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PERIGOSAS NACIONAIS

PERIGOSAS ACHERON
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© 2018 Victoria Gomes

Capa: Letti Oliver


Revisão: Victoria Gomes e Natália Dias
Diagramação: Victoria Gomes

É proibida a reprodução de qualquer parte dessa


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da autora. Ressalva para trechos curtos usados
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direitos autorais é crime estabelecido pela lei no.
9.610/98 e punido pelo artigo 184 do código penal

Todos os direitos reservados

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Índice
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22

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Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42
Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
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Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Capítulo 51
Capítulo 52
Capítulo 53
Capítulo 54
Capítulo 55
Capítulo 56
Capítulo 57
Capítulo 58
Capítulo 59
Capítulo 60
Epílogo
Agradecimentos
Sobre a autora
Conexão Negada – Livro 2 da série “Conexões”

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Capítulo 1

É HOJE QUE EU MORRO.


Olho o relógio pela décima vez no último
minuto, como se isso fosse fazer o tempo
milagrosamente passar mais rápido. Não vai, sei
que não vai. Mas continuo olhando mesmo assim.
Esse elevador demora desse jeito todos os dias ou
hoje resolveu parar em todos os andares só para
complicar ainda mais a minha vida? Espio o botão
que marca o décimo segundo andar, piscando em
laranja, rindo da minha cara, sem nunca chegar
onde eu preciso.
Bato o pé contra o chão, nervosa, evitando olhar

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para o espelho às minhas costas. Não importa se


estou descabelada ou se minha maquiagem borrou,
não vou ter tempo de arrumar.
Treze minutos atrasada. Não é tão ruim. Podia
ser pior. Já vi gente sendo demitida por muito
menos. Quero chorar.
Quando as portas se abrem, praticamente corro
tentando me equilibrar sobre os saltos
ridiculamente finos que resolvi usar hoje. O que
leva alguém a comprar esses instrumentos de
tortura e ainda pagar uma pequena fortuna por eles?
Maldito código de vestimenta da empresa. Tudo
que eu queria era poder vir trabalhar de chinelo.
Isso é muito, muito injusto. Por que diabos a minha
aparência importa se o meu trabalho está sendo
bem-feito? Ficar de mau humor com os pés doendo
só vai me fazer querer trabalhar menos, não o
contrário.

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Apanho a pilha de pastas perfeitamente


arrumadas em minha mesa e sigo para a sala de
reuniões. Dezessete minutos. Eduardo está
arrancando os cabelos por causa da ausência do seu
irmão na administração deste lugar e tem se matado
para dar conta do trabalho dobrado, para que
ninguém ache que a empresa tem uma liderança
fraca. Não sei como era antes de eu trabalhar aqui,
mas desde que fui contratada, alguns meses atrás,
as coisas têm sido meio loucas e ele tem confiado a
mim muitas responsabilidades. Definitivamente
vou ser assassinada se tiver perdido alguma coisa
importante nessa reunião. Ele vai fazer picadinho
de mim. Senhor, me ajuda.
Forço-me a desacelerar quando chego à sala.
Respiro fundo para disfarçar o desespero e abro a
porta sem bater, tentando evitar chamar atenção
para mim. Não funciona. No momento em que
entro no cômodo pouco iluminado onde uma
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apresentação de slides está acontecendo, todas as


cabeças viram em minha direção como se uma
manada de elefantes tivesse acabado de invadir a
reunião. Eduardo, de pé com sua já tão conhecida
caneta laser apontando para a tela, me encara com
olhos apertados, em uma expressão que deixa claro
as perguntas não feitas. Onde você estava?
Cruzo a mesa ocupada pelos outros diretores da
empresa, dirigindo-me à ponta onde as coisas de
Eduardo estão, e apanho a pasta que está aberta
para começar a atualizar suas anotações. Quando
me sento e meu querido chefe — que com a graça
divina não vai me demitir hoje — continua sua
apresentação, passo os olhos rapidamente pelo
texto na tela apenas para me situar. Como fui eu
que, obviamente, preparei o material, sei
exatamente o conteúdo a ser apresentado e me
limito a anotar as perguntas eventuais e
comentários que são feitos.
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Meu olhar cruza com o de Priscila, a Relações


Públicas da firma e uma das minhas melhores
amigas. Ela ergue uma sobrancelha em minha
direção, silenciosamente questionando meu atraso.
Eu sei, não é do meu feitio, mas tive um motivo de
força maior para me atrasar. Movo os lábios
sussurrando que mais tarde explico e ela me encara
por dois segundos a mais com aqueles olhos verdes
intimidadores antes de voltar a prestar atenção em
Eduardo.
Algumas longas horas depois, a reunião
finalmente chega ao fim e, um a um, os presentes
deixam a sala. Passos os olhos pelas minhas
anotações uma última vez e começo a recolher os
papéis jogados sobre a mesa, quando vejo Eduardo
se apoiar sobre o tampo de madeira ao meu lado,
cruzando os braços sobre o peito. Sinto seu olhar
sobre mim e viro em sua direção, já preparada para
me fazer de louca se for preciso.
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— E então, Juliana? — Sua voz é firme o


suficiente para que não precise dizer nada além
disso e para que eu me sinta como uma adolescente
que fez besteira e agora precisa levar bronca dos
pais.
Ele nunca chegou nem perto de me tratar mal.
Nunca o vi tratando ninguém mal, mas eu já assisti
de camarote o homem falar grosso com outras
pessoas a ponto de ninguém nem se atrever a
questioná-lo, sem sequer precisar erguer o tom de
voz.
— Eu sinto muitíssimo, senhor Rodrigues. Tive
um contratempo na volta do almoço e me atrasei.
Garanto que não vai acontecer de novo.
Ele bufa.
— Pelo amor de Deus, senhor Rodrigues é meu
pai. Me sinto um velho gagá quando você me
chama assim, já conversamos sobre isso. — Ele
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passa a mão no cabelo e faz uma careta, como se a


simples ideia de envelhecer fosse seu pior pesadelo.
Não consigo evitar o sorriso. O grisalho que
começa a colorir alguns de seus fios negros
denuncia um pouco a idade, perto dos quarenta,
mas surpreendentemente apenas adiciona um
charme extra nas suas feições maduras. Sua beleza
não é óbvia como aqueles atores de TV que têm
todos a mesma cara e nem é o modelo de perfeição
masculina — seu nariz é meio torto, como se
tivesse sido quebrado em algum momento, algumas
rugas discretas surgem ao redor dos seus olhos
quando ele sorri um dos raros sorrisos —, embora
não se possa negar que o conjunto da obra não seja
de se jogar fora. Seu charme é inegável, rústico e
instigante.
Não é de se estranhar que metade das mulheres
do escritório caia de amores por ele — e a outra

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metade só saiba disfarçar muito bem. E eu, como


não estou morta, consigo muito bem me deleitar
com o fato de que trabalhar o dia inteiro olhando
para aqueles olhos castanhos sedutores não é mau
negócio, embora tenha tomado todo o cuidado
necessário de colocar Eduardo Rodrigues Menezes
na caixinha de “homens bonitos para admirar à
distância e talvez usar de inspiração na hora de
criar o protagonista maravilhoso do meu próximo
livro”.
— Está tudo bem? — pergunta, e eu aceno,
confirmando que sim. Vejo que ele quer dizer mais
alguma coisa, mas se limita a balançar a cabeça.
— Então não é hoje que eu vou ser demitida? —
questiono, cruzando os dedos de forma dramática e
ele sorri.
— Tem uma fila enorme de pessoas a serem
demitidas antes de você, não se preocupe. Mas vou

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precisar que fique depois do horário hoje de novo,


sinto muito. Temos que fechar essa planilha para
ontem.
Solto um gemido de frustração quando ele sai da
sala. É terça-feira. Tudo que eu queria era chegar
em casa, abrir uma garrafa de vinho e assistir
Masterchef em paz. Adeus, planos. Foi bom
conhecer vocês.

Meu pescoço dói de passar muitas horas na


mesma posição, sentada na cadeira, de frente para o
computador. O telefone está particularmente
agitado hoje e minha garganta está seca de tanto
dizer que o homem está ocupado. Não sei nem se
ele realmente não pode atender, mas é o que

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sempre respondo, já que na maioria das vezes não é


nada urgente, nem importante, e pode facilmente
ser resolvido por outra pessoa.
O dia está perto do fim e o escritório começa a
esvaziar. As luzes começam a ser apagadas e os
poucos funcionários que restam trabalham o mais
rápido possível, ansiosos para ir para casa logo.
Olho o relógio e vejo que os ponteiros passam das
seis e meia da noite.
Sabendo que logo, logo vamos estar
mergulhados em trabalho o suficiente para não ter
nenhum minuto livre, como sempre é quando
ficamos aqui depois do horário, me adianto e peço
comida pelo aplicativo do celular, já que, contando
tempo de preparo e a difícil jornada do entregador
da hamburgueria da esquina tentando vencer o
trânsito do centro do Rio de Janeiro a essa hora,
deve demorar quase quarenta minutos para chegar

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aqui. Até lá, meu humor já vai ter ido para o fundo
do poço e vou estar tentando arrancar um pedaço de
qualquer coisa que esteja na minha frente.
Considerando que o que vai estar na minha frente é
Eduardo, essa é uma ideia muito, muito ruim.
— Vai ficar até mais tarde de novo? — Priscila,
revirando sua bolsa, provavelmente em busca da
chave do carro, olha para mim com um sorriso
travesso no rosto. Reviro os olhos.
— Até você? — resmungo. Ela ri, curvando-se
para dar um beijo em minha testa.
— Você sabe que é o que todos estão dizendo
— ela provoca nesse tom sempre implicante dela,
arqueando as sobrancelhas, e a acerto com uma
bolinha de papel amassada. — Ei, eu ainda posso te
demitir, garota! — diz e eu, com toda a maturidade
que cabe em mim, respondo dando a língua.
Não lembro bem como nossa amizade se
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desenvolveu, mas Priscila Aguiar nunca foi daquele


tipo de pessoa que trata ninguém diferente por
causa do cargo que ocupa, diferente de muitos
outros aqui que fazem questão de lembrar a cada
instante onde é o seu lugar na hierarquia da
empresa — não é mesmo, Renato?
Tive muita sorte de ser contratada por Eduardo e
não pelo seu não tão adorado irmão Vinicius.
Aquele homenzinho irritante faz a vida da sua
pobre secretária um verdadeiro inferno. É verdade
que Fernanda não é minha pessoa favorita no
mundo inteiro, mas não desejo nem ao meu pior
inimigo a desgraça que parece ser trabalhar para
ele. O problema de uma empresa familiar como
essa é que, apesar de ser de um porte considerável,
todo mundo sabe da vida de todo mundo e boatos
rolam soltos — eu sei bem o que é ter seu nome
rolando na boca do povo fofoqueiro daqui —, e são
infindáveis as histórias sobre Vinicius. Nenhuma
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delas é muito agradável. Pode ser verdade, pode


não ser; por garantia, eu fico o mais longe possível
e rezo para todos os santos quando preciso falar
com ele por algum motivo.
O que não acontece muito, já que além de
aparentemente detestável, o homem é um completo
irresponsável e mal dá as caras. Foras poucas às
vezes em que cruzei com o senhor presidente da
empresa, que faz questão de deixar claro que não
tem tempo para a gentalha, e nenhuma delas fez
meu dia mais feliz. O homem me olha esquisito,
como se estivesse incomodado com a minha
presença e eu não sei nem o que fiz para justificar
isso.
— Mas é sério, Ju. — O tom de voz preocupado
e os olhos atentos da minha amiga me dão vontade
de chorar de pura frustração. Sei exatamente onde
ela está indo com isso e não aguento mais.

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— Eu sei que é sério, mas o que você quer que


eu faça? — Grunho, balançando a cabeça. — Não
sei de onde veio este boato ridículo de que eu estou
dormindo com o Eduardo e não posso fazer nada a
respeito disso. Não é culpa minha se as mulheres
desta firma não conseguem manter as calças no
lugar quando ele passa e ficam projetando as
fantasias delas em mim, fazendo da minha vida um
inferno.
O fato de que eu compartilho algumas dessas
fantasias não precisa ser mencionado, é segredo.
Priscila me olha, mordendo os lábios, como quem
segura uma risada. Suspiro.
— Ele está bem atrás de mim, não é? —
pergunto, já me preparando para a vergonha que
acabei de passar. Ela acena com a cabeça,
confirmando.
— Boa noite, Ju. — Ela solta a risada que estava

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segurando, essa cara de pau. — Não explore


demais minha amiga, Eduardo.
Espero Priscila entrar no elevador e desaparecer
da minha vista antes de tomar coragem e me virar
em direção a ele. De pé, enquanto estou
envergonhadamente sentada em minha cadeira,
Eduardo parece um gigante jogador de basquete.
Um brilho de diversão cruza seus olhos quando ele
se inclina em minha direção, uma mão em cada
lado meu, apoiado sobre minha mesa. Ele está
perto, muito perto, perto demais, perto o suficiente
para eu conseguir sentir o cheiro forte e amadeirado
do seu perfume.
— Quer dizer que você é a única mulher no
escritório que consegue manter as calças perto de
mim? — A provocação em sua voz faz subir um
arrepio em minha espinha.
Isso é novidade. Ele nunca se aproximou desse

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jeito, nunca invadiu meu espaço pessoal e eu não


sei nem como reagir.
— É esse tipo de coisa — digo, apontando para
o pequeno espaço entre nós dois. Desconcentro-me
por um segundo, perdendo o fio do pensamento —
que faz todo mundo achar que a gente tem um caso
— reclamo. Ele meneia a cabeça e um sorriso
cresce em seu rosto.
Eduardo não é um homem dado a risos. O que é
compreensível em um ambiente de trabalho, já que
sua posição exige seriedade, mas tenho a impressão
de que é um comportamento que se estende para
sua vida. Não o conheço bem fora do escritório,
mas certa proximidade é inevitável quando se
trabalha com alguém por tantas horas por dia, como
é o meu caso. Alguns sorrisos discretos aqui e ali,
mas gargalhadas profundas são artigo raro, e me
impressiono com o quão bonito fica com uma

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expressão descontraída que dura um segundo


apenas.
Ele balança a cabeça e estende a mão, ajudando-
me a levantar da cadeira. Eduardo se apoia no
batente da porta e cruza os braços, olhando na
minha direção enquanto eu recolho minhas coisas
para levar para o seu escritório, onde vamos passar
as próximas horas trabalhando. Não posso negar
que esse homem sabe como vestir um terno.
— Ainda está tendo problemas com aquele
homem do quarto andar? — pergunta, referindo-se
ao meu flerte nada promissor com um cara do setor
de advocacia, coisa que mencionei para Priscila há
alguns dias durante uma pausa para o café em que
ele estava presente. Confirmo com a cabeça.
— Ele também acha que eu sou uma vagabunda
que está dormindo com o chefe para subir na
empresa — digo com um sorriso irritado no rosto.

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Ele franze o cenho, parecendo incomodado, e


meneia a cabeça, mas não diz nada. Bufo,
pendurando no ombro a alça da bolsa e andando em
direção ao escritório, e Eduardo fecha a porta atrás
de nós.
Acomodo-me no confortável sofá no canto do
escritório que, apesar de espaçoso, conta com uma
decoração bem sóbria. Sorrio para o quadro com
uma pintura de um lago que fica pendurado na
parede oposta. Gosto desse aqui. Abro o
computador sobre a mesa e espalho os papéis sobre
o tampo de vidro que não vai ficar limpo por muito
mais tempo, todo marcado de dedos e alguma coisa
que eu com certeza vou derrubar. Alguns minutos
se passam em um silêncio confortável antes de
Eduardo falar de novo.
— Se é isso que ele pensa de você, então é um
completo idiota. E você merece coisa melhor,

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Juliana. — Ele estende a mão, entregando-me um


copo do seu tão costumeiro uísque. Não é minha
bebida favorita, mas por que não?
— A coisas melhores. — Estendo o copo,
propondo um brinde.
— Que podem estar mais perto do que você
imagina. — O tilintar do vidro quase passa
despercebido quando noto seus olhos queimando
sobre mim.
Ah, porcaria.

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Capítulo 2

QUANDO MEU IRMÃO ME LIGOU na hora do


almoço dizendo que precisava falar comigo
urgentemente, por um momento esqueci que o
senso de urgência de Guilherme é questionável.
Não preciso nem dizer que quase voei no pescoço
do infeliz quando descobri que, depois de ter
atravessado ruas e mais ruas do Centro com esses
saltos malditos, ele havia me chamado para que eu
fingisse que ser a namorada dele.
Isso mesmo. Fingir. Ser. Namorada. Dele.
Eu amo meu irmão, com todo meu coração. Mas
ele realmente precisa parar de se comportar como

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se tivesse dezesseis anos e começar a agir como o


homem de vinte e três que é. E, definitivamente,
precisa parar de me arrastar para as confusões que
arruma. Não sei quem estava mais perdida: eu ou a
coitada que Guilherme estava tentando dispensar
com aquele teatrinho ridículo.
Então, quando meu telefone toca, mostrando a
foto do maldito na tela, apesar de não querer vê-lo
nem pintado de ouro agora, aproveito a distração
para quebrar a tensão crescente em meu corpo com
Eduardo encarando-me profundamente com
aqueles olhos castanhos que estão fazendo meu
estômago dar cambalhotas, enquanto toma o gole
mais lento do mundo.
Coloco o copo na mesa e apanho meu celular,
pedindo licença antes de correr porta afora.
— O quê? — atendo, talvez com mais grosseria
do que o necessário.

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— Eu sei que você está brava comigo, mas


também não precisa fazer assim. — Não preciso
ver meu irmão para saber que ele está piscando
seus grandes olhos castanho-escuros, fazendo um
bico forçado e uma cara de cachorro sem dono, que
por algum motivo funciona com as pobres
desavisadas que se envolvem com ele. Reviro os
olhos. Guilherme tinha que andar na rua com uma
placa pendurada no pescoço com um sinal de alerta.
— Eu estou trabalhando, Guilherme, o que você
quer?
— Só ia oferecer uma carona para casa se você
ainda estiver no escritório, grosseria.
Argh! Respiro fundo, pois não é culpa dele se
minhas pernas estão bambas neste momento.
Eduardo sempre foi o exemplo de profissionalismo,
sempre me tratou com todo o respeito existente na
face da Terra, e, com o tempo e proximidade, nossa

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relação evoluiu para uma amizade leve e bastante


superficial.
E obviamente eu caí pela fantasia mais clichê de
todos os tempos: imaginar a gente se enroscando
em cima da mesa do seu escritório. Já era amizade,
já era qualquer possibilidade de estar no mesmo
cômodo que ele sem erotizar cada movimento seu.
Que vida difícil essa minha.
Mas existe um abismo muito grande entre uma
fantasia boba e a realidade e, no mundo real, esse
aqui que a gente vive, todos os dias acordando
antes das seis da manhã para trabalhar, ralando
igual uma condenada, não existe a menor chance de
eu me prestar ao ridículo nem de tentar nada com
esse homem.
Porque, confesso, parte da atração vem do
fetiche de chefe gostoso sim. Não conheço Eduardo
o suficiente para me interessar por nada além do

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óbvio, e o óbvio no caso paga o meu salário, então


é terreno mais do que proibido.
— Desculpe — digo. — Vou ficar presa aqui até
mais tarde, eu volto de metrô mesmo.
— Cuidado na rua, Ju. Qualquer coisa pega um
táxi e eu pago se ficar muito tarde. Não é bom ficar
andando sozinha nas ruas do Centro de noite —
diz, e eu o amo pela preocupação em sua voz,
embora isso não anule os tapas que pretendo dar
nele.
— Eu tenho vinte e cinco anos, Gui. Eu sei me
cuidar.
Após uma reclamação malcriada, desligo o
telefone e apoio a cabeça na parede. Preciso voltar
para a sala. A passos lentos, tropeçando nos
malditos saltos, abro a porta e fecho-a atrás de
mim, sem dizer uma palavra. Eduardo está sentado
no sofá de frente para o meu computador, olhos
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fixos em uma planilha em sua mão. Ele está


concentrado nas informações à sua frente, as
grossas sobrancelhas franzidas.
— O que é essa linha em branco aqui? —
pergunta, apontando para o espaço vazio debaixo
do nome da rede de hotéis que é um importante
cliente da empresa.
— A representante deles pediu uma reunião com
seu irmão semana passada para discutir o contrato e
a Fernanda vem tentando marcar desde então, sem
sucesso. — Respiro antes de continuar falando, um
tanto quanto balançada pela postura estritamente
profissional assumida por Eduardo. Será que eu
imaginei aquele fogo em seus olhos apenas um
minuto atrás? A insinuação disfarçada de indireta
foi, no fim, só um comentário despretensioso?
Sexta, no Globo Repórter. — É bem provável que a
gente vá perder a conta se não conseguirmos

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resolver isso até o fechamento do mês.


Eduardo é meu chefe, mas não o chefe. No final
do dia, quem manda e desmanda na empresa é seu
irmão mais velho e, em teoria, ele tem tanto poder
quanto qualquer um dos outros diretores, coisa que
realmente não entendo. Tudo bem que é a escolha
ética mais acertada que ele não tenha regalias
somente por ser filho do dono, mas pelo amor de
tudo que é mais sagrado, alguém dá um jeito de
tirar Vinicius daquela cadeira.
Grande parte da receita da Rodrigues Menezes
vem de serviços de segurança de grande porte,
como carros-fortes e contratos com bancos, mas
uma parcela bem significativa também vem de
estabelecimentos comerciais, como hotéis, clubes e
shopping centers. Perder um cliente desses só
porque o bonito está viajando, fazendo Deus sabe o
que, não é uma ideia boa. É o cúmulo da

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irresponsabilidade e destrói todas as minhas


fantasias com CEOs gostosões ridiculamente
competentes. Obrigada por isso, Vinicius.
— Tente me agendar com ela o mais rápido
possível. Diga que pode aparecer quando for
melhor, ou eu vou até ela se for preferível — diz,
antes de soltar um palavrão, xingando o irmão, o
que acaba por completo com seu tom formal e
eloquente. Preciso segurar uma risada.
— Ela queria especificamente falar com o
Vinicius, Edu — começo a dizer e paro quando ele
me olha com a cabeça inclinada para o lado.
Abro a boca para me corrigir e me surpreendo
quando um sorriso cruza seu rosto.
— Não acho que você tenha me chamado de
Edu antes — diz, e ali está, o brilho nos seus olhos,
o fogo por trás do castanho. Sabia que não estava
ficando louca. Mas com certeza ele está. Já vou
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marcar um horário com a terapeuta da empresa na


agenda dele. Qual é o nome dela mesmo?
— Fico feliz que finalmente esteja se sentindo
mais à vontade perto de mim, Juliana. Já faz alguns
meses que trabalhamos juntos e você realmente não
precisa ser tão impessoal o tempo todo. Não vai
matar ninguém se formos… amigos.
Enquanto diz isso, como se a deixa tivesse sido
dada, ele se livra do paletó e puxa as mangas da
camisa social até o cotovelo, afrouxa a gravata e
abre o primeiro botão. Acho que todos os boatos
finalmente me atingem com força mesmo, porque
uma parte não tão pequena de mim deseja que ele
continue. Foco, Juliana!
— Você vai ficar de pé na porta a noite toda ou
vai vir trabalhar? — ele pergunta, com a
sobrancelha arqueada e só então percebo que ainda
estou no mesmo lugar. Sento-me ao seu lado e,

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apesar de sua presença marcante não poder ser


ignorada e eu querer dar um tapa nele quando seu
braço roça no meu, sou facilmente arrastada de
volta para o trabalho.

As embalagens de comida estão jogadas no


chão, há muito tempo consumidas com voracidade.
Estico os braços, estalando-os, e massageio meu
pescoço dolorido. Talvez eu precise fazer
fisioterapia. Ou voltar para o pilates. Que horas,
não sei. Esfrego meus olhos, que ardem de tanto
encarar a tela do computador e não consigo evitar
um bocejo.
— Desculpe te manter aqui até tão tarde. — A
voz de Eduardo reverbera do outro lado da sala. —

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Você pode ir, falta pouco aqui, eu posso terminar


isso.
Penso em discutir, mas nem me dou ao trabalho.
Estou exausta e preciso descansar. Só a ideia de ter
que estar de pé de novo em algumas horas me faz
querer chorar. Como se lesse meus pensamentos,
Eduardo diz:
— Tire a manhã para você. Aliás, pode tirar o
dia inteiro. Não acho que tenha tirado um dia de
folga desde que começou a trabalhar aqui. Só
preciso que você marque aquela reunião, sem falta.
De resto, só quero te ver neste escritório na quinta-
feira.
Não contenho um suspiro de satisfação.
Obrigada, bom Deus.
— Até quinta, então — digo, recolhendo minhas
coisas e caminhando em direção à porta.
Cansada como estou, recosto a cabeça na parede
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de metal frio do elevador, tentando decidir se é uma


boa ideia ir andando até o metrô. Passa um pouco
das dez e as ruas do Centro da cidade não são
exatamente convidativas a essa hora. Mas é tão
pertinho… Menos de dez minutos e vou estar lá.
Quando as portas se abrem no primeiro andar,
cumprimento o porteiro da noite — esse é novo,
não conheço. Cadê o Carlos? — e encaro a rua lá
fora. Deserta. Escura. Não vou arriscar, não saí de
casa hoje com nenhuma intenção de terminar o dia
morta. Encosto na porta enquanto destravo a tela do
celular para pedir um carro pelo aplicativo.
Não quero nem ver quanto vai custar a corrida.
Vou mesmo colocar na conta do meu irmão. E,
como se ainda estar no trabalho tarde da noite não
fosse castigo o suficiente, a bateria do meu celular
acaba. Perfeito. Preciso ligar para o Guilherme.
Viro-me de costas para pedir emprestado o telefone
do porteiro e me enrosco nos malditos saltos
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quando dou de cara com um corpo firme que não


devia estar parado aqui.
Sinto uma mão segurando meu pulso e minha
cintura sendo circundada por um braço forte,
mantendo-me de pé. Levanto a cabeça e meus olhos
cruzam com o de Eduardo, que me prende firme
contra seu tronco.
Não sei se ele pode sentir minha pulsação com
os dedos que seguram meu pulso, mas, se puder,
por favor que um buraco se abra para eu enfiar a
cabeça, porque consigo sentir meu coração
disparado por conta do baque inesperado. Meu
olhar se prende em seus lábios por um segundo
antes de serem atraídos por seus olhos.
Ele espalma a mão que está em volta da minha
cintura, tocando meu quadril por cima da saia e dou
um pulo para trás quando sinto um arrepio na
minha pele.

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— Vim te oferecer uma carona — ele diz com


um pigarro antes que eu tenha a chance de falar
alguma coisa. — É perigoso a essa hora lá fora.
— Na verdade, eu já ia chamar um carro, não
precisa se incomodar. — Ele não diz nada em
resposta, só continua me olhando. — Eu moro
longe.
— Mais um motivo — diz, dando os ombros. —
Eu te fiz ficar até tarde, nada mais justo. Vamos. —
Ele estica o braço em direção à entrada da garagem,
dando a discussão por encerrada apesar do meu
nada convincente protesto. Arrumo a bolsa no
ombro e vou na sua frente, passando pelo porteiro
desconhecido e acenando com a cabeça. O homem
sequer olha na minha direção, continua brincando
com o celular. Ok então.
Eduardo está logo atrás de mim e ouço o som do
alarme do carro sendo desativado à distância.

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Como um perfeito cavalheiro, ele abre a porta e


espera que eu me acomode no banco para, só então,
ir para o seu lugar.
— Você pode me deixar no metrô ou no ponto
final do ônibus, não tem problema. — Tento evitar
o percurso de mais de uma hora no carro com ele,
mas Eduardo simplesmente me ignora e pede que
eu diga o endereço para ele configurar o GPS.
Olho pela janela, aproveitando a brisa fresca da
noite, um alívio muito bem-vindo do calor infernal
que tem feito todos os dias. Estou contando os dias
para chegar logo uma frente fria e varrer o sol para
longe desta cidade, por umas semanas que seja.
Calor só serve para ir à praia ou ficar trancada no
ar-condicionado, qualquer atividade ao ar livre vira
uma tortura sem fim e o mau humor reina absoluto.
As ruas estão quase vazias devido à hora
avançada, poucos carros estão passando e menos

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pessoas ainda podem ser vistas. Que sonho seria se


o trânsito fosse assim o tempo todo. E o pior é que
não tem para onde fugir. Não aceito a ideia de vir
trabalhar de carro e ficar presa em um
engarrafamento infinito, só ia me fazer passar raiva.
De metrô ou ônibus pelo menos eu vou sentada e
dormindo. Se não fosse tão perigoso, seria perfeito
sair do trabalho depois que o horário do rush já
passou.
— Existe algum motivo para você estar fugindo
de mim nos últimos tempos, Juliana? — Eduardo
pergunta após alguns minutos de silêncio, no exato
momento em que começo a chutar os saltos para
fora dos meus pés doloridos. Abro a boca para
responder, mas ele completa: — Além dos boatos
de que estamos dormindo juntos — resmunga essa
última parte, quase em um rosnado de frustração.
Paro e penso por um minuto, e não consigo

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encontrar nenhum motivo. Evito, o máximo que


posso, ficar sozinha por muito tempo com ele
porque, querendo ou não, me importo com o que as
pessoas vão pensar. Comecei a trabalhar na
empresa há poucos meses e, por algum motivo
desconhecido, alguém achou que seria uma boa
ideia espalhar fofocas sobre a novata. Só que a
história fugiu de controle e agora todo mundo do
escritório acredita que é verdade. Eu ralei para
conseguir esse emprego e, subitamente, todo meu
esforço parece ter sido em vão, pois cada um dos
meus colegas de trabalho acredita que o único
motivo para eu estar onde estou é porque estou
dormindo com meu chefe.
Por isso, me esforço além do normal para
manter minha relação com Eduardo estritamente
profissional. Não ajuda em nada que ele seja um
homem ridiculamente bonito que mexe com os
hormônios de qualquer mulher, com aquela barba
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sempre por fazer e músculos não tão bem


escondidos por debaixo de ternos sempre muito
bem alinhados. E agora eu estou no carro dele tarde
da noite. Não muito profissional da minha parte.
— Sabe — ele diz quando não respondo —, o
trabalho de uma secretária executiva não é
exatamente o mesmo de uma secretária normal.
Tenho certeza de que você sabe disso. Seu
currículo era impressionante demais para qualquer
coisa diferente.
— Eu sei. — Suspiro, porque sei exatamente
onde ele está indo com isso, e Eduardo tem razão.
Nos meus empregos anteriores, sempre trabalhava
de forma muito próxima do executivo que
secretariava. São longas horas de trabalho e uma
relação de parceria e confiança precisa ser
estabelecida, isso não está em discussão.
Meu trabalho não se limita a atender telefones e

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anotar recados; toda a agenda, pessoal e


profissional, de Eduardo está em minhas mãos. É
minha responsabilidade decidir que problemas
devem ser levados a ele e resolver por conta própria
os demais. Muitas decisões organizacionais que
saem do seu escritório são feitas por mim, em seu
nome, porque seria impossível que ele conseguisse
fazer seu trabalho se tivesse que lidar com
pequenos problemas administrativos o tempo todo.
Preciso ser seu braço direito, do mesmo jeito que
era o braço direito de Luan no meu último
emprego, até o velho homem partir dessa para uma
melhor e eu me recusar a trabalhar com seu filho
quando ele assumiu a empresa.
— Você é uma ótima funcionária, mas isso não
vai funcionar se você insistir em se comportar
somente como só mais uma funcionária. — Ele faz
uma pausa. — Achei que você já estava começando
a deixar de lado toda essa bobagem que se espalhou
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pelo escritório e que nós estávamos começando a


ficar amigos. O que aconteceu?
Eu quero gritar. Posso sentir meu rosto
esquentar e agradeço por minha pele negra não
deixar que minhas fiquem completamente
vermelhas. O que aconteceu, meu querido chefe, é
que a idiota aqui começou a ter sonhos…
impróprios. Começou há algumas semanas. No
início, realmente não me importava com os boatos,
tudo que queria era fazer um bom trabalho e estava
plenamente satisfeita com o fato de Eduardo ser
uma pessoa ótima de se ter por perto e não um
daqueles chefes babacas.
Mas quando o homem dos olhos sedutores
começou a invadir meus sonhos, passou a ser
impossível passar o dia inteiro ao seu lado sem
ficar tentada a fazer os boatos serem verdade. Por
isso, me distanciei o máximo possível, dizendo para

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mim mesma que me comunicar por e-mail e post-


its era o suficiente para fazer o meu trabalho bem
feito.
— Não aconteceu nada. Tive alguns problemas
pessoais e acabei deixando isso afetar o meu
trabalho — minto.
Vejo-o me espiar de relance quando tira os olhos
da estrada por um segundo.
— Alguma coisa que eu possa ajudar? —
pergunta, e posso ouvir o interesse genuíno em sua
voz. Vou mentir para mim mesma e dizer que isso
não me derreteu nem um pouco.
— Está tudo bem. — A frase é interrompida por
um bocejo que escapa da minha garganta. —
Desculpe.
Um sorriso discreto brota em seu rosto.
— Descanse. Te acordo quando chegarmos.

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Sequer tenho tempo de pensar se é uma escolha


acertada dormir assim. Meus olhos se fecham e eu
praticamente desmaio no banco.

Uma mão me sacode com delicadeza,


arrastando-me de meu sono e, quando abro os
olhos, vejo que estou no carro de Eduardo, que está
estacionado em frente ao meu prédio. Espero que
eu não tenha babado, imagine a vergonha!
— Chegamos. — Ouço o barulho da porta sendo
destravada e me arrumo no banco.
Desajeitadamente, enfio os pés dentro dos sapatos
de novo. O que eu não daria por uma massagem?
— Obrigada pela carona — digo, passando a
mão no cabelo que tenho certeza ter virado um

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emaranhado de cachos pela forma desleixada com a


qual me apoiei na janela. Minha mãe sempre
brigava comigo, dizendo que não adiantava nada
me arrumar antes de sair se ia ficar toda
descabelada no momento em que entrasse no carro.
Preciso visitá-la. Acho que vou fazer isso este final
de semana. Tenho que colocar um lembrete no
calendário do celular. E um lembrete para lembrar
de olhar o lembrete.
— Não tem porteiro? — Eduardo não olha para
mim quando pergunta. Sua cabeça está estendida e
ele vasculha a entrada do prédio pelo vidro do
carro. Mais um não. Meu irmão tenta há anos fazer
eu me mudar daqui, dizendo que a segurança é
péssima e que eu posso bancar um lugar melhor.
Ele tem razão, eu posso sim bancar um lugar
melhor, mas a segurança não é péssima, é
simplesmente inexistente.

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Mas tenho um apego muito grande pelo


apartamento que foi de minha avó. Ela fez questão
de viver aqui até seus últimos dias de vida e me
recuso a vender o imóvel. Dona Aurora mesmo não
gostava muito do lugar, mas insistia que dali não
arredaria o pé. Era a última lembrança que tinha do
marido que havia partido anos antes, e ela queria
estar cercada por memórias de uma vida inteira.
Parece que estou seguindo o mesmo caminho.
Antes que me dê conta, Eduardo sai do carro e
abre a porta, oferecendo-me a mão. Aceito o apoio
e ele envolve meus dedos com os seus. Surpreendo-
me com a aspereza em seu toque. Quem diria que o
homem que fica enfurnado no escritório o dia
inteiro não tem mãos macias como algodão?
Pergunto-me de onde vêm os calos em sua palma.
Ele é filho do dono da empresa, criado em berço de
ouro, em que momento da vida Eduardo precisou
fazer qualquer coisa que justifique isso?
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Ele caminha comigo até a entrada do prédio, os


poucos metros entre o carro e o portão. Olha ao
redor pela rua pobremente iluminada e bem deserta
antes de se voltar para mim.
— Está entregue, inteira — diz, e não consigo
evitar o sorriso pela preocupação. — Você não
pode me culpar. — Eduardo se defende sem que eu
precise dizer nada. — Sou responsável por uma
empresa de segurança privada. Está no meu sangue.
— Ele dá os ombros, como se isso fosse explicação
o suficiente. E, bom, é mesmo.
Com a chave na mão, destranco o portão de
ferro pintado com uma camada de tinta verde que já
passou do prazo de validade há muito, muito
tempo. O barulho do metal é alto quando o abro e
dou um passo para dentro na direção do prédio.
— Obrigada mais uma vez.
Espero que diga que não foi trabalho nenhum,
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embora tenha sido, ou um simples “de nada” para


encerrar a conversa. Vejo você na quinta, Juliana.
Não se atrase. Você precisa se mudar para um lugar
melhor. Como é possível que você more tão longe
do trabalho e chegue na hora todos os dias? Eu sei,
eu sou maravilhosa mesmo.
Mas ele não diz nada disso. Ao invés, dá um
passo na minha direção, ficando a centímetros de
mim. Em cima destes saltos, a diferença de
tamanho não é tanta, mas, ainda assim, preciso
olhar para cima para alcançar seus olhos.
— Vou esperar você entrar. — Quando não
respondo nada nem me movo, ele abre um sorriso
que me dá vontade de dar um soco nessa cara linda.
— Boa noite, Juliana — diz, tomando minha mão e
levando até seus lábios, depositando um beijo em
meus dedos.
Tudo bem, príncipe galante.

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— Boa noite — sussurro em resposta, soltando a


mão e fechando o portão entre nós. Caminho em
direção à entrada no prédio, destravando a porta de
madeira, e não preciso olhar para trás para sentir o
olhar dele me seguindo pela grade.
Vou precisar de um banho frio.

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Capítulo 3

ROLO NA CAMA, EMBOLANDO-ME no


lençol desarrumado, e me espreguiço. Confiro o
relógio e vejo que passa das onze e não me lembro
a última vez que dormi até tão tarde. Meus dias se
resumem a pouco mais de quatro horas diárias de
sono, completadas com um cochilo desajeitado no
ônibus a caminho do trabalho. Bem elegante
sentada toda desengonçada no banco. Já aconteceu
de eu acordar com a cabeça apoiada no ombro de
um cara? Já aconteceu. Olha a vergonha.
Sento na cama e encaro o quarto pouco
decorado, a não ser por porta-retratos espalhados
por todos os lados com fotos que nem minhas são.
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Guilherme e essa mania de enfiar fotos na casa dos


outros, faz todo mundo da família um portfólio
ambulante dos seus trabalhos. Não que eu reclame,
melhor para mim, uma coisa a menos com o que
me preocupar. Mas preciso mesmo reformar este
lugar, nem que seja pintar a parede de outra cor ou
trocar as cortinas que são, literalmente, do tempo
da minha avó. E ela mesma nem sei quando foi que
comprou essas coisas.
Talvez eu compre algumas coisas em um site
qualquer. Ou talvez eu enrole outros três anos para
fazer isso. Parece que estou invadindo um espaço
que não é meu. Não quero mudar a casa da minha
avó, não posso interferir em suas memórias, mas
isso faz com que, apesar de morar aqui há tanto
tempo, eu não me sinta em casa.
Eu realmente preciso me mudar, não preciso?
Tenho muitas memórias deste apartamento, durante

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minha adolescência, era para cá que eu fugia


quando tinha algum problema. Minha relação com
meus pais sempre foi muito boa, mas ainda assim…
Foi minha avó que me ensinou muito do que eu sei
hoje, sobre a vida, sobre as pessoas, mas,
principalmente, sobre mim mesma.
Lembro-me bem quando cheguei aqui, após
terminar com meu primeiro namorado, o que por si
só já é um desastre na vida de qualquer adolescente
dramática — coisa que eu fui —, mas o motivo do
término deixou tudo pior.
Expulsando as memórias, apanho o celular. Não
sou museu para ficar visitando coisas antigas. Com
uma ligação rápida, contato a representante da rede
de hotéis e praticamente imploro por uma reunião.
A mulher está decidida a falar com Vinicius, e
somente ele, já que não admite tratar com ninguém
a não ser o nome por trás dos negócios. Mas assim

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que falo o nome de Eduardo, ela muda de ideia na


hora. Mal gasto alguns segundos tentando
convencê-la que ele é um Rodrigues Menezes
também e seu poder de decisão dentro da empresa é
exatamente o mesmo. Deixo de fora o detalhe de
que ele é quem trabalha de verdade naquele lugar e
Vinicius é um ridículo babaca que chega a hora que
quer, quando quer, e passa mais tempo dando em
cima das estagiárias do que fazendo qualquer coisa
para manter o negócio funcionando. Quando ela
liga o nome à pessoa, simplesmente aceita e desliga
rapidamente, e marco uma reunião para o dia
seguinte.
Abro a agenda de Eduardo e adiciono a reunião
no seu calendário, às dez da manhã seguinte. Digito
um e-mail rápido apenas para notificá-lo de que
esse problema foi resolvido e ponho o telefone de
lado, recusando-me a pensar no homem por um
segundo além do necessário. Hoje é meu dia de
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folga. Nada de olhos castanhos sedutores invadindo


meus pensamentos, nada de pensar na carona de
ontem, nada de ficar igual uma idiota lembrando do
beijo na minha mão como se fosse um exemplar do
século dezenove. Não, não. Hoje não.
Penso por um momento, tentando decidir o que
fazer com meu dia livre. Visualizo a pilha de
roupas para passar, uma outra pilha do mesmo
tamanho que precisa ser lavada. A casa precisa ser
limpa. Nem comida tem, embora eu adore cozinhar.
Não tenho tempo para isso normalmente. Vi uma
receita que quero testar, talvez hoje seja o dia. Vai
ter torta de limão para o jantar.
Mas depois. Agora não. Preguiça.
Decido, por fim, não fazer nada disso. Se eu
tivesse ido trabalhar, não poderia fazer nenhuma
dessas obrigações chatas que vêm com ser adulta.
Nunca vou me acostumar. Há muito tempo não

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consigo tirar o dia para me dedicar ao meu livro, e


é exatamente isso que vou fazer.
Puxo o computador para meu colo e desligo a
internet. Não quero nenhuma distração. O mundo
pode estar acabando hoje e eu não quero nem saber,
ai de quem se atrever a me interromper. Abro o
arquivo que foi mexido pela última vez há dias e
começo a reler o último capítulo escrito. Coloco os
fones de ouvido, estalo os dedos e começo a digitar.
Sou muito boa no meu trabalho, mas é aqui,
sentada na frente do computador, dando vida às
minhas histórias que vivo de verdade. A página em
branco é meu palco e eu estou pronta para brilhar.
Bem poética.
Vou usar essa frase no livro.

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Meu estômago roncando é a única coisa que me


faz sair do quarto. Isso e minha bexiga que está a
ponto de explodir. Aproveito a pausa para tomar
um banho e pego meu celular no caminho para o
banheiro.
Respondo às mensagens de Priscila perguntando
por que não apareci no trabalho hoje e digito um
texto rápido para minha mãe dizendo que vou
aparecer para almoçar no sábado. Estou prestes a
jogar o aparelho em cima do sofá quando noto um
e-mail esperando para ser lido.

Obrigado por resolver isso. Péssima ideia te dizer


para ficar em casa, Juliana, esse escritório não
funciona sem você. Espero que esteja
aproveitando seu dia de folga. Descanse que o dia
amanhã será puxado. Não se esqueça de trancar a
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porta, tente não morrer.

O conteúdo me faz rir, principalmente por vir


acompanhado da assinatura automática
extremamente formal de Eduardo. Esse homem não
faz muito sentido às vezes. E não era para eu estar
parada na porta do banheiro querendo colocar
sentido em nada, eu hein. Jogo o celular no sofá e
entro no banho.
Esqueço da vida debaixo do chuveiro e deixo a
água lavar meu cansaço embora. Volto para o
quarto depois do que parece uma eternidade e paro
na frente do espelho.
Na maior parte dos dias, não tenho tempo para
me preocupar demais com a minha aparência,
especialmente porque não tenho escolha nenhuma.
Maquiagem e roupas estão no piloto automático
para me adequar ao que o trabalho exige, salto alto
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que esmaga meu pé e roupa social que


sinceramente eu odeio, mas ocupa a maior parte do
meu guarda-roupa. Se pudesse escolher, não me
daria ao trabalho de sequer passar um rímel. Sinto-
me muito mais confortável com um tênis velho do
que em cima de um salto agulha que só faz doer
meus pés. Mas, acima de tudo, evito pensar em
como não me encaixo.
Tenho altos e baixos com o que vejo no espelho.
Na maior parte do tempo, não me importo com
minhas curvas em excesso, coxas grossas demais
para aquela maldita saia lápis que tenho que usar.
Para falar a verdade, até gosto. Gosto do que vejo,
me sinto bonita. Gostosa. E quero dar na cara das
nojentas que dizem que gorda não pode ser bonita.
Outro dia estava almoçado com Priscila e uma
mulher sei lá de que setor da empresa, que nunca
tinha visto e nunca vou nem ver de novo com a

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graça do universo, e a gente estava falando de uma


modelo plus size maravilhosa que ficou famosa por
posar de lingerie. A querida que não tinha nem sido
chamada na conversa disse que a gente não devia
chamar a mulher de gorda porque ela era muito
bonita para isso, que ela era no máximo cheinha.
Que gorda era feia e a mulher na foto, não.
Realmente não sei como chamar uma mulher de
noventa e nove quilos se não de gorda, e não
entendo porque isso tem que ser pejorativo.
Diferença nenhuma entre dizer que eu sou gorda e
que a Priscila é loira. É uma constatação, nada
mais. E definitivamente não define beleza. Agora
eu tenho que aguentar um negócio desses. Quase
bati na infeliz. Feia é ela com esse preconceito.
Por toda minha vida, ouvi esse discurso aqui e
ali, que eu sou tão bonita, por que não perder
alguns quilos? Mas se eu já sou bonita, para que
perder peso? O engraçado é que esse tipo de coisa
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sempre sai da boca de gente que “só quer seu bem”,


tão preocupados com sua aparência física que
esquecem de prestar atenção no dano emocional
causado pelas cobranças e expectativas nunca
alcançadas. Se eu estou bem comigo mesma, o que
os outros têm com isso?
A verdade é que há muito tempo aprendi a filtrar
esse tipo de coisa, entra por um ouvido e sai pelo
outro, nem me estresso mais. Faço cara de sonsa,
sorrio e aceno enquanto mentalmente planejo o
assassinato da pessoa que está falando. Bem
relaxante.
Mas todo mundo tem aqueles dias em que nada
parece certo. Gorda ou magra, alta ou baixa, toda
mulher se olha no espelho e quer dar uma chorada
às vezes. O cabelo não obedece, não importa o que
você faça, o volume dos cachos parece sair de
controle, não de um jeito sexy e poderoso, mas

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parecendo um leão fugido do zoológico prestes a


atacar um grupo de criancinhas indefesas. As
roupas parecem todas esquisitas e nada te faz sentir
bonita. Acontece. Tenho sorte de esses dias serem
poucos, já tive amigas que se afundaram e fizeram
loucuras em busca do corpo perfeito — coisa que
não existe, né? Essas coisas que a gente vê em
revista é tudo photoshop.
Mas mesmo me sentindo muito bem, obrigada,
tenho vontade de rir de nervoso me olhando no
espelho. De onde diabos tiraram a ideia de que eu
consegui meu emprego dormindo com o chefe?
Não é como se eu fosse uma modelo da Victoria’s
Secret ou alguma coisa do tipo. Que que Eduardo ia
querer comigo?
Isso facilita as coisas, na verdade. O fogo que
achei ter visto no olhar dele foi certamente só
impressão minha, a preocupação em me trazer em

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casa, o discurso sobre manter uma boa relação


pessoal, isso tudo é apenas para melhorar nossa
relação profissional. Nada mais. Eu estava bem
louca ontem achando que pudesse ser qualquer
outra coisa. E, de qualquer forma, eu tenho muito
com o que me preocupar nessa vida para perder
tempo com isso.
Meu livro não vai se escrever sozinho!

A taça de vinho já está pela metade e nada de eu


fazer a tal torta. Vai ficar para outro dia. Folheio o
livro em minhas mãos, aproveitando as últimas
horas do meu dia livre. Talvez eu devesse ter ido ao
cinema, almoçado com alguma amiga, mas acho
que precisava de um dia para me recentralizar. Sabe

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quando parece que as coisas estão saindo um pouco


do rumo e você precisa parar e respirar?
Foi o dia perfeito para isso, desconectada com o
mundo, só eu e os homens maravilhosos dos meus
livros, galãs perfeitos que nunca vão me
decepcionar. Meu Deus, minha vida amorosa
realmente está uma tragédia! Porcaria de Assistente
Legal do andar. Tão bonitinho, tão ridículo.
Eduardo tem razão, qualquer um que pense que eu
sou o tipo de pessoa que me venderia por um
emprego, não me conhece e não merece meu
tempo.
Ouço meu telefone tocar e resmungo de
preguiça de levantar do sofá. Quem liga para os
outros? Nem sabia que celulares faziam isso ainda.
— Você perdeu o babado. — A voz de Priscila
invade meu ouvido, assim, sem nem um boa noite.
Pergunto do que está falando, e ela continua. — A

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Fernanda foi toda se querendo para cima do Edu.


Aproveitou que você não estava lá para fazer uma
ceninha, se oferecer para ficar no seu lugar, toda
batendo cabelo.
Priscila fala isso com a voz debochada e eu rio.
— E você pode culpar a garota? — pergunto.
Não consigo engolir essa mulher, sempre de nariz
em pé e de grosseria com todo mundo, mas não tiro
a razão dela dessa vez. — Imagina o inferno que é
trabalhar para o Vinicius.
Priscila ri do outro lado da linha e começa a
contar seu dia, fala de um casamento que tem para
ir em algumas semanas, me pede ajuda com o
vestido e conta do novo contratado, assistente do
Renato, que por algum motivo começou a trabalhar
em plena quarta-feira, e não na segunda.
— Parece que seu chefe vai ter concorrência de
agora em diante — ela diz, rindo. —Aquele homem
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é o paraíso!
—Você realmente precisa parar de fazer o seu
tempo livre girar inteiro ao redor de homens —
provoco.
Priscila é uma mulher muito bem-sucedida,
independente, linda, inteligente e com um humor
que encanta qualquer um. E não está nem um
pouco interessada em um relacionamento. Minha
amiga está mais do que feliz em sair por aí, se
divertir e ao fim do dia não ter ninguém para quem
dar satisfação, e eu assino embaixo. Não nego que
eu mesma passei por essa fase na faculdade, e
como aproveitei a vida. A única coisa que não
concordo é que ela diz que se envolver com alguém
tira sua liberdade. Eu já disse um milhão de vezes
que estar em um relacionamento não te impede de
ser livre, a menos que você esteja com um homem
controlador e possessivo e, nesse caso, você não

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deveria estar com ele. Tivemos que concordar em


discordar.
— Olha quem está falando! Pelo menos meus
homens são reais — ela me cutuca e ignoro.
Priscila sempre diz que eu vou acabar afundando
em um dos livros que carrego e esquecer de viver a
vida real, mas mal ela sabe que são exatamente
esses livros que fazem minha imaginação ser tão
fértil para os bonitos de carne e osso. O que é uma
bênção e um maldição, principalmente quando o
nome de Eduardo insiste em brotar em minha
mente nos momentos mais inoportunos.
No fim do dia, escolho os homens dos meus
livros.
Pelo menos com eles não corro o risco de me
machucar de novo.

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Capítulo 4

QUANDO CRUZO AS PORTAS do escritório na


manhã de quinta-feira, me sinto descansada e
pronta para o dia que vem pela frente. Estou
adiantada e o andar ainda não está cheio, então
aproveito para conferir os e-mails que perdi ontem.
Para minha surpresa, quase não há pendências e
tudo parece em ordem, dentro do possível. Há
alguns post-its colados pela tela do meu
computador, algumas anotações feitas em uma letra
praticamente ilegível em um bloquinho ao lado do
telefone e uma pasta com contratos a serem
organizados, mas, fora isso, o caos não foi

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instaurado.
Quem quer que tenha ficado no meu lugar
ontem fez um trabalho bem aceitável. Começo a
pegar os bilhetes, um por um em uma ordem
aleatória, já que não sei o que é prioridade e o que
não é, e vou resolvendo os problemas.
Estou concentrada na tela do computador,
organizando a lista de clientes novos desse mês
como manda um dos bilhetinhos amarelos, e mal
noto que o escritório vai enchendo, pouco a pouco.
Tomo um susto quando uma mão toca o meu pulso,
delicadamente o envolvendo com dedos quentes.
— Nunca mais — Eduardo diz, encarando-me
com seriedade nos olhos —, você nunca mais vai
tirar folga.
Não consigo evitar soltar uma pequena
gargalhada diante da cara meio desesperada dele.
Respira, homem.
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— Lorena deve chegar às dez, o que significa


que nove e meia você precisa estar pronto — digo
quando ele começa a passar por mim e ir em
direção à sua sala.
— A representante do hotel? — Eduardo apoia
no batente e cruza os braços, em uma posição que
já está começando a ficar familiar para mim. Ele
franze o cenho enquanto espera a resposta.
Aceno em concordância e entrego a ele a pasta
com as informações sobre a cliente. Muito mais do
que apresentar oportunidade de negócios, alguns
clientes precisam se sentir importantes. O que
significa que meu trabalho inclui serviços
esporádicos de detetive particular para descobrir
como os bonitos gostam de ser tratados, como se eu
fosse uma babá de crianças ricas e mimadas. Seria
engraçado se não fosse trágico e deprimente. No
caso de Lorena, contudo, foi difícil encontrar

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alguma coisa na pesquisa rápida e telefonemas que


dei no ônibus a caminho daqui, parece ser uma
mulher muito discreta e extremamente profissional.
Eduardo vai ter que se virar para dobrá-la.
Faço uma careta quando penso que artifícios ele
vai usar para isso. Não que eu me importe. Eduardo
pega a pasta da minha mão e ergue uma
sobrancelha em minha direção, analisando-me com
uma atenção invasiva, os olhos apertados em minha
direção. Quando estou a ponto de perguntar se tem
alguma coisa suja no meu rosto, ele fala.
— Você tem planos para esse sábado? — Digo
que vou almoçar com meus pais e ele continua. —
Tem um evento que preciso comparecer à noite e
gostaria que me acompanhasse. Gostaria que você
estivesse lá. — Eduardo faz pausa e parece pensar
no que dizer a seguir. — É um evento da empresa.
Vão ter muitos clientes em potencial e não tem

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ninguém melhor do que você para me ajudar a


fechar contratos. — Ele dá um passo na minha
direção, apoiando-se na minha mesa. — Lembra
quando você conseguiu resolver aquele
probleminha com aquela casa de shows?
Solto uma risada ao lembrar do incidente.
Vinicius, sempre Vinicius, irritou o dono do lugar,
dando a entender que a estrutura do evento seria
pequena demais e ele não se daria ao trabalho de
despender esforço e mão de obra para atender suas
necessidades absurdas. Verdade seja dita, o homem
realmente estava pedindo um esquema de
segurança digno de um show de um astro de rock
sem a menor necessidade, mas o brutamontes não
teve o menor tato para lidar com o cliente
voluntarioso. Não sei nem para que ele se meteu na
conversa, esse tipo de negociação está tão abaixo
do cargo dele que não devia nem chegar aos seus
ouvidos. A pessoa não faz nada para ajudar e ainda
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atrapalha, é impressionante.
Foi com muita conversa, descontos e promessas
que consegui reverter a situação e fechar o contrato.
Talvez eu devesse ser promovida a CEO deste
lugar, pois claramente sei resolver os problemas.
Mas não tenho dúvidas que a próxima na linha
de promoções é Priscila. Ela tem trabalhado feito
louca nesses últimos meses.
— O luau beneficente? — Uma voz
desconhecida chama minha atenção e me viro para
dar de cara com um homem que não sei quem é.
Meus olhos batem primeiro em sua barba muito
bem-feita antes de chegar ao resto do seu rosto.
Tenho uma queda por barbas, não posso fazer nada,
é mais forte do que eu. — Renato me enviou aqui
exatamente para confirmar a sua presença, senhor
Rodrigues. — O homem se dirige a Eduardo, que
confirma.

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— Eu vou. Só preciso saber se Juliana vai me


acompanhar.
Os olhos do homem desconhecido caem, então,
sobre mim, e vejo quando ele descaradamente me
analisa de cima a baixo, pousando os olhos sobre
meu decote por um segundo a mais e abrindo um
sorriso bem safado ao alcançar meu rosto. Tudo
bom, querido?
— Rafael. — Ele estende mão e, quando a
alcanço, se inclina e beija delicadamente meus
dedos, em um gesto bem semelhante ao de Eduardo
ao me deixar em casa. A diferença é que o loiro
pisca para mim. — Eu vou estar lá acompanhando
Renato. Quem sabe a gente não se esbarra —
sussurra, e ouço Eduardo soltar um pigarro atrás de
mim. — Vou avisar que sua presença está
confirmada, senhor Rodrigues — ele diz antes de se
retirar, dando-me uma visão de suas costas largas

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como as de um praticante de natação.


Esse deve ser o funcionário novo que Priscila
falou ontem no telefone. Benzadeus, ela não estava
exagerando, ele é realmente muito bonito.
— Então você vai? — A voz de Eduardo não
está mais tão amigável quanto há um minuto e,
quando olho em sua direção, vejo sua expressão
fechada e seus olhos me analisando com cuidado.
Aceno com a cabeça, confirmando, e ele copia o
movimento. Em silêncio, Eduardo me encara por
alguns segundos mais, até que descruza os braços e
põe-se de pé.
— Peça para Lorena entrar quando ela chegar —
resmunga e, antes que eu possa virar em sua
direção, ele entra em sua sala, batendo a porta.
Olha a TPM.

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O telefone está atacado hoje. Eu já tinha ouvido


falar desse luau que vai acontecer no sábado, mas
não imaginava que minha presença fosse ser
requisitada. Para começo de conversa, que escolha
esquisita de evento. Onde já se viu um bando de
empresário importante se reunindo na praia para
assistir o pôr do sol? É verdade que é uma praia
particular de algum figurão e que a estrutura
provavelmente vai ser infinitamente mais luxuosa
do que qualquer uma das festas que eu ia durante a
faculdade. Mas quando eu penso em luau, só
consigo vislumbrar um bando de universitário
bêbado, tocando violão e pulando no mar de roupa,
ou sem.
Sei que o evento tem a intenção de arrecadar
fundos para alguma organização de caridade, mas
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não sei qual é, e nem sei como é que eles vão


arrumar o dinheiro. Vai ter show de algum artista e
eles estão cobrando a entrada? Um leilão? Vão só
pedir doações? E, mais importante, o que diabos eu
visto? Prioridades.
Estou perdida em meus pensamentos quando
ouço o som de saltos andando em minha direção e
levanto a cabeça para dar de cara com uma mulher
muito alta, muito magra, muito branca e muito
ruiva. Meu completo oposto envelopado em uma
saia lápis e blusa branca.
— Bom dia. — Um sorriso largo
surpreendentemente simpático está estampado em
seu rosto e eu já gosto dela. Qualquer um que esteja
com esse bom humor antes da hora do almoço
nasceu para ser minha melhor amiga. Sempre
implicaram comigo por estar cheia de energia logo
que acordo, não importando quantas horas eu

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dormi. A vida é muito curta para desperdiçar o dia


inteiro na cama, eu descanso quando morrer.
Enquanto estou aqui, vou mais é aproveitar cada
minuto. — Eu tenho um horário marcado com o
senhor Eduardo Rodrigues — a mulher anuncia,
com seus grandes olhos castanhos envolvidos em
uma maquiagem perfeitamente colocada. Preciso
aprender com ela, sempre borro meu delineador.
Ligo para Eduardo pela rede interna da empresa
e, quando ele diz que posso mandá-la entrar,
encaminho Lorena para o lugar certo. Já que ele vai
estar ocupado por algum tempo, aproveito para me
esticar, caminhando até a sala de Priscila com uma
pasta na mão, não só para o caso de ter que inventar
alguma desculpa para ir até lá, mas porque
realmente preciso que ela assine alguns papéis.
A mesa em frente ao escritório de Pri está vazia
e faço uma careta. Esse rapazote que contratou para

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trabalhar com ela não é lá muito competente, não


vai durar muito tempo. Entro sem bater, abrindo a
porta em um movimento brusco, tentando assustá-
la. Ela nem pisca. Droga.
— Não foi dessa vez ainda — resmunga, sem
tirar os olhos do que quer que esteja lendo, um
sorrisinho travesso estampando seu rosto. Reviro os
olhos e fecho a porta atrás de mim, andando
rapidamente até sua mesa.
— Me diz que você vai nesse tal luau —
imploro e ela bufa.
— Nem morta. Já arrumei um jeito de me
enviarem numa viagem para visitar um cliente em
Brasília esse fim de semana. — Ela finalmente
levanta os olhos para mim. — Esses eventos de
gente velha são sempre uma chatice. Pode escrever
o que estou falando, metade da noite você vai ouvi-
los reclamar da areia, na outra metade vão estar

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contando alguma história mirabolante de quando


eram jovens. Não sei de quem foi essa bendita ideia
— murmura a última parte e tenho que concordar.
Desde que comecei a trabalhar aqui, quatro
meses atrás, não fui a nenhum evento como esse.
Participei de reuniões e almoços, sempre com meu
bloquinho na mão, anotando tudo que era
necessário. Mas eventos sociais como o que vai
acontecer no fim de semana exigem uma dinâmica
completamente diferente e não sei se sei lidar com
isso. Vai ser um ambiente informal, a oportunidade
perfeita para colocar em prática o tal
relacionamento pessoal que Eduardo falou sobre.
Sempre levantei a bandeira de que um homem e
uma mulher podem ser amigos. Na verdade, por
toda minha adolescência, as pessoas mais próximas
de mim eram do sexo oposto; achava mais fácil de
lidar e estabelecer uma relação saudável sem toda a

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picuinha que envolve amizades femininas.


Demorei bastante tempo para entender que não
precisa existir rivalidade entre duas amigas, entre
duas mulheres quaisquer. Por muito tempo, minha
autoconfiança dependeu da aprovação alheia, e me
doía a alma ser a amiga gorda do grupo. Ir ao
shopping fazer compras com as outras meninas e
ver todas elas entrando em vestidos número trinta e
seis. Teve uma época, nos meus quinze anos, que
resolvi fazer algumas dietas loucas, e até emagreci
o suficiente para entrar em números menores, mas
minha saúde mental foi para o saco e comecei a
ficar doente, então prometi para mim mesma que
nunca mais me torturaria dessa forma.
Simplesmente não vale a pena se machucar para
agradar os outros quando no fundo você mesma
não tem nenhum problema com o que vê no
espelho. Vivo muito bem com meu tamanho
quarenta e oito hoje.
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Quando entendi que a minha felicidade não


dependia da aprovação de ninguém, consegui
aprender a apreciar amizades de verdade, de ambos
os sexos. Livrei-me dos amigos homens que
disseminavam discursos machistas e que, por muito
tempo, eu engoli por medo de ficar sozinha.
Aprendi a escolher minhas amigas e não me afastar
por serem mais bonitas e eu me sentir inferior perto
delas. Aprendi a me sentir bonita também.
Hoje, consigo ser completamente apaixonada
por Priscila e não deixar seus belos olhos — que
não consigo decidir se são castanhos ou verdes — e
seus fios loiros me intimidarem. Talvez não
devesse ser algo a se comemorar, mas para mim foi
um processo longo e difícil, e me orgulho de ter
deixado de ser uma pessoa invejosa e rancorosa.
O trabalho me consome tanto que mal tenho
tempo de manter contato com meus amigos da

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faculdade, mas ainda conversamos vez ou outra e


nos encontramos quando dá, para colocar o papo
em dia. Os únicos com quem ainda mantenho
contato próximo são Luana e Calebe, e estou
mesmo devendo uma ligação para esses dois. Vejo
Calebe com mais frequência porque ele também é
amigo de meu irmão, embora nunca vá entender
como pessoas tão diferentes podem ser tão
próximas.
Luana, por outro lado, vejo cada vez menos,
também por culpa do meu querido irmão. Eu sabia
que aquele namoro inconsequente dos dois acabaria
em maus lençóis. Até hoje não sei o que aconteceu,
e Guilherme jura de pé junto que não fez nada.
Luana se recusa a falar sobre isso também, então
fica difícil de escolher um lado. Por via das
dúvidas, não me meto até saber da história toda.
Pergunto-me se Eduardo se encaixaria em minha

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vida na posição de amigo assim como Calebe, se


essa relação realmente faz sentido fora do trabalho.
Não me sentir intimidada por outras mulheres não
significa ser imune à beleza, principalmente quando
se trata de uma beleza tão intrigante quanto a de
Eduardo.
— Conheci seu novo funcionário — digo à
Priscila, que enfim para o que está fazendo para me
dar atenção, com um brilho de excitação nos olhos.
— Você não estava exagerando — admito.
O novo contratado é alto, o que não é difícil
comparado com meus um e sessenta e três, a barba
bem cuidada realmente chama atenção. Confesso
que o encarei descaradamente, sim, quando ele
chegou na minha mesa. A verdade é que o homem
poderia facilmente posar para alguma das
campanhas publicitárias de Guilherme. Talvez o
indique para o meu irmão se ele precisar de um

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modelo alto, loiro e de belos olhos acinzentados.


Sua beleza é óbvia e inegável, daquelas que dez
entre dez mulheres concordariam em querer levar
para casa, simples e prática. Padrão. Quase
superficial.
Não consigo evitar compará-lo com Eduardo por
um segundo, o quão diferente meu chefe é, com
seus traços firmes e rústicos. Não possui uma
beleza tão comum e, ainda assim, parece virar a
cabeça de todas as mulheres aqui, inclusive a
minha. Estou parecendo uma adolescente no meio
desses homens, pelo amor de Deus. Eu não tinha
esse problema na última empresa que trabalhei,
será possível que todos os homens bonitos
resolveram se agrupar neste prédio alto na Rua da
Alfândega?
Ouço minha amiga dar um gritinho animado
como uma doida, e não como a mulher de trinta

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anos que ela é, e começar a falar em detalhes


explícitos o que gostaria de fazer com Rafael.
— Você ainda vai ser processada por assédio
sexual — brinco, mas nem tanto. Eu sei que
Priscila só fala e não vai nunca fazer nada, jamais
abusaria de seu poder para qualquer coisa, mas ela
pode acabar se metendo em enrascada se alguém
ouvir. — Preciso voltar para o trabalho, já enrolei
demais — digo, levantando-me, e de fato largo a
pasta na mesa dela. — Isso é para você assinar e
devolver para o Eduardo, por favor. Que foi? —
pergunto, quando a vejo levantar uma sobrancelha
para mim.
— Eduardo — ela repete em uma voz
debochada e eu bufo, virando as costas e saindo da
sala.

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Volto à minha mesa alguns minutos antes de a


porta da sala de Eduardo se abrir. Essa só pode ter
sido a reunião mais rápida da história da
humanidade. Das duas uma: ou a mulher foi
irredutível e não teve conversa, ou o poder de
persuasão dele é maravilhoso. Tento não pensar
muito na segunda possibilidade.
Pelo sorriso no rosto de ambos, presumo que foi
tudo bem no final.
— Fico feliz de termos conseguido resolver
tudo, Edu. — Edu? Mas já está com essa
intimidade toda, querida? — Tenho a impressão de
que esse é o começo de uma longa e muito
proveitosa parceria.
— Vou te acompanhar até o elevador —
Eduardo responde, sua mão sendo posta nas costas
da mulher enquanto se encaminham até o fim do
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corredor. Enfio a cabeça no computador e começo a


aleatoriamente preencher planilhas para não ficar
encarando a cena dos dois parados em frente ao
elevador, Lorena rindo alto de alguma coisa que
Eduardo diz.
Estou quase indo eu mesma buscar esse elevador
que não chega nunca. Ficou preso no andar de
baixo, foi? Não é possível. Depois de infinitos
minutos, Eduardo volta radiante, me pede para
preparar o contrato e enviar para Lorena o mais
rápido possível e vai em direção à sua sala,
sorrindo para mim no caminho. Ele nunca está
exatamente de mau humor, mas essa descontração
toda não é muito comum de ser vista. Ele fica ainda
mais bonito todo alegrinho desse jeito. Sacudo a
cabeça para me livrar desse pensamento.
Pego o celular e mando uma mensagem para
Luana e Calebe, perguntando se eles querem me

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encontrar para beber alguma coisa mais tarde. Sei


que é quinta-feira e eu devia ir direto para a cama,
como a velha de setenta anos que habita em mim
me implora para fazer, mas preciso fazer alguma
coisa fora do trabalho. Adoro este lugar, apesar das
fofocas desajustadas, a maioria das pessoas é
tranquila e é uma ótima empresa para se trabalhar.
Fiz alguns amigos, tenho um bom chefe, mas
preciso ter vida fora destas paredes. A única amiga
com quem tenho contato próximo é Priscila e os
únicos homens que me fazem suspirar trabalham
comigo — eu trabalho para um deles. Isso não
pode continuar assim.
Alguns minutos depois, eles respondem e
marcamos de ir para um bar perto de casa. Não
moramos tão longe uns dos outros, o que só
aumenta a vergonha que é não nos vermos com
mais frequência.

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Mergulho no trabalho, decidida a não ficar nem


um segundo depois do horário e não me atrasar
para encontrar com os dois. Em poucas horas,
elimino boa parte da pilha de papéis em minha
mesa e me livro de todos os post-its colados no
meu computador. Pagamentos feitos, contratos
escaneados, problemas redirecionados para outras
pessoas. Olho o relógio e vejo que passa um pouco
das cinco. Imprimo o contrato redigido e levanto da
cadeira, indo em direção à sala de Eduardo.
Bato antes de entrar e espero ouvir sua voz, que
vem abafada por trás da porta. Sentado em sua
mesa, ele está concentrado, analisando uma pilha
de papel. Não sabia que usava óculos, fica bem em
seu rosto. Ele indica com a mão que eu me
aproxime e fecho a porta atrás de mim, e meio que
me arrependo na mesma hora. A sala não é
pequena, não é como se eu estivesse me sentindo
claustrofóbica perto dele, ou que eu esteja
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consumindo todo o ar do ambiente, nem qualquer


uma dessas coisas que leio nos romances que
acontece com a mocinha quando ela está em um
lugar fechado com o cara por quem está
desesperadamente atraída. Até porque não estou
desesperadamente atraída por ele.
Mas, mesmo assim, me pego engolindo seco
quando ando em sua direção, os poucos passos
entre a entrada e a mesa, e entrego a pasta em suas
mãos. Eduardo pega, abre e assina sem nem ler, e
ergo a sobrancelha para ele, sem conseguir
esconder minha expressão de surpresa. Suspira, tira
os óculos e esfrega os olhos antes de me encarar
com firmeza, prendendo-me com seus olhos
castanhos claros.
— Achei que tivéssemos nos entendido na
conversa que tivemos no carro — diz e, como não
tenho muita certeza sobre o que ele está falando,

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não respondo nada. — Você precisa ser meu braço


direito. Eu entendo que isso não vá acontecer da
noite para o dia, mas eu tenho que confiar em você
de olhos fechados — ele explica. — Eu posso
confiar em você, Juliana?
A forma como meu nome é dito por sua voz
meio rouca faz coisas esquisitas com meu corpo e
eu preciso respirar fundo antes de responder.
— É claro que pode. — Ele acena com a cabeça,
parecendo satisfeito, mas sem sorrir. Eduardo me
analisa, seus olhos deixam os meus e lentamente
percorrem meu corpo.
Subitamente, fico muito consciente do vestido
que estou usando, pouco acima do joelho. Ouvi
algumas — muitas — vezes que não deveria usar
roupas que moldassem meu corpo porque minhas
coxas são grossas demais e não permitem uma
silhueta elegante; que eu deveria apostar em roupas

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mais largas para disfarçar as medidas grandes.


Tirando os dias ruins, em que as crises de baixa
autoestima atacam, eu ignoro esses comentários e
visto o que bem entendo. Hoje é um desses dias em
que o vestido azul que estou usando molda minha
silhueta quase a vácuo. Fico me perguntando se
Eduardo concorda com isso e se seu olhar é
julgador.
— Você confia em mim? — Perco a respiração
com seu tom profundo. Minha mente viaja e
imagino todas as coisas que ele poderia fazer
comigo se eu disser que sim. Vejo fogo em seus
olhos castanhos, sinto uma nota de insinuação em
sua voz. Você confia em mim? Ele se levanta e
contorna a mesa, permaneço parada onde estou,
observando seu movimento. Eduardo para, de
frente para mim, e se apoia no tampo de madeira,
cruzando os braços, olhando-me atentamente,
esperando uma resposta. Ele inclina a cabeça para o
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lado e eu lambo meus lábios secos. — Você confia


em mim? — pergunta mais uma vez.
Aceno com a cabeça em resposta, e sugo o ar
pela boca quando desencosta da mesa e dá um
passo em minha direção. Eduardo está perto.
Respira, Juliana. Para de surtar. Ele estende a mão
e tira um fio de cabelo do meu rosto, roçando o
dedo na minha bochecha no processo. Muito perto.
— Quero que você confie em mim — diz e
posso sentir seu hálito quente. Muito, muito perto.
— Sei como esses primeiros meses foram difíceis
para você por causa das fofocas, sei o quanto
valoriza seu trabalho, o quanto se esforçou para
chegar até aqui.
Perto demais. Sua mão ainda está em meu rosto
e ele suavemente acaricia minha bochecha.
— Você merece o seu cargo, te escolhi
pessoalmente entre todos os candidatos porque
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sabia que seria competente, não porque achei que


fosse ganhar alguma coisa com isso. E você não me
decepcionou nem por um segundo.
Eduardo dá um passo em minha direção,
fazendo com que alguns centímetros me separem
dele, e para de mover os dedos, apenas segura meu
rosto com sua palma, seu polegar debaixo do meu
queixo forçando-me a não desviar do seu olhar.
Não quero desviar.
— Quero que você fique à vontade perto de
mim, que não tenha medo.
Seus olhos brilham e eu estou tentada a dar um
passo, só um passo em sua direção, esse pequeno
passinho que vai acabar com a distância entre nós
dois. Seus lábios se movem e tudo que consigo
pensar é em como eles se moveriam sobre a minha
pele.
— Eu não vou nunca te pressionar nem coagir a
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nada. Não vou tentar fazer você ser a secretária que


dorme com o patrão. Não vou, nunca, te pôr nessa
posição, Juliana. Nunca. Eu te prometo que nossa
relação nunca vai ultrapassar essa linha.
Se ele tivesse me dado um soco na boca do
estômago, não teria perdido o ar como perco agora.
Dou um passo para trás, escapando do seu toque
delicado, das suas palavras doces com um claro
significado oculto.
Eu te prometo que nossa relação nunca vai
ultrapassar essa linha.
Ele me olha com as sobrancelhas franzidas,
confuso com meu recuo repentino. Sinto-me tão
idiota. Quando foi que eu virei essa menininha que
fica fantasiando com o chefe gostoso?
— Juliana? — ele chama meu nome, mas não se
aproxima. Parece receoso.
Nunca vai ultrapassar essa linha.
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— Você está bem? — Era só o que me faltava,


ele estar com medo de ter ferido meus sentimentos.
Nunca.
— Estou. — Pigarreio. — Obrigada. Fico feliz
em saber que nossa relação profissional está
garantida e eu não preciso me preocupar com nada
— digo, enfatizando a palavra, tentando manter o
veneno fora da minha voz, mas não sei se consigo.
O vinco em sua testa aumenta e quero me bater. E
bater nele também.
— Nossa relação pessoal também… certo? —
Claro. Aquela história de sermos amigos. Eu nunca
achei que fosse chegar a um ponto da minha vida
em que precisaria ter meu chefe me chamando para
conversar e explicar que nunca vai dormir comigo.
A que ponto chegamos, Juliana, a que ponto
chegamos…
— Vejo você no evento no sábado — digo,
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despedindo-me, querendo dar esse assunto


embaraçoso por encerrado.
— Você não vem trabalhar amanhã? —
pergunta.
— Venho, mas você vai estar fora o dia inteiro.
— Ele me olha confuso. — A supervisão mensal
dos funcionários.
Ele parece se lembrar do compromisso e eu
aproveito a deixa para me despedir. Não fico para
ver mais nada, saio da sala, pego minha bolsa e
parto para o elevador. Solto um longo suspiro
quando aperto o botão do térreo e a porta começa a
se fechar. Antes de ser confinada completamente na
caixa de metal, uma mão para a porta, abrindo-a
novamente, e vejo Rafael entrar, sorrindo ao me
ver.
— Você vai no luau? — ele pergunta após um
segundo, como se estivesse falando de uma festa
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entre amigos e não o compromisso profissional


mais esquisito do ano. Confirmo com a cabeça. —
Legal, eu vou estar lá. Vai ser ótimo te encontrar
fora do escritório. Te pago uma bebida — Seu
sorriso é brilhante e largo, genuíno. Leve.
O elevador rapidamente chega ao térreo e nos
despedimos, vejo-o ajustando a bolsa a tiracolo
antes de sair pelas portas principais. Simples.
Descomplicado. Permitido. Vai ser ótimo encontrar
fora do escritório, sim.
Talvez seja exatamente isso que eu preciso
agora.

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Capítulo 5

— ATRASADA COMO SEMPRE!


É a primeira coisa que ouço do meu irmão
quando ele abre a porta da casa dos nossos pais na
tarde de sábado, liberando espaço para eu entrar.
Uma baita injustiça, porque nunca me atraso, e
odeio, simplesmente odeio, ter que ficar esperando
alguém. Se marcar comigo em algum horário, é
melhor estar lá na hora certa; se atrasar e não
avisar, é melhor que esteja morrendo. Mas, como
ninguém me disse que horas eu tinha que estar
aqui, tecnicamente não tem como eu estar atrasada.
Hora do almoço vai de meio-dia às quatro da tarde

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nos finais de semana, todo mundo sabe disso.


Passo por ele e coloco no chão, em um canto
escondido do lado do sofá, as coisas que carrego
comigo. O cheiro de comida inunda o ar e meu
estômago ronca, nem com fome eu estou, mas esse
cheirinho de frango assado é irresistível. Aquele
cheiro de comida da casa de mãe. Será que mamãe
fez purê também? Ignoro meu irmão e vou até a
cozinha, cruzando um curto corredor de paredes
alaranjadas, onde encontro meu pai lavando
algumas panelas.
— Você chegou — ele diz, sorridente ao me ver,
desligando a água e secando as mãos em um pano
de prato antes de me abraçar. — Estávamos te
esperando para almoçar. — É pouco mais de uma
da tarde, então não me sinto tão culpada assim, mas
reconheço que poderia ter chegado mais cedo.
Não sei nem porque demorei, não é como se eu

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tivesse perdido a hora. Acordei bem cedo, na


verdade, mal dormi. Um surto de inspiração me
atingiu e passei boa parte da noite trabalhando no
meu romance que ninguém sabe a respeito. Eu me
sinto uma agente dupla às vezes, secretária de dia,
escritora de noite. Tipo uma super-heroína,
destruindo os males do mundo com uma palavra de
cada vez. Ou aumentando os males do mundo.
Depende do ponto de vista.
Não sei nem por que não conto a ninguém, acho
que em parte é pela sensação de ter um segredo só
meu, um mundo inteiro que ninguém conhece. Uma
parte é só insegurança mesmo. Quem nunca?
A questão é que, quando fechei os olhos, o sol já
estava querendo raiar no céu, mas acordei sozinha
duas horas depois, já que meus sonhos foram
invadidos, de novo, por um belo par de olhos
castanhos bem enxeridos e eu estava acesa demais

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para conseguir dormir.


Acesa e irritada.
Foi tão estranho ontem no escritório sem
Eduardo lá, era como se o clima fosse outro. Ao
mesmo tempo em que as coisas pareciam mais
relaxadas sem a sua presença marcante,
especialmente porque eu não tive que passar o
tempo todo me preocupando em como me
comportar depois da conversinha linda de quinta-
feira, o dia pareceu um pouco mais… sem graça,
sei lá.
Rafael parou na minha mesa para confirmar se
me veria hoje e conversamos por longos minutos,
emendamos em uma pausa para o café e
caminhamos juntos até o metrô no fim do dia. A
conversa fluiu fácil e descontraída, e sua
companhia foi bem agradável. Pergunto-me se ele
ainda não ouviu as fofocas ou se não se importa.

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Não vou saber se não perguntar, e não tem a menor


chance de eu fazer isso.
O encontro com Luana e Calebe na noite de
quinta-feira foi um tanto estranho. Foi ótimo ver
minha amiga depois de tanto tempo, mas é
engraçado, de um jeito bem trágico, o quanto a
gente muda com o passar dos anos e nem percebe.
Éramos tão grudadas na época da faculdade, e por
alguns anos depois disso, mas agora é como se
fôssemos duas completas estranhas sem nada em
comum. Passamos a maior parte do tempo
inventando assunto para manter uma conversa meio
constrangedora que ninguém sabia como terminar,
intercalada com longos períodos de silêncio. Bem
agradável mesmo.
Conversamos amenidades, atualizamos uma à
outra sobre nossas vidas, mas nenhuma conversa
profunda, nenhuma alma foi dissecada na mesa,

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nenhum coração foi aberto. Nada significativo que


justificasse eu ter me forçado a ficar na rua quando
meu coração de velha queria ir para o conforto do
meu lar.
Calebe andou comigo até em casa e trocamos
algumas confidências — ele falou mais uma vez da
mulher com quem está enrolado pelo que parece
uma eternidade, eu falei sobre qualquer coisa que
não fosse o homem irritante de terno—, com a
mesma facilidade que fazíamos na faculdade. As
coisas sempre foram mais simples com ele e, apesar
de não ser alguém com quem fale todos os dias,
sempre que conversamos parece que o tempo não
passou.
Amizades assim até fazem bem, às vezes a gente
só está precisando sair e distrair a cabeça, mas
também é bom ter aquela pessoa com quem você
pode sempre contar e confiar, e muitas vezes sinto

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que não tenho ninguém assim.


Quando Guilherme entra na cozinha e me
abraça, pedindo desculpas pela confusão que me
meteu com a mulher com quem estava saindo e
prometendo que não vai acontecer de novo — coisa
que eu obviamente não acredito porque não sou tão
tonta assim —, percebo que tenho, sim, alguém que
sempre vai estar aqui para mim. Mesmo me
metendo em furadas.
Deixo meus dois homens cuidando das louças e
vou atrás da minha mãe em seu quarto para avisar
que já cheguei. Entro sem bater na porta e me jogo
na cama enquanto ela termina de colocar o seu
brinco. A mulher, que é uma cópia exata minha —
na verdade eu sou uma cópia exata dela —, me olha
pelo espelho na porta do armário e me
cumprimenta com um sorriso.
— Como estão as coisas? — pergunta, passando

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para a outra orelha. Começo a aleatoriamente


relatar coisas sobre o escritório, contando algumas
fofocas e falando muito pouco sobre o trabalho em
si. Ela pergunta por Priscila e me diz para convidá-
la para almoçar semana que vem.
Dona Vanessa desembesta a falar sobre uma
prima que começou a namorar uma garota da
escola dela e do ataque que minha tia deu por causa
disso, e eu reviro os olhos com toda força que há
em mim. Deixa a menina beijar quem ela quiser.
Com certeza está mais feliz do que eu no momento
com o total de zero perspectivas de beijos em um
futuro próximo. Ou talvez tenha, se o oferecido do
Rafael aparecer no evento de hoje e eu conseguir
uma folga do trabalho.
— Falando em trabalho, não vou poder ficar o
dia inteiro. — Percebo que ninguém estava falando
de trabalho e minha mente que vagou para um

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caminho completamente sem sentido depois que


falo isso e minha mãe faz uma careta sem entender
nada. Agora já foi. — Tenho que acompanhar meu
chefe em um evento hoje à noite, preciso estar lá às
oito.
O que significa que provavelmente vou ter que
sair daqui lá pelas seis e meia para chegar a tempo.
Desvantagens de morar no fim do mundo, longe
das áreas badaladas da cidade. Sempre morri de
inveja daquele pessoal que podia sair de casa meia
hora antes de aula, nunca consegui chegar a tempo
de nada se não saísse pelo menos com uma hora e
meia de antecedência. Ainda bem que trouxe o
vestido que vou usar para cá, porque aí posso ficar
mais tempo. Senão teria que almoçar e voltar
correndo para casa para me arrumar.
Já estou cansada só de pensar.
— Ele vai te pagar hora extra? — ela pergunta,

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colocando a mão na cintura, e preciso dar uma


risada.
— Provavelmente — respondo, sem nem saber.
Ela parece satisfeita o suficiente com a resposta
e concorda com a cabeça, acenando com a mão
para eu levantar da cama.
— Vamos. Se a comida esfriar seu pai vai ficar
três horas falando no meu ouvido. E vem me
mostrar o que você vai vestir que eu te conheço e
com certeza escolheu uma coisa muito nada a ver.
Reviro os olhos, mas não consigo evitar o
sorriso quando vamos para a sala.
Mães.

Sentamos todos à mesa como há muito tempo


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não fazíamos. Tento visitar meus pais sempre que


posso, mas raramente dá certo de marcar um dia em
que eu e meu irmão estamos livres, já que a maior
parte do trabalho que Guilherme faz acaba sendo
nos finais de semana.
Guilherme nos inunda com as histórias sobre o
seu trabalho e todo o tipo de gente que encontra no
caminho e conta como está animado para começar
a trabalhar com Hanna, a nova namorada de um dos
seus amigos. Pelo visto tem uma grande história de
amor por trás desse relacionamento, meu irmão não
sabe dizer todos os detalhes sobre isso, mas solta
alguma coisa sobre ela ter fugido para Londres para
tentar esquecê-lo. Grande drama.
Queria eu ter dinheiro para ir para Londres para
fugir dos meus problemas, mas como não tenho,
fico por aqui mesmo enfrentando o trânsito caótico
do Rio de Janeiro, minhas contas para pagar e a

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necessidade ridícula de destruir meus pés todos os


dias. Adicionado à lista, agora tenho que tentar
conseguir trabalhar sem derreter toda com a voz
grossa de Eduardo, e sem querer esconder minha
cabeça no chão de vergonha depois do que
aconteceu. Daria tudo para ser um avestruz agora.
Voz grossa que eu vou ter que aguentar a noite
inteira, em uma festa, fora do escritório e bem
longe da minha zona de conforto. Que ótimo.
Começo a me perguntar se a roupa que eu trouxe
foi a melhor escolha. Não porque não acho que vou
ficar magnífica naquele vestido, mas talvez não
seja a escolha mais apropriada para um evento
formal. Mas o quão formal pode ser alguma coisa
na praia?
Devia ter ligado para ele ontem, perguntando o
que vestir. Mas estava tão envergonhada com a
conversa que tivemos — com o monólogo dele

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explicando que nunca, nunca, nunca vai para a


cama comigo — que não tive coragem. Dei foi
graças aos céus de Eduardo ter ficado o dia inteiro
fora do escritório e eu ter tido mais um dia para
colocar minha melhor cara de sonsa e fingir que
nada aconteceu.
Agora é esperar pelo melhor.
Ou pior.
Depende do humor sádico do universo.

Olho-me no espelho e gosto bastante do que


vejo. Decidi não prender o cabelo completamente,
apenas joguei para o lado os cachos que vão até
pouco abaixo do meu peito, e que resolveram me
obedecer hoje e não se comportar como o demônio

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da Tasmânia com dor de dente. O vestido é branco,


contrastando com minha pele negra, e tampa meus
braços até o pulso em uma renda delicada, mas mal
me cobre as pernas, terminando um pouco acima do
joelho. Não sei o que fazer com meu sapato. Não
posso ir de salto, mas não posso ir de chinelo.
Estou a ponto de me render e mandar uma
mensagem para Eduardo e, quando pego meu
celular, ele imediatamente começa a tocar, o rosto
do dito cujo estampado na tela.
— Ei. — A voz dele invade meus ouvidos assim
que atendo, nem preciso dizer alô. O som está meio
distante, mas ainda posso entendê-lo. — Você está
pronta? Estou quase na sua casa.
— Na minha casa? O que você está indo fazer
na minha casa? — pergunto.
— Te buscar — diz simplesmente, como se
fosse a informação mais óbvia do mundo. — Não

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me diga que esqueceu o evento?


— Não, não esqueci — esclareço. — E já estou
pronta, mas não achei que você fosse me buscar.
Nem em casa eu estou.
— Claro que eu vou te buscar, é o mínimo que
posso fazer por te fazer perder sua noite de sábado.
Me dê o endereço de onde você está para eu
colocar no GPS.
—Você está no telefone enquanto dirige? —
pergunto, sinceramente preocupada. E surpresa pela
irresponsabilidade. Senhor perfeitinho fazendo
besteira, finalmente. Ele explica que está no viva-
voz. — Não importa, é perigoso. — Uma risada
incrédula sai do telefone e talvez eu queira dar um
tapa em Eduardo.
— Prometo que não estou negligenciando minha
segurança — diz. Outra promessa, esse homem
adora uma promessa. Eu até agora não gostei de
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nenhuma das que ele fez. — Quanto mais rápido


você disser o endereço, mais rápido eu desligo o
telefone. — Murmuro o nome da rua. — Ótimo,
estou perto, chego em quinze minutos.
Decido colocar o salto e carregar um par de
rasteirinhas comigo, qualquer coisa largo no carro.
Confiro a maquiagem pela última vez e encaro meu
reflexo por alguns minutos antes de sair do quarto.
Meus pais e Guilherme estão na sala, assistindo
a uma luta na televisão, gritando com os lutadores
como se pudessem ser ouvidos. Sorrio com a cena,
um pouco chateada por perder o programa, porque
sinto falta de passar mais tempo com eles.
— Olha ela! — Guilherme diz com um grito
exagerado, forçando um assobio que ele nunca
aprendeu a fazer e resulta em uma chuva de baba
pelo seu queixo. Reviro os olhos, sorrindo para a
criança de cinco anos que habita o seu corpo. Sento

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no sofá para terminar de arrumar o salto e, antes


que termine, ouço o som da campainha.
— Essa é a minha deixa — digo, levantando,
mas meu irmão é mais rápido que eu e voa até a
porta. Ah, não.
Guilherme abre a porta, convidando o Eduardo
para entrar e que, pela primeira vez desde que
comecei a trabalhar na empresa, não está vestindo
terno. A camisa social azul escura está enrolada nos
cotovelos e a barba está muito bem-feita. Com um
largo sorriso no rosto, ele cumprimenta todo mundo
antes de olhar em minha direção. Vejo seus olhos
arregalarem sutilmente e ele abre a boca, mas não
diz nada. Remexo-me no lugar, trocando o peso de
pé, tentando desvendar o seu olhar, como se tivesse
algum segredo oculto ali — mesmo eu sabendo que
não tem.
— Boa noite. — Meu pai é o primeiro a

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responder, olhando Eduardo de cima a baixo.


Minha mãe também imita o gesto, mas quando olha
para mim de novo está boquiaberta.
— É esse o seu chefe? — Tenho certeza que ela
tenta sussurrar, mas falha terrivelmente e eu só
quero morrer, principalmente quando se abana com
a mão. Guilherme, de pé atrás de Eduardo, faz um
sinal de joinha com os dedos, rapidamente
substituído por gestos obscenos com indicações do
que ele acha que vou fazer hoje à noite. Alguém me
tira daqui.
Ouço Eduardo comentar alguma coisa sobre um
dos lutadores que está caído no octógono e
rapidamente entra em uma conversa animada com
meu pai. Ah, não. Não mesmo.
— Vamos? — pergunto, cruzando a sala antes
que alguém diga ou faça mais alguma coisa. — Boa
noite, gente. — Dou um beijo nos meus pais e um

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tapa no braço do meu irmão.


— Juízo. — É o que sai da boca do meu irmão
quando estou prestes a abrir a porta. — Vejam lá o
que vão aprontar.
Desesperada para sair daquela cena de horror o
mais rápido possível, pego a mão de Eduardo e o
puxo porta a fora, caminhando rapidamente pelo
portão até chegar à calçada. Por que, Senhor, por
que família tem um poder nato de matar a gente de
constrangimento? Qual a necessidade disso?
Quantas vergonhas eu vou ter que passar na frente
desse homem? Olho de um lado para o outro, vejo
seu carro estacionado a alguns metros, e vou
naquela direção. E somente quando paro ao lado da
porta do passageiro que percebo que ainda estou
segurando sua mão.
Eduardo me olha com os olhos arregalados,
segurando o riso, provavelmente pensando que sou

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louca, e eu congelo, sendo incapaz de sequer soltar


o homem. Sinto seu polegar percorrer meu pulso e
isso não ajuda minha situação. Ele pega a chave do
carro com a outra mão e aperta o alarme,
destravando a porta. Dando um passo para frente,
ele se inclina e puxa a maçaneta.
— Tudo bem? — pergunta, olhando-me com
atenção com seus olhos semicerrados.
— Perfeitamente bem — minto descaradamente,
orgulhosa da minha interpretação digna de um
Oscar quando nem minha voz treme, e sorrio.
— Você está linda — ele diz, uma mão na porta,
a outra ainda segurando a minha. Um sorriso
travesso cruza seu rosto. — Vou ter que manter
aqueles velhos babões longe de você a noite toda
— brinca.
— Tenho certeza de que não vai ser um
problema — respondo, sorrindo de volta.
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Seu dedo percorre minha pele mais uma vez. Dá


para parar de encostar, querido? Não está me
ajudando aqui. Cadê o profissionalismo? Cadê os
limites? Eduardo abre a boca para falar alguma
coisa, mas ao invés disso, balança a cabeça e abre a
porta, apontando o banco com a mão livre,
convidando-me para entrar. Ele não solta a minha
mão até eu estar sentada.
Quando fecha a porta e cruza o carro para ir para
o lado do motorista, respiro fundo. O que é um erro
gigantesco, porque o carro está impregnado com
seu cheiro. Não consigo identificar o perfume, mas
sei que ele usa algum. Eduardo se senta e ajusta o
cinto, olhando-me.
— Pronta? — pergunta.
Não, quero responder. Ao invés disso, balanço a
cabeça e ele começa a dirigir.
Só espero que eu saia viva dessa noite.
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Capítulo 6

TUDO BEM, ESSA HISTÓRIA DE evento na


praia está começando a fazer mais sentido, não é só
uma ideia exótica de algum milionário excêntrico
— até é, mas tem algum cabimento. O projeto
social que está sendo apoiado é uma ONG que
oferece, entre outros serviços de apoio à educação,
atividades esportivas para crianças. Pelo que
entendi da conversa entre Eduardo e o organizador,
a ideia é implantar escolinhas em diversas
comunidades carentes, para tentar garantir que os
meninos e meninas tenham para onde ir ao invés de
ficar vagando pelas ruas depois da escola, sendo

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recrutados pelo tráfico, sem perspectiva de uma


vida melhor. Vôlei, futebol de areia e surfe são
alguns dos carros chefes na instituição e, por isso,
nada melhor do que trazer os futuros colaboradores
para o lugar onde a mágica acontece.
Meu problema com a escolha do sapato foi
resolvido quando, na entrada, uma mulher estava
distribuindo chinelos para todos que chegavam.
Amém. Por mim ficaria descalça.
Consigo ver algumas pessoas fazendo careta e
Priscila tinha razão: o número de reclamações que
ouvi sobre a areia é incontável. Esperavam o que da
praia? Cimento? Plumas? Paetês? Claro que tem
areia. Tenho certeza de que essas pessoas não estão
acostumadas a ambientes como este, nem com
festas com uma decoração simplória como esta, e
provavelmente vão fazer gordas doações ao projeto
só para saírem daqui mais cedo.

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Eduardo, para minha surpresa, limitou-se a


enrolar a barra da calça e enfiou os pés nos
chinelos, em momento nenhum resmungou sobre o
ambiente. Pelo contrário, parece perfeitamente
confortável, quase feliz, o que me espanta. Quem
diria que o senhor terno e gravata não se sentiria
perdido fora de um ambiente luxuoso?
—Edu. — Uma voz conhecida nos alcança e
vejo a mão de Lorena pousar em seu ombro,
sorrindo abertamente. Claro que ela tinha que estar
aqui. Não duvido que ele mesmo tenha convidado
depois daqueles sorrisinhos todos.
Os dois se cumprimentam com animação e eu
ponho meu melhor sorriso no rosto. Eduardo
pergunta se ela lembra de mim e, apesar da
simpatia na voz da mulher ao me cumprimentar,
está bastante claro que seu interesse está por inteiro
voltado para o meu chefe. A conversa animada se

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resume basicamente a ela falando e ele acenando,


sorridente, displicentemente tocando em minhas
costas todas as vezes que tenta me inserir no
discurso tagarela da mulher, mas Lorena
rapidamente exige para si toda a atenção dele.
Parece que estou sobrando aqui, não é mesmo?
Olho ao redor procurando algum rosto conhecido e,
quando não encontro, decido me dirigir até o bar
para pegar alguma coisa para beber. Eu que não
vou ficar aqui velando a conversinha dos dois. É
melhor eu já começar a pensar em outro jeito de
voltar para casa, porque certamente minha carona
já era. Tento ignorar a pontada incômoda que não
sei identificar e continuo andando.
Peço um drink qualquer ao barman, que
rapidamente me entrega um copo com um líquido
avermelhado. Não pergunto o conteúdo,
simplesmente levo-o à boca, tentando não olhar em

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direção aos dois que conversam cheios de toques.


Bom, vim aqui para trabalhar e é melhor fazer isso.
Começo a circular pelos pequenos grupos,
parando aqui e ali para ouvir a conversa e ver se
existe a possibilidade de apresentação. Entrego
alguns cartões e, em uma conversa muito animada e
proveitosa com um homem grisalho e bem
charmoso, consigo marcar uma reunião. Ele
procura um time para segurança particular de um
político que não conheço e garanto que podemos
ajudar. Não tenho nem certeza se oferecemos esse
tipo de serviço, mas combino com ele um horário
para segunda-feira de tarde. Estou fazendo minha
parte, o bonito que se vire com o resto. Aí já é
problema dele, Eduardo que faça seu trabalho
direito ao invés de ficar cheio de gracinhas para
qualquer ruiva que apareça na sala dele.
Talvez eu esteja um pouco irritada. Talvez.

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Viro a bebida que seguro, apoiando o copo sobre


o balcão.
— Ei, aí está você! — Rafael toca meu ombro.
— Uau, você está linda! — ele diz, sorrindo um
sorriso largo, escaneando meu corpo inteiro com os
olhos sem se dar ao trabalho de disfarçar. Eu me
sentiria ofendida se não fosse exatamente o que
preciso agora. — Fui abandonado — aponta para
Renato, seu chefe, conversando animadamente com
um homem, entre toques e risadas que dizem que já
se conhecem e não é de hoje —, quer dançar?
Esse homem é uma metralhadora de palavras,
diz tudo isso antes que eu tenha a chance de falar
nada e, sem esperar pela minha resposta, me arrasta
para a pista de dança. Seu braço vai ao redor da
minha cintura, embalando-me no ritmo da música.
— Qual é a sua história? — ele pergunta. —
Você não fala muito.

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Dou uma risada, é impossível evitar.


— Eu falo bastante, acredite em mim —
respondo. — Você é que consegue falar ainda mais
e não me deu a chance de dizer nada — provoco.
Ele solta uma risada envergonhada e leva a mão
aos lábios, fazendo um sinal de zíper em sua boca.
— Não tem muita coisa para contar sobre mim
— digo, e ele ergue a sobrancelha como se me
dissesse que não acredita.
Dou os ombros, nunca sei o que falar de mim. É
muito difícil isso de simplesmente fazer um
monólogo sobre a vida. O que ele quer saber? Onde
estudei, minha cor favorita? Que eu sou viciada em
programas de culinária e por mim viveria descalça
e com um coque no cabelo ao invés de toda
montada em maquiagem e salto alto?
— Por que você não começa me falando de
você, homem misterioso que começou a trabalhar
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no meio da semana?
A tática de distração parece funcionar, porque
ele ri e começa a tagarelar sobre como deu sorte
conseguindo esse emprego. Aparentemente, um
primo dele é cliente importante da empresa e o
recomendou para Renato, que resolveu dar uma
chance. Acho ótimo que isso ninguém questiona,
agora o meu emprego…
— Deixa eu ver. — Ele olha para o chão,
parecendo pensar. — Tenho vinte e quatro anos,
sou filho único, minha cor favorita é laranja e
prefiro gatos do que cachorros — ele diz como se
essa fosse toda a informação necessária para uma
boa convivência em sociedade.
— É isso, não podemos ser amigos — brinco, e
ele me olha com olhos divertidos. — Todo mundo
com um mínimo de bom senso sabe que cachorros
são seres infinitamente superiores.

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Sua gargalhada é contagiante e, por um segundo,


finjo que não ouvi quando ele disse que é um ano
mais novo que eu. Isso não importa. Depois dos
dezoito, idade é só um número, e não é exatamente
na maturidade dele que estou decidida a focar.
— Você é modelo? — A pergunta escapa da
minha boca antes que eu possa filtrar e
imediatamente quero chutar minha bunda.
Rafael aperta os olhos, encarando-me
profundamente.
— Você está querendo dizer que me acha
bonito, Juliana? — Posso reconhecer o tom sedutor
na sua voz, mesmo envolto pela brincadeira, e isso
me faz rir um tanto envergonhada pela bola fora,
mas não sinto um arrepio na espinha como
acontece na maioria das vezes em que Eduardo diz
meu nome dessa mesma forma. Ah, não, sai da
minha cabeça, homem. Some daqui. Reviro os

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olhos exageradamente para Rafael, tentando me


concentrar no acinzentado de suas íris ao invés de
pensar nos olhos castanhos claros do outro homem.
— Sou perfeitamente capaz de reconhecer um
homem bonito quando vejo um — respondo, e ele
sorri. — Meu irmão é fotógrafo, depois de um
tempo se tornou impossível para mim não sair por
aí analisando todo mundo. Uma análise puramente
profissional, é claro.
— É claro — ele concorda, olhando-me como se
agora partilhássemos um segredo.
Uma música acaba e outra começa, e finalmente
mergulho na conversa fácil e descontraída do
homem tagarela.
— Eu, você e um jantar amanhã. O que acha? —
Rafael me pergunta quando saímos da pista de
dança, andando em direção ao bar. Ele me para e
segura pelo pulso, dando um passo mais para perto
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e apoiando a mão em minha cintura. — Temos um


encontro?
Se o desempenho desse homem for tão grande
quanto a autoconfiança, minha resposta é sim.
— Não acho que seria uma boa ideia ir a
encontros com alguém do trabalho — respondo ao
invés, e realmente quero dizer isso. Já basta o que
já rola de fofoca naquele escritório, não preciso de
mais nada atormentando minha vida. Ele parece
pensar por um segundo, e estala os dedos,
dramaticamente anunciando que teve uma ideia.
— Almoço na segunda, então — ele decide
resoluto. — Você vai precisar comer, eu vou
precisar comer, nada nos impede de comer no
mesmo lugar ao mesmo tempo.
A simplicidade do seu plano é contagiante e me
pego concordando com a cabeça. Rafael sorri em
resposta e vejo quando ele dá um passo em minha
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direção, mas, antes que consiga me alcançar, sinto


uma mão espalmada tocando abaixo das minhas
costas.
— Vou precisar roubar a Juliana de volta. — E
aí está o maldito arrepio na espinha. Mas que
droga, por que meu corpo não pode reagir desse
jeito por Rafael, que é alguém que, claramente,
quer meu corpo nu? Mas não, a vida não seria tão
fácil assim.
E aí o outro tem que aparecer logo para empatar
o que tenho certeza que seria um beijo. Tudo bem
que eu estou aqui a trabalho, mas poxa!
Rafael se inclina e deposita um beijo rápido em
minha bochecha e ouço um suspiro irritado vindo
de Eduardo atrás de mim. O que...?
— Até segunda — Rafael diz, piscando, antes
de se virar para Eduardo. — Senhor Rodrigues —
cumprimenta, acenando com a cabeça
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respeitosamente.
— Rafael — Eduardo rosna atrás de mim. Ele
não se move por um bom tempo depois do outro ter
saído, então eu viro em sua direção e Eduardo não
olha para mim. Certeza que não conseguiu
convencer a bonitinha a ir para casa com ele e
agora está nesse mau humor.
— Marquei uma reunião para você segunda à
tarde. — Demoram alguns segundos até que seu
olhar caia em minha direção. — Um cara quer
conversar contigo, não entendi direito o que ele
quer, isso aí já é com você — digo, em um tom de
brincadeira e um sorriso muito discreto desponta do
canto da sua boca, mas seus olhos ainda parecem
irritados.
— Você me arrumou um cliente em uma festa
— ele constata. — Sabia que tinha feito uma ótima
escolha ao te contratar.

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Sorrio com o elogio, mas não sei bem o que


responder a isso. É claro que foi uma boa escolha,
eu sou ótima no meu trabalho. E não foi
exatamente para isso que me trouxe nesta festa,
para arrumar cliente para ele?
Eduardo me conduz de volta ao bar e sento em
uma banqueta, tomando cuidado para que meu
vestido não suba muito enquanto tento me arrumar
no lugar. Ele estende um braço para que eu me
apoie nele e vejo quando seus olhos caem para
minhas pernas, por um segundo somente, antes de
ele me perguntar:
— O que você bebe?
— Qualquer coisa que não seja cerveja. — Ele
acena com a cabeça e pede alguma coisa para o
barman, e acho que ele é a primeira pessoa no
mundo que não me questiona por não gostar
daquele troço amargo.

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— Acho que conheço seu irmão de algum lugar


— Eduardo diz, parado de pé ao meu lado, costas
contra o balcão, braços como sempre cruzados na
frente do peito. — Alguma chance de ele ter
fotografado alguma das nossas campanhas de
marketing?
Nego com a cabeça, esse não é o tipo de
trabalho que Guilherme faz. Talvez algum dos
outros fotógrafos da empresa onde ele trabalha,
mas não ele pessoalmente. As bebidas chegam e
Eduardo estica o copo para fazer um brinde.
— O que achou do cara novo? — pergunta um
segundo depois e dou os ombros.
— É o primeiro que parece não achar que eu
estou dormindo com você, então já é minha pessoa
favorita na empresa.
Eduardo dá um grande gole em sua bebida
enquanto me encara com seus olhos atentos.
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— Eu não acho que você está dormindo comigo


— ele diz com um olhar travesso e eu engasgo com
a bebida. — Ainda estou no páreo — brinca antes
de alcançar o celular no bolso da calça, que apita
alto.
A bebida desce queimando minha garganta
quando me dou conta que, se ele realmente quisesse
estar no páreo para alguma coisa, dificilmente
perderia.

Já é madrugada e a festa não dá qualquer sinal


de que vai acabar. Doações foram recolhidas
algumas horas atrás, arrumamos mais dois clientes
em potencial e, pelo resto da noite, Eduardo não
saiu de perto de mim. Ele me arrastou para cima e

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para baixo, conduzindo-me de um lado para o


outro.
— Estou pronto para ir —e diz ao meu ouvido e
eu gemo de satisfação. Graças aos céus.
Ele vira a bebida do copo em suas mãos em um
gole só e começamos a caminhar em direção ao
estacionamento. A brisa está fresca e agradeço por
meu vestido ter mangas. Estaria com frio se não
fosse o caso.
— Você está bem para dirigir? — pergunto
depois de entrarmos no carro e colocarmos o cinto
de segurança.
Contei cinco, talvez seis copos nas mãos dele
durante a noite? Eduardo me olha confuso por um
momento, sua mão na chave, prestes a ligar o carro.
— Aquilo era refrigerante — esclarece. — Eu
não bebo quando estou dirigindo, Juliana. E você
não deveria nem pensar em entrar no carro com
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alguém que você viu beber.


Ótimo, agora estou me sentindo uma criancinha
repreendida pelo pai. Mas ele tem razão, realmente
não deveria. É engraçado pensar nisso, mas sempre
tive que brigar com meus ex-namorados quando
insistiam em voltar para casa dirigindo depois de
uma festa, até de Guilherme preciso chamar a
atenção vez ou outra, mas é claro que Eduardo
tinha que ser o homem mais responsável da face da
Terra. Será que tem alguma coisa que esse homem
faça de errado? Ninguém é perfeito, então qual será
o esqueleto que ele guarda no armário? Algum
defeito cabeludo tem que estar escondido por detrás
do seu olhar misterioso.
Eduardo dá a partida e começa a dirigir,
rapidamente estamos em uma avenida principal,
indo em direção à minha casa.
— Obrigado por ter me acompanhado essa noite

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— diz, tirando os olhos da estrada por apenas um


segundo para olhar em minha direção. — Espero
não ter estragado seus planos para o fim de semana.
— Não tinha nada planejado — digo, embora os
capítulos não escritos do meu romance estejam me
xingando. Curioso isso de escrever um livro,
mesmo quando você não está diretamente
trabalhando na história, os personagens gritam na
sua mente o dia inteiro. Tudo é fonte de inspiração.
É uma bênção e uma tortura. — E não precisa
agradecer, você me paga muito bem para isso.
Tenho certeza que o tom de brincadeira fica
claro quando digo isso, mas vejo uma carranca se
formar imediatamente no rosto de Eduardo. Ele se
arruma no banco e ajeita sua postura, seu maxilar
enrijece, como se estivesse trincando os dentes.
Sem entender muito bem qual o problema no que
eu disse, decido mudar de assunto.

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— Lorena ficou feliz com o contrato? —


pergunto, lembrando do encontro com a mulher
logo que chegamos à festa. Bem cheio de
intimidades.
— Ficou. — Ele se limita a responder, ainda
bicudo. Mas eu hein.
Abro minha bolsa para pegar meu celular e solto
um grunhido de sofrimento. Eduardo me olha de
canto de olho e pergunta qual o problema.
— Esqueci minha chave na casa dos meus pais
— digo. Porcaria. — Será que você pode me levar
até lá? — peço, já me sentindo mal por abusar da
boa vontade.
— Claro que posso — ele diz. — Mas você tem
a chave de lá com você? — Nego com a cabeça.
Está tudo no mesmo chaveiro, que provavelmente
repousa tranquilamente na mesa na sala de estar. —
Juliana, são duas e meia da manhã — ele aponta o
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óbvio, e bufa. — Se eu bato na porta dos meus pais


a essa hora, é melhor eu estar morrendo.
Rio, porque é verdade. Duas décadas e meia de
vida e não importa, meus pais brigam comigo como
se eu tivesse cinco anos. Tenho certeza de que vou
ouvir reclamações sobre isso por muito, muito
tempo. Mas não tenho o que fazer, poderia ir para
casa de Guilherme, mas não estou com a chave
também, e posso colocar minha mão no fogo que
meu irmão não está lá e, se estiver, não está
sozinho. Não tenho escolha, penso e digo em voz
alta.
— Se você quiser… — Posso ouvir a hesitação
na voz de Eduardo, o que me faz tirar os olhos do
celular e virar em sua direção. Ele encara a rua
fixamente, sem nem desviar o olhar em minha
direção. Aperta o volante com força e mexe os
ombros. Fala, homem. — Você pode ir para minha

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casa.
Era melhor não ter falado.
Não, não, não, não. Não posso não. Não, não.
De jeito nenhum. Não.
— É bem mais perto e eu tenho um quarto
implorando para ser usado. Tem uma cama perfeita
para você.
Respiro fundo e sonoramente tentando não
desmaiar com todas as ideias que passam na minha
cabeça de uma vez só. Seu tom é divertido e sei que
ele só está tentando deixar a sugestão mais leve, e
tenho certeza que Eduardo se refere a um quarto de
hóspedes, mas não. Não vou me atrever nem a
considerar isso como uma opção.
— Você pode dormir lá e ir para a casa dos seus
pais pela manhã — ele diz.
Eu não respondo por um longo minuto, tentando
não deixar minha mente vagar para a imagem de
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Eduardo na cama. O que será que ele veste para


dormir? Ele usa alguma coisa? Por que eu gosto
tanto da ideia de estar prestes a descobrir?
— Olha… — Soa cansado, posso sentir pelo seu
tom de voz que esse assunto já deu o que tinha que
dar para ele. Eduardo passa a mão pelo cabelo —
Se você não quiser ir porque não está confortável
com a ideia, tudo bem. Mas por favor que não seja
porque está preocupada com o que as pessoas vão
pensar. Ninguém precisa saber e, mesmo que
soubesse, quem tem que achar que estamos
dormindo juntos, já acha.
Não tenho como questionar essa lógica, mas
percebo que isso sequer cruzou minha cabeça.
Minha preocupação no momento não é o que as
pessoas vão pensar, é o que eu vou pensar,
dormindo debaixo do mesmo teto que ele, no
quarto ao lado. E se eu tiver mais um daqueles

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sonhos, como faz? Acordo de madrugada toda


frustrada e esse homem no quarto do lado, faço o
quê? Já sei a resposta e de jeito nenhum que isso
vai acontecer.
— Vou te levar para a casa dos seus pais — ele
diz quando não respondo nada. Posso notar o tom
de chateação na sua voz.
Eduardo não diz mais nada e, quando paramos
em um sinal, toco seu braço, chamando sua atenção
para mim. Sinto os pelos grossos e sua pele quente
sob minha palma, e ele olha na direção da minha
mão antes de mirar em meu rosto. Suspiro.
O que eu estou prestes a fazer?
Isso parece estar fugindo do cenário profissional
com muita, muita rapidez, e tento me convencer
que significa que estamos ficamos amigos, somente
isso, nada mais que isso, quando agradeço a oferta
e digo que vou com ele.
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E eu achando que sair viva da festa seria o maior


desafio da noite.

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Capítulo 7

CENAS DE PESSOAS SE PEGANDO no


elevador são extremamente clichês por um motivo:
a vontade é real. É como se tudo nesta cabine de
metal pequena gritasse implorando para alguém ser
jogado na parede. Parece que demora uma
eternidade para chegarmos até o andar do
apartamento de Eduardo depois de deixarmos a
garagem e começarmos a subir. Os números
acendem, um a um, no painel acima da porta e eu
me forço a ficar olhando exatamente para lá e fingir
que não estou sentindo a presença dele tão
fortemente ao meu lado.

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Nunca fui dada a muitos devaneios. Minha


mente se perde muito facilmente, sim, enquanto
estou escrevendo. Transporto-me para lugares
novos, experimento sensações desconhecidas, vivo
vidas que não me pertencem.
No meu livro, sou uma mulher que encontra o
amor nos braços de um homem que a instiga, que a
desafia, que a faz questionar seus limites e bom
senso, em uma paixão avassaladora e desenfreada
que só falta botar fogo em tudo. Ali, naquelas
palavras, não sou eu, sou Nicole, uma escritora de
suspense que precisa desvendar o maior mistério de
todos: sua própria felicidade. Bem dramático sim.
Mas a vida real não poderia ser mais distante da
ficção que criei.
Nunca estive em busca de uma paixão
avassaladora que me tirasse o chão e destruísse
meu juízo, para ser honesta, morro de medo de isso

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acontecer, morro de medo de perder o controle


sobre minha sanidade e me importar tanto assim
com outra pessoa. Não sou puritana e sei admitir
quando estou atraída por um homem bonito, não
tenho problema nenhum em saciar minhas
vontades. Não tinha problema, porque agora minha
única vontade é apertar o botão de pare deste
elevador e pular no pescoço de Eduardo, e isso não
vai acontecer, nem nesta vida nem na próxima.
Tanto homem do mundo e eu quero me enroscar
logo com o que paga meu salário. Parece que
mergulhei em um daqueles romances de banca. Só
falta agora sermos obrigados a viajar juntos e em
uma noite fria e chuvosa descobrirmos o poder da
paixão, no maior estilo Julia. Ou era Sabrina?
Só que isso não vai acontecer, por dois motivos
bem simples. O primeiro, e mais óbvio de todos, é
que ele já deixou bem claro que não me quer,

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obrigada, de nada. Segundo, não estou nem um


pouco interessada em descobrir paixão
avassaladora de nada com ninguém. Tenho certeza
que esse fogo no rabo que eu estou sentindo é só
porque eu sei que não posso ter.
Uma noite com Eduardo e o interesse acabaria,
sem dúvidas, e tudo que restaria seria uma situação
extremamente constrangedora em ter que continuar
trabalhando com ele no dia seguinte. Não, não. Isso
não vai acontecer mesmo. Vamos trabalhar com o
plano de sermos amigos e tudo certo.
Sou perfeitamente capaz de ser amiga de um
homem que me faz tremer todinha toda vez que fala
meu nome. Sem problemas.
Agradeço mentalmente o barulhinho do elevador
quando chega ao andar certo e saímos os dois em
direção ao seu apartamento. A primeira coisa que
noto quando cruzo a porta é, bom, tudo. O

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apartamento é amplo, espaçoso, mas não há


ostentação desmedida entre essas paredes. As
mobílias são novas, modernas — ainda mais
quando comparadas com os itens de antiquário do
apartamento da minha avó —, mas simples, de
decoração discreta. Confortável, aconchegante. E
organizado. Muito diferente do que eu esperava do
apartamento de um homem solteiro.
— Desculpe a bagunça — ele diz, no que
acredito ser a frase obrigatória quando qualquer
pessoa chega na sua casa, mesmo que esteja tudo
impecavelmente organizado, como é o caso.
Coitado, se ele acha que isso aqui está bagunçado,
ele vai ter um troço quando ver meu apartamento.
Não que ele vá ver um dia. Força de expressão. —
Fique à vontade, já volto.
Eduardo some em um corredor, deixando-me
sozinha em sua sala de estar. Coloco a bolsa em

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cima do sofá e me aproximo da estante, onde vejo


alguns porta-retratos. Pego o primeiro, que tem a
foto dele, bem mais jovem, com um casal mais
velho que assumo ser seus pais. A mulher tem o
mesmo par de olhos castanhos refletidos em seu
rosto, e o mesmo sorriso — tímido, mas glorioso.
Ao seu lado, o homem apoia a mão em seu ombro,
segurando o que parece ser um diploma com o
nome de Eduardo estampado nele, orgulhoso.
Sorrindo, coloco a foto no lugar e passo o olho
pelos outros retratos contidos ali, algumas fotos em
grupo, outras fotos de Eduardo em viagens.
Minha atenção é atraída para uma pilha
organizada de livros, e percorro os olhos pelos
exemplares em busca de algum título conhecido.
Para minha surpresa, encontro um romance perdido
em meio a livros de mistério e ficção
contemporânea. Uma curva no tempo, da Dani
Atikins.
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— Confio em você para guardar o meu segredo


— diz ele, aproximando-se ao notar o livro de capa
verde em minhas mãos.
— Boa escolha — digo, devolvendo o exemplar
para a pilha. — É um ótimo livro.
— Gosto de histórias sobre possibilidades —
responde e fico curiosa sobre essa interpretação. —
Me pergunto o tempo todo o que seria da minha
vida se eu resolvesse ir para a esquerda, e não para
a direita. O que aconteceria se fizesse isso e não
aquilo. — Ele dá um passo na minha direção. —
Me pergunto qual versão da minha vida quero
viver, qual versão minha quero ser. Como a mais
simples das minhas escolhas pode ser determinante.
Pego-me dando um passo em sua direção, um
tanto quanto hipnotizada pelas palavras que saem
da sua boca. Muito mais do que um belo par de
olhos e lábios grossos, não há nada mais sedutor do

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que um homem que conhece seus livros. Ele ergue


uma mão e toca meu rosto, do mesmo jeito que fez
quando estava em sua sala, só que dessa vez diz:
— Me pergunto o que aconteceria se escolhesse
fazer alguma coisa mesmo sabendo que é uma
péssima ideia. — Eduardo desliza seu polegar pelo
meu lábio inferior e eu, sem pensar, beijo seu dedo,
o que faz com que ele me puxe em sua direção e
enlace minha cintura com o outro braço. Sem salto,
a diferença de altura é grande, e me vejo na ponta
dos pés, segurando seus braços firmemente com
minhas mãos, enquanto me prende contra seu
corpo.
Uma vozinha no fundo da minha mente grita
dizendo o tamanho da besteira que estou prestes a
fazer, mas ignoro quando o vejo descer a boca na
minha direção, e eu fecho os olhos, em expectativa.
Mas o beijo nunca vem.

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Um segundo antes dos seus lábios tocarem os


meus, solto um grito agudo quando sinto algo
afiado arranhar o meu tornozelo. Pulo para trás com
o susto, soltando-me de seus braços e dou de cara
com um gato sentado no chão me encarando com
seus olhos verdes.
Tinha que ser. Diga se um cachorro ia fazer um
negócio desses?
— Valentina! — Eduardo repreende o pequeno
animal que lambe a pata, alheio ao
descontentamento do seu dono.
Olho para ele sem conseguir segurar o riso.
— Valentina? — pergunto, o susto sendo
esquecido e a onda de desejo que tomou conta do
meu corpo, devidamente ignorada e enterrada.
Nada aconteceu.
Agora, isso lá é nome de gato? Eduardo pega a
gata em seu colo, aparentemente sem medo de sujar
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sua roupa com o pelo negro do bichinho, e dá os


ombros, sua boca se curvando em um sorriso
tímido.
— Está na moda, não está? Se fosse macho, ia
ser Enzo. — Ele dá os ombros novamente e meu
riso aumenta. Inacreditável. Dou um passo em sua
direção e estendo a mão para acariciar Valentina.
Ela se contorce nos braços de Eduardo,
acomodando-se contra seu peito e aceita meu
afago. Eu te entendo, Valentina, também estaria
confortável demais aí. — Sua perna está bem?
— Não foi nada demais — digo, já esquecendo
do pequeno arranhão que ganhei, que arde um
pouco, mas não é nenhuma tragédia. Foi mais o
susto que qualquer outra coisa. Providência divina
para me impedir de fazer besteira, amém.
Sinto o ronronar da gata, já quase adormecida,
sob minha mão, e Eduardo segue pelo corredor

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onde desapareceu antes, chamando-me para


acompanhá-lo. Só percebo que estamos em seu
quarto depois que cruzo o batente e vejo a grande
cama no centro do cômodo. Ele coloca Valentina
em um travesseiro, perto de uma vasilha de água e
uma de comida, que parecem ter sido trocadas
agora. Então foi isso que veio fazer quando me
deixou na sala.
— Sente-se, vou procurar alguma coisa para
limpar o arranhado. — Digo que não precisa, mas
ele já desapareceu.
Olho ao redor, tentando entender que tipo de
homem ele é pela decoração do seu quarto. A cama
está arrumada, mas sem todos os quarenta e cinco
travesseiros que as pessoas ricas dos filmes têm em
cima do lençol. Nunca entendi isso, imagina o
trabalho de ter que tirar e colocar aquilo todo dia?
Uma grossa cortina cobre sua janela e um

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guarda-roupa grande ocupa uma parede inteira.


Mais porta-retratos estão espalhados sobre uma
cômoda, e vejo alguns perfumes e cremes
organizados dentro de uma caixa. Não imaginei que
ele fosse o tipo de homem que se preocupava com
essas coisas. Interessante. A não ser que não sejam
dele…
—Você ainda está em pé. — Eduardo volta ao
quarto com uma caixinha na mão e aponta para a
cama. Sento na beirada do colchão, tentando não
pensar no fato de que eu estou na cama dele. Com
ele. — Me dê seu tornozelo.
Estico, desajeitadamente, a pena que foi atacada,
e posso ver três linhazinhas avermelhadas, nada
demais. Eduardo molha o algodão com o que
acredito ser álcool, porque arde minha pele quando
ele o encosta em mim.
— Ela é linda — digo, apontando para a gata. —

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De onde veio?
— Encontrei abandonada no estacionamento do
prédio há alguns meses, parecia que mal tinha
acabado de nascer — diz, enquanto limpa o
machucado com atenção. — Estava miando,
desesperada, perto da roda de um carro. Ainda bem
que eu a encontrei antes do dono do carro resolver
sair da garagem. — Concordo com a cabeça. —
Estava toda machucada. — Posso ouvir uma
pontada de dor na sua voz e ele vira para olhar para
o animalzinho que dorme pacificamente.
— As pessoas podem ser muito cruéis — digo, e
ele concorda com a cabeça. — Ela teve sorte de
encontrar você. — Ele sorri, voltando seu olhar
para mim. — Não sabia que gostava de gatos.
Ele dá os ombros.
— Acho que tem muita coisa que você não sabe
sobre mim — constata. — Nunca conversamos
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muito fora assuntos de trabalho — diz e tenho que


concordar.
Não tem motivo para eu saber muita coisa sobre
ele se for para ser sincera, apenas o suficiente para
nos darmos bem. Tudo bem que gostar de gatos não
é exatamente uma informação ultrassecreta, mas
ainda assim.
É fácil ficar babando por Eduardo como todas as
outras mulheres por ele ser só o chefe bonitão. Mas
quando você se aproxima de alguém e começa a
saber mais sobre a pessoa, é um caminho sem volta.
Confesso que tenho medo de descobrir o tipo de
homem que ele é. Sei que é decente o suficiente
para me chamar para conversar e garantir que não
vai me colocar em nenhuma situação
desconfortável, mas esse deveria ser o mínimo, não
deveria ser nenhuma surpresa.
Mas agora já sei que gosta de gatos, mais que
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isso, que se importa o suficiente para correr para


cuidar do bichano assim que chegou em casa. Que
se preocupa com a segurança alheia — não só por
causa do seu trabalho, porque ele não estava
exatamente tentando me convencer a contratar os
seus serviços quando perguntou sobre o porteiro do
meu prédio —, sei que é responsável, sei que tem
um senso de humor intrigante e inesperado. Sei que
é bom no que faz, que se importa com seus clientes.
Estou começando a conhecer o homem por trás
dos belos olhos castanhos e essa é uma péssima
ideia, especialmente porque estou começando a
gostar do que vejo.
— Me diz um defeito seu — peço, praticamente
implorando por qualquer coisa que faça com que
ele pareça uma pessoa normal e não um dos dez
homens mais bonitos da Turquia. Eduardo me olha
sem entender nada. — Você disse que não sei

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muita coisa sobre você, me diz um defeito seu.


— Deixe eu pensar em alguma coisa que não
possa ser usada contra mim na próxima reunião
com os diretores — diz, erguendo as duas
sobrancelhas como se falasse sério, mas já sei que
está brincando, então rio. — Meu nariz é torto —
brinca e eu reviro os olhos.
— O que foi isso, aliás? Quebrou?
Eduardo concorda com a cabeça.
— Eu levei um soco em uma aula de muay thai
quando era adolescente. — Arregalo os olhos. Mas
que baita soco que deve ter sido para fazer esse
estrago. — Isso me ensinou a não mexer mais com
Ayla.
Solto uma gargalhada da sua cara de desespero.
— É sério. Aquela garota era terrível. Melhor
judoca que já conheci, mas um temperamento… —
Ele balança a cabeça e o acompanho, mesmo sem
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ter ideia de quem está falando.


— Você fugiu da minha pergunta — insisto.
Ele realmente demora um pouco para responder,
como se precisasse pensar no assunto.
— Eu sou ciumento — diz, e eu sinto uma
vontade mista entre sorrir e fugir para as
montanhas.
— Ciumento do tipo “você não vai sair vestida
desse jeito, você não vai falar com ele” ou…
— Isso não é ciúmes, é posse, é diferente — diz.
— E não é nem um pouco saudável, ninguém
deveria ser assim.
Vou socar esse homem. Eu pedi um defeito e ele
me vem com esse discurso. Não está me ajudando.
Dá para dizer que tem um cadáver no guarda-
roupa? Ou que assaltou uma loja? Que tem um
passado negro e obscuro, alguma coisa assim?

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— Ciumento como, então?


Eduardo se arruma na cama, parecendo um
pouco desconfortável, e só então percebo que ainda
está segurando meu tornozelo, sua mão
casualmente percorrendo minha panturrilha
enquanto seus olhos estão fixos em mim. Tá bom,
então.
— Acho que inseguro é uma forma melhor de
explicar. — Ele se limita a dizer e dá os ombros. —
Não só em relacionamentos amorosos, acho que
sou um pouco assim com tudo. Como se tivesse
que reforçar meu valor a cada segundo, e trabalhar
mais do que todo mundo para justificar o que
tenho.
Espanto-me, e muito, com a facilidade com que
ele simplesmente fala isso, como se não fosse nada
demais admitir, como se estivesse falando que não
gosta de berinjela. É difícil conciliar o que acabou

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de dizer com a imagem do homem que anda para


cima e para baixo no escritório como se fosse dono
e senhor de si mesmo e do mundo todo, sem
esperar por aprovações, sem buscar por elogios,
distribuindo comandos enfáticos que nunca são
questionados.
Eduardo me olha, como se esperasse minha
resposta, aguardando com expectativa para saber o
que eu tenho a dizer sobre isso. Mas não tenho o
que dizer. Lidar com questões emocionais assim
nunca foi meu forte, e eu realmente estava
esperando que ele dissesse alguma coisa tipo
“deixo a louça acumular por três dias”.
— Estou escrevendo um livro. — Pego-me
confessando em resposta e ele me olha com
interesse. — Um romance. Há quase dois anos e
nunca termino.
A mudança de assunto parece funcionar, porque

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seus olhos, que momentaneamente pareciam


afogados em medos antigos, se voltam para mim,
curiosos. Seus dedos continuam passeando pela
minha pele, indo do meu pé até metade da minha
canela, e não acho que ele perceba o que está
fazendo e o quanto isso está me desconcentrando.
Nunca contei sobre o livro para ninguém e a
informação simplesmente pulou da minha boca
porque pelo visto um simples toque desse homem
me tira dos trilhos.
— Eu gostaria muito de ler — Eduardo diz. —
Sobre o que é?
— De jeito nenhum, ninguém nunca leu o que
eu escrevi — digo, rindo, antes de contar
brevemente o enredo. Ele me interrompe algumas
vezes para fazer perguntas e parece realmente
interessado na história, reagindo aos
acontecimentos conforme os relato, fornecendo

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uma versão cheia de spoilers.


A conversa flui fácil, serpenteando entre
assuntos diversos desencadeados por alguma coisa
que falei sobre o livro e, quando vejo, estou
prometendo ensiná-lo a fazer minha receita de
frango com mostarda e mel. O que me surpreende é
que nada nessa conversa parece superficial, em
nada se assemelha com aquelas conversas sociais
em que muito se fala e nada se diz. Eduardo é um
homem de poucas palavras, não por falar pouco,
mas simplesmente por não jogar conversa fora, e
cada coisa que ele diz é cheia de significados
intensos demais para o meu próprio bem.
— O que você está fazendo? — interrompo uma
história sobre um professor da faculdade quando o
vejo dobrar e desdobrar uma folha de papel que foi
usada para um desenho sem sentido alguns minutos
atrás quando ele não acreditou que eu sou incapaz

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de fazer até aqueles bonequinhos de palito.


Sou boa em muitas coisas nessa vida, mas
desenhar não é uma delas.
— Um avião de papel — ele responde sem tirar
os olhos da folha. — Termine a história, o que
aconteceu depois da prova?
— Por que você está fazendo um avião de
papel? — pergunto, a história agora já esquecida, e
ele olha para mim, estendendo-me o origami.
— Peguei essa mania com a minha mãe — diz.
— Ela costumava escrever alguma coisa dentro e
jogar em mim quando eu era mais novo.
Pego aviãozinho perfeitamente dobrado e o giro-
em minhas mãos, antes de perguntar o que ela
escrevia. Ele dá os ombros e me olha, com um
sorriso triste, arrumando-se na cama.
Eduardo senta com as costas apoiadas na
cabeceira, o braço tocando no meu.
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— É uma longa história. Acho que era a forma


dela de dizer que estava ali — fala, ignorando
minha pergunta. — Isso me lembra da vez em que
treinamos uma equipe em um aeroporto particular.
— Eduardo descaradamente muda de assunto e
começa a falar, fechando-se sobre o que quer que
esteja por trás disso. Tenho a impressão de que tem
muito mais por trás de um simples gesto, e estou
morrendo de vontade de perguntar, mas fica claro
que ele não está disposto a falar sobre isso.
Vejo o brilho alaranjado do sol nascente invadir
o quarto pela fresta da cortina e percebo que não vi
o tempo passar. As horas voaram e, quando espio o
relógio no pulso de Eduardo, vejo que passa das
sete da manhã e nenhum de nós dormiu ainda.
Qual foi a última vez que passei a noite
acordada com um homem, completamente vestida?
Acho que nunca. De alguma forma, o dia amanhece

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e estou sentada com as costas apoiadas na cabeceira


da cama, com Valentina dormindo enroscada no
travesseiro, e Eduardo está ao meu lado, deitado,
apoiado em seu braço, a barra da blusa levantada
pela posição desajeitada e eu até finjo estar
prestando atenção no que está falando, mas estou só
descaradamente encarando a parte exposta de seu
abdome definido.
Ele revira na cama, ajeitando-se, e levanta,
sentando de frente para mim. Seus olhos não me
deixam e sua mão percorre a renda da manga do
meu vestido.
— Quer comer alguma coisa? — Eduardo
pergunta, sorrindo para mim.
Um sorriso contido e tranquilo. Confortável.
Quase íntimo com o toque gentil da sua palma em
meu braço.
Quase digo que sim, mas minha mente
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voluntariosa vai, contra a minha vontade, de volta


para Lorena, os sorrisos escancarados e a facilidade
com que os dois mergulharam em uma conversa,
deixando-me de lado. Os toques fáceis e
despretensiosos. A lembrança de que, no segundo
em que eu pisar fora deste apartamento, eu volto a
ser a secretária. E que ele nunca, nunca, nunca vai
passar dos limites.
— É melhor eu ir embora — digo, livrando-me
do seu toque e levantando da cama, decidida a não
postergar o conto de fadas inexistente. Qualquer
que tenha sido a conexão que senti crescer nas
últimas horas, com certeza não passa de devaneios
e interpretações erradas da minha parte.
Amigos.
Somente.
Limites.
— Algum problema? — ele pergunta quando
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fico de pé. — Juliana? — E ali está, meu nome


sendo dito como um som afrodisíaco que sai de
seus lábios.
Para com isso, Eduardo! Me ajuda pelo menos
um pouquinho aqui.
— Já amanheceu — digo, tentando parecer
menos perdida do que me sinto. — Muito obrigada
por me convidar para vir para cá. — Começo a
andar em direção à porta do quarto, mas ele chega
lá antes de mim.
Eduardo põe-se de pé na minha frente,
bloqueando a passagem, olhando-me com olhos
confusos de quem não tem ideia das caraminholas
que passam na minha cabeça.
— O que aconteceu? — pergunta. Seus olhos
me percorrem, incertos, e ele estende a mão para
tocar meu braço, mas desiste no meio do caminho.
Devo estar parecendo uma louca. — Estava tudo
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bem, o que aconteceu?


— Nada. Só preciso ir para casa, tomar um
banho, pegar minhas chaves.
Ele me encara, tentando decifrar meu rosto,
tentando entender o que aconteceu quando nem eu
sei. Só preciso sair daqui o mais rápido possível
antes que me afunde no homem que existe por trás
dos belos olhos e em seus mistérios.
— Ju? — chama, mas eu me limito a passar por
ele e não olhar para trás.
Pego minha bolsa e saio pela porta, mal me
despedindo. Ouço sua voz chamando meu nome
uma última vez e só respiro quando estou no
elevador.
Quando chego à portaria do prédio e o calor da
manhã de domingo acerta meu rosto, puxo o
celular. Abro o aplicativo de mensagens e tento
decidir para quem escrever.
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Almoço mais tarde.

Digito e envio. Não é um convite, é uma


intimação.
Chamo um táxi e espero, andando de um lado
para o outro enquanto o carro não vem.
O que diabos eu estou fazendo me deixando
envolver por ele dessa forma, depois de prometer
para mim mesma que nunca me colocaria nesse
tipo de situação? Ainda mais quando não há a
menor chance de isso não ser puramente platônico.
O táxi chega e eu entro, batendo a porta no
instante em que vejo Eduardo cruzar as portas do
hall do prédio, e me olha enquanto o carro dá
partida e sai.
Respiro fundo e tento de acalmar, tento colocar

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ordem em minhas emoções confusas. Mas não


consigo, porque em minhas mãos o aviãozinho de
papel zomba de mim, dizendo-me ser tarde demais.

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Capítulo 8

MINHA SORTE É QUE MEU PAI acorda com


as galinhas, então quando chego para buscar a
chave, pouco depois das oito da manhã em pleno
domingo, ele já está de pé com sua caneca de café
na mão. A má notícia é que ele me olha com uma
interrogação gigantesca nos olhos e quer saber por
que estou usando a mesma roupa da noite passada e
onde eu estava se não fui para casa. “Passei a noite
conversando com meu chefe na cama dele”
certamente não está na lista de respostas aceitáveis.
— Foi tudo bem no tal evento ontem à noite? —
ele pergunta enquanto eu procuro pela chave nos

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buracos do sofá. — Aquele seu patrão é um moço


muito bem-apessoado.
Ele às vezes parece ter oitenta anos com esse
vocabulário, e não cinquenta e sete, e eu dou uma
risada. Bem-apessoado.
— Tudo certo sim, pai. Achei! — anuncio,
resgatando meu chaveiro, ignorando o comentário
sobre Eduardo. — Eu realmente preciso ir para casa
tomar um banho e dormir um pouco.
Dou um beijo em sua bochecha e ando em
direção à porta. Despeço-me e viro as costas para ir
embora, quando ouço sua voz.
— Você sempre teve a cabeça no lugar, Juliana
— ele diz. — Sei que eu e sua mãe te criamos bem,
para ter juízo. Veja lá o que está fazendo a essa
altura do campeonato. Se envolver com patrão
nunca dá certo, pode achar que ele gosta de você,
mas…
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— Eu não acho — interrompo. Em partes


porque realmente não quero falar sobre isso, mas
principalmente porque dói um pouco que seja tão
claro assim para todo mundo que Eduardo nunca se
interessaria por mim. — Na verdade, tenho certeza
que ele não gosta. Não precisa se preocupar, não
tem nada acontecendo — garanto, e posso ver que
ele respira aliviado. Entendo sua preocupação, é
claro, mas não quero lidar com isso.
Quando chego em casa, mal tranco a porta e vou
direto para debaixo do chuveiro. Parada sob a água
quente, tento fazer minha cabeça funcionar. Tento
colocar em ordem o que eu estou sentindo. Como
eu passei de nunca nem considerar chegar perto de
Eduardo para ficar fora de órbita quando estou
perto dele, assim, em pouco tempo?
Os primeiros meses que trabalhamos juntos
foram tranquilos. Distantes, mas tranquilos. Uma

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conversa aqui e ali, mas nada que me fizesse olhá-


lo com outros olhos além de uma admiração
completamente natural pelo homem atraente que
ele é. Sempre respeitei muito minhas relações
profissionais, e Eduardo não é o primeiro homem
bonito com quem trabalho.
Verdade seja dita, se colocar em escala
comparativa, ele nem é o mais bonito. Charmoso,
envolvente, sedutor, dono de uma beleza rústica
que é convidativa, sempre tão sério e respeitoso que
dá vontade de chegar mais perto só para ver até
onde essa seriedade vai… enfim. É provável que
ele não fosse convidado para posar na capa de uma
revista.
E, mesmo assim, como se um interruptor tivesse
sido ligado, eu não consigo mais ficar perto dele
sem ansiar por um toque acidental e despretensioso
a cada segundo.

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Tudo culpa desses sonhos malditos, que


colocaram ideias na minha cabeça. Como posso ir
até a sala Eduardo e simplesmente entregar um
contrato para ele assinar se na noite anterior tiver
sonhado com ele tomando os papéis da minha mão
e me jogando na sua mesa? É impossível prestar
atenção em qualquer coisa que fale sem tentar
imaginar a sensação dos seus lábios nos meus.
Ainda mais agora depois daquele desastre de quase
beijo interrompido pela gata. O que eu estava
pensando ao me jogar nele daquele jeito?
Meu pai tem razão. Eu sempre tive a cabeça no
lugar. Não era para eu estar me comportando assim,
feito um cachorro no cio. Preciso colocar a cabeça
em ordem antes que isso custe meu emprego.
Por agora, preciso dormir pelo menos algumas
horinhas antes de sair para almoçar.

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Faço questão de chegar cedo ao trabalho na


segunda de manhã. Praticamente abro o escritório
junto com o segurança, antes de todo mundo. Sento
na cadeira e imediatamente começo a trabalhar.
Não sou muito boa com essas histórias de resolução
de ano novo, nem começar a dieta na segunda,
sempre acabo desistindo dois dias depois.
Por isso, não faço disso uma resolução, coloco
metas: não vou deixar minhas questões pessoais
atrapalharem o meu trabalho. Sempre me esforcei
para ser a melhor profissional possível,
mergulhando em cursos e estudos, aprendendo tudo
que é possível aprender. Recuso-me a deixar um
homem me desestruturar a ponto de interferir com
o meu juízo. Cabeça no lugar, Juliana!
Quando o escritório começa a encher, já resolvi
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uma quantidade imensa de papelada, confirmei a


reunião para esta tarde e transferi para outros
setores problemas que não são meus. Estou
concentrada na tela do computador e dou um pulo
quando uma caixa é jogada na minha mesa.
— Sentiu minha falta? Seu final de semana foi
terrível sem mim? — Priscila, exibindo um novo
corte de cabelo, sorri para mim e aponta com a
cabeça para a caixa. Estico o pescoço, levanto a
tampa e vejo um emaranhado de lembrancinhas.
Com uma comemoração histérica, começo a
agradecer e exigir os detalhes da viagem, quando
vejo Eduardo sair do elevador e caminhar em
direção à sala dele, ou seja, na minha direção.
Arrumo-me na cadeira, tirando a caixa de cima da
mesa e respiro fundo, exibindo minha postura mais
profissional.
— Bom dia, Juliana — ele diz, olhando-me

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incerto, certamente ainda tentando entender por que


saí correndo da casa dele daquele jeito e ignorei as
quatrocentas milhões de ligações durante o dia.
Mentira, foram só três. Ele não está sorrindo, sua
expressão facial não está relaxada, pelo contrário.
Seu maxilar está trincado, a barba por fazer
adiciona uma seriedade em suas feições que
realmente não era necessária, porque só serve para
me instigar ainda mais. Seu olhar está fixo, preso
em mim, intenso.
— Bom dia, senhor Rodrigues — respondo e
posso ver o exato segundo em que sua expressão se
endurece ainda mais. — O senhor tem uma reunião
às duas, mas até lá sua agenda está limpa. Recebi o
contrato assinado de Lorena e ela gostaria de
marcar um horário. — Quero gritar ao dar essa
parte das notícias, mandar ele mesmo ligar para ela
e poupar o meu trabalho. — Tenho algumas
pendências que precisam ser avaliadas e alguns
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documentos a serem assinados. E o Renato enviou


um e-mail solicitando uma reunião com senhor no
fim do dia, mas posso tentar postergar isso se for da
sua preferência.
Falo tudo isso de uma vez só, sem parar para
respirar, jogando todas as informações em cima
dele de uma vez, que é para não ter nem tempo de
ele querer conversar nada com nada, e me
surpreendo comigo mesma por não gaguejar.
Eduardo simplesmente me encara e se limita a
balançar a cabeça negativamente, deixando
explícito em seu olhar exatamente o que acha desse
meu comportamento.
Bom, adivinhe só, você me paga para ter esse
comportamento, Eduardo!
— Priscila — ele a cumprimenta e segue direto
para sua sala, batendo a porta atrás de si, sem olhar
na minha direção de novo.

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Fecho os olhos e solto uma respiração profunda.


Quando os abro, Priscila está me encarando
boquiaberta.
— O que acabou de acontecer aqui?
Sorrio para ela com a cara mais sonsa que existe
em mim.
— Do que você está falando?
Priscila ergue uma sobrancelha para mim,
claramente não acreditando na minha cara de pau.
Nem eu acredito, não posso culpá-la.
— Senhor Rodrigues?
— Ele é meu patrão — respondo, voltando-me
para o computador e dando o assunto por
encerrado.
Mas Priscila obviamente não aceita meu
encerramento. Por que somos amigas mesmo?
— Na hora do almoço você vai me explicar

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direitinho que tensão toda é essa. Japonês. Eu pago


Já posso sentir o gosto de hot philadelphia na
minha boca quando lembro.
— Não posso — resmungo. — Combinei de
almoçar com Rafael.
E isso é o suficiente para fazer a boca de Priscila
cair aberta, e sei exatamente o que ela está
pensando: o que diabos aconteceu em dois dias?
Nem eu sei, Priscila. Nem eu sei.

— Pronta? — Rafael para na minha mesa, pouco


antes de uma da tarde, e saímos para almoçar.
Deixo que ele decida onde ir porque eu sou péssima
para escolher comida, por mim como hambúrguer o
tempo todo e depois imediatamente me arrependo.
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Paramos em um restaurante com buffet e, alguns


minutos depois, estamos sentados em uma mesa no
canto do lugar, de frente para uma grande janela
que dá de cara para a rua. O centro do Rio de
Janeiro é sempre movimentado por natureza, e
perto da hora do almoço todo mundo resolve sair na
rua ao mesmo tempo, fica parecendo um
formigueiro.
Gosto de observar as pessoas assim, sempre é
uma ótima fonte de inspiração. O que estão
fazendo? Para onde estão indo, o que está
acontecendo em suas vidas? Qual a história por trás
dos rostos cansados que andam pelas ruas? Que
pressa toda é essa que todo mundo sempre está? Dá
para escrever um livro para cada pessoa que passa
na minha frente.
— Como foi o resto do seu fim de semana? —
Rafael pergunta. — Eu tive que revirar aquela festa

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atrás de Renato, e não o encontrei. Fui para casa


tarde da noite e hoje ele ainda perguntou onde eu
tinha me metido — conta em meio a uma risada.
Sorrio também, contagiada pelo seu astral.
— Almocei com meu irmão ontem — conto, e
ele continua comendo enquanto espera eu falar
mais. — Fazia tempo que a gente não passava um
dia junto, só nós dois, foi bem legal. — Foi a deixa
que Rafael precisava para começar a contar
histórias sobre sua família e eu me vejo
mergulhando nas lembranças de ontem.
O coitado do Guilherme não entendeu nada
quando viu minha mensagem enviada às sete da
manhã de domingo, ficou desesperado e achou que
eu estava morrendo. Não estava, mas precisava
dele, não acho que ninguém mais poderia me ajudar
a colocar a cabeça em ordem. Não que meu querido
irmão tenha sido de muita ajuda. Ao invés de

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sairmos para algum lugar, pedi para ele ir até o meu


apartamento, fiz uma comida rápida e deixei a
louça para ele lavar. Nada mais justo.
Deixei Guilherme me encher com suas histórias
por algum tempo, para relaxar, mas por fim não
consegui mais enrolar e ele exigiu que eu contasse
o que estava acontecendo. E eu contei, igual fazia
quando éramos adolescentes. Era um pouco mais
difícil naquela época porque, apesar da diferença de
idade não ser tão grande, Guilherme era um
completo idiota quando mais novo — não que
esteja muito melhor, mas pelo menos agora tem
maturidade para escolher ser um babaca de
propósito, o que não ajuda em nada.
— Você dormiu com ele, não foi? — Foi a
primeira coisa que meu irmão perguntou e, quando
eu neguei, ele custou a acreditar, então não tive
escolha a não ser contar a história inteira, desde o

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começo, com todos os detalhes. E, quando acabei,


para minha surpresa o que Guilherme disse foi: —
Você sabe que ele está doido por você, né?
Agora vê se tem cabimento um negócio desses?
O homem insiste em ser meu amigo, diz na minha
cara que nunca vai dormir comigo, me larga para
ficar de conversinha com a Lorena, e essa é a
brilhante conclusão do meu irmão?
-- Mas o que importa mesmo é o que você sente
por ele. — Foi o que saiu da boca de Guilherme em
seu momento filósofo, em um tom cheio de
insinuação, e quase apanhou por isso.
Como assim o que eu sinto por ele? Não está
claro já? Por incrível que pareça, Guilherme é o
romântico da família, de um jeito completamente
distorcido. Ele acredita em amor à primeira vista,
acha que vai bater o olho em uma mulher e jurar a
sua devoção eterna, mas, enquanto isso não

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acontece, sai por aí dando em cima de tudo que se


mexe. Eu tenho vontade de bater nele muitas vezes.
Mas discordo, não acho que exista nada do tipo.
Amor é uma coisa muito séria, construída com o
tempo, com confiança, entrega, dedicação e
carinho. Demora. Tem que querer, não é um
acidente do destino.
O que acontece à primeira vista é tesão. Aí sim,
isso eu aceito, concordo e assino embaixo. O que
sinto por Eduardo é desejo, puro e simples. Meu
corpo reage a ele, quando me toca, quando fala meu
nome com aquela voz grossa, quando me olha com
aqueles olhos irritantemente profundos. Agora, não
tem o menor cabimento colocar em risco uma
relação profissional por causa de fogo.
— Mas se é só isso — Guilherme me perguntou
—, então por que você ficou tão desestabilizada
com essa história de querer ser amigo? Era para

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você se aproveitar disso. Amigos com benefícios é


o melhor negócio que existe.
Dispensei a ideia na hora, é claro. Imagina só a
confusão? Estou fora.
— Você está se enganando, Ju. Pode até ser
desejo, mas não é só isso não. Você está
começando a gostar dele e não está sabendo lidar.
— Foi a última coisa que Guilherme disse antes de
eu dar o assunto por encerrado e ele começar a falar
animado sobre um evento que vai fotografar em
uma semana, em outra cidade.
Desde ontem, estou tentando expulsar da minha
cabeça a vozinha que diz que Guilherme está certo.
Porque ele não está. O que é só mais um motivo
para eu precisar e muito desse almoço com Rafael,
alguma coisa que me tire de perto da aura sedutora
de Eduardo por um tempo.
Ouço enquanto Rafael continua tagarelando, e
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faço comentários breves aqui e ali para manter a


conversa girando. Não acredito em amor à primeira
vista, mas acredito em conexão. Algumas pessoas a
gente bate o olho e sabe que não vai rolar; outras, a
gente sabe de cara que é um achado e merece ficar
nas nossas vidas. O homem sentado na minha
frente é sem dúvidas a segunda opção. Mas
Eduardo também é, só que de formas tão diferentes
que não sei nem o que pensar.
A energia de Rafael é contagiante e exatamente
o tipo de pessoa que preciso por perto, por isso me
esforço muito mais para manter o foco no que ele
está falando e aproveitar a sua companhia.
— O que você fazia antes de vir trabalhar aqui?
— pergunto e ele fecha os olhos e enfia as mãos no
rosto, olhando-me por entre as frestas dos dedos. —
Tem uma história aí, não tem? — Ele confirma
com a cabeça.

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— Por favor, não conte para ninguém. Ninguém


naquela empresa vai me levar a sério se souber.
Agora sim estou curiosa. Concordo com a
cabeça e me apoio na mesa, olhando fixamente para
ele.
— Eu não estava conseguindo pagar a
faculdade, então comecei a arrumar uns bicos. E
arrumei um trabalho que pagava muito bem como
modelo…
— Eu sabia! — grito, gargalhando.
— … de cueca.
Minha boca cai aberta e não consigo nem falar
mais nada. Ele me encara ainda por entre os dedos
e eu tento manter a compostura, mas falho
miseravelmente e desisto.
— Vou precisar de fotos disso — digo,
erguendo as duas sobrancelhas, sem conseguir
deixar o sorriso longe do meu rosto, e Rafael sorri
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de volta. Ele me fita com olhos apertados em


resposta, mas não em tom de brincadeira como faço
e, finalmente, sua imagem posando de cueca me
atinge. Realmente vou precisar de fotos disso.
Olho o relógio e vejo que está na hora de voltar,
então pagamos tudo rapidamente e caminhamos
para o escritório, em meio a uma conversa animada
e descontraída.
Quando chegamos ao andar certo, paro em
minha mesa e Rafael se despede beijando meu
rosto antes de voltar para sua sala. Viro para sentar
em minha cadeira, e vejo Eduardo parado na porta
do seu escritório, encostado no batente, braços
cruzados, olhos queimando sobre mim. Sua
sobrancelha está franzida e seu semblante está
fechado enquanto me olha, e me pergunto o que há
de errado. Aponta com a cabeça para que eu vá até
ele e entra na sala. Pego a pasta com as

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informações para a reunião que vai começar em


alguns minutos e caminho até onde ele está.
No momento em que cruzo a porta, eu a fecho
atrás de mim e viro em sua direção para perguntar o
que aconteceu, por que ele está com aquela cara.
Deparo-me com Eduardo parado a poucos metros
de mim, braços cruzados e respiração pesada.
Estica a mão e eu entrego a pasta, que solta sobre a
mesa de vidro e eu ergo uma sobrancelha para ele,
apoiando as costas na porta.
— Você foi almoçar com o Rafael. — Não é
uma pergunta. Sua voz está baixa, mas não há
raiva, ele simplesmente está fazendo uma
afirmação. Uma constatação contrariada, posso ver
em seus olhos as palavras não ditas.
Seu silêncio grita sua frustração. Saí correndo da
casa dele feito uma louca. Não atendi o telefone.
Ignorei completamente sua existência o dia inteiro.

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Qualquer pessoa consideraria isso um sinal claro de


desinteresse, mas claro que Eduardo ignora todas as
regras de convívio em sociedade. Certeiramente,
para meu desespero.
Eduardo dá um passo em minha direção e posso
sentir sua respiração sobre mim, mas ele não
encosta. Inspiro profundamente e sinto meu corpo
todo arrepiar quando seu olhar cai para a minha
boca, e vejo quando engole seco.
Espero. Espero que diga alguma coisa, espero
que me beije, espero que ele acabe com essa
tortura.
— Vocês parecem estar se dando muito bem.
Ergo a cabeça em sua direção, arqueando a
sobrancelha desafiadoramente. Ah, não.
— O quê? Não vai perguntar se eu estou
dormindo com ele? — Solto uma risada seca e meu
corpo treme, e digo para mim mesma que é pela
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irritação que sinto e não pela proximidade. Eduardo


franze o cenho, claramente irritado, mas agora
também confuso. — Vai entrar no clubinho que
acha que eu abro as pernas para qualquer coisa que
se mexe nesse escritório para manter meu
emprego? — rosno.
— Isso sequer faz sentido, Juliana — diz e eu
bufo, sem querer dar o braço a torcer.
Sei que não faz sentido, mas não me importo.
Estou irritada, frustrada e agora com tesão, e essa
porcaria desse homem resolveu me interrogar
imprensada contra a parede e nem para me agarrar
de uma vez. Fica só me torturando desse jeito.
— A menos que tenha uma política na empresa
que proíba relacionamentos entre funcionários e eu
não estou sabendo, isso não é da sua conta —
murmuro com raiva.
Não sei nem porque estou sendo tão agressiva
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com ele. Acho que não gosto da forma como eu me


sinto tão sem controle neste momento. Eduardo
fecha os olhos e os aperta, e inclina um pouco mais
a cabeça, tocando sua testa na minha. Quando os
abre, o castanho de suas íris escorre sobre mim,
fazendo perguntas que não sei responder.
— Você é uma mulher adulta e solteira, Juliana,
pode fazer o que quiser — ele rosna.
Eduardo se aproxima um pouco mais e sua boca
paira sobre mim, em meu ouvido, sua respiração
quente contra minha pele, sua barba por fazer
arranhando meu pescoço. Ainda sem me tocar. Essa
proximidade torturante me desestabiliza de um jeito
que nem sei. Sem pensar no que estou fazendo,
levo minhas mãos aos seus braços, apoiando-me
nele.
— Eu preciso que você diga que não me quer.
Agora. — Seu tom é firme, como uma advertência,

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alertando-me sobre alguma coisa que não me


importo.
— O quê? — Ignoro o aviso em sua voz, em um
misto de sentimentos que me faz querer socá-lo. —
Você decidiu que nunca, nunca, nunca vai passar
dos limites, e agora voc...
— Merda.
Eduardo me aperta e imprensa contra a porta,
prendendo-me sob seu domínio, seus dedos
engancham no meu cabelo e solto um gemido de
satisfação quando ele, finalmente, toma minha boca
em um beijo profundo e exigente. Não há
delicadeza no ato, Eduardo dispensa gentilezas, e
me toma para si na intensidade em que necessita, e
eu me entrego, moldando seus lábios com os meus,
nossas línguas se encaixando em uma sintonia que
acompanha o desejo acumulado em meu corpo.
Escorrego as duas mãos para suas costas e ele
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respira fundo, puxando-me um pouco mais para


perto, colando meus seios ao seu peito, sem libertar
minha boca.
Uma palma percorre meu corpo, apertando
minha coxa por sob a saia que é empurrada para
cima, revelando uma faixa de pele antes escondida,
enquanto a outra me mantém presa a ele, enrolada
em meus cachos. Aperto-o, segurando-o com a
unha por cima do terno, e Eduardo responde,
pressionando-me, agarrando minha coxa, e arrasta a
palma até minha bunda, enganchando-me a ele.
Gemo contra sua boca enquanto percorro a unha
em seu pescoço, sem sequer me preocupar se posso
marcá-lo, e ele não parece se importar também,
porque de algum modo sua pegada fica ainda mais
forte.
O beijo parece durar uma eternidade, e parece
não durar tempo o suficiente, porque quando ele me

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solta, tão abruptamente quanto me agarrou, estou


ofegante e sem ar, e necessitada de mais. Seus
lábios estão avermelhados, manchados do meu
batom, e eu agradeço estar escorada contra a porta,
ou não tenho certeza se conseguiria ficar de pé. Sua
mão sai da minha bunda e sobe por minha cintura
até alcançar a curva do meu seio, o que me faz
correr os dedos por seu pescoço.
— Você tem alguma ideia de como é difícil não
te jogar nesse sofá toda vez que entra por essa
porta? Tem alguma ideia do quanto eu quero você?
Eduardo me olha e se inclina novamente na
minha direção, mas dessa vez alcança meu ouvido.
Sinto sua barba roçando na minha pele e sua boca
passando pelo meu lóbulo e inclino a cabeça, dando
acesso irrestrito ao meu pescoço. Ele suspira
pesadamente contra minha pele exposta, esfregando
os lábios por toda a extensão.

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— Juliana — sussurra diretamente no meu


ouvido e um arrepio percorre minha espinha,
fazendo-me estremecer em seus braços. Minhas
mãos apertam seus ombros, puxando-o para mais
perto e ele retribui, apertando meu quadril por um
segundo apenas antes de falar: — Me desculpe.
Meu corpo inteiro retesa e ele deve sentir,
porque afrouxa o braço que me circunda. Deixo
meus braços caírem, parando de tocá-lo e o único
contato restante entre nós são seus lábios na minha
orelha e suas mãos em meus braços.
— Eu não podia ter feito isso, não vai acontecer
de novo, eu prometo.
Ele se afasta, deixando-me de pé contra a
parede, o corpo ardendo de desejo, respiração
descompassada. Eduardo esfrega o rosto com as
mãos e vai em direção à sua mesa, apoiando-se no
tampo de madeira, de costas para mim. Seus

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ombros sobem e descem em uma respiração


pesada. Forço-me a desgrudar meu corpo da porta e
ficar firme em cima dos meus pés, arrumando
minha saia parcialmente levantada, olhando
incrédula para o homem na minha frente.
Que droga acabou de acontecer?
— Vou verificar se o seu cliente das duas já
chegou — digo, virando-me de costas para sair
daqui o mais rápido possível e ir para algum lugar
bem longe para processar o que foram os últimos
cinco minutos.
Quando abro a porta e estou prestes e sair da
sala, ouço sua voz ressoar, rouca e trêmula.
— Você devia ficar com ele. — Eu travo, de
costas para Eduardo, parada no batente.
Minha mão aperta a maçaneta e eu imploro
mentalmente que não diga o que acho que vai dizer.
— Rafael —diz. — Ele parece gostar de você.
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Você devia ficar com ele.

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Capítulo 9

EM UMA SINCRONIA PERFEITA, assim que


saio da sala de Eduardo, sentindo minha garganta
fechar por lágrimas não derramadas — em grande
parte de raiva —, o homem com quem falei na festa
chega para a reunião e, sem dar muito assunto, digo
que ele entre na sala. Não quero nem saber se
Eduardo está pronto ou não, isso é problema dele
agora. Muito profissional da minha parte sim. Não
tenho sangue de barata. E não tenho mesmo,
porque nem sangue barata tem. Têm umas
expressões que não fazem sentido.
Sento em frente ao computador e encaro a tela

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que se resume a um monte de informações que não


fazem o menor sentido no momento. Pelo visto
enfiei a meta de não deixar o homem atrapalhar
meu trabalho no lixo.
— Seu irmão é fotógrafo, não é? Será que ele
consegue vir para cá, tipo, agora? O Renato está
enlouquecendo com a campanha de marketing que
não ficou boa e precisa ser resolvida hoje. Você
pode ligar para ele?
Rafael aparece do nada em frente à minha mesa
e começa a falar sem parar, como sempre. Olho em
sua direção e tanta coisa se passa na minha cabeça
que não sei nem o que responder. Quero dar um
tapa nele. Quero dar um tapa em mim mesma, o
que provavelmente faz mais sentido. A voz de
Eduardo ecoa na minha cabeça. Quero dar um tapa
nele também.
O loiro franze a testa para mim e eu pego o

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celular, digitando uma mensagem rápida para


Guilherme, mesmo sabendo que ele já disse um
milhão de vezes que não pega esse tipo de trabalho.
Quando meu irmão me responde exatamente isso,
digo que fico devendo uma. Sei que vai aceitar,
Guilherme jamais vai perder a oportunidade de me
cobrar um favor. Não é lindo o amor fraternal?
Preciso de um copo d’água, minha garganta está
seca pelos gritos que eu nem dei. Caminho em
direção à área comum, indo direto para o
bebedouro, e estou tão distraída que esbarro em
uma mulher que está em pé ao lado da bancada. Ela
me olha feio e eu não posso nem a culpar, mas
também não posso fazer muita coisa.
— Está tudo bem? — Rafael pergunta e eu
balanço a cabeça devagar dizendo que sim
enquanto viro um copo de água gelada como se
fosse vodca. Trabalhamos com o que temos, não é

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mesmo?
— Guilherme está vindo — digo e ele respira
aliviado. Rafael agradece e continua parado ao meu
lado. — Onde você mora? — pergunto.
Ele encosta na parede e ergue as sobrancelhas.
— Laranjeiras — responde, olhando-me com
curiosidade.
Você devia ficar com o Rafael.
— Não é longe daqui — digo, e ele inclina a
cabeça, estreitando os olhos. — Trinta minutos, no
máximo?
— Não, não é longe. — Sorri. — E eu me
lembro de ter prometido te mostrar as fotos. — Ele
se inclina na minha direção.
— Você prometeu sim — respondo, e forço um
sorriso a crescer em meu rosto.
Não sei se ele pode perceber o tamanho da raiva

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por trás da minha expressão forçadamente serena,


mas estou a ponto de explodir — bater em alguém
ou agarrar o homem na minha frente nas escadas de
emergência só para provar um ponto; qual ponto,
eu não sei. Estou tentada a me render à segunda
opção e dou um passo em sua direção. Mas sinto
uma mão fechar em torno do meu braço.
— Meu escritório. Agora. — A voz de Priscila
soa ferina enquanto ela me arrasta até a sua sala. De
onde essa mulher veio?
Ela bate a porta atrás de si e me olha,
silenciosamente exigindo uma explicação. O que
deu para todo mundo ficar batendo porta agora?
Viraram sócios da madeireira?
— Pode começar a falar.
Estou frustrada demais para desobedecer ao
simples comando e começo a despejar a história
toda, assim como fiz com Guilherme, sem deixar
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nada de fora, dissecando os mínimos detalhes. Faço


questão de narrar com perfeição o beijo ardente que
acabou de acontecer no escritório, e ainda sinto
meus lábios formigando, querendo mais. Meu
corpo ainda está todo acesso e desejoso por aquele
idiota.
Priscila me olha boquiaberta, um brilho no
olhar.
— Eu sabia que se desse um jeito de vocês
ficarem sozinhos fora do escritório, finalmente ia
parar essa palhaçada de fingir que não estão
derretidos um pelo outro. — Priscila bate palmas
para si mesma, como se comemorasse um grande
feito, e se joga na cadeira, com uma expressão
satisfeita.
É o quê? Ela revira os olhos para minha cara de
abobada.
— Pedi para ir para Brasília resolver um
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problema que nem era urgente porque caso


contrário eu teria que ter ido naquela festa.
Confesso que parte de mim realmente só não queria
ir, não tinha a ver com você. E não me olhe com
essa cara porque o universo já se encarregou da
minha punição. Acredita que meu siso resolveu
inflamar e eu precisei ir ao dentista correndo? A
única coisa boa é que aquela clínica parecia o
paraíso de homens bonitos e eu juro para você que
o que me atendeu era a cara do Channing Tatum.
Pena que não quis nada comigo.
Ela faz bico, como se sua vida fosse a coisa mais
sofrida do universo, antes de sacudir a cabeça,
dispensando os próprios comentários.
— De qualquer forma, eu sou a Relações
Públicas desta empresa, é o meu trabalho, eu devia
ter ido. Mas, ah, Ju — ela diz em um tom sonhador,
apoiando o queixo nas mãos — precisava fazer

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vocês se verem fora dessa dinâmica que claramente


está matando os dois, e quer coisa melhor que uma
festa para isso?
Eu não acredito que ela armou isso para mim!
Mais do que nunca me sinto como uma
adolescente, e minha adolescência não é uma fase
da qual tenho as melhores memórias.
— Eduardo odeia esses eventos sociais
obrigatórios. Não acho que ele tenha ido em um
desde que o conheço. Se eu estivesse aqui, não ia
ter a menor chance de ele ir. Pode me agradecer
depois.
Não gosto de ser manipulada. Existem poucas
coisas na vida que detesto tanto quanto achar que
estão brincando com meus sentimentos e vontades,
e é a segunda vez que me sinto assim hoje. Não
estou gostando nem um pouco dessa história.
— Claro, vou te agradecer depois por me deixar
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fazer esse papel ridículo! — praticamente grito e


vejo que ela se assusta com a explosão. — Porque
agora tenho que voltar para lá e continuar
trabalhando com ele, para ele, depois dessa
insanidade que aconteceu. E imagina se descobre
que tudo não passou de uma armaçãozinha sua para
fazer a gente se aproximar? Com certeza vai achar
que foi ideia minha!
Não preciso dizer o resto para ela saber
exatamente o que quero dizer: vai ficar mais viva
do que nunca a ideia de que estou me aproveitando
da posição para conseguir alguma vantagem aqui
dentro. Que porcaria de vantagem é essa que eu não
sei até agora. Estou esperando ansiosamente
alguém me dizer.
— Ele não te beijaria se não te quisesse! — ela
contesta. — Para de se comportar como se o
Eduardo fosse um garotinho indefeso que não sabe

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o que faz da vida! Ele sabe sim, e muito bem.


Ela revira os olhos para mim e sacode a cabeça,
irritada.
Sorrio, um sorriso triste, porque é a única coisa
que posso fazer. Ela tem razão. Ele não me beijaria
se não quisesse. Ele quis, e fez. E no segundo
seguinte se arrependeu e disse que não aconteceria
de novo. Da mesma forma que disse na semana
passada que nunca aconteceria nada entre a gente.
Aquele beijo foi um lapso, um momento de perda
de controle. Eduardo claramente não aceita o fato
de, em alguma medida, se sentir atraído por mim.
Têm coisas que ninguém entende, a não ser que
tenha passado na pele. Se fosse qualquer outra
pessoa, é provável que eu não me desse ao trabalho,
mas, por se tratar de Priscila, eu sento na cadeira,
arrumando-me o mais confortavelmente possível e
olho em sua direção. Minha avó vem na minha

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cabeça de novo, pela segunda vez em poucos dias.


Mesmo morando na casa dela, sua imagem não
povoa minha mente com tanta frequência assim,
mas agora parece não desgrudar mais. A memória
daquela tarde em que corri para o seu apartamento
depois de ter terminado com meu primeiro
namorado volta, e eu resmungo.
— Quando eu tinha quinze anos — conto —
comecei a namorar com um menino da minha
escola. Não namorar, namorar, não era nada sério,
só uns beijos aqui e outros ali, mas na época
parecia a coisa mais importante do mundo. A
questão é que ele era maravilhoso, minhas amigas o
adoravam e eu já estava escolhendo o nome dos
nossos filhos. — Priscila resmunga alguma coisa
sobre adolescentes serem idiotas e eu continuo: —
Até que um dia eu me dei conta de que a gente
sempre saía com os meus amigos, mas nunca com
os dele. Só os conhecia de nome. Uma sexta-feira
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depois da aula, menti para a minha mãe dizendo


que ia ficar na escola fazendo trabalho e fomos
todos ao cinema. Resolvi perguntar se ele não
queria chamar algum amigo dele, e ele
simplesmente congelou. Eu nunca tinha visto
ninguém tão nervoso na minha vida com uma
pergunta.
Não achei que a onda de tristeza fosse me
invadir ao contar essa história. Já faz tanto tempo,
já tinha enterrado no fundo da mente há séculos,
mas aqui, contando para Priscila, falando em voz
alta, começo a sentir uma pontinha de dor de novo.
Ela me olha com atenção, sem ter certeza de onde
estou indo com isso.
— Quer tentar adivinhar por que ele disse que
não?
— Provavelmente porque ele estava ficando
com outras meninas ao mesmo tempo — diz, dando

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os ombros. — É isso que garotos de quinze anos


fazem. — Ela bufa. — É o que homens de qualquer
idade fazem.
Balanço a cabeça em negativa. Não, não era esse
o problema.
— Ele disse que os amigos iam tirar sarro da
cara dele porque estava saindo com uma menina
gorda.
Se não fosse trágico, eu riria da cara de
incredulidade de Priscila.
— Bom, ele era um babaca — ela diz, como se
isso resolvesse todos os problemas.
Mas é exatamente esse o ponto, ele não era um
babaca. Quer dizer, a partir daquele momento ele se
tornou um babaca gigantesco para mim, mas de
resto… -era um cara bem legal, tanto quanto um
menino de dezessete anos consegue ser. E ele
realmente gostava de mim. Esse sim era o
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problema. Se ele não gostasse, talvez eu não tivesse


me importado tanto. Mas ele gostava, e eu sabia
que gostava. Ele gostava de mim e tinha vergonha
disso. Não queria assumir para os amigos que
estava interessado na gorda do grupo porque sabia
que poderia arrumar coisa melhor.
Não importava o quanto a gente se desse bem ou
o quanto ele gostasse de mim, no fim do dia, eu era
nada além da gorda. Não consegui contar para
meus amigos o motivo do término e não podia
voltar para casa com a cara inchada de chorar do
jeito que estava, então fui para a casa da minha avó.
Passei a tarde lá e ela, em seu momento muito
inspirador de sabedoria, me disse que aquela seria
apenas a primeira de muitas decepções amorosas
durante a vida. E ela estava certa. Mas aquela foi a
primeira e a última vez em que me coloquei na
posição de arriscar ser tratada dessa forma. Fico

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bem longe de homens que não demonstram um


claro interesse em mim. Quer dizer, ficava, porque
Eduardo parece não respeitar as leis da natureza.
Estranho como memórias são coisas poderosas.
Uma coisa que não devia significar nada e aqui
está, incomodando-me depois de todos esses anos.
Mesmo depois de tanto tempo, é com muita
dificuldade que conto a história para Priscila.
E ali, bem ali, com os grandes olhos me
encarando, ela me lembra exatamente o motivo de
termos ficado tão amigas.
— E? — pergunta, uma sobrancelha erguida. —
Tá, foi uma droga, ele foi um idiota, a vida é dura.
Mas o que isso tem a ver com a situação?
Meus lábios ainda formigam com a lembrança
do beijo ardente, e não consigo evitar me perguntar
se é esse o problema com Eduardo. Se ele está
doido por mim como Guilherme e Priscila parecem
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acreditar, então o que o impediria se não isso? Ele


não pareceu ter nenhum problema em ficar todo
sorrisos e toques com a Lorena.
— Eu realmente espero que você não esteja nem
cogitando o que eu acho que você está — Priscila
diz. — Porque se estiver, vou ser obrigada a te dar
uns tapas.
Priscila entra no modo discurso e começa a falar
sem parar.
— Duas. — Ela faz o número com os dedos. —
Duas outras secretárias trabalharam para Eduardo
antes de você, e ele não foi nada além de
ridiculamente profissional com elas, nem um único
sorriso a mais, nenhuma tentativa de se aproximar.
Dia e noite juntos e não ouvi uma piadinha saindo
da boca dele e posso colocar minha mão no fogo
que era capaz de ele pagar um táxi para elas quando
saíam daqui tarde da noite, mas não se daria ao

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trabalho de levar ninguém em casa. E todas elas


tiveram que aguentar a mesma fofocada sobre
estarem dormindo com o chefe, porque a Fernanda
não perdoa ninguém.
Tinha que ser. Não sei como não pensei nisso
antes, mas faz completo sentido que tenha sido a
Fernanda a começar com essa história. Não sei qual
o problema dela, mas ninguém no escritório parece
ir muito com a cara da mulher, então acho que não
estou tão errada em ficar com um pé atrás. Ela
parece achar que é detentora de todo o poder do
universo por trabalhar diretamente com o
presidente da empresa, como se não fosse o maior
castigo de todos os tempos ter que ficar presa ao
Vinicius todos os dias.
— A primeira entrou logo que Eduardo veio
trabalhar aqui no Centro há uns dois anos, e ficou
com ele por muitos meses, mas ia casar e o noivo

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não queria que ela trabalhasse, então se demitiu


algumas semanas antes de você ser contratada.
Priscila revira os olhos e eu acompanho. Cada
um com suas escolhas, não vejo problema nenhum
em casar e cuidar da casa se for o que ela quer, mas
deixar de trabalhar porque o homem quer assim é
mau presságio. Não quero nem imaginar do que
mais essa mulher vai acabar se privando por conta
desse relacionamento.
— Mas a última… Ela mal durou alguns dias e
Eduardo colocou a mulher para fora para nunca
mais.
Apoio o cotovelo na mesa, interessada pela
história. Não consigo imaginá-lo perdendo a cabeça
com ninguém, então fico intrigada quanto ao
motivo.
— Não sei o que aconteceu, ninguém sabe.
Mesmo a gente se conhecendo há tanto tempo, ele
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não me contou nada. — Ela suspira. — Mas parece


que a coisa foi feia e as más línguas dizem que foi
porque ela… passou dos limites, como ele gosta
tanto de dizer pelo visto.
Fico dividida com essa informação — como
parece acontecer sempre que descubro alguma
coisa sobre esse homem. Parte de mim está
transbordando com uma satisfação silenciosa por
ele não ser esse tipo de cara, que tira proveito da
situação para conseguir o que quer. A outra parte,
contudo, quer fugir para as montanhas com a
possibilidade de Eduardo ser autoritário a ponto de
tirar o emprego de uma pessoa simplesmente
porque ela se comportou de um jeito que o
desagradou. Quer dizer que ele vai me colocar na
rua se decidir que estou babando demais
imaginando o que tem por baixo daquela camisa
social?

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— O que eu quero dizer — Priscila continua —


é que eu conheço o Edu há anos, antes mesmo de
ele vir trabalhar aqui no escritório, antes do pai dele
se aposentar. E se eu fiz o que fiz é porque vejo a
forma como ele te olha. E não tem uma célula desse
seu namoradinho de adolescência no corpo do
Eduardo.
Respiro fundo.
Informação demais para processar.
Quando foi que isso se tornou um assunto tão
importante? Quando foi que Eduardo parou de ser
um sonho quente e se tornou parte dos meus
pensamentos diários?
— Ele não está interessado em mim, Priscila. Eu
definitivamente não sou o tipo de mulher que um
executivo importante sai exibindo por aí.
E por que Eduardo me querer ou não me
interessaria se eu estou terminantemente decidida a
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não me envolver com meu chefe? Acho que é só a


ideia da rejeição que me incomoda.
— Pode parando de drama também que você já
passou da idade. Já passou da hora dos dois
sentarem para conversar e resolver essa história. Se
eu tiver que continuar assistindo essa tensão sexual
toda, vou trancar os dois em uma sala e só saem
depois que se pegarem.
Balanço a cabeça. Chega disso.
— Eu preciso voltar para o trabalho — digo,
levantando-me. Saí da sala de Eduardo para fugir
dessa situação, e agora parece que ele está presente
em cada pedaço da minha vida, embrenhado em
cada detalhe. Parece uma assombração, credo.
— Ju. — Ouço a voz de Priscila quando estou
na porta, pronta para sair. — Você é sua maior
inimiga. Não estou querendo diminuir nada do que
já passou, mas cuidado para não basear cada passo
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seu no seu passado. É você quem vê todos esses


defeitos quando se olha no espelho. Toda essa
insegurança, suas concepções tão rígidas. Talvez
precise começar a enxergar um pouco mais do que
Eduardo vê quando te olha.
Viro a cabeça, olhando-a sobre o ombro.
— Eu sei muito bem o que eu vejo no espelho e,
se isso me incomodasse, eu faria alguma coisa para
mudar. Mas não incomoda — digo, suspirando.
Na maioria do tempo pelo menos não incomoda,
sinceramente não entendo porque se torna um
problema tão grande quando Eduardo está na
equação. Odeio essa insegurança maldita que ele, e
pelo visto só ele, desperta.
— Mas Priscila… não tenho ideia do que
Eduardo vê. Até onde eu sei, ele só vê uma pessoa
de quem precisa manter distância a qualquer custo.
Isso diz muita coisa, você não acha?
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Saio da sala sem olhar para trás. E é minha vez


de bater a porta.

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Capítulo 10

— CHEGUEI. CADÊ A EMERGÊNCIA?


Credo, quem morreu?
Levanto os olhos para Guilherme, sem nenhuma
paciência para suas brincadeiras. Saio do lugar e
indico com a mão para que ele me siga.
— Não estou tendo um bom dia — digo, porque
sou incapaz de ignorá-lo apesar do meu mau
humor. Não é culpa dele, afinal.
Ele sussurra um “tá bom” e não diz mais nada
enquanto o guio em direção à sala de Renato, onde
estão esperando-o para seja lá que problema estão
tendo. No caminho, contudo, passamos em frente à
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entrada do grande e luxuoso escritório temporário


de Vinicius. O último andar está em reforma e, no
meio tempo, ele se apossou da sala que toma boa
parte do meu andar. O mais distante possível do
resto dos funcionários, amém. Fernanda está
sentada em sua mesa e o espaço que ocupa é
provavelmente o mesmo que a sala de um
executivo júnior. Regalias de trabalhar para o dono.
Um corredor esconde a entrada da sala do homem,
isolando-o do restante dos mortais. Essa sala na
verdade deveria ser de Eduardo, mas pelo visto ele
vem se recusando a usá-la mesmo antes de Vinicius
se apoderar dela. Vai entender.
Seria engraçada, se não trágica, a gritante
diferença entre os irmãos. Eduardo trabalha no
meio de seus funcionários, no coração de tudo, o
dia inteiro se comunicando com os outros, como
parte ativa de um time, e aqui está Vinicius, isolado
em sua bolha, no alto de um pedestal. Passo
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semanas sem nem ver sua cara, porque ele entra e


sai sem falar com ninguém além do mínimo
necessário. Tão diferentes que nem parecem sangue
do mesmo sangue. Pergunto-me a quem Eduardo
puxou para ser tão mais agradável de se ter por
perto.
E aqui está ele de novo invadindo minha mente.
Sai, demônio.
— Nem pense nisso — digo, quando vejo
Guilherme entortar a cabeça para olhar Fernanda,
que nem por um segundo tira os olhos do seu
computador, ignorando completamente nossa
presença quando passamos por ela. — Essa daí não
é flor que se cheire.
— Eu gosto das que não são flor que se cheire
— ele responde, manhoso, e eu o encaro em
descrença. Não toma jeito.
Quando chegamos à sala de Renato e Rafael nos
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vê — olha só, parece uma dupla sertaneja —, ele só


falta gritar de alegria. Meu irmão se apresenta com
um aperto rápido e é conduzido para dentro da sala
onde é esperado. Rafael rapidamente vem até mim
e me dá um beijo no rosto, sussurrando um
agradecimento, e vejo Guilherme erguer a
sobrancelha em questionamento. Ignoro e volto
para minha mesa.
Sento e me concentro em colocar em ordem a
bagunça de pastas e contratos empilhados ao lado
do computador. Poucos minutos depois, sai da sala
o homem da festa, indicando o fim da reunião.
Olho o relógio e vejo que mal passa das três da
tarde. Essa sem dúvida foi a hora mais agitada da
minha vida. Meu trabalho que é bom está
começando a acumular.
Acompanho o homem até o elevador, garantindo
que até o fim do dia ele terá o contrato em suas

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mãos e, quando me viro em direção ao escritório,


tudo que vejo é uma porta fechada e nenhum sinal
de Eduardo.
Melhor assim.

O dia termina, mas a pilha de trabalho não. Tudo


que eu quero é ir para casa e colocar meus dedos
nas teclas barulhentas do computador, deixar minha
frustração tomar forma nas palavras. A montanha-
russa emocional que foi o dia de hoje certamente
serviu para ativar minha criatividade, e me peguei
fazendo pequenas anotações constantes no bloco de
notas do celular, apenas palavras-chave e trechos
curtos para lembrar das minhas ideias desconexas
mais tarde — ou amanhã, pelo andar das coisas.

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Às vezes gostaria de poder mergulhar nas


minhas histórias e me perder ali, e não precisar
enfrentar a vida real. É claro que minha
protagonista tem problemas, todo bom livro precisa
de uma boa dose de drama, mas pelo menos tudo
fica bem no final. No mundo real, fora das páginas
digitadas, mal sei como vai terminar o dia, quem
dirá como vai ser o final da história. Uma bola de
cristal ia facilitar tanto minha vida.
Mando uma mensagem para o Guilherme e
pergunto a hora que ele vai sair, mas não recebo
uma resposta. Ele deve estar no meio de alguma
sessão de fotos, porque é praticamente o único
momento do dia em que aquela criatura não está
com o celular.
Os ponteiros do relógio continuam girando até
que o escritório esteja completamente vazio e
somente eu e meus pensamentos continuamos

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trabalhando. Ou é o que eu acho, até ouvir o


barulho estridente da porta se abrindo no silêncio
esmagador do recinto. Porcaria. Não vi Eduardo
pelo resto do dia, assumi que ele tinha ido embora
durante alguma das minhas pausas para ir ao
banheiro, cortesia da menor bexiga do mundo
inteiro.
Demora quase um minuto inteiro para que eu
ouça o som da porta se fechando e quero muito
virar para ver o que ele está fazendo ali, parado de
pé, mas não me atrevo. Ainda não sei como reagir
ao olhar para ele. Ouço seus passos vindo na minha
direção.
— Falta muito? — Eduardo pergunta em uma
voz suave e me limito a balançar a cabeça
positivamente, ainda sem olhá-lo. — Acho que
você vai precisar terminar amanhã, Juliana — diz.
— Eu realmente preciso ir embora, e já passou

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bastante do seu horário. Você devia ir para casa.


— Tudo bem, senhor Rodrigues. — Faço
questão de enfatizar a última parte só porque sei
que ele odeia. Um suspiro de frustração confirma
que acertei em cheio. — O senhor pode ir, sem
problemas.
— Não, não posso. — Sua voz soa cansada,
como se ele simplesmente aceitasse perder a
batalha. — Não posso ir embora e te deixar aqui.
— Ele pausa e suspira. — Políticas da empresa,
Juliana.
Contrariada e fingindo que a forma como ele diz
meu nome não me afeta em nada, salvo o que estou
digitando e desligo o computador, recolho minha
bolsa e começo a andar em direção ao elevador. De
alguma forma, consigo fazer isso tudo sem olhar
em sua direção, mas sei que isso não vai durar
muito tempo quando o elevador se abre e nós dois

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entramos.
Quando as portas se fecham, a mesma sensação
familiar de quando estávamos no elevador em
direção ao apartamento dele me atinge. A estática,
a proximidade. Só que dessa vez é pior porque
agora eu sei exatamente qual a sensação de estar
em seus braços e, ainda que eu esteja irritada com
ele, meu corpo reage, querendo mais.
Mas parece que dessa vez a promessa é para
valer, porque Eduardo sequer olha na minha
direção. Não se aproxima, não se comunica.
Continua encarando a porta, estático, como se
tentasse ignorar minha presença e conseguisse com
sucesso. Ele bate o pé, inquieto, e move os ombros,
arrumando a postura três vezes no curto período de
tempo até chegarmos ao térreo.
Pego o celular já xingando Guilherme por não
ter me respondido quando vejo uma mensagem

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dele, de cinco minutos atrás.

Vou passar aí para te buscar, me espera na


portaria

Perfeito.
Assim que as portas se abrem, ando até a entrada
a passos largos. Se ele pode ignorar minha
presença, eu posso fazer a mesma coisa.
— Como você vai para casa? — Eduardo
pergunta quando me vê indo em direção à saída,
andando ao meu lado, tentando me acompanhar.
Tenho vontade de dar uma resposta malcriada, mas
me controlo. E não tem necessidade, porque nesse
exato momento vejo Guilherme estacionar o carro.
— Boa noite. — Limito-me a dizer, abrindo a
pesada porta de vidro, e ele segura meu pulso.

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Paro no lugar, metade do corpo na calçada,


metade dentro da recepção, e me forço a olhar para
ele. Eduardo alcança a porta com a mão livre e dá
um passo na minha direção. Ele quer dizer alguma
coisa, seus olhos são expressivos, embora sua
expressão facial não me revele muita coisa. Parece
angustiado. Seu maxilar está rígido, tenso, todo seu
corpo está. Seu polegar percorre minha pele e eu
mordo minha bochecha, esperando.
— Ju…
Eu espero, mais uma vez, que ele diga alguma
coisa. Espero algum resquício do homem que tão
facilmente confessou suas inseguranças na
madrugada de domingo, com olhos honestos e
coração aberto.
Mas não o vejo ali.
— Boa noite, senhor Rodrigues.
Solto meu braço de sua mão, imediatamente
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sentindo falta do seu toque quente, e viro de costas


para ele, andando para longe, afastando-me de sua
presença dominadora.
Entro no carro me recusando a olhar para onde
sei que está Eduardo, de pé, encarando-me.
— Dirija — digo para Guilherme quando ele me
olha interrogativamente. —Nenhuma palavra sobre
isso.

Meu irmão tenta puxar assunto ao longo do


caminho, mas estou de mau humor. A menina
pirracenta de quatorze anos chegou e se instaurou
no meu corpo.
— Saí com sua amiga hoje — Guilherme diz e
olho para ele curiosa para descobrir que amiga

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minha foi doida o suficiente para cair nessa cilada.


Ele para em um sinal e olha em minha direção. —
A Fernanda.
Mas é o quê?
Olho para ele boquiaberta.
— Ela definitivamente não é minha amiga —
digo.
Ainda não engoli a fofoquinha que ela espalhou,
embora a essa altura do campeonato uma parte de
mim deseje que fosse verdade e eu estivesse sim
dormindo com Eduardo. Só que outra parte, bem
maior no momento, só quer entender o que passa na
cabeça dele e, enquanto não chega lá, prefere
manter uma distância bem segura para evitar
acidentes.
Queria saber o que exatamente a Fernanda
ganha com isso, por que essa necessidade de ser tão
inconveniente. Eu teria pena por ela ter que
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trabalhar com Vinicius se não fosse todo o veneno


que escorre a cada vez que a mulher abre a boca.
Acho que nunca tive uma conversa decente com
ela, toda vez que chega perto, quero sair correndo.
Guilherme dá os ombros e começa a tagarelar
sobre a conversa que tiveram enquanto ele estava lá
na empresa, do café que tomaram juntos depois.
Deus, o dia de hoje parece ter durado uma
eternidade, e ainda não acabou. Só quero chegar em
casa logo e dar essa segunda-feira por encerrada.
Agradeço aos céus quando ele estaciona o carro na
entrada do meu prédio. Alcanço a maçaneta para
abrir a porta, mas meu querido irmão aciona a
trava. Olho para ele, cansada e confusa.
— Você é uma mentirosa — diz, e eu ergo a
sobrancelha com a acusação. — Me chamou para
almoçar ontem, toda chorosa dizendo que estava
perdendo a cabeça por causa de um cara que não

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queria nada com você. — Ele para e eu concordo


com a cabeça, esperando que ele continue. — É
óbvio que ele te quer, sua idiota.
Eu bufo e reviro os olhos. Ah, não. De novo
isso, não. Já deu de Eduardo-te-quer por um dia.
Encaro-o com uma clara careta de irritação
enquanto Guilherme continua a falar sobre o
assunto.
Interrompo-o.
Conto do beijo. Conto como ele se afastou e
disse que não aconteceria mais. Conto que ele me
mandou ir atrás de Rafael. Rafael que, até então,
não estava sendo visto como nada além de um
amigo muito gostoso, mas agora, como se tivesse
virado questão de honra, eu pretendo fazer ser bem
mais que isso. Meu falatório faz com que
Guilherme se cale. Consigo ver na cara dele que
ainda tenta arrumar alguma justificativa, mas a

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verdade é que não há o que dizer.


— Se ele quiser alguma coisa comigo, é melhor
dizer. Não tenho bola de cristal, não sou adivinha, e
nem tenho paciência para isso. — Suspiro,
balançando a cabeça. — Na verdade, é melhor que
não diga. Realmente não quero virar a mulher que
dorme com o chefe. E Eduardo já foi claro o
suficiente sobre ele pensar exatamente a mesma
coisa.
Guilherme desiste e destrava o carro, e eu saio
sem me despedir. Em cinco minutos, estou jogada
na cama.
Então a meta de me manter sã não funcionou
hoje, tudo bem. Amanhã tento de novo e vai ser
mais fácil.
Ou ao menos é o que tento dizer a mim mesma
quando fecho os olhos e Eduardo invade meus
sonhos com seus olhos possuídos por um mistério
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não resolvido.

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Capítulo 11

NUNCA ME SENTI TÃO MALDITAMENTE


frustrado na minha vida.
A primeira coisa que faço quando estaciono o
carro em frente à casa dos meus pais é me livrar da
gravata e jogar para longe esse maldito paletó.
Sinto-me sufocado. Tiro as mãos do volante e
recosto a cabeça no banco, permitindo-me cinco
minutos para respirar. Mesmo porque não posso
entrar nesse estado, será extremamente difícil
explicar o motivo de tanta agitação.
Tento empurrar Juliana, seu gosto, seu cheiro,
para fora da minha cabeça quando saio do carro e
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toco a campainha.
— Não sei para que você tem a chave se não
usa. — Minha mãe abre a porta com um sorriso no
rosto, chamando-me para um abraço. Ainda com os
braços em volta do seu ombro, entro e fecho a
porta, sorrindo ao olhar ao redor para este lugar
cheio de memórias da minha infância e
adolescência.
Saí de casa assim que fiz dezoito anos, decidi
que já era hora de cuidar de mim mesmo e deixar
meus pais viverem a vida e o casamento deles em
paz. Não sinto falta dos perrengues que passei
nessa época, mas não me arrependo de tudo que a
vida me ensinou. Mas não teve um dia, nesses vinte
anos, que eu não sinta falta daqui.
— Como ele está? — pergunto depois de
cumprimentá-la e vejo seu olhar cair.
Isso não parece bom.
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A saúde do meu pai tem andado muito


fragilizada ultimamente, sua idade não ajuda e a
preocupação tem me tirado noites de sono. Minha
cabeça parece a ponto de explodir com tantos
problemas e tenho vontade de subir ao topo de uma
montanha e gritar toda a minha frustração ao
universo — ou socar alguma coisa; um saco de
boxe não seria ruim. Merda, chego a sentir falta de
ter que esfregar aquela academia de cima a baixo
como fazia quando era adolescente em troca de uns
trocados para ajudar em casa enquanto meu pai
investia tudo que tinha para erguer a empresa do
zero; pelo menos minha cabeça estaria focada em
alguma coisa produtiva que não todos os problemas
que parecem se acumular.
Se ao menos eu soubesse como conversar sobre
meus sentimentos como uma pessoa normal, mas
me sinto muito esquisito expondo minhas falhas
para o mundo. A não ser para a dona aquele belo
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par de olhos castanhos que no momento


provavelmente está mais disposta a virar as costas e
nunca mais olhar na minha direção. E quem pode
culpá-la?
Após algumas palavras sobre como as coisas
têm andado em casa e uma história rápida sobre o
grupo de leitura da minha mãe, dou um beijo na sua
testa e subo as escadas para ver meu pai, com a
promessa que contarei todas as novidades para ela
em alguns minutos.
Quando abro a porta do quarto, um pedaço de
mim morre ao vê-lo deitado no centro da cama que
parece grande demais para ele. Música clássica
toca, invadindo o ambiente com a melodia que ele
tanto gosta. Preciso de um minuto antes de entrar
no cômodo, tentando me lembrar das palavras da
médica dele: não podemos permitir que a família
inteira fique doente também, precisamos estar bem

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para poder cuidar e apoiá-lo. Mesmo que não haja


mais nada a ser feito.
Mas, por mais que eu saiba que ela está certa, é
quase impossível não me afundar na tristeza de
estar a ponto de perder uma das pessoas mais
importantes da minha vida.
— Você vai ficar aí parado me olhando ou vai
vir sentar aqui comigo? — ele pergunta, tirando-me
do meu transe particular, e sorrio, entrando no
quarto e dando um beijo em sua testa.
— Como o senhor está se sentindo hoje? —
pergunto, e ele bufa, dispensando a pergunta com a
mão, sem querer dar o braço a torcer.
Teimoso até o último fio de cabelo.
— Você não veio me ver esse final de semana
— ele diz.
Suspiro, sentindo-me um pouco culpado por
isso. Eu pretendia vir almoçar com eles ontem,
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como quase sempre faço aos domingos, mas depois


que Juliana saiu correndo do meu apartamento
daquele jeito, depois de eu ter me aberto tão
facilmente para aquele par de olhos sedutores,
achei que era melhor ficar sozinho e colocar a
cabeça no lugar.
— Aconteceram algumas coisas — digo,
fechando os olhos por um segundo. Balanço a
cabeça e suspiro.
— Você conheceu alguém. — Não é uma
pergunta e eu levanto a cabeça na direção dos seus
olhos, que me analisam com curiosidade. — Já não
era sem tempo — o velho diz, sorrindo fracamente.
— Você está caducando, homem — brinco,
envolvendo sua mão entre as minhas.
— Tem certeza?
A única coisa que tenho certeza é que se eu
fechar os olhos ainda vou conseguir ver Juliana
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enrolada nos meus braços. Quem estou querendo


enganar? Como se eu precisasse fechar os olhos
para isso. Como se o gosto dela não tivesse sido
tudo a habitar minha mente o dia inteiro.
Um beijo não foi o suficiente. Muito pelo
contrário. Aquele beijo só fez com que meu desejo
aumentasse e não sei como consegui me afastar
antes de perder completamente o controle. Não me
espanta ela ter me tratado daquele jeito quando
estávamos indo embora. Deve estar achando que eu
sou um canalha aproveitador.
E não é exatamente como eu estou me
comportando? Agarrando-a daquele jeito na minha
sala, mesmo sabendo o quanto ela tem se esforçado
para provar para todo mundo naquele lugar que isso
não está acontecendo?
Não adianta sequer eu chamá-la para conversar
amanhã e dizer que isso não vai se repetir, porque

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eu já disse isso antes. Prometi que não passaria dos


limites, e veja só. Se imprensá-la contra a parede
não é passar dos limites, dificilmente saberei o que
é. E não tenho certeza se essa é uma promessa que
eu posso manter. Com certeza não é uma que eu
quero manter.
Sinto meu estômago revirar com a ideia de
querer tomar dela algo que Juliana não esteja
disposta a entregar. Preciso respeitar suas vontades.
Odeio que possam pensar que eu sou o tipo de
pessoa que tiraria proveito da minha posição dessa
forma. Para ser justo, as pessoas do escritório me
conhecem a pouco menos de três anos. Na década
anterior, passei todo meu tempo longe da
administração e quase não aparecia por lá, e eles,
antes disso, já vinham trabalhando com meu irmão
por mais de quinze anos.
E Vinicius, para meu desgosto, se enquadra

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exatamente no que todos dizem. Já tivemos mais


problemas com secretárias dele do que com
qualquer outra coisa na empresa. Admira-me que
até hoje não tenha havido nenhum processo. Por
consequência, acabo pagando pelos pecados do
meu irmão, e Juliana, assim como as que vieram
antes dela, paga um alto preço por isso também.
Quase contratei um homem para assumir o cargo
no último processo seletivo, foi por pouco que não
ignorei os currículos e simplesmente escolhi um
que tivesse um pinto entre as pernas para evitar
esse tipo de confusão. Mas não conseguiria dormir
à noite sabendo que privei um profissional
competente da avaliação justa e neguei a alguém
mais qualificado ao cargo unicamente por isso.
E agradeço muito por isso porque, naquela pilha
de currículos, estava o de Juliana.
Eu me lembro perfeitamente a cena daquela

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segunda de manhã. Eu escolhi seu currículo dentre


os demais, mas quem conduziu a entrevista foi
Priscila, então eu ainda não a conhecia antes do seu
primeiro dia.
Quando a vi saindo do elevador foi como uma
daquelas cenas ridículas de filme em que tudo para
ao redor e só ela importa. Eu estava muito ocupado
naquele dia porque minha secretária anterior tinha
saído sem deixar tudo em ordem, então eu tinha
uma reunião para a qual não estava preparado e
estava realmente preocupado em perder uma conta
grande por descuido meu.
Mas foi como se subitamente o cliente que
chegaria em quarenta minutos não importasse
porque aquele sorriso gigantesco e aquele belo par
de pernas estava vindo na minha direção. E foi
então que eu comecei a entrar em pânico, cada
passo que ela dava em minha direção eu implorava

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aos céus para que não fosse a nova secretária.


E, como sempre, o universo ignorou meu pedido
e ela parou exatamente em frente à minha mesa.
Em menos de dez minutos, Juliana tinha resolvido a
crise com o cliente e eu respirava aliviado, ainda
sem conseguir tirar os olhos dela, controlando-me
com tudo que tinha para não a convidar para sair
naquele momento.
Sentado nessa cama de colchão macio, encaro
meu pai, que espera uma resposta. Ele me encara
com os olhos nos quais me espelhei durante toda a
vida. Alexandre Rodrigues sempre foi meu modelo
e tudo que eu queria ser quando crescesse, e cada
dia que passa sinto como se eu o tivesse
decepcionado, primeiro por ter abandonado meu
sonho para cuidar da empresa, e depois por não
conseguir fazer esse trabalho com a perfeição que é
necessária.

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É uma batalha constante essa de decidir entre


fazer o que é certo e o que meu coração manda.
Eu já tinha meus dezoito anos quando a empresa
começou a ganhar forma e, mesmo naquela época,
quando eu vagava pelos corredores paquerando as
estagiárias mais velhas que eu, porque esse era o
quão desavisado e sem noção eu era, meu pai
sempre foi muito assertivo. Lembro-me do dia em
que ele me puxou pelo braço e me deu o maior
sermão que já ouvi em minha vida. Mesmo ali,
quando os flertes completamente despretensiosos
não passavam da falta de juízo de um moleque
imaturo, ele se fez muito claro, resoluto: um dia eu
estaria à frente da empresa e homens em nossa
posição jamais podem se comportar dessa forma,
porque existe uma chance gigantesca da mulher se
sentir coagida a aceitar a investida por medo de
perder o emprego. Não foi um conselho, foi uma
ordem, pela qual tenho vivido minha vida desde
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então.
E isso nunca foi um problema. Até Juliana
aparecer. Tinha certeza de que tudo aquilo passaria
em alguns dias, mas não só não passou, como ficou
pior. Com o tempo, conforme nos aproximamos,
cada vez via mais de Juliana e cada vez a queria
mais. Pequenos detalhes que deveriam ser
insignificantes, como o fato de ela aproveitar cada
minuto livre para folhear o livro que estivesse
carregando, nunca beber café e sempre estar
anotando coisas aleatoriamente, como se tivesse
acabado de ter uma ideia genial que não podia ser
perdida — que agora eu sei que é por causa do livro
que ela escreve. Ou a forma afetuosa como sempre
fala do irmão. O carinho que vi entre ela e seus pais
quando fui buscá-la no sábado.
São coisas banais e corriqueiras, mas capazes de
me desestabilizar por completo. Tem alguma coisa

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naquela mulher que me tira dos eixos como há


muito tempo não acontecia.
Cansado de esperar por uma resposta que
claramente não vem, meu pai volta a falar,
respirando fundo com dificuldade em meio a uma
tosse seca que dói só de olhar.
— Espero que tenha finalmente conhecido
alguém que valha a pena, filho. Você não pode
viver só para o trabalho. Sabe, quando eu fundei a
Rodrigues Menezes, eu fiz isso porque não
conseguia me ver fazendo nada diferente. Essa
empresa virou minha vida, e virou a de vocês
também, e nem você nem Vinicius tiveram muita
escolha quanto a isso. — Ele arruma a cabeça no
travesseiro e me encara. — Era o meu sonho, mas
não significa que precisa ser o seu.
Faz tempo que não consigo uma folga para fazer
o meu trabalho de verdade. O meu trabalho. Não

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aquela porcaria que sou obrigado a fazer todos os


dias. As poucas vezes que tenho a oportunidade de
fugir do escritório sequer ajudam a aplacar minha
frustração, às vezes parece que apenas piora tudo
por reforçar a certeza de que não é trancado ali que
eu quero estar.
Se meu irmão não fosse um completo
irresponsável, eu poderia me dedicar mais ao meu
papel naquela empresa. Esse realmente não foi o
combinado. Tive que aprender na marra a dirigir os
negócios simplesmente porque Vinicius acha que
torrar o dinheiro que ganhamos é mais importante,
comportando-se como um moleque de vinte anos
ao invés do homem de quarenta e seis que é.
Simplesmente porque preciso pagar o preço dos
erros dele.
Hoje, a empresa não é tão pequena, não é como
se todo o trabalho caísse nas costas de uma pessoa

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só. Temos funcionários o suficiente para dar conta


de tudo mesmo se nenhum de nós quiser trabalhar.
Mas verdade seja dita, todo negócio precisa de um
nome e um rosto à frente. Esse rosto deveria ser
Vinicius, esse rosto é Vinicius, mas só na fachada.
Porque na vida real ele não faz nada para cumprir
com suas obrigações.
E, então, me vi forçado a deixar de lado o que
quer que eu quisesse fazer para consertar as
mancadas dele. Parece até que é ele o caçula da
família. Quando meu pai caiu doente e precisou se
aposentar, dois anos atrás, e resolveu nos deixar à
frente dos negócios, eu tinha a sensação de que isso
não acabaria bem.
Por muitos anos acompanhei de perto o
crescimento dos negócios, trabalhei dia e noite ao
lado do velho. Quando era adolescente, cada
minuto livre que tinha eu passava assistindo o

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treinamento dos seguranças, até meu pai achar que


eu tinha idade o suficiente para treinar também.
Aprendi tudo que tinha para se aprender, e, uma
década depois, era eu lá ensinando tudo para eles.
Estudei, me esforcei, me preparei o máximo
possível para ser digno do posto de supervisor das
nossas equipes. Ninguém poderia dizer que estava
ali só por ser filho do dono, tive certeza de garantir
isso. Batalhei para merecer o posto.
São poucos os dias em que posso estar nos
treinamentos das equipes agora, vendo a mágica
acontecer, ver nossos funcionários se prepararem
para o trabalho, treinarem, se tornarem os melhores
que há. Pessoas, com rostos e histórias, e não só
mais um número na planilha de pagamento mensal.
Nunca foi só sobre dinheiro. É claro que, como
qualquer empresa, o objetivo final é lucro. Não tem
nem o que discutir. Mas meu pai nunca admitiu que

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isso fosse obtido a qualquer custo. Nossos


funcionários são bem pagos, recebem um
tratamento justo, condições de trabalho adequadas,
isso é inegociável. A política da empresa é essa e,
no que depender de mim, nunca vai mudar.
E é por isso, e somente por isso, que ainda não
perdi a cabeça por estar trancado naquela sala de
concreto todos os dias, porque sei que pelo menos
posso assegurar que as coisas estão funcionando da
maneira que deve ser. Somente por isso suporto a
tortura que é para mim não poder fazer o que
verdadeiramente amo.
Então não entendo bem onde ele está indo com
essa história de que a empresa não precisa ser meu
sonho, porque se ele acha que tem alguma chance
de eu deixar o trabalho de uma vida inteira nas
mãos do irresponsável do meu irmão, está muito
enganado.

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— Não importa quão longe eu tenha chegado,


Eduardo, o que importa é como eu vivi a vida. Se
eu voltasse para casa no fim do dia e não
encontrasse sua mãe, nada disso teria valido a pena.
Fecho os olhos e balanço a cabeça, tentando
expulsar da minha mente a imagem de encontrar
Juliana esperando por mim em casa, até porque
levando em consideração sua disposição para
trabalhar longas horas e o fato de eu ter tido que
praticamente arrastá-la para fora do escritório
inúmeras vezes, é provável que essa cena nunca
aconteça mesmo. E isso me faz sorrir.
— Quem é ela? — ele pergunta e nego com a
cabeça. — Ora, Eduardo, por favor. Qual foi a
última vez que você não veio nos visitar no fim de
semana? Até mesmo quando você está fora da
cidade por algum motivo, você liga, faz chamada
de vídeo. Nenhuma notícia sua só pode significar

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que sua cabeça está completamente perdida em


outro lugar. E nem tente dizer que é algo
relacionado ao trabalho.
— Ela não quer saber de mim — admito, dando
os ombros e fingindo não me importar.
— Ela disse isso? — ele pergunta, e aceno com
a cabeça por um segundo antes de parar.
Sinto minhas sobrancelhas franzindo enquanto
tento buscar em minha memória o momento em
que essas palavras saíram de sua boca, mas não
consigo encontrar. Juliana fugiu de mim em muitas
situações, e já está mais do que claro que é porque
se importa demais com o que as pessoas vão pensar
dela, mas a imagem do beijo continua voltando a
minha mente.
A forma como ela se encaixou perfeitamente no
meu apartamento, como estava relaxada, sentada na
minha cama, contando histórias sobre sua infância
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e expondo seus gostos e anseios, brincando com


Valentina sem nem perceber. A forma como ela
confiou seu sonho mais profundo a mim.
Não conversamos como amantes, não, até
porque isso não somos. Ainda. Mas conversamos
como pessoas que se conhecem por uma vida
inteira. Fiquei surpreso com a facilidade como eu
fui contagiado por sua energia, ela sempre tão
aberta ao mundo, e falei sobre mim, mais do que
lembro de já ter feito antes em qualquer outra
situação.
Não, ela não disse que não quer, e é verdade que
quando estamos só nós dois ela parece mais
relaxada e próxima, mas no resto do tempo Juliana
parece fugir de mim como o diabo foge da cruz. E
ainda tem Rafael. Eles parecem
surpreendentemente íntimos para o pouco tempo
que se conhecem, e tenho quase certeza de que tem

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alguma coisa acontecendo ali. Fora o fato de que


ela não olhou mais na minha direção depois que a
beijei.
— Não — respondo. — Mas me parece que ela
está bem decidida a não se envolver com o chefe —
digo e meu pai balança a cabeça, como se
compreendesse o maior segredo do universo.
— Você precisa mostrar a ela o homem por trás
do terno, então.

— Ele está dormindo? — minha mãe pergunta


quando desço a escadas, e respondo que sim. Ela
indica com a mão para que eu vá até a cozinha,
onde ela está.
Já tentei de toda forma convencê-la a me deixar

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pagar alguém para cuidar dos dois, mas Dona Luíza


se recusa. O máximo que consegui foi infiltrar
alguém para limpar a casa e cuidar das roupas, mas
a comida ela faz questão de fazer.
— Como está Vinicius? — minha mãe pergunta
enquanto coa o café, recusando-se mais uma vez a
usar a cafeteira elétrica que está juntando poeira no
canto da bancada.
De costas para mim, consigo ver que ela
continua a despejar a água fervente no pó,
forçosamente fingindo que a pergunta é
despretensiosa. Não sei qual foi a última vez que
ele deu notícias fora contratos assinados no seu
nome aparecendo em minha mesa, que me dizem
que ele pelo menos ainda está trabalhando o
mínimo necessário, e honestamente acredito que
seja melhor assim.
— Ele está bem — minto, e ela solta uma risada

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cansada.
— Você não tem ideia, não é? — Quando não
respondo, continua: — Vocês eram tão próximos
quando eram menores, ele cuidava de você como se
fosse uma coisinha preciosa. Era engraçado, porque
a diferença de idade mal é de oito anos, mas ele
agia como se fosse seu pai. E então, tudo mudou.
Tudo mudou, sim, e na época não fez sentido
para mim. Passamos de melhores amigos para
piores inimigos quando ele começou a fazer
faculdade, com seus dezenove anos, eu, com onze.
Da noite para o dia, Vinicius começou a me
ignorar, isso quando não me tratava
propositalmente mal. O irmão que eu sempre tive
ao meu lado se tornou um completo estranho, um
estranho que aprendi a detestar com o tempo.
Deixo minha mãe perdida em seus devaneios,
perguntando-se o que aconteceu para que o

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comportamento de Vinicius mudasse tanto, mas é


simples. Ele sempre foi solto, irresponsável.
Quando eu fiquei velho o suficiente para entender,
percebi que um sorriso carinhoso em seu rosto era
todo o necessário para fazer com que ela relevasse
suas derrapadas. Talvez ela, com seu coração de
mãe, não queira enxergar que o problema dele é
puro mau-caratismo, sempre foi. E não vou ser eu a
fazê-la encarar esse desgosto, então faço o que
posso para compensar a ausência do seu filho mais
velho.
— E esse bolo de banana que eu estou vendo?
— pergunto, tentando mudar de assunto.
Aproximo-me e corto uma fatia, que divido entre
nós dois.
Com um sorriso no rosto, que dificilmente
alcança seus olhos, ela começa a contar sobre a
aula de fotografia que está pensando em começar a

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fazer.

Já passa das dez e meia quando chego em casa e


vou direto para o meu quarto repor a comida de
Valentina. A caminho para o banheiro, vejo o
pequeno animal deitado na cama, em cima de um
dos travesseiros, e decido deixá-la ali mesmo.
Quem diria que eu viraria a tia dos gatos?
Por mais que eu tente evitar, as palavras do meu
pai ainda ressoam em minha mente e Juliana invade
meus pensamentos como um furacão.
Ligo o chuveiro e entro de uma vez só.
Enquanto a água quente cai, encosto na parede e
fecho os olhos, e tudo que consigo ver é seu
sorriso, sua boca sob a minha, seu corpo

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imprensado contra o meu, seu gosto, seu cheiro, sua


entrega. Meu corpo reage à lembrança quase tão
fortemente quanto reagiu na hora em que a tive em
meus braços. Em que precisei de todo meu
autocontrole para não a jogar no sofá e fazer com
que esquecesse qualquer medo, qualquer receio, e
se entregasse a mim como quero me entregar a ela.
A sensação de suas coxas grossas sob minha
palma inquieta toma conta das minhas memórias
enquanto desço minha mão e não consigo evitar
que meus dedos se fechem em volta da parte de
mim que a deseja quase tanto quanto meu juízo
perdido em seus lábios.

Acomodo-me na cama com cuidado para não

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acordar Valentina, porque sei que no segundo em


que ela abrir os olhos, eu não durmo mais, com
suas patinhas me pisoteando por todos os lados.
Pego o celular e o giro em meus dedos, tentando
decidir o que fazer. Olho a hora e o visor me
mostra um horário redondo. Onze horas.
Você precisa mostrar a ela o homem por trás do
terno.
Rolo a tela até encontrar o número de Juliana e
meu dedo pousa sobre o botão de ligar, mas perco a
coragem. Ao invés disso, digito uma rápida
mensagem e envio endereço de onde preciso que
ela me encontre pela manhã. Não espero sua
mensagem antes de discar o número de Priscila.
— Oi, Eduardo. — Ela atende no terceiro toque.
— Desculpa ligar a essa hora, mas eu preciso de
um favor — digo, e ela pergunta o que é. — Vou
precisar ficar o dia inteiro fora amanhã, mas tenho
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uma reunião com Lorena Albuquerque marcada


para a hora do almoço. Você pode ir no meu lugar?
A conversa é curta e em alguns minutos tudo
está resolvido.
Respiro fundo, incerto. Não sei bem o que fazer,
não tenho certeza de como agir. Mas preciso tentar.
Preciso tentar alguma coisa. Preciso ao menos
saber se existe alguma chance de isso acontecer. Se
ela me deseja de volta ou se não tem coragem de
dizer não por medo de perder o emprego. Se ela me
quer e se afasta apenas pelo estigma que esse
relacionamento traria. Ou se simplesmente tem
medo das consequências de me rejeitar.
Eu preciso fazê-la entender que está segura
comigo. Preciso fazê-la entender que não sou esse
tipo de homem. Por algum motivo, o que ela pensa
de mim importa demais. Não posso suportar a ideia
de que Juliana trabalhe ao meu lado, todos os dias,

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achando que sou um homem baixo.


Mas será que ela acreditou em minhas palavras
quando nem eu sei ao certo como me sentir? Tudo
que eu disse, foi mais para mim do que para ela.
Como posso reclamar da ideia que os outros têm de
mim se quero me comportar exatamente do jeito
que esperam? Isso nunca aconteceu antes, nunca
tive problemas em manter uma relação puramente
profissional. E nunca me envolvi com ninguém do
trabalho. É claro que em alguns momentos a
tentação bateu aqui e ali, mas não vale a dor de
cabeça. Nunca valeu.
Mas agora me pego incomodado por Juliana
fazer exatamente o que deve fazer e manter uma
distância palpável entre nós dois. A mulher está
decidida a provar que todo mundo está errado sobre
esse boato ridículo, e eu deveria estar mais do que
feliz pelo caráter dela, mas, pela primeira vez, eu

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quero ser o tipo homem que tem um caso com a


secretária.
Merda.
Juliana estava tão deslumbrante hoje que passei
dos limites. Tenho certeza de que ela notou
enquanto eu a devorava com os olhos o dia inteiro,
incapaz de não a admirar por inteiro, e fantasiar
sobre o que existe por baixo daquela saia preta.
Droga. Passei dos limites depois de prometer que
não passaria dos limites. Que belo babaca que eu
sou.
Solto um suspiro pesado quando penso nisso.
Grandes chances de eu meter os pés pelas mãos.
Espero conseguir não me comportar feito um
adolescente cheio de hormônios perto dela fora do
escritório. Esses meses trabalhando com Juliana
têm sido o paraíso, o inferno na Terra, e nunca
pensei que tivesse tanto autocontrole dentro de

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mim. E para me ajudar, o novo contratado do


Renato foi para cima dela exatamente do jeito que
eu gostaria de ter ido. Filho da mãe. Quase quarenta
anos na cara e irritado por causa de uma criança de
vinte e não sei quantos.
Quero tão desesperadamente que ela me queira
também… Não posso perdê-la sem ao menos
tentar. Sem ao menos ter a certeza de que nunca
aconteceria. Se esse for o caso, aceitarei. Jamais
vou forçá-la a nada. Mas preciso saber.
Quando desligo o telefone, uma mensagem pisca
na tela.

Te encontro lá.

Nunca quis tanto que o dia amanhecesse logo.

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Capítulo 12

ESTOU ATRASADA.
Odeio me atrasar com todas as minhas forças,
mas foi inevitável hoje com todo esse
engarrafamento. Não precisa de muito para que o
trânsito do Rio de Janeiro se transforme em um
evento apocalíptico, então realmente não me
surpreendo. Mas, ainda assim, já começo o dia bem
irritada. Mentira, não comecei o dia irritada, estou
irritada desde ontem com aquela porcaria daquele
beijo que me tirou dos trilhos. Não sei bem como
vai ser hoje, não sei quanto de Eduardo vou ver,
não sei se vou querer bater ou beijar aquele idiota
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quando ele aparecer na minha frente.


Não conheço o endereço que ele me mandou
noite passada e não tenho certeza se estou no lugar
certo. São pouco mais de dez da manhã e a rua está
movimentada, mas não conheço essa área da Tijuca
e o galpão que estou encarando não parece
exatamente muito convidativo. Por que diabos eu
me enfiaria em um lugar desses por vontade
própria?
A construção parece abandonada, mas dado o
número de carros no estacionamento posso ver que
está sendo usada. Usada por quem é outra história.
Encosto em uma árvore e puxo o celular.
— Ei, bom dia — Eduardo diz ao atender o
telefone depois de alguns toques, e posso ouvir a
animação em sua voz. O mundo não é injusto? Eu
aqui me revirando de ansiedade e ele pleno e calmo
como se nada tivesse acontecido. Se ele pode

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fingir, vou fingir também. Sim, cheguei a essa


conclusão só com um bom dia. — Está perdida?
— Não sei, eu estou no endereço que você me
deu, mas… — Ele solta uma risada antes que eu
termine de falar.
— Tenho certeza de que você está no lugar
certo, pode ficar tranquila. A entrada é na lateral
esquerda, é só se identificar. — Eduardo faz uma
pausa, e, quando volta a falar, sua voz está em um
tom mais sério. — Estou esperando por você,
Juliana.
Ah, ok então. Desligo o telefone, respiro fundo e
atravesso a rua em direção ao que pode ser a minha
morte se eu estiver no lugar errado. Honestamente,
pode ser minha morte de qualquer forma
dependendo de como o bonito resolver se
comportar hoje. Preciso acabar com isso de uma
vez, ele é gostoso, mas não pode ter esse poder

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todo sobre a minha libido, não tem cabimento.


Cruzo o terreno pela esquerda e vejo uma porta que
parece mais uma saída de emergências do que
qualquer outra coisa. Um homem está parado,
sentado em uma cadeira, mexendo no celular e
mastigando sonoramente um chiclete.
— Bom dia — digo, e ele levanta os olhos do
aparelho com desinteresse. — Meu nome é Juliana,
eu vim…
— Pode entrar. — E a atenção volta para a tela
do aparelho. Tudo bom?
Ao abrir a porta, uma música alta me atinge,
junto com o barulho da conversa animada. Vejo um
grupo logo na entrada recebendo instruções de um
homem alto e forte, concentrado no que ele tem a
dizer. Olho ao redor tentando entender o que é este
lugar. Parece uma espécie de academia, um
pavilhão aberto com setores pobremente divididos

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e grupos de pessoas fazendo atividades que não


parecem nada com o treino de crossfit da academia
da esquina da minha rua.
Procuro alguém que não esteja suado,
levantando peso ou batendo em alguma coisa para
me dizer o que fazer. Encontro uma mulher com
ataduras enroladas em seus punhos, sentada em um
banco bebendo água, e vou até ela, perguntando por
Eduardo.
— Ali. — Ela aponta para o segundo andar, uma
galeria que não tinha reparado, composta pelo que
parecem salas, escritórios normais, e vejo dois
homens apoiados na grade. Agradeço à mulher e
caminho em direção à escada de ferro que faz um
barulho absurdo debaixo dos meus saltos, que eu já
quero tacar na cabeça de alguém. Prevejo um longo
dia pela frente.
Um homem desconhecido olha na minha direção

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quando alcanço o andar e me analisa de cima a


baixo com olhos atentos, analíticos, e eu tenho a
impressão de que estou sendo avaliada. Para o que,
vai saber. Ele não é muito mais alto que eu e sua
idade é facilmente denunciada. Deve ter alguma
coisa perto dos sessenta, ou mais, mas está em
perfeita forma física e tem uma cara meio mal-
encarada. Que bom que não sou só eu de mau
humor hoje.
Ao seu lado, Eduardo está apoiado na grade,
mas não veste o seu tão tradicional terno preto. Ao
invés disso, usa uma camiseta de malha branca que
abraça seu peito, claramente suado — e me
pergunto o que ele estava fazendo —, e uma calça
jeans surrada, daquelas que a gente tem há cinco
anos e devia ser proibido usar para sair na rua, mas
é tão confortável que não jogamos fora. Seus pés
descalços no chão me fazem ter inveja, e estou
surpresa com o visual despojado. E, de alguma
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forma, ele consegue ficar ainda mais bonito assim.


Quando ele olha em minha direção e abre um
sorriso, quase esqueço a raiva que estou dele.
Quase.
— Juliana — diz, desencostando da grade e
dando um passo em minha direção.
— Bom dia. — A secura em minha voz faz com
que ele não se aproxime mais e se limite a acenar
com a cabeça.
—Você — o homem que não conheço diz,
apontando para Eduardo —, volte lá para baixo e
vá treinar seu pessoal. Você vem comigo, a gente
tem muito trabalho a fazer. — Ele me chama com a
mão e sai andando na frente em direção a uma sala.
Olho para Eduardo, que dá os ombros,
inclinando a cabeça. Ele me encara com um brilho
desconhecido nos olhos e dá um passo em minha
direção.
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— Te vejo mais tarde — diz com um sorriso


contido e não tira os olhos dos meus. — Obrigado
por ter vindo, realmente preciso de você aqui.
Ele alcança minha mão e a toma, levando aos
lábios, ainda sem quebrar o olhar, e eu a puxo de
volta. Essa hora da manhã, não.
— De nada — respondo, e tento ser bem curta e
grossa, mas sei que acabo suspirando para esse
ridículo.
Ele passa por mim em direção à escada, e eu
fico parada no corredor entendendo um total de
nada do que acabou de acontecer.
Vou até a sala onde o homem entrou e o
encontro sentado à mesa de frente para um
computador, que ele vira na minha direção assim
que sento na cadeira ao seu lado.
— O que você sabe sobre este lugar? — ele
pergunta, sem nem se apresentar. Querido, não sei
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nem seu nome, nem onde eu estou, como é que vou


saber alguma coisa deste lugar?
— Nada — respondo, porque isso resume bem.
Sinto-me parte de uma organização secreta,
daquelas que você descobre que é parte da máfia
sem querer. Definitivamente estou lendo livros
demais.
O homem acena com a cabeça e suspira,
arrumando-se na cadeira.
— Foi aqui que a empresa começou, e é onde a
gente faz o treinamento das equipes de segurança
— explica e eu solto um “ah”, entendendo onde eu
estou. Eduardo já me falou desse lugar antes. — No
começo a gente só treinava funcionários dos outros
e depois de muito tempo a coisa cresceu e
formamos nossa própria equipe. Eu estou aqui
praticamente desde o início, o Alex me treinou
pessoalmente, e eu ajudei a ensinar tudo que

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Eduardo sabe. — Ele faz uma pausa, olhando para


o nada por um segundo antes de voltar para mim.
— A empresa está crescendo e o seu patrão é
cabeça dura demais para deixar as coisas seguirem
o caminho natural e terceirizar a mão-de-obra.
Consigo entender isso, embora seja uma atitude
muito esquisita para alguém com um cargo como
Eduardo tem. Tudo costuma ser sobre ganhar o
máximo de dinheiro possível, e sou eu que
preencho os contracheques de todo mundo aqui e
sei bem o quanto é gasto todos os meses em
pagamentos. Todas as pessoas com quem eu
trabalhei não teriam pensado duas vezes antes de
demitir metade dos funcionários e contratado mão-
de-obra mais barata para fazer a mesma função,
mas a única vez que levantei essa possibilidade
para Eduardo, meses atrás, sua resposta foi um
“não” seco e firme, que claramente não estava
aberto a discussões.
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— Então a gente precisa da sua ajuda para tentar


reduzir custos operacionais. — Isso com certeza
não está na descrição do meu trabalho. O que
exatamente estão esperando que eu faça aqui?
Milagre?
É verdade que eu sei bem o quanto de dinheiro
essa empresa movimenta porque tudo acaba
passando pela minha mão uma hora ou outra, mas
daí resolver esse tipo de problema está muito além
das minhas responsabilidades. Competência eu
tenho, o que não tenho é poder de decisão para isso
tudo.
— Olha, não adianta me olhar com essa cara —
o homem sem nome diz. — Eduardo pediu
especificamente por você para resolver isso, cismou
que é a única pessoa que conhece todos os lados da
empresa, que tem a formação adequada e se
importa o suficiente. — Ele suspira e me olha de

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cima a baixo. — Se me perguntar, acho que você é


nova demais para ter experiência o suficiente para
isso, mas quando aquele homem decide alguma
coisa, não tem nada que ninguém possa fazer. Sou
eu que mando neste galpão, mas é ele que manda
na empresa.
Abro a boca para dizer que tecnicamente
Vinicius manda na empresa, mas não perco meu
tempo. Todo mundo sabe que não é verdade. E que
história é essa de eu ser nova demais? Palhaçada.
— Vou estar lá fora, tenho um treinamento de
tiro para começar em alguns minutos. Qualquer
coisa, grita.
E com isso, ele sai da sala, deixando-me sozinha
com o computador e uma tarefa que não tenho ideia
de como resolver.
E eu ainda não sei seu nome.

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As horas passam rápido conforme eu mergulho


nos números e informações. Os gastos com carros e
equipamentos, armas e coletes à prova de bala são
altos e de jeito nenhum eu vou mexer nisso. Posso
ouvir Eduardo no meu ouvido dizendo “segurança
em primeiro lugar”. Ouvir Eduardo no meu ouvido
falando qualquer coisa com aquela voz grossa dele
é uma coisa que eu realmente não ia reclamar…
Pelo amor de Deus, se concentra mulher.
Já que ele não quer mexer no salário das
pessoas, só me resta sugerir arrumar um lugar com
aluguel mais barato e aumentar o preço dos
serviços oferecidos. Quando meu estômago ronca,
olho a hora e vejo que já passa das três da tarde.
— E então? — Dou um pulo na cadeira quando
ouço a voz dele. De onde esse homem veio? Viro a
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cabeça e me deparo com ele de pé, apoiando as


duas mãos nas costas de uma cadeira. Sem camisa.
Eu encaro descaradamente seu abdome por um
segundo — ou dois — antes de voltar a atenção
para o seu rosto. E quero encarar mais, mas me
controlo.
Pisco algumas vezes, e a vontade de dar um tapa
nele é real. Como é que sai desfilando assim por aí?
Ele está sempre tão coberto da cabeça aos pés pelo
terno que nunca consegui sequer um vislumbre do
que tem por baixo, e aí aparece assim, mostrando
que nem minha imaginação fértil fez jus à
realidade. Eduardo coça a barba e inclina a cabeça,
esperando uma resposta. Cadê o profissionalismo?
Cadê a seriedade? Cadê a camisa tampando esse
corpo gostoso?
— Fiz algumas anotações — digo, forçando-me
a tirar os olhos dele. — Vou redigir um relatório

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que faça sentido e te entrego, só preciso comer


alguma coisa antes. Tem algum lugar aqui por
perto? Não conheço bem a região. — Desembesto a
falar na tentativa de mudar o foco.
Ao invés de me responder, ele puxa a cadeira
para bem perto de mim e senta ao meu lado,
passando a mão no cabelo antes de apoiar o
cotovelo na mesa.
— Obrigado por ter vindo — diz, segurando
minha mão.
— Você me paga para isso, Eduardo —
respondo, franzindo a testa.
Ele balança a cabeça negativamente.
— Você é paga para cuidar das coisas no
escritório, não para isso. — Ele pausa, olhando-me
por um longo segundo. — Este lugar significa
muito para mim e eu realmente confio no seu
julgamento. Não tem ninguém que eu gostaria de
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ter aqui comigo mais do que você.


Sinceramente não sei o que responder. Agradeço
a confiança? Reclamo por ele estar se colocando no
caminho entre mim e um sanduíche? Finjo que não
tem nada demais em ele estar com os dedos em
volta dos meus, esfregando o polegar na minha
pele? Continuo me fazendo de doida e ignorando o
que aconteceu ontem?
É quase como se ele estivesse me provocando.
Olhando para mim desse jeito, só consigo lembrar
da sua boca na minha. É fácil esquecer a forma que
ele me enxotou, e depois a força que agiu como se
nada tivesse acontecido, mas não posso deixar esse
charme maldito dele me cegar. Eu preciso do
lembrete de como eu me senti sendo rejeitada
daquele jeito para nunca deixar isso acontecer de
novo.
— Me deixe te pagar o almoço para agradecer

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— ele sugere, cegando-me com o brilho tão intenso


dos seus olhos hoje. — Preciso de cinco minutos
para trocar de roupa.
Para colocar uma roupa você quer dizer.
— Não precisa. — Apresso-me em dizer. — Eu
vou e volto em um pulo para terminar logo isso.
Ele balança a cabeça, negando. De novo.
— Por favor.
Suspiro. Péssima ideia. Concordo com a cabeça.
O que eu estou fazendo?
— Te encontro na entrada — diz sorrindo antes
de erguer a mão que ainda está segurando e
depositar um beijo no meu pulso.
Péssima ideia.

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Acabamos de sentar à mesa de um restaurante


quando o celular de Eduardo toca e ele atende
depois de franzir a testa.
— Oi, Priscila — diz, olhando para mim quando
um período de silêncio se instaura. Se conheço bem
minha amiga, ela provavelmente desembestou a
falar alguma coisa. Provavelmente alguma coisa
não muito agradável, porque ele faz uma careta. —
Eu estou ocupado agora, mais tarde resolvo isso.
Obrigado por me avisar.
Ele sacode a cabeça e põe o telefone em cima da
mesa.
— Gostou do lugar? — pergunta, apontando ao
redor, dirigindo-se a mim.
É um restaurante pequeno, daqueles que servem
boa comida e não aquelas coisas gourmetizadas que
custam um rim e não te alimentam. A decoração é
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rústica, mesas e cadeiras de madeira e paredes


coloridas. Aconchegante, e nem de longe o tipo de
lugar que eu esperaria que ele frequentasse. Cada
minuto que eu passo perto de Eduardo é uma
surpresa diferente.
— É ótimo — respondo. — Você pode ir
resolver o que precisar, não tem problema nenhum.
Eduardo balança a cabeça, levando uma garfada
de comida à boca.
— Agora não — diz, firme. — Resolvo o que
precisar depois que te deixar em casa.
Ergo a sobrancelha para ele. Esse homem deve
estar achando que é meu pai para ficar me dirigindo
para cima e para baixo.
— Eu te garanto que sei bem que não sou seu
pai, Juliana — ele responde depois que digo meus
pensamentos em voz alta, com aquela voz que me
faz ter que me ajeitar na cadeira ao dizer meu
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nome. Palhaçada.
Comemos, conversando amenidades por alguns
instantes. Eduardo não tira os olhos de mim e acho
que estou conseguindo começar a olhar para ele
sem que tudo que eu pense seja sua boca na minha,
como a boa adulta madura e independente que sou.
— Quem é aquele homem que falou comigo
mais cedo? — pergunto, e ele termina de mastigar
antes de responder.
— Kilda —diz e eu franzo a testa. — Também
não sei o motivo do apelido. Ele está na empresa
praticamente desde o início. Acho que não tem
ninguém que saiba sobre o funcionamento das
equipes tanto quanto ele.
— Além de você — aponto e ele concorda com
a cabeça, com um sorriso orgulhoso.
E começa a falar sobre o trabalho aqui com uma
empolgação renovada, um brilho nos olhos que não
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vejo quando ele está no escritório. Detalha o


funcionamento de tudo com tanta paixão que me
vejo envolvida no assunto, ansiando por mais
informações.
— O que achou do galpão? — ele pergunta, e há
certa expectativa em sua voz.
Dou os ombros.
— Não vi muita coisa além da sala onde fiquei o
dia inteiro.
— Justo — responde. — Que tal um tour pelo
lugar antes de irmos embora? — Concordo com a
cabeça e ele sorri.
Seu celular toca mais duas vezes durante o
almoço, mas ele simplesmente ignora as chamadas,
concentrado na conversa que estamos tendo sobre
minha época de faculdade. Conto bobagens que o
fazem sorrir e eu começo a relaxar novamente.
É… agradável estar na companhia dele, assim,
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estando fora do papel de funcionária, e ajuda muito


que ele não esteja vestindo um dos seus ternos
elegantes que parecem funcionar como uma
armadura. Na verdade, Eduardo parece uma pessoa
completamente diferente hoje, ele está mais leve,
mais falante. Parece mais determinado a se
comunicar e estaria mentindo se dissesse que isso
não mexe comigo de um jeito assustador.
É como se toda sua rigidez tivesse ficado no
escritório do Centro e, vendo como ele passou a
manhã com a mão na massa, no que eu descobri ser
um treinamento muito rígido dos seguranças, talvez
seja esse o caso de fato.
— Vamos? — Ele me oferece a mão quando
terminamos de comer e aceito, levantando da
cadeira. Mas, ao invés de soltá-la quando já estou
de pé, ele encaixa meu braço no seu, segurando-me
a si.

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Andamos alguns metros desde a saída do


restaurante sem que ele me solte até pararmos em
um sinal, esperando abrir para atravessar.
— Eduardo?
— Hum?
— O que você está fazendo?
Ele me olha, estende a mão para tirar um fio de
cabelo que grudou na minha bochecha e me puxa
um pouco mais para perto.
— Esperando para atravessar a rua, Juliana —
ele responde, como se pontuar uma ação
corriqueira fosse fazer ser menos fora do comum
ter meu braço enlaçado no seu dessa forma. Como
se ouvisse suas palavras, o sinal abre e os carros
param, permitindo nossa passagem.
Eduardo solta meu braço e apoia a mão em
minhas costas quando cruzamos a porta e eu estou
muito consciente da proximidade, do seu toque
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despretensioso. Tenho certeza que ele nem repara


no que está fazendo. Mas eu noto, e preciso respirar
fundo e repetir na minha mente o que aconteceu
ontem para não me deixar levar por delírios
levianos. Nada de perder o juízo. Hoje não.
O galpão está bem mais vazio agora, talvez com
metade das pessoas que estavam aqui de manhã e
vejo muitos se arrumando para ir embora. Eduardo
sobe dois degraus e se apoia no corrimão.
— Pessoal — ele chama, sem nem elevar muito
a voz, e cabeças se viram em sua direção. — Vocês
estão liberados por hoje, podem ir — anuncia,
simplesmente, e, sem que nenhum questionamento
seja feito, todos começam a encerrar suas
atividades imediatamente. Simples assim.
Ele não sorri e não fez uma sugestão. Não há
espaço para discussões em suas palavras. Seu tom
foi claro e direto: é uma ordem. Eduardo olha em

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minha direção, ainda sem desmanchar a postura


autoritária, mas com um sorriso nos lábios.
— Você também, Juliana. Te espero aqui
embaixo. Quero te mostrar tudo por aqui.
Talvez, só talvez, eu tenha arrepiado um pouco e
me perguntado onde mais essa postura toda
mandona aparece.
São quatro da tarde e ele está mandando os
funcionários embora. E depois reclama que a
empresa não está dando dinheiro. Bufo ao passar
por ele, subindo as escadas em direção à sala onde
larguei minhas coisas.
Já enviei todas as anotações para o meu e-mail,
então só preciso colocar alguns papéis na minha
bolsa e estou pronta para ir. Não demoro mais do
que um minuto para recolher tudo, e é quando noto
minha bolsa, em cima da mesa.
Com um aviãozinho de papel azul enroscado na
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alça, um post-it colado em uma das asas.

Seu sorriso quando acha que ninguém está


olhando, seus olhos capazes de hipnotizar qualquer
um, a forma como você morde a tampa da caneta
quando está concentrada e nem percebe é a coisa
mais sexy de se ver.

Sento-me na cadeira, lembrando de quando


Eduardo contou sobre sua mãe e os recados no
aviãozinho de papel, sobre a forma como ela
escrevia alguma coisa dentro e entregava a ele.
Parece que foi há uma eternidade, mas se
passaram só três dias. Como posso ter me
aproximado tanto dele em tão pouco tempo se nos
últimos meses consegui manter uma distância
perfeitamente segura?
O que mudou de uma semana para cá?
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Estou tão confusa quanto irritada. O que


esse homem pensa que está fazendo com essas
brincadeirinhas? Primeiro me beija, depois me
manda ir atrás de Rafael, depois deixa um bilhete
sem sentido preso à minha bolsa. Só pode estar
tentando me enlouquecer. O que ele quer?
Afundo a cabeça nas mãos, frustrada.
Demoro alguns minutos, sentada na cadeira,
encarando o bilhete, tentando colocar ordem nas
coisas e falhando miseravelmente. Meu telefone
apita e abro a mensagem sem nem ver quem
mandou.

Hey, fui na sua mesa e não te achei. Ainda


estou te devendo aquelas fotos, e tenho todos os
ingredientes para um risoto. O que acha? Como
amigos, claro, porque não é uma boa ideia ir a
encontros com gente do trabalho.
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Rafael termina a mensagem com uma carinha


piscando ao repetir as mesmas palavras que disse
para ele no sábado à noite, na praia, e eu rio de
nervoso. Sem prestar muita atenção no que estou
fazendo, respondo a mensagem, marcando para
quinta-feira, porque amanhã prometi para Priscila
que vamos fazer compras depois do trabalho.
Recebo sua confirmação quase que
instantaneamente.
Ele é tão fácil de lidar, não me deixa toda
nervosa e descompensada, tão autoconsciente e
insegura. E com certeza não tem uma lista de
impedimentos que só cresce na minha cabeça. Fora
que Rafael deixou claro seu interesse desde o
primeiro segundo que colocou os olhos em mim.
Gosto assim, de clareza, certeza, sem ter que ficar
bancando a cigana e consultando minha bola de

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cristal para saber o que o homem está pensando.


E com Eduardo parece que preciso mesmo ter
dons divinos de leitura de palma para adivinhar o
que passa na cabeça dele, porque cada vez que ele
abre a boca, meu juízo vai para um lado diferente.
Respiro fundo, balançando a cabeça. Tô fora de
complicação na minha vida. Levanto da cadeira e
pego minha bolsa, guardando o aviãozinho de papel
e o bilhete, dizendo para mim mesma que só estou
levando comigo porque não sei onde tem uma
lixeira por aqui.
É só continuar mentindo para mim mesma sobre
as coisas que uma hora eu acredito. Ou não, mas
vamos tentar, não é mesmo?
Começo a descer as escadas e me deparo com
um grande vazio. Não no sentido metafórico, não,
está tudo vazio mesmo. Acho que se eu gritar vai
ecoar. Como mágica, todo mundo foi embora e o
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andar está completamente deserto, a não ser pelo


homem que não se apresentou quando eu cheguei,
Kilda.
— Ele está nos fundos — diz quando me vê. O
cabelo grisalho do homem denuncia sua idade e ele
balança a cabeça. — Olha, garota, não sei qual é a
história aqui. Mas conheço o Eduardo desde que ele
era moleque, e tem meses que reparei alguma coisa
errada. Ele anda aéreo, com a cabeça em outro
lugar. Agora eu sei o que é. — O homem me olha
de cima a baixo pela terceira vez hoje e eu empino
o nariz para esse discursinho esquisito e olhar
julgador. — Se você não estiver interessada, só vai
embora.
E, com isso, quem vai embora é ele, e me deixa
com vontade de dar na cara dele. Quem acha que é
para ficar me dizendo o que fazer? Nada do que ele
disse nem fez nenhum sentido. Devo estar na TPM,

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é a única coisa que justifica essa irritação toda.


Ando a passos duros para os fundos, onde o
homem indicou, já pronta para dizer que vou para
casa antes que o dia fique mais esquisito ainda, mas
paro quando vejo Eduardo carregando uma caixa
que parece pesada demais para o seu próprio bem.
Sem camisa, exibe os músculos contraídos pelo
esforço, bem-definidos, mas discretos. Daqueles
bons de pegar. Nada daqueles caras que passam
mais tempo na academia do que fazendo qualquer
outra coisa e parecem uma parede de tijolos, não. O
tipo de corpo capaz da pegada firme que tive a
prova ontem.
Ele olha para mim depois de enfiar a caixa em
uma estante.
— Está pronta? — pergunta, e eu percorro o
olhar por todo o seu corpo descaradamente,
voltando a encarar seus olhos curiosos.
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— Eu acho melhor eu ir sozinha — digo,


constatando o óbvio quando ele dá um passo em
minha direção. Ele pergunta o motivo e eu reviro os
olhos. — Sinceramente? Porque você está me
tirando do sério e eu quero te dar um tapa.
Eduardo me olha surpreso e, honestamente, eu
também estou surpresa por ter dito isso. Mas estou
cansada. Muito, muito cansada dessa história. Era
para eu ir para o trabalho e voltar para casa, falar
com ele sobre reuniões e contratos, rir de alguma
piada sem graça daquelas que homens de meia-
idade fazem e ir para casa. Simples assim, como
sempre foi desde que eu comecei a trabalhar. Eu
nunca tive tanta dor de cabeça com um chefe nos
últimos seis anos, e nunca tive tanta vontade de
esganar e agarrar um homem desde que me lembro
por gente.
— E posso saber por quê? — pergunta, e eu me

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limito a balançar a cabeça e abrir os braços,


apontando… tudo.
Ele concorda com a cabeça, como se entendesse
o silêncio e dá outro passo na minha direção.
Eduardo está me desestabilizando, e eu gosto da
minha vida bem equilibrada, muito obrigada. Estou
dispensando essa montanha-russa de emoções
digna de um romance da Bella Andre. Sem essa de
paixão impossível para mim. Quero calma, paz,
sossego, um livro e uma taça de vinho, um cara que
me leve para jantar e assistir um filme e vá almoçar
com meus pais no domingo. Não um que me faça
querer arrancar a roupa toda vez que olha na minha
direção. Pelo amor de Deus, meu pico hormonal já
passou tem uns dez anos.
Eu bufo e ele cruza os braços no peito,
encarando-me com uma seriedade inesperada.
Qualquer traço de sorriso e leveza se esvai do seu

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rosto e ele assume a postura necessária para essa


conversa que, querendo ou não, tem que acontecer.
Eu preferia que não, que Eduardo simplesmente
parasse de ser um ímã gigante e não me olhasse
como se quisesse me devorar mandando sinais
confusos que sequer deveriam existir e eu
simplesmente voltasse a ter controle da minha
sanidade mental, mas pelo visto é pedir demais.
— Eu prometi que não ia passar dos limites —
ele diz.
Aceno com a cabeça.
— E isso aqui passa dos limites. Sugerir que
você ficasse com Rafael passou dos limites. — Seu
tom não passa de um murmúrio irritado agora. — O
beijo passou dos limites.
Você, sem camisa, sozinho comigo em um
galpão deserto, realmente passa dos limites,
Eduardo! Porém, quero. E é esse o verdadeiro
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problema.
— E você quer que eu pare — Eduardo diz, e eu
engulo seco, porque a resposta é sim, mas também
é não. — Você quer que eu pare porque eu sou seu
chefe e isso é inapropriado, e todo mundo vai achar
que está se envolvendo comigo por interesse.
— Esse é um dos motivos, sim — digo, tentando
manter a firmeza na minha voz quando ele dá mais
um passo na minha direção. Ele está perto o
suficiente para que eu possa tocá-lo se esticar o
braço.
Eduardo respira fundo, sem tirar os olhos de
mim. E é a vez dele de percorrer meu corpo com o
olhar demorado sobre cada parte minha, e me sinto
nua, exposta, desejando realmente estar assim.
— Eu não vou, nunca, fazer alguma coisa que
você não queira — ele diz, voltando a encarar meus
olhos. — Todo o poder aqui está nas suas mãos,
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Juliana. Sempre esteve. Tudo que tem que fazer é


dizer que não me quer.
Não quero, porque você é meu chefe. Não
quero, porque não posso arriscar minha carreira
desse jeito. Não quero, porque não estou disposta a
ser o prazer oculto de alguém que nunca vai me
exibir em público. Não quero, porque não vou dar a
chance de ser machucada. Não quero, porque tem
muita coisa em jogo para arriscar tudo por uma
noite de prazer.
Não quero querer, mas quero. E como quero.
Eduardo espera, paciente, prendendo-me ao seu
olhar.
— Diga, Juliana. Tudo que você tem que fazer é
me afastar, agora, e eu vou. Nunca mais falamos
nisso e tudo volta ao normal. — Ele estende a mão
e segura meu queixo, e suspira. — Eu quero você.
E se você não me mandar embora, a próxima coisa
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que eu vou fazer é te imprensar contra aquela


parede bem ali. A escolha é sua, e qualquer que
seja a resposta, eu vou respeitar.
Abro a boca para responder, mas suas palavras
me atingem e o diabinho que mora em mim quer
ver se ele realmente vai fazer isso, então não digo
nada. Limito-me a erguer o queixo, escapando da
sua mão, desafiando-o com o olhar, uma
sobrancelha erguida. E ele sorri.
— Quais são os outros motivos? — pergunta,
uma mão alcançando minha cintura. — Você disse
que eu ser seu chefe é um dos motivos. Quais são
os outros? Vamos, me diga contra o que eu estou
lutando aqui.
Suspiro. O que é essa conversa? O que está
acontecendo aqui?
— Não estou nem um pouco interessada em
pegações escondidas no seu escritório como todo
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mundo acha que está acontecendo. — Reviro os


olhos. Ainda vou esganar Fernanda. — Não tenho
nenhuma intenção de virar essa mulher.
Ele estica a outra mão, levando-a para o meu
pescoço, e sinto suas unhas rasparem minha pele.
— Eu não tenho mais idade para ficar tendo
casinhos secretos às escondidas dentro do meu
escritório, Juliana. Em momento nenhum isso
passou pela minha cabeça. Já disse, quero você.
Quero você inteira.
Suspiro quando ele dá um último passo em
minha direção e sua mão sobe pelas minhas costas.
Eduardo me olha com aqueles olhos castanhos
sedutores esperando que eu continue falando.
— Ótimo — digo, forçando-me a não sucumbir
a ele dizendo todas as palavras certas. Até onde eu
sei, ele simplesmente está mentindo para consegui
o que quer. Tive amigos homens o suficiente na
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vida para saber que embuste não tem cara e a gente


só descobre quando é tarde demais. — Problema
resolvido. — Ele ergue a sobrancelha. — Você não
quer um casinho secreto, nem eu. E eu não sou o
tipo de mulher com quem você desfilaria para cima
e para baixo. Então isso — aponto para nós dois —
não vai acontecer.
Eduardo aperta os olhos, um misto de confusão
e irritação transpassando seu semblante, enquanto
ele se inclina em minha direção, deixando meu
rosto a centímetros de distância do seu.
— O que exatamente você quer dizer com tipo
de mulher? — Sua voz é baixa e exigente, sua
pergunta é quase uma ordem rosnada, seu corpo
muito perto do meu para o meu próprio bem, e
sinto um arrepio me percorrer. Sem conseguir
evitar de me perguntar se esse é o tom que ele
usaria comigo na cama. Porque se for… estou

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perdida.
— O que estou dizendo… — Lambo os lábios e
inspiro pela boca antes de continuar falando. — É
que eu entendo o fetiche com a secretária e tudo
mais, mas vamos combinar que…
Não consigo terminar de falar porque a próxima
coisa que vejo — que sinto — é Eduardo me
puxando contra ele, enlaçando minha cintura contra
seu dorso nu. Ele se move, levando-me com ele, e
sinto minhas costas contra a parede.
— Continue — ele sussurra contra a minha
boca. — Continue com o absurdo que você estava a
ponto de dizer.
Suas mãos percorrem minha cintura e eu suspiro
quando sinto sua boca no meu pescoço.
Ah, ótimo.

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Capítulo 13

TODO DIA JULIANA SENDO IMPRENSADA


em uma parede diferente. Devia estar reclamando,
mas não estou, o que já mostra que perdi
completamente meu juízo. Uma mão firme me
prende ao seu olhar, segurando meu rosto em sua
direção. Estou hipnotizada por seus olhos
selvagens. Seu polegar se move pelo meu lábio
enquanto sinto outra palma percorrer a lateral do
meu corpo, e tudo que consigo fazer é cravar as
unhas no seu braço para manter o equilíbrio.
— Achei que quisesse conversar — murmuro.
— E quero.

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Eduardo deposita um beijo na curva do meu


pescoço. É impossível pensar qualquer coisa que
faça sentido com essa distração toda.
— Diga-me mais uma vez porque essa é uma
péssima ideia — pede, a boca pousando a
centímetros da minha.
Basicamente porque a fase onde eu seria capaz
de abrir minhas lindas perninhas para você sem
qualquer envolvimento emocional já passou há
muito tempo e eu não sei se vou ser capaz de
sobreviver a uma noite de pegação e aparecer linda,
bela e plena para trabalhar no dia seguinte fingindo
que nada aconteceu. Se um beijo me deixou
daquele jeito, imagina o pacote completo? Tenho
estrutura para isso não.
—Você é meu chefe — digo, e ele sorri, um
sorriso ferino de quem já esperava ouvir isso e tem
todas as cartas na manga.

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O sorriso mal dura um segundo e logo


desaparece quando ele passa os lábios pelo meu
queixo, indo em direção ao meu pescoço,
arrastando a boca pela minha pele que arrepia
facilmente com o toque.
— Meu irmão é seu chefe, ele paga seu salário.
É o nome dele na porta, eu só nasci na mesma
família — Eduardo diz no meu ouvido e eu
estremeço, o que só aumenta a firmeza do toque da
mão que agora pousa no meu quadril, espelhando
as reações do meu corpo.
Isso não é exatamente verdade, mas é tão fácil
de me deixar levar por esse cenário que não
protesto. Só aceito essa explicação meia-boca como
verdade neste momento.
— Você é muito mais velho que eu e… —
Perco o fio da meada quando sinto sua boca em
meu lóbulo, seus dentes raspando na minha pele.

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— Eu te garanto que você vai agradecer por isso


quando descobrir o que esses anos de experiência
me ensinaram — diz, subindo as unhas por minha
perna.
Filho da mãe. Isso é jogo baixo.
— E eu realmente não sou seu tipo. — A última
parte sai como um sussurro estrangulado, ofegante,
e ele ri, um riso debochado, quente sobre minha
pele.
— Por favor, me avise quando cansar de
arrumar desculpas. — Seus lábios voltam aos meus,
em um toque delicado que mal é um beijo. — Eu
tenho a noite toda.
Suspiro contra sua boca e percorro as mãos por
seus braços, incapaz de dizer qualquer coisa,
aproveitando para sentir seu corpo, porque sou
insegura e indecisa, mas sou humana e incapaz de
resistir a esse homem. Não deve nem ser pecado
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sucumbir à luxúria com Eduardo. Certeza que tem


alguma exceção nos mandamentos que diz que tudo
bem perder a cabeça por ele, porque é
humanamente impossível não se derreter todinha.
— Ótimo. Minha vez.
Sua boca toma a minha possessivamente. Assim
como no escritório, entrego o que ele quer tomar, e
toda a classe e pose austera de Eduardo cai por
terra enquanto ele segura meu pescoço. Sinto o
calor das suas costas descobertas contra minhas
palmas e eu mereço um prêmio por resistir à
tentação que é puxá-lo para mais perto, mas não
preciso, porque ele vem sozinho. Um gemido de
satisfação escapa da minha garganta e sua mão
percorre minha bunda, fazendo com que eu arqueie
o corpo em sua direção.
— Você me quer. — A afirmação sussurrada
contra minha boca é quase uma pergunta. Ele sabe,

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mas espera a confirmação, a permissão para tomar


isso como verdade e, quando digo que sim, sua
boca volta à minha, com mais calma dessa vez, em
um beijo intenso e controlado. — Qual o problema,
Juliana?
Eduardo me solta, encostando a testa na minha.
— Sem desculpas. Qual o problema?
Suspiro, percorrendo as mãos por seus ombros e
ele me aperta em um abraço firme. É como se todo
o tesão explosivo de um segundo atrás
simplesmente tivesse desaparecido, e o que fica é a
pura vontade de me manter em seus braços.
— Não posso ter um caso com meu chefe.
Eduardo suspira e roça os lábios nos meus, sem
dizer nada por algum tempo.
— Então vou ter que te mostrar que sou mais do
que isso — sussurra contra minha boca. Não resisto
à proximidade e o beijo, mas ele interrompe. — Eu
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não vou te beijar até você aprender a me enxergar


como mais do que o seu chefe. Como eu enxergo
você.
Bufo, não sei se em protesto ou agradecimento.
Deveria ser uma coisa boa. Já que eu claramente
estou perdendo a cabeça e sou incapaz de fazer
escolhas sensatas, Eduardo que faça por nós dois.
Vou transferir a responsabilidade para ele e é isso
aí.
— E se isso nunca acontecer? — pergunto, por
pura curiosidade, já que tenho certeza de que
realmente vai ser impossível olhar para ele um dia
sem ver o homem que dá nome ao lugar onde
trabalho. Onde se ganha o pão, não se come a
carne. A frase tão repetida pela minha avó não é
nada além da mais pura verdade.
Eduardo não responde, apenas passa os lábios
pela curva do meu pescoço, e meu corpo todo

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arrepia. Seu sorriso sobre minha pele é resposta o


suficiente para o que ele acha disso.
Ele se afasta e respira fundo, e eu faço o mesmo,
sentindo meu corpo quente.
— Quero te levar para jantar hoje — anuncia.
O quê? Não! Pelo amor de Deus. Homem
inconstante dos infernos.
Sacudo a cabeça em negativa e abaixo para
apanhar minha bolsa que caiu no chão com toda
a… movimentação.
— Em momento nenhum eu disse que
concordava com esse seu joguinho, Eduardo.
Ele ergue uma sobrancelha para mim.
— Não é joguinho nenhum, Juliana. E eu já
disse, tudo que você tem que fazer é dizer que não
quer, e eu paro. Eu só quero que você me conheça
melhor, e quero te conhecer melhor. Como duas

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pessoas adultas fazem.


Abro a boca para protestar, mas nem sei
protestar contra o quê. O que esse homem está
fazendo? Tentando me cortejar como se eu fosse a
mocinha de um romance histórico? Isso, na
verdade, me dá uma ideia para um livro… Foco,
Juliana!
— Eu não vou jantar com você — protesto,
enfática, e Eduardo suspira.
— Tudo bem. Mas ainda vou te levar em casa.
Vamos — diz, apanhando a camisa que estava
jogada em um lugar qualquer.
Eduardo estica o braço, indicando o caminho, e
me guia até a saída, deixando claro que essa parte
não está em negociação.

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Chegamos à minha casa muitas horas depois,


um oferecimento especial do trânsito do horário de
pico do Rio de Janeiro. O trajeto foi esquisito no
começo, mas, quando vimos um garoto escorregar
do skate e dar de cara na árvore, rimos ao mesmo
tempo, certos de que nosso lugar no inferno está
garantido. Desde então, a conversa começou a fluir
mais naturalmente e, igual à última vez, pulamos
entre assuntos aleatórios até o carro ser estacionado
na entrada do prédio, a tensão posta de lado
momentaneamente.
— Me explica de novo, por que você mora aqui?
— Eduardo pergunta com o cenho franzido olhando
para o prédio, e eu reviro os olhos.
— Nem todo mundo tem pai rico — resmungo e
seu olhar desvia para mim. Ele estreita os olhos,
tira o cinto e desliga o carro, virando-se em minha

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direção.
Eduardo me olha em silêncio, e não consigo
decifrar sua expressão, então me limito a olhá-lo de
volta. Que homem bonito, meu Deus.
— Você realmente não consegue ver nada além
do homem de terno, não é? — pergunta, pegando-
me de surpresa.
Penso por um segundo antes de responder, e não
é que eu não consiga ver nada além; eu não posso
querer ver nada além. É perigoso, como foi o dia
inteiro. Essas horas que passamos fora do escritório
e longe de tudo que mantém nossa relação
profissional sob controle foi como andar em um
campo minado, só que ao invés de bombas, o
perigo era encontrar alguma coisa nova que me
fizesse suspirar por esse homem.
— Você não está usando terno agora — aponto,
percorrendo pela milésima vez o olhar pela camisa
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branca e jeans surrados, que não deviam deixar


alguém bonito, mas aí está a prova de que Eduardo
claramente não respeita as leis naturais da vida.
Ele balança a cabeça e estou esperando que
comece a dizer “você não sabe nada da minha vida,
não sabe o que eu passei” como adolescentes nas
redes sociais, mas Eduardo se limita a destravar a
porta e sorrir.
— Não, não estou — diz. — E tecnicamente
você está fora do seu horário de trabalho, então…
Ergo a sobrancelha quando percebo onde ele
está indo com isso.
— E eu realmente preciso usar o banheiro.
Edu me olha, o olhar desafiando a dizer que ele
está mentindo, e eu balanço a cabeça bem
lentamente, deixando clara a minha descrença nesse
truque barato para ser convidado para entrar.
Truque barato que funciona, porque a próxima
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coisa que sei é que estamos subindo as escadas até


o quarto andar.
Destranco a porta e a abro, permitindo que
Eduardo entre, e indico onde fica o banheiro, só
para o caso de ele estar falando sério. Se não
estiver, está comprometido com a desculpa
esfarrapada, porque segue para o cômodo que eu
indico.
Não lembro qual foi a última vez que recebi
alguém aqui fora meus pais e Guilherme. E
Priscila, que não pede licença para nada. Este
apartamento não está acostumado com visitas
novas e, pela primeira vez em muito tempo, olho ao
redor, realmente enxergando o ambiente, a mobília
antiga, mesmo que bem conservada, as memórias
presas entre as paredes. Este lugar me sufoca um
pouco, é como se eu estivesse me torturando de
propósito e sem motivo. Sei que preciso deixar

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minha avó ir, mas não gosto de pensar nisso. E noto


que minha lista de coisas que não gosto de pensar
sobre aumenta todos os dias. Decido não pensar
nisso também.
Se fingir que o sentimento não existe, ele vai
embora. Não é assim que funciona? Espero que
funcione para o que parece começar a querer brotar
por Eduardo também.
Estou de pé no meio da sala, braços cruzados,
sapatos chutados para fora dos meus pés, quando
ele volta.
— Tudo bem? — pergunta quando não me
movo. Ouço-o suspirar. — Eu disse que não ia
forçar nada e quis dizer isso, Juliana. Não quero
invadir seu espaço, então é melhor eu ir embora —
diz e eu viro.
— Não é isso, não se preocupe — digo, e ele dá
um passo em minha direção, tirando uma mecha do
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meu rosto. Não sei que tanto cabelo é esse que


gruda na minha bochecha, mas parece que Eduardo
sempre está ali para consertar isso.
É engraçada a facilidade com que simplesmente
aceita as coisas. Eu disse que o problema não era
com ele e pronto, preocupação posta de lado. Fico
remoendo as coisas na minha cabeça até o fim dos
tempos, e se alguém diz para eu não me preocupar,
aí é que me preocupo mesmo. Bem louca
masoquista.
— Quer me dizer qual o problema?
Quero. Quero sentar neste sofá e contar a
história da minha vida, dividir as memórias deste
apartamento, dias bons e ruins. Mas não o faço,
porque não tem cabimento.
— Parece que você vai mesmo jantar comigo no
fim das contas — digo, desviando da pergunta e
indicando a cozinha, para onde ele me segue.
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Após ser surpreendida pelo fato de Eduardo


saber cozinhar muito bem, terminamos a noite com
uma taça de vinho nas mãos. Quer dizer, eu estou
com a taça de vinho nas mãos, ele apenas continua
contando uma história enquanto bebo. Quando
pergunto se não vai me acompanhar, ele nega com
a cabeça.
— Tenho que dirigir para casa — diz, olhando o
relógio e constatando que já está na hora de ir e que
ficamos as últimas três horas conversando. Nem
senti o tempo passar. — Não posso dormir na sua
casa no primeiro encontro, sou um homem de
família. — Ele pisca para mim e eu quase cuspo o
vinho de volta na taça.

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— Isso não é um encontro — protesto,


apontando o óbvio.
Eduardo dá os ombros.
— Também não sou um homem de família —
sussurra, inclinando-se na minha direção, e tira a
taça da minha mão.
Não! Devolve! Estava usando como escudo!
Qualquer coisa era só jogar o líquido vermelho nele
se precisasse de espaço para respirar, coisa que
preciso neste exato momento com Edu se
aproximando cada vez mais.
— Eu tive uma ótima noite.
Seus lábios tocam minha bochecha enquanto sua
mão vai à minha cintura. Ele não tinha encostado
em mim desde que chegamos aqui, e não sei se foi
de propósito para me deixar morrendo de vontade
com a proximidade, mas, se foi essa a ideia,
funcionou.
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— Obrigado, Juliana — sussurra em meu


ouvido e um arrepio percorre minha espinha.
— Você está jogando sujo. — Pego-me
respondendo e sinto sua barba roçar em minha
bochecha.
— Eu disse que não ia te beijar, estou
cumprindo minha parte do acordo.
Pouso a mão em seu peito, raspando a unha por
cima do tecido.
— Eu não fiz acordo nenhum — sussurro de
volta e sinto aumentar o aperto da sua mão em
minha cintura antes de descer, pousando em minha
coxa.
Eduardo percorre os lábios por meu pescoço e
deposita um beijo casto em meu ombro antes de
voltar ao meu ouvido.
— Tenho certeza de que você não está
preocupada de eu ser seu chefe agora, está? —
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pergunta, no que deveria ser um tom provocativo,


mas é palpável a significância da pergunta.
Respondo, alcançando a barra da sua camisa e
percorrendo os dedos por suas costas, e sinto sua
mão subir pela minha perna. Eduardo arrasta a
palma pela minha cintura até alcançar a curva do
meu seio, e eu inspiro forte quando ele aperta e
percorre os dedos no meu mamilo por sobre o
tecido fino da blusa.
— Você me enlouquece — murmura,
enganchando o polegar por dentro do meu decote,
alcançando a pele por baixo do meu sutiã. Arrasto a
mão por meu ombro, fazendo cair a alça da blusa.
Vamos ver até onde Eduardo vai com isso. E
realmente vai, puxando a alça do sutiã e me
expondo para ele.
— Ainda não é um beijo — diz, passando os
dentes pela curva do meu seio.

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Suspiro e me inclino em sua direção, querendo


mais dele.
— Meu quarto é logo ali. — Rendo-me,
deixando claro que perdi completamente o controle
e bom senso, e seu aperto sobre mim aumenta.
Desse jeito, com suas mãos em mim e com sua
boca tocando minha pele, esqueço de tudo. Esqueço
as reservas, as preocupações. Como se meu corpo
decidisse o que fazer e minha mente fosse ignorada.
Amanhã me preocupo com as consequências.
Mas é claro que Eduardo tem planos diferentes.
— Você não tem ideia de como eu quero te levar
para lá. — Ele percorre a boca pelo meu colo. —
Ou te ter aqui mesmo. — Seu tom é sugestivo e
uma imagem bem nítida de Eduardo me tomando
no sofá pinta em minha mente. — Mas nós dois
sabemos que você vai se arrepender depois. Não
vou aguentar que se arrependa de passar a noite
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comigo, Lia.
Grunho, frustrada, quando ele puxa a alça da
minha blusa de volta ao lugar e pousa os lábios na
curva do meu pescoço.
— Ninguém me chama de Lia — protesto.
Sinto seu sorriso na minha pele.
— Ótimo. Gosto de exclusividade.
Então ele beija aquele pontinho certeiro atrás da
minha orelha e arrasta o nariz, fazendo o contato
durar um pouco mais.
— Isso nem faz sentido — reclamo e ele me
puxa para um abraço.
— Muita coisa não faz sentido por aqui, mas
vamos consertar isso. — Beijo seu pescoço e subo
a mão por sua perna, e ele suspira, apertando minha
cintura. — Será que você pode me buscar um copo
de água antes de eu ir embora?

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Vai embora mesmo, antes que eu dê um tapa


pela gracinha. Tiro a mão de sua coxa e ele me
solta, e, quando seu olhar encontra o meu, Eduardo
não está sorrindo. Não há um riso sedutor
despretensioso em seu rosto, pelo contrário. Seus
lábios estão entreabertos e os olhos transbordando
desejo cru. Sua respiração está tão pesada quanto a
minha. Por quê? Por que me torturar desse jeito? O
que eu fiz? Por que esse homem não pode só me
deixar em paz?
Levanto, sacudindo a cabeça, e vou à cozinha
buscar a água e tomo um gole, grande e gelado,
respirando fundo. Considere taxa de entrega.
Porcaria de homem certinho. Quando volto à sala,
encontro-o perto da porta e me sinto vingada
quando vejo sua ereção marcar a calça enquanto ele
bebe a água. Não estou sofrendo sozinha. Que
visão…

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Ele apoia o copo na estante e volta seu olhar


para mim quando abro a porta.
— É um belo apartamento — diz, sem tirar os
olhos de mim. — Obrigado por me convidar.
— Você se convidou — digo, sorrindo para
tentar disfarçar o desejo reprimido enquanto ele
cruza o batente e vai para o corredor.
— Não pode culpar um homem de lutar pelo que
quer — fala, tocando meu rosto, e eu reviro os
olhos.
— Muito trabalho para conseguir uma noite com
alguém — alfineto. — É uma aposta ou alguma
coisa assim?
Eduardo dá um passo à frente.
— Quem foi que falou em uma noite? Tranque a
porta, Juliana — ordena e nem consigo ficar
irritada com o tom que soa mais sedutor do que
mandão. Eduardo beija minha testa. — Boa noite.
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Ele some pelo corredor e eu fico encarando o


escuro por um segundo antes de fechar a porta e ir
para debaixo do chuveiro para um banho bem
gelado, decidida a resolver eu mesma a frustração
pela provocação idiota dele.
Onde guardei meu vibrador?

Saio do banho mais longo da história da


humanidade, relaxada, satisfeita e pronta para
dormir como um bebê. Meu computador me olha,
julgando-me pela ausência, mas não tenho
condições. Se eu sentar para escrever, a única coisa
que vai sair é um conto erótico.
Vou até a sala para pegar a taça e vejo sobre a
mesa outro aviãozinho de papel. Já tinha esquecido

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do primeiro. Aquele homem anda com folha de


origami no bolso por acaso? Noto o bloco de notas,
que fica ao lado do telefone, com uma página
faltando e percebo que essa é a explicação mais
lógica. Dessa vez, tem alguma coisa escrita na asa.

Seu cheiro de canela, o jeito que você se arrepia


inteira quando beijo seu pescoço, o fato de que
quer me bater metade do tempo que passa comigo e
ainda assim não me manda embora.

Ele está fazendo uma lista.


Procuro na bolsa o bilhete que encontrei mais
cedo e o coloco ao lado do que está em minha mão.
Não vou te beijar até você aprender a me
enxergar como mais do que o seu chefe.
Esfrego o rosto.

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Quem foi que falou em uma noite?


Eu estou muito ferrada.
Se isso continuar desse jeito, não tem a menor
chance de eu não estar completamente rendida a ele
até o final da semana.
E, então, lá vai Juliana arcar com as
consequências de uma escolha ruim. Ficar sofrendo
com o coração partido depois que Eduardo perder o
interesse. Por que eu tenho que gostar dele? Por
que não posso só me permitir uma sessão de sexo
gostoso e cada um ir para o seu lado? Por que tem
que envolver essa inquietação no meu peito? Só
para complicar minha vida.
O homem está decidido a me tirar do sério, e
com certeza é porque não está acostumado a não ter
qualquer mulher que quer jogada aos seus pés
instantaneamente. É isso, é essa a explicação. Faz
sentido. Da mesma forma que o quero porque sei
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que não posso ter, Eduardo está empenhado em me


fazer mudar de ideia e, quando conseguir —
quando, porque é só questão de tempo nesse ritmo
—, vai passar para a próxima. Não tem como ser
diferente disso.
Pego o celular, pronta para digitar uma
mensagem dizendo que não, não quero, como
Eduardo disse que devia fazer se quisesse que ele
se afastasse, mas, ao invés disso, meus dedos
respondem uma mensagem de Rafael recebida
horas antes que pisca na tela. Parece que ele sente o
cheiro e aparece nas horas mais erradas. Ou certas,
depende do ponto de vista. Nem eu sei mais.
Antes mesmo de enviar a mensagem, sei que
estou fazendo besteira.

Claro que está tudo certo para quinta, Rafa!

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Sabotagem. É esse o nome. Autossabotagem.


Domino essa arte como ninguém e sei que é
exatamente o que estou fazendo, mas justifico
dizendo que é para meu próprio bem. Para evitar
um coração partido em um futuro muito próximo.
Não tem a menor chance de eu conseguir resistir
a Eduardo por conta própria, não se ele continuar
com o que está fazendo.
Preciso ter certeza de que existe uma motivação
extra para me impedir de fazer bobagem. E o
modelo de cuecas de sorriso fácil vai ser a
justificativa perfeita.
Eu espero.
Então por que estou com a sensação de que só
estou arrumando mais problema para o meu lado?

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Capítulo 14

O DIA ESTÁ QUENTE E FICO FELIZ por


ter desistido de usar calças hoje. Não sei quem foi
que disse que podia fazer calor o tempo inteiro
nesta cidade, mas vou ter uma conversinha com o
responsável. Uma frente fria, Deus, nunca te pedi
nada. Aperto o botão do elevador e espero, rolando
a tela do celular inutilmente pelas redes sociais,
quando sinto braços envolverem minha cintura e
uma cabeça se apoiar em meu ombro.
— Bom dia, Priscila — digo, levemente
desapontada por ser ela, e a loira resmunga alguma
coisa sem sentido antes de me soltar. É sono,
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certeza. Está para nascer pessoa que gosta de


dormir mais que ela.
O elevador chega e entramos, apertando o botão
do andar certo. Apoio a cabeça no ombro dela e Pri
beija minha testa como sempre faz.
— Você está com uma cara horrível — diz e eu
reviro os olhos.
Obrigada, viu? Está certo que dormi muito
pouco essa noite porque Eduardo insistiu em ir
embora e me deixar naquele estado, então foi
praticamente impossível relaxar. Mas também não
precisa apontar o óbvio! Nem jogar na cara meu
estado. O pior é que sei que ela nem fala essas
coisas por mal. Priscila só não tem filtro nenhum,
fala o que passa na cabeça dela.
Quem precisa de inimigo com uma amiga
dessas?
— Que horas você vai sair? — pergunto, e
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começamos a combinar os detalhes da nossa


excursão hoje depois do trabalho. Shopping é
provavelmente um dos únicos lugares que nós duas
amamos igualmente, ou seja, não muito. Priscila
vive para as baladas dela, e honestamente, eu nem
sei como ela tem essa energia toda, porque a loira
está todo dia batendo ponto no trabalho, bonitinha,
na hora, com um sorriso no rosto e nenhuma
olheira. Nem eu que gosto de acordar cedo consigo
essa proeza. Então acaba que todas as vezes que a
gente sai, é um parto para conseguir escolher um
lugar que não vá fazer uma de nós duas preferir
morrer.
Priscila tem um casamento para ir e precisa de
um vestido novo, então teremos uma merecida
noite das garotas que há muito tempo estamos
planejando. Digito uma mensagem rápida para
Luana dizendo a hora e o lugar onde estaremos,
perguntando se ela quer se juntar a nós, ainda na
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tentativa de trazê-la de volta para a minha vida,


mas tenho a sensação de que vai ser em vão.
Às vezes as pessoas só se afastam sem motivo
mesmo. Acabei perdendo muitas amizades pelo
caminho, e acho que me sentiria bem sozinha se
não fosse a presença sempre invasiva de Priscila,
que não me deixa em paz nem se eu implorar de
joelhos. E que sorte que eu dei de ela ter cismado
comigo, porque sou péssima para puxar assunto
com os outros e sempre acho que estou
incomodando. Mas depois que pego intimidade
também, incomodo mesmo, até me mandarem
parar.
Se parar para pensar, não é muito diferente da
proposta louca de Eduardo. Se eu não quiser,
preciso dizer, como a mulher adulta que sou, ao
invés de fugir e me esconder feito uma doida. Mas
é tão mais fácil só fugir… Cadê a coragem de dizer

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que não quero? Eu quero sim.


Quando Priscila vai para a sala dela, caminho
até minha mesa, sacudindo para fora da cabeça essa
ideia louca. Tenho tempo para isso não. Não era
ontem mesmo que eu estava dizendo que não
estava disposta a deixar minha vida girar em torno
de um cara?
Sinto um arrepio gostoso de antecipação
conforme vou me aproximando da mesa, já
sabendo o que me espera. Penduro minha bolsa e
não sou decepcionada, nem consigo esconder o
sorriso bobo. Porcaria. Em cima do teclado, o
maldito aviãozinho de papel. Sento na cadeira e
seguro a dobradura entre as minhas mãos,
revirando-a entre os dedos, mas não encontro nada
escrito. Desdobro, primeiro uma asa, depois todo o
origami, até encontrar o texto. Sorrio.

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Não consigo tirar da cabeça sua expressão de


satisfação quando olhou para a minha calça
ontem, na porta do seu apartamento, e viu o que
tinha feito comigo. Espero ter a oportunidade para
repetir a dose em breve.

Preciso segurar o riso de novo, de nervoso dessa


vez. E se alguém pega isso? Essa brincadeirinha
está muito parecida com um caso escondido, com a
desvantagem de que não tem nenhuma pegação
desenfreada. E é ridiculamente excitante.
Aquele homem sabe o que faz.
Sacudo a cabeça, dispensando as ideias
travessas, e me concentro no meu trabalho. Tem
uma pilha de coisas para fazer e me perco fácil nas
tarefas, mergulhando com facilidade no que precisa
ser resolvido. A hora do almoço vem e passa e,
após apenas engolir um sanduíche, volto para
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minha mesa, eliminando tudo que posso e tentando


postergar ao máximo a pasta verde que está ali
olhando para mim. Pasta que preciso levar para
Fernanda. Alguém me mata, por favor.
— Cadê seu irmão? — Renato aparece do
inferno e brota bem em frente à minha mesa,
fazendo com que eu pule na cadeira com seu grito.
Alguém está usando jeans apertados hoje, é?
Levo a mão ao peito pelo susto e olho para ele,
que está com uma carranca.
— O que tem o meu irmão, senhor Barbosa? —
pergunto, irritada pelo seu tom.
Ele é intragável. Detestável, antipático,
insuportável, irritante. Já perdi as contas de quantas
vezes ouvi saindo da boca dele algum comentário
que estava brincando com o limite do aceitável,
com um pezinho no que poderia ser um processo
por assédio moral. O homem, que não é muito mais
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alto que eu, e que honestamente poderia ser uma


versão mais velha do meu irmão, me encara como
se eu estivesse testando sua paciência. Não estava,
mas agora vou.
— Eu preciso que ele venha terminar o serviço
que começou. Onde ele está?
Respiro fundo. Se eu tiver que dizer para mais
alguém que Guilherme não trabalha com marketing
empresarial, vou ter um troço. Mas é exatamente
isso que faço, forçando um sorriso no rosto e
colocando minha voz mais passivo-agressiva.
— Não me interessa, garota. Faça alguma coisa
de útil ao invés de ficar distribuindo sorrisinhos
para seu chefe e traga seu irmão aqui.
É o que, querido?
Levanto da cadeira, apoiando as duas mãos na
mesa. Se é para me equilibrar em cima dos saltos
— já reclamei deles hoje? — ou para evitar que eu
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dê um soco na cara dele, eu não sei. Olho Renato


nos olhos e empino o queixo, prendendo meu olhar
no seu, e vejo quando ele cruza os braços, como se
já soubesse o que vem por aí.
— O que eu faço ou não de útil diz respeito
somente a quem paga meu salário — digo, e o vejo
arquear a sobrancelha, irritado. — Quanto ao meu
irmão, eu trabalho aqui, mas Guilherme não, então
sugiro contatar a empresa dele caso queira
informações, já que o que ele fez ao vir aqui foi
nada além de um favor pessoal para mim. E eu não
estou com o humor adequado para pedir nenhum
favor hoje, principalmente não para alguém que
acha que pode falar comigo nesse tom.
Renato me olha de cima a baixo, contrariado, e
posso ver aquela pitadinha de desdém cintilando
em seus olhos. Franzo os lábios para manter todos
os xingamentos guardadinhos dentro da minha

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boca. Ele resmunga que eu passe o telefone de


Guilherme para Rafael e vira as costas, indo
embora, batendo pé como se fosse um garotinho
fazendo pirraça porque não pode ficar acordado
depois da hora que os pais mandaram. Homenzinho
irritante.
Suspiro, furiosa. Olho para a pasta em cima da
mesa e decido que já passei raiva hoje o suficiente
para que Fernanda consiga me tirar do sério, então
é a hora perfeita de procurá-la. Com sorte, ela não
vai estar na mesa dela e eu falo direto com
Vinicius. Com sorte? Não sei. Eles dois não estão
no topo da minha lista de pessoas favoritas não.
Mas não vou ao extremo de colocá-los no mesmo
nível. Posso não ir com a cara daquela mulher de
nariz empinado que se comporta como se não
pudesse se dar ao trabalho de respirar o mesmo ar
do que o resto dos meros mortais que vivem neste
mundo, e não vou mesmo. Mas Vinicius... Ele me
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assusta.
Salvo o que estou fazendo no computador e, por
algum motivo, me viro em direção à porta da sala
de Eduardo antes de sair em direção à próxima
raiva que vou passar hoje, já rezando aos deuses
por paciência. Vejo-o parado bem ali, de braços
cruzados e um sorriso discreto no rosto.
Ele desencosta do batente e anda em minha
direção, e vejo quando passa os olhos ao redor,
procurando por alguma coisa. Acompanho seu
olhar e encontro a parte que ocupamos do andar
completamente vazia. Ah, não. Lá vem.
Eduardo me alcança e se inclina na minha
direção, alcançando um bloco de folhas atrás de
mim, perto demais para o bem do meu juízo, mas
ainda sem me encostar. Sinto seu cheiro e me
inclino na sua direção quando sinto sua mão na
minha cintura, despretensiosamente.

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— Não tem nada mais sexy do que uma mulher


que sabe colocar um idiota no lugar dele —
sussurra no meu ouvido e dá um beijo casto em um
pontinho certeiro atrás da minha orelha, e eu
estremeço. Filho da mãe.
Ele arranca uma folha do bloco e rapidamente a
dobra no formato certo, pousando-a sobre a mesa
atrás de mim, ainda sem se afastar. Encaro seus
olhos castanhos por um segundo.
— Até quando você vai continuar com isso? —
pergunto e Eduardo inclina a cabeça, olhando-me
com atenção. Ele não diz nada por alguns segundos
e seus olhos não deixam os meus, analisando-me
com cuidado.
— Você quer que eu pare?
Abro a boca para responder, mas paro antes que
qualquer palavra saia. Mordo o lábio e ele sorri,
dando um beijo na minha testa.
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— Boa tarde, Juliana — diz, afastando-se e


andando em direção à sua sala.
Ferrada.
Definitivamente ferrada.

Chego à mesa de Fernanda e encontro-a vazia.


Decido esperar alguns minutos para ver se ela
volta, mas depois de um tempo canso e decido
arriscar a sorte e bater na porta de Vinicius. Seja o
que Deus quiser. Atravesso o pequeno corredor que
isola sua sala já rezando um Pai Nosso para que ele
esteja de bom humor e quase tropeço nos meus
próprios pés quando vejo o motivo de Fernanda não
estar na mesa dela.
Minha boca cai aberta.

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Através do vidro, vejo a mulher enrolada nos


braços do presidente, em um beijo que parece não
ter fim. As mãos de Vinicius estão em seu rosto no
que parece um toque firme e ela tem as mãos
espalmadas no peito dele, e eu só fico em pé
encarando a cena, em choque por alguns segundos,
sem nem processar o que está acontecendo na
minha frente.
Mas que filha da mãe hipócrita!
Não consigo nem dar conta do que passa em
minha cabeça, uma vontade muito grande de bater
no vidro e perguntar o que diabos está acontecendo
e como ela pode ser cara de pau a esse ponto.
Infernizando minha vida para fazer exatamente o
que vem acusando todo mundo de fazer!
Mas não faço nada. Respiro fundo e viro as
costas, limito-me a deixar a pasta sobre sua mesa,
torcendo para que ela a encontre até o fim do dia e

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não resolva passar a tarde toda se enroscando com


Vinicius. Já basta atrapalhar minha sanidade mental
neste lugar, se meter no prazo de entrega dos meus
relatórios, não.
É cada uma…
Paro na mesa de Rafael para ver se conseguiram
resolver as coisas com meu irmão e quase o abraço
por pura empatia quando vejo a cara de desespero
dele só de ouvir o nome do Renato. E então ele
pergunta mais uma vez sobre o encontro de
amanhã. Eu quero morrer um pouco. Só um
pouquinho. Uma morte de leve, nada muito
definitivo.
— Eu acho que a gente vai precisar deixar para
outro dia, tudo bem? — digo, e vejo a pontinha de
decepção no seu rosto. Mas ele rapidamente dá os
ombros e põe o sorriso fácil de volta.
— Sem problemas — responde. — Aconteceu
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alguma coisa?
Aconteceu.
Aconteceu que tudo que eu consigo pensar no
momento é em como essa situação com Eduardo
está ficando enrolada, e em como tudo que eu
quero é o moreno dos olhos castanhos e o arrepio
que eu sinto cada vez que ele chega perto.
Aconteceu que eu estou aqui sofrendo pelo que os
outros vão pensar, enquanto a Fernanda está lá,
bem plena se atracando com quem bem entende.
Aconteceu que eu não tenho a menor condição de
continuar resistindo àquele homem. E nem quero.
O que quero é bater na sala dele agora e testar todas
as outras paredes daquele escritório.
O que diabos estou esperando para
simplesmente aceitar que Eduardo não sai da minha
cabeça?
Não quero esperar mais.
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— Não. Lembrei que tenho um compromisso.


— Eu sou uma péssima mentirosa, mas ele parece
aceitar a resposta. Ainda bem, porque não sei o que
ia dizer se perguntasse que compromisso.
Alimentar os jacarés do zoológico? Um retiro para
o Himalaia? Não funciono bem sob pressão.
Começo a fazer as contas na minha cabeça.
Marquei com Priscila depois do expediente e
Eduardo tem uma reunião quatro e meia. Não sei se
vou ter tempo de falar com ele hoje. Respiro fundo,
indecisa.
Precisa ser hoje antes que eu perca a coragem.
Está decidido. Priscila vai precisar esperar
alguns minutinhos. Ou algumas horinhas,
dependendo de como ele reagir. Espero muito que
algumas horinhas. Muitas horinhas. A noite toda de
preferência.
Concentre-se, Juliana! Você ainda tem algumas
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horas de trabalho pela frente.


Decidida, começo a andar de volta para a minha
mesa.
No caminho, cruzo com Fernanda, dessa vez
sentada na sua cadeira, e vou até ela. A mulher tem
cabelo meio desarrumado e passa os dedos pela
boca tentando limpar o batom borrado. Eu queria
ser uma pessoa melhor e fingir que não sinto uma
ponta de satisfação por ver o que vi, mas meu lugar
no inferno já está garantido.
— Achou a pasta? — pergunto e ela levanta os
olhos na minha direção.
Vejo surpresa em seus olhos, quase como se
estivesse perdida e confusa, mas dura um segundo
apenas. Rapidamente, Fernanda empina o queixo e
me encara com desdém. Que vontade de gritar que
eu os vi se beijando para ela perder essa pose
metida.
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— Eu precisaria ser cega para não ver uma pasta


verde em cima do meu teclado, Juliana.
Respiro fundo e estou pronta para virar as costas
para ir embora, mas paro. Quer saber? Vou tirar
essa história a limpo.
— Qual o seu problema comigo? — pergunto e
ela me olha como se eu estivesse louca. Reviro os
olhos. — Você sabe exatamente do que eu estou
falando. O que você ganha com isso? Para que me
tratar mal sempre que tem chance, para que tentar
fazer minha vida um inferno aqui? O que eu te fiz?
Fernanda passa a mão no cabelo e tenho a
impressão que um fio de chateação passa por seus
olhos enquanto ela balança a cabeça — o que só
prova que estou ficando completamente
descompensada, é fato consumado agora —, mas a
mulher simplesmente revira os olhos e apoia o
queixo na mão.

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— Não tenho problema nenhum com você,


Juliana. Eu tenho problema com pessoas que não
sabem a sorte que têm na vida e se comportam
como se o mundo fosse o lugar mais injusto do
mundo. — Ela para por um segundo e bate com um
dedo na boca, fazendo bico com seus lábios
franzidos. — Ah, não. O problema é com você
mesmo, então.
Não consigo esconder a irritação e ela sorri, um
sorriso ferino, daqueles que cobras peçonhentas
dariam se pudessem sorrir.
— Seu namoradinho terminou com você e a
princesinha ficou chateada, foi? — ela debocha,
fazendo bico. — Devia ser mais esperta que isso,
Ju. Achou mesmo que um homem feito Eduardo ia
ficar interessado em você por muito tempo? Tenho
certeza de que você tem espelho em casa, minha
querida. O que pelo visto não tem é senso do

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ridículo.
Gostaria de dizer que sou uma pessoa superior e
nada do que ela diz me atinge e que não quero voar
por essa mesa e dar na cara dela, não por nada
relacionado a Eduardo, mas pelo ódio gratuito que
escorre e por atingir todos os botões certos para me
desequilibrar. Tão bonitinha, tão baixa. Mas não
sou uma pessoa superior e é exatamente isso que
quero fazer.
Só que, ao invés disso, viro as costas e vou
embora, deixando-a com seu próprio veneno. Ela
que morda a própria boca e morra engasgada.

Quando meu telefone toca e vejo o rostinho


lindo do meu irmão, já me preparo para os gritos e

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não sou decepcionada. Guilherme nem me dá


tempo para falar nada e sai perguntando por que
estão ligando para ele, reclamando que me avisou
que não pega esse tipo de trabalho e não tem
paciência para lidar com executivo irritado.
Suspiro. Ninguém tem. Não é como se alguém
acordasse de manhã e não pudesse esperar para
ouvir abobrinha e lidar com ataque histérico de um
bando de homem feito que parece não conseguir
amarrar os próprios sapatos sozinhos.
Guilherme quer que eu faça o que? Já gritei com
Renato hoje, duas vezes no mesmo dia talvez seja
um pouco demais. Ele ainda está muitos níveis
acima de mim nesta empresa e essa não é uma
briga que quero comprar. Digo que vou passar lá
daqui a pouco e isso parece ser o suficiente para
meu irmão soltar alguns resmungos e desligar.
Tem dia que é só complicação atrás de

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complicação. Certeza que foi aquela escada que eu


cismei de passar por baixo só para provar para mim
mesma que essa história de azar não existe.
Claramente existe sim. Isso vai me ensinar a não
brincar com o carma cósmico.
Olho o relógio, que marca quase cinco horas.
Suspiro. Não quero resolver essa situação confusa
com Eduardo às pressas. Vai ter que ficar para
amanhã. Porcaria.
Mas tudo bem.
Tudo bem.
Não estou nervosa, nem ansiosa, nem nada
disso, então tudo bem.
Um diazinho a mais para quem já esperou
alguns meses não é nada demais.
Como vou dormir hoje à noite, eu não sei.
Talvez ligue para ele mais tarde. Eu sei onde ele
mora… Balanço a cabeça quando me lembro
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daquele demônio em forma de gato. Não, fica para


amanhã.
Digito uma mensagem para Priscila dizendo que
vou encontrá-la no shopping e levanto, sabendo que
preciso ir até Eduardo para avisar que estou indo
embora mais cedo.
Preciso mesmo? Não sei se vou conseguir fingir
que não quero me atracar com ele na mesa do
escritório dessa vez, especialmente agora que
resolvi aceitar que aquele tampo de madeira parece
um ótimo lugar para ser explorado.
Arrumo minha bolsa e, quando não tenho mais
com o que enrolar, vou até a sala dele e bato na
porta, carregando um último contrato que precisa
ser assinado. Confiro uma última vez os papéis na
minha mão, checando se está tudo certo enquanto
espero resposta. Não acho que me escutam ou
veem, porque a conversa continua sem

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interrupções, então abro uma fresta da porta. Ouço


uma voz familiar.
— Isso é ridículo, Edu.
Conheço essa voz manhosa.
— Você marcou esta reunião para discutir
alguma coisa com o contrato, senhorita
Albuquerque. — A voz de Eduardo ressoa, grossa,
séria, ácida. — Disse que não conseguiu resolver
com Priscila o que precisava, então aqui estamos.
Mas já faz mais de meia hora e nada foi dito, então,
por favor. Qual exatamente é o problema?
Ele soa educado e formal o suficiente para que
ninguém reclame, mas agora já o conheço o
suficiente para notar a irritação em sua voz. E não
sei se rio ou se choro por já conhecer o suficiente
dele para isso — e querer mais.
— Você sabe bem qual o problema, Edu — a
mulher diz.
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Até eu sei, pelo amor de Deus.


— Não, não sei. — Ele é impassível. Olha lá se
fazendo de doido.
Não vou ficar aqui de pé ouvindo conversa dos
outros. Bato na porta com mais força e a abro,
dando de cara com Eduardo apoiado em sua mesa,
braços cruzados em uma postura que já vi tantas
vezes, o rosto completamente sem expressão,
olhando para Lorena sentada na cadeira ao seu
lado. Vejo o exato momento em que a mão dela
pousa na coxa dele.
Tudo bom, meu anjo?
Eduardo levanta a cabeça em minha direção,
sem suavizar sua feição séria, olhando-me com
atenção.
— Só queria avisar que já estou indo, senhor
Rodrigues, e perguntar se precisa de mim para mais
alguma.
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Não sei como falo isso com a bola que se forma


na minha garganta com a cena à minha frente.
Eduardo ergue a sobrancelha, a princípio acho que
é por causa do “senhor Rodrigues”, mas então ele
responde:
— Preciso de você para muitas coisas, Juliana.
— Sua voz é baixa e seus olhos percorrem meu
corpo. Quando volta a me olhar nos olhos, um
sorriso discreto desponta em seu rosto. Arqueio as
sobrancelhas, mas não sei o que fazer além disso,
porque tudo que consigo ver é a porcaria daquela
mão ali.
Lorena vira a cabeça em minha direção, com o
sorriso de sempre estampado em seu rosto, sem
perceber a troca de olhares, a mão ainda pousada
confortavelmente na perna de Eduardo, que não
move um dedo para mudar a situação. Não consigo
evitar encarar aquele ponto em sua coxa, alto

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demais para o meu gosto, para onde os dedos dela


estão seguindo.
Mordo o lábio na tentativa de não dizer nada
idiota, especialmente porque sei que não tenho o
direito de fazer isso, mas não consigo fingir que
não estou incomodada e me ajeito sobre meus
saltos antes de olhar novamente para ele.
Eduardo para de me encarar por um segundo
apenas e vira a cabeça para o ponto que eu estava
olhando, em sua perna, na delicada mão da mulher.
— Você tem alguma coisa que precise ser
assinada? — pergunta e eu aceno com a cabeça,
atravessando a sala e entregando-o os papéis.
Estico o braço e tento me manter o mais distante
possível dos dois, mas ele não se move até eu dar
um passo para mais perto. Eduardo segura a pasta
por um segundo, estudando minha postura, e assina
os papéis, sem tirar os olhos de mim, sem sequer
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ler o título do que entreguei, e isso chama atenção


da mulher.
— Não vai ler, Edu? — Lorena pergunta,
coberta de razão.
Ele balança a cabeça em negativa, despejando o
mel dos seus olhos em mim enquanto me devolve a
pasta. Seus dedos roçam nos meus em um contato
breve que eu sei que não foi acidental.
— Não. Confio nela de olhos fechados — diz,
queimando-me com seus olhos, exigindo minha
atenção. — Espero que ela confie em mim também.
E eu sei o que Eduardo está fazendo. Não sei se
tenho motivo nenhum para confiar, principalmente
não nesta situação, não quando ele está tão perto de
outra mulher toda cheia de intimidade assim e não
faz nada sobre isso. E me irrita porque eu sei que
não está fazendo nada de propósito, como se
quisesse provar um ponto. O único ponto que quero
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provar é o que vai ficar nessa carinha linda dele


depois do tapa que eu quero dar.
Ainda assim, me pego concordando com a
cabeça.
— Confio, Eduardo.
Ele fecha os olhos por um segundo e respira
aliviado, posso ver seu peito movendo
pesadamente, e um sorriso de satisfação cruza seu
rosto. Seus lábios se movem, silenciosamente
agradecendo. E eu silenciosamente quero chutar a
minha bunda.
— Vou deixar vocês dois terminarem a reunião
— digo, lutando contra algumas lágrimas
traiçoeiras que querem se formar. Não tenho
nenhum direito de me sentir assim, então
simplesmente engulo calada. — Boa noite.
Viro as costas para sair da sala e me afastar
daquela cena.
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— Boa noite, Lia.


Maldito apelido.
Porcaria de homem mandando sinais confusos.

Quando chego ao estúdio onde Guilherme


trabalha, me surpreendo pelo lugar ainda estar bem
cheio. Eu saio mais tarde do que boa parte das
pessoas que trabalha em horário comercial, e a
verdade é que nunca dou muito crédito para quando
meu querido irmão diz que fotógrafos trabalham
para fazer os outros se divertirem. Mas é verdade,
não é? Quantos casamentos, festas de aniversários,
eventos aleatórios ele trabalhou durante à noite,
finais de semana. Faz tempo que Guilherme não
fala de nenhum desses trabalhos, ele anda

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estudando bastante alguma técnica nova que não sei


nada sobre. Parece que está aprontando alguma
coisa e tudo que diz sobre isso é que está pronto
para levar seu trabalho para um lado mais artístico.
Estou curiosa.
Assim que dou de cara com ele finalizando uma
sessão de fotos, meu irmão me olha irritado. Ele
conversa com a mulher à sua frente e eu espero, já
pensando em qual suborno usar para que não voe
no meu pescoço enquanto termina de finalizar o
trabalho com a cliente animada.
— Eu sei — digo quando Guilherme vem na
minha direção, antes que comece a reclamar. — Eu
sei. Desculpe te meter nisso. Mas a Rodrigues
Menezes seria uma cliente maravilhosa e você
devia passar para outra pessoa já que não quer —
sugiro e ele, contrariado, tem que dar o braço a
torcer.

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O sonho do meu irmão é abrir um estúdio para


ele, trabalhar por conta própria, mas enquanto esse
dia não chega, trazer clientes que vão pagar bem
não vai fazer mal nenhum e talvez até resulte em
um aumento. Guilherme é esperto, de tapado só
tem essa cara dele mesmo, então concorda, fazendo
uma careta que deixa claro que não gosta nada
disso. Paciência.
Problema resolvido, gosto assim. Estou bem de
boa de drama e confusão por hoje. Esse dia parece
que não vai ter fim e eu não estou nem um pouco
ansiosa para ver qual a próxima coisa a me tirar do
sério antes do relógio bater meia-noite. Estou bem
Cinderela às avessas hoje, implorando pelas doze
badaladas. Só quero perder meu sapatinho e nunca
mais encontrar. Deus me livre de um príncipe que
precisa rodar a cidade toda porque não lembra da
minha cara.

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— Quer que eu te dê uma carona para casa? —


ele pergunta e eu nego com a cabeça.
— Vou encontrar com a Priscila.
Quero? Não. Não estou com cabeça. Mas sem
cabeça vou ficar de verdade se furar com ela. E
preciso me distrair. Não tem ninguém que me
anime mais do que aquela loira descompensada.
— Ótimo, porque vou encontrar com a
Fernanda.
Paro de andar e olho para ele, vendo algo que
não achei que um dia fosse ver: meu irmão está
com cara de bobo apaixonado. Assim, tão rápido?
Não se conheceram tem dois dias? E tinha que ser
logo ela? Aquela mulherzinha irritante. Penso se
devo dizer alguma coisa ou não, e decido que é
melhor arrancar o esparadrapo logo. Dói uma vez
só, de sofrimento prolongado já basta minha vida
no momento.
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Meu Deus, nem eu estou aguentando meu drama


hoje.
— Gui… Aconteceu uma coisa hoje — digo e
ele me olha com atenção. — Eu vi a Fernanda com
o presidente da empresa, na sala dele. Eles estavam
se beijando.
Não tem outro jeito de falar que não seja esse, e
sabe-se lá o que mais eles fizeram. Eu não estou
usando a mobília da sala de ninguém como cama,
mas vai que ela está. Guilherme abre a boca,
incrédulo, e vejo a surpresa e dor passando pelos
seus olhos. Não sei o que aconteceu entre os dois e
duvido que já tenham feito juras de amor eterno,
mas claramente ele não estava esperando isso. Meu
irmão aperta os lábios, irritado, e balança a cabeça
concordando, soltando uma risada seca. Solta um
palavrão e sai andando na frente depois de se
despedir em um murmúrio.

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E é exatamente esse tipo de coisa que estou


tentando evitar.
É exatamente por isso que tenho tentado fugir
daquele homem como o diabo foge da cruz.
Não sei se nesse caso eu sou o diabo ou a cruz.
Tudo que tenho certeza é que de anjo Eduardo
não tem nada, e a entrada para os seus domínios
parece cada vez mais perto. E não tenho certeza se
é o inferno ou o paraíso que ele governa.

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Capítulo 15

— POR QUE VOCÊ ESTÁ AGITADA desse


jeito, mulher?
Priscila pergunta, segurando dois vestidos nas
mãos e eu aponto para o da esquerda, um modelo
verde na altura dos joelhos que vai combinar
perfeitamente com seus olhos. Ela me entrega a
peça e começa a percorrer as araras em busca de
outros.
Eu não sei por que ela me pergunta se só
continua catando mais coisas para experimentar. A
pilha de roupas já está começando a bambear e a
vendedora está olhando feio na nossa direção.

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Certeza que está pensando no trabalho que vai ter


de colocar tudo de volta no lugar depois, e nem
culpo a coitada. Imagina a quantidade de gente que
faz isso e não compra nada? Não serviria para isso
não, ou ia chorar de desespero ou bater em cliente
chato. O bom é que tenho certeza que Priscila vai
comprar alguma coisa aqui e, olhando as etiquetas
dos quinze quilos de roupa que ela já me deu para
segurar, consigo ver que a comissão vai ser bem
grande. Lojinha cara.
— Não estou agitada — respondo, estalando os
dedos. Como sempre faço quando estou agitada.
Não sei nem disfarçar direito.
A loja não está cheia, não é época de nada, e
isso é bom, porque odeio multidões. Gente
esbarrando, pessoas irritadas, nada funciona. Deus
me livre. Se eu pudesse, comprava tudo pela
internet. Mas é praticamente impossível achar

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alguma coisa do tamanho certo quando se tem as


minhas medidas. As calças não passam da coxa, e,
quando passam, sobram tanto no tornozelo que
preciso fazer visitas constantes à costureira. Já dá
trabalho quando vou até a loja experimentar, contar
com a sorte de comprar em lojas virtuais não está
nos meus planos. E é claro que as palavras ácidas
da Fernanda resolvem me atormentar logo agora.
Como se eu precisasse de mais essa.
Forcei Priscila a passar em uma livraria antes de
começarmos a caça pelo seu vestido e gastamos
quase uma hora percorrendo as estantes recheadas.
Adicionei infinitos títulos novos na minha lista e
comprei, finalmente, um exemplar de um romance
de época. Estava atrás desse livro há muito tempo,
mas sempre que chegava à loja estava esgotado.
Pequenos prazeres diários, nada como me dar um
presente para melhorar esse dia. Se eu não me
mimar, quem vai?
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— Se concentra em mim, Juliana. Você sabe


que preciso estar maravilhosa nesse casamento.
Sorrio e aponto para um vestido vermelho que
está pendurado na arara ao lado dela. Se é ciúmes
no ex-namorado embuste que Priscila quer fazer,
não sou eu que vou impedir, embora ache que não
vale o transtorno. Ela jura de pé junto que não é o
caso, mas não sei não.
— Desembucha, Ju. Você disfarça muito mal.
Suspiro, olhando para ela, que me encara por
sobre o ombro, sacudindo um vestido cor de rosa.
Nego com a cabeça, pois a cor não combina com
ela. Priscila coloca a peça de volta na arara e
começa a arrastar os dedos por outras peças.
— Eduardo — admito e Priscila vira em minha
direção, os olhos brilhando, e ergue as mãos aos
céus, literalmente. Exagerada. Dramática. Depois
fala de mim.
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— Desistiu de ser idiota e fez um sexo selvagem


em cima da mesa dele, com direito a tudo
derrubado no chão? — Reviro os olhos, porque a
resposta é não, mas queria que fosse sim. Conto
para ela o dia de ontem, a resolução louca dele de
não me beijar, e a ceninha dele com a Lorena antes
de eu vir para cá.
—Está com ciuminho, Ju?
Priscila me provoca e quero enfiar a cabeça no
chão igual um avestruz. Solto um grunhido sofrido,
ela desiste de implicar comigo e puxa minha mão,
prendendo-a entre seus dedos. Imediatamente,
minha amiga assume a postura de mãe de todos que
sempre usa quando preciso de socorro.
— Eu me encontrei com essa Lorena ontem. O
Edu me ligou pedindo para assumir uma reunião
com ela porque ele ia ficar fora o dia todo. Ele não
me disse que era para te jogar na parede, senão

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tinha ido com muito mais prazer. — Dou um tapa


no braço dela. Essa mania de querer falar detalhes
de tudo. — Enfim, encontrei com ela, mas a Lorena
ficou muito irritada. Quis saber onde ele estava,
disse que era uma falta de respeito, por fim me fez
marcar outra reunião, dessa vez com Edu. Agora já
sabemos o que ela quer.
Quem ela quer.
Lembro-me das ligações que Eduardo não
atendeu, do problema que ele disse que resolveria
depois de me deixar em casa, do seu olhar
praticamente demandando que confiasse nele hoje
na sala dele enquanto ela estava lá.
E confiei.
E se eu estivesse errada? E se ainda estiver
errada e neste momento ele estiver jogando a ruiva
elegante na mesa?
— Ele devia ter feito alguma coisa — digo,
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mordendo a boca. — Devia ter tirado a mão dela,


levantado, sei lá.
Priscila suspira e meneia a cabeça, como se
ponderasse o que digo. Não importa se confio nele
ou não. Se tudo que ele diz é mesmo verdade,
Eduardo não devia me deixar ficar parada de pé no
meio da sala assistindo outra pessoa com a mão
muito, muito perto do que eu mesma ainda não tive
acesso e estou bem desejosa de ter.
Quero dar um ataque e xingar a mulher, mas sei
que não posso. Lorena não fez absolutamente nada
de errado. Errado está ele que permitiu a intimidade
toda. Quer dizer, errado não está porque não temos
nada. Nada de bancar a canceriana ciumenta.
— Sua cara está me assustando — Priscila diz,
franzindo a testa.
Suspiro. Isso é culpa dela e daquele planinho de
me jogar em cima dele no luau. Se ela não tivesse
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fugido para Brasília ao invés de ir àquela festa, nós


dois não teríamos nos aproximado assim. Ia estar
tudo como antes e eu não estaria surtando por uma
coisa que nem existe.
— Não estou me sentindo bem — digo. — Tudo
bem se for para casa?
Ela confirma com a cabeça e me abraça, dizendo
para eu ligar qualquer coisa. Agradeço de verdade
por minha amiga sempre estar aqui, mas preciso de
uma taça de vinho e meus amores literários para
terminar esse dia com um mínimo de dignidade.
— Eu realmente gostei daquele azul que você
pegou logo que chegamos — digo e ela pega o
vestido na mão, alisando com cuidado e dá os
ombros, pendurando a peça no braço para provar.
Despeço-me dela e me apresso para sair dali,
sentindo-me sufocada pelos meus próprios
sentimentos confusos.
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Bato na porta de Guilherme, de punhos


fechados, esmurrando a madeira e nada dele me
atender. Que seja então. Puxo a chave e decido
esperar na sala, sentada confortavelmente no sofá
ao invés de ficar igual a uma louca no corredor do
prédio.
Bebo água, assalto a geladeira e resolvo deitar
no sofá para esperar meu irmão chegar. Começo a
rodar pela tela do meu celular, alcançando a página
do livro que eu estava lendo no aplicativo, mas
acabo pegando no sono. Não sei por quanto tempo
durmo, mas acordo com uma almofadada na cara e
uma leve dor no pescoço.
— Está fazendo o que aqui? — Guilherme

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pergunta e eu sento, cruzando as pernas sem nem


saber o que dizer. Não sei bem, queria ficar sozinha
e ir para casa, mas no meio do caminho vim para
cá.
Ele parece cansado e sei que provavelmente
estava com Fernanda.
— Quer me contar como foi a conversa? —
pergunto e ele nega com a cabeça, limitando-se a
deitar no sofá, apoiando a cabeça no meu colo.
Estamos bem mesmo, um com o coração partido
— não foi por falta de aviso, que fique claro —, a
outra com medo de isso acontecer em um futuro
próximo.
Nunca vi Guilherme assim, e me assusta muito
que até ele possa ser ferido desse jeito. Assusta-me
de um jeito completamente egoísta, porque só
significa que eu posso me machucar ainda mais.
— Eduardo? — pergunta e eu aceno com a
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cabeça.
Ele ri.
— Alguma vez você imaginou essa cena
acontecendo?
Nego com a cabeça, acompanhando seu riso,
porque é bem absurdo mesmo. Plena quarta-feira à
noite e nós dois cheios de lamúrias no sofá do
apartamento que ele divide com um amigo que
mais viaja a trabalho do que fica em casa.
— O que aconteceu dessa vez? — pergunta e
narro novamente os eventos recentes. Talvez eu
deva colocar ele e Priscila em conferência, porque
aí conto a história uma vez só. Cada vez que repito
tudo, meu estômago embrulha, minha cabeça revira
e eu fico sem saber o que fazer. Uma mistura de
medo e incerteza cruza meu caminho e quero
chorar.
Sempre tive certeza de mim, sempre fui dona
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das minhas emoções e nunca fui atrás de nada que


tirasse meu juízo, e aí o maldito desse homem
entrou na minha vida sem permissão e agora eu
estou desse jeito. Completamente descompensada
igual a essas mocinhas de livros que eu tanto
critico. Minha vida virou um clichê ambulante e eu
só quero que essa tortura acabe.
Guilherme levanta do meu colo e se senta no
sofá, pegando minhas duas mãos entre as suas e
olhando fundo nos meus olhos. Sorrio para ele,
esperando pela gracinha que ele vai falar para me
fazer rir, como sempre faz quando não estou bem.
— Você é uma completa idiota — sibila e eu o
olho, surpresa. — Uma gigante, enorme,
inacreditavelmente estúpida garotinha mimada e
egoísta.
Minha boca cai aberta e não sei nem o que
responder. Guilherme nunca falou comigo desse

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jeito. Tento puxar minhas mãos da sua, mas ele não


deixa. Seus olhos estão marejados e irritados,
focados em mim.
— Você está sentada aí, dizendo como sua vida
é difícil com esse seu amor impossível…
— Ninguém falou de amor aqui — interrompo.
—… e a única razão para isso é sua própria
teimosia e intransigência. Está com tanto medo de
se envolver com Eduardo porque acha que ele não
vai te aceitar como você é e o homem não está
fazendo nada além de tentar mostrar que está
errada. Você está julgando-o injustamente, não o
contrário. Colocou na cabeça que ele é um filhinho
de papai supérfluo e é isso. Eu não convivo com ele
e, só pelas suas histórias, sei que está errada, o que
só prova que deve estar se esforçando muito para se
fazer de cega.
Sinto lágrimas se formarem no fundo dos meus
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olhos e me esforço para não as deixar cair, mas


logo falho e sinto o líquido quente escorrer pela
minha bochecha. Puxo minhas mãos das dele e
levanto, afastando-me do sofá. Guilherme não se
move, só continua me encarando com o cenho
franzido. Nunca vi meu irmão desse jeito e não
estou gostando nem um pouco desse surto de
grosseria. Passo as mãos pelo rosto, tentando secar
as lágrimas.
— Eu não sei o que aconteceu com você e sua
namoradinha — grito de volta, praticamente
repetindo as mesmas palavras que Fernanda me
cuspiu mais cedo. — Mas você não tem o direito de
falar comigo desse jeito, não vai descontar em mim
seus problemas! Não é culpa minha se ela te traiu
antes mesmo de vocês começarem qualquer rolo
que estivessem planejando. É exatamente para
evitar esse tipo de coisa que as minhas calças
continuam no lugar.
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E ele ri. O que me deixa com vontade de tacar


na cabeça dele um cinzeiro que está na mesa. Quem
ainda usa cinzeiro? É melhor não estar fumando,
senão acabo com a raça dele. Ele sabe muito bem
que a vovó morreu por causa dos anos a fio de
fumante, Guilherme que não se atreva a me fazer
perder mais ninguém assim.
Seu riso é ácido, seco. Ele olha para mim e
balança a cabeça.
— Qual é o seu maldito problema? Perdeu
completamente o juízo, garot-
— Fernanda não estava beijando Vinicius,
Juliana — ele me interrompe, agora sério, com
olhos afiados. — Ele a agarrou à força.
O… quê?
Perco a fala e deixo meu ataque morrer no ar.
— Parece que algumas pessoas não podem se
dar ao luxo de apenas dizer não para o chefe e sair
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impune com isso.


Vejo a raiva que cintila nos seus olhos e prendo
a respiração.
Não tenho problema nenhum com você, Juliana.
Tenho problema com pessoas que não sabem a
sorte que tem na vida e se comportam como se o
mundo fosse o pior lugar para se viver.
A minha vontade de dar na cara da mulher
imediatamente desaparece enquanto me obrigo a
revirar cada coisa que sei sobre Fernanda, tudo que
ela me disse, sua postura, e as coisas começam a
fazer sentido. Não suporto a mulher, mas isso não é
motivo para duvidar dela, não em um assunto sério
como esse, até porque não consigo duvidar do que
Vinicius é capaz.
Se eu estivesse tentando fugir de um chefe
abusivo, teria feito pior. Sempre esteve mais do que
claro que o único objetivo dela era ficar perto de
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Eduardo, mas a gente entendeu tudo errado. Estou


mesmo tão mergulhada nos meus dramas
particulares que não vi o óbvio?
— Você não sabe nem o que dizer, né? —
Guilherme solta um riso seco. — Se não está
girando em torno desse seu umbiguinho precioso,
não importa. Você não pode se machucar, mas o
resto do mundo que se lasque. Você não pode ter
seu querido coraçãozinho ferido, mas não tem
problema nenhum em usar o Rafael para tentar
resistir ao Eduardo. Ou vai me dizer que não está
indo para casa dele amanhã para abrir as pernas e
tentar se convencer que não está de quatro pelo
chefinho?
A acidez em sua voz machuca.
— Não estou indo para a casa dele amanhã —
murmuro, inutilmente. Não faz nem sentido dizer
nada, até porque Guilherme me olha com uma cara

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que diz tudo: ele não acredita em mim.


— Vai me dizer que depois da ceninha da
mulher na sala do Eduardo você não está pensando
em reconsiderar, só de pirraça?
Quero dizer que não, que isso sequer passou
pela minha cabeça, mas não posso, porque ele está
certo. Passou sim.
Ter jogado na minha cara coisas que confiei a
ele machuca mais do que eu posso aguentar, e o
choro me alcança de novo. Sinto minha garganta
fechar e não respondo nada.
— Eu sabia — cospe. — Está tão preocupada de
te julgarem pelo teu corpo que nem aquele idiota do
ensino médio fez, que não se importa de usar o
corpo dos outros para o teu interesse.
Ando até onde ele está sentado no sofá e pego
minha bolsa, inclinando na sua direção.
— Nunca mais — murmuro com a voz
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entrecortada por um soluço — fale comigo desse


jeito.
Afasto-me, sentindo uma dor que até agora não
conhecia. Acho que já arrumei briga e confusão
com quase todo mundo que conheço, mas nunca
com Guilherme. Meu irmão sempre foi meu porto
seguro, a pessoa que mais confio na vida, e não sei
nem o que sentir com o que acabou de acontecer.
— Foge — ele diz quando alcanço a maçaneta.
— Continua fugindo como você sempre faz.
Obedeço e saio batendo a porta, ignorando
quando meu irmão chama meu nome.
E, provando que Guilherme está certo, puxo o
telefone e mando uma mensagem para Rafael.

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Capítulo 16

QUINTA-FEIRA CHEGA, COMO O anúncio do


apocalipse. Sabe aqueles dias em que você tem
certeza de que era melhor nem ter saído da cama?
Então. Posso apostar meu dedo mindinho que esse
é o caso.
O dia passa e nem vejo. Não é porque as horas
voam e eu estou atolada em trabalho, embora seja
esse o caso também. Está para nascer empresa que
produza tanto papel quanto esta. Para que todos
esses computadores de ponta se me fazem ficar o
dia inteiro revirando papel? Nunca vi. Mas não, não
é por isso. O dia passa e nem vejo porque parece
que eu não estou aqui.
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Meu corpo está presente, mas minha alma está


por aí voando em algum lugar fazendo sabe-se lá o
que. Espero que esteja lendo um bom livro e
comendo chocolate bem cheio de açúcar. Alguma
parte de mim tem que estar feliz e plena, é o
mínimo para esta vida ser justa. Mas
provavelmente ficou em casa tentando recuperar
todas as horas de sono que eu não tive porque
estava mentalmente xingando meu irmão por tudo
que ele disse. Aquele traidor.
Quase choro quando chego à minha mesa depois
do almoço e encontro o aviãozinho dobrado no
teclado. Hoje não, hoje não estou em condições de
lidar com isso. Só quero esquecer que Eduardo
existe, fingir que não estou tentando forçar minha
lógica a vencer minhas emoções conturbadas.
Não consigo, contudo, me forçar a deixar de
lado e acabo pegando o bilhete colado. Dessa vez,

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não tem uma lista nem provocação, só um recado


na letra cursiva praticamente ilegível de Eduardo.

Obrigado por confiar em mim

E é aí que meu limite é atingido e eu quebro.


Quebro, porque mesmo que uma parte
gigantesca da minha cabeça diga que não tem a
menor chance de ter acontecido alguma coisa
naquela sala ontem, tem uma vozinha irritante que
pergunta o que me faz acreditar que ele fez alguma
coisa para impedir as investidas dela depois que fui
embora se na minha frente não se deu ao trabalho
de tirar a mão de cima dele.
Levanto da mesa e caminho apressada para o
banheiro, praticamente batendo a porta atrás de
mim em um estrondo. Essas portas daqui são muito
sensíveis. Tranco-me no cômodo, apoio as mãos na
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pia, evitando olhar para o espelho, e deixo as


lágrimas rolarem. Respiro fundo e permito sentir a
confusão toda que está tomando conta de mim. Não
lembro a última vez que chorei desse jeito, feito
uma criança perdida sem saber o que fazer.
Não posso encontrar com ele hoje, não hoje.
Não tenho a menor condição emocional de lidar
com aquele par de olhos castanhos que começaram
a me encantar tanto. Sequer sei como isso
aconteceu, mas aquele homem me envolveu sem
que eu percebesse, e mal sei o que sentir. Seco os
olhos e respiro fundo, erguendo a cabeça. Não vou
começar a ficar destruída desse jeito por causa de
homem a esta altura do campeonato. Mesmo que
seja um homem que faz minhas pernas bambearem
como há muito não acontecia, que faz meu coração
disparar só de dar um sorriso torto, que me faz
querer desvendar seus mistérios.

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E que, acima de tudo, faz eu me sentir insegura


como nunca. Odeio isso. Quero odiar isso.
Não estou dando conta mais.
Saio do banheiro, erguendo a cabeça e
empinando o queixo como posso. Respiro fundo
enquanto ando em direção à minha mesa, onde paro
unicamente para escrever um bilhete e colar de
volta no avião. Mando uma mensagem para Priscila
pedindo para o secretário dela me cobrir hoje e digo
que explico depois. Não respondo sua mensagem
que vem logo em seguida, perguntando o que
aconteceu. Nem eu sei, como que vou explicar?
Apenas garanto que meu trabalho vai ser feito.
Minha vida pode cair aos pedaços, mas me recuso a
deixar que isso afete meu trabalho. Pego minha
bolsa e saio pelas portas da empresa. Preciso acabar
com isso de uma vez.
Preciso tirar aquele homem da minha cabeça

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antes que ele se instale de uma vez.

Passa pouco das sete quando desço do táxi em


frente ao endereço que Rafael me deu. Quase não
vim. Quase. Estava a ponto de desistir no último
segundo quando peguei meu celular e uma
mensagem de Eduardo, recebida horas antes,
coloriu a tela. Ele precisa mesmo estar em todos os
lugares? Porcaria.
Abri a mensagem, claro que abri, sou trouxa e
gosto de sofrer.

Você está bem?

E foi isso que me fez decidir vir. Porque sei que


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a única forma palpável de tentar tirar aquele


homem da minha cabeça é ocupando o espaço com
outra coisa. E claramente tentar me concentrar no
meu livro não está funcionando. Nunca escrevi um
capítulo tão ruim como o da noite passada. Não vou
mesmo sabotar meu trabalho desse jeito por causa
da confusão emocional.
Enfiei o celular na bolsa, no silencioso,
forçando-me a tirar Eduardo da minha mente, e vim
para cá. Assim que pago a corrida, vejo que Rafael
me espera na porta, sorridente, e abre espaço para
eu entrar quando vou na sua direção.
Mal presto atenção ao redor, uma vila singela
bem acolhedora, mas não chama minha atenção
neste momento. Não dá para focar em muita coisa
além dos dramas todos que estão na minha cabeça.
Assim que entramos, Rafael me conduz até a
cozinha e imediatamente começa a tagarelar sobre

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uma coisa aleatória qualquer, sobre trabalho, sobre


os gatos da casa de seus pais que destruíram um
móvel, e, ao mesmo tempo que é difícil me
concentrar no que exatamente ele está dizendo, é
bom ter a opção de não pensar em nada, não me
preocupar com nada e só aproveitar a companhia
leve e despreocupada dele, que não cala a boca nem
por um segundo.
Rafael é um homem bonito, charmoso ao seu
modo brincalhão, descontraído e fácil de se ter por
perto. Mesmo o conhecendo há tão pouco tempo,
dá para sentir que é um daqueles tipos de amizade
fáceis e gostosas que fazem bem e elevam a alma.
Ele ainda está olhando para mim e
despretensiosamente falando sobre qualquer coisa
quando a palavra amizade pousa na minha cabeça e
bate o pé para ficar, rindo da minha cara e me
chamando de idiota. Fecho os olhos e balanço a

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cabeça. Ah, não. Assim fica difícil.


— Está tudo bem, Ju? — pergunta, tocando
minha coxa exposta pelo vestido curto e
desconfortável que decidi usar. Odeio esta peça.
Odeio, odeio. Sinto-me esquisita, não faz meu
estilo, mas Priscila uma vez insistiu que valoriza
meus atributos, então aqui estou eu me fantasiando
de uma coisa que não sou. E sei que a loira seria a
primeira a me bater por isso, porque se tem alguém
que insiste que ninguém deveria fingir ser o que
não é, é ela.
Apesar da sensação da sua palma quente contra
a minha pele ser boa e confortável, não sinto
nenhum arrepio percorrer minha espinha, não perco
o ar, não fico desconcertada.
— Tudo sim — respondo. — Só estava
pensando naquelas fotos que você ficou de me
mostrar.

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Minto descaradamente e ele nem nota. O


interesse nos olhos do loiro é claramente redobrado
quando pousa sobre o balcão o prato que estava
segurando para pôr a mesa, e sorri, um sorriso
sedutor e descarado.
Rafael anda até mim e toca meu rosto, do
mesmo jeito que Eduardo fez tantas vezes, e de
alguma forma parece errado. Ele se inclina em
minha direção, tomando meus lábios em um beijo.
Sua boca molda a minha, a princípio devagar, mas,
em poucos segundos, ele intensifica o beijo, e nem
demora nada até que nos conduza até o sofá,
deitando-se sobre mim. Rafael me olha e sorri, mas
não consigo retribuir.
Sua mão rapidamente vai para a minha perna,
subindo pela minha coxa, sem qualquer pudor,
tirando do caminho o vestido. E então sua boca está
na minha de novo e minhas mãos na barra de sua

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camisa, puxando-a sobre a cabeça. O dorso de


Rafael fica exposto, definido, convidativo. Do tipo
que deixa qualquer mulher louca, e eu só consigo
pensar que Guilherme provavelmente adoraria
fotografá-lo, e Priscila estaria me batendo por não
estar aproveitando mais o momento. Quero me dar
um soco. Suas mãos percorrem meus seios por
sobre o vestido e eu tento não pensar no que estou
fazendo quando desço meus dedos para a barra da
sua calça, desabotoando-a, e é quando ele para de
me beijar, baixando a cabeça para o meu pescoço.
— Para que a pressa, Ju? — sussurra. — Temos
a noite toda.
Temos a noite toda.
Ele tinha mesmo que falar isso?
A pressa é porque eu sei que se parar, por um
segundo que seja, vou mudar de ideia. E é
exatamente o que acontece quando começo a me
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levantar sob Rafael e ele me olha com o cenho


franzido, confuso, mas sem hesitar em sair de cima
de mim.
Tenho certeza de que vou ter uma ótima noite se
ficar, mas… Eu só quero sumir daqui.
Suspiro.
— Me desculpe — digo e ele inclina a cabeça.
— Eu não posso, eu…
Rafael me olha confuso por um segundo e
concorda com a cabeça, sentando-se após fechar o
botão da calça que eu abri, calça essa já bem
marcada por sua excitação. Afundo a cabeça nas
mãos e tenho vontade de gritar.
— Está tudo bem, Ju — diz, suspirando. — Não
estou entendendo nada, mas tudo bem.
Olho para ele, um garoto de olhos sinceros e
convidativos. Simples, fácil. Talvez tudo que eu
precise, mas nada do que estou procurando.
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Nada do que eu quero.


— Tem um lugar que preciso estar — digo. —
Sinto muito.
Com um abraço apertado, despeço-me de
Rafael. Assim que cruzo a porta, saco o celular e
disco o número de Priscila.
— Preciso de um favor. É a coisa mais
importante que vou te pedir na vida.
Enquanto espero o táxi chegar, torço para que
não seja tarde demais e eu não tenha estragado tudo
de vez.

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Capítulo 17

ESTOU TÃO PERDIDO EM MEIO A ESSAS


planilhas que não fazem qualquer sentido que mal
sinto a hora passar, a maior parte do que vejo à
minha frente não passa de burocracia vazia. Metade
do dia já foi embora e eu estou preso nesta sala sem
conseguir uma pausa. Não vi Juliana hoje. Deixei o
avião de papel em sua mesa quando cheguei e
desde então estou sentado nesta cadeira tentando
colocar sentido nessa desordem. Coisa que será
impossível de fazer pelo que parece, afinal o rombo
enorme no orçamento claramente vem de Vinicius
usando a conta da empresa para pagar seus
exageros pessoais. Estou postergando esse assunto

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há tempo demais, preciso ter uma conversa séria


com ele ou a Rodrigues Menezes vai afundar.
Obrigado por confiar em mim, foi o que escrevi.
Lembro muito bem o dia que minha mãe
começou com essa tradição. Eu tinha quinze anos e
aquele era o primeiro dia em que meu pai me
deixou treinar junto com os seguranças e vigilantes.
Tudo bem, não foi junto, mas na época pareceu
importante, e foi, muito. Cheguei em casa pulando
de alegria e fui correndo contar para minha mãe, e
Vinicius estava lá, pronto para me ridicularizar. A
troco de que, nunca descobri, e após certo tempo
parei de me importar, mas parecia que ele sentia
prazer em dizer como o seu trabalho era mais
importante do que esta bobagem que era ficar no
galpão dia e noite. Hoje me pergunto de que
trabalho ele estava falando, porque gerir este lugar
certamente não é.

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Minha mãe, que estava sentada à mesa


escrevendo alguma coisa, arrancou uma folha de
papel, dobrou e arremessou em mim. Quando
peguei o avião, desdobrei sua forma e dentro
tinham três coisas escritas: sua empolgação, seu
coração, o brilho nos seus olhos quando entrou em
casa. Olhei para ela, confuso, e dona Luíza sorriu.
— Três coisas que fazem de você a melhor
pessoa do mundo — ela disse. — Para nunca
esquecer que eu te vejo mesmo quando acha que
não estou prestando atenção.
Desde aquele dia, qualquer que seja a situação
em que ela ache que eu não estou bem, um avião de
papel vem parar na minha direção, com três linhas
escritas. Talvez Juliana nunca entenda a
importância e significado que isso tem para mim,
mas a mulher está tão decidida a ficar longe que me
pareceu uma boa ideia dar um pedaço de uma

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memória elementar se isso significar que ela vai


parar de me ver como o maldito chefe. Se isso
significar que Juliana vai entender que eu a vejo
mesmo quando acha que não estou prestando
atenção. E que tudo que quero é ter a chance de
mostrar que posso ser mais do que este terno que
sou forçado a vestir.
Quando achei que já seria desafio o suficiente
lidar com isso, Juliana apareceu com dois outros
problemas: eu sou muito mais velho, e ela não é
meu tipo. Sequer consigo entender o que isso quer
dizer. Como Juliana não é o tipo de qualquer
pessoa que tenha cruzado com ela? Suas íris de um
castanho profundo, escuro, convidativo. A
gargalhada que dá que contagia todo mundo. E eu
não vou ser hipócrita e bancar o mocinho de novela
turca e fingir que não é para a sua bunda que olho
sempre que vira de costas. Juliana tem um corpo
maravilhoso, daqueles de enlouquecer qualquer um.
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Farto, cheio de curvas. Não é por menos que minha


mão pareceu ser atraída, voluntariosa e fora de
controle, por qualquer parte dela que estivesse
perto de mim das poucas vezes em que a tive em
meus braços. Aquela mulher está me
enlouquecendo.
Quando saio da sala e não a encontro, estranho,
mas provavelmente está resolvendo alguma coisa
com Priscila ou foi ao banheiro. Respirando fundo,
vou em direção ao escritório do meu irmão.
— Boa tarde, Edu. — Fernanda abre um sorriso
amplo ao me ver e eu a cumprimento, avisando que
vou entrar. Ela concorda com a cabeça e volta sua
atenção para o computador. A secretária de
Vinicius é uma mulher bonita e, em outras
circunstâncias, talvez tivesse despertado meu
interesse. Mas perto de Juliana, qualquer uma perde
um pouco do brilho. Concorrência desleal.

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Abro a porta sem bater e encontro Vinicius


sentado à sua mesa, olhando o computador com
uma caneta na mão sobre o que parece ser uma
planilha. Finalmente resolveu trabalhar. Sem dizer
uma palavra, solto a pasta em sua mesa.
Ele desvia sua atenção do que está fazendo e
deixa seus olhos caírem sobre os papéis antes de
me encarar.
— Em que posso te ajudar hoje, Eduardo? —
pergunta em um tom debochado.
O homem, que já começa a ter rugas no rosto,
sem perder a pose arrogante, me encara com
interesse e com o sorriso zombeteiro que sempre
estampa suas feições. Não tem nada em Vinicius
que faça com que eu me sinta parte da mesma
família que ele.
— Você pode começar a fazer o seu trabalho e
parar de gastar o dinheiro da empresa com suas
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viagens e mulheres.
Vinicius recosta na cadeira, cruzando os dedos.
Sua barba está começando a ficar grisalha, assim
como seu cabelo castanho. Os olhos acinzentados
são iguais aos de nosso pai, mas a expressão de
desdém em sua face é algo que em nada se parece
com qualquer coisa vinda do nosso progenitor.
— Esta empresa é minha, Eduardo. Eu faço o
que quiser. E você e os outros são muito bem pagos
para resolver qualquer coisa que me dê dor de
cabeça.
— Esta empresa é do nosso pai — corrijo, e ele
dispensa o comentário com a mão.
— O homem já está com o pé na cova e você
sabe disso. E, quando ele partir dessa para uma
melhor, esta cadeira vai ser minha
permanentemente. Você pode ser o queridinho do
papai, mas eu sou o filho mais velho e o testamento
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dele já está escrito e lacrado há anos.


Recuo com suas palavras, como se ele tivesse
dado um soco em meu estômago. Como ele pode
falar assim, como se não se importasse? Com toda
essa frieza. Impressiona-me que eu ainda possa ser
surpreendido pela completa falta de desvelo do
homem.
— Vou olhar com carinho e atenção o que quer
que aquela sua secretariazinha tenha arrumado
nessa pasta, não precisa chorar. Aliás — ele
endireita a postura, fuzilando-me —, você
consegue coisa melhor que aquilo, Eduardo. Eu sei
que seus padrões de vida nunca foram exatamente
invejáveis, mas existe um limite até mesmo para
você.
Dou um passo involuntário em sua direção,
punhos cerrados ao lado do meu corpo. A onda de
irritação que me atinge é algo que sequer consigo

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explicar.
— Só, por tudo que é mais sagrado, não
engravide a vadia. Já que se preocupa tanto com
esta empresa, você tem que pensar no legado do
nosso sobrenome e não em perder a herança inteira
para a primeira vagabunda que abre as pernas para
você.
Ele revira os olhos e gira a mão em um gesto
abstrato, como se dispensasse as próprias palavras.
Em duas passadas largas, alcanço-o, agarrando a
gola do seu terno que provavelmente custa mais do
que o salário de metade dos funcionários,
arrancando-o da cadeira, que rola para longe sobre
as rodinhas, atingindo a parede.
— Você quer viver a vida desse jeito, o
problema é seu. Quer destruir tudo que nosso pai
construiu por puro capricho, faça as honras. Nem
que eu tenha que morrer de trabalhar, não vou

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deixar isso acontecer. — Aumento o aperto,


trazendo-o para perto de mim. — Fale de Juliana de
novo desse jeito e eu arrebento essa sua cara, está
me ouvindo? — rosno, e ele ousa rir. Um riso de
escárnio que só aumenta minha irritação.
— A loucura do homem apaixonado —
debocha. — Perdeu mesmo a cabeça pela cotista.
Até Fernanda é uma escolha melhor de foder,
francamente Eduardo…
Não sei o que mais estava a ponto de dizer,
porque Vinicius não conclui a frase. Meu punho
acerta seu queixo e ele solta um grunhido pela
surpresa, passando a mão no rosto, os olhos
imediatamente transbordando puro ódio.
— Você perdeu o maldito juízo? — grita, dando
a volta na mesa. — Como você se atreve a...
Acerto-o uma segunda vez e Vinicius cambaleia
para trás, apoiando-se na mesa com uma das mãos.
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— Filho da puta — murmura e me obrigo a


respirar fundo.
Sinto os nós dos meus dedos doerem, mas não
estou pronto para parar. Forço-me a dar um passo
para trás e não ceder à vontade de aproveitar esse
momento, essa provocação, para descontar tudo
que ele merece. Todos os anos, todas as coisas que
engoli, toda falta de caráter, falta de respeito para
com nossos pais, nossa família, esta empresa.
Vinicius passa o dedo pelo lábio cortado e me
encara com ódio cintilando nos olhos.
— Sai daqui antes que eu chame a segurança. —
Ele me dispensa com a mão e minha vontade é de
dar-lhe outro soco pelo desdém, mas viro as costas
e caminho em direção à porta.
— Leia a droga dos papéis — grito ao sair.
Volto para a minha sala a passos largos, a ponto
de explodir. A ponto de levar Juliana para a minha
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sala e dizer que não existe a menor chance de eu


seguir essa ideia insensata de não a beijar, porque
tudo que preciso agora é sentir seu corpo junto ao
meu. Tudo que preciso é implorar para que ela me
aceite, me dê uma chance de mostrar que posso
fazer isso funcionar, ver seu sorriso e deixar que ela
faça acalmar a adrenalina que parece a ponto de me
consumir. Preciso respirar fundo novamente, dessa
vez para tentar apagar da mente a visão de Juliana
gemendo debaixo de mim na mesa do meu
escritório, que invade minha mente sem que eu
possa impedi-la.
Mas, quando chego, ela ainda não está em sua
mesa e, olhando com atenção, noto que sua bolsa
também não está no lugar. Aproximo-me do seu
computador e vejo um avião de papel sobre o
teclado, o mesmo que eu fiz, mas com um bilhete
diferente colado a ele.

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Sorrio. É impossível não sorrir diante do gesto.


Destaco o papel e, ao invés de três linhas como
venho fazendo, há duas frases escritas em sua letra
cursiva.
Não posso continuar com isso. Eu sinto muito.
Oito palavras capazes de arrancar todo o ar de
meus pulmões.
Preciso sentar-me na cadeira quando minhas
mãos começam a tremer segurando a folha. Eu
disse que tudo que ela precisava fazer era dizer que
não queria, e Juliana o fez, de uma forma ou outra.
Não imaginei que faria. Tento descobrir onde errei,
onde exagerei, o que fiz para afugentá-la. Fui longe
demais indo ao seu apartamento na noite passada?
Ou entendi tudo errado? Talvez ela nunca tenha
me querido para começo de conversa e só não sabia
como dizer isso. A ideia de eu ter forçado uma
situação com a qual Juliana não estivesse
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confortável faz com que eu sinta meu estômago


revirar.
Afundo as mãos no cabelo, apoiando em sua
mesa, sem saber ao certo o que fazer. Pego o
celular no meu bolso porque, mesmo sabendo que
prometi deixá-la em paz se fosse esse seu desejo,
preciso ao menos saber se ela está bem. Não vou
ligar, não vou invadir o seu espaço mais ainda,
então digito uma mensagem. Sinto que não terei
resposta, mas envio mesmo assim.
— Ah! Senhor Rodrigues. — Levanto a cabeça
e vejo Rafael parado em frente à mesa, parecendo
constrangido. — Estou procurando a Juliana — diz.
Claro que está. Por que não estou surpreso?
— Ela não está.
— O senhor pode pedir para ela me procurar
quando voltar? Preciso confirmar… uma coisa para
mais tarde — diz, reticente.
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— Claro — digo entre dentes. Nem ferrando.


Ele me olha incerto e sei que quer dizer mais
alguma coisa, mas parece receoso, hesitante.
— Fale, Rafael.
Ele suspira.
— Ela não está atendendo o telefone — Hesita.
— Eu só preciso saber se é para eu esperar por ela.
O senhor pode…?
Concordo com a cabeça, trincando os dentes.
Rafael acena com a cabeça e, ouvindo a voz de
Renato no fim do corredor, se despede e sai
correndo para ver o que o homem quer, deixando-
me embasbacado e sem reação. E puto da vida.
Fecho os olhos, esfregando minhas pálpebras
com os dedos. Tenho certeza de que tem alguma
coisa ali e sequer quero começar a imaginar que
coisa é essa… Respiro fundo, dizendo a mim

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mesmo que não é da minha conta.


Por mais que eu queira bater na porta do seu
apartamento e exigir que pare de insanidade, sei
que não posso. Prometi que não faria nada do que
Juliana não quisesse, e ela claramente não quer.
Merda de promessas.
Juliana fez sua escolha.
Eu só não sei como vou fazer para viver com
isso.

Uma tarde nunca demorou tanto para passar.


Quando finalmente me forço a sair do escritório,
dirijo até em casa mecanicamente, adentrado meu
prédio e subindo de elevador até o andar certo.
Valentina me recepciona com miados exigentes
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assim que cruzo a porta e me abaixo para pegar a


gata que se aninha em meus braços. Troco sua água
e comida em um movimento automático e ela
avidamente ataca as vasilhas. Sento-me na beira da
cama, tentando decidir entre tomar um banho ou
simplesmente me jogar no colchão forrado. Por
fim, apenas me livro do paletó e da gravata, chuto
os sapatos para longe e caio de costas no colchão,
fechando os olhos.
A última vez que realmente me envolvi com
alguém foi anos atrás. Nunca fui dado a
relacionamentos vazios e sem sentido, não vejo
motivo em estar com alguém se aquela pessoa não
me acrescentar nada. E, de uma forma
completamente inesperada, a cada palavra e cada
sorriso, Juliana foi adicionando uma camada de si
em mim, ao mesmo tempo em que removia uma
camada de isolamento da minha vida. Não é como
se eu me esforçasse para não deixar alguém fazer
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parte da minha vida, apenas me acostumei a fazer


do trabalho minha única prioridade de vida.
Acostumei-me a cuidar da minha família e devotar
minha vida a fazê-los feliz, e sobrou pouco tempo
para qualquer coisa além disso.
Mas é como se minhas prioridades tivessem
mudado desde que vi aquele par de olhos enormes e
expansivos, sorriso fácil e competência
indiscutível.
E isso sem sequer tentar, apenas consigo me
perguntar o estrago que ela faria caso decidisse
virar minha vida do avesso. Mas, ao invés disso,
Juliana provavelmente está a ponto de escolher
virar a vida de Rafael do avesso.
Rio, uma gargalhada seca quando me dou conta
de que fui eu a dizer que ela o procurasse.
Existe a chance de que a essa hora estejam
juntos e, por mais que tente com toda minha força
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não imaginar o que estão fazendo, o pensamento


me invade sem que eu possa fazer nada.
Forço-me a levantar da cama e entrar no
chuveiro. Deixo a água morna cair sobre mim
enquanto me permito a indulgência de deixar a
memória da mulher das curvas voluptuosas me
tomar, mas rapidamente a empurro para fora da
minha mente. Parece errado fantasiar com uma
mulher que deixou claro que não me quer, como se
estivesse invadindo sua privacidade e
desrespeitando suas vontades. Obrigo-me a apagar
quaisquer ideias, mesmo que meu corpo se recuse a
obedecer e reaja por conta própria ao desejo que
não consigo suprimir. Como sempre é quando
qualquer traço de Juliana me cruza a mente.
Desligo a água, enfio uma camiseta pela minha
cabeça, uma calça de moletom surrada, o mais
distante possível do papel de executivo respeitável

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que sou obrigado a interpretar. Não me sinto


respeitável no momento, e Deus sabe que ser
executivo nunca esteve nos meus planos.
Atravesso o apartamento, indo até a cozinha, e
encaro as garrafas de bebida. Beber meus
problemas para fora da minha mente? Por que não?
Prudência e bom senso não estão me levando a
lugar nenhum. Só vou te beijar quando você blá-
blá-blá.
Tomo um gole.
Antes tivesse a jogado na parede e a tomado em
meus braços. Mostrado a Juliana que sou o homem
que ela precisa, que ela deseja e sequer nega, mas
foge por algum motivo desconhecido. Mas não,
minha brilhante ideia foi entregar aviõezinhos de
papel.
Outro gole.
Um riso seco escapa da minha garganta.
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Ela deve me achar um idiota.


Eu certamente não consigo me ver de outra
forma agora.
Ouço meu celular tocar e congelo no lugar,
dividido entre correr para atender o aparelho ou
ignorar a chamada. Preciso mesmo falar com
qualquer pessoa hoje? Não. Opto por ignorar.
Recosto no balcão da cozinha e termino a bebida
com calma, mas o toque insistente que indica a
quarta chamada seguida consegue me atingir e
desisto. Atravesso o apartamento até alcançar o
aparelho que acordou Valentina, que agora mia,
protestando contra o som alto. Olho o visor e
suspiro. Priscila.
— Oi — atendo, seco. Cansado. Desejando
poder perguntar a ela que é minha amiga há tantos
anos o que passa na cabeça de Juliana. As duas se
tornaram próximas de uma maneira surpreendente,
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e me pergunto se a loira pode me ajudar a entender


aquela mulher que me tira dos eixos.
— Eduardo, me desculpe ligar a essa hora, sei
que está tarde, mas temos um problema. — Ela
pausa, parecendo nervosa. — Eu cometi um erro e
deixei vazar uma informação sobre um
funcionamento técnico da empresa que talvez
prejudique o acordo de confidencialidade que
temos com alguns clientes. — Solto um palavrão.
Esse é o tipo de coisa que nunca pode acontecer.
Coloco o copo na mesa e sento-me no sofá. —
Estou perto do seu apartamento, preciso passar aí
para resolvermos isso agora — diz. — Você pode
liberar minha entrada?
— Tudo bem.
Priscila se desculpa mais uma vez e desliga.
Interfono para a portaria e aviso que uma mulher
está chegando e podem deixá-la subir direto.

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Esfrego o rosto. Uma boa dose de trabalho pesado


pode ser exatamente o que eu preciso, embora uma
potencial crise seja a última coisa que a empresa
precisa.
Recosto a cabeça no sofá e fecho os olhos,
sentindo a dose de álcool começar a fazer efeito e
me fazer sonolento.
Abro os olhos com o som da campainha
gritando alto pelo apartamento, despertando-me de
um sonho inundado em um mar de cachos
castanhos. Ando em direção à porta, respirando
fundo, sentindo o chão gelado contra meus pés
descalços e meu pescoço doendo em um ponto
insistente.
— Oi, Pris...
Interrompo a frase no meio do caminho quando
vejo Juliana na minha frente, os olhos brilhando e
lágrimas finas escorrendo por seu rosto. Em suas
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mãos, um aviãozinho de papel.


— Eu sinto muito.
Balanço a cabeça, esfregando o rosto.
— Sente pelo que, Juliana? Eu te dei a opção de
parar com isso a qualquer hora, e você aceitou.
Não tento ser grosseiro, não é minha intenção
machucá-la. Não há qualquer motivo para isso, ela
não fez nada errado. Apenas não consigo deixar
fora da minha voz a dor que sinto.
As lágrimas no seu rosto aumentam e vejo
quando ela morde a boca.
— Posso? — pergunta, apontando para dentro
do apartamento. Libero a entrada da porta e estico o
braço indicando a passagem, e ela entra.
Juliana olha na minha direção, de pé no meio da
sala. E me surpreendo com quão bem ela fica aqui,
o quão bem combina com tudo. Com quão fácil é

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imaginá-la andando com seus pés descalços, o


cabelo preso em um nó como quando estávamos
em seu apartamento, como quanto esteve aqui da
última vez. Um sinal singelo de que estava
confortável.
— Precisamos conversar — diz.
Respiro fundo. A hora de conversar foi a meio
dia atrás. Encaro-a de braços cruzados, de pé no
meio da sala, e espero que diga alguma coisa.
— Eu estava com o Rafael.
Solto um grunhido. De tudo que eu esperava
ouvir, isso certamente não estava no repertório.
Sem dúvidas não está no topo da minha lista de
preferências.
— Imaginei — sussurro, caminhando de volta
em direção à cozinha.
Preciso trincar bem os dentes para não falar mais
nada, e uso minha boca para virar outra dose ao
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invés disso. Permaneço de costas, sem olhar para


ela.
— Eu realmente estraguei tudo — murmura, e
sou obrigado a rir.
Viro-me em sua direção e recosto no balcão.
— Fico feliz que tenha percebido isso por conta
própria, Juliana. Com algumas horas de atraso.
Minha voz não passa de um rosnado e posso ver
que minhas palavras a machucam. E, mesmo agora,
mesmo que uma parte minha brade que ela merece
ser machucada, uma parte maior me faz fechar os
olhos e apertá-los com força enquanto respiro
fundo. Porque eu sei que acabaria com a raça de
qualquer um que tentasse machucá-la, e me incluo
nesse pacote. Juliana não merece isso, jamais
merecerá. Especialmente quando seu único pecado
é não me querer.
— Eu estou com medo — sussurra.
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Balanço a cabeça, soltando os braços. Eu sei que


está, ela se fez bem clara em todos seus motivos,
todos seus receios. E entendo.
— Estou com raiva — admito. — E machucado.
Olho em sua direção e Juliana concorda com a
cabeça. Vejo quando ela cautelosamente começa a
andar em minha direção. Não há o que ser dito, eu
sei disso, ela sabe disso. Chegamos a um ponto
nesse jogo onde cada movimento é decisivo, em
uma corda bamba que parece prestes a partir.
Apenas observo em silêncio enquanto se aproxima
e para de frente para mim, murmurando um pedido
de desculpas estrangulado.
— Por quê?
Não preciso elaborar a pergunta, seu olhar diz
que ela me entende. Por que disse que não podia e
voltou atrás? Por que foi com ele? E por que está
aqui agora? Por que está brincando comigo dessa
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forma? Por que me enlouquece desse jeito?


— Lorena — responde com um suspiro.
Fecho os olhos e sorrio. Não um sorriso feliz ou
deliciado, um sorriso cansado. Esgotado. O sorriso
de uma pessoa que não sabe lidar com joguinhos.
Abaixo a cabeça, incapaz de olhar na sua direção,
porque sei que estou prestes a me render às
lágrimas.
— Você fugiu de mim e foi para a cama com
outro homem por ciúmes?
Minha voz sai cortada e débil, como se eu não
fosse capaz de controlá-la. A incredulidade e
decepção cruzam meu peito e parecem se instalar.
Ela não me deu direito a defesa ou julgamento.
Sentenciou-me à penalidade máxima baseada em
suas próprias suposições.
— Eu não fui para a cama com ele. — Ela se
apressa em se defender. Ergo as sobrancelhas e
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Juliana suspira. — Eu não fui. Mas…


— Não quero saber os detalhes. Não preciso
dessa imagem na minha cabeça.
Não mais do que já está. Trinco os dentes pela
onda de ciúmes que me acomete. Odeio me sentir
assim, principalmente por saber que não tenho
qualquer direito sobre ela, mas não posso evitar.
Não posso evitar a queimação tóxica que toma meu
peito, a vontade de dar um soco naquele filho da
puta, ele tendo culpa nisso ou não. Odeio o quão
irracional me sinto com a menor das possibilidades
de ser trocado por Rafael.
— Edu…
— O bilhete — exijo uma explicação.
É a única que ela me deve. É o único
esclarecimento que preciso. A única coisa que
preciso entender. Qual o motivo de ter se decidido
e mudado de ideia assim.
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— Eu sei. — Ouço seu ressoar profundo e


sonoro, sua voz trêmula. — Na verdade, não sei. É
esse o problema. Não sei o que diabos eu faço, não
sei o que está acontecendo. Quero você.
A urgência na sua voz me faz olhar em sua
direção. Respirar subitamente se torna difícil.
— Realmente não quero me resumir à mulher
que abre as pernas para o chefe gostoso, mas não
consigo mais mentir para mim mesma e fingir que
eu não penso em você e quero você o tempo inteiro.
Sinto uma lágrima escorrer pela minha
bochecha.
— Cada vez que olha na minha direção com
esses olhos malditamente sensuais, ou cada vez que
um aviãozinho de papel aparece na minha mesa,
como um lembrete constante de que você está ali.
Ela dá um passo na minha direção e estende a
mão, tocando meu rosto.
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— E quero estar aqui também. Mas não sei


como fazer isso. Eu não sei o que estou fazendo,
não sei...
Odeio-me um pouco por deitar o rosto na palma
da sua mão, em um toque inédito que
instantaneamente me acende de volta para ela.
Juliana dá um passo em minha direção e encosta a
cabeça no meu peito. Preciso de toda minha força
para não enlaçá-la em um abraço.
— Eu fiz besteira, Edu. Sei que fiz — murmura
contra minha camisa, já úmida por suas lágrimas.
— Só preciso de uma chance para consertar isso.
— Por quê? — Minha voz não passa de um
sussurro. — Por que quer consertar qualquer coisa?
Ela fez besteira? Talvez, mas não fez nada
errado. Só fez uma escolha que está a ponto de me
destruir, mas ela tem direito a isso. Juliana arrasta o
nariz pelo meu peito, inspirado profundamente, e
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eu repito o gesto, deleitando-me do cheiro de


canela do seu pescoço. Rápido demais, já estou
embriagado por Juliana novamente e meu corpo
implora para que eu a tome.
Lia dá um passo para trás e ergue a cabeça,
olhando-me nos olhos. Ela estica a mão,
estendendo o avião de papel que ainda segura entre
os dedos. Respira fundo e me olha, os olhos
revestidos de uma determinação inédita para mim.
Um sorriso cauteloso brota em seu rosto.
— Seus olhos, sua gargalhada tão rara, o jeito
que você cruza os braços sempre que encosta em
algum lugar — diz e eu prendo a respiração ao
entender que está devolvendo o que fiz. — Sua voz
ao dizer meu nome, o jeito que você cuida de
Valentina, sua barba sempre por fazer. O seu tom
de voz capaz de calar uma centena de pessoas com
uma ordem simples, e o fato de que nunca chegou

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nem perto de falar comigo dessa forma. Seus


lábios, suas mãos, seus dentes no meu pescoço. O
jeito que me tira do chão o tempo inteiro. Seu
coração. O jeito que me olha, as coisas que me faz
sentir. A pessoa que me faz querer ser. Os
aviõezinhos de papel.
Juliana mexe a mão, os lábios trêmulos ao
sussurrar a última parte, dizendo-me
silenciosamente para pegar o origami, e eu o
apanho, encarando a mulher de pé na minha sala,
envolvida em um vestido cor de rosa. Sem
maquiagem, um nó no cabelo e tênis surrados.
Completamente diferente do visual impecável que
exibe todos os dias no trabalho.
E ela nunca esteve tão linda.
Desdobro o avião em minha mão, sem desviar o
olhar da sua direção, e ela morde os lábios e me
encara em expectativa. Desço os olhos para a folha

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que abriga três palavras.


Você me perdoa?

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Capítulo 18

MINHAS MÃOS ESTAVAM TREMENDO


quando toquei a campainha. Mil coisas podiam
acontecer, Eduardo podia simplesmente bater a
porta na minha cara, não aceitar meu pedido de
desculpas, dizer que nunca mais quer me ver. E eu
não o culparia por nada disso.
Precisei passar em casa e tomar um banho. Foi
difícil não sair correndo direto para cá, mas não
tinha a menor condição de eu aparecer na porta de
Eduardo daquele jeito. Não vestida daquela forma
tão artificial, certamente não com o cheiro de
Rafael no meu corpo. Perdi alguns minutos

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encarando o guarda-roupa, tentando decidir o que


deveria vestir, e cheguei à conclusão que a noite
seria importante demais para disfarces.
O que Eduardo fez, levando-me ao galpão…
Juntando todos os fragmentos de informação que eu
tenho sou capaz de entender exatamente o quanto
aquele lugar é importante para ele. Talvez, a
impressão que tive de que ali ele era uma pessoa
completamente diferente, seja a mais pura verdade.
Edu permitiu que eu o visse por inteiro, fora do
terno e gravata que, para bem ou para mal,
representam o papel de chefe que assume no
escritório. E foi quando percebi que a atração
inicial que senti por ele era mais do que isso. Podia
ser muito mais do que isso. Todos os detalhes desse
homem intrigante poderiam se tornar muito mais.
Nada mais justo do que ele ver a Juliana por
detrás dos três quilos de maquiagem. Queria eu

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poder só ver a Juliana por trás de três quilos de


maquiagem, meus poros agradeceriam.
Fiz um nó no cabelo e coloquei um vestido rosa
que adoro, mas há muito não usava, por ser curto
demais e inapropriado para o meu tipo de corpo,
como tanto já ouvi por aí. Chutei meus saltos para
longe e calcei meu par favorito de tênis, surrados
de tanto que os uso. O espelho zombou de mim por
um minuto, mas mandei calar a boca, virei as costas
e vim correndo para cá.
Agora, parada no meio do apartamento,
enquanto ele me encara com o papel na mão,
parece que paro de respirar. Seus olhos estão
vermelhos, marejados, e quero dar na minha cara
por isso ser culpa minha. A gente não tem nada,
nunca teve nada além de alguns beijos quentes
imprensados na parede, eu sei disso, ele sabe disso.
Eduardo é o rei da sensatez, bem mais do que eu. O

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erro não foi Rafael, o erro foi a pura falta de


comunicação. Eu devia ter falado com ele.
Seus fios despenteados me fazem querer passar
a mão em seu cabelo; quero passar a mão nele todo.
E quem não quer? Olha só para esse homem!
Ele parece perdido, quase tanto quanto eu. Não
consigo entender o que se passa na cabeça dele e
isso me enlouquece, mas as palavras do meu irmão
pulsam na minha mente, agora mais fortes do que
no início da noite. E, apesar de odiar admitir, sei
que ele tem razão. Ainda quero esganar Guilherme
pela forma como ele falou comigo, e isso está na
minha lista de coisas a fazer, mas ele estava certo.
Estou me sabotando. Bancando a superior e
julgando Eduardo tanto quanto odeio ser julgada.
Privando-me do que pode ser uma experiência
inesquecível por medo, por insegurança. E
Guilherme tem razão, o único motivo para isso é

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porque me importo mais do que quero admitir a


mim mesma.
Estava mais do que pronta para ir para cama
com Rafael — e verdade seja dita, estive pronta
para ir para cama com muitos outros ao longo da
minha vida e não me arrependi de nenhum — e não
me preocupei, por um segundo que fosse, se ele
gostaria do que veria. Porque não ligo, nunca
liguei. Essa insegurança que revira meu estômago e
me faz entender o que diabos as tais borboletas
significam é dedicada só a Eduardo mesmo. É uma
insegurança emocional muito mais que qualquer
outra coisa.
Enquanto Eduardo me encara, eu espero uma
reação, uma palavra, qualquer coisa, e vasculho no
fundo da minha mente, em busca dos meus ex-
namorados, ficantes, casos antigos, flertes
despretensiosos. O que aconteceu para que eu me

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sinta dessa forma? Por que Eduardo me intimida


tanto?
A verdade é que ele me espelha, enxergo minhas
falhas e fraquezas quando olho no fundo dos olhos
castanhos que me encaram em expectativa. É como
se me despisse só de olhar para mim e me sinto
vulnerável demais para o bem do meu ascendente
em gêmeos. Oi, louca dos signos.
Com tanto medo de ser julgada por minhas
escolhas, julguei-o por ser quem é. Com tanto
medo de sofrer por não ser aceita como sou, eu o
fiz sofrer pelo mesmo motivo. E Eduardo não
desistiu. Todos os dias, um aviãozinho de papel,
um bilhete misterioso, um olhar, um toque. E não
foi assim desde sempre? Preocupação disfarçada de
formalidade, aproximação sendo chamada de
convivência pacífica, cuidado em nome de um
profissionalismo desnecessário.

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Sinto mais lágrimas se formando em minha


garganta ao perceber o quão injusta e o quão
estúpida eu fui, por meses, sim, mas principalmente
nos últimos dias. Parece tão pouco tempo, mas
ainda assim é como se uma eternidade tivesse se
passado desde que o conheci. Vidas inteiras, em
uma conexão que ninguém previu. Não devia
funcionar, não devia existir. Seu olhar não devia se
prender ao meu, meu sorriso não devia refletir o
dele. Não devia oferecer sem saber o que vai ser
recebido em troca e, ainda assim, parece um
encaixe perfeito. Encaixe que foi adiado pela minha
insegurança.
— Não sei se isso é o suficiente — diz,
colocando o papel na mesa. Ele olha para mim e
balança a cabeça. — Não sei se é o suficiente, Lia.
E eu sorrio.
Eduardo me olha como se eu fosse louca, e meu

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sorriso aumenta. Dou um passo em sua direção e


ele me encara com expectativa e confusão.
— Lia — sussurro quando estou a apenas um
passo de distância dele. Ele usou o apelido mais
sem sentido da história da humanidade e nem
percebeu.
Pode não ser o suficiente, mas é alguma coisa.
Eu posso trabalhar com alguma coisa. Eduardo
abaixa a cabeça e a sacode, mas quando me olha de
novo, ele também tem um sorriso no rosto.
Discreto, mas está ali.
— Isso ainda não está resolvido — diz com
firmeza, e eu balanço a cabeça concordando.
Mordo o lábio quando ele dá um passinho na minha
direção. — Ainda precisamos conversar.
— Eu sei.
Minha voz começa estável, mas se perde no
meio do caminho quando Eduardo passa a mão
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pelo meu pescoço.


— Você ainda tem muitas desculpas para pedir
— murmura.
— Quantas você quiser.
Pergunto-me se ele vai dar mais um passinho.
Só mais um passinho, Eduardo. Já estou com o
corpo todo arrepiado pela proximidade e
expectativa. Nunca quis tanto que ele me
imprensasse em uma parede como agora.
— Você pode começar agora.
Abro a boca para perguntar como, mas Eduardo
termina de diminuir a distância entre nós dois e me
toma em seus braços. O nó do meu cabelo é
desfeito com um movimento só e seus dedos
engancham em meus fios, puxando-me para perto,
e sua boca me toma, firme, voraz, e eu gemo contra
seus lábios possessivos. Agarro seus ombros para
manter o equilíbrio, cravando as unhas por sobre o
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tecido fino da camiseta que ele está vestindo.


Minha vontade é rasgar o tecido branco, e talvez eu
acabe fazendo isso sem querer se continuar
afundando meus dedos desse jeito, mas não me
importo.
Estou fora dos meus pés antes que perceba,
Eduardo enlaça minhas pernas em sua cintura e por
um segundo, um segundo apenas, me preocupo se
ele vai aguentar o peso, mas seus músculos se
provam ser úteis e não só bonitos quando ele
começa a andar comigo e uma mordida em meu
lábio que me faz ofegar. Sorrio contra sua boca
quando sinto a parede atrás de mim, como uma
tradição a ser seguida. Ele me imprensa, prendendo
meu corpo entre o seu e o concreto frio. Minhas
pernas escorregam de sua cintura e suas mãos estão
subindo por minhas coxas no momento em que
apoio meus pés no chão.

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— Você tem alguma ideia de quantas vezes eu


imaginei isso? — pergunta em meu ouvido com a
voz rouca quando solta minha boca e seus dentes
raspam a pele do meu pescoço.
Talvez eu conseguisse responder se sua mão não
tivesse alcançado a barra da minha calcinha, mas,
quando sinto seus dedos me torturarem em
movimentos lentos por sobre a renda, esqueço até
meu nome. Arranho seu pescoço, soltando um
suspiro quando um dedo clandestinamente afasta o
fino tecido. Sinto seu sorriso no meu pescoço
quando Eduardo percorre minha entrada molhada,
pronta, e tudo que ele faz é continuar me
provocando.
— Edu… — protesto, sentindo minha garganta
seca. Gemo quando força um dedo, e ele próprio
solta um gemido fraco antes de voltar sua atenção
para o meu pescoço. Sinto outro dedo entrar em

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mim e não consigo, e nem quero, evitar me mover


em sua mão.
Seu braço em minha cintura me mantém presa
no lugar enquanto me movo involuntariamente sob
seu corpo que me prende à parede. Estou quente,
como se estivesse a ponto de entrar em combustão
pelo simples toque dos seus dedos entre minhas
pernas. Sua boca está em meu pescoço, e não
consigo impedir minhas unhas de afundarem em
suas costas quando começo a perder o controle pelo
movimento dos seus dedos dentro de mim, seu
polegar firme sobre meu clitóris. Estou muito perto
do que sei que vai me bambear as pernas, e tudo
que posso fazer é confiar que ele não vá me deixar
cair. Sou incapaz de controlar os gemidos que
escapam por meus lábios quando me desfaço em
um orgasmo e sinto o braço de Eduardo me
prendendo firme contra seu corpo, sua boca
percorrendo pecaminosamente meu pescoço.
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Percebo que era exatamente essa sua intenção: que


eu me entregasse sem receios, sabendo que ele
estaria ali. A tal confiança que tanto vem tentando
conquistar sendo posta à prova.
Eduardo toma minha boca na sua em um beijo
longo, me pega no colo e começa a se mover, e eu,
entregue aos seus braços, estou a ponto de protestar
quando sinto o colchão contra minhas costas e,
subitamente, estou sozinha na cama.
Apoio-me em meus cotovelos para olhar para
Eduardo, de pé me encarando enquanto puxa a
camisa para cima em um movimento brusco,
apressado. Quando seu peito está exposto, mordo
os lábios e bebo a visão do homem à minha frente,
aproveitando que agora posso olhar
descaradamente para ele sem precisar fingir nada.
Um sorriso cresce por seu rosto quando ele percebe
o interesse no meu olhar e continuo assistindo

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hipnotizada quando Eduardo sobe no colchão e se


deita sobre mim, tomando-me novamente para si.
Ele não diz nada, e eu nem tento falar qualquer
coisa. Não tem espaço para palavras nesse
momento. Todo o desejo acumulado parece a ponto
de explodir e nos beijamos com pressa, vontade,
sem cuidado e nenhum resquício de romantismo ou
provocação.
Arrasto as unhas por seu pescoço e ele se
aprofunda em meus lábios quando o puxo ainda
mais em minha direção. Sua mão sobe enquanto as
minhas descem por seus braços e costas, até
encontrar o cós da calça, e ele geme ofegante
quando afrouxo a corda do moletom.
Eduardo não se mexe enquanto passo os dedos
pela barra da calça, sentindo o elástico da sua cueca
bloqueando o acesso ao que eu quero. Ele aumenta
o aperto sobre minha pele, agarrando meu seio e,

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em um movimento rápido, gira na cama, fazendo-


me montar em seu colo, e ele senta, enroscando
minhas pernas em suas costas. Sinto sua ereção me
pressionando no ponto certo quando se move e suas
mãos vão para a barra do meu vestido, que começa
a ser removido, e eu prendo a respiração, nervosa,
ansiosa, explodindo de desejo, com medo e
insegura como se fosse minha primeira vez. Ele me
olha com a sobrancelha erguida e um sorriso
provocador ao ver que estou sem sutiã, e eu dou os
ombros. Vim aqui para isso mesmo, ué.
Suas mãos sobem da minha cintura e se enchem
com meus seios, e ele me beija, um beijo que não
demora muito e logo sua barba está roçando em
minha pele. Arrepios percorrem meu corpo.
Com a mesma rapidez em que me pôs em seu
colo, ele me devolve ao colchão. Fecho os olhos e
sua boca percorre meu ombro, descendo até

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alcançar meus seios. O toque firme da sua língua


em meu mamilo faz com que eu me contorça
debaixo dele, seus lábios se fecham sobre o bico
avidamente e um gemido clandestino sai alto da
minha garganta.
Sinto sua risada contra minha pele quando ele
murmura um gostosa enquanto desce, deixando
mordidas no caminho até alcançar a barra da minha
calcinha, e ele desce mais, separando minhas
pernas com as mãos e roçando sua barba no interior
das minhas coxas. Eduardo se ajoelha à minha
frente e sinto uma onda de desejo me atingir a cada
ponto certo que ele toca com os lábios, aumentando
a tortura que é esperar que chegue onde preciso
dele. Esfrega os lábios por sobre a renda fina,
depositando beijos frustrantemente castos até que
afasta a calcinha com os dedos e intensifica a
tortura ao me tocar em todos os lugares, menos no
ponto exato que pede por ele.
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— O que você está fazendo? — gemo,


protestando.
Ouço sua risada rouca e suas mãos percorrem
minhas coxas, prendendo-se na minha bunda, e ele
me puxa em sua direção, arrastando-me no colchão.
— Vou te comer, Juliana. É isso que eu estou
fazendo. Alguma coisa contra isso? — o filho da
mãe pergunta com os lábios sobre sim.
— Nada contra — murmuro, desejosa.
— Ótimo.
Sua voz rouca soa como uma profecia e a
próxima coisa que sinto é sua língua sobre mim,
explorando-me, invadindo, provocando. Perco o
controle com facilidade sob os toques precisos de
quem claramente sabe o que está fazendo. Não
demora até que uma onda de prazer invada meu
corpo e um gemido estrangulado escape pela minha
garganta enquanto me entrego ao clímax.
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Tento controlar minha respiração


descompassada e sinto quando seu corpo me
abandona depois de uma trilha de beijos quentes
deixados por minhas coxas. Ainda estou meio mole
quando tento me apoiar nos cotovelos para olhar
para ele, de pé de frente para mim. Aprecio o show
que é ver Eduardo se livrar da calça de moletom, e
minha boca cai aberta quando vejo a peça aos seus
pés. Levanto e me ponho de joelhos no colchão
quando suas mãos alcançam a barra da boxer azul.
Chamo-o com os dedos e ele vem. Esse prazer
você não tira de mim, Eduardo. Engancho as mãos
no elástico e o forço para baixo, liberando sua
ereção para mim. Tomo meu tempo encarando o
pedaço de mau caminho à minha frente e abro um
sorriso, balançando a cabeça. É claro que não seria
diferente, obviamente esse homem não seria nada
além de perfeito. Eduardo me olha com atenção e o
sorriso em seu rosto desaparece no momento em
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que minha língua percorre meu lábio inferior. Ele


abre a boca quando o tomo nos meus dedos e ouço
uma respiração profunda quando começo a
movimentar a mão.
Ergo o olhar, deliciando-me com sua cara de
prazer e espero o momento exato em que ele fecha
os olhos para alcançá-lo com a minha boca. Ouço
um palavrão escapar da sua garganta e seus dedos
voam para o meu cabelo, enroscando nos fios
enquanto minha língua brinca e tortura seus
sentidos.
— Juliana… — A rouquidão cheia de desejo
interrompida por um gemido faz com que eu o
tome com mais vontade, prendendo as unhas em
sua perna para mantê-lo no lugar.
Sinto que ele está perto de perder o controle
quando acelero os movimentos, mas Eduardo se
curva e me levanta, levando-me de volta ao

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colchão. A respiração dele está pesada,


descompassada, seus olhos escuros de desejo me
devorando quando estica a mão e abre uma gaveta
do criado-mudo, sem parar de me encarar. Estendo
a mão para que me entregue o preservativo, mas ele
balança a cabeça, negando, com a mandíbula
apertada, e rasga a embalagem, desenrolando a
camisinha em si, e eu estou morrendo de inveja
daquele pedaço de látex.
Minha boca saliva ao vê-lo se tocar, mesmo que
só por um segundo, e, mesmo perdida na nuvem de
desejo que toma conta de mim, consigo imaginar a
delícia que seria deitar aqui e assistir esse homem
se dar prazer.
Não consigo ficar perdida nas minhas fantasias
por muito tempo, porque logo sua mão está na
minha perna, tirando minha calcinha, e subindo, e
não para até alcançar meu seio. Fecho os olhos ao

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sentir Eduardo se posicionar entre minhas pernas,


sua mão enroscando mais uma vez em meu cabelo.
Quero pedir que não me faça esperar, que não vá
devagar, que tome de mim e me dê tudo que está
disponível. Já esperei tempo demais para tê-lo.
Lembro-me dos beijos, de todas as vezes em que
ele perdeu o controle e me atacou com vontade.
Eduardo sempre foi um perfeito cavalheiro em
todos os momentos em que o vi, gentil, educado,
misterioso e instigante, menos quando suas mãos
estavam sobre mim. O homem pomposo deu lugar
a um instinto primitivo e qualquer delicadeza foi
deixada de lado, despertando um desejo
avassalador em mim, como se simplesmente ligasse
um interruptor e meu corpo estivesse pronto para
seus toques firmes e boca controladora.
E agora não é diferente.
Sem que eu precise pedir, Eduardo me entrega,

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sem me fazer esperar, sem me torturar. Sinto uma


dor gostosa ao ser invadida por ele de uma vez só,
com estocadas fortes e rápidas que me fazem
perder todo o pudor e gemer, arranhar seus braços e
costas, cravando minhas unhas na sua pele
enquanto ele espelha o gesto, segurando minha
cintura com força, e me beija.
Enrolo minhas pernas em sua cintura, esticando
o corpo, e ele solta um gemido grave, profundo,
quando consegue me penetrar mais fundo, mais
forte, mais rápido. Sinto sua respiração pesada em
meu pescoço, seus lábios na minha pele em beijos e
mordidas, e não demora para que eu sinta meu
corpo se entregar completamente e fogo tomar
conta de cada célula minha. Contorço-me debaixo
dele, gemendo coisas que não fazem sentido, e isso
só faz ele me apertar ainda mais a si.
— Goza para mim — rosna em meu ouvido,

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beijando meu pescoço e me faz perder o último fio


de sanidade quando meu corpo estremece, em meio
a uma ordem dada por sua voz rouca e beijos
exigentes.
Algumas estocadas depois, Eduardo me
acompanha, deixando seu corpo cair sobre o meu,
em uma mistura de respirações descompassadas,
arranhões e corpos suados.
— Puta merda — sussurra no meu ouvido
depois de um minuto inteiro deitado em cima de
mim, e eu rio. Um riso leve, cansado, libertador e
finalmente satisfeito.
Rolando na cama, Eduardo se livra do
preservativo e deita de costas no colchão, puxando-
me com ele, enroscando nossas pernas, e deito em
seu peito. Ouço seu coração acelerado bater forte e
brinco com os pelos de seu peito enquanto tento
acalmar minha respiração. Os dedos dele percorrem

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meu cabelo, com certeza completamente embolado


agora, e eu beijo seu ombro.
É uma sensação boa, a de estar deitada aqui,
ainda meio tonta de prazer, enroscada com esse
homem maravilhoso, sem me preocupar com nada.
Como se ouvindo meus pensamentos, o universo
decide me punir por todos os meus crimes recentes.
— E agora, Juliana?

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Capítulo 19

EXCELENTE PERGUNTA, não é mesmo?


E agora, Juliana?
O que eu estou fazendo aqui? Deitada na cama
dele, enroscada em seu corpo. Nua.
Puxo o lençol para me cobrir, superconsciente
do meu estado agora que a nuvem de paixão
começa a dissipar. Sento no colchão, evitando
encará-lo, e estalo os dedos na tentativa de dissipar
o nervosismo.
— Eu precisava de você — digo.
Eduardo me olha com suas íris brilhantes, que
me analisam e encaram com cuidado, como se
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quisesse perfurar minha alma, mas não move um


maldito músculo. Não sorri, não diz nada, mal
pisca. Claramente não vou escapar dessa. Suspiro e
continuo falando.
— Eu não procurei por isso, Edu. Não estou em
busca de um “felizes para sempre”, mas não dá
para fingir que não me vira do avesso toda vez que
eu penso em você. O que, irritantemente, está
acontecendo com muita frequência. Então,
precisava de você, precisava te ter.
Tem tanta coisa mais que posso falar, mas não
sei colocar em ordem, então ele vai ter que
trabalhar com isso por enquanto mesmo. Bela
escritora de romance eu sou, nem uma declaração
decente consigo fazer. Meu livro vai ser um
fracasso, Deus, me ajude.
— Você me teve — diz, e eu concordo com a
cabeça.

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Eduardo me olha como se parecesse pensar.


—É só sexo? — pergunta em uma voz rouca. —
Foi por isso que veio aqui hoje, porque eu te virei
do avesso, como você disse, e precisava me ter?
É minha vez de fechar os olhos e balançar a
cabeça. Nem sei mais.
Uma semana atrás eu podia jurar de pé junto que
era só um tesão louco pelo homem proibido, mas
agora não tenho mais tanta certeza. Sim, eu vim
aqui atrás de sexo, não nego, e estou muitíssimo
feliz por isso, porque ele sabe mesmo o que fazer, e
só esse pensamento já me faz acender toda de novo
e não consigo evitar olhar seu corpo que tem só um
lençol cobrindo logo a parte que mais me interessa.
Maldade.
Mas é só isso mesmo?
— Você disse que não me queria e usou o único
pedaço de informação pessoal que tem de mim para
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isso, uma memória da minha mãe. — Quero chutar


minha bunda por ter escolhido logo um aviãozinho
de papel para dar o recado. Péssima escolha,
Juliana. Escolha muito ruim mesmo. — Tem
alguma ideia de como eu me senti pegando aquilo
na sua mesa? Depois de você simplesmente ter
desaparecido sem dizer nada, sem responder minha
mensagem?
Ele não grita, mas poderia, e o resultado seria o
mesmo. Não há emoção em sua voz, apesar de suas
palavras dizerem o contrário. Seu tom é frio,
cortante, seco. Sinto lágrimas se formando em
meus olhos e tento não as derramar.
— Você me acusou de estar fazendo joguinhos,
mas é a única brincando comigo ao seu bel prazer.
Afasto o lençol para longe e levanto da cama,
ficando de costas para ele, indo até onde meu
vestido está jogado e o pego, desembolando o

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tecido.
— Vão ser dois trabalhos, Juliana: o de colocar
o vestido e o de tirar de novo. Você não vai a lugar
nenhum antes de conversarmos.
Olho por sobre o ombro para ele, que me encara
com a mandíbula trincada e olhos ferinos. Não
consigo decidir o que fazer, de pé no meio do
quarto. Eduardo fecha os olhos e balança a cabeça,
respirando fundo. Estica seu braço em minha
direção, estendendo a mão para mim, chamando-
me para voltar. Demoro alguns segundos para
decidir, mas por fim, vou. No momento em que o
alcanço, Eduardo me puxa e rola sobre mim,
prendendo minhas costas contra o colchão, seu
corpo em cima do meu.
Ele me olha e espera. Levo minhas mãos aos
seus ombros e Eduardo não se move.
— Não estou jogando — murmuro.
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— Mas não sabe o que quer — ele afirma, e eu


nego com a cabeça.
Não é bem assim. Posso não ter certeza de muita
coisa. Posso até não saber o que vai acontecer
quando chegar amanhã de manhã quando eu tiver
que ir para o trabalho e sentar na minha mesinha
vestida de secretária do mês. Mas agora eu sei sim.
— Eu quero você — sussurro. — Realmente
quero você.
Sua boca desce na minha, como se selasse um
acordo. E eu me entrego novamente aos seus
toques, sabendo que agora não tem mais volta.

Nunca gostei de dormir fora de casa. Fico sem


saber o que fazer; sempre acordo antes do dono da

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casa e vago pelos cômodos igual a um zumbi,


mexendo no celular, com fome porque não vou
simplesmente abrir a geladeira dos outros. É
estranho, a falta de privacidade, a falta de domínio.
Na minha casa eu posso decidir entre rolar na
cama o dia todo ou levantar cedo, tomar banho
quando acordo ou não, embora essa nunca
realmente seja uma opção. Se você conhece alguém
com cabelo cacheado que consegue sair de casa
sem enfiar a cabeça debaixo da água para pentear,
me ensina, porque esse milagre eu não conheço.
Também posso escolher entre mexer no celular ou
fazer yoga. Se eu fizesse yoga. Odeio yoga. Quem
gosta disso? Não confio em pessoas que se
submetem a essa tortura por conta própria. Quem é
capaz disso, é capaz de coisa muito pior.
Mas acordar na casa de outra pessoa é uma
dinâmica que eu nunca vou me acostumar. Abro os

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olhos porque ouço ao longe o som conhecido do


meu despertador e não consigo encontrar o
aparelho em lugar nenhum, provavelmente porque
está dentro da minha bolsa, jogada no chão da sala
de Eduardo.
Eduardo.
Pelo amor de tudo quanto é mais sagrado.
Movo-me no colchão, tirando o lençol de cima
de mim. Tento levantar fazendo o mínimo de
movimento brusco possível para que o mocinho
continue dormindo. Mas, quando coloco os pés no
chão, sinto um braço envolver minha cintura e me
puxar de volta. Caio na cama com um gritinho e um
segundo depois Eduardo está em cima de mim.
— Onde você pensa que vai? — pergunta,
enfiando a cabeça em meu ombro.
— Correr para casa para me arrumar e torcer
para não chegar muito atrasada no trabalho —
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respondo, passando as unhas por seu cabelo. —


Assim que eu fui contratada me avisaram que meu
chefe não tolerava atrasos, então é capaz de ele me
demitir se souber que não cheguei a tempo porque
estava na cama com um homem gostoso —
sussurro, brincando. Quer dizer, brincando na
maior parte, realmente tenho que ir para casa me
arrumar. E realmente estou na cama com um
homem gostoso. Quando fiquei tão sortuda?
Eduardo levanta a cabeça e me encara com olhos
sonolentos.
— Seu chefe parece um babaca — diz, fazendo-
me rir.
Ele tateia ao redor tentando encontrar seu celular
em cima do criado-mudo. Quando claramente não
consegue, resmunga e sai de cima de mim,
levantando-se da cama, gloriosamente nu. Sento no
colchão e desejo ter um balde de pipoca para

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acompanhar o filme maravilhoso que é ver esse


homem andando de um lado para o outro.
Eduardo bufa, mal-humorado, vira de volta em
direção à cama, o cenho franzido, parecendo
incerto e irritado, e tudo que eu faço é descer o
olhar para aquele ponto maravilhoso no meio das
suas pernas e agradecer aos céus pela bênção
anatômica que é a ereção matinal. Ainda mais a
dele. Obrigada, Deus.
— Meus olhos são aqui em cima — diz com a
voz rouca e, voltando o olhar para seu rosto, vejo
um sorriso sacana em seus lábios, mas sua
expressão ainda é fechada e talvez, só talvez, eu
comece a me preocupar.
Claramente tem alguma coisa o incomodando e
posso colocar minha mãozinha no fogo que sou a
culpada. Ele tentou conversar noite passada, mas
acabamos enroscados um no outro por muitas

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vezes, e não conversamos sobre nada, só caímos no


sono, exaustos, após uma longa noite de sexo que
esgotou todas as minhas reservas emocionais. E
físicas. Estou toda dolorida. Definitivamente estou
desacostumada a ser exigida desse jeito. Quero
mais.
Mas é como se eu tivesse passado os últimos
meses montando uma parede muito bem construída,
com tijolos bonitinhos e bem encaixados, para
manter Eduardo bem longe daqui, e ele foi
derrubando peça por peça com suas mãos e línguas
e…
— Cadê essa porcaria? — resmunga.
— Você é sempre tão mal-humorado desse jeito
de manhã? — pergunto, enrolando o lençol no
corpo e levantando da cama. — Banheiro? —
indago e ele aponta com o dedo para a porta branca
à minha esquerda, entreaberta e com a luz ainda

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acesa bem em cima do travesseiro onde Valentina


toma seu banho de lambidas, alheia à
movimentação a sua volta.
Vou em direção ao cômodo, sentindo o chão
gelado sob meus pés quando piso no azulejo, o
lençol enrolado no meu corpo arrastando pelo chão.
Solto um gemido de descontentamento quando me
olho no espelho, o cabelo um emaranhado só, a
cara toda amassada. Olha só que coisa mais linda,
credo.
— Só fico de mau humor quando não durmo
direito — Eduardo diz, aparecendo atrás de mim
com uma toalha na mão, que joga no suporte preso
na parede. Ele anda na minha direção e puxa o
lençol para o chão, deixando-me completamente
descoberta. — E quando estou com tesão
acumulado — murmura, aproximando-se de mim e
se encaixando perfeitamente na minha bunda. Eu

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preciso mesmo de todo meu autocontrole para não


derreter bem ali quando sua mão sobe e alcança
meu seio.
— Você não dormiu direito? — pergunto,
ofegando quando sua outra mão vai parar entre as
minhas pernas.
Eduardo passa a barba no meu pescoço.
— É impossível dormir com você roçando a
bunda em mim a noite toda, Lia — rosna em meu
ouvido. — E com tesão eu estou desde que você
cruzou as portas do meu escritório pela primeira
vez.
Inclino a cabeça para trás, encostando em seu
peito, e percorro a mão por seus braços, alcançando
seus dedos que me estimulam. Eduardo sabe muito
bem o que faz e não precisa da minha ajuda para
atingir o ponto certo, então me limito a arranhar o
dorso da sua mão enquanto ele faz todo o trabalho
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sozinho. Não demora para que eu me desfaça em


seus braços e ele me segure para que eu não caia.
Eduardo não me solta, enlaçando minha cintura,
e me mantém firme ao seu corpo, sua ereção firme
contra minha bunda, e eu olho para nós dois pelo
espelho, encarando o contraste tão grande. Ele
consegue apoiar o queixo no topo da minha cabeça
com bastante facilidade, e nos olha também.
E, para variar, não tenho ideia do que se passa
por trás daqueles olhos misteriosos. Esse homem
precisa de um manual de instruções. Já estou
começando a aprender os detalhes após esses meses
de convivência, mas ainda assim fico com medo de
entender tudo errado, porque né. Maldita
insegurança e conversas cortadas.
— A gente precisa arrumar uma desculpa para o
atraso — digo, virando-me nos seus braços, e fico
de frente para ele, sua mão imediatamente indo

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para a minha bunda. — Vai ficar me apalpando o


tempo todo? — pergunto, levantando a cabeça para
encará-lo. Não que eu queira que ele pare. Longe
de mim.
Eduardo bufa e aperta meu traseiro.
— Tenho quatro meses de vontade para
compensar — diz, e beija meu ombro.
Eu realmente estou tentando não bancar a
canceriana dramática, longe de mim, mas é
impossível não notar que seus beijos estão sendo
distribuídos por meu pescoço e ombros. Estico a
cabeça para alcançar seus lábios e ele se limita a
me dar um selinho. Ok, definitivamente alguma
coisa errada. Ninguém pode culpar as estrelas por
isso, tem mesmo alguma coisa aqui. Será que estou
com bafo?
Eduardo me solta e passa as mãos pelo cabelo.
— Vou procurar meu celular — diz e sai do
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banheiro.
Mas que inferno está acontecendo aqui?
Um resquício do que senti em sua sala, da
primeira vez que ele me beijou e depois me
mandou embora, começa a voltar, aquela pontinha
de rejeição, que não faz o menor sentido se
considerar que eu estou nua no banheiro dele
depois de uma noite de sexo selvagem.
E é então que o entendimento me atinge que
nem um caminhão de carga, daqueles que capota
com o peso e espalha coisa pela estrada. Foi
exatamente isso que aconteceu, não foi? Tivemos
uma noite de sexo selvagem e uma pseudo-DR que
terminou em mais sexo selvagem. Só.
Entro debaixo do chuveiro e ligo a água quente.
Não importa a temperatura lá fora, não consigo
tomar banho frio, se não for para escaldar a pele,
nem começo. Molho a cabeça já sabendo que vou
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me arrepender, porque vai se transformar em uma


massa pesada e bagunçada já que não tenho
produto de cabelo aqui. É hoje que o leão foge do
zoológico de novo.
Perco um bom tempo com a toalha, tentando dar
um jeito nisso aqui, mas é em vão. Faço alguma
coisa a respeito quando chegar em casa. Quando
saio do banheiro, cato o vestido caído no chão e
procuro pela minha calcinha. Reviro os lençóis,
olho debaixo da cama, vasculho o chão e nada. Ah,
bom. Parece que Eduardo vai guardar uma
lembrancinha.
Enfio os pés nos meus tênis que estão jogados
perto da porta do quarto e vou para a sala, já
catando minha bolsa caída ao lado do sofá. Eduardo
está de costas, vestindo uma boxer preta
apertadinha, e dá vontade de apertar a bunda dele,
mas resisto. Mereço uma medalha pelo esforço,

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nada menos. Reviro a bolsa em busca do meu


celular e, quando ligo a tela, vejo quatro milhões de
mensagens do meu irmão e a mesma quantidade de
mensagens vindas da Priscila. E algumas do Rafael.
Porcaria. Preciso ligar para ele para tentar explicar
o que aconteceu. Por que eu faço tanta besteira?
Suspiro irritada pelo tanto de notificação que só
faz meu aparelho travar e me impede de abrir o raio
do aplicativo para chamar um táxi. Quero nem ver
a fatura do meu cartão de crédito no mês que vem
com o tanto que eu tenho usado esses dias.
— Por que você está vestida? — Eduardo
pergunta, tirando os olhos do celular e virando na
minha direção, dando-me uma visão maravilhosa e
desconcertante.
Sacudo a cabeça.
— Porque eu realmente pretendo chegar ao
escritório antes da hora do almoço — respondo
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mal-humorada.
O resquício de tranquilidade que todos os
orgasmos que tive noite passada me
proporcionaram vai embora por não entender o que
está acontecendo aqui e por que ele parece tão frio.
Não estou ficando doida. Eduardo ergue a
sobrancelha para o meu tom e, olhando para mim,
leva o celular ao ouvido.
— Priscila — diz depois de alguns segundos. —
Vou ficar o dia inteiro fora hoje, se alguém
perguntar diga que tivemos alguns problemas com
o serviço oferecido para algum cliente importante e
minha presença foi requerida. — Ele pausa. —
Não, ela também não vai. — Eduardo suspira. —
Um segundo. Ah, e Priscila? Obrigado.
Ele estende o telefone para mim e, relutante, eu
pego, levando à orelha.
— Oi.
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— Me diz que poder mágico é esse que você tem


entre as pernas pra fazer o Eduardo perder um dia
de trabalho! Isso nunca aconteceu antes — ela
praticamente grita e eu quero morrer um pouco de
vergonha, e obviamente não respondo, porque ele
está de pé, de braços cruzados, quase sem roupa
nenhuma, encarando-me com olhos atentos. O
cabelo dele está molhado? Que horas esse homem
tomou banho? — Você me faz o favor de fazer
valer o dia de folga, Juliana, porque esse lugar vai
ficar uma bagunça sem vocês dois e sem a
Fernanda. Ela acabou de ligar também avisando
que está se sentindo mal e não vem.
Sento no sofá e fecho os olhos, apoiando a
cabeça na mão. Fernanda. Ouço Eduardo chamar
meu nome e sinto-o se aproximar, e Priscila
começa a tagarelar alguma coisa no telefone, mas
não presto atenção. Eu preciso falar com Guilherme
e descobrir o que ela decidiu fazer. Nem morta que
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ligo para ele agora. Mas em nada adianta eu tentar


falar com ela pessoalmente porque não tenho
intimidade o suficiente — nenhuma — para tentar
convencê-la a denunciar o estúpido do Vinicius, e
não ajuda nada que o irmão dele esteja sentado do
meu lado, seminu, com a mão na minha perna.
— Ju? Você está aí? Não vai me dizer que me
deixou falando sozinha e foi se pegar com o Edu!
— Preciso ir. — Desligo o telefone e entrego o
aparelho para Eduardo, levantando os olhos em sua
direção. Vejo seu olhar preocupado e respiro fundo.
Que ótimo. Excelente. Maravilhoso mesmo.
Tudo que eu mais queria, exatamente o que eu pedi
para o Papai Noel, ficar presa no meio dessa
situação. Como falo que o irmão dele merece
apodrecer no inferno e eu vou ajudar no que puder
para fazer isso acontecer?
— O que aconteceu, Lia? — pergunta,
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segurando minha mão, e eu quero gritar. Volta para


o modo frieza, por favor. Vai, cadê a distância
toda? Cadê? Precisa dar uma de senhor carinho e
preocupação logo agora?
Eduardo não faria minha vida mais fácil, claro
que não.
— A gente precisa conversar — digo, e ele
concorda, perguntando se podemos fazer isso
durante o café da manhã. Nego com a cabeça. Meu
estômago está embrulhado demais para isso. —
Não é sobre… isso. — Aponto para nós dois e ele
faz uma careta. — É sobre a Fernanda. E o seu
irmão.
Edu me olha confuso, e respiro fundo mais uma
vez antes de começar a falar. Conto o que vi, o que
pensei ter visto, o que aconteceu de verdade.
Guilherme, no meio do seu ataque de me jogar as
coisas na cara, não explicou direito o que

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aconteceu, não sei os detalhes, mas sei o suficiente


e é isso que conto para Eduardo. Sua mandíbula
trinca e vejo seu corpo inteiro retesar. Seus olhos
estão apertados quando acabo de falar e tenho a
impressão de que ele está a ponto de socar alguma
coisa.
— Aquele filho da puta — rosna, passando a
mão pelo cabelo, nervoso.
Ele balança a cabeça e levanta do sofá, agitado.
— Como ela está? — pergunta e tudo que posso
fazer é dar os ombros, porque não sei.
Eu não sei bem como interpretar essa reação
dele. Não contei isso para ele como confidências a
um… amigo? Dessa vez realmente quero e preciso
dele como chefe e responsável por aquela empresa.
Parece que tem primeira vez para tudo, não é
mesmo? O homem à minha frente solta uma série
de palavrões, andando de um lado para o outro.
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— Olha, eu sei que ele é seu irmão…


— Ele podia ser o papa e eu não ia me importar
— responde. Edu vira na minha direção e sua
expressão é de colocar medo. — Preciso resolver
isso, Juliana. E preciso resolver agora. Não posso
deixar que ele simplesmente continue trabalhando
lá.
Respiro aliviada. Ele dá alguns passos em minha
direção e senta no sofá de novo, estende a mão e
coloca uma mecha atrás da minha orelha.
— Eu realmente não posso te pedir para me
esperar aqui, mas… Nós ainda precisamos
conversar.
Precisamos.
Eduardo passa o polegar pelo meu lábio,
encarando minha boca com olhos famintos. Toco
seu braço e me arrasto no sofá, aproximando-me
dele, desejosa. Minha mão alcança seu rosto e tento
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puxá-lo para mim, e ele vem, mas se limita a


esfregar os lábios em mim e beijar minha testa.
Desisto e levanto do sofá. Claramente estou
pagando pelos meus pecados, de tanto fugir do
homem, agora ele que está se afastando.
— Posso ir direto para o seu apartamento? —
pergunta ao me ver indo para a porta. Olho para
ele. — Não sei quanto tempo, nem como, vou
resolver isso primeiro. Mas quero te ver mais tarde.
Confirmo com a cabeça e paro por um segundo,
olhando para Eduardo. Atravesso a sala, passando
direto por ele, e chego até seu quarto, mas encontro
o travesseiro de Valentina vazio. Onde ela se
meteu? Acho a gata enfiada debaixo da cama e a
chamo, fazendo aquele barulho que gato, quando
quer, obedece.
Quando quer mesmo, porque o mundo é deles, a
gente só habita. Por isso prefiro cachorros. Muito
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mais fáceis de lidar. Finalmente a bonita resolve vir


e pego-a no colo, tentando não derrubar a bolsa no
processo.
Chego à sala e Eduardo inclina a cabeça, e
finalmente, um sorriso brota nos seus lábios.
— Por que Valentina está no seu colo?
— Você disse que vai direto para o meu
apartamento. Vai deixar a bichinha sozinha até
amanhã sei lá que horas?
A boca dele cai aberta e seu olhar se ilumina no
segundo em que eu percebo o que falei. Porcaria.
Abro a boca para tentar me explicar, mas explicar o
que, Juliana? O homem disse que ia passar na sua
casa depois de resolver um problema e você acabou
de dizer em voz alta que simplesmente supôs que
ele vai passar a noite lá.
— É melhor eu ir embora — digo, querendo me
enfiar em um buraco. Alguém me salva.
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Coloco a gata em cima da poltrona à minha


direita e acaricio a cabeça dela, que dá um miado
de protesto, como se reclamasse de ficar sendo
carregada de um lado para o outro.
— Ela vai com você — diz, enquanto diminui a
distância entre nós e me enlaça.
Desequilibro com o movimento brusco e ele
aproveita o impulso para sentar no sofá, e me puxa,
fazendo-me montar em seu colo, uma coxa de cada
lado do seu quadril. Então seus dedos estão em meu
cabelo, enroscando nos fios enquanto ele me puxa
para si. Sinto sua boca na minha em um beijo
profundo como venho querendo a manhã inteira.
Sua língua me explora e eu retribuo, percorrendo as
mãos por seu peito ainda descoberto, arranhando
sua pele, apertando os músculos que se contraem
com os movimentos brutos.
Estou sem ar quando ele me solta.

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— Juliana — sussurra ofegante. — Eu preciso


que você tire as mãos daí ou não vamos conseguir
sair deste apartamento hoje.
Desço os olhos e só então percebo que meus
dedos estão enganchados na barra da sua cueca.
Ops. Levanto o olhar para ele e concordo com a
cabeça, acidentalmente arrastando os dedos por sua
ereção ao sair do seu colo. Acidentalmente. Juro.
Eduardo me beija novamente, um beijo rápido e
gentil de despedida. Um beijo que diz “te vejo mais
tarde”. Pego Valentina de novo e a gata protesta,
mas logo se aquieta quando ele a acaricia. Te
entendo, bichano. Te entendo.
Ele me leva até a porta e, quando dou um passo
em direção ao corredor, olho-o uma última vez.
— Por que você me beijou agora, mas tinha
recuado um minuto antes?
Quer conversar, vamos conversar. Cansei de
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tentar ler mentes. Edu inclina a cabeça e encosta o


ombro no batente.
— Você está levando minha gata, para cuidar
enquanto eu estiver fora, porque chegou à
conclusão de que, já que vou para o seu
apartamento, vou passar a noite.
Touché, foi isso mesmo que eu concluí. Bem
apressada, sim. Ótima representante do meu signo,
sim.
— Ninguém em sã consciência planeja uma
festa do pijama com o… como você disse ontem?
Com o chefe gostoso?
Sua voz está cheia de uma emoção mal contida
disfarçada de humor e eu prendo o ar.
— Acho que você não está tão preocupada com
isso agora, não é verdade? —brinca quando me vê
abrindo a boca. — Eu acho — ele se inclina na
minha direção e suavemente toca meus lábios —
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que você finalmente não pensa em quem paga seu


salário quando olha para mim.
Filho da mãe convencido.
Eduardo está certo. Não tem muita coisa
passando na minha cabeça além de como ele vai
ficar lindo na minha cama, realmente.
— Hoje à noite eu vou te mostrar que confiar
em mim foi uma escolha muito, muito acertada,
Juliana — sussurra no meu ouvido. — Vamos nos
divertir muito juntos. Espero que sua cama seja
bem resistente.
Eu também espero.
E como espero.

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Capítulo 20

RAIVA FERVILHANTE É TUDO que sinto


emanar por meu corpo. Os socos que dei no
irresponsável do meu irmão claramente não foram
nem de longe o suficiente. Como ele pode ser tão
baixo a esse ponto?
Entro no carro e, de forma imprudente, acelero
pelas ruas, desviando dos veículos e pegando
atalhos para evitar o engarrafamento. Dirijo em
direção à casa dos meus pais, embora uma voz
dentro de mim diga que não é a escolha mais
acertada. A saúde fragilizada de meu pai não
precisa de perturbações como essa, mas é
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inevitável. A empresa é dele, ainda é dele, e o velho


é a única pessoa com poder o suficiente para
enxotar Vinícius. Porque, por mais odiável que seja
o que meu irmão disse ontem, é verdade. Assim
que meu pai partir deste mundo, recai nas mãos de
Vinicius o poder para controlar a Rodrigues
Menezes, por direito de testamento.
E tenho certeza de que o último desejo em vida
do meu pai não vai ser ver escoar água abaixo o
trabalho de uma vida inteira nas mãos do homem
desprezível que seu primogênito se tornou.
Estaciono na entrada da casa, parando o carro de
qualquer jeito, e dessa vez uso a chave para
adentrar a propriedade. Minha mãe toma um susto
quando me vê, erguendo os olhos do livro que tão
atenciosamente lê, sentada no sofá, uma fina
coberta em seu colo e uma xícara de chá
repousando na mesa.

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— O que aconteceu? — ela pergunta, alarmada,


quando me vê cruzando a porta como um tornado.
Como explico isso para ela? Como digo para
uma pessoa que o filho que ela colocou no mundo,
amou e cuidou com tanto carinho, agarrou uma
mulher à força? Honestamente, essa a primeira vez
que ouço sobre isso, mas não duvido que tenha
ocorrido antes, muitas vezes.
Vou até minha mãe e deposito um beijo em sua
cabeça.
— Ele está dormindo? — pergunto e ela acena
com a cabeça.
— Seu pai não teve uma boa noite, e está cedo.
— Ela olha para o relógio em seu fino pulso. —
Mal passa das oito. Você não devia estar no
trabalho?
Concordo com a cabeça, suspirando
pesadamente.
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— Tenho um problema para resolver — resumo


e ela ergue a sobrancelha. — Coisas com a
empresa.
Minha mãe se levanta do sofá, colocando de
lado a manta que a cobre e repousa com delicadeza
o livro que segura. Caminhando em minha direção,
indica com o dedo para que eu me abaixe e curvo
até alcançar sua altura para que ela deposite um
beijo em minha bochecha.
— O que quer que esteja te incomodando, tenho
certeza de que não vale essa ruga na sua testa —
diz com um sorriso singelo. — Vá ver seu pai.
Concordo com a cabeça, sem dizer em voz alta
que dessa vez ela está enganada. O assunto é
merecedor de toda e qualquer ruga que surja em
meu rosto. Subo as escadas de dois em dois degraus
e não paro na porta para observar meu pai, apenas
entro no cômodo. Está escuro com as cortinas

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fechadas, abafado, o ar está carregado no ambiente


e eu começo a me sentir sufocado, mais do que já
me sinto. Vou até as janelas e abro-as, permitindo
que uma faixa grossa de luz adentre o quarto.
— Bom dia — meu pai resmunga. — Isso não é
jeito de acordar as pessoas.
Sorrio.
— Você não estava dormindo — digo, olhando-
o por sobre o ombro e ele retribui com uma
expressão de cumplicidade.
Balanço a cabeça enquanto me encaminho para
a cama e sento ao seu lado.
— Como está se sentindo? — pergunto, apesar
de saber que é inútil.
Em nenhum momento o homem de fios brancos
e feições firmes demonstrou qualquer sinal de
fraqueza. Ainda que eu saiba de sua frágil
condição, ele se recusa a ceder e pedir ajuda. Sinto
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por minha mãe que precisa lidar com sua cabeça


dura constantemente. Como sempre, meu pai
dispensa com a mão a minha pergunta.
— Por que não está no trabalho? Aconteceu
alguma coisa na empresa?
A preocupação em sua voz é palpável. Sei o
quanto tudo isso é importante para ele e gostaria
que houvesse outro jeito de resolver essa história
sem que fosse necessário recorrer a ele, mas não há.
— Precisamos conversar sobre Vinicius — digo
e vejo seu rosto se transformar, assumindo uma
expressão contrariada. Defensiva.
Ele não fica nem um pouco satisfeito com a
relação conturbada entre seus dois filhos. Apesar de
tudo, não há de se negar o laço afetivo entre um pai
e um filho, e, mesmo que ele saiba que Vinicius
está longe de ser perfeito, ainda possui uma fé
incontestável na capacidade de mudança e evolução
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de meu irmão. Eu discordo. Algumas pessoas


simplesmente não mudam. Meu pai me olha com
preocupação.
Conto sobre as ausências na empresa. Sobre as
viagens, a esbórnia, a irresponsabilidade para com
os clientes. Repito para ele o que Juliana me
contou, como a última ponta desse telefone sem fio.
Meu pai escuta com atenção, quase sem piscar, seu
cenho se fechando pouco a pouco.
— O que ele disse sobre isso? — pergunta
quando acabo de falar. Encaro-o sem entender. —
O que seu irmão disse sobre isso quando você falou
com ele?
— Não falei com ele — respondo.
Depois dos socos que enfiei em seu rosto,
duvido que qualquer conversa pacífica seja
possível. E se for honesto, não quero conversas
pacíficas. Não gosto de resolver nada com
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violência, mas Vinicius não merece minha


tolerância. Estou cansado de ser a pessoa melhor.
Rebaixo-me ao seu nível se necessário for para
encerrar esse assunto.
— São acusações muito graves para serem feitas
levianamente, Eduardo. — A voz dele é firme,
julgadora. Ele quer que Vinicius tenha direito a
defender-se, o que talvez seja justo, mas não é nada
que eu esteja disposto a oferecer.
— São acusações verdadeiras — digo.
Meu pai bufa.
— Agora porque sua secretária disse que
aconteceu, passa a ser verdade absoluta? A palavra
da rádio-corredor vale mais do que confiar na
integridade do seu irmão?
— Não existe uma gota de integridade no corpo
de Vinicius e você sabe disso. Nunca existiu,
mesmo antes do senhor se aposentar. Ele sempre
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quis os louros, mas nunca o trabalho duro por trás


disso. Sempre fui eu a trabalhar de sol a sol para
manter aquele lugar funcionando. Eu, não ele.
Seu semblante se suaviza e ele alcança minhas
mãos.
— Não estou questionando sua palavra,
Eduardo. Sabe que confio em você de olhos
fechados. Mas você não viu acontecer, tudo que
tem é a palavra da sua funcionária.
Bufo, irritado, e solto uma mão da sua para
esfregar o rosto.
— Juliana não é minha funcionária — rosno,
irritado por todo o trabalho que tive, que estou
tendo para tentar fazer isso ficar claro entre nós
dois, mesmo sabendo que meu pai não tem como
saber disso. — Ela é…
Minha mulher, quero dizer. Mas não posso,
porque não sei se é verdade.
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Porque mesmo em meio a essa crise, tudo que


consigo pensar é em correr para o seu apartamento
e tomá-la para mim, mais uma vez, somente mais
uma vez antes de ter que ouvir dela que isso não vai
funcionar. Porque tenho certeza de que é isso o que
me aguarda.
— Confio nela. — Limito-me a responder. —
Definitivamente confio mais nela do que confio em
Vinicius.
Meu pai me olha, com os olhos apertados, em
um misto de julgamento e curiosidade. Sei que ele
relacionou as duas coisas, o que disse agora com
nossa última conversa. Sei que quer uma
explicação, mas não tenho uma para dar. Sequer
tenho uma para mim mesmo.
— A empresa não pode continuar nas mãos dele,
pai. Esse não é o tipo de homem que deve
representar nossa família para o mundo.

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Para bem ou para mal, se Fernanda optar por


denunciá-lo, o problema estará resolvido por si só.
Mas, infelizmente, é pouco provável que ela o faça.
— Eu não conheço essa mulher. Não conheço
nenhuma das duas. E não vou jogar seu irmão
debaixo do trem por algo que sequer sei se é
verdade. Até onde me consta, essa Fernanda
inventou essa história para fugir de uma briga com
o namorado. — Ele pausa e eu sinto minha
garganta fechar. — Não vou tirar seu irmão do
controle da empresa por uma fofoca, Eduardo.
Chame-o para conversar e esclareça tudo. Depois
conversamos.
— Pai…
— Assunto encerrado.
Olho para o homem à minha frente. O homem
que me criou, que me ensinou tudo que sei. Que foi
meu exemplo de vida por todos esses anos, por
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todas essas décadas. Por quem desisti de meu


sonho, por quem daria a vida. E nunca achei que
ele pudesse me decepcionar dessa forma.
Dou um beijo em sua testa, por hábito e porque
ele ainda é meu pai. Levanto-me da cama e saio do
quarto, sem me despedir e sem olhar para trás
quando o ouço tossir.
Desço as escadas, apressado, e invento uma
desculpa qualquer para minha mãe para que não
possa ficar. Atravesso as portas e entro no carro,
enviando uma mensagem rápida antes de dar a
partida.

O café forte queima minha língua na pressa com


que o bebo. Sinto minha cabeça a ponto de explodir

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e quero socar alguma coisa como há muito tempo


não faço. O trabalho no galpão sempre serviu para
extravasar toda minha energia, entre carregar caixas
e treinar equipes, a atividade física intensa sempre
serviu como válvula de escape para qualquer
frustração. E agora, a única coisa que quero fazer
para aplacar meus ânimos é me enterrar- em Juliana
e deixar seu corpo me levar para longe de meus
problemas.
Parece que não há como ter o suficiente dela.
Sou incapaz de contar quantas vezes me perdi em
suas curvas noite passada, e ainda assim anseio por
mais. Quero-a nua em minha cama, sem nada que
possa me afastar dela. Droga, até da camisinha eu
estava sentindo raiva por me impedir de tê-la para
mim por completo.
Estou perdido em meus pensamentos,
deleitando-me com a memória de seus lábios em

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volta do meu pau, e estou a ponto de me levantar


para ir ao banheiro arrumar minha ereção bandida
que resolveu aparecer quando a mulher que espero
se senta à mesa.
Parece que terei que sentar desconfortavelmente
aqui pelos próximos minutos. Levanto meu olhar
em sua direção e encontro olhos castanhos
cautelosos me encarando, confusa pela mensagem
recebida. Nada diz enquanto me olha, esperando.
— Eu soube do que aconteceu — digo sem
delongas, e vejo quando sua postura muda e ela se
endireita na cadeira, esticando o corpo e sentando-
se o mais afastada possível de mim. Seus olhos
abaixam, indo para seu colo onde mexe
nervosamente seus dedos.
Fernanda balança a cabeça e solta uma risada
seca.
— Deixa eu adivinhar. — Ela levanta a cabeça e
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posso ver lágrimas brilharem em seus olhos. —


Essa conversa vai ser alguma coisa sobre quanto
vai custar para eu ficar quieta.
Sua voz não esconde a irritação em seu tom.
Fernanda arruma sua postura, encarando-me com
raiva cintilando por trás de seus olhos embaçados.
Balanço a cabeça, tentando dizer para mim
mesmo que não é justo que fique irritado com isso.
Que ela tem o direito de desconfiar de mim. Mas
isso não impede a frustração. Respiro fundo.
— Não, Fernanda. Essa conversa é alguma coisa
sobre a empresa, e eu pessoalmente, te dar todo o
apoio que você precisar.
Vejo seus olhos se arregalarem. Suas mãos vão
até o cabelo, colocando mechas soltas atrás da
orelha, seus olhos voam para todos os lados,
encarando qualquer coisa menos a mim.
— Por que você está fazendo isso? Tenho
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certeza de que Vinicius justificou todas suas ações,


me culpou ou qualquer coisa assim. — O
nervosismo em sua voz é palpável e estendo as
mãos sobre a mesa, pegando as suas, por puro
reflexo, trazendo sua atenção para mim.
— Meu irmão não disse nada — respondo. —
Ele sequer imagina que sei. Não precisa se
preocupar com nada, Fernanda, eu te asseguro que
Vinicius não vai encostar em você de novo.
Sinto suas mãos tremerem sob meus dedos, ela
está receosa. E não poderia esperar nada diferente
disso.
— Quer me contar o que aconteceu?
Fernanda suspira fundo e balança a cabeça. Vejo
seus ombros tremerem e chamo o garçom, que logo
volta com um copo de água e café para ela.
Fernanda toma um gole grande e começa a falar.
Relatar meses de comentários inapropriados,
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esbarrões acidentais, toques invasivos que


resultaram na cena de quarta-feira em um
detalhamento tamanho que me faz querer vomitar.
O que Juliana viu foi só uma parte do que
aconteceu naquele dia.
Fernanda pausa e respira fundo, e eu apenas
sento aqui, fazendo o possível para silenciosamente
apoiá-la.
— Se não foi Vinicius que te contou, como
você…
A voz da mulher mal passa de um sussurro
estrangulado, e uma lágrima solitária escorre por
seu rosto.
— Juliana.
Incredulidade trespassa sua face em meio a um
riso seco.
— Então você está mesmo dormindo com a…
— Ela move a mão, como se não conseguisse
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encontrar uma palavra para finalizar a frase. Ao


menos não uma que fizesse sentido. — Uau.
Ignoro.
Não é hora para isso.
Ela tira as mãos da minha após alguns instantes,
depois de respirar fundo mais algumas vezes, e
afasta a cadeira, colocando-se de pé. Fernanda alisa
o vestido e mexe no cabelo mais uma vez. Seca seu
rosto desajeitadamente, e de nada adianta já que
mais lágrimas escorrem. Ainda assim, a mulher
parece decidida a não se permitir quaisquer
resquícios de fragilidade, mesmo com toda essa
situação.
— Agradeço a preocupação, mas sei bem quais
as consequências de tentar comprar essa briga —
diz, suspirando. — Eu… me demito — anuncia,
vacilante, e é minha vez de colocar-me de pé.
— Você não vai se demitir. Não por isso. É ele
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quem tem que sair, Fernanda, não você.


Um sorriso triste pinta seu rosto.
— Nós dois sabemos que isso não vai acontecer.
Eu sou só a secretária, Eduardo. — Suspira. — De
qualquer forma, obrigada.
Fico parado de pé no meio da cafeteria,
encarando a mulher que vira as costas e caminha
em direção à saída. Quando sua mão abre a porta e
ela parte, sumindo do alcance de meus olhos,
permito que meu corpo afunde novamente na
cadeira.
Odeio a sensação de não saber o que fazer, de
ver que tudo está fora do meu alcance, longe do
meu controle. De saber que fiz o que pude e
nenhum resultado foi alcançado; pior, é provável
que tudo esteja ainda mais complicado do que antes
de eu tentar.
Enfio a cabeça nas minhas palmas e puxo o
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cabelo entre os dedos. O dia parece estar


inteiramente errado. De ponta cabeça. Duas
conversas importantes que terminaram de forma
exatamente contrária ao que eu esperava.
Quando levanto para caminhar em direção ao
carro, torço para que a próxima conversa termine
de forma muito melhor, ou não saberei o que fazer.

Enquanto dirijo em direção à casa de Juliana,


pergunto-me se devo ligar para avisar que estou
indo para lá. Eu disse que iria direto para seu
apartamento, então é provável que ela esteja me
esperando. Decido arriscar.
Estaciono em frente ao prédio e uma onda de
inquietação me atinge por cima de todo o

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sentimento negativo que já carrego do dia de hoje.


Olho ao redor e, apesar de mal ser a hora do
almoço, a rua não está movimentada. Não sei se
este é um bairro necessariamente perigoso, mas
certamente não está no topo dos lugares mais
seguros do Rio de Janeiro. E esta porcaria de prédio
sem um porteiro que seja.
Entro, abrindo o portão, e subo as escadas até
alcançar o quarto andar. Em poucos minutos estou
na porta do apartamento de Juliana. A irritação e
frustração do dia se misturam à ansiedade e
preocupação pelo que está prestes a vir.
Quero Juliana, como há muito não quero
alguém. É uma tortura ter que manter as mãos
longe dela o tempo inteiro, e agora que sei como é
tê-la sob mim, parece inconcebível estar no mesmo
cômodo que ela sem que tenha meus braços ao seu
redor. Ouço a porta destravar e se abrir, revelando a

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imagem que tanto quero ver.


Juliana apoia na porta e sorri em minha direção,
e posso jurar que ela nunca esteve mais bonita. Seu
cabelo cai solto, revolto. Gostaria de poder dizer
que me perdi em seus olhos profundos e tão
expressivos, mas a inquietação que toma conta do
meu corpo faz com que meu olhar caia
imediatamente por seu colo exposto debaixo de um
vestido de alça fina que revela apenas o suficiente
de decote para que eu queira arrancar o tecido e
revelar seus seios para mim. Suas coxas mal
cobertas, grossas, expostas. Quando volto o olhar
para o seu rosto, vejo seu lábio preso entre seus
dentes e preciso respirar fundo uma, duas, três
vezes.
— Posso entrar?
Ela concorda com a cabeça e abre espaço,
fechando a porta atrás de si.

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— Você realmente precisa se mudar para um


lugar mais seguro — murmuro, dando um passo em
sua direção, controlando-me com tudo que tenho
para não a tomar aqui mesmo, curvada sobre o sofá.
Apenas o pensamento faz com que seja muito
desconfortável permanecer dentro destes jeans
apertados. E ela nota. Seus olhos caem em direção
à minha ereção crescente que implora por ela. E,
pela primeira vez, ela vem até mim. Juliana pousa
as mãos em meu peito e me olha, cabeça levantada
na minha altura.
— Eu sei que a gente precisa conversar, mas…
— Ela umedece os lábios e engulo seco. Passo um
braço ao redor da sua cintura, esperando que diga.
Esperando que tome a iniciativa e não seja eu a
atacá-la como fiz todas as vezes. Mentalmente
implorando para que confie em mim. Que se
entregue.

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Mas Juliana não diz nada.


Ao invés disso, suas mãos descem até a barra da
minha camisa, e eu levanto os braços, ajudando-a a
puxar a peça por sobre a cabeça. Minhas mãos
voam para seu cabelo quando ela alcança o fecho
da minha calça.
— Você ainda está vestida — digo quando ela
desce o zíper.
— Espero que não por muito tempo.
E apenas isso é necessário para que meu
autocontrole se esvaia por completo. Passo os
braços por sua cintura e puxo-a, fazendo com que
suas pernas se enlacem ao meu redor. Encaixo as
mãos em sua bunda e não evito a vontade de
aumentar o aperto sobre ela.
— Onde é seu quarto? — pergunto e Juliana
indica com a mão.
Apesar da curiosidade por estar, finalmente, no
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refúgio dessa mulher que virou minha cabeça do


avesso desde a primeira vez que abriu a boca,
sequer olho ao redor quando deito com ela na
cama.
Prendo-a debaixo de mim, mergulhando em sua
boca. Sinto suas unhas em minhas costas quando
alcanço sua perna com minha mão, e ela geme sob
meu toque. Quero explorar seu corpo, descobrir
cada ponto sensível seu, venerar cada curva com
meus dedos e boca. Mas, agora, preciso estar dentro
dela, e pela forma como Juliana se move debaixo
de mim, puxando-me mais para perto, enganchando
a perna na minha, tenho certeza de que é disso que
ela precisa também.
— Camisinha? — sussurro em seu ouvido,
vendo o arrepio em seu pescoço, e me perco em sua
curva por um instante, fazendo-a suspirar.
— Primeira gaveta no armário — responde, e

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solto um grunhido de frustração por precisar deixá-


la. Demoro poucos segundos para alcançar o
maldito preservativo e, quando me viro em direção
à cama, encontro Juliana nua, sentada no meio do
colchão.
Puta merda.
Alcanço a cama em duas passadas largas e me
lanço sobre ela mais uma vez, a urgência sendo
deixada de lado quando alcanço seu seio com
minha boca. Ela solta um gemido de surpresa e
percorro a língua por seu bico duro enquanto tomo
o outro em minha mão.
Tomei-a com força noite passada, repetidas
vezes. E Juliana se entregou, correspondendo
minhas vontades com a mesma intensidade,
tomando-me para si com a mesma voracidade,
entre mãos, bocas e estocadas. Não fizemos amor.
O desejo reprimido por tanto tempo tomou conta e

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uma explosão de vontades dominou o ambiente.


Mas essa mulher precisa ser venerada. Exploro-a
com a minha língua, sugando cada parte de pele
exposta, a camisinha agora esquecida sobre o
colchão.
— Eduardo — ela chama quando mordo a curva
do seu quadril. — Pelo amor de tudo que é mais
sagrado, pega aquela camisinha. — A frase inteira
sai ofegante e me pega de surpresa.
Sorrio e levanto, livrando-me das peças de roupa
restantes e vejo quando Juliana se levanta também,
ficando de joelhos na cama, e me encara cheia de
desejo. Ela parece querer pedir alguma coisa, mas
não o faz.
Desenrolo a camisinha sem tirar os olhos dela.
Aproximo-me, percorrendo a mão por seu rosto
gentilmente enquanto enlaço sua cintura com a
outra mão. Deposito um beijo contido em seus
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lábios. Olho-a com atenção. Recuso-me a permitir


que ela traga qualquer insegurança para a cama.
— Do que você precisa, Lia? — pergunto,
tentando ser o mais gentil possível. Ontem ela
estava envolvida pela situação, mas agora já teve
tempo o suficiente para pensar. A última coisa que
preciso é assustar essa mulher e vê-la fugir. Preciso
dela bem aqui, e vou dar o que for preciso para
isso.
Ela lambe os lábios e me olha, mas não diz
nada. Inclino-me em sua direção e tomo seus lábios
nos meus, com suavidade. Moldo sua boca na
minha, segurando-me o máximo que posso para
não ser bruto. Juliana geme contra minha boca, mas
é um gemido frustrado enquanto engancha os dedos
em meu cabelo, puxando-me para si, aprofundando
o beijo, e estou muito perto de jogar qualquer
delicadeza fora. Quando seus dentes raspam meus

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lábios e sua mão alcança meu pau, acho que vou


explodir.
— É muito difícil de me controlar com você
fazendo isso — murmuro contra sua boca e ela se
afasta o suficiente para me olhar nos olhos.
— Eu não quero que você se controle.
Com um movimento rápido, levo-a de volta ao
colchão, virando-a de costas para mim. Faço
Juliana ficar de joelhos, bunda empinada na minha
direção, e prendo suas mãos na cabeceira da cama.
Percorro minha boca por suas costas e ela arqueia o
corpo, dando-me todo o acesso que preciso. Subo
as mãos até alcançar seus seios.
— Preciso te comer — murmuro em seu ouvido,
posicionando-me entre suas pernas, tentando
manter o último fio de autocontrole.
E é a mais pura verdade. Preciso. Preciso me
perder nela para apagar todos os problemas do meu
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dia e deixar que Juliana seja a única coisa em


minha mente.
— Então come.
Obedeço.

É difícil eu conseguir me concentrar em


qualquer coisa sentindo o calor do corpo de Juliana
tão perto do meu, aconchegada no meu peito, entre
meus braços. Quase quero pedir desculpas pela
forma como a tomei ontem, e hoje, mas foi
impossível manter o controle ao vê-la nua,
olhando-me daquele jeito. Ela passa a ponta das
unhas por meu peito e se remexe entre as minhas
pernas, e preciso respirar fundo para controlar a
vontade de jogá-la na cama novamente. Não tive o

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suficiente. Sequer comecei a fazer tudo que quero


fazer com ela, e a recompensa foi muito melhor do
que eu esperava. Sexo sempre é bom, prazeroso,
satisfatório, mas não me sinto satisfeito agora. Nem
de longe.
Estou faminto.
Não tomei o suficiente de Juliana para aplacar a
vontade de tê-la em meus braços e meu corpo pede
por mais. Aperto sua cintura, desejando puxá-la
para mim, ansiando por seus lábios novamente.
E não na minha boca.
Mas não posso simplesmente fingir que não tem
nada de errado, por mais que eu queira. Apesar de
tê-la aqui em meus braços agora, e ser
estupidamente difícil me concentrar em qualquer
coisa quando seus seios pressionam meu corpo
cada vez que ela respira, sequer consigo entender
como diabos chegamos aqui. Há menos de um dia
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Juliana escreveu um bilhete dizendo que não me


queria. Mal entendo o que aconteceu desde então,
mas de alguma forma estou em seu apartamento, nu
em sua cama, pronto para passar o dia. O fim de
semana se ela quiser. E preciso ter certeza de que
isso não é só um lapso e, na manhã de segunda, ela
vai voltar a fugir de mim.
— E agora? — pergunto, e sinto seu corpo
retesar junto ao meu.
Ela não responde por um minuto inteiro.
— Não sei — diz, olhando-me por um segundo
antes de soltar-se do meu braço e sentar na cama.
Deixo-a ir, embora não queira. Posso estar em seu
apartamento, mas Juliana veio até mim e
claramente precisa que as coisas sejam feitas nos
seus termos. Isso vai me matar.
Juliana puxa o lençol para se cobrir enquanto
tenta desajeitadamente prender o cabelo.
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— Não — digo, e ela olha em minha direção,


parando na metade do caminho de enrolar o lençol
sobre o seio. — Não se cubra. — Ela abre a boca
para protestar, mas não diz nada, apenas para e me
olha, mordendo os lábios. Percorro o olhar por seus
seios redondos e passo as mãos por suas coxas
fartas. Suspiro e puxo eu mesmo o lençol para me
cobrir e tentar disfarçar o que a visão dela faz
comigo. Não funciona. — Deixe-me olhar para
você.
Um sorriso discreto desponta em seu rosto e ela
larga o lençol, e chega mais perto, acomodando-se
de novo em meu peito. Trago-a para mim e afundo
a cabeça em seu pescoço, não resistindo à vontade
de beijar sua pele. Juliana suspira e se empina toda
nos meus braços. Meus olhos caem para seu corpo
e um segundo depois minhas mãos estão
percorrendo-a, alcançando seus seios.

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— O que você come de almoço? — Juliana


pergunta ofegante no meu ouvido enquanto minha
palma desce pela parte interna da sua coxa.
— Você.
Mordo seu pescoço, pronto para mais uma
rodada. Ela geme e dá um tapa no meu ombro,
murmurando que estava falando sério.
— Preciso te contar uma coisa — sussurra e me
forço a parar, tirar as mãos de cima dela e levantar
a cabeça, encontrando seus olhos cautelosos. — Eu
te disse ontem que estava com Rafael antes de ir
para sua casa — diz e uma onda de irritação
percorre meu corpo. Remexo-me na cama, bufando.
Sei que estava. Sabia antes de ela me contar e,
embora uma parte minha agradeça a honestidade,
uma parte igualmente grande não quer nunca mais
ouvir falar sobre isso. Não sei lidar com o
sentimento de sufocamento que parece querer
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tomar conta do meu corpo e levanto, afastando-me


dela.
— Me escuta, Edu. — Juliana me alcança,
puxando-me pelos braços de modo que me deite em
cima dela de novo. Suas mãos vão para o meu rosto
e ela me encara. — Eu sei que você não quer ouvir,
e eu também não quero falar, mas preciso — diz e
eu respiro fundo, envolvendo-a novamente em
meus braços.
— Certo — resmungo, contrariado. — Então
fale.
— Ei! — Ela faz uma careta irritada. — Você
que está insistindo igual um louco que a gente tem
que confiar um no outro, que temos que conversar,
então fique quieto e escute.
Arregalo os olhos pelo tom autoritário usado e
um sorriso cresce em meu rosto pela petulância.
Não resisto em beijá-la. Juliana solta um gemido de
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surpresa, mas rapidamente retribui quando percebe


que não pretendo deixá-la se soltar, enganchando
os dedos em meu pescoço, passando as unhas na
minha pele enquanto minha mão começa a
percorrer seu corpo novamente. Esqueço essa
conversa por ora e deito-a na cama, permitindo-me
a indulgência de devorar seu corpo.
Meus lábios percorrem sua pele macia e quente,
e distribuo mordidas por sua cintura, fazendo-a se
remexer debaixo de mim.
— A gente precisa conversar, Edu — ela
murmura quando eu separo suas pernas.
Sorrio, percorrendo as mãos por suas coxas.
Encaixo minhas palmas em sua bunda, apertando-a
e mantendo-a no lugar.
— Pode falar, estou ouvindo.
Ela dá um tapa no meu braço e eu respondo
arrastando a barba pelo interior das suas coxas.
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Juliana abre a boca, mas não dou tempo o


suficiente para que diga qualquer coisa e percorro
minha língua por ela, sentindo seu gosto úmido.
Ouço um gemido contido escapar pela garganta
dela. Preciso de mais que isso. Entre lambidas,
chupadas e mordidas, devoro-a, e não me satisfaço
até que seus resmungos sejam substituídos por
gemidos altos e descontrolados e seu corpo comece
a tremer sob mim, anunciando seu orgasmo. Tomo
tudo que ela tem a oferecer e deposito um beijo
casto em sua perna antes de subir e deitar
novamente ao seu lado.
Juliana abre seus lindos olhos depois de alguns
segundos e me encara, preguiçosa. Ela está
confusa, mas lindamente satisfeita. Essa mulher
maravilhosa me encara, esperando uma explicação.
Dou de ombros.
— Você praticamente me mandou calar a boca

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— digo, percorrendo a mão por seu corpo, e brinco


com seu bico firme, prendendo-o entre os dedos
enquanto deixo seu seio preencher minha mão. —
Não posso entregar o controle de tudo para você
assim tão facilmente — provoco, e ela bufa,
petulante.
— E você faz isso com todo mundo que te
manda calar a boca?
— Ninguém me manda calar a boca, Juliana.
Nunca. — Deposito um beijo em seu pescoço.
Ela revira os olhos e balança a cabeça, sorrindo.
— É claro que ninguém é doido de mandar
Eduardo Rodrigues Menezes calar a boca — diz,
debochada. Sua mão percorre meu peito e braços e
Juliana me encara com firmeza. — Ninguém
manda o chefe calar a boca.
Essa última parte é dita com cautela, cada
palavra sendo pronunciada com cuidado para que
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eu entenda o que ela quer dizer.


— Eu ainda sou seu chefe.
Não estou tentando me sabotar, não estou
tentando destruir todo o caminho até aqui, mas é
verdade, e não posso permitir que uma bolha seja
criada e Juliana fuja de novo quando chegarmos ao
escritório e a realidade chamar seu nome.
Balança a cabeça, negando.
— Não. Aqui você não é.
Ela me puxa para um beijo e me toma para si
mais uma vez.
— Aqui, você é meu.
Finalmente.

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Capítulo 21

VALENTINA É PEQUENA DEMAIS para fazer


tanto barulho. Como é possível um gato tão nanico
miar tanto e tão alto? Ela parece inconformada de a
atenção de Eduardo não ser toda dela e se recusa a
sair da cama. Ou é isso ou a pobre bichinha está
estranhando o lugar novo. Vou acreditar que é a
primeira opção para não me sentir tão idiota por
querer tanto esse homem por perto.
No fim, foi inútil resistir. O tesão venceu.
Maldito fogo no rabo.
Comemos o almoço na cama ontem, um
oferecimento especial de Eduardo, que insistiu em
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cozinhar — melhor para mim que tive menos


trabalho, pior para mim porque tive que lavar a
louça. Entre conversas displicentes e beijos
clandestinos, por fim nos rendemos e conversamos
sobre o que precisava ser dito. Contei sobre Rafael
e tive que enfrentar seu semblante machucado, e ele
me fez prometer que não fugiria mais. Prometi.
Prometi não deixar minha insegurança sabotar
isso que estamos fazendo aqui, que nem sei que
nome tem. E sei que isso vai ser bem difícil, mas
vou tentar. Prometi respirar fundo e conversar com
ele quando tiver algum problema. E Eduardo fez
questão que eu prometesse, principalmente, total e
absoluta exclusividade a ele logo que acabei de
contar a bagunça que eu arrumei com o modelo
mais tagarela do Brasil. Coisa que não me importo
nem um pouco em atender, já que o contrário
também acontecerá e esse corpinho gostoso agora é
todo e somente meu.
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Por quanto tempo não sei. Mas vou aproveitar


enquanto durar.
Uma coisa de cada vez.
Eduardo foi claro em dizer que faz questão de
que eu não o veja como o chefe. Mas entre isso e a
conversa chegar ao nível de ser “no seu
apartamento ou o meu?” depois do expediente em
uma quarta-feira fria no inverno é um caminho bem
longo, então sigo mantendo minhas emoções bem
enterradinhas para não dar brecha para desgraça
nenhuma. Vamos ver como as coisas acontecem.
Meu coração pertence aos homens maravilhosos
dos meus romances e quero deixar assim por
enquanto. É mais seguro.
Rolo na cama, deixando de lado meu celular
depois de responder quatro mil mensagens de
Priscila, e dou de cara com o pedaço de paraíso
embalado em nada além de uma cueca toda
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apertadinha, rolando a tela do celular com uma


expressão fechada.
— Que foi? — pergunto e ele estica o braço para
mim, convidando-me para entrar em seu abraço. Eu
que não vou recusar. Venham músculos
maravilhosos. Eu ainda estou impressionada com
como esse homem é gostoso. Essa pegada
maravilhosa dele foi uma surpresa inesperada.
É engraçado, e bem confuso, tentar juntar a
imagem do homem de negócios sério, respeitável e
centrado, distribuindo ordens por aí, com o animal
selvagem que me levou para cama. Que me comeu.
Seus beijos sempre foram profundos e intensos,
mas mesmo assim não me prepararam para a
intensidade do seu toque. Estou toda dolorida,
aquela dorzinha gostosa de músculos cansados e
muito satisfeitos.
Acomodo-me no seu peito e olho a tela do

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celular onde ele digita um e-mail. Com eficiência,


passa de um para o outro, confirmando comigo
alguma coisa aqui e outra ali, com dedos frenéticos
atacando a tela. Oi, dedos. Quero dedos rápidos
atacando outras coisas. Não disse nada.
— Eu realmente preciso colocar algumas coisas
em ordem — murmura, como um pedido de
desculpas. — Sua amiga é extremamente
competente, mas algumas coisas infelizmente
dependem de mim.
Concordo com a cabeça, limitando-me a deitar
em seu ombro e fechar os olhos, só aproveitando a
sensação de estar ali, presa no meu apartamento
sem ter que me preocupar com o mundo lá fora e
toda a confusão que vai ser armada no segundo em
que ele sair daqui.
Posso ouvir meu pai berrando no meu ouvido
que avisou que se envolver com o chefe era uma

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péssima ideia. Eu sei, pai. Estou aqui sentindo o


cheiro maravilhoso desse homem e chutando minha
bunda ao mesmo tempo. Posso ouvir qualquer
pessoa aleatória na empresa apontando o dedinho
na minha direção e desmerecendo tudo e qualquer
coisa que eu tenha feito lá dentro.
Não deveria me importar, mas me importo.
Impossível não me importar. É minha vida. E, por
mais maravilhoso que Eduardo seja, é maravilhoso
o suficiente para colocar isso em risco? Colocar
minha carreira, que mal começou e que trabalho
tanto para construir, em risco?
O que eu sei desse homem?
Confesso que estou irritada comigo mesma
porque estava jurando de pé junto que esse tesão
todo ia embora depois que finalmente tivesse na
vida real o que já estava acontecendo nos meus
sonhos e na minha imaginação bem fértil. Mas aqui

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estou eu, depois da surra que tomei noite passada e


do segundo round dessa manhã e só faço querer
mais. Deve ter alguma droga viciante na pele desse
homem, única forma de justificar.
E o que mais me incomoda é que mesmo agora,
deitada aqui enquanto ele trabalha, as coisas
parecem tão irritantemente normais. Como se
fizéssemos isso há muito tempo e não fosse uma
situação completamente absurda. Ai, mas que
inferno que eu estou fazendo brincando de mocinha
de livro de CEO? Pelo amor de Deus.
Tudo bem, não é como se ele tivesse me pedido
em casamento, a única coisa que Eduardo fez até
agora foi exigir acesso irrestrito ao meio das
minhas pernas. Aliás, concedido com muito prazer.
Acho que se eu mantiver as coisas desse jeito vai
estar tudo bem. Sexo gostoso nos fins de semana e
vida normal de segunda a sexta.

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É um bom plano.
— Você não tira folga nem num sábado de
manhã, né? — pergunto, afundando um pouco mais
o rosto no seu pescoço. Que homem cheiroso.
— Não posso — responde em um suspiro
frustrado.
Levanto a cabeça e olho em sua direção, em
direção à sua expressão cansada. A ruguinha em
sua testa denuncia a seriedade. Quando acordei, ele
já estava a toda com o celular na mão, todo
concentrado.
— Você é bem maravilhoso — digo —, mas não
é o Atlas.
Eduardo me olha de canto de olho e um sorriso
discreto brota em seus lábios.
— Obrigado? — Seu tom é divertido e eu
levanto, tirando o celular das mãos dele e sentando
em seu colo. E, como um movimento automático,
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prende as mãos na minha bunda e me puxa para ele,


enlaçando minhas pernas nas suas costas.
— Você não pode carregar o mundo inteiro
sozinho nas costas — explico, arranhando sua
barba, e ele deita o rosto em direção ao toque. —
Não precisa ser perfeito o tempo todo. Nem lidar
com tudo sozinho.
Eduardo suspira e dá os ombros.
— Eu tenho que lidar com tudo sozinho. Não
tenho muita escolha.
Quero dizer que tem escolha sim, que eu estou
aqui. Mas… cedo demais?
— O que você normalmente faz nos fins de
semana? — Eduardo pergunta, mudando de assunto
e beijando meu pescoço.
“Bebo vinho, escrevo e assisto Netflix” é o jeito
mais honesto de responder a isso. Saio com meu
irmão, visito meus pais, dispenso todos os convites
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de Priscila para ir para a balada e acabamos indo


comer porcaria em algum lugar. Adoro ficar
trancada em casa bem quietinha no meu canto, bem
antissocial.
— Nada em especial — respondo. — Por quê?
Ele passa os dedos no meu cabelo.
— Eu preciso ir para o galpão amanhã de
manhã. Algumas coisas precisam de manutenção,
alguns reparos simples — diz, dando um beijo na
minha cabeça. — Quer jantar depois?
Movo-me em seu colo, olhando em sua direção,
curiosa.
— Num domingo? — pergunto. Ele acena com a
cabeça. — Não sabia que você era o tipo de cara
que… sei lá, conserta coisas. Ainda mais no fim de
semana.
Eduardo ergue a sobrancelha para mim.

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— O que exatamente é o tipo de cara que


conserta coisas?
Dou os ombros. Sei lá, ué. Minha visão de
Eduardo no tempo livre sempre foi que ele vai ao
teatro e jantar num restaurante caro e fica, não sei,
fazendo coisas que homem rico e mimado faz.
Pegando alguma mulher gostosa. Indo em algum
evento chato. Essas coisas.
E cada dia que passo ao lado dele, essa visão
muda para algo cada vez mais envolvente e
atraente, e me mostra um lado dele que eu quero
conhecer muito mais.
— Tudo bem, jantar parece bom — respondo.
— Você vem para cá ou…
— Pensei em te levar em um lugar que eu gosto.
Remexo-me no seu colo, ouço uma respiração
pesada e alguma coisa começar a me cutucar aqui
embaixo. Olá.
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— Um lugar que você gosta? Tipo... em


público? — pergunto, já meio distraída, e talvez eu
me mexa mais um pouquinho só para ver o que
acontece. E o que acontece são seus dedos cravados
na minha coxa, fazendo-me ficar quieta no lugar
quando ele me olha com o cenho franzido. Já
consigo reconhecer a pontada de irritação em sua
expressão mesmo que seu tom não se altere quando
me responde.
— Sim, Lia, um lugar que eu gosto. É isso que
duas pessoas que estão juntas fazem. Elas saem
para fazer coisas em lugares que gostam.
Abro e fecho a boca.
A gente está… junto, junto?
Eduardo suspira e balança a cabeça.
— Juliana... Eu já disse que não tenho idade
para casinhos escondidos. Quero você por inteiro.
Ou vamos fazer isso ou não vamos.
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Mas… para que a pressa? A gente não pode só


se conhecer e se divertir um pouco primeiro? Já
parei com a história de querer fugir do chefe, não
parei? Não está bom por hora não? Se ele quiser
mais sexo gostoso, estamos aí. Mas precisa mesmo
ficar desfilando em público assim, já logo de cara?
Não é melhor ver se isso vai funcionar primeiro?
Até porque, convenhamos, tem uma grande chance
de que, agora que conseguiu a mulher que tanto
dizia não, o interesse passe mais cedo ou mais
tarde. Penso no que responder, mas nem tenho
tempo para isso.
Ouço o tom agudo do celular dele. Eduardo não
tira os olhos de mim quando estica a mão para
alcançar o aparelho.
— Fale. — Seu tom é sério, quase rude quando
atende o telefone sem nem ver quem está ligando, a
irritação muito mal disfarçada. Não demora um

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segundo inteiro até eu ver seu rosto cair em uma


feição de desespero. — Estou indo.
Eduardo me tira do seu colo e levanta da cama
em um pulo, alcançando a roupa jogada pendurada
em uma cadeira, vestindo-se apressadamente,
tropeçando nas pernas enquanto tenta feito um
louco subir a calça.
— O que aconteceu? — pergunto, e ele só
continua colocando a roupa. — Eduardo, o que
aconteceu?
Ele anda pelo quarto, acho que procurando suas
coisas, e eu levanto da cama, irritada. Não vai me
ignorar na minha casa, não. Alcanço seu braço e
faço com que olhe para mim.
— O que aconteceu?
Seus olhos estão marejados e ele parece perdido,
sem saber o que fazer e para onde ir. Sinto uma
onda de preocupação me atingir feito um soco bem
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dado.
— Meu pai — murmura. — Ele está no hospital.
Preciso ir.
Eduardo tenta se afastar e seguro seu braço de
novo.
— Você não pode dirigir nesse estado. Espere
um minuto e eu vou com você.
Espero que proteste ou simplesmente me ignore
e saia andando pela porta, mas Eduardo concorda
com a cabeça e fica de pé na sala, olhando para o
nada enquanto eu volto para o quarto e visto
qualquer coisa só para não ir pelada e corro de
volta para sala, tomando a chave do carro da mão
dele.
Descemos as escadas e em poucos instantes
alcanço o carro dele e partimos em direção ao
hospital que ele me indica.

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Eduardo não abriu a boca durante todo o trajeto,


e quem pode culpar? Não sei o que está
acontecendo dentro do quarto para onde ele correu
assim que chegamos, mas não o acompanhei. Não
sei nem se devia ficar aqui esperando ou se devia ir
embora. Sem dúvidas não tem espaço para mim
nesse momento familiar, mas estou preocupada.
Não consigo me forçar a levantar e sair sem
saber se Eduardo está bem, sem saber o que
aconteceu. Quero fazer alguma coisa para ajudar,
mas não tem o que ser feito. Então permaneço
sentada encarando a parede por nem sei quanto
tempo.
Meu telefone toca e vejo o rosto de Guilherme
na tela. Não. Agora não. Não quero falar com ele,
nem agora e provavelmente não tão cedo. Suas
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palavras ainda doem e, apesar de saber que estava


certo em tudo que me disse, não quero encarar isso
agora. Depois de outras três chamadas ignoradas,
parece que meu irmão está pronto para desistir.
Mas então vejo uma mensagem dele.

Vou viajar a trabalho, ficar fora alguns dias.


Posso te procurar quando voltar? Precisamos
conversar, Jujuba. Me desculpa pelo que eu disse.

Desligo a tela e enfio o aparelho no bolso sem


responder, mas mentalmente desejo boa viagem
para esse irritante. É melhor ele não morrer ou eu
vou ficar muito brava.
O céu já está escuro lá fora quando a porta do
quarto se abre e vejo Eduardo sair. Seu olhar cruza
o meu e ele vem em minha direção.
— Você ainda está aqui — diz, e não consigo
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decifrar as emoções em sua voz. Não parece ter


nenhuma.
Ele está abatido, acabado. Seus olhos, tão
expressivos e misteriosos, parecem mortos. Edu se
senta na cadeira ao meu lado e recosta a cabeça na
parede.
— Como você está? O que posso fazer por
você? — pergunto, sem ter ideia do que dizer. Não
gosto de ficar parada, impotente desse jeito. Vim ao
mundo para consertar problemas, mesmo que eu
acabe causando muitos também. É para compensar,
não posso ser tão perfeita assim.
Quero colocar esse homem no meu colo e dizer
que vai ficar tudo bem. Ele nunca foi dado a
sorrisos, seu semblante sempre tão sério, mas,
ainda assim, sua seriedade nunca chegou perto da
devastação que vejo agora.
Eduardo se limita a balançar a cabeça.
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— Não há nada que ninguém possa fazer — diz


de olhos fechados. — Só esperar.
Estico o braço e alcanço sua mão, enroscando
seus dedos nos meus. Não sei o que estou tentando
fazer. Sou péssima para consolar qualquer um,
nunca sei o que dizer nessas horas, principalmente
porque não sei nem o que aconteceu. Essa é a
especialidade do meu irmão. Guilherme sim sempre
sabe a coisa certa a dizer, bem do tipo que consola
um estranho que encontra na rua e o ajuda a
resolver todos os seus problemas. Os meus
inclusive. Parece que sou a caçula às vezes.
Ao meu toque, Eduardo desencosta a cabeça e
me olha.
— Obrigado por ter vindo aqui comigo. — Um
sorriso cansado corta seu rosto. — Não acho que
vou poder te levar em casa, preciso acalmar minha
mãe. Quer que eu chame um táxi ou alguma coisa?

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— pergunta, tocando meu rosto com sua palma.


Inclino a cabeça em direção ao seu toque e fecho
os olhos, absorvendo seu calor.
— Posso ficar aqui com você? — murmuro sem
pensar.
Ele não diz nada por tempo demais e eu abro os
olhos para encontrar seu semblante confuso.
— Se não for te atrapalhar — completo.
Eduardo continua em silêncio e eu percebo o
ridículo do que acabei de pedir. Essa vergonha é no
débito ou no crédito, Juliana? Tiro meu rosto da sua
mão e me arrumo no lugar.
— Não precisa se preocupar em me levar —
digo, forçando um sorriso em meu rosto. — Espero
que fique tudo bem com seu pai, Edu.
Levanto da cadeira e puxo o celular do bolso
para ver o horário do ônibus, mas Eduardo tira o

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aparelho da minha mão. Viro para ele, pronta para


reclamar.
— Você quer ficar? — pergunta, a confusão
pintada com força no seu rosto. Aceno a cabeça. —
Por quê?
Como por que, homem?
— Seu pai…
Eduardo acena com a cabeça, mas a confusão
continua no seu rosto.
— Quero ter certeza de que você está bem.
Quero ficar ao seu lado se você precisar. — Pauso,
perdida no brilho que surge em seus olhos. — Se
você quiser.
Eduardo levanta da cadeira e me abraça,
envolvendo os braços em minha cintura.
— Obrigado.
Sinto seus braços ao meu redor, apertando-me

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contra si, e é como se fosse a primeira vez que ele


me toca. Meu corpo arrepia com o contato, meu
coração descompassa e não consigo fazer nada
além de abraçá-lo de volta.
— Preciso de você aqui — sussurra. — Só não
queria te assustar.
Não sei se rio ou choro quando me dou conta de
que isso devia me assustar mesmo, mas não
assusta. Preciso estar aqui. Que o nó que se forma
em minha garganta vem da carga emocional desse
gesto, desse simples abraço e demonstração de
apoio. Se fosse qualquer outra pessoa nessa
situação, eu ficaria aqui. Ficaria por Priscila, ficaria
por Luana e Calebe, ficaria por Rafael. Mas não
quero ficar por Eduardo, quero ficar com ele.
Porque, por mais absurdo que pareça, não
consigo sequer cogitar deixá-lo agora. O que está
acontecendo comigo? Acho que vou aproveitar que

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estou em um hospital e me internar de uma vez.


Isso, ótimo plano.
Eduardo aperta o abraço e a forma como meu
corpo reage a esse toque não é aquele arrepio de
desejo com o qual já estou acostumada, meu velho
amigo a esta altura do campeonato.
É mais que isso.
Mais forte e mais profundo.
E uma parte pequenininha minha quer me
impedir de estar aqui e sentir isso, porque sabe o
final desastroso que isso pode ter.
Percebo que afundei em um caminho sem volta
quando me dou conta de que vale a pena o risco se
isso significar fazer este momento ser menos duro
para o homem sempre tão austero e senhor de si,
tão reservado e fechado que desaba nos meus
braços como se fosse a coisa mais natural que
existe.
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Como se agora simplesmente dividíssemos uma


história.
Um coração.
Quando Eduardo levanta a cabeça e me olha
com olhos marejados e avermelhados, e se inclina
sobre mim para depositar um beijo casto em minha
testa, sussurrando um agradecimento, cai a ficha de
que eu nunca tive escolha.
Quero você por inteiro. Ou vamos fazer isso ou
não vamos.
Parece que vamos, não é mesmo?
Parece que vamos.

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Capítulo 22

POUCAS COISAS NA VIDA SÃO MAIS


desconfortáveis do que passar horas sentada em
uma cadeira de hospital. Tudo bem, provavelmente
muitas coisas são mais desconfortáveis que isso.
Estar no hospital por estar doente e não porque está
acompanhando alguém, com certeza é bem mais
desconfortável que isso. Mas neste momento parece
que estou vivendo a maior tortura já inventada.
Tudo neste lugar me faz querer ficar doente
também. A cor das paredes, o cheiro, os sons, a
vozinha na minha cabeça que insiste em ficar
repetindo que eu sou trouxa por nenhum motivo
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aparente. Estou tão desgastada que quase vou


comprar um café, mas sei que vou me arrepender
no segundo em que o líquido amargo entrar na
minha boca. É sempre assim. É só para gastar
dinheiro à toa.
Aproveito o tempo ocioso para abrir o arquivo
do meu livro no celular e reler os últimos capítulos,
tentando encontrar o fio da escrita que perdi em
uma cena complicada. É nessas horas que vejo
como a literatura brinca com a vida. Nicole, minha
personagem, está em um ponto da história em que
está bem perdida sem saber o que fazer, só está
seguindo o fluxo dos acontecimentos e torcendo
pelo melhor. Bem estilo “deixa a vida me levar”,
bem pagode dos anos noventa mesmo.
E é exatamente isso que eu estou fazendo agora.
Não sei o que estou fazendo neste hospital, não
sei que loucura que me deu de achar que é uma boa

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ideia me comportar como se fizesse parte da vida


de Eduardo com essa intimidade toda, mas estou
aqui e o baile continua seguindo. Ele não está
reclamando, não sou eu que vou dizer nada.
O relógio marca pouco mais de nove da noite
quando a porta do quarto se abre e Eduardo sai de
lá com uma mulher que se parece tanto com ele que
é inegável o parentesco.
E ela parece ainda mais acabada que ele. Seus
cabelos grisalhos soltos batendo em seu ombro me
dizem que ela já é bem velha, e quem me dera
chegar a essa idade inteirona desse jeito. Meu
sonho. Seus olhos estão vermelhos do que
provavelmente foi um choro copioso na última hora
em que estiveram lá dentro.
Edu a abraça e sussurra alguma coisa no seu
ouvido, e ela concorda com a cabeça. Ele ergue os
olhos na minha direção e estica o braço, chamando-

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me. Levanto da cadeira, bem receosa, sem saber


muito bem como me comportar, e caminho em sua
direção. Tudo bom, mãe do homem que eu estou
pegando? Quando os alcanço, me surpreendo
quando ele enrosca os dedos nos meus sem
cerimônia, segurando minha mão e me puxando
para perto. Eduardo passa um braço pela minha
cintura e beija minha testa.
— Você deve ser a Juliana — a mulher diz, com
a voz fraca e meio rouca. — Luíza.
Há um sorriso triste e cansado em seu rosto e,
ainda assim, ela se esforça para manter a educação.
Retribuo o seu sorriso timidamente, sem saber ao
certo o que dizer.
— Sinto muito por seu marido. — É tudo que eu
consigo pensar.
Ela concorda com a cabeça, secando uma
lágrima que escorre por sua bochecha.
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— Infelizmente a única certeza da vida é que em


algum momento vamos perder quem amamos. —
Ela parece estar falando mais para si mesma do que
para mim, com seu olhar perdido no nada mesmo
que olhe em minha direção.
Assinto, sentindo minha garganta fechar com
suas palavras. Não consigo sequer começar a
imaginar como ela está se sentindo, como Eduardo
está se sentindo. Não sei ao certo qual o problema,
mas pelas caras dos dois com certeza não é nada
bom. Não quero nem imaginar a dor que seria estar
perto de perder meu pai e não sei como Eduardo
está se mantendo de pé.
— Preciso levar minha mãe em casa — ele diz,
apertando minha mão. — Só para tomar um banho
e pegar algumas coisas. Ela insiste em passar a
noite aqui apesar de eu ter me oferecido para fazer
isso. Você pode…

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— Claro — concordo antes que ele termine de


pedir e Eduardo agradece.
— Sinto muito nos conhecermos nessas
circunstâncias — diz Luíza. — Espero te ver
novamente, em uma situação melhor.
Despeço-me da mulher com palavras doces e
desejos de melhora e entro no quarto após Eduardo
avisar para algum membro da equipe de médicos
que eu seria a acompanhante até que eles
voltassem.
O cômodo é grande e espaçoso demais, com
paredes brancas um tanto claustrofóbicas, e o apito
do monitor cardíaco faz eu me arrepiar. Nunca
entendi por que hospitais têm que ser assim. Parece
que é para te lembrar que você está doente. Custa
colocar uma corzinha nas paredes? Sento na
confortável poltrona que está posta perto da cama
onde um homem velho, parecendo abatido, repousa

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com uma máscara de oxigênio cobrindo seu rosto.


Sou péssima lidando com situações difíceis. Não
sei o que dizer nem quando alguém vem até mim
contando que terminou com o namorado, como vou
saber o que falar para alguém com o pai numa
cama de hospital parecendo que não vai mais sair
daqui?
Não tem absolutamente nada que eu possa dizer
a Eduardo que o faça se sentir melhor e,
sinceramente, estou é com medo de dizer a coisa
errada e piorar tudo. Esfrego os olhos, exausta. Mal
dormi noite passada, por um ótimo motivo por
sinal, mas o cansaço está começando a me atingir
com força, então acabo fechando os olhos ao
encostar a cabeça na poltrona.
Acordo quando uma mão toca meu braço e vejo
que estou encolhida na cadeira, joelhos quase no
queixo em uma posição que não tem como ser

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confortável, mas que pelo visto foi a que meu corpo


escolheu, provavelmente na tentativa de se encolher
para fugir do frio do ar-condicionado deste quarto.
Meus olhos vão em direção a Eduardo, que estende
a mão para me ajudar a levantar. Vejo Luíza
sentada na beira da cama, segurando a mão do
homem ainda adormecido.
— Tem certeza de que não quer que eu fique,
mãe? — Eduardo pergunta, dirigindo-se à mulher.
Ela nega com a cabeça, sem tirar os olhos do
homem deitado. A dor que vejo em seus olhos é
uma cosa que eu nunca tinha presenciado antes, e
me desestabiliza de um jeito que nem sei explicar.
Sem perceber, aperto a mão de Eduardo e me
aproximo dele, deixando minha cabeça tocar seu
ombro. Não sei exatamente o que estou procurando
ao fazer isso, mas agradeço a sensação de
segurança quando ele passa o braço ao redor da

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minha cintura e eu retribuo o gesto.


— Eu volto amanhã para ver como ele está —
diz. — Me ligue qualquer coisa, qualquer novidade.
Dando um beijo na testa dela, Eduardo se
despede e eu me limito a dar um tchauzinho antes
de segui-lo.
Vejo toda a pose de Eduardo se desmanchar no
exato segundo em que deixa o quarto, como se
tivesse se esforçando para permanecer de pé
unicamente pela aparência. Ele apoia suas costas na
parede e fecha os olhos, respirando fundo.
Passo meus braços ao seu redor sem pensar no
que estou fazendo, desesperada por me sentir tão
inútil, por não poder fazer nada para acabar com a
sua dor. Aperto-me forte contra seu peito, e não sei
se estou tentando consolá-lo ou acalmar minha
própria aflição. Eduardo passa os braços ao meu
redor, me aperta e me puxa para mais perto,
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apoiando o queixo em minha cabeça. Posso sentir


seu corpo tremendo, sua respiração profunda.
Ficamos nessa posição não sei quanto tempo, de pé,
parados na porta do quarto.
— Posso passar a noite com você? — sussurra
contra a minha cabeça e eu concordo.
Não considerei nem por um segundo que fosse
ser diferente disso.
— Vamos para casa — respondo, saindo do seu
abraço e conduzindo-o para fora do hospital. — Eu
dirijo.
Vamos para casa.

— Ele estava fumando escondido.


Chegamos ao meu apartamento e fomos
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recebidos pelo miado de protesto de Valentina,


deixando clara sua insatisfação por ter sido deixada
sozinha o dia inteiro. Gatos e sua mania de acharem
que são donos do mundo.
Mandei Eduardo direto para o banho e vim para
a cozinha preparar alguma coisa para a gente
comer. Desisti depois de ver que não tem
absolutamente nada pronto e fiz uns sanduíches.
Quando voltei para o quarto, Eduardo já estava
sentado na cama, cabelo molhado e sem camisa,
encostado na cabeceira.
— Sabia que não podia, e ainda assim… — Ele
passa as mãos no cabelo, nervoso. —
Provavelmente foi o que causou a parada
respiratória. A sorte foi que a enfermeira que cuida
dele notou rápido e ligou para a ambulância na
mesma hora. Não quero nem pensar no que podia
ter acontecido…

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Subo na cama e me arrasto até ele, sentando em


seu colo. Enrosco as pernas em torno das suas
costas e Eduardo acomoda a cabeça em meu peito.
Vulnerável. Não sei lidar com isso. É
extremamente egoísta da minha parte estar com
isso na cabeça agora, mas não consigo evitar.
Minha visão de Eduardo oscilou mais vezes do
que sou capaz de processar nas últimas vinte e
quatro horas. Passou de homem sério e respeitoso
para um completamente selvagem na cama,
substituiu a visão de um cara rico mimado quando
disse que iria cuidar da manutenção de
equipamentos no fim de semana, e agora está aqui,
destruído, vulnerável.
Nada parecido com o homem impenetrável de
alguns dias atrás. Ou talvez ele nunca tenha sido
isso e eu só estava me fazendo de cega, como
Guilherme disse. Provavelmente isso. Não tem

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ninguém melhor que eu na arte de me iludir.


Passo a mão pelo seu cabelo e ele se acomoda
em meu colo, passando os braços ao meu redor.
— Ele vai ficar bem, foi só um susto — digo,
tentando confortar o homem que parece perdido
feito uma criança.
Eduardo balança a cabeça, negando.
— Meu pai está muito doente, há muito tempo.
Ele não vai melhorar. — Edu faz uma pausa,
respirando fundo, e não pressiono. — Ele tem uma
coisa que chamam de doença pulmonar obstrutiva
crônica, que é um nome complicado para dizer que
os pulmões dele não funcionam direito. Mesmo
com o tratamento certo, foi ficando cada vez mais
difícil para ele fazer tarefas simples, tudo faz ter
falta de ar e acessos de tosse. Teve uma infecção
respiratória ano passado e está praticamente de
cama desde então.
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Eduardo se remexe e me segura mais apertado,


mudando de posição. Edu vira na cama, girando,
fazendo-me deitar no colchão. Sua cabeça está na
minha barriga e ele esfrega a barba no espaço de
pele exposto pela minha blusa levantada e, mesmo
tentando com todas as minhas forças fingir que não,
um arrepio inoportuno sobe minha espinha.
— Ele faz fisioterapia, recebe oxigênio sempre
que precisa, mas não larga o maldito cigarro —
rosna contra minha pele. — Como diabos o homem
conseguiu acesso a isso, não sei. Mas vou acabar
com a vida de quem tiver enfiado essa porcaria na
casa dos meus pais.
Suspiro, processando a montoeira de
informação, e ignoro a última frase porque sei que
é da boca para fora.
— Os médicos deram alguma previsão de
quando ele vai sair do hospital? — pergunto.

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— Não sei. Ele está em suporte mecânico, as


máquinas estão fazendo-o respirar. — Eduardo
levanta a cabeça e me encontra com seus olhos
marejados. — Precisamos montar uma estrutura em
casa para recebê-lo. Vai demorar pelo menos mais
alguns dias. Honestamente, não sei se deveria ir
para casa, é mais seguro que fique no hospital pelo
estado que se encontra.
Movo minhas mãos, chamando-o. Edu sai de
cima de mim e eu me arrumo no travesseiro antes
de ele deitar ao meu lado, olhando para mim.
Enrosco minhas pernas na sua e estamos o mais
próximo possível.
— Obrigado — sussurra contra o meu rosto e eu
nego com a cabeça.
Não tem o que agradecer.
Não sei como eu poderia fazer qualquer coisa
diferente disso.
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Eduardo fecha os olhos e em alguns minutos


está mergulhado em um sono profundo. Observo
seu peito subir e descer, sentindo seu braço ao
redor da minha cintura. Inclino-me em sua direção
e dou um beijo em seu ombro, antes de apoiar
minha cabeça ali. Acabo pegando no sono assim,
enroscada com ele ao fim de um dia ridiculamente
longo e pesado.
E a última coisa que penso antes de apagar é
como diabos eu farei para viver sem esse homem
quando ele for embora.

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Capítulo 23

SINTO UMA UNHA SENDO CRAVADA em


meu rosto e acordo resmungando para Valentina
que mia, protestando. Afago a cabeça peluda e
sinto seu nariz molhado em minha pele. Levanto e
olho ao redor, admirando pela primeira vez o
cômodo. As paredes de cor clara não parecem
combinar muito com a personalidade tão enérgica
de Juliana. Nada neste apartamento parece
combinar muito com ela.
Olho ao redor procurando por ela e não a vejo
em lugar nenhum no cômodo. Chamo seu nome,
mas não ouço nada. Começo a levantar da cama e

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vejo, em cima do colchão, um avião de papel.


Sorrio, mas não posso evitar a preocupação. O
último que ela me mandou não trouxe boas
notícias. Alcanço e desdobro o papel, encontrando
sua caligrafia redonda.
Não vou te torturar com minha letra horrível.
Me liga quando acordar.
Tateio ao redor em busca do meu celular e vejo
que já passa das dez. Como dormi tanto? Chuto as
cobertas e vou para onde já sei ser o banheiro. Ligo
para Juliana enquanto me livro da calça, apertando
o botão da discagem rápida onde o número dela já
está salvo há meses.
—Bom dia. — Sua voz me atinge logo no
primeiro toque. — Conseguiu descansar?
Confirmo, mesmo não sendo exatamente
verdade.
— Onde você está? — pergunto quando ouço
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uma voz familiar abafada, mas não consigo


reconhecer de quem é.
— Precisei resolver umas coisas, não devo
demorar muito. Vou voltar logo — ela diz. — Você
vai para o hospital?
Suspiro e apoio a cabeça na parede de azulejos.
Tive uma noite inquieta. Não consigo lembrar
quantas vezes acordei, o coração batendo na
garganta. Tive sonhos desconexos, todos com meu
pai. Acordei durante a noite e demorei a entender
onde estava. Não cheguei a reconhecer o lugar, mas
vi Juliana, deitada ao meu lado, com o cabelo
embolado no rosto, dormindo de boca aberta.
Puxei-a para mim e ela facilmente se acomodou em
meu peito, murmurou alguma coisa que não entendi
e dormiu novamente. E a tranquilidade dela me
tranquilizou.
Juliana parece se esforçar para não confiar em
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mim a cada momento e achei que entendesse seus


motivos. Achei que tinha medo do que vão dizer
sobre ela na empresa. Mas parece que tem alguma
coisa mais profunda que isso. Alguma coisa que
não consigo entender. Contudo, dormindo nos
meus braços, é como se finalmente se acalmasse e
se permitisse estar comigo. Dormindo, ela confia
em mim. Espero que não seja tão difícil fazer com
que confie acordada.
Mesmo agora, com minha vida inteira virando
ao avesso, Juliana está aqui, pairando em minha
mente. Como se fosse a única coisa que me
prendesse ao chão. E ela sequer percebe isso.
— Vou — respondo. — Minha mãe precisa de
um descanso.
Com sorte meu pai terá acordado e esse cuidado
intensivo não mais será necessário. Sei que ele não
ficará bem, sei que não há como reverter seu

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quadro. Tudo que posso fazer é esperar.


Estar preparado para a perda não faz ser mais
fácil encarar a dor da falta.
— Quer que te encontre lá? — A voz dela
parece cautelosa, reticente.
— Adoraria isso, Juliana.

Minha mãe está sentada na poltrona, as mãos de


meu pai enroladas entre seus dedos, a cabeça
apoiada no colchão. Ela dorme tranquilamente, e
tenho certeza de que a posição não é confortável.
Toco suas costas e dona Luíza levanta a cabeça,
mirando em mim seus olhos castanhos cansados,
marejados. Sem vida.
— Como você está, mãe? — Beijo sua testa e
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me sento na beirada da cama.


As rugas ao redor de seus olhos parecem ter
aprofundado durante a noite, como se envelhecesse
anos em poucas horas de sofrimento intenso. Ela se
limita a menear a cabeça em um movimento que
não é positivo, tampouco negativo. Assim como a
situação em si. Dói meu peito e destrói minha alma
ver meu pai nessa situação, nesse estado,
sucumbindo, morrendo aos poucos. Sua luta está
chegando ao fim. Ele vem sofrendo por anos, entre
recaídas e pequenas melhoras, mas sempre indo em
direção à piora, ao fim do caminho que é inevitável
a todos nós.
O homem deitado na cama, tão frágil, em nada
lembra o que me ensinou tudo que sei. E estou
tentando com tudo que posso fazer com que a
última memória que tenho dele não seja a discussão
que tivemos na manhã de ontem. Que a última

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imagem que tenho dele não seja a de homem


intransigente capaz de fechar os olhos para as
falhas graves de caráter de meu irmão unicamente
para preservar seu nome e o da empresa.
Esforço-me para que os últimos quase quarenta
anos não se esvaiam em meio a essa decepção. E
sei que vou conseguir, eventualmente. Mas no
momento isso apenas ajuda a aumentar a dor em
meu peito.
— Conseguiu falar com Vinicius? — minha mãe
pergunta, sem tirar os olhos de meu pai.
Nego com a cabeça. Liguei para o dito cujo no
caminho para cá, mas a chamada sequer foi
completada. Provavelmente está sem sinal onde
quer que tenha se metido dessa vez, em mais um
dos seus sumiços irresponsáveis.
— Ele está fora da cidade — respondo, porque
esse é a única informação concreta que tenho.
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O que me omito em dizer é que, mesmo que


estivesse aqui, dificilmente apareceria. Vinicius
está contando os dias para a partida de nosso pai.
— Ele acordou mais cedo — ela diz. — Voltou
a dormir há alguns minutos, mas parece um pouco
melhor.
A esperança reluz em seus olhos e termina de
partir meu coração. Dona Luíza acredita que há
salvação para ele.
Não há.
Uma batida na porta chama minha atenção e
vejo entrar um homem, idoso, com seu jaleco
perfeitamente branco contrastando com sua pele
morena, olhos cansados que parecem já ter visto
tragédias demais. E é com esse olhar de pesar que
nos encara.
— Boa tarde — cumprimenta o homem,
fechando a porta atrás de si. Ele confere alguma
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coisa no bloco que carrega e eu espio seu nome no


crachá. — A boa notícia é que o senhor Rodrigues
está estável.
Minha mãe respira aliviada e aperta minha mão,
mas sei que o homem não acabou de falar.
— Infelizmente, não será possível que retorne
para casa ainda. Os pulmões estão muito
danificados e ele precisa de oxigenação constante.
Não posso autorizar que saia do hospital sem que
seja garantido que vá ter o mesmo suporte em sua
residência.
O choro copioso de minha mãe é imediato, forte,
doído. Como se somente agora fosse capaz de
entender com clareza a gravidade da situação.
Troco algumas palavras com o homem, que me
passa os detalhes do estado de meu pai e, quando
ele sai, dizendo que sente muito, volto minha
atenção para minha mãe. Não digo nada, porque

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não há o que dizer, apenas a abraço em silêncio,


partilhando a dor que nos une e nos quebra ao
meio.

Desisto de tentar convencer minha mãe a ir para


casa após algumas horas, já que ela parece decidida
a não deixar o leito de meu pai. Ele acordou e caiu
no sono diversas vezes desde que cheguei, sem
nunca dizer nada muito coerente no que parece ser
efeito do sedativo que foi administrado.
—Vá, querido. Não tem motivo para você ficar
aqui. Eu te ligo se precisar de alguma coisa.
Rendo-me à insistência de horas e me despeço,
reforçando que esperarei a ligação ao fim do dia.
Não sei quanto tempo fiquei ali dentro, velando o

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corpo de meu pai, esperando por uma melhora


súbita, um milagre que sei que jamais virá. Quando
me levanto para sair, sinto meu corpo doer pela
falta de movimentação. Atravesso a porta,
estalando o pescoço, e é quando a vejo.
Sentada desajeitadamente em uma cadeira, os
olhos vagando por um livro em suas mãos, fones no
ouvido e cabelo preso sem cuidado. Sorrio. Em
meio à dor e aflição, sorrio para sua imagem
descontraída de quem não tem ideia do quão
deslumbrante é o tempo inteiro. Concentrada como
está, não nota quando me aproximo e me sento ao
seu lado. Espio por seu ombro e leio algumas linhas
do livro, Juliana pula de susto quando apoio meu
queixo em seu ombro.
— O que você está lendo? — pergunto,
afundando o rosto em seu pescoço, e respiro fundo,
sentindo seu cheiro doce.

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— Um romance nacional — murmura,


percorrendo os olhos pela página por mais alguns
segundos antes de fechar o livro, colocando o
marcador de página no lugar. — Como ele está?
Respondo, resumindo o que o médico disse, e
ela dá um beijo no topo da minha cabeça, sem dizer
nada, em um apoio silencioso que é tudo que
preciso agora.
— O que foi fazer essa manhã? — pergunto, na
tentativa de mudar de assunto.
— Você disse que precisava resolver sei lá o que
no galpão, imaginei que não fosse estar com cabeça
para isso…
Levanto de seu ombro, encarando seu rosto
tomado por uma súbita timidez. Ela realmente fez
isso por mim?
— Não foi nada demais — diz, quando repito a
pergunta em voz alta. — Você faria a mesma coisa
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por mim — brinca, batendo em meu ombro com o


seu.
Sim, faria, de fato. Faria qualquer coisa por ela,
mas isso é porque eu a am...
— Podemos ir embora? — pergunto, antes que
escape por minha boca o que estava a ponto de
pensar, e ela concorda com a cabeça.
— Vem, vamos sair daqui. Te pago um sorvete.

Sinto lábios tocando meu ombro e abro os olhos


para encontrar Juliana pendurada em mim,
encarando-me com preocupação.
— Não queria te acordar — ela diz, mas há um
brilho em seus olhos que diz que queria sim.
Passo a mão em seu cabelo, sentindo seus fios
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macios em minha palma e beijo sua testa.


— Qual o problema?
Juliana balança a cabeça, negando, como quem
diz que não há nada errado. Mas sei que está
mentindo. Ela é péssima nisso. Cerro os olhos em
sua direção e Lia morde o lábio, com o olhar
culpado. Definitivamente está escondendo alguma
coisa.
Viro na cama, pousando-a no colchão, e deito
por cima do seu corpo. Ela continua me encarando,
os olhos fixos em mim, cheios de uma expectativa
mal contida. Afundo a cabeça em seu pescoço e
sinto-a arrepiar sob meu toque e se remexer, as
mãos percorrendo meu tronco. Sorrio.
— Não vá me dizer que me acordou para isso —
provoco, sussurrando em seu ouvido e sinto suas
unhas apertarem minha cintura quando beijo seu
pescoço. — Juliana…
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Ela resmunga e me dá um tapa, chamando-me


de idiota e eu rio, levantando a cabeça para olhá-la.
Espero. Não pergunto nada, apenas me perco em
seus olhos tão brilhantes.
— Você estava agitado — diz, passando a mão
por meu peito. — Fiquei preocupada. Como se
sente?
Deposito um beijo suave em seus lábios. Olho
pela janela e vejo o céu escuro lá fora, indicando
que o dia já chegou ao fim. Saímos do hospital
pouco depois das quatro da tarde e, cumprida a
promessa de sorvete, viemos direto para cá. Não sei
quanto tempo depois de deitar com Juliana
enroscada em mim eu adormeci, e não lembro qual
a última vez em que dormi no meio da tarde, mas
me sinto mais descansado agora. O relógio do
celular diz que já passa das nove da noite e o fim de
semana chegou ao fim.

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— Estou bem — murmuro em resposta quando


ela percorre as mãos por minhas costas. Abaixo a
cabeça, beijando seu queixo e toda a linha de seu
rosto até alcançar seu ouvido. — Posso ficar
melhor.
Arrasto a mão por sua cintura e, quando estou
muito perto de alcançar seu seio, ela me para.
— Você não precisa fingir — acusa. — Para de
ficar suprimindo seus sentimentos assim, isso faz
mal.
Juliana briga comigo e olho-a por um segundo
antes de terminar de subir minha mão.
— Não sei lidar muito bem com eles —
confesso, pousando minha boca na sua. — Não
quando são ruins. Prefiro fingir que não existem.
Impeço-a de continuar com a bronca, beijando-a
enquanto toco seu corpo nos pontos precisos que já
aprendi a reconhecer, e sinto Juliana se contorcer
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sob mim.
— É muito errado eu te querer tanto agora? —
sussurra contra a minha boca, com um ar culpado.
Franzo sobrancelhas, sem entender. — Com tudo
que está acontecendo…
Ela deixa a frase morrer no ar e sacode a mão, e
puxo-a para mim. Entendo sua preocupação, e não
posso fingir que cada pedaço da minha mente não
está perdida naquele quarto de hospital, com meu
pai, com o sofrimento da minha mãe, desesperado
por achar Vinicius e terminar a surra que devia ter
dado nele. Mas aqui, nesta cama, preso neste
quarto, é como se toda minha atenção fosse sugada
para Juliana. Ela não precisa pedir. Eu a quero. E
quero que ela me queira. Não menti, de fato não sei
lidar com sentimentos negativos. Quero que
desapareçam. E uma parte de mim se sente mal por
querer tanto usá-la para isso, mas quero esquecer

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meus problemas me enterrando em seu corpo,


quero me perder em suas curvas e me encontrar no
paraíso que existe em seu sorriso. Só por algumas
horas fingir que o mundo não está desabando lá
fora.
— Não — respondo. — Não tem nada de errado
nisso.
Então ela me beija. Toma meus lábios nos seus e
funde sua boca na minha em um beijo gentil e
profundo, que mostra o quanto precisa de mim. Um
sentimento de paz desconhecido me inunda por
perceber que não sou só eu desesperadamente a
querendo o tempo inteiro. Ela também precisa de
mim, e me toma para si quando quer.
— O que você quer, Juliana? — pergunto mais
uma vez em seu ouvido, e vou continuar
perguntando até ela se sentir segura o suficiente
para me dizer sem que eu tenha que questioná-la.

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Juliana hesita por um segundo e move a cabeça,


dando-me acesso irrestrito ao seu pescoço.
— Você — diz.
E, no minuto seguinte, estou dentro dela. Sem
preliminares. Sem preparações. Sem provocações.
Uma camisinha apanhada da gaveta e nada mais
entre nós enquanto me movimento, prendendo-a a
mim, ouvindo seus gemidos, sentindo seu corpo se
desfazer debaixo de mim a cada estocada, dura,
firme, forte. É como uma terapia e uma punição,
salvação e perdição. Tomo tudo dela e nunca é o
suficiente, e ela me entrega, Juliana entrega a mim
seu prazer sem reservas, sem receios, sem barreiras.
E toma em retorno tudo que tenho para dar, suga de
mim muito mais do que achei ser capaz de oferecer.
Aqui, enquanto os sons que escapam por sua
garganta aumentam e meu nome escapa por seus
lábios, sei que Juliana é minha. Sei que não há

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qualquer resquício de preocupação e desconfiança.


Sei que seu corpo me pertence. Quando a sinto se
contrair ao meu redor, deleitando-se do prazer cru,
entregue sem amarras, meu próprio prazer se
intensifica por ver essa mulher desejando-me tanto
assim.
E quando eu mesmo me desfaço dentro dela, sei
que preciso fazer o que quer que custe para mantê-
la na minha vida. Qualquer coisa para não a deixar
fugir de novo.
— Toma um banho comigo? — ela pede, depois
de alguns minutos, quando sua respiração está mais
regular.
— Claro. — Sorrio.
Puxo-a para perto de mim, enroscando seu corpo
no meu, sem nenhuma intenção de deixá-la partir.
— Posso ficar essa noite? — pergunto, já me
preparando para a negativa.
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Não quero admitir que me tornei tão


emocionalmente dependente de Juliana assim, tão
rápido, ainda mais com tudo que aconteceu nas
últimas vinte e quatro horas. Desde o primeiro beijo
roubado dentro do meu escritório, eu sabia que
estaria perdido quando a tivesse, quando sentisse
seu corpo por inteiro, quando ela finalmente se
entregasse a mim.
Sabia que seria completamente seduzido por seu
gosto, seu cheiro, sabia que iria querer tê-la o
tempo inteiro. E, quando a tive pela primeira vez,
percebi que não era o suficiente, que ainda não
tinha tido o suficiente dela.
Fiquei viciado.
Juliana é como uma droga e eu quero mais.
O que eu não sabia, o que eu não esperava, é que
junto com meu desejo, ela se apossaria de toda
minha sanidade, que me tomaria para si com tanta
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avidez, que me faria desesperado não só pelo


caminho para o pecado que abriga entre suas
pernas, mas também por seu coração.
Quero conhecê-la, por inteiro. Sua alma, seu
coração. Cada nuance do seu corpo, cada conexão.
Cruzar seus domínios, desvendar seus mistérios.
Preciso dela para mim.
Juliana levanta a cabeça do meu peito e ergue
seus lindos e sedutores olhos em minha direção.
— Só se você fizer o café da manhã. E, por tudo
que é mais sagrado, não me atrasar. Eu ainda tenho
um emprego para manter — provoca.
E, pela primeira vez em décadas, aquela
empresa é a última coisa na minha mente.

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Capítulo 24

QUERO ESGANAR QUEM TEVE a brilhante


ideia de começar a semana desse jeito. Reunião
segunda-feira de manhã só pode ser obra do
demônio, só que o dito cujo dessa vez tem nome,
sobrenome, olhos castanhos sedutores, ruguinhas
quando sorri e o nariz torto.
Confesso que foi meio esquisito acordar com
Eduardo no meu apartamento e me arrumar para vir
para o trabalho com ele a tiracolo, mas as coisas
foram se normalizando conforme as horas passaram
e, quando chegamos ao prédio, era como se aquilo
já fosse rotina. Eduardo está sem o seu tão

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conhecido terno hoje, com a camisa social enrolada


até os cotovelos, e a olhada que eu recebi de
Priscila no segundo em que ela bateu os olhos nele
disse que nem adianta tentar disfarçar.
Quero me enfiar em um buraco? Quero sim, por
favor.
A minha sorte é que só está óbvio para ela que
ele não está vestido direito porque não tinha um
terno no meu apartamento porque minha querida
amiga sabe da história. Para todos os efeitos, ele
acordou com o pé errado hoje e derramou café no
paletó.
O ar-condicionado da sala não está na sua
máxima potência no meio dessa reunião que parece
não ter fim, mas eu estou com frio. Com os olhos
focados no papel, anoto com a mesma rapidez de
sempre tudo que é dito e a agenda de hoje está
particularmente marcada com incontáveis

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interrogações ao fim de frases que não fazem o


menor sentido e que preciso discutir com Eduardo
depois.
Chega a ser engraçado como minha mente foi
capaz de automaticamente mudar o interruptor para
o “modo escritório” no segundo em que entramos
nesta sala. Estou bem linda e plena trabalhando e
Eduardo instantaneamente voltou à posição de
chefe respeitável. Mas, ao contrário do que eu
imaginei que aconteceria depois do fim de semana
superintenso que tivemos, não estou me sentindo
estranha. Nem quero sair correndo para as
montanhas.
Só é difícil não cair na gargalhada com ele todo
sério, usando palavras difíceis e frases longas
quando eu sei bem o tipo de vocabulário que ele
usa fora daqui.
— Tudo que estava em pauta sobre as metas

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trimestrais já foi discutido por hoje — Eduardo


anuncia quando o relógio da parede marca dez e
sete da manhã. — Alguém tem mais algum assunto
para trazer à mesa ou podemos encerrar por aqui?
Por favor, que ninguém tenha mais nada. Eu
tenho tanta coisa para fazer hoje que não tenho
condições de ficar ouvindo esses homens
arrumando problema onde não tem.
— Eu tenho, na verdade, senhor Rodrigues —
Renato diz, chamando atenção para ele. — Sinto
muito pelo seu pai — começa a dizer e não preciso
nem olhar para Eduardo para sentir seu corpo
inteiro enrijecer ao meu lado. — Acho que falo em
nome de todos aqui quando pergunto o que está
planejado para o futuro da empresa.
Instintivamente, minha mão alcança sua perna
por debaixo da mesa e aperta seu joelho quando ele
abre a boca para dizer alguma coisa, e o silêncio

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paira na sala por alguns segundos.


Não é preciso ser um gênio — embora, modéstia
parte, eu esteja bem perto disso — para entender
que o que Renato quer saber é se estamos todos
entregues às mãos de Vinicius. Por enquanto, ele
não pode fazer o que bem entender porque a
empresa ainda pertence a Alex. Mas depois que o
homem partir…
— A empresa continua como sempre esteve,
Renato — Eduardo responde em uma voz firme
que esconde muito bem a insegurança que sei que
está ali. — Por ora, é tudo que posso dizer. Sei
tanto quanto qualquer um de vocês o que nos
aguarda. Mas tenham em mente que a Rodrigues
Menezes nunca esteve sequer perto de sair dos
trilhos, não será agora que isso acontecerá. Seu
emprego está seguro. — Ele faz uma pausa e
semicerra os olhos. — Por ora.

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O silêncio que recai sobre a sala deixa claro que


o recado foi dado. Eduardo nunca é
desnecessariamente grosso, mas não há ninguém
melhor do que ele para colocar no lugar quem
precise. E foi o que acabou de fazer: com uma
frase, lembrou a todos que ele ainda manda ali até
segunda ordem.
Agora me diz se isso é pergunta que se faça?
Quando eu acho que vai todo mundo entender a
deixa e encerrar o assunto, um outro homem, do
departamento financeiro, traz para discussão um
questionamento sobre o departamento jurídico.
Mesmo que seja um saco, o assunto é relevante e
Eduardo permite que a discussão continue.
Mas ele não participa. Ouço as vozes invadirem
em uma discussão acalorada e tomo nota do que é
necessário, mas a voz de Eduardo, que deveria
mediar o falatório todo, não é ouvida. Ele nem se

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mexe. Priscila me olha, silenciosamente


perguntando o que aconteceu com ele, e só balanço
a cabeça, indicando para que ela interfira. Minha
amiga imediatamente assume o controle do assunto
e faz a discussão voltar para o rumo certo.
Com o maxilar travado, Eduardo continua
encarando um ponto fixo à frente quase sem piscar.
A menos que esteja muito interessado no quadro
com uma paisagem que nem é bonita, tenho certeza
de que ele não está realmente prestando atenção em
muita coisa. Mordo o lábio e penso por alguns
segundos no que fazer. Não é como se eu pudesse
conversar com ele agora, mas preciso dar um jeito
de trazê-lo de volta para a realidade.
Então faço minha mão que está em seu joelho
subir por sua coxa apenas o suficiente para que olhe
em minha direção antes de eu tirar meus dedos dali.
Vejo de canto de olho que Eduardo me encara com

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os olhos cerrados e apoio os cotovelos na mesa de


um jeito que sei que vai deixar meu decote à mostra
apenas para ele. E para Priscila que está do lado
dele. Nada que os dois já não tenham visto.
— O que você está fazendo? — pergunta em um
sussurro que mal é ouvido em meio ao falatório da
sala.
— Senhor Mendes — chamo e vejo Eduardo
tirar os olhos de cima de mim como um raio. Tenho
trabalho para disfarçar o sorriso. — Vou enviar
para seu escritório uma relação completa dos
estagiários até o fim do dia, e então o senhor pode
analisar com cuidado o que quer que ache que
esteja incorreto. Tudo bem assim? — pergunto,
girando a caneta na mão, e o homem concorda com
a cabeça antes de outra pessoa tomar a fala e
começar a discutir outro assunto.
Olho com atenção enquanto falam e continuo

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fazendo as anotações, e, quando vejo que estão


todos distraídos o suficiente, apanho a mão de
Eduardo por sob a mesa e trago-a para minha coxa.
O vestido que estou usando hoje é folgado o
suficiente para que ele não encontre nenhuma
resistência ao subir a palma pela minha perna e dar
um apertão bem dado quando seu dedo roça na
borda da minha calcinha. Edu tira a mão um
segundo depois e eu quero dar uns tapas nele.
Mas funcionou. A carranca foi embora e, depois
de pigarrear e me dar uma olhada que diz que eu
vou ouvir sobre isso mais tarde, ele começa a
participar da discussão sem sentido, colocando
ordem na bagunça.
Missão cumprida.
Ponto para mim.

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Eduardo saiu da reunião alguns minutos antes de


mim, depois de eu ter me distraído conversando
com Priscila, que exigiu detalhes muito explícitos
sobre o final de semana prolongado. Guardei
algumas informações para mim, obviamente. Estou
gostando bem dessa história de exclusividade.
Quando chego à minha mesa alguns minutos
depois, não me surpreendo quando encontro um
aviãozinho de papel em cima do teclado.

Obrigado.

Sorrio.
De nada, Eduardo. Obrigada você por ser tão
fácil de distrair.
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Volto a trabalhar com um sorriso idiota no rosto


e passo para o computador o que anotei com minha
letra praticamente ilegível para quem não é
graduado na escola de como entender minha
caligrafia, e isso não leva mais do que alguns
muitos minutos. As horas passam e o dia está
correndo como se nada tivesse acontecido, mal vejo
meu querido chefe pelo restante do dia e, quando o
relógio começa a passar das quatro da tarde, minha
ansiedade resolve me fazer uma visita, e nem
trouxe biscoitinhos para ajudar.
Meu celular vibra e vejo mais uma mensagem de
Guilherme. Ele vem me mandando algumas muitas
nos últimos dias, dando-me detalhes até demais
sobre a viagem. Não respondi nenhuma, mas não
resisto a ler suas doideiras. Bom que sei que ele
ainda está vivo. Melhor ainda que sei que isso é
consciência pesada pelo jeito que falou comigo.
Encaro a tela tentando colocar sentido no que estou
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lendo.
— Algo errado?
Levanto a cabeça e dou de cara com Eduardo
recostado na minha mesa, as mãos enfiadas nos
bolsos da calça, o semblante sério. A representação
perfeita de quem ele era naquele meu primeiro dia
de trabalho. Sério, compenetrado, charmoso como
o inferno. E ideias começam a pular na minha
cabeça como nunca antes. Talvez eu me
desconcentre um pouquinho olhando para ele.
Talvez.
— Juliana?
— Só estou tentando entender o que “o mundo
não é grande o suficiente para os seus dramas e os
de Isadora” significa — digo, sacudindo o telefone,
mostrando a mensagem que Guilherme mandou.
Quem é Isadora?
Ele me olha confuso como se nada do que eu
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disse fizesse sentido, e não faz mesmo. A maioria


das mensagens aleatórias do meu irmão não faz.
Bate uma saudadezinha das nossas conversas sem
sentido e curiosidade pelo tanto de coisa eu sei que
ele tem para me contar. Mas ainda estou esperando
um belo pedido de desculpas e disso não abro mão.
— Eu tenho mais alguma coisa hoje? —
pergunta, e viro em direção ao computador para
conferir o calendário. Um resmungo escapa da
minha garganta e preciso me segurar para não
revirar os olhos. — O quê?
Sorrio em sua direção, o meu sorriso mais
profissional e respeitável.
— Você tem mais uma reunião. — Olho para o
relógio que marca quatro e vinte. — Sua cliente vai
estar aqui a qualquer minuto agora.
Levanto da cadeira e apanho uma pasta. Respiro
fundo e olho para ele por um segundo.
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— Com licença — peço, e ele tira a perna do


caminho, mas, quando passo por ele, sinto sua mão
segurando meu pulso.
Viro em sua direção, olhando por sobre o
ombro.
— Você prometeu — diz, arrastando o polegar
pela minha pele. — Prometeu que não ia fugir.
Porcaria de promessa. Não posso só dizer que
menti, não? Uma mentirinha de nada? Além do
que, até onde me consta, essa promessa não se
aplica de segunda a sexta em horário comercial.
Droga.
Seus olhos se prendem aos meus e sei que ele
não vai me deixar escapar disso. Suspiro. Abro a
boca para falar, mas o barulho do elevador é mais
rápido do que eu. Meu olhar se prende ali por
tempo o suficiente para que Eduardo também vire
naquela direção. Ele não me solta enquanto a
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mulher sai do elevador e anda em nossa direção


com um sorriso estampado em seu rostinho lindo.
— Edu — chama quando nos alcança. — Joana,
não é? — ela me cumprimenta com uma pergunta,
sem desmanchar a expressão radiante. — Gostei do
vestido, fica bem em você.
Eu quero tanto poder dizer que ela está sendo
completamente sarcástica para justificar o tapa que
quero dar na cara dela, mas a mulher não parece
nada além de agradável. Ai, que raiva. Nem irritada
por errar meu nome eu consigo ficar.
— Obrigada — respondo, com uma simpatia
tamanha que mal cabe em mim. — Com licença,
preciso resolver algumas pendências.
Puxo a mão da de Eduardo, mas ele não me
deixa ir.
— Senhorita Albuquerque — cumprimenta, no
tom profissional que conheço muito bem. — Está
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tudo bem?
Os olhos da mulher caem para a mão dele em
meu pulso e ela arqueia a sobrancelha. Seu sorriso
treme por um segundo, mas, quando olha de novo
para a gente, está de volta ao normal.
— Na verdade, não, infelizmente. Algumas
complicações inesperadas que precisam ser
resolvidas imediatamente.
Eduardo levanta da mesa e percorre o polegar
pelo meu pulso uma vez mais antes de indicar sua
sala com a mão.
— Vou encontrá-la em um minuto — anuncia e
não se move até a mulher entrar no escritório e
fechar a porta. Eduardo vira na minha direção e
cruza os braços novamente. Ele respira fundo. —
Não vai acontecer nada — diz.
Descruza esses braços e tira essa cara séria que
assim fica difícil de ficar irritada, por favor,
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obrigada.
— Não aconteceu nada da última vez também
— murmuro, já revirando os olhos. Suspiro,
balançando a cabeça. — Olha, esquece. Não é da
minha conta.
É exatamente esse tipo de drama que eu estava
tentando evitar. Esse mesmo, bem esse daqui.
— Lia. — Eduardo segura minha mão e me
puxa para perto dele. Meus olhos rapidamente
voam ao redor, conferindo se tem alguém por perto.
Não tem. — Não vai acontecer nada.
Ele põe uma mecha de cabelo atrás da minha
orelha e segura meu queixo.
— A única coisa que vai acontecer naquela sala
— inclina na minha direção e toca meus lábios —
vai ser a hora mais longa da minha vida demorando
uma eternidade para passar, enquanto eu resolvo
um problema que tenho certeza sequer ser
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importante. E então eu vou sair de lá, te levar em


casa e perguntar se posso passar a noite com você.
Reviro os olhos tentando esconder o sorriso que
brota no meu rosto. Dou um passo para trás,
afastando-me dele.
— Ela não vai encostar em mim. — Eduardo se
faz claro, com certeza lembrando do que eu disse
no meio da nossa conversa depois de ele ter
praticamente me obrigado a dizer todo e qualquer
motivo para insegurança.
Mordo o lábio e balanço a cabeça. Não sei se
negando ou se concordando. Ele sabe mesmo dizer
todas as coisas certas. Isso é muito perigoso para a
minha sanidade mental.
— Preciso trabalhar — digo, sacudindo a pasta
em minha mão.
— E quando você voltar, eu vou estar bem aqui.
Ergo a sobrancelha.
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— Você não tem mais o que fazer não? —


provoco e ele tomba a cabeça para o lado, olhando-
me de um jeito que diz que sabe que eu fui
convencida.
— Tenho. Muita coisa. — Ele segura minha
mão. — Mas a prioridade no momento é fazer você
entender que não vou a lugar nenhum a menos que
me mande embora.
Até quero responder alguma coisa, mas o que se
responde para isso? Nem sei. Só sei derreter um
pouquinho.
— Bom — digo —, então parece mesmo que eu
tenho que trabalhar. Alguém tem que manter este
lugar funcionando.
Eduardo sorri, orgulhoso.
— Vá salvar esta empresa, Juliana — diz,
levantando da mesa.
E eu vou mesmo.
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Alguém tem que trabalhar por aqui.


Afasto-me, indo em direção ao elevador e,
quando olho por cima do ombro, vejo Eduardo
recostado no batente da sua porta, encarando-me.
Seu olhar corre meu corpo de cima a baixo e,
mesmo nessa distância toda, eu arrepio.
Mais tarde, ele molda as palavras com a boca.
Promessas, promessas…
Talvez não seja tão impossível fazer isso
funcionar, afinal.

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Capítulo 25

NÃO DÁ NEM PARA COMEÇAR a entender o


tamanho da bagunça que minha vida virou da noite
para o dia. Como se todas as minhas certezas e
resoluções tivessem sido jogadas na lixeira e
substituídas por essa nova versão atualizada que
não faz o menor sentido no mundo real, mas de
algum jeito parece funcionar.
A semana acabou e outra começou, e mais outra,
e mais outra, e os vinte e dois dias que se passaram
desde que apareci na porta de Eduardo naquela
quinta à noite foram muito diferentes de tudo que
eu imaginei que pudesse acontecer. Edu foi ao

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hospital quase todos os dias, depois ou antes do


trabalho, ver como o pai está, e parece que o
homem está melhorando. Ou pelo menos não está
piorando, o que já é alguma coisa. E depois, direto
para a minha casa, todos os dias. Valentina já
ganhou seu travesseiro próprio no canto da sala e
protesta a noite inteira por não estar dormindo
enroscada no dono. Até eu reclamaria de não estar
enroscada naquele homem.
Mas, para a minha sorte, estou. Ainda é meio
inacreditável acordar de manhã e dar de cara com
aquele monumento ocupando metade do meu
colchão. Ou chegar em casa com ele a tiracolo e ver
Eduardo ir direto para cozinha, perguntando o que
quero comer. Sentar em frente à TV para assistir
meus programas de culinária com ele me
perguntando a cada cinco minutos o que está
acontecendo, quem é quem, o que é aquilo que
estavam cozinhando, como alguém ainda não
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perdeu um dedo. Essa última pergunta é o mistério


da minha vida e quem souber me responder ganha
um milhão de reais. Um dia, quando eu ganhar na
loteria. Por enquanto ganha só minha gratidão
mesmo.
E na última sexta à noite, quando sentei na cama
vestindo uma camiseta velha e peguei meu
computador para tentar colocar a escrita em dia
enquanto Eduardo, vestindo uma calça de moletom
e sem camisa, se pendurava em planilhas,
silenciosamente aceitando a presença um do outro,
foi que me caiu a ficha do que estava acontecendo.
Nunca conversamos sobre isso. Sobre o que
seríamos, sobre como lidaríamos com isso. Dentro
do alto prédio da Rua da Alfândega, vestido de
terno e gravata perfeitamente alinhados, Eduardo
continua sendo o chefe exemplar. Mas da porta do
meu apartamento para dentro…

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Agora, nessa quinta-feira de tarde, com o


expediente chegando ao fim e o escritório
esvaziando, levanto para ir atrás de Priscila fazer
com que ela assine estes papéis antes de sair
correndo para casa como sei que ela vai fazer.
Aproveito que Eduardo está fora de sua sala e
arranco uma folha de um bloco qualquer. Escrevo
um bilhete curto e ando em direção à mesa dele.
Essa virou nossa forma de comunicação silenciosa.
O que começou como um jogo de sedução se
transformou em um símbolo singelo dessa…
relação?
Existe uma relação?
Por mais que eu esteja bem feliz em não ficar
pensando nisso o tempo inteiro ou ficar tentando
definir o que temos, não consigo evitar me pegar
pensando aqui e ali no que diabos eu estou fazendo.
Eduardo tem peças de roupa no meu apartamento e

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uma escova de dente ao lado da minha. Ternos


completos pendurados nos meus cabides. Sapatos.
Um livro em cima da minha cômoda, fazendo
companhia ao exemplar que estou lendo. O
exemplar de uma história de terror que ele trouxe
junto com meu romance, mais um detalhe que
descobri dele, o fascínio pela literatura nacional
que dividimos.
Sabe comercial de margarina? Pois é, parece que
estou vivendo em um. Estou me sentindo uma
daquelas mulheres de comercial de absorvente que
pelo poder de alguma magia negra estão sempre
sorrindo apesar da cólica que deveriam estar
sentindo. Publicitários, vamos conversar.
A questão é que eu nunca gostei de comerciais
de margarina — nem de salada, nem de absorvente,
nem de perfume. É tudo muito falso, muito
perfeito, muito irritantemente no lugar. Não é real.

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E aquela vozinha no fundo da minha mente que diz


que isso daqui também não é real se recusa a calar a
boca.
E dessa vez eu tenho certeza, mais do que
absoluta, bem redundante mesmo, que não é só
coisa da minha cabeça. Eduardo não está me
contando alguma coisa. Volta e meia pego o
homem me olhando de um jeito esquisito, como se
estivesse analisando um animal em exposição.
Melhor, como se eu fosse um elefante em um
museu de raridades e estivesse com medo de fazer
movimentos bruscos. O que só prova minha teoria:
comerciais de margarina são a maior fraude da
indústria brasileira.
Passo os olhos no bilhete em minha mão antes
de dobrar no formato certo.

Vou direto daqui encontrar Calebe. Te vejo


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em casa?

Deposito o aviãozinho de papel em cima de uma


pasta, caminho em direção à porta e quase trombo
com Eduardo quando entra na sala. Ele sorri para
mim, mas depois sua expressão muda, seus olhos
ficam pequenos enquanto me fita com atenção.
— Você está aprontando alguma coisa — diz,
dando um passo em minha direção, e tranca a porta
atrás de si. Balanço a cabeça, negando, sentindo
uma onda de excitação percorrer meu corpo e não
consigo esconder um sorriso travesso. — Não vai
me contar? — Nego em silêncio e ele dá um passo
em minha direção.
— Você vai ter que arrancar de mim —
sussurro.
A próxima coisa que sei é que Eduardo senta no
sofá no canto da sala e me encaixa no seu colo,
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subindo minha saia até o pano estar todo enrolado


na cintura, suas mãos encaixadas na minha bunda.
— Assim? Não vai nem me pagar um jantar
antes? — Minha voz sai entrecortada quando
suspiro ao sentir sua boca no meu pescoço.
— Achei que você fosse jantar com aquele seu
amigo — Eduardo responde, escorregando os
lábios pelo meu colo até alcançar meu decote. —
Eu só quero a sobremesa.
Suas mãos saem da minha bunda e alcançam os
botões da minha blusa, e ele brinca comigo, me
provoca, me atiça, passando dedos, lábios e dentes
por meus seios. Sinto meu corpo reagir
rapidamente aos seus toques firmes, sua boca me
provocando em cima enquanto sua mão desce e me
provoca embaixo, afastando minha calcinha.
Com movimentos precisos, Eduardo me acende
e me entrega um prazer que eu não estava
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esperando, clandestino e excitante. Em poucos


minutos me desfaço em seus braços, abafando
meus gemidos em seu ombro quando o clímax me
alcança.
— Acho melhor você sair daqui logo antes que
eu perca completamente o controle — ele sussurra
em meu ouvido após alguns instantes e sorrio.
— Não vou me importar nem um pouco com
isso.
Eduardo me coloca de pé e me segura por um
momento para ter certeza que minhas pernas
bambas conseguem me sustentar, e me ajuda a
abotoar a blusa enquanto eu abaixo a saia.
— Eu adoraria perder o controle e te foder nesse
sofá, Juliana — diz, segurando meu queixo e acho
que vou gozar de novo bem aqui se ele falar isso de
novo.
Como esse homem é desbocado! Tem sido um
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inferno manter a seriedade no meio das reuniões


quando o vejo falando todo sério e polido. Quem vê
até acredita que é esse poço de elegância o tempo
todo.
— Mas já disse que não tenho idade para
casinhos escondidos no escritório — ele continua.
— Vou fazer o que você quiser em qualquer parte
da mobília dessa sala quando for minha por inteiro.
Eduardo taca a bomba e se afasta, deixando-me
de pé no meio da sala olhando para o nada,
embasbacada. Olha aí, não disse que tinha coisa? O
mais absurdo é que eu respiro aliviada por ele
reclamar de alguma coisa. Já estava começando a
enlouquecer achando que era impressão minha.
— Você tem dormido no meu apartamento no
último mês inteiro — aponto o óbvio e ele
concorda com a cabeça. — Valentina
provavelmente está bem em cima do meu

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travesseiro a essa hora.


Quando foi que adotei um gato? Eu nem gosto
de gatos!
Ele sorri.
— Ela parece gostar mais do seu cheiro que do
meu, o que posso fazer?
Claramente ela é louca.
Encaro Eduardo que, apesar de ter um sorriso
nos lábios, me olha com cautela, recostado na mesa
com os braços cruzados no peito, mangas
arregaçadas até o cotovelo e cabelo despenteado
por obra das minhas mãos nervosas. Tem como ele
ser mais charmoso e gostoso que isso?
Tem. O pior é que ele consegue essa proeza.
— Então o que falta? — pergunto.
Eduardo dá os ombros.
— Falta eu poder te exibir por aí. Não te quero
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só trancada no seu apartamento, te quero em todo


lugar. Eu sei — ele interrompe quando abro a boca
para me defender —, eu sei que você talvez não
esteja pronta para isso, e estou feliz em esperar.
Mas isso significa que vou respeitar os limites que
você mesma está impondo e nada de sexo selvagem
na minha mesa.
Provocador filho de uma égua. Tadinha da égua,
não merece ser trazida para a conversa. Isso é jogo
baixo!
— Na mesa não, mas no sofá pode? — provoco
de volta e o brilho dos seus olhos se intensifica.
— É torturante ficar o dia inteiro sem encostar
em você — justifica. — Eu sou só humano, Juliana.
Resistir a você é impossível.
Dou alguns passos em sua direção e deposito um
beijo casto em seus lábios.
— Me espere acordado e vou te mostrar
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exatamente o tipo de sexo selvagem que você está


perdendo durante a hora de almoço por causa dessa
teimosia.

Como esperado, Priscila já tinha desaparecido


de mala e cuia, então deixei a pasta com seu
secretário antes de sair para encontrar Calebe.
Mando uma mensagem para ela reclamando do seu
sumiço e, enquanto espero que meu amigo chegue,
ligo para casa.
— Lembrou que tem mãe? — Ela atende no
segundo toque e eu rio.
Minha mãe começa a falar sobre como sou uma
filha desnaturada que não dá valor a ela, que vou
sentir falta quando morrer, e eu escuto

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pacientemente segurando o riso enquanto brinco


com o canudo do copo de suco de laranja.
— Prometo que vou aparecer mais. Aliás, é por
isso que estou ligando. Tudo bem se eu for almoçar
aí sábado? — Ela confirma, dizendo que a casa
também é minha e eu não preciso perguntar. — E
tudo bem se eu levar… alguém?
A linha fica muda. Tão muda que tenho certeza
de que ela teve um treco e morreu e é melhor eu
chamar uma ambulância.
— Então foi por isso que você praticamente
desapareceu? Por que está de namorado novo?
Toma vergonha nessa tua cara, Juliana!
Solto uma gargalhada alta o suficiente para
atrair a atenção das mesas ao redor.
— E quem é o felizardo? Você sempre diz que
está tão ocupada com o trabalho, não sabia que
estava com tempo livre para ficar saindo para
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conhecer gente não.


Respiro fundo. Lá vem bomba.
— E não estou…
Silêncio de novo. Você vai me matar desse jeito,
mãe!
— Pelo amor de tudo que é mais sagrado,
Juliana. Vai me dizer que é aquele homão que veio
te buscar aqui em casa? — Eu não respondo nada, o
que já é uma confirmação. — Sabe que seu pai vai
te matar, né?
Confirmo. Sei sim. Vejo Calebe chegando e me
despeço dela, dizendo a hora que estaremos lá e
avisando que eu levo a sobremesa.
Levanto para cumprimentá-lo com um abraço
apertado e ele quase me quebra ao meio, como
sempre. Assim que senta, vejo seus olhos cansados.
— Que houve? Pode falando.

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Calebe suspira, ergue a mão para chamar o


garçom, pede um chope e outro suco para mim e
começa a revirar o cardápio de petiscos para ver o
que quer comer. Ele enrola um pouco mais,
tentando fugir do assunto, e conheço meu amigo o
suficiente para saber que isso só pode significar que
está com medo de dizer alguma coisa em voz alta.
Os pedidos chegam e Calebe começa a remexer o
copo na mão, evitando olhar para mim.
— Tem falado com meu irmão? — pergunto e
ele ergue as sobrancelhas para mim.
— Vocês ainda não voltaram a se falar? O que
aconteceu?
Dou os ombros. Posso sentir a falta que for
daquele pentelho, mas ele sequer se deu ao trabalho
de pedir desculpas pessoalmente pelo jeito que
falou comigo, então sigo firme me fazendo de
desentendida. Tudo bem, ele mandou algumas

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mensagens que não respondi, ligou e não atendi o


telefone, mas Guilherme sabe onde eu moro. Se
quisesse mesmo falar comigo tinha batido na minha
porta, nunca vi querer resolver coisa por
mensagem, eu hein.
— Não sei muito do seu irmão, Ju. Ele anda
meio sumido, algum problema com a namorada
nova pelo que entendi.
Fernanda sumiu da empresa. Eu tentei ligar para
ela infinitas vezes, Priscila fez o mesmo, e não me
surpreendi quando não atendeu nenhuma das duas,
mas quando ela ignorou as ligações de Eduardo e
encaminhou o pedido da demissão para o RH, vi
que não tinha jeito mesmo. A última mensagem que
recebi de Guilherme sobre isso dizia alguma coisa
sobre Fernanda estar tentando contatar as
funcionárias antigas de Vinicius e alguma coisa me
diz que essa confusão está só começando.

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Vinicius não parece se importar, mas até aí


nenhuma novidade. Ele aparece dia sim, dia não,
assina alguns papéis e vai embora. E, cada vez que
ele está na empresa, Eduardo parece a ponto de
socar alguma coisa. Fico tentada a ligar para
Guilherme só para descobrir como ela está, mas sei
que vai ser impossível sair sem um interrogatório e
uma conversa infinita.
— E o que está errado com você? Não vim aqui
falar do meu irmão, desembucha.
— Acabei de levar o chifre mais bonito da
história da humanidade — ele responde, erguendo
o copo para um brinde inexistente.
Quero dizer “mas você jura, lindo?”, mas me
controlo. Não preciso nem perguntar para saber que
é de Camila que ele está falando. Esse vai e volta
deles não é de hoje e duvido que vá ter fim, mesmo
agora. Sempre tem alguma coisa do que reclamar,

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sempre preocupado com a distância emocional da


mulher, sempre desconfiado. Esse relacionamento
conturbado não devia ter nem começado, quem dirá
durar tanto tempo.
Eu nunca gostei dela, desde a época da
faculdade, mas como não é a minha boca que ela
está beijando, não é problema meu. Eles nunca
chegaram a namorar, só ficam nesse vai-não-vai
que impede Calebe de se envolver de verdade com
qualquer pessoa no decorrer dos anos.
Talvez não seja a melhor hora, mas preciso
lembrar de passar o telefone da Priscila para ele
antes de ir embora. Tenho certeza de que esses dois
vão se entender muito bem.
— Como você está? — pergunto, alcançando a
mão dele, e meu amigo dá os ombros, cabisbaixo.
— Acho que eu precisava disso. — É a
conclusão que chega, e eu tenho que concordar.
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Pelo menos agora ele se livra desse sentimento


confuso que se arrasta por tanto tempo. Calebe
solta uma risada. — Certa está você que não se
mete em relacionamentos complicados.
Ah, se ele soubesse. Solto uma risada,
balançando a cabeça, e Calebe entorta a cabeça,
olhando-me com atenção.
— O que você não me contou? — pergunta e eu
solto um resmungo. — Você é péssima em
esconder qualquer coisa, Juliana. Sei nem porque
você ainda tenta. Vamos, sabe que adora tagarelar
sobre seus dramas.
E eu obedeço, né? Gosto mesmo, não nego.
Passo para ele a versão resumida, sem todas as
pegações e noites longas de sexo. E, quando acabo
de falar, fico esperando a bronca, mas em resposta
ele solta a minha mão e bate palmas de forma
escandalosa com uma risada profunda, daquelas de

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curvar o corpo e colocar a mão na barriga.


Dou um tapa em seu braço pela vergonha que
está me fazendo passar. Desse jeito vamos acabar
sendo expulsos do bar.
— Desculpa — ele diz, secando uma lágrima.
— Obrigado, eu estava precisando disso. —
Virando o resto do chope de uma vez só, ele
balança a cabeça. — Finalmente alguém que
conseguiu te dobrar e te tirar dessa zona de
conforto ridícula.
Olho para ele como se estivesse louco, o que
com certeza está. Quem me dobrou? E quem disse
que tenho uma zona de conforto? Logo eu que
nunca neguei uma boa aventura amorosa e ele sabe
disso! Digo tudo isso em voz alta e Calebe ergue a
sobrancelha, desafiadoramente.
— Você disse que ele está no seu apartamento?
— Confirmo com a cabeça. — E qual foi a última
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vez que você deixou um namorado sozinho na sua


casa?
— Ele não é meu namorado — respondo, e
imediatamente me sinto como se tivesse catorze
anos de novo e estivesse fingindo não gostar do
menino mais bonito da escola. — E eu não deixei
nada, ele só apareceu lá, o que eu ia fazer? Colocar
para fora?
E é quando percebo que é exatamente isso. Eu
não tenho problema nenhum em colocar ninguém
para fora, enxoto Guilherme do meu apartamento
com frequência, meus amigos nem se atrevem em
tentar aparecer sem avisar. Mas Eduardo nunca
perguntou. Ele estabeleceu uma única regra e tem
vivido por ela: se eu não quiser, tenho que dizer. E,
como não disse, ele simplesmente começou a se
apossar de todo e espaço livre na minha vida, na
minha casa, na minha mente.

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E no meu coração.

Passa um pouco da meia-noite quando abro a


porta de casa, na ponta dos pés para não acordar
Eduardo, mas, como se fosse um alarme de
incêndio, Valentina começa a miar. Obrigada.
Cruzo o apartamento sem acender as luzes e
vejo um brilho fraco vindo do meu quarto. Quando
chego à porta, encontro Eduardo sentado na cama,
como sempre sem camisa e usando os seus já
conhecidos óculos, mexendo no computador.
— Ela gosta de você — diz, sem tirar os olhos
da tela, um sorrisinho de canto no rosto.
Bufo e acendo as luzes.
— Imagina se me odiasse.
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Chuto os sapatos para longe e me jogo na cama,


acomodando-me no seu peito quando ele coloca o
computador de lado.
— Teve uma boa noite? — Confirmo com a
cabeça e recebo um beijo na testa. — Que bom. —
Ajeito-me e me acomodo entre seus braços, que me
envolvem com firmeza. — Minha mãe ligou, vão
mudar meu pai de quarto sábado no fim do dia. Ele
vai sair do tratamento intensivo.
Tiro a cabeça de seu pescoço e olho em sua
direção. Isso é bom? Ele dá os ombros.
— Não tem muito o que fazer. A condição dele
é crônica, não vai melhorar, mas ele está estável o
suficiente para poder mudar para um quarto mais
confortável.
Deposito um beijo no seu rosto e seu abraço
aumenta, assim como o aperto no meu peito por
ele.
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— Só preciso estar lá no fim da tarde. O que


quer fazer no resto do dia? — pergunta.
Falo com Eduardo sobre o almoço na casa dos
meus pais, torcendo para não ser uma péssima ideia
que faça com que ele fuja para as montanhas mais
rápido do que o Sonic. Quando não responde nada,
desencaixo dos seus braços e olho em sua direção.
Eduardo me encara com a boca aberta e os olhos
cheios de uma emoção crua.
Fico receosa por um momento, porque sei que é
muito cedo para isso e talvez eu tenha exagerado
demais. Ele disse que me queria por inteiro, e
minha família vem junto, mas, por mais que saiba
da relação próxima que tem com os pais, isso não
significa que o que nós temos seja sério o suficiente
para isso. Prendo a respiração.
E ele me beija.
Um beijo doce, profundo, com gosto do
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chocolate amargo que parece estar sempre


comendo. Não há urgência em seu toque, não há
pressa. Não é um beijo para despertar o fogo que
parece sempre estar por perto quando ele me toca, é
um beijo que me faz derreter em seus braços.
É um beijo cheio de carinho, cuidado, amor.
Engasgo com o pensamento e me afasto dele,
respirando fundo, e vejo em seus olhos a
confirmação silenciosa. Abro a boca, mas nada sai
e Eduardo me puxa para ele, uma mão
enganchando de leve em meu cabelo.
— Não — ele sussurra contra a minha boca. —
Não comece. Você não vai a lugar nenhum. Nem se
atreva a tentar fugir de mim agora. Eu vou almoçar
com seus pais no fim de semana e você vai entrar
comigo de mãos dadas naquela casa.
— Edu… — sussurro, incerta.
Ele me gira na cama, deitando-me contra o
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colchão. Sua boca toca minha testa, bochecha,


queixo. Seus lábios percorrem meu pescoço com
adoração. Suas mãos percorrem meu corpo por
sobre a roupa que eu imediatamente desejo que seja
arrancada.
— Você virou minha cabeça no segundo em que
sorriu para mim e não tem nada que possa fazer
para mudar isso. Ainda que me mande embora, eu
vou continuar completamente apaixonado por você.
Eu sei que se preocupa com o que isso parece, sei
que se preocupa com o que todo mundo vai pensar,
e eu não posso vencer o mundo inteiro, Juliana.
Mas vou continuar tentando. Por você, vou
continuar tentando. Mas não posso, e nem quero,
lutar contra você. Preciso que me queira do mesmo
jeito.
Sua boca está em meu ouvido, suas mãos em
meu corpo, e eu não acho que desejei alguém antes

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tanto quanto o desejo. Mas isso não é sobre desejo.


Não é sobre o tesão descontrolado que sempre está
aqui. É sobre o inexplicável sentimento que
começou a crescer desde aquele dia, depois da
festa, na casa dele.
Desde o primeiro aviãozinho de papel.
— Eu te quero.
Eduardo levanta a cabeça e me olha como se
tentasse decidir se estou falando a verdade ou não.
— Juliana…
Seguro seu rosto entre as minhas mãos.
— Eu não vou fugir.
— Então… — Ergo a sobrancelha para ele que
beija aquele pontinho certeiro atrás da orelha e sei
que lá vem bomba. — Como exatamente eu vou ser
apresentado?
Não. Não, não, não.

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— Você não acha que já passou da idade de ter


namoradinha não? — pergunto na esperança de ele
dar uma risada, me beijar e a noite acabar no sexo
selvagem que eu prometi antes de sair do escritório.
Mas, obviamente, Eduardo nunca faz o que
espero que ele faça.
— Acho — diz, escovando a boca no meu
pescoço. — Mas tenho certeza de que se eu sugerir
mais que isso, você vai sair correndo daqui.
Eu já quero sair correndo daqui, pelo amor de
tudo que é mais sagrado. Ele nasceu de sete meses
para ter essa pressa toda?
— Vou me contentar com namorado por
enquanto.
Ele me olha, esperando uma resposta.
E eu respondo puxando-o para um beijo.

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Capítulo 26

— VOCÊ NÃO ESTÁ FAZENDO o menor


sentido, Juliana. Fala mais devagar, criatura. É
sábado de manhã, acabei de acordar.
Respiro, esticando a cabeça para o banheiro com
a porta encostada onde Eduardo toma banho.
Repito para ela a conversa da noite de quinta, o
pedido de namoro desajeitado e a forma como ele
insinuou que queria muito mais que isso. Insinuou
não, falou na minha cara, soltou a bomba sem pena
e foi dormir, e me deixou remoendo o desespero,
sozinha, a noite toda. Bem surtada e exagerada.
Queria ter conversado com ela ontem, porque se
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tem alguém que consegue colocar sentido nos meus


ataques de desespero, é Priscila. Mas ela ficou
sumida o dia inteiro, vai saber fazendo o que. Os
poucos instantes em que encontrei com ela foi em
uma reunião e estava com Eduardo por perto, então
foi impossível.
— Bom, Eduardo avisou que estava falando
sério… — Priscila murmura do outro lado do
telefone. — Se você não está confortável com
alguma coisa, converse com ele. É a única coisa
que pode fazer.
Desligo o telefone no momento em que Eduardo
cruza a porta, toalha enrolada na cintura, dando-me
a visão maravilhosa que sempre é seu peito
descoberto. Ele vem até a cama e me beija.
— Pronta? — pergunta.
Aceno com a cabeça.
Pronta.
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Quando Eduardo estaciona o carro na porta da


casa dos meus pais algumas horas depois, estou
tremendo de nervosismo. Não sei o que esperar,
nem sei como este almoço vai ser, nem sei como
ele vai reagir, nem como meus pais vão reagir.
Minha mãe morreu de amores no segundo que
colocou os olhos em Eduardo quando esteve aqui
da última vez, mas tenho certeza de que não
passava de provocação. Entre isso e achar uma boa
ideia eu me envolver com um homem tão mais
velho e que dá nome ao lugar onde eu trabalho, é
um caminho enorme.
Meu pai naquele dia mesmo deixou clara sua
opinião sobre isso. Péssima ideia se envolver com o
chefe. E eu tenho tentado com todas as minhas
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forças deixar de lado esse pensamento inoportuno.


Tenho medo de voltar com força hoje. Tenho medo
do mesmo acontecer quando todos no escritório
descobrirem que estamos, de fato, juntos.
Sinto o nariz de Eduardo esfregar no meu
pescoço e me arrepio.
— O que você está fazendo?
Ele ri.
— Já percebeu que você me pergunta isso o
tempo inteiro? — Reviro os olhos, porque é
verdade. — A resposta vai ser sempre uma só.
Estou tentando te fazer feliz.
Como posso evitar me apaixonar desse jeito?
Sinto um beijo casto bem atrás da minha orelha.
— Já passou da hora de parar de tentar, Juliana.
Há tempos já desisti de tentar resistir a você.
Praguejo mentalmente por ter dito meus

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pensamentos em voz alta e me livro do cinto de


segurança, mas, quando alcanço a maçaneta para
sair do carro, ele toca meu braço.
— Você está calada a manhã inteira. Está tudo
bem?
O “sim, claro que está” pinica na ponta da
língua, mas respiro fundo e me forço a engoli-lo.
Cansei de tentar fugir por estar com medo do que
pode acontecer no futuro, não posso deixar minhas
inseguranças nos pararem. E isso significa que
tenho que começar a falar com ele.
Balanço a cabeça, negando.
— O que houve, Lia?
— Eu quero ficar com você — digo, porque
preciso que ele entenda isso. Reviro os olhos para
mim mesma. — Você está vindo almoçar com
meus pais, claro que quero ficar com você —
murmuro.
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Eduardo leva a mão ao meu rosto e esfrega o


polegar na minha pele.
— Mas?
— Você é intenso demais — digo, em meio ao
que eu acho ser uma risada e sei que ele deve me
achar louca.
Eduardo fecha os olhos e balança a cabeça
concordando, um sorriso no seu rosto acompanha o
meu. E me fascina a facilidade com que ele sorri o
tempo todo agora.
— Isso é sobre a conversa da outra noite, não é?
— pergunta e eu confirmo com a cabeça. — Você
pode dar o nome que quiser a isso aqui, Juliana.
Não sou apegado a formalidades como parece. —
Ele se inclina em minha direção e escova os lábios
nos meus. — Desde que esteja comigo, é tudo que
eu preciso.
Respiro aliviada, muito mais do que deveria por
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uma coisa tão simples. Talvez eu tenha entrado um


pouco em desespero. Talvez. Só um pouquinho de
nada. Seguro seu rosto e o beijo.
— Vamos?
Ele acena com a cabeça e saímos do carro. Ouço
o som do alarme logo atrás de mim e em algumas
passadas, estamos na porta da casa. De mãos dadas.
Toco a campainha e espero, e quem abre a porta é
Guilherme.
Meu irmão não diz nada, apenas abre passagem
quando Eduardo o cumprimenta. Ao passar por ele,
sinto sua mão em meu braço.
— Posso falar com você? — pergunta, e olho
para Eduardo, porque não sei o quão confortável
vai ficar sozinho. Mas ele acena com a cabeça, me
dá um beijo na testa e se afasta, indo em direção à
minha mãe com a bandeja de pavê que carrega.
De pé na porta ainda, cruzo os braços e olho
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para Guilherme, que me encara com cautela.


— Preciso me desculpar — diz.
Concordo com a cabeça. Já passou da hora.
— Precisa mesmo.
Guilherme suspira pesadamente e encosta na
parede. Quero dar na cara dele pela forma como
falou comigo. Ainda estou magoada, mesmo que eu
precisasse ouvir aquilo, ele não tinha o direito de
me tratar daquela maneira. E ele sabe disso. Posso
ver em seu rosto que sabe disso.
— Eu pisei na bola — diz. — Não me arrependo
do que disse, Jujuba, mas não precisava ser daquele
jeito. Você acha que pode me desculpar?
Abro um sorriso cansado. Claro que posso. Já
viu alguém conseguir ficar bravo com irmão por
muito tempo? Senti tanta falta dele nessas semanas,
falta de pegar o telefone e mandar uma mensagem
surtada a cada coisa fofa que Eduardo fazia.
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Priscila é uma amiga incrível, mesmo a gente se


conhecendo por tão pouco tempo, mas meu melhor
amigo sempre foi meu irmão. Chamo com a mão e
ele vem para um abraço. O tapa que dou em seu
pescoço é só para dizer que ainda vai ter que
rebolar um pouco até eu esquecer essa história.
— Como está Fernanda? — pergunto e ele me
olha com curiosidade. — Não faz essa cara como
se eu fosse um monstro desalmado. — Reviro os
olhos.
— Está tentando ficar bem. Procurando
emprego. Ela teve um baita problema com uma das
ex-estagiárias da empresa que contatou, uma
menina que trabalhou com Vinicius. — A cara que
ele me olha diz que a coisa não está nada boa. —
Fernanda não está deixando eu me envolver muito,
quer provar para si mesma que consegue se virar
sozinha e isso está me matando. Quero estar lá,

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junto, e ela não para de me afastar.


Coloco as duas mãos em seus ombros.
— É minha vez de dizer que o mundo não gira
em torno do seu umbiguinho lindo. — Vejo seus
olhos se arregalarem. — Fernanda passou por uma
coisa horrível e você está fazendo um drama
enorme porque ela não deixa que você se comporte
do jeito que quer. Ela precisa do seu apoio, não das
suas cobranças. Se não consegue ajudar, se afaste.
Pare de fazer a vida da mulher ainda mais difícil.
Sua expressão de choque chega a ser bonitinha
de tão engraçada. Viu só? Os meus problemas eu
não sei resolver, mas os dos outros…
— Desde quando você gosta dela assim? — ele
pergunta, contrariado, porque nunca gosta de
admitir quando eu tenho razão.
É raro, mas acontece às vezes.
Suspiro para a sua pergunta.
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— Não gosto — esclareço, dando os ombros. —


Quero dar uns tapas na cara dela toda vez que abre
a boca. Mas isso não muda o que Vinicius fez. Não
preciso gostar dela para saber que o errado é ele.
Deixo meu irmão tentando fazer seus dois
neurônios funcionarem e viro as costas para ir até a
cozinha, mas paro e o olho por sobre o ombro,
curiosa.
— Quem é Isadora? — pergunto e ele me olha
sem entender. — Da mensagem. Você me mandou
uma mensagem falando de uma Isadora.
Guilherme solta uma gargalhada.
— Uma mulher que conheci na minha última
viagem. Estava com problemas com o namorado.
Dramática igual a você — provoca.
— Impossível — respondo, dispensando sua
implicância com a mão, sem conseguir disfarçar o
alívio por tê-lo de volta aqui.
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Quando chego à cozinha, vejo minha mãe com


um largo sorriso no rosto conversando com
Eduardo, que tem um pano de prato nas mãos. Tiro
um segundo para admirá-lo, tão ridiculamente
informal com a camisa preta de gola redonda e
jeans escuros. Tão diferente sem o terno e a
seriedade embutida no escritório. É como se fosse
uma pessoa completamente diferente e, ainda
assim, exatamente o mesmo. Ainda me surpreendo
com a complexidade desse homem. Com suas
tantas faces. Pergunto-me quantas outras facetas
ainda há para descobrir, e fico surpresa com quão
ansiosa estou para isso.
Como se eu não pudesse ter o suficiente dele.
Seus olhos encontram os meus e abro um
sorriso. É inevitável.
Posso tentar fugir.
Talvez eu consiga.
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Mas não quero


Não mais.
Não preciso mais procurar pelo homem atrás do
terno. Ele é tudo que consigo ver agora.
Eduardo por inteiro. É por ele que estou me
apaixonando tão profundamente.

Consigo respirar aliviada quando todo mundo


acaba de comer e vejo que estão todos vivos e sem
faltar pedaço. Guilherme está com uma cara tão
horrível que me vejo praticamente obrigada a dizer
para ele sair dali e ir atrás de Fernanda. E é com um
agradecimento silencioso que sai da mesa em um
pulo e deixa a casa.
Eduardo ajuda minha mãe a tirar a mesa e,
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quando levanto para me juntar a eles, sou impedida


pelo meu pai que me chama para conversar. Precisa
mesmo disso? Suspiro. Lá vem bomba. Estava tudo
muito tranquilo apesar da tromba que ele tentou
disfarçar o almoço todo e falhou miseravelmente.
Sento no sofá e olho por cima do ombro,
espiando os dois que já mergulharam em uma
conversa animada sobre séries de TV — o que
significa que minha mãe está falando
animadamente e Eduardo sorri com educação e faz
comentários soltos para manter o assunto girando.
— Ele é muito mais velho que você. — Olho em
direção ao meu pai, que me encara com firmeza,
como se estivesse me dando uma bronca. — E ele é
o seu chefe.
Sua voz é firme e assertiva e eu balanço a
cabeça concordando. Eu sei disso. Sei que meu pai
está certo e sei que isso tudo é maluquice. E é

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exatamente por saber disso que tentei tanto fugir.


Mas o infeliz do Eduardo fez questão de, desde
o começo, tomar todo o cuidado do mundo para
que isso não parecesse nem de longe um casinho
tórrido de escritório, então, por mais que eu tente
racionalizar as coisas e encontrar uma justificativa
lógica para não investir, não consigo. Não consigo
mais me convencer a deixar ir embora alguém que
tem me feito tão bem.
— Dificilmente esse relacionamento de vocês
vai ter algum futuro, Juliana.
Suspiro.
— Não tem ninguém planejando casamento
aqui, pai — digo, ignorando o “por enquanto isso é
o suficiente” que Eduardo soltou. Bom, eu
certamente não estou planejando nenhum
casamento aqui. — Sei que parece a pior ideia do
mundo, acredite em mim. Mas não é.
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Ele balança a cabeça, resignado. Posso ver a


reprovação em seu olhar, mas, como sempre foi,
meu pai respeita a minha decisão. Sei que não vai
apoiar o que acha ser uma maluquice, mas também
não vai tentar me convencer do contrário.
— Só não quero que você se machuque.
— Também não quero me machucar.
Com um suspiro longo, ele decide mudar de
assunto e começa a falar sobre seu trabalho. Alguns
minutos se passam até que eu sinto a mão de
Eduardo no meu ombro.
Olho em sua direção e ele tem uma interrogação
enorme no rosto, como quem pergunta se está tudo
bem, e eu confirmo com a cabeça. Sem mortos,
sem feridos, todos inteiros. Talvez uma situação um
pouco constrangedora? Talvez. Mas vai todo
mundo sobreviver. Nos afastamos um pouco do
sofá antes de Eduardo começar a falar.
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— Preciso ver meu pai — diz e eu me levanto,


mas ele balança a cabeça. — Fique. Já estou te
roubando demais. — Eduardo passa as costas dos
dedos em meu rosto e sorri. — Te ligo mais tarde?
Concordo com a cabeça e Eduardo pousa um
beijo na minha testa. Observo, tentando segurar o
riso, enquanto ele se despede de meu pai, que o
encara com uma carranca formada. Não ouço o que
eles dizem, mas os dois trocam algumas palavras,
com as caras muito sérias.
Eduardo vai embora e eu tento voltar às
atividades ao normal. Minha mãe apoia as mãos em
meus ombros e sussurra em meu ouvido.
— Parece que alguém está caidinho por você.
Ele ficou babando o dia inteiro, não deu nem para
disfarçar — provoca. Contudo, seu tom muda, e ela
fica séria. — Tem certeza disso, filha?
Se minha mãe me perguntasse alguns dias atrás,
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diria que não e imploraria para que ela me fizesse


mudar de ideia. Mas agora, tudo que consigo fazer
é sorrir.
— Absoluta.

Reviro na cama, inquieta. O colchão parece


vazio demais sem Eduardo aqui. Incrível como me
acostumei com sua presença constante ao meu lado,
mesmo silencioso quando ele mergulha em seu
próprio trabalho e eu afundo em meus livros. Já me
acostumei com como fica inquieto de vez em
quando e começa a andar de um lado para o outro,
como se a ideia de ficar parado o incomodasse. E
sem dúvidas me acostumei com como sempre
termina em sexo sua tentativa de gastar a energia

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acumulada. Eu nem sabia que tinha tanta


resistência física assim.
Desisto de dormir e olho o relógio. Passa um
pouco da uma da manhã e está tudo silencioso. Até
do miado irritante de Valentina estou sentindo falta.
Jogo o lençol para o lado, apanho o celular e
levanto da cama, arrastando-me até a cozinha e
apanho um copo de suco de laranja na geladeira.
Recosto na pia e começo a rolar pela tela do
aparelho, naquela velha procrastinação de redes
sociais. Assusto-me quando uma notificação pula
na tela com um apito alto.

Está acordada?

Mordo o lábio tentando conter um sorriso,


mesmo que não tenha ninguém para ver. Respondo
a mensagem de imediato, sem nem pensar em fazer
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joguinhos que talvez fizesse um mês atrás. Estou


com saudades, e é inútil tentar negar isso.
Jogo-me no sofá e abro um e-book qualquer.

Não estou conseguindo dormir sem você.

Dizer que derreto é muito pouco. Respondo,


sendo o mais sincera possível: eu também não, e
gostaria que ele estivesse aqui.
Eduardo não responde nada por longos minutos.
Meia hora se passa e nenhum sinal. Bufo irritada e
tento me concentrar na história, mas me assusto
com o som de uma batida forte. Sento em um pulo
e encaro a porta, esperando para ver se estou louca
ou não. Outra batida atinge a madeira e levanto do
sofá. Não foi dessa vez que comecei a ouvir coisas.
Ainda não preciso ser internada.

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Meu coração está batendo preso na garganta


enquanto caminho em direção à porta. Com a
respiração presa, destranco-a, expondo a visão do
corredor.
Eduardo me olha, cabelo desgrenhado, olhar
selvagem. E Valentina no seu braço.
— Sentimos sua falta — diz, com um sorriso
nervoso enquanto entra e põe a gata no chão,
fechando a porta atrás de si.
Seus olhos estão presos em mim quando ele tira
o casaco que usa por cima da camiseta azul,
liberando-se da peça que é dobrada e pendurada no
braço do sofá. Todo cuidadoso e organizado, se
fosse eu já tinha saído jogando de qualquer jeito.
Ele passa as duas mãos pelos fios rebeldes e
arranca os sapatos. Bem à vontade mesmo.
— O que você está fazendo aqui, Edu? —
pergunto, desejando que continue se livrando das
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peças, mas parece que ele acabou.


O homem bufa e seus olhos descem,
percorrendo meu corpo, despindo-me com o olhar
sem qualquer sutileza, sem disfarçar, e posso ver
desejo cru em seus olhos castanhos. Um meio-
sorriso cresce em seus lábios.
— Ouvi o que você disse mais cedo e sei que
estou me apossando da sua vida inteira de uma vez
e isso é muito mais do que você esperava. Eu tinha
um discurso inteiro preparado para dizer que vou
respeitar seu tempo e seu espaço, para perguntar se
eu posso dormir aqui só mais essa noite antes de
voltar de vez para o meu apartamento — diz, com
uma voz rouca. — Mas agora que estou aqui, não
consigo lembrar uma palavra. Não com você
vestida desse jeito.
Dou um passo em sua direção e pouso as mãos
em seu peito, olhando para cima para compensar a

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diferença de altura.
— Senti sua falta aqui comigo. Estou feliz que
você veio — digo, e tudo que ouço é um “graças a
Deus” sussurrado antes de sua boca estar na minha.
Eduardo me puxa para si e começa a andar comigo
em direção ao meu quarto. Sinto a cama nas minhas
costas e ele deita sobre mim.
— Oi — sussurra, e seus olhos me devoram,
fixos a blusa repuxada para cima deixando exposta
toda minha perna e bunda.
Com o maxilar trincado, vejo seu peito subir e
descer ritmicamente, mas Eduardo não se move.
Apenas continua me olhando.
— Oi — respondo, arrastando as unhas por seu
pescoço e ele fecha os olhos por um segundo
quando o puxo em minha direção.
O beijo é lento e profundo, diferente de todas as
explosões apaixonadas, escondidas, proibidas que
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costumávamos trocar. Eduardo me explora com sua


língua e com sua mão, agora presa à minha cintura
por baixo da blusa levantada. Sua palma sobe
enquanto as minhas descem por seus braços e
costas, até encontrar o cós da calça, e ele geme,
ofegante, quando desabotoo a peça.
Eduardo não para de me beijar enquanto tento
desajeitadamente abaixar seu zíper e afasta meu
braço de si, sob meus protestos. Sua mão alcança a
barra da minha blusa e se livra dela, deixando-me
exposta, com nada além de uma calcinha grande
demais que não seria minha primeira escolha para
seduzir ninguém.
Eu não tinha como saber que ele viria! Odeio
que mesmo agora, depois do tanto de sexo que já
fizemos, eu ainda trave por um segundo sempre que
o homem me vê sem roupa. O instinto de tentar
puxar o lençol para me cobrir ainda está aqui, mas

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não faço isso. Gosto do que vejo no espelho, e


posso ver nos olhos de Eduardo que ele gosta
também.
— Feche os olhos — Eduardo sussurra em meu
ouvido, e eu obedeço feliz.
A antecipação está me matando, mas não
demora e sua boca está sobre mim, percorrendo
meu ombro e descendo até alcançar meus seios.
Seus dedos descem e me alcançam por dentro da
calcinha, torturando-me.
— Você é perfeita — ele diz e eu abro os olhos,
encarando-o confusa. Eduardo me encara sério,
enquanto seus dedos continuam a me provocar. —
Simplesmente perfeita.
— Edu… — protesto, e sinto minha garganta
seca. Não sei de onde vem esse desejo imediato
quando me toca, mas já estou desesperada por ele.
Mas Eduardo não cede, não me dá o que preciso
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e começa a me beijar lentamente. Sinto sua boca


em meu pescoço, ombro, sobre meus seios,
provocando-me. Seus lábios caem para minha
barriga, em mordidas suaves tão diferentes da
avidez com que me acostumei. Ele não está nem
perto de me comer. Eduardo venera meu corpo com
seus toques e eu não estava esperando por isso.
Tento tocá-lo, mas ele me impede.
— Me deixe explorar você — pede sussurrando
enquanto ergue meu quadril para me livrar da
calcinha. — Me deixa te mostrar o quanto eu te
quero.
E é exatamente isso o que Eduardo faz por
longos minutos, com dedos e língua percorrendo
cada pedaço de pele exposta, atingindo pontos
precisos com suas carícias que me fazem arrepiar e
contorcer sob ele, e, quando sua boca me alcança
entre as pernas, já estou a ponto de me desfazer por

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conta dos estímulos, e não demora para um clímax


me atingir. Ele espera, com beijos suaves em minha
coxa enquanto minha respiração volta ao normal, e
logo sinto sua boca sobre mim novamente, sua
língua experimente traçando rotas para o paraíso
enquanto seus dedos me penetram em um ritmo tão
lento e intenso que acho que vou explodir. E é isso
que faço depois de alguns minutos.
Eduardo se deita ao meu lado, enroscando-me
em seus braços. Ele não me deixa retribuir o favor
enquanto me acaricia, em toques gentis e delicados,
entre beijos carinhosos e sussurros doces. Engulo
seco e sinto lágrimas ameaçarem brotar por trás dos
meus olhos quando ele afunda a cabeça em meu
pescoço e sussurra como foi difícil mais cedo,
quando foi ver seu pai.
E é assim, enganchado a mim, com sua
respiração quente contra minha pele, que ele beija

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meu pescoço e sussurra um boa noite abafado. Eu


sorrio por ele sequer pensar em ter sua dose de
prazer. Eduardo cruzou a cidade para dormir
comigo, e só.
— O que acha de almoçarmos fora amanhã? —
pergunto, arrumando-me na cama de modo que
possa olhar para ele. — A gente pode ver um filme
depois, ou ir para algum lugar que você goste.
Ele me olha, desconfiado.
— Você por acaso está querendo me exibir,
Juliana? — pergunta, e, apesar do tom brincalhão,
vejo a expectativa e o nervosismo em sua voz.
Concordo com a cabeça.
— Acho que eu tenho o direito de desfilar com
meu namorado gostoso por aí — arrisco e prendo a
respiração.
Espero.

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Espero.
Espero.
Ele não move um músculo por muito, muito
tempo.
E então ele me beija.
— Você não precisa fazer isso — murmura
contra a minha boca. — Tem razão, eu fui mesmo
apressado. Não foi por isso aqui vim aqui. Só quero
que fique comigo.
— Eu sei. E eu estou recusando o que quer que
signifique “mais que isso”. — Faço as aspas com as
mãos e ele sussurra um “justo” abafado contra a
minha boca. — Mas estou feliz com o cargo de
namorada do quarentão gostoso.
— Trinta e oito — protesta, rabugento. — E de
qualquer modo, estou ficando velho para ter meu
coração revirado desse jeito, Lia — ele brinca
contra minha boca, e eu rio.
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Puxo-o contra mim e aprofundo o beijo,


permitindo-me sentir seu corpo por sob a camiseta.
E por fim decido me livrar dela, esse homem devia
andar sem roupa o dia inteiro, o mundo não devia
ser privado dessa visão. Eu com certeza não quero
ser privada dessa visão. Percorro a mão por suas
costas e braços e ele me beija, me puxa mais para
si, e eu poderia morrer feliz assim. Mentira, tem
muito sexo para ser feito ainda, nada de morrer.
— Eu já tive provas mais do que suficiente de
que você está no auge do seu vigor físico, nem
tente me enrolar. — Vou ao seu ouvido, raspo os
dentes em seu lóbulo como ele tanto gosta de fazer
comigo e sinto seu sorriso contra a minha pele. —
Sua idade só está sendo uma vantagem maravilhosa
nesta cama.
Eduardo ri e me abraça com braços e pernas,
enroscando-me todo em mim.

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— Acho melhor você dormir então, Juliana —


sussurra ao meu ouvido. — Teremos um longo dia
fora amanhã.
Resmungo.
— Odeio você.
— Não odeia não.
Não odeio mesmo.

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Capítulo 27

— VOCÊ ESTÁ PARECENDO UMA garotinha


apaixonada. — Priscila aparece em minha mesa e
eu tiro os olhos do computador, com um sorriso
idiota no rosto que parece que não vai embora.
Nem nego, estou mesmo.
É tão boa essa sensação de felicidade estável,
sem montanhas-russas. Do jeito que gosto, mas,
ainda assim, tão cheia de paixão. É um sentimento
de plenitude tão grande que mal sei lidar. E aí fico
assim, sorrindo igual a uma boba o dia inteiro.
Devia tentar disfarçar? Até devia. E talvez eu
fizesse se fosse outra pessoa. Mas Priscila me

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conhece do avesso, então nem me dou ao trabalho.


— Será que posso roubar você um pouco esse
fim de semana? — pergunta, fazendo bico.
— Claro que pode! — digo, animada com a
expectativa de uma noite das garotas. — O que
acha de aproveitar que tem uma frente fria
chegando e comprar um vinho e…
— Ah, não! — protesta, batendo pé. — Chega
desses seus programas de velho. A gente vai sair
para dançar.
Gargalho. Priscila sabe que se tem uma coisa
que não sei fazer é dançar.
— Você sabe que não gosto de multidão,
Priscila. Pelo amor de Deus, tenha dó de mim —
dramatizo, mas ela é irredutível. — Tudo bem! —
Dou-me por vencida quando vejo o tamanho do
bico que ela está fazendo, e a loira comemora.
Reviro-me na cadeira, tendo uma ideia. Não me
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mate. — Tudo bem se a gente chamar a Fernanda?


A boca dela cai aberta. Chocada. Tenho vontade
de rir, mas me seguro.
— Ficou doida? — pergunta, e respondo que
não. Digo que acho que vai ser importante para ela.
Tenho tentado fazer Fernanda falar comigo de
qualquer jeito nas últimas semanas, mas a mulher
se recusa. Guilherme me mandou uma mensagem
ontem dizendo que conseguiu se entender com ela,
então, talvez, eu tenha mais sorte dessa vez.
Priscila dá os ombros.
— A escolha é sua. Aproveita e chama aquela
sua amiga que não apareceu da última vez. Luana,
né? Já que virou programa em grupo, vamos fazer
um grupo logo. Convida todo mundo de uma vez.
Sorrio. Ciumenta. Fico feliz por eu não ser a
única doida descompensada.

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— Podemos ser só nós duas se você preferir —


implico e ela faz uma careta, dizendo que não
precisa mais. — Ei! Como foi o casamento da sua
amiga? Foi esse fim de semana, né? — pergunto e
ela abre um sorriso tão grande que acho que vai
partir seu rosto ao meio.
Olha só essa cara de quem aprontou.
— Foi fim de semana passado, sua desnaturada.
Eu me diverti bastante — diz, com um olhar
travesso, e eu apoio o rosto nas minhas mãos,
esperando mais informações. — Tive uma
companhia bem interessante. Digamos que o
armário de casacos foi bem usado. — Minha boca
cai aberta e olho chocada para ela. Priscila e essa
mania de sexo em público. Deus me livre. — Não!
Não para isso. Só… uns amassos — diz, pisca para
mim.
Balanço a cabeça, segurando um riso.

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— E quem foi o sortudo?


Priscila morde a boca e ergue as sobrancelhas
para mim.
— Você não vai dizer, vai? — Ela nega com a
cabeça. Certeza que é alguém que eu conheço. O
que me faz lembrar… — Calebe te ligou? —
pergunto.
Ela inclina a cabeça para o lado.
— E como ligou.
Priscila pisca para mim e sai andando.
Solto uma gargalhada quando a vejo toda
rebolativa andando em direção à sua sala. Estou
cercada de doidos. Será que foi Calebe que ela
arrastou para a festa? Se fosse outra época, certeza
que teria sido Guilherme o felizardo. Priscila não
convida para eventos assim nenhum dos caras com
quem ela se envolve. Alguma coisa sobre eles se
acharem muito importantes. Então, desde que a
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gente se conheceu, sempre sobra para o meu irmão


fazer companhia para todas as infindáveis festas
que ela arruma para ir. Cheguei a me perguntar
uma época se não tinha nada acontecendo entre
eles. Nenhum dos dois confirmou isso. Mas
também não negaram.
Nem me meto mais.
Volto a trabalhar e confiro a agenda de Eduardo.
Ele está com tudo livre hoje. Passo o olho pelo
calendário da semana e vejo poucas reuniões, só
tem um amanhã às cinco com… Ah, estava bom
demais para ser verdade. Lorena. Não vou nem me
estressar que é para não dar rugas. Eduardo não
quer nada com ela, então não tenho com o que me
preocupar.
Certo?
Certo.
Certo?
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Passos as horas seguintes trabalhando e, quando


o relógio marca duas da tarde e percebo que estou
com muita preguiça de sair para almoçar, salvo
tudo que estou fazendo no computador, agarro uma
pasta com documentos que precisam de assinatura e
vou até a copa ver se tem alguma coisa que eu
possa beliscar para não precisar deixar o prédio.
Encontro biscoitos perdidos em um pote e
surrupio alguns. E encontro também Rafael,
apoiado na bancada, mexendo no celular. Não
conversamos além de poucas mensagens trocadas
no fim de semana depois de eu ter fugido da sua
casa correndo igual a uma maluca daquele jeito.
Então respiro fundo e vou até ele.
— Oi — digo, e ele ergue os olhos em minha
direção por um segundo apenas antes de voltar a
encarar a tela.
— O quê? — responde, seco.

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Ai.
— Você já foi almoçar?
Nada.
— Abriu um mexicano aqui perto. Você gosta
de comida mexicana, não gosta?
Apelo para a tática infalível dele de tagarelar até
o mundo acabar, mas nada. Silêncio total e
absoluto.
— Rafael?
Ele suspira e desliga a tela do aparelho, enfiando
no bolso. Rafael balança a cabeça e olha em minha
direção.
— O que você quer, Juliana? Você não pode
simplesmente fingir que está tudo bem.
Talvez…?
Eu estava contando que eu pudesse, para ser
bem sincera. É claro que ele ficou bem irritado por
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ser deixado daquela maneira sem nenhuma


explicação, mas… Ah, porcaria, é claro que está
irritado.
— Rafa, eu preciso te pedir desculpas por ter
saído daquele jeito da sua casa.
Ele inclina a cabeça e aperta os olhos.
— Não, Juliana. Você tem que pedir desculpas
por não me dar nenhuma explicação, por ter
desaparecido completamente e não ter se dado ao
trabalho de me procurar em quase um mês. O que
não falta no mundo é mulher para pegar, mas eu
gosto de você. Achei que fôssemos amigos. E não
imaginei que uma amiga se prestaria a me usar
daquele jeito.
Ele desencosta da bancada e passa por mim,
tocando meu ombro no caminho.
— Você sabe onde me encontrar, Ju. Tem meu
número, sabe onde moro. Só não vem me pedir
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desculpas porque está entediada, porque precisa de


um plano B para alguma coisa ou porque resolveu
ficar com a consciência pesada. Não achei que de
nós dois fosse eu a ter que ser o maduro da
situação. E sua consciência é problema seu.
Ele vai embora. E me deixa sozinha com esse
tapa na cara que acabei de levar.
A última coisa que queria era machucá-lo, e não
percebi que estava fazendo isso. Bem idiota, eu sei.
Olhando para trás agora, não consigo nem entender
o que eu estava pensando para achar que aquilo era
uma boa ideia. Guilherme teve razão em tudo que
gritou na minha cara naquela noite, e isso devia ter
sido o suficiente para me impedir de ir para a casa
de Rafael. Mas fui teimosa demais para admitir
meu erro antes de empurrar tudo ladeira abaixo.
Espero não ser tarde demais para recuperar uma
amizade, mas vou entender se Rafael não quiser

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mais olhar na minha cara. Eu provavelmente não


voltaria às boas assim tão facilmente se me sentisse
usada da forma como o usei.
Vou precisar pensar em alguma coisa para
começar a consertar isso.
Se tiver conserto.

Estou inquieta andando de um lado para o outro


do apartamento quando Eduardo sai do banho, uma
toalha enrolada na cintura. Distraio-me olhando
para seu abdome por um minuto e esqueço minhas
preocupações completamente quando ele solta a
toalha e, completamente nu, anda em direção ao
armário para apanhar algo para vestir.
— Vamos combinar uma coisa — digo,

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recostando na parede para admirar as costas dessa


tentação em forma de homem. Eduardo me olha
sobre o ombro, esperando. — Você não usa mais
roupa quando estiver neste apartamento.
Edu sorri e balança a cabeça, passando a cueca
pelas pernas e eu faço biquinho. Para minha
felicidade, isso é tudo que ele veste antes de vir na
minha direção e me puxar para um abraço e em
seguida para um beijo.
— Não era nem para eu estar neste apartamento
— murmura contra o topo da minha cabeça. —
Achei que você quisesse mais espaço. — Seu tom é
de pergunta enquanto ele se curva para alcançar
meu pescoço, e eu suspiro.
— E quando é que eu sei o que eu quero? —
resmungo, e ele ri, levantando meu queixo em sua
direção.
Eduardo deposita um beijo delicado na minha
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boca.
— O que há de errado com você hoje? Está
agitada o dia inteiro.
Aconchego-me em seus braços, acomodando-me
em seu peito.
— Rafael — resmungo e espero pelo protesto.
Mas, ao invés disso, sinto o peito dele subir e
descer em uma respiração profunda e silenciosa.
Olho para cima, surpresa e confusa. Edu abaixa a
cabeça e toca meus lábios com os seus brevemente.
— Você é inacreditável — sussurra.
Ele me puxa para a cama e me deita em seu
peito, afagando meu cabelo.
—Achei que você fosse ficar com ciúmes.
Eduardo sabe da história inteira. Sabe que era na
casa de Rafael que eu estava antes de ir até ele,
sabe do que aconteceu. Sabe sobre minha tentativa

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inútil de tentar tirá-lo da minha cabeça.


— Eu estou — diz.
Bufo, levantando do seu peito e erguendo a
cabeça para olhá-lo.
— Você realmente precisa aprender a expressar
melhor seus sentimentos — digo, erguendo uma
sobrancelha. — Isso não parece nem um pouco
com ciúmes.
Ele aperta os lábios por um segundo, inclinando
a cabeça.
— Pode não parecer, mas é — explica. — Mas
não tem muita coisa que eu possa fazer quanto a
isso. Não é como se pudesse demiti-lo para tirá-lo
das minhas vistas.
— Você meio que pode — murmuro contra seu
ombro e ouço um suspiro irritado. — Não, Edu,
não acho que faria isso.

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Ele beija o topo da minha cabeça.


— Espero que não. O fato é que estou com
ciúmes, e provavelmente sempre vou ter, porque
você achou que ele era bom o suficiente para me
tirar do jogo. — Eduardo me puxa para si de novo e
beija meu pescoço, enganchando em mim e me
apertando forte como se eu fosse fugir. — Me diga
qual o problema.
Puxo sua cabeça para mim e o beijo. Suas mãos
me apertam e preciso me concentrar para não
deixar que o beijo se torne mais que isso, e eu
acabe com minha roupa jogada no chão. Preciso
que ele me escute, mas, principalmente, preciso que
me sinta. Que sinta nesse beijo o que preciso dizer.
Então seguro seu rosto, prendo sua boca na minha,
e ele engancha uma mão em meu cabelo. Lento.
Longo. Profundo.
— Ninguém é bom o suficiente para te tirar do

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jogo — digo, olhando-o nos olhos, absorvendo a


limpidez de suas íris castanhas. — Não tem jogo.
Eu tive medo de me entregar a você, medo de me
apaixonar e me machucar. Mas não tenho mais.
— Não vou te machucar. — Sua voz é uma
promessa enquanto ele me olha com atenção. —
Nunca vou te machucar.
Concordo com a cabeça. Eu sei.
— Não precisa ter medo — murmura,
aproximando-se da minha boca. — Pode se
apaixonar à vontade — provoca.
Sorrio contra seus lábios.
— Não é como se eu pudesse evitar — confesso.
Eduardo sorri com carinho e me beija de novo,
sussurrando palavras doces que derretem um pouco
mais meu coração. E é entre beijos sussurrados que
caímos no sono, em uma paz até então
desconhecida e muito bem-vinda.
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Capítulo 28

SAIO DO ELEVADOR NA MANHÃ de terça-


feira com Eduardo atrás de mim, com a cara
enfiada na tela do celular, digitando
enlouquecidamente um e-mail. Deixo minha bolsa
em cima da mesa e respiro fundo, o que o faz parar
a caminho da sua sala e olhar na minha direção.
—Vai lá — indica, com um sorriso discreto no
rosto, em um gesto de encorajamento que me faz
querer beijá-lo.
— Ei, não me diga o que fazer — sussurro de
volta, em uma provocação que o faz erguer uma
sobrancelha.

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Eduardo olha ao redor, percorrendo os olhos


pelo andar para ver se tem alguém prestando
atenção em nós. Ele se inclina na minha direção e
arrasta a barba no meu pescoço.
— Você não reclamou disso mais cedo no
chuveiro. — Arrastando seus dentes naquele
pontinho certeiro atrás da minha orelha, ele se
afasta e sorri, deixando-me com um arrepio no
corpo.
Isso vai ter volta.
Ele que me aguarde.
Encaro descaradamente enquanto Eduardo vai
para a sua sala e sorri para mim por sobre o ombro
antes de fechar a porta.
Sacudo a cabeça, tentando expulsar o sorriso do
meu rosto enquanto caminho em direção à mesa de
Rafael. O loiro já está sentado na frente de seu
computador, remexendo em uma pilha de fotos, e
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ouço quando um xingamento escapa da sua boca e


ele espalha todas na mesa.
— Precisa de ajuda com isso? — pergunto e ele
me olha, balançando a cabeça. — Tem certeza?
Você sabe que aprendi muita coisa com Guilherme.
O que quer que você esteja tentando fazer aí, eu
consigo agilizar.
Puxo uma cadeira e sento ao seu lado e,
contrariado, ele me explica pelo que está
procurando. Em questão de minutos, organizamos
tudo na ordem certa, separando as imagens com
qualidade ruim para serem descartadas e evitar
Renato reclamando por bobagem. Quando
terminamos, Rafael se vê forçado a olhar na minha
direção.
— Desculpa — peço, e ele balança a cabeça
com um sorriso triste. — Me escuta. Eu sei que
errei feio com você e não tem nem justificativa para

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o que fiz.
Ele suspira pesadamente.
— Realmente não tem — diz.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer? Existe
a menor possibilidade de a gente começar de novo?
Ele recosta na cadeira e seu olhar baixa para o
seu colo. Rafael dá os ombros.
— Não sei, Ju. Talvez. Você não é minha pessoa
favorita do mundo no momento. E acho difícil que
volte a ser.
— Eu sou a pessoa que você mais odeia no
mundo? — pergunto e ele ergue os olhos para mim.
— Não — responde com o cenho franzido.
— Posso trabalhar com isso — digo. — Eu
realmente gostaria de ser sua amiga. E prometo
que, quando não piso na bola desse jeito, sou a
melhor que você pode ter. Dou os melhores

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conselhos e faço bolo de coco — brinco.


Rafael sorri. Não é um sorriso aberto como
sempre foi, mas é um começo. É um sorriso que diz
que ele não acredita no tamanho da minha cara de
pau. Nem eu acredito. Paciência.
— Almoça comigo hoje? Posso só tentar fazer
as coisas voltarem ao normal?
Ele ergue a sobrancelha.
— Não vai almoçar com Eduardo? — Abro a
boca sem saber o que responder. — Vocês
disfarçam muito mal, Juliana. — Sua reprimenda
vem em um tom debochado, o que me deixa um
pouco menos nervosa, mas ainda preocupada. Seu
sorriso se amplia. — Estou brincando, não precisa
fazer essa cara. Parece que vai ter um troço. Eu vi
vocês outro dia, no final daquela reunião. Voltei
para buscar uma caneta que tinha esquecido na sala
de conferências e vi você arrumando seu sapato, se
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apoiando nele. E a mão dele estava muito bem na


sua cintura para ser acidental. — Ele dá os ombros.
— Juntei uma coisa com a outra.
Rafael me olha, esperando uma resposta.
Confirmo com um suspiro e ele sorri de lado,
balançando a cabeça.
— Se era para ser usado para fazer ciúmes em
alguém, pelo menos Eduardo parece um
concorrente digno — ele brinca, mas a pontinha de
chateação está na sua voz.
— Eu não estava tentando fazer ciúmes em
ninguém — digo.
Rafael me olha como se estivesse tentando
decidir se falo a verdade ou não.
— Prometo.
Ele dá os ombros mais uma vez.
— Bom… Não importa agora — responde.

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Pelo menos está falando comigo. Já é alguma


coisa. Continuo olhando para ele, esperando pela
resposta. Rafael ri quando me vê estalando os
dedos e balança a cabeça, murmurando alguma
coisa para si mesmo.
— Me atualiza na hora do almoço. Mas você
paga. E eu quero a tal comida mexicana naquele
restaurante caro que falou ontem.
Mercenário.

Rafael me deixa na minha mesa perto da uma da


tarde. Entre sorrisos e conversas fáceis, não me
deixou esquecer que está chateado, mas voltou a
tagarelar sem parar como sempre. Ele me contou
sobre alguns problemas que vem tendo com

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Renato, falou de seus pais, primos, amigos, ex-


colegas de trabalho, em monólogos gigantescos que
me arrancaram risadas altas o suficiente para fazer
todo mundo do restaurante olhar para a gente. Mas,
o mais importante do dia, me falou sobre essa
mulher nova que conheceu. Espero que dê certo.
Tive a impressão de as coisas estarem meio
complicadas e ele parece meio incerto, mas o jeito
que falou dela fez claro que gosta mesmo da
mulher. Rafael é um bom homem, tenho certeza
que, quem quer que seja, vai reconhecer isso.
E aí cai a ficha de que é por isso que ele não está
querendo arrancar minha cabeça fora. Está muito
bem distraído. Já quero dar um beijo nessa mulher.
Sinto-me mais leve. Sei que tenho um caminho
bem longo para fazer Rafael esquecer minha
mancada, mas começamos bem. É bom ter alguém
leve assim por perto. Como eu pude pensar que ele

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seria capaz de me fazer tirar Edu da cabeça? Os


dois não podiam ser mais diferentes.
Eduardo é um poço de intensidade que me
envolve e me engole nos seus domínios. E eu vou,
feliz, contente e muito satisfeita. Em pensar que
achei que uma noite de sexo quente resolveria esse
assunto. Parece que quanto mais tempo passo com
ele, mais perto quero ficar. E Edu não ajuda em
nada sendo todo receptivo e não colocando limites.
Só me faz querer mais.
Perco-me nos meus pensamentos, mas logo
volto para o trabalho e não demora muito para que
uma mulher que nunca vi antes parar na frente da
minha mesa.
— Juliana? — pergunta e confirmo com a
cabeça. — Senhor Rodrigues quer falar com você.
Franzo a sobrancelha, perguntando-me se é o
primeiro dia dela aqui ou alguma coisa assim e ela
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se confundiu. Quem contratou essa garota? Priscila


eu sei que não foi, e esse é o trabalho dela. A
morena parece ser bem novinha, provavelmente
uma estagiária recém-contratada, e está bem
nervosa, colocando um fio do cabelo preto atrás da
orelha, equilibrando-se em cima de saltos altos
demais para o bem de qualquer pessoa. Meus pés
doem em solidariedade.
Aponto por sobre o ombro para a porta fechada
de Eduardo.
— Senhor Rodrigues…?
Ela balança a cabeça em negativa.
— O outro senhor Rodrigues.
Ah.
Ah!
Quê?
— Tem certeza?

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Ela concorda com a cabeça.


Começo a revirar minha mente, tentando me
lembrar de alguma coisa que precisasse resolver
com ele e esqueci. Algum contrato errado. Alguma
reunião não marcada. Qualquer pendência que faça
com que precise falar especificamente comigo. A
não ser que seja alguma coisa entre ele e Eduardo e,
por causa da birra que existe entre eles, Vinicius
queira me usar de intermediário. Não sei qual o
problema entre os dois, mas não vou ficar de
pombo-correio não.
Suspiro, muito contrariada. Levanto, e a menina
lidera o caminho que eu já conheço. Chegando à
sala, ela bate na porta, abrindo passagem para mim.
O amplo e espaçoso escritório parece ostensivo
demais, como uma tentativa forçada de mostrar
dinheiro. Já sei que você é rico, não precisa disso.
Está tentando compensar alguma coisa com esta

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sala enorme, Vinicius?


Viro para agradecer a garota, mas ela já
desapareceu. Então tá…
Vinicius está sentado em sua mesa, em uma
postura muito parecida com a de Eduardo, mas ao
mesmo tempo não tem como ser mais diferente. Ele
me olha e sorri, um sorriso bem cheio de dentes,
daqueles largos e claramente forçados. E um frio na
espinha me atinge. Sabe quando você está
assistindo algum daqueles programas de vida
selvagem e o leão está pronto para dar o bote na
pobre da zebra desavisada? Provavelmente não,
porque eu sou a única maluca que assiste essas
coisas. Mas é exatamente essa a sensação: de que
ele está prestes a me caçar.
— Boa tarde, senhor Rodrigues —
cumprimento.
Seguro minhas mãos em frente ao corpo e
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endireito a postura, olhando para ele com o queixo


empinado. Vinicius estende a mão e me indica uma
cadeira à sua frente. Sento, olhando para ele com
um forçado sorriso cordial no rosto.
— Você pode me chamar pelo primeiro nome,
cunhada.
Congelo.
Droga.
Seu sorriso aumenta diante da minha cara de
espanto.
— Sabe, Ju… Posso te chamar de Ju, não posso?
Somos todos uma grande família agora.
Não, não pode.
Nunca.
Nem se atreva.
— Eu fiquei bem chateado quando minha mãe
me ligou dizendo que a namorada do meu irmão
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tinha estado no hospital com meu pai. E foi visitá-


lo depois várias vezes. Veja, não é nada contra
você, em absoluto, embora eu não possa mentir e
precise dizer que acho que Eduardo pode fazer
melhor que isso. — Ele ergue as duas mãos para o
alto, como se se desculpasse pelo que diz e eu só
quero revirar os olhos. — Mas isso é problema
dele, não me diz respeito.
Se não te diz respeito, o que eu estou fazendo
aqui, perdendo meu precioso tempo e gastando
minha beleza com você?
— A questão é que se Eduardo quer esquecer
que tem quase quarenta anos na cara, e decidiu se
comportar feito um menininho inconsequente tendo
um caso com a secretária, o problema é todo dele.
Agora — pausa, suspirando dramaticamente —, a
partir do momento em que ele deixa o casinho dele
interferir na minha vida, aí isso passa a ser

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problema meu.
Interferir na vida dele como se nem se deu nem
ao trabalho de procurar saber o que está
acontecendo? Eu estive com Alex mais do que ele,
vi seu pai nesse último mês mais vezes do que o
filho mais velho.
Respiro fundo para não dar na cara desse
nojento.
— Vinicius, eu não sei o qu...
— Juliana — ele interrompe —, eu entendo
você estar deslumbrada. Meu irmão é um homem
bonito e passa essa impressão de moço de família
que encanta vocês. Não te julgo por ter caído na
lábia dele.
Sinto meu corpo enrijecer e arrumo a postura na
cadeira. Por que sinto que vem bomba por aí?
— Mas nem tudo é o que parece ser, minha cara.
Você é nova, talvez nova demais para ele, inocente,
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não consegue entender a situação como um todo. E


talvez você ache que é uma boa ideia ficar com
Eduardo, mas te garanto que esse relacionamento
vai acabar em uma gigantesca catástrofe.
Balanço a cabeça. O mau-caratismo desse
homem está ultrapassando tudo que eu imaginava.
Começo a me perguntar pelo que mais Fernanda
passou, porque estou na mesma sala que ele por
cinco minutos e já quero esfolar essa cara nojenta.
Levanto da cadeira. Ele não me chamou aqui a
trabalho então não preciso tratá-lo como presidente
da empresa.
— Fico tocada pela preocupação, Vinicius —
digo, sorrindo. — Mas eu sou perfeitamente capaz
de julgar o caráter de alguém.
Como estou julgando o seu agora, babaca.
Ele sorri, um sorriso ferino.
— Não duvido disso, minha querida. E
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honestamente não estou preocupado com você,


estou preocupado comigo.
E eu com isso?
— Sabe, Juliana, meu querido irmão sempre
trabalhou muito duro aqui. Esta empresa é a coisa
mais importante da vida dele, tenho certeza que
você sabe disso. — Seu tom não esconde
exatamente o que ele está querendo dizer com isso.
A insinuação descarada de que eu estou
interferindo. — E ele anda… relapso. Não fica
mais trancado no escritório dia e noite, não resolve
meus problemas. E eu meio que preciso que
Eduardo faça meu trabalho. Então preciso que você
saia do meu caminho e pare de ser uma distração
tão grande.
Eu rio. Eu não consigo não rir do tamanho do
absurdo. Existe um limite de ridículo, e Vinicius
acabou de ultrapassar todos. Balanço a cabeça,

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incrédula.
— Que bonitinha, ela está achando graça — diz
em um tom tão cortante que me cala. — Pode rir,
querida, o quanto quiser. Mas primeiro tem uma
coisinha que você precisa saber.
Lá vem.
— Sente-se. Vou te contar uma história. Depois
você decide se vai continuar com seu amado ou
não.

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Capítulo 29

ALGUMA VEZ VOCÊ JÁ SE PERDEU dos


seus pais quando criança? Eu já, uma vez, porque
cismei em sair correndo em direções aleatórias
quando ninguém estava segurando minha mão e
então percebi que não conseguia ver alguém
conhecido por perto. E aí é o maior dilema: fico
parada no mesmo lugar e espero alguém me
encontrar ou começo a andar em alguma direção e
arrisco me afastar mais ainda?
É assim que me sinto agora, sem ter certeza do
que fazer. Na verdade, o que quero é sair correndo
daqui o mais rápido que eu puder, para o mais
longe possível, até chegar em Nárnia e comer
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manjar turco com a Feiticeira Branca. Só que não


posso.
Nada de manjar turco para mim.
Caminho com as pernas bambas de volta para
minha mesa. Sinto minhas mãos tremerem e tenho
certeza de que preciso sentar logo senão vou acabar
caindo. Desabo na minha cadeira, apanho um copo
de água que está em um canto da mesa e o bebo,
mas não ajuda em nada a acabar com a secura da
minha garganta. Meu corpo todo parece tremer e
preciso respirar fundo muitas vezes para não me
render às lágrimas que começam a brotar. Encaro a
tela do computador sem realmente enxergar nada,
mas sei que estou olhando para a agenda de
Eduardo.
Ah, Eduardo…
Por quê?
Parece castigo. Certeza que eu quebrei um
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espelho enquanto passava debaixo de uma escada.


Só assim para justificar o tanto de azar que tenho
nesta vida. Ou é castigo por eu tanto dizer que não
acreditava em romances de contos de fada e agora o
universo está me punindo, tirando de mim o final
feliz que nem sabia que queria, e que agora não
consigo me imaginar vivendo sem.
Por que tem que ser assim?
Por que não posso simplesmente me apaixonar
por Eduardo e ele se apaixonar por mim de volta e
tudo ficar bem?
Mas não.
Parece pegadinha. Quando não sou eu
avacalhando com tudo, Vinicius aparece do inferno
para dificultar minha vida.
Afundo a cabeça nas mãos e forço as lágrimas a
ficarem bem presas dentro de mim, não posso
chorar assim em público, principalmente não antes
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de falar com ele.


Não quero fazer isso.
Não quero falar com ele.
Não posso fingir que a gente simplesmente vai
ficar junto e tudo vai ficar bem. Não vai.
Agora tenho certeza de que não vai.
Não quero falar com ele.
Mas melhor que doa agora do que destrua
completamente nossa estabilidade emocional em
um futuro perto.
Não posso mais ficar com ele, não sabendo o
que sei. Não sabendo quanta dor está prevista para
um momento muito próximo se eu insistir com isso.
Olho a hora e o relógio marca duas e quinze.
Levanto da cadeira e vou, a passos incertos, em
direção à sala de Priscila. Preciso que ela me ajude
a colocar um mínimo de ordem na minha cabeça,
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senão vou enlouquecer. Passo por seu secretário


que está com a cara enfiada no computador e
levanta os olhos na minha direção.
— Ela está ocupada? — Ele nega com a cabeça.
— Não deixe ninguém entrar.
Minha cara de desespero deve ser tamanha que o
homem nem me questiona. Abro a porta e fecho-a
atrás de mim, apoiando na madeira para não cair. E
é só eu fechar a porta que não consigo mais segurar
o choro, um soluço escapa da minha garganta.
— O que aconteceu? — Priscila pergunta
alarmada ao me ver com os olhos vermelhos e
lágrimas descontroladas escorrendo pelo meu rosto,
e não respondo nada, só ando em sua direção e
sento na cadeira antes que minhas pernas bambas
me abandonem de vez. Minhas mãos estão
tremendo, eu estou inteira tremendo e ela percebe,
porque levanta do seu lugar e vem até mim. — Pelo

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amor de Deus, Juliana, o que aconteceu? Você está


gelada, parece que vai desmaiar.
E é assim mesmo que eu me sinto. Ela se ajoelha
na minha frente e segura minhas mãos, olhando-me
com preocupação. Respiro fundo e tento colocar os
pensamentos em ordem, mas tenho certeza de que
falho quando começo a falar coisas desconexas e
ela me olha como se eu estivesse doida.
— Se acalma — minha amiga sussurra,
encarando-me com preocupação nos olhos.
Paro e respiro de novo. Duas, três vezes. E então
desisto, porque vou consumir todo o oxigênio do
planeta e nem assim vou ser capaz de me acalmar.
Então começo a falar. Conto a ela que Vinicius me
chamou para conversar, conto o que ele disse sobre
Eduardo, sobre o que ele fez, sobre quem
machucou. Priscila fecha os olhos e balança a
cabeça, apertando minhas mãos.

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Quando ela olha de novo na minha direção, o


desespero nos seus olhos seria engraçado se a
situação toda não fosse tão ridiculamente dolorosa.
— Você acha que ele está falando a verdade? —
pergunta, reticente.
Ela me olha com cuidado, como se analisasse
cada pensamento meu. Boa sorte com isso, eles não
fazem nenhum sentido no momento.
Nego com a cabeça.
— Não tem a menor chance de nenhum dos
absurdos que ele me disse ser verdade. Eduardo
nunca faria nada daquilo — murmuro, balançando
a cabeça.
Vejo quando Priscila suspira aliviada, mas eu
não estou nem perto de me sentir assim. Ela entorta
a cabeça e cerra os olhos.
— Você não parece tão convencida assim.

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Sorrio. As voltas que o mundo dá. Algumas


semanas atrás eu estaria arrancando os cabelos e
querendo dar na cara de Eduardo. Mas depois de
tudo que vivemos nesses dias, não consigo
acreditar no que Vinicius falou. Não faz sentido. O
caráter que sei que Eduardo tem não permite que
nada daquilo seja verdade. Adolescentes
fofoqueiras seriam mais criativas que Vinicius para
inventar histórias mal explicadas como as que ele
me contou.
É claro que tem uma parte da minha cabeça que
está gritando, descabelando-se e me pedindo para
correr o mais rápido possível para as montanhas do
Tibete. Mas é uma parte pequena demais para ser
ouvida. É só minha insegurança falando e eu decido
ignorá-la.
— Sei que não é verdade — confirmo e ela me
olha por um segundo a mais.

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— Então qual o problema?


E eu rio. Um riso bem descontrolado, daqueles
que só aparecem quando o desespero é tão grande
que nada mais faz sentido. O problema é que fui
idiota o suficiente de dizer na cara de Vinicius que
não acreditava nele. E, ao invés de ser uma pessoa
sensata uma vez na vida e se dar por vencido, ele
fez tudo ficar muito pior.
Conto para ela que ele insinuou — acusou —
que Eduardo mudou muito nos últimos meses e está
relapso por minha causa, que esta empresa é tudo
que mais importa na vida de Eduardo e que seria
uma pena se fosse tirada dele.
— Queria poder dizer que foram ameaças
veladas, Pri, mas não foram. Ele se fez muito claro
de que ou termino tudo com Eduardo e dou um
jeito de ele voltar a viver vinte e quatro horas por
dia para este lugar ou ele vai tirá-lo da empresa.

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Priscila balança a cabeça.


— E como ele vai fazer isso? Não faz sentido,
Juliana.
Olho para ela e sinto minha garganta fechar com
as lágrimas que não consigo mais segurar. Sacudo a
cabeça, negando. Não quero. Priscila insiste,
apertando meus dedos em encorajamento, e eu
sinto meu peito se despedaçar quando começo a
falar. Quando digo cada palavra do que Vinicius
tem contra o irmão.
Não são fofoquinhas bobas como as que ele
tentou me empurrar primeiro, e vi nos olhos dele a
indecisão, por um segundo apenas, antes de cada
detalhe dessa sujeira começar a sair da boca dele. É
como se nem Vinicius mesmo estivesse confortável
em usar isso, como se fosse o último recurso
disponível, a última cartada.
Vejo quando a boca dela cai aberta assim como
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a minha caiu ao ouvir o que ele disse.


— Juliana… — Sua voz é falha, e eu apenas
fecho os olhos e aceno com a cabeça. — Isso é
muito sério. Tem certeza que é verdade? Porque se
for…
— Se for verdade vai destruir Eduardo
completamente. Não só o posto dele aqui dentro, a
vida dele inteira — completo. Ela me olha em
silêncio e eu quero gritar. — Por favor, me diz que
eu não preciso fazer isso.
Priscila me puxa para um abraço e eu desabo no
seu colo.
Não agora, logo agora que tudo está tão bem.
Não quero ficar longe dele. Não quero me afastar.
Não quero.
— Me diz que estou só fazendo drama como
sempre, que não é tão grave assim e eu posso só
continuar com ele e fingir que não vai acontecer
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nada.
Ela me aperta mais em seus braços e meu
desespero só aumenta.
— Me diz — imploro.
Priscila me deixa chorar em seu ombro e nem
sei quanto tempo se passa até que eu levante e me
force a secar as lágrimas.
— Ju… — O pesar no olhar dela já me diz tudo
que preciso saber. — Eu sinto muito — ela suspira
—, muito mesmo. Mas…
— Eu sei.
— Você não precisa fazer nada, mas…
— Eu sei.
Posso ficar e arriscar que Vinicius cumpra a
ameaça e destrua tudo que mais importa para
Eduardo. Talvez ele não faça, talvez ele esteja
blefando, talvez… Mas e se fizer? Como vou viver

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sabendo que podia ter evitado destruir sua vida e


não o fiz? Como posso arriscar machucá-lo assim?
— Qual é o problema daquele babaca? — ela
praticamente grita, irritada. — Quem guarda esse
tipo de informação e usa para ameaçar o próprio
irmão?
Encosto a cabeça na cadeira e fecho os olhos,
um sorriso fraco cresce no meu rosto. Nesse ponto
Vinicius tem razão: é minha culpa mesmo.
— Eduardo foi até o pai dele quando a gente
descobriu a história da Fernanda — digo. — Pedir
para Alex tirar Vinicius daqui.
Lembro-me de como ele ficou possesso quando
contei o que aconteceu, como não pensou duas
vezes antes de se meter e tentar resolver o assunto.
Quando provou mais uma vez o homem que ele é.
Um homem que não merece aquela porcaria de
irmão.
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Ouço um palavrão ser cuspido da boca da minha


amiga e abro os olhos em sua direção.
— Vinicius empurraria a própria mãe escada
abaixo por um pouco mais de dinheiro e poder —
diz com firmeza. — Se é o caso de ele perder a
presidência da empresa, acredite em mim, ele vai
cumprir a ameaça.
Franzo o cenho para ela.
— Você está dizendo isso com uma certeza
assustadora.
Priscila solta minhas mãos e esfrega o rosto com
as suas, colocando mechas de cabelo atrás da orelha
com brincos grandes demais. Ela balança a cabeça
e abre um sorriso triste.
— Conheço Vinicius melhor do que gostaria —
diz e eu ergo as sobrancelhas, esperando que
continue falando. — Isso é tudo que você precisa
saber, Ju.
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— Você nunca escondeu nada importante de


mim — aponto.
Priscila se inclina na minha direção e seca meu
rosto, tirando do caminho lágrimas que molham
minhas bochechas, e dá um beijo na minha testa.
— Sinto muito — murmura. — Mas dessa vez
eu vou.
Ela me puxa de novo para o seu colo e tento
com tudo que tenho não cair no choro de novo.
— Preciso falar com ele — murmuro, falhando
em segurar as lágrimas.
Priscila me solta e me ajuda a ficar de pé.
—Vou ter que concordar com Vinicius em uma
coisa, Ju. Eduardo mudou muito desde que te
conheceu. — Um sorriso cresce no rosto dela. —
Conheço aquele rabugento há muito anos, e ele
nunca pareceu tão feliz. — Vejo o pesar nos seus
olhos ao dizer isso, porque ela sabe bem o que eu
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estou prestes a perder.


Um riso fraco escapa da minha garganta. Se ela
soubesse como ele ainda é rabugento…
Principalmente de manhã logo que acorda. Tão
lindo com a cara toda amassada do travesseiro,
cabelo despenteado e rosto sonolento. Uma bola se
forma na minha garganta. Não estou pronta para
ficar sem isso. Quando eu finalmente paro de
bancar a louca fugitiva e aceito que estou
apaixonada por ele…
— Ele sabe que te faz feliz. Acho difícil que
simplesmente aceite calado que você vai embora
sem um bom motivo.
Suspiro.
Ela está certa.
Lembro-me das mentiras descaradas que
Vinicius contou e fecho os olhos, xingando-me
pelo que vou fazer. Parece que vou ter que mentir
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também.
Solto as mãos de Priscila e vou em direção à
porta, respirando fundo e rezando por uma
interferência divina, um milagre que permita que eu
não precise fazer isso.
Mas, quando chego à porta de Eduardo e nada
acontece, nenhum raio cai do céu, nenhuma praga
de gafanhotos invade o escritório, percebo que não
tenho outra escolha.
A ameaça de Vinicius grita na minha cabeça.
Não tenho escolha, não posso deixar que ele
acabe com a vida de Edu assim.
Alcanço a maçaneta, fazendo o que eu posso
para não chorar.
Vou matar Vinicius por isso.

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Capítulo 30

NÃO BATO NA PORTA COMO SEMPRE


faço, simplesmente giro a maçaneta e entro.
Eduardo levanta os olhos de uma folha que
segura e sorri quando fecho a porta atrás de mim.
Ele tira os óculos do rosto e recosta na cadeira,
cruzando os braços, os olhos cintilando em minha
direção.
— Como foi o almoço? — pergunta.
Não respondo, porque não importa. Não
respondo, porque estou ocupada demais bebendo a
visão desse homem pelo que pode ser a última vez
se eu for forte o suficiente para ir embora antes que

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ele se machuque. Quero rir. Olha o absurdo da


situação. Passei praticamente o último mês todo
com medo de me machucar, e aqui estou eu, pouco
me lixando para isso. O que você fez comigo,
Eduardo?
Olho para o seu rosto, sua barba perfeitamente
alinhada, seus lindos olhos brilhantes cercados por
umas ruguinhas no canto que dão a ele um charme
que nem devia existir. O nariz torto que sempre me
faz sorrir. O terno azul marinho, meu favorito, que
agora sei esconder um corpo capaz de levar
qualquer mulher ao paraíso. Que esconde um
coração que transborda.
Tranco a porta e ele ergue a sobrancelha para
mim.
— Está tudo bem?
Claro que não. Olha para a minha cara, isso é
pergunta que se faça? Claro que não está tudo bem.
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Ando pela sala fechando as persianas,


bloqueando a visão do exterior.
Não estou pronta para dizer adeus, mesmo
sabendo o tamanho do estrago que isso vai fazer,
mesmo sabendo a dor que isso vai causar. Vai doer
de qualquer forma.
Viro em sua direção e ele me encara com
curiosidade.
A cada passo que dou em sua direção, desabotoo
um botão da minha blusa e vejo Eduardo se
remexer na cadeira, sem tirar os olhos das minhas
mãos. Quando o alcanço, meu sutiã já está à
mostra.
— Lia? — ele questiona. Surpreso, confuso.
Sabendo que isso não é do meu feitio.
— Esse apelido não faz o menor sentido —
murmuro, e ele sorri.
Sento em seu colo e ele imediatamente me
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segura, suspirando de surpresa quando tomo sua


boca em um beijo profundo, quase feroz. Arrasto as
unhas por seu pescoço antes de descer a mão para
sua gravata, afrouxando o nó.
Eduardo me segura pela cintura e me tira de seu
colo. Por um segundo acho que ele vai tentar me
parar, mas, ao invés disso, fica de pé e me ergue,
colocando-me sentada na mesa, ficando de pé em
frente a mim. Sinto papéis amassando debaixo da
minha bunda, mas não me importo. Minha saia
sobe quando abro as pernas, passando-as pela
cintura dele.
Suas mãos agarram meus seios e sua boca vai ao
meu pescoço.
— O que você está fazendo, Juliana? —
pergunta em uma voz rouca, e quero fazer uma
piada, devolvendo suas palavras de semanas antes,
dizendo que ele não é virgem e sabe muito bem o

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que estou fazendo, mas nada sai da minha garganta.


Porque piadas não têm espaço aqui.
Não vão ter espaço nunca mais.
Então, ao invés de dizer qualquer coisa, puxo-o
de volta para mim e ele me deita sobre o tampo de
madeira, derrubando desordenadamente blocos de
papel e algo que faz um barulho estridente, um
baque seco contra o chão, e eu torço para não ter
sido o computador. Não me importo o suficiente
para procurar saber quando a boca dele alcança
meu seio por sobre o tecido fino do sutiã, e eu
suspiro. De satisfação, de antecipação por saber
exatamente quanto prazer esse homem é capaz de
me dar.
Mas hoje eu quero mais. Preciso de mais. Quero
saber até onde ele pode me levar. Quero tudo que
Eduardo tiver para me oferecer, quero conhecer
cada segredo escondido nesse corpo. Quero saber
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quão forte pode ser, quão intenso pode ser. Quero


conhecer o céu e o inferno. Faço o que posso para
sufocar as lágrimas que tentam se formar por culpa
da voz irritante que grita na minha cabeça dizendo
que essa é a última vez que vou tê-lo.
Ele arrasta os dentes na pele exposta da minha
barriga e preciso mais do que isso. É insano que
essa é a primeira vez que eu não me questiono, não
tento me cobrir, não me sinto insegura com meu
corpo. Não tenho tempo para pensar nisso, perdida
no meio do redemoinho de emoções que me
consome. Meu corpo está desesperado por ele. Eu
estou desesperada por ele.
Pela última vez.
Levanto, tiro suas mãos de mim e alcanço seus
ombros, jogando para longe o paletó, e ele começa
a tirar a gravata enquanto trabalho para livrá-lo do
cinto. Desabotoo sua calça, descendo a peça e a

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cueca de uma vez só, fazendo-o saltar livre, pronto


para mim.
Desço da mesa e o empurro sentado na cadeira,
me posiciono entre seus joelhos e o tomo na boca.
— Puta que pariu. — Um suspiro escapa da
boca de Eduardo pela surpresa, e ele enrola meu
cabelo em sua mão enquanto o chupo. — Juliana...
Ele geme após alguns minutos, tocando meu
rosto como sempre faz quando está tentando me
parar, mas ignoro, e acelero quando vejo que está
tão perto de perder o controle.
— Eu não vou conseguir segurar por muito
tempo, Lia. — Sua voz é um misto de aviso com
pedido de desculpas, em uma voz trêmula que se
desfaz em um gemido rouco instantes depois
quando se rende e goza da minha boca. E eu o tomo
até a última gota enquanto ele me segura firme em
sua mão, tentando não derreter eu mesma pelo
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apelido completamente sem sentido que me deu.


Eduardo respira pesada e descompassadamente,
e me encara enquanto eu levanto.
— O que…? — pergunta, desabotoando a
própria blusa, livrando-se da última peça de roupa.
Dou os ombros.
Por mais intenso que tenha sempre sido o sexo
com Eduardo, existem barreiras que ainda não
rompemos, mas quero romper. Hoje. Aqui. Agora.
Ele tem tanto medo de me desrespeitar e eu fugir
feito uma louca por achar que ele está me usando,
que tenta se controlar, mesmo na cama. E eu adoro
cada vez que perde essa batalha. Mas sei que tem
mais, tem mais de Eduardo para ser entregue, e eu
quero tudo.
Parece que vai ser hoje.
Até porque é hoje ou nunca mais.

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Tento empurrar o pensamento para fora da


minha cabeça quando sinto uma bola se formar em
minha garganta e uma voz, minha própria
consciência implorando para que não me afunde
ainda mais, diz para eu terminar isso logo, antes
que seja mais difícil. Para que pare de postergar o
inevitável antes que comece a acreditar que posso
viver com o que sei, antes que comece a acreditar
que podemos fazer isso funcionar e que não vão ter
consequências.
Como se tivesse algum jeito de fazer isso ser
fácil. Até parece.
Tento empurrar o pensamento para fora porque
agora preciso dele. Preciso dessa despedida mesmo
que me mate. Mesmo que me mate depois. Porque
sei que Eduardo vai ficar furioso. Paciência. Algum
dia ele vai entender. Eu espero. Só espero que não
me odeie muito.

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Eduardo me fita com o olhar selvagem enquanto


vem em minha direção e engancha as mãos em
minha saia, empurrando-a para cima, enrolando o
pano na cintura antes de subir as mãos e achar o
fecho do meu sutiã. Ele me põe sentada na mesa de
novo e se posiciona entre minhas pernas.
— O que há de errado? — pergunta antes de
descer a boca para meu seio e me arrancar um
suspiro. — Não que eu tenha algo contra usar sexo
para esquecer os problemas — murmura, e sinto
seus lábios se fecharem na minha pele, fazendo-me
arrepiar. E não tem nada contra mesmo não, porque
faz isso o tempo todo.
Gemo quando sua mão me alcança por dentro da
calcinha, mas ele não desiste de me fazer falar.
— Você invadiu minha sala — diz, entre beijos
pelo meu colo, enfiando um dedo em mim —, tirou
a roupa e me fez gozar. Simples assim. — Ele

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engancha os dedos no meu cabelo e puxa, expondo


meu pescoço, e gemo com a pressão. — Não estou
reclamando, mas conheço você. O que aconteceu?
Pelo amor de Deus, como Eduardo consegue
estar racionando agora? Não consigo lembrar nem
por que vim aqui com ele assim tão perto.
— Mais forte — peço, ignorando sua pergunta,
e ele para o beijo em meu pescoço no meio do
caminho.
Eduardo enfia outro dedo em mim e puxa
novamente meu cabelo, com mais força dessa vez e
meu gemido é mais alto. Posso ver que está
relutante quando enfia mais um e puxa meu cabelo
com mais força, mas minha resposta é cravar as
unhas no seu braço e soltar um gemido alto o
suficiente para que ele tome minha boca na sua
para abafar o som.
— O que aconteceu, Juliana? — pergunta
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enquanto seus dedos me estimulam forte, rápido, e


seu toque firme aumenta e não me deixa.
Aconteceu que eu tenho bastante certeza de que
estou perdidamente apaixonada por você e essa é a
pior coisa que podia acontecer agora, porque
preciso te deixar. Porque nunca mais vou te ter
dormindo na minha cama, não vou acordar com
você enrolado em mim, não vou ver seu sorriso,
seus olhos. Porque eu sou fraca e quero ficar.
Quero fingir que não sei do que eu sei e quero ficar.
Quero te amar acima de tudo e qualquer coisa, me
convencer de que isso é o suficiente e que não
importa o inferno que sua vida vai virar por causa
do meu egoísmo. Mas sei que não posso.
Quero te amar.
— Preciso de você — sussurro contra seus
lábios. — Preciso de você agora.
Preciso de você para sempre.
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Ele intensifica o movimento dos seus dedos e eu


acho que vou explodir.
— Puta merda, Juliana — rosna. — Eu não
guardo camisinha no escritório.
Pois devia.
— Não me importo — respondo em um
sussurro. — Não me importo, preciso de você.
Eduardo solta um grunhido, me tira da mesa e,
mal meus pés tocam o chão, me vira de costas para
si, livrando-me da minha calcinha. Ele me inclina
sobre o tampo de madeira e sinto o material gelado
contra meus seios e barriga, quentes pelo desejo.
Sinto sua boca percorrer toda a extensão da minha
coluna antes de ele afastar minhas pernas e se
posicionar atrás de mim. Eduardo enrola meu
cabelo novamente em sua mão, puxando-me,
curvando-me para si.
— Tem certeza? — pergunta, e já posso senti-lo
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duro, pressionando-se contra mim, esperando


apenas um comando para me tomar.
Tenho, sussurro, e no segundo seguinte ele está
dentro de mim, de uma vez só, forte, firme, rápido,
quente. Suas mãos me seguram, me apertam no
limiar do prazer e da dor, e eu estou perdida,
entregue, devota.
Sexo com Eduardo devia ser uma religião.
Perco-me no prazer e gemo, implorando por
mais, e ele chia antes de segurar minha cintura e
estocar com força, balançando a mesa, cravando as
unhas na minha pele para me manter no lugar.
Eduardo para por um segundo, sai de dentro de
mim e me vira, pondo-me de costas na mesa, e
minhas pernas voltam a enlaçar sua cintura. Logo
ele está dentro de novo, segurando meu seio, a
outra mão cravada no meu quadril.
— Preciso olhar para você. Preciso te ver gozar
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— ele rosna como se lesse meus pensamentos. E


parece que esse é todo o estímulo que me falta,
porque me desfaço debaixo dele, em meio a
estocadas fortes que continuam por um minuto
antes de ele próprio agarrar minhas coxas ao atingir
o próprio orgasmo dentro de mim.
Eduardo se curva sobre mim, acomodando sua
cabeça sobre meu peito, em uma posição que não
devia ser confortável, mas eu simplesmente não
quero me mover. E não nos movemos, por um
longo minuto, ou dois. Ou dez.
Até que ele me pega no colo e caminha em
direção ao sofá, deitando-me, e beija meu pescoço
em um gesto já tão familiar que me faz querer
chorar. Eduardo me encara como se me visse pela
primeira vez. Seus olhos perfuram os meus por um
minuto inteiro, e o brilho que vejo ali me
desestabiliza mais do que achei ser possível.

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Uma onda de preocupação me atinge e me sinto


sufocar, porque sei que não posso enrolar mais.
Preciso ir.
Preciso ir antes que dor e arrependimento sejam
tudo que sobrou.
Mas, ainda assim, perguntas que não fazem
sentido brotam em minha mente porque estou a
ponto de virar as costas e nunca mais vê-lo.
Preciso saber que isso foi real.
Preciso saber que não estou louca sofrendo por
nada.
Preciso de alguma coisa que me faça conseguir
dormir hoje à noite, qualquer resquício de afeto
para manter minha sanidade e eu não me sentir a
maior idiota do mundo por me apaixonar por um
homem que é o sonho de qualquer garota.
Preciso saber que ele é meu tanto quanto sou

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dele.
Sua resposta para as minhas dúvidas vem na
forma de um beijo lento e sensual. Eduardo segura
minha cabeça com as mãos e me beija, como nunca
me beijou antes. Como quero que ele me beije
todos os dias. E quando ele fala, sua voz não passa
de um sussurro.
— Eu te amo. Eu te amo tanto, Lia. Você nunca
vai conseguir entender o tamanho do que sinto.
Mas te prometo passar cada dia da minha vida
tentando te mostrar isso.
Eu te amo.
E isso é o suficiente para que eu quebre em mil
pedaços.
Lágrimas rolam por meus olhos e eu soluço.
Ele me olha, assustado, preocupado, confuso, e
eu choro.

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— Lia…
Choro porque quero, porque imploro que um
pedacinho que seja da minha mente me diga que
Vinicius estava blefando. Que não existe a menor
chance de ele cumprir essa ameaça ridícula. Que eu
posso ficar, posso ficar com ele, e não vai ter dor,
arrependimento, culpa e decepção.
Choro porque, por mais que queria negar, sei
que aquelas palavras venenosas são reais. Não
quero que sejam, quero me iludir, me enganar, mas
não posso.
Dessa vez não posso me dar ao luxo de fazer
besteira e torcer pelo melhor. Não posso…
Choro porque não quero deixá-lo.
Choro porque o amo.
E é por finalmente entender que o amo tanto que
digo:

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— A gente não pode continuar com isso.

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Capítulo 31

ENCARO JULIANA, QUE TEM os olhos


embaçados por lágrimas que escorrem pelo seu
rosto, o farto lábio inferior preso entre os dentes,
denunciando seu nervosismo. Lia não me encara,
fitando as suas próprias mãos, como se não
suportasse a ideia de levantar o olhar na minha
direção. Sinto seu calor sobre minhas palmas que
pousam ainda sobre sua cintura, nua se não pela
saia embolada. Seus seios expostos, redondos,
acesos, revelando o seu desejo que em nada
combina com sua expressão de desespero.
— O quê? — pergunto, já que as suas palavras

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não fazem sentido. Certamente não ornam com a


expressão de sua face. Vejo dor em seus olhos e
meu peito se aperta. — Do que está falando,
Juliana?
Ela tenta levantar do sofá, mas não me movo.
Levo a mão ao seu rosto e seus olhos se fecham
com o toque. Lia separa os lábios quando percorro
meu polegar por sua boca e não resisto a inclinar
sobre ela e roubar um beijo, que é rapidamente
correspondido, mas não dura muito antes de se
afastar. Juliana me olha suplicante e suspiro,
levantando de cima dela, que sai do sofá em um
pulo, e eu faço o mesmo, cruzando a sala em busca
das minhas roupas.
Seja lá o que for que esteja acontecendo, não é
uma conversa a se ter sem roupa. Juliana parece
pensar o mesmo, porque começa a apanhar suas
peças espalhadas e eu paro, com a calça

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desabotoada e ainda sem camisa, para observá-la.


Arrasto as mãos no cabelo e bufo, indo até ela, que
puxa a saia para baixo após colocar a calcinha de
volta, e apanho o sutiã caído em uma cadeira.
Relutante, passa os braços pela peça em minhas
mãos e vou às suas costas, prendendo o fecho, e
não resisto a depositar um beijo em seu ombro e
traçar uma trilha suave até a base de seu pescoço,
como faço toda manhã. E ela, também como
sempre, estremece sob o toque e suspira em
satisfação, inclinando a cabeça, dando-me acesso.
Tomo a reação como um convite e desço a mão
por suas curvas sempre tão convidativas, sem lutar
contra a vontade instintiva de subir as palmas por
seus seios. Ela arqueia o corpo, enchendo minha
mão, e, como se não tivesse acabado de tomá-la
contra a mesa, meu próprio corpo se reacende,
ansiando por mais, como é sempre que a toco.
Minha boca alcança seu pescoço e Juliana suspira.
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— Edu… — sussurra e eu a viro, tomando-a em


um beijo profundo, enganchando a mão em seu
cabelo, mas, mais uma vez, dura pouco demais
porque ela dá um passo para trás.
Juliana passa a mão pelos cachos desordenados
que dão a ela um ar selvagem e sensual. Parece
perdida, confusa, e vejo o quanto se esforça para
segurar as lágrimas, o que me faz entrar em
desespero por nunca a ter visto chorar antes.
Enxergo a dor em seus olhos e sou capaz de
qualquer coisa para limpar o menor dos resquícios
de infelicidade de suas feições. Dou um passo em
sua direção e ela ergue a mão, impedindo-me.
— Não — diz, firme. Ela olha ao redor e vai até
onde está sua blusa, veste e abotoa a peça,
enfiando-a por dentro da saia como estava quando
chegou, alisando o tecido. Sou incapaz de não
analisar cada movimento seu, cada gesto que me

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diz que algo está muito errado. E, então, vira para


mim, desconcertada. — Dá para você colocar a
blusa? — pede, suspirando.
Encaro-a. O que está acontecendo aqui?
Não consigo dar sentido à sequência de
acontecimentos. Juliana entrou na minha sala e
transamos, em uma selvageria nunca antes usada
com ela. Porque ela pediu. Sempre, desde a
primeira vez, tomo cuidado para que em cada gesto
e cada toque fique claro para Lia que não importa o
quanto a deseje, isso não é um caso qualquer que se
resume a sexo descontrolado.
Estremeço, receoso de que tenha se arrependido
e se sinta usada agora. Lia nunca pareceu restrita
quando à sua sexualidade, mas, por mais que seja
impossível não perder um pouco do controle
quando sinto seu corpo sob o meu, me esforço ao
máximo para não ser muito bruto. E hoje Juliana

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entrou demandando essa brutalidade.


E, depois que comecei, foi muito difícil me
controlar. Foi muito difícil não ceder ao desejo de
colocá-la de quatro no sofá, prender suas mãos nas
costas e levar minha palma ao seu pescoço. Vê-la
inclinada contra a mesa, pedindo por mais, sem
nada impedindo de senti-la quente se contraindo ao
meu redor, fez ser quase impossível não a comer
com toda a força que quis desde que a vi pela
primeira vez. Agora fico feliz de não ter feito isso.
Atendendo seu pedido, vou até a cadeira onde
minha blusa, agora amassada, está pendurada.
Quando termino de abotoá-la, volto em direção à
Juliana.
— Fale comigo, Lia — peço, e ela balança a
cabeça em negação.
Juliana para por um minuto e respira fundo,
passando a mão no rosto antes de prender o cabelo
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em um coque desordenado. Quando olha de novo


em minha direção, o que vejo em seus olhos faz
meu coração se despedaçar.
Ela está indo embora.
Dou um passo em sua direção, uma onda de
desespero me invadindo e, mesmo que ela sussurre
um “não” abafado, puxo-a para meu peito,
enrolando meus braços ao seu redor, prendendo-a
firme a mim.
— Me diz qual o problema — peço. —
Podemos resolver o que quer que seja.
Imploro para que fale comigo, para que não vire
as costas e ignore tudo que estamos construindo,
que não desista do futuro que podemos ter. Mas,
pela primeira vez, Juliana ergue as mãos e as leva
ao meu peito, empurrando-me delicadamente para
livrar-se do abraço. E se afasta, andando para longe
de mim.
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— O que aconteceu? — pergunto, em um misto


de desespero e raiva.
Eu disse que a amo, e ela quer ir embora.
Vivi uma ilusão todo esse tempo achando que
existia algo entre nós, quando não era nada além de
sexo? Não pode ser. Conheci os pais dela esse fim
de semana, passei mais tempo na casa dela do que
na minha no último mês. Valentina está no
apartamento dela, droga! Como posso estar
enganado sobre o que temos?
Sei que não estou.
Ela não estaria com essa cara de desespero se
não tivesse alguma coisa muito errada. Já teria
virado as costas e ido embora se não estivesse tão
hesitante.
— Vinicius me chamou para conversar — diz.
— Ele me contou… algumas coisas.
Encaro-a, incrédulo. Ela vai me deixar por
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alguma mentira que o idiota do meu irmão contou,


mesmo sabendo exatamente o tipo de
relacionamento nós dois temos? Não é possível…
Vejo Juliana abrir e fechar a boca tantas vezes
que estou a ponto de enlouquecer. A incerteza em
seus olhos me desconcerta, porque está claro que
sequer ela sabe o que dizer. É como se estivesse
lutando contra si mesma e eu não tenho como estar
mais confuso.
— Coisas muito sérias.
Estou morrendo para perguntar o que no inferno
ele disse para justificar isso, mas não abro a boca.
Apenas a encaro enquanto ela me olha, perdida.
— Ele disse… — Pausa, respirando fundo, e
vejo seus olhos serpentearem pela sala, sem focar
em mim.
Lia passa a língua nos lábios e inspira fundo
pela boca, estalando os dedos.
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Ela estala os dedos.


— Mentira — interrompo-a entre os dentes
quando ela abre a boca novamente. Vejo seus olhos
se arregalarem e seus dedos nervosos sendo
estalados mesmo que não tenha mais nada para
estalar. — O que quer que você esteja a ponto de
dizer, é mentira. Não minta para mim. O que ele
disse?
Vejo-a engolir seco e seu rosto tomar uma feição
desesperada quando ela fecha os olhos e os aperta.
— Patrícia — sussurra.
Congelo.
Minha boca cai aberta e por um segundo não sei
como reagir. Mas dura um segundo apenas, porque
sinto uma onda de raiva percorrer meu corpo e
preciso respirar fundo para não sair daqui e ir atrás
desse filho da puta e quebrar a cara dele. Ele não
contou a história certa. Juliana não estaria aqui
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agora com essa cara se ele tivesse dito.


Lia, finalmente, levanta os olhos na minha
direção e franze o cenho.
— Então é verdade — sussurra.
Ela me encara e não sei o que fazer. Talvez seja.
Depende do que ele disse. O que me confunde é a
expressão espantada dela. Se é por isso que está me
deixando, não devia estar tão surpresa.
— Não sei o que ele te falou, Lia — digo, minha
voz falhando, minha garganta ardendo. — Não
posso dizer se é verdade ou não sem saber.
Eu falo, mas quero gritar.
Ela abraça a si mesma, cruzando os braços ao
redor do corpo como se tentasse se proteger de
alguma coisa. De mim. Como se eu fosse o monstro
dessa família.
Demora um minuto inteiro para que Juliana diga

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alguma coisa e estou a ponto de enlouquecer.


— Faz quatro anos.
Concordo com a cabeça.
— Ela tinha dezesseis — diz, olhando para mim,
e vejo uma nuvem cobrir seus olhos.
Sou incapaz de saber o que está pensando. Travo
os dentes na tentativa de não falar nada até que ela
acabe. Juliana respira fundo e eu sinto minhas
unhas mal aparadas começarem a cortar a pele da
minha palma pela força com a qual as pressiono.
— Vocês tiveram um... caso e terminou mal —
Seu olhar cai, e um sorriso irritado cruza seu rosto.
— Ele me contou o motivo.
Tento controlar minha voz o máximo possível
antes de dizer qualquer coisa. Recosto na mesa,
sentando do tampo de madeira, e cruzo os braços,
prendendo meu olhar ao dela.

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— E qual foi o motivo? — pergunto, e a raiva


escapa pela minha voz sem que eu possa fazer
nada.
Sei exatamente o que Vinicius disse para ela,
mas quero ouvir as palavras saírem da boca de
Juliana. Quero ouvir a acusação sair dos lábios que
me fazem perder o juízo com tanta frequência.
— Ela engravidou.
Espero, tentando controlar minha respiração.
— Ela engravidou, e você sumiu com ela e com
a criança da sua vida.
Forço-me a respirar fundo e não gritar.
Se Juliana tivesse me dado um soco não teria
doído tanto.
Minha vontade é ir até ela, segurar seus ombros
e fazer com que olhe para mim e me diga olhando
nos meus olhos que acredita mesmo nisso. Mas não

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me movo. Não confio em mim mesmo no momento


e tenho certeza de que assim que estiver perto dela,
vou tomá-la em meus braços e implorar para que
fique, para que não me deixe, para que confie em
mim pelo menos uma vez e não acredite em nada
disso.
Não me movo, porque a amo mais do que meu
juízo deveria permitir, porque se fechar os olhos
consigo ver o resto da minha vida ao seu lado.
Consigo vislumbrar seu rosto amassado quando
acorda, cachos emaranhados por todos os lados e a
visão perfeita de seu sorriso preguiçoso.
E essa visão é impossível de se concretizar com
alguém que me julgue capaz de algo assim, não
importa o quão apaixonado eu esteja. Não importa
o quanto eu a queira.
— E você confia mais no Vinicius do que em
mim?

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Juliana ergue o olhar na minha direção e franze


a sobrancelha, olhando-me como se eu tivesse
acabado de sugerir o maior absurdo do mundo.
— Eu não confio nele. Seu irmão não presta,
Eduardo — diz, assertiva. — É esse o problema.
A última parte é um sussurro tão baixo que
tenho certeza de que eu não deveria ter ouvido.
— Mas acredita nisso. — Não é uma pergunta, é
uma constatação em um rosnado baixo que não
consigo evitar. — Acredita que esse é o tipo de
homem que sou.
Juliana olha para os próprios pés, mas mesmo
assim posso ver lágrimas rolando por seus olhos.
Ouço um sussurro abafado sair de sua boca, mas
não consigo entender o que ela diz. Parece ser algo
como não, idiota, mas não tenho certeza. Balança a
cabeça, negando, e eu suspiro aliviado por um
segundo, antes que ela comece a falar.
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— Não posso. Não posso arriscar. Não posso,


Eduardo. — Um soluço escapa da garganta dela em
meio aos seus sussurros angustiados. — Não posso
ficar.
Sinto-me despedaçar.
Um peso insuportável recai sobre meus ombros
e não consigo me mover. Não consigo dizer nada.
Não sei o que pensar, o que fazer. Uma bola se
forma em minha garganta e preciso usar toda minha
força para não me entregar às lágrimas que se
formam em meus olhos. Nunca imaginei que uma
devastação emocional como essa pudesse ser
transformada em dor física, que um coração partido
de fato doesse no peito, na pele.
Juliana me encara, não sei pelo que espera.
Talvez espere que eu negue, e talvez eu deva. Mas
não vou. Recuso-me a me defender disso, mesmo
porque parece inútil. Ela entrou nesta sala com sua

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decisão tomada. Usou sexo não para esquecer seus


problemas, mas para se despedir.
É mentira. E ela devia saber disso. Devia confiar
em mim o suficiente para saber que é mentira. Mas
claramente esse não é o caso.
Vale a pena insistir em um futuro com alguém
que me julga capaz disso? De ser tão baixo, tão sem
caráter? Vale a pena lutar por esse amor que ela
está disposta a jogar fora mesmo que esteja claro
estar sofrendo com essa decisão tanto quanto seus
olhos mostram? Porque Juliana está sofrendo. As
palavras que saem de sua boca não fazem sentido
quando encaro seus olhos. Sua boca diz que está
indo embora, mas seu olhar suplica para que eu a
impeça.
Mas não vou impedir.
Não se está indo porque acha que sou esse
canalha que Vinicius pintou.
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Não se acha que eu me envolveria com uma


adolescente, a engravidaria e a largaria a sua
própria sorte. Qualquer uma dessas possibilidades
revira meu estômago, e Juliana devia saber disso.
Não digo nada, deixo as palavras queimarem em
minha garganta e morrerem em minha boca.
Nunca menti para essa mulher, sempre fui claro
e honesto sobre tudo que senti desde aquela terça-
feira no galpão. E, ainda assim, ela não acredita em
mim. Estou longe de ser santo, estou longe de ser
perfeito, mas jamais dei qualquer motivo para que
Juliana duvidasse do meu caráter assim.
— Se está tão decidida a ir embora, qual o
motivo das lágrimas? Está chorando por quê?
Sou capaz de reconhecer a rispidez em minha
voz. Ao mesmo tempo em que estou pronto e
disposto a acabar com quem quer que a faça sofrer,
não consigo impedir a dor pela desconfiança de ser
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externada.
Um fio de raiva cruza seu rosto e ela empina o
queixo em minha direção.
— Porque eu não quero ir embora. Porque dói
— ela sibila, abrindo os braços como se apontasse e
culpasse o universo pelo caos instaurado. —
Porque eu te amo e só a ideia de te deixar dói como
o inferno, Eduardo!
Travo o maxilar e balanço a cabeça, negando,
tentando aplacar o sentimento agridoce que vem
com suas palavras. Ao mesmo tempo em que
aquecem meu peito, cortam como faca afiada meu
coração. Ela me ama, não quer ir embora e vai
mesmo assim.
— Não — rosno em resposta. — Se você me
acha capaz do que acaba de me acusar, isso não é
verdade. Se você me acha capaz do que acaba de
me acusar, sequer me conhece. É impossível que
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me ame.
Ela dá um passo para trás, como se fosse afetada
pelo que digo, e um soluço escapa de sua garganta.
Sua boca se abre e espero pelo pedido de desculpas.
Espero pela justificativa desse comportamento
errático. Por uma explicação para essa decisão tão
enfática de me deixar ao invés de entrar neste
escritório dizendo que precisávamos conversar e
esclarecer algo que lhe foi contado. Mas nada disso
acontece.
Juliana concorda com a cabeça e se vira em
direção à porta.
Ela está mesmo indo embora.
Com a mão na maçaneta, olha em minha
direção.
— Por favor, fique bem — sussurra antes de
abrir a porta. Ela fecha os olhos e um sorriso triste
aparece em seu rosto. — Tente acreditar que estou
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fazendo isso porque te amo.


E isso é o suficiente para me desmontar por
completo.
Como ela pode me dizer para ficar bem quando
é a culpada por toda a dor que sinto? Como pode
sequer fingir ser importar se me machuca desse
jeito? Se crava no meu peito uma faca afiada como
essa? Como pode dizer que me ama?
—Não vou ficar, Juliana. Não existe a menor
chance de isso acontecer.
Não digo isso para machucá-la, ainda mais
porque neste momento não acredito que seja
possível que isso aconteça. Está claro, pela
facilidade e certeza com que acaba com tudo, que
não passou de uma paixonite leviana e sem
importância. Não, não é para infligir dor que essas
palavras saem da minha boca; jamais seria capaz de
fazer qualquer coisa que acarretasse o menor dos
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sofrimentos a ela.
Digo isso porque é verdade. Porque, mesmo
diante das acusações injustas de Juliana, não vou
mentir para ela. Não vou ficar bem. Não vendo a
mulher dos meus sonhos virar as costas e me deixar
após acreditar na primeira acusação que me foi
feita.
Não vou ficar bem. Tenho certeza disso quando
escuto o som da porta se fechando e me vejo
sozinho em uma sala grande demais, sufocado por
lágrimas que não posso mais segurar.

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Capítulo 32

GIRO O COPO DE UÍSQUE na mão e não


consigo evitar a risada nervosa pelo ridículo da
situação. Depois de andar de um lado para o outro
por não sei quanto tempo, me rendi e afundei na
cadeira, trazendo comigo o copo cheio. Não
coloquei de volta a gravata, sequer sei onde foi
parar o paletó. E não me importo.
Não sei quanto tempo passou desde que Juliana
saiu por aquela porta, não tenho coragem de deixar
esta sala. Mesmo porque minha única vontade é ir
até Vinicius e acabar com sua vida maldita.
O cheiro dela está grudado em tudo. Na

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almofada do sofá, nos papéis revirados na mesa. Na


minha roupa, no meu corpo. Não quero sair e
enfrentar a realidade de que ela não vai estar ali. De
que vou para casa, para o meu apartamento,
sozinho, encarar minha cama vazia sem seu sorriso.
Dói.
A dor é profunda e afiada e está me corroendo.
Ela ter ido embora talvez doa menos do que saber a
razão para tê-lo feito. Por preferir acreditar em
mentiras ao invés de acreditar em mim.
Uma voz começa a gritar na minha cabeça,
como uma sirene desajustada que avisa que algo
está muito errado. Que nada disso faz sentido. Que
Juliana está escondendo alguma coisa. Minha
mente tenta começar a trabalhar em uma
explicação, um pretexto, qualquer justificativa
utópica para o que acabou de acontecer, mas
impeço. A dor é maior do que minha tentativa de

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criar uma fábula fantasiosa que justifique suas


ações. Ainda que no fundo eu tenha a certeza de
que tem algo faltando nessa história, Juliana me
conhece o suficiente para saber que meu caráter é a
única coisa que não admito ser questionada. É
como se ela tivesse escolhido a coisa certa para
dizer, as palavras certeiras para me afastar.
Viro o conteúdo do copo, o terceiro desde que
Juliana saiu, quando ouço uma batida em minha
porta e mando que a pessoa entre.
E vejo fios ruivos despontando pela fresta, com
um sorriso sobre saltos finos caminhando em minha
direção.
Lorena.
Esqueci desta maldita reunião que não vai me
servir de nada.
É certo que ela está aqui apenas para gastar meu
tempo, como foi em todas as vezes anteriores que
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nos falamos.
Dói ficar sozinho com o sofrimento que acomete
meu coração neste momento, mas dói mais ter que
escondê-lo atrás de um sorriso falso para aturar seu
comportamento invasivo.
Dói que Juliana invada cada pensamento meu,
mas dói mais ter que colocar a imagem dos seus
olhos de lado para resolver um problema
inexistente de uma cliente voluntariosa.
Dói saber que nada do que eu faça será capaz de
trazê-la de volta, porque ela não deve voltar. Se sua
confiança e fé em mim são tão baixas quanto
Juliana mostrou ser, não posso insistir nisso.
Preciso dar um jeito de tirá-la da minha cabeça de
uma vez antes que eu enlouqueça.
Como farei isso, não sei. Tentei, por meses,
afastar de mim a ideia de tê-la e agora, depois de
saber como pode ser uma vida com ela, tenho
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certeza de que não existe a menor possibilidade de


simplesmente apagar minhas memórias, abafar
meus desejos e anseios, ignorar todo o amor que
cresceu em meu peito a partir de uma atração
leviana que foi alimentada com cuidado, carinho e
companheirismo.
Encaro a primeira gaveta da minha mesa,
fechada, rindo de mim por abrigar uma caixa azul
com a cópia da chave do meu apartamento. Eu rio
de mim mesmo pelo jantar que estava sendo
planejado. De todos os planos que fiz. E não tenho
ninguém a quem culpar além de mim mesmo por
ter criado tantas expectativas em tão pouco tempo.
Juliana se encaixa tão bem na minha vida que
simplesmente assumi que me encaixaria bem na
dela também. Ela me traz a leveza que preciso, a
petulância que ninguém nunca se atreveu a ter. A
sinceridade e irreverência para apontar meus

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defeitos. Para me forçar a ser melhor todos os dias.


Sei que estamos em momentos diferentes, sei que
precisa crescer, brilhar. Fazer explodir a carreira
brilhante que tem pela frente, se estabilizar. Alçar
todos os voos que deseja, ir tão longe quando
desejar e saber que vou estar em casa esperando por
ela. Sendo seu porto seguro.
Mas Juliana não vê desse jeito.
—Você parece muito aéreo hoje, Edu.
Levanto os olhos e encontro um sorriso
descaradamente sedutor, que envolve uma voz
macia, tão pouco natural. Observo a mulher à
minha frente, sentada na cadeira de pernas
cruzadas, vestida com uma saia cuja fenda permite
o vislumbre de suas coxas claras.
Seu perfume é doce, enjoativo, forte e exagerado
como tudo nela. Como o decote avantajado.
Convidativo a qualquer desavisado. Tudo nela
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exala sensualidade e desejo em sua forma mais


óbvia. Lorena é uma mulher linda, e sabe disso. E
está claramente interessada em mim desde a
primeira vez que nos encontramos. Não naquela
reunião marcada para tentar consertar uma besteira
de Vinicius, não. Anos atrás em um evento da
empresa. Não a quis naquele dia e em nenhum
outro desde então, e isso só parece aumentar a
persistência da mulher.
Sorrio em resposta, concentrando-me no que ela
tem a dizer.
— Não estou mais. Mas acredito que já
acabamos a reunião, certo? — pergunto e ela
concorda com a cabeça. — A não ser que tenha
mais alguma coisa que você queira de mim.
Sinto o álcool começar a fazer efeito e me
permito usar isso como justificativa para qualquer
sabotagem emocional. Já está doendo, já estou

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sofrendo. E vai continuar doendo. Porque não


existe a menor chance de Juliana sair da minha
cabeça. Então decido adotar a maravilhosa tática
inventada por ela: se não consegue tirar alguém da
sua cabeça, ataque a próxima pessoa disponível.
Ela tentou usar Rafael, não vejo mal algum em usar
a mulher mais do que disposta a ser usada que está
na minha frente.
Vejo um brilho surgir nos seus olhos e o sorriso
descarado que cresce em seu rosto.
Ótimo.
Não sorrio de volta, não vejo motivo para isso.
Não há nada neste momento que me faça querer
esboçar qualquer sinal de alegria. E sei que não
preciso de subterfúgios para conseguir qualquer
coisa aqui. Lorena está disposta o suficiente sem
minha simpatia. Seria fácil curvá-la contra o sofá.
Duvido que oferecia qualquer resistência. Sei que

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se entregaria com facilidade, que pediria por mais.


Lorena se inclina para frente diante do meu
olhar atento, oferecendo uma vista ampla da borda
do seu sutiã. A pele clara contra a renda vermelha,
seios pequenos e redondos. O olhar lascivo que me
dirige diz que vai ser capaz de me fazer gozar bem
rápido.
Um orgasmo vazio. Tedioso, monótono e vazio.
Ela levanta e cruza a mesa, vindo em minha
direção, e apoia no tampo de madeira, sentando-se
de modo que a barra da sua saia suba ainda mais e
sua coxa fique exposta. Lorena alcança minha mão
e pousa em sua pele quente.
E queima.
Como se eu estivesse tocando em brasa. Em
pregos que pegam fogo. Dói, uma dor física. Como
se estivesse enfiando minha mão em um saco de
espinhos. Sei que se subir a palma pela fenda aberta
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posso facilmente alcançar a barra de sua roupa


íntima. Sei que ela vai separar as pernas e permitir
o acesso dos meus dedos. E do que mais eu quiser.
— Você pode me oferecer uma bebida — ela
canta com uma voz sensual enquanto tira do
caminho seu cabelo que cai sobre seus seios.
A mulher passa a mão pela borda da blusa,
arrastando um dedo pelo decote, chamando-me. Eu
preciso de uma bebida também. Duas. Quatro.
Olho para a pequena mesa de vidro no canto
esquerdo da sala, que abriga uma garrafa solitária, e
sei que não vai ter bebida nenhuma. O uísque me
encara como se debochasse de mim, desafiando-me
a servir para essa mulher na minha frente a bebida
que por tantas vezes dividi com Juliana após um dia
de trabalho, entre sorrisos, beijos e protestos dela
por eu não ter nada mais doce. E é como se
somente pensar nisso fosse uma traição

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imperdoável.
Rio. Finalmente rio do absurdo da situação. Um
riso seco e sem vida, revestido de uma raiva mal
contida.
Recolho a mão, esfrego os olhos e volto minha
atenção para Lorena, que me fita com atenção e
curiosidade.
Não existe a menor chance de eu ser capaz de
foder essa mulher. Nem qualquer outra.
Se não consigo me forçar a levantar da cadeira e
servir um copo de bebida para ela porque me
lembra Juliana, vai ser impossível encostar nela
nesta sala onde Lia esteve há tão pouco tempo. Vai
ser impossível encostar em qualquer uma com seu
cheiro ainda tão forte. Posso sentir seu perfume, o
cheiro de canela preso em mim, na minha roupa, na
minha pele. Na minha alma.
Não existe a menor chance de eu ser capaz de
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foder essa mulher porque a única pessoa que quero


ter deitada sob mim é aquela maldita dos olhos
castanhos, dona do corpo mais quente que já senti.
Dona de tudo que tenho para oferecer.
Levanto da cadeira e estendo o braço para que
Lorena o apanhe, e ela o faz, com um sorriso
vitorioso nos lábios. Preciso sair daqui, mas,
principalmente, preciso tirá-la daqui. Abro a porta e
saímos, caminhando em direção ao elevador.
Aperto o botão e espero. Quando as portas se
abrem, ela dá um passo para dentro e me olha com
o cenho franzido quando não a acompanho.
— Estou muito ocupado hoje — explico. — Eu
te ligo.
Não vou ligar. Sei que não vou. Mas é o
suficiente para que dê um passo em minha direção
e cole um beijo em minha bochecha, perto demais
de minha boca para meu gosto. A vontade de passar

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a mão no meu rosto e limpar seu toque é imediata.


— Aquele pequeno problema no contrato — diz,
referindo-se à reunião que acabamos de ter, na qual
pouco prestei atenção — talvez não seja tão fácil de
resolver. Por mim, daríamos o assunto por
encerrado aqui. Não tenho tanto poder assim na
empresa.
Ela inclina a cabeça e percorre o olhar
descaradamente pelo meu corpo. E isso só me faz
querer me afastar ainda mais.
— Mas posso tentar.
Lorena sorri e eu sei exatamente o ridículo que
ela está sugerindo.
— Foi um erro inocente, culpa de uma secretária
relapsa. Acontece. — Seu tom e insinuações me
dão nojo e não tem álcool o suficiente no meu
sangue que permita que eu aceite sua tentativa
patética de conquistar território.
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A simples menção a Juliana e a tentativa de


jogar nela um erro que claramente foi meu me faz
ter vontade de tirá-la deste prédio arrastada.
— Vou ficar esperando sua ligação — sussurra,
e encaro-a até as portas se fecharem e o elevador
desaparecer e, assim que o faz, fecho os olhos e
respiro fundo.
Faço uma nota mental para passar no
departamento jurídico na primeira hora do dia
amanhã e avisar nossos advogados do processo que
está vindo. Agora faço questão que venha.
Quando viro de volta em direção à minha sala,
dou de cara com Priscila, que me encara com um
claro ódio enquanto segura uma pasta, sentada na
mesa de Juliana. Mesa que era de Juliana. Não sei
se ela vai voltar. Não sei se me deixar inclui deixar
a empresa, mas algo me diz que não. Lia é
profissional demais para isso. E essa é só mais uma

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maldita coisa que me faz amá-la.


Ando na direção de Priscila e estico a mão para
que me entregue o que carrega consigo. O
descontentamento em seus olhos faz com que eu
me irrite ainda mais.
— Eu não esperava isso de você — diz, em um
tom tão reprobatório que parece um soco a mais,
para ser acumulado à coleção de socos que recebi
hoje. — Há quanto tempo te conheço, Edu? Dez
anos? Coloquei minha mão no fogo por você tantas
vezes que nem sei. Garanti para minha amiga que
ela podia confiar. E é assim que se comporta?
Garantia nenhuma parece o suficiente para que
Juliana confie, de fato, em mim. Então qual é o
ponto?
— Ela me deixou — respondo, não sei se com
raiva ou controlando lágrimas não derramadas.
Priscila levanta, jogando a pasta sobre a mesa.
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— E você não perdeu tempo.


A mulher, minha amiga há quase uma década,
vira as costas e sai andando, batendo pé firme com
seus saltos estridentes. Não acredito que ela tem a
audácia de ficar irritada comigo. Como se a culpa
fosse minha por essa merda toda. Entro na minha
sala e apanho meu celular, visto o paletó e vou em
direção à porta. Mas paro. Olho para a mesa com a
garrafa da discórdia e me sirvo mais um copo,
cheio até a boca, e viro em um gole só. Ameaço
jogar o restante da garrafa no lixo. Não faço. Ao
invés disso, sento em uma cadeira e encho o copo
mais uma vez.
Não sei quanto tempo se passa, não marco as
voltas que o relógio dá. Perco-me em meus
pensamentos desconexos, em minha dor revolta.
Perco-me em mim mesmo e não tenho certeza se
quero me encontrar. Só percebo que a garrafa está

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vazia quando tento encher outro copo e nenhuma


gota cai pelo gargalo. E, então, livro-me da
embalagem, que é só mais uma coisa que me
lembra do par de olhos castanhos sedutores.
Não vou ficar com esse fantasma me
assombrando.
Não preciso de mais fantasmas.
Vou em direção ao elevador e aperto o botão
repetidas vezes.
Sinto o álcool bater forte e meu rosto esquenta
quando uma onda de tontura me atinge. Respiro
fundo, sabendo que a sensação só tende a piorar
conforme meu corpo absorve a quantidade
irresponsavelmente alta de bebida ingerida.
A porta se abre e eu entro, encostando a cabeça
na parede fria, apertando os olhos. Mas, antes que
as portas se fechem, outra pessoa adentra o
elevador e me cumprimenta.
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Rafael.
Era o que me faltava.
Ele não fala comigo pelo restante do trajeto e
agradeço por isso. Mas, para complicar ainda mais
minha vida, ouço sua voz quando o elevador
alcança o térreo e ando em direção ao
estacionamento.
— Senhor Rodrigues? — chama e eu viro em
sua direção. — O senhor vai dirigir?
Levanto a chave do carro para ele. Obviamente.
Mais alguma pergunta idiota?
— Sei que não é da minha conta, mas… Senti
um cheiro forte de uísque no elevador. Não é
melhor chamar um táxi?
Sua voz é relutante e cautelosa. Inacreditável.
Agora vou ouvir sermão desse moleque.
— Tem razão. Não é da sua conta.

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Deixo-o me olhando com o semblante assustado


enquanto aperto o alarme, destravando o carro, e
dou a partida.

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Capítulo 33

ENCARO O COLCHÃO VAZIO.


Não sei há quantas horas estou nesta posição,
mas meu braço está dormente e não quero me
mexer. Olho o relógio e vejo que já passa de nove
da noite, toda a coragem parece ter sido drenada do
meu corpo e eu só quero ficar aqui, agindo como se
nada tivesse acontecido. Bem quietinha me fazendo
de morta.
Quero fingir que a tarde de hoje foi só uma
pegadinha, daquelas bem sem graça de programas
de TV de origem duvidosa, e Eduardo daqui a
pouco vai estar aqui, entrando no apartamento
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direto para a cozinha, perguntando se quero frango


ou peixe. Frango, a resposta sempre é frango.
Mas ele não vai.
Valentina mia, protestando por não poder ocupar
todo o travesseiro para dormir e eu faço carinho
nesse demoniozinho.
— E agora? — pergunto para ela. — Você fica
comigo?
Em resposta, a gata começa a se lamber, e eu
rio.
Minha vida não podia ser simples assim? Uma
lambida aqui, outra ali e pronto! Nada mais com
que me preocupar. Mas não, parece que problemas
me perseguem até o fim do mundo. Quando eu
começo a parar de fazer besteira, aparece um infeliz
do inferno para fazer tudo virar do avesso de novo.
Minha cabeça dói.

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Eu mal consigo ficar com os olhos abertos, pois


eles ardem de tanto chorar. Resmungo enquanto
tento tirar minha cabeça de cima das pernas de
Priscila, mas ela me impede.
— Vai ficar quietinha aí, não mandei levantar.
Não estou exatamente confortável nessa posição,
mas duvido que qualquer posição vá ser agradável
de qualquer maneira. Não quando meu corpo
inteiro parece doer. É castigo isso. Com certeza
está escrito nas regras de funcionamento do mundo:
quem parte o coração de um monumento da
natureza daqueles merece sofrer.
Valentina parece irritada com a presença de uma
estranha e sai da cama, indo para seu travesseiro no
canto do quarto.
— Me diz que fiz a coisa certa.
Ouço seu suspiro e Priscila finalmente me solta,
e eu levanto o tronco, sentando no colchão da
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minha cama que precisa ser trocada para ontem.


Quando este colchão ficou tão desconfortável?
Preciso de um novo.
Esfrego o rosto e assoo o nariz em um lenço de
papel, antes de fazer uma bola e tentar acertar a
lixeira do outro lado do quarto. Não sei por que
ainda tento, errei todas as vezes. Agora o chão está
decorado com incontáveis bolinhas de papel, o que
só mostra o quanto eu já chorei desde que Priscila
chegou aqui com a caixa de lenços e quarenta
milhões de quilos de chocolate. Como se isso fosse
uma simples TPM que fosse ser consertada com
açúcar.
Não é.
Mas não me impediu de comer o chocolate
mesmo assim.
Agora estou sofrendo e enjoada de doce. Nunca
achei que fosse ser possível enjoar de doce.
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Perfeito. Sofrimento pouco é bobagem.


Priscila balança a cabeça, dando os ombros.
— Você fez o que achou ser a coisa certa, Ju —
diz, cruzando as pernas. — Se quer saber se
conversar com ele e contar que o querido irmão
está ameaçando acabar com a inteira existência dele
seria uma ideia melhor… Talvez? Vocês ainda
estariam juntos, porque não existe a menor chance
de que Eduardo fosse te deixar ir embora por causa
disso.
— Mas ele se arrependeria depois que Vinicius
fizesse o que prometeu fazer. — Completo seu
pensamento, e ela mais uma vez dá os ombros.
Ele se arrependeria de se ver em uma situação
como aquela por causa de uma mulher. Ainda que
eu não consiga mais dar crises de insegurança, nem
mentir para mim mesma, nem tentar me convencer
que Eduardo não gosta de mim, não acho que
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mulher nenhuma no mundo valeria o tanto de coisa


que ele tem a perder se Vinicius abrir aquela
boquinha ridícula dele.
— Talvez.
Talvez não, com certeza. Dei uma surtada na
hora que Eduardo disse com toda aquela firmeza
que sabia que eu estava a ponto de mentir e não
consegui pensar em mais nada para dizer além do
que Vinicius realmente me contou: Patrícia. Repeti
para ele as palavras do irmão, mas omiti a parte em
que não acreditei nem por um segundo que aquilo
fosse verdade. Não disse hora nenhuma que
acreditei, mas sabia que não ia precisar. Eduardo é
uma das pessoas mais corretas que já conheci e
tinha certeza de que qualquer questionamento
quanto ao seu caráter acertaria um nervo. E acertou,
tanto que ele sequer me pediu para ficar.
Jogo-me na cama e afundo a cabeça no

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travesseiro, abafando o grito que rasga minha


garganta.
Ele me odeia.
Sei que odeia.
Vi em seus olhos quando o acusei daqueles
absurdos que Vinicius tentou me convencer de que
eram verdade. Priscila tem razão, ele não me
deixaria ir se achasse que tudo que eu mais quero é
estar ao seu lado.
— Se foi a coisa certa, por que dói tanto? —
pergunto, e ela me puxa para o seu colo mais uma
vez.
Tudo que tenho conseguido pensar nas últimas
horas é na dor dos olhos de Eduardo e o jeito como
ele imediatamente se afastou de mim.
— Não sabia que essa briga deles dois ia tão
longe assim — Priscila diz, afagando minha
cabeça. — Sempre soube que Vinicius não valia
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nada, mas não achei que fosse chegar a isso.


Afundo a cabeça no travesseiro. A fronha
limpinha que acabei de trocar está toda molhada
pelas minhas lágrimas descontroladas, bem
manchada pelo rímel que borrou. Vai daqui direto
para o lixo. Ouço o telefone de Priscila tocar e viro
a cabeça na direção do som, mas ela ignora a
chamada com uma ruguinha na testa.
— Não é nada — diz, embora não tire os olhos
da tela por alguns segundos.
Priscila solta um palavrão e xinga Vinicius de
um jeito que me representa muito bem. Aliás, acho
que não tem xingamento o suficiente para fazer eu
me sentir melhor a essa altura. Ele venceu. Fácil
demais, ele venceu.
Eu odeio Vinicius.
Não acho que eu tenha odiado alguém antes.
Pego birra das pessoas com muita facilidade, muita
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mesmo. Sentou no banco preferencial do ônibus?


Birra. Não jogou a garrafinha de plástico na lixeira
de reciclagem certa? Birra. Falou mal de Teen
Wolf? Birra forte. Assiste de novo. Já viu Tyler
sem camisa? O que tem para não gostar ali? Mas é
sempre coisa passageira e sem importância e,
mesmo que não seja, não é nada que me tire o sono.
Esse sentimento pelo Vinicius já está me
consumindo no nível de eu estar mentalmente
tramando todas as formas possíveis de assassinato
daquele infeliz. E o pior, ou melhor, é que acho que
tive uma ideia. Mas vou precisar de Fernanda para
isso. Ou seja…
Suspiro.
— Ele me ama — digo, olhando para as minhas
mãos, estalando os dedos. — Eduardo disse que me
ama.
Priscila faz uma cara que diz perfeitamente que
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ela acha que o buraco não podia ser mais fundo,


mas, antes de falar qualquer coisa, o celular toca de
novo.
— Atende.
Priscila sai do quarto carregando o aparelho e eu
estranho isso. Sento reta na cama, tendo certeza de
que é sobre Eduardo. Ou só estou ficando louca
obcecada por aquele homem mesmo. Mas alguém
pode me culpar? Duvido.
Ouço-a sussurrar apressadamente, com a voz
agitada vinda da sala e começo a ficar preocupada.
Não demora muito antes de ela voltar, girando o
aparelho nas mãos, e sentar no colchão, chamando-
me de volta para o colo dela. E eu vou, mas não
sem antes ver a careta preocupada que está
estampada no seu rosto. Vai bater um vento e vai
ficar assim para sempre.
— O que aconteceu? — pergunto, e ela não
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responde. Então tenho certeza de que é sobre


Eduardo e eu ainda não perdi completamente o
juízo que nunca tive. — Você é minha melhor
amiga e eu vou te bater se começar a esconder
coisas de mim — reclamo. — Ainda não engoli o
que você não me contou sobre “conhecer o
Vinicius melhor do que gostaria”.
Faço as aspas com a mão, lembrando-me do que
ela me disse quando fui procurá-la em seu
escritório mais cedo. Mais cedo. Isso foi hoje. Esse
dia parece não ter fim, o sofrimento está se
estendendo por tanto tempo que parece que já
passou uma semana nessas últimas vinte horas. Se
minha vida fosse um seriado, hoje seria um
episódio duplo, daqueles que tem quase duas horas
de duração. Se fosse um livro, precisaria de uns
quatro capítulos para cobrir essa loucura toda que
aconteceu hoje.

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— Você tem um péssimo gosto para amigas —


ela responde, provocando-me, e eu dou um tapinha
no seu braço. Priscila suspira. — Pelo visto
Eduardo saiu bêbado do escritório — diz e eu solto
um grunhido.
Droga, Edu. Franzo a testa, porque isso não é
motivo para ninguém ligar desesperadamente para
ela. Pergunto o que mais aconteceu, já sentindo
meu coração apertar.
— Ele pegou o carro. E não está atendendo o
telefone.
Saio do colo dela e não consigo disfarçar o
desespero imediato que surge em meu rosto. Desde
quando esse infeliz dirige depois de beber? Adora
sair passando sermão sobre responsabilidade por aí
e me apronta uma dessas? Eu vou matar.
— Tenho certeza de que ele está bem, Ju — diz,
tentando me acalmar, mas posso ver que ela está
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inquieta também.
Quero levantar da cama e bater na porta dele,
ver se ele chegou bem. Dar um grito pela
irresponsabilidade, perguntar se Eduardo tem
alguma ideia do tanto que eu surtaria se alguma
coisa acontecesse com ele. Preciso saber como Edu
está.
— Vai ver se ele está bem — peço a Priscila,
que me olha como se eu estivesse louca. — Eu não
vou conseguir dormir sem saber que Eduardo está
bem. Por favor.
Ela balança a cabeça e suspira.
— Vou começar a cobrar, sério — resmunga,
claramente fazendo referência ao ridículo número
de vezes que peço ajuda para ela para as coisas.
Priscila cata suas coisas espalhadas pela cama antes
de levantar e olhar na minha direção.
— Te ligo quando sair de lá, está bem? Se eu
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conseguir fazer Eduardo abrir a porta para mim —


pondera.
Pri me dá um beijo na cabeça e sai, murmurando
um “fica bem”, e agora percebo o quão idiota foi
dizer isso para Eduardo. É claro que não vou ficar
bem, que ideia mais besta. É capaz de eu ter ficado
pior só porque ela falou isso.
Minha vontade é de ligar para Priscila dez
minutos depois que ela sai. E depois meia hora
após isso. Estou impaciente, preocupada, andando
de um lado para o outro do apartamento. Rezando
para todos os deuses que ele esteja bem e não tenha
batido o carro por aí.
Quando o relógio vira uma hora inteira e tudo
que ela me mandou foi uma mensagem dizendo
“tudo bem”, alcanço meu telefone e disco o número
dela, que claramente está tentando me enlouquecer.
— Oi — ela atende e levanto da cama. — Está
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tudo bem, mas não posso falar agora. Prometo que


te ligo mais tarde.
— Ele está bem?
Meu coração acelera.
— Sim.
— Como ele está?
Minha voz não passa de um sussurro
estrangulado. Ouço um suspiro do outro lado da
linha. A voz abafada de Priscila pede licença e a
linha fica muda por um instante.
— Destruído, Juliana. Ele está destruído.
A voz dela é cansada, mas dura. Fiz minha
amiga prometer que não mentiria para mim, porque
conheço bem a peça e sei que se fosse por ela, diria
que está tudo bem e tudo lindo só para não me
magoar. Não posso me dar ao luxo de me iludir
agora. A vontade de chorar volta com tudo.

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— Eu preciso falar com ele — murmuro.


Priscila fica em silêncio por muito tempo e,
quando volta a falar, reconheço seu tom de mãe.
— Você fez uma escolha, Ju. Você realmente
precisa decidir o que fazer e seguir com isso. Não
vai fazer bem para ninguém se você procurar o
Eduardo e, no último segundo, dar para trás. Se
quiser falar com ele, eu dou um jeito, invado o
apartamento dele, amarro o homem na cadeira e
forço a te ouvir se for preciso. Qualquer coisa, eu
estou aqui para isso. Mas pensa bem. Pensa se vai
conseguir viver esse amor sabendo tudo que vai
custar. Se a resposta for sim, me encontra na porta
do prédio dele com um pé de cabra e três metros de
corda. Mas Ju… você mesma disse que essa
empresa é a vida dele.
Droga, Priscila!
Odeio como ela sempre tem razão. Mania
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irritante de estar sempre certa, credo!


Eu sei que é exatamente por isso que recorro a
ela neste momento, porque sei que Priscila vai
colocar juízo na minha cabeça confusa, vai me
ajudar a ficar nos trilhos. Sua completa falta de fé
no amor vai fazer com que olhe para a situação
com toda a objetividade que precisa. E eu
realmente preciso disso, porque sei que no fundo
sou egoísta o suficiente para simplesmente ignorar
tudo e ir atrás dele, sem me importar com o preço a
ser pago.
Hesitei tanto em entrar nesse relacionamento por
medo de ele acabar me machucando e, porque o
universo me odeia, sou eu que estou machucando
nós dois. Mas, pela primeira vez na história da
humanidade, não é culpa de nenhuma insegurança
minha.
Espera um minuto.

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— Como assim você invade o apartamento dele?


Não está no apartamento dele? — pergunto,
confusa.
— Não. Eduardo nunca saiu do escritório.
Estava bêbado demais para dirigir.
Suspiro aliviada, fechando os olhos e recostando
a cabeça na cabeceira da cama. Sorrio. Filho da
mãe responsável de uma figa. Consigo respirar sem
sentir uma mão estrangulando minha garganta por
saber que ele está bem. Desligo o telefone e me
enfio debaixo do chuveiro por tanto tempo que
perco a noção da hora. Quando volto para a cama,
alcanço meu computador e abro o arquivo do livro.
Não tem a menor chance de eu conseguir dormir
hoje, e nada melhor do que um pouco de dor
dilacerante para moldar um bom escritor.

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Meu coração está acelerado de um jeito que


acho que nunca esteve antes. Nem no meu primeiro
beijo. Nem na minha primeira vez. Nem na minha
formatura. Nem quando achei que meus pais
fossem me pegar com uma garrafa de vinho no meu
quarto quando eu tinha dezesseis anos. Nunca, na
minha vida inteira, estive tão nervosa quanto estou
agora, sentada na minha mesa, com uma cara
horrorosa de quem não dormiu a noite toda que
nem maquiagem pesada deu jeito, olhando o
relógio a cada cinco segundos me perguntando
quando Eduardo vai chegar.
Eu devia ter ligado dizendo que estou doente e
não podia vir trabalhar? Devia. Claro que devia.
Qualquer pessoa minimamente sensata teria feito
isso. Mas eu sou sensata? Obviamente não, ou não
estaria nessa situação para começo de conversa.

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E assim se vai minha manhã inteira, porque


quando o elevador abre e vejo aquele monumento
em forma de homem sair, vestindo um terno cinza
escuro, já passa do meio-dia. Entro em desespero
por um segundo porque não tenho ideia de como
cumprimentá-lo.
Oi, homem maravilhoso que eu parti o coração
porque seu irmão é um psicopata e não consigo
pensar em uma solução?
Por fim, não preciso pensar em nada, porque ele
simplesmente passa direto por mim, sem olhar na
minha direção, como se eu nem estivesse aqui.
Perfeito. O que é pior, o ódio ou a indiferença?
Porque sinto os dois vindo desse silêncio dele.
Chorei boa parte da noite então nem tenho mais
lágrima nenhuma para derrubar. Isso não significa
que eu não esteja sentindo a mesma dor de ontem.
Não tenho ideia de como vou conseguir ficar

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sentada aqui, trabalhando como se nada tivesse


acontecido, sabendo que ele está bem ali do outro
lado da sala.
Tento me concentrar no meu trabalho, mas sinto
que estou fazendo tudo quatro vezes mais devagar
do que o normal, estou lendo o mesmo parágrafo
setenta vezes e não consigo entender nada do que
está acontecendo. Quando o relógio marca perto
das cinco, vejo que fiz muito menos do que eu
deveria ter feito. Mas vejo também a pasta verde
que preciso levar para Eduardo assinar e não sei se
vou ter forças para isso.
Enrolo o máximo que posso, esperando-o sair da
sala para ir para casa e eu só pedir para ele assinar
rapidinho sem termos que estar no mesmo cômodo.
Mas quando vejo que já são quase seis horas e nada
dele sair, percebo que não vou ter escolha.
Respirando fundo, bato na porta e espero até ouvir

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sua voz dizendo que posso entrar.


Relutante, entro na sala e fecho a porta. Não sei
para que faço isso, era melhor deixar aberta que aí
tenho por onde sair correndo bem rápido. Eduardo
não levanta os olhos do papel que lê, sentado no
sofá com folhas espalhadas pela mesinha.
— Preciso que você assine isso — digo depois
de alguns instantes tendo minha presença ignorada.
Eduardo simplesmente estende a mão sem olhar
na minha direção, passa os olhos rapidamente pelo
documento e assina, como sempre sem ler com
muita atenção. É meio patético que uma parte de
mim fique feliz por pelo menos no meu lado
profissional ele ainda confiar, porque o lado
pessoal claramente só faz besteira.
— Não precisa se preocupar — diz quando pego
a pasta e murmuro que já estou indo. — Nada do
que aconteceu vai interferir na nossa relação
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profissional.
Ele levanta os olhos para mim e vejo olheiras ao
redor das suas íris castanhas.
— É por isso essa cara, não é? Você está com
medo pelo seu emprego. Não precisa. Eu ainda sou
seu chefe e não virei um completo babaca durante a
noite, independente do que pense de mim.
Seu tom é firme, sério, neutro e completamente
impessoal. Como o bom chefe que ele é. Sem
sorriso nenhum no seu rosto. Exatamente como era
quando nos conhecemos. Eduardo acha que essa
minha cara de desespero é porque estou preocupada
com meu emprego? Não me passou em momento
nenhum na cabeça que ele faria qualquer coisa para
me prejudicar. Esse desespero é porque quero dar
três passos na sua direção e pular no colo dele, mas
não posso. Não vou poder nunca mais.
— Eu sei. — É tudo que consigo responder. E é
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verdade. Eu sei.
Ele balança a cabeça concordando e me olha por
um segundo a mais antes de voltar a ler a folha na
sua mão.
— Edu — chamo, e ele me olha novamente.
Dessa vez posso ver um brilho de emoção cruzar
seu rosto. — Eu realmente sinto muito.
A forma como balança a cabeça deixa claro que
está dispensando meu comentário.
— Eu te amo, Juliana — diz com a voz cansada.
— E está nítido que você não está preparada para
receber esse amor.
Sabe as lágrimas que eu disse que não tinha
mais? Claramente mentira, porque elas estão bem
aqui. Ele levanta do sofá, vai até a mesa, abre a
primeira gaveta e pega uma caixinha azul.
— Você definitivamente não está pronta para
receber isso aqui — diz, andando na minha direção.
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E eu quero morrer um pouco, de desespero. Ele


sorri, um sorriso fraco e triste. — Não é um anel, é
só a chave do meu apartamento — explica, jogando
a caixa de qualquer jeito em cima da mesa.
— Ia me dar a chave? — pergunto, sem
conseguir esconder a emoção na minha voz.
Ele confirma com a cabeça.
— Mas você não quer a chave do apartamento
de um homem que engravida uma menina de
dezesseis anos e some da vida dela.
A raiva na sua voz agora é palpável. Eduardo foi
de zero a cem em um segundo, de completamente
sem emoção para um poço de ódio sendo destilado
pelo seu olhar.
Fecho os olhos por um segundo e mordo o lábio,
porque isso é tudo que consigo fazer para evitar
contar tudo. De dizer que o amo e quero tudo que
ele tiver para oferecer. Mas isso não me impede de
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dar um passo na direção dele, porque eu sou bem


fraca mesmo. Edu não se aproxima, mas também
não se afasta, e eu termino de diminuir a distância.
Ele suspira quando levo as mãos aos seus ombros e
fecho os olhos.
— E eu não quero dar a chave do meu
apartamento para alguém que está mentindo para
mim — diz, passando a mão pela minha cintura, e
sinto seus dedos firmes em mim.
Abro os olhos e ele sorri, mas posso ver o brilho
de irritação em seu olhar.
— Eu poderia dizer que vou descobrir o que está
escondendo, qual é o problema, por que está
mentindo para mim. Mas não vou. Não vou porque
não quero um relacionamento onde eu tenha que
virar metade do mundo para você falar comigo,
para confiar em mim.
Sinto uma lágrima traiçoeira escapar pela minha
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bochecha pelo seu tom irritado.


— Eu não entendo como pode estar aqui agora
quando acha que eu sou um canalha tão grande a
ponto de me largar.
Ergo o rosto na sua direção e absorvo um
pouquinho do castanho dos seus olhos, gravando na
memória mais uma vez cada expressão sua, mesmo
que nessa situação.
— Eu te amo — sussurro, sentindo as palavras
queimarem na minha garganta.
Eduardo passa a mão pelo meu pescoço,
puxando-me na sua direção, e me beija, prendendo
meu lábio entre seus dentes.
— E a gente não escolhe quem vai amar —
rosna contra a minha boca. — Mesmo que essa
pessoa seja um filho da puta sem caráter.
Antes que eu tenha a chance de pedir para ele
pelo amor de Deus parar de falar isso, sinto seus
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lábios nos meus. E antes que eu perceba, suas mãos


estão enroscadas no meu cabelo e eu o seguro pelos
braços para não cair quando me puxa para perto,
como se tentasse me prender ao seu corpo. Eduardo
me beija com raiva, e até tento me sentir mal, mas a
força com que meu corpo se acende com a pegada
bruta apaga completamente o pouco juízo que
tenho. Quando menos percebo, sinto a parede nas
minhas costas.
É como um ciclo inteiro, começamos escorados
na parede desta sala com Eduardo me beijando,
irritado e com ciúmes de Rafael, e aqui estamos
nós, com Eduardo me beijando, irritado por essa
porcaria de situação bosta. A boca dele sai da
minha, imediatamente indo para o pescoço, seus
dentes raspando minha pele. Minhas mãos voando
para a barra do seu terno, e eu tento tirar a peça,
mas ele não deixa.

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Colabora, Eduardo. Pelo amor de Deus,


colabora.
As mãos dele sobem minha saia sem pudor e me
alcançam com muita facilidade, e gemo contra sua
boca pela surpresa do gesto e pelo prazer imediato
que seus dedos muito experientes me dão.
— Você não pode escolher quem ama — diz
com a voz irregular pela respiração pesada — e
pelo visto não pode escolher como seu corpo reage
a mim também.
Vou dar na cara dele. Eu daria na cara dele se
Eduardo não escolhesse logo agora para escorregar
um dedo dentro de mim. Mas não é bem o dedo que
quero, não é mesmo? Escorrego uma mão até a
barra da sua calça e tento desafivelar o cinto.
— Nós não vamos fazer isso — ele murmura
contra a curva dos meus seios, onde sua boca está.
Ah, tá. Estou vendo bem como não vamos.
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— Sofá — murmuro com toda firmeza que


consigo, e ele solta um palavrão antes de tomar
minha boca e me levar exatamente para onde
indiquei.
Eduardo me deita, de novo em cima de papéis
que parecem importantes e não deviam ser
amassados, livrando-se do paletó.
— Puta merda, Juliana — reclama, enganchando
a mão com força no meu cabelo quando consigo
abrir e abaixar a calça dele, alcançando o que
quero.
A vontade de fazer uma gracinha para tentar
aliviar o clima é forte, mas uma parte muito grande
de mim está curiosa para saber o que essa versão
irritada do Eduardo tem a oferecer. E tenho certeza
de que estou bem perto de descobrir quando ele me
puxa e me vira com a bunda para o alto, cabeça
apoiada no braço do sofá.

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Sinto sua boca atrás da minha orelha quando


sussurra, perguntando se tenho alguma ideia de
como eu o estou enlouquecendo. Sua respiração é
pesada em mim e seus dedos afastam minha
calcinha. Sua mão enrosca meu cabelo no mesmo
instante em que o sinto pressionar-se contra mim, e
é com um gemido mal contido que ele nem tenta
me torturar, entrando em mim com uma força
deliciosa.
E é duro, rápido, forte, com dedos cravados na
minha pele e respiração descompassada que
Eduardo me preenche, com estocadas intensas que
me fazem desmanchar debaixo dele rápido demais.
Ele não demora para me acompanhar e sinto seu
coração batendo acelerado contra as minhas costas
quando se apoia em mim.
Eduardo ergue o corpo um minuto depois e me
ajuda a levantar, a abaixar minha saia e, quando

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termina de arrumar a própria roupa, me puxa de


novo, mas dessa vez para um beijo longo, lento e
carinhoso. É como se tivesse deixado toda sua
irritação dentro de mim e, se é essa a punição por
deixar Eduardo com raiva, acho que vou começar a
fazer besteira de propósito.
Ele não precisa dizer nada, só esse beijo já diz
tudo. E Eduardo sabe disso, porque me prende a ele
por tanto tempo, em um toque tão gentil, com sua
mão percorrendo meu rosto, que sinto lágrimas
brotando no meu rosto de novo.
Edu libera minha boca com uma mordida no
lábio inferior que me faz suspirar e apoia a testa na
minha. Posso ver lágrimas brilhando nos olhos dele
também.
— Eu te amo, sempre vou te amar. Não tem
absolutamente nada que seja capaz de apagar do
meu coração esse sentimento que cresceu tão

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rápido. E talvez seja isso que te assusta. Você


sempre disse que não queria uma paixão
avassaladora, que queria um amor tranquilo. Mas
nunca me deu a chance de te provar que posso te
oferecer isso.
Eduardo pausa, respirando fundo, olhando-me
com tanta intensidade que não consigo evitar um
soluço.
— Você não está pronta. Talvez não esteja
nunca. Mas isso não me impede de te amar.
Meu coração dá um pulo. Não sei se pela
declaração ou se pelo tom de voz tão
completamente cheio de amor e raiva ao mesmo
tempo.
— E o que acabou de acontecer aqui só reforça
seus medos. Como se você precisasse de mais
motivos para ir embora. Como se precisasse de
mais alguma para achar que eu não presto.
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Eduardo ri, um riso seco, e começa a me soltar,


mas eu não estou pronta para ir. Ele está errado,
está tão errado. Realmente não quero uma paixão
avassaladora, mas o que construímos nesse último
mês me mostrou que podemos ser muito mais que
isso. E não acho que tenha nada que Eduardo possa
fazer a essa altura que me faça pensar que ele é
qualquer coisa menos do que o homem íntegro que
sempre mostrou ser.
— A diferença é que vou te amar daqui e nunca
mais te procurar a menos que haja algum contrato
para ser assinado — ele continua. — Sou fraco
demais para fingir que consigo te ter por perto. Não
consigo. Dói mais do que posso aguentar não te
tocar a cada minuto. Então se você sair por aquela
porta sem me contar o que está escondendo de
mim, é para nunca mais voltar.
Eu preciso falar com ele. Preciso contar para ele.

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Mas como? Como posso ser egoísta a ponto de


dizer em voz alta o que está me sufocando quando
sei o quanto vai se machucar quando souber?
Porque esse sim é o problema: ele vai se machucar
muito mais com essa história do que comigo indo
embora. Eduardo vai ficar bem, por mais que me
ame, vai ficar bem. Mas não vai ficar bem se
Vinicius fizer o que prometeu.
Não é só essa história da Patrícia, seja lá quem
ela for, que Vinicius ameaçou espalhar por aí e
acabar com a reputação que Eduardo construiu ao
longo dos anos, não. Essa é só a pontinha do
iceberg que o Titanic está prestes a acertar, e eu
estou igual ao Jack sem conseguir subir na porcaria
daquele pedaço de madeira mesmo que claramente
ele coubesse ali e não precisasse morrer. Nunca
entendi esse filme. Nunca.
Tem um jeito de consertar isso, eu sei que tem.

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Mas não sei qual é. E sei que não vou conseguir


pensar claramente com ele aqui, com o cheiro dele,
com o gosto dele na minha boca.
— Eu sinto muito — murmuro e ele fecha os
olhos, balançando a cabeça.
E aqui está claro que Eduardo não vai correr
atrás de mim. Não vai tentar me ganhar de volta,
não vai tentar me convencer a ficar. Como sempre,
ele deixou o poder em minhas mãos: tudo que
tenho que fazer é dizer que não quero e ele se
afasta. E cumpre suas promessas. Mas eu nunca
disse que não quero, estou o tempo todo dizendo
que não posso. Mas isso não faz diferença, não
espero que faça. Gostaria que fizesse, mas sei que
não faz.
Levanto do sofá e, com as pernas bambas e
mãos trêmulas, ando em direção à porta. Quando
alcanço a maçaneta, olho para trás e me permito

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guardar só mais essa imagem dele na minha mente.


— Você vai ficar aqui? — pergunto, porque
preciso ouvir a voz dele só mais uma vez, nem que
seja para dizer que não é da minha conta.
Eduardo pega o papel que tinha na mão quando
eu entrei na sala. E me responde sem levantar os
olhos da folha.
— Não é como se tivesse alguém me esperando
em casa.
Vinicius venceu.
Voltamos à era de Eduardo saindo da empresa às
dez da noite e chegando seis da manhã.
Vinicius venceu. E é minha culpa.

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Capítulo 34

NÃO ESTÁ FRIO, MAS ESTOU com o corpo


todo tremendo quando bato na porta do
apartamento de Guilherme e espero que ele abra.
Até estou com a chave em algum lugar perdido no
meio das minhas tranqueiras na bolsa, mas vou
precisar derrubar tudo no chão para encontrar e não
posso me dar ao trabalho. Meus sapatos já estão na
minha mão porque não aguento mais. Não sou
obrigada. Chega de sofrimento desnecessário, já
basta todo o resto.
Quando ouço o barulho da chave sendo girada,
respiro aliviada. E depois resmungo quando vejo

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Fernanda, enrolada em um casaco maior que seu


corpo inteiro. Ela ergue as sobrancelhas para mim e
sai do caminho, deixando-me entrar.
— Achei que tivesse sido clara no telefone de
que não quero falar com você, Juliana — diz
enquanto atravesso o batente, e acho que é um
recorde: reviro os olhos depois de dois segundos na
presença dela. — Você invade a casa de todo
mundo que não te dá atenção?
— Fê, por favor — Guilherme intervém e quase
taco a bolsa nele também. Agora vai me defender,
traidor?
Meu irmão suspira e balança a cabeça,
claramente sem saber o que fazer com nós duas.
— Desculpa vir a essa hora — digo, dirigindo-
me ao meu irmão e ignorando completamente a
presença do projeto de surucucu que pelo visto
mora aqui agora.
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Gui levanta e vem me dar um abraço.


— O que aconteceu? — pergunta, levando-me
para o sofá. — Você estava com uma voz horrível
no telefone.
Suspiro e olho para Fernanda, que não dá
nenhum sinal de querer sair daqui. Não sei se
confio nela para contar tudo, então resumo a
história, conto o que interessa: que estávamos
juntos e não estamos mais. Ela não parece surpresa,
então assumo que Guilherme já tinha contado sobre
o breve romance. Breve. Porcaria.
Ele me olha e balança a cabeça.
— O que você fez, Juliana?
— Por que eu que tenho que ter feito alguma
coisa? — protesto. — Você está sendo muito
injusto!
Guilherme suspira e arqueia a sobrancelha,
esperando.
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Quero ficar ofendida pela insinuação, mas meu


irmão me conhece melhor do que ninguém e sabe
que se tem alguém que se sabota nesta cidade, essa
pessoa sou eu.
— A gente tem que conversar, pode não ser
hoje, mas a gente precisa — admito, olhando para
Fernanda, que exibe uma cara de tédio. — E juro
que se você abrir a boca e contar para alguém o que
eu vou dizer agora, arranco esse seu megahair —
falo e ela revira os olhos, levantando da cadeira
onde está sentada.
— Se acalma o coração da princesinha, eu saio.
Não demora, Gui — pede, andando em direção ao
quarto.
Olho para o meu irmão e vejo-o babando por
ela, os olhinhos brilhando. Pelo amor de Deus, deu
todo mundo para se apaixonar ao mesmo tempo?
As flechas do cupido estavam na promoção e ele

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resolveu fazer um mutirão? Dois pelo preço de um?


Uma pena que o cupido tenha acertado a minha
flecha até bem demais. Tinha era que ter acertado
um soco na cara do Vinicius ao invés disso.
Quando digo a Guilherme que fui eu a ir
embora, ele já começa a tagarelar sobre como não
sei lidar com relacionamentos, mas fica quieto
rapidinho quando conto o motivo. Quando digo o
que Vinicius me falou. Quando conto sua ameaça.
Meu irmão fica em silêncio por um momento,
encarando-me boquiaberto, e sei que tem um grito
vindo por aí.
—Você escolheu o jeito mais doloroso possível
para terminar com ele Juliana! Qual o seu
problema?
“Qual o seu problema, Juliana?” vai ser a frase
gravada na minha lápide, porque olha…
— Eu não tinha como fazer diferente! —
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respondo no mesmo tom. — Ele precisava


acreditar. Você não conhece o Eduardo, Gui. —
Suspiro, passando a mão no rosto. — Não ia
desistir se achasse que estou fazendo isso por ele.
Guilherme estica o braço e vou para o seu colo.
Isso está muito errado, ele é o caçula, eu devia estar
consolando. Agora sou eu que estou toda embolada
e ele todo emocionalmente estável. Guilherme em
um relacionamento sério é algo que não achei que
fosse ver antes de ele ter cinquenta anos. Ainda
mais com Fernanda.
— Eu o amo tanto, Gui — murmuro, entre
lágrimas. — Ele vai ficar tão irritado comigo se
descobrir o motivo de eu ter ido embora. Já posso
até ver aquela cara toda séria me dizendo que não
precisa ser protegido e eu devia confiar nele.
Fungo e seco o rosto na manga da camisa dele, e
Guilherme protesta, reclamando da nojeira.

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Problema é dele, que lave a camisa depois.


— E por que você não conta o que Vinicius
disse? — pergunta, passando a mão pelos meus
cachos. — Pelo amor de Deus, alguém tem que
parar aquele homem — resmunga.
Tem mesmo. O que me lembra mais uma vez
que realmente preciso falar com a Fernanda. Yay.
Suspiro.
— Porque ele é cabeça dura e determinado
demais para aceitar isso. Certeza que ia cismar que
não ia acontecer nada disso e que a gente ia poder
continuar junto em paz. E aí quando a bomba
explodisse e Eduardo visse o tamanho do estrago,
ia me culpar. Talvez não na hora, mas ele ia, por
dentro ele ia. Ia me culpar por tirar dele a coisa
mais importante da sua vida.
Permito-me chorar por mais alguns minutos,
mas depois levanto. Priscila tem razão: fiz uma
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escolha e preciso bancar isso. Ficar chorando pelos


cantos não vai resolver nada nem fazer bem a
ninguém.
Preciso dar um jeito na minha vida.

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Capítulo 35

— SE VOCÊ NÃO QUISER IR, eu entendo.


Podemos desmarcar.
Olho-me no espelho. Estou linda. A maquiagem
impecável, o vestido certo. Até o salto que tanto
odeio parece favorecer a produção.
Não, não quero ir, não estou com a mínima
vontade de me enfiar em uma boate lotada, mas
preciso sair de casa. Preciso sair de casa ou vou
sufocar nas lágrimas que insistem em cair a todo
tempo, na dor que parte meu peito. Mal consigo me
reconhecer. Sempre fui a rainha do drama, mas essa
semana está demais. Efeitos colaterais de

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abstinência de Eduardo.
Quando que eu fiquei desse jeito por causa de
homem? Ainda mais um que conheço há poucos
meses. Um que comecei a amar tão recentemente.
Tem alguma coisa na pele dele que vicia, não é
possível.
As últimas semanas que passamos juntos foram
intensas demais para eu conseguir esquecer tão
facilmente assim, principalmente porque não quero
esquecer. Quero ir até ele, estar com ele.
Quando sexta-feira chega, tenho certeza de que
essa foi a semana mais difícil que já tive. Sinto
tanto sua falta. E não ajuda em nada que eu sinta
raiva cada segundo do meu dia. Estou com pena
das minhas futuras leitoras quando colocarem as
mãos no meu livro, eu estava realmente planejando
um final feliz, mas depois desses dias horríveis que
tive, acabei afundando os personagens em um

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buraco tão fundo que não tenho ideia de como tirá-


los de lá. Acho que vão acabar separados mesmo e
vida que segue.
Na vida as coisas nem sempre saem como a
gente quer, mas como elas precisam acontecer, por
algum motivo cósmico que o universo se recusa a
explicar. Às vezes a gente se vê forçado a percorrer
um caminho que não gosta, e a minha esperança é
que seja como em um conto infantil e o final da
estrada tenha uma moral da história bonitinha e
com uma mensagem positiva. A mensagem sendo
de preferência “parabéns, ótimo trabalho, aqui seu
executivo gostoso como prêmio”.
— Vamos — digo por fim e vejo que Priscila
está animada, embora bem preocupada comigo
também.
Fernanda, por fim, respondeu e disse que não
vai nos encontrar lá. Eu ainda tenho vontade de dar

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na cara dessa nojenta por tudo que já me aconteceu


por causa dela, mas me forço a respirar fundo. Não
vai ajudar em nada descontar nos outros as minhas
frustrações agora. Ela não quer ir, então não quer ir.
Respiro fundo e saio da frente do espelho.
Caminhamos até onde Priscila estacionou o carro e
ela tenta me distrair tagarelando sobre coisas
aleatórias e, por fim, acaba me envolvendo no
assunto.
O buraco no meu peito está maior hoje porque
nem no escritório Eduardo apareceu. Mandou
somente um e-mail de cinco palavras avisando.
Nem bom dia, nem um “atenciosamente, Eduardo”.
Nada. Estou fora resolvendo um problema. Curto e
grosso. Sei que passou o dia no galpão, e uma parte
de mim está feliz por ele pelo menos estar fazendo
algo que gosta, mas uma parte maior e bem egoísta
queria que estivesse na sala dele para eu poder vê-

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lo por cinco segundos que fossem.


Alguém me contrata para escrever uma novela
mexicana. Sucesso garantido.
Chegamos a um bar movimentado algum tempo
depois e já estou implorando para todos os deuses
que tenha lugar para sentar, porque se eu tiver que
ficar em pé a noite toda com este sapato, vou ter
um treco.
Amém que Priscila desistiu da balada e se
contentou em vir para cá. Entramos e vejo uma
mulher sentada atrás de um microfone, segurando
um violão. A voz é bonita e inunda o ambiente,
mas sem fazer todo mundo ficar surdo como
costumam ser esses covers, e agradeço. Deus me
livre de ter que ficar gritando para Priscila me
ouvir.
— Eu tenho uma coisa para te contar.
Priscila me olha, levando o copo até a boca, e eu
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espero.
Ela parece… constrangida?
Quando que essa mulher ficou sem graça com
qualquer coisa na vida? Priscila é capaz de tirar a
roupa e dançar em cima da mesa, sem nem piscar e
sem se importar com o que ninguém está pensando.
Fico curiosa. Apoio os cotovelos na mesa e olho
para ela. Bem atenta.
Priscila toma um grande gole da bebida antes de
abrir a boca. Quando parece que tomou coragem o
suficiente para falar, o garçom chega com uma
porção de batata frita e põe sobre a mesa,
perguntando se queremos mais alguma coisa.
— Outro desse — pede, apontando para o copo
já vazio de chope. Ergo a sobrancelha e estico a
mão sobre a mesa. Ela bufa e revira os olhos com
uma risada incrédula, mas não recolho.
Priscila se rende e começa a revirar a bolsa,
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apanhando a chave do carro e entregando-a para


mim, contrariada. Não que eu vá dirigir também,
mas sei disso. A loira é meio louca inconsequente
às vezes e não dá para arriscar confiar no bom
senso dela não. Tudo que consigo ouvir neste
momento é a voz de Eduardo dizendo que eu
jamais deveria entrar no carro de alguém que
acabou de beber e dou um gole do meu copo.
Como se perdesse a coragem, ela desconversa e
começa a reclamar do tal cliente de Brasília que foi
visitar há algumas semanas e eu empurro bem para
o fundo da minha mente a memória daquele fim de
semana.
Entre drinques e porções exageradas de comida
que vão me fazer chorar de arrependimento da
próxima vez que precisar vestir uma calça jeans,
conversamos animadamente. Não sei se sou eu
projetando meus problemas nos outros, mas tenho a

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impressão de que tem alguma coisa incomodando


minha amiga. Toda vez que tento perguntar, ela
desconversa e decido respeitar. Não dá para eu
colocar uma arma na cabeça dela, afinal. Ou será
que dá?
Com o tempo, acabo esquecendo um pouco todo
o motivo do meu sofrimento e aproveito a noite. O
repertório da menina varia entre sertanejo e MPB,
passando por algumas versões menos agitadas de
hits pops e é tudo bem agradável.
Fico feliz de ter saído de casa e não estar mais
trancada no quarto afundando em sofrimento
depois de sair do trabalho, que, diga-se de
passagem, tem sido torturante.
— Ah, vamos, pare de me enrolar! — exijo por
fim depois de Priscila passar quase vinte minutos
falando sobre o uniforme dos garçons. — O que
você está escondendo? Eu vou morrer de

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curiosidade.
Por um segundinho só meu coração bate
descompassado com a possibilidade de ser algo
sobre Eduardo. Mas ela não é nem louca de me
deixar no escuro esse tempo todo se fosse isso.
— Talvez eu esteja começando a me aproximar
de alguém — confessa, apoiando o rosto nas mãos.
Engasgo no meio de um gole do suco de laranja
que pedi. É o quê? Olho para ela, boquiaberta,
enquanto Priscila morde a boca, nervosa. Tento,
juro que tento, mas um riso descontrolado sai da
minha garganta.
Vejo quando ela suspira aliviada.
— Achei que fosse ficar chateada, você sabe…
— diz e eu dou um tapa no seu braço.
— Não é porque minha vida está uma merda que
todo mundo tem que sofrer também — digo, dando
os ombros, e me dou conta do ridículo da situação.
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— É o cara do casamento? — pergunto e Priscila


confirma com a cabeça. — Vocês estão juntos,
juntos?
— Era para ser só mais um carinha que eu estou
pegando, entre tantos outros. Mas ele é… diferente.
Sorrio, porque sei exatamente como Priscila se
sente presa com facilidade. Qualquer sinal de
emoção vinda do cara, e ela pega as coisas dela e
vai embora no meio da noite. Minha amiga odeia
cobranças — menos as minhas, essas ela não tem
escolha, tem que aguentar mesmo.
Priscila já parou de se dar ao trabalho de me
falar que conheceu alguém. Nesses poucos meses
que nos conhecemos, e nos tonamos extremamente
próximas, ouvi falar do vizinho gostoso, do cara
gato do quinto andar, do garçom do restaurante da
esquina e do vendedor ruivo da loja de lingerie. E
ela nunca anuncia nenhum deles, só me conta os

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detalhes sórdidos, extrema e desnecessariamente


explícitos depois.
— Mas acho que agora ele é que não quer nada.
— Ela cata uma batata da vasilha e mastiga o mais
lentamente possível.
Eu solto uma gargalhada amarga.
— Igual Eduardo não gosta de mim — respondo
ácida. Ia ser tão mais fácil se fosse verdade…
Ela revira os olhos e solta um grunhido.
— Você aproveitou muito bem sua fase
insegura, é a minha vez.
Nego com a cabeça.
— De jeito nenhum. Não tem uma gota de
insegurança no seu corpo, mulher. Você vai atrás
do que quer, tira a roupa e espera o homem pelada
na cama dele — provoco e ela me fuzila com uma
falsa raiva nos olhos quando me lembro do que me

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contou há alguns meses.


Priscila morde a boca.
— É, né?
Concordo com a cabeça.
— Vai. — Ela nega com a cabeça. — Vai logo!
Eu vou ficar bem. Vou beber mais alguma coisa e
vou para casa daqui a pouco. Vai!
Priscila me olha com uma cara que mostra que
ela não está feliz com a ideia de abandonar a amiga
por causa de um cara, mas a verdade é que não vai
ser ruim ficar comigo mesma neste ambiente
agradável. E vai me fazer bem saber que ela está
feliz. Digo isso e a loira levanta da cadeira, me dá
um beijo dizendo que me adora e sai correndo porta
afora do bar. Sacudo a cabeça, rindo. Ela é
inacreditável.
Termino meu suco e ouço mais algumas músicas
antes de chamar o garçom para fechar a conta.
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— Lia? — A voz da cantora faz arrepiar minha


espinha.
Bem doida. Existem um milhão de pessoas que
de fato se chamam Lia nesta cidade. Pare de
paranoia, Juliana.
— Tem alguém que gostaria de dedicar uma
música para você.
Ouço o dedilhar do violão e, antes mesmo de ela
começar a cantar, reconheço a melodia. A letra de
Let her go ressoa em sua voz melodiosa e eu
congelo.
Começo a olhar ao redor, entre o mar de gente
sentado nas mesas e de pé pelos cantos,
conversando alto, rindo.
Só sabe que estava bem quando se sente mal
Lembro-me de quando Eduardo me abraçou na
cama, depois de um dia miserável no escritório e
uma visita frustrante ao seu pai, e me beijou.
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Deixou que eu o acalmasse, me embalou e confiou


em mim para ajudá-lo a esquecer os problemas por
algumas horas.
Só odeia a estrada quando sente saudade de
casa
Lembro-me dos beijos roubados pelos cantos.
Os olhares clandestinos. Dos risos sem sentido, do
companheirismo silencioso.
Só sabe que a ama quando a deixa ir
Lembro-me dos aviõezinhos de papel.
E você a deixou ir
E, então, eu o vejo.
Encostado na parede, um copo de vidro na mão.
Está longe demais para que eu veja seu rosto com
clareza, mas reconheço sua postura tensa. Os
braços cruzados, o primeiro botão da camisa aberto.
Ele vira a bebida e põe o copo no balcão. Eduardo

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olha em minha direção por todo o tempo enquanto


a mulher canta a música. As palavras entranham na
minha pele e eu quero chorar.
E choro.
Deixo as lágrimas silenciosas rolarem meu rosto
e, quando a última nota é tocada, ele vira as costas
e sai.
Antes que eu entenda o que estou fazendo,
levanto da cadeira e corro atrás dele, desviando de
uma multidão que parece ter se formado do nada, e,
finalmente, chego à saída. Olho ao redor,
procurando por ele, e o vejo entrar em uma rua
lateral, longe da avenida principal onde o bar é.
Tropeçando nos malditos saltos, apresso o passo
nos poucos metros que nos separam e o alcanço no
segundo em que ele põe a mão na maçaneta do
carro. A rua pequena está completamente vazia e
silenciosa, e tenho certeza de que Eduardo pode
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ouvir meu coração escandaloso batendo.


Eduardo me olha de cima e vejo seus olhos
vermelhos, fundos. O cabelo desgrenhado e a barba
por fazer. Sinto o cheiro do perfume e, por baixo
disso, sinto o cheiro dele. O cheiro que estou tão
acostumada a sentir. O cheiro que senti falta nos
últimos quatro dias de abstinência.
— Edu… — sussurro e posso sentir minha
bochecha molhada pelas lágrimas.
Quero dizer que o amo. Que sinto sua falta. Que
cada segundo dessa semana foi um inferno e não
quero mais fazer isso.
Ergo a mão trêmula, alcanço seu peito e ele
fecha os olhos. Dou um passo em sua direção. E
mais um. Enlaço os braços em seu pescoço e
afundo a cabeça em seu peito. Só por um minuto.
Um minutinho só. Sinto seus braços ao redor da
minha cintura e Eduardo me aperta contra seu
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corpo. Seu nariz vai ao meu cabelo, sua boca toca


minha orelha.
— Por que você me tortura desse jeito?
Sua voz é baixa, rouca, doída.
— Eu sinto muito — sussurro, porque é tudo
que posso dizer. Sinto muito por não estarmos mais
juntos, sinto muito que não possa ser mais fácil, eu
sinto muito que tenha que ser assim. Sinto muito
por ter te machucado.
Eduardo me encosta no carro e me solta,
subindo as palmas até alcançar meu rosto,
segurando com as duas mãos. Tudo que consigo ver
é sua boca, tão perto da minha quando ele se inclina
na minha direção.
Fecho os olhos com a expectativa. Ansiando
pelo toque que tanto me faz falta. Ele escova a boca
na minha, seu hálito quente, doce.
— Você tem alguma ideia do quanto está me
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fazendo sofrer?
Aceno com a cabeça. Eu sei sim. Sei porque
estou sofrendo igual.
— Tem ideia do quanto eu me odeio por amar
uma mulher que pensa que sou um canalha?
Sinto meu coração apertar, partir, ser destruído
em um milhão de pedaços. Ele encosta a testa na
minha e o sinto tremer.
— Eu estou começando a acreditar que sou esse
filho da puta todo mesmo. Para você ter me
deixado sem olhar para trás devo mesmo ser esse
cretino que parece acreditar.
Em um impulso, eu o beijo. Beijo, porque
preciso senti-lo, porque preciso do seu toque,
porque sinto sua falta e não aguento mais ficar
longe. Mas, principalmente, beijo para que ele se
cale. Para tentar, por esse gesto pequeno, dizer que
ele é o melhor homem que já conheci na vida.
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Muito melhor do que eu jamais vou ser.


Eduardo retribui imediatamente. Uma mão sua
engancha no meu cabelo e me puxa para perto, sua
boca me tomando possessivamente. Não é um beijo
que diz que ele me ama, é um beijo que deixa claro
o quanto está irritado. Minhas mãos vão para seus
braços, apoiando-me nele quando sua palma livre
aperta minha bunda. E a cena é tão parecida com
nosso primeiro beijo que não sei se sorrio ou se
choro.
E então Eduardo se afasta. Solta-me e dá um
passo para trás, passando as mãos nos cabelos.
Desencosto do carro e tento ficar de pé sem cair,
tocando meus lábios inchados. Quando me olha,
não vejo nada além de dor nos seus olhos.
— Eu te odeio um pouco também — admite. —
Te odeio por me deixar amar você a ponto de seus
olhos serem a primeira coisa que procuro de

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manhã, e depois ir embora.


Engulo seco. Não sei se dói mais ouvir as
palavras saírem da boca dele ou se é a raiva que
está ali que me machuca.
Eduardo dá um passo na minha direção, mas não
me toca. Alcança a maçaneta e abre a porta. Afasto-
me sem dizer nada, porque minha garganta está
fechada. Quando ele me olha por sobre o ombro, o
que vejo ali me faz desistir completamente. Não
posso fazer isso. Mesmo que ele me mande
embora, mas Eduardo não pode ficar achando que
acredito nessa história.
Chega.

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Capítulo 36

NÃO EXISTE TORTURA MAIOR NO mundo


do que ver esse brilho de dor em seus olhos, ainda
que seja só por um segundo antes de Eduardo
abaixar o olhar para o chão. Dou um passo na sua
direção, mas paro antes de alcançá-lo.
— Eu estou tentando não machucar você,
inferno — grito, mordendo a boca no segundo
seguinte quando ele ergue o olhar na minha
direção. — Não quero ir, mas preciso — sussurro.
Vejo um brilho de alguma coisa perpassar seu
olhar e ele recosta no carro, cruzando os braços.
Eduardo está perto o suficiente para que eu o veja

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engolir seco e travar o maxilar.


— Por quê? — pergunta.
Aperto os olhos por um segundo e dou um passo
na sua direção.
— Eu sei que não tenho nenhum direito de pedir
isso, mas preciso que você confie em mim.
Ele ri, uma risada seca que me diz exatamente o
que acha do meu pedido.
— Patrícia.
Eduardo passa as duas mãos no rosto,
esfregando, parecendo muito cansado. Inclina a
cabeça e cerra os olhos para mim. Confirmo com
um aceno, respondendo à pergunta implícita em
silêncio, deixando que ele lidere a conversa. Edu
repete meu gesto e balança a cabeça também.
— Você vai me contar agora o que sabe dessa
história?

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Meus pés doem, sinto meu corpo tremer mesmo


que não esteja frio, tenho certeza de que minha cara
está destruída, minha maquiagem já era e estou
morrendo de medo de ser assaltada nesta rua
deserta a essa hora da noite, mas o pior de tudo é
ter essa conversa com a clara distância entre nós
dois. Não só a física, mas a voz morta de Eduardo
deixa claro o que está sentindo. Ele parece perceber
meu desconforto e abre a porta do carro, indicando
com a mão que eu entre.
Penso por um minuto e não sei se confio em
mim mesma para estar tão perto dele assim. Que se
dane. Dou um passo em direção ao carro e ele
escancara a porta para eu entrar, bate e dá a volta,
sentando no banco do motorista, olhando para mim.
— Ela era uma aluna do projeto social da
empresa.
— Uma das melhores — ele interrompe,

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passando a mão pelo cabelo.


Concordo com a cabeça. E é exatamente por ser
uma das melhores que passava tanto tempo com
ele. Porque a menina tinha futuro ali dentro e
Eduardo queria ter certeza de que ela estava
recebendo todo o apoio que precisava; era o
coordenador do projeto, afinal. O homem adulto
que passava muito tempo com adolescentes
carentes, muitas vezes desesperados por uma
atenção que não tinham em casa. Se tem algo que
Eduardo merece é um tapa pela completa falta de
bom senso em sequer imaginar as suposições que
poderiam ser levantadas com essa proximidade.
— Perdi as contas de quantas vezes aquela
garota apareceu direto da escola sem ter tomado
nem café da manhã porque não tinha comida em
casa — murmura, recostando a cabeça no banco.
Preciso me controlar muito para não o puxar

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para o meu colo agora. Até porque seria bem


desconfortável com o freio de mão entre a gente.
— E aí ela apareceu grávida e o pai se
desesperou.
Com toda razão. Ele concorda em silêncio.
— Exigiu que você fosse retirado do projeto ou
espalharia por aí que o filho do dono da Rodrigues
Menezes estava usando de um projeto social para
se aproveitar de adolescentes inocentes.
Vejo o maxilar dele travar e quase posso sentir a
raiva exalando do seu corpo quando ele leva as
mãos ao volante e aperta, as veias saltando pela sua
pele branca pela força. Vai acabar quebrando, aí
quero só ver.
— Continue — pede em um sussurro quase
impossível de ouvir.
Respiro fundo. Não quero falar nada disso em
voz alta, droga.
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— Ele apareceu de novo uns anos depois e te


culpou pelo rumo que a vida da garota tinha
tomado. E pediu sua cabeça. Você destruiu a vida
dela e ele achou justo destruir a sua de volta.
Minha garganta queima ao dizer isso tudo e eu
só quero gritar que nunca ouvi um absurdo maior
na vida. Eduardo fica em silêncio por alguns longos
segundos antes de olhar na minha direção.
— Tenho que admitir, é motivo o suficiente para
achar que eu não presto. Mas você já sabe disso —
diz, fechando os olhos por um segundo. — Tanto
sabe que não pensou duas vezes antes de terminar
comigo. Não tem sentido continuar em um
relacionamento com um filho da mãe desonesto
desses, não é?
Um sorriso cansado escapa do meu rosto,
porque estou exausta dessa palhaçada toda. Não sei
quantas vezes mais vou conseguir ouvir Eduardo

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dizer que acho que ele é um canalha ou coisa


parecida antes de dar uns tapas nele.
— A gente não usou camisinha das duas últimas
vezes. — Ele olha na minha direção e franze as
sobrancelhas pela mudança abrupta de assunto. Faz
sentido, prometo. — Isso parece coisa de alguém
que não confia em você?
Que vontade de apertar essa carinha linda e
confusa olhando para mim.
— Qualquer um que cheque minha conta
bancária vai ver que sai uma quantidade
ridiculamente alta de dinheiro todo mês para a
conta daquela garota. Quer admissão de culpa
maior que essa?
Fecho os olhos. A raiva na voz dele ainda está
ali, cada palavra como se fosse um tapa. Como se
estivesse desafiando-me a confiar nele mesmo que
tudo indique que é verdade o que Vinicius falou.
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Não achei que fosse chegar o dia em que Eduardo


tentaria me afastar. Porque é isso que ele está
fazendo, dando mais munição para justificar minha
partida. Testando-me para ver até onde eu vou. O
que não entendeu ainda é que eu vou até onde
precisar ir.
— Eu sei que nada disso é verdade, Edu. —
Pauso e inclino a cabeça para ele. — Talvez a parte
do dinheiro. Parece o tipo de coisa que você faria,
ajudar a criar um filho que não é teu. Não que isso
substitua a presença de um pai na vida da criança,
mas ainda assim.
A boca dele cai aberta e uma expressão rápida
de alívio cruza seu rosto antes de ser rapidamente
substituída por irritação.
— O que você está dizendo, Lia? — pergunta
com a voz incerta. — Se não acredita nisso, por que
está me deixando?

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Sinto o desespero começar a brotar na sua


garganta.
Mas você é lerdo às vezes, hein.
— Vinicius não me contou o que contou porque
é um bom samaritano, Edu — digo por fim. —
Aparentemente eu te distraio. E não te deixo
trabalhar direito. Nosso relacionamento está
prejudicando o seu trabalho. Você conhece seu
irmão o suficiente para saber que ele não vai parar
de pentelhar sua cabeça se você não estiver vivendo
para a empresa.
Não é mentira. Eduardo não precisa saber que o
próprio irmão está disposto a destruir a vida
todinha dele por poder. Ninguém precisa chutar
cachorro morto. Isso é o suficiente de informação.
Ouço um riso fraco vir dele.
— Foda-se a empresa, Juliana. — Edu passa a
mão pelo cabelo e encosta a cabeça no banco. —
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Você sabe que odeio aquele emprego de merda.


Sorrio. Olá, boca suja. Senti sua falta esses dias.
— Sei — confirmo. — Sei também que você
faria qualquer coisa pela sua família. Inclusive
assumir a responsabilidade por uma coisa que não
fez.
Eduardo olha na minha direção e abre a boca
para dizer alguma coisa, mas nada sai. Ele não vai
se defender.
Seria bem fácil de provar que não foi ele a se
envolver com Patrícia, mas simplesmente tomou a
culpa. Porque não é sobre a empresa ser a coisa
mais importante da vida dele, nunca foi. A família é
a coisa mais importante, e sempre será. A verdade é
que não foi ele que se envolveu com a garota, mas
alguém é o pai daquela criança. E Eduardo já deu
provas mais do que o suficiente que morreria pela
família. Que abriria mão de tudo e qualquer coisa
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para protegê-los, então ele não vai se defender, não


vai desmentir nada do que eu disse. Do que
Vinicius disse.
— Eu te amo, Edu — sussurro, e minha voz
parece ressoar muito alta dentro do carro. — Te
amo muito para deixar que você se machuque ainda
mais. Não foi você, mas foi alguém. E nós dois
sabemos quem.
Eduardo fecha os olhos e respira fundo.
— Você entende, não entende? — pergunta,
ainda de olhos fechados, sem olhar para mim.
Balanço a cabeça concordando, mesmo que ele
não possa ver.
— Se o presidente da empresa assumisse a culpa
e essa história vazasse, aí sim não teria conserto.
Melhor que fosse o filho mais novo, o prejuízo é
menor para o legado da família.

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Edu acena em silêncio e me olha com sombra


nos olhos.
— Você está me deixando sem motivo nenhum.
Não é uma pergunta, mas Eduardo ainda espera
uma confirmação. Fica entalada na minha garganta
a ameaça de Vinicius, mas seguro.
Ele alcança minha mão.
— Não vá — pede sussurrando.
Mordo a boca olhando para ele, e Eduardo
franze a testa para mim.
— Você por acaso não quer reconsiderar aquela
história de casinho escondido no escritório?
Não sei o que estou fazendo. Não sei o que estou
propondo, e nem Eduardo pelo visto, porque ele me
olha como se eu estivesse completamente louca. Só
sei que realmente não quero ficar sem ele. Mas
também não posso ficar com ele, não em um

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mundo onde Vinicius exista e essa ameaça seja tão


fácil de cumprir. Essa, e todas as outras que ele fez.
— Não tenho interesse nenhum em te comer
escondido e ter que ir para casa sozinho, Juliana,
achei que isso já tivesse ficado claro — diz, firme.
Ele solta um riso doído. — Realmente acha que sou
tão incapaz de cuidar disso? Qual o pior que pode
acontecer? Vinicius fazer pirraça? Eu enfrentaria o
mundo inteiro por você, Lia.
— Eu sei — murmuro.
E eu por ele. E é exatamente o que vou fazer.
Não quero que Eduardo tenha que escolher entre
mim e sua família. Priscila vai ter que me dizer que
inferno de passado é esse que ela tem com Vinicius
se isso for me ajudar, e nem que eu tenha que
arrastar Fernanda por aquele megahair dela, ela vai
me ouvir também. Alguém tem que parar aquele
homem. E eu não tenho vocação nenhuma para

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super-heroína, mas preciso tentar. Por mais que


Eduardo tenha um passado conturbado com
Vinicius, sei que ele não quer o irmão na cadeia,
mas vai ter que lidar com isso.
Suspiro.
— Desculpa.
Eduardo destrava a porta do carro.
— Não vou conseguir te levar em casa —
murmura. — Não sem invadir seu apartamento e
não sair mais. Vou chamar um táxi para você.
Abaixo a cabeça e a balanço. Então é isso. Ele
aceitou.
— Não precisa — sussurro. — Estou com o
carro da Priscila.
O que me faz começar a pensar se ela armou
esse encontro aqui como fez com os outros porque,
vindo dela, eu não duvido é de nada.

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— Você bebeu — ele aponta o óbvio em uma


voz preocupada que me faz querer bater a cabeça
na janela.
— Vou esperar um pouco — digo.
Vou voltar para o bar e afogar minhas mágoas
em um belo copo de suco de laranja. Não bebi
quase nada, então não deve demorar mais do que
uma hora e pouquinho para eu estar liberada para
dirigir.
Olho na direção dele, silenciosamente
perguntando a mesma coisa.
— Refrigerante — diz.
Pelo menos disso ele não morre. Diabetes pela
quantidade de refrigerante que bebe, talvez.
— Esse é o pior término possível, Juliana. —
Ele suspira, cansado. — Quase preferia continuar te
odiando. Talvez fosse mais fácil te esquecer.

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Eduardo me puxa para si e me beija, e não


demora muito para que eu sinta o salgado de nossas
lágrimas em meus lábios. Quando me solta, ele me
olha em silêncio e eu não consigo me forçar a
levantar desse carro, porque sei que no momento
em que sair por essa porta, acabou. Não mais
porque eu estou escondendo alguma coisa dele,
embora ainda esteja, mas porque Eduardo tem seu
próprio segredo para guardar.
Enquanto abro a porta e dou uma última olhada
para ele, tudo que consigo pensar é em arrumar um
jeito de consertar isso, e rápido. Já estou sentindo
falta dele sem nem ter ido embora ainda. Uma parte
minha pertence a Eduardo agora, e eu não quero
pegá-la de volta.
Realmente não consigo imaginar viver sem ele.
E quando ele me olha pela janela do carro antes
de dar a partida, sei que não quer viver sem mim

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também.
Não tem a menor chance de eu desistir desse
homem agora.
Puxo o telefone da bolsa e disco o número do
meu irmão.
— Põe tua namorada na linha.

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Capítulo 37

NÃO IMPORTA QUANTO TEMPO passe, meu


ódio por estes malditos saltos não muda. Quer
dizer, mudar, muda, porque piora a cada segundo
que passa. Vou resmungando até a sala do senhor
Barbosa e forço um sorriso contrariado quando bato
na porta. O homem manda que eu entre e estendo a
pasta para ele. Abre o documento e passa longos
minutos conferindo cada linha escrita, uma, duas
vezes, e é inevitável comparar.
É inevitável comprar com a relação que sempre
tive com Eduardo, mesmo antes de nosso
relacionamento começar, mesmo depois que

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terminou. Ele nunca passou mais do que alguns


segundos percorrendo os olhos por qualquer coisa
que entregasse a ele. Bem louco? Sim. Não sei
como até hoje não deu nenhum problema. Mas a
confiança sempre foi tanta, tão inegável, sempre
ali.
E não consigo evitar me perguntar se ele confia
tão cegamente assim na nova secretária dele,
mesmo que ela só tenha aparecido há pouco mais
de uma semana. Não consigo evitar me torturar
pensando na relação que os dois estão construindo,
passando tanto tempo juntos. Olha a ciumeira
ridícula que não consigo evitar que exista.
Três semanas. Foi esse o tempo que passou
desde aquela sexta-feira à noite em que encontrei
com Eduardo no bar. Três porcarias de semanas
que parecem estar durando duas eternidades.
Aquele final de semana foi miserável. Perdi a

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conta de quantas vezes quase bati na porta dele e


contei tudo, porque o silêncio estava me matando.
Só que o silêncio dele veio acompanhado de uma
mensagem de Vinicius. Uma só. Fazendo-se bem
claro e irritante, e aí minha vontade mudou e quase
fui à casa dele dar na cara do nojento. É como se
conseguisse ler meus pensamentos. O que não era
difícil, qualquer idiota conseguia ver meu estado.
Quando o fim de semana acabou, eu tive certeza
de que não tinha a menor condição de eu continuar
trabalhando lá. Não ia conseguir passar o dia inteiro
com Eduardo tão perto sem enlouquecer. E foi com
muita dor no coração que na segunda de manhã
entrei na sala dele com minha carta de demissão em
mãos.
E eu que achei que entregar aquele papel fosse
ser a parte mais difícil, bem ingênua. O mais difícil
foi Eduardo pegar o envelope da minha mão, olhar

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nos meus olhos e, com uma voz dolorida, me


desejar sucesso na vida. E, imediatamente, voltar
seus olhos para a planilha que estava mexendo.
Assim. Como se nada nunca tivesse acontecido.
Como se eu sequer existisse em sua vida. Não sei o
que aconteceu naqueles dois dias, mas é como se
ele estivesse decidido a simplesmente esquecer
tudo.
Quem diz que ódio é o oposto do amor não sabe
o que está falando. Naquele momento daria tudo
para ele gritar comigo. Chamar-me de imatura,
irresponsável. Dizer que me odiava e eu o estava
machucando. Qualquer coisa, qualquer mínima
demonstração de emoção. Mas não. Nada. Mais
silêncio. E silêncio é tudo que tenho recebido desde
então.
A única coisa que não me fez enlouquecer
completamente é o fato de meu celular não parar de

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tocar com chamadas de empresas aleatórias que


nunca nem ouvi falar, para onde nunca nem mandei
currículo. E sei que isso é coisa do Eduardo.
Metade de mim quer ir até lá e dar na cara dele por
se comportar como se eu precisasse de ajuda para
conseguir um emprego. A outra metade sorri por
ele ainda pensar em mim.
Tenho certeza de que esse é o jeito de ele dizer
que está aqui, sem dar o braço a torcer, porque
Eduardo me conhece bem o suficiente para saber
que não deve nem se atrever a se meter nas minhas
decisões profissionais. Só para provar um ponto, fiz
questão de pedir uma entrevista justamente na
única empresa para onde ele não ligaria,
comandada por um homem com quem o pai dele
tem um desentendimento antigo. Nada
desesperador, nada que signifique trair a confiança
de Eduardo. Nem sei qual o problema, mas não
parece nada que o envolva.
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— Está tudo certo, Juliana — senhor Barbosa


diz. — Você tem sido nada além de perfeitamente
competente nessas semanas, preciso te parabenizar
pelo trabalho.
Sorrio e agradeço o homem grisalho que me
olha com aprovação, pegando a pasta de sua mão.
Sei que estou fazendo um ótimo trabalho, pelo
amor de Deus né. Da minha competência ninguém
pode duvidar. Da minha capacidade de fazer minha
vida funcionar, aí tudo bem. Não prometo milagres.
Não posso ser perfeita.
— Vai ter uma reunião na filial do centro na
quinta-feira — diz, recostando na cadeira. — Quero
que você vá.
— Tem certeza? — pergunto. — Tenho certeza
que há funcionários mais antigos que podem fazer
isso.
Não é que eu ache que não posso. É só por uma
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questão de lógica e hierarquia. Ele dá os ombros.


— Quero que você vá — reforça.
Agradeço a confiança e saio da sala, voltando
para a minha mesa bem decidida a trabalhar mais
do que nunca. Trabalhar é bom. Trabalhar faz bem.
Trabalhar faz com que eu não passe vinte e quatro
horas por dia pensando naquele par de olhos
castanhos e nariz torto. Faz com que eu não fique
me lamentando pelos cantos. Faz com que eu não
trame planos muito detalhados para matar Vinicius
se encontrar com ele na minha frente.
Na verdade, não impede a última parte não.
Inclusive, está em andamento. Dolorosamente
lento, mas está em andamento. Fernanda ainda está
tentando entrar em contato com as funcionárias
antigas do embuste. Eu acho que a mulher devia
simplesmente denunciar, mas ela não quer. Acha
que ninguém vai acreditar nela, e infelizmente pode

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ter razão. Quer provas e está indo atrás disso. Ainda


acho que seria melhor gravar Vinicius confessando,
bem estilo filme mesmo. Bem dramático. Mas nem
sugeri essa ideia louca. Quer fazer do jeito dela,
então do jeito dela será.
Após algumas horas de trabalho sem pausas,
sinto meu celular vibrar no bolso e desbloqueio a
tela para encontrar uma mensagem da minha loira
favorita.

Almoço amanhã?

Repasso meu calendário na cabeça e vejo que


não tem como. Ela está muito longe de Botafogo,
onde trabalho agora, perto demais de onde Eduardo
mora para que não seja uma tortura infinita evitar
passar em frente ao seu apartamento feito uma
perseguidora louca.
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Priscila nunca disse que ele perguntou por mim


ou mencionou meu nome desde que me demiti.
Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum e-
mail. Valentina ainda está comigo porque nem para
isso Eduardo me procurou. Completo silêncio e
indiferença.

Não posso amanhã. Mas tenho uma reunião


no centro na quinta. Toma um café comigo de
manhã?

Odeio café, mas por ela até jiló com agrião. A


resposta positiva vem rápida e eu sorrio. Priscila
tem sido mais do que um anjo da guarda nesse
tempo que passou, aguentando minhas alternadas
entre “estou perfeitamente bem” e “quero deitar em
posição fetal e chorar”.
Consigo ver aquele homem em cada pedaço do
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meu apartamento. E não ajuda em nada que tenha


tanta coisa dele lá. O desgraçado não foi buscar
nada. E eu também não fui entregar. É como se eu
quisesse manter um pedacinho que seja dele
comigo.
— Já almoçou? — A voz de Gabrielle aparece
do nada quando a garota morena de não mais que
dezenove anos de idade para em frente à minha
mesa, mastigando um chiclete. — Meu namorado
terminou comigo, preciso comer besteira.
Rio, porque não sei de onde veio essa intimidade
que ela acha que a gente tem. A garota
simplesmente aparece do nada de vez em quando e
começa a falar da vida dela como se eu fosse
psicóloga.
— Já almocei — respondo e ela faz bico. —
Mas acho que tenho um chocolate na bolsa.
Arqueio as sobrancelhas para ela e vejo a garota
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morder o lábio.
— Eu não devia, né? — pergunta, parecendo
incerta. — Acho que um regime pós-chute na
bunda vai me fazer bem. Estou precisando de
qualquer forma. O espelho já está rindo de mim.
Estendo a mão e alcanço a dela.
— Você é linda. E não precisa de homem
nenhum para saber disso. Não sei qual foi o motivo
de ele terminar com você, mas às vezes essas coisas
são livramento. A gente sofre, mas é a melhor coisa
que pode acontecer.
É a vez dela de erguer as sobrancelhas para mim
e me olhar com uma cara de atrevida que as
adolescentes têm. Meu Deus, virei a tia velha.
Quando isso aconteceu? Daqui a pouco vou andar
por aí falando que na minha época era tudo mato.
— E você está aí sofrendo pelo seu ex por que
então? — pergunta, provocando-me. Ela não sabe
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da história, só sabe que existe uma.


Então nem adianta tentar explicar que fui eu a
doida que largou aquele homem maravilhoso.
Mereço mais é sofrer mesmo. E não tem ex
nenhum não. Ele ainda é meu, e sabe disso. Talvez
eu tenha perdido completamente o juízo e ido parar
no outro extremo da balança, de completamente
insegura para inteiramente inabalável, mas me
recuso a acreditar que aquilo foi um término.
Se tem um lado positivo nessa história, é que
esse tempo que estamos separados me fez crescer
na marra. Não sei bem como, mas fez. Nunca
consegui calar a voz que gritava no fundo da minha
mente que dizia que Eduardo merecia alguém
melhor que eu, e hoje consigo entender que não era
só uma questão de insegurança. Era verdade
mesmo. Ele merecia mais do que uma mulher que
estava pronta para fugir a qualquer momento, com

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medo, que não estava pronta para o relacionamento


que ele estava disposto a construir.
O que só consegui entender depois de estar
longe dele é que eu posso ser essa coisa melhor que
Eduardo merece. Mas preciso fazer isso por minha
conta. E tenho feito. E me dói um bocado perceber
que a Juliana de hoje talvez tivesse achado um jeito
de não precisar sair da vida dele. Homem teimoso
dos infernos também. Custava concordar com um
casinho escondido? Quem, em sã consciência,
dispensa umas sessões de sexo clandestino?
Mas o ponto é que a Juliana de hoje tem orgulho
da mulher que está se tornando, em meio à dor. E
se orgulha ainda mais por ter se tornado isso não
por causa de homem nenhum — embora seja de
Eduardo que estamos falando —, mas por ela
própria. Juliana de hoje não sabe bem por que ela
está falando de si mesma na terceira pessoa, aliás.

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A questão é que quando olho para mim, hoje,


aqui, dizendo para essa menina que ela é linda e
não precisa de aprovação de homem nenhum para
isso, vejo a Juliana de quinze anos que não ouviu
isso de ninguém. Vejo o longo caminho que
percorri desde então e me orgulho. Não das
besteiras que fiz, mas de onde cheguei.
E sei que hoje eu não tentaria pegar o Rafael
para tentar proteger meus sentimentos, porque sei
que eles não precisam ser protegidos. Precisam ser
vividos.
E não vejo a hora de voltar a vivê-los.
Talvez eu toque a campainha quando passar na
porta do apartamento dele hoje. Quem sabe
Eduardo não está pronto para mudar de ideia sobre
pegações escondidas?

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Não toquei a campainha.


Deveria ter tocado, mas não toquei. Talvez não
devesse, nem sei mais. Tenho vontade de jogar
estes sapatos na lata de lixo todas as vezes que
chego em casa, mas a facada que vai ser comprar
um novo par confortável me faz desistir da ideia.
Ouço o miado insistente da bola de pelo vindo do
meu quarto e vou até lá, ver se o demoniozinho
precisa de água ou comida, e não surpreende
ninguém eu dar de cara com Valentina em cima da
minha cama. Eu que morra de alergia, porque ela
não vai levantar essa bunda peluda da roupa de
cama limpinha.
Cuido da peste em forma de gato e tomo banho.
Encaro o espelho do banheiro tentando decidir o
que fazer com este ninho de pássaros na minha
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cabeça. Tem dia que dá vontade de raspar só de


pensar no trabalho que é arrancar os nós dos fios.
Prometo felicidade eterna para quem inventar um
jeito de desembaraçar cabelo sem querer morrer.
Faço um coque no cabelo molhado mesmo,
sabendo que vou me arrepender amargamente pela
manhã, mas isso é problema da Juliana de amanhã,
ela que se vire. Olha a louca falando de si mesma
na terceira pessoa de novo.
Vou até meu armário e passo os olhos pelos
pares de instrumentos de tortura. Sério, dá para
matar alguém com isso. Talvez consiga usar um
salto desses para dar na cara do Vinicius. Tudo
bem, talvez eu esteja assistindo filmes de terror
demais. Arrasto os dedos pelas roupas sociais,
blusas com tantos botões que mais parecem o fecho
de um vestido de noiva, saias e vestidos que uso
para o trabalho e nada mais, porque não poderiam
ser mais diferentes do meu gosto. E suspiro. A
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única coisa que não gosto dessa vida que levo é ter
que me montar inteira para poder fazer meu
trabalho. Já reclamei dos saltos? Não sei como
Priscila consegue gostar desses troços. A loira se
entope de maquiagem e roupas que não podem ser
confortáveis por gosto, nunca vou entender isso. Só
quero um chinelo.
Amo meu trabalho, amo o que faço. A pilha de
folhas impressas em cima da mesinha ao lado da
cama com informações de cursos e planejamentos
de viagens a estudo está de prova de que não estou
nem perto de chegar onde eu quero. Tenho vontade
de bater sempre que alguém torce o nariz quando
digo com o que trabalho, como se os quatro anos de
faculdade estivessem no meu currículo só de
enfeite e eu passasse meus dias marcando X no
calendário do meu chefe. Não faço isso com o
senhor Barbosa e definitivamente não fazia isso
com Eduardo.
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Aquele homem louco largava tanta coisa na


minha mão que chegava a dar medo, mas foi bom
para ver do que realmente sou capaz. Que dormir
com meu chefe não foi mesmo escada para nada,
até porque estou ganhando menos nessa empresa
nova. Um absurdo, inclusive. Estou trabalhando
igual a uma corna e meu salário que é bom, uma
bosta. Todo sofrimento para pobre é pouco mesmo,
não basta perder o homem, tem que perder a conta
bancária cheia. Vou chorar.
Pego uma blusa qualquer e a maior calcinha que
encontro e visto antes de me jogar na cama,
puxando o computador para o colo. Abro meu e-
mail e vejo uma montoeira de coisas para resolver,
mas deixo de lado por enquanto. Preciso escrever
um pouco. Meu livro está abandonado às moscas,
daqui a pouco meus personagens me processam por
abandono de incapaz. Mas não estou com vontade
de continuar essa história agora.
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Na minha cabeça, só consigo pensar em escrever


sobre um coroa rabugento de nariz torto, e é
exatamente isso que faço quando meus dedos
começam a bater no teclado barulhento.
Preciso de um computador novo.

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Capítulo 38

TUDO QUE EU QUERO É um dia no SPA


com os pezinhos para cima e um moreno gostoso
fazendo massagem nas minhas costas depois de a
gente dar uns pegas na jaccusi, terminando o dia
confortavelmente dolorida numa cama com lençóis
macios como bumbum de nenê.
Ao invés disso, o que consigo é uma reunião que
parece não ter fim em plena terça-feira à tarde e a
certeza de que não vou sair daqui sem revirar os
olhos pelos menos mais oitenta e sete vezes por
causa do mau humor de Eduardo, que está
distribuindo patadas gratuitas para todo mundo que
abre a boca nos últimos dias.
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Puxo o celular e desbloqueio a tela debaixo da


mesa.

Vou atrasar, bonitinho. Vou precisar da sua


ajuda para desestressar. Economize meu tempo e
me espere sem roupa.

— Acabará mais rápido se você ao menos fingir


prestar atenção em mim, Priscila. — A voz dele é
pesada e irritadiça, ele está sentado do outro lado
da mesa com o contrato em mãos, olhando-me à
espera da resposta para uma pergunta que não sei
qual foi. — Eu quero estar aqui tanto quanto você,
então, por favor.
Reviro os olhos, como esperado.
— Me erra, Eduardo.
Ele arqueia a sobrancelha. Sério que Juliana

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acha sexy quando ele faz isso? Eu só quero bater.


Talvez se quebrar o nariz dele de novo volte para o
lugar. Não sou cega e consigo ver que Eduardo é,
sim, um homem muito bonito. Mas eu prefiro os
meus novos, sorridentes e descomplicados.
— Você me ouviu. Não tenho culpa do seu mau
humor. Se precisar de uma amiga para desabafar,
estou aqui. Sempre estive nos últimos, o que, oito
anos? Mas não vem descontar nada em mim não.
Ele acena com a cabeça e murmura um pedido
de desculpas abafado, e eu indico com a mão para
que desembuche. E eu lá tenho idade para ter filho
desse tamanho? Tenho trinta, não sessenta. Vou
começar a cobrar por minhas sessões de
atendimento psicológico. Juliana tem usado e
abusado de mim nessas últimas semanas desde que
os dois terminaram. Quer dizer, desde que ela
destruiu o coração do coitado e massacrou o seu

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próprio por causa do irmão embuste.


Eduardo suspira e arrasta a mão pelo cabelo.
— Eu realmente preciso falar com ela, não
preciso? — pergunta, apoiando a cabeça na mão.
Confirmo em silêncio. É óbvio.
Nunca fomos melhores amigos de infância, de
trocar confidências e tricotar tomando chá, até
porque odeio chá, mas conheço Eduardo há muitos
anos. Sempre ofereci um suporte silencioso que só
funciona porque ele detesta ficar conversando
muito. Edu realmente precisa parar com essa
resolução de “não vou descobrir o que ela está
escondendo, preciso confiar que sabe o que está
fazendo”. Quando Juliana sabe o que está fazendo?
Fora que ele parece desestabilizado, não só de
coração partido. Existe um máximo de merda que
uma pessoa consegue aguentar ao mesmo tempo.
Eduardo está tendo que lidar com a empresa e o pai
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doente, e até finge que não, mas a ausência da Ju


dói mais do que o esperado. Eu vi nesses últimos
meses como a presença dela se tornou fundamental
e o fez ficar mais leve, mais radiante.
Toda vez que meu celular toca quando ele está
por perto, Eduardo me olha com uma curiosidade
mal disfarçada e não esconde a decepção quando
não é Juliana ligando. Mas ontem foi ela, e vi que
ele estava morrendo para perguntar como Ju estava
ao fim da ligação, mas não perguntou. Orgulhoso.
Teimoso.
A verdade é que, mesmo que ontem Juliana
estivesse ok, animada por alguma coisa que o novo
chefe disse, e me ligou para falar sobre coisas
aleatórias que só fazem sentido na sua cabeça, ela,
mais uma vez, perguntou como ele estava. Está
sendo assim todo dia. Não sei quem sofre mais:
Eduardo por achar que Juliana desistiu dos dois e

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tentar a todo custo tirar a mulher da cabeça, ou ela


por não dizer a ele o quanto o ama e se ver forçada
a ficar longe. A mentira está consumindo minha
amiga por dentro, e ela simplesmente não
consegue. Não consegue tirar o homem da cabeça.
Acho que nem está tentando, para falar a verdade.
A raiva que eu estou de Vinicius pelo que ele fez
não é deste mundo não. Quando eu acho que ele
alcançou o máximo de idiotice, se supera. Aliás,
não. Não supera, porque tem coisa que é impossível
ser superada. É como se Vinicius tivesse feito uma
aposta consigo mesmo para ver o quão escroto
consegue ser. A minha vontade é de contar tudo
para Eduardo e mandá-lo quebrar a cara daquele
nojento. Coisa que eu devia ter feito uma década
atrás e não fiz, não o suficiente.
Mas prometi a Juliana que não faria isso. Porque
nós duas sabemos que Eduardo não vai aceitar o

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fim do relacionamento se souber a verdade. Vai


bater pé dizendo que não se importa com a
empresa, que vale o risco e os caramba a quatro, e
depois vai ser só lapada na cara quando a ficha cair
e ele ver do que abriu mão. Minha amiga não vai
conseguir ser feliz com esse peso nas costas.
E acho que é a primeira vez que Juliana faz
alguma coisa que não seja para se proteger. Que
não seja porque a mulher está sendo egoísta,
insegura ou desesperada. Na verdade, ela cresceu
de um jeito assustador nesse tempo. Não ouvi uma
lamúria vazia da mulher que costumava reclamar
até da temperatura da água do chuveiro. A drama
queen parece ter tirado férias e uma seriedade
assustadora possuiu aquele corpo.
Se for para ser sincera, essa seriedade sempre
esteve ali. Ju sempre foi muito sensata e centrada
com tudo, menos com Eduardo. Com ele aquela

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mulher era um poço de insegurança e medo. E


então, nada. Não sei se ela está fingindo essa
maturidade toda, mas, tirando a preocupação
visível que tem com Edu e a saudade que nem faz
questão de esconder, ela parece… que não está a
ponto de morrer como eu esperava que estivesse.
E Eduardo parece estar caindo aos pedaços, um
pouco mais a cada dia, mas sem dar o braço a
torcer.
— Vamos terminar isso logo, sim? — digo e ele
acena com a cabeça, voltando à lista de metas a
serem atingidas até o fim do mês. E aí, dobramos as
metas.

Como imaginei, já está bem tarde quando

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acabamos tudo e o escritório, completamente vazio.


— Precisa de uma carona? — Eduardo pergunta
quando chegamos à garagem do prédio.
Nego.
— Vim dirigindo. Mas obrigada. — Acena com
a cabeça e continua andando em direção ao seu
carro depois de eu parar ao lado do meu. — Edu?
— Ele me olha por sobre o ombro. — Fica bem.
Eduardo sorri o sorriso mais falso que já vi na
cara dele.
— Eu estou bem.
Brinco com a chave na mão e fico de pé ali, ao
lado do meu carro, olhando Eduardo ir embora,
deixando-me completamente sozinha no
estacionamento deserto. Tomo um susto quando
sinto alguém me abraçar por trás e dou um grito.
— Ei. — Reconheço a voz em meu pescoço e

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me viro, dando um tapa em seu ombro.


— Já disse que você ainda vai me matar do
coração com essa mania besta — reclamo, sentindo
meu coração batendo apressado. Ele sorri e me
beija.
Sinto seu toque gentil em minha cintura se
tornar um enlace apertado e suspiro contra a sua
boca, enroscando os braços ao redor do seu pescoço
como sempre acabo fazendo.
— Eu disse para você me esperar sem roupa na
cama, bonitinho — murmuro contra seus lábios. —
O que está fazendo aqui?
Ele sobe uma mão pela minha cintura e abre um
sorriso escancarado, deixando uma mordida no meu
queixo quando sua palma cobre meu seio. Sinto
uma onda de adrenalina me invadir.
— Vim te buscar no trabalho — diz. — E aí
você pode tirar minha roupa com essas mãozinhas
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que sabem muito bem do que eu gosto.


O arrepio que corre meu pescoço não é de Deus
e eu começo a achar que não vou conseguir esperar
chegar em casa. Não com ele falando desse jeito,
ainda mais porque sei exatamente o tipo de
conversa que vai recitar no meu ouvido logo, logo.
Olho ao redor, para o estacionamento vazio que só
tem o meu carro.
— Faz questão de tirar a roupa mesmo? —
pergunto e ele sorri em entendimento. Já está muito
acostumado com minhas loucuras.
Apanha minha chave, desativando o alarme, e
abaixa completamente o vidro da janela do
motorista antes de fechar a porta. Quando vou
perguntar o que está fazendo, sou virada de frente
para a lateral do carro e ele apoia minhas mãos na
janela aberta, sussurrando para que eu segure firme.
Sinto suas mãos subirem a minha saia, ouço o som

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do seu cinto e meu corpo começa a pegar fogo em


antecipação.
— Você não era assim — murmuro, excitada, e
ouço seu riso contra o meu pescoço.
— Você me ensinou muito bem do que gosta, é
minha obrigação te dar o que precisa. Agora, tente
não fazer barulho. Não precisamos que chegue
alguém como foi da última vez.
O som do seu zíper sendo aberto é a última coisa
que eu escuto antes de me perder em suas mãos.

— No estacionamento? — A voz de Juliana é


um grito tão alto que preciso pedir que ela fique
quieta.
Ju mal me vê entrar pelas portas da confeitaria e
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dá o ataque que eu sabia que ela daria ao ver a


mensagem que mandei mais cedo. Eu precisava
contar para alguém.
— Você tá mesmo com cara de quem acabou de
fazer um sexo muito gostoso como café da manhã,
mas isso não é possível porque são oito da manhã e
Priscila Aguiar não passa a noite com ninguém —
provoca, enquanto toma um gole do seu suco,
olhando-me por entre os cílios.
Reviro os olhos para ela, mas não escondo o
sorriso de satisfação. Peço um café bem forte para
o garçom e volto minha atenção para Ju, que salva
alguma coisa no computador que tem sobre a mesa
antes de fechar o dispositivo e enfiar na bolsa que
carrega.
Sento na cadeira e sinto meu corpo bem
dolorido por toda a movimentação dos últimos dias.
Desde terça-feira, quando o bonitinho me esperou

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no estacionamento, até hoje, em plena sexta-feira,


minhas noites foram bem agitadas, e tenho certeza
de que hoje não vai ser diferente.
— Quando você vai me contar quem é esse
cara? — ela pergunta.
— Já disse, é o bonitinho. — Ela me olha com
os olhos cerrados e eu bufo. — Nunca te falo o
nome deles, qual a diferença?
Juliana me olha com uma cara que me diz bem
que acha que eu estou sendo a maior cara de pau do
mundo.
— Não me fala, mas também não me lembro de
ter ficado um mês inteiro vendo a mesma pessoa.
Isso diz alguma coisa! — protesta, mas eu mordo o
lábio e ela desiste. Pergunto onde está indo vestida
toda social desse jeito e ela aperta os olhos para
mim. — Eu contaria, mas você não está merecendo.
Ju toma o último gole do seu suco e eu rio da
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sua pirraça.
— Você não devia estar no trabalho? —
pergunta, olhando para a mesa, tentando disfarçar a
pergunta real.
— Já estou indo. A empresa está meio
bagunçada esses dias e não posso me dar ao luxo de
me atrasar muito. Só queria te dar um beijo, já que
agora você não tempo mais para mim.
Ela me olha preocupada, ignorando
completamente minha reclamação. Juliana morde a
boca e sei que está morrendo para me perguntar
qual o problema.
— Sabe que eu adoraria te contar, mas não
posso — falo e ela suspira, porque sabe que é
verdade.
Confidencialidade profissional vence amizade.
Ela levanta, pega sua bolsa e dá um beijo na minha
cabeça.
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— Edu?
Dou os ombros. Na mesma. Ela concorda com a
cabeça, suspira e empina o queixo.
— Vou almoçar com Rafael hoje, por aqui em
algum lugar. Se estiver livre e quiser encontrar com
a gente — diz, dando os ombros e eu solto um
grunhido baixinho, não acho que ela nota. —
Agora, me deseje sorte — pede, cruzando os dedos.
— Sorte com o quê?
— Não importa. Só torça por mim.
E eu torço. Torço muito mesmo.
Bebo meu café e corro para o escritório, que fica
a poucas quadras de distância, então não demoro
mais que vinte minutos.
O dia passa e eu estou ocupada demais para
parar para almoçar. Mando uma mensagem para Ju
dizendo que essa é a razão para eu não encontrar

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com eles. Não é mentira. Ela só não precisa saber


que a outra metade da história é que não quero
mesmo sentar em uma mesa com ela e Rafael
agora.
Passa um pouco das quatro quando finalmente
saio da minha sala com uma pilha de papéis que
preciso que Eduardo decida o que fazer sobre.
Ando em direção à sua sala, sem prestar atenção ao
que está acontecendo na minha frente, olhando para
um parágrafo confuso que não me agradou nem um
pouco, e deixo tudo cair no chão quando alguém
esbarra em mim.
Não é cena de filme bonitinho não, voa papel
para todos os lados e solto um palavrão audível
quando vejo a bagunça. Olho para o apressado que
passou por mim em direção ao elevador e vejo
Eduardo apertar o botão desesperadamente. Pulo
por sobre as folhas e vou até onde está, alcançando-

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o quando a porta se abre e ele praticamente pula


dentro do elevador, apertando desesperadamente o
botão.
— Edu? — chamo e ele me olha, os olhos
vermelhos e lágrimas escorrendo por seu rosto.
Ah, merda.
— Meu pai — gagueja.
Merda, merda.
A porta fecha antes que ele continue, mas nem
precisa. Fecho os olhos e solto outro palavrão,
porque é a única coisa que consigo dizer agora.
Faço a única coisa que consigo pensar no
momento: puxo o celular e ligo para Juliana.

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Capítulo 39

TENTO ESQUECER QUE HOJE ainda é


terça-feira e amanhã preciso acordar cedo enquanto
dirijo pelas ruas da Tijuca depois de sair do
escritório tarde da noite.
Estaciono o carro sem qualquer cuidado. Posso
ouvir os pneus protestando pela parada brusca no
asfalto e em algum lugar no fundo da minha mente
uma voz implora para que eu não trate as pastilhas
do freio dessa forma, mas a calo rapidamente.
Tenho certeza de que ocupo três vagas, mas não faz
diferença, o estacionamento está completamente
vazio. Quando saio do carro, o som do alarme

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sendo ativado grita no meio da noite silenciosa.


A essa hora não há ninguém aqui de qualquer
forma. Eu também não deveria estar aqui, mas não
sei onde mais posso ir. Meu apartamento parece
grande demais, vazio demais sem sequer Valentina
e seu miado constante para me fazer companhia.
Perguntei-me a cada instante, desde Juliana
cruzou a porta do meu escritório para nunca mais
voltar, quanto tempo demoraria para que ela me
procurasse para que eu fosse buscar a gata, ou se
pediria para Priscila resolver isso, mas nenhuma
palavra veio. Simplesmente ficou com a Valentina
para ela durante todo esse tempo.
Fico tentado, todos os dias, a perguntar por ela,
mas me impeço de fazê-lo. Não por orgulho, mas
porque não sei se sou capaz de aguentar a resposta.
Se Juliana estiver sofrendo, uma parte minha vai
sangrar mesmo que não haja nada a ser feito. Se

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estiver bem, uma parte ainda maior vai morrer pela


constatação do quão pouco significo em sua vida.
O galpão não fica no meio de uma área
movimentada da Tijuca, pelo contrário, é bem
longe do centro de bares superlotados. Saí do
escritório depois de me despedir de Priscila, tarde
da noite, e vim direto para cá. Faço uma nota
mental para mandar uma mensagem checando se
ela chegou viva em casa. Preciso fazer alguma
coisa com a energia acumulada que começa a ser
incômoda. Não lembro qual foi a última vez que
passei tanto tempo sem me exercitar. Sinto meu
corpo começar a protestar pela forma irresponsável
com que venho tratando-o nos últimos tempos —
excesso de álcool e carência de comida.
Inadvertidamente, minha mente me leva de novo
para a última vez que a vi, naquele bar não muito
longe daqui. Quase não fui para lá naquele dia, mas

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Kilda me arrastou. Depois de passar a tarde


encarando documentos que nada me diziam e
tentando colocar senso em números dispersos que
certamente não me levariam a lugar nenhum, ele
me arrastou para aquele lugar. Disse que eu
precisava parar de ficar pelos cantos sofrendo por
Juliana. E, depois de presenciar a leveza e
facilidade com a qual ela estava bebendo e
conversando com Priscila, vi que ele estava certo.
Com a quantidade absurda de bares que existem
nesta cidade, qual a probabilidade de termos ido
parar no mesmo lugar?
Quando a vi, achei que tinha, finalmente,
perdido o juízo. Depois de dias de sofrimento e
coração apertado, achei que tinha chegado ao ponto
de delirar. Ela estava tão linda naquela noite. Como
sempre é. Talvez só seja mais bonita na minha
cama, usando-me como roupa.

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Entro no galpão e tranco a porta atrás de mim.


Acendo as luzes e vou direto para o saco de boxe.
Livro-me da camisa e jogo-a em um canto
qualquer, chuto os sapatos e arranco as meias. Esta
calça social é desconfortável demais para ser
mantida e olho ao redor, procurando por shorts que
possam ser usados, e alcanço um da pilha de roupas
lavadas.
Enrolo as ataduras em minhas mãos, apertadas o
suficiente para que seja quase desconfortável. O
primeiro soco dói, e dou o segundo. O terceiro. O
som do saco de areia ressoa pelo lugar, aparando as
pancadas, sacudindo na corrente grossa presa ao
teto. Em minutos, meu corpo começa a protestar,
mas não paro. Sinto minhas mãos doerem, mas não
paro. A dor física é muito mais fácil de lidar do que
todo o furacão emocional que tem me atingido.
Concentro-me nos movimentos precisos,

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tentando manter minha mente focada no vermelho


do saco, mas falho, e seu sorriso ressurge de
minhas memórias. Seus olhos, seu cheiro. Sua
determinação, seriedade, força. Sua doçura e
companheirismo. Sua voz cantando enquanto
cozinha, o brilho dos seus olhos quando vê um
cachorro na rua, seus protestos para a televisão
ligada durante um dos seus programas de culinária,
a ruguinha em sua testa quando ela esquece do
mundo ao redor e se concentra nas palavras que
está criando, encarando a tela do computador como
se sua vida inteira estivesse depositada ali.
E eu a olhava, como se minha vida inteira
estivesse depositada nela.
Talvez tenha sido esse meu erro.
Desisto de descontar minhas frustrações no saco
quando as lágrimas se misturam ao suor e preciso
respirar fundo. Dou um último soco antes de me

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afastar, arrancando as ataduras e jogando-as no


chão.
Juliana nunca deixa o topo da minha mente, mas
é impossível ignorar todo o restante que me
atormenta. Esse maldito processo que não sei de
onde veio. Meu pai doente. Vinicius infernizando o
mundo com sua simples existência.
Busco meu celular e vejo a hora, passa pouco de
uma da manhã. Cedo demais para meu próprio
juízo. Olho ao redor e procuro algo para me ocupar,
e decido colocar este lugar em ordem como há
muito não faço.
Há anos não existe a necessidade de que eu faça
qualquer trabalho pesado, desde que a empresa
começou a render o suficiente para que vivamos
disso pude parar com os bicos por aí. Não posso
dizer que adoro ir para a cama com o corpo
destruído pelo serviço pesado, mas também não

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posso negar a resistência física que me deu, não


posso negar que ajudou a construir meu caráter.
Nada melhor do que algumas porradas da vida para
calejar a alma. E, valendo-me dessa resistência,
alcanço um pano e começo a dar uma cara nova a
este lugar.

— Já disse, Eduardo. Não vou discutir esse


assunto até você falar com seu irmão. Já se passou
uma semana desde a última vez que você me
procurou para isso e até agora nada. — Ele ergue a
mão para me calar quando ameaço protestar. — Vá
falar com seu irmão.
Levanto da cama de meu pai com uma dose de
irritação. Meu humor tem andado terrível e dormi

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muito pouco noite passada. Ainda estou cansado de


toda a movimentação e excesso de atividade. Estou
cansado de muita coisa. Encaro-o por mais alguns
segundos e meu pai me dispensa com a mão, em
um gesto de teimosia.
— Fique bem. Volto para te ver à noite — digo
e ele sorri.
Um sorriso fraco e sem forças que externa a
fragilidade que acomete o velho. A onda de
preocupação volta renovada, reforçada.
Suspiro e deixo o quarto, verificando a hora. Sei
que não posso postergar mais a situação de
Vinicius. Já se passou muito tempo e nada foi feito.
Fernanda saiu do trabalho. Vinicius continua
andando para cima e para baixo como o mundo
pertencesse a ele. Eu posso acabar com isso, sei que
posso. Meu pai me deu essa opção. Tudo que tenho
que fazer é eu mesmo assumir a presidência da

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empresa, coisa que ele sabe que nunca quis. Que


não quero.
Por muito tempo me recusei a viver minha vida
preso, amarrado a isso, mas pareço ter sido deixado
sem alternativa alguma. Preciso fazer isso agora,
porque uma vez que o testamento for aberto, meu
irmão terá plenos poderes para fazer o que bem
entender daquele lugar. E, por mais que eu queira
me apegar à esperança de que esse dia não está
chegando, sei que não posso me iludir a esse ponto.
Não quando tanto está em jogo. Sei que meu pai
gostaria que eu fizesse o melhor para o patrimônio
que ele tanto lutou para construir.
Passo por minha mãe e, com um beijo em sua
testa, despeço-me.
Entro no carro e começo a dirigir. Antes que
perceba, já estou no escritório, o carro está
estacionado e preciso subir pelo elevador e, como

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todas as manhãs, me forço a sorrir para a menina


sentada à mesa que não a pertence. A mulher dos
cabelos castanhos era a segunda opção de
contratação quando Juliana começou a trabalhar
aqui e pareceu a escolha mais lógica para substituí-
la, já que Fernanda, coberta de razão, recusa-se a
voltar a trabalhar aqui.
Como se fosse possível que alguém a
substituísse.
— Vanessa — chamo e ela me tira os olhos do
computador, virando em minha direção. — Preciso
que marque uma reunião com todos os diretores
para hoje ainda.
Ela franze a testa e começa a revirar sua agenda.
— Hoje é quinta-feira, senhor Rodrigues — diz
e eu aceno com a cabeça. Reuniões com a diretoria
acontecem às segundas, mas não quero esperar.
— Apenas faça.
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O relógio bate pouco mais de quatro da tarde e


eu tento me livrar da quantidade absurda de papéis
em minha mesa há algumas horas. Não deixei a
sala desde que cheguei essa manhã e meu corpo
começa a protestar pela falta de movimento.
Repasso, mais uma vez, o discurso que, apesar
de estar perfeitamente decorado, queima minha
garganta. Não há prazer nenhum em tentar arrancar
Vinicius de seu cargo, e há menos prazer ainda em
ocupar a posição que eu nunca quis. Meu pai tem
razão ao dizer que esse era o sonho dele, não o
meu. Mas, quando se chega a minha idade, sonhos
deixam de ser a maior das prioridades. Obrigações
falam muito mais alto. A responsabilidade familiar
grita e exige ser ouvida e eu, como sempre, atendo.
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Não posso permitir que esta empresa se afunde


em ruínas. Teria sido mais sensato da parte de
Vinicius deixar claro que não tem qualquer
interesse em dar prosseguimento ao recente legado
construído por nosso pai e passar o bastão adiante,
mas não. Como um garotinho mimado, ele quer os
louros, mas não o trabalho duro.
Gostaria que fosse permitido a mim a
indulgência de ignorar os problemas e deleitar-me
dos prazeres. Embora no momento seja bem difícil
saber o que isso seria.
Levanto, pronto para achar Priscila e começar a
organizar o que vou precisar para a reunião
marcada para daqui a uma hora, quando ouço meu
celular tocar. Volto à mesa e alcanço o aparelho,
que mostra o nome da minha mãe.
— Edu… — Sua voz é um sussurro choroso
quando atendo e meu corpo entra imediatamente

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em sinal de alerta.
— O que aconteceu? — pergunto, já sabendo a
resposta.
O silêncio do outro lado da linha, seguido por
um choro copioso, me dá toda informação que
preciso. Sinto meus olhos inundarem em lágrimas,
minha garganta arde. Preciso me sentar à mesa para
não cair e o telefone treme, refletindo o estado da
mão que o segura.
— Onde você está? — pergunto com a voz
entrecortada, e ela sussurra que está no hospital.
Saio da sala, batendo a porta atrás de mim.
Passo por Vanessa e ignoro quando ela chama meu
nome. O mundo parece estar girando devagar
enquanto ando em direção ao elevador. Dói. A
única coisa que tenho certeza de estar sentindo é
dor e desespero. Trombo em alguém, mas não paro.
Não olho para trás. Ataco o botão com ferocidade,
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praguejando contra a demora.


Quando as portas finalmente se abrem e eu me
jogo dentro do elevador, ouço meu nome ser
chamado. Levanto os olhos para Priscila, que me
encara.
— Meu pai…
Seus olhos se arregalam em entendimento
enquanto as portas se fecham com um baque alto
que parece ressoar em meu coração, e me vejo
sozinho. É quieto demais, apertado demais, e sinto
que estou a ponto de quebrar.
Mas não posso.
Minha mãe precisa de mim.

Ver quem você ama indo embora, um pouco a


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cada dia, talvez seja a maior das dores. Só não é


maior do que chegar ao hospital e encontrar sua
mãe ajoelhada no chão ao lado da cama, chorando
copiosamente. Ao seu lado, o médico tenta consolá-
la. Parado na porta, vejo a enfermeira particular
dele vir até mim, com os olhos marejados e lábios
trêmulos.
— Senhor Rodrigues — ela cumprimenta,
respirando fundo. — Eu sinto muito.
Aceno com a cabeça, silenciosamente
agradecendo. Não me movo enquanto o médico
emite a declaração de óbito, assinando como causas
naturais o motivo de sua partida. Simples assim.
Um pedaço de papel que comprova que não mais
existe o homem que me ensinou tudo que sei.
Abraço minha mãe e tento tirá-la da posição que
sei que vai arrebentar seus joelhos, mas ela se
recusa a sair. Seu choro é alto, desesperador e

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termina de despedaçar o pouco do meu coração que


ainda estava no lugar. Com algum esforço, consigo
colocá-la sentada na cama, mas dona Luíza não o
abandona.
Respiro fundo, forçando-me a calar quaisquer
sentimentos por ora. Não há espaço para isso
quando há tanto a ser feito. Busco a pasta com os
documentos de meu pai e, munido da maldita
declaração de óbito, contato a funerária.
Após alguns minutos do telefonema mais difícil
da minha vida, suspiro ao discar o número de
Vinicius e ouvir a chamada cair imediatamente na
caixa postal. Tento algumas outras vezes, sem
sucesso, e decido deixar uma mensagem.
Roboticamente, digo que nosso pai não resistiu a
uma parada cardíaca e morreu, que estamos indo
para casa e o enterro vai ser amanhã cedo. Que ele
vá para lá fingir que tem um mínimo de caráter

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naquele corpo para dar o apoio que nossa mãe


merece.
Espero que pelo menos essa decência ele tenha.

Quando chegamos em casa, minha mãe


imediatamente segue para o quarto. Preciso parar
por um segundo para olhar ao redor e respirar
fundo, forçando-me a manter minha mente no
lugar. Não demora muito e subo as escadas depois
de largar o telefone no sofá, voltando para perto da
minha mãe. Envolvo-a em meus braços e permito
que chore enquanto eu me mantenho de pé. É
difícil suprimir as lágrimas, a vontade de gritar e
socar alguma coisa, mas continuo repetindo para
mim mesmo que não posso me dar a esse luxo.

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Não demora muito para que eu ouça a


campainha tocar e, com um beijo em sua testa,
deixo minha mãe por um minuto, descendo as
escadas. Provavelmente o funcionário da funerária
com quem falei ao telefone para buscar a muda de
roupa que pediram.
Esfregando o rosto, alcanço a maçaneta.
Mal consigo entender o que está acontecendo
quando sinto um par de braços envolver meu
pescoço e instintivamente passo o meu ao redor da
sua cintura, o cheiro de canela invadindo meu
sistema.
— Juliana?

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Capítulo 40

AFUNDO A CABEÇA NO PESCOÇO dele e


me permito sentir seu cheiro por um instante.
Eduardo parece demorar alguns segundos para
entender que sou eu a louca vinda do nada que se
jogou no colo dele, mas, por fim, aperta o braço ao
meu redor, e eu não resisto a arrastar o nariz no seu
pescoço antes de soltá-lo.
Dou um passo para trás, dando espaço para ele
respirar depois do meu ataque inesperado, e vejo
seus olhos surpresos me encararem.
— Sinto muito — digo para o seu rosto confuso.
— Eu realmente sinto muito, Edu.
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Eduardo fecha os olhos e balança a cabeça,


abrindo passagem, e eu entro, aliviada por ele não
ter me mandado embora. Ouço o som de um carro
sendo estacionado e viro para olhar, vendo dois
homens virem em direção a casa. Eduardo fala com
eles e entendo que são os funcionários da funerária.
Ponho-me de lado, ficando fora do caminho para
que resolva o que precisa. Olho ao redor,
absorvendo alguns detalhes da sala bem espaçosa e
bem decorada, vejo a entrada da cozinha à esquerda
e decido ir até lá.
Não sei onde está nada aqui, mas sei que
Eduardo nunca almoça e tenho certeza de que
sequer pensou em comer alguma coisa mesmo
sendo quase nove da noite, e, pelo semblante
abatido, sei que ele precisa. Abro os armários, bem
invasiva sim, e acho um saco de pão. Vai ser isso
mesmo.

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Eduardo entra na cozinha quando termino de


montar o sanduíche com o que achei na geladeira, e
me olha com a sobrancelha erguida, não sei se pela
monstruosidade que é a combinação de coisas que
coloquei entre as fatias de pão ou se só pela minha
presença mesmo. Passo o prato para ele, que senta
na banqueta e me olha.
— Coma — peço e ele apanha o sanduíche,
dando uma mordida grande, ainda me olhando sem
dizer nada.
Ele cruza os braços, mastigando lentamente
como sempre faz. Bem irritante. Leva três horas
para comer um prato de salada de tanto que
mastiga. Ainda bem que não come carne vermelha,
imagina o tempo que ia levar para comer um bife?
Deus me livre.
É tão estranho estar aqui com ele agora. Tão
familiar e ao mesmo tempo tão distante. Como se a

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gente tivesse se conhecido em outra vida e se


separado por séculos, mas foram apenas alguns
dias. Longos dias bem sem graça. Quero abraçá-lo,
dizer que vai ficar tudo bem, mesmo sabendo que
não vai. Sei o quanto Alex era importante para ele.
Sempre vai ser importante.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer? —
pergunto depois de alguns muitos instantes de
silêncio e ele nega com a cabeça, terminando de
comer o sanduíche e colocando o prato de lado.
Eduardo agradece e sua voz está embargada,
mesmo que continue segurando as lágrimas e
recusando a admitir que está sofrendo.
Olho para ele em silêncio e sei bem a pergunta
que está na ponta da língua. O que estou fazendo
aqui? Eu mesma mal sei. Quando Priscila me ligou,
não consegui pensar em mais nada. Estava saindo
de uma reunião na empresa, pronta para ir para

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casa, tomar um banho e me parabenizar pelo


trabalho bem feito. E então olhei meu telefone e vi
cinco chamadas perdidas e várias mensagens.
Quando retornei, preocupada, e ela me disse o que
aconteceu, a próxima coisa que eu percebi é que
estava na porta de Eduardo, tocando a campainha.
E, quando ele abriu, nem toda a força em mim me
impediu de voar nos braços dele.
Para falar a verdade, nem tentei.
Talvez eu esteja sendo prepotente demais por
achar que Eduardo precisa de mim aqui, mas sei
que ele ainda me ama, sei que ainda me quer por
perto. Só espero que a paz por me ter por perto seja
maior do que a dor de me ver neste momento.
— Como está sua mãe?
Ele dá os ombros.
— Destruída. — Sua voz é fraca, cansada,
doída. — Impossível estar bem — murmura.
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Ele afunda a cabeça nas mãos e puxa os fios,


ouço sua respiração alta e cruzo a bancada,
alcançando-o. Passo as mãos por seus braços,
puxando Eduardo na minha direção, apoiando sua
cabeça em meu peito. Ele se deixa levar e repousa
em mim, suspirando e fechando seus olhos. Não diz
nada e deixo o silêncio fazer parte deste momento,
até porque nada que eu fale vai resolver.
— Eu preciso avisar às pessoas — murmura
depois de um tempo. — O enterro é amanhã cedo.
Acaricio seu rosto e passo a mão por seu cabelo,
raspando a unha na parte de trás de sua cabeça
como sei que ele gosta, e Eduardo se move,
acomodando-se a mim com um suspiro de
satisfação. Seu cheiro me invade, a forma como
continua se encaixando perfeitamente em mim me
desestabiliza de um jeito que nem sei. Que saudade
senti desse homem.

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— Eu faço isso. — Pego-me dizendo. — Vá


ficar com a sua mãe, eu cuido isso.
Eduardo levanta a cabeça e me olha, os olhos
ainda cintilando pelas lágrimas não derramadas.
Consigo ver que ele quer fazer uma porção de
perguntas, mas só balança a cabeça, concordando, e
se afasta de mim. Levanta e vai até a sala, voltando
com seu celular na mão, estendendo-a para mim.
— Aqui — diz, e eu pego. — As informações
do enterro estão todas na mesa, a senha é a mesma.
Aceno com a cabeça e ele repete o gesto,
virando de costas e saindo do cômodo. Eduardo
move o pescoço, levando as mãos para lá, como se
massageasse os músculos tensos. Começo a andar
em direção à sala, girando o celular nas minhas
mãos, quando ouço sua voz de novo.
— Juliana — ele chama. Sem Lia. — Não sei o
que você está fazendo aqui, mas obrigado.
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Concordo com a cabeça e sorrio, e ele sai,


subindo as escadas. Puxo a folha que está em cima
da mesa e sento no sofá, começo a rolar pelos
contatos de Eduardo, propositalmente pulando
Vinicius.
Passo por todos os números da sua agenda
pessoal e informo também os diretores da empresa,
já que a morte do dono é relevante. Alguns se
espantam com a ligação, Renato em especial fez
questão de perguntar se eu tinha voltado a trabalhar
para Edu, com aquele tom de voz irritante dele.
Não tenho paciência não. Quando chega no número
de Priscila, sorrio comigo mesma pelo ataque que
eu sei que ela vai dar.
— Eduardo — atende. — Como você está?
Precisa de alguma coisa?
Bufo do outro lado da linha.
— Se ele precisar de alguma coisa, pode deixar
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que eu mesma faço, viu? — provoco e ela solta um


gritinho que me faz sorrir mais ainda. Priscila
começa a falar rápido e embolado, e eu não tenho a
menor ideia do que está tentando dizer. — Tive que
ver como ele está, Pri — digo, a graça toda indo
embora, e ela suspira.
— Vinicius? — pergunta, e fico feliz por não
brigar comigo nem me chamar de irresponsável.
— Não deu as caras ainda, mas sei que vai
aparecer em algum momento. Não vou ficar muito
mais tempo, só não podia simplesmente não
aparecer.
No impulso de ficar perto de Edu neste
momento, não pensei no outro irmão. Quero muito
acreditar que ele não vai arrumar problema nenhum
diante da morte do pai, mas acho que vai sim se me
ver aqui. Na verdade, algo me diz que este é o
momento perfeito para isso.

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Para ser honesta, uma parte muito grande minha


está começando a achar que ele vai avacalhar com
tudo de qualquer jeito, eu estando aqui ou não. E
isso me faz perder completamente a motivação para
ir embora.
Talvez seja prepotência demais achar que
Eduardo precisa de mim, só porque eu ainda
preciso dele, mas quero acreditar nisso. Quero
acreditar que posso fazer alguma coisa, qualquer
coisa, para facilitar a vida de Edu. Desligo o
telefone e decido não ligar para o irmão embuste.
Mando uma mensagem, o mais sóbria possível, e
aceito que é o melhor que posso fazer. Passo os
olhos pela lista mais uma vez e acho que acabei por
aqui.
Quando estou a ponto de colocar o celular dele
na mesa, uma mensagem pisca na tela. Pensando
ser Vinicius respondendo o que eu mandei, olho a

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notificação, sem abrir.

Fiquei feliz por você ter me procurado,


Eduardo. Foi muito bom te ver depois de tanto
tempo, espero que não demore muito para
aparecer de novo dessa vez.

Prendo a respiração. Não é Vinicius. É alguém


chamado Cecília. O celular pisca mais uma vez.

Vou ficar esperando sua próxima ligação.

Sinto minha mão tremer e minha garganta


fechar. Eu vou dar na cara dele.
— Juliana.
Assusto-me com a voz de Eduardo, largo o
celular na mesa, como se estivesse pegando fogo, e
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fico em pé em um pulo. Fica entalada na garganta a


reclamação, que deixo de lado porque minha
preocupação com ele é maior. E a verdade é que eu
estaria aqui mesmo que não quisesse nada comigo.
O que me recuso a acreditar ser o caso.
— Como você está? — pergunto antes que tenha
a oportunidade de dizer alguma coisa, porque vejo
a ruguinha em sua testa que me diz que ele acha
que tem algo errado comigo.
E tem, ciúmes e desespero que chama. Vontade
de bater nessa carinha linda.
Eduardo suspira e dá os ombros.
— Tão bem quanto possível. Consegui fazê-la
dormir, ao menos. Com um calmante, mas ainda
assim. É o melhor que posso fazer por ora.
Concordo com a cabeça e ele cruza os braços,
seus olhos, fundos, vermelhos, cansados, fixos em
mim. Vou até ele e fico na ponta dos pés,
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abraçando-o. Eduardo hesita por um segundo, mas


acaba passando os braços ao meu redor, prendendo-
me a ele em um toque firme. E ficamos assim por
um tempo antes de eu me forçar a soltar.
— Qualquer coisa que você precise… — digo e
Eduardo agradece. Olho-o por mais um segundo, e
não estou preparada para ir embora, mas não quero
fazer nada ficar mais difícil ainda para ele. — É
melhor eu ir, está ficando tarde.
Saio dos seus braços contra a minha vontade e
forço um sorriso no rosto. A gente se olha, por
tempo demais. Tempo perigosamente longo
demais. Longo o suficiente para ele estender a mão,
tirar um fio de cabelo do meu rosto e arrastar os
dedos na minha bochecha.
— Como você vai para casa? — pergunta e dou
os ombros.
— Acho que não tem mais ônibus essa hora por
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aqui — penso em voz alta, conferindo o relógio no


pulso dele. — Chamo um táxi.
Vejo seu cenho franzindo e ele balança a cabeça,
negando.
— Durma aqui — sugere. — Tem um quarto
vazio, está realmente tarde, não vou ficar tranquilo
com você sozinha a essa hora.
Minha boca cai aberta e sei que devo protestar,
mas seus olhos me prendem.
— Eu não acho…
— Juliana, por favor, não faça eu me preocupar
com mais nada hoje — pede.
E eu sou fraca, e humana, e é Eduardo na minha
frente pedindo-me para dormir com ele. Bom, não
com ele, mas isso é mais do que tive nas últimas
semanas.
— Tudo bem. — Eu me rendo, sem nem fazer

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muito esforço para resistir. — Obrigada.


Eduardo dispensa o comentário com a mão e me
oferece o braço.
— Vamos encontrar alguma coisa para você
vestir.
Vamos.
Isso não tem como dar certo.

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Capítulo 41

A ÁGUA QUENTE BATENDO NO meu


corpo me faz gemer de satisfação. Aproveito o
banho para tentar colocar as ideias no lugar, mas
tudo que consigo como resultado é minha
consciência gritando, perguntando o que no inferno
estou fazendo aqui. A resposta que quero dar é que
estou consolando meu homem em um momento
difícil, mas ele não é meu, não mais. Aquela
porcaria daquela mensagem fica gritando na minha
cabeça, como se alguém estivesse esfregando o
celular dele na minha cara por toda a eternidade.
Desligo o chuveiro e me seco, enfiando-me na

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roupa que Eduardo trouxe. Sorrio me lembrando de


quantas vezes já não andei pela casa assim, com
uma camisa dele e um nó no cabelo. Hoje, coloco
também um short que não sei de onde veio, afinal
esta aqui não é a minha casa, não é mesmo?
Penduro a toalha e saio do banheiro, dividida
entre ir direto para o quarto que ele me indicou ou
parar para dar boa noite. Não sei se tenho estrutura
emocional para entrar no quarto dele não. Mas
preciso, não preciso? Não vou nem tentar me iludir
e fingir que não estou morrendo de preocupação. A
passos lentos, na pontinha dos pés para não fazer
nenhum barulho e não acordar ninguém, vou até
onde é o quarto de Edu.
A porta está entreaberta e enfio a cabeça. E
prendo a respiração na mesma hora. Podia ter dado
de cara com Eduardo sem camisa. Sem roupa.
Deitado na cama com aquele corpo lindo

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esparramado no colchão. Mas o que encontro é


Eduardo sentado na beira da cama, segurando um
copo, cotovelo apoiado no joelho e cabeça
afundada na mão. Seus dedos puxam os fios e ele
respira pesadamente, posso ver seus ombros
subirem e descerem.
Entro no quarto e fecho a porta atrás de mim, e
ele levanta a cabeça, olhando-me, provavelmente
atraído pelo barulho. A visão de seus olhos
vermelhos e inchados me despedaça, e vou em sua
direção.
— Eu estou bebendo isso — protesta quando
tiro o copo de sua mão e coloco em uma mesinha.
— Eu sei.
Mas não devia, não agora. Eduardo me olha,
perdido, o cabelo desgrenhado, roupa amassada,
feição destruída. Paro de pé em frente a ele, entre
seus joelhos, e repouso sua cabeça em minha
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barriga, bem parecido com o que fiz na cozinha. Só


que dessa vez ele passa os braços ao meu redor,
puxando-me para perto, apertando-me. Seu toque é
desesperado e me deixa toda desestabilizada, e
passar a mão por seu cabelo enquanto Eduardo
tenta segurar o choro não é o suficiente.
Por impulso e ignorando completamente como
essa é uma péssima ideia, solto seus braços de mim
e ele levanta a cabeça, olhando-me como quem
pergunta o que estou fazendo. Dou um passo à
frente e subo na cama, sentando em seu colo, como
tantas vezes já fiz. E, como também fez tantas
vezes, Eduardo imediatamente encaixa as mãos em
minha bunda e me puxa para si, e enlaço minhas
pernas em suas costas, encaixando nossos corpos
em um quebra-cabeças perfeito.
Eduardo pousa a cabeça no meu pescoço e volto
a mão para seu cabelo, raspando a unha, e sinto

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seus braços se apertarem ao meu redor.


— Não sei se consigo fazer isso — ele sussurra.
Deposito um beijo na sua cabeça.
— Não sabe se consegue o quê?
— Me manter inteiro. Minha mãe precisa de
mim, mas não sei se consigo ser forte para ela. —
Ele afunda o rosto um pouco mais em mim. — Não
consigo não chorar.
— Onde ela está? — pergunto.
— Dormindo.
Tiro seu rosto de mim e faço esse par de olhos
lindos me encarar.
— Então você não precisa ser forte agora.
Eduardo me levanta por um segundo, só o
suficiente para me girar e pousar na cama, e deita
encaixado em mim, braços e pernas enrolados. Ele
me puxa para perto, sua mão na minha cintura, sua
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cabeça em meu pescoço. Seu cheiro é embriagante.


Congelo por um instante, surpresa, mas quando
sinto suas lágrimas silenciosas contra minha pele
tudo que consigo fazer é devolver o abraço.
— Por que veio? — pergunta.
— Precisava saber como você estava —
confesso.
Ele faz silêncio por um minuto, esfregando o
nariz no meu pescoço e, mesmo que a situação não
permita, eu me arrepio toda. Corpo traíra dos
infernos.
— Sei que não me quer mais — ele diz e
despedaça o resto de coração que eu ainda tenho
inteiro —, mas realmente preciso de você hoje.
— Eu estou aqui, Edu. Não vou a lugar nenhum
— murmuro.
Tem uma vozinha no fundo da minha mente
gritando “liga pra Cecília, então”? Tem. Mas até eu
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conheço o limite do ridículo.


Eduardo me abraça em silêncio por minutos a
fio, mexendo aqui e ali, apertando-me contra seu
corpo. Falo sobre coisas aleatórias para distraí-lo e
consigo arrancar uma risada fraca quando conto
que Valentina destruiu o pé da minha cama.
Demoniozinho peludo.
O tempo passa e aqui, abraçados, ele divide
comigo memórias de sua infância, e rio quando me
conta sobre uma vez em que entrou debaixo da
cama e dormiu, e a casa toda ficou doida atrás dele,
sem saber onde o menino de cinco anos tinha se
enfiado. Pouco a pouco, sua respiração volta ao
normal e suas lágrimas secam, mesmo que eu saiba
que é apenas momentaneamente. Já é alguma coisa.
Eduardo esfrega o nariz no meu pescoço e sinto
sua boca em minha pele quando ele suspira
pesadamente e se aconchega um pouco mais, e

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tento, juro que tento lembrar o motivo de eu estar


aqui, tento manter em mente as ameaças de
Vinicius que me fizeram deixá-lo, eu tento. Mas o
contato é mais do que sou capaz de aguentar.
— Ei — sussurro, tentando tirar sua cabeça do
meu pescoço, mas Eduardo não se move.
Ele beija aquele maldito pontinho certeiro atrás
da minha orelha e eu suspiro.
— Edu — chamo. O que no inferno ele está
fazendo? Sinto sua mão entrar pela barra da minha
blusa, mas mesmo seu toque é relutante, e entendo
qual o problema.
Eduardo e essa maldita mania de querer usar
sexo para esquecer os problemas. Mas, por motivos
óbvios, nem ele está conseguindo se forçar a isso
agora.
— Como eu faço para parar de doer, Lia? — ele
pergunta em um sussurro engasgado em meu
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ouvido.
Com certeza não é tentando me comer, isso eu
garanto.
Cada dia longe dele me senti como uma viciada
que precisa se desintoxicar. A diferença é que
Eduardo não tem efeitos colaterais, nada além de
fazer meus dias melhores, minha vida mais
interessante, meu coração mais completo.
Sei que vai me matar ir embora pela manhã e
não voltar mais. Sei que Eduardo está fugindo da
sua dor, primeiro com o copo de bebida em sua
mão, agora com essa ideia ridícula que nem ele está
conseguindo executar. Tenho medo de isso fazer
com que ele se afunde e se perca, e não consiga se
encontrar. Porque eu realmente só consigo marcar
X no calendário, esperando o dia que ele vai surtar
de tanto guardar coisa para si mesmo.
Eduardo é intenso. Ele é fogo, paixão e entrega.
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É amor infinito em um minuto. O mundo inteiro em


um toque. É o céu e o inferno, começo e fim. Não
sabe viver pela metade, não aceita nada incompleto.
Nunca permitiu que eu desse menos do que tudo
que tenho para ele e me fez aprender que tenho
muito mais de mim para dividir do que imaginava.
Sua vida é por inteiro, seus sentimentos, exigentes.
Ele entrega e toma com a mesma ferocidade, e
sente, como nenhum outro. Eduardo sente. Vive o
amor como se sua vida inteira dependesse disso. E
se afunda em sua dor como se não tivesse
escapatória para seu coração partido.
Começo a levantar, pois preciso tirá-lo de tão
perto para tentar fazê-lo olhar para mim e
conversar, mas Eduardo não me deixa ir.
— Não — pede. — Não me faça ficar sem duas
pessoas que amo em um mesmo dia.
Pelo amor de Deus, Edu, me ajuda aqui.

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— Não vai ficar sem mim — respondo em um


sussurro estrangulado.
Ele arrasta a boca pelo meu pescoço e suspira.
— Vou. Você vai embora de novo pela manhã e
eu vou ficar sem você.
Eduardo, pela primeira vez em muito tempo, se
aproxima do meu rosto e se prende nos meus olhos.
Respira, Juliana, sem morrer.
— E cada vez que você vai embora fica mais
fácil. Cada vez que me deixa dói um pouco menos.
E eu sei que em algum momento vou aprender a
sobreviver com a falta que me faz, Lia. Eu nunca
vou te esquecer, nunca. Vou te amar até o último
dia da minha vida. Mas eu vou sobreviver sem
você.
Sinto lágrimas brotando em meus olhos e não
consigo controlar quando uma escorre pelo meu
rosto. Se Eduardo vê, não fala nada, porque ele se
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limita a beijar minha testa, meu nariz, sua boca


chega muito perto da minha antes de eu virar o
rosto. Alguém me dá um prêmio. Eu mereço um
Nobel, ou seja, lá qual é o prêmio internacional que
dão para a pessoa com maior autocontrole da face
da Terra.
— Lia…
Nego com a cabeça. Não. Lia para cima de mim
agora não. Não é disso que ele precisa agora.
Talvez pense ser o caso, mas não é. Tirando força
de vontade e autocontrole nem sei de onde, puxo-o
pelos ombros, tirando-o de cima de mim. Nunca
achei que fosse chegar o dia em que eu negaria
fogo para esse homem, mas aqui estamos nós.
Jesus, me ajuda.
— Edu, me escuta — peço e ele fecha os olhos
antes de enterrar a cabeça em meu pescoço
novamente. A frequência com que faz isso é tão

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grande que começo a acreditar que é exatamente a


este lugar que ele pertence. — Você precisa parar
— imploro. — Precisa parar de fingir que está tudo
bem o tempo inteiro, isso vai acabar com você. Eu
sei, sei que não sabe lidar bem com coisas ruins,
mas precisa — sussurro e o abraço forte. — Está
doendo, e tudo bem estar doendo. Não precisa
fingir que está tudo bem, não precisa esconder a
dor. Não precisa ser forte o tempo inteiro. Não
precisa carregar o mundo nas costas.
Sinto suas lágrimas em meu pescoço e o aperto
mais forte.
— Por que ele me deixou? — A pergunta sai
estrangulada contra minha pele.
Eduardo finalmente quebra. Chora como uma
criança desesperada e eu o abraço, ouvindo seus
sussurros entrecortados, soluços e rompantes de
indignação. E meu coração se parte junto com o

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dele a cada palavra dita. Rolando na cama, deito e o


trago para o meu colo, e Edu se acomoda, aceitando
o carinho, aos poucos acalmando-se.
Ele passa muitos minutos em silêncio e sem se
mexer, e acho que dormiu de tanto chorar no meu
ombro, então giro, fazendo com que saia de cima
de mim e deite no colchão. Homem pesado dos
infernos, credo. Precisa disso tudo de músculos? Na
verdade, precisa sim. Precisa muito.
Sento na cama e fico encarando o homem
adormecido, com o rosto todo molhado pelas
lágrimas, e suspiro. Ninguém devia se sentir assim,
nunca. E não tem nada que eu possa fazer por ele, é
uma dor que só o tempo pode curar. Não resisto a
dar um beijo em sua testa e sussurrar um boa noite
antes de começar a levantar da cama para ir para o
quarto onde eu já devia estar há muito tempo. Mas
antes que eu sequer consiga colocar o pé no chão,

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sinto sua mão ao redor do meu pulso. Olho em sua


direção, e Eduardo ainda tem os olhos fechados.
— Eu sou mesmo uma pessoa horrível assim?
— pergunta em um sussurro e eu imediatamente
volto para perto dele. — Para ele ter desistido
completamente de lutar e me abandonar?
Suspiro e não sei se o abraço ou o sacudo pelos
ombros.
— Seu pai te amava, Edu. O que ele fez ou
deixou de fazer sobre a saúde dele não tem nada a
ver com você, ele não estava pensando nisso.
Ele abre os olhos e me encara.
— Você me abandonou também.
E é a minha vez de fechar os olhos, bem
apertado. Não é hora para conversar sobre isso, não
é o momento. O homem não pode ver um problema
que quer tacar mais em cima. Parece que gosta de
sofrer de propósito.
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— Eu estou aqui, não estou? — pergunto, e ele


confirma com a cabeça.
— Não entendo o motivo. Se quer tanto ficar
longe, por que se incomodar em vir aqui?
Deito em seu peito e ele imediatamente me
abraça.
— Porque eu te amo e não consigo ficar longe
de você — sussurro e sinto-o suspirar. — Podemos
conversar depois? Não acho que seja a melhor hora
para isso agora.
Eduardo concorda com a cabeça e me puxa para
mais perto.
— Dorme aqui comigo? — pede.
Digo que sim e ele me puxa, enroscando-me em
seus braços, no nosso encaixe sempre tão perfeito.
Fecho os olhos e suspiro, sentindo seu cheio, seu
calor. E fico, só mais essa noite.

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Mesmo sabendo que ir embora pela manhã vai


doer ainda mais agora.

Abro os olhos quando sinto o nariz de Eduardo


no meu pescoço. Espero um segundo para ver o que
vai fazer, mas o homem só se aconchega a mim.
Giro, virando de frente para ele, porque sei que não
está dormindo, provavelmente não dormiu nada.
Encontro seu rosto bem perto do meu.
— Ei — chamo e ele enfia a cabeça no meu
pescoço. Oi de novo.
— Posso? — pergunta e eu confirmo com a
cabeça, segurando o sorriso. Faz primeiro e
pergunta depois. E se não pudesse?
Pode tudo, pode qualquer coisa. O que quiser

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mesmo. A qualquer hora, inclusive. Ele passa os


braços ao meu redor e me aperta um pouco.
— Ele te amava, você sabe — digo em seu
ouvido, e sinto a cabeça dele se mover,
confirmando. — Como você está?
Eduardo não responde por um tempo, como se
pensasse no que dizer. Não sei o que tem para
pensar, não conheço ninguém nesta situação que
pudesse estar minimamente bem, mas é de Edu que
estamos falando. Ele e essa capacidade nada
saudável de carregar o mundo nas costas.
— Meu pescoço está doendo — responde. O
quê?
Fico esperando ele falar mais alguma coisa, mas
isso é tudo. Sinto-me fazendo uma daquelas provas
de matemática do ensino fundamental em que
Joãozinho tinha três maçãs e dava duas para
Amanda, e a pergunta era qual a velocidade do
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trem. E a resposta, por algum motivo, era vinte.


Sentido? Nunca nem vi.
— Levante — peço, cutucando o ombro dele, e
Edu senta a cama.
Ele estica o braço a acende a luminária na
mesinha do lado da cama e, à meia-luz, vejo seu
semblante abatido de quem sem dúvidas passou a
noite em claro. Mordo o lábio sabendo que vou me
arrepender profundamente disso e rezo à santinha
protetora do autocontrole antes de falar.
— Tire a blusa.
Eduardo não hesita em arrancar a peça. Não me
olha com curiosidade, não questiona o pedido
estranho. Simplesmente faz. Indico com o dedo
para que ele vire de costas para mim e levo minha
mão aos seus ombros.
— Senti falta disso — diz enquanto esfrego sua
pele e pressiono os pontos de tensão. Poderia fazer
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isso de olhos fechados, são sempre os mesmos


lugares que doem. Depois não quer que eu o chame
de velho.
Quando alcanço seu pescoço, solta um gemido
de satisfação, fazendo-me ter ideias muito
impróprias, que tenho certeza de que vão garantir
meu lugar no inferno por estar pensando nisso a
essa hora. Passo alguns minutos massageando as
costas dele e só percebo o quanto estou perto
quando ele vira por sobre o ombro e seu nariz roça
no meu rosto.
— Obrigado — diz, e dou um beijo em seu
ombro.
— Melhor? — pergunto e ele acena com a
cabeça, virando-se de frente para mim e olá,
peitoral descoberto. — Quer tentar dormir agora?
Seus olhos me queimam quando ele concorda
com a cabeça e eu estendo a mão para desligar a
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lâmpada, mergulhando o quarto no escuro de novo.


Escuto a movimentação nos lençóis e sinto quando
Eduardo me puxa para si, fazendo-me entrar no seu
abraço.
— Você sabe o que está fazendo? — pergunta
depois de muitos minutos de silêncio.
— Talvez.
Porque não tenho certeza mesmo. Estou
tentando fazer o que acho ser o certo, o que acho
ser melhor para ele, mas não, não tenho certeza do
que estou fazendo. Mas não é isso que é amor?
Colocar o outro acima de qualquer lógica e razão,
bater cabeça e fazer besteira tentando proteger a
pessoa amada. Sofrer para evitar o seu sofrimento,
virar o mundo do avesso para tentar fazê-lo feliz,
mesmo que de longe. Não, não tenho certeza do
que estou fazendo, mas farei qualquer coisa para
protegê-lo.

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Sinto Edu suspirar e o puxo para perto.


— Eu te amo o suficiente para respeitar qualquer
decisão sua, Lia. Mesmo que essa decisão seja se
afastar de mim.
A voz dele não passa de um sussurro e, no
escuro, tiro sua cabeça do meu ombro, puxando na
direção do meu rosto. Ele hesita por um instante
quando alcanço seus lábios, mas rapidamente
retribui o beijo. Não aprofundo, não peço dele tudo
que quero, tudo que senti falta todos esses dias. É
um toque gentil, recheado não com o tesão maldito
que sinto por ele, mas por todo o amor que tenho
aqui.
— Você pode, por favor, parar de arrumar mais
coisa com o que se preocupar agora? — peço
contra sua boca. — Podemos, por favor, resolver
isso depois?
Edu fica em silêncio por um momento antes de
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levar a mão ao meu rosto.


— Não brinque comigo assim, Juliana — pede
em um tom estrangulado, encostando a testa na
minha.
— Depois, Eduardo — insisto, arrastando as
unhas por sua barba. — Você não está com cabeça
para isso, pare de se torturar desse jeito. Eu
prometo que vou estar aqui. Confia em mim.
Ele não está com a menor condição de se
preocupar com a gente agora. Nenhuma mesmo.
Seu estado emocional já está completamente
destruído pela perda do pai e não consigo acreditar
que eu que tenho que ser a emocionalmente madura
aqui. Olha o fim do mundo chegando.
Edu por fim parece desistir e se acomoda a mim,
rendendo-se ao carinho que ofereço, e suspira de
satisfação quando começo a arrastar as unhas por
seu cabelo como sei que ele gosta tanto. Sinto sua
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respiração contra meu ombro e sei que finalmente


caiu no sono depois de longos minutos quando para
de se mexer, feito a boa pedra que é quando dorme.
Beijo sua cabeça e inspiro seu cheiro tão único,
sussurrando em seu ouvido.
— Boa noite, meu amor.

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Capítulo 42

O SOM FAMILIAR DO ALARME do meu


celular me desperta de um sonho agitado, inquieto.
Não sei quantas horas dormi, mas sei que não
foram o suficiente. Só consegui dormir depois da
acolhida de Juliana, depois do seu beijo. Era como
se aquilo fosse tudo que faltava para me acalmar, e
funcionou, porque, querendo ou não, ela passou a
me conhecer melhor do que qualquer outra pessoa.
Reviro na cama e me levanto, encontrando o
colchão vazio. Suspiro, mas não posso dizer que
estou surpreso.
Paro na porta do quarto de minha mãe no

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caminho para o chuveiro e a encontro já


completamente vestida e pronta para sair. Suas
olheiras fundas denunciam a noite mal dormida,
seus olhos avermelhados externam sua dor em
forma de lágrimas não derramadas.
— Como você está? — pergunto, encarando-a
pelo espelho enquanto dona Luíza apaticamente
aplica uma camada de maquiagem.
— Tão bem quanto possível — responde, a voz
fraca e esganiçada.
Concordo com a cabeça, porque é tudo que pode
ser feito. Ela se vira em minha direção, levanta da
cadeira e bate fracamente no colchão.
— Venha aqui — chama.
Sento ao seu lado e ela segura minhas mãos.
— Ele tinha muito orgulho do homem que você
se tornou — diz, as lágrimas brotando em seus
olhos novamente.
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Sorrio fracamente, balançando a cabeça. Em


alguma medida, sei disso. Embora questione com
tanta frequência, mesmo que não tenha tanta
certeza dos meus passos, sei disso. Sei que tenho
feito tudo que posso para manter o nome da família
no lugar, a empresa girando, o trabalho de uma vida
inteira do meu pai no lugar e dando frutos.
— Sei que as coisas nem sempre foram fáceis, e
que você tomou toda a responsabilidade nas suas
costas — ela continua.
Alguém tinha que fazê-lo. Vinicius claramente
não estava disposto, e posso sentir que essa
conversa será sobre ele. Ouço um suspiro cansado
vindo dela e me esforço para manter uma feição
serena.
— Nem tudo é tão simples como parece, filho.
Sei que você tem muitos problemas com seu
irmão…

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— Eu prefiro não falar sobre ele, mãe — digo,


mas ela ignora.
— A vida é curta demais. — As lágrimas
finalmente vencem e começam a escorrer por seu
rosto. — Cuidado para não se arrepender de nada
depois.
Gostaria de poder dizer que quem tem do que se
arrepender é ele. Que seu comportamento não
condiz com o homem de meia idade que Vinicius é.
Que sua imaturidade e egoísmo têm custado muito,
para empresa e para nossa família. Para mim. Que
meu pai morreu sem ele estar ao seu lado e, por
isso, nunca vou perdoá-lo.
Mas não digo nada, porque minha mãe não
merece. Porque, apesar de parte disso ser culpa da
sua incapacidade de enxergar as falhas de caráter
do filho, não fará bem algum trazer mais
infelicidade para sua vida neste momento.

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Franzo a testa, finalmente colocando sentido nas


palavras de Juliana. Ela não foi embora. Não disse
que ia. Tudo que Lia fez foi repetir infinitas vezes
que aquela não era a hora certa para conversarmos,
da mesma forma que esta não é a hora certa para
vomitar reclamações sobre Vinicius para minha
mãe.
Foco meu olhar na mulher à minha frente e
estendo a mão para secar suas lágrimas. Faria
qualquer coisa para não a ver sofrer dessa forma.
Decido passar o fim de semana aqui, não acho que
será uma boa ideia deixá-la sozinha.
— Vou me arrumar. Saímos em quarenta
minutos? — Ela confirma com a cabeça e deposito
um beijo em sua testa. — Te encontro lá embaixo,
está bem?
Gostaria de passar horas a fio debaixo da água
quente, mas não posso me permitir esse luxo.

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Visto-me, colocando o terno. Mais uma vez. Mais


um dia. Dessa vez por um motivo ainda menos
prazeroso.
Postergo em frente ao espelho o máximo que
posso. Não é algo que eu faça com frequência — o
hábito é recém-adquirido de Juliana, que sempre
me prendia em frente a um, agarrada a mim,
tecendo elogios enquanto percorria suas mãos por
meu corpo, acendendo-me para si.
Uma pequena e patética parte de mim procurou
por um avião de papel quando acordei. Um bilhete.
Um recado. E nada. Juliana simplesmente esvaiu-se
como pó.
Melhor assim.
O dia que tenho pela frente será conturbado o
suficiente sem sua presença. Não tenho certeza de
que conseguiria me concentrar em qualquer coisa a
tendo por perto. Começo a descer as escadas,
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olhando a hora, e vejo tenho mais alguns minutos


antes de termos que dirigir para o cemitério. Para
dar adeus. A despedida final. Já posso ouvir as
vozes vazias das pessoas. Seus consolos sem
sentido. Sua luta acabou. Finalmente ele pode
descansar. Ele vai para um lugar melhor agora.
Como se isso fosse de alguma ajuda.
— Achei que eu tivesse sido bem claro. Você é
mesmo tão inconsequente a esse ponto? Tão
interesseira assim que prefere acabar com a vida do
coitado?
Ouço a voz furiosa de Vinicius quando chego à
metade dos degraus. A surpresa por ele ter se dado
ao trabalho de aparecer só é abafada pela pena que
sinto do pobre coitado com quem está falando. Meu
querido irmão consegue ser a pessoa mais
desagradável que conheço sem ao menos se
esforçar para isso.

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Dou mais um passo escada abaixo e é quando


vejo Juliana. Ela não havia ido embora? O que faz
de pé na minha cozinha? Outro degrau e a visão
fica clara. E de imediato uma onda de raiva
percorre meu corpo quando vejo Vinicius apontar
um dedo em sua direção, perto demais do rosto dela
para que eu possa garantir que não vou socá-lo
outra vez.
— Você venceu, Vinicius — ela sibila em um
tom que não reconheço, e paro de andar em sua
direção, tentando entender o que está acontecendo.
— Você venceu. Uma estrelinha dourada para
você. Vou contratar um carro de som para anunciar
seu sucesso! Essa é a última vez que o procuro.
Satisfeito? Agora pega essa sua condescendência
bosta e enfia no…
Sua voz é baixa e recheada de um ódio mal
contido, e ela mesma interrompe a frase com um

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gemido de frustração. Nunca a vi desse jeito.


Juliana é sempre leve, repleta de uma energia que
mal cabe em seu corpo, travessa e abusada.
Impetuosa. E foi essa leveza a primeira coisa que
me atraiu a ela, como se fosse um ímã gigante. E
toda essa leveza está desaparecida, com seu rosto
transformado em uma careta, sua voz enraivecida.
— Já estou de saída — rosna. — Faça um favor
para si mesmo e ao menos finja que tem alguma
coisa que preste em você. Pelo menos hoje. Por sua
mãe. Pelo seu irmão. Pode não se importar com ele,
mas eu me importo.
Ele ri. Uma gargalhada seca, enquanto balança a
cabeça.
— Olha só você, toda preocupada com ele. Mas
não desperdiçou a primeira oportunidade de vir
correndo entrar nas calças do herdeirozinho,
mesmo sabendo o que isso ia custar. Agora me diz

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que ceninha ridícula é essa de você arrumando café


da manhã? Patético.
Vejo quando Juliana ergue a mão aberta em
direção ao seu rosto e Vinicius segura seu pulso, os
dedos apertados em volta de seu braço, e Juliana
ofega. Sequer sei como me movo, mas no segundo
seguinte o empurro para longe dela, pondo-me
entre os dois.
— Nunca mais encoste nela — rosno. — Já
quebrei sua cara por muito menos.
Um sorriso de escárnio cruza o rosto de Vinicius
e seu olhar se demora apenas um segundo em mim
e logo volta para ela.
— Juliana — cumprimenta, antes de virar as
costas e desaparecer escada acima, deixando-me
sozinho com Lia.
Viro em sua direção, minha respiração ainda um
tanto descompassada, e vejo uma lágrima escorrer
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em seu rosto que ainda está tomado por uma raiva


mal contida. E, pela primeira vez desde que a
conheci, ouço Juliana sussurrar um palavrão.
— O que estava acontecendo aqui? — pergunto,
e tento manter fora da minha voz a irritação que
sinto, mas sei que não consigo.
Tomo seu pulso em minha mão e percorro os
dedos por onde Vinicius segurou. Sem pensar,
levo-o aos meus lábios e deposito um beijo na sua
pele quente, e ela ofega de novo, de satisfação
dessa vez.
— Desculpe por isso — diz, respirando fundo. E
sei que ela está pedindo desculpas pelo irmão de
merda que eu tenho.
Lia olha na minha direção e abre um sorriso
fraco.
— Você vai ficar bem? — pergunta e eu nego
com a cabeça.
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Obviamente não. Ela concorda com a cabeça,


entendendo o que quero dizer. Lia põe-se na ponta
dos pés e deposita um beijo em meu rosto, e
aproveito a proximidade para segurá-la pela cintura
antes que se afaste.
— Você disse para ele que essa seria a última
vez que me procuraria — digo em seu ouvido,
sentindo meu peito apertar, porque mesmo que eu
negue, me permiti acreditar que havia voltado para
mim para ficar, e não apenas como um gesto de
solidariedade em um momento difícil.
Silêncio é tudo que ela usa para me responder
antes de concordar com a cabeça.
— Eu menti — sussurra.
— O quê?
Suspiro. Sei que tem algo errado, mas minha
mente está dispersa demais para tentar colocar
ordem em qualquer coisa. A dor de perdê-la nunca
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me abandonou, e se mistura com a dor ainda maior


de saber que no próximo domingo, quando entrar
por essas portas, meu pai não estará aqui. Nunca
mais estará aqui. A negação da perda nunca me
atingiu, porque por meses, por anos, a aceitação
veio sendo construída. Eu sabia que estava a ponto
de perdê-lo e, agora que o dia por fim chegou,
apesar de doloroso, não é uma surpresa.
A primeira coisa que me atingiu foi a raiva. O
sentimento agudo que queimou meu peito, e ainda
queima, e borbulha. Descontei noite passada em
Juliana, usei de seu consolo e abusei de sua
disposição e confiança. E a culpa me atinge.
— Desculpe pela forma como te tratei ontem —
murmuro em seu ouvido.
Ela balança a cabeça, negando.
— Você não tem do que se desculpar. Obrigada
por ter me deixado ficar.
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Juliana me solta e eu levanto a cabeça,


encontrando seus olhos.
— Eu nunca te mandaria embora, Lia.
E eu quero beijá-la. Meu corpo implora pelo
contato, meu coração grita de saudade, e sei que ela
é provavelmente a única pessoa capaz de fazer eu
me sentir um pouco melhor agora. Mas minha
mente, que é a única parte minimamente funcional
dessa bagunça que sou no momento, me diz que
não é uma boa ideia.
E, pela primeira vez desde que me lembro,
ignoro qualquer parte racional minha e ergo seu
queixo em minha direção. Juliana separa os lábios
antes mesmo que eu os alcance. Sentir seu gosto
me desestabiliza completamente.
— Edu… — sussurra contra a minha boca, e
começo a me preparar para outro discurso de
despedida. Mas, ao invés disso, ela leva as mãos ao
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meu rosto. — Sua mãe precisa de você agora. Isso


aqui — diz, descendo uma mão ao meu peito,
apontando para nós dois — vai ter que esperar um
pouco.
Recosto a testa na dela.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo… — Ela pausa e respira
fundo. Vejo em seus olhos que está pensando bem
antes de falar, olhando-me com atenção, e morde a
boca. Percebo o exato momento em que Juliana
fecha os olhos por um segundo, parecendo desistir
de alguma coisa. — Estou dizendo que estou aqui
para o que você precisar. Hoje e sempre.
Fecho os olhos porque não consigo entender o
desespero em sua voz.
— Lia…
— Olhe para mim. — A exigência na voz dela
me faz abrir os olhos e me deparar com o par de íris
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castanhas cintilando para mim. A facilidade com a


qual me perco em seus olhos ainda me surpreende.
— Eu nunca mais vou sair do seu lado. Nunca. Está
me ouvindo?
Meu coração salta, e por um segundo parece que
para de bater.
— Do que você precisa, Edu?
Sinto os braços dela em volta do meu pescoço
antes que eu tenha a chance de responder.
— Você me disse uma vez que não queria ter
que passar por nada sem mim — sussurra, e
imediatamente minha mente viaja para aquela
noite, uma entre tantas em que dormi em seus
braços. — E não vai, nunca mais. Eu vou estar do
seu lado cada maldito segundo do seu dia até você
enjoar de mim.
Ela me solta e me encara, olhando-me com esses
olhos grandes e cheios de vida.
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— Isso nunca vai acontecer — digo.


Vejo os olhos de Lia voarem para a escada atrás
de mim quando ouvimos vozes, e um brilho raivoso
cintila no seu rosto.
— A gente precisa conversar antes, eu preciso te
explicar algumas coisas. Preciso te contar uma
coisa, e não vai ser fácil. Mas não agora, não hoje
— diz antes de voltar a me olhar.
Fecho os olhos, absolutamente perdido com o
que está acontecendo aqui. Ela tem razão,
precisamos conversar, porque não consigo entender
o que está se passando pela cabeça dela. E minha
mente está quase inteiramente focada em minha
mãe agora, ao menos a parte que não está tentando
suprimir o buraco que sinto no meu peito pela
perda do meu pai.
E, por mais que a queira aqui, hoje sei que não
vou conseguir manter minha cabeça no lugar com
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Juliana rondando. Não vou conseguir dar a


assistência que minha mãe precisa, não quando Lia
já deixou claro que tem alguma coisa para me
contar. O que quer que esteja escondendo de mim é
melhor ser grave o suficiente para justificar essa
distância que ela colocou entre nós. E, se for, não é
algo que eu queria ter que ouvir hoje, não agora
quando todo o resto já está caindo aos pedaços.
— Obrigado por ter me acalmado ontem —
digo, escovando os dedos em seu rosto, e ela sorri.
— Sempre — murmura em resposta. Lia levanta
os olhos para mim e, ficando na ponta dos pés,
deposita um beijo nos meus lábios. — Posso te
procurar amanhã?
Nego com a cabeça e seguro sua cintura quando
ela dá um passo para trás em resposta.
— Vou ficar aqui. Não acho que seja uma boa
ideia deixar minha mãe sozinha. Segunda? — peço
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e Juliana concorda com a cabeça, e vejo o alívio no


seu rosto.
Agradeço por ela ter entendido do que preciso
agora, já ansioso por vê-la novamente. Olho para
Lia por um segundo mais antes de ela murmurar
que me ama, se soltar de meus braços e se afastar,
indo em direção à porta.
E Juliana se vai.
Mais uma vez.
E, ao contrário do que eu disse, mesmo eu
sabendo que ela não está indo de verdade, mesmo
sabendo que vou vê-la em alguns dias e resolver o
que quer que seja essa merda toda, não dói menos
assisti-la sair pela porta.

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Capítulo 43

FICO BATENDO O PÉ, agitada, estalando


todos os dedos enquanto espero o porteiro do
prédio de Priscila interfonar para ela e liberar a
minha entrada. Vou acabar quebrando algum dedo
qualquer dia desses, já estou até vendo. Já cansei de
vir aqui, toda semana bato ponto na casa dela, o
homem devia conhecer minha cara a essa altura.
Sinto meu celular vibrar e apanho o aparelho.
— Oi, Gui — atendo, tentando com todas as
minhas forças não revirar os olhos para o homem
que demora uma eternidade para conseguir contatar
Priscila. O que quer que ela esteja fazendo, é
melhor valer muito a pena para me deixar de pé

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aqui neste estado. Ainda tenho que ir para o


trabalho. Avisei que me atrasaria e chegaria depois
do almoço, mas também não posso abusar da boa
vontade de ninguém.
— Como foi a tal reunião ontem? Você
desapareceu, não ligou nem nada.
Pois é. Eu disse que ligaria para ele assim que
saísse de lá, mas claramente meus planos mudaram.
Definitivamente não devia ter passado a noite na
casa de Eduardo, agora eu estou aqui, toda chorosa,
querendo estar lá com ele. Mas entendo que Edu
precisa se concentrar no que realmente importa no
momento.
Não sei quanto da conversa Eduardo ouviu antes
de se meter no assunto, mas Vinicius foi muito
claro sobre não querer me ver ali. Não consigo
entender o motivo de tanto ódio, não sei por que
Vinicius quer tanto mal ao irmão, não sei o que

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aconteceu entre os dois para isso, mas é quase


inacreditável para mim que alguém seja tão baixo
assim.
E a verdade é que ele atingiu meu limite.
Vinicius conseguiu acertar todos os meus nervos,
um por um, e a minha vontade é trancá-lo em um
tanque com tubarões e assistir comendo pipoca.
Descarto a ideia rapidamente, porque os tubarões
merecem comida melhor.
E é quando eu decido que não está dando muito
certo deixar isso nas mãos de outra pessoa que não
as minhas. Ouço meu irmão tagarelar do outro lado
da linha sobre qualquer coisa que não estou
prestando atenção e o interrompo.
— Gui? A Fernanda está aí? — Ele confirma. —
Passa o telefone para ela.
Guilherme estranha e pergunta o que eu quero,
digo que não é da conta dele, porque não é mesmo.
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Enxerido. Meu irmão resmunga alguma coisa sobre


eu ser grossa e chama a namorada.
— O que você quer, princesinha?
— Preciso da sua ajuda.
O porteiro finalmente libera a entrada e eu vou
explicando para Fernanda enquanto espero o
elevador.
— Você tem alguma ideia do que está me
pedindo, Juliana? — A voz dela assume um tom
quase raivoso ao perguntar isso.
— Tenho, Fernanda. Eu tenho, acredite em mim.
Não te pediria isso se achasse que tem outro jeito
de resolver as coisas. Tenho certeza que você, mais
do que ninguém, quer aquele homem fora da
empresa e na cadeia.
— Eu quero aquele homem no inferno, Juliana.
— Ela pausa e posso ouvir Guilherme ao fundo
perguntando o que está acontecendo.
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Quando Fernanda não responde por um minuto


inteiro, sei que está repassando na mente todas
suas, todas as nossas tentativas anteriores de
convencer as outras funcionárias a denunciarem o
infeliz. Ela suspira.
— Me diz o que você quer que eu faça.
Explico rapidamente enquanto saio do elevador
e chego à porta de Priscila, e digo que vou passar lá
amanhã. Ela concorda e desligo o telefone. Toco a
campainha e a loira abre a porta, parecendo
ansiosa.
Entro na sala e me jogo no sofá, imediatamente
abrindo os braços, pedindo colo.
— Dormiu lá, não foi? — pergunta e eu
confirmo com a cabeça. — Você é impossível,
Juliana.
— Ele precisava de mim — digo e ela ri. — E
eu precisava dele também — sussurro.
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Priscila me aperta e dá um beijo na minha


cabeça.
— E agora você vai fazer o quê?
Respiro fundo, desejando ter uma resposta fácil
para isso. Vou contar tudo para o Edu, é tudo que
posso fazer a essa altura. Levar uma caixinha de
lenços e me preparar para ele nunca mais querer
olhar na minha cara por ter escondido isso dele.
Dispenso o pensamento, tentando me convencer de
que isso não é uma possibilidade.
Olho para ela, descabelada e com a cara
amassada, mas enfiada em um vestido preto. Um
vestido que vai até seus joelhos. Sem decote. Não
lembro a última vez que vi Priscila tão coberta
assim fora do trabalho, provavelmente porque isso
nunca aconteceu.
— Você vai ao enterro?
Ela confirma, suspirando.
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— Tenho que ir.


— Será que você pode…
Priscila sorri em entendimento e segura minhas
mãos. É tão bom ter alguém que sabe exatamente
do que você precisa sem que precise falar. Não sei
o que eu faria sem tê-la aqui comigo,
principalmente nesse furacão que tem sido minha
vida nas últimas semanas.
— Eu te ligo mais tarde e digo como Eduardo
está.
Agradeço, mas isso não serve de muita coisa.
Vai me matar não estar lá com ele no que
facilmente é o momento mais difícil da sua vida.
Recosto a cabeça no sofá e fecho os olhos,
respirando fundo.
Terminei meu livro. Finalmente. Fiz o que pude
para me dedicar a essa história que tanto custou a
se formar na minha cabeça, em parte porque
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prometi a mim mesma não deixar mais nada do que


gosto escapar das minhas mãos tão facilmente, em
parte porque escrever me ajuda a não ficar
pensando o tempo inteiro na saudade que sinto. E
quando coloquei o último ponto final na última
página, a sensação de dever cumprido era tamanha
que mal coube em mim. E corri para pegar o
celular, e a única pessoa para quem eu queria ligar
era Edu. Era com ele que queria celebrar e sei que
se estivéssemos juntos ele chegaria com uma
garrafa de vinho e um sorriso orgulhoso no rosto.
Curioso como em tão pouco tempo fui capaz de
aprender cada detalhe dos seus traços. Sei que ele
teve um dia ruim quando a primeira coisa que faz é
afundar o rosto em meu pescoço. Sei que está feliz
quando raspa os dentes pela linha do meu queixo
antes de me beijar. E, da mesma forma, Eduardo
passou a me conhecer de tal maneira que até se eu
falar bom dia de um jeito diferente, ele percebe.
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Então não me surpreende nem um pouco que


tenha percebido alguma coisa errada quando me
pegou na cozinha com Vinicius. Edu não insistiu,
obviamente não tem cabeça para isso agora, mas
ele sabe. Ele sabe e é inteligente demais para se
fazer de idiota, então me pergunto quanto tempo
vai demorar para conseguir juntar dois com dois
sem que eu precise falar nada.
Abro os olhos e encontro Priscila olhando
nervosamente para a porta do quarto dela.
— O bonitinho está aqui, não está? — pergunto
e ela confirma com a cabeça, mordendo os lábios.
— E você está morrendo de medo de ele sair e dar
de cara comigo aqui.
Pri concorda com a cabeça de novo e eu tenho
que rir do ridículo da situação. Isso já está ficando
completamente fora de proporção.
— Será que você pode ir embora? — pede, com
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os olhos arregalados, e eu não consigo segurar uma


gargalhada.
Que amiga horrível ela é! Trocando minha
companhia por um par de calças. Pensando bem,
Priscila seria horrível se me trocasse por qualquer
coisa, mas se é para isso acontecer, que seja por um
gostosão.
— Obrigada. — Balanço a cabeça, tentando
parar de rir, mas falho. — Só você e esse seu
desespero com relacionamentos para me fazer rir
agora.
Dá os ombros, ignorando minha provocação.
— Vai me dizer o motivo para querer esconder o
homem a sete chaves? — pergunto.
Ela se joga no sofá, sentando ao meu lado e
apoia a cabeça no meu ombro.
— Ele vai ficar se achando importante — ela
diz, dispensando o comentário com a mão como se
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não fosse importante.


Olho para ela e vejo que está realmente nervosa.
Eu nunca vi essa mulher nervosa com homem
nenhum. Toda vez que eles começam a querer coisa
mais séria, ou começam a pressionar qualquer
coisa, ela simplesmente dispensa e passa para o
próximo. Esse nervosismo todo só pode significar
que Pri não quer ter que dispensar esse daí. E
mesmo que me veja aqui, ela não precisa, é
altamente improvável que eu vá esbarrar com ele
por aí para isso ser um problema. A menos que…
— Eu o conheço — digo e ela olha para mim tão
rápido com a boca aberta que nem precisa falar
mais nada. — Eu o conheço! É por isso que você
não quer deixar a gente se encontrar.
Priscila começa a negar com a cabeça, mas
desiste e suspira, confirmando, enfiando a cabeça
entre as mãos para esconder seu rosto. Eu rio, uma

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risada alta. Agora sim isso está ficando


interessante. Quem é? Eu dei o número do Calebe
para ela, e sei que eles saíram algumas vezes, mas
não consigo tirar da cabeça essa sensação de que
ela e meu irmão têm um rolo por aí.
— Eu amo você — digo, segurando as mãos
dela, tirando-as do seu rosto. — E só quero que
você seja feliz. E se quem quer que seja que está
naquele quarto é quem está te fazendo feliz, por
mim tudo bem.
Ela me olha por um segundo, franzindo o cenho
como se acabasse de perceber alguma coisa, mas
rapidamente coloca um sorriso sacana no rosto.
— Ele tem me feito muito feliz — diz, erguendo
uma sobrancelha. — Três vezes hoje antes de você
chegar — provoca.
Solto a mão dela e dou um tapa no seu braço.
— Não são nem dez da manhã, se controla. Para
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de se comportar feito mocinha de livro erótico que


goza quinze vezes em dez minutos.
Priscila ri e me abraça.
— Obrigada. Eu vou te contar. Eventualmente.
Só não estou pronta ainda para envolver outras
pessoas nisso, principalmente não uma amiga em
comum. Vai fazer parecer sério demais — explica e
eu concordo com a cabeça. Isso faz sentido na
mente doida dela. Priscila me solta e toda a leveza
do seu rosto vai embora em um instante. — Mas
Ju… O que você vai fazer agora?
Respiro fundo, mas fundo mesmo, para tentar
limpar minha mente e organizar minhas ideias.
Conto para ela sobre o que disse a Fernanda, dou
detalhes sobre a minha ideia, sobre o que estamos
combinando. Repito o que Vinicius me disse, o que
conversei com Eduardo. Digo que não existe a
menor chance de eu largar aquele homem de novo.

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É bom dizer em voz alta porque eu consigo


ouvir toda essa maluquice e, por incrível que
pareça, não acho um absurdo. Faz sentido. Parece
um bom plano. Espero que seja um. Porque se der
errado, não quero nem ver o tamanho do problema
que vamos arrumar.
— Arriscado — ela diz quando acabo de falar, e
eu concordo. — Mas pode dar certo.
Tem que dar certo. Alguma coisa nessa história
tem que dar certo.
— Torça por mim — peço.
Por favor, torça por mim.

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Capítulo 44

O QUE ESTOU FAZENDO?


O que estou fazendo?
O quê?
Diz para mim.
Na escala de ideias idiotas que já tive, esta sem
dúvida está no topo.
Faço besteira, mas faço besteira consciente
disso. Conta para alguma coisa, não conta?
Saber que é besteira não me impede de tocar a
campainha do apartamento de Eduardo, batendo pé,
coçando-me para estalar os dedos, agitada. E ele

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abre logo depois.


— Juliana — cumprimenta com uma expressão
confusa estampando seu rosto.
Era para eu esperar até segunda? Era. Mas quem
disse que consegui? Então é domingo e eu estou
aqui, linda e bela, batendo na porta dele, mesmo
que Eduardo tenha dito que precisava desse tempo
para colocar a cabeça no lugar.
Passaram-se mal dois dias desde que o vi, desde
que disse a Vinicius que não o procuraria de novo.
Parece que eu menti, não é mesmo? Mas é uma
mentira prudente. Sei que não tem a menor chance
de ele estar no apartamento de Eduardo, então não
tem risco nenhum de nada. Vinicius jamais vai
saber que eu estou por aqui. Estou me sentindo uma
adolescente fugindo de casa pela janela no meio da
noite para encontrar com o namoradinho que os
pais proibiram de ver. Não que eu tenha feito isso,

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de forma alguma.
Edu está vestindo uma camisa preta que abraça
seu corpo tão bem que é como se ele não estivesse
vestindo nada. Que saudade desses braços, desse
peito, dessa pegada… Estou seriamente em
abstinência.
— Vim devolver sua gata — digo, esticando a
bolsinha onde Valentina está encolhida. E me
devolver junto, penso em dizer, mas um alarme soa
na minha cabeça quando ele não sorri. O que está
acontecendo?
Eduardo franze o cenho e entorta a cabeça
olhando para minhas mãos, e aproveito o segundo
para beber a visão do homem à minha frente.
Nesses dias que passaram desde a morte de seu
pai eu tentei, juro que tentei, juro de mindinho que
tentei, mas tudo que consegui pensar nesse tempo
foi em como ele estava. Foi difícil me concentrar
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em Fernanda e no que estávamos tentando fazer,


quase impossível focar em qualquer outra coisa que
não ele. Estava me revirando por dentro por não
estar aqui. Não consegui aceitar que preciso ficar
longe dele.
Meu Deus, como eu sou egoísta. Colocando
tanta coisa em risco para ele porque não sou capaz
de controlar minhas saudades. Nem respeitar o
tempo dele estou respeitando. Será que é esse o
motivo dessa cara?
— Você esteve com Valentina por mais de um
mês, o que a fez trazê-la agora? — pergunta com o
cenho franzido.
Estou a ponto de perguntar se não vai me
convidar para entrar quando vejo uma
movimentação no apartamento. E, de pé no meio da
cozinha dele, descalça e com um copo na mão,
aparece uma mulher ridiculamente bonita. Quem é

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essa? Ela me olha e abre um sorriso, inclinando a


cabeça, e seu cabelo loiro cai por sobre o ombro
quando ela levanta a mão, acenando para mim. Ah,
ótimo, quer ser minha amiga agora também?
Dividir maquiagem e sapato? O homem já está
sendo dividido pelo visto. Pelo amor de Deus,
Eduardo…
Congelo, tentando manter minha boca fechada
para não me xingar pela idiotice. Eduardo olha por
sobre o ombro para ver o que eu estou encarando e,
quando volta para minha direção, ergue uma
sobrancelha para mim, mas não abre a boca para
falar nada.
— Achei que você quisesse alguma companhia
— digo, sentindo-me bem patética. Achei que
podia querer a minha companhia. — Estava
enganada. — Essa última parte é só um sussurro e
duvido que ele ouça.

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Claramente