. Feron agora sabia
sobre os meus sentimentos – fato que me deixava muito embaraçada. Eu não
tinha experiência nesse campo, e nunca havia me declarado para ninguém (era
malditamente constrangedor).
Enquanto eu tentava afogar Antonela na piscina mais cedo, ela me confessou
seus motivos (entre um golpe e outro).
Minha amiga sabia que eu estava escondendo meus sentimentos, bem como
mentindo para todos. Ela também entendeu que Feron somente se afastou por
acreditar não ser correspondido.
Uma vez que Feron soubesse a verdade, ele encontraria uma forma de resolver
o impasse. O garoto não era do tipo que desistia fácil – e Antonela sabia disso.
Após eu tentar afogá-la algumas vezes, finalmente me cansei de nadar atrás da
traidora na piscina. Afinal, Antonela era bem mais rápida que eu.
Recostei-me na beirada da piscina, escondendo o rosto com as mãos. O
desastre já havia acontecido mesmo... Logo, era melhor aceitar e sofrer em
silêncio.
– Então é isso... Ele ouviu tudo – suspirei. – Que vexame.
Antonela se aproximou, colocando uma mão sobre meus ombros.
– Sejam quais forem os seus motivos para rejeitá-lo, Feron dará uma solução.
Você precisa ter um pouco mais de fé nele, sabe? Ele é um cara inteligente.
Juntos, vocês podem enfrentar qualquer coisa... Tenho certeza disso. Caso
contrário, jamais te colocaria nessa situação – porque eu amo você e fiz isso para
o seu bem. Então relaxe... Apenas se permita seguir o seu coração, ok? Ainda
que uma única vez.
Neguei com a cabeça, meio perplexa, meio desesperada.
Mais cedo, Feron saiu dizendo: te vejo mais tarde, Santorini. Então
acertaremos nossas pendências.
Mas quais pendências seriam essas, especificamente? E como Feron
pretendia resolvê-las?
Eu precisava de uma lista detalhada (de preferência com uma explicação
fundamentada por meio de slides), de modo a me preparar psicologicamente.
Deus, pensar naquilo estava me enlouquecendo. Eu não tinha ideia do que se
passava na mente misteriosa do garoto. Confessei para Antonela.
– Estou sem reação... Não sei o que irá acontecer agora.
Ela deu de ombros.
– E nem eu. Mas se não der certo, eu assumirei a responsabilidade. Prometo
que deixarei você me afogar nessa piscina.
Grunhi para ela.
– Você só permanece viva por causa da minha misericórdia.
Ela gargalhou, erguendo as mãos em sinal de paz.
– Ok, Vossa Excelência.
Embora eu quisesse estrangulá-la, entendia suas motivações. Minha amiga
apenas ansiava pelo meu bem. No entanto, Antonela pode ter desencadeado um
furacão, pois não sabia o que Feron faria em seguida.
Suspirei – bom... Isso só o tempo iria dizer.
Saí do banho quente morrendo de fome. Enrolei uma toalha do cabelo
molhado e vesti o pijama mais confortável de Mia (sem um pingo de sex appeal,
graças a Deus).
Dentre as várias camisolas de renda, havia um verdadeiro tesouro escondido
no closet da minha gêmea: um pijama de calças e mangas compridas de seda
(tudo muito cor de rosa, largo e confortável). Estampas de pequenos porquinhos
ornamentavam todo o tecido – maravilhoso!
Saí do quarto e desci as escadarias para o primeiro andar. O cheiro delicioso
do jantar já invadia o ambiente.
– Pai, mãe – gritei – estou em casa!
Tomás e Stela se encontravam na cozinha, preparando juntos o jantar. Ela
picava tomates, enquanto ele cuidava do macarrão cozinhando no fogão. À noite,
eles dispensavam os ajudantes da casa.
Tomás virou-se para mim, sorrindo.
– O jantar está quase pronto, filha.
Stela piscou para mim.
– Uau, adorei o modelito. Eu me lembro desse pijama de porquinho, foi sua
avó quem te deu. Só não entendi porque está o usando agora... Na época, você
detestou.
Revirei os olhos, sentando-me na mesa de jantar.
– Eu devia estar louca – descasquei uma banana e dei uma mordida; continuei
falando com a boca cheia. – Isso é uma obra de arte. Me faltava maturidade na
época para perceber.
Os dois riram, mas foram interrompidos pelo som da campainha.
Tomás franziu o cenho.
– Quem deve ser há uma hora dessas? – e foi até a porta principal da casa
atender. De onde eu estava sentada, dava para enxergar perfeitamente a cena.
Tomás abriu a porta e deu de cara com nosso visitante.
Arregalei os olhos quando o vi.
Ah, meu Deus.
Braços musculosos cruzados, jaqueta de couro e um sorrisinho lateral
malicioso. A banana quase caiu da minha boca. Feron.
Não pode ser.
– Olá, boa noite – Feron cumprimentou Tomás. – Você é o pai da Mia, certo?
Tomás inclinou a cabeça, sem reconhecer o garoto.
– Sou, sim... Desculpe, nós nos conhecemos?
Nada abalado, Feron estendeu uma mão para Tomás.
– Eu sou Felipe Feron, já faz um tempo que eu queria conhecê-lo. Muito
prazer.
Mas o que diabos estava acontecendo aqui?!
Tomás apertou sua mão, surpreendendo-se com o cumprimento firme e
seguro do garoto. O pai da Mia não entendia muito bem a situação, mas
manteve-se cordial.
– O prazer é meu. Você é amigo da nossa filha?
Feron colocou a mão nos bolsos.
– Não. Na verdade, sou um quase-namorado. Ainda não decidimos nada em
definitivo, mas namorar com a sua filha é a minha principal intenção. Achei que
já estava na hora de me apresentar oficialmente para a família.
O quê?!
Comecei a engasgar, levantando-me esbaforida.
Tomás olhava de mim para Feron, confuso.
– Ora, isso é novidade. O namorado não era outro?
Meu Deus.... Só podia ser brincadeira.
Stela caiu na gargalhada.
– Ah, meu deus... Eu sabia.
Saí correndo em direção à porta, colocando-me ao lado de Tomás. Eu devia
estar com a cara toda avermelhada em constrangimento. Sibilei entredentes para
Feron.
– O que você está fazendo aqui? Ficou maluco?
O garoto deu de ombros.
– Não acha que está na hora de seus pais saberem que nós dois estamos
apaixonados? Afinal, eu posso vir a entrar para a família no futuro. Eles
precisam me conhecer.
Entrar para a família?
– Mas o quê... – estagnei, tão perplexa que não consegui sequer terminar a
frase. Devia estar com os olhos esbugalhados.
Feron me fitou de cima à baixo, encarando o pijama de porquinho e a toalha na
cabeça. Ergueu uma sobrancelha, sorrindo com malícia.
– À propósito... Bela escolha de roupas. Muito interessante.
Eu arfei, indignada.
– Isso é ridículo! Vamos conversar lá fora!
– Não, não – Tomás interrompeu. – Nada disso, mocinha. Agora vocês dois
irão nos explicar direitinho o que está acontecendo. Pode entrar, garoto.
Feron acenou uma vez com a cabeça, ostentando uma expressão de vitória e
astúcia.
– Obrigado, senhor – e foi entrando na casa.
Eu fiquei paralisada, sem conseguir acreditar. Mas que despropósito!
Eles seguiram para a sala de jantar anexa. Tomás indicou uma cadeira na
imensa mesa para Feron se sentar. Stela o cumprimentou, parecendo radiante.
– Olá, Felipe. É muito bom te ver outra vez.
– O prazer é meu, Stela – o garoto devolveu cordialmente. Os dois já
pareciam íntimos.
Stela e Tomás se sentaram na mesa de jantar à frente do garoto. De má
vontade, não me restou opção senão sentar-me ao lado de Feron.
Tomás reuniu as mãos sobre a mesa.
– Então... Vocês disseram que estão apaixonados?
Gemi, escondendo o rosto com as mãos. Isso não estava acontecendo. Feron
era louco – e, por causa disso, Mia iria me matar (depois jogaria minha cabeça
decepada aos porcos).
Feron tomou à frente da situação.
– Sim, senhor, mas Mia estava relutante em me apresentar a vocês. Então tive
que tomar uma atitude.
Stela interferiu.
– E por que ela estava relutante? Pensou que faríamos o que com você? Te
morder?
Ha-ha. Stela não conhecia Feron... Era mais provável que ele a mordesse.
O garoto respondeu.
– O que aconteceu foi que nós nos apaixonamos de repente, enquanto Mia
ainda namorava o Thales. Vocês devem o conhecer, é claro. – Explicou de forma
muito racional. – Acontece que a situação ficou crítica, então Mia terminou o
relacionamento com o Thales. Tudo aconteceu muito rápido, e acho que ela
estava com receio da opinião de vocês a respeito dos fatos. Eu disse a ela para
parar de bobagem, pois tinha certeza de que não iriam julgá-la. Afinal, o amor
simplesmente acontece. E ninguém manda no coração, não é mesmo?
Pisquei, sem acreditar.
Mas. Que. Descarado.
– Eu sabia! – Stela bateu palmas, maravilhada. – Quando você veio aqui da
última vez, eu consegui notar o clima.
– Não é? – Feron piscou de forma íntima para Stela.
Tomás estava confuso:
– Esperem... Como assim da última vez? O que eu perdi aqui?
Então Stela rapidamente explicou para ele a situação. Tomás então coçou o
queixo, pensativo ao nos encarar:
– Entendi... Esses relacionamentos de hoje em dia são complicados. Então,
suponho que agora vocês dois estejam namorando? É isso?
Ah, meu Deus. A situação fugiu do controle.
Feron respondeu.
– Ainda não, mas muito em breve – me lançou um olhar de soslaio, fervente
e enigmático. – Só estou esperando que ela me diga sim.
A potência do seu olhar me arrepiou até a alma.
Enquanto isso, Tomás suspirou.
– Bom... Isso já é um assunto de vocês, não irei intervir. Me conte sobre a sua
família, Felipe. De onde você vem? O que você faz?
Com segurança, Feron contou sobre sua vida. Tomás ficou perplexo ao saber
que a família de Feron era dona da construtora mais famosa de São Paulo. Feron
contou que cursava medicina, que morou na Califórnia, quais eram seus planos
para o futuro, etc. Um verdadeiro interrogatório.
Tomás fingiu uma expressão séria. Eu sabia que ele estava tentando parecer
um pai ciumento na frente de Feron, mas não era nada daquilo.
– E quais são os seus planos com a minha filha?
Stela revirou os olhos.
– Ai, Tomás... Não estamos no século dezenove. Eles já são adultos.
Tomás se defendeu.
– É o meu papel perguntar, ora!
Feron não se abalou.
– Tudo bem. Bom, primeiro, planejo namorar com ela. E se der certo, no
futuro podemos até nos casar. Por que não?
Comecei a engasgar.
Stela riu.
– Acho que alguém foi pega de surpresa.
Feron me fitou de soslaio.
– Eu tive que tomar uma providência... Se dependesse dela, nossa relação
não progrediria. Mia é do tipo que ama em silêncio.
Stela colocou a mão sobre o peito e suspirou.
– Um homem de atitude... Adorável.
Tomás se levantou.
– Ok... Já que estamos resolvidos, vamos jantar! Você gosta de massa,
Felipe? Essa é minha especialidade.
Stela murmurou. “Até porque é só o que você sabe fazer.”
Tomás revirou os olhos.
– Isso é inveja, porque você não sabe fritar nem um ovo.
Feron riu.
– Sem problemas, eu adoro massa. – O garoto já estava se sentindo em casa.
Eu neguei com a cabeça, incrédula. Só pensava em como eu iria explicar
aquilo tudo para Mia.
Entretanto, não podia negar que ver o Feron sentado ali, ao meu lado –
aparentando já pertencer à família –, causava sensações estranhas em meu peito.
Como se eu tivesse acabado de ganhar na loteria da vida. Um prêmio sem
precedentes.
Vez ou outra, na mesa, ele me lançava olhares íntimos e misteriosos – o que
causava um incêndio em meu coração. Não conseguia compreender: por que,
dentre todas, ele me escolheu?
O amor caminhava mesmo por estradas misteriosas.
Tomás nos serviu o jantar, e os três batiam papo de forma descontraída.
Contudo, eu só conseguia observar a cena, emitindo uma ou outra opinião. No
fundo, minha pulsação encontrava-se acelerada – e meu cérebro, em pane.
Aquilo estava mesmo acontecendo?
Ao final do jantar, Stela perguntou.
– Bom, Felipe... Você está indo embora agora ou pretende passar a noite
aqui?
Espera aí... O quê?! Quase choquei uma ninhada de ovos por ali mesmo.
Feron respondeu.
– Pretendo passar a noite aqui, se não for problema para vocês. Se vocês se
sentirem incomodados, Mia e eu deixaremos a porta do quarto aberta.
Ah, meu Deus, a situação não poderia piorar. Stela riu, dando de ombros.
– Façam como quiserem, vocês são adultos.
Engoli em seco – poderia piorar, sim.
Enquanto isso, Tomás se indignou.
– Não é bem assim, não...
Stela o interrompeu, revirando os olhos.
– Tomás, eu já dei a permissão. E você sabe que quem manda aqui sou eu.
Tomás ergueu um dedo para discutir, mas depois pensou melhor, grunhindo.
– É verdade.
Feron riu.
– Fiquem tranquilos, Mia é tão preciosa para mim quanto é para vocês. –
Feron se levantou. – Posso ajudar a lavar os pratos?
– Seria ótimo – Stela concordou, e os dois foram para a pia, colocando luvas
de borracha; lavavam os pratos enquanto conversavam animadamente.
Feron lavando pratos. Na minha casa. Uma cena memorável.
Nesse interstício, Tomás murmurou para mim.
– Não sabia que você tinha um novo namorado. Poderia ter nos avisado
antes... Evitaria todo o drama.
Encarei-o, expressão levemente desesperada.
– Nem eu sabia, pai.
Quando terminaram com a louça, Stela anunciou que estava subindo. Tomás
foi para o quarto com ela, e então o inevitável aconteceu: Feron e eu ficamos
sozinhos na cozinha. Um silêncio constrangedor se abateu sobre o ambiente.
Ergui os olhos da mesa e notei o garoto recostado na bancada da pia – braços
cruzados, encarando-me com intensidade.
Agora que estávamos sozinhos, toda a tensão retornara. O ar ficou pesado
com a confusão de sentimentos: atração, mágoa, e uma vontade feroz um do
outro.
Eu sentia o impacto do seu olhar felino em meus ossos.
Levantei-me de repente. “Eu vou...”, procurei qualquer coisa para adicionar à
frase, de modo a não parecer tão ridícula.
O que diabos nós dois iríamos fazer agora, sozinhos nessa casa?
Feron desencostou-se da pia, mãos nos bolsos.
– Não precisa entrar em pânico, Santorini. Trouxe uma mochila com roupas,
está no meu carro. Vou até lá pegar. – Então ele saiu da casa, batendo a porta
atrás de si.
Joguei-me na cadeira outra vez, suspirando. Eu não tinha a menor ideia do
que fazer. Ele era o lendário Feron – mas eu era apenas uma garota do interior
sem qualquer experiência, pelo amor de Deus. Não era uma batalha justa.
Por fim, decidi que, para todos os efeitos, aquela casa era minha (logo, eu
poderia fazer o que bem quisesse).
Subi para o meu quarto e me sentei na escrivaninha. Liguei o notebook e
comecei a fazer o trabalho que o professor daquele dia passara na aula. Não que
eu estivesse conseguindo me concentrar, é evidente; digitei várias vezes as
mesmas palavras.
Minutos depois, três batidas soaram no batente da porta, e Feron entrou. Olhei
para trás: ele estava parado na porta do quarto, com uma mochila sobre os
ombros.
– O que está fazendo? – perguntou.
Ainda era difícil me acostumar com a sua voz apimentada dentro do meu
quarto.
– Um trabalho de Economia Empresarial, é para amanhã – menti. A data para
entregar o trabalho expirava apenas na semana que vem. Eu só queria uma fuga.
– Hummm... Ainda está cedo, não estou com sono. Quer ver um filme
quando terminar?
Eu jamais deitaria naquela cama sozinha com ele.
– Não, pode ver sozinho, isso aqui ainda vai levar horas. – Indiquei minha
cama. –Pode... Hã, ficar à vontade.
Feron soltou um sorrisinho enigmático, e a pimenta escorria de sua voz.
– Ok, então. Mas, só um aviso: pode tentar fugir de mim quantas vezes
quiser, Santorini, uma hora, eu irei te alcançar. Eu já me infiltrei na sua casa e na
sua vida. Você está sem saída, não percebeu?
Fiquei estática o encarando.
Ele apenas deu de ombros, ainda com o sorrisinho lateral diabólico.
– Irei tomar um banho – e em seguida foi em direção ao meu banheiro,
tirando a camisa no meio do caminho. Antes de ele fechar a porta, pude admirar
as tatuagens intrincadas do seu torso. Ferozes e exóticas – assim como o dono.
Quando ele saiu do quarto, finalmente pude voltar a respirar. A presença
selvagem dele dominava todo o ambiente.
Correndo, fui até o espelho da penteadeira e dei de cara com uma imagem
humilhante: toalha na cabeça e pijama de porquinho. Péssimo. Enquanto Feron
tomava banho, sequei rapidamente o cabelo com o secador; após terminar, voltei
para o computador.
Pelo menos parte da minha dignidade estava recuperada. Quanto ao pijama de
porquinho... Bom, o desastre já havia acontecido. Além do mais, o pijama
poderia ser útil e manter Feron longe. Uma das camisolas de Mia nesse momento
seria... Perigoso.
Tempos depois, ele saiu do banheiro apenas com uma calça de moletom preta
e uma toalha ao redor do pescoço. Sem camisa, é claro.
Grunhi – que ótimo. O garoto seguia fazendo aquilo de propósito.
– Ainda vai demorar muito? – perguntou, secando o cabelo molhado com a
toalha.
Engoli em seco diante daquela cena. Dos seus fios macios, escorriam
pequenas gotas de água; essas desciam pelo abdômen intrincado, brindando-me
com uma cena avassaladora. Minha voz saiu meio estrangulada.
– Vou, sim.
Feron suspirou.
– Tudo bem, então – e deitou-se na minha cama. Colocou um braço atrás da
cabeça e pegou o controle remoto. Ligou a televisão e escolheu um filme; pelos
barulhos, o enredo envolvia muitos tiros e bombas.
Uma hora e meia depois, o filme terminou. Feron desligou a televisão, e a
única luz do quarto era a tela do meu notebook. Ele se virou de bruços e fechou
os olhos.
Esperei vinte minutos, e o garoto não se mexeu mais; então salvei o trabalho
e fechei o computador, suspirando de alívio.
Como o garoto estava dormindo, eu não precisava mais me preocupar. Fui até
o banheiro e fechei a porta. Escovei os dentes, enquanto pensava na loucura que
estava acontecendo. Ao lado da minha escova, encontrava-se agora uma escova
de dentes de cor preta – que parecia bem cara. A escova de Feron. Ele
simplesmente a tinha colocado lá, demarcando seu território.
Exalei; Felipe Feron era mesmo um homem de atitude. E lá fora, o garoto
dormia na minha cama. Simplesmente.
Gargalhei, mas foi por puro desespero; meus sonhos mais loucos tinham se
tornado realidade, mas eu me encontrava em pânico.
Apaguei a luz do banheiro e abri a porta. Então arfei de susto – porque Feron
se encontrava parado bem na minha frente; uma massa de músculos e maldade.
No escuro do quarto, só conseguia enxergar suas íris diamantinas.
Engoli em seco.
– Pensei que estivesse dormindo.
Ele sorriu, ardiloso.
– Pensou errado. Estava te esperando. Eu avisei: não dá para você fugir de
mim.
Tensa, tentei desviar de sua figura – mas ele me impediu, colocando um braço
na parede à sua frente. De repente, me vi encurralada no meio dos seus braços,
as costas contra a parede. Era uma armadilha. O cheiro dele ao meu redor era
inebriante – e seus olhos ardiam, em malícia e fome.
– O que você quer? – rosnei.
Se eu mantivesse a hostilidade, Feron não conseguiria saber o quanto me
afetava (aquela era a minha única defesa). Nunca fui uma pessoa medrosa – mas,
naquele momento, minhas pernas tremiam. Ele era um oponente perigoso
demais.
O garoto se aproximou mais, fitando-me com olhos incendiários. A voz,
rouca.
– Quero você, Santorini. Quero que admita que me ama. Eu já sei que você
também gosta de mim, mas quero ouvir da sua boca.
Deus... Meu coração incendiou diante daquelas palavras (e outras partes do
meu corpo, também). Mesmo assim, eu não podia me permitir abaixar a guarda –
não agora, não depois de tudo o que passamos.
Por dois meses, eu resisti àquele amor em nome do meu compromisso com
Mia. Não dava para jogar todo o esforço no ralo agora; seria muito sofrimento
em vão.
Em razão disso, respondi.
– Não irei dizer. Você invadiu a minha casa, você é louco.
Ele franziu o cenho, e um relance de mágoa atravessou seus traços.
– Eu não invadi a sua casa. Eu vim me declarar para você... Deixar claro o
que eu sinto. Pare de me magoar, de me afastar.
Vê-lo fazer um pedido com tamanha sinceridade me emocionou. No entanto,
o grilhão acorrentado em meus pés falou mais alto.
Desviei os olhos, destruída.
– Não dá, Feron. Eu e você... Simplesmente não dá.
– Por que não? – vincou a testa, tentando entender. – Me dê um motivo
justo.
– Eu tenho meus motivos. Estou numa encruzilhada... Não tenho como me
salvar.
Eu não sou quem você pensa que sou. Estou algemada, e não posso tomar
decisões em uma vida que não é a minha.
Mas Feron não desistiu.
– Eu salvarei você, você está segura agora. Apenas... Se abra para mim. Não
importa qual segredo você guarde, eu ficarei ao seu lado.
Não nisso, pensei com tristeza. Não quando ele souber que estou enganando
todo mundo – e que eu nem sou Mia Santorini. Sou uma criminosa.
Neguei com a cabeça, uma lágrima escapando dos olhos (uma lágrima que eu
guardava há muito tempo).
Feron suspirou, frustrado, e fechou os olhos por um momento.
– Seja lá qual for o fardo que você esteja carregando, eu irei carregar com
você. Confie em mim... Me conte. Eu sou o seu homem, não percebeu? Eu posso
te ajudar.
Eu fiquei em silêncio, face distorcida em agonia e confusão.
Então o garoto fechou os olhos, angustiado.
– Pare de me torturar... Pare de tentar fugir do nosso amor.
Nosso amor.
Baixei o rosto, arrasada.
– Eu quero te contar, Feron, mas não posso. Infelizmente, isso sempre estará
entre nós.
Uma muralha intransponível.
Ele desviou os olhos, pensando por um momento. Por fim, suspirou,
parecendo tomar uma decisão.
– Eu posso aceitar. Posso esperar o seu tempo, esperar que comece a confiar
em mim... Não precisa me contar nada agora, se não quiser. Eu confio em você.
– Seus traços se contorceram em tristeza; e, de sua voz, escorreu sinceridade. –
Apenas... Namore comigo. Aceite o meu amor. Nós vamos nos encontrar no
meio do caminho, arranjar uma solução.... Eu prometo, cuidarei de você. Ao
meu lado, nada poderá te fazer mal.
Franzi o cenho; até que ponto chegava o sentimento dele?
– Você faria isso? Só para ficar comigo?
Ele não titubeou.
– Por você, sim, Mia.
Mia. Foi a primeira vez que ele se dirigiu a mim pelo primeiro nome.
Infelizmente, aquele nome não era o meu – o que era muito, muito triste. Talvez
esse homem nunca viesse a conhecer meu verdadeiro nome.
Suspirei. Faltava apenas um mês para eu ir embora... Além do mais, o
relacionamento de Mia e Thales já havia terminado. A vida da minha gêmea
tinha sido completamente alterada pelo furacão Feron – e nada mais poderia ser
refeito.
Então... Por que ainda resistir? Aquilo era uma insensatez. Mia ganharia na
loteria da vida: ser a namorada de Felipe Feron. E eu... Bem, eu poderia
vivenciar esse sonho por algum tempo. Depois, iria embora como se nunca
houvesse existido.
Eu merecia saber como era ser a mulher de Felipe Feron – ainda que por
pouco tempo. Eu precisava disso.
Então, tomei uma decisão: me entenderia com Mia mais tarde.
– Quer saber, Feron? Cansei de lutar, você venceu.
Por uma única vez na vida, resolvi seguir o meu coração.
























CAPÍTULO 8

Feron ergueu uma sobrancelha, um sorriso malicioso se espalhando por seu
rosto.
– O que isso quer dizer?
Respondi antes que me arrependesse.
– Que não irei mais fugir. Você venceu, vamos namorar.
Por um segundo, ele me encarou profundamente. E então compreendeu a
verdade: ali estava o meu sim. Eu podia notar a emoção e o alívio contidos em
suas íris.
– Era só o que eu precisava ouvir – falou. E então ele foi se aproximando.
Encolhi-me dentro dos seus braços musculosos – sentindo-me uma presa prestes
a ser atacada pelo caçador. – Hummm – o garoto roçou o rosto em minha
clavícula e pescoço, sentindo o meu cheiro. – Então, já que agora sou o seu
namorado... Significa que posso fazer isso? – podia sentir seu hálito quente
contra a minha pele.
Mordi o lábio, as pernas bambas. Por onde o toque dele passava, deixava um
rastro quente.
– Já que você é minha... – ele mordiscou o lóbulo da minha orelha. – Posso
fazer isso também? – sussurrou.
Minha respiração ficou pesada – era um turbilhão de sensações. Estranhas e
quentes sensações.
Feron notou minha postura tensa, soltando uma única risada baixa e
aveludada.
– Você está com medo de mim?
Decidi não mentir.
– Um pouco – murmurei. Eu não podia dizer a verdade sobre ser
inexperiente, pois Feron sabia que Mia conhecia (muito bem) a vida íntima de
um casal. Então, tentei extrair o máximo da verdade. – Eu tenho medo... Mas
isso porque você é diferente. De todos os outros homens.
Ninguém no mundo poderia se comparar ao comandante, ao lendário Felipe
Feron. O único homem que meu coração queria.
Ele ainda falava ao meu ouvido.
– Diferente, por quê? Por que estou no seu coração?
– Você sabe que sim – confessei. – Não estamos nessa confusão exatamente
por causa disso?
Ele riu baixinho.
– Humm... – repensou. – Então vamos devagar, não quero te assustar. – Ele se
afastou; entrelaçou uma mão na minha, puxando-me para a cama. – Hoje é só
nossa primeira noite, temos uma vida inteira pela frente. Não precisamos ter
pressa... Vamos apenas dormir.
Não – nós não tínhamos uma vida inteira, mas Feron jamais iria saber.
Franzi o cenho.
– Você faria isso por mim? – ele não devia estar acostumado a ser rejeitado
por uma mulher.
– Eu não tenho pressa, e você está no seu direito de não querer. Cabe a mim
respeitar. Sei que minha fama de brutamontes me precede, mas ela não é real.
Principalmente quando se trata da minha mulher.
Minha mulher. Respirei, aliviada. Não obstante, partes secretas do meu corpo
ficaram decepcionadas.
Feron me guiou para a cama, e nós nos deitamos lado a lado; nos viramos um
para o outro, de modo a nos encararmos. No escuro do quarto, eu pouco
conseguia enxergar de seus traços perfeitos. Apenas as íris diamantinas reluziam
no escuro, como se contivessem luz própria.
Eu ainda não acreditava no fato de que o garoto estava aqui: na minha cama,
na minha vida. E, por um tempo, ele seria meu. Aquele era o maior presente que
eu poderia ganhar na existência. Por isso, cravei cada segundo na memória.
Feron me analisou, estreitando os olhos. Murmurou.
– Como é que uma garota tão pequena, pôde causar tanto estrago no meu
coração?
Bufei, sorrindo de soslaio.
– Você é o único especialista aqui em causar o caos. Secretamente, eu
costumava chamar você de furacão Feron.
Ele soltou um sorrisinho enigmático.
– Bom... Isso eu não posso negar. Já causei muita confusão. Mas desde que
eu a conheci, é você quem está fazendo mais estrago que uma pistola de calibre
40. Principalmente na minha vida.
– Então acho que estamos quites.
– Acho que sim – ele sussurrou no escuro.
Eu o fitei com carinho.
– Essa é a primeira vez em que conversamos de verdade.
Feron colocou um braço atrás da cabeça, relaxando.
– Graças a mim, não é? Se nossa relação dependesse de você, ainda
estaríamos vivendo aquele fogo cruzado.
– Por que você fez aquilo? Veio até a minha casa e se apresentou? Foi loucura
demais... Até para você.
Por pouco eu não sofri um infarto no miocárdio.
Além disso, o cérebro de Tomás quase se fundiu tentando entender.
Ele deu de ombros.
– Eu sou assim: corro atrás do que eu quero. Se eu não tomasse uma atitude,
você não tomaria, e então nós dois ainda estaríamos sofrendo. Eu só não me
aproximava porque pensava não ser retribuído. Mas agora que eu sei da
verdade... Bem, você terá trabalho para fugir de mim.
Eu desviei os olhos, segurando um sorrisinho.
Todo o meu peito transbordava, feliz e aquecido. A presença selvagem dele,
bem ao meu lado, gerava-me segurança e uma intensa paz de espírito. Como se
tudo na vida estivesse em seu devido lugar.
Então era assim o sentimento de ser feliz? Tive tantas misérias de afeto na
vida – tanta solidão, tanto desamor – que nunca havia experimentado tal
sensação. Depois que minha mãe morreu, eu nunca mais recebi o carinho e a
atenção de alguém.
E, agora, esse homem me fitava fixamente, como se eu fosse a criatura mais
interessante do mundo. O centro do seu universo.
No escuro do meu quarto, Feron e eu conversamos sobre tudo. Pela primeira
vez, sem mágoa e ressentimento.
Falamos sobre Thales, sobre a família de Feron, sobre a vida dele na
Califórnia... Ele também me contou sobre Yuri, Pilar e Valentina.
O garoto pagou um detetive particular para descobrir os podres de Yuri e
Valentina. O pai de Yuri era um corrupto, e a empresa da família de Valentina
transbordava de ilegalidades. Feron não forjou nada – só trouxe à tona o que já
existia.
Quando Valentina e Yuri já tinham sido aniquilados, Feron teve uma
conversinha particular com a Pilar.
A garota admitiu que persuadiu Yuri a liberar o vídeo. Então, Feron disse que
seu próximo alvo seria ela – a não ser que a mesma saísse da São Valentim.
Como nesse meio elitista, todas os ricaços escondiam alguns segredinhos podres,
Pilar se rendeu. No dia seguinte, foi embora da São Valentim e prometeu nunca
mais aparecer na nossa frente.
– Você pode ser mesmo perigoso, quando quer... – comentei, surpreendida
com os planos que ele traçara sozinho.
O garoto deu de ombros.
– Minha volta para a São Valentim foi anunciada como o retorno do diabo.
Os três deviam ter prestado mais atenção a isso, o nome já diz tudo. A culpa não
é minha. – Sorriu de soslaio, olhos ardendo.
– Espero nunca ter que experimentar sua fúria.
Feron me encarou.
– Nunca. Na verdade, eu quero fazer você experimentar outras coisas.
Quase engasguei, pega de surpresa. Virei-me para o outro lado, entrando
debaixo do edredom.
– Já está tarde, vamos dormir.
Feron soltou uma risada aveludada.
– Pode fugir mesmo, porque quando eu te pegar... – deixou no ar.
Eu apenas me encolhi mais (embora partes secretas do meu corpo
ardessem).
– Boa noite, Feron.
– Boa noite, amor – ele sussurrou com sinceridade, me rendendo um relance
de emoção.
Juntos, nós dormimos pelo resto daquela noite em paz. E, através da janela,
apenas a luz da lua presenciava o meu pequeno milagre.



Quando acordei, o relógio de cabeceira ainda marcava sete horas da manhã.
Olhei para o lado e me deparei com uma cena linda: Feron dormindo bem
perto de mim.
Encontrava-se de bruços, e seus fios macios caíam sobre a testa e
travesseiro. Seu torso musculoso subia e descia, numa respiração tranquila. Os
traços faciais, pacíficos... Descansados. Como se ele estivesse em paz.
Os raios de sol que entravam pela janela refletiam em sua pele bronzeada –
tornando-o uma obra de arte. Sorri intimamente: sorte a minha.
Foi então que me lembrei: nem tudo eram flores, pois minha gêmea
precisava de explicações. Então, levantei-me devagar e peguei o celular; entrei
no banheiro e fechei a porta, discando o número de Mia.
Ela atendeu; a voz, rouca de sono.
– Alô? Que droga, está louca? São sete horas da manhã, cacete.
– Desculpe – falei baixinho. Não queria acordar Feron. – Eu tenho uma... Hã,
novidade para te contar. É urgente.
– Ah, meu Deus. Outra bomba à essa hora da manhã? Fale logo.
Decidi contar toda a verdade, pois mentir seria em vão.
– A farsa saiu do meu controle – comecei (e, depois disso, não parei mais.
Contei tudo desde o começo).
Eu estava tendo sentimentos por Feron, e ele, por mim. Contei sobre como
ele me ajudou diversas vezes – bem como sobre como ele apareceu na casa da
Mia, se apresentando para os pais dela e me pedindo em namoro.
Não deixei nenhum detalhe de fora. No final, arrematei.
– Você disse que o Feron não assume compromissos e é um homem
inalcançável. Acho que você estava errada, Mia. Dessa vez, parece sério. Ele
rompeu sua amizade com Thales, me pediu em namoro em uma sala de aula
lotada... O garoto não está de brincadeira. Feron parece realmente... Me amar.
Mia ficou em silêncio por um tempo, absorvendo as informações.
Por fim, concluiu.
– Bom, isso é chocante... Era a última que eu esperava ouvir na vida. Mas já
que aconteceu... Quer saber? Bom para mim! Feron é uma alavanca social muito
mais poderosa que Thales; ao lado dele, irei reinar. Ninguém nunca conseguiu
ser sua namorada. Isso é inédito.
– Então você está dando o seu aval?
Finalmente.
Ela suspirou.
– Sim. Eu não planejei nada disso, mas acabou acontecendo. Meu único
medo era perder o Thales, só para depois ser descartada como lixo pelo Feron.
Mas já que ele está levando essa relação à sério, não tem mais por que relutar.
Ser a namorada de Feron só vai me gerar benefícios, ele é uma figura lendária
em São Paulo. Eu já estava ficando entediada com o Thales mesmo... Além do
mais, o Feron é muito quente; faz totalmente o meu tipo. Irei aproveitar.
Um nó se formou em minha garganta. Imaginar minha gêmea beijando o
garoto, dormindo com ele na mesma cama...
Deus, era como uma faca se cravando em meu estômago.
Mia notou minha falta de reação, e perguntou com ironia:
– Por que ficou em silêncio, irmãzinha? Você sabe que isso vai acontecer,
não é? Em breve, eu voltarei para a minha vida, e você terá que sumir sem deixar
rastros. Sabe disso... Não é? – pressionou.
Trinquei os dentes.
– Sim. – Eu sabia disso, mas meu coração relutava em aceitar. Tantas coisas
seriam perdidas... Aqueles amigos, aquela família, aquele amor...
Pare, Ana Lívia, me censurei. Nada disso é realmente seu.
Minha gêmea não se abalou.
– Ótimo. Não se iluda, Lívia: o Feron não se apaixonou por você, se
apaixonou por mim. Pela ideia de quem eu sou. Linda, rica, uma das melhores da
São Valentim... Esse cabelo, essas roupas, essas amigas e assa família são
minhas. Nada disso é seu.
– Não precisa afirmar o óbvio – rosnei. – Eu já sei disso tudo.
– Que bom. Quando eu voltar, assumirei de onde você parou. Vá me
mantendo atualizada sobre o Feron, preciso saber de tudo. Quando trocarmos de
lugar, ele não pode desconfiar de nada.
Após as recomendações finais, Mia desligou.
Eu fiquei algum tempo ali, sentada sobre o tampo da privada, o celular na
mão. Uma única lágrima escorreu do meu rosto, em luto por todas as coisas que
eu perderia.
Mas eu tinha direito a chorar?
Não. Não podia ansiar por uma vida que não era a minha. Portanto, sequei a
lágrima e respirei fundo, pensando: não perca tempo sofrendo, Ana Lívia.
Aproveite o momento enquanto você ainda pode.
Cada momento ao lado de Feron era precioso.
Logo, saí do banheiro e voltei para a cama. Feron ainda dormia
tranquilamente. E, ao lado dele, adormeci outra vez.



Quando acordei novamente, o relógio de cabeceira marcava quinze para as
dez da manhã. Espreguicei-me, o corpo tranquilo e descansado.
Olhei para o lado e Feron estava deitado bem perto, já acordado. Mantinha
um braço atrás da cabeça, observando-me.
Sorri de soslaio.
– Bom dia.
Ele ainda me observava, retribuindo com um sorrisinho enigmático.
– Seria interessante acordar assim todos os dias.
Observando aquele homem musculoso e tatuado ao meu lado, murmurei. “Eu
que o diga...”
Ele abriu os braços, convidativo.
– Me dê um bom dia de verdade.
Hesitei, embaraçada. Tive que me relembrar: não tem problema, Lívia, ele é
o seu namorado.
Poder tocar no Feron (assim, tão livremente), ainda era uma situação muito
recente, e eu demoraria a me acostumar. No passado, eu nunca havia sido muito
feliz. Portanto, conservava certa resistência dentro de mim... Não acreditava que
merecia coisas boas – ou momentos extraordinários como aquele. Era uma
autossabotagem.
São muitas as coisas que deixamos de dar para nós mesmos, pelo simples
fato de achar que não merecemos.
Feron ainda mantinha os braços abertos; então deixei a vergonha de lado e
me aproximei, encaixando-me em seu abraço.
Apoiei a cabeça em seu peito, e ele me abraçou, protetor:
– Agora sim. Bom dia.
Seu abraço era quente – e, seu cheiro, misterioso. Advindo de terras quentes,
terras místicas. A combinação causava um frenesi no meu peito. Deitada no
tórax do garoto, eu conseguia ouvir, baixinho, as batidas do seu coração (um som
maravilhoso para mim).
Ficamos assim por um tempo, até que o meu estômago roncou – acabando
totalmente com o momento. Feron ergueu uma sobrancelha.
– Devemos descer para tomar um café?
– Eu não queria sair da cama... Mas, aparentemente meu estômago discorda.
Ele riu.
– Não vamos arranjar confusão com seu estômago, então.
Então nós nos levantamos da cama, e Feron colocou uma camisa. Minutos
depois, descemos para o primeiro andar.
Stela e Tomás ainda não tinham ido trabalhar. Tomás se encontrava na sala de
jantar, sentado à mesa; enquanto isso, a ajudante da casa (e exímia cozinheira), ia
colocando alguns pratos na mesa.
Tomás lia um jornal, murmurando distraidamente, “Obrigado, Dolores.”
– Bom dia – cumprimentei, e Feron fez o mesmo.
– Bom dia, casal – Tomás não desviou os olhos do jornal.
Feron e eu sentamo-nos à mesa, e eu ataquei o que vi pela frente. Naquele
momento, Stela chegou – tinha o cabelo preso num coque, usando roupa de
academia.
– Bom dia, família! – sentou-se ao lado de Tomás. – Meu Deus, estou
faminta... Acabei de ficar uma hora na esteira. Posso encher a cara de
carboidratos agora, sem a menor culpa.
– Viva os carboidratos – murmurei, ainda com a boca cheia de pão.
Feron tomava seu café calmamente, batendo papo com meus pais. Em
determinado momento, encontrou minha mão por cima da mesa, entrelaçando
seus dedos nos meus – de forma muito natural.
Stela ergueu uma sobrancelha, observando.
– Vejo que resolveram suas pendências. Temos um novo genro?
Feron me olhou de soslaio, astuto.
– Têm, sim, Mia finalmente me aceitou. Parece que entrei para a família.
– Ótimo – Tomás ainda lia o jornal distraidamente. – Já pode nos convidar
para sua casa nas Maldivas. Li na internet que sua família tem uma.
– Pai! – contestei, envergonhada.
– Ai, Tomás – Stela massageou as têmporas. – Não me faça passar vergonha
à essa hora da manhã.
Tomás deu de ombros, nem um pouco constrangido.
– O que tem demais, gente? Família é para essas coisas.
Feron riu.
– Já se sintam convidados.
Após o café da manhã, eu e Feron subimos outra vez para o meu quarto. O
garoto me obrigou a mostrá-lo todos os malditos álbuns de fotos que Mia
guardava. Por fim, tive que revirar o closet de Mia e encontrar uma caixa com
álbuns de infância.
Nos sentamos na cama e começamos a olhar os álbuns. Até eu me diverti –
pois foi uma forma de conhecer a minha irmã mais intimamente. As fotos
mostravam diversos momentos da vida de Mia, desde bebê até adolescente. Stela
e Tomás apareciam bem mais novos nas imagens, curtindo o fato de terem uma
nova filha.
Feron ria e se deliciava com algumas fotos bem ridículas. Mia chorando, de
fralda, Mia com a boca lambuzada de papinha... Dentre outras mais. Nelas,
minha gêmea parecia só uma garotinha inocente e feliz.
Não sei exatamente em que momento da vida ela se tornou o que era: uma
vaca completa. Eis o mistério.
Deitamo-nos na cama e Feron me fez falar sobre detalhes da minha vida.
Onde nasci, onde estudei, porque resolvi cursar Gestão Empresarial, quais eram
meus amigos de infância, quais minhas memórias mais felizes... Contei tudo o
que eu sabia sobre Mia – e, o que eu não sabia sobre ela, contei sobre mim.
Ele seguia perguntando, genuinamente interessado.
Qual o seu maior sonho? Seu desejo mais secreto? E a coisa mais triste que
você já viveu?
No fundo, eu queria responder: meu maior sonho é me tornar médica, ser
independente e morar bem longe de Campina Bela. Recomeçar a vida em outro
lugar e tentar ser um pouco feliz – como as pessoas normais. A coisa mais triste
que já vivi foi a morte da minha mãe. E, agora, estar em vias de perder você.
Mas eu não podia falar nada daquilo.
Então, inventei.
– Hummm, meu maior sonho é ser uma gestora de algum negócio de sucesso,
de preferência no ramo da moda. Quero ser bem-sucedida por mim mesma. Meu
desejo mais secreto é sair na capa da Forbes. E a coisa mais triste que já vivi?
Humm... Deixe-me ver... A separação de Brad Pitt e Angelina Jolie conta?
Feron revirou os olhos.
– Você está mentindo.
O garoto era um expert em me ler; sorri com tristeza.
– Não tenho nada triste para contar – dei de ombros, mentindo. – Sempre tive
tudo na vida. Pais amorosos, amigos, um futuro certo... Sempre fui feliz.
Assim que falei, senti o peso da mentira.
Feron me fitou de soslaio, estreitando as pálpebras.
– Eu sou bem inteligente, sabia? Vai ter que fazer melhor que isso para me
enganar. Todo mundo guarda alguma ferida no coração, Mia. Ninguém é de
pedra.
Desviei os olhos.
– Bom... Um dia eu te conto. Num futuro, quando nos conhecermos melhor...
Pode ser?
Ele ficou em silêncio por um tempo, seus olhos perspicazes tentando extrair a
verdade de mim; por fim, suspirou.
– Pode ser.
Em nossa interminável conversa, eu descobri mais do que imaginava sobre
Feron. Embora fosse um lendário déspota e comandante, o garoto não era raso.
De cada uma de suas palavras e confissões, observei uma notável profundidade e
inteligência.
Ele não era do tipo que abria a boca para falar coisas estúpidas.
Contou-me por que decidiu prestar o vestibular para medicina: ele queria
provar à sua família que não era mais um baderneiro. Sua mãe ficou doente, e
últimos anos na Califórnia tinham sido difíceis – transformando-o
completamente.
Foi lindo conhecer esse lado mais humano que Feron escondia. Eu sentia que
o garoto tinha aberto para mim uma fenda em seu enigmático coração (e, pouco
a pouco, ele me permitia desvendá-lo).
O tempo passou voando, e rapidamente chegou a hora do almoço. Stela e
Tomás não almoçaram em casa, logo Feron e eu aproveitamos a refeição
cozinhada por Dolores sozinhos.
Em seguida, a hora de ir para a São Valentim chegou, e eu tomei um banho
rápido, trocando de roupa no banheiro. Feron já estava pronto quando entrei no
quarto, esperando-me. Ele insistiu em me levar.
– Não faz sentido irmos em carros separados – argumentou. – Estamos indo
para o mesmo lugar.
– Mas como eu irei voltar para casa, depois?
– Eu a trarei de volta, é evidente. – Comentou como se fosse uma dedução
lógica. – Inclusive, não precisa mais usar seu carro para ir à São Valentim. Virei
te buscar todos os dias... A não ser que não queira.
À essa altura, já estávamos saindo de casa e chegando ao jardim frontal da
mansão. Nossos carros estavam estacionados na rua à frente.
Ergui as mãos.
– Jamais. É só que iremos causar choque nos alunos se chegarmos juntos.
Não sei se eles estão emocionalmente preparados.
Nem eu estava, pelo amor de Deus.
Feron revirou os olhos.
– Será que estou sendo muito bonzinho?
– Como assim?
Feron foi em direção ao seu carro e abriu a porta do carona para mim.
Enquanto eu entrava, ele respondeu.
– Você acha que alguém na São Valentim irá contestar uma decisão minha?
Bom, deve ser porque realmente não me conheceu no passado. No meu antigo
regime, não havia esse negócio de querer ou não querer. E os alunos lembram
bem disso. Mas... Eu não sou mais assim.
Quando ele já tinha fechado minha porta, dado a volta e entrado no banco do
motorista, falei.
– Isso não era nada legal. E sobre o livre-arbítrio dos outros?
Feron colocou os óculos escuros, dando partida no Range Rover. Ostentava
um sorrisinho malicioso.
– O livre-arbítrio era eu.
Bufei. Ele me olhou.
– O que foi? Não gosta da minha antiga versão?
– Nem um pouco. Já sofri bullying na escola, sei como é péssimo estar do
outro lado.
Por eu ver fantasmas, sempre fui considerada uma esquisitona. Eu agia
estranho (e as vezes falava sozinha). Com o tempo, fui aprendendo a esconder
esse fato – mas minha fama de esquisita rapidamente se espalhou. As crianças e
adolescentes da escola em Campina Bela não me aceitaram.
Continuei:
– Ver alguém passando por bullying é doloroso para mim.
– Não se preocupe, na época eu era apenas um idiota; não sabia nada sobre a
vida. Mas já que estamos tocando nesse assunto... Foi por isso que você me deu
um mata-leão no primeiro dia de aula?
– Sim.
Ele franziu o cenho.
– Tudo bem, eu mereci. No momento, fiquei indignado, mas pensando nisso
agora... Acho que foi naquele momento em que eu comecei a me apaixonar por
você. Só não sabia.
Bem... O amor estava mesmo bem próximo ao ódio.
Eu bufei, pensando comigo mesma.
– O amor e suas armadilhas... Nós dois caímos nela, como dois otários.
Paramos em um sinal vermelho. Feron tirou a mão direita do volante e a
entrelaçou na minha.
– Não tenho interesse em escapar dessa armadilha tão cedo.
Aquilo me tirou um sorriso. Era extraordinário ouvir o garoto falando aquelas
coisas para mim, pois nunca pensei que fosse acontecer.
Feron ligou o som do carro em um dos seus raps favoritos – uma música com
batida suave e letra inteligente. A viagem até a São Valentim passou rápido
demais, enquanto conversávamos e ouvíamos o som.
Logo passamos pelos portões da São Valentim e Feron estacionou o Range
Rover. Ele deu a volta no carro e abriu a porta para mim. Só faltavam alguns
minutos para as aulas começarem, logo o estacionamento e o gramado estavam
fervilhando de alunos – que chegavam e conversavam em grupos.
O garoto fechou a porta do carro e entrelaçou seus dedos nos meus, puxando-
me consigo através do estacionamento lotado. Tentei desvencilhar meus dedos,
constrangida.
Feron notou minha intenção, e virou-se para mim.
– Não precisa fazer isso. Não fique com vergonha, nós não devemos nada
para ninguém.
Enquanto avançávamos, as pessoas iam saindo da nossa frente; a maioria
tinha o queixo caído e os outros esbugalhados. Ninguém acreditava, e os
murmúrios se alastraram pelo campus.
Feron caminhou em direção ao gramado, onde Vívian e Antonela se
sentavam no banco de sempre, me esperando.
Quando nos avistou, Vívian engasgou com o gole de café que tomava.
– Puta merda – sua voz saiu estrangulada; e então abriu um sorriso imenso. –
Vocês estão de brincadeira comigo!
Antonela gargalhou, jogando a cabeça para trás.
– Amém! Obrigada, deuses dos relacionamentos complicados!
Feron parou na frente delas, colocando um braço sobre meus ombros.
– Pois é, ela enfim se rendeu a mim.
– Você, sua traíra! – Vívian apontou um dedo para mim, ainda feliz. Não me
contou nada!
– Acabou acontecendo – murmurei, segurando um sorriso.
Estava bem ciente dos olhares em torno de nós.
– Não quero saber – Vívian me cortou com um movimento de mão. – Vou
precisar de um relatório completo sobre como isso aconteceu, na minha mesa e
para já.
Gargalhei.
– Sim, senhora. Mas a Antonela pode te explicar melhor, ela tem um dedo
nisso.
– O quê?! – Vívian se virou para a amiga, perplexa. – Por que ninguém me
conta nada por aqui?!
Enquanto Antonela tentava escapar da indignação de Vívian, o sinal para o
começo das aulas tocou. Feron, que observava a interação das amigas com um
sorriso tranquilo, me deu um beijo rápido no rosto.
– Está na minha hora – virou-se com as mãos nos bolsos, indo embora e
piscando. –Te vejo no intervalo.
Vívian o observou partir, balançando a cabeça, mortificada.
– Estou jogada no chão diante dessa novidade.
Antonela pulou do banco e entrelaçou um braço no meu.
– Agora, senhora Santorini, você irá nos contar todos os detalhes sórdidos
dessa boa-nova.
Juntas, nós três subimos para o prédio de Gestão. Enquanto o professor não
chegava na sala de aula, eu contei para minhas amigas como tudo havia se
desenrolado. Elas amaram a novidade – pois conseguiam ver a felicidade
estampada em minha cara. Era evidente demais.
Quando o sinal para o intervalo bateu, nós três saímos da sala. Contudo,
estagnei por um momento, pega de surpresa.
Feron me esperava recostado na parede, do outro lado do corredor – bem na
frente da minha sala. Mãos nos bolsos, expressão maliciosa. As pessoas ao redor
mantinham certa distância de sua figura apavorante e musculosa.
– Ai, meu Deus – Antonela riu. – Agora você tem um segurança pessoal.
Feron segurou minha mão e juntos, nós quatro fomos até a cafeteria, no
prédio principal. Sentamo-nos na mesa de sempre, e minutos depois Téo se
juntou a nós.
– Ah, cara... – Téo balbuciou, sentando-se na mesa e observando Feron ao
meu lado. – Então aconteceu mesmo. Eu sabia que era só uma questão de tempo.
Feron perguntou, cuidadoso.
– Você não está com raiva também, está?
Téo deu de ombros, soando sincero.
– Claro que não, a vida é de vocês, quero que sejam felizes. Só espero que
nosso grupo fique em paz.
A expressão de Feron tornou-se sombria.
– E onde ele está?
Todos sabiam que ele se referia à Thales.
– Ainda não o vi na São Valentim hoje, acho que não virá à aula. O Thales
anda esquisito ultimamente... Tem sumido de repente e só aparecido dias depois.
A mãe dele me ligou, três dias atrás, preocupada. Mas eu também não sabia onde
ele estava.
Antonela interviu, preocupada.
– Como assim? Mas ele já reapareceu?
– Já, sim. Ele tem passado dias em hotéis e baladas, mas sempre reaparece
um ou dois dias depois. Seus pais estão ficando possessos com isso.
– Que estranho – Vívian franziu o cenho, mexendo a colher de seu iogurte
natural. – Não é da personalidade dele fazer isso.
– Pois é – Téo concordou, triste.
E então todos olharam para mim – esperando minha reação.
Constrangida, clareei a garganta; peguei o cardápio, querendo mudar de
assunto.
– Quem quer dividir um hambúrguer comigo?
Depois disso, a conversa foi tomando outros contornos mais leves, e o
assunto Thales foi esquecido (graças aos céus). Eu não queria lidar com aquela
culpa, embora me sentisse triste pelo garoto. Sabia que Thales não me amava, e
provavelmente só estava se sentindo traído pelos amigos.
Mesmo assim, Thales era um cara do bem, e eu não queria vê-lo sofrer.
Enquanto todos comíamos e meus amigos conversavam entre si, Feron
aproveitou que ninguém prestava atenção em nós. Aproximou-se, sussurrando
em meu ouvido. A voz, apimentada.
– Quando é que você vai deixar eu beijar a sua boca?
Quase engasguei com o meu suco, pega de surpresa. Encarei-o, e ele me
fitava de volta com um olhar diabólico. Então ele queria me provocar? Pois
bem...
Resolvi curtir o momento e entrar no seu joguinho.
– Quando você me provar que mudou. Eu não gosto de caras maus.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– E entre quatro paredes? Você gosta dos malvados?
Desviei os olhos com um sorrisinho.
– Aí já é diferente.
Ele fez uma expressão maliciosa, íris diamantinas brilhando – enquanto
imaginava algumas situações.
Ponto para mim, me parabenizei pela ousadia.
Enquanto isso, Feron perguntou.
– E como eu faço para te provar que mudei? Eu realmente quero
experimentar a sua boca.
– Hummm – olhei ao redor, pensando. Era interessante ter esse poder nas
minhas mãos.
Observei a cafeteria lotada. Em uma das mesas, uma única garota se sentava,
sozinha e isolada – claramente sem amigos. A garota tinha pele negra e usava
óculos grandes demais. Seus lindos cachos não eram bem aproveitados – pois ela
os prendia em um coque severo. Possuía traços atraentes, mas não sabia como se
vestir, nem aproveitar sua beleza.
Era claramente uma nerd deslocada.
Eu havia notado a presença dessa garota apenas há alguns dias atrás.
Aparentemente, era uma novata. Como se vestia mal e se mostrava
desengonçada, não foi socialmente aceita; os alunos da São Valentim a
devorariam. Logo, a garota precisava de ajuda.
Apontei discretamente para ela.
– Está vendo aquela garota, bem ali? Ela está deslocada e precisa de amigos.
Vá até lá e convide-a para nossa mesa, e me prove que você não é mais um
elitista cruel.
Feron se levantou, expressão insolente.
– Apenas observe.
Então ele se afastou, indo em direção à mesa da garota. Meus amigos
perguntaram o que ele pretendia fazer, mas eu apenas dei de ombros.
– Ele nos mandou observar.
Feron parou na frente da garota, mãos nos bolsos. Puxou um assunto (e a
garota parecia chocada diante da situação). Todos ao redor começaram a
murmurar, interessados na cena.
Feron apontou para nossa mesa, falando mais alguma coisa para a garota. Ela
ergueu as sobrancelhas, pega de surpresa – mas em seguida concordou com a
cabeça, timidamente, e se levantou. Os dois vieram caminhando para a nossa
mesa.
A garota, embaraçada (e Feron, ostentando um sorrisinho de vitória).
Feron se sentou ao meu lado, apresentando a garota.
– Pessoal, essa é Micaela Falcão. Minha nova amiga.
Meus amigos se entreolharam, estranhando a atitude. Feron nunca convidou
um estranho para sua mesa antes.
Enquanto isso, Micaela sentou-se, soltando um aceno constrangido. “Oi.”
Ela era magra e baixinha – muito frágil, em todos os sentidos; parecia um
filhotinho perdido em meio à uma cova de leões. Fiquei com medo de a garota se
quebrar e dissolver bem na minha frente.
– Oi – cumprimentei, sorrindo simpaticamente. – Que bom que se sentou com
a gente. Sei como é difícil ser transferida para uma escola nova.
Vívian pendeu a cabeça para um lado.
– Espere aí... Micaela Falcão? Você é parente da Patrícia Falcão, a estilista?
– Uau – Antonela se empolgou. – A Patrícia dominou totalmente as
passarelas da São Paulo Fashion Week ano passado.
Micaela tocou os óculos, parecendo deslocada.
– Sou sim, ela é minha tia.
– Ah – todos na mesa concordaram, satisfeitos. Agora entendiam porque
Micaela estava na São Valentim. Era uma garotinha desengonçada? Sim – mas
advinha de família rica (então estava tudo explicado)!
Todavia, algo estranho aconteceu naquele exato momento. Um grito agudo
soou pela cafeteria, assustando a todos.
Numa mesa próxima a nós, uma garota tinha caído do banco. Ela se debatia
no chão, parecendo sofrer uma crise epilética; suas veias saltavam da pele, olhos
esbugalhados. Olhando mais atentamente, reconheci quem era:
Maria Ísis! A ruiva cujo nome estava na misteriosa lista do assassino.
– Ai, meu Deus! – sua amiga berrou, apavorada.
Feron se levantou, gritando com urgência.
– Alguém chame um médico!
Um homem grisalho passou correndo entre os alunos.
– Saiam da frente! – gritou. Usava um jaleco branco, e era um professor da
ala da medicina na faculdade, que comia na cafeteria no momento.
Ele virou o corpo de Maria Ísis, e a garota parou de se debater. Ela tinha os
olhos esbugalhados e, de sua boca, saía uma substância branca.
Maria Ísis ficou inerte, olhos abertos, sem respirar. O professor percebeu que
a garota estava em risco de vida. Nesse ínterim, mais professores da medicina
chegaram correndo, fazendo um círculo ao redor da garota.
O professor principal iniciou uma manobra de ressuscitação cardiopulmonar
em Maria Ísis, realizando compressões ininterruptas em seu peito. Também fez
respiração boca a boca.
O tempo foi passando... E passando... E Maria Ísis não respondia.
Depois de muitas tentativas, o médico desistiu; percebeu que mais nada
poderia ser feito. Abaixou a cabeça, arrasado.
– Sinto muito... Não adianta mais. Ela está morta.
Vários gritos e arfares se alastraram pelo lugar. Ah, meu Deus. Pessoas
começaram a chorar e gritar. Ao meu redor, meus amigos se encontravam
estagnados, em choque.
Naquele momento, Feron me abraçou, escondendo meu rosto em seu peito.
– Não olhe – sussurrou.
Isso não estava acontecendo.
De repente, meu celular vibrou em meu bolso. Afastei-me por um
momento de Feron e peguei o celular, abrindo a mensagem que recebera. Era um
número anônimo. Na mensagem, apenas se lia:
1 – Mia Santorini
2 – Pilar Monferrari
3 - Pietra de Bragança
4 – Maria Ísis Cavalcanti
5 – Nicole Pimenta

O assassino secreto agiu outra vez.









CAPÍTULO 8

Ao lado do corpo morto, o fantasma de Maria Ísis apareceu.
Ela continha uma luz translúcida e azulada, parecendo desnorteada. Olhava
para o seu corpo no chão, olhos arregalados – sem acreditar no que havia
acontecido.
– O que aconteceu comigo? – arfou. – O que aconteceu comigo?! – gritou em
desespero, mas ninguém podia ouvi-la. Aquilo partiu meu coração.
Mas como eu estava cercada de gente, não pude fazer contato com ela (ou
todos pensariam que eu era louca).
Além disso, naquele momento o diretor da São Valentim chegou correndo, e
nos mandou sair da cafeteria; ele já havia chamado as autoridades. As aulas,
obviamente, foram suspensas pelo resto do dia.
Feron me levou para a casa em seu carro. No caminho de volta para casa, o
garoto estranhou meu silêncio. Eu disse a ele que nunca tinha visto uma pessoa
morrer bem na minha frente, e por isso me encontrava abalada. Ele acreditou
(afinal, não possuía motivos para desconfiar de mim).
Mas essa não era a verdade. Não me encontrava em choque – eu via almas
penadas há anos, pelo amor de Deus.
Um corpo morto não era nada para mim.
No entanto, de uma coisa eu tinha certeza: a morte de Maria Ísis não fora
acidental (e isso me deixava aterrorizada). Todos pensavam que ela havia
morrido por meios naturais, mas eu tinha certeza do contrário. Aquilo era obra
do assassino secreto. Em breve, o laudo pericial mostraria a causa da morte – e
então eu teria minha resposta.
A mensagem perturbadora ainda pairava em minha mente. O assassino não
estava de brincadeira: duas garotas da lista já haviam morrido; só faltavam três, e
eu era uma delas. Perguntei-me se não era a hora de contar tudo para a Mia...
Talvez ela pudesse ajudar.
Não sabia muito bem por que ainda não havia contado o fato para minha
gêmea. Talvez porque não quisesse desesperá-la, antes de obter provas concretas.
Até então, a lista era apenas uma especulação; mas com a morte de Maria Ísis
não dava mais para ignorar o fato.
Quando Feron estacionou na frente da minha casa, eu desafivelei o cinto e ele
me puxou para seus braços. Dentro do seu abraço era quente e confortável.
Ele murmurou.
– Não fique espantada, ok? Pessoas morrem todos os dias... Pode acontecer
com qualquer um.
– Ok... Eu vou ficar bem.
Ele se afastou.
– Bom... Amanhã à noite eu te levarei à um lugar.
– Ai, meu Deus... Vindo de você, devo ficar com medo. E qual seria esse
lugar?
Ele ergueu as sobrancelhas, atrevido.
– Só indo para saber.
Bufei.
– Você é cheio de mistérios.
Ele soltou um riso lateral enigmático.
– Não viu nada ainda, Santorini.
Nós nos despedimos e eu observei o garoto partir. Entrei em casa, ainda
extasiada pelo cheiro dele – que penetrara em minha pele, inebriante. Nada no
mundo poderia se comparar.
Como Tomás e Stela ainda estavam no trabalho, fui direto para o meu quarto,
tomei um banho e relaxei na frente da Tv. Contudo, quando a noite caiu meu
celular apitou – mostrando uma mensagem de um número desconhecido.
Meu pulso acelerou – pois minha intuição avisou que era ele: o assassino. Eu
simplesmente sabia.
Abri a mensagem, e o texto revelou-se bem curto e direto. Você não é quem
diz ser. Estou de olho em você, falsa Santorini. Sua hora está chegando.
Engoli em seco, apavorada: o assassino descobriu meu segredo.
Por algum motivo misterioso, ele sabia que eu não era a verdadeira Mia
Santorini.



No outro dia, Feron me buscou em casa e fomos para a faculdade juntos.
Na hora do intervalo, nos sentamos na cafeteria. Vívian, Antonela, Feron e
eu conversávamos sobre a tragédia de ontem.
Mais uma vez, Feron convidara Micaela para nossa mesa. A garota se
sentava entre nós, parecendo tímida e deslocada. Eu a entendia um pouco – não
era mesmo fácil estar na presença dominadora de Feron; quando queria, ele
podia meter medo.
Uma vez que o garoto tinha dado seu aval, Vívian e Antonela resolveram
aceitar a menina em nosso grupo. Elas a enxergavam como um pequeno projeto:
uma garota desleixada e sem graça – que as duas transformariam em uma
abelha-rainha, assim como elas.
Vívian se sentia pessoalmente responsável por qualquer pessoa que não
tivesse senso de moda – já Antonela... Bem, ela só queria se divertir. Seria um
projeto empolgante.
Téo foi o último do grupo a chegar em nossa mesa. Thales não apareceu
(outra vez). O garoto sentou-se à minha frente, esbaforido.
– Vocês viram as últimas notícias?
– Não – Vívian rapidamente se interessou. – O que houve?
Téo se encontrava sério; não era uma novidade feliz.
– Parece que a Pietra de Bragança já está desaparecida há 72 horas. Ela saiu
da São Valentim três dias atrás e não voltou mais para a casa.
Antonela franziu o cenho.
– Que exagero... Ela deve estar em alguma rave ou viagem louca. Quem
nunca deu uma sumida e deixou os pais pirados?
Téo discordou.
– Não, não... Dessa vez parece que é sério. Nenhum amigo ou parente sabe do
paradeiro dela. Rastrearam o seu celular, e o aparelho foi encontrado em uma
vala perto da São Valentim. Já avisaram a polícia.
– Caramba – Vívian arfou. – Meu Deus... O que está acontecendo nessa
faculdade?
Choque me estagnou. Pietra de Bragança – eu me lembrava perfeitamente
dela. A garota negra de cabelos alisados até a cintura. Ela ocupava o terceiro
lugar da lista do assassino.
Meu Deus, agora eu estava mesmo com medo. E se eu estivesse certa, dentre
os nomes da lista, agora só faltavam Pilar e eu. Não teria jeito... Eu teria que ir à
polícia. Naquela noite, eu conversaria com Mia sobre isso.
– Você está chocada, Vi? – Téo perguntou para Vívian, expressão macabra. –
Espere até ouvir o resto das notícias... Ainda tem mais coisa sinistra por aí.
Acabei de saber: já saiu o resultado da perícia da morte da Maria Ísis. E
adivinhem? Não foi acidental! Ela morreu por envenenamento!
– O quê?! – Vívian e Antonela gritaram em coro.
Feron franziu o cenho, expressão sombria e séria.
– Conte a história direito, cara.
– Parece que o café que ela bebia estava intoxicado por uma substância
venenosa. Ninguém sabe ainda quem foi, mas a polícia está investigando.
– Meu Deus... – foi a primeira vez que Micaela se manifestou; parecia
estupefata. – Que bizarro. Não acredito que esse tipo de coisa acontece nesse
lugar.
Antonela estalou a língua.
– Você deve estar pensando que somos Neandertais, não é? Não se preocupe,
é só uma fase obscura da São Valentim. Em breve tudo voltará ao normal.
Mentalmente, acrescentei: essa fase só irá passar quando todas estivermos
mortas.
Ao final das aulas, Feron me levou para casa. Avisou que me buscaria às sete
e meia da noite, de modo a irmos ao tal lugar misterioso.
Eu já estava levemente apavorada, pois o garoto era imprevisível.
Quando voltássemos desse “encontro surpresa”, eu ligaria para Mia e contaria
tudo o que estava acontecendo em relação à lista – mas, por enquanto, iria pensar
em mim. Só por um momento.
Portanto tomei um banho e me arrumei. Escolhi um vestido azul-marinho: de
mangas compridas e acinturado. Embora fosse casual, ainda continha um toque
de elegância. Mia tinha mesmo bom gosto para moda (tenho que admitir).
Às sete e meia, Feron me esperava na porta da mansão. Pela primeira vez na
vida, ele usava roupas sociais (e encontrava-se estupidamente lindo). Era como
ver um tigre selvagem de terno.
Quando entrei no carro, fitei-o de cima à baixo.
– Ai, meu Deus, agora estou realmente apavorada. Você não vai me levar para
um casamento surpresa em um cartório, ou algo assim, vai?
Se fosse esse o caso, eu fugiria com aquele homem e ninguém mais nos veria
na vida. Porém Feron revirou os olhos.
– Sem chance, você não irá conseguir me amarrar tão fácil. Sou mais difícil
do que pareço, Santorini. Você não conhece a minha fama?
Claro que conhecia: Feron, o comandante inalcançável; só queria as
melhores, mas não pertencia a ninguém.
Resolvi provocá-lo – só porque eu adorava ver sua expressão de lascívia e
perversidade.
– Hum, entendo... Mas aposto que consigo te levar para a minha cama, se eu
quiser.
Ele deu partida no carro, fitando à frente – olhos reluzindo em malícia.
Murmurou.
– Não pede o que você não aguenta.
Então, o garoto acelerou e partimos para o destino misterioso. Tempos depois,
Feron estacionou na porta do seu próprio prédio, e eu franzi o cenho.
– Ué... Como assim?
Ele piscou enigmaticamente.
– Você já vai entender
Subimos até a cobertura onde o garoto morava. Quando Feron abriu a porta
de entrada da casa, deparei-me com uma cena assustadora: toda a família dele
reunida na sala. Era uma armadinha!
Quase tive um infarto no miocárdio por ali mesmo.
Elisa se sentava no sofá, junto aos pais de Feron; a irmã do garoto se levantou
com um pulo, parecendo em êxtase.
– Mia!
A mulher que concluí ser a mãe de Feron também se levantou, aproximando-
se.
Ela era loira, esbelta e tinha um sorriso afável. Seus olhos verde-diamantinos
eram exatamente iguais aos de Feron – como duas esmeraldas raríssimas.
– Mia, querida... Que prazer te conhecer. Esperávamos muito por sua chegada
– então ela simplesmente me enganchou em um abraço terno. – Sou a Clarisse,
muito prazer.
Surpreendida diante daquele afeto gratuito, retribuí o abraço, murmurando.
– Ah... O prazer é todo meu, Sra. Feron.
Ela me soltou, abanando o ar com uma mão.
– Ah, por favor! Me chame pelo nome.
O pai de Feron se posicionou ao lado da esposa. Era um homenzarrão, com
cabelos castanhos fartos e pele bronzeada – características idênticas às de Feron.
Ele estendeu uma mão para me cumprimentar.
– Olá, Mia! Sou o Erick, pai do Felipe... Que bom que você veio. Já
estávamos pensando que você era uma lenda.
Eu ri.
– Feron nunca trouxe ninguém aqui?
Elisa bufou.
– Jamais! Nossos pais não estavam acreditando que o Felipe finalmente
resolveu namorar alguém. Até eu mesma desconfiava da possibilidade. Mas,
aparentemente, você conseguiu operar um milagre.
Feron interviu, revirando os olhos; mesmo assim, parecia feliz.
– Ok, ok, parem de assustá-la com essa overdose de amor. Vamos jantar.
Enquanto todos íamos para a sala de jantar, sussurrei para ele.
– Jantar surpresa diretamente no covil dos Feron – estalei a língua. – Você é
mesmo louco.
Ele deu de ombros, inabalável.
– O amor é um campo de batalha, cada um usa as armas que tem. Acontece
que eu sou um ótimo jogador.
Durante o jantar, pude conhecer melhor os pais do garoto: Clarisse e Erick
Feron.
Os dois continham um porte refinado natural, muito gentis e educados. Eles
pareciam maravilhados pelo filho finalmente ter “sossegado” (palavras do seu
próprio pai). Pensavam que aquilo seria impossível – vez que Feron era um
libertino lendário.
Num momento do jantar, Elisa estalou a língua, bebendo seu suco
calmamente.
– Está domado, coitado.
Feron rosnou para ela.
– Calada, tampinha.
A irmã reagiu apenas mostrando a língua para ele, e todos riram.
Elisa devia ser a única pessoa no mundo que não tinha medo do garoto.
Mesmo tão nova, era descontraída e cheia de personalidade. Ela ria na cara do
perigo (e estava pouco se lixando para isso).
Comecei a adorá-la por isso.
Após o jantar, batemos papo por mais algum tempo. Apesar do momento
acolhedor, não me sentia completamente feliz. Em algum lugar do meu coração,
manifestou-se uma profunda tristeza, porque eu queria conhecer os pais do
homem que eu amava sendo eu mesma. Como Ana Lívia – e não Mia Santorini.
Queria que eles soubessem que, por trás daquela fachada luxuosa, existia
apenas uma garotinha do interior. Simples, sem conta bancária milionária, sem
família renomada.
Será que, se soubessem minha real identidade, eles me aceitariam? Me
considerariam suficiente para o seu filho?
Bom, conclui, desolada, nunca irei saber.
Depois de um tempo, os pais de Feron se recolheram, e Elisa também foi
cuidar da sua própria vida.
Já sozinhos, ele me fez uma pergunta inesperada: eu queria passar a noite
aqui, ou queria ir para casa? Te resta pouco tempo, Lívia, me relembrei.
Aproveite a companhia dele enquanto ainda pode. Então, passei por cima do
embaraço e decidi.
– Acho que irei dormir aqui.
Feron ficou surpreso, mas não contestou. Ergueu as sobrancelhas,
murmurando.
– Se você gosta de brincar com o perigo...
Ao chegarmos ao seu quarto, ele me deu uma de suas camisas para passar a
noite. Troquei-me no banheiro – e, quando saí, ele me esperava recostado na
parede ao lado da porta. Braços cruzados, expressão enigmática. Como as luzes
estavam apagadas, só conseguia enxergar suas íris diamantinas.
Ele encarou minhas pernas nuas.
– Interessante. Isso me faz lembrar de uma coisa... Você me desafiou,
Santorini, e agora quero o meu prêmio. Não pense que esqueci.
Vê-lo recostado ali, parecendo um predador perigoso nas sombras, fez partes
peculiares do meu corpo arderem.
– E o que você quer, Feron?
– Você me desafiou a convidar Micaela para nossa mesa, e foi o que fiz.
Agora... Quero o direito de poder beijar a sua boca.
Engoli em seco enquanto ele se aproximava. Minhas costas bateram contra a
parede; fiquei encurralada entre seus braços musculosos.
Ele aproximou o rosto do meu, e eu podia sentir seu hálito refrescante.
– Só preciso do seu sim.
Fui tomada por sensações divergentes, e o medo se confundia com o desejo.
Todavia... Beijar Felipe Feron era uma chance única na vida, e eu precisava
aproveitar. Portanto, passei por cima da covardia e confirmei.
– Você tem o meu sim.
Ele sorriu de soslaio, olhos ardendo em malícia.
– Finalmente. – E então sua boca capturou a minha.
Ele mordeu meu lábio inferior, e em seguida senti o gosto da sua língua –
quente e picante, assim como ele. Feron enganchou seus dedos na raiz do meu
cabelo e me apertou contra si. Eu podia sentir cada centímetro musculoso do seu
corpo contra o meu.
Ele libertou minha boca, apenas para descer ao meu pescoço; sentindo seus
beijos quentes e molhados em minha pele, comecei a arfar. Ele notou minha
reação, e sussurrou no meu ouvido.
– Quero te ensinar algumas coisas, você deixa?
Eu já estava fora de mim, portanto apenas acenei com a cabeça, permitindo.
Naquele momento, esqueci tudo o que me perturbava: Mia voltando, as mortes
misteriosas, meu futuro incerto... E apenas me entreguei ao momento.
Feron colocou uma mão em minha coxa, e seus dedos foram subindo por
baixo do vestido, encontrando certas áreas que –
Abri os olhos.
Ai, meu Deus!
“Cacete!”, soltei um grito, levando um susto.
Isso porque Pietra de Bragança – a garota desaparecida –, se encontrava bem
atrás de Feron (encarando-nos com olhos fantasmagóricos). Sua forma
translúcida reluzia no escuro do quarto, de forma bem macabra.
Ela era um fantasma.
Feron notou minha reação, afastando-se preocupado.
– O que foi? Fiz algo que não gostou?
Por trás de Feron, Pietra me encarava de forma hostil.
– Sei que consegue me ver. Precisamos conversar, Santorini.
Meu Deus, então Pietra estava realmente morta.
– Como você me encontrou? – ainda tentava me recuperar do choque.
Feron olhou para trás, estranhando.
– Com quem você está falando?
Droga, provavelmente eu estava parecendo uma louca, falando sozinha. Tinha
que inventar uma desculpa qualquer para resolver a situação.
– Hã... Eu preciso de um minuto no banheiro. Você pode me esperar?
Ele franziu o cenho, desconfiado.
– Tudo bem.
Entrei no banheiro às pressas e fechei a porta. O fantasma de Pietra
simplesmente atravessou a porta, parando na minha frente e cruzando os braços.
Parecia furiosa.
– Tenho umas continhas para acertar com você.
Mantive o tom de voz quase inaudível.
– Do que você está falando? Eu não tenho culpa da sua morte.
Pietra rosnou.
– Tem culpa por omissão! A Nicole me contou tudo: você via o fantasma
dela. Além disso, você provavelmente estava na São Valentim quando a Maria
Ísis morreu... Mas não fez nada, não ajudou!
Arfei, indignada.
– Eu estava cercada por pessoas na hora! Não dava para conversar com um
fantasma na cafeteria lotada... Eles me internariam! Além do mais, a Nicole não
apareceu para mim outra vez.
– Isso porque você não pensou nela, sua estúpida. Nós, fantasmas vagantes,
existimos no vácuo. Só aparecemos quando alguém nos convoca em
pensamento.
– Como você sabe disso?
– Eu acabei descobrindo nesses últimos dias. Quando minha família ou
amigos pensavam em mim, eu aparecia. Mas quando eles não estavam
pensando... Eu não me lembro de existir em lugar nenhum. Era como estar num
vácuo de tempo.
– Ai, meu Deus – tampei o rosto com as mãos, pois a culpa daquilo tinha sido
minha.
Eu pensei rapidamente em Pietra momentos antes (enquanto me convencia a
esquecer o que me perturbava e desfrutar do momento). Sem querer, convoquei o
fantasma da garota.
Ela continuou, ressentida.
– Acontece que você anda tão entretida com sua vidinha, que foi displicente
com todas nós. Nós estamos mortas, cacete! Isso é coisa séria. Não é hora de
você namorar – é hora de você nos ajudar! Nicole, Maria Ísis e eu só ficaremos
em paz quando o assassino por pego. Além do mais, as próximas da lista são
Pilar e você! Então sugiro que se concentre no que realmente importa, ao invés
de focar em seu maldito namorinho.
Eu pensei em revidar sua hostilidade, mas me calei no último minuto.
Pietra tinha razão – eu estava sendo negligente. Devia estar investigando o
caso, e não me concentrando em namorar.
Suspirei, cansada.
– Desculpe, Pietra... Você tem razão, eu errei com todas vocês. Suponho que
você não se lembre de nada da hora da sua morte, não é?
Agora que eu admitira minha parcela de culpa, ela parecia menos ressentida.
– Não... Eu estava voltando da faculdade à noite, após a reunião do comitê de
eventos da São Valentim, e alguém fechou o meu carro em uma rua vazia. Ele
vestia uma máscara preta que cobria o rosto inteiro, e me mandou sair do carro.
Estava armado. Depois disso, ele me deu um golpe na cabeça com o cano da
arma, e eu desmaiei... E então acordei assim: um fantasma. – Ela suspirou,
sentando-se no chão do banheiro. Desviou os olhos, segurando o choro. – E o
pior disso tudo, é que eu nem sei onde o meu corpo foi enterrado.
Eu me agachei e toquei o seu ombro, desolada pela situação da garota.
– Desculpe por tudo isso... Sinto muito por todo esse sofrimento. A partir de
hoje, irei tomar providências – prometi. – O assassino não irá sair impune, nós
pegaremos esse maldito.
Após mais algum tempo a consolando, três batidas soaram na porta.
Feron perguntou:
– Mia, você está bem?
Pietra fitou a porta com olhos tristes; depois, virou-se para mim.
– Parece que você tem companhia... Estou indo agora. Não se esqueça de nós.
– E então ela simplesmente sumiu, desmaterializando-se como poeira.
Suspirei, massageando as têmporas. Que situação horrível.
Dei uma satisfação para Feron.
– Já estou saindo... Só um minuto.
– Não tem pressa – ele garantiu. – Só queria ajudar caso estivesse se sentindo
mal. Tome o seu tempo.
Droga... Eu havia estragado completamente nosso momento. O garoto ficou
sem entender absolutamente nada (mas, mesmo assim, concedeu-me espaço).
No banheiro, lavei o rosto para me acalmar.
Entretanto, naquele momento meu celular apitou dentro da minha bolsa.
Como eu havia trocado de roupa no banheiro, minha bolsa ficou pendurada no
cabide da parede, junto ao vestido. Peguei o celular e abri a mensagem, e o
remetente era Mia.
Quando li o texto, arregalei os olhos em pavor – não, isso não!
O conteúdo era direto, pois Mia não gostava de enrolações.
O plano fugiu do controle, preciso voltar para casa mais cedo. Dentro de três
dias, pegue suas coisas e suma, porque estou voltando. O dinheiro estará na sua
conta.
Tampei a boca com uma mão, entrando em pânico. Três dias... Eu só tinha
mais três dias.
Meu coração se partiu no meio, em luto por tudo o que eu perderia. Stela e
Tomás, Vívian e Antonela... Todas as pessoas que deixaria para trás, todas as
pessoas que eu aprendi a amar...
E Feron. Meu Deus, Feron...
Só me restavam três dias ao lado dele. Depois disso, eu nunca mais veria o
garoto – e ele só existiria na minha memória. Feron foi minha experiência mais
extraordinária, a coisa mais preciosa que já conquistei na vida. E após três dias,
ele seria arrancado de mim.
A dor em meu peito era insuportável.
E sabe qual a pior parte? Não ter o direito a chorar (afinal, nada daquilo era
meu). No entanto, algumas lágrimas rebeldes escaparam dos meus olhos.
A verdade era que: quando entrei nesse plano maluco, nunca imaginei que me
apegaria à vida de Mia. Nunca imaginei viver uma história de amor, e ser
cativada por tantas pessoas. Jamais considerei que a partida seria tão dolorosa.
Mia tinha razão: o plano fugiu do controle.
Não sabia o que a motivara a voltar tão cedo (quase três semanas antes do
combinado) – mas o fato era inegável: eu teria que obedecê-la. Não havia mais o
que fazer.
Portanto, respirei fundo, secando as lágrimas e tomando uma decisão.
Eu viveria esses três últimos dias intensamente, e cravaria todas as memórias
preciosas dentro do meu coração. Guardei o celular na bolsa e saí do banheiro,
decidida.
Feron se encontrava deitado na cama, zapeando pelos canais de televisão,
sem interesse. Sentou-se ao me ver, preocupado.
– Está tudo bem?
Parei na sua frente, constrangida.
– Agora está... Desculpe, acho que tive uma pequena crise ansiosa. Mas já
consegui me acalmar.
Feron passou a mão pelos cabelos, parecendo culpado.
– Não, a culpa é minha. Não devia ter te pressionado, fui um idiota. Venha
dormir comigo, vamos apenas ficar abraçados... Não precisa fazer nada que não
queira.
Torci os dedos das mãos, nervosa. Coragem, Lívia, ordenei a mim mesma. Só
te restam três dias para ter esse homem.
– Na verdade – falei – eu quero sim. Você disse que queria me ensinar
algumas coisas... E eu quero aprender. Vamos começar de onde paramos.
Ele se levantou, expressão desconfiada.
– Tem certeza?
Me aproximei.
– Hoje, eu quero ter a melhor noite da minha vida. Faça com que eu me
lembre dela para sempre.
Ele estreitou os olhos.
– Isso é um desafio, Santorini?
Segurei um sorriso – lá estava: a faísca nas íris do garoto, que surgia toda vez
que ele era desfiado. Eu adorava isso.
Dei de ombros, incitando.
– Entenda como quiser.
Sentindo-se provocado, Feron me pegou no colo, e minhas pernas se
entrelaçaram em sua cintura. Sussurrou no meu ouvido.
– Farei com que se arrependa por ter me atiçado. – E então me jogou na
cama; apoiou os braços ao meu redor, deixando-me cativa, sem escapatória.
E o que aconteceu naquela noite, ninguém soube. Apenas nós dois.














CAPÍTULO 9

Quando acordei na manhã seguinte, Feron não estava no quarto.
O relógio de cabeceira marcava dez da manhã. Eu usava uma de suas camisas
e calça de moletom, vez que não tinha trazido comigo outras roupas.
Desci ao primeiro andar para procurá-lo. Na sala de jantar, Clarissa, a mãe de
Feron, tomava café da manhã junto à Elisa.
– Bom dia – cumprimentei, tímida.
A irmã do Feron abriu um imenso sorriso ao ver-me com as roupas do irmão.
– Parece que a noite foi agitada, hein!
Soltei um sorriso meio desesperado. Obrigada pelo constrangimento,
maninha.
Clarisse segurou uma risada.
– Elisa, sinceramente... Não deixe a Mia embaraçada. Venha tomar café da
manhã, querida, sente-se aqui ao meu lado.
Enquanto eu me sentava, Feron apareceu na sala de jantar. Usava roupas
esportivas e tinha o cabelo bagunçado – evidentemente, acabara de sair da
academia. Ele segurava dois pratos nas mãos, contendo ovos mexidos, pães e
queijos.
Abriu um sorriso ao me ver.
– Bom dia, linda – e entregou-me um dos pratos, com um beijo rápido na
boca.
O gosto dos seus lábios me fez reviver memórias interessantes da noite
passada – intensas e apimentadas. Feron era do tipo que cumpria sua palavra: o
garoto realmente me concedeu uma noite inesquecível. Meu corpo ainda
permanecia marcado com seus rastros e seu cheiro.
Elisa interferiu.
– Pelo amor de Deus! Nada de demonstrações melosas de afeto antes do meio
dia. Meu psicológico não está preparado.
Clarisse lia um jornal despreocupadamente.
– Não implique, Lis. Quando você namorar, irá entendê-los... Inclusive, por
que não arranja um namoradinho também?
Elisa fez uma careta.
– Deus me livre.
– Nem pensar – Feron grunhiu ao mesmo tempo.
Clarisse e eu rimos.
Hoje era sábado – mesmo assim, o pai do Feron saíra para resolver uma
questão na Construtora.
Após terminarmos o café, Feron tomou banho e passamos na minha casa; eu
tomei banho e troquei de roupa, enquanto ele me esperava.
Quando saí do banheiro, Feron se encontrava sentado em minha cama,
distraído assistindo as notícias internacionais na TV à cabo. Eu havia me trocado
no próprio banheiro, e escolhido calça jeans junto à uma das blusas elegantes da
Mia.
Sentei-me ao lado dele na cama.
– Tenho um pedido especial para você.
Ele desligou a TV, destinando-me total atenção.
– Diga.
– Quero que me conceda uma espécie de... Presente. Por três dias, me dê
memórias inesquecíveis. Vamos viver intensamente e fazer coisas
maravilhosas... Como se o mundo fosse acabar amanhã. O que acha?
– Acho uma ótima ideia, só não entendo suas motivações... Por que
justamente três dias? – fitou-me desconfiado. – Está indo à algum lugar?
Maldita perspicácia. Feron era inteligente demais.
– Não – menti, desconfortável. – Claro que não. Para onde eu iria sem você?
Ele franziu a testa.
– Bom mesmo.
O garoto fez exatamente o que eu pedi.
Saímos de casa e fomos direto para um parque de diversões. Feron me fez
andar na montanha-russa (quase deixei minhas tripas por lá mesmo), carrinho de
batida, e até no maldito carrossel eu tive que subir (enquanto ele tirava fotos
constrangedoras, para usar contra mim mais tarde).
Nós almoçamos no restaurante do parque, e ficamos o dia inteiro por lá.
Comemos algodão-doce, pipoca, tiramos fotos ridículas com personagens
animados e até entramos no trem-fantasma (no qual, por acaso, eu deixei a
minha dignidade).
Eu nunca me diverti tanto na vida.
À noite, nós fomos à uma das baladas mais chiques de São Paulo, e Feron
passou na frente de todos na fila. Pessoas murmuravam ao notar sua presença
(Feron era mesmo uma figura lendária na elite de São Paulo).
Eu nunca havia ido em uma boate antes, e foi uma experiência louca e
fascinante. Feron comprou um balde de champanhe, e nós dançamos e nos
beijamos a noite toda.
Dormimos juntos na minha casa naquela noite – felizes e meio bêbados.
No outro dia, era domingo.
Feron me perguntou se eu gostaria de burlar uma semana de aula e ir com
ele para as Ilhas Maldivas, pois sua casa lá estava vazia. Embora fosse uma
oferta tentadora, eu não tinha uma semana – só me restavam dois dias.
Mas eu não queria pensar nisso. Caso contrário, choraria na frente do garoto
(o que me colocaria numa posição difícil de explicar).
– Tudo bem – Feron deu ombros. – Nós temos a vida inteira para ir.
Concordei com um sorriso triste.
– Pois é.
No futuro, ele não iria comigo. Ele iria com a Mia.
Naquele dia, Feron me levou para um hotel luxuoso no centro de São Paulo.
Nós ficamos o dia inteiro nadando e brincando na piscina aquecida da cobertura
do Hotel; aproveitamos a sauna e a hidromassagem do quarto também.
Feron pediu praticamente todo o cardápio do serviço de quarto – e
terminamos bêbados de vinho (outra vez).
À noite, nós fomos à um cinema 3D, assistir à uma comédia. Eu nunca havia
ido no cinema antes (uma vez que Campina Bela não possuía nada moderno).
E então a segunda-feira chegou. Ou seja: o meu último dia. Ainda estávamos
no hotel, e acabei por acordar antes de Feron.
Fui ao banheiro e liguei para Antonela. Ela já estava acordada, e no
momento se encontrava voltando da academia. Ficamos quarenta minutos ao
telefone batendo papo, enquanto eu a contava sobre minhas aventuras dos
últimos dias.
Nós rimos e fofocamos – uma conversa maravilhosa. Aquela era a minha
despedida para ela, pois eu nunca mais veria a minha amiga. Tão fiel e corajosa
amiga. Desliguei a ligação com lágrimas nos olhos e o coração aquecido.
Obrigada por todo esse tempo ao meu lado, Antonela. Obrigada por ser a
amiga que eu nunca tive.
Em seguida, liguei para Vívian. Minha outra amiga ainda estava dormindo, e
reclamou bastante por eu tê-la acordado. Não obstante, eu rapidamente a envolvi
em uma conversa interessante e cheia de novidades. Então, ela parou de reclamar
e começou a gargalhar.
Contei para ela como Feron me obrigou a andar de montanha-russa, e como eu
acabei saindo do trem-fantasma com uma diarreia nervosa (então tivemos que
sair correndo para encontrar um banheiro. Não consegui encarar o Feron por
horas depois, enquanto ele ria da minha cara).
Vívian se encontrava fascinada pelas histórias do meu novo relacionamento
(ela era nossa torcedora oficial). A gentil e sonhadora Vívian. Desliguei a
ligação chorando baixinho.
Adeus, Vi, nunca me esquecerei de você.
Antonela e Vívian ficariam marcadas para sempre em meu coração. As
primeiras e melhores amigas que eu tive na vida.
Quando Feron acordou, ele me surpreendeu.
Naquele dia, o garoto planejara uma viagem de helicóptero. Nós fomos até o
heliporto, e Feron alugou um helicóptero; sobrevoamos toda São Paulo – uma
experiência inesquecível.
Ao final da tarde, nós andamos de bicicleta no lindo Parque Ibirapuera. Em
seguida, compramos comida e fizemos um piquenique por ali mesmo. Sentamo-
nos à sombra de uma grande árvore. O dia estava ensolarado, e após o
piquenique, deitamos na grama de mãos dadas, observando o sol se pôr.
Observei Feron ao meu lado, deitado tranquilamente. Ao final da tarde, os
raios de sol penetravam por entre as fendas da árvore, e batiam nos traços do
garoto – tornando-o lindo além da imaginação.
Eu cravei cada um de seus traços na memória, de modo a nunca mais
esquecê-los. A curva dos lábios, o maxilar musculoso, o verde-diamantino dos
olhos...
Guarde tudo isso no coração, Lívia. Essa será a sua memória mais preciosa.
Por mais que os anos se passassem, eu mantinha uma certeza: jamais
esqueceria Feron. Eu poderia até conhecer outros homens, e vir a me casar no
futuro... Todavia, esse garoto sempre seria o meu primeiro e mais inesquecível
amor.
Um homem único no mundo; e ninguém poderia se comparar.
Eis o fato que me feria mais: Feron não se lembraria de mim, pois Mia
supriria o meu lugar em seu coração. Seria como se eu nunca houvesse existido.
Deitado na grama ao meu lado, Feron comentou.
– Não sei se você sabe... Mas o meu aniversário será dentro de dez dias.
Antes de me mudar, todo ano eu fazia uma festa na minha casa para comemorar.
Na época, o evento sempre acabava com alguém bêbado demais (tendo que
correr ao hospital para tomar glicose na veia) – ele vincou a testa, relembrando.
– Éramos adolescentes estúpidos, e não sabíamos beber.
Eu ri.
– E sobre esse ano? Como quer comemorar?
– Bom, eu não estava pensando em comemorar. Afinal, não tinha motivos
para isso. Mas agora que tenho você ao meu lado, de repente me sinto compelido
a festejar. Eu estou feliz – ele me olhou de soslaio (daquela maneira intensa, que
só Feron dominava). – E quero mostrar isso para o resto do mundo. Mostrar para
todos a mulher que tenho ao meu lado.
Feron decidiu fazer uma festa – e, dessa vez, eu também seria a anfitriã. Ele
fazia questão disso. Deitada na grama com ele, eu virei o rosto para o outro lado;
uma lágrima caiu dos meus olhos, mas tentei esconder.
Feron percebeu e perguntou, perplexo.
– Você está chorando?
Estou chorando porque não estarei ao seu lado nesse momento.
Soltei um sorriso fraco.
– É só porque estou feliz.
E aquilo não era totalmente inverdade. Pela primeira vez, eu estava
experimentando a alegria.
Sempre fui uma pessoa fechada para a vida, e Feron me ensinou a ser feliz.
Eu guardaria para sempre aquele ensinamento comigo. Permitir-me viver o
momento; parar de lutar contra a vida – e, simplesmente, ser amada.
Ao lado dele, eu me tornei mais humana e mais gentil comigo mesma. O
garoto me ensinou grandes lições. Auto gentileza, autocompaixão. Não ser mais
minha própria inimiga, negando-me os prazeres da vida.
Naquela noite, pedi a ele que me levasse para casa. Feron não entendeu a
razão – contudo, não discutiu.
A verdade era que: eu precisava de um tempo sozinha com Tomás e Stela,
pois meu coração necessitava daquela despedida. Não podia negar que, em meu
íntimo, eu já os considerava os meus pais.
Ontem, Mia havia me mandado uma mensagem, avisando que chegaria
amanhã à noite (vez que seu voo tinha sido cancelado). Fiquei em êxtase – pois
aquilo que me concederia mais 24 horas em sua pele.
Quando Feron me deixou na porta de casa, eu o fiz um pedido: faltaríamos as
aulas outra vez amanhã. Comuniquei-o que, no outro dia de manhã, eu iria até a
sua casa. E então nós passaríamos o dia inteiro na cama, abraçados.
Em nosso último dia juntos, eu não queria nada radical. Ansiava apenas por
sua companhia; seus toques e seus olhares. Eu aproveitaria cada centímetro da
pele dele, e cravaria seu cheiro em minha memória. Embora o garoto não
desconfiasse, aquela seria a nossa despedida.
Quando Feron partiu, eu entrei na mansão, gritando:
– Pai, mãe! Estou em casa!
Mas a casa estava vazia. Nem mesmo os empregados se encontravam ali.
Àquela hora da noite, Tomás e Stela estariam sentados à mesa, jantando.
Vinquei a testa, estranhando suas ausências – e então fui até a sala de estar
procurá-los. Talvez estivessem comendo na frente da televisão.
Todavia, ao entrar na sala de estar, brequei de susto. Ah, não.
Só havia uma única pessoa na sala. Ela se sentava ao sofá, com as pernas
cruzadas e um sorrisinho de desdém.
Mia.
Encarou-me com zombaria.
– Olá, irmãzinha.



Fiquei perplexa.
– O que você está fazendo aqui?
Ela ergueu uma sobrancelha.
– É a minha casa, ora. Onde mais eu estaria?
– Mas... Você só iria voltar amanhã à noite – comecei a entrar em pânico.
Olhei para os lados. – E se alguém nos ver?
– Consegui vir hoje por meio de outra companhia área. Não tem ninguém
em casa, dispensei os empregados, e meus pais estão viajando.
Estranhei.
– O quê? Eles não me avisaram nada sobre isso. – Eu estava há dois dias fora
de casa, mas Tomás e Stela não sumiriam sem me comunicar.
Ela rolou os olhos, impaciente.
– Eles pensaram que você já sabia. Todo ano, nessa data, há uma conferência
dos Hotéis Santorini no Rio. Eu estou farta dessa informação. A verdadeira Mia
não precisaria de aviso prévio.
Isso significava que... Deus. Tentei manter o desespero sob controle.
– Você... Está voltando hoje? Tenho que ir embora?
Ela riu com ironia.
– Mas é claro, acha que tem lugar para nós duas aqui? Amanhã, irei
reassumir minha vida. O dinheiro já foi transferido para a sua conta. Pode juntar
suas coisas e ir embora.
Meu Deus... Eu não conseguiria me despedir da Stela e do Tomás. Meu
coração se partiu – nunca mais os veria novamente.
E Feron?
Não, não! O desespero sufocou minha garganta, porque eu precisava vê-lo
uma última vez! Ainda não estava pronta para dizer adeus, pois contava com o
dia de amanhã.
Vasculhei meu cérebro em busca de uma solução. Então, resolvi que voltaria
para a casa dele e passaria a noite lá. Pelo menos ainda teríamos mais algumas
horas.
– Você irá sair hoje? – perguntei. – Imagino que não, né? Deve estar cansada
da viagem, e ainda é segunda-feira.
Eu não poderia ir até Feron caso Mia fosse avistada na rua. Afinal, uma
pessoa só não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.
– Está louca? Claro que vou! Segunda-feira é o melhor dia do Nixx Club.
Minhas amigas da Monte Carlo já estão me esperando para a concentração.
Arfei – agora verdadeiramente apavorada.
– Mas... Mas fotos suas irão sair nas redes sociais de fofocas. Feron ficará
sabendo... Você não pode agir com ele do jeito que agia com Thales.
– E daí? Só porque estamos namorando, eu não posso sair sem ele? Estamos
no século dezenove, por acaso?
Comecei a massagear as têmporas, tentando me acalmar.
– Não é nada disso, Mia. Você pode ir para onde quiser sem ele: inclusive
uma boate. Mas é de bom tom avisá-lo; é uma questão de consideração, de
confiança. Se fosse o contrário, ele te avisaria. Diferente do Thales, o Feron leva
essa relação à sério.
– Se for esse o problema... – ela pegou o celular.
– Não! Esqueça – impedi. Não queria vê-la falando ao telefone com ele na
minha frente. Me quebraria o coração. – Eu vou embora, mas tenho um favor a
te pedir.
Ela cruzou os braços, esperando.
Torci os dedos das mãos, constrangida. Mia não era uma pessoa
compreensiva; não sabia como ela reagiria ao meu pedido. Não obstante,
precisava tentar.
– Daqui há dez dias, será o aniversário do Feron. E eu... Não, você será a
anfitriã junto a ele. É um momento muito importante para mim, mas creio que
não terá valor algum para você. Então... Deixe-me ir no seu lugar. Será a última
vez que me passarei por você, prometo. Depois disso, irei sumir.
Ela se levantou, olhos flamejando de ódio.
– Como é que é?
Engoli em seco.
– É o meu último pedido. Por favor.
Mia se aproximou, expressão cínica e ácida.
– Espere aí... Acho que você está confusa. Vamos deixar um fato bem claro
aqui, irmãzinha: essa vida não é sua. Feron não é o seu namorado, e a posição ao
lado dele não te pertence. Nunca pertenceu. Ficou claro? Você não está em
posição de pedir favores – você está cumprindo um acordo, e sendo muito bem
paga para isso. Seu papel aqui acabou. Pegue as suas coisas e suma da minha
casa. Só tem uma Mia Santorini nesse lugar – e ela não é você.
O ódio dela me surpreendeu. Então eu percebi: Mia estava sentindo que eu
queria roubar a sua vida.
O fato de eu ter conquistado Felipe Feron na pele dela, bem como cativado
suas amigas (e seus pais), a deixava furiosa. Enciumada. Mia não gostava de ser
vencida em nenhum aspecto.
Portanto, percebi que não adiantava implorar – ela não seria convencida.
Essa batalha já estava perdida. Embora arrasada, mantive a expressão neutra.
– É a sua palavra final?
– É sim, e o seu dinheiro já foi depositado. Suma.
– Ok – respondi secamente, correndo escada acima.
Quando cheguei ao segundo andar, as lágrimas já me dominaram. Chorando
em silêncio, eu juntei os poucos itens que pertenciam a mim em uma sacola. Eu
não trouxera quase nada: apenas uma carteira com alguns trocados, minha cédula
de identidade, e um celular antigo (o único que eu tinha) – com a tela levemente
trincada.
Desci correndo e dei de cara com Mia ao pé da escada. Ela segurava uma
mochila preta e surrada.
– Tome. Essa é a bolsa que estava com você quando te tirei da sua
cidadezinha medíocre.
Ela queria que eu devolvesse as roupas que vestia?
– Eu vou trocar de roupa... Espere um minuto.
– Não – me cortou. –Pode ficar com o que está usando. Não me interessa
mais mesmo.
– Ok. – Esperava que ela não notasse meus olhos vermelhos. Peguei a
mochila. – Então é isso... Tchau, Mia. Espero que viva bem.
Ela rolou os olhos.
– Tchau, irmãzinha, viva como quiser. Não estou nem aí.
Deus... Como alguém podia interpretar tão bem o papel de uma vaca cruel?
Fui embora sem olhar para trás. Saí da mansão e andei até o ponto de ônibus
mais próximo. Sentada lá, as lágrimas caíram. Meu coração não queria acreditar
– nunca mais verei o Feron. Nunca mais. Não... Eu ainda não estava pronta.
Peguei um ônibus para o centro da cidade, e fui até um banco. Quando abri
minha conta no caixa eletrônico, choquei-me: todo o dinheiro prometido estava
lá! Saquei uma pequena parcela e a guardei na carteira.
Eu não sabia o que fazer agora – mas só carregava uma certeza. Ainda não
estava pronta para ir embora de São Paulo; essa cidade abrigava todas as pessoas
que eu amava. Se eu fosse embora agora, ver Feron outra vez seria uma
realidade distante.
Portanto, me instalei no hotel mais barato que consegui encontrar pelas
redondezas. Evidentemente, passei a noite chorando, tentando encontrar uma
solução.
O que eu faço agora? Como eu posso ver o garoto outra vez?
Tinha que ter uma solução. Tinha que ter.
Se eu soubesse que nunca mais o veria, teria me despedido adequadamente.
Teria o beijado e abraçado por horas, apenas para cravar seu cheiro em minha
memória. Nossa despedida tinha sido arrancada de mim (e meu coração não
queria aceitar).
No outro dia, acordei de repente – tendo uma resposta.
Eu sabia o que fazer. Saí do hotel com minhas roupas usuais e fui até uma
loja chique no centro (dessas que Mia sempre comprava).
Quando entrei, a atendente me olhou com desprezo, pois eu vestia uma
camisa de flanela, jeans e tênis surrados. Quando eu estava vestida de Mia
Santorini, ninguém jamais me olhara assim.
– Não precisa me olhar assim, querida. Eu tenho dinheiro – quase rosnei.
Ela ficou constrangida, clareando a garganta.
– Hã, desculpe, senhorita. Não tive a intenção...
– Tudo bem, não vim até aqui fazer amizades – suspirei. – Apenas me mostre
o vestido mais lindo e caro que você tem nesse lugar.
Ao final do dia, eu havia comprado um vestido cor creme de cetim, que se
abria em uma fenda sensual nas costas. Também adquiri saltos altos de marca e
um par de brincos dourados brilhantes. Parte do dinheiro que ganhei ficou
naquelas lojas – mas eu não me arrependia.
A decisão tinha sido tomada.
Voltei para o hotel e apenas esperei os dias se passarem. Me aguarde,
irmãzinha.











ADENDO DE CAPÍTULO
SOB A VISÃO DE MIA

Mia achava maravilhoso estar de volta.
Por todo aquele tempo, ela tinha estado em Florianópolis. Enquanto isso, seu
detetive particular trabalhava.
Há quase um ano, Mia vinha recebendo mensagens anônimas com ameaças
de morte. O perseguidor sabia detalhes íntimos de sua vida – como a roupa que
havia vestido no dia, o cheiro do perfume, as mensagens que mandava para o
namorado (e até para outros homens). Chocante.
Era como se o criminoso estivesse em todos os lugares, observando-a.
Um ano e meio atrás, Mia pegou seu carro bêbada, saindo de uma balada. Na
madrugada, acabou atropelando e matando uma garota, fugindo sem prestar
socorro. Mia encontrou a família da garota (que morava na periferia de São
Paulo), e lhes encheu de dinheiro para que ficassem calados e não a
denunciassem.
A garota que morreu tinha uma péssima relação com os pais. Trabalhava num
posto de gasolina de madrugada, para pagar a estadia na pequena casinha na
periferia.
Felizmente para Mia, seus pais não passavam de dois interesseiros, e
aceitaram o dinheiro na hora.
Tomás e Stela nem sonhavam com aquilo.
Por algum motivo misterioso, o perseguidor também conhecia esse segredo
que Mia guardava. Logo, se ela o denunciasse à polícia, ele espalharia o segredo
(o que a causaria um problema sem precedentes). Ela seria indiciada, processada
e possivelmente presa.
Mia estava num beco sem saída.
Muito embora o perseguidor parecesse estar por perto, as mensagens
provinham de um número do Sul do país; seu detetive particular concluiu que o
número era de Florianópolis.
Por que Mia tinha um inimigo em Florianópolis? Ela não sabia dizer. A
garota já havia aprontado muito por lá – várias festas loucas, várias bocas
beijadas... Mia não se importava se os caras tinham ou não namoradas. Seria
uma namorada traída, querendo vingança?
O criminoso sempre foi bem claro: se sair de São Paulo, irá morrer.
Logo, no último ano Mia não pôde sair da cidade; ele a chantageava. Mia
sempre passava os feriados em Florianópolis. Então, por que o criminoso não
queria que ela retornasse para lá? Estava com medo de ser descoberto?
Contudo, Mia precisava ir até aquela cidade e descobrir a identidade de
quem a ameaçava. Ela planejava surpreender o perseguidor, aparecendo em sua
casa com vários seguranças contratados. Se possível, dispostos a dar uma surra e
apagar o cara (sem fazer perguntas).
Entretanto, Mia acreditava nas ameaças do criminoso – pois ele continha
informações demais sobre ela; informações íntimas. O cara não estava
brincando.
Então, a garota pensou em uma alternativa: e se houvesse, no mundo, alguém
exatamente igual a ela? Que pudesse estar em seu lugar, enquanto Mia saísse da
cidade para investigar?
Mia sabia que era adotada. Seus pais nunca esconderam o fato. Inclusive,
contaram que ela tinha uma irmã gêmea – mas que a mãe biológica das garotas
apenas aceitou que levassem uma das meninas.
Mia tinha que encontrar essa garota, pois seria o plano perfeito. Se sua gêmea
ficasse em seu lugar por um tempo, Mia poderia sair de São Paulo e ir atrás do
perseguidor. Ele seria investigado (sem saber que estava sendo enganado).
Por isso, Mia contratou um detetive particular para descobrir o paradeiro da
gêmea.
Não queria fazer perguntas aos pais, pois os deixaria desconfiados. Afinal, ela
nunca demonstrou interesse em saber de onde veio; estava pouco se lixando.
Semanas depois, Mia já sabia tudo sobre a irmã gêmea: Ana Lívia.
Segundo as fotos que seu detetive tirara, a garota era realmente sua cópia fiel.
Menos glamourosa e menos rica – é claro. Mas nada que um bom salão de
beleza não resolvesse.
Sem avisar ninguém, pegou um avião para Belo Horizonte para encontrar a
irmã. Félix, seu motorista, conhecia Mia há quase vinte anos. O homem
praticamente a criou, e conservava um carinho de pai por ela. Sempre a
acobertou em tudo que aprontou (desde à infância, até a adolescência. Afinal, a
garota nunca foi fácil).
Mia resolveu, então, contar toda a verdade a ele. Félix resolveu ajudar, sem
contar nada a ninguém (afinal, era uma questão de vida ou morte). Juntos, eles
partiram em busca de Ana Lívia.
O plano funcionou, e Ana Lívia tomou o seu lugar.
Mia foi até Florianópolis e contratou detetives para rastrear o número do
criminoso. Não obstante, o endereço rastreado levava à uma casa vazia, situada
em uma região pobre e quase desabitada de Florianópolis.
Ou seja: o perseguidor a enganou.
Porém, Mia não desistiu, e continuou procurando. Contratou os melhores
profissionais sigilosos – mas nada.
Antes de entregar seu celular à Lívia, Mia bloqueou o número do criminoso
(pois não queria que a gêmea soubesse de nada). Ela não o bloqueara antes
porque sabia que, ao descobrir sua identidade, precisava das mensagens como
provas para processá-lo.
Pouco mais de dois meses se passaram, e Mia estava em vias de desistir. Não
obstante, a resposta acabou chegando aos quarenta e cinco do segundo tempo.
Seu detetive particular finalmente conseguiu descobrir uma informação valiosa!
As mensagens não provinham do Sul – provinham da própria cidade de São
Paulo. O criminoso era um hacker profissional, e dissimulou o número para
confundi-la.
Quando seu detetive descobriu tal fato, as outras informações foram
chegando, uma atrás da outra. O detetive conseguiu destruir as barreiras digitais
criadas pelo hacker, e rastreou o dispositivo de onde advinham as mensagens.
Quando Mia descobriu de quem se tratava, se chocou. Pavor tomou conta
dela.
Como assim? Por que essa pessoa?
Ela estava perdendo tempo em Florianópolis. Mia precisava voltar para casa e
confrontar a pessoa, cara à cara. Então, mandou uma mensagem para Lívia,
avisando que o plano tinha fugido do controle e que estava voltando para a casa
(três semanas mais cedo).
Quando retornou, sua irmã não pareceu muito feliz.
Será que Lívia estava vivendo uma ilusão, acreditando que aquela vida
luxuosa pertencia a ela? Ha-ha. Mia deu um choque de realidade na irmãzinha,
para que ela sumisse sem deixar rastros.
Não obstante, a passagem de Lívia por sua vida não foi de todo ruim. Ela
conquistou Felipe Feron (sabe-se lá como), e agora Mia desfrutaria dessa
posição. Feron era o ápice da hierarquia social, e Mia reinaria junto a ele.
Ela massacraria os alunos da São Valentim, e ninguém poderia falar nada.
Mia soltou um sorrisinho cruel ao pensar nisso – ela adorava hierarquias. Além
do mais, Feron era um homem extremamente quente e perfeito em todos os
sentidos. Mia havia ganhado na loteria!
Quando Lívia foi embora de sua casa, Mia subiu para o seu quarto; Lívia
havia deixado tudo organizado. Argh, Mia pensou com deboche, nerd
esquisitona. Seu celular, sua carteira e a chave do seu carro foram deixados em
cima da escrivaninha. Mia pegou o celular e abriu suas mensagens.
Ergueu uma sobrancelha, estranhando. Lá estavam mensagens de Vívian e
Antonela: fotos engraçadas, piadas, desabafos íntimos...
Suas amigas nunca haviam mandado nada disso antes. Afinal, elas
mantinham uma relação de subordinação, não de amizade. Agora, as interações
pareciam... Casuais, amigáveis.
Mia bufou – quem elas pensavam que eram? Lívia acostumou mal suas
subordinadas. Mia teria que ensinar-lhes uma lição.
Além das outras mensagens, havia uma mensagem de Feron.
Vai querer ir à aula amanhã, linda?
Mia soltou um sorrisinho. Ela adoraria desfilar na São Valentim ao lado de
Feron, esfregando na cara de todos sua nova posição.
Logo, respondeu. É claro.
No outro dia, Mia acordou quase ao meio-dia. Stela entrou no seu quarto,
chamando-a.
– Ainda dormindo, filha?
Mia grunhiu, furiosa. Retirou a máscara protetora de olhos que usava para
dormir, e lançou um olhar raivoso para a mãe.
– O que eu disse sobre bater na porta antes de entrar?
Stela pareceu surpresa.
– Ah... Desculpe. Pensei que você não se importasse mais.
Mia quase rosnou. O que Lívia tinha aprontado na pele dela?
– Eu odeio ser acordada. Pare de invadir meu espaço – recolou a máscara e
voltou a dormir. – Que falta de noção... – murmurou, amarga.
Stela ficou perplexa.
– Nossa, tudo bem então, desculpe.
Argh. Lívia tinha dado espaço demais para seus pais.
Meia hora depois, Mia acordou e se arrumou para a São Valentim. Na hora
do almoço, Dolores, a ajudante da casa, havia cozinhado lasanha (e
simplesmente esquecido da sua salada).
Sentada na mesa de jantar junto aos pais, Mia massageou as têmporas,
irritada.
– Você sabe muito bem que eu só como carne branca e salada às terças-feiras,
Dolores. O que diabos é isso?
A cozinheira pareceu estupefata.
– Mas... Você disse outro dia mesmo que não faria mais dieta, e eu poderia
cozinhar o que quisesse...
Mia cortou-a, rude.
– Eu estava louca. Apenas prepare uma porcaria de salada para mim.
Dolores pareceu magoada, retirando-se.
– Sim, senhorita.
Tomás encarou a filha, indignado.
– Mas o que... O que você acabou de fazer? Não pode falar assim com ela,
ficou louca? Não foi isso que te ensinamos.
– Ela é apenas nossa empregada.
Stela ofegou, horrorizada.
– Ela merece respeito, como todo mundo! Isso foi horrível, peça
desculpas.
Mas o quê...? Lívia realmente os acostumou mal. Mia se levantou da mesa,
perdendo a paciência com todo aquele teatrinho de bons modos.
– Quer saber? Eu irei comer na faculdade, tchau.
Mia subiu para o seu quarto e esperou meia-hora. Quando chegou o
momento de partir para a São Valentim, pegou sua bolsa e a chave do seu carro.
Tomás e Stela tomavam café e conversavam na sala, preparando-se para voltar
ao trabalho. Mia passou por eles sem se despedir, ainda furiosa.
Enquanto descia as escadas para o jardim frontal da casa, colocou os óculos
escuros e...
Estagnou, mortificada.
Ergueu os óculos e se deparou com uma cena chocante: o carro de Felipe
Feron estacionado na porta de sua casa. O garoto se encontrava recostado no
carro, braços musculosos cruzados e sorrisinho enigmático. Emanava autoridade
e poder – do jeito que Mia gostava.
Uma visão única.
Mia ergueu uma sobrancelha, diabólica. Então o garoto estava mesmo
comendo na sua mão? Ha-ha. Isso seria interessante.
Mia se aproximou e Feron a abraçou, pegando-a de surpresa.
– Bom dia, amor – sussurrou contra seu cabelo.
Uau, Mia adorou os músculos ao seu redor, bem como o cheiro que provinha
do garoto. Aquilo seria melhor do que ela esperava...
– Bom dia, gato.
Feron olhou para ela, erguendo uma sobrancelha.
– Gato? Essa é nova.
Então Lívia nunca o chamara assim? Mia deu de ombros.
– Acostume-se. Agora será assim que eu irei te chamar.
Feron soltou uma risada aveludada.
– Tudo bem.
Eles entraram no carro e viajaram até a São Valentim.
Feron começou a falar sobre coisas que Mia não entendia – então ela apenas
concordou. Ao chegarem na faculdade, Feron estacionou e abriu a porta do carro
para ela. Em seguida, entrelaçou suas mãos e foram caminhando através do
estacionamento.
Ao redor, o estacionamento fervilhava de alunos. Mia adorou a atenção que
recebia – os olhares admirados, bem como os de inveja.
É isso aí, otários. Temos uma nova comandante nesse lugar, pensou com
malícia.
Feron caminhou diretamente para o gramado – onde Vívian e Antonela
sempre a esperavam. As duas batiam papo, animadas. Quando os viram, abriram
sorrisos sinceros.
Antonela cumprimentou. “E aí, casal.”
– E aí – Feron retribuiu, tranquilo.
Mia olhou para Vívian; vincou a testa.
– Onde está o meu café?
– Hã? – ela estranhou. – Ora... Você disse que eu não precisava mais fazer
isso.
O quê?! Vívian realmente tinha perdido a noção sobre quem mandava por
aqui. Mia bufou, indignada.
–Eu não sabia o que estava falando. Agora as ordens são outras, e tudo
voltou ao normal.
– Como assim? – Antonela ficou perplexa.
Mia a ignorou, falando diretamente com Vívian.
– Quero o café com leite e chantilly. Agora. E traga um sanduíche natural
também, eu não almocei.
Vívian pareceu mortificada – mas, mesmo assim se levantou e foi em direção
à cafeteria.
Antonela vincou a testa.
– Nossa, isso não foi legal.
Feron lançou um olhar estranho para Mia.
– O que foi isso? Você nunca falou assim com a Vívian.
Mia sentiu o julgamento dos dois. Rolou os olhos, amenizando a situação.
– Relaxem, esse é só o nosso ritual de todos os dias. Não é nada demais.
Argh, então Feron gostava das boazinhas? Falem sério. E o que era aquela
reação de Antonela? Ela nunca a contestou antes...
Aparentemente, Lívia deixou os seus rastros. Mas tudo bem – com o tempo,
Mia conseguiria apagá-los (e fazer com que voltassem à ordem de sempre).
O sinal tocou, e Feron se despediu, indo para o prédio de medicina. Vívian
chegou com o seu café.
– Aqui está – entregou, parecendo magoada. Mia segurou um suspiro: seria
difícil reverter essa insubordinação.
As três foram juntas para o prédio de Gestão, e Antonela e Vívian pareciam
estranhar o comportamento da amiga. Ela voltou a fazer piadinhas cruéis, e
forçava novatos a anotarem a matéria para ela. Não prestava atenção às aulas, e
passava o tempo todo trocando mensagens no celular.
Na hora do intervalo, as três se sentaram à mesa de sempre. Téo e Feron
chegaram logo em seguida, sentando-se com elas. Mia não deixou de notar a
ausência de Thales – humm, interessante. Mia teria que ter uma conversinha com
Thales mais tarde; afinal, ele sabia muitos dos seus segredinhos. Não era
vantajoso tê-lo como inimigo.
De repente, uma garota desengonçada – com cara de perdedora – sentou-se à
mesa deles, parecendo à vontade.
– Oi, gente.
– Oi, Micaela – todos cumprimentaram, parecendo tranquilos ao tê-la ali,
como se fosse algo normal.
O que era aquilo? Mia jamais deixaria uma perdedora sentar à sua mesa.
Ela encarou Micaela de cima à baixo, observando suas roupas ridículas e
óculos enormes. Falou:
– Sobre essa sua roupinha de hoje... Não acho que esteja adequada. Se você
irá se sentar conosco, precisa melhorar seu estilo. – Virou-se para Vívian e
Antonela. – Vocês não falaram isso para ela antes? Era obrigação de vocês.
Micaela piscou, atordoada.
– O quê?
Vívian e Antonela encaram a amiga, perplexas.
– Não estou entendendo... – Antonela comentou.
Téo olhou para Mia, incomodado.
– Qual a relevância disso, Mia? Deixe a Micaela se vestir como quiser... O
que tem demais? Você nunca opinou sobre isso.
Feron fitou a garota, parecendo atônito e aborrecido.
– Isso foi rude, Mia.
Mia soltou o ar, exasperada.
Que porcaria de reação era aquela? Seus amigos estavam acostumados com
seu jeito rude – aquilo era normal, e eles nunca contestaram. Pelo contrário: até
achavam engraçadas suas tiradas ácidas. Que tipo de lavagem cerebral Lívia
havia feito com eles?
Mia recebia olhares reprovadores de todos na mesa.
Percebendo que estava em desvantagem, resolveu se render. Soltou um
sorrisinho doce e falso.
– Desculpem, gente, eu acho que estou na TPM. Estou sendo uma vaca com
todo mundo sem pensar. A culpa é dos hormônios, foi mal.
Embora ainda parecessem chateados, seus amigos aceitaram as desculpas – e
logo mudaram de assunto.
Contudo, Feron ainda a encarava de soslaio. Uma dúvida surgia em suas íris
verdes – o garoto era muito perceptivo e inteligente.
Então Mia rapidamente percebeu: não seria fácil enganá-lo; era melhor
começar a tomar cuidado. Ela soltou um sorriso meigo para ele, pensando:
preciso me esforçar mais para enganar esse cara. Ele não é idiota.
E, após um tempo, Feron também ergueu o canto dos lábios para ela,
retribuindo o sorriso. Mas o sorriso não chegou aos olhos; era um gesto forçado.
Pelo resto do intervalo, Feron comeu em silêncio. Suas íris encaravam a
mesa, enquanto ele se perdia em pensamentos. De repente, Mia ficou com medo.
O que se passava naquela mente perspicaz e misteriosa?
Feron não chegara ao posto de comandante da São Valentim à toa. Ele era
um estrategista nato, e sabia reconhecer quando estava sendo enganado.
– Está tudo bem? – Mia perguntou baixinho, apenas para ele.
– Está sim – Feron respondeu, face sombria. E então voltou a desviar os
olhos, pensando. Estava óbvio: Feron notara que havia algo errado (embora ele
não tivesse ideia, exatamente, do quê).
Mia percebeu que Feron estava desconfiado. E aquilo era muito, muito
perigoso para ela.



Nove dias se passaram.
Na próxima noite, o aniversário de Feron aconteceria.
Mia estava animada para conhecer a família Feron, bem como ser a anfitriã da
festa. Aquele era uma honraria inominável, pois os Feron eram o ápice da elite
paulista.
Mia já sabia a identidade do perseguidor. Ela foi procurar a pessoa em sua
casa por diversas vezes – contudo, a pessoa havia desaparecido. Mia pensou
amargamente: uma hora você terá que aparecer, maldito. E então nós
acertaremos nossas contas.
Os últimos dias foram... Difíceis.
Mia podia notar os rastros de Lívia. A garota sabia que sua gêmea era sincera
e... Argh, gentil. Completamente o oposto de Mia. Seus amigos sentiram a
mudança de comportamento; e, agora, eles não toleravam mais suas maldades –
o que irritava demais a garota.
Mas, para não criar desconfiança, ela resolveu amenizar sua crueldade
inerente. Mesmo assim, não conseguia deixar de soltar um ou outro comentário
perverso. Os amigos estranhavam, sem saber o que fazer. Era como se eles, no
fundo, não gostassem mais da personalidade de Mia.
Feron também estava sendo um problema. Naquela semana, eles saíram para
jantar e para ir ao cinema. Entretanto, Feron evitava qualquer contato íntimo com
ela. Mia se oferecia, mas o garoto sempre inventava uma desculpa qualquer.
Mia tinha certeza de que ele não era homossexual ou assexuado. Então, por
quê? Eles eram namorados, afinal. Feron estava evitando até mesmo beijá-la;
contudo, a enchia de perguntas.
Era como se ele estivesse... Sondando o território.
Mia não era imbecil: sabia que estava sendo testada; então, tentou ser o mais
dócil que conseguia. Ela se desdobrou para ser mais compassiva e gentil, mas
por vezes deslizava.
Era uma quinta-feira à noite quando Feron a deixou na porta de casa. Eles
tinham ido à um restaurante francês, sugerido pela própria Mia. Foram
momentos sofríveis – pois Feron só a concedia respostas monossilábicas; então,
Mia teve que falar sozinha a noite inteira.
Antes da garota sair do carro, Feron segurou seu pulso.
– Ei... Não vá ainda.
Ora, ora, Mia pensou, diabólica. Será que finalmente, nessa noite, ele
cederia às suas investidas? Mia odiava estar sendo forçada à castidade
(principalmente quando tinha um homem daquele porte ao lado).
Feron continuou.
– Estava pensando... Você não quer dormir na minha casa essa noite? Eu
comprei um pouco de êxtase. Podemos usar juntos, como da última vez. Você
adorou, lembra-se? Foi ótimo.
Ha-ha. Então sua gêmea nerd sabia se divertir? Que inesperado! Mia
concordou na hora.
– Claro, da última vez foi maravilhoso. Vamos repetir a dose.
A expressão de Feron ficou sombria; ele soltou seu pulso, o maxilar se
contraindo. Estreitou os olhos, encarando-a de forma penetrante.
– Quem é você?
Mas o quê...
Mia arregalou os olhos. Puta merda.
– C-como assim? Que tipo de pergunta é essa?
Aquilo tinha sido uma armadilha! Feron cruzou os braços.
– Eu não uso drogas, Mia, e o que eu acabei de descrever nunca aconteceu.
Então, por que você acabou de concordar comigo? A Mia que eu conheço jamais
usaria êxtase por livre vontade. Parece que... Eu não sei mais quem você é.
Desgraçado perspicaz.
Mia colocou sua máscara inocente; ela era uma atriz profissional.
– Eu só concordei porque não queria te magoar. Achei que tivesse esquecido
sobre esse nosso momento. Se você soubesse que eu não me lembrava, poderia
ficar chateado... Só quis evitar confusão.
Feron franziu o cenho.
– Você tem... Transtorno bipolar?
Mia piscou.
– Como é que é?
– Às vezes, você parece outra pessoa.
Mia gargalhou.
– Fale sério, Feron! Que conversa absurda... Eu mudei, ok? Sou assim
mesmo: uma mulher de fases. Às vezes santinha, às vezes malvada. E qual o
problema disso? Só faz as coisas ficarem mais interessantes... Pare de pensar
besteira, ok?
Ele fitou à frente, silencioso. Seus olhos pareciam obscuros e confusos –
como se ele não soubesse mais o que pensar.
– Ok – concordou secamente. Não havia felicidade no tom.
Mia o pegou de surpresa, lascando um beijo em sua boca; Feron permitiu ser
beijando – mas não correspondeu. Mia suspirou, saindo do carro. Garoto
complicado.
– Tchau, te vejo amanhã.
– Tchau – ele respondeu secamente, dando partida no carro e indo embora.
Mia exalou, aliviada – aquela tinha sido por pouco. Feron estava obviamente
sentindo falta de Lívia.
Não obstante, a verdade sobre a troca de gêmeas era surreal demais (e Feron
jamais conseguiria chegar à essa conclusão sozinho). No final das contas, ele
deduziria que estava, simplesmente, paranoico.
Com o tempo, ele se acostumaria à nova personalidade de Mia. Então, ela
tomou uma decisão: daria um jeito de reconquistá-lo. O garoto era uma peça
valiosa demais para ser perdida.
Ele era simplesmente o melhor, e Mia tinha que mantê-lo.
Me aguarde, Feron – Mia pensou. Eu vou te ensinar a gostar das malvadas.




















CAPÍTULO 10

Os dias se passaram lentamente.
Todavia, finalmente a sexta-feira chegou: dia do aniversário do Feron. Eu
sabia que sua festa começaria às sete e meia da noite, em sua cobertura.
Dessa vez, Feron não convidou apenas jovens. Seria uma festa mais formal e
luxuosa. Seus pais estariam presentes, e eu sabia que ele também convidara Stela
e Tomás (o que me rendeu um sorriso de emoção).
Ao final da tarde, eu me aprontei. Fui à um salão de beleza, arrumando o
cabelo e a maquiagem. Voltei para o hotel, e coloquei o vestido – bem como os
brincos e os sapatos novos.
Com o coração disparado, peguei um táxi e fui até a cobertura de Feron. Isso
é loucura, Lívia!, minha razão gritava.
Mas corações não entendem a linguagem da razão. Eles falam suas próprias
línguas.
Quando cheguei à porta do prédio de Feron, ainda eram sete horas da noite.
Com certeza, Mia ainda não teria chegado.
Uma vez que minha gêmea se recusou a me dar o que eu precisava, eu a
forçaria a fazê-lo.
Mandei uma mensagem para ela: eu já estou na casa de Feron, então não
deixe seus pais te verem em casa. Por essa noite, deixe-me ser você. Não
apareça, senão seremos descobertas.
Eu sabia que o ato era uma loucura. No entanto, eu precisava viver aquele
acontecimento ao lado de Feron; precisava daquela despedida, pois somente
assim o meu coração aceitaria a verdade: aquela história havia acabado. Eu não
queria tomar a vida de Mia – só queria poder viver aquele último momento.
Mia respondeu minutos depois. Espere aí... Você fez o quê?!, eu quase podia
sentir sua indignação e ódio escorrendo através das palavras.
Acontece que: eu sempre vivi minha vida sob regras, e nunca me permiti
qualquer loucura. Entrar na festa de Feron como Mia seria uma insanidade –
mas, para ver o garoto outra vez, eu faria.
Minha razão dizia não, mas meu coração gritava: sim! Só por uma noite, só
por uma vez. Nós merecemos isso.
Se eu contasse com a boa vontade de Mia, jamais veria o garoto novamente.
Então, me convenci de que, se eu pudesse viver aquele momento ao lado dele,
conseguiria ir embora em paz.
Estar ao lado de Feron em sua festa não significava nada Mia, pois ela não o
amava – porém, significava tudo para mim. Depois disso, eu sumiria de vez.
Respondi a mensagem de Mia. Eu preciso dessa despedida, Mia. Eu amo o
Feron. Depois disso, sumirei da sua vida.
Ela me ligou na hora; eu atendi, e sua voz berrou do outro lado da linha.
– Sua vadia louca! Como você ousa fazer...
Cortei-a no meio da frase.
– Sinto muito, irmãzinha, eu preciso disso mais do que você. – E então
desliguei na cara dela; retirei a bateria do celular e coloquei dentro da bolsa, de
modo a ela não poder me contatar mais.
Mia ficou sem opções: se ela aparecesse, nós duas seríamos descobertas.
Naquele momento exato, ela deveria estar furiosa (arremessando objetos por
todo o seu quarto).
O porteiro do prédio de Feron já me conhecia, por isso consegui subir sem
problemas. Cheguei até a cobertura e bati a campainha; uma ajudante da casa
atendeu a porta. Eu já a havia conhecido dias atrás.
– Ah... Senhorita Mia! Chegou cedo... Pode entrar, é claro. O Felipe está no
quarto dele.
Sorri docemente. Deus me ajude.
– Obrigada, Regina – e então entrei na casa, subindo as escadarias
diretamente para o quarto de Feron. Bati na porta três vezes e entrei. Feron
parecia ter acabado de sair do banho, fios do cabelo ainda molhados.
Encontrava-se na frente do espelho, abotoando a camisa social preta que usaria.
Meu coração se emocionou diante daquela visão – lá estava o meu homem.
Ele me viu através do reflexo do espelho, parecendo surpreso.
– Mia?
Eu corri até ele e o abracei por trás. Enganchei meus braços em seu torso,
desesperada, sentindo o cheio de pimenta e oceano (pelo qual o meu coração
tanto ansiava).
Só quem já havia experimentado como era estar apaixonado, saberia
reconhecer a sensação; naquele momento, eu segurava o meu mundo inteiro nos
braços. O sentimento pelo garoto transbordava por todo o meu corpo, cegando
minha razão.
Apenas uma última vez. Depois disso, irei embora.
Não obstante, Feron parecia reticente. Não sabia muito bem como agir;
hesitou em retribuir meu abraço, fitando-me de cima com desconfiança.
Bom... Talvez ele e Mia não estivessem vivendo o paraíso, afinal.
Ainda abraçada ao seu corpo, fitei-o nos olhos. Queria passar uma mensagem
sem palavras, torcendo para que, em seu coração, ele entendesse.
– Sou eu, de verdade. Eu estou aqui.
Uma frase que poderia ser interpretada de diversas maneiras.
Fisicamente, Mia e eu éramos completamente idênticas. Nada nos
diferenciava (nem uma pinta, uma marca de nascença, uma cicatriz... Nada).
Contudo, guardávamos peculiaridades ínfimas. Mínimas diferenças – como o
cheiro, o tom de voz, a forma de sorrir.... Características únicas. Será que Feron
saberia diferir?
O garoto vincou a testa. Em suas íris inteligentes, eu podia notar: Feron sabia
que havia algo errado, só não conseguia explicar o que era.
Desvencilhou-se do meu abraço, virando-se de frente para mim.
– Tem alguma coisa que você não está me contando, Mia? – perguntou
cautelosamente.
Eu neguei com a cabeça, destruída – contudo, uma lágrima rebelde escapou do
meu olho, fazendo o garoto ficar consternado.
Naquele momento, algum muro que ele construíra ao redor do seu coração
pareceu cair. Ele segurou meu rosto com as duas mãos; a voz, urgente.
– Pode me contar, amor, eu estou aqui por você. Seja qual for o problema, eu
irei te ajudar. Você está... Doente?
Ele achava que eu tinha transtorno bipolar? Ou alguma outra patologia
mental? Talvez o garoto estivesse tentando buscar uma explicação racional para
minha mudança de comportamento. Afinal, Mia e eu agíamos de forma muito
diferentes.
Fechei os olhos.
– Não dá para contar, Feron.
– Eu não irei te julgar... Seja o que for, enfrentaremos isso juntos.
Suspirei, abrindo as pálpebras para encará-lo.
– Um dia você irá saber. Mas só por essa noite, confie em mim. Apenas...
Fique ao meu lado. – Permita-me despedir-me de você de verdade. É só o que eu
preciso. – Pode fazer isso por mim?
Ele hesitou, vincando a testa ao me encarar. Depois de um tempo, suspirou,
rendendo-se.
– Eu não sei o que você está enfrentando sozinha, mas te darei o que precisa.
Por você, qualquer coisa. Amor é confiança. – E retribuiu o meu abraço.
Aconcheguei-me em seu peito, maravilhada diante de seu calor e aroma.
– Obrigada – murmurei, aliviada.
Por uma noite, ele seria meu; então eu poderia sobreviver aos dias tenebrosos
que me aguardavam. Dias vazios de solidão.
Nós nos beijamos lentamente, e eu não queria me afastar. No entanto, sua
mãe bateu na porta, interrompendo o momento.
– Felipe? Já está quase na hora, temos que descer.
Juntos, nós descemos. A família toda estava sentada na sala, enquanto
funcionários contratados preparavam o buffet e as bebidas. Eu aproveitava para
conversar com os pais de Feron – bem como com a cativante Elisa. Afinal,
aquela seria a última vez que eu os veria.
Às sete e meia da noite, os primeiros convidados começaram a chegar.
Primeiramente, chegaram à casa os amigos dos pais de Feron – sempre mais
pontuais que os jovens. Às oito e quinze, quase todo mundo havia chegado. Stela
e Tomás adentraram pela sala, e meu coração se emocionou por vê-los outra vez.
– Pai, mãe! – chamei-os.
Eles abriram um sorriso e vieram em minha direção. Abracei Stela com
ansiedade, e ela estranhou.
– Ora, ora. Um ataque de amor inesperado?
Tomás concluiu que eu viera mais cedo por também ser a anfitriã. Não deixei
de abraçá-lo profundamente, despedindo-me em silêncio. Ao meu lado, Feron
encarava minha atitude com desconfiança.
Quinze minutos depois, Vívian e Antonela chegaram juntas. Quando as vi
passar pela porta de entrada, quase desmoronei. Acenei e elas me viram,
caminhando em minha direção. Quando estavam perto o suficiente, enganchei as
duas em um abraço triplo, assustando-as.
– Uou... O que é isso? – Vívian riu.
– Apenas saudade – sorri com tristeza, libertando-as.
Antonela analisou meu vestido e franziu o cenho.
– Ué... Você não viria com um vestido vermelho? Aquele que compramos
anteontem no shopping?
Dei de ombros, fingindo.
– Mudança de planos de última hora.
Tempos depois, Téo chegou acompanhado de alguns outros amigos.
A imensa sala já estava lotada. Garçons andavam por todos os lados,
distribuindo petiscos e taças de champanhe. Stela e Tomás sentavam-se em um
dos sofás, conversando animadamente com os pais de Feron.
Vívian, Antonela, Téo, Feron e eu conversávamos em um grupo – bebendo
champanhe e rindo. Vez ou outra, alguém parava Feron para parabenizá-lo, e o
garoto fazia questão de me apresentar.
– Essa é Mia Santorini, minha namorada.
Os jovens convidados (principalmente os de outras faculdades de elite), me
olhavam com admiração. Então essa é a garota que domou Felipe Feron.
A noite estava perfeita. Meus amigos estavam ao meu redor, rindo e
conversando – totalmente em paz. Stela e Tomás interagiam com os pais de
Feron (e, pelas risadas, pareciam estar se dando bem).
Ao meu lado, Feron entrelaçava seus dedos nos meus, uma companhia
constante e fiel. Ele nunca me deixava sozinha. Vez ou outra, me lançava olhares
enigmáticos – como se estivesse tentando me ler.
– Você está feliz? – perguntei-o à certa altura da noite. – Sua festa está sendo
um sucesso, afinal.
– Nossa festa. Esse é o nosso mundo agora.
Sorri carinhosamente.
Obrigada por me conceder essa lembrança.
Eram dez horas da noite, e todos os convidados já haviam chegado.
Estávamos no ápice da festa. Música ótima, bebida abundante e lugar
fervilhante. Naquele momento, uma pessoa bateu a campainha – e Regina, a
ajudante da casa, foi atender.
De longe, eu conseguia avistar o convidado atrasado. Regina abriu a porta –
dando de cara com uma garota parada na soleira. Vestido vermelho e batom cor
de sangue; sorrisinho de vingança e olhar diabólico.
Ah, não. Meu coração quase parou.
Mia.
Dentre o grupo que me rodeava, Vívian foi a primeira a vê-la. Arregalou os
olhos.
– Puta merda – guinchou.
Antonela se engasgou com a bebida que tomava, e Téo soltou um xingamento,
perplexo.
No sofá ao longe, Stela arfou, completamente chocada. Tomás se levantou de
rompante, olhos arregalados.
Naquele momento, Feron seguiu os olhares de todos, encarando a porta. Ao
ver a verdadeira Mia, paralisou-se, perplexo. A taça de champanhe caiu de sua
mão, quebrando-se em mil pedaços no chão.
– Mas o quê...?
Mia sorriu com malícia.
– Olá, amigos.



Um silêncio perplexo tomou conta da sala.
Feron olhava de mim para Mia, completamente assombrado.
– Não pode ser.
Mia adentrou pela sala, movida por puro ódio; não acreditei que ela estivesse
realmente fazendo aquilo. Insanidade!
– Oi, irmãzinha. Achou que eu ficaria em casa, assistindo você se apossar da
minha vida? – Mia perguntou com amargura e ironia. – Eu sou mais louca do
que você pensa.
Stela se levantou, estupefata. Falou com cuidado.
– Você é... Ana Lívia?
Mia ergueu uma sobrancelha para a mãe, rindo com escárnio.
– Ah, não, mamãezinha. Sou eu mesma: sua filha – então apontou para mim.
– Essa é a Ana Lívia. Ela tem se passado por mim nesses últimos três meses e
enganado todos vocês. Ela não é a verdadeira Mia Santorini!
Todos na sala arfaram.
Tomás e Stela olharam para mim completamente atordoados – e indignados.
Vívian e Antonela piscavam, encarando-me sem acreditar.
Feron encarava Mia, petrificado. Enquanto isso, murmurei para Mia – tomada
por pavor.
– Por que você está fazendo isso?
Ela cruzou os braços, debochada.
– Eu prefiro contar a verdade do que te conceder o gosto da vitória. Você não
terá nada do que é meu. Decidiu me trair? Muito bem, então... Resolvi te
mostrar com quem você está mexendo. Você não me conhece, irmãzinha...
Nunca me desafie.
Meu Deus, Mia era louca.
Tomás ergueu as palmas, consternado.
– Esperem aí... O que diabos está acontecendo aqui?
Mia revirou os olhos.
– Eu paguei minha irmãzinha para se passar por mim por um tempo. A sonsa
conseguiu enganar todos vocês... O que me faz duvidar seriamente da
capacidade mental de cada um aqui – vincou a testa. – Mas tudo bem, irei
perdoá-los. Eu fiz o que tinha que fazer, e tive um bom motivo. Em casa
explicarei tudo para vocês.
Feron segurou o meu pulso. Seus olhos diamantinos perfuravam-me, intensos
e perturbados. Uma tempestade se passava lá dentro.
– Me fale que isso não é verdade. Me fale que você não me enganou.
Engoli em seco, segurando as lágrimas.
– Sinto muito.
Ele exalou, soltando-me. Encarava-me com indignação; a expressão traída.
Mia me fitou com desdém.
– Suma, garota. Seu lugar não é aqui.
Os olhares julgadores cravavam-se em mim por todos os lados do salão – e,
de repente, me senti humilhada. Eu não pertencia a esse lugar seleto e elitista (e
eles sabiam disso). Eu era uma intrusa; um plebeia que ousara se infiltrar em
meio à príncipes modernos.
Olhei para Tomás e Stela, falando com sinceridade.
– Me desculpem, nunca quis ferir vocês – e então fitei o garoto ao meu lado;
meu coração se quebrando. – Sinto muito por tudo. Nunca quis que terminasse
assim.
Segurando as lágrimas, saí correndo da casa dos Ferons – deixando
murmúrios chocados para trás. Cheguei ao hall e apertei o botão do elevador.
Devido ao fluxo intenso de pessoas que chegaram, o elevador se encontrava
exatamente no último andar. A porta se abriu e eu entrei às pressas, apertando o
botão para descer.
Meu pulso estava disparado – preciso sair daqui, pensava freneticamente.
Foi muito triste ver todas as pessoas que eu amava, encarando-me com horror.
Como se eu realmente fosse uma intrusa entre eles.
Contudo, o elevador não conseguiu se fechar. Uma mão segurou a porta, e
Feron apareceu na minha frente. Olhos molhados (por lágrimas reprimidas de
ódio) e enfurecidos.
– Já vai embora, Ana Lívia? – rosnou. Naquele momento, eu vi o homem
perigoso (que todos sempre diziam que ele era). – Não vai ter a dignidade de
ficar, e encarar as pessoas que você enganou?
Encarar a mim, era o que ele queria dizer.
Fechei os olhos, implorando para os céus para que ele me deixasse ir. Aquele
momento horrível tinha que acabar.
– Eu estou errada, Feron, não tenho como me desculpar. Vou sumir da sua
vida, você nunca mais terá que me ver.
Ele exalou, indignado.
– Sumir da minha vida? Simples assim? Então foi tudo uma mentira para
você? Tudo o que vivemos foi um teatro? – ele gargalhou, amargurado; passou
uma mão pelos cabelos, imerso em desespero.
Feron encontrava-se descontrolado; o garoto estava sendo destruído bem na
frente dos meus olhos. Encarou-me com acidez.
– Eu fui muito estúpido mesmo, me permitindo ser enganado. Você deve ter
rido todos os dias da minha cara, não é? Enquanto me fazia de idiota.
Defendi-me, exasperada.
– Não foi assim! Eu juro!
Ele socou o batente da porta do elevador, fervendo de raiva.
– Não foi assim?! Então me conte, Ana Lívia, falou meu nome com desdém.
– Como aconteceu, então? Você me enganou à troco de quê? Foi por dinheiro?
Eu passei uma mão pelo rosto, aflita e arrasada.
– Sim, a Mia me pagou para ficar no lugar dela, é verdade. Mas o plano fugiu
do controle, e eu realmente me apaixonei por você... Isso foi real.
Feron gargalhou com amargura.
–Ah, não... Poupe-me dessa conversa. – À essa altura, seus olhos já estavam
vermelhos, devido às lágrimas de ódio que ele segurava. – Você me enganou por
dinheiro, enquanto eu me entreguei de verdade. Isso me dá asco.
Senti as bochechas molhadas; eu chorava sem perceber.
– Estou falando a verdade, Feron.
Você significa tudo para mim.
Ele soltou a porta do elevador; de repente, seus olhos ficaram pétreos e frios.
Pareceu tomar uma decisão.
– Saia da minha casa. Eu nunca mais quero te ver.
Ele virou as costas e começou a ir embora. Dessa vez, fui eu quem segurou a
porta do elevador, impedindo-a de fechar.
– Espere! – chamei. Não podia ir embora sem fazer as últimas confissões, há
tempos entaladas em minha garganta. – Me desculpe por todo o sofrimento que
eu te fiz passar... E obrigado por ter me feito tão feliz. Eu nunca irei esquecer o
nosso amor.
Ele paralisou, mas permaneceu de costas para mim.
A voz, gelada.
– Não existe mais o nosso amor. – E então adentrou em sua casa, batendo a
porta com violência.
Eu suspirei, destroçada por dentro. Embora quisesse ir atrás dele, sabia que
seria uma atitude em vão.
Feron se sentia traído e enganado – e eu não tinha meios para me defender,
pois o garoto tinha razão. Apertei o botão do elevador e desci, despedindo-me
com tristeza daquele mundo, daquela vida.
Fui embora daquele palácio no topo da cidade, repleto de príncipes perversos.
E voltei para o lugar ao qual eu pertencia.



Fui embora de São Paulo o mais rápido que pude.
Naquela madrugada, peguei minha mochila, fechei a conta do hotel e fui até
a rodoviária. Embarquei no primeiro ônibus até Belo Horizonte.
A viagem foi demorada e sofrida, e, à cada quilômetro rodado, eu me
afastava mais das pessoas que amava. Sentia que deixava os destroços do meu
coração para trás.
Em Belo Horizonte, comprei um smartphone para poder acessar à internet.
Meu celular antigo não tinha essa habilidade. Em seguida, comi em uma
lanchonete qualquer e entrei no primeiro ônibus para Campina Bela. De lá, eu
resolveria o que faria da minha vida.
Horas depois, cheguei à minha casa em Campina Bela. Quando abri a porta da
casinha de fundos, surpreendi-me. Uau, quando essa casa ficou tão pequena e
solitária?
Aparentemente, eu tinha me acostumado mal. Vivi por muito tempo
desfilando entre mansões, repletas de grandes famílias e empregados.
Bom, agora eu voltara para a minha vida real. As mansões não me faziam falta
– mas as pessoas que deixei para trás, sim. A família, os amigos, o amor... Itens
que o dinheiro não podia comprar.
Muito embora eu estivesse em casa, meu coração ainda estava em São Paulo.
No meu smartphone, eu acompanhava as notícias pela rede social da São
Valentim. O escândalo já se espalhara por toda a rede, e as pessoas debatiam
sobre a ousadia de Mia, perplexas.
Então quer dizer que, nesses últimos tempos, quem estava na São Valentim
não era Mia Santorini?
Ela enganou a todos nós por meses! Fica a pergunta: louca ou genial?
Feron se apaixonou por uma impostora? Que situação...
O comandante derrubado por uma farsante da ralé.
Dentre outros comentários cruéis.
E, assim, o tempo passou. Uma semana, um mês... Pelas notícias que eu
acompanhava, Feron e Mia terminaram – é óbvio. Após a sua festa, Feron não se
aproximou mais da garota, furioso.
Vívian, Antonela e Téo não eram mais amigos de Mia. Além disso, corria o
boato de que Thales havia saído da São Valentim.
Minha gêmea perdeu todos que à cercavam (não que ela se importasse). Mia
rapidamente encontrou outro nicho (entre garotas tão fúteis quanto ela). Na
verdade, ela aparentava estar adorando sua nova fama: uma estrategista malvada.
Todos queriam saber da história – sobre como ela tinha inserido uma irmã gêmea
em seu lugar, e ido curtir férias prolongadas no exterior.
Não obstante, Mia nunca deixou os motivos claros. Até hoje, eu não conhecia
suas razões para armar aquele plano.
Mas eu não estava preocupada com minha gêmea. A única pessoa que me
importava era ele: Feron. O garoto ficou um tempo sem aparecer na São
Valentim. Quando voltou às aulas, todos comentavam como ele parecia mudado.
Primeiramente, ele não conversava com ninguém; tornara-se mais amargo e
mais cruel. Como se toda a bondade e alegria tivessem sido drenadas de seu
corpo.
Segundo os comentários, Feron não estava lidando bem com a desilusão
amorosa. Algumas pessoas sentiam medo: será que o ditador perverso voltaria à
tona?
Afinal, a tristeza deixava rastros – e poderia transformar as pessoas.
Por vezes, saíam relatos sobre o estado do garoto. Com frequência, ele
aparecia na faculdade com os punhos e rosto machucados (como se houvesse
brigado nas ruas e baladas na noite anterior).
Pairava uma expectativa no ar: como seria o seu novo regime?
Todos aguardavam por suas novas ordens – mas Feron não tinha disposição
para dá-las. Amargurado e silencioso, ele andava pelos corredores da São
Valentim emanando ódio; ninguém ousava se aproximar. Segundo vários
comentários, Feron vivia um luto.
Os alunos da São Valentim postavam vários fotos dele (enquanto o mesmo
andava pela faculdade distraidamente). Cada uma das imagens machucava o
meu coração. Eram fotos de Feron andando pelos corredores da faculdade,
entrando em seu carro, sentado sozinho na cafeteria, etc...
Mesmo nas imagens, o garoto parecia um animal ferido: amargurado e feroz.
Deus... Eu causei um desastre na vida daquele homem. Queria nunca o ter
conhecido. Assim, nós dois não teríamos saído dessa história tão feridos.
Ao meu modo, eu também vivia um luto. Quase não saí de casa por um mês;
também não fui trabalhar, e nem me matriculei em nenhuma faculdade. Ficava
em minha cama – lendo livros, vendo porcarias na TV e apenas existindo.
Alguns sintomas de depressão.
Quando um mês e dez dias se passaram, eu finalmente resolvi reagir.
Eu seguia repetindo para mim mesma: você precisa sair desse buraco
emocional, Lívia. Não adianta chorar, você nunca terá o garoto de volta.
Portanto, resolvi abandonar o conto de fadas e encarar minha vida real.
Através da internet, comecei a procurar faculdades de medicina particulares em
Belo Horizonte. Em três meses, a melhor faculdade de lá teria um vestibular.
Ótimo, pensei. Ainda me restavam noventa dias para estudar.
Também comecei a procurar repúblicas para estudantes. Apesar de estar
partida, eu precisava prosseguir com a minha vida. Tinha esperança de que, ao
sair dessa cidade, talvez o tempo curasse a ferida em meu peito – e o luto por
todas as coisas que deixei para trás.
Era uma noite de quinta-feira quando aconteceu.
O meu celular apitou (a primeira mensagem que recebi no aparelho). O
número era anônimo, e o texto dizia: olá, falsa Santorini. Observe quem eu
tenho comigo.
E em seguida havia uma foto de Pilar Monferrari. A garota se encontrava
amarrada e amordaçada no chão. O lugar era escuro e insalubre. Sua pele estava
lotada de machucados – como se houvesse apanhado.
Em seguida, outro texto. Agora só falta você para completar minha lista.
Arfei, paralisada. Meu deus! O assassino havia sequestrado Pilar!
Respondi. Vou mandar isso para a polícia, seu maníaco.
Como o assassino descobriu esse número? Era apenas um pré-pago qualquer.
Ele tinha um hacker ao seu serviço?
Minutos depois, o celular apitou com outra mensagem. Ha-ha, acho que
não! Eu tenho em minha posse alguém muito preciosa para você. Se você falar
para a polícia, ela morre. Tenho meios de saber se você irá abrir a boca.
E então ele enviou mais uma foto; dessa vez, revelando outra garota
amordaçada e machucada. Meu coração quase parou quando notei de quem se
tratava.
Elisa! A irmão do Feron!
Ah, meu Deus, isso não! Feron era louco pela irmã... Se algo acontecesse a
ela, o garoto ficaria destruído; toda a família dele desmoronaria!
Tomada pelo pânico, digitei rapidamente. O que você quer de mim? Solte-as, e
te darei qualquer coisa.
O assassino respondeu. Boa garota. Primeiro, volte para São Paulo.
Segundo, me encontre amanhã: às duas da manhã na São Valentim. Estarei no
porão debaixo do ginásio. Estou monitorando seu celular, portanto venha
sozinha; saberei se contar a alguém. Se a polícia aparecer por aqui, matarei
nossa querida Elisa de um jeito bem doloroso. Eu vou para a cadeia, mas ela vai
para um caixão.
Meu Deus.
Não! Eu não podia permitir que alguém tão preciosa para Feron morresse (de
um jeito tão violento e tão cruel). Elisa só estava naquela situação por minha
causa. Se eu nunca tivesse entrado na vida de seu irmão, ela estaria em sua casa
agora – tranquila e segura.
Aquilo era culpa minha, pois o assassino sabia que Elisa seria o meu ponto
fraco. Feron era esperto e forte demais para ser capturado (o assassino não teria
essa ousadia). Então, ele atacou pelo caminho mais fácil.
Eu não podia causar mais danos àquela família; já havia causado estragos
demais. Além do mais, minha vida não valia tanto quanto à de Elisa. Ela tinha
uma família que a amava, bem como amigos e um futuro brilhante.
Mas, eu? Bom, de mim ninguém sentiria falta. Eu era sozinha no mundo,
afinal. Que falta eu faria para alguém?
Nenhuma pessoa no mundo choraria o luto pela minha morte.
Não pensei duas vezes. Respondi a mensagem: feito.
Logo, arrumei uma mochila apenas com o essencial e corri para a rodoviária
de Campina Bela.
















ADENDO DE CAPÍTULO
SOB A VISÃO DE TOMÁS

Tinha sido o caos.
Quando a verdadeira Mia apareceu na porta da casa dos Feron, o mundo de
Tomás e Stela virou de cabeça para baixo. Tomás se perguntava: como eles
haviam se deixado enganar? Como não reconheceram sua própria filha?
A garota – Ana Lívia – saiu correndo porta à fora, arrasada e humilhada.
Felipe deu um soco na parede, furioso e destroçado. Em seguida, pareceu
tomar uma decisão: decidiu ir atrás da garota, saindo da casa e correndo para o
hall onde ela estava.
Não deu para ouvir o que eles conversaram. Naquele interstício, Stela se
levantou, pegando no braço de Mia; foi uma das poucas vezes em que Tomás viu
sua esposa completamente furiosa.
– Você vai me explicar direitinho o que acabou de acontecer aqui – rosnou
para a filha.
Ao redor, todos encaravam a cena, petrificados.
Tomás encarou a filha, mortificado e indignado.
– A troco de quê você nos enganou desse jeito? Isso foi absurdo, Mia, até
para você.
Mia suspirou, rolando os olhos.
– Calma, pai. Eu vou explicar tudo para vocês em casa. Tive um bom motivo
para fazer o que fiz, e quando souberem vocês me darão razão. Acontece que o
plano fugiu do controle, e a minha irmãzinha de repente resolveu assumir a
minha vida sem minha autorização. Ela é mais louca que eu, acreditem.
Minutos depois, Feron adentrou outra vez na casa, batendo a porta com
violência. Subiu as escadas sem falar com ninguém – ignorando até mesmo os
seus pais, que o chamavam, preocupados. Expressão arrasada e colérica.
Clarisse, a mãe de Feron, parecia consternada. Virou-se para os convidados,
clareando a garganta com constrangimento.
– Hã, desculpem, nós fomos pegos de surpresa por esse acontecimento... É um
problema de família, espero que entendam. A festa acaba por aqui, sinto muito.
Os convidados foram se retirando da casa, constrangidos.
Tomás observou Antonela, uma das amigas de Mia, passar por sua filha com
rudez. Deu-lhe um encontrão de ombros, rosnando.
– Você é louca.
Seus outros amigos: Vívian e Téo, também passaram por ela, lançando-a
olhares de indignação.
Mia arfou, consternada; não imaginava receber tal reação dos amigos.
Murmurou
– Vejam só como eles ficaram insolentes...
Tomás vincou a testa, detestando tudo sobre aquela situação. Sua filha
precisava aprender que ela não mandava em ninguém – e nem podia fazer as
pessoas de idiotas! Ordenou para Mia, enraivecido:
– Vamos. Embora. Agora.
Mia se surpreendeu – nunca vira o pai tão firme; deve ter sido pega de
surpresa, e por isso não contestou.
Envergonhados, Tomás e Stela de despediram dos pais de Feron, desculpando-
se. Em seguida, Mia e seus pais foram embora para casa. O caminho até a
mansão foi tenso: Stela chorava de raiva, e Tomás nem sabia o que dizer...
Encontrava-se aturdido demais.
As duas começaram a bater boca.
“Como você teve a coragem de fazer isso com a gente?”
“Ai, mamãezinha... Não seja tão moralista.”
Esgotado, Tomás estacionou o carro em uma rua qualquer e virou-se para Mia,
sentada no banco de trás.
– Conte-nos tudo – ordenou. – E então nós pensaremos no castigo que te
daremos.
Em seguida, sua filha os contou a história mais absurda que já ouviram. Havia
um perseguidor em seu encalço há tempos. Ele sabia tudo sobre a vida dela, e
parecia perigoso.
Stella inquiriu, ainda estarrecida.
– Por que você simplesmente não pediu nossa ajuda? Por que simplesmente
não foi à polícia?
Seriam as atitudes óbvias, afinal. Não obstante, Mia contou que o criminoso à
ameaçou, bem como sua família. Mandava presentes macabros para Mia – como
ratos mortos, pedaços de corpos de animais. Bizarro.
O número do criminoso advinha do Sul do país. O perseguidor não a deixava
sair da cidade, mas Mia tinha que ir atrás dele para investigar sua identidade
(sem que o mesmo soubesse). Então, Mia lembrou-se de Ana Lívia: a gêmea que
nunca tinha visto. E se Mia Santorini pudesse estar em dois lugares ao mesmo
tempo?
Mia raspou sua conta poupança e foi procurar Ana Lívia. As gêmeas se
reencontraram – e então tudo se desenrolou.
Tomás não conseguia acreditar em como tinha sido enganado!
Todavia, agora que pensava nisso, ele notara a diferença entre as duas irmãs.
Lívia era mais sensata e mais gentil; já Mia era um furacão causador de
problemas, arrogante e desbocada.
No momento, Tomás pensou que sua filha mudara porque estava
simplesmente amadurecendo (deixando de agir como uma garotinha mimada).
Ele nunca poderia considerar que estava perante outra pessoa, literalmente.
Aquilo era loucura demais.
Mia já sabia a identidade do perseguidor – e, quando contou aos pais, Tomás
se chocou. Ele não podia acreditar! Pelo fato de o criminoso ser quem era,
Tomás, Stela e Mia teriam que agir com muito cuidado. Um escândalo sobre
aquilo envolveria muita gente importante...
Mia pediu um mês para resolver a questão. Se ela não conseguisse o fazer,
então eles iriam à polícia. Se o perseguidor fosse qualquer outra pessoa, Tomás
não concordaria – mas a situação era crítica. Logo, seria melhor resolverem
aquilo sem envolverem a polícia (e, consequentemente, a imprensa).
Não obstante, Tomás seguia acompanhando os passos da filha de perto,
protegendo-a. Por hora, o perseguidor tinha dado um tempo.
O clima em sua casa havia ficado tenso. Stela tornou-se superprotetora com a
filha, apavorada diante dessa história de perseguidor.
Mas não era só isso: Tomás também notava a esposa silenciosa e arrasada pela
casa – como se estivesse com o pensamento longe dali. Tomás conhecia Stela:
ela não estava emocionalmente bem. Alguma coisa a perturbava.
Acontece que o próprio Tomás também se sentia assim. Pensamentos
conflituosos ficavam torturando sua cabeça.
O que Ana Lívia estaria fazendo agora? Será que ela estaria bem? Segura?
Será que ela tinha uma família restante para a amparar?
Meu Deus, e se ela estivesse sozinha no mundo? Apesar de tudo, Lívia era tão
doce e tão gentil... Tomás não entendia por que estava sentindo a falta de uma
filha que nem era sua.
Uma semana após o ocorrido, a campainha tocou por volta das sete e meia da
noite. Tomás atendeu a porta – e assustou-se.
Feron estava parado na soleira da porta, e o garoto parecia acabado. Pálido,
olheiras sob os olhos... Como se não dormisse ou comesse há dias. Ostentava
uma expressão amargurada.
– Posso conversar com você, Tomás? – perguntou.
– Claro, entre – Tomás convidou (afinal, Felipe também havia sido enganado).
Tomás sentiu pena do garoto, pois era evidente que estava sofrendo.
Feron pediu para que Stela também estivesse presente na conversa. Logo,
minutos depois os três se sentaram na sala e tiveram uma conversa séria.
O garoto afirmou: não queria conversar com a verdadeira Mia. Ele não a
conhecia, e, além do mais, sentia-se traído por ela. Tomás entendia o sentimento
do garoto... Felizmente, Mia não estava em casa – tinha ido para a academia de
sempre.
Felipe estava ali porque precisava de algumas informações. Ele queria saber
quem era Ana Lívia (só assim poderia se libertar e tentar seguir em frente). O
garoto os encheu de perguntas. Onde Ana Lívia morava? O que fazia? E por que
aceitou se passar pela irmã?
Muitas questões perturbavam o garoto...
Tomás achou que Felipe tinha o direito de saber a verdade. Então, contou
sobre as motivações da filha para armar aquele plano. Revelou também sobre o
perseguidor (omitindo, evidentemente, sua identidade).
Por fim, contou o pouco que sabia sobre Ana Lívia: era uma garotinha
nascida no interior de Minas Gerais. Não tinha família (pois Mia contou que sua
mãe biológica havia falecido). Tomás não sabia se ela ainda morava naquela
casinha de fundos, se trabalhava ou estudava...
Feron quis saber das histórias do passado de Lívia.
Como as gêmeas foram separadas?
Então, Tomás e Stela o contaram tudo.
Vinte e um anos atrás, o casal tentou adotar as duas bebês gêmeas. No entanto,
Cecília não conseguiu se desfazer das duas filhas. Ela permitiu a adoção de
apenas uma das gêmeas.
Tomás se lembrava do episódio como se fosse ontem. Isabel era uma
cozinheira que trabalhava em sua casa há anos. Isabel tinha uma prima no
interior de Minas: Dona Cristina. Essa tal Cristina morava em uma cidadezinha
chamada Campina Bela. Ela conhecia uma mãe solteira (que havia acabado de
dar à luz a lindas gêmeas). Contudo, essa mãe não tinha condições para criar as
meninas.
O pai havia sumido no mundo.
Tomás e Stela não podiam ter filhos, e estavam há dois anos inseridos no
sistema de adoção, lutando para encontrar uma criança. Mas toda aquela
burocracia os deixava indignados. Então, eles viram a chance de conseguir o
filho que tanto queriam (de forma mais simples e rápida).
Através de Isabel e Dona Cristina, Tomás e Stela fizeram contato com a mãe
das crianças: Cecília. Na outra semana, pegaram um avião e foram até Campina
Bela, na intenção de conhecer as bebês. Embora não fosse o planejado
inicialmente, eles queriam adotar as duas (pois achavam cruel separar as irmãs).
Afinal, eles tinham muito dinheiro, e podiam pagar babás para ajudar. Não seria
problema.
O casal bateu à porta da pequena casinha de Cecília. Eles se apaixonaram
pelas duas bebês, desde o primeiro momento em que as viram. Ao ir para o colo
de Stela, uma delas (Maria Clara), aconchegou-se e dormiu tranquila.
Todavia, a outra bebê (Ana Lívia) chorou e se debateu, querendo voltar para o
colo de sua mãe biológica. Como se pudesse sentir que a separação estava
próxima. Então, Cecília se sensibilizou e não permitiu a adoção das duas.
No fim das contas, o casal saiu de Campina Bela com apenas uma das bebês:
Maria Clara. De coração partido, eles tiveram que deixar Ana Lívia para trás.
Felipe ouviu a história em silêncio. Ao final, apoiou os cotovelos nos joelhos,
entrelaçou as mãos e abaixou a cabeça – permanecendo calado. Parecia digerir
aquilo tudo.
Sofrendo.
Stela suspirou.
– Você a amava, não é?
O garoto ostentava a voz sombria; ele sabia parecer perigoso, quando queria.
– Sim – confessou. – Com todo o meu maldito coração.
– Então vá atrás dela.
Pela primeira vez, Felipe olhou para Stela.
Abriu a boca para responder, mas logo se calou. Fechou as pálpebras,
parecendo estar passando por um conflito de sentimentos. Por fim, suspirou,
destruído.
– Não dá, eu não sei quem ela é. Ela me enganou, Stela. Alguma coisa em
mim... Se partiu.
Stela insistiu. Tomás então percebeu: a esposa não se conformava com o fim
trágico daquela história.
– Embora ela não seja a verdadeira Mia, você ainda a ama.
Felipe desviou os olhos, amargurado.
– Não sei se amor é suficiente para superar isso.
Um tempo depois, o garoto foi embora (não querendo dar de cara com a
verdadeira Mia).
Tomás se sensibilizou pelo sofrimento de Felipe. Ele e Stela também estavam
sofrendo, pois a presença de Lívia havia deixado rastros – em suas vidas e
corações. Embora estivesse se passando por Mia, Lívia era uma pessoa diferente.
Especial e única.
E o tempo se passou. Mais precisamente, um mês e nove dias. Naquela noite,
Tomás chegou mais cedo do trabalho e deu de cara com a esposa na sala. Stela
sentava-se num dos sofás, com as luzes apagadas; chorava baixinho, sem pensar
ser vista.
Tomás se sentou ao lado dela, pegando sua mão.
– Não preciso perguntar o que é... Acho que já sei.
Estava evidente: sua esposa sentia-se vazia pela ausência de Lívia.
Stela limpou as lágrimas, confessando.
– Sinto falta dela, Tomás. Não sei se ela está comendo, se está segura...
Apesar de tudo, eu não posso evitar esse sentimento. Eu a considero nossa filha,
também. Nós tivemos tantos momentos lindos como mãe e filha... Tenho certeza
que o que vivemos foi real. Apesar de ela ter nos enganado, eu senti aquele amor
no meu coração.
Tomás exalou em alívio – ele também sentia o mesmo! Só estava esperando a
esposa falar primeiro, pois aquela deveria ser uma decisão conjunta.
Então ele se levantou, convicto. Chega de sofrer! Era hora de tomarem uma
atitude.
– Quer saber? Isso é ridículo! Faça as suas malas, Stela, vamos buscar a nossa
filha.



Antes mesmo de Feron, Vívian e Antonela já tinham procurado Stela.
Elas queriam saber quem era Ana Lívia, bem como por que tudo aquilo
aconteceu. Lívia também tocou o coração das duas garotas.
Por essa razão, Stela tomou uma decisão. Ela já estava com a mala pronta
quando ligou para Antonela e contou o que estava prestes a fazer. Viajaria para
Minas e buscaria sua filha.
Antonela e Vívian apoiaram a decisão – pois no fim das contas, elas não
podiam negar a verdade: também aprenderam a amar Lívia. As duas decidiram
que iriam naquela viagem também.
Então, na manhã seguinte, Stela, Tomás, Vívian e Antonela embarcaram em
um avião para Belo Horizonte. De lá, alugariam um carro e iriam para Campina
Bela. Stela e Tomás não sabiam como Lívia reagiria – logo, ficaram felizes em
ter o apoio de suas amigas.
Stela não contou dos planos para Mia, pois sabia que a filha não aceitaria a
adoção de uma nova irmã. Mia era muito ciumenta e territorialista. No entanto,
Stela e Tomás conversaram e decidiram: Mia teria que aceitar. Afinal, aquela
decisão só cabia a eles: os pais.
Horas depois, eles chegaram à Belo Horizonte. Fizeram uma refeição e foram
em busca de uma locadora de carros. Tomás alugou uma Mercedes, e eles
dirigiram até a pequena Campina Bela.
Já era noite quando chegaram à casinha de Lívia (nada além de uma moradia
de fundos, com pintura desgastada). Stela bateu a campainha, enquanto os
demais esperavam ao lado do carro, ansiosos.
Contudo, as luzes da casinha estavam apagadas. O tempo passou, e Lívia não
atendeu à campainha.
Ouvindo o barulho, uma vizinha apareceu na janela da casa ao lado; era uma
senhora de cabelos grisalhos.
– Vocês estão procurando pela Ana Lívia?
– Sim – Stela ficou ansiosa. – A senhora sabe se ela ainda mora aqui?
– Mora sim, mas é uma pena. Acho que perderam a viagem... Ela acabou de
pegar um ônibus para fora da cidade.







CAPÍTULO 11

Com o coração atormentado, entrei um ônibus para Belo Horizonte. Na
rodoviária de lá, comprei um lanche qualquer e peguei o próximo ônibus para
São Paulo.
Eu não trouxera muita coisa. Apenas uma mochila com dois pares de
roupas, um pouco de dinheiro e o meu celular. Afinal, a verdade era inescapável:
havia poucas chances de eu voltar para casa. Aquela era uma viagem apenas de
ida.
Mas eu não me arrependia: a decisão estava tomada.
Quando cheguei em São Paulo, já era quase meio dia. Me hospedei em um
hotel barato, de modo a esperar até a hora de ir à São Valentim. Passei o dia
deitada na cama barata, observando as redes sociais de Feron.
Analisando suas fotos, eu absorvia cada um dos traços do garoto. Cravei-os
em minha mente, pois sua lembrança me concederia a coragem para continuar.
Afinal, aquilo tudo era por ele – para não destruir a sua família.
Se Elisa morresse, os Feron ficariam desolados por muitos e muitos anos.
Seria uma tragédia sem precedentes, e eu não sabia se a família se recuperaria.
Mas, de uma coisa, eu tinha certeza: Elisa era muito mais preciosa que eu.
Curiosamente, eu não me ressentia desse fato. Parecia que, simplesmente... Meu
coração havia aceitado essa verdade – e fim. Eu estava muito acostumada a ser
invisível.
O dia se passou rápido demais. Tomei um banho e vesti meu outro par de
roupas: calça jeans, blusa quadriculada de flanela, tênis surrados e cabelos
presos (bem diferente do estilo Mia Santorini). Se Feron me visse agora, não me
reconheceria.
Na hora marcada, peguei um táxi até a São Valentim. Eram cinco para as duas
da manhã, e a faculdade encontrava-se completamente escura e vazia.
Entretanto, o portão lateral (por onde entravam os funcionários) estava
destrancado. Obra do perseguidor, imaginei.
Observando as câmeras espalhadas pela faculdade, notei que todas
permaneciam com as luzes apagadas. Deduzi que assassino tinha as desligado (e
não seria a primeira vez). Ele não era um amador, afinal.
O perseguidor mandou-me encontrá-lo no porão, situado abaixo do ginásio. O
porão era uma espécie de galpão subterrâneo na São Valentim, que servia como
depósito. Eu andava à passos apressados pelo gramado central, com a cabeça
baixa e coração disparado. Ao meu redor, apenas silêncio e escuro.
De repente, o fantasma de Nicole, a garota loira, apareceu bem ao meu lado
(translúcido e emanando uma luz azulada).
Nicole estava muito séria.
– Lívia, pare. O assassino não está blefando... Ele irá te matar.
Não olhei para ela, continuando meu caminho. Senti minha garganta se
fechar, e lágrimas arderam meus olhos.
– Eu sei.
Segundo depois, quem apareceu ao meu lado foi o fantasma de Pietra, a
beldade de pele negra. Expressão alarmada e urgente.
– Não faça isso! Essa dívida não é sua... Mia é quem deveria estar aqui, não
você. Não se sacrifique.
Passei por ela, sem me deixar abalar.
– Já está decidido.
Adentrei no ginásio (uma quadra com arquibancada, onde aconteciam as
competições de esportes da São Valentim). Ao canto do ginásio, havia uma
pequena porta. Abri a porta e deparei-me com uma escada estreita, que descia
para um lugar escuro.
Repentinamente, outro fantasma apareceu na minha frente: Maria Ísis, a
garota ruiva.
Eu nunca havia tido contato com ela antes. A garota-fantasma ostentava uma
expressão severa e grave.
– Pare! – ordenou. – Se você fizer isso, o assassino sairá impune! Volte e
chame a polícia, é a nossa chance de pegá-lo.
– Não dá. Se eu fizer isso, Elisa morrerá.
– Se ela morrer agora, outras garotas não terão que morrer no futuro. É um
sacrifício justo.
Mas o quê...? Arfei, indignada.
– Saia da minha frente! É a irmã do Feron quem está lá embaixo! – e então
passei através do corpo dela. Maria Ísis era apenas um espectro.
Senti um calafrio ao atravessá-la (configurava uma sensação estranha
simplesmente passar através de alguém).
Enquanto eu corria escada abaixo, ela gritou.
– Você irá morrer, sua estúpida! E ele vai sair impune outra vez! Não deixarei
você fazer isso!
Virei-me para trás, quase rosnando.
– Então tente me parar.
Eu estava obstinada, e ninguém me impediria de salvar a irmã do homem que
amo. Não era uma decisão racional – era uma decisão tomada pelo meu coração.
Por Feron, eu sacrificaria qualquer coisa.
Cheguei ao fim da escada e me deparei com um galpão imenso e escuro.
Apenas algumas lâmpadas fracas iluminavam o ambiente – úmido e insalubre.
Paredes sem pintura, equipamentos de ginástica quebrados e amontoados nos
cantos. Um verdadeiro depósito abandonado.
Ouvi um gemido. À minha direita, Elisa e Pilar se encontravam sentadas na
chão. Recostavam-se em uma parede, amarradas e amordaçadas. As duas
estavam sujas e machucadas; roupas com manchas de sangue.
Pilar cochilava – parecendo mais magra e pálida que o normal. Desidratada.
Elisa estava acordada, e foi ela quem gemeu para chamar minha atenção.
Corri até ela, apavorada.
– Ai, meu Deus! – ajoelhei-me à sua frente, retirando a mordaça de sua boca.
Abracei-a. – Desculpe por isso, a culpa é toda minha.
Elisa chorava, ofegando em desespero.
– Saia daqui, ela vai chegar logo! Corra e chame a polícia.
– Ela? – espantei-me.
O perseguidor era uma mulher?
Elisa apontou para algum lugar atrás de mim. Virei-me e dei de cara com um
nome escrito na parede – com uma tinta escura e peculiar. LOLA. Observando
melhor a tinta, notei do que se tratava: sangue seco!
Que doentio.
Quem diabos era essa garota perturbada?
– Quem é Lola? – inquiri.
– A assassina! Ela acabou de sair, mas está prestes a voltar. Corra! Avise a
minha família sobre onde estou!
Como a tal Lola não estava por aqui, peguei meu celular no bolso e comecei
a discar o número da polícia.
– Nem pense nisso – uma voz chegou por trás de mim.
Virei-me, deparando-me com uma garota no fim da escada: Lola. Ela havia
acabado de chegar.
Na meia luz, só pude discernir algumas de suas características: ela era
esguia, alta e loira. A garota usava um moletom cor-de-rosa, e o capuz do
moletom cobria parte do seu rosto. Ela tinha uma pistola na mão esquerda, e seu
moletom estava sujo com manchas de sangue.
Não fazia sentido... Um assassino daquele calibre se vestia como a Barbie
Califórnia. Bizarro.
Lola sorriu perversamente:
– Então você veio, Ana Lívia. Faltava você na nossa festinha.
Vinquei a testa, reconhecendo aquela voz de algum lugar. Mas isso não era
crucial agora.
– Eu estou aqui. Liberte Pilar e Elisa, como combinamos.
Ela ergueu as palmas.
– Claro, claro. Eu sempre cumpro minhas promessas. No entanto, ainda está
faltando mais uma convidada. – E então a garota veio se aproximando; à medida
que avançava, seu rosto ia sendo atingido pela luz de uma lâmpada. E então eu
soube quem era.
Puta merda.
– Thales? – quase berrei.
Impossível!
Lola não era ninguém além do próprio Thales, o ex-namorado de Mia –
usando uma peruca loira e vestido com roupas femininas. Aquilo não fazia o
menor sentido!
O garoto vincou a testa, sinceramente confuso.
– Quem é Thales? Meu nome é Lola.
Ofeguei, atônita. A pergunta do garoto foi honesta... Thales não reconhecia
seu próprio nome. Então, só pude chegar a uma única conclusão.
Perguntei:
– Você tem... Transtorno de múltiplas personalidades?
Thales/Lola bufou.
– O quê? Você é louca? Eu sou Lola Santorini... Namorada do Felipe Feron,
filha de Stela e Tomás Santorini...
O quê?
– Meu Deus – cortei-o. – Você não está bem, Thales.
O cara estava evidentemente doente; ele tinha uma patologia mental grave.
Thales criou uma personalidade fictícia: Lola. E essa tal de Lola claramente foi
inspirada em Mia (possuindo o mesmo sobrenome, a mesma história e até os
mesmos pais).
Revirei meu cérebro, tentando compreender. Talvez, por isso Thales não
tocasse em Mia quando namoravam. Ele não sentia atração sexual por ela... No
fundo, ele queria ser ela. Um desejo oculto e proibido, como um transtorno de
identidade de gênero...
Eu não tinha embasamento científico para opinar, pois não era médica.
Contudo, naqueles segundos, fui tentando buscar uma explicação racional para o
que estava acontecendo.
Thales deve ter lutado contra seu transtorno por muitos anos, sozinho. Talvez
tivesse medo ou vergonha de contar para a família. Por isso, deve ter criado,
involuntariamente, essa personalidade em sua cabeça: Lola Santorini. Na pele de
Lola, ele podia ser como Mia (ou seja, totalmente livre para ser uma mulher).
Thales não sabia da existência de Lola. Por isso, ficou tão chocado com os
assassinatos acontecendo na São Valentim. Ele não tinha a menor ideia de que
ele mesmo era o assassino.
Naquele exato momento, Thales era Lola (e acreditava fielmente ser uma
mulher). O garoto estava aprisionado em seu próprio delírio.
– Não me chame de Thales – Lola rosnou. – Eu tenho nome, sua vadiazinha
da ralé.
– Mas não é Lola Santorini! – alguém gritou, descendo as escadas.
Mia!
Ela segurava uma arma, apontando diretamente para a cabeça de Thales. Foi
a primeira vez que fiquei feliz por ver minha gêmea.
Mia sorriu diabolicamente.
– Achou que era só você quem sabia brincar? Eu também comprei uma arma.
Eu sou mais louca que você, querida.
Lola sorriu alucinadamente, como se estivesse em êxtase.
– Mia! Agora nossa festinha está completa!
Tudo aconteceu em segundos, não nos concedendo tempo para reagir. Lola
ergueu sua arma e atirou no braço de Mia. Ela era muito mais rápida e maliciosa
que nós – não hesitava em atirar.
Minha gêmea caiu no chão, gritando de dor; a arma caiu de sua mão, e sangue
escorria pelo seu antebraço. Pelo que percebi, o tiro foi de raspão.
– Merda! – Mia urrou. – O que você fez, sua vadia louca?!
Lola se aproximou de Mia; chutou a arma para longe e agachou-se em sua
frente. Segurou seu queixo com uma mão e lascou um beijo rápido em sua boca.
– Só te dando meus cumprimentos, querida.
– Argh – Mia cuspiu, limpando a boca. – Você está obcecada por mim.
– Hummm... – Lola considerou, inclinando a cabeça. – Pode-se dizer que
sim... Você é a minha inspiração. Tenho te observado por muito tempo, como
pôde notar pelas minhas mensagens.
– Perseguidora maldita – Mia rosnou.
O quê? Então Lola e Mia já se conheciam?
Será que Lola era a razão para Mia ter sumido de São Paulo?
Lola revirou os olhos.
– É uma relação de amor e ódio, digamos assim – gargalhou. – Mas você,
minha linda, precisa sumir do mapa. Só assim eu poderei reinar na São Valentim
sozinha. Você está me ofuscando, atrapalhando o meu caminho... Não tem
espaço para nós duas nessa faculdade. Ou eu, ou você.
Mia trincou os dentes.
– Essa palhaçada toda é por causa disso? Você quer ser mais popular que eu?
Arregalei os olhos, ligando os pontos. Por isso “Lola” atacou as garotas mais
populares da São Valentim – porque queria ser igual a elas. Em sua mente
perturbada, ela as via como concorrência, inimigas.
Lola respondeu.
– Só uma garota pode reinar nesse lugar. Você precisa sumir.
Minha gêmea ficou furiosa.
– Ah, Thales... Eu vou te matar. Eu só não te denunciei para a polícia porque
seus pais me imploraram. Me garantiram que você já estava se tratando com um
psiquiatra.
Lola ergueu uma sobrancelha.
– Não tenho ideia sobre o que você está falando.
Mia continuou, amarga.
– Eu pensei que você só perseguisse a mim. Se eu soubesse que você andava
matando pessoas, já teria te colocado na cadeia há meses.
Lola rosnou.
– Pare de me chamar de Thales! Eu posso ficar com raiva, e atirar no meio
dessa sua carinha linda. – Então Lola pressionou o cano da arma na bochecha de
Mia. – Seria uma pena... Isso estragaria a nossa relação de tanto tempo.
Mia riu com escárnio.
– Então me mate logo, vaca. Porque se você me deixar livre, eu juro: vou te
internar no manicômio mais podre dessa cidade. Farei você virar um animal
preso na jaula. – Então, Mia simplesmente cuspiu na cara de Lola.
Meus Deus, minha gêmea não tinha a menor noção do perigo.
Eu observava aquela interação absurda, sem saber quem era a pessoa mais
insana. Thales tinha uma patologia mental – mas Mia era simplesmente louca.
Ela não tinha medo de nada. Uma verdadeira abelha-rainha, cruel e sem
escrúpulos...
Talvez por isso sua figura exercesse tanto fascínio sobre Lola.
Limpando o cuspe do seu rosto, Lola fitou Mia com ódio.
– Não devia ter feito isso – e então deu um tapa na cara de minha gêmea,
usando toda a força. O tapa arrancou sangue da boca de Mia.
Naquele exato momento, o fantasma de Pietra apareceu, atravessando uma
parede. Parou bem ao meu lado.
– Pergunte a ela onde está o meu corpo – implorou.
Eu sabia o que Pietra pensava: Mia e eu estávamos prestes a morrer. Pilar
seria a próxima, e então Lola fugiria. Logo, não restaria ninguém para perguntar
onde estava o corpo da garota.
– Lola! – interferi (antes que ela batesse mais em Mia).
Ela me olhou, aborrecida.
– O que foi, falsa Santorini?
– Onde você enterrou o corpo de Pietra?
Ela ergueu uma sobrancelha.
– Que relevância tem isso, agora? Garota estranha.
Não desisti.
– Ela está apenas desaparecida, eu quero uma prova de que você a matou. Não
acho que você tenha capacidade para pegar todas nós... Pietra era esperta demais
para isso. Só acredito vendo.
Lola ficou indignada.
– Você o quê?! Está duvidando da minha capacidade?
Eu sorri internamente – acertei no alvo. Assassinos tinham orgulho de ter
matado suas vítimas; colecionavam as mortes, como honrarias. Por isso, sempre
deixavam rastros e marcas. Fazia parte do seu show deixar a polícia saber quem
eram (não sua identidade completa – mas apenas indícios).
Para fugir dessa situação, e tentar (talvez) sair com vida, armei uma
estratégia. Primeiro passo: sair desse porão. Presa aqui dentro, não havia para
onde correr, e Lola estava no comando.
Continuei.
– Só acredito que você a matou, quando me mostrar o corpo. Me leve até o
local... Ou então vou pensar que você não é tão perigosa assim. Talvez seja
apenas uma garotinha mimada, brincando de sequestradora.
Lola era uma personalidade fictícia, construída completamente à base de ego.
Era perigoso brincar com seu orgulho, mas eficiente.
Entretanto, se morrêssemos, ao menos Pietra saberia onde seu corpo foi
enterrado – e poderia ir embora em paz.
Lola sorriu perversamente.
– Você está me desafiando? É mais insana do que eu esperava. – Então ela se
levantou, apontando a arma para mim. – Se não quiser levar um tiro no meio da
cara, coloque as mãos na cabeça e vá para o gramado central.
Em seguida, ela enganchou a mão livre nos cabelos de Mia, arrastando-a
consigo; uma cena humilhante. Mia berrou (o que fez com que Lola puxasse
ainda mais seus cabelos).
– Calada, vaca. Ou eu farei você morrer primeiro.
Pietra olhou para mim com gratidão.
– Obrigada – e então se desmaterializou no ar.
Ótimo: sair do porão já era uma vantagem. Portanto, coloquei as mãos na
cabeça e fui subindo as escadas. Eu seguia na frente, enquanto Lola andava à
alguns passos atrás de mim (apontando a arma para a minha cabeça, e arrastando
Mia pelos cabelos).
Saímos do ginásio, andamos entre os prédios e chegamos ao grande gramado
central da São Valentim. Lola apontou para um dos bancos de pedra.
– Está ali embaixo. Não temos pás nesse momento, como pode perceber. Se
quiser desenterrar o corpo, dê um jeito você mesma.
Meu Deus... Era o banco em que Pietra sempre se sentava com as amigas. Vez
ou outra, eu a via de longe no gramado central enquanto ainda estava viva.
Pietra reapareceu na minha frente. Ajoelhou-se ao lado do banco de pedra,
expressão arrasada. Colocou uma mão sobre o chão e sussurrou.
– É verdade, meu corpo está aqui... Eu posso sentir. – Olhou para mim,
implorando. – Por favor, avise aos meus pais. Eu preciso de um enterro digno.
Primeiro, tenho que tentar sair viva disso, pensei.
Naquele momento, Lola arremessou Mia no chão, finalmente soltando os
seus cabelos. Mia caiu ao meu lado. Lola apontava a arma de mim para minha
gêmea – como se tudo fosse uma grande brincadeira para ela.
Falou:
– Nossa querida Pietra está solitária nesse buraco, precisa de companhia.
Qual das duas quer ir primeiro? – ela inclinou a cabeça para um lado, divertindo-
se com nossas expressões de pânico.
Sabíamos que Lola não brincava – afinal, ela já matara três pessoas. Olhou
para Mia, pálpebras se estreitando.
– Você, Santorini? Que roubou o meu posto de abelha-rainha? – e então virou-
se para mim, flamejando de ódio. – Ou você, Ana Lívia, que roubou o meu
homem? – ela colocou um dedo sobre o queixo, pensando. – Por que vocês não
vão embora desse mundo juntinhas, do mesmo jeito que nasceram? Não seria
lindo?
– Pare com essa merda, agora! – alguém gritou atrás de mim.
Ofeguei – graças à Deus.
Virando-me, dei de cara com Sr. Inácio, o vigilante noturno da São Valentim.
Um homem na faixa dos sessenta anos, cabelos e bigode grisalhos.
Lola vincou a testa.
– Uau, você é humano? Eu te dopei com uma dose cavalar, como ainda está
acordado? – e então gargalhou, batendo palmas. – Fascinante! Adoro homens
fortes.
Meu Deus, ela era mesmo perturbada.
Sr. Inácio rosnou.
– Você não vai matar mais uma de nós.
Olhando mais de perto, pude notar que as íris de Seu Inácio encontravam-se
estranhas. Esbranquiçadas e alucinadas – como se ele estivesse fora de si.
De repente, o fantasma de Nicole apareceu bem ao lado do vigilante,
gritando.
– Maria Ísis, não faça isso! Você não pode tomar o corpo dos outros... Vai
acabar sendo castigada!
O quê? Eu nunca tinha visto um fantasma invadir o corpo de uma pessoa viva
antes! Pelo que eu aprendi nesses vinte e um anos, eles eram proibidos de tal ato.
O vigilante rosnou para Nicole.
– Fique fora disso. Estou fazendo o que Lívia não fez por nós!
Lola notou o vigilante conversando com o vazio.
– Com quem você está falando? Será que temos mais um louco entre nós? –
inclinou a cabeça, pensando. – Você não estava nos meus planos... Mas já que
acabou acontecendo assim, tudo bem. Tem espaço para todos nessa cova.
– Inclusive para você? – o vigilante retirou uma arma de fogo da cintura e
apontou para Lola. – Já que você me matou, estou pensando em retribuir o favor.
Lola estreitou as pálpebras, fitando o vigilante com desconfiança. Ela notara
seus olhos esbranquiçados, bem como sua frase incomum. Lola não era estúpida,
e sabia que havia algo errado acontecendo.
Por fim, proferiu com cuidado.
– Quem é você?
O vigilante sorriu com escárnio.
– Acho que você sabe quem eu sou, vadia. Maria Ísis. Feliz por me ver outra
vez?
Mia ofegou, mortificada; olhava para o vigilante com temor.
– O que diabos está acontecendo aqui? – murmurou.
Lola deu um passo para trás, vincando a testa. Pela primeira vez, pareceu
preocupada.
– Eu não acredito nessas bobagens sobrenaturais.
O vigilante apontou a arma para a cabeça de Lola.
– E em revólver calibre 38? Você acredita?
Os dois ficaram se encarando, um apontando a arma para o outro. O vigilante
– ou melhor, Maria Ísis – falou, soltando um sorrisinho rancoroso.
– Está com medo de que eu atire primeiro, não é? Eu já estou morta mesmo...
Não tenho nada a perder.
Naquele momento, um helicóptero sobrevoou a São Valentim, jogando um
canhão de luz sobre nós. O portão automático da São Valentim foi aberto e
vários carros entraram, um atrás do outro. Praticamente todos os carros eram da
polícia – e eu quase me ajoelhei em alívio.
Lola arregalou os olhos para o vigilante.
– Você chamou a polícia? Ficou louco?! Eu vou matar cada um de vocês
antes de ir presa.
E todo mundo sabia que era verdade.
O vigilante deu de ombros.
– Faça o quiser, vaca. Já estou morta, não estou nem aí. Eu só quero ver você
apodrecer na cadeia.
Mia soltou um sorriso amargurado.
– Ora, ora. E eu sempre pensei que você fosse boazinha...
O vigilante ergueu uma sobrancelha para ela.
– Tão boazinha quanto você, Santorini.
Nesse ínterim, os carros de polícia invadiram o gramado central. O
helicóptero pousou a vários metros de nós, trazendo consigo uma rajada forte de
vento. De perto, agora eu podia notar o slogan da Construtora da família Feron
pintado no helicóptero.
Meu pulso acelerou – meu Deus, será que ele estava aqui?
E então a família Feron desceu do helicóptero, expressões urgentes.
Primeiro, desceram Erick e Clarissa, os pais de Elisa. Atrás dos pais, apareceu
uma figura que eu não esperava ver nunca mais (a não ser em meus sonhos):
Feron.
Tentei controlar a emoção ridícula que dominou meu coração.
Ali estava a razão pela qual eu lutei, me entreguei e chorei por todo esse
tempo – e só corações apaixonados poderiam entender a sensação. Eu não pensei
que me seria concedido o privilégio de ver o garoto novamente... Não nessa
vida.
Clarisse arfou ao ver-nos naquela situação: cercada por armas e feitas de
refém. Apavorada, ela procurava a filha com os olhos. Felizmente, Elisa estava
segura no porão.
Todavia, Feron fixava as íris exclusivamente em mim. Penetrantes e intensas,
cheias de palavras não ditas. Ele parecia apavorado por me ver em tal situação;
seus olhos voavam de mim para a arma nas mãos de Lola. Seu maxilar se
trincava em angústia e ódio.
Dentre os carros da polícia, também haviam outros dois carros luxuosos. De
um deles, saíram os pais de Pilar (eu os reconhecia pelos traços quase idênticos
aos da garota. Cabelos negros e olhos azuis-intensos).
Já do outro carro, saíram Tomás e Stela, ambos com rostos apavorados.
Os policiais desceram de seus veículos, e impediram as famílias de se
aproximarem da cena. Fizeram um círculo em torno de nós, deixando Lola
encurralada. Com um alto falante, um policial anunciou.
– Thales Mourão, abaixe a arma e não iremos te machucar!
Lola trincou os dentes.
– Eu não sei quem é essa porcaria de Thales – e então puxou Mia pelos
cabelos, pegando todos de surpresa. Enganchou um braço em seu pescoço, e,
com a mão livre, apontava a arma para a sua cabeça.
Ouvi um grito de pânico advindo de longe. Olhando de relance, notei que o
grito de horror proviera de Stela; ela tampava a boca com uma mão, chorando.
Tomás tinha as mãos na cabeça, tomado por terror.
Lola continuou.
– Eu prefiro ser morta a ser presa. Mas não se enganem: eu levarei uma delas
comigo. – Embora acreditasse ser uma mulher, Lola tinha o corpo de um
homem; logo, sua força física também era masculina. Mia era uma garota esguia
(além do mais, não era uma atleta como eu).
Foi facilmente dominada.
Lola estreitou os olhos, considerando.
– Eu só tenho que decidir quem eu quero levar comigo. Vamos ver... Quem eu
odeio mais? Seria minha vadia cruel preferida? – e olhou para Mia, roçando o
cano da arma na cabeça dela. E, então, Lola olhou para mim, franzindo o cenho,
olhos alucinados. – Ou, quem sabe... Nossa falsa Santorini? A vaca que roubou o
meu homem? – e apontou a arma para mim.
Ah, meu Deus.
“Não!”, alguém gritou, em pânico.
Olhei para trás e percebi que o grito viera de Feron. Ele correu em nossa
direção, avançando entre os policiais.
Os policiais gritaram: “Garoto! Não faça isso!” – mas Feron não deu
ouvidos. Simplesmente passou através deles, rápido e forte demais para ser pego.
Adentrou na cena, parando bem na minha frente.
Mas o quê...?
Ele era uma barreira de músculos à minha frente, tornando-se uma muralha
protetora contra a arma de Lola.
Ao longe, seus pais gritavam, indignados e horrorizados com a atitude insana
do filho. Eu mesma não conseguia crer...
Por que ele estava fazendo isso?
Feron estava de costas para mim, protegendo-me com os braços. Embora eu
pudesse notar seu corpo tenso, consciente do perigo, o garoto manteve a voz
firme e imperiosa de sempre:
– Não faça isso, Lola. Eu tenho meios de conseguir o que você quer, não
precisa ferir ninguém.
Os olhos de Lola se suavizaram, melancólicos (como se ela estivesse
revivendo uma dor muito antiga).
– Eu quero você, Feron. Quero você há tantos anos... Mas você sempre me
disse não.
O quê? Feron já conhecia Lola?
Então o garoto sabia que o melhor amigo tinha transtorno de múltiplas
personalidades? Vinquei a testa, pensando: não seria uma verdade tão
estarrecedora assim. Afinal, os dois se conheciam há anos.
Thales deve ter apresentado os sintomas da doença há muito tempo. Sua
família devia saber de tudo, bem como seu amigo mais íntimo: Feron.
Aparentemente, Lola já havia aparecido para ele.
Por óbvio, Feron não contou nada a ninguém – devido à lealdade que sentia
pelo amigo, bem como pelo respeito que conservava pela família Mourão.
Afinal, aquele segredo não pertencia a ele.
Feron respondeu, calma e racionalmente. Ele podia mentir friamente quando
queria.
– Eu não sabia o que estava fazendo na época, Lola... Mas minha cabeça
mudou agora. Eu percebi o quanto você significa para mim. Liberte as meninas e
vamos ficar juntos.
Lola sorriu amargurada.
– Você está mentindo para mim? Está fazendo isso só para proteger a falsa
Santorini? Não entendo o que essa vadiazinha tem que eu não tenho.
– Não é nada disso, eu gosto de você e não quero que se machuque. Vamos
acabar com isso sem sangue. Abaixe a arma e eu ficarei com você.
Lola gritou, descontrolada.
– Não minta para mim! – e então deu um passo para a frente, apontando a
arma para nós dois. – Saia da frente, Feron, eu já me decidi. A falsa Santorini
vem comigo. Ela é a pior dentre as duas.
Feron deu um passo para trás, mantendo-se à minha frente – ainda mais
protetor. Então ele percebeu: Lola já tomara uma decisão, e não seria enganada.
A verdade era uma só: antes de Lola ser presa, um de nós seria morto.
Ainda se mantendo de costas para mim, Feron segurou minha cintura com
seus braços. Percebeu que não tinha como enganá-la. Agora, começou a
implorar.
– Por favor, eu te imploro, não machuque ela. Por mim.
– Por você? Mas o que você fez por mim em todos esses anos? – os olhos de
Lola ficaram molhados. – Você foi embora do Brasil e me abandonou, mesmo
sabendo que eu te amava. – Ela fechou os olhos, claramente sentindo dor. – E,
agora, se apaixonou pela garota errada. Nunca fui eu.
Feron me lançou um olhar, tenso.
Em seguida, virou-se para a perseguidora.
– Desculpe, Lola. Eu não sabia que você sentia tudo isso... Devia ter tido
mais consideração com você. Me perdoe, a culpa foi toda minha, as garotas não
têm nada a ver com isso. Deixe-as ir, vamos resolver isso entre nós.
Lola respirou fundo, tomando uma decisão. Ela não se compadeceu.
– Não! Saia da frente, Feron, ou quem vai morrer comigo será você.
Feron se empertigou, tomado por uma decisão. Como um animal perigoso e
furioso, rosnou.
– Não.
Lola recuou, parecendo ferida; ela havia percebido o óbvio: apesar te tudo,
Feron havia me escolhido. Uma única lágrima escorreu por seu rosto – e,
naquele segundo, ela era apenas uma garotinha rejeitada pelo seu amor de
infância.
– Muito bem, então – concluiu com amargura.
Tudo aconteceu em um milésimo de segundo. Percebendo o que aconteceria,
Feron virou-se para mim, abraçando-me protetor. De repente, me vi
enclausurada entre seus braços.
Um segundo depois, um barulho ensurdecedor de tiro ressoou. Pessoas ao
nosso redor gritaram. O corpo de Feron sofreu um impacto, e o garoto baixou os
olhos para me encarar – pálpebras arregaladas, assustado. De seu nariz, uma gota
de sangue escorreu, e o garoto caiu de joelhos.
– Ai, meu Deus! – berrei, tomada por total e completo pavor. Feron tinha
levado um tiro! O tiro pegou nas costelas.
Eu tentei segurá-lo, mas ele era muito pesado, e nós dois acabamos caídos no
chão.
Seus olhos iam se fechando. Eu sabia que a bala havia penetrado em um lugar
complicado, repleto de órgãos vitais.
– Isso não, meu Deus! – comecei a chorar. – Não, por favor, não...
Comecei a repetir em minha cabeça, os pensamentos entrando em pane.
Eu não valho esse sacrifício. Eu não valho tudo isso. Você é tudo o que
importa, eu não sou ninguém.
De repente, outro barulho de tiro ressoou. Eu não conseguia tirar os olhos de
Feron, mas de soslaio notei que Lola tinha caído no chão – sangrando. A polícia
teve que atirar em seu braço para conseguir pará-la, antes que a garota ferisse
mais alguém.
Uma voz conhecida gritou: “Parada! Aqui é a Polícia Federal! Você está
presa!”
Olhei para cima e dei de cara com a última pessoa que eu esperava ver:
Micaela! A garota franzina vestia o uniforme preto da Polícia Federal, e
apontava uma arma para Lola.
Micaela era uma agente da Polícia Federal?! Deus... Ela nunca foi aluna da
São Valentim! Era uma agente em serviço, infiltrada entre nós! Esse tempo todo
ela nos enganou...
Micaela parecia completamente diferente. Sem os óculos e com os cabelos
soltos, ela emanava autoridade e poder. Parecia uma líder entre os policiais ali –
pois todos os homens ao redor a obedeciam. Ela andou até Lola e a algemou.
Lola trincava os dentes, rolando de dor devido ao tiro no braço.
Mas nada disso realmente me importava; Feron caído em meus braços era a
minha única prioridade. O garoto se encontrava pálido e quase sem forças.
Também percebeu o que eu já sabia: ele não resistiria. O ferimento era sério
demais.
Ele segurou a minha mão, apertando com força. Suas íris felinas me fitaram
com urgência, e o garoto murmurou.
– Apenas fique comigo até o final.
Eu chorava descontroladamente.
– Sempre.
Nós dois. Até o final.


Quando Lola foi algemada, os familiares correram para nós. Clarisse e Erick
nos cercaram, apavorados. Erick chamava o nome do filho, tentando fazê-lo
reagir – e Clarisse apenas chorava.
Naquele momento, paramédicos chegaram para nos socorrer. Colocaram
Feron em uma maca e uma máscara de oxigênio em seu rosto. Correndo, o
encaminharam para uma ambulância.
Com o coração em destroços, eu observei o garoto ser levado. Horror e medo
me dominavam, pois se Feron morresse, eu não teria razão para existir mais.
Simplesmente.
Em segundo plano, eu conseguia ver os policiais interrogando Mia – e a
minha gêmea contando tudo o que sabia. O corpo de Pietra enterrado no
gramado, Elisa e Pilar amordaçadas no porão... Lola e Mia também receberam
tratamento dos paramédicos, que as encaminharam para outra ambulância.
Os pais de Feron entraram em seu carro, de modo a seguir a ambulância que
levava o filho. Eu pedi uma carona a eles. Notando meu desespero, eles não me
negaram (apesar de estarem claramente ressentidos, por incontáveis razões).
A ambulância parou no hospital mais próximo, e Feron foi direto para a sala
de cirurgia; nós tivemos que esperar no saguão. Como era madrugada, o hospital
estava quase vazio. Clarisse e Feron se sentaram nas cadeiras de plástico,
abraçados; Clarisse chorava, e Erick a consolava.
Já eu me encolhia no chão. Recostei-me em uma parede, com os braços
entrelaçados nas pernas e o rosto escondido nos joelhos.
Eu não sabia se Feron sobreviveria à cirurgia, e a aflição me partia no meio.
O pânico era tanto que fechava minha garganta, e eu sentia uma dor quase física.
O meu corpo gritava: se ele morrer, nós vamos morrer também.
Pessoas foram chegando.
Antonela, Vívian, Téo, e alguns outros parentes de Feron. Elisa, Mia e Lola
também tinham sido encaminhadas para o mesmo hospital. Segundo ouvi, Elisa
estava bem – apenas com algumas contusões e desidratação.
Mia levou um tiro de raspão e já estava sendo medicada. Quanto à Lola (ou
melhor, Thales), também falaram que ficaria bem, pois o tiro não pegou em
nenhum lugar vital. Naquele momento, eles o tinham dopado de calmante.
Quando acordasse, Lola teria ido embora e Thales não se lembraria de nada.
Eu ainda estava com a cabeça escondida nos joelhos. Ouvi vozes conhecidas
ao meu redor, como Vívian e Antonela, e Stela e Tomás. Algumas mãos foram
pousadas sobre meus ombros, acalentando-me – mas eu não me movi e nem
respondi às perguntas que me eram feitas.
Sentia que, seu me movesse, me partiria no meio. Um fina linha me mantinha
controlada e respirando.
Em algum momento da madrugada fria, um cobertor foi colocado em meus
ombros. Alguém se ajoelhou ao meu lado, sussurrando; era a voz de Stela.
– Sinto muito por isso, Lívia. Nos desculpe por tudo que fizemos você passar.
A preocupação de Stela me tocou. Ela cuidava de mim como se eu fosse,
também, sua filha.
A cirurgia demorou horas. Pessoas chegavam e iam embora do saguão do
hospital, conversando com os pais de Feron. Em um momento, pude distinguir
pela conversa que os pais de Thales vieram conversar com Clarisse e Erick.
Era a voz de uma mulher, e deduzi se tratar da mãe de Thales.
– Nos perdoem por isso, pelo amor de Deus. O Thales tomava os remédios
religiosamente, e ele estava muito bem. Há anos não apresentava mais sinais do
transtorno... Não sabemos o que aconteceu. Os médicos disseram que um trauma
muito grande pode ter gerado a recaída... Nós estamos arrasados... Sinto muito
mesmo.
Através da conversa, fiquei sabendo de vários fatos (e deduzi outros mais).
Thales apresentava o transtorno de múltiplas personalidades há cerca de cinco
anos. Lola não era sua única personalidade – embora fosse a mais recorrente.
Nesses últimos três anos, ele tinha estado bem; porém, nos últimos meses,
Lola voltou a aparecer. Os pais de Thales o encaminharam para o psiquiatra, e o
garoto vinha faltando às aulas com frequência, dopado de remédios.
Não obstante, ninguém sabia que ele estava matando as garotas da São
Valentim. Ninguém tinha ideia de que Lola podia ser tão perigosa. Toda vez que
ela aparecia, Lola não fazia nada cruel – só se vestia de mulher, brincava com
maquiagens, etc.
A primeira vez que Lola apareceu, Feron e Thales eram adolescentes. Lola
tinha uma peculiaridade: era apaixonada por Feron. Feron, é claro, manteve tudo
em segredo (a pedido da família de Thales). O garoto estava medicado e
controlado.
Os pais de Thales achavam que o retorno de Feron à São Valentim agiu como
um desencadeador – e pode ter trazido Lola de volta. Afinal, essa personalidade
era apaixonada por ele.
O fato de Feron estar em um relacionamento sério pela primeira vez, pode ter
deixado Lola enciumada (e, portanto, ensandecida).
Dias atrás, Mia procurou os pais de Thales para contar que o mesmo estava a
perseguindo por meses, fazendo ameaças anônimas. Então, os pais de Thales
contaram a verdade a ela: o garoto estava doente, e passando por um tratamento
psicológico. Ele precisava de ajuda médica – e não da polícia.
Para evitar um escândalo, Mia concordou em manter o segredo. Não obstante,
ninguém sabia que Lola era a assassina da São Valentim. A Polícia Federal
infiltrou uma de suas agentes mais talentosas entre os alunos – Micaela – para
investigar. A Polícia tinha tido acesso à lista por meio do celular de Nicole.
Na verdade, Micaela não tinha vinte e dois anos, como nos contou (ela tinha
vinte e nove). Além do mais, seu sobrenome não era Falcão, e para o desgosto de
Vívian ela não tinha relação de parentesco nenhuma com a estilista famosa.
Segundo soube, os pais de Pietra já haviam chegado à São Valentim. A
faculdade foi interditada, e o corpo da garota estava sendo removido do local –
para receber um enterro digno. Seus pais ficaram destruídos, pois ainda restava
uma esperança de que a filha estivesse viva.
O futuro de Thales era incerto. Provavelmente, ao recuperar-se do tiro no
braço, ele seria internado em um hospital de segurança máxima.
Horas depois, os médicos que operaram Feron saíram da sala de cirurgia.
Eu me levantei, ansiosa – e com o coração disparado. Minha vida dependia
dessa notícia.
Uma médica grisalha, chefe da cirurgia, retirou a touca e comunicou.
– Fiquem tranquilos, tudo correu bem. Ele é um garoto muito forte, e irá
acordar em breve.
Graças a Deus – caí no chão, aliviada; finalmente podia respirar. Um
caminhão saiu de cima dos meus ombros. Estamos salvos, estamos salvos.
Enquanto isso, Clarisse e Erick se abraçaram, em êxtase. A médica deixou
apenas os membros da família entrarem no quarto em que Feron estava alocado.
Eu fiquei horas sentada no saguão de espera, aguardando notícias. Só iria
embora depois que o garoto acordasse.
Tempos depois, Clarisse apareceu no saguão, indo em direção à cantina do
Hospital. Afinal, todos estavam há horas e horas sem comer.
Eu corri até ela, segurando seu braço. Clarisse levou um susto.
– Você ainda está por aqui?
Disparei com aflição.
– Ele acordou? Está bem?
– Sim, acordou. Está com dor, mas vai ficar bem.
Baixei os olhos, constrangida.
– Será que eu posso vê-lo, por uma única vez? – Eu tinha tanto a dizer...
Tantas confissões a fazer.
Clarisse desviou os olhos, tentando tomar uma decisão. Segundos depois,
olhou para mim. Não parecia com raiva – e sim magoada.
Eu a tinha ferido pessoalmente.
– Não, Ana Lívia, você não pode vê-lo. Você fez o meu filho sofrer demais...
Nesse último mês, ele virou um zumbi. Nunca o vi tão destruído. E, agora, meu
filho levou um tiro por você... Ele quase morreu! Tem noção do que é isso?
Quanto mais estrago você pretende causar na vida dele?
Franzi o cenho, magoada.
– Eu nunca quis o machucar. A vida dele é tudo para mim – confessei com
sinceridade.
Clarisse suspirou.
– Então permita que ele seja feliz. Liberte-o desse amor tóxico, construído
sobre mentiras. Vá embora, volte para a sua cidade e não apareça mais. Ele
está... Dominado por você. Permita que o Felipe te esqueça... Só assim ele vai
voltar a ser feliz.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
– Mas eu... O amo.
Droga, não queria chorar na frente dela.
Todavia, Clarisse me fitou penalizada. Ela não me odiava – só queria o
melhor para o seu filho.
– Lívia, algumas histórias de amor não são para acontecer. Elas chegam, te
ensinam uma lição de vida e vão embora. Veja a tragédia que aconteceu...
Quando vocês estão juntos, só geram dor e caos.
Eu soltei seu braço, destruída.
Talvez Clarisse tivesse razão... Por qualquer ângulo que eu olhasse, não seria
natural Feron ficar comigo. Nós éramos de universos totalmente diferentes.
Além do mais, havia tanta mágoa e sentimentos não ditos entre nós...
Clarisse continuou.
– Eu sei o que você fez pela Elisa, sei que foi até o assassino só para salvá-la.
Minha família sempre estará em dívida com você por isso. Contudo, não posso
esquecer todo o sofrimento que o meu filho passou, toda a mentira que você
contou. Não dá para perdoar, sinto muito. Pelo bem da minha família, eu te
imploro: não apareça mais.
Triste, Clarisse me deu as costas e sumiu em um corredor.
As palavras dela me destruíram. Cravaram-se em meu âmago e criaram raízes
profundas. Em cada uma de suas palavras, eu enxergava total razão de ser.
Clarisse estava simplesmente... Certa.
A questão aqui não era sobre como eu me sentia – e sim como Feron se sentia.
Eu havia causado danos demais; e ficando aqui, só geraria mais caos na vida do
garoto. Para permitir que sua ferida cicatrizasse, eu teria que partir.
E nunca mais voltar.









CAPÍTULO 12

Peguei um ônibus na porta do hospital, e fui até o hotel barato em que eu me
hospedara. Tive que tomar um banho e trocar de roupa (pois o sangue de Feron
manchava a minha blusa).
Quando fiz o que tinha que fazer, peguei minha mochila, paguei a conta e fui
embora.
Um tempo depois, eu já estava na rodoviária de São Paulo, com a passagem
para Belo Horizonte comprada. O próximo ônibus sairia apenas em uma hora e
meia.
Comprei um lanche qualquer, vez que não comia há horas. Me obriguei a
comer, sem ânimo nenhum – apenas para não morrer de fome.
Depois, sentei-me em um dos bancos para esperar. Suspirei, física e
emocionalmente exausta. Tinha sido o pior dia da minha vida. Eu ainda não
acreditava no que Feron havia feito por mim... Ele escolheu levar um tiro em
meu lugar. Simplesmente.
Clarisse tinha razão: eu era um tornado causador de problemas na vida do
garoto; para o bem dele, eu tinha que sumir. Era ganância demais da minha parte
querer permanecer na vida de Feron. Nem o amor mais profundo poderia superar
tudo o que passamos: todas as mentiras, desconfianças, ressentimentos...
Enquanto eu me perdia em pensamentos, ouvi alguém gritando o meu nome.
Olhei para cima e dei de cara com Stela correndo em minha direção.
– Lívia! – chamava-me com desespero.
Mas o quê...?
Logo em seu encalço, Tomás também corria. Passos atrás dele, estavam
Vívian e Antonela.
Eu retirei os fones de ouvido, completamente chocada. Stela parou na minha
frente, mãos nos joelhos, arfando.
– Nós... Te procuramos... Por toda a rodoviária... Pensamos que já tivesse
partido.
Tomás chegou, prostrando-se à minha frente, também arfante.
– Lívia, não vá embora – segurou a minha mão, falando com sinceridade. –
Você faz parte da nossa vida, da nossa família.
Vívian e Antonela chegaram, cercando-nos. Observavam a cena com olhos
aflitos.
Stela segurou minha outra mão, olhos lacrimejantes.
– Você se tornou nossa filha também. Desculpe por não ter dito isso antes,
desculpe por termos deixado que fosse embora. Não precisa mais ficar sozinha,
nós queremos ser seus pais.
– Nós já somos seus pais – Tomás emendou. – Queremos te adotar. Por favor,
não vá embora.
À essa altura, Stela já estava chorando.
– Nós amamos você.
Pisquei, estupefata; senti meu rosto molhado... Eu chorava sem perceber.
Aquela declaração tão honesta tocou profundamente meu coração. Olhei para
eles.
– Eu também amo vocês.
Stela sorriu, emocionada.
– Então você vai ficar?
Sim!, meu coração queria gritar – mas minha razão sussurrava outra coisa.
Não dava para conviver com Mia, na casa dela, tomando a vida dela. Nada
daquilo era meu.
Suspirei, fitando-os com desolação.
– Não, sinto muito. Eu amo todos vocês, mas esse não é o meu lugar. Essa
vida não é minha. Eu preciso voltar para onde eu pertenço, e parar de causar
tanta destruição na vida dos outros.
Stela vincou a testa, surpresa e arrasada. Tomás pareceu consternado, sem
querer acreditar.
– Mas você não estará tomando a vida de ninguém, Lívia! Irá construir uma
vida para si mesma aqui, ao nosso lado. Não como Mia, mas como Ana Lívia.
Seu lugar é onde está a sua família, e nós somos sua família.
Nesse momento, Antonela deu um passo à frente, expressão angustiada.
– Por favor, fique, esse é o seu lugar. Você conquistou esse espaço por
merecimento.
Vívian emendou, sincera.
– Todos nós amamos você. Fique onde está sua família e seus amigos, por
favor.
Stela me encarava, lágrimas rolando dos olhos.
– Nós precisamos de você.
Eu não acreditava estar ouvindo tudo aquilo, pois há tempos demais, eu não
era tão importante para alguém. Pensei que não faria falta para ninguém nesse
mundo – mas estava enganada. Existiam pessoas que me amavam!
Entretanto, as palavras de Clarisse se enraizaram profundamente em meu
peito – tornando-se um grilhão. Vá embora, permita que o Felipe te esqueça...
Só assim ele vai voltar a ser feliz. Pelo bem da minha família, eu te imploro: não
apareça mais.
E apesar de amar todas aquelas pessoas na minha frente, Feron era a minha
maior prioridade na vida. E, por ele, qualquer coisa.
Neguei com a cabeça, encarando a todos com tristeza.
– Sinto muito.



Stela e Tomás não acreditaram em minha decisão. Eles ficaram destruídos –
assim como Vívian e Antonela.
Eu disse a verdade para eles: não conseguiria ser feliz vivendo em São Paulo, e
queria construir uma vida nova para mim. A minha própria vida.
Assim que eu estivesse estabelecida, prometi os visitar. Tomás e Stela
queriam me ajudar financeiramente, mas eu disse a eles que só pediria se
realmente precisasse. Por enquanto, havia muito dinheiro em minha conta.
Tive que ficar um tempo abraçada à Stela, pois ela chorava desoladamente.
Consolei-a.
– Você não irá me perder, ok? Nós sempre manteremos contato. Vou te ligar
toda semana, e você pode vir me visitar... Nós passearemos e faremos programas
de mãe e filha juntas. Vou deixar você comprar roupas caras e outras bobagens
para mim, juro.
Stela soltou uma risada, mas logo depois voltou a chorar novamente; secou os
olhos com uma mão.
– Eu entendo, mas meu coração não quer aceitar. Não vai ser a mesma coisa...
Filhos devem estar perto dos pais. Por que você não faz uma faculdade de
medicina em São Paulo?
Suspirei.
– São Paulo é... Dolorosa para mim. Muitas lembranças tristes, me sinto
sufocada aqui. Eu preciso reiniciar minha vida em outro lugar, e sentir que ela é
minha de verdade.
Por fim, Stela e Tomás acabaram aceitando (até porque, não tinham como me
obrigar a ficar). Entretanto, eles queriam saber meu novo endereço e telefone o
mais rápido possível – e insistiram em me ajudar a escolher a nova faculdade,
comprar os materiais, etc.
Acabei aceitando, vez que senti que participar da minha vida era importante
para os dois. Além do mais, era maravilhoso ter quem zelasse por mim (não por
Mia Santorini – mas por mim, Ana Lívia). Eu tinha esquecido como era a
sensação.
Abracei Vívian e Antonela por muito tempo, e as duas acabaram chorando
comigo. Prometeram me visitar nos feriados (e me arrastar com elas em suas
viagens loucas; eu estava proibida de dizer não).
A hora do meu ônibus chegou, e eu tive que me despedir. Os quatro me
abraçaram, completamente arrasados.
Quando entrei no ônibus, finalmente me permiti chorar (não queria fazer isso
na frente deles, pois precisava me mostrar forte).
Todos os motivos que citei para não ficar eram reais – porém secundários.
Havia uma motivação muito mais profunda para ir embora. Foi aquilo que me
fez entrar naquele ônibus e deixar minha família para trás.
A verdade era uma só: São Paulo era a casa de Feron. Cada esquina daquela
cidade me lembraria o garoto, e toda memória seria um tiro no meu coração.
Aquelas ruas estavam impregnadas pela lembrança dele, seu cheiro e seus olhos
de mistério.
A casa dos Santorini também conservava seus rastros – vez que, por
inúmeras vezes, ele se sentou naquela mesa de jantar, deitou-se em minha cama,
andou por aqueles corredores...
Aquele mundo elitista e luxuoso era o mundo dele. Quem eu pensava que era
para me infiltrar dentre os seus? Já não havia causado estragos demais?
Pelo bem dele, eu precisava me manter longe (e pelo meu, também). Já que
não ficaríamos juntos, necessitava arrancar as garras dele do meu coração. E isso
só aconteceria se eu pudesse construir outra vida, em outro lugar.
Talvez, com os anos, eu conseguisse esquecer a dor – e o garoto se tornaria
uma linda memória. Um nome repetido em minhas preces todas as noites, uma
lembrança profunda e inesquecível...
Algumas histórias de amor não são para acontecer. E tudo bem. Aqueles
meses com ele já tinham sido o suficiente para mim, e já eram mais do que eu
merecia.
A viagem para Belo Horizonte foi longa e triste. Quando pisei em Minas, já
era noite. Tomei outro chá de cadeira na rodoviária, na espera do próximo ônibus
para Campina Bela.
Cheguei na minha casa em Campina já de madrugada. Outra vez, minha
casinha parecia muito pequena e sufocante – mas eu me resignei. Essa era a
minha vida real.
E, então, o tempo passou.



Vinte e oito dias se passaram desde que deixei São Paulo.
Stela, Tomás e minhas amigas mantinham contato. Naquele interstício de
tempo, eu passei todos os dias estudando, pois o vestibular da faculdade em Belo
Horizonte estava chegando.
Tomás me mandou o dinheiro para a lista de materiais (os livros de medicina
eram caríssimos). Eu tentei resistir, mas ele e Stela estavam irredutíveis: queriam
ajudar de alguma forma.
Eu também já tinha conseguido uma república para morar. Dividiria o
apartamento com mais três meninas – o que seria ótimo. Eu teria os gastos
reduzidos, e poderia até fazer algumas amigas.
E foi assim que o tempo passou. Eu estudava muito, e tentava me concentrar
no futuro. Muito embora, tarde da noite, meus esforços caíssem pelo ralo. O
passado vinha bater à minha porta – à espreita dos meus sonhos; e as memórias
profundas pulsavam em meu coração. Todas as noites, eu dormia chorando.
A tempestade que tomava o meu peito tinha nome – e certos olhos de
mistério, diamantinos e muito sérios. Desde a primeira vez que os vi, pensei que
eram intensos como poesia, mas caóticos como um furacão.
De fato, causaram um furacão em minha vida.
Eu vou me lembrar de como ser feliz de novo, repetia para mim mesma. Eu
preciso tentar.
Mas como ser feliz depois de ter vivenciado uma experiência tão
extraordinária? Nada no mundo poderia se comparar ao garoto.
Eram oito horas da noite, e eu me arrumei para ir à academia. Tinha retornado
para minhas aulas de artes marciais, apenas para ocupar minha cabeça. Coloquei
um moletom e um capuz, pois estava bem escuro e frio; era pleno inverno.
Tranquei a porta da minha casa, coloquei as mãos nos bolsos e fui em direção à
rua. Mas quando ergui a cabeça, deparei-me com uma cena chocante: um Range
Rover preto, estacionado na frente da minha casa. Um garoto musculoso, com os
braços cruzados, recostava-se no carro.
Meu coração parou.
Feron.
Lindo além da imaginação, mas feroz como o comandante lendário que era.
No escuro da rua, pouco se via do seu rosto. Apenas suas íris diamantinas
reluziam – ferozes e magoadas. Ele estava apenas há alguns metros de mim.
Encarou-me, falando com a voz séria e ferida.
– Você fugiu de mim... Outra vez.
Eu engoli em seco, sem saber o que responder. Dentro dos bolsos do meu
moletom, minhas mãos tremiam. Não acreditava que o garoto havia viajado
tantas horas e vindo parar aqui, na minha minúscula cidade – só por causa de
mim.
Ele continuou, o tom enigmático; fitava-me com intensidade.
– Eu levei um tiro por você, e você nem se dignou a me visitar no hospital.
Lá estava aquele comandante outra vez: prostrado diante de mim, querendo
uma resposta. Então, fui sincera – pois o garoto merecia a verdade. Não havia
como nós dois nos ferirmos mais, afinal. Já tínhamos chegado ao limite.
– Eu... Achei que seria melhor para nós dois dessa forma. Eu só faço mal para
você.
– E você tomou essa decisão sozinha? – ele negou com a cabeça, sorrindo
amargurado. Depois, me encarou atormentada e profundamente. – Me diga uma
coisa... Nosso amor significou alguma coisa para você? Ou eu amei sozinho?
Eu fechei os olhos por um momento, tentando controlar as lágrimas traidoras
que queriam escapar.
– Nosso amor foi tudo para mim. Nunca amei ninguém como amei você.
E era verdade.
Ele ficou em silêncio por um tempo, digerindo; depois de um tempo, franziu o
cenho e perguntou.
– Então por que você colocou malditos 600 quilômetros entre nós?
Eu neguei com a cabeça, sentindo os olhos úmidos.
– Porque eu só te fiz mal. Se eu continuasse na sua vida, você não conseguiria
ser feliz. Eu fui tóxica para você, Feron. Queria te... Libertar.
Ele ofegou, indignado; em seguida, trincou o maxilar, em fúria.
– Quantas facas a mais você pertence cravar no meu coração? Eu te amo,
porra! Eu te amo há tempo demais, desde a primeira vez que te vi. Esse maldito
amor tem me corroído, e destruído a minha vida! Nunca vivi um caos como esse.
Me diga... O que você vai fazer a respeito disso?
Senti uma dor ricochetear no meu peito.
– Foi por isso que eu me afastei. Não quero ser esse veneno na sua vida.
Ele rosnou.
– Então você vem, bagunça a minha vida e vai embora? Não! – ele se
desencostou do carro, enraivecido. Andou até mim, parando na minha frente.
Alto e perigoso, encarava-me de cima com ferocidade. – Assuma a
responsabilidade! Foi você quem despertou esse amor, então me dê uma saída!
Me tire desse tormento.
Arfei, pega de surpresa diante de sua reação furiosa.
– O que você quer de mim?! Você viu com seus próprios olhos: eu faço tudo
errado.
Seus olhos se suavizaram – e, por trás da fúria, eu vi a mágoa guardada ali.
– Quero que você se renda ao nosso amor, assim como eu me rendi. Eu sei
que você também me ama, então pare de fugir de mim.
Encarei-o, emocionada.
– Mas e sobre tudo o que eu fiz?
– Pensei que não podia te perdoar, mas percebi que já havia perdoado. Meu
amor foi maior que as mentiras que nos separaram... Por esse amor, eu passo por
cima de tudo. Todos os seus erros, eu posso perdoar, porque eu sei que também
sou todo equivocado e cheio de estragos. Eu quero ficar com você, mas parece
que estou lutando sozinho. Eu sigo te procurando, buscando uma resposta...
Estou sofrendo sozinho, é isso?
Repeti a verdade que havia se cravado em meio peito.
– Alguns amores... Simplesmente não foram feitos para acontecer.
Ele vincou a testa, perplexo e magoado.
– Impossível você estar falando isso para mim. Não agora, não depois de
tudo.
Eu lutei para encontrar uma resposta, mas acabei suspirando em frustração – e
tristeza, e confusão. Meu coração dizia: sim, se renda; mas a razão dizia: não,
tem tudo para dar errado. Vocês só irão sofrer mais.
O garoto me fitou de cima, ferido diante do meu silêncio. Confessou:
– Essa é a última vez que me declaro para você. Meu amor continua aqui,
intocado. Contudo... Uma palavra de negação sua, e eu vou sumir. Nunca mais
me verá na vida.
Eu sabia que ele estava falando a verdade. Feron era um homem de extremos:
ou fogo e paixão, ou uma pedra de gelo indiferente. Se recebesse o meu não, o
garoto nunca mais apareceria em minha vida.
Afinal, eu já tinha dito muitos “nãos” para ele.
– Você me aceitaria assim? – indiquei a mim mesma; minhas roupas usadas,
meus tênis surrados. – Me aceitaria como Ana Lívia? Não sou nenhuma princesa
nascida em berço de ouro. Somos tão diferentes... Você estaria disposto a entrar
no meu mundo?
Feron estava acostumado a observar o mundo do alto de sua cobertura.
Todavia, aqui estava ele: parado em minha cidadezinha, na frente da minha
casa humilde. Será que ele conseguiria estar com alguém que não fosse uma
princesa moderna (do jeito que ele estava acostumado)?
Feron franziu o cenho.
– Eu me apaixonei por você, Lívia. Pela sua voz, por cada palavra que falou;
pela sua generosidade, pelo seu coração. Eu não me apaixonei por seus bens ou
sua família, pelo amor de Deus... Eu me apaixonei por você. Mia Santorini
nenhuma pode te substituir. Você é única.
Olhei para baixo, querendo escapar da potência de suas íris intimidadoras. Um
sorriso quis rasgar o meu rosto.
Meu amor continua aqui, intocado, ele dissera.
O meu também, quis responder.
– Não vai ser fácil, você sabe... Somos quase de planetas diferentes, e muita
gente não irá nos aceitar.
– Não estou nem aí para os outros. Quanto às nossas diferenças... Nós nos
encontraremos no meio do caminho. Eu vou fazer dar certo.
Mordi o lábio para não sorrir. De um dos meus olhos, uma lágrima rebelde
escapou (dessa vez, de felicidade). Ver Feron me aceitando assim – de verdade,
sem máscaras – era extraordinário. Perguntei:
– Isso quer dizer que você quer namorar comigo outra vez? Mesmo sabendo
agora quem eu sou?
O garoto soltou aquele sorrisinho lateral enigmático, tão típico dele. Sempre
um mistério.
– Namorar, noivar, casar, ter filhos, o que você quiser. Quer que eu me mude
para cá? Eu me mudo. Quer fazer as malas e fugir do país? Ótimo também.
Minha única condição é: você precisa estar ao meu lado.
Agora não pude esconder o sorriso. O mesmo sorriso também rasgou o rosto
de Feron – e então ele me pegou de surpresa. Enganchou-me em um abraço,
faminto e aliviado.
Envolvida dentro dos seus músculos, aproveitei para sentir seu calor, bem
como o aroma que tanto amava: pimenta e oceano.
Ele entrelaçou os dedos na raiz do meu cabelo e escondeu o rosto em minha
clavícula.
– Não fuja de mim nunca mais, promete? Isso me destrói.
Abracei sua cintura, maravilhada. Aquele era o melhor lugar para se estar na
vida.
– Nunca mais, prometo. Nosso amor é a minha prioridade.
Ele roçou o rosto em minha clavícula, sentindo o meu cheiro e suspirando de
prazer.
– Você é a minha vida.



Feron passou a noite na minha casa.
Posso dizer, sem sombra de dúvida, que foi a melhor noite da minha vida.
Entre nós, não havia mais nenhuma mentira. Em minha cama pequena, nós
passamos a noite abraçados, simplesmente sentindo um ao outro.
Bom, dentre outras coisas mais interessantes.
Ver aquele garoto (lendariamente rico e perverso) em minha casinha simples
foi estranho – e cômico, e lindo.
O garoto entrou em meu mundo sem restrições, completamente entregue.
Lavou louça, arrumou a cama, cozinhou para mim... Às vezes, eu o observava
andando pelos corredores simplórios da minha casinha, e perguntava-me se
estava sonhando.
Nós ficamos dois dias sem sair de casa – só matando a saudade e a vontade
um do outro. Então, no terceiro dia, tomamos uma decisão conjunta. Eu queria
estar onde Feron estivesse; logo, voltaria para São Paulo. Lá estava o meu amor,
minhas amigas e a minha família (e não fazia sentido permanecer longe). Além
do mais, havia várias faculdades de Medicina em São Paulo.
Na noite do terceiro dia, fiz as malas, paguei o aluguel para Dona Cristina e
me despedi dela. Deixei todas as minhas mobílias para trás; se Dona Cristina as
vendesse, renderia um bom dinheiro para ela.
Também fui à academia de karatê despedir-me do meu professor. Em seguida,
Feron e eu entramos no carro e partimos de Campina Bela.
Feron veio de São Paulo à Minas de carro, pois queria tempo para pensar.
Então, nós dois fizemos a viagem em dois dias, parando em hotéis e restaurantes
das cidades no meio do caminho. Foi uma viagem maravilhosa! Ouvíamos
música, conversávamos sobre tudo e sobre nada (simplesmente felizes por
estarmos na companhia um do outro).
Quando chegamos à São Paulo, era noite. Coincidentemente, também era uma
sexta-feira de feriado. Através das redes sociais de Mia, eu a vi postando fotos
no Rio de Janeiro com um grupo de amigas.
Como minha gêmea não estava em casa, pedi para Feron me levar para a casa
de Stela e Tomás – queria os fazer uma surpresa.
Foi Stela quem atendeu a porta. Quando me viu parada lá, ao lado de Feron,
quase teve um infarto no miocárdio. Saiu pulando e me abraçando.
Tomás chegou correndo, um sorriso rasgando o rosto.
– Você voltou, é isso?
– Sim – confirmei, gargalhando diante da reação exagerada deles. E então foi
uma festa na casa! Passamos a noite lá; jantamos juntos, conversamos e
matamos a saudade.
O futuro ainda era incerto... Onde eu moraria? Tomás e Stela queriam comprar
um pequeno apartamento para mim ali perto (se eu viesse morar em sua casa,
Mia teria um infarto).
Tomás e Stela insistiram em entrar com os papéis da adoção o mais rápido
possível, e eu aceitei. Queria pertencer àquela família legalmente – pois em meu
coração, os dois já eram os meus pais.
Hospedei-me na casa de Feron, enquanto juntos procurávamos um pequeno
apartamento para mim. Acabamos por encontrar um apartamento pequeno e
aconchegante, bem no meio do caminho entre a casa dos Feron e a casa de
Tomás e Stela. Perfeito.
Feron me convenceu a fazer o vestibular de medicina da São Valentim – que
se daria dentro de um mês e meio. O prédio de medicina era longe do prédio de
Gestão, e eu não veria Mia se não quisesse.
Falando em Mia... Bom, ela não estava aceitando muito bem minha adoção.
Mas, sinceramente? Eu não estava nem aí para o que Mia pensava. Evitaria a
garota enquanto pudesse. Embora fôssemos irmãs de sangue, eu considerava
como família pessoas escolhidas pelo coração. Stela e Tomás eram uns deles.
Se eu passasse no vestibular da São Valentim, Feron seria o meu veterano.
Além do mais, eu poderia ver Antonela e Vívian todos os dias, passando o
intervalo das aulas com elas, como sempre. Quando liguei para minhas amigas
comunicando o fato, ambas entraram em êxtase.
O tempo passou, e eu me mudei para o meu pequeno – mas lindo –
apartamento. Não deixei Stela e Tomás torrarem seu dinheiro com móveis
caríssimos. Quis apenas o básico; o resto, eu conquistaria.
Fui fazer a prova do vestibular da São Valentim. Como eu havia estudado
bastante, sentia-me confiante.
Duas semanas depois, o resultado saiu: eu tinha sido aceita! Finalmente
cursaria a minha faculdade dos sonhos...
Para comemorar, fiz uma pequena festinha no meu apartamento naquela noite.
Convidei apenas os meus pais, Feron e Elisa, Vívian, Antonela e Téo. Quis
convidar os pais de Feron também – mas Clarisse ainda estava em processo de
me aceitar. Ainda não me perdoara totalmente.
Bom... Eu esperava que o tempo pudesse curar a mágoa em seu coração, pois
eu não pretendia sair da vida de seu filho nunca mais.
Feron me surpreendeu naquela noite de comemoração, dando-me um presente
peculiar. Ele me entregou uma caixa com buraquinhos; um sorriso malicioso no
rosto.
– Como você não aceita presentes caros, encontrei um presente perfeito para
você. Tomás e Stela foram meus comparsas nisso.
Elisa levantou uma mão, eufórica.
– E eu escolhi!
Abri a tampa da caixa, curiosa.
– Ai, meu Deus! – arfei, maravilhada. Lá dentro havia um pequeno
cachorrinho! Vira-lata branco, com manchinhas pretas. Era um filhotinho
adorável e peludo, e eu me apaixonei na mesma hora.
– Não é a sua cara? – Vívian riu.
– Mais Ana Lívia, impossível – Antonela gargalhou.
Abracei o filhotinho, emocionada.
– Tem cara de Apolo, não acham?
Ele me lambeu e balançou o rabinho, eufórico. Parecia saber que estava sendo
adotado! Bom, pensei, rindo internamente com a comparação, nós dois tínhamos
algo em comum. Ganhamos uma família.
– Feito – Feron concordou. – Vai se chamar Apolo Feron Santorini.
Todos gargalharam. Eu observei aquele momento, pensando em como a vida
poderia tomar rumos inesperados. Vida, sábia vida...
Tenho certeza que, de onde quer que estivesse nos observando, minha mãe
estaria feliz por mim.
O sonho que tive com Cecília meses atrás acabou por se concretizar, pois
minha mãe dissera: fique tranquila, minha filha. Você não ficará sozinha por
muito mais tempo. Sua vida vai mudar, confie em mim.
Naquele momento, minha mãe tinha me dado um aviso. Cecília nunca mais
apareceu em meus sonhos – pois ela sabia que, agora, eu estava feliz (e tinha
uma família para cuidar de mim).
Observei meu amor, minha família e meus amigos ao meu redor – com o corpo
tomado por gratidão. Conseguimos, Lívia – meu coração sussurrou.
Finalmente e para sempre, minha alma estava em paz.



Fim.




Conheça outros Romances da autora:
ESCOLA DOS MORTOS – O LIVRO
SINOPSE

“Lara Valente viverá uma história de amor avassaladora e surpreendente.


Ela se apaixonará por um garoto – mas só existia um detalhe: ele já estava
morto.
Lara também irá morrer. Mas sua história não termina por aqui. Pelo contrário: é
aí que ela começa.
A jovem carioca será enviada para um misterioso internato na Inglaterra. Mas o
lugar esconde um segredo. Vários acontecimentos irão leva-la a descobrir que,
por trás da fachada da Escola dos Sotrom, existe uma Escola muito mais
perigosa (cheia de segredos, pactos e mortes).
Nessa Escola repleta de ocultismo, Lara será assassinada. Mas sua história ainda
não terminou. Ela acordará em um mundo paralelo, um universo glamouroso
onde vive a nata dos melhores, escolhidos à dedo pela Morte.
A Escola dos Mortos abriga os que foram assassinados e enviados para lá. Uma
sociedade escondida em que existem apenas os melhores, coexistindo em
segredo com a escola dos vivos.
Adolescentes mimadas, carros luxuosos, segredos escandalosos, campeonatos,
corridas e caçadas.
Lara irá se apaixonar por um homem perigoso. Luka Ivanovick: com seus olhos
negros, hostis e arrogantes – repletos de ocultismo e falta de respostas. Ele é o
mais cobiçado e perigoso do lugar (e, misteriosamente, fica obcecado por Lara).
Através dele, a garota descobrirá a cruel história por trás de sua morte.

Paixão, mistério e um jogo de sedução escuro e apimentado irão acontecer entre
o mundo real – e o misterioso mundo noturno da Escola. Até Lara descobrir que,
dentro dos caixões os mortos daquele lugar nunca dormem.”

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autora_karinevidal

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