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PERIGOSAS NACIONAIS

PERIGOSAS ACHERON
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PERIGOSAS ACHERON
PERIGOSAS NACIONAIS

Copyright © Michelli Moraes 2014

1ª edição

ISBN: 1496198662

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra

pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de

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seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a

permissão da detentora do copyright.

Esta é uma obra de ficção. Os nomes, personagens e

incidentes nele retratados são frutos da imaginação da

autora. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas

ou não, eventos ou locais é uma coincidência.

___________________________________

PERIGOSAS ACHERON
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Edição: Michelli Moraes

Diagramação: Audrey O.

Capa: Media Eyes Comunicação

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Ao meu marido, meu maior


incentivador.

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PARTE I
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12

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CAPÍTULO 13
CAPITULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18

PARTE II
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
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CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33

PARTE III
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
CAPÍTULO 41
CAPÍTULO 42
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CAPÍTULO 43
CAPÍTULO 44
CAPÍTULO 45
CAPÍTULO 46
CAPÍTULO 47
INCONDICIONAL

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F OI EM UMA TARDE QUENTE DE JUNHO QUE ISADORA


nasceu. O ano era 1438.
Assim que amparada pela parteira, a primeira
constatação não foi a respeito da saúde da recém-
nascida, e sim de qual era o seu sexo.
- Uma menina! – exclamou.
Então, a criada a pegou, a enrolou em um
cobertor e a levou até a antessala, onde estavam o
pai e algumas pessoas aguardando, a fim de lhes
informar o nascimento da criança. O pai a pegou e
levantou para que os demais a vissem. Sem o

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mesmo entusiasmo com que apresentara o seu


primeiro filho, ele anunciou:
- Uma princesa para iluminar o reino!
Entregando o bebê à criada, perguntou como
estava a rainha. Sendo informado de que estava
bem, descansando, ele agradeceu a todos e saiu da
sala em direção ao seu escritório, onde voltaria a
cuidar dos assuntos de governo.
O bebê foi, então, adequadamente vestido, e
levado até a ama de leite, como era o costume. A
mãe não demonstrou muito interesse, continuando
seu repouso, após as cansativas horas anteriores,
enquanto as empregadas cuidavam da criança.
A diferença entre Isadora e outros bebês da
época, era que ela já nascia com obrigações, sendo
objeto de muita expectativa. Como princesa, se
esperava que cumprisse seu papel com perfeição,
servindo, provavelmente, para firmar alguma aliança
por meio de um bom casamento arranjado por seu
pai, que, evidentemente, teria por objetivo o
fortalecimento do reino.
Tratava-se do Reino de Moreau-Leclerc, um
pedaço não muito grande de terra situado na
Europa. O lugar era consideravelmente próspero,
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com planícies de solo fértil e rios que davam o


suporte para a produção de alimentos e criação de
animais. O clima era bom. Havia dias quentes de
verão, assim como, algumas vezes, via-se a neve no
inverno.
O rei, Felipe II, da dinastia Noyers, era um
homem forte, poderoso e inteligente que governava
com punhos de ferro, sendo, muitas vezes, mais
temido que amado por seus súditos. Era
considerado belo. Tinha um porte atlético devido ao
fato de ser muito ativo, adorando cavalgar e caçar.
Os cabelos eram castanhos claros até os ombros,
um rosto fino, com nariz e boca bem desenhados, e
olhos castanhos esverdeados.
Dividia-se entre os seus maiores prazeres - a
caça e os jantares regados a vinho - e os esforços
para manter a união do seu reino - firmando
estratégias e liderando seus exércitos em guerras
com países estrangeiros ou para abafar revoltas
internas.
O rei Felipe gostava do poder. Realmente
apreciava sentir-se no centro de tudo, de ser tratado
como o soberano que era. Não dispensava
cerimônias e honrarias que exaltavam o seu status de
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enviado por Deus para governar. Acreditava nisso,


de modo que seus atos eram sempre embasados no
poder divino. Assim, por ter nascido para ser rei,
suas atitudes, pensava, eram sempre adequadas e
deviam ser respeitadas por todos.
No dia em que sua filha nasceu, Felipe estava
traçando estratégia para acabar com uma revolta de
camponeses insatisfeitos com os impostos cobrados
pela Coroa. Os trabalhadores buscavam, dentre
outras providências, uma redução no percentual
sobre a produção que lhes era exigido, reclamando
que não mais aguentavam sustentar os gastos da
nobreza.
Reunido com seus conselheiros, tinha avisado
que era para chamá-lo apenas quando o parto já
estivesse quase finalizado. Queria muito outro filho.
O seu primogênito, Henrique, era um menino de
sete anos, saudável e inteligente, porém um filho
homem apenas era muito arriscado. O ideal era que
houvesse outros, pois na hipótese de morte de um
deles, ainda subsistiria um sucessor.
Além disso, a rainha já não demonstrava muita
saúde. Após quase seis anos de casados é que ela foi
capaz de engravidar de Henrique. Depois disso,
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sofreu alguns abortos e somente agora conseguira


levar a gravidez até o final. Normalmente estava
triste e às vezes não tinha ânimo sequer para se
levantar da cama e cumprir sua agenda. Facilmente
contraía febre e outras doenças comuns. Assim, para
ele, era muito importante que esse bebê fosse um
menino, pois não acreditava em uma nova chance.
A rainha lhe era indiferente. Não a amava, mas
também não a detestava. Tratava-se de um
casamento baseado na conveniência, como não
poderia ser diferente, com o qual foi unificado o
reino atual reunindo-se Leclerc, trazido pela rainha
Ana de Sévres, com o de Moreau, herança de seu
pai.
Quando as tratativas para o seu casamento
foram concluídas, Felipe ficou muito satisfeito, pois
sempre teve plena consciência do seu papel na
Terra. A ele foram atribuídos o direito e o dever de
governar, de dar continuidade ao reinado de sua
família, que durava gerações, fazendo o possível
para aumentar os seus domínios e ratificar o seu
poder real. Assim, não se preocupava com a
aparência daquela noiva que lhe havia sido
destinada, ou se sentiria amor ou aversão por ela. O
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casamento não era nada mais que um bom contrato


para ele.
Ao lhe apresentarem Ana, Felipe viu uma moça
aparentemente frágil aos vinte e um anos, até um
pouco tímida, que não possuía o porte de uma
princesa real, tal como ele achava que tinha que ser.
De estatura mediana, tinha a pele muito branca,
longos cabelos pretos ondulados que emolduravam
seu rosto em formato redondo, com uma boca
pequena e vermelha e nariz levemente aquilino.
Seus olhos eram de um castanho acinzentado, sem
brilho ou expressão.
Quando ela chegou ao palácio, na cidade de
Rocher, centro do reino, eles já estavam casados. O
contrato foi realizado por procuração, como era de
costume. Então, procedeu-se a uma grande festa que
durou cinco dias. Um evento digno de um
casamento real, sobretudo ao se considerar a união
de dois reinos.
A noite de núpcias ocorreu sem maiores
contratempos. O rei, então com vinte e cinco anos,
evidentemente, já havia tido experiências anteriores
com mulheres da corte, as quais, muitas vezes, se
ofereciam a ele – não havia honra maior que ser
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amante do herdeiro do trono! Assim, a primeira


relação com a sua esposa não lhe trouxe qualquer
constrangimento.
Para a noiva, tratou-se de uma experiência
totalmente nova, como era imaginado. Além de ser
algo esperado de uma princesa – entregar-se apenas
ao seu marido –, a tímida rainha Ana nunca sequer
pensara em ter algum tipo de relacionamento íntimo
com um homem.
Filha única de mãe viúva, crescera sob uma
educação rígida, sendo vigiada a reprimida de perto
por seus tutores. Sua mãe a preparara para um bom
casamento, já que acreditava não ser possível a uma
mulher governar sozinha.
Ana não lidava bem com reprovações. Desde
criança, se sentia muito mal se algum ato ou
comentário seu fosse alvo de crítica. Era da sua
personalidade. Ficava completamente envergonhada
se sua mãe ou um de seus tutores chamasse sua
atenção por algo que falou ou fez. Por conseguinte,
foi se tornando mais fechada a cada dia, procurando
jamais se comportar de maneira considerada
inadequada, a fim de evitar qualquer censura.
Esse primeiro contato com um homem foi
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muito desconfortável para ela. Sabia o que deveria


fazer, pois já tinha sido orientada por sua mãe. No
entanto, era muito estranho estar seminua junto a
um completo desconhecido.
O fato de Felipe ser um homem atraente e até
mesmo cuidadoso não significava nada para ela.
Para quem sempre conteve qualquer tipo de
pensamento ou desejo que pudesse ser
compreendido como impróprio, estar agora deitada
com um homem tocando seu corpo lhe causava um
incômodo até mesmo físico. Sentia-se nauseada e
suas mãos tremiam enquanto ela lutava para não
começar a se debater e fugir daquele cenário.
Já ouvira falar do desconforto da primeira
relação, mas a dor que experimentou foi agravada
pelo seu estado mental. Completamente retraída e
envergonhada, Ana se sentiu devastada, invadida. Só
queria que aquilo terminasse logo.
Finalizado o ato e certificada a consumação do
casamento, Felipe foi para o seu quarto e Ana ficou
só, com suas damas de companhia que a
preparavam para dormir. Ela tinha um olhar vazio,
de uma pessoa resignada que cumpre um dever que

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lhe foi imposto. Agora era soberana de um reino


muito maior e tinha que se portar à altura!

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O uma gravidez da rainha. Depois de dois anos de


S MESES FORAM PASSANDO E NÃO HAVIA NOTÍCIA DE

casamento, o rei estava muito impaciente. Fazia


visitas regulares aos aposentos de Ana, porém até o
momento não conseguira obter nenhum resultado
positivo. Às vezes se irritava com ela. Pensava que
talvez aquela melancolia permanente em que se
encontrava tivesse afetado sua capacidade de
conceber um filho.
Ela, por sua vez, sabia da sua obrigação de gerar
um herdeiro ao trono. A cada dia se sentia mais
fraca, sem forças para continuar a cumprir sua
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agenda de rainha e notar sobre si os diversos olhares


de reprovação por não ter sido capaz de engravidar.
Além disso, não tinha qualquer prazer no contato
íntimo com o seu marido, que se tornara mais
frequente. Queria poder engravidar logo para que
ele a deixasse em paz.
Nos primeiros meses, Felipe tentou despertar
algum desejo em sua mulher. Fazia isso não para
agradá-la – seria uma consequência –, mas para
tornar as relações com ela mais aprazíveis. Deitar-se
com uma pessoa sem nenhuma emoção o
incomodava. Sabia que era um homem interessante
sexualmente. Muitas mulheres queriam fazer amor
com ele e percebia que realmente gostavam da
experiência. Logo, não compreendia como a rainha
podia ser fria daquela forma. A cada toque, a cada
carícia, ela se retraía.
Depois de algum tempo, ele desanimou.
Preferia ter real prazer com suas amantes e ter com
sua esposa apenas o contato necessário para gerar
seu filho.
Perto do terceiro ano de casamento, a notícia
do atraso menstrual da rainha deixou Felipe muito
empolgado. Contava que finalmente teria o herdeiro
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ao trono. A Corte ficou movimentada com a notícia


e Ana sentiu um pouco de alívio, chegando a
esboçar alguns sorrisos em seus compromissos
oficiais.
A euforia, entretanto, não durou muito. Após
poucas semanas de atraso no ciclo, a esperança de
uma gravidez se esvaiu. A rainha ficou
completamente abatida, até mesmo fisicamente
comprometida. Sabia que todo o reino estava
decepcionado com o fato de ela não estar grávida.
Não queria sequer encarar o rei que já demonstrava
muita impaciência e, perceptivelmente, começava a
culpá-la pela dificuldade em engravidar.
Felipe, por sua vez, ficou extremamente
desapontado. Não conseguia disfarçar a irritação
que sentia. Começou a pensar se aquele casamento
realmente teria sido um bom negócio. De nada
adiantaria a reunião do seu reino com o trazido por
Ana, se esta não era capaz de lhe dar um herdeiro!
Sem um filho, com a sua morte, tudo o que a sua
família conquistara, tudo o que ele se esforçou para
manter, e até aumentar, passaria para o seu primo
Augusto que, como era sabido, ambicionava o seu
posto.
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Estava tão insatisfeito com a situação, que nesse


momento não sentia nenhuma vontade de se
encontrar com a esposa. Precisava de um tempo
longe dela, para refletir melhor sobre a atual
conjuntura. Chegou a pensar em uma forma de se
livrar do casamento, mas uma separação traria
muitos contratempos para manter a posse de
Leclerc. Provavelmente seria necessária a guerra.
Isso ele não desejava, pois somente o enfraqueceria,
abrindo espaço para revoltas internas ou, ainda, a
tomada do poder por seu primo.
Seus conselheiros entenderam que estava na
hora de ele visitar seus domínios, os povoados mais
afastados, e até mesmo Augusto. Além de se dar um
tempo para avaliar a situação em que se encontrava,
era uma providência necessária a reafirmar seu
poder real, de lembrar aos seus súditos dos seus
deveres para com o reino. Ao se mostrar diante
deles com toda sua majestade, reprimiria qualquer
comentário que pudesse sugerir um
enfraquecimento de sua força.
Ele concordou com a recomendação e
determinou que fossem feitos os preparativos, pois
dentro de uma semana queria partir. Seguiria para o
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Norte e depois atravessaria o país até o Sul, onde se


encontraria com seu primo para uma temporada.
Sentia que devia manter Augusto sempre próximo, a
fim de saber exatamente o que tramava. Com a
preocupação de gerar seu herdeiro, passara muito
tempo sem visitá-lo, sem relembrá-lo de quem era o
verdadeiro rei!
A rainha foi avisada por sua governanta que seu
marido iria partir por alguns meses. Ela não ficou
preocupada. Na verdade não esboçou qualquer
reação. Estava sem forças para encará-lo. Já não
sabia mais o que fazer para justificar a demora para
engravidar. Não queria mais sentir aquele olhar de
reprovação.
No dia da partida, Felipe foi até os aposentos
de Ana. Estava vestido para viagem com sua capa
azul bordada com símbolos dinásticos –
sobreposição de uma espada e uma coroa,
centralizados em um estandarte. Adentrando o
espaço com a sua costumeira altivez, lançou-lhe um
rápido olhar de indiferença e disse que faria uma
viagem. Comunicou que os assuntos urgentes seriam
tratados por seus conselheiros e que lhe desejava

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saúde. Fez uma rápida reverência à rainha e saiu


sem olhá-la novamente.
Deixando o castelo pela porta principal, Felipe
montou em seu cavalo e seguiu juntamente com um
cortejo de aproximadamente cem cavaleiros de sua
guarda pessoal e os empregados de apoio.
Ana ficou parada por alguns instantes na janela
de seu quarto, vendo-o se afastar. Suspirou e pensou
que estava em paz por algum tempo.

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F Sempre com reverências e gritos de “viva o rei”. .


ELIPE FOI MUITO BEM RECEBIDO POR ONDE PASSAVA

As pessoas eram avisadas com um dia de


antecedência acerca da chegada do monarca e
preparavam a cidade para recebê-lo. Recolhiam o
lixo das ruas, disfarçavam o esgoto que corria das
casas, jogando terra sobre a água fétida, colocavam
vasos com plantas nas janelas que davam para a
ruazinha principal por onde o cortejo passaria e
espantavam os mendigos para lugares mais
afastados. E, no dia da chegada, o aguardavam
ansiosos. Queriam ver aquela figura divina, que
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adentrava lentamente com um grupo de outros


cavaleiros, acenando sutilmente com a cabeça
coroada em ouro para os súditos boquiabertos com
tanta beleza.
Para aquelas pessoas, que habitualmente mal
tinham o que comer, era uma visão esplêndida. O
homem enviado para governá-los, vestido em trajes
finos e elegantes, adornado com ouro e pedras
preciosas, que parecia flutuar perante eles. Sentiam-
se muito honrados em poderem vê-lo assim, de
perto. Ficavam realmente emocionados com a
proximidade de um ser tão poderoso e inatingível.
Era uma experiência indescritível, que rendia
assunto por muito tempo depois da passagem de
Felipe pelo lugar.
E assim ele seguiu fazendo suas visitas,
ratificando com maestria seu poder real. Diante dele
ninguém tinha coragem de reclamar dos altos
impostos ou de contestar quaisquer de suas
determinações. Emanava temor reverencial,
deixando claro que não estava disposto a discutir
suas decisões.
Depois de oito meses viajando, Felipe chegou à
cidade de Sans, onde morava seu primo Augusto.
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Foi recebido em seu castelo com todas as honrarias


devidas a um soberano. A nobreza local estava
presente. Seguiram-se muitas festas em
comemoração à visita ilustre.
Augusto era um excelente anfitrião. Sabia
conduzir uma conversa de modo a nunca causar
discussões perigosas, que levassem a conflitos de
opinião. Falava o que pensava, mas sem querer
impor suas convicções, especialmente ao rei. Era
um diplomata nato. Conhecia as regras de uma
convivência cordial com o soberano, sabendo elevar
seu ego.
Bem mais velho que Felipe, tinha quarenta e
cinco anos e muita experiência na política. Era o
próximo na linha de sucessão na hipótese de o rei
morrer sem deixar um herdeiro. No entanto, não
pretendia, ao menos naquele momento, realizar
qualquer ato atentatório à vida do seu primo.
Preferia o jogo político.
Agora que Felipe havia anexado Leclerc pelo
casamento com a rainha Ana, qualquer movimento
errado de sua parte poderia causar a sua desgraça, já
que nunca aguentaria uma investida dos exércitos
dos reinos reunidos. Assim, fazia seus contatos e
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maquinações com vistas a manter seus privilégios


junto à Coroa até que surgisse uma oportunidade
segura de participar de modo mais decisivo do
poder.
Felipe estava cansado de tantas viagens e se
sentia bem ali, com Augusto. Não se enganava de
modo algum com as atitudes do primo. Tinha plena
consciência de que deveria estar permanentemente
atento, porém sabia lidar com isso.
Augusto reservou ao rei um quarto muito
confortável, o maior do castelo. Era conjugado com
duas salas, as quais podiam comportar seus
melhores soldados da guarda real. O restante de seu
pessoal ficou hospedado em um alojamento
próximo, juntamente com os serviçais de seu primo.
O rei mantinha seu cozinheiro e o responsável
por sua bebida em serviço na cozinha. Já o apoio de
organização do quarto era realizado pelos
empregados da casa.
Na terceira noite no castelo, Felipe foi para seus
aposentos sabendo que estava agendada uma caçada
para o dia seguinte com seu primo, dois de seus
filhos, e outros nobres da região. Exausto, recebeu
ajuda de seu criado para colocar a roupa de dormir
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e se deitou. Ao fechar os olhos, voltou a pensar no


problema que deixou para trás: a necessidade de um
herdeiro para seu trono

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N se vestiu para ,aFcaça. Não se encontrava


O DIA SEGUINTE ,
ELIPE SE LEVANTOU SE LAVOU E
bem
humorado, pois não dormira direito. Um serviçal
veio avisá-lo de que estavam todos preparados e
que, quando quisesse, partiriam. Ele passou para a
sala ao lado, onde se achavam seus guardas pessoais
e disse que estava pronto para ir. Seguindo ao salão
principal, onde se juntaria aos demais, um criado
veio apressado informar que o anfitrião pedia
desculpas, mas que houvera um incidente com os
cães de caça e que eles atrasariam alguns instantes.

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O rei, meio impaciente, disse que aguardaria


em seus aposentos e que eles o avisassem quando
tudo estivesse realmente preparado. O empregado
fez uma reverência e saiu depressa.
Andando a passos rápidos, Felipe empurrou a
porta de seu quarto e entrou abruptamente. Foi até
a janela e olhou através do vidro o tempo nublado.
Ao fazer isso, percebeu que havia uma pessoa no
cômodo. Quando virou o rosto, viu uma moça perto
da cama, com lençóis nos braços, parada, sem
reação, olhando para ele com um semblante
assustado.
Habitualmente, ele sequer notaria um serviçal
que viesse arrumar seu quarto, contudo, não pôde
deixar de observar aquela moça. Ela tinha longos
cabelos loiros encaracolados – as mechas laterais
presas para trás –, o rosto pequeno triangular, a
boca bem desenhada e grandes olhos em um azul
quase transparente. Aparentava uns dezessete anos.
Usava um vestido branco simples que destacava sua
pele dourada. Estava lá, atônita, ao lado da cama,
sem saber o que fazer diante do rei. Quando este
fixou o seu olhar altivo nela, girando sutilmente em

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sua direção, ela baixou a cabeça e, com a voz fraca,


disse:
- Perdoe-me Majestade. Achei que o quarto
estivesse vazio... - e se movimentou rapidamente
para sair.
- Espera. – ordenou, como que em um ato
involuntário.
Ela parou, virou-se lentamente e olhou para ele.
- Qual é o seu nome? – perguntou, sem
demonstrar muito interesse.
- Jeane – respondeu, quase que em um
sussurro.
- Pode arrumar o quarto. Estou de partida. – e
voltou-se para a janela.
Devagar, ela colocou os lençóis em um móvel
perto da cama e começou a retirar os usados.
Felipe virou o rosto e a observou fazendo o
trabalho, admirado com a sua beleza. Logo um
criado entrou no quarto e informou que estavam
prontos para sair. Ao se dirigir à porta, ele a olhou
novamente, agora diretamente nos olhos, e deixou o
cômodo.
Após a caçada, os homens se reuniram para
jantar. Depois de muita conversa animada regada a
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um bom vinho, o rei seguiu aos seus aposentos para


se preparar para dormir. Comunicou ao seu criado
que no dia seguinte iria redigir algumas
correspondências para os seus conselheiros que
ficaram no castelo, de modo que era para o escrivão
estar atento quando o chamasse. Então ele se lavou,
trocou de roupa e se deitou.
Na manhã seguinte, Felipe estava mais
descansado. Um dia de caça é sempre bom para se
exercitar, pensou, o que facilitava muito seu sono.
Tomou o café da manhã e foi até a janela enquanto
o empregado preparava suas roupas. De repente,
perguntou:
- Onde está a moça que arruma o quarto?
- Avisei para não arrumarem o quarto hoje pela
manhã, pois Vossa Majestade iria trabalhar em seus
aposentos.
- Ajude-me a me vestir e diga para ela entrar.
Depois chame meu escrivão.
O criado, sem qualquer hesitação ou
demonstrar surpresa com o pedido, auxiliou o rei a
se vestir e se dirigiu até a porta lateral do quarto para
chamar a serviçal, conforme determinado.
Felipe se sentou em uma cadeira no canto do
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quarto que ficava de frente para a cama e aguardou,


olhando o dia chuvoso. Depois de alguns minutos, a
porta se abriu e Jeane entrou, com os lençóis nos
braços, meio desconcertada. Ele voltou-lhe o rosto e
inclinou levemente a cabeça, cumprimentando-a.
Ela, então, baixou os olhos, fez uma reverência e
começou a arrumar a cama.
Enquanto retirava os lençóis, ele a observava
fixamente, admirando aquele corpo lindo, perfeito.
Cachos de seus cabelos pendiam para frente,
conforme ela se debruçava para realizar seu
trabalho.
O rei se levantou, sempre com os olhos nela,
quando a outra porta lateral se abriu e o escrivão
entrou. Sem desviar a atenção sobre Jeane, fez um
sinal para que o funcionário fosse até a mesa de
trabalho que ficava no canto oposto do quarto.
Então, andou lentamente em direção a ela que,
ao percebê-lo se aproximando, sentiu seu
nervosismo aumentando e seu coração batendo
mais forte. Ele parou atrás dela, envolveu sua cintura
com o braço e a puxou delicadamente contra si,
cheirando seus cabelos. Jeane parou o que estava
fazendo, com a respiração suspensa.
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Ele disse baixinho, próximo ao seu ouvido:


- Você é linda, Jeane. Eu poderia fazer amor
com você agora mesmo, mas não forço mulher
nenhuma a isso. Você teria que me desejar também.
Assim, soltou-a devagar e se dirigiu à mesa de
trabalho onde o escrivão estava aguardando.
Jeane tremia. Demorou alguns segundos para
continuar o que estava fazendo. Seu rosto estava
corado e notava os batimentos acelerados de seu
coração. Ainda podia sentir o corpo do rei contra o
seu, a mão dele tocando suavemente sua cintura.
Terminou de arrumar a cama e saiu rapidamente do
quarto.
Durante todo o dia ela pensou no que tinha
ocorrido pela manhã. Sem conseguir se concentrar
em suas tarefas, não compreendia como o rei se
interessara por ela, uma simples serviçal. Ele que,
como todos sabiam, tinha como amantes apenas as
moças nobres do seu convívio. E o que a
impressionava ainda mais era o fato de não tê-la
forçado a nada. Ele poderia ter feito isso – admitiu.
Ninguém contestaria uma vontade do rei.
Também não podia negar que ficou tocada
com a investida de Felipe. Além de ser o rei, era
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interessante, belo. Nunca tendo chegado perto de


qualquer relação com um homem, aquele contato
mexeu com ela. Jeane tinha consciência de que era
apenas uma serviçal e que nunca passaria de uma
simples amante, que serviria apenas para satisfazer
um desejo momentâneo do soberano. Não haveria
qualquer benefício para ela ou troca naquela
relação.
Mesmo assim, não parava de pensar em Felipe.
Sabia que todas as garotas na sua situação fariam
qualquer coisa por uma chance de se deitar com o
rei. Inconscientemente, ela se sentiu orgulhosa,
vaidosa.
Nessa noite, Jeane não conseguiu dormir. Não
sabia o que faria na manhã seguinte. O rei a
procuraria novamente? Falaria com ela? Exigiria
uma resposta? Ainda não era capaz de tomar uma
decisão. Ora, sua vida poderia ser arruinada! –
pensava. Nunca encontraria um marido que a
aceitasse depois de ter se deitado com outro
homem. Entretanto, era o rei! Como negar um
desejo do rei? E, além disso, talvez nunca se casasse
mesmo - concluiu.
Ao amanhecer, ela se vestiu, ajeitou os cabelos
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com maior cuidado e se preparou para arrumar o


quarto quando fosse chamada.
Aproximadamente às onze horas a governanta
disse que poderia entrar. Seu coração disparou. Ela
abriu a porta, entrou com os olhos baixos e quando
os ergueu, percebeu que o quarto estava vazio. Foi
um choque, uma decepção. Durante toda a noite,
havia pensado em como seria a manhã seguinte,
sobre como se comportaria e, agora, nada!
Provavelmente, o rei havia encontrado outra mulher
mais atraente, mais interessante para satisfazer seus
desejos. Por isso, ele só permitira a sua entrada no
quarto quando não estivesse mais lá - cogitava.
Jeane arrumou tudo e saiu. Acreditou que foi
melhor assim. Era um absurdo pensar que pudesse
ter qualquer relação com aquele homem, superior a
todos os outros. Apesar de dizer para si mesma que
foi a melhor solução, não conseguia esconder seu
desapontamento. Seguiu trabalhando quase sem
forças naquele dia.
Na manhã seguinte, ela se preparou, como de
costume, para suas tarefas diárias. Ainda estava
abalada com toda a ansiedade gerada naquele
contato inesperado com Felipe. Quando chegou a
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considerar a ideia de se entregar a ele, teve a


impressão de que não lhe interessava mais.
Quando entrou no cômodo, já às dez horas,
ainda tinha uma pequena esperança de vê-lo.
Chegou, olhando rapidamente à sua volta e
encontrou o olhar de Felipe, que estava sentado à
mesa de trabalho analisando suas correspondências.
Jeane sentiu como se seu coração parasse de bater
naquele momento. Depois de segundos que
pareceram uma eternidade, ela baixou a cabeça, fez
uma reverência e começou a arrumar o quarto.
Felipe voltou sua atenção aos documentos que
estava lendo e sorriu discretamente. Ele a desejava
muito, mas aguardaria um pouco mais até que ela
também o quisesse. Era assim que gostava.
Jeane terminou seu trabalho e saiu. O coração
estava disparado e seu corpo tremia. Durante todo o
dia, não foi capaz de parar de pensar um minuto no
rei. Como ele era belo! Só a lembrança do seu
toque a fazia suspirar. Ela queria mais, ela precisava
de mais! À noite, mal conseguiu dormir, esperando
pela manhã seguinte.
Às nove horas, foi determinada sua entrada no
quarto do rei. Estava muito ansiosa. Não sabia se o
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encontraria lá ou se ele a procuraria.


Logo ao entrar, viu que Felipe estava em pé,
próximo à janela. Percebeu um criado que
organizava a mesa de trabalho e passou à cama,
inclinando-se para retirar os lençóis.
Felipe se virou e a observou por alguns
instantes, conferindo cada centímetro do seu corpo.
Então, olhou para o seu funcionário e sinalizou para
que saísse. Foi se acercando lentamente de Jeane
que, nesse momento, parou o que estava fazendo.
Chegou bem perto dela. Podia sentir sua respiração
entrecortada e ver suas mãos trêmulas. Teve certeza
de que alcançara seu objetivo.
Ele pegou em seus cabelos, passando uma
mecha para trás de seus ombros, tocando levemente
seu pescoço com os dedos, aproximando-se para
beijá-la. Parou a alguns centímetros, olhando-a nos
olhos, esperando que ela demonstrasse que também
o queria. Jeane, então, respondeu ao seu contato,
virando o rosto para que seus lábios se
encontrassem, delicadamente.
Trouxe-a para perto de si, beijando sua boca,
seu pescoço, sentindo seu cheiro. Ela se entregava
completamente a cada toque, a cada carícia. Sentia-
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se como em um sonho. Sua visão estava turva e


ouvia os sons externos como se estivessem muito
longe dali. Todos os seus sentidos se resumiam na
percepção do corpo de Felipe contra o seu.

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D quartos no castelo. Havia


EPOIS DAQUELA MANHÃ,J EANE NÃO MAIS ARRUMAVA
sido dispensada de
suas funções e, enquanto o rei estivesse hospedado
ali e se interessasse por ela, sua única tarefa era
servi-lo. Deveria estar preparada para quando fosse
demandada sua presença junto ao soberano.
Ela cumpria esse mister com prazer e
satisfação. Estava completamente apaixonada por
Felipe. Quase três meses já se passavam desde a
primeira vez em que fizeram amor e ela não pensava
em outra coisa senão em estar com ele. Quando
vinham avisá-la que o rei queria vê-la, uma felicidade
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a invadia. Ela ansiava a cada momento pela


companhia dele, seus beijos, suas carícias. Às vezes,
até se esquecia da precariedade daquela relação.
Sentia que pertencia a ele de corpo e alma.
Um dia, Jeane ficou sabendo que o rei
continuaria a visitação pelas regiões do seu reino,
agora pelos povoados do Sul próximos ao castelo de
Augusto. Este iria com ele porque conhecia o local e
facilitaria a viagem. Felipe entendeu que estava na
hora de finalizar sua expedição, pois, por mais que
confiasse em seus conselheiros, não era prudente se
afastar por tanto tempo da sede de seu governo.
Tudo foi organizado e eles partiram. Ficariam
fora por aproximadamente dois meses, quando o rei
retornaria à propriedade de seu primo para
organizar o regresso ao seu castelo.
No último encontro de Jeane com Felipe, ela
não quis demonstrar o desespero que tomava conta
dela. Aproveitou cada segundo junto àquele homem
que tinha como parte de si. A incerteza a respeito
do que aconteceria entre eles a angustiava demais. O
mais provável é que não voltasse a vê-lo.
Os dias passavam e Jeane continuava afastada
de suas tarefas. A saudade que sentia de Felipe era
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imensa. A ausência de uma ocupação aumentava


seu sofrimento, pois não conseguia pensar em outra
coisa. Às vezes, a angústia chegava a lhe causar mal
físico, sentia-se nauseada e indisposta. Estava fraca,
já que não conseguia comer direito. Queria seguir
em frente, voltar à sua vida antiga, terminar com
aquela indefinição!
A chuva que caia na região atrasou um pouco a
viagem. O grupo voltou pouco mais de três meses
depois da partida. O rei estava exausto. A visita aos
povoados do Sul não correu tão bem como as
demais. Sentiu seus súditos um pouco agitados e
ouviu notícia de algumas reclamações e
insubordinações. Voltou com a sensação de que
deveria estar atento aos acontecimentos futuros do
local.
No segundo dia após a chegada, ele estava em
seu quarto, se preparando para receber um dos
nobres da região que solicitara uma audiência,
quando determinou a seu secretário que iniciasse os
preparativos para a viagem de volta a Rocher. Ficaria
mais uma semana com seu primo e partiria.
Colocando seu casaco, e ajeitando os punhos, disse:
- Avise Jeane para me encontrar aqui assim que
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finalizada a reunião. – e saiu em direção ao salão


principal.
Duas horas depois, Felipe voltou ao seu quarto.
Quando entrou, percebeu Jeane de costas que o
aguardava, olhando distraidamente através da janela.
Ela usava vestido e capa azuis e tinha os cabelos
presos em uma longa trança.
Ele se aproximou por trás, pegou em seus
ombros e beijou seu pescoço. Ela, então, virou o
rosto, o olhou e sorriu, com um ar de tristeza.
Felipe se afastou um pouco, estranhando
aquela reação e, franzindo a testa, perguntou:
- Algum problema Jeane?
Ela baixou a cabeça e ficou de frente, puxando
sua capa para mostrar seu ventre proeminente.
Ele deu dois passos atrás, permanecendo alguns
segundos parado, sem reação. Em seguida, voltou a
encará-la, dizendo:
- É melhor você ir descansar.
Elevando os olhos, ela andou na direção dele,
aproximando-se devagar, segurou seu rosto com
uma das mãos e beijou seus lábios. Virou-se e saiu
pela porta lateral do quarto.
Assim que Jeane deixou o cômodo, Felipe,
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pensativo, se sentou em uma cadeira perto da lareira


e, observando as chamas que causavam estalos na
lenha que queimava, sorriu sutilmente. Aquele bebê
era mais uma reafirmação da sua virilidade, uma
demonstração de que era plenamente capaz de gerar
uma criança. Mesmo sem admitir, experimentou
certo alívio. Conscientemente nunca pensara que
tivesse algum problema, mas, ao engravidar aquela
moça linda, sentiu-se vaidoso.
Apesar da sua satisfação pessoal, ele jamais
cogitaria reconhecer um filho bastardo. De nada lhe
serviria uma criança que não fosse resultado do seu
casamento consagrado com uma mulher de seu
nível, uma rainha. Jeane era apenas mais uma
amante. Uma moça linda e doce que lhe fez
companhia por algum tempo. Para ele, era muito
clara a natureza dessa relação.
Entretanto, seu orgulho não o deixaria
abandonar por completo aquela criança. Embora
fosse fruto de uma relação sem importância, com
uma serviçal, ainda assim o sangue real correria em
suas veias. Por isso, era inaceitável que fosse criada
em meio aos empregados, ou que passasse por

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necessidade. Ao menos lhe daria condições de


crescer em um ambiente mais apropriado – decidiu.
Levantou-se e chamou seu secretário. Ordenou
que transferisse uma boa propriedade para Jeane e
que encontrasse empregados de confiança para
cuidar dos afazeres domésticos e da criança que
nasceria. Determinou, ainda, que lhe fosse paga
uma pensão mensal e vitalícia, a fim de que vivesse
confortavelmente com seu filho.
No dia seguinte, ela foi informada da decisão
do rei. A governanta avisou que em breve partiria
para a propriedade que lhe seria destinada e que,
enquanto isso, em razão da sua condição,
permanecesse em seu quarto sem fazer muitos
esforços.
Jeane estava tomada pela tristeza. Não
conseguia pensar em outra coisa senão em Felipe.
Logo ele partiria e jamais o veria novamente!
Embora sempre tivesse consciência de que não era
nada além de uma simples serviçal por quem o
soberano se interessara, era muito difícil esquecer o
que tinha vivido naqueles meses. Daria qualquer
coisa para estar em seus braços mais uma vez, e o
fato de ele estar tão perto só aumentava sua angústia.
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Os dias se passaram e a ansiedade a invadia. Na


noite anterior à partida do rei ela não conseguia
dormir. Próximo do nascer do sol, ouviu a
movimentação dos empregados que se preparavam
para a viagem. Levantou-se e foi até a parte externa
da edificação reservada aos criados, que ficava a
alguns metros do castelo. De lá, podia ver a comitiva
se organizando para seguir.
Estava tudo pronto quando Felipe saiu
acompanhado por Augusto. Pararam na frente da
porta principal, conversaram por alguns instantes, se
abraçaram e o rei montou em seu cavalo. Virou-se e
partiu, seguido pelos outros cavaleiros.
Jeane o observou enquanto se afastava. Ficou
ali, paralisada por alguns minutos, antes de retornar
ao seu quarto. Lá ela chorou. Um choro
descontrolado, entrecortado por soluços. Sentia
como se uma parte de si tivesse sido arrancada.
Pensava que não conseguiria suportar aquela dor.
Duas semanas depois, foi levada até a casa que
lhe havia sido escolhida. Era espaçosa, localizada em
uma propriedade rural muito agradável. Ela quase
não tinha forças para se manter de pé. Ainda sofria
muito, sabia que nunca esqueceria Felipe, mas agora
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já conseguia perceber um motivo para reagir e seguir


em frente, seu bebê.
Aquela criança era uma parte dele que ela
carregava. Uma lembrança daqueles meses
maravilhosos, daquela relação intensa que vivera.
Então, olhou à sua volta, suspirou e pensou que
voltaria a ser feliz

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A aguardado
PÓS DIAS DE VIAGEM, O REI CHEGOU A ROCHER. ERA
com uma grande recepção
organizada por seus conselheiros. O castelo,
construído no ponto mais alto da cidade, estava
enfeitado com bandeiras azuis e vermelhas com
símbolos dinásticos e flores coloridas. Música era
tocada e os convidados conversavam animadamente
enquanto vinho e comida eram servidos.
Felipe, montado em seu cavalo, entrou pelo
portão principal sendo aplaudido por todos. Estava
muito cansado, com a barba por fazer e roupas
desalinhadas. Agradeceu, discursando brevemente, e
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informou que logo se juntaria a eles. Antes iria se


preparar.
Depois de algum tempo, já vestido
apropriadamente, ele entrou, imponente, no salão
principal, onde a rainha e os demais convidados o
esperavam.
Ana estava em pé em frente ao seu trono, que
ficava ao lado do de Felipe. Usava um vestido bege
com bordados em dourado e joias com pedras
preciosas. A coroa reluzia sobre os seus cabelos
negros presos em uma trança. Estava muito
elegante.
Quando o rei se aproximou, ela esboçou um
sorriso, fez uma reverência e lhe deu boas vindas.
Ele, por sua vez, diante dela, inclinou a cabeça,
beijou-lhe a mão, convidando-a a se sentar. Em seu
trono, olhou para os convidados e determinou que a
festa continuasse.
Estava muito cansado, mas queria ficar um
pouco mais. Sentia falta daquele tipo de celebração,
de pessoas à sua volta, querendo agradá-lo. Gostava
do conforto do seu castelo, sobretudo após longos
meses de viagem, hospedando-se em lugares não
muito condizentes com a sua posição.
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Durante o evento, o casal trocou poucas


palavras. Ele conversava muito com seus
conselheiros, pois queria se inteirar dos
acontecimentos passados durante sua ausência. Ela
observava as pessoas dançando e tecia considerações
com suas damas de companhia.
Depois de algumas horas, Felipe informou que
já iria se recolher. Levantou-se, no que foi
acompanhado por Ana, e deixaram o salão.
Cumprimentaram-se e cada um seguiu para o seu
quarto.
Nos meses que passaram, o rei se ocupou dos
assuntos habituais. A preocupação a respeito das
insurgências observadas nas terras do Sul já havia
diminuído, pois não tivera notícias de que
movimentação mais grave estivesse acontecendo.
Nesse período, determinou que fossem
iniciados estudos para se encontrar uma solução
para o aumento populacional da cidade. Em suas
partidas para a caça ele observou que a cada dia o
centro de Rocher se tornava mais abarrotado de
pessoas, animais e sujeira. Inclusive sua locomoção
se tornava difícil. Percebera, ainda, que alguns

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alojamentos eram improvisados fora das muralhas


da cidade.
Dessa forma, até mesmo sua segurança ficava
comprometida. Seria complicado manter a ordem
no caso de uma invasão com tantas pessoas dentro e
fora do centro fortificado.
Em uma determinada noite, quando Felipe se
preparava para jantar com alguns amigos depois de
um bom dia de caça, a governanta de Ana pediu
para falar-lhe. Ele estranhou aquela visita, mas
mandou que entrasse. Ela, com uma expressão de
muita alegria, disse que a rainha tinha algo muito
importante para lhe contar.
Como essa intervenção era totalmente inusitada
e inesperada, ele logo imaginou que seria alguma
notícia sobre gravidez. Levantou-se depressa e,
colocando seu casaco, seguiu para os aposentos da
esposa.
Ao chegar lá, encontrou-a sentada próximo à
lareira, com um semblante calmo, podendo-se
perceber certo contentamento em seu olhar. Felipe
entrou e rapidamente foi até ela, ansioso para saber
o que seria essa notícia tão importante. Ela se pôs de

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pé, fez uma pequena reverência, e disse, sem


encará-lo:
- Gostaria de informar pessoalmente a Vossa
Majestade que estou esperando um filho. – e ergueu
os olhos para ver a reação do marido.
Sentindo um misto de emoções tomando conta
de seu corpo, mas sem esboçar qualquer reação, ele
perguntou:
- Vossa Majestade tem certeza?
- Sim. Aguardei dois meses para me certificar
de que efetivamente se tratava de uma gravidez. Não
queria desapontá-lo novamente.
Felipe fitou o ventre de Ana, que não dava
qualquer sinal de que carregava uma criança naquele
inicio de gravidez. Voltou a olhar para o seu rosto e
sorriu. Um sorriso contido – ele não era de grandes
demonstrações de emoção –, mas no qual se podia
perceber uma enorme satisfação.
Então se aproximou dela e beijou sua mão.
Disse que repousasse o máximo possível e que se
cuidasse muito bem durante a gestação. Virando-se
para a governanta, que presenciava animada a cena,
ordenou que qualquer coisa que a rainha
necessitasse era para falar imediatamente ao seu
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secretário. Determinou que providenciasse os


empregados necessários para essa nova fase e para
quando o seu herdeiro nascesse.
Com uma rápida reverência ele deixou o
quarto. Estava tomado por uma enorme felicidade.
Finalmente seu herdeiro tão aguardado viria! O
legado de sua família seria preservado. O poder
continuaria nas mãos de seus descendentes. Seu
sangue continuaria vivo, fazendo parte da história!
Quase sem conseguir conter a empolgação,
encontrou seu secretário e disse:
- No jantar de hoje, mande servir o melhor
vinho. Quero comemorar a vinda do meu herdeiro.
Avise o reino de que a rainha está grávida!

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Acomplicações. Sofreu muito de enjoos no início,


GESTAÇÃO DA RAINHA SE DEU SEM MAIORES

mas logo melhorou. Fazia de tudo para não se


esforçar e procurava alimentar-se bem. Sabia que
nada poderia acontecer ao bebê. Ela não resistiria à
responsabilidade pela perda daquela criança que se
tornou motivo de euforia em todo o reino e um dos
maiores interesses do rei.
Felipe fazia visitas rápidas com certa frequência
para saber como tudo estava correndo. Conforme o
ventre se avolumava, mais ansioso ele ficava. Tinha
certeza de que seria um menino, o futuro rei. As
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mulheres de convivência da rainha diziam que, pelo


formato da barriga e pelos seus sintomas, era muito
provável que fosse mesmo um menino.
Em uma madrugada gelada de janeiro, Ana
acordou sobressaltada sentindo, dores nas costas.
Logo se percebeu que o trabalho de parto se
iniciava. A parteira fora chamada e suas damas
estavam no quarto para auxiliar.
Pela manhã, o rei foi avisado de que a rainha
iria dar à luz. Vestiu-se e ficou em seus aposentos,
nervoso, aguardando notícias. Três horas depois,
seu secretário o informou de que o nascimento
estava próximo. Ele seguiu para a antessala do
quarto de Ana, onde esperou com alguns
representantes do mais alto escalão da nobreza que
tinham o privilégio de estarem ali.
Em aproximadamente uma hora, ouviu-se o
choro da criança. Logo a governanta saiu com o
bebê e, entregando-o a Felipe, disse que era um
menino. Ele, então, não conteve sua emoção:
- Um menino! – exclamou. E, sorrindo muito,
levantou o bebê, apresentando-o aos demais – O
nome dele será Henrique, como o bisavô!
Determinou que fosse promovida uma grande
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festa para comemorar a chegada do herdeiro do


trono. Três dias com muita música, dança,
apresentações de teatro e boa comida. Toda a
nobreza seria convidada!
Aos pobres seria distribuída esmola. Também
seriam perdoados os crimes mais simples, como
pequenos furtos e vadiagem. Missas seriam rezadas
pela saúde do príncipe real.
Aos trinta e um anos, Felipe era pai de um
menino. Com sua descendência garantida, podia
respirar um pouco mais aliviado.

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H convivia
ENRIQUE CRESCIA RODEADO DE CUIDADOS. SUA MÃE
com ele, mas o príncipe real era
educado e preparado pelos melhores tutores. Era
uma criança esperta e se parecia fisicamente com a
rainha. Ainda pequeno, já tinha os cabelos pretos e
os olhos castanhos bem escuros. No entanto,
diferentemente de Ana, ele era alegre. Tinha a
personalidade um pouco difícil e, às vezes, não
obedecia a seus professores. Nessas horas, somente
o rei conseguia fazer com que ele se portasse
corretamente e levasse a sério o aprendizado que já
lhe era repassado.
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Felipe estava encantado com o filho. Do seu


jeito, amava aquela criança. Queria educá-lo para se
tornar um excelente rei. Ele deveria, sempre, ter
plena consciência da sua responsabilidade de
governar e de tomar as decisões cabíveis para a
preservação do poder e a integridade do reino!
O menino era mais apegado ao pai. Sua mãe se
mostrava mais debilitada a cada dia. Quase não o via
e não tinha paciência para lidar com ele. Depois do
seu nascimento, Ana passou um período mais
tranquilo. O fato de ter podido dar um herdeiro ao
reino lhe trouxe satisfação. Sua obrigação havia sido
cumprida.
Entretanto, como era evidente e esperado,
apenas uma criança não era suficiente para assegurar
a continuidade dinástica. Assim, algum tempo
depois, ela voltou a se sentir pressionada a dar
outros filhos ao rei.
Sofreu pelo menos dois abortos. As gestações
não duravam mais que três meses e isso a consumia.
Estava frequentemente melancólica, além de
contrair doenças facilmente.
Henrique tinha quatro anos, já falando
perfeitamente e demonstrando que herdaria o porte
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altivo de seu pai, quando o rei recebeu uma notícia


que já temia há alguns meses: tropas do Duque de
Orange se preparavam para invadir Moreau-Leclerc.
Cuidava-se de uma contenda muito antiga, pois
séculos antes um território anexado a Moreau
pertencia a antepassados do duque e, agora, ele
achava que era hora de recuperá-lo.
Felipe estava irado. Como ousavam contestar
sua autoridade sobre aquele pedaço de terra
conquistado por sua família? Era uma aquisição
legitimada pela guerra. Os vencedores naquela
época demonstraram ser os seus verdadeiros donos.
Era inaceitável essa nova disputa!
Os esforços diplomáticos não conseguiram
evitar o conflito que agora era iminente. Há alguns
meses ele já percebera isso e começara a organizar
seu exército e a tomar as providências necessárias.
Assim, partiria ao Norte o mais breve possível, a fim
de barrar o avanço das tropas inimigas.
Realizou obras na fortificação do castelo, editou
normas de restrição de acesso e encarregou um de
seus conselheiros de confiança, o Senhor de
Tourneville, da proteção, a qualquer custo, da vida
do herdeiro do trono, deixando ordem de que, caso
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não regressasse, ele auxiliasse Henrique, como


regente, até que o príncipe fosse capaz de governar
por si só.
O rei partiu, então, com suas tropas para a
guerra.

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O próximo à fronteira entre os dois


CONFLITO JÁ DURAVA NOVE MESES. F OI TRAVADO
países. O
número de combatentes de cada lado estava
equilibrado, mas Felipe tinha os melhores
estrategistas e eles conheciam bem o terreno.
Muitas vidas já se tinham perdido nos embates
ou em razão de doenças que acometiam os
soldados, os quais se encontravam em condições
precárias de higiene e sofriam com a escassez de
alimentos.
O rei já estava cansado, mas não pensava em
desistir. Jamais passaria por sua mente deixar
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impune tal afronta! Expulsaria os inimigos de seu


território, reafirmando sua soberania.
Sentia que o duque não resistiria por muito
tempo, pois já não mais avançava, tendo, em
verdade, recuado um pouco e desocupado alguns
povoados. Percebia que o seu exército também
estava debilitado. Entretanto, Felipe não se
contentaria em ficar aguardando até que o opoente
resolvesse se retirar. Ele queria vencer aquela
guerra, a fim de extirpar qualquer intenção de sua
futura retomada.
Reuniu-se com seus generais e traçaram uma
estratégia de ataque. Um pequeno grupo formado
pelos melhores soldados iria, antes do nascer do sol,
até o acampamento inimigo, enquanto o restante da
tropa aguardaria o sinal. A intenção era eliminar a
vigilância e facilitar o ataque principal,
desmantelando, pela surpresa, o exército do duque.
E assim se fez. Na madrugada, o grupo especial
seguiu imperceptivelmente até o local em que as
tropas adversárias se encontravam, suprimindo,
silenciosamente, parte da vigilância, quando, então,
os demais guerreiros investiram contra eles.
Logo o exército de Felipe tomou o
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acampamento, tendo em vista que os soldados


inimigos se dispersaram, abandonando a luta. O
duque se salvou, fugindo rapidamente quando seus
guardas o informaram sobre o que estava
acontecendo.
O rei, que estava próximo do campo de
batalha, observou orgulhoso a retirada dos
invasores. Seus soldados, percebendo a vitória,
comemoravam muito, gritando o nome do país e
dando vivas ao soberano.
O sucesso dessa guerra foi muito importante
para Felipe. Mais uma vez ele mostrava a todos o
seu poder. Deixava claro que nenhum ataque à
soberania de seu reino ficaria sem repressão.
Confirmou quem era o verdadeiro senhor daquela
região há muito anexada.
Entretanto, não obstante sua satisfação pela
notável vitória que acabava de conquistar,
compreendia que perdera muitos soldados. Seu
exército tinha-se reduzido a quase metade. Por isso,
era necessário evitar nova invasão. Acreditava que o
duque não teria condições de tal ato, mas achou
melhor deixar um destacamento naquela região,

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para agir de forma preventiva, desencorajando


qualquer conflito.
Semanas depois, ele retornou a Rocher na
companhia da sua guarda pessoal. Chegou à cidade
sendo saudado como herói. Todos se envaideciam
ao contar que o seu rei vencera a guerra, expulsando
os invasores.
Uma celebração o aguardava. Depois de
descansar por algumas horas, se preparou a seguiu
ao salão principal do castelo. A rainha não pôde
comparecer, pois se recuperava de uma febre muito
forte. Estava melhor, mas o médico achou prudente
que ela descansasse por alguns dias. Em seu lugar
estava Henrique, vestido em trajes de gala nas cores
azul e dourada.
Felipe se aproximou olhando para o menino
que, agora com pouco mais de cinco anos, parecia
um homenzinho. Já exibia uma postura imponente,
tal como a sua. Fez uma reverência ao rei e depois
correu em sua direção, abraçando-o. Este retribuiu o
abraço e mandou que se sentasse. Em pé, se virou
para os convidados, fazendo um brinde à vitória na
guerra.
No dia seguinte, ele se reuniu com seus
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conselheiros para se informar dos assuntos de


governo. Disseram-lhe que, por causa da guerra, não
puderam continuar os trabalhos para a melhoria da
cidade, como havia sido ordenado anteriormente, e
que uma das soluções encontradas era aumentar as
muralhas, a fim de expandir o centro protegido.
Também trouxeram ao seu conhecimento
rumores de insurgência de alguns pequenos grupos
no Sul, que reclamavam muito da política de
pagamento de impostos à Coroa. Felipe perguntou
se era algo preocupante, sendo-lhe respondido que
até o momento não era nada grave, apenas alguns
camponeses insatisfeitos, que não ofereciam maiores
riscos.
Disse-lhes, então, que por enquanto não
pensaria no assunto. Acabara de passar por uma
guerra e havia outros problemas para se importar.
Determinou que essa movimentação fosse
acompanhada e que o avisassem se notassem a
necessidade de uma intervenção militar.
Informou que gostaria de passar dois ou três
meses afastado da cidade. Precisava de um
momento de descanso longe daquele tumulto.
Mandou que preparassem o palácio de Barbigny,
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uma de suas residências de verão, e que


comunicassem a rainha que sairiam assim que o
local estivesse pronto para recebê-los.

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O dias de caçadas com um grupo seleto de. Mamigos


PERÍODO DE DESCANSO FOI BOM PARA O REI UITOS

e de jantares animados, embalados por música, e na


companhia de belas damas da Corte. Naqueles dias,
fez questão de esquecer qualquer preocupação e se
comportou como há muitos anos, quando ainda era
apenas o príncipe herdeiro, divertindo-se,
relaxando, amando, sem a obrigação de tomar
decisões importantes e vitais para o reino.
Até mesmo Ana aparentava mais disposição.
Fazia caminhadas ao ar livre e participava de rápidos
piqueniques organizados por suas damas de
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companhia. Ao que parecia, tinha se recuperado


completamente de sua última enfermidade. Uma
noite, chegou a comparecer a uma reunião nos
aposentos do marido, mas não se demorou muito.
Aquelas festas regadas a bebidas e seguidas de jogos
não a divertiam. Ficava completamente deslocada.
Henrique, por seu turno, adorou a estada.
Algumas vezes ia às caçadas com seu pai. Felipe
acreditava que ele deveria conhecer desde pequeno
o esporte da realeza e se exercitar sempre para
manter a saúde. Seus estudos foram reduzidos e ele
podia se divertir com os animais da propriedade e
fazer passeios com seus criados.
As férias se estenderam por quase quatro
meses, quando o rei resolveu que já era hora de
voltar. Sentia-se revitalizado e bem disposto para
retornar aos seus compromissos oficiais.
As obras para expansão da cidade tinham sido
iniciadas. Parte da muralha ao leste fora demolida e
as pedras eram reutilizadas para ampliá-la. De fato, a
população crescia e o centro já não mais suportava
tanta gente. Além disso, a fiscalização do comércio e
a cobrança dos impostos eram mais fáceis dentro do
perímetro fortificado. Não havia como fugir dos
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agentes do governo quando se mandava fecharem os


portões!
Semanas depois da chegada do rei, seus
conselheiros o informaram que receberam mais
notícias do Sul. Ainda não eram preocupantes, mas
exigiam atenção. Desconfiava-se que os camponeses
agiam com o incentivo de pessoas mais poderosas
que manipulavam a massa para proceder de acordo
com seus interesses.
Felipe ficou muito inquieto com essa suspeita.
Enquanto se tratassem de simples trabalhadores
reclamando dos valores cobrados a título de
impostos, o problema era algo fácil de resolver.
Algumas prisões e execuções poriam ordem na
região. No entanto, o envolvimento de nobres lhe
causaria maiores transtornos, sobretudo ao se
considerar que seu exército tinha sofrido um
desfalque no último ano – avaliou.
Ordenou que os fatos fossem apurados e que se
desse mais atenção à questão.
Nesse período tumultuado, com as obras na
cidade e a preocupação com as manifestações no
Sul, a rainha descobriu que estava grávida
novamente. Não ficou muito animada, pois já
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passara por abortos não fazia muito tempo, e temia


que essa gestação também não se completasse.
Felipe gostou da notícia. Há muito que ansiava
por outro filho, mas, assim como Ana, também
tinha o receio de que a gravidez não vingasse. Além
disso, estava ocupado com os afazeres do reino, que
não teve muito tempo para desfrutar da novidade.
Então as revoltas no Sul se tornaram um
problema. Havia uma insurreição declarada que
atingira outros povoados, existindo, até mesmo,
líderes atrevendo-se a fazer requerimentos para
serem enviados ao rei, em que pediam que mais
direitos lhes fossem conferidos sobre as terras que
cultivavam.
Bons oradores faziam discursos, não sendo
muito difícil convencer a população pobre de que
estava sendo explorada pelo voraz apetite
arrecadador da Coroa.
Felipe queria esmagá-los! Como ousavam
pleitear qualquer coisa ao soberano? Ele era o rei!
Ele ditava as regras e não podia admitir que um
bando de arruaceiros estivesse disposto a contestá-
las.
Em reunião com seus conselheiros, não
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chegaram a uma conclusão a respeito da forma


como enfrentariam os revoltosos. Era fato que o
exército real estava muito desfalcado depois da
guerra com o Duque de Orange e não era prudente
retirar o destacamento que ficou na fronteira como
medida preventiva. Precisavam de alguém de
confiança, que disponibilizasse de mais homens para
uma inicial investida contra os rebeldes para que,
então, caso fosse necessário, o exército fosse
remanejado até o local do conflito.
O rei pensou em seu primo Augusto, mas sabia
que este somente o ajudaria se houvesse algo em
troca. Até o momento não tinha adotado nenhuma
postura de apoio, fazendo seu jogo político de
informar os acontecimentos e se demonstrar
alarmado, preocupado com o desfecho da contenda.
Se quisesse realmente cooperar, já teria colocado
suas tropas para combater os inimigos do reino! –
concluiu.
Seus conselheiros cogitaram se não seria o caso
de Felipe procurá-lo pessoalmente para conversar a
respeito. Talvez com essa atenção, Augusto se
sentisse prestigiado e viesse a ajudá-lo. Ele, no
entanto, não concordou com a sugestão, pois tal
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providência só o diminuiria e era provável que não


surtisse qualquer efeito. Ademais, tinha a impressão
de que era o próprio primo que estava insuflando,
indiretamente, esse movimento. Era bem o estilo
dele esse tipo de intriga!
Resolveram, assim, que no momento
manteriam contato com Augusto para que ele os
conservasse informados, enquanto se passaria uma
mensagem de que o rei tinha a intenção de
considerar a ideia de receber as petições dos
revoltosos. Ganhariam tempo.
Nesses meses tensos, a gravidez da rainha se
desenvolvia com muita dificuldade. Sentira sérios
enjoos no início, chegando até mesmo a perder
peso, pois não conseguia se alimentar.
Estava no quinto mês da gestação quando
contraiu uma gripe muito forte. Os médicos foram
chamados e avisaram o rei de que era bem provável
que o bebê não sobrevivesse. Por dois dias a rainha
delirou de febre, sentiu dores de cabeça e vomitou.
O aborto era iminente.
Felipe ordenou que fossem tomadas
providências para salvar a rainha e o bebê. Ele,
entretanto, não tinha o que fazer. Estava muito
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ocupado com a revolta que se espalhava e


extremamente irritado com o comportamento de
seu primo, que não adotava uma posição mais ativa.
Escrevia-lhe, dizendo que estava à sua disposição
para manter a ordem na região, mas nada fazia
efetivamente.
Depois de uma noite crítica, Ana deu sinais de
melhora. Pela manhã a febre já tinha diminuído e
não sentia mais dor de cabeça. Aos poucos voltou a
se alimentar e o bebê, ao que tudo indicava, estava
bem.
Ao menos uma boa notícia! - pensou Felipe ao
ser informado a respeito. Parece que finalmente ele
teria outro filho. E forte, já que sobrevivera a uma
crise de saúde tão aguda da mãe.
O comunicado de que o rei pudesse considerar
avaliar as pretensões dos rebeldes trouxe um pouco
de paz para o Sul. Sentiram-se satisfeitos, pois
conseguiram ser ouvidos pelo soberano.
Organizaram-se para fazer com que as petições
fossem entregues em Rocher.
Felipe nunca chegou a ler os requerimentos.
Não aceitava sequer a audácia de terem sido

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redigidos. Tinha apenas ganhado alguns meses para


pensar em uma estratégia e resolver o conflito.
Determinara o reagrupamento de uma pequena
parte do seu exército, que deveria ficar de
prontidão, aguardando eventual ordem de seguir
para aquela região. Não podia dispor de mais
homens, pois prejudicaria a proteção de suas
fronteiras e da sua própria.
Nesse interregno, os ânimos tornaram a se
exaltar. Não se tinha notícia de que o rei estivesse
tomando qualquer providência para analisar as
propostas que lhe foram enviadas. Os discursos
acalorados voltaram a ser ouvidos nos povoados e se
começou a questionar a intenção do soberano a
respeito das reformas pleiteadas.
O trabalho de parto da rainha teve início em
uma manhã agitada no castelo. Felipe se reunira
com seus conselheiros para avaliar as informações
encaminhadas por Augusto a respeito da
impaciência observada no local.
Não se podia ter a noção exata da gravidade do
problema, pois, às vezes, dava-se a impressão de que
seu primo estava superestimando a força dos
rebeldes, sugerindo, maliciosamente, a presença de
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apoio estrangeiro. Ele sabia que o exército real não


estava em sua melhor condição, de modo que
poderia estar tentando instigar o combate para tirar
algum tipo de vantagem - apesar de Felipe não
acreditar que ele tivesse coragem de tentar um golpe
para tomar o poder.
Ademais, o rei estava farto da insolência de seus
súditos e desejava adotar uma providência mais
efetiva para liquidar de vez essa questão. Já havia
esperado demais e não queria passar uma imagem
de fraqueza. Era um absurdo aquela insurreição! Ele
tinha que por fim nisso!
No final da tarde, depois do nascimento da
princesa, Felipe voltou ao seu escritório e ordenou a
seu secretário que redigisse uma correspondência a
seu primo, comunicando que tomaria as medidas
militares necessárias para acabar com o conflito.
Sem protelação, informou que precisaria do apoio
das tropas de Augusto e que este seria, como
sempre, bem recompensado pela sua colaboração
com os interesses do reino. Sabia que ele esperava
algum benefício pela ajuda, bem como que esta era
necessária. Então, não tinha mais o que aguardar.
Dias depois, Augusto enviou seu representante
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com uma resposta à solicitação de Felipe. Dizia que


era seu dever apoiar a empreitada militar para a
resolução da contenda e que ficaria extremamente
honrado em firmar essa aliança com seu amado
primo. Queria estreitar ainda mais os laços fraternos
que os uniam, garantindo manter a ordem na região,
exaltando a soberania do rei perante os países
estrangeiros e o seu incontestável poder sobre todos
os súditos. Por isso, propunha, como coroação
desse compromisso, o casamento de seu neto Luis
Augusto com a princesa real que acabara de nascer.
Ao ouvir a proposta, o rei não externou
qualquer reação. Avisou o mensageiro que iria
avaliar o assunto.
Era realmente uma oferta bem ousada de seu
primo! Prometer-lhe lealdade e suporte em troca de
casar seu neto com uma princesa real. Felipe tinha
que admitir que foi uma boa jogada.
Por outro lado, compreendia que a ideia não
era ruim. Augusto era representante do mais alto
grau da nobreza depois dele, o rei. Seu primo de
segundo grau, descendia de seu bisavô, sendo,
portanto, de família de tradição incontestável. Seu
neto era um pretendente perfeitamente aceitável
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para a princesa, sobretudo ao se considerar o poder


que exerciam na região, possuindo inegável fortuna.
Além disso, essa aliança reafirmaria a autoridade de
Felipe como soberano e de Augusto como seu
súdito, bem como garantiria a proteção das
fronteiras do reino ao Sul. Seria um problema a
menos com que se preocupar.
Determinou, então, que fosse redigido o
contrato a ser firmado com o primo, encarregando
um de seus conselheiros de ir até Sans e formalizar
a aliança.
Assim, com menos de um mês de idade,
Isadora já carregava a responsabilidade pela
resolução de um conflito e ratificação da soberania
de sua família.

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A Felipe,
PÓS A CONFIRMAÇÃO DA ALIANÇA ENTRE AUGUSTO E
a revolta no Sul foi eliminada. Este
mandara seu destacamento militar para auxiliar as
tropas de seu primo. Muitas prisões foram
efetuadas, os líderes foram imediatamente julgados e
executados, a fim de que servissem como exemplo
para os demais, lembrando-os do que acontecia com
aqueles que tentassem contestar a autoridade do
soberano.
Houve certa resistência, mas, evidentemente,
era impossível se pensar em uma vitória de
camponeses armados com foices e enxadas contra
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um exército de homens com treinamento militar e


armas apropriadas. Soldados foram abatidos, mas o
número de revoltosos mortos e presos era muito
superior.
Uma festa foi promovida em Rocher para
celebrar a vitória. Mais do que comemorar o feito
militar, o rei queria, estava claro, mostrar a seus
súditos que não aceitaria qualquer insurgência
contra sua autoridade.
A rainha não tinha mais condições de participar
de eventos e compromissos oficiais. Três meses
após o nascimento de Isadora, já não possuía mais
forças para sair de seus aposentos. Não se
recuperara do sofrimento experimentado durante a
gravidez e não fazia esforço algum para melhorar.
Estava fraca, tinha um olhar vazio e sequer via seus
filhos. Não queria mais viver.
A princesa seria educada por tutores que a
ensinariam línguas, música, arte e todas as
habilidades necessárias para uma moça de tão alta
estirpe. Por enquanto, ela só precisava da sua ama
de leite, Maria.
Maria de Ninon trabalhava no castelo há algum
tempo como ajudante de cozinha. Tinha vinte e dois
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anos e fora escolhida para amamentar Isadora, pois


havia pouco tivera um filho que nascera prematuro
e morrera dias depois do parto. Era viúva de um
soldado que serviu no exército real. Uma mulher
séria, discreta e muito diligente. Apesar do corpo
aparentemente frágil, demonstrava muita força e
disposição para o trabalho.
Ao lhe informarem que seria a ama de leite da
princesa, ela ficou feliz, pois era uma grande honra
servir à filha do soberano e, além disso, seria bom
para esquecer um pouco de todo o infortúnio que
sofrera nos últimos meses.
Logo se apegou àquela criança. Isadora crescia
saudável, ganhava peso a cada dia e se mostrava
muito esperta. Maria sentia, secretamente em seu
coração, um carinho maternal por aquele bebê que
alimentava com tanto cuidado.
Pouco antes de a princesa completar seis
meses, Ana faleceu. Sua saúde estava extremamente
debilitada e, em uma manhã, não acordou mais.
Morreu como viveu, despercebida.
O rei mandou executar o funeral com todas as
honras devidas a uma rainha. Procedeu-se ao velório
que durou três dias, tendo comparecido vários
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representantes da nobreza para prestarem suas


homenagens. O corpo de Ana foi enterrado no
cemitério do castelo, reservado aos membros da
realeza. Na cerimônia, o rei, vestindo trajes de luto,
tinha ao seu lado direito Henrique, com sete anos, e
ao lado esquerdo, Isadora no colo da ama de leite.
O dia estava nublado e ventava muito. A
pequena princesa, alheia ao que acontecia, estava
inquieta, chorando. Felipe determinou que Maria a
levasse para dentro e continuou com o príncipe até
o final do ato fúnebre.

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O Não
S ANOS SE SEGUIAM EM CLIMA DE TRANQUILIDADE.
havia revoltas ou guerras com que se
preocupar. O único inconveniente era a obra de
expansão da cidade. A muralha já estava quase
completa e se buscava, então, uma forma de
organizar a construção das moradias no novo
espaço.
Felipe fazia questão de que seu filho
participasse das reuniões e eventos oficiais do reino.
Eram bem próximos. O rei queria acompanhar de
perto a sua formação, certificando-se de que saberia,
no futuro, tomar as decisões necessárias para
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governar. Henrique era obediente a seu pai e, tendo


consciência de sua posição perante os demais, já se
portava com a autoridade de um soberano.
Exprimia suas opiniões com firmeza e não aceitava
desaprovação.
Quanto a Isadora, esta crescia livre e feliz. Era
uma criança linda, tendo os cabelos e os olhos
castanhos claros, e traços bem desenhados, como o
pai. Era inteligente, alegre e um tanto
temperamental.
Adorava Maria, que continuou cuidando dela
mesmo depois de parar de amamentar. O rei quis
mantê-la no cargo, pois gostava da sua discrição,
sendo uma pessoa que lhe passava confiança. Além
disso, parecia realmente se importar com a menina.
Ao contrário do que acontecia com Henrique,
Felipe não exigia tanto da filha. Preocupava-se com
a sua educação, pois esperava um comportamento
digno de uma princesa real. Contudo, não havia
necessidade de tanta atenção, já que seu papel era
muito diferente daquele reservado ao irmão.
Isadora era encantadora. Por não ter muita
cobrança sobre si, vivia de modo mais espontâneo.
Com delicadeza e um pouco de manipulação,
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conseguia que seu pai fizesse todas as suas vontades.


Não obedecia às ordens de seus tutores e quando
era repreendida pelo rei, arranjava uma forma de
inverter a situação, passando-se como vítima. Logo
se trocavam seus professores ou as disciplinas de
que ela não gostava.
Maria a amava e era a única que a conhecia
bem. Sabia como ela agia e não se deixava levar pelo
seu jeitinho meigo ou por suas pirraças. Tentava
impor certa disciplina, mostrando-lhe o que era
certo e errado, mas não o fazia com muita força,
pois era apenas uma criada e seria mais fácil ser
descartada do que obter algum sucesso.
A princesa não tinha uma natureza má. Não
prejudicava os outros apenas pelo prazer de fazer
sofrer. Era uma criança muito inteligente e
consciente de que poderia ter o que quisesse. Todos
ao seu redor demonstravam isso. Ela crescia
aprendendo que se desejasse um vestido novo,
bastava pedir. Se quisesse um animal de estimação,
seu desejo seria atendido. Não lhe foi dada a noção
de lutar, de se esforçar para alcançar algum objetivo.
Aos dez anos de idade, foram pouquíssimas as
vezes em que teve contato com a população pobre.
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Para ela, dificuldade em se ter o que comer era algo


totalmente desconhecido. Tinha as refeições prontas
e fartas assim que sentisse fome. Deixava a proteção
de sua casa apenas para ir a alguma das residências
de verão de sua família, sempre acompanhada de
empregados e de alguns nobres convidados de seu
pai.
O castelo de Rocher estava situado no ponto
mais alto da cidade. Era fortificado, com paredes
muito largas de pedra. Compunha-se por dezenove
aposentos, escritório e salões de festas e de
audiência, além de cozinha e área de serviço com
alguns quartos para os criados. Havia um bom
espaço de jardim, com uma capela onde se rezavam
missas.
A muralha à sua volta era alta, com torres de
observação. Dessas torres, podia-se ver a
quilômetros de distância, e, olhando-se para baixo,
encontrava-se a cidade, fervilhando, com ruelas e
casas formando círculos em volta do castelo, que
iam aumentando, irregularmente, até chegarem, na
parte sul, à beira do Rio Gris, e, na parte norte, à
planície com vegetação não muito fechada, tudo
circundado por uma muralha de proteção. Era desse
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ângulo que Isadora conhecia a cidade principal do


seu reino.
Muitas vezes, ela ia até um dos locais de
observação e ficava horas reparando nas pessoas lá
embaixo, movimentando-se, conversando,
carregando animais pelas ruas enlameadas. Via
crianças vestidas em roupas simples, sem cor,
correndo, brincando. Tudo parecia divertido. Tinha
muita curiosidade em conferir de perto aquela
agitação. Já havia pedido a seu pai para levá-la até lá,
mas Felipe não queria que ela tivesse contato com
pessoas de nível inferior. Entretanto, como sabia
que nunca o deixaria em paz se lhe desse uma
resposta negativa, preferia dizer que logo desceriam
até a cidade.
Depois de algumas semanas esperando por seu
pai, ela se cansou e, com uma postura autoritária,
procurou Maria, que estava observando a arrumação
do seu quarto, dizendo:
- Maria, quero ir até a cidade.
A criada a olhou e, franzindo a testa,
perguntou:
- Por que Vossa Alteza quer ir até a cidade? É
perigoso para uma princesa.
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- Desejo conhecê-la. Já pedi ao meu pai, mas


ele ainda não teve tempo. Então, quero que você me
leve.
- O rei não permitiria. – respondeu, virando-se
para continuar seus afazeres.
- Eu quero ir! Ele disse que logo me levaria,
mas está ocupado. Assim, você me leva... – insistiu
com impaciência.
- Não! Se o rei achar que você deve ir até a
cidade, então ele vai ordenar que eu a leve.
Muito contrariada, Isadora se virou e saiu.
Percebeu que não conseguiria impor sua vontade.
Foi até o jardim e se sentou em um banco próximo
a uma das torres de observação, pensativa. Depois
de alguns minutos, resolveu que conheceria a cidade
sozinha. Seria rápido e ninguém perceberia! –
avaliou.
Havia duas formas de entrar e sair do castelo:
ou pela rampa de acesso ao portão principal ou pela
escadaria do lado oposto que saía da muralha até
uma rua da cidade. Por esta via era mais
complicado, pois dois soldados cuidavam do portão
estreito de ferro. Pela rampa seria fácil, já que por
ali passavam carroças de mantimentos e os guardas
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poderiam não enxergá-la se aproveitasse o


movimento para fugir.
Dois dias depois, Isadora resolveu executar seu
plano. Chegou próximo ao portão principal e seguiu
ao lado de uma carroça que havia deixado verduras
e legumes no castelo. Os guardas estavam distraídos,
conversando.
Logo na saída ela viu um mundo novo. Pessoas
andando em todas as direções, puxando animais ou
carregando cestos na cabeça. Calor e mau-cheiro
exalavam daquele burburinho. Olhou à sua volta e
continuou em frente, curiosa.
Da torre logo acima do portão, um soldado
estranhou aquela criança bem vestida, já mais
distante, que parecia ter saído do castelo. Observou
por alguns instantes e avisou seu colega, que foi até a
abertura olhar, enquanto a menina se misturava
àquele movimento enlameado.
Pouco depois, resolveram, por precaução,
verificar se alguma família nobre havia visitado o rei.
Um deles foi à residência e perguntou à governanta.
Esta disse que não tinham recebido qualquer
convidado. Ele explicou o porquê da dúvida e
voltou ao seu posto.
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Maria, que saía do quarto de Isadora para


procurá-la no jardim, passou pela governanta e
perguntou o que o guarda viera fazer ali, sendo
informada de que ele teve a impressão de ver uma
menina nobre saindo do castelo.
Instantaneamente, ela sentiu um frio percorrer
o seu corpo. Teve um pressentimento muito ruim.
- Uma menina nobre? – questionou.
- Eles se confundiram. Pensaram ver uma
criança bem vestida nos arredores do castelo e
vieram conferir se o rei havia recebido visitas.
Maria, disfarçando o nervosismo que de
repente a envolvia, perguntou, calmamente:
- A senhora viu a princesa? Está na hora de
prepará-la para o almoço.
- Por agora não. Há algumas horas estava no
jardim da parte frontal.
- Tudo bem. Vou procurá-la...– afirmou,
controlando sua voz e saindo apressada em direção
à torre de vigilância.
Chegando lá, perguntou aos soldados o que
tinham visto exatamente. Depois, chamou dois
criados para ajudarem a procurar Isadora nos
jardins e nos cômodos do palácio. Disse para
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fazerem com discrição, pois não queria pensar na


reação do rei se percebesse a suspeita de que sua
filha tivesse fugido.
Sentia que algo estava errado. Conhecia bem
Isadora e sabia que era capaz de sair sozinha para ir
até a cidade. Sem esperar pela resposta dos criados,
convocou alguns dos guardas que ficavam no portão
principal e lhes disse que se a princesa realmente
tivesse saído, eles seriam responsabilizados por
qualquer coisa que acontecesse. Determinou que a
acompanhassem para procurá-la e que realmente se
esforçassem para encontrá-la, pois, caso contrário,
experimentariam a ira do rei.
Isadora estava encantada com sua aventura.
Tudo era novidade para ela: o movimento, o
barulho, os animais em meio às pessoas. Até pisar
na lama malcheirosa era divertido. Logo se deparou
com algumas crianças que a olhavam com
admiração. Nunca tinham visto um tecido tão bonito
como naquele vestido que ela usava. Seu cabelo era
limpo, macio. Chegavam perto, tocavam nela, que
sorria. Começaram a conversar e já estavam
brincando.
Aos poucos, algumas pessoas começaram a
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observar aquela menina que, definitivamente, não


era da vizinhança. Um mostrou para outro e logo
havia um grupo de homens reparando na turma de
crianças que brincava inocentemente. Um deles
chamou um dos garotos e perguntou quem era
aquela nova amiga, sendo respondido que se tratava
de alguém que acabara de chegar à cidade.
Minutos depois, viram três guardas do rei
aproximando-se rapidamente e parando ao
avistarem a menina. As crianças interromperam
imediatamente o que estavam fazendo e olharam
assustadas. Ela se virou e percebeu que tinha sido
descoberta. De trás dos soldados, Maria saiu
balançando a cabeça negativamente.
Pegou-a pelo braço com um olhar muito
irritado e não falou uma palavra. Isadora quis
protestar, mas sentiu que ela estava realmente
nervosa. Então resolveu ficar quieta, andando
chateada a passos rápidos, acompanhada pelos
guardas.
Chegando ao castelo, Maria avisou os criados
que tinha encontrado a princesa brincando de
esconder no jardim, seguindo diretamente para os

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seus aposentos. Lá, soltando seu braço, falou


furiosa:
- Isadora! Como você pôde fazer uma loucura
dessas? Sair sozinha do castelo? Você tem noção do
que poderia ter-lhe acontecido?
- Vou contar para o meu pai sobre o jeito como
você me tratou! – retrucou, com arrogância – Eu
estava só me divertindo um pouco e você chegou
me puxando como se mandasse em mim!
- Ah! Você vai contar para o rei? Então vamos,
agora, procurá-lo! Quero ver a reação dele quando
descobrir que você descumpriu suas ordens. Você
sabe bem como ele aprecia as pessoas que não o
obedecem, não sabe?
Isadora pensou por uns segundos e percebeu
que o rei não gostaria nada do que ela havia feito.
Assim, baixou os olhos e suspirou, com a expressão
contrariada.
Maria respirou profundamente e, com a voz
mais calma, disse:
- Alteza, a cidade é um lugar perigoso para uma
nobre. Nem todos são pessoas boas ou admiram a
nobreza. Muitos sequer saberiam quem você é. Por
isso, não é seguro que ande sozinha. Aquelas
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crianças que você encontrou já estão acostumadas


ao local e sabem reconhecer eventual situação de
risco...
A princesa a olhou sem se conformar com a
situação e, incomodada por ser repreendida, quis
mudar aquele assunto, dizendo que desejava
almoçar.
Felipe não ficou sabendo da aventura vivida
pela filha. Era possível que castigasse gravemente os
guardas que não a viram sair. Estes, no entanto, sem
especificarem o motivo, determinaram aos demais
que aumentassem a atenção na segurança do castelo.
Alguns meses depois, o rei decidiu marcar um
ato público para celebrar a finalização das obras de
expansão da muralha e do novo espaço destinado à
construção de moradias. Acreditava ser importante,
vez ou outra, que os soberanos mostrassem ao povo
as benfeitorias que realizavam em seu favor, dando-
lhes a impressão de que eram bem cuidados.
Ele e Henrique, agora com quase dezoito anos,
seriam escoltados por alguns cavaleiros da guarda
real para vistoriar o local, onde seriam aplaudidos
pela população satisfeita com a bondade e
dedicação de seu rei. Então, voltariam ao castelo.
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No momento em que estavam se preparando


para sair, Isadora descobriu a programação e foi até
o pai, insistir para ir com eles. Felipe não queria
levá-la, mas devido à tamanha teimosia, resolveu
fazer a vontade da filha. Mandou que se vestisse
adequadamente e determinou que os criados lhe
preparassem uma carruagem.
O cortejo deixou o palácio, indo o rei e o
príncipe a cavalo, seguidos pela princesa,
juntamente com homens da guarda real. Ela estava
muito animada, olhando através da janela as pessoas
curiosas que saíam de suas casas e lhes faziam
reverência.
Para ela, tudo era divertido. Ficava
impressionada com a forma como as mulheres
conseguiam equilibrar cestos cheios de roupas ou
alimentos na cabeça e achava interessante a
liberdade daquelas crianças, andando descalças. As
ruelas de Rocher pareciam labirintos a serem
explorados!
Chegando ao local do evento, o rei e o príncipe
desceram de seus cavalos e seguiram até um trecho
da muralha, como se a estivessem inspecionando.
Isadora saiu da carruagem e se aproximou deles.
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Depois de alguns instantes os três voltaram para


perto do povo que aguardava a manifestação do
soberano. Este disse poucas palavras, exaltando sua
preocupação com a segurança da cidade e de seus
súditos, no que foi aplaudido.
Ele e Henrique se viraram para voltarem aos
cavalos, tendo parado rapidamente para falar com
um dos soldados, quando Isadora, sorridente,
andou em direção a um grupo de crianças que
estava ali, admirando o evento.
Começou a conversar com elas que se
mostravam muito tímidas, pois sabiam que não
podiam se dirigir de modo tão informal à princesa.
Então, uma menina de aproximadamente cinco
anos apontou, maravilhada, para um laço de fita
amarrado em seu cabelo. Em um gesto de gentileza
com a criancinha, ela perguntou:
- Você quer? – e tirou do cabelo para lhe dar.
Nesse momento, vendo a cena, Felipe chamou
com seriedade:
- Isadora! Entra na carruagem!
Ela se virou meio assustada e, entregando a fita
à menina, voltou correndo para perto do cortejo. O
rei, muito irritado, a colocou na carruagem e disse:
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- Nunca mais se aproxime de tal modo dessas


pessoas! Você não sabe se portar como uma
princesa? Eles são seus súditos! Não são iguais a
você! É preciso manter a compostura para ser
respeitada, Isadora! – e se virou, seguindo para o
seu cavalo.
Na volta para o castelo, com o semblante
confuso, ela observava as pessoas. Não compreendia
por que seu pai ficara tão furioso com seu ato.
Estava chateada, pois não gostava quando lhe era
chamada a atenção. Ela sabia, sim, se portar como
uma princesa! Qual era o problema em se divertir
um pouco? – pensou.
Cruzou os braços e suspirou, resignada,
enquanto sentia os solavancos dentro de sua
carruagem a caminho de casa.

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E então, quinze anos. Falava-se


RA INÍCIO DO OUTONO DE 1453 I E ,
SADORA TINHA
de sua beleza por
todo o reino. Mais alta que as mulheres de sua
convivência, era magra, tinha os cabelos castanhos
ondulados bem longos e os olhos idênticos aos de
seu pai, em um tom de castanho claro muito vivo,
com nuances esverdeadas. Seu rosto, em formato
oval, parecia ter sido desenhado. Com um nariz
arrebitado e lábios rosados, seus traços eram
realmente harmoniosos.
Felipe, aos cinquenta e três anos, ainda possuía
o porte imponente e a elegância de sempre, mas o
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passar do tempo já deixava sinais. Não tinha tanto


ânimo para as caçadas e não se divertia da mesma
forma nas festas que promovia. Às vezes, sentia
fortes dores no estômago que o deixavam muito
abatido.
No momento, estava ocupado em arranjar uma
noiva para o herdeiro do trono. Aos vinte e dois
anos, já era tempo de Henrique encontrar sua futura
rainha. Em reuniões anteriores, pensavam nas
opções de princesas estrangeiras. Uma boa aliança
com outro país era uma excelente forma de se
manter forte, tendo apoio político e militar no caso
de eventual conflito.
A família real estava em um de seus palácios de
verão, no Vale de Villerne. Era um local agradável
em meio a bosques, que serviam para as caçadas,
onde havia um rio calmo de águas transparentes. O
castelo tinha dois andares, com paredes em pedra
na cor bege-claro, e era rodeado por belos jardins.
O rei convidara alguns nobres e organizara a
visitação de representantes de países estrangeiros,
que trariam as propostas de casamento para o
príncipe a serem analisadas.
Jantares e eventos eram promovidos para a
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diversão dos hóspedes. Isadora estava encantada.


Ela realmente apreciava festas. Adorava dançar e
atuar nas peças de teatro. Levava coleções de
vestidos e joias para se mostrar sempre
deslumbrante perante os demais. Ocasionalmente,
chegava a trocar de roupa três vezes durante um
evento, a depender da sua duração.
Maria estava com ela. Era a pessoa de sua
confiança e responsável pela organização dos
serviços em seus aposentos. Aos trinta e sete anos,
continuava muito discreta e impunha respeito.
Conhecia a princesa como ninguém. Não emitia
opinião sobre o seu comportamento, mas, sempre
que demandada, procurava aconselhá-la da melhor
maneira.
No dia em que o rei iria receber as delegações
estrangeiras no salão principal, Isadora fez questão
de participar. Era curiosa, queria ver os retratos das
princesas que seriam mostrados ao seu irmão e,
principalmente, conhecer os representantes dos
outros países.
Maria estava arrumando seus cabelos, quando
ela perguntou, olhando-se no espelho:
- Maria, você sabe se nessas delegações
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estrangeiras há homens jovens?


- Não sei dizer, Alteza.
- Espero que sim... Não conheço nenhum
homem interessante de outro país. Será que se
vestem bem? São fortes? Sabem dançar?
Percebendo a intenção da princesa, Maria falou
em um tom suave, porém de advertência:
- Alteza, acredito que não seja muito adequado
o interesse pelos rapazes estrangeiros. Não se
esqueça de que tem um noivo e que em breve se
casará.
- Ah, Maria! Noivo? Não conheço esse Luis
Augusto que meu pai escolheu para ser meu
marido. Não sei se vou querer me casar com ele... E
se não me agradar?
Maria sorriu e não disse mais nada. Terminou
de trançar seus cabelos e a auxiliou na escolha de
um vestido. Ela preferiu um lilás com detalhes em
azul. Estava pronta para se sentar ao lado de seu pai
e observar a apresentação das pretendentes do seu
irmão.

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I retratos
SADORA HAVIA SE DIVERTIDO OBSERVANDO
das princesas. Sorria internamente,
OS

achando-as feias. Fitava seu irmão para ver sua


reação, mas Henrique era muito reservado e não
exprimia qualquer sentimento.
Ficou decepcionada, no entanto, com os
representantes estrangeiros. Não achara nenhum
interessante. Eram mais velhos e se vestiam mal. Ela
tinha esperança de encontrar alguém atraente no
baile de mais tarde. Lá haveria mais gente, já que
naquela reunião compareceram apenas os
diplomatas de maior prestígio.
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À noite, a princesa fez sua entrada radiante no


salão. Usava um vestido azul marinho com aplicação
de pérolas no decote e na cintura. Seu cabelo estava
preso em um coque baixo e portava uma tiara de
pedras preciosas. Sentou-se ao lado esquerdo de seu
pai e ficou, sorridente, observando os convidados.
Às vezes comentava com alguma dama de
companhia sobre as roupas ou maquiagem das
mulheres.
Quando começou a tocar música, pediu
permissão a seu pai e desceu para dançar. Depois
de um tempo, sua atenção se voltou para um rapaz
que se encontrava parado no canto direito do
cômodo. Ele aparentava aproximadamente vinte e
três anos, tinha cabelos bem pretos, lisos, a pele
morena, grandes olhos escuros e nariz afilado.
Admirava-a dançar e, quando percebeu que ela o
viu, sorriu e levantou a taça que segurava,
cumprimentando-a. Ela deu um rápido sorriso e
baixou a cabeça, continuando os movimentos da
música que tocava.
Isadora dançou mais duas músicas. Várias vezes
seus olhos se encontraram com os daquele
convidado que continuava a observá-la com
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interesse. Ao final do ato, ela se afastou um pouco,


indo para a lateral do salão, onde se juntou a
algumas de suas damas de companhia e ficou
conversando.
O rapaz seguiu, então, em sua direção e,
fazendo uma reverência, falou com simpatia:
- Alteza, sua beleza é inebriante! Permita-me
que me apresente, Carlos Montemayor.
Ela inclinou a cabeça e sorriu, dizendo:
- Da delegação aragonesa, presumo.
- Sim. Faço parte da guarda pessoal do
representante diplomático.
- Está apreciando a visita?
- Agora, estou encantado! – e sorriu
maliciosamente.
Ruborizando, Isadora baixou o rosto e,
voltando a olhá-lo, perguntou:
- Até quando vocês ficam?
- Partiremos em cinco dias.
- Aproveite a estada. É uma região bem
agradável para a caça. Meu pai deve promover
alguma saída nesse período.
- Com todo respeito, prefiro eventos na
companhia de uma bela dama... – respondeu
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encarando-a, com um sorriso.


Completamente envergonhada, ela inclinou a
cabeça, despedindo-se, e saiu a passos rápidos.
Carlos, divertindo-se com a sua reação,
retornou para o canto do salão e encheu sua taça de
vinho.
No dia seguinte, Isadora se levantou muito
animada. O fato era que havia gostado da forma
como aquele rapaz a olhou, do modo como falou
com ela. Sentiu algo que ainda não sabia explicar,
uma mistura de emoções – satisfação, embaraço e
certo fascínio. Ele a olhara como mulher, de carne e
osso, e não como uma princesa angelical e
inatingível como estava acostumada.
Maria, que a ajudava a se vestir para os eventos
daquele dia, comentou:
- Está bem disposta hoje, Alteza...
- Sim. O dia está muito bonito. Quero passear
um pouco pelos jardins. – respondeu sorrindo. E,
depois de alguns instantes pensativa, continuou –
Maria, você gostava muito do seu marido? Por que
nunca se casou de novo?
- Gostava dele sim. Não me interessei por mais
ninguém, por isso não senti necessidade de um novo
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casamento. Ademais, aprecio trabalhar aqui, com


você. Talvez um marido pudesse exigir muita
atenção e não compreender essa minha vontade.
- Mas você não sente falta de um homem ao
seu lado, para dar carinho, proteção?
- Isadora, a vida real é muito diferente daquela
com que sonhamos. – disse amigavelmente – Não se
deve esperar tanto de um homem. Eles são
diferentes, não pensam como nós.
Sem dar muita atenção ao conselho, Isadora
concluiu que não viveria sem um homem ao seu
lado. Mudando de assunto, terminou de se arrumar,
pois estava impaciente para aproveitar aquela manhã
ensolarada.
Ao sair dos seus aposentos, ela tentava
esconder sua ansiedade. Era evidente que queria
encontrar Carlos, mostrar-lhe como estava ainda
mais linda naquele dia. Queria sentir novamente
aquele olhar de desejo sobre si.
Juntamente com suas damas de companhia,
deixou o castelo em direção aos jardins. Olhava
disfarçadamente à sua volta, procurando pela
delegação aragonesa. Muitos homens haviam saído
para caçar com seu pai e irmão, mas Carlos tinha
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dito que não se interessava muito por esse


programa, então deveria estar por ali - pensava.
Depois de algum tempo sem avistá-lo, ela sentiu
um misto de decepção e raiva. Ora, ele havia dito
que não gostava de caçadas! E, além disso, será que
não imaginara que ela estaria no castelo e que
poderia vê-la novamente?
Mais tarde, um criado veio avisá-la de que o
almoço seria servido. Indignada com o insucesso do
seu passeio, ela seguiu com suas damas até o salão
principal. Não havia muitas pessoas, pois a maior
parte dos homens só voltaria no final da tarde. Ao
entrar no cômodo, percebeu que Carlos estava lá.
Seu coração disparou.
Ao passar por ele, tentou ao máximo parecer
desinteressada e o cumprimentou. Com seu usual
sorriso malicioso, ele fez uma reverência, falando:
- Está ainda mais linda hoje, Alteza.
Olhando-o como se não tivesse passado horas
se preparando para aquele elogio, ela agradeceu
inclinando rapidamente a cabeça e seguiu para
sentar-se à mesa.
Durante todo o almoço, Isadora, conversando
com algumas damas que estavam próximas, não
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conseguia desviar o olhar de Carlos. Todos seus


movimentos eram calculados para lhe mostrar sua
graciosidade. Ele, por sua vez, a observava com
muito interesse.
Ao final da refeição, ela se levantou, no que foi
acompanhada por algumas mulheres, e demonstrou
a intenção de ir para seus aposentos. Não desejava
sair dali, evidentemente. Queria que Carlos viesse
falar com ela, porém não podia tomar qualquer
atitude que demonstrasse essa vontade. Ela era a
princesa e ele deveria procurá-la!
De repente, quando finalizava sua conversa
com as convidadas com quem almoçara, sentiu
alguém se aproximar pelas suas costas e falar,
próximo ao seu ouvido:
- Vossa Alteza me daria a honra de um passeio
antes de se retirar?
Sentindo uma onda de calor atravessar seu
corpo, ela se virou e o viu, com um leve sorriso,
aguardando a resposta. Esquecendo-se por
completo das pessoas que lhe falavam, sinalizou
positivamente com a cabeça.
Isadora e Carlos caminhavam lado a lado pelos
jardins, seguidos, a certa distância, pelas damas de
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companhia. Sentaram-se à sombra de uma árvore e


ele contava sobre seu país, seu trabalho e outros
assuntos. Ela não conseguia parar de olhá-lo. Era tão
interessante, diferente daqueles homens com os
quais convivia!
Na verdade, ela nunca tivera um maior contato
com rapazes da sua faixa etária. Estava sempre
trancada em algum castelo com seu pai, seu irmão e
os conselheiros do reino. Usualmente sob vigilância,
era a primeira vez que desenvolvia uma conversa tão
próxima com um homem. Além disso, agora já não
tinha mais a inocência de uma criança. Começava a
sentir e pensar como mulher. Despertava interesse
pelo sexo oposto e a curiosidade, que sempre foi
uma característica forte dela, se voltava para esse
assunto.
Após aproximadamente duas horas de
conversa, uma das damas de companhia veio avisar
a princesa que seria melhor retornar ao castelo, pois
logo seu pai voltaria e ela precisava descansar e se
preparar para o jantar.
Chegando perto da porta principal, eles
pararam por um instante para se despedirem e

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Isadora, não conseguindo mais disfarçar seu


interesse, perguntou:
- Você estará no jantar de hoje?
- Sim. Não perderia uma chance de vê-la
novamente. – respondeu, sorrindo.
- Você sabe dançar, Carlos?
- Infelizmente a dança não está entre as minhas
paixões. Nunca tive jeito para isso, então prefiro
apenas observar. – e, percebendo um
descontentamento no olhar dela, continuou –
Dance para mim hoje. Estarei admirando e a cada
contato com o seu parceiro, sinta como se estivesse
comigo...
Fez uma reverência e, olhando-a nos olhos,
beijou uma de suas mãos, seguindo na direção
oposta.

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I conseguia dormir. No baile, não havia, prestado


SADORA ESTAVA DEITADA EM SUA CAMA MAS NÃO

atenção em nada senão em Carlos. Eles não se


falaram, pois sabiam que seriam alvo de
comentários. Ele a observou o tempo todo. O modo
como a olhava a deixava desconcertada e, ao mesmo
tempo, lhe trazia uma sensação boa, de vivacidade.
Agora ela lutava contra seus pensamentos. Não
conseguia parar de imaginar como seria beijá-lo,
sentir o seu toque, ter seus braços fortes em um
abraço, suas mãos passeando delicadamente pelo
seu corpo.
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Embora tentasse controlar seu desejo, não


considerava errado ter aqueles sentimentos. Não se
importava em pensar em Carlos daquela forma e
gostava da emoção que a invadia.
No dia seguinte precisava encontrá-lo, falar com
ele. Felipe e Henrique estariam no castelo, mas ela
não se preocupava. Não via problema algum em
conversar com um rapaz da delegação convidada
pelo próprio rei.
Então se arrumou e avisou que iria dar uma
volta no jardim e que gostaria de ir só, sem suas
damas. Maria, no entanto, disse que ela não sairia
sozinha de modo algum. Não era apropriado a uma
princesa andar sem companhia. Determinou que as
damas fossem com ela. Resignada, Isadora saiu do
quarto com cinco moças atrás.
Andando graciosamente pelos corredores,
passou pela sala de jogos, onde, sabia, seu pai e
irmão estariam com os convidados. Cumprimentou
o rei e o príncipe e disse que ia passear ao ar livre.
Percebeu a presença de Carlos, contudo, não o
olhou. Saiu animada.
Minutos depois, ele a encontrou no caminho
para o jardim lateral do castelo e perguntou se
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poderia acompanhá-la. Sorrindo, ela aquiesceu.


Andavam lado a lado conversando, seguindo na
direção de um gazebo, que ficava no centro do
jardim, quando Carlos comentou:
- Vossa Alteza dançou maravilhosamente
ontem. Devo confessar que ao vê-la não consegui
me concentrar em mais nada no jantar.
Isadora o olhou e sorriu. Parou de caminhar e
se virou para suas damas, que estavam a alguns
metros atrás, dizendo:
- Esperem-me aqui.
Elas se detiveram, hesitantes, e uma falou:
- Mas, Alteza... é que...
- Esperem aqui! Estou mandando! – e
continuou seu caminho.
Carlos sorriu discretamente e seguiu ao seu
lado até o gazebo. Lá, ela parou em um canto, de
costas para ele, observando algumas flores. Ele a
admirava. Como era linda, delicada e exalava
naturalmente tanta sensualidade! E ficou ali, por
alguns instantes, a mais ou menos dois metros,
aguardando para ver o que ela faria.
Isadora se virou, sorriu e adotou uma expressão
de que iria iniciar um assunto, mas desistiu,
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baixando os olhos. Depois, respirou


profundamente, voltando-lhe de novo o rosto,
externando certo nervosismo. Então Carlos, que a
encarava com muito interesse, andou rapidamente
em sua direção e a puxou pela cintura, beijando seus
lábios. Com uma das mãos ele acariciava sua nuca e
com a outra sustentava aquele corpo que parecia
desfalecer.
Eles se beijavam entusiasmadamente e Isadora
notava seu coração batendo acelerado como nunca
havia sentido. Carlos a abraçava forte, beijava sua
boca, seu pescoço, acariciava-lhe as costas e ela
sentia seu corpo ardendo. Não tinha forças para
detê-lo, não queria que parasse.
Ele tinha seu desejo aumentado cada vez mais.
Sabia que poderia possuí-la naquela hora, que estava
entregue a ele. Queria muito continuar, mas tinha
consciência do que lhe aconteceria caso não se
controlasse. Assim, com muito esforço, beijou
delicadamente seus lábios e se afastou devagar,
dizendo:
- Desculpe-me pelo meu comportamento
Alteza, não quis desrespeitá-la.
- Como? Comportamento... – perguntou,
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confusa, ainda recobrando os sentidos.


- Sim. Não poderia me portar de tal forma com
uma princesa.
- Mas você não fez nada de errado. Eu gostei...
- E eu gostei mais do que deveria! – continuou,
sorrindo satisfeito – É melhor voltarmos. Não quero
imaginar a reação do rei se suspeitar que me
aproximei desse modo de Vossa Alteza.
Então eles retornaram, encontrando as damas
de companhia mais à frente, e seguiram até o
castelo.
Naquela tarde, Maria estranhou o silêncio de
Isadora. Normalmente era tão agitada e falante que
ficava claro que algo tinha acontecido. Perguntada se
estava tudo bem, respondeu que sim, que só queria
descansar para a noite.
Ela se deitou e fechou os olhos, pensando na
experiência de mais cedo. Era como se alguma coisa
tivesse despertado dentro dela. Estava leve e cada
centímetro do seu corpo parecia exalar energia.
Ainda podia sentir o corpo de Carlos contra o seu,
seus lábios em sua pele. Como gostava daquela
sensação!
À noite, no salão, estava deslumbrante. Não só
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pelo vestido e pelas joias, mas porque havia algo


diferente em seu olhar. Sorridente e graciosa, como
de costume, parecia estar realmente se divertindo.
Carlos a observava de longe, com o mesmo
jeito sedutor. Ela o olhava sem se preocupar em
disfarçar. Depois do jantar, pediu licença ao rei e ao
príncipe e desceu para falar com algumas damas da
Corte, parando, em seguida, perto dele.
Os dois conversavam animadamente na lateral
do cômodo. Enquanto ele tentava se manter mais
sério para evitar comentários, Isadora parecia não se
importar, chegando, muitas vezes, a tocá-lo no
braço, a segurar sua mão.
Henrique reparava na irmã, que se mostrava
particularmente atenciosa com aquele rapaz
estrangeiro. Via nela o mesmo comportamento que
notava nas moças que se interessavam por ele. Era
uma postura perigosa e até inapropriada para a
princesa. Então, virando-se para seu pai, comentou:
- Majestade, acredito que seja hora de Isadora
se casar.
- Por que você pensou nisso agora?
- Ela me parece animada demais com o nosso
jovem visitante. – disse, apontando em direção à
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irmã.
Felipe olhou a cena e percebeu que, de fato,
sua filha demonstrava muito entusiasmo pelo
convidado estrangeiro. Conhecia bem as mulheres e
sabia quais eram os sinais que davam quando
esperavam uma aproximação mais íntima.
Depois de alguns instantes, ele se levantou e
falou que iria se recolher, sendo acompanhado por
seu filho. Com a expressão muito séria, fez um sinal
para que Isadora viesse com eles. Ela se virou para
Carlos e, com um sorriso, desejou boa noite,
seguindo seu pai.
Felipe foi com a filha até os seus aposentos e
informou que ela se casaria em breve. Isadora teve
um sobressalto. Por que aquele assunto? Não queria
se casar! Ainda estava muito cedo! Com uma
expressão contrariada, falou:
- Majestade, não quero me casar! Sequer
conheço esse noivo que me foi destinado...
O rei ficou irado com aquele comportamento.
Como sua filha ousava contestar uma decisão sua?
Então, virou-se na sua direção como se fosse agredi-
la e parou. Muito irritado, disse quase gritando:
- Isadora! Que insolência é essa? Como você
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pode pensar em me desafiar, em questionar sua


obrigação? Você não escolhe nada na sua vida!
Como princesa, tem um papel a cumprir e vai
desempenhá-lo sem cogitar reclamar. Eu sou o rei,
seu pai, e estou avisando que você vai se casar em
breve. Sua opinião não interessa!
Voltando-se para Maria, que estava no canto do
quarto com os olhos baixos, ordenou:
- Maria, a princesa vai ficar em seus aposentos
até que os visitantes tenham ido embora. Não a
quero conversando com mais ninguém!
Isadora o encarou com lágrimas nos olhos,
indignada. Queria gritar, sair correndo dali, mas não
podia fazer isso. Seu castigo seria agravado. Esperou
que Felipe saísse e se jogou na cama.
Sentia muita raiva de seu pai. Não queria se
casar! Por que tinha que aceitar um noivo que
sequer conhecia? E mais: não ficaria sem ver Carlos!
– decidiu. Queria despedir-se dele, talvez beijá-lo
uma última vez.

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I olhava , o
SADORA EM PÉ, PRÓXIMO À JANELA DO SEU QUARTO,
movimento dos criados que faziam
reparos nos jardins, recolhiam lixo e limpavam a
área externa do castelo. Estava muito chateada, sem
falar com Maria.
As delegações estrangeiras tinham partido e ela
não conseguira se despedir de Carlos. Duas noites
atrás, havia mandado uma criada levar um recado
para que ele a encontrasse no gazebo do jardim
lateral. Estava tudo preparado. Sairia à noite quando
todos estivessem dormindo e voltaria rápido, antes
que percebessem sua ausência. No entanto, Maria
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notou sua intenção e fizera a criada contar o que


estava combinado. Na hora em que Isadora se
aprontava para deixar o quarto, ela chegou e a
proibiu de sair.
Não adiantou distribuir ameaças e tentar
mostrar que ela, como princesa, faria o que
desejasse. Maria nunca se importou com suas
pirraças. Tinha ordens do rei para cuidar dela e
sabia que um encontro com o moço aragonês não
traria bom resultado. Foi firme e a trancou no
quarto, determinando que dois guardas vigiassem a
porta.
No dia seguinte, Isadora recebeu suas refeições
em seus aposentos e não lhe foi permitido participar
do jantar oferecido aos visitantes. Sentia-se
inconformada. Não era habituada a ter suas
vontades negadas.
Quando as delegações se preparavam para
partir, ela foi até a janela observar a movimentação.
Viu quando Carlos, já montado em seu cavalo e
aguardando o representante diplomático se despedir
do rei, olhou em sua direção e, discretamente, lhe
acenou, com um sorriso no rosto. Então todos
seguiram viagem.
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Ela quis gritar. Estava indignada! Seu irmão


tinha direito a desfrutar de amigas íntimas, até
mesmo seu pai era rodeado de mulheres, então por
que ela não podia nem mesmo conversar com quem
quisesse? Isso era injusto! - pensava.
Semanas depois, a família real voltou para
Rocher. Felipe e Henrique haviam decidido que a
melhor proposta de casamento tinha sido feita pela
Sicília. O rei desse país oferecera sua filha mais
velha, a mais próxima da linha de sucessão. Um
reino em expansão, tinha força militar bem
organizada e uma monarquia sedimentada,
mostrando-se um excelente aliado a Moreau-
Leclerc.
A princesa ainda era muito jovem, contando
com apenas doze anos. Assim, logo depois do
casamento de Isadora, seria feito um acordo
preliminar de noivado e, após quatro ou cinco anos
– quando aquela atingisse a idade para se tornar
esposa –, a união seria concretizada e a futura rainha
viria para sua nova casa.
Isadora já estava mais resignada com o seu
destino. Percebeu que não tinha escolha e que se
casaria com Luis Augusto. Começou, então, a
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perguntar sobre ele. Qual a sua aparência, do que


gostava, se era agradável. Sabia que tinha apenas
dois anos a mais que ela, o que já poderia ser
considerada muita sorte, pois havia notícia de
princesas obrigadas a se casarem com homens mais
velhos que o próprio pai.
Descobriu que ele gostava de caçar e que
dançava muito bem. Imaginou que um homem que
praticava exercícios devia gozar de boa saúde e ter
ânimo para participar das festas e eventos que ela
tanto apreciava. Demonstrou certa satisfação.
Insistiu muito para que seu pai providenciasse
um retrato de seu noivo. Queria ver como ele era
fisicamente. O rei dizia que não havia necessidade,
já que em alguns meses eles se casariam e ela o
conheceria. Mas, como era do seu feitio, Isadora
não descansou até que fizessem o que ela pedia.
Dois meses depois, o pintor oficial do reino
retornou com um quadro de Luis Augusto.
Muito ansiosa, quando soube da volta do artista
ela correu até o escritório de seu pai para ver a
pintura. Esta estava bem embalada, tendo a própria
princesa desamarrado rapidamente as fitas que

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seguravam o pano rústico que cobria o rosto de seu


noivo.
Ao ver o retrato de Luis Augusto, logo sorriu.
Seu olhar de curiosidade agora demonstrava
contentamento. Felipe, que estava sentado à sua
mesa de trabalho, perguntou:
- E então?
Virando-se para o pai, disse, levando o quadro
até ele:
- Me pareceu interessante. Claro que a pintura
não mostra exatamente como é a pessoa, já que não
se podem captar seus sentimentos, mas acredito que
ele seja muito bonito.
Na tela, via-se a imagem de um jovem rapaz
loiro, com olhos azuis, rosto fino, boca pequena e
desenhada. Tinha uma expressão calma e um leve
sorriso nos lábios.
Divertindo-se com a animação da filha, o rei
falou:
- Há um bilhete para você.
Curiosa, Isadora pegou a correspondência com
o pai e a abriu de imediato, lendo:
- Espero que minha amada princesa tenha
ficado feliz com o retrato que vê. Quanto a mim,
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não suporto mais a vontade de contemplá-la


pessoalmente. Sua beleza e graciosidade são
conhecidas em todo o reino. Sinto-me o homem
mais afortunado de todos por ter tido a honra de
tornar-me seu marido.
Então dobrou o papel, pediu licença e seguiu
entusiasmada em direção ao seu quarto.
Maria se divertia com a empolgação da
princesa. Meses atrás estava revoltada com a ideia de
se casar e agora só falava no assunto. Perguntava-lhe
o que havia achado da aparência do seu noivo, se
acreditava que ele era bem disposto, que gostaria de
dançar e de festas tanto quanto ela. Maria respondia
pensar que sim, mas ressaltava que existiriam outras
coisas com o que se preocupar quando fosse uma
mulher casada. Logo viriam os filhos e
responsabilidades além da diversão.
Isadora não pensava em responsabilidades. O
que ocupava sua mente eram a cerimônia, a festa do
seu casamento e, evidentemente, a noite de núpcias.
Desde aquele contato com Carlos, ela via sua
curiosidade em relação ao sexo oposto aumentando.
Tinha gostado muito das emoções que sentira

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quando fora beijada, abraçada, acariciada por um


homem. Desejava saber o que vinha depois.
Foram várias as noites em que fantasiou
momentos de sensualidade, primeiro com Carlos,
depois com seu noivo. O que ela sabia em tese,
queria experimentar na prática. Precisava provar de
novo da sensação que tivera naquele verão.
O casamento seria em algumas semanas. Na
verdade, em razão das chuvas que caíam naquela
época do ano, a cerimônia tinha sido adiada, pois
havia trechos da estrada instransponíveis. Luis
Augusto viria a Rocher com alguns de seus criados
de confiança e sua guarda pessoal. Membros de sua
família – primos, duas tias e um tio – e nobres da
região compareceriam à celebração.
Seu avô, Augusto, não tinha mais condições de
viajar. Aos sessenta e oito anos, mal conseguia
levantar-se da cama. Ainda estava lúcido, tendo
consciência de que seu maior feito estava prestes a
se concretizar, mas seu corpo não acompanhava sua
mente. Sentia fortes dores e tinha dificuldade para
andar. Percebia que não viveria muito, mas estava
satisfeito. Ele criara seu neto para aquele desfecho, a
elevação do prestígio de sua família.
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Desde criança, todos os ensinamentos foram


direcionados para o papel que Luis Augusto
exerceria no futuro. Compartilhara com o neto tudo
o que sabia sobre política, etiqueta e a forma como
se portar para obter sucesso junto ao governante. A
ele transferira sua ambição. Casando-se com a
princesa, Luis Augusto estaria muito próximo do rei
e do herdeiro de Moreau-Leclerc, de modo que
poderia participar ativamente do poder e garantir os
seus interesses. Não existia outro lugar no reino em
que ele gostaria de estar, senão no centro do
governo.
Assim, três dias antes do casamento a comitiva
chegou a Rocher. Era o tempo para que
descansassem e se preparassem para os eventos que
se seguiriam. Isadora estava muito ansiosa. Logo
conheceria seu futuro marido. Para recebê-lo foi
organizado um jantar de gala, no qual estariam
alguns representantes da nobreza, quando seria feita
uma pequena cerimônia de apresentação dos
noivos.
Ela já sabia que Luis Augusto estava no castelo,
mas só o encontraria à noite. Perguntava a suas
damas se o tinham visto e quais haviam sido suas
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impressões a respeito dele. Elas informavam que o


avistaram rapidamente e que parecia muito elegante.
À noite, usando um suntuoso vestido na cor
púrpura e joias preciosas enfeitando os cabelos
presos em uma longa trança, Isadora se sentou ao
lado do pai e do irmão no espaço a eles reservado
na sala de audiências do castelo. Ficava em um
plano mais elevado, com três degraus para se descer
até a parte em que estavam os convidados. Seu
noivo viria pela porta principal e aguardaria próximo
ao primeiro degrau, quando ela o receberia
formalmente, cumprimentando-o, com a aprovação
do rei.
Então, as portas se abriram e foi anunciada a
entrada de Luis Augusto. Este caminhava com muita
elegância pelo centro do salão em direção à família
real. Usava trajes em azul claro que destacavam seus
olhos. Tinha os cabelos lisos loiros e a pele bem
clara. Com um olhar sagaz, parou no lugar que lhe
havia sido indicado e aguardou a princesa.
Ela desceu os degraus, chegando próximo a ele
e se virou para o seu pai que assentiu com a cabeça.
Assim, sorrindo, cumprimentou-o e lhe desejou
boas vindas.
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Isadora ficou contente com a aparência de Luis


Augusto. Era praticamente da sua altura e não tinha
os braços tão fortes como ela havia imaginado, mas
era um verdadeiro príncipe. Seus traços finos e
movimentos sutis davam-lhe a sofisticação da
realeza. Tinha o olhar e o sorriso cativantes e era
muito gentil.
Seguiram todos para o salão onde o jantar era
servido. O jovem casal conversava animadamente.
O rei também parecia satisfeito com o futuro
marido de sua filha. Tinha a postura de um
verdadeiro nobre e aparentava ser muito inteligente.
Henrique, por sua vez, sentiu-se um pouco
enciumado, pois agora haveria outro príncipe no
castelo, ainda que sem o mesmo poder e prestígio.
Após o jantar, quando começou a tocar música,
Luis Augusto pediu permissão ao rei e convidou
Isadora para dançar. Esta seguiu, conduzida
harmoniosamente por ele. Estava radiante com
aquela companhia. Foram várias as músicas de que
desfrutaram. Seu noivo dançava perfeitamente bem
e demonstrava muita disposição para acompanhá-la.
No final da noite, ela estava encantada. Foi
dormir exausta. Divertira-se muito e se sentia feliz.
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Mal acreditava na sua sorte. Era obrigada a se casar,


mas o noivo que lhe havia sido destinado era
perfeito, tinham muito em comum. Fechou os olhos
e sentiu medo de que estivesse sonhando.

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N no castelo. Os últimos, detalhes


-
O DIA DO CASAMENTO VIA SE GRANDE MOVIMENTO
para a recepção
eram organizados, flores eram colocadas, bandeiras
coloridas eram hasteadas, e comida era finalizada. A
cidade também estava em alvoroço. Apesar de a
população pobre não participar dos festejos do
casamento real, as pessoas se satisfaziam em ver seus
soberanos passarem, em toda a sua graça, para um
evento tão importante como aquele.
Isadora estava animada. Já conhecia seu noivo,
por isso se encontrava relativamente tranquila. Mas,

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agora, a proximidade da sua noite de núpcias a


deixava ansiosa. Como realmente se passaria?
A cerimônia estava marcada na catedral de
Rocher para as onze horas da manhã. O cortejo
sairia do castelo, percorrendo ruelas já preparadas
da cidade até a igreja e depois retornaria.
A noiva estava quase pronta. O vestido fora
feito especialmente para a data, em tecido amarelo
muito vivo com detalhes em branco e bordados em
azul marinho. Seu cabelo foi preso em um coque
baixo, tendo no topo da cabeça uma pequena coroa
de ouro e pedras preciosas. Uma longa capa nos
mesmos tons do vestido estava atada na altura dos
ombros. Ela estava exuberante.
Felipe, Henrique e Luis Augusto saíram em
seus cavalos juntamente com os convidados e a
guarda pessoal. Pouco tempo depois, Isadora seguiu
em sua carruagem com escolta. Ela fazia questão
acenar para o povo que se amontoava nas ruas para
ver o cortejo passar.
Na porta da catedral, vários súditos a
aguardavam com entusiasmo. Todos queriam
testemunhar aquele momento, mesmo que fosse
por apenas um vislumbre. A princesa entrou
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majestosa e caminhou até o altar, onde Luis Augusto


a esperava. E, assim, dois meses antes de completar
dezessete anos, ela concretizou um acordo firmado
semanas depois do seu nascimento.
Esmolas foram distribuídas na saída da igreja,
em comemoração ao casamento real. Depois, todos
retornaram ao castelo, onde passariam o resto do
dia em festa.
Muita comida e bebida eram servidas. No final
da tarde, alguns convidados já estavam
completamente embriagados. Até Henrique que,
normalmente, mantinha a discrição em eventos
públicos, mostrava-se bem alegre na festa. Bebia e
conversava muito com alguns amigos, enquanto
apreciava ver-se rodeado por moças nobres, vindas
do Sul com a comitiva de Luis Augusto.
Para elas era um privilégio serem cortejadas
pelo príncipe herdeiro. Para ele se tratava de
novidade, mulheres diferentes daquelas da nobreza
local que já conhecia de outros eventos. Como seu
pai na juventude, ele não demorava muito a
responder aos sinais que as damas lhe davam.
Percebendo que uma bela mulher estava disposta a
um contato mais íntimo, logo tomava a atitude que
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esperavam dele, como homem. Nesse dia, após


flertar com três ou quatro, escolheu uma delas e,
tomando-a pela mão, seguiu para o seu quarto.
Isadora e Luis Augusto observavam a festa após
comerem, beberem e dançarem. Estavam animados
e se falavam muito. O novo príncipe era gentil e
sabia conduzir uma conversa.
Depois de algum tempo, os recém-casados
resolveram se retirar. Isadora foi para seus novos
aposentos, os que já tinham sido de sua mãe. Era
um local mais extenso, com uma antessala espaçosa
- onde havia sofás, cadeiras e mesas de apoio - e o
quarto, também grande. Neste, as paredes de pedra
eram enfeitadas com tapeçarias retratando cenários
naturais ou festivos. Via-se a cama, com dossel, mais
à frente, centralizada próximo à parede, e, de frente
para a cama, havia uma grande lareira e cadeiras
estofadas de cada lado. As janelas não eram tão
amplas, mas entrava boa quantidade de luz e o
cômodo era arejado.
A princesa se preparava para receber o marido.
Maria e duas criadas ajudavam-na a tirar a roupa e a
vestir-se com uma camisola branca. Seus cabelos

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foram soltos e penteados. Ela estava empolgada,


mas um pouco nervosa.
Instantes depois, bateu-se à porta e o príncipe
entrou. Ela se levantou de uma das cadeiras que
ficavam próximas à lareira e sorriu para o marido.
As empregadas fizeram uma reverência e saíram do
quarto.
Luis Augusto se aproximou dela e sorriu,
comentando:
- Minha princesa, você está linda!
Ele realmente pensava assim. Naquele
momento, surpreendeu-se mais uma vez com a
beleza de Isadora. Estava muito natural com aquela
camisola e os longos cabelos soltos, sem qualquer
joia ou enfeite. Ele achava que talvez fosse a mulher
mais bonita com quem já se relacionara. Não que
sua aparência significasse muito naquele contrato
que havia sido firmado, mas tinha que admitir que
esse aspecto o deixou ainda mais satisfeito com o
acordo há muito consolidado por seu avô.
Acercando-se mais da esposa, ele pegou em
suas mãos, que estavam frias, e a trouxe
delicadamente para perto de si. Segurando seu
rosto, beijou seus lábios devagar. Acariciou seu
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pescoço, suas costas, seus seios. Ela sentia sua pele


arrepiar e o ritmo de sua respiração aumentar.
Então, ele se afastou um pouco e, olhando-a nos
olhos, desamarrou os laços de sua camisola, que
caiu no chão. Voltou a abraçá-la e a beijá-la
suavemente, levando-a para a cama.

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N frente à penteadeira,
A MANHÃ SEGUINTE, I SADORA ESTAVA SENTADA EM
olhando-se no espelho,
quando Maria, que escovava seus cabelos, notando
que ela tinha um ar pensativo, perguntou se estava
tudo bem.
- Tudo ótimo! – respondeu, demonstrando que
faria um questionamento. Em seguida, continuou -
Maria, há algo estranho comigo...
- Algo estranho? Como assim, Alteza?
- Gostei da minha noite de núpcias, mas achava
que seria diferente. Tive sensações tão boas com os

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beijos e carícias do príncipe, entretanto o ato sexual


me pareceu extremamente desconfortável.
- Não se preocupe. Isso é natural... Depois esse
desconforto diminui. – respondeu Maria com um
leve sorriso.
- Ah! Que bom! – disse animada, após alguns
segundos. E, finalizando o assunto, pediu para que a
ajudasse a se vestir, pois deveria comparecer ao
salão principal para os próximos eventos ainda em
comemoração ao seu casamento.
Nas semanas seguintes, ela percebeu que,
realmente, o desconforto sentido na primeira
relação com o seu marido havia se reduzido.
Gostava de ser tocada, acariciada por um homem e
a cada dia demonstrava estimar mais esse contato.
O jovem casal se dava bem. Ambos apreciavam
festas, danças e outros eventos. Agora que Isadora
estava casada, quando queria sair do castelo para
passear ou cavalgar pedia diretamente ao marido,
que a acompanhava. Seu pai já não a controlava
tanto e ela se sentia ainda mais livre do que sempre
foi.
Luis Augusto, até por não estar totalmente
habituado com sua nova família, passava a maior
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parte do tempo com a esposa. Queria agradá-la e


sabia que o fazendo, também estava contentando
Felipe. Apesar de seus compromissos mais banais
firmados com a princesa, sempre se mostrava à
disposição do rei e do príncipe herdeiro para
auxiliá-los com os assuntos importantes do reino.
Henrique já gostava mais do cunhado. Era
sempre muito respeitador e demonstrava-lhe grande
consideração. Tratava-o em conformidade com a
sua posição, sem parecer bajulador. Começava a
apreciar sua companhia, percebendo que tinham
opiniões parecidas sobre determinadas questões.
Luis Augusto era agradável, conversava sobre
diversos assuntos e sabia se portar em qualquer
ocasião.
Em um determinado dia, o rei convidou seu
genro para participar de uma reunião do Conselho.
Discutiam-se questões referentes aos atos de
comércio realizados em Rocher. A capital estava
ainda mais populosa e atraía muita gente das cidades
vizinhas em busca de bons negócios. Em algumas
épocas do ano - normalmente após a colheita ou em
datas festivas -, percebia-se um aumento
considerável de pessoas transitando pelas ruas
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estreitas e acampadas próximo aos principais


acessos. A expansão da muralha, levada a efeito
anos atrás, já não fazia mais qualquer diferença.
Muitas residências e espaços de comércio haviam
sido desordenadamente construídos na parte
externa.
Felipe e Henrique debatiam com seus
conselheiros acerca de uma solução para o
problema. Era difícil manter a organização e a
segurança da cidade com tanta gente que aparecia
apenas esporadicamente para vender ou comprar
produtos e depois retornava aos seus locais de
origem. Sugeriu-se que se aumentasse o número de
soldados do exército real que seriam responsáveis
pela vigilância do centro urbano, tentando-se limitar
a entrada desenfreada de pessoas que não fossem
habitantes. Tanto o rei como seu filho acharam
absurda a ideia. Seria impossível realizar esse
controle em uma cidade cuja população crescia a
cada dia.
Luis Augusto, que estava em silêncio até então,
falou:
- Majestade, com sua permissão, eu gostaria de
expor uma opinião. Também entendo inviável
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tentar barrar a entrada de pessoas na cidade. Seria


uma medida dispendiosa, já que, sem
contraprestação, ter-se-ia que aumentar o número
de soldados para cuidar disso, e infrutífera, pois
sempre se achariam maneiras de se entrar
furtivamente em Rocher. Como esse trânsito de
pessoas é um fato, uma realidade atualmente,
acredito que se deveria pensar em uma forma de
obter vantagem para o reino. Talvez a instituição de
um novo imposto para permitir que comerciantes
realizem seus negócios aqui. Assim, se Rocher é um
lugar que traz lucro para essa gente, o que se pode
presumir já que vêm até aqui, que participem do
custeio dessa estrutura que utilizam.
Felipe e Henrique se entreolharam e sorriram,
demonstrando satisfação. Era realmente uma boa
ideia! Luis Augusto se sentiu orgulhoso da sua
participação naquele debate. Percebeu que fizera
sua iniciação nos negócios do governo de maneira
triunfal. Estava há menos de três meses no centro do
poder e já notava que faria parte dele. Fora
preparado para isso e era o que mais desejava.

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I prestes a dar à luz seu segundo filho. Sentia-se


SADORA ESTAVA CASADA HÁ QUASE QUATRO ANOS E

pesada, incomodada e reclamava do seu estado.


Com pouco menos de vinte e um anos, ainda não
tinha sido agraciada com o instinto maternal.
Sua primeira gravidez a deixou confusa e
claramente desapontada. Com apenas quatro meses
de casamento, só o que queria era promover festas,
se divertir e desfrutar da companhia de seu marido.
Ao descobrir que esperava um filho teve que deixar
de fazer o que mais apreciava. Não podia cavalgar,
dançar e até mesmo se relacionar intimamente com
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Luis Augusto. Este, por sua vez, era muito atencioso


com ela, mas estava a cada dia mais ocupado com os
assuntos do reino. O rei e o príncipe herdeiro o
estimavam muito e consideravam sua opinião para
tomarem as decisões mais importantes. Sua
presença também era requisitada nos momentos de
distração. Henrique sempre realizava suas animadas
festas particulares e caçadas na companhia do
cunhado. Isadora sentia que todos estavam tendo
bons momentos de diversão com exceção dela.
Ao seu primeiro filho foi dado o nome de Luis
Felipe. Um menino forte e saudável que, aos dois
anos, demonstrava ter os traços da mãe. Era cuidado
por sua ama de leite e uma auxiliar sob a supervisão
de Maria que, evidentemente, o tinha como um
neto e o tratava com muito carinho. Isadora o via
raramente. Não se interessava pelo filho, deixando
sua criação por conta dos empregados. Sentia-se
mais livre depois de seu nascimento. Logo
recuperou sua forma e retornou à sua vida de
cavalgadas e festas.
Luis Augusto já não a acompanhava como
antes. Apesar de buscar fazer suas vontades,
incentivando-a a promover seus eventos e passeios
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fora do castelo, era fato que sua maior preocupação


e, até mesmo, seu maior prazer eram os assuntos do
reino. Estava completamente familiarizado com a
forma de governo instituído pelo rei e sabia
exatamente como lidar com ele e Henrique. Já
conseguia ter suas ideias acolhidas, sempre fazendo
parecer que tinham sido pensadas pelo soberano.
Alguns conselheiros haviam sido dispensados, pois
Felipe entendeu que ele, o filho e o genro eram
capazes de resolver muitos dos problemas sozinhos.
Luis Augusto se orgulhava da confiança que
conquistara.
Isadora sentia falta do marido e, muitas vezes,
reclamava por mais atenção. Ele, sempre com seu
jeito conciliador, lhe dizia que tudo o que mais
desejava era estar em sua companhia, mas que o rei
e o príncipe precisavam dele.
Quando Luis Felipe estava prestes a completar
dois anos, a princesa descobriu que estava grávida
novamente. Mais uma vez, o sentimento que teve foi
de decepção. Ainda que Maria conversasse com ela,
lhe explicasse que muitas mulheres tinham filhos
com menos idade, o fato é que Isadora não desejava
de ser mãe, não tinha maturidade para isso. Adorava
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a vida de liberdade e diversão a que fora


acostumada. Gravidez, para ela, era sinônimo de
dias de confinamento, longe dos seus maiores
prazeres.
No sexto mês de gestação, o rei mandou que
ela fosse aguardar o nascimento da criança no
castelo de Barbigny. Embora estivessem no inverno,
seria melhor se afastar um pouco, ir para um local
mais confortável. Rocher estava suja e malcheirosa
naquela época do ano. O lixo e os dejetos deixados
pelos animais eram carregados pela água da chuva e
se espalhavam por toda a cidade. Disse, ainda, que
depois que o bebê nascesse ele também iria para lá,
aproveitar algumas semanas da primavera.
Ela concordou, mas quis que seu marido a
acompanhasse. Também pediu para chamar alguns
convidados, pois não gostaria de ficar ainda mais
isolada na residência de campo. E assim ocorreu.
Duas semanas depois, a comitiva da princesa partiu
com alguns de seus amigos da nobreza e os criados
necessários para o trabalho. Luis Augusto sentia-se
contrariado, pois achava que havia assuntos
importantes a cuidar. No entanto, o próprio rei
decidira daquela forma.
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Isadora estava mais bem disposta em Barbigny.


Quando fazia sol, saía para caminhar na área
externa do castelo. Às vezes seu marido a
acompanhava, às vezes ia com algumas amigas,
falando animadamente sobre assuntos que,
brincavam, não interessavam aos homens. Quando
chovia, o grupo ficava em um dos cômodos do
castelo jogando, bebendo e conversando.
Luis Augusto estava se divertindo, porém não
deixava de se inteirar dos acontecimentos do reino.
Recebera a notícia de que uma forte gripe havia
atingido as cidades do Norte, mais castigadas pela
chuva naquele ano. Muitas pessoas haviam morrido
e inúmeras outras ainda estavam doentes. Também
ficara sabendo que, tão logo melhorasse o clima, os
representantes do reino da Sicília viriam a Moreau-
Leclerc para realizar o casamento da princesa com
Henrique. Depois de tudo resolvido, ela viria se
juntar a ele em Rocher, quando seria preparada a
cerimônia religiosa, seguida das comemorações
tradicionais.
O segundo filho de Isadora e Luis Augusto
nasceu saudável em uma noite de forte tempestade.
O pai escolheu seu nome, Guilherme. O parto foi
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tranquilo e dois dias depois, a princesa já estava


muito bem, movimentando-se sem qualquer
dificuldade. Maria já havia organizado tudo para a
chegada do novo príncipe, cujos cuidados também
estariam sob a sua supervisão. As duas crianças
ficariam em um mesmo quarto, facilitando o
trabalho.
Duas semanas depois do nascimento de
Guilherme, chegou ao castelo a informação de que a
gripe que matara muitas pessoas no Norte estava-se
espalhando rapidamente pelo reino. Era uma
doença muito forte e contagiosa. Quem era
infectado morria em dois ou três dias e não havia o
que se fazer para curá-la.
Luis Augusto ficou preocupado. Eles estavam
em um local relativamente isolado, porém eram
necessárias precauções. Cogitou se seria melhor
retornar a Rocher, onde teriam mais suporte, mas lá
o contágio também seria mais fácil. Resolveu que
ficariam em Barbigny e que ninguém poderia chegar
até ali. O mensageiro deveria deixar as
correspondências a metros de distância e um criado
iria buscá-las.
Os convidados ficaram um pouco apreensivos,
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contudo, não tinham real conhecimento da


dimensão do problema. A rotina não mudara muito,
além dessas providências determinadas pelo
príncipe. Somente se percebeu a gravidade dos
acontecimentos quando chegou uma mensagem do
rei, informando-lhes que Rocher havia sido atingida
pela gripe. O número de mortos aumentava a cada
dia. Avisava, ainda, que ele e Henrique deixariam a
cidade para encontrá-los em breve.
Três dias depois, estava tudo preparado para a
chegada do rei e do príncipe. Luis Augusto se
mostrava impaciente sem receber notícias.
Acreditava que, se viessem a cavalo, já deveriam ter
chegado.
Mais dois dias se passaram quando à noite se
escutaram fortes batidas na porta principal do
castelo. Logo o criado veio até a sala de jantar e lhe
entregou uma correspondência, dizendo que
chegara da capital. Ele abriu rapidamente o
envelope e, depois de ler a mensagem, levantou os
olhos, atônito, e disse em voz baixa:
- O príncipe está morto.
Ouviu-se um burburinho, algumas pessoas
pareciam querer chorar, outras diziam não acreditar.
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Isadora olhava para o marido com uma expressão


de que não entendera o que ele tinha dito. Depois
de alguns segundos, perguntou, com a voz trêmula:
- E o rei?
- Encontra-se muito mal, mas não está com a
doença. – respondeu, baixando os olhos e
colocando a correspondência de lado.
Externando angústia, ela falou baixinho, como
que perguntando a si mesma:
- E como será agora?
Naquele momento, se deu conta de que, com a
morte do irmão, seria a sucessora de seu pai. A
tristeza que eventualmente pudesse sentir com a
perda foi suplantada pelo desespero que tomava
conta dela. Não tinha nenhuma ideia de como
governar, de como lidar com as pessoas e tomar
decisões. Nunca fora preparada para aquilo. Não
saberia o que fazer.
Luis Augusto, imaginando o que ela estava
pensando, disse em tom consolador:
- Não se preocupe Isadora... Seu pai está vivo e
estou aqui para ajudá-la.
Ela acenou com a cabeça e informou que iria se
retirar. Ele também foi para seus aposentos.
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Precisava ficar sozinho. Sua mente estava agitada e


seu corpo era invadido por uma forte emoção.
Andava de um lado a outro no seu quarto sem
poder acreditar no que tinha acontecido. Sequer em
seus sonhos mais ambiciosos ele imaginara essa
situação. Com Henrique morto, sua esposa seria
rainha. Era algo extraordinário! Ele chegaria ao
ápice do poder de todo o reino. Seria o real
governante, já que, evidentemente – pensou –,
Isadora não tinha qualquer preparo para esse
encargo.
Então parou e, olhando seu reflexo no espelho,
sorriu ligeiramente. Nunca se sentira tão bem em
toda a sua vida.

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D de Henrique, Luis Augusto, certificando-se de


EPOIS DE APROXIMADAMENTE DOIS MESES DA MORTE

que não havia mais perigo de contágio, voltou a


Rocher. Disse a Isadora que ficasse em Barbigny
por mais algum tempo até que fosse completamente
seguro o retorno. Ele iria organizar os trabalhos no
reino e auxiliar o rei no que fosse necessário.
A princesa e seus filhos ficaram mais três meses
na residência de campo até que ela resolveu voltar à
capital. Perto da cidade já se podiam ver os estragos
deixados pela doença. O lixo se acumulava pelas
ruas, havia crianças circulando sozinhas e a
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população tinha sido reduzida. Cerca de um terço


dos habitantes foi dizimado e os que restaram ainda
tentavam retomar a vida de antes.
Chegando ao castelo, ela foi recebida por seu
marido que parecia exercer muito bem suas novas
funções. Com o rei ainda não recuperado do
choque enfrentado com a morte do filho, era Luis
Augusto que resolvia todos os assuntos mais
urgentes.
Felipe parecia ter envelhecido vinte anos. O
que se via era um homem velho, de cabelos
grisalhos e com o olhar vazio. Não lembrava em
nada aquela figura imponente, poderosa, superior a
tudo e a todos. Ele próprio não imaginava que
sofreria daquela forma a perda de seu filho, seu
herdeiro, aquele que prepara por toda a vida para
continuar o legado de sua família. Um verdadeiro
príncipe, habituado ao ato de governar e decidir!
Estava verdadeiramente triste. Não fora
infectado pela gripe que assolou o país, porém o
estresse gerado pela piora da condição de saúde de
Henrique agravou as fortes dores de estômago que
sentia há algum tempo.
Isadora visitava o pai, mas não havia nada a
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fazer para melhorar seu estado. Somente o tempo


poderia se encarregar da sua recuperação. Luis
Augusto, sob o pretexto de proteger a saúde do
soberano, assumia, aos poucos, mais
responsabilidades, tomando mais decisões.
Utilizando-se de toda a diplomacia de que era
conhecedor, agia como que por vontade do rei,
nunca deixando a imagem de que pretendia
sobrepor-se a ele.
Os meses foram passando e a vida retomou seu
curso em Rocher. Novos habitantes chegavam,
fugindo de situações piores das cidades do interior.
Felipe voltava a participar mais ativamente das
questões de governo – ainda que sem o entusiasmo
de antes – e o castelo tornou a receber visitas de
nobres das diversas partes do país, seja para
apresentarem seus pêsames, seja em busca de
resgatar um maior contato com o centro do poder.
Isadora estava tranquila. Seu marido deixava
claro que a apoiaria quando fosse necessária a
sucessão de seu pai, de modo que ela não pensava
muito no assunto. Aos poucos retornava à sua rotina
de antes, em que suas únicas preocupações eram
com vestidos, joias e eventos agradáveis com amigos.
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Luis Augusto a incentivava a essa vida frívola.


Queria que estivesse feliz, pois, assim, não
reclamaria tanto por sua presença e ele poderia se
dedicar mais ao seu novo papel.
Depois da morte de Henrique, o rei não tinha
disposição para grandes recepções. Já não saía mais
para caçar e raramente organizava festas no castelo.
Estas ocorriam apenas quando uma delegação
estrangeira ou nobres importantes do reino viessem
visitá-los.
Isadora, sempre acostumada à diversão,
começou a reunir grupos de amigos em seus
aposentos. Eram encontros animados, associados a
bom vinho e boa comida, em que se jogava, se
tocava música e até mesmo se dançava. Juntavam-se
na antessala de seu quarto normalmente de dez a
vinte pessoas e passavam horas ali. Raramente seu
marido comparecia. Ela ficava desapontada,
queixava-se com ele, mas percebera que de nada
adiantava. Era fato que já não a acompanharia como
antes.
A princesa começava a se sentir carente. Não
de amigos, pois não faltavam moças e rapazes
nobres dispostos a participarem de seus eventos -
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todos queriam a oportunidade de estarem mais


próximos daquela que um dia seria rainha.
Começava a sentir falta do amor de um homem, das
carícias e da sensação que esse contato lhe
proporcionava. Desde sua adolescência, Isadora
sempre teve o espírito livre e a sensualidade
aflorada. Gostava da companhia masculina e não via
problema nisso. Luis Augusto já não era mais tão
presente em sua vida e, muitas vezes, ela se
encontrava rodeada de homens interessantes
prontos a oferecer o que ela queria.
O flerte era algo muito comum em suas
reuniões. Vários jovens se divertindo sob a
influência de bebida abundante, sendo natural que
insinuações fossem feitas e que se tentasse uma
maior proximidade. No entanto, até o momento, ela
não tinha passado disso. Adorava os elogios que lhe
eram feitos, gostava de se sentir desejada e de
incentivar esse tipo de pensamento nos homens de
seu convívio. Apreciava esse jogo de sedução e, a
cada dia, estava mais difícil resistir.
Muitas vezes se perguntava: Por que resistir?
Era corriqueiro ter amantes. Os casamentos da
nobreza não passavam de contratos realizados com
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objetivo político, de firmar alianças, buscando


resguardar interesses comuns das famílias
envolvidas. Amor era algo que podia acontecer, mas
nunca uma motivação.
Talvez a necessidade de uma postura
condizente com a sua colocação, sempre tão exigida
por seu pai, a detivesse, inconscientemente, de
ceder aos seus desejos. Entretanto, essa barreira
psicológica se tornava mais tênue a cada dia. Sua
natureza desafiadora e entusiasmada não era
compatível com esse autocontrole. Ela já começava
a não ver sentido em se negar esse tipo de prazer.

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E nova reunião para receber


,I
M UMA NOITE DE OUTONO SADORA PROMOVEU UMA
alguns nobres que
estavam em Rocher naquela semana. Acabava de se
recuperar de um mal estar e queria muito conversar
e ouvir um pouco de música. Não tinha
familiaridade com esses convidados, porém isso
nunca fora problema para ela, uma anfitriã nata que
apreciava conhecer novas pessoas.
Felipe e Luis Augusto participaram do jantar
realizado para os visitantes e continuaram no
escritório com alguns deles, debatendo sobre os

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problemas que vieram reportar. Os mais jovens


seguiram para os aposentos da princesa.
Eram três rapazes e quatro moças vindos de
Cloche, uma cidade não muito pequena, ao norte
de Rocher. Era um local aprazível, rodeado de
montanhas, onde, nessa época do ano, já fazia
bastante frio. Eles estavam animados com a visita à
capital. O clima era mais agradável e tinham a
oportunidade de conhecerem um lugar novo, além,
é claro, de manterem um maior contato com a
família real. Também gostavam de festas e passeios,
de modo que logo descobriram assuntos em
comum.
Estavam presentes ainda algumas pessoas já
recorrentes nos encontros da princesa. Dois rapazes
e três moças da nobreza local, com os quais ela
tinha mais afinidade. Todos conversavam
animadamente e combinavam os próximos eventos.
Os visitantes ficariam mais alguns dias antes de
retornarem a Cloche. Isadora sugeriu passeios a
cavalo, um piquenique às margens do Rio Gris e
outra reunião como aquela, para a despedida.
Os dias seguintes foram muito agradáveis.
Todos estavam encantados com a princesa, sempre
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muito animada e bem disposta. Ela, como de


costume, sentia-se satisfeita em ser o centro das
atenções. As moças a admiravam e eram muito
simpáticas, os rapazes eram cavalheiros e ficavam à
sua volta, tentando adivinhar todas as suas vontades.
Na noite anterior à partida dos visitantes, ela
organizou a reunião em seus aposentos. Mandou
servir a melhor bebida e preparar os pratos de que
mais gostava.
Depois de horas de conversa e muitas taças de
vinho, o grupo já se permitia um contato mais
próximo. Algumas formalidades foram esquecidas e
os passos de dança se tornavam mais sensuais.
Isadora observava todo esse movimento com uma
empolgação contida. Percebia que os homens a
olhavam e a desejavam, mas não se atreviam a tocá-
la.
Um dos convidados se levantou, anunciando
que tivera uma ideia: Poderiam sair para dar uma
volta na cidade. A noite estava agradável e
relativamente clara pela luz da lua. Seria uma
aventura!
Perguntada sua opinião, a princesa concordou
animadamente. Sempre gostou de andar pelas ruelas
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de Rocher. O lugar tinha algo que a fascinava, talvez


pelo fato de ser tudo tão diferente ao que estava
acostumada.
Assim, mandou providenciar capas pretas com
capuz para o grupo. Não queria que fossem
reconhecidos caso algum morador despertasse.
Sairiam em silêncio e voltariam logo, sem que seu
pai ou seu marido percebessem.
Todos colocaram a capa e cobriram a cabeça e
parte do rosto com o capuz. Andaram pelos
corredores do castelo falando e rindo baixinho para
que ninguém acordasse. Na saída, a princesa
ordenou que os guardas abrissem o portão principal,
dizendo que não tardariam. Começaram, então, a
caminhar em direção às ruelas desertas de Rocher.
Eles se divertiam, fazendo brincadeiras e
sorrindo. Para Isadora, no entanto, a sensação era
diferente, difícil de explicar. Não compreendia o
porquê do seu prazer em andar sorrateiramente por
ali. Era um misto de liberdade com algo proibido,
perigoso. Caminhava pelas ruas observando as
janelas das casinhas todas fechadas e imaginava a
vida de quem morava nelas, o que faziam, do que
gostavam. Sentia uma energia atravessando seu
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corpo e olhava para o céu, estrelado. A única


iluminação era a da luz da lua, o que aumentava a
atmosfera de mistério.
De repente, percebeu que as vozes de seus
companheiros estavam distantes, quase já não os
escutava. Havia se afastado deles, adentrando ainda
mais aquele amontoado de ruelas e pequenas
construções. Parou e olhou à sua volta. Estava
completamente sozinha em um beco tomado pelo
silêncio. Permaneceu ali por alguns segundos,
aproveitando aquele momento, e, quando se virou
para voltar, teve um sobressalto ao ver alguém muito
próximo dela. Era um dos rapazes encapuzados do
seu grupo.
Então, ela levantou o capuz, descobrindo a
cabeça, e fez menção de que iria falar alguma coisa,
quando ele chegou ainda mais perto, puxando-a
para si e beijando vigorosamente seus lábios.
Acariciava-a e a apertava contra seu corpo enquanto
a deslocava em direção à parede de uma das casas.
Inicialmente, ela quis afastá-lo, mas não conseguia
deixar de beijá-lo. Sentia seu corpo arder de desejo
com aquela abordagem.
Reunindo suas forças, falou em um sussurro:
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- Não... Eu não posso...


- Está tudo bem, Alteza... Ninguém vai ficar
sabendo... - respondeu baixinho em seu ouvido,
voltando a beijá-la na boca, no pescoço, enquanto
levantava seu vestido e segurava suas pernas, na
altura da cintura.
Isadora via a excitação dominando seu corpo.
Estava ali, em pé, como uma selvagem, encostada na
parede, sendo possuída por um homem encapuzado
que mal conhecia e que sequer conseguia identificar
naquela escuridão. Poderiam ser descobertos ou
atacados. Ela olhava à sua volta, ouvindo a
respiração forte dele, embriagando-se com seu
toque, e pensava em como gostava daquela
sensação. Fechou os olhos e se permitiu apreciar
aquele momento de luxúria.
Terminado o ato, eles se apoiaram na parede
da casa, sem forças, quando escutaram, a alguma
distância, uma das moças do grupo que chamava,
com voz a baixa, pela princesa. Esta olhou assustada
para o homem ao seu lado e fez um movimento
para se levantar. Ele segurou delicadamente seu
rosto, beijando-lhe os lábios devagar e saiu,
entrando em uma ruela à frente. Ela, então, se
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ergueu e seguiu até a esquina, quando foi avistada


pelos demais, que se aproximaram.
- Estávamos preocupados Alteza! Achamos que
tinha acontecido alguma coisa ruim... – falou uma
das moças.
- Eu me perdi de vocês, mas está tudo bem...
Vamos voltar? – respondeu, recolocando seu capuz.
Observou rapidamente o grupo e percebeu que
os cinco homens estavam lá. Baixou os olhos e
seguiu em direção ao castelo.

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O Começara cedo e se estendera por mais tempo.


INVERNO TINHA SIDO RIGOROSO NAQUELE ANO

do que o habitual. A neve caiu intensamente, como


há muito não se via. O comércio em Rocher fora
prejudicado, pois o deslocamento dos agricultores e
criadores de animais ficou, muitas vezes,
impossibilitado com as estradas cobertas de gelo.
Além disso, plantações haviam se perdido,
diminuindo, assim, os produtos à venda na cidade.
A família real ficara praticamente confinada no
castelo. O rei havia tido outra crise, sentindo dores
agudas no estômago, chegando-se a pensar que não
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resistiria. Depois de semanas muito doente, ele teve


uma melhora e então já se recuperava. Estava muito
abatido e não tinha forças para tomar decisões,
ficando o governo a cargo de Luis Augusto e dos
conselheiros.
Isadora ficou mais animada com a chegada da
primavera. No inverno, com seu pai doente e seus
amigos afastados da vida na corte, não pôde
promover muitos eventos, passando mais tempo no
calor de seu quarto.
Havia algumas semanas que descobrira que
estava grávida novamente. Dessa vez, mostrou-se
mais resignada com a sua condição. Não poderia
cavalgar, mas também não precisaria se isolar
completamente de todos, ao menos enquanto
pudesse se locomover com tranquilidade.
Luis Augusto logo faria uma viagem, passando
por algumas regiões de Moreau-Leclerc. A
arrecadação de impostos caíra muito nos últimos
meses e ele acreditava que sua presença nesses
locais, juntamente com os exércitos do rei, seria
mais eficaz para que a população cumprisse suas
obrigações com a Coroa.
Isadora praticamente não sentia falta do
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marido. Há algum tempo se estabelecera um acordo


tácito entre os dois: ele fazia suas vontades,
deixando-a feliz, e ela não o incomodava com suas
carências, mantendo a discrição quanto às suas
amizades mais íntimas. Os dois raramente tinham
momentos sozinhos. Ele a visitava mais para
cumprir suas obrigações de marido do que por real
vontade de estar com ela.
Luis Augusto, de fato, não se importava com os
flertes de sua esposa. Tinha pleno conhecimento de
tudo o que acontecia no castelo e a verdade era que,
para ele, seria melhor que ela se distraísse, se
divertisse, permitindo que continuasse exercendo
sua atribuição mais importante, a de governante. Em
breve ela seria rainha e somente com o seu aval ele
poderia atuar como efetivo rei.
Algumas semanas depois que o marido partiu
em viagem, a princesa, com cinco meses de gravidez
foi visitar seu pai em seus aposentos. Ele já não
sentia as dores de antes, porém não mostrava grande
ânimo. Estava sentado em uma cadeira próximo à
janela, observando o dia ensolarado e quente de
verão. Tinha um semblante triste e pensativo.
Quando sua filha chegou, ele perguntou:
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- Como está se sentindo?


- Muito bem Majestade. Os enjoos já passaram
e o incômodo, agora, é pelo peso do meu ventre
que começa a se desenvolver...
Virando-se para ela, continuou em tom mais
sério:
- Isadora, você compreende o tamanho da
responsabilidade que logo terá, quando eu morrer?
Um pouco surpresa com aquela indagação,
baixou os olhos e afirmou:
- Sim. Tenho consciência da importância da
minha posição no reino. Entretanto, acho que não
deve se preocupar com isso, pois tenho certeza de
que o senhor ainda vai viver muito.
Voltando o olhar para a janela, Felipe suspirou.
Então uma lembrança muito incômoda lhe veio à
mente: uma carta que recebera anos atrás.
Jeane, a doce criada que conheceu na
juventude, de quem ele mal se recordava, lhe
suplicava que enviasse uma mensagem de despedida
para o filho que tiveram. O rapaz, ao que parecia,
havia descoberto sua origem e, muito doente, pedia
para falar com o pai.
A resposta que lhe mandou foi muito diferente
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da que ela esperava. Ordenou que nunca mais


ousasse se dirigir ao seu rei daquela forma e que se
tal afronta se repetisse, ele retiraria todos os bens
que generosamente lhe havia concedido, jogando-a
na rua junto com o seu bastardo!
Jamais se arrependera dessas palavras e
também não se importara em saber o que
acontecera ao jovem. Sempre teve muito claro que
os filhos que eventualmente espalhara pelo mundo
não tinham serventia. Não podiam assumir o trono,
não havendo razão para que os reconhecesse!
Apenas naquele instante, vislumbrando o belo
rosto apreensivo de sua herdeira e sentindo
dolorosa falta do seu único filho legítimo, chegou a
cogitar se estava sendo castigado por suas atitudes do
passado.
Balançando sutilmente a cabeça, buscando
afastar esses pensamentos, prosseguiu, calmamente:
- Não acredito que eu viva muito... Estou
preocupado com o destino do nosso reino.
Dediquei todos os meus esforços preparando
Henrique para me suceder e agora vejo que errei.
Fui muito irresponsável ao não pensar na
possibilidade de sua morte. A satisfação que sentia
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por ele ser tão parecido comigo me deixou cego...


Não pensei que poderia ser necessária uma
alternativa para o caso de ele não poder cumprir o
papel que lhe fora destinado. Não criei você do
modo apropriado...
Isadora nunca tinha ouvido seu pai falar de
maneira tão sincera com ela. Tampouco o vira
parecer tão impotente daquela forma. Não sabendo
o que dizer, respondeu, sem encará-lo:
- Majestade, serei capaz de exercer minhas
atribuições. Além disso, Luis Augusto tem muita
familiaridade com os assuntos de governo e estou
certa de que sempre irá me auxiliar.
- Tenho seu marido em grande estima. É ótimo
administrador e sabe agir com a firmeza necessária
para impor a ordem, mas em suas veias não corre o
meu sangue. Somente você e, posteriormente, o seu
herdeiro têm legitimidade para me sucederem no
trono, para continuarem o meu legado.
Ela não falou mais nada. Depois de alguns
segundos em silêncio, pediu licença e se retirou,
seguindo para a área externa do castelo. A verdade é
que não sabia o que fazer, não fora criada para isso.
Desde criança via apenas prerrogativas no fato de ter
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nascido filha do rei e nunca deveres – além, é claro,


de ter que se casar com o marido escolhido por seu
pai.
Experimentou certa ansiedade naquele
momento, pensando que deveria adotar alguma
posição, se interessar pelas questões do reino, mas
se sentia fraca, incapaz de qualquer atitude.
Avistou Maria no jardim que, juntamente com
mais duas criadas, acompanhava Luis Felipe e
Guilherme. Eles se divertiam, brincando com a
terra. O primeiro estava com quase quatro anos e
era muito parecido com ela, tendo os cabelos e
olhos castanhos, já o segundo, com um ano e meio,
lembrava o pai. Era loiro e tinha os olhos azuis bem
claros.
Aproximou-se do grupo um pouco
desconcertada. As empregadas fizeram uma
reverência e Maria a olhou com um leve sorriso. As
crianças a fitaram, com ar de confusão. Então Maria
disse, animadamente:
- Luis Felipe, cumprimente sua mãe.
O menininho andou em direção a Isadora, que
se abaixou e recebeu dele um beijo no rosto,
afastando-se em seguida. A criada trouxe Guilherme
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para perto da princesa que sorriu e lhe deu um


rápido abraço. Virando-se para Maria, perguntou:
- Como estão os príncipes?
- Muito bem Alteza. São muito inteligentes e
saudáveis.
- E seus tutores? São bem qualificados?
- Guilherme ainda não tem tutor, é muito
pequeno, mas Luis Felipe já tem aulas e demonstra
bastante interesse.
- Muito bom. – disse, olhando à sua volta –
Quero que Guilherme tenha os mesmos
ensinamentos do irmão. Escolha os melhores
tutores para ambos e também para esse bebê que vai
nascer. Qualquer dúvida, fale comigo ou com o
príncipe.
Maria sinalizou com a cabeça, concordando, e,
aproximando-se mais, falou:
- Eles estão muito bem e terão os melhores
tutores. No entanto, Alteza, acredito que precisem
de mais contato com a mãe.
Isadora a olhou e, meio impaciente, contestou:
- Maria, príncipes são e sempre foram educados
por tutores. É o melhor para eles. Receberão

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ensinamento técnico e de qualidade condizente com


sua posição... – e se virou, retornando ao castelo.
Os meses foram passando e a princesa já não
pensava mais no que seu pai lhe tinha dito. Nos dias
seguintes àquela conversa, sentiu como se devesse
adotar algum comportamento a fim de se preparar
para a função que teria no futuro, porém tudo
parecia uma realidade tão distante que, aos poucos,
sua preocupação foi se desfazendo.
Estava no fim daquela terceira gravidez, vendo-
se, frequentemente, de mau humor devido à
dificuldade para dormir e até mesmo para se
locomover. Não tinha disposição sequer para
passear no jardim. Tudo a incomodava.
Luis Augusto mandara notícias. Sua viagem se
mostrava frutífera, já conseguindo arrecadar uma
boa quantia a título de impostos. Muitas vezes, foi
preciso usar ameaças para que os súditos
cumprissem com suas obrigações. Reclamava-se de
que a colheita não tinha sido boa e que muitos
animais tinham morrido no frio do inverno passado,
além de muitos trabalhadores terem sucumbido
com a terrível gripe que assolara o país. Essas
queixas, entretanto, não o comoviam. Entendia que
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todo o reino se beneficiava da proteção assegurada


pelo seu soberano, de modo que tinham que
oferecer uma contraprestação.
A cada dia o príncipe se tornava mais seguro de
sua influência. Nunca fora uma pessoa que
demonstrasse muita compaixão. Crescera em um
ambiente em que os ricos tinham o direito e o
poder de decidir sobre a vida dos pobres. Agora,
com a parcela do poder real que lhe fora transferida
pelo simples fato de ser marido da futura rainha, sua
ambição e arrogância se acentuavam. Não se
preocupava com justiça. O que lhe importava era
resguardar os interesses do reino que se confundiam
com os seus próprios. Proferia julgamentos e
determinava execuções sem qualquer remorso. Seus
atos eram justificados para a manutenção da ordem
e a obediência à vontade real. Sentia-se o próprio
soberano e exigia que lhe dessem o tratamento que
entendia devido.
Isadora teve uma menina, forte e saudável.
Quando Maria a entregou em seus braços, ela
mesma escolheu o nome: Branca.
Luis Augusto retornou mais de dois meses após
o nascimento, tendo ido imediatamente conhecer
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sua filha. Cumprimentou a esposa, que já se


mostrava bem disposta, quase não mais se
percebendo os sinais da gravidez. Ela o recebeu
com simpatia, perguntando como tinha sido a
viagem. Sem dar muitos detalhes, informou que
tudo correra como o imaginado e que ela não
precisava se preocupar.
Eles se tratavam com cordialidade. Entretanto,
aos seis anos de casamento, pareciam mais distantes
do que quando se conheceram. Havia um respeito
mútuo sem qualquer resquício de intimidade. Eram
muito diferentes. Isadora tinha uma vivacidade
natural e agia por impulso, sempre transparecendo
suas verdadeiras emoções. Luis Augusto, por sua
vez, tinha um autocontrole tão enraizado que todos
os seus movimentos e suas palavras pareciam ter
sido cuidadosamente pensados. Ele se portava com
diplomacia, ela com sinceridade. Não possuíam
interesses em comum e havia pouco o que
conversar.
Terminada a visita, o príncipe seguiu ao
escritório do rei para reportar os resultados da sua
expedição.

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E se
STAVA-SE NO FINAL DE SETEMBRO DE 1463. ROCHER
preparava para a grande festa em
comemoração à chegada do outono, que acontecia
no último domingo daquele mês. Tratava-se de um
evento anual que celebrava a prosperidade
representada pela estação do ano em que se colhiam
os alimentos que seriam estocados para o inverno.
Era, provavelmente, a última festa antes do período
frio que se aproximava, quando todos ficariam
trancados em suas casas.
A cidade se encontrava muito movimentada,
havendo pessoas de todos os lugares do reino.
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Muitas estavam ali para trazerem produtos a serem


expostos e vendidos na feira que ocorreria, outras
apenas para participarem dos eventos
comemorativos e outras, ainda, que pretendiam
encontrar um lugar para recomeçar, fugindo da
miséria e das adversidades que assolavam os
povoados do interior.
Os últimos anos haviam sido difíceis em
Moreau-Leclerc. Após a grande gripe que dizimou
um terço da população, o reino passou por um
inverno muito rigoroso e um período extremo de
chuvas que trouxeram enormes prejuízos às
plantações e à criação de animais.
A família real não sentira tanto essas
dificuldades, pois Luis Augusto garantiu que o
Tesouro se mantivesse sempre provido de riquezas.
Promovera expedições por diversas localidades no
reino onde eram observadas insurgências contra a
cobrança dos impostos. Logo se aniquilavam os
revoltosos e se colocava ordem na região.
O rei estava com a saúde debilitada e
participava menos ativamente do governo. Ainda
dirigia as reuniões do Conselho e realizava as
audiências de julgamento e conciliação que lhe
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cabiam, mas já não se ocupava dos assuntos


externos que demandassem seu deslocamento.
Nesses casos, seu genro tinha toda a autoridade de
atuação.
Isadora estava empolgada com o clima de festa
que tomava conta da cidade. Convencera seu pai de
que seria importante a presença da família real no
evento, a fim de passar a imagem de proximidade
com seus súditos. A verdade é que ela gostava
daquela agitação e queria ver de perto como as
pessoas simples se divertiam, sem regras de etiqueta.
Felipe não se importava com a opinião pública e
sequer gostava daquele contato com pessoas de nível
inferior, contudo, em razão dos últimos
acontecimentos observados na província, entendeu
que seria uma oportunidade para desfilar a
soberania e o poder dos governantes.
O castelo também estava movimentado com
hóspedes das regiões de Moreau-Leclerc. Vários
jovens vinham acompanhando os mais velhos ou
representando-os. Então, a princesa, agora com
vinte e cinco anos, desempenhava o papel que mais
lhe agradava, o de anfitriã e organizadora de
passeios e festas para distrair os convidados.
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Continuava deslumbrante, conservando a leveza


e a disposição de sempre. A maternidade, talvez por
nunca ter sido verdadeiramente praticada por ela,
parecia ter-lhe trazido apenas benefícios. Seu corpo,
apesar de esbelto, estava mais curvilíneo e sedutor.
Seu rosto mantinha um ar de menina, mas seus
olhos demonstravam a malícia que adquirira com o
tempo.
Adaptara-se perfeitamente à vida que lhe era
proporcionada. Não se negava o prazer da
companhia masculina. No entanto, não era ingênua,
não se deixando apaixonar. Adorava o jogo da
sedução, apreciava o flerte e as carícias com os
jovens nobres que a rodeavam e, muitas vezes, não
passava disso. Raramente se entregava por
completo, apenas àqueles que realmente
despertassem nela um desejo fulminante. Buscava
agir com discrição e normalmente seus
relacionamentos não duravam muito, já que a
intenção não era de se prender a alguém.
Seus filhos cresciam bem. Maria tentava educá-
los da forma que entendia mais correta, apesar de
caber aos tutores sua real formação. Os meninos
não tinham intimidade com a mãe, que os
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encontrava com pouca frequência, mas Branca,


ainda bem pequena, parecia venerá-la. Sempre que
a via, corria em sua direção e buscava seu colo. Ela,
por sua vez, achava encantadora a reação da menina
e, meio atrapalhada, retribuía um pouco do carinho.
No sábado, véspera do evento principal em
Rocher, a princesa marcou um passeio a cavalo
pelas redondezas. Eram doze convidados entre
homens e mulheres, além de sua guarda pessoal.
Saíram do castelo e, passando pelo centro da
cidade, ela percebeu que tudo estava sendo
organizado. O rei havia disponibilizado uma quantia
em dinheiro para que se limpassem e se
preparassem as ruelas que formariam o trajeto da
família real até a grande catedral gótica, onde, às
onze horas da manhã, seria realizada a missa que
abriria os festejos. Na praça contígua ocorreria a
feira e, próximo dali, alguns espetáculos de música e
teatro seriam apresentados. Eles transitariam por
alguns instantes e depois retornariam ao castelo,
juntamente com seus convidados, para desfrutarem
de um elaborado almoço.
O grupo atravessou, então, o portão principal
do centro fortificado e ainda andou em meio a
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diversas construções, passando, posteriormente, por


uma área onde as pessoas que vieram de fora para o
evento montavam acampamento. Isadora admirou-
se com o crescimento da cidade, lembrando-se de
que, quando era criança, não havia nada depois das
muralhas de proteção.
Afastando-se do aglomerado de gente, eles
ganharam velocidade e seguiram animados o
passeio.

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ACom poucas nuvens no céu, sentia-se uma brisa.


MANHÃ DE DOMINGO ESTAVA MUITO AGRADÁVEL

fresca que deixava o dia ensolarado com um clima


ameno. Já se começava a ouvir o burburinho da
cidade que despertava em atmosfera de festa. No
castelo também havia certa agitação. Os empregados
terminavam o preparo do almoço que seria servido
mais tarde, enquanto a nobreza se vestia e se
enfeitava para o evento.
Isadora se encontrava em seu quarto, sendo
auxiliada por algumas criadas. Escolhera um vestido
mais leve, rosa claro com bordados na cor creme.
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Seu cabelo foi preso em uma trança e usava uma


tiara delicada, de pedras preciosas.
Um empregado veio avisar que estavam todos
prontos para partir. Ela seguiu animada ao salão
principal, onde se juntou aos demais. Os homens,
com exceção do rei, iriam a cavalo e o restante se
dividiria em carruagens, sendo acompanhados pela
guarda real.
O cortejo deixou o castelo, passando pelas ruas
de Rocher até chegar à grande catedral, sempre
saudados pelos súditos maravilhados com tanta
beleza.
Felipe, Isadora, Luis Augusto e os príncipes,
que eram conduzidos por Maria e duas auxiliares, se
encaminharam ao gabinete reservado, enquanto
seus convidados da nobreza se sentaram nos bancos
da frente mais próximos ao altar, ficando a
população liberada para ocupar os demais espaços
vazios.
No final da celebração, os sinos tocaram e as
pessoas começaram a sair, dispersando-se. Muitas
seguiam para a feira, na lateral direita, outras
procuravam os palcos, montados um pouco mais
distantes, onde ocorreriam os espetáculos, e outras
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se dirigiam para tabernas e estabelecimentos que


serviam comida e bebida.
Depois que a multidão se dissipou, a família
real desceu de seu gabinete e se juntou aos nobres
que a aguardavam. Isadora se reuniu a um grupo de
moças e falavam animadamente, enquanto todos
saíam pela lateral da catedral rumo à feira,
escoltados por homens da guarda.
Apesar de muita gente no local, tudo estava
tranquilo. Havia crianças brincando e pessoas felizes
conversando e conferindo os produtos à venda. O
rei e o príncipe falavam com um grupo de nobres e
os mais jovens observavam o movimento. Isadora
fazia comentários com uma amiga e olhava à sua
volta. Ela gostava daquela atmosfera, tudo parecia
leve e verdadeiro. As pessoas eram simpáticas.
De repente, ela percebeu que em uma rua
perpendicular havia um grupo assistindo a algum
tipo de apresentação. Observou, de longe, por um
tempo e depois começou a caminhar naquele
sentido. Passou pelas pessoas e, quase sem notar,
estava na frente de um pequeno palco, sorrindo ao
ver uma encenação de comédia. Mais gente chegava

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e ela se deslocou um pouco para o meio do


movimento.
Depois, ouviu uma música que chamou sua
atenção. Distraída, tentou seguir o som, virando a
esquina em direção a outra pequena rua. As pessoas
cruzavam com ela e a fitavam rapidamente, pois,
mesmo sem reconhecê-la, suas roupas, joias e seu
porte elegante se destacavam em meio à maioria
vestida de modo muito humilde.
Na esquina por onde Isadora passou havia um
rapaz parado atrás daqueles que assistiam à peça de
teatro. Era bem alto, então conseguia ver
tranquilamente a apresentação a certa distância e
não pôde deixar de notar aquela moça delicada e
muito bem vestida que caminhava sozinha em
sentido contrário ao fluxo, com ar de que procurava
alguma coisa. Ele retornou sua atenção ao pequeno
palco por alguns segundos, mas, como que
instintivamente, virou o rosto buscando visualizá-la
de novo. Percebeu dois homens mais à frente que
sinalizaram, um ao outro, quando ela cruzou e
começaram a segui-la discretamente.
Isadora dobrou à direita, entrando em outra
pequena rua, mas logo constatou que não tinha
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saída. Resolveu voltar, pois sentiu que estava se


afastando da catedral e que poderia se perder. Ao se
virar, viu dois homens mal-encarados que se
aproximavam. Assustada, baixou o rosto e,
caminhando rapidamente, tentou passar pelos dois,
quando um deles falou, em tom de deboche:
- Por que a pressa, senhorita?
- Ela deve ter se perdido do papai. – respondeu
o outro, sorrindo e se acercando mais.
- Com licença, senhores, preciso voltar. – disse,
com os olhos baixos, visivelmente amedrontada.
- Não tão rápido! Você está usando joias bem
interessantes...
Sentindo seu coração muito acelerado e sem
encará-los, ela falou, tentando se controlar:
- Os senhores podem ficar com as joias. Não há
problema. Eu só quero ir embora.
Então, um olhou sorrindo para o outro que,
com um ar de crueldade, respondeu:
- Nós vamos ficar com as joias, mas queremos
brincar um pouquinho. Não é sempre que temos a
chance de conhecer uma linda moça da nobreza...
Dito isso, eles avançaram em Isadora que, ao
gritar, levou um forte soco no rosto e caiu no chão,
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meio tonta. Sentiu um dos homens segurando seus


braços por trás enquanto o outro rasgava sua roupa,
passando as mãos em seu corpo. Ela se debatia e
chorava quando recebeu um tapa na boca e notou o
homem levantando seu vestido.
Agitava-se em desespero no momento em que
percebeu aquele que tentava violentá-la saindo de
cima dela e, logo após, o outro a soltando.
Rapidamente, ainda caída, encolheu o corpo para se
proteger e, muito atordoada, viu um terceiro
homem que golpeava os outros dois até que esses se
quedaram inertes no chão.
Trêmula e assustada, Isadora notou o homem
aproximando-se e abaixando-se calmamente para
pegar seu braço. Ela se debateu, tentando afastá-lo,
exclamando, com a voz chorosa:
- Não toque em mim! Não toque em mim!
- Acalme-se... Fique tranquila. – ele falou
suavemente – Está tudo bem, vou ajudá-la. Levarei
você até a sua família...
Então, ainda muito tensa, ela voltou os olhos
àquele homem grande à sua frente e lentamente foi
se movimentando, permitindo que ele a ajudasse a

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se levantar. Tentando acalmá-la, disse com


delicadeza:
- Está tudo bem... Meu nome é Luca e o seu?
- Isadora. – murmurou.
Vendo que ela tinha o vestido rasgado, ele
pegou sua capa, que trazia dobrada e amarrada junto
a uma bolsa que carregava, e a cobriu, assegurando:
- Fique tranquila Isadora, ninguém vai
machucá-la. Vamos? Onde está sua família?
- Perto da catedral...
Ao percebê-la trêmula e andando com
dificuldade, ele perguntou:
- Posso levá-la?
Ela acenou com a cabeça e deixou que a
pegasse no colo. Luca era um homem alto e muito
forte. Suspendeu-a com a facilidade com que se
pega uma criança e começou a andar em direção à
rua perpendicular.
Assim que viraram a esquina, avistaram três
soldados da guarda real que pareciam muito
preocupados, olhando em volta. Chegando mais
perto, reconheceram a princesa, que tinha o rosto
machucado, e caminharam rapidamente em sua
direção com as espadas em punho, sem saberem
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exatamente que atitude tomar. Luca parou, com a


expressão confusa, quando ela falou:
- Seus incompetentes! Saiam da minha frente
agora e prendam dois homens que estão na primeira
rua logo atrás!
Fizeram rápida reverência e seguiram para
cumprir a determinação. Luca continuou andando,
pensando que aquela moça nobre - que ajudara de
forma totalmente desinteressada - devia ter muita
influência na cidade para dar ordens a soldados do
rei.
Chegando à feira, Isadora, visualizando seu pai
e seu marido, apontou a direção que ele deveria
tomar. Ao se acercarem, os guardas que faziam a
segurança ficaram atônitos ao notarem a princesa
naquele estado. Logo atrás, vinham os outros
soldados com os dois homens que a haviam
atacado.
Felipe, virando-se, viu a filha chegando
machucada, suja e sendo carregada por um homem
desconhecido. Sentiu verdadeira fúria tomando
conta de si e perguntou, franzindo as sobrancelhas:
- O que aconteceu a você, Isadora?
Luca a colocou delicadamente no chão e se
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afastou, com os olhos baixos. Apesar de não


demonstrar, estava perplexo. Não podia acreditar
que havia tratado a filha do rei com tamanha
informalidade.
Já recuperando suas forças, ela respondeu
indignada:
- O que aconteceu a mim, Majestade? Quase
fui violentada e morta por aqueles dois monstros
que os incompetentes soldados da minha guarda
pessoal estão carregando. Se não fosse por esse bom
homem, eu não estaria aqui agora. – e, olhando para
o marido, continuou – Luis Augusto, esta cidade
não tem segurança! Só em um lugar sem qualquer
respeito pela lei e pela ordem uma moça corre um
risco tão grande ao andar sozinha por alguns
minutos!
- Você tem toda razão, minha princesa. Esses
homens serão imediatamente punidos pelo crime
que cometeram. Servirão de exemplo para todos
que ousarem pensar em tocar em algum membro da
família real! – falou o príncipe em tom conciliador.
- Não, Alteza! Quero que eles recebam uma
punição que sirva de exemplo para todo homem
que cogite tocar em uma mulher contra a sua
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vontade! – contestou com uma postura altiva e


autoritária como nunca antes se vira.
- Muito bem! – prosseguiu Luis Augusto,
olhando-a nos olhos – No fim desta tarde, esses
homens serão enforcados, esquartejados e terão suas
partes espalhadas pelos quatro cantos da cidade, a
fim de que sirvam de exemplo para todo homem
que cogite tocar em uma mulher contra sua vontade.
Ela aquiesceu, demonstrando que assim estava
satisfeita.
Luca se encontrava a alguns metros e se virou
calmamente para ir embora. Já cumprira seu papel e
não havia mais o que fazer ali – pensou. Nesse
momento, ela chamou:
- Luca, espere. – olhou-o por um instante com
gratidão e, de repente, voltou-se ao seu pai, pedindo
– Majestade, eu o quero como capitão da minha
guarda pessoal.
- Isadora, – e a encarou com ares de repreensão
– não acho...
- Pai, por favor... – ela se aproximou um pouco
mais, continuando com o tom que usava para
convencê-lo a realizar os seus desejos – Eu o quero

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para me proteger... Se não fosse por ele,


provavelmente eu teria morrido hoje.
Felipe a fitou em silêncio, ligeiramente
contrariado com aquela insistência. Contudo, não
pôde deixar de admitir que o risco que ela correu
fora, de fato, muito grave. Direcionando seu olhar
altivo para Luca, que mantinha uma postura
respeitosa, indagou:
- Você ao menos sabe lutar, usar uma espada?
- Sim. – respondeu imediatamente, parecendo
não acreditar que aquele diálogo estava realmente
acontecendo – Servi... Servi o período obrigatório
no exército de Vossa Majestade. Tenho uma carta
de recomendação.
Depois de uma pausa, virando-se para a filha,
expressando alguma insatisfação, mas sabendo que
ficaria vencido se tentasse dissuadi-la daquela ideia o
rei disse:
- Tudo bem Isadora, faça como quiser! – e se
movimentou para retornar à carruagem.
- Você tem alguma objeção, Luca? – ela
perguntou, demonstrando cansaço.
- De modo algum. Seria uma honra servi-la,
Alteza. – afirmou sobriamente, tendo consciência da
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impropriedade que seria recusar-se àquele convite


vindo da família real.
- Você pode seguir com os demais soldados e
deverá apresentar sua carta de recomendação ao
chefe da guarda do castelo. – foi Luís Augusto quem
finalizou aquele assunto, não tendo, também,
nenhuma intenção de se contrapor a uma vontade
da princesa.
Então, externando esgotamento, Isadora
procurou ao redor, encontrando Maria logo atrás,
com um semblante muito aflito. Estendendo-lhe o
braço, suspirou e disse:
- Vamos, Maria! Quero ir embora...

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L aposentos que lhe foram destinados no castelo.


UCA ESTAVA DEITADO DE COSTAS NA CAMA DOS

Como chefe da guarda de um membro da família


real, não ficava no alojamento reservado aos demais
soldados, em uma construção independente da
residência principal. Seu quarto era um cômodo
simples localizado no térreo, próximo à cozinha,
tendo fácil acesso, por meio de um corredor
estreito, aos aposentos de Isadora e às áreas de uso
comum. Precisava de rápida locomoção caso fosse
necessária sua atuação junto à princesa.

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Não conseguia dormir pensando no que


acontecera naquele dia. Era algo tão inacreditável
que ele ainda não sentia como se fosse verdade.
Tinha a sensação de que a qualquer momento
alguém bateria à porta e diria que houve um engano
e que ele deveria ir embora. Perguntava-se o porquê
de ter conseguido aquele cargo. Sabia que tinha
condições de bem desempenhar a função, mas
competência nunca fora sinônimo de sucesso nesse
tipo de empreitada em que, evidentemente, mais
valiam as relações políticas.
Havia acabado de chegar a Rocher em busca de
um emprego. Sequer sabia que estava acontecendo
um festival na cidade. Parou um instante para
apreciar uma peça de teatro antes de procurar um
lugar para se hospedar e, ao ajudar uma moça em
perigo, se transformou em capitão da guarda pessoal
de um membro da família real! Não podia acreditar
que aquilo duraria muito.
Luca tinha 31 anos e nunca obtivera nada de
modo fácil em sua vida. Nascera na área rural
próximo a um povoado na região Sul, situado a
alguns quilômetros de Sans. Seu pai era francês e
sua mãe italiana. Conheceram-se na Itália e
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resolveram se mudar para Moreau-Leclerc logo


depois de se casarem, em busca de melhores
condições de sobrevivência.
Sempre trabalharam com plantação e criação
de pequenos animais. Como a terra que cultivavam
era de um dos senhores feudais da região, após
entregarem o percentual da produção que era lhe
era devido, muitas vezes restava apenas o necessário
para sobreviverem. Apesar das dificuldades, eram
felizes.
Luca era o segundo filho do casal. Tinha uma
irmã mais velha e duas mais novas. Seus pais
conviviam muito bem, dividindo as tarefas e
tomando decisões em conjunto. Educaram os filhos
para serem pessoas corretas, de bom caráter.
Ele cresceu em um ambiente relativamente
tranquilo. Não era ambicioso. Sabia como o mundo
funcionava, existindo os detentores do poder e os
que deles dependiam. Achava que cada um tinha
seu papel na sociedade. Fazia sua parte, buscando
não prejudicar ninguém.
Teve seu corpo moldado pelo trabalho pesado
no campo que, desde novo, aprendera a exercer.
Era muito forte e, juntamente com seu pai,
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conseguia realizar tarefas que outros demorariam o


dobro de tempo. Sua mãe e irmãs já se ocupavam
apenas com serviços domésticos.
Com o decorrer dos anos, seu trabalho
diminuiu. Suas irmãs se casaram e os maridos
vieram morar com seus pais, passando a ajudá-los.
Luca começou a sentir necessidade de sair dali,
aprender outro ofício, conhecer novos lugares. Seu
pai o incentivou a servir ao exército do rei. Com sua
estrutura física e sua disciplina, pensava que
conseguiria ter uma boa carreira militar.
Aos vinte e cinco anos, ele se alistou e começou
seu treinamento. Passou três anos do período
obrigatório aprendendo, dentre outras disciplinas,
técnicas de combate, além de viajar para regiões do
reino aonde seu destacamento era enviado. Não
participou de nenhuma ação militar, agindo apenas
como força preventiva.
Após esse ínterim, como se estava em tempo de
paz, muitos foram dispensados, mantendo-se apenas
de sobreaviso para a hipótese de futura convocação.
Embora ele tivesse sido um soldado exemplar,
foram selecionados para continuar na ativa apenas

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aqueles que tinham algum tipo de ligação política


com a cúpula.
Luca voltou para a casa de seus pais, mas a vida
no campo já não o satisfazia. Havia gostado da
experiência que tivera no exército, passando por
cidades maiores, convivendo com mais pessoas.
Não pretendia se casar naquele momento, seguindo
a vida dos pais e das irmãs. Acreditava que aquele
não era o seu destino.
Depois de alguns meses, partiu para Sans, onde
permaneceu por pouco mais de um ano. Encontrou
trabalho, porém em razão da grande gripe que
atingira a região, tudo ficou mais difícil. Não havia
muito que se fazer na cidade. Aqueles que já
estavam estabelecidos conseguiam tocar seus
negócios sozinhos e não tinham sequer condições
de contratar mais gente.
Então, ele seguiu em direção ao centro do país,
passando um tempo em Amènes, uma cidade
pouco maior e que era conhecida pela produção de
lã. Sobrava oferta de emprego, pois muitos também
haviam sucumbido pela gripe e até o momento
ainda se tentava vencer a demanda de serviço que se

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referia, basicamente, à criação e tosa de ovelhas e à


venda da lã no mercado local e nos arredores.
Em Amènes também existiam muitas mulheres
sozinhas. Viúvas e jovens moças que perderam seus
maridos ou pretendentes. Nesse período, Luca
relembrou os tempos em que esteve no exército,
quando seu destacamento chegava a alguma nova
cidade e logo era recebido por olhares femininos
cheios de desejo, talvez atraídos pelos uniformes ou
ainda por representarem uma novidade, uma fuga
da rotina.
Ali ele trabalhou e amou muito. Além de ter
um porte físico que inspirava a ideia de força e
proteção, era um homem sério e discreto, podendo-
se dizer que não procurou pelas paixões que teve.
Provavelmente por causa dessas suas características,
se tornara objeto de desejo e curiosidade de tantas
mulheres. Ele não as iludia ou enganava com falsas
promessas. Esse tipo de artimanha não era do seu
feitio. Aquelas que se relacionavam intimamente
com ele o faziam por vontade consciente.
Alguns meses se passaram quando Luca
resolveu que estava na hora de partir. Ouviu dizer
que a capital era o melhor lugar para se estabelecer,
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pois era o centro do comércio, onde a riqueza


realmente circulava. Não sabia exatamente o que iria
fazer. Pensava que talvez pudesse compor a
segurança de algum rico comerciante ou membro da
nobreza local.
Apesar da desordem provavelmente causada
pela festa que estava acontecendo, a primeira
impressão que teve da cidade lhe agradou.
Quando decidiu ajudar Isadora naquele início
de tarde, agiu por instinto. Nunca permaneceria
inerte diante de tamanha violência contra uma
mulher, fosse nobre ou plebeia. Não tolerava atos
de covardia.
Agora, naquele quarto dentro do castelo de
Rocher, tão próximo dos governantes de seu país,
ele tinha a certeza de que se doaria completamente
ao desempenho daquela função importante que lhe
fora conferida de modo tão surpreendente. Tratava-
se da proteção da futura rainha de Moreau-Leclerc,
sua soberana, e ele daria tudo de si para cumprir sua
obrigação.

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N princesa
O DIA SEGUINTE, LUCA DEVERIA SE APRESENTAR À
como seu novo capitão da guarda.
Preparou-se e aguardou ser chamado quando ela
estivesse pronta para recebê-lo. Por volta das onze
horas da manhã Maria o avisou que Isadora o
esperava na antessala de seu quarto.
Ele adentrou o cômodo e, visualizando-a mais à
frente, olhando através da janela, fez uma
reverência, parando a alguns metros, sem encará-la.
Percebendo sua entrada, ela virou o rosto
calmamente em sua direção e sorriu. Nesse
momento, o observou por alguns segundos, não
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conseguindo disfarçar o olhar admirado sobre


aquele homem alto e forte que usava o traje negro
com detalhes em azul marinho da guarda real. E,
sem mesmo perceber que falava em voz alta, disse:
- Esse uniforme lhe caiu muito bem...
Tomando consciência do que acabara de
comentar, ela enrubesceu e, envergonhada, baixou
os olhos. Aproximando-se dele, continuou:
- Bom dia. Senhor Luca Malmont, não é? Já se
instalou no castelo?
- Bom dia. Sim, Alteza. Estou aqui para me
apresentar formalmente e me colocar ao seu inteiro
dispor – respondeu, com seriedade.
Aquiescendo com a cabeça, ela sorriu e falou:
- Tenho certeza de que cumprirá muito bem o
seu papel... Obrigada por me salvar ontem, Luca.
Nesse instante, ele ergueu os olhos e percebeu
o rosto delicado e ainda machucado da princesa que
lhe falava com sinceridade. Desviando o olhar,
disse:
- Não precisa agradecer, Alteza. Não fiz mais
que minha obrigação. – e, com uma reverência,
virou-se e saiu.
Isadora ficou pensativa por alguns minutos. No
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dia anterior, evidentemente, não prestara muita


atenção em Luca. Ao ser socorrida por ele,
experimentou a sensação de segurança e proteção
naqueles braços que a carregaram até sua família.
Em meio ao desespero da violência de que fora
vítima, aquele homem que a ajudou e a tratou com
delicadeza se transformou em uma referência de
amparo. Ela o quis como seu capitão da guarda
porque, naquele momento, sentia como se pudesse
confiar sua vida apenas a ele.
Somente agora o enxergava realmente. Não
com olhos de repentino desejo ou atração física,
mas com admiração. Ele era muito diferente dos
homens da nobreza com os quais ela tinha contato.
De altura considerável, tinha o corpo com músculos
bem definidos e usava o cabelo, castanho escuro,
muito curto, destacando os traços fortes de seu
rosto. Sua pele era queimada pelo sol e seus olhos
eram em um tom escuro de azul que, juntamente
com sua expressão de seriedade, lhe conferiam um
ar de certo mistério.
Ela foi despertada de seus pensamentos pela
entrada de uma criada no cômodo, que veio
perguntar se precisava de algo. Respondendo que
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não, sentou-se em uma das poltronas ao lado da


janela e começou a folhear um livro.
Semanas depois de assumir o cargo, Luca já
havia se familiarizado com a rotina no castelo, tendo
organizado o esquema de segurança da princesa da
forma que entendia mais eficiente. Ainda que se
tratasse de um posto que nunca imaginara algum dia
ocupar, ele era, antes de tudo, um soldado.
Acreditava na hierarquia e sabia impô-la a seus
subalternos que, em pouco tempo, já o respeitavam
e o obedeciam incondicionalmente.
Quando Isadora realizava seus eventos
externos, ele e mais cinco soldados a
acompanhavam. Nos locais em que ela parava com
seus amigos, ele a cuidava mais de perto –
mantendo, entretanto, certa distância para deixá-la à
vontade – e os demais definiam um perímetro e
observavam qualquer movimento suspeito.
Com a chegada do inverno, já demonstrando
que seria rigoroso como o de anos atrás, os passeios
diminuíram e a família real permanecia mais tempo
no castelo. Mesmo dentro dos limites da muralha,
Luca estava atento à segurança, escoltando a

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princesa nas caminhadas pelos jardins e ainda nas


reuniões que promovia em seus aposentos.
Ela estimava a dedicação e seriedade com as
quais ele exercia sua tarefa. Nunca pensara que
precisaria de tanta proteção. Às vezes, não conseguia
compreender que tipo de mal alguém poderia lhe
infligir a ponto de ser necessária tamanha atenção.
No entanto, intimamente, já era dependente da
presença dele.
Para a noite de Natal, Isadora organizou um
grande jantar, chamando alguns nobres da região a
participarem. O rei não tinha disposição, então Luis
Augusto se encarregou de substituí-lo no papel de
anfitrião, recebendo e distraindo os convidados que
estavam hospedados no castelo e discutindo
questões políticas com total liberdade, como se fora
o próprio soberano.
A princesa passara o fim da tarde em seus
aposentos preparando-se para o evento. Maria já
havia dado as ordens às empregadas quanto aos
cuidados com as crianças reais e agora a auxiliava.
Ela, como sempre, estava empolgada e tinha
escolhido cuidadosamente a roupa e as joias que
usaria. Desejava vestir-se de acordo com a data.
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Assim, seu vestido era vermelho, com bordados em


dourado no decote, em formato quadrado, e nos
punhos das mangas. Quis os cabelos mais soltos,
apenas com as mechas laterais presas para trás,
usando como adorno uma tiara de pedras preciosas
na cor verde.
Como de costume, Luca estava próximo à porta
da antessala do quarto, aguardando para
acompanhá-la, com discrição, até a entrada do salão
principal, onde ela se encontraria com o marido, o
pai e os filhos, dirigindo-se, então, aos seus lugares à
mesa. Os demais soldados estavam posicionados em
locais importantes do castelo.
Quando a criada abriu a porta e Isadora saiu,
conversando com suas damas de companhia,
automaticamente, ele se virou para olhá-la. Por
poucos segundos a fitou. Como estava linda! Desde
os primeiros dias de convivência, evidentemente, já
se admirara com sua beleza. Mas nessa noite havia
algo diferente que a deixava ainda mais graciosa.
Chegando perto dele, ela sorriu e disse,
animadamente:
- Boa noite Senhor Luca Malmont! Pronto para
me proteger dos perigos ocultos do castelo?
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Ele inclinou levemente a cabeça e, abrindo


passagem para o grupo de mulheres sorridentes,
respondeu:
- Boa noite Alteza. Está tudo preparado. – e
seguiu logo atrás.
Depois do jantar, começou a tocar música.
Isadora, obervando as pessoas que se organizavam
para dançar, degustava uma taça de vinho ao lado de
Felipe e Luis Augusto no espaço a eles reservado no
grande salão. Os homens conversavam entre si. Ela
viu Luca à direita, próximo a uma coluna, passando
alguma informação a dois de seus soldados. Em
seguida, chamou Maria, que estava perto,
mandando que se sentasse ao seu lado,
perguntando-lhe:
- Maria, o que você acha do meu capitão da
guarda?
- Me parece um homem muito correto, que faz
um excelente trabalho, Alteza.
- Quanto a isso eu concordo, mas você não o
acha muito sério? Nunca o vi se divertindo, ou ao
menos sorrindo. Tem esse jeito de olhar, com
superioridade. Parece que nada lhe agrada...
- Acredito que ele seja um homem discreto, que
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prefere estar concentrado em seu trabalho para


desempenhá-lo bem.
Isadora ficou em silêncio por alguns instantes
observando aquele homem que se destacava em
meio aos demais pela estrutura física e sobriedade
de seus trajes. Então, pedindo licença a seu pai,
levantou-se, andando calmamente na direção dele.
Ao se aproximar, os dois soldados que lhe falavam
fizeram uma reverência e se afastaram. Luca se virou
para ela, dizendo atenciosamente:
- Pois não, Alteza.
- Você não gosta de dançar, Luca?
- Não danço Alteza.
- Porque não sabe ou não gosta?
- Pelos dois motivos. Onde fui criado não
aprendemos essa modalidade de dança. Além disso,
não aprecio dançar.
- E de vinho, não gosta? Não o vi bebendo
sequer uma taça hoje.
- Prefiro estar com meus sentidos bem
aguçados enquanto estou trabalhando. A bebida
pode prejudicar a atenção necessária.
Olhando-o nos olhos ela sorriu e, afastando-se,
falou:
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- Então foque toda a sua atenção em mim


enquanto danço. – e se juntou aos demais
convidados.
Luca se deslocou um pouco mais para trás,
chegando próximo à parede lateral do salão de onde
podia vigiá-la e, sem expressar qualquer emoção,
permitiu-se admirar aquela mulher linda que se
divertia, executando com leveza e graciosidade a
coreografia da música que era tocada.

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L se sentir mal. Suas doresNde estômago voltaram


OGO DEPOIS DO JANTAR DE ATAL O REI COMEÇOU A

com muita intensidade e, havia duas semanas, já não


conseguia mais se levantar da cama. Não se
alimentava direito e estava mais fraco a cada dia.
Quando os médicos vieram avisar a princesa
que, provavelmente, seu pai não se recuperaria, ela
externou sincera preocupação. Embora não fossem
comuns demonstrações de afeto, do seu modo ela o
amava. Diferentemente da mãe, que não chegou a
conhecer, seu pai sempre fizera parte de sua vida,
tratando-se de seu sustentáculo. Não conseguia
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visualizar-se sem a sua presença, sobretudo ao


pensar que passaria a exercer o papel que ele
desempenhara a vida inteira com tanta firmeza.
Isadora o visitava frequentemente nesses dias,
mas, em muitas das vezes, ele sequer a percebia. Seu
estado de saúde já estava tão agravado que ela
própria não tinha mais esperança de que ele
sobreviveria àquela crise.
Na noite gelada do dia treze de janeiro, ela foi
aos aposentos de seu pai, a fim de lhe desejar boa
noite. Aproximando-se da cama, surpreendeu-se ao
encontrá-lo sentado, com o apoio de travesseiros,
tendo o semblante tranquilo. Parecia estar melhor.
Acomodando-se em uma cadeira ao seu lado, ela
disse, animada:
- Está mais bem disposto hoje, Majestade...
Ele a olhou e, esboçando um leve sorriso,
contestou com um suspiro:
- Um momento de melhora é sinal de que a
morte está muito próxima... Não é o que falam?
- Não diga isso... O senhor é muito forte. –
respondeu, com voz suave.
- Isadora, logo você será rainha. – continuou
Felipe em tom mais sério - Sei que não preparei
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você para isso, mas o meu sangue, o sangue dos


Noyers, corre em suas veias. Você tem a liderança e
a inteligência necessárias para se portar de acordo
com a sua posição.
Ela baixou os olhos e não disse nada. O que
falaria? Que não tinha nenhuma condição de
governar? Que não saberia tomar uma decisão séria,
que envolvesse ações militares ou de administração?
Ou que se sentia totalmente impotente diante do
encargo que estava prestes a assumir? Não. Não lhe
causaria esse desgosto! - concluiu. Ficou mais algum
tempo com o pai e seguiu para os seus aposentos,
pensativa, assim que ele se acomodou para dormir.
No dia seguinte bem cedo, Maria a acordou e
falou que colocasse sua capa, pois a aguardavam na
antessala. Ainda meio confusa, Isadora se levantou
rapidamente e foi até o cômodo contíguo onde
estavam alguns conselheiros do reino e seu marido.
Com um olhar assustado, sem compreender
exatamente o que se passava, ouviu um criado
informar que o rei havia morrido.
Por alguns instantes ela permaneceu inerte. Nos
últimos dias já havia se preparado para o que se
mostrava inevitável, mas com a situação consolidada,
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sentiu uma grande ansiedade tomando conta de si.


Agora ela era rainha.
Todos os presentes se ajoelharam,
cumprimentando-a como a nova soberana.
Erguendo-se, Luis Augusto se aproximou, beijou sua
mão e, sem demonstrar as emoções que realmente o
invadiam, disse que sentia muito a perda do rei,
colocando-se, ainda, como seu humilde servo, para
ajudá-la em tudo que precisasse.
Nos três dias subsequentes, ocorreram as
cerimônias do funeral de Felipe. Devido ao forte
frio que assolava Rocher, não foi possível desfilar o
corpo pelas suas ruas, a fim de que os súditos se
despedissem de seu soberano. Ele foi levado até a
catedral no segundo dia, quando se rezou uma
missa, e retornou ao castelo no dia seguinte para
que a nobreza prestasse suas homenagens antes do
enterro.
No dia 17 de janeiro de 1464, às dez horas da
manhã, a família real se reuniu, em luto, para
enterrar aquele que governara por mais de quarenta
anos com firmeza e superioridade, totalmente
embasado na convicção de que a legitimidade de
seus atos decorria do poder divino que lhe fora
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transferido ao ser enviado como soberano daquele


povo.
Isadora, agora rainha, seguiu com o marido e os
filhos para o interior do castelo. Foi até o escritório,
onde seria formalmente cientificada dos
acontecimentos do reino, investindo-se,
simbolicamente, no poder real.
Estava séria, fazendo o possível para manter um
semblante calmo, confiante, porém, conforme os
conselheiros lhe informavam acerca das finanças,
dos casos que dependiam de seu julgamento e dos
focos de insurgências que necessitavam ser
combatidos, ela sentia seu corpo sendo invadido por
grande aflição. Não tinha qualquer noção de qual
problema resolver primeiro ou o que fazer para
solucioná-lo.
Luis Augusto esperou que terminasse a
formalidade e pediu, educadamente, que todos se
retirassem. A sós com a esposa, ele se aproximou,
demonstrando-se muito atencioso, e disse:
- Fique tranquila, minha rainha. Vou auxiliá-la
nesse encargo. Sei que você não está habituada aos
atos de governo, mas eu estou. Tudo vai ficar bem...
- Luis Augusto, preciso aprender a me portar
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de acordo. – respondeu com ar de preocupação -


Tenho que me adaptar à minha nova condição. A
responsabilidade de governar cabe a mim...
- Não se preocupe. Eu já vinha resolvendo
muitos dos assuntos do reino em razão da
indisposição de seu pai e posso continuar a fazer.
Sua vida não precisa mudar tanto, basta
trabalharmos juntos...
Ela pareceu um pouco mais aliviada. De fato,
seu marido, há muito, tomava decisões importantes
no reino. Ele poderia auxiliá-la enquanto ainda não
tivesse plena compreensão dos procedimentos e
atitudes necessárias, ensinando-a como agir.
Levantando-se, agradeceu-o e saiu em direção aos
seus aposentos.
Luis Augusto continuou mais um tempo no
escritório e, sentando-se na cadeira reservada ao
soberano, sorriu satisfeito. Sozinho, podia desfrutar
da sensação de ser o verdadeiro governante de
Moreau-Leclerc. Lembrou-se, por um momento, de
seu avô Augusto. Se estivesse vivo, ficaria exultante
com o desfecho de seu tratado de anos atrás.

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Amorte de Felipe, Luis


. Q
PRIMAVERA CHEGAVA UATRO MESES DEPOIS DA
Augusto já comandava
absoluto o reino. Envolvera tão habilmente Isadora
que esta acreditava que realmente estava governando
ao assinar os papeis que lhe eram encaminhados e
sendo informada dos assuntos mais superficiais.
Mantivera apenas os conselheiros que tinham
mais influência e poder, aqueles nobres de nível
mais elevado que ele realmente não poderia
contrariar, sob pena de perder grande apoio militar
e político. Além desses, nomeou outros homens de
sua confiança para auxiliarem-no.
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Agia com muita inteligência, resolvendo as


questões importantes do modo como entendia
correto, com total aval da rainha, sem que esta
tivesse verdadeira compreensão do que ocorria. Ele
conduzia atos de tirania, a fim de resguardar os
interesses da Coroa. Ela acreditava que tudo se
passava bem, não sabendo muitos detalhes a
respeito de conflitos e insurgências que
despontavam, ou mesmo da política externa levada a
efeito, e continuava sua vida, de fato, sem muitas
alterações.
O inverno rigoroso, cumulado com os prejuízos
humanos – ainda não totalmente recuperados –
sofridos com a grande gripe de anos atrás, causara
forte redução na produção de alimentos e,
consequentemente, na circulação de riquezas pelo
reino. O povo passava fome e se indignava com a
atuação de seus governantes.
Luis Augusto se preparava para viajar a fim de
coibir, como dizia à rainha, atos atentatórios à
soberania de Moreau-Leclerc observados em
algumas cidades próximas às fronteiras. Ela, por seu
turno, organizava uma festa para comemorar seu
aniversário, tendo o marido avisado que talvez
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voltasse a tempo, pois acreditava que os motins


seriam logo resolvidos. Tranquilizou-a e disse para
não deixar que esses pequenos problemas a
incomodassem.
Desde a ascensão de Isadora como rainha,
Luca se preocupou em reforçar sua segurança. Com
as novas atribuições que assumiria, o contato com
pessoas de fora do castelo e eventuais viagens
aumentariam. Até o momento, entretanto, sua
rotina não mudara muito. Suas saídas continuavam a
ser apenas por diversão e ainda não exercia a função
de conciliação e julgamento que lhe cabia,
mantendo o convívio apenas com seus amigos da
nobreza nos eventos particulares de seus aposentos.
Não obstante, ele acreditava que, em questão
de segurança, os atos preventivos eram
extremamente importantes. Por isso, seria melhor
ter um número suficiente de soldados treinados para
quando fosse necessário. Ademais, preocupava-se
com a crise pela qual passava o reino. O povo estava
faminto e revoltas aconteciam nos arredores, de
modo que qualquer deslocamento poderia gerar
perigo à vida da rainha.
Uma semana antes da comemoração do
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aniversário de Isadora, alguns convidados já se


encontravam hospedados no castelo. Ela, com a
mesma animação da época de quando ainda era
princesa, os recebia e organizava pequenos eventos,
como piqueniques e cavalgadas. Luis Augusto estava
de volta e se ocupava dos nobres que traziam
assuntos mais importantes a tratar. Informara à
esposa que todos os conflitos já tinham sido
resolvidos.
Luca começava a não entender como a rainha
podia estar empolgada para promover festas e
recepções com tantos problemas acontecendo. Ele
mesmo ficara sabendo que a última empreitada
militar do rei contabilizara centenas de execuções.
Pessoas que foram mortas por reclamarem a seus
soberanos que passavam fome!
Evidentemente, já compreendia que o real
governante era Luis Augusto, mas, às vezes, se
perguntava se Isadora não percebia o que o marido
fazia em seu nome. Servia-a com toda sua dedicação
e daria a própria vida para protegê-la. Respeitava-a
como sua soberana e jamais se sentiu no direito de
julgar seus atos, mas não conseguia evitar pensar que
ela poderia fazer mais por seu reino.
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Para aproveitar a tarde ensolarada de junho, ela


resolveu promover um evento nos jardins do
castelo, a fim de distrair os convidados que ali já se
encontravam. Música suave era tocada, bebidas
eram servidas e todos pareciam se divertir.
Isadora conversava alegremente e via sua
atenção sendo disputada pelos homens do grupo,
que a cortejavam. Sorria satisfeita com esses flertes,
contudo, havia algum tempo que já não se
importava com esses jovens. Embora gostasse do
jogo da sedução, divertindo-se ao fazê-los pensarem
que poderiam ter um relacionamento mais íntimo
com ela, o único homem que detinha seu interesse
era Luca.
Ainda um tanto inconscientemente, todos os
seus atos eram dirigidos a ele. Se flertava com outros
homens, era para tentar extrair algum tipo de reação
do seu capitão da guarda. Ele a intrigava. Não
demonstrava qualquer sentimento por ela, além, é
claro, de grande respeito e reverência. Passava
muito tempo ao seu lado, inclusive nesses eventos
mais informais, tendo Isadora percebido que, às
vezes, ele a olhava, mas nunca expressando interesse
como os demais homens.
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Estava acostumada a ser admirada, desejada.


Sabia que era atraente e agradável e que muitos
fariam de tudo para ter sua companhia. Por isso,
aquele homem sério, que a contemplava até mesmo
com ar de superioridade, a deixava desorientada.
Enquanto a rainha se divertia no centro do
jardim, rodeada de gente, Luca, um pouco mais
afastado, observava o movimento. Juntamente com
ele, mais três soldados estavam responsáveis pela
segurança. Sentia-se irritado naquela tarde. Embora
tivesse participado de muitas festas como aquela,
dessa vez, sem compreender exatamente o motivo,
estava incomodado.
Olhava aquelas pessoas bebendo, sorrindo e
conversando sobre assuntos sem nenhuma
importância. Não tinham problemas reais com o
que se preocuparem. Parecia nunca haverem
experimentado dificuldades ou situações que
exigissem esforço. A vida era um jogo para eles!
Jogo de sedução, intriga e poder!
Ele percebeu Maria chegando com as crianças e
mais duas auxiliares. Viu Branca correndo em
direção à mãe, que se abaixou para beijá-la e ficou
segurando sua mão enquanto falava com um grupo
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de convidados. Os dois meninos, juntamente com as


criadas, se acercaram dele. Maria o cumprimentou
inclinando levemente a cabeça e parou ao seu lado,
contemplando a festa.
Luis Felipe se aproximou timidamente e pediu
para ver sua espada. Ele a tirou e entregou ao
menino, perguntando com um sorriso sutil:
- Vossa Alteza sabe usar uma espada?
- Não... – respondeu, levantando o rosto para
olhá-lo.
- Isso é um problema, Alteza! – exclamou com
simpatia, observando aquele menino que, aos oito
anos de idade, era fisicamente muito parecido com a
mãe, mas demonstrava uma timidez que nada a
lembrava. E, virando-se, continuou - Maria, você
precisa encontrar um tutor que ensine o príncipe a
usar uma espada. Todo homem deve saber se
defender...
Luis Felipe olhou animadamente para Maria e
sorriu. Esta, retribuindo o sorriso, comentou:
- Vamos ver o que podemos fazer, Alteza... Não
deve ser difícil encontrar um bom soldado que o
ensine a lutar.
Devolvendo a espada, o príncipe foi encontrar
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seu irmão e as criadas que estavam a alguns metros


dali. Maria olhou para Luca e perguntou:
- Apreciando a festa?
- Essas festas são feitas para a nobreza apreciar.
Eu só tenho que cuidar para que tudo corra bem. –
contestou, voltando os olhos em direção a Isadora.
Depois de alguns segundos, continuou em tom de
desabafo - A rainha sabe quantas pessoas morreram
dias atrás pelas mãos de seu exército?
- Acredito que ela não saiba sequer que houve
mortes... – falou com ar resignado.
Eles se entreolharam e não disseram mais nada.
Ambos concordavam com o desacerto daquele
governo, porém não tinham o direito de julgar.
Somente Isadora sabia o que era melhor para o seu
reino e a ela cabia avaliar sua atuação.
Após alguns instantes, Maria se afastou, unindo-
se às crianças e Luca chamou um de seus soldados
para substituí-lo. Não visualizava perigo iminente
naquele evento que demandasse sua presença.

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N de vinte e seis anos de Isadora, o castelo estava


A NOITE EM QUE SERIA COMEMORADO O ANIVERSÁRIO

agitado. Muitos nobres se hospedavam ali e outros


vieram apenas para a festa. Era o primeiro grande
evento que ela realizava na condição de rainha.
Todos queriam mostrar presença e tentar se
aproximar da nova soberana.
Luca a aguardava na antessala de seu quarto
para escoltá-la. Assim que abriu a porta e o viu, ela
sorriu, sinalizando para que suas damas saíssem. Ele
fez uma reverência e se preparou para deixar

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cômodo, dando-lhe passagem, quando ela falou,


com um ar envolvente:
- Luca! Olhe para mim. – e, aproximando-se
um pouco mais – Estou bonita?
Ele reparou nela detalhadamente por alguns
segundos e respondeu, com sua costumeira
seriedade:
- Está radiante Majestade, como sempre.
Abrindo um largo sorriso de satisfação e,
andando em volta dele com sensualidade, ela disse:
- Hoje é meu aniversário, Luca, e quero que
você se divirta um pouco. Está liberado para fazer o
que desejar.
Sem transparecer qualquer reação àquela
investida, ele lhe lançou um olhar que demonstrava
certa indiferença e assentiu inclinando levemente a
cabeça. Assim, ela seguiu majestosa até o grande
salão do castelo, acompanhada de perto por seu
capitão da guarda.
Há muito que Luca percebera as insinuações da
rainha. Olhares, comentários e proximidade que ele
conhecia bem. No entanto, aquela abordagem tão
direta de minutos atrás o instigara. Ela era linda e,
evidentemente, como homem, não estava imune aos
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seus encantos. Em muitas oportunidades sentiu mais


que devoção reverencial por ela. Contudo, não tinha
qualquer intenção de se portar de modo que
considerava impróprio com sua soberana. Além
disso, já notara como Isadora se comportava em
relação a tudo na sua vida. Ele era muito orgulhoso
para participar de seus jogos. Estava ali para exercer
sua função na guarda pessoal, não tendo tempo ou
disposição para as brincadeiras e diversões que só
faziam sentido entre os membros da nobreza.
Terminado o jantar, todos iam até a rainha
cumprimentá-la e levar-lhe presentes. Estava muito
contente com a atenção de seus convidados e
conversava animadamente com um grupo de moças.
O salão era preparado para a dança quando ela
avistou Luca, como sempre, vigiando a
movimentação. Assim que ele a olhou, fez um sinal
para que viesse até ela. Ao se aproximar, pedindo
licença às convidadas, falou, educadamente:
- Pois não, Majestade?
- Luca, eu não disse que era para você se
divertir hoje? – repreendeu-o sorrindo e, sem
esperar resposta, olhou para o criado que estava ao

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lado, ordenando – Traga uma taça de vinho para o


meu capitão da guarda.
Sem discutir, ele pegou o cálice e o levantou,
cumprimentado as demais moças que o fitavam com
interesse. Isadora suspendeu sua taça e, encarando-
o, disse:
- A mim!
- À sua saúde Majestade. – respondeu, com um
leve sorriso, e, pedindo permissão, retirou-se,
voltando calmamente ao local de onde saíra.
Luis Augusto conduziu a rainha até o centro do
salão para dançarem a primeira música. Em seguida,
os demais convidados se juntaram e a festa
continuou, vibrante. Luca a observou por alguns
instantes enquanto degustava sua taça de vinho.
Depois, chamou dois de seus soldados e redefiniu
seu posicionamento. Mais bebida lhe foi servida e
ele se permitiu relaxar um pouco.
Isadora seguiu até o espaço que lhe era
reservado no salão, sentando-se para descansar após
as várias músicas que dançara. O criado se
aproximou, completando seu cálice de vinho. Ela
voltou o olhar às pessoas que dançavam e se
divertiam. Seu marido conversava com um grupo de
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convidadas em um canto do cômodo à esquerda.


Automaticamente, ela procurou Luca, avistando-o
no mesmo lugar de antes, à direita, perto da parede.
Percebeu que não estava sozinho, havia uma moça
falando entusiasmadamente com ele. Imediatamente
sua expressão mudou.
Observou o casal por alguns instantes e sentiu
uma irritação tomando conta de si. Luca sorria e
parecia muito interessado no que sua acompanhante
lhe contava. Ora, ela nunca o vira animado ou
sorrindo daquela forma! Ao seu lado, sempre a
olhava com certo desdém e aparentava não apreciar
nada que ela falasse ou fizesse.
Eles estavam muito próximos e podia-se notar
que a mulher se insinuava. Isadora olhou à sua
volta, procurando por Maria. Não a encontrando,
chamou uma dama de companhia que estava mais
perto e perguntou se ela a tinha visto. Esta apontou
na direção oposta. Muito impaciente, perguntou,
então, à sua dama se conhecia aquela mulher que
conversava com seu capitão da guarda. A moça
respondeu que acreditava ser a filha de um dos
conselheiros do reino. Querendo mostrar-se

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prestativa, disse que iria perguntar a Maria para ter


certeza da informação.
A rainha continuou, agitada, reparando naquela
cena, quando viu a moça aproximando-se ainda
mais de Luca, acariciando delicadamente seu braço
direito e levantando o rosto para lhe falar ao ouvido.
Ele se inclinou para que ela o alcançasse e, depois
de ouvir o que tinha a dizer, sorriu e acenou
levemente com a cabeça. Então, deixaram suas taças
em uma mesa e começaram a se dirigir para uma
das saídas laterais do salão, ela na frente e ele logo
atrás.
Isadora ficou estarrecida por alguns segundos,
enquanto os acompanhava com os olhos. Sentiu sua
face em brasa, seus punhos se fecharem e foi
tomada por uma ira como nunca havia
experimentado antes. Aquela situação era
inaceitável! Luca nunca demonstrara por ela o
interesse que agora expressava por uma mulher
qualquer!
Sem perceber mais nada à sua volta, levantou-se
e, caminhando rapidamente, seguiu na mesma
direção que o casal havia tomado. Mais à frente, os
viu andando lado a lado, sorrindo e quase se
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tocando. O corredor estava vazio e com pouca luz,


mas ela podia constatar claramente a excitação com
que eles se olhavam. Indignada, praticamente gritou:
- Luca!
O casal parou em um sobressalto e se virou
para vê-la. Isadora se aproximou dos dois, olhando,
primeiramente, a moça e, voltando-se para ele,
continuou, extremamente irritada:
- Para onde você está indo? Quem é essa
mulher?
Com uma expressão de confusão e sem saber
bem o que dizer, ele começou:
- Majestade, essa é...
- Para onde você estava indo com ela? Como
ousa me deixar e sair com essa mulher? –
interrompeu-o, muito agitada.
A moça, percebendo o estado da rainha, fez
rápida reverência e saiu apressadamente, retornando
ao salão.
Isadora, com a respiração acelerada encarava
Luca, que tentou falar alguma coisa:
- Perdoe-me. Vossa Majestade disse que eu
estaria livre hoje...
- Livre? Era para se divertir na minha festa, em
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minha companhia, e não para sair com qualquer


mulher que se aproximasse de você! – ela ficava
ainda mais furiosa e, acercando-se dele, bateu com
os punhos em seu peito, gritando – Por que Luca?
Por que você me despreza e se interessa por essa
mulher insignificante?
Como ele a olhava sério e não falava nada, sua
irritação aumentava e ela o golpeava mais no peito,
no abdome, totalmente descontrolada, insistindo:
- Responda! Por que não lhe agrado? Por que
você não me quer? Responda!
Nesse momento, tentando fazê-la parar com
aquele escândalo, ele segurou seus braços, levando-
os para trás e firmando-os em suas costas, na altura
da cintura, puxando-a para perto de si. Isadora
parou de se debater e, com a respiração
descompassada, o encarava com os olhos lacrimosos
e os lábios trêmulos de raiva. Por alguns segundos
ele sentiu aquele corpo frágil palpitando contra o
seu. Olhou-a nos olhos, apreciou seu rosto delicado,
sua boca, tão próxima da dele, sentindo seu
perfume, e, então, viu-se sendo dominando por uma
vontade incontrolável de beijá-la. Seus lábios se

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entreabriram, quando foi subitamente despertado


por uma voz que vinha do início do corredor:
- Isadora!
Imediatamente, Luca se afastou dela, mantendo
os olhos baixos, enquanto Maria se aproximava,
fitando-a com ar de repreensão, dizendo, com a
autoridade de uma mãe:
- Isadora! Esse comportamento é digno de uma
rainha? Quase se puderam ouvir seus gritos desde o
salão onde estão seu marido e seus convidados! O
que você acha que todos pensariam ao verem sua
soberana se portando como uma desequilibrada?
Sem coragem de encarar Maria, ela respondeu
baixinho:
- Não me importo com o que pensem...
- Você deve ser importar sim! Não é mais
criança e não pode agir como tal! Tem
responsabilidades e uma imagem a zelar. Como
pensa que vai governar um país, se não tem o
mínimo de autocontrole? – e, em tom suave, mas
ainda autoritário, continuou - Vamos! Está na hora
de você se recolher. – virando-se para Luca, disse –
Por favor, peça para informarem ao rei que a rainha
estava exausta e seguiu para seus aposentos.
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Ele assentiu e se dirigiu até o salão principal.

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N uma onda de calor que, há algum tempo não se


AS SEMANAS SEGUINTES O REINO FOI TOMADO POR

via. Mesmo sendo verão, a temperatura estava mais


alta que o de costume e as pessoas não sabiam bem
o que fazer para suportarem esse período. As fontes
da cidade e as margens do Rio Gris eram disputadas
pelas crianças e até mesmo por adultos em busca de
um pouco de refresco.
Alguns começaram a profetizar a proximidade
do fim dos tempos, pois era algo surpreendente que,
em um mesmo ano, tivessem passado por um

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inverno tão intenso e, agora, por um verão


escaldante.
A rainha resolveu que ficaria o mês seguinte,
setembro, no castelo de Villerne, situado no vale
que levava o mesmo nome. Era um local aprazível e
tranquilo, onde pretendia se refugiar daquele calor
que parecia ser aumentado pelo sempre crescente
movimento de Rocher. Os preparativos estavam
sendo feitos e, desta vez, ela não quis muita
companhia. Partiria com os criados e seus filhos.
Luis Augusto, como era de se esperar, preferiu
continuar no castelo, cuidando dos assuntos de
governo.
Desde o incidente de seu aniversário, Isadora
parecia ainda mais obcecada por Luca. Por uns dias,
esteve um pouco envergonhada, contudo, esse tipo
de sentimento não permanecia com ela por muito
tempo. Não falava diretamente com ele sobre o
ocorrido ou acerca do que sentia, mas sua intenção
de se aproximar era claramente perceptível. O fato
de ele ter-se interessado por outra mulher tornou
urgente, para ela, conquistá-lo.
Luca, por sua vez, manteve uma postura ainda
mais formal com sua soberana. Aquele contato de
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meses atrás lhe trouxera sentimentos contraditórios.


Ao mesmo tempo em que não podia negar seu
desejo por ela - já que quase não se controlara
quando a teve muito próxima -, começava a se irritar
com sua maneira de agir. Aquela vontade de tê-lo
como amante nada mais era que um de seus
caprichos! Se para os homens da nobreza, ficar
íntimo da rainha era muito proveitoso, ele não se
interessava por favores na corte.
Nunca negara sua companhia a mulher alguma,
mas dar à Isadora o que ela queria era como admitir
uma fraqueza. Entrar em um jogo, uma brincadeira
que ele detestava. Era um homem orgulhoso e não
admitiria que uma menina mimada, acostumada a
ter suas vontades realizadas por todos à sua volta, o
dominasse.
Na última semana de agosto a comitiva da
rainha partiu para a residência de verão. O calor no
Vale de Villerne, de fato, era mais ameno que em
Rocher. Lá soprava uma brisa fresca e constante e
os dias ensolarados rendiam boas cavalgadas e
caminhadas pelos jardins. Maria e outras
empregadas cuidavam das crianças enquanto
Isadora fazia seus passeios ao ar livre. Luca a
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acompanhava com mais dois soldados da guarda


pessoal e outros quatro permaneciam no palácio
juntamente com os demais que faziam a segurança
do local.
Ele evitava maior proximidade com ela. Falava-
lhe o necessário e se portava com muita sobriedade.
Esse comportamento, em vez de desencorajar
eventual atitude nela, acabava por aumentar seu
interesse. Embora tentasse manter a discrição e
conquistá-lo da forma como sempre fez com outros
homens, começava a ficar impaciente com a sua
indiferença.
Ela o queria mais a cada dia. Observava-o e se
imaginava em seus braços, sentindo seus beijos.
Naquela noite de seu aniversário, teve a impressão
de que ele também a desejava. No entanto, já não
sabia mais o que pensar e essa incerteza a
incomodava. Não era habituada à rejeição, tendo
sempre conseguido tudo o que almejara, de modo
que não se conformava em estar tão perto daquele
homem e não tê-lo para si.
Após algumas semanas no palácio, a rainha se
levantou e se preparou para cavalgar. O dia estava
quente e ela avisou que gostaria de ir até o rio que
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corria em meio aos bosques da propriedade. Luca,


segurando o cavalo para que ela montasse,
aguardava com mais dois soldados próximo à porta
principal. Quando ela saiu, todos fizeram uma
rápida reverência. Chegando perto dele e,
encarando-o com um sorriso no olhar, falou:
- Luca, hoje quero que só você me acompanhe.
Com um ar de seriedade, ele disse:
- Majestade, não acho que seja prudente um
deslocamento com tão reduzida proteção.
- Não acredito que estejamos em perigo aqui.
Pode dispensar seus soldados. – continuou, sem
desviar o olhar, em um tom que o fez entender suas
intenções.
- Muito bem, então. – respondeu, fitando-a.
Virando-se para os dois soldados que já estavam em
seus cavalos, prosseguiu – Fiquem aqui e façam a
segurança do castelo junto aos demais.
Isadora montou em seu cavalo e aguardou
Luca. Quando este estava pronto, ela sorriu e eles
iniciaram sua cavalgada em direção aos bosques,
logo adquirindo alta velocidade.
Ao chegarem às margens do rio, ele
desmontou, amarrou os cavalos em uma árvore e a
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auxiliou a descer, suspendendo-a pela cintura e


colocando-a delicadamente no chão. Seus olhos se
encontraram e ela sorriu. Ele ficou parado por uns
instantes, observando-a enquanto andava e olhava as
águas que corriam calmamente. Virando-se para ele,
Isadora comentou:
- Está tão agradável aqui... Vamos nos sentar
um pouco?
Percebendo exatamente o que ela pretendia,
Luca desamarrou sua capa dos ombros e,
aproximando-se lentamente, a estendeu no chão,
falando:
- Fique à vontade Majestade. Estou bem aqui.
Ela sorriu e se sentou, dizendo:
- Por que você é tão sério, Luca? Estamos só
nós dois aqui. Pode relaxar um pouco...
Ele a fitou e, virando o rosto para observar o
rio, respondeu:
- Preciso estar alerta para protegê-la, Majestade.
Ela o olhava e não conseguia disfarçar seu
desejo. Como era grande e forte! Sempre sério, com
aquela postura altiva! Era diferente de todos os
homens com os quais convivia e isso o tornava tão
atraente!
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Instantes depois, com um sorriso desafiador,


em tom de diversão, perguntou:
- Luca, você morreria por mim?
Voltando o rosto para ela e expressando leve
confusão com aquele questionamento inusitado, ele
respondeu calmamente, com sinceridade em sua
voz:
- Sou seu capitão da guarda Majestade... É
evidente que arriscaria minha vida para protegê-la.
Isadora o encarou por alguns segundos e
desviou o olhar. Então se levantou, soltando os
cabelos, e disse, insinuante:
- Está muito calor hoje. Vou entrar no rio... Me
acompanha? – e começou a desamarrar seu vestido.
Ele a olhou e sentiu seu sangue ferver. Teve
vontade de avançar sobre ela e despi-la
imediatamente, satisfazendo seu instinto de homem,
esquecendo qualquer pensamento racional que até o
momento o impedira de tomá-la para si. No
entanto, baixou os olhos, respirou fundo e,
mantendo seu ar de desinteresse, falou:
- Vou deixá-la à vontade. Aguardarei logo aqui
atrás – e, concentrando suas forças, seguiu para as
árvores próximas.
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Sorrindo maliciosamente, ela perguntou:


- E se eu me afogar, Luca? Quem vai me
salvar?
- Fique tranquila, pois as águas estão muito
calmas. Não há como se afogar. – afirmou sem se
virar.
Isadora sorriu satisfeita e, apenas com sua
roupa de baixo – um vestido bem fino de algodão –,
entrou naquela água fresca. Divertiu-se por deixá-lo
incomodado. Teve a certeza de que ele não era
insensível aos seus encantos.
Depois de um tempo, escutou-se um grito:
- Luca! Ajude-me! As águas estão me levando
para a parte mais profunda!
Ele não respondeu. Sabia que era mais uma das
brincadeiras da rainha. Nos últimos dias, foram
vários os seus jogos para chamar a atenção. Ela
queria testá-lo, ver até quando resistiria. Era
impossível se afogar em um rio tão calmo como
aquele - pensou. Aguardou por alguns minutos e
não a ouviu mais.
Então se preocupou. Tudo estava muito
silencioso. Foi se aproximando da margem e
percebeu Isadora flutuando sobre a água. Por dois
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segundos, ele ficou parado, sem acreditar no que


via. Como tinha sido irresponsável!
Tirou depressa seu colete e suas botas e entrou
no rio, logo alcançando a rainha, inerte. Trouxe-a
para a margem, deitando-a na capa que estava
estendida, enquanto a chamava com voz de séria
apreensão:
- Majestade! Majestade! Isadora!
Depois de segundos que pareceram uma
eternidade, ela começou a rir divertidamente e abriu
os olhos, falando:
- Estou bem, meu capitão! Só queria ver o
quanto você se preocupava comigo...
Nesse momento, Luca ficou furioso. Estava
praticamente deitado sobre ela e se levantou,
sentando-se ao seu lado. Respirava pausada e
profundamente, indignado com tanta infantilidade,
quando disse:
- Majestade! Não se pode fazer esse tipo de
brincadeira.
Com um leve sorriso sensual, Isadora se ergueu
um pouco, admirando o tórax e os braços fortes
daquele homem com ar irritado, e teve grande

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vontade de sentir sua pele. Aproximando seu corpo


do dele, falou baixinho:
- Eu só queria que você relaxasse...
Luca se virou para ela, quando notou cada
detalhe do seu corpo retratado naquela roupa
molhada e transparente. Seus longos cabelos
emoldurando seu rosto tão próximo ao dele. Seus
lábios entreabertos e um olhar que implorava por
seu toque. Então, foi dominado por um desejo
incontrolável. Sua pele parecia em chamas e o único
pensamento em sua mente era o de senti-la por
inteiro.
Ele passou seu braço esquerdo pelas costas de
Isadora, na altura da cintura, puxando-a para perto
de si, beijando-a apaixonadamente. Suspendeu-a e a
colocou sentada em seu colo, de frente para ele,
retirando rapidamente sua roupa. Segurava seu rosto
beijando sua boca, sua face, seu pescoço, e a
abraçava, apreciando a suavidade da sua pele, com
tanto apetite que tinha medo de machucá-la, tão
frágil, perto do seu corpo sólido.
Ela sentia descargas de energia em seu peito. A
cada beijo, a cada toque, era tomada por uma
vontade desesperadora de se entregar
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completamente. Ele a posicionava e a acariciava


como queria e ela adorava ter aquele homem
exercendo tal domínio sobre si, saber que ele
poderia fazer o que desejasse, que seu corpo era
dele.
Luca a conduzia naquele ato de completa
excitação, tendo total controle. Isadora se doava
cada vez mais, seguindo no ritmo que ele impunha,
notando cada centímetro do seu corpo quente sobre
si. Ele a possuía com paixão, vigor, carinho e,
naquele movimento cadenciado, ela experimentou
um prazer que nunca imaginara ser possível. Sentia
vontade de gritar, chorar, sorrir. Em uma explosão
de sensações, seu corpo se contorcia sob Luca que
beijava vagarosamente sua boca, deleitando-se com a
aquela reação que ele fora capaz de proporcionar.

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L exaustosI
UCA E SADORA ESTAVAM DEITADOS, LADO A LADO,
sobre a capa estendida na margem
daquele rio calmo. Ela ainda tinha sua pele com a
sensibilidade aflorada e pensava, com um sorriso
nos lábios, no que acabara de acontecer. Ele, de
bruços, estava em silêncio, com o rosto virado em
sentido oposto.
Ela tinha grande satisfação no olhar. Além de
sentir-se feliz por finalmente ter conquistado o
homem que há muito desejava, e que até então
parecia não corresponder-lhe, o prazer que teve
com ele foi algo inesperado. Olhava para o lado,
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reparando nas costas nuas de Luca e pensava no


quanto precisou insistir para que ele admitisse que
também a queria, e no tempo em que já poderiam
estar juntos.
Ele se levantou, sem olhá-la, e começou a se
vestir. Virando-se para observá-lo, com a cabeça
apoiada no antebraço, ela falou animadamente
como que em um tom autoritário:
- Luca! Por que a pressa? Não pretendo ir a
lugar algum agora...
Voltando o rosto para ela, muito sério, ele
respondeu, externando irritação:
- Eu não sou seu amante! Não sou seu
brinquedo! – e continuou a se vestir, colocando a
camisa e procurando as demais peças que estavam
espalhadas nas proximidades.
Inicialmente, Isadora ficou em silêncio,
parecendo não compreender o que ele havia dito.
Segundos depois, sua expressão mudou e ela foi
tomada por raiva. Seu orgulho de princesa criada
para ser venerada e obedecida despontou. Como ele
se atrevia a falar daquele modo? – pensou.
Levantou-se rapidamente e, encarando-o, disse com
a voz alta e firme:
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- O que está dizendo, Luca? Eu sou sua rainha!


Você não pode falar comigo dessa forma! Você vai
ser o que eu quiser que você seja! – e começou a se
vestir.
Extremamente irritado, chegando mais perto
dela, ele afirmou:
- Sou o seu capitão da guarda! Essa é minha
obrigação com você e não de me submeter aos seus
joguinhos! – e se virou seguindo a passos rápidos em
direção ao seu cavalo.
Ela não conseguia acreditar que era tratada
daquela forma. Não depois do que tinha acabado de
acontecer. Sentido seu rosto enrubescer de fúria,
gritou, enquanto se vestia:
- Luca! Volta aqui! Estou mandando! Aonde
você pensa que vai?
Ele não respondeu e, com a feição fechada,
travando os maxilares, montou em seu cavalo
direcionando-se ao castelo, em alta velocidade.
Isadora, com o vestido ainda não
completamente atado, correu até o seu cavalo e
seguiu em disparada, tentando alcançá-lo. Ela
gritava, ordenando que parasse, mas ele a ignorava e
continuava, veloz. Estava transtornada com aquela
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situação. Nunca fora tão ultrajada! Era uma rainha e


não aceitava aquele desrespeito!
Maria e alguns empregados que estavam
próximos à entrada do palácio testemunharam uma
cena realmente inusitada. O capitão da guarda
chegando, com a roupa molhada, camisa e coletes
semiabertos, deixando seu cavalo e adentrando
abruptamente a porta principal da residência, sendo
seguido, instantes depois, pela rainha, com os
cabelos soltos e vestido desalinhado, correndo
furiosa tentando se aproximar.
Quando ele atravessou, a passos rápidos, a
pequena antessala de entrada, dois de seus soldados
que ali estavam bateram continência, e, logo após,
fizeram reverência à rainha que andava atrás dele,
mandando que parasse para falar com ela.
Luca cruzou o corredor até o escritório, sendo
acompanhado por Isadora. Exasperado, andava de
um lado para outro no cômodo, quando ela,
descontrolada, gritou:
- Eu não admito que você me trate dessa forma!
Sou sua rainha, sua soberana! Você está aqui para
me obedecer! Como ousa dirigir-se a mim como se
fosse meu igual?
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Então, ele parou diante dela e, esquecendo-se


de qualquer formalidade ou hierarquia, falou muito
alto em tom firme:
- Minha rainha? Minha soberana? Você só se
sente como tal para ter suas vontades realizadas!
Para ser afagada por seus amigos da nobreza em
suas festas particulares! É rainha para obrigar o povo
a sustentar seus caprichos! Para dar ordens! Para
legitimar todos os seus desmandos! Para justificar
seus atos de tirania! Onde está a minha rainha,
minha soberana, quando é necessário que se tome
alguma decisão em benefício dos seus súditos, das
pessoas que morrem de fome e de doenças
enquanto trabalham para sustentar os cofres da
Coroa? É muito fácil dizer-se rainha apenas em
benefício próprio, para defender seus direitos, mas
nunca cumprir com seus deveres!
Ela o escutava, pasma. Conservava seu porte de
nobreza, olhando-o com ar de arrogância, porém se
sentia afrontada e também intimamente
constrangida. Sinceramente não assimilava o que ele
lhe falava e tampouco acreditava que havia verdade
em suas palavras. Pensou rapidamente em seu
comportamento e não via problema em sua atuação.
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Ultrajada com aqueles insultos, vindos de um


simples súdito, mas, ao mesmo tempo, confusa, ela
o interrompeu, tentando argumentar:
- O que está falando? Você não entende nada a
respeito de governar! Minha postura é, sim,
condizente com a minha posição no reino...
- Condizente? Você autoriza a execução de
centenas de pessoas, de trabalhadores que passavam
fome, e diz que tem uma postura condizente?
Ainda tentando manter seu ar de superioridade,
mas um pouco embaraçada, continuou:
- Você está louco! Eu não autorizei a execução
de trabalhadores!
- O rei age com o seu aval! Se pessoas foram
executadas, foi em seu nome e com a sua
autorização!
- Luis Augusto apenas me auxilia! Como meu
marido, tem sido muito prestativo me ajudando,
enquanto me familiarizo com os atos de governo.
Você não entende nada! Às vezes é necessário que
limites sejam impostos a fim de manter a coesão do
reino!
- Limites? E você, os tem? Não vejo limites
para suas diversões, suas brincadeiras! – continuou,
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aproximando-se mais dela. - Tudo é um jogo na sua


vida! Não me parece uma rainha e sim uma menina
mimada que se alegra em traçar objetivos passando
por cima de todos! Nem mesmo com seus filhos
você se importa, Isadora!
Ela o encarou com o semblante contrariado e
olhos lacrimejantes. Não era habituada a ser
repreendida daquela forma. Sentia ódio por ele
naquele momento. Para ela, nascida princesa e
criada para ser superior a todos, era absurdo ouvir
aquilo. Elevando o rosto, a fim de impor uma
postura altiva, ordenou, com a voz chorosa, porém
enérgica:
- Chega! Você é meu criado! Não pode falar
assim comigo!
Olhando-a com desprezo, Luca se afastou e,
inclinando levemente a cabeça, dirigiu-se à saída do
escritório. Vendo que ele se distanciava e sem saber
o que fazer, descontrolada, ela gritou:
-Pare! Eu não terminei! Não vire as costas para
mim!
Ele se voltou e aguardou por alguns segundos,
impassível. Ela não tinha o que falar. Um turbilhão
de emoções passava por seu corpo, queria agarrá-lo,
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beijá-lo, golpeá-lo, mas só o que fazia era chorar de


raiva. Assim, ele se virou e saiu. Ela o seguiu até a
porta e, em total desequilíbrio, gritou no corredor
para que voltasse, ameaçando mandar prendê-lo.
Ele continuava, com passos firmes, em direção aos
seus aposentos sem olhar para trás.
Ela chamou por seus soldados que,
evidentemente, junto com as demais pessoas que
estavam próximas, ouviram a conversa. Eles se
entreolharam, sem saber que atitude tomar. Maria,
que havia entrado no castelo logo depois que o casal
voltou e aguardava perto do escritório, com certa
satisfação, o término daquela discussão, fez sinal
para que continuassem onde estavam. Após
aproximadamente trinta minutos, ela foi até o
escritório ver a rainha. Encontrou-a sentada no
chão, chorando como uma criança contrariada.
Acercou-se dela e a auxiliou a se levantar, dizendo:
- Vamos Majestade. Vou ajudá-la a trocar de
roupa.
Luca estava em seu quarto, com a expressão
séria e os punhos cerrados. Olhava através da janela,
sem enxergar nada, com muitos pensamentos em
sua mente. Estava irritado consigo próprio, tendo
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seu orgulho de homem ferido. Não fora capaz de


controlar uma situação, deixando-se levar pelas
vontades de uma mulher inconsequente e
irresponsável.
Não conseguia identificar exatamente o que
sentia. Era como se agora se igualasse àqueles
nobres frívolos que conviviam com Isadora, que
participavam dos seus jogos, e que ele tanto criticara
intimamente. Apesar de não poder negar que
apreciara muito tê-la em seus braços,
completamente entregue, pensava que havia traído
seus princípios.
Fechava os olhos e ainda podia sentir seu corpo
suave, ouvir seus gemidos de prazer, vê-la como se
fosse sua. Esses pensamentos o incomodavam, pois
não pretendia se submeter ao papel que ela queria
lhe impor.
Nos três dias que se seguiram Luca e Isadora
não se falaram. Ela parecia abatida e ele mantinha
sua vigília a certa distância, sem encará-la.
Ela ainda não conseguia visualizar acerto na
postura dele ou verdade em tudo que lhe falara
naquela tarde. Era muito difícil compreender que
havia algo errado com o seu comportamento de
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rainha. Sempre foi educada para ter o que quisesse


e nunca ser contrariada. Além disso, não tinha real
noção do que era esperado dela como governante,
pois não fora orientada para essa atribuição e
crescera em um ambiente alheio a problemas.
Apesar de seu pai ter-lhe alertado, antes de
morrer, que deveria tomar o controle do reino, ela
não sabia o que fazer. Parecia muito natural e
apropriado que Luis Augusto atuasse em seu
auxílio. Tendo sido encorajada a pensar, por toda a
vida, que, pelo simples fato de ser uma princesa
real, suas vontades deveriam ser respeitadas e que
todos os atos de um soberano eram justificados,
agora era realmente difícil fazê-la crer que sua
postura não estava correta. O mais fácil era achar
que Luca a desrespeitara ao contestar suas atitudes.
Entretanto, era evidente que não conseguiria
puni-lo por tal insulto. Não podia se imaginar sem
tê-lo ao seu lado, ainda que em silêncio.
Não compreendia sua conduta, seja ao afrontá-
la como rainha seja ao rejeitá-la como mulher.
Quando fizeram amor, sentiu que ele também se
envolvera. Então, por que a tratava daquele modo?
– pensava, desapontada. Nunca precisara implorar
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pela companhia de homem nenhum! Não se


humilharia para tê-lo! Era ele quem deveria sentir-se
honrado em receber sua atenção.
Luca, por sua vez, mantinha uma postura de
seriedade. Não via mais propósito em continuar no
seu cargo. Depois do que acontecera e de tudo o
que falara a Isadora, pensava que deveria partir. Não
conseguiria mais viver naquele ambiente de
futilidades e excessos. No entanto, ele mesmo não
entendia por que se sentia preso a ela,
preocupando-se com sua segurança.
A rainha avisou que retornaria a Rocher. Era
início de outubro e, na verdade, já não tinha mais
interesse em permanecer na residência de verão. Os
programas já não faziam mais sentido com Luca
tratando-a com frieza.
Os criados executavam os preparativos para a
viagem, quando ela resolveu sair do castelo em uma
manhã fresca e ensolarada, encaminhando-se até o
jardim onde Maria estava com as crianças.
Aproximou-se, com o ar desanimado, e sorriu
quando Branca veio, alegre, ao seu encontro.
Abaixou-se e, em uma atitude rara, suspendeu a
menina, segurando-a nos braços. A princesa
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brincava com os cabelos da mãe, que estavam


semissoltos, quando esta se virou para Maria,
perguntando:
- Como estão os príncipes?
- Muito bem Majestade. – e, sinalizando com a
cabeça, os mostrou a alguns metros com um
soldado da guarda real, dizendo – Luis Felipe está
muito empolgado com suas aulas de defesa pessoal
e o irmão o acompanha em tudo...
Ela os observou por um instante e se sentou,
com Branca no colo, ao lado de Maria no banco à
sobra de uma árvore. Elas se entreolharam e
sorriram, voltando novamente os rostos para os
meninos, que recebiam as instruções do soldado.
Isadora nunca havia parado para prestar atenção em
seus filhos. Agora admirava como o mais velho era
parecido com ela e muito concentrado nas lições
que lhe eram passadas. Guilherme era gracioso,
com seus cabelos loiros ao vento, observando o
irmão e querendo imitá-lo.
Elas ficaram ali por algum tempo, em silêncio.
Depois, colocando Branca no chão, Isadora disse
que iria para os seus aposentos e que Maria a
avisasse quando fossem almoçar.
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Q de Rocher, o calor de semanas atrás diminuíra e,


UANDO A COMITIVA DA RAINHA CHEGOU AO CASTELO

apesar de ainda estar quente para a época do ano,


uma brisa fresca que soprava do Norte dava sinais
de que o outono logo surgiria.
Luca desmontou de seu cavalo e abriu a porta
da carruagem de Isadora para auxiliá-la a descer.
Deu-lhe a mão, olhando-a muito rapidamente. Ela
ainda se sentia um pouco desconfortável em sua
presença. Era como se ele desaprovasse cada
movimento seu. Apenas por tocar sua mão, percebia
uma energia transpassar seu peito e, no rápido
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encontro com aqueles olhos em um azul profundo,


experimentou uma vontade de avançar naquele
homem, abraçando-o, sentindo a proteção de seu
corpo. Entretanto, tinha o orgulho de princesa
ferido. Sentia-se desrespeitada por tudo o que ele
lhe falara e pela forma como a tratava, e não
pretendia humilhar-se ainda mais.
O castelo estava muito calmo e, assim que a
rainha adentrou a porta principal, perguntou à
criada por seu marido, sendo-lhe informado que
estava em reunião com alguns conselheiros.
Adotando uma postura altiva, ela se dirigiu até
o escritório. Ao entrar, todos se levantaram e
fizeram uma reverência, cumprimentando-a. Luis
Augusto se aproximou e, beijando-lhe a mão, falou,
com sua costumeira simpatia:
- Já está de volta, minha rainha? Achei que
permaneceria mais alguns meses no Vale de
Villerne.
- Resolvi retornar antes. – respondeu em tom
sério e, olhando à sua volta, perguntou - Qual é o
assunto que vocês estão discutindo hoje?
- Não é nada demais. Fique à vontade para
descansar e, mais tarde, vou até os seus aposentos
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informá-la a respeito.
- Tudo bem, Luis Augusto... – disse,
calmamente – Estou confortável. Pode me explicar
agora sobre o que conversavam.
- Estamos analisando notícias que recebemos
das fronteiras ao sul... – começou, um pouco
surpreso com aquele repentino interesse – Há
boatos de que o Senhor João de La Valière estaria
desrespeitando a soberania do seu reino,
associando-se ao país vizinho e reforçando suas
tropas de segurança com a intenção de não mais se
submeter às ordens de Moreau-Leclerc.
- É uma ameaça concreta ou são apenas
boatos?
- Por enquanto são apenas boatos, minha
rainha.
- E os nossos exércitos, Luis Augusto, como
estão?
- Temos soldados na reserva que podem ser
convocados em caso de necessidade. – respondeu
pacientemente, demonstrando certa confusão no
olhar com aquelas perguntas tão atípicas, vindas de
Isadora.
- Muito bem. – disse, querendo expressar
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atenção ao caso – Confesso que estranho essa


notícia, já que o Senhor de La Valière sempre foi
um súdito leal a meu pai, vindo, inclusive, prestar
suas homenagens na minha coroação. Gostaria que
você me mantivesse informada a respeito do
assunto, Luis Augusto.
- Como desejar, minha rainha.
Pedindo licença, ela se retirou, seguindo para
seus aposentos. Estava exausta da viagem, tendo seu
corpo dolorido, sem qualquer disposição para
permanecer naquela reunião. Trocou de roupa e
dormiu pelo resto da tarde.
Na hora do jantar, Luis Augusto veio ao seu
encontro na antessala de seu quarto e,
demonstrando uma atenção incomum para os
últimos tempos, perguntou-lhe:
- Está tudo bem? Notei certo abatimento em
sua expressão.
- Sim. Está tudo bem. – afirmou, surpresa com
aquele interesse – Só estou um pouco cansada.
- Voltou cedo de Villerne... Sentiu-se só, sem os
amigos que normalmente a acompanham?
- Pode ter sido isso... Minha programação ficou
um pouco restrita. – disse, desviando o olhar.
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- Convidei algumas pessoas para visitarem-na


nos próximos dias. – falou sorrindo – Imaginei que
lhe faria bem encontrar-se com amigos depois desse
período de afastamento.
- Obrigada. – disse, franzindo a testa, sem
compreender tanta gentileza de seu marido que, às
vezes, parecia não se lembrar dela – Acho que será
bom um pouco de diversão.
- Que bom! Gosto de vê-la feliz. – e,
levantando-se, beijou sua mão – Vou deixá-la
descansar. Se precisar de alguma coisa, mande me
avisar.
Isadora sorriu e o observou sair, sem entender
aquela súbita preocupação com seu bem-estar. Após
alguns instantes, foi até uma das janelas, reparar na
noite já escura. Via alguns pontos de luz,
provavelmente onde estavam os guardas que faziam
a segurança do castelo. Pensou em Luca. Ele estaria
ali, do outro lado da porta, ou teria designado um
de seus soldados para cuidar dela? Teve vontade de
sair do cômodo para encontrá-lo, mas sua vaidade
não deixou. Apesar de estar inundada pelo desejo
de tê-lo junto a si, ele a tinha insultado demais e ela
não se rebaixaria tentando uma reaproximação.
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Luca estava, de fato, do lado de fora da


antessala. Embora tivesse reduzido muito seu
contato com Isadora, mantendo certa distância, ele
próprio fazia sua segurança até a hora em que ela se
recolhesse para dormir, quando era substituído por
dois de seus soldados. Nesse momento estava de pé,
com os braços para trás, olhando através da janela,
quando ouviu alguém se aproximando e falando:
- Boa noite, Luca.
- Boa noite, Maria. – respondeu, com um leve
sorriso.
- A rainha está sozinha?
- Sim. O rei saiu há alguns instantes.
Ela bateu à porta, entrou na antessala e,
encontrando Isadora, perguntou:
- Majestade, está tudo bem? Quer que eu
chame alguém para auxiliá-la a se vestir para
dormir?
- Ainda não estou com sono, Maria... –
contestou, afastando-se da janela, indo se sentar em
uma cadeira próximo à parede – Como vão as
crianças? Já estão dormindo?
- Branca já dormiu, mas os príncipes ainda
estão acordados. – e, tentando manter a
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naturalidade, perguntou – Quer que eu os traga


aqui?
- Não Maria. Não há necessidade. Eles já
devem estar se preparando para dormir...
- Vamos até lá, então...
- Não... Está tudo bem. Não quero agitá-los.
Logo irão se deitar... – argumentou como se
estivesse falando de pessoas estranhas e não de seus
próprios filhos.
Aproximando-se dela e, em um tom tranquilo e
encorajador, Maria insistiu:
- Vamos, Isadora... Tenho certeza de que eles
vão gostar de vê-la.
Refletindo por alguns instantes, ela sorriu
nervosamente e se levantou.
- Tudo bem... Vamos, então. Estou desocupada
mesmo...
Maria sorriu satisfeita. Há muito que desejava
uma aproximação de Isadora com os filhos. Sabia
que a relação familiar entre nobres era diferente
daquela estabelecida entre os plebeus, contudo,
acreditava que, por mais criados e tutores que uma
criança tivesse, somente a atenção dos pais poderia
transformá-la em uma pessoa de bom caráter.
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Abriu a porta e a rainha saiu, deparando-se


com Luca próximo à janela do corredor. Não
pensava que o encontraria e ele não esperava que
ela resolvesse sair àquela hora. Seus olhos se
cruzaram rapidamente e ambos, visivelmente
embaraçados, baixaram a cabeça. Ele fez uma
reverência e ela, olhando-o discretamente, disse:
- Boa noite, Luca.
- Boa noite, Majestade. – respondeu, sem
encará-la.
Então elas passaram, encaminhando-se para o
quarto dos príncipes, acompanhadas por ele.
Um dos guardas que faziam a segurança abriu a
porta e Maria entrou, com Isadora logo atrás,
falando com animação:
- Luis Felipe, Guilherme! Vocês têm visita... – e
se afastou para dar passagem à mãe que sorria
timidamente.
Os meninos pararam o que faziam e, já vestidos
com roupas de dormir, acercaram-se de modo
muito formal, fazendo uma reverência, e disseram:
- Boa noite, Majestade.
- Boa noite, Altezas. – respondeu, acanhada,
parecendo não saber como se portar naquele
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simples encontro.
Luca estava perto da porta e Maria fez sinal
para que entrasse. Informou que aguardaria do lado
de fora, mas ela insistiu e ele entrou, posicionando-
se em um canto do quarto.
Indicando a Isadora uma poltrona confortável
próximo à lareira apagada, ela convidou:
- Sente-se Majestade. – e, virando-se para os
meninos, que se encontravam parados junto àquela
que aprenderam a respeitar sem ter quase nenhum
contato, continuou – Altezas! Mostrem à sua mãe a
brincadeira que vocês estavam fazendo.
E os três ficaram ali, um tanto desconcertados
com a falta de intimidade, não sabendo bem como
se comportar. Os meninos contavam alguns
acontecimentos de suas rotinas, incentivados por
Maria, e Isadora tentava demonstrar interesse.
Menos de uma hora depois, Maria chamou as
empregadas para acomodarem as crianças para
dormir. A rainha saiu em direção aos seus
aposentos, sendo escoltada a alguns metros por
Luca. Ele a observava à sua frente e ela andava,
constrangida, por aqueles corredores pouco
iluminados. Desde aquela tarde em Villerne, eles
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nunca mais estiveram a sós. Essa situação a deixava


extremamente inquieta. Como desejava estar em
seus braços novamente!
Ao se aproximarem dos aposentos reais, ele
passou à frente, a fim de abrir a porta. No momento
em que entrava, Isadora parou diante dele com a
respiração levemente acelerada e se olharam por
alguns segundos. Ela sentia como se fosse explodir
de ansiedade. Ele a fitava sem demonstrar qualquer
emoção. Então, desviando o olhar, ela disse:
- Boa noite, Luca.
- Boa noite, Majestade. – respondeu,
calmamente.
Isadora entrou na antessala de seu quarto,
tendo a porta fechada atrás de si logo em seguida.
Quis gritar. Sentiu um misto de fúria e decepção.
Como ele podia ser tão indiferente? Não conseguia
acreditar que não despertava nele o mesmo
sentimento que ele provocava tão ferozmente nela.
Seguiu, indignada, a passos firmes para seu
quarto. Naquela noite não conseguiu dormir. Sentia
ódio de Luca. Ódio por ele dominar seus
pensamentos daquela forma. Ódio por se negar a
satisfazer seus desejos. Ódio por não amá-la!
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N rainha, os criados organizavam um dos salões do


A TARDE DO SÁBADO SEGUINTE AO RETORNO DA

castelo para o evento que ocorreria logo mais, na


companhia de seus amigos chamados por Luis
Augusto.
Seria um jantar para aproximadamente trinta
pessoas, acompanhado por música. Isadora não
demonstrava a empolgação de antes. Deixou os
preparativos a cargo de seus empregados e pedira
para Maria ajudá-la na escolha da roupa que usaria.
Mais cedo havia recepcionado os convidados que

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ficariam hospedados no castelo e, agora, conversava


com algumas damas na antessala de seu quarto.
Seu humor estava muito instável. Sorria
animadamente com os assuntos de suas convidadas,
porém logo depois demonstrava forte tensão. Tinha
a sensação de que algo estava errado, de que havia
algum problema para resolver. Não conseguia
relaxar totalmente e aproveitar aquele momento,
mas também não identificava o que a incomodava.
No início da noite, perto da hora marcada para
sua entrada no salão, Maria prendia seus cabelos em
um coque baixo. Ela usava um vestido verde escuro,
que fazia um belo contraste com sua pele, e joias em
tom dourado e pedras preciosas. Estava pensativa
quando perguntou, sem demonstrar interesse:
- Maria, quem fará minha segurança hoje?
- Acredito que seja Luca.
- Ele está me aguardando ou designou algum
soldado?
- Quando cheguei, havia dois soldados na porta.
– respondeu, fitando-a através do espelho.
Ela ficou calada, com os olhos baixos, enquanto
Maria finalizava seu penteado. Nos últimos dias,
havia visto pouco Luca. Embora estivesse irritada
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com ele, o queria por perto. Era quase um


autoflagelo. Aborrecia-se muito com sua indiferença,
mas desejava sua companhia, talvez por acreditar
que a proximidade o fizesse voltar a se interessar
por ela.
Quando saiu de seus aposentos, ele a esperava.
Fez uma reverência e ela o olhou rapidamente,
esforçando-se para manter um ar de descaso,
seguindo pelo corredor em direção ao salão. Ao
entrar no cômodo, que não era tão amplo quanto o
salão principal onde aconteciam os eventos para
maior número de pessoas, Luca se posicionou
próximo à parede oposta ao local da mesa reservada
para Isadora.
Era um salão retangular, com lareira em uma
das extremidades, uma grande mesa no centro e
ambientes com sofás e cadeiras em estofado
vermelho, para que as pessoas pudessem se reunir
antes ou depois do jantar. As paredes de pedra eram
enfeitadas com tapeçarias e grandes candelabros
iluminavam o local.
Luis Augusto fizera companhia à esposa
durante o jantar e agora, em um canto da sala,
conversava animadamente com duas convidadas que
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demonstravam muito interesse em suas estórias.


Isadora ainda estava sentada à mesa, tomando vinho
e sorrindo com algumas amigas. Vez ou outra seus
olhos procuravam por Luca, que vigiava a festa com
a mesma seriedade de sempre. Ela reparava nele
por alguns instantes e retornava sua atenção às
pessoas que lhe falavam.
Depois de um tempo, o rei avisou que já iria se
recolher, alegando que estava exausto. Ela lhe
desejou boa noite e se levantou, dirigindo-se para a
lateral do salão, sentando-se em um dos confortáveis
sofás, a fim de interagir melhor com seus
convidados.
Isadora já havia bebido algumas taças de vinho
e, naquele momento, sentia-se completamente
relaxada. Estava feliz, lembrando-se de como
apreciava aquele tipo de evento, em que era o
centro das atenções. Todos queriam estar perto dela
e se divertiam com tudo o que ela falava. Os
homens a rodeavam e ela se via desejada, admirada.
Olhou à sua frente e encontrou Luca, que a
observava. Sentiu-se irritada. Como de costume, ele
deveria estar, intimamente, condenando seu
comportamento, desaprovando aquela festa e o
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modo como ela e seus amigos se entretinham. Mas


não se importava! Era rainha e podia agir da forma
que quisesse! Havia vários homens à sua volta que
fariam de tudo para passarem aquela noite com ela,
enquanto Luca a olhava com desprezo - pensava.
Percebendo que ele a fitava, ela não resistiu a
tentar chamar sua atenção de alguma maneira,
buscando extrair-lhe qualquer reação. Não se
conformava com a ideia de que ele não a queria.
Mostrava-se entusiasmada com os assuntos de
alguns de seus convidados e deixava que eles se
aproximassem, falando-lhe ao ouvido ou tocando
suas mãos, dando-lhes a entender que poderia
aceitar algo mais. Olhava rapidamente para Luca e
notava sua irritação. Queria ver até quando ele
resistiria antes de retirá-la do meio daqueles homens
e levá-la consigo, admitindo que não permitiria que
outro a tocasse.
Ele, por sua vez, andava lentamente pela sala,
de um canto a outro, tentando controlar seu
desagrado. Observava Isadora com seus amigos e
realmente se incomodava com aquela situação. Não
gostava de vê-la tão próxima de outros homens,
porém se colocava em seu lugar. Como ele próprio
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dissera, era apenas seu capitão da guarda e seu


único papel era protegê-la.
Quanto mais reparava no modo como o grupo
se comportava, mais tinha a certeza de que não
participaria daqueles jogos da rainha. Queria sair
dali, deixar de presenciar aquelas cenas, mas não
conseguia. Parecia que, ao vê-la exatamente como
era, poderia se convencer de que sua atitude de
distanciamento era a mais acertada.
Após algum tempo nessa encenação, Isadora já
estava impaciente. Não era possível que Luca não
fizesse nada! Via-o agora próximo à porta do salão e
sentia-se ansiosa ao pensar que ele poderia estar
pretendendo deixá-la, ser substituído por um de
seus soldados enquanto havia homens flertando
com ela.
Foi, assim, tomada por raiva potencializada
pelo despeito de constatar que o único homem que
realmente lhe interessava, não queria sequer olhá-la.
Levantou-se, escolhendo um dos nobres que
conversavam com mais proximidade e insinuou que
gostaria de sua companhia em um ambiente mais
reservado. O jovem sorriu satisfeito e a seguiu à
saída.
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Luca percebeu Isadora vindo em sua direção


com aquele homem logo atrás, demonstrando que
deixaria o salão. Concentrando suas forças para
manter a postura profissional, fez menção de que a
escoltaria, como era habitual. Ela, então, parou de
frente para ele e, encarando-o com frieza e
arrogância, falou em tom de desprezo:
- Está dispensado, Senhor Malmont. Tenho
certeza de que nesta noite o Senhor du Villier
poderá substituí-lo satisfatoriamente em seu serviço.
Saberá cuidar muito bem de mim e zelará pela
minha proteção.
Luca a olhou nos olhos, seus maxilares se
contraíram e, com a expressão muito séria, acenou
com a cabeça em concordância. Ela virou o rosto e
continuou andando juntamente com seu amigo. Ele
a observou por um instante, respirando
profundamente e, então, seguiu a grandes passadas
para o seu quarto.
Assim que adentrou a antessala de seus
aposentos, Isadora se sentiu envolvida pelos braços
daquele rapaz que a acompanhava. Voltou-se para
ele, com um leve sorriso e a visão um pouco turva
pela bebida, e experimentou seu beijo. Com o braço
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esquerdo ele a puxava para si, enquanto acariciava


seu pescoço com a mão direita, beijando sua boca.
Por alguns segundos ela pareceu apreciar
aquele contato. Gostava da companhia masculina e
sentia falta daquelas carícias. No entanto, aquele
beijo e aqueles braços não eram os que realmente
desejava. Pensou em Luca e ficou triste. Por que
não era ele que estava ali? Por que não tomara
nenhuma atitude quando a viu seguindo para seus
aposentos com outro homem? O que mais poderia
fazer para tê-lo novamente?
Assim, parou de beijar aquele homem que já se
mostrava tomado pelo desejo e, afastando-o
delicadamente, disse, sem encará-lo:
- Desculpe-me... Não estou me sentindo bem
hoje. – e erguendo os olhos, continuou com um leve
sorriso – Acho melhor você ir.
Ele a fitou um pouco contrariado, mas depois
respondeu com simpatia, tentando se recompor:
- Tudo bem... Boa noite, Majestade. – e deixou
o cômodo, retornando ao salão onde a festa ainda
acontecia.
Isadora entrou em seu quarto e suspirou,
olhando à sua volta. Virando-se para uma das
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criadas que preparavam sua cama, mandou que


fosse chamar Maria. Queria somente ela para ajudá-
la a se vestir para dormir.
Luca entrou em seu quarto batendo
violentamente a porta atrás de si. Estava tomado por
enorme fúria. Sentia-se humilhado, desrespeitado.
Com a respiração acelerada e os punhos cerrados,
andava de um lado a outro naquele cômodo frio e
escuro, iluminado apenas pela fraca chama de uma
vela sobre a mesa de apoio.
Seu corpo estava completamente tenso. Em sua
mente passava um turbilhão de pensamentos e ele
tinha vontade de quebrar tudo à sua volta. Como a
rainha podia tê-lo tratado daquela forma na frente
de um de seus ignóbeis amigos da nobreza? Falara
como se seus serviços fossem completamente
insignificantes, que até mesmo um homem inútil,
que nunca exercera qualquer função de segurança,
poderia cumpri-lo. Como pôde rebaixar tantos
meses de dedicação e atenção a nada, a uma
atribuição totalmente dispensável?
Parou próximo à janela e, fechando os olhos, a
imaginou nos braços daquele nobre fútil, sorrindo às

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suas custas, enquanto era beijada e acariciada. Essa


imagem o deixou transtornado.
Pois bem! Se ela o achava desnecessário, não
havia mais razão para continuar, como um tolo,
preocupando-se com seu bem-estar – concluiu. Se
seus amigos eram capazes de lhe proporcionar
segurança, então ele não tinha mais o que fazer ali!
Virando-se, olhou ao redor e começou a se
despir daquele uniforme de capitão da guarda real,
vestindo-se com trajes civis que guardava no
pequeno armário encostado na parede paralela à sua
cama.
Colocou uma capa com capuz presa aos
ombros, juntando seus pertences em uma pequena
bolsa de couro e amarrou sua espada à cintura.
Abriu a porta do quarto e se voltou para fitá-lo. Com
o semblante orgulhoso vislumbrou aquele cômodo
que habitara por mais de um ano e pensou que era
hora de buscar uma ocupação em que realmente
faria a diferença.
Assim, Luca deixou o castelo a passos rápidos,
sem sequer olhar para os soldados que lhe batiam
continência enquanto abriam, confusos, o portão
principal da propriedade.
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N Sofria de dor de cabeça


O DIA SEGUINTE I SADORA SE LEVANTOU TARDE .
e estava muito enjoada.
Não se lembrava da última vez em que acordara tão
indisposta depois de uma festa.
As criadas a auxiliavam a se vestir para o
almoço. Alguns de seus convidados ainda estavam
no castelo e partiriam apenas no final da tarde. Ela
não tinha nenhuma vontade de se juntar a eles, mas
não seria de bom tom deixá-los aguardando. Estava
de pé, próximo à janela, enquanto seus cabelos
eram trançados. Até mesmo a luz do sol a

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incomodava. Gostaria de passar o dia deitada. Não


tinha ânimo para mais conversas e bebidas.
Ao sair de seus aposentos, foi escoltada por um
soldado da sua guarda, permanecendo o outro à
porta. Sentou-se à mesa juntamente com Luis
Augusto e alguns hóspedes. Depois do almoço,
pediu licença a avisou que precisava descansar.
Estranhou a ausência de Luca. Normalmente ele já
estaria acordado e a acompanharia na parte da tarde
– ponderou.
No cair da noite, ela recebeu algumas pessoas
na antessala de seu quarto, que vieram se despedir.
Foi simpática, como de costume, porém sem muita
animação. Quando ficou sozinha, Maria chegou e
lhe perguntou, educadamente, se poderia trazer as
crianças, pois Branca chamava pela mãe. Com a
expressão cansada, disse que sim.
Instantes depois, os príncipes adentraram o
cômodo e permaneceram por aproximadamente
uma hora com ela. Sua companhia lhe agradava,
trazia-lhe paz. Ouvia suas estórias e se encantava
com o comportamento da caçula, que a abraçava e
não a soltava até a hora em que era levada para seu
quarto.
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Foi se deitar logo em seguida. Apesar de ter


passado boa parte do dia descansando, estava
exausta. Seu corpo parecia não ter energia e ela era
consumida por muito sono.
Na manhã seguinte, Isadora acordou cedo,
tomou seu café no quarto e quis sair um pouco, ir
até os jardins. O dia estava nublado e ventava.
Contudo, sentia-se sufocada e precisava deixar
aquele cômodo por um momento. Vestiu-se e se
dirigiu até a saída de seus aposentos. À porta
estavam dois guardas. Ela não conseguiu disfarçar a
surpresa ao não ver Luca. Parou por um segundo e,
por impulso, quis lhes perguntar onde estava seu
capitão da guarda, mas desistiu. Não seria digno
dela, demonstrar que percebera a ausência de um
de seus soldados.
Continuou, com ar de confusão, até os jardins.
Andou próximo às muralhas e, chegando perto das
torres de observação, olhou a cidade mais embaixo.
Via a fumaça das chaminés subindo pelos telhados e
ouvia ao longe o burburinho das pessoas que
iniciavam mais um dia de trabalho. Vislumbrou o
horizonte cinza e pensou que logo seria inverno
novamente. Virou-se para voltar ao castelo e pensou
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em Luca. Era muito incomum aquela ausência!


Sentiu-se, então, ansiosa, começando a perceber que
havia algo errado.
Encontrou Maria no corredor, que ia verificar
se as empregadas já haviam preparado as crianças
para receberem seus tutores. Apressando-se para
alcançá-la, perguntou sem hesitação:
- Maria, onde está Luca?
- Não sei Majestade. Não o vejo desde o sábado
à noite. – respondeu, franzindo a testa.
- Como desde sábado? E você não me fala
nada? – disse, já sentindo certa aflição.
- Não pensei que sua ausência por um dia fosse
algo muito importante. – prosseguiu calmamente –
Em todos esses meses, ele nunca tirara uma folga,
então achei natural que escolhesse um dia para
descansar fora do castelo.
- Não há nada de natural nisso! – continuou, já
muito inquieta – Se um capitão da guarda real
resolve descansar, deve pedir permissão à sua
rainha! Vou até o quarto dele! – e se virou
rapidamente para sair.
Nessa hora, Maria segurou seu braço e falou
baixo, em tom de repreensão:
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- Isadora! Você vai até o quarto do seu capitão


da guarda? Não percebe a total inconveniência dessa
atitude?
- Eu preciso saber onde ele está! – explicou,
agitada.
- Volte aos seus aposentos. Vou até lá e depois
lhe informo a respeito.
Ela se dirigiu, então, ao seu quarto
demonstrando nervosismo. Maria a observou e
continuou, sem pressa, seu caminho ao encontro
dos príncipes. Depois de verificar o serviço das
criadas, chamou uma delas e seguiu até o quarto de
Luca, a fim de se certificar de algo que ela já sabia:
ele havia partido.
Retornando, se deparou com a rainha andando,
angustiada, de um lado a outro no cômodo. Assim
que a viu, perguntou-lhe apressadamente:
- Você o encontrou, Maria?
- Não. Seu uniforme estava sobre a cama e o
armário estava vazio. Ao que parece, ele deixou o
castelo.
Isadora sentiu como se o chão faltasse sob seus
pés. Ficou atônita por alguns instantes, percebendo

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o desespero tomando conta de si. Não conseguia


mais imaginar-se sem Luca por perto.
Maria, não transparecendo que tinha pleno
conhecimento da real ligação entre eles e do que
acontecera dias atrás, perguntou encarando-a:
- Por que ele deixaria o castelo, Isadora?
Sempre foi tão dedicado e fiel às suas obrigações...
O que lhe teria desagradado tanto?
Ela se afastou, ainda com a expressão perplexa.
Sentiu suas mãos tremerem e seu peito ser invadido
por forte agonia. Sabia o que lhe desagradara. Não
imaginava que ele seria capaz de deixar seu cargo
em razão daquelas palavras que ela falara sem
sequer senti-las como verdadeiras. Na realidade, em
sua mente inconsequente, não vislumbrava a
hipótese de que alguém pudesse reagir dessa forma
a um ato seu.
Virando-se com lágrimas nos olhos e
demonstrando descontrole, ela exclamou com a voz
entrecortada:
- Precisamos encontrá-lo! Precisamos encontrá-
lo! – seguindo em direção à porta e retornando para
perto de Maria, que a olhava sem externar qualquer
emoção, continuou – Venha! Vamos mandar buscá-
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lo! Ele não pode ir embora assim! É o meu capitão


da guarda! Como ousa abandonar seu posto dessa
forma? Deveria ser preso por isso!
Maria se voltou para as criadas que arrumavam
o quarto e fez sinal para que saíssem. Em seguida,
aproximou-se e falou com seriedade:
- Tem certeza de que essa é a melhor postura
que você pode adotar diante da partida dele?
Mandar prendê-lo? Você realmente acha que ele vai
voltar por causa de suas ameaças de soberana?
Isadora a olhava, consternada. Tapava a boca
com uma das mãos trêmulas e, ao ouvi-la, começou
a chorar, dizendo:
- Maria... Ele tem que voltar! Eu preciso
encontrá-lo! Ajude-me a trazê-lo de volta...
- Acalme-se Isadora! Podemos tentar encontrá-
lo, mas você deve parar de se portar como criança.
É uma rainha, tem responsabilidades e uma imagem
a zelar. Não pode agir como uma menina mimada
que perde um brinquedo. Você precisa entender
que não pode tratar as pessoas da maneira que lhe
aprouver. Todos os nossos atos geram
consequências, ainda que se trate da vontade de
uma soberana. – e, seguindo rumo à porta –
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Comporte-se apropriadamente. Vou tentar obter


notícias dele.
Ela saiu, deixando-a inconsolável em seu
quarto. Passou pelos guardas e foi cuidar de seus
afazeres. Admirou a atitude de Luca e pensou que
seria bom que a rainha ficasse um tempo sozinha,
em reflexão.

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C Luca. Isadora permanecia


-
INCO DIAS HAVIAM SE PASSADO DESDE A PARTIDA DE
todo o tempo em seus
aposentos. Estava abatida e não se alimentava
direito. Pela primeira vez em sua vida, pensava que
talvez tivesse agido de modo incorreto com alguém.
Todos os dias perguntava a Maria se tivera notícias
dele, sendo-lhe informado que não.
Tornara-se tão dependente da presença de
Luca que, agora, sentia como se faltasse uma parte
de seu corpo. Não compreendia exatamente esse
sentimento, pois nunca havia amado realmente um
homem. Suas relações até o momento tinham sido
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superficiais e movidas por um interesse unilateral,


ou seja, duravam até o limite de sua própria
vontade. Era ela quem definia o tempo em que
gostaria de manter a ligação com determinada
pessoa. Quando perdia o entusiasmo, simplesmente
a dispensava.
Maria entrou no quarto e a encontrou sentada
perto da janela, reparando na tarde chuvosa. Estava
em silêncio, pensativa, não prestando atenção em
quem entrava ou saía. Aproximando-se, disse, em
tom atencioso:
- Majestade, precisa se alimentar. As criadas
informaram que há dias você não finaliza uma
refeição...
- Não tenho fome... – respondeu, sem olhá-la.
- Isadora, você tem que reagir. Há assuntos que
dependem de você, como seus filhos, por exemplo.
Não podem ver a mãe em tal estado...
Nesse momento, ela se virou, demonstrando
certo interesse em sua feição triste, perguntando:
- Como estão as crianças, Maria?
- Estão bem, mas sentem sua falta.
- Traga-as aqui mais tarde. Quero vê-las. –
pediu, voltando o rosto para janela. Depois de
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alguns segundos, continuou, com a expressão séria -


Maria, você acha que não sou boa rainha? Que
minha postura não é condizente com minha
posição?
Tentando escolher as palavras certas, bem
como não demonstrar a satisfação ao notar aquela
reflexão, ela respondeu calmamente:
- Acho que você é uma boa pessoa. É
inteligente, tem força e disposição para se portar do
modo que entende correto. Acredito, no entanto,
que precisa avaliar melhor o que se passa à sua volta
e perceber o papel que efetivamente lhe cabe. Julgar
por si própria quais são as necessidades do seu reino
e o que é esperado de você.
Isadora a olhou rapidamente, recostando a
cabeça na poltrona, conservando-se em silêncio.
Maria saiu e mais tarde retornou com os príncipes,
que permaneceram algumas horas junto à mãe,
conversando, sorrindo, brincando. Esta esboçava
certo ânimo, parecendo recuperar um pouco de
suas forças na companhia daquelas crianças que se
apegavam cada dia mais a ela.
No dia seguinte, a rainha se levantou,
alimentou-se um pouco e pediu auxílio para se
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vestir. Tinha o semblante sério e pensativo. Dirigiu-


se até o escritório, escoltada por um de seus
soldados, encontrando o rei com dois de seus
conselheiros mais próximos. Ao vê-la, parou o que
conversava e, franzindo as sobrancelhas, falou com
um leve sorriso:
- Bom dia, minha rainha! A que devo a honra
de sua visita?
- Bom dia Luis Augusto! – contestou,
sobriamente – Apenas passei para saber se algum
assunto importante do reino demanda minha
atenção...
- Não... Não há nada importante no momento...
Está tudo bem?
- Perfeitamente bem. Também quero informar
que começarei a participar das reuniões do
Conselho e de qualquer outro encontro eventual em
que se trate de temas relativos ao governo de
Moreau-Leclerc. – e, encarando-o, continuou,
virando o corpo para sair – Espero que não se
esqueça de me avisar, Luis Augusto.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos,
observando-a deixar o cômodo. Não compreendera
aquela abordagem. Achou incomum a vontade de
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participar dos assuntos de governo, mas não se


importou muito, pois conhecia sua esposa e sabia
que seu entusiasmo não duraria.
Na segunda-feira seguinte pela manhã, Isadora
saiu de seus aposentos e ordenou que os dois
soldados que estavam à sua porta a acompanhassem.
Encaminhou-se para a sala de reuniões, adentrando-
a, com altivez. Os quinze homens que lá estavam se
levantaram, surpresos, fazendo reverência para
cumprimentá-la. Ela seguiu até o lugar à ponta da
mesa, reservado ao soberano, parando de frente
para Luis Augusto que o ocupava. Olhou-o com
seriedade e falou, com leve ironia:
- Acredito que meu marido tenha se esquecido
de me avisar sobre a reunião de hoje...
- Desculpe-me, minha rainha. Imaginei que
quisesse participar das reuniões quando houvesse
assuntos importantes a tratar. – respondeu,
expressando confusão – Hoje cuidaremos de temas
sem muita relevância.
- Ah, sim... Não devo ter me expressado
corretamente. – virando-se para os demais que a
observavam um tanto pasmados, informou –
Passarei a participar de todas as reuniões do
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Conselho e de todos os encontros eventuais que


digam respeito a assuntos de governo. – e se voltou
para Luis Augusto, aguardando que cedesse o lugar
que lhe cabia à mesa.
Ele inclinou levemente a cabeça em
concordância e se afastou da cadeira reservada à
soberana, disfarçando seu descontentamento por ser
retirado do lugar que há muito se habituara a
ocupar.
Isadora se sentou e, olhando à sua volta, disse,
esforçando-se para manter uma postura de quem
tem o controle da situação:
- Muito bem! Podemos continuar.
Depois de aproximadamente duas horas de
relatos e debates, a reunião foi finalizada. Todos se
levantaram e fizeram uma reverência à rainha que
saía do recinto portando-se com superioridade,
seguida por seus dois soldados. Ela caminhava,
séria, pelos corredores em direção aos seus
aposentos, quando visualizou Maria que a olhou
com ar de curiosidade, sem saber de onde ela
retornava com tanta escolta. Assim que se cruzaram,
Isadora segurou com força sua mão, fazendo com
que a acompanhasse em silêncio.
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Entrando na antessala do quarto, sentou-se na


cadeira mais próxima, parecendo que iria desfalecer.
Estava completamente pálida e suas mãos estavam
muito frias. Maria, assustada, perguntou:
- O que aconteceu, Majestade? Não está se
sentindo bem?
- Maria... – começou, respirando pausadamente
– Eu não consigo!
Indo rapidamente até a porta do quarto e
mandando que uma empregada trouxesse um copo
de água, ela voltou a se aproximar e continuou:
- O quê? O quê você não consegue?
- Estive na reunião do Conselho. Não tenho
condições de entender o que devo fazer para
governar... Não sei como tomar qualquer decisão! –
bebendo um pouco da água do copo que a criada
lhe entregava, prosseguiu, demonstrando muito
nervosismo – Eles falaram por horas e eu não
compreendia quase nada! Tenho certeza de que me
olhavam me testando. Sabiam que eu não estava
entendendo coisa alguma! Fiz papel de tola!
- Acalme-se Isadora... – disse com um sorriso,
já mais tranquila – É natural que você tenha certa
dificuldade para se inteirar dos assuntos
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administrativos. O importante é que você deu o


primeiro passo. Tenho certeza de que ninguém a
achou tola. Todos a respeitam. Você é a soberana...
- Não sei, Maria... Talvez eu não tenha
condições de governar...
- Não diga isso. Seja paciente. Logo saberá o
que fazer.
Nas três semanas seguintes, a rainha se ocupou
de outros atos de governo, seja participando de
reuniões com vários conselheiros, ou apenas alguns,
seja indo até o seu escritório – ocupado por Luis
Augusto – para ler documentos importantes. Ainda
não estava familiarizada com a rotina, não
compreendendo muito do que tratavam, mas
mantinha sua postura de soberana, esforçando
intimamente para aprender.
Na saída de um desses encontros, um dos
conselheiros mais antigos, nomeado por seu pai – e
que seu marido mantivera no cargo em razão da
relevância de sua posição no reino –, Senhor de
Tourneville, aproximou-se dela e, com o olhar de
satisfação, colocou-se à disposição para ajudá-la no
que fosse preciso, ressaltando que seria uma honra
servi-la. Com essas palavras de apoio, Isadora se
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sentiu um pouco mais confiante para continuar


naquela jornada que, para ela, parecia
extremamente árdua.
O rei já se mostrava impaciente com aquela
conduta incomum. Estava visivelmente insatisfeito
em ter que ceder o lugar principal nas reuniões do
Conselho e agora percebia que talvez tivesse que
liberar até mesmo o escritório central do castelo,
aquele que havia sido de Felipe. Não entendia a
postura adotada por sua esposa e sentia que esse
novo capricho já durava demasiado.
Em uma tarde, foi até os aposentos de Isadora,
que recebia seus filhos na antessala. Chegou com
muita simpatia, a cumprimentou e, depois de trocar
algumas palavras com os príncipes, sentou-se perto
dela falando com toda a diplomacia que lhe era
habitual:
- Está tudo bem, minha rainha? Tenho notado
você muito cansada ultimamente...
- Sim. Está tudo bem. – respondeu, observando
sua expressão e tentando desvendar suas reais
intenções com aquela visita – Sinto-me muito bem
disposta.
- Vejo que tem passado mais tempo com os
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príncipes...
- Realmente... Quero acompanhar de perto a
formação deles. Além disso, esse contato me faz
bem...
Depois de uma pausa e olhando à sua volta, ele
disse, tentando impor naturalidade à sua voz:
- Gostaria de enfatizar que você pode contar
com todo o meu apoio, sempre. Não acho
necessário que se esgote tanto com assuntos que eu
mesmo posso resolver. Sei que tem muitos afazeres
e não precisa se envolver com questões tão
desgastantes.
Compreendendo o que ele efetivamente
pensava, ela sorriu levemente e comentou com certa
ironia:
- Luis Augusto, assim você me dá a impressão
de que não quer que eu participe da administração
do meu reino...
- De modo algum! – contestou, tentando se
mostrar ofendido com tal insinuação – Quero
apenas que seja feliz, que tenha uma vida mais
tranquila, sem demasiados esforços...
- Não se preocupe. Estou bem. Sei que posso
contar com a sua colaboração e com a dos demais
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conselheiros. – e, levantando-se, no que foi


acompanhada por ele, continuou – Vou descansar
um pouco agora, Luis Augusto...
- Claro, minha rainha! – respondeu, virando-se
para sair.
- Luis Augusto! A partir da próxima semana
vou passar a usar mais meu escritório. Não me
importo de dividi-lo com você, mas preciso de um
pouco mais de espaço. Vou mandar que o
organizem para isso. – disse com a expressão mais
séria.
O rei a olhou por alguns segundos, sinalizando
com a cabeça em concordância e saiu. Já do lado de
fora, respirou profundamente e seguiu a passos
firmes para seus aposentos. Estava muito irritado.
Não apreciara nada a forma como ela o tratara. Não
aceitaria tão facilmente essa diminuição em sua
autoridade.

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N os príncipes no jardim.
A MANHÃ SEGUINTE ,I SADORA ENCONTROU M ARIA E
O dia estava claro, com
apenas algumas nuvens encobrindo o sol, contudo,
o frio já havia chegado, ainda não muito intenso. As
árvores não tinham suas folhas e não se viam flores.
Ela estava com a expressão muito abatida.
Podia-se perceber que havia chorado durante a
noite. Na verdade, chorava praticamente todas as
noites desde que Luca foi embora. Durante o dia
ocupava a mente com seus novos compromissos e
com a atenção que dava aos filhos, mas, quando
estava sozinha, não conseguia parar de pensar nele.
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Nunca imaginara que sentiria tanto sua falta. Às


vezes, parecia que não aguentaria sua ausência e a
ideia de nunca mais voltar a vê-lo a debilitava até
mesmo fisicamente.
Aproximou-se e abraçou as crianças que
brincavam vigiadas por duas empregadas. Em
seguida, juntou-se a Maria, sentando-se em um
banco a poucos metros de distância. Ficou com a
cabeça baixa por alguns instantes e perguntou:
- Maria, tem alguma notícia?
- Não Isadora. – respondeu, sabendo
exatamente sobre o que ela falava.
- Maria, eu preciso encontrá-lo. – continuou
com a voz chorosa e os olhos cheios de lágrimas –
Às vezes acho que não vou aguentar.
- E se ele não a quiser da forma como você o
quer?
- Eu faria qualquer coisa para ele voltar para
mim...
- Mas e se ele não a quiser dessa forma?
Ela a olhou e, em um suspiro, disse com ares
de derrota:
- Ao menos eu poderia me desculpar...
Não falaram mais nada. Depois de um tempo,
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Isadora retornou aos seus aposentos. Naquele dia,


não tinha ânimo. Queria ficar sozinha e dormir o
máximo que pudesse para ver se seu sofrimento
diminuiria.
Pouco antes da hora do almoço, Maria mandou
preparar uma carruagem simples, avisando às
criadas que ficaria fora por algumas horas. Fez todas
as recomendações necessárias para os cuidados com
os príncipes e com a rainha. Vestiu-se
discretamente, usando uma capa com capuz e saiu
acompanhada por um soldado.
Após quatro horas de viagem, ela chegou a
Gravison, situada a aproximadamente cinquenta
quilômetros a oeste de Rocher. Era uma cidade de
médio porte, em uma área plana, com construções
de pedra em tom bege alaranjado, tendo uma praça
central circular, onde se concentrava a maior parte
do comércio. Por estar relativamente próxima à
capital, tinha boa circulação de riquezas, mais
especificamente relacionada à venda de animais para
o abate.
A carruagem entrou em uma das ruas que
terminavam na praça principal, parando em frente a
uma estalagem. Era um prédio de três andares,
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sendo que no térreo funcionava uma taberna em


que se serviam pratos mais simples e bebidas.
Maria desceu, levantou o capuz e adentrou o
recinto. Na porta, olhou à sua volta e logo avistou,
em uma mesa no canto do salão, próximo a uma das
pequenas janelas, um homem que se destacava em
meio aos demais pelo seu tamanho. Luca estava
sentado, sozinho, com um copo e uma garrafa de
vinho. Tinha o olhar baixo, distraído.
Ela sorriu ligeiramente e foi até a mesa.
Parando diante dele, removeu o capuz, dizendo:
- Posso me sentar com você?
Ele ergueu os olhos desinteressadamente e
franziu a testa quando a viu, falando com ar de
surpresa:
- Maria?
- Sim. Sou eu. – e se sentou com um leve
sorriso.
- O que faz aqui? Como me encontrou?
- Você é o capitão da guarda da rainha, Luca.
Não é tão difícil encontrá-lo...
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou,
tentando não mostrar preocupação.
- Não. Nada de grave aconteceu... – depois de
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alguns instantes, continuou – Você sabe por que


estou aqui...
Então, ele se recostou na cadeira, que parecia
pequena para seu corpo, e, adotando sua costumeira
expressão de altivez, disse com seriedade:
- Não vou voltar.
- E vai fazer o quê, Luca? Ficar neste lugar?
Sem um trabalho à sua altura, bebendo todos os
dias?
- Estou aqui por algum tempo apenas. Logo
partirei. Vou encontrar uma ocupação em que eu
me sinta útil.
- Luca, a rainha precisa de você...
- Não, Maria! Ela não precisa! – respondeu,
demonstrando irritação em sua voz – Ela deixou isso
bem claro.
- Pare com isso. Sabe que não é verdade... Você
a conhece e já deve ter percebido que muitas vezes
ela age por impulso...
- Sim, já percebi. Mas não estou disposto a
suportar atitudes impensadas de uma rainha que
mais parece uma criança mimada. Não gosto de
suas brincadeiras...
- Luca, ela precisa de você. – prosseguiu,
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adotando uma expressão mais séria – Isadora é uma


pessoa boa. Cresceu em um ambiente de futilidades,
mas está tentando amadurecer. Ela não vai
conseguir governar sozinha. Não tem a malícia
necessária para identificar eventuais perigos. Nós
dois sabemos que há pessoas muito próximas que
não permitirão tão facilmente que ela exerça o
poder que lhe cabe...
Ele ficou em silêncio, com o semblante sério
enquanto Maria lhe falava. Depois, virou o rosto e
olhou através da janela. Então ela continuou, com a
voz suave:
- Faça o que achar conveniente. Isadora
pergunta por você todos os dias, mas não sabe que
estou aqui. Fique à vontade para tomar sua decisão.
Ela se levantou, girando para sair, porém se
voltou novamente a ele que, pensativo, ainda tinha o
olhar em direção à janela, e falou com tom de quem
conta algo sem relevância:
- Ah sim! Não que lhe interesse, mas, naquele
dia, ela dispensou a companhia do Senhor du Villier
assim que chegou aos seus aposentos.
Ele virou o rosto lentamente quando ouviu o
que ela disse, mantendo uma expressão de frieza,
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como se não se importasse com aquela informação.


Com um leve sorriso, Maria seguiu seu caminho,
retornando à carruagem que a aguardava na porta.
Luca permaneceu ali por mais algum tempo,
tomando seu vinho. Pensou em Isadora, quase
podendo sentir sua presença. Não admitia, e talvez
sequer tinha plena consciência, mas estava mais leve
após a notícia de que ela não se entregara àquele
homem.
Já havia definido que partiria em breve,
provavelmente para outro país, iniciando uma vida
nova e, agora, se via considerando a hipótese de
voltar. Não aprovava o comportamento da rainha e
realmente se irritava com seu modo de viver,
sempre tão inconsequente. No entanto, sentia uma
inexplicável necessidade de protegê-la, de estar ao
seu lado.
Terminou a bebida e subiu as escadas em
direção ao seu quarto. Ao se deitar, de costas,
fechou os olhos e pensou que no dia seguinte
resolveria o que fazer, não sendo capaz de
reconhecer para si mesmo que já havia tomado sua
decisão.

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I julgamento. Esta ocorria de uma a duas vezes por


SADORA SE PREPARAVA PARA SUA PRIMEIRA SEÇÃO DE

mês, a depender da demanda, mas normalmente


apenas na última quinta-feira, sendo presidida pelo
soberano, que julgava, conforme sua consciência,
alguns casos considerados mais graves.
Em Moreau-Leclerc ainda não havia muitas leis
disciplinando direitos e obrigações de seus
habitantes, então eram várias as divergências entre as
pessoas de mesmo nível social, já que não havia
insurgência de plebeus contra nobres, pois estes
deviam ser sempre obedecidos.
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A rainha estava vestida sobriamente, em um


vestido de veludo azul marinho com decote mais
fechado – mesmo porque o clima já era frio –,
portando uma pequena coroa dourada com pedras
preciosas sobre o cabelo preso em um coque.
Aguardava que viessem avisá-la quando a sala de
audiência já estivesse preparada para sua chegada.
Sentou-se perto da lareira, pensativa. Estava
indisposta naquele dia, sentindo-se muito fraca, sem
energia, contudo não deixaria de cumprir sua
obrigação. Desde a morte de seu pai, era Luis
Augusto quem realizava essa atribuição. Ele gostava,
pois se sentia ainda mais poderoso decidindo o
destino das pessoas. Quando Isadora lhe
comunicou que também assumiria esse encargo, ele,
pela primeira vez, não conseguiu disfarçar seu
descontentamento.
Ela não se preocupou. Percebera que seu
marido estava tendo dificuldades para aceitar sua
nova postura, mas acreditava que estava fazendo o
certo. Permitia que ele a auxiliasse, considerando
sua opinião sobre os assuntos do reino. Entretanto,
já sentia, com mais naturalidade, que a ela cabia
governar e, por isso, impunha com firmeza suas
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decisões. A cada dia buscava lidar melhor com os


problemas que surgiam, sempre ouvindo seus
conselheiros, a fim de aprender como resolvê-los.
Sabia que ainda lhe faltava muito conhecimento
para estar segura com sua atuação, porém já
começava a gostar dessa nova fase de sua vida.
Uma criada veio informar que tudo estava
pronto. Ela se levantou com ares de cansaço,
dirigindo-se até a porta de seu quarto. Ao passar
para a antessala, ergueu os olhos, quando viu Luca,
em seu uniforme negro da guarda real, que a
esperava, próximo à saída. Ela parou, olhando-o
com o coração disparado. Seus lábios se
entreabriram em expressão de surpresa e, durante
alguns instantes, não acreditou no que estava à sua
frente. Por uma fração de segundo, pensou que
estivesse sonhando ou imaginando aquela cena.
Muito sério, ele fez uma rápida reverência e
continuou a encará-la, em silêncio. Isadora, com a
respiração acelerada, falou, quase que em um
suspiro, andando apressadamente em sua direção:
- Luca...
Ela queria se jogar em seus braços, beijá-lo,
segurá-lo, para que nunca mais a deixasse.
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Aproximou-se muito dele e parou, repentinamente,


sem saber exatamente como se portar. Sentia como
se seu peito fosse explodir e queria chorar de
alegria, de desespero, de saudade. Não sabia o que
falar ou fazer. Desejava se explicar, implorar para
ele voltar, mas tinha medo de não conseguir se
expressar corretamente. Com as mãos trêmulas de
nervosismo, o olhou e começou com a voz
entrecortada:
- Luca... Onde você esteve? Eu... Eu queria lhe
dizer que sinto muito... Que eu... Que eu nunca
mais... – baixando os olhos e voltando a fitá-lo,
continuou, em tom de súplica – Luca, faço qualquer
coisa... Qualquer coisa para você voltar...
- Eu voltei. – respondeu com a voz calma,
mantendo sua expressão de seriedade – Estarei aqui
enquanto Vossa Majestade achar que meus serviços
são necessários.
Ela o encarou por alguns instantes e, com um
sorriso, disse:
- Obrigada.
Então, Isadora seguiu pelos corredores até a
sala de audiência, com Luca e mais dois soldados
logo atrás. Uma alegria tão forte tomou conta dela
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que já não sabia se conseguiria se concentrar em


seus afazeres. Ainda tinha medo de perceber que
aquele reencontro era fruto da sua imaginação.
Durante todo o dia, por diversas vezes, seus olhos o
buscaram, como para se certificar de que ele
realmente estava ali.
Era como se seu corpo tivesse recobrado parte
da energia. Com Luca ao seu lado, ela se sentia apta
a realizar qualquer tarefa. Nada de ruim poderia lhe
acontecer! Não pensava em como seria tê-lo tão
perto sem poder tocá-lo. Naquele momento, queria
apenas sentir sua presença, saber que podia contar
com ele.
Logo o inverno chegou a Moreau-Leclerc.
Muitas das atividades oficiais foram reduzidas e o
reino se preparava para as festas de Natal. Isadora
determinou que se organizasse um grande jantar
para a data, convidando, como de costume, os
nobres de maior prestígio no país, além dos amigos
mais próximos.
Uma semana antes, ela começou a recepcionar
alguns dos convidados que ficariam hospedados no
castelo. Realizava pequenos eventos, contudo, não
tinha disposição para permanecer por muito tempo,
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pois havia assuntos que gostava de tratar


pessoalmente, apesar de as reuniões do Conselho
estarem suspensas até meados de janeiro.
Na noite de Natal o salão principal estava
enfeitado para a festa. Depois do jantar, as mesas
seriam retiradas para dar espaço à dança. A rainha
terminava de se vestir, observando pela janela os
pequenos flocos de neve que começavam a cair.
Tinha o ar sereno, mas expressando leve
preocupação, enquanto Maria trançava seus cabelos.
Usava um vestido verde com detalhes em dourado,
combinando com o arranjo em ouro que levava na
cabeça. Quando se viu pronta, perguntou:
- As crianças já estão preparadas Maria?
- Sim. Já vou mandar trazê-las.
- Que bom. Não quero deixar as pessoas
aguardando por muito tempo mais.
Após alguns instantes ela saiu, juntando-se aos
príncipes na antessala do quarto. Cumprimentou
Luca com um sorriso e seguiu até à porta do salão
com seus três filhos, encontrando-se com o rei para
adentrarem o cômodo.
A família real jantou reunida e, depois de mais
um tempo, as crianças foram levadas aos seus
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aposentos. Luis Augusto tomou Isadora pela mão e


a conduziu até o centro do salão para dançarem a
primeira música. Então, os demais convidados se
juntaram a eles, seguindo a festa com muita
animação.
O rei demonstrava estar se divertindo, no
entanto externava certo incômodo. Não era mais o
único a ser procurado para falar de assuntos
importantes. Muitos dos presentes já se reportavam
à rainha quando precisavam tratar de questões
relevantes de suas regiões.
Ela dançou algumas músicas, mostrando-se um
pouco cansada. Olhou à sua volta e, pedindo licença
ao grupo com o qual conversava, foi avisar ao
marido que já iria se retirar. Depois procurou Luca,
que estava a alguns metros. Dirigiu-se à saída
acompanhada por ele.
Seguiam pelos corredores quase lado a lado.
Ela aparentava nervosismo naquele momento,
parecendo querer falar algo importante. Olhava-o
brevemente, mas desistia.
Ao chegarem aos aposentos reais, ele abriu-lhe
a porta, entrando em seguida na antessala do quarto.

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Isadora deu mais alguns passos e se deteve.


Respirou profundamente e se virou, dizendo:
- Luca... Eu queria... – parou, olhando para ele
que a fitava, demonstrando atenção.
- Sim, Majestade?
- Eu... – e, baixando os olhos, continuou com
um sorriso desconcertado – Queria lhe desejar Feliz
Natal.
- Obrigado. – respondeu com simpatia – Feliz
Natal, Majestade.
Ela inclinou a cabeça, sorrindo, e se virou,
seguindo para o quarto. Luca a observou deixando o
cômodo e depois foi até a janela admirar a noite
escura de inverno. Sentia-se bem, em paz. Ficou ali
por mais algum tempo e, então, chamou um de seus
soldados para substituí-lo.

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O chegava,
FRIO INTENSO JÁ SE DISSIPARA E A PRIMAVERA
trazendo um clima mais ameno.
Rocher voltava a se movimentar com o comércio e a
circulação de pessoas. A rainha seguia com seus
compromissos, sem problemas graves a resolver.
Luis Augusto já não mantinha tão tranquilamente
seu ar de subordinação à soberana. Ainda que com
polidez, ousava discordar dela em algumas reuniões,
irritando-se quando sua opinião não era acatada.
Isadora havia, inclusive, dispensado alguns dos
conselheiros de confiança de seu marido, chamando
a retornar outros que, acreditava, lhe seriam mais
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úteis. O rei ficara furioso com essa decisão,


chegando a pedir explicações. Via sua autoridade
diminuir a cada dia e já demonstrava grande
insatisfação. Ela, agora usando de diplomacia, lhe
explicava que apreciava muito seu auxílio, mas que
preferia ter à sua volta conselheiros com
pensamentos mais próximos aos seus.
Eles se tratavam com educação, porém a
verdade era que não mais se entendiam. Luis
Augusto não aceitava perder o poder que exercera
por muito tempo e Isadora já percebera isso.
Mantinha-o na cúpula do governo para auxiliá-la,
deixando claro, no entanto, quem era a real
governante.
Tendo em vista o clima mais agradável, a rainha
resolvera que sairia do castelo, vez ou outra, para ir
a alguns pontos da cidade. Sempre gostara de andar
por Rocher e queria levar seus filhos a terem essa
experiência, a fim de que, diferentemente dela,
soubessem o que há fora dos muros da fortaleza,
aprendendo a se comportar longe da proteção de
sua residência. Por isso, Luca reforçara sua guarda
pessoal, incluindo soldados bem treinados para
protegerem os príncipes.
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Era quinta-feira e Isadora se preparava para


mais uma seção de julgamento. No último mês
esteve estudando, por sugestão de seus conselheiros,
a edição de algumas leis que viessem a regular a
atividade do comércio e o direito de propriedade,
com o objetivo de reduzir os conflitos observados
no país. Embora julgasse lides mais relevantes,
percebia que muitos problemas poderiam ser
evitados se houvesse regras a serem seguidas. Não
via necessidade de que certas contendas fossem
submetidas a ela. Pretendia reduzir a análise do
soberano a casos realmente mais complexos.
Vieram avisá-la que a sala de audiências já
estava pronta para recebê-la. Ela saiu,
cumprimentando seu capitão da guarda que a
esperava na antessala, seguindo para o cômodo
onde se encontravam aqueles que traziam seus casos
para serem julgados.
Era uma ampla sala retangular, com janelas em
uma das paredes, tendo uma grande porta aberta
para o pátio do castelo, onde ficavam vários
soldados fazendo a vigilância e controlando o acesso
das pessoas. A rainha se sentava em um trono
posicionado na extremidade oposta à entrada e seus
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súditos aguardavam em pé ou acomodados nas


cadeiras disponibilizadas a alguns metros adiante.
Dois soldados ficavam mais perto dela, de frente
para o público, e outros quatro estavam distribuídos
pelo espaço. Luca se deslocava pelo cômodo,
reparando no movimento, orientando seus
subordinados, e, às vezes, também se posicionava
próximo dela.
Nesse momento, ele estava em um lugar
oposto, podendo contemplá-la. Nos últimos tempos
se impressionava com a autoridade que ela
desenvolvera. Preocupava-se, pois sabia que suas
decisões não agradavam a todos e, por isso, quando
suas atividades envolviam o contato com mais
pessoas, ele redobrava a atenção.
A rainha ouvia o relato de dois súditos sobre
uma controvérsia a respeito de uma propriedade
rural. Enquanto falavam, ela começou a se sentir
incomodada, parecendo faltar-lhe ar. Passou a
respirar profunda e pausadamente, mas não via
melhora. Suas mãos estavam frias e notava que seu
corpo perdia força. Olhou ligeiramente para o lado,
chamando um criado, pedindo-lhe um copo de água
e mandando que abrisse todas as janelas.
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Luca percebeu que havia algo errado com ela.


Observava-a fixamente e podia notar que estava
muito pálida. Aparentava não se concentrar nas
pessoas à sua frente, demonstrando certa agitação.
Ele começou a andar devagar, pela lateral do
salão, em sua direção, reparando que ela estava com
a respiração um pouco acelerada e passava as mãos
pelo pescoço, como que tentando afrouxar a pesada
capa que usava sobre seu vestido. Aproximou-se,
circundando o trono por trás, parando à sua
esquerda e olhando, à frente, as pessoas que faziam
comentários umas com as outras.
Chegando-se um pouco mais, falou, com a voz
baixa:
- Majestade... Está tudo bem?
Isadora virou o rosto e o olhou com a
expressão de que não o enxergava direito.
Respirando com dificuldade, levantou-se,
estendendo-lhe a mão, dizendo:
- Luca... Ajude-me... – e desmaiou.
Rapidamente ele a segurou, suspendendo-a em
seu colo, com cuidado, enquanto ouvia o
burburinho dos súditos espantados com a cena que
presenciavam. Virou em direção à saída e, voltando-
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se a um dos secretários que auxiliavam naquele


compromisso, disse com a voz firme:
- Cancele a sessão. Mande avisar Maria que a
rainha passou mal e que a estou levando para seus
aposentos.
Um tanto assustado, o homem acenou com a
cabeça, enquanto Luca seguiu apressado com
Isadora inerte em seus braços.
Ao chegar ao quarto, colocou-a, delicadamente,
na cama e se afastou um pouco, sem saber o que
fazer. Olhou à sua volta, percebendo as criadas
muito inquietas e nervosas ao verem a rainha
naquele estado.
Logo Maria chegou, andando rapidamente, e
fez sinal para que todas saíssem. Passou por ele, que
fitava Isadora com ar de preocupação e,
aproximando-se dela, segurou suas mãos, notando-
as muito frias. Demonstrando ansiedade, ele
começou:
- Maria, não sei o que aconteceu... De repente
ela ficou muito pálida, parecendo não conseguir
respirar normalmente...
- Está tudo bem, Luca. Abra as janelas e me
ajude a levantá-la para tirar essa capa...
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Depressa, ele foi até as janelas e retornou à


cama, sentando-se na beirada para melhor sustentá-
la, enquanto Maria desatava os laços que prendiam a
pesada capa que levava sobre o vestido em tecido
mais fino. Quando essa parte da vestimenta foi
retirada, Isadora abriu os olhos e, começando a
recobrar seus sentidos, falou com a voz fraca:
- Maria... Senti-me...
- Tudo bem, Isadora... Respire
tranquilamente...
Então, Maria desabotoou o vestido, retirando-o,
deixando-a apenas com a roupa de baixo - uma peça
longa de tecido bem leve -, pedindo a Luca que a
ajudasse a se sentar, com as costas apoiadas nos
travesseiros. Ele o fez e se deslocou um pouco,
parando ao lado da cama, observando Isadora que
respirava profundamente.
Segundos depois, virando levemente o rosto
para ele, ela percebeu sua expressão de
preocupação transformar-se em perplexidade.
Estava com os lábios entreabertos, olhando
fixamente para seu ventre avolumado parecendo
não acreditar no que via. Quase sem perceber, ele
caminhou lentamente, aproximando-se da cama,
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para tentar se certificar de que sua impressão era


verdadeira. Baixando os olhos, ela começou:
- Luca...
- Isadora, você está grávida? – interrompeu-a,
franzindo a testa, encarando-a com surpresa.
Nesse momento, Maria se afastou, dizendo:
- Você já está bem agora. Vou deixá-los
conversarem. – e seguiu em direção à saída.
- Luca... Eu quis... Eu não sabia...
- Você está grávida e não disse nada? –
continuou, agitado. Ele a olhou nos olhos,
distanciou-se e tornou a se aproximar com a
expressão angustiada, perguntando – O que você
pensava fazer, Isadora?
- Luca... Eu não podia falar nada... Há quase
dois anos que o rei não toca em mim. Como eu
poderia aparecer grávida em público? Mesmo que
eu seja a rainha, as pessoas não aceitariam uma
criança ilegítima...
- Isadora... O que você pretendia fazer com o
meu filho? Meu filho! Você o abandonaria sem me
falar nada?
- Claro que eu não o abandonaria! Eu... Eu não
tinha como saber se a notícia de um filho lhe
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agradaria... Pensei em criá-lo aqui no castelo, perto


de mim. Nunca lhe faltaria nada...
- Faltaria uma família, uma história de vida!
Você o deixaria crescer pensando que foi rejeitado
pelos pais? Sendo criado como um órfão?
- O que eu deveria fazer? – disse baixando os
olhos. Com a voz chorosa, prosseguiu – Não
poderia assumi-lo como meu filho, mas nunca
deixaria de amá-lo...
Ele a encarou por alguns instantes e, sentando-
se na beirada da cama, afirmou, sério e calmamente:
- Vou querer essa criança. Eu posso criá-la. Não
preciso dizer quem é a mãe. Ao menos ela terá um
pai...
- Você a tiraria de mim, Luca? – perguntou,
com a voz sumida, expressando sincero sofrimento.
- Isadora... Você sabe que, para ela, será
melhor ficar comigo. – contestou, sem olhá-la –
Assim terá o amor de uma família...
Ela não disse mais nada. Virou-se para o lado
oposto, deitando-se com lágrimas escorrendo pelo
rosto. O primeiro filho que amara desde a gestação
não ficaria com ela. Sofria com a ideia, porém sabia
que, de fato, era a melhor solução. Tinha certeza de
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que Luca seria um bom pai. Era íntegro, carinhoso e


tinha bom coração, sendo capaz de proporcionar
um ambiente de cuidado e afeto para essa criança
que logo chegaria.

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F mês para o casteloI de Barbigny. A residência de


ICOU DEFINIDO QUE SADORA PARTIRIA DENTRO DE UM

verão era adequada para que aguardasse a chegada


do bebê. Sendo razoavelmente isolada, permitiria
um maior conforto para ela, que não precisaria de
tantos artifícios para esconder o final da gravidez.
Por ter passado mal na sessão de julgamento,
foi fácil justificar seu afastamento de Rocher.
Disseram que a rainha precisava descansar, respirar
um ar mais puro, a fim de recuperar suas energias.
Maria organizara a comitiva com alguns poucos
criados de extrema confiança e a guarda seria feita
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por Luca e apenas outros quatro soldados também


de indiscutível lealdade e competência.
Uma semana antes de sair, ela marcou reunião
do Conselho, decidindo as questões mais urgentes e
inteirando-se dos assuntos que demandavam sua
atenção. Insistia-se em repreender o Senhor João de
La Valière, pois, segundo o rei, os indícios de sua
insubordinação eram muito evidentes.
Demonstrando-se preocupada, pediu que ele
enviasse um representante do governo para tratar
pessoalmente desse assunto. Ainda era difícil
acreditar que um súdito que sempre fora fiel à sua
família agora estivesse tramando contra sua
soberania.
Também determinou o reforço de seus
exércitos. Achava que o contingente estava muito
reduzido, podendo acarretar a imagem de fraqueza,
incitando alguns a cogitarem a ideia de subversão.
Mandou que se reconvocassem os soldados da
reserva, bem como, se observada necessidade, fosse
dado treinamento a outros. Queria estar preparada
para eventual operação militar.
Finalmente, disse que Luis Augusto, com o
auxílio dos conselheiros, resolveria as questões que
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surgissem durante sua ausência, deixando claro,


entretanto, que problemas mais graves deveriam ser
reportados a ela, para que tomasse a decisão que
entendesse cabível.
Em Barbigny, Isadora pôde se vestir com mais
liberdade. Fazia passeios pelos jardins, sozinha ou
acompanhada de seus filhos, aproveitando o clima
agradável do final de abril. As crianças estavam se
divertindo na propriedade, brincando com os
animais, aprendendo a cavalgar.
Luca estava sempre muito próximo dela. Não
deixava que fizesse esforço algum, sempre
perguntando se estava confortável ou se precisava de
alguma coisa. Ela apreciava essa atenção e, algumas
vezes, se pegava olhando para ele, tão forte e ao
mesmo tempo com tanta sensibilidade, e desejava
não ter nascido princesa. Naquela hora queria muito
ser uma simples plebeia, sem obrigações ou imagem
pública com que se preocupar, podendo optar por
aproveitar suaves momentos de ternura com seu
homem.
Em uma tarde de junho, quando o sol já estava
mais baixo, Isadora andava pelo jardim lateral do
castelo, colhendo, distraidamente, algumas flores.
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Tinha a expressão calma, mas um tanto cansada,


pois naquele estado avançado da gravidez já não
dormia bem. Luca a acompanhava a pouca
distância. De repente, ela parou, levando a mão à
barriga, com a respiração suspensa. Ele se
aproximou rapidamente e, apreensivo, perguntou:
- Está tudo bem? Sentiu alguma coisa?
Ela o olhou, com um sorriso, e, em um
movimento instintivo, pegou sua mão posicionando-
a em seu ventre, falando:
- Está sentindo? O bebê está se mexendo...
Ele ficou em silêncio por uns segundos e,
então, externando animação, respondeu:
- Sim! Eu posso senti-lo!
Ela sorria, divertindo-se com a empolgação
dele. Teve muita vontade de abraçá-lo, beijá-lo, de
se aninhar em seu peito. Segurava sua mão e aquele
simples toque a fazia se lembrar de como o queria.
Ele a fitou por alguns instantes, sentindo seu coração
bater mais forte. Viu-se mais perto dela quando
disse quase em um sussurro:
- Isadora...
- Sim... – respondeu, ansiosa com aquela
proximidade.
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Ele a olhou nos olhos, com a expressão de que


falaria alguma coisa, porém recuou, removendo
delicadamente sua mão. Baixando a cabeça,
completou:
- Saiba que vou cuidar muito bem desse bebê...
Ela suspirou, adotando um ar de tristeza.
Sentiu-se voltando à difícil realidade. Então, disse
com sinceridade, sem encará-lo:
- Tenho certeza disso, Luca... – e se virou para
retornar ao castelo.
Na última semana de junho, a rainha acordou
com contrações. Era sinal de que o parto se
aproximava. Maria organizou o quarto, chamando
duas criadas e a parteira, e arranjou ocupação
externa para as crianças.
Depois de horas, o bebê ainda não havia
nascido. Ela saiu dos aposentos reais, encontrando
Luca muito tenso, andando de um lado a outro na
antessala contígua. Quando a viu com o semblante
levemente angustiado, perguntou apressadamente:
- Maria! O que está acontecendo? Essa demora
é natural?
- O tempo de um parto é muito relativo. A
demora em si não é sinal de problema. No caso, o
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que me preocupa é que a criança não está na


posição certa...
- E o que se pode fazer? – continuou, com
grande nervosismo.
- A parteira tem muita experiência e sabe lidar
com casos mais complicados. – respondeu tentando
manter a voz serena. E, retornando ao quarto,
prosseguiu – A nós só resta aguardar.
No final da tarde, Luca estava sentado em uma
cadeira perto de uma das janelas. Tinha o corpo
inclinado para frente, com os cotovelos apoiados
nos joelhos e as mãos segurando o rosto. Com os
olhos fechados, esforçava-se para permanecer
calmo. Não suportava mais aquela espera. Podia
ouvir que Isadora sofria e a sensação de impotência
o estava consumindo.
Respirava profundamente quando ouviu um
choro. Levantou a cabeça, sentindo uma alegria
tomando conta de si. Seu bebê havia nascido! De
pé, aguardava ansioso por notícias. Pensava em
Isadora, precisava saber como ela estava. Instantes
depois, Maria saiu do quarto e informou
animadamente:
- Uma menina!
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Ele sorriu e, aproximando-se, perguntou:


- Como está Isadora?
- Está muito cansada. Foi um parto difícil, mas
vai se recuperar... Aguarde mais um pouco e poderá
vê-las.
Logo após, as criadas e a parteira deixaram os
aposentos e Maria o convidou a entrar. Ele sentia o
coração acelerado. Passou devagar pela porta,
visualizando Isadora na cama à frente, com as costas
apoiadas em alguns travesseiros e o bebê no colo.
Estava muito debilitada e acariciava suavemente o
rostinho da criança que se encontrava bem calma
naquele momento. Quando ele se acercou, ela o
olhou com um sorriso abatido e disse:
- Veja a nossa menininha...
Luca vislumbrou o bebê e sorriu. Um sorriso
tão aberto e sincero como nunca se tinha visto.
Jamais se sentira tão feliz em sua vida e demonstrava
isso. Aproximou-se, sentando-se na beirada da cama
ao lado de Isadora e, em uma reação espontânea,
inclinou lateralmente o corpo para repousar
suavemente sua cabeça sobre a dela. Admirou a
criança por alguns instantes, virou-se, beijando a

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testa e o rosto da mãe que o olhava contente, e


comentou:
- Ela é linda!
- Não quer segurá-la um pouco?
Ele se afastou e, com delicadeza, pegou o bebê,
acomodando-se em uma cadeira perto da cama.
Isadora recostou a cabeça no travesseiro, apreciando
aquela cena e, com a expressão abatida, perguntou
depois de alguns segundos:
- Como vai chamá-la?
- O nome dela é Isabel. – respondeu, olhando-a
com carinho.
Ela sorriu, percebendo a semelhança com seu
nome. Então seu semblante ficou mais sério e seus
olhos se encheram de lágrimas. Baixando o rosto,
falou, com a voz fraca:
- Luca... Preciso descansar um pouco... Maria o
ajudará com Isabel... – e se virou, externando
esgotamento.
Nos três dias seguintes, Isadora ainda não havia
se recuperado. Perdia muito sangue, não se
alimentava suficientemente e parecia cada vez mais
fraca. Passava a maior parte do tempo deitada,
dormindo, e quando se sentava na cama, tinha
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dificuldades até mesmo para manter os olhos


abertos.
Em uma manhã, comentou com Maria sobre
sua mãe. Nunca a havia mencionado. Sabia que
tinha morrido pouco depois do parto e agora, talvez,
se sentisse próxima a ela. Estava melancólica, dando
a impressão de que sua alma deixava seu corpo.
Não tinha forças para lutar contra aquele estado.
Isabel era cuidada e alimentada por uma ama
de leite e aparentava ser muito saudável. Os
príncipes estavam bem, mas Luis Felipe, apesar de
não falar, demonstrava compreender que havia algo
errado acontecendo. Não se contentava com a
simples informação de que sua mãe estava
indisposta, insistindo para vê-la.
Luca tentava manter a calma, porém sua
angústia era visível. Enquanto Maria passava o dia
com a rainha, ele a vigiava durante toda a noite.
Assim que ela dormia, ia até o seu quarto observá-la.
Não sabia o que fazer para ajudar e a ideia de sua
morte o atordoava. Sentia como se sua própria força
vital estivesse se esvaindo com o agravamento do
estado de saúde dela.
Quatro dias depois do parto, no final da tarde,
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Isadora havia apresentado uma suave melhora.


Alimentara-se e recebera rapidamente Luis Felipe
em seus aposentos. Conversou com ele por alguns
minutos, fazendo-o prometer que se comportaria
apropriadamente e que tomaria conta dos irmãos
enquanto ela estivesse doente.
À noite, Luca entrou com cuidado em seu
quarto, que estava levemente iluminado por algumas
velas. Aproximou-se da cama, percebendo-a
acordada. Ela o olhou com serenidade e disse:
- Oi... Veio cuidar de mim?
- Achei que estivesse dormindo... – respondeu,
mortificado ao vê-la tão debilitada. Sentando-se na
cadeira ao lado da cama – Está se sentindo melhor?
- Não quero me sentir melhor... – falou,
enquanto se ajeitava, elevando um pouco o corpo,
recostando-se nos travesseiros – Meu pai me disse
que a melhora é sinal de que a morte está próxima –
e o fitou com um breve sorriso.
- Isadora... Você deve reagir... Tem que se
recuperar. Há muitas pessoas que precisam de
você...
- Luca... Não acredito que minha recuperação
dependa somente da minha força de vontade...
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- Por favor, não se entregue dessa forma...


Ela o olhou e estendeu a mão, segurando a
dele, pedindo com seriedade:
- Prometa-me que, se eu morrer, você vai
ajudar Maria a cuidar dos meus filhos. Que vai
protegê-los assim como me protege...
- Não fale isso! Você vai cuidar deles! –
respondeu, com agitação.
Sentindo suas forças diminuírem, ela
continuou:
- Luca... Me abraça? Fica comigo até que eu
durma?
Ele baixou os olhos, levantando-se em seguida,
retirando suas botas. Sentou-se na cama, apoiando
as costas nos travesseiros e trouxe Isadora, com
cuidado, para perto de si, abraçando-a forte. Sentia
seu corpo junto ao dele e, com uma das mãos,
acariciava suavemente seus cabelos. Fechou os olhos
e pensou que não seria capaz de viver longe dela.
Após uns minutos, em um sussurro, ela disse:
- Ah, Luca... Como eu te amo!
Ouvindo aquilo, ele sentiu um aperto no peito
e, com a voz baixa, começou:
- Isadora...
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- Shhh... Está tudo bem... Você não tem que


falar nada... Só preciso do seu abraço... –
interrompeu-o delicadamente, já quase pegando no
sono.
Luca ficou em silêncio enquanto notava o
corpo dela relaxando ao adormecer. Não queria
soltá-la, não queria sair dali! Desejava transferir toda
a sua energia para que ela sobrevivesse.
Estava angustiado, perguntando-se por que não
conseguia exprimir o que sentia. Por que era tão
difícil dizer que não via razão em existir se não fosse
para estar com ela?
Quando percebeu, através da janela, que o dia
começava a clarear, ele a afastou suavemente,
deitando-a no centro da cama. Olhou-a por alguns
instantes, acariciando levemente seu rosto. Depois
se levantou e saiu do quarto, sentindo como se se
separasse de uma parte de si.

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N gradualmente, a apresentar
A SEMANA ,
SEGUINTE A RAINHA ,
COMEÇOU
melhora. Conseguia
se alimentar, ficava algum tempo com os príncipes
e, posteriormente, quis fazer passeios pelo jardim. O
pior já tinha passado e, aos poucos, demonstrava
que logo retornaria à sua saúde de antes.
Externava certa tristeza quando se aproximava
de Isabel. Não queria apegar-se tanto a ela, já que
não poderia tê-la tão perto no futuro. Tinha medo
de perguntar a Luca onde pretendia criá-la, sentindo
que não teria forças para suportar eventual notícia
de que ele a tiraria do castelo.
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No final do mês de julho Isadora estava em seu


escritório, abrindo as correspondências que haviam
acabado de chegar de Rocher. O dia estava quente e
abafado e ela olhou, pela janela, as crianças
brincando no jardim. Também viu Luca e Maria
que conversavam à sombra de uma árvore. Sorriu,
pensando em como ele era sempre tão sério. Até
em um momento tranquilo como aquele, seu
capitão da guarda parecia concentrado e alerta.
Sua expressão mudou completamente ao ler
uma carta enviada por seu conselheiro mais
próximo, Senhor de Tourneville. Levantou-se da
cadeira, muito agitada, circundando a grande mesa
de madeira maciça trabalhada, e ordenou a um
criado que estava no cômodo que fosse chamar
Maria e Luca. Estes chegaram rapidamente,
encontrando-a, andando de um lado a outro, com o
olhar furioso. Assim que os viu, falou, muito
nervosa:
- Preparem tudo! Voltaremos amanhã a
Rocher!
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou Maria,
com o ar de confusão.
- Aconteceu! – respondeu, parando diante deles
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com os lábios trêmulos de indignação – Luis


Augusto partiu para o Sul com meu exército! – e
voltando a andar pelo escritório, prosseguiu,
balançando negativamente a cabeça – Não posso
acreditar que ele tenha feito isso! Atacar um súdito
meu, também componente da alta nobreza, sem
minha ordem expressa? Em que ele estava
pensando? Deixei claro que nenhuma decisão
importante fosse tomada na minha ausência!
Pedindo licença, eles saíram, a fim de tomarem
as providências necessárias para o retorno. Isadora
estava extremamente furiosa. Como seu marido
ousava sobrepor-se a ela daquela maneira? Será que
até agora não fora capaz de compreender que ela
era a soberana? Que a ela cabia decidir um assunto
tão delicado?
No dia seguinte, escoltada por sua guarda
pessoal, ela partiu juntamente com seus filhos,
Maria e duas criadas. Os demais empregados iriam
depois. Permaneceu boa parte do trajeto em
silêncio, aparentando inquietação.
Após horas de viagem, chegando ao castelo de
Rocher, ela seguiu rapidamente para o escritório,
mandando o secretário convocar urgentemente seus
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conselheiros. Também queria falar com o seu


representante que fora enviado ao Sul, a fim de
investigar o comportamento do Senhor de La
Valière.
Logo alguns conselheiros chegaram,
encontrando-a em um estado de irritação como
nunca haviam visto. Eles lhe informaram que
nenhum representante tinha sido enviado à região,
pois o rei entendera desnecessário, existindo provas
suficientes de traição. Ao tomar conhecimento dessa
notícia, ela demonstrou ainda mais insatisfação,
perguntando:
- Pois bem! E o que os senhores pensam a
respeito? Ficou realmente comprovado que o
Senhor João de La Valière está cometendo atos de
traição à sua soberana? Posso estar muito
equivocada, mas ainda não consegui me convencer
disso.
Eles se entreolharam, parecendo faltar coragem
para falar o que pensavam, até que o Senhor de
Tourneville, com a segurança que sua posição no
reino permitia, começou a expor, com seriedade:
- Perdoe-me Majestade, mas acredito que o rei
esteja agindo em benefício próprio. Não logrei
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encontrar evidências de que o Senhor de La Valière


esteja realmente se comportando de modo
inadequado contra Vossa Majestade. Há anos existe
uma disputa entre as duas famílias, ambas de grande
influência na região. Com todo o respeito, parece-
me que foram plantados boatos de traição, a fim de
justificar a utilização do exército real para a tomada
das terras de um inimigo pessoal do rei.
Ao ouvir a explanação, a rainha, em silêncio,
levantou-se calmamente, indo até a janela. O
estresse gerado pela fúria que sentira com a atitude
tomada por seu marido agora a fazia pensar mais
claramente. Sabia que Luis Augusto era capaz de tal
ato. Sempre a dominou e acreditou que ela não
tinha capacidade para exercer sua função no reino.
Por anos ele governara ao seu modo e, ao que
parecia, ainda não tinha compreendido que não
possuía mais o poder de antes.
Ela respirou profundamente e, virando-se para
os homens que a observavam com curiosidade, disse
serenamente, adotando a postura de altivez herdada
de seu pai:
- Um mensageiro deve partir hoje em direção
ao Sul. Poderá parar somente quando conseguir
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falar com o Senhor de La Valière. Após, retornará


imediatamente com informações que deverão ser
reportadas a mim. Se eu compreender que Luis
Augusto inventou uma ameaça para utilizar meus
exércitos, então, tomarei uma decisão.
Ela saiu do escritório, acompanhada por sua
guarda, rumo aos seus aposentos. Estava exausta.
Depois de tomadas as primeiras providências em
relação ao problema que a deixara extremamente
nervosa, parecia que seu corpo havia perdido toda a
força.
Antes de se deitar, disse a Maria que trouxesse
as crianças. Não teve coragem de pedir a Luca para
ver Isabel. Em meio às preocupações por que
passava, ainda tinha que se esforçar para
compreender que deveria agir como uma estranha
para aquele bebê que acabara de dar à luz.

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Q UATRO DIAS DEPOIS, O MENSAGEIRO ENVIADO AO


retornava com notícias. Não trouxe apenas
SUL

informação a respeito das intenções de João de La


Valière, mas viera acompanhado de um de seus
filhos. Ao perceber que a rainha queria saber por si
mesma o que acontecia, ele fez questão de mandar
seu próprio filho para que qualquer dúvida quanto à
sua lealdade fosse extirpada.

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Após a audiência com o visitante, Isadora


obteve a certeza que precisava para resolver a
situação. Não permitiria ser tratada como tola por
Luis Augusto! Há algum tempo deixara de ser
manipulada e era hora de ele perceber isso.
Chamou seu secretário e mandou redigir uma carta
a ser enviada aos três generais de seu exército que
haviam partido com seu marido. Nela, determinava
o retorno imediato das tropas, desautorizava
qualquer ação militar contra o Senhor de La Valière
e esclarecia que a desobediência a essa ordem
configuraria traição.
Dias depois, chegou a Rocher a notícia de que
a ação militar havia sido abortada. O rei, juntamente
com alguns destacamentos, já tinha se aproximado
de Brace, o povoado próximo a Sans onde o
suposto inimigo exercia sua influência, e se
preparava para dominá-lo. Apesar de seus protestos,
os generais que, em último grau, respondiam apenas
à rainha, não puderam dar continuidade à
empreitada em desacato a uma ordem expressa
dela.
Em seu escritório, Isadora lia alguns
documentos. Fazia muito calor naquela tarde de
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agosto e ela estava em pé, perto de uma das janelas


da parede oposta à entrada do cômodo, analisando
atentamente os papéis que tinha nas mãos.
Com os braços cruzados, Luca se encontrava a
alguns metros dela, também junto a uma das janelas,
observando o movimento dos criados e soldados na
área externa do castelo. Ele reforçara sua segurança.
Agora, além dele, mais quatro soldados sempre a
acompanhavam. No momento, dois estavam do
lado de fora do escritório vigiando a porta e dois
posicionados em lados opostos da sala, um no canto
da parede logo atrás da mesa e o outro em frente, ao
lado da lareira.
Ele sabia que o rei não ficaria satisfeito com a
interrupção de seus planos militares e acreditava
que, por precaução, era melhor aumentar a
proteção da rainha. Esta não via necessidade em
tantos soldados dentro de sua própria casa, porém
não discutia esse tipo de medida.
De repente, ouviram-se fortes passadas no
corredor e, subitamente, a porta do escritório se
abriu com violência. Em um sobressalto Isadora se
virou, percebendo Luis Augusto, ainda vestido com
parte da armadura militar, que adentrava o cômodo
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com a expressão transtornada. Ele olhou à sua volta,


vendo-a adiante, e seguiu rapidamente em sua
direção com uma postura ameaçadora, levando a
mão à espada, e começou a falar com a voz muito
alta:
- Isadora! Como se atreve...
Nesse momento, os dois soldados que se
encontravam no local se dirigiram até ela, e Luca,
que estava quase ao seu lado, avançou à frente,
também com a mão em sua espada, posicionando-se
diante do rei, impedindo-o de prosseguir. Este
parou, encarou-o com o olhar furioso e ordenou:
- Saia da minha frente! Se ousar me tocar eu o
mato!
- Perdoe-me, mas se Vossa Majestade tocar na
rainha eu que serei obrigado a matá-lo... –
respondeu, muito sério, também em tom
ameaçador.
Os soldados que vigiavam a porta agora se
juntavam aos outros dois, permanecendo todos
próximos, com as armas em punho. Luis Augusto e
Luca se olhavam como que aguardando um
movimento para atacarem. Isadora deu um passo à
frente e, com a voz calma e o rosto elevado, disse:
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- Está tudo bem. Tenho certeza de que o rei


não ofenderia sua soberana...
Os soldados se afastaram um pouco, mantendo
a posição de alerta. Depois de alguns segundos,
Luca recuou, girando o corpo, permitindo o acesso
à rainha. Esta fitou o marido com seriedade,
perguntando:
- E então? O que dizia Luis Augusto?
- Como você se atreve a me desautorizar
perante meus soldados? – continuou, extremamente
irritado – Eu estava em meio a uma operação
militar, protegendo os interesses do reino!
- Você agiu com total desconsideração da
minha vontade! Levou meu exército para uma
operação que nada dizia respeito aos interesses do
reino! Eu que lhe devo perguntar: Como se atreveu
a me desobedecer, Luis Augusto?
- Desobedecê-la? – prosseguiu, parecendo não
acreditar no que ouvia – Apenas porque resolveu
brincar de rainha, acha que tem autoridade para
governar, para dar ordens a mim?
Aproximando-se um pouco mais dele, ela
respondeu, encarando-o com superioridade:
- Sim, Luis Augusto. Sou a rainha e tenho
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autoridade para governar e, sim, no que se refere


aos assuntos do reino eu posso lhe dar ordens.
Ele a olhava, irado. Seus punhos se fecharam e,
por uma fração de segundo, pareceu que iria atacá-
la. Ela, no entanto, não recuou. Naquele momento,
incorporava toda a imponência e soberania presente
nos governantes de sua família há gerações.
O rei balançou a cabeça negativamente e,
adotando uma expressão que misturava indignação e
ironia, falou:
- Ah, Isadora... Não sou homem de esquecer
tamanha ofensa...
Então, virou-se para sair, deu alguns passos e,
parando diante de Luca, o fitou com desprezo,
dizendo com um sorriso sarcástico:
- Você se acha importante? Logo ela se cansará
e o trocará por outro brinquedinho... – e continuou
andando apressadamente em direção ao seu quarto.
Isadora o observou sair. Depois baixou os
olhos, respirou profundamente e foi até a mesa
deixar os papéis que tinha nas mãos. Com o
semblante cansado, seguiu aos seus aposentos,
escoltada pelos cinco homens que ali estavam.
Chegando à antessala, Luca passou à frente e
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abriu-lhe a porta, entrando logo atrás dela, fazendo


sinal para que seus soldados aguardassem do lado
de fora. Aproximando-se um pouco mais, começou,
apreensivo:
- Majestade, perdoe minha intromissão, mas
devo dizer que não acho prudente que o rei
continue no castelo... O incidente de hoje deixou
claro que ele pode representar uma ameaça à sua
segurança.
- Não posso expulsá-lo daqui, Luca. – explicou
com ar de desânimo - Ainda que eu não queira mais
vê-lo, nossas famílias firmaram uma aliança, um
acordo nada fácil de rescindir...
- Isadora, realmente peço desculpas por insistir.
– continuou, ainda mais junto dela – Tenho
consciência da impropriedade de me dirigir assim a
você. Entretanto, preciso dizer que a proximidade
do rei e o fácil acesso que tem a tudo aqui são fatos
preocupantes. Perto de você, ele terá muito mais
liberdade para executar algum plano de ataque e
será mais difícil protegê-la.
Ela o olhou por alguns instantes e, mesmo
ciente da gravidade da situação, não conseguiu
deixar de pensar em como apreciava a preocupação
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externada por aquele homem. Sabia que Luca era


um excelente profissional e não tinha como
imaginar se todo esse cuidado advinha da
necessidade de bem exercer sua função, ou se ele se
importava com a mulher por trás da rainha. De
qualquer modo, gostou daquela sensação.
Afastando-se um pouco, foi até a janela,
pensativa. Depois, disse, virando o rosto para ele:
- Luca, nunca pense que não pode manifestar
sua opinião. Já demonstrei a importância que você
tem para mim... – e, voltando os olhos para a janela,
prosseguiu – Vamos aguardar um pouco. O castelo
é grande, não preciso encontrar Luis Augusto com
frequência. Não posso ordená-lo a sair daqui. Além
disso, não acredito que seja capaz de atentar contra
a minha vida...
Então, virou-se e sorriu, informando que iria
descansar. Pediu para avisar Maria que trouxesse as
crianças para vê-la. Ele concordou com a cabeça, fez
uma rápida reverência e a observou entrar no
quarto. Em seguida, abriu a porta, mandando que
dois soldados ficassem na antessala e os outros no
corredor, próximos à entrada.
Estava realmente preocupado. Não insistiria
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com Isadora. Ela sabia qual a melhor postura a


adotar. Ele, no entanto, tomaria as medidas de
segurança que entendia necessárias.

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N calmos.
AS SEMANAS SEGUINTES, OS ÂNIMOS ESTAVAM MAIS
Quando no castelo, Luis Augusto
passava bom tempo em seus aposentos com seus
servos mais leais. Às vezes, saía com eles a cavalo,
sem escolta oficial, ficando fora por horas. Não fazia
questão de se encontrar com Isadora ou de
participar de qualquer evento.
Ela, por sua vez, se permitia relaxar um pouco,
aproveitando o clima mais ameno de setembro em
momentos ao ar livre com seus filhos e alguns
amigos mais próximos da nobreza local. Faziam
piqueniques ou se reuniam para um chá no jardim
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e, ainda, saíam para cavalgar nos arredores de


Rocher.
Luca havia aumentado tanto a sua segurança
como a dos príncipes. Para os eventos externos,
cerca de vinte soldados faziam a escolta. Dentro do
castelo, dez permaneciam em constante alerta. Ele
não conseguia afastar a ideia de que o rei pudesse
atentar contra ela e, assim, tinha sua atenção
redobrada.
Além disso, Maria organizara os serviços de
modo a fiscalizar todo o preparo dos alimentos que
seriam servidos a Isadora, bem como restringira o
acesso ao seu quarto a poucas criadas de extrema
confiança.
Em menos de duas semanas aconteceria o
tradicional festival em comemoração à chegada do
outono. A rainha mandara organizar a estrutura para
as peças de teatro e palcos para os músicos tocarem.
Com o grande aumento do número de pessoas na
cidade, determinou que tropas de seu exército
fizessem rondas constantes, a fim de inibir o
cometimento de crimes, reforçando, ainda, a
segurança aos nobres que viriam das regiões de
Moreau-Leclerc para participarem da festa.
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Ela levaria seus filhos à comemoração, fazendo


o percurso habitual. Sairiam do castelo, passando
por algumas ruelas já preparadas de Rocher até a
grande catedral. Permaneceriam na praça por algum
tempo e depois retornariam pelo caminho
demarcado.
Na sexta feira anterior ao evento, alguns
convidados já se encontravam na cidade, sendo que
os mais próximos ficariam hospedados no castelo.
Como usual, promoveu-se um jantar para
recepcioná-los. Haveria boa comida, bom vinho e
muita dança.
Isadora estava vestida com elegância e, ao
entrar no grande salão, acompanhada por seus três
filhos, não pôde deixar de ser admirada. Os traços
delicados de seu rosto haviam adquirido um ar de
seriedade que lhe atribuía um brilho diferente.
Além da sua beleza, sempre objeto de comentários,
agora ela exalava autoridade, poder, verdadeira
soberania.
Minutos depois da sua entrada, assim que se
acomodava à mesa reservada à família real, Luis
Augusto chegou ao salão. Ela ficou surpresa, pois

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não esperava que ele resolvesse participar daquele


evento.
Percebendo que o rei vinha na direção de
Isadora, Luca se acercou mais dela, que o olhou e,
notando sua expressão de preocupação, sinalizou
sutilmente com a cabeça, indicando para que o
deixasse se aproximar. Então, ele parou a alguns
metros, reparando com atenção em cada
movimento de Luis Augusto que, com o ar mais
sério do que lhe era de costume nesse tipo de
ocasião, a cumprimentou, sentando-se ao seu lado.
Eles jantaram praticamente em silêncio.
Posteriormente, as crianças foram levadas para seus
aposentos e o salão foi preparado para dar lugar à
dança. Algumas pessoas conversavam com a rainha
quando o rei se levantou e, demonstrando certa
simpatia, chamou-a para dançar. Ela o olhou com
alguma desconfiança, porém aceitou o pedido,
encaminhando-se, sob a vigilância atenta de seus
soldados, até o centro do cômodo.
Dançaram a primeira música, sendo, logo após,
seguidos pelos demais convidados. Então, ele a
conduziu para a lateral do salão onde havia um
ambiente mais reservado, montado com algumas
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poltronas e uma pequena mesa, dizendo que


precisava falar-lhe algo.
Luca, esforçando-se para manter o ar de
tranquilidade, mas sentido seu corpo tomado por
muita tensão, os acompanhava a pouca distância,
sinalizando para que alguns soldados ficassem mais
próximos.
Luis Augusto parou diante de Isadora, com os
braços para trás, e, quase sem conseguir encará-la,
começou a falar com muita polidez:
- Minha rainha, tenho estado um tanto alterado
e devo pedir-lhe desculpas por meu comportamento
nas últimas semanas... Por isso, decidi que vou
passar algum tempo em Sans, resolvendo assuntos
do interesse de minha família, bem como
descansando um pouco, a fim de retornar a Rocher
com mais disposição para realizar minhas funções
junto ao reino...
Ela o ouvia atentamente, externando certa
confusão. Estranhava aquela postura que não
parecia combinar com seu marido. Então, ele a
olhou nos olhos e continuou, com calma:
- Pretendo levar Luis Felipe comigo...
Instantaneamente o semblante dela mudou e,
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demonstrando inquietação, respondeu:


- Não. De modo algum, Luis Augusto. Não
posso permitir que você leve meu filho...
- Nosso filho, Majestade...
- Sim! Nosso filho! Não posso permitir que
você o conduza para longe, sem dia para voltar...
- Não será por muito tempo. Acho importante
que ele conheça minha família, bem como as terras
que no futuro também lhe pertencerão...
- Não, Luis Augusto! – exclamou já muito
agitada, preocupando-se por não compreender o
que ele pretendia com aquela insistência em tirar
seu filho de perto dela. E, afastando-se um pouco,
prosseguiu - No futuro podemos programar uma
viagem para que os príncipes conheçam as cidades
do Sul, mas não vou deixar Luis Felipe partir
sozinho...
Ele a olhava contrariado, muito irritado.
Aproximando-se em um movimento brusco,
percebeu os soldados ao seu redor e parou,
baixando os olhos. Tornando a encará-la, agora com
um sorriso cínico, disse:
- Como desejar, minha rainha...
Em seguida, fez uma reverência, olhou à sua
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volta e se retirou o salão. Isadora, muito nervosa,


procurou por Luca, encontrando-o logo atrás de si.
- Luca! Mande buscar as crianças
imediatamente! Quero que durmam no meu quarto
esta noite!
Falando isso, deixou seus convidados que
dançavam animados naquela noite agradável,
seguindo apressadamente em direção aos seus
aposentos.

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S a rainha observava, com um sorriso calmo no,


ENTADA PERTO DE UMA DAS JANELAS DE SEU QUARTO

rosto, seus filhos que terminavam de ser preparados


pelas criadas para partirem ao festival. Branca já
estava pronta e aguardava, aninhada no colo da mãe,
com seu vestidinho rosa bordado em dourado.
Isadora usava um vestido em tecido mais leve,
bege claro, tendo o cabelo trançado e uma delicada
coroa de ouro com pedras preciosas, combinando
com o clima aprazível que fazia naquela manhã de
domingo.

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Admirava os meninos em seus trajes azul-


marinho com os símbolos dinásticos. Luis Felipe era
mais reservado, até um pouco tímido. Muito
inteligente e concentrado, passava uma imagem de
seriedade. Já Guilherme era agitado e sorridente,
demonstrado, ainda pequeno, apreciar uma boa
diversão.
Pensava no quanto se apegara àquelas crianças
nos últimos tempos e se preocupava com a intenção
de seu marido de levar o mais velho para o Sul.
Tinha certeza de que não era pelo simples desejo de
ter a companhia do filho. Temia que estivesse
querendo afastá-lo como uma forma de atingi-la.
Ao que tudo indicava, o rei havia deixado
Rocher no dia anterior, mas Isadora tinha um
pressentimento ruim. Não sabia explicar. Sentia
como se algo estivesse errado. Receava que ele
ainda tentasse levar o menino.
Maria chegou à antessala dos aposentos reais
onde se encontravam cinco soldados da guarda,
além de Luca que estava em pé próximo à porta do
quarto, aguardando para partir. Acercando-se dele,
sorriu e, entregando-lhe um envelope pequeno,
disse:
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- Bom dia Luca. Deixaram-lhe esta mensagem


na entrada do castelo... – e continuou seu caminho
para ver se a rainha e os príncipes precisavam de
ajuda.
Instantes depois, ela voltou a abrir a porta,
saindo com as crianças e três empregadas. Logo em
seguida vinha Isadora que, ao vê-lo, cumprimentou-
o com um sorriso. Ele fez uma rápida reverência,
guardou o bilhete no bolso e girou o corpo para
acompanhá-la, quando, então, ela parou e,
chegando mais perto, perguntou, com a voz baixa:
- Você vai levar Isabel para o festival?
- Sim. Ela estará lá...
- Que bom. – respondeu, adotando uma
expressão animada, seguindo adiante.
A rainha e os príncipes se dirigiram à porta
principal onde se encontraram com os nobres que
também partiriam dali em uma grande comitiva até
a catedral no centro da cidade. Os homens
montaram em seus cavalos, as mulheres e as
crianças ocuparam doze carruagens, sendo todos
escoltados por vinte soldados da guarda real.
Durante o trajeto eles eram saudados com
muita empolgação pelos súditos que esperavam às
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margens das ruelas de Rocher ou nas janelas das


casas. Admiravam a beleza do evento e se
satisfaziam com os acenos daquelas pessoas de
extrema importância.
Chegando à catedral, os soldados abriram
caminho para que os convidados ilustres pudessem
passar, posicionando as carruagens e os cavalos logo
em frente à saída principal, a fim de facilitar a
partida após o cumprimento da agenda oficial.
Depois que a família real e os demais
integrantes da nobreza adentraram o recinto, foi
liberado o acesso do público em geral. Se até
mesmo as pessoas de nível mais elevado se
impressionavam com a grandiosidade e beleza da
catedral gótica - com suas imensas paredes e colunas
de pedra acinzentada e vitrais coloridos -, a sensação
que ela causava na população simples era
indescritível. Viam-se ascendendo a um ambiente
celestial.
Após a celebração, o grupo se dirigiu para a
praça lateral, onde ocorria a feira. Maria
supervisionava as criadas que cuidavam dos
príncipes reais, enquanto a rainha, acompanhada de

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nobres e membros do clero, falava com expositores


e fazia o percurso tradicional do soberano.
Em determinado momento, sua atenção se
desviou para uma pequena rua perpendicular àquela
praça. Várias pessoas seguiam por ali e se podia
notar que havia um palco onde se desenvolvia uma
peça de teatro. Ela sorriu levemente ao se lembrar
de que, dois anos atrás, foi aquele caminho que a
levou a conhecer Luca.
Instintivamente seus olhos o buscaram,
estranhando que não estava ao seu lado. Percebeu-o
alguns metros à sua direita e sentiu seu peito gelar
quando o viu cumprimentando uma mulher com
um abraço. Eles sorriam, conversando
animadamente, muito próximos.
Ela baixou o rosto, voltando imediatamente a
fitá-los. A mulher se vestia com roupas simples, sem
cores ou enfeites. Era alta, tinha longos cabelos
negros e o corpo com curvas e seios avantajados.
Tocava-o e gesticulava muito enquanto lhe contava
alguma coisa.
Isadora já não mais ouvia as pessoas à sua volta.
Não prestava atenção no que lhe diziam. Sorria e

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concordava com a cabeça, contudo, era evidente


que algo a incomodava.
Sentia suas mãos trêmulas de ansiedade,
tentando disfarçar quando ele olhava em sua
direção. Não sabia o que fazer. A vontade que tinha
era de ir até lá pedir satisfação. Como ele
abandonava seu posto, deixando-a desprotegida,
para conversar com alguém? Não esperava essa
atitude dele, sempre tão profissional!
Praticamente no mesmo instante, via-se tomada
por tristeza, pois compreendia que não tinha o
direito de lhe pedir qualquer explicação. Ele era
livre para conversar com a mulher que quisesse.
Nesses meses de convivência após o retorno de
Luca, ela procurava não pensar na hipótese de vê-lo
com alguém. Contentara-se em estar junto dele,
ainda que sem poder tocá-lo ou tê-lo como desejava.
Até então, havia comodidade em sua situação, pois
ele passava o tempo todo ao seu lado. No entanto,
agora, ela percebia que poderia chegar o dia em que
tivesse que tomar uma posição quanto à relação
pouco convencional que tinham.
Desde o momento em que o vira
cumprimentando a mulher, haviam se passado
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poucos minutos, mas o turbilhão de emoções e


pensamentos que a inundaram fazia parecer que
aquilo já durava horas.
Então, notou que ele chamava a criada que
segurava Isabel no colo. A mulher, com a expressão
muito animada, pegou a criança, comentando algo.
Nesse momento, Isadora sentiu seu rosto em brasa.
Observava atônita, com os lábios entreabertos,
aquela cena. Ele tinha deixado a mulher pegar sua
filha! Ela, a mãe, não podia ter esse tipo de contato,
mas uma desconhecida era capaz de se aproximar
daquela forma!
Percebendo que Luca a olhava, baixou o rosto
e, ao erguê-lo, viu que eles vinham em sua direção.
A mulher ainda tinha Isabel no colo. Nos segundos
transcorridos até que eles se aproximassem, ela
tentava controlar sua agitação. O que ele pretendia?
Apresentar-lhe sua amiga íntima? – cogitava.
Ao pararem diante dela, a mulher fez uma
respeitosa reverência, enquanto ela fitava Luca,
tentando mostrar-se simpática, porém visivelmente
ansiosa. Ele falou:
- Majestade, com sua permissão, gostaria de lhe
apresentar Catarina, minha irmã mais nova.
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Ouvindo isso, ela voltou os olhos para a mulher


que, sem ousar encará-la, disse:
- É uma honra conhecê-la, Majestade.
Sentindo seu corpo relaxando, Isadora sorriu
aliviada, cumprimentando-a com leve inclinação da
cabeça, falando:
- Sua irmã, Luca? Não sabia que tinha uma...
- Tenho três, Majestade...
Repentinamente, adotando uma expressão
preocupada, ela perguntou:
- Ela veio levar Isabel?
- Não. De modo algum! Isabel nunca sairá do
nosso... do meu lado. – consertou rapidamente –
Meu cunhado precisou tratar de algumas questões
em uma cidade próxima e decidiram vir até Rocher
para o festival. Catarina já sabia que eu tinha tido
uma filha, então quis conhecê-la...
- Ah, sim... – respondeu com simpatia e,
dirigindo-se à mulher – Espero que tenham gostado
da capital.
- Gostamos bastante, Majestade. Muito
obrigada.
Ela entregou Isabel à empregada, despediu-se
de Luca e pediu licença à rainha, pois deveria se
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encontrar com o marido para partirem de volta ao


Sul.
Isadora observou Luca por alguns instantes,
pensando em como o amava naquele momento.
Ele, por sua vez, retribuiu o olhar de cumplicidade,
percebendo a satisfação dela ao saber que sua filha
não seria afastada da sua convivência. Então, notou
a criada que, timidamente, se encontrava ao seu
lado, e, virando-lhe o rosto, disse para retornar ao
castelo com a criança.
Assim, a rainha continuou seu trajeto, voltando
a prestar atenção em sua agenda oficial. Ao ser
perguntada a respeito da ausência do rei, respondeu
que ele precisara viajar com urgência para resolver
assuntos familiares. Lembrando-se dele, tornou a se
sentir apreensiva, tendo a sensação de que algo
estava errado.
Finalizados os compromissos, a nobreza
começou a retornar às carruagens. A rainha e os
príncipes estavam em frente à entrada principal da
catedral, também se preparando para regressarem,
quando ela, demonstrando certa inquietação,
aproximou-se de Luca, dizendo:
- Luca, preciso que você cuide das crianças
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hoje. Escolte-as até o castelo. Estou com um mau


pressentimento... Não entendi por que Luis Augusto
mencionou levar Luis Felipe com ele. Tenho medo
de que ainda esteja por perto e que pretenda me
atingir usando meus filhos...
- Majestade, não acho prudente deixá-la.
Podemos colocá-los na mesma carruagem e
partimos todos juntos...
- Designe seus melhores soldados para me
acompanharem. – interrompeu-o. E, segurando
discretamente em sua mão – Por favor, Luca! Só
confio em você para protegê-los... Espero estar
enganada, mas o interesse repentino do rei em meu
filho me deixou preocupada. Leve-os agora para que
não chamem tanta atenção...
Ele a encarou, cogitando argumentar. Não lhe
parecia certo afastar-se dela naquele tipo de evento.
Entretanto, ainda que se demonstrando contrariado,
cedeu ao pedido, dizendo:
- Tudo bem. Vou deixá-los no castelo e volto
para acompanhá-la.
- Obrigada. – respondeu, com um sorriso.
Escolheu três soldados para seguirem com ele,
deixando quatro ao lado da rainha, enquanto os
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demais já estavam posicionados junto às carruagens


para fazerem o percurso de volta.
Determinou que levassem o transporte dos
príncipes até a saída da parte de trás da catedral. Lá,
as crianças embarcaram juntamente com as
empregadas que cuidavam delas e Maria fez as
recomendações necessárias, retornando para unir-se
a Isadora. Eles partiram por uma pequena rua
paralela à principal por onde passaria a comitiva.
Havia muitas pessoas espalhadas pela cidade,
dificultando um rápido deslocamento. Aquele
percurso que, nos dias normais, era feito em dez
minutos, já demorava vinte. Ao se aproximarem do
castelo, o movimento foi diminuindo e a carruagem
pôde ganhar um pouco mais de velocidade.
Assim que a guarda real que fazia a segurança
da entrada principal percebeu que os príncipes
retornavam, começou a abrir o pesado portão. Luca
já instruía os soldados para permanecerem com as
crianças, preparando-se para dar meia volta, quando
se ouviu um grande estrondo, como um forte
trovão, vindo do centro da cidade.
Por alguns segundos, todos ficaram paralisados.
Logo após o barulho tudo parecia em silêncio e,
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momentos depois, gritos abafados começaram a ser


notados. Um dos soldados que estava na torre de
observação gritou:
- Há fumaça surgindo em meio às casas!
Luca sentiu como se seu coração parasse de
bater. Todos os músculos do seu corpo se retraíram
em forte tensão e ele murmurou:
- Isadora...
Virou-se rapidamente para os guardas,
ordenando enquanto posicionava seu cavalo para se
dirigir ao centro da cidade:
- Protejam os príncipes! Fechem todos os
acessos e redobrem a segurança!

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L entre as casas, entre as pessoas curiosas. que


UCA CAVALGAVA COM MUITA VELOCIDADE PASSAVA
não
sabiam se iam até o local da confusão ou se se
protegiam à distância. Tomado por forte emoção,
não pensava ou enxergava claramente. O caminho
parecia ter ficado muito longo e ele tentava manter o
foco, evitando imaginar o que deveria ter
acontecido.
Conforme se deslocava pela rua principal, por
onde o cortejo passaria, começou a perceber muita
poeira, pessoas machucadas, construções
danificadas. Não conseguia se locomover em meio
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aos caos. Assim, desceu do cavalo e seguiu a pé,


abrindo caminho diante do povo desorientado, logo
avistando as carruagens reais bastante avariadas.
Acercou-se rapidamente, encontrando vários
dos nobres que compunham a comitiva real muito
feridos, pedindo socorro, enquanto outros sequer se
mexiam. À frente, a destruição era ainda maior. As
carruagens que estavam mais no centro do cortejo
haviam-se despedaçado. Pessoas se encontravam no
chão e outras tentavam ajudar como podiam.
Luca tinha a respiração acelerada e buscava
desesperadamente por Isadora. Vendo um dos
soldados da escolta andando em meio ao tumulto,
puxou-o pelo braço e perguntou pela rainha. Ele
informou que não a tinha visto.
Então seguiu na confusão de gente e destroços.
Tinha sua força multiplicada pela ansiedade,
conseguindo arrancar facilmente portas e pedaços
das carruagens e levantar pedras que rolaram de
algumas casas tentando encontrá-la. Já mais perto da
catedral, em local menos atingido pela explosão, ele
se aproximou de outro soldado, indagando, com a
expressão muito alterada:
- Onde está a rainha?
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- Não a vi! Parece que foi levada para o castelo!


Luca olhou à sua volta, pegou um cavalo da
guarda real que vagava por ali e se dirigiu em grande
velocidade ao castelo, utilizando ruas secundárias,
mais fáceis de percorrer naquele momento.
Tinha seu corpo dominado por extrema
angústia. Depois de ver o estado das carruagens,
lutava para controlar seus pensamentos. Nunca
sentira tanto medo. A ideia de encontrar Isadora
sem vida ou mortalmente ferida lhe causava pânico.
Ele chegou ao castelo, passando rapidamente
pela entrada principal, e, saltando do cavalo, andou
pelos corredores até os aposentos da rainha, sem ver
nada ou ninguém à sua frente. Seu corpo parecia
mover-se sozinho, motivado pela indescritível
ansiedade que tomava conta dele. Internamente,
pedia, implorava para que ela estivesse bem.
Ao entrar na antessala, viu os quatro soldados
que havia destacado para acompanharem-na. Não
quis perguntar qualquer coisa, seguindo diretamente
para o quarto. Sem ser anunciado ou se preocupar
com qualquer formalidade, abriu bruscamente a
porta, quando avistou Isadora à sua frente, em pé,

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sendo auxiliada por duas criadas que retiravam suas


joias e começavam a desamarrar seu vestido.
Ela estava de costas e, com a entrada repentina
dele, virou-se em um sobressalto. As empregadas se
assustaram e pararam o que faziam, constrangidas
com a presença de um homem no quarto da rainha.
Por alguns segundos, Luca ficou paralisado,
olhando-a, sentindo como se toda a força que
movera seu corpo até ali agora se esvaísse. Então,
andou rapidamente até ela, expressando desespero e
disse, quase sem voz:
- Isadora... Eu pensei...– e a abraçou forte,
envolvendo-a completamente. Afastou-se um pouco
para olhá-la nos olhos e, acariciando seu rosto
pálido, continuou – Eu pensei que tivesse
acontecido alguma coisa ruim... – e, voltando a
abraçá-la – Eu falhei com você...
- Estou bem, Luca... – tranquilizou-o,
aproveitando aquele abraço – Está tudo bem... Você
não falhou em nada...
Ele a soltou, observando suas mãos trêmulas e
as pegou, notando-as muito frias, dizendo:
- Sim, eu falhei... Nunca deveria tê-la deixado!
Era minha obrigação antever uma situação dessas.
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Não fui capaz de protegê-la. – encarando-a,


prosseguiu – E se tivesse acontecido algo grave com
você? Como eu me perdoaria?
Ela deu um sorriso triste e, percebendo que as
criadas ainda estavam no cômodo, fez sinal para que
saíssem. Depois falou, demonstrando cansaço:
- Luca, você cuida muito bem de mim... Se algo
ruim houvesse acontecido, nunca seria por sua
culpa... Tive sorte porque o Senhor de Tourneville
descobriu a tempo o plano de Luis Augusto.
Infelizmente não conseguimos avisar aos demais...
Adotando uma expressão de fúria, ele se
distanciou dela e, andando de um lado a outro no
quarto, exclamou:
- Eu sabia que ele poderia fazer algo desse tipo!
Como pude ser tão irresponsável? Sou seu capitão
da guarda! Eu deveria ter descoberto uma
conspiração de atentado contra a sua vida... Como o
Senhor de Tourneville tomou conhecimento?
- Traição. Um conselheiro do reino, nomeado
por Luis Augusto e que participou do plano,
resolveu contar no último momento. Eu já estava
me dirigindo para a carruagem, quando o Senhor de
Tourneville me chamou para retornar à catedral e
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me expôs tudo... Acredito que, em meio à confusão,


acharam que eu já tinha embarcado e mandaram
seguir o cortejo. Quando ordenei que avisassem aos
demais e que afastassem a população da rua
principal onde estavam os explosivos, era tarde.
Então os soldados nos escoltaram rapidamente até a
carruagem do Senhor de Tourneville, que estava em
uma rua secundária, e nos trouxeram imediatamente
para cá...
Luca estava extremamente nervoso. A
constatação de que um ato de pura sorte salvara
Isadora o inquietava. E se o delator não tivesse se
arrependido no último minuto? Ela poderia estar
morta agora! Parando diante dela, disse, muito sério:
- Vou prender Luis Augusto! O encontrarei
onde estiver e o trarei para julgamento!
- Não Luca! – respondeu agitada, com o
semblante aterrorizado – Não! Não quero que você
se arrisque! Ele está em Sans, provavelmente em
alguma fortaleza da família...
- Não terei paz enquanto ele estiver solto. A
qualquer momento pode atentar novamente contra
a sua vida!
Aproximando-se dele e segurando suas mãos,
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ela pediu, aflita:


- Por favor, não vá, Luca! Deixe que meu
exército cuide disso. Você tem que ficar aqui,
comigo!
- Isadora... – continuou, com mais suavidade –
Não posso permitir outra ameaça contra você. Não
vou falhar novamente. Parto hoje com suas tropas e
vou trazê-lo para responder pelo que fez.
Ela o fitava com olhos lacrimejantes. Sentia
pavor ao pensar na hipótese de perdê-lo. Nesse
momento, tão próxima e sem se preocupar com
mais nada, passou os braços em volta do seu
pescoço, puxando-o para encontrar seus lábios. Ele
a segurou pela cintura, abraçando-a forte. Beijaram-
se vagarosa e apaixonadamente por alguns instantes.
Ela tinha o rosto molhado por lágrimas e não
queria soltá-lo. Ele se afastou delicadamente,
dizendo, sem encará-la:
- Preciso ir... Tenho que organizar as tropas...
- Luca... – chamou, fazendo com que ele a
olhasse nos olhos – Prometa que vai voltar para
mim! Prometa-me!
- Eu vou voltar, Isadora...
Assim, ele saiu do quarto, indo se reunir com
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alguns conselheiros, a fim de se inteirar dos


procedimentos que seriam adotados para a captura
do rei. Deixou a sala de reuniões com tropas sob o
seu comando. Soldados com treinamento especial
que se juntariam às forças de segurança do Senhor
João de La Valière que se encontravam em Brace,
cidade vizinha a Sans, os quais, sabia-se, estavam à
inteira disposição da rainha.

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E distraidamente
M SEU ESCRITÓRIO, A RAINHA OBSERVAVA
a chuva que caía naquele dia
cinza de outubro. Seus conselheiros tinham deixado
o cômodo havia pouco, após uma reunião marcada
para tratar das medidas mais urgentes a serem
tomadas para amenizar os estragos causados na
cidade pelo atentado.
As crianças estavam em um canto da sala, tendo
lições com dois tutores. Nos últimos dias, ela os
queria próximos, temendo eventual ameaça que
pudesse surgir. Até mesmo Isabel estava ali, muito
esperta e encantadora com suas bochechas rosadas.
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Com a partida de Luca, Isadora mandou que a


criada a trouxesse para perto. Naquele momento
não se importava com o que as pessoas poderiam
pensar.
Sua angústia era evidente. Havia mais de uma
semana que recebera a notícia de que seu exército
sitiara a fortaleza de Cligancourt, próximo a Sans,
onde estava o rei, acompanhado dos soldados da
força de segurança de sua família. Depois disso, ela
não soube de mais nada. No dia anterior resolvera
enviar um mensageiro a fim de lhe trazer
informações com mais frequência.
Sentia medo do resultado desse combate. Era
fato que Luis Augusto não tinha muito apoio nessa
empreitada. Nem mesmo os aliados de sua família
ousaram dar-lhe suporte em um ato de traição tão
vil contra a soberana. Entretanto, temia um
confronto direto entre ele e Luca. Embora este fosse
superior em força, aquele era extremamente
habilidoso com a espada.
Foi despertada de seus pensamentos pela voz
de Luis Felipe que, chegando bem perto, falava:
- Majestade...
- Sim, Alteza? – respondeu, virando-se com um
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sorriso triste.
- Não se preocupe... Enquanto o Senhor Luca
estiver fora, eu vou protegê-la...
Por alguns instantes ela o olhou, sentindo um
amor imenso invadir seu peito. Segurando as
lágrimas, sorriu e o abraçou forte, dizendo:
- Que bom, meu querido! Que bom que a
mamãe tem você para protegê-la...
Em Cligancourt, após duas semanas de sítio, as
tropas da rainha, juntamente com os soldados do
Senhor de La Valière, se preparavam para invadir a
fortaleza. Derrubariam o portão principal, abrindo
passagem para a cavalaria. Luca e um grupo dos
melhores soldados entrariam e prenderiam o rei
que, provavelmente, se encontrava em seu
escritório, protegido por sua guarda.
Algumas horas depois, a entrada foi liberada.
Soldados de ambos os lados se embrenhavam em
uma luta corporal no pátio logo após o portão. A
cavalo, outros homens passaram, seguindo em
direção ao palácio. Mais guardas foram encontrados
no caminho, até que Luca chegou ao escritório de
Luis Augusto. Este estava parado, com os braços
para trás, olhando através da janela a batalha que
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acontecia lá embaixo. Ainda não era noite, mas o


tempo chuvoso deixava o cômodo mais escuro,
sendo iluminado por raios vacilantes de velas
colocadas em alguns pontos.
Ao perceber a porta se abrindo com violência,
o rei se virou calmamente, avistando Luca que, com
a espada em punho, informou, muito sério, sem
encará-lo:
- Majestade, viemos levá-lo a Rocher para
julgamento pelo crime de traição contra a rainha.
Luis Augusto o olhou com um sorriso e,
afastando-se um pouco da janela, falou, com ironia:
- Não posso acreditar que ela tenha mandado
você! O brinquedinho preferido!
Sem lhe dar ouvidos, ele andou alguns passos
adiante, dizendo:
- Vossa Majestade está preso! Deve nos
acompanhar...
- Você sabe que não os acompanharei a lugar
algum... – interrompeu-o ainda com a voz calma e
sem olhá-lo, retirando sua espada da cintura,
enquanto circundava a grande mesa de madeira.
Então, parando de frente para ele, a alguns metros
de distância, continuou em tom provocador – Você
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está achando que será rei? Que será capaz de


governar Moreau-Leclerc apenas porque domina a
rainha na cama? Não... Você vai durar até que ela
encontre outro que a divirta mais. Você não é nada!
– e contentou-se ao perceber que Luca ficava
irritado.
- Majestade... – começou, encarando-o com o
olhar de desprezo – Eu o levarei a Rocher vivo ou
morto. A única escolha que lhe resta é a forma
como entrará na cidade...
O rei sorriu cinicamente e, aproximando-se um
pouco mais, disse, olhando-o nos olhos:
- Sabe o que é mais interessante, Senhor Luca
Malmont? Que foi bom ter sido você a vir me
buscar porque me darei o prazer de deixá-lo saber
que, após matá-lo, seguirei até Rocher para me
encontrar com a rainha e cortarei lentamente aquele
delicado pescoço que você tanto aprecia e, depois
de vê-la sangrar até seu coração parar, acabarei com
uma bastardinha que mora naquele castelo...
Luca viu seu corpo sendo tomado por tamanha
fúria como nunca antes havia experimentado. Seus
maxilares se contraíram e sua mão se fechou com
força no punho da espada. Sem ver ou ouvir mais
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nada à sua volta, avançou em direção a Luis Augusto


que sorriu satisfeito, colocando-se em posição de
combate.

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I permeado por pesadelos. Há dias que não dormia,


SADORA ESTAVA DEITADA EM UM SONO MUITO LEVE

bem e, naquela madrugada de céu limpo, sentia seu


corpo precisando de descanso, mas sua mente em
funcionamento frenético.
Assustada, abriu os olhos com uma sensação
estranha, como se mais alguém estivesse no quarto.
Respirou profundamente e se ajeitou nos
travesseiros, observando entre as finas cortinas que
fechavam as laterais da cama. Fixando o olhar à
direita, próximo às janelas viu que realmente havia
uma pessoa ali.
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Com o coração disparado e tentando manter a


calma, abriu um pouco mais as cortinas e, depois de
alguns instantes, em meio à fraca iluminação das
velas colocadas pelo cômodo em lanternas, ela
sussurrou:
- Luca... – e, levantando-se rapidamente – Luca!
É você?
- Sim. Sou eu... – respondeu, virando-se
calmamente.
Ela andou até ele ainda expressando confusão,
com medo de que estivesse sonhando. Ao se
aproximar, pôde ver seu rosto e, enchendo-se de
alegria, o abraçou forte, dizendo:
- Ah... Luca! Que bom que voltou! Eu já não
suportava mais a agonia de não saber o que
acontecia...
Ele a abraçava, acariciando seus cabelos. Ela se
afastou um pouco para olhá-lo, perguntando, com ar
de preocupação:
- Está tudo bem? Você foi ferido? Não soube
que o exército já estava retornando. Fiquei muito
aflita sem notícias... E Luis Augusto?
- Está tudo bem... O rei não representa mais
perigo. – distanciando-se, prosseguiu, baixando o
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rosto – As tropas ainda não voltaram, mas precisei


retornar antes porque... Porque não aguentei mais
um dia longe de você...
Ela o olhava com a respiração em suspenso.
Seus lábios se entreabriram e seu peito foi tomado
por grande emoção, quando começou a falar, quase
em um sussurro:
- Luca...
- Isadora, eu te amo mais que a minha própria
vida! – interrompeu-a, aproximando-se mais.
Tocando seu rosto, continuou – Não posso mais
guardar isso para mim... Eu te amo tanto, tanto!
Ela tinha os olhos cheios de lágrimas. Já não
acreditava que algum dia ouviria dele essas palavras.
Como desejara esse momento! Sorriu e, com a voz
entrecortada, disse:
- Ah, Luca! Não conseguiria mais viver sem
você!
Então, ele a beijou intensamente, envolvendo-a
em um abraço terno, apaixonado. Olhava-a nos
olhos e voltava a beijá-la com carinho, parecendo
não entender como fora capaz de afastá-la por tanto
tempo.
Estavam em pé próximos à janela e, com o
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braço direito, ele a firmava contra si, enquanto


segurava seu rosto com a mão esquerda, passando
delicadamente os lábios por seu pescoço, seus
ombros, seu colo, sentindo seu cheiro. Isadora tinha
a respiração acelerada, notando todo o seu corpo
arrepiar e desfalecer de desejo.
Luca a levantou e ela passou as pernas por sua
cintura, prendendo-se a ele, beijando-o com vigor,
enquanto se dirigiam lentamente para a cama. Ele a
deitou cuidadosamente, afastando-se um pouco para
tirar a camisa. Em seguida a despiu, deitando-se ao
seu lado, admirando seu rosto e beijando sua boca,
ao tempo em que uma de suas mãos passeava
suavemente por todo seu corpo, arrancando-lhe
suspiros.
Entregaram-se a um movimento ritmado de
excitação tão intensa, sentindo como se seus corpos
se encaixassem perfeitamente. Luca observava
Isadora e a cada expressão de prazer, parecia amá-la
ainda mais. Ela tinha naquela experiência mais do
que um ato carnal. Era como se suas almas se
fundissem em uma só.
Eles se olhavam, se beijavam, se tocavam,
compartilhando, então, um prazer extasiante
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potencializado pelo amor que sentiam e, nesse


momento sublime, perceberam que pertenceriam
um ao outro para sempre.
Adormeceram abraçados, com serenidade,
aquecidos pelo calor que exalava de seus corpos
ainda sensibilizados.
Isadora começou a despertar com a claridade
do sol que entrava por uma das janelas. Abriu os
olhos devagar e, depois de alguns segundos, sentou-
se em um sobressalto, virando-se rapidamente para
o lado. Vendo a cama vazia, sentiu seu coração bater
mais forte e uma angústia tomando conta de si.
Levantou-se e, olhando à sua volta, chamou,
com a voz fraca:
- Luca?
Por uma fração de segundo ficou parada,
pensando se tinha imaginado todo aquele encontro.
Era impossível! Ainda podia sentir o corpo dele no
seu. Então, dirigindo-se apressadamente à saída do
quarto, notando o desespero crescendo dentro dela,
abriu a porta já quase gritando:
- Luca?
Ao olhar para frente, viu na antessala um
homem grande e forte, vestido em negro, parado
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perto de uma das janelas, que, virando-se,


respondeu com um leve sorriso:
- Pois não, Majestade?
Ela correu até ele, abraçando-o forte e disse:
- Nunca mais faça isso! Eu pensei... pensei...
- Já estava amanhecendo, assim achei melhor
deixar o seu quarto... Não seria adequado que as
criadas me vissem lá...
- Não me importo... – afastando-se um pouco o
encarou, pedindo – Não me assuste dessa forma...
Ele a olhou com ternura e, tocando seu rosto,
falou:
- Isadora, estarei sempre ao seu lado. Sempre!
Ela respirou profundamente, demonstrando-se
mais calma. Então, adotando uma expressão de
malícia, perguntou sorrindo:
- Você sempre estará ao meu lado para tudo o
que eu quiser?
Luca balançou a cabeça e sorriu animadamente.
Aproximou-se mais dela, afirmando:
- Sim, Isadora. Estarei ao seu lado para tudo o
que você quiser, quando você quiser e do jeito que
você quiser...
Divertindo-se com a resposta, ela ficou na
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ponta dos pés e o beijou, passando os braços por


seu pescoço. Ele se curvou um pouco e a envolveu
na altura da cintura, suspendendo-a. Ela falou
baixinho:
- Então vamos voltar para o quarto...
Ele sorriu e voltou a beijá-la, carregando-a em
direção ao cômodo ao lado.

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Q contra a rainha. Era junho e seu aniversário se


UASE UM ANO HAVIA SE PASSADO DESDE O ATENTADO

aproximava. Para comemorar seus vinte e oito anos


ela planejou grandes eventos. Quatro dias de
jantares e encontros diurnos ocorreriam no castelo
para a nobreza que viria de todas as regiões de
Moreau-Leclerc. Alguns representantes de países
estrangeiros também compareceriam, visando, em
última análise, aproveitar a oportunidade para
reforçar ou firmar alianças.
Ela estava na antessala de seu quarto, sentada
numa poltrona em um dos cantos do cômodo,
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lendo um livro. Parou por um instante, levantou-se e


andou até a janela, sentindo a brisa que anunciava a
chegada do verão. Sorriu ao pensar em como era
feliz. Já conseguia exercer suas atribuições com mais
segurança e, com algumas exceções, contava com o
apoio dos seus súditos mais importantes e influentes
no reino. Seus filhos cresciam bem e perto dela, e
tinha o amor de Luca.
Como estaria se não o tivesse conhecido? –
questionou-se. Tantas coisas aconteceram desde
aquela manhã de setembro! Ele não só a salvara de
uma violência naquele dia, mas a fizera despertar
para a vida, enxergar o destino que lhe estava
reservado.
De repente, sua expressão mudou ao se
lembrar de Luis Augusto. Ainda a incomodava
pensar que ele atentara contra ela e pusera em risco
a vida dos príncipes para tomar o poder. Não
conseguiria perdoá-lo pelo que fez, sobretudo por
ameaçar a saúde dos seus filhos.
Ele sabia disso. Tinha plena consciência de
qual seria o resultado do julgamento por traição. Por
isso, ao ser desarmado por Luca após algum tempo
de luta naquela tarde em Cligancourt e ver os
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soldados que adentravam seu escritório, resolveu


tirar a própria vida.
Com o orgulho que lhe era comum, sorriu
ironicamente, dizendo que não daria a ninguém o
prazer de julgar seus atos ou de decidir o seu
destino. Aproximando-se da janela, se jogou da
torre, caindo de costas no chão de pedras
irregulares, em meio àqueles que ainda lutavam no
pátio da fortaleza.
Seus pensamentos foram interrompidos pela
porta se abrindo. Os príncipes entraram, seguindo
depressa até ela, abraçando-a. Maria vinha logo
atrás, com duas criadas, observando satisfeita a cena.
Posteriormente, Luis Felipe e Guilherme se
afastaram e Branca continuou perto da mãe,
olhando através da janela. Maria se acercou e
explicou:
- As crianças quiseram vir antes de passearem
pelo jardim...
Isadora a fitava e, sorrindo, precipitou-se
rapidamente em sua direção dando-lhe um forte e
detido abraço, falando com a voz emocionada:
- Obrigada, Maria... Obrigada por sempre
cuidar de mim e, agora, também dos meus filhos. –
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e, em tom mais baixo, continuou – Dos meus quatro


filhos...
- Isadora, minha vida não teria sentido sem
vocês... – respondeu, também muito comovida.
Elas sorriram e chamaram as crianças para uma
caminhada pelos jardins.
Na noite do aniversário da rainha, o castelo
estava todo enfeitado com flores, velas e tapeçarias
finas. No grande salão, os convidados já aguardavam
quando ela entrou, radiante, com os príncipes e seu
capitão da guarda mais atrás. Vestida em púrpura e
com uma coroa dourada que brilhava sobre o
cabelo preso em um elegante coque, ela expressava
muita alegria.
Depois do jantar, estava sentada em sua
poltrona no espaço reservado à família real,
reparando animadamente nas pessoas que se
preparavam para dançar, enquanto outras vinham
lhe falar. No lugar do rei, à sua direita, Luis Felipe,
atento à festa, já se acostumava à postura de príncipe
herdeiro, futuro soberano. Luca estava em pé do
lado esquerdo dela, um passo à trás, de braços
cruzados, observando o evento.
O Senhor de Tourneville se aproximou, fez
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uma reverência e a cumprimentou pelo aniversário.


Ela, muito sorridente, agradeceu. Depois de alguns
instantes de conversa, ele se distanciou um pouco,
olhou ao seu redor e, voltando-lhe novamente o
rosto, falou:
- Majestade, creio que esteja na hora de se
pensar em um novo casamento. Tomei
conhecimento de que alguns príncipes estrangeiros
se sentiriam honrados por recebê-la como esposa...
Ela sorriu, demonstrando surpresa com aquele
comentário. Discretamente virou o rosto à sua
esquerda, encontrando Luca logo atrás, que a olhava
expressando leve diversão, e, tornando a fitar seu
conselheiro mais fiel, respondeu:
- Senhor de Tourneville, não acredito que
exista um príncipe real suficientemente nobre para
se casar comigo...
Ele não disse mais nada. Inclinou a cabeça
aquiescendo e, com uma rápida reverência, afastou-
se, retornando para o centro do salão, juntando-se
aos demais convidados.
Após dançar três músicas, de seu lugar
reservado Isadora observava Luca que, perto de
uma das paredes do cômodo, vigiava a festa.
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Levantou-se, indo até ele, e disse com um sorriso no


olhar:
- Luca...
- Pois não, Majestade. – respondeu, virando-se.
- Já vou me retirar... Penso que nesta noite seja
importante deixar seus soldados fazendo a
segurança do salão. Acredito que não haverá
problema em ser escoltada apenas por você...
Ele a admirava com um sorriso quase
imperceptível. Mantendo a formalidade, fez um
sinal de concordância, passando instruções para o
soldado que estava mais próximo. Dirigiram-se,
então, calmamente até a saída, deixando o salão
repleto de pessoas que bebiam, dançavam e
conversavam animadamente.
Mais ao meio do corredor, já longe de olhares
curiosos, Isadora diminuiu o passo, fazendo com
que Luca ficasse ao seu lado. Nesse momento, eles
se olharam com carinho e sorriram abertamente,
expressando de modo muito sincero o que sentiam.
Suas mãos se tocaram, seus dedos se entrelaçaram e
eles seguiram felizes, de mãos dadas, aos aposentos
reais.

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Ajovem rei e seu fascinante irmão chega uma


UMA CORTE RICA E VIBRANTE COMANDADA POR UM

princesa estrangeira para assumir a cobiçada posição


de rainha. Educada para se portar como uma dama
exemplar e consciente da importância daquele
casamento arranjado, ela precisa se adequar à sua
nova vida e corresponder às expectativas de todos ao
seu redor.
Percebe rapidamente que apesar dos
ensinamentos que lhe foram passados desde sua
infância, não estava preparada para tudo o que teria
que enfrentar. Encontrando em seu marido um
grande amor, vê-se surpreendida pela existência de
uma bela e poderosa amante que não tem nenhuma
intenção de abandonar os privilégios decorrentes de
uma relação tão próxima com o soberano.
Cobranças, intrigas e decepções acabam por
transformar a doce e inocente rainha, levando-a a
tomar uma decisão inesperada.
Resultados imprevisíveis de uma guerra e o
confronto entre a razão e a emoção produzem
eventos e escolhas capazes de mudar o rumo da
história de uma dinastia secular.

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