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PERIGOSAS NACIONAIS

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Família Valentini –
Livro 2

Mari Sales
1ª. Edição

PERIGOSAS ACHERON
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Copyright © Mari Sales


Edição Digital: Criativa TI
_____________________________________________
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens,
lugares e acontecimentos descritos são produtos da
imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera
coincidência.
_____________________________________________
Todos os direitos reservados.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução
de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer
meios – tangível ou intangível – sem o
consentimento escrito da autora.
Criado no Brasil. A violação dos direitos autorais é
crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo
artigo 184 do Código Penal.
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Sinopse
Numa tentativa de mascarar seus
fantasmas do passado, Carlos Eduardo era um
empresário que gostava de se exibir nas redes
sociais e curtir a vida de solteiro sem restrições.
Todos o conheciam por sua irreverência, nada
parecia o afetar, até que o convite de casamento do
seu irmão mais velho o fez voltar as suas origens.
Disposto a confrontar Benjamin por conta
dos laços de família que Rayanne possuía, ele
chegou na mansão Valentini disposto a derrubar
tudo e todos, porém, a mulher que não tem papas
na língua e não leva desaforo para casa o atropelou.
Letícia precisava de férias, sua rotina de
trabalho obrigou seu chefe a dispensá-la por alguns
dias, levando-a a se dedicar exclusivamente à sua

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amiga Ray e os mistérios da família Valentini.


Segredos descobertos e muita ação
revelaram que o passado não era como eles
acreditavam e a urgência em unir todos da família
se tornou primordial.

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Dedicatória
Para Lê, minha Letícia do mundo
real/virtual, seu nome é praticamente um adjetivo.
Você brilha e ilumina não só o seu caminho, mas
de todos os que estão a sua volta.

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Prólogo
Carlos Eduardo
Olhei para o convite de casamento e tive
vontade de esmagar ou triturar na máquina de
picotar papel. Depois de anos sem nos comunicar, o
idiota do meu irmão mais velho decidiu se casar
com nada mais, nada menos que Rayanne Vilar,
uma mulher da nossa antiga cidade.
Vilar.
Sentado na minha cadeira confortável, na
sala presidencial da minha empresa, divaguei sobre
onde eu poderia ter escutado esse sobrenome e o
motivo dele ser tão incômodo para mim.
Desbloqueei o computador, segui para
meus arquivos confidenciais da família Valentini e
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tentei controlar o nó na minha garganta sempre que


eu vasculhava esses documentos digitais.
Haviam fotos, relatórios, extratos
bancários... tudo o que eu pude conseguir em anos
de investigação sobre a morte do meu pai. Nunca
acreditei que ele havia tirado a própria vida, mesmo
que minha mãe tenha o traído e ela mesma, em
depoimento, atestou isso.
Abri um arquivo principal, onde nomes,
datas e atalhos para outros arquivos estavam e lá
encontrei o motivo do meu incômodo. Vilar era o
sobrenome do amante, o causador de toda a
desunião na minha família.
Peguei meu celular, procurei o contato do
meu detetive particular e solicitei o nome de todos
os parentes desse homem.
Assim que a ligação foi encerrada, alguém
bateu à porta e minha secretária entrou, como

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sempre, toda tímida. Sorrio grande, descontraído,


como sempre faço, porque essa era minha fachada
para todo o meu lado nebuloso.
— Com licença. A senhorita Laila Perez
gostaria de falar com o senhor.
— Ela marcou hora? — Franzi a testa, mas
mantive minha descontração. — É bonita?
Sim, eu era descarado, mulherengo e não
me importava com o que os outros falavam de
mim, porque sim, eu tinha muito dinheiro e ele
comprava tudo.
Vi minha secretária revirar os olhos e dar
de ombros. Acho que ela era a única que não
avançava o sinal, porque sua competência e timidez
me agradavam e muito. Além do mais, ela era
casada e seu marido aparecia muitas vezes aqui
para me intimidar.
Coitado.
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— O senhor pode atender ou prefere que


marque um horário? Ela está muito nervosa e
impaciente, por isso que vim pessoalmente ao invés
de ligar.
Antes que pudesse responder alguma coisa
para ela, a porta da sala foi aberta e quase derrubou
minha secretária no chão. Uma mulher linda, com
muitas curvas e roupa colada invadiu minha sala e
me fez sorrir mais ainda.
Ah, essa ficaria muito bem em cima da
minha mesa, de pernas abertas e gemendo meu
nome.
— Oi Cadu, sou Laila...
— Por favor, me chame de Carlos Eduardo
— cortei, porque odiava esse apelido e não queria
dispensá-la sem antes saber quem realmente era.
Ela olhou para minha secretária, que a
fulminou com o olhar. Fiz um sinal para ela sair e
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voltei minha atenção para a donzela à minha frente.


Estiquei a mão, pedi que se sentasse e sorri, como o
grande garanhão que sou. Ela retribuiu com olhar
de vitória e isso despertou meu lado desconfiado.
— Então, Carlos Eduardo, sou Laila,
acionista do grupo RS e temos interesse em
iniciarmos uma negociação de fusão com vocês.
Cruzei minhas pernas, apoiei meus braços
no encosto da cadeira e analisei a mulher a minha
frente. Direta, mas sem nenhum senso de
negociação, ou seja, uma isca.
Bem, só esqueceram de falar para ela que
eu não era qualquer tubarão.
— Podemos conversar em um jantar de
negócios? Tem algum documento para que eu
possa analisar enquanto isso?
Ela abriu a bolsa, retirou uma pasta,
curvou o corpo para frente e me mostrou seu
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enorme decote, ou melhor, mostrou seus peitos por


completo.
Não me fiz de rogado, observei, pisquei
um olho e peguei os documentos de sua mão. Ela
sorriu e isso me despertou outra memória. Eu a
conhecia, só não sabia de onde...
Merda de convite de casamento do
Benjamin que me desestabilizou!
Coloquei a mão no convite e o olhar da
minha visitante foi para o mesmo lugar. Ela
enrugou a testa, mas por poucos segundos. Tentou
disfarçar e mostrou que tinha todos os sinais de que
algo a incomodou e não consegui pensar no que é.
Ela se levantou e ajeitei a postura,
mostrando o quão grande era seus seios.
— Na primeira página tem meu nome e
meu contato. Espero sua ligação — sensualizou a
frase final e saiu rebolando, me deixando duro só
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de imaginar o que poderia fazer com uma mulher


atrevida como essa.
Meu celular tocou e atendi no primeiro
toque por se tratar do meu detetive.
— Está no seu e-mail.
— Obrigado.
Larguei a pasta de lado, foquei no meu
computador e no meu e-mail. A árvore genealógica
do amante da minha mãe na minha frente indicava
que Rayanne Vilar era sobrinha neta desse homem
por parte de mãe. Eu tinha apenas seu nome e
idade, mas era capaz de sentir que sim, meu irmão
estava planejando se casar com algum parente da
pessoa que destruiu nossas vidas.
Sem pensar duas vezes sobre o assunto,
disquei para minha secretária e pedi para que
providenciasse uma passagem apenas de ida para a
casa onde nunca pensei em voltar. Eu era pequeno
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quando tudo aconteceu, mas havia memórias e


imagens que nunca conseguiria me livrar, como dos
meus irmãos chorando e minha mãe gritando
desesperada.
Liguei para o meu apartamento e pedi para
minha governanta preparar uma mala para cinco
dias de viagem, considerando reuniões e lazer. Iria
confrontar meu irmão, mas também teria algum
momento de diversão, porque esse era eu.
Configurei o temporizador da câmera do
meu celular, ajeitei na mesa e acionei. Levantei e
fui para a janela, olhando para o horizonte e
sorrindo como se nada na minha vida tivesse algum
empecilho.
Gostava das redes sociais porque eram
nelas que eu me sentia acolhido. Era uma merda
não ter ninguém para se apoiar, ter essa carência
desnecessária, mas tudo isso representava eu contra

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o mundo.
Conferi a imagem e postei com a
descrição: “Para uma nova negociação, cálculos e
análises. Para uma viagem... apenas certeza. Me
espere.”
Era uma indireta para meu irmão mais
velho, caso ele visse. Anos sem nos ver e parecia
que eu estava indo para o abate, com meu coração
acelerado e minha confiança reduzindo pouco a
pouco.
Eu não deixaria que fizesse a loucura de se
casar com ela, a reputação da nossa família não
seria manchada novamente por um Vilar.

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Capítulo 1
Letícia
Finalmente conhecemos o homem que
pediu Ray em casamento e transformou-a em uma
mulher mais... sorridente, se bobear, mais
confiante. Não que ela precisasse de um homem
para isso, mas com certeza ajudou, e muito.
Ela, inclusive, estava pleiteando uma vaga
de emprego na emissora de televisão da cidade e
como ela gosta de falar: foi indicação, mas provaria
seu valor. Nunca duvidei disso, ela que sempre foi
a insegura.
Pulei na piscina gigantesca da mansão
Valentini e nadei até onde minhas amigas estavam.
Festa na piscina, regada a quitutes de dona Judite,

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sucos e o homem da minha amiga quase nu.


O cara era definido, bonito e não
conseguia não babar naquele tanquinho que ele
chamava de abdômen.
Fazia meses que não nos reuníamos e
depois da notícia do casamento, surtei e a obriguei
marcar um encontro. Ela fez questão que fosse na
casa dele, porque queria mostrar aquela maravilha
de biblioteca.
Puta que pariu, eu precisava morar naquele
cômodo. Ou fazer um desses no meu quatro, o que
for mais barato.
A leitura nos uniu e essa paixão era
compartilhada na mesma intensidade.
Deixei alguns trabalhos para depois
mesmo sabendo que amanhã trabalharia triplicado,
já que sempre me esforçava por duas. Precisava
prestigiar Ray e seu homem dez anos mais velho
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que ela, a primeira do nosso grupo a arranjar um


namorado e se casar. Não bastava ser a primeira em
uma categoria, tinha que ser em duas.
Esperava que ela deixasse de ser a
primeira a engravidar, ainda havia muito para ela
curtir.
Aproximei de Ray e Paula, que estão na
parte mais rasa da piscina e beliscavam alguma
comida maravilhosa que existia nessa casa. Ben
estava sentado em uma cadeira, debaixo do guarda-
sol e sem camisa, vendo algo no tablet.
— Sério que você não me deixará fazer
um clone dele? — falo brincando só para ver a cara
da minha amiga indignada enquanto Paula apenas
ri. — Não precisa ser igualzinho, só com um pouco
menos de idade. Acho que ele não daria conta do
recado sendo tão velho.
— Eu estou escutando — Ben falou sério,

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arregalei meus olhos e virei de costas para ele.


Putz, o que ele vai achar que sou?
— Você não consegue se controlar, né? —
Ray me repreendeu, olhou para o noivo com um
sorriso apaziguador e depois me encarou séria.
— Eu também mereço um sorriso. Você
sabe que eu apenas brinco. — Dei de ombros e
peguei uma uva na bandeja.
— Essas brincadeiras ainda darão o que
falar, amiga — Paula diz e se aproxima mais. —
Você sabe que na festa de casamento deles os
irmãos irão aparecer.
— Será? — Arrependi-me de provocar tal
dúvida, porque vi o semblante de Ray cair um
pouco.
A pedido dos dois, essa era uma
informação sigilosa. O casamento não só tinha a
intenção de unir esses dois corações apaixonados,
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mas tentaria unir a família novamente.


Incrível como o dinheiro resolvia muita
coisa, porque em menos de duas semanas já existia
convites, decoração e o local, essa mansão. Seria o
casamento do ano na cidade, o bafafá já estava
solto e a pobre da minha amiga já foi alvo de várias
piadas maldosas, como ela tentar dar o golpe da
barriga.
Eu, em meu modo Letícia, já vou
respondendo para cuidar da própria vida ou o
quanto a inveja pode transformar as pessoas em
mesquinhas. Cidade pequena era uma merda e
quando alguém falava de uma amiga do coração
igual Ray era, eu não deixava barato.
— Bem, tomara que sim. Temos um mês
para fazer isso acontecer e estou bem empenhada
em atrair todos eles para cá — Ray falou insegura.
— Paula, queria aproveitar e ver com você algo

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inovador e sustentável para o hospital que eu sou


voluntária. Talvez atraia o irmão mais novo...
O barulho de carro acelerando nos
assustou e Ben se levantou da cadeira e caminhou
rapidamente até a casa. Um segurança, que não
sabia que estava por perto, o acompanhou e nos
unimos mais e mais dentro da água, com medo do
que poderia ser.
— O que será que foi isso? — Ray
pergunta.
— Se for a ex-noiva oxigenada eu dou na
cara dela! — respondo raivosa.
— Você não vai fazer nada, porque esse
povo adora processar mesmo não tendo razão! —
Paula intervém.
— Mas bater na nossa amiga ela pode? Eu
vou acabar com a raça dela!
Saí da piscina ao sons de protesto das
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minhas amigas e segui na mesma direção do


Benjamin. Não sei o que aconteceu, mas estava me
sentindo atraída para a entrada daquela casa, como
se um imã ou qualquer outra coisa me puxasse a
esse lugar.
Assim que parei na frente da porta de
vidro entre a casa e a piscina, dei de cara com uma
versão mais jovem e mais misteriosa de Benjamin.
Os dois pareciam estar discutindo e assim que o
homem virou o rosto e me encarou, seu olhar
desceu pelo meu corpo, que estava coberto por um
biquíni intermediário – nem recatado, nem ousado
– e depois voltou a me encarar com um sorriso de
pegador.
Olhei para Ben, que parecia frustrado ao
passar as mãos nos cabelos e ao olhar entre nós.
— Vamos para meu escritório, estou com
visitas.

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— Ah, acho que vou socializar antes de


escutar seus sermões de merda, meu irmão — falou
com desdém e isso me irritou profundamente.
Quem ele pensava que era?
Coloquei as mãos na cintura, olhei-o dos
pés a cabeça e fiz uma careta. Porra, esse era o
irmão do noivo de Ray, havia muitas semelhanças e
não tinha como negar. Era o do meio ou o mais
novo?
Que se explodisse, eu só queria tirar essa
vantagem dele, apesar de ser gostoso igual o Ben.
Maldita hora que pedi um clone mais novo...
esqueci de especificar que precisava ser educado
como o irmão.
— Desculpa Ben, achei que fosse uma
visita melhor, talvez a louca da sua ex. Estava
pronta para uma luta corporal.
— Sou Carlos Eduardo, irmão de
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Benjamin e não se preocupe, porque eu posso te dar


a luta corporal que você precisa.
— Desculpe, Cadu — percebi que ele não
gostou de como eu o chamei e ampliei meu sorriso,
um a zero para mim —, mas do corpo que eu gosto,
você não tem nenhum atributo.
— Tenho certeza que você não olhou
direito, garota — retrucou com certo desdém e não
me abalei. Dificilmente alguém ganhava de mim
quando estava em modo... Letícia.
— Há livros que valem o esforço de serem
lidos mesmo que suas sinopses não sejam
agradáveis. Esse não é o seu caso.
Ia sair de lá quando percebi que ele se
aproximou e estendeu a mão para tentar me tocar.
Sua roupa social o deixava sério, mas o sorriso
jovial quebrava toda essa formalidade, sendo o
verdadeiro contraste entre o bom moço e o

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cafajeste.
Impossível descrevê-lo com apenas um
adjetivo, sua beleza era tão autêntica quanto a de
Ben, seus olhos guardavam mistérios e seu
sorriso... sim, fui fisgada pelo sorriso do cafajeste e
me odiava por isso.
Olhei para sua mão quando desviei meu
corpo para não ser tocado, depois para o seu rosto e
sorri, achando graça desse cara não ter entendido
que eu o dispensei, além de mostrar que preferia
mil vezes que fosse a ex idiota ao invés dele.
— Um livro não pode te proporcionar
momentos agradáveis como eu posso.
— Ah, aí é que você se engana. Antes
sozinha e acompanhada de um livro do que ter que
aguentar o ego de um homem falando por si só.
— Você não me conhece! — falou baixo e
em tom chateado, o que me deixou satisfeita.
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— Eu já vi o bastante para não me


impressionar.
Pisquei um olho, olhei para Ben que
segurava o riso e voltei para a piscina rebolando.
Meu biquíni não era fio dental, mas estava cavado
o suficiente para me exibir.
Pulei na piscina, voltei a ficar perto das
minhas amigas e comentei o que aconteceu.
— O cara é um idiota, acho que seu Ben
está melhor sem ele por perto. Esse Cadu parece ser
o oposto do irmão!
Omiti a parte que senti seu olhar como se
fosse suas mãos no meu corpo e meu coração
acelerado ao ver seu sorriso. Ele era idiota, me
afetava e daria mais trabalho para esquecer do que
imaginava.

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Capítulo 2
Carlos Eduardo
— Deixe para lá Eduardo — como sempre
me chamou, Ben tirou minha atenção daquela
pequena ousada e seguiu para o escritório de nosso
pai. Bem, agora não mais.
— Essa que é sua noiva? — perguntei
sentido o gosto amargo das palavras, tanto pelo seu
parentesco quanto pela atração imediata que tive.
— Letícia e Paula são amigas de Rayanne,
minha noiva. Ela está na piscina, a de trança no
cabelo.
Ele entrou no escritório, apontou a janela e
se sentou em uma das poltronas de lá. Fui até a
janela e observei quem eram, meu olhar não
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desviou da garota de cabelos até os ombros, mechas


roxas e língua afiada. Nenhuma mulher resistiu ao
meu charme, ela não seria a primeira.
— Você não veio apenas discutir sobre
meu casamento ou ficar babando nas minhas
visitas. Estou feliz que veio, mas descontente que
chegou com cinco pedras na mão — reclamou
cansado e por obrigação, voltei minha atenção a
ele.
Peguei meu celular, abri o e-mail
encaminhado pelo meu detetive e joguei o aparelho
em seu colo.
— Você não pode se casar com essa
mulher. Sua família destruiu a nossa, você quer
finalmente enterrar qualquer vínculo que a gente
tinha? Não vou aceitar essa união!
Ele olhou a tela do aparelho por um bom
tempo. Franziu a testa, mexeu na tela e por fim,

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sorriu e devolveu para mim.


— Se eu soubesse que minha mulher tinha
parentesco com o amante da nossa mãe eu teria te
trazido muito antes do que agora. — Ele se
levantou. — Mas foi melhor assim, porque ela não
irá desistir de se casar comigo nem eu dela.
— Está maluco? — excedi.
— Sim. Muito louco, apaixonado e
comendo na mão daquela mulher se precisar. —
Ele apontou para a janela. — Ela é o motivo de
você estar aqui, de podermos conversar e
finalmente encerrar essa história mal contada de
nossa vida.
— Qual o seu problema? Está fazendo
terapia ou encontrou uma nova religião? — zombei
e ele deu de ombros.
— Você está perdendo a linha, Eduardo.
Sempre foi o mais jovial, descontraído... — Ele se
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aproximou da janela. — Aquela última foto que


você postou na sua rede social, a mensagem era
para mim?
— Está me seguindo?
Resolvi me aproximar da janela também e
observar a mesma coisa que ele. A pequena ousada
de mechas no cabelo estava saindo da piscina, a
água que escorria pela sua pele acordou certos
músculos que não foram chamados para a conversa
tensa com meu irmão.
— Esqueça tudo o que você sabia sobre
nosso passado. Esqueça o seu conceito de
mulheres. — Ele apertou meu ombro e nos
encaramos, finalmente desarmados. O que foi isso,
feitiçaria? — Os diários de nossa mãe foram
encontrados. Eu não acredito mais que ela teve um
amante e nem que nosso pai cometeu suicídio e sim
assassinato.

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— Onde estão? — Meu coração acelerou,


meu chão parecia ter saído debaixo dos meus pés e
uma insegurança, que sempre tentava mascarar,
começou a dar as caras.
Isso não era apenas uma mudança de
contexto. Tudo o que acreditei, a raiva que construí
em cima dessa traição parecia ter sido em vão.
Minha cabeça começou a doer e eu precisava de
espaço para respirar, a gravata estava me
sufocando.
Quando Ben abriu uma gaveta da mesa
com chave, eu vi aqueles diários e explodi.
— Eu preciso de ar! — anunciei ao mesmo
tempo que tentava remover a gravata do meu
colarinho.
Puta que pariu de roupa dos infernos, eu
precisava de ar.
Escutei meu nome ser chamado e não
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respondi, apenas segui para um local onde sempre


me sentia em paz naquela casa. Não demorei muito
para chegar na biblioteca, encontrá-la limpa e
também, com mais estantes e livros.
Meu peito doeu novamente e precisei
sentar, finalmente arrancando a gravata e
observando o item novo no ambiente e o livro
deixado em cima da mesma de forma displicente.
Aberto em uma página qualquer, deixei
meus olhos vagarem pelo texto com a intensão de
me distrair. A narrativa era romântica, a descrição
da cena íntima do casal estava explícita e
involuntariamente senti meu corpo reagir a isso.
Que livro era esse? Meu irmão resolveu
comprar pornografia em forma de livro?
Fechei o livro, para ver na capa o torso nu
de um homem.
— Eu vou pegar meu livro e já volto! —
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escutei a voz daquela que me tinha atenção e


observei a porta da entrada do cômodo se abrir.
Quando ela entrou na biblioteca, envolta
de uma toalha, se assustou, mas se recompôs
rapidamente, pisando firme, erguendo o nariz e
tomando o livro das minhas mãos.
Ela tinha bolas.
— Não sabia que você era do tipo que lia
hot — provocou.
— Hot?
— Sim, livros eróticos, romances
contemporâneos, new adult... — Ela balançou o
livro na minha frente e deu de ombros. — Com
certeza não, você não parece ser tão evoluído.
Sorri, porque ela não conseguia esconder o
quanto estava afetada. O ataque também servia para
mostrar o quanto de atração que ela sentia. Minha
aparência não deixava muitas mulheres imunes,
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eram apenas poucas aquelas que queriam resistir


por muito tempo.
Levantei da cadeira como um predador, ela
deu um passo para trás e seguimos assim, até suas
costas encontrarem a parede.
Falta de ar? Pânico? Eu não sentia mais,
havia outro assunto mais importante para ser
resolvido, que era mostrar todo o meu potencial de
pegador para uma pequena ousada de cabelo
colorido.
Coloquei uma mão apoiada ao lado de sua
cabeça e aproximei meu rosto do dela. Abraçando o
livro, ela tentou se proteger, esconder o que sentia,
mas o ar que soltei pelo meu nariz, assim que
encontrou seu pescoço, fez seu corpo inteiro se
arrepiar.
Ela estava no papo, agora, só precisava
dizer as palavras certas.

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— Posso provar que ao vivo é muito


melhor que a leitura... hot, você diz?
Deixei que meu nariz encontrasse a pele da
sua bochecha e percebi que ela prendeu a
respiração e fechou os olhos. Acuada e nervosa,
resistindo ao máximo e me deixando duro por ela.
— Cadu... — ela sussurrou e quebrou todo
o encanto.
Porra de apelido infantil que me tirava do
sério!
— Me chame de Carlos Eduardo porra! —
rosnei.
E então, até ela acordou da hipnose, me
empurrou com força e apontou o dedo para a minha
cara.
— Fique longe de mim, seu paquerador
barato. Eu não te dei liberdade para essa
abordagem.
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— Eu não encostei em você sua louca!


— Você me encurralou! — falou em tom
acalorado.
— Pare com esse pudor. Esse livro tinha
coisa muito pior...
E senti minha cara arder como nunca
antes. O tapa que ela me deu mostrou toda a
indignação de uma nação de mulheres ofendidas
pelas minhas palavras e claro que percebi onde
errei. O machismo e pré-conceitos estavam
enraizados na minha vida, só não consegui filtrar
antes de sair por minha boca.
Voltei meu olhar para ela, que tinha fogo
nos olhos e respiração acelerada.
— Que demora é essa Letícia... — A
garota de trança entrou na biblioteca, também com
uma toalha envolta no corpo e parou chocada ao
ver nossa posição.
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Hum, Letícia...
— Você é um maldito arrogante, Benjamin
está muito bem sem ter você por perto.
Ela virou as costas e ia saindo, mas a parei
com minha réplica:
— Estou aqui para ficar, Letícia.
Ela segurou no braço da amiga, virou
apenas a cabeça e fez uma careta.
— Veja se aprende a ser um décimo do
cavalheiro que ele é. Você não está lidando com
amigas de foda, onde tudo poderia ser resolvido em
apenas dez minutos.
— Mas poderia e te garanto, não haveria
reclamação — Não consegui me impedir de
responder com um sorriso idiota. Ela estava me
diminuindo e com plateia, não deixaria barato.
Ela tentou avançar em mim, mas a noiva
do meu irmão impediu e a arrastou para fora de lá.
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Bufei, soquei a mesa e a vontade era de


destruir aquele cômodo, mas não fiz. Essa mulher
conseguiu tirar o pior de mim, me fez esquecer do
verdadeiro motivo de estar nessa casa e eu não
poderia negar, estava admirado e atraído.
Fui para a janela, observar o imenso
jardim lateral e refletir. Que merda eu iria fazer
agora?
Apoiei meu braço no umbral da janela,
sorri e relembrei nossa última interação, seu corpo
se arrepiando, ela correspondendo a mim. Ah sim,
ela seria minha, fazia tempo que não tinha um
desafio. Eu lidaria com as revelações do meu irmão
mais velho e também, aproveitaria o passeio no
corpo da desbocada.
— Que porra você pensa que está fazendo,
Eduardo? — Benjamin invade a biblioteca e
parecia pronto para lutar. — Já reparou que essas

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mulheres são decentes? Se você está acostumado


com a putaria, tente se controlar, porque não vou
aceitar desrespeito aqui nessa casa!
Ele segurou nas minhas lapelas e
chacoalhou, eu apenas sorri. Essa era minha forma
de escapar, fugir da responsabilidade e ganhar uma
discussão, com calma e um pouco de escárnio.
— Não vim aqui para arranjar uma noiva,
como você fez. Traga os diários, quero saber
exatamente o que te fez chegar à conclusão de que
nosso pai não foi vítima de si mesmo.
Ele me soltou, deu o último alerta com seu
olhar irritado e saiu, provavelmente para buscar os
diários.
Dei um passo em direção a mesa e percebi
que o livro que Letícia segurava estava caído no
chão. Antes que meu irmão pudesse perceber,
peguei o pequeno volume, coloquei no bolso de

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dentro do meu terno e imaginei que eu teria


companhia para a noite e entenderia, finalmente, o
que se passava na cabeça daquela mulher.
Livro hot, certo?
Eu te decifrarei, Letícia...

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Capítulo 3
Letícia
Passei a semana inteira de mal humor, até
parecia que estava de TPM. Tudo parecia me
irritar, até o espirro do meu colega de trabalho me
fazia querer estrangulá-lo.
Motivo? Não queria assumir, mas era
aquele arrogante e idiota irmão do Benjamin. Cadu,
faria questão de chamá-lo assim, só porque ele se
irritava todo. Ah, sim, eu queria provocá-lo, tirá-lo
do sério e causar todas as sensações conflitantes
que ele estava me fazendo sentir.
Não queria me manter nesse barco
sozinha!
Ele pisou no calo errado ao me julgar por
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ler livro erótico. Desde quando eu preciso ser dada


e desinibida, só porque leio esse tipo de livro?
Falando nele, esqueci o bendito naquela casa e fui
obrigada a terminá-lo em ebook. Ray não achou o
livro para mim e tenho certeza que o idiota de
sorriso maroto pegou apenas para me aporrinhar.
Se estava com ódio desse homem? Ah,
acho que era bem pior que isso, ele conseguiu
despertar o pior de mim.
— Vá para casa — meu chefe parou em
frente da minha mesa e fechou a tela do meu
notebook.
— Hey, estava no meio de uma
conferência de lançamento...
— Vá. Para. Casa! — ele repetiu e pelo
seu olhar, vi que nada do que eu fizesse mudaria
sua opinião, mas, não custava tentar:
— Por que está me mandando embora?
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— Você quer que eu elenque? — Ele


cruzou os braços, fez uma careta e apoiou seu
quadril na minha mesa, mostrando toda a sua pose
de que joga para o mesmo time que o meu.
Sim, meu chefe era lindo e gay.
— Eu faltei um dia na semana passada e
todo o serviço se acumulou...
— Olha que sorte, estou te dando quinze
dias de férias e quando você voltar, estará tudo te
esperando.
— O quê? — Arregalei meus olhos,
porque férias era algo que nunca tinha ouvido
falar... ou usufruído.
— Tchau! — Ele abriu minha gaveta da
mesa, pegou minha bolsa e jogou no meu colo.
Olhei para os lados, todos pareciam felizes
com essa atitude e com dor no meu coração, apenas
segui para fora da enorme sala, cheia de mesas,
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impressoras e computadores.
O que eu faria com quinze dias de férias?
Peguei meu celular, precisava desabafar.
Letícia>> Acabei de ser intimada a ter
15 dias de férias. Isso é bom ou ruim? Estou em
dúvida.
Josi>> Vá para casa, durma e acorde o
horário que você quiser, fique de pijama e então,
você nos conta se isso é bom ou ruim.
Alci>> Depende, vão te mandar embora
quando você voltar de férias?
Ray>> Nossa, até parece que os anjos
escutaram minha prece. Preciso de você Le!
Letícia>> Alci, se isso acontecer, eu
processo aquele gay garboso.
Josi>> Sempre esqueço que seu chefe é
um deus grego gay. Como você consegue

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trabalhar olhando para ele todos os dias?


Letícia>> Com os dedos no teclado, eu
não sou essa puta que vocês acham que eu sou!
Thata>> Nossa, escutei tantos avisos de
mensagem que achei que seria a Ray grávida. O
que está acontecendo?
Alci>> Amiga, Letícia está com o lado
“cavala” ativa, finge demência senão sobra para
você.
Josi>> Hum, falando em cavalo, isso me
lembra um certo cunhado da Ray que ela
comentou há minutos atrás que já chegou
causando.
Paula>> Bom dia e tchau. Eu não vou
cutucar a onça com vara curta e vocês deveriam
fazer o mesmo. Bom descanso, Letícia!
Letícia>> Eu não fui grossa, vocês que
estão falando coisas sem sentido.
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Ray>> Lê, pode passar aqui na casa do


Ben?
Letícia>> Eu não vou ficar no mesmo
lugar que seu cunhado!
Josi>> Ah, o amor...
Letícia>> Você tem sorte por morar
longe, gêmea Josefina!
Ray>> Por mim, amiga? Dona Judite
fez escondidinho de carne e bolo nega maluca de
sobremesa.
Letícia>> Poxa vida, tem como recusar?
Me ganhou pela barriga, você me paga!
Mesmo com meu coração acelerado, quase
querendo pular pela boca só de pensar em ver
aquele cafajeste, entrei no meu carro e segui até a
mansão dos Valentini.
Bem, Ray estava precisando de mim,
então, estava indo pela minha amiga. Repeti essa
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frase várias vezes na minha mente, tentando me


convencer de que me encontrar com Cadu não seria
nada demais.
Também tentei não recordar dos poucos
momentos de sono que tive no final de semana e
era ele a habitar meus sonhos.
Estacionei o carro na frente da casa e o
portão da garagem abriu. Maldito rico que tinha
seguranças e sabia até a placa do meu carro. Liguei
o carro novamente, manobrei e estacionei atrás de
um carro esportivo que não era o Z4 do Ben. Que
eu lembrava, minha amiga estava sem noivo essa
semana, que teve que viajar para sua cidade para
resolver problemas da empresa.
Merda, será que Ray iria nos abandonar?
Ainda bem que por mensagem a gente nunca
deixará de conversar.
Caminhei para a porta de entrada da casa e

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escutei alguns sons estranhos. Parecia ofegos,


gemidos... Oh, não, o que seria que estava
acontecendo?
Segui para a lateral da casa, onde existia
um enorme jardim, um gramado maravilhoso para
se fazer um piquenique e me deparei com aquele
ser do inferno, quase nu, treinando algum tipo de
luta com outro homem, o que os deixavam suados e
fazendo esses sons que mais pareciam outra coisa.
Sim, minha mente era fértil e normalmente
tendia para o lado obsceno da coisa.
Ele era bem mais definido que Ben, um
pouco mais encorpado e... precisava respirar fundo
e fechar a boca, lembrar do quanto ele era idiota,
senão passaria vergonha e ele adoraria.
Impossível não ficar envergonhada pela
minha mente assanhada e quando dei um passo
para trás, ele parou sua luta e me encarou. A

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seriedade de antes foi substituída por aquele sorriso


cafajeste.
— Gostou do que viu, Letícia? — a forma
como ele pronunciou meu nome pareceu até
pecado. Com a mão enfaixada, ele deslizou pelo
abdome e dispensou quem o acompanhava.
Dou outro passo para trás, muito assustada
com a vontade que eu estava de tocar aqueles
gominhos, o que o fez se aproximar, trazendo
consigo o cheiro de suor, que em outros momentos
me deixaria com nojo e agora, eu só queria me
esbaldar.
Eu estava de TPM ou lendo muito livro
erótico, era certeza, já que estava fantasiando
demais sobre algo sério.
Ou quem sabe, apenas virando bipolar.
— Oi e tchau, vim pela Ray e não por
você, Cadu!
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Quando vi sua careta, sorri e saí correndo


para dentro da casa e segui até a biblioteca. Por
intuição, sabia que ela estaria lá, ou pelo menos,
esse seria meu local seguro.
Eu precisava me proteger ou cairia na teia
de aranha formado por Carlos Eduardo Valentini!

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Capítulo 4
Letícia
— Por que entrou correndo? — Ray
levantou da cadeira e se aproximou com olhar
preocupado. — O que está acontecendo com você?
— TPM, estresse, conflito mental...
escolha qualquer um desses, eu só preciso respirar e
pensar em outra coisa que não seja um homem
pelado fazendo exercício físico.
Ela deu um passo para trás, colocou as
mãos na boca em choque e me arrependi de ser tão
sincera. Bem, eu não conseguiria ser diferente,
afinal.
— Você...
— Eu quero saber qual o motivo de você
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estar aqui e não providenciando sua vaga de


emprego. Não era você que iria provar seu
potencial ao invés de ser apenas indicada?
Ela rolou os olhos e vi mágoa. Merda, eu
estava afiada demais, precisava me controlar.
— Meu excelentíssimo cunhado é um pé
no saco e agora que está de bem com meu noivo,
fizeram um complô e me convenceram de não
assumir nada até que eu me case e resolva esse
enigma, o que me leva até você! — Ela apontou
alguns cadernos, anotações e fotos em cima da
mesa.
— Me desculpa, Ray... — Fui até seu lado
e a abracei, ela retribuiu com carinho.
— Eu desculpo, acho que meu cunhado
está mexendo muito com seu lado zen.
— E desde quando eu tenho esse lado? —
Sento na cadeira e ela faz o mesmo, rindo. —
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Comigo é modo Letícia ou modo dormindo.


— Você é mais madura que eu, por que
não aproveita e dá uns pega nele? — Ela ficou
vermelha ao propor isso e revirei meus olhos para
sua tentativa de ser descolada.
— Eu até daria uns pega nele, se não fosse
arrogante e prepotente. Depois de uma noite com
ele, seremos obrigadas a escutar seu ego até o
casório.
— Sabia que ele se redimiu comigo sobre
o pré-julgamento de leitora de romance hot? — Ela
arqueou uma sobrancelha e sorriu satisfeita. — Ele
disse que leu o livro, achou bem instrutivo e falou
que irá te pedir desculpas na primeira oportunidade
que tiver.
— Bem, não houve nenhum pedido de
desculpas, apenas exibição do seu corpo há alguns
minutos atrás... — resmunguei e peguei uma foto

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de três meninos lindos, com menos de dez anos. —


Quem vê nunca imaginaria que um deles seria tão
idiota.
— Às vezes, esse idiota só teve um
passado um tanto ruim... — Ray falou saudosa e
suspirou. — Amiga, preciso do seu conhecimento
de números e raciocínio lógico para decifrar tudo
isso. É muito importante para Ben...
E foi assim que Ray me contou como
Cadu encontrou uma carta criptografa, com letras e
números embaralhados entre si. Foi impressa e não
escrita e toda a pesquisa que minha amiga fez na
internet não deu resultado nenhum.
— Desde quando eu tenho cara de nerd
que entende essas coisas? Por que eles não pagam
um fodão para resolver?
— Eles não confiam em ninguém, já
sugeri isso. Me propus a tentar, porque eles me

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tiraram o emprego. — Revirou os olhos. — E


também porque Ben pediu com jeitinho... — Ela
ficou vermelha e tive que rir de seu acanhamento.
— Está se dando bem com o bonitão, né?
— Cutuquei sua costela, fazendo nós duas rirmos.
— Deve estar subindo pelas paredes de saudade
dele.
— Pior que estou... — Ela suspirou
apaixonada, pegou uma foto de Ben pequeno e
alisou a imagem. — Nunca imaginei que alguém
como ele poderia ser feito para mim.
— E desde quando temos tipo pré-
definidos? Olha eu, por exemplo, gosto de...
— Ah, isso eu quero escutar, qual é o seu
tipo, Letícia? — Cadu entrou na biblioteca
cheirando a banho fresco e com cabelo molhado.
Sua barba estava bem desenhada e seu olhar... Se
eu fosse um pouco mais boba cairia na sua lábia,

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mas meu ego era mais forte que isso. Ou pelo


menos tentava.
A roupa estava desleixada, mas não tirava
sua elegância. Calça social e camisa com alguns
botões abertos, ele parecia a perdição ambulante.
Deixei que se aproximasse para responder
uma negativa, mas quando senti sua mão encostar
no meu braço, porque ele se apoiou no apoio da
minha cadeira, resolvi jogar:
— O seu, Cadu. — Sorri ao ver sua careta.
— Lê, ele não gosta de ser chamado assim
— ralhou Ray.
— É um apelido carinhoso, para mostrar o
quanto somos próximos e poderemos nos torar
íntimos... Cadu. — Olhei dentro dos seus olhos e vi
fogo neles. Dois a zero para mim.
— Poderia se levantar, por favor, Lê? —
ele falou com suavidade e dando de ombros, fiz o
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que me pediu.
Não estava preparada para ser enlaçada
pelo braço dele e sua boca tomar a minha. Minhas
mãos estavam no seu peito, que ao invés de afastá-
lo, me fez querer senti-lo.
A pegada desse cafajeste era do jeito que
eu gostava, mãos firmes, boca dominadora e
corpo... ah, que corpo! Seus lábios nos meus
forçaram a passagem da língua e em um momento
de loucura, retribuí o beijo, sentindo seu hálito
mentolado e seu cheiro suave de sabote.
Ah, eu poderia ficar assim por muito
tempo...
— Letícia? — Ray sussurrou, me fazendo
voltar ao mundo real e me afastar desse oportunista.
Ele me olhou assustado, ofegante e com
fogo de paixão refletindo em suas íris. Na minha
lucidez, eu apenas controlei minha respiração,
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pisquei algumas vezes e limpei um pouco do meu


lábio inferior, apenas para senti-lo dormente.
Que homem!
Ele não poderia saber, nem sob tortura
assumiria.
— Eu te desculpo por ser um idiota
comigo no outro dia — cumprimentei-me
mentalmente por manter a voz firme ao dizer isso.
— Não foi um pedido de desculpas — sua
voz rouca fez meu corpo se arrepiar.
— Que seja, Cadu. — Viro para Ray, que
estava olhando de mim para ele assustada. —
Podemos continuar?
Voltei a me sentar, porque minhas pernas
estavam bambas. Estava bancando a forte,
impenetrável, mas a verdade era que estava muito
abalada por ele.
Quem cederia a tentação com apenas um
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beijo? Pelo jeito eu, Letícia de TPM e de férias.


Vi que ele deu a volta e sentou do lado de
Ray, ficando de frente para mim e direcionando
fogo e dardos ilusórios para me atingir.
— Então, a gente precisa tentar decifrar
isso para ver se existe alguma informação válida —
Ray diz um pouco tensa.
— Por que não contratar alguém?
Aqueles olhos castanhos, cor de uísque,
me fitaram e senti até na minha alma o seu
descontentamento e desejo. Oh, homem, também
sinto o mesmo, mas não do jeito que você pensa.
— Não posso confiar em ninguém no
momento.
— E querem confiar em mim? —
questionei confusa. — Vocês não são as pessoas
com dinheiro? Compre o silêncio com isso.
— Desative essas armas, Letícia. Eu sei
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que você pode ajudar! — Ray segurou minha mão e


apertou com força. — Esse diário tem relatos de até
dois dias antes do ocorrido. Em nenhum momento a
mãe deles comentou sobre um amante ou o meu tio
avô...
— Seu tio avô? Como assim?
Com o clima de luxúria substituído pelo do
mistério, tanto Ray quanto Cadu contaram sobre a
vontade de Ben reunir a família, o interesse do
irmão acompanhar cada passo do amante e sua
família e a dúvida sobre realmente ter havido um
suicídio ou não.
— Minha avó sempre falou que não
acreditava que dona Vivian tenha traído... — Ray
divagou olhando a carta criptografada e teve
atenção minha e de Cadu.
Eu olhei para ele e concordamos de forma
silenciosa de que a avó de Ray sabia mais do que

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ela estava contando.

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Capítulo 5
Letícia
Até o final da tarde, depois de almoçar e
ficar submersa em letras, códigos e pesquisas no
computador do escritório da casa, eu estava mais do
que envolvida e determinada em resolver tudo isso.
Diferenças? Ego? Não, nada mais
importava quando a prova de que toda uma geração
estava errada quanto a uma informação. O patriarca
Valentini não se matou e a dona Vivian não tinha
uma amante.
Pesquisei notícias da época, relatos em
blogues e só me deparei com sofrimento e dor
daqueles pobres meninos que praticamente ficaram
órfãos. Ninguém sabia o paradeiro da mãe, que

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sumiu do mapa da família Valentini e os meninos


foram criados pelos avós, focando apenas em
trabalho, trabalho e trabalho.
Onde ficou o amor?
Impossível não me compadecer e entender
mais sobre o comportamento do Cadu. Ele tentava
mascarar sua dor com ousadia... ou pelo menos eu
achava, isso era assunto para Paula analisar.
— Você precisa descansar, Ray dormiu na
mesa da biblioteca e a levei para o quarto de Ben.
— Cadu entrou no escritório com uma caneca em
mãos, a fumaça indicava ser uma bebida quente, o
que me fez torcer a boca.
Não mais usando trajes formais, com
apenas uma camiseta branca e uma calça de flanela
cinza, ele se aproximou como se fossemos íntimos.
Sim, um dia inteiro trabalhando em resolver um
problema mudou um pouco nosso relacionamento.

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De gato e rato para cão e gato.


— Não é tão tarde assim. Além do mais,
você quer ou não quer minha ajuda?
Ele colocou a caneca na minha frente e
senti o cheiro de chocolate quente apertar meu
estômago. Na outra mão havia aqueles salgados
maravilhosos que dona Judite fazia e senti meu
estômago vibrar de alívio.
— É quase meia-noite, para ser mais
exato.
Olhei assustada para Cadu, que parecia
tranquilo, pegou uma cadeira e colocou ao meu
lado. Quando peguei a caneca de chocolate quente,
ele pegou minhas pernas e colocou no seu colo,
fazendo uma massagem que mais parecia um
carinho da perdição.
— Não faça isso... — sussurrei e assoprei
a fumaça da xícara, sentindo todas as minhas
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terminações nervosas se alertarem ao seu contato


com minha perna.
Quando estávamos disputando, era difícil
resistir, agora que quase entramos em um acordo...
— Eu só quero te agradecer — falou de
forma sensual, pegou meu pé e começou a
massageá-lo. Estava descalça, uma mania que tinha
quando ficava muito tempo sentada em frente ao
computador.
Filho da mãe, ele descobriu meu ponto
fraco. Massagem.
— Por que você quer me seduzir? — falei
baixo e bebi um pouco do líquido fumegante.
Maravilhoso. Tudo.
— Estou te seduzindo? — perguntou com
falsa indignação e me presenteou com aquele
sorriso que só um cafajeste poderia dar. — Você
beija bem pra caralho, Letícia.
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Suas mãos apertaram minhas panturrilhas


e foram subindo pela minha perna. Estava de calça
jeans, mas não me impedia de senti-lo
completamente.
— Isso é você tentando me levar para
cama? — Deixei a caneca de lado e me rendi as
suas carícias. Que se fodesse meu ego, estava
exausta e só queria ter um momento de paz.
Amava trabalhar, me empenhar para algo e
concluir uma tarefa. Mas também amava o alívio e
o descanso que vinha logo a seguir.
— Você quer ir para cama comigo? — Sua
mão passou pela minha coxa e voltou para meus
pés.
— Cadu, pare de me responder com
perguntas... Ei!
Ele segurou minhas pernas e com força,
me fez escorregar da cadeira e cair escarranchada
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no seu colo. Ele estava muito animado nos países


baixos e pegando fogo em seus olhos.
— Por que você gosta de me irritar? —
falou com raiva, mas parecia tesão também. —
Cada vez que você faz isso, tenho vontade de te
colocar de quatro e bater na sua bunda.
Isso me lembrou cinquenta tons de cinza e
me fez sorrir, o que foi uma interpretação errada a
sua pergunta. Ele apertou minha bunda e esfregou
meu corpo no dele.
Segurei no seu ombro, numa tentativa
falha de controlar suas ações ou o que eu tinha em
mente para o próximo movimento. Ele queria me
beijar, dizia isso com os olhos, com seus braços a
minha volta, com seu corpo...
— Não machuque meu coração — ordenei
antes de me entregar aos desejos da carne.
Ele correspondeu ao beijo com maior
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intensidade, parecia se segurar antes, agora, suas


mãos exploravam meu corpo, minha pele exposta e
escondida.
Como sua calça era de tecido fino, senti
sua ereção e já estava mais do que pronta para estar
junto dele, unindo nossos corpos, trocando nossos
fluídos. Se eu estava ficando louca? Sim, muito.
Depois de um relacionamento desastrosos há dois
anos atrás, fiz da minha vida trabalhar e ler, o que
me gerou um celibato imposto.
Ter um homem como esse me desejando,
desesperado tanto quanto eu para nos envolvermos
era quase um cobertor quente e seco depois de uma
enchente.
Levantei com custo do seu colo, minha
boca não deixou a sua e suas mãos não queriam me
deixar longe.
— Volte — resmungou.

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— Vou tirar a calça — disse divertida, saí


do meu jeans e voltei para a posição mais do que
confortável no seu colo.
Envolvi meus braços no seu pescoço e
beijei por muito tempo, esfregando meu corpo no
dele, sentindo seu membro duro contra minha
intimidade úmida coberta.
Nunca tive problema em me entregar de
forma sexual, esse conceito para mim era tão
normal quanto os cálculos contábeis que eu
trabalhava, por isso não me importei de continuar
com o que estávamos fazendo.
Para o prazer não havia prazo mínimo de
convivência, era química, pele com pele e visão.
Eu queria, ele queria e ambos estaríamos
muito bem satisfeitos, podendo voltar a nossa
rotina normal de desvendar o mistério que envolvia
sua família.

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Removi sua camiseta, ele removeu a


minha e também meu sutiã.
— Estou em desvantagem aqui — falei
com um gemido quando ele apertou meus seios e
colocou um na sua boca.
— Eu posso te chupar, ou posso meter
fundo de uma vez — ele falou rouco e movimentou
seu quadril, me deixando insana.
Quem pensaria em esquentar o forno
quando ele já estava em completa brasa?
Beijei seus lábios com sensualidade e
afastei apenas o suficiente para olhar em seus olhos
com uma provocação clara.
— Quero ver o quanto você é bom, Cadu.
Senti uma ardência na cintura e percebi,
olhando para o chão, que ele tinha rasgado minha
calcinha. Sem ter tempo de protestar, senti seu
membro me preencher e tudo parecia tão... real.
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— Caralho, pare de me chamar por esse


apelido infantil! — rosnou e mordeu meu pescoço,
chupando com força.
Subi e desci em seu membro, rebolei e me
entreguei em uma dança sensual que nunca me
permiti. Ele me deixava fora de mim da mesma
forma que eu o fazia com ele.
— Entenda uma coisa — falei ofegante,
meu orgasmo próximo de ser alcançado. — Eu só
dou apelidos para aqueles que gosto muito e agora,
Cadu é o homem que quero dentro de mim.
Senti uma ardência na minha bunda, o
estalo da sua mão nela foi o complemento
suficiente para me fazer gozar com força, quase
desfalecendo em seus braços.
Ele me colocou de pé, virou meu corpo e o
fez deitar na mesa, quase derrubando a xícara com
chocolate quente e o salgado de Judite.

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— Sinta o que o seu Cadu pode fazer por


você — sussurrou no meu ouvido, depois se
posicionou atrás de mim e meteu, até se fartar, me
obrigando a gozar mais uma vez e jorrando todo
seu sêmen em mim.
Assim que me dei conta da falta de
proteção, bati minha cabeça na mesa uma, duas
vezes, para me obrigar a voltar a pensar
racionalmente. Senti algo atingir minhas partes
íntimas e virei assustada, apenas para olhar Cadu
tentando me limpar.
— Espero que você use algum método
contraceptivo — ele falou exausto, parecia duelar
internamente com alguma coisa.
Que se explodisse!
— Espero que você não tenha nenhuma
doença contagiosa — rebati e tomei o lenço da sua
mão. Merda, estava muito constrangida para me

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limpar na frente dele.


Olhei para o chão em busca da minha
roupa e fui surpreendida por um abraço.
— Ben comentou o quanto sua mulher e
amigas eram importantes. Se sou idiota é por puro
comodismo, não me leve a sério. — Ele beijou
minha testa. — Nunca transei sem proteção, isso
não se repetirá. Você...
Abracei-o com força, seu pedido de
desculpas e reconhecimento do quanto me magoou
foi um bálsamo. Porém, estava com medo.
— Estou limpa também. Não se preocupe,
está tudo sob controle e preciso ir para casa. Já deu
por hoje.
Afastei-me dele, peguei minhas coisas e
corri para o banheiro anexo ao escritório. Acendi a
luz, olhei-me no espelho e não reconheci a mulher
insegura que encarava.
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— Preciso ir para casa... — sussurrei antes


de fazer o que precisava, colocar a calça sem
calcinha e voltar para o escritório com uma
desculpa pronta para fugir.
Não havia ninguém lá.
Tomei o resto do chocolate quente, peguei
a carta criptografada e guardei na minha bolsa. Iria
sair daquele lugar sem me despedir e iria encontrar
as respostas longe da tentação.

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Capítulo 6
Letícia
Letícia>> Gente, fiz uma burrada
ontem.
Paula>> Bom dia minha amiga. O que
aconteceu? Você sumiu!
Josi>> Ah, o amor... deu?
Alci>> Como assim deu?
Alci>> OH MEU DEUS! Mais uma vai
se casar com um ricaço?
Ray>> Bom dia e me conte tudo o que
aconteceu, porque meu cunhado está com um
humor do cão.
Letícia>> Eu estava cansada, ele

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começou a fazer massagem e...


Josi>> Deu!
Letícia>> Para de falar deu!
Alci>> Tudo bem, você fodeu. Parabéns
amiga, acho que está mal-humorada assim desde
o dia que aquele encosto fez o favor de te deixar
em paz!
Paula>> Mas você não odiava o cara?
Espera, gente, estou confusa e no meio de uma
reunião chata, que não estou conseguindo
acompanhar!
Ray>> Ele não deveria estar com humor
desses se vocês tiveram uma noite juntos. Eu me
sinto feliz depois... vocês sabem... O que
aconteceu de verdade?
Thata>> Não são nem dez horas da
manhã e a classificação da conversa está para
maiores de dezoito anos. Conta mais, Letícia!
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Letícia>> Fodi, foi bom, não nos


protegemos e ele sumiu. Fim da história.
Ray>> ...
Paula>> Tudo bem, um deslize. Vá na
sua médica, faça os exames que tem que fazer e
limpe sua consciência. Você não é a primeira
mulher nem será a última nessa situação.
Ray>> Se te alivia, eu também fiz sem
proteção uma vez.
Thata>> ...
Alci>> Já que esses homens são ricos,
por favor, paguem minha ida para o casamento,
nascimento, batismo...
Josi>> Também estou me convidando e
colocando nos correios uma carta para vocês
duas cheia de camisinhas. Pelo amor de Deus,
usem proteção!
Ray>> A passagem de vocês e o hotel
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estão pagos para o meu casamento. Nem


acredito que casarei em menos de vinte dias...
E assim a conversa tomou outro rumo e
larguei meu celular de lado para analisar aquele
pedaço de papel que roubei da casa dos Valentini.
Eles não confiavam em ninguém, mas eu tinha uma
pessoa que quebraria esse galho e decifraria tudo
em dois segundos.
Ainda deitada na minha cama depois de
um sono nem um pouco renovador, morando em
um minúsculo apartamento, tirei foto de metade do
papel e mandei para uma velha amiga nerd, que
conheci em um fórum de livros e que já me ajudou
em vários problemas com computador, de forma
remota, além de ser minha ajudante quando preciso
de alguma informação de cliente.
Estava digitando a mensagem, para
explicar a imagem que mandei, quando meu celular

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tocou. Era ela!


— Mulher, o que você está fazendo com
uma Cifra de César? Já estou decodificando aqui,
estou super curiosa sobre o assunto.
— Eu sabia que você daria conta, dona
misteriosa. Sigilo total sobre isso e me fale como
resolvo. Preciso mostrar a alguém a mensagem
completa.
— Hum...
— O que foi?
— “Seu sangue e sua carne foram tirados
de você e colocados a leilão, como se fosse
mercadoria barata. Devolva todo e qualquer
dinheiro que você me roubou...”
— Essa é a mensagem?
— Parte dela, né cabeção. Você me
mandou só isso. Vou te passar como fazer, só terá
trabalho em identificar onde serão os espaços,
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porque está tudo junto.


— Obrigada, você é minha heroína.
— Aceito uma caneca com esses dizeres
em agradecimento — brincou. — Está tudo bem
com você? Sabe que pode contar comigo sempre.
— Ah... — Suspirei. — Vamos por partes,
vou resolver essa carta primeiro, depois vejo meu
coração.
— Apaixonada?
— Não deveria, mas sim, talvez... estou
gostando de alguém que precisa de amor, mas que
talvez me fará sair machucada no caminho.
— Bom de cama? Já chegou a esse
patamar?
Adorava minha amiga por causa disso,
nunca com nomes, nem muito detalhes, apenas
diretas.

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— Fizemos, mas não na cama, se é que me


entende...
— Se joga! Daria tudo para ter um amigo
de foda, mas o pessoal da minha área só quer
saber de relacionamento sério e uma empregada
para limpar a casa. Tô fora!
— Um dia você acha a tampa do seu pen
drive.
Ela gargalhou alto e eu fiz o mesmo,
porque não acreditava que tinha inventado essa
piada nerd sozinha.
— E você vai encontrar a sua calculadora
científica para o bolso da sua camisa. Amo você, se
precisar, me grita.
— Também te amo.
Peguei um caderno no meu criado mudo e
decifrei o resto da mensagem, meu coração ficou
cada vez mais em frangalhos a cada palavra
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descoberta.
“Seu sangue e sua carne foi tirado de você
e colocado a leilão, como se fosse mercadoria
barata. Devolva todo e qualquer dinheiro que você
me roubou, renuncie suas posses e entregue sua
mulher. Um pelo outro, filho pela mãe, qual vale
mais? Último aviso.”
Era impressão minha ou um dos irmãos foi
sequestrado? Ou a mãe que está sequestrada? Quem
era essa pessoa, do mesmo sangue, que foi moeda
de troca, se é que isso aconteceu?

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Capítulo 7
Letícia
Precisava contar o que tinha em minhas
mãos para os interessados. Se era importante ou
não, estava seguindo minha intuição e ela dizia que
precisava voltar para a casa dos Valentini
urgentemente.
Tomei um banho rápido, estava morrendo
de fome, mas tomei apenas um gole de água e segui
no meu carro até a mansão que me deu boas
lembranças orgásticas.
Da mesma forma que antes, quando parei
o carro rente a calçada, o portão foi aberto e
coloquei meu carro na proteção desses muros altos.
O Z4 de Ben estava na área, o que me deu alívio e

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ansiedade, porque os dois estariam livres para me


escutar sobre a novidade.
Segui para a porta de entrada e mal a abri,
escutei a discussão:
— Não vamos mais envolver ninguém,
minha noiva não irá ser a mira de pessoas que nem
conhecemos. Não insista! — Benjamin esbravejou,
olhei para todos os lados e percebi que a gritaria
vinha do escritório.
— Eu sei me cuidar, Ben! — essa era Ray.
Aproximei-me do corredor e esperei o
resto.
— Elas já estão envolvidas e você não tem
certeza sobre a ameaça. Deixe que meu detetive
investigue isso. — Cadu parece calmo.
— Porra, você andará com um segurança
até resolvermos tudo! — Ben fala de forma
derrotada.
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— Pare de paranoia, foi só uma ligação. E


além do mais, está na hora de verificarmos as
pessoas que realmente estamos confiando. Se a
ligação sabe que você está revirando o passado em
busca de respostas, quer dizer que um de nós abriu
a boca. — Cadu aponta.
Coloquei a mão no coração e o senti
acelerar. Não fazia nem uma hora que tinha
contatado minha amiga para decifrar aquela carta,
ela não poderia ser tão falsa. Além do mais, essa
não foi a primeira missão em sigilo que pedi a ela.
Mas estava com dúvida, insegura sobre
minhas escolhas e com medo de prejudicar outras
pessoas.
— Quem você acha que poderia estar
vazando informação? Nós três e minhas amigas
sabem dos detalhes.
— O quanto você confia nelas, cunhada?

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As palavras de Cadu me machucaram.


Pensava que depois do que tivemos ontem e sua
forma carinhosa de me abraçar tivesse mostrado
algo para ele, por exemplo, meu valor.
— Não seja um idiota com Letícia. Ela
pode ser estourada e sincera, sem filtro, mas é
confiável. Botaria a mão no fogo...
Andei sem fazer barulho até a biblioteca,
mas minha intenção era dar meia volta e sumir.
Minha amiga me defendia para o cara que achei
que gostava de mim, pelo menos um pouco. Bem,
pelo visto, gostar e confiar eram caminhos bem
distintos.
— Bem, precisamos ter certeza e ela
deixará de participar dessa investigação. Não
chame mais ninguém sem antes nos consultar! —
Cadu ordenou.
— Pare de dar ordens para minha mulher e

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tire da sua mente essas desconfianças. Se ela diz...


Entrei na biblioteca e fui direto para a
janela, tentando me livrar dessa conversa que
estava me machucando mais e mais. Em outra
época, eu invadiria aquele lugar e mandaria todo
mundo tomar naquele lugar, mas agora... em meio a
uma nebulosa TPM e conflito mental, eu só queria
poder apagar o que escutei da minha mente e
coração.
O que os ouvidos escutam, o coração sente
intensamente.
Virei para mesa e lá estavam os diários.
Tão preocupados em desconfiar de mim, que eles
não tinham noção que poderia ser qualquer um
daquela casa. Displicentes, não estavam
enxergando o todo.
Sentei na cadeira com cuidado e comecei a
olhar as fotos. Será que encontraria aqui alguma

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coisa que indicasse o filho que foi trocado pela


mãe? Carne de sua carne queria dizer isso, certo?
Parecia coisa de filme, mensagem
misteriosa, codificada e um romance de plano de
fundo. Sim, minha transa nada mais era que trama
secundária.
Olhando, mas sem enxergar efetivamente,
meus dedos alisaram uma foto de dois bebês... ou
era apenas uma foto espelhada? Trouxe o álbum
para perto dos meus olhos e fiz igual jogo dos sete
erros, mas encontrei muitos outros.
Dois bebês parecidos!
Gêmeos?
Arregalei meus olhos, a ideia de que um
bebê foi raptado na maternidade e um deles poderia
ter um irmão gêmeo me atingiu como um meteoro
na minha cabeça. Muita informação, o choque
estava estampado em todo o meu corpo, ainda mais
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quando soltei o álbum na mesa e três pares de olhos


entram e se assustam com minha presença naquele
lugar.
Eu só tinha olhos para ele. Cadu me fez a
mulher mais poderosa ontem e hoje, me jogou no
chão, além de pisar como se fosse uma sujeira
imperceptível. Homem nenhum pisaria em mim
nunca mais, mesmo que seus olhos mostrassem a
paixão e confusão.
— Oi! — cumprimentei com cara de
cínica, ainda sentada.
— Está aí há muito tempo? — Ray
perguntou e se aproximou para me cumprimentar.
— Escutei tudo, mas depois conversamos
— sussurrei no seu ouvido e vi o desconforto no
seu olhar.
— Não tire conclusões precipitadas... —
ela falou baixo, mas os dois marmanjos já tinham
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se aproximado e estavam retirando os álbuns e


diários de cima da mesa.
— Acho que confundi as coisas — falei e
me levantei, olhando para minha amiga e tentando
não encarar ou falar com Cadu. Precisava devolver
a carta e falar à sós com minha amiga. — Você me
acompanha até meu carro? Eu preciso voltar para
casa.
— Agora que você chegou, fique para o
almoço, quem sabe uma sobremesa — Cadu
chamou minha atenção e precisei do poder zen da
Paula para respirar fundo e não avançar naquele
pescoço gostoso, mas idiota.
— Diga a Judite que sinto muito. Estou
meio perdida nessas férias. — Dei de ombros e
abracei minha amiga.
— Você sempre será bem-vinda nessa
casa, Letícia. — Ben, com toda a sua educação, se

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pronunciou e só vi verdades em seu olhar.


— Pare de desculpas e fique! — Cadu me
puxou pela cintura e tentou me beijar, mas consegui
desviar e controlar as lágrimas nos meus olhos.
Falso, filho da puta, só me quer para agradar seu
pau.
— Me chame quando for experimentar os
vestidos de noiva, quero poder palpitar — falei para
minha amiga e fui seguindo para a porta, quando o
grito dela me para.
— Como assim vestido de noiva? Eu tenho
que escolher um? — Ray pergunta, olha do noivo
para mim assustada. — Você falou que estava tudo
pronto, Ben!
— É... mas está! — respondeu sem graça.
— Ray, a cerimonial pode escolher
decoração, as cores, a comida, mas o vestido... E se
ela pegar um decotado e mostrando as pernas? —
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falei preocupada e achando um absurdo que ela não


pensou nisso.
Seu olhar era de puro pavor. Virou para
Ben, segurou as lapelas de seu terno e vi quando o
desespero se apossou. Ele tentou fazer carinho em
seu rosto, mas ela se afastou e andou de um lado
para o outro.
— Falta menos de vinte dias para o
casamento e não escolhi meu vestido. Por que não
falou isso antes? — Agora, Ray brigava comigo.
Rolei meus olhos, típico da minha amiga,
esquecer o básico, tão focada em seu coração ela
estava.
— Vamos lá na loja da minha tia. Não é
chique, mas tem ótimos vestidos de festa e noiva.
Quem sabe você ache um...
— Chega de envolver mais pessoas! Isso
aqui não é circo! — Cadu falou e apenas levantei
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minha mão e mostrei o dedo médio para ele.


O olhar de incredulidade dos dois foi
impagável. Peguei na mão da minha amiga e
apontei o dedo de um para o outro dos homens.
— O tópico mudou. Essa é Rayanne
saindo com sua amiga para ver vestidos de
casamento. Vocês podem pegar essa investigação
amadora de vocês e enfiar naquele lugar, com todo
respeito ao luto e aos seus ancestrais.
E assim eu saí com uma Ray ofegante e
pensando em seu casamento. Eu bufava, querendo
ter falado muito mais, mostrado a injustiça que eles
estavam fazendo e a carta, junto com aquela foto,
que mostrava que eu tinha contribuído para tudo e
não sacaneado.
Era isso, iria resolver tudo sozinha e o
faria pedir perdão beijando meus pés!
— Um segurança irá acompanhar vocês!
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Vão no nosso carro — Ben gritou e revirei meus


olhos quando um brutamontes impediu que
saíssemos da casa.
— Sou Lucas, seu motorista e segurança
dona Rayanne.
— Já sou chamada de dona e nem sei o
vestido que vou casar!
Ao som das lamentações de Ray e do
choro silencioso do meu coração, nós seguimos até
a loja da minha tia. Seria uma ótima distração para
não me render a desilusão amorosa.

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Capítulo 8
Letícia
Letícia>> Foto1.jpg
Letícia>> Nossa amiga vai arrasar nesse
casamento.
Numa fuga desesperada da realidade e o
que verdadeiramente me afligia, sentei numa
cadeira, tirei foto do vestido que Ray estava
experimentando e enviei para nosso grupo. Se eu
precisava me distrair, as meninas eram ideais.
Alci>> Ah, bonito.
Josi>> Ou seja, escolha outro. É o
primeiro que experimentou?
Letícia>> Sim, estamos aqui na minha
tia tentando acalmar a noiva desesperada. Ela
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achou que a cerimonial ia escolher até isso.


Thata>> E nosso vestido de madrinha?
Será igual, da mesma cor, cada uma vai
diferente...
— Ray, já pensou nos vestidos de
madrinha?
Minha amiga, que estava se olhando no
espelho para ver se o vestido tomara que caia do
tipo sereia era ideal, virou para mim e conseguiu
elevar o nível de desespero para astronômico.
— Eu nem escolhi meu vestido e preciso
pensar nos das madrinhas? O que vocês pretendem,
me infartar ou só subir minha pressão arterial?
— Posso escolher então?
— Me ajuda! — Ela jogou os braços para
cima e minha tia riu divertida.
— Lelê, tenho um vestido ótimo para
você.
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— Foca na noiva, depois eu vejo com você


tia.
Sorri divertida e pisquei um olho, feliz que
consegui uma brecha para fazer do meu jeito.
Alci>> Ela já trocou de vestido?
Josi>> Mostra mais, Letícia. Para de
economizar nas fotos.
Thata>> E as madrinhas? Preciso ver
alguma coisa?
Letícia>> Calma gente, uma surtada de
cada vez. Ray liberou que eu escolhesse os
vestidos das madrinhas. Que tal todas de uma
mesma cor?
Alci>> Roxo!
Josi>> Amarelo!
Thata>> Azul marinho, gente.
Escolham azul!

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Paula>> Não sei o assunto, vou ler tudo


ainda, mas gosto da cor vermelha.
Letícia>> Dá licença que quem
escolherá sou eu? Ray está colocando outro
vestido.
Letícia>> Foto2.jpg
Alci>> Ahhh, bem melhor!
Josi>> Ela parece uma princesa... ou um
bolo de aniversário. Tem como tirar um pouco
da armação da saia?
Thata>> Rindo muito, verdade, bolo de
aniversário, no caso, de casamento.
Paula>> Li tudo e continuo com a cor
do vestido vermelho. Olhem como ficariam
lindos, buquê vermelho e sapato vermelho da
noiva, as madrinhas de vermelho e os homens
com gravata vermelha.
Letícia>> Ousado, amei!
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— Iremos com vestidos vermelhos! —


anunciei em voz alta e o pânico tomou conta da
minha amiga.
— Tons pasteis, Letícia. No seu casamento
você usa vermelho! — Ela se olhou no espelho e
fez bico. — Estou parecendo um bolo de
aniversário.
Ri e voltei minha atenção para o celular.
Letícia>> Vestido dois descartado.
Paula, vou usar sua sugestão para o meu
casamento.
Thata>> ...
Josi>> Você vai casar também?
Alci>> Casamento duplo? Gente, me
apresente alguém da família, não precisa ser o
irmão não, pode ser um primo, eu estou facinho,
facinho...
Paula>> Falando em parente, Ray,
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consegui alguma coisa para o hospital. Visitei


uma empresa de placas solares.
— Paula conseguiu sua coisa sustentável
para o hospital... você sabe — tentei falar em
código quando ela olhou para mim e franziu a testa,
removendo o vestido. — Irmão mais novo...
Ela arregalou os olhos e finalmente
esqueceu do pânico e sorriu.
— Está falando com as meninas? Diga que
mandei oi, depois respondo...
Letícia>> Ray mandou oi, mudou de
louca para feliz com sua notícia Paula e está
colocando um vestido estranho...
Franzo a testa para a escolha da minha tia.
O tecido parecia simples, nada parecia com a
impotência de se casar com um Valentini. Então,
quando ajeitou no corpo e Ray olhou para o
espelho, nós duas sorrimos de acordo.
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Tirei uma foto do espelho e a parte de trás


do vestido.
Letícia>> Foto3.jpg
Letícia>> É esse meninas. Olha como
ficou perfeito para ela, esvoaçante, luxo e
simplicidade em uma peça só.
Thata>> Gente, que lindo! Ray, use
esse!
Alci>> Lindo, perfeito.
Josi>> Já podemos escolher nossos
vestidos? O da noiva já está no papo.
Paula>> Deu até vontade de casar...
Olhei para minha amiga novamente, que
girava de um lado para o outro e se admirava.
Realmente dava vontade de casar, mas no meu
caso, um caminho muito longo e árduo estava para
encontrar a calculadora científica da minha vida.

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Lembrei da minha amiga misteriosa e


decidi seguir com meus planos de resolver tudo
sozinha. Tirei uma foto completa da carta, da
tradução e informei também sobre a imagem que vi
de dois bebês.
Mister M>> Sigilo total, conte comigo.
Eu tenho o acesso que você precisa para
solucionar esse mistério. Preciso de um nome.
Letícia>> Família Valentini.

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Capítulo 9
Letícia
Voltamos para a mansão dos Valentini e
minha intenção era apenas deixar minha amiga,
muito contente, nos braços do seu homem e ir para
meu apartamento esperar notícias da minha amiga
nerd.
Como eu conseguia confiar nela sem nem
ao menos conhecê-la pessoalmente? Era tudo uma
questão de intuição.
Assim que saímos do carro, Ben abordou
Ray e Cadu me encurralou contra o carro. Já estava
me irritando essa intimidade toda sem nem ao
menos me pedir permissão.
— Precisamos conversar — ele falou com
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seu sorriso cafajeste, roupa social despojada e


barba alinhada.
Por que tinha que ser tão lindo?
— Eu preciso ir para casa, Cadu.
— E você não vai parar de falar esse
apelido? — rosnou e aproximou seu rosto de mim.
Empinei meu nariz, o filho da puta não iria
ditar como eu falava, muito menos me intimidar
com seu charme.
— Falo para te irritar, também falo porque
apelidos me deixam mais próximo da pessoa.
Aceita que dói menos.
— Se quer tanto estar próximo de mim,
por que foge? — Ele colocou a mão na minha
cintura e dei um passo para o lado, saindo de sua
emboscada.
— Escutei a conversa de vocês hoje de
manhã e também lembro que você fugiu de mim
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ontem. Que tal encerrarmos por aqui? — Cruzei


meus braços na minha frente e ele fez o mesmo, o
duelo havia começado.
— O que você escutou?
— O suficiente. Pare de fingir que se
importa ou gosta de mim. Eu sei meu lugar e ele
não é ao lado de quem não confia em mim!
Dei alguns passos para trás e ele deu para
frente, seu braço alcançando o meu ainda cruzado a
minha frente.
— Foder não tem nada a ver com
confiança.
— No nosso caso sim, até porque, não
usamos proteção!
Ele pareceu ponderar o que falei e fez uma
careta.
— Foi um lapso.

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— E por algum momento você pareceu


confiar em mim. Ou foi no hospital fazer exames
de DST? Confiou na minha palavra?
Sim, o placar estava ao meu favor quando
ele bufou descontente. Ele se contradizia e não
assumia.
— Informações foram vazadas! O que
você queria que eu pensasse?
— Que vocês são todos displicentes, que
enquanto tacavam pedras em mim, mesmo não
estando presente para poder me defender, deixavam
os cadernos na biblioteca fácil para serem
acessados por qualquer um que tivesse acesso a
casa. Eu entrei e vi tudo sem que vocês estivessem
por perto! — Joguei os braços para cima e ele
passou as mãos no cabeço em frustração.
— Isso não é uma brincadeira, Letícia!
— Nem meus sentimentos são, Cadu!
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Não deveria ter dito seu apelido, risquei o


fósforo e joguei num balde com gasolina. Ele me
agarrou, me beijou como se quisesse me punir e eu
retribuí, porque queria fazer a mesma coisa.
Ele tinha que pagar!
Bem, não custava nada eu ter um pouco de
benefício enquanto isso.
Sabia que parecia inconstante, com raiva e
cedendo aos seus beijos, só que minha intenção era
dar o troco. Uma transa e dessa vez, quem abraçaria
e fugiria seria eu!
Foram vários minutos beijando e
explorando o corpo dele com minhas mãos. Ele se
afastou com o rosto ofegante, mas não deixou
minha cintura longe da sua. Cadu me queria.
— Quero mais respeito!
— Você terá, mas não aqui.
— Aonde então?
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Ele sorriu.
— A sauna está ligada...
— Você se acha muito confiante,
cafajeste.
— Eu quero você nua, ofegante e suada
debaixo de mim — sussurrou perto do meu ouvido
e começou a deixar beijos no meu pescoço.
Eu queria? Sim. Eu confiava nele para
uma segunda rodada de sexo? Queria dizer não,
mas a verdade era que sim, eu confiava, mesmo que
a recíproca pudesse não ser verdadeira.
Envolvi meus braços no seu pescoço e subi
no seu colo. Ele automaticamente me segurou pela
bunda e andou pela lateral da casa comigo.
Chupei seu pescoço com força, para deixar
uma marca que o fizesse lembrar que eu estive com
ele, mas escolhi não ficar para o outro dia. Assim,
minha vingança seria completa, porque desvendaria
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o mistério da carta, daquela foto e ainda faria esse


egocêntrico chupar o dedo.
Depois de atravessar o jardim, perto da
piscina, entramos por uma porta e já senti o vapor
na minha pele. Ele me colocou no chão e sem
cerimônias, começou a se despir. Fiz o mesmo e
entrei no cômodo cheio de vapor quente antes dele,
em busca de uma ducha antes de começarmos tudo.
Assim que deixei a água jorrar na minha
cabeça, senti Cadu atrás de mim me cutucando com
seu membro. Suas mãos deslizaram pelo meu corpo
e pararam quando encontraram meus seios, que
foram massageados com carinho e atenção que eles
mereciam.
Esfreguei minha bunda e elevei meus
braços para cima, para encontrar sua cabeça e trazer
para mim, para beijar seus lábios de forma sensual.
Estávamos em uma dança perigosa, porque a água

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tornava tudo sensual e o vapor e a nossa respiração


ofegante aumentava nosso tesão.
Eu esquecia de tudo apenas para continuar
a sentir suas carícias.
Ele interrompeu o beijo, desligou a água
do chuveiro e me levou para deitar no banco fixo
de madeira. Ele estava entre as minhas pernas e
abriu-as suavemente, me expondo para seu bel
prazer.
— Vou te chupar e te fazer gozar como
nunca antes.
Ele não me deixou retrucar, porque caiu de
boca e me fez gemer ao sentir sua língua no meu
clitóris. Ele chupava, circulava sua língua para
brincar e incitava minha entrada com o dedo.
Segurei na sua cabeça e tentei fazer com
que ele fosse devagar, porque iria gozar em poucos
segundos, mas ele queria mais, queria tudo de mim.
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Curvei meu corpo para cima quando ele


colocou dois dedos em mim e apertou o ponto certo
enquanto chupava meu clitóris. Realmente foi o
orgasmo mais intenso que eu tive, nem sabia que
possuía esse tal ponto para transformar tudo em
surreal.
Ele subiu em meu corpo distribuindo
beijos pelo meu corpo. Deu atenção ao meu seio
direito, depois o esquerdo, enquanto eu tentava me
recuperar do clímax. Eu não conseguia, a falta de ar
ou esse ar quente nos meus pulmões me deixava
inebriada e querendo mais.
— Me toma... — eu sussurrei quando ele
começou a beijar meu pescoço e colocar seu
membro na minha entrada.
— Gostosa pra caralho — falou quando
me preencheu e encarou meus olhos. — Sou o
idiota mais sortudo desse mundo por te ter no pelo

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assim...
A compreensão que estávamos sem
camisinha novamente e que esqueci de tomar meu
remédio hoje me fizeram fechar os olhos por ser
estúpida.
— Não goze dentro de mim — resmunguei
ao mesmo tempo que gemi e arranhei suas costas.
— Vou te marcar, Letícia.
Seu quadril começou a se movimentar,
minhas costas se esfregaram na madeira e tudo
queria me desvirtuar do meu real problema. Estava
transando novamente sem camisinha!
— Já tenho uma mão gravada na minha
bunda, Cadu! Coloque uma camisinha ou goze fora
de mim! — rosnei ao mesmo tempo que ele. Merda
de apelido que o deixava louco.
Os movimentos se intensificaram, meu
próprio quadril queria encontrar o seu e depois do
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que pareciam eternidade, ele começou a se


movimentar devagar, eu contraí os músculos da
vagina por causa do orgasmo que me atingiu e senti
ele pulsar em mim.
— Merda...
Ele se retirou rapidamente, gozou na
minha barriga, mas senti um pouco escorrer pelas
minhas pernas.
Uma piada idiota estava na ponta da minha
língua, como dizer se ele estava preparado para o
golpe da barriga que eu daria, mas o peso de ter
uma criança, morando sozinha e tendo pais
tradicionais me deixou sem chão.
Estava brincando com fogo e sendo
imprudente.
Ele saiu de cima de mim, eu me sentei e
suspirei.
— Venha! — ordenou segurando minha
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mão e me levantando, para ir debaixo do chuveiro


novamente.
Ficamos assim por mais um tempo, entre
beijos e carícias, nenhuma palavra era necessária,
porque nossa mente estava igualmente confusa. Ele
parecia não confiar em mim, mas gostava de estar
comigo, além de ser carinhoso. Eu entendia que
gostar e confiar não andavam separados, ou seja,
estava mais dentro dessa relação de foda do que
ele.
Apaixonar seria inevitável, precisava
apenas não deixar meu coração se despedaçar.

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Capítulo 10
Letícia
— Onde você vai? — Cadu perguntou
quando estava saindo da casa da sauna sem me
despedir.
Já estávamos vestidos, cabelos molhados e
ofegantes. Nosso contato pós foda foi mais intenso
do que o ato em si. Carinho, cuidado e silêncio, o
maldito dizer muito sem palavras.
— Por que você não confia em mim? —
questionei, porque senti, há minutos atrás, que ele
sentia algo por mim e não era apenas luxúria.
— Eu não confio em ninguém — falou
com amargura. Ele tinha vestido apenas sua calça,
seu tórax estava exposto e seus braços, agora,
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cruzados na frente dele.


Encostei meu ombro no portal da porta e
também cruzei meus braços.
— Confia no seu irmão e na Ray.
— Não confio em ninguém. Ele tem
vantagem por ser meu irmão e buscarmos as
mesmas respostas. — Sorriu sem humor. —
Quando se é fodido de várias formas pela vida,
você aprende a desconfiar até da sua sombra.
Bufei irritada. Dessa vez ele tinha resposta
para tudo.
— Fizemos novamente sem camisinha.
— Eu gozei fora de você.
— E dentro — falei ressentida. — Gosto
de você, mas não daremos certo se continuarmos
dessa forma.
— Gosta? — Seu sorriso se tornou cínico.

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— Eu sei que causo uma boa impressão, mas


prefiro que você não ache que...
— Amor de pica não se sustenta quando a
confiança é uma variável — falei séria e desviei
meu olhar quando o seu se tornou muito intenso. —
Espero, do fundo do meu coração, que tudo se
resolva para você e sua família. Acho que vou
viajar...
— Por quê? — Ele descruzou os braços e
se aproximou, eu levantei minhas mãos para parar
seu avanço.
— Nos conhecemos há quanto tempo...
dois dias? — Franzi a testa. — Você tem razão, não
deve confiar em mim e nem eu em você. Estou de
férias, preciso descansar minha mente, estou há
dois anos só trabalhando e trabalhando...
Virei de costas para ele e o senti se
aproximar. Ele me abraçou por trás e tentei não

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surtar com os sentimentos que me envolveram. Se


não soubesse mais, desconfiaria que estava
brincando com meus sentimentos.
— Vamos para Ibiza.
Ri alto, não conseguindo segurar a falta de
surpresa por ele escolher um destino como esse. Eu
não conseguiria ter minha vingança, estava
desarmada com toda essa consideração. Precisava
de férias, ele estava providenciando uma para mim.
Oh, céus, como dizer a ele que meu mundo
não funcionava assim?
— E você não confia em mim — repeti
ressentida, mas curtindo o abraço.
— Depois da morte do meu pai, viver nada
mais foi do que sobreviver. Lidei com muita gente
interesseira e não consigo estar com alguém sem
pensar que poderia me passar a perna. Esse sou eu.
Bati na sua mão com suavidade,
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entendendo um pouco do motivo, mas não


concordando. Como você reaprenderia a confiar em
alguém sem dar o primeiro passo?
Essa não era uma luta minha, mas dele.
Mais um motivo para me afastar e não me envolver
antes que seja tarde, antes que meu coração queira
falar acima da razão.
— Dispenso o convite. Preciso visitar
meus pais.
— Mora sozinha? — Ele beijou meu
pescoço. — Eu te levo em casa.
— Você tem muito dever de casa para
fazer, como desvendar os enigmas do diário da sua
mãe. Espero ter contribuído de alguma forma, mas
para mim já deu.
Saí do seu abraço sentindo o frio que sua
ausência causava. Tirei o papel do meu bolso e
entreguei, suspirando por saber que toda a intenção
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de desvendar sozinha o mistério foi por água


abaixo. Era melhor eu me afastar.
— O que é isso?
— A mensagem decifrada. Espero que
ajude... — Toquei seu rosto com minha mão, seus
olhos focados no papel. — Espero que um dia
possa confiar em mim — sussurrei sonhadora.
— Porra! — ele esbravejou e segurou
minha mão em seu rosto, o desespero em seus
olhos me deixou assustada. — Não saia daqui,
preciso mostrar isso para Ben urgente.
Ele beijou meus lábios uma vez, depois
minha testa e saiu correndo. Bati a mão na minha
testa, na intenção de mostrar a mim mesma que
meu coração me fazia de idiota!
— Não saia daí, eu te levo em casa —
gritou assim que entrou em casa, mas a verdade era
que eu queria distância, o mais longe possível.
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Controlando minhas emoções respirando


de forma ritmada, caminhei até o estacionamento e
entrei no meu carro, a chave dele estava no contato.
Liguei o automóvel, dei ré e não acendi o farol,
para não chamar atenção. O sol já tinha se posto,
nem tinha percebido que passei o dia inteiro com
minha amiga vendo vestidos e com Cadu,
transando.
Meu celular tocou e buscando algo para
me distrair, endireitei o carro para andar de frente,
peguei o aparelho e coloquei no ouvido.
— Oi — falei apoiando o ombro e minha
bochecha no celular.
— Letícia, preciso que fique em um local
seguro, agora! — a voz ansiosa da minha amiga
misteriosa me deixou em alerta.
— Como... — Guiei o carro em velocidade
baixa, pensando em como ela sabia meu nome se

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nunca trocamos essa informação.


— Não é momento de perguntas, mas
ação. Vá para um local seguro, sei que está em
movimento. A casa dos Valentini está perto.
Ela estava me rastreando?
— Por que você está me vigiando? E por
que preciso de um local seguro? Quem é você? —
disse irritada.
Um farol alto me cegou, pisei no freio e
levei o carro para perto da calçada, assustada com a
situação.
— Fique segura... — essas foram as
últimas palavras que escutei antes de alguém abrir a
porta do meu carro, me tirar com força e tampar
minha cabeça com um pano.
Comecei a espernear.
O celular caiu no chão, meu corpo foi
amarrado com força e erguido, como um saco de
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batata.
Gritei, senti minha pele se partir por causa
da minha tentativa de libertar das amarras e
também o desespero.
— Apaga ela! — a voz de uma mulher me
surpreendeu, senti uma picada na minha bunda e
então, mais escuro até perder a consciência.

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Capítulo 11
Letícia
Tomei consciência e percebi que estava
sentada. Uma dor horrível no meu pescoço indicava
que fiquei assim por muito tempo e as cordas
envoltas ao meu corpo contribuíram para que o
sofrimento fosse refletido em todo o meu ser.
Estava sentada, imobilizada e com dor,
muita dor.
Gemi, pisquei meus olhos para se
acostumarem com a luz na minha cara, me fazendo
lembrar do farol que me cegou.
— Que bom que acordou, Vida. Jana
estava ficando irritada com a demora.
Eu reconhecia essa voz. Era masculina, me
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trazia boas e más lembranças e...


— Juliano? — falei de forma fraca, a
incredulidade visível no meu tom. — O que está
acontecendo?
— Desculpe fazer dessa forma, mas desde
nossa separação, você não se mostrou muito
favorável às minhas atividades extracurriculares.
Preciso de você, Vida.
— Pare de me chamar assim! —
resmunguei. — É claro que sou contra ao que você
fazia, era tráfico de drogas!
E então, tudo voltou com força na minha
mente. A dor no pescoço e na cabeça não era mais
apenas pela posição, mas pelo término desastroso
de um namoro. Eu não vi acontecer ou o amor me
cegou, só lembrava que encontrei drogas nas
minhas gavetas de roupas e o expulsei da minha
casa e da minha vida no mesmo dia.

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Juliano era meu ex-namorado.


Sofri... o término foi muito de repente.
Não foi fácil, quase o aceitei de volta se não fosse
meu trabalho e minhas amigas, que mostraram que
estava muito melhor sem esse encosto.
— É hábito, Letícia — falou brincando. Eu
ainda não conseguia vê-lo, a luz me cegava. —
Preciso de você para fechar um balancete de uma
das nossas empresas para lavagem de dinheiro.
Você sempre foi a rainha dos números e estamos
com um prazo curto.
Era impressão minha ou seria a segunda
pessoa em menos de um mês que pedia minha
ajuda? Seria cômico se não fosse trágico, tinha sido
sequestrada e ao invés de ajudar a resolver um
mistério, iria ajudar bandidos.
— Eu não vou fazer nada para você,
Juliano — cuspi com ódio, movimentando minha

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cabeça na tentativa de vê-lo.


— Não será para ele, mas para mim — a
voz feminina também era conhecida e dessa vez, a
luz foi removida da minha cara e consegui enxergar
os dois. — Você fará para mim, ou você vai
morrer. — Essa era a voz que pedia para me apagar
momentos antes.
— O que me garante que vocês não vão
me matar depois de fazer isso? Além do mais, estou
cansada, de saco cheio e...
Levei um tapa no rosto com as costas da
mão da mulher. Ela tinha um anel no dedo anelar,
que fez rasgar a pele próxima a minha boca.
— Não precisa disso, Jana...
— Cale a boca, Juliano. Você é um frouxo,
deveria ter convencido ela logo e não ficar jogando
conversa fora.
Levantei minha cabeça e vi a loira
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exuberante ao lado do meu ex-namorado, que


estava irreconhecível. Magro, cabelos bagunçados e
desalinhado, Juliano era apenas uma sombra do que
foi. Com certeza o vício com as drogas o encontrou
ou essa vampira sugadora de vidas fez o serviço.
— Consegue me enxergar, piranha? — Ela
pegou no meu cabelo e me fez encarar seus olhos.
— Você vai fazer o que precisa ser feito.
— Nunca! — falei entredentes.
Ela puxou meu cabelo com força, apontou
uma arma para o topo do meu nariz e me fez perder
uma batida do coração. Não tinha noção de como
reverter essa situação que não fosse atender o que
eles falavam.
O cano esfregou na minha pele e me fez
fechar os olhos de medo.
— Jana... — Juliano mostrava medo na
voz.
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— O que vai ser? Vai fazer logo essa


merda ou vou ter que sequestrar outro contador e
despejar um corpo na casa dos Farias?
Agora eu não só perdi uma batida, mas
minha respiração ficou presa na garganta, me
deixando sufocada. O filho da puta do meu ex fez o
serviço completo, entregou toda a minha vida para
uma pessoa envolvida com traficantes.
— Tudo bem — sussurrei.
— Eu não escutei — ela debochou.
— Tudo bem, eu faço! — gritei e senti as
lágrimas caindo dos meus olhos.
— Traga o computador e a mesa com os
documentos, Juliano, vamos começar já.
Respirei com dificuldade, observei o
homem que um dia entreguei minha vida e meu
amor sendo feito de gato e sapato por aquela que
parecia comandar o crime.
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Ninguém me soltou. Fome, vontade de ir


no banheiro e dores não tiveram prioridade naquele
momento, porque meu instinto de sobrevivência
estava ativo. Minha amiga misteriosa estava
falando comigo e se ela encontrava pessoas e sabia
que eu estava em perigo, com certeza ela
conseguiria acionar alguém, certo?
Que ela acionasse a polícia e não meus
pais, porque eles iriam ter um infarto antes mesmo
de poderem chamar ajuda.
Uma mesa foi colocada na minha frente,
papéis e um notebook também estavam a postos. A
loira saiu do cômodo e ficou apenas eu e meu ex.
Precisava pensar rápido, eu não ficaria aqui e
aceitaria meu destino, mesmo com uma arma
apontada para a minha cabeça.
— Preciso das minhas mãos — falei com
voz fraca.

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— Você fala o que preciso fazer, não


posso te soltar — de forma suave, Juliano parecia
contrariado com essa missão.
Arregalei meus olhos e suspirei. Puta que
pariu, eu teria que fazer uma coisa que não estava
com cabeça, nem mãos, nem conforto para fazer.
Nessa hora minhas amigas vieram na
minha mente, os vestidos de noiva que Ray
experimentou e então, Cadu. Parecia uma realidade
tão distante, mas foi apenas algumas horas antes...
ou foi no dia anterior?
Achava que lidar com a falta de confiança
do irmão do meio da família Valentini era muito
melhor do que isso. Pelo menos ele me fazia gozar,
mesmo me tirando do sério.
Tinha que focar, mesmo que a puta dor de
cabeça não me deixasse.
— Quanto tempo estou aqui?
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— Vida, precisamos focar nessa papelada


— usou novamente meu antigo apelido e minha
vontade era de bater a cabeça dele nessa mesa.
— Se eu fosse sua vida, você teria o
mínimo de consideração — rosnei com raiva. O
machucado na minha boca começando a arder.
— Você me botou para a rua como se
fosse um cachorro sarnento — falou ressentido e
colocou um papel na minha frente. — Isso foi o que
o último contador mexeu e parece que ainda está
errado, tem dinheiro que entrou e saiu sem nota.
Olhei dele para o papel e percebi que teria
um longo caminho pela frente até conseguir uma
brecha para sumir daqui.

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Capítulo 12
Carlos Eduardo
Estava há vários minutos falando sobre
uma lenda que existia na família e ninguém falava
sobre, o irmão gêmeo de Arthur. Há quem dizia que
ele morreu assim que nasceu, outros que foi raptado
na maternidade e a verdade clara como água agora
em minhas mãos.
Sentados nos sofás que adornavam o
escritório, o papel com a frase decifrada havia
passado de mão em mão por várias vezes.
— Sequestrado por quem? Acha que nossa
mãe está envolvida nisso? — Ben falou pela
primeira vez depois que despejei todas as minhas
teorias sobre o assunto.

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Infelizmente, eu tinha deixado de lado essa


informação nas minhas investigações particulares,
porque dei como morta a criança, mas agora, ele
parecia vivo, sentia em minhas veias.
— Ou nosso pai? Ou o tio avô da Ray? —
falei ansioso.
— Ou talvez a pessoa que está nos
ameaçando — desconversou Ben.
— Como vamos descobrir isso sem
acionar a polícia? Eu não confio mais nem no meu
detetive particular, que faz o serviço há anos para
mim. — Passo minhas mãos no cabelo de forma
frustrada.
— Acho que está na hora de falar com
minha avó. Tenho certeza que se ela sabe de algo,
ela irá nos contar ou pelo menos dizer quem poderá
nos ajudar — minha cunhada falou triste.
Vi quando os dois se olharam e ele a
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abraçou com força.


— Não me olhe assim, você não tem nada
a ver com isso — falou baixo e fez carinho em seu
cabelo. Isso me lembrou que eu também tinha
alguém para me preocupar.
Minha mente martelava o assunto sobre
confiança e nossa transa sem camisinha. Sentia
conforto em estar com ela dessa forma, mas
relutava em assumir que confiava. Além do pouco
tempo que a conhecia, mesmo que sentisse algo por
ela, um carinho maior que o normal, eu não me
permitia relaxar e simplesmente acreditar
cegamente.
Eu não confiava em ninguém.
— Vou levar Letícia em casa e já volto,
mas acho que precisamos contatar Arthur e fazer
uma busca nos bancos de sangue, eles eram
idênticos.

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— Ela ainda está aqui? — Ray saiu do


abraço do meu irmão e se levantou. — Precisamos
agradecer a ela.
Fui o primeiro a sair do cômodo e buscá-la
pela casa. A pequena ousada havia sumido e a
constatação da ausência de seu carro era um
indicativo que ela fugiu de novo.
Porra, ela também parecia não confiar em
mim, ou não querer.
Em pensar que a intenção era de ficar
nessa casa menos do que uma semana e agora,
tinha plena convicção de que ficaria até conseguir
fazer com que ela se entregasse, sem suas reservas,
a mim.
Encontrei Ray no hall de entrada
preocupada.
— Qual o problema da sua amiga? Ela não
me deixa ter um minuto e some!
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— O que vocês fizeram? — ela perguntou


na ingenuidade e olhei para meu irmão, que
apareceu com o cenho franzido perto de nós.
— Acho que você não quer saber, meu
amor — ele falou e beijou sua testa. — Já está
tarde, vamos dormir e amanhã falamos com ela.
— Estou com uma sensação estranha —
minha cunhada falou e suspirou. — Tchau
Eduardo.
— Boa noite Ray — respondo de forma
suave, mas também com a mesma sensação que ela.
Não me incomodou que ela me chamou como meu
irmão, ela era parte da família agora.
Ao invés de ir para meu quarto, fiquei
olhando o estacionamento e onde estava seu carro.
Pensei que toda vez que ela ficava sozinha, sumia,
não me dava oportunidade de avançar o sinal e ficar
mais tempo com ela, aproveitar o momento.

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Meu celular tocou e um número restrito


apareceu na tela. Meu coração gelou, porque foi
dessa forma que recebi a ligação com as ameaças
sobre desenterrar assuntos que deveriam estar
mortos.
— Alô.
— Você não precisa saber quem sou, mas
Letícia corre perigo e para minha surpresa, não
são os bandidões de colarinho branco que estão
nos seus calcanhares, mas um traficante de drogas.
Perdi contato com ela... — a voz feminina, ansiosa
e angustiada falava como se me conhecesse e isso
me incomodou tanto quanto saber que Letícia
estava em perigo.
— Espera, calma, respira e volte do
começo!
— Você não está entendendo, eu perdi
contato com ela há minutos atrás! Agir agora pode

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definir se a encontraremos viva ou não! — falou


indignada.
— Quem é você e por que tem meu
número? Sabe com quem está falando?
— Carlos Eduardo, 31 anos, lindo de
morrer e que não tem problema em colocar sua
vida nas redes sociais. Não temos tempo para isso!
Porra!
— Como sabe que Letícia está em perigo?
— Peguei a chave do meu carro e segui para a
garagem, sem saber para onde iria.
— Há umas 5 quadras da sua casa é onde
eu perdi o sinal do seu celular. Você está indo para
lá, certo?
— Você está me rastreando?
— Eu já estou com uma equipe
vasculhando todos os becos e casas dessa cidade
em busca da minha amiga. Já não bastava se
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envolver com vocês, ela tem outros problemas a


perseguindo.
— Como você sabe tudo isso? — falei
com raiva, essa mulher estava me irritando por
saber de mais.
— Sou a pessoa que traduziu a cifra de
Cezar e que investigou sobre as ligações obscuras
da família Valentini. Sabia que seu pai fazia parte
de um clube secreto machista onde os homens
compartilhavam as esposas com seus associados?
Ou, um termo mais conhecido, casa de suingue?
— O quê?
Entrei no meu carro, liguei e saí cantando
pneu. Não acreditava que Letícia entregou um
segredo de família para uma louca, que parecia ser
excêntrica e inteligente. Nas minhas investigações
nunca apareceu a porra de um clube secreto. De
onde ela tirou isso?

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— Surpreso? Pois fique sabendo que tudo


isso ainda existe até hoje e que um dos meus
suspeitos sobre a morte do seu pai e do Miguel
Vilar é o dono desse clube.
Meu coração estava acelerado, tanto
porque não confiava no que essa louca falava tanto
quanto eu sentia que tudo isso era verdade. Tive um
insight, lembrei das festas noturnas que meus pais
frequentavam, os dias que Judite ficava em casa
para nos fazer dormir... Era tão estranho pensar em
nossos pais como homens e mulheres, nunca me
toquei que isso também poderia ser objeto de
investigação.
— Achei! — falei assim que vi o carro de
Letícia estacionado rente a calçada.
— Isso, foi aí o último sinal.
Parei dois carros atrás, saí sem desligá-lo e
corri até o carro de Letícia. Forcei a maçaneta,

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olhei para dentro do automóvel e não achei nada.


— Trancado e vazio.
— Tudo bem, já tem uma SAI chegando aí
para colher digitais.
— SAI? Você é da polícia?
— Muito melhor que isso, pequeno
gafanhoto. Agora volte para a segurança da sua
casa e deixe as estrelas brilharem — falou com um
sorriso na voz.
— O quê?
A ligação ficou muda.
Estava assustado e atordoado, porque uma
estranha, que falava em código e parecia saber mais
da minha família do que eu, que investigava há
anos, tinha o controle da situação.
Pouco tempo se passou quando alguém de
moto apareceu e não me direcionou um olhar muito

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menos tirou o capacete. Ela colheu digitais como


uma perita criminal, guardou tudo em uma maleta e
virou seu rosto para mim.
— Vá para sua casa! — ordenou e subiu
na moto.
Desde quando alguma mulher mandava na
minha vida? Desde que Letícia entrou nela e apenas
ESSA mulher tinha o poder. Poderia não confiar,
inventar mil e uma desculpas para isso, mas não
conseguia refutar os sentimentos de atenção e
carinho que ela me despertava.
Era idiota grande parte do tempo, mas
perto dela, esquecia meu juízo, meus pré-conceitos
e fazia tudo o que ela pedia.
Seria esse o motivo para que eu lutasse?
Justamente porque finalmente me permiti confiar
em alguém que toda essa confusão mental
aconteceu e estou aqui, sempre divagando sobre

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estar com Letícia, falar com Letícia, transar com


Letícia...
Ela estava em apuros, precisava de minha
ajuda e não deixaria qualquer um cuidar da
situação. Se eu tinha alguém para seguir, que
poderia ser a indicação para o lugar onde minha
mulher estava, eu iria atrás, sem pensar nas
consequências.
Quem diria, Carlos Eduardo, de quatro
em menos de uma semana por uma mulher, minha
consciência zombou.
Porra, o que queria que eu fizesse, a
mulher só me ajudou a descobrir que podemos ter
um irmão perdido nesse mundo!
Com toda essa briga comigo mesmo, entrei
no meu carro e de forma cautelosa, segui a moto,
porque se minha mulher estivesse em perigo, eu
seria o primeiro a resgatá-la.

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Capítulo 13
Letícia
— Eu quero isso resolvido para ontem! —
A loira deu chilique com a arma em punho fazendo
com que eu e Juliano nos encolhêssemos. Não
conseguia pensar, parecia que todas as regras de
declaração que eu conhecia havia sumido da minha
mente.
— Me deixe ir no banheiro e refrescar
minha cabeça. Não estou conseguindo pensar...
Levei um tapa da cabeça que só piorou
minhas dores nessa região.
— Estou pouco me lixando para sua
frescura. Eu quero isso pronto e você não fez
nenhum movimento!
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— Como você quer que eu me mexa


estando amarrada? — resmunguei e fechei os
olhos, esperando o próximo tapa, já que virei o saco
de pancadas.
— Mexer com números não é fácil, Jana
— Juliano tentou me defender.
— Eu vou matar vocês dois se isso não
estiver pronto quando o sol nascer.
Ela saiu da sala me deixando sozinha com
as dores e dúvidas sobre meu futuro.
Será que alguém viria me salvar?
— Me diga novamente, por que vocês
precisam de um balancete? Vocês não são
bandidos?
— Precisamos de empresas fantasmas e
legais, para a lavagem de dinheiro. Já falei sobre
isso e pensei que estava óbvio isso nos papéis que
te mostrei — ele falou rolando os olhos.
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— Que sem noção... — resmunguei.


— Você está namorando? — ele
perguntou, levantando outra folha na frente do meu
rosto.
— Juliano, vai se foder — cuspi com
raiva.
— Eu sempre gostei desse seu jeito sincero
e explosivo. Isso sempre rendeu um bom sexo —
falou sonhador.
— Você está aqui para me ajudar nesse
balancete ou só para me irritar?
— Eu poderia te soltar, você sabe, mas
preciso que mostre um pouco de consideração
comigo — respondeu com calma.
Revirei meus olhos de tanta raiva que
estava e piorei as dores da cabeça. Eu só precisava
fazer com que ele calasse a boca.
— Por que vocês recebem tanto dinheiro
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na conta? Se é tudo ilegal, por que não receber em


espécie? — falei analisando um extrato bancário e
não acreditando na burrice.
— Você poderia ser a nossa contadora, eu
teria o prazer de foder com duas.
Arregalei meus olhos e virei meu rosto
para ele, encarando sua burrice ou sonho
inalcançável. Aquela mulher não só o mataria,
como a mim e qualquer um que estivesse em seu
caminho.
Escutamos um barulho estranho. Ele se
levantou e saiu do quarto, me deixando sozinha e
desesperada para me soltar das amarras.
Meu coração estava acelerado, meus
instintos diziam que esse era o momento para que
eu conseguisse me libertar e então, com toda a
força que consegui, acabei me derrubando no chão
e acertando minha cabeça em algo muito duro.

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— Porra — resmunguei, porque minha


visão ficou turva e minhas forças pareciam sumir.
Fechei os olhos quando alguém abriu a
porta com força e passos firmes me alcançaram.
Minha cabeça foi coberta ao mesmo tempo que as
amarras me deram folga.
Entre a lucidez e a inconsciência, deixei
que meu corpo fosse erguido e levado sem nenhum
protesto. Minhas forças haviam sido dizimadas, a
pressão psicológica da situação ganharam força e
me tiraram do combate.
— Por que cobriram sua cabeça? — uma
mulher falou quando me colocaram em uma
superfície plana, firme e confortável.
O pano foi removido e percebi que estava
em uma ambulância ou algo parecido com isso.
Uma mulher com cabelos claros e sorriso caloroso
me recepcionou.

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— Oi... — ela falou, franziu a testa e


colocou a mão no ouvido. — Sim, Capela, está
tudo bem, me deixe fazer meu papel.
Senti que estávamos em movimento e
fechei meus olhos sem entender nada. Pelo jeito,
meu dia foi invadido por mulheres loucas e sem
noção.
— Desculpe por isso, mas temos uma
estrela preocupada com você. — Senti meu olho ser
forçado a abrir e uma luz focar na minha pupila. —
Sou sua médica no momento. Antes de te devolver
para...
O automóvel que estávamos fez uma curva
brusca e parou. Acostumada com a ação do dia, só
suspirei enquanto minha médica empunhava uma
arma e apontava para a direção que estava meus
pés.
A porta foi aberta e só aceitei meu destino,

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qualquer coisa que viesse, estava rendida.


— Letícia! — a voz de Cadu me tem de
olhos abertos e cabeça erguida.
— Entra logo, herói. Precisamos fazer
alguns exames de imagem antes de liberar a
paciente — a médica falou e nem precisei me
levantar, porque Cadu se aproximou e me abraçou.
Meus braços estavam fracos, mas consegui
envolver seu corpo, seu cheiro me fez cair na
realidade e o desespero me atingiu. O automóvel
voltou a se movimentar ao mesmo tempo que
lágrimas escorreram dos meus olhos.
Eu fui resgatada!
— Cadu... — choraminguei e meu corpo
foi forçado a deitar.
O que era esse sentimento dentro de mim
por um homem que conheci há tão pouco tempo?
Será que todos esses acontecimentos paralelos
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tornavam tudo mais intenso? Um minuto parecia


um mês, uma hora correspondia há um ano?
— Ah, mulher, você me tem pelas bolas
mesmo — falou de forma aliviada, sentou ao lado
da médica, mas não soltou minha mão.
A moça bonita revirou os olhos, mas sorriu
para mim, compartilhando a apreciação a essa
frase.
Queria dizer algo, mas preferi apenas
sentir sua mão na minha e a segurança que me
dava, o apoio que precisava para continuar
respirando e não desistir de me manter forte.
— Você é amiga da louca que me ligou?
— Cadu perguntou quando a médica terminou de
me examinar e começou a mexer no celular.
— Quem?
— Sua voz é ansiosa, ela parece saber tudo
e ainda me chamou de gafanhoto — ele respondeu
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divertido, o que tirou uma grande gargalhada da


mulher.
O carro parou, a porta de trás foi aberta e
outras mulheres apareceram, várias etnias e tipos de
belezas diferentes, com sorrisos fáceis e
autoconfiança que podia ser sentida de longe.
Uau.
— Mais uma vítima de Capela — a
médica falou rindo, saindo primeiro e batendo no
ombro de Cadu. — Faço o papel de herói e
carregue nossa convidada até a sala de exames.
E ele fez, com muito cuidado e atenção,
deixando um beijo na minha testa assim que saiu
comigo para o céu quase claro.
— Quem são vocês? — perguntei quando
elas começaram a se afastar e apenas a médica nos
acompanhou.
— Capela pediu para dizer que essa será
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história para outro livro. — Colocou o dedo no


ouvido, piscou um olho para mim e nos
acompanhou até a entrada de um hospital.
Será que o pesadelo tinha acabado?

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Capítulo 14
Letícia
Descobri que a médica se chamava
Arcturus, mas eu poderia chamá-la de Arc. Ela
apenas ajudou a dar entrada nos papéis e foi
embora. Cadu foi o único que não deixou meu lado,
nem quando entrei para fazer o exame de
ressonância na minha cabeça.
Com seu sorriso encantador, ele conseguiu
tudo o que queria. Descobri que esse homem era
um poço de arrogância e também, de exageros
carinhosos.
— Tirando as pequenas escoriações no
rosto e braços, está tudo normal nos seus exames.
Como você ainda reclamou de dores, vou

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prescrever um relaxante muscular — o médico


falou enquanto escrevia nos papéis em sua mão.
Estava na enfermaria do pronto
atendimento do hospital, deitada em uma cama,
com soro na minha veia. Senti minha mão ser
apertada e nem precisei olhar para o lado para saber
que era Cadu tentando me dar apoio. Esse homem
se mostrou preocupado, centrado durante uma
situação crítica e, o melhor de todos, cuidadoso.
Se eu não estava apaixonada por esse
homem, agora, tinha caído no penhasco do amor.
— Você acha que ela precisa repetir os
exames daqui uma semana, por precaução? — meu
acompanhante perguntou e o médico levantou uma
sobrancelha com diversão.
— Não, desde que as dores tenham ido
embora. Assim que o soro acabar, vou providenciar
os papéis de sua alta e os exames, para que você

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possa levar para casa. Com licença.


Suspirei e fechei meus olhos, mil e uma
perguntas bagunçavam minhas ideias e não saberia
dizer se Cadu saberia as respostas.
— Quer que eu chame uma enfermeira?
Alguma coisa dói?
Tive que sorrir e virei minha cabeça em
sua direção. As dores indo embora as poucos me
permitiu fazer esse movimento sem uma careta.
Abri meus olhos e encontrei apenas... amor.
— Como você me achou? — minha voz
estava fraca.
— Uma doida ligou para mim, acho que
ela faz parte daquele grupo de mercenárias. — Deu
de ombros. — Eu deveria estar puto da vida por
você ter compartilhado informação confidencial da
minha família, mas não estou, na verdade, estou
aliviado que fez isso.
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— Me desculpe. Às vezes não consigo


resolver as coisas por mim mesma, mas tenho
pessoas em que posso confiar... bem, pelo menos
eu achava.
Aquela última ligação antes de ser
sequestrada veio a minha mente e fiquei em dúvida
se minha amiga misteriosa realmente estava do meu
lado ou não. Senti uma mão firme fazer carinho na
minha cabeça e sorri triste, ele não confiava em
ninguém, agora, menos ainda.
— Você foi muito corajosa.
— Não sei não... — Fiz uma careta. — E o
que aconteceu com o meu ex e a atual psicopata? A
polícia não vai me interrogar?
— Seu ex? — ele perguntou com raiva e
arregalou os olhos, incomodado.
— Isso tudo está muito estranho.
— Pelo o que entendi, essas mulheres são
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de alguma agência secreta. Eu segui uma delas, que


estava numa moto, precisava chegar até você. —
Ele se afastou e pegou o celular. — Acho que o
nome ou apelido dela era Capela, ela não só me
deu informações sobre você, mas da minha família.
Talvez tenhamos uma luz no fim do túnel.
— Posso usar seu celular? — Ele não
titubeou em entregar o aparelho para mim.
Entrei na minha rede social, encontrei o
perfil da minha amiga misteriosa e mandei
mensagem.
Letícia>> Obrigada, mais ou menos.
Ela não demorou em responder, parecia até
esperando meu contato.
Mister M>> Já teve alta do hospital?
Letícia>> Tenho certeza que você sabe a
resposta. Pelo visto você tem todas as respostas
do mundo.
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Mister M>> Ainda não cheguei a uma


conclusão sobre qual teoria é a certa sobre a
criação do mundo, mas o resto, se estiver
conectado na internet, eu descubro.
Letícia>> Como me achou?
Mister M>> Foi um trabalho de equipe.
É tudo o que você precisa saber.
Letícia>> Seu nome é Capela?
Mister M>> Sim, pode me chamar
assim ou de amiga misteriosa. Eu gosto de
apelidos, diferente do seu boy magya.
Olhei para Cadu, que parecia incomodado
comigo em seu celular e ele não sabendo o que
estava acontecendo.
— Quer ler comigo? — perguntei
divertida e ele se assustou.
— Não precisa, podem conversar, depois
você me fala.
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— Não tenho nada para esconder depois


de hoje.
Algo entre nós mudou. Sim, depois dessa
loucura nosso vínculo mudou. Eu estava cada vez
mais apaixonada e ele... bem, esperava que
conseguisse confiar em mim, porque não existia
amor sem confiança.
Deixei o celular mais inclinado para a sua
direção e voltei a conversar.
Mister M>> Desculpe não poder falar
mais, nem como ou onde. Repassei algumas
informações para o Valentini e estamos
monitorando o clube bem como o seu dono.
— Clube? — perguntei para Cadu.
— Depois eu conto sobre isso. Veja sobre
os seus raptores.
Letícia>> E Juliano e a louca que estava
com ele, me obrigando a fazer um balancete.
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Mister M>> Assunto resolvido, eles


nunca mais farão nada contra você, mas por
pelo menos uns seis meses, ande com algum
spray de pimenta ou botão de pânico.
— Não se preocupe, eu vou fazer com que
um segurança ande com você — falou em tom de
ordem, tomou o celular da minha mão e me
ignorou.
— Hei! De onde vou tirar tanto dinheiro
para pagar um segurança?
— Quem disse que você vai pagar? —
respondeu sem olhar para mim.
— Agora somos o quê? Namorados?
Noivos?
— Precisamos ter um rótulo para eu me
preocupar com sua segurança? — Devolveu o
aparelho para mim.
Mister M>> Está aí?
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Letícia>> O senhor resolvo-tudo-com-


dinheiro acha que vai pagar um segurança para
mim por esse tempo.
— Eu não acho, já fiz.
Olhei com ressentimento para ele, que
parecia vitorioso. Acho que meus sentimentos se
transformaram na minha fraqueza e ele estava se
aproveitando disso.
— Eu não vou ficar presa dentro de casa.
— Você não vai. Mas talvez poderia
pensar em trocar de emprego, para a minha
empresa. É sempre bom ter alguém de confiança na
contabilidade.
Revirei meus olhos, o filha da mãe queria
controlar minha vida.
Mister M>> Aproveita o presente do
boy e dá um chá de perna nele.
Letícia>> Vou dar um chá de picão, isso
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sim.
— Pronto, seu soro acabou, vou remover a
intravenosa — uma enfermeira falou ao se
aproximar do meu lado.
Cadu tirou o celular da minha mão e
acabei me esquecendo do que realmente estava
brava ou com raiva. O sono começou a ganhar
força e antes mesmo de sair da cama, fui levada nos
braços do meu salvador até o carro e de lá, não
lembrava mais o que tinha acontecido.

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Capítulo 15
Letícia
Acordei relaxada, as dores na cabeça e
corpo pareciam uma lembrança distante. Precisava
anotar o nome desse remédio milagroso... ou foi
uma combinação de remédio e adrenalina?
Uma manta quente me envolveu e queria
me manter assim para sempre quando me
espreguicei. Abri os olhos e percebi que essa não é
minha cama, muito menos minha casa. Virei minha
cabeça e o corpo quente e nu de Cadu era o que eu
achava ser um cobertor.
Merda, eu também estava nua, ou melhor,
de calcinha e sutiã.
— Por que estou aqui? — minha voz
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estava rouca por causa do sono.


— Volte a dormir, não precisamos acordar
ainda — resmungou e esfregou seu corpo inteiro
em mim, me incendiando.
— Você tirou minha roupa?
— Sim, estavam sujas e deu um pequeno
ataque de pânico em Ray. — Ele virou de costas na
cama e me trouxe para perto. Beijou minha testa e
suspirou. — Porra, ela achou que você estava
morta.
— Só por causa da minha roupa suja? Ray
é uma exagerada...
— E o seu rosto.
Fiz uma careta e senti o canto da minha
boca repuxar bem como minha bochecha.
— Tão ruim assim?
— Nada que atrapalhe o que tenho em

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mente — falou de forma sensual e ficou por cima


de mim, seu corpo colado ao meu apenas da cintura
para baixo. — Oi.
— Oi.
Tinha algo tão íntimo e sensual em
cumprimentar dessa forma, nossos olhares não
desviavam, nossos corpos respondiam um ao
outro... eu estava apaixonada sim, tinha todos os
pré-requisitos preenchidos.
Ele desceu sua boca na minha, mas a
manteve fechada. Até tentei abrir, mas o
machucado não me permitiu fazer tal movimento.
— Não faça nada que vá te machucar. Eu
vou te dar um banho e depois, vamos lá falar com
suas amigas que estão desesperadas para
conferirem se você está bem. Sua roupa já está
lavada e seca.
— Amigas?
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— E não são apenas Ray e aquela outra


que estava na piscina com vocês...
— Paula.
— Isso, Paula. — Ele beijou meu pescoço
e foi descendo. — Parece que Ben quis agradar sua
noiva e trouxe outras três...
Empurrei Cadu para o lado e sentei. Thata,
Alci e Josi eram as outras três, só poderia ser e
seria a primeira vez que as veria pessoalmente.
— São minhas amigas! — falei
entusiasmada para ele, que me puxou para deitar na
cama. — Eu preciso ir...
— Fique onde está, você será cuidada por
mim — comandou.
— Não é hora de você bancar o protetor.
— Não mesmo, eu quero ser o fodedor...
Colando seu corpo no meu, ele beijou

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meus lábios com intensidade e deixei de lado a dor


que sentia no canto da boca por causa disso. Ele
não se demorou muito aí e foi descendo até meus
seios. Removeu o sutiã e antes que começássemos
qualquer coisa que eu não pararia por nada, segurei
seu rosto com minhas mãos e o encarei.
— Preciso saber em que pé estamos?
— Estamos deitados — falou mostrando
um sorriso cafajeste.
— Eu não sei você, mas estou... gostando
de você. Está preparado para estar comigo além de
fodas casuais? E sim, estou fazendo pressão. É
agora ou nunca.
Ele saiu da cama, me pegou no colo e
seguiu para o banheiro. Não disse nada, não me
olhou ou respondeu à pergunta que deixei implícita,
que era se ele também sentia o mesmo.
Ligou a água da banheira, despiu a cueca
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boxer que vestia e minha calcinha, jogando para


longe de nós. Já havia ficado nua na sua frente, mas
dessa vez, parecia ser a primeira.
Ele me colocou de pé, segurou meu rosto
com as mãos e olhou de um olho para o outro,
preocupado e de forma intensa.
— Eu não sei se posso retribuir o que você
sente. Estou muito focado em resolver meu
passado...
— Então me deixe ir — falei baixo e
segurei seu pulso.
— Não consigo! — falou entre dentes. —
Quando você foi raptada, eu meio que... — Ele
soltou meu rosto e me abraçou, tentando fundir
nossos corpos com sua força.
— Parecia que eu estava numa realidade
paralela. Tive muito medo.
— Talvez seja o sensato a fazer, te deixar
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ir. A partir de agora só haverá perigo ao desvendar


esse passado.
— Não quero estar de fora. — Abracei seu
corpo com força.
— Você pode se machucar novamente.
— Você virá para me salvar e todos vão
viver felizes para sempre!
Saí do seu casulo, entrei na banheira que
estava pela metade e sentei, gemendo ao sentir a
água quente relaxar meus músculos.
— Você gosta de heróis? — Cadu
perguntou e sentou à minha frente, suas mãos
encontraram meus pés e começaram a fazer
massagem.
— Eu gosto de você — fui direta, meu eu
voltando a ser confiante e sincera sem filtro como
antes.
Pouco a pouco ele trouxe minhas pernas
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para seus lados e meu quadril encontrou o seu. Ele


estava vivo e rígido, eu estava molhada e aberta.
— Eu ainda não consigo confiar em você
— ele falou, se encaixou em mim e me fez gemer,
de decepção e prazer.
— Espero que mude esse conceito, porque
eu não vou esperar para sempre.
Comecei a me movimentar contra o seu
corpo e ele acompanhou meus movimentos, a nossa
necessidade sobrepondo qualquer divergência que
tivemos. Seus olhos me diziam muito mais do que
sua boca e para mim foi o suficiente para o
momento.
Entreguei meu corpo para ser adorado e
encontramos nosso clímax juntos, na esperança de
tudo se resolver da melhor maneira possível.

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Capítulo 16
Letícia
Havia dormido a manhã inteira e o início
da tarde. Quando encontrei minhas amigas, almocei
rapidamente e ficamos conversando sem parar até o
sol se por.
Mais de quatro horas se passaram, o grupo
inteiro estava na biblioteca, eufóricas e animadas
com esse encontro. Depois do meu sequestro, Ben
quis acalmar Ray com uma surpresa, pegou o
celular dela e comprou a primeira passagem para as
três que não moravam na cidade. Ainda bem que
elas conseguiram folga, porque o casamento
mesmo só seria daqui alguns dias.
Os homens não ficaram conosco e minha

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mente vez ou outra voava até eles e no que estavam


discutindo.
— Poderíamos aproveitar que estamos
todas aqui e ir experimentar os vestidos de
madrinha — Thata falou comendo um dos salgados
maravilhosos de dona Judite.
— Letícia ainda deve estar cansada — Ray
interpôs.
— Tirando essas manchas horríveis na
cara, estou bem. É até melhor, porque minha tia
não ficará louca ajeitando vestido um dia antes do
casório oficial.
— Nem acredito que você vai casar em tão
pouco tempo! — Josi comentou divertida. — E
seus pais?
— Minha mãe anda suspirando pelos
cantos e meu pai resmungando. — Ela deu de
ombros. — Prefiro não pensar nisso, porque toda
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vez que me imagino sair da casa da minha avó, eu


surto.
— Pare de insegurança, Ben te ama! —
Paula falou e fez carinho no ombro de Ray.
Sim, era claro que o mais velho amava e
expunha seus sentimentos para a sua mulher. Qual
a dificuldade do irmão do meio fazer a mesma
coisa?
— Vou no banheiro, já volto — anunciei e
levantei da cadeira, indo em direção ao escritório e
não do banheiro.
Precisava conversar com eles, não queria
ficar de fora dessa missão, mesmo meu corpo
pedindo cama novamente. Coloquei meu ouvido na
porta e deixei que minha concentração encontrasse
suas falas.
— Não acredito que está envolvida. Pare
com essa paranoia! Vocês não estão namorando?
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— Ben ralhou.
— Ela passou informações para uma
terceira pessoa...
— Que salvou a vida dela e nos entregou a
solução do caso. Vamos até esse clube de uma vez
por todas e confrontar o dono.
— Precisamos de acompanhantes e um
disfarce para isso! Não podemos esquecer que eles
sabem que estamos investigando, eu não esqueci a
ameaça que recebi por telefone.
Meu coração falhou, tinha certeza que
Cadu estava falando sobre mim, seus sentimentos
não passavam de desconfiança quando eu não
estava por perto, me deixando mais triste do que
deveria.
— Não vou trair Ray. Prefiro contratar
alguém que faça meu papel.
— Você não precisa ir, está de casamento
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marcado. Vou ver com essa tal de Capela os


detalhes sobre esse clube e pagarei alguém para
me acompanhar.
Queria tanto me afastar e mandá-lo tomar
naquele lugar, mas a mágoa não me permitia, o
desafio em provar o contrário para ele ressurgiu.
Não consegui desvendar o mistério sozinha, talvez
conseguiria provar que era confiável.
Abri a porta, entrei no escritório e fechei-a,
ficando colada na madeira.
— O que você está fazendo aqui? — Cadu
perguntou chateado e Ben o olhou de forma severa.
— Eu irei com você nesse clube. Pare de
lutar contra mim, eu não sou inimiga, pelo
contrário, só trouxe solução para a sua vida.
— Você compartilhou informações com
outras pessoas...
— Quer trocar a faixa desse disco? —
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rosnei e me aproximei com raiva. — Eu não sou


confiável, já entendi, parece que você só pensa em
me machucar quando não estamos fodendo. O
negócio é o seguinte, até eu tenho limite e o meu
vai acabar agora.
— Você não vai embora! — Ele se alinhou
para ficar sobre mim e eu ergui minha cabeça, nem
um pouco intimidada.
— Você me quer por perto, então engula a
porra do seu orgulho e me deixe ajudar!
— É um clube de suingue, faz troca de
casais!
Uma luz brilhou na minha mente e seria o
momento do tudo ou nada. Sorri com deboche
quando ele fez uma careta. O filho da mãe não
queria me compartilhar, não queria me ter longe,
nem por perto.
Bipolar dos infernos.
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— Quer melhor exercício de confiança do


que me deixar estar com outro homem sabendo que
tudo faz parte de um plano? — Dei um passo para
trás e encarei Ben, que me olhava com curiosidade.
— Já que minha amiga sabe de tudo, vou falar para
ela nos colocar para a próxima reunião desse clube.
— Nem pensar! — Cadu sentou e passou
as mãos nos cabelos.
— Quem é o alvo?
— Parece ser o dono — Ben falou, pegou
um papel e estendeu para mim. — Acreditamos que
ele possa estar com nossa mãe ou sequestrou nosso
irmão mais novo.
— Arthur?
— Não, Antônio, seu irmão gêmeo. —
Com meu olhar assustado, ele continuou: — Nós
sempre achamos que ele morreu no parto, mas
depois dessa carta e as informações da sua amiga,
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acho que é possível que ele esteja vivo.


— Beleza. Eu pego uma foto do seu irmão
mais novo e faço uma busca no clube, quem sabe
ele não trabalha lá?
— Eu não vou arriscar sua vida para um
problema meu! — Cadu esbravejou e antes que ele
se levante, eu sentei escarranchada no seu colo,
segurei seu cabelo com força e colei nossos narizes.
— Já estou envolvida até as calcinhas,
Cadu! — Vi sua careta por causa do apelido e
puxei seu cabelo com mais força. — Você está
parecendo uma mulher de TPM. Não confia em
mim, mas me quer ao seu lado, quer me proteger.
Me acha sacana por ter compartilhado seus
segredos, mas não arrisca minha vida. — Beijo sua
boca com força e saio do seu colo, livrando seu
cabelo também. — Seja coerente, ou você me quer
ou não me quer. Eu vou nesse clube e sabe muito

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bem que posso ir sozinha.


Virei as costas, saí do escritório, mas me
mantive com o ouvido na porta.
— Porra! — Cadu bufou e um riso surgiu,
provavelmente de Ben.
— Mulher de TPM... eu sabia que aquelas
fotos nas redes sociais eram meio afeminadas —
Ben brincou e escutei um rosnado.
Coloquei minha mão na boca para abafar
meu riso.
— Depois a bichona sou eu. Não vou falar
de sentimento com você — Cadu tentou ofender seu
irmão.
— Não precisa, eu vejo, ela vê, só falta
você virar homem, honrar o que tem entre as
pernas e assumir de vez que gosta dela!
— Eu mal a conheço!

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— E mesmo assim, você está de quatro.


Aceita a cela que dói menos...
Escutei alguns xingamentos e silêncio. Saí
da porta e dei de cara com Ray, me fazendo quase
gritar de susto. Coloquei a mão no coração e
suspirei.
— Está querendo me matar? — sussurrei e
a empurrei de volta a biblioteca.
— O que está acontecendo?
— Nada de importante, só eu colocando
ordem na casa. — Pisquei um olho e voltamos para
a biblioteca. — E aí, onde vocês vão dormir?
Amanhã teremos visita a loja de roupas da minha
tia!

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Capítulo 17
Letícia
Tinha apenas minha roupa do sequestro
lavada, então, escolhi uma camiseta do Cadu para
dormir com as amigas. Seis mulheres e vários
colchões no chão foi o resultado da noite regada a
pipoca e filmes de comédia romântica. Tudo isso
estava na sala de televisão, que nunca soube que
existia.
Ben apareceu duas vezes para ver sua
noiva e Cadu parecia ter desistido de mim. Bem,
pelo menos achei, até que no meio da madrugada
senti ser erguida por alguém e carregada até outra
cama.
— O que foi? — perguntei quando me

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acomodei de lado e meu homem indeciso envolveu


minhas costas com seu corpo.
— Não conseguia dormir — resmungou e
fungou no meu pescoço. — Estou sendo um idiota
com você.
— Eu sei que você não consegue evitar —
brinquei e ele mordeu meu ombro em protesto, me
fazendo gemer.
— Posso te fazer engolir essas palavras.
— Quem precisa engolir alguma coisa
aqui é você, seu ego. — Esfrego minha bunda na
sua frente, pois senti seu membro acordar. — Vá
dormir.
— Depois disso? — Ele me cutucou com o
quadril e eu ri.
— Sim, depois disso. — Abracei seus
braços que me envolviam e suspirei. — Amanhã
iremos na minha tia experimentar os vestidos do
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casamento da Ray. Pode disponibilizar alguém para


nos acompanhar?
— Agora você pensa em segurança?
— Estamos em seis pessoas. Você falou
que foi ameaçado, não quero mais ninguém vítima
dessa investigação, apesar de eu não ter sido dessa,
mas de um ex psicótico.
Seu corpo retesou e apenas fechei meus
olhos, buscando o sono que ele tirou de mim.
— Como você sabe que fui ameaçado?
— Porque escutei por trás da porta. Vamos
dormir, estou cansada...
Ele não falou mais nada e o sono me
encontrou sem grande esforço.
***
Letícia>> Como funciona esse clube que
os pais do Cadu frequentavam?

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Capela>> Oh, não, o que você quer?


Outra surra?
Estávamos na minha tia. Depois de dois
quilos de maquiagem para esconder meus
machucados, fomos para lá e fizemos um desfile de
moda. Eu já tinha um vestido escolhido e ajustado,
então, vi um vestido vermelho arrasador e lembrei
do clube de sexo que intimei minha ida. Se for
metade do que imaginava que fosse, precisaria de
um modelo como esse.
Fiz o que tinha que fazer, acionei Capela,
minha amiga misteriosa e comecei a fazer planos.
Letícia>> Será que a roupa é formal?
Tenho um vestido vermelho perfeito.
Conferi o rasgo da minha virilha até o
chão e me senti ousada e assanhada, iria deixar
Cadu louco.
Capela>> O clube funciona à noite toda
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quinta-feira. O traje é formal, uso de máscaras


opcional e tudo deve ser tratado em extremo
sigilo. Há um guarda-volumes na entrada e sua
identificação está na pulseira descartável que
usará na entrada. Os associados são escolhidos a
dedo, mas de alguns anos para cá, houve uma
chuva de novos recrutas.
Letícia>> Ou seja, você vai me colocar
junto com Cadu nessa associação. Iremos
participar sem falta.
Capela>> Tem certeza disso?
Letícia>> Você não é a fodona que sabe
de tudo? Duvido que colocar nossos dados no
sistema deles será um problema.
Capela>> Já vai abusar da minha boa
vontade. Só estou preocupada com você.
Letícia>> Tenho Cadu para fazer esse
papel. Vou colocar o vestido e te mandar uma
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foto.
Peguei o cabide e entrei em um dos
provadores vazios da loja.
— Hey, trocou de vestido? — Ray
perguntou curiosa.
— Só experimentando.
Coloquei, tirei foto no espelho mostrando
minha perna e enviei para minha amiga. O vestido
era frente única, decote enorme nas costas e com
uma fenda de babar.
Capela>> Já alertei uma estrela, porque
do jeito que você está, com certeza precisará de
reforços.
Letícia>> Estrela? Não, Cadu precisará
de um caminhão para carregar todo esse meu
poder de artilharia. Tem as fotos do irmão mais
novo dos Valentini e do dono do clube?
Estava achando o máximo estar nesse
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mundo, essa minha amiga tinha tudo em suas mãos,


parecia surreal. Recebi as imagens, salvei no meu
celular e tentei memorizar as características dos
dois.
Capela>> Vai me acionar se algo não
der certo?
Letícia>> E se der certo também.
Obrigada. Poderíamos um dia nos conhecer.
Capela>> Bem, pense em mim como um
servidor, eu não saio do meu raque a não ser
para manutenção.
Fiz uma careta, essa informação disse
muito mais dela do que poderia imaginar. Seria
uma pessoa com problemas de socializar além da
internet?
Troquei de roupa, avisei minha tia que iria
levar o vestido e continuamos nossa farra até
encerrar o dia. As meninas iriam embora amanhã
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no almoço, a visita rápida requeria atenção


dobrada.
Estávamos em dois carros e cada um era
guiado pelo motorista-segurança provido por Ben.
— Ai, amiga, quando você vai apresentar
alguém da família para mim? — Josi brincou.
Estávamos eu, Ray e ela no banco de trás do carro.
— Acho que no casamento aparecerão
muitas pessoas.
— Não confie que todos são iguais a Ben,
Josi. Cadu parece o oposto — falei ressentida.
— Pois é, percebi que está rolando algo
com o cunhado. E aí, vai dar casamento? — Ela
bateu palmas divertida. — Casamento duplo sim!
Economiza na viagem!
Revirei meus olhos e Ray riu, me cutucou
e sugeriu com os olhos.
Mal sabiam elas que a única coisa que
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tinha em mente era ir em um clube de suingue


daqui alguns dias.

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Capítulo 18
Letícia
Tentei, mas não consegui me manter
afastada daquela mansão. Voltei para meu pequeno
apartamento apenas para pegar algumas roupas e
voltei para os braços de Cadu, que parecia fazer
questão de se manter vigilante comigo. Havia
ficado o dia inteiro com minhas amigas e de noite,
corri para sua cama.
Ele não falou mais sobre o clube e tinha
intensão de surpreendê-lo na quinta-feira à noite,
quando vestisse a roupa e o intimasse a fazer o
mesmo.
Eu e Ray consolidamos nossa amizade ao
estarmos sempre juntas naquela mansão. Dona

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Judite parecia radiante em nos ter para conversar e


nos alimentar. Minha amiga parecia um poço sem
fundo quando se tratava de comida, mas eu
precisava me controlar, ou minhas calças
começariam não servir mais.
Tinha apenas mais alguns dias de férias,
precisava aproveitar. Cadu não morava na cidade,
era claro que assim que tudo terminasse, ele iria
embora e nosso relacionamento se tornaria um
romance de verão. Ele não tinha nada de Ben, não
me assumiria como namorada, muito menos me
pediria em casamento. Bem, mesmo se tudo isso
acontecesse, eu não aceitaria.
Continue se enganando, minha
consciência zombou de mim.
Quando a quinta-feira chegou, tinha tudo
planejado friamente.
Fui discreta quando o jantar terminou e

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segui para o meu carro, pegar a roupa. Dentro da


minha bolsa, entrei no quarto e olhei Cadu apenas
de cueca, mexendo no celular, me esperando para
dormir.
Era fato, estava mal-acostumada a dormir
sozinha. Ter um homem desses ao meu lado e ainda
por cima me cuidando como ele fazia, eu, com
certeza, precisaria de um consolo para substituí-lo
quando fosse embora.
Entrei no banheiro, tirei minha roupa e
coloquei o vestido vermelho poderoso. Com um
decote enorme nas costas, sutiã era proibido e a
calcinha, tive que encontrar a menor que eu tinha
no meu guarda-roupas. Na perna que estava
coberta, coloquei a pequena liga com o botão de
pânico que Capela me deu. Surgindo do nada
dentro do meu carro hoje de manhã, ela apenas
falou que estaria de olho em mim, mas que

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acionasse o tal dispositivo se as coisas ficassem


feias.
Olhei para o espelho e comecei a fazer a
maquiagem. Duvidava que as coisas ficassem mais
feia do que aquele sequestro. Não sabia se era a
adrenalina do momento ou apenas meu jeito de ser,
mas não estava traumatizada, havia me tornado
completamente em alerta e buscando uma nova
aventura.
Como meu cabelo era liso e não era muito
grande, fiz algumas ondulações e me deixei com
cara de despojada. Estava me sentindo linda.
Abri a porta para o quarto, caminhei até a
frente da cama e dei uma volta para Cadu conferir.
Acreditava que minha aparência o chocou, porque
ele havia derrubado o celular na cama e sua boca
estava aberta, faltava apenas cair uma baba dela.
Peguei minha sandália, coloquei a perna

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exposta em cima da cama e fechei a presilha dela.


— Não vai dizer nada? — perguntei
divertida e ficando quase insegura. Eu sabia que
estava bonita, mas poderia ser confundida com ser
muito ousada e isso tiraria o meu pior numa
discussão.
Ele se levantou com pressa, seus olhos
tinham fogo e com uma mão no meu pescoço e
outra na minha cintura, me fez recuar até encontrar
a parede. Ele esfregou seu quadril em mim,
mostrando que estava muito mais acordado do que
poderia imaginar e não disse nada quando uniu
nossos lábios em um beijo avassalador.
Fui aprovada!
Deixei o beijo rolar por alguns segundos
apenas e bati no seu ombro, empurrando seu corpo.
— Vai estragar minha maquiagem. Depois
a gente faz tudo o que tem na sua mente.
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— Você precisaria de um mês na minha


cama e muito banho de assento para aguentar tudo
o que tenho para você, senhorita ousada! — Ele
gemeu quando tentou me beijar e eu virei o rosto.
— Qual o problema?
— Temos horário, mocinho. Vista o seu
melhor terno, passe o melhor perfume e siga a rota
em destaque no meu celular. Vamos no clube de
suingue que seus pais frequentavam.
Ele se afastou, colocou as mãos na cintura
e me encarou com receio e cenho franzido.
— Não...
— Sim, Cadu! — Vi o músculo do seu
pescoço se contrair e sorri. Ele estava fazendo um
grande exercício de paciência me aceitando chamá-
lo dessa forma. Na verdade, só eu o fazia.
— Eu disse que você não se envolveria
com isso.
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— Falou mesmo, mas quem manda em


mim sou eu. Consegui que fôssemos incluídos na
lista de associados, estamos cobertos.
— Você quer se expor para um bando de
pervertido? — rosnou e voltei para o banheiro
rapidamente, tirei uma máscara de dentro e
coloquei na minha face.
— Como você se exibe nas redes sociais,
não se incomodaria de ficar sem. Eu providenciei a
minha e hoje começa os trabalhos do clube. Se
apronte para que possamos bolar um plano.
Ele ainda estava com a mão na cintura sua
cueca boxer mal escondendo sua excitação e seus
olhos cuspiam fogo. Nem precisava comentar do
tórax definido e os gominhos em sua barriga, que
se contraíam toda vez que ele parecia nervoso.
Dei alguns passos até chegar nele, passei a
mão no seu corpo e o vi recuar na sua posição

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agressiva. Ele fechou os olhos, inspirou


profundamente e trouxe minha mão para sua boca.
— Todos irão te comer com os olhos —
falou frustrado.
— Contato que apenas você me toque... —
falei de forma sensual e ele abriu os olhos, me
deixando ver o sofrimento que estava causando.
— Se algo te acontecer, eu nunca me
perdoarei.
Peguei nossas mãos unidas e trouxe para
entre as minhas pernas, mais precisamente, aquela
liga com o botão de pânico.
— É só acionarmos isso que Capela nos
encontrará. — Coloquei minha mão no seu rosto e
ele fez carinho na minha perna descoberta. — Você
precisa descobrir o que aconteceu com seu pai.
— A que custo?
Sorri com malícia, porque a mulher
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confiante em mim estava viva e controlando a


situação.
— Apenas os maus pagam. Os bons têm
lições de vida. — Pisquei um olho e me afastei. —
Vá se aprontar, estou esperando.
Enquanto eu o observava se arrumar,
minha mente voou e não imaginou o que nos
aguardava naquela casa de suingue.

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Capítulo 19
Letícia
Era uma casa de muros pretos e um
número enorme perto da porta de entrada. Não
havia fila, nem carros estacionados por perto.
Duvidei que pudesse ser o local certo, mas depois
de conferir duas vezes as indicações de Capela,
estava segura de que chegamos no tal lugar.
— Não saia do meu lado para nada.
— Nem um xixi? — perguntei atrevida
quando ele desligou o carro e tirou o sinto para me
encarar.
— Não me faça dar um show sadista na
frente desses pervertidos. O combinado é entrar,
descobrir quem é o dono e ir embora.
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— Se fosse só para isso tenho certeza que


minha amiga já teria descoberto.
— Temos um nome apenas, Alberto. Não
há sobrenome, nem imagens, o cara é um fantasma.
— Ele pegou minha mão, beijou e saiu do carro.
Estávamos há duas quadras do local, o
movimento da rua era quase zero, uma vez que era
para dentro do bairro e naquele lugar específico, só
havia terrenos baldios em volta.
Cadu abriu a porta para mim, me ajudou a
sair do carro e colocou minha mão na curva do seu
cotovelo.
— Já esteve em algum lugar parecido com
esse? — ele perguntou baixo enquanto
caminhávamos. Eu já estava de máscara e ele não.
— Nunca.
— Então não se assuste se ver sexo
explícito a sua frente. É comum.
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Engoli em seco e chegamos em frente a


porta, que estava apenas encostada quando Cadu
virou a maçaneta.
Era um grande hall, luz vermelha adornava
todos os cantos e deixava o clima sensual e vulgar.
— Boa noite senhores. Sejam bem-vindos.
Por favor, suas digitais. — A mulher atrás de um
balcão, com roupas escandalosas e sorriso fácil nos
abordou.
Gelei naquele momento, Capela não tinha
falado nada sobre isso.
Meu acompanhante pareceu tranquilo, fez
como pedido e a moça confirmou com a cabeça
olhando para o monitor do computador do seu lado.
— Seu passe está liberado para todas as
salas do complexo, juntamente com sua
acompanhante. Preciso que deixem seus pertences
aqui e com essa pulseira vocês poderão ter seu
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acesso liberado e pegar de volta o que deixaram.


Olhei para Cadu em dúvida sobre o que
fazer e seguindo sua liderança, ele deixou seu
celular e carteira, eu deixei minha bolsinha, que
tinha todos os meus pertences.
Uma pulseira plástica foi colocada em
nosso pulso e a entrada do local foi apontada pela
mulher. Respirei fundo e acompanhei Cadu para o
antro de perdição, surpreendida pela música baixa e
sensual e muitas pessoas conversando, sem
máscaras e comportadas.
Era igual a um pub, mesas de um lado,
sofás de outro, uma pista de dança e um grande
balcão com vários banquinhos, onde barmans
serviam drinques e conversavam.
— Até que não é tão ruim assim —
sussurrei no ouvido dele, que retribuiu me
enlaçando pela cintura e seguindo para perto do

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bar.
— Olhe mais a direita, perto daquela
mulher de vestido rosa curto.
Então eu vi o que meus olhos pareciam
selecionar para não enxergar. Uma mulher
ajoelhada no chão enquanto um homem estava
sentado em uma cadeira, calça aberta e membro
exposto e manipulado por ela.
Virei meu rosto rapidamente, muito
envergonhada por presenciar algo tão íntimo.
Dentro de mim estava a curiosidade, mas por fora,
o pudor ainda era um forte concorrente.
— Nossa! — falei e abanei meu rosto, por
senti-lo quente.
— Envergonhada? — Sentamos nos
banquinhos de um bar bem luxuoso. O balcão era
de mármore branco e nas prateleiras só havia
uísques com mais de dezoito anos.
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— Um pouco... — respondi e virei minhas


costas para o público.
— Acho que isso te excitou também —
Cadu sussurrou no meu ouvido, passou a mão nas
minhas costas e me fez arrepiar. Olhei para meu
decote e percebi que o bico dos meus seios estavam
mais do que duros por causa de tudo isso.
Ele estava virado para o salão e revezava
me encarar e conferir as outras pessoas.
— Assim você vai me fazer esquecer o
propósito aqui.
— Podemos fazer as duas coisas, senhorita
ousada — falou de forma sensual e beijou meu
pescoço, me fazendo arrepiar mais uma vez.
— Gostariam de beber algo? — o barman
chamou nossa atenção, mas apenas eu o encarei,
porque Cadu estava um pouco duro ao meu lado.
— Uma água por favor — falei educada e
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virei para meu acompanhante. — Você vai tomar


algo?
Percebi que ele olhava fixo para uma
direção e assim que verifiquei o que era, meu
sangue ferveu. A ex-noiva de Ben estava aqui, com
uma roupa muito mais reveladora que a minha e
seguindo em nossa direção com um sorriso enorme.
Esqueci do homem atrás do balcão, virei
meu corpo para o salão e não pude evitar que
aquela biscate se aproximasse de Cadu e o beijasse
na boca!
Na boca!
Ao mesmo tempo que ele a afastou
assustado, eu belisquei sua cintura e ganhei um
olhar raivoso e assustado.
— O que você está fazendo com a ex do
seu irmão? — rosnei.
— Ex... o quê? — Cadu estava assustado,
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o filho da mãe não sabia quem era ela.


— Ah, querido, não é bom trazer as
namoradas para esse tipo de evento, elas tendem a
serem ciumentas e aqui, a palavra de ordem é
compartilhar — ela falou de forma sensual e se
esfregou nele, me encarando com ar de superior.
Filha da puta dos infernos, ela não sabia
com quem estava mexendo e se Cadu não a
colocasse em seu lugar, ele também receberia meus
cumprimentos... no quinto dos infernos!
— Laila, estou acompanhado e prefiro que
você não me toque, senão terei que ser indelicado
— com raiva contida, meu homem tentou se manter
na linha.
— Mas não faz nem um mês que a gente
se divertiu tanto — ela ronronou e dei outro
beliscão nele, que segurou minha mão com força. A
dele estava suada, o nervoso não poderia ser

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escondido.
— Quando você pegou essa trambiqueira?
— rosnei baixo.
— Antes de chegar na cidade, eu não sabia
quem era — cuspiu baixo e nervoso.
— Espere, que estranho... — a mulher
falou e deu um passo para trás, franzindo a testa. —
Como você conseguiu se associar em tão pouco
tempo?
Merda, o sinal que ela fez para um canto
não foi nada bom. O sorriso acolhedor e o jeito
simpático da mulher eram um claro sinal de
falsidade e perigo.
— Senhorita, nosso chefe está ciente da
situação e pede que os acompanhe para a sala do
subsolo.
Engoli em seco, a situação parecia
perigosa e o aperto na mão que recebi de Cadu era
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um claro sinal de que eu estava certa. A raiva e


indignação de saber que ele se relacionou com essa
mulher foi substituído por medo e minha vontade
de acionar o botão de pânico aumentou
consideravelmente.
— Vamos! — Fui enlaçada por meu
homem e seguimos não só a ex de Ben, como dois
outros seguranças que mais pareciam dois armários.
Seria esse chefe a chave para todo o
mistério?

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Capítulo 20
Letícia
— Eu odeio essa sala, vão vocês. Quando
terminar estarei te esperando na sala Fantasia,
Carlos Eduardo.
Descemos vários lances de escadas até
chegar nesse lugar. Minha pele começou a se
arrepiar e não tinha nada a ver com a sensualidade,
mas o frio que aqui estava. Laila se afastou ainda
dando em cima de Cadu e ele nem a olhou, estava
abraçado a mim e tentando enfrentar os dois
armários.
— Não somos obrigados a entrar aí —
falei indignada, o frio e o sentimento de acuar me
deixando ousada.

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Um dos seguranças afastou a jaqueta do


seu terno e mostrou uma pistola em sua cintura.
Cadu me abraçou mais forte, numa tentativa de me
envolver dentro do seu corpo.
— Vamos terminar isso logo — ele falou e
o outro segurança cruzou o braço a sua frente.
— Aguardem.
E foi assim que ficamos alguns minutos
parados até que a porta foi aberta e duas mulheres,
visivelmente bêbadas e com apenas lingerie saíram
do lugar, esbarrando em todos e rindo.
Ver os outros fazendo sexo eram muito
mais interessante e “bonito” nos livros do que na
vida real. Fiz uma cara de nojo quando entramos
dentro dessa sala e senti o cheiro dos fluidos
trocados minutos antes.
Havia um homem forte sentado em um
sofá e fumando charuto. Ele não vestia uma
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camiseta, mas calça social e sapatos. Seus cabelos


eram grisalhos, revelando sua idade próxima ou
pouco além do meio século. O sorriso me deu
calafrio, era a típica pessoa que olhávamos e
enxergávamos o mal, só por isso.
Cadu me colocou quase às suas costas
quando parou próximo a ele. Seu olhar era curioso
para mim e desafiador para meu protetor.
Deixei minha mão livre e solta, para
acionar o botão assim que sentir o perigo.
— Nunca pensei que outro Valentini
pisaria os pés aqui depois do seu pai — o homem
falou e se levantou, caminhou até nós e quase
baforou a fumaça em nossa direção. — Nunca
pensei que os herdeiros de Franklin Valentini
tivessem bolas para enfrentar o bicho papão.
Ele tentou me tocar, mas foi bloqueado por
Cadu.

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— Aqui é um clube para troca de casais,


rapaz. Se você não queria que a tocassem, não
deveria ter trazido.
— Você é Alberto?
— Alberto Rince Mendes, dono de metade
da cidade e roubado da outra metade por Franklin
Valentini. — O homem se afastou e apagou o
charuto em um grande cinzeiro que estava em uma
mesa ao lado da poltrona. — Tentei resolver por
bem no passado, agora resolverei por mal com
você.
— Hei!
Senti mãos me afastando de Cadu e antes
que pudesse espernear, uma arma foi apontada para
a cabeça dele e meus músculos apenas retesaram.
Era um dos seguranças que me tirou dele e o outro
o ameaçava. Seu olhar estava selvagem para mim e
ele implorava que eu apertasse o botão do pânico.

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Pisquei uma vez, eu faria, mas de forma discreta.


— Solte ela! — rosnou para o segurança,
que apenas sorriu de forma doentia.
— Deixe que um de nós se divirta um
pouco com ela antes de te devolver — Um dos
seguranças provocou e fiquei em alerta para caso
essa promessa fosse cumprida.
Enquanto sou mantida cativa pelo armário
em forma de gente perto da porta, Cadu é obrigado
a sentar em um sofá, Alberto sentou do seu lado. A
arma nunca deixou sua cabeça.
Sabia a sensação e não era nada boa.
— Você já assinou os papéis que Laila te
entregou? — o dono da casa de suingue perguntou.
— Eu nunca fecharia negócios com uma
mulher que só queria abrir as pernas para mim —
falou com raiva. Senti a bile subir na minha
garganta, a frieza e sorriso de escárnio que ele deu
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me fizeram passar mal.


— Melhor, eu não tenho interesse nas suas
empresas de merda, era meu plano B.
Mexi meu corpo e senti o aperto no meu
braço aumentar. Era difícil escutar ofensas a quem
a gente gostava sem fazer nada.
Alberto olhou para mim e inspecionou
meu corpo, me fazendo arrepender, amargamente,
de ter escolhido esse modelo ousado.
— Não lhe dirija um olhar, não fale ou
encoste nela. Vou fazer o que você quiser, só me dê
a porra do contrato que assino.
— Você daria todos os seus bens em troca
dela? — Ele levantou uma sobrancelha com vitória
e meu coração parou uma batida, feliz e assustado
por essa atitude vindo de alguém que não confiava
em mim.
Minha mão estava solta, precisava acionar
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o botão o quanto antes.


— Só fale o seu preço, caralho! —
esbravejou Cadu.
— Eu quero a emissora, aquela que seu
irmão assumiu e demitiu todos os meus
funcionários fantasmas. — Ele inclinou o corpo
para perto dele. — Eu quero o poder das mídias.
Nada a se admirar, o lado negro da força
querendo dominar o que as pessoas deveriam ler ou
assistir.
— Qual o seu problema? Tudo isso era
inveja dos meus pais? — Cadu quis provocar e meu
coração começo a acelerar quando o homem riu
como um louco que fugiu do manicômio.
— Inveja? — Ele se levantou, pegou outro
charuto da sua mesa e começou a baforar. — Sua
mãe amava chupar meu pau, rapaz.
Eu e Cadu fizemos uma careta, esse tipo
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de informação não era necessário compartilhar para


sabermos que eles se envolviam.
— Nada justifica matar.
— Ah, será que seu pai concordava com
isso ao matar Miguel? — Alberto sorria vitorioso e
baforava, como um gângster. — Seu pai era um
corno idiota, que compartilhava a mulher e não
esperava que fosse criar o filho de outro.
— O quê?
— Nunca pensei que sentiria tanta
satisfação em contar essa história alguma vez. Seu
olhar é impagável, rapaz.
Meu coração, se era possível, acelerou
mais ainda. A carta sobre a troca da mãe pelo filho
parecendo a peça de um quebra-cabeça.
— Que porra de filho de outro você está
falando?
Ele sorriu e protelou vários segundos antes
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de começar a nos torturar. Apesar da história não


ser minha, estava mais do que envolvida.
— No dia em que você nasceu, seu pai
sofreu um acidente de carro, seus testículos foram
lesados e Franklin perdeu o poder de engravidar
sua esposa, consequentemente, ter uma ereção. Foi
quando nosso amigo Miguel falou dessa boate, que
na época não era minha. Fomos os três e depois,
Vivian também nos acompanhou. — Ele voltou a
se sentar perto de Cadu, que parecia exalar raiva.
— Era muito bom comer sua mãe enquanto seu pai
não conseguia ficar de pau duro.
Vi meu homem avançar, mas ser contido
com uma coronhada na cabeça. Alberto ria alto, o
timbre da sua risada me causava arrepios de
repugnância.
Alberto estava adorando torturar Cadu e
minha paciência estava se esgotando para tanto

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lixo. Às vezes, era melhor viver na ignorância do


que saber da cruel verdade.

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Capítulo 21
Letícia
— Ele conseguiu um remédio para ajudar
em seu problema, mas já era tarde, Vivian já
esperava um filho meu.
Oh meu Deus! Arthur é filho dele?
— Dois — Cadu rosnou e o homem
concordou com a cabeça.
— Exatamente, gêmeos. Enquanto seu pai
acreditava ser um milagre divino, eu tinha os
melhores momentos nesse clube com sua mãe.
Comprei o lugar e seus pais começaram a se afastar
por causa da gravidez. Pedi Vivian em casamento,
mas a vagabunda não queria nada além de amizade,
os dias de libertinagem estavam contados por causa
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da maternidade próxima.
— Idiota — Cadu cuspiu.
— Foi melhor assim — Alberto tentou se
sobressair com tom de deboche. — A vingança é
sempre mais saborosa. Enquanto seu pai me
afastava, inclusive dos negócios que fizemos
juntos, eu me aproximava da sua mãe. Ela não tinha
o que fazer, seu casamento estava comprometido
caso Franklin soubesse de quem realmente era o pai
dessas crianças.
— Eu lembro do meu pai, tenho certeza
que ele fez teste de DNA. Ele desconfiava até da
própria sombra.
Desconfiar!
Então, os reais motivos para sua falta de
confiança apareceram para mim. Essa conversa
estava se tornando reveladora, descobriria muito
mais do que imaginava poder.
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— Sim, ele a amava, mas desconfiava de


todo mundo. Mas quando sua masculinidade foi
afetada, ele se tornou fraco e sua mãe também.
— Onde está meu irmão? — Cadu
perguntou e o homem se levantou, andou pela sala
e baforou.
— Você já ligou os pontos, não é mesmo?
— Deu de ombros. — Ou sua mãe contava para seu
pai sobre a paternidade e se casava comigo, ou me
dava uma das crianças, ou então... eu faria da vida
de todos vocês um inferno!
Ele andou mais um pouco, parou entre
mim e Cadu e nos olhou.
— Olhe para ela muito bem, rapaz.
Mulheres foram feitas para seduzir, ter poder sobre
nós e então, quando estiverem cansadas, pisar sobre
nosso corpo no chão. Não dê poder a um ser que
não merece nenhuma confiança que não seja o

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sexo.
O momento era agora.
Minha mão finalmente encontrou minha
virilha, mas não alcançava a liga sem eu me
inclinar um pouco. Precisava ser rápida e com um
espirro falso, fiz o movimento, apertei o botão e
chamei atenção para mim.
— Está excitada e precisa disfarçar para se
tocar? — a voz melodiosa do bandido me fez
congelar, isso era bem pior do que ver Cadu ser
ameaçado com uma arma, ou eu mesma tê-la na
minha cabeça.
Fui empurrada para frente, o armário me
empurrava para a direção do meu pior pesadelo e
tudo aconteceu muito rápido, que só tive tempo de
cair no chão.
Alguém abriu a porta e derrubou com um
tiro na cabeça o homem que rendia Cadu. Alberto
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pulou em cima de mim, mas não teve sucesso,


porque meu homem foi atrás dele e o impediu. O
homem que me rendia por trás alguns momentos
atrás também foi abatido e para não ser vítima de
bala perdida, me encolhi no chão e esperei esse
rebuliço passar.
— Droga, ele está escapando! — a voz
conhecida de Arc me fez levantar a cabeça e
encarar a médica que me socorreu. Ela também
vestia uma roupa ousada, mas a arma na sua mão
lhe dava uma beleza letal.
Senti as mãos de Cadu nos meus ombros e
não pensei duas vezes em beijá-lo e abraçá-lo.
— Deixem isso para depois, precisamos
sair antes que mais soldados apareçam.
A mulher com nome de estrela nos ajudou
a levantar, guiou-nos pelo corredor sombrio e
encontrou uma saída, em um beco mais escuro do

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que onde estávamos.


Cadu tirou seu terno e colocou por cima
dos meus ombros. Agradecida pelo seu cheiro e
calor, coloquei meus braços na jaqueta e continuei
seguindo os passos da mulher.
— Pensei que seria Capela a nos resgatar
— falei quando reconheci a rua onde estávamos e
olhei para o carro que viemos.
— Está para nascer a pessoa que fará essa
mulher sair de dentro do seu cubículo.
Ela destravou o carro, sentou no banco do
motorista e ganhou um rosnado de Cadu.
— Eu dirijo.
— Estamos prestes a enfrentar uma
perseguição! — Arc falou indignada, eu sentei no
banco do passageiro na frente e esperei a discussão
acabar.
— Eu. Dirijo.
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— Se esse carro capotar e estragar meu


penteado, eu vou transformar sua vida em um
inferno — ela resmungou e pulou para o banco de
trás.
Dito e feito, homens fortemente armados
saíram do clube e Cadu cantou pneu quando se
afastou do lugar.
— Parabéns, sabichão, chamou atenção
deles.
— Eu vou nos tirar dessa. Coloquem os
cintos — falou com urgência o motorista.
— Eu confio em você — falei e segurei na
sua coxa, tentando, de alguma forma, deixá-lo mais
sereno. Como Arc falou, ninguém precisaria
capotar o carro.
O nosso carro já ganhava as ruas quando
ele pegou minha mão, apertou e levou para a sua
boca, depositando um beijo carinhoso e nervoso em
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minha palma.
— Obrigado — respondeu rouco, colocou
minha mão no meu colo e focou única e
exclusivamente na direção enquanto Arc indicava o
melhor caminho do banco de trás.
Pensei por alguns segundos que ele
poderia ter dito que a recíproca da confiança que eu
tinha nele era verdadeira, mas os tiros acertando a
lataria do carro tirou qualquer dúvida da mente e
remeteu ao presente, a sobreviver.
Precisava estar viva para ver Ray casar.

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Capítulo 22
Letícia
— Você dirige como uma estrela, parabéns
Cowboy — Arc disse assim que estacionamos o
carro na garagem da mansão e ela saiu, deixando
apenas um aceno como despedida.
Houve tiros, desvios bruscos e alta
velocidade, mas Cadu soube conduzir com frieza e
foco, despistando todos em pouco tempo. O carro
ser blindado também ajudou muito para manter
nossa segurança e apenas agora consegui respirar
profundamente.
— Merda, nossos celulares — falei
frustrada, ainda estávamos acomodados no assento
do carro.

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— Esqueci de avisar, suas coisas estão aí


no banco de trás — Arc ressurgiu do nada, abriu a
porta do meu lado e falou, como se tivesse
escutando nossa conversa. Será que ela tinha nos
grampeado?
— Meu Deus, quem são essas mulheres?
— Cadu perguntou e esfregou as mãos no rosto e
cabelos. Eu estiquei meu corpo e peguei nossos
pertences e a agente secreta sumiu novamente. —
Droga! — Ele xingou um pouco mais antes de
suspirar e apoiar a cabeça no encosto do banco.
— Revelações e tanto — tentei dizer em
tom de brincadeira.
— Não vamos contar a Ben.
— O quê?
— Ele vai se casar em menos de dez dias,
não vou atrapalhar a felicidade dele.
— E vai mentir? Olha... — Virei de lado
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para encará-lo e ele fez o mesmo.


— Você está comigo nessa ou não está?
— Estou, mas não para sempre. Estou de
férias, depois, adeus mundo.
— Saia do seu emprego! — ordenou.
— Desde quando você virou esse chato
mandão? — Cutuquei seu peito. — Seu irmão
merece saber que existe um quarto irmão vivo.
— Porra, Antônio... — Ele voltou a sentar
de frente e alisar seus cabelos. — Arthur,
precisamos falar com ele antes de qualquer um.
— Onde ele mora?
— Sei apenas de suas empresas, não há
nenhum registro fixo de moradia. Ele sempre foi
meio que...
Percebendo sua frustração, me movimentei
para sentar de lado no seu colo e de bom grado ele

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afastou um pouco mais o banco para me acomodar.


Abracei seu pescoço, cheirei seu cangote e dei um
beijo no seu queixo. Eu ainda vestia a jaqueta do
seu terno e ele ainda parecia lindo e sensual com a
camisa e gravata.
— Vá encontrar seu irmão, eu preciso ir
ver meus pais antes de acabar essas férias. Eu só os
visitei no natal.
— Minha mãe...
— Você não sabe onde ela está?
— Não, ela sumiu desde o dia que nos
deixou com nossos avós. Será que todo o
sofrimento que ela escondeu por causa do filho...
— Nem quero saber o que se passa na
cabeça de uma mãe que teve que abrir mão de um
filho para manter uma família unida. — Acomodei-
me melhor no seu colo e senti seus braços me
rodearem. — Eu ainda acho que você deveria falar
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com Ben.
— Falarei com Arthur primeiro. — Ele
beijou minha testa, abriu sua porta e saiu comigo
em seu colo. — Vamos dormir.
— Como você explicará os tiros na lateria
do seu carro? — perguntei, deitando minha cabeça
em seu ombro e adorando seu carregada no colo
como uma princesa.
— Merda — xingou, me colocou no chão
na porta de casa e a abriu. — Vá primeiro, vou
conversar com os seguranças. — Virei as costas e
ele me fez parar, segurando meu braço. — Direto
para cama, não fale nada com Ray.
— Se eu der um espirro perto dela e falar
que não irei no casamento, é capaz dela cancelar
tudo. Não se preocupe.
— Por que ela desistiria?
— Porque essa é a minha amiga, insegura
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e abençoada, tudo junto e misturado.


Fiquei na ponta dos pés, beijei seus lábios
e segui para o quarto, porque queria trocar algumas
informações com minha amiga misteriosa.
Letícia>> Me recruta, porque quero
largar mão de mexer com contabilidade e viver
de poder igual vocês. A médica também é agente
secreta do governo? Eu posso ser uma contadora
e atirar também.
Capela>> Já temos uma e acredite em
mim, ela é uma má influência. Se você for do
time do biscoito, está fora do recrutamento.
Letícia>> Biscoito? Como assim?
Biscoito vs Bolacha?
Capela>> Para o bem da nossa amizade,
não vamos entrar nesse assunto. Está tudo bem
com você?
Letícia>> Sim, indo para a cama e
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esperando o boy magya.


Fui digitando no caminho, abri a porta do
quarto, me joguei na cama e continuei.
Capela>> Excelente. Conte para mim o
que vocês descobriram, temos escutas lá apenas
agora.
Letícia>> Espera. Não estou
acreditando. Eu sei de algo que você não sabe?
Capela>> Me imagine revirando os
olhos até que eles façam 180 graus.
Letícia>> Deixe que eu aproveite o
momento, estou em vantagem, finalmente. E
então, vai me recrutar?
Capela>> Vai me contar o que
descobriram?
Letícia>> Apenas a versão resumida. Os
pais Valentini gostavam de ir no clube de sexo
com os amigos. A mãe engravidou do amigo,
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mas não contou para o marido, porque – deduzo


eu – que ele estava abalado por estar com
problemas de ter... enfim, problemas nesse
assunto de sexo. Muito ruim pensar nos meus
sogros como sendo apenas homem e mulher.
Letícia>> Não está confirmado, mas a
mãe entregou um dos filhos gêmeos para o pai
biológico, para não contar para o marido. Eu
ainda não acredito que ele seja algo de sangue
deles, os irmãos são muito parecidos para terem
pais diferentes.
Capela>> E 9 anos depois, Franklin
Valentini descobre e morre junto com um
terceiro elemento.
Letícia>> Parece que esse que morreu
também era do clube. O tio avô da Ray.
Capela>> Valiosas informações,
pequena gafanhoto. Quem sabe mais umas cinco

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missões eu te indico para ser uma estrela.


Faço bico e penso em uma resposta
espertinha, mas a porta do quarto foi aberta e Cadu
entrou se despindo. Já sei o que responder:
Letícia>> Tudo bem. Enquanto você
fica aí me esnobando, eu vou me aventurar em
um tanque de abdome e me envolver com bíceps
firmes.
Capela>> Sexo não é tudo.
Letícia>> Já dizia aqueles que nunca o
fazem. Ele não é tudo, nem resolve todos os
problemas, mas serve de coringa para
transformar a sua vida de cinza para mais
colorida. Também te amo, amiga. Depois a gente
se fala.
Coloquei o celular no chão e fui me
empurrando de costas na cama. Removi a liga
enquanto Cadu removia sua gravata e cinto.
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Removi a jaqueta do terno e os sapatos enquanto


ele removia sua camisa e sapatos.
— Apesar de querer apenas um banho e
dormir, algo mais forte que eu precisa ser
acalmado.
— Sua cabeça de baixo está mandando em
você agora? — Olhei para sua virilha e lembrei do
pequeno incidente naquele clube. Apontei para o
banheiro quando ele começou a remover a calça. —
Vá tomar banho, escove os dentes e tire esse gosto
da ex do seu irmão.
— Porra, tinha que lembrar dela? —
resmungou, mas fez como falei.
Removi minha calcinha, deitei na cama
mais confortavelmente e esperei que o homem de
banho tomado e dentes escovados me encontrasse e
fizesse tudo o que tinha em mente, como prometeu.
Deveria estar assustada, talvez abalada
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pelos tiros, perseguição e tudo mais, mas a


adrenalina ainda pulsava em minhas veias, a
emoção de ter novas informações me excitava e
minha ligação com Cadu parecia se solidificar.
Quando ele cobriu meu corpo com o seu, a
única coisa que tinha em mente era que eu
precisava estar com ele por muito, muito tempo.

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Capítulo 23
Letícia
Estar perto de Cadu por muito e muito
tempo? Que nada, minha necessidade do momento
era viajar, urgente, porque minha mãe viu minha
mensagem sobre eu estar de férias, olhou passagem
para que eu fosse a visitar e me ligou desesperada,
ou melhor, me acordou.
— Minha filha, é melhor você vir de
ônibus, ainda hoje, seu pai não está nada bem.
Meu coração acelerou. O tom da minha
mãe não tinha nada de calmo, por mais que eu sabia
que amava exagerar. Uma dor de barriga se tornava
uma úlcera em um piscar de olhos quando se estava
perto dela.

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Sentada na cama de Cadu, que estava


abraçado a minha cintura resmungando por acordar
muito cedo, falei com minha mãe sem perder a
compostura:
— Mãe, não precisa desse desespero todo.
Estou olhando passagens, o pai vai me esperar
chegar antes de ter algo mais grave — tentei
brincar.
— Vou precisar desligar, minha filha,
estamos a caminho do hospital. Só servimos para a
ceia de Natal mesmo, ore para que seu pai esteja
nela esse ano.
Desligou e revirei os olhos. Por mais que
sabia que minha mãe estava sendo ela, a semente
da dúvida foi plantada e eu precisava visitar meus
pais o quanto antes.
— O que foi? — Cadu perguntou
sonolento e sentando na cama.

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— Preciso ir ver meus pais — falei ainda


olhando para o celular, buscando o site de
passagens aéreas. — Vai me custar uma córnea,
mas terei que ir ainda hoje.
— Você não pode ir! — Ele tirou o celular
da minha mão e jogou longe na cama.
— Tão posso, como vou, meu pai está
dente! — respondi indignada, peguei o celular e ia
saindo da cama, mas ele me puxou de volta. Deitei
e ele ficou do meu lado. — Minha mãe adora fazer
drama, mas na dúvida, preciso ir ver com meus
próprios olhos.
— Você esqueceu o que nos aconteceu
ontem?
— Nem o que me aconteceu desde que
tirei férias! — Olhei para seu rosto amassado e
sonolento. — Ninguém vai atrás de mim.
— Para me atingir, eles irão! — Abraçou-
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me com força.
Tentei mexer no celular, mas estava
impossível, então, larguei-o de lado e retribuí o
abraço.
— Se eles soubessem que não passo de um
amor de verão... — brinquei.
— O quê? — Ele se afastou e parecia
muito bem acordado agora.
— Você não confia em mim, estamos
tendo momentos bons, mas quando você voltar para
sua cidade, então, o que será? — Meu coração
acelerou e a brincadeira foi sumindo aos poucos do
meu tom.
— Já falei para pedir demissão do seu
emprego e vir trabalhar para mim. O que te prende
a essa cidade?
— E por que eu faria tudo isso?
Precisava de espaço. Vestindo apenas uma
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camiseta de Cadu, levantei da cama e comecei a


andar pelo quarto. Ele, com apenas uma cueca
boxer, também se levantou, mas ficou parado,
apenas me encarando.
— Você não gosta de mim? O que temos
não é suficiente?
— Eu te amo, é isso que você quer
escutar? — falei alto, avancei até próximo dele e
joguei meus braços para o ar. — Tão louco como
pode ser, tão breve como foi, sim, eu te amo.
Confio em você para me tirar de qualquer encrenca
como confio em você para estar dentro de mim sem
preservativo. — Cutuquei seu peito. — Isso só vai
dar certo se houver recíproca e da sua boca eu só
escuto que não confia em ninguém! Nem vou
comentar quando não estou no mesmo recinto que
você.
— Eu não confio...

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— Não diga! — Apontei o dedo na sua


cara e me afastei, procurando minha roupas e
minha mala, eu precisava me afastar, senão
terminaria algo que mal tinha começado.
— Precisamos construir essa confiança. Eu
não posso simplesmente te dar! — falou indignado.
Removi sua camiseta, coloquei dentro da
minha mala como lembrança e vesti minhas roupas
íntimas.
— Sim, você pode fazer o que quiser.
Pode amar à primeira vista como pode confiar sem
conhecer a pessoa. A vida não é feita de regras a
serem seguidas, mas sentimentos e intuição.
— Mas confiar cegamente em alguém é
loucura...
Terminei de me vestir, coloquei tudo de
qualquer jeito na minha bolsa e o encarei. Sim,
confiar cegamente em alguém era ter fé, algo que
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ele havia perdido há muito tempo.


Eu precisava me afastar, porque dei muito
mais para ele do que fiz para qualquer pessoa.
— Estou indo ver meus pais.
— Não.
— Volto alguns dias antes do casamento
da Ray e Ben.
— Não! — rosnou e se aproximou de
mim, eu levantei meus braços e o impedi de me
tocar.
— Eu ainda tenho o botão de pânico que
Capela me deu. Eu vou ver minha família.
— E nós? — Seus ombros caíram e seu
semblante era de derrota. O homem divertido e de
sorriso cafajeste não existia mais.
— Aproveite para pensar se realmente
existe um nós. Uma relação onde só um dá não

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funciona. Eu sei que confiar é difícil, ainda mais


tendo um passado como o seu. — Dei de ombros e
um passo para trás. — Mas o que aconteceu com o
seu pai é dele. Sua vida, sua história, é você quem
escreve.
Dei outro passo para trás, mas não resisti,
tive que correr para o seu abraço, que me recebeu
com um beijo forte, intenso e cheio de pedido de
desculpas. Queria tanto ir estando bem com ele,
mas havia certas coisas na vida que a gente só
precisava aceitar e seguir em frente.
— Eu vou providenciar sua passagem, um
segurança irá te acompanhar — ele falou baixo e
com voz rouca, quando colamos nossas testas e
mantivemos nossos olhos fechados.
— Não precisa.
— Eu aceito sua partida, aceito seu xeque-
mate, então, aceite minha oferta! Me passe por

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mensagem seus dados e para onde, vou tomar um


banho e resolver isso.
Ele beijou minha testa e se afastou até o
banheiro, onde fechou a porta e encerrou nossa
conversa.
Fechei minhas mãos em punho, rosnei pela
frustração e fiz o que ele pediu. Ele quer pagar,
tudo bem, eu iria parcelar tudo no cartão de crédito
mesmo.
Segui para minha casa com um carro me
escoltando e pensei se algum dia iria me acostumar
com essas sombras na minha cola. Parei o carro na
garagem e peguei o celular, encaminhando as
informações para Cadu e também, mandando um oi
para minhas amigas.
Letícia>> Indo viajar para ver meus
pais. Talvez fique off.
Ray>> Você sabe que meu casamento é
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em poucos dias, certo?


Letícia>> Em algum momento eu falei
que não voltaria para o seu casório mulher?
Thata>> Nossa, ferradura nova. Está
tudo bem?
Ray>> Nossa... boa viagem.
Josi>> Sei não, mas acho que estamos
com problemas no paraíso.
Paula>> Opa, cheguei na hora certa.
Vai descansar, amiga, boa viagem. No
casamento da Ray a gente coloca a conversa em
dia, tenho novidades.
Alci>> Opa, achou boy novo? Está
grávida?
Ray>> Que conversa? Eu também
quero saber!
Paula>> Consegui agendar reunião em

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uma das empresas de Arthur Valentini, para


aquele projeto no hospital, lembra? Quem sabe
eu consiga matar dois coelhos de uma vez só,
ajudando o hospital e também a família.

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Capítulo 24
Carlos Eduardo
O que faço?
Como faço?
Por que ela se foi?
Se tinha algo que odiava era não ter as
respostas para tudo, era não conseguir sorrir me
sentindo o máximo, era sentir um vazio no meu
peito...
— Você escutou o que eu falei, Eduardo?
— Ray começou a rir e eu a olhei assustado, porque
não, eu não tinha escutado nada. Balancei a cabeça
em negação e voltei a olhar a mesa à minha frente.
Estou na biblioteca segurando os diários
da minha mãe, os álbuns de fotografias e tentando
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elaborar meu próximo passo. Ben queria reunir a


família, para ele, isso era o certo a se fazer, mas eu
queria saber quem matou meu pai. Foi Alberto
Mendes ou Miguel Vilar? Pelo o que entendi,
ambos eram amantes...
Jesus, meus pais gostavam de
compartilhar!
— Vou precisar de ajuda. — Ray estralou
o dedo na frente do meu rosto e me chamou
atenção novamente, o riso ainda estava nos seus
lábios. — Será que tudo isso é saudade de uma
certa bocuda?
Só de escutar essa palavra lembrava da
minha mulher e os três dias que ela estava ausente.
Nosso último contato foi por mensagem, ela
agradecendo a passagem e eu desejando boa
viagem.
Eu deveria mandar algo? Ela deveria

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mandar?
— Acho que temos um caso perdido aqui
— Ray riu alto.
— O que você precisa? E por que você
está rindo tanto?
Ela colocou a mão na boca e tentou
segurar o riso.
— Estou nervosa — falou e respirou
fundo. — Presta atenção no que estou falando! —
Bateu as mãos na mesa divertida!
— Tudo bem! — Imitei seus movimentos
de batida de mãos na mesa, arrancando risos de nós
dois.
Meu Deus, meu irmão ia casar com uma
pirada.
— Paula é Psicóloga e Coach, está
prestando serviço para o hospital onde sou
voluntária. Seu irmão mais novo tem vários
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projetos sustentáveis que poderia ser aplicado no


hospital.
— O que sua amiga tem a ver com o meu
irmão?
— Ela conseguiu uma reunião com o setor
comercial da empresa, vai viabilizar o projeto.
— Ótimo, mas...
— Para de me interromper! — ralhou e riu
um pouco. — Paula vai na empresa de Arthur fazer
com que ele venha para a cidade visitar o hospital e
também ver vocês. O sonho de Ben será
concretizado! — Fez uma careta. — Mas seu irmão
eremita não participa de reuniões comerciais, então,
você poderia muito bem ir com ela para ser um
chamariz.
— Só para refrescar sua memória, estou há
muito tempo sem falar com ele.
— Você estando junto de Paula não faria
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com que ele participasse dessa reunião? Ele não


deu nenhum sinal de vida depois da entrega dos
convites de casamento.
— Não sei. — Dei de ombros e recostei na
cadeira, tentando seguir o raciocínio dela, mas sem
sucesso, porque minha mente só enxergava uma
pessoa: Letícia.
— Você vai esperar até quando para
mandar uma mensagem para Letícia?
— Como? — Arregalei meus olhos.
— Não se faça de desentendido, você não
manda notícias desde quando comprou a passagem
para ela. Queria se livrar da minha amiga?
Ray parecia nervosa, mas não havia riso,
apenas ameaça em seu olhar.
— Ela quer algo de mim que não é fácil
dar — falei com chateação.
— Amor? Carinho? — Ela se levantou, foi
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até a estante nova e pegou um livro.


— Confiança — falei e fechei os olhos,
sentindo em todos os meus poros que essa barreira
que coloquei entre nós era apenas pó.
Um livro foi colocado a minha frente, abri
os olhos e percebi que era o que tinha guardado,
que Letícia estava lendo quando nos encontramos
pela primeira vez.
— Ela te confiou esse livro. Isso diz muito
para uma amante de leitura como nós.
— Cheguei! — Paula abriu a porta da
biblioteca com força, perdeu o equilíbrio e quase
caiu de cara no chão!
— Calma, Paula, está tudo bem? — Ray
correu para socorrê-la enquanto eu peguei aquele
livro e senti o seu peso.
Qual era o meu problema em aceitar que
queria uma mulher? Que confiava nela?
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— Isso porque nem bebi para comemorar


ainda. Consegui uma reunião com o dono da
empresa, Arthur vai aparecer! — Comemorou com
abraços e pulos, vi pela minha visão periférica,
porque não conseguia tirar meus olhos do que
estava em minhas mãos.
Eu o li. Era muito romântico, idealizador,
quase um conto de fadas. O homem era muito
perfeito e a mulher sempre tinha todas as respostas
que ele procurava. As cenas eróticas eram intensas,
isso eu poderia dizer que fazia tão bem ou melhor
que na fantasia.
— A reunião é amanhã, será que
conseguiremos passagem de avião ou vamos de
carro? — Paula questionou.
— Ih, amiga, tem algo muito sério
acontecendo com esse homem. Use suas
habilidades de terapeuta e faça algo sensato entrar

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nessa cabeça.
Levantei da cadeira com o livro na mão.
Lembrei da cena final do livro, quando os dois
estão vivendo o felizes para sempre e esperam um
filho. Lembrei das palavras de Letícia, sobre
confiar em mim, principalmente por me permitir
estar dentro dela sem proteção.
Fizemos no pelo e o resultado era mais
comum do que me deixei pensar sobre o assunto.
Um filho.
— Carlos Eduardo? — Paula ficou na
minha frente e virou a cabeça de lado para me
estudar. — Podemos conversar um pouco?
— Não — respondi grosso e desviei dela
para tentar sair daquele lugar, mas Ray ficou na
minha frente.
Como eu não percebi isso antes? Como
não aceitei?
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— O que você vai fazer? Escutou o que a


Paula falou?
— Depois a gente se fala, cunhada. Eu
preciso ver Letícia hoje!
Dei um passo para desviar de Ray e fui
segurado por duas loucas, cada uma em um braço.
— Amanhã será minha reunião com seu
irmão e falei que você estaria junto. Na verdade,
você foi minha barganha! Ele enviou um roteiro
enorme do que deveríamos fazer ou não, e
ausências não eram toleradas. Não pode ser depois
disso? Letícia vai entender... — Paula pediu com
olhos arregalados.
— Peça para Benjamin ir!
— Não estrague tudo antes do meu
casamento, Eduardo! Não machuque a minha
amiga!
Como eu me livraria das duas?
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Beijei entre os olhos de Paula, fazendo


com que ela desse um passo para trás atordoada.
Aproveitei meus braços livres, segurei minha
cunhada e a coloquei mais afastada. O livro ainda
estava na minha mão e de lá não sairia.
— Desculpe, mas vocês precisarão se virar
sem mim.
Corri ao som de protestos. Peguei as
chaves do meu carro e segui para o aeroporto. Não
me importava se não existia voo naquela hora ou se
não levei mala, eu só precisava falar, pessoalmente,
para a única pessoa que confiava, que era minha e a
amava.
Caramba, eu amava essa mulher e só
descobri isso por causa desse livro.

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Capítulo 25
Letícia
Como eu já imaginei, não havia nada de
grave com meu pai. Uma azia e vertigem que
resultaram em apenas remédios e mudança
alimentar.
Mesmo com maquiagem, minha mãe
percebeu alguns dos meus roxos. Também
percebeu que estávamos sendo seguidas e não me
parava de fazer perguntas sobre meu ex.
Infelizmente ela soube dos envolvimentos ilícitos
dele durante a minha separação e ela acredita,
piamente, de que estava prestes a ser atacada.
Mal sabia que já fui, tive outros momentos
loucos e um tal de Alberto Mendes poderia dar o

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bote a qualquer momento. Não em mim, claro, mas


em Cadu.
Meu celular apitou, depois de quatro dias
sem notícias do meu homem, eu queria apenas
mandá-lo para aquele lugar. Ray foi a portadora de
informações sobre seu paradeiro e parecia que
ontem ele fugiu.
Sentei no sofá da sala, meu pai e minha
mãe assistiam um filme e eu, fui olhar minhas
mensagens.
Paula>> Estou indo para a reunião
sozinha. Cadu simplesmente sumiu! Com que
cara vou conversar com o Arthur?
Alci>> Com a única que você tem: linda,
profissional e inabalável. Você dá conta.
Josi>> Avisa que os irmãos Valentini
estão com algum problema intestinal e que você
está representando-os. Você é uma rata ou um
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saco de batatas?
Letícia>> Como assim o Cadu não está
com você?
Ray>> Eu vou matar o Eduardo...
Paula>> Gente, o momento é agora.
Acabei de sair do táxi, estou tremendo igual
vara verde. Me sinto indo para o abatedouro. Se
vocês lessem metade das recomendações que ele
deu antes disso...
Letícia>> Foda-se os homens, Paula. Vai
dar tudo certo. Mostre esse potencial de
conciliadora que você tem e se ele falar alguma
merda, mande tomar naquele lugar ou no cu
mesmo.
Alci>> Só digo uma coisa, você não é
obrigada!
Ray>> Isso mesmo! Fale que Ben e
Eduardo vão fazer picadinho dele se não te
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tratar bem!
Thata>> Paula, estou torcendo por
você! Fique firme!
Josi>> Ih... já pensou Paula entrando na
sala do Arthur, tropeçar e fazer igual a
Anastacia de 50 tons?
Segurei o riso e lembrei do quanto nossa
amiga tinha dois pés esquerdos. Não que ter dois
direitos seriam bons, mas é que o desastre fazia
parte da sua vida.
Letícia>> Gostos peculiares... só se for
para comida, né? Viu a pesquisa que a Ray
mandou para nós que ele é vegano?
Josi>> Sim! Ele não sabe o que é bom,
principalmente quando se mistura com bacon!
Ray>> Já estou ficando com fome só de
vocês falarem. Dona Judite poderia fazer
aqueles salgados maravilhosos que vocês
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comeram enquanto estavam aqui. Foi tão bom


quando vocês vieram...
Thata>> Sim! Eu estava precisando de
um momento longe de casa e do trabalho. Meu
chefe e sua necessidade de controlar até a
quantidade de água que tomo não é de Deus.
A campainha de casa tocou, mas continuei
focada no celular. Aproveitei que minha mãe
liberou espaço, sentei esparramada no sofá e
coloquei os pés em cima do colo do meu pai.
Alci>> Gente, conheci ontem o chefe da
Thata e é verdade. Além de sem noção, ele deu
em cima de mim! Precisamos nos unir e
procurar outro emprego.
Thata>> Não é à toa que chego tarde
nas conversas, ele me suga...
Letícia>> Vocês falando nisso, eu
lembro que um certo idiota me fez uma proposta
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de emprego e até cogitei, mas...


— Filha, pode vir aqui um minuto?
Levantei do sofá e segui até minha mãe, no
hall de entrada entre a cozinha e o corredor que dá
até a sala. Assim que olhei para a porta, vi Cadu
com seu sorriso cafajeste me encarando e estaquei
no lugar. Ele vestia calça e terno, mas sem gravata,
estava o perfeito arrasador de corações.
— Oi — ele falou e eu derreti como um
sorvete no sol.
— Ele disse que se chamava Carlos
Eduardo e que precisava falar com você antes de
comigo e com seu pai.
Olhei para minha mãe em pânico, depois
para ele. Engoli em seco, sua presença sem
comunicar nada era um bom sinal... certo?
Minha mãe se afastou enquanto eu me
aproximava dele. Mal estive a um braço de
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distância, ele me puxou para perto do seu corpo, me


envolveu em um abraço e me beijou sem nenhum
pudor. Minhas mãos seguraram seus ombros e
minha boca retribuiu com igual ou maior fervor que
a dele.
Que saudades!
Senti um volume perto do meu ventre e me
afastei, ofegante pelo beijo e pela surpresa. Vi
Cadu remover o livro de dentro do seu paletó e me
entregar, aquele que havia esquecido na mansão
dos Valentini.
— Da forma mais idiota no mundo eu
percebi que confiei em você desde o nosso primeiro
beijo. — Peguei o livro da sua mão e senti meu
rosto ser acariciado. — Não moramos na mesma
cidade, não estamos livres de ameaças e meu
passado é complicado. Mesmo assim eu quero estar
com você, te amar e proteger.

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— Mas...
— Uma vez, uma linda mulher me falou
que no amor, não existe mas. Ou confia ou não
confia. Você confia em mim?
Engoli em seco, mas respondi sem
pestanejar:
— Sim!
— Eu também confio em você, só
precisava aprender a dizer. — Ele tocou o livro
com o indicador e riu sem graça. — Esse livro foi o
gatilho.
Olhei para a capa do meu crush literário, ri
do meu nervosismo e bati o pequeno volume em
seu ombro, que se encolheu assustado.
— Primeira fase concluída, agora venha
conhecer seus sogros. — Puxei-o para dentro do
apartamento dos meus pais e fechei a porta de
entrada. — Mãe, quero te apresentar alguém!
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Fui para a sala com Cadu e o apresentei


como namorado. Ele não me pediu em namoro,
mas sua atitude foi tudo o que eu precisava para ser
confiante e acreditar em nós.
Depois de olhares preocupados e perguntas
indiscretas, meus pais o receberam e até o
convidaram a dormir no sofá de casa, mas quando
Cadu falou que estava sem mala e veio apenas
firmar um compromisso comigo, eu suspirei, minha
mãe bufou e meu pai riu e falou que não será a
primeira vez que ele esquecerá algo na vida dele
em busca de se redimir com uma mulher, ainda
mais de nossa família.
Estava ansiosa para saber da reunião que
Paula teve, mas só iria pegar no celular quando
fosse para cama. Ah, então, Cadu sumiu para vir
me ver. O que eu deveria sentir quanto a isso?
— Volta comigo? — Cadu perguntou

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depois que se despediu dos meus pais e seguimos


para a porta de entrada do apartamento.
— Vou aproveitar essa semana aqui, volto
para o casamento da Ray.
— Venho te buscar — decretou com um
sorriso arrogante.
— Não, você não vem, porque tem a
despedida de solteira da minha amiga e você não
foi convidado.
— Como assim? — questionou surpreso.
— Muita comida, filme e leitura. Nada a
ver com o que sua mente perversa está pensando.
— Segurei sua mão e apertei. — E você está
devendo uma para Paula, que foi sozinha na
reunião com seu irmão mais novo.
— Arthur sempre foi fechado, mas nunca
uma pessoa ruim.
— Quando foi a última vez que você o
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viu? — Franzi a testa e fingi estar brava. — Se algo


acontecer com ela, você será punido.
— Fique à vontade para me punir do jeito
que você quiser...
Cadu beijou meus lábios com discrição e
seguiu para a porta, que minha mãe já tinha aberto
para ele ir.
Sim, exagerada como sempre.
— Venha para o Natal, Cadu! — minha
mãe acenou e vi seus lábios se contorcerem.
— Ele não gosta que o chamem assim,
mãe — resmunguei.
— Mas você o chama assim!
— Sim, mas só eu posso!
— Agora a sogra também! Tchau! —
Acenou um tchauzinho quando ele entrou no
elevador e se foi, mas desta vez, com a única

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certeza que eu precisava, que era a sua confiança


em mim.
Dois irmãos se uniram, o terceiro estava
com Paula e a mãe, desaparecida. Ainda existia
muitos assuntos inacabados nessa história, só
esperava que no fim, o amor vencesse.

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Outras Obras

Selvagem Moto Clube: https://amzn.to/2QlULdz


Sinopse: O presidente do Selvagem Moto Clube
está gravemente doente e um sucessor precisará ser
escolhido antes que John morra. O vice-presidente
deveria ser o herdeiro legítimo, mas seu mal caráter
e negócios ilícitos fazem com que essa vaga seja
disputada.
John nunca quis que sua família se envolvesse com
seu Moto Clube, mas sua filha Valentine entra na
disputa pela presidência e nada mudará sua decisão.
No meio dessa disputa entre o comando do
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Selvagem, Doc é o único homem que ela poderá


confiar para lutar pelo Moto Clube e quem sabe
pelo seu coração, que há muito foi judiado por
outro motociclista.
Entre a brutalidade e o preconceito, Doc e
Valentine encontrarão muito mais do que
resistência nos membros do Moto Clube, mas
intrigas e traição.

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Aranhas Moto Clube: https://amzn.to/2x62CDU


Sinopse: Ter um relacionamento afetivo nunca foi
preferência na vida de Rachel Collins. Seu trabalho
e seu irmão eram as únicas prioridades, até que seu
caminho cruza com o de Victor Aranha em um
tribunal, em lados opostos. O homem de postura
arrogante e confiante, presidente de um Moto
Clube, abalou os planos da advogada.
Tempos depois, os dois se encontram
informalmente e a chama adormecida se acende.
Prudente e competente, Rachel acaba em conflito
de interesses ao ser convidada por Victor, para uma

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noite sem compromisso. O lado pessoal dos dois


estava pronto para colocar em risco tudo o que
construíram.
Ela seguia as leis. Ele as quebrava.
Victor precisa de assessoria jurídica, e claro que
convoca a atrevida Rachel Collins. Tentada pelo
desafio, acaba envolvida em muito mais do que
suas teias, mas no lado obscuro do Aranhas Moto
Clube.

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Piratas Moto Clube: https://amzn.to/2QpLOzN


Sinopse: Ser o presidente do Piratas Moto Clube
nunca tinha passado pela cabeça de Richard
Collins, um homem respeitado e de valores
tradicionais. Ele assumiu o posto de chefe de
família muito cedo e isso trouxe sequelas para sua
confiança. Apesar disso, ninguém sabia que
debaixo daquela postura firme e cheia de
argumentos morava um homem assombrado pelas
suas limitações.
Nina está envolvida em todos os assuntos dos seus
amigos, principalmente quando Richard, seu Lorde

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da vida, está em causa. Quando ele precisa de


proteção extra, além do que já tem por causa de
JFreeman, ela não só se voluntaria, mas decide
investir, finalmente, na sua atração pelo homem
que é o verdadeiro príncipe de terno e gravata.
Apesar de serem de mundos diferentes e com
convicções completamente opostas, as
circunstâncias colocarão à prova tudo o que
acreditam, inclusive seus próprios medos.
As aparências trazem julgamentos precipitados e as
histórias de família mal contadas também. Existem
muito mais segredos pirateados do que ocultos
nessa história.

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