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PERIGOSAS NACIONAIS

Academia dos
Anjos
Redenção – Livro 2
Autor: Elaise G. Lima
Capa: Cristiano Lima
Créditos: Freepik

1ª Edição - 2019
Copyright© Elaise G. Lima
elaiselima@gmail.com

Sumário
Prólogo

PERIGOSAS ACHERON
PERIGOSAS NACIONAIS

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
PERIGOSAS ACHERON
PERIGOSAS NACIONAIS

Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Epílogo
Nota da autora
Série Redenção
Outros livros da autora

PERIGOSAS ACHERON
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Prólogo

Estou mais uma vez presa em um lugar


desolado, escuro e frio. O céu é negro e sem
estrelas, apenas com algumas névoas cinzentas
pairando pela imensidão infinita e solitária. Aos
meus pés, a areia é fina e macia. Meus pés afundam
um pouco enquanto caminho. Não há ninguém aqui
além de mim. Não sei como vim parar aqui nem
como ir embora. Então, apenas caminho. Caminho
até me sentir exausta. E quando isso acontece, me
ajoelho nessa areia cinzenta. Sinto vontade de
chorar, mas as lágrimas não caem. Derrotada, me
deito e olho para o céu. A areia em minhas costas é
fria, mas me dá algum conforto. Quero sair daqui,
mas não sei como.
Depois de um tempo contemplando a
escuridão acima de mim, eu me levanto e volto a

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caminhar. É quando noto um vulto a minha frente.


Na verdade, ele está bem distante, mas consigo
discerni-lo já que não há mais nada ao redor.
Depois de muito caminhar, percebo, pela silhueta,
que é um homem. Estranhamente, não sinto medo.
Estou há tanto tempo sozinha neste lugar que
qualquer companhia será bem-vinda.
Ele está vestido todo de negro, mas sua
cabeça está descoberta, e percebo que seus cabelos
são claros.
Paro a dois metros dele e o chamo:
― Ei.
Ele não olha para trás. Tento mais uma
vez.
― Ei, está me ouvindo?
Ele não se mexe, mas percebo que olha
para cima. Me aproximo um pouco mais, até poder
tocá-lo se apenas eu levantar a mão. Mas, antes que
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eu faça isso, ele cai de joelhos e fica de cabeça


baixa. Eu me aproximo e toco em seu ombro. Ele
está trêmulo. Está chorando. Mesmo sem entender
nada, mesmo um pouco confusa, quero confortá-lo.
Quero abraçá-lo. Mas quando estou prestes a ficar
de frente para ele, tudo some.
Acordo com frio. Em um determinado
momento, durante à noite, joguei as cobertas para
longe. Agora eu as recolho e me aqueço. Não sei o
que significam esses sonhos, mas eles estão ficando
cada vez mais recorrentes. E é sempre o mesmo
homem, preso comigo na escuridão, mas nunca
vejo seu rosto, apenas seu cabelo loiro... tão macio.
Quem será ele? Não faço a mínima ideia. Não
tenho respostas para isso. E, ainda pensando nesses
sonhos estranhos, volto a dormir.

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Capítulo 1

As coisas estão acontecendo em um ritmo


muito acelerado. Mal tenho tempo para respirar.
Estamos no final do ano letivo e estou fazendo
malabarismos para recuperar minhas notas, pois no
tempo em que passei desaparecida perdi provas e
trabalhos. Ainda bem que sempre fui boa aluna,
tanto no quesito notas quanto comportamento,
então os professores estão me ajudando bastante. E
Caio também. Ele tem vindo aqui em casa todos os
dias me ajudar.
Sobre o tempo em que passei desaparecida
a polícia não encontrou nenhuma pista. Foi como se
eu tivesse evaporado e, do nada, me materializasse
em frente à minha casa. Psicologicamente falando,
estou bem. Só fiquei um pouco confusa, pois em
quatro meses muita coisa aconteceu e eu não

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participei de nada. Por exemplo, agora o Thales não


sai mais daqui de casa. Durante a minha ausência,
ele praticamente se mudou para cá para ficar dando
apoio à Morgan. E a filhinha dele, a Mia, também
está constantemente aqui. Isso não me incomoda.
Gosto deles. E é bom saber que, quando eu for para
a faculdade, Morgan não estará sozinha.
Ouço uma leve batida na porta do meu
quarto e, em seguida, Morgan entra.
― Nossa, você está muito linda!
― Obrigada, Morgan.
― O Caio já chegou. Está lá embaixo lhe
esperando.
― Ok. Já desço.
Morgan permanece parada me olhando
enquanto termino de prender o cabelo em um rabo
de cavalo. Ela está com uma cara estranha, porém,
parece feliz.
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― O que foi, Morgan?


― Nada.
― Eu sei que tem alguma coisa aí.
Desembucha logo!
― Não é nada sério. É que... eu acho que
você e Caio formam um casal e tanto. Os dois são
lindos. E juntos...
― Espera, espera, espera. Quem disse que
o Caio e eu estamos “juntos”?
― Ah, Stella. Eu não sou boba. Ele não sai
mais daqui, vocês estão sempre nesse quarto...
― Estudando, sabia? Perdi muita coisa na
escola. O Caio só está me ajudando a recuperar as
matérias.
― Tudo bem. Mas eu vejo o jeito como
ele lhe olha. E quando você estava desaparecida...
― Morgan faz uma pausa. Ela não gosta de falar
sobre esse assunto. ― Ele ficou tão desesperado.
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― Imagino que todos vocês ficaram.


― Sim. Ficamos. Mas ele parecia... Ah,
deixa pra lá. Deixa eu te ajudar com esse cabelo
logo.
Morgan pega uma escova e a passa pelo
meu cabelo. De repente, é como se um flash se
passasse em minha mente e eu visse outra pessoa
fazendo isso. Uma mulher mais velha, que
cuidadosamente arruma meu cabelo. Tudo passou
muito rápido pela minha mente, mas senti uma
sensação estranha. Tipo a que eu sinto quando
tenho aqueles sonhos. Sinto vontade de perguntar à
Morgan se eu tive alguma avó e se ela a conheceu.
Mas desisto. Não quero preocupar Morgan com
isso. Ela anda muito cuidadosa e desconfiada sobre
tudo o que se refere a mim.
Quando meu penteado fica pronto, nós
descemos às escadas juntas. Caio está vestido

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casualmente com uma calça jeans e camisa polo


azul, mas me parece mais bonito do que hoje mais
cedo.
― Trate de devolver logo a minha
garotinha, está bem? ― diz Morgan a Caio com um
tom de voz brincalhão.
― Pode deixar. Me sinto honrado por você
permitir que ela saia comigo esta noite ― responde
Caio entrando na brincadeira.
É a primeira vez que estou saindo para um
passeio à noite desde que voltei. Morgan parecia
desesperada a cada vez que eu saía de casa até
mesmo para ir à escola. Sair à noite, então. Mas
agora ela se convenceu de que preciso voltar a ter
uma vida normal. E do jeito que venho estudando
ultimamente, a minha mente está precisando
mesmo de um descanso se eu quiser manter a
minha sanidade.

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Do lado de fora, na varanda, uma leve


brisa passa por nós. É tão bom sentir esse ar puro.
Está uma noite linda, bem estrelada.
― Admirando as estrelas, Estrela? ― Caio
brinca comigo.
Dou um soquinho de leve em seu ombro e
ele aproveita para me abraçar. Caio é meu amigo
durante tanto tempo que o gesto não é estranho.
Mas parece diferente esta noite.
― Já decidiu para onde vamos? ―
pergunto.
― Para a sorveteria aqui perto. Morgan
me fez prometer que não a levaria para muito
longe. Ela também não quer que a gente demore
muito.
Eu poderia ficar zangada com a
superproteção de Morgan. Mas a verdade é que eu
a entendo. Deve ter sido mesmo muito difícil para
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ela me perder por tanto tempo.


Caio e eu caminhamos até a sorveteria,
que não fica muito longe, com ele protetoramente
passando um braço sobre mim. Lembro que teve
uma época que pensei que estivesse rolando um
clima entre nós. Depois deixamos isso passar, em
parte porque não queríamos estragar a nossa
amizade, e por causa da Jéssica também. Agora eu
penso no que Morgan falou. E não sei se o que ele
quer de mim é só amizade mesmo.
Quando chegamos à sorveteria, Caio me
pergunta qual mesa prefiro. Opto por uma que fica
do lado de fora mesmo. Não quero perder essa
noite estrelada por nada. No entanto, quando Caio
entra para fazer o nosso pedido, percebo que em
uma das mesas ali perto, há três rapazes, e um deles
está me encarando. Quando olho em sua direção,
ele me dá um sorrido cínico, que eu não retribuo.

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Viro para o outro lado, mas ainda sinto seus olhos


sobre mim.
Ainda bem que Caio não demora muito. E
assim que ele volta com os nossos sorvetes, o rapaz
que estava me encarando acena para Caio, que
retribui o cumprimento.
― Você o conhece? ― pergunto um
pouco surpresa. Pois o rapaz não tem o perfil dos
amigos do Caio.
― Mais ou menos. Fui a uma boate outro
dia com o meu primo e esse cara estava lá. Parece
que ele toca em uma banda.
― De rock, suponho.
― Isso mesmo. Ele puxou conversa com a
gente e ficou conosco um pouco. Parece seu um
cara legal.
― Eu não achei.
Caio me olha um pouco surpreso. Ele sabe
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que não gosto de julgar as pessoas assim. Mas eu


realmente não fui com a cara do sujeito.
Mudo de assunto e pergunto pela Jéssica.
Há três dias que não a vejo. Jéssica pegou um forte
resfriado e por isso não pôde sair com a gente. Caio
também ia passar na casa dela para ver como tudo
estava.
― Tive que ajudar meu pai com algumas
coisas e por isso não passei lá. Mas conversamos
um pouco por mensagens ― disse Caio.
― Se a Morgan liberar, acho que vou lá
também.
― Eu posso te buscar se você quiser. Aí
vamos juntos.
― Você virou uma espécie de meu
guarda-costas agora? ― pergunto em tom de
brincadeira. ― A Morgan lhe contratou?
― Eu faria isso de graça, você sabe ―
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Caio diz e me dá uma piscadinha.


Ele está flertando comigo?
Não respondo ao seu comentário e Caio
não desvia seu olhar do meu. É parece que não é só
amizade o que está rolando aqui. Mas o sujeito que
eu não fui com a cara estraga o clima. Eu nem tinha
percebido ele se aproximando da nossa mesa.
― E aí, cara. Como vão as coisas? ― ele
pergunta ao Caio.
― Tudo ótimo, e você?
― Estou bem ― ele responde e me olha
de um modo que não me sinto à vontade. ― Sua
namorada é muito linda.
― Obrigada ― Caio não o corrige. É claro
que ele percebeu que o sujeito está me
incomodando.
― Qual é mesmo o seu nome? ― O cara
não se toca e ainda insiste.
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― Stella ― respondo sem muito


entusiasmo.
― Prazer, Stella. Eu sou o Nikolai. Mas
pode me chamar de Niko.
Niko estende sua mão para mim e eu a
seguro. Ele demora mais tempo que o necessário
para me soltar e eu percebo que suas mãos são
frias.
― Bonito colar ― Niko diz olhando o
meu colar com o pingente de asas de anjo.
Instintivamente, levo minha mão ao
pescoço. Estou sempre com esse colar. É como se
ele fizesse parte de mim.
O cara me dá mais um de seus sorrisos
cínicos e se despede de nós. Sinto alívio ao vê-lo
indo embora.
Me assusto um pouco quando sinto um
toque em minhas mãos. Mas é apenas o Caio me
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confortando com sua mão sobre a minha.


― Acho que você pode ter razão sobre ele,
Stella. Na boate eu não tinha percebido que ele era
tão idiota assim.
Dou um sorriso para o Caio e volto a
conversar com ele como se o sujeito esquisito
nunca estivesse estado ali. O resto da noite foi
agradável. Caio não voltou a me flertar, mas o
tempo inteiro manteve nossas mãos unidas.

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Capítulo 2

Tive mais um daqueles sonhos esquisitos.


Dessa vez eu quase vi o rosto do homem loiro.
Mas, no exato momento em que ele se virou para
mim, eu acordei. Era ainda quatro horas da manhã e
eu não consegui mais dormir. Sei que esses sonhos
significam alguma coisa. Não falei sobre eles com a
psicóloga, e, de todo jeito, ela já me deu alta. Disse
que eu a procurasse novamente se algo mudasse, ou
seja, se eu me lembrasse do que aconteceu comigo
no tempo em que fiquei desaparecida e isso me
ocasionasse algum trauma.
Ainda não lembro de nada, mas imagino
que talvez esses sonhos estejam relacionados com o
que passei. O meu desaparecimento era algo com
que eu estava conseguindo lidar até bem. Claro que
fiquei chateada com muitas coisas, como o fato de

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não saber o que eu fiz durante esse tempo, o fato de


Morgan ter sofrido à beça e tudo o que perdi na
escola e com os meus amigos. No entanto, eu
procurei ver tudo pelo lado positivo. Eu estava
viva, bem, saudável, Morgan estava feliz agora,
portanto, não havia motivos para eu ficar me
lamentando.
No entanto, algo agora me deixou inquieta.
Depois que voltei para casa com o Caio naquela
noite da lanchonete, eu fiquei pensando em Niko,
na forma como ele me olhou, no sorriso zombeteiro
em seu rosto. Será que ele me conhece de algum
lugar? Eu fiquei pensando que durante o tempo em
que sumi, provavelmente eu estive com algumas
pessoas... Do contrário eu estaria morta. Eu fui
encontrada bem, ou seja, eu me alimentei, eu fui
cuidada, já que meu corpo estava sem nenhum
arranhão. Então, alguém cuidou de mim. Mas quem
seria essa pessoa? E aquele flash que eu tive
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enquanto Morgan penteava o meu cabelo? Eu acho


que vi uma senhora de cabelos longos e brancos
cuidando de mim.

Ouço o barulho da campainha tocando e


interrompo esses meus questionamentos. Deve ser
Thales e sua filha que vieram para o almoço.
Morgan estava toda estranha essa manhã. Parecia
feliz e ao mesmo tempo preocupada. Acho que o
motivo dessa visita hoje não vai ser para um
simples almoço no fim das contas.

Cumprimento Thales com um beijo no


rosto e a pequena Mia com um grande abraço. Ela é
uma criança muito fofa e cada vez que vem aqui eu
sinto que estou ficando muito apegada a ela. Thales
é um cara muito legal, um pai cuidadoso e também
é muito carinhoso com Morgan. É fácil gostar dele

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também. E é por isso que a notícia que recebo


depois do almoço me deixa feliz: Morgan vai se
casar.
O tempo todo Morgan estava receosa com
a minha reação em relação a isso, porque durante
muito tempo fomos só nós duas morando juntas.
Mas é claro que eu fico muito feliz por ela. Dá para
perceber o quanto ela ama o Thales e o que eu mais
quero é ver Morgan sendo feliz.
Depois do almoço, enquanto Morgan cuida
da louça, vou até à frente da nossa casa verificar as
correspondências que chegaram. Thales estava
brincando com Mia no chão da sala e eu nem
percebi que ele havia vindo atrás de mim.
― Eu queria conversar um pouco com
você, Stella ― diz Thales um pouco hesitante.
― Certo. Algum problema? ― Thales
nunca havia conversado comigo a sós antes.

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― Não. Não é nada. Eu só queria saber se


está mesmo tudo bem para você se eu me casar
com a Morgan. Ela se preocupa muito com você,
com o seu bem-estar... E nós vamos morar todos
juntos... E tem a Mia.
― Thales, eu acho a Mia uma criança
adorável. E fico feliz por a Morgan encontrar
alguém como você, disposto a assumir um
relacionamento sério. Eu estou feliz por vocês, de
verdade.
― Sei que você é uma boa garota, Stella.
É que eu sei que deve ser complicado. Há muito
tempo você mora aqui sozinha com a Morgan, e
agora chegam mais duas pessoas...
― Olha, se a sua preocupação é que eu
tenha ciúmes da Mia, pode ficar tranquilo. Eu gosto
dela. Sei que vamos todos nos dar muito bem.
Um sorriso de alívio passa pelo rosto de

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Thales. Ele me dá um breve abraço e depois diz:


― Eu também espero que você me aceite
como parte da família, Stella. Sei que não é fácil
ganhar um pai já na adolescência, mas é isso o que
eu quero ser para você também, um pai.
As palavras sinceras de Thales me
emocionam um pouco. Eu nunca havia pensado
nele como um pai para mim, e acho difícil vê-lo
assim um dia, mas o fato dele se importar tanto que
a nossa convivência seja pacífica, me faz olhar para
ele com outros olhos.
― Eu não sei como será, Thales, mas eu
sei que se cada um de nós nos esforçamos para que
a nossa família dê certo, ela vai dar.
― Eu também penso assim. Agora, deixa
eu voltar antes que a Mia destrua a sala.
Sento no banco do jardim para verificar as
correspondências quando sinto o meu celular vibrar
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em meu bolso. É uma mensagem de Caio.


Caio: Posso passar aí hoje à noite?
Não demoro a responder.
Stella: Claro. Quero mesmo conversar
com você.
Caio: Algum problema?
Stella: Não. Relaxa. Só colocar o assunto
em dia.
Caio, Jéssica e eu combinamos de não
ficarmos falando sobre o meu desaparecimento.
Decidimos superar isso e seguir a vida adiante. Mas
percebo como eles estão mais atenciosos e
cuidadosos comigo, principalmente o Caio. Talvez
demore mesmo algum tempo até que tudo volte a
ser como antes. Se é que um dia vai voltar.

Depois do jantar, vou para o meu quarto e

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não demora muito até que Caio chegue. Nós


verificamos juntos o local que vamos fazer as
provas para ingressar na faculdade.
― Você sabe onde fica essa escola?
Porque eu não faço ideia ― pergunto.
― Não, mas deixa eu verificar aqui o
endereço ― Caio se volta para o computador e um
tempo depois, diz: ― Olha aqui, fica apenas há
duas quadras de onde vou fazer a prova. Podemos
ir juntos.
― Combinado, então. E a escola onde a
Jéssica vai fazer a prova?
― A dela não fica muito perto. Na
verdade, fica bem longe até.
― Então, mais uma vez ela vai ficar de
fora?
― O que você quer dizer com isso, Stella?
― Caio tira a atenção do computador e olha
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diretamente para mim agora.


― Só acho que ela está um pouco
afastada... Quase nunca está com a gente.
― Tá, mas não é de propósito. Ela estava
um pouco doente, hoje tinha um compromisso com
os pais e a escolha do local da prova não foi nossa.
Por que isso está lhe preocupando?
― Sei lá... acho que a nossa amizade está
diferente. Você não acha?
― Você está se referindo a quem
exatamente? Você e a Jéssica? A Jéssica e nós?
Você e eu?... ― Caio parece confuso.
― Eu não sei... Mas você não acha que só
o fato de usar a expressão “a Jéssica e nós” indica
que há algo diferente? O que aconteceu com o
nosso trio?
Caio dá um sorriso, se levanta da cadeira
onde estava e vem se juntar a mim na cama.
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― Olha, eu não ia falar nada assim... Mas


como você perguntou... É o seguinte: quando você
sumiu, eu quase enlouqueci. Não apenas pela
situação em si, que já era bem difícil e preocupante,
mas por tudo o que eu evitei fazer com você
quando tive a oportunidade.
― Do que você está falando?
― A minha amizade com você sempre foi
diferente da amizade que tive com a Jéssica. A
minha conexão com você sempre foi diferente. Eu
queria ter algo a mais com você, mas sempre tive
medo de estragar a nossa amizade. Por isso me
contive. Saí com outras garotas, tentei esquecer o
que eu sentia por você. Mas, quando você sumiu e
eu percebi que nunca mais poderia ver você
novamente, eu me senti um babaca por não ter
aproveitado quando tive a oportunidade.
Eu suspeitava que o que o Caio sentia por

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mim era mais que amizade, mas não imaginava que


ele fosse confessar tudo isso agora. Eu não sabia o
que dizer, ao contrário de Caio, que parecia sentir
alívio por finalmente estar colocando tudo para
fora.
― A Jéssica sabe dos meus sentimentos
por você. E por isso ela decidiu se afastar um pouco
para ver se a gente se entende.
― Vocês combinaram isso?
― Mais ou menos.
― Mas eu voltei há semanas! E por que
você está falando que gosta de mim somente agora?
― Eu precisava te dar um tempo, esperar
você organizar a sua vida, voltar a sua rotina com a
Morgan. E você também precisava se concentrar
nos estudos, em recuperar suas notas... Enfim, não
era o momento.
― Nossa, nem sei o que dizer.
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― Fala a verdade, Stella. Acho que você


já sabia. Eu te dei vários sinais.
― Eu suspeitava em alguns momentos,
mas não tinha certeza.
― Eu quero ser mais que seu amigo,
Stella. E você?
E agora? O que eu queria? Caio é
superfofo. Na verdade, ele é bem gatinho. Se eu
disse que nunca pensei em ficar com ele eu estaria
mentindo. E agora, com ele assim tão próximo a
mim, acho que não há motivos para resistir. Ao
invés de responder com palavras, eu me aproximo
ainda mais de Caio. Ele entende o recado e está
prestes a me beijar quando algo passa voando por
nossas cabeças e eu me assusto.
Caio se afasta para verificar o que pode ter
sido quando o vulto aparece mais uma vez.
― Minha nossa, é um morcego! ― Caio
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diz. ― E nunca vi um morcego tão grande. Deixa


eu pegar alguma coisa para matá-lo.
Caio deixa o quarto e eu fico observando o
morcego que agora está pendurado em meu teto.
Sempre tive medo de morcegos, mas,
estranhamente, não me sinto assustada agora. Algo
me atrai a esse bicho e não consigo desviar meus
olhos dele. Lentamente, me levanto sobre a cama a
fim de observá-lo melhor. Mas, assim que Caio
entra no quarto segurando uma vassoura, o
morcego voa novamente e sai pela janela. Caio se
apressa em fechá-la. E, estranhamente, eu sinto que
perdi alguma coisa ao ver que o morcego foi
embora.
Não sei explicar o que está se passando
comigo. Só sei que sinto uma espécie de solidão às
vezes e preciso me isolar, ficar no meu canto
quietinha. Digo ao Caio que estou cansada e

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preciso ir dormir. Ele parece perplexo com minha


mudança de comportamento, mas é gentil demais
para se queixar de qualquer coisa.
― Não tem nada a ver com o que
conversamos, está bem? Eu sei que precisamos
decidir algumas coisas entre nós e vamos fazer isso
logo mais ― tento tranquiliza-lo passando meus
dedos pelo seu rosto. ― Eu não sei explicar o que
aconteceu, mas estou me sentindo indisposta agora
e preciso ficar um pouco sozinha.
Dou um breve beijo nos lábios de Caio, e o
deixo partir.
Abraço meu travesseiro e volto para cama.
Antes, se eu fosse a Stella de antes, eu não hesitaria
em ficar com o Caio. Eu sempre tive curiosidade
em saber como seria beijá-lo. Mas agora alguma
coisa mudou. Sinto um enorme carinho por ele.
Posso até dizer que o amo, mas apenas como

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amigo. No momento, sinto que há muitas outras


coisas que preciso resolver em minha vida. Sinto
que algo importante aconteceu comigo enquanto
estive ausente. Mas não faço ideia de onde terei que
ir para buscar essas respostas. Quem sabe, ligando
uma coisa aqui e outra ali chegarei a algum lugar.
Sei que tenho tido sonhos estranhos. Uma senhora
apareceu em minha mente como um flash. Há algo
estranho em Niko, mas esse eu nem sei se vou
reencontrar outra vez. Espero que não. Mas o fato
de eu não gostar dele pode significar alguma coisa.
Geralmente não tenho esse tipo de sentimentos,
principalmente com quem eu não conheço. Mas
não vou pensar nisso agora. Preciso me concentrar
nas provas que irei fazer logo mais.

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Capítulo 3

Os últimos dias foram uma loucura, mas


toda correria valeu a pena. Fui aprovada nos
exames e aceita em uma das melhores
universidades de medicina do país. A vantagem é
que ela não fica tão longe da cidade onde moro e
poderei voltar para casa nos finais de semana.
Morgan ficou superfeliz com isso. Ela está
ocupadíssima com os preparativos para o
casamento, mas conseguiu arrumar um tempinho
para ir comigo até Novos Montes, a cidade onde
irei morar, para conseguirmos um apartamento.
Depois de passearmos pela cidade,
Morgan achou melhor que eu morasse em um dos
alojamentos da Universidade mesmo. Pelo menos
por enquanto. É que constatamos que a cidade é um
pouco perigosa. Encontramos muitos usuários de
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drogas pelas ruas e quase testemunhamos um


assalto. Morgan já estava ficando aflita, mas eu
prometi a ela que caso conseguisse o alojamento,
não iria sair das mediações da universidade. E iria
todos os finais de semana para casa.
Fizemos o cadastro para que eu
conseguisse um quarto e, para a minha sorte, já que
as vagas são muito disputadas, eu consegui um
lugar, mas teria que dividir o quarto com alguém.
Morgan pareceu mais aliviada depois de
conhecer o local onde eu iria morar. O alojamento
parecia seguro e era bem organizado. A única
preocupação de Morgan agora era com a minha
colega de quarto, que eu só iria conhecer quando as
aulas começassem. A única coisa que eu sabia era
que o nome dela era Luna e ela já estava no
segundo período de medicina.
Quando voltamos para casa, Morgan

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parecia mais conformada com a ideia de morarmos


em cidades diferentes. Ela ainda se preocupava,
mas sabia que era para o meu próprio bem. Eu
precisava estudar, me formar e ter uma boa carreira
profissional. Morgan sempre me preparou para
isso, afinal.
Quando cheguei em casa, contei logo as
novidades para Caio e Jéssica. Nós tínhamos
voltado a sair os três juntos nas poucas vezes que
tivemos oportunidade. Jéssica foi aprovada em
arquitetura, na Universidade local, e Caio em
administração, mas ainda está em dúvida se dê
início aos estudos aqui, já que o pai dele insiste em
que Caio vá para a Austrália. Isso estava deixando
Caio frustrado, pois ele queria passar pelo menos
mais um ano no Brasil antes de ir embora.
Com tanta pressão, o nosso assunto ficou
em suspenso. Caio não voltou a se declarar para

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mim, nem tentou me beijar novamente. A verdade é


que não ficamos mais sozinhos desde aquele dia em
meu quarto, e confesso que eu andei o evitando um
pouco.
Se eu vou morar em outra cidade e Caio
em outro país, não faz sentido começarmos um
relacionamento. Acho que ele mesmo sabe disso,
por isso não anda me pressionando.

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Capítulo 4

A festa de casamento de Morgan é um


momento feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz
porque Morgan ama Thales e é muito lindo vê-los
dando esse passo tão importante no relacionamento
deles. A pequena Mia também está muito feliz. Ela
aceitou Morgan como a sua nova mãe e está
radiante com a nova família.
Thales ficou extremamente emocionado
durante a cerimônia, e isso me fez gostar mais dele.
Sinto muita satisfação por saber que tudo ficará
bem depois que eu for embora.
E por falar em ir embora, esse é o
momento triste. Jéssica e eu vamos continuar nos
vendo nos finais de semana. Mas caio perdeu a
batalha com o pai, trancou a matrícula na faculdade
e irá para a Austrália nos próximos dias.
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A festa de casamento está sendo também a


nossa despedida.
Assim que tenho a oportunidade, puxo
Caio para um canto isolado da festa. Embora ele
esteja se esforçando para se divertir, parece um
pouco triste.
― Eu só queria lhe dizer que vou sentir
muito a sua falta. E queria também pedir desculpas
por ter lhe evitado nos últimos dias ― confesso.
― Tudo bem, Stella. Eu entendo, de
verdade. Não era para ser, não é?
― Caio, eu acho que só não era o
momento. Tinha tanta coisa acontecendo...
― Concordo. Eu tive todo o Ensino Médio
e deixei a oportunidade passar. É o que acontece
quando a gente não toma uma atitude.
― Ei, não fica assim ― toco no rosto de
Caio e o faço olhar para mim. ― Durante todo esse
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tempo você foi o meu melhor amigo e passamos


ótimos momentos juntos. Momentos especiais que
vou guardar comigo para sempre.
― Eu sei.
Caio me abraça e sinto muito conforto
nesse abraço.
― Posso te dar um beijo de despedida? ―
ele sussurra em meu ouvido e eu assinto.
Quando seus lábios encostam nos meus é
de modo suave e terno. Não é um beijo apaixonado,
mas é bom mesmo assim. É um beijo de duas
pessoas que se amam e sabem que são importantes
uma para a outra.
Quando o beijo chega ao fim, Caio encosta
sua testa em mim e diz:
― Sinto que a nossa história não termina
aqui.
― Claro que não, seu bobo. Só vamos
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passar um tempo longe. Apenas isso. ― Seguro na


mão de Caio e nós dois voltamos correndo para a
festa.

Caio, Jéssica e eu estamos nos divertindo


como nos velhos tempos. Resolvemos deixar o
clima de despedida para lá e estamos dançando
radiantes no meio dos outros convidados.
Tudo estava indo muito bem até a Jéssica
se afastar de nós e ir para junto de um rapaz. De
início eu não reconheci, mas depois percebi que se
tratava do Niko.
― De onde a Jéssica conhece ele? ―
pergunto ao Caio.
― Não faço ideia, mas pelo jeito eles já se
conhecem muito bem.
Não entendo de imediato o que o Caio quis
dizer, mas depois que volto a olhar para Jéssica,
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percebo que ela e Niko estão se beijando.


Não me sinto bem em relação a isso. Sinto
que esse Niko ainda vai dar problemas, mas no
momento não posso fazer nada, então volto a
dançar com Caio e a curtir a sua breve companhia.

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Capítulo 5

Estou em meu novo quarto e Luna parece


ser uma pessoa muito legal. Ela é apenas um ano
mais velha que eu, apesar de ser mais baixinha. É
loira e tem cabelos curtos.
Estamos conversando há uma hora e já
demos boas risadas juntas. Sinto que seremos boas
amigas.
Já é bem tarde da noite quando tomo um
banho para ir dormir e mando uma mensagem para
Morgan tranquilizando-a sobre a minha mais nova
amiga. Um pouco depois, Luna entra no quarto
tentando não fazer barulho.
― Estou acordada, Luna.
― Ah, que bom. Então, eu posso acender a
luz? Meu guarda-roupa está uma bagunça e não
vou conseguir achar meu pijama no escuro.
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― Fica tranquila.
― E você? Como está? ― pergunta Luna
enquanto remexe seu guarda-roupa. ― Os
primeiros dias são os mais difíceis. Você sente falta
de casa, dos amigos... Mas depois você se
acostuma.
― Estou bem. Ainda não estou sentindo
falta de casa. Na verdade, estou é ansiosa para o
meu primeiro dia de aula.
― Eu vou acompanhar você até a sala
onde terá a sua primeira aula e vou te apresentar ao
irmão do meu namorado. Acabei de descobrir que
ele está na mesma turma que você.
― O seu namorado estuda aqui?
― Sim, o nome dele é Gael. Está no
quarto período. E o irmão dele é o Nethanael, que
assim como você, acabou de entrar para a
universidade.
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― Eles também moram aqui no


alojamento?
― Não. Moram em um apartamento aqui
perto.
― E vocês namoram há muito tempo?
Luna já está vestida em seu pijama. Apaga
a luz e se deita na cama antes de me responder.
― Namoramos há dois anos.
― E onde vocês se conheceram?
Desculpa, acho que estou fazendo um verdadeiro
interrogatório. Não precisa responder se não quiser.
Luna sorri e diz:
― Tudo bem. Eu adoro falar sobre o Gael.
E não se preocupe, depois é minha vez de fazer o
interrogatório.
Luna e eu ficamos conversando até bem
tarde. Descobri que ela e Gael são da mesma cidade

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e sempre estudaram na mesma escola, mas não na


mesma sala, já que ele é mais velho. Depois de um
tempo como amigos, decidiram começar a namorar.
Achei interessante como a história deles
era semelhante à minha e do Caio, só que, diferente
deles, Caio e eu não fomos além da amizade.
Falo sobre meus amigos para a Luna. Falo
especialmente sobre minha amizade com Caio.
― Não era para ser, Stella. Se fosse, teria
dado certo ― Luna me diz.
― Eu sei. Eu acredito nisso. Mas acho que
ele ficou um pouco magoado.
― Ele vai superar. Não há nada que o
tempo não resolva.
Espero que a Luna esteja certa. Pois o Caio
é muito importante para mim.

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Capítulo 6

Está tudo muito, muito escuro e silencioso.


Sinto que estou deitada em algo muito frio. Mas
mesmo de olhos abertos, não consigo enxergar
nada. A escuridão é total.
Ouço gritos. Há desespero ao meu redor e
uma sensação de pavor começa a tomar conta de
mim.
De repente vejo uma pequena luz. Ela está
muito distante. Mesmo assim eu me levanto e
começo a andar em sua direção. Meus passos são
incertos, uma vez que não enxergo o que está sob
os meus pés.
Quando me aproximo mais da luz, uma
ventania surge e mal consigo me equilibrar. O
vento vem em direção contrária, me afastando da
luz. Por mais que eu me esforce, não consigo
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alcançá-la.
O vento passa, mas percebo que a luz
também se foi. Pelo menos eu não ouço mais os
gritos. Tudo está silencioso.
Agora uma névoa surge e a escuridão não
é mais tão plena. Sei o que devo fazer. Devo
continuar caminhando. E já sei o que me espera.
Em algum momento eu vou vê-lo.
Não demora muito, vejo o seu vulto. Vou
até ele e assim que me aproximo, ele cai de joelhos.
Eu me aproximo devagar e toco em seus cabelos
loiros. Sei que quando ele se virar, eu vou acordar.
Mas ele não se vira, ao invés disso, sinto
meu corpo aquecer de forma repentina. Sei que esse
calor está vindo dele. Eu me sinto fraca e caio de
joelhos. Meus olhos estão pesados e lentamente se
fecham. Não consigo mais abri-los. Ele se
aproxima de mim e toca as minhas mãos. Sinto que

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ele está ferido. O corpo dele parece em chamas.


Sinto que ele se aproxima do meu rosto e,
lentamente, encosta sua testa a minha. Levo as
minhas mãos até seu rosto. Sua pele é macia, mas
está tão quente. Preciso fazer algo para ajudá-lo,
mas não consigo nem mesmo abrir meus olhos.
Com muito esforço, consigo abrir a boca para
perguntar algo.
― Quem é você?
Ele não responde. Apenas me abraça forte.
De repente algo começa a me puxar para
longe dele. Não sinto mais calor, sinto muito frio.
Sinto que estou sendo levada para longe. Muito
longe... A única coisa que consigo ouvir vem até
mim como um sussurro que eu sei que foi dele:
Nunca tire esse colar.

― Stella, acorda. Stella! ― Luna está


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sentada em minha cama com as mãos em meus


ombros. ― Acho que você teve um pesadelo.
― Que horas são? ― pergunto ao me
sentar na cama esfregando os olhos.
― São seis horas. Já estava mesmo na
hora de acordar para se arrumar para o seu primeiro
dia de aula.
― Ok ― digo e me levanto para ir até o
banheiro.
― Está tudo bem, Stella? Quer falar sobre
o seu sonho? ― Luna parece preocupada.
― Está tudo bem. Eu nem lembro sobre o
que estava sonhando.
Entro no banheiro e fecho a porta atrás de
mim. Vou até o espelho e encaro meu reflexo. Levo
minhas mãos até o colar. Quando Morgan me
perguntou sobre ele, eu não fazia ideia de como eu
o havia conseguido. Ainda não sei de onde ele veio,
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mas tenho uma certeza: eu sei que foi ele quem me


deu.

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Capítulo 7

As aulas no período da manhã foram


tranquilas. Minha turma contém 25 alunos, sendo
apenas 7 garotas. Nethanael ficou ao meu lado o
tempo inteiro. Acho que a pedido de Luna. Ele é
um garoto bem legal. Tem cabelos e olhos bem
escuros, contrastando com sua pele branca. É bem
bonito, e pelo jeito eu não fui a única a notar, já que
as garotas da turma passaram a manhã inteira
olhando para ele.
Na hora do almoço, Nethanael me
conduziu até o refeitório, que estava praticamente
vazio.
― Não vamos para o restaurante? ―
perguntei.
― Não. Meu irmão disse que a comida lá
não é muito boa. Ele sempre traz o almoço e pediu
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que a gente se encontrasse aqui. Olha, lá vem eles.


Olhei na direção que Nethanael apontou e
vi Luna chegando com um rapaz um pouco
parecido com Nethanael, só que de cabelos mais
curtos e um pouco mais alto.
― Você deve ser a Stella ― ele disse ao
se aproximar.
Ao olhar Gael mais de perto, tive a
sensação de já tê-lo visto antes. E a maneira como
ele me olhou também foi um pouco diferente.
― Sim, eu sou a Stella. Prazer.
Gael me estendeu a mão e eu a apertei. Em
seguida ele puxou uma cadeira para a Luna se
sentar e Nethanael fez o mesmo comigo.
― Então, meu irmão tem se comportado
na aula? ― Gael pergunta em tom brincalhão.
Antes que eu responda, Luna diz:

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― Todo mundo se comporta no primeiro


dia de aula. É aquele momento esquisito onde as
pessoas ficam se avaliando.
Gael pega a sacola que vinha carregando e
a coloca sobre a mesa.
― Trouxe comida para nós todos. Está
com fome, Stella?
― Sim. Um pouco.
― A Stella é um pouco tímida ― diz
Nethanael.
― Não é, não ― Luna discorda.
― Ela ficou bem quietinha a manhã
inteira.
― Verdade, Stella? ― Luna pergunta.
― Eu estava coagida em um cantinho,
sendo fuzilada com o olhar por praticamente todas
as meninas da sala.

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― Foi mesmo? Por quê? ― Gael


pergunta.
― Acho que pelo fato do Nethanael ter
ficado do meu lado o tempo inteiro.
Gael gargalha e depois diz:
― Não sei o que achei mais fofo. O
Nethan tomando conta da Stella como você pediu,
Luna. Ou a Stella chamando o Nethan de
Nethanael.
― Eu disse a ela que todo mundo me
chama de Nethan ― reclama Nethanael.
― Ah, desculpa. Eu achei que fosse um
apelido para os mais íntimos ― comento.
― Todo mundo o chama de Nethan,
Stella. É mais fácil ― diz Luna. ― E não esquenta
com as garotas. Também foi assim comigo no
começo. Elas queriam cair em cima do Gael, mas
quando perceberam que ele estava comigo eu
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ganhei várias inimigas. Depois todo mundo foi se


acostumando.
― É, mas eu não “estou” com o Nethan
assim com você “está” com o Gael.
― Então, assim que elas perceberem isso
vai ser mais fácil de você fazer novas amizades.
― Mas vê se não abandona o nosso grupo.
A Luna me falou muito bem de você, então acho
que todos nós seremos bons amigos ― disse Gael.
― Eu também acho. ― Eu estava sendo
sincera. Eu me sentia bem ali no meio deles.
Apesar da sensação estranha que senti quando vi
Gael, o restante do almoço foi tranquilo e eu me
diverti muito com as brincadeiras entre os irmãos.

Quando as aulas terminaram, Nethan quis


me acompanhar até o alojamento.
― Você não acha que está sendo muito
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protetor?
― A Luna me pediu para eu lhe
acompanhar. Só estou sendo gentil.
― Sério, Nethan. Você não precisa fazer
isso se não quiser.
― Mas eu quero, sua bobinha. E é por isso
que estou lhe acompanhando. Não é só porque a
Luna me pediu.
― Ok. Mas é que eu vi você conversando
com aquela garota ruiva da nossa turma. Ela
chamou você para sair e você disse que tinha um
compromisso. Então, eu não estou lhe atrasando?
― Não, não. Eu estava mentindo, Stella.
― Nethan passa as mãos no cabelo, bagunçando-os
um pouco. ― Sabe o que é? Eu terminei com
minha namorada recentemente. Ela foi para uma
faculdade bem longe, por isso terminamos. Aquela
garota da sala estava dando em cima de mim.
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Desculpa se eu pareço convencido dizendo isso,


mas estava mesmo. Por isso eu inventei que tinha
um compromisso. Não quero sair com ninguém
agora.
― Entendo.
Quando chegamos na porta do meu quarto,
me despedi de Nethan com um beijo em seu rosto.
― Você vai lá para casa mais tarde? ― ele
me perguntou antes que eu entrasse no quarto.
― O que vai ter lá?
― Nada. Geralmente a Luna vai para lá à
noite ver o Gael. Acho que você poderia ir também
qualquer hora dessas.
― Ok. Vou pensar no assunto.
Eu ia mesmo pensar, mas não naquela
noite, pois eu estava muito cansada.

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Capítulo 8

A semana passou e eu já estava com uma


imensa vontade de voltar para casa e ver a Morgan.
Eu estava gostando da faculdade. O ritmo acelerado
de estudos fazia com que os dias passassem
depressa e nos horários de folga eu tinha meus
novos amigos. Nethan e eu estamos nos dando
muito bem. No início eu achava que ele só estava
me fazendo companhia por causa do pedido de
Luna, mas depois percebi que temos muitas
afinidades e é prazeroso passar um tempo com ele.
Fizemos amizade com mais pessoas da turma, mas
na maior parte do tempo ficamos só nós dois
mesmo fazendo companhia um ao outro.
Eu queria voltar para casa sexta à noite,
mas Morgan achou melhor que eu fosse pela
manhã. Ela achou que seria perigoso eu pegar um

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ônibus à noite. Ainda não completei 18 anos e não


tenho licença para dirigir, por isso vou ter que
pegar um ônibus para voltar para casa. Nethan se
ofereceu para me levar de carro, mas não aceitei
seu convite. No entanto, ele combinou de me levar
para a rodoviária.
― Bom dia, Bela Adormecida ― digo
para Luna quando percebo que ela acordou.
― Você madrugou ― ela me responde.
― Só estou ansiosa para voltar para casa.
― Ah, é mesmo. Quer que eu te leve à
rodoviária?
― Não precisa. O Nethan vai me levar.
― Fico tão feliz por vocês estarem se
dando bem.
― Mas não se empolgue, Luna. Nethan e
eu somos apenas amigos mesmo. Inclusive ele me
falou que não superou ainda o rompimento com a
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ex.
― Mas você sabe como são os homens.
Não demoram muito a superar. Ao contrário de nós
que ficamos na maior deprê quando isso acontece.
― Verdade.
Ouço uma leve batida na porta e vou até
lá.
― É o Nethan. Posso abrir?
― Claro. ― Luna puxa seu cobertor até o
pescoço para se cobrir.
― Bom dia, meninas! Já está pronta,
Stella?
Nethan está bem casual com uma bermuda
cargo preta e camisa azul. É a primeira vez que o
vejo em um estilo mais despojado. Combina com
ele.
― Estou pronta. Tchau, Luna! ― Vou até

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a cama de Luna dar um beijo nela. Luna me abraça


e diz:
― Boa viagem, querida. Te vejo no
domingo à noite?
― Sim.
Saio do quarto acompanhada pelo Nethan.
― Você não precisava fazer isso. Acordar
tão cedo pela manhã só para me levar.
― Eu sempre acordo cedo, Stella. Eu
corro todos os dias pela manhã.
― Então tá. ― Entro no carro de Nethan e
ele me leva até a rodoviária.
Chegamos lá faltando 15 minutos para o
ônibus sair. Nethan decide aguardar comigo.
― Sabia que eu posso sobreviver durante
15 minutos aqui sozinha? ― brinco com Nethan.
― Sabia. Mas seriam 15 minutos bem

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entediantes sem a minha companhia.


Dou um leve empurrão em Nethan e ele
me abraça. Quem nos observa pode até pensar que
somos um casal, mas a verdade é que Nethan e eu
estamos nos tornando como irmãos, não há nada de
romântico em nossa relação.
― Só para constar, eu trouxe um livro.
Então, eu ficaria muito bem na companhia da
minha amiga Colleen Hoover.
― Um caso perdido ― diz Nethan de
modo sugestivo ao olhar a capa do livro.
Eu estava prestes a defender a história
quando percebi o ônibus que eu pegaria estava se
preparando para partir.
― Tenho que ir.
― Se cuida.
― Pode deixar. ― Dou um beijo na
bochecha de Nethan e entro no ônibus.
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Não demora muito e um rapaz alto e de


cabelos longos, estilo roqueiro, se senta ao meu
lado. Ele parece o Axl Rose quando era jovem. Ele
me cumprimenta com um bom dia e percebo que
está a fim de começar a bater papo, mas apenas
respondo seu cumprimento e enfio minha cara no
livro.
Depois de quase uma hora de leitura,
minha vista está cansada. Estou quase no final da
história, mas sou obrigada a parar antes que fique
com uma tremenda dor de cabeça. O rapaz está
ouvindo música com fones de ouvido. Está de olhos
fechados e espero que ele esteja dormindo. Mas,
assim que guardo o livro em minha bolsa, ouço-o
dizer.
― Você gosta mesmo de ler, não?
― Sim.
― Qual o seu nome?

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― Stella.
― O meu é Misael.
Dou um sorriso simpático para Misael e
viro para o outro lado, observando a paisagem na
janela. Mesmo assim ele não se intimida e continua
a conversar.
― Você mora em Novos Montes?
― Sim, faço faculdade lá.
― E está indo para casa passar o final de
semana com seus pais?
― Sim. E você o que faz? ― Melhor virar
o jogo antes que ele me pergunte mais sobre a
minha vida.
― Já terminei a faculdade. Trabalho em
um escritório. Estou indo ver minha namorada, que
mora em Villa Verde. É para lá que você está indo,
não é?

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Aceno com a cabeça e pego o livro


novamente. Melhor continuar minha leitura.
Não costumo ser antipática, mas depois do
meu desaparecimento passei a ter dificuldade para
conversar com pessoas estranhas. Misael percebe
que não estou a fim de continuar batendo papo e
não insiste.
Depois de mais uma hora de viagem,
finalmente chegamos.
Thales, Morgan e a pequena Mia já estão à
minha espera na rodoviária de Villa Verde. Dou um
abraço em todos eles. Eu estava mesmo com
saudades.
Estar de volta a minha antiga casa é
maravilhoso. Senti falta da minha cama e das coisas
que deixei aqui. Mando uma mensagem para
Jéssica avisando que já cheguei e combinamos de
nos encontrarmos à noite. Estou louca para colocar

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o papo em dia com a minha melhor amiga.


Trocamos rápidas mensagens durante a semana e
espero compensar o tempo que passamos longe o
máximo que eu puder.

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Capítulo 9

Encontro Jéssica na mesma sorveteria que


vim com Caio no outro dia. Nos abraçamos por um
longo tempo. Nem parece que foi apenas uma
semana que passamos longe. Tiramos uma selfie e
mandamos para o Caio. Não demora muito e ele
responde a nossa mensagem. Conversamos por um
tempo com o Caio e depois nos despedimos dele.
― Eu sinto muito a falta dele ― Jéssica
confessa.
― Vai ser estranho ser só nós duas agora
― admito.
― Verdade. Mas nós sabíamos que ia ser
assim. A partir de agora tudo vai ser diferente.
― Você disse que tinha uma grande
novidade, qual é? ― pergunto entusiasmada.

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― É que eu estou namorando!


― Nossa, Jéssica. Que legal. Eu conheço?
― Acho que você já o viu. Ele estava
comigo na festa de casamento da Morgan. Ele fazia
parte da banda.
― O Niko?
― Ah, você o conhece?
― Não exatamente. O Caio o conhece um
pouco. E um dia nos encontramos por acaso e ele
nos apresentou.
― E o que você achou dele?
― Não sei. Foi tão rápido. Não deu para
formar uma opinião.
― Bom, então espero que você não se
incomode, pois o convidei também para vir para cá
hoje. Espero que vocês se conheçam melhor e se
deem bem. Estou tão feliz com ele!

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― Que bom, Jéssica. Estou feliz por você.


― Na verdade eu estava um pouco preocupada.
Niko não me parecia ser um cara legal. ― E que
horas ele chega?
― Já era para estar aqui, na verdade.
Marquei com ele às nove.
― Bom, às dez eu preciso estar em casa.
Marquei de assistir a um filme com a Morgan.
― Ah, olha ele ali.
Vi o Niko se aproximando. Ele estava
vestido todo de preto. Era um rapaz muito bonito,
mas o cinismo em seu semblante era o que eu não
gostava. Ele me cumprimentou com um beijo em
meu rosto e disse:
― Ah, a sua amiga é a garota do Caio.
― Mais ou menos ― Jéssica disse com
um sorriso no rosto.
Niko sentou ao lado de Jéssica e deu um
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breve beijo em seus lábios. Em seguida se virou


para mim e começou a perguntar sobre a faculdade.
A conversa foi tranquila. Até que Niko não
era tão idiota quanto pensei que seria. Ele se
mostrou interessado em minhas histórias e não fez
nenhum comentário sarcástico. Também falou um
pouco sobre ele, sobre a sua carreira de músico,
sobre as viagens que já fez tocando por aí afora. A
vida dele parecia ser interessante.
Só quando Jéssica nos deixou sozinhos
para ir ao banheiro, foi que Niko me olhou de um
jeito estranho e toda a simpatia que eu estava
começando a ter por ele desapareceu.
Um silêncio constrangedor pairou sobre
nós, então eu comecei a mexer em meu celular, mas
Niko me interrompeu.
― Como é mesmo o nome de sua colega
de quarto? ― ele perguntou.

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― Luna.
― A namoradinha do Gael?
― Sim. Como você sabe?
― Eu conheço muita gente.
Eu não perguntei mais nada, e Niko
continuou me encarando.
― A Jéssica está demorando. Acho que já
vou indo...
― Espera um pouco. Deixa eu te
perguntar... Você confia nessa sua nova amiga?
― A Luna? Ela não me deu motivos para
não confiar nela.
Niko se inclina e se aproxima mais de
mim. Seu rosto está bem próximo ao meu, então ele
diz:
― Não? E você não acha estranho que
esteja sempre cercada pelos amiguinhos dela. Gael,

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Nethanael, Misael...
Misael... O cara do ônibus? Como Niko
sabe sobre ele?
― Desculpa a demora ― diz Jéssica
voltando a sentar ao lado de Niko ― é encontrei
uma antiga amiga da escola lá no banheiro. A
Samanta. Lembra dela, Stella?
― Hã? Lembro, sim. Estou indo nessa,
Jéssica. Já está tarde.
― Já? Fica mais um pouco. Está uma noite
tão agradável. Não é, Niko?
― Muito ― ele responde. Será que Jéssica
não percebe a ironia na voz dele?
Quero dizer para a minha amiga para se
afastar desse cara. Definitivamente, ele parece ser
perigoso. Mas Jéssica está naquela fase
perdidamente apaixonada e que só vê a perfeição
no namorado.
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Eu me despeço deles e volto para casa, o


tempo todo com a sensação de que estou sendo
seguida. Mas, chego em casa em segurança e
suspiro fundo quando fecho a porta atrás de mim.

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Capítulo 10

Domingo à tarde, faço algo inesperado. Ao


invés de voltar de ônibus para Novos Montes, peço
ao Thales para me levar. Luna tinha dito que me
buscaria na rodoviária com Gael, mas eu mando
uma mensagem de texto para ela:
Stella: Mudança de planos. Não precisa
mais ir me buscar.
Luna: Como assim? Você não vai mais vir
de ônibus?

Não respondo. Pelo menos em uma coisa


Niko estava certo. O tempo todo estou com Luna
ou com Nethan. Eu achava que não tinha nada
demais nisso, mas agora que a semente da
desconfiança foi plantada em minha mente, não
consigo mais achar que era só coincidência. Ainda
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mais se Misael for mesmo amigo deles.


Quando chego ao alojamento, Gael e Luna
estão no quarto.
― Oi, Stella. Fiquei preocupada, você não
respondeu mais a minha mensagem ― Luna me
cumprimenta com um abraço. ― Foi o Thales
quem lhe trouxe?
― Sim. E por que a preocupação, Luna?
― Ah, por nada.
Luna tenta parecer despreocupada, mas
percebo uma troca de olhares entre ela e Gael.
― Bom, meninas, vou deixar vocês
colocarem o papo em dia. Te vejo mais tarde, amor
― diz Gael para Luna.
Quando ele sai do quarto, Luna senta ao
meu lado na cama.
― Aconteceu alguma coisa? ― ela me

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pergunta. ― Você parece chateada.


― Você conhece algum Misael?
Luna fica perplexa por um momento. Ela
não esperava a minha pergunta.
― Conhece? ― insisto.
― Tem um amigo do Gael que se chama
assim... Por quê?
― Conheci ele no ônibus.
― Ah, e ele mencionou que conhecia o
Gael?
― Sim. E você também.
― Devo tê-lo visto algumas vezes, mas
não é um amigo assim tão próximo.
Luna estava desconfortável. Ela sabia que
eu estava a testando. Mas eu já tinha a resposta que
esperava. Agora o meu plano era fingir
normalidade. Por isso perguntei a Luna como foi o

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final de semana dela. Luna pareceu aliviada por


mudar de assunto.
Conversamos por um bom tempo. Luna até
cancelou seu encontro com Gael e ficou comigo
para assistirmos a um filme.
Fomos dormir tarde. Quer dizer, eu fingi
dormir, mas quando percebi que Luna estava
dormindo, fui ao banheiro sem fazer barulho e
troquei de roupa.
Quando saí do quarto, bati a porta com um
pouco de força, o suficiente para acordar Luna. Ela
iria perceber que eu havia saído, mas não poderia
vir atrás de mim imediatamente. Isso me daria
tempo para ir até a rua.
Por mais idiota que isso parecesse, meu
plano era apenas esse: me colocar em perigo. Já
passava da meia-noite e as ruas fora do campus não
eram seguras. Se Luna e seus amigos estavam me

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protegendo de alguma coisa, então era hora de


descobrir.
A rua em que eu estava agora era
completamente deserta. Eu ouvia apenas os meus
passos. Meu coração batia um pouco mais rápido,
mas, estranhamente, eu não estava com tanto medo
assim. Estava alerta.
Não demorou muito e percebi que estava
sendo seguida. Olhei para trás e percebi que um
vulto passou rapidamente para o outro lado. Tentei
enxergar mais alguma coisa se movendo, mas foi
em vão. No entanto, quando virei para frente, lá
estava um rapaz bem próximo a mim. Não sei de
onde ele surgiu. Mas o sorriso que deu me fez
lembrar alguém.
― Oi, princesa em perigo. Quer brincar
um pouco?
A voz era rouca e seus olhos tinham um

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brilho estranho. Quando ele tentou se aproximar de


mim, rapidamente eu girei o corpo e lhe dei um
chute. Ele apenas tombou para trás. Se fosse
alguém normal, teria caído. Agora o sorriso infernal
em seus lábios exibia duas presas. Era um vampiro.
― Você me enganou, nephilim. Não havia
lhe reconhecido. Veio sem seu bando?
Normalmente vocês não estão sozinhos... ― ele
olhou ao seu redor procurando mais alguém. ― Ah,
uma nephilim tola o suficiente para vir me atacar
sem mais ninguém. Isso está começando a ficar
bem interessante.
Antes que eu pudesse responder qualquer
coisa, o vampiro me atacou. Tentou me prender em
seus braços, mas eu fui mais rápida. No entanto, na
segunda tentativa, ele conseguiu me prender. As
cotoveladas que dei em seu peito pareciam não
surtir efeito. Ele era muito forte. Mesmo assim

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continuei tentando lutar. Eu não sabia como estava


conseguindo fazer isso, mas consegui derrubar o
vampiro no chão. Mesmo assim ele não me largou
e saímos rolando pela rua. Depois de várias
tentativas frenéticas para me livrar dele, finalmente
ele conseguiu me render.
― Você só me deixou com mais apetite,
docinho ― o vampiro sussurrou em meu ouvido.
Ele puxou a gola do meu casaco e estava
prestes a morder o meu pescoço quando algo o
deteve.
― Sua desgraçada! ― ele me largou como
se eu fosse algo repulsivo. ― Queria me fazer
queimar lentamente até a morte, não é?
Levei a mão até o meu colar. Foi isso que
o deteve. O colar estava mais aquecido que o
normal e as asas de anjo estavam um pouco
reluzentes, com um brilho dourado.

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O vampiro deu dois passos para trás e


estava prestes a ir embora quando outro vulto surgir
e eles começaram a lutar.
Essa luta foi mais justa, porque o garoto
que apareceu era tão forte e ágil quanto o vampiro.
Assim como o vampiro, ele estava vestido todo de
preto. No entanto, quando a luta acabou com o
garoto enfiando um objeto pontiagudo no peito do
vampiro, eu percebi que ele era Nethanael.
Olhei para o vampiro. Ele agora era um
monte de cinzas. Minha cabeça estava confusa, mas
era como se eu já tivesse visto isso acontecer antes.
― Eu a encontrei ― disse Nethan, e eu
percebi que ele não estava falando comigo, e sim
ao telefone.
Nethan veio até mim e perguntou:
― Você se machucou?
― O que significa tudo isso, Nethan? ―
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Eu estava irritada. Estava me sentindo traída. ― E


quem é você? E por que aquele vampiro me
chamou de nephilim?
― Calma, nós vamos te explicar tudo.
― Nós quem?
― Vamos até o meu apartamento. O Gael
e a Luna estão esperando lá.

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Capítulo 11

O apartamento de Gael é espaçoso e


aconchegante. Tudo ao redor é perfeitamente
arrumado como se ninguém, de fato, morasse ali.
Estou olhando através da janela as ruas
silenciosas da cidade que ainda dorme. São três
horas da manhã. Não sinto sono. Não sinto cansaço.
Só um vazio estranho toma conta de mim agora. A
sensação de que durante toda a minha vida eu fui
enganada.
Quando cheguei no apartamento, Gael e
Luna já estavam à minha espera. Luna me deu um
abraço que eu não retribuí. E Gael, meio hesitante,
foi o primeiro a me dar explicações.
Eles disseram que eu sou filha de uma
nephilim. Que minha mãe se casou com um
vampiro e, contrariando a ordem natural das coisas,
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conseguiu ter uma filha com ele, o que era


considerado impossível até então. Sou a única
pessoa no mundo filha de um anjo e um vampiro.
Eles disseram que um grupo de vampiros
muito perigosos estão a minha procura e que por
isso estavam me protegendo.
Ainda enfurecida, perguntei quando eles
estavam pretendendo me dizer a verdade, já que,
aparentemente, o plano deles era só me proteger.
― Estávamos esperando para ver se você
recuperava a memória ― respondeu Luna em um
tom de voz muito baixo.
― Então vocês sabem disso também? Que
eu fiquei quatro meses desaparecida e não me
lembro de nada?
― Eu lhe conheci durante esse período ―
disse Gael.
― E onde eu estava?
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― Na Cidade dos Vampiros. Lamon


estava com você.
― Quem diabos é Lamon?
― Ele é o líder dos vampiros.
Provavelmente foi ele quem apagou a sua memória.
Só ele teria poder para fazer isso com uma nephilim
― disse Luna.
― Então me levem até ele. Eu preciso
saber de tudo o que aconteceu comigo.
― Não é bem assim, Stella ― interferiu
Nethan. ― Ele um homem muito perigoso. Não
podemos simplesmente aparecer na Cidade dos
Vampiros assim, do nada. Vamos tentar fazer com
que você recupere a memória de outra forma.
― Vamos lhe dar o treinamento adequado
para uma nephilim ― completou Gael.
― Tem alguém que possivelmente pode
lhe ajudar ― disse Luna.
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― Quem?
― Mikhail. Ele é o nosso líder. Vamos
levá-la até ele. Mas não hoje. Porque agora
precisamos voltar para o campus ― disse Gael.
― E onde esse Mikhail está? ― pergunto.
― Você também não se lembra dele, não
é? ― diz Gael.
Dou um suspiro frustrado como resposta.
― Ele está na Academia dos Anjos. É para
lá que vamos levar você em breve, para dar início
ao seu treinamento como uma nephilim ― diz
Nethan.
― E em algum momento vocês já pararam
para se perguntar se é isso o que eu quero? Receber
treinamento para ser uma nephilim?
Os três se entreolham.
― É que você tem apenas duas opções,

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Stella: ou se junta a nós ou os vampiros lhe levam


― diz Gael.
Pego meu casaco e decido que o melhor
para mim é voltar para o meu quarto no campus e
tentar dormir um pouco. Quem sabe quando eu
acorde descubra que tudo isso não passou de um
pesadelo.

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Capítulo 12

Passei a manhã inteira concentrada em


minhas aulas e ignorando os olhares de Nethanael.
Na hora do almoço, fui para o lado de fora do
prédio e me sentei no gramado para comer um
lanche que tinha comprado mais cedo. Mal havia
terminado e Nethan se sentou ao meu lado.
― Não dá para você viver nesse estado de
negação para sempre, sabia? ― ele me perguntou.
― Por que não? É só eu não sair mais à
noite, continuar meus estudos e fingir que não
conheço vocês.
― Não é tão simples assim.
― Estou brincando, Nethan. E não estou
em estado de negação. Só preciso de um tempo.
Confesso que ainda estou chateada por vocês não
terem me contado nada, mas não vou ficar
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eternamente perdendo meu tempo com coisas que


já passaram e não posso mudar.
― Desculpa. Sério mesmo, eu sinto muito.
A gente só queria... sei lá, lhe preparar melhor. Ver
se tinha algum jeito de lhe contar tudo de forma
mais fácil. Também foi uma surpresa para nós
descobrir sobre você. Você é algo novo... Eu nunca
tinha conhecido uma nephilim que não tivesse
nascido na Cidade dos Anjos antes.
Dou um sorriso para Nethan. Ele não tem
culpa de nada. Não adianta eu descontar minhas
frustrações nele.
― Onde fica a Cidade dos Anjos? ―
pergunto.
― Fica em outra dimensão. Só podemos ir
até lá através de um portal. Todos os nephilins vêm
de lá. Quando completamos 12 anos é que somos
mandados para cá. Somos treinados na Academia

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dos Anjos durante três anos e depois disso estamos


prontos para irmos para as ruas.
― Lutar contra vampiros e outros serem
sobrenaturais?
― Não exatamente. Nem todos os
nephilins são guerreiros, embora o treinamento de
luta seja obrigatório para todos, alguns são apenas
ministradores.
― E o que eles fazem?
― Confortam, consolam, evitam desastres,
influenciam as pessoas em algumas decisões. Essas
coisas.
― Anjos da guarda?
― Mais ou menos isso.
Nethan e eu ficamos um tempo em silêncio
contemplando a paisagem ao nosso redor. Os meus
pensamentos estavam ainda tão confusos.

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― Mais alguma coisa que queira saber


antes de voltarmos para a aula?
― Sim. Você vai mesmo se formar em
medicina?
Nethan dá risada e depois responde:
― Eu não sei. Fui designado com seu
tutor. Tenho de estar onde você está. Não sei se
precisarei ficar com você até o final. Com o tempo
você vai entender como isso funciona.
― Certo.
― Era isso mesmo que queria saber?
― Não. Eu queria lhe perguntar sobre
outra coisa.
― O que é.
― Acho que o namorado da minha melhor
amiga é um vampiro.
― O Nikolay?

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― Acho que sim. Eu o conheci como


Niko.
― É ele mesmo. Misael nos alertou sobre
isso. Mas não se preocupe, Stella. Ele deixou
alguém responsável por sua amiga.
― E por que o Niko ainda está lá com ela?
― Tecnicamente, Nikolay não quebrou
nenhum acordo. Ele é um vampiro que tem livre
acesso ao mundo dos humanos e não está fazendo
nenhum mal a sua amiga. Pelo menos ainda não.
― Então é normal um vampiro namorar
uma humana?
― Não é normal. Geralmente os vampiros
que tentam fazer isso acabam perdendo o controle
em algum momento e aí nós precisamos intervir.
Mas, no caso de Nikolay, ele é um vampiro muito
bem treinado. Faz parte da guarda pessoal do
Lamon.
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― Esse Lamon deve ser um monstro


terrível. ― Se Nikolay já era assustador, imagine o
líder dele.
― Sem dúvida. Ele já foi um anjo, sabia?
― Como assim?
― Ele caiu. Cometeu crimes horríveis e a
sua punição foi se tornar um vampiro.
― É isso o que o faz tão poderoso?
― Sim. Isso e o fato de ele já ter milhares
de anos. É uma pessoa que conhece muitas coisas.
Nunca imaginei que pudesse existir
alguém assim. E isso me dava arrepios.
― Vamos, Stella. Nossa aula já vai
começar.
Aceitei a mão que Nethan me ofereceu e
fui junto com ele para a sala de aula.

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Capítulo 13

Eu estava terminando de me arrumar


quando Luna entrou no quarto. O clima entre nós
duas ainda estava um pouco estranho, pois não
tínhamos conversado desde que saí do apartamento
de Gael.
― Oi, Stella. Soube que o Nethan vai
levá-la até a Academia ― disse Luna um pouco
receosa.
― Sim. Já está na hora de eu descobrir
mais sobre mim mesma e qual o propósito disso
tudo.
― Sei que deve estar sendo tudo muito
difícil para você. Desculpa se eu não tornei as
coisas mais fáceis.
― Não precisa se desculpar, Luna. Agora,
de cabeça fria e depois de analisar tudo melhor, eu
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entendo que vocês estavam tentando me proteger e


sou grata por isso.
― Que bom. Eu me sinto muito aliviada.
Não queria perder a sua amizade.
― Não vai.
Luna vem até mim e me abraça. Também
estou aliviada por saber que agora vai ficar tudo
bem entre nós duas.
Quando Nethan chega para me buscar
encontra Luna e eu conversando naturalmente e
rindo de algumas bobagens. E quando entro no
carro, Nethan comenta:
― É muito bom ver você e Luna se dando
bem novamente.
― Também acho. Eu gosto dela.
― E todos nós gostamos de você, Stella.
Jamais duvide disso.

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― Mesmo eu sendo a nephilim mais


estranha que você já conheceu? ― brinco.
― Sim, mesmo assim ― diz Nethan
sorrindo.
No percurso até a Academia, Nethan e eu
travamos uma luta em relação ao estilo musical que
ele gosta. Nethan queria me obrigar a passar 30
minutos no seu carro ouvindo música country. Eu
aguentei os cinco primeiros minutos sem reclamar,
mas depois meus ouvidos estavam suplicando para
ouvir alguma coisa que não me deixasse tão
nostálgica.
― Qual o seu problema, garota? Música
country é vida ― Nethan protesta.
― Rock clássico é que é vida, Nethan.
― Certo. Vamos unir o útil ao agradável.
Vamos ouvir Wanted dead or alive do Bon Jovi.
― Adoro essa música! ― comemoro.
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― Viu só? Você não é um caso perdido.


― Você que é, Nethan!

Seguimos nesse clima de brincadeira o


restante da viagem, mas quando Nethan sai da
rodovia e pega uma estreita estrada de barro,
começo a ficar um pouco tensa. Depois de 15
minutos, avisto uma enorme estrutura de pedra,
parecendo um castelo medieval. Dessa vez Nethan
percebe a minha tensão e pega em minha mão.
― Não se preocupe. Pode parecer
assustador à primeira vista, mas garanto que você
vai gostar do que vai encontrar lá dentro.
― Se você diz.
― Pode confiar em mim, Stella.
― Eu confio.
Nethan abre a porta do carro e eu faço o

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mesmo. Há um rapaz nos esperando. Quando nos


aproximamos, percebo que o conheço. É o mesmo
rapaz que viajou comigo até Villa Verde. Misael.
― Oi, Nethan. Oi, Stella ― ele nos
cumprimenta. ― O meu pai está esperando por
vocês na sala dele.
― Pode deixar que eu levo a Stella até lá
― diz Nethan.
A enorme porta se abre e Nethan me
conduz por um enorme corredor.
― Quem é o pai dele? ― pergunto
baixinho.
― Mikhail, o nosso diretor.
Paramos diante de uma enorme porta, onde
Nethan bate duas vezes e a abre.
Mikhail está sentado em frente a uma
enorme mesa e faz sinal para que Nethan e eu nos
sentemos a sua frente.
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― Olá, Stella. Como tem passado? ― me


pergunta Mikhail. Ele aparenta ter uns 40 anos.
Seus cabelos loiros estão levemente grisalhos e seu
semblante é muito sério.
― Bem.
― Não se lembra mesmo de mim?
― Eu... Já o vi antes? ― pergunto
perplexa.
― Conversamos um pouco quando estive
na Cidade dos Vampiros e você estava sob os
cuidados do líder Lamon.
― Eu não lembro.
― Estranho... Eu não sei qual foi o
objetivo de Lamon em apagar suas lembranças
enquanto esteve lá. Vocês pareciam estar se dando
muito bem. Se bem que Lamon é muito
diplomático. Ele trata cordialmente até mesmo seus
inimigos.
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Eu não sabia o que dizer, então fiquei


calada. Esse Lamon era um enigma em minha
mente.
― De qualquer forma ― Mikhail
continuou ―, estou estudando uma maneira de
você recuperar suas lembranças. Vai ser importante
no futuro.
― Por quê? ― perguntou Nethan.
― Se minha teoria de provar verdadeira,
tenho planos para a Stella.
― Quais planos? ― quis saber Nethan.
― Stella é filha de um vampiro, portanto,
tem sangue de vampiro em suas veias. Mas também
é filha de uma nephilim. Isso faz dela parte anjo,
parte vampiro. Lamon é um vampiro, mas já foi um
anjo, portanto, isso os torna semelhantes. Acredito
que, com o treinamento adequado, Stella se torne
mais forte que qualquer um de nós...
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― Espera aí ― interfere Nethan. ― Para


que isso se torne possível, ela teria que “despertar”
o seu lado vampiro. Não é isso o que pretendemos,
é?
― Como disse, Nethan. É apenas uma
teoria. Primeiro vou me empenhar em encontrar um
jeito de fazer com que Stella recupere a memória.
Isso pode ser bastante útil.
― Certo. Estamos dispensados agora? ―
pergunta Nethan.
― Sim. Leve Stella para conhecer a
Academia e pode dar início ao seu treinamento com
ela.
Nethan se levanta e eu faço o mesmo. Saio
da sala sem olhar novamente para Mikhail.
― Acho que ele não gosta de mim ―
comento com Nethan.
― É o jeito dele, Stella. Mikhail não é
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muito de demonstrar sentimentos. Mas ele é um


homem justo e empenhado no cumprimento da lei.
― Pelo que eu entendi, ele quer me
transformar numa arma capaz de destruir o líder
dos vampiros.
― Não é bem isso. Mikhail não pode lhe
obrigar a fazer nada que você não queira. É que
Lamon é um vampiro muito forte. Ele já matou
muitos dos nossos em batalha. É capaz de destruir o
mais treinado dos nephilins com a mesma
facilidade com que um homem pisa uma formiga...
― E é esse o cara que Mikhail quer que eu
enfrente?
― Ele está confiante em sua genética. Que
teoricamente é a mesma que a do Lamon.
― Tá. Mas o cara tem milhares de anos de
experiência e eu tenho 17 anos de inexperiência.
Nethan sorri, põe seu braço sobre o meu
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ombro e me aperta junto a si enquanto


caminhamos.
― Certo. Levando por esse lado, podemos
considerar a ideia de Mikhail um pouco insana
mesmo.
― Põe insana nisso ― concordo.

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Capítulo 14

Semanas se passam e a cada dia me sinto


mais confiante com a minha nova vida, embora em
alguns dias eu ainda me sinta confusa com a minha
identidade. Sou uma nephilim, mas também sou a
mesma Stella, uma garota que estuda para ser
médica, algum dia, que tem uma casa para onde
volta todos os finais de semana e faz coisas comuns
como passear, assistir filmes, refeições em
família... E ainda tenho Jéssica.
Nas poucas vezes em que a encontrei junto
com Nikolay, ele me olha de um jeito estranho.
Sabe que agora eu sei o que ele é, embora nunca
tenhamos conversado sobre isso.
Na Academia, eu estudei sobre a minha
família biológica. Vi a minha genealogia. E,
embora não me lembre de Victória, minha mãe,
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sinto que tenho uma conexão maior com ela.


Quanto ao meu treinamento físico, apenas
treino. Quando chegamos na sala de combate,
Nethan e eu descobrimos que domino muitas
técnicas de luta. Ele tem certeza de que eu tive
treinamento enquanto estive na Cidade dos
Vampiros, embora isso não faça muito sentido para
nós, já que sou considerada inimiga dos vampiros.
Também estudo sobre as escrituras, afinal,
a vida de um nephilim não é só de lutas. É preciso
adquirir conhecimento espiritual e fazer convênios
sagrados. Nethan é um ótimo professor nessa área
também.
Nas ruas, já enfrentei alguns vampiros.
Não sinto mais medo deles. E já me sinto confiante
para sair sozinha, embora isso não agrade muito ao
Nethan.
É que também sinto a necessidade de agir

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como uma pessoa normal, por isso saí com algumas


colegas da faculdade à noite para irmos ao cinema.
Tudo estava indo bem. Assistimos a um
ótimo filme, depois fizemos um lanche. No entanto,
quando estávamos indo embora, percebi que havia
dois vampiros nos observando.
Quando chegamos ao alojamento, eu não
senti mais a presença deles, por isso relaxei. O
quarto das meninas não ficava no mesmo prédio
que o meu. Mas como dentro do campus
normalmente era seguro, elas não se opuseram que
eu fosse até o meu o meu prédio sozinha.
Somente quando me afastei e estava
sozinha em uma pequena rua entre os prédios, foi
que senti a presença deles. No entanto, antes que eu
os visse, algo atingiu fortemente a minha cabeça e
eu apaguei.

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Capítulo 15

Acordo com um pouco de dor na cabeça,


mas há um pano macio pressionando a minha testa.
Estou deitada no chão e há um homem agachado
me ajudando com o ferimento.
― Oi. Você acordou. Quer que eu a leve
ao hospital?
― Não precisa.
Tento me levantar, mas ele pede que eu
espere mais um pouco. Nesse momento, eu o
observo melhor. Ele é jovem. Seu cabelo loiro é um
pouco curto e parece bem macio. Seus olhos verdes
são intensos e analisam meu ferimento com
bastante atenção.
― Parou de sangrar. Acho que não é tão
grave quanto pareceu ― ele diz.

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― Posso levantar agora?


― É melhor sentar primeiro.
Faço o que ele diz e percebo que estou na
varanda de uma casa.
― Onde estou?
― Na minha casa. Eu acabei de chegar e
vi você caída na calçada. Trouxe você aqui para
dentro e estava prestes a chamar uma ambulância,
mas você acordou.
― Você chegou a ver quem me
machucou?
― Não. Você estava sozinha quando
cheguei, mas presumo que tenha sido algum
assalto, já que você está sem bolsa, sem celular...
Procuro em meu bolso pelo meu aparelho.
De fato, ele se foi. Sei que não foi um assalto, mas
é obvio que não vou dizer isso ao rapaz. Ao invés
disso, eu me levanto.
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― Eu preciso ir embora. Obrigada por ter


me ajudado ― digo e me dirijo até o portão.
O rapaz vem atrás de mim e percebo que
ele manca um pouco.
― Você também foi ferido? ― pergunto.
― Ah, não. Isso é antigo. Desculpa não ter
levado você lá para dentro. É que já foi bem difícil
ter que levá-la até a varanda.
― Não precisa se desculpar, foi melhor
assim. Eu teria me assustado se tivesse acordado
dentro de um lugar estranho.
― É verdade, mas não precisa ter medo de
mim. Eu era policial. Fui ferido no trabalho e por
isso fiquei de licença médica.
Olhando melhor para ele agora, não me
sinto intimidada. Ele parece sincero e disposto
mesmo a me ajudar.
― Posso lhe fazer algumas perguntas? ―
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ele diz.
― Depende...
― Você suspeita de alguém que poderia
ter feito isso com você?
― Não. Por que a pergunta?
― Para lhe deixar prevenida. É comum ter
assaltos por aqui, principalmente a essa hora da
noite. Mas se for alguém que esteja querendo lhe
machucar, não é bom que saia assim sozinha.
― Não... Acho que foi um assalto mesmo.
Não tem ninguém me perseguindo ou algo do tipo.
É melhor eu ir.
― Permita que eu lhe acompanhe. Não é
seguro sair assim.
Hesito por um momento. Ele percebe isso
e diz.
― Ou então você pode chamar um táxi.

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Mesmo que o campus não esteja tão longe,


acho melhor fazer o que ele diz.
― Certo. Você me empresta o telefone?
― Claro. ― Ele coloca a mão no bolso e
pega o seu celular.
Faço a ligação e em seguida devolvo o seu
telefone.
― Qual é o seu nome? ― ele me pergunta.
― Stella.
― É um bonito nome. O meu é Alek.
― É um prazer, Alek.
― Igualmente. Você não quer esperar na
varanda? Podemos sentar um pouco.
Penso em negar, mas me lembro que ele
tem um problema na perna e imagino que deva ser
desconfortável para ele ficar em pé por muito
tempo, então assinto.

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Assim que voltamos à varanda, uma leve


chuva começa a cair. Observamos um pouco a
chuva e depois Alek começa a conversar comigo.
Ele é muito gentil e muito bonito também. Agora
que não estou mais tão assustada e a dor na minha
cabeça se reduziu para um leve incômodo, pude
observar que Alek é um rapaz muito atraente.
Minha vida está tão confusa que percebo
agora que faz tempo que não tenho um momento
como esse: a companhia de um garoto normal.
A chuva se intensifica e começa a molhar
a varanda.
― Acho que agora vamos ter que entrar,
Stella. Mas não precisa se preocupar, eu deixo a
porta da sala aberta.
― Tudo bem.
Alek se levanta e abre a porta. A casa é
espaçosa, embora tenha pouca mobília.
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― Você mora aqui há pouco tempo? ―


pergunto.
― Na verdade, não. Mas quando eu estava
trabalhando passava muito tempo fora, por isso não
me preocupava muito em mobiliar a casa. Eu tinha
o básico e isso bastava.
― Há quanto tempo você está de licença?
― Há seis meses. Eu fui ferido em um
tiroteio. Tive sorte em escapar com vida.
― Sinto muito.
Alek não diz mais nada, apenas me olha e
eu sinto uma certa familiaridade nisso. Eu me sinto
atraída por ele, não há mais como negar. Mas
preciso ser sensata e não me deixar levar por isso.
― O táxi está demorando ― comento.
― Olha, Stella, para ser sincero eu duvido
muito que ele venha com essa chuva. As ruas no
centro costumam ficar um pouco alagadas quando a
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chuva é forte e não é todo taxista que vê vantagem


em sair de lá para pegar uma corrida assim.
― Mas está ficando tarde e eu não posso
continuar aqui esperando.
― Por mim, não tem problema. Mas eu
entendo a sua insegurança. Então, eu posso lhe
levar de carro.
― Eu agradeço. É melhor do que ficar
aqui a noite toda.
― Eu ia adorar, mas não quero que ache
que estou sendo precipitado.
O sorriso no rosto de Alek me fez relaxar
um pouco. Ele estava brincando.
― Vou pegar as chaves do carro e já volto.
Alek não demorou muito. E no percurso
até o campus, ele continuou conversando, deixando
o clima menos tenso. Mas quando o carro parou na
porta do meu prédio, foi um momento estranho a
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hora de se despedir.
― Quer o meu casaco? Ainda está
chovendo um pouco ― ele disse.
― Não precisa. São só três passos até eu
estar na cobertura ― eu disse sorrindo.
Alek tocou em meu queixo e o toque de
sua mão em mim causou uma calorosa sensação.
― Promete que vou ver esse sorriso de
novo? ― perguntou.
Ele não esperou por uma resposta, se
aproximou mais de mim e colou seus lábios nos
meus. No início eu fiquei um pouco sem ação, mas
quando finalmente levei minha mão até a sua nuca
e acariciei aqueles cabelos macios e ele intensificou
o beijo e eu nunca senti nada tão maravilhoso
assim.
Eu não queria que Alek parasse, mas o
bom senso falou mais alto e eu lentamente me
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afastei.
― Acho melhor eu entrar ― disse com
uma voz ainda afetada por causa do beijo.
― Boa noite, Stella. Foi realmente um
prazer conhecê-la.
― Boa noite ― eu não conseguia falar
mais nada. Por isso saí logo do carro e entrei no
prédio sem olhar para trás.

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Capítulo 16

― Estou tentando entrar em contato com


você desde ontem ― diz Nethan quando entro na
sala de aula.
― Perdi o meu celular.
― Como?
Faço um resumo do que aconteceu na noite
anterior omitindo o que se refere a Alek. Digo para
Nethan que acordei no campus mesmo e voltei para
casa sozinha. Ele fica muito preocupado e diz para
eu não sair mais sozinha à noite. Para tranquiliza-
lo, acabo concordando.
Depois das aulas vamos para a Academia
com Gael e Luna. Vamos juntos para uma das salas
de reuniões e lá encontramos Mikhail e Misael.
Mikhail fica sentado em um canto mais

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afastado enquanto Misael nos passa algumas


informações sobre os acontecimentos dos últimos
dias.
― Há um exército de vampiros se
formando em uma pequena cidade chamada Salim.
Fica no norte do país e é um lugar muito isolado,
por isso eles não estão chamando muito a atenção
da população local. No entanto, já fizeram alguns
ataques aos nephilins que estão lá.
― Com que propósito eles estão fazendo
isso? É contra a lei! ― diz Gael.
― O Lamon está ciente disso? ― pergunta
Luna. ― Ele nunca foi a favor de vandalismos
entre os seus liderados.
― Se estiver ciente ele não está fazendo
nada para impedir ― diz Misael.
― O que não é comum. Ele costuma ser
discreto e normalmente respeita as leis ― diz
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Nethan.
― Acontece que as coisas estão mudando
― fala Mikhail pela primeira vez. ― Eu fui à
Cidade dos Vampiros e não o encontrei lá. O
conselho não sabe ou não quis me dizer onde ele
está. Eu senti uma certa resistência por parte deles
ao me dar algumas informações. Pressinto que
Lamon não esteja mais tão interessado assim em
manter os acordos.
― O que vamos fazer? ― pergunta
Nethan.
― Preciso localizá-lo antes de qualquer
coisa e solicitar a presença dele em uma reunião ―
diz Mikhail. ― À propósito, vou me ausentar agora
mesmo e tentar descobrir alguma coisa sobre quem
está liderando esse exército.
Depois que Mikhail deixa a sala, o clima
fica um pouco tenso. Misael quebra o silêncio

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dizendo que precisa sair em uma missão. Gael e


Luna fazem a mesma coisa.
― E você, não tem nenhuma missão? ―
pergunto a Nethan.
― Por enquanto a minha missão é cuidar
de você. E preciso descobrir quem lhe atacou.
― Não precisa ficar como minha babá,
Nethan. Aposto que você tem coisas mais
importantes para fazer. Eu vou ficar bem e vou
ficar mais atenta agora. Eu confesso para você que
dei bobeira, mas não vou mais fazer isso. Aprendi a
lição.
― Certo. Mesmo assim preciso investigar
essa história. Foi muito estranho que eles apenas
tenham apagado você e não terem feito mais nada.
― Talvez, quando eles tentaram se
alimentar de mim ou me matar, o colar os deteve.
― É possível. Mesmo assim é estranho.
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Sinto uma pontada de culpa por não dizer


a Nethan exatamente tudo o que aconteceu. No
início, eu suspeitei que Alek pudesse estar
envolvido de alguma forma. Mas depois, percebi
que ele é apenas um humano normal, inofensivo, e
acreditei em sua versão da história.
― Nethan, há alguma informação sobre o
Lamon nos arquivos que temos aqui na Academia?
― Sim. Por quê?
― Pensei que se eu me informar mais
sobre ele, talvez me lembre de alguma coisa...
― Ah, pesquisa aí então ― Nethan me
indica o computador atrás de mim.
Vou até à mesa e acesso o aplicativo com
os arquivos.
― Qual é mesmo o sobrenome dele? ―
pergunto.
― Aleksey. Lamon Aleksey.
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Começo a digitar e, por um momento,


paraliso. Aleksey. Alek. Não pode ser. Só posso
estar com uma imaginação muito fértil.
― Nethan, aqui deu acesso não permitido.
― Deixa eu tentar ― Nethan vem até
onde estou e digita uma senha. Depois de várias
tentativas ele também não consegue ter acesso. ―
Estranho. Depois vejo com Misael o que pode estar
acontecendo.
― Tudo bem. Nethan, me tira uma
dúvida... É possível não perceber quando alguém é
um vampiro?
― Por que essa pergunta? Está com medo
de matar um humano no lugar de um vampiro? ―
Nethan brinca.
― Não. Falo do oposto. De achar que um
vampiro é um humano.
― Olha, existem alguns vampiros que
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vivem entre os humanos. Eles são sociáveis e se


alimentam apenas de sangue animal, por isso têm
permissão de viver aqui. Mas seus movimentos
continuam sendo ágeis, eles têm uma musculatura
mais forte, ou seja, são mais rijos e suas peles são
levemente mais frias. Acho que não dá para se
enganar, não, Stella.
― Certo.
― E, de todo modo, se você tiver dúvida
você tem o colar. Nenhum vampiro suportaria
chegar muito perto disso.
― Por quê?
― Esse colar possui a proteção dos
arcanjos. Nenhuma força do mal sobrevive a isso.
― Mas ele não faria mal a nenhum
humano, faria?
― Não. A um humano, não.

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Capítulo 17

Eu estava pensando em uma desculpa para


ir até a casa do Alek, mas isso não foi preciso. Ele
veio até o alojamento certa noite enquanto eu
estava voltando do quarto de uma das minhas
colegas de turma. Quando cheguei em meu prédio,
reconheci o carro. Ele estava lá dentro sentado.
― Oi. O que você está fazendo aqui? ―
perguntei me aproximando da janela.
― Dei carona a um amigo meu que mora
aqui. Aproveitei para ver se conseguia lhe
encontrar. Eu teria ligado se você não tivesse
perdido o celular.
― Já comprei outro.
― Que bom. Isso significa que agora eu
posso ter seu número?

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― Quem sabe...
― Entra aqui. Vamos dar uma volta. ―
Alek convida.
― Tudo bem, deixa eu só pegar meu
casaco. Está um pouco frio.
― Eu espero.
Entro rapidamente no prédio e vou até meu
quarto. Luna não está lá, então deixo um bilhete
para ela. Pego um casaco e volto para o
estacionamento.
― Para onde vamos? ― pergunto.
― Você escolhe.
― Nenhuma sugestão? Eu não conheço
muito a cidade.
― Talvez você não concorde com a minha
sugestão, mas é exatamente o lugar para onde eu
queria lhe levar.

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― E qual seria esse lugar?


― A minha casa.
O Nethan me mataria se soubesse o que
estou prestes a fazer. Mas se quero mesmo
descobrir se Alek e Lamon são a mesma pessoa,
preciso correr esse risco.
― Tudo bem.
A casa de Alek está um pouco mais
iluminada que da última vez que estive aqui. E,
como dessa vez não está caindo um temporal, opto
por sentar em uma das cadeiras da varanda. Depois
de um tempo conversando, Alek pergunta se quero
beber alguma coisa. A verdade é que estou com
sede e preciso mesmo entrar para colocar meu
plano em prática.
Eu me sento no sofá da sala enquanto Alek
vai até a cozinha. Ele volta com uma garrafa de
vinho e com a água que eu pedi.
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― Eu sei que você disse que não bebe,


mas espero que não se importe de eu me servir de
uma taça de vinho.
― Fique à vontade ― respondo.
Alek me fala mais sobre como era o seu
trabalho e o quanto sente falta dele.
― Acho que eu preciso tirar o meu casaco,
está ficando quente aqui ― digo.
― Verdade, aqui dentro é mais aquecido
― Alek concorda e fica observando enquanto tiro o
casaco. ― Precisa de ajuda?
― Sim, acho que o casaco soltou um fio
que enganchou aqui no meu colar.
Alek se aproxima de mim e me ajuda. Ele
segura o colar e retira o fio que estava preso em
uma das asas de anjo.
Não, ele não é um vampiro, pois segura o
pingente entre seus dedos.
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― É um belo colar. Foi um presente? ―


Alek pergunta enquanto acaricia agora o meu
pescoço.
― Provavelmente ― respondo.
― Como assim? Não sabe se foi um
presente? ― ele pergunta agora acariciando o meu
pescoço com os seus lábios.
― Eu não consigo me lembrar direito
agora.
Alek dá um sorrisinho. Ele sabe o efeito
que está causando em mim. Sem demora, os seus
lábios encontram os meus. E, por mais incrível que
pareça, o beijo é ainda melhor do que o que ele me
deu no carro.
Lentamente, Alek se deita no sofá e me
puxa para que eu possa ficar por cima dele. Seu
peito é muito rijo sob as minhas mãos. Mais rijo do
que considero humanamente normal. Mas ele tocou
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no colar, por isso confio que ele seja inofensivo e


me permito me entregar a esse momento. Porque
nunca fui beijada dessa forma. Nunca senti o meu
corpo tão sensível ao toque de alguém. Eu não
conheço Alek muito bem e não sei quase nada
sobre a vida dele, mas a sensação que tenho em
seus braços é de pertencimento, como se tudo em
nós se encaixasse.

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Capítulo 18

Tento me concentrar nas aulas, mas a


verdade é que minha cabeça está em outro lugar.
Quando passo a língua em meus lábios é como se
ainda pudesse sentir o gosto dele.
― Stella, está tudo bem? ― Nethan me
pergunta.
― Sim. Por quê?
― A Luna disse que você chegou bem
tarde ontem. E você está com cara de quem não
dormiu nada.
― Eu... Tive que resolver algumas coisas.
Assuntos pessoais ― eu sou péssima em mentir
para o Nethan.
― Olha, Stella. Depois das aulas nós
vamos ter que conversar sobre esses seus assuntos

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pessoais. Tudo bem que eu não tenho que ficar me


metendo o tempo inteiro em sua vida. Mas você
está em treinamento para ser reconhecida
oficialmente como uma nephilim. E eu sou o seu
tutor. É meu dever lhe preparar e impedir que
alguma coisa de mal lhe aconteça. Ainda tem
algumas coisas que eu preciso lhe ensinar. E eu
posso afirmar que você ainda não está pronta para
encarar o mundo aí sozinha.
― Tudo bem, Nethan. A gente conversa
depois.
Eu não fazia ideia de como eu ia dizer para
Nethan que estava “saindo” com alguém. Isso era
uma coisa normal, mas eu não fazia ideia se
interferia em meu treinamento. Luna namorava,
mas era com um nephilim. E Nethan teve uma
namorada, mas nunca conversamos com detalhes
sobre isso. E eu nem sei se ela era uma nephilim

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também.
Quando finalmente eu estava começando a
me concentrar na aula, meu celular vibra em minha
bolsa. Era uma mensagem de Alek.

Alek: Oi, pequena. Vou ficar fora por dois


dias resolvendo um assunto de família. Te procuro
assim que eu voltar. Bjs.

Respondo a mensagem com um ok e uma


carinha mandando beijos. Só percebo que estou
com um sorriso bobo no rosto quando Nethan para
de prestar atenção no professor e me encara.
Finjo que estou concentrada na aula, mas a
verdade é que meu pensamento está em Alek e na
forma como ele me beijou na noite anterior.
Depois das aulas vou ao banheiro para
fugir um pouquinho de Nethan e me preparar para a
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conversa que vou ter com ele. Mas quem entra no


banheiro a minha procura é Luna. E ela parece um
tanto séria.
― Mikhail nos convocou para uma
reunião de emergência. Temos que ir até a
Academia agora.

Ao chegarmos na Academia, vamos direto


para o salão principal. Eu nunca tinha visto tantos
nephilins reunidos. O salão está lotado. Sei que em
cada cidade há uma Academia dos Anjos, e
provavelmente todos os anjos de Novos Montes
estão aqui. Tiro minha dúvida com Nethan, que
está ao meu lado.
― Esses são todos os nephilins da cidade?
― Esses são só os guerreiros. Os
ministradores não podem sair de perto dos
humanos, senão a cidade ficaria um caos.
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Mikhail se posiciona no centro do salão e


começa a falar:
― Nessa madrugada, nós tivemos um
ataque. O líder dos vampiros invadiu o local onde
mantínhamos alguns vampiros prisioneiros e os
libertou. Sabemos que foi ele porque os vinte
nephilins que guardavam a prisão estão mortos. E o
único vampiro capaz de matar esse número
considerável de nephilins é o Lamon. Convoquei
todos vocês, para que se preparem. Uma guerra está
prestes a acontecer. Quero que peguem as suas
armas e voltem preparados para a cidade. Os
nephilins que ainda estão em treinamento e não
receberam ainda a sua marca, devem permanecer
na Academia, pois vamos agilizar a cerimônia de
convocação para que todos estejam preparados para
lutar e nos representar. Os demais estão
dispensados.

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Gael e Luna foram embora. Nethan


permaneceu ao meu lado. Mikhail veio em nossa
direção e disse:
― Preciso conversar com vocês dois em
minha sala.
Assim que entramos na sala, Mikhail
fechou a porta atrás de nós, sentiu em sua cadeira e
foi logo dizendo:
― Stella, fiz tudo o possível para
conseguir um meio para que a sua memória fosse
recuperada. Mas a única pessoa capaz de fazer isso
é quem a apagou. Eu poderia mandá-la de volta
para a Cidade dos Vampiros se estivéssemos em
tempos de paz, mas creio que no momento isso
seria muito arriscado. Lamon há muito tempo
estava mantendo os acordos. Eu não faço ideia do
que pode ter acontecido para ele resolver quebrá-
los. Eu o convoquei para uma reunião, mas ele não

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compareceu. Quando um vampiro é convocado e


não comparece isso nos dá o direito de prendê-lo. E
se for provado que foi mesmo Lamon quem matou
os nephilins, a prisão dele será perpétua. Na
verdade, ele seria condenado à morte, isso se algum
de nós puder matá-lo. Eu acredito, Stella, que você
seria a única capaz disso.
― Ela ainda não está pronta, Mikhail ―
disse Nethan.
― Então você deve prepará-la, Nethan.
Porque se essa guerra acontecer. E tudo indica que
está mesmo prestes a acontecer. Todos terão que
lutar. Preparados ou não.
― Ela ainda nem recebeu a marca ―
alegou Nethan.
― Esse era outro assunto que eu queria
falar. Prepare-a para receber a marca o mais breve
possível. Estão dispensados.

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Quando saímos da sala de Mikhail, Nethan


parecia preocupado.
― Você acha que eu não dou conta, não é?
― perguntei.
― Não é isso, Stella. É que não era para
estar acontecendo tudo dessa maneira. Não era para
estarmos impondo as coisas para você dessa forma.
Era para você estar conhecendo tudo aos poucos e
fazendo as suas próprias escolhas.
― Como assim?
― Eu escolhi ser um guerreiro. Mas
escolhi isso depois de passar um tempo nas ruas, de
servir como ministrador, de conhecer muitos
lugares, pessoas, e depois de analisar tudo, escolhi
o que acreditava ser o melhor para mim. Com você
não está sendo assim.
― Tudo bem. Eu já percebi que não estou
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seguindo a ordem natural das coisas, mas isso não é


tão ruim quanto parece. Se eu tivesse que escolher,
eu escolheria lutar mesmo com vocês, então não
acho que estou sendo obrigada a nada.
― Você pode morrer enquanto tentar
matar o Lamon.
― Se houver uma guerra, todos nós
corremos esse risco.
Nethan me abraça. É a primeira vez que
ele me abraça assim tão forte. Eu me sinto
emocionada com a sua demonstração de afeto.
― Sinto que estou falhando com você ―
ele diz.
― Não está, Nethan. Não tenho dúvidas de
que você é o melhor tutor que eu poderia ter.
― Certo. Então vamos continuar com o
seu treinamento.
Nethan e eu vamos para a sala de
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combates para lutarmos um pouco. Depois de um


treino muito puxado, vamos ao refeitório comer
alguma coisa.
― Quem eram esses vampiros que
estavam sendo mantidos prisioneiros? ― pergunto.
― Vampiros perigosos que quebraram os
acordos e perderam o direito de viver em liberdade
até mesmo na Cidade dos Vampiros.
― Então por que Lamon os libertou?
― Se ele está planejando uma guerra, vai
precisar de seus súditos mais perigosos e mais
fortes.
― Eu detesto esse Lamon ― digo com
sinceridade.
― E por falar nele, consegui desbloquear
o acesso ao arquivo que você estava querendo ler.
― Obrigada. Eu vou deixar para ver isso
depois. Preciso descansar um pouco agora.
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― Ah, é mesmo. A senhorita não dormiu


quase nada na noite passada e ainda não me disse o
motivo.
― Amanhã, Nethan. Amanhã teremos essa
conversa.
― Ok. Durma bem, Stella.
― Obrigada.

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Capítulo 19

― Bom dia, Stella. Hoje o seu treinamento


será diferente ― diz Nethan assim que abro a porta
do meu quarto.
― Espero que isso não envolva nenhuma
luta. Meu corpo ainda não se recuperou do treino
puxado de ontem.
Essa noite foi a primeira vez que dormi na
Academia, e não consegui descansar muito bem.
― Não se preocupe. Hoje vamos apenas
dar um passeio ― Nethan diz com um sorriso.
Percebo que Nethan está bem relaxado.
Pelo jeito sua noite não foi como a minha e ele
dormiu muito bem.
― Mas, antes, preciso te levar para um
lugar.

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Nethan me leva a uma sala onde nunca


estive antes. Há uma mesa estreita no centro dela e
ao redor da pequena mesa, algumas almofadas. Não
há mais nada ali além disso.
― Ajoelhe-se ― Nethan me pede
indicando uma das almofadas.
Faço o que ele diz. Nethan vai para o outro
lado da mesa e se ajoelha também. Ele estende os
dois braços por cima da mesa e pede que eu faça o
mesmo e segure as suas mãos.
― O que vamos fazer? ― pergunto.
― Uma oração. Eu vou lhe preparar para
receber a marca do anjo.
― Essa marca é... tipo uma tatuagem?
― Não. A marca é simbólica. É uma
experiência espiritual única, que só você pode
sentir. Você vai entender melhor quando chegar a
hora. O que vamos fazer agora é apenas o princípio
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das experiências espirituais que você vai ter. Eu


vou proferir a oração e você apenas vai ouvi-la. Só
peço que continue segurando as minhas mãos
enquanto isso. E feche os olhos.
Eu assinto e Nethan começa a falar
algumas palavras ao nosso Criador. Ele pede
proteção, pede sabedoria, força e inteligência.
Nethan fala com muita facilidade e diz palavras
muito bonitas, demonstrando que esse é um
momento sagrado. Uma paz muito grande toma
conta de mim. Fico tão emocionada que sinto as
lágrimas caírem.
Depois que Nethan se cala, ainda não
quero abrir os olhos. Quero continuar tendo esse
sentimento tranquilo que tomou conta de mim.
― Abra os olhos, Stella ― Nethan me
pede.
Assim que abro os olhos e vejo Nethan a

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minha frente, percebo que ele está um pouco


diferente. Todo o seu corpo parece envolto por uma
leve luz. O sorriso que ele me dá e o mais genuíno
que já vi até hoje.
Sempre vi Nethan como apenas um garoto,
mas agora, ao olhar para ele, percebo que é mesmo
um anjo.
― Sempre que os anjos saem da Academia
para ministrar, fazem isso de modo que os olhos
humanos não podem vê-los. Você não vai
conseguir fazer isso até que receba a sua marca.
Mas eu vou abençoá-la com a capacidade de
enxergá-los.
Nethan leva uma das mãos até a minha
testa e pressiona levemente o seu polegar entre os
meus olhos.
― Vamos ― Nethan diz e se levanta.
Faço o mesmo. E sigo atrás dele. Quando
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chegamos ao carro, Nethan parece novamente ser


apenas um garoto, mas o sentimento de
tranquilidade que eu senti naquela sala ainda
permanece em mim.
Quando chegamos à cidade, fico
surpreendida com o que vejo. Há anjos, muitos
anjos, caminhando pelas ruas. Vamos até a uma
praça e lá eu vejo anjos impedindo as crianças de
caírem do parquinho, anjos ajudando pessoas a
atravessarem a rua, anjos evitando que algum
cachorro seja atropelado. E a cena que mais
chamou a minha atenção foi quando um anjo se
colocou na frente de um carro que vinha em alta
velocidade e amenizou a colisão com outro veículo.
Mesmo assim houve um acidente. Mas o estrago
poderia ter sido pior.
― Por que ele não impediu o acidente? ―
pergunto a Nethan.

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― Porque a função dos anjos


ministradores não é impedir tudo. Os seres
humanos precisam passar por algumas experiências
difíceis para que eles aprendam coisas que só
poderiam aprender dessa forma. E a fé deles precisa
ser testada.
Ficamos observando por mais um tempo.
Meus olhos ficaram cheios de lágrimas de gratidão
por tudo o que eu estava vendo.
― E algumas pessoas ainda acham que
estão sozinhas ― só percebo que falei isso em voz
alta quando Nethan me responde:
― Não. Elas nunca estão.

No caminho de volta para a Academia,


fico em silêncio, mas depois de um tempo, Nethan
resolve interromper minhas divagações.
― Acho que ainda temos uma conversa
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pendente, não?
― Eu estava com um garoto ― vou direto
ao ponto.
Nethan não parece muito abalado, mas
também não parece feliz com o meu comentário.
― Mas eu não estava fazendo nada demais
― explico. ― É só um rapaz que eu conheci. Ele
mora perto do campus. E eu estava passando um
tempo com ele.
― Tudo bem, Stella. Nada impede que
você saia com alguém. Só tome bastante cuidado.
Esse é um momento de sua vida que você está
muito vulnerável. Seus sentimentos podem ficar
confusos...
― Eu estou bem, Nethan. De verdade.
― Tudo bem. Eu só peço que você confie
mais em mim e me conte tudo. Se alguma coisa sair
do controle, se você se sentir ameaçada de algum
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modo, você precisa me contar.


― Certo.
― Promete, Stella?
― Prometo.

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Capítulo 20

O final de semana chegou e eu preciso


voltar para casa. Já faz um tempo que não vejo
Jéssica e preciso conferir com os meus próprios
olhos se a minha amiga está bem.
Como fiquei na Academia nos últimos
dias, também não vi Alek. Só tenho tempo de
passar no meu quarto no alojamento para pegar
algumas coisas e ir para a rodoviária. Mas, antes de
sair do quarto, uma mensagem chega em meu
telefone.
Alek: Você teria um tempo para me ver?
Estou com saudades.
Também estou morrendo de saudades dele.
Mas não estou voltando para casa apenas para ver
minha família. Estou indo como parte de uma
missão. Nethan me pediu isso.
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Stella: Preciso ir para Villa Verde passar o


final de semana com a minha família. E o último
ônibus para lá sai daqui a meia hora. Não tenho
como passar aí antes disso.
Depois de um tempo, Alek responde:
Alek: Eu posso levar você de carro para
Villa Verde. Vem pra cá e eu te levo.
Stella: Tem certeza? Não é pedir demais?
Alek: Se a única maneira de eu te ver é
essa... Estou com muitas saudades mesmo,
pequena.
Tem como negar isso?
Stella: Daqui a pouco eu chego aí.
Alek: Te aguardo.

Dez minutos depois, estou na casa de


Alek. Assim que ele abre a porta, me dá um

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maravilhoso sorriso e em seguida um abraço. É tão


gostoso sentir seu cheiro.
― A sensação que eu tenho é que você
está fugindo de mim ― ele me diz.
― Nem pense nisso. Meus dias que estão
uma loucura mesmo. E você? Resolveu o que
precisava?
Alek se senta no sofá e me puxa para o seu
colo. Sempre que nossos corpos se tocam eu me
sinto como se estivesse mais viva. Alek não precisa
fazer muita coisa para provocar reações bem
intensas em mim.
― Sim. O meu pai está muito doente. E
minha mãe não tem condições de cuidar dele
sozinha. Mas eu consegui contratar uma pessoa
para cuidar deles.
― Que bom ― digo. E antes que eu
decida falar qualquer outra coisa, Alek segura meu
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rosto com suas mãos e me beija.


Não consigo compreender como o beijo
dele fica cada vez melhor. É impossível resistir.
Depois de um tempo, Alek se afasta e me
pergunta:
― Você tem hora para chegar?
― Infelizmente, sim. Combinei com a
minha tia de estar lá às 21h.
Alek não parece muito contente com a
resposta, mas mesmo assim diz:
― Então a gente precisa ir agora.
Saio de seu colo e arrumo o meu vestido
que está todo amarrotado. Alek me abraça e me
beija no pescoço.
― Você disse que a gente precisa ir agora
― sussurro.
― É que você fica me provocando.

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Eu me afasto e Alek me dá um sorriso


travesso.
― É melhor a gente ir mesmo ― digo e
me dirijo até a porta.

O percurso até Villa Verde é tranquilo.


Alek e eu conversamos bastante, mas evitamos
assuntos muito pessoais. Eu não teria como
explicar o que ando fazendo ultimamente. Ainda
bem que Alek não é uma pessoa muito curiosa.
Mando uma mensagem para Morgan
avisando que peguei carona com uma amiga da
faculdade e que ela não precisa ir me buscar na
rodoviária.
Quando passamos pela praça da cidade,
avisto Jéssica atravessando a rua.
― Pare ali, por favor, Alek. Preciso falar
com minha amiga rapidinho.
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Alek encosta o carro e eu desço para


chamar Jéssica. Quando ela me vê, vem correndo
em minha direção e me dá um abraço.
― Nossa, faz tempo que eu não te vejo ―
ela me diz.
Me afasto um pouco para pode vê-la
melhor.
― Como você está? De verdade? ―
pergunto.
― Estou bem.
Percebo que Jéssica está um pouco triste.
O sorriso em seu semblante é um pouco forçado.
― E o Niko? ― pergunto.
― Ele está vindo ali. Eu tinha marcado de
me encontrar com ele.
Nikolay se aproxima e o sorriso que vejo
em seu rosto é repugnante. Ele me cumprimenta

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com um beijo no rosto e sinto um arrepio asqueroso


passar por mim.
― Você está bem sumida, Stella ― ele
diz. ― Ocupada demais com os novos amigos?
Sei a quem ele está se referindo. Mas não
posso falar nada na frente da Jéssica.
― Ocupada com os estudos ― digo. ―
Mas não ocupada demais para ver minha amiga.
― Então, vem com a gente ― convida
Niko. ― Assim vocês matam a saudade.
O sorriso que vejo no rosto de Jéssica
quando Niko me convida parece um alívio. Sei que
alguma coisa não está bem entre eles.
― Na verdade, tem alguém à minha
espera. E eu nem fui em casa ainda.
― Podemos passar lá com você ― Niko
diz.

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Antes que eu responda alguma coisa, Alek


sai do carro e vem até nós.
― Seu celular está tocando no carro ― ele
me diz.
Ao olhar para ele, Niko tira imediatamente
o sorriso sarcástico do rosto. Posso estar enganada,
mas vi um sinal de reconhecimento ali. E Niko
parece desconfortável agora.
Alek coloca o braço ao redor dos meus
ombros de modo protetor. Ele encara Niko e o
mesmo baixa o olhar e diz:
― A Jéssica e eu precisamos ir. A gente se
vê por aí Stella ― diz Niko e sai arrastando Jéssica
mal dando a oportunidade de ela se despedir de
mim.
― Desculpa eu ter deixado você
esperando. Eu só ia dar um oi para a minha amiga,
mas esse namorado dela acabou interrompendo a
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nossa conversa.
― Tudo bem ― Alek me conduz de volta
para o carro. ― Você parece não gostar muito dele
― comenta.
― Não mesmo. Ele não me parece uma
pessoa confiável. Você viu quem estava ligando
para mim? ― mudo de assunto?
― A sua tia.
― Ah, deve ser porque estamos 15
minutos atrasados.
― A culpa foi sua ― diz Alek brincando.
E foi mesmo. Quando entramos no carro
ainda na garagem de Alek, não resisti e lhe dei um
longo beijo. Isso atrasou um pouco a nossa viagem.
Mando uma mensagem para Morgan
avisando que encontrei Jéssica na rua e por isso
atrasamos um pouco. Aviso para ela não ficar
preocupada porque vou demorar mais um
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pouquinho.
Alek para o carro duas casas antes da que
eu moro e aproveitamos para namorar um pouco.
― Você vai voltar para Novos Montes
agora? ― pergunto.
― Não. Acho que vou procurar um hotel
para ficar o final de semana e volto com você
domingo à noite. O que acha?
― Vou adorar. Isso não vai atrapalhar seus
planos?
― Só tenho planos com você agora ―
Alek diz e me beija mais uma vez.

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Capítulo 21

No sábado de manhã, acordo com o meu


celular tocando. Era Jéssica. Atendo com uma voz
sonolenta.
― Stella, desculpa se te acordei. Mas eu
preciso tanto de alguém para conversar.
― O que aconteceu, Jéssica?
― O Niko terminou comigo. Estou tão
arrasada.
― Vem para cá, Jéssica. Passa o dia aqui
comigo e a gente conversa melhor.
― Posso mesmo ir?
― Claro, amiga. Vem.

Mando uma mensagem para Alek dizendo


rapidamente o que aconteceu e que só poderei

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encontrá-lo à noite. Ele responde dizendo que


precisava mesmo resolver algumas coisas e que por
ele tudo bem.
Jéssica passa o dia comigo. Depois de
desabafar e chorar horrores por causa do Niko, nós
até que nos divertimos um pouco com a companhia
da pequena Mia. Vamos para a cozinha e fazemos
brigadeiro, porque isso alegra crianças e cura o
coração partido das garotas. Não que meu coração
esteja partido. Na verdade, estou bem feliz com
Alek, mas não falo nada para Jéssica agora.
Eu não entendo a razão disso. Eu não me
sinto à vontade para falar sobre Alek com ninguém.
Ele é maravilhoso comigo, mas reconheço que há
um certo mistério em sua vida. Ele é reservado e
tem alguns sumiços estranhos. Tudo bem que eu
também tenho, por isso não cobro muitas
satisfações dele.

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Jéssica vai embora no final da tarde e eu


me sinto feliz por saber que ainda terei um tempo
para ficar com Morgan antes de encontrar Alek. O
dia passou voando e sinto que mesmo vindo para
casa, não estou encontrando tempo para ter uma
conversa satisfatória com Morgan. Saber como de
fato as coisas estão em sua vida de recém-casada.
Sei que ela está feliz. Isso é notório. Por isso não
me sinto tão culpada quando a noite chega e eu
digo a ela que preciso sair.
Encontro com Alek no hotel em que ele
está hospedado. Como sei que durante a semana
não terei tempo para vê-lo, aproveito cada minuto
em sua companhia.
No momento estou travando uma
verdadeira batalha entre a razão e a emoção. Alek
está avançando o sinal em todos os aspectos essa
noite e não tenho certeza se devo permitir que isso

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aconteça. Ele faz mágicas com o meu corpo e


desperta todos os meus sentidos, mas sinto que é
errado permitir essas sensações agora. Ainda mais
quando sei tão pouco sobre ele e tem coisas demais
acontecendo em minha vida.
De repente, sou tomada por uma sensação
muito estranha. Meu corpo está ardendo e parece
em chamas. Minha cabeça dói. Dói muito. E minha
garganta fica extremamente seca.
Alek parece perceber que não estou muito
bem, porque sai um pouco de cima de mim, me
dando espaço.
― Você está bem? ― pergunta com uma
voz extremamente grave.
Levo a mão à garganta porque parece que
mil agulhas penetraram nela quando tentei falar.
Alek se senta na cama e faz com que eu
faça o mesmo. Ele leva a mão a minha testa e diz:
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― Você está muito quente. Vou pegar um


pouco de água.
A água não ameniza muito o que sinto,
mas me permite falar:
― Minha cabeça dói. E tem algo
queimando em minha garganta.
Vejo um pouco de preocupação nos olhos
de Alek. Depois de um tempo me observando, ele
diz:
― Acho que eu sei do que você precisa.
Apenas confie em mim, está bem?
Assinto com um gesto de cabeça. Alek
veste a sua camisa e sai do quarto.
Eu me deito novamente na cama, pois
minha cabeça gira. Devo ter perdido um pouco os
sentidos por algum momento, porque agora Alek
me segura e pede que eu beba um líquido cor de
vinho que ele trouxe em um copo.
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― O que é isso? ― consigo perguntar.


― Apenas beba um pouco. Você vai se
sentir melhor.
Faço o que ele diz. Levo o copo até a boca
e sinto um gosto estranho. Parece vinho, mas com
um sabor levemente metálico.
Depois que tomo um pouco, Alek senta na
cama e me abraça, recostando a minha cabeça em
seu peito.
― Você vai ficar bem ― ele me diz.
De fato, sinto que estou melhorando.
― Você precisa ir para a casa agora,
Stella. Descanse, tente dormir um pouco está bem?
― Sim. Acho que estou precisando mesmo
de um descanso.
Alek se levanta e me ajuda a ir com ele até
o carro.

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Quando chego em casa vou direto até meu


quarto. Minhas pernas parecem estar pesando
toneladas e preciso me deitar. No entanto, quando
deito, não consigo dormir. Minha mente está
agitada.
Depois de um tempo, sinto novamente
algo estranho, como se meu corpo estivesse
renovado. Eu me levanto da cama e me sinto mais
leve. Meu corpo está estranho. Minha visão está
mais aguçada. Consigo enxergar detalhes nas
paredes que antes eu não via. Tudo ao redor parece
ter mais cor. Fecho os olhos e inspiro lentamente.
Agora minha audição parece estar apurada.
Consigo ouvir coisas que antes eu não ouvia. É
como se eu ouvisse cada batida do meu coração e o
sangue percorrendo em minhas veias. Abro os
olhos. Tudo no meu quarto é igual e ao mesmo

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tempo parece tão diferente. Ouço o barulho de uma


torneira sendo aberta. Morgan. Sinto seu cheiro.
Ouço cada passo que ela dá na cozinha. Minha
nossa, eu estou ouvindo-a da cozinha!
Pego o meu celular e imediatamente
mando uma mensagem para Alek.
Stella: Você me drogou?
No mesmo instante, ele digita uma
resposta.
Alek: É claro que não! O que você está
sentindo?
Stella: Tudo. Posso sentir, ouvir e ver tudo
de forma mais ampliada!
Alek: Isso vai passar. Apenas tente
dormir, está bem? E não saia do seu quarto.
Dormir? Ele só pode estar brincando! O
meu corpo está elétrico! Ando de um lado a outro
do quarto, mas estou mesmo é com vontade de sair
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correndo pela rua afora.


Depois de alguns minutos, sinto meu
corpo relaxar. Sinto um pouco de sono. Acho que
Alek tem razão, eu preciso dormir um pouco agora.

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Capítulo 22

No dia seguinte quando acordo, vejo que


há uma mensagem de Alek em meu celular.
Alek: Eu precisei voltar para Novos
Montes essa noite. Meu pai teve que ser
hospitalizado. Entro em contato assim que eu
puder. Espero que você tenha melhorado. Você me
deixou preocupado ontem. Bjs.
Stella: Estou bem. Cuide do seu pai agora.
Vou aguardar notícias. Bjs!
Quando desço para tomar o café da manhã
com a minha família, tento parecer normal, mas a
verdade é que tantos segredos estão acabando
comigo. Há alguma coisa estranha acontecendo.
Sinto isso. Acho que preciso conversar com alguém
e falar toda a verdade.
Stella: Oi. Você pode me buscar aqui em
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Villa Verde hoje?


Nethan: Claro. Aconteceu alguma coisa?
Stella: Não. Só preciso conversar. Preciso
de um tempo a sós com você, então pensei em
aproveitar a viagem para ter essa oportunidade.
Nethan: Certo. Que horas você quer que
eu chegue aí?
Stella: No final da tarde.
Nethan: Ok. Mais tarde estarei aí.

No final do dia, quando Nethan veio me


buscar, ele parecia um pouco preocupado.
― Por que eu estou com a sensação de que
não vou gostar nada do que você vai me dizer? ―
pergunta assim que entro no carro.
― Porque realmente não vai gostar.
― Hum, acho que essa viagem vai ser

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longa.
― Então, aperte o cinto ― brinco. Mas a
verdade é que estou um pouco tensa.
Conto toda a verdade a Nethan. Falo sobre
Alek, sobre como o conheci, sobre os encontros,
sobre ontem à noite. Não omito nada. Conto sobre
como passei mal e como me senti depois que voltei
para casa. Falo tudo, inclusive sobre o líquido
estranho que tomei.
Nethan escuta tudo em silêncio e quando
termino, ele passa um bom tempo sem comentar
nada.
― Seu silêncio está me matando, Nethan.
Me dá logo a sua bronca.
― Você não pode jogar tudo isso em cima
de mim e esperar que eu tenha uma resposta pronta.
É muita coisa para eu processar, mocinha.
― Eu sei. Mas pelo menos alguma coisa
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você deve ter a me dizer.


― Sabe o que eu estava mesmo pensando?
― Nethan pergunta.
― Não faço a menor ideia.
― Lembra quando você me perguntou se
era possível não reconhecer um vampiro?
― Sim, claro que lembro.
― Você estava suspeitando desse Alek,
não era?
― Sim, mas ele segurou no meu colar.
Tocou nele diversas vezes, aliás. E isso nunca o
afetou.
― Mas depois que você me falou sobre
isso, eu andei pensando em uma coisa.
― O quê?
― Acho que Lamon seria capaz de tocar
no seu colar sem que isso o machuque. Ele é imune

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a algumas coisas.
― Você tem certeza disso?
― Sim. Da primeira vez que eu vi Lamon,
eu era só um garoto. Eu lembro que, de início, não
achei que ele fosse um vampiro. Ele parecia mais
com um de nós. E ele realmente foi um de nós. E,
da segunda vez que eu o vi, eu estava com alguns
dos meus amigos do lado de fora da Academia, mas
dentro dos portões. De repente, nós percebemos
que ele estava vindo. Ele parecia ameaçador. Sei lá,
algo nele exalava poder, autoridade... Meus amigos
e eu tivemos medo, mas sabíamos que um vampiro
não poderia entrar na Academia, devido à proteção
dos arcanjos. Mas Lamon entrou. E eu me senti
apavorado. Ele queria falar com Mikhail. Não
machucou ninguém, apenas entrou e deu o seu
recado. Então, Stella. Ele pode muito bem tocar no
seu colar.

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― E você está querendo me dizer, que


acha que Alek e Lamon são a mesma pessoa? ―
pergunto incrédula.
― A única coisa que fez você
desconsiderar suas suspeitas sobre Alek foi o fato
dele tocar no colar?
Penso um pouco sobre isso. Alek apareceu
no dia do meu ataque. Eu só o vejo à noite. Nikolay
pareceu intimidado com a sua presença e terminou
o namoro com Jéssica na mesma noite. Isso não
prova nada.
― Não pode ser a mesma pessoa, Nethan
― afirmo.
― Só há uma forma de descobrir.
Nethan vai para o acostamento e para o
carro.
― O que você vai fazer? ― pergunto.
― Olhar uma coisa. ― Nethan pega o seu
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notebook no banco traseiro do carro. ― Lembra


que eu consegui ter acesso ao arquivo sobre
Lamon? Então quero que veja a foto dele.
Nethan liga o notebook e em seguida abre
uma pasta.
― Aqui está ― ele me entrega o
notebook.
Quando olho para a tela que exibe a foto
do líder dos vampiros, meu coração dispara.
― Não pode ser ― digo com uma voz
trêmula.
Estou prestes a cair no choro. Não acredito
que fui enganada durante todo esse tempo. Alek
não seria capaz de fazer isso comigo.
― Então, eu estava certo, não é Stella? O
seu Alek é na verdade o Lamon Aleksey.

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Capítulo 23

Nethan me leva direto para a Academia


dos Anjos. Estou devastada demais para voltar para
a universidade. Assim que chegamos, vou direto
para o dormitório, para o quarto que ocupei na
semana anterior.
Sinto vontade de chorar, mas as lágrimas
não caem, ficam presas dentro de mim, o que me
deixa mais angustiada.
Um tempo depois, ouço uma leve batida
na porta e em seguida a mesma se abre. É Nethan.
― Trouxe um lanche para você comer.
Deve estar com fome ― ele diz.
― Acho que não consigo comer nada,
Nethan. Me desculpe.
― Não precisa se desculpar. Eu vou deixar

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aqui, caso você queira comer depois.


― Obrigada.
Nethan se senta na cama ao lado da minha
e pergunta:
― Quer conversar?
Ele está sendo muito atencioso comigo. Eu
imaginei que quando contasse tudo a ele sobre
Alek, Nethan fosse ficar bravo comigo.
― Você falou para alguém? Digo... vai
contar para Mikhail sobre...
― Ainda não. Eu estava tentando entender
por qual motivo Lamon se aproximaria de você
dessa forma. O que ele poderia estar planejando...
Mas eu não consigo deduzir nada. Então, eu fui
falar com o Gael.
― Você contou a ele?
― Não. Eu fui falar com ele porque

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quando você estava na Cidade dos Vampiros como


prisioneira, Gael foi com Mikhail visitar você. Ele
conheceu você lá. Então, eu fui perguntar a ele
sobre como você estava na ocasião e como Lamon
a tratava e ele disse que vocês pareciam muito
próximos. Deu a entender que Lamon estava
cuidando muito bem de você.
― Eu preciso me lembrar de tudo, Nethan.
Eu preciso saber o que aconteceu comigo quando
eu estava lá.
― Eu sei. Mas a única pessoa capaz de
devolver as suas lembranças é o Lamon.
― Então eu preciso procurá-lo.
― De jeito nenhum!
― Eu posso fingir que não sei de nada.
― Ele descobriria, Stella. Ele não é bobo.
E eu acho até que a essa hora ele já deve saber que
você descobriu a verdade.
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― É verdade ― concordo. ― E, além do


mais, eu não conseguiria fingir mesmo. Eu não
teria esse sangue frio.
― Eu sei que não.
Depois de um tempo em silêncio, Nethan
diz:
― Só tenta descansar, está bem? Eu vou
procurar um meio de lhe ajudar. Mas, antes de
tratarmos sobre esse assunto, eu preciso fazer outra
coisa. Eu vou agilizar os preparativos para a
cerimônia da marca. Você precisa estar mais forte
quando for enfrentar o Lamon.
― Tudo bem.
Assim que Nethan sai do quarto, eu me
sinto um pouco mais tranquila e me preparo para ir
dormir.

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Capítulo 24

Sinto frio e uma forte ventania me atinge.


Assim que abro os olhos, percebo que estou deitada
em um lugar muito escuro. Já conheço esse lugar. É
o mesmo de sempre.
Lentamente, eu me levanto. Mas antes
mesmo que eu comece a caminhar sinto uma
explosão e tudo em volta está em chamas. Tento
gritar, mas não consigo. Começo a tossir por causa
de toda aquela fumaça. Olho ao redor e não
encontro saída. Estou começando a me sentir
desesperada, mas então, eu o vejo. Dessa vez ele
não está ajoelhado, nem de costas para mim. Ao
invés disso, ele caminha, e vem em minha direção.
É o Alek. Ou melhor, é o Lamon.
Estranhamente, eu não sinto medo. A
vontade que sinto é de abraçá-lo, mas eu não me
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movo. Ele se aproxima mais de mim e me estende a


mão. Há algo nela. É o meu colar.
Não consigo me mover. Então, ele vem até
mim e coloca o colar em meu pescoço. Ele olha em
meus olhos enquanto faz isso. E sinto meu coração
bater mais forte quando ele, gentilmente, passa as
mãos em meu rosto, num gesto de carinho tão
familiar.
Quero que ele me abrace, quero sentir seu
corpo junto ao meu, mas, ao invés disso, ele se
afasta. Dá alguns passos para trás e percebo que ele
está indo em direção às chamas. Tento impedi-lo, ir
atrás dele, mas não consigo sair do lugar. Não
consigo mover meu corpo. Lágrimas inundam o
meu rosto enquanto ele é consumido pelo fogo.

Acordo com um barulho estridente. É o


meu celular tocando. Estou molhada de suor e

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minha respiração está ofegante. Respiro um pouco


mais fundo e me levanto para pegar o aparelho que
deixei sobre a mesinha ontem à noite.
É a Jéssica.
― Oi, Stella. Você tem tempo para
conversar comigo agora?
― Claro, Jéssica. Pode falar.
Tento afastar dos meus pensamentos o
sonho que tive enquanto ouço Jéssica falar. Mas
uma coisa fica martelando em minha mente: foi ele
quem me deu o colar?
Jéssica fala sobre como Nikolay terminou
tudo com ela. No dia em que esteve em minha casa,
ela não me deu detalhes, porque sempre começava
a chorar quando falava no assunto. Mas agora está
disposta a contar tudo. Disse que Nikolay tem outra
namorada. E não é algo recente, ele namorava essa
garota antes mesmo de Jéssica.
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― Ele ainda teve a cada de pau de me


dizer que estava terminando comigo porque a
namorada dele estava começando a suspeitar que
ele estava a traindo com alguém. Dá para
acreditar nisso? Que eu era a outra?
Tudo o que eu queria dizer era que Jéssica
deveria agradecer por Nikolay ter saído da vida
dela. Ser a outra não era nada comparado ao que
Nikolay poderia ter feito com ela. Minha amiga
estava em apuros o tempo todo em que estava com
ele e não fazia ideia.
Minha mente ainda está divagando entre a
conversa com Jéssica e o sonho que tive quando ela
fala algo que desperta totalmente a minha atenção:
― ... E eu não consigo falar com o Caio
há semanas. Ele não responde as minhas
mensagens, ligações, e-mail, nada! Você tem
conseguido falar com ele?

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Isso não é típico do Caio. Será que ele está


correndo algum perigo?
Me despeço de Jéssica e digo a ela que
tentarei entrar em contato com o Caio e que
avisarei se tiver alguma notícia.

Vou para o refeitório tomar o café da


manhã e encontro Nethan ocupando uma mesa com
Misael. Vou até lá e tento parecer uma pessoa
despreocupada, mas a verdade é que acho que vou
pirar a qualquer momento.
Misael me cumprimenta e continua sua
conversa com Nethan, que o ouve, mas também me
observa sutilmente.
Quando Misael se afasta dizendo que
precisa ir a uma reunião, Nethan se aproxima mais
de mim e comenta:
― Você não parece bem.
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― A Jéssica ligou e disse algo que me


deixou preocupada.
― Nikolay ainda está por lá?
― Não, acho que seja lá o que fosse que
ele estava tramando namorando a Jéssica, deixou
esse plano de lado. Ele realmente terminou tudo
com ela. O que está me preocupando é o Caio.
Jéssica me disse que não tem notícias dele há um
bom tempo. Isso não é normal, Caio não é assim,
de sumir, não responder mensagens...
― Certo. Eu vou procurar saber se
aconteceu alguma coisa com ele.
― Obrigada, Nethan.
― Tem mais alguma coisa preocupando
você?
― Tem. Acho que foi o Lamon quem me
deu esse colar.
Conto a Nethan sobre os sonhos que
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costumo ter e o que tive essa manhã. Depois de um


tempo pensando, Nethan me diz.
― Acho que tem muita coisa sobre Lamon
e você que a gente não sabe. Confesso que não
consigo desvendar o mistério que é esse cara. Estou
começando a achar, Stella, que você pode estar
certa. Se a única pessoa capaz de esclarecer tudo
isso é ele mesmo, você deve ir atrás dele. Mas você
não vai sozinha.

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Capítulo 25

Estou de volta à universidade e nem sei o


que fazer para não perder o semestre. A quantidade
de exercícios e trabalhos que tenho acumulados é
desesperadora.
Por incrível que pareça, consigo me
concentrar nas aulas e aproveito cada tempo livre
entre uma aula e outra para adiantar os estudos.
No final do dia, estou bem cansada e vou
direto para o alojamento depois das aulas.
Luna está no quarto. Ela me abraça assim
que abro a porta.
― Nossa, parece que faz séculos que não
te vejo ― ela diz.
― Também tenho essa mesma impressão.
― Nethan me disse que você passou por

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dias difíceis. Posso ajudar em alguma coisa.


― Não precisa, Luna. Obrigada. O Nethan
está cuidando de tudo. E você já tem as suas coisas
para cuidar...
― Não seja boba. Não estou falando das
minhas responsabilidades como nephilim. Estou
falando como sua amiga. Se você precisar de mim,
para qualquer coisa, é só falar.
― Então eu acho que preciso, sim.
― Ah, é? Precisa do quê? ― Luna se
anima.
― Preciso de uma noite de meninas.
Preciso assistir a alguma coisa legal... Comer
chocolate...
― E falar sobre garotos! ― Luna
completa.
Não sei se falar sobre garotos é uma boa
ideia. O meu histórico não parece muito bom. Luna
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ia ficar horrorizada se soubesse que o cara com


quem andei dando uns bons amassos é, na verdade,
o nosso pior inimigo.
― Eu vou pular a parte sobre garotos. Se
você quiser falar sobre o Gael, por mim, tudo bem.
Luna sorri e me dá mais um abraço. Em
seguida, pega o seu travesseiro e se junta a mim na
cama.
Nós assistimos, rimos, conversamos e
comemos chocolate. Eu me sinto um pouco triste
porque era exatamente assim como eu achava que a
vida seria na universidade. Eu imaginava Jéssica,
Luna e eu sendo amigas e curtindo esses
momentos. Não que eu fosse pertencer a um grupo
de nephilins e caçar vampiros rebeldes durante à
noite.
Depois de maratonarmos uma série na
Netflix, o sono começa a me vencer.

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― Acho que não aguento mais assistir,


Luna.
― Tudo bem. Gael acabou de me mandar
uma mensagem. Vou sair com ele. Você vai ficar
bem?
― Vou sim. Vou dormir.
― Ok. Bons sonhos, então.
Assim que Luna sai do quarto, eu me
levanto para ir ao banheiro escovar os dentes.
Quando volto para cama, pego o meu aparelho
celular e penso em mandar uma mensagem para
Lamon. Mas o que eu diria? Desisto dessa ideia e
coloco o celular em cima do criado-mudo.
Contudo, assim que coloco a cabeça no travesseiro
sinto uma dor excruciante.
Levo as duas mãos à cabeça e fecho os
olhos com força. Meu corpo inteiro começa a
esquentar e sinto uma irritação na garganta. Já
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conheço esses sintomas. Foi o mesmo que senti da


última vez em que estive com Lamon.
Pego o meu celular e mando uma
mensagem para Nethan.
Stella: Vem para cá. Urgente.
Não sei quanto tempo se passa, mas
quando Nethan entra no quarto estou me sentindo
bem pior. Minha garganta queima.
― Minha nossa, Stella. Você está muito
quente. Nunca vi uma febre assim. O que você está
sentindo?
Com muita dificuldade, tento explicar para
ele o que está acontecendo com o meu corpo.
― Eu preciso chamar o Mikhail ― Nethan
diz.
― Não!
― Stella, você está muito mal e eu não sei

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o que posso fazer para lhe ajudar.


Não consigo falar mais nada. Minha
cabeça parece que vai explodir a qualquer
momento.
― Era assim que você estava quando viu
Lamon pela última vez?
Assinto.
― E o que ele lhe deu para beber, Stella?
Eu não faço ideia. Quero dizer isso a
Nethan, mas minha voz não sai. Agora o meu corpo
começa a tremer, minha garganta parece se fechar e
eu sinto que posso morrer a qualquer momento.
Nethan parece desesperado ao meu lado.
Ele fala algumas coisas, mas não consigo mais
ouvir sua voz. A única coisa que consigo enxergar
bem são as veias de Nethan. Olho para o seu
pescoço e as jugulares me parecem tão visíveis.
Minha nossa, eu quero sangue! É isso o que meu
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corpo está pedindo.


Junto todas as forças que ainda tenho para
me afastar ne Nethan e dizer:
― Vai embora, Nethan! Saia daqui!
― Eu não vou a lugar nenhum, Stella. E
eu vou chamar Mikhail. Só ele pode lhe ajudar
agora.
Depois de um tempo, Nethan se senta ao
meu lado na cama onde estou toda encolhida e diz:
― Ele já está vindo. Você vai ficar bem.
Sei que não vou ficar bem. Sei que
Mikhail não vai poder me ajudar.
Nethan começa a acariciar o meu rosto e
eu quero pedir que ele não me toque. Sinto o
sangue correndo em suas veias e isso está me
atraindo muito. Preciso de sangue. Necessito de
sangue, senão eu sei que vou morrer. Não estou
mais conseguindo resistir a vontade que estou
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sentindo de morder Nethan e arrancar o sangue de


suas veias.
De repente, com uma força que não sei de
onde veio salto em cima de Nethan e prendo suas
mãos acima de sua cabeça. Estou prestes a mordê-
lo quando sinto que alguém me impede.
Sou puxada para trás e imobilizada por
braços fortes que prendem o meu corpo junto ao
seu. Conheço esse toque e minha mente
imediatamente reage me trazendo um pouco do
autocontrole que eu perdi.
― Lamon! ― é Nethan quem diz.
― Não conte para ninguém o que acabou
de acontecer aqui. Entendeu, nephilim? ― a voz de
Lamon é firme e autoritária.
― Mikhail está vindo ― Nethan responde.
― Então eu preciso tirá-la daqui.
Não ouço mais nada, não sinto mais nada.
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Quando Lamon me abraça mais forte e me envolve


em sua capa, tudo o que vejo é escuridão.

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Capítulo 26

Acordo em uma cama que não é a minha.


O quarto está um pouco escuro, mas eu enxergo
tudo muito bem. Estou novamente tendo aquela
sensação de que todos os meus sentidos estão
apurados, mas dessa vez está bem mais forte.
Meu corpo está completamente revigorado
e eu me levanto da cama com um salto gracioso.
Quando estou prestes a abrir a porta do
quarto, a mesma se abre e Lamon aparece.
― Acho melhor você permanecer aqui ―
ele diz.
Lamon. Ele ainda se parece com o meu
Alek, mas está mais sério e parece imponente
vestido assim todo de preto.
Ele fecha a porta. A tranca, na verdade e

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caminha até uma poltrona ao lado da cama. Noto


que sua perna é perfeitamente normal. Ele não
manca. Estava apenas fingindo para que eu achasse
que ele era inofensivo quando eu o conheci. Mas
agora sei que de inofensivo ele não tem nada.
― O que você me deu? Que tipo de droga
é essa que você me dá para que eu me sinta desse
jeito, tão forte? ― pergunto.
― O meu sangue ― ele responde.
― Não acredito que fez isso.
― Eu apenas te ajudei. Se eu não tivesse
feito nada você teria se alimentado do seu amigo
anjo. Era isso que preferia?
A lembrança causa uma forte culpa em
mim. Eu me sento na cama. É como se de repente
não tivesse mais forças para me manter de pé.
― Eu sou uma vampira agora? É isso?
― Não. O sangue que eu lhe dei foi uma
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quantidade mínima, o suficiente apenas para saciar


o seu desejo.
― E eu vou ficar sentindo isso agora?
Essa necessidade de me alimentar de sangue?
― Você é filha de um vampiro. A sede por
sangue faz parte da sua genética. Se não quiser se
transformar vai ter que aprender a lutar contra isso.
Vai ter que se controlar.
― Não é assim tão simples. Eu fiquei
completamente fora de mim!
― Isso porque você deixou o seu desejo
falar mais alto.
― Eu não quero me transformar em uma
vampira.
― Eu sei disso ― Lamon falou em um
tom de voz baixo.
Ele parecia ter ficado um pouco magoado
com o meu comentário. Minha nossa, ele é tão
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lindo. Seus olhos verdes são tão intensos que


parecem enxergar minha alma me olhando desse
jeito. Não posso baixar a guarda.
― Por que você me enganou? Por que
disse que se chamava Alek?
― É o meu nome.
― Você entendeu o que eu quis dizer.
Ele se levanta da poltrona e vem até a
cama. Senta ao meu lado. Tenho vontade de sair de
perto dele e ao mesmo tempo tenho vontade de
abraçá-lo. Como é possível amar e odiar uma
pessoa ao mesmo tempo?
― Você me deu esse colar ― Não
pergunto, afirmo. ― Por quê?
― Para lhe proteger dos outros vampiros.
― E por que você apagou as minhas
lembranças?

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― Para lhe proteger também.


― De quem?
― De mim.
A atração que sinto por ele é tão forte. A
vontade que eu tenho é de me atirar em seus braços
e beijá-lo até não ter forças mais para fazer isso.
Mas não posso trair os meus amigos. Lamon é mau.
Me esforço para lembrar disso e lanço uma
acusação contra ele.
― Você matou os nephilins que estavam
cuidando da prisão.
― Eu precisava dos meus soldados de
volta.
Parte de mim queria que ele tivesse negado
que fez isso. A confissão causa uma dor me meu
peito.
― Mikhail quer conseguir um jeito de
matá-lo por causa disso.
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― Então, ele está treinando a pessoa certa.


Você é a única capaz.
― Foi por isso que você me trouxe até
essa casa? Por isso que fingiu ser outra pessoa?
Você queria que eu me apaixonasse por você e não
tivesse coragem de lhe matar?
― Não. Eu lhe procurei porque eu
precisava de um tempo com você. Eu precisava me
despedir. Ter algum momento com você antes de te
ver pela última vez. A minha intenção era apagar
sua memória mais uma vez. Assim você não se
lembraria do Alek também.
― Isso não é justo, sabia?
― Eu nunca lhe disse que era uma pessoa
justa.
Agora sinto vontade de bater nele. Ele não
tem o direito de brincar comigo dessa forma. De ter
o que quer de mim e depois apagar tudo da minha
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vida como se não significasse nada. Sei que não


tenho chances contra ele, mas minha raiva não me
impede de levantar a mão e tentar bater em seu
rosto.
É claro que ele previu o que eu ia fazer. E
antes que o meu golpe o atingisse ele segurou o
meu braço. Por um momento eu pensei que ele
fosse me punir por tentar machucá-lo. Mas, ao
invés disso, com uma agilidade que me
surpreendeu ele me deitou na cama e colou seus
lábios nos meus. Foi o beijo mais intenso que já
tivemos. O seu corpo me pressionava contra a cama
de modo que eu sentia toda a sua virilidade.
Não acredito que eu estava permitindo que
ele fizesse isso. Era para eu estar planejando uma
forma de matá-lo e não ardendo de desejo com o
calor de sua boca junto a minha.
Autocontrole é uma coisa que

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definitivamente eu não tenho quando estou perto


desse vampiro.

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Capítulo 27

Estou de volta à Academia dos Anjos.


Lamon me trouxe antes que o dia amanhecesse e
disse que era melhor eu não sair da Academia até
receber a minha marca de anjo. Isso me ajudaria a
controlar o meu desejo por sangue.
Assim que entro na Academia, vou até o
meu quarto. Me surpreendo ao encontrar Nethan lá.
― Nós precisamos conversar.
― Eu sei, Nethan. Eu preciso muito lhe
pedir desculpas.
― O que aconteceu naquele quarto, Stella?
Você ia mesmo me atacar?
Apesar de me sentir muito envergonhada,
não vou esconder nada de Nethan. Ele é meu
amigo. Eu devo isso a ele. Então, conto toda a

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verdade sobre o desejo que estava sentindo. A


necessidade de sangue.
― Minha nossa. Eu não gosto de admitir
que Mikhail estava certo. Mas você tem mesmo
uma forte predisposição a se tornar vampira, já que
o seu pai era um.
― Lamon disse que eu posso controlar
isso.
― Espera aí. Lamon quer que você
controle isso? Eu me surpreendo dele não ter lhe
transformado.
― Ele quer justamente o oposto disso,
Nethan. Ele quer que eu receba a marca. Disse que
depois disso seria mais fácil eu manter o
autocontrole.
― Estou surpreso ― Nethan confessa.
― Eu também. Mas tudo que se refere a
ele é tão enigmático.
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Eu me deito na cama e encaro o teto.


Preciso controlar as minhas emoções e pensar com
clareza em tudo o que está acontecendo.
― Tem outra coisa que preciso lhe falar
― diz Nethan. E, pelo modo como fala, percebo
que não é algo bom.
― O que foi, Nethan?
― Depois que Lamon levou você, Mikhail
chegou. Ele percebeu que algo muito grave havia
acontecido e eu disse que Lamon havia lhe raptado.
Eu não falei para ele sobre... como você estava. Eu
apenas disse que Lamon estava com você.
― Eu não sei o que falar para Mikhail
agora.
― Que tal a verdade? Se você quer mesmo
receber a marca, Stella. Vai ter que contar a
Mikhail toda a verdade.

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Capítulo 28

A conversa com Mikhail não está sendo


nada fácil. Eu não consigo falar toda a verdade.
Não sei se posso confiar nele.
― Nethan me falou que você foi raptada
por Lamon. E agora você me diz que ele a trouxe
para a Academia. Com que propósito ele faria isso?
― Eu não sei.
― O que vocês fizeram durante toda a
noite? O que Lamon lhe disse?
― Ele me falou sobre os vampiros que
resgatou. Disse que precisava dos seus soldados.
― Então ele confessou ter matado os
nephilins?
Minha nossa. Isso não vai acabar bem.
― Olha, Mikhail. Eu estou um pouco

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confusa. Eu não tenho dormido bem e essa noite foi


um tanto difícil. Acho melhor termos essa conversa
em outra hora.
― Eu vou lhe falar o que está sendo
difícil, Stella. Difícil está sendo a sua escolha em
assumir um lado. Você é filha de uma nephilim,
mas seu pai foi um vampiro, muito fiel a Lamon,
por sinal.
― O que você está querendo dizer?
― Estou querendo dizer que você passou
quatro meses na Cidade dos Vampiros. E quando
fui visitá-la você parecia muito bem lá. Estou
querendo dizer que você foi vista com Lamon em
um carro indo para Villa Verde, para casa de sua
família. Depois foi vista em um hotel com ele. E
agora, eu fico sabendo que Lamon lhe rapta só para
depois lhe deixar aqui, na minha porta. E o que
você fez para tentar prendê-lo, sabendo que ele

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matou vinte dos seus irmãos nephilins?


― Você acha que estou traindo vocês?
― Eu não vou julgá-la precipitadamente,
Stella. Mas devo adverti-la, uma guerra está se
aproximando, nosso objetivo vai ser varrer todos os
vampiros da face da terra. E o que eu quero saber é:
você vai estar de qual lado, Stella?
― Eu preciso de um tempo para colocar as
coisas no lugar, Mikhail. Tem muita coisa
acontecendo em minha vida agora. Eu preciso
pensar se estou pronta para enfrentar tudo isso.
― Então, já que precisa de um tempo para
pensar, quero que considere uma questão. Se quiser
mesmo receber sua marca de anjo, terá que fazer
um juramento. E o juramento é de que, nessa
guerra, você vai fazer tudo o que for possível para
destruir os vampiros. E a sua meta principal será
matar o líder deles, Lamon Aleksey.

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Mikhail me encara por um tempo e depois


diz:
― Está dispensada. Pode ir.
Quando abro a porta, percebo que Nethan
está me esperando no corredor. Estou tão aflita.
Não quero ir para essa guerra sem antes entender
tudo o que aconteceu comigo na Cidade dos
Vampiros. Quem é Lamon e qual é o tipo de
relacionamento que tenho com ele? Por que sinto
que temos uma ligação? E por que ele aparece em
meus sonhos? Não posso jurar matá-lo sem ter
essas respostas.
― Preciso te pedir uma coisa, Nethan.
― O que é?
― Preciso que você abra um portal que me
leve até a Cidade dos Vampiros.

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Epílogo

Sinto frio. Muito frio. Uma leve brisa


sopra em meu rosto. Quando abro os olhos, tudo o
que vejo é escuridão.
Lentamente, eu me levanto. Ei o que tenho
que fazer, tenho que caminhar. Em algum
momento, eu sei que ele vai aparecer.
Depois de um tempo caminhando, uma
névoa começa a surgir ao meu redor. Não sinto
mais frio, sinto o meu corpo aquecendo. No
entanto, me sinto fraca. Caio de joelhos. Meus
olhos estão prestes a se fechar, mas sinto que uma
luz se aproxima. Uma luz que vem do céu.
À medida que a luz se aproxima, vejo a
forma de um homem. Ele caminha até a minha
direção e tudo ao meu redor parece se iluminar.
Sinto minhas forças serem retomadas e,
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devagar, me levanto.
O homem para de caminhar. Ele ainda está
distante, mas posso ver seu rosto. Ele é tão lindo.
Há uma perfeição em seu semblante.
Ele sorri para mim e é o sorriso mais puro
que eu já vi.
Algo se mexe atrás dele. No início não
consigo distinguir por causa da luz que ofusca
meus olhos, mas, aos poucos, consigo enxergar.
São asas. Suas asas se abrem e pairam no ar.
É um arcanjo.
Sou tomada pela emoção. Nunca vi
criatura mais bela.
Ele estende sua mão para mim e eu
caminho até ele.
Quando estou próxima o suficiente, ele
toca em meu colar. E as asas de anjo do meu
pingente ganham um brilho especial.
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O anjo me olha e diz:


Sua missão não é trazer a morte e
destruição.
Sua missão é de redenção.

FIM

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Nota da autora

Nem sei como agradecer a todos vocês que


leram Cidade dos Vampiros e têm me enviado
mensagens de apoio e motivação. Estou muito feliz
com o resultado desse projeto. A série ganhou um
nome: “Redenção”. Ainda não sei quantos livros
serão, mas pretendo trabalhar com empenho para
que a história seja finalizada de modo satisfatório.
Meu muito obrigada a todos vocês!

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Série Redenção

Livro 1: Cidade dos Vampiros


Livro 2: Academia dos Anjos

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Outros livros da autora

A luz que me salva


Só quem vive na escuridão, reconhece a
importância da luz. Quando Melanie aparece na
vida de Rafael, é assim que ele se sente, como se
toda a escuridão que vive em torno dele fosse, aos
poucos, se dissipando. Melanie é cheia de luz, cheia
de vida, cheia de planos... Quando ela conhece
Rafael, sabe que sua vida não será mais a mesma.
A luz que me salva é um romance que fala sobre
superação. Sobre afastar momentos sombrios e
permitir que o amor predomine nas decisões e
afaste todos os temores causados pela nossa mente.

A luz que é você


A vida é sempre uma caixinha de surpresas. Mesmo

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quando procuramos organizá-la, surge o


inesperado. Mesmo quando buscamos manter tudo
sob controle, alguns fatos simplesmente mudam
tudo. Foi o que aconteceu na vida de Lana quando
conheceu o jovem sírio, Khaled Youssef. Não
estava nos planos dela se apaixonar. Nem nos
planos dele. Mas os caminhos desses dois jovens se
cruzaram e, através de uma simples amizade, surge
um amor.
Viver esse amor não será assim tão fácil, pois a
família de Lana se opõe veementemente a essa
união. E Khaled precisa enfrentar os fantasmas do
seu passado para encontrar a paz que tanto busca.
Guerra, preconceito, intolerância, conflitos
familiares. Será o amor capaz de superar tudo isso?

Uma luz em minha vida


Pietra era uma jovem materialista e insensível. Seu
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maior sonho sempre foi sair da pequena cidade


onde morava para ir em busca de seus objetivos na
cidade grande. Ao realizar esse sonho, as coisas
não saíram exatamente como ela planejou.
Tudo em sua vida começa a mudar a partir do
momento em que ela conhece Adriel, um jovem
misterioso que a ajuda a enxergar as coisas que
mais importam na vida. Com a ajuda de Adriel,
Pietra começa a se desvincular de seus interesses
materiais e passa a sentir a necessidade de melhorar
seu relacionamento com as pessoas, principalmente
com sua família.
Adriel passa a desenvolver um papel muito
importante na vida de Pietra. E por alguns
momentos ela pensa estar apaixonada por ele, mas
esse amor jamais poderá acontecer.

O aluno

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Júlia está passando por uma fase difícil em sua


vida. Sua autoestima está comprometida, ela não
enxerga sua beleza como mulher. Mas, na sala de
aula, um aluno faz com que ela se sinta o oposto
disso. Será que vale a pena arriscar seu emprego e
tudo o que ela mais ama para viver uma paixão?

O taxista
Um acontecimento lamentável havia mudado a vida
de Clara. Ela não sabia o que seria de seus dias dali
para frente. Seu casamento se aproximava do fim.
Mas, Clara sequer podia imaginar que o percurso
de táxi que a levaria até o encontro com seu ex-
marido mudaria drasticamente o seu modo de
pensar e de agir.

Doce Perdão
Paty havia se afastado da sua família há sete anos.
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Tudo o que ela mais queria era deixar o passado em


seu devido lugar e seguir adiante com o seu novo
amor, Ricardo. Mas um convite para a Ceia de
Natal com os seus pais a faz rever suas decisões.

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