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PERIGOSAS NACIONAIS

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Direitos autorais do texto original


© 2019 Victoria Gomes

Capa: Letti Oliver


Revisão: Victoria Gomes e Natália Dias
Diagramação: Victoria Gomes

É proibida a reprodução de qualquer parte dessa


obra, através de quaisquer meios, sem a autorização
da autora. Ressalva para trechos curtos usados
como citações em divulgações e resenhas, com
autoria devidamente identificada. A violação dos
direitos autorais é crime estabelecido pela lei no.
9.610/98 e punido pelo artigo 184 do código penal

Todos os direitos reservados

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Índice
Olá, Conectadas!
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
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Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Capítulo 36
Capítulo 37
Capítulo 38
Capítulo 39
Capítulo 40
Capítulo 41
Capítulo 42

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Capítulo 43
Capítulo 44
Capítulo 45
Capítulo 46
Capítulo 47
Capítulo 48
Capítulo 49
Capítulo 50
Epílogo
Bônus
Outros livros da autora
Sobre a autora
Conexão Despertada – livro 3 da série “Conexões”

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Olá, Conectadas!
Bem-vindas ao segundo livro da série!
Para quem já leu Conexão Cruzada e está com
saudades do nosso casal, saibam que Juliana e
Eduardo aparecem bastante nessa história!
Se você está chegando agora, os livros podem ser
lidos fora de ordem, mas como as histórias se
passam simultaneamente não vai dar para fugir de
spoilers do livro um.
Conexão Negada é recheado de humor e muito
erotismo. Priscila não é sua típica protagonista de
romance — de romântica ela não tem nada —,
então a história faz jus à sua personalidade.
Leia com a mente aberta e o coração cheio de
amor.

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Amo vocês!

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Capítulo 1
SAUDADES GUILHERME.
Nunca achei que fosse falar isso na vida, mas
saudades Guilherme. Estou bem feliz por ele ter
aquietado o facho com alguém, mesmo que eu
sinceramente não consiga entender essa relação
dele com a Fernanda, mas nessas horas sinto
saudades.
E, para minha enorme surpresa, não é do
tanquinho nem da mão boba que sinto falta. Não
nego e nem dispenso, mas não é isso agora. Eu
realmente poderia usar a companhia daquele
moleque neste final de semana. Rolo a tela da lista
de contatos do aplicativo de mensagens tentando
encontrar alguém, qualquer um, que eu possa
convidar para ir a esse casamento comigo sem que

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isso se torne um evento fora de proporção, mas não


encontro. Seria engraçado se não fosse trágico.
Percorro os olhos pelos nomes e só consigo ler
“dor de cabeça”. A questão é que apesar de todos
serem adultos e, em teoria, maduros e bem
resolvidos, e eu ser muito clara desde o começo que
é só sexo, nada além de sexo parcialmente fixo e
nada exclusivo, sempre aparece um se fazendo de
doido. Querendo mandar na situação, decidir as
coisas. Dizendo que homem que é homem não
aceita mulher rodando por aí. Querendo controlar,
domar, colocar uma coleira com seu nome em volta
do meu pescoço e gritar “é minha, ninguém come
mais”.
Se eu convido algum desses para ir a um evento
dessa importância comigo, aí sim é que vão se
achar no direito de me pentelhar. Certeza de que
vai aparecer um com aquele discurso pronto de que

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não está procurando um relacionamento, como se


eu estivesse. E aí adeus sexo gostoso sem
preocupações.
Recosto na cadeira e abro a conversa com Juliana,
resistindo à vontade de reclamar por ela ter
habilmente visualizado e ignorado minha última
mensagem. Só perdoo porque sei que a causa é boa.

Seu irmão está inutilizável, preciso de


companhia para o casamento. Não tem nenhum
amigo para me emprestar não?

Olho o relógio e vejo que está na hora do almoço


dela. O que significa que ela está enfiada em algum
lugar com Eduardo e não vai me responder tão
cedo. De novo. Vejo o e-mail piscando na minha
tela, vindo da cerimonialista desesperada querendo
saber se vou levar alguém ou não. A mulher vai me
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matar, pois eu já devia ter respondido isso há


semanas.
A vantagem de ir sozinha é que posso encher a
cara e pegar algum cara solteiro gato que sei que o
noivo tem como amigo. O lado ruim é que, quando
eu der de cara com meu querido ex-namorado lá,
sei que ele vai vir todo cheio de dedos para cima de
mim e vou ser obrigada a dar na cara dele. Odeio
recorrer ao artifício de ter um cara a tiracolo para
ter um mínimo de respeito, mas é bem disso que
estou atrás no momento. Se fosse qualquer outra
situação, eu arrumaria um barraco com Marcos e
pronto, mas não posso fazer essa cena. Afinal, é o
casamento da Natália, uma das minhas melhores
amigas — Juliana que não escute isso.
Suspiro, levantando da cadeira, e esfrego o rosto,
sentindo uma dor de cabeça chata. Preciso de café
para ver se passa.

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Ando até a copa e vou direto para a cafeteira, que,


como sempre, está vazia. Poucas coisas na vida me
irritam mais do que isso. Custa fazer mais café
quando vê que acabou? Vai cair a mãozinha?
Coloco o pó e a água, ligo a máquina e recosto na
bancada de mármore, esperando o tempo fazer sua
magia.
Estou quase desistindo e respondendo ao e-mail,
dizendo que vou sozinha mesmo, quando vejo
Rafael entrar no cômodo.
Hum…
Por que não pensei nisso antes?
Ele me cumprimenta com um aceno discreto de
cabeça e o sorriso de sempre no rosto, e tomo meu
tempo encarando-o. Ouço-o perguntar como foi
meu encontro no último fim de semana, mas nem
lembro mais. Já é quinta-feira, quase uma semana
depois. Não foi bom o suficiente para ficar na
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minha cabeça.
A blusa social que veste não combina nada com
ele, dá um ar de seriedade que o homem não tem.
Mas está bonito, como sempre. Não dá para negar
que Rafael é muito bonito. A barba perfeitamente
feita, cabelo com o corte certo, ombros largos que
chamam atenção. De costas, um espetáculo com a
calça apertadinha na bunda.
— Rafa — chamo, e ele me olha por sobre o
ombro.
Indico com o dedo para que vire de frente para
mim e ele o faz, com o cenho franzido enquanto
segura um iogurte em sua mão.
— Vai fazer alguma coisa este sábado? —
pergunto e ouço a cafeteira finalmente encerrar seu
trabalho. Viro-me para a bancada e me sirvo uma
xícara. Tomo um gole do café quente, preto, puro e
ele faz uma careta ao ver que não adocei. Já sei que
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tem paladar de bebê. Os três quilos de açúcar que


coloca em tudo denunciam isso.
— Nada muito empolgante, não. Acho que vou só
terminar aquela série que te disse que estava
assistindo. E você? — pergunta, todo educado,
achando que estou jogando conversa fora.
Tomo outro gole e sinto meu corpo começar a
reagir à cafeína instantaneamente. Tchau, dor de
cabeça chata.
— Tenho um casamento para ir — falo, e ele
sorri, dizendo que parece ser legal, desejando
felicidade aos noivos. — Preciso de um
acompanhante.
O loiro demora alguns segundos para entender e
arqueia suas grossas sobrancelhas para mim,
surpreso.
— Anh… — gagueja, e preciso segurar um riso.
Sim ou não, não é tão difícil. — Desculpe, não
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quero entender isso errado. Você está me


chamando para sair?
Dou os ombros e confirmo com a cabeça. É um
jeito de olhar para isso.
— Não me leve a mal, Priscila, você é uma
mulher linda — diz, colocando o potinho de iogurte
em cima da bancada, gesticulando com as mãos em
direção ao meu corpo.
Corpo que ele toma alguns segundos para analisar
com cuidado. Vejo seus olhos saindo do meu rosto
e parando no meu decote por um tempo
inapropriadamente longo antes de continuar
descendo até minhas pernas. Quando seu olhar
começa a subir novamente para os meus seios, não
resisto a levar a mão até meu colo e brincar com o
cordão longo que estou usando, enfiando um dedo
no decote. Ele pigarreia e engole seco, parecendo
envergonhado. Rafael fica todo vermelho e eu solto

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uma gargalhada.
— Realmente linda — murmura.
— Mas? — pergunto, tomando outro gole do
café, começando a me divertir com essa história.
Ele abre a boca e para, como se não soubesse o
que falar.
— Sabe que não estou te pedindo em casamento,
não sabe? — brinco, sem conseguir evitar cutucar
essa cara confusa que ele está fazendo. — Estou te
pedindo para me acompanhar em um, mas não
tenho intenção nenhuma de pegar o buquê.
Ele sorri, um sorriso constrangido.
— Você me pegou de surpresa, só isso — diz,
jogando os ombros para trás, assumindo a postura
confiante que já vi tantas vezes. — Posso perguntar
o motivo disso? — Ele entorta a cabeça e cerra os
olhos de um jeito que me faz ter ideias bem

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inapropriadas.
Olho para sua carinha de bebê disfarçada somente
pela barba e me pergunto se ele tem mesmo vinte e
quatro anos. É difícil definir a idade dele. Rafael
me acompanha em pé de igualdade na completa
falta de maturidade nas conversas, mas ao mesmo
tempo parece ter sessenta anos por dentro. Nós
ficamos bem amigos desde que ele começou a
trabalhar aqui, principalmente nessas últimas
semanas.
— Você disse que não tem nada para fazer. —
Dou os ombros. — Não achei que fosse recusar
bebida de graça e a chance de dançar agarrado com
uma mulher gostosa.
Vejo um sorriso crescer em seu rosto ao mesmo
tempo em que ele arqueia uma sobrancelha para
mim e concorda com a cabeça.
— Parece um bom plano. O que devo vestir?
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Aponto para ele com a mão em um gesto que


abrange seu corpo.
— Basicamente o que você está vestindo agora,
só que melhor.
A combinação de cores não é exatamente a mais
formal e ele pode fazer melhor, mas fora isso já
está bem apresentável.
— Sabe — diz, vindo em minha direção,
encostando na bancada ao meu lado. Ele para perto
o suficiente para que nossos braços se toquem. —
Não achei que você fosse continuar falando comigo
depois daquele rolo todo com a Juliana. Quer dizer,
não é que tenha sido o fim do mundo, mas eu sei
como vocês mulheres são unidas. Não entendo
muito bem como funciona esse código de conduta
de vocês e…
Ergo um dedo e levo aos seus lábios, fazendo-o
parar de falar. Juliana tem razão, é mesmo um
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tagarela. Mas eu até que gosto.


— Parou de surtar? — pergunto, e ele concorda
com a cabeça. Só então tiro meu dedo da sua boca.
— Preciso de um favor seu — peço, e ele indica
com a cabeça para que eu continue. — Tem um
cara nesse casamento que eu preciso dar um passa
fora. Qualquer coisa, nós estamos juntos.
Ele revira os olhos para mim e isso me pega de
surpresa. Esperava uma piadinha sacana sobre
quanto isso vai custar, uma repreensão ou qualquer
comentário aleatório que fosse me fazer rir como
ele costuma fazer. Mas não, Rafael revira os olhos
e realmente parece ofendido.
— Qual o problema de vocês? Eu tenho uma
plaquinha na testa escrita “venham, usem e
devolvam ao final do dia”?
Franzo a testa sem entender o ataque e espero que
ele continue.
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— Pelo menos você está fazendo melhor do que


sua amiga e me avisando com antecedência que só
está me chamando para sair para afetar outro cara
aleatório.
Abro um sorriso para a carranca ofendida dele. É
engraçado, de um jeito doce. Olho para Rafael por
mais um instante e tomo o último gole do meu café.
— Você é gostoso — digo, e seus olhos voam
para mim, arregalados. — Um homem muito
bonito, que chama atenção e gostoso. — Repito seu
gesto e percorro os olhos por seu corpo
descaradamente para ele ver o que estou fazendo.
Dou os ombros, apoio a xícara na bancada e levo
uma mão ao braço dele, que me encara boquiaberto
por um segundo antes de abrir um sorriso
escancarado e recostar de novo na bancada
enquanto ergue a sobrancelha e espera eu
continuar. Apoio a mão no seu ombro e inclino

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para sussurrar no seu ouvido.


— Dá vontade de te agarrar o tempo todo.
Rafael solta uma risada alta e balança a cabeça
enquanto me afasto.
— Você é doida — constata, e faço uma meia
reverência exagerada, arrancando outra risada do
homem.
— O ponto é que não é que eu, ou Juliana se você
ainda se importar, esteja tentando usar você. Você é
descomplicado, divertido e não cala a boca nunca
— digo, e ele faz uma careta. — É uma boa
companhia, Rafa. Eu te carrego para almoçar
comigo o tempo todo por isso. E, além disso, você
é gostoso. É inevitável. Você é um ótimo amigo. E
perfeito para fazer ciúmes em alguém.
A boca dele cai aberta quando dou uma piscada
para ele e eu levo os dedos ao seu queixo,
fechando-o, sem conseguir segurar uma gargalhada.
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Desenvolvemos uma amizade gostosa nesses


últimos meses e nos aproximamos bem nas últimas
semanas. No começo, ele ficou relutante por causa
da cabeçada da Ju, mas logo colocou isso de lado e
voltamos a nos dar bem como sempre.
Conversamos bastante nas horas de almoço e
intervalos para o café, saímos para beber junto com
o resto do pessoal do escritório de vez em quando e
saímos nós dois para a balada com bastante
frequência, mas nunca compartilhamos grandes
segredos e informações pessoais. Somente alguns
flertes despretensiosos e histórias sobre pessoas
com quem saímos na maior parte das vezes. É bom
conseguir fazer alguma coisa com um cara que seja
usando a cabeça de cima para alguma coisa que não
seja tentar me dizer o que fazer. É uma boa
mudança.
— Você acabou de dizer que eu sou gostoso? —

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Rafael pergunta, incrédulo, mas sem conseguir


esconder o riso dos seus olhos.
— Sério que você vai ficar pescando elogios,
Rafa? Te pego às sete — digo, aperto sua bochecha
e viro as costas para sair do cômodo. — E pare de
olhar para a minha bunda.
Ouço uma gargalhada rouca e um pedido de
desculpas completamente falso e rio também.

Cama. É disso que preciso, da minha linda e


confortável cama. Estou parecendo uma velha toda
quebrada e olha que o dia nem cheio foi, mas estou
exausta. Acho que é o acúmulo de coisas. Passei da
conta no final de semana e agora meu corpo está
cobrando o preço pela longa semana de trabalho.
Só quero uma massagem nos pés, não é pedir
muito.
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Entro no chuveiro assim que chego em casa e


esqueço da vida debaixo da água quente. Quando
finalmente saio, pego um roupão fofinho que deixo
pendurado na porta, enrolo uma toalha na cabeça e
vou procurar alguma coisa para comer. Abro a
porta da geladeira e encaro o que tem dentro,
desanimada. Estou com vontade de japonês. Vou
até meu quarto pegar meu celular dentro da bolsa
para ligar para o delivery e vejo duas chamadas
perdidas de um número que não conheço. Ligo para
o restaurante que fica a algumas quadras de
distância e o atendente diz que o prazo de entrega é
de meia hora.
Jogo-me no sofá e coloco qualquer filme para
passar na televisão enquanto rolo pelo meu feed,
gastando tempo com bobagem. Até que o celular
começa a tocar de novo, o mesmo número. Atendo.
— Boa noite. Priscila? — Não reconheço a voz

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grave do outro lado da linha e confirmo que sou eu


mesma. Ouço o que parece ser uma risada sem
graça. — Isso vai parecer surreal, mas a Juliana
me deu seu número. Meu nome é Calebe.
Não, não parece surreal, ainda mais vindo dela. É
exatamente o tipo de coisa que Ju faria. Sorrio e
bato palmas internamente pela coragem de
realmente me ligar, não são muitos homens que
fariam isso. Arrisco dizer que a maioria
esmagadora mandaria uma mensagem e torceria
pelo melhor. Já ganhou pontos comigo.
— Prazer, Calebe. Em que eu posso te ajudar?
Puxo da memória qualquer informação que eu
tenha sobre ele e me lembro de ter ouvido algumas
vezes sobre. Um amigo da faculdade da Ju, se não
me engano, por quem ela teceu alguns muitos
elogios. Fico tranquila, ela é doida, mas não ao
ponto de tentar me arranjar um sociopata. Se achou

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que eu ia gostar dele a ponto de dar meu número


sem me perguntar antes, então deve ser gente boa.
— Na verdade, não tenho exatamente muita
prática nisso — admite, fazendo-me sorrir pela
franqueza. Que gracinha. — Mas Juliana falou
tanto de você que tive que tentar te chamar para
sair.
Direto ao ponto do jeito que eu gosto.
— Adoraria, Calebe.
Combinamos em um bar para o dia seguinte e
quero bater na Ju por não ter me avisado nada
antes. Talvez pudesse ter convidado esse aqui para
o casamento. Na pior das hipóteses, se a gente não
se entendesse de jeito nenhum, teria música,
comida e bebida à vontade. Bom, agora já foi.
Alguns minutos depois, ouço o som da campainha
e pego meu cartão para pagar a comida. Sento na
frente da televisão e sorrio satisfeita para as
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porções de sushi na minha frente.


Procuro por Calebe nas redes sociais e dou de
cara com um moreno de sorriso sedutor. Passo
rapidamente pelas fotos e vejo algumas com uma
prancha de surf, sem camisa e ele está de parabéns.
Nada mal, Ju. Obrigada.
Parece que essa semana vai ser bem interessante.

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Capítulo 2
EU REALMENTE NÃO ESPERAVA POR
ESSA.
Já começo meu dia soltando uma gargalhada
quando entro na minha sala e encontro Rafael
sentado no sofá, com três camisas sociais esticadas
ao lado dele.
Pergunto-me há quanto tempo ele está aqui,
porque ainda passei na sala do Edu quando cheguei
à empresa e isso tem pelo menos quarenta minutos.
Quero dar um beijo na Ju pelo excelente trabalho
que ela está fazendo pelo humor dele, nunca vi o
homem tão sorridente assim. Minha paciência
agradece, porque, por mais que adore aquele velho
rabugento, a vontade de bater nele é constante.
A gente se conheceu a uma vida atrás, alguns

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anos depois de eu começar a trabalhar aqui, em


uma vez que eu acabei parando naquele galpão
onde ele treinava o pessoal. O que fui fazer lá, nem
lembro mais, mas saí com um amigo novo a
tiracolo. Ainda me surpreende que seja irmão do
Vinicius, pois não poderiam ser mais diferentes. Os
anos passam e a diferença só aumenta.
Lembro que logo que começou a trabalhar aqui,
Juliana, que se recusava a admitir que estava de
quatro por ele, me perguntou se a gente já tinha tido
alguma coisa e os olhos dela só faltaram sair do
rosto quando eu disse que nunca nem me interessei.
Eu entendo o fascínio todo. A cara de séria dele faz
Ju suspirar, o físico sempre em forma por causa de
todo o tempo que passa treinando os funcionários
chama atenção de qualquer uma. A barba sempre
bem-feita, os olhos castanhos, o rosto de homão
que ele tem. Eduardo é bonito, não nego isso. Mas

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meu querido amigo é muito fofo. Romântico. Bom


moço. Homem de uma mulher só. Deus me livre.
— O que é isso, Rafa? — pergunto, colocando
minha bolsa na cadeira e indo na sua direção.
Ele larga o celular em que estava mexendo e
levanta, parando ao meu lado e, em silêncio,
olhamos para as três blusas como se analisássemos
uma obra de arte. Realmente preciso me segurar
para não soltar outra risada da expressão
concentrada dele. Perdi a conta de quantas fotos ele
já me mandou com opções diversas de roupas para
usar nos seus encontros. Se tem uma coisa que esse
menino não sabe fazer, é escolher roupa.
— A rosa — digo, apontando para a blusa da
esquerda. — Vai combinar com meu vestido.
Olho para ele, que inclina a cabeça. Após alguns
segundos, concorda e olha na minha direção,
abrindo um sorriso. É impossível não sorrir de
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volta.
— Sabe que não é um encontro de verdade, né?
— implico, recostando na minha mesa enquanto ele
pega os cabides.
— Se fosse, eu não estaria pedindo sua ajuda no
que vestir — responde, cutucando minha costela.
— Você quer fazer ciúmes naquele cara lá, então
nada mais justo do que eu estar bonito para te
ajudar nisso. Aliás — ele anda na minha direção
—, tem alguma coisa que eu precise saber? Preciso
falar com ele, você quer que eu banque o namorado
bravo? Já aviso que eu sou péssimo de briga, vou
apanhar feio. Se ele quebrar meu o nariz, você vai
pagar a conta do médico.
Ele para na minha frente, a um braço de distância,
e o chamo com o dedo, arrumando a gola mal
dobrada da sua camisa. Não tenho intenção
nenhuma de fazer ciúmes em ninguém, é

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exatamente o contrário disso. Se puder evitar cruzar


com ele, prefiro. Mas conhecendo o tagarela, se eu
falo isso, a conversa vai ser infinita e eu estou com
muito trabalho acumulado. Então deixa assim
mesmo.
— A gente vai se divertir. Beber, dançar. Você
provavelmente vai passar metade da noite
tagarelando sobre alguma coisa que eu não vou
prestar atenção. — Ele me olha, fingindo-se de
ofendido, e eu sorrio. — Se meu ex aparecer e
começar a perturbar, você me beija e pronto. Ele
vai entender o recado e dar meia volta.
Rafael arregala os olhos e abre a boca sem saber o
que dizer. Como é fácil deixar esse menino
constrangido. Ele me olha como se eu tivesse
acabado de dizer o maior absurdo do universo e,
sinceramente, não entendo.
— Te beijar? — pergunta, coçando a cabeça.

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Confirmo com um aceno. — Você quer que eu te


beije?
Por que não? Pergunto isso a ele e Rafa coloca as
blusas na mesa de novo, dando mais um passo na
minha direção.
— Você é doida — diz, e eu ergo a sobrancelha
para ele. — Isso não é passar um pouco da linha?
As coisas não vão ficar estranhas entre a gente nem
nada do tipo? Você mesma disse que não é um
encontro de verdade. E não é por nada não, mas
você é uma ótima amiga. Eu gosto muito de você e
estou muito bem assim. Já disse que é maravilhosa,
mas…
Levo os dedos aos lábios dele como já está
virando hábito. Rafael quando desembesta a falar,
nem reza braba faz parar. Olho para ele e tento
entender o homem à minha frente. Ele parece um
menino espoleta na maior parte do tempo,

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sorridente, alto astral, beirando a inocência. Mas ao


mesmo tempo não pensa duas vezes antes de abrir a
porta para mim ou me dar passagem em qualquer
situação só para grudar os olhos na minha bunda.
Verdade seja dita, ele faz isso com todo mundo.
Certeza de que está saindo com a estagiária nova do
jurídico e consigo ver bem o quanto ele está
esforçando-se para não olhar de novo para o meu
decote neste momento.
Rafael me encara, sobrancelha arqueada, e dou
um passo à frente, apoiando as duas mãos nos seus
ombros. Ele é mais alto que eu, mas com o salto
enorme que sempre uso, a diferença é quase
inexistente. Quando me aproximo, nossos rostos
ficam bem perto um do outro e vejo os olhos dele
se arregalarem.
— Me beija — ordeno e vejo o seu olhar cair para
minha boca imediatamente, mas ele não se move.

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Quem olha assim, acha que não quer. — Você está


se comportando como se fosse grande coisa.
Pessoas se beijam, Rafael. O tempo todo. Não
significa nada.
Ele inclina um pouco na minha direção e posso
sentir seu cheiro, limpo e suave, mas ainda não
encosta em mim.
— Se você me beijar na frente do meu ex,
nervoso do jeito que está agora, vai ficar na cara
que não estamos juntos.
Inclino-me um pouco mais para frente,
encostando os lábios nos seus, e sorrio quando ele
respira fundo com o toque.
— Um pouco de prática não faz mal a ninguém.
Rafael ergue uma mão, apoia delicadamente na
minha cintura e sorrio com o gesto singelo. A outra
sobe no meu rosto e ele inclina na minha direção,
depositando um beijo casto nos meus lábios. Estou
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a ponto de perguntar se isso é tudo que ele sabe


fazer, quando o loiro repete o toque gentil mais
algumas vezes, hesitante a princípio, mas então
começa a separar os lábios e tomar os meus para si.
E, sem que eu espere, a mão no meu quadril vira
um enlace firme ao redor da minha cintura e me
puxa de encontro a ele. Consigo sentir seu tronco
aparando-me.
Ele aprofunda o beijo, moldando meus lábios,
explorando minha boca em muito mais do que eu
achei que fosse fazer. A mão do meu rosto vai para
o meu pescoço, seus dedos enroscando no meu
cabelo, mantendo minha cabeça no lugar. Rafael
me toma. Seu toque é gentil e carinhoso, mas firme,
lento e profundo. Sem que eu note, enlaço meus
braços no seu pescoço e ele me puxa para mais
perto, arrastando os dedos pela minha cintura até
espalmar a mão nas minhas costas, na curva da

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minha bunda. Ele me beija sem pressa, colando


meu peito no seu. Eu me pego gemendo contra a
sua boca quando ele morde meu lábio inferior antes
de me soltar.
— Assim? — pergunta, ofegante, ainda contra a
minha boca. Sinto meus lábios formigando e meu
corpo levemente desestabilizado. Aceno com a
cabeça. — Posso fazer isso. Quantas vezes precisar.
A noite toda. — diz, com a voz meio rouca.
Ora, ora o que temos escondido por trás dessa
carinha inocente.
— Você não é ruim nisso — digo, ainda nos
braços dele, e Rafael ri, apoiando a testa na minha.
— Tenho certeza de que qualquer um acreditará
facilmente que estamos juntos se você fizer isso.
Ele solta meu pescoço e começa a escorrer a mão
do meu quadril, pigarreando. Por essa eu não
esperava. Não mesmo. Ele dá um passo para trás
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sem tirar os olhos de mim e sorrio, silenciosamente


dizendo que não foi nada demais e que está tudo
bem.
— Eu… vou voltar para o trabalho antes que o
Renato me mate — diz, gesticulando com as mãos,
indo em direção à porta.
Ele vira de costas e me permito encarar por um
segundo antes de chamar seu nome.
— Você esqueceu suas camisas. — Aponto para
as roupas em cima da minha mesa quando ele vira
para me olhar.
Apanho as três e dou alguns passos na sua
direção, realmente me deliciando com como ele
está desestabilizado e completamente sem graça.
Estendo a mão e entrego-as para ele, que pega sem
tirar os olhos de mim.
— Onde você vai guardar isso? — pergunto, e ele
dá os ombros.
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— Vou fazer um rolo e enfiar de volta na minha


bolsa, do mesmo jeito que eu trouxe — diz, e quero
chorar em solidariedade às peças de roupa que
estão sendo maltratadas.
— Até amanhã, Rafa — digo, entortando a cabeça
e abrindo um sorriso para o semblante incerto dele.
Rafael me olha por um segundo a mais, como se
tentasse decidir entre ir embora ou não, e mordo o
lábio, segurando um sorriso. Ergo a sobrancelha e
ele revira os olhos, sorrindo de volta e balançando a
cabeça.
— Até amanhã, doida.

— Já almoçou? — Ouço a voz de Eduardo


enquanto espero o elevador e nego com a cabeça.
Sorrio quando vejo Juliana chegar alguns

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segundos depois e ele instantaneamente estender o


braço para pegar a bolsa dela. Não sei se os dois
desistiram de fingir que não estão juntos, mas a
esse ponto qualquer idiota é capaz de ver que
Eduardo não consegue tirar os olhos de cima dela,
com essa cara de bobo apaixonado babão que só ele
sabe fazer.
O sorriso estampado no rosto de ambos não nega
a felicidade descarada e sorrio junto. Gosto assim.
Todo mundo satisfeito e com a transa em dia.
— A gente está indo naquele negócio de comida
árabe da esquina, quer vir junto? — Ju pergunta,
entrando no elevador quando ele chega.
Mal as portas se fecham, ela entra nos braços do
namorado, que não quer admitir que é namorado, e
recosta a cabeça no peito dele. Então estão tentando
disfarçar. Meu Deus, são péssimos nisso. Rio,
balançando a cabeça, e digo exatamente isso

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quando Juliana pergunta o que foi. Ela me


responde, dando a língua, e sai quando o elevador
abre as portas no térreo, soltando-se de Edu que
não faz nada além de olhá-la com pura devoção.
Ela espera minha resposta e nego com a cabeça.
— Meu salário não me permite ficar almoçando
em restaurante caro todo dia — implico, erguendo
uma sobrancelha para Eduardo.
Juliana morde a boca segurando uma risada e me
olha com uma reprovação fingida enquanto balança
a cabeça.
— Você merece um aumento, não posso discordar
disso — Eduardo diz, cerrando os olhos para mim.
Eu estava brincando, mas ele parece estar
realmente pensando no assunto. Não vou reclamar.
O homem tem me feito trabalhar feito louca,
principalmente nas últimas semanas. É verdade que
não tem nada que faça eu me sentir mais realizada
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do que o meu trabalho, mas mesmo se não fosse o


caso, só esse olhar de pura felicidade no rosto da
minha amiga já faria valer a pena todas as horas
extras que estão caindo no meu colo com Eduardo
indo embora cedo para ficar com ela.
— Na verdade, passe na minha sala antes de ir
embora, precisamos conversar sobre algumas
coisas. Aliás, você vai conseguir terminar o que te
pedi hoje?
Ergo uma sobrancelha e ele dispensa a própria
pergunta com a mão. É claro que vou, que pergunta
besta. Ele se despede, Juliana estala um beijo no
meu rosto e os dois seguem até a entrada da…
garagem? Não iam almoçar? Não, não quero saber.
Rindo da completa falta de discrição dos dois,
cruzo as portas e saio, indo até um restaurante do
outro lado da rua, que eu sei ter uma lasanha
maravilhosa. Realmente estou com vontade hoje.

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Já passou um pouco da hora do almoço, então não


está tão cheio e rapidamente estou sentada com
meu prato em mãos. Confiro meu celular uma
última vez, checando o que mais tenho que fazer
hoje, digito um e-mail rápido e desligo a tela,
colocando o aparelho de lado. Pego o talher e dou
uma garfada generosa, fechando os olhos em puro
deleite quando sinto o molho na minha língua.
Tenho quase certeza de que solto um gemido de
satisfação.
— Pela sua cara, isso parece muito bom. Posso
roubar um pedaço?
Abro os olhos para dar de cara com Rafael
sentando-se à mesa sem se dar ao trabalho de
perguntar se tudo bem, com seu prato
transbordando salada, que não engana ninguém.
Até parece que ele não tem três quilos de chocolate
na mesa dele no trabalho. O loiro me olha, com a

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sua já tão conhecida expressão de moleque


despreocupado com a vida, e não espera
autorização para levar seu garfo ao meu prato e
pegar uma lasca da minha lasanha. Observo com as
sobrancelhas erguidas e tomo um gole da minha
limonada enquanto ele mastiga, meneando a cabeça
como se tentasse se decidir.
— É boa — diz, apontando o garfo na minha
direção. — Mas não o suficiente para te fazer
gemer desse jeito. Você pode colocar coisa melhor
na boca para ter essa reação.
Engasgo com o suco, tossindo e rindo ao mesmo
tempo, e ele arregala os olhos, dando-se conta do
que disse.
— Eu estava falando da feijoada, Priscila! —
Solto uma gargalhada escandalosa com seu flerte
acidental. — Você é doida — murmura antes de
enfiar uma porção gigantesca de alface na boca.

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— Ei! — Chamo sua atenção, ainda rindo. — É a


segunda vez que você me chama de doida hoje,
pode parar. — Ele ergue as mãos como quem pede
desculpas e volta a comer, olhando-me com uma
cara de deboche enquanto enfia uma cenoura na
boca. — Como está o trabalho, afinal?
A expressão que o loiro faz me diz que ele
preferia morrer a continuar trabalhando com
Renato e não o culpo. O homem consegue ser
intragável quando quer. Rafael começa a falar sem
parar sobre o projeto megalomaníaco que Renato
está desenvolvendo, ao meu ver sem nenhuma
necessidade, e eu tenho a impressão de que vai ser
exatamente isso que Edu vai dizer para ele em
breve. Não quero nem ver o ataque que o homem
vai dar.
Meu celular toca em cima da mesa e o nome de
Calebe aparece escrito. Rafael indica com a cabeça

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para que eu atenda e eu levo o aparelho ao ouvido.


— Boa tarde, Priscila. — A voz do moreno
enche a linha e eu apoio o cotovelo na mesa. — Só
queria confirmar se está tudo certo para mais
tarde.
Esse homem gosta mesmo de ligar, não? Podia ter
mandado uma mensagem.
— Está sim. Encontro com você às nove? —
pergunto, e ele confirma do outro lado da linha. —
Até mais tarde então.
Desligo o telefone e dou de cara com Rafael
erguendo as sobrancelhas, curioso. Lembro-me do
beijo de mais cedo e percebo que não me
importaria nem um pouco em repetir a dose, mas
estou bem de boa de complicação na minha vida,
então preciso descobrir uma coisa.
— Tenho um encontro mais tarde — digo.

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Ele continua mastigando e indica com o garfo


para que eu fale. Resumo a história, conto do
telefonema e como revirei as redes sociais do
homem ontem antes de dormir.
— Cadê? — pergunta, e eu entrego o celular para
ele depois de abrir o aplicativo. — Bonito. Muito
melhor do que aquele médico esquisito — diz,
devolvendo o aparelho.
Rio, porque não entendo a implicância que ele
tem com o homem. O médico em questão é um cara
com quem saio de vez em nunca, e tudo bem que o
homem não é a minha pessoa favorita no mundo,
mas é uma boa companhia. Rafael parece discordar,
porque pegou uma implicância com o homem que
não tem cura.
— Já sabe onde vão? — pergunta entre garfadas.
— Abriu um barzinho bem legal em Botafogo, eu
fui lá semana passada com a Raissa, aquela menina

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da academia. O clima é bem gostoso. Onde você


mora? Talvez Botafogo seja longe para você, mas
têm várias coisas legais em vários lugares, é só
procurar. — Ele pausa e faz uma cara de quem está
pensando. — Você respondeu se já sabe onde vão?
Escolhe um lugar movimentado. Não quero abrir o
jornal amanhã e ver que você morreu, sabe que se
encontrar com um cara que você não conhece é
perigoso.
Sorrio para a tagarelice e me permito colocar uma
estrelinha ao lado do nome dele na minha lista
mental de pessoas. Ele não ficou esquisito e está
agindo como se nada demais tivesse acontecido. Do
jeito que eu gosto.
— Que tipo de encontro você prefere? — ele
pergunta. — Lugar calmo para conversar, coisa
para beber?
Termino de comer enquanto escuto o loiro

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dissertar uma lista infinita de sugestões, parecendo


mais animado do que eu. Rio quando ele sugere um
piquenique à noite e gargalho com vontade quando
percebo que ele realmente está falando sério.
— Nós vamos sair para beber, Rafa — respondo
por fim. — Encher a cara e fazer umas besteiras —
implico propositalmente, erguendo as sobrancelhas
de forma sugestiva.
Ele termina de mastigar a porção de comida que
tem na boca e olha para mim com seriedade.
— Camisinha. — Rafael aponta para mim com o
garfo e solto outra risada.
Já posso matar academia, o tanto que esse
moleque me fez rir hoje substitui minha série de
abdominais. Não que eu fosse de qualquer jeito.
Estou pagando mensalidade à toa tem uns três
meses.
Levanto da mesa, balançando a cabeça. Esse
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homem é inacreditável.
— Eu ainda não acabei de comer — protesta,
apontando para o próprio prato que ainda está pela
metade.
— Você comeria mais rápido se falasse menos —
implico, e ele faz uma careta de falsa ofensa. —
Tenho que trabalhar. Mas não se preocupe, estou
vendo a sua amiga do jurídico chegando.
Pisco para ele, que sorri em resposta e entorta a
cabeça para ver a mulher se aproximar. Ela, sem
cerimônia, senta onde eu estava e ele abre um
sorriso glorioso, mergulhando rapidamente em uma
conversa animada com a mulher que nem disfarça o
interesse descarado.
Ando em direção ao caixa, pago a comida e vou
em direção à saída do restaurante, dando uma
olhada sobre o ombro e vendo Rafael encarando-se.
Ele move os lábios dizendo “se cuida” e volta seu
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sorriso fácil para a mulher na mesa com ele.


Parece que encontrei minha versão masculina.

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Capítulo 3
— EU TENHO UM ENCONTRO HOJE E
NÃO VOU ME ATRASAR — digo, andando ao
lado do Eduardo, que não tira a cara do celular,
respondendo a algum e-mail como sempre.
Andamos em direção à sala de reuniões e, quando
vou abrir a porta, Edu me para. Ele pede um
instante enquanto termina de digitar e põe o celular
no bolso.
— Eu odeio este lugar — diz, olhando-me com
seriedade. Sei disso, todo mundo sabe disso. A
novidade seria se subitamente ele tivesse começado
a gostar daqui. — Mas você parece adorar.
Concordo com a cabeça. Faz tempo que deixei de
exercer só a minha função aqui. Para ser mais
precisa, desde que Eduardo começou a trabalhar

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neste escritório, tenho sido seu braço direito, isso


envolve longas horas de trabalho, decisões difíceis
e o aumento que ele me deu há alguns minutos.
Mais uma coisa para comemorar hoje. Ele tem
razão, realmente adoro esse trabalho. É uma dor de
cabeça boa, a certeza de que foi isso que nasci para
fazer.
Indico com a cabeça para que ele continue.
— Quero que você tenha mais responsabilidades
aqui. Consegue fazer isso?
Se fosse qualquer outra pessoa perguntando isso
para mim, eu provavelmente daria um ataque. É
claro que consigo fazer isso. Nasci para fazer isso.
Eu me vestia de CEO ao invés de princesa quando
era criança, não estou nem brincando. Para total
desespero do meu pai, que sempre quis que eu
esperasse meu príncipe encantado. Se esse tal
príncipe vier trazendo uma garrafa de tequila e não

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me ligar no dia seguinte, estou aceitando também.


Mas é Eduardo. É Eduardo e sua relação nem um
pouco saudável com este lugar, sua obsessão por
esta empresa. Então sorrio e confirmo com a
cabeça. Sim, consigo fazer isso.
— Não estou com cabeça para isso hoje, você vai
comandar essa reunião — anuncia e entra na sala
sem me dar tempo de responder nem processar
nada. — Boa tarde a todos, desculpe a demora. Sei
que as reuniões acontecem às segundas, mas
chegou a nosso conhecimento alguns assuntos que
precisam ser discutidos. Não deve se estender.
Edu anda até onde Juliana está e ela estende a ata
para ele, que nega com a cabeça e senta-se ao seu
lado, recostando na cadeira e acenando para mim
em um gesto discreto de encorajamento. Ju sorri
gloriosamente quando vem na minha direção,
sussurra "arrasa", me entrega o papel e volta para

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seu lugar.
Vejo alguns rostos olhando-me com curiosidade e
surpresa, outros com descrença. Passo os olhos no
assunto da reunião e sento na cadeira na ponta da
mesa, colocando meu melhor sorriso no rosto,
fingindo que não estou a ponto de vomitar.
— Vamos começar?

Depois de pouco mais de uma hora, a reunião


acaba e todos saem da sala. Juliana pula no meu
pescoço com um gritinho animado.
— Você foi maravilhosa!
Sorrio para ela, empolgada também, agradecendo
pela amiga maravilhosa que eu tenho. Eduardo
espera que ela acabe para se aproximar, recostando
na mesa e cruzando os braços ao olhar na minha

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direção.
— Excelente trabalho, Priscila.
Ele sorri e acena com a cabeça. Isso vindo dele é
como soltar fogos de artifício.
— Quer sair para comemorar? — Ju pergunta, e
nego com a cabeça, sorrindo.
Tenho minha própria comemoração esperando-me
em algumas horas. Mas não falo nada para ela, não
ainda, porque conheço a peça a sei que ela vai
querer saber de coisas que não vou saber responder.
Com certeza vai querer inventar um encontro duplo
e infelizmente vou ser obrigada a me mudar para a
Argentina para fugir disso. Preciso conhecer o
amigo dela primeiro para decidir se dou um beijo
ou um tapa nela por ter dado meu número para ele.
Pelo visto Calebe não falou nada também, caso
contrário ela teria dito alguma coisa.
Despeço-me dos dois e Eduardo diz para eu ficar
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com meu celular por perto porque vai me


encaminhar uma planilha. Mas considerando o jeito
que Juliana pula no pescoço dele assim que eu viro
as costas, duvido muito que ele se lembre de
alguma coisa.
Saio do escritório e dirijo sem pressa para casa.
Tomo um banho demorado, bem relaxante, antes de
me enfiar em um vestido justo e saltos altos e
chamar um táxi em direção ao bar.
Puxo meu celular e digito uma mensagem para
Calebe quando chego. Ele responde na mesma
hora, dizendo que está a cinco minutos de distância,
e aproveito o tempo para olhar o lugar que ele
escolheu. Caro. Muito caro. Já vim aqui antes para
comemorar o aniversário de uma amiga e não saí
com nada menos do que um rombo no meu cartão
de crédito. Não costumo me dar muito bem com
caras que tentam me impressionar desse jeito, mas

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vamos ver. Procuro uma mesa livre e, por um


milagre, encontro e sento. Aproveito para
responder alguns e-mails enquanto espero.
— Priscila?
Ergo os olhos e vejo na minha frente o homem
das fotos, mas verdade seja dita, foto nenhuma fez
jus à sua beleza. Ele tem um sorriso no rosto e os
olhos me encaram com curiosidade. Levanto para
cumprimentá-lo e seu olhar não deixa meu rosto,
não vacila nem por um segundo. Não cai para as
minhas pernas expostas no vestido curto. Calebe
simplesmente me dá um beijo no rosto e espera que
eu sente de novo para me acompanhar. Todo
respeitoso.
— Desculpe ter te deixado esperando — diz,
ainda sorrindo. — Tive alguns problemas no
trabalho.
Dispenso as desculpas com a mão. Mal foram
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cinco minutos.
— Juliana me falou muito bem de você — diz,
erguendo a mão para chamar um garçom. — Disse
que você é uma das pessoas mais fodas que ela já
conheceu.
Sorrio em descrença, porque Juliana não fala
palavrão e nem me venderia fácil assim. O máximo
que sai da boca dela é um “merda” ocasional e
reclamações de como eu sou simplesmente
impossível, então não foi isso que ela disse. Agora
estou curiosa para saber o que minha amiga anda
falando de mim por aí.
— O que você faz? — pergunto depois de
pedirmos algumas bebidas, e ele mal demorar
alguns segundos para escolher o que vai comer,
sugerindo algo do cardápio que eu prontamente
aceitei.
Calebe fala com toda confiança e propriedade,
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olhando-me com atenção. A atitude perfeitamente


confiante não passa despercebida. Ele passa alguns
minutos falando sobre seu trabalho em um
escritório no centro, que é até bem perto da
Rodrigues Menezes, algumas quadras de distância
apenas. Fala brevemente sobre o que faz e sinto
falta de detalhes desnecessários.
A conversa flui fácil, passando por assuntos
diversos e mais sérios do que eu esperaria de um
cara de vinte e sete anos. A vantagem de sair com
gente mais nova é a energia infinita que os homens
que passam dos trinta parecem deixar em casa, mas
a falta de maturidade às vezes faz simplesmente
não valer a pena deixar esses caras na faixa dos
vinte abrir a boca para dizer nada. Não estou
reclamando, não preciso ser melhor amiga de
ninguém para ir para cama, facilita minha vida,
inclusive. Mas não recuso uma boa conversa.

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— O que acha de eu te levar para surfar amanhã


de manhã? — pergunta depois de eu dizer que
sempre quis aprender, mas nunca realmente fiz
esforço para isso.
— Eu tenho um casamento para ir no fim do dia
— respondo. Não é uma desculpa esfarrapada, pois
preciso começar a me arrumar lá para as quatro da
tarde e meu cabelo vai agradecer se não ficar
destruído da água do mar.
— Prometo que você vai estar livre até a hora do
almoço. Chegamos à praia perto das sete para pegar
o dia começando — insiste, sorrindo e mostrando
uma covinha linda na bochecha. — Aliás, qual foi a
última vez que você foi à praia? Pelo que você me
falou até agora, não faz muito além de trabalhar.
Não faço muito da vida além disso, é verdade. No
fim das contas, gosto muito da minha própria
companhia, gosto do meu espaço, de colocar fones

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de ouvido e andar por aí ou ir ao cinema. Praias são


meus lugares favoritos no mundo, mas costumo ir à
noite, sentar na areia fresca e olhar o mar.
Encaro seus olhos empolgados e concordo.
Realmente faz tempo que não pego sol e uma
marquinha de biquíni nunca fez mal a ninguém.
Não vai ser nada mal ver esse homem sem camisa
dourando no sol também.
— Tudo bem! — concordo. — Mas eu sou
péssima acordando cedo.
Até levanto sem problema nenhum durante a
semana, chego pontualmente no trabalho, mas fim
de semana? Esqueço que o mundo existe antes da
hora do almoço.
Calebe ri, inclina a cabeça na minha direção e
vejo quando ele morde o lábio como se pensasse no
que dizer a seguir. Ele tem um sorriso muito bonito.
— Posso te acordar — diz e, pela primeira vez na
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noite, ouço flerte no seu tom. Ele me olha com um


olhar de puro interesse.
Finalmente.
Tenho que admitir que o homem se esforçou para
realmente manter uma conversa e prestou atenção
em tudo que eu disse. Riu nas horas certas, fez
todas as perguntas que devia fazer e mostrou
interesse. Arrumou a justificativa perfeita para
passar uma cantada. Ele é bom nisso. Obrigada,
Juliana.
— Que horas você pretende bater na porta da
minha casa para isso? — pergunto, tomando um
gole da minha bebida, esperando para ver se ele vai
ter coragem de concluir a proposta.
Ele balança a cabeça sorrindo e me olha como se
tentasse decidir até onde ir.
— Posso passar lá bem cedo — diz. Resposta
segura. Ele poderia ter dito que achava melhor que
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eu já estivesse na casa dele, só por garantia. Ou que


talvez fosse melhor ele passar a noite na minha, só
para ter certeza de que eu não vou me atrasar.
Jogadas arriscadas? Sem dúvida. Ele jogou seguro,
coisa de quem está querendo garantir um segundo
encontro e não uma noite isolada de sexo.
O problema é que não sou muito dada a segundos
encontros. Prefiro terminar os primeiros na cama de
alguém e então decidir se vale ver de novo.
Encontros seguidos sem sexo levam à ilusória ideia
de que vai existir alguma coisa ali, que as pessoas
precisam se conhecer melhor e ver se elas
"conectam". Dispenso. Não tenho tempo nem
paciência para isso.
Mas também… Calebe sem camisa no sol não é
algo que eu esteja querendo dispensar.
— Vou fazer o meu melhor para estar pronta
quando você chegar — respondo sorrindo. Ele

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ergue o copo em um brinde e pisca o olho para


mim.

É quase meia-noite quando ele me deixa na porta


de casa. A noite foi maravilhosa, nada menos. Uma
pequena discussão na hora de pagar a conta, que
me deu um vislumbre de como ele gosta de ter a
palavra final nas coisas, mas por fim se deu por
vencido e dividimos o valor. Calebe tem um papo
bom, maduro, consciente. Uma postura segura, sem
vacilar. Nada mal.
Olho para ele quando tiro o cinto.
— Tive uma ótima noite, Priscila — diz,
aproximando-se um pouco. Eu também tive.
— Te vejo amanhã — respondo com um sorriso
sincero.

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Ele se inclina na minha direção e deixa um beijo


no meu rosto, a mão pousando na minha cintura
sem hesitar. Seu toque é firme e me arrepia inteira.
Inspiro fundo e sinto o cheiro do perfume que ele
usa. Reconheço a marca e aprovo, mas me
surpreendo porque é realmente caro. Ele tem bom
gosto.
Levo a mão ao seu braço e ele escorrega a dele
até o meu pescoço. Seu nariz raspa o meu quando
Calebe vira o rosto de frente para mim. Ele pousa
os lábios sobre os meus e não hesita nem por um
segundo quando não me afasto, tomando minha
boca com voracidade. Sou imediatamente atingida
pelo gosto de cerveja, mas não me incomoda nem
um pouco quando passa a mão no meu pescoço e
me puxa para perto, aprofundando o beijo.
Ele sabe o que faz. Seu beijo é firme, preciso,
gostoso, quente como a pele dele. Sua língua me

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explora e eu concedo passagem sem nem hesitar.


Ele não pede permissão para nada, simplesmente
me mostra tudo que tem, definindo o ritmo da
coisa, conduzindo-me.
Cedo demais, me solta e arrasta os lábios nos
meus. Abro os olhos e o encontro bem perto de
mim, com a respiração completamente inabalada
como se nada tivesse acontecido, olhar atento sobre
mim e um sorriso satisfeito nos lábios.
Perfeitamente em controle de si mesmo.
— Boa noite — murmura contra a minha boca.
— Boa noite — respondo, agora realmente
ansiosa para vê-lo amanhã.
Subo para o meu apartamento e não consigo
evitar passar a língua no lábio inferior, ainda
sentindo o gosto dele. Que puta beijo. Faz tempo
que não fico com ninguém com essa atitude toda.
Tranco a porta e vou para o banho, sentindo meu
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corpo quente querendo mais. Arrasto-me para o


quarto, ainda enrolada na toalha, e pego meu
celular na bolsa para colocar o alarme para
ridiculamente cedo amanhã. Há chance de que vou
estar destruída para o casamento, então é melhor
valer a pena.
Jogo-me na cama e começo a rolar pelos feeds das
redes sociais, aleatoriamente curtindo fotos sem
nem prestar muita atenção. Depois de alguns
minutos, enjoo, coloco o aparelho para carregar e
vou vestir alguma coisa para dormir. Quando estou
pronta para ir para cama, checo o celular mais uma
vez e vejo uma mensagem piscando na tela.

Seu encontro está tão tedioso assim que você


está curtindo minhas fotos ao invés de dar
atenção para o pobre homem?

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Rio da mensagem e reviro os olhos.

Já estou em casa. Você não tem nada melhor


para fazer do que tomar conta da minha vida
não?

Volto a gastar tempo com coisas sem importância,


respondo um e-mail perdido no caminho e já estou
colocando o celular de volta na mesinha quando a
resposta chega.

Honestamente eu estava esperando que você


tivesse uma boa noite de sexo para não correr o
risco de cair nos braços do seu ex amanhã. Sabe
como é, casamentos sempre trazem sentimentos
esquisitos nas pessoas.

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Olha o outro preocupado com meu bem-estar.


Rafael é inacreditável. O que ele está fazendo sexta
à noite no celular pentelhando minhas ideias ao
invés de estar com alguém? Puxo pela memória e
me lembro da tal série que ele realmente queria
terminar de assistir. Consigo visualizar
perfeitamente a cena, ele jogado no sofá assistindo
aquela porcaria ao invés de fazer qualquer outra
coisa de útil da vida.

Mas é exatamente para isso que eu tenho você!


Seus braços são os únicos que vou cair amanhã,
meu querido salvador de mocinhas indefesas.
Quer dizer, seus e do moreno, vou encontrar com
ele de manhã.

Provoco. Cutuco. Talvez eu esteja forçando um


pouco a barra aqui, mas nós nos tornamos amigos.
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Esse é o tipo de coisa que eu falaria com a Ju e sei


que Rafael tem potencial para se tornar um amigo
tão bom quanto. Pode parecer estranho, mas
valorizo minhas amizades muito mais do que
qualquer envolvimento romântico e, dependendo da
reação do loiro, aquele beijo vai ser o primeiro e o
último. Não vale a pena arriscar uma amizade por
umas pegações esporádicas.

Por favor, escove bem os dentes, não preciso de


baba de outro cara na minha boca. E de indefesa
você não tem nada.

Solto uma gargalhada genuína com a resposta.


Parece que não vamos mesmo ter problemas quanto
a isso.
As pessoas têm diferentes metas de vida quando
se trata de relacionamentos. Conhecer o amor da
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sua vida. Casar e ter filhos. Envelhecer ao lado de


alguém. Eu sempre quis um P.A. Um pau amigo
que me desse sexo gostoso, sem estragar a amizade,
que não tentasse me fazer não ficar com mais
ninguém.
Tentei com Guilherme até, mas não deu muito
certo. Ficamos algumas vezes e foi muito bom, mas
ele ficou meio esquisito depois. Não deixou de ficar
com outras pessoas, e nem eu, mas ele
simplesmente não queria ouvir sobre isso. Alguns
assuntos passaram a ser completamente proibidos
entre a gente e eu não gosto nem um pouco disso.
Se é para eu ter alguém fixo, ainda que não
exclusivo, essa pessoa tem que ser uma ótima
companhia para valer a pena o tempo passado
junto. Descobri que o Gui funciona muito melhor
como somente amigo. Ainda bem que ele conheceu
a Fernanda e eu não precisei terminar o que a gente

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tinha, porque aí sim as coisas iam ficar esquisitas.

Vá dormir, Cinderela.

Rio do apelido.

Prefiro acreditar que estou mais para Branca de


Neve.

Já passou da meia-noite e não virei abóbora nem


nada. Pelo contrário, continuo divina como sempre.
Vantagens de ser sua própria fada madrinha.
Encaro o aplicativo de mensagens e vejo que ele
digita e para, começa a digitar e para de novo. Por
fim, manda uma carinha pensativa.

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Mulher no meio da floresta sozinha com sete


homens?

A resposta dessa vez vem rápida e solto uma


gargalhada com a imagem de um gatinho
parecendo carrancudo. Ele tem tempo livre demais
para procurar essas coisas. Renato não está
pegando tanto no pé dele quanto deveria.

Essa foi boa. Obrigado por arruinar isso para


mim. Quero ver como vou fazer para ler essa
história para a minha prima agora sem pensar
besteira. Boa noite, doida.

Claro que foi boa. Eu lá faço piada ruim?

Boa noite, tagarela.

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Capítulo 4
TEM REALMENTE MUITO TEMPO que não
vou à praia pela manhã. Qual a última vez que me
vi em um biquíni? Fico olhando-me na frente do
espelho com essas duas peças minúsculas e decido
que definitivamente preciso comprar um novo.
Ignoro completamente as olheiras, resultado de ter
praticamente virado a noite trabalhando. Até deitei
para dormir, mas a voz na minha cabeça
lembrando-me de tudo que eu tinha que fazer não
calou a boca, então tive que levantar e pegar o
computador.
O interfone toca e vou atender, dizendo para o
porteiro liberar a entrada. Não demora muito para
que eu ouça a campainha tocar. Ando até a porta e
a abro, apenas para dar de cara com Calebe em uma

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cara de sono deliciosa, mais uma vez olhando


fixamente para o meu rosto e não para o quase nada
que estou vestindo.
Abro um sorriso escancarado para ele, disposta a
testar esse autocontrole todo.
— Bom dia — diz com um sorriso no rosto, e eu
abro passagem para ele entrar.
Calebe se inclina na minha direção e dá um beijo
no meu rosto.
— Viu só? Mal são seis e meia e você está de pé e
pronta — diz, olhando para mim com um
semblante quase orgulhoso.
Sorrio de volta, virando de costas para ele e indo
em direção ao meu quarto para pegar o resto das
minhas coisas. Indico para que ele venha atrás de
mim e ele vem.
— Acha que preciso levar mais alguma coisa? —

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pergunto, apontando para tudo que está espalhado


no meu colchão.
Ele se aproxima e passa o olho. Bolsa jogada no
lençol, canga, óculos escuros e mais uma
quantidade enorme de coisas que nem sei para que
separei.
— Talvez um protetor solar mais forte — diz,
pegando a embalagem de fator 30. — Sua pele é
muito clarinha, vai ficar parecendo um camarão.
Você devia passar já, aliás. Para começar a fazer
efeito e não sair na água.
Ele olha com atenção a marca do protetor nas
suas mãos, as sobrancelhas franzidas enquanto lê o
rótulo. Dou alguns passos na sua direção e viro de
costas quando ele levanta a cabeça.
— Pode passar — digo, prendendo o cabelo em
um nó.
Calebe ri, uma risada de descrença pelo truque
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mais velho do mundo, mas sacode a embalagem e


aperta uma boa quantidade na mão.
Sinto suas palmas firmes nos meus ombros,
subindo pelo meu pescoço. Suas mãos descem
pelas minhas costas em movimentos circulares,
espalhando todo o creme até alcançar a barra da
calcinha do biquíni.
— Com licença — sussurra antes de descer a mão
pelas minhas pernas e vejo-o, olhando por cima do
ombro, se ajoelhar e colocar mais protetor nas mãos
antes de alcançar minha panturrilha. Seu toque
firme sobe pelas minhas coxas e, quando ele
levanta, suas mãos encaixam na minha bunda.
Sorrio.
Agora sim.
Sinto a respiração dele no meu pescoço enquanto
ele sobe as mãos pela minha cintura e percorre os
dedos pelo cordão da parte de cima. Vamos lá,
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Calebe. Um puxãozinho só.


— Posso? — pergunta no meu ouvido, arrastando
o dedo pela cordinha, e eu me limito a soltar uma
risada, concordando com a cabeça.
Ele desfaz o laço das minhas costas, mas deixa o
do meu pescoço. Sinto suas palmas percorrerem
minha cintura e Calebe dá um passo à frente,
parando colado contra minha bunda. Suas mãos
sobem pela minha barriga e alcançam meus seios.
Inclino a cabeça, concedendo acesso ao meu
pescoço, e não demora até a boca dele tocar minha
pele. Seus dedos brincam com meus mamilos e
sinto sua ereção contra minha bunda. Esfrego-me
descaradamente contra ele.
— Priscila — A voz firme dele soa como um
aviso, que eu ignoro. Continuo até que ele desfaz o
laço no meu pescoço também, livrando-me da peça.
Viro de frente para ele e seus olhos caem nos
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meus seios por apenas um segundo antes de sua


boca alcançá-los. Calebe mal me olha,
simplesmente vem até mim e beija minha pele.
— Você acabou de passar protetor, não tem como
estar com um gosto bom — murmuro enquanto ele
chupa. Em resposta, ele enlaça minha cintura,
deixando claro que não se importa. — Vamos
tomar um banho.
Calebe, sem resistir, deixa que eu o conduza até o
chuveiro. Ligo a água enquanto ele desfaz os laços
da parte de baixo do meu biquíni. Ele mesmo se
livra da bermuda e da camisa que está vestindo,
entrando debaixo d'água com nada além da sunga
que marca todos os lugares certos. Toda relutância
vai ralo abaixo. Ele me puxa, enlaçando minha
cintura, e me beija, sua mão explorando cada parte
do meu corpo antes de me prender contra a parede.
Calebe toma completo controle da situação,

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rapidamente me estimulando com dedos hábeis, sua


boca alternando entre os seios em chupadas firmes.
Ele sabe o que faz e não tem medo de mostrar. E,
do mesmo jeito que fez ontem quando me beijou,
não pede permissão para mais nada quando não o
afasto. Já entendeu o que eu quero e está mais do
que disposto a entregar. Não demora nada para que
eu me desfaça completamente, seu corpo
prendendo-me na parede e mantendo-me de pé
quando minhas pernas bambeiam. Sinto uma risada
satisfeita no meu ouvido quando ele tira os dedos
de mim. O moreno desliga o chuveiro, me pega no
colo, molhando o chão inteiro no caminho de volta
até meu quarto, e me joga na cama, empurrando
tudo que estava em cima no colchão para o chão
sem nenhum cuidado.
Se tiver quebrado meus óculos, vou ficar bem
irritada.

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— Camisinha? — pergunta, enganchando os


dedos na sunga molhada e empurrando-a para
baixo.
Tomo um segundo para admirar seu corpo
completamente nu na minha frente antes de apontar
para o banheiro. Se ele souber usar esse pau como
soube usar os dedos, estou feita.
Calebe sai da cama e volta um instante depois,
olhando para mim. Saio do colchão, empurrando-o
sentado, ajoelhando na sua frente. Sua mão vai ao
meu cabelo e ele guia com precisão os movimentos
enquanto o chupo. Rápido, firme, sem qualquer
delicadeza desnecessária. Em um movimento
brusco, ele me levanta e me joga na cama,
apanhando o preservativo.
Sorrio enquanto o assisto desenrolar a camisinha
sobre o membro.
— Me avise se estiver muito bruto para você —
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diz no meu ouvido antes de deitar sobre mim,


prendendo-me em um abraço forte.
Tenho certeza de que não consigo me mexer nem
se eu quiser e a ideia me excita ainda mais quando
o sinto penetrando-me, toda sua extensão
invadindo-me de uma vez só, arrancando-me um
gemido com facilidade. Ele espera alguns segundos
apenas antes de começar a se mover, rápido, forte,
duro. Sua mão engancha no meu cabelo, minhas
unhas arranham suas costas e sou incapaz de
controlar os gemidos.
Calebe me fode, não tem outra forma de dizer.
Estamos longe de fazer amor. Não é que ele só me
pegue gostoso, ele me fode em estocadas fortes,
puxando meu cabelo de um jeito que devia doer,
mas só me faz gemer mais. Sua boca no meu
pescoço é firme, sua outra mão prende meu quadril
para que eu não me mova.

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Quando um gemido descontrolado escapa da


minha garganta, sua boca vai ao meu ouvido.
— Quieta — ordena, parando de se mover dentro
de mim, e um murmúrio de protesto escapa sem
que eu possa fazer nada. — Quieta ou vou ter que
te foder com mais força. Vou te dar motivo para
gemer desse jeito.
— Está esperando o quê?
Calebe sai de dentro de mim e me vira na cama,
colocando-me de bunda para cima apoiada nos
meus joelhos.
— Empina essa bunda — rosna antes de entrar
em mim de novo.
Ele cumpre o que prometeu. Sinto-o mais fundo,
mais forte dentro de mim, e Calebe firma as mãos
no meu quadril, estabelecendo o ritmo.
Deixa um tapa estalado na minha bunda e me

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limito a olhá-lo por sobre o ombro e erguer a


sobrancelha, negando com a cabeça. Ele arrasta a
palma pela minha pele, em um aperto suave antes
de voltar a se mover. Não vai dar uma de Grey para
cima de mim não, meu anjo.
Meu corpo reage a cada movimento bruto,
implorando por mais. Já tive sexo selvagem antes e
não foram poucas vezes. Mas não me lembro de
ninguém controlar a situação como ele está
fazendo, deixando-me completamente à mercê das
suas vontades, sem parecer nem minimamente
alterado por isso. Nem sabia que eu gostava disso.
— Eu vou gozar — anuncia entre os dentes,
cravando as unhas em mim, e não demora para que
ele desabe em cima de mim, com a respiração
pesada. Sinto as mãos dele alcançarem meu clitóris
e me estimularem de um jeito preciso que é como
se ele conhecesse meu corpo em detalhes. Não

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demora para que eu sinta meu corpo contrair em


volta dele, que ainda está dentro de mim, e ele
geme com o movimento, voltando a me estocar,
sem tirar seus dedos de onde preciso.
— Goza para mim, gostosa — rosna no meu
ouvido.
Seus movimentos são mais lentos agora, mas
ainda firmes o suficiente para me enlouquecer.
Gozo e o ouço gemendo no meu ouvido com as
contrações ao seu redor.
Assim que me desfaço por completo, Calebe sobe
a mão pelo meu corpo, apertando meu seio,
beijando meu pescoço.
— Isso sem dúvidas foi melhor do que surfar —
digo em meio a uma risada preguiçosa e satisfeita.
Ele morde meu ombro.
— Nós ainda vamos à praia — diz. — Levanta

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essa bunda gostosa.

— Você é boa nisso — Calebe diz, de pé ao meu


lado enquanto me ensina, na areia, os movimentos
em cima da prancha.
Achei que eu fosse simplesmente entrar na água e
aprender fazendo, mas ele insiste que é mais seguro
aprender tudo que precisa ser feito antes de cair no
mar. Até que estou gostando da coisa. Sempre
gostei da areia, da água salgada, da sensação de
completa liberdade quando fecho os olhos, só o sol
e eu, ninguém mais.
— Acho melhor deixar para pegar alguma onda
da próxima vez, gostosa. Já está quase na hora de
você ir.
Vou até minha bolsa, alcanço meu celular e vejo

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que ele tem razão. Já passa um pouco de meio-dia e


eu preciso de um bom banho e algumas horas de
sono antes de começar a me arrumar.
— Quando vou te ver de novo? — pergunta.
Ah, não. Não acaba com a magia, moreno, estava
indo tão bem. Uma rapidinha num sábado de
manhã, um mergulho no mar, do jeito que eu gosto.
Olha o potencial para um dia perfeito sendo
destruído. Coloco um sorriso no rosto antes de virar
para ele.
— Da próxima vez que quiser uma boa rodada de
sexo — digo, erguendo as sobrancelhas. — Você
tem meu número.
Calebe ri e se aproxima, passando a mão na
minha cintura.
— Quero saber quando vou te levar a outro
encontro. Você é uma ótima sobremesa, mas quero
o jantar também. Qualquer mulher decidida como
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você é no mínimo fascinante. Quero te conhecer


melhor, gostosa.
Ele se inclina na minha direção e me beija
brevemente, mas me afasto, entregando a ele meu
pescoço. Beijos são ótimos como ponto de partida
para o resto, mas não servem de muita coisa fora da
cama.
— Eu sou fascinante. Mas a única coisa sobre
mim que você precisa conhecer é o que está
debaixo das roupas. — Ele me olha com o
semblante confuso e passo os dentes em seu
pescoço. — Não vou a encontros, moreno. Você
vai ser mais do que bem-vindo em me ligar quando
tiver um dia difícil e quiser descontar na cama. Mas
eu realmente não estou interessada em muito mais
que isso.
Fico na ponta dos pés e colo a boca no rosto dele.
Vejo que o seu sorriso vacila, o que confirma

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minha primeira impressão: ele é um homem de


encontros e relacionamentos. Suspiro quando vejo
o cenho franzido.
— Você parece cara legal e tenho certeza de que
tem uma mulher por aí que vai ser muito sortuda de
te ter, mas essa mulher não sou eu.
Ele me olha por um instante antes de concordar
com a cabeça e deixar um sorriso sacana crescer no
seu rosto.
— Posso trabalhar com isso — responde depois
de alguns instantes, e eu sorrio. — Eu te ligo? —
pergunta e desce a mão para a minha bunda, em um
aperto firme.
Sorrio em resposta e colo um beijo curto no seu
rosto antes de me despedir e pegar minha bolsa.
Tenho um casamento para me preparar.
Graças a Deus não é o meu.

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Capítulo 5
— VOCÊ ESTÁ FABULOSA, NATÁLIA.
Abraço minha amiga com um sorriso no rosto,
genuinamente feliz por ela. Naty está linda no seu
vestido de noiva e a cerimônia foi magnífica. A
festa supera todas as minhas expectativas porque
está longe de ser aquela coisa chata que às vezes
casamentos são e, verdade seja dita, já estou de
olho no open bar há um bom tempo.
— Obrigada por ter vindo, Pri.
Os olhos dela cintilam de pura felicidade quando
vê seu marido se aproximar e enlaçá-la pela cintura.
Eles formam um lindo casal, não há quem possa
negar. Depois de tanto tempo juntos também, não
tinha como ser diferente.
— Como está sua vida? — pergunta, segurando

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minha mão. — Faz tanto tempo que a gente não tira


um tempo para colocar os assuntos em dia.
Nós estudamos juntas na faculdade e mantivemos
contato desde então. É uma amiga antiga que tenho
em minha vida praticamente desde a minha
adolescência, mas, como sempre acontece,
acabamos distanciando-nos um pouco desde que
ela começou a namorar e abandonou
completamente a vida baladeira que sempre
acompanhou a minha. A amizade nunca morreu,
contudo, mas hoje faço o esforço e sacrifício de me
divertir por duas.
Ela sempre me acompanha quando pode, mesmo
que para um programa mais calmo. Nem me atrevo
a ficar chateada pelo rumo diferente que nossas
vidas tomaram, tudo que importa é o quão feliz ela
está. Então, dispenso a pergunta dela com a mão.
— Hoje é seu dia. Quando você voltar da sua lua

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de mel, nós conversamos.


Ela sorri e concorda com a cabeça, e, pelo jeito
que ela olha para o homem ao seu lado, sei que essa
lua de mel vai ser bem longa.
— Você trouxe alguém, não trouxe? — ele
pergunta, olhando-me com curiosidade.
Esses dois são aquele tipo de casal que não tem
segredos. O que significa que, eu querendo ou não,
ele sabe da minha vida do avesso. Não consigo
imaginar esse nível de confiança. Não dá nem para
começar a entender o tanto que é necessário se abrir
com alguém a ponto de essa pessoa saber tudo da
sua vida. Não me imagino fazendo isso. Tenho
muita coisa, muita história, muita bagagem que está
trancada a sete chaves e assim vai ficar. Coisas que
até conto por alto a alguns amigos mais próximos,
mas os detalhes vão para o túmulo comigo. E têm
coisas que nunca nem abro a boca para mencionar.

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Coisas como minha relação nada saudável com


meu querido pai. Coisas como Vinicius.
— Trouxe — respondo, e Natália ergue uma
sobrancelha para mim. — Você não achou que eu
fosse vir sozinha para um casamento, achou? —
pergunto piscando, e ela ri.
— Tinha certeza de que você não ficaria sozinha
por muito tempo.
Ela aponta com a cabeça para algum ponto atrás
de mim e não preciso me virar para ver que é
Marcos chegando.
Nós namoramos por um tempo longe demais para
o que estou acostumada, talvez o máximo de tempo
que eu tenha ficado com alguém. O que significa
que não passou de três meses. Eu o amei, ou acho
que amei. Não posso ter certeza porque o nível de
devoção emocional que ele exigia era demais para
mim. Se amor incondicional é aquilo lá que ele
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esperava de mim, então tenho certeza de que não


sirvo para isso. Definitivamente abrir mão de mim
mesma naquele nível é uma coisa que não estou
disposta a fazer.
É claro que sei que relacionamentos demandam
que haja concessões dos dois lados, mas eu
simplesmente não estou disposta a fazer nada disso
que as pessoas parecem esperar de você para estar
com alguém. Logo, a escolha mais lógica é
continuar linda, bela e solta, sem iludir ninguém
que olha para mim e acha que tenho mais
maturidade emocional do que realmente tenho.
E, é claro, as coisas terminaram muito mal entre a
gente.
— Felicidades aos noivos. — Ouço a voz
conhecida bem atrás de mim antes de o homem
entrar no meu campo de visão. Ele não mudou
muita coisa desde a última vez que nos vimos, há

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bem mais de um ano. O jeito que ele me olha


também não mudou. Esse é o problema. — Priscila
— ele me cumprimenta.
— Marcos.
Natália pega o marido pelo braço e se afasta de
nós, deixando-me sozinha com ele como a boa
traidora que é. Ela é, sem dúvidas, a maior
apoiadora desse relacionamento que não existe
mais.
— Você continua linda — Marcos diz com um
sorriso genuíno no rosto. Sorriso que, quem vê,
nem acha que terminamos aos gritos de que eu
nunca seria feliz sem ele, nem nunca encontraria
alguém que me amasse tanto. Talvez esteja certo,
talvez eu realmente não encontre, mas não significa
que eu deva ficar com ele por isso.
Talvez eu o amasse, mas me amo mais. Eu me
amo o suficiente para não precisar de outra pessoa
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para fazer isso por mim.


— Obrigada, Marcos. Você está muito bem
também.
Tento ser simpática e educada, até porque o único
crime dele foi querer mais do que estou disposta a
dar.
— Como anda a sua vida? Há tempos não tenho
notícias suas. — Sim, e isso foi completamente
intencional. Ele pausa e me olha com atenção. —
Talvez a gente possa sair para comer alguma coisa
qualquer dia desses. Você ainda gosta daquela
pizza de frango?
Nego com a cabeça, não para a pizza, mas para o
convite.
— Não acho que seja uma boa ideia — respondo,
e ele dá um passo na minha direção, erguendo a
mão para alcançar meu rosto.

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— Vamos, Pri. O que custa a gente conversar um


pouco?
Eu sinceramente não sei mais como dizer que não
estou interessada. Encaro os olhos castanhos
cintilando na minha direção, o sorriso no rosto do
homem que tão rapidamente decidiu que me queria
na vida dele e, pela primeira vez em muito tempo,
me sinto um monstro por não ser capaz de me
envolver com alguém.
Será que estou tão errada assim em só querer
viver minha vida e não virar uma extensão da
existência de um cara? Nunca menti para ele, desde
que nos conhecemos fui clara nas minhas vontades.
Não queria me envolver demais. Ainda assim,
quando ele me pediu exclusividade, aceitei. Hoje
vejo que foi aí que errei, porque foi quando ele
começou a acreditar que era meu dono e podia
decidir tudo e qualquer coisa para mim. Foi quando

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começou a acreditar que eu era sua propriedade


para todo o sempre.
O que ele nunca entendeu é que única pessoa a
quem pertenço sou eu mesma. Para sempre é tempo
demais para eu me comprometer com algo além da
minha própria felicidade.
Jurei para mim mesma que seria a última vez que
faria essa besteira. Marcos disse tantas vezes que
entendia, que sabia que o fato de eu estar só com
ele não significava que teríamos filhos e
envelheceríamos juntos, mas na prática a coisa foi
diferente. Pouco a pouco, começou a me cobrar
mais, emocionalmente falando. A dizer o quão
injusta eu estava sendo em não retribuir tudo que
ele fazia por mim, mesmo eu dizendo repetidas
vezes que não queria que ele fizesse nada. Viveu na
esperança de me dobrar, me fazer mudar de ideia,
na expectativa de que eu fosse me apaixonar

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perdidamente por ele um dia. Mas isso nunca


aconteceu, ele nunca me dobrou.
Eu devia ter ido embora quando percebi que
jamais seria capaz de dar o que Marcos queria, mas
escolhi acreditar quando ele disse que tudo bem,
que só queria passar algum tempo comigo e isso
não precisava ser nada sério.
— Eu já perdi a conta de quantas vezes disse que
não, Marcos. — Suspiro. — Sinceramente, essa
conversa simplesmente não cabe agora. Eu vim
aqui para celebrar a felicidade da minha amiga, não
para ter essa discussão outra vez.
Suspiro, porque realmente não quero ser babaca
com ele. As coisas não deram certo, mas isso não
faz dele um homem ruim. Só me faz não ser a
mulher certa para ele, coisa que eu disse
repetidamente e o cara parece se recusar a entender.
Marcos dá um passo na minha direção e segura
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meu braço em um toque que não machuca, mas é


forte o suficiente para me forçar a prestar atenção
nele. Isso começa a me tirar do sério e mandar para
o espaço toda a minha boa vontade.
— Você tem trinta anos, Priscila. Já está na hora
de parar de brincar de adolescente descontrolada e
aquietar esse facho. Passou da hora de parar de ser
irresponsável e egoísta desse jeito.
Solto-me da sua mão com um puxão irritado e
aponto um dedo na direção dele.
— O que eu faço da minha vida não te diz
respeito. Não preciso de você para me dizer o que é
certo ou errado.
Dou um passo para trás, irritada e pronta para ir
embora, quando o vejo abrir a boca para falar mais
alguma coisa. Natália que me desculpe, mas
dependendo do que ele disser, vai ter barraco no
casamento dela sim.
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Sinto um braço ao redor da minha cintura em uma


postura protetora inesperada. O toque é leve e
gentil, completamente diferente da palhaçada de
Marcos de um instante atrás.
— Está tudo bem? — Rafael pergunta, parando
ao meu lado, olhando diretamente para mim como
se ignorasse completamente o homem à minha
frente.
Aceno com a cabeça, dizendo que sim, e ele me
olha por um segundo a mais com uma ruga entre as
sobrancelhas antes de virar para Marcos com um
sorriso fácil no rosto.
— Não sabia que ela estava acompanhada. —
Posso ouvir o tom contrariado na voz do meu
querido ex-namorado, que olha para mim como se
esperasse uma explicação. Como se eu tivesse que
dar uma.
— Estou. — Limito-me a responder, entrando nos
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braços de Rafael, que me acolhe sem hesitar.


Marcos percorre os olhos no loiro ao meu lado
com seu olhar julgador que infelizmente conheço
muito bem, e sei que vem bomba por aí.
— Você não acha que ela é mulher demais para
você não, moleque? — pergunta, a irritação
despontando na sua voz com o tom ciumento que
foi exatamente o que me fez fugir dele o mais
rápido que pude.
Até abro a boca para falar alguma coisa, mas paro
no meio do caminho quando vejo que Rafa se
limita a sorrir e despretensiosamente mover os
dedos que estão na minha cintura em um toque
despreocupado.
— Acho — diz e dá os ombros, como se não
pudesse se importar menos com isso. — Ela é
mulher demais para qualquer um. Eu só dei sorte de
ela ter ido com a minha cara.
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Posso quase ver as fumacinhas saindo pelas


orelhas de Marcos enquanto ele olha para o rosto
sereno do Rafael e só consigo morder o lábio,
segurando um sorriso. Eu não devia estar gostando
tanto disso, devia? E então, inesperadamente, um
sorriso raivoso cresce no rosto dele. Marcos dá um
passo na nossa direção e apoia uma mão no ombro
de Rafael.
— Conselho de amigo. Não se deixa enganar por
essa cara de anjinho que ela tem não. Ela vai partir
seu coração e correr para a cama de outro no dia
seguinte como se você não significasse nada.
Antes que qualquer um de nós tenha a chance de
dizer alguma coisa, ele vira as costas e sai andando.
Solto um palavrão e olho para Rafael, apenas para
ver seu olhar fixo no homem que se afasta. Sua
expressão é completamente neutra e ele não parece
nem minimamente afetado pelo que Marcos disse,

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até porque não tem motivo para isso.


— Desculpa o drama — digo, saindo do braço
dele, que só então volta a olhar na minha direção.
Vejo de relance uma sombra de irritação nos seus
olhos, mas quando ele me encara, é como se nada
tivesse acontecido. Seu sorriso travesso está
estampado no seu rosto outra vez.
— O que você quer beber? — pergunta,
ignorando completamente o que acabou de
acontecer.
Agradeço em silêncio por isso. Qualquer outra
pessoa tentaria me arrancar explicações ou faria
insinuações, mas ele se comporta como se estivesse
tudo bem. E, subitamente, fica tudo bem mesmo.
— Uma caipirinha de kiwi — peço, e ele faz uma
careta.
— Eca — diz, balançando a cabeça. — Já volto.

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Sorrio e vou para a mesa onde estamos sentados


junto com algumas outras pessoas da época da
faculdade. Nunca entendi muito bem essas
arrumações de casamento, mas parece fazer sentido
colocar junto pessoas que se conhecem, mesmo que
eu tenha perdido contato com quase todos eles ao
longo dos anos.
— Você está deslumbrante nesse vestido. —
Jussara, uma das mulheres que era da nossa turma,
sorri para mim e elogia a roupa enquanto toma um
gole da sua bebida.
Agradeço e logo começamos uma conversa
trivial, sendo acompanhadas pelas outras pessoas
da mesa. Em alguns minutos, somos todos
atualizados uns da vida dos outros e começamos a
relembrar histórias da época da faculdade.
Sem que eu queira, as palavras de Marcos voltam
e não consigo evitar remoer o que ele disse. Eu

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tenho trinta anos. Metade das pessoas dessa mesa


está casada, e quem não está, queria estar. Eu estou
mesmo tão errada assim de não querer isso para
mim?
Uma coisa que meu querido ex nunca entendeu é
que não é que eu não queira companhia, não é que
eu não queira alguém do lado. Não detesto a ideia
de dividir momentos com outras pessoas, é só que
eu tenho alergia a ter que fazer disso minha
prioridade e único objetivo de vida. De ter que me
forçar a viver em função de outra pessoa vinte e
quatro horas por dia. De ter que mudar meus planos
e me privar dos meus desejos. Só quero viver
minha vida. A única coisa que quero é poder fazer
de mim mesma a minha prioridade.
Já passou da hora de parar de ser irresponsável e
egoísta desse jeito.
Peço licença e levanto da mesa, decidida a pegar

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eu mesma minha bebida, já que Rafael parece ter


ido colher a cana pessoalmente para fazer o álcool.
Coitado. Enfiei o garoto nessa furada, ele deve
estar escondendo-se de mim. Tudo bem que os
planos de sábado à noite dele não eram os mais
animados, mas ainda assim. Percorro os olhos pelo
salão por alguns instantes e circulo ao redor
olhando por ele, até que decido ir até o bar.
Começo a cruzar a pista de dança quando sinto
uma mão me envolver a cintura e me puxar em
direção a um corpo rígido. Ergo os olhos para
encontrar Rafael com um copo na mão, olhando-me
com a sobrancelha erguida.
— Fui até a mesa e você não estava lá — diz,
soltando-me e entregando o copo. — A fila está
gigante e o barman não parece muito
impressionado com meus belos olhos, me fez ficar
esperando. — Ele revira os olhos dramaticamente,

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sorrindo em seguida.
Até sorrio de volta, mas não me sinto muito bem
no momento. Viro a caipirinha quase em um gole
só para tentar tirar essas ideias da minha cabeça.
Drama não tem muito espaço na minha vida, fujo
dessas coisas o máximo que posso. Não posso
deixar uma coisa dessas estragar minha noite.
Devolvo o copo na bandeja de um garçom que
passa perto e volto para Rafael, que está dançando
no ritmo da batida remixada que toca, sem tirar os
olhos atentos de mim.
Não estou mais no clima. Ando na direção dele e
indico para que ele se curve um pouco para que eu
possa alcançar seu ouvido. Homem alto dos
infernos.
— Tudo bem se a gente for embora? — pergunto.
Ele não se move por um instante, acho que
esperando que eu diga mais alguma coisa, até que
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levanta a cabeça e me olha, como se tentasse me


analisar. Rafa dá os ombros e se inclina até o meu
ouvido de novo.
— A hora que você quiser. Mas você me
prometeu que eu ia beber e dançar com uma mulher
gostosa.
Rio, para valer dessa vez. Eu prometi, é verdade.
— Tem um monte aqui, pode escolher — implico.
— Espero sentadinha enquanto você se esfrega na
bunda de alguém para compensar ter te tirado do
conforto das suas séries chatas.
Rafael me puxa até eu estar colada nele e leva as
duas mãos à minha cintura.
— Não, senhora — diz no meu ouvido. — Você
está me devendo uma dança. Depois podemos ir
embora. Mas vou me esfregar na sua bunda antes.
Ele não espera eu responder antes de começar a se

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mexer, conduzindo-me completamente fora do


ritmo da música. Encosta a testa na minha e me
sacode desajeitadamente, fazendo cócegas nas
minhas costelas até eu soltar uma risada e virar de
costas para ele. Suas mãos voltam ao meu quadril e
me encaixo contra seu peito, agora dançando no
ritmo certo, e ele me acompanha. Não sabia que ele
sabia dançar, mas Rafa parece bem confortável
movendo-se atrás de mim, levando-me com ele na
batida certa, ainda fazendo questão de essa ser a
dança mais sem noção do universo, cantando a letra
da música completamente errada no meu ouvido.
Quando a música termina e outra começa, a
batida sendo substituída por um ritmo acelerado de
forró que sei que foi escolha de Natália, ele me
gira, arqueando as sobrancelhas, olhando-me com
um sorriso travesso antes de começar a me
rodopiar, arrancando risadas escandalosas quando

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me faz esbarrar em um casal que estava beijando-


se. Rafa me apara em seu peito, passando o braço
ao redor da minha cintura. Estou suada por toda a
movimentação, o cabelo grudado na testa, e tenho
certeza de que posso dar adeus à minha
maquiagem.
Ele não parece ligar quando me agarra pela
cintura e gruda em mim, conduzindo os passos da
dança.
— Agora podemos ir embora se você quiser —
ele diz, erguendo a sobrancelha para mim quando a
música acaba, e eu o arrasto para fora da pista de
dança para respirar um pouco.
Estou divertindo-me, mas concordo. Ainda quero
ir embora. Vou aproveitar que meu humor
melhorou um pouco e sair daqui enquanto ainda
estou ganhando. Arrasto Rafa para fora da pista de
dança e vou atrás de Naty, despedindo-me da

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minha amiga depois de conseguir arrancá-la da


multidão de parentes. Dou um beijo e deixo a
promessa de que vamos nos encontrar em breve.
— Você mal se esfregou na minha bunda —
implico, fazendo um bico exagerado enquanto
andamos em direção à saída do salão, e ele balança
a cabeça, rindo.
— Eu posso me esfregar na bunda de quem eu
quiser, Priscila — diz, e eu o chamo de convencido.
Rafael dispensa o comentário com a mão. Ele para
de andar quando estamos perto da recepção vazia e
vira de frente para mim. — Eu não perguntei o que
aconteceu com seu ex antes de eu chegar porque
não sei se somos amigos o suficiente para isso e
não quero ser inconveniente. Você me chamou para
vir unicamente para o fazer ficar longe, e fiz isso.
Ele dá de ombros.
— Só estava tentando te fazer sorrir um pouco
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antes de ir embora, por isso te prendi na pista de


dança. Você já me contou tantas histórias suas que
envolviam uma balada que achei que gostasse de
dançar, só isso.
Fico tocada pelo gesto, porque ele realmente se
preocupou como um amigo faria. Agradeço por
isso, pois eu provavelmente teria uma noite bem
pouco agradável em casa. Sem pensar muito, pulo
no seu pescoço e ele me segura pela cintura, dando
um passo para trás antes de se equilibrar com o
susto.
— A gente é amigo o suficiente para você me
perguntar o que quiser saber. Não vai estar sendo
intrometido. Não mais do que o normal pelo menos
— provoco, sussurrando em seu ouvido, e ele dá
um beliscão de leve na minha cintura. — Como
você consegue estar cheirando tão bem assim
depois daquela dança toda? — pergunto quando

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enfio a cabeça no seu pescoço.


— É banho que chama, Priscila. O certo é tomar
pelo menos um todo dia, não só no sábado — diz,
esfregando o nariz no meu pescoço em resposta,
indo em direção ao meu ombro.
Sinto seu toque sobre mim aumentar quando me
tremo toda, fácil assim. O nariz dele sobe de novo
até o meu ouvido, eu respiro fundo, escorrendo as
mãos até seus braços, e os aperto. Inferno de
pescoço sensível.
— Você até que não está tão mal — murmura
com um tom baixo.
Essa voz rouca, meu Deus. Essa voz rouca no
meu ouvido, não tenho condições. Lembro-me da
cara de desespero dele no meu escritório quando
disse para me beijar e aceito que ele só quer manter
a amizade inocente. Começo a desenrolar os braços
dele para não agarrar o coitado aqui mesmo, mas
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ele não me solta. Pelo contrário, segura bem firme


na minha cintura, mas não fala nada.
— Rafa?
— Estou em dúvida — diz, passeando a mão
pelas minhas costas. — O combinado era te beijar
só na frente do seu ex se precisasse — comenta em
um tom de pergunta, e confirmo com um “sim”
meio duvidoso. — Ele não está aqui. A gente é
amigo e amigos não se pegam.
Vou ter que discordar. Não tenho problema
nenhum com amigos se pegando, pelo contrário, até
incentivo.
— Mas eu realmente quero te beijar agora.
Afasto-me um pouco, só o suficiente para levantar
a cabeça e mirar nos olhos incertos dele. O olhar de
Rafael cai para a minha boca e uma mão dele sobe
pelo meu pescoço até se prender nos meus fios.
Passo a língua nos lábios e ele não espera
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autorização dessa vez. Sua boca logo está na minha


e, como da primeira vez, seu toque é firme, mas
carinhoso. Rafael me devora em um beijo lento e
profundo, em um ritmo que me diz que ele não quer
fazer absolutamente nada além de simplesmente me
beijar. A boca dele cai para o meu rosto e continua
até alcançar meu pescoço em beijos suaves e
precisos. Sinto um arrepio subir pela minha espinha
quando ele chupa e morde a curva do meu pescoço.
— Amigos se pegam — sussurro quando a boca
dele paira sobre a minha de novo.
Rafael sorri e concorda com a cabeça em silêncio.
Ele me solta, estendendo a mão para mim. Franzo a
testa para ele e estico a minha também, enroscando
nossos dedos.
— Vou te levar para casa — diz. Não tenho
certeza se ele quer dizer o que eu quero que queira
dizer.

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Dou dois passos e paro, olhando ao redor até ver


uma porta que muito me interessa. Sorrio e o
arrasto até lá. Entro, trazendo Rafael comigo, e
fecho a porta atrás da gente.
— O que a gente está fazendo no armário de
casacos, Priscila? — pergunta quando encosto
contra a porta. Ergo a sobrancelha para ele e inclino
a cabeça, chamando-o com o dedo. Rafael sorri em
resposta, dá um passo na minha direção e me beija
de novo.
Sua mão engancha no meu cabelo e as minhas
vão até seu rosto. Sinto seu corpo inteiro contra
mim, imprensando-me na porta, seu joelho
encaixado entre minhas pernas, mantendo-me no
lugar. A boca dele cai para o meu pescoço e sua
mão vai até minha bunda.
— Amigos fazem isso também? — pergunta,
agora em um tom completamente provocativo,

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encaixando suas duas palmas na minha bunda antes


de deslizar as mãos pelas minhas coxas, puxando-
me para mais perto.
— Fazem — respondo, sentindo a boca dele no
meu pescoço.
A mão sobe por dentro do meu vestido até
alcançar minha bunda, agora toda de fora, mal
tampada por uma calcinha minúscula. Ele passa um
dedo pelo fio, murmurando um palavrão contra a
minha pele.
— Tem alguma coisa que amigos não fazem? —
pergunta, deixando uma mordida delicada na curva
do meu seio, que está exposta por este vestido.
Nego com a cabeça. Não. Está liberado fazer
tudo. Inclusive já pode parar de falar e começar a
fazer.
Rafael volta a boca à minha, sua mão apertando
minha bunda por mais um minuto apenas antes de
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se afastar. Começo a protestar, mas as mãos dele


vão para a alça do meu vestido. Ele as abaixa,
deixando expostos meus seios, e dá um passo para
trás, olhando-me. Rafa morde o lábio inferior e
respira fundo, sem tirar os olhos do meu corpo.
Ele apoia na parede contrária do cômodo
minúsculo, deixando-me encostada na porta, meio
ofegante, com os peitos de fora. Limita-se a passar
os dedos pelos próprios lábios sem tirar os olhos de
mim.
— Rafa…
Posso praticamente ver os pensamentos passando
por seus olhos antes de ele se aproximar de novo e
baixar a boca ao meu colo, beijando meu pescoço
com reverência antes de alcançar meus seios com
seus lábios. Suspiro com o toque e levo as mãos ao
seu cabelo.
Não sei muito bem por que nunca fui fã de
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delicadeza, mas o toque gentil dele só está


excitando-me ainda mais. É como se ele tivesse
alguma coisa muito importante na boca, e não só
um par de peitos esperando para serem devorados.
Sua língua me provoca e acaricia, ele deixa
mordidas na minha pele e beijos chupados pelo
meu colo como se estivesse concentrado em
explorar meu corpo somente e nada mais. Percebo
que é isso mesmo que está acontecendo quando a
boca dele volta ao meu pescoço e suas mãos
ajustam a alça do meu vestido de volta no lugar.
Ele segura meu rosto entre as mãos e me beija de
novo, e de novo, e de novo.
Sinto sua ereção contra mim quando ele me
pressiona mais na porta e solto um suspiro desejoso
quando ele morde meu lábio antes de me soltar.
Rafael recosta a testa contra a minha com a
respiração pesada e enlaça minha cintura antes de

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morder meu queixo.


— Vamos? — pergunta com a voz meio rouca e
eu preciso de alguns segundos para entender o que
ele está dizendo.
Como assim “vamos”? Assim? Do nada? Devo
estar olhando para ele com uma cara muito
incrédula, porque ele me pergunta qual o problema.
Eu repito em voz alta meus questionamentos,
fazendo-o erguer as sobrancelhas para mim e rir.
— Qual foi a última vez que você só deu uns
amassos em alguém? — pergunta com um riso na
voz.
— Amassos? — pergunto sem acreditar nisso. —
Quantos anos eu tenho? Quinze? A gente está
morando nos anos noventa de novo?
Rafael solta uma gargalhada e dá um passo para
trás, levando-me com ele. Abre a porta e sai,
arrastando-me para fora do armário. Oferece o
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braço e eu aceito, querendo dar na cara dele pelo


riso frouxo ainda no seu rosto. Não dou na cara,
mas dou um tapa no braço e o chamo de idiota.
— Nem tudo precisa terminar em sexo, Priscila.
Agora, por exemplo, vou te levar para encher a cara
e esquecer qualquer merda que seu ex tenha dito,
porque é isso que um bom amigo faz.
— Você é um péssimo amigo — reclamo
enquanto andamos até o estacionamento. Jogo a
chave do carro para Rafael, que pega com
facilidade. Ele nem questiona quando destrava o
carro e entra no banco do motorista. Eu bebi, ele
não, nada mais justo. — Um bom amigo teria me
feito gozar.
Rafael dá partida no carro e olha para mim com
completa incredulidade no olhar.
— Não, um bom amigo trataria de animar sua
noite. Você não precisa de mim para gozar, tem sua
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agenda inteira. Se for isso que quiser mesmo, liga


para alguém e manda vir pra cá — diz, tirando o
carro da vaga.
Mordo o lábio e não respondo nada. Ele olha para
mim, já revirando os olhos e rindo em antecipação.
Indica com a cabeça para que eu fale a gracinha
que estou mordendo a língua para não soltar.
— Você acabou de propor um ménage, Rafael?
— pergunto no tom mais sedutor que consigo. —
Eu topo.
Ele me olha por sobre o ombro e revira os olhos.
— Você é insana. Completamente doida, é isso.
Não vou nem te responder. — Ele balança a cabeça
em descrença, mas não disfarça o riso frouxo no
rosto.
Aumento o volume do rádio e o loiro começa a
tamborilar os dedos no volante. Dirigimos em um
silêncio confortável por algumas ruas, até que sinto
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meu celular vibrar dentro da bolsa. Pego o aparelho


e vejo uma mensagem piscando na tela.

Estava aqui pensando…. Acabei de olhar a


previsão do tempo e o dia vai estar perfeito pra
pegar onda amanhã. Posso passar pra te acordar
de novo, o que acha?

Meu Deus, que vida difícil.

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Capítulo 6
ABRO A MENSAGEM E PENSO NO QUE
RESPONDER.
Calebe parecia bem interessado pela manhã.
Sabia que ele não ia simplesmente deixar para lá.
Querer, eu quero, nem finjo que não. Passar
vontade para que, não é mesmo? Não vim a este
mundo para isso. Não consigo entender essa ideia
de que eu deveria manter qualquer cara fora da
minha cama para me dar valor. Valor de quê?
Minha pureza está para leilão e não estou sabendo?
Se estiver, quero o dinheiro. Eu hein. Começo a
digitar, mas me distraio quando Rafael começa a
falar descontroladamente.
— Já que eu posso perguntar… Posso perguntar,
né? — questiona, olhando-me de lado por um

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segundo antes de voltar a prestar atenção ao


trânsito praticamente inexistente a essa hora da
madrugada quando confirmo com a cabeça. —
Qual o problema com aquele cara? Ele parece ser
um babaca enorme. Eu fico puto com gente que
simplesmente não aceita que relacionamentos
terminam. Qual a intenção dele? Te perturbar até
você mudar de ideia? Isso não tem nem cabimento.
Acho que fiquei mais puto ainda por ele só ter
saído quando viu que eu estava com você. Qual a
dificuldade de respeitar o que você disse? Mas não,
apareceu um cara para te defender, aí ele para de
pentelhar. É ridículo isso.
Meu Deus, ele não para de falar.
— Mas o que aconteceu, afinal? — pergunta, por
fim.
Recosto a cabeça no banco e viro em direção a
ele. A carinha de bebê irritada é uma gracinha. O

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cenho franzido, concentrado, dirigindo pelas ruas


praticamente desertas a essa hora da madrugada dá
vontade de morder. Adeus, amizade inocente. Até
nunca mais.
— Ele me pediu em casamento — digo, e Rafa
me olha de relance com as sobrancelhas arqueadas.
Quase rio da cara de incredulidade dele. — A gente
estava junto há uns meses e por algum motivo
Marcos achou que eu pararia de sair o tempo todo e
ficaria trancada em casa lambendo os pés dele,
deixando ele pagar as contas e cuidando da minha
vida inteira.
Ouço uma risada escapar da garganta dele e
pergunto o que foi.
— Não consigo te imaginar trancada em casa
deixando outra pessoa viver sua vida. Continuo
sem entender qual é a daquele cara. Se ele te
amasse mesmo, não tentaria mudar quem você é.

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Franzo o cenho, surpresa pelo comentário. É a


primeira vez que alguém reage assim ou toma meu
lado nessa história. Todo mundo que sabe do que
aconteceu me chama de louca ou imatura, diz que
fui injusta com ele e que não custava nada mudar
um pouquinho por um homem maravilhoso como
aquele. Lembro que até mesmo Natália deu um
ataque na época, inconformada por eu preferir sair
por aí pegando todo mundo. Palavras dela, não
minhas. Não era esse o problema e Marcos sabia
disso, só estava se fazendo de doido. Penso em
alguma coisa para responder, mas me distraio
quando vejo que estamos chegando a casa dele, não
na minha.
— Eu não posso exatamente dirigir de volta para
casa, Rafa. — Aponto o óbvio quando ele estaciona
no seu portão, no canto da rua onde ele mora.
Não existem muitas vilas neste bairro onde ele

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mora, nunca tinha visto uma antes de vir aqui. É


aconchegante. Completamente diferente do prédio
com andares sem fim onde moro, onde ninguém se
conhece. Moro lá há quase dez anos e não sei nem
o nome do meu vizinho.
— Eu sei que não. Acabei de dizer que ia te levar
para encher a cara. Tenho bebida o suficiente para
um batalhão aqui. Inclusive aquela garrafa de
tequila que você trouxe quando invadiu minha casa
mês passado.
Ele ergue a sobrancelha para mim, desafiando-me
a negar, e eu só consigo rir. Na noite em que
Juliana finalmente tomou juízo e percebeu que seria
uma péssima ideia ir para cama com ele, saiu
correndo da casa do menino e foi encontrar Edu, eu
vim para cá. A gente se deu bem desde que ele
começou a trabalhar lá, comentários inapropriados
à parte, Rafael sempre foi uma boa companhia. Eu

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sabia como ele estava animado com aquele jantar,


bem mais que Juliana.
Depois que tive certeza de que ela e Edu estavam
arranjados, catei uma garrafa que tinha em casa e
vim para cá. O olhar de reprimenda que ele me dá
agora é por eu ter acessado seu arquivo pessoal da
empresa para pegar seu endereço, o que foi, de fato,
muito pouco profissional da minha parte. Não teria
precisado fazer isso se ele tivesse atendido o
telefone.
— Se eu me lembro bem — digo, tirando o cinto
e virando na direção dele —, você não quis jogar
strip poker naquele dia.
— Eu nem sei jogar poker normal — responde
com as duas mãos para cima, e dispenso o
comentário. Detalhes. Nem é um detalhe
importante, o importante era terminar a noite sem
roupa.

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— Eu posso te ensinar hoje — sugiro, e ele


balança a cabeça, rindo.
— Vamos — murmura, abrindo a porta.
Reviro os olhos e saio do carro. Rafa ativa o
alarme e joga o chaveiro de volta para mim. É
engraçado que se fosse qualquer outro cara eu me
sentiria rejeitada, ou simplesmente perderia a
paciência e iria embora, mas eu quase quero que ele
negue. É divertido provocá-lo. Senti muito bem
pressionado contra a mim a prova do quanto ele me
queria quando eu estava imprensada na parede,
então não é por falta de vontade. Mas Rafael
realmente é um bom amigo e, mesmo com todos os
flertes e piadas impróprias, ele se comporta como
tal.
Destranca o portão e abre passagem para mim.
Esbarro nele, propositalmente esfregando minha
bunda, e o loiro ri. Vejo-o balançando a cabeça e

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tentando esconder um sorriso quando olho por


sobre o ombro. Entro na casa e pergunto onde está
a bebida. Rafael aponta para a cozinha e vejo a
garrafa em cima de um armário. Fico na ponta dos
pés, mas mesmo de salto não consigo alcançar.
Não demora muito para que ele venha me
socorrer e pare atrás de mim, retribuindo a
provocação, encaixando perfeitamente na minha
bunda antes de esticar o braço, pegar a garrafa e
entregar para mim. Cerro os olhos e viro na sua
direção, apontando o dedo no peito dele.
— Eu juro que se até a gente acabar essa garrafa
você não me agarrar, eu vou ligar para o Calebe —
digo, lembrando-me da mensagem não respondida
no meu celular.
Rafael pega a garrafa da minha mão e levanta na
altura os olhos, encarando o conteúdo acobreado
como se estivesse tentando resolver um grande

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mistério. Por fim, meneia a cabeça.


— Se for ligar para ele, me avisa logo que a gente
nem começa a beber. Porque se a gente realmente
terminar essa garrafa, não tem a menor chance de
eu te deixar sair dessa casa, muito menos para
encontrar alguém. Vai ficar aqui bonitinha até ficar
sóbria.
Ergo as sobrancelhas para ele.
— Já fiz sexo bêbada antes, Rafa. Te garanto que
não decepciono.
Ele revira os olhos e põe a garrafa na mesa antes
de ir buscar dois copos.
— Bêbada é uma coisa, quase em coma alcóolico
é outra. — O loiro abre a garrafa e serve duas
doses, estendendo uma para mim. Aceito o copo,
brindamos e viramos os dois ao mesmo tempo —
Liga para o Calebe e vai rebolar essa bunda em
outro lugar, mas a chave do carro fica e essa é a
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única bebida que vou te servir.


Ele recosta no balcão da cozinha e enche o
próprio copo mais uma vez, mas bebe devagar
dessa vez, fazendo uma careta, murmurando que
não entende como eu gosto disso. Rafael estica a
mão e move os dedos, indicando para que eu
devolva a chave. Tiro a bolsa do ombro e largo no
chão em um baque, fazendo uma careta de protesto
antes de ir na direção dele e subir no balcão,
sentando ao seu lado.
— Você tem algum filme decente pelo menos? —
pergunto, enchendo meu próprio copo e o dele mais
uma vez.
A noite está meio abafada, como quase toda noite
no Rio de Janeiro. Sinto minha cabeça começar a
doer, provavelmente pela música alta da festa, ou
pela pouca quantidade de comida que ingeri
durante o dia. Eu estou com sono. Acordei cedo

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demais, ainda que por uma boa causa, e tenho


certeza de que vou dormir, não importa o filme que
ele escolha. Isso lá é programa para sábado à noite,
meu Deus? Madrugada, na verdade. Mas mesmo
assim.
— Nada que substitua um orgasmo, não —
implica, e dou um tapa no braço dele. — Eu te
chamo um táxi, doida, só não quero que você dirija
nesse estado — diz, colocando o copo na mesa e
pegando o celular no bolso. — Liga para ele e
manda levar uma caixa de camisinha para sua casa
logo, porque com o fogo que você está hoje, vai é
dar trabalho para o homem.
Rafa pisca para mim com um sorriso travesso no
rosto e mordo o lábio para segurar uma risada. Essa
camisa social realmente não combina com ele.
Quero tirar. Rafael abre o aplicativo e pergunta
meu endereço, então tomo o celular da mão dele.

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Bloqueio a tela e pouso o aparelho na bancada.


— Acho que já tive sexo o suficiente por hoje —
digo, dando os ombros.
Mentira, nunca é demais. Mas talvez eu esteja
com preguiça de me mover agora e tem uma
garrafa na minha frente. Sei que essa formiga
ambulante tem leite condensado em algum lugar.
Tequila e brigadeiro são as únicas coisas capazes
de me fazer dispensar pegação.
— Eu sei, você me contou todos os detalhes —
responde, inclinando a cabeça. — O que foi que
você disse que ele fez com a sua perna por cima do
ombro mesmo?
O tom é de pura implicância e ele nem tenta
disfarçar o sorriso de provocação no rosto antes de
dar um passo na minha direção, me pegar pela
cintura e me colocar no chão. Ninguém pode negar
que ele é um bom ouvinte. Coitado, eu devia parar
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de contar tudo para ele. Mas não vou.


— Vamos arrumar alguma coisa para assistir,
vem — diz, chamando-me com a mão em direção à
sala.
Pulo em suas costas e ele me segura pelos joelhos
depois de se equilibrar. Enquanto andamos em
direção à TV, ele pega o controle, levando-me para
o sofá. Só nesse caminho, que não leva mais do que
dez segundos, Rafael consegue falar sobre tantas
coisas que me perco. É uma metralhadora.
― Como você está? ― pergunta, sacudindo-me
nas suas costas, e solto um grito quando ele ameaça
me soltar. Não preciso de um galo na cabeça,
obrigada. Dou os ombros e murmuro que estou
bem.
Tento puxar pela memória qual foi a última vez
que alguém realmente se deu ao trabalho de tentar
fazer eu me sentir melhor assim. Eu quase poderia
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dizer que essa é uma amizade inocente se não fosse


pelas mãos dele encaixando na minha bunda ao me
jogar no sofá. Mas até isso não passa de pura
implicância e provocação. É como se quanto mais
eu provocasse, mais ele se fizesse de doido e se
recusasse a me pegar.
— Obrigada — digo, olhando para ele, que
levanta do sofá e me entrega o controle.
— Não precisa agradecer, loira. Vou só trocar de
roupa e já volto. Quer alguma coisa para vestir? —
oferece, e nego com a cabeça.
Zapeio pela lista de filmes e reviro os olhos,
soltando um resmungo exagerado quando vejo logo
no topo da lista aquela série horrível que ele assiste
o tempo todo. Que seja, vai isso mesmo. Seleciono
um episódio qualquer e não demora muito para que
ele volte vestindo uma bermuda e uma camisa com
estampa de gatinho. Solto uma gargalhada e ele

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taca uma almofada em mim.


— Fica quieta, doida — resmunga, jogando-se ao
meu lado.
Faço um sinal de zíper na minha boca e deito
quando ele põe uma almofada no colo e me chama.
Sinto os dedos dele no meu cabelo e me acomodo,
esperando pela minha morte quando ele dá play e
vejo The Originals enchendo a tela.
— Nem uma palavra, bonitinho.

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Capítulo 7
PRISCILA ESTÁ TENTANDO ME
ENLOUQUECER.
É a única conclusão a que consigo chegar olhando
a loira, enfiada naquele vestido apertado que está
usando, sentar em cima da bancada da minha
cozinha enquanto eu termino de fazer o brigadeiro
que ela pediu. Olho por sobre o ombro enquanto ela
balança os pés, livrando-se dos saltos. A completa
falta de inibição só a faz ainda mais atraente, como
se não bastasse todo o resto. Essa mulher é um
pacote completo: divertida, inteligente, provocante.
Definitivamente provocante.
— O que você está fazendo, loira? — pergunto
quando ouço o barulho dos sapatos atingirem o
chão.

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Desligo o fogo e mudo a panela de lugar para


deixar esfriar um pouco antes de levar para a sala.
Para quem bateu pé dizendo que odiava a série,
assistiu três episódios bem concentrada. São quase
seis da manhã e não é hora para isso, ainda mais
depois das horas que passamos jogados no sofá
conversando. A bebida foi rapidamente deixada de
lado e estamos os dois muito sóbrios. A madrugada
não passou de piadas ruins e risadas escandalosas
da mulher que parece à vontade como se fosse dona
do lugar.
Ando na direção dela, tocando seu joelho, e ela
separa as pernas para que eu encaixe ali. Preciso
respirar fundo para manter a cabeça no lugar e não
ajoelhar aqui mesmo e dar o tratamento que ela
merece e tanto quer quando o vestido curto sobe
mais ainda com o movimento. A questão é que sei
que suas provocações sexuais não passam disso:

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provocações. Elas sempre existiram desde que nos


aproximamos e, tudo bem que nos beijamos e um
pouco mais, mas não sei até onde o limite dessa
amizade vai para conseguir lidar com sexo de fato.
Ela se inclina e estica os braços para trás,
apoiando na mesa. Meus olhos caem para a boca
dela e preciso me esforçar muito para não descer
meus olhos para o seu decote agora que sei o belo
par de seios que está bem debaixo desse vestido.
— Para de babar, Rafael — ela implica,
chamando minha atenção para os seus olhos que
me encaram com diversão. — Se quiser alguma
coisa, é só pegar.
Priscila ergue a sobrancelha provocativamente e
sorri como se me desafiasse a fazer alguma coisa.
Levo a mão à sua cintura, puxando-a um pouco
mais para perto, arrasto-a pela bancada e desço a
boca até alcançar a sua testa. Ouço seu resmungo

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contrariado e não consigo evitar uma risada.


Passo as duas mãos pela sua bunda e a puxo para
cima, encaixando-a no meu quadril. Priscila
rapidamente enlaça as pernas em volta da minha
cintura e leva os braços para o meu pescoço. E,
embora eu tenha uma mulher gostosa com as
pernas abertas em volta de mim, o gesto é quase…
inocente. Não tem nenhuma intenção sexual.
Seguro sua bunda com uma mão enquanto vou até
o fogão e pego a panela com a outra antes de voltar
para a sala com ela presa ao meu pescoço.
Solto-a no sofá antes de sentar ao seu lado e dar
play no episódio que ela escolheu. Acho que já
assisti esse, não tenho certeza. Ela se inclina e pega
uma colherada grande de brigadeiro, assoprando
antes de levar à boca e recostar no sofá. Faço o
mesmo e assistimos em silêncio os primeiros
minutos, até ela se arrumar no lugar, deitar com a

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cabeça nas almofadas no braço do sofá e jogar os


pés no meu colo, sacudindo os dedos, pedindo uma
massagem.
— Você é bom nisso — murmura quando começo
a apertar os pontos que ela diz estar doendo, sem
tirar os olhos da tela.
— Tenho dedos bem ágeis — comento, prestando
atenção na cena. E é só quando ela começa a rir
descontroladamente que percebo o que eu falei. —
Eu estava falando das massagens, sua doida.
Rio junto, tacando uma almofada nela. É
impressionante a capacidade de maldar tudo, nunca
vi. Não me lembro de passar um tempo tão gostoso
assim com alguém. Rindo de bobagens, comendo
besteira. A verdade é que quando você começa a
sair com alguém, se chega ao ponto em que há
intimidade o suficiente para que os dois estejam
confortáveis em passar um sábado à noite jogados

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no sofá, comendo brigadeiro, bebendo e jogando


conversa fora, o próximo passo é um pedido de
namoro. Eu não estou interessado nisso.
Então, eu entendo a relutância da loira ao meu
lado em ir a encontros e se envolver com alguém.
Ela também não está interessada em
relacionamentos, simples assim. É claro que
qualquer cara com meio cérebro funcional
consegue rapidamente ver a mulher incrível que ela
é, não os culpo por quererem mais do que só a
transa rápida que ela quer oferecer.
— O que você está pensando, bonitinho? —
pergunta, pausando a série quando me pega
encarando-a.
— Estava pensando que gosto de te ter por perto
— respondo, sem rodeios. Acho que o principal
motivo de a gente se dar tão bem é exatamente a
ausência de meias palavras. Não tenho vocação

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para isso e nem ela, o sorriso que a loira abre


confirma isso.
— Quem não gosta, Rafa? Não é segredo para
ninguém que eu sou maravilhosa.
Reviro os olhos com o descaramento dela, mas
não dá para negar.
― Fico com pena dos caras que têm que ver você
sair correndo por aí desesperada em fuga quando
tentam te conhecer melhor ― completo, enfiando
uma colher de brigadeiro na boca, dando os
ombros.
Priscila levanta a cabeça da almofada, sentando-
se no sofá, ainda com os pés em cima de mim.
— Mas eles têm a sorte de me comer — diz, com
um sorriso atrevido e sobrancelhas arqueadas. ―
Quem em sã consciência trocaria isso por qualquer
outra coisa?

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Sei que ela está só fazendo uma piadinha, como


faz toda vez que abre a boca, mas Priscila cerra os
olhos na minha direção, e sei que ela está
esperando uma resposta. Não para a pergunta que
ela fez, mas para a dúvida que ela sabe que eu estou
desde que eu a beijei no casamento.
— Eu também poderia — digo, em um tom de
pergunta, e ela ajeita a postura, abrindo um sorriso
sedutor. Priscila meneia a cabeça, concordando. —
E, ainda assim, você está aqui comendo brigadeiro
comigo e me levando a casamentos.
Levo uma mão ao peito em um gesto dramático
de gratidão e ela me bate, arrancando um grito
surpreso de protesto de mim. Que mão pesada.
Priscila dá os ombros, puxa os pés e sobe no meu
colo de frente para mim, uma perna de cada lado do
meu quadril, o mar de fios dourados caindo por seu
decote quando ela apoia as mãos no meu ombro,

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sorrindo para mim, olhando-me de um jeito que me


diz que não tenho escolha além de me render
completamente às suas vontades.
— Nós somos amigos antes de sexo. Sexo que
nem aconteceu ainda, por sinal — comenta,
parecendo contrariada. — É diferente de conhecer
uma pessoa nova e fazer o cara entender que ter
intimidade é diferente de poder me controlar.
Quando a gente transar…
— Se — corrijo.
Ainda não estou convencido de que é uma boa
ideia, por mais que não possa negar a vontade. É
mais difícil ainda negar com ela montada assim em
mim. Não sou santo, existe um limite até onde é
possível resistir a essa mulher. Não acho que exista
alguém que seja capaz.
— Quando a gente transar ― enfatiza, ignorando
completamente meu protesto, deixando claro que
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estou certo: se ela decidir que quer, não tem um


pobre coitado que consiga dizer não para ela.
Priscila sabe disso. ― Eu tenho certeza de que você
não vai tentar me convencer que o seu pau é o
único que eu preciso ter, enquanto você sai por aí
comendo tudo que se mexe, usando aquela analogia
ridícula de chave e fechadura.
Nego com a cabeça. Isso é absurdo. Priscila é
uma força da natureza, um furacão. O mundo
pertence a ela e a loira sabe disso. Ela não se
desculpa por ser dona da própria vida. É
embriagante. Não consigo entender como alguém
pode tentar mudar isso.
— Então. — Ela dá os ombros. — Tudo que eu
quero é poder viver minha vida sem ter que ficar
dando satisfação para ninguém. Só isso. Não tenho
nada contra filme com brigadeiro de vez em
quando, só não gosto da ideia de ser obrigada a

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isso, ou de ter que fazer isso com uma pessoa só.


Subo a mão pelo seu pescoço, prendo os dedos
em seus fios com toda delicadeza que consigo, em
uma carícia leve, e vejo Priscila fechar os olhos por
alguns segundos.
— Sabe — diz, inclinando a cabeça quando subo
a mão por sua cintura. — Você é um cara bem
decidido, direto, não fica de muitos rodeios. No
trabalho, é claro, você nem pensa duas vezes antes
de fazer alguma coisa, mas em tudo. Já te vi
chamando mulheres para sair sem nem piscar,
mesmo elas sendo demais para você dar conta.
Priscila faz um bico exagerado antes de deixar
escapar uma risada quando me vê rolando os olhos.
Nem me ofendo. É verdade.
— Não é como se elas fossem magicamente
aparecer na minha cama se eu não fizer alguma
coisa para isso acontecer — digo, puxando-a para
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um pouco mais perto, deixando uma mordida leve


em seu queixo.
É um ponto meio tentador do corpo dela. Perto o
suficiente da boca para que eu fique meio louco
querendo esses lábios experientes nos meus, mas
ainda inocente o suficiente para eu não ter que me
preocupar em estar fazendo besteira e estragando
uma amizade que realmente valorizo. Mesmo que
Priscila seja completamente diferente de qualquer
pessoa que eu já tenha conhecido, ela ainda é uma
mulher, e mulheres são complicadas demais.
— A questão é que você é confiante. —
Discutível. Se tem uma coisa que não tenho é medo
de passar vergonha, isso é verdade, mas não
significa necessariamente confiança. — Qualquer
outro cara já teria ficado com o orgulho ferido, me
jogado nesse sofá e me comido até cansar para
provar que é o melhor sexo da minha vida depois

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do tanto que falei de outro homem hoje.


Olho fixamente para ela, levando minhas duas
mãos ao seu rosto, tentando com tudo que posso
não cair na gargalhada.
— Eu passei quase uma hora inteira ouvindo
detalhes de como o Calebe te pegou. Não existe a
menor chance de eu ser o melhor sexo da sua vida,
é inútil tentar.
Estou brincando, na maior parte, afinal ficaria
mais do que satisfeito em tentar. Acho meio
Neandertal essa história de marcar território e ficar
querendo se provar melhor que alguém. É claro que
eu me perguntei por um minuto se é humanamente
possível fazer tudo o que Priscila disse que Calebe
fez. Mas com certeza não é por isso que ainda não
joguei a loira no sofá, por mais que eu queira.
Ela ri, uma gargalhada gostosa que a faz tremer
no meu colo. Má ideia. Posso sentir meu corpo
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começar a reagir pela fricção acidental, que é só a


cereja do bolo, porque já está difícil o suficiente me
concentrar com a loira montada em mim desse
jeito. Desço minhas mãos pela cintura dela,
pendendo meus dedos ali. Priscila parece ter
sentido também, porque se remexe um pouco mais
no meu colo, fazendo-me engolir seco. Impossível.
Ela é impossível.
Ela leva as palmas por dentro da minha blusa,
arrastando as unhas por minhas costas. A loira
afunda as unhas na minha pele ao mesmo tempo em
que se esfrega um pouco mais em mim e meu
autocontrole nem conheço mais.
— Quando a gente transar — ela pergunta no meu
ouvido e nem tenho tempo de protestar por ela estar
assumindo que é inevitável a gente se comer —,
ainda vou poder te contar dos meus caras?
Firmo a mão na cintura dela, fazendo com que ela

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fique o mais perto possível da minha ereção


enquanto rebola lentamente no meu colo.
Claramente perco qualquer fio de sensatez que diz
que manter essa doida na minha vida é mais
importante do que tê-la sem roupa debaixo de mim.
Se ela continuar fazendo isso, eu prometo até achar
a cura do câncer, essa é a verdade.
— Só se eu ainda puder pedir ajuda com o que
vestir nos meus encontros — murmuro em
resposta, sem nem saber como consegui falar a
frase inteira. — Tenho um hoje mais tarde e não
tenho ideia do que vest… Inferno, Priscila.
Interrompo a frase na metade com um gemido
escapando da minha garganta quando ela abaixa as
alças do vestido, liberando seus seios com bicos já
duros, implorando para serem beijados, sem parar
de se esfregar em mim. ​
— Nada muda — ela diz quando eu abaixo a

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cabeça e alcanço um seio com a boca, sugando-o.


Mordo sua pele quente e ela solta um suspiro de
satisfação, levando as mãos ao meu cabelo como se
quisesse me manter ali.
— Muda — digo contra sua pele, desistindo. Vou
ter que dar um jeito de a gente continuar amigo
depois. Preocupação para o Rafael do futuro. —
Agora vou ser um bom amigo que te faz gozar.
Seguro suas pernas e giro, colocando-a de costas
no sofá, minha boca imediatamente indo ao seu
pescoço. Percorro a mão por seu corpo como há
muito tempo venho querendo fazer, lentamente,
sentindo cada curva. Podemos ser amigos, mas ela
continua sendo uma mulher gostosa para caramba e
eu não sou cego. Subo a mão por sua coxa, fazendo
subir junto seu vestido. Arrasto a palma pelas suas
costas em busca do zíper que sei que está ali e,
quando o alcanço, puxo para baixo, trazendo a peça

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inteira de uma vez, tirando-a pelos seus pés. A


mulher magnífica fica no meu sofá com nada além
de uma calcinha minúscula e um sorriso vitorioso
no rosto.
Ergo meu corpo sobre o dela e me permito só
olhar por um instante. Admirar cada curva.
Quando meus olhos encontram os seus, vejo pura
confusão no seu rosto.
— O quê? — pergunto, brincando com o fio da
sua calcinha na sua cintura. Não tem como isso ser
confortável, tem?
— Você está me olhando como se eu fosse
quebrar — diz, erguendo a sobrancelha.
Abaixo a boca para a dela, enlaçando seu cabelo,
puxando-a para mim.
— Espero que não quebre — implico, fazendo-a
sorrir contra a minha boca antes de beijá-la
novamente.
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Percorro a mão por seu corpo com calma, sem


pressa, sentindo cada curva sua. Desço minha boca
até alcançar seu seio, mordo e chupo sua pele,
testando suas reações. Quando alcanço seus lábios
de novo, ela protesta.
― Dá para parar de me beijar e começar a me
comer? ― murmura, e eu rio da sua impaciência.
Desço a mão por sua cintura até alcançar a barra
da sua calcinha e afasto a peça. Ela suspira nos
meus lábios quando a toco. Priscila geme enquanto
a estimulo e não demora nada até que esteja
completamente encharcada para mim. Deslizo um
dedo, depois outro, e os gemidos dela aumentam.
Priscila desabotoa, abaixa o zíper da minha
bermuda, alcançando-me por cima da cueca em
uma carícia que logo se perde quando ela crava as
unhas em mim, e sinto-a contrair ao redor dos meus
dedos.

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Provoco mais um pouco até sentir que ela está


perto de gozar, seu rosto deliciosamente expressivo
sem deixar dúvida nenhuma, e desço, arrastando a
boca pela sua barriga até alcançar o meio das suas
pernas. Afasto sua calcinha e levo a boca até ela e,
quando minha língua toca seu clitóris, um gemido
longo escapa da garganta dela. Sinto seu gosto e a
chupo como se minha vida dependesse disso. Não
sei minha vida, mas minha sanidade parece que
depende neste momento. Levo a mão ao seu seio,
uso a outra para firmá-la no lugar, enquanto deixo
mordidas e beijos em pontos que a fazem tremer
debaixo de mim.
Priscila solta um gemido alto, cravando as unhas
no meu cabelo enquanto goza na minha boca, e não
paro de chupá-la enquanto seu corpo treme e se
contorce. Quando a sinto relaxar debaixo de mim,
deixo uma trilha de beijos na parte interna da sua

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coxa antes de sentar e puxá-la para o meu colo,


encaixando suas pernas ao redor do meu quadril.
Ela descansa a cabeça no meu pescoço e afasto
novamente sua calcinha, penetrando-a com os
dedos mais uma vez.
— Eu acabei de gozar — ela murmura no meu
ouvido, e eu rio.
— Já está cansada? — provoco, porque não estou
pronto para tirar minhas mãos dela ainda.
— Nem perto, bonitinho — responde, levantando
a cabeça e olhando-me com olhos provocativos,
ainda mole nos meus braços. Subo a mão para
prendê-la em um abraço.
Pouso meu olhar no seu para resistir à vontade de
jogá-la no sofá, porque sei que se eu olhar para o
par de seios redondos que estão pressionados contra
meu peito, vou esquecer completamente o motivo
de não fazer isso. Passo a mão em seu rosto,
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gentilmente afagando sua bochecha, ela fecha os


olhos e suspira. Minha amiga suspira. Minha amiga
com quem me preocupo tanto suspira e sorri,
abrindo os olhos, encarando-me com carinho
disfarçado de provocação. É o suficiente para
lembrar de que não posso abrir suas pernas e comê-
la como se ela não significasse nada, não depois da
noite que ela teve, não depois das besteiras que
escutou do babaca na festa.
— Qual é sua história com brigadeiro? —
pergunto, mudando completamente de assunto para
tentar fazer minha ereção ficar sob controle com
essa mulher gostosa quase nua no meu colo. Ela
ergue a sobrancelha, olhando-me como se eu
tivesse perdido o juízo. — Você sempre pede
brigadeiro, em todo lugar que vai. É a única coisa
doce que você come.
Ela ri e apoia a cabeça no meu ombro.

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— Hábito, acho. Minha mãe sempre fazia para


mim, apenas continuei a tradição.
Espero que ela continue, mas a loira arrasta a
boca no meu pescoço ao invés disso.
— Você vai ficar aí conversando ou vai me levar
para a cama e terminar o que começou?
Cacete, loira. Assim fica difícil.
Encaixo as mãos na sua bunda, levantando do
sofá e indo em direção ao meu quarto. Sinto suas
mãos prenderem em volta do meu pescoço. Coloco-
a sobre o colchão e vejo seus olhos sobre mim
enquanto me deito sobre ela. Minha boca passa por
seu pescoço e sinto suas unhas arranhando-me. Ela
murmura no meu ouvido, pedindo para continuar, e
a ideia de ela não ter qualquer receio em pedir o
que quer me excita mais ainda. Quero descobrir do
que ela gosta e dar exatamente o que ela quer.
Priscila me aperta quando alcanço alguns pontos,
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silenciosamente me mostrando os exatos lugares


onde sente mais prazer. Exploro seu corpo inteiro
entre beijos e mordidas, sugando seus seios,
prendendo seus bicos firmes entre meus dentes, e
ela arqueia o corpo quando passo as unhas por suas
costas.
Giro-a na cama, com essa bunda deliciosa
empinada para cima, e começo tudo de novo, do
seu pescoço até a base das suas costas, gastando
todo o tempo do mundo em um ponto que a faz
arquear a coluna e gemer contra o travesseiro.
Levo meus dedos até suas coxas, separando suas
pernas, e penetro-a com dois dedos que deslizam
com facilidade, molhados com a prova da sua
excitação. Minha intenção era apenas provocá-la
um pouco, explorá-la, mas quando a sinto começar
a se contrair ao redor dos meus dedos, deixo uma
mordida na sua bunda antes de intensificar os

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movimentos. Ajoelho na cama e puxo sua cintura


para mim, porque preciso sentir seu corpo nas
minhas mãos e essa posição não permite isso.
Puxo-a na minha direção, tiro os dedos de dentro
dela por um instante e sou imediatamente
presenteado com um gemido de frustração.
Acomodo Priscila no meu colo, suas costas contra
meu peito, e subo minha mão por sua coxa até
alcançá-la de novo. Sinto sua bunda perfeitamente
encaixada contra minha ereção e acho que vou
explodir. Brinco com seu seio, abaixo a boca até o
seu pescoço e ela joga um braço para trás,
segurando meu rosto contra sua pele enquanto
rebola nos meus dedos, fazendo-me acompanhar
seus gemidos com sua bunda esfregando-se em
mim. Nunca achei que fosse ter inveja da minha
própria mão. Com um gemido nada contido, ela
goza mais uma vez nos meus dedos.

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— Agora estou satisfeita — murmura após alguns


segundos, com a cabeça jogada para trás, apoiada
no meu ombro, e eu rio do seu tom debochado.

Volto da sala com a panela de brigadeiro e vejo a


loira jogada na minha cama em uma posição que
não tem como ser confortável, mas não me importo
porque me dá a visão perfeita da sua bunda
redonda. Coloco a panela na ponta do colchão e
levo as mãos à cintura dela em um toque delicado
que me faz ouvir um suspiro de satisfação, que é
rapidamente substituído por um grito quando faço
cócegas nas suas costelas. Priscila se contorce no
colchão entre risadas e gritos desesperados,
debatendo-se, desforrando completamente o lençol
enquanto distribui tapas onde consegue alcançar
depois que consegue girar na cama e ficar de frente

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para mim.
— Seu filho da mãe, para com isso! — grita,
tentando se livrar das minhas mãos, rindo e
contorcendo-se no colchão.
Solto-a e Priscila me fuzila com os olhos verdes
irritados, jogando o cabelo para o lado, e subo a
mão pela sua cintura, deitando em cima dela. A
loira não hesita em encaixar as pernas ao meu redor
e mordo seu queixo, desejando fazer muito mais
que isso. Encaro-a por um segundo a mais antes de
levantar e sair da cama, contando até dez.
Arremesso uma camisa para ela, que pega e veste,
recostando na cabeceira da cama. Ela estica a mão,
pedindo a panela e roubo uma colherada do doce
antes de entregar para ela.
— Você é bom nisso — diz enquanto eu me jogo
na cama de qualquer jeito, deitando de barriga para
cima, olhos no teto.

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Teto que eu preciso pintar de novo urgentemente.


Problemas de morar sozinho. Nunca fui muito bom
nessa coisa de manutenção da casa, a minha sorte é
que ainda tenho um bom dinheiro guardado da
minha época de modelo durante a faculdade,
porque não existe a menor chance de eu ser capaz
de manter esta casa só com o salário que ganho
hoje. Coisa que espero que mude logo, porque não
me matei de estudar para ficar ouvindo grosseria do
Renato o dia inteiro. Parece que vai abrir uma vaga
muito melhor no departamento de contabilidade
essa semana e acho que tenho ótimas chances de
conseguir o posto se considerar que já trabalho para
eles. E, bom, considerando que foi nisso que eu me
formei.
Quer dizer, se o Eduardo não estiver puto comigo
por quase ter pegado a mulher dele. Já tem o que,
quase um mês? Tenho certeza de que ele não quer

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me matar mais. Né?


— Eu sei. Modéstia à parte, eu cozinho muito
bem — respondo, terminando de enfiar a colher na
boca. — É difícil manter a forma, para ser sincero.
Não posso nem me dar ao luxo de matar academia,
porque eu engordo com muita facilidade. Não sou
que nem você que fica se entupindo de massa todo
dia e continua com esse corpo gostoso aí não.
Tenho que me regular bem. Aliás, eu realmente
devia parar de comer esse brigadeiro.
Digo isso enfiando a colher de volta na panela,
porque quando se fala de doce, eu sou
completamente descontrolado. Priscila larga a
colher dela na panela e se arrasta na cama,
montando no meu colo.
— Eu não estava falando do brigadeiro,
bonitinho.
Sua sobrancelha arqueada em uma provocação
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descarada me faz abrir a boca e ela ri. As


gargalhadas dela são tão fáceis, impossíveis de não
acompanhar.
— Doida — murmuro, tirando-a do meu colo em
um giro, jogando-a de costas na cama enquanto ela
solta um grito quando ameaço recomeçar a sessão
de cócegas.
Ouço meu celular tocando e saio do quarto para
pegar o aparelho. Olho a hora e vejo que passa
pouco das oito da manhã. Estou completamente
destruído por não ter dormido nada, mas valeu a
pena. Foi uma ótima noite. Uma surpresa muito boa
que a gente tenha simplesmente voltado a conversar
bobagem como se eu não tivesse acabado de fazê-la
gozar até ela dizer que estava cansada demais para
continuar. Acho que nunca fiz nada tão difícil na
minha vida quanto escapar das suas tentativas de
retribuir.

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Atendo o telefone e é telemarketing. Domingo de


manhã, inacreditável. Volto para o quarto e vejo a
loira digitando alguma coisa no celular,
concentrada com o cenho franzido. Jogo-me na
cama, esperando-a terminar de responder seja lá
qual o e-mail da vez. Sinceramente, não sei como
Priscila ainda está acordada.
— Não está cansada? — pergunto, girando no
colchão, puxando um travesseiro para debaixo da
minha cabeça.
Ela ergue aquela sobrancelha travessa para mim.
— Está me expulsando, Rafael?
Nego com a cabeça.
— Se quisesse que você fosse embora, eu falaria
— implico de volta, mas é verdade. Ela sabe disso.
— Só não sei como você ainda está de pé depois de
não ter dormido a noite toda. Ainda mais depois do
dia que você teve ontem.
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Ela inclina a cabeça e cerra os olhos, mordendo a


boca como se segurasse um sorriso, esperando eu
continuar.
— Teve o casamento — começo a listar com os
dedos —, o encontro com seu adorado ex e, claro, o
fato de você ter acordado ridiculamente cedo para
se encontrar com o Calebe. Fora a surra de pica que
você levou. Esse tipo de coisa cansa as pessoas.
Chego a me assustar com a gargalhada alta que
ela solta.
— Surra de pica? — pergunta com um sorriso
descarado no rosto.
Concordo com a cabeça. Foi exatamente isso que
aconteceu, não tem nem como ela tentar negar.
Com todos os detalhes exageradamente gráficos
que ela me deu quando veio me buscar para o tal
casamento, consigo montar muito bem a cena na
minha cabeça. Ainda estou puto por ele ter gozado
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antes dela. Não me interessa quão bom ele seja, se


não sabe tratar uma mulher, devia ter a carteirinha
do clube cancelada.
— Surra de pica — confirmo.
Ela balança a cabeça, rindo, me chama de idiota e
começa a se arrastar para fora do colchão.
— Já estou sóbria o suficiente para dirigir para
casa — diz, andando pelo quarto em busca do
vestido que estava usando. Indico com a mão,
dizendo que ficou na sala.
Ela já estava sóbria horas atrás, essa é a verdade.
Priscila volta um instante depois, já vestida e com
os saltos enfiados nos pés, passando os dedos pelos
cabelos, tentando colocar os fios no lugar. A
maquiagem dela já era e duvido que consiga dar um
jeito no cabelo todo bagunçado do jeito que está.
Linda como sempre.
— Não quer tomar um banho? — pergunto, e ela
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nega com a cabeça.


— Realmente preciso de um, mas tomo em casa.
Minha maquiagem deve estar uma desgraça. — Ela
ergue os olhos para mim e eu concordo, recebendo
uma olhada feia em resposta. — Minha sorte é que
não preciso me dar ao trabalho de tentar ficar
bonita para você.
Priscila leva a mão ao peito em um gesto
exagerado e balanço a cabeça. Como se ela
precisasse tentar.
— Escolhe uma blusa para mim — peço,
apontando para o meu armário, e ela vai até lá,
ficando de costas para mim, dando-me uma visão
perfeita da sua bunda.
— Para onde você vai? — pergunta, inclinando-
se, e eu deito na cama para assistir ao espetáculo.
— Rafa, eu consigo sentir seus olhos perfurando
minha bunda — implica, olhando-me por sobre o
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ombro, mas sem levantar, ainda com o traseiro


empinado para mim. — Não são seus olhos que eu
quero aqui — provoca, arqueando a sobrancelha.
Ela sorri, levanta e continua vasculhando o
armário em busca de alguma coisa decente que eu
possa vestir, como se não tivesse falado nada
demais, mas sinto meu pau protestando, pela visão
e pela ideia que ela colocou na minha cabeça. Será
que…?
— Cinema — digo com um pigarro, afastando a
imagem que criei, quando ela me olha, esperando
que eu continue. — Saiu um filme de terror novo.
Eu nem gosto de filme de terror, mas a Raissa
cismou que quer assistir, eu que não vou negar.
Priscila pega uma camisa preta em gola V, um par
de jeans e joga nas costas da cadeira no canto do
quarto. Acho a combinação extremamente simples,
mas ela deve saber o que está fazendo.

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— Raissa é a menina da academia? — pergunta, e


eu confirmo com a cabeça. — Você já está saindo
com ela há um tempo. Ela sabe que…?
Priscila deixa a pergunta no ar, apontando para
nós dois, e entendo o que ela quer dizer. Não sei
com que tipo de homem ela está acostumada a
lidar, mas eu não costumo enganar ninguém. Odeio
meias verdades, odeio mentiras. Sim, Raissa está
mais do que ciente que não estamos juntos, que não
somos exclusivos e que não tenho intenção
nenhuma de que isso mude. Ela não parece estar
interessada em nada além disso também.
Não somos amigos, não temos essa intimidade
toda que eu e Priscila temos de falar de outras
pessoas, coisa que desenvolvemos antes mesmo de
qualquer ideia de sexo entre a gente existir. Mas sei
que Raissa está saindo com outras pessoas também.
Não somos exclusivos, só meio fixos. Quase nunca

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fazemos alguma coisa que não seja sexo. O cinema


de hoje, em uma sessão tarde da noite que sabemos
que vai estar vazia, não foi uma escolha inocente.
— Ela sabe — confirmo com a cabeça, tentando
não ficar ofendido com a pergunta e falhando
miseravelmente.
Ela devia me conhecer melhor que isso. Eu não
estou perguntando se o Calebe, nem os outros caras
que ela pega esporadicamente, sabem que ela não
vai andar por aí com aliança no dedo.
Priscila confirma com a cabeça e vem na minha
direção, montando no meu colo.
— Não faz essa cara — implica, fazendo um bico
exagerado que me faz revirar os olhos. — Eu sei
que você é um cara decente, bonitinho. Não
perguntei por mal.
Balanço a cabeça e ignoro a provocação. Priscila
segura meu rosto na sua direção, olhando-me com
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seriedade e erguendo a sobrancelha para mim.


Suspiro e confirmo, murmurando que tudo bem, e
ela me olha por um instante a mais. Dou os ombros
e balanço a cabeça, dispensando o assunto, mas ela
não desiste.
― Você fica uma gracinha com essa cara ― diz,
jogando o cabelo para o lado, deixando exposto o
decote. Demora um segundo para eu perceber que
ela fez de propósito para me distrair. Funciona. ―
Ei. Não perguntei por mal. Mesmo.
Volto os olhos para o rosto dela e concordo com a
cabeça. Puxo-a para perto, arrastando os dentes no
queixo dela. Priscila se desvencilha do toque e
abaixa a cabeça, mordendo meu pescoço enquanto
murmura provocações debochadas sobre eu ficar
fofo ofendido. Fofo. Eu fico fofo.
Seguro sua bunda e giro, colocando-a de costas
no colchão. Puxo-a até a beirada da cama e ajoelho

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no chão, ergo seu vestido e afasto sua calcinha,


roçando a boca sobre ela. Deixo uma mordida na
sua coxa quando uma risada escapa da garganta
dela e Priscila diz que eu sou muito fácil. Sou
mesmo.
— Você vai ficar fazendo isso para sempre ou vai
me comer, Rafael?
Ergo os olhos e ponho a língua de fora,
percorrendo toda sua extensão enquanto ela solta
um gemido.
— Eu estou te comendo.
Afundo a boca nela sem tirar os olhos do seu
rosto, que rapidamente se transforma em uma
expressão de puro prazer.
Ela me contou mais sobre o tal ex depois que
chegamos aqui, entre doses de tequila. Contou
sobre o relacionamento curto, que para ela parece
ter durado uma eternidade. Disse as merdas que ele
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falou e pude ver nos seus olhos que aquilo a afetou,


mesmo que ela tenha tentado disfarçar com piadas
sexuais e provocações, como sempre. Essa mulher
maravilhosa questionando suas próprias escolhas de
vida por causa de um babaca que estava dando
ataque porque não conseguiu aceitar um término de
namoro não é uma coisa que devia acontecer.
Falei sério quando disse para ela ligar para Calebe
e insisti com a ideia depois, mas ela não quis. Disse
que estava precisando de um amigo, não de uma
foda rápida. Não dessa vez. Então não, não vou
comê-la, não hoje. Eu quero morrer, mas não
posso, não depois de ela ter confiado em mim. Não
estou fazendo nada além de distraí-la para que ela
não fique remoendo a noite passada e dando o
orgasmo que ela tanto queria. Nada mais.
Meu pau latejando na bermuda com certeza vai
chutar minha bunda mais tarde, mas isso posso

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resolver depois. Sozinho no chuveiro, não importa.


Não é sobre mim. É sobre ela ter certeza que pode
fazer o que quiser da própria vida e que não precisa
de um homem escroto tentando decidir por ela. Ela
sabe disso melhor do que ninguém, só precisa de
um lembrete. E se quer gozar, ela vai gozar. Até
não aguentar mais. Só não vai ser surra de pica que
vai receber de mim. É um crime essa mulher ser
fodida indiscriminadamente assim. Esse corpo
merece ser venerado. De quatro com a bunda para o
alto em estocadas fortes, mas venerado. Não hoje,
pelo menos não por mim.
— Faz isso de novo — pede em um gemido.
Prendo as mãos na bunda dela e a chupo em uma
sucção forte, minha língua passeando em seu
clitóris em um oito perfeito. Vejo os dedos dela
afundando no lençol e escorrego os dedos pela sua
coxa, brincando com sua entrada molhada.

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— Só sua boca — pede ofegante, e cravo os


dedos na coxa dela enquanto faço o que ela pediu.
Priscila resmunga pedindo mais e entrego.
Pede, loira. Pede.
Ensina o que você gosta.

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Capítulo 8
O DIA ESTAVA TÃO CALMO QUE CAÍ na
besteira de acreditar que não ia acontecer nenhuma
catástrofe hoje, que eu ia sair do escritório na hora.
Mas não. Claro que não.
Encaro a tela do computador tentando entender o
que são todas essas mensagens piscando. Eu fiquei
cinco minutos sem checar meus e-mails. Cinco
minutos. Não sei nem o que respondo primeiro.
Vejo minha caixa de entrada abarrotada, todos
recebidos nos últimos vinte minutos, todos com o
mesmo assunto, vindos do departamento jurídico.
Que raio de processo é esse? Quem está
processando quem? Tiro o telefone do gancho para
discar para a sala do Eduardo e perguntar o que está
acontecendo, mas meu celular começa a tocar alto.

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Reconheço o toque, fecho os olhos e respiro


fundo, tentando contar até dez quando o som para.
Mas, antes que eu chegue a cinco, o aparelho
começa a berrar de novo.
Não tenho tempo para isso agora, realmente não
tenho. Nem quero ter, não sou obrigada. Rejeito a
ligação e enfio o aparelho na primeira gaveta da
mesa. Resolvo isso depois. Levanto e saio da sala a
passos largos, atravessando os corredores gelados
da empresa, ainda sem entender a necessidade
desse ar-condicionado forte desse jeito. Quando
chego à sala de Eduardo, vejo Juliana sentada à
mesa dela, calma e plena digitando alguma coisa no
computador como se nada estivesse acontecendo.
Franzo a testa e ela abre um sorriso quando me vê.
— Oi, sumida — diz, apoiando o cotovelo na
mesa. — Estou te mandando mensagem desde
domingo para contar do almoço na casa dos meus

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pais e você simplesmente desapareceu. — Ju ergue


a sobrancelha para mim e, quando me limito a dar
os ombros, ela revira os olhos e balança a cabeça.
— Queria saber onde você arruma tempo para sair
com tanta gente assim.
Ela bufa, voltando sua atenção para o
computador, e solto uma risada, inclinando-me a
direção dela.
— Para de fingir que o Edu não toma cada minuto
do seu tempo livre — implico, e ela dá um tapa na
minha mão. Os meses passam e Juliana continua
querendo me matar pelos detalhes que ela diz
serem em excesso. Eu chamo isso de conversa entre
garotas. Ela que é muito recatada.
— Ele está lá dentro — diz, arrancando um dos
seus famosos post-its coloridos do canto da tela do
computador. — Sai daqui com sua taradice e me
deixa trabalhar.

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Rio e dou um beijo na testa dela antes de entrar na


sala de Edu. A possibilidade de eu estar exagerando
desaparece completamente quando vejo a expressão
de pura irritação no rosto dele assim que fecho a
porta atrás de mim. Sento na cadeira em frente à
sua mesa e cruzo as pernas, preparando-me para a
bomba.
— O que aconteceu? — pergunto.
Ele esfrega o rosto e balança a cabeça, olhando-
me como se quisesse matar alguém e chorar ao
mesmo tempo.
— Preciso que você cuide disso para mim —
pede.
Ele pede. Não é uma ordem, como poderia ser.
Isso me assusta ainda mais. É verdade que Edu não
é nenhum chefe escroto, mas ele sabe dar ordens
como ninguém quando é necessário, e essa é uma
situação em que é necessário. Mas ele pede. Estica
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a mão sobre a mesa e entrego a minha, Eduardo a


segura entre seus dedos com firmeza.
— Eu preciso que você cuide disso para mim.
Não, não é uma ordem. Ele está pedindo um
favor, bem desesperado por sinal. Concordo sem
precisar perguntar o que é, porque consigo ver nos
seus olhos a urgência do pedido. Edu concorda com
a cabeça e suspira antes de soltar minha mão e
recostar na cadeira.
— Por que a Ju não está surtando? — pergunto, e
ele levanta os olhos para mim.
— Ela não abre mais nenhum e-mail que vem do
escritório da Lorena. Quem cuida do jurídico agora
é você, nem passa por mim mais — explica, e eu
ergo uma sobrancelha acusadora para ele.
Não sei se estou mais surpresa por Eduardo não
estar dividindo cada detalhe da existência dele com
a namorada ou por ele simplesmente ter delegado
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um departamento inteiro para mim sem me avisar.


Já não bastava ter largado o RH na minha mão.
Vou precisar de um aumento maior do que aquele.
Mas é cada ideia. Deixo a conversa sobre ele estar
jogando a empresa inteira nas minhas costas para
outro dia e foco na mulher sentada do outro lado da
porta, alheia à confusão que está acontecendo. Nem
tento não o encarar com um olhar julgador.
— Foi ela que quis assim, não me olhe desse jeito
— defende-se. — Os últimos que recebemos não
tinham qualquer conteúdo relevante e passavam de
pretextos para tentar marcar reuniões
desnecessárias. Ela perdeu a paciência e disse que
era para eu resolver isso sozinho.
Mordo a boca na tentativa de segurar o riso. É
realmente a cara dela esse pequeno surto e nem
posso dizer que está errada. Arrumo o cabelo e
ajeito a saia, chegando mais para a ponta da

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cadeira, apoiando o cotovelo na ponta da mesa


desorganizada dele. Como alguém consegue
trabalhar nessa confusão de papéis? Eu não sei.
Inclino a cabeça e olho-o com atenção.
— Então a Lorena está processando você por…
não querer dormir com ela?
Eduardo cerra os olhos e me fuzila com o olhar de
um jeito que me diz para levar o assunto a sério,
mas não consigo. Não dá! Essa mulher está no
encalço do Edu há anos. Não posso culpá-la tanto
assim por não ter desistido porque meu querido
amigo é educado demais para dar um passa fora
definitivo em alguém, embora nunca tenha a
encorajado. Ele presa demais as relações
comerciais da empresa para perder uma cliente
importante como essa por questões pessoais. Mas
que a ruiva quase teve um treco depois de conhecer
Juliana, isso teve. Esses dois podem até estar

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achando que estão sendo discretos, mas não


enganam ninguém. Qualquer um com dois olhos e
um mínimo de bom senso consegue ver que tem
alguma coisa acontecendo.
— A empresa que ela trabalha — ele corrige —
está processando por alguma falha no contrato. Não
recebemos nenhuma notificação oficial ainda, só
um e-mail de cortesia avisando antes de medidas
serem tomadas, porque parece que alguém quer
conversar e evitar os custos de um processo, ou o
que quer que seja que estão buscando — diz com
irritação na voz. — Marquei uma reunião para
terça-feira com ela.
Mas por que tão longe? Hoje ainda é quarta-feira,
isso é quase uma semana de distância. Eduardo não
costuma empurrar as coisas com a barriga assim.
Vejo seu olhar fixo na porta atrás de mim e
entendo. Juliana. Ele acabou de conhecer os pais

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dela, como dois adolescentes, e eles estão


finalmente se acertando. Ju parou de fugir, de
procurar motivos para não ficar com ele. Depois de
meses, os dois finalmente estão bem e ele não quer
que Lorena estrague isso.
— Ela não é uma garotinha indefesa, você sabe.
Edu concorda com a cabeça, respirando fundo
antes de olhar para mim de novo.
— Não é.
Sorrio para a cara de preocupação dele.
— Mas você é um garotinho indefeso perto dela
— implico, e ele me olha de cara feia, o que me faz
rir. — Confessa, Edu. Você está inteirinho nas
mãos dela.
Ele abre um sorriso e inclina a cabeça. Todo bobo
apaixonado e nem disfarça. Homens. Levanto da
cadeira e aliso minha blusa, tirando um fiapo solto.

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— Vou resolver isso para você — digo,


despedindo-me, e ele acena em agradecimento
enquanto deixo a sala. Quase posso ouvir o suspiro
de alívio quando recosta na cadeira.
Atravesso a porta, dou um beijo na cabeça de Ju e
volto para a minha sala, olhando-a por sobre o
ombro. Ela pode negar, mas já está completamente
envolvida nesse relacionamento. Tudo bem, é
verdade que ela não estava exatamente procurando
por isso, mas Juliana é uma romântica incurável e
não tem par mais perfeito para ela do que aquele
velho rabugento. Ju tem sorte de ter um homem
como esse, capaz de mover o mundo por ela, já que
é o que ela gosta de ter na vida.
Essa história do processo é um bom exemplo. Se
fosse outra época, Eduardo já estaria arrancando os
cabelos e colocando todo mundo da empresa de
prontidão para resolver esse problema, mas não. A

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primeira coisa na mente dele é Juliana. Ela é tudo


que importa agora. Ele colocaria o mundo abaixo
por ela e esse nível de devoção é uma coisa que
nunca vi antes.
Isso me faz querer fugir para as montanhas, como
Ju gosta de dizer.
Não consigo me imaginar enroscada na vida de
alguém desse jeito. A ponto de colocar meu
trabalho em risco porque meu julgamento está tão
embaçado por amor? Não. É irresponsável demais.
É por isso que me dou tão bem sozinha, sou minha
única prioridade. Admiro os dois por conseguirem
fazer funcionar e não tem ninguém que torça mais
por eles do que eu, mas simplesmente não consigo
imaginar isso na minha vida. Fazer de outra pessoa
minha prioridade não é um conceito que eu
entenda. Sou egoísta demais para isso e não tenho
problemas em admitir. Não minto para ninguém,

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nem para mim mesma.


Onde está esse infeliz do Leonardo?
Paro em frente à minha sala e encaro a mesa vazia
do homem que deveria estar trabalhando aqui.
Minha paciência com ele está cada dia menor.
Favor para minha tia uma ova, ele vai para rua já,
já. Apanho eu mesma a pasta que preciso e vou
para a minha sala e, no segundo em que fecho a
porta, consigo ouvir o toque abafado do celular
preso na gaveta. Ando até minha mesa e sento na
cadeira, tirando alguns segundos para pensar em
gatinhos fofos e unicórnios e na pegada gostosa do
moreno, que vou encontrar de novo hoje, antes de
atender a ligação.
— Oi, pai — digo já com um suspiro cansado,
sabendo o que vem por aí.
Como esperado, ele nem dá boa tarde antes de
começar com a série de reclamações. Sou uma filha
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horrível, eu sei. Já deixou isso bem claro.


— Você sabe que dia é hoje, Priscila? —
pergunta. Nada mais é do que uma pergunta
retórica, é claro que sei que dia é hoje. Nem
respondo, porque sei que ele não está esperando por
uma resposta. — Vai se dar ao trabalho de
aparecer em casa ou vai passar a noite na esbórnia
que nem você sempre faz?
E aí estamos nós. Nem demorou dessa vez. A
vontade é nem ir mesmo, já que ele espera tão
pouco de mim de qualquer forma.
— Vou aparecer, pai — respondo, esforçando-me
com tudo que posso para manter o tom neutro. —
Assim que sair do trabalho, eu passo aí.
Tento repassar na cabeça minha agenda para hoje
e acho que vou sair antes do expediente terminar,
infelizmente. Quando preciso, não tem nenhuma
reunião de emergência, o prédio não pega fogo, o
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mundo não desaba. É verdade que esse processo é


motivo o suficiente para eu me afundar no trabalho,
mas não tem muito que eu possa fazer neste
momento. Não tenho para onde fugir.
— Agora vê se pode uma coisa dessas —
reclama. — O aniversário é meu e tenho que ficar
esperando sua boa vontade. Sabia que sua mãe não
devia ter enfiado essas ideias na sua cabeça, olha
só a sua vida. Até sei lá que horas em um
escritório, isso não é trabalho de mulher. — Estava
demorando. — Vai se dar ao trabalho de trazer
alguém dessa vez?
Vou. Vou contratar um ator para fingir que é meu
marido e duas crianças lindas para serem meus
filhos e fazer todo mundo feliz.
— Não estou com ninguém, você sabe disso.
— É claro que não! Só sabe trabalhar ao invés de
estar se preocupando em arrumar um bom marido
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e me dar netos. Você não está ficando mais nova,


Priscila. Daqui a pouco ninguém vai te querer
mais.
Em dias como esse eu dou graças aos céus por
isso. Não ia ser tudo mais fácil se fosse o caso?
Ninguém me quer, pai, não é minha culpa,
infelizmente vou ter que morrer sozinha e não
atender às suas expectativas. Não tem
absolutamente nada que eu possa fazer por isso.
Mas, como sempre, as palavras ficam entaladas.
A vontade de responder é grande, mas
simplesmente ignoro, porque não vale a pena. Foi
difícil o suficiente aguentar essa cobrança durante
meus vinte anos, pelo menos agora eu tenho a
maturidade que não tinha e sei simplesmente deixar
entrar por um ouvido e sair pelo outro. A verdade é
que jamais vou viver a vida que Aloísio quer para
mim, não vou casar e ter filhos nem comprar uma

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casa e um cachorro, largar o emprego e passar as


tardes fazendo bordados. Exatamente a vida que ele
forçou minha mãe a ter por tanto tempo, e ela não
podia ter sido mais infeliz. Não vai acontecer. Sei
que ele nunca vai aceitar o caminho que escolhi,
nem tento discutir mais.
Sinceramente só evito contato. Evito a fadiga.
Desde que saí de casa, não pisei naquele lugar dia
nenhum além de aniversário e Natal, por não mais
do que algumas horas nessas ocasiões. Uma parte
de mim se sente culpada pela distância, tento me
convencer de que ele me ama desse jeito tosco dele,
mas não dá para engolir esse tipo de amor. Não dá
mesmo.
— Vou estar aí às seis — respondo, desesperada
para colocar fim na conversa. Não tem santo que
tenha paciência para essas coisas.
Ouço o som de alguém batendo na porta e uso

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isso como a desculpa perfeita para desligar antes


que ele fale alguma besteira e eu arrume briga.
Mais uma vez. Falo alto o suficiente para meu pai
ouvir, dizendo que a pessoa entre.
— Vou ter que desligar, estão me chamando —
falo e vejo a cabeça de Rafael enfiada pela porta.
Indico com a mão para que ele entre. — Até mais
tarde, papai. Daqui a pouco estou aí.
Ele desliga. Simples assim. Sem dar tchau, sem
mandar beijo, sem um “boa tarde”. Ele desliga.
Queria dizer que estou surpresa, mas não estou.
Forço um sorriso no meu rosto e apoio os cotovelos
na mesa, levando o queixo às minhas mãos
enquanto vejo Rafael parar de pé na frente da mesa,
tamborilando em uma pasta que está segurando.
— O que tem de errado com você? — pergunta,
sentando confortavelmente na cadeira, desabando o
corpo como se fosse um saco de cimento. Fique à

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vontade, bonitinho. — Você está com uma coisa


esquisita no rosto fingindo que é um sorriso, mas
você é péssima nisso. Parece que está tendo um
derrame. Você consegue assinar seu nome? Pega
uma folha e vê como está sua assinatura. Vi num
programa que você não consegue assinar seu nome
se estiver tendo um derrame.
Rio de verdade com a implicância e tagarelice
descabida, imediatamente me sentindo um pouco
mais leve. Recosto na cadeira e olho para o loiro à
minha frente que, apesar da brincadeira, me olha
com preocupação. Não tive notícias dele desde que
saí da sua casa no domingo. Agora o bonito aparece
aqui como se nada tivesse acontecido.
Do jeito que eu gosto.
— Você sabe como elogiar uma mulher —
respondo, e ele coloca a pasta em cima da mesa,
empurrando para mim. Abro-a, passo os olhos no

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conteúdo e levanto a cabeça, encarando-o. Rafael já


está revirando os olhos e erguendo as mãos.
— Eu sou só o mensageiro — diz já se
defendendo. — É o Renato que você quer matar.
Aquele homem gosta de me dar dor de cabeça.
Fecho a pasta e solto em cima de uma pilha de
documentos. Hoje não. Amanhã. Renato que
espere.
— Ainda não disse qual o problema, loira. Você
está com uma cara horrível. — Rafa inclina a
cabeça e me olha com atenção.
Fico tentada a contar para ele. Fico de verdade,
porque sei que Rafael é um bom amigo e vai me
ouvir, como fez com Marcos. Mas só a ideia de ter
que colocar para fora os dramas que eu nem queria
que existissem na minha vida me faz querer encher
a cara. Dispenso.
— Vou encontrar com o Calebe hoje e não sei o
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que visto — respondo, fazendo um bico exagerado.


— Não vai me dizer que vocês fazem aquele
negócio esquisito de chamar o cara de papai — diz,
arqueando uma sobrancelha. — Quem sou eu para
julgar, cada um com seus gostos, mas não consigo
entender isso. Tanta coisa para chamar a pessoa na
cama, vai lembrar de família logo quando está sem
roupa? Não entendo essas coisas não.
Rio da tagarelice sem sentido dele.
— Do que você está falando? — pergunto.
Depois a doida sou eu.
— Você falou “tchau, papai” quando entrei —
aponta, e eu mordo a boca para segurar o riso. —
De todos os fetiches que imaginei que você teria,
esse não estava na lista.
Fico curiosa para saber o que esse moleque sabe
de fetiches. Quais os dele. O que ele esconde
debaixo dessa carinha de bebê disfarçada por uma
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barba bem-feita. Sei que a pegada dele me


surpreendeu, embora não tenha tido o pacote
completo. Mas até aí a do Calebe me surpreendeu
também. Ou meus critérios estão muito baixos ou
eu estou com uma sorte danada.
Não sou muito de ter caras fixos porque, mais
cedo ou mais tarde, as coisas sempre se complicam.
Mas a coisa foi boa com o moreno e vale a pena o
repeteco, fora que ele parece ter entendido bem
como as coisas funcionam, me mandou mensagem
e vou encontrá-lo na casa dele. Simples e sem
problemas.
— Estava falando com meu pai no telefone. — Eu
me pego explicando. — Digamos que ele não é
meu melhor amigo.
São poucas pessoas que sabem da minha relação
difícil com ele. Marcos sabia. Juliana sabe. A
preocupação genuína nesses olhos acinzentados faz

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com que eu me sinta à vontade para conversar com


ele, ainda que não em muitos detalhes. Fico
esperando a enxurrada de perguntas, mas, assim
como fez quando me encontrou discutindo com o
meu querido ex-namorado no casamento, Rafael
escolhe outro caminho: tirar completamente a
seriedade da situação.
— Não imaginei que logo você teria uma vida
clichê desse jeito, loira. — Posso ouvir a
implicância na sua voz e um sorriso vitorioso
cresce em seu rosto quando olho para ele, confusa.
— Problemas com o pai? Sério?
Reviro os olhos para a provocação. Sei bem o que
ele está insinuando e nem de longe me enquadro no
padrão de menina insegura com problemas de
relacionamento por causa do pai. De insegura não
tenho nada e não tem como ter problemas de
relacionamento se não existe relacionamento. Se eu

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não conseguisse ver nessa cara descarada dele que


ele está brincando, eu daria um tapa.
— Você não tem trabalho para fazer não? —
pergunto, e ele ri, levantando da cadeira e indo em
direção à porta. — Antes que eu esqueça, ainda
estou esperando seu currículo atualizado. — Rafael
me olha por sobre o ombro com o cenho franzido.
— Você não disse que ia aplicar para a vaga nova
que abriu no sexto andar? Pode não parecer, mas
pelo visto quem vistoria as contratações sou eu.
Rafael recosta no batente e me olha com atenção.
— Eduardo está te entupindo tanto de trabalho
que não achei que logo você fosse cuidar disso —
diz, e concordo com a cabeça. Não posso dizer que
ele está errado, mas também não posso dizer que
não adoro. — O quanto ele me odeia? Juliana não
fala comigo tem mais de um mês, mas ele sempre
me trata com muita educação quando passa por

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mim nos corredores. Aliás, nunca o vi ser estúpido


com ninguém. Parando para pensar, por mais puto
que eu tenha ficado com sua amiga, se é para fazer
ciúmes em alguém, que seja em Eduardo. Isso até
afaga meu ego.
Quê?
— Tudo bem que ela não precisava arrumar
aquela presepada toda. Eu achei que a gente fosse
amigo.
Ele murmura a última parte, fazendo uma cara de
cachorro abandonado que dá vontade de apertar.
— Pelo amor de Deus, Rafael — interrompo,
dispensando a tagarelice desenfreada dele com a
mão. — Para de drama que vocês dois nunca foram
amigos. Duvido que você saiba alguma coisa da
vida dela ou ela da sua, ou que se importem
minimamente um com o outro.
Ele abre a boca para se defender, mas não diz
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nada. É a primeira vez que vejo Rafael sem


palavras e o encaro por alguns segundos,
aproveitando o momento. Ele fala mesmo quando
não tem nada a dizer, a voz dele é quase música
ambiente, constante e ininterrupta.
— Tem nada que ficar puto com ninguém não.
Vocês se pegaram, não deu certo e vida que segue
— digo, encerrando o assunto.
Ele nega com a cabeça.
— Não gosto que mintam para mim, loira — diz,
dando os ombros, assumindo uma postura séria que
é desconhecida para mim. — Não custava também
ter sido honesta. Eu não ia me importar nem um
pouco em esquentar cama enquanto ela não se
entendia com o outro lá — fala, e preciso segurar o
riso. O homem não tem nenhum orgulho próprio,
não é possível. — Mas tenho o direito de ficar puto
por ela ter feito aquele joguinho ridículo.

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Concordo. Juliana errou feio. De todas as


escolhas que poderia ter feito, acho que decidiu
pela pior possível. Mas tenho a obrigação de
defender minha amiga para o mundo, mesmo que
com ela eu brigue como se fosse minha filha.
— Tudo bem que eu e ela não somos melhores
amigos de infância nem nada, com certeza nada
nem parecido com o que eu tenho com você, mas
ainda assim ela podia…
— Com o que você tem comigo? — interrompo.
Está usando-me de parâmetro de comparação
agora, é?
Ele concorda com a cabeça.
— A gente é amigo, ué — diz com a simplicidade
digna de uma criança de três anos. — Você tem
razão, não sei nada da Juliana e nem me importo
tanto assim. Ela é legal, mas é isso. Mas sei de
muita coisa de você, gosto de muita coisa em você
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e, seguindo o seu critério de amizade, me importo


muito com você. — Ele dá os ombros quando
termina de usar os dedos para fazer sua lista,
repetindo o que falei. — Somos amigos. Muito
amigos.
Somos, de fato. Parando para pensar, é
exatamente isso. Nossa relação já deixou de ser de
colegas de trabalho há muito tempo e nem digo isso
por causa do protótipo de sexo do fim de semana.
Quando se chega a ponto de eu receber mensagens
com fotos aleatórias de gatos que ele vê na rua, é
impossível negar: somos amigos sim. É boa essa
sensação. Faz tempo que não tenho alguém assim
na minha vida.
A busca pelo P.A. continua. Ainda não cortei o
bonitinho da lista.
Rafael se despede de novo e abre a porta para sair
da sala.

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— Rafa — chamo mais uma vez, e ele me olha de


cara feia por sobre o ombro. Ignoro. — Almoço
amanhã? — convido, e ele concorda com um
sorriso no rosto. — Vou precisar te contar tudo do
meu encontro com o Calebe hoje — implico.
Ele suspira e me olha com um semblante meio
desesperado, arrastando a mão pelo cabelo.
— Ótimo, porque aconteceu uma coisa bizarra
com a Raissa no domingo e eu preciso dividir com
alguém — diz e sacode a cabeça como se estivesse
tentando se livrar da ideia.
Rio e o dispenso com a mão, que faz uma cara de
deboche e sai da sala. Volto minha atenção para os
papéis na minha frente e dou prioridade para a
pasta marcada com os infinitos post-its coloridos de
Juliana, mas não demoro muito nisso. Começo a
encerrar tudo para ir até meu pai, tomando coragem
e respirando fundo enquanto pego o elevador e vou

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até a garagem. Entro no carro e encaixo meu


celular no suporte. Quando estendo a mão para
ligar a música, vejo duas mensagens piscando na
tela.

Confirmado para mais tarde?

Respondo a mensagem de Calebe dizendo que


sim e aviso que vou estar na casa dele às onze. Vou
mesmo precisar de uma boa sessão de desestresse
depois de sair da casa do meu pai. Já vou
preparando-me para as besteiras que vou ouvir.
Rolo a tela e abro a outra mensagem, soltando uma
gargalhada no estacionamento vazio.

Acabei de lembrar que amanhã é dia de feijoada


naquele restaurante. Agora sim você vai saber o

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que é uma comida boa de verdade para te fazer


gemer daquele jeito. Aquela lasanha não estava
para isso tudo.

O pior de tudo é que ele nem percebe as besteiras


que fala. Se não o conhecesse, diria que finge essa
inocência toda, mas já descobri que é real.

Estou aceitando uma boa comida para me fazer


gemer, fico feliz que tenha se oferecido.

Dou a partida no carro e começo a dirigir.


Configuro o GPS só por hábito mesmo, porque sei
chegar naquela casa de olhos fechados. Vivi por
mais de vinte anos ali, não é o tipo de coisa que se
esqueça, embora tenha coisas que eu simplesmente
prefira não lembrar. Paro em um sinal e checo o

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telefone, que apita com outra mensagem.

Demorei a entender essa. Você é insana. Tenha


uma boa noite com seu moreno, doida. Pede para
ele a comida que tenho certeza de que ele vai te
dar.

Coloco o celular de lado quando o sinal abre e


volto a dirigir, rindo sozinha pelo restante do curto
caminho. Quando estaciono o carro e desço,
andando em direção à porta da frente, sabendo a
bomba que me espera, checo o celular mais uma
vez e dou de cara com um link para um vídeo de
um filhote de gato correndo atrás de um fio de lã.
Subitamente não me sinto mais tão carregada.
Obrigada, bonitinho.

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Capítulo 9
ENFIO UM PEDAÇO DE BOLO NA BOCA
para evitar falar alguma coisa. Sorrio quando um
primo passa por mim e me dá um beijo no rosto,
despedindo-se. Afinal, é quarta-feira e todo mundo
trabalha do dia seguinte.
A comemoração foi pequena, só para não passar
em branco, como sempre fazemos nessa família.
Pode todo mundo quebrar o pau que for o ano todo,
mas nos aniversários tudo sempre se resolve. O que
quer dizer que todo mundo se faz de doido e finge
que não quer se matar por algumas horas.
Minha família não é enorme. Não tenho irmãos,
mas até tenho muitos primos, e sou a mais nova por
muitos anos de diferença. Vejo os poucos parentes
que apareceram começarem a se despedir e olho

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para o relógio, que marca nove e meia.


— Foi bom ver você, querida. — Abro um sorriso
carinhoso para minha tia, única irmã do meu pai,
que vem falar comigo antes de ir embora. Ela puxa
uma cadeira e senta do meu lado. — Como está a
vida, pequena?
Encaro seus olhos castanho-claros acolhedores,
seus cabelos escuros e encaracolados. É como se a
gente nem fosse da mesma família. Puxei a minha
mãe todinha, pelo menos na aparência física. O
cabelo claro do lado dela da família, com quem
nem tenho tanto contato porque moram todos em
outro estado. Na verdade, estou devendo uma visita
faz anos já. Quem sabe nas minhas próximas férias
não vou a Brasília visitá-los? Mal tive tempo de
passar para dar um “oi” na última viagem a
trabalho que fiz. Quando essa visita vai ser, já não
sei. Nem lembro a última vez que tirei férias. O

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mais surpreendente é que não estou reclamando


nem um pouco disso.
— Tudo muito bem, tia — respondo, com um
sorriso sincero no rosto. — As coisas não podiam
estar melhores no trabalho, na verdade.
Sinto o cheiro de uma promoção chegando já, já.
O aumento de salário já veio semana passada e
tenho certeza de que se conseguir resolver essa
história desse processo descabido, vou ser bem
recompensada. Verdade seja dita, Eduardo é capaz
de dar o mundo inteiro para quem conseguir evitar
algum problema entre ele e Juliana. É mais verdade
ainda que eu pessoalmente sou capaz de dar na cara
de quem tentar atrapalhar a felicidade dos dois.
— Fico feliz que sua vida esteja nos eixos. Você
sempre trabalhou muito duro para conseguir tudo,
Pri. Sua mãe teria muito orgulho de você — diz,
com o semblante mal disfarçando a tristeza. Aceno

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com a cabeça em concordância. Ela afaga meu


ombro e se levanta. — Não deixe ele te desanimar.
— Aponta com a cabeça para a porta por onde meu
pai está entrando. — Você sabe o que faz melhor
do que qualquer um dessa família.
Ela pisca para mim e sai. Ouço o barulho da porta
sendo fechada no momento em que Aloísio senta
na cadeira onde a irmã estava. Alcanço minha bolsa
pendurada das costas da cadeira e apanho a caixa
embrulhada.
— Feliz aniversário, pai — digo, entregando a
ele, que sorri.
É isso que sempre me mata. Ele está feliz em me
ver e me sinto um monstro por não querer estar
perto com mais frequência. Afetivamente falando,
isso é bem recorrente. Envolvimento emocional
nunca foi meu forte.
— Obrigado, filha — responde, pegando a caixa e
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cuidadosamente abrindo a embalagem. Enfio outro


pedaço de bolo na boca, observando suas feições
envelhecidas. O cabelo já completamente branco,
as rugas ao redor dos olhos. Os olhos castanhos
ficando mais opacos a cada ano.
Não dá para negar que uma parte dele morreu
junto com a minha mãe, muitos anos atrás.
Praticamente uma vida inteira se passou depois
daquele dia. Não dá para negar também que ele fez
o melhor que pôde para terminar de me criar
sozinho, mesmo que eu já não fosse mais uma
criança, sei que não foi fácil. Reconheço o trabalho
que foi, mas não consigo aceitar o tipo de vida que
ele espera de mim e mentalmente imploro que ele
só agradeça pelo presente e a gente possa terminar
a noite em paz.
— Isso deve ter custado uma fortuna, filha — diz,
tirando a caixa o relógio que escolhi. Sorrio e

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dispenso o comentário com a mão, dizendo que não


foi nada. Não foi mesmo. Ele suspira e devolve o
relógio para a caixa, estendendo a mão sobre a
mesa, chamando pela minha. Enfio mais um pedaço
de bolo na boca, sentindo que vou precisar do
conforto do açúcar que quase nunca consumo
quando alcanço os dedos dele. — Estou
preocupado com você.
É claro que está. É minha vez de suspirar. Sigo
mastigando o bolo, esperando-o continuar.
— Você sabe que esse tipo de coisa intimida os
homens, não sabe? — pergunta, e ergo a
sobrancelha, esperando para ver onde isso está
indo. — O jeito que você se veste, o jeito que fala
alto, sempre de maquiagem, o perfume caro. — Ele
pega o relógio e aponta para mim, como se fosse
uma acusação. — Presentes caros.
Ele aperta meus dedos entre os seus e me olha

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com olhos tão preocupados que não sei se rio ou se


choro.
— Se tem uma coisa frágil neste mundo é o ego
masculino, Priscila. É assim que tem que ser.
Qualquer homem que se sinta bem tendo uma
mulher que ganhe mais que ele, que o sustente, que
se ache tão autossuficiente quanto você se acha…
Um homem assim não tem orgulho próprio
nenhum.
Se tem uma coisa que concordo é que o ego
masculino é uma coisa muito frágil mesmo. Ô raça
para precisar se achar no controle de tudo. Homem
nenhum vai mandar na minha vida, nunca, isso é
simples e já está decidido. Menos na cama, estou
aberta para quase qualquer coisa nesse quesito.
— Eu sei que acha que está feliz assim — ele
continua —, mas você precisa de alguém do seu
lado. Quem vai estar por perto quando você ficar

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doente? Quando tiver algum problema? Quem vai


cuidar de você?
— Eu cuido muito bem de mim mesma, pai —
digo na esperança de dar o assunto por encerrado.
Não posso negar que me machuca saber que nada
do que eu sou ou conquistei importa para ele,
porque tudo que meu pai quer é me ver lindamente
casada e com filhos. Coisa que nunca vai acontecer,
porque estou muito bem, obrigada, sendo dona da
minha própria vida e liberdade. Preciso segurar
uma risada quando me dou conta que Rafael está
certo: minha vida parece um clichê gigantesco. A
menina com problemas paternos que não consegue
se relacionar. Mas é engraçado porque isso nem é
verdade. Eu consigo me relacionar, só não quero.
Gosto mais da minha liberdade do que da ideia de
passar a vida com alguém, só isso.
— Priscila…

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Interrompo-o antes que ele possa dizer mais


alguma coisa. Sei bem onde isso está indo e não
estou com vontade de terminar a noite com outra
briga pela mesma coisa de sempre. Parece que só
existe um assunto entre nós dois e não tenho
nenhum interesse em continuar debatendo isso.
— Preciso acordar cedo amanhã, pai — digo. Não
é mentira. Levanto da cadeira, despedindo-me, e
pego minha bolsa, já procurando a chave do carro.
Meu carro. Que comprei com o meu dinheiro. Do
meu trabalho. Não vou me desculpar por isso. Não
vou me desculpar por não precisar de um homem
para me bancar. Se ele não consegue entender isso,
infelizmente não tem nada que eu possa fazer.

Espreguiço-me na cama, sentindo meu corpo


dolorido, e pego a taça de vinho praticamente vazia
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que está em cima da mesinha ao lado da cama


muito confortável a qual fui apresentada. Deixo
meus olhos correrem pelas costas largas e
bronzeadas do moreno de pé na minha frente,
mexendo em alguma coisa dentro do armário.
Estico a mão e apanho meu celular na bolsa,
olhando a hora. Essa vai ter que ser a primeira e a
última taça que bebo para eu poder dirigir sem
problemas.
Estico os olhos para ele mais uma vez e calculo
que devo ir embora daqui a meia hora. Ele se estica
para apanhar alguma coisa na prateleira mais alta e
tenho o vislumbre da frente do seu corpo
completamente descoberto.
Uma hora. Uma hora e meia no máximo. De duas
não passa.
— Como foi seu dia? — pergunto, tomando um
gole.

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Calebe para o que está fazendo e vira de frente


para mim, olhando-me confuso. Preciso fazer um
esforço muito grande para continuar olhando para o
rosto dele e não para todo o resto do seu corpo nu,
mas ele me ajuda, enfiando de volta a cueca antes
de vir na minha direção. Faço um bico em protesto
e ele sorri.
Calebe sobe na cama e toma a taça da minha mão,
bebendo ele mesmo dali antes de descer a boca ao
meu pescoço.
— Achei que você quisesse manter isso o mais
impessoal possível — diz, sentando-se ao meu
lado. Ele estende a mão, chamando-me para o seu
colo, mas nego.
Tem alguma coisa muito pessoal em conversar
enroscada no colo de alguém, um nível de
intimidade muito grande, de conforto e
proximidade. Não nego que adoro a posição, mas

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não para jogar conversa fora. Perguntei sobre o dia


dele, não o tamanho do anel que ele usa para
comprar uma aliança.
Dou os ombros, inclinando-me para fora da cama
para catar a blusa dele que rolou pelo chão no
instante em que entrei no quarto.
— Conversar nunca matou ninguém — digo, e ele
me dá um sorriso satisfeito antes começar a
responder a minha pergunta enquanto eu passo a
peça pela cabeça.
Rio enquanto ele reclama do chefe dele e me
esforço para encontrar alguma coisa que valha a
pena dividir sobre o meu dia também, enquanto
intercalamos goles da bebida doce. No fim das
contas, nem encontro nada de relevante para contar.
Troquei mensagens com a Ju mais cedo, assim
que saí da casa do meu pai, antes de chegar ao
apartamento de Calebe, contando da noite. Ela,
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como sempre, me disse para fazer o que eu quisesse


da minha vida, o que me fizesse feliz e que
ninguém tinha nada com isso. Que qualquer cara
que tentasse me mudar simplesmente não valia a
pena. Eu concordo com ela. Tentei fazer drama
para convencê-la a ir para a balada comigo na
sexta, mas foi em vão. Juliana é a rainha do drama
e nunca cai nos meus, até porque sou péssima
nisso, como ela mesma insiste em dizer o tempo
todo.
— Posso perguntar o motivo disso, senhorita não-
vou-a-encontros? — Calebe pergunta, curvando
sobre mim, sua mão subindo por debaixo da minha
blusa. Só então percebo que ele acabou a história
que estava contando. — Até porque você perguntou
do meu dia, mas não me disse nada do seu.
Eu me estressei com meu pai de novo, não é o
tipo de coisa que contaria para um cara que peguei

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duas vezes. Não é o tipo de coisa que eu contaria


para cara nenhum que pego. Processo na empresa,
Eduardo desesperado, seleção para a vaga que abriu
na contabilidade, coisas banais de trabalho que não
vejo relevância em dividir com ninguém. É por isso
que não tenho conversas com peguetes. Falar sobre
o quê?
— Nenhum motivo em especial — respondo,
ignorando o comentário. — Você não é uma
péssima companhia.
Abro um sorriso debochado e ele morde meu
lóbulo, enroscando a mão no meu cabelo.
— Parece uma boa hora para tentar arriscar te
convidar para jantar amanhã — diz, e sinto-o
separar minhas pernas e se posicionar
perfeitamente em cima de mim. Quero gritar
“camisinha”, mas não preciso porque são os dedos
dele que descem e me provocam.

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— Não abusa da sorte.


Calebe fica em completo silêncio por um instante,
mas seus dedos não param, então não estou
reclamando.
— Que tal você voltar para tomar outra taça de
vinho pelada na minha cama amanhã? — propõe,
aumentando o estímulo. Concordo em meio a um
gemido e ele ri. — Dois dias seguidos contam
como um encontro para mim.
Ouço o barulho da gaveta e do preservativo sendo
abertos segundos antes de senti-lo inteiro dentro de
mim. Não vi para onde foi a cueca que ele estava
vestindo, nem processei como ele arrancou a blusa
que vesti. Nem tenho tempo para responder à
gracinha que Calebe disse porque quase
imediatamente ele estabelece o ritmo bruto que eu
já estou começando a conhecer muito bem. Ao
ritmo que adoro.

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—Acho que sei como te levar a um encontro —


diz em meio a estocadas, ainda me surpreendendo
com o completo controle que ele parece ter da
situação, mal se alterando enquanto eu me desfaço
completamente debaixo dele. — Talvez se eu
sugerir te pegar no banheiro do restaurante você
saia para jantar comigo. O que acha, gostosa?
Acho que talvez ele tenha razão.

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Capítulo 10
VOU MESMO PRECISAR DAQUELA
promoção se eu continuar tendo que comandar
reuniões com essa frequência toda. Dessa vez, Edu
nem se fez de rogado, só entrou e sentou em uma
cadeira qualquer e me olhou, esperando que eu
liderasse a coisa toda, sem aviso prévio. Não dá
nem para reclamar e fingir que foi muito difícil ou
que eu não gostei, porque ele mesmo sabe que não
é verdade. Por isso faz essas graças e joga as coisas
nas minhas costas.
— Priscila. — Levanto os olhos da ata que
Juliana redigiu e encaro Renato que está vindo em
minha direção. — Eu preciso de aprovação para o
orçamento da próxima campanha de marketing —
diz, e eu franzo o cenho para ele. — Eduardo
mandou falar com você. Encontrei com ele no
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elevador.
Ah, que ótimo. Por que não estou surpresa?
— Envia o orçamento para a Marcela — digo,
voltando minha atenção para a ata. Teve coisa
demais discutida na reunião e nós duas precisamos
ter certeza de que está tudo certo. Já tive o
suficiente de dor de cabeça por uma semana com o
jantar com meu pai ontem, não preciso de mais
nada.
Eduardo saiu da reunião assim que terminou,
correndo para o galpão. Não sei qual a emergência,
nem se existe uma ou se ele apenas estava ansioso
para ir para lá. A certeza que eu tenho é que ele
nem queria estar aqui essa manhã para começo de
conversa e desapareceu assim que pôde.
Desvio o olhar para Juliana, que mantém os olhos
fixos no papel sem disfarçar a careta de
insatisfação. Sei que ela está controlando-se para
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não voar no pescoço de Renato. Eu mesma não


engoli o jeito que ele falou com ela, mesmo que
tenham se passado algumas semanas agora. Ele não
é uma pessoa ruim, até onde eu sei, mas tem uns
comportamentos que realmente dá vontade de
bater.
— A Marcela não decide nada aqui — responde.
Juliana pode até se controlar para não revirar os
olhos, mas eu não. Praticamente bufo quando olho
de novo para ele.
— Mas pelo visto o Eduardo decidiu que eu
mando e estou dizendo para você enviar o
orçamento para ela.
A chefe do departamento de contabilidade com
certeza sabe mais sobre o dinheiro disponível em
caixa do que eu. Não tem cabimento passar por
cima dela nisso, mesmo que no fim das contas a
decisão final seja do Eduardo. Se Renato não quer
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entender isso, o problema é todo dele. Ergo a


sobrancelha para o homem que continua olhando
para mim como se eu fosse louca e espero que ele
fale mais alguma coisa.
— Eu realmente não acho que as decisões do meu
departamento deveriam ficar nas mãos de uma
pessoa que não sabe nada do meu trabalho — diz e
até concordo com isso. Estou a ponto de propor que
todo mundo sente para discutir isso em conjunto,
ou que cada um redija um relatório e me mande
para analisar, mas é claro que ele tem que continuar
falando e me tirar do sério. — Eu não acho que
aquela mulher tenha qualquer qualificação para
decidir o que deve ou não ser feito pela imagem
desta empresa.
Isso é o suficiente para Juliana parar de se fingir
de morta e deixar claro que quem ela quer morto é
o homem a nossa frente.

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— Essa mulher aqui — diz, apontando para mim


— tem qualificação mais do que o suficiente para te
dizer o que fazer. Ela está dizendo para você falar
com a Marcela.
Tento segurar o sorriso, mas não consigo.
Mentira, nem tento.
— Quero isso na minha mesa na segunda-feira de
manhã, no máximo.
Renato abre e fecha a boca algumas vezes e
consigo ouvir daqui todas as besteiras que ele quer
falar, mas sabe que não pode pelo bem do emprego
dele. Retiro o que eu disse, ele não é uma boa
pessoa não. Inicialmente achei que o problema dele
fosse exclusivamente com Juliana pela suposição
ridícula que ela é boa no que faz por causa de
Eduardo, afinal mesmo que os dois estejam
achando que ninguém percebe que eles estão
juntos, todo mundo sabe. Irrita-me muito que o

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comportamento dos outros só ajude a justificar


todos os medos dela, toda a insegurança em se
relacionar com o chefe.
Perdi a conta de quanto tempo passamos essa
manhã, antes da reunião começar, discutindo cursos
e especializações que ela quer fazer. Mesmo assim
sempre tem, e sempre vai ter, um babaca que vai se
comportar como se ela só estivesse onde está, que
só vai chegar onde vai chegar, porque está
dormindo com Edu.
Renato, sem dúvida, encabeça esse time. Tudo
bem que foi Fernanda que começou com a gracinha
e Juliana nutre uma raiva eterna da mulher. Não
ajudou em nada o irmão dela, contra todas as
expectativas do universo, começar a namorar justo
com ela. Mas com Renato ela já bateu boca até
dizer chega.
Acho que foi isso que nos aproximou no começo.

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Hoje ela é fácil minha melhor amiga, mas foi esse


amor e dedicação ao trabalho que fez a gente
começar a se falar. Acabou sendo inevitável pegar
birra do Renato por causa dela.
As infinitas reclamações de Rafael por trabalhar
com o homem também ajudaram a reforçar isso,
mas foi principalmente por causa de Juliana que
comecei a prestar atenção na forma como ele trata
os outros e a anotar o nome dele na minha lista do
ódio.
— Vou esperar Eduardo voltar — diz por fim, os
olhos cerrados. — Acho que ele vai saber melhor o
que fazer com esse tipo de decisão importante para
a empresa.
Renato dá um tapinha na mesa, dando o assunto
por encerrado, e abre um sorriso condescendente
antes de começar a se afastar. Seguro-me para não
arremessar o grampeador que está no canto da mesa

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na cabeça dele.
— Não — digo, mantendo a voz estável e firme.
Se teve uma coisa que aprendi com Edu é que não
tem necessidade nenhuma de gritar para se fazer ser
ouvido. — Você vai fazer exatamente o que mandei
ou quem vai falar com Eduardo sou eu. Te prometo
que você não vai gostar disso.
Renato para perto da porta e me encara com pura
fúria nos olhos. Nem pisco. Aprendi ao longo dos
anos a não me afetar por esse tipo, que se comporta
como se fosse dono da verdade e como se tivesse o
direito de decidir o que é melhor para o mundo. É
verdade que aprendi a ser imune a isso da pior
maneira possível, quero morrer por um segundo por
permitir que o nome do Vinicius apareça na minha
mente depois de tanto tempo.
— Espero receber uma ligação da Marcela
dizendo que você já entregou a documentação

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necessária para ela até a hora do almoço — digo,


colocando um sorriso seco no rosto, forçando-me a
enterrar a memória intrusa. Ele abre a boca para
protestar, mas não dou tempo para isso. — Tenha
um bom dia, Renato.
O homem sai batendo pé feito uma criança
mimada e ouço uma risada escapar de Juliana no
segundo em que ele fecha a porta.
— Eu te amo — ela diz, balançando a cabeça,
com um sorriso escancarado no rosto.
— Também te amo — respondo, juntando os
papéis na mesa. — A gente forma uma boa dupla
— digo, piscando um olho para ela, que concorda
com a cabeça.
É por isso que eu vou sair daqui direto para tentar
resolver essa porcaria de problema com a empresa
da Lorena e eu juro que vou matar o Eduardo se ele
tiver feito alguma coisa para justificar o
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comportamento da mulher. Vou cortar o pinto dele


em pedaços bem pequenos, sinto muito pela
Juliana.
Ainda faltam algumas horas para o almoço e
começo a sair da sala, em direção ao elevador,
decidida a entender o que está acontecendo.
— Vai fazer o que mais tarde? — Ju pergunta,
recostando na parede enquanto esperamos o
elevador chegar.
Limito-me a sorrir em resposta e piscar para ela,
que revira os olhos para mim.
— Quem é o cara de hoje?
Considero se conto que estou pegando o amigo
dela, mas decido esperar um pouco. Fiquei com o
papo de querer um encontro na cabeça e não tenho
certeza se vai para frente. Dois dias seguidos é uma
coisa que raramente faço e estou esperando para
ver se ele está começando a ter alguma ideia louca
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antes de decidir continuar ou não. Não interessa se


Calebe é provavelmente o melhor sexo que já tive
na vida, não vale a pena se vier com dor de cabeça.
Estou torcendo para que dê certo. Deus me livre
ter que ficar sem aquela pegada. Aí está um ótimo
motivo para não conseguir ter um namorado. Como
posso me comprometer a ficar com alguém sabendo
que tem um pau daqueles disponível no mercado?
Não consigo entender como pode ter alguma coisa
que faça valer a pena dispensar isso.
Também não consigo acreditar nessas histórias de
contos de fada em que o cara é perfeito o suficiente
para você querer passar a vida inteira com ele,
ainda gostoso e bom de cama o suficiente para “te
arruinar para todos os outros homens”. Ou um, ou
outro. Ou o cara é uma máquina de sexo ou é bom
o suficiente para casar. Eu, obviamente, estou
escolhendo a máquina de sexo. Máquinas. No

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plural sempre que possível.


— Um moreno aí — respondo, e Juliana balança
a cabeça.
— Eu sinceramente não sei como você tem essa
disposição toda. Ainda é quinta-feira!
O elevador chega e coloco a mão para segurar a
porta enquanto me inclino para falar no ouvido
dela.
— Para de se fazer de sonsa e fingir que você não
toma uma canseira toda noite, porque essa sua cara
de felicidade pela manhã não engana ninguém.
Mal consigo escapar do tapa que ela me dá
quando entro no elevador, rindo da cara de brava
com que me olha.
— Odeio você — diz enquanto aperto o botão do
oitavo andar.
— Ódio e amor andam de mãos dadas, meu anjo

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— respondo piscando e ela faz uma cara de


deboche antes de dar as costas e sair andando.
Implico e rio, mas é verdade.
Quem em sã consciência abriria mão dessa vida?

— Eu vou morrer de fome e a culpa vai ser toda


sua.
Tiro os olhos do computador e encaro Rafael
parado na porta, a mão na maçaneta, olhando-me
com as sobrancelhas erguidas em uma expressão de
puro drama. Indico com a mão para que ele entre e
o loiro fecha a porta atrás de si, praticamente se
jogando na cadeira em frente à minha mesa.
Peço cinco minutos para que termine o que estou
fazendo e ele rapidamente se entretém com alguma
coisa no celular, como se fosse uma criança. Reviro

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os olhos para a cena e pouso os olhos rapidamente


no relógio antes de terminar de digitar o e-mail.
Passa pouco das duas da tarde e não tem motivo
nenhum para esse desespero todo.
Ignoro o homem com os dedos rápidos digitando
alguma coisa no celular com um sorriso no rosto e
me concentro no que estou terminando de fazer.
Como prometi para Edu, estou fazendo o possível
para resolver o que quer que seja esse problema
com a empresa onde Lorena trabalha, mas não sei
se vai ser tão fácil quanto eu imaginei. Se é birra
dela ou não, não sei dizer, mas quando o cara do
departamento jurídico me mostrou o e-mail do
advogado da empresa entrando em contato, percebi
que a coisa vai ser levada para frente mesmo.
Acabei de voltar para a minha sala, passei o resto
da manhã toda enfiada no oitavo andar, revirando o
contrato junto com os advogados, e ninguém tem

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ideia de qual é o bendito problema. Parece que


vamos ter que fazer exatamente o que o e-mail
disse: esperar até a reunião que Edu marcou com a
mulher para tentar resolver as coisas. Até lá, só o
que dá para fazer é tentar nos revestir da melhor
defesa possível, mesmo sem saber direito qual a
acusação.
Aproveito que Rafael está claramente entretido na
conversa no celular e confiro minhas pendências
rapidamente, não levo mais do que quinze minutos
para colocar em ordem o que preciso fazer até o
resto do dia. Rio comigo mesma ao perceber que
Juliana me converteu ao seu método de post-its
coloridos e vejo minha agenda toda marcada em
cores diversas. Não dá para negar que funciona.
— Longe de mim atrapalhar a troca de safadezas
que deve estar acontecendo aí — digo, colocando o
cotovelo na mesa e apoiando o queixo na minha

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mão —, mas eu já acabei aqui.


Rafael levanta o dedo pedindo um instante e
digita mais alguma coisa rapidamente antes de
enfiar o celular no bolso.
— Não atrapalhou, vou continuar mais tarde —
responde, piscando para mim. — Vamos?
— Não quer deixar essa marca sumir primeiro?
— implico, apontando para a gola da camisa dele
que cobre quase todo o avermelhado do pescoço,
mas ainda dá para ver uma faixa de pele marcada.
Rafael ajeita a gola sem nem olhar o que está
fazendo, claramente ciente do que estou falando, e
cerra os olhos para mim.
— Eu realmente estou com fome e eu fico bem
mal-humorado se não comer — diz, ignorando meu
comentário, forçando uma careta que me faz rir.
Parece uma criança rabugenta. Edu deu sorte de
chegar rápido, porque ele e Juliana não poderiam
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ser mais parecidos. Era capaz de se darem muito


bem.
— Eu pedi para eles entregarem a comida aqui,
espero que não se importe.
Ele abre um sorriso e diz que está “bem de boa”
em comer confortavelmente aqui e eu levanto da
cadeira, indo em direção ao sofá, indicando com a
mão para que ele me siga. Coisa que ele faz sem
cerimônia nenhuma.
Rafael começa a tagarelar sobre essa mulher nova
que ele conheceu na segunda-feira no mercado
quando foi fazer compras, alegando que eu comi
tudo que ele tinha em casa no fim de semana, e
aparentemente era com ela que ele estava trocando
mensagens agora há pouco. Pergunto sobre Raissa
na hora que ouço alguém batendo na porta e
levanto para atender.
— A gente foi assistir àquele filme que te falei no
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domingo — diz enquanto eu pego a comida que foi


entregue, fechando a porta e avisando para meu
querido assistente, que resolveu trabalhar, que
estou em horário de almoço e não é para me
interromper a menos que seja alguma coisa vinda
do escritório do Edu. — A sessão estava vazia do
jeito que a gente achou que fosse estar. Fizemos o
que tinha que fazer…
— A última vez que eu me peguei com alguém no
cinema, eu tinha dezessete anos e não podia entrar
em um motel — interrompo, implicando com ele.
— Só que aí depois que o filme acabou, ela quis ir
lá para casa — ele continua, ignorando
completamente meu comentário, pegando seu pote
de comida dentro da embalagem. Ele continua
organizando tudo na mesa, com os talheres e potes,
enquanto fala. — Só que já era mais de meia-noite,
não tinha farmácia nenhuma aberta e eu não tinha

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camisinha nenhuma em casa.


— Agora eu entendi por que você não me comeu
— digo, apontando com o garfo para ele, e Rafael
até tenta, mas não consegue segurar uma risada
enquanto nega com a cabeça.
— Não, não foi por isso, doida. Até porque tenho
certeza de que você tinha uma na bolsa — diz,
inclinando a cabeça, e isso me deixa curiosa, mas
ele só continua tagarelando antes que eu tenha a
chance de perguntar. — De qualquer forma, ela
disse que a gente já está saindo a tempo o suficiente
para não precisar usar camisinha.
Eu paro no meio do caminho de abrir o pote de
comida e olho por cima do ombro para encontrar a
cara de completa incredulidade de Rafael olhando
para mim como se pedisse socorro.
— Se você está em um relacionamento estável,
acho que não é tão absurdo — pondero, franzindo o
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cenho, e ele nega com a cabeça.


— Eu nunca transei sem camisinha na vida,
Priscila — diz com uma seriedade que chega a ser
fofa. Nunca? — Nem quando eu realmente estava
em um relacionamento sério, monogâmico e muito
longo. O que certamente não é o caso. — Abro a
boca e ele leva um dedo aos meus lábios. — Sim,
ela sabe que não é o caso. Eu inclusive confirmei
isso depois da loucura que ela falou e Raissa disse
que está saindo com outras pessoas também, mas
que, já que usa camisinha com todos os outros
caras, não tem problema não usar comigo.
Tento seguir a lógica da garota e até encontro,
mas consigo entender perfeitamente a cara de
desespero do homem à minha frente. Nunca transou
sem camisinha? Isso parece um pouco irreal para
mim. É claro que eu nem me atrevo a fazer
bobagem com esses caras que pego aleatoriamente,

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mas das poucas vezes que realmente tive um


namorado, exclusivo, sério, de andar de mãos dadas
na rua e apresentar para a família, foi natural que as
coisas evoluíssem para um nível de confiança onde
se dispensasse isso. Aí eu lembro que o bonitinho
mal tem seus vinte e quatro anos na cara e
provavelmente nunca teve uma namorada séria, o
que explica isso.
Ele continua tagarelando sobre a longa conversa
que teve com a garota depois disso, que no fim das
contas acabou em sexo, devidamente protegido
como ele faz questão de salientar. Eu simplesmente
continuo encarando-o, incrédula de ele não ter
estranhado que a garota tinha o tempo inteiro um
preservativo na bolsa, e ainda assim criou a
situação inteira. Rafael continua falando, pulando
entre assuntos como se a conexão entre os tópicos
fizesse algum sentido, e eu fico com pena de

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apontar o óbvio. Raissa claramente quer mais com


ele do que o que foi inicialmente combinado.
Desligo-me um pouco do que ele está falando,
alguma coisa sobre algum show de música em
algum lugar, e esfrego o rosto, respirando fundo. O
dia foi longo, a semana foi longa, e não posso negar
que estou cansada. Emocionalmente, o que me
irrita bastante. A conversa com meu pai ontem foi
desgastante como sempre, Renato não me ajudou
em nada hoje e o fantasma do Vinicius resolveu
rondar minha cabeça nesses últimos dias, desde que
esbarrei com Marcos no casamento.
Giro o pescoço, apertando um ponto que dói, e
percebo que Rafael agora está falando comigo, não
só tagarelando aleatoriamente.
— Podia ter sido pior — respondo quando ele
pergunta sobre meu pai.
Conto por alto sobre o aniversário, mas ele não
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me deixa escapar e insiste por detalhes. Quando


percebo, estou realmente contando frase por frase
da conversa que tive com senhor Aloísio, enquanto
Rafa enfia comida na boca em uma velocidade
assustadora. O loiro é um bom ouvinte e é fácil
conversar com ele. Rafael é realmente um bom
amigo e aprecio isso.
— É uma pena que ele não perceba a mulher
maravilhosa que você é — diz, colocando o pote
vazio na mesa.
Rafael recosta no sofá e, no movimento menos
sexy que já vi na vida, desabotoa a calça, levando a
mão à barriga com um suspiro. Solto uma
gargalhada, belisco sua barriga surpreendentemente
firme e ele solta um resmungo de dor.
— Tem quem perceba — respondo, dando os
ombros, deixando de lado o assunto. Eu percebo, é
o suficiente.

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O loiro entende errado e abre um sorriso sacana.


— A noite com o Calebe pelo visto apagou todo o
drama da sua mente.
Não perco a oportunidade de cutucá-lo, dando
detalhes da noite. Mais uma vez me surpreendo
com ele de fato interagindo com a história e dando
a opinião dele sobre o homem.
— Me reservo ao direito de não aprovar todas as
práticas sexuais dele — diz, erguendo um dedo
para mim, e rio da implicância. Só aumenta a
curiosidade de saber o que ele faria diferente. —
Mas você parece gostar dele, mais do que gosta dos
outros caras, então gosto dele também.
Reviro os olhos para esse absurdo e me jogo no
sofá ao lado dele, recostando a cabeça no seu
ombro. Rafael se sacode até que eu levante e passa
o braço ao meu redor, apoiando minha cabeça no
seu peito.
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— É muito bizarro eu te dar esses detalhes todos?


— pergunto, e ele nega com a cabeça, dizendo que
somos amigos e é para isso mesmo que ele serve.
Rafa tem razão, é bem o tipo de conversa que tenho
com Juliana, mesmo que sob protestos da parte
dela, então tudo bem. — É muito bizarro eu te dar
esses detalhes todos e ainda querer te pegar?
Ele solta uma risada alta, fazendo minha cabeça
chacoalhar, e levanto para encarar seus olhos
acinzentados olhando-me com pura diversão.
— Sim, é muito bizarro. Mas você é doida e estou
acostumado. — Ele leva a mão à minha bochecha e
levanta meu rosto na sua direção. — E não tem
problema, porque eu quero te pegar também —
sussurra como se fosse um segredo, em um tom de
provação debochada.
Ergo a sobrancelha, um tanto surpresa com essa
falta de rodeios, mas então percebo que meias-

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palavras realmente nunca fizeram o feitio dele. É


por isso que a gente se deu bem desde o primeiro
dia, pois Rafael nunca foi de enrolação, diz o que
pensa e eu valorizo muito isso, porque faço a
mesma coisa.
Ele estende a mão para mim e enrosco meus
dedos nos deles. Aproximo-me quando ele me
puxa, colocando-me sentada de lado no seu colo. O
loiro solta um resmungo quando me acomodo em
seu peito, dizendo que estou esmagando sua
barriga.
— Termina de falar do seu pai — pede, mordendo
meu queixo, segurando-me pelas coxas. Suas mãos
sobem um pouco, entrando por baixo da minha
saia, mas param ali, apenas me mantendo no lugar.
Poxa, bonitinho.
— Não tem muito o que dizer — respondo, e ele
morde meu nariz. Quê? Sinto a mão dele subir pelo

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meu pescoço e ele beija cada lado do meu rosto. —


Depois que minha mãe morreu, fomos só nós dois,
mas não demorou muito para eu sair de casa.
Começou a ficar bem difícil conviver com ele sem
ela estar lá para mediar as coisas.
Dou os ombros quando acabo de falar e Rafa
distribui uma série de beijos estalados pelo meu
rosto inteiro, babados demais para o meu gosto, o
que faz com que ele receba um tapa e eu me sacuda
para me soltar. Ele passa um braço ao meu redor e
me puxa para perto, sob protestos quando ameaça
fazer cócegas. Mania besta de uma figa.
— O que você está fazendo? — pergunto quando
ele arrasta o nariz no meu. Me beijar que é bom,
nada né.
— Te ouvindo. Continua.
Digo que não tem mais nada para contar, ele me
puxa um pouco mais para perto, acomodando-me
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um pouco melhor no seu colo, e beija meu ombro.


Sorrio quando ele esfrega o nariz no meu pescoço,
propositalmente fazendo cócegas, e me permito
admitir que o conforto é bem-vindo depois de todos
os problemas que venho tendo ultimamente.
Já que ele não faz o favor de parar de graça e eu
vou ter que esperar até de noite para liberar minhas
frustrações na cama, a companhia de um amigo já
está de bom tamanho. Começo a contar histórias
aleatórias da minha adolescência quando ele pede
mais uma vez que eu continue falando e assim se
vai boa parte da hora de almoço.
— Então você é doida desde sempre — conclui
quando termino de contar algumas das coisas que
aprontei no ensino médio. Sorrio, com a cabeça
enfiada no pescoço dele, tentando decidir qual o
cheiro que estou sentindo, mas não acho que seja
nenhum perfume que eu conheça. — Preciso voltar

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para o trabalho — diz, levantando-me.


— Bom encontro mais tarde. — Abro um sorriso
zombeteiro, a testa encostada na dele. — Vê se
trata a menina do mercado direito.
Ele sorri e morde meu queixo mais uma vez. Não
sei qual é dessa mania, nunca vi isso antes, mas não
também nego o arrepio na espinha com a
insinuação que parece existir ali.
— Eu sempre trato todo mundo bem — responde,
fazendo-me escorregar para fora do seu colo. —
Mamãe me criou muito bem, obrigado — debocha,
levando uma mão ao peito, mas no fundo acho que
ele está falando sério.
Consigo ver isso. Rafael é o tipo de cara que
trataria todo mundo muito bem mesmo. A prova
disso é o fato de ele nunca ter pistolado com a
Juliana quando ela saiu correndo da casa dele e
deixou o pobre de pau duro. Segundo ela, o loiro
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não foi nada além de perfeitamente educado e


compreensível. Mamãe deve ter criado muito bem
mesmo.
— Rafael — chamo quando ele chega à porta,
depois de ter catado todo o lixo do almoço. Aponto
para ele com o dedo, inclinando a cabeça, piscando
inocentemente com um bico forçado no rosto. —
Sua calça ainda está aberta. As pessoas vão achar
que outra coisa aconteceu aqui se te virem assim.
Sabe como é a fofocada neste escritório.
Ele ergue a sobrancelha e sorri, fechando o botão.
— Estava estranhando você não ter feito nenhuma
piada sexual na última hora.
— Infelizmente eu vou ter que mentir e dizer que
você em comeu sim — digo. — Eu tenho uma
reputação a zelar, não posso ser vista deixando um
loiro gostoso desses saindo do meu escritório sem
eu ter tirado nem uma casquinha.
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Rafael morde a boca tentando segurar o riso e


balança a cabeça.
— Tchau, doida.
Sorrio quando ele fecha a porta e levanto para
voltar para a minha mesa.
— Tchau, bonitinho.

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Capítulo 11
— A TAL MARCELA JÁ DEU SINAL DE
VIDA?
Respiro fundo antes de tirar os olhos do
computador e encarar Renato espumando de raiva
de pé em frente à minha mesa. Balanço a cabeça
negativamente e ele me fuzila como se fosse minha
culpa o orçamento ainda não ter voltado. Quero
matar Priscila por ter irritado o homem, porque
agora sobra para mim, mas não posso culpá-la.
Renato é capaz de deixar qualquer um puto e nós
sabemos muito bem que ele acha muito difícil
respeitar uma mulher na posição que a loira ocupa.
Ainda mais quando Eduardo resolve deixar
literalmente tudo nas mãos dela.
Não sei se é porque ele acha que pode fazer

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melhor ou se é puro machismo descabido, mas


Renato fica a ponto de morrer. Olho as horas,
contando os minutos para o dia acabar. É sexta-
feira e finalmente vou conseguir sair com meus
amigos. Faz tempo que não encontro com eles e faz
tempo que não faço um programa assim, só para
aproveitar a noite, sem mulher nenhuma envolvida.
Acho que estou ficando velho, é a única explicação
para eu estar feliz com uma noite com um bando de
homem conversando e bebendo.
Nunca fui muito de sair e virar a noite em balada
com frequência, mas nunca tive nada contra me
divertir. Estou precisando me divertir.
— Na minha sala — Renato diz depois de passar
um tempo constrangedoramente longo encarando-
me em silêncio.
Levanto da mesa e sigo o homem que nem espera
por uma resposta. Nem me dou ao trabalho de

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tentar adivinhar qual o problema, porque vindo dele


pode ser qualquer coisa. Renato pega um envelope
em cima da mesa dele e me entrega com um olhar
contrariado.
Franzo o cenho e abro, tirando de dentro um papel
dobrado, assinado por Marcela. Demoro alguns
segundos para entender o que estou lendo e olho
para Renato, agora sentado à sua mesa, já me
ignorando por completo.
— Vai ficar parado me encarando ou vai voltar
para o trabalho? — pergunta. Quando não
respondo, ele me olha. — Da próxima vez que se
candidatar a outro cargo, seria de bom tom avisar
com antecedência para eu procurar alguém para
ficar no seu lugar.
Eu não achei que fosse conseguir o cargo quando
apliquei para a vaga que abriu na contabilidade.
Quer dizer, até achei, mas imaginei que fosse

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demorar a sair, ou demorasse mais tempo que isso


pelo menos. Renato tem razão, não posso
simplesmente deixá-lo na mão. Merda.
— Posso ficar mais uma semana para ajudar a
encontrar outra pessoa se isso for facilitar as coisas
— ofereço.
— É o mínimo, Rafael — diz.
Saio da sala segurando-me para não começar a
comemorar minha liberdade bem ali na frente dele.
Quando chego à minha mesa, me bate uma dúvida.
Olho por sobre o ombro, vejo a porta da sala de
Renato fechada e decido que ele não vai sentir
minha falta se eu sair por um minuto. Não vou
demorar.
— Ela está ocupada? — pergunto ao homem
sentado à mesa em frente à sala de Priscila quando
chego lá depois de alguns minutos, e ele nega com
a cabeça. — Posso?
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O que esse homem ainda está fazendo


trabalhando aqui é um mistério, porque ele
simplesmente dá os ombros e aponta para a sala
dela, sem nem conferir. Bato na porta e entro
quando ouço sua voz.
— Oi, bonitinho — diz, tirando os olhos do
computador só por um segundo antes de voltar a
digitar.
Entro e fecho a porta, jogando-me na cadeira em
frente à sua mesa. Olho para a mulher na minha
frente, o cabelo preso em um coque todo malfeito e
desfiado, uma caneta enfiada prendendo os fios no
lugar, os brincos enormes que ela sempre usa
balançando na sua orelha, a testa já franzida de
novo, concentrada na tela do computador. A loira
olha novamente na minha direção e arqueia uma
sobrancelha quando não falo nada.
— Ficou com saudades? — pergunta em um tom

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debochado. — Veio para cá para admirar meus


lindos olhos verdes? — Ela baixa os olhos para o
próprio corpo e faz um bico quando olha para mim
de novo. — Sem decote hoje, desculpa. Mas meu
sutiã é rosa, se te interessar saber — diz, erguendo
uma sobrancelha e sorrindo. É difícil não sorrir
junto.
Não queria saber, mas agora não consigo parar de
visualizar uma renda rosa delicada em volta dos
seus seios redondos. Mania de me provocar de
graça.
Estico para ela o papel que seguro e volto as mãos
para o meu colo quando Priscila pega, franzindo o
cenho.
— Você tem alguma coisa a ver com isso? —
pergunto quando ela começa a desdobrar a folha e
ler.
Foi Priscila que selecionou os currículos, ela
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mesma me lembrou de enviar essa semana. Não


tem nem dois dias e a resposta saiu rápido demais.
Ela abre um sorriso quando acaba de ler.
— Ei, você conseguiu a vaga. Parabéns, Rafa —
diz, parecendo genuinamente feliz. Sorrio em
resposta, mas não digo nada, e ela revira os olhos.
— É claro que não tenho nada com isso, ficou
doido? Mandei para a Marcela os melhores
currículos, ela que escolheu.
Priscila me encara como se eu fosse louco e
relaxo. Ela revira os olhos para mim novamente,
provavelmente percebendo a bobagem.
— Faça-me o favor, Rafael. Uma coisa é eu pegar
seu arquivo para catar seu endereço e cometer o
crime de ir te consolar com tequila depois de você
levar um pé na bunda. Coisa que eu não precisaria
ter feito se você simplesmente tivesse atendido o
telefone. — Ela arqueia a sobrancelha para mim.

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Tomei um susto naquele dia, não posso negar.


Depois de ser deixado, literalmente, com o pau na
mão por Juliana, que saiu correndo sem me dar
qualquer explicação, não demorou muito para
Priscila aparecer na minha porta. Nós já éramos
amigos naquela época, coisa de um mês atrás, mas
nada comparado com o que é agora. A doida
simplesmente entrou na minha casa sem pedir
permissão, perguntou onde estavam os copos e
começou a me servir bebida. A gente se deu bem
desde o começo, mas foi ali que começamos a nos
aproximar de verdade. Flertes e comentários
sexuais inapropriados à parte, é claro, mas isso eu
tenho certeza de que ela faz com todo mundo.
— É uma coisa completamente diferente interferir
na sua contratação. — Priscila briga comigo com os
olhos cerrados. Eu aperto os lábios e arregalo os
olhos em um pedido de desculpas silencioso

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enquanto ela me devolve o papel, bufando. —


Parabéns, bonitinho. Já pode me pagar uma rodada.
— Na verdade — digo, aproximando a cadeira da
mesa —, se você já não tiver nada marcado hoje, eu
vou sair com uns amigos. Quer vir?
Ela faz um bico parecendo pensar.
— Depende. Seus amigos são gatos que nem
você? — pergunta, entortando a cabeça, com toda a
seriedade estampada no rosto.
Nego devagar com a cabeça, rindo da cara de pau
dela, que revira os olhos dramaticamente.
— Me manda o lugar por mensagem. Agora sai
daqui que eu tenho que trabalhar.

— Hoje é por sua conta, né?


Mal ouço a implicância gritada vinda da mesa por
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cima do barulho alto da música. Quem escolheu


este lugar? Eu não conhecia. Não é um bar nem
boate, é quase os dois ao mesmo tempo. Tem uma
pista de dança em um canto e mesas no outro, mas
não sei quem acha que dá para fazer algum milagre
e conversar com essa barulheira toda sem ficar
rouco em algumas horas. Quando mandei o
endereço para Priscila, ela perguntou se eu tinha
certeza se era aqui mesmo, agora vejo o porquê. Eu
nunca teria escolhido vir para cá.
Cumprimento Caíque e André quando sento,
procurando por Douglas, que logo aparece com um
balde de bebida na mão. Não quero nem ver o
estado deles quando saírem daqui, sempre passam
da conta. Recuso quando oferecem cerveja, mal
comi o dia todo, vou pedir alguma coisa antes de
começar a pensar em beber.
— Continuo ganhando mal — respondo.

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Conheci André e Douglas na faculdade, mas


Caíque é meu amigo desde que aprendi a falar.
Nossas mães são amigas, então crescemos juntos,
sou mais próximo dele do que de qualquer outra
pessoa. O gigante sempre de boné e tatuagens
espalhadas pelos braços me conhece do avesso e é
o irmão que eu nunca tive. Minha família é
pequena e sempre foi fácil eu me sentir sozinho,
mas ele sempre esteve ali para tirar sarro de mim
quando precisei começar a trabalhar de modelo
para pagar a faculdade.
Os outros dois não entendem por que eu não
larguei tudo e continuei ganhando a boa grana que
eu estava fazendo com o bico, mas Caíque nunca
nem perguntou duas vezes. Ele sabe que isso não é
para mim.
— Aquela sua empresa não tem vaga? — André
pergunta, dando um gole na bebida. — Está

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impossível trabalhar com meu chefe.


Ninguém nem me dá tempo de responder e
rapidamente entram numa discussão acalorada
sobre quem tem o pior patrão. Tenho certeza de que
eu ganho, mas estou agradecendo por não ter mais
que lidar com Renato. Só mais uma semana e vou
estar completamente livre dele.
— Cara, você não tem noção. — André continua
a falar. — Vocês podem até achar que eu estou
exagerando, mas pode perguntar para o Douglas,
ele conheceu meu chefe. O homem é o demônio.
Fala para eles. Douglas?
Franzo a testa para o homem que parece ter
parado de prestar atenção na gente e olha para um
ponto fixo atrás de mim com uma expressão que
conheço bem. Viro a cabeça naquela direção e vejo
na entrada do bar, que está bem cheio, a loira de pé
mexendo no celular.

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— Puta merda, que mulher gostosa — Douglas


diz.
Incomoda-me ele falar assim, mas eu já devia
estar acostumado a essa altura. Se tem uma coisa
que Douglas não entende é de respeito. Sempre
reviro os olhos quando ele começa a contar das
mulheres que pega, porque não é só uma conversa
entre amigos como as que tenho com a Priscila —
somente com ela e nunca na intenção de violar a
privacidade de ninguém. O problema é que ele se
vangloria, sempre as objetifica, se comporta como
se estivesse mantendo um placar, contando
vantagem. Grita para quem quiser ouvir o que fez e
com quem fez. Um belo de um babaca.
— Cacete, olha essa bunda.
Desço meus olhos pelo vestido que ela usa, preto
e dourado, moldando perfeitamente seu corpo,
terminando no meio das coxas. Gostosa como

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sempre. Não significa que Douglas tenha o direito


de dizer isso assim, como se ela fosse um pedaço
de carne qualquer. Se tem uma coisa que Priscila
não é, é qualquer mulher. Não acho que exista
ninguém que nem a loira, que se comporta como se
fosse dona do mundo.
Então ela me vê.
— Ela está vindo para cá — ele murmura
incrédulo, parecendo um pré-adolescente que vê a
professora gostosa. Com certeza acha que ela está
vindo na direção dele. Arrogante e pretencioso
como sempre. Por que a gente é amigo mesmo?
Priscila começa a andar na nossa direção,
rebolando devagar a cada passada, e passa a mão
pelos fios. Arqueio a sobrancelha quando ela está a
poucas passadas de distância e a loira abre um
sorriso sensual de quem sabe exatamente o que está
fazendo. Ela sem dúvidas sentiu os olhares e não se

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intimidou, pelo contrário. Faz questão de se exibir.


— Meninos — cumprimenta, inclinando a cabeça,
deixando o mar de fios cair por seu ombro.
Subitamente a vontade de enrolar o cabelo dela na
minha mão enquanto a beijo volta com tudo. Tem
sido assim desde o fim de semana passado. Sempre
percebi o quão gostosa Priscila é, nunca me fiz de
cego, mas depois de ter estado com ela de fato, a
mulher simplesmente não sai da minha cabeça.
Ontem, na sala dela, percebi rapidamente que foi
uma péssima ideia colocá-la no meu colo daquele
jeito. Quando Priscila se acomodou, tudo que eu
quis foi beijá-la e subir mais minha mão em sua
perna, arrastar o dedo pelo fio de calcinha que
agora sei que ela usa, mas fiz o meu melhor para
me controlar. Porque ela precisava conversar, e eu
não menti hora nenhuma quando disse que valorizo
muito a amizade dela, que jamais vou me

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aproveitar da proximidade que temos assim. Ela


precisava conversar, mesmo insistindo em usar
sexo para fingir que não tem que lidar com os
problemas.
Acho que crescer sem irmãos me fez aprender a
valorizar muito qualquer amizade importante.
Jamais faria nada que ameaçasse minha amizade
com o Caíque e agora, mesmo a conhecendo há
pouco tempo, não quero arriscar fazer nada que
estrague minha amizade com a loira.
Priscila apoia sua bolsa na mesa e eu levanto para
pegar outra cadeira para ela, que prontamente se
apresenta para os outros três com um sorriso
descarado no rosto. Aponto para que ela sente e a
loira, contra todas as minhas expectativas, apoia a
mão no meu ombro e pousa um beijo no meu rosto.
— Você não fez um trabalho horrível escolhendo
a roupa. Está uma gracinha — diz e pisca para mim

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antes de sentar. Não sei se rio ou reclamo dessa


mania dela de me tratar por diminutivos.
— Esqueci de avisar que convidei uma amiga —
digo quando vejo duas caras babando pela mulher.
Franzo a sobrancelha, confuso, olhando para
Caíque que, ao invés de olhar para Priscila, me
encara com as sobrancelhas erguidas.
— O que vocês estão bebendo? — pergunta, e
sorrio já sabendo o que ela vai pedir para o
próximo garçom desavisado que passar por perto,
então me adianto.
Ergo a mão chamando o homem que passa pelas
mesas com um bloquinho na mão.
— Dois shots de tequila e uma porção de batata,
por favor.
A loira rapidamente mergulha em uma conversa
animada, praticamente gritada por sobre a música
alta, entrosada com o grupo como se os conhecesse
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a vida toda. Douglas mal disfarça o interesse


descarado, jogando-se em cima dela, que sabe ser
simpática como ninguém. Preciso segurar uma
risada, porque tenho certeza de que acha que ela
realmente está arrastando-se por ele de volta, mas
já vi Priscila conversando com muita gente e ela
realmente não está fazendo nada além de ser aberta
e expansiva como sempre é. Quando ela quer
alguém, a pessoa não escapa e a loira não leva mais
do que cinco minutos para conseguir.
— Já volto, você vai ficar bem? — pergunto no
ouvido dela.
Priscila olha para mim, sorrindo, e acena
positivamente com a cabeça.
— Acho que vou dançar daqui a pouco —
responde, apontando com o queixo para a parte do
bar, em um ambiente meio separado, onde toca
uma batida eletrônica.

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Que porcaria de lugar é este?


Concordo com a cabeça e levanto da mesa, indo
para perto da cozinha procurar água para beber.
O shot foi rápido e sei que vai bater logo, logo,
alguém naquela mesa precisa ficar sóbrio. Caíque
não bebe, mas não posso garantir os outros dois.
Quando começo a voltar para mesa, já não encontro
Priscila lá.
Sento e enfio uma porção de batatas na boca.
— O que vocês vão fazer amanhã? — pergunto.
— Onde foi que você arrumou esse mulherão? —
Douglas pergunta e André ergue a sobrancelha,
reforçando a curiosidade.
— Ela é só uma amiga — explico, e os três me
olham com completa incredulidade.
Até que André balança a cabeça, como se
aceitasse a explicação.

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— Faz sentido. Você não dá conta daquilo tudo


não — implica. — Ela está solteira?
Rio, porque essa é a pergunta mais fácil e mais
difícil do mundo de responder. Sim, ela está
solteira. Só não significa que esteja disponível,
embora esteja. Priscila não se faz de rogada, mas
parece ser muito seletiva com os homens que pega.
Alguma coisa me diz que esses dois aqui na minha
frente não entrariam facilmente na lista dela. Tenho
certeza de que a gente só ficou fim de semana
passado por obra da ocasião, não por desejo
absoluto da parte dela. Ela teve uma noite difícil e
eu estava disponível. Nada mais.
— Se juntar nós quatro aqui na mesa, ela ainda
vai ser mulher demais para a gente — digo e
consigo imaginar perfeitamente a gargalhada
escandalosa de Priscila colocando duplo sentido no
que acabei de falar.

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Como se ouvindo que estamos falando dela, a


loira aparece, pegando-me pela mão e arrastando-
me com ela de volta para pista de dança depois de
lançar um beijo estalado para meus amigos.
— Oi — digo quando ela joga os braços ao redor
nos meus ombros.
— Você veio com alguém? — pergunta. Nego,
apoiando as mãos de cada lado da cintura dela, e
Priscila se aproxima um pouco mais, passando as
mãos ao redor do meu pescoço, arrastando as unhas
e fazendo-me arrepiar.
Maldade.
Priscila começa a dançar no ritmo da música e
lambe os lábios quando seu olhar cai para a minha
boca. Ela chega mais perto, colando o corpo no
meu, e enlaço o braço ao redor da sua cintura.
— Não vai dançar comigo? — pergunta no meu
ouvido, deixando uma mordida no meu lóbulo, e
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ouço seu riso quando escorrego a mão, encaixando


a palma na sua bunda.
Diferente de quando dançamos no casamento, não
estou com intenção nenhuma de fazê-la se divertir
para se esquecer dos problemas. Hoje realmente
quero essa bunda gostosa esfregando-se em mim.
Pego-a pela mão e a giro, fazendo com que ela pare
de costas para mim. Priscila imediatamente começa
a dançar, jogando a cabeça para trás até apoiar no
meu ombro, rebolando contra mim. Passo a mão
por sua cintura, prendendo-a colada ao meu corpo,
e a loira me olha por sobre o ombro, mordendo o
lábio.
Ela capricha.
Priscila rebola como se o mundo dependesse
disso. Meu corpo não demora em reagir pela
proximidade e fricção. Desço a mão por sua coxa e
a firmo contra minha ereção, soltando um palavrão

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quando ela ri e se aproxima mais. Quando a loira


empina a bunda e me olha sobre o ombro,
propositalmente se esfregando em mim, é muito
difícil lembrar onde estamos, mas me forço a
respirar fundo e levar a boca ao seu pescoço, dando
um beijo suave na curva do seu ombro antes de me
afastar um pouco.
Não importa o quanto eu queira agarrar essa
mulher, quero mais ainda saber exatamente o que
ela quer de mim, porque nem fodendo que vou
estragar o que a gente tem arrastando-a para o
banheiro capenga deste lugar, como quero fazer
agora, sem ter certeza de que ela não está só
brincando e provocando-me como sempre fez. Do
nada, ela me pega pela mão e me leva até o bar.
— Dois shots — pede e é rapidamente atendida.
Ela me entrega um copinho, brindamos no ar e
viramos ao mesmo tempo.

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— Mais dois.
Nego, dizendo que não vou mais beber, e ela dá
os ombros, virando os dois, erguendo os dedos para
pedir outra rodada. Ela está começando a ficar alta.
— O que você está esperando para me agarrar? —
pergunta.
Direta como sempre. Chego mais perto, passando
a mão pela cintura dela, e a loira nem hesita em vir.
— Priscila… — sussurro no ouvido dela.
— Você me quer — sussurra de volta, a
provocação gritando na sua voz. Quem não quer? É
possível não querer essa mulher? — Você está
doido para me pegar. O que você está esperando,
bonitinho?
— Eu gosto muito de você, loira. Você é uma das
minhas melhores amigas e não quero estragar isso.
Sei bem como você foge quando acha que o cara

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está se aproximando muito, só que eu quero ser


próximo de você mais do que quero te agarrar. Não
quero perder essa cumplicidade que a gente tem só
por causa de uma noite de sexo.
Ela levanta a cabeça do meu ombro e se afasta só
o suficiente para me olhar.
— Para começo de conversa, não é só uma noite
de sexo. Uma noite comigo vale mais do que uma
noite no paraíso — diz, e eu rio em resposta. Ela
me olha por um tempo longo e morde o lábio, como
se pensasse em alguma coisa. — Eu estou
considerando fazer de você meu P.A.
Seu o quê?
Repito em voz alta e ela revira os olhos como se
fosse a pergunta mais idiota do mundo.
— Meu pau amigo — explica, e eu só consigo rir.
É minha vez de perguntar se estamos de volta no
ensino médio, porque não ouço isso tem muito
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tempo.
— Como exatamente isso funciona, doida? —
pergunto, arrastando a palma pelo pescoço dela,
enroscando os dedos nos fios macios, meio
molhados de suor pela movimentação toda.
— Você me come — diz, como se fosse a coisa
mais simples do mundo, e meu pau pulsa de novo
na calça, implorando para eu aceitar qualquer coisa
que ela ofereça. — A gente faz sexo gostoso
quando quiser, e é isso. Aí eu não vou sair correndo
para lugar nenhum, porque vou saber que a nossa
proximidade toda é porque somos amigos e não
porque você acha que eu te devo qualquer
satisfação.
Sacudo a cabeça. Não sei que tipo de homem ela
anda encontrando por aí. Enrosco os dedos no
cabelo dela e puxo a loira para mim, tomando sua
boca como quis fazer o dia inteiro. Priscila parece

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surpresa por um instante, mas rapidamente


corresponde, avançando na minha boca do mesmo
jeito que faço com a dela. Devorando-me.
— Combinado — sussurro contra seus lábios e
Priscila sorri, arrastando as unhas no meu pescoço.
— Vem para minha casa hoje?
Ela nega com a cabeça.
— Vamos para a minha. É mais perto.
Sorrio e puxo-a novamente para mim, já contando
os segundos para sair daqui. Mordo seu lábio com
um suspiro antes de soltá-la de novo.
— Não sei você, mas eu vim aqui para curtir a
minha noite — diz, jogada no meu colo, sorridente.
— Vamos dançar?

— Tu está caidinho por ela — Caíque fala assim


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que volto para a mesa.


Consigo ver a loira daqui, olhos fechados e braços
jogados para o alto, dançando como se não tivesse
ninguém olhando. Não é fácil acompanhar o ritmo
dela. Precisei parar para beber alguma coisa.
Priscila é um show completo de assistir, então só
recosto na cadeira e a assisto dançar.
— Do que você está falando? — pergunto,
balançando a cabeça. — A gente é só amigo.
Ela que não ouça esse absurdo, que aí não vai ter
acordo de P.A. que impeça a doida de sair
correndo. É cada ideia.
— Tu — repete, apontando para mim com a
garrafa de cerveja — está caidinho por ela.
Rio e tomo um gole da água que trouxe comigo,
negando em silêncio.
Mudo de assunto e começamos a falar de trabalho

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de novo, rapidamente pulando entre assuntos


diversos em poucos minutos. Não demora muito
para que André e Douglas voltem para a mesa e
mergulhem na conversa também.
— Sua amiga não está muito soltinha não? —
Douglas cutuca, apontando com queixo para onde
ela está.
Vejo Priscila mergulhada em uma dança animada
com um cara desconhecido e solto uma risada. Não
esperava nada diferente dela. De alguma forma, sei
que ela não tem intenção nenhuma de fazer nada
com aquele homem, ela só está curtindo a noite
como disse que faria.
— Ela está dançando — respondo, dando os
ombros, sem dar muita ideia porque sei bem como
ele é.
— Se fosse minha mulher, não ia se comportar
desse jeito — diz, como se fosse um comentário
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relevante a se fazer, e solto um riso seco.


É exatamente por isso que ela não é a mulher
dele. É exatamente por isso que não é mulher de
ninguém. Quando conheci Priscila, achei que ela
estava exagerando. Afinal, que tipo de homem é
esse que ela anda conhecendo que quer tão
desesperadamente um relacionamento? Todos os
que eu conheço ficariam mais do que felizes em
noites de sexo casual com uma mulher gostosa
como ela.
Mas aí comecei a prestar atenção.
Não é sobre relacionamentos, é sobre controle
como ela tanto fala. Duvido que Douglas tenha
qualquer intenção em namorar alguém, mas pensa
em como sua mulher hipotética deveria se
comportar. Ele faz isso com toda e qualquer pessoa
com quem saia. É um babaca, simples assim. Quer
fazer e acontecer, mas quando encontra uma

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mulher disposta a dar o que ele quer, chama de puta


para baixo. Minha paciência com ele já se esgotou
há muito tempo, mas de alguma forma ele consegue
me irritar ainda mais por se atrever a pensar na
Priscila dessa forma.
Realmente não consigo entender. Qual o objetivo
de querer estar com alguém se é para mudar a
pessoa? Priscila brilha e ilumina o ambiente inteiro.
É inacreditável que alguém queira mudar isso.
Ela olha para mim e sorri, e, como se
imediatamente esquecesse o homem ao seu lado,
joga os braços para o alto e rebola, descendo até o
chão em um movimento tão provocativo e sedutor
que me faz parar de ouvir completamente qualquer
besteira que Douglas esteja falando.
Preciso dessa mulher na minha cama agora.
Levanto da cadeira e vou em direção a ela, que
sorri para o homem com quem estava dançando, dá
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um beijo no seu rosto e vem até mim, sem ver a


cara de decepção do coitado.
— O que você acha de estrear essa história de pau
amigo agora? — pergunto em seu ouvido, trazendo
seu corpo para junto do meu, e ela ri, uma
gargalhada vitoriosa de quem sabe que conseguiu
me deixar completamente louco.
— Preciso pegar minha bolsa na mesa, bonitinho.
Conduzo-a até onde estávamos sentados e ela se
despede de todo mundo, virando as duas últimas
doses que já estavam na mesa antes de começarmos
a sair. Caíque indica para que eu ligue para ele
depois e concordo com a cabeça, conduzindo a
loira até a porta do bar. Não está frio, mas um vento
gelado começa a bater, o que não é surpresa já que
está no meio da madrugada. Tiro minha jaqueta e
jogo em volta dos braços de Priscila, que está toda
encolhida ao meu lado, enquanto chamo um Uber

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depois de perguntar o endereço dela.


— Você é tão fofo — ela fala, rindo, apoiando no
meu ombro quando se desequilibra nos próprios
pés.
Rio e puxo-a para mais perto.
— Você está tão bêbada — digo, dando um beijo
em sua testa.
O carro não demora a chegar e abro a porta,
acomodando Priscila no banco antes de entrar. O
motorista me olha desconfiado, alternando o olhar
para a mulher claramente longe do seu melhor
estado ao meu lado, mas relaxa quando ela se joga
no meu colo, agarrando meu pescoço. Não demora
muito para que a loira adormeça nos meus braços.
Agradeço o motorista quando chegamos ao prédio
dela e a acordo para sairmos do carro. Priscila
levanta e apoia em mim para ficar de pé enquanto
pago a corrida. Ela sorri e fica na ponta dos pés,
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tocando os lábios nos meus, parecendo mais


desperta. Caminhamos até a entrada e ela vai até o
porteiro, arrastando-me com ela.
— Boa noite, Roberval — diz, arrastando as
vogais, e o homem de cabelos brancos sorri de
orelha a orelha. Ela troca meia dúzia de palavras
emboladas com ele, perguntando sobre a esposa do
homem, antes de apoiar no balcão. — Você pode
atualizar minha lista?
Ele apanha uma pasta, começa a revirar papéis e
me pergunto o que ele está fazendo e por que
aquela informação toda não está em um
computador. O homem puxa uma folha e saca uma
caneta.
— Rafael Muniz. Esse aqui. — Priscila aponta
para mim e ele escreve, sorrindo e confirmando
antes de ela se despedir e me arrastar para o
elevador. — Agora você pode entrar sem precisar

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interfonar — diz, piscando para mim.


Ela definitivamente está bêbada. Sua fala está
meio arrastada, mais alta e rápida que o normal.
Não consigo deixar de sorrir para o quão expansiva
está, pendurando-se no meu pescoço tão
descaradamente quando é sempre tão contida. É
verdade que a língua da loira é afiada, mas ela não
é dada a ficar agarrando ninguém.
— Qual andar, doida?
Ela aperta o botão e diz o número do apartamento
e, sem demora, estamos lá. Priscila me entrega a
chave e me arrasta para o seu quarto assim que
tranco a porta, jogando-nos na cama.
A loira avança com a boca na minha e a verdade é
que não preciso nem de muito autocontrole para
tirá-la de cima de mim. Priscila está bêbada e não
existe a menor chance de eu encostar nela desse
jeito. Foda-se sexo. É minha amiga aqui na minha
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frente e eu ficaria muito puto com alguém que só


considerasse se aproveitar da situação assim.
Giro-a na cama até suas costas estarem no
colchão e desço a mão aos seus tornozelos, tirando
os saltos de seus pés.
— Quer tomar um banho? — pergunto, e ela
morde o lábio. — Não, doida, é sério.
Priscila nega com a cabeça.
— Quero você — sussurra em resposta, e eu sento
ao seu lado no colchão. Dou um beijo em seu rosto
e desarrumo a cama, puxando o lençol para cima
dela. — Você me enganou — diz, e eu franzo a
testa. — Não imaginei que logo você fosse ser o
tipo de cara que fosse ficar fazendo joguinhos.
Rio do completo absurdo, balançando a cabeça.
Ah, se ela soubesse…
— Você sabe que aquele seu amigo queria me

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comer, não sabe? — implica. — Eu devia ter vindo


para casa com ele.
O babaca provavelmente não pensaria duas vezes
antes de fazer alguma coisa com ela nesse estado.
— Metade do bar queria te comer, Priscila.
Qualquer homem com olhos iria querer. Ela me
olha, esperando uma explicação, e eu me inclino na
sua direção, alcançando seu ouvido.
— Eu quero você, não tem joguinho nenhum
aqui. Acredita em mim, você está me deixando
doido — digo e sinto sua mão subir pelo meu braço
e me apertar.
— Doido como? — pergunta contra o meu
pescoço, deixando uma mordida na minha pele que
me faz soltar um palavrão, e ela ri. É claro que
ri. — Me conta, bonitinho. O que essa cabecinha
inocente está pensando?

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— Quero você sem roupa rebolando essa bunda


gostosa no meu colo. É essa sua posição favorita,
não é? Eu lembro que você me falou. — Sinto as
unhas dela cravando no meu braço e meu pau
querendo explodir dentro da calça só com a ideia,
não ajuda em nada quando ela suspira contra o meu
pescoço e confirma. — Eu vou te comer, loira, até
você gemer meu nome no meu ouvido quando
estiver gozando para mim. —Afasto-me e deixo um
beijo na sua testa. — Quando você estiver sóbria.
Vejo Priscila lamber os lábios entreabertos e
respirar fundo.
— Eu vou precisar tirar minha calcinha —
sussurra, piscando preguiçosamente para mim, e sei
que ela está ficando sonolenta de novo. — Está
molhada.
Maltrata mais, loira. Maltrata mais.
Beijo os nós dos seus dedos e levanto da cama,
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indo em direção à porta.


— Rafa?
Olho por sobre o ombro com a mão no
interruptor, pronto para desligar a luz.
— Obrigada.
Sorrio para ela, mas é um sorriso meio doído. Ser
um homem minimamente decente não devia ser
motivo de agradecimento.
— Boa noite, loira.
Vou estar aqui quando você acordar.

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Capítulo 12
EU NUNCA MAIS VOU BEBER.
Tiro o lençol de cima de mim e tudo que consigo
sentir é minha cabeça explodindo e meu corpo todo
grudento de suor. Saio da cama e me arrasto direto
para o chuveiro, sem nem prestar atenção em nada.
Fecho os olhos debaixo da água quente por alguns
segundos antes de alcançar o shampoo e começar a
me livrar das camadas de suor.
Sinto os dedos dos meus pés doendo em protesto
por ter ficado tanto tempo de pé em cima daqueles
saltos, mas foi uma boa noite. Definitivamente não
foi nada ruim ter o bonitinho, finalmente, perdendo
um pouco a cabeça e agarrando-me na pista de
dança. Mas foi bastante frustrante chegar em casa e
o loiro ir embora assim.

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Gasto meu tempo ensaboando-me e só desligo a


água quando sinto que tirei o cheiro de bebida da
pele. Saio do chuveiro e encaro o guarda-roupa,
tentando lembrar o que tenho hoje. Acho que é o
primeiro sábado em muito tempo que não tenho
nada marcado. Sem correria para me preocupar
com cabelo e unha, não vou reclamar. Talvez eu
tire o dia para ficar jogada na cama assistindo
alguma coisa no computador. Talvez trabalhe um
pouco, não dá para fingir que não tenho bastante
coisa para resolver da empresa.
Cato uma blusa folgada, daquelas que a gente
compra na seção masculina porque são muito
confortáveis, e visto a maior calcinha que encontro
antes de prender o cabelo de qualquer jeito e sair
andando para a cozinha. Sinto o chão gelado contra
meu pé e gosto da sensação, me ajuda a terminar de
acordar. Preciso de uma xícara gigantesca de café

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preto, bem forte, para ver se essa dorzinha de


cabeça chata me deixa.
Chego à cozinha arrastando os pés, coloco o café
para fazer e me estico para apanhar a lata de leite
condensado na prateleira de cima do armário.
Brigadeiro de café da manhã resolve todos os
problemas da humanidade. Se não resolver todos,
resolve ressaca, é o que preciso hoje. Coloco a lata
em cima da bancada e, quando viro para pegar a
panela, solto um grito e levo a mão ao peito com o
susto que levo.
Solto um palavrão quando vejo Rafael jogado no
sofá com a cara toda amassada, apoiado no
cotovelo, olhando para mim com um sorriso
preguiçoso no rosto.
— Bom dia, loira — diz com a voz meio rouca de
sono.
Tudo que eu consigo me lembrar é das safadezas
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que ele me disse antes de sair do quarto ontem de


noite. Com essa mesma voz rouca. No meu ouvido.
Filho da mãe.
— O que você está fazendo aqui? — pergunto,
franzindo a testa. Ele não tinha ido embora?
Rafa levanta do sofá e se espreguiça, jogando os
braços para cima, fazendo a camisa amarrotada
subir o suficiente para expor uma faixa do seu
abdome. Ele boceja, barulhento, e eu rio da
completa falta de compostura do homem, que
começa a andar na minha direção, arrastando a mão
pelo cabelo despenteado.
— Preferi dormir aqui para o caso de você
acordar passando mal de madrugada depois do
tanto que bebeu — diz, apoiando-se no balcão. —
Está melhor?
Concordo com a cabeça e me inclino para dar um
beijo na testa dele, mas me arrependo
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imediatamente.
— Vai tomar um banho, sai daqui — digo,
dispensando com a mão. — Você está todo
colando.
Viro de costas para pegar o café que está pronto e
derramo em uma caneca, enchendo até a boca. Só o
cheiro já faz eu me sentir muito melhor.
— Eu não tenho roupa aqui, doida. Vou tomar
banho e vestir o quê?
Tomo um longo gole do líquido quente, quase
gemendo em satisfação ao sentir o amargor na
minha língua, e viro de frente para ele de novo,
arqueando a sobrancelha sugestivamente. Ele sorri
e balança a cabeça antes mesmo de eu responder.
— Já passou da hora de eu te ver sem roupa, não
acha? — pergunto e, apesar do tom provocativo,
estou falando bem sério. O loiro já me fez gozar até
cansar no último final de semana e nunca nem vi o
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bonitinho sem camisa. É injusto, muito injusto. —


Tem toalha limpa dentro do armário do banheiro,
vai.
Dispenso-o com a mão e ele revira os olhos antes
de sair andando. Pego a panela e despejo o leite
condensado sem nenhuma cerimônia. Enquanto
mexo o brigadeiro, ouço meu celular tocar e atendo
sem nem ver quem é.
— Sabia que eu te amo? — A voz de Juliana me
acerta sem nem um bom dia antes e já me preparo
para a bomba que vai vir. Já conheço a peça.
Respondo que sei sim e ela suspira do outro lado da
linha. — Eu odeio te pedir isso, Pri, mas Edu
precisa que você contrate alguém para entrar no
lugar da Fernanda.
Solto um palavrão e Juliana começa a se
desculpar de novo. Ela diz que ajuda no que
precisar e que Eduardo se responsabiliza pela

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entrevista, mas que precisa do meu aval. Eu sei


disso, é meu cargo, minha função, é para isso que
sou paga. Para isso e infinitas outras coisas, mas o
ponto é que não posso me dar ao luxo de não fazer
isso só porque não quero.
Não sei como tenho conseguido fugir de Vinicius
tão bem nos últimos muitos anos, mas tive a
enorme sorte de não precisar lidar com ele muitas
vezes. Claro que o fato de ele ser um completo
inútil e nunca estar na empresa ajuda muito, mas
ainda assim. Quando Juliana me contou o que
aconteceu com Fernanda, eu queria dizer que fiquei
surpresa, mas a verdade é que nada vindo dele me
surpreende. Eu não sei como fui estúpida o
suficiente para me envolver com ele. Quero culpar
a idade, dizer que eu era nova e não sabia nada da
vida, mas ainda assim… No fundo, sei que não fiz
nada errado, sei que não é minha culpa ele ser

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quem é, fazer o que fez. É difícil sair daquele tipo


de relacionamento sem cicatrizes. Ou sem querer
fazer uma na cara ridícula dele.
— Pede para o Edu me encaminhar os currículos
que ele recebeu quando te contratou e eu seleciono
dali — digo, mentalmente implorando que tenha
algum homem na pilha para que eu não precise
submeter outra mulher a trabalhar com aquele
homem. Embrulha-me o estômago pensar nisso e
por um momento tenho certeza de que essa vai ser
a primeira vez em onze anos trabalhando naquele
lugar que não vou conseguir fazer o meu trabalho.
Desligo o telefone e o fogo do brigadeiro,
pegando um pano de prato e outra colher antes de
me arrastar de volta para a cama, esperando que a
sensação passe, mas não adianta. Meu celular apita
com o e-mail de Eduardo e nem tenho coragem de
abrir. Pela primeira vez em muito tempo, eu não só

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não abro o e-mail como também coloco o celular


no silencioso e largo de qualquer jeito em cima da
mesa, longe de mim.
Jogo-me no meio dos travesseiros fofos, apoiando
a panela quente no meu colo com cuidado para não
me queimar mesmo com o pano, e pego uma
colherada cheia do doce, sem nem me preocupar
em queimar a boca. Recosto a cabeça na cabeceira
da cama e fecho os olhos, deixando o chocolate
derreter na minha boca enquanto suspiro.
Em alguns instantes, sinto a cama balançar e o
colchão afundar, abro os olhos para ver Rafael
enfiar uma colher na panela e levar à boca sem
nenhum pudor.
— Você é horrível nisso — diz, apontando a
colher para mim. — O meu é muito melhor. Está
cheio de pedacinhos queimados. — Dou de ombros
e enfio outra colherada na boca. — Você tem que

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ser mais seletiva com o que coloca na boca.


Abro um sorriso fraco, porque é verdade que o
brigadeiro dele é muito melhor. Em qualquer outra
situação, eu teria gargalhado com o comentário
sexual acidental, mas não consigo tirar a sensação
esmagadora do peito. Limito-me a recostar a
cabeça na cabeceira e revirar os olhos, sorrindo.
— Que foi? — ele pergunta, franzindo a testa. —
Quer que eu vá embora? Eu nem perguntei se podia
ficar, né? Só dormi aqui mesmo porque você não
parecia estar muito bem, e sinceramente porque eu
não estava nem um pouco a fim de pagar táxi para
minha casa naquela hora da madrugada, ia sair uma
fortuna.
Nego com a cabeça.
— Pode ficar. Não quero que você vá embora —
respondo e arqueio a sobrancelha, forçando um
sorriso provocativo no rosto. — Quero é que você
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faça o que prometeu noite passada e me coloque


para rebolar no seu colo.
A cara de completa incredulidade dele me faz rir
de verdade dessa vez. Então, eu finalmente olho
para ele. Sentado na cama, sem camisa, calça com
botão aberto mostrando a barra da cueca preta, o
cabelo molhado em um tom mais escuro que o
normal. E os gominhos. Quero lamber esses
gominhos. Rafael tira a panela do meu colo, põe
num canto do chão ao lado da cama e me puxa,
colocando-me sentada, encaixada de frente para
ele.
— Pronto — diz, subindo as palmas pelas minhas
coxas, e ele solta uma risada quando alcança minha
calcinha de vovó. Reviro os olhos e dou um tapa no
braço dele, que se limita a espalmar as mãos na
minha bunda. — Agora me diz que cara é essa?
Que que aconteceu?

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— Aconteceu que eu preciso gozar, Rafael —


respondo, remexendo-me um pouco, e uma mão
dele sai da minha bunda, entrando por debaixo da
minha blusa, alcançando meu seio.
Ele insiste, perguntado o que está errado, por que
eu estou com essa cara de bunda, enquanto brinca
com meu mamilo, prendendo entre os dedos,
aumentando a pressão quando vê que eu gosto. Não
é uma caixinha de surpresas? Isso é tortura. Não
achei que essa carinha de menino fizesse essas
coisas. Rafael me olha com atenção, lendo minhas
reações e surpreendentemente perguntando o que
eu quero. Acho que é a primeira vez que isso
acontece em muito tempo. Tento puxar pela
memória qualquer outro cara que tenha tirado dois
minutos para perguntar do que gosto e não
encontro. Não nego que é muito mais gostoso
descobrir fazendo, mas também não dá para negar a

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meia dúzia de trepadas meia-boca que isso me


rendeu.
Jogo a cabeça para trás enquanto ele provoca, a
boca no meu pescoço, enfiando um dedo por dentro
da minha calcinha com a outra mão, e insiste,
perguntando o que há de errado. Respondo que não
é nada, meio gemendo quando ele alcança meu
clitóris.
— Você é minha melhor amiga, loira. Minha
pessoa favorita. Esses seus olhos verdes até deixam
qualquer um de quatro, mas consigo ver essa sua
conversa fiada. Você não me engana.
Gemo quando ele desliza um dedo pela minha
entrada, provocando-me em um movimento lento
antes de enfiar o segundo e finalmente me dar o
que quero.
— O que quer que esteja te incomodando, você
contaria para aquela sua amiga que casou, certo? —
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pergunta, e eu afundo a cabeça no seu pescoço,


frustrada, sem conseguir pensar direito com suas
mãos ainda em mim.
A voz dele é baixa, rouca e meio entrecortada,
mas ainda assim o filho da mãe insiste. Eu estou
praticamente sem roupa no colo dele e o infeliz
quer conversar. Confirmo com um resmungo,
respondendo à pergunta dele enquanto mordo o
lábio, tentando conter os gemidos.
— Para a Juliana também? — Confirmo mais
uma vez. — Você contaria para mim em outra
situação.
A última parte não é uma pergunta e eu levanto a
cabeça para encarar seus olhos cerrados. Juro que
tento me concentrar no que ele está falando, mas
me perco muito facilmente quando sinto meu corpo
começar a implorar pelo orgasmo que está
chegando. Ele é bom com esses dedos. Confirmo

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com a cabeça e gemo em pura frustração quando


Rafa para, tira a mão do meu seio e a sobe pelo
meu pescoço, recostando a testa na minha.
— Você é muito gostosa e eu quero muito você
— diz, e eu me remexo no seu colo, sentindo sua
mão afundar dentro de mim mais um pouco com
um gemido abafado. — Mas se é para você
começar a se comportar como se não pudesse
confiar em mim e a parar de me contar as coisas
por causa de sexo, infelizmente eu vou ter que ir
me resolver sozinho no banheiro. Não vou trocar
sua amizade por uma gozada.
Eu trocaria qualquer coisa por uma gozada agora.
Homem teimoso dos infernos. Agora quero ver a
cena dele se resolvendo sozinho. Quero matá-lo por
parar quando eu estava tão perto. Isso não se faz
nem com seu pior inimigo.
— Sabe… — ele diz, levantando minha cabeça

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até alcançar meu queixo com a boca. — Você me


fez uma proposta irrecusável ontem. Eu quero a
parte do pau sem perder a parte do amigo, senão
não faz sentido. Se é para te fazer gozar até
esquecer seu nome, você arruma fácil qualquer um
por aí. Só um louco te recusaria.
O que exatamente você está fazendo agora,
bonitinho? Não consigo perguntar em voz alta
porque os dedos dele voltam a se mexer dentro de
mim, seu polegar firme estimulando meu clitóris.
— Não se esconde de mim e eu vou te fazer
gozar, quantas vezes você quiser — fala, e meu
corpo parece que simplesmente concorda com ele.
Aperto as mãos que estão nas suas costas. — Você
vai me ensinar exatamente o que gosta.
— Mais rápido — sussurro, em um gemido, e ele
obedece, descendo a mão até minha cintura e
firmando-me no lugar, acelerando os movimentos.

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Não demora nada para que eu desmanche


completamente nos dedos dele, apoiando a cabeça
no seu ombro com a respiração descompassada.
Rafael tira os dedos de mim, colocando a calcinha
de volta no lugar, e consigo senti-lo bem duro
debaixo de mim quando me ajeito no seu colo. O
loiro me puxa em um beijo e só me solta quando
minha respiração volta ao normal, deixando uma
mordida no meu lábio, o braço prendendo-me a ele
em um abraço, apoiando minha cabeça no seu
ombro. Sinto seus dedos por entre meus fios em um
carinho lento e fecho os olhos.
Do nada, ele começa a tagarelar sobre trabalho
sem parar, emendando um assunto no outro,
reclamando de Renato como sempre, cada frase
sendo interrompida por um beijo que ele deixa no
meu pescoço. Levanto a cabeça e olho para ele com
o cenho franzido, tentando entender a lógica da

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cabeça desse homem. É como se eu nem precisasse


estar aqui, ele só quer falar, sobre qualquer coisa, a
qualquer hora.
Suspiro quando ele pausa para respirar por dois
segundos, recostando a testa na dele, e Rafa deixa
um beijo casto nos meus lábios.
— Fala comigo, loira.
— Preciso contratar outra secretária para o
Vinicius — digo, balançando a cabeça em completa
negação. — E eu realmente não quero fazer isso.
Ele solta um palavrão e eu concordo.
— Ele é um filho da puta — diz. — Não entendo
como ainda está na empresa.
Fecho os olhos e concordo em silêncio de novo.
Rafael nem tem ideia do filho da puta que Vinicius
é. Se ele não fosse o filho do dono, talvez fosse
mais fácil enxotar o homem porta afora, mas não é

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tão simples assim. Eduardo que nunca me escute,


mas não consigo engolir o pai dele também. Tem
alguma coisa estranha com aquele homem. Mas a
veneração cega de Edu faz com que seja impossível
até cogitar falar isso em voz alta, então não me
meto.
— Acho que vai ser a primeira vez que não vou
fazer o meu trabalho — falo, pensando em voz alta.
— Não te julgo — responde, jogando-me de
costas na cama, deitando por cima de mim, sua mão
enlaçando minha cintura e a boca indo ao meu
pescoço. Mas não queria conversar? — Na verdade,
estou um pouco surpreso que Eduardo espere que
você faça isso.
Ele distribui beijos e chupadas pelo meu ombro e
pescoço, e suspiro. Não sei se surpresa é a palavra
certa, porque Edu faria tudo e qualquer coisa pela
empresa, mas ele ficou bem abalado pelo que

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aconteceu com a Fernanda. Juliana vem tentando


convencer a mulher a denunciar, mas sem muito
sucesso. Entendo a relutância, talvez melhor do que
a Ju, porque conheço Vinicius de um jeito que ela
não conhece. Teria medo também. Com certeza
medo foi o que senti quando tentei terminar aquele
relacionamento que nem devia ter começado, tanto
tempo atrás, porque sabia que ele não aceitaria tão
facilmente. E não aceitou.
— É complicado. — Limito-me a responder e me
preparo para a insistência, mas ele simplesmente
suspira, aumentando o aperto do seu braço ao meu
redor. Para minha completa surpresa.
— O quê? — pergunta quando levanta o rosto e
me vê com o cenho franzido.
— Você estava insistindo tanto para eu falar e
simplesmente aceitou essa resposta — digo, dando
os ombros da melhor maneira que posso nessa

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posição.
Rafael leva as mãos à barra da minha blusa e
começa a puxar para cima, tirando a peça pela
minha cabeça. Ele sai de cima de mim por um
instante, pendurando-se na beira da cama, e volta
com a panela de brigadeiro, olhando-me
sugestivamente. Ah, não.
— Eu não quero que você se esconda de mim,
loira, só isso. Se é uma coisa que você me contaria
normalmente, não tem por que não falar só porque
estamos na cama. Não estou tentando te colocar
uma coleira, como gosta tanto de dizer, nem
tentando controlar sua vida e sugar cada detalhe
escondido — fala, revirando os olhos
dramaticamente, em uma voz meio debochada, e
dou um tapa em seu braço.
Olha esse abuso.
— Eu estou doido para saber qual a história com
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Vinicius, assim como quero saber tudo sobre você,


mas você nunca nem falou nada sobre isso antes,
chutei que não queria conversar sobre isso agora.
Quando achar que pode confiar em mim para isso,
como amigo — pausa e enfatiza isso, olhando-me
até eu concordar com a cabeça dizendo que entendi
o que ele quer dizer —, então vou estar aqui.
— E até lá? — pergunto, sentindo a mão dele
segurar minha cintura com firmeza.
Rafael me olha e sorri, sei que ele está pensando
em aprontar. Vejo o loiro pegar uma colherada
cheia de brigadeiro e trazer na minha direção.
Arregalo os olhos quando ele espalha o doce pelos
meus seios.
— Estou satisfeito com a parte do amigo por ora
— diz, abaixando a cabeça na minha direção. —
Estou louco de vontade de começar a trabalhar no
pau.

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Nem tenho tempo para rir do duplo sentido da


coisa quando a boca dele toma meu seio. Olho
boquiaberta enquanto ele limpa cada resquício do
brigadeiro dali. Tenho a sensação de que minha
pele está mais limpa do que antes quando ele
termina de lamber e chupar. Eu já estou toda
molhada de novo. Ele leva as mãos à barra da
minha calcinha e puxa para baixo, jogando a peça
longe antes de apanhar outra colherada. Apoio nos
cotovelos e assisto Rafael espalhar o doce grudento
pela minha barriga e realmente arqueio as
sobrancelhas quando ele me olha por entre os cílios
ao passar o dedo melecado de brigadeiro entre
minhas pernas.
— Isso é nojento — digo, mas não consigo falar
mais nada quando a boca dele abaixa na minha
barriga com uma mordida. Isso devia ser nojento.
— Quer que eu pare? — pergunta. Ele lambe uma

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faixa de pele, chupa o doce e morde minha cintura.


— Posso te jogar debaixo do chuveiro para limpar
isso se preferir.
O pior é que ele está falando sério, porque para e
me olha, esperando por autorização. Arqueio a
sobrancelha para ele, mas não adianta.
— Continua, bonitinho — murmuro, e
imediatamente ele volta ao que estava fazendo.
Sua boca percorre meu corpo quase inteiro,
fazendo arrepios subirem pelo meu pescoço quando
toca pontos que eu nem sabia que faziam alguma
coisa, distribuindo mordidas longas pela minha
cintura, voltando aos meus seios tantas vezes que
perco a conta. De olhos fechados, me limito a
controlar os gemidos baixos que escapam da minha
garganta enquanto ele, sem pressa nenhuma,
explora cada pedaço de pele exposto, em uma
lentidão torturante. Quando ele chega ao meu

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clitóris, já estou quase gozando de novo. Rafael ri


quando suga o doce e eu me contorço na cama,
levando as mãos ao cabelo dele, puxando os fios e
empurrando sua cabeça.
—Então não é nojento — murmura em um tom
provocativo, voltando a me sugar sem me dar
tempo de responder à gracinha.
Não, não é.
Um gemido escapa da minha garganta quando ele
morde de leve e Rafael me olha fixamente,
repetindo o gesto, arrancando outro gemido. Eu
estou a ponto de explodir e ele me explora,
provoca, testa minhas reações. Adoro e odeio isso,
porque meu corpo implora pelo orgasmo que está
ali, prontinho para ser usado, e o loiro para toda vez
que estou quase lá, dando alguns segundos antes de
começar de novo. Ele está fazendo de propósito,
torturando-me o máximo que pode, descobrindo

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cada ponto que me enlouquece.


— Rafa… — Ele morde a parte interna da minha
coxa e quero dar na cara dele, mesmo que a
sensação seja maravilhosa. — Para de me maltratar.
Ele crava os dedos na minha bunda, me puxa mais
para perto e faz exatamente o contrário do que pedi:
ele me maltrata ainda mais, com mais força nos
toques, arranhando minha pele, agarrando meu
quadril para que eu não me contorça, mantendo
minhas pernas abertas enquanto afunda em mim,
com a língua firme sem me provocar dessa vez.
Não demora nada para que eu goze. De novo.
Sentindo a língua dele em mim até o último
segundo.
Fecho os olhos e solto um palavrão pelo orgasmo
intenso que faz minhas pernas tremerem, mesmo
deitada na cama, respirando fundo para tentar
controlar meus batimentos descompassados. O

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filho de uma mãe sabe bem o que faz. Ele não é


bruto, não toma nada de mim, pelo contrário. É
como se ele tivesse feito sua missão de vida
descobrir todas as formas de me fazer gozar, é
como se ele gostasse do processo. Vai entender.
Abro os olhos para ver quando ele se livra da
calça e deita sobre mim, sua ereção parecendo a
ponto de explodir na boxer apertada. Gemo quando
sinto meu gosto na sua boca, seus dedos prendendo
meu cabelo enquanto sua língua me explora em
outro beijo longo.
— Eu quero você, loira — murmura no meu
ouvido, mordendo meu lóbulo. — Eu realmente
quero você. — A voz dele soa quase desesperada,
necessitada. Sua mão me aperta e sinto-o duro
posicionado entre as minhas pernas.
Pelo amor de Deus, me come. Nunca pedi nada.
Arrasto as mãos pelas suas costas, fazendo uma
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nota mental para morder esse abdome gostoso


quando passo os dedos pela barriga dele. Mas
depois. Agora preciso dele dentro de mim.
É então que eu fecho os olhos e solto um
palavrão, querendo chutar minha bunda.
— Que foi? — ele pergunta, distribuindo
mordidas no meu pescoço.
— Eu tenho quase certeza de que não tenho
nenhuma camisinha aqui — falo, já fechando os
olhos e querendo morrer, então ele imediatamente
para de me beijar.
Rafael levanta o peso do corpo sobre o meu e
abro os olhos para encarar sua expressão de
completa descrença. O loiro me encara
boquiaberto, incrédulo. Do nada, ele começa a rir.
Rafa solta uma gargalhada e balança a cabeça,
recostando a testa na minha, prendendo-me de novo
em um abraço apertado.
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— Minhas bolas vão explodir e a culpa vai ser


toda sua.

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Capítulo 13
DROGA, PRISCILA!
Tento repassar na cabeça onde pode ter uma caixa
perdida, mas não lembro. Tenho certeza de que usei
a última semana passada, sei disso porque lembro
de ter dito para mim mesma que precisava comprar
mais, mas esqueci completamente.
— Talvez no banheiro? — sugiro, e ele me olha
por mais um segundo, cerrando os olhos para mim,
ainda com uma expressão divertida no rosto. Não
sei como ele não está surtando. Eu estou. Rafa
levanta e sai do quarto, indo para onde indiquei.
Aproveito o minuto de folga para sentar, me
arrastar até a cabeceira da cama e respirar fundo.
Sinto minha pele toda sensível, arrepiada,
formigando. Mordo o lábio e aproveito a sensação

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gostosa do meu corpo satisfeito, mas ainda


querendo mais. Quero bem mais. Balanço a cabeça
e solto uma risada. Rafael mal começou a fazer
nada e eu já estou nesse estado. Ponto para você,
bonitinho.
Ouço o som das passadas barulhentas dele
voltando para o quarto e franzo a testa para o
sorriso travesso no seu rosto quando ele entra, uma
mão atrás do corpo.
— Não achei — diz, não parecendo nem um
pouco chateado, contrariando minhas expectativas.
— Mas achei outra coisa no seu armário embaixo
da pia.
Franzo o cenho, tentando adivinhar do que ele
está falando, e arregalo os olhos, praticamente
pulando na cama quando me dou conta. Ele ri da
minha cara, chegando perto, e meus olhos caem
para sua cueca marcada. Juro que minha boca

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começa a salivar. Considero seriamente retribuir o


favor do brigadeiro. Com ou sem doce, não me
importo. Arrasto-me na cama, ficando na ponta do
colchão, e levo as mãos à barra da cueca dele, que
está de pé bem de frente para mim. Rafael sobe a
mão pelo meu pescoço, inclina minha cabeça e
sorri, sacodindo a outra mão, mostrando o que tem
ali.
— Eu realmente não vejo uso para um vibrador se
tenho você bem aqui — digo, arrastando uma mão
por cima do seu membro coberto pelo tecido fino, e
ele respira fundo e fecha os olhos por um segundo.
Lambo os lábios, olhando para o loiro, e puxo o
elástico para baixo, mas, antes que eu finalmente
libere sua ereção para mim, ele segura meu pulso e
balança a cabeça em negativa.
Qual o problema desse homem? Quem recusa
isso?

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— Eu tive uma ideia — diz e se inclina na cama,


arrastando-se. Eu deito de costas no colchão com
ele por cima de mim de novo.
— Que ideia?
Ele não me responde. Ao invés disso, me beija.
Sinto o vibrador escorregando pelo meu clitóris e,
antes que eu consiga protestar, ele liga a coisa.
Filho da mãe. Sua boca percorre meu pescoço,
desce pelos meus seios e Rafael prende meu
mamilo entre os dentes, sugando, mordendo.
Remexo debaixo do seu corpo e ele passa um braço
em volta da minha cintura, puxando-me mais para
si. Sua boca volta à minha e um gemido escapa da
minha garganta.
— Você gosta disso? — pergunta contra meus
lábios.
Não sei se ele está perguntando dessa ideia louca
dele ou da sua boca sobre mim, mas não importa
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porque a resposta é a mesma. Sinto meu corpo


quente, sensível, reagindo com muita facilidade a
cada toque. Seguro nos ombros dele e Rafael enfia
a cabeça no meu pescoço, aumentando a pressão do
vibrador sobre mim quando não respondo.
Contorço-me debaixo dele.
— Você sabe que sim — respondo em um
gemido, e ele diminui a vibração.
Filho da mãe.
Tento controlar minha respiração e olho para ele,
que me encara com um semblante de puro
contentamento.
— Estou gostando desse jogo — ele diz,
aumentando a vibração de novo. — Quero que me
avise quando você for gozar — pede no meu
ouvido.
Ele sabe, todas as vezes soube. Meu corpo
escandaloso me denuncia. Estou gostando desse
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jogo também, embora não tenha muita certeza do


que Rafael ganha com isso para ser sincera. Acabou
de reclamar de bolas roxas e não me deixou
resolver o problema.
Ele aumenta a velocidade da vibração e eu gemo,
contorcendo-me debaixo dele. Eu estou perto, de
novo. Nunca fui difícil de fazer gozar, mas já está
ficando ridículo. Sinto a mão dele tocando meus
lábios e os separo, sugando seus dedos quando ele
os escorrega pela minha boca. Rafael despeja uma
série de provocações escrachadas no meu ouvido e
eu mordo a ponta dos seus dedos, segurando um
gemido. Ele continua falando, detalhando o que
quer, perguntando do que eu gosto, e respondo
entre suspiros. Sou eu que estou a ponto de
explodir, mas consigo sentir a excitação dele com
essa brincadeira que ele inventou.
— Estou esperando, loira — diz, mordendo meu

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lóbulo quando começo a me contorcer, cravando as


unhas nos seus braços.
— Eu vou gozar — murmuro em meio a um
gemido e sinto seu sorriso contra meu rosto.
Ele pousa a boca sobre a minha, diminuindo o
estímulo, e quero dar na cara dele. Rafael passa a
língua pelo meu pescoço, chupando minha pele em
um toque leve e gentil.
— Tortura é crime — reclamo.
— Crime é eu estar te fazendo gozar com um
vibrador porque não tem uma camisinha nessa casa,
Priscila.
Eu estou muito perto de pedir para ele esquecer
isso e me comer, mas uma parte de mim quer
descobrir de quantas maneiras ele consegue me
excitar. Essa cabecinha inocente tem me saído bem
criativa.

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Desfaço-me debaixo dele, pela terceira vez antes


da hora do almoço. Está mesmo ficando ridículo
isso. Rafa imediatamente joga para longe o
vibrador, puxando-me para o seu colo, e deita de
costas na cama, fazendo-me montar em cima dele
antes de me puxar e apoiar minha cabeça em seu
peito, minhas coxas abertas de cada lado das suas
pernas, sua mão subindo e descendo pelas minhas
costas. Ele beija minha testa e consigo sentir sua
ereção presa cutucando-me. Ai que maldade.
— Essa manhã está sendo bem interessante —
murmuro, rindo, e sinto seu peito tremer quando ele
ri também. Bocejo, cansada e sonolenta por toda a
movimentação e as poucas horas de sono. Ainda
estou de ressaca, consigo sentir meu corpo
implorando pela minha cama. Fecho os olhos e
acalmo minha respiração, acho que acabo pegando
no sono porque acordo com Rafael tirando-me de

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cima dele e colocando-me no colchão.


— Descansa, loira — diz, jogando o lençol por
cima de mim. — Vou arrumar alguma coisa para a
gente comer.
Murmuro alguma coisa em resposta, mas nem
acho que faça muito sentido, porque apago de novo
em seguida.

Abro os olhos e me espreguiço, sentindo cheiro


de comida. Cato o celular perto da cama e vejo
algumas mensagens. Abro as da Ju e respondo
pedindo desculpas e dizendo que não vou contratar
ninguém. Vinicius que se lasque. Não fico para ver
a resposta, vou deixar para lidar com os problemas
na segunda-feira. Não estou sabendo lidar com o
fantasma desse homem de novo na minha vida
depois de tanto tempo conseguindo mantê-lo
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afastado e longe da minha mente. Saio do colchão e


cato a camisa que estava vestindo, enfio de volta a
calcinha de vovó e vou em direção à cozinha.
Não dormi muito, pouco mais de meia hora, mas
já me sinto renovada. Quando chego à cozinha,
vejo Rafael, ainda só de cueca, perto do fogão.
Entro no cômodo e sento na bancada, cruzando as
pernas e assistindo o homem seminu cozinhando,
cantando alguma música antiga com a voz
desafinada.
— Você não me contou como foi o encontro com
a mulher do mercado — pergunto, catando uma
pera no cesto de frutas ao lado.
— Isabela — diz, e eu reviro os olhos.
Ele faz exatamente o contrário do que faço.
Rafael sempre fala de quem quer que esteja
pegando pelo nome e sobrenome. Sabe idade,
alguns gostos pessoais, com o que trabalha. O
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bonitinho pode não estar em nenhum


relacionamento, mas é aquele tipo de cara que te
trata bem o suficiente para te fazer acreditar que
você é especial, mesmo que ele faça questão de
deixar claro que não tem nada sério acontecendo.
Não culpo Raissa por estar tentando forçar uma
barra, meses saindo com ele com certeza vira a
cabeça de qualquer mulher que esteja interessada
em um relacionamento. Ele foi feito para isso, todo
bom-moço, carinhoso e atencioso.
Talvez esse seja o maior defeito dele. Rafael pode
até se esforçar para não iludir as mulheres com
quem sai, mas não adianta dizer que não está
interessado e se lembrar da data de aniversário.
Alguém vai acabar criando expectativas alguma
hora. Raissa está aí de prova. Alguém vai sair
machucada quando perceber que se apaixonou por
esses olhos acinzentados e descobrir que ele não

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queria nada além de se divertir um pouco. Já estou


com pena da coitada que cair nessa furada.
— Como foi o encontro com a Isabela? —
pergunto, e ele me olha sobre o ombro, cerrando os
olhos para o tom debochado.
— Foi bom — responde, voltando a mexer a
panela. — Ela é professora, parece ser muito
inteligente e é bem bonita.
Mordo a pera, esperando que ele continue
tagarelando desembestado como sempre faz, mas
Rafael desliga o fogo e vira para pegar outra
panela, indo até a pia encher de água.
— Não achei nada direito na sua geladeira, você
precisa fazer compras. Aliás, parece que tem
alguma morta ali dentro, você precisa limpar esse
negócio. Espero que macarrão esteja bom — fala,
levando a panela com água para o fogo. Franzo a
testa para ele. — Quê?
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— Só isso? — pergunto, e ele dá os ombros. — O


que tem de errado com ela para você estar tão
desinteressado assim?
Ele vira na minha direção e faz um bico,
parecendo pensar.
— Não sei. Não fiquei muito empolgado, sei lá.
Falta alguma coisa, a gente não conectou bem, o
papo não fluiu.
— Precisa fluir conversa para pegar por quê? —
questiono, e ele só dá de ombros, como se
realmente não soubesse explicar. — Parece que a
Raissa continua firme como dona exclusiva da sua
atenção — implico, e Rafa revira os olhos, vindo na
minha direção.
Rafael deixa a água para ferver, passa a mão pelas
minhas coxas, descruzando minhas pernas e
ficando de pé entre elas, e eu enlaço sua cintura.
— Eu sempre acabo saindo com outras pessoas
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também, doida, não é sempre com ela — diz, e eu


sei disso, mas qual a graça se não for implicar com
ele? — Aliás, cadê meu telefone? — pergunta, e
dou os ombros. Não tenho a menor ideia. — Eu
tinha marcado de sair com ela hoje de noite.
— Então tira esse tanquinho gostoso daqui e vai
para casa se arrumar — digo, arrastando os dedos
no abdome dele. Lambidas, vocês vão ficar para
outro dia. — Aproveita e passa na farmácia para
comprar um pacote de camisinha para você.
Ele cerra os olhos e balança a cabeça.
— Você me paga, é sério — diz, e eu gargalho da
cara contrariada dele. Não planejei interromper a
pegação, não é culpa minha.
Mas estou com pena do coitado. As bolas dele
realmente vão explodir. Rafa se inclina sobre mim,
olhando-me feio, e estica o braço para pegar o
celular que está atrás de mim. Mordo o lábio,
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segurando uma risada enquanto ele destrava a tela e


digita alguma coisa.
— Você começa no setor novo na segunda?
Ele nega com a cabeça.
— Vou ficar mais uma semana para ajudar
Renato a encontrar outro coitado para infernizar. Já
estou marcando X no calendário, contando as horas
para me libertar. Sério, aquele homem é
impossível. Os caras estavam fazendo competição
de quem tem o pior chefe ontem antes de você
chegar e eu tenho certeza de que ganharia de
qualquer um deles com os olhos fechados. Espero
que essa Marcela seja melhor do que ele. Se bem
que pior não sei como poderia ser.
Oi de novo, tagarela. O loiro continua por alguns
segundos até terminar de digitar a mensagem e
franze o cenho, dizendo que tem uma chamada
perdida da mãe dele e que vai retornar. Ele apoia
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uma mão na minha perna e leva o telefone ao


ouvido.
— Oi, mãe — diz após alguns segundos, e eu
começo a cutucar minha unha, pensando no que
vou fazer no resto do dia depois que enxotá-lo
daqui em algumas horas. — Está tudo bem sim.
Rafael começa a falar sobre coisas aleatórias e eu
me desligo da conversa, ouvindo a voz dele no
fundo sem prestar atenção quando meus olhos caem
para a frente marcada da sua cueca. Aquela ereção
gostosa que estava cutucando-me alguns minutos
atrás não está mais ali, mas consigo vê-lo bem
marcado na peça. Mordo o lábio e subo os olhos na
sua direção. Rafa não está olhando para mim, não
está olhando para nada em específico, só sorri e
continua falando ao telefone.
Indico que vou sair da bancada e ele abre
passagem, franzindo o cenho para mim quando

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desço e fico de pé na sua frente, imprensando-me


entre ele e a bancada. Levo as mãos ao elástico da
boxer e Rafa arregala os olhos. Preciso segurar uma
risada quando começo a abaixar a peça e ele
balança a cabeça em negativa.
— Não — diz, quando me ajoelho à sua frente. —
Não, mãe, não era com você.
Sorrio e termino de abaixar a peça, ignorando a
cara feia dele quando vejo o que tenho na minha
frente. Levanto os olhos e ergo a sobrancelha,
sorrindo para o olhar desesperado dele quando
fecho minha mão ao seu redor, e ele respira fundo.
Entreabro a boca, coloco a língua para fora e ele
fecha os olhos, engolindo seco e murmurando
alguma coisa no telefone. Movo a mão lentamente
e mal demoram alguns segundos para ele estar
completamente duro entre meus dedos. Sorrio
vitoriosa.

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— Não vou poder. Esqueci completamente disso,


não vou conseguir ir. — As últimas palavras saem
como um sussurro falhado e ele leva o punho
fechado à boca, mordendo a mão e olhando-me
como se fosse me matar quando o coloco na boca.
Ele não fala nada além de alguns “uhum”
gemidos no telefone enquanto o chupo e alguns
instantes depois sua mão envolve meu cabelo,
puxando os fios. Espero que ele controle os
movimentos, mas ele não o faz. Monto meu ritmo,
acelerando quando ele começa a falar qualquer
frase mais longa, deliciando-me com sua voz
falhada e com o desespero puro dele tentando
encerrar a ligação diversas vezes.
— Está bom — fala, agitado. — Eu vou. Daqui a
pouco estou aí. Beijo, tchau.
Rafael praticamente joga o telefone na bancada,
solta um palavrão, levando a outra mão ao meu

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cabelo também, e fecha os olhos, entreabrindo a


boca. A cara de puro prazer dele me incita a
continuar. Sinto minha mandíbula começar a doer
pela minha boca aberta e ele aumenta a pressão dos
seus dedos no meu cabelo, ofegando. Acelero um
pouco mais. Ele passa a mão no meu rosto,
acariciando minha bochecha, e tenta sair, mas
prendo a mão nas suas pernas.
— Eu preciso que você pare agora, Pri — pede.
— Cacete, loira…
Não paro, obviamente. Tomo-o por inteiro, indo
até onde consigo, e ele geme, avisando que não
consegue segurar mais. Quase sorrio de satisfação
quando ele goza. Rafael apoia as duas mãos na
bancada à sua frente, pendendo a cabeça para
baixo, respirando fundo com os olhos fechados.
Levanto, ficando de pé entre ele e a bancada, e o
loiro levanta os olhos na minha direção, passando

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uma mão pela minha cintura, puxando-me para


perto, acariciando minha pele.
— Insana — murmura em um suspiro, apoiando a
cabeça no meu ombro, e eu rio quando ele envolve
minha cintura e me puxa para cima, colocando-me
sentada de volta no tampo de madeira. Aproveito
para o enlaçar com as minhas pernas e sinto sua
respiração voltando ao normal, mas seus
batimentos ainda estão acelerados. — Você é
insana.
— Eu achando que você não queria tirar a roupa
na minha frente porque estava com vergonha —
implico. Faço bico, levo a mão ao seu membro
ainda ereto, passando o dedo na extremidade
úmida, e ele ri, balançando a cabeça. — Não podia
deixar suas bolas explodirem, bonitinho. Seria um
desperdício.
Ele mexe as pernas, chutando para longe a peça

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que tinha ficado presa nos seus tornozelos, e vai até


o fogão desligar a água. Quando ele vira de novo na
minha direção e eu tenho a primeira visão do seu
corpo por inteiro, mordo o lábio.
A beleza do Rafael é tão óbvia que poderia a ser
banal. Acho que foi por isso que eu não me joguei
em cima dele logo que o bonitinho apareceu na
empresa. Não foi até nos aproximarmos, ficarmos
amigos e começarem as provocações e
implicâncias, que comecei a me perguntar o que
tinha debaixo daquela roupa social que não
combina em nada com ele.
Os ombros largos são por causa dos anos fazendo
aulas de natação. E sim, o abdome dele é perfeito,
Rafael bate ponto na academia todos os dias para
garantir isso, mas ainda assim não é exagerado,
porque ele faz questão de não ficar parecendo uma
parede, como costuma dizer. Sei disso tudo porque

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já perdi a conta de quantas vezes o ouvi tagarelando


sobre isso. Acho que consigo reproduzir o
monólogo de cor. Esse homem simplesmente não
cala a boca, nunca.
Agora já descobri que ele não cala a boca na cama
também, mas disso não estou reclamando. Pode
falar mais.
A questão é que agora, com ele de pé
completamente sem roupa na minha cozinha, eu
estou pouco me lixando para o rostinho bonito que
ele tem ou para seu tanquinho definido. Estou mais
interessada no que agora sei que Rafa sabe fazer
muito bem. E também em descobrir que outras
surpresas ele esconde.
— Tem uma farmácia a alguns minutos de
distância — aponto. — Não sei se eles entregam,
mas a gente pode tentar. Ou você pode ir lá bem
rápido comprar.

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Ou qualquer outra sugestão que ele tenha. Não


ligo. Estou a ponto de me ajoelhar de novo quando
ele se aproxima e o alcanço com a minha mão.
Rafael suspira, subindo a palma por dentro da
minha blusa, e alcança meu seio.
Ele nega com a cabeça.
— Você me meteu em uma enrascada com essa
sua brincadeirinha — diz com um sorriso descarado
na cara enquanto brinca com meu mamilo. — Você
é obrigada a participar de festa de família que não
quer também?
Faço que sim com a cabeça, mordendo a língua
para não falar mais nada. Ainda estou remoendo o
ataque do meu pai no aniversário dele.
— É aniversário da minha prima hoje. Minha tia,
a mãe dela, é uma das pessoas mais irritantes da
face da Terra.
Rafa suspira, passa a mão no cabelo e franzo a
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testa ao perceber que o gesto já é familiar o


suficiente para eu saber que ele está frustrado. Não
acontece muito. Seu toque sobre mim se afrouxa e
passa a ser um carinho delicado na minha cintura.
— Eu tinha esquecido completamente e tentei
pensar em qualquer desculpa para não poder ir.
Podia falar que tinha que trabalhar, que estava
doente, qualquer coisa, mas não consegui pensar
em nada com você fazendo aquilo.
Rafael me encara com os olhos cerrados e eu
sorrio em resposta. Não vou me desculpar.
— Agora eu vou ter que ir e ficar preso por
algumas horas de pura tortura.
Ele faz uma careta contrariada e fecha os olhos
por um instante antes de abaixar para apanhar a
cueca que voou longe e vesti-la de novo,
murmurando que precisa de roupas limpas.
Observo a cena em silêncio, não me lembro de tê-lo
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visto assim antes. Rafa sempre faz piada de tudo,


mesmo quando a situação é bem merda, por isso
sempre acabo contando para ele quando tem
alguma coisa errada, porque sei que ele vai dar um
jeito de ser bem palhacinho e me distrair daquilo.
Mas isso, seja lá o que for, parece incomodá-lo
bastante. Estico a mão para ele, que vem na minha
direção, e ele olha para as próprias mãos. Subo as
mãos pelo seu pescoço e arrasto a unha pela sua
barba.
— Melhor você ir para casa se arrumar, então —
falo, sem ter muita certeza se tem alguma outra
coisa a ser dita.
Ele solta uma risada e me olha como se eu fosse
completamente louca.
— Você vai comigo — anuncia, apontando um
dedo na minha direção. Ele segura meu queixo e
sorri. — É culpa toda sua eu não ter conseguido

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pensar em uma desculpa para não ir.


Solto uma gargalha alta, sacudindo a cabeça. Eu
não vou nem nas festas da minha família se eu não
for obrigada, até parece que vou na dos outros. A
única casa de pai e mãe que frequento é a dos pais
de Juliana, isso porque eles são maravilhosos e
cozinham muito bem. Sem chance.
— Eu fui ao casamento da sua amiga com você
para te tirar de uma furada — diz. — Você tem a
obrigação de retribuir o favor.
Abro a boca para protestar e Rafael cruza os
braços, esperando pela desculpa esfarrapada.
Porcaria, ele está certo. Ele foi ao casamento
comigo.
— Talvez eu seja uma péssima amiga e não
retribua favores — falo, dando os ombros, fazendo-
me de desentendida.
Rafael se inclina no meu ouvido.
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— Isso não é verdade, você acabou de mostrar


que sabe retribuir muito bem. Muito, muito bem.
Ouso dizer que ninguém nunca retribuiu nada tão
bem quanto você.
Ele se afasta e me olha, vejo o brilho de
provocação pura nos seus olhos enquanto minha
boca cai aberta. É a primeira vez que ele fala
alguma gracinha dessas de propósito e eu realmente
não sei como reagir. Cadê a inocência?
— Você está passando tempo demais comigo,
estou te estragando — digo, pulando da bancada, e
bato pé indo em direção ao banheiro feito uma
menina birrenta.
— Está mesmo — responde, seguindo-me, indo
ao quarto pegar sua roupa.
Definitivamente não era como eu planejava passar
meu fim de semana.
— Eu vou precisar de um exorcismo para me
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recuperar de uma festa de família em pleno sábado


— digo, parando na porta do banheiro, olhando-o
se vestir dentro do quarto. — Isso não se faz nem
com o pior inimigo. Achei que você tivesse dito
que sou sua melhor amiga, por que você me odeia?
Ele senta na cama e começa a enfiar a meia em
um pé.
— Não odeio. Mas você me arranjou um
problema, agora tem que resolver — diz, dando os
ombros.
Ele se joga para trás no colchão e apoia nos
cotovelos, olhando-me. Tiro a blusa e jogo de
qualquer jeito no chão. Sinto seu olhar queimando
minha pele e Rafael lambe os lábios, suspirando.
Ele fecha os olhos por um segundo e balança a
cabeça, murmurando que eu pare de provocá-lo.
Abaixo, livrando-me da calcinha também, e jogo a
peça para ele. Desço os olhos para a ereção que ele

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nem se dá ao trabalho de tentar disfarçar, mas o


loiro só continua olhando para mim como se nada
estivesse acontecendo.
Estou tentando fazer ele me agarrar, me jogar na
cama e esquecer essa história? Estou sim. Mas
claramente não está funcionando, porque ele bate
os dedos no pulso como quem aponta para um
relógio, dizendo para eu me apressar.
— Odeio você — resmungo.
— Cadê seu celular? — pergunta, terminando de
se jogar na cama, tirando os olhos de cima de mim.
— Vou mandar uma mensagem para o Calebe
dizendo para ele se preparar para resolver todos os
seus problemas essa noite depois que você sair da
casa da minha tia. Está vendo como sou um ótimo
amigo? Estou até agendando suas fodas agora.
Reviro os olhos e entro no banheiro, ignorando a
gracinha. Abro o armário, catando o que preciso
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para fazer meu cabelo ficar apresentável, e percebo


que terminar a noite com Calebe não seria nada
ruim. Se tem alguém que sabe a definição de
transar até esquecer os problemas, é ele. Não dá
para pensar em mais nada com o moreno
agarrando-me com força o suficiente para deixar
marcas na minha pele e me deixar toda dolorida
depois.
Então por que não estou morrendo de amores pela
ideia?

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Capítulo 14
EU VOU ESTRANGULAR O RAFAEL.
Acho que eu ainda era criança a última vez que
fui a uma festa infantil e lembro perfeitamente de
não ter gostado nem naquela época. Eu só não vou
matar esse homem porque tem batata frita e eu
adoro batata frita. Vou fingir que não matei
academia a última semana inteira porque
sinceramente não consigo me importar com isso
agora. Mas tem pouca coisa na vida que eu odeie
mais do que festa de criança. Não dá para dançar,
não tem bebida, não tem ninguém disposto a
conversar sobre qualquer coisa minimamente
interessante. Pelo menos a comida é boa. Só não é
o suficiente para me fazer fica confortável neste
lugar.

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A minha vontade é de soltar uma risada, ligar para


o meu pai e perguntar como ele espera que eu tenha
filhos se não aguento ficar cinco minutos aqui sem
revirar os olhos. Vejo crianças pulando feito loucas
em um canto com uma música que não faz sentido,
olho ao redor e só consigo ter ainda mais certeza de
que não nasci para isso.
Tomo um gole do suco que Rafael colocou na
minha mão antes do traidor desaparecer e me
deixar sozinha aqui, desejando que fosse tequila.
Mas não é. É só suco de uva mesmo. Por que eu
pedi para ele ir àquele casamento comigo? Droga.
Podia estar em casa jogada na cama assistindo
filme a essa altura. Ou trabalhando, provavelmente
trabalhando. Não consigo desligar minha mente de
todas as planilhas que sei que estão esperando-me
assim que eu voltar.
Meu celular vibra e o puxo do bolso da calça para

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ler a mensagem que chegou, imaginando ser


Juliana insistindo mais uma vez nessa história de
secretária de Vinicius. Mas não é. Demoro alguns
segundos para entender o que eu estou lendo.

Pode ser amanhã? Juro que vou fazer valer a


pena a espera, gostosa. Hoje eu realmente não
posso.

Franzo a testa para a mensagem, tentando


entender do que ele está falando, e rolo a tela para
cima. Ótimo. O bonitinho mandou mesmo
mensagem para o Calebe, tentando marcar alguma
coisa para hoje à noite. A lista de motivos para
esganar Rafael só faz crescer. Enfio o celular no
bolso de novo sem nem responder. Era só o que me
faltava, já estou sentindo cheiro de dor de cabeça.
Vou sair dessa festa direto para a primeira balada
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que eu achar.
Sorrio e nego com a cabeça quando um menino
passa por mim com uma bandeja de cachorro-
quente, mostrando o saquinho de batata na minha
mão. Ajeito-me no sofá, tentando não rir da
conversa entre duas senhoras que estão sentadas na
outra ponta enquanto elas fofocam animadamente
sobre a filha de alguém que está grávida. Isso me
lembra demais as festas da minha própria família
durante a minha adolescência.
— Oi! Você veio com o Rafael, não foi?
Levanto os olhos para ver uma mulher sorrindo
para mim, os olhos castanhos e pele perfeita de
quem não precisa se preocupar em passar um creme
no rosto. Saudades dos meus vinte anos. Na
verdade, não. Gosto mais de mim agora. A mulher
de pele negra e longos cachos escuros senta ao meu
lado sem nenhuma cerimônia e me olha sorridente,

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jogando o cabelo para o lado, mas consigo ver que


está esforçando-se para manter o sorriso no rosto
quando ela discretamente me escaneia inteira com
os olhos. Eu sei bem, porque esse é o sorriso que eu
uso quando quero voar no pescoço do Renato e não
posso.
— Roberta — diz, esticando a mão para mim.
Sorrio em resposta, um sorriso falso que nem o
dela, sem saber ao certo o que está acontecendo
aqui, e digo meu nome. — Há quanto tempo vocês
estão juntos?
Nem tento disfarçar o grunhido que escapa da
minha garganta. Ah, não. Não. Eu vou matar o
Rafael, não tem batata frita no mundo que faça isso
valer a pena. Onde ele se enfiou? Respiro fundo e
me concentro na mulher, mas vejo a atenção dela
perdida ao longe. Sigo o seu olhar e vejo que ela
está encarando e babando descaradamente no loiro

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que está apoiado em um joelho, em uma conversa


muito séria e concentrada com uma menina que
parece ter no máximo sete anos.
— Somos amigos do trabalho — respondo,
tomando cuidado para não despertar a fúria de uma
mulher ciumenta. Realmente não preciso dessa dor
de cabeça.
Ela vira na minha direção com o cenho franzido,
analisando-me.
— Vocês devem ser muito amigos para ele te
trazer em uma festa de família — diz, como se me
sondasse. Se eu estava segurando para não revirar
os olhos antes, desisto. É a única reação possível.
— Nem Caíque veio.
Abro a boca para dizer que Caíque vai chegar
mais tarde, mas não me dou ao trabalho. A minha
paciência para ficar dando explicações da minha
vida para alguém normalmente é zero, então mordo
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a língua para não dizer que não é da conta dela. A


garota parece realmente interessada nele e não
estou aqui para empatar a foda de ninguém. Ele
obviamente vai ficar devendo-me essa.
— Muito — respondo, dando um longo gole do
suco para não revirar os olhos de novo quando vejo
o rosto dela todo se iluminar com a informação.
Puxo da memória para tentar recordar de alguma
Roberta que ele tenha falado e me lembro de uma
ex-namorada com esse nome, mas não tenho
nenhuma informação sobre. Ele só disse que
acabou mal e mudou de assunto. Não insisti,
porque tem pouca coisa que Rafa não tagarela
sobre, então deve ser sério o negócio. Mas não
parece que terminou mal não. O olhar
completamente apaixonado da garota deixa claro
que, se ele quiser, ela volta em um estalar de dedos.
— Como ele está? — ela pergunta, ainda olhando

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para ele toda derretida, e eu franzo o cenho. Por


que não vai perguntar? Que que eu tenho com isso?
— Ele ainda me odeia?
Ela me pega completamente de surpresa. É
normal ir até uma pessoa que você nunca viu na
vida e começar uma conversa pessoal assim? Ela
solta uma risada fraca e coloca uma mecha de
cabelo atrás da orelha, balançando a cabeça com
um sorriso tímido.
— Desculpa, você deve achar que eu sou louca.
Sim, acho.
— É que conheço bem o Fael, ele não é de ter
muitos amigos, mas é muito próximo dos que tem.
Se vocês dois são tão amigos assim, ele com
certeza já contou a vida inteira dele para você.
Ela tem razão. Ele já contou a vida inteira para
mim, sim, inclusive mais coisa do que eu gostaria
de saber normalmente. O impossível é fazer parar
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de falar. Mas não isso. Não tenho ideia de qual a


história dele com a garota, não sei por que
terminaram nem por que ela está tão reticente
assim. Coloco um sorriso irritado no rosto ao
perceber que talvez a gente não seja tão amigo
assim como ele está tentando pintar o tempo
inteiro.
Rafael sabe muita coisa da minha vida, porque é
fácil conversar com ele. O loiro insiste o tempo
inteiro para que eu confie nele e eu confio. Mas
pelo visto ele não confia em mim. Até aquele
papinho na cama de que a gente tem que se
comunicar agora parece conversa fiada. Se tem
uma coisa que eu odeio são meias palavras e
conversa fiada, Rafael sabe disso.
— Não acho que ele te odeie — respondo. —
Nunca ouvi nada de ruim sobre você.
Tenho vontade de dizer que nunca ouvi nada

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sobre ela, mas não digo. Ela claramente ainda está


morrendo de amores por ele e, já que eu nunca ouvi
uma palavra sobre isso, está claro que não é da
minha conta. Não sei nem se devo encorajar a
garota ou não, porque não tenho informação
nenhuma sobre a história. Não saber das coisas
realmente me irrita. A última coisa que eu preciso é
de dor de cabeça por pegar o homem dos outros.
Tem muito pinto por aí no mundo para eu precisar
me meter nessas furadas.
— Jura? — ela pergunta com brilho nos olhos.
Confirmo com a cabeça. Não é mentira, nunca
ouvi mesmo.
— Eu sinto tanta falta dele — diz praticamente
em um sussurro. Ela me lembra muito da Juliana e
a insegurança dela em se aproximar do Edu para eu
conseguir ficar irritada com a garota. Quero colocar
no colo e cuidar.

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Suspiro. Porcaria.
— Rafael está logo ali, por que não vai falar com
ele? — sugiro, e ela vira a cabeça na direção do
loiro, que agora está de pé recostado na parede a
poucos metros de distância, o cenho franzido na
nossa direção. Ergo a sobrancelha para ele e Rafa
prende o olhar no meu, balançando a cabeça em
negativa.
Roberta me agradece com um sorriso e olhos
brilhando em uma esperança mal disfarçada e
levanta, indo na direção dele, que arregala os olhos
por um segundo e me olha com cara de quem quer
me matar. Tarde demais, Fael.
A garota chega até ele, que abre um sorriso
simpático, e não demoram dois segundos para Rafa
segurar o braço dela e os dois entrarem por uma das
portas. Alguns segundos depois, meu celular vibra.

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Não vai embora.

Ah, ótimo. Quer que eu fique esperando acabar a


trepada agora também. É cada uma. Levanto e vou
em direção à lixeira, me livrar do copo que seguro.
Não sei qual das portas leva ao banheiro. O lugar é
pequeno e aconchegante, como minha casa
costumava ser. Olho ao redor para o grupo pequeno
de pessoas espalhadas, meio amontoadas como
sempre é em festa de família. Não tem muita gente
aqui, mas é como se cada um valesse por dezenas,
falando alto, rindo, gritando, correndo.
Sinto meu peito apertar pela falta que isso tudo
me faz.
A família dele é bem menor que a minha, mas
muito mais barulhenta. A verdade é que parece que
todo mundo morreu um pouco com a minha mãe
com o rompimento daquele aneurisma. Meu pai
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com certeza perdeu uma parte enorme dele. Aliás,


parece que seu Aloísio se perdeu inteiro e só ficou
a parte que tem certeza de que eu sou tudo que ele
queria que não fosse. A menininha de família que
ele sempre quis, comportada e submissa que nunca
aprendi a ser. Sei que meu pai nunca vai me
perdoar por isso.
Gostaria de me importar menos.
Pergunto a alguém onde é o banheiro e entro na
porta indicada, passando água no rosto. Olho-me no
espelho e sorrio. Gosto do que vejo, tenho muito
orgulho de quem sou e nem sei por que estou com
isso na cabeça agora. É por isso que odeio eventos
familiares, é sempre tudo muito esquisito e desperta
memórias incômodas. Memórias com as quais não
sei lidar. Não gosto de coisas que não sei lidar.
Sorrio pela lembrança do rosto da minha mãe, que
passa pelos meus olhos fechados por um segundo, e

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respiro fundo, colocando isso tudo de lado.


Ainda mais que nem minha família é, não devia
nem estar aqui. Rafael estava certo ao dizer que eu
o devia isso porque ele realmente me tirou de uma
furada no casamento, mas agora estamos quites. A
essa altura ele já se entendeu com a garota e todo
mundo está feliz. Meu trabalho está feito aqui.
Saio do banheiro, ando em direção à porta,
acenando para algumas pessoas que me lembro de
ter sido apresentada, e deixo a casa. O bairro do
subúrbio está bem agitado nessa tarde de sábado,
crianças correndo pela rua também, jogando bola,
gritando. Mas é bem menos barulhento do que era
lá dentro. Começo a andar em direção a onde
estacionei o carro e desativo o alarme, levando a
mão à maçaneta.
— Pedi para você não ir embora.
Viro a cabeça e vejo Rafael parado na porta de
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casa com uma carranca no rosto. Essa cara eu


nunca vi. Ele me encara com o semblante fechado,
sem nenhum resquício de sorriso no seu rosto, seus
olhos sérios sobre mim. Ele me olha, acima de
tudo, confuso.
— Por que você disse para ela ir atrás de mim? —
pergunta, aproximando-se e apoiando no carro.
Dou os ombros. Quanto tempo fiquei no
banheiro? Ou essa foi a rapidinha mais rápida da
história ou eu perdi a noção da vida olhando-me no
espelho.
— A garota estava com uma cara de apaixonada
que dava para ver à distância — digo, explicando o
óbvio. — Dois minutos conversando com ela e deu
para ver que é doida por você. Não achei que fosse
ficar bravo por eu te jogar uma mulher linda
daquelas — brinco com uma risada que morre
quando ele não sorri de volta.

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Rafael suspira e estende a mão, chamando-me


para voltar. Ele só pode estar louco.
— Você devia me conhecer o suficiente para
saber que eu dispenso dramas de qualquer espécie,
Rafa — digo com um riso solto, balançando a
cabeça, sem acreditar que ele realmente espera que
eu volte para lá. — Mandei a garota atrás de você
para me livrar das lamentações dela.
Ele dá um passo na minha direção e me prende
contra a lateral do carro. Franzo o cenho quando ele
pousa a boca no meu ouvido e enlaça minha
cintura. Eu acabei de jurar de pé junto para a garota
que a gente não tem nada e o doido me agarra na
porta da casa da tia dele, com a mulher lá dentro
podendo ver a cena?
— Eu te conheço o suficiente para saber que você
põe essa banca toda, mas de egoísta você não tem
nada — responde. — Você mandou a Roberta atrás

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de mim porque achou que era o que eu queria. Mas


não é.
Ele não gosta de sexo, é a única explicação
possível. Eu mando para ele uma mulher morrendo
de amores e ele fica puto comigo?
— Eu não tinha como adivinhar isso, Rafael —
respondo no mesmo tom. — Não tenho bola
nenhuma, muito menos de cristal.
Arqueio a sobrancelha, agora já irritada. Ele passa
uma mão pelo cabelo antes de apoiar de novo na
minha cintura, me puxa mais para perto, colando o
corpo no meu, e desgrudo o rosto do peito dele o
suficiente para olhar para cima e ver seus olhos
encarando-me com atenção.
— Eu nunca vou te tratar como uma mulher
qualquer que eu pego de vez em quando, Priscila.
Você é, sim, minha amiga, nem adianta me olhar
com essa cara de quem duvida disso. — Ele me
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interrompe antes mesmo que eu comece a falar,


arrastando o polegar no meu lábio. — Isso é o
suficiente para te fazer ser mais importante do que
uma mulher aleatória. Se quiser se comportar como
se eu e o Calebe estivéssemos no mesmo nível, aí é
com você. Se quiser agir como se o médico escroto
que você pega de vez em quando e o cara que você
chama de amigo estão exatamente no mesmo nível
de importância na sua vida, problema é teu.
Endireito a postura, realmente estranhando a
seriedade no tom dele. Não acho que eu tenha visto
isso antes. Não estou gostando nada disso.
— Mas você não tem o direito de falar por mim.
Eu nunca te pedi nada nem nunca tentei decidir
nada por você. Foi ideia sua essa história de amigos
com benefícios, então não começa a querer se
comportar como se fosse uma pegação sem
importância no banheiro de uma boate não. Eu não

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traria alguém que comi numa festa e que nunca


mais quero ver para a casa da minha tia.
— Você odeia sua tia.
— Eu também não te comi ainda, mas isso é só
um detalhe. Você sabe disso.
Fecho os olhos e respiro fundo, balançando a
cabeça. O que está acontecendo aqui? É como se de
repente eu estivesse presa em tudo que eu nunca
quis, no meio de uma discussão sem sentido com
muito drama e pouco sexo. Nenhum sexo. Por que
eu ainda estou aqui e não fui embora para o mais
longe possível dessa dor de cabeça toda?
— Eu não sei o que aconteceu nessas últimas
semanas para a gente se aproximar tanto assim —
digo, levando a mão ao ombro dele, e abro os olhos
para encará-lo —, mas eu estou bem de boa de
cobrança, Rafael.
Ele solta um riso debochado e dá um passo para
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trás, soltando-me e arrastando as mãos no cabelo.


— Cobrança? — pergunta, olhando para mim
incrédulo.
Concordo com a cabeça, empinando o queixo.
— Essa DR aqui não estava nos meus planos de
fim de semana. — Levanto um dedo, corrigindo-
me. — Não está nos meus planos de vida. As coisas
param de ser divertidas quando começam a virar
um problema, bonitinho.
Ouço um “uau” abafado escapar da sua boca,
acompanhado de um sorriso largo que sei que ele
dá quando a situação é absurda demais para fazer
sentido na cabeça dele. Rafael dá novamente um
passo na minha direção.
— Você está tão desesperada em manter a sua
liberdade a qualquer custo que não consegue
entender que não tem ninguém aqui tentando tirar
isso de você. Não consegue enxergar que é como
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amigo que estou aqui te dando bronca. Porque é


absurdo eu ter que apontar o óbvio para você. É
ridículo eu ter que dizer que nunca te deixaria
sozinha em um lugar em que eu te trouxe para
comer alguém. É mais ridículo ainda você ir
embora depois de eu ter pedido para ficar, mesmo
sabendo que te trouxe comigo exatamente porque
precisava da sua companhia.
Ele ri e balança a cabeça. Eu só consigo continuar
assistindo à cena sem saber como reagir.
— Se fosse Juliana aqui na sua frente te dizendo
as mesmas coisas, você não ia piscar antes de dar
razão para ela, porque se tem uma coisa que você é,
é uma boa amiga. No fundo sabe que eu estou
certo. Mas porque eu tenho um pau no meio das
pernas, automaticamente qualquer vírgula que eu
falar…
Ele deixa a frase no ar e sacode a mão, saindo de

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perto de mim com um suspiro.


— Eu não devia ter que dizer que preciso de você
aqui, porque sempre estive por perto quando
precisou. — Rafael para e dá os ombros, parecendo
desistir do monólogo. Nem sei dizer o que está
acontecendo aqui. — Eu tenho que voltar.
Aproveite o seu final de semana, loira. — Ele se
inclina na minha direção e deixa um beijo na minha
testa. — Não se esquece de comprar camisinha
dessa vez, nem todo mundo é uma boa companhia
como eu.
O tom brincalhão escorrega na última frase e
Rafael sorri para mim, um sorriso genuíno que dura
apenas um segundo antes de ele virar as costas e
voltar para a casa. É esse sorriso, que me diz que
ele está puto comigo, mas ainda assim não deixa de
se importar, que me faz soltar um palavrão.
Eu estou puta.

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Puta pelo que ele disse, embora odeie admitir que


Rafa está certo. Puta por ele ter me tirado do
conforto da minha casa, me arrastado para cá e
despertado tantas lembranças que não queria ter.
Puta por estar puto comigo por eu ter mandado para
ele uma mulher linda. Estou tão confusa com essa
história que nem sei. E de confusão quero distância.
Rafael não bate a porta com força, não faz uma
cena, não faz drama nem diz que não vai mais me
procurar. Eu quase queria que ele tivesse feito isso,
porque com esses ataques eu sei lidar. É fácil
simplesmente dispensar alguém da minha vida por
causa de pirraça. Mas ele não faz isso. Pelo
contrário, se comporta com uma maturidade
inesperada para um cara da pouca idade dele.
Odeio isso. Porcaria.
Abro o carro e entro, dando a partida, as mãos
presas com força no volante, praticamente arranco

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do lugar de onde está estacionado, na beira da


calçada dessa vizinhança simples e tão acolhedora.
Não consigo acelerar como quero por causa das
crianças brincando na rua que me obrigam a ter
cuidado e esperar, mas assim que chego à rua
principal, troco a marcha e acelero o quanto posso.
Ouço meu celular apitar alto dentro da bolsa
jogada no banco do carona quando paro em um
sinal e apanho o aparelho, xingando a mim mesma
pela irritação que sinto ao ver a mensagem enviada
pelo médico gato meio aleatório que dá sinal de
vida quase nunca, perguntando se estamos
confirmados para hoje. Eu tinha marcado alguma
coisa? Nem lembro mais. Frustrada, confirmo. Que
seja. Não vou ter nada melhor para fazer mesmo.
As palavras de Rafael martelam na minha cabeça.
Odeio que ele tenha razão. Se fosse Juliana, ou
algum outro amigo, eu não pensaria duas vezes

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antes de parar tudo e perguntar o que posso fazer


para ajudar. Claramente tem alguma coisa nessa
história, essa irritação toda dele não é por causa de
uma ex-namorada que não aceitou o término. Não
tem como ser só isso. Ele já estava irritado de ter
que ir para a tal festa antes de trombar com ela.
Mesmo que Rafa não me conte, dá para ver que é
importante, e não lembro de uma vez na vida que
eu tenha simplesmente deixado para lá quando
percebia que tinha alguma coisa de errado com
algum amigo.
Solto um xingamento alto quando o sinal abre e,
ao invés de seguir reto, eu pego o retorno. Ele me
paga, sério. Ele me paga.

A rua está muito mais vazia quando estaciono de


novo na frente da casa da tia do loiro e a música ali
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dentro está bem mais alta. Não bato na porta antes


de entrar, cruzo o cômodo em poucas passadas
irritadas e o encontro recostado na parede, um
sorriso fácil no rosto enquanto conversa com outro
homem. Vejo o exato momento em que uma
gargalhada sai da sua garganta e ele joga a cabeça
para trás, como se tivesse acabado de ouvir a
melhor piada do mundo. Reviro os olhos enquanto
ando na sua direção.
Rafael me olha surpreso por um segundo apenas
quando me vê chegando perto e estende um braço,
chamando-me, silenciosamente dizendo que está
tudo bem com um sorriso escancarado no rosto.
Franzo o cenho, confusa, porque estava esperando
pelo menos uma olhada feia, mas nada. É
definitivo: se tem uma coisa que esse homem não é,
é orgulhoso. Ele me dá um beijo na cabeça e
continua a conversa com o homem, como se nada

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tivesse acontecido. Rapidamente o tal Victor me


inclui na conversa e, quando menos percebo,
estamos discutindo animadamente o próximo filme
de uma franquia que está para lançar.
— Você e o Calebe não estão no mesmo nível.
Com certeza você e os caras aleatórios, que nem o
nome eu sei, não estão no mesmo nível — digo
quando ele me arrasta para pegar alguma coisa para
beber que, para minha infelicidade, é só mais
refrigerante. — Sem fazer drama, bonitinho.
Rafael me olha por um segundo mais longo e
concorda com a cabeça, colocando o copo de volta
na mesa, tomando minha mão e levando-me para
dentro de um dos cômodos por trás de uma das
portas de madeira.
— Entende que eu não sou esses seus caras
babacas — ele diz assim que fecha a porta e se vira
na minha direção. — Entende que nada do que eu

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fizer nunca vai ser porque estou esperando nada de


você além da mesma consideração que tenho
contigo. Eu não sei você, mas valorizo muito mais
minhas amizades do que uma foda. Se essa história
da gente se pegar for atrapalhar essa parceria que a
gente tem, prefiro que nem comece. Você é minha
melhor amiga e sexo nenhum no mundo vale a pena
estragar isso.
Rafa dá um passo na minha direção e segura meu
rosto, passando a mão pela minha bochecha. Ele
respira fundo e me puxa para perto.
— É disso aqui que eu preciso, não de você
pelada na minha cama. Você dizer que estou te
cobrando alguma coisa faz parecer que eu estou
perdidamente apaixonado e tentando te convencer a
casar comigo. E isso é absurdo.
Mordo a boca e ergo a sobrancelha para a forma
como ele faz parecer ridícula a ideia de se

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apaixonar por mim. Vou dar na cara dele. Se meu


ego dependesse desse menino para ser massageado,
eu estava ferrada. Definitivamente não estou
acostumada a ser negada assim.
— Você falando de “melhor amiga” assim faz eu
me sentir de volta no ensino médio, usando
pulseirinha da amizade e combinando a cor de
roupa para ir a festinha.
Rafael ri e eu finalmente consigo respirar. Que
nervoso ele todo sério.
— Você não tem cara de quem trocava
pulseirinha.
Dou os ombros e me afasto um pouco, passando
por ele, olhando para o quarto para onde ele me
arrastou. É simples, decorado com pôsteres feito o
quarto de um adolescente. Distraio-me passando os
dedos por uma fileira de livros e quase dou um pulo
quando sinto os braços dele ao redor da minha
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cintura, abraçando-me por trás.


— Preciso que você entenda que é importante
para mim, só isso.
Recosto a cabeça no ombro dele e fecho os olhos,
ouvindo o barulho de reclamação de que está
comendo meu cabelo.
— Todo mundo que você pega é importante,
bonitinho — implico, e ele ri contra o meu pescoço.
— Você é bom moço demais para não tratar todas
as suas mulheres com todo respeito e carinho do
mundo.
— É verdade — ele murmura, mordendo meu
pescoço. — Não gosto da ideia de tratar ninguém
como se fosse qualquer uma.
Ele me vira nos braços dele e jogo as mãos ao
redor do seu pescoço. Rafael ainda vai arrumar dor
de cabeça com isso, certeza.

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— Quer me contar qual o drama gigantesco com a


tal Roberta? — pergunto, e ele solta um gemido
exagerado de frustração, que me faz rir. — A
mulher parece que vai te comer com os olhos, Rafa.
E eu bem vi que ela ainda está ali. No minuto que
você sair do quarto, está por conta própria —
implico, e ele me olha de cara feia antes de apontar
para a cama.
Sento na beira do colchão de solteiro e cruzo as
pernas. Ele se joga no meu colo, apoiando a cabeça
na minha perna.
— Virei psicóloga agora, foi? — pergunto,
afundando os dedos nos fios dele, que se acomoda
sem cerimônia nenhuma. Nem parece que estava a
ponto de me esganar dois minutos atrás.
— Não tem muito o que contar, na verdade — ele
diz e começa a fazer o bico que faz quando está
pensando. — Ela terminou comigo. A gente

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namorava há uns quatro anos já e aí ela terminou


logo que a gente se formou na faculdade. O que não
faz o menor sentido para mim, se tem uma época
boa para ser solteiro é durante a faculdade, não
depois quando tem que trabalhar para pagar as
contas. Enfim — ele para de falar para respirar por
um instante antes de continuar —, as coisas não
acabaram bem.
Isso porque não tem muito o que contar. Continuo
arrastando as unhas pelo pescoço e cabeça dele,
brincando com os fios loiros enquanto ele não para
de tagarelar.
— Quando a gente se formou, ela logo conseguiu
um emprego bom na área dela e eu ainda estava
fazendo meus bicos de modelo…
— Ainda estou esperando para ver essas fotos —
implico, e ele só revira os olhos, sorrindo.
— A situação estava boa para nós dois e eu pedi
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para ela vir morar comigo.


Ai. Ele não precisa nem continuar, sei bem onde
isso está indo. Esse é o tipo de ponto em um
relacionamento que não tem volta: ou aceita ou
termina. Não tem como falar para alguém que não
quer casar e continuar namorando, não dá para não
aceitar morar com alguém e continuar junto como
se nada tivesse acontecido.
— Claramente ela não aceitou — ele constata o
óbvio. — Disse que era cedo demais, rápido
demais. Eu estou até agora sem entender o que isso
significa, porque se você está com alguém há
quatro anos, desde a adolescência, e ainda assim a
pessoa acha que está cedo demais para morar com
você, com certeza tem alguma coisa errada. De
qualquer forma — ele suspira —, a gente não se
falou mais depois que terminou. Não sabia que ela
estaria aqui. Faz três anos que a gente não se vê.

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Faço as contas. Essa lambança toda aconteceu


quando ele tinha vinte e um? Deus me livre. Com
essa idade eu estava era tentando me livrar de um
relacionamento e lá estava Rafael querendo casar.
Não culpo a menina por ter terminado, até entendo.
Eles eram novos demais. Tudo bem que já estavam
juntos há uma vida, mas ainda assim.
Comprometer-se com alguém desse jeito tão novo
assim é um pouco de loucura.
— Vocês conversaram? — pergunto, e ele
confirma com a cabeça. — Você está bem?
— Ela disse que sentia minha falta, que fez
besteira, que vê isso agora. Queria conversar,
voltar, tentar de novo — Ele fecha os olhos e
morde o lábio. — A gente ficou junto tempo
demais para ela não significar nada, mas estou bem.
Sacudo minha perna debaixo da cabeça dele e
Rafael abre os olhos. Indico para que ele levante e

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ele senta no colchão de frente para mim.


— Você não quer voltar? — pergunto, e ele nem
hesita antes de balançar a cabeça, negando. — Por
quê?
— Foi bem difícil quando a gente terminou, acho
que fiquei quase um ano inteiro sem conseguir nem
pensar em sair com ninguém, mas passou. Conheci
outras pessoas, me apaixonei de novo, quebrei a
cara de novo. Até teve uma época que achei que
não ia gostar de ninguém que nem gosto dela, mas
hoje sei que não é verdade. Acho que percebi que
nossa sintonia não era tão boa quanto eu pensei,
que a gente não se dava tão bem quanto eu agora
sei que pode acontecer.
Ele aperta os lábios e dá os ombros, prendendo os
olhos aos meus, quase sem piscar, parecendo
pensativo.
Impressiona-me a certeza com que ele fala isso.
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Qualquer pessoa ficaria balançada com essa


história, com essa aproximação, até eu consigo
perceber isso. Mas é como se Rafael tivesse tirado
a menina completamente da vida dele. Simples
assim.
— Você só tem vinte e quatro anos, bonitinho.
Acabou de começar a viver. É um bebê ainda, tem
muita coisa pela frente.
Ele ri e passa as mãos no cabelo.
— Falando assim, até parece que você tem
sessenta anos — implica.
— Quando você estava dando o seu primeiro
beijo, eu estava dando outra coisa. Seis anos fazem
diferença, Rafa.
Mesmo que eu esteja brincando com a cara dele, é
verdade. Eu já vivi muito mais do que ele, tenho
muito mais experiência e não é só na cama. Rafael
até pode estar certo ao dizer que eu fujo de me
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envolver com alguém, mas não significa que não


conheça as pessoas. Ele tem aquele brilho no olhar
de quem acredita na felicidade eterna, como se uma
pessoa fosse capaz de fazê-lo feliz por toda a vida.
Falta o brilho no olhar de quem sabe que tem a total
responsabilidade de se fazer feliz primeiro.
— Nenhuma chance de tentar fazer dar certo com
ela de novo, mesmo? — pergunto, e ele nega
novamente com a cabeça.
Arrasto-me pela cama, subo no seu colo,
enlaçando as pernas na sua cintura, e ele me apoia,
olhando-me surpreso antes de afundar a cabeça no
meu peito, deixando um beijo no vão entre meus
seios por cima da blusa.
— Tenho certeza de que a mulher perfeita para
você está lá fora em algum lugar — sussurro no
ouvido dele. — Você é mais do que bem-vindo na
minha cama sempre que quiser enquanto procura

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por ela.
Rafael explode numa risada gostosa e me beija
entre um sorriso escancarado, protestando, dizendo
que falo isso para todos. É verdade, mas não deixa
de ser verdade. Quando ele solta minha boca,
inclino a cabeça, dando acesso ao meu pescoço.
Pelo menos isso. Fiquei aqui ouvindo as lamúrias
sentimentais dele, mereço alguma recompensa.
Engraçado que não me incomodou nem um pouco
escutar o que ele tinha a dizer. Rafa não é dado a
grandes dramas, então nunca é realmente torturante
ouvir quando ele desembesta a falar. Ele vai direto
ao ponto, sem enrolações. Diz o que está pensando
e sentindo, não me lembro de ter conhecido alguém
tão aberto assim, que não complicasse as situações
desnecessariamente. Gosto disso.
O que me incomodou foi ver a pontinha de dor
nos olhos dele, mesmo que tenha tentado disfarçar.

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— Não existe mulher perfeita — ele murmura. —


Não existe essa história de alma gêmea.
Fico surpresa com o comentário e paro seu toque,
fazendo-o olhar para mim.
— Um relacionamento é feito de duas pessoas
tentando fazer dar certo, não tem essa história de
casal de filme que simplesmente fica junto pelo
acaso do destino.
Ele sobe as mãos pela minha cintura, por dentro
da blusa, e começo a desejar estar de vestido e não
de calça jeans.
— É por isso que não entendo esses caras
tentando te convencer a qualquer coisa. Se bem que
essa rodada que você está pegando ultimamente
não parece estar dando esse trabalho, né? —
pergunta, e eu rio do jeito que ele sempre fala
disso, como se fosse um rodízio. Penso por um
segundo e confirmo. Sem grandes dores de cabeça,
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para a felicidade de todos. — Não tem cabimento


tentar te convencer a nada se você não quiser.
Nunca vai funcionar.
Ele passa a mão pelo meu pescoço e me puxa de
volta, roçando os lábios nos meus. Sinto a mão dele
encaixar na minha bunda e me arrumar no seu colo.
— Você é transparente demais, loira. O dia que
você realmente quiser alguém, não vai ter drama. O
sortudo que te conquistar não vai precisar te
colocar coleira nenhuma. Tenho certeza de que
você simplesmente vai atrás do que quer como
sempre faz.
Não consigo explicar nem para mim mesma por
que encaixo as duas mãos em seu cabelo e o puxo
para mim, beijando-o profundamente. Nunca fui
dada a beijos, não levam a lugar nenhum. Beijar na
boca fora da cama é uma completa perda de tempo.
É só uma provocação boba. Se é para provocar,

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prefiro a boca em outros lugares. Mas eu o beijo,


sem intenção nenhuma de fazer nada além disso,
em um ritmo lento e compassado que faz eu me
ajeitar no seu colo, querendo mais contato.
Rafael sobe a mão pelas minhas costas e me
prende a ele e, à medida que o beijo diminui,
terminamos em um abraço, encaixados com minha
cabeça apoiada no seu pescoço, a boca dele no meu
ouvido.
— Obrigada — murmuro.
Ele passa os dedos pelo meu cabelo, que a essa
altura já deve estar todo despenteado.
— Pelo quê?
— Me dar bronca.
Ouço seu riso contra meu ouvido e ele me
levanta, fazendo-me olhar para ele.
— Eu sou ótimo nisso. Dou bronca como

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ninguém — implica, estufando o peito em uma


postura pomposa. — Vamos? Daqui a pouco vão
cantar parabéns e eu tenho que estar lá. Minha
família não é grande, ela é minha única prima.
Sorrio e ouço-o tagarelar sobre a família por
alguns instantes, esquecendo-se da pressa. Começo
a levantar do colo dele, apesar de só querer ficar
mais um pouco aqui. Ajeito a roupa e passo a mão
no cabelo, tentando colocar a coisa no lugar.
— Roberta? — pergunto.
Ainda não entendi o que ela está fazendo aqui. No
meio da tagarelice, ele disse que a mãe dela é
amiga da tal tia que ele não gosta, foi assim que
eles se conheceram. Cresceram juntos, sempre
foram amigos. Namorar, casar e ter filhos era o
caminho lógico que todo mundo esperava, ainda
mais para um cara criado para ser tão direito como
Rafael.

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— Ela estava morando em São Paulo, voltou tem


algumas semanas. Por isso apareceu, mas não sei
bem o que ela estava esperando.
Eu sei, a mulher foi bem clara. Acho curiosa a
completa falta de paixão com que ele fala dela.
Pode ter sido só impressão minha, afinal já se
passaram três anos, mas parece que Rafa ficou mais
chateado por ter perdido o que ela representava do
que por ela ter terminado com ele. Isso sim faz
sentido, agora sim entendo o motivo da irritação
toda. Não é só dor de cotovelo e coração partido. É
ego ferido.
— Não sei. Não quero pensar nela — diz, dando
os ombros. — Você vai ficar?
Estico a mão para ele, que pega e enrola os dedos
nos meus.
— Vamos, têm umas crianças barulhentas
dançando lá fora e você vai ficar uma gracinha
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pulando com elas.

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Capítulo 15
— NÃO FOI TÃO RUIM ASSIM.
Destravo o carro e abro a porta do banco do
passageiro, jogando minha bolsa e o prato com a
fatia de bolo que alguém me forçou a trazer, antes
de olhar para ele.
— A gente estava na mesma festa? “Você devia
falar com ela” — diz, em um tom debochado,
repetindo a frase que falei assim que saímos do
quarto e demos de cara com Roberta em uma
conversa animada com ninguém menos que a mãe e
a tia dele.
Achei que Rafael fosse cair morto de desespero
ali mesmo. A mulher olhou na direção dele e,
consequentemente, na minha, o que fez com que as
outras duas também olhassem para a gente, uma

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delas com uma cara de poucos amigos. Dizer que


foi constrangedor é pouco. Como não vim ao
mundo para ter dor de cabeça, empurrei o bonitinho
na direção da ex para resolver isso logo. Ele
querendo ou não, precisavam conversar. Não
entendo essa relutância das pessoas em colocar
tudo em pratos limpos. Conversar abertamente
evita tanto drama que devia ser obrigatório. Custa
muito simplesmente dizer o que sente? O que quer?
Se der certo, deu. Se não der, não deu. Vida que
segue. É melhor do que ficar remoendo as coisas e
não chegar a lugar nenhum.
Guardar o que quer que esteja pensando ou
sentindo por medo do que vai acontecer é a pior
escolha em qualquer situação.
— Minha tia te odeia agora também — diz,
tentando jogar a bomba para o meu colo. — Ela
está convencida de que não quero voltar com a

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Roberta por sua causa.


— É por isso que eu mal tenho amigas mulheres.
Sempre sobra para mim a responsabilidade de
destruir relacionamentos alheios.
Falo isso em tom de total brincadeira para
disfarçar a pontada de verdade que existe na frase.
Minha adolescência foi um inferno, acho que foi
por isso que parei de me importar. Todo mundo
parece acreditar que tenho medo de
relacionamentos, mas a verdade é que tenho
preguiça. Dá muito trabalho e não tenho paciência
para o drama todo. Não tenho interesse.
Nunca aceitei ter que mudar meu jeito por causa
de ninguém, talvez isso seja intransigente demais
da minha parte, mas com o tempo descobri que
tudo bem ser assim. Minhas poucas amigas de
verdade me conhecem o suficiente para saber que
eu nunca chegaria perto dos homens delas. Para as

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demais, virei as costas quando cansei de ser


chamada de piranha para baixo. Não me dei ao
trabalho de contar para nenhuma delas quando o
namorado do ano dava em cima de mim, porque
sabia que não ia adiantar nada.
Fiz isso uma vez e só serviu para ouvir que eu
estava provocando, dando em cima dele, que o
coitado não tinha como se controlar se eu sempre
andava insinuando-me por aí, o pobre do homem
não tinha culpa. Não adiantou jurar de pé junto que
não, eu não tinha ficado com o cidadão. A errada
da história fui eu.
Quando isso aconteceu de novo, me fiz de louca,
virei as costas e fui embora. Nunca dei a mínima
para relacionamentos amorosos, desde muito nova
nunca tive saco para isso, mas sempre valorizei
minhas amizades como ninguém. Sempre fiz tudo
que podia, sempre estive disposta a dar minha vida

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por quem gosto. Então aprendi também a selecionar


muito bem de quem gosto para não quebrar a cara.
A prova de que fiz a escolha certa é hoje ter na
minha vida pessoas maravilhosas como Natália e
Juliana. Juntei as duas com seus respectivos pares e
elas sabem muito bem que eu nunca encostaria um
dedo neles. Passo horas a fio trancada com Edu e
Juliana nunca nem piscou. Andei para cima e para
baixo com o agora marido da Naty quando estavam
organizando o casamento e ela só fez me agradecer
por ajudar.
É inevitável me lembrar dos discursos infinitos do
meu pai sobre como estou afastando tudo de bom
da minha vida. Sobre como é claro que qualquer
mulher me quer longe dos namorados dela, sobre
como homem nenhum nunca vai me respeitar.
Sinceramente, estou dando graças aos céus por me
livrar desse tipo. Se ser quem eu sou afasta essa

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gente, então estou vivendo minha vida do jeito


certo.
Não significa que não me incomode. Incomoda e
ainda me faz sentir ainda mais falta da minha mãe.
Ela e sua incansável vontade de celebrar todos
meus aniversários com uma festa como essa que
acabamos de sair. Todo mundo amontoado em
volta da mesa, esperando por um pedaço de bolo.
Sinto falta dela. Acho que a única pessoa no mundo
que sinto saudades é minha mãe, o único amor
incondicional que consigo sentir é por ela, sei que
dona Margarida não ficaria nem um pouco
satisfeita de saber disso.
Ela me criou para o mundo. Para conquistar tudo,
sim, mas para principalmente aprender o valor de
cada coisa. E eu sei. Sei o valor disso aqui, dessa
celebração íntima demais da qual não faço parte, e
lamento não ter isso na minha própria família.

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— Sua mãe, por outro lado, está animada com os


netinhos que você e Raissa vão dar para ela —
provoco, tirando esse assunto da minha cabeça.
— Eu vou matar você — ele murmura,
balançando a cabeça, encostando a cabeça na
lataria do carro, e eu rio.
Quando Rafa foi falar com a ex, a mãe dele veio
falar comigo. Ela me deu bolo, suco, brigadeiro, me
arrastou para cima e para baixo e, quando Caíque
finalmente apareceu, ficamos os três mergulhados
em uma conversa bem animada. Os dois me
contaram cada vergonha que Rafael passou quando
era criança que tenho certeza de que vou conseguir
usar alguma dessas histórias contra ele em algum
momento. Dois minutos conversando com o amigo
de infância do loiro e descobri que ele sempre foi
besta assim mesmo.
Eu me senti em casa, do mesmo jeito que me

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sinto com os pais da Ju, que me tratam como se eu


fosse filha deles também. Troquei telefones com
Caíque e marcamos um almoço no meio da semana.
No meio da conversa, o nome da Raissa apareceu
e aproveitei que dona Tereza sabia da existência da
mulher para colocar lenha na fogueira, porque é
para isso que servem os amigos: fazer o outro
passar vergonha com os pais. Além do mais, se
chega ao ponto da mãe dele saber da existência da
mulher, significa que o negócio do Rafael com ela
é sério o suficiente para isso.
— Imagina que gracinha os filhos de vocês dois
— implico. — Vão ser tão bonitinhos.
Ele revira os olhos para mim, mas solta uma
risada também, certamente se lembrando do sermão
que levou da mãe sobre sexo seguro quando voltou
à mesa.
— Você nunca nem viu a Raissa, como sabe que
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ela é bonita? — pergunta.


— Sei que você tem bom gosto, é o suficiente —
digo, apontando para mim mesma, e pisco para ele.
A tarde já está no fim, passa pouco das cinco e eu
preciso ir para casa, tomar um banho e me enfiar
em um par de saltos de novo. Nunca achei que
fosse falar isso, mas estou com preguiça de balada.
Por que no inferno que marquei coisa para hoje?
Por quê?
— Quer que eu te deixe em casa? — pergunto, e
ele puxa o próprio celular do bolso, olhando as
horas.
Rafael desbloqueia a tela e digita uma mensagem,
em seguida começa a falar sobre a conversa que
teve com Roberta quando eu o joguei para cima
dela pela segunda vez. Parece que colocaram tudo
em pratos limpos e concordaram em ser amigos
daqui para frente. Muito bem, bem maduros. Do
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jeito que eu gosto. O celular dele apita e Rafael


passa os olhos pela tela.
— Vou ficar mais um pouco, não preciso ir ainda
— diz, enfiando o aparelho no bolso de novo.
Concordo com a cabeça, dou a volta no carro,
indo para a porta do motorista, e ele me segue,
fechando a porta que eu acabei de abrir,
imprensando-me e prendendo a mão na minha
bunda sem qualquer cerimônia.
— Você tem certeza de que quer ter que explicar
isso? — pergunto em um tom zombeteiro,
apontando para a porta da casa que está a alguns
metros de distância.
— Não dá para ver nada lá de dentro — explica,
inclinando-se para beijar meu pescoço. — E eu não
me importo.
Inclino a cabeça, dando o acesso que ele pede, e
rio quando percebo a frequência com que me vejo
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“dando uns amassos” com o loiro, como ele gosta


de dizer. É claro que nós não vamos fazer nada
além disso aqui, praticamente no meio da rua,
embora eu não tenha absolutamente nada contra
sexo em público, inclusive recomendo. Ele
pergunta o que foi e ri também quando digo,
puxando-me para um beijo demorado. O corpo dele
cobre o meu, então não acho que alguém consiga
ver a mão dele subindo pela minha cintura e
alcançando a curva do meu seio.
— Dirige com cuidado, loira — diz contra a
minha boca.
Não sei o que ele ganha com essas provocações
descabidas, mas Rafael se limita a deixar uma
mordida no meu queixo e se afastar, e me viro para
olhá-lo ir em direção a casa. Vejo o exato momento
em que Caíque sai pela porta, abre um sorriso e
acena para mim. Sorrio e aceno de volta. Gostei

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dele. Já tinha gostado dele ontem no bar, mas é


realmente difícil de saber, bêbada como eu estava
naquele lugar barulhento. Parece ser uma boa
pessoa. Simples, sem muitas frescuras, com um
papo bom. Ele é enorme. O homem podia
facilmente ser um jogador de basquete. Parrudo do
jeito que é, talvez de rugby. Os dois entram na casa
e eu no carro, dando a partida, pronta para dirigir.
Reviro os olhos quando me olho no retrovisor e
vejo minha boca inchada. Não tenho mais idade
para isso.

Encaro o espelho e confiro se está tudo no lugar.


É a primeira vez que uso esse sapato e estou
satisfeita com como é confortável. Minha
maquiagem está meio borrada, mas não tem muito
que eu possa fazer sobre isso aqui. Vai ter que
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esperar até eu chegar em casa. Casa. Só quero


minha cama. Eu definitivamente não devia ter saído
de lá.
— Já vai?
Olho por sobre o ombro para o ruivo jogado na
cama e aperto os lábios. O tal médico gato está
coberto apenas pelo lençol e só até a cintura, o
peito de fora, ainda suado. Vejo-o estender a mão
para alcançar o maço de cigarros em cima da mesa
ao lado da cama e já reviro os olhos. Não consigo
entender médicos que fumam, é a maior
contradição da história. Fora que odeio o cheiro. Se
não estivesse indo embora antes, agora estaria com
certeza.
— Está tarde — respondo, arrumando o cabelo
em uma trança desajeitada.
A boate em que a gente se encontrou estava cheia
o suficiente para que não ficássemos mais do que
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uma hora ali antes de virmos para o apartamento


dele. Então a verdade é que não está tarde, mal
passa das onze, mas não vejo a hora de sair daqui.
Ando na direção dele e sento no colchão ao seu
lado.
— Vamos parar por aqui, está bem? — digo,
inclinando-me para deixar um beijo no seu rosto.
O homem me olha confuso, franzindo o cenho,
arrumando-se no colchão. Ele é um dos poucos
homens mais velhos com que saio. Saía, porque
acaba hoje. Nunca tivemos quaisquer problemas,
pelo contrário. Nós nos conhecemos em um evento
corporativo alguns meses atrás, talvez alguma coisa
perto de um ano. O homem passa dos seus quarenta
anos e é um daqueles coroas que deixa qualquer
garotinho no chinelo. A vida dele é tão ocupada
quanto a minha e ele tem tanto interesse em um
envolvimento emocional quanto eu, então a

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combinação foi perfeita. Mensagens e ligações


convocando uma pegação aleatória aqui e ali,
nunca nada mais que isso.
Fora que o sexo sempre foi muito bom. Menos
hoje. Não funcionou bem hoje. Tem alguma coisa
errada. Minha cabeça definitivamente não está no
lugar.
— Aconteceu alguma coisa? — ele pergunta,
inclinando a cabeça, olhando-me com atenção.
— Não. Só… estou precisando de novos ares —
digo em um tom travesso, passando as mãos pelo
peito dele. — Não é nada com você. Só não está
funcionando mais para mim.
Ele leva a mão à minha cintura, apertando-me por
sobre a roupa, puxando-me para mais perto dele.
Sua boca vai ao meu pescoço e ele move a alça do
meu vestido, deixando um beijo no meu ombro, e
começo a perder a paciência. Qual a dificuldade de
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entender um não? Não é como se eu estivesse


terminando um relacionamento de quinze anos, é só
uma foda esporádica. Puxo meu braço do dele,
colocando a alça no lugar, e ele me olha irritado.
— A gente sempre se deu tão bem. Não me
importo nem um pouco de você pegar quem quiser,
sabe disso. — Ah, mas não me diga? Obrigada pela
autorização. — A gente pode continuar se vendo —
sussurra.
Abro a boca para tentar explicar e não ser babaca
com ele de graça, mas sinto sua mão descendo pela
minha cintura e pousando na minha bunda. Minha
paciência vai para o espaço.
— Não, não pode — sussurro de volta.
Ele solta meia dúzia de palavrões irritados e
algumas gentilezas que me fazem revirar os olhos.
Por que não estou surpresa? Levanto da cama,
catando minha bolsa no caminho, e olho por sobre
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o ombro uma última vez, dando de cara com a


expressão de pura incredulidade do homem.
Dirijo para casa, cansada e frustrada. Não lembro
qual foi a última vez que saí da cama de alguém
sem gozar e não recomendo para ninguém. Sinto-
me mal por um instante pela forma como acabei as
coisas, mas não me dou tempo nem espaço para me
preocupar com isso. Ele não hesitaria em fazer o
mesmo se fosse do seu interesse, porque é
exatamente esse tipo de relação impessoal que
sempre tivemos. Fora que meu humor está horrível.
Não sei o que aconteceu e não estou nem um
pouco satisfeita. Nem posso culpar o homem,
porque ele fez exatamente a mesma coisa de
sempre, e sempre fez muito bem. Acho que não
estou em um bom dia.
TPM. Certeza de que é TPM.
A verdade é que eu me distraí dessa história da
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secretária do Vinicius por algumas horas, mas isso


ainda está na minha cabeça. É impossível relaxar
com esse nojento rondando minha cabeça.
Entro no apartamento, vou direto para o chuveiro,
me livro da maquiagem, apanho uma roupa
confortável e me jogo na cama. Ligo o computador
e abro meus e-mails, decidida a colocar em dia o
que posso até o sono me alcançar.
Ignoro a mensagem de Juliana, e a de Eduardo
que vejo depois, porque sei qual vai ser o assunto.
Ju sabe que odeio Vinicius, mas até aí todo mundo
sabe. Ela não sabe o motivo, não sabe da história,
prefiro deixar assim por enquanto. Não faz
diferença ela saber, não vai melhorar a vida de
ninguém. Escolho me fazer de doida e fingir que
nada aconteceu tanto quanto eu puder. Sei que ela
vai insistir, conheço bem a amiga que tenho, vai me
cutucar até eu falar alguma coisa se eu disser que

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não vou contratar secretária nenhuma. Não era nem


para nenhum dos dois nem pensarem numa coisa
dessas.
Mas sei que só estão sendo pragmáticos. Sei que
eu devia ser também, mas não consigo. Não quando
Vinicius está envolvido, nunca consegui. Odeio
isso.

— Não, pai, não vou buscar o relógio.


Reviro os olhos pelo que pode ser a décima vez
nos últimos dois minutos, sentada no sofá, enfiada
em um par de jeans apertados e com os saltos nas
mãos. Estou atrasada, porque ele resolveu ligar
logo quando estava de saída. Ouço-o falando do
outro lado da linha, reclamando que não serve de
nada um presente que ele não vai poder usar.

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Eu entenderia se o caso fosse por ele estar


preocupado com a violência no Rio de Janeiro, ou
por não ter gostado do modelo do relógio que
ganhou de aniversário, mas não. Ele não pode usar
o presente simplesmente porque é caro demais para
ele aceitar. Do jeito que seu Aloísio fala da coisa,
parece que consegui o dinheiro para pagar por isso
vendendo órgãos de criancinhas sequestradas e não
ralando dia e noite naquele escritório.
Acho impressionante como o homem espera que
eu tenha vergonha do meu trabalho. O que ele não
entende é que não é só um emprego. É minha vida,
meu futuro, minha liberdade.
— Pai, eu te amo — interrompo-o. — Mas, por
favor, pare de insistir nisso. Já está passando dos
limites.
Já passou dos limites há muito tempo. Saí de casa
quando a situação ficou insuportável. Quando

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comecei a trabalhar, entrei como estagiária, então


tudo bem. Não era grande coisa, não ganhava bem,
não fazia nada importante. Mas fui logo efetivada,
logo promovida, cresci rápido. Isso passou a ser
inaceitável. Desrespeitoso. Como eu me atrevia a
trabalhar e ganhar mais do que ele? O que todo
mundo ia pensar?
— Eu só quero seu bem, Priscila — diz. —
Talvez você não enxergue isso, mas só estou
tentando te proteger do mundo. É assim que as
coisas são, você precisa entender isso.
Fecho os olhos, cansada. Estou exausta, perdi a
conta de quantos cafés já tomei depois de ter
dormido menos de quatro horas na noite passada,
trabalhando. Não devia ter que ouvir esses
absurdos.
— Eu agradeço a preocupação — respondo,
tentando controlar a irritação na minha voz. — Mas

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eu sou grandinha e sei me cuidar.


Encerro a ligação com a promessa de visitá-lo em
breve antes que ele tenha a chance de dizer mais
alguma coisa. Levanto do sofá, sentindo meu
estômago roncar e só então me dou conta que
esqueci de almoçar. Encaro a geladeira, tentando
lembrar se tem comida pronta, e lembro do restante
do macarrão que Rafael fez ontem, mas fico com
preguiça de esquentar. Puxo o celular do bolso e
digito uma mensagem rápida para Calebe, dizendo
que vou me atrasar um pouco porque vou parar
para comer alguma coisa no caminho.

Vem direto para cá, eu fiz comida.

Pergunto-me por um segundo se isso é uma boa


ideia. É a terceira vez que vou encontrar com ele
em menos de uma semana, e, por mais que o sexo
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maravilhoso faça muito bem para a minha pele e


humor, começo a me preocupar se não vai dar a
impressão errada, ainda mais se a gente agora for
jantar junto. Meu estômago ronca de novo e decido
que vale o risco.
Não vou ficar muito de qualquer forma, já é fim
da tarde de domingo e amanhã preciso chegar tão
cedo no escritório que nem devia estar saindo para
lugar nenhum. Mas vou mesmo assim, porque já
tive frustrações sexuais demais para um fim de
semana e sei que Calebe vai consertar isso muito
bem.
Configuro o GPS no celular quando entro no
carro e vejo a tela piscar com uma mensagem.

Aquela receita do bolo de abóbora funcionou,


vou levar um pedaço para você amanhã.

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Ajeito o cinto de segurança antes de começar a


digitar a resposta para Rafael.

Quero. Mas você não tem vergonha de estar


domingo à noite fazendo bolo sozinho em casa
não, vovô?

Começo a dirigir e ouço o som de outra


mensagem chegando, mas não pego o celular de
novo até estacionar em frente ao prédio de Calebe,
que mora irritantemente longe, coisa de mais de
quarenta minutos dirigindo. Confiro o espelho mais
uma vez, retocando a maquiagem e arrumando o
cabelo, e enfio os pés no salto que tirei para dirigir.
Pego a bolsa e caminho em direção à portaria,
esperando enquanto ele libera a minha entrada.
Ergo a cabeça, encaro o prédio, prendendo o lábio
entre os dentes, e penso por não mais que cinco
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segundos antes de desbloquear a tela, pronta para


digitar, dizendo que vou buscar o bolo hoje mesmo.
Mas abro a mensagem que Rafa mandou.

Não estou sozinho, implicante. Raissa está aqui.

Ainda? Franzo o cenho olhando para a tela. Eles


não iam sair ontem de noite? Depois diz que a coisa
não está ficando séria, agora a outra está passando
o fim de semana na casa dele. Fazendo bolo juntos
que nem um casal de velhos. Movo os dedos sobre
a tela, pensando em alguma piadinha ou
provocação para fazer, mas não me vem nada.
Coloco no silencioso, enfiando o aparelho na
bolsa quando entro no prédio, apertando o botão
certo do elevador. Calebe está esperando-me na
porta do apartamento, com um sorriso descarado no
rosto. Ele me cumprimenta, pousando a boca no
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meu rosto, e pergunta como foi meu dia. O papo


banal mal dura dois minutos e ele me joga no sofá,
deitando sobre mim. Ainda bem, porque não estou
com cabeça para jogar conversa fora.
— Tudo bem se eu comer a sobremesa antes do
jantar? — pergunta, subindo a mão por dentro da
minha blusa.
— Estava torcendo para você fazer isso —
respondo.
Se tem algum dia que eu estou precisando foder
meus problemas para fora da minha cabeça, esse
dia é hoje. Quando vejo que demora mal um
minuto inteiro para eu estar completamente nua no
sofá, as pernas ao redor da cintura dele,
preservativo sendo aberto, sem preliminares,
percebo que vim mesmo ao lugar certo.
Bolo eu compro na padaria.

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Capítulo 16
NÃO CONSIGO EVITAR RIR DA CARA de
Caíque quando ele me chama para conversar depois
que a festa acaba. Que viagem essa a dele.
— Não sei quantas vezes vou ter que repetir, cara
— digo, enfiando um brigadeiro na boca. — Ela é
só uma amiga.
Caíque me olha com completa descrença e dá os
ombros por fim, abrindo um sorriso.
— Ótimo, porque eu peguei o telefone dela e a
gente vai almoçar na quarta.
Paro de mastigar e olho para ele. Priscila é
completamente pirada, mas a ponto de sair com
algum amigo meu? Tudo bem que a gente não tem
nada mesmo, mas isso é meio estranho. Se bem que
eu fiquei com a melhor amiga dela e isso não fez
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diferença nenhuma para a loira, então não me


surpreendo. Dou os ombros.
— Ela come igual a um pedreiro, prepara o bolso
— aconselho depois que termino de comer o doce.
Apanho outro na vasilha e enfio na boca. — Foi ela
que te convidou? — pergunto, catando mais um,
ajeitando-me na cadeira.
Caíque me olha como se tivesse acabado de
vencer uma aposta.
— Tu gosta dela — diz, recostando na cadeira.
Reviro os olhos e levanto, deixando-o com sua
implicância para lá. É sempre a mesma coisa,
sempre que começo a sair com alguém, ele cisma
que estou morrendo de amores pela mulher. Priscila
tem razão nisso, confesso que é essa a impressão
que dá, porque não consigo evitar me importar.
Não consigo ser o tipo de cara que só pega
qualquer uma de qualquer jeito, deixa para lá e trata
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como se não fosse nada nem ninguém. Se é coisa


de uma noite, tudo bem, talvez eu não seja a pessoa
mais cuidadosa do mundo, mas se planejo ver a
mulher outras vezes, é impossível não acabar
desenvolvendo alguma intimidade.
Mas Priscila é sim diferente. Tentei dizer isso
mais cedo quando ela estava aqui, mas não acho
que a loira entendeu. É diferente porque ela é
minha amiga, porque me importo com ela não
como pessoa que estou comendo. Até porque não
estou. Não estou justamente porque a ideia de
estragar o que a gente tem me desespera.
Tudo bem que o universo se encarregou de
atrapalhar a gente da última vez, mas realmente tem
uma farmácia perto da casa dela. Dava facilmente
para ter consertado aquilo. Mas quanto mais ela
pede, com mais receio eu fico. Porque sei como ela
é e quão fácil enjoa dos caras que pega, sei a

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facilidade com que simplesmente os tira da sua


vida. Falei sério quando disse que a amizade dela
vale mais do que uma gozada.
Mas não posso negar a vontade de ter mais do que
tive hoje. A loucura dela ultrapassou todos os
limites quando ela começou a me chupar enquanto
eu falava com a minha mãe no telefone. Que boca
gostosa. Não consigo nem começar a organizar o
tanto de ideia que eu tive vendo-a ajoelhada na
minha frente com a boca cheia. Minha mente se
tornou um branco em absoluto e tudo que eu
consegui imaginar foi Priscila deitada na bancada
da cozinha, tequila, gelo e outra panela de
brigadeiro.
Não sei que vontade é essa que me dá de explorar
o corpo dela desse jeito. Quero saber até onde ir, do
que ela gosta. Quero que ela peça. Que confie em
mim para pedir o que quer sem reservas, do mesmo

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jeito que conversa comigo sem reservas. Acho que


é por isso que estou enrolando tanto para dar o que
ela quer. Priscila quer uma foda rápida, eu quero
tudo que o corpo dela tiver para oferecer.
Tudo que ela tiver a oferecer.
Dispenso o pensamento e volto a encarar Caíque.
— Vai ficar aí? — pergunto para ele. — Tenho
que ir encontrar com a Raissa.
Ele levanta e me segue em direção à porta.
— A vida é muito injusta — diz, dando-me uma
ombrada. — Tu aí podendo escolher, com um
monte de mulher caindo de amores aos seus pés, e a
gente aqui na seca.
Rio e o empurro de volta. Caíque nunca foi de
muitas mulheres, na verdade não lembro a última
vez que o vi com alguém. Os poucos namoros que
já teve na vida não duraram muito e ele é o tipo de

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cara que fica amigo das ex sem problemas. A


verdade é que ele é uma pessoa muito melhor do
que eu e tenho sorte de tê-lo por perto. Minha vida
nunca foi regada a dramas e tragédias, mas todos
passamos por momentos difíceis e ter um amigo
por perto quando algo vai errado não tem preço.
— Não tem ninguém morrendo de amores aqui. É
só sexo. Isso você sabe que consegue mais fácil do
que qualquer um de nós.
Caíque ri da minha cara, balançando a cabeça.
— Tu é inocente demais para o teu próprio bem
— diz.
Ele se despede, vai embora sem explicar e eu sigo
para casa, sem me dar ao trabalho de tentar
entender.

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A campainha toca e abro a porta, dando passagem


para a mulher que entra na casa como se fosse dona
do lugar, como sempre faz. Rio com a facilidade
com que Raissa se sente confortável em qualquer
lugar.
— Boa noite, meu gostoso — diz, beijando-me
assim que entra, jogando a bolsa em cima da
bancada. — Posso tomar um banho?
Aponto para o banheiro, dizendo para ficar à
vontade, e ela me arrasta junto, arrancando a roupa
da academia no caminho, dando um nó no cabelo
castanho cacheado. Paro na porta do banheiro,
observando quando ela entra debaixo do chuveiro.
Ela me chama com o dedo e nego com a cabeça.
— Prefiro ficar te olhando daqui — digo,
recostando no batente.
Ela revira os olhos e não demora muito debaixo
d’água. Não se dá ao trabalho de se vestir de novo
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antes de se jogar na cama e me chamar.


— Assim? — pergunto com uma risada, tirando a
camisa pela cabeça.
Ela solta o mar de cachos sobre o travesseiro e me
espera com um sorriso provocativo no rosto.
— Acabei de sair da academia — diz. — Estou
cheia de energia.
Quando eu saio da academia, só quero dormir por
três dias. Vai entender. Subo as mãos por sua
cintura firme, alcançando seus seios perfeitamente
redondos que sei que são resultado de um silicone
muito bem colocado. O corpo dela é perfeito, nada
menos. Raissa se dedica a isso mais do que
qualquer outra pessoa que conheci, cada pedaço
dela é firme e empinado, capaz de enlouquecer o
mais casto dos homens.
— Como foi o treino? — pergunto, beijando seu
pescoço, e ela engancha os dedos no meu cabelo,
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puxando os fios, indicando para que eu olhe para


ela.
— Eu adoro conversar com você — diz, passando
o dedo no meu lábio. Cerro os olhos para ela,
porque não é verdade. — Depois.
Faço um sinal de zíper na minha boca e não
profiro nem mais uma palavra pela próxima hora.
Não é exatamente como eu gosto, mas dou o que
ela quer. Já me acostumei com esse jeito da Raissa
e o resultado acaba sendo bem gostoso de qualquer
forma.

— Não acredito que não tem comida nesta casa


— ela diz, no meio de uma risada. — Você sempre
tem comida!
Dou os ombros sem saber o que dizer, porque é

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verdade. Eu fui ao mercado essa semana, mas


parece que preciso ir de novo. Vejo a mulher à
vontade na minha cozinha, andando de um lado
para o outro revirando as coisas, vestida com uma
camisa minha, cantarolando alguma coisa e, pela
primeira vez desde que começamos a sair, me sinto
um pouco desconfortável. Não parece certo.
— Rá? — chamo, e ela me olha sobre o ombro.
— Está ficando tarde.
Ela vira na minha direção e cruza os braços,
erguendo uma sobrancelha para mim.
— Você está me mandando embora? — pergunta
incrédula e nem eu estou entendendo o que estou
fazendo. — Você nunca me mandou embora,
Rafael. O que está acontecendo?
Suspiro e arrasto as mãos pelo cabelo. Não sei. Só
não estou com vontade de ficar aqui conversando
baboseiras sem sentido. Não consigo pensar em
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nada melhor para fazer em uma noite de sábado do


que gastar algumas horas com ela, na verdade esse
vem sendo meu programa favorito por muito
tempo. Mas não agora. Porque é mentira, eu
consigo sim pensar em uma coisa melhor para
fazer. Só não é com ela.
Olho a hora e mal são nove da noite, então não
está tarde coisa nenhuma.
— Não estou me sentindo muito bem hoje —
digo.
Uma parte enorme de mim quer morrer por estar
mentindo. Odeio mentira com todas as minhas
forças. Tecnicamente é verdade, não estou com a
cabeça no lugar. Nunca que eu mandaria essa
mulher embora se estivesse bem, então tem alguma
coisa errada comigo sim.
É só que parece tão… superficial.
Só consigo pensar na voz da Priscila gritando na
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minha cabeça que superficial é bom. Que


superficial faz bem, que superficial resulta em
orgasmos maravilhosos. Mas parece que aconteceu
coisa demais hoje, coisa suficiente para uma
semana no espaço de algumas horas.
Priscila e as loucuras dela essa manhã. O dia
inteiro, aliás, porque é impossível ficar imune às
insanidades daquela mulher mesmo que ela
estivesse perfeitamente entretida com Caíque e
minha mãe por boa parte da tarde. Também tem
Roberta, que está na minha cabeça de um jeito
estranho. Definitivamente não sinto falta dela, não
mais, mas a gente tem uma história. A pentelhação
da minha tia por a gente ter terminado também está
aqui.
Ela é madrinha de Roberta e acho que gosta mais
dela do que de mim, então seja lá qual minha tia
acha que foi o motivo de a gente não ter continuado

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junto, ela me culpa. A mulher faz questão de me


lembrar disso sempre que pode. Qual o motivo
dessa obsessão, não sei. Meu relacionamento com a
minha tia nunca foi dos melhores, mas piorou
muito depois do término.
Conversando com Roberta hoje, pela primeira vez
ela disse que se sentiu pressionada. Juro que só
consegui ficar ainda mais confuso. Depois de tanto
tempo junto… Foram quatro anos, não quatro
meses. Talvez eu tenha me precipitado, mas
realmente não achei que fosse o caso na época.
Hoje, contudo, agradeço por ela ter recusado. Não
porque não a amava, mas tudo que eu vivi depois
que nos separamos me diz que aquela não era a
escolha certa para a minha vida.
Tudo que estou vivendo agora me faz muito feliz.
Levanto os olhos para a mulher escultural
encarando-me com um fio de irritação nos olhos e

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paro para olhar para ela de verdade pela primeira


vez há muito tempo. Raissa é espetacular. O corpo
dela é perfeito, sim, mas sua personalidade não fica
atrás. Ela é centrada, séria, madura. Tem um papo
bom, é uma boa companhia. Mas nunca consegui
ficar completamente à vontade perto dela,
provavelmente porque ela me olha como se eu
fosse uma criança de cinco anos se faço qualquer
palhaçada. Nunca precisei me sentir à vontade, na
verdade, não passamos mais do que algumas horas
juntos por vez, e todas elas sem roupa.
Raissa franze os lábios e pisca com seus longos
cílios, perguntando o que eu quero. No que diabos
estou pensando. Não é o nome dela que me vem à
cabeça. Fecho os olhos e solto um palavrão. Não.
Eu vou matar Caíque por ter enfiado essa ideia
idiota na minha cabeça. Preciso dar um jeito de
tirá-la daqui antes que o estrago seja feito.

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Priscila, como a boa amiga que é, esteve ao meu


lado hoje, me ouviu sobre Roberta e, do jeito
implicante e provocativo dela, fez eu me sentir
melhor. É por isso, somente por isso, que ela está
na minha cabeça. É isso.
— Rafa?
Respiro fundo e sorrio, dando o crédito devido à
boa companhia que Raissa sempre foi.
— Pizza?

Eu não costumo ficar de mau humor. Acontece de


vez em nunca e passa rápido, mas acho que acordei
com o pé errado hoje, não é possível. Tudo está me
irritando, tudo está me tirando do sério. Minha
cabeça está explodindo com tudo que aconteceu
nos últimos dias, com trabalho, com a aparição

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surpresa de Roberta que, querendo ou não,


desenterrou algumas coisas.
A sensação de que alguma coisa está faltando não
me larga. Estou assim desde ontem e não sei o que
é.
O fim de semana foi curto demais, é a única
conclusão que consigo chegar quando Renato já
entra no escritório com sete pedras nas mãos assim
que volta do almoço nessa segunda-feira. Eu devia
começar hoje a trabalhar em outro setor, mas como
prometi que ficaria essa semana para resolver as
pendências enquanto encontram alguém para ficar
no meu lugar, vou ter que me desdobrar em dois,
porque Marcela não está exatamente disposta a
ficar com um funcionário a menos a semana toda, o
que não é nada além de justo. Isso significa que
nem sei que horas vou embora.
Passei a manhã na contabilidade e é definitivo:

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qualquer lugar é melhor do que trabalhar para ele.


Fui soterrado com planilhas e orçamentos e, ainda
assim, minha manhã foi muito mais produtiva e
agradável do que qualquer trabalho que eu já tenha
feito para Renato.
Demoro algumas horas para colocar em ordem o
que ele me pede, mas não reclamo, porque significa
que estamos os dois ocupados e sobra pouco tempo
para ele ser desagradável. Já passa da metade da
tarde quando consigo parar para respirar e levantar
para comer alguma coisa. Salvo tudo no
computador e vou para a copa ver se ainda tem
algum iogurte sobrando. Acho um último pote no
fundo da geladeira e como em poucas colheradas.
Jogo o pote fora e recosto na bancada. Eu me
permito tirar alguns minutos para respirar, rolando
pelo celular.
Uma mensagem pisca na tela, como se

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adivinhasse que estou aqui, e vejo o nome da


Raissa escrito. Abro e vejo o texto dizendo que
adorou o fim de semana, que quer me ver de novo
em breve. Encaro a tela, vendo que aparece
“digitando” no topo, e suspiro quando vejo que a
próxima mensagem é uma provocação sexual
escrachada, detalhando o que exatamente ela quer
fazer na próxima vez que me ver. Isso realmente
devia ter feito meu pau acordar, mas nada.
Fecho os olhos e balanço a cabeça, irritado.
O que a gente tinha era bom. Funcionava. Era
simples e casual, descomplicado como tem que ser.
Não sei se foi a história da camisinha que ficou na
minha cabeça, não sei se é porque estou muito
ocupado com trabalho agora e não consigo pensar
nessas coisas, não sei. Só sei que não estou
morrendo de vontade de encontrar com ela como eu
deveria.

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— Oi.
Levanto os olhos e me surpreendo de verdade
quando vejo Juliana na minha frente, olhando-me
incerta, com os olhos meio arregalados e um sorriso
no rosto. Não sei nem o que responder. Abaixo os
olhos de volta para a tela do celular, surpreso por
perceber que nem estou mais irritado com ela. É
como se essa história toda tivesse acontecido há
muito tempo e nem lembro mais o motivo da
confusão.
— O quê? — pergunto, minha voz saindo mais
arisca do que pretendia.
— Já almoçou? — ela insiste, e solto um palavrão
por dentro, não para ela, mas pela foto dos peitos
de Raissa que pula na tela do meu celular. — Abriu
um mexicano aqui perto. Você gosta de comida
mexicana, não gosta?
Movo meu dedo sobre a tela e clico em excluir,
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mas uma segunda foto aparece e deveria ser o


suficiente para me deixar babando. Mas nada.
Nenhum sinal de vida.
— Rafael?
Desligo a tela e enfio o celular no bolso sem fazer
nada por fim, sem apagar a foto, sem responder
Raissa, irritado e frustrado pela súbita falta de
reação à mulher insinuante na tela do meu celular.
— O que você quer, Juliana? — pergunto,
completamente frustrado com tudo. Comigo, com
Raissa, com essa sensação meio agoniante de não
saber o que está errado comigo. — Você não pode
simplesmente fingir que está tudo bem.
Vejo-a engolir seco e empinar o queixo um pouco
e tenho vontade de gritar. Não é nem com ela que
estou irritado. Nem sei com o que estou irritado.
— Rafa, eu preciso te pedir desculpas por ter
saído daquele jeito da sua casa.
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Eu inclino a cabeça e cerro os olhos na sua


direção, deixando tudo de lado e focando na mulher
à minha frente. A gente se aproximou bem rápido.
É verdade que logo que cheguei dei em cima dela
descaradamente, mas em minha defesa eu não sabia
do rolo dela com Eduardo e eu dou em cima de
todo mundo descaradamente. Ela acha que foi isso
que me deixou chateado? Acha que foi a primeira
vez que uma noite não terminou do jeito que eu
achei que fosse terminar?
— Não, Juliana — digo, respirando fundo e
balançando a cabeça. — Você tem que pedir
desculpas por não me dar nenhuma explicação, por
ter desaparecido completamente e não ter se dado
ao trabalho de me procurar em quase um mês. —
Pauso por um instante, dando-me conta do tanto de
tempo que já passou e eu nem percebi. Minha vida
tem estado tão agitada assim que não senti os dias

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passarem? — O que não falta no mundo é mulher


para pegar, mas eu gosto de você. Achei que
fôssemos amigos. Não imaginei que uma amiga se
prestaria a me usar daquele jeito.
Só consigo me lembrar de Priscila dizendo que
nunca fomos amigos. Talvez ela esteja certa, mas
não significa que não poderíamos ser. Eu tenho
uma tolerância muito baixa para mentira e Juliana
pisou no meu calo sem saber. É verdade, eu gosto
dela. Teria ficado muito feliz se aquela noite tivesse
acabado bem, com nós dois muito satisfeitos na
cama? Sem dúvidas. Mas o problema não foi o fato
de isso não ter acontecido. O problema foi ela não
ter se dado ao trabalho de me explicar o que raios
aconteceu depois.
Suspiro e desencosto da bancada, passando por
ela, tocando seu ombro no caminho.
— Você sabe onde me encontrar, Ju. Tem meu

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número, sabe onde moro. Só não vem me pedir


desculpas porque está entediada, porque precisa de
um plano B para alguma coisa ou porque resolveu
ficar com a consciência pesada.
Não sei por que ela resolveu fazer isso agora,
depois de tanto tempo. Com certeza não vou me
prestar ao papel de me fazer disponível para o caso
de ela e Eduardo terem brigado ou qualquer coisa
do tipo. Até porque ele tem cara de que me
acertaria um soco bem dado na cara e não estou
disposto a quebrar o nariz por mulher nenhuma.
— Não achei que de nós dois fosse eu a ter que
ser o maduro da situação. Sua consciência é
problema seu.
Digo a última frase com um suspiro, sabendo que
fui mais ríspido que o necessário. Não é justo
descontar nela o que não foi ela que causou. Juliana
errou, errou feio, mas não é com ela que estou

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irritado agora.
É comigo mesmo.
Sinto alguma coisa entalada na garganta e preciso
conversar com alguém. O único nome que aparece
na minha mente é o da loira de olhos travessos.
Vou em direção à sua sala e entro direto, dando
uma batida na porta. Priscila tira os olhos do
computador por um segundo apenas e continua
digitando como se eu nem estivesse aqui.
— Como foi seu fim de semana? — pergunto,
jogando-me na cadeira.
— Estou ocupada, Rafael — diz. — Vai tagarelar
com a Raissa, tenho que trabalhar.
As palavras mal saem como um resmungo da
boca dela e me ajeito na cadeira, abrindo um
sorriso para a careta emburrada que ela faz quando
vê que não vou sair. Ficaria ofendido se já não
estivesse acostumado com esse jeito dela. Priscila é
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capaz de arremessar uma cadeira em qualquer um


que atrapalhe seu trabalho e, pela rapidez com que
digita e a pilha de coisas na sua mesa, ela realmente
está atolada.
O telefone dela toca e a loira enfia o aparelho na
orelha, prendendo com o ombro enquanto continua
digitando apressadamente. Ouço a meia dúzia de
ordens firmes, centradas, rápidas, em um tom que
não permite qualquer discussão e sorrio para a
ruguinha no meio da testa dela por um instante
antes de me lembrar da montoeira de trabalho que
eu tenho acumulado.
Eu sei que vou ficar até mais tarde para tentar dar
conta de dois setores durante essa semana toda. O
tempo que eu estou aqui ao invés de estar
trabalhando só vai adicionar mais horas ao fim do
dia, mas fico mesmo assim. Preciso respirar.
— Juliana me procurou — digo quando ela

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encerra a ligação e isso desperta a sua atenção.


Priscila imediatamente para o que está fazendo e
apoia o cotovelo na mesa, o queixo sobre a palma
da mão. Relato o que aconteceu agora na copa e ela
revira os olhos.
— Dormiu com jeans apertados? — pergunta,
voltando a atenção para o computador. — Qual o
motivo desse mau humor? Não precisava dessa
grosseria toda.
Sorrio para a total e descarada defesa. Ela tem
razão, eu exagerei, mas Juliana não é santa nessa
história. Só que Priscila se jogaria na frente de um
trem tomando partido dela. Pergunto-me se nossa
amizade é incondicional assim também.
— Eu realmente estou de mau humor —
confesso, arrastando a mão pelo cabelo em um
suspiro, e ela me olha de canto de olho, indicando
com a cabeça que eu continue falando. — Não sei,
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só não estou muito bem.


Recosto na cadeira e jogo a cabeça para trás,
fechando os olhos e respirando fundo. Ouço um
suspiro, o som da cadeira sendo arrastada e o som
estridente dos saltos dela batendo contra o chão e
um instante depois a mão dela toca meu ombro.
Abro os olhos e vejo Priscila chamando-me em
direção ao sofá. Acomodo-me com a cabeça nas
pernas dela assim que ela senta e fecho os olhos de
novo quando a loira começa a passar os dedos pelo
meu cabelo.
— Você está esquisito. Não estou nem falando
daquele ataque que você deu no sábado, me dando
bronca como se eu fosse uma criancinha. — Seu
tom é de pura implicância e me arranca um sorriso
fraco. — Bom, por mensagem pelo menos você
estava esquisito. É por causa da Roberta?
Seu tom é meio hesitante e me faz abrir os olhos

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na sua direção, encontrando seu cenho franzido e


olhos atentos. Nego com a cabeça e ela ergue uma
sobrancelha como se duvidasse da minha resposta.
— Não sei o que é — respondo. — TPM talvez?
— brinco, e ela ri.
— Desse problema você não morre, bonitinho —
responde e pisca para mim depois de apontar com a
cabeça para o meio das minhas pernas. — Às
vezes, a gente só está em um humor bosta sem
nenhum motivo. Acontece — diz, dando os
ombros.
Concordo com a cabeça, fechando os olhos, sem
conseguir imaginar a loira tendo um desses dias.
Priscila é sempre muito espevitada, mesmo quando
parece não estar tendo um bom dia, sempre com
uma tirada na ponta da língua, uma provocação.
Não consigo imaginar o contrário acontecendo, não
dá para imaginar uma situação em que ela viria até

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mim para conversar sobre algum problema. Ela


provavelmente iria para o primeiro dos seus caras
que estivesse disponível e rolaria na cama com ele
até esquecer qualquer problema. Talvez seja um
jeito eficiente de resolver as coisas, não sei. Parece
funcionar para ela.
Ouço meu celular apitar no bolso e puxo, abrindo
a mensagem sem prestar atenção. Resmungo
quando vejo outra mensagem de Raissa. Ela está
inspirada hoje.
— Quer ajuda para tirar uma foto decente para
responder? — Priscila pergunta com uma risada. —
Eu tenho um ângulo perfeito daqui e faço esse
sacrifício pela felicidade dela.
Reviro os olhos e enfio o celular no bolso de
novo, levantando do colo dela.
— As coisas estão esquisitas — digo, arrumando
a blusa, preparando-me para levantar. — Você não
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respondeu. Como foi seu fim de semana?


— Dei até cansar — diz, dispensando o
comentário com a mão. — Qual o problema com
Raissa?
Dou os ombros. Nem sei mais. Conto para ela
sobre o fim de semana no máximo de detalhes que
consigo lembrar, enfatizando que sim, camisinhas
foram usadas, quando ela me olha sugestivamente.
Sei que estou tagarelando sem parar quando ela
pressiona os lábios como sempre faz quando está
irritada. Estou mesmo atrapalhando o dia dela, vou
acabar sendo morto daqui a pouco.
— Vou te deixar trabalhar — digo, arrastando-me
no sofá, e ela ergue uma sobrancelha para mim. —
O quê?
— Você entra, senta, me faz de psicóloga e vai
embora assim? — pergunta com um sorriso sacana
no rosto. — Cadê meu pagamento?
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Não sei do que ela está falando. Uma voz no


fundo da minha mente diz que ela só está
lembrando-me do bolo que eu disse que ia trazer,
ou que ela está esperando eu dizer que vou pagar
uma rodada para ela. Mas a única coisa que consigo
fazer é olhar para os lábios cobertos pelo batom
vermelho e me inclinar sobre ela. Priscila hesita por
um segundo e acho que é a primeira vez que
acontece isso, mas por fim retribui o beijo,
afundando as mãos no meu cabelo e puxando-me
mais para perto.
Arrasto a boca pela linha do seu queixo,
mordendo seu pescoço em um ponto que sei que ela
gosta, os dedos enganchados no seu cabelo de um
jeito que sei que faz com que ela incline a cabeça
sem nem perceber com um gemido contido. Isso é
o suficiente para fazer meu pau acordar. Não as
fotos dos peitos perfeitamente redondos de Raissa,

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não as sacanagens que ela escreveu nas mensagens,


nada disso. O simples som de satisfação de Priscila
contra meu ouvido é o que preciso. Eu estou a
ponto de desabotoar sua blusa quando meu celular
apita de novo. Ela ri, uma risada seca com a cabeça
jogada para trás enquanto minha boca termina de
percorrer seu colo.
— Responde a menina — murmura quando
mordo seu seio por sobre a blusa. — Ela está
esperando a resposta daquela foto. — Priscila solta
outra risada quando sobe a mão por minha perna e
esbarra na prova de como meu corpo reagiu rápido
a ela. — Perfeito, ela ainda vai ganhar uma foto do
seu amiguinho bem feliz — provoca, e eu solto um
resmungo, enfiando a cabeça no ombro dela.
Raissa está enlouquecidamente me mandando
essas fotos porque se teve uma coisa que a gente
não fez ontem foi transar. Acho que o encontro

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com Roberta me desestabilizou mais do que eu


imaginava, porque, passado o frisson inicial de ver
Raissa andando sem roupa pela minha casa, o resto
do fim de semana foi… monótono. Ela insistiu em
ficar quando ficou tarde de verdade para ir embora,
mesmo eu oferecendo para pagar um táxi. Eu não
sei dizer não, então ela ficou. No meio da noite, eu
fui para o sofá porque a sensação de ter alguém na
minha cama foi muito esquisita. Faz tanto tempo
que não passo a noite com alguém que me senti
desconfortável. Nem preciso dizer que ela ficou
puta da vida quando acordou e não me viu ali.
Ainda assim, de alguma forma ela passou o resto
do dia.
Acho que estou precisando de novos ares. É isso.
É a única explicação possível. Ou eu estou ficando
velho demais para essa vida de pegação
desenfreada e está na hora de focar no meu

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trabalho.
Solto um resmungo frustrado, afastando-me, e ela
segura meu braço.
A descontração do seu rosto foi embora e Priscila
me encara com seriedade e atenção.
— Qual o problema? — pergunta, e eu balanço a
cabeça. — Não começa. Vou ter que repetir o seu
discursinho de amigos primeiro e pau depois?
Ela ergue a sobrancelha, desafiando-me a
contradizê-la, e eu abaixo a cabeça com um sorriso.
— A gente combinou, lembra? Sem joguinhos.
Eu me preocupo com você, então me diz qual o
problema.
Concordo com a cabeça. A gente combinou. Mas
ela também já se fez muito clara de que não tem
saco para drama e é capaz de me mandar pastar em
Marte se eu falar alguma coisa. Principalmente

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porque não tenho muita certeza da confusão que


está minha cabeça agora.
Meu celular apita de novo e solto um palavrão
quando abro a mensagem. Que insistência dos
infernos. Respondo dizendo que tudo bem, vou
encontrar com ela mais tarde, seja lá qual o motivo
do desespero. Arrasto as mãos pelos cabelos e me
preparo para voltar para o trabalho, querendo
morrer um pouco por saber que Renato vai estar
cuspindo fogo quando me ver.
— Você está estressado com o trabalho, não está?
— pergunta, e confirmo com a cabeça. — Não sei o
que aconteceu, mas Renato está impossível nos
últimos dias, não te culpo. Esbarrei com ele hoje
mais cedo e quase quis sair correndo. Por que a
gente não faz assim… Eu nem sei que horas vou
sair hoje, então quando você acabar o que tiver que
fazer, bate aqui e a gente vai beber alguma coisa.

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Eu quero morrer um pouco por ter acabado de


marcar com a Raissa. Enfio a mão no bolso para
pegar o celular e desmarcar, mas Priscila solta uma
risada.
— Ah — ela diz, percebendo minha hesitação. —
Divirta-se, bonitinho — sussurra, inclinando-se no
meu ouvido. — Parece que você fez bem em não
voltar com a sua ex, afinal. Já estou vendo você
todo bonitinho andando de mãos dadas com ela
logo, logo.
A loira levanta e anda em direção à sua mesa,
alisando a saia e arrumando o batom borrado. Pri
olha sobre o ombro e pisca para mim. Vejo o exato
instante em que ela força um sorriso no rosto ao me
encarar e sei que tem alguma coisa errada, mas não
sei o quê. Que ela está irritada comigo por ter
atrapalhado o trabalho, disso não tenho dúvidas.
Ainda mais para fazer drama que ela tanto odeia.

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— Não tenho intenção nenhuma de ter nada com


ela — resmungo, levantando do sofá. — Na
verdade estou achando que já passou da hora de
parar de ter qualquer coisa. Estou com a impressão
de que ela está querendo mais do que a gente tem.
Ela solta uma gargalhada, uma das suas
gargalhadas gostosas e envolventes, e recosta no
tampo da mesa, cruzando os braços, olhando-me
com a cabeça inclinada.
— Você acha que ela quer mais? — pergunta em
um tom debochado. — Vocês já estão praticamente
namorando, Rafa. Você só não sabe ainda.
Balanço a cabeça e vou até ela. Não, não mesmo.
Não tenho qualquer intenção que isso aconteça. Só
essa ideia me incomoda e muito. Passo um braço ao
redor da sua cintura, colando seu corpo no meu.
— O que você anda comendo? — pergunta em
um tom brincalhão quando arrasto a boca em seu
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pescoço. — A menina ficou o fim de semana


inteiro na sua casa e você está todo cheio de fogo.
Foram as fotos que ela mandou? Eu não tenho
aqueles peitos todos, nem vem — brinca.
Sinto uma pontada de provocação na sua voz e
quero ignorar. Quero ignorar, jogar no chão tudo
que está na mesa dela, agarrá-la pelas coxas e
colocá-la sentada no tampo de madeira com as
pernas bem abertas para mim.
— Seus peitos são maravilhosos — digo,
encaixando uma mão na sua bunda, e ela sussurra
que sabe disso, pousando os dedos no meu cinto.
Perto demais de onde preciso dela para o bem do
meu juízo.
— Essa é a sua versão de precisar
desesperadamente de sexo para aliviar os
problemas? — pergunta, arrastando a palma por
cima da minha calça, e eu ofego. — Achei que isso

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fosse coisa minha, bonitinho. Achei que você fosse


do tipo que gosta de conversar.
Ela abaixa o zíper e eu apoio as duas mãos na
mesa ao lado dela quando a loira arrasta a mão por
cima da boxer em um afago suave. Em seguida, eu
a beijo. Tomo seus lábios e ela retribui, não
reclamo quando não passa disso, quando não passa
de um toque torturantemente delicado no meu pau
duro implorando por mais dela. Priscila só me
provoca e nada mais, como sabe fazer melhor do
que ninguém. Ela interrompe o beijo e suspira
contra a minha boca, balançando a cabeça.
— Porque eu realmente preciso trabalhar, mas
você vai encontrar com a Raissa mais tarde —
cutuca em um tom debochado, tirando a mão de
mim. Ergo os olhos para ela e digo a mim mesmo
que estou ficando louco quando acho que vejo uma
pontada de irritação nos seus olhos.

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O que deu na loira para falar tanto da Raissa hoje,


eu não sei, mas cada vez que ela faz isso me dá
vontade de agarrar Priscila ainda mais, então é isso
que faço. Ignoro completamente o que ela diz e a
puxo para outro beijo.
Então eu percebo.
Talvez essa seja minha versão de precisar de sexo
desesperada para aliviar os problemas, mas não é
qualquer sexo. É com ela. Foi atrás dela que eu
vim, não de qualquer outro sexo fácil que pudesse
arrumar. Porque quero sua provocação,
implicância, mão boba e piadas sexuais de duplo
sentido.
Percebo que sei exatamente o que é a sensação de
que alguma coisa está faltando. Estava faltando.
Estava com saudades dela.
Caíque tem razão.

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Eu estou fodido.

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Capítulo 17
NÃO SEI TERMINAR COM AS PESSOAS.
Sinto-me um canalha por ter terminado tudo com
Raissa ontem e a cara de raiva dela me atormentou
a noite toda. Não aguentei e mandei uma
mensagem perguntando como ela estava hoje de
manhã, mas não adiantou. O que não entendo foi o
ataque que ela deu quando cheguei a casa dela,
dizendo que tinha planejado a noite toda, e jogou
em cima de mim a lingerie minúscula que
comprou. Ela queria que a gente tivesse se comido
primeiro e eu terminado a pegação depois? Ia ser
muita filha da putagem. Mas ela parece discordar,
porque disse que eu não tinha esse direito.
Tentei conversar, juro que tentei. Sentei no sofá,
pedi para me dizer qual era o problema, mas ela se

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recusou. Raissa me chamou de moleque e me


enxotou do lugar. Eu estou sem entender o que fiz
de errado.
Liguei para a Priscila quando cheguei em casa
para ver se ela me dava uma luz, mas a loira
também não me atendeu. Nem retornou depois.
Nem respondeu a mensagem que deixei. Não estou
entendendo nada. Mas é bom. É isso. É bom.
Entendi o que aconteceu ontem. Eu estava tendo
um dia ruim, é normal que em um dia ruim a gente
recorra às pessoas de quem gosta, então nada mais
óbvio do que sentir falta de uma amiga, nada mais
natural do que me sentir melhor depois de
conversar com ela. É isso. Nada além disso.
Puta que pariu. Eu estou muito ferrado.
Arrasto a mão no cabelo e respiro fundo quando
ouço a voz de Renato gritando, perguntando se eu
já acabei com as fotos que ele pediu. Sinceramente,

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não foi mesmo para isso que me matei de estudar.


Só quero que essa semana acabe e eu possa mudar
de setor na santa paz. São mal oito da manhã e ele
já está comportando-se como se o mundo fosse
acabar. Reviro a pilha de fotos à minha frente e
nem sei por onde começar a organizar isso. Solto
um palavrão e espalho todas por sobre a mesa.
— Precisa de ajuda com isso?
Levanto os olhos e vejo Juliana de pé na frente da
minha mesa, sorrindo para mim como se nada
tivesse acontecido. Balanço a cabeça, negando. Não
preciso de mais dor de cabeça. A noite foi ruim e o
dia já começou terrível.
— Tem certeza? Você sabe que aprendi muita
coisa com Guilherme. O que quer que você esteja
tentando fazer aí, eu consigo agilizar.
Ela puxa a cadeira e senta ao meu lado. Desisto
de negar ajuda, porque preciso acabar isso o mais
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rápido possível. Ainda tenho uma pilha de coisa


que a Marcela me entregou para fazer. Explico o
melhor que posso o que precisa ser feito, mas
honestamente nem eu entendi. Renato jogou as
coisas em cima de mim com meia dúzia de
resmungos carrancudos e foi para a sala dele. Mas,
surpreendentemente, em questão de minutos
organizamos tudo em uma ordem que Juliana jura
de pé junto que é a melhor. Separamos as imagens
de qualidade baixa para serem descartadas. Isso já
me salva de alguns minutos de broncas sem
necessidade. Respiro fundo, aliviado por terminar
isso na metade do tempo que levaria, e levanto os
olhos para agradecê-la.
— Me desculpa — diz, e balanço a cabeça com
um sorriso cansado. A essa altura nem sei mais
pelo quê. — Me escuta. Eu sei que errei feio com
você e não tem nem justificativa para o que eu fiz.

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Suspiro.
— Realmente não tem — digo.
Tem uma parte minha que diz que estou só
fazendo birra, mas a questão foi que me senti
usado. Não gostei nem um pouco disso.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer? Existe a
menor possibilidade de a gente começar de novo?
Recosta na cadeira e dou os ombros.
— Não sei, Ju. Talvez. Você não é minha pessoa
favorita do mundo no momento. Acho difícil que
volte a ser.
Calo imediatamente a voz que diz que essa
posição já está ocupada.
— Eu sou a pessoa que você mais odeia no
mundo? — pergunta, e ergo os olhos para ela.
— Não.
Definitivamente não. Na verdade, nem sou de
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guardar rancor, é por isso que essa conversa é tão


esquisita. Não estou tão chateado com ela. Só não
estou com cabeça para isso agora.
— Posso trabalhar com isso — diz. — Eu
realmente gostaria de ser sua amiga. Prometo que,
quando não piso na bola desse jeito, eu sou a
melhor que você pode ter. Dou os melhores
conselhos e faço bolo de coco.
Sorrio pela facilidade com que ela parece disposta
a colocar isso tudo para trás. Por que as coisas são
tão complicadas? Não entendo a dificuldade das
pessoas em terem conversas abertas assim. Esse
momento poderia ter sido evitado se ela
simplesmente tivesse chegado em mim e dito que
só queria dar uns pegas enquanto tomava coragem
de assumir que estava morrendo de amores pelo
Eduardo.
— Almoça comigo hoje? Posso só tentar fazer as

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coisas voltarem ao normal?


Ergo a sobrancelha. Ela quer mesmo que eu seja
demitido, não é possível.
— Não vai almoçar com Eduardo?
Ela fica branca igual papel. Abre a boca e fecha
de novo sem saber o que responder. Então que me
dou conta: ela acha mesmo que eu não sabia.
Imaginei que pudesse ser o caso, já que os dois não
entram exatamente de mãos dadas no escritório.
— Vocês disfarçam muito mal, Juliana. — Não
consigo evitar o tom de brincadeira na minha voz e
um sorriso escapa do meu rosto quando vejo que
ela está a ponto de morrer. — Estou brincando, não
precisa fazer essa cara. Parece que vai ter um troço.
Eu vi vocês outro dia, no final daquela reunião.
Voltei para buscar uma caneta que tinha esquecido
na sala de conferências e vi você arrumando seu
sapato, se apoiando nele. A mão dele estava muito
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bem na sua cintura para ser acidental. — Dou de


ombros. — Juntei uma coisa com a outra.
Olho para ela, esperando para ver se é hoje que
Juliana tem um troço aqui, e ela balança a cabeça,
confirmando.
— Se era para ser usado para fazer ciúmes em
alguém, pelo menos Eduardo parece um
concorrente digno — brinco, mas é verdade. Dez
entre dez mulheres deste escritório são
descaradamente doidas por ele.
— Eu não estava tentando fazer ciúmes em
ninguém — diz.
Olho para ela e inclino a cabeça. Não acredito
nisso nem por um segundo. Juliana pode achar que
ninguém sabe sobre eles dois, mas eu me lembro
muito bem da cara que Eduardo me olhou quando
cruzou comigo depois daquilo. Achei que eu fosse
morrer ali mesmo.
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— Prometo.
Dou os ombros. Não faz diferença.
— Bom… Não importa agora.
A cara de desespero não vai embora e rio quando
ela começa a estalar os dedos enlouquecidamente.
Vale a pena ficar brigado com alguém por causa de
uma pegação que não deu certo? Juliana já está
mais do que ciente de que fiquei puto com a
palhaçada e duvido que vá fazer algo do tipo de
novo, então já está bom de deixar essa história para
lá.
— Me atualiza na hora do almoço. Mas você
paga. Eu quero a tal comida mexicana naquele
restaurante caro que você falou ontem, o que abriu
no final da rua.
Ela abre um sorriso muito satisfeito e confirma,
despedindo-se antes de sair da minha mesa.

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Espero de verdade que Eduardo não me arrebente


por causa disso. O homem é duas vezes o meu
tamanho e eu não tenho vocação nenhuma para
briga, muito menos por causa de mulher.
Eu gosto do meu nariz no lugar.

— Não gosto dele — Juliana diz em meio a uma


garfada. — Não gosto nem um pouco.
É fácil esquecer qualquer desentendimento depois
de alguns minutos de conversa, porque
imediatamente lembro o motivo de ter gostado dela
logo de cara. Juliana é divertida e a mente dela
parece funcionar igual a minha. Os cinco primeiros
minutos foram esquisitos, mas a conversa começou
a fluir assim que chegamos ao tal restaurante,
porque Ju gosta de cozinhar tanto quanto eu, então
assunto não falta. Dividimos também nosso
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desgosto total e absoluto por Renato.


— Eu realmente não entendo qual o problema
daquele cara — resmungo, mordendo um taco. —
Parece que ele sente prazer em fazer a vida de todo
mundo um inferno.
Ela ri quando caem farelos da minha boca e eu
tomo um longo gole do suco.
— Eu achei que a Pri fosse mesmo arremessar
alguma coisa na cabeça dele na última reunião —
diz, entre uma risada, e instintivamente puxo o
celular do bolso.
Ainda sem notícias da loira. Mandei outra
mensagem, perguntando se ela queria almoçar com
a gente, mas essa ela nem visualizou. Deve estar
atolada de trabalho. Ontem, ela só faltou me matar
quando entrei na sala dela e não demorou muito
para me enxotar de lá. Só me deixou ficar tempo o
suficiente para a gente se pegar um pouco e me
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colocou para fora assim que viu que não ia sair


mais nada de lá. Confesso que fiquei chateado,
porque realmente precisava conversar. Nem sei
sobre o que, mas a companhia dela ajudou a
melhorar um pouco o dia. Melhorar muito meu dia.
Ando de mau humor.
— Que foi? — Juliana pergunta, e desligo a tela,
enfiando o aparelho no bolso de novo.
— Nada. Só estava vendo se tinha recebido uma
mensagem.
Ela coloca o garfo no prato e me olha
sugestivamente.
— De uma amiga — explico, e o sorriso dela
aumenta.
— Essa amiga é bonita? — pergunta, olhando-me
de canto de olho enquanto coloca uma porção de
comida na boca.

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As duas são carne e unha. Juliana não espirra sem


que Priscila saiba e vice-versa. Então me pergunto
se ela sabe de alguma coisa.
— Linda — murmuro em resposta, suspirando, e
reviro os olhos quando ela abre um sorriso
escancarado.
Ela sabe. Claro que sabe. Se a loira não se faz de
rogada para me dar detalhes gráficos demais sobre
os caras com quem ela sai, com certeza não
esconde qualquer coisa da amiga. É estranha a ideia
de a mulher à minha frente saber o que a gente fez
ou deixou de fazer. Especialmente porque a
lembrança do último final de semana me faz querer
bater na sala da Priscila agora mesmo e repetir a
dose.
— Então qual o problema? — pergunta, e eu dou
os ombros.
— Não tem problema nenhum. Gosto de sair com
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ela, só isso. Só estou preocupado de alguma coisa


ter acontecido, porque ela não é de largar o celular.
Juliana continua olhando para mim como se
guardasse o maior segredo do mundo enquanto
come e mudamos de assunto algumas vezes,
falando de trabalho, família e comida de novo.
A companhia dela é agradável e talvez Priscila
esteja certa ao dizer que nunca fomos amigos, mas
tenho certeza de que isso vai mudar daqui para
frente.
— Você está esperando o que para dizer que
gosta dela? — pergunta do nada, fazendo-me
levantar a cabeça e olhá-la, confuso. Juliana revira
os olhos. — Você está conferindo esse celular de
dois em dois segundos. Nem vem dizer que está
preocupado de ela ter morrido porque duvido que
seja isso.
Estou?
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Giro o aparelho em minhas mãos sem ter certeza


de como responder a isso. Estou incomodado com o
fato de não ter tido nenhuma resposta dela, disso
não tenho dúvidas. Mas o que me incomoda é a
sensação de não saber o que está acontecendo.
Priscila nunca deixou de responder nada antes. A
impressão que eu tenho é de que ela perdeu
completamente o interesse em me manter por perto
porque eu simplesmente não a jogo na mesa e a
fodo até cansar como ela quer. O papo dela de
ontem confirma isso. Priscila me dispensou e me
jogou para cima de Raissa sem nem piscar porque
eu a procurei para conversar.
Para fazer drama.
Pelo visto essa amizade só funciona se tiver
pegação envolvida. Eu odeio isso. Era exatamente
isso que eu estava tentando evitar. Aquela chupada
maravilhosa com certeza não valeu a pena se o

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resultado é ela cagar na minha cabeça agora.


— Ela sabe — respondo, porque é verdade.
Priscila sabe que gosto dela. Já cansei de repetir
infinitas vezes que a loira é minha melhor amiga.
Ela está em pé de igualdade com Caíque em
importância na minha vida, talvez ultrapasse o
gigante em alguns quesitos. Ela sabe.
Puta que pariu, ela sabe. É esse o problema, não
é? É por isso que ela não me respondeu.
— Bom — Juliana diz, conferindo a hora e
indicando que temos que ir —, espero que dê tudo
certo entre vocês dois. Mas Rafa, você é um cara
legal. Talvez deva procurar alguém que responda
suas mensagens.
Falando desse jeito parece que estou procurando
alguém, mas não estou. Estou muito bem desse
jeito mesmo. A vida não se resume a sexo e acho
que essa é a maior diferença entre nós dois. É assim
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que Priscila resolve todos os problemas dela. Eu


recorro aos meus amigos. Eu recorro a ela. A gente
ficou muito próximo nessas últimas semanas e eu
conheci muito dela, é claro que fiquei encantado.
Ela é incrível. Mas eu só tive a chance de descobrir
isso porque a fiz gozar.
Rio, porque essa história de P.A. não podia ser
uma furada maior. Ela só está interessada no P.
Como não teve isso ainda, o A não serve para muita
coisa. O que é estranho, porque a gente sempre
conversou muito antes disso, antes de qualquer
ideia de sexo aparecer. O que só prova que eu
estava certo: depois de algumas pegações, ela enjoa
e manda pastar.
Eu estou puto por ela preferir jogar uma amizade
no lixo por causa disso.
— Vamos? — pergunto, e Juliana concorda.
Trocamos mais meia dúzia de conversas fiadas no
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caminho de volta para o escritório e me despeço


dela, indo para a minha mesa. Já sou recepcionado
com gritos do Renato.
Sinceramente, não sei como esse dia pode piorar.

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Capítulo 18
CÓLICA NÃO É DE DEUS.
Não sei se agradeço ou reclamo pela dor que
parece ser o pagamento por todos os meus pecados.
O dia até agora foi bem cansativo, é só terça-feira
e parece que já se passou uma semana inteira de tão
ocupada que eu tenho andado. Essa história de
processo de Lorena tem dado mais dor de cabeça
do que esperado e atrasado todo o resto do meu
trabalho. Nem sei que horas saí daqui ontem e
parece que só deu tempo de chegar em casa, dormir
por algumas poucas horas e voltar para cá.
Queria uma notícia boa, só uma para variar. Mas
quando ouço o barulho da porta da minha sala
sendo aberta e fechada em um tranco e um soluço
escandaloso saindo da garganta de Juliana, sei que
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só vem mais bomba por aí. Levanto da cadeira em


um pulo quando ela anda na minha direção,
sentando na cadeira em frente à minha mesa, e vou
até ela, ajoelhando ao seu lado.
— O que aconteceu? — pergunto, preocupada por
nunca a ter visto desse jeito.
Ju é a rainha do drama, ninguém se desespera
tanto quanto ela, mas ainda assim nunca a vi nesse
estado. Os olhos vermelhos, lágrimas escorrendo
pelo rosto. Seguro suas mãos e sinto-a tremer.
Começo a me desesperar também, pensando em
infinitas possibilidades do que possa ter acontecido.
— Pelo amor de Deus, Juliana, o que aconteceu?
Você está gelada, parece que vai desmaiar.
Olho-a com preocupação e aperto seus dedos, sem
saber o que fazer além disso. Ela fecha os olhos e
respira fundo. Posso ver que está tentando colocar a
cabeça no lugar e falhando feio, porque só faz
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voltar a chorar, e eu quase choro junto sem nem


saber qual o problema. Sinto minha garganta
arranhar quando ela começa a murmurar coisas que
não fazem sentido, soluçando, e não consigo evitar
o arrepio na minha espinha quando, no meio da
confusão de palavras, ouço o nome de Vinicius.
O que esse filho da puta fez agora?
— Se acalma — sussurro, acariciando sua mão.
Ela para de falar e respira de novo. Várias vezes.
Acho que desistiu e só vai ficar sentada ali me
matando de desespero. Estou a ponto se sacudi-la
pelo ombro e pedir para pelo amor de Deus me
dizer qual o problema, quando ela começa a falar.
— Fui almoçar com o Rafa hoje — diz e me olha.
Sei que mesmo no meio de seja lá qual o furacão
que esteja acontecendo, ela precisa que eu entenda
que não aconteceu nada.
Eu sei que não, ela não é doida de fazer nada que
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estrague o que ela e o Edu construíram e Rafael não


é doido de se meter com ela a essa altura do
campeonato. Eduardo acaba com a raça dele.
Balanço a cabeça, concordando.
— Eu e o Edu conversamos muito sobre isso
ontem, e ele foi irritantemente maravilhoso como
sempre. Foi ele que disse para eu tentar resolver
isso — explica. — Então eu fui. Foi ótimo, a gente
conversou, pelo visto Rafael está morrendo de
amores por alguém que ele conheceu e parece bem
feliz. Fiquei superanimada para ir direto falar com
o Edu, mas…
Ela pausa e ergue os olhos para mim. Não sei se
ela consegue perceber como estou rangendo os
dentes neste momento, mas me limito a arrumar a
postura nessa posição desconfortável e fingir que
não ouvi o que ela acabou de dizer. Belo amigo que
não me conta nada.

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— A secretária nova do Vinicius veio dizer que


ele queria falar comigo.
Não sei nem por onde começar a xingar. De onde
veio secretária nova? Eu não contratei ninguém?
Aquele filho da puta passou por cima de mim
mesmo? E o que no inferno ele poderia
possivelmente querer com a Ju?
Então ela desembesta a falar. Conta o discurso
ridículo dele sobre como Edu está deixando de lado
o trabalho por causa dela, o que é verdade e não o
culpo. Ele já faz demais por este lugar, muito mais
do que deveria, muito mais do que gostaria. É uma
tortura diária que ele se submete unicamente por
causa do pai e isso não é segredo para ninguém.
Então não vou ser eu a tacar pedra nele por isso.
Tem mais é que largar um pouco este lugar de mão
mesmo. Eu estou aqui exatamente para cobrir esses
buracos e ele sabe disso.

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Não me surpreende nem um pouco que Vinicius


não aprove o envolvimento dos dois. Como ele
descobriu, é um mistério. Mas é óbvio que não
deixaria isso assim. Não sei qual o drama entre os
dois, Eduardo nunca me contou, mas o problema é
grande.
Desisto de ficar apoiada nos meus tornozelos e
sento no chão, cruzando as pernas sem soltar as
mãos de Ju quando ela diz que ele exigiu que ela se
afastasse. Não estou surpresa. Vinicius
simplesmente não suporta ver o irmão feliz. É
como se o prazer diário dele fosse fazer a vida do
outro o mais miserável possível, e ele conseguiu,
por muito tempo. Quando abro a boca para
perguntar como no inferno ele acha que isso vai
acontecer, ela se adianta e me diz o que ele contou
a ela. Alguma história cabeluda do passado de
Eduardo que me faz franzir o cenho em total

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descrença.
— Você acha que ele está falando a verdade? —
pergunto, reticente.
Encaro Juliana com cuidado, tentando entender o
que se passa na cabeça dela, controlando-me para
não gritar que é óbvio que ele está mentindo.
Eduardo é uma das poucas pessoas no mundo por
quem eu colocaria minha mão no fogo e não tem a
menor chance de ele ter feito nenhuma dessas
barbaridades que Vinicius claramente inventou.
Ela nega com a cabeça e eu suspiro aliviada.
— Não tem a menor chance de nenhum dos
absurdos que ele me disse serem verdade. Eduardo
nunca faria nada daquilo — murmura, balançando a
cabeça.
Mas… Se ela não acredita nisso, qual o motivo do
desespero, do choro e dessa cara de quem está a
ponto de morrer a qualquer momento? A
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possibilidade de ele ter feito alguma coisa com ela


me atinge forte e preciso respirar fundo para não
começar a surtar.
Surtar é uma coisa que nunca posso me dar ao
luxo de fazer. Preciso cuidar de muita coisa para ter
tempo de me descabelar por qualquer motivo. Nem
lembro qual foi a última vez que pude me
desesperar por qualquer motivo.
— Você não parece tão convencida assim —
digo, pausadamente, com medo de sem querer
colocar alguma ideia na cabeça dela.
Ju sorri para mim, um sorriso cansado que quase
parece um choro.
— Sei que não é verdade — confirma.
— Então qual o problema?
Ela ri. Um riso histérico que faz eu me perguntar
se é uma boa ideia pegar um calmante para ela,

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porque estou vendo a hora que essa mulher vai ter


um treco aqui na minha frente.
— Ele insinuou que Eduardo mudou muito nos
últimos meses e está relapso por minha causa, que
esta empresa é tudo que mais importa na vida
daquele cabeça dura e que seria uma pena se fosse
tirada dele. — Ela respira fundo e espero que
continue, porque até aí nenhuma novidade. —
Queria poder dizer que foram ameaças veladas, Pri,
mas não foram. Ele se fez muito claro de que, ou
termino tudo com Eduardo e dou um jeito de ele
voltar a viver vinte e quatro horas por dia para esse
lugar, ou ele vai tirá-lo da empresa.
— Como ele vai fazer isso? Não faz sentido,
Juliana.
Quando ela começa a chorar de novo, percebo
que meu tom foi muito ríspido. Ela balança a
cabeça em negativa e é minha vez de respirar

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fundo, por ela. Juliana veio até mim porque, como


sempre, espera que eu tenha a solução mágica para
qualquer problema. Eu normalmente tenho.
Especialmente porque na maior parte das vezes é
coisa simples que pode facilmente ser resolvida
depois de respirar fundo. Mas a simples presença
de Vinicius nessa história faz com que a única
solução possível para mim seja tacar fogo naquele
filho da puta. Não consigo pensar, não consigo
raciocinar direito, não consigo nem entender o que
está acontecendo. Odeio o sentimento de que a
resposta para o que quer que seja o problema está
bem aqui na minha frente e não consigo enxergar.
Insisto para que ela fale, tomando cuidado com
meu tom. Ela começa a falar de novo. Se eu não
estivesse sentada, com certeza cairia estatelada no
chão, completamente sem reação. O que no inferno
ele acha que está fazendo?

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Lembro, sem querer, das muitas vezes que ouvi


Vinicius reclamar do irmão com nada além de ódio
puro na voz. Não foi até muito depois de enxotá-lo
da minha vida que conheci Eduardo e toda aquela
raiva acumulada começou a fazer ainda menos
sentido. Minha boca cai aberta sem que eu possa
fazer nada quando ela termina de me contar tudo
que ele disse.
— Juliana… — Sinto minha voz falhar e ela
fecha os olhos. — Isso é muito sério. Tem certeza
de que é verdade? Porque se for…
— Se for verdade vai destruir Eduardo
completamente. Não só o posto dele aqui dentro, a
vida dele inteira — completa. — Por favor, me diz
que eu não preciso fazer isso.
Não consigo fazer nada além de puxá-la para um
abraço e ela desaba no choro.
— Me diz que eu estou só fazendo drama como
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sempre e que não é tão grave assim, que eu posso


só continuar com ele e fingir que não vai acontecer
nada.
Não tenho uma resposta e sei que isso desespera
Juliana mais do que qualquer outra coisa. Ela
recorre a mim, sempre dizendo que eu sou a
salvadora da sua vida. Acaba sendo verdade,
porque não é raro ela só exagerar um pouco no
desespero. Mas dessa vez ela não parece estar
exagerando. Porque sei bem do que o Vinicius é
capaz quando quer acabar com a vida de alguém.
Sei até onde ele vai pelo simples prazer de ter sua
vontade feita e sei que ele não vai pensar duas
vezes antes de fazer o que bem entende, com essa
mania de se achar dono da verdade, Deus do
mundo e das vontades alheias. Eu sei bem disso,
pois senti na pele.
Deixo que ela chore no meu ombro e cada

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lágrima que não posso derramar na frente dela vira


uma bola de raiva entalada na minha garganta.
Quando Ju parece acabar, seca as lágrimas e
levanta a cabeça, encarando-me com um olhar que
me diz que ela não tem ideia do que fazer.
— Qual é o problema desse babaca? — Não sei
nem se é um sussurro que sai da minha boca,
parece mais um grito abafado. — Quem guarda
esse tipo de informação e usa para ameaçar o
próprio irmão?
Ela encosta a cabeça nas costas da cadeira e fecha
os olhos, abrindo um sorriso cansado.
— Eduardo foi até o pai dele quando a gente
descobriu a história da Fernanda — diz. — Pedir
para Alex tirar Vinicius daqui.
Solto um palavrão e esfrego as mãos no rosto.
Filho da puta de merda.
— Vinicius empurraria a própria mãe escada
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abaixo por um pouco mais de dinheiro e poder —


murmuro. — Se é o caso de ele perder a
presidência da empresa, acredite em mim, ele vai
cumprir a ameaça.
Ela franze o cenho para mim, parecendo me
analisar com cuidado.
— Você está dizendo isso com uma certeza
assustadora.
É a minha vez de abrir um sorriso cansado.
— Conheço Vinicius melhor do que gostaria —
digo, e ela ergue as sobrancelhas, esperando que
continue falando. — Isso é tudo que você precisa
saber, Ju.
— Você nunca escondeu nada de mim — aponta.
Inclino-me na direção dela e seco seu rosto,
catando com o dedo o resto das lágrimas que
grudaram na sua bochecha. Dou um beijo na sua

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testa como estou tão acostumada a fazer. Ju até


coloca pose, mas a verdade é que quero colocá-la
no colo e cuidar dela na maior parte do tempo,
porque ela é inocente demais para o próprio bem.
— Sinto muito — murmuro. — Mas dessa vez eu
vou.
Puxo-a para o meu colo e deixo que volte a chorar
enquanto eu mesma prendo as lágrimas que nunca
derramei por ele. Nem nunca vou. Juliana sabe que
odeio aquele homem com cada pedacinho meu,
mas não sabe o motivo. Ninguém sabe, na verdade,
porque é uma época da minha vida que prefiro
esquecer. Vinicius não merece o privilégio de viver
na minha mente ou memória. Mas hoje, agora, com
tudo isso, é impossível deixar tudo enterrado. Ju
murmura entre lágrimas que precisa falar com Edu
e eu a aperto mais um pouco nos meus braços,
querendo morrer por não saber como consertar isso.

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—Vou ter que concordar com Vinicius em uma


coisa, Ju. Eduardo mudou muito desde que te
conheceu. — Deixo um sorriso genuíno crescer no
meu rosto em meio a essa confusão toda. —
Conheço aquele rabugento há muitos anos e ele
nunca pareceu tão feliz.
Ela sorri fracamente em resposta.
— Ele sabe que te faz feliz. Acho difícil que
simplesmente aceite calado que você vai embora
sem um bom motivo, Ju.
Acho que Juliana é a única pessoa no mundo que
entende que não tenho nada contra
relacionamentos, pelo contrário. Torço pelo dela
como ninguém. Se tivesse que montar um fã clube,
eu seria a dona, chefe e organizadora de eventos.
Ela entende que eu só não quero um
relacionamento para mim. Porque não é certo para
mim, mas é certo para ela. Minha amiga merece

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essa felicidade. Ela merece ser feliz com esse


homem que está disposto a abrir mão do mundo
inteiro por ela. Juliana ainda não enxerga isso,
talvez porque não o conheça há tanto tempo, mas o
que Edu sente por ela é pura devoção. Não existe a
menor chance de ele simplesmente deixá-la ir
embora assim. Ainda mais com essa cara de quem
não quer ir embora.
Ela levanta da cadeira e respira fundo, dizendo
que vai falar com ele. Abraço-a mais uma vez,
torcendo para que ache a solução que não consegui
encontrar. Quando Juliana cruza o batente e fecha a
porta, fecho os olhos e sento no sofá. É a minha vez
de respirar fundo.
É inacreditável a capacidade de Vinicius de
destruir tudo que toca. De não conseguir ver
ninguém feliz. De querer espalhar seu veneno por
todos os lados. Juro que tentei entender, que tentei

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conhecer o homem debaixo de todo aquele rancor,


mas cheguei à conclusão de que algumas pessoas
simplesmente não prestam. Não tem essa história
de que no final se arrepende e se redime dos seus
pecados. Não tem nada que ele possa fazer que
conserte todo o estrago que já fez na vida dos
outros.
Não sei quanto tempo fico sentada encarando o
nada. Perco completamente a noção de tudo e odeio
esse sentimento. A coisa que mais me dá orgulho
nesta vida é a minha capacidade de sempre estar em
completo controle de mim mesma. Minha vida,
meus passos, minhas escolhas. Odeio que seja ele,
mais uma vez, a tirar isso de mim.

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Capítulo 19
ESPERO NOTÍCIAS DA JULIANA, E NADA.
As horas passam e eventualmente volto ao
trabalho, é mais fácil do que pensei que seria
esquecer de tudo com a cara enfiada nessas
planilhas. Quando o telefone toca e os e-mails
começam a chegar, quando documentos e
requerimentos começam a lotar minha mesa,
desligo minha mente e afundo no que sou paga para
fazer. Mas ainda assim só consigo parar de checar o
telefone de cinco em cinco minutos quando recebo
uma mensagem dela dizendo que está indo para
casa, pedindo para eu ir para lá mais tarde. Franzo
o cenho para a mensagem, respondo de imediato,
perguntando se não quer que eu vá agora, e ela
nega.

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Pego-me olhando para a porta depois de ver as


horas e perceber que o dia está no fim e ninguém
invadiu minha sala com tagarelices sem sentido
hoje como vem acontecendo todos os dias das
últimas semanas. Problemas nunca vêm sozinhos,
não é verdade? Começo a arrumar minhas coisas e
mando uma mensagem para Ju, perguntando se já
posso ir para lá. Ela não é dessas que gosta de ficar
sozinha para colocar a cabeça no lugar, isso é mais
meu estilo. Então, se ela realmente me pediu
espaço, ainda que por algumas horas, tenho que
respeitar, mesmo que eu esteja morrendo para ir
atrás dela.
É impossível não me preocupar com ela.
Quando Ju responde pedindo chocolate, começo a
andar em direção à saída, carregando comigo a
última pasta que preciso entregar hoje, sem nem
saber como falar com o Edu agora. Estou

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completamente no escuro sobre o que aconteceu,


mas tenho certeza de que as coisas não estão bem.
Se estivessem, Juliana estaria aqui e não esperando
por mim com chocolate em casa.
Atravesso o andar, passando pelos corredores
vazios, rolando pela tela do celular para ver qual o
mercado mais perto da casa dela. Travo no lugar
quando chego ao corredor do escritório Eduardo.
O que é essa cena que estou vendo?
Demoro alguns segundos para processar o que
está acontecendo na minha frente e até tento
encontrar uma explicação que faça a situação não
parecer tão ruim quanto é, mas desisto. Recosto na
mesa da Ju e cruzo os braços, fazendo questão de
assistir atentamente o desenrolar da coisa à minha
frente para não ter a chance de ninguém vir com
aquele papo de que não é nada disso que eu estou
pensando.

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Vejo o exato momento em que Lorena, de pé na


porta do elevador com o cabelo bagunçado, se
inclina e deixa um beijo no rosto de Eduardo, que
se limita a não se mover. A mão dela sobe pelo seu
peito e a ruiva abre um sorriso glorioso. Feliz e
contente. Lembro-me da reunião que os dois
tinham marcada para hoje e solto um palavrão pela
sequência de pancada que está sendo o dia. Eu vou
matar o Eduardo, é isso.
O que no inferno ele pensa que está fazendo com
aquela mulher? Desencosta, querida.
Fecho os olhos por um segundo e agradeço
mentalmente por Juliana não estar aqui para ver
essa palhaçada. Tento calar a voz gritando na
minha cabeça, dizendo que todo esse escarcéu com
contrato, processo e os cacete a quatro tem motivo
de ser.
A promessa de cortar fora o pinto dele ainda está

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valendo.
Quando Edu vira na minha direção, fica clara a
surpresa de me ver ali. Eu só quero voar no pescoço
dele. Mas o susto não dura mais de um segundo e
ele rapidamente volta à postura de sempre e anda
na minha direção, esticando a mão para pegar a
pasta que eu carrego.
— Eu não esperava isso de você — digo e nem
me dou o trabalho de disfarçar a reprovação na
minha voz. — Há quanto tempo eu te conheço,
Edu? Dez anos? Coloquei minha mão no fogo por
você tantas vezes que nem sei. Garanti para minha
amiga que ela podia confiar em você e é assim que
você se comporta?
Forço-me a parar de falar antes que comece a
gritar. Não sei se eu deveria me sentir traída dessa
forma, mas é assim que me sinto. Se teve um
homem que eu acreditei que prestava, era ele.

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Nunca, em nenhuma circunstância, esperava ver


essa cena ridícula aqui na minha frente. Não
quando consigo visualizar tão bem a cena de
Juliana em casa chorando, despedaçada por
qualquer que tenha sido o resultado da conversa
dos dois.
— Ela me deixou — ele responde entre dentes e
eu não consigo fazer nada além de rir.
Está claro que Juliana não contou a verdade para
ele. Ainda assim, não tem nada, absolutamente
nada que ela possa ter falado que justifique ele mal
esperar cinco minutos antes de se jogar em cima de
outra pessoa.
— E você não perdeu tempo — rosno, largando a
pasta em cima da mesa e virando as costas.
Não espero para ouvir a resposta dele, porque não
importa. Não agora, pelo menos. Qualquer coisa
que ele diga só vai me fazer querer bater nele. O
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escritório está praticamente deserto, tarde como é.


O expediente acabou há pelo menos uma hora e são
poucas as luzes ligadas. Sem que eu realmente
perceba o que estou fazendo, começo a andar na
direção contrária do andar, ouvindo o som dos
meus saltos batendo no chão e praticamente
ecoando pelo vazio do lugar.
Suspiro quando paro em frente à mesa de Rafael,
que parece tão atolado em meio a uma pilha de
papéis, que demora alguns segundos para perceber
que estou ali.
— Pri? — Ele franze o cenho, olhando para mim,
e entorta a cabeça. — Você está bem?
Abro a boca para dizer que não sei, mas não tenho
tempo. Quem disse que as coisas nunca estão tão
ruins que não possam piorar merece um tapa.
Claramente é mentira. Sempre podem piorar. Dias
ruins têm essa mania de durar para sempre e

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desafiar minha capacidade de não explodir. Sinto


que estou passando por um quando fecho os olhos
por um segundo, respirando fundo ao ouvir a voz
de Vinicius chamando por Renato.
Olho por sobre o ombro para ver o homem,
envolvido em um terno caro demais, mas não o
suficiente para esconder a pobreza do seu espírito.
Vinicius estaca no lugar quando me vê e o olhar
dele cai para Rafael por um segundo antes de voltar
a me encarar.
Ele sorri.
O filho da puta sorri para mim e vem na minha
direção. Eu conheço esse olhar, esse riso
debochado, essa postura que me faz retesar
imediatamente.
— Priscila. — Ele para ao meu lado, os olhos
fixos em mim, meu nome saindo da sua boca com
um sorriso descarado no rosto. — Faz tempo que
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não te vejo, querida. Está fugindo de mim?


Forço-me a manter o olhar firme no dele e quase
não percebo quando empino o queixo e deixo um
sorriso irritado crescer no meu rosto. O brilho nos
olhos dele enquanto me encara me faz querer
vomitar. Posso ver de canto de olho Rafael se
remexer na cadeira, claramente sem entender o que
está acontecendo na frente dele. Vinicius ergue
uma mão, alcançando meu braço, e sinto sua palma
acariciando minha pele, seus dedos fechando-se ao
redor em um toque delicado demais.
Não penso antes de estalar a mão no seu rosto.
Coisa que eu já devia ter feito há muito tempo.
Coisa que fiz há muito tempo, mas não o suficiente.
— Não encosta em mim — sibilo.
Espero ver puro ódio no seu olhar, mas tudo que
enxergo é a surpresa descarada quando ele ergue os
olhos na minha direção de novo. Mas a surpresa
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também dura pouco e logo o sorriso volta ao seu


rosto, porque eu dei exatamente o que ele queria:
um sinal de que ele me afeta.
Tratei-o com total indiferença durante todos esses
anos, evitando contato ao máximo, e por um
milagre consegui. Das poucas vezes em que me vi
forçada a estar no mesmo cômodo que o homem,
meu profissionalismo falou mais alto do que
qualquer raiva que eu possa sentir. Mas aqui,
depois de tanto tempo, dar a ele esse gostinho me
irrita mais do que qualquer outra coisa, então me
permito virar as costas e sair de novo, a passos
largos, afastando-me da aura tóxica que o cerca por
onde quer que vá.
Enfio-me dentro do primeiro banheiro que vejo e
encosto na parede depois de fechar a porta com um
baque.
Fecho os olhos e repito para mim mesma que

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preciso ver como Juliana está. Que é nisso que


minha cabeça precisa estar agora. Que é ela a
minha prioridade no momento, nada mais. Passo
poucos minutos respirando fundo antes de me olhar
no espelho por um segundo. Ajeito o cabelo como
posso e começo a ir em direção à porta do banheiro,
que se abre em súbito, assustando-me.
Nem tenho tempo de processar o que está
acontecendo quando Rafael aparece no banheiro
feminino, fecha a porta atrás de si e me puxa,
prendendo-me em um abraço, enlaçando minha
cintura. Meus braços se movem sozinhos,
enroscando-se ao redor do pescoço dele.
— Você está bem? — pergunta no meu ouvido, e
balanço a cabeça dizendo que sim. Tenho que estar.
— Loira…
Ele me aperta um pouco mais e afundo a cabeça
no seu pescoço por um segundo apenas. Seus lábios

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tocam meu pescoço e suspiro, fechando os olhos.


— Preciso ir — digo, sem realmente me soltar
dele. — Juliana está me esperando.
— Ei — ele chama, apertando um pouco mais
minha cintura. — Não quer conversar?
Nego com a cabeça, levantando o rosto do ombro
dele apenas para encontrar seu olhar de
preocupação. Rafael me encara como se eu
estivesse a ponto de ter um treco e respiro fundo,
colocando um sorriso no rosto, porque não suporto
admitir essa fragilidade toda.
— Você pode me ajudar de outro jeito se quiser,
bonitinho — insinuo de um jeito forçado, levando a
mão ao seu ombro. Nem eu acredito nas palavras
que saem da minha boca e Rafael suspira.
— Não faz isso, loira — pede, levando uma mão
ao meu rosto. — Eu estou aqui. Tudo bem, talvez
eu não seja a pessoa que você vai correndo procurar
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quando tem algum problema, eu sei que essa é a


Juliana. Ou seja lá que cara você vai atrás se você
realmente não quiser lidar com isso. Ou sei lá quem
você procura. Eu me preocupo com você, não faz
parecer que eu sou um vibrador ambulante.
Não consigo evitar um sorriso, ainda que
pequeno, pela tagarelice.
— Percebeu que falou uns quatrocentos “você” de
uma vez? — pergunto, e Rafael sorri de volta. —
Você fala demais, Rafa. Não cala a boca nunca.
Ele dá os ombros, apoiando a mão na minha
cintura, puxando-me de volta para um abraço.
— Você gosta — implica. Não posso negar isso.
— Me diz qual o problema.
Suspiro.
— Eu não sei o que fazer — admito e, ao mesmo
tempo que queima a minha garganta dizer essas

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palavras em voz alta, não é uma sensação de todo


ruim admitir. — Odeio não saber resolver alguma
coisa.
— Você é maravilhosa, mas não é uma super-
heroína, loira. Não tem que salvar o mundo todo.
— Sua voz é um sussurro contra meu ouvido e rio
com o deboche e implicância no seu tom. Que
abusado. — Não vou demorar a sair. Quer ir lá para
casa? A gente assiste alguma coisa, come porcaria,
enche a cara.
Sorrio contra o seu ombro e ele me aperta um
pouco mais.
Quero.
— Não posso. — Começo a me soltar de novo
dos braços dele, com a sensação esquisita de ser
confortável demais. — Mas come besteira e enche
a cara por mim.
— Tem certeza?
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Confirmo com a cabeça e ele me olha por alguns


instantes mais, como se tentasse decidir o que
fazer. Respiro fundo e forço um sorriso no rosto,
porque preciso ficar bem. Preciso passar no
mercado, comprar chocolate e cuidar da Ju. Ela
precisa de mim agora.
— Não foi assim que imaginei ficar trancada no
banheiro com você — digo, erguendo uma
sobrancelha para ele, que revira os olhos e balança
a cabeça, sorrindo em resposta.
Ele segura meu rosto com as duas mãos,
apertando minhas bochechas.
― Está liberado fazer drama de vez em quando.
Talvez. Não sei. Talvez. Provavelmente, mas não
consigo.
— Obrigada, bonitinho. — Rafael deixa um beijo
no meu nariz antes de me soltar. — Volta para o
trabalho que eu vi a quantidade de coisa na sua
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mesa.
— Marcela vai acabar com a minha raça — ele
murmura, passando a mão no cabelo parecendo
desesperado. Rafa vai em direção à saída do
banheiro, abrindo a porta para mim.
Faço uma reverência exagerada ao sair e sorrio
para ele antes de virar em direção ao elevador.
Mordo o lábio e olho para ele por sobre o ombro.
— Deixa ela acabar com a sua raça, bonitinho —
implico, piscando, e vejo-o prendendo uma risada
antes de dar dois passos na minha direção e me
puxar de novo pela cintura.
— Fica bem, doida — murmura, e fecho os olhos
por um segundo quando ele me beija.
De pé, no meio do corredor, ele me beija.
Percebo que já estou bem melhor.

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Capítulo 20
MINHA CABEÇA VAI EXPLODIR e não tem
remédio que me ajude.
Odeio essa época do mês, odeio essa sensação de
que meu útero me odeia por não exercer minha
única função na Terra. Recosto a cabeça na
cabeceira da cama, os olhos fechados. Continuo
arrastando os dedos pelo cabelo de Juliana, que tem
a cabeça deitada na minha perna. Sinto as lágrimas
dela molhando minha calça e não sei o que fazer.
Não sei como consertar as coisas dessa vez.
Vejo os quilos de embalagens de chocolate
espalhadas no chão, devidamente devoradas por
nós duas. Quando cheguei aqui, estranhei ver a
gatinha preta andando de um lado para o outro
como se fosse dona do lugar, porque Ju nunca foi

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dada a gatos, mas agora a bola de pelo e unhas


afiadas está deitada na cama com a gente sem fazer
qualquer cerimônia.
Juliana se remexe no colchão e solto uma risada
fraca quando ela começa a conversar com
Valentina. A que ponto chegamos nesta vida?
Jamais imaginei que isso fosse acontecer. Ela
ameaça levantar e puxo sua cabeça de volta para a
minha perna.
— Vai ficar quietinha aí, não mandei levantar ―
digo, e ela bufa, mas se acomoda de novo.
Não faz muito tempo que cheguei, o bom de ter
saído tarde do escritório foi que não peguei trânsito
para chegar aqui. Juliana mora bem longe do
trabalho e em qualquer outro horário do dia teria
levado uma eternidade. Gosto daqui. Sei que ela
não morre de amores pelo lugar e só não se desfaz
do apartamento por causa da avó, mas eu gosto.

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Vim para cá porque ela pediu e porque sei que


precisa de mim agora, mas a verdade é que eu não
estou com muita cabeça para ficar sozinha. Não sei
lidar com meus próprios dramas, não nasci para
isso. Não gosto deles, então prefiro fingir que não
existem. Quase consigo sentir minha mão latejando
pelo tapa que dei em Vinicius e a vontade de tacar
uma mesa na cara dele é real.
― Me diz que fiz a coisa certa ― Ju murmura, e
eu suspiro.
Ela levanta da minha perna e senta na cama,
virando de frente para mim com seus olhos
inchados de quem passou as últimas horas
chorando. Ajeito-me no colchão, cruzando as
pernas, e dou os ombros, sem saber como dar um
conselho bom a essa altura do campeonato.
— Você fez o que achou ser a coisa certa, Ju —
digo. — Se você quer saber se conversar com ele e

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contar que o querido irmão está ameaçando acabar


com a inteira existência dele seria uma ideia
melhor… Talvez? ― É mais uma pergunta que
uma solução. ― Vocês ainda estariam juntos,
porque não existe a menor chance de que Eduardo
fosse te deixar ir embora por causa disso.
— Mas ele se arrependeria depois que Vinicius
fizesse o que prometeu fazer — completa meu
pensamento.
Não quero admitir isso em voz alta, mas talvez. A
capacidade de Vinicius de interferir nas vidas
alheias é inegável e infinita, a verdade é que ele não
perde a oportunidade de pentelhar a vida do irmão.
Não é nada pessoal com a Ju, ela só foi pega no
meio do fogo cruzado.
― Talvez ― murmuro.
Não sei de mais nada. Há alguns meses, eu diria
sem piscar que ele jamais colocaria nada acima da
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empresa, mas eu vejo o jeito que aquele teimoso


olha para ela. Como se Juliana fosse o seu mundo
inteiro. Quando eu a contratei, sabia que ela era
exatamente o que ele precisava. Muito além do
currículo maravilhoso que Ju tem com tão pouca
idade, esse jeito espevitado é contagiante. Não
imaginei hora nenhuma que a relação dos dois
fosse virar isso tudo que é hoje, mas logo notei o
jeito que ele a olhava e o jeito que ela estava
fazendo-se de sonsa e fingindo que não era
recíproco.
Depois de um tempo, já era impossível negar que,
mesmo que não estivessem juntos, a proximidade
dos dois era estreita demais para ser só uma relação
profissional ou uma amizade sem interesses.
Quando eles, finalmente, ficaram juntos, foi como
uma peça de quebra-cabeça encaixando-se
perfeitamente. Já estava me preparando para ser

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convidada para ser madrinha do casamento dos


dois.
Aí essa papagaiada toda aconteceu.
Aí vi Edu com a Lorena.
O que no inferno aquele homem tem na cabeça?
Não contei para ela. Juliana afunda a cabeça em
um travesseiro e não consigo contar. Só ia fazer
aumentar o sofrimento dela ainda mais. Ainda tem
essa voz no fundo da minha mente dizendo que se
ele tiver feito alguma coisa para justificar essa
porcaria desse processo que estou ralando para
tentar resolver, eu vou matá-lo.
— Se foi a coisa certa, por que dói tanto? —
pergunta, e eu a puxo para o meu colo mais uma
vez.
Suspiro.
— Não sabia que essa briga deles dois ia tão

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longe assim — digo, mais para mim mesma do que


para Ju, afagando a cabeça dela. — Sempre soube
que Vinicius não valia nada, mas não achei que
fosse chegar a isso.
Ela murmura alguma coisa que não entendo com
o rosto afundado na minha perna e me limito a
continuar mexendo no seu cabelo. Juliana não é do
tipo que usa qualquer distração para fugir dos
problemas. Se fosse comigo, a essa altura eu já
estaria batendo ponto em alguma boate, enchendo a
cara ou na cama de alguém. Ou tudo junto. Na
melhor das hipóteses, mergulhada em trabalho até
não aguentar mais. Mas ela não. Ju não foge dos
problemas, ela os abraça até não ter mais espaço.
Tenho muito orgulho da minha menina por ser mais
forte que eu nessas horas.
Ouço meu celular tocando e puxo o aparelho do
bolso, franzindo a testa quando vejo o nome do

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Rafa na tela. Juliana levanta a cabeça e me olha, sei


que ela está perguntando-se se é Eduardo. Rejeito a
ligação e largo o celular no colchão.
― Não é nada ― respondo, e ela me olha por um
instante a mais antes de deitar na minha perna de
novo.
Ouço-a distraidamente contar uma coisa ou outra
das últimas semanas, algumas bobagens que os dois
fizeram juntos, e me surpreendo. Ela nunca me dá
detalhes de nada. A mistura de felicidade
escancarada e sofrimento desesperador nos olhos
dela parte meu coração.
Não achei que eu fosse ser capaz de me importar
com alguém tanto quanto me importo com ela.
Juliana é a irmã que nunca tive, essa é a verdade.
Sempre fui dada a muitas amizades, grandes grupos
barulhentos durante toda minha adolescência, não é
muito diferente agora. É fácil me entrosar em

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qualquer situação e não penso duas vezes antes de


me meter onde não sou chamada. Nunca fico
sozinha a menos que queira. Mas são poucas as
pessoas que têm um pedaço do meu coração como
ela. E Edu. E…
Como se lendo meus pensamentos, o nome de
Rafael pisca de novo na tela com um toque
estridente, e Juliana se arrasta para fora do meu
colo, murmurando que eu atenda a ligação. Levanto
da cama e me arrasto para fora do quarto.
― Não quero atrapalhar. ― Ouço sua voz assim
que atendo, antes mesmo de eu conseguir dizer
qualquer coisa. ― Estou ligando para a Ju, mas ela
não atende. Não consegui pensar em mais ninguém
para ligar além de você.
Franzo a testa e espero que ele continue.
― Acabei de sair do escritório e encontrei com
Eduardo no elevador. Ele não estava bem não,
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loira. Dava para ver que tinha bebido e não foi


pouco. Acho que ele pegou o carro, porque foi para
garagem. Achei melhor avisar.
Solto um palavrão e esfrego o rosto. Mas que
cacete, Edu. Desde quando deu para ser
irresponsável? Isso não combina com ele, nem um
pouco.
― Obrigada, bonitinho. Vou tentar falar com ele.
Começo a voltar para o quarto, preparando-me
para desligar, tentando decidir o que fazer. Não vou
conseguir sair daqui sem dizer para ela qual o
problema e Juliana vai ter um treco de preocupação
com ele. Filhos para que com esses amigos que
tenho?
― Ei ― Rafa diz, e eu paro na porta. ― Você
está bem? Sei que seu método de resolver
problemas é bem eficaz, aliás desculpa se eu tiver
atrapalhado alguma coisa. Mas se quiser
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conversar, sabe que eu estou aqui.


Sorrio e recosto no batente. Pior que sei mesmo.
Ele não cala a boca nunca e não para de tagarelar
nem que a vida de alguém dependa disso, mas até
que é um bom ouvinte.
― Não está atrapalhando nada, Rafa. Almoço
amanhã? ― proponho, e ouço sua voz animada do
outro lado da linha falando do tal restaurante
mexicano que ele foi almoçar com a Ju hoje. Esse
pessoal está querendo me falir. ― Pode ser na
minha sala que nem da última vez?
Ele concorda e desligo o telefone quando volto
para o quarto girando o aparelho nas mãos. Sento
na cama e chamo Ju para o meu colo de novo.
— O que aconteceu? — pergunta, e eu hesito,
sem saber o que dizer. — Você é minha melhor
amiga e eu vou te bater se você começar a esconder
coisas de mim. Ainda não engoli o que quer que
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você não me contou sobre “conhecer o Vinicius


melhor do que gostaria”.
Solto uma risada seca com as aspas que ela faz
com as mãos. É engraçado que eu falo tudo sem
nem pensar, mas essa história está tão entalada na
minha garganta que não saberia nem por onde
começar. Não vai ajudar ninguém. Só vai me fazer
querer chorar, coisa que não faço há milênios.
— Você tem um péssimo gosto para amigas —
respondo, e ela dá um tapa no meu braço. Mão
pesada do caramba. — Pelo visto Eduardo saiu
bêbado do escritório — digo, suspirando, e ela solta
um grunhido antes de perguntar o que mais. — Ele
pegou o carro.
Ela sai do meu colo num pulo e seguro suas mãos.
— Tenho certeza de que ele está bem, Ju — digo,
tentando acalmá-la.
— Vai ver se ele está bem — pede. — Eu não
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vou conseguir dormir sem saber que ele está bem.


Por favor.
Balanço a cabeça e suspiro.
— Vou começar a cobrar, sério — resmungo, sem
realmente me importar. Faria qualquer coisa por
essa pentelha. — Te ligo quando sair de lá, está
bem? Se eu conseguir fazer Eduardo abrir a porta
para mim — pondero.
Ela concorda com a cabeça, dou um beijo na sua
testa e saio do apartamento. Entro no carro e
configuro o endereço do apartamento de Edu no
GPS. Assim que paro em um sinal vermelho, tento
ligar para ele. O telefone chama, chama e nada.
Tento outras três vezes antes de ele resolver dar o
ar da graça, com a voz meio enrolada que não é
nem um pouco típica. Meia dúzia de palavras
depois e ele diz que está no escritório. Franzo o
cenho, sem entender nada, e mudo a rota, dirigindo

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de volta para o Centro. Rafael ficou doido e viu


errado? Se eu morrer por estar dirigindo aqui
sozinha a essa hora da noite, vou voltar para puxar
o pé de todo mundo.
Entro no prédio, cumprimentando o porteiro que
mal presta atenção em mim, e aperto o botão do
elevador. Alguns instantes depois, saio no andar
certo, que está praticamente todo apagado, com
exceção de algumas luzes dos corredores e da sala
de Edu. Bem cenário de filme de terror. Entro sem
bater e o encontro jogado no sofá, paletó jogado
nas costas de uma cadeira, gravata e sapato
largados no chão.
Suspiro e fecho a porta, arrastando uma poltrona
para perto dele. Cruzo as pernas e espero.
― Você sabe que não aconteceu nada, não sabe?
― pergunta com a cabeça recostada em uma
almofada, os olhos fechados. ― Com a Lorena.

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Não aconteceu nada.


Não foi o que pareceu. Seja lá qual for a definição
dele de alguma coisa. Ele não comeu a mulher
jogada em cima da mesa? Nisso eu acredito. Mas
que aconteceu alguma coisa, isso aconteceu sim.
― Você não tem que se justificar, Edu ― digo,
suspirando. Puxo o celular do bolso e digito uma
mensagem para Ju dizendo que ele está bem, só
para acalmar um pouco o coração dela. — Não para
mim, pelo menos.
Ele solta uma risada seca.
― Nós dois sabemos que Juliana não teria dado
um passo na minha direção se não fosse por você.
Além do mais, você é minha amiga. Talvez a única
de verdade que eu tenha. Já basta a mulher da
minha vida achando que não presto. ― A última
parte sai em um sussurro e eu suspiro.
― Quer me dizer o que aconteceu? ― pergunto, e
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ele começa a falar. Já sei da história inteira de


como Juliana entrou na sala dele, de como eles se
pegaram loucamente na mesa e depois ela terminou
com ele. Sei que contou uma parte do que Vinicius
disse, sei também que deixou Edu acreditando que
ela não confia nele.
Quero bater nela também. Entendo, entendo
perfeitamente não querer que ele saiba do que
Vinicius contou. Concordo que o destruiria saber a
verdade, concordo que é menos doloroso perder a
namorada do que ver a vida inteira de cabeça para
baixo. Juliana está tentando protegê-lo do jeito que
pode. O que Eduardo me conta é como ele quase,
quase fez besteira. Quero julgar, mas não consigo.
No lugar dele teria feito pior. Mas também, nunca
estaria no lugar dele. Esse sofrimento todo é
exatamente do que fujo.
― Bom ― suspiro, dando os ombros ―, podia

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ter sido pior. Ainda quero dar na sua cara, mas…


Ele concorda com a cabeça. Certeza de que ele
está corroendo-se por dentro o suficiente. Pergunto
sobre ele ter bebido e pegado o carro. Eduardo vira
a cabeça na minha direção.
― Como você sabe disso? ― pergunta, franzindo
o cenho. Dispenso a pergunta com a mão e ele me
olha por um segundo a mais antes de suspirar. ―
Bebi demais, não quis arriscar. Passarei a noite
aqui.
Quando abro a boca para responder, ouço meu
celular tocar. Deram mesmo para me ligar hoje.
Não consigo evitar levantar os olhos para Eduardo,
que acena com a cabeça para que eu atenda, já
sabendo quem é.
— Oi — atendo. — Está tudo bem, mas não
posso falar agora. Prometo que te ligo mais tarde.
Ela me ignora completamente e sorrio, porque
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não esperava nada diferente disso.


— Ele está bem?
Eduardo me encara com curiosidade e apreensão.
— Sim ― respondo. Vivo ele está. Bem, já nem
tanto.
— Como ele está? ― ela insiste, e meu peito
aperta um pouco. Fecho os olhos e suspiro, perdida
no meio dessa confusão deles dois.
Peço licença para Edu, que balança a cabeça sem
deixar de me olhar, e sei que ele está esperando
notícias também. Virei pombo-correio, socorro.
Saio da sala antes de voltar a falar.
— Destruído, Juliana. Ele está destruído.
Não posso mentir. Quero, mas não posso. Ela me
fez prometer, inclusive.
— Eu preciso falar com ele — murmura.
Fico em silêncio por um tempo, pensando com
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cuidado no que vou dizer. Edu teve razão ao dizer


que ela me escuta, sei que se eu disser que tudo
bem, que ela pode só vir para cá e vai ficar tudo
certo, é isso que Juliana vai fazer.
— Você fez uma escolha, Ju. Realmente precisa
decidir o que fazer e seguir com isso. Não vai fazer
bem para ninguém se você procurar o Eduardo e,
no último segundo, dar para trás. Se você quiser
falar com ele, eu dou um jeito, invado o
apartamento dele, amarro o homem na cadeira e
forço a te ouvir se for preciso. Qualquer coisa, eu
estou aqui para isso. Mas pensa bem. Pensa se você
vai conseguir viver esse amor sabendo tudo que vai
custar. Se a resposta for sim, me encontra na porta
do prédio dele com um pé de cabra e três metros de
corda. Mas Ju… Você mesma disse que esta
empresa é a vida dele.
Ouço o suspiro irritado dela do outro lado da

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linha e Juliana sabe que eu tenho razão. Eu odeio


ter razão agora. Ela fica em silêncio tempo demais
e começo a me preocupar, mas logo ouço sua voz
de novo.
— Como assim você invade o apartamento dele?
Você não está no apartamento dele? — pergunta,
confusa.
— Não ― respondo. ― Eduardo nunca saiu do
escritório. Estava bêbado demais para dirigir.
Ouço um murmúrio aliviado do outro lado da
linha e sei que ela está pensando exatamente a
mesma coisa que eu: homem responsável de uma
figa fazendo a gente passar nervoso. Conversamos
por mais alguns instantes até que ela diz que vai
tomar banho e tentar dormir. Insisto, perguntando
se ela quer que eu volte para lá. Acho que consigo
encontrar algum lugar aberto a essa hora para
comprar mais chocolate, porém ela nega. Diz que

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vai tentar dormir, coisa que sei que não vai


conseguir fazer, mas respeito o espaço dela, mesmo
que não goste dessa decisão.
Volto para a sala e encontro Eduardo sentado com
a cabeça enfiada nas mãos. Apanho o paletó dele e
jogo na sua direção.
― Vamos, vou te levar para casa. Você pega seu
carro amanhã.
Espero que ele proteste, mas o homem
simplesmente enfia os pés nos sapatos e me segue
para o elevador. Ficamos em silêncio até chegar a
meu carro. Ele logo recosta a cabeça no banco e
fecha os olhos. Parece que a bebida bateu de vez.

― Acorda, dorminhoco.
Cutuco Eduardo quando estaciono na portaria do

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prédio dele e o homem abre os olhos na minha


direção.
― Como ela está? ― pergunta, e sorrio. Juliana
acabou de destroçar o coração dele e o homem não
consegue parar de se preocupar.
Eu vou ter que dar um jeito de juntar esses dois de
novo, não vou? Claro que vou.
Dou os ombros em resposta, porque sei que ele
não vai aceitar nenhuma resposta padrão de que ela
está bem, mas mais que isso realmente não posso
dizer. Ele suspira, balança a cabeça concordando, e
tira o cinto de segurança.
― Você é uma boa amiga ― diz, com a mão na
maçaneta.
― Te dar uma carona com certeza não foi a coisa
mais difícil que fiz hoje, Edu ― digo com uma
risada.

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Ele nega com a cabeça.


― Você cuidou dela. Veio atrás de mim. Já perdi
as contas de quantas vezes largou o que estava
fazendo para socorrer um de nós. Todo o esforço
que faz para não se envolver com alguém, você
deixa de lado quando se trata dos seus amigos.
Sorrio para ele, sem saber o que responder. Pego-
me pensando em um par de olhos acinzentados que
não pensou duas vezes antes de largar o que estava
fazendo para me socorrer hoje.
― Você está bêbado, homem. Está falando
demais. ― Dispenso seu comentário com a mão. ―
Vá dormir.
Ele se despede e sai do carro. Tamborilo os dedos
no volante, olhando a hora. Que dia longo dos
infernos. Passa das dez da noite e sei que tenho que
acordar cedo amanhã, mas não quero ir para casa.
Pego o celular e abro a lista de contatos. Vejo
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minhas mensagens não lidas e abro a de Calebe,


dizendo que gostou de me ver domingo,
perguntando se podemos repetir o jantar durante a
semana. A resposta devia ser não, simples e direta,
mas hesito antes de digitar. Desligo a tela do
celular e giro o aparelho nas mãos.
Não quero ficar sozinha agora. Não com Vinicius
tão presente na minha mente.
Ah, dane-se.
Abro o aplicativo de mensagens e digito.

Estou indo para aí.

Ligo o carro e configuro o GPS. Só tem uma


coisa que eu realmente preciso depois desse dia
conturbado, só tem um lugar que quero ir. Não vou
nem tentar negar isso.

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Capítulo 21
QUEM QUER QUE ESTEJA TOCANDO minha
campainha, é melhor estar morrendo.
Arrasto-me pela casa, saindo do quarto
esfregando o rosto. Não costumo dormir cedo
assim nunca, mas estou cansado. Tão cansado.
Renato está tirando-me do sério, nem parece que é
só terça-feira. Esses dois dias parecem ter durado
um mês inteiro, não vejo a hora de essa semana
terminar. Se eu tiver que lidar com ele dando
ataque e tratando todo mundo mal por muito mais
tempo, vou morrer.
Onde larguei meu celular? Sei que botei para
carregar em algum lugar, mas nem sei onde mais.
Minha cabeça está completamente fora do lugar.
Destranco a porta, já xingando a pessoa insistente
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que não tira o dedo da campainha. Giro a maçaneta


e franzo a testa ao ver Priscila encostada no
batente, olhando-me com um sorriso travesso.
Como é de se esperar, a loira me olha
descaradamente, seu olhar caindo pelo meu corpo
antes de morder o lábio.
― Você sempre atende a porta vestido desse
jeito? ― pergunta em um tom provocativo. ― Se
soubesse disso, já teria aparecido aqui antes.
É só então que me dou conta que pulei da cama e
vim para cá sem colocar nada por cima da boxer
que vesti antes de deitar. Priscila passa por mim,
entrando em casa sem nem pedir licença. Não
esperaria nada diferente dela. Do mesmo jeito que
não me surpreendo quando ela deixa um apertão na
minha bunda no caminho. Rio, fechando a porta
atrás de mim, e me viro para ver que ela já largou a
bolsa e o casaco em cima do sofá e saiu andando na

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direção do meu quarto.


Demoro a ir para lá também, sem entender o que
está acontecendo aqui. Essa mulher é doida. Ela me
enxota da sala dela, me ignora, caga para as minhas
mensagens e aparece aqui como se nada tivesse
acontecido. Isso me incomoda. Incomoda mais
ainda saber que ela vai dizer que estou fazendo
drama.
Sei que ela não teve um bom dia, não sei qual foi
o problema com Vinicius, mas aquele tapa que ela
deu nele já deixa claro a confusão. Aí teve Eduardo
depois. Pergunto-me, na verdade, por que ela está
aqui e não na cama do primeiro desavisado que
encontrou. Passo a mão no cabelo e vou para o
quarto, já me preparando para o que vem por aí.
Recosto no batente da porta do quarto e vejo a loira
jogada na cama, a bunda para o alto, apoiada nos
cotovelos, olhando para mim.

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― Você está ficando mais gostoso ou é impressão


minha? Vem cá, deixa eu ver ― implica,
chamando-me com a mão, e não consigo evitar um
sorriso sem graça quando reviro os olhos para a
provocação e vou em direção a ela.
Jogo-me no colchão ao seu lado e ela arrasta a
mão pela minha barriga, arqueando a sobrancelha
em aprovação. Quando não respondo nada, ela
morde o lábio.
― Eu estou sendo uma péssima amiga, né? ―
pergunta, e eu franzo o cenho. ― Você me
procurou para conversar ontem e eu praticamente te
enxotei da sala. Em minha defesa, eu realmente
achei que uma foda com a Raissa seria muito mais
proveitosa. ― Ela tenta fazer gracinha, mas
consigo ver que está forçando muito a barra. Por
fim, a loira suspira e inclina a cabeça. ― Ainda
quer conversar?

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Inclino-me na sua direção e levo as mãos ao seu


rosto, apertando suas bochechas entre as minhas
palmas.
― Você está fazendo drama ― digo, e ela revira
os olhos. ― Quem é você e o que fez com a
Priscila? ― pergunto em um tom dramático que faz
com que ela solte uma risada.
Ela se solta da minha mão e me dá um tapa,
girando na cama até montar no meu colo, jogando o
cabelo por sobre o ombro e dando-me uma olhada
atrevida. Agora sim. Achei que a loira estivesse
quebrada. Espero qual vai ser o comentário sexual
inapropriado, qual a gracinha de duplo sentido que
vai sair da boca dela, mas Pri se limita a abaixar a
cabeça, encaixando o rosto no meu ombro. Eu
instintivamente a abraço quando ela suspira.
— Você não respondeu minhas mensagens —
digo em seu ouvido, a pergunta clara na minha voz,

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escapando antes que eu tenha a chance de pensar no


que estou dizendo.
Sinto-a remexer no meu colo e ajeitar a cabeça no
meu ombro.
— Estava irritada com você. — Franzo o cenho,
tentando lembrar o que eu fiz para justificar isso.
Quando percebo que não tenho ideia, pergunto para
ela. — Não sei. Não acho que tenha feito nada, mas
eu estava irritada com você.
Balanço a cabeça, completamente perdido.
Repasso na cabeça nossas últimas conversas e
realmente não tenho ideia.
― Eu não estou bem ― murmura contra meu
ombro, e eu a aperto um pouco mais, surpreso. ―
Desculpa não ter respondido, eu só… Certeza de
que são só esses hormônios malditos e essa cólica
dos infernos, mas está me enlouquecendo.
Sacudo-a para que ela levante a cabeça e olhe
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para mim. Priscila me encara com provocação no


olhar.
― Eu estou bem irritada de estar sangrando e não
poder resolver esse mau humor do jeito certo.
Ah.
Agora está explicado o que ela está fazendo aqui.
― Que foi? Essa careta aí é o quê? ― Balanço a
cabeça, dizendo que nada, e mordo seu queixo,
puxando-a um pouco mais para perto. ― Sem
joguinhos, loiro.
Ela se acomoda no meu colo e solta o queixo dos
meus dentes, murmurando que essa é uma mania
besta.
― Vocês dois são iguaizinhos ― diz, e franzo o
cenho. ― Juliana. Sabe por que eu a amo mesmo
com todo o drama dela? ― pergunta, enroscando
as pernas nas minhas costas. ― Porque ela nem

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tenta fingir que não é o caso. Ela me diz quando


tem alguma coisa errada, porque sabe bem que não
tenho paciência para enrolação. Prefiro tudo sempre
às claras, mesmo que seja drama. Tem alguma
coisa errada com você.
Priscila sobe as mãos pelo meu pescoço,
arrastando as unhas na minha pele.
—Eu me preocupo com você. Sem joguinhos,
loiro.
Encaro os olhos verdes decididos e nem sei o que
Priscila veio fazer aqui. Mas a verdade é que já
desisti de entender essa mulher. Ela faz o que ela
quer, do jeito que quer, é isso que a faz tão
fascinante. Porque, de alguma forma, as vontades
dela parecem combinar muito bem com as minhas e
fazem com que ela acabe encaixada no meu colo
com mais frequência do que eu imaginava.
― Sem joguinhos ― concordo. ― Vai ter que
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prometer que não vai ficar fazendo piadinhas


sexuais para não me responder alguma coisa, tipo
como você fez mais cedo no banheiro.
Priscila meneia a cabeça, fazendo um bico
exagerado, e concorda.
― Então eu vou precisar que você se vista, é
impossível não pensar besteira com esse tanquinho
de fora.
A loira desce as mãos pelo meu tronco, arrastando
as unhas na minha pele, e é impossível não reagir
ao toque e à proximidade. É quase instintivamente
que começo a subir a mão por dentro da sua blusa,
arrancando uma risada dela quando arrasto os
dedos na borda do seu sutiã.
― Vai se vestir, bonitinho ― diz, inclinando-se
para deixar um beijo no meu rosto.
― Você definitivamente está quebrada ―
murmuro, e ela dá os ombros.
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― Pode me consertar mais tarde. ― Ela pisca e


sai do meu colo, jogando-se de novo na cama. ―
Mas me traz brigadeiro antes.
Abusada.

― Posso te perguntar…
― Pode ― ela interrompe, enfiando uma
colherada do doce pelando na boca.
Não sei como não se queima nessa afobação. Mal
tirei a panela do fogo e já estava comendo o
chocolate. Ela se embolou toda no meu lençol,
desforrou a cama inteira. Se não estava tarde
quando ela chegou aqui, está tarde agora que bate
quase meia-noite. Nunca vi um brigadeiro tão
demorado na minha vida. Paramos no meio do
caminho para a cozinha, caindo no sofá da sala, e

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nem lembro qual foi o motivo para Priscila


terminar debaixo de mim, gritando entre risadas
para que eu parasse de fazer cócegas. A hora
seguinte se resumiu a ela enroscada no meu colo
ouvindo-me falar sem parar sobre Renato, que foi
exatamente o que fui fazer na sala dela na segunda.
Eu acho. Tem a parte da Raissa, mas por algum
motivo não quero falar disso agora.
― Você pode perguntar o que quiser, lembra do
nosso acordo?
Ela revira na cama até estar de frente para mim e
rio da cara de frustração dela quando derruba
chocolate no colchão. Talvez eu devesse ficar puto
já que acabei de trocar o lençol, mas nem tenho
tempo para isso porque começo a gargalhar quando
a doida lambe a cama.
― Qual foi o motivo daquele tapa no Vinicius?
Ela levanta os olhos para mim e suspira. Sua cara
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deixa claro que eu posso perguntar qualquer coisa,


menos isso. Ninguém pode me culpar por não ter
entendido nada quando a vi voar no presidente da
empresa daquele jeito e não levar nem uma
reprimenda. Sei que tem alguma história aqui, a
loira já deixou soltar uma coisa ou outra, mas não
tenho ideia do que pode ser. Já percebi que ela não
suporta sequer falar o nome dele. No trabalho
mesmo, em reuniões, ou das vezes em que precisei
ir até ela para resolver alguma coisa e o nome dele
apareceu, a cara da Priscila dizia que ela preferia
morrer a ter que lidar com isso. Eu vi em primeira
mão como ela ficou puta de ter que contratar uma
secretária para ele, tanto que não o fez.
― Devia ter dado aquele tapa há muito tempo ―
resmunga, levantando.
O cabelo dela está todo embolado pelo tanto que
se remexeu na cama, a blusa amassada, o botão da

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calça aberto. Até a maquiagem está borrada e ela


parece que não pode se importar menos. A loira
respira fundo e morde o lábio, dizendo que vai usar
o banheiro. Ela se arrasta para fora da cama e eu
cato meu celular, que finalmente encontrei. Estava
bem na minha cara e eu não vi. Assim que
desbloqueio a tela, vejo a mensagem que ela
mandou, meia hora antes de chegar aqui. Eu me
pergunto se ela teria mandado, se teria vindo para
cá se não estivesse morrendo de cólica como
reclamou.
Respondo algumas mensagens, gasto tempo à toa
pelas redes sociais e começo a estranhar quando ela
não volta depois de muitos minutos. Vou em
direção ao banheiro e encontro a porta entreaberta.
― Pri? ― chamo, abrindo a porta, e a vejo de pé
na frente do espelho, as mãos apoiadas na pia. Ela
levanta a cabeça e me olha pelo reflexo, com um

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sorriso forçado no rosto. Aproximo-me, enlaçando


sua cintura por trás. Encaixo seu corpo no meu e
ela relaxa um pouco quando abaixo a cabeça no seu
pescoço, fechando os olhos e respirando fundo.
Giro-a nos meus braços, puxando-a em um abraço
apertado, e ela joga os braços ao redor no meu
pescoço.
― Ele te machucou feio, não foi? ― pergunto, e a
loira se limita a balançar a cabeça. ― Vem.
Inclino-me o suficiente para passar as mãos por
suas coxas e puxá-las para cima, enrolando suas
pernas ao meu redor e andando de volta para o
quarto. Deito na cama, puxando-a junto comigo.
Estou sem saber como reagir a essa Priscila que não
está fazendo uma piada idiota a cada cinco minutos,
nem insinuando nada sexual a cada dois. Diante
disso, não dá para negar: mesmo com todas as
gracinhas e as pegações interrompidas, a gente é

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mais que isso. Essa é a cena mais próxima de vê-la


chorando que já presenciei, mesmo que não esteja
escorrendo uma única lágrima dela. Não sei qual a
dimensão do problema, mas foi o suficiente para
ela perder o controle por um instante e acertar a
cara dele, e de novo agora, que foi ficar sozinha
para não desabar na minha frente. Minha loira é
forte e independente demais para deixar alguém vê-
la fraquejar.
O que eu estou dizendo?
― Quer me contar? ― pergunto, desesperado
para tirar esse pensamento da cabeça. Ela balança a
cabeça, negando, e diz que ainda não, que hoje não.
— Prometo que um dia te conto a trágica história
da minha vida, bonitinho. Mas hoje eu só preciso
que você faça a sua mágica e melhore meu dia.
Priscila afunda a cabeça no meu peito, passo o
braço ao redor da sua cintura, encaixando seu corpo
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no meu, e suas pernas se embolam com as minhas.


Nenhum de nós fala nada e deixo minha mão subir
e descer pelas costas dela em um ritmo constante.
Ela murmura um agradecimento e alguma coisa que
não entendo contra o meu pescoço e tudo que sinto
é a respiração pesada dela contra a minha pele
depois de um tempo.
Como quem não quer nada, Priscila simplesmente
adormece nos meus braços.

Acordo com meu celular berrando no chão, o


despertador tocando, e quase caio da cama para
tentar desligar. Que susto do cacete. Sento no
colchão e me espreguiço, esfregando o rosto para
terminar de acordar. Quando eu noto a cama
completamente vazia. Levanto e vou até a sala e,
quando vejo o sofá perfeitamente arrumado e sem
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nada em cima, sorrio, porque sei que ela foi embora


no meio da noite. Eu não esperava nada diferente
disso. Que horas, não sei, porque demorei horrores
para conseguir dormir. Não estou mesmo
acostumado a ter outra pessoa na mesma cama há
muito tempo, mas, por incrível que pareça, não foi
desconfortável. Foi preocupação que me manteve
acordado, ouvindo-a roncar de vez em quando.
Não demoro quase nada para me arrumar, engolir
um pote de iogurte que cato na geladeira e correr
para o metrô. Quero chegar cedo para organizar
minha vida. Já sei que vou sair tarde, então quanto
antes começar, melhor. Preciso passar pela sala do
Vinicius antes de ir para a minha e me pego
parando no meio do caminho, encarando o corredor
que leva ao escritório dele, perguntando-me o que
diabos tem de errado com aquele homem. Que ele é
um filho da puta todo mundo sabe. Foi a primeira

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coisa que aprendi quando entrei aqui, essa é a uma


coisa que até Renato reconhece: cruzar o caminho
daquele homem não é uma boa ideia.
Eu ouvi… histórias. Não duvido de nenhuma
delas. A saída repentina de Fernanda, sem ninguém
dizer o motivo, quase que por si só corrobora cada
fofoca desse corredor. Tenho certeza de que
Priscila sabe o que aconteceu em detalhes, mas
nunca perguntei. Não parece certo invadir a
privacidade da mulher desse jeito, afinal Fernanda
e eu nunca fomos grandes amigos. Mas o que quer
que tenha acontecido, sei, sem qualquer dúvida,
que foi resultado de alguma merda que Vinicius
fez.
O que eu quero saber é qual foi a merda que ele
fez com a loira para ela ficar daquele jeito. Priscila
não perde a pose, nunca. Ela não surta, não se
descontrola, não fraqueja. Definitivamente não

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chora. Ela não chorou, mas foi quase. Senti seu


corpo tremer contra o meu na cama e ela se
acomodou muito facilmente nos meus braços.
Desesperou-me um pouco essa fragilidade, não
combina com ela. Uma parte egoísta minha ficou
feliz pela possibilidade de conhecer outro lado dela,
sem fingimentos e disfarces, um lado que confiou
em mim para pedir cuidados, ainda que unicamente
porque não conseguiu resolver seus problemas com
sexo como ama fazer.
Continuo andando em direção à minha mesa e
largo minhas coisas em um canto antes de começar
o que agora é a última metade da última semana no
inferno. Marcela me liga algumas horas depois e
começo a pular entre andares para resolver tudo
que posso. Chega uma hora que desisto de esperar
o elevador que demora uma vida para aparecer,
meu celular berrando com Renato reclamando da

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minha ausência. Parece que vou poder pular a


academia hoje de tanto que subo e desço escada.
Quando bate a hora do almoço, aviso para Renato
que estou saindo e ele resmunga alguma coisa
sobre eu não esquecer a reunião de mais tarde antes
de eu fechar a porta. Pego meu celular na mesa e
respondo a uma mensagem de Caíque enquanto
ando pelos corredores. Paro na mesa da Juliana
quando a vejo com uma cara horrível, encarando o
computador.
― Ei ― chamo, e ela me olha, abrindo um sorriso
fraco. Consigo ver daqui seus olhos inchados, não
dá nem para disfarçar. ― Está tudo bem?
Ela meneia a cabeça e dá os ombros, dizendo que
vai ficar. Não sei nem se ela percebe que olha por
sobre o ombro em direção à sala do Eduardo por
um segundo e suspira. Lembro-me do estado que o
homem estava ontem quando encontrei com ele a

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caminho de casa, e essa cara dela deixa claro que


tem algum problema grande entre os dois. O que
me faz começar a entender o que Priscila foi fazer
na minha casa ontem, a loira provavelmente ficou
no meio do fogo cruzado entre o casal de amigos.
― Quer almoçar? ― pergunto.
― Obrigada, Rafa ― diz, sem dar qualquer
indicação de que vai levantar, então sei que é um
não. ― Vou ficar por aqui mesmo.
Concordo com a cabeça e continuo andando na
direção da sala da loira. Bato na porta e ouço a voz
dela dizendo para que eu entre.
― Tentei chamar a Ju para almoçar, mas… ―
digo assim que cruzo a porta, e ela tira os olhos do
computador e me encara, suspirando e concordando
com a cabeça.
― Tentei também, mas ela quer ficar sozinha. O
que não é nem um pouco característico dela ―
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murmura a última parte.


Sei que isso está preocupando-a.
― Japonês? ― pergunto, tentando mudar de
assunto, porque sei da fascinação doida dela por
peixe cru. Vai entender.
Ela concorda com a cabeça e levanta da cadeira,
ligando para um restaurante aqui perto que jura que
vai entregar nos próximos vinte minutos. Não
acredito nesse milagre, mas vai saber. Jogo-me no
sofá para esperar e começo a falar sobre tudo que
fiz hoje. Não tanto porque preciso falar, mas
porque sei que ela se distrai muito fácil.
― Eu não aguento mais essa cólica dos infernos
― murmura depois de alguns minutos de conversa
jogada fora, quando batem na porta da sala dela.
Priscila levanta para pegar a comida e, parada na
porta, vira para mim. ― Você nem se oferece para
pagar né, seu cara de pau?
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Dou de ombros.
― Você que convidou ― respondo e ergo as
sobrancelhas para ela, que bufa e pega a comida
antes de voltar para o sofá. ― Além do mais, você
ganha muito mais do que eu ― aponto o óbvio,
dramaticamente levando as mãos ao peito. Nada
mais justo, aliás, a loira trabalha mais do que dois
de mim juntos.
Ela franze o cenho e olha para mim por um
instante. Sei que não ficou ofendida com a
brincadeira, então espero para ver o que é.
― Meu pai tem essa ideia louca de que um cara
que não se sente ofendido por ganhar menos que
uma mulher não é um homem de verdade ― diz
com um sorriso cansado no rosto. ― Fico curiosa
para saber o ataque que ele daria ao te ouvir
falando isso assim, sem se importar.
― Estou bem de boa sem ser homem de verdade,
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então ― respondo, dando de ombros, e ela ri. É


cada ideia.
Faço uma careta para a bandeja de coisas
esquisitas que ela comprou e Priscila não perde a
oportunidade de gargalhar da minha cara e implicar
com o que ela chama de paladar de bebê. Vou ter
que discordar, ela que gosta de comer uns troços
esquisitos. Sorrio em agradecimento quando ela tira
da sacola uma embalagem de frango xadrez,
revirando os olhos para o absurdo que ela parece
achar o fato de eu não gostar de sushi. Como ela
conseguiu a comida chinesa para mim em um
restaurante japonês é um mistério.
Começo a contar sobre um documentário que
assisti sobre essas comidas cruas e gente morrendo
por causa disso e ela se limita a continuar enfiando
as porções na boca.
― O quê? ― pergunto quando Priscila me encara

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com os olhos cerrados por alguns instantes depois


de um momento de silêncio confortável.
― Não entenda isso errado ― diz, apontando o
palitinho de madeira na minha direção. ― Mas eu
realmente gosto de te ter por perto. Obrigada por
ontem.
É impossível não sorrir em resposta.
De nada, loira.

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Capítulo 22
QUASE CHOREI DE FELICIDADE QUANDO
acordei essa manhã e não tinha nenhum resquício
dos piores dias do mês. Adeus, cólica. Olá, sexo.
Na verdade, não. Sem sexo para mim hoje até que
se prove o contrário. verdade seja dita, mesmo que
eu não tivesse passado a semana inteira com um
pequeno demônio sambando no meu útero, não
teria parado na cama de ninguém, porque passei
todos esses dias com a Ju e não mudaria isso por
nada. O que significa dizer que passei os últimos
quatro dias em completo desespero sem saber o que
fazer para consertar essa situação.
Agora, sentada na cama dela, encarando em
silêncio enquanto Juliana se olha no espelho e faz a
maquiagem mais lenta da história da humanidade,

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decido que esses dias já foram o suficiente de dor e


sofrimento. Ela e Eduardo precisam conversar. Não
sei sobre o que no meio dessa bagunça toda, mas
nem que seja sobre como está fazendo calor esses
dias, esses dois precisam conversar.
Não sei nem como estão trabalhando juntos.
Assistir a isso é doloroso demais. As coisas estão
movimentadas e agitadas esses dias na empresa,
então precisei ir até Eduardo mais vezes do que de
costume. Juliana, como a profissional maravilhosa
que é, está com seu trabalho em dia e todas as
respostas que eu pudesse precisar na ponta da
língua, mas quando a pergunta era sobre Edu, nada.
Coisas que ela saberia antes sem nem piscar os
olhos, dessa vez não tinha ideia. Estou
impressionada, e assustada, com a capacidade da
minha menina de se manter inteira, mas a
impressão que eu tenho é que ela está por um fio.

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Eduardo está tão mal quanto.


Eu sou incapaz de ver duas das pessoas que mais
amo nessa vida sofrerem desse jeito e não fazer
nada. Levanto do colchão, dizendo que estou indo
ao banheiro, e ela se limita a concordar com a
cabeça. Fecho a porta quando entro no cômodo, só
para ter certeza de que ela não vai me ouvir,
desbloqueio o celular e rolo pela minha agenda até
encontrar o número.
― Eduardo ainda está aí? — pergunto assim que
atendem.
― Quem é? ― a voz do outro lado da linha
pergunta e eu reviro os olhos. Tenho certeza de que
meu número está salvo na agenda dele. A linha fica
muda por alguns segundos mais e eu suspiro,
falando meu nome. ― Ah! Priscila! Em que posso
te ajudar?
Ignoro o fato de que eu acabei de dizer que queria
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saber do Edu e repito a pergunta. Kilda, o homem


com o apelido mais estranho da face da Terra, que
trabalha no galpão supervisionando os treinamentos
agora que Eduardo está preso no escritório,
responde dizendo-me que ele ainda está lá. Edu não
apareceu no escritório hoje com a justificativa de
que tinha alguma coisa para fazer no galpão, mas a
verdade provavelmente é que está começando a
ficar insuportável ter Juliana tão perto.
Também está insuportável ver os dois assim.
― Preciso de um favor ― digo, e o homem me
instrui a continuar. ― Preciso que você leve Edu
para um bar. Agora. Vou te mandar o endereço por
mensagem.
Ouço o homem resmungar do outro lado da linha,
dizendo que sou mandona demais e que ele odeia
mensagens, mas ignoro e envio mesmo assim.
Esses dois vão conversar hoje, para bem ou para

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mal. Antes de voltar para o quarto, checo minhas


mensagens e vejo uma de Fernanda. Não tinha visto
a notificação. Estranho por um segundo, mas me
lembro que Ju tinha pedido para convidá-la para
sair com a gente hoje.
Tenho que bater palmas para ela, porque Juliana
não suporta a mulher e mesmo assim está fazendo
um esforço danado para conviver com Fernanda.
Leio a mensagem, que diz, para a surpresa de
ninguém, que ela não vai. Começo a digitar alguma
coisa, mas paro.
Estou mentindo para mim mesma e ignorando o
óbvio que é eu realmente precisar conversar com
Fernanda. Se tem alguém que a entende, sou eu. É
egoísta estar postergando esse encontro
simplesmente por me colocar em uma posição que
não quero estar. Respiro fundo e digito,
perguntando se podemos nos encontrar, e envio.

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Duvido que ela vá aceitar, mas se precisar bato na


porta da casa dela e entro sem ser convidada.
Volto para o quarto e encontro Ju parada na frente
do espelho, encarando-se com completa incerteza
nos olhos, mordendo o lábio. Suspiro e a abraço por
trás.
— Se você não quiser ir, eu entendo. Podemos
desmarcar.
Ela me olha no espelho, balança a cabeça,
negando, e agradeço mentalmente. Essa saída
inicialmente era só para matar as saudades que eu
estava dela no começo da semana, já que todo seu
tempo livre estava sendo dedicado a Eduardo. Mas
agora é meu último recurso para tentar ajudar
aqueles dois, então ela podia até dizer que queria
ficar em casa, mas eu teria que arrastá-la comigo
mesmo assim.
― Vamos.
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Dou um beijo no seu rosto e a arrasto pela mão,


saindo do apartamento e indo direto para o carro.
Conversamos bobagens enquanto dirijo e consigo
arrancar alguns sorrisos dela. Não demora muito
para chegarmos ao bar. Escolhi este aqui porque é
perto do galpão e não tem desculpa para Eduardo
não vir para cá. Juliana me agradece, abrindo o
primeiro sorriso verdadeiro da noite quando vê que
eu desisti de levá-la para uma boate. Desisti dessa
vez! Ainda vou conseguir essa proeza. Nunca vi,
parece que nasceu com setenta anos. Ela não tem
disposição para nada, das poucas vezes que
consegui arrastá-la para algum lugar mais
movimentado, a primeira coisa que ela fez foi
procurar uma cadeira para sentar, além de implorar
para ir embora cedo. No fim, acabamos a noite
comendo besteira em algum lugar.
O bar não está lotado, achamos algumas mesas

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vazias, o que tenho certeza de que não vai durar


muito. Ainda está cedo e as pessoas estão
começando a pensar em sair de casa a essa hora.
Em uma ou duas horas, isso aqui vai estar entupido
e a mulher cantando e tocando ao fundo vai ter um
trabalho danado para superar o barulho da
multidão.
Sentamos e não demora para sermos atendidas
por um garçom, que não é de se jogar fora, mas
nem consigo prestar muita atenção nele. Só peço
uma bebida e batata. Vejo Juliana olhando ao redor,
parecendo meio perdida, e checo meu celular. Vejo
uma mensagem na tela de Kilda dizendo que eles
estão a caminho. Finalmente.
— Eu tenho uma coisa para te contar ― digo,
puxando assunto, sem nem saber bem onde estou
indo com isso.
Ju franze o cenho e, pela primeira vez na noite,

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realmente presta atenção em mim. Confesso que


sinto falta de despejar nela todos os detalhes de
tudo que ela não quer ouvir, ainda mais quando
tenho uma semana puxada como a que eu tive. Tive
uma discussão feia com meu pai e sequer lembro o
motivo, não consigo saber se ele disse algo que me
irritou ou se eu já estava irritada com tudo e
descontei nele. Rafael desapareceu sem mandar
sinal de fumaça e sei que Renato está arrancando o
couro dele, coitado. E Vinicius… Estou remoendo
até agora o tapa que dei nele, a satisfação que vi em
seus olhos por ter acertado um nervo.
Abro a boca para falar alguma coisa, mas o
garçom chega com os pedidos e me limito a tomar
um longo gole da minha bebida, já pedindo para
trazer outra. Juliana me olha e pede a chave do
carro. Não consigo evitar a risada. Mania desse
pessoal de achar que vou dirigir depois de beber.

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Nunca fiz isso na vida, não vou começar agora.


Mas entrego a chave mesmo assim, para acalmar o
coração dela.
Começo a falar de qualquer coisa que me venha à
mente na tentativa de distraí-la enquanto Kilda não
me avisa se já chegaram. Começo a conferir o
celular a cada dois minutos e vejo Juliana me fitar
com os olhos apertados. Nada dos dois aparecerem
aqui. Estão vindo montados em uma lesma, não é
possível.
— Ah, vamos, pare de me enrolar! — ela grita, e
tiro os olhos do celular sem abrir a notificação de
mensagem que recebo. Mas olho para a tela por
tempo o suficiente para ver que é do Rafa, ainda
nenhum sinal de vida do Edu. Arrasto o dedo pela
tela para abrir, mas Juliana exige minha atenção de
novo e não consigo ver o que ele quer. — O que
você está escondendo? Eu vou morrer de

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curiosidade.
Eu estou escondendo coisa demais dela, essa é a
verdade. Estou escondendo minha história inteira
com Vinicius por meses, porque nunca foi
relevante, porque eu quero fingir que não
aconteceu, porque é a única coisa nessa vida que eu
não sei lidar. Mas estou escondendo,
principalmente, o fato de eu não ter pensado duas
vezes sobre quem procurar quando eu tive um dia
de merda e precisava me distrair. E não foi ela, pela
primeira vez em muito tempo.
— Talvez eu esteja começando a me aproximar
de alguém — digo, tentando organizar em palavras
uma coisa que não faz o menor sentido para mim, e
ela ri. Juliana gargalha de um jeito que não vejo há
muito tempo e eu sorrio também. — Achei que
fosse ficar chateada, você sabe… — digo, e ela dá
um tapa no meu braço.

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— Não é porque minha vida está uma merda que


todo mundo tem que sofrer também — diz e sorri
carinhosamente por mim. Não era o que eu estava
pensando, estava mais preocupada com o acesso de
ciúmes que só aceito dela. — É o cara do
casamento? — pergunta, e confirmo com a cabeça.
— Vocês estão juntos, juntos?
Pelo amor de Deus, não. Nem sexo a gente fez
ainda. Lambidas e chupadas não contam, pararam
de contar quando fiz dezessete anos.
Definitivamente não estamos juntos. Mas é mais do
que só uma amizade inocente, nem digo por causa
das pegações. Eu fui atrás dele porque precisava de
colo, por mais que odeie admitir isso, é verdade.
Por mais que culpe meus hormônios loucos, não sei
o que isso significa, mas significa alguma coisa. Ou
talvez eu só tenha perdido o costume de ter uma
amizade sincera. Nem sei mais.

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—Era para ser só mais um carinha que eu estou


pegando, entre tantos outros. Mas ele é… diferente
― digo, depois de negar com firmeza sobre
estarmos juntos. — Mas acho que agora ele é que
não quer nada.
Nem me comer o desgraçado quer. Cato uma
batata e enfio na boca, segurando uma risada ao me
lembrar da cara de desespero puro dele toda vez
que solto uma gracinha ou quando o provoco. É
inevitável. Rafael fica sem graça com muita
facilidade, é como se estivesse pedindo para ser
cutucado. Ele é inocente demais para tudo que
quero que ele faça comigo.
Sinto meu celular vibrar mais uma vez no meu
colo e desbloqueio a tela, vendo uma mensagem
que diz que Eduardo chegou. Finalmente. Ouço
Juliana falar por mais alguns instantes e sorrio para
o ânimo renovado dela, completamente envolvida

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em discutir a minha vida.


― Não tem uma gota de insegurança no seu
corpo, mulher. Você vai atrás do que quer, tira a
roupa e espera o homem pelada na cama dele —
provoca, e até finjo indignação quando olho para
ela, mas quem estou querendo enganar?
É verdade. Nunca fui de questionar o que quero.
Eu quero e pronto.
— É, né?
Ela concorda com a cabeça e me diz para sair
daqui. Eu travo. Não por nenhum motivo que ela
imagina, mas porque, por mais que eu saiba que a
trouxe aqui unicamente para que ela encontre com
Edu, não posso sair e deixá-la achando que vou
largar minha melhor amiga sozinha em um
momento que ela tanto precisa para ir atrás de
homem. Isso nunca aconteceu, nem nunca vai
acontecer.
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— Vai logo! Eu vou ficar bem. Vou beber mais


alguma coisa e vou para casa daqui a pouco. Vai!
― Eu amo você ― digo, alcançando as mãos dela
em cima da mesa. ― Não se esquece disso nunca.
Juliana concorda com a cabeça e deixo um beijo
na testa dela, levantando da mesa. Passo os olhos
ao redor e vejo Eduardo recostado na parede,
olhando para a gente. Ele vai querer me matar?
Talvez. Os dois vão, provavelmente. Paciência.
Vivi bons trinta anos. Aceno discretamente e saio,
pedindo aos céus que os dois se entendam pelo
menos um pouco.
Pego o celular e abro a mensagem perdida que
não consegui ler antes, e, ao invés de digitar a
resposta, ligo.
― A liberdade tem um gosto muito doce ― ele
diz assim que atende o telefone, e eu rio,
lembrando-o que digo isso todos os dias. ― Sério,
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acho que eu ia morrer se tivesse que trabalhar


para ele mais um dia. Mas acabou! ​Renato nunca
mais.
― Então era isso que você queria comemorar ―
comento, respondendo a mensagem que ele
mandou mais cedo. Rafael confirma do outro lado
da linha. ― O que você tem em mente? Aproveita
que já estou toda vestida e, por favor, escolha uma
balada boa.
Ele pede para eu esperar um minuto e ouço uma
conversa abafada fora do telefone. Espero,
recostada na entrada do bar, do lado do segurança
que parece ter três metros de altura. Eu que não vou
ficar dando mole com celular na rua a essa hora da
noite. Rafael fala sei lá o que com sei lá quem por
alguns instantes antes de voltar para o telefone.
― Voltei. Você demorou a responder, comprei
pizza. Aliás, espero que esse negócio esteja bom,

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fiquei mais de meia hora esperando ficar pronto e


foi uma facada. O cara ainda foi grosso para
caramba. Enfim, estava indo para casa assistir…
Solto um grunhido antes mesmo de ele terminar a
frase. Quantas vezes ele vai assistir essa série?
Rafael ri do meu protesto e diz que eu ainda vou ser
convertida. Duvido muito. Mas duvido mesmo.
― Quer rachar essa pizza? ―
​ pergunta. ― Está
quente ainda.
Por que não? É um desperdício de maquiagem,
mas nem me arrumei de verdade porque sabia que
não ia ficar muito tempo aqui. Era só para trazer
Juliana mesmo.
― Você está mais perto da minha casa ou da sua?
― pergunto, e ele diz que da minha. ― Então vai
para lá. É melhor você ter comprado pizza de
frango ou eu vou ficar extremamente decepcionada.
― E eu já te decepcionei alguma vez, loira? ―
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pergunta do outro lado da linha em um tom


dramático e debochado.
― Já, todas as vezes que não me comeu. Se
dependesse de você, eu seria virgem de novo.
A linha fica muda por um instante e eu mordo o
lábio, prendendo o riso.
― Tchau, Priscila ― diz em um murmúrio, e eu
explodo na gargalhada que estava segurando,
sabendo que ele provavelmente está vermelho. Esse
menino inocente…
Rafael desliga, murmurando alguma coisa sobre
eu ser inacreditável, e eu abro o aplicativo para
chamar um Uber. Meu celular pisca com uma
mensagem do Calebe, como é de se esperar toda
sexta à noite, e passo o dedo sobre a tela, mas paro
e não a abro.
Hoje eu vou comer pizza.

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Capítulo 23
NÃO LEMBRO QUANDO FOI A primeira vez
que coloquei saltos nos pés, mas lembro que doeu.
Virei o pé algumas vezes, deu bolha, doeu minha
panturrilha e sola do pé. Mas então me olhei no
espelho e gostei do que vi. Não foi exatamente
sobre o sapato em si, isso é o que menos importa,
mas foi sobre como se senti com esse pequeno
detalhe dolorido fazendo parte de mim. Porque eu
gostei, valia a pena algumas dores aqui e ali para
que eu me sentisse dona das minhas decisões. Hoje
não dói mais, já acostumei. É claro que têm dias
que só quero jogar esses troços para longe, e jogo
mesmo. Ando descalça, de chinelo, sapato velho
surrado. Mas, na maior parte dos dias, o salto que
um dia foi desconfortável faz parte da minha vida e
nem sinto mais.
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Tornou-se um hábito, um difícil que quebrar. Um


que sequer percebo na maior parte dos dias. Do
mesmo jeito que foi com café, hoje sem açúcar.
Amargo no começo, mas agora não consigo
imaginar outra forma de beber. A gente se
acostuma com muita coisa na vida. Alguns hábitos
são difíceis de serem quebrados, outros nem tanto.
Tem um que prometi a mim mesma que nunca seria
dispensado, por mais que me doesse, por mais que
fosse difícil: minha honestidade comigo mesma.
Então deixo que falem quando começam com o
discurso de que não faz sentido eu abrir mão de
tudo por sexo aleatório. Porque não faz mesmo e
não é isso que eu estou fazendo. Não é sobre sexo,
nunca foi. Sempre foi sobre me respeitar e não me
forçar a fazer ou deixar de fazer algo apenas para
atender expectativas. Quem quiser acreditar que
isso se resume a abrir as pernas, que acredite. Não é

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problema meu. A única coisa que é problema meu é


saber que estou sendo honesta comigo mesma a
cada decisão, a cada passo.
Permito-me fazer o que quer que me faça bem.
Qualquer que seja minha vontade descabida ou
desejo louco faço questão de atender sempre que
possível. Porque a minha felicidade é a coisa que
mais importa no fim do dia. Não acredito nessa
história de que a gente precisa de outra pessoa para
se sentir completo. Faço questão de ser completa eu
mesma, inteira do começo ao fim. Assim, qualquer
coisa que eu quiser, qualquer pessoa que eu quiser,
vai ser exatamente isso: meu querer, minha vontade
de ter junto. Não uma necessidade, nenhuma
dependência emocional descabida, não. Nada que
atrapalhe meu julgamento ou me faça tomar
decisões descabidas.
Então quando saio do elevador no andar do meu

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prédio e começo a atravessar o corredor, solto uma


risada ao ver Rafael sentado no carpete bege, a
bolsa marrom que ele carrega para cima e para
baixo jogada no chão, a caixa de pizza aberta no
colo, uma fatia entre os dentes. Solto uma risada e
não tenho problema nenhum em admitir para mim
mesma que essa nossa provocação já passou dos
limites, que quero mais do que ele me deu até
agora. Que gosto dessa amizade tão natural que
virou uma pegação despretensiosa e vai saber mais
o que. Não me dou ao trabalho de inventar
desculpas para ter ido até ele quando perdi
completamente a paciência com Vinicius, não
preciso. Fui atrás dele porque quis. Dispensei
Calebe para vir para cá porque quis também.
Lembro-me da conversa com Ju antes de sair do
bar e vi bem naqueles olhos brilhantes dela a
esperança de que eu esteja perdidamente

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apaixonada por alguém, mesmo que ela nem saiba


por quem. Mesmo que ela saiba que isso não vai
acontecer, que eu não quero que isso aconteça.
Contudo, por mais incômodo que seja, por mais
que fuja completamente da minha zona de conforto,
nunca fez bem a ninguém ficar repetindo uma
mentira na frente do espelho, tentando se convencer
daquilo. Negação só te leva a tomar decisões
precipitadas, impulsivas, a se autossabotar. Essa é
uma coisa que me recuso a fazer. Eu controlo
minhas emoções travessas, não o contrário.
O que significa que sou perfeitamente capaz de
admitir gostar da companhia de alguém. Da
companhia dele. Não tenho problema nenhum em
admitir que gosto de ter esse tagarela por perto, que
quero tê-lo por perto. Quis naquele dia, quero hoje,
talvez queira amanhã. Talvez não. Vai saber. Não
me preocupo com isso também. Tentar adivinhar o

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futuro nunca fez sentido para mim, não vai começar


a fazer agora e, desde que nossa honestidade um
com o outro continue como é, isso não vai ser um
problema.
Sem joguinhos.
― Deixa eu adivinhar.
Enfio a chave na porta e a destranco, girando a
maçaneta. Apoio no batente e olho para baixo, para
o homem que não se deu ao trabalho de se mover,
sentado encostado na parede, vestindo a camisa
mais amassada que já vi na vida e mastigando uma
mordida gigantesca que ele acabou de dar na pobre
pizza que está coberta em ketchup. Isso devia ser
crime.
― Você chegou em casa bêbado, todo marcado
de batom e sua esposa te colocou para fora.
Rafael ergue os olhos para mim e se limita a
continuar mastigando por alguns segundos, o dedo
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levantado pedindo um instante enquanto acaba de


comer. Olha o abuso.
― Você me respeita que eu nunca ia fazer uma
coisa dessas ― responde, fingindo uma careta
ofendida.
Reviro os olhos e me inclino na direção dele,
abaixando para pegar a caixa já quase pela metade.
Está claro que, se eu não me apressar, vou ficar
sem pizza. Solto uma gargalhada quando vejo os
olhos dele voarem imediatamente para o meu
decote. Tão previsível que chega a ser fofo. Rafa dá
os ombros, fazendo-se de desentendido, e levanta,
seguindo-me para dentro do apartamento.
― Vou esquentar isso aqui, arruma alguma coisa
para assistir ― grito por sobre o ombro, indo em
direção à cozinha.
Pego um prato e enfio algumas fatias no micro-
ondas, faço um nó no cabelo, chuto os sapatos e
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recosto na bancada, esperando o aparelho fazer o


seu trabalho. Não suporto comida morna, então
coloco para esquentar por alguns bons minutos.
Sinto o gelado do piso contra meus pés e gosto da
sensação. Os dias têm sido quentes e, por mais que
eu goste de calor, se não for para estar na praia, não
serve. Ainda quero continuar aquelas aulas de
surfe, realmente gostei da coisa e sempre quis
aprender. Pergunto-me se consigo arranjar um jeito
de Calebe me ensinar sem as coisas ficarem
esquisitas. Não é impossível.
Ouço Rafael tagarelar sem parar sobre qualquer
que tenha sido a tortura que Renato resolveu
infligir na sua pobre alma e estou a ponto de
perguntar se ele se rendeu e tomou café, porque o
loiro está falando ainda mais rápido do que o
normal hoje. Quase choro quando vejo o que ele
escolhe na TV, mas não posso dizer que estou

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surpresa.
― Mas acabou! ― conclui, pendurando-se nas
costas do sofá, olhando na minha direção. Seu
cabelo está todo bagunçado e ele tem uma mancha
de ketchup na gola da camisa. Tem como ser
menos sexy que isso? ― Segunda-feira sou um
homem livre e não piso mais naquele andar.
Finalmente. Sério, eu não estudei igual um doido,
me matei naqueles bicos irritantes para pagar a
faculdade cara para ter que aguentar aquilo. Tudo
bem que não posso reclamar porque nem trabalhei
com ele tanto tempo assim, tenho certeza de que
tem gente que tem empregos muito piores, mas…
Onde desliga esse menino?
O timer apita e me abaixo para pegar a pizza,
soltando um palavrão e derrubando o prato de volta
dentro do micro-ondas quando sinto a louça quente
demais na minha mão. Acho que exagerei no

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tempo. Rafael pergunta o que foi e eu me limito a


levar o dedo à boca. Olho e vejo que nem foi tão
ruim assim, nem está doendo, foi só o susto. Eu sei
que sou péssima cozinheira, mas o dia que
conseguir queimar alguma coisa feio assim no
micro-ondas, mando interditar minha cozinha. O
bonitinho levanta e vem na minha direção, pegando
minha palma e olhando como se fosse alguma
espécie de médico e soubesse o que está fazendo.
― Você vai sobreviver ― diz por fim e pega o
prato, colocando-o em cima da bancada. Protesto
quando ele dá uma mordida na pizza e o cara de
pau arranca mais um pedaço da fatia antes de
devolver para o prato.
Estico-me para alcançar a pizza, enfiando
praticamente o resto da fatia inteira na boca, e ele
ri.
― Mas é uma dama mesmo ― implica, passando

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o dedo no canto no meu rosto, levando-o à própria


boca, e eu faço uma careta. ― É só queijo, doida.
Ele se defende e dou os ombros. Nojento mesmo
assim. Isso não o impede de se inclinar e segurar
meu rosto entre as mãos. Solto um grito quando
percebo o que ele vai fazer e Rafa lambe o canto da
minha boca, cobrindo-me de baba. Eca.
― Você come igual a uma criança ― implica, e
eu começo a tentar me soltar. Ele abre um sorriso
quando percebe e passa um braço pela minha
cintura, trazendo-me para perto dele. Arrasto o
rosto na sua camisa para limpar a bochecha
molhada pela palhaçada dele.
― Olha quem está falando ― protesto. ― Parece
que você tem um buraco na boca, sempre se suja.
Ele franze a sobrancelha e balança a cabeça como
se eu fosse louca.
― Eu tenho um buraco na boca. É literalmente
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isso que uma boca é, Priscila. Um buraco. Para


colocar coisa dentro.
Mordo o lábio e nem preciso dizer nada dessa
vez. Ele mesmo começa a rir sozinho quando
percebe o que falou. Rafael recosta a testa na
minha, ainda sorrindo.
― Senti falta dessa sua maluquice essa semana ―
diz sem qualquer rodeio. ― Aconteceu tanta coisa
esses dias que acho que poderia falar para sempre
para te contar tudo.
― Você fala para sempre o tempo inteiro,
bonitinho.
Rafael sorri e abaixa o rosto, raspando os dentes
no meu queixo. É quase instintivo me acomodar um
pouco mais perto dele. Seus lábios pousam sobre os
meus por um instante, sinto sua respiração quente
contra minha pele e vejo o exato segundo em que
ele fecha os olhos, o mesmo instante em que leva a
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mão ao meu rosto, escorregando a palma pelo meu


pescoço. Mas ele não me beija.
― Por que você sempre hesita? ― pergunto, e
Rafa abre os olhos sem se afastar. ― Você sempre
para antes de me agarrar. Com bafo eu sei que não
estou ― implico.
Rafa desce as mãos pelas minhas pernas e me
puxa para cima, colocando-me sentada ao lado do
micro-ondas. Nem tenho certeza se essa bancada
aguenta, mas parece que vou descobrir. Sinto o
gelado desse material que nem sei qual é contra a
minha bunda pelo tecido fino do vestido, que sobe
e mal cobre nada quando separo as pernas para ele
se encaixar na minha frente. Passo a mão pelo
cabelo e vejo o olhar dele cair para o meu decote
quando os fios pousam ali. Ele dá de ombros.
― Não sei quando você está a fim. Por mim eu te
agarro o tempo todo, mas não sei quando você

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quer. ― Abro a boca para responder e ele revira os


olhos antes mesmo de eu falar qualquer coisa. ―
Eu sei, você sempre quer ser agarrada. Essa sua
disposição devia ser estudada, nunca vi. Sexo é
ótimo, mas tudo tem limite nessa vida. Mas mesmo
assim. O que eu estava falando? Ah! Então, eu
sempre quero te agarrar, mas é que gosto de
conversar com você também. A gente não é amigo
porque você tem uma bunda gostosa, Priscila. É
porque gosto de te ter por perto. Fez falta conversar
contigo essa semana, sabia? Caíque não me deixa
falar, diz que eu não calo a boca.
Não cala mesmo. Rafael sobe as mãos pelas
minhas coxas e prende os dedos na curva da minha
bunda, apertando-a. Jogo um braço por cima do seu
ombro e ele me puxa, enroscando minhas pernas ao
seu redor. Levo a outra mão ao seu antebraço,
prendendo os dedos na faixa de pele exposta.

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― Eu gosto das nossas conversas ― diz.


Ergo uma sobrancelha quando o vejo engolir em
seco, o olhar preso no meu ombro onde sei que a
alça do vestido caiu. Posso sentir pelo menos
metade do meu peito exposto sem precisar olhar e o
jeito que ele demora alguns segundos antes de falar
qualquer coisa, encarando o ponto fixo, prova que
eu estou certa.
― Você faz ser muito difícil manter uma amizade
inocente ― murmura, a palma subindo pela minha
cintura, e eu me limito a sorrir, sabendo que ele vai
achar o caminho sozinho. Só sacudo o ombro para
a alça acabar de cair e dar uma ajudinha. ― Você é
impossível. Eu não sou de ferro, loira. Realmente
não sou. Só não quero estragar as coisas.
Rafael faz um bico de lado e se inclina um pouco
mais na minha direção, encostando a testa na
minha. Sua palma sobe e desce pela minha cintura

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em um toque torturantemente lento e estranhamente


carinhoso.
Meu sorriso se amplia para a cara meio
desesperada dele. Não dá para negar que dá
vontade de morder quando ele começa a surtar
desse jeito. O apelido que ele ganhou não foi à toa.
É bonitinho.
― Sua única preocupação é estragar as coisas? ―
pergunto, e ele concorda com a cabeça, a palma
alcançando a curva do meu seio. ― Não vai. Tem
razão, eu realmente sempre quero que me agarrem.
Mas a questão é que eu sempre quero que você me
agarre.
Rafael não hesita dessa vez. Sua boca toma a
minha, seus dedos enroscam no meu cabelo e ele
me puxa para mais perto. Impaciente, desço minhas
mãos para a barra da sua calça, mas ele me para,
puxando meus dedos para cima, sem parar de me

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beijar.
Lá vem ele com essa tortura. Qual a dificuldade
de só me dar o que eu quero? Sei que ele quer
também. Mas não. Lá vai ele com esse beijo lento e
firme, prendendo-me no lugar, tomando seu tempo
para me explorar como se fosse a primeira vez que
encostasse em mim, mordiscando meu lábio. Já
reconheço seus gestos. Inclino o pescoço, dando o
acesso que sei que ele vai querer, e Rafael arrasta a
boca pela minha pele. Mesmo sabendo exatamente
o que o loiro vai fazer, meu corpo se arrepia
enquanto ele deixa mordidas por toda a extensão.
Rafa para de me beijar por um instante apenas,
tempo o suficiente para voltar à minha boca e
sussurrar contra meus lábios para que eu me segure
nele, e me toma em um beijo mais uma vez quando
me puxa para cima. Enrosco-me ao seu redor e ele
anda em direção ao meu quarto, soltando-me no

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colchão e deitando por cima de mim.


― Um dia eu vou entender qual a necessidade
dessa demora toda ― digo meio ofegando quando
ele começa a descer a boca pelo meu colo e deixa
uma mordida na curva do meu seio.
Rafa gira na cama e me põe sentada no seu colo,
as pernas abertas ao seu redor, encaixada de frente
para ele.
— Se você quer uma foda pesada que vai te fazer
esquecer seu nome, sabe que é atrás do Calebe que
você tem que ir — diz, subindo a mão pelas minhas
costas, abrindo o zíper do vestido. — Se quiser uma
rapidinha só para matar a vontade, vai atrás daquele
ruivo esquisito que você pega de vez em quando.
— A boca dele cai para o meu pescoço e jogo a
cabeça para trás, dando todo o acesso que ele quer.
— Não preciso passar por toda a sua agenda, você
sabe quem procurar, loira. Sabe onde conseguir o

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que quer. Mas você está aqui.


Ele abaixa o zíper e leva uma mão ao meu seio
quando o vestido cai pela minha cintura,
embolando no meu quadril. Cada gesto seu é lento
e preciso, firme e demorado. A boca dele me
alcança e chupa. Rafa prende meu mamilo entre os
dentes como já descobriu que eu gosto. Sem a
menor pressa, passa para o outro e faz a mesma
coisa, entre chupadas e mordidas explorando cada
pedaço de pele exposta.
Ele tem razão. Eu poderia ter ido atrás de
qualquer pessoa e não tenho dúvidas nenhuma que,
em quesito de me comer gostoso até eu pedir
arrego, Calebe é o primeiro no topo da minha lista.
Não teve uma vez que me arrependi de procurá-lo.
Ele sabe muito bem o que faz, e faz com gosto.
Toma completo controle da situação como
ninguém.

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Mas eu não espero uma foda com Rafael. Sei que


não é isso que vou ter. A questão é que não tenho
ideia do que vou ter e minha curiosidade está quase
tão atiçada quanto meu corpo neste momento, com
uma mão dele subindo por entre minhas penas e
provocando-me pela barra da calcinha. Desde que a
gente começou essa brincadeira, Rafael tem virado
meu corpo do avesso e estou adorando isso. Só
falta a cereja do bolo.
— Eu quero que você me diga exatamente o que
quer, loira — pede, sussurrando contra a minha
boca, e eu o encaro com o cenho franzido. — Não
adianta, não vou te jogar na mesa e te comer como
se não significasse nada. Isso nunca vai acontecer.
Faço bico. Eu gosto de ser jogada na mesa.
― Porque eu sou sua melhor amiga para sempre e
vamos fazer pulseiras de miçanga na praia. ―
Tento implicar com ele, mas metade da frase sai

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ofegante em meio a um gemido baixo quando ele


me alcança por dentro da calcinha, puxando-me
para ele com o outro braço. Sua ereção descarada
desponta contra mim e desço a mão para abrir o
botão da sua calça.
O loiro me firma no lugar e segura meu rosto
gentilmente, fazendo-me olhar para ele, sem parar
de mover os dedos. Arrasto a palma por seu
membro duro por cima da cueca e Rafa sussurra,
pedindo que eu só chegue mais perto, a voz rouca
contra meu ouvido. Subo a mão e afundo os dedos
no seu cabelo, puxando-o para mim quando ele me
alcança exatamente onde preciso. Não me
surpreendo quando seus dedos deslizam com
facilidade, úmidos com a prova de como esses
carinhos inocentes estão sendo capazes de me
acender. Lentamente, ele desliza um dedo, depois
outro, seu polegar firme sobre meu clitóris, sua

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boca sobre a minha. Não demora nada para que o


primeiro gemido escape da minha garganta.
Senti-lo duro debaixo de mim não ajuda em nada
a manter o pouco controle que eu tenho neste
momento. Mal tenho tempo para processar o quão
pouco esforço ele precisou fazer para me deixar
assim quando fecho os olhos e afundo a cabeça no
seu ombro, sentindo meu corpo começar a se render
aos estímulos precisos. Desfaço-me em seu colo,
gozando facilmente em seus dedos, e Rafa prende
meu lóbulo entre os dentes, deixando um beijo no
meu pescoço.
Mesmo com esse tesão desgraçado explodindo, é
tudo leve. Simples e descomplicado, como sempre
foi nossa relação. Nunca precisei pensar antes de
falar alguma coisa para ele e sei que Rafael me diz
o que bem entende sem se preocupar.
Nada mais justo do que trazer isso para a cama

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também.
― Também senti sua falta, Rafa.

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Capítulo 24
DOIS MESES.
É esse o tempo que passou desde que comecei a
trabalhar naquela empresa. Logo que eu me formei,
comecei a trabalhar para um cara que era cliente da
Rodrigues Menezes e foi onde fiquei nos últimos
três anos. Experiência eu peguei de sobra, mas nada
me preparou para o desespero infinito que é
trabalhar com alguém que faz questão de te fazer
sentir como se não tivesse a menor chance de você
ser alguém na vida. Já tinha ouvido falar de
namorados abusivos, amigos abusivos, agora patrão
abusivo foi a primeira vez. Quando ouvia André
reclamando até cansar do patrão dele, sinceramente
achei que fosse exagero. Não tem como alguém ser
tão ruim assim. Eu me enganei foi feio. Tem sim,

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tem como ser pior. Renato consegue essa proeza.


Antes de ir embora, bati na porta da sala dele para
avisar que estava indo e lembrá-lo que segunda-
feira começo no outro setor, porque do jeito que ele
é louco, era capaz de esquecer. Ele me elogiou pela
primeira vez nessas semanas todas. O mais absurdo
de tudo foi que Renato olhou na minha cara e me
deu os parabéns por não ter desmoronado. Por ter
aguentado seus ataques sem surtar nem morrer de
desespero. Sem chorar. Agora pode uma coisa
dessas? A pessoa é tão sem noção que não conhece
limites.
— Você fica uma gracinha todo sem graça desse
jeito.
Não sei quanto tempo estou com meu olhar fixo
desse jeito na loira montada em mim, os cabelos
espalhados por seus ombros, o sorriso provocador
de sempre na minha direção. Tudo que eu quero

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fazer é beijá-la até não poder mais. É simplesmente


impossível não reagir a ela nua no meu colo, tão
perto, tão quente. Tenho certeza de que estou a
ponto de explodir nesta calça.
— Você é doida — murmuro, subindo as mãos
por sua cintura. Ou talvez eu seja doido. É difícil
saber ao certo o que sinto ou não perto desse
furacão em forma de mulher.
Priscila leva os dedos aos botões da minha camisa
e abre um por um, arrastando as unhas na minha
pele no processo. Ela passa a mão pelos meus
ombros e eu movo os braços para ajudá-la a tirar a
camisa que ainda estou vestindo nem sei por quê.
De alguma forma, a gente sempre acaba com ela
sem roupa e eu ainda completamente coberto. Não
estou morrendo de calor só porque as portas do
quarto dela, que dão para a varanda, estão abertas e
agora entra uma brisa fresca aqui. Entra também o

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barulho que vem da rua, porque é claro que a loira


tinha que morar no meio de um lugar agitado.
São Cristóvão não é exatamente o bairro mais
seguro da cidade, mas hoje em dia está difícil saber
onde é. Eu andei dando uma olhada, porque não foi
só para comemorar a mudança de cargo na empresa
que liguei para ela. Tenho um segundo motivo de
comemoração: vou me mudar. Preciso de um lugar
menor, aquela casa está difícil de manter. Mesmo
com a mudança de cargo, meu salário não vai ser lá
essas coisas para continuar nessa vida de ter que
bancar uma casa inteira sozinho. Eu nem preciso
daquele espaço todo. O bairro em si é ótimo,
seguro, bem localizado, mas é muito caro. Quero
viajar nas minhas férias, colocar a mochila nas
costas e passar o mês no Nordeste. Para isso,
preciso de dinheiro. O que significa que preciso
gastar menos. Fico o dia todo fora no trabalho, mal

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paro em casa. Um apartamento pequeno em um


bairro mais barato é tudo que preciso.
O que não entendo é por que a loira mora aqui.
Ela ganha bem mais que eu, pode bancar um lugar
maior fácil, fácil. Mas, parando para pensar, nunca
vi Priscila apegada a nada, isso inclui bens
materiais e pessoas. Ela vai pagar a rodada de todo
mundo no bar sem reclamar, ou comprar um
presente caro de aniversário para um amigo. A
verdade é que a loira não põe preço na sua
felicidade, não põe preço nas suas vontades. Ela só
quer viver. Isso me inspira mais do que achei que
fosse capaz.
— Por que você está me olhando com essa cara
de deboche agora? — pergunto, sem conseguir
deixar passar seu riso solto enquanto ela me encara
com o lábio inferior preso entre os dentes.
— É tão fácil te deixar constrangido que chega a

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dar pena. — Priscila faz um bico exagerado e eu


reviro os olhos, recusando-me a aceitar que ela está
certa, mesmo que eu saiba que ela está. Giro-a na
cama, deitando meu corpo sobre o seu.
Eu não consigo entender o que sinto perto dela, é
essa a verdade. Nem consigo entender o que passa
na cabeça dessa mulher doida deitada debaixo de
mim. As mãos dela caem para a barra da minha
calça, que ela abriu vai saber como, e Priscila
começa a arrastar as palmas pelas minhas pernas.
Chuto a peça que ficou presa no meu tornozelo e
cedo à vontade de beijá-la de novo.
Não imaginei terminar a noite aqui. Começar a
noite aqui, na verdade, porque a gente mal se falou
antes de acabar na cama. Ela estava reclamando de
cólica e os caramba a quatro mais para o começo da
semana, não queria nem ouvir falar em sexo, então
não pensei que esse fosse ser o rumo da coisa. Mas

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Priscila continua surpreendendo-me.


Passo um braço ao seu redor, puxando-a para
mais perto, e aperto a lateral da sua cintura onde ela
reclamou há uns dias da gordurinha que está
aparecendo por ela estar matando academia. Está
mesmo. Eu gosto. É bom de pegar. Dá vontade de
morder. De jogá-la na cama e arrastar os dentes
pelo seu corpo todo, mas minha vontade maior é
ficar aqui e saborear o fato de ela ter acabado de
dizer que sentiu minha falta. Eu podia jurar que o
mundo ia acabar antes de Priscila se importar com a
presença de alguém.
O vestido dela já está jogado no chão há muito
tempo, embolado em um canto. Os brincos nem sei
onde foram parar e parece que sempre que estamos
juntos a maquiagem dela se revolta e borra. Passo
um dedo debaixo do seu olho e mostro a ponta suja
de preto.

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— Você está parecendo um panda — digo e


arrasto o dedo pelo seu rosto, terminando de
manchar sua bochecha. — O panda mais lindo que
já vi, mas um panda.
Espero pelo tapa que ela sempre me dá quando
implico com alguma coisa, mas ao invés disso,
Priscila cerra os olhos e inclina a cabeça. O
movimento faz com que uma mecha do seu cabelo
escorra pelo pescoço e estico a mão para tirá-la
dali, sentindo sua pele quente sobre minha palma.
Ela sempre está quente e é só mais um motivo para
ser difícil tirar as mãos de cima dela.
— Acho que é a primeira vez que você diz que
sou bonita, bonitinho — diz quando pergunto por
que ela está olhando para mim como se eu tivesse
duas cabeças. Seu tom é travesso e acusador e ela
inclina um pouco na minha direção, colando os
seios expostos no meu peito. — Não a parte do

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panda — esclarece, olhando-me feio, e dou os


ombros. — Mas eu estou acostumada a todo mundo
lamber o chão que eu piso. Se eu dependesse de
você para manter meu ego em dia, estava ferrada.
Sorte minha que não dependo.
Ela me dá uma piscada sugestiva de quem está
pronta para esfregar na minha cara a lista de
homens enfileirados esperando por um estalar de
dedos dela. Eu ainda continuo tentando desvendá-
la, porque com o tempo comecei a entender que ela
realmente não se importa com isso. É divertido,
mas Priscila não entra em crise de abstinência se
não sair por aí com um cara diferente a cada dia da
semana. Na verdade, na maior parte do tempo ela
só sai sozinha mesmo, porque está para nascer
pessoa que goste mais da própria companhia do que
ela. A loira só usa isso como material infalível de
provocação com todo mundo. Para evitar que se

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aproximem mais do que ela quer. Um escudo


contra nem sei o quê.
— É? — pergunto, e ela confirma com a cabeça,
fazendo um bico manhoso exagerado que não
combina nada com essa cara de pau dela. Ainda é
debochada.
Tiro a mão do seu pescoço e subo as duas palmas
por suas costas, puxando os braços dela para cima e
jogando-os em volta do meu pescoço antes de virar
novamente no colchão, fazendo com que ela monte
no meu colo para que chegue mais perto de mim.
Prendo-a a mim com um braço e subo a outra mão
por seu pescoço, arranhando e prendendo entre os
dedos seus fios meio embolados no ponto certo que
sei que vai arrancar um suspiro dela. E arranca.
— Você sabe que é linda. Sabe que é gostosa.
Não precisa de ninguém para te dizer isso — falo,
arrastando os dentes por seu queixo. Ela ri do gesto

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como sempre faz. — Mas eu te elogio o tempo


todo. É só que você me encanta mais é com esse
seu jeito descompensado, com a sua certeza de si.
Tipo essa semana naquela reunião que teve, eu quis
bater palmas pelo jeito que você colocou aqueles
caras chatos no lugar deles quando começaram a
pentelhar perguntando pelo Eduardo. É esse tipo de
coisa. Não é porque você tem uma bunda gostosa
que gosto de te ter por perto. É porque você é…
você.
É só depois que acabo de falar que percebo que
ela pode interpretar o que eu disse de um jeito tão
errado que vai fazer a loira nunca mais olhar na
minha cara. Abro a boca para dizer que não, não
estou perdidamente apaixonado por esses olhos
verdes debochados, que tudo que eu quis dizer é
que ela é uma mulher maravilhosa e eu a admiro
muito, mas paro e não falo nada. Não falo nada

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porque vejo um sorriso travesso crescer no seu


rosto e sei que vem gracinha por aí. Não falo nada
porque não tenho certeza se é verdade que cada
palavra foi só sobre uma amizade inocente.
Estou começando a achar que estou ferrado de
verdade, que estou mesmo começando a querer
mais dela do que essa história de P.A. que ela
inventou. Não quero estragar o que a gente tem,
mas não posso mentir. Não sei mentir. Então só
torço para ela não me perguntar.
— Achei que você fosse um cara de peitos. Que
obsessão é essa com a minha bunda?
Solto uma risada que desaparece com toda a
tensão que surgiu por um minuto. Ela é
inacreditável.
— Gosto dos dois — respondo, meneando a
cabeça como se considerasse minhas opções.
Priscila ri e se solta do meu braço, sacudindo o
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tronco, balançando esse par maravilhoso de seios


no meu rosto. Se já estava impossível manter meu
pau sob controle antes, agora parece que vai
explodir dentro dessa boxer que foi só o que ela me
deixou vestindo. É claro que isso só faz com que
ela solte uma gargalhada deliciosa.
— Vem, preciso de um banho — diz,
desmontando do meu colo, rebolando em direção
ao banheiro.
Arrasto a mão no cabelo e sacudo a cabeça,
soltando um palavrão antes de sair da cama. Ela me
enlouquece, é isso. Arrasto os pés pelo chão gelado,
indo em direção ao banheiro, e paro na porta, vendo
Priscila abrir a água. Ela está de costas para mim e
assim continua quando manda eu terminar de tirar a
roupa. Obedeço, é claro, e arranco a peça que falta
enquanto ela dá um nó no cabelo. Passo os olhos ao
redor, nos azulejos pretos e azuis do banheiro que

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me chamaram atenção da última vez que estive


aqui. Quem põe azulejo preto em algum lugar? O
pior é que ficou bonito.
Priscila entra debaixo da água e demoro alguns
segundos antes de fazer o mesmo, tentando
controlar o que a visão da loira, nua na minha
frente, faz com meu corpo. Mas desisto. Não vai
adiantar. Minha ereção vai explodir e não posso
fazer nada para evitar isso.
— Por que você não enfia a cabeça debaixo da
água de uma vez? — pergunto quando a vejo ter
trabalho para molhar só do pescoço para baixo
depois de esfregar o rosto com vontade para tirar a
maquiagem borrada.
Estico a mão e pego o sabonete, expulsando-a
debaixo do chuveiro só para soltar um palavrão
com a água pelando. Ela ri e volta a enfiar o corpo
debaixo do chuveiro.

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— Está tarde, não vou molhar o cabelo —


explica, retorcendo o pescoço para evitar a água
quente.
Chego mais perto dela, encaixando-me às suas
costas, e enlaço sua cintura. Priscila recosta a
cabeça no meu peito. Beijo seu pescoço, mordo sua
orelha e sinto quando ela começa a relaxar
envolvida nos meus braços. Prendo-a contra mim
com firmeza e dou um passo à frente, fazendo nós
dois entrarmos debaixo da água em um empurrão
só. Priscila grita e começa a se debater igual a uma
louca nos meus braços tentando sair debaixo da
água, rindo e xingando-me ao mesmo tempo. Não
adianta nada, a água entra com facilidade por seus
fios e solta o coque malfeito que ela amarrou.
Rapidamente suas mechas escorrem e grudam pelas
suas costas, encharcadas.
— Qual seu problema? — pergunta em meio a

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uma risada. Ela até tenta fazer uma cara de brava,


mas não consegue quando ameaço começar a fazer
cócegas na sua costela. — Sabe, tomar banho com
alguém costuma ser uma coisa sexy, não essa
palhaçada aqui.
Dou os ombros e a puxo para perto, terminando
de molhar o que ainda estava seco. Puxo-a em um
beijo que estou querendo há muito tempo, firme,
longo. Estico a mão, desligo a água, prendendo-a
contra a parede, e Priscila facilmente se enlaça em
mim.
— Não tem como ser sexy ficar coberto de
espuma esperando a madame resolver parar de
brincar de sereia debaixo da água escaldante —
digo contra sua boca. Encaro seus lábios
entreabertos e puxo-a para perto.
— Agora eu vou ficar pingando pela casa —
reclama em um sussurro, e eu até acreditaria nesse

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papo dela se sua mão não estivesse descendo, se


seus dedos não estivessem fechando-se em volta do
meu pau em um toque firme. Eu ofego, descendo a
boca até a dela de novo. — Você é muito fácil,
bonitinho.
Nem nego, sou mesmo.
— Estou com saudades da sua boca — sussurro
no seu ouvido e ouço uma risada deliciosa em
resposta, o movimento da sua mão sobre mim
aumenta.
— Pede.
Solto um grunhido e afundo a cabeça no seu
ombro, sem acreditar. Priscila diminui o ritmo e
abro a boca para protestar, mas antes que eu tenha a
chance, sinto sua boca no meu ouvido.
— Você sempre insiste para eu te dizer o que
quero. Para confiar em você. Me diz o que você
quer, Rafael. Pede.
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Sua voz é um sussurro sedutor. Priscila nunca me


chama pelo nome, sempre tem algum apelido ou
diminutivo sem cabimento na ponta da língua, mas
nunca usa meu nome. O jeito que a loira diz isso
faz parecer que é ela quem está pedindo alguma
coisa e é impossível negar qualquer coisa para essa
mulher.
— Me chupa, loira.
A risada vitoriosa dela no meu ouvido vem
acompanhada de uma mordida no meu pescoço
antes de eu vê-la se ajoelhar na minha frente, as
unhas percorrendo meu corpo antes de serem
cravadas nas minhas coxas. Solto um palavrão
quando sinto sua boca sobre mim. Minha mão vai
ao seu cabelo e um gemido sai da minha garganta.
Apoio a testa no azulejo e fecho os olhos. É
impossível não aumentar o aperto em seus fios
quando meu corpo começa a se render. É com um

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gemido rouco que gozo e sinto sua boca em mim


até a última gota.
Priscila levanta e joga os braços ao redor do meu
pescoço, nem penso antes de agarrar suas coxas e
puxá-la para cima, enroscando suas pernas ao meu
redor, minha boca na sua em um beijo desejoso.
Arrasto-a para fora do banheiro em direção à
cama. Não estou nem em condições de me
preocupar com nada. Priscila me para no meio do
caminho, inclinando-se no meu colo até alcançar
uma gaveta do armário do banheiro, e rio com a
simplicidade com que ela pega um preservativo
sem qualquer cerimônia e me entrega a embalagem.
Caímos na cama, juntos, molhados, enrolados em
um beijo, minha mão enroscada no cabelo dela,
com a loira montada no meu colo como ela tanto
gosta de fazer. Priscila crava as unhas nos meus
ombros quando arrasto os dedos pelo meio das suas

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pernas.
O gemido que ela solta no meu ouvido me deixa
completamente louco. Não consigo raciocinar com
ela fazendo isso. Não consigo raciocinar direito
com Priscila perto assim.
— Eu preciso de mais que isso, Rafa — resmunga
em protesto, impaciente como sempre, e eu sei, de
alguma forma sei que ela não vai deixar que eu faça
o que quero fazer. Não vai deixar que eu a jogue na
cama, beije, explore, devore. — Me come,
bonitinho.
Eu vou. Preciso dessa mulher. Ela sobe e desce a
mão ao meu redor em um movimento preciso,
firme, rápido, e cravo as unhas em sua cintura.
Cacete, loira.
Entrego o preservativo de volta para ela e Priscila
não hesita nem por um segundo em abrir a
embalagem e desenrolar em meu membro, parando
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o toque torturante enquanto ofego contra a sua pele.


Tiro os dedos de dentro dela, molhados com a
prova do seu desejo, e minhas duas mãos encaixam
na sua bunda, trazendo-a para perto, roçando sua
entrada. Estou desesperado para me enterrar nela,
para senti-la ao meu redor.
Já estou completamente desnorteado sem nem a
ter, não consigo nem imaginar como ficará meu
estado depois de me perder dentro do seu corpo.
Preciso dela. Quando Priscila se encaixa em mim, é
impossível não soltar um gemido rouco. Cravo as
unhas nas suas coxas e afundo dentro dela, em uma
estocada lenta, ouvindo um gemido despudorado
em meu ouvido, que me faz querer jogá-la na cama
e acabar com essa tortura. Agora sou eu que preciso
de mais. Desço a boca ao seu seio, mordendo-a,
chupando-a.
Espero. Espero que ela tome controle da situação,

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que me tome como quiser, que estabeleça nosso


ritmo, que me mostre o que quer, o que gosta, como
gosta. Que me mostre o que preciso saber para dar
a ela o que nem sabe que quer.
Mas Priscila para. Ela para, comigo ainda dentro
dela, e se apoia nos meus ombros.
— Rafa…
Tiro a boca da sua pele e ergo os olhos na sua
direção. Vejo a loira encarando-me com os olhos
transbordando desejo, a boca entreaberta, cabelo
revolto e sexy como o inferno. Vejo algo em seus
olhos que nunca vi antes: medo.
Ergo a mão ao seu rosto e ela fecha os olhos,
recostando a testa na minha.
— Você quer parar? — pergunto, sem entender,
sentindo meu pau perfeitamente acomodado dentro
dela implorar por mais, mas estou preparado para
fingir que nada aconteceu se ela decidir que não
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quer levar as coisas por esse caminho por qualquer


motivo que seja. Prefiro passar o resto da noite
jogado no sofá comendo besteira e falando
abobrinha, nunca mais encostar nela do que vê-la
sair da minha vida por qualquer coisa. Mas ela nega
com a cabeça e eu suspiro aliviado.
— Eu quero você— sussurra.
— Qual o problema, loira?
Priscila se inclina de novo na minha direção e
toca meus lábios com os seus.
— Realmente quero você. Acho que quero você
demais.
Eu faço a única coisa que consigo pensar no
momento: jogo-a na cama, deito por cima dela e
prendo Priscila em um beijo, sem qualquer intenção
de soltar sua boca. Não sei o que a loira quer dizer
com isso, não sei do que ela precisa. Mas eu vou
dar. O que Priscila quiser, eu dou.
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Desisto de tentar fingir que não estou


completamente louco por essa mulher.

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Capítulo 25
QUANDO SAÍ DE CASA COM VINTE E UM
ANOS, assim que terminei a faculdade e fui
oficialmente contratada pela empresa onde trabalho
até hoje, não fiquei desesperada, mesmo sabendo
do perigo que corria de ser demitida a qualquer
hora e não conseguir me bancar. Um ano depois,
quando encontrei este apartamento meio caindo aos
pedaços à venda, com um preço bem abaixo do que
valia porque a dona tinha morrido e os filhos só
queriam se livrar do imóvel, não pensei duas vezes
antes de dar de entrada toda e qualquer economia
que eu tinha feito desde minha adolescência e me
meter em uma dívida com parcelas que na época
pareciam quase infinitas. Agora faltam só mais dois
anos para terminar de pagar e o lugar já está inteiro
reformado. É minha casa. Montada do meu jeito,
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para atender minhas necessidades e gostos.


Como tudo na minha vida sempre foi.
Nunca fui de me render a receios ou pensar duas
vezes, não por impulso, mas simplesmente porque
me recuso a me deixar paralisar por incertezas.
Quando não entendo algo, quando não estou certa
de alguma coisa, me forço a parar o que estou
fazendo, respirar fundo por um minuto e colocar
em ordem o que quer que esteja pensando e
sentindo. Há muito tempo, prometi para mim
mesma jamais me iludir, jamais me fazer de doida e
fingir que não estou sentindo alguma coisa só
porque é o caminho mais fácil negar o que quer que
esteja acontecendo.
Então eu paro. Com Rafael duro, pulsando dentro
de mim, eu paro. Mesmo querendo apagar qualquer
pensamento que tenha cruzado na minha cabeça e
só deixar ele me comer como tanto quero que ele

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faça, eu paro.
Paro porque pela primeira vez desde que me
lembro quando o assunto é sexo, sinto alguma coisa
que parece ser… medo? Quero tanto acabar com
essa tortura e ter uma merecida rodada de sexo com
Rafael que quase não quero. Quase quero sair daqui
e voltar com uma panela de brigadeiro e deixar ele
comer tudo espalhado na minha pele. Quero chupá-
lo quando ele estiver numa situação em que não
possa se descontrolar de novo. Quero me pegar
com o loiro em algum lugar meio impróprio e saber
que ele não vai fazer nada além de me provocar um
pouco. Quero Rafael dentro de mim, como ele está
agora, preenchendo-me, comendo-me como se
fosse a única coisa que vai salvar o mundo do
apocalipse, mas parece que isso ultrapassa a
barreira das nossas provocações bobas e pegações
descabidas.

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Toda essa amizade besta e cheia de segundas


intenções é baseada no fato de a gente não saber
como é, de fato, transar um com o outro. Estou bem
prestes a descobrir.
Parece que… significa alguma coisa. Eu só não
sei o quê.
Por que no inferno estou pensando tanto? É só
sexo, caramba.
É só sexo.
— Qual o problema, loira? — ele pergunta,
sussurrando contra a minha boca, enquanto sobe as
mãos pelas minhas costas. — Se abre comigo.
— Me abrir para você é exatamente o que quero
fazer — respondo, deixando de lado qualquer
tentativa do meu cérebro, impossível de ser
desligado, de tentar racionalizar a única coisa que
permito ser um completo descontrole: uma boa
trepada.
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Gemo em protesto quando ele ri e sai de dentro de


mim, colocando-me deitada no colchão. Rafael me
beija de novo, com calma, um beijo lento e
profundo, explorando minha boca, mordendo meu
lábio com delicadeza, descendo a mão pela minha
cintura. Sem motivo nenhum, eu suspiro com o
toque delicado.
— O que é essa marca aqui? — ele pergunta
quando solta minha boca, apoiando-se na mão,
cotovelo enfiado no colchão enquanto arrasta os
dedos por uma linha bem abaixo do meu seio
direito. — Eu reparei isso e sempre esqueço de
perguntar. Cicatriz? Ou é marca de nascença?
Parece um corte, mas não consigo nem imaginar
como que você pode ter se cortado aqui. O que
você anda fazendo na cama, Priscila?
Eu rio, apesar da pergunta. Rio da tagarelice, rio
do ridículo que é a gente estar a meio caminho

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andado de se comer e, ainda assim, o bonitinho


simplesmente falar, rir e jogar conversa fora como
se ele não estivesse duro dentro de mim um
segundo atrás. Arrasto as unhas pelas costas dele e
Rafa fecha os olhos por um segundo antes de virar
de novo, levando-me com ele, encaixando-me no
seu colo.
— Sem joguinhos, loira — pede no meu ouvido,
afundando os dedos na minha cintura. Concordo
com a cabeça. A gente combinou isso. — Nada
muda. Eu quero você feito um doido agora, mas
prometo que nada muda. A gente finge que nada
aconteceu se quiser, eu só preciso de você agora.
Eu realmente preciso de você agora.
Não quero fingir que não aconteceu. Só não sei o
que vai acontecer depois disso. Ah, foda-se.
Mexo-me em seu colo em um movimento lento e
é o suficiente para Rafael se afundar em mim com

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um gemido abafado contra meu pescoço, fazendo-


me jogar a cabeça para trás, cravar as unhas no
ombro dele ao senti-lo por inteiro finalmente
entrando em mim com vontade, repetidamente. Ele
não hesita nem por um segundo depois de
conseguir a autorização que precisava e,
finalmente, me come. Rapidamente viramos um
emaranhado de arranhados, mordidas e gemidos
abafados enquanto a boca dele nunca sai do meu
pescoço. Rafael me puxa para mais perto, como se
simplesmente não pudesse ter o suficiente enquanto
rebolo no seu colo. Entrego-me por completo à
sensação maravilhosa que é ter esse homem dentro
de mim.
Não tento controlar os gemidos que escapam
enquanto ele estoca, os dedos enganchados no meu
cabelo com uma pressão que só me faz arranhar
suas costas sem piedade. Seus dentes raspam minha

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pele em mordidas no meu pescoço que sei que vão


me deixar toda vermelha, mas não me importo.
— Porra, loira — rosna, girando-me na cama
quando solto um gemido alto depois de uma
estocada forte.
Ele me joga de costas no colchão, empurrando
minhas pernas para cima antes de se ajoelhar na
minha frente e puxar meu quadril em sua direção.
Ele para. Rafa simplesmente para de se mover por
um segundo, apertando minha coxa com firmeza
quando nós dois sentimos o quão fundo ele
consegue ir nessa posição. Mas é por um segundo
apenas antes de voltar a estocar, apoiando no meu
ombro com uma mão, a outra firme na minha
cintura.
O loiro solta um palavrão e voz dele sai em um
gemido entrecortado, rouca, necessitada. Rebolo
debaixo dele e Rafael parece perder completamente

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o controle de si, aumentando a força do


movimento, arrancando gemidos involuntários que
simplesmente escapam da minha garganta sem eu
poder fazer nada.
Puta que pariu.
Perco o resto do controle que eu ainda tinha.
— Não segura — diz ofegante quando mordo o
lábio para tentar conter o som. — Não se esconde,
loira.
Eu me entrego tão rápido a cada estocada funda
mais perto do orgasmo que vem tão fácil, fazendo
meu corpo estar a ponto de pegar fogo e ainda
querer mais. Cravo as unhas no seu braço, que
consigo alcançar quando sinto meu corpo se render
completamente, e eu gozo, arrancando outro
palavrão dele quando contraio ao seu redor.
Rafa me encara com atenção, os olhos fixos em
mim, a boca entreaberta, o corpo suado sobre o
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meu. Não tem nada mais delicioso do que vê-lo


perder completamente o controle e saber que a
culpada sou eu. Queria poder aproveitar mais essa
sensação, mas não consigo, porque eu mesma estou
completamente sem controle de como meu corpo
reage, já acendendo de novo quando ele não para
de estocar, sem dar tempo para eu me recuperar.
É como se a cada gemido engasgado dele eu
quisesse mais. Mais fundo, mais forte, mais rápido.
Mais dele. Só que não quero que ele me foda.
Quero o que ele sempre faz, esses olhos
acinzentados presos aos meus, meu nome saindo da
sua garganta, seus dedos apertando-me como se
não quisesse que eu saísse daqui. É exatamente isso
que ele faz.
Rafael abaixa minhas pernas, puxando-me de
volta para o seu colo, e afunda as unhas na minha
cintura em uma dor gostosa de pura necessidade

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por mais. Apoio as mãos em seus ombros,


equilibrando-me para rebolar em seu colo.
— Você está me enlouquecendo, loira. As coisas
que quero fazer com você…
— O quê? — pergunto em meio a um gemido.
Essa mania dos infernos de não calar a boca hora
nenhuma, nunca foi tão gostosa como agora,
quando ele parece deixar a vergonha de lado e
sussurrar no meu ouvido enquanto estamos na
cama. Todas as provocações, brincadeiras,
pegações sem sentido são acompanhadas da voz
rouca dele e eu adoro isso.
O filho da mãe sabe o que faz, mordendo meu
pescoço, sussurrando no meu ouvido para que eu
rebole. Obedeço. Mesmo que ele nem tente me
amarrar na cama, me tirar o controle do que
acontece, mesmo que Rafa não me foda como se o
mundo fosse acabar, meu corpo se entrega com
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facilidade a cada toque lento. Nada do que ele faz é


com pressa e, mesmo agora, estocando com
voracidade, preenchendo-me por inteira, cada
movimento é profundo, intenso, arrancando
gemidos meus que nem controlo mais.
— Tequila — responde, e tenho certeza de que
olharia para ele sem entender nada se meu rosto
não estivesse completamente convertido em uma
expressão de puro prazer. Rafael arrasta dois dedos
pelos meus lábios entreabertos e eu sugo a ponta,
correndo a língua, vendo sua boca aberta. — Quero
descobrir o gosto de tudo na sua pele. Derramar um
shot em você. Bem aqui.
Ele tira os dedos úmidos da minha boca e desce
até alcançar meu clitóris, estimulando-me com
precisão. É como se essa fosse a última gota que
faltava para me tirar completamente dos eixos de
novo, sei que não vou demorar para me desfazer no

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colo dele mais uma vez. Mas não quero. Não quero
que isso acabe, não quero que essa sensação acabe.
Quero mais, mais fundo, mais longo, mais dele.
Rafael e sua incapacidade de calar a boca
continuam falando, murmurando ao meu ouvido
com a voz entrecortada, respiração descompassada
espelhando a minha. Ele está tão sem controle
quanto eu.
Tão perdido e tão entregue quanto eu.
— Continua — instrui, levando minha mão até
onde a sua estava, e guia os movimentos,
pressionando meus dedos sobre meu clitóris.
Não consigo. Jogo a cabeça para trás, sentindo
meu corpo quente demais, mordendo o lábio para
abafar um gemido quando a boca dele vai ao meu
pescoço em uma mordida. Não consigo me
concentrar em mais nada além de rebolar no seu
colo. Como se lesse minha mente, Rafael me

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inclina de volta na cama, deitando em cima de


mim. Em qualquer outro momento, eu perguntaria
que negócio é esse de ficar mudando de posição,
mas ele não me dá tempo e volta a me comer,
aumentando a velocidade dos movimentos, pedindo
para que eu continue enquanto me prende em um
abraço apertado, seus dedos enganchados no meu
cabelo.
Lambo os lábios e desço a mão quando ele
aumenta a pressão sobre mim, gemendo. O jeito
que ele me olha, assistindo enquanto me toco, é
quase o suficiente para me fazer gozar aqui mesmo.
Fecho os olhos, porque não sei lidar com a
veneração completa e absoluta no seu olhar, com o
desejo descarado estampado ali.
Ele estava errado quando disse que nada mudava.
Não tem mais provocação inocente, não tem mais
flerte despretensioso.

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Tem eu, ele e essa troca gostosa que sempre


existiu alcançando seu máximo quando eu gozo
com um gemido abafado pela boca dele tomando-
me em um beijo e, algumas estocadas depois, ele
me acompanha, desabando sobre mim.
Sinto sua boca no meu pescoço, o nariz
arrastando na minha pele, e me concentro só em
voltar minha respiração ao normal enquanto ele não
para de beijar meu pescoço. Rafael sai de dentro de
mim, se livra do preservativo antes de deitar ao
meu lado e me puxar em um abraço, enroscando as
pernas nas minhas, e descanso a cabeça em seu
peito. Sinto minha respiração descompassada,
batimentos acelerados, meu corpo deliciosamente
dolorido, satisfeito, cansado.
— É agora que você vira para o lado e dorme? —
pergunto, levantando a cabeça para encarar seus
olhos atentos. Espero a risada, a gracinha, a

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revirada de olhos, qualquer coisa para me dizer que


o que acabou de acontecer não significou
absolutamente nada, que ele vai se vestir, ir embora
e não me procurar por uma semana, voltar e fingir
que nada aconteceu. Mas ao invés disso, ele me
beija.
Confesso que uma parte minha começa a ficar
desesperada com a possibilidade de isso ir para um
caminho completamente diferente do acordado mas
quando sinto a boca quente dele na minha em um
toque gentil, não consigo me preocupar com nada
além do seu gosto, como sempre é antes de ele
começar a me engolir. Mas ele não me engole. Ao
invés disso, começa a tortura de querer beijar meu
corpo inteiro, descendo a boca pela minha barriga.
— Acho que a gente vai precisar de mais
camisinha — murmuro quando sinto a boca dele
entre as minhas pernas.

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— A gente vai precisar de muito mais camisinha,


loira. Mas daqui a pouco.
Não tenho tempo de me perguntar por que ele
insiste tanto nisso, o que ele ganha com todo esse
esforço, por que não simplesmente pega o que
estou tão facilmente oferecendo, porque a língua
dele me alcança. O maldito realmente já aprendeu
exatamente o jeito que eu gosto. Não demora nada
para eu me desfazer completamente na sua boca,
mas não é mais a mesma coisa. A língua desse
homem é maravilhosa, mas agora que sei a
sensação de tê-lo dentro de mim, quero o pacote
completo, não essas provocações descabidas que
ele parece adorar.
Eu o quero por inteiro.
Rafael sobe e me puxa de volta para seus braços,
deitando em cima de mim. Sinto seu membro duro
contra minha coxa e estou quase implorando para

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ele parar de enrolar por seja lá qual o motivo e ir


buscar a porcaria desse preservativo de uma vez,
mas ele me beija de novo.
Rafa nunca me deixa ter pressa. Sexo sempre foi
meio automático para mim, tem um objetivo final
muito claro: ter um orgasmo maravilhoso para me
fazer ficar de bom humor pelo resto do dia. Fora
que é bom para a pele. Mas o bonitinho gosta de
tomar seu tempo. Definitivamente não conhece o
conceito de rapidinha.
A cada beijo que ele me dá, um pouco da minha
racionalidade vai embora e agradeço por isso. A
última coisa que preciso é complicar sexo. Então
fecho os olhos e aproveito o arrepio gostoso
subindo pelas minhas costas quando Rafael morde
meu lóbulo, sussurrando que precisa de mais.
Eu quero dar mais. Eu quero dar, ponto. Não sei
quanto tempo ele passa beijando-me, mal percebo

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quando sou eu a começar a buscar sua boca,


enroscar os dedos no seu cabelo e puxá-lo para
mim quando ele ameaça parar. Nada além dos seus
lábios nos meus, seus braços ao meu redor. Sinto
meu corpo quente e derretido debaixo dos seus
carinhos e não quero que pare. Rafael não para.
— Você não me respondeu — Rafa diz, a boca
contra a minha, os lábios roçando nos meus no que
poderia ser um carinho inocente com a mão dele
subindo e descendo pelas minhas costas, pernas
emboladas em um emaranhado sem sentido. — O
que é isso aqui? — Ele passa o dedo pela cicatriz
abaixo do meu peito e eu rio. — O quê?
— Era nisso que você estava pensando enquanto
me comia, bonitinho? — provoco, abrindo um
sorriso descarado para a pergunta absurda e fora de
hora. Relaxo um pouco com a aleatoriedade dele
dizendo que talvez nada precise mudar.

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Rafael ri e nega com a cabeça, puxando-me para


mais perto.
— A única coisa que eu estava pensando era que
não queria parar nunca. — Rafa me beija de novo e
já começo a sentir meus lábios inchados pela
intensidade que ele coloca em cada toque, deixando
mordidas que me fazem instintivamente chegar
mais perto do seu corpo.
Os dentes dele raspam meu queixo nessa mania
boba que ele inventou e arqueio o corpo, dando
acesso, silenciosamente pedindo mais do seu toque.
— Eu sei que você adora transar, se vestir e ir
embora — murmura no meu ouvido, encaixando a
mão em um seio. — Mas posso dormir aqui? Está
bem tarde já.
Não sei se rio da preocupação e relutância claras
na sua voz ou se estranho eu sequer ter considerado
expulsar esse abusado.
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— Vai ter que me comer de novo. É o preço da


acomodação.
— Eu não tenho intenção nenhuma de parar tão
cedo, loira. Não enquanto você me quiser.
Eu quero.
Não sei se vou continuar querendo amanhã tanto
assim. Mas hoje, agora, não tem nada mais que eu
queira.

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Capítulo 26
A TARDE ESTÁ BEM FRESCA COM A brisa
suave e o sol sem tostar ninguém. Fico feliz por ter
conseguido tirar Juliana de casa. Parece não ser
grande coisa, mas só eu sei o trabalho que é. Ju
parece que gruda naquela cama com o computador
no colo e só um milagre para tirar, ainda mais nas
atuais circunstâncias. Quando cheguei à casa dela
hoje, pouco antes do almoço, me despedaçou o
coração ver seus olhos inchados e vermelhos
deixando bem claro que ela passou a noite
acordada. Deixando mais claro ainda que o
encontro forçado dela com o Edu não teve um bom
resultado.
— Eu nem gosto de café — Juliana murmura,
levando a caneca fumegante aos lábios, fazendo

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uma careta que abre um sorriso no meu rosto.


Levo minha própria caneca aos lábios e tomo um
longo gole do líquido amargo que escorre quente
pela minha garganta. Recosto na cadeira e
acompanho o olhar de Juliana, que encara a rua
movimentada pela janela da cafeteria. É sábado de
tarde e obviamente todo mundo teve a mesma ideia
que a gente, então todos os lugares estão
completamente lotados. Foi um milagre a gente ter
conseguido uma mesa aqui.
— Não sei se te bato ou te agradeço por ter
armado aquele encontro ontem — Ju diz, apoiando
o cotovelo na mesa.
— Como você sabe que não foi só um acaso do
destino?
Bebo outro gole longo, segurando-me para não rir
do jeito que ela me olha. Ela sabe que fui eu, Edu
sabe que fui eu, todo mundo sabe que fui eu. Mas
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ela queria o quê? Se não fosse por mim, eles não


conversariam nunca. Fui eu que dei o
empurrãozinho inicial e Eduardo teve razão ao
dizer que ela realmente me ouve. Repito: para que
filho se tenho esses dois para cuidar?
— Eu não sei mais o que fazer — admite com um
suspiro cansado, e vejo lágrimas cintilando no
canto de seus olhos sempre tão expressivos. Ela
passa os dedos pelo rosto e balança a cabeça,
tentando engolir o choro antes de ele começar.
Sorrio. Mesmo morrendo de sofrer, ela continua
odiando desmoronar em público. Mas é um sorriso
triste, porque não posso ajudar em nada. Já fiz tudo
que podia, tentei fazer os dois pelo menos se
entenderem um pouco. Estico a mão sobre a mesa e
alcanço a dela. Não preciso dizer nada e Ju também
só me olha em silêncio.
Coração partido é um mal sem remédio. Não tem

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choro que alivie a dor, não existe solução milagrosa


que alegre a alma. Tempo. Somente o tempo é
capaz de aliviar o sentimento de desespero que
parece consumir cada pensamento. Ainda que eu
não acredite em almas gêmeas, que não aceite essa
ideia irreal de que existe apenas uma pessoa certa
para você entre bilhões existentes ao redor do
mundo, sei que para Juliana isso não importa.
Encarando os olhos distraídos dela consigo ver que,
neste momento, só tem um nome rondando sua
cabeça. Só tem uma pessoa que importa. Eduardo
talvez não seja o único homem no mundo capaz de
fazê-la feliz, mas sem dúvidas é o único que ela
quer. Às vezes, querer é a única coisa que importa.
Nem sempre o que você quer faz muito sentido.
— O que posso fazer por você? — pergunto,
disposta a praticamente qualquer coisa para
arrancar um sorriso que seja do rosto dela.

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Juliana inclina a cabeça e abre um sorriso fraco.


— Pode começar explicando essa história desse
seu homem misterioso. — Ela arqueia a
sobrancelha para mim e eu bufo, soltando minha
mão da dela. Sabia que ela não ia deixar passar. —
Eu estou sofrendo com o coração destroçado como
se um caminhão tivesse passado em cima de mim.
Me anime.
Olha a rainha do drama.
Chamo o garçom e pago a conta, esquivando das
perguntas implicantes dela enquanto saímos do
lugar e começamos a andar pela calçada
aproveitando o dia bonito. Juliana engancha o
braço no meu e andamos por algumas ruas,
aproveitando para fazer o que deve ser a nossa
única paixão em comum: passar por lojas e olhar na
vitrine coisas que nunca vamos comprar. Mas dessa
vez insisto e entramos em uma lojinha quando Ju

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passa mais do que alguns segundos olhando um


vestido no manequim. Nem dou tempo para ela
começar o discurso de que não vai ficar bom nela e
a arrasto para dentro. Passamos pela arara, pegamos
o tamanho certo, e mais outros que a agradam, e
empurro a bonita para o provador.
— Pode falar, Pri. Estou trocando de roupa, não
fiquei surda do nada — ela insiste, praticamente
gritando do outro lado na cortina. Ignoro e me
limito a recostar na parede, esperando. Não demora
muito para que ela saia e venha na minha direção.
Paramos as duas olhando para o espelho,
analisando o vestido azul justo que termina na
metade das suas coxas, e dou um tapa estalado na
bunda dela só porque sei que ela odeia.
— Não gostei do decote — diz, e concordo. Não
valorizou. O colo é muito fechado e não caiu muito
bem nela. O modelo é bonito, mas ela pode fazer

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melhor.
— Acho que aquele branco vai ficar melhor —
digo, indicando com a cabeça para a peça que
praticamente joguei no colo dela. A cor vai
contrastar lindamente com a pele dela e nem dou
tempo para que Juliana proteste.
Ela volta para o provador, resmungando, e vejo
algumas blusas espalhadas por perto, mas nem me
dou ao trabalho de tentar pegar nada. Juliana se
pudesse só usaria vestidos o tempo todo. Eu já não
dispenso shorts jeans sempre que posso porque não
tenho modos, inclusive é o que estou vestindo
agora. Bem confortável.
Ju enfia a cabeça para fora do provador e ergo a
sobrancelha para ela, esperando, mas ela não sai.
— Só te mostro depois que me contar — diz, e sei
que ela amou o resultado e sabe que vou amar
também, ou não se daria ao trabalho de fazer
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charme. Dou os ombros e faço um sinal de zíper na


boca, já conhecendo essa conversa dela. Juliana
bufa irritada, sai do provador batendo pé e eu rio.
— Você está maravilhosa.
Está mesmo. Ela morde a boca, virando em
direção ao espelho, analisando o que vê. O modelo
acaba pouco abaixo da metade de suas coxas, com
a saia rodada. Ficou lindo. Dessa vez o decote só
fez valorizar.
— Não sei — comenta, encarando a própria
silhueta, parecendo incerta.
— Você sabe que fica linda de qualquer jeito, Ju
— insisto, apoiando a cabeça no seu ombro por
trás, olhando para o espelho à nossa frente. Ela
revira os olhos com puro desdém ao comentário.
Obviamente acerto um tapa no seu braço. — Fica
sim, não discute comigo. Sabe que sempre tenho
razão.
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Ela recosta a cabeça na minha e suspira.


— É fácil se achar linda vestindo trinta e seis, Pri.
Meneio a cabeça. Visto trinta e oito, mas entendo
o ponto. Limito-me a dar um beijo no seu rosto,
porque sei que essa discussão é longa, quase
infinita. Juliana é linda. Linda. Ela é um pouco
mais alta que eu, olhos castanhos espertos e um
coração do tamanho do mundo. Acho que sabe
disso na maior parte do tempo, mas ela tem dias.
Dias em que jura que está pronta para ser a próxima
modelo da Victoria Secret’s, certa do baita
mulherão que ela é; e dias em que não gosta de
absolutamente nada do que vê, em que o quarenta e
oito que veste às vezes ataca a autoestima.
Claramente hoje é a segunda opção. Na verdade,
acho que nada vai funcionar para ela muito bem
enquanto minha amiga não resolver essa história
com o Eduardo.

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— Vai levar? — pergunto, e ela concorda com a


cabeça. — Sabia que eu te amo?
Juliana não responde, só sorri para mim em
retorno. É o suficiente. Ela volta para o provador e
põe de volta a roupa com que veio, vai ao caixa e
paga pelo vestido, mesmo eu insistindo que daria
para ela de presente. Vejo quando ela enfia a
carteira dentro da bolsa e discretamente confere o
telefone. A gente combinou de deixar os aparelhos
desligados e aproveitar a tarde juntas, como há
muito tempo não fazíamos. Longe do mundo, de
problemas, um dia de folga das confusões da vida,
das dores de cabeça que insistiram em aparecer
ultimamente. Das distrações que apareceram
ultimamente. Desliguei meu celular também para
evitar a tentação de responder à mensagem de
Rafael reclamando que acordou sozinho no meu
apartamento e não me encontrou lá.

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Agora é culpa minha que dorme igual a uma


pedra? Arrumei-me e saí para encontrar com a Ju
quando bateu onze da manhã e ele ainda estava
apagado na cama, embolado no lençol, a cara toda
amassada no travesseiro, um braço pendurado para
fora do colchão. Sorri com a imagem dele tão
confortável embolado na minha cama.
Eu gosto de ir para a casa dos outros porque
decido a hora de ir embora. Quando passou de três
da manhã, eu estava caindo de sono e Rafael não
calava a boca, então larguei ele para lá e deitei para
dormir. O resultado foi uma travesseirada na cara,
uma sessão de cócegas e outra rodada de sexo. Não
tem nada de sexy naquele homem. É gostoso, sim.
Mas não acho que exista nenhuma pessoa no
mundo menos sedutora que Rafael. Ele não se dá
ao trabalho de se esforçar para isso. Acho que é
isso que gosto nele. É fácil, leve e descomplicado.

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Não existe um jogo de sedução, interesses, palavras


ditas com cuidado, não tem um clima, romantismo,
nada disso.
Fiquei preocupada de as coisas ficarem esquisitas
depois de a gente se pegar? Fiquei. Mas pelo menos
até a hora que eu fui dormir, estava tudo bem.
Vamos ver da próxima vez que a gente se encontrar
se ele vai chegar tagarelando infinitamente sobre
qualquer coisa aleatória ou se vai ter climão.
— Vamos sair para dançar? — sugiro,
praticamente me jogando na frente de Juliana para
que ela pare de andar. Ela solta um gemido de
insatisfação que não podia ser mais claro. — Vai
ter um show de forró lá perto de casa. Vamos?
Nunca te pedi nada.
— Nem vem. Você já me tirou de casa. Eu só
queria ficar deitada chorando e comendo chocolate
em paz. Dançar passa dos meus limites.

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Abro a boca para protestar, mas ela me


interrompe e nem dá ideia. Palhaçada.
Conversamos bobagens no caminho até o meu
carro, que finalmente resgatei estacionado em
frente ao prédio dela depois de ter deixado a chave
com ela noite passada, e desisto de tentar convencê-
la a ir comigo. Juliana dispensa o convite e me
manda chamar um dos meus infinitos contatos, mas
não quero. Quero sair para me divertir, sem ter que
me preocupar. Sem dor de cabeça.
Então, quando entramos no carro, demoro só dois
segundos para ligar o celular e abrir a mensagem do
loiro.

Existem poucos lugares tão únicos quanto a Feira


de São Cristóvão. O lugar é um mercado nordestino
em pleno Rio de Janeiro e, em pleno início de noite
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de sábado, está abarrotado de gente. Gosto dessa


multidão barulhenta, da mistura de sotaques que
este lugar traz, dos cheios fortes de tempero, da
música alta convidativa. Desvencilho-me de
algumas pessoas enquanto caminho em direção a
onde sei que o tal show vai ser, parando no
caminho para olhar uma coisa ou outra, e gasto um
bom tempo vendo alguns enfeites em uma loja que
sei que não combinam em nada com o resto do meu
apartamento, mas não me importo. Só que também
não posso comprar agora porque larguei a bolsa no
carro, só enfiei o celular no bolso do short jeans
com o cartão dentro, e não vou carregar sacola por
este lugar cheio agora. Outro dia. Volto durante a
semana e compro alguma coisa.
Sei que cheguei ao lugar certo quando a música
fica alta o suficiente para que seja tudo que posso
ouvir. Passo os olhos pelo palco montado, a banda

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no lugar, os cantores ao microfone e pessoas


dançando ao ritmo agitado da música. Sorrio
assistindo à cena e levo as mãos ao cabelo, fazendo
um nó alto para já evitar os fios de grudarem no
meu pescoço com o suor que sei que logo vai
começar neste lugar abafado. Fico feliz por não ter
inventado de trazer a bolsa comigo, só ia me
atrapalhar. Passo os olhos pelo lugar em busca dos
caras com a regata laranja fluorescente que sempre
estão por aqui.
Tem uma companhia de danças aqui por perto,
volta e meia eu apareço quando fazem uma festa.
Sempre que tem show aqui, os meninos aparecem e
ficam rodando o espaço, tirando para dançar
qualquer desavisada que estiver disponível. Tenho
alguns bons conhecidos de lá, então não demora
muito para eu avistar um deles. Ando em direção
ao homem alto, ridiculamente musculoso, a pele

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negra brilhando de suor. Ele está de lado,


conversando animadamente em um grupo de
amigos, sorridente como sempre, quando chego até
ele e me apoio no seu ombro.
Danilo olha na minha direção, surpreso, mas logo
me reconhece e passa um braço na minha cintura,
beijando meu rosto.
— Oi, sumida.
Cumprimento os outros, alguns familiares, outros
não. Ouço-os por alguns instantes, jogo conversa
fora por alguns minutos, mas não demora muito
para eu indicar com a cabeça para onde o resto do
pessoal está dançando, e Danilo abre um sorriso ao
me arrastar para lá, imediatamente me prendendo
pela cintura e conduzindo no ritmo da música com
perfeição.
— Você está muito melhor do que da última vez
que te vi — digo no seu ouvido, tentando não gritar
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por sobre a música alta. Ele olha na minha direção


e abre um sorriso orgulhoso antes de me rodopiar
novamente. — Terminou a faculdade?
— Ainda não — resmunga, e eu rio. — Não
acaba esse negócio, nunca vi.
Ele até tenta falar alguma coisa, mas é impossível
ouvir com esse barulho e perco metade do que diz.
Mas tudo bem. Larguei Juliana em casa sob
protestos, porque aquela idosa queria ficar em casa
assistindo série. Ofereci para ficar com ela, mesmo
querendo sair, mas ela não aceitou. Disse que
queria colocar a cabeça no lugar, respirar, ler um
pouco. Decidir o que fazer. Tenho até medo das
ideias que ela vai ter, mas dei um beijo na sua testa,
deixei-a lá e vim para cá dançar, que era o que
queria fazer desde o começo. Então não me importo
muito de não ouvir Danilo, não enquanto ele
continua rodopiando-me por aqui.

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Algumas músicas depois, paramos para beber


água, porque o calor deste lugar é forte. A fila para
comprar a bebida é longa e eu resmungo quando
passam quase dez minutos e a gente ainda está
aqui. Danilo ri, passa a mão no meu rosto, tirando
cabelo que grudou com o suor, e esfrega o polegar
na minha bochecha. Arqueio a sobrancelha para
ele.
— Nem vem, já disse que não pego ninguém para
criar, Dan.
Ele ri e levanta as mãos para o alto, dando-se por
vencido. Por cinco minutos, aposto. Esse garoto
atira para tudo que se mexe, nunca vi. Toda vez que
a gente se esbarra, ele tenta alguma coisa. Danilo
deve ter acabado de fazer seus vinte anos e até eu
tenho limites. Fora que o menino não vale o chão
que pisa, o papinho que ele joga nas mulheres é um
negócio tão tosco que dá vontade de ligar para os

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pais dele e reclamar.


— Você é má comigo — reclama, pegando a
garrafinha de água enquanto eu pago quando
finalmente somos atendidos. Indico com o queixo
para que ele fale enquanto viro a garrafa na boca,
bebendo metade da água praticamente em um gole
só, mas o homem se limita a fazer um bico forçado.
Isso funciona com alguém? Eu era besta assim com
essa idade também?
— Você não vale nada, moleque — digo,
passando o braço pelo dele, arrastando-o de volta
para dançar. — Se acha que eu dou ideia para
cafajeste que nem você, está muito enganado.
Pisco para ele, jogando os braços ao redor do seu
pescoço, e ele prende minha cintura de novo,
voltando a me conduzir. Preciso ficar na ponta dos
pés para acompanhar os movimentos rápidos e
dançamos em silêncio por alguns minutos.

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— Mas você quer que eu preste para o quê? —


pergunta no meu ouvido. —Não é como se a gente
fosse casar.
— A gente não vai casar nem fazer nada além de
dançar, desiste.
Meu tom é divertido o suficiente para não ser
grossa com o garoto, mas firme o suficiente para
ele deixar o assunto de lado por ora e voltar a
dançar animadamente. Ele é gostoso, realmente não
ia ser prejuízo para ninguém ver o que tem para
oferecer, mas não consigo gostar desse tipo
malandro dele, que fica de papinho por aí, achando
que está enrolando todo mundo, fazendo promessas
de amor eterno para levar alguém para a cama. Isso
para mim é falta de maturidade e, dependendo de
como for, falta de caráter também. Não gosto. Não
sou obrigada.
É verdade que não estou procurando um cara que

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tenha potencial para marido, bom moço,


respeitável, comportado e fofo. Não quero e não
acho que precise conhecer profundamente a
personalidade de qualquer cara que termine na
minha cama, mas não me presto ao papel de me
envolver com gente que sei que não presta.
Algumas músicas depois, sinto minha blusa toda
colada no corpo e me despeço dele para procurar
um banheiro para lavar o rosto. Puxo o celular do
bolso para mandar uma mensagem para Ju, para ver
se ela está viva ou se mudou de ideia e quer fazer
alguma coisa, e vejo a notificação na tela de vinte
minutos atrás.

Você escolhe os piores programas, sério. Este


lugar está entupido, não tenho a menor ideia de
onde você está. Vou ficar perto daquela lona azul

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Rio e desvio o caminho, indo para onde a


mensagem indica. Atravesso a multidão,
esbarrando em algumas pessoas no caminho, mas
consigo passar e chegar perto da tal lona depois de
alguns instantes. O lugar está um pouco menos
cheio porque é mais afastado do palco e a música é
mais baixa, mas ainda tem bastante gente. Passo os
olhos ao redor, mas não o vejo, e mando uma
mensagem de volta dizendo que estou aqui. Espero
alguns segundos e cato outro cara de regata laranja
para dançar enquanto espero a resposta, segurando
o celular na mão porque sei que não tem a menor
chance de eu sentir o aparelho vibrar no meu bolso.
Troco algumas risadas com o homem que não sei
o nome e levam duas músicas inteiras para que
outra mensagem pisque na tela. Penduro-me no
pescoço do moreno para destravar a tela, olhando o
texto por sobre o ombro dele.

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Estou te vendo aqui. Bem debaixo da placa

Giro, ainda no ritmo da música, procurando, e


vejo o loiro, que estica o braço, acenando, o que faz
com que a mulher com quem está conversando olhe
por sobre o ombro, mas rapidamente volte a sua
atenção para ele. Rafael volta a falar com a ruiva
com um sorriso descarado no rosto. Rio e enfio o
celular no bolso. Volto a dançar para dar tempo do
bonitinho pelo menos arrumar o telefone da
mulher. A música termina e deixo um beijo no
rosto do homem, que descubro se chamar Carlos,
antes de ir na direção do meu querido
acompanhante atrasado.
Quando mandei mensagem dizendo que queria
sair para dançar e o loiro se prontificou a vir
comigo, assumi que ele ia dançar comigo. Mas olha
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aí o cara de pau jogando-se em cima da mulher.


Abro um sorriso descarado e balanço a cabeça
quando ele deixa dois beijinhos no seu rosto e
posso ver daqui que ela está suspirando quando ele
se despede, mostrando alguma coisa no celular para
ela antes de vir na minha direção.
— Sucesso? — pergunto, apontando com a
cabeça para a mulher atrás dele. Rafael revira os
olhos, enfiando o celular no bolso da bermuda.
Vejo a camiseta branca grudada no seu tronco e ele
se abana com a mão.
— Lugar quente do caramba, Priscila — reclama,
e eu dou de ombros. — Estou com fome, não
almocei. Vi um baião de dois que está com uma
cara ótima ali atrás, está quase sem fila. Vamos?
Confirmo com a cabeça e Rafa leva a mão às
minhas costas, conduzindo-me para o tal lugar,
longe da música, do barulho e da multidão. A fila

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realmente não está grande e em poucos minutos


conseguimos ser atendidos. Dizem que vai demorar
uns vinte minutos para ficar pronto e arrasto o loiro
para dar uma volta nas lojas ao redor enquanto isso.
— Eu vi uns dois apartamentos hoje — diz
quando paramos para ver uma bolsa feita à mão de
tricô que tento decidir se algum dia vou usar ou
não. — Acho que até o final do mês consigo me
mudar se organizar tudo direito. Ou no mês que
vem. Não sei.
— Achei que você gostasse de onde mora —
comento, lembrando que ele me contou na noite
passada que ia sair da casa onde mora.
Continuamos andando, olhando ao redor, gastando
alguns segundos a mais olhando algumas coisas
aleatórias. Quase morro quando Rafael insiste em
querer tirar foto em uma daqueles bonecos com
espaço para enfiar a cabeça. Puxo o celular do

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bolso e bato a foto da criança de cinco anos do meu


lado.
Rafael passou um longo tempo ontem falando
sobre como quer um lugar menor, que quer juntar
dinheiro. Eu me surpreendi com os planos de vida
que ele parece ter. A verdade é que olho para essa
cara de menino e sempre me surpreendo. Ele é
muito mais maduro do que aparenta com esse jeito
brincalhão e descarado, tem uma seriedade
inesperada quando necessário. Parece levar sua
própria vida muito a sério. Seu futuro, seu trabalho.
Não tem medo nenhum de admitir que precisa
melhorar, coisa que passou também um bom tempo
falando noite passada. O coitado está surtado de ter
que começar no setor novo na segunda. Vou ter que
pedir para a Marcela colocar um calmante no
iogurte dele.
Começamos a andar de volta para o restaurante,

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calculando que o pedido provavelmente já está


pronto. Não está. Paramos de pé em um canto
vazio, esperando, e só então Rafael me responde,
depois de falar de coisas aleatórias que não tinham
nada a ver com o que perguntei antes.
— Gosto de lá até, mas acho que está na hora de
mudar.
Concordo com a cabeça, os olhos no celular
quando vejo que Juliana me respondeu, dizendo
que está tudo bem, mandando-me aproveitar o fim
de semana e parar de me preocupar com ela.
Impossível. Levanto a cabeça na direção do loiro
quando percebo que ele não diz mais nada e vejo-o
olhando para mim com atenção. Ergo uma
sobrancelha e Rafa passa a mão no cabelo, dando
um passo na minha direção. Sorrio quando entendo
a cara de preocupação e balanço a cabeça, dizendo
que sim para a pergunta nos olhos acinzentados que

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encaram minha boca.


Rafael me prende contra a parede em que
paramos e sobe a mão pelo meu pescoço antes de
me beijar. Sinto o seu cheiro gostoso me atingir e
sorrio contra seus lábios, mas nem tenho muito
tempo para isso, porque ele aprofunda o toque e
enlaça minha cintura. Enquanto ele me beija,
esqueço que estamos no meio de um lugar lotado
por um minuto, realmente me deliciando com seu
toque. Quando o sinto me imprensar um pouco
mais, só consigo começar a repassar o mapa deste
lugar na cabeça. Já vim aqui tantas vezes que sei de
cor como me achar por aqui. Quando ele morde
minha boca, apertando minha cintura, decido pegá-
lo pela mão e arrastá-lo pelos corredores.
— Para onde você está me levando, doida? A
comida já deve estar pronta.
Olho ao redor antes de abrir a porta que diz que

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só é permitida a entrada de funcionários e o arrasto


para lá.
— Já está pago, a gente pega depois.
Ele ri quando eu mesma me imprenso na parede
depois de trancar a porta.
— Então a gente ainda está fazendo isso? —
pergunta, descendo a boca para o meu pescoço,
minhas mãos entrando por dentro da sua camisa.
Claro que está, que ideia.
A sessão de amassos que ele tanto gosta
recomeça, mas é diferente dessa vez. É como se
agora Rafael tivesse completo domínio e
conhecimento do meu corpo, soubesse exatamente
onde ir e o que fazer. Eu perdi a conta de quantas
vezes a gente se pegou noite passada, quantas vezes
ele me comeu, todas elas com o loiro explorando-
me com sua boca. Pergunto-me por um segundo se
é isso que ele vai fazer agora e minha pergunta é
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rapidamente respondida quando ele engancha a


mão na minha bunda e abaixa a cabeça para morder
a curva do meu seio.
Desço a mão até alcançar o bolso de trás da
bermuda dele e puxo sua carteira. Solto-o por
tempo o suficiente para abrir e puxar a camisinha
que fiz ele enfiar ali ontem, porque nunca vi um
homem dessa idade andar sem por aí. Ele insistiu
que é porque não sai na rua procurando alguém
para pegar, mas não interessa. Rafael ri quando
devolvo a carteira para o bolso dele e desço a mão
para o botão da sua bermuda.
— Isso não pode ser sério — murmura contra
meus lábios. Abaixo o zíper, passo a mão por seu
membro duro, alcançando-o por dentro da cueca, e
arrasto a embalagem pelo braço dele com a outra
mão. — Não vou te comer aqui, doida — diz, mas
não dá para levar a sério porque não tem firmeza

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nenhuma na voz dele.


— O que você tem contra um pouco de
adrenalina? — pergunto, levando a mão dele até o
botão do meu short.
— O que você tem contra o conforto da sua
cama? Sua casa é aqui do lado — resmunga, mas
desabotoa meu short, e eu sorrio. Ora, ora… —
Você é doida, mas nem tanto, loira.
Rafa engancha os dedos na barra do meu short e
desencosto da parede, balançando a cintura entre as
suas mãos. Alcanço sua boca antes que ele tenha
chance de protestar. Mordo seu pescoço, arrasto a
boca até seu lóbulo e sinto seu aperto sobre mim
aumentar. Continuo o movimento lento no seu pau
e ouço seu gemido quando sussurro no seu ouvido.
— Me come, bonitinho.
— Cacete, Priscila. — Ele arrasta a mão,
descendo meu short, e sorrio contra seu ouvido. —
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Você é impossível. Doida. Inacreditável.


Seus dedos me alcançam por um instante apenas,
entrando em mim, e abro eu mesma a camisinha e
desenrolo sobre ele. Rafael levanta minha perna e
se posiciona sobre mim, prendendo-me com força
contra a parede. Sinto-o duro pressionando na
minha entrada.
— Loira…
— Eu sei — murmuro contra seu ouvido. — Você
já disse que não vai me foder como se eu fosse
qualquer uma. Já entendi. — Ele morde meu
pescoço e deixa um beijo na minha pele. — Mas
você também disse que queria saber do que eu
gosto.
Não sei nem como consigo completar a frase com
o arrepio gostoso subindo pelo meu pescoço com a
barba dele roçando na minha pele, seu toque firme
na minha cintura, a outra mão enganchada no meu
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cabelo. Então ele para de me torturar e me dá o que


quero. Rafael entra em mim em uma estocada só,
descendo a mão pela minha coxa, enganchando
minha perna na sua cintura.
— Doida — murmura no meu ouvido entre
estocadas. — Você é insana.
Eu gemo e ele me beija, abafando o som,
engolindo os sons que escapam da minha garganta.
Sinto sua mão subir ao meu seio e não consigo
evitar arranhá-lo. Nem tento. Minhas unhas cravam
no seu ombro, pescoço, braços, costas, qualquer
lugar que consigo alcançar. Sinto minhas pernas
bambeando e começo a achar que foi uma péssima
ideia, mas Rafael me segura, me imprensa ainda
mais contra a parede e me prende a dele. Ele
acelera as estocadas quando afundo as unhas na sua
pele e interrompo o beijo, jogando a cabeça para
trás, um gemido escapando da minha garganta. A

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boca dele vai ao meu pescoço no mesmo instante


em que ele solta meu cabelo e desce a mão ao meu
clitóris, movendo os dedos. Sinto meu corpo se
render completamente a ele.
Ouço o barulho da maçaneta. Batidas acertam a
porta e ouço uma voz chamando do outro lado,
perguntando quem trancou a porta, e Rafael
desacelera, soltando um palavrão.
— Não — murmuro. — Não para, Rafa.
Minha voz sai em um gemido e abro os olhos,
encarando sua boca entreaberta, olhos selvagens,
respiração descompassada. Prendo os dedos no seu
cabelo e o puxo para mim, tomando sua boca na
minha.
— Foda-se — ele murmura contra meus lábios e
volta a estocar.
Rafael engole meus gemidos e me acompanha,
arrastando a boca pela linha do meu queixo até
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alcançar meu ouvido. Meus gemidos se


intensificam, é impossível ser diferente. A sensação
dele dentro de mim, duro, firme, fundo, me
enlouquece de um jeito que não imaginava. É o
pacote todo. É o jeito que ele me agarra como se
estivesse a ponto de perder o controle, sua
respiração ofegante no meu pescoço. Seus beijos e
mordidas, voz rouca no meu ouvido. Rafael não me
fode, mas me tira o controle como se fizesse,
mesmo quando é só sua boca sobre mim. Ele
alcança todos os pontos certos, estimula todos os
lugares que preciso, me agarra, me toma. Eu estou
tão perto de me desfazer nos seus braços que nem
consigo prestar atenção nas vozes do outro lado da
porta.
— Você me enlouquece — sussurra no meu
ouvido, e deixo minha cabeça cair no seu ombro,
mordendo sua pele para abafar o gemido que sei

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que vai sair. — Goza para mim, loira. Goza para


mim.
Seu movimento acelera e um gemido escapa da
garganta dele quando contraio ao seu redor. Não sei
como, mas ele me segura e me impede de cair
quando minha perna falha, e, algumas estocadas
depois, ele me acompanha. Rafa abaixa minha
perna que estava enganchada na sua cintura e sai de
dentro de mim, livrando-se do preservativo e
fechando a bermuda antes de ajoelhar na minha
frente, subindo meu short, beijando minhas coxas
no caminho. Quando estou vestida de novo, ele
prende meu rosto entre as suas mãos e me beija.
Sem pressa. Rafael joga meus braços ao redor do
seu pescoço e me abraça pela cintura, sem soltar
minha boca.
— Insana — sussurra contra meus lábios com um
sorriso bobo na cara.

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— Você é tão inocente que dá vontade de morder


— digo e mordo mesmo, prendendo seu lábio entre
os dentes. — Vou fazer uma lista de tudo que te
deixa sem graça.
— Confesso que sua lista de doideiras é cheia de
novidades para mim — diz, rindo. Mas é um neném
mesmo. — Me ensina o que você gosta e eu te dou,
loira.
Como pode esse homem ser tão fofo e tão gostoso
ao mesmo tempo? Não consigo nem entender o
jeito que meu corpo reage a como ele me pega, não
faz nem sentido. Nego com a cabeça.
— Eu que dou — digo e pisco, o que faz ele
revirar os olhos.
Rafael me beija uma última vez e me solta.
— Vamos sair daqui antes que eles voltem e a
gente vá preso.

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Capítulo 27
QUANDO CHEGAMOS NOVAMENTE AO
RESTAURANTE, a atendente olha para a gente
com cara de quem nos bateria se pudesse. Entre as
voltas pela feira e a escapada para uma rapidinha
clandestina, passaram bem mais de vinte minutos.
Quando sentamos à mesa para comer o almoço, a
comida já está meio fria do tanto de tempo que
demoramos para chegar, mas ainda bem gostosa.
Entre garfadas, percebo que não sei como me
comportar agora. Eu não costumo sentar para
almoçar com um cara que acabou de me pegar
desse jeito. Mas nada com Rafael tem sido como eu
estou acostumada, e, por incrível que pareça, isso
não é uma reclamação.
— Caíque vai comigo ver os outros dois

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apartamentos amanhã — o loiro diz entre uma


garfada, e volto meu olhar para ele. — Mas acho
que vou ficar com um que vi hoje mesmo. É mais
perto do trabalho, mais barato e gostei do lugar.
Tipo, tem um quarto só, que é só o que preciso
mesmo. Sala, cozinha, banheiro e é isso. É perto da
estação e… Quê?
Ele está nervoso. Rafael fala sem parar o tempo
inteiro e isso nem me surpreende mais, mas seu
tom está diferente. Vejo o loiro passar a mão no
cabelo. Inquieto. Dou os ombros, mas continuo
encarando-o, esperando que diga o que está errado.
Ele vai dizer. Rafael é incapaz de não falar alguma
coisa.
— O jeito que você muda de assunto é uma coisa
surpreendente — comento, enfiando uma garfada
na boca.
Rafael larga o garfo na mesa e inclina a cabeça

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para mim.
— Você quer que eu faça o que, doida? Você vai
me traumatizar, isso sim — ele murmura a última
parte e balança a cabeça.
Rafael recosta na cadeira, fitando-me com o
cenho franzido e olhar de quem não está dizendo
tudo que pensa. Suspiro quando reconheço um
olhar um tanto incerto no seu rosto. Não me
decepciona a essa altura do campeonato, bonitinho.
Não é a primeira vez que arrasto algum
desavisado que saiu comigo para um canto para dar
uns pegas, não vai ser a última. Não acontece com
tanta frequência quanto eu provoco Juliana dizendo
que acontece, só é engraçado ver a cara de
desespero e incredulidade dela quando começo a
narrar minhas histórias. A questão é que já teve
mais de um infeliz que sacou o argumento de que
mulher para casar não se prestaria a isso. Como se

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alguém estivesse procurando casamento. E, se


tivesse, como se fosse ser com um tipinho desses.
Então só encaro Rafael e mentalmente peço para
que ele não me decepcione, que essa cara que está
usando para me olhar não seja só o reflexo desse
exato pensamento.
Tem hora que cansa. Essa necessidade constante
de afirmar minha liberdade é cansativa. Tem muito
menos a ver com sexo e muito mais a ver com o
direito que não admito perder de poder viver minha
vida como bem entendo sem ter que restringir meus
sonhos, paixões, vontades, anseios. Um exemplo
disso foi que hoje mais cedo mandei mensagem
para o Calebe perguntando se ele queria ir à praia.
O moreno está devendo-me algumas aulas de surfe,
porque não menti quando disse que sempre quis
aprender. É só esse meu interesse nele no
momento.

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Cada pessoa que passa na nossa vida adiciona


alguma coisa e, com sorte, leva alguma coisa nossa
também. Gostos, experiências, histórias. Aprendi
andar de skate com um cara com quem saí por um
tempo alguns anos atrás. A finalmente cuidar das
plantas que moram na minha varanda com outro
com quem tive um rolo há uns meses. Guilherme
me ensinou a usar uma máquina profissional como
ninguém.
Claro que eu lembro das pegações com cada um
deles, mas no fim do dia, isso é o que menos
importa. O que importa foi o que ficou. As
memórias, os aprendizados. Foi disso que mais
senti falta enquanto estava com Marcos. Gostava
dele, claro que gostava, e não senti falta de sexo em
momento nenhum. Senti falta de me aventurar por
aí, de explorar o mundo e a vida. De poder acordar
em um sábado de manhã e ir fazer uma trilha com

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alguém de quem gosto da companhia, sair depois


do trabalho para beber alguma coisa com um
colega depois de um dia infernal em que todo
mundo só queria morrer.
Marcos exigia que estivesse com ele a cada
minuto livre, a cada momento desocupado da
minha vida. No começo, até aceitei a lógica de que
se estava com ele é porque gostava da companhia
dele, e gostava mesmo. Foram muitas noites
regadas a vinhos e um bom jantar, um restaurante
caro aqui, um passeio que custava uma pequena
fortuna ali. Ele era carinhoso, atencioso, devoto. O
sonho de qualquer pessoa.
Tanto que demorei a perceber que isso era só a
tentativa de me convencer de que ele era a única
pessoa no mundo que eu precisava ter na minha
vida. Mas não é. Surtava só com a ideia de eu sair
com outro cara, ainda que eu jurasse de pé junto

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que não existia o menor interesse em sexo, que


eram só amigos. A verdade é que ele nunca
acreditou. Marcos sempre esperou que eu
simplesmente pulasse na cama de alguém a
qualquer momento, nunca confiou em mim. Isso
me lembrou demais Vinicius para que eu
conseguisse engolir aquela história.
E todas as outras coisas que posso aprender outras
pessoas? Não sei viver minha vida sem poder
conhecer o mundo.
Imagino o dia de hoje. Se fosse meu querido ex
encontrando-me pendurada no pescoço de outro
cara, dançando, teria dado um ataque. Talvez
justificável, não sei. Consigo entender a lógica de
não querer a namorada enrolada nos braços de
outro cara, mesmo que sem qualquer intenção
sexual, mas a questão é que ele teria dado um
ataque e isso não serve para mim. E Vinicius…

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— Você ouviu alguma coisa do que eu falei? —


Levanto meus olhos novamente para o loiro e paro
de encarar o prato de comida na minha frente em
cima da mesa de plástico. Ali está, a pontinha de
irritação no seu olhar. — Eu estava falando dos
apartamentos que vou ver com Caíque amanhã…
Você está bem?
Suspiro e balanço a cabeça em negativa.
— Preocupada com a Juliana.
Não é mentira.
— Ela e o Eduardo terminaram, não foi? —
pergunta, e cerro os olhos para ele. Quem contou?
Rafael dá os ombros. — É a única explicação para
vocês todos estarem desse jeito. Eu esbarrei nela
ontem perto da hora do almoço. Estava procurando
você, aliás. Você sumiu a semana toda, nem
perguntei se aconteceu alguma coisa. Fiquei tão
ocupado com aquela loucura toda do Renato que
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acabei esquecendo. O que eu estava falando?


Vai saber. Nem Deus sabe, Rafael, quem dirá eu.
— Ah! Juliana. Ela disse que não estava bem,
mas não quis me dizer o que era. Preferi não
insistir. Você estava com ela mais cedo, não
estava? — Confirmo com a cabeça.
— Ela vai ficar bem. Eventualmente — garanto.
Torço para que seja verdade mesmo.
Rafael enfia mais uma garfada de comida na
boca, reclamando que precisa urgentemente
arrumar outra academia, uma que fique aberta até
tarde. Rio quando ele olha para a própria barriga e
aperta, meneando a cabeça e dando os ombros,
como se não pudesse se dar ao trabalho.
— Ótimo, você riu. Agora me diz qual o
problema de verdade.
Franzo o cenho e Rafa me olha com atenção por

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um instante, antes de suspirar e terminar de raspar o


prato, bem elegante.
— Terminou?
Enfio a última garfada na boca e levanto da
cadeira. O loiro passa a mão pela minha cintura
antes de me conduzir até a saída do local. O céu já
está começando a ficar escuro, o dia despedindo-se.
Fecho os olhos e suspiro de satisfação quando sinto
uma brisa gostosa ao sair da feira abafada. Enrolo
meu cabelo em um nó alto, já que o último que fiz
se desfez há muito tempo, tirando os fios grudados
do pescoço, e só consigo pensar em como eu
preciso de um banho.
— Quer que eu te deixe em casa? — pergunto,
sentindo a situação toda meio estranha. Rafael está
calado, o que não é do feitio dele. Estou irritada
com isso. Irritada com a possibilidade desse
comportamento besta ser pelo que acabou de

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acontecer. Eu vou matar esse moleque se ele deixar


as coisas ficarem esquisitas por causa de sexo.
— Posso ir para a sua? — pergunta quando
chegamos ao carro, e olho para ele, dando os
ombros. Indico com a cabeça para que ele entre,
mas Rafael não se mexe.
Sinto a mão dele na minha cintura, virando-me na
sua direção, e o loiro me imprensa contra a lataria
do carro. Então ele me beija. Rafael toma minha
boca, rápido, fundo, duro. De um jeito
completamente diferente do que ele sempre fez,
completamente diferente do que sempre me deu.
Exatamente a pegada bruta que tanto estou
acostumada com todo mundo e que nunca tive com
ele. Que não combina com ele, não combina com a
gente. Eu deveria gostar disso, mas me sinto
estranha. Meu corpo reage na hora, entregando-se
com facilidade, mas tem uma vozinha no fundo da

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minha mente dizendo que isso está errado, que não


é ele me beijando. Sinto falta do seu toque.
— Agora você pode falar comigo? — pergunta
em um tom frustrado contra a minha boca. — Se
esse é o único jeito que consigo fazer você prestar
atenção em mim…
— O quê? — sussurro contra seus lábios, sem
entender nada do que está acontecendo.
— Qual o problema, loira? Eu devia ter te
parado? Dito não? Insistido para ir para o seu
apartamento? Me diz o que está errado, porque
você não está nem olhando para a minha cara.
Estou meio perdida aqui, mas quase consigo
sentir o desespero na voz dele. Afasto a cabeça para
conseguir enxergar seus olhos sempre tão
expressivos e vejo Rafael encarando-me com uma
seriedade que parece fora de lugar.
— Do que você está falando?
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Ele tira uma mão de cima de mim e arrasta pelo


cabelo, balançando a cabeça, soltando um riso
fraco.
— Eu odeio a sensação de que eu preciso estar te
comendo a cada segundo que estamos juntos para
você querer me ter por perto.
Era só o que me faltava.
— Pelo amor de Deus, Rafael, para de se fazer de
doido — murmuro, o que o faz arregalar os olhos,
olhando-me surpreso pelo tom irritado que nunca
uso com ele. — Eu não ia estar aqui depois de você
me pegar contra a parede em um lugar público se
fosse esse o caso. Eu definitivamente não estaria
aqui depois que você enrolar, o que, um mês para
me comer? Se fosse só sexo por sexo, não me daria
ao trabalho nem de saber seu nome, moleque.
Rafael abre e fecha a boca, parecendo reticente
em falar mais qualquer coisa. Ergo a sobrancelha e
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espero a explicação desse comportamento


descabido, até que ouço um “dane-se” murmurado
sair da sua boca.
— Foi incrível, Priscila — diz, inclinando na
minha direção, a boca no meu ouvido. — É sempre
incrível com você. Eu sempre quero mais de você,
loira.
— Mas?
Ele suspira e afunda a cabeça no meu ombro e,
quando fala, sua voz está abafada pela minha pele.
— Mas eu não quero te disputar com meu pau.
O loiro murmura isso de um jeito tão
honestamente dramático que me faz gargalhar,
jogar a cabeça para trás e pendurar os braços sobre
os ombros dele. Meu Deus do céu, vou colocar ele
e Juliana no mesmo pote. Iguais. São iguais. Olha
esse drama.

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— Inacreditável — murmuro, chacoalhado o


ombro para ele tirar a cabeça dali. — Vem, vamos
para a minha casa assistir aquela porcaria de série
que você gosta.
Finalmente ele abre um sorriso glorioso e me
beija de novo, dessa vez do jeito certo.

A distância da feira para a minha casa é tão curta


que dá para ir andando, então eu estou quase
entrando na garagem do meu prédio quando ouço
meu celular tocar alto por cima da tagarelice de
sempre do loiro, que está jogado confortavelmente
no banco do carro. Coloco o carro na vaga e
alcanço o aparelho, praticamente grunhindo quando
vejo o nome da tela. Respiro fundo antes de
atender.
— Oi, pai.
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Esse dia está longo demais.


— Preciso que você venha buscar o relógio.
Boa noite para você também. Ainda isso? Não
cansou dessa ideia? O que leva uma pessoa a ligar
para a filha em um sábado à noite para isso?
— A gente já conversou sobre isso.
Minha voz é cansada. É isso. Anos acumulados
das mesmas discussões e eu não tenho mais
energia. Vejo Rafael me olhar interrogativamente
de canto de olho e pisco um olho da sua direção, o
que faz com que ele balance a cabeça, mas continua
encarando-me com atenção.
— Será que você pode fazer o que eu estou
pedindo uma vez na vida, Priscila? Custa muito?
Você desaparece, não dá notícias. Eu vou morrer e
você só vai descobrir uma semana depois, porque
simplesmente esquece que tem um pai.

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Chantagem emocional, nenhuma novidade. Até


aí, ele não está errado. Tenho sido uma péssima
filha mesmo, mas a verdade é que é exatamente
isso que ele espera de mim e não tenho motivação
nenhuma para fazer diferente. Eu evito a fadiga
com mais frequência do que deveria, porque é mais
fácil. Eu fujo de qualquer coisa que seja
complicada. Adoraria poder ir para casa, tomar um
café, conversar sobre a vida, mas isso nunca foi
uma opção. Odeio ser forçada a cumprir normas
sociais somente porque é o esperado. Amo meu pai
e sei que ele me ama, mas também sei que nunca
fico feliz quando passo muito tempo com seu
Aloísio e o contrário também é verdade. Então para
que forçar?
Ouço em silêncio, respirando fundo enquanto ele
desembesta a falar sobre como eu sou um monstro
desnaturado, e fecho os olhos, recostando a cabeça

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no banco por um segundo antes de dar a partida no


carro de novo.
— Tudo bem, pai. Vou estar aí em vinte minutos.
Desligo o telefone antes que ele diga qualquer
coisa em resposta e começo a tirar o carro da vaga.
— Tudo bem? — Rafael pergunta, e me limito a
balançar a cabeça em negativa. — Posso fazer
alguma coisa?
Nego novamente.
Por que, pai? Por quê?
— Eu vou precisar resolver um problema — digo
e confirmo quando ele pergunta se é alguma coisa
com meu pai. — Quer esperar aqui ou ir para casa?
— pergunto, antes de terminar de sair da garagem.
— Não tenho nada melhor para fazer, vou com
você.
Ótimo. Só está ficando melhor.
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Começo a dirigir em silêncio por alguns minutos


e chego ao bairro certo rápido demais.
Solto um palavrão, resmungando descaradamente
da vida. Dou um tapa estalado no braço de Rafael
quando ele ri da minha reclamação. Tiro os olhos
da estrada por um segundo só para lançar um olhar
feroz da direção do loiro, que recosta a cabeça no
assento do banco e me encara com um sorriso
descarado enquanto eu continuo dirigindo. Sua mão
vai à minha perna, apertando meu joelho em um
apoio silencioso, e eu bufo.
Se quiser subir a mão talvez ajude mais.
— Você vai esperar no carro — resmungo,
estacionando na entrada da casa.
— Deixa a janela aberta e uma vasilha de água,
por favor — ele implica, puxando o celular do
bolso, dando uma piscada para mim.
Reviro os olhos, tiro o cinto, abro a porta e saio,
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batendo a porta em um baque seco. Nem tento


fingir que não estou irritada. Cruzo o carro e mal
dou dois passos antes de sentir um braço me
envolver. Já apoio os braços no peito do loiro,
sabendo que uma mão dele vai subir pelo meu
pescoço e enganchar os dedos no meu cabelo,
levando sua boca à minha. Permito-me fechar os
olhos e me deliciar com o toque inesperado. Gemo
contra a boca dele e Rafa me puxa para mais perto.
— Respira — murmura contra a minha boca.
— Eu estou respirando, só estou puta — reclamo.
Aquela ligação me irritou. E como irritou. Eu fico
impressionada com a incapacidade dele de me ligar
para qualquer coisa que não seja uma reclamação.
A novidade agora foi que eu não fui buscar o raio
do relógio. A vontade foi de não vir, mas conheço a
peça e sei que não teria um segundo de paz por toda
a eternidade se não resolvesse isso logo.

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— Eu sei — Rafa murmura contra a minha boca.


— Mas você vai ficar com ruga na testa e não vai
ter creme que resolva se continuar se estressando
desse jeito.
Rio, apoiando a cabeça no seu ombro, e ele me
abraça. Rafael beija meu pescoço, morde meu
lóbulo, apertando o braço ao redor da minha
cintura, puxando-me ainda mais para si.
— Eu vou ser seu piloto de fuga — murmura,
erguendo meu queixo com os dedos. — Qualquer
coisa, sai correndo e entra no carro, que eu disparo
daqui e te levo para longe.
— Se você for multado, vai vir no meu nome.
Não, obrigada — implico de volta e me pego
sorrindo para ele, espelhando o seu olhar.
Aqui, por um segundo, um instante apenas, vejo
uma faísca em seus olhos que arrepia minha
espinha. Sinto meu corpo se aquecer com a
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proximidade, mas não é de desejo, não é de


vontade. É uma sensação de conforto e
familiaridade. O sorriso escorre do rosto dele e
Rafael me encara com os lábios entreabertos.
Inclino-me na direção dele. É meio magnético,
como se eu me sentisse atraída por ele de forma
que não posso controlar. É instantâneo, automático.
Dura apenas um segundo, um segundo de uma
sensação quase esmagadora que me tira o ar.
— Priscila…
A voz rouca com que meu nome é dito me diz que
não estou louca, que não estou sentindo sozinha.
Seu braço me aperta e fecho os olhos antes mesmo
dos seus lábios tomarem os meus. Quando ele me
beija, não passa de um toque delicado, um roçar
suave na minha boca. Lábios entreabertos
encostando-se, respirações descompassadas,
corações batendo forte. O que no inferno está

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acontecendo?
— Eu preciso te dizer uma coisa, loira.
Não passa de um sussurro contra meus lábios e eu
espero. Tenho quase certeza do que vou ouvir
saindo da sua boca, então espero. Quero saber
exatamente com o que estou lidando aqui, então
vou quando ele me aperta um pouco mais,
puxando-me para ainda mais perto.
Mas o que quer que ele fosse falar nunca vem.
— Priscila?
Respiro fundo e me solto dos braços do loiro,
dando um passo meio cambaleante para trás quando
ouço a voz conhecida do meu pai chamando-me.
Aproveito para respirar, coisa que estava difícil
fazer nos braços de Rafael. Eu estou
completamente descompensada hoje. Arrasto as
mãos pelo cabelo e desvio o olhar para o homem
grisalho parado de pé com a porta aberta,
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encarando-me com o cenho franzido. Os olhos dele


mal demoram em mim e logo vão para Rafael,
escaneando-o de cima a baixo.
Ah, ótimo. Perfeito. Tudo que eu precisava.
Quando vejo meu pai abrir um sorriso e dar um
passo na nossa direção, sei que o estrago está feito.
— Eu fico ou vou embora? — Rafael sussurra, e
olho na direção dele, mas não consigo responder
porque meu pai nos alcança.
Nem sei qual seria a resposta. O que é pior?
— Filhinha — diz com um sorriso, e eu ergo a
sobrancelha. Filhinha? Desde quando? — Fico
feliz que tenha vindo. Não me disse que traria
alguém! Vem, entrem.
Meu pai vira de costas e dá um passo na direção
da casa. Rafael me olha por um segundo com uma
interrogação enorme nos olhos. Não sei o que

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responder e só dou de ombros.


— Na verdade — ele começa a falar —, eu tenho
um compromisso…
Meu pai olha para trás, por sobre o ombro, e cerra
os olhos. Quero gritar. Quero virar as costas e ir
embora, não quero me submeter ao ridículo de ver
um brilho de felicidade e orgulho nos olhos dele
unicamente porque tem um cara do meu lado. Ele
não quer nem saber se é um cara que preste, não
importa. Quer a filha dele casada e com filhos nas
costas. Juro que se eu ouvir mais uma vez que
mulher da minha idade solteira coisa boa não é, vou
matar um. Isso é tão irreal e absurdo que machuca
mais do que deveria.
Tento entender essa coisa de que tudo era
diferente na época em que meu pai foi criado, que,
querendo ou não, ele é um senhor de mais de
sessenta e cinco anos e seus conceitos de mundo

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são de uma geração completamente diferente da


minha, mas não consigo. Não dá. Quero gritar.
— Eu só vim buscar o relógio, pai — digo,
respirando fundo, recusando-me a me submeter a
isso. Não. Não vou. — Preciso voltar.
Para a minha surpresa, ele sorri. Abre um sorriso
glorioso, pede para esperar um instante e corre para
dentro de casa, voltando com a caixa na mão.
Entrega-me o presente que passei tanto tempo
escolhendo e ele tão facilmente descartou.
Estranho esse bom humor. Esse sorriso na cara,
essa simpatia. Não lembro a última vez que tive
isso dirigido a mim e fico com um pé atrás.
— Claro, claro, eu entendo — diz, com uma nota
de felicidade na voz que me enjoa. — Tenho
certeza de que vocês dois têm planos para hoje.
Rapidamente entendo o que está acontecendo
quando ele praticamente joga a caixa nas minhas
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mãos e se apressa para falar com Rafael, virando as


costas para mim, ficando entre o loiro e eu. O
barraco que eu quero armar sobe na minha garganta
e preciso respirar fundo.
— Qual o seu nome, rapaz?
Rafael me olha por sobre o ombro do meu pai,
silenciosamente me perguntando o que fazer. Ele
ignora completamente a presença de seu Aloísio e
olha para mim, assim como fez com Marcos no
casamento. Seus olhos acinzentados focam no meu
rosto e ele ergue uma sobrancelha, esperando
permissão para se meter nessa confusão. Empino o
queixo em resposta, o que faz um sorriso crescer no
rosto dele.
— Rafael — ele finalmente responde depois de
alguns instantes de silêncio. — O senhor deve ser
Aloísio.
O loiro dá um passo para o lado, o que força meu
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pai a se mover e ficar de frente para nós dois.


Pergunto-me por um segundo se ele vai fazer
exatamente a mesma coisa que fez com Marcos,
passar o braço na minha cintura e se dispor a
resolver a situação. Internamente imploro que não.
Não preciso dessa reafirmação das ideias estúpidas
do meu pai, não preciso de um príncipe em um
cavalo branco. Ele parece ler meus pensamentos e
não encosta em mim.
— Você nunca traz ninguém em casa, Priscila,
deve ser sério. Fico feliz por finalmente ter criado
juízo, só devia ter me avisado que você estava com
alguém, filha. — É praticamente a primeira vez que
ele se dirige a mim desde que cheguei, mas ainda
assim não tira os olhos do loiro.
O carinho na voz. O carinho na voz me mata. O
carinho na voz que existe unicamente porque tem
um homem ao meu lado e subitamente todos os

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sonhos dele estão realizados. Consigo sentir o olhar


de Rafael em cima de mim, mesmo que eu não pare
de encarar meu pai.
— Não sabia porque não estou — respondo em
um tom mais passivo-agressivo impossível.
A vontade real é de gritar que a gente só está
fodendo mesmo. Que vamos sair daqui e ele vai me
comer como se não houvesse amanhã, depois vai
para casa e cada um vai viver sua vida. Que eu vou
sair, encher a cara e fazer o que eu bem entender da
minha vida porque não é problema dele. Que se ele
se recusa a simplesmente aceitar que eu posso ser
feliz sem um homem do meu lado vinte e quatro
horas por dia, não é problema meu. Cansei.
Mocinha indefesa no inferno. Que se danem os
amigos dele que ficam jogando piadinha, fazendo
insinuações bestas. Se tem vergonha da filha solta
no mundo, que homem nenhum respeita, azar.

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Vejo seu olhar voltar a mim, o cenho franzido


sendo rapidamente transformado em um olhar de
irritação e desapontamento. Eu sorrio. Ele me
encara sem dizer nada e empino o queixo,
esperando que ele abra a boca para dizer alguma
coisa.
— Eu trabalho para ela, na verdade — Rafael
intervém, e meu pai me encara por alguns segundos
mais antes de olhar para ele.
Olho para o loiro e vejo-o com a mão enfiada no
bolso, um sorriso despreocupado no rosto, a cabeça
inclinada. Essa postura não me engana. É a mesma
que ele usa com Renato quando quer voar no
pescoço dele e sabe que não pode. Vejo os olhos do
meu pai se encherem em fúria e sinceramente
preciso segurar para não rir. Consigo ouvir
exatamente o que passa na cabeça dele e me
pergunto se ele vai ter coragem de dizer em voz

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alta.
— Então é por isso que você passa tanto tempo no
escritório — diz, olhando para mim com desdém.
Ele me olha de cima a baixo como se sentisse nada
além de nojo de mim. Olha aí, não é que ele disse?
— Trabalhando é que eu não estou, não é mesmo?
— respondo, ácida, um sorriso dolorido no rosto.
— Aliás, não quer dizer também exatamente de
onde você acha que veio o dinheiro que usei para
comprar seu presente? É esse o problema, não é? É
por isso que você quer tanto devolver.
Ele volta os olhos para Rafael e parece pensar no
que dizer. Por fim, dá seu veredito.
— Não é exatamente o caminho mais honrado
para chegar em algum lugar na vida, mas suponho
que não seja exatamente sua culpa se a
destrambelhada da minha filha se jogou em cima de
você como faz com qualquer coisa que passe na
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frente dela.
É a primeira vez que vejo pura fúria encher os
olhos de Rafael. A insinuação na voz dele me faz
rir. Solto uma risada cansada, porque já conheço as
acusações veladas. Sobre o jeito que me visto,
sobre quanto eu ganho. Deus me livre que seja o
tanto de curso que faço e as doze horas que
trabalho por dia, não. Claro que não é assim que
consigo dinheiro.
— Sabe como é, pai. Puta, mas puta com diploma
e ganhando bem. Melhor que você, aliás. O que
seus amigos vão dizer desse absurdo?
Que Deus me livre desse surto de imaturidade que
me faz querer bater boca com ele só de pirraça. No
segundo em que as palavras saem da minha boca,
bate uma pontada de arrependimento. Não porque
não acho que estou no direito de estar tão irritada
quanto estou, mas porque ele é meu pai e sei que

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dona Margarida não ficaria nada feliz de me ver


falando assim com ele. Aloísio olha para mim com
desdém em seus olhos.
— Sua filha é uma das profissionais mais
competentes que já conheci. Sem dúvidas uma das
pessoas mais honestas — Rafael diz, e vejo seu
maxilar cerrado em uma expressão que nunca antes
vi. — O senhor devia ter orgulho da mulher que ela
é.
Meu pai, por fim, dá de ombros, ignorando o loiro
e olhando para mim.
— Honestamente, não sei por que estou surpreso.
Não esperava nada diferente de você. Sua mãe teria
vergonha. Estou feliz por ela não estar viva para
ver o que você se tornou.
Sinto um nó se formar na minha garganta e o
sorriso imediatamente cai do meu rosto à menção
da minha mãe. Dói. Ele sabe disso. Foi baixo,
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pegou na ferida.
— Não fale dela. Não fale por ela. Você não tem
esse direito.
Minha voz falha e odeio isso.
Ele dispensa o comentário, leva os dedos aos
olhos e os aperta, respirando fundo. Ele está
desapontado e eu quero gritar que quem devia estar
desse jeito era eu. Aloísio balança a cabeça e vira
as costas, entrando na casa e deixando-me de pé na
calçada. Sinto um soluço subir por minha garganta
e me apresso em engolir. Viro as costas e começo a
me afastar, mas sinto a mão de Rafael em mim
novamente.
Ele não me dá tempo de protestar, simplesmente
me puxa para um abraço e me prende em seus
braços.
— Eu quero ir embora — digo e sei que minha
voz sai mais grosseira do que deveria, mas é
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inevitável.
Ele me ignora e aumenta o aperto sobre mim.
— Rafael.
— Você vai embora. Vou te levar para a minha
casa. Só preciso que você respire, só uma vez. Por
favor.
Nego com a cabeça e tento me soltar. Ele não
deixa e bufo, irritada, a garganta queimando pelas
lágrimas que me recuso a derramar.
— Eu vou cuidar de você, loira. Depois você
pode ir. — Sua voz não passa de um sussurro no
meu ouvido, sua palma acariciando meu pescoço
em um toque delicado. Eu fecho os olhos,
entregando-me por um segundo a sensação de
conforto que ele me passa.
— Não — murmuro, mais para mim do que para
ele. — Não preciso ser cuidada, Rafael.

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Sinto sua boca sair do meu ouvido e alcançar


meus lábios. Não me beija, apenas me segura
contra ele, sua respiração quente no meu rosto.
— Eu sei que não precisa. Você é a pessoa mais
forte que já conheci, Priscila.
Seus lábios tocam os meus e fecho os olhos.
— Você não precisa ser cuidada, mas eu estou
aqui mesmo assim.
Balanço a cabeça. Quero gritar. Odeio-me por
isso tudo me machucar tanto.
— Eu preciso ficar sozinha — murmuro,
afundando o rosto contra o peito dele.
— Eu sei — responde no meu ouvido. — Mas é
isso que você quer?
Não, não é. Respiro fundo e não respondo,
soltando um grunhido abafado.
— Sem joguinhos, loira. Lembra? — Balanço a
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cabeça, concordando, sem tirar o rosto da camiseta


dele.
Levanto o olhar para ele e forço um sorriso
debochado no rosto.
— Como exatamente você pretende cuidar de
mim, bonitinho?
A boca dele desce na minha em um toque breve
demais.
— Tequila e brigadeiro.
Solto uma risada fraca. Encher a cara nunca
pareceu tão atraente.
— Me explica essa confusão toda aqui porque eu
não estou entendendo nada. Deixa eu te ajudar.
Deixa eu cuidar de você.
Respiro fundo, sabendo que devo negar, mas não
quero.
— Vem comigo?
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Concordo com a cabeça, deixando que ele me


arraste de volta para o carro.
Vou contigo, bonitinho.

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Capítulo 28
FRANZO O CENHO QUANDO VEJO
PRISCILA começar a se livrar da roupa assim que
entramos na minha casa. Fecho a porta atrás de
mim e jogo a chave em cima da mesinha. A casa
está uma bagunça, mas isso me deixa feliz. Não
costumo tomar decisões impulsivas, penso muito
bem antes de fazer alguma coisa e sei que não é
impulsividade me mudar. Redefini minhas
prioridades, me forcei a fazer de mim mesmo a
única coisa que importa. Não dá para negar que a
loira, que vai até a cozinha e abre a geladeira,
pegando um copo de água como se fosse dona do
lugar, é culpada por isso. Ela me inspira a querer
ser melhor. Menos imaturo, menos medroso. Mais
dono de mim como ela é dona de si própria.
A loira desvia de algumas caixas que já estão
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empacotadas com coisas que não uso há anos e que


vão para doação. Vou me mudar para um
apartamento muito menor do que essa casa, não sei
onde ainda, nem quando, mas sei que vai ser bem
menor. Então vou manter só o que realmente
importa. É minha resolução de aniversário. Não
acredito em resoluções de ano novo, mas meu
aniversário vai ser em alguns meses. Muitos meses.
Não importa. É meu momento do ano de parar e
pensar no que diabos estou fazendo da minha vida.
Finalmente consegui o emprego que queria e parece
um ótimo momento para começar a ajustar meu
rumo. Também para começar a planejar meu
mochilão pelo Nordeste no carnaval.
Priscila joga a camiseta nas costas do sofá depois
de chutar para longe o par de tênis e as meias.
Assisto enquanto ela tenta andar e tirar o short ao
mesmo tempo e acaba tropeçando nos próprios pés.

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Preciso segurar uma risada quando ela solta um


palavrão. Não seguro o suficiente, porque ela me
fuzila por cima do ombro com os olhos cerrados.
A loira pode ser assustadora quando quer, mas
não é o caso agora. Já vi o olhar mortal que ela
distribui por aí quando alguma coisa a irrita e vi a
raiva pura nos seus olhos quando estava claramente
se controlando para não voar no pescoço do pai.
Quando estava controlando-se para não chorar.
Ela indica com a cabeça para que eu a siga
enquanto rebola em direção ao quarto com nada
além do conjunto preto de lingerie que sobrou em
seu corpo. Arranco a camisa pela cabeça e me livro
dos tênis antes de ir atrás dela. Não sei o que essa
louca está inventando, mas não me importo. Não
posso dizer que estou surpreso de essa ser a
primeira reação dela. Priscila precisa conversar,
colocar para fora o que quer que seja a explicação

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para aquele comportamento escroto do pai dela,


mas sei que ela vai querer resolver qualquer coisa
na cama primeiro.
Ir para a cama com essa mulher maravilhosa não
é sacrifício nenhum.
Priscila se joga no colchão, o mar de fios
dourados espalhados no travesseiro, e deito por
cima dela, enganchando-a em um abraço. A loira
prende as pernas ao meu redor e me puxa para mais
perto. Surpreendo-me quando ela enfia os dedos no
meu cabelo, puxando-me para um beijo. Isso é
coisa minha. Priscila nunca vem até mim assim,
nunca demanda nada. Sou sempre eu enlouquecido
querendo mais dela o tempo todo. Mas ela me beija
e me surpreendo ainda mais quando Priscila
desacelera quando tento intensificar o toque. Ela
passa uma mão pelo meu rosto, as unhas raspando
na minha barba, e mordisca meu lábio.

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Ela não quer uma foda. Essa é nova. Atendo ao


seu pedido silencioso e subo uma mão por sua
coxa, soltando sua boca. Ouço um suspiro satisfeito
quando arrasto os lábios pela linha do seu queixo
até alcançar o pescoço. Arrasto a palma por sua
cintura, subindo até alcançar o fecho do seu sutiã.
Penso por um segundo e decido não tirar a peça,
descendo a boca aos seus seios por sobre a renda.
Não faço nada para provocá-la. Beijo sua pele com
reverência, deixando mordidas e chupadas leves,
sentindo suas mãos acariciarem meu cabelo de um
jeito tão delicado que em nada parece com a
urgência toda que ela sempre exige.
Sorrio contra seu pescoço, percebendo que nem se
eu quiser muito a gente vai transar agora. Eu não
menti. Quero cuidar dela. Pergunto-me com muita
frequência se isso é possível. Se tem qualquer coisa
que qualquer um possa fazer por ela. Se ela me

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quer por perto mais do que como um vibrador


particular.
— Está pronta para conversar? — pergunto,
sussurrando no seu ouvido, e ela suspira.
— Continua me beijando mais um pouco,
bonitinho — pede, e a abraço mais apertado.
Atendo seu pedido, percorrendo cada pedaço
exposto de pele com a boca, alcançando por fim
seus lábios em um beijo demorado. Giro na cama e
encaixo a loira no meu colo, subindo a mão por sua
cintura. Sua pele quente sobre minha palma sempre
me desconcentra.
— Para de apertar minha gordurinha — reclama,
jogando o cabelo por sobre o ombro em um gesto
que é tão característico dela que eu reconheceria
em qualquer lugar. Belisco sua cintura mais uma
vez e ela dá um tapa estalado no meu ombro.
— Como você está? — pergunto, e ela abre um
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sorriso travesso. — Nem tenta dizer que está bem.


Priscila revira os olhos e suspira. Passo o braço ao
seu redor e a puxo mais para perto. Ela recosta a
cabeça no meu ombro e fica em completo silêncio.
Estou entendendo um total de nada do que está
acontecendo aqui. Esse comportamento vulnerável
é algo tão raro nela que eu só vi uma vez antes e
mesmo assim durou apenas algumas horas. Mesmo
assim, da última vez ela só veio até mim porque
não pôde ir atrás de alguém para tirar qualquer que
tenha sido o problema da cabeça dela com sexo.
Mas agora ela que parou a pegação e ainda está
aqui. O que está acontecendo?
— Não quero falar disso — murmura, e aperto-a
um pouco mais, pensando com cuidado nas minhas
próximas palavras.
— Eu sei. Sei que você tem essa regra na vida de
não se forçar a fazer nada do que não quer. — Subo

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a mão por suas costas, prendendo os dedos nos seus


fios. — E você está certa. Nunca, jamais faça nada
que não quer para agradar alguém, não vale a pena.
Mas loira…
Deixo a frase solta, sem ter certeza se ela vai sair
correndo ou não se eu disser, e desço a boca ao seu
pescoço, deixando uma trilha de beijos na sua pele
quente, sentindo seu cheiro doce. Quase esqueço o
que estava falando quando enfio o nariz em um
ponto atrás da sua orelha e vejo seu pescoço
arrepiar.
— Continua — ela pede. — O que você ia dizer?
— Às vezes, temos que fazer coisas que não
queremos, para o nosso próprio bem.
Ela tira o rosto do meu ombro e me encara com
uma pitada de irritação no olhar. Quando abre a
boca, sei que vai vir com o discurso de que estou
insinuando que ela deveria mudar alguma coisa.
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Essa é a única coisa que realmente me enlouquece,


e não de um jeito bom. Priscila não entende que eu
não mudaria um fio de cabelo dela do lugar.
— Eu não sei qual sua história com Vinicius,
você não quis me contar e respeito isso. Não sei
qual a história com seu pai. — Paro de falar por um
segundo e respiro fundo. — Me desculpa, Pri, mas
ele é um babaca. Acho que tomo por garantido
porque meus pais são maravilhosos, não imaginei
que existisse alguém no mundo que se comportasse
assim, mas puta merda… Ele não merece a filha
que tem.
Ela continua encarando-me com os olhos
cerrados, mas não me interrompe. Consigo ver a
pontada de dor nos seus olhos, mas ela tenta
disfarçar com uma jogada de cabelo e revirada de
olhos. Priscila, com nada além de uma calcinha
minúscula e um sutiã que molda perfeitamente seus

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seios redondos, o cabelo caindo por seu colo e


olhos ferinos, encaixada no meu colo, apoia as
mãos no meu ombro e espera que eu continue
falando. Eu daria qualquer coisa para saber o que
está passando na cabeça dela agora. Mas eu não sei,
então faço a única coisa que sei que faz com que
ela respire um pouco: levo minha boca à sua.
— Se você não quiser falar comigo, tudo bem —
digo contra seus lábios, mesmo que no fundo eu
deseje que ela confie em mim o suficiente para
isso. Mas sei que nada do que vier de Priscila
precisa ser pedido. Ela dá o que quer, se entrega
como se sente confortável para fazer e é delicioso
descobrir um pedaço dela todo dia. — Mas acho
que vai te fazer bem falar com alguém. Por você.
Mesmo que não queira, mesmo que machuque.
Machuca menos quando você divide com alguém.
Eu praticamente sussurro a última parte e ela

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continua olhando para mim, quase sem piscar.


Priscila ameaça levantar do meu colo e tiro as mãos
de cima dela. A loira se arrasta para fora do colchão
e deixa o quarto, recosto a cabeça na cabeceira da
cama e fecho os olhos. Esfrego o rosto e preciso
dizer para mim mesmo que eu não posso nem devo
ir atrás dela. Eu disse o que precisava ser dito, o
que acho que ela precisava ouvir, mas não posso
obrigá-la a aceitar isso. Espero para ouvir o som da
porta batendo, indicando que ela foi embora, mas
nunca vem. Ao invés disso, sinto o colchão
afundando e abro os olhos para encontrar Priscila
segurando dois shots. Ela me entrega um copinho,
brindamos e viramos ao mesmo tempo.
— Não existe a menor chance de eu conseguir
falar de nada disso sóbria. Sinceramente, não quero
falar de nada disso — murmura, colocando de lado
os copos antes de eu puxá-la de volta para o meu

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colo.
— Sei que não — respondo, agora sentindo o
gosto alcóolico nos seus lábios quando a beijo de
novo.
— Por que você faz isso? — pergunta, e é minha
vez de franzir o cenho. — Você não precisava ter
ido comigo e, definitivamente, não precisava disso
aqui. — Ela aponta para nós dois e eu endireito a
postura, entendendo o que ela está perguntando. —
Por que essa… preocupação toda?
Fecho os olhos por um segundo e respiro fundo,
tentando decidir o que responder. Não posso mentir
para ela. Sei que Priscila gosta de tudo às claras,
nunca existiram meias palavras entre a gente. Não
quero começar agora. Subo as mãos por seus braços
e os jogo sobre meus ombros. Ela se ajeita no meu
colo e chega mais perto quando me enlaça e minhas
mãos sobem por suas coxas.

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— Porque eu gosto de você — respondo, fazendo


o que eu posso para sustentar o olhar no dela.
Priscila revira os olhos, abrindo um sorriso
delicioso.
— É claro que gosta, Rafa. Eu também gosto de
você. É por isso que a gente está aqui. É impossível
ser amigo de alguém sem gostar da pessoa. —
Priscila balança a cabeça, como se dispensasse a
ideia. — O dia foi longo, minha cabeça não está
funcionando direito. Preciso de outra bebida —
murmura quase em um pedido de desculpas.
Ela me dá a oportunidade perfeita de deixar o
assunto de lado. Colocar isso tudo na conta da
amizade gostosa que a gente desenvolveu. Deixá-la
acreditar que não é nada além do que ela acha que
é. Seria mais fácil. Porra, seria tão mais fácil deixar
isso assim. Mas, por algum motivo, preciso que
Priscila saiba. O que é um pensamento

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completamente suicida, porque sei bem que o


resultado disso vai ser a loira saindo daqui para
nunca mais olhar na minha cara. Mas qual o ponto
em fingir ser algo que não é?
— Não — digo, passando um braço ao redor da
sua cintura. — Eu realmente gosto de você.
Vejo os olhos dela arregalarem e sei que o estrago
já está feito. Então não faz sentido parar de falar
agora.
— O jeito que você enxerga o mundo, o jeito que
você vive me faz querer ser essa pessoa corajosa
também. Que manda na própria vida, que escreve a
própria história. Você brilha, loira. Ilumina tudo.
Foi impossível passar esse tempo todo com você e
não me encantar.
Toco seu rosto, encaixando a palma na sua
bochecha, e arrasto o polegar por seu lábio inferior.
Priscila fecha os olhos por um segundo e se inclina
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em direção ao meu toque com um suspiro.


— Rafa, você sabe que…
— Eu sei — interrompo, porque sei mesmo. —
Não estou te pedindo nada. Mas a gente combinou,
lembra? Sem joguinhos. Então eu precisava te
dizer.
Ela concorda em silêncio e abre os olhos,
encarando-me com atenção. Priscila morde o lábio
e meneia a cabeça, como se considerasse alguma
coisa. Eu espero por seu veredito, mas ela nada diz,
simplesmente levanta e sai do quarto. Solto uma
risada quando volta com a garrafa inteira na mão.
Alcanço os copinhos na mesa ao lado e deixo que
ela sirva mais dois shots. Priscila pega um da
minha mão e ergue, brindando o ar.
— Eu devia sair correndo — murmura, tocando o
copo com os lábios.
Concordo com a cabeça, porque era o que eu
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estava esperando mesmo. A loira bufa e revira os


olhos. Ouço um “foda-se” escapar da boca dela
quando Priscila vira a bebida e faço o mesmo,
catando novamente o copo da mão dela. Puxo-a de
volta para o meu colo, prendendo-a a mim.
— Gosto de te ter por perto, bonitinho. Não quero
perder o que a gente tem, mas também não quero
complicar as coisas — diz, recostando a testa na
minha.
— Também não quero complicar nada. Não estou
te pedindo em casamento, loira — implico, e ela
revira os olhos. — Só estou dizendo que gosto de te
ter na minha vida. Só o que eu quero é poder te
chamar para encher a cara e comer besteira de vez
em quando.
Priscila franze o cenho para mim.
— A gente já faz isso. Acabei de te chamar para
sair hoje mesmo, já esqueceu?
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— Eu sei. Essa história louca de P.A. que você


inventou tem funcionado muito bem para a gente
— provoco, e ela concorda com a cabeça. Tem
mesmo. Não consigo imaginar um relacionamento
normal com essa louca. — Tudo que eu quero é
continuar com o que a gente já está fazendo, sem
precisar ficar com medo de você sair correndo se eu
te chamar para fazer qualquer coisa que não
termine em sexo o tempo todo.
Desço a boca aos lábios dela, tomando-a em um
beijo lento. Sinto seu corpo começar a relaxar nos
meus braços e aprofundo o toque, subindo a mão
por sua coxa.
— Eu vou para a praia com o Calebe amanhã —
diz contra a minha boca, interrompendo o beijo sem
se afastar, os lábios roçando nos meus.
As palavras escapam da boca dela como se
confessasse um crime e Priscila me encara com

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expectativa. Sorrio, porque sei o que ela está


fazendo. Ela podia já ter ido embora a essa altura,
mas ao invés disso leva as duas mãos ao meu rosto,
arrasta as palmas até alcançar meu pescoço e
arranha a unha na minha pele. Ela me puxa para
perto e se ajeita no meu colo para aumentar o
contato. Suspira quando passo a mão por suas
costas. Ela quer ficar. Devia sair correndo e sabe
disso, mas não foi.
Sem joguinhos.
— Não esquece o protetor solar — murmuro
contra seus lábios.
É ela que me beija dessa vez. Priscila fecha os
olhos e respira aliviada antes de me puxar até sua
boca.
Engancho os dedos nos seus fios e a puxo para
mim. Estou pouco me lixando com quem ela sai ou
deixa de sair, quem fode ou deixa de foder. Por
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mim a gente nunca nem teria tido nada se fosse


esse o preço de tê-la na minha vida. Não é o corpo
dela que me importa, nunca foi. Não é o que a
gente faz na cama que define essa relação gostosa
que a gente tem.
Também não tenho intenção absolutamente
nenhuma de tentar fazer disso nada diferente do
que é agora, só não gosto da ideia de ter que mentir
ou esconder como me sinto. Só preciso que ela
saiba. Preciso ser honesto comigo mesmo e com
ela.
— Eu realmente gosto de você, loira. Demais.
Consegue lidar com isso?
Sinto as mãos dela descendo pelo meu abdome
até o botão do meu short, que é facilmente aberto.
Mas ela para aí. Priscila não teria dificuldade
nenhuma em me alcançar por debaixo das poucas
camadas de tecido, mas as mãos dela sobem de

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novo até alcançarem meus ombros e ela respira


fundo, balançando a cabeça.
— Só me beija, bonitinho.
Não hesito nem um segundo antes de alcançar
seus lábios de novo. Dou-me conta que é a primeira
vez que essa frase não é dita com um pedido para
que eu a coma. Priscila se entrega tão
completamente ao toque que aprofundo o beijo.
Nem sei quanto tempo passamos aqui, enganchados
um no outro.
— Se você continuar fazendo isso, não tem a
menor chance de eu te contar nada. A gente vai
começar a rolar nesta cama e não vai parar tão
cedo. — A voz dela não é nada além de uma
provocação descarada e a loira cobre a minha mão
com a sua. Só então percebo que estou com a palma
encaixada perfeitamente no seu seio.
Ela solta uma gargalhada deliciosa quando me vê
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boquiaberto. Mas não é por eu ser claramente


incapaz de manter minhas mãos longe dela, isso
não é novidade para ninguém. É por ela ter dito que
vai me contar. É por ela confiar em mim para isso.
Comecei essa conversa achando que Priscila sairia
pela porta para nunca mais voltar e estou
completamente confuso com a reação dela, mas não
reclamo. Não vou reclamar mesmo.
Arrasto os dentes no seu queixo e ela sorri quando
giro na cama, prendendo-a debaixo de mim contra
o colchão. Nossas pernas se enroscam com
facilidade e nossos corpos se encaixam como peças
do quebra-cabeça mais inesperado da história da
humanidade.
— Sabe, não sei se fico muito confortável falando
do meu pai nessa situação — ela diz, passando as
mãos pelo meu braço.
Priscila ergue a sobrancelha, desce os olhos para

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o emaranhado de corpos seminus, travessamente


passando os dedos pelo meu pau duro, e eu rio. Ela
tem um ponto. Começo a soltá-la e levantar de
cima dela, mas a loira me puxa de novo.
— Alguém mandou você sair daqui? —
Imediatamente deito o peso do corpo de novo em
cima dela, ficando o mais perto possível de cada
parte dessa mulher. Franzo o cenho, meu olhar fixo
no seu rosto. — Que cara é essa?
Ela faz uma careta e me fita confusa quando
percebe que estou encarando um ponto na sua testa.
Ajeito-me em cima dela, apoiando os cotovelos na
cama, e levo os dois polegares ao espaço entre suas
sobrancelhas, apertando a pele. Ela solta um grito
de protesto, batendo no meu braço.
— Isso lá é idade para ter espinha, Priscila? —
pergunto, estourando o ponto avermelhado. — Tem
vergonha não?

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— Não acredito que você acabou de fazer isso! —


Ela praticamente grita em protesto, arrastando uma
mão no rosto antes de me encarar com os olhos
cheios de uma falsa repreensão.
— Queria que eu te deixasse com esse alien no
meio da testa? Deixa eu ver se tem mais alguma
coisa.
Arrasto os dedos por seu rosto, sob protestos
gritados em meio a risadas, quando minhas mãos
descem e alcançam suas costelas, fazendo cócegas.
Priscila se contorce debaixo de mim, implorando
que eu pare, sem nunca deixar de rir. Eu continuo,
porque essa gargalhada deliciosa dela é algo que
adoro ouvir. O clima volta ao normal, leve e
despreocupado como sempre foi, como se eu não
tivesse acabado de me declarar para ela.
Quando finalmente paro a sessão de cócegas, ela
está ofegante, as bochechas vermelhas pelas

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risadas, o cabelo revolto e um sorriso escancarado


no rosto. Linda.
— Alien, Rafael? — pergunta, balançando a
cabeça como se não pudesse acreditar.
— Praticamente um vulcão em erupção no meio
da sua testa — confirmo com toda seriedade que
consigo.
Ela leva as mãos ao meu pescoço, engancha os
dedos no meu cabelo e me puxa para mais perto,
tocando meus lábios com os seus.
— Posso lidar com isso, desde que você prometa
não mudar nunca — responde, finalmente, a
pergunta que fiz. Eu sorrio ao perceber que ela não
vai sair correndo. — Agora, cadê aquele brigadeiro
que você me prometeu?

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Capítulo 29
— VAI DEMORAR MUITO?
Sinto o mármore gelado contra a minha bunda
descoberta. Puxo para baixo a camisa com a
estampa de gatinho que estava no topo da gaveta,
mas não adianta. Desisto e deito na bancada da
cozinha onde já estava sentada, puxando uma pilha
de panos de prato limpos e perfeitamente dobrados
para fazer de travesseiro. Encaro o teto branco por
alguns instantes antes de fechar os olhos com um
suspiro.
— A cama é mais confortável, sabe? — Ouço a
voz de Rafael e o som da panela sendo mexida no
fogão. — Vai ficar com as costas doendo deitada
aí. Não sei como você consegue ficar sempre
sentada nesse troço duro, dói a bunda.

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Solto uma risada fraca e entorto a cabeça para dar


de cara com suas costas descobertas, a bermuda
rosa moldando a bunda durinha dele. Vejo a marca
de unha em um traço avermelhado cortando as
costas dele de ponta a ponta e mordo o lábio
lembrando do motivo para eu ter deixado um
arranhado tão fundo noite passada. Um só não, a
pele dele está toda marcada.
— Não tenho problema nenhum em ficar sentada
em coisas duras, bonitinho.
Rafael me olha por cima do ombro e preciso
segurar uma risada quando ele abre e fecha a boca
antes de só balançar a cabeça e voltar a encarar a
panela depois de sussurrar um “doida” abafado.
Eu deveria estar surtando, sei que deveria. Tem
uma voz no fundo da minha cabeça gritando que
estou ficando completamente louca por ainda estar
aqui, por ter terminado enroscada na cama com ele

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depois daquilo que não dá para negar ter sido uma


declaração em alguma medida. Sei que devia ter me
vestido e saído correndo porta afora só com a
possibilidade disso aqui mudar para alguma coisa
além do que é. Mas como eu posso fazer uma coisa
dessas quando ele não fez nada além de ser honesto
comigo, quando cumpriu o combinado? Sem
joguinhos, é a única regra.
— Já está pronto? — pergunto mais uma vez, e
ele solta um grunhido.
— É a terceira vez que você pergunta isso.
Encarnou o burro do Shrek?
Rafael me olha, piscando, e faço uma cara feia em
resposta que sei que não convence ninguém antes
de voltar a encarar o teto por tempo o suficiente
para ficar entediada e jogar um braço sobre os
olhos. Sei também que um dos motivos para eu não
ter surtado é porque mesmo que uma parte minha

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esteja tentando processar o que Rafa me disse, uma


parte muito maior está ocupada tentando enterrar a
briga com meu pai. Não foi a primeira, não vai ser
a última. Não devia me machucar tanto. Recuso a
deixar que me desestabilize ainda mais. Sei que
passei e muito dos limites, consigo ouvir minha
mãe repreendendo-me por ter falado daquele jeito
com ele, mas paciência nem tenho mais. Estou
realmente esgotada e tenho trabalho demais para
segurar as lágrimas.
Estremeço quando sinto mãos subindo por dentro
da blusa que estou vestindo, surpresa porque não o
ouvi se aproximar. Não abro os olhos, só sorrio
aproveitando a sensação gostosa da boca dele, que
vai à minha barriga quando ele tira o pano do
caminho, seus lábios e dentes traçando o caminho
pelo meu corpo. Aproveito principalmente os
segundos sem quaisquer preocupações na minha

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cabeça que esse toque me proporciona, mas dura só


um instante. Assim que ele me solta, me remexo na
bancada, respirando fundo. Sinto uma bola querer
se formar na minha garganta. Arde, queima. Pisco
forte para segurar qualquer lágrima que queira se
formar e as engulo.
Rafa me puxa, fazendo com que eu fique sentada
na beira da bancada, as pernas abertas ao redor
dele. Espero que me beije, mas o loiro só passa a
mão pelo meu pescoço e me olha com clara
preocupação nos olhos.
— Fala comigo, loira. Seus olhos estão
vermelhos. Prometo que não conto para ninguém se
você chorar.
Ele arrasta a palma na minha bochecha e a
tentação de fechar os olhos e de fato deixar que
Rafael cuide de mim como está oferecendo-se para
fazer é muito grande. Mas o medo de me perder

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nesses olhos acinzentados é maior do que a vontade


de deixar seu toque me confortar. Porque sei que é
um caminho sem volta e não é um caminho que eu
esteja pronta para seguir.
Rafael toca beija minha testa e me encara por
alguns instantes antes de começar a falar.
— Quando eu tinha quinze anos, quebrei o braço
tentando aprender a andar de skate. Não tenho ideia
de como eu fiz aquilo, mas eu saí rolando ladeira
abaixo e quebrei.
Franzo o cenho e ele faz um bico de lado que
sempre põe no rosto quando está pensando. Depois
só continua a tagarelar como se isso fizesse
qualquer sentido.
— Doeu para um caramba. Fiquei tanto tempo de
gesso que nem sei. Como coça aquele negócio.
Minha mãe correu comigo para o hospital, meu pai
saiu do trabalho desesperado, foi um fuzuê só.
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— Fuzuê? — pergunto com uma risada abafada


pelo seu ombro quando deito a cabeça nele.
— Fuzuê. A questão é que depois que passou o
susto, eu levei uma bronca danada. Meu pai ficou
bem bravo de ter saído do trabalho, deu problema
com cliente, sei lá. Não consegui entender bem na
hora. Só sei que ele ficou muito bravo, brigou tanto
comigo e me colocou de castigo sem nem perguntar
se eu estava bem.
Franzo o cenho contra sua pele.
— Achei que vocês tivessem uma relação boa —
comento. — Você sempre fala da sua família com
um carinho danado. Não achei que fosse do tipo
que coloca trabalho acima de qualquer coisa.
— Nós temos. É isso que estou querendo dizer.
Pessoas cometem erros. Ele não entendeu naquele
momento que eu estava assustado, só brigou
comigo porque atrapalhei alguma coisa no trabalho
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dele. — Ele suspira, parecendo tentar dar sentido


ao que está tentando falar. — Meu pai é
maravilhoso, mas não é perfeito. Não sei qual a sua
relação com o seu, loira, mas tenho certeza de que
ele vai se arrepender do que te disse hoje. Tenho
certeza de que ele te ama, de um jeito esquisito.
Quem me dera fosse simples desse jeito. Que ele
me ama de um jeito esquisito, isso eu sei. Sempre
soube. Mas não significa que me faça bem. Alguns
amores são tóxicos. Alguns amores fazem a vida
difícil. Alguns amores fazem a gente sofrer mais do
que ser feliz. São sempre desses amores que a gente
nunca consegue abrir mão, que estão cravados na
alma e no coração de um jeito que parece não ter
volta, não ter escapatória, não ter como se libertar.
— É mais complicado que isso — resumo, por
fim.
Rafa meneia a cabeça, beija meu pescoço,

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murmurando no meu ouvido para que eu me


segure, e enrolo as pernas e braços ao seu redor
quando ele me puxa para cima. De alguma forma,
ele consegue pegar a panela com uma mão
enquanto segura a minha bunda com a outra, sob
protestos de que estou escorregando e, quando
chegamos à cama, eu praticamente caio do colo
dele em cima do colchão.
— Você vai queimar a boca com essa afobação
toda — Rafa diz quando enfio uma colher cheia de
brigadeiro pelando na boca. Dou os ombros e pego
outra colherada.
O loiro senta e encosta na cabeceira, colocando a
panela de lado antes de me chamar com a mão para
o seu colo. Movo-me sem pensar na sua direção,
mas paro, hesitando por um segundo, o que faz com
que ele franza o cenho. Sacudo a cabeça e me
arrasto para o seu colo, encaixando-me com o peito

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colado no dele. Remexo no lugar, ajeitando a


posição, e a mão dele vai para a minha coxa. Abro
a boca para implicar com a rapidez com que ele me
agarra agora em comparação com o quanto hesitava
há algumas semanas, mas o loiro não me dá tempo.
— Fala comigo — pede, arrastando o dedo pelo
meu lábio. — Eu disse que ia cuidar de você, me
deixa fazer isso.
O carinho que vejo nos seus olhos me desmonta.
A preocupação que ele nunca fez questão de
esconder. Rafael nunca escondeu nada e isso é o
que eu mais gosto nele. A simplicidade com que ele
se vive me encanta. Sem meias palavras, sem ter
que adivinhar o que passa na sua cabeça. A
possibilidade de machucar o homem à minha frente
me aterroriza pela primeira vez. A vozinha que
estava no fundo da minha mente vem com tudo
para a frente e me diz para sair daqui, correndo,

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fugida, o mais rápido que eu puder. Só que não por


mim. Por ele. Para que ele não saia machucado por
querer uma coisa que não posso dar.
Só que não posso só levantar e ir embora, não
quando ele jogou limpo comigo como fez. Preciso
fazer a mesma coisa. Droga, Rafael.
— Rafa… — Ergo os olhos e me forço a encarar
a intensidade dos seus. — Não vai sair nada daqui,
você sabe, né?
— Eu sei que você deve ter seus motivos para não
querer falar dessa história do seu pai, nem do sei lá
o que aconteceu com o Vinicius. Não quero te
pressionar, mas não faz bem ficar guardando. Se
não for comigo, com outra pessoa, mas você
precisa…
— Não — interrompo, balançando a cabeça. —
Eu estou falando disso aqui.
Aponto para nós dois e ele solta uma risada,
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abaixando e balançando a cabeça em negativa.


— Quero viajar — diz, passando uma mão por
trás do meu pescoço. — Preciso trabalhar até
morrer para crescer naquela empresa. Preciso da
liberdade de me fazer prioridade. De me fazer
suficiente. Nunca tinha pensado nisso antes de te
conhecer, loira. Parece um conceito tão óbvio que
não tinha parado para pensar nisso. Nunca precisei,
na verdade. Minha vida foi seguindo um ritmo
próprio, meio que seguindo o baile sem muito
planejamento. Entrei na faculdade, arrumei aqueles
bicos de modelo para pagar a mensalidade porque
alguém me sugeriu que seria uma boa ideia, me
formei, arrumei um emprego, depois outro, depois
outro. Fui parar na Rodrigues Menezes por
indicação e isso me faz perceber que nunca
realmente fiz muito esforço na vida para conseguir
as coisas.

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Respira, pelo amor de Deus. Ele diz isso tudo em


uma tacada só e não sei como consegue falar tanto
tão rápido. Pouco a pouco, começo a absorver o
que ele diz.
— A meta agora é aquele mochilão que te falei,
lembra? — Concordo com a cabeça, porque lembro
bem das horas a fio que ele ficou falando sobre isso
ontem. — Um mês sozinho por aí descobrindo
lugares novos, comidas novas. Pessoas novas.
Quero fazer essa viagem daqui a no carnaval se eu
conseguir.
Rafa leva uma mão ao meu rosto e levanta meu
queixo, forçando-me a olhar para ele e não desviar
o olhar.
— Eu vou viajar sozinho. Por um mês. No
carnaval, Priscila.
Ele diz a última parte mastigando bem as
palavras, olhando-me sem piscar até eu dar
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qualquer sinal que entendi o que está dizendo. Não


existe a menor chance de Rafael fazer essa viagem
e voltar com esse pau lindo guardadinho dentro das
calças.
Rafael prende os dedos no meu cabelo e me puxa
um pouco na sua direção.
— A meta não é fazer você morrer de amores por
mim e largar todos os seus sonhos e objetivos de
vida para lamber meus pés.
Mesmo agora, mesmo que a conversa seja séria,
preciso morder o lábio para não dizer que prefiro
lamber outra coisa. Ele revira os olhos com um
sorriso, sabendo bem o que está passando na minha
cabeça. Rafael escova os lábios nos meus e suspira.
— Não estou te pedindo nada, loira. A hora que
quiser parar com isso aqui, a gente para, volta a
almoçar junto algumas vezes por semana e é isso.
— Rafael suspira e recosta a testa na minha. — Só
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não faz eu me arrepender de ter aberto o jogo com


você. Não fica toda esquisita e fechada. Nada
mudou. Se mudar, eu prefiro que volte a ser como
era antes de a gente se pegar.
Nego com a cabeça, porque não quero isso. Não
sei bem o que quero, mas sei que não vai me fazer
bem nenhum não o ter por perto. Não é pelo sexo
dessa vez.
— Eu gosto de você, bonitinho. Muito — digo,
passando os braços ao redor do seu pescoço, e vejo
seus olhos se arregalarem um pouco. — Só que isso
aqui é tudo que posso te dar.
Não sei fazer nada diferente disso. Não estou
pronta para fazer nada diferente disso. Não sei se
quero nada diferente disso.
— Eu não quero nada além — murmura contra a
minha boca.
Ele me dá um beijo delicado e sinto sua mão subir
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e descer pelas minhas costas. Suspiro. É fácil


demais ter esse menino por perto. Confortável
demais. Então quando sussurra nos meus lábios,
pedindo para que eu fale com ele, pedindo para que
eu deixe que cuide de mim, simplesmente começo a
falar.
— Minha mãe não queria casar — digo com os
olhos fechados, respirando fundo entre cada palavra
para não me deixar desabar com as lembranças da
melhor pessoa que já existiu. — As coisas eram
diferentes naquele tempo, eu acho, lá para mil
novecentos e oitenta e bolinha. Nunca entendi bem,
mas não tenho como entender mesmo, porque não
senti na pele.
Ele me aperta um pouco, silenciosamente dizendo
que está tudo bem.
— Na época, ela namorava com outro cara,
escondida, ninguém sabia. Até que meu avô

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descobriu e a forçou a casar com meu pai, que era


amigo da família. Ela tinha dezessete anos, então
ou casava ou ia para a rua. Todas as outras filhas já
estavam arranjadas, só faltava ela. Seu Aloísio já
tinha seus trinta e poucos anos na época.
Ouço um palavrão saindo da boca dele e sorrio
pela reação tão natural que Rafael sempre tem para
tudo.
— Ela mal terminou o ensino médio, meu pai
nunca deixou que ela fizesse faculdade. O sonho da
dona Margarida era ser professora, mas claro que
ele não ia permitir que a mulher dele ficasse na rua
para cima e para baixo, sozinha.
Suspiro e desencosto a testa da dele, endireitando
a postura.
— Eles foram casados por quase vinte anos antes
de a minha mãe morrer. Ela foi infeliz cada dia da
vida dela. Se conformou com a vida que tinha e
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nunca achou que pudesse ser diferente. De alguma


forma, meu pai achava, continua achando, que foi o
melhor marido do mundo.
Ergo os olhos na direção dele, que me encara com
atenção.
— Ela me ensinou a querer uma vida diferente
disso. Eu me vi perto demais de acabar no mesmo
caminho quando me envolvi com Vinicius para que
eu me atreva a chegar perto disso de novo.
Balanço a cabeça, negando qualquer pensamento
a respeito, calando permanentemente a voz na
minha mente que diz que Rafael não poderia ser
mais diferente do que aquele homem. Porque eu sei
que é. Sei também que essa criança em corpo de
adulto me faz muito bem.
— Meu pai não aceita que eu seja tudo que ele
conseguiu impedir minha mãe de ser. Ele não odeia
especificamente meu trabalho nem minha recusa
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em casar, ter filhos e sei lá mais ou quê. Ele odeia


tudo que isso representa, odeia nunca ter
conseguido me controlar, nunca ter conseguido me
fazer ser “mulher de família”. Aí acontece o que
aconteceu hoje.
Dou os ombros, jogando o cabelo para o lado,
dando o assunto por encerrado. Não tem mais nada
para dizer e falar não resolveu magicamente meus
problemas, como eu sabia que seria. Mas preciso
admitir que me sinto um pouco mais leve, menos
sufocada. Ele estica a mão e passa pelo meu rosto,
secando uma lágrima solitária que escorreu
clandestinamente. É automático empinar o queixo,
silenciosamente o desafiando a dizer alguma coisa
sobre isso.
Mas Rafael se limita a esmagar minhas bochechas
entre as palmas.
— Quem é tagarela agora? — pergunta e me puxa

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para encaixar o rosto na curva do seu pescoço antes


que eu tenha a chance de responder à implicância.
— Ele só pode ser doido se não vê a mulher
maravilhosa que se tornou. Mesmo que não seja o
caminho que ele queria para você, mesmo que
esteja vivendo completamente o contrário do que
ele esperava, seu pai tem orgulho de você. Tem que
ter.
Sorrio contra seu ombro pela tentativa de tentar
simplificar as coisas. Eu concordaria se fosse
qualquer outra pessoa nessa situação, mas conheço
seu Aloísio. Ele não se orgulha.
— Você é um bebê inocente. O mundo é um lugar
muito perigoso para você, bonitinho.
Rafael deixa uma mordida no meu lóbulo e ri
contra a minha orelha.
— Eu sinto muito, loira — sussurra. — Sei que é
impossível substituir mãe e que você sempre vai
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sentir falta dela. Sei também que sempre vai doer


essa relação meio bosta que tem com seu pai. Mas
você tem sua própria família agora.
Rafael roça a boca no meu pescoço e sinto um
arrepio subir pela espinha quando ele alcança um
ponto sensível, mas o loiro se limita a deixar uma
trilha de beijos na minha pele.
— Você tem na sua vida pessoas que fariam de
tudo pela sua felicidade. Juliana, Eduardo. —
Começa a listar, deixando um beijo entre cada
nome. — Aquela sua amiga que casou. Guilherme.
Chego a franzir o cenho com a menção do nome
dele. A gente não se fala têm semanas. A última
vez foi quando ele mandou mensagem pedindo
ajuda para escolher um presente para Fernanda.
Mas é verdade, sei que ele vai estar ali se eu
precisar.
— Você — sussurro, e Rafael não hesita em
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responder.
— Eu.
Tiro a cabeça do seu pescoço e recosto a cabeça
na sua.
— Não substitui — confesso, e ele concorda com
a cabeça. — Nada nunca vai substituir.
— Mas?
Mas gosto de tê-lo na minha vida, gosto de saber
que ele está aqui com sua tagarelice, inocência,
beijos sem fim e colo. Gosto mais do que achei que
fosse gostar. Não tenho certeza ainda do que isso
significa, mas sei que significa alguma coisa.
Significa muita coisa. Só preciso de tempo para
descobrir exatamente o tamanho disso, para ter
certeza antes de me atrever a dizer em voz alta e
dar merda.
Porque vai dar merda, sempre dá. Eu não sei estar

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em um relacionamento, não sei ter alguém na


minha vida. Então vai dar merda, mais cedo ou
mais tarde. Na primeira cobrança ou sinal de
ciúmes, vou surtar e ir embora, certeza. Eu não
quero ir embora, então preciso entender o que
diabos significa ter esse menino na minha vida.
— Mas você pode tentar me fazer feliz com
brigadeiro sempre que quiser — provoco por fim, e
ele abre um sorriso satisfeito, já sabendo como eu
funciono.
— Não posso resolver todos os seus problemas e
acho que você me odiaria se eu tentasse — diz,
roçando os lábios nos meus. Odiaria mesmo. —
Mas posso começar te levando para a sala para
assistir série e comer besteira.
Solto um grunhido, querendo morrer com a ideia
de assistir aquele negócio de novo.
— Achei que fosse cuidar de mim, não me
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torturar, bonitinho.
Faço um bico exagerado e ele revira os olhos para
mim.
— Você é péssima fazendo drama. Levanta essa
bunda daqui e vamos.
Por que, Deus? Por quê?

Eu não ter morrido assistindo a série já é um


avanço. Talvez não seja tão ruim assim. Jogo a
cabeça no travesseiro e me reviro no lençol,
molhando a fronha com os fios encharcados depois
que Rafael me arrastou para o chuveiro a essa hora
da madrugada. Quase dia, na verdade, o sol já está
raiando lá fora e, mais uma vez, passamos a noite
em claro. Se fosse qualquer outra pessoa comigo
nessa situação, a essa hora a gente já teria se

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pegado até cansar, mas realmente nós só assistimos


série e comemos besteira. Estou linda, bela,
cheirosa e sem roupa na cama, preparando-me para
dormir.
O que aconteceu com a minha vida?
— Dá para você parar de encarar meu pau e
prestar atenção em mim?
A voz dele não poderia ser mais debochada e eu
mordo a boca para prender um riso. Volto minha
atenção para o abusado que senta na cama e arrasta
a mão pelo cabelo, encostando na cabeceira ao meu
lado, os olhos divertidos presos em mim. Jogo um
travesseiro no colo dele e Rafael ri, mas se cobre.
Distração demais. Achei que as coisas fossem ficar
esquisitas depois do momento emocional demais
que aconteceu há algumas horas, mas não ficaram.
Claro que não ficaram. É obvio que não ficaram
porque Rafael não para de tagarelar.

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— Gosto de morar lá, gosto do que fiz com minha


casa. Não me vejo morando em outro lugar —
respondo à pergunta que ele fez sobre meu
apartamento antes de eu me distrair com a visão.
Rafael me contou um pouco mais sobre os
possíveis lugares para onde ele vai se mudar. Tento
retomar o assunto, mas o loiro continua encarando-
me com provocação clara no olhar, e eu reviro os
olhos.
— Já vi maiores, Rafa. Pode tirar essa cara de
convencido.
Espero pelo protesto, pela revirada de olhos, pela
reclamação e careta ofendida ou risada de quem
sabe que eu estou implicando, mas ele se limita a
dar os ombros.
— Não duvido — responde. — Aliás, você não ia
sair com o Calebe? Está fazendo o que aqui ainda
que não foi para casa?
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Explodo em uma gargalhada, sem acreditar nisso.


Eu falo de pau grande e ele imediatamente pergunta
de outro cara? Qual a lógica desse menino? Não sei
como ainda me surpreendo com essa falta de
orgulho do loiro.
— Que foi, doida? — pergunta quando eu não
paro de rir.
— Você devia estar tentando me convencer que
você é o melhor sexo da minha vida, não aceitando
a derrota assim.
Rafa meneia a cabeça, como se considerasse o
que acabei de falar, e estica a mão chamando-me
para o seu colo, afastando o travesseiro que jogou
por cima do corpo descaradamente nu. Encaixo as
pernas ao seu redor e ele afunda os dedos no meu
cabelo, levando minha boca à sua.
— Melhor é relativo. A gente já estabeleceu que o
Calebe te fode até dizer chega.
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Sinto sua mão subir ao meu seio e ele me beija


com a lentidão de sempre, puxando-me para mais
perto. Rafael liberta minha boca e arrasta dois
dedos pelos meus lábios. Chupo-os, vendo seus
olhos fixos ali antes de tomar minha boca de novo,
faminto. Ele deixa uma mordida no meu lábio e
desce a mão, provocando-me em um movimento
desesperadoramente lento no meu clitóris.
— Eu gosto de ser fodida até dizer chega —
murmuro contra seus lábios.
Ele enfia um dedo em mim, lentamente.
— Sei que gosta. Mas não vou fazer isso.
Resmungo quando ele demora a me dar outro
dedo e gemo contra sua boca quando ele me beija
mais uma vez. Protesto pela demora, pela lentidão
dos movimentos e ele afasta a boca da minha,
arrastando os dentes pelo meu queixo.
— Para de me torturar, bonitinho. Preciso de
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mais. — Gemo quando ele deixa uma mordida no


meu pescoço e afunda os dedos em mim.
Ouço um riso satisfeito contra a minha pele
quando cravo as unhas no seu ombro e me dou
conta. Ele não me fode até eu dizer chega porque
nunca digo “chega”. Nunca quero que acabe, nunca
fico com a sensação de que já tive o suficiente e
não preciso de mais. O filho da mãe sempre me faz
pedir por mais.
Eu peço, porque quero mais dele.
Eu quero mais dele.
Droga, Rafael.

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Capítulo 30
LIMPO A AREIA QUE GRUDOU NA minha
perna e ajeito os óculos escuros no rosto, tentando
me esconder um pouco do sol. Já começo a sentir
minha pele quente, tostada por estar jogada em
cima da canga vai saber por quanto tempo. Giro,
deitando com a bunda para cima, e me apoio nos
cotovelos, pegando o celular na bolsa.
A primeira coisa que faço é mandar mensagem
para Juliana, que não me deu notícias desde que a
deixei em casa ontem. Vejo a hora e o relógio
marca quase três da tarde. Nem faz tanto tempo que
cheguei aqui, mas mal consegui fazer nada. A ideia
era Calebe continuar ensinando-me a surfar, mas
sem condições de fazer aquelas flexões todas na
prancha hoje. Mal dormi e meu corpo está todo
dolorido. Deliciosamente dolorido, mas dolorido.
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Até que desisti, então ele foi para água surfar e eu


me joguei na canga para tostar um pouco e
aproveitar as últimas horas do fim de semana antes
de voltar para a loucura que vai estar aquele
escritório amanhã.

Para de se preocupar comigo o tempo todo, vai


aproveitar seu fim de semana. Aproveita a folga
de mim porque vou precisar de você amanhã.

Como ela fala um negócio desses e diz para eu


parar de me preocupar? Respondo a mensagem,
mas ela me dispensa, dizendo que amanhã fala
comigo. Juliana está aprontando alguma coisa e não
quero nem ver o que é. Tenho até medo quando
inventa essas ideias dela, quando enfia alguma
coisa na cabeça é um Deus nos acuda. Edu sabe
bem disso. Sorrio, um sorriso triste encarando a tela
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do celular. Aqueles dois se merecem de um jeito


que nunca vi. Odeio que estejam separados e torço
para que não dure muito.
Rolo um pouco mais pela tela do celular,
aleatoriamente curtindo postagens que aparecem no
meu feed, e solto uma risada quando vejo uma foto
postada por Caíque do que suponho ser o almoço
que ele foi arrastado por Rafael. Quando saí da casa
do loiro essa manhã, pouco antes de meio-dia, ele
não podia estar mais animado para ver o tal
apartamento. Ofereci-me para ir junto porque
sinceramente não confio na capacidade daqueles
dois de não serem enrolados por um corretor.
Acabei aproximando-me um pouco de Caíque
nessas semanas, trocamos mensagens com bastante
frequência e até conselheira amorosa do homem eu
virei. Não sei que mania é essa que as pessoas têm
de pedir ajuda com relacionamento logo para a

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pessoa que não quer um. Cabimento nem tem.


O que me fez arrastar Rafael de volta para a cama
e fazer com que ele se atrasasse para o almoço foi o
loiro não pensando duas vezes antes de recusar que
eu fosse com eles, dizendo que eu já tinha coisa
marcada. A verdade é que eu nunca tive qualquer
intenção de terminar na cama de Calebe hoje, mas
Rafa não sabe disso. Mesmo depois do que não dá
para negar ter sido uma declaração na cama durante
a noite, Rafael nem pensou em tentar me fazer
desmarcar. Simplesmente me beijou e disse para eu
ter um bom dia.
Foi aquilo bem ali, com ele não só respeitando
meu espaço, como também me dizendo que precisa
ter o dele, que a ideia de que alguma coisa entre a
gente poderia funcionar muito bem cruzou minha
cabeça pela primeira vez. Não sei bem o que,
porque não consigo outro nome para essa loucura

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que a gente chama de amizade. A gente funciona


bem assim.
Então rio e começo a digitar um comentário na
selfie com Rafael ao fundo fazendo uma careta,
olhos vesgos, língua de fora como a criança de sete
anos de idade que habita dentro dele. Mal aperto
para enviar o comentário e sinto uma mão na minha
cintura, brincando com a barra do meu biquíni.
Desligo a tela e jogo o celular de volta dentro da
bolsa antes de virar na canga para encarar Calebe,
lindo e gostoso, todo molhado, o tanquinho bem na
altura dos meus olhos. Sento, ajeitando-me no
lugar, e tiro a mão dele de cima de mim.
— Você está toda vermelha — diz, apontando
com o queixo, e eu abaixo os olhos, arrastando a
alça da parte de cima do biquíni para ver a linha
branca que se formou na minha pele. Já começo a
pensar nas toneladas de hidratante que vou precisar

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passar para não descascar. — Aloe vera ajuda.


Banho frio também. Eu tenho os dois em casa.
Vamos?
Calebe arrasta a mão pelo cabelo, sacudindo a
água dos fios, e me olha com um sorriso bem
sugestivo. Faço um nó no cabelo e tiro os óculos do
rosto, chegando mais perto dele.
— Hoje não — respondo, e ele arqueia uma
sobrancelha para mim, sem entender. — Na
verdade, preciso te perguntar se a gente pode
negociar umas aulas de surfe sem segundas
intenções. Por enquanto, pelo menos.
Vejo Calebe passando a língua pelos lábios antes
de soltar uma risada, balançando a cabeça.
— Não tem nenhuma outra pessoa na face da
Terra que possa te ajudar com isso? Tem que ser
eu?
Dou os ombros. Até tem. Posso pagar um
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professor de verdade ou simplesmente procurar


outra pessoa. Só não vejo motivo para isso. Se ele
não quer, tudo bem, vida que segue, uma pena. Mas
se eu for começar a achar esquisito manter contato
com qualquer pessoa com quem eu tenha saído,
estou bem ferrada. Não vou poder falar com metade
do Rio de Janeiro. A menos que eu tenha
descoberto que o cara é um completo idiota, nunca
tive problema nenhum em sair aqui e ali com
alguém com quem não tenho mais nada, para tomar
uma cerveja que seja. Depois cada um para o seu
lado.
Inclino a cabeça e espero que ele me responda.
Calebe ri e me olha como se não pudesse acreditar.
— Você não existe, Priscila — diz, levantando da
canga, batendo areia do próprio corpo antes de
estender a mão para mim, ajudando-me a ficar de
pé. — Não tem “por enquanto”. Seja lá qual o

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motivo de você não estar a fim agora, não vou ficar


esperando se resolver. Podemos ser amigos, mas
não nasci para ficar de estepe. Não vai rolar.
— Esqueci que você é um cara de
relacionamentos, moreno — digo, e ele meneia a
cabeça, mas não nega. Suspiro, porque é justo. Eu
realmente não estou com a menor vontade de pegá-
lo agora. — Amigos?
— Estou vendo essa marca vermelha de chupão
no seu pescoço daqui, então vou assumir que você
não está terminando as coisas porque vai tirar um
ano sabático — diz, apontando para a minha pele.
Ele suspira e dá os ombros. — Querendo ou não a
gente ainda vai se esbarrar por aí, então não vejo
motivo para fazer disso aqui um problema. Amigos.
Ele sorri e eu concordo. Ele é amigo da Ju, afinal.
Vai estar por perto. Deus me livre de climão só
porque a gente se pegou.

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— De qualquer forma, eu ia te avisar hoje. Eu


estou para tirar férias e vou ficar sumido por um
tempo.
Calebe enfia a bermuda no corpo e me ajuda a
sacodir a areia da canga antes de eu amarrá-la em
volta do corpo em um vestido improvisado porque
não existe a menor chance de eu tentar colocar meu
short de volta agora. Pego a chave do carro dentro
da bolsa enquanto andamos para fora da areia.
— Para onde você vai? Férias é dádiva divina,
nem sei qual foi a última vez que tive isso.
Aproveita. Me manda foto — digo, caminhando
pelo estacionamento. Calebe recosta na lataria do
meu carro quando chegamos a ele, cruzando os
braços ao redor do peito, olhando-me com um
sorriso nos lábios. — O quê?
— Você. Subitamente ficando comunicativa e se
interessando pela minha vida.

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Solto uma risada, porque sei como isso é absurdo.


— Eu sou uma ótima amiga. Também sou ótima
pegando as pessoas. Só sou péssima fazendo as
duas coisas ao mesmo tempo.
Era péssima, acho. Tem funcionado muito bem
com um certo loiro de olhos travessos. E como tem
funcionado.
— Que bom que somos amigos agora, então —
provoca, balançando a cabeça como se não pudesse
acreditar. Dou um tapa no seu braço. — Rio
Grande do Sul. Um primo meu vai casar e vou
aproveitar para turistar.
— Boa viagem — desejo, realmente querendo
dizer isso. Lá se vai minha aula de surfe, mas fico
feliz disso aqui não ter acabado em uma confusão
enorme.
Calebe se inclina na minha direção e deixa um
beijo no meu rosto.
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— Ainda vou estar aqui semana que vem se


quiser dar outro mergulho. Boa sorte com o dono
dessas chupadas no seu pescoço. Te aviso quando
voltar — diz, piscando para mim antes de se
despedir e se afastar, desviando de outro tapa que
tento acertar nele com uma gargalhada gostosa.
Olha a palhaçada.
Destravo a porta e jogo minha bolsa no banco do
passageiro antes de colocar o cinto e dar partida no
carro. O trajeto até minha casa é longo, mas não
demora tanto em um domingo à tarde sem trânsito.
Estaciono o carro na garagem do prédio, começo a
pegar tudo que preciso carregar comigo de volta
para o apartamento e a primeira coisa que faço
quando entro em casa é ir direto para o chuveiro
tirar o sal e areia do corpo.
Um longo banho depois, e óleo de coco no
cabelo, me jogo na cama, pegando o computador

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para colocar em ordem minha vida antes que


segunda-feira chegue. Esqueço-me da hora
organizando arquivos e preenchendo planilhas e,
quando me dou conta, já bate onze da noite. Jogo o
computador de lado e me ajeito na cama, catando o
celular para colocar o alarme, e é quando vejo a
mensagem piscando na tela.

Boas notícias! Encontrei o apartamento perfeito e


já vou ficar com esse mesmo. Vou aproveitar que
o contrato de aluguel da minha casa está
vencendo e me mudo fim de semana que vem.
Tirei um milhão de fotos, te mostro tudo amanhã.
Minha casa está uma bagunça com esse tanto de
caixa espalhada, quase caí tropeçando num troço
que nem sei o que é.

Olha a impulsividade. Vejo a hora mais uma vez e


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decido ligar mesmo assim. Só percebo que apertei o


botão de chamada de vídeo ao invés de chamada de
voz quando ouço a voz sonolenta de Rafael
perguntando por que ele não está me vendo quando
atende depois do quarto toque.
— Está tudo bem? Quem está morrendo para
você me ligar? Você odeia falar no telefone.
Vejo o rosto amassado dele apoiado no
travesseiro com uma ruga entre as sobrancelhas
quando encaro a tela, arrumando o cabelo por puro
hábito. Sem camisa, como já sei que ele dorme.
Não preciso ver o resto para saber como está
vestido. Como não está vestido. Quero.
— Quero saber do apartamento — respondo,
vendo o cenho dele franzir ainda mais, e pergunto
qual o problema. — Não achei que já estivesse
dormindo, bonitinho.
— Não achei que você realmente fosse se
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interessar — diz, ajeitando-se na cama para apoiar


a cabeça no braço. Ergo uma sobrancelha para ele e
espero que continue falando. Por que não me
interessaria? — É em Santa Tereza.
— Não é meio perigoso lá? — interrompo,
porque nunca nem ouvi falar de ninguém que
morasse lá. É ótimo como ponto turístico, mas para
morar…
— Nem sei dizer, loira. Acho que perigoso
qualquer lugar no Rio é. — Ele pausa por um
instante e faz um bico de lado que já aprendi a
reconhecer como incerteza.
Sinto o sono começar a bater forte, o que não é de
se espantar porque o dia foi longo. Ouço Rafael
descrever o lugar e crio a imagem do apartamento
na minha cabeça enquanto o loiro tagarela como se
não houvesse amanhã com um sorriso animado no
rosto mesmo com o sono claro nos seus olhos.

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Quando ele acaba de falar disso, muda de assunto,


passando a falar de coisas aleatórias que nem fazem
sentido nenhum, como sempre. É como se ele só
precisasse falar de qualquer coisa.
— O que você quer me pedir? — interrompo
quando ele começa a falar da cor dos pratos que vai
comprar, porque já aprendi a reconhecer as
pequenas hesitações entre as frases quando ele
precisa pensar antes de dizer alguma coisa. Olha o
que a convivência faz com a pessoa. Rafa respira
fundo, pressionando os lábios juntos.
— Eu não vou levar tudo para lá e ainda não
consegui organizar a doação de tudo daqui de
casa. Os móveis e essas coisas eu vou levar
comigo, mas têm umas coisas que ainda não sei o
que fazer. Não tem espaço nem para um alfinete na
casa do Caíque, então eu estava pensando se…
— Você pode deixar o que precisar aqui,

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bonitinho — respondo antes que ele pergunte. —


Mas vai precisar pagar aluguel.
Nem preciso abrir a boca para continuar com a
gracinha, porque a risada gostosa que Rafael solta
me diz que ele entendeu bem. A conversa continua,
entre detalhes exagerados sobre o dia dele em
minúcias tamanhas que nem sei de onde esse
homem arruma tanta coisa para falar.
— Você está toda vermelhinha. Não passou
protetor? Põe alguma coisa para não ficar toda
ardida, loira. Quieta, Priscila, pelo amor de Deus.
Solto uma risada quando ele se adianta, sabendo
que não tem como deixar passar o duplo sentido
acidental. Jogo o cabelo para o lado, afastando a
alça da camiseta do pijama para olhar o estrago da
marca na minha pele, e faço uma careta para mim
mesma. Piadas à parte, grandes chances de que eu
vá ficar toda ardida mesmo. O sol estava carrasco

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hoje, mesmo sendo fim de dia.


— Priscila…
Volto a encarar a tela do celular com o cenho
franzido, sem entender a advertência no seu tom, e
abro um sorriso, mordendo o lábio quando me dou
conta que a atenção dele está na alça caída que
deixa meu seio quase todo exposto. Nem foi a
minha intenção, juro que não foi, mas não posso
deixar passar a oportunidade, então termino de
descer a alça e faço a mesma coisa com a outra,
tirando da frente meu cabelo para que ele me veja.
Rio do grunhido que escapa da boca dele quando
passo uma mão pelo meu seio exatamente do jeito
que ele sempre faz.
— Isso é maldade, loira. Muita maldade.
— Eu estou vendo sua mão descendo, Rafael —
provoco, mesmo não tendo certeza se está mesmo.
Ele balança a cabeça, mas não tira os olhos dos
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meus seios. — Não é justo só você se divertir.


Faço um bico exagerado, indicando com o
queixo, e vejo a hesitação dele.
— Sexo por telefone, Priscila? Mesmo?
Termino de tirar a blusa, trocando o celular de
mão para conseguir essa proeza, e levanto na altura
da tela a calcinha que tiro também. Quase paro
quando vejo uma súplica silenciosa nos olhos dele,
mas ajeito a tela do celular para que ele me veja
inteira e levo os dedos à boca antes de descê-los
por entre minhas pernas. É o suficiente para que ele
se renda, soltando um palavrão. Nem finjo que não
adoro o que vejo. Não sei o que tem de tão sedutor
na visão de Rafael com a mão fechada ao redor do
membro duro, mas a cena me excita.
Entre provações sussurradas, gemidos e o desejo
de que fosse ele a estar com as mãos sobre mim,
não demora para que eu me desfaça no meio dessa
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insanidade que inventamos aqui. Quando eu digo


isso, quando digo que queria ele aqui, sua boca em
mim, sua voz no meu ouvido, é com um gemido
que ele me acompanha.
— Isso foi… — diz com uma risada rouca que me
arrepiaria toda se eu já não estivesse arrepiada. —
Você é insana. Agora preciso de outro banho.
— Já pode riscar isso da sua lista de coisas que
nunca fez antes, bonitinho — implico, e ele revira
os olhos, parecendo constrangido. É inocente
demais essa criança.
Suspiro, satisfeita, e começo a me acomodar no
colchão, o sono começando a cobrar seu preço
pelas poucas horas dormidas na última noite,
também por culpa dele. Rio, porque as costas não
foram a única parte do corpo dele a serem
arranhadas, e consigo ver, mesmo pela tela do
celular, as linhas avermelhadas que fiz no seu braço

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essa manhã.
— Não acredito que você ligou para isso, sua
doida. — Ele ri de novo e eu balanço a cabeça.
Sinto meu corpo começar a se render ao cansaço
delicioso, meus olhos pesados quando balanço a
cabeça, negando.
— Te liguei para falar com você, bonitinho. Não
foi para isso.
Vejo uma ruga na testa dele e solto uma risada.
Inocente demais.
— Você fica pior que bêbada quando está com
sono, fala sem pensar — responde, rindo de volta
para mim. — Estou vendo seu olho quase fechando
aí. Vai descansar, loira.
— Boa noite, Rafa.
O sorriso de lado e seus olhos brilhando são a
última coisa que vejo quando fecho os olhos,

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ouvindo uma risada gostosa e um “boa noite”


sussurrado antes de pegar no sono.

Eu amo meu emprego. Acho que não tem nada na


vida que eu ame mais do que esse trabalho. São
cinco e vinte da tarde em plena segunda-feira e não
estou com pressa nenhuma de ir embora. Sei que
assim que bateu cinco da tarde o escritório
instantaneamente ficou vazio. Sei disso porque o
silêncio que passou a ser esse lugar é uma coisa
maravilhosa. Quando todo mundo vai embora, é
quando começo a conseguir trabalhar em paz e sem
interrupções, fico mais produtiva e consigo me
concentrar no que precisa ser feito. Funciono mais
rápido, fico mais atenta. A noite sempre foi meu
horário favorito do dia.
Coloco fones de ouvido, a música no volume
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máximo, que é sempre a melhor forma de me


concentrar. Talvez sentido não faça, mas é como eu
funciono.
Abaixo os olhos para a folha à minha frente,
cuidadosamente lendo o texto redigido pelo
advogado que me entregou o documento há alguns
minutos, antes de ele mesmo ir para casa. Percorro
os longos parágrafos, concentrada nas palavras
difíceis e frases longas, marcando com os post-its
roubados de Juliana as partes que acho que
precisam ser revisadas.
Estou fazendo uma anotação na lateral da página
quando sinto uma mão tirando um fone da minha
orelha e praticamente dou um pulo na cadeira,
soltando um palavrão com o susto.
— Você vai me matar do coração com essas
coisas, Rafael — protesto, erguendo os olhos para
ele, que se apoia na mesa.

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— Eu bati na porta, te chamei três vezes e nada.


Achei que estivesse dormindo com o olho aberto aí,
encarando a mesa. Você está mais vermelha ainda
agora. Passou hidratante? Estou vendo seu ombro
querer descascar aqui. Bebe água que ajuda.
Tiro o outro fone do ouvido, sem conseguir não
rir da tagarelice desenfreada que eu já devia estar
acostumada a essa altura, mas ainda me surpreende.
Diverte-me.
— Você não devia estar em casa já? — pergunto,
e ele estica a mão para mim. Enlaço meus dedos
nos seus e ele me puxa, passando o braço ao redor
da minha cintura quando fico de pé.
— Eu estou indo. Na verdade, queria perguntar se
posso passar para deixar algumas coisas no seu
apartamento hoje. Marquei o pessoal da mudança
para daqui a uns dias, mas não consegui ninguém
para doar o resto ainda.

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— Pode — respondo, dando os ombros. — Não


devo demorar muito aqui, deve ser o tempo de você
ir para casa buscar seus troços e voltar para a
minha.
Ele concorda com a cabeça e passa uma mão ao
redor do meu pescoço, delicadamente me puxando
para um beijo doce, lento, como um carinho nos
meus lábios. Ele morde minha boca, sem aumentar
a intensidade do toque, e arrasto as unhas pelo seu
pescoço.
— Você vai me deixar todo marcado desse jeito
— sussurra contra a minha boca, aumentando a
pressão dos dedos no meu cabelo.
Mordo seu lábio em resposta à provocação e ele
ri.
— Você cortou o cabelo — falo, subindo os
dedos pelos fios macios, bem mais curtos agora.
— Não, Priscila, tirei para lavar. Mais tarde pego
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de volta.
Dou um tapa no braço dele pela resposta
malcriada digna de uma criança pentelha e ele ri,
puxando-me novamente, arrastando os dentes pelo
meu queixo.
— Teve um bom primeiro dia? — pergunto e vejo
o brilho de animação nos seus olhos que me diz que
o primeiro dia trabalhando longe do Renato já fez
maravilhas para a saúde mental dele.
Rafael começa a tagarelar enlouquecidamente,
dando detalhes sobre cada mínima coisa que fez
durante o dia, e eu o interrompo, levando o dedo
aos seus lábios.
— Por que não vai pegar suas coisas e, quando
chegar na minha casa, você me conta tudo? Eu
tenho que volta a trabalhar. Você é gostoso, mas
não paga meu salário — digo, e ele meneia a
cabeça, concordando.
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É com um último beijo que ele se despede e eu


volto para o contrato na minha mesa,
distraidamente passando o dedo pelo meu lábio
enquanto leio as palavras ali escritas.
Quando acabo o que tenho para fazer hoje, vejo
que o relógio marca pouco mais de sete e meia,
então começo a arrumar as coisas para ir para casa.
Juliana cruza a porta da minha sala, sem bater
como sempre. Vejo seus olhos vermelhos e largo
minha bolsa de volta na cadeira, levando-a para o
sofá antes que tenha a chance de dizer qualquer
coisa.
— Vou arriscar e dizer que agora você precisa de
mim — digo, apertando seus dedos, e ela confirma
com a cabeça.
— Eu me demiti — diz e isso honestamente me
espanta.
Não esperava por isso. Tudo bem que imagino ser
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impossível ficar perto do Edu agora, mas não achei


que chegaria a isso. Juliana ama esse trabalho, não
só pelo homem que ganhou de brinde, mas por tudo
que traz para ela. Toda a chance de crescer, de
aprender, de chegar onde quer. Abrir mão disso não
deve ser uma decisão fácil e não consigo pensar no
que custou para ela dar esse passo. Eu jamais
conseguiria fazer isso.
— O que eu posso fazer? — pergunto, segurando
suas mãos, orgulhosa e assustada pelo esforço que
ela está fazendo para segurar as lágrimas. — Quer
que eu vá para a sua casa? Chocolate e filme, bem
programa de velho do jeito que você gosta?
Ela ri, recostando a cabeça no meu ombro.
— Eu vou ficar bem, Pri — responde, suspirando.
É como se ela já tivesse usado todas as lágrimas e
todo o desespero. Sua voz é vazia e sem emoção,
mesmo eu tendo certeza de que ela está destruída

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por dentro. — Na verdade, preciso de uma noite


sozinha para colocar a cabeça no lugar e procurar
outro emprego amanhã.
Abro a boca para dizer que com uma carta de
recomendação de Edu ela consegue emprego onde
quiser, mas as palavras nem saem da minha boca,
porque conheço minha amiga o suficiente para
saber que ela quer fazer isso sozinha. A carreira
dela é importante demais para que Ju aceite
empurrões alheios.
Ela levanta do meu ombro e se endireita no lugar,
respirando fundo.
— Quando eu aceitei o cargo aqui, tinha ofertas
de outras empresas. Vou entrar em contato para ver
se eles ainda têm alguma posição disponível. Teve
um cara da Matos Bitencourt que parecia muito
interessado, vou ver se ainda está.
Franzo o cenho para ela, esperando um segundo
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para Juliana se dar conta do que acabou de dizer.


Essa empresa é concorrente direta nossa, dividimos
o mercado, pau a pau. Disputamos os clientes no
tapa praticamente e estamos ganhando por muito
pouco. Ela solta uma risada, passa a mão no rosto e
então me dou conta. Ela sabe disso, claro que sabe.
Com certeza é o único lugar da área que Eduardo
não tem qualquer influência, tanto pela competição
de mercado, quanto pela rixa antiga que os donos
têm.
Não sei qual o problema entre o pai de Edu e o
diretor executivo do lugar, mas os dois não se
bicam. Isso me preocupa um pouco, porque
conheço o caráter de Eduardo, mas não sei nada
sobre o velho senhor Barbosa. É inevitável que
aflore meu instinto sempre protetor com a Ju. Se
existe algum problema entre os dois que vá além de
interesses comerciais, ela pode acabar em um fogo

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cruzado sem querer. Ela se despede rapidamente,


dizendo que precisa de um longo banho e, assim
que Ju sai da minha sala, anoto em um post-it para
levantar o que puder de informação sobre esse cara.
Demoro mais alguns minutos para sair do
escritório, mas assim que posso, pego o carro e
começo a dirigir para casa.

Solto uma gargalhada quando saio do elevador e


vejo Rafael jogado, de novo, no chão do corredor,
sentado em frente à minha porta, acompanhado de
três caixas enormes de papelão. Ele me olha,
cerrando os olhos, e mordo a boca enquanto me
aproximo, girando a chave nos dedos.
— Sua vizinha veio perguntar se você tinha me
colocado para fora e se ofereceu para me consolar
— ele protesta. Sua voz é um misto de diversão e
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incredulidade. Não estou surpresa. Mulher esperta.


Eu faria a mesma coisa no lugar dela.
Abro um sorriso escancarado e estico a mão para
ajudá-lo a levantar. Rafael me imprensa contra a
porta antes que eu consiga abrir, fazendo uma cara
feia.
— Minha bunda está doendo — reclama, e
preciso segurar o riso pela irritação. Não dá para
levar essa cara de bravo a sério.
Giro, arrastando a bunda nele ao destrancar a
porta, e indico com a cabeça para que ele entre.
Rafael arrasta as caixas e digo para que ele coloque
em um canto perto da máquina de lavar. Não
demora mais do que alguns minutos para que o
loiro mova as caixas que parecem bem pesadas e
volte para a sala, esticando as costas, reclamando
igual a um velho que está doendo.
— Tudo bem se eu deixar mais coisa aqui ao
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longo da semana?
Concordo com a cabeça e ele estala o pescoço.
— Vinho? — pergunto, sacodindo uma garrafa
que peguei na cozinha, com duas taças na outra
mão.
— Não gosto de vinho. Muito ácido — responde,
fazendo uma careta.
— Vai gostar desse.
Ajeito as duas taças em uma mão e despejo o
conteúdo, o vinho branco enchendo o vidro. Coloco
a garrafa na mesinha de centro e entrego uma taça
para ele, que pega, desconfiado, olhando para o
conteúdo sem muita coragem de beber. Indico com
a cabeça para que ele tome e Rafael me acompanha
quando dou um gole do líquido gelado.
— Isso é bom! — diz, surpreso. Sabia que ia
gostar. Tinha tempo que não comprava esse vinho,

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normalmente prefiro tinto. Mas esse paladar de


bebê que ele tem pede por açúcar o tempo todo, se
tem um vinho bom e doce, é esse.
— Moscato — digo. — Na dúvida, vá sempre
para um Moscato.
Chuto os saltos e agradeço o gelado do chão
contra meus pés quando ouço Rafael resmungar
reclamando das costas mais uma vez.
— Tira a camisa e vai para cama que te faço uma
massagem enquanto você termina de tagarelar
sobre o seu dia.
Ele ergue a sobrancelha para mim, mas obedece.
— Deus me livre, Priscila. Você é boa em muita
coisa, mas em fazer massagem não. Parece que vai
arrancar um pedaço do meu ombro. Tem algum
relaxante muscular nesta casa? Tipo aqueles em
gel, sei lá? — reclama, puxando a camisa preta por
sobre a cabeça. Dou um longo gole no vinho,
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apreciando a visão. — Acho que volto na quinta


para deixar mais coisa. Você me avisa quando
estiver em casa? Minhas costas vão me matar se eu
tiver que ficar naquele chão duro te esperando por
mais de uma hora de novo. Não te falei, né?
Distendi alguma coisa na academia ontem, está
difícil de mexer o braço. Quase morri hoje no
trabalho de tanto que está doendo. Até remédio eu
tomei, coisa que odeio fazer. Sério, quem inventou
supino não é nem gente, aquele troço é tortura.
Sorrio para a reclamação rabugenta e indico com
a mão para ele ir para o quarto. Termino o vinho e
cato meu chaveiro no caminho, tirando da argola a
chave da porta. Quando chego ao quarto, vejo Rafa
sentado na beira da cama, mexendo o ombro com
uma careta, e jogo a chave em cima dele, que pega
desajeitadamente, fazendo uma expressão confusa.
— Não sei que horas chego do trabalho e eu vou

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morrer se você continuar reclamando das costas


doendo porque ficou no corredor. Faz uma cópia e
me entrega amanhã.
Ergo uma sobrancelha para ele enquanto tiro a
roupa e vejo sua boca aberta. Rafael ameaça dizer
alguma coisa, mas arremesso meu sutiã nele.
— Quieto. Nem uma palavra sobre isso senão
pego de volta — interrompo, indo na sua direção,
montando no seu colo. Rafael larga a chave na
cama e passa uma mão pela minha cintura, a outra
enroscando no meu cabelo. — Usa a boca para
outra coisa, bonitinho.
Ah, ele usa.

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Capítulo 31
— EU TENTEI, PRI. Ela realmente não quer
falar com você.
Suspiro e recosto na cadeira, esfregando o rosto
com uma mão só. Estendo os olhos para o relógio
pendurado na parede do meu escritório e vejo os
ponteiros dizerem que já passei tempo demais
trabalhando por hoje, mas não estou nem perto de
terminar. Nem devia estar aqui, em pleno sábado,
mas a quantidade de coisa acumulada é tão grande
que não consegui ficar em casa sabendo tudo que
tem para ser feito. Eduardo até entrou em um modo
louco de ficar na empresa quase vinte e quatro
horas por dia depois que ele e Juliana terminaram,
mas se tem uma coisa que ele não tem sido, é
produtivo. O que ele tanto faz naquela sala eu não

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sei, mas trabalhar não é, porque parece que está


sobrando mais coisa para mim do que normalmente
sobra.
— Ela disse especificamente que não quer falar
comigo, Gui? — pergunto e ouço um suspiro
cansado do outro lado da linha, coisa que não é
nada característica dele.
Guilherme sempre tem uma tirada engraçadinha
para alguma coisa, uma piada. Chega a ser irritante
a forma como nunca leva nada a sério e como é
impossível ter uma conversa minimamente centrada
com ele. Mas não tem nem um resquício de
brincadeira na voz dele quando me responde.
— Sinceramente, se você conseguir, vai ser um
milagre. Ju apareceu aqui na sexta e as duas
trocaram farpas, como sempre, mas parece que tem
alguma coisa acontecendo ali que nenhuma delas
quer me contar. A Nanda não vai com a cara da

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minha irmã e não gosta de você por associação.


Não posso fazer muita coisa.
Reviro os olhos mesmo sabendo que ele não pode
ver. Juliana tem motivos para não gostar da mulher,
mas, por mais que eu esteja sempre mais do que
disposta a comprar as brigas dela, dessa vez preciso
ser um pouco mais racional que isso. Venho
mandando mensagens e tentando falar com
Fernanda tem uma semana e nada de ela me
responder. Ela está no direito dela? Sim. Mas
infelizmente não vou poder respeitar isso.
— Tenta convencer sua namorada a encontrar
comigo pelo menos. Se no final da conversa ela
quiser tacar um copo de água na minha cara, no
maior estilo dramalhão mexicano, que seja. Ou eu
vou bater na porta da casa de vocês — ameaço.
— O que você tanto tem para falar com ela para
estar insistindo desse jeito, loira?

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— Isso é entre mim e ela, Gui — respondo e é


minha vez de suspirar.
Ouço um protesto do outro lado da linha e solto
uma risada fraca pela reclamação de grosseria.
Nem foi minha intenção, mas acabou realmente
saindo mais ríspido do que o necessário. Anoto na
minha agenda mental o prazo completamente
arbitrário que defini. Se ela não me procurar, vou
mesmo bater na porta deles.
Conversei com a Ju mais cedo e ela pareceu estar
bolando alguma coisa naquela cabeça doida dela,
mas não me disse o que era. Só disse que envolvia
Fernanda e que achava praticamente impossível a
mulher dar ouvidos a ela, o que é verdade. Mas eu
tenho certeza de que ela vai me ouvir. Quando
souber o que tenho a dizer, vai me ouvir. Eu acho.
Decido me dar meia hora para terminar de
organizar minha vida aqui antes de ir para casa me

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arrumar. Começo a revirar os arquivos, tentando


colocar em ordem o que posso, e quando tudo está
no lugar, pego a pasta azul que deixei em um canto
da mesa durante a semana toda.
Quando Juliana começou a trabalhar para essa
empresa nova, fiquei preocupada porque já tive a
minha cota de ter que lidar com empresários
babacas que se acham os donos do mundo. Não dá
para negar que ela ficou mal-acostumada com a
ética de trabalho de Eduardo, o que infelizmente é
exceção nesse meio. Nunca ouvi nada negativo
sobre esse senhor Barbosa que a contratou, mas
também nunca ouvi nada positivo. O fato de haver
uma rixa tão antiga entre ele e o pai de Edu foi o
suficiente para acender um sinal de alerta, então
pedi para que me trouxessem informações sobre o
homem. Esperava descobrir alguma coisa, mas não
o que descobri. Nada que seja prejudicial para Ju,

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então ela pode trabalhar em paz para a


concorrência, mas parece que Vinicius estava
falando a verdade sobre as ameaças que fez.
Giro a pasta nas mãos e penso bem antes de enfiá-
la na primeira gaveta da minha mesa, trancada à
chave. Vai ficar esquecida aqui até segunda ordem.

Não me dou ao trabalho de pegar o carro. Dirigir


para essa boate só ia me servir para pagar uma
fortuna de estacionamento para deixar o carro
parado durante a noite depois de voltar para casa de
Uber por ter bebido. Passa pouco das onze da noite
quando chego ao lugar e já começa a formar uma
fila na porta, que não me dou ao trabalho de fazer
parte. O tanto de vezes que vim aqui, já conheço os
seguranças pelo nome. Não demora muito para eu
tenha minha mão carimbada e entre.
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A música eletrônica toca alta na pista de dança


lotada e nem tento passar os olhos pela multidão
para encontrar o grupo que estou procurando. Vou
direto para o bar, localizado no fundo. Ainda está
relativamente cedo, então o amontoado de gente
esperando para ser atendido não é tão grande.
Quando consigo alcançar o balcão, puxo o celular e
mando uma mensagem avisando que cheguei e que
vou ficar aqui mesmo tentando conseguir meu shot
de tequila no meio dessa multidão.
Penduro-me no balcão, ficando na ponta dos pés
mesmo de salto, tentando chamar atenção de pelo
menos um dos barmen que estão atolados de
trabalho. Sinto uma mão tocar minha cintura e viro,
franzindo o cenho quando vejo que não é quem eu
estou esperando.
— Faz tempo que não te vejo por aqui. — O
homem se inclina para falar no meu ouvido por

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cima da música alta. — Trabalho?


Meneio a cabeça, porque é principalmente isso
mesmo. Sorrio e jogo meus braços ao redor do
homem que não vejo nem sei há quanto tempo,
deixando um beijo no seu rosto.
— O que você tem aprontado, Samuel?
Vejo-o abrir um sorriso e parar do meu lado,
também esperando para ser atendido. Passo os
olhos rapidamente por ele, vendo a camisa branca
contrastar com sua pele negra, a calça jeans sempre
meio surrada.
— Nada fora do normal. Senti sua falta, Pri —
diz, e ergo uma sobrancelha para ele.
— Não sentiu não.
Samuel abre um sorriso escancarado, sabendo que
esse papo dele nunca colou comigo, e ergue as
mãos, dispensando o comentário. Demoram mais

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alguns minutos de conversa fiada e risadas para que


eu consiga pedir alguma bebida. E, do nada, solto
um grito quando sinto minha cintura ser enlaçada e
alguém me tirar do chão com um abraço de urso.
Viro para encontrar Caíque com um sorriso
escancarado no rosto, o boné virado para trás que
me faz querer chorar. Quem ainda se veste assim?
Rafa está logo atrás dele, em uma conversa
animada com os outros dois amigos dele que
conheci da última vez, e pisca para mim quando
olha na minha direção.
— A rainha da balada chegou atrasada? —
Caíque implica, usando seu tamanho de gigante
jogador de basquete para abrir espaço na multidão e
alcançar o balcão para pedir uma cerveja.
— A rainha nunca se atrasa — respondo, rindo do
apelido que ele me deu. — Meus adorados súditos
é que chegaram antes da hora.

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Fico na ponta dos pés e deixo um beijo no seu


rosto antes de apresentá-lo para Samuel. Deixo os
dois para lá e dou dois passos em direção ao loiro
vestido com a mesma camisa que usou para ir
comigo ao casamento da Naty. Alguém precisa
fazer compras. Dou um abraço e um beijo estalado
no rosto dos seus amigos antes de virar na direção
dele. Rafa passa um braço na minha cintura,
puxando-me para ele com os dedos encaixados no
meu quadril em um aperto firme, e beija meu rosto.
Ergo a sobrancelha para ele, que passa a língua
pelo lábio antes de abrir um sorriso e levar a boca
ao meu ouvido.
— Não quero borrar seu batom, da última vez
você me deixou todo manchado — sussurra,
deixando uma mordida no meu lóbulo, e dou um
tapa no seu braço quando sinto meu pescoço
arrepiar. — Você está linda.

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Para a surpresa de ninguém, os olhos dele caem


para o decote da blusa fina que visto.
— Eu sou linda — respondo, piscando para ele
quando seu olhar volta ao meu. Rafael revira os
olhos com um sorriso e deixa uma mordida no meu
queixo, puxando-me para mais perto em um abraço
apertado.
— Vai para a minha casa depois? — pergunta.
Repasso na cabeça o que tenho de urgente que
precisa ser feito, tentando decidir se posso me dar
ao luxo de ficar de bobeira amanhã ou se preciso
pular da cama do loiro antes de a noite acabar.
Decido que não tem nada que não possa esperar. O
menino está tão animado com a apartamento novo
que nem sei. Ele se mudou em tempo recorde
durante a semana, preciso bater palmas para isso.
Confirmo com a cabeça.
— Quero estrear a cama nova com você —
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sussurra contra minha boca, escovando meus


lábios.
Olho-o com as sobrancelhas arqueadas pelo
atrevimento descarado na sua voz. Não que não
tenha gostado da ideia, muito pelo contrário. Estou
mais do que disposta a fazer o sacrifício de estrear
todos os cômodos do apartamento novo. Mas esse
menino está muito saidinho.
— Sei que te convidei para vir com a gente, mas
você se importa se eu sentar com os meninos? A
gente estava combinando umas coisas.
Nego com a cabeça, soltando uma risada quando
ele aponta para os sofás perdidos nos fundos da
boate, indicando onde vai estar sentado. Corpinho
de vinte e quatro, maturidade de cinco e alma de
oitenta anos.
— Esbarrei com um conhecido — digo,
apontando para Samuel que ainda está entretido
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com Caíque. Rafa olha na direção do homem e dá


os ombros, deixando um beijo na minha testa.
— Me encontra quando cansar de rebolar essa
bunda — implica, levando a mão por cima do meu
vestido em um apertão leve.
Ele me dá um beijo rápido, sob a promessa de que
vai borrar meu batom mais tarde antes de sair.
Pendura-se nos ombros dos amigos a caminho do
sofá e Caíque grita por cima da música alta,
reclamando por ter sido deixado para trás,
rapidamente se despedindo de Samuel para correr
atrás do grupo. Rio do gigante desengonçado
esbarrando nas pessoas e indico a pista de dança
com a cabeça.
— Seu namorado não é ciumento — Samuel
constata, e eu reviro os olhos. Antes que possa
dizer qualquer coisa, ele levanta um dedo,
interrompendo-me. — Vai dizer que ele não é seu

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namorado, que seja. Mas vocês estão juntos e ele


não é ciumento. Parece seu tipo.
Ignoro a provocação e começo a dançar no ritmo
da música, arrancando uma risada de Samuel antes
de ele me acompanhar na batida compassada. Ele
tem razão, Rafael nunca demonstrou sentir ciúmes
de nada, mesmo depois de ter deixado claro para
mim que não é só de pegação que sobrevive o que a
gente tem. O que faz, de fato, ele ser “meu tipo”.
Olho na direção dos sofás que ele me apontou e
vejo o loiro ao longe, entretido em uma conversa
animada com os amigos, completamente alheio a
mim. Abro um sorriso escancarado.
A liberdade, de fato, tem um gosto muito doce.
Mais doce ainda é perceber que não preciso
escolher entre ela e meu loiro comedor de
brigadeiro.

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Esses saltos são confortáveis, mas não fazem


milagre e nem passa tanto tempo assim antes de
meus pés começarem a pedir misericórdia.
Despeço-me de Samuel e começo a atravessar o
lugar que agora está lotado, desviando de pessoas
amontoadas, indo em direção aos tais sofás para
velhos que estão no canto do salão. Preciso lembrar
deste lugar para trazer Juliana. Se tem lugar para
sentar, ela vai aceitar vir comigo.
Rafael vê eu me aproximar e abre um sorriso na
minha direção. Ele passa os olhos ao redor,
constatando que já está lotado e não tem lugar para
sentar. Quando o alcanço, o loiro faz menção de
levantar, mas dispenso com a mão, acomodando-
me no seu colo ao invés disso. Rafa passa a mão
pela minha cintura, arrumando-me de lado sobre

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suas coxas, e estico as pernas, apoiando os pés no


colo de Caíque, que está sentado ao lado do loiro.
— Mas tu é abusada mesmo — protesta,
ajeitando-se no lugar para acomodar meus
tornozelos que estão sobre suas pernas.
Sinto Rafael rir, sua respiração quente contra o
meu pescoço.
— A gente estava falando da minha viagem —
diz no meu ouvido. — O André já foi em uns
lugares que quero conhecer e estava me dando
umas dicas. Eu quero turistar, mas estava pensando
em tirar uns dias para ir para alguma cidade
pequena e só descansar um pouco. Tenho uma tia
que mora em algum lugar mais calmo no
Maranhão, acho que vou visitar antes de voltar para
o Rio.
— Você está mesmo planejando com
antecedência — comento, e ele concorda na cabeça
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com um brilho nos olhos.


Não é uma crítica. Eu provavelmente só colocaria
a mochila nas costas e deixaria a vida decidir por
mim. Claro, com um mínimo de cuidado, porque
viajar por aí sozinha não é a coisa mais segura de se
fazer. Ele está fazendo certo em economizar e se
planejar. Essa criança responsável.
Tenho a impressão de que essa viagem significa
muito mais do que só férias. O brilho nesses olhos
acinzentados com esse planejamento todo deixa
claro que Rafael está levando muito a sério para ser
só férias quaisquer.
Esse canto está um pouco mais silencioso que o
resto da boate, meio isolado da música alta, então é
fácil conversar sem precisar ficar berrando para ser
ouvido. A conversa flui, fácil e gostosa, entre
risadas e implicâncias do grupo que claramente se
conhece muito bem. Quando Caíque fala alguma

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coisa sobre o jogo de futebol que vai acontecer


amanhã, rapidamente ele, André e Douglas
mergulham em uma discussão agitada.
— Nenhuma opinião sobre isso? — pergunto em
seu ouvido, e Rafa balança a cabeça, negando.
— A única coisa que entendo é de natação. E luta.
Nunca me dei muito bem em coisas que envolvem
bolas.
Afundo a cabeça no seu ombro para abafar a
gargalhada que solto e, quando volto o olhar para
ele com o lábio preso entre os dentes para segurar o
riso, vejo seu semblante confuso.
— Eu sou muito boa em coisas que envolvem
bolas — digo contra a sua boca, arrastando a mão
pela sua perna.
Não sei como ele consegue rir e ficar todo
vermelho ao mesmo tempo, mas é isso que
acontece. Rafa arrasta os lábios nos meus,
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murmurando contra minha boca que eu sou


impossível. Até aí, nenhuma novidade. Recosto a
testa na dele e sinto seu sorriso contra mim, a mão
acariciando minha cintura, alheia ao resto das
pessoas ao nosso redor, em um sentimento
confortável de familiaridade com a mão dele
percorrendo minhas costas.
— Como foi o almoço com a Carlinha, Rafael?
Mataram as saudades?
Abro um sorriso escancarado antes mesmo de
virar em direção a Douglas, que soltou a pergunta
em um tom completamente despretensioso, mas
qualquer idiota consegue ver exatamente a intenção
por trás das palavras. Rafael franze o cenho para o
amigo, como se não pudesse acreditar no que ele
acabou de perguntar. Eu posso. Posso e acredito.
Lembro-me da última vez que encontrei com eles
há algumas semanas. O homem inconveniente não

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se fez de rogado ao se jogar em cima de mim e eu


sei que ele ficou irritado com a recusa. Não porque
eu sou a mulher mais cobiçada da face da Terra,
mas porque ele parece bem o tipo que não aceita
não como resposta. Eu não duvido que mesmo me
vendo pendurada no pescoço do amigo, ele ainda
tente alguma coisa se tiver oportunidade.
— Foi bom — Rafael responde, a mão subindo e
descendo despreocupadamente pela minha perna.
— Não sabia que ela tinha se mudado para São
Paulo depois da formatura. Perdi contato real.
Parece que ela vai voltar para o Rio agora, arrumou
um emprego bom e vai ficar por aqui. A gente ficou
de marcar alguma coisa. Ia ser uma boa juntar todo
mundo, o que acha?
A cara de irritação que o homem faz é tão
descarada que realmente preciso me segurar para
não rir.

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— Você não se importa? —pergunta, dirigindo-se


a mim.
Dou os ombros e jogo o cabelo para o lado,
sentindo os lábios de Rafael tocarem meu pescoço
exposto.
— Por que me importaria? — pergunto,
acomodando-me no colo dele quando sua mão me
puxa pela cintura, afundando os dedos por cima do
vestido antes de arrastar os dentes pela minha pele.
É claro que Rafael mandou uma mensagem de
áudio de quase dez minutos tagarelando
infinitamente sobre esse almoço e eu não sabia se
ria ou se chorava pela narração infinita. Coloquei o
fone de ouvido e continuei trabalhando enquanto
ouvia. Foi impossível não sorrir com a empolgação
do loiro em encontrar a amiga.
A gente não tem nada, não tem nome o que quer
que seja isso que estamos fazendo, mas somos
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amigos antes de mais nada. Incondicionalmente.


Rafael tagarela sobre qualquer espirro que dá e
peguei o hábito de fazer o mesmo. Ele não tenta me
privar de nada e nem considero dizê-lo o que fazer.
A gente conversa sobre tudo e gosto disso. Sem
drama, sem complicações.
Caíque aperta de leve meu tornozelo, que ainda
está em cima do seu colo, chamando minha
atenção, e olho para ele, que revira os olhos e faz
uma careta. A risada escapa da minha garganta
antes que eu possa prestar atenção.
Ignoro a resposta malcriada que Douglas ameaça
dar e começo a levantar do colo do loiro,
arrumando minha saia quando fico de pé. Rafa
mantém a mão no meu quadril até ter certeza de
que me equilibrei sobre os saltos e pisco para ele
em agradecimento.
— Vou dançar — anuncio, e Caíque levanta a

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mão, oferecendo-se para ir junto. Rafael ri e levanta


a dele também.
Consigo ver porque os dois são tão amigos. Duas
crianças espoletas escondidas em corpo de adulto.
Prendo meu olhar nos olhos acinzentados que
sorriem para mim, um bico forçado nos lábios, e
estico as duas mãos, agarrando os dedos dos dois,
que levantam em um pulo. Atravessamos a
multidão até encontrar um espaço vazio onde nos
enfiamos.
É com risadas e rodopios que passamos a hora
seguinte, entre beijos roubados em Rafael e
dancinhas descoordenadas com Caíque.

— Eu fico impressionado com tanta classe.


Olho por sobre o ombro para ver Rafael, que vem

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andando atrás de mim quando saímos do elevador.


Ele indica para o corredor da esquerda e viro na
direção apontada, sacodindo os saltos na mão. O
chão está colando e não quero nem ver o estado da
sola dos meus pés, mas não tenho condições de
ficar com esse sapato nem mais um segundo. Se
juntar isso com o fato que meu cabelo já virou um
coque alto muito malfeito, meus brincos já foram
parar dentro da bolsa e minha maquiagem nem
existe mais, vou ter que concordar com ele. É
realmente muita classe para uma pessoa só.
Paro quando vejo o número do apartamento na
plaquinha da porta, esperando que ele me alcance.
Bato pé, apressada, sentindo minha bexiga querer
explodir enquanto Rafa lentamente procura a chave
certa. Pergunto onde é o banheiro e praticamente
corro para o cômodo assim que ele abre a porta,
ouvindo uma risada atrás de mim quando

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simplesmente largo os sapatos e a bolsa no chão.


É só na volta para a sala que presto atenção no
apartamento ao meu redor, ainda todo cheio de
caixas e bolsas espalhadas para todos os cantos,
deixando claro que ele está longe de terminar essa
mudança. Desvio das coisas no caminho, indo até a
cozinha onde ele está. Encontro Rafael revirando
uma caixa, pegando uma espátula. Vejo a panela
em cima do fogão e sorrio quando ele abre a lata de
leite condensado que tira de dentro da sacola de
mercado em cima do micro-ondas.
— Suas coisas ainda estão todas empacotadas?
Como você cozinhou esses dias, bonitinho?
Ele liga o fogão e despeja o conteúdo da lata na
panela antes de responder.
— Pedi comida, basicamente. Amanhã termino de
arrumar pelo menos as coisas de cozinha.
Arrasto algumas coisas para o chão e subo na
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bancada, sentando no tampo de madeira.


— Me arruma umas panelas que faço o almoço
amanhã.
Rafael olha por sobre o ombro, uma seriedade
exagerada no seu semblante enquanto ele balança a
cabeça lentamente em negativa.
— Eu já comi coisa que você cozinhou, Priscila.
Não quero morrer.
Passo os olhos pela bancada e pego um pano de
prato, arremessando nele.
Rafael começa a me contar o que planeja fazer
com o lugar, dizendo que não sabe se vai conseguir
enfiar tudo que trouxe aqui. Eu tenho certeza que
não. Já estou vendo mais caixas indo parar no meu
apartamento até ele conseguir se organizar.
Entendo a pressa dele de sair da casa em que
morava antes de virar o mês, já que o contrato
estava para vencer e ele não precisaria renovar, mas
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devia ter pensado nisso antes.


Ele desliga o fogo e pega duas colheres, saindo da
cozinha com a panela quente depois de dizer para
irmos para o quarto. Vou atrás dele e me jogo no
colchão, soltando um gemido de satisfação.
— Esse colchão é muito melhor que o outro. —
Suspiro, apoiando nos cotovelos.
Rafa põe a panela do meu lado e se livra dos
próprios sapatos e meia, dando um passo em
direção à cama. Ele revira os olhos e ri quando faço
bico e aponto com o queixo para o peito dele. O
loiro tira a camisa, balançando a cabeça em
reprovação. Agora sim. Oi, tanquinho. Pego uma
colherada do brigadeiro e espero que ele faça a
mesma coisa depois de deitar ao meu lado, tocando
minha colher na dele em um brinde melado antes
de levarmos o doce à boca.
— Ah! — diz, chamando minha atenção. —
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Tenho que devolver sua chave.


Franzo o cenho, esperando que ele continue.
— Acho que não preciso deixar mais nada no seu
apartamento. Tem aquelas caixas lá ainda, mas dá
para a gente organizar um dia só para buscar tudo,
aí não preciso mais ficar com a chave. Onde
coloquei meu chaveiro? Eu juro para você, é
impossível encontrar qualquer coisa nessa bagunça.
Tem hora que acho que não vou conseguir achar a
porta no meio dessas caixas todas.
Rio da tagarelice e pego outra colher de
brigadeiro.
— Fica — digo, e ele inclina a cabeça. — Volta e
meia você vai para lá mesmo.
— Certeza?
Meneio a cabeça.
— Não acho que você vá roubar minha televisão

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nem nada do tipo, até porque duvido que caiba aqui


— implico, piscando o olho.
O apartamento nem é tão menor que o meu, mas
realmente parece minúsculo com todas essas caixas
espalhas. Gostei do lugar, até. É aconchegante.
— Talvez eu roube aquele faqueiro caro para um
cacete que você tem enfeitando sua cozinha. Você
já usou aquilo alguma vez? Duvido. Está só
juntando poeira. É um absurdo isso, Priscila.
Sinceramente.
— Pode pegar — digo, dando os ombros. —
Presente de casa nova, ou seja lá como se chama
isso.
O presente na verdade é uma garrafa de tequila
que está muito bem guardada em casa. Preciso me
lembrar de trazer depois. Solto um resmungo de
protesto quando ele tira a panela e a colher da cama
antes de deitar em cima de mim, beijando-me, o
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gosto dele misturando-se com o chocolate. Nem


preciso olhar para saber que ele vai ficar todo
manchado de batom como reclamou mais cedo.
— Isso tudo é por causa do faqueiro, bonitinho?
— implico, e ele desce a boca pela linha do meu
queixo.
Rafael arranca minha blusa, arrastando a boca por
cima do meu sutiã.
— Eu disse que queria estrear a cama com você
— murmura contra a minha pele, subindo minha
saia, e enrolo as pernas ao redor dele.
— Só a cama? — pergunto em seu ouvido,
cravando a unhas nas suas costas quando ele deixa
uma mordida na curva do meu pescoço.
— Estrear o apartamento inteiro, loira.
Gosto muito dessa ideia.
Antes que eu consiga responder qualquer coisa,

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sinto Rafael descer a boca pelo meu corpo,


distribuindo beijos e mordidas pela minha pele até
alcançar minhas coxas, separando-as.
— Você deu para me morder — comento em
meio a um suspiro quando os lábios deles me tocam
por sobre a renda da calcinha.
Ele arrasta a barba por dentro da minha coxa e
afasta o tecido com os dedos, provocando-me por
um instante apenas antes de levar sua boca até
mim.
— Você deu para me arranhar, só estou
devolvendo — implica, tocando-me com a língua,
arrancando um gemido meu. — Não que eu esteja
reclamando, fique à vontade.
Não é como se eu pudesse evitar.
A prova disso é que minhas unhas encontram o
caminho até seus braços sem que eu possa fazer
nada quando ele para de me provocar e me dá o que
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quero.

O fim de semana acabou e metade da semana foi


com ele sem eu nem sentir.
Esfrego o rosto, sem saber como consigo manter
os olhos abertos. Não sei nem mais o que é dormir
esses dias. A empresa está do avesso e parece que
tudo está a ponto de explodir simplesmente porque
Eduardo está a ponto de explodir. A minha vontade
é pegar pela mão e arrastar até Juliana, trancar os
dois num quarto e só deixar sair quando se
entenderem. É falta de sexo. Única explicação.
Esse mau humor dos infernos dele é falta de sexo.
Edu está que só distribui patadas para todos os
lados e o estresse dele está deixando-me estressada.
Nunca achei que fosse chegar um momento da
minha vida em que eu começasse a torcer pelo fim
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de semana de novo. Venho feliz e contente


trabalhar, fico aqui muito mais do que o necessário
e nunca nem reclamo, porque gosto. Continuo
gostando, só que a vontade é de mandar esse
homem rabugento pastar e me deixar trabalhar em
paz, porque é impossível fazer qualquer coisa com
ele azucrinando minha cabeça por aí.
Em todos esses anos trabalhando com ele, nunca
vi Eduardo ser nada além de perfeitamente
profissional. Aprendi muito com meu amigo, mas
muito mesmo. Devo muito do que sei hoje a ele,
que praticamente me pegou para criar e me
carregou pela mãozinha para cima e para baixo,
mostrando como funcionam as coisas neste mundo.
Amo Edu com todo meu coração, mas meu Deus…
Só quero afogar a cara dele em um lago agora.
Termino de beber a caneca enorme de café que
trouxe para a minha sala antes de passar os olhos

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pelo celular e abrir uma mensagem de Guilherme,


dizendo que Fernanda continua recusando-se a falar
comigo. Vou dar na cara dela também. Vou dar na
cara de todo mundo que me irritar hoje. Franzo o
cenho para mim mesma e olho a data. Não é TPM.
Só estou sobrecarregada mesmo. Preciso dormir.
Como se para colocar a cereja em cima do bolo, a
porta da minha sala abre e vejo Edu entrar, uma
carranca estampada no rosto.
— Pode entrar, fica à vontade — murmuro,
voltando a digitar no computador.
— Terminou de fechar as contratações?
Concordo com a cabeça em silêncio e repito o
gesto para todas as outras seis perguntas que ele
faz, apenas assinalando que sim. Meu trabalho está
em dia, muito obrigada.
— A única coisa que ainda não fiz foi ir até o
galpão para verificar o andamento de tudo, mas
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tenho certeza de que disso você vai querer cuidar


— digo, sabendo que é a única parte do trabalho
que Eduardo gosta.
Ele confirma com a cabeça e suspira. Encaro-o
por um instante, facilmente percebendo que Edu
está tão ruim quanto eu. As olheiras e a barba por
fazer não deixam mentir. Eu só estou morta de
cansaço mesmo, meu amigo rabugento está
sofrendo. Nem sei mais o que fazer. Parece que
tudo de errado que ronda minha vida e de quem
quer que esteja por perto acaba sendo culpa de uma
pessoa só. Eu me recuso a aceitar que só um infeliz
tenha tanto poder assim. Isso nem faz sentido.
Solto uma risada meio ácida ao me dar conta de
quanto tempo Vinicius tinha ficado completamente
fora da minha cabeça mesmo em meio a esse caos.
Mas alegria de pobre dura pouco, não é mesmo?
— Vai para casa, Edu — sugiro, recostando na

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cadeira e encarando seus olhos cansados. — Não


tem nada que você possa fazer aqui, eu termino o
que precisar.
Ele balança a cabeça, negando.
— Meu apartamento parece grande demais sem
Juliana comigo. Parece que só faz ecoar meu
sofrimento.
Fecho os olhos e balanço a cabeça. Sei que Ju está
sofrendo também. Ela tem tentado levantar a
cabeça e se afundar em trabalho, mesmo que ainda
pergunte dele o tempo todo. A desnaturada me
manda mensagem todo dia querendo saber dele,
mesmo que insista em estar sem tempo para mim.
— Você viveu quase quarenta anos sem ela.
Tenho certeza de que sobrevive mais uma noite.
Ele ri e abaixa a cabeça, negando novamente. Não
consigo entender essa devoção cega que existe no
relacionamento dos dois, mesmo agora, separados.
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É como se o mundo de um deixasse de existir sem


o outro e sinceramente isso só me desespera. É uma
linda história de amor para um livro, para a minha
vida não serve de jeito nenhum. A única coisa que
quero é que esse sofrimento todo acabe e os dois
voltem a ser felizes andando pelos corredores
achando que ninguém sabe que estão juntos.
— Vinicius apareceu? — Edu pergunta depois de
levantar da cadeira e abotoar o terno, claramente se
dando por vencido e começando a ir para casa.
Cerro os olhos para ele e essa é toda a resposta
que tenho para dar. Como no inferno eu saberia
disso? Por que eu ia querer saber? Ele parece
perceber a besteira da pergunta e se desculpa, mas é
minha vez de balançar a cabeça.
— É culpa sua também, você sabe.
Eduardo franze o cenho para mim e eu solto uma
risada ácida.
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— Vinicius. Você anda para cima e para baixo


reclamando da bosta de ser humano que ele é, mas
a culpa é sua também. Se não passasse tanto a mão
na cabeça dele, se não se desdobrasse em dois para
compensar as falhas do irresponsável do seu irmão,
talvez a situação não fosse tão ruim.
— Priscila…
— Não digo que você é responsável pelas falhas
de caráter, porque isso não é culpa de ninguém
além dele mesmo, mas esse comportamento
imaturo e mimado de um homem de quase
cinquenta anos na cara poderia ter sido evitado se
você não fosse tão condescendente. A culpa é sua
também. Agora eu estou aqui me matando de
trabalhar e você aí, sofrendo igual a um condenado
porque insiste nessa história de família ser sagrada.
Não é porque tem seu sangue que merece sua
consideração.

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Nem percebo quando digo isso em voz alta, não


sei dizer se meu tom é cansado ou raivoso. Um
pouco dos dois. Não sei se estou falando de
Vinicius ou do meu pai, que depois do showzinho
que deu há duas semanas não voltou a me procurar.
Talvez um pouco dos dois também.
— O que ele te fez, Priscila? — Edu pergunta, o
cenho franzido.
Reviro os olhos. Não é essa a questão, isso não
vem ao caso.
— Boa noite, Eduardo. Perde para o porteiro não
trancar meu carro na garagem dessa vez, por favor.
Ele fica parado olhando para mim por mais alguns
segundos antes de desistir e ir embora. Tento voltar
a focar no arquivo na tela do computador, mas está
praticamente impossível de me concentrar.
Bufando, desligo a tela e pego minha bolsa.
Quando estou quase no elevador, ouço meu celular
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apitar e não consigo evitar um sorriso, ainda que


pequeno, quando abro a mensagem que pisca na
tela.

Você sabia que peixe combina com queijo sim?


Era tudo mentira o que minha mãe me falou a
vida inteira. Como vivi todos esses anos sem saber
disso? Agora estou me perguntando se comer bolo
quente dá dor de barriga mesmo. Provavelmente
não.

Aperto o botão do elevador e entro, indo


direto para a garagem. Configuro o GPS antes de
responder à mensagem. Mal dou partida no carro e
vejo a resposta piscando na tela.

Estou te esperando, loira.

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Capítulo 32
NÃO SEI SE COMEMORO O FIM DE semana
chegar rápido ou se reclamo.
É uma péssima ideia tentar ir ao shopping em
pleno sábado. Tudo sempre está lotado, as filas
para qualquer coisa são enormes e eu começo a
ficar irritada pela demora. Logo eu, que amo fazer
compras, perco rapidamente a paciência quando
preciso esperar algumas eternidades para conseguir
fazer qualquer coisa. Então não me surpreendo nem
julgo quando é exatamente isso que ouço de Juliana
no telefone.
— É a única coisa que consigo te convencer a
fazer comigo — insisto. — Você não estava doida
para ver esse filme? Tem uma sessão agora, mas
tem outra daqui a uma hora, dá tempo de você
chegar.
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Recosto na parede e vejo Rafael vindo em minha


direção. Ele franze o cenho quando me alcança e
indico com a mão que estou no telefone. O loiro
desce a boca até a minha em um beijo rápido antes
de moldar “pipoca” silenciosamente com os lábios
e sair em direção à fila.
— Até estava, Pri, mas você não tem noção da
quantidade de coisa que tenho para fazer. Juro
para você que vou acabar virando um daqueles
figurantes de filme de zumbi de tão pouco que estou
dormindo. Vou passar. A gente marca alguma
coisa durante a semana?
Suspiro e concordo. Sei que ela está reclamando
de estar ocupada, mas está adorando toda essa
agitação. Juliana está realmente se afundando em
trabalho para manter a cabeça ocupada e os
pensamentos longe de Eduardo, sei também que
não está funcionando, porque ela religiosamente

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pergunta dele todos os dias. Ju é uma profissional


maravilhosa, mas o fato de estar enfiada em
trabalho em pleno sábado só me diz que ela não
está nada bem.
— E se eu cancelar o filme e for aí? Faz tempo
que a gente não se vê. Estava acostumada a te ver
todo dia e a gente mal se falou nas últimas duas
semanas.
— Você está carente, Priscila? Que que está
acontecendo? Seu harém não está te mantendo
ocupada o suficiente não? — brinca e ri de mim
quando reclamo. Ela sabe que não tem pau no
mundo que substitua fazer bobagens com ela. —
Sei que estou em falta com você, Pri. Prometo que
vou compensar. A gente almoça essa semana?
Concordo e desligo, desencostando da parede
para começar a andar em direção à fila dos
ingressos onde Rafael largou o pobre do Caíque

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sozinho.
Reclamo da Juliana, mas eu estava fazendo
exatamente a mesma coisa: trancada dentro de casa
trabalhando. A semana foi impossivelmente agitada
e mal tive tempo de respirar, entre processo sem
cabimento e Eduardo em um humor horrível, passei
os dias com a cara afundada em documentos. O dia
hoje não foi diferente. Estava com a cara amassada
e enfiada no computador tentando adiantar alguma
coisa na esperança de conseguir um tempo livre
para ir à praia com o Calebe amanhã antes de ele
desaparecer para o tal casamento que tem para ir,
mas agora nem se eu quiser.
Pior coisa que fiz da minha vida foi ter dito para o
Rafael ficar com a chave do meu apartamento. Ele
apareceu com Caíque e um copo gigante de café,
praticamente me arrastando para fora de casa sob o
argumento que eu vou pifar se continuar

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trabalhando assim. Não está errado, mas se eu não


fizer, quem vai? Os dois me enfiaram dentro do
carro e me trouxeram para o shopping. Péssima
ideia. Se não fosse a promessa de que vamos sair
daqui e ir para um bar novo que abriu em algum
lugar, já teria voltado para casa. Estava tentando
ligar para a Ju desde que saí de casa, mas nada de
me atender. Só consegui falar com ela agora, quase
na hora do filme. Ela está precisando de mais
distração do que eu, nada melhor do que esses dois
palhaços para ajudar nisso.
Caíque foi, sem dúvida, uma surpresa muito bem-
vinda na minha vida. O homem é um ótimo amigo,
meio calado, mas quem não é comparado com
Rafael? Além de tudo, é observador. Ele fala pouco
e olha muito, posso ver à distância coisa
maquinando naquela cabeça dele.
Encaro a tela do celular enquanto cruzo o

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corredor do shopping sem prestar muita atenção no


que estou fazendo e quase derrubo o aparelho
quando esbarro feio em alguém.
— Desculpa — digo antes mesmo de levantar a
cabeça e franzo o cenho. — Fernanda?
Para a surpresa de ninguém, a primeira coisa que
ela faz é revirar os olhos e mexer no cabelo. Preciso
segurar uma risada só de pensar em Juliana
querendo voar no pescoço dela se estivesse aqui.
Essa postura afrontosa dela tira Ju do sério com
muita facilidade, mas acho divertida a forma como
ela tenta com tanto afinco ser petulante o tempo
todo. Ela nunca retornou minhas ligações e
Guilherme não conseguiu fazer o milagre de
convencê-la a falar comigo. Minha promessa estava
de pé, estava a ponto de bater na porta da casa dela
e não sair até ela me atender, mas parece que não
vou precisar fazer isso.

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— Veio assistir ao filme?


Sei que vem patada no segundo em que acabo de
falar e ela inclina a cabeça.
— Na verdade, pensei em vir dar um mergulho,
até coloquei meu biquíni por baixo da roupa. Olha
como fiquei surpresa quando cheguei aqui e
descobri que “cinema” não é o nome de um parque-
aquático.
Ela franze o cenho quando minha resposta não é
nada além de abrir um sorriso escancarado, e nem é
sorriso debochado. Consigo entender o que
Guilherme viu nela. É abusada essa garota.
— Eu estava tentando falar com você. A gente
precisa conversar.
— Você precisa conversar. Eu preciso que você
pare de querer se meter na minha vida.
Suspiro e seguro seu braço, arrastando-a para

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longe do meio do corredor. Quando chegamos a um


canto um pouco mais afastado da multidão, arrasto
a mão pelo rosto e respiro fundo. Definitivamente
não queria fazer isso assim, aqui, em público, no
meio de um monte de gente que não gostaria que
presenciasse essa conversa. Na verdade, não queria
fazer isso nunca. Não queria falar disso nunca mais
na minha vida. Não queria lembrar que aconteceu.
Não queria Vinicius na minha cabeça. Mas ela
precisa ouvir.
— Eu não sei o que aconteceu. Não vou saber até
que você me conte. Sei que o que você falou para o
Edu não está nem perto de ser a história toda. Não
está nem perto do que Vinicius te fez.
Minha garganta arranha com cada palavra e
empino o queixo, dizendo a mim mesma que não
tem lágrima nenhuma querendo se formar.
Fernanda, pela primeira vez desde que a conheci,

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fica agitada e parece perder a pose.


— Eu não acredito que você está tentando ter essa
conversa no meio do shopping, Priscila. Achei que
a sem noção fosse a minha cunhadinha querida.
Tenho que dar razão para ela. É absurdo e o pior
lugar possível, mas não é como se ela tivesse me
dado muita escolha.
— Vamos combinar uma coisa. Você cuida da
sua vida e eu cuido da minha. Já basta Juliana
pentelhando a minha cabeça tentando me dizer o
que fazer, como se ela fizesse alguma ideia do que
eu estou sentindo e, sinceramente, minha paciência
para esse comportamento mimado dela já se
esgotou.
Abro a boca para dizer que, infelizmente, eu
talvez entenda sim, mas ela não me dá chance.
— Eu vou procurar o Gui e assistir um filme.
Volta a andar de mãozinhas dadas com o seu
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namoradinho e finge que não me viu. — Franzo o


cenho e abro a boca para perguntar do que no
inferno ela está falando, mas Fernanda inclina a
cabeça de novo e ergue as sobrancelhas, sorrindo.
— Guilherme me disse mais de uma vez que você
não é de ter namorado. Nem percebeu que estava
de mãos dadas com ele, né?
Não respondo nada, porque não sei o que
responder. Estava? Fernanda ri, parecendo
realmente se deliciar com a situação.
— Você não sabe nem o que está fazendo com a
sua vida e quer decidir a minha? Faça-me o favor.
Ela vira as costas e sai andando, deixando-me
parada de pé na parede sem entender o que diabos
acabou de acontecer. Sinto uma mão tocar a minha
cintura e olho por sobre o ombro para encontrar
Rafa e um saco de pipoca maior que a cabeça dele,
com Caíque logo atrás.

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— Estava te procurando. Que cara é essa?


Aconteceu alguma coisa?
Nego com a cabeça e ele me olha como se não
acreditasse na resposta, mas não insiste. Agradeço
por isso, porque nem sei como responder.
— Vamos?

A sessão está simplesmente lotada. Sentamos os


três em uma fileira no fundo da sala que, por um
milagre, tinha algumas cadeiras vazias. Rafael
senta no meio, entre nós dois, e segura o saco de
pipoca no seu colo. Ouço os dois conversando
bobagens enquanto rolam os trailers na tela e só
recosto a cabeça na poltrona, sem conseguir tirar
Fernanda da cabeça. Nem Vinicius. Já está ficando
chato isso, essa insistência desse assunto em voltar
à minha mente depois de tanto tempo enterrado.
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Sinto Rafa me cutucar e levantar o descanso de


braço entre nossos assentos, chamando-me para
perto. Quando o filme começa de fato, ele me
acomoda no seu peito e beija minha cabeça.
— Tinha um cara na fila da pipoca que
simplesmente não conseguia decidir o que comprar.
Nem são tantas opções assim, mas nem se queria
doce ou salgada ele sabia. A fila já estava enorme,
só fez demorar mais ainda. Achei que não fosse
nem dar tempo de comprar nada. No fim das
contas, ele comprou uma de cada. Nem imagino a
facada que foi. Por que pipoca no cinema é tão
cara? A manteiga é feita de ouro? Não tem nem
cabimento isso.
Rafael diz isso tudo sussurrando no meu ouvido e
levanto a cabeça para encarar o tagarela. Ele desce
a boca até a minha em um beijo gentil e eu sorrio,
porque sei o que ele está fazendo.

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— Ei! Não vão começar a se pegar não — Caíque


reclama, pegando a pipoca do colo do loiro, e
alguém reclama do barulho quando solto uma
risada.
Acomodo-me nos braços do homem vestindo o
raio da camiseta de gatinho, sentindo seus dedos
subirem e descerem pelo meu braço, e me desligo
do mundo pelas próximas duas horas.

O estresse de shopping lotado valeu a pena só por


essa caipirinha maravilhosa na minha frente. O bar
está cheio, mas nada inesperado para um sábado à
noite. Enfio algumas batatas fritas na boca e troco
algumas mensagens com Ju antes de enfiar o
celular na bolsa.
— Anda, me conta o que aconteceu — digo a
Caíque, apoiando o queixo na mão, meu cotovelo
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sobre a mesa enquanto o encaro. — Você está com


uma cara de bunda enorme, qual o problema?
O gigante suspira e coça a barba, balançando a
cabeça e dando os ombros.
— Ainda problemas com aquela mulher que você
me falou? — pergunto, e ele confirma com a
cabeça. — Já pensou em, sei lá, desistir disso e
seguir a vida? Claramente está te fazendo mal.
Lembro-me das mensagens trocadas e ligações
longas demais para o meu gosto com o homem
parecendo a ponto de morrer porque sei lá quem
por quem ele está morrendo de amores não queria
saber dele. Não sei por que ele decidiu que eu sou
uma boa conselheira amorosa, mas só posso
imaginar que Rafael não foi de ajuda nenhuma para
ele recorrer a mim.
— Acha que eu já não tentei? — murmura. —
Estou tentando esquecer essa mulher há anos e não
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adianta.
Solto um gemido sofrido que faz com que ele ria.
As pessoas complicam as coisas demais.
— Já tentou falar com ela? Dizer que gosta,
chamar para sair? Contratar carro de som, sei lá,
tem gente que gosta dessas breguices. — Ele nega
com a cabeça tão rápido que o boné que usa quase
cai da cabeça. Estico a mão na mesa e pego a dele,
segurando seus dedos entre os meus. — Você tem
vinte e oito anos ou cinco, meu anjo? Cadê a
atitude? Cadê a decisão?
Caíque ri e balança a cabeça, apertando meus
dedos.
— Não tenho a menor chance com ela. Tatá
sempre namorou uns caras bonitos demais para
olhar para mim duas vezes. — Ergo a sobrancelha
para ele e espero, porque faço questão de ouvir o
que ele não está dizendo em voz alta. Caíque revira
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os olhos e suspira. — Eu sou gordo, Priscila. Tenho


espelho em casa.
— E o foda-se mora onde?
Ele arregala os olhos e morde o lábio tentando
segurar uma risada, esquecendo a cara de
sofrimento que estava fazendo um segundo antes.
Já tenho o discurso todo pronto na cabeça, na ponta
da língua, e posso facilmente repetir tudo que eu
disse para Juliana antes de ela se render aos
encantos do executivo mais rabugento do Brasil.
— Pode ser a miss universo se quiser que eu não
me importo. Se ela se achar bonita demais para
alguém, é uma ridícula e você sai ganhando de não
se envolver com um tipo desses.
Ele balança a cabeça, não levando a sério o que
eu digo, e aperto seus dedos que ainda estão presos
entre os meus para chamar sua atenção de volta
para mim.
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— Você é incrível e se essa Tatá não vê isso, azar


o dela, Caíque. É só uma mulher, não uma deusa
grega, dona do céu e do mar. Se ela não enxerga o
cara maravilhoso que você é, confia em mim,
melhor nem se dar ao trabalho de tentar nada. Mas
você não vai saber se não tentar.
Caíque suspira e meneia a cabeça.
— Relacionamento nenhum sobrevive só com
uma carinha bonita. Você é gato, te pegaria fácil —
digo e realmente quero dizer isso. Em qualquer
outra situação, eu já estaria jogando-me em cima
dele. — Mas não interessa isso se o resto não valer
a pena.
Ele solta minha mão e recosta na cadeira,
pegando o refrigerante que está bebendo. Caíque dá
um longo gole na bebida antes de abrir um sorriso
escancarado.
— Tipo você e o Rafa não estão juntos só porque
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poderiam ser um casal de capa de revista, mas


porque todo o resto vale a pena — diz, e largo um
tapa no braço dele. — Pode deixar que não vou
ficar magoado. Estar apaixonada pelo meu melhor
amigo é um ótimo motivo para não querer me
pegar.
— Você perdeu completamente o juízo…
Não consigo terminar a pistolagem porque Rafael
volta para a mesa e coloca em cima do tampo de
plástico três copinhos cheios com um líquido
alaranjado.
— Do que vocês estão falando? — Rafa pergunta,
e faço uma cara feia para Caíque.
— Teu segredo está a salvo comigo — sussurra
para mim enquanto o loiro dá a volta na mesa. Ele
pisca um olho antes de voltar a falar com o amigo.
— A Priscila estava me dizendo que vai à praia
amanhã.
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Balanço a cabeça para a cara de pau dele,


prometendo a mim mesma que vai ter volta essa
palhaçada. Nunca neguei que gosto do tagarela
implicante. Nem para mim, nem para ele, nem para
ninguém que tenha perguntado. Mas isso não
significa nada. Com certeza não significa que estou
apaixonada por ninguém. Eu acho.
— Ah, ela me disse — o loiro diz, sentando na
cadeira ao meu lado. — Vê se lembra de passar
protetor, seu ombro ainda está descascando da
última vez.
Ele enfia algumas batatas na boca e reclama que
estão frias. Claro que estão, demorou uma
eternidade para voltar com essas bebidas.
— Que isso? — Caíque pergunta, apontando para
os copinhos.
— Tequila. Pega um.
Caíque não tem o hábito de beber, já percebi pelas
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vezes que a gente saiu, mas ele obedece e apanha


um dos shots. Faço o mesmo e Rafael pega o
último com um sorriso escancarado no rosto.
— Eu tive uma semana bosta — diz, erguendo o
copinho, e eu franzo o cenho. Está feliz desse jeito
por que então? — Mas não tem nada melhor do que
ter minhas duas pessoas favoritas juntas. A gente
celebra tudo com tequila — explica para Caíque,
apontando o copo.
Olha o outro todo sentimental. Rafa indica com a
cabeça e viramos o shot ao mesmo tempo. Solto
uma gargalhada com a careta que Caíque faz e sinto
a mão do loiro na minha perna por baixo da mesa
em um carinho delicado.
— Espera, então eu faço parte da rodinha? —
Caíque pergunta, levando a mão ao peito em um
tom exageradamente dramático, e meneio a cabeça.
Por mim tudo bem, juro que não me importo.

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Tenho que concordar com o loiro. Só preciso da


Ju e do Edu aqui para ficar perfeito e, de fato, ter
todas as minhas pessoas favoritas juntas. Esse
companheirismo gostoso faz uma semana bosta
ficar muito melhor e não trocaria isso por nada.
Alcanço a mão do Rafa por baixo da mesa e
engancho meus dedos nos dele.
— Melhor trisal do Rio de Janeiro — o loiro
implica, catando outra batata.
Caíque solta o copo na mesa e leva as mãos ao
rosto, em uma feição de falsa surpresa.
— Isso significa que posso pegar vocês dois
agora?
— Ménage! — grito, vendo algumas cabeças
virando na minha direção, olhando-me como se eu
fosse louca, e Rafael explode em uma gargalhada.
Viro para ele e faço um bico. — Nunca te pedi
nada.
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Pisco os olhos lentamente, olhando-o por entre os


cílios, e ele balança a cabeça, inclinando-se na
minha direção para deixar uma mordida no meu
queixo.
— Ir para a cama com meu melhor amigo?
Infelizmente vou ter que passar — diz, um sorriso
solto no rosto quando sussurra contra meus lábios.
— Quer dizer que se fosse outra pessoa, você
aceitaria? — pergunto em um tom provocativo,
mas verdadeiramente surpresa e deliciada com a
possibilidade. Ele abre a boca para responder, mas
não diz nada. Franze um pouco o cenho como se
parecesse considerar a ideia. Um sorriso descarado
cresce no meu rosto por não ser uma negativa. —
Bom saber, bonitinho.
Ele passa uma mão pelo meu pescoço e me puxa
para um beijo. Ouço Caíque pigarrear, reclamar,
dizer que não serve para ficar de vela, mas Rafael

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não me solta. O loiro me prende em um beijo


longo, lento e morde meu lábio antes de soltar.
— Você vai me enlouquecer, loira.
Não solto meu olhar do dele nem quando Caíque
joga uma porção de batatas na gente.
— É essa a minha intenção, bonitinho. Te
enlouquecer um pouco mais todos os
dias. Consegue lidar com isso?
A resposta dele vem na forma de outro beijo, sob
protestos do amigo que manda a gente arrumar um
quarto. Mas alguma coisa me diz que a gente não
vai conseguir esperar chegar em um.
— Percebi que minha vida era muito monótona
sem essas suas loucuras — sussurra contra a minha
boca antes de virar para dar atenção para o Caíque,
que claramente já desistiu de nós dois e está com a
cara enfiada no celular.

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Apoio no ombro de Rafa para alcançar seu


ouvido.
— Ainda tenho uma lista de loucuras para te
apresentar. Você mal chegou perto de metade do
meu repertório, bonitinho — implico, e ele ri,
enroscando os dedos nos meus. — É mais divertido
fazer loucuras acompanhada.
— Eu odeio vocês, sério — Caíque protesta do
outro lado da mesa e eu paro de me pendurar no
ombro do loiro, voltando para o meu lugar.
Pisco para ele, esperando a resposta para a
pergunta que não fiz, e me inclino na mesa,
enfiando uma batata na boca antes de arrancar o
celular da mão de Caíque, forçando-o a me dar
atenção. Se eu estou na mesa, é obrigatório me
fazer o centro da conversa. Nada de ficar em
telefone não, que ideia.
Sinto a barba por fazer do bonitinho roçar atrás da
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minha orelha.
— Você tem obrigação moral de me apresentar
cada item da lista — sussurra, e sorrio.
Olho de soslaio e ele ergue o dedo mindinho,
fazendo-me soltar uma gargalhada alta.
— Promessa de mindinho é dívida eterna —
aviso, prendendo meu dedo ao seu, e ele concorda
com a cabeça.
Rafa solta um palavrão, balançando a cabeça.
— Eu estou ferrado, não estou? — pergunta, e é a
minha vez de concordar.
Prendo o lábio entre os dentes para não rir e ele
dá os ombros.
— Estou nas suas mãos, doida — diz por fim,
enfiando batata na boca.
Franzo o cenho e inclino a cabeça. Estou
começando a achar que é exatamente o contrário.
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Capítulo 33
A MÚSICA ALTA É UMA BOA distração para
a dor que sinto no meu braço. Por que eu fui
inventar de vir para a academia? Sabia que era uma
ideia ruim, cansado do jeito que estou, ainda mais
com esse mau jeito que arrumei. Sabe o que é isso?
Supino. Quem inventou isso devia levar uma
porrada. Por isso não sirvo para aquela vida de
modelo. Dieta o tempo todo, academia o tempo
todo. Não dá. É estressante demais. É pior ainda
para as mulheres, vi tantas garotas, adolescentes
novinhas, desmaiando nas sessões de foto porque
estavam sem comer. Isso não é vida não. Esse
padrão de beleza doido que inventaram é meio
doentio.
Levanto do aparelho, desistindo de tentar fazer

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qualquer coisa. Não vale a pena a dor que estou


sentindo. Engordei essas últimas semanas porque
enfiei o pé na jaca e matei as malhações
constantemente, mas não o suficiente para eu me
importar.
Semana que vem eu compenso. Ou não. Minha
disposição para cuidar do corpo é limitada. Claro
que gosto de manter a forma, mas não perco o sono
por causa disso. Vou me limitar a uma corrida todo
dia antes do trabalho e é o suficiente.
Começo a andar em direção à esteira, mas estão
todas ocupadas. Parece um sinal do universo para
eu só ir embora e eu obedeço ao universo. Vou até
onde larguei minha mochila e a apanho, decidindo
tomar banho em casa mesmo. Pego meu celular e
vejo algumas notificações na tela. Digito a senha
para desbloquear o aparelho enquanto ando em
direção à saída.

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— Rafa?
Viro em direção à voz e dou de cara com Raissa,
segurando sua garrafinha de água, o short curto
colado no corpo como sempre é. Meio que arregalo
os olhos, surpreso. Tem tanto tempo que a gente
não se vê que nem sei.
— Não sabia que ainda malhava aqui, faz tempo
que não te vejo — comenta.
— Me mudei semana passada — digo. — Andei
sem tempo de aparecer aqui, mas vou trocar de
academia, preciso de uma mais perto da casa nova.
Como vão as coisas?
— Nada de novo. Escuta…
Raissa dá um passo na minha direção e morde o
lábio, parecendo incerta. Toco seu braço e guio até
um canto da academia sem gente passando para
todo lado, onde a música não está berrando tanto.

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— Eu estou para te ligar já tem um tempo, mas


estava sem coragem — diz, recostando na parede.
— Queria te pedir desculpas pelo jeito que foram as
coisas da última vez que a gente se viu. Fiquei com
raiva na hora, mas depois percebi que você fez a
coisa certa.
Concordo com a cabeça.
— Ia ser muita filha da putagem ir para cama com
você já sabendo que queria terminar as coisas —
explico, e ela concorda.
Sei que ficou brava, mas não poderia ter agido de
outra forma. Fico em silêncio esperando que ela
continue, mas Raissa simplesmente olha para mim,
o lábio preso entre os dentes.
— Está tudo bem? Sem ressentimentos? —
pergunto, e ela confirma com a cabeça novamente.
— Amigos?
Ela solta uma risada fraca e balança a cabeça em
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negação.
— Você não existe, Rafa.
Dou de ombros. Mas ué.
— Era só sexo, Rá. Não tem por que parar de se
falar completamente só porque a gente não está se
pegando mais.
— Eu estava gostando de você. Não era só sexo.
Dou um passo na direção dela e deixo um beijo na
sua testa.
— Não, Rá. Você queria morrer quando eu fazia
alguma palhaçada ou começava a falar muito, vivia
dizendo que sou imaturo — digo, e ela solta uma
risada, confirmando. — Não tem como gostar de
mim e não gostar da tagarelice.
Ela meneia a cabeça como se considerasse o que
digo.
— Talvez. Mas gostava da sua companhia.
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— Então nada impede a gente de ser amigo.


Vamos marcar alguma coisa? Já sei, aquele bar que
fomos nem lembro quando. Aquele que você
gostou do hambúrguer. Pode ser? No fim de
semana?
A morena abre um sorriso de lado e confirma,
dando-me um abraço antes de se despedir.
Respiro fundo, abrindo um sorriso também. Sou
péssimo com conflitos, odeio ficar brigado com
alguém. Mesmo que tenha sido coisa boba o que
aconteceu da última vez que a gente se falou, sinto-
me mais leve agora com tudo esclarecido. Sem
necessidade de dor de cabeça.
Olho a hora e vejo que está cedo. Vim direto do
trabalho, então não demorei a chegar aqui. Vou
aproveitar para cancelar a matrícula de uma vez
antes que esqueça e passe os próximos meses
pagando academia sem nem colocar o pé aqui. Já

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aconteceu antes. Ando até a recepção e, enquanto


espero para ser atendido, finalmente consigo ver o
que recebi de mensagem nas últimas horas.
Respondo Caíque, mando um áudio para a minha
mãe prometendo ir visitá-los esse fim de semana e,
perdida no meio das notificações dos infinitos
grupos, vejo uma mensagem da Priscila.

Você está perdendo a mão nas piadas, bonitinho.


Demorei horrores para entender essa.

Distraio-me quando a ruiva que trabalha na


recepção volta com os formulários para serem
preenchidos e, entre risos fáceis e flertes
despretensiosos, consigo encerrar a matrícula. Saio
do prédio e começo a andar em direção ao metrô,
respondendo a mensagem da loira.

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Tem certeza de que foi ruim? Acho que você está


há tanto tempo sem dormir que não está
conseguindo prestar atenção nas coisas mais.
Você está trabalhando demais, Pri. Precisa
descansar.

Não tem tom nenhum de brincadeira nessa


mensagem. As olheiras da loira estão batendo no
queixo já. Essa história de Eduardo e Juliana
brigados está acabando com ela. Que Priscila é uma
ótima amiga, disso ninguém pode duvidar, mas ela
é incapaz de impor limites. Se doa demais para
todo mundo e não cuida de si mesma. Agora está
lá, enfiada em trabalho, morrendo de preocupação
com os amigos, sem nem perceber que está
prejudicando-se por isso.
Ela não responde à mensagem e tenho certeza de
que largou o celular de lado para ficar enfiada com

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a cara no computador. Entro no metrô e vejo as


estações passando, tentando decidir o que fazer.
Não posso, e nem quero, interferir no trabalho dela.
Já basta aquele pai bosta que ela tem tentando
minar a puta carreira que ela construiu. Priscila é
dona de si, sabe o que faz e toma suas próprias
decisões, nem morto que tento me meter nisso. Mas
ela também é devota demais a quem gosta e se
entrega sem reservas. Quando ouço minha estação
ser anunciada, decido não levantar. Puxo o celular e
mando outra mensagem, perguntando se ela quer
pizza.
Desço em São Cristóvão e paro no meio do
caminho para comprar aquele troço de frango que
ela tanto gosta. Nunca vou entender. Sempre
compro pizza de calabresa, mas verdade seja dita,
nunca mais vou conseguir comer sem me lembrar
da gargalhada escandalosa da loira dizendo que

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também adora linguiça.


Quando chego à portaria do seu prédio, ela ainda
não me respondeu e paro por um segundo para
pensar se é uma boa ideia simplesmente invadir o
apartamento dela assim. No último sábado, mesmo
que sob os protestos dela, eu e Caíque a arrastamos
para o shopping, mas ela sabia que estávamos indo.
Hoje, em plena quarta-feira à noite, ela não está
esperando que eu apareça. Aperto o botão do
elevador e, quando chego ao andar certo, toco a
campainha. Espero e nenhuma resposta vem.
Já estou quase indo embora quando ouço o som
dos seus passos vindo até a porta, que é aberta,
permitindo-me dar de cara com seus olhos
cansados, cabelo preso de qualquer jeito e uma
blusa enorme cobrindo-a até metade das coxas.
— Por que você não usou a chave? — pergunta,
virando as costas para entrar no apartamento,

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deixando-me plantado na porta.


Entro e fecho-a atrás de mim, largando minha
mochila no chão antes de segui-la. Antes que me dê
conta, Priscila já desapareceu em direção ao quarto.
— Porque não é minha casa, ué — respondo. —
Vai que eu entro, te assusto e você joga uma panela
na minha cabeça? Se bem que as chances de você
estar perto de uma panela são minúsculas. Sério,
como você sobrevive, Priscila? Não cozinha nada!
Quando finalmente chego ao quarto, vejo-a
jogada na cama com o computador no colo. Priscila
levanta o olhar da tela na minha direção e estica a
mão, pedindo a caixa que carrego. Arrasto o
papelão pela cama e ela abre, catando uma fatia de
pizza, levando-a à boca imediatamente com um
gemido de satisfação.
— Ou pode entrar e dar de cara comigo na cama
com outra pessoa e decidir se juntar à gente — diz,
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a boca ainda cheia. — Você está me devendo um


ménage, não esqueci.
Rolo os olhos para a provocação descarada dela e
tiro os tênis antes de sentar na ponta da cama. Ela
cismou com isso. Enfiou na cabeça e quer porque
quer. Não posso negar que estou intrigado com a
ideia. Na verdade, preciso admitir que estou bem
curioso e interessado. Estico-me para pegar uma
fatia de pizza e dou uma mordida grande,
ignorando a loucura.
— Você está todo suado, consigo ver daqui. Quer
tomar um banho?
Nego com a cabeça, embora queira sim. Só vim
trazer a pizza mesmo e tentar fazer essa doida
respirar por cinco minutos. Tenho que estar no
trabalho cedo amanhã, preciso ir para casa.
— Tira a roupa pelo menos — diz, a seriedade na
sua voz não combinando nada com a cara sapeca
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que ela tem estampada.


Rio e arranco a regata pela cabeça, recebendo um
olhar de aprovação. Ela me olha, sei que está
esperando que eu tire o resto, mas me limito a
arrastar o corpo pelo colchão até estar sentado ao
seu lado.
— Você está com uma cara horrível. Parece um
zumbi daquela série. Acho que se quisesse fazer
figuração, nem ia precisar de maquiagem de tão
cansada que você parece estar.
Priscila tira os olhos do computador e ergue a
sobrancelha na minha direção, levando uma mão ao
peito.
— Essa é a coisa mais bonita que você já me
disse, Rafa. — Solto uma risada e ela dá um tapa
no meu braço. — Você sabe mesmo elogiar uma
mulher.
Estico a mão para ela, que pega, vindo para perto
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de mim. Coloco-a sentada entre as minhas pernas,


as costas apoiadas no meu peito, e Priscila traz o
computador para o seu colo, imediatamente
voltando a digitar alguma coisa. Tiro seu cabelo do
caminho e deixo um beijo no seu pescoço, fazendo-
a soltar um suspiro.
— Não era para ser elogio, doida — sussurro no
seu ouvido, e ela se acomoda um pouco mais. —
Só estou preocupado com você. Precisa descansar
antes que tenha um treco. Se você morrer, aí
mesmo que o Eduardo não vai ter ninguém para
socorrê-lo.
Priscila parece me ignorar por alguns instantes e
continua o que está fazendo, até que solta um
grunhido irritado e salva o arquivo que estava
editando, levando as mãos ao rosto. Delicadamente,
tiro o computador do seu colo e coloco no chão ao
lado da cama, puxando-a para se acomodar nos

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meus braços. Passo um braço ao redor da sua


cintura e trago-a para perto, encaixando-a de lado
no meu colo, sua cabeça em meu peito. Deixo um
beijo casto em seus lábios, arrastando os dedos pelo
seu cabelo, e ela fecha os olhos.
— Briguei com o Edu hoje — diz, e ergo as
sobrancelhas, surpreso. Não tinha brigado com ele
semana passada já? — Eu estou tão cansada e ele
insiste em passar a mão na cabeça daquele filho de
uma… — Ela interrompe a frase e suspira,
afundando a cabeça um pouco mais em mim.
Não tenho ideia do que ela está falando, mas me
limito a apertá-la um pouco mais.
— Quando você diz que brigou com o
Eduardo…?
— Significa que eu gritei feito uma louca e ele me
olhou sem saber o que fazer — diz, e eu rio. Isso
faz sentido. Não sei por que, mas não consigo
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imaginar Eduardo levantando a voz. Ele dá medo o


suficiente sem fazer isso. Fora que adora a loira,
duvido que a tratasse mal de qualquer forma.
Sinto-a relaxar aos poucos nos meus braços. Em
poucos minutos, vejo a loira completamente
apagada no meu colo. Levanto com cuidado,
colocando-a no colchão, e solto uma risada quando
a blusa que veste levanta e mostra a maior calcinha
que já vi na vida cobrindo sua bunda inteira. Como
pode essa mulher ficar gostosa de qualquer jeito?
Toda arrumada enfiada naqueles vestidos curtos
que a deixam com uma bunda maravilhosa ou
jogada na cama parecendo um zumbi, não importa.
Priscila é um anjo e um demônio na Terra, o
paraíso e a perdição em forma de uma mulher só.
Ela me enlouquece com uma facilidade que nunca
achei que fosse possível. Vive repetindo que sou
um bebê, mas se soubesse o que quero e como a

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quero, não diria mais isso. Não é seu corpo, é o


jeito que ela joga o cabelo e me olha, desafiando-
me o tempo todo. Exigindo que eu seja nada além
do que sou. Não me faço de santo, já tive
relacionamentos demais para a idade que tenho,
mas acho que nunca me senti tão à vontade. Priscila
me provoca, atiça, ri da minha tagarelice, implica
com a inocência que acredita que eu tenho, mas
nunca me pediu para mudar. Nunca pediu que me
comportasse como o adulto que sou, nunca
reclamou das minhas brincadeiras e se juntou a
mim mais de uma vez na cantoria enquanto
cozinho, desafinada do jeito que é.
A única coisa que a loira exige de mim é
honestidade, total e absoluta. É a única regra entre
nós e uma que estou mais do que feliz em seguir,
porque sei que ela faz o mesmo. Priscila não se
esconde, não finge, não vive cercada de joguinhos

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cansativos que me forcem a tentar ler sua mente.


Ela me diz o que quer, como quer. Sei o que
esperar, sei o que vou ter. Sei que, desse jeito
desbocado e independente dela, Priscila realmente
gosta de mim. Ela não fez questão nenhuma de
fingir nada diferente disso e é tudo que preciso.
Não por ela, mas por mim.
Não estou interessado em casar e ter filhos mais
do que ela está. Gosto do meu espaço, gosto da
minha liberdade, gosto de saber que posso
simplesmente vir atrás dela se ficar com saudades e
isso não vai ser um problema. Estabelecemos nosso
ritmo, nosso jeito e, de uma forma completamente
atípica, nos conectamos à nossa maneira. Priscila
não foi feita para ser presa a uma pessoa e não
tenho qualquer intenção de prendê-la. Ela merece o
mundo e o mundo merece tê-la.
Parece que foi a uma vida atrás que estávamos

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almoçando e conversando abobrinha, que ela estava


maldando cada frase que dizia, coisa que faz até
hoje. Que estávamos dividindo histórias sobre as
pessoas com quem estávamos saindo. Não quero
que isso mude. Foi isso que me fez gostar tanto
dela. Priscila continua sendo minha melhor amiga,
a pessoa em quem mais confio e com quem sempre
quero dividir tudo. Sei que isso é bem mais do que
só uma amizade, mas não quero que a gente perca
essa essência.
O que me atraiu tanto nela foi saber que posso
viver minha vida como bem entender e, no fim do
dia, vamos estar aqui um para o outro. Que ela vai
brigar comigo quando eu estiver fazendo besteira e
me defender feito uma leoa como faz com todos
que gosta. Que vamos cair na cama, ou em
qualquer outro lugar que ela achar apropriado fazer
sexo, e o que a gente tem, o que a gente faz, não se

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compara a nenhuma pegação com outra pessoa


aleatória. É só sexo fora daqui e só sexo é bom para
caramba. Mas com a gente é mais. Sempre vai ser
mais.
Ela é a minha prioridade e Priscila pode não ter
dito em voz alta, mas eu sou a dela. Isso é o
suficiente. É tudo que eu quero. Olho para ela, mal
arrumada na cama com o cabelo cobrindo o rosto, e
fica entalada na garganta a sugestão do que a gente
poderia ser. Do que quero que a gente seja. Do tipo
de relacionamento que seria perfeito para nós dois.
Abaixo a cabeça e deixo um beijo em seu rosto
antes de puxar o lençol para cobri-la. Sinto sua mão
tocar meu braço quando começo a levantar e vejo
seus olhos entreabertos encarando-me.
— Vai tomar banho e vem tagarelar do seu dia.
Me acorda em vinte minutos — murmura
sonolenta, arrancando uma risada minha.

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Vou acordar sim, pode deixar.


— Te vejo amanhã? — pergunto, e ela balança a
cabeça, negando.
Priscila dá um tapinha no colchão e afunda a
cabeça no travesseiro de novo. Mordo o lábio para
segurar outra risada. O único momento na vida que
essa mulher fica manhosa é com sono e é tão
diferente do que ela é normalmente que sempre me
surpreende. Obviamente, ela nega até a morte
quando digo que isso acontece.
— Preciso de roupa limpa para trabalhar amanhã,
doida — explico, verdadeiramente considerando
usar a mesma de hoje só para poder passar a noite
aqui.
—Tem uma camisa sua na área de serviço — diz,
os olhos fechados. — Taca na máquina e na
secadora que dá para usar amanhã. Se quiser
passar, tem ferro também. Mas você sempre anda
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parecendo que acabou de tirar a roupa de uma


garrafa mesmo, nem vai fazer diferença.
Franzo o cenho tentando lembrar o motivo de ter
uma camisa minha aqui. A última vez que troquei
de roupa neste apartamento têm umas duas semanas
e foi porque derrubei suco. De uva.
— Sério que a blusa ainda está suja, Priscila? —
pergunto, a implicância solta na minha voz. Capaz
de o tecido ter manchado depois desse tempo todo.
Priscila abre os olhos e me encara com uma
sobrancelha arqueada.
— Olha para a minha cara e me diz se você acha
que vou lavar suas roupas.
Não, mas não mesmo. Deixo um beijo nos seus
lábios, surpreendendo-me com a simplicidade do
toque agora. Sem desejo descontrolado, sem tesão.
Só… carinho.

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Vou até a área e taco todas as peças que estou


vestindo na máquina antes de ir tomar banho.
Como imaginei, a blusa que derramei suco está
manchada, nem por um milagre a marca vai sair.
Mas usando a secadora dá tempo de repetir a blusa
que usei hoje. Quando volto para o quarto, livre de
todo o suor da academia, encontro Priscila apagada
na cama, toda descoberta, a bunda para o alto.
Parece que ninguém vai acordar em vinte minutos
aqui.
Deito do seu lado e ela rola no colchão, a cabeça
indo ao meu ombro. Suspira e se remexe um pouco,
resmungando alguma coisa que não consigo
entender.
— Quer me contar o que está te deixando tão
estressada assim? — pergunto quando ela apoia o
rosto na curva do meu pescoço. Sinto-a esfregar o
nariz e soltar um suspiro depois de se acomodar

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mais um pouco.
— Você está com um cheiro bom. — Sua voz sai
abafada com a sua boca colada na minha pele e a
aperto mais um pouco. Não sei se reclamo de ela
estar mudando de assunto ou se só aproveito o
momento raro de ela fazer um elogio
despretensioso assim. Não estou acostumado com
as doses de carinho esporádicos que ela vem dando
ultimamente. Não posso dizer que não gosto, seria
a mentira mais deslavada do século. Eu adoro.
— Essa é a magia de tomar banho — brinco,
deixando um beijo no topo da sua cabeça. —
Esqueci de te contar. Estavam falando horrores de
você hoje lá no trabalho. Falando bem, no caso.
Acho incrível como todo mundo morre de amores
pode você naquela empresa. Tirando o Renato, mas
ele odeia todo mundo, não conta. Não dava para ser
diferente também, você é maravilhosa. Enfim, a

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Marcela estava precisando resolver um troço lá e…


— Você é tão diferente dele.
A voz de Priscila não é nada além de um sussurro
contra meu pescoço. Franzo o cenho e espero,
confuso. Ela levanta o rosto e recosta a testa contra
a minha, suspirando.
— Você perguntou o que está me deixando
estressada.
— Achei que fosse coisa de trabalho.
Ela meneia a cabeça e acaricio seu braço,
esperando que continue. Estou é surpreso de ela ter
começado a falar do nada, normalmente é um parto
para conseguir arrancar qualquer informação. Antes
mesmo que ela explique, eu sei de quem ela está
falando.
— Vinicius.
Endireito a postura e a aperto um pouco mais.

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— Eu era uma garota idiota quando me envolvi


com ele, sinceramente não sei o que eu tinha na
cabeça. É só… Vocês são tão diferentes.
— Vou considerar isso um elogio — brinco, o
cenho ainda franzido, desesperado para fazer uma
piada e tirar esse semblante pesado do rosto dela.
Funciona, mais ou menos, porque Priscila dá uma
risadinha e balança a cabeça. Ela apoia o rosto no
meu peito e sinto seu corpo relaxar contra o meu.
— Não sei qual a história de vocês, loira, não sei
o que aquele babaca te fez. Só sei que ele te
machucou e prometo que nunca vou fazer isso.
Ela balança a cabeça concordando e eu quero
morrer um pouco. Desespera-me vê-la vulnerável
desse jeito e não poder fazer nada para ajudar.
Espero uma piada, uma insinuação de duplo
sentido, um comentário sexual, mas nada vem. Isso
é tão atípico que nem sei lidar.
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— Um dia eu te conto — murmura, e concordo


com a cabeça.
Ficamos em silêncio por alguns instantes até
começar a me desesperar não saber o que fazer.
Começo a falar aleatoriamente sobre qualquer coisa
que posso pensar. Nem consigo entender como
minha mente funciona, mas começo falando da
academia e termino falando de um vídeo que assisti
na hora do almoço. Ouço algumas risadas aqui e ali
contra meu pescoço.
— Sabe, quando te conheci achei que você fosse
uma criança imatura, que a gente não ia passar de
amigo de balada. Era divertido te deixar
constrangido com tanta facilidade. — Ela levanta a
cabeça e me olha por um segundo antes de abrir um
sorriso travesso. — Você foi uma surpresa boa,
Rafa. Mas ainda é divertido te deixar sem graça.
Rio e puxo-a para um beijo.

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— Seu mal é sono, doida. Vai dormir.

Quando meu despertador toca, abro os olhos para


encontrar a cama vazia. Antes mesmo de levantar,
vejo Priscila entrar no quarto, toalha enrolada na
cabeça, completamente nua.
Ontem, depois que saí do banho, em poucos
minutos ela já estava morta e apagada na cama,
simplesmente deitei ao seu lado. Todo contato
físico que tivemos foi eu ter acordado no meio da
noite com a bunda dela colada em mim, meu braço
ao redor da sua cintura. Só me acomodei mais,
prendendo suas costas ao meu peito. Então nem me
surpreendo quando mal consigo tirar os olhos do
seu corpo e me remexo no lugar, sentando na cama
para admirar a vista.
— Preciso ir mais cedo — diz, inclinando para
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pegar alguma coisa na última gaveta do armário.


Obviamente meu corpo reage de imediato com a
visão dela com a bunda empinada na minha
direção. — Almoço?
Priscila começa a se vestir e respiro fundo para
evitar ir até ela e jogá-la na cama. Tudo bem que
não é pelo corpo dela que estou aqui, mas não sou
de ferro. Ela é gostosa demais para eu ser imune.
Cato meu celular e enfio a cara na tela para parar de
babar na loira.
— Vou almoçar com a Juliana na verdade. Quer
vir com a gente? —pergunto.
Ela não responde e levo alguns segundos para
perceber o completo silêncio do cômodo. Levanto
os olhos na sua direção e encontro Priscila de pé
encarando-me com as mãos apoiadas no quadril.
Consigo ver a cara de brava, mas meu olhar se
perde na calcinha de renda azul que foi tudo que ela

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vestiu até agora.


—Você vai o quê? — Seu tom é uma acusação,
não uma pergunta.
Ah, merda. Que que eu fiz?

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Capítulo 34
CAÍQUE É ALGUNS ANOS MAIS velho que eu
e isso parece ter feito com que ele decidisse que
precisa cuidar de mim. A vida inteira foi assim,
desde pirralhos correndo pela rua, ele estava pronto
para se meter em qualquer situação. Nunca fui bom
em briga, nem sei se dou conta de sair na mão com
alguém, nunca tentei. Odeio, simplesmente odeio
qualquer tipo de violência, mesmo não podendo
negar que algumas pessoas às vezes merecem uns
tapas sim.
A questão é que Caíque sempre esteve ali e está
até hoje. Não dou um passo sem que ele saiba, a
gente divide coisa até demais. Informação demais.
Ele espirra e me manda mensagem, é meu irmão de
alma. Podemos passar horas jogados em frente à

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televisão jogando videogame como dois


adolescentes até hoje e é o melhor programa do
mundo, principalmente agora que parece ser tão
fácil fazer com que Priscila faça parte disso.
Ele é meu melhor amigo, meu irmão, nada no
mundo ficaria entre nós dois, não permitiríamos
isso. Consigo ver na relação de Priscila e Juliana
exatamente a mesma coisa. Elas se adoram e a loira
é a pessoa mais generosa que conheço com seus
amigos. Morreria por eles. Faria qualquer coisa por
Ju. Duvido que permitiria que qualquer coisa ou
qualquer pessoa ficasse entre elas.
Então aqui, sentado na cama dela, encarando-a
vestida com nada além de uma calcinha
ridiculamente fina, o cabelo molhado caído por
sobre os ombros, seios redondos expostos com a
marquinha deliciosa de biquíni, com uma carinha
brava, tudo que consigo sentir é o mais puro

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desespero.
Abro e fecho a boca tantas vezes que nem sei. Ela
está muito puta porque vou almoçar com a Ju. Sei
que Priscila vai comer meu fígado antes de deixar
qualquer coisa interferir na relação com a amiga,
então sim, desespero é a única coisa que sinto.
— Você vai almoçar com a Juliana — repete pela
terceira vez, e me limito a balançar a cabeça. —
Inacreditável.
Ela murmura a última parte e vira de costas para
mim, voltando a mexer no armário.
Arrasto-me pelo colchão enquanto ela pega as
peças de roupa que vai vestir e joga nas costas da
cadeira uma calça e uma camisa com mais botões
do que um vestido de noiva. Fico de pé atrás dela e
passo uma mão na sua cintura, subindo e descendo
a palma em sua pele. Tiro seu cabelo do caminho e
beijo seu pescoço.
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— Você está com ciúmes — digo no seu ouvido,


e ela bufa.
Tudo bem, pode ser que seja um movimento
suicida, mas não sei o que fazer. Não existe
qualquer motivo para isso e Priscila não é o tipo de
pessoa que fica incomodada de manter contato com
qualquer um com quem já ficou, então não sei o
que está acontecendo.
— É claro que estou com ciúmes, Rafael — diz
com uma voz seca que não reconheço.
Enlaço sua cintura e puxo-a para mim,
encaixando na sua bunda mal coberta, tentando
com tudo que posso esquecer que estou sem roupa
esfregando-me nessa mulher que me tira dos eixos.
O perfume dela me embriaga por um segundo
quando esfrego o nariz no seu pescoço.
— Por quê? — pergunto.
Priscila resmunga qualquer coisa e sai dos meus
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braços, começando a andar em direção ao banheiro.


Antes que eu tenha a chance de ir atrás dela, a loira
volta, jogando o cabelo para o lado com uma cara
de pura insatisfação.
— Isso é uma puta sacanagem — reclama, e
franzo o cenho. — Uma puta falta de respeito.
A loira vira de costas de novo, pronta para sair
andando, mas dessa vez eu a alcanço e puxo para
meus braços.
Prendo Priscila a mim, enganchando os dedos em
seu cabelo, e ela suspira quando tomo sua boca em
um beijo. Não adianta, mesmo no meio dessa
confusão, meu corpo reage ao gosto dela, ao seu
calor, a esse par maravilhoso de seios colado no
meu peito. Nem estou vestindo nada, então é
impossível disfarçar a ereção que brota sem que eu
possa fazer nada. Encaixo as mãos na sua bunda,
passando os dedos por dentro do fio minúsculo

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cobrindo seu quadril.


— O que é uma falta de respeito? — pergunto,
andando de costas até sentar na beira do colchão e
trazê-la para mim, fazendo-a montar no meu colo.
Priscila suspira contra a minha boca e recosta a
testa na minha. Parece que passou a explosão de
irritação. Encaro seu rosto e ela parece
verdadeiramente chateada. Não estou entendendo
nada.
— Eu estou há quase duas semanas tentando
marcar alguma coisa com ela e a Ju insiste que está
superocupada com o trabalho — a loira diz. — Mas
para almoçar com você ela arruma tempo?
Espera. O quê?
— Você está com ciúmes da Juliana — constato.
Não de mim. Ela não está chateada porque eu vou
almoçar com a Ju, está chateada porque a Ju vai

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almoçar comigo e não com ela. Não sei nem o que


faço primeiro, não sei se suspiro de alívio ou se rio
do absurdo, então acabo fazendo os dois de um
jeito todo errado.
— Acabei de dizer que sim — protesta. — Bela
amiga que ela é, me trocando assim por qualquer
um.
— Obrigado? — respondo em meio a um riso.
Pri dá um tapa de leve no meu braço.
— Você entendeu. Ela é minha melhor amiga e
está me evitando. O que diabos está acontecendo?
Paro de rir porque entendo a situação. É
inevitável brigar com seu melhor amigo, Caíque e
eu já tivemos nossa cota. É uma sensação muito
bosta sentir que o irmão que você escolheu para a
vida não te quer por perto, então entendo a
chateação da Pri. Não sei o que responder, só
perguntando para Juliana mesmo.
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— Bom, pelo menos não é comigo que você está


puta, estou no lucro — digo para tentar animar o
clima e arrancar uma risada dela, mas Priscila só
descola a testa da minha e inclina a cabeça.
— Por que eu estaria puta contigo? — pergunta.
Ela franze o cenho quando não respondo nada e
espera, mas agora só parece ridículo dizer em voz
alta, então só continuo olhando para ela. — Achou
que estava com ciúmes de você. Não tenho motivo
para ter ciúmes de você, Rafa.
Abro a boca e nem sei o que responder. Tem
razão, não tem mesmo. Dou graças aos céus por
isso. Não quero essa dor de cabeça, adoro isso que
a gente tem, tão livre e despreocupado, tão gostoso.
Mas o jeito que ela fala isso dá a entender que ela
simplesmente não se importa. Isso machuca.
Remexo no lugar para tirá-la do meu colo, mas
Priscila segura meu rosto.

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— Ei.
Volto meu olhar para o dela e encontro seus olhos
confusos encarando-me. Tentando me analisar.
— Mudou alguma coisa? — pergunta, e franzo as
sobrancelhas. — Tem mal duas semanas que você
disse que gostava de mim. Mudou alguma coisa?
Nego com a cabeça. Se mudou, foi porque o que
sinto por ela só faz crescer. Não é que eu goste
dela, já estou completamente perdido, doido por
essa mulher.
— Então não tenho motivo para ter ciúmes, Rafa
— constata, dando os ombros. — Eu quero você,
você me quer. É tudo que me importa. O que você
faz quando não está comigo, não me interessa. Se
eu achasse que você não se importa comigo tanto
quanto me importo com você, talvez, mas não é o
caso.
— É por isso que você está surtada com a Ju —
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aponto, e ela concorda com a cabeça. Porque


Priscila dá a vida pela amiga e está sentindo-se
abandonada. Faz sentido.
Enlaço sua cintura com firmeza, colando seu
corpo no meu. Prendo os dedos em seu cabelo e a
puxo para mim.
— Você me quer — murmuro contra seus lábios,
sem conseguir esconder a surpresa na minha voz, e
Priscila arrasta as unhas pelo meu peito antes de
descer os dedos, envolvendo minha ereção que não
cedeu desde que ela encaixou essa bunda gostosa
no meu colo.
— Para de se fazer de doido, garoto. Nunca menti
para você. É claro que quero — murmura,
encostando a boca na minha. Abro a boca para
responder, mas ela prende meu lábio entre os
dentes. — Vai mesmo ficar pescando elogios,
bonitinho? — provoca, repetindo a mesma frase

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que usou quando deu a entender que se sentia


atraída por mim pela primeira vez. Pouco mais de
dois meses atrás, mas parece outra vida.
Tomo sua boca na minha, prendendo uma palma
na sua bunda, e gemo contra seus lábios quando ela
aumenta a velocidade do seu toque em mim. Uma
década de experiência e ainda assim Priscila
consegue me masturbar melhor do que eu faço.
Desço a boca para o seu pescoço e ela inclina a
cabeça, dando acesso. Lembro-me da última vez
que ficamos juntos, do comentário dela sobre
mordidas e não consigo evitar. Quero devorá-la. É
exatamente o que faço. Raspo os dentes na sua pele
e ela ofega. Ela gosta. Repito o gesto, mas me
perco quando ela aperta meu pau e a mordida em
seu pescoço sai bem mais forte do que eu
planejava.
Ela geme. Alto, solta, descontrolada. Ela me

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enlouquece. Prendo a mão no seu cabelo com força


e Priscila deixa meu nome escapar da sua boca
quando a mordo no ponto certo atrás da orelha.
— Mais forte? — pergunto no seu ouvido,
descendo a mão até alcançá-la por cima da
calcinha. Ela balança a cabeça, meio negando, meio
confirmando, os olhos fechados, lábio preso entre
os dentes. Aumento a pressão dos dedos sobre seu
clitóris e ela rebola na minha mão.
Puxo-a mais para perto e a loira apoia a cabeça no
meu ombro. Solto um gemido quando ela tira a
minha mão e leva meu pau para onde meus dedos
estavam. Priscila se esfrega em mim e, mesmo com
a fina calcinha entre nós, consigo senti-la molhada.
Cacete.
Cravo os dedos na sua bunda e desço a boca ao
seu seio enquanto ela continua a tortura,
esfregando-se em mim. Minhas mãos percorrem
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seu corpo e ela me arranha, suas unhas passando


por minhas costas tirando o resto de controle que
tenho. Preciso estar dentro dela. Agora.
Quero morrer só de lembrar que ela guarda a
caixa de camisinha no banheiro. Não quero
levantar, não quero que ela saia daqui. Não quero
que pare de rebolar no meu colo.
Priscila pega minha mão que está pousada em seu
seio e engancha os dedos nos meus, arrastando
minha palma por seu corpo até alcançar sua
calcinha. Ela usa meus dedos para afastar a renda
ridiculamente fina para o lado. Acho que vai
conduzir meus dedos para dentro dela, mas solta
minha mão, alcançando novamente meu pau.
— Cacete, loira — praticamente rosno contra seu
pescoço quando Priscila volta a se esfregar em
mim, meu pau ficando imediatamente molhado pela
sua boceta quente.

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É tão malditamente difícil resistir à vontade de


arrumá-la no meu colo e enterrar nela. Priscila não
colabora e rebola, fazendo a cabeça roçar na sua
entrada. Tão molhada, tão fácil de deslizar.
— Pri… — Levo a boca ao seu ouvido em um
sussurro desesperado, implorando que ela pare,
porque eu não consigo. Não consigo tirá-la de cima
de mim, não consigo levantar. Quero mais dela.
Preciso de mais.
— Camisinha. Você não transa sem camisinha —
ela sussurra no meio de um gemido. — No
banheiro. Rafa…
Ela joga a cabeça para trás e levo a boca ao seu
seio, chupando e mordendo enquanto prendo-a a
mim.
Não transo sem camisinha.
Repito a frase mentalmente enquanto beijo seu
pescoço e sinto-a se enroscar cada vez mais em
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mim.
Não transo sem camisinha?
— Preciso de mais, bonitinho — a loira geme no
meu ouvido, arrastando as unhas pelo meu braço.
Se ela continuar esfregando-se em mim assim é
capaz de eu gozar antes de conseguir levantar para
pegar qualquer coisa. Sei que Priscila não é louca
irresponsável, sei que se protege. Minha razão
óbvia de nunca na vida transar sem camisinha é
minha saúde, mas sei que não preciso me preocupar
com isso agora. A gente já conversou sobre isso e
sei que não tenho qualquer razão para hesitação.
Não é isso.
Cada coisa nova com Priscila me faz querer mais
dela. Não sei se vou conseguir senti-la por inteiro e
voltar ao normal depois. A relação de confiança
estabelecida para isso é imensa, coisa que não fiz
sequer com a minha ex com quem tive minha
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primeira vez, com quem fiquei por quatro anos.


Nunca transamos sem camisinha, nunca fiquei nem
tentado a isso. Aqui, agora, com a loira
descaradamente gemendo meu nome, olhos
fechados, deixando meu pau molhado enquanto se
esfrega em mim, é como se eu não tivesse outra
escolha a não ser tomá-la. Como se não tivesse
outra coisa no mundo que eu quisesse mais.
— Para de me torturar, Rafa — sussurra, as unhas
cravadas em mim.
— O quanto você gosta dessa calcinha? —
pergunto, sem nem conseguir prestar atenção em
nada mais.
Ela ri contra meu pescoço.
— É minha favorita — murmura.
— Desculpa.
Ouço-a perguntando pelo que e a resposta vem

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quando arrebento a fina renda, tirando a peça


minúscula do seu corpo antes de posicioná-la
perfeitamente em cima do meu pau.
— A gente vai mesmo fazer isso? — pergunto em
seu ouvido, prendendo as duas mãos nas suas
coxas, sem nem conseguir pensar direito com meu
corpo pegando fogo como está.
— Não lembro qual foi a última vez que transei
com alguém sem camisinha, faz anos — murmura,
remexendo-se no meu colo o suficiente para que
meu pau comece a deslizar dentro dela. Tento dizer
que não estou preocupado com isso, mas tudo que
sai da minha boca é um palavrão quando sinto o
quão quente ela está. — É diferente, Rafa.
Penetro-a de uma vez só, o gemido dela
misturando-se ao meu. Não consigo deixar que
Priscila tome seu tempo, que escolha nosso ritmo,
não dá. Prendo-a a mim e a jogo de costas na cama,

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enroscando suas pernas na minha cintura. Tento me


mover devagar, mas é impossível e quase
imediatamente começo a estocar, rápido, forte,
duro, completamente descontrolado. Minha mão
vai ao seu cabelo e enrolo seus fios, puxando de
modo a liberar seu pescoço para mim, minha boca
tomando sua pele em mordidas e chupadas. Priscila
me arranha, fundo. Sinto a pele arder e prendo seu
lábio entre meus dentes, estocando com a mesma
ferocidade com que suas unhas me atacam.
É impossível ir devagar, não com ela tão quente e
tão molhada contraindo ao meu redor, rebolando
debaixo de mim, acompanhando meus movimentos.
Quando ela geme meu nome, esqueço de tudo.
Sei com o que Priscila está acostumada, sei como
ela encara sexo. Forte, rápido e sem significar nada.
Prometi a mim mesmo que nunca a trataria assim,
que não importava quantas vezes ela pedisse, não ia

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fodê-la como se fosse qualquer uma, porque ela não


é. Nunca foi. Nunca vai ser. Não é o tipo de ritmo
que costumo usar, não é do que eu gosto, mas eu
preciso de mais dessa mulher.
Saio dela, ouvindo um protesto escapar da sua
garganta, que dura apenas um segundo antes de eu
me ajoelhar na cama e puxá-la para mim, tomando
sua boca em um beijo. Nosso beijo profundo, lento.
— Empina essa bunda gostosa para mim, loira —
peço contra a sua boca, e vejo seus olhos se
arregalarem por um segundo em pura surpresa
antes de permitir que eu a vire de costas para mim,
apoiando-a em seus joelhos. Puxo um travesseiro e
inclino-a sobre ele. Abaixo e deixo uma mordida na
sua bunda antes de me posicionar atrás dela,
enterrando em uma estocada só.
Não quero e nem vou foder Priscila como se fosse
qualquer uma, mas nada me impede de fodê-la

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como a mulher por quem estou enlouquecidamente


apaixonado.
A loira geme, mordendo o travesseiro para abafar
os gritos que ficam cada vez mais altos conforme
me movo. Estou tão perto de gozar que não sei
como ainda não desabei em cima dela. Sinto-me
um adolescente descontrolado, perdido, mas de
alguma forma consigo parar quando a loira geme
forte, dizendo-me que vai gozar. Trago-a de volta
para o meu colo, de frente para mim, encaixada.
Ela está suada, com o rosto vermelho, cabelo
revolto, que prendo em meus dedos antes de puxá-
la para mim e colar minha boca no seu ouvido.
— Preciso te ver gozar. Rebola para mim, minha
loira.
— Você não era assim, bonitinho — murmura,
mas faz o que pedi.
Ela sobe e desce no meu colo e não achei que
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fosse possível senti-la ainda mais fundo, mas sinto.


— Você disse a mesma coisa terça no
estacionamento da empresa. Puta que pariu.
Não consigo terminar a provocação quando sinto
a loira contrair ao meu redor, o rosto em uma
expressão de puro prazer enquanto goza. Não
demora mais do que algumas estocadas para que eu
a acompanhe.
Sinto o coração acelerado da loira quando ela
apoia a cabeça no meu pescoço, colando o peito no
meu, e enlaço sua cintura para fazer com que ela
fique mais perto. Abraçados, deito na cama e a
trago comigo, que deita a cabeça no meu peito.
— Foi bom para você? — Priscila pergunta com
um sorriso descarado no rosto, a provocação
debochada na voz. — Sei que é difícil gozar na
primeira vez, princesa.
Solto uma risada e beijo seus lábios já inchados
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por todas as mordidas.


— Tenho certeza de que você vai cuidar
direitinho de mim da próxima vez — implico de
volta, deixando uma mordida no seu queixo.
Priscila ri e inclina a cabeça para mim.
— Próxima vez, é? — pergunta, um sorriso tão
escancarado no rosto que sei que estou perdido na
sua mão.
Não sei fazer isso. Como se combina com alguém
que daqui em diante não vão mais usar camisinha?
Precisa conversar ou só acontece naturalmente?
Porque não tem a menor chance de eu usar nada
que me impeça de ter seu corpo por inteiro depois
de senti-la como foi hoje.
— Quer que tenha próxima? — pergunto.
— Sabe, não sei se gosto dessa história de você
me fodendo, bonitinho — ela diz, encarando-me

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com atenção e divertimento nos olhos. — Acho que


vou precisar que você faça isso de novo para eu
tentar decidir. Aliás, vou precisar que você faça
muitas coisas para eu decidir do que gosto mais.
Meu sorriso espelha o dela e puxo sua boca para
mim.
— Achei que gostasse de ser fodida — implico,
mas a pergunta está clara na minha voz. Ela nunca
piscou antes de dizer isso, na verdade sempre fez
questão de deixar clara a preferência pelo que
nunca fiz.
Priscila me converteu ao mundo de fazer sexo em
público. Depois daquela loucura na Feira de São
Cristóvão há algumas semanas, terminamos nos
pegando no estacionamento da empresa na terça-
feira quando ela estava indo embora, tarde da noite.
Eu tirei folga naquele dia porque o setor inteiro foi
fechado, mas ninguém disse o motivo. Tenho até

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medo de tentar descobrir. Quarta de manhã estava


tudo normal, como se nada tivesse acontecido.
A questão é que aproveitei o dia para colocar
minha bagunça em ordem. Terminei de
desempacotar, fui para a academia, passei no
mercado. Foi um dia produtivo. Quando bateu seis
da tarde e vi a mensagem da Priscila no meu
celular, soltei uma risada com a cara de pau da loira
pedindo-me para esperá-la sem roupa na cama.
Nada contra a ideia, de jeito nenhum, estava mais
do que feliz em obedecer, mas daí veio outra
mensagem algumas horas mais tarde com uma
reclamação sobre Eduardo, dizendo que ficaria
presa até tarde.
A doida já apareceu na minha porta e já me
convocou — essa é a palavra, não foi um pedido,
foi uma ordem — para aparecer na porta dela fácil
depois das dez da noite em dia de semana, então se

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ela falou que ficaria tarde, é porque era tarde


mesmo. Priscila tem trabalhado demais, só quis
fazer uma coisa legal por ela para a loira não
explodir em uma bola de fogo e morrer de estresse.
Levei pizza, não imaginei que a gente fosse
terminar transando no capô do carro.
Não é uma reclamação. Nunca fui um cara de
muitas aventuras assim e só a ideia dessas
transgressões me fazia ficar desesperado. Mas é
impossível não sucumbir às loucuras dela.
Confesso que da primeira vez fiz por ela, para
agradá-la, mas tomei gosto pela coisa. Por
escapadas aqui e ali durante o dia, no banheiro, sala
de reuniões, almoxarifado. Nem sempre termina em
sexo, às vezes um beijo apaixonado é tudo que
roubo dela antes de seguirmos o dia de trabalho.
Priscila não gosta de monotonia e me contagiou
com isso. Agora tudo que eu quero é explorar o

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mundo inteiro. Com ela.


Então só continuo olhando para ela esperando
uma explicação. Ela gosta de ser fodida. Sempre
implica e joga na minha cara com essa petulância
que só ela tem que adora sexo rápido, duro, bruto.
Coisa que nunca consegui dar porque não é só
sexo. Não é só meu pau dentro dela, sou eu inteiro.
Não quero que seja rápido e sem significado. Só
que hoje não foi. Mesmo mais bruto que o normal,
ainda foi a gente, ainda teve o nosso gosto.
— Vai me dizer que você realmente está quebrada
e não quer mais ser fodida até esquecer seu nome?
— repito a implicância, confuso quando ela se
limita a prender o lábio entre os dentes e me
encarar.
A loira suspira e revira os olhos.
— Claro que eu quero. Claro que eu gosto —
responde — Mas eu gosto do que a gente faz,
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bonitinho. Gosto do nosso ritmo, gosto de como a


gente é. Não quero que seja igual a qualquer foda
com qualquer pessoa, porque não é. Sexo por sexo
eu arrumo em qualquer lugar. Você também.
Concordo com a cabeça. Ela tem razão. Puxo-a
para um beijo, decidido a tomá-la de todas as
formas que eu puder até descobrir o quanto dela
realmente posso ter. Porque eu quero tudo. Quero
tudo que a gente puder ser. Do nosso jeito. Com o
nosso gosto. No nosso tom que é tão diferente de
qualquer outra coisa que eu tive, tão pouco
tradicional. Nada de diferente do que funciona tão
bem para nós dois. A verdade é que quando estou
com ela, não quero mais ninguém. Sei que o
contrário também é verdade. A gente funciona
muito bem juntos, de um jeito que não dá para
negar, e eu nunca imaginei que fosse possível. Isso
é tudo que importa.

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— Você não disse que precisava ir cedo hoje? —


pergunto, escovando os lábios nos seus, arrastando
a mão calmamente por suas costas.
Não importa como a gente se pegue, o quão forte
seja, não tem nada que eu goste mais do que ter
essa mulher nos meus braços e explorar cada
pedaço do seu corpo. Então faço com o que ela
deite de costas no colchão e começo a percorrer sua
pele com a boca, devorando cada centímetro seu.
— Vou tomar café com a Ju — diz em meio a um
suspiro quando chupo seu mamilo. — Ela me
trocou por você, agora vai esperar pelo mesmo
motivo.
Sorrio contra sua barriga no caminho até o meio
das suas pernas.
— Prometo fazer o atraso valer a pena.

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Capítulo 35
— LOIRA?
Olho para Rafael, que passa os dedos pelo lábio, e
mordo o meu enquanto termino de fechar a saia.
Jesus, que visão deliciosa esse homem todo
arranhado desse jeito, cabelo desgrenhado e
pescoço vermelho. Indico com o queixo para que
ele fale e Rafa faz o bico que usa quando está
pensando.
— A gente não usou camisinha.
Concordo com a cabeça e vou para onde ele está,
sentando de frente para ele no colchão.
— Duas vezes — implico para tentar tirar a
ruguinha do meio da sua testa e ele ri.
Entendo a preocupação dele. Eu me faço de louca,

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mas não sou. Não transo sem camisinha com um


ficante esporádico, nem mesmo quando vira
alguma coisa muito fixa. Acho que a última vez foi
com Marcos e depois de muita insistência. Não me
sinto confortável exposta desse jeito, essa é a
verdade. É difícil saber até onde dá para confiar em
alguém e definitivamente não estou disposta a me
colocar em risco nenhum.
Regra número um da vida baladeira é saber se
proteger, de tudo. É a bebida na festa que não pode
dar mole de deixar fora das vistas porque alguém
pode colocar alguma coisa. É saber quem são os
amigos que estão ali com você. É saber que se você
vai parar na cama com o primeiro cara gostoso que
aparecer, tem que sempre se proteger. Sempre.
Não dá para brincar com a sorte e esperar pelo
melhor. Então não foi irresponsabilidade que me
fez praticamente implorar que ele me comesse. Foi

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a completa impossibilidade de negar que confio


nele e que quero mais. Seja lá o que isso significa.
— A gente já passou a noite junto algumas vezes
— diz, e ergo a sobrancelha para ele. Onde isso
está indo? — Nunca te vi tomando pílula.
Mordo o lábio, para segurar o riso dessa vez com
a cara de desespero que ele não consegue disfarçar.
A pergunta está ali, ele só não fez.
— É porque eu não tomo pílula — respondo e
realmente preciso controlar a gargalhada quando os
olhos dele arregalam tanto que parecem que vão
sair do rosto.
— Está brincando, né? — pergunta, e eu balanço
a cabeça lentamente, negando. Não é mentira, não
tomo mesmo. — Isso não pode ser sério, Priscila.
Você não é tão doida assim.
Inclino na direção dele e deixo um beijo nos seus
lábios.
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— Tenha um bom dia, bonitinho.


Levanto da cama e vejo Rafael boquiaberto,
completamente sem reação. Pisco para ele e
começo a andar em direção à porta do quarto.
— Priscila, volta aqui! Me explica isso. Como
assim não toma? Eu gozei den… Você não está
falando sério. Né? Volta aqui, doida!
Consigo ouvir Rafael soltando um palavrão
enquanto ando em direção à porta, rindo. Eu sou
uma pessoa horrível e vou para o inferno, mas é
uma delícia tirar esse homem dos eixos.
Preciso de um café bem forte, mas não tomo um,
porque vou encontrar com a Ju exatamente para
isso. Já estou tão atrasada que nem sei. Ela vai me
matar. Quando alcanço a maçaneta, sinto Rafa
girando-me pela cintura e prendendo-me contra a
porta, ainda deliciosamente nu.
— Você é doida — murmura contra a minha boca
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e arrasto as unhas por suas costas. — Mas não é


irresponsável. Só está tentando me enlouquecer.
Não é uma pergunta. Ele toma minha boca do
jeito gostoso que sempre faz e deixo que me beije.
Engraçado que até quando estava me fodendo
enlouquecidamente, seu beijo não mudou. Ele me
fodeu, mas fodeu com carinho. Eu não esperava
nada diferente.
— Você já devia saber disso, bonitinho —
murmuro de volta quando ele libera meus lábios. —
Minha missão de vida é te enlouquecer.
Ele ri e começa a levantar minha saia.
— Está conseguindo, doida. Você vai se atrasar
mais.

O dia está quente, como sempre nesta cidade.

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Olho a hora e vejo que realmente estou muito


atrasada para encontrar com a Ju, mas ela não
parece se importar, pelo grito que dá logo que me
vê entrando na confeitaria em que a gente ficou de
se encontrar.
— No estacionamento? — pergunta assim que me
vê.
Nem disfarço o sorriso, mas peço que fique quieta
quando a voz dela só faz aumentar. Depois a
escandalosa sou eu. Juliana reclama da minha
indiscrição, mas se diverte com as minhas histórias.
No estacionamento. Estou surpresa também.
Bonitinho está saindo melhor que a encomenda.
— Você está mesmo com cara de quem acabou
de fazer um sexo muito gostoso como café da
manhã, mas isso não é possível porque são oito da
manhã e Priscila Aguiar não passa a noite com
ninguém — provoca, enquanto toma um gole do

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seu suco, olhando-me por entre os cílios.


Reviro os olhos para ela. Ainda não tomei
coragem para contar que estou de casinho com
Rafael, nem sei por quê. Acho que o problema é
que minha amiga adora aumentar as coisas e fico
desesperada só de imaginar as proporções épicas
que ela vai dar para essa história.
Gosto das coisas como estão, só nossas. Não fico
me policiando quando estou perto dele, não preciso
pensar antes de falar ou fazer alguma coisa, mas
sempre surto com qualquer possiblidade de pressão
externa, expectativas, cobranças. Sei o que vou
ouvir. Sei que, assim que eu disser em voz alta que
existe alguma coisa aqui, vão tentar colocar em
uma caixinha o que a gente faz. Não quero isso. Sei
que, querendo ou não, Ju vai acabar
enlouquecendo-me um pouco com infinitas
perguntas. Ela vai me fazer surtar e não quero que

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esse desespero faça nada ficar esquisito com o


loiro, não quero que estrague as coisas.
Então deixa ser nosso segredo por enquanto. Está
gostoso assim.
Peço um café bem forte para o garçom e volto
minha atenção para Ju, esperando enquanto ela
termina de guardar o computador que estava
usando em cima da mesa bem-arrumada do lugar.
Estalo o pescoço e me estico um pouco na cadeira,
sentindo meu corpo meio dolorido por toda a
movimentação dos últimos dias. Especialmente
essa manhã. Que bela surpresa. Essa semana toda
tem sido bem agitada e não tenho do que reclamar.
Sinceramente, acho que estou fazendo mais sexo
com Rafael do que se eu estivesse pulando atrás de
caras aleatórios. Não posso dizer que estou
sentindo falta da variedade porque, para minha
grata surpresa, o loiro tem um repertório bem vasto

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para me manter entretida. Juntando isso com o fato


de nunca nem tentar impedir minhas baladas e
escapadas, parece o arranjo perfeito.
— Quando você vai me contar quem é esse cara?
— Ju pergunta.
— Nunca te falo o nome deles, qual a diferença?
— Não me fala, mas também não me lembro de
ter ficado um mês inteiro vendo a mesma pessoa.
Isso diz alguma coisa!
Já tem isso tudo? Espera, não, tem mais tempo. A
gente começou essa brincadeira no casamento da
Naty, isso tem mais de dois meses já. Quase três.
Passou e nem senti.
Vou contar, juro que vou, só que não sei nem o
que dizer. Sinto-me uma péssima amiga por estar
escondendo isso dela.
— Você não devia estar no trabalho? — pergunta,

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desistindo de me fazer falar.


— Já estou indo. A empresa está meio bagunçada
esses dias e não posso me dar ao luxo de me atrasar
muito. Só queria te dar um beijo, já que agora você
não tempo mais para mim — reclamo. Realmente
quero dizer isso, sinto falta dela.
— Edu?
Suspiro e ela sabe o que significa essa resposta.
Edu está na mesma. Irritante, tirando-me do sério,
fazendo-me querer dar com a cabeça dele na
parede, mas sofrendo a falta que ela faz na vida
dele.
— Vou almoçar com Rafael hoje, por aqui em
algum lugar. Se estiver livre e quiser encontrar com
a gente — diz, dando os ombros, e eu solto um
grunhido baixinho, mas não acho que ela nota.
Passou. Não estou me sentindo uma amiga ruim
mais não. Ela me troca desse jeito e ainda tem a
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cara de pau de me convidar como se não estivesse


fazendo nada de mais.
Depois de mais alguns minutos de conversa em
que mordo a língua para não reclamar da amiga
ruim que ela está sendo, corro para o escritório para
começar a tentar colocar minha vida em ordem. O
que parece missão de guerra, porque tudo
realmente está de cabeça para baixo.
O dia passa rápido e não consigo dar conta de
tudo que preciso fazer. Definitivamente eu estou
ocupada demais para parar para almoçar, então só
digito rapidamente uma mensagem para Juliana
dizendo que essa é a razão para eu não encontrar
com eles. Não é mentira. Ela só não precisa saber
que a outra metade da história é que não quero
mesmo sentar em uma mesa com ela e Rafael
agora. Ainda estou chateada.
Na verdade, deixo o celular completamente de

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lado para tentar dar conta da minha vida. Passa um


pouco das quatro quando junto a pilha de papéis
que preciso que Eduardo assine e vou em direção
ao escritório dele. Sem prestar muita atenção ao
meu redor, ando pelos corredores, passando o olho
de novo pelo documento na minha mão. Como o
universo me odeia, derrubo tudo no chão quando
alguém esbarra em mim.
Deus, me ajuda a não bater em ninguém.
Fuzilo o apressado que passou por mim em
direção ao elevador e vejo Eduardo apertar o botão
desesperadamente. Franzo o cenho. Qual o motivo
desse desespero todo? Largo os papéis no chão
mesmo e vou em direção a ele. Alcanço-o quando a
porta se abre e ele praticamente se joga dentro do
elevador, novamente apertando o botão
desesperadamente.
— Edu? — chamo, e ele me olha, os olhos

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vermelhos e lágrimas escorrendo por seu rosto.


Ah, merda. O que houve?
— Meu pai — gagueja.
Merda, merda, merda.
A porta fecha antes que ele continue, mas nem
precisa. Fecho os olhos e solto outro palavrão,
porque é a única coisa que consigo fazer agora. O
pai dele estava doente há muito tempo. Muito,
muito tempo. Foi por isso que ele se enfiou na
empresa mesmo odiando esse trabalho, para dar
conta do trabalho já que o irmão dele é um filho da
puta inútil. Eduardo faria qualquer coisa pelo pai,
mataria e morreria pelo homem mesmo ele não
merecendo. Mesmo dizendo que não, sei que ele
estava nutrindo a esperança de que o homem
subitamente melhorasse. Não preciso que Edu diga
nada para eu saber que um pedaço do meu amigo
acabou de morrer também.
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Merda.
Faço a única coisa que consigo pensar no
momento: puxo o celular e ligo para Juliana. Ela é a
única pessoa que ele precisa agora.

A vista da varanda do meu apartamento não é a


coisa mais poética que já existiu. Alguns prédios e
é isso. De noite, só uma porção de luzes espalhadas
por aí, nem céu estrelado tem para admirar. Está
chovendo, então consigo ver menos coisa ainda,
mas fico encarando a lua. Não acho que esteja
vendo nada, mas deixo meus olhos fixos ali para
evitar que qualquer lágrima caia.
Não imaginei que fosse me abalar tanto. É claro
que estou preocupada pelo Edu, odeio a ideia de
um amigo sofrer sem que eu possa fazer nada, mas
não é isso que está invadindo minha mente. É
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minha mãe. Sei como ele está sentindo-se. Eduardo


com essa devoção cega que sempre teve pelo pai, é
impossível que esteja minimamente bem. É uma
dor insuportável, a perda de alguém que jamais vai
voltar. É um vazio que nunca é preenchido e
mesmo hoje, tantos anos depois, ainda sinto falta
dela. Todos os dias.
Apoio os cotovelos na bancada da varanda do
meu apartamento, afundando o rosto nas mãos por
um instante. Tento me lembrar dos passeios aos
parques, das idas ao cinema, das tardes sentadas na
frente da televisão comendo besteira e assistindo
filme, mas o que passa diante dos meus olhos são
as noites chorando sozinha no meu quarto, ouvindo
discussões. Gritos. Ameaças.
Que moral eu tenho para criticar Edu por fechar
os olhos e deixar passar quaisquer erros da família
bosta que ele tem se tudo que eu sempre fiz foi

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tentar relevar os absurdos do meu pai? Gritei com


ele, briguei, reclamei por passar a mão na cabeça
do irmão, por tentar compensar deslizes e consertar
falhas de caráter irremediáveis e eu estou aqui. Dia
após dia, ano após ano tentando dizer para mim
mesma que no final das contas Aloísio é meu pai e
tenho que amá-lo apesar de tudo.
Metade de mim repete como um disco arranhado
que eu era uma criança e não tinha como ficar no
meio das brigas cada vez mais feias dos meus pais.
Que não tinha nada que eu pudesse fazer. Que não
é minha culpa. Que não é culpa de ninguém ela ter
morrido. Que a vida é uma merda às vezes e toma
da gente pessoas maravilhosas e deixa outras que
não merecem a sorte que têm. Mas tem uma parte,
uma parte que está gritando muito alto hoje, que me
diz que eu podia ter feito alguma coisa. Qualquer
coisa. Só não sei o que.

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Eu sabia que ela estava infeliz, por anos sofrendo


por viver uma vida que nunca quis, mas não fiz
nada. O que eu poderia fazer?
Aperto os olhos e sinto-os molhados, mas não me
dou ao trabalho de segurar nenhuma lágrima de
vez. Solto um riso ácido pelo ridículo que é me
permitir chorar só quando não tem ninguém vendo.
Não gosto dessa sensação de vulnerabilidade, não
leva a nada. Nada. Chorar nunca resolveu problema
de ninguém e sei bem disso.
Não lembro a última vez que chorei de tristeza.
Lembro-me de chorar de raiva por boa parte da
minha adolescência, quando ainda tentava resolver
no grito meus problemas com meu pai. Uma
disputa de força que nunca nem fez sentido, porque
ele sempre ganhava, é óbvio. Ainda mais depois
que ela se foi. Nunca parei para pensar na época o
tanto que sobrava para ela meus atos de rebeldia.

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Dona Margarida sempre me incentivou a voar alto,


fugir para longe, tomar controle da minha vida. E
eu fui. Fui sem olhar para trás, sem parar para
pensar no preço de cada coisa. Fui e quebrei a cara
algumas vezes, até aprender a andar com meus pés.
Ah, mãe…
Que falta você me faz.
Ouço meu telefone tocar ao longe, mas não me
dou ao trabalho de me mover. Fecho os olhos,
ainda apoiada na grade da varanda, e presto atenção
só no som da chuva que parece aumentar cada vez
mais. Nem sei que horas são, mas não me importo
no momento.
Mordo o lábio e deixo as lágrimas rolarem, livres.
Sinto-me egoísta por estar tão afundada na minha
própria dor que nem consegui pegar o telefone para
ligar para o Edu. Juliana foi correndo para a casa
dele e sei que é toda a companhia que meu amigo
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precisa agora, mas ainda assim. Não era para estar


doendo assim, não depois de tanto tempo. Mas está
e não sei lidar com isso.
Não sei o que fazer.
Quero ficar sozinha para poder chorar em paz,
limpar meu sistema e colocar para fora essa
sensação de sufocamento, essa saudade desmedida,
mas… Este apartamento parece grande demais e só
faz aumentar a sensação de abandono. De solidão.
Um soluço escapa da minha garganta e esfrego o
rosto, mas não adianta. As lágrimas continham
caindo. Meu celular toca mais algumas vezes e
ignoro, é quase fácil não o ouvir debaixo do
barulho alto da chuva.
O interfone toca e ignoro também. Aperto o fino
casaco que estou vestindo ao redor do corpo como
se isso fosse me proteger de alguma coisa. Não vai.
Nada e nem ninguém tem obrigação de me proteger
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de nada além de mim mesma. Eu sou responsável


por mim mesma. Ninguém mais.
Franzo o cenho quando acho ouvir o barulho da
porta e tenho certeza de que foi aberta quando a
ouço batendo com força.
— Priscila?
Não viro ao ouvir ao longe a voz de Rafael ecoar
pelo apartamento, mas sorrio com a série de
resmungos quando ele claramente esbarra em
alguma coisa. Certeza de que não ligou as luzes.
Ele sempre faz isso.
— Ei.
Os passos se aproximam e seus braços me
envolvem pela cintura, encaixando seu peito às
minhas costas. Fecho os olhos e recosto a cabeça
nele, sentindo-o completamente encharcado,
algumas gotas de água caindo do seu cabelo no
meu rosto.
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— O que você está fazendo aqui, bonitinho? —


pergunto, sentindo seus lábios tocarem meu rosto
antes de descerem pelo meu pescoço, por um
segundo apenas antes de ele me virar em seus
braços.
— Fiquei sabendo do pai do Eduardo —
murmura, aumentando o aperto dos seus braços ao
meu redor. Ele apoia minha cabeça em seu ombro e
leva a boca ao meu ouvido. — Imaginei que… Não
sei, loira. Só tive a sensação que você estivesse
precisando de… um amigo.
Ele hesita na última parte, respirando fundo antes
de completar a frase, e não preciso olhar para saber
que ele está fazendo aquele bico de lado. Não digo
em voz alta e sei que não preciso dizer. Rafael não
teria se despencado até aqui se achasse que preciso
de um amigo.
Ele sabe.

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— Sua mãe? — pergunta em um tom suave,


enquanto acaricia minhas costas, e confirmo com a
cabeça. Abro um sorriso fraco, ainda não me
acostumei com a facilidade com que ele me lê. —
Quer conversar? — Nego e ele só me abraça mais
forte.
Ficamos de pé na varanda, em silêncio, ouvindo a
chuva cair não sei por quanto tempo. Faço o que
posso para controlar as lágrimas, só quando
consigo que tiro o rosto do ombro dele, abrindo um
sorriso.
— Você está todo molhado — comento, e ele dá
de ombros, arrastando a palma na minha bochecha.
— Você está com a maquiagem toda borrada,
parecendo figurante de um daqueles filmes de
terror de baixo orçamento — diz, passando o dedo
pelo meu olho.
Dou um tapa no seu ombro e ele me puxa de
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volta, tocando meus lábios brevemente.


— Eu sei que você não precisa de mim, mas eu
estou aqui. Deixa eu cuidar de você? Juro que não
conto para ninguém.
Solto uma risada fraca e encaro seu olhar.
Confirmo silenciosamente e encontro seu olhar
inundado de preocupação.
Mas é mais que isso.
Rafael não se despencou até aqui debaixo de
chuva para bancar o amigo preocupado. É muito
mais que isso. Encaro o par de olhos acinzentados
que transbordam uma única coisa, tão
descaradamente que nem eu posso negar.
Onde eu fui me enfiar? Por que eu gosto tanto
disso? Por que tem uma parte minha que quer ouvir
em palavras o que está escancarado nos seus olhos?
Que quer que ele se sinta assim, que me queira
tanto assim.
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Por que no inferno eu não estou surtando?


Droga, Rafael…
— Que foi? — ele pergunta quando solto uma
risada e balanço a cabeça.
Passo os braços ao redor do seu pescoço e deixo
que ele me abrace mais apertado.
— Me beija, bonitinho.

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Capítulo 36
ABRO OS OLHOS NO SÁBADO de manhã com
o sol batendo na minha cara porque claramente eu
esqueci de fechar a cortina da porta que dá para a
varanda. Espreguiço-me no colchão e franzo o
cenho quando noto que estou vestindo a mesma
roupa de ontem. Dormi de short jeans? Sento na
cama, olhando a bagunça ao redor, e solto uma
risada quando vejo uma panela perdida no canto do
chão. Por isso esse apartamento está cheio de
formiga, olha brigadeiro jogado no piso.
Noto o colchão vazio, mas os lençóis estão todos
bagunçados. Onde esse menino se meteu? Levanto,
tentando decidir se procuro um comprimido para
essa dor de cabeça chata ou se tomo um café bem
forte que sempre resolve. Arrasto-me até a cozinha

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e dou de cara com a cafeteira cheia e ainda quente.


Obrigada, Deus.
Encho uma caneca bem grande e vou até a mesa
onde larguei meu computador ontem. Pego meu
celular, praticamente descarregado agora, e passo
um olho rápido nas notificações, dando atenção
somente para a mensagem com o endereço e
horário do lugar onde vai ser o enterro do pai do
Edu. Suspiro e me forço a tomar um gole grande do
café, que imediatamente me desperta um pouco.
Custei a conseguir dormir. Se tem alguém que
consegue tirar minha cabeça de problemas, é o loiro
tagarela, mas nem ele foi capaz de me fazer
esquecer completamente tudo que estava
incomodando-me noite passada. Especialmente
porque não sei nem o que estava incomodando. Era
só saudades, a dor da perda e provavelmente uma
boa dose de empatia. Sei bem como Edu está

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sentindo-se agora. Realmente não queria saber.


Ajeito-me na cadeira e ligo o computador,
passando os olhos pelo relógio. Respiro fundo e
abro meu e-mail, adicionando todos os diretores
executivos da empresa à lista de destinatários.
Começo a escrever e paro tantas vezes que nem sei.
Solto uma risada encarando a tela. Comecei a
estagiar na empresa ainda na faculdade e fui
contratada assim que me formei. Pulei de setor em
setor, mas trabalho como Relações Públicas do
lugar há quase seis anos e sempre fiz tudo sem
piscar. Agora não consigo escrever uma porcaria de
e-mail com um texto automático só para informar
todo mundo do acontecido.
Digito, apago, digito, apago, até que decido que
está bom o suficiente e envio. É sábado de manhã,
não sei quem realmente vai ler isso antes de
segunda-feira, mas não tem problema. Em algum

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momento na noite passada, Juliana me ligou, pelo


visto entrou em contato com todos os outros
também. Fico encarando a tela do computador sem
ter muita certeza do que fazer antes de ter que
começar a me arrumar, até que sinto uma mão
tocando meu cabelo e movendo os fios para longe
do pescoço.
— Você acordou — Rafael diz no meu ouvido
antes de levar a boca ao meu pescoço. — Está
melhor?
— É impossível estar bem depois da tortura que
foi assistir nem sei quantos episódios daquela
porcaria que você gosta antes de dormir. Tive até
pesadelo — implico, e ele ri, deixando outro beijo
na minha pele.
Ele gira a cadeira em que estou sentada, fazendo-
me apertar os olhos com o barulho da coisa sendo
arrastada pelo chão, e juro que vou dar na cara dele

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se tiver arranhado meu piso. Sinto sua boca de


novo no meu pescoço e ele me puxa, passando as
mãos pela minha bunda, enlaçando minhas pernas
na sua cintura antes de começar a andar pelo
apartamento.
Solto um grito agudo quando ele me joga de
costas no colchão e finalmente abro os olhos,
mordendo o lábio para segurar a implicância, mas
não consigo evitar.
— Você está uma gracinha nessa toalha rosa.
Combina com seus olhos.
Rafael revira os olhos e abre um sorriso gostoso
de lado antes de se jogar na cama comigo. Se jogar
é o único termo correto, porque eu chego a quicar
no colchão quando ele pula, achando que minha
cama virou trampolim agora. Ele deita por cima de
mim e me puxa em um beijo.
— Você vai ficar bem hoje? — pergunta sobre
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meus lábios, e confirmo com a cabeça. — Tem


certeza de que não quer que eu vá com você?
Nego, passando os braços pelo pescoço dele.
Conheço Edu o suficiente para saber que um monte
de gente em cima dele não é o melhor jeito de fazê-
lo se sentir melhor, pelo contrário. Certeza de que
vai querer dar um soco em cada um que perguntar
como ele está, então quanto mais gente for ao
enterro, pior. Sei que os diretores da empresa vão,
por pura convenção social, não porque realmente se
importam. Mas, fora isso, Eduardo precisa de
amigos por perto, então vou estar lá. Não acho que
ver a cara de Rafael agora vá fazer bem nenhum
para o homem, duvido que ele tenha esquecido que
quer socar a cara do loiro por ter ficado com a Ju
uma eternidade atrás.
— Você não ia almoçar com a sua mãe hoje ou
alguma coisa do tipo? — pergunto, a boca dele

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agora no meu pescoço, sua mão trabalhando para


tirar minha blusa.
— Amanhã — responde, passando a peça pela
minha cabeça. — Ei, para de tirar minha diversão!
Coloca isso de volta!
Ele protesta quando alcanço o fecho do sutiã e
solto uma risada, deixando a peça no lugar. Precisa
dessa demora toda para tirar minha roupa? Claro
que não, mas ele gosta. Mordo o lábio, exercitando
toda a paciência que há em mim enquanto Rafael
trabalha em me livrar do short. Rafa senta e me
puxa para o seu colo, minha mão indo
automaticamente para a toalha enrolada na sua
cintura.
— Tira a mão daí — protesta, puxando meus
dedos e enroscando-os em seu pescoço. Ergo uma
sobrancelha para ele. Mas foi você que começou,
meu anjo. — Como você está? De verdade, loira.

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Suspiro e dou os ombros. A gente passou muito


tempo conversando ontem. Eu passei muito tempo
falando da minha mãe. Passei muito tempo
deixando-o se infiltrar um pouco mais na minha
vida do que deveria. Estou surpreendentemente
feliz com isso.
— Bem — respondo honestamente. — Mas posso
ficar melhor, bonitinho.
Arrasto as unhas por sua pele e ele enlaça minha
cintura, puxando-me mais para perto, tomando
minha boca em um beijo. No nosso beijo.
Rafael não me limita, não me prende, não me
sufoca. Não pede mais do que quero dar, não tenta
me mudar. Pelo contrário. Ele se joga nas minhas
loucuras com um sorriso no rosto e uma garrafa de
tequila na mão. É exatamente isso que eu quero.
Nunca estive interessada em relacionamentos, isso
não mudou. Não no senso tradicional da coisa, pelo

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menos. Casar, ter filhos, uma casa e um cachorro,


não. Continua não sendo para mim.
Mas não consigo deixar de querer esse menino de
olhos convidativos e sorriso fácil. Não consigo
deixar de imaginar se não existe alguma coisa que
possa funcionar perfeitamente para nós dois.
Alguma coisa mais significativa do que essa
história de P.A.
Sinto suas mãos passeando por minhas costas até
alcançarem o fecho do sutiã e ele o abre, deslizando
delicadamente a peça pelos meus braços, mas ele
para aí. Simplesmente continua beijando-me
delicadamente, acariciando meu corpo com carinho
em cada toque. Quando Rafa solta minha boca,
apoio a cabeça em seu pescoço enquanto ele beija o
meu.
— Não te agradeci por ter vindo aqui ontem —
digo no seu ouvido, deixando uma mordida no seu

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lóbulo.
— Não precisa agradecer, loira — responde, sua
boca no meu ombro. — Não ia te deixar sozinha.
Estava preocupado com você.
— Porque você é um neném fofo — implico, e
ele ri contra minha pele.
— Não, é porque eu te…
Rafael larga a frase na metade e para o beijo, a
boca pousando sobre a curva do meu pescoço.
Sinto o aperto do seu braço ao redor da minha
cintura aumentar e o corpo todo dele enrijecer.
Tento me mexer, mas ele só me prende ao seu
corpo por um segundo a mais antes de levantar a
cabeça.
Vejo seus olhos confusos e perdidos. O cenho
franzido, a expressão de surpresa. Ele só se deu
conta agora. Quando enfim olha para mim, solta
uma risada baixa e balança a cabeça.
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— Merda — murmura. — Eu estou


completamente fodido.
Sua boca volta à minha antes que eu tenha a
chance de responder qualquer coisa. Antes que eu
consiga implicar e dizer que não sou fácil, que não
tenho intenção nenhuma de me tornar outra pessoa
por causa de ninguém. Que não vou abrir mão de
mim mesma, da minha vida, dos meus sonhos, dos
meus objetivos. Que se ele conseguir lidar com
isso, então não, não está fodido não. Porque eu sou
ótima em fazer feliz e me doar por inteiro às
pessoas de quem eu gosto e que eu quero por perto.
Se dou o mundo por Juliana e Edu, imagina por
esse tagarela?
Sua boca toca meu queixo, nariz, testa e meu
corpo inteiro se arrepia com os toques suaves. Ele
me deita na cama, livrando-me da toalha antes de
arrastar a calcinha pelas minhas pernas, deixando-

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me nua sobre o colchão. Seus olhos percorrem meu


corpo e sua mão segue o mesmo trajeto, tocando-
me com reverência.
Abro a boca para falar e ele balança a cabeça em
negativa, inclinando-se sobre mim. Rafa arrasta o
polegar pelo meu lábio e me beija de novo. Fecho
os olhos e permito me deliciar com o que sei que
está por vir e, como sempre, ele não me
decepciona. Sua boca percorre todo meu corpo e
me entrego com facilidade quando sua língua me
alcança entre as pernas. Gozo, chamando seu nome,
e no instante seguinte ele está de volta à minha
boca.
— A gente ainda está fazendo isso? — pergunta,
sua ereção pressionada contra mim, e sei que está
perguntando da camisinha. Ele ainda está meio
surtado com isso. Confirmo com a cabeça e sinto-o
deslizando com facilidade, preenchendo-me.

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Seus movimentos são lentos. Rafael me prende


em um abraço firme e cravo as unhas nas suas
costas, tentando me segurar a ele quando parece
que vou desabar. Nunca fiz sexo com ninguém
assim. Não tem tesão explosivo nos seus gestos, ele
não tenta me comer. Rafael entra e sai de mim sem
acelerar o ritmo, tomando-me, elevando-me. Ele
me puxa e me põe sentada no seu colo, minhas
mãos automaticamente puxando seu rosto até o
meu. O braço dele é firme ao redor da minha
cintura e rebolo em seu colo, mas ele me para
quando começo a acelerar, apertando meu quadril.
— Deixa eu sentir você — pede no meu ouvido e
geme meu nome quando volto a me mexer devagar.
Nunca foi assim antes. Mesmo com toda a
delicadeza nos toques dele, sempre foi sexo gostoso
que me fazia gozar rápido, mas não é o que Rafael
está fazendo agora. Sigo o ritmo que ele estabelece,

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lento, profundo, e jogo a cabeça para trás, entregue,


sentindo sua boca percorrer meus seios e pescoço.
— Linda. Você é a mulher mais linda que já
conheci, loira — diz, a voz baixa e rouca. Sua mão
sobe ao meu seio, brinca comigo, me tortura. —
Você é perfeita.
Gemidos escapam da minha garganta quando meu
corpo começa a se render aos estímulos. Cravo as
unhas na sua pele, nos seus braços, puxando-o para
mim. Sinto que estou perto de gozar, mas não
quero. Quero mais dele, muito mais dele. Não
quero que este momento acabe. O que quer que
esteja acontecendo aqui é muito mais do que já foi
e não quero que acabe.
— Eu te amo, Priscila. Estou completamente
doido por você.
Fecho os olhos e um sorriso despretensioso cresce
no meu rosto.
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Ah, Rafa…
A mão dele enlaça meu cabelo e sua boca toma a
minha em um beijo lento, longo. Ele me preenche
por inteiro e sinto como se estivesse a ponto de
explodir, mas não é só meu corpo. Não, é algo mais
profundo, alguma coisa que não reconheço. Meu
corpo inteiro se arrepia com sua voz rouca
sussurrando em meu ouvido e é uma sensação de
plenitude tão absoluta que não sei como reagir.
— Goza para mim, minha loira — sussurra contra
a minha boca. Seu rosto cai ao meu pescoço em
beijos quentes. — Me deixa ter você aqui.
Minhas mãos vão ao seu cabelo, puxando seu
rosto de volta ao meu, implorando por outro beijo
como aquele. Sem tesão explosivo, sem foda
rápida. Só ele. Abro a boca para dizer que ele me
tem, mas seu nome é a única coisa que escapa da
minha garganta quando gozo.

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— Você vai morrer — brinco, sentindo-o duro


contra a minha bunda. De novo. Pela terceira vez.
Sinto minha garganta ardendo e tenho certeza de
que é pelo tanto que gemi na última hora. A gente
não parou. Não tive tempo de processar a
declaração sussurrada do loiro porque ele não me
deu tempo. Tenho certeza de que foi de propósito.
Logo Rafael que adora tagarelar sem parar mal me
deixou abrir a boca. Para falar, pelo menos. Abrir a
boca, eu abri.
— A gente precisa conversar, bonitinho — digo e
ouço um suspiro.
Começo a levantar do colchão para tentar
descobrir que horas são, mas sinto a boca dele
começar a percorrer minhas costas de novo,
fazendo um arrepio gostoso subir pelo meu
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pescoço. Rafa passa o braço pela minha cintura e


me puxa para perto, colando minha bunda no seu
corpo. Sinto sua ereção roçando em mim de novo e
solto uma risada, deliciada.
— Você vai morrer e vai me matar junto.
O que esse menino comeu de café da manhã?
— Ninguém vai morrer — murmura no meu
ouvido.
Meu celular toca e ele ameaça se afastar um
pouco, mas nego com a cabeça. Deixa tocar. Sinto-
o começar a entrar em mim e o interfone berra,
ecoando pelo apartamento inteiro. Solto um gemido
frustrado quando meu telefone começa a tocar de
novo. Só tem uma pessoa que faz isso.
— Juliana — murmuro, querendo matar minha
amiga querida.
Ele dá um beijo na parte de trás do meu pescoço e

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deixa uma mordida na minha pele. Levanto e me


arrasto até o interfone, liberando a entrada dela. É
melhor que esteja morrendo. Volto para a cama e
vejo Rafa recostado na cabeceira, descabelado,
acompanhando meus movimentos com o olhar
como se estivesse esperando o fim do mundo, o
lábio preso entre os dentes. Monto no seu colo e ele
me abraça.
— A gente precisa conversar — repito contra sua
boca, e ele concorda com a cabeça.
A gente precisa conversar muito. A gente precisa
conversar até não aguentar mais. Não tem a menor
condição de continuar fingindo que isso aqui é
amizade com benefícios, porque não é. Não sei o
que é. É por isso que a gente precisa conversar.
Entender o que nos tornamos. O que estamos
dispostos a ser.
Ouço a campainha tocando e olho para ele por

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mais um instante.
— Não vou demorar. Espera aqui?
— Você mora no décimo segundo andar, Priscila.
Não é como se eu pudesse pular da varanda.
Dou um tapa no seu ombro pela malcriação e ele
sorri, beijando-me outra vez. Percorro a mão por
seu corpo e me acomodo nele, admitindo para mim
mesma que aqui provavelmente é meu lugar
favorito no momento. A campainha toca de novo e
eu resmungo, irritada.
— Eu já volto — murmuro contra a sua boca, e
ele concorda com a cabeça, prendendo meu lábio
entre os dentes.
Saio do seu colo, muito contrariada, querendo
matar Juliana, e cato a primeira roupa que vejo na
frente para ir abrir a porta.
Por favor, que seja rápido.

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Capítulo 37
JULIANA ENTRA E SE JOGA no sofá assim
que abro a porta, estendendo os braços para mim.
Não consigo evitar o sorriso e vou até ela, dando o
colo que sei que está pedindo. Eu sou bem trouxa
por essa mulher sim. Quero matar por estar aqui
agora, mas não consigo virar as costas. Também
não consigo prestar atenção nela cem por cento.
Não dá. Meu corpo está aqui, no sofá, ouvindo-a
falar desenfreadamente sobre Eduardo e o quanto
ele está sofrendo a perda do pai, mas minha mente
está presa no par de olhos acinzentados que invadiu
minha vida.
Finalmente começo a surtar um pouco.
Rafael disse que me ama.
Não vou me fazer de louca e fingir que eu já não

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sabia disso. O carinho, a preocupação, dedicação e


o brilho nos seus olhos nunca negaram isso. Ele
nunca fez questão de se fazer de desapegado, de
fingir que não gostava de mim e agradeço muito
por isso. A cereja do bolo que me fez confiar tanto
nesse menino inocente foi sua sinceridade
descabida, tagarelando sobre o que não devia até.
Sem joguinhos, sem meias palavras, sem
fingimentos. Tudo sempre às claras.
Mas mesmo sabendo, mesmo sentindo, é diferente
ouvir. É diferente ter a dimensão completa disso
tudo que a gente está fazendo.
Juliana continua falando e eu respondo no
automático, nem sei o que estou dizendo. Sei que
ela pergunta sobre o enterro, sei que pergunta
alguma coisa sobre Edu, mas mal processo suas
palavras. Mal percebo quando ela sai do meu colo e
recosta a cabeça no sofá. Meus olhos voam fixos

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para a porta do meu quarto, a alguns poucos metros


de distância.
— O tal bonitinho está aqui, não está? —
pergunta, e olho para ela. Confirmo com a cabeça,
mordendo o lábio. — Você está morrendo de medo
de ele sair e dar de cara comigo aqui.
Solto uma risada, passando a mão pelo rosto.
Não, não estou. Estou pouco me lixando para isso
agora.
— Será que você pode ir embora? — peço, e ela
solta uma gargalhada escandalosa.
— Obrigada — diz, balançando a cabeça. — Só
você e esse seu desespero com relacionamentos
para me fazer rir agora.
Franzo o cenho, processando o que ela fala. Não
estou desesperada e isso realmente me surpreende.
— Vai me dizer o motivo para querer esconder o

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homem a sete chaves? — pergunta.


O motivo é que tenho medo de tudo ir pelos ares
no instante em que uma boa dose de realidade for
injetada. Ela me cutuca na costela e solto um grito.
— Ele vai ficar se achando importante —
implico, balançando a cabeça, sem conseguir
esconder o sorriso descarado no meu rosto.
Se fosse qualquer outra situação, isso talvez fosse
verdade. Se fosse qualquer outra pessoa. Mas não é,
é Rafael e sua tagarelice sem fim, sua completa
falta de romantismo, seu companheirismo e
desapego. Lembro-me de todas as vezes que disse
que não estava à espera do meu príncipe encantado
e só consigo desistir mais ainda de negar o óbvio
quando noto que de príncipe ele não tem nada.
Rafael não chegou à minha vida montado em um
cavalo branco, tentando me salvar de algum perigo
eminente. Chegou com uma garrafa de tequila e
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uma panela de brigadeiro, rindo das minhas


bobagens e ficando constrangido com uma
facilidade inacreditável com minha falta de filtro.
Tagarelando sem parar e desfilando com camisetas
de gatinho. Sem me fazer cobranças, sem tentar me
limitar. Chegou mostrando-me que não preciso
abrir mão de mim mesma, que não preciso escolher
entre ser quem sou e ficar com ele. Que posso ser
uma pessoa inteira e não precisar de ninguém e,
ainda assim, querer tê-lo comigo.
Eu quero. Como quero…
— Eu o conheço — diz, arrancando-me do meu
devaneio, e olho para ela, abrindo a boca sem saber
o que responder. — Eu o conheço! É por isso que
você não quer deixar a gente se encontrar.
Juliana solta uma gargalhada e eu quero morrer.
— Eu amo você — diz, segurando as minhas
mãos. — Só quero que você seja feliz. Se quem
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quer que seja que está naquele quarto é quem está


te fazendo tão feliz quanto você anda ultimamente,
por mim tudo bem.
Solto uma risada baixa, só então me dando conta
de que é verdade. Eu estou feliz.
— Ele tem me feito muito feliz — respondo. —
Três vezes hoje antes de você chegar — provoco,
tentando desviar o foco da conversa, porque
realmente não é minha especialidade lidar com essa
bomba de emoções que foi jogada em mim.
— Não são nem dez da manhã, se controla. Para
de se comportar feito mocinha de livro erótico que
goza quinze vezes em dez minutos.
Rio e puxo-a para um abraço.
— Obrigada. Eu vou te contar. Eventualmente. Só
não estou pronta ainda para envolver outras pessoas
nisso — explico. Gosto da nossa bolha e quero que
continue assim.
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Ju parece satisfeita com a resposta e muda de


assunto, voltando a falar desenfreadamente. Ela
começa a falar da última pessoa de quem quero
ouvir no momento: Vinicius. Não consigo disfarçar
o grunhido de insatisfação e afundo a cabeça nas
mãos, resmungando qualquer coisa. Cada vez que
ouço o nome dele, é como se um pedaço de mim
quisesse morrer mais um pouco. Isso me
enlouquece.
— Qual o problema?
Balanço a cabeça, mordendo o lábio para segurar
a resposta.
— Priscila?
— Eu não aguento mais ouvir falar desse homem,
Juliana! — grito, levantando do sofá, sem nem
entender minha reação. Ela ergue uma sobrancelha
para mim. — Eu não aguento mais.
Abro e fecho a boca, tentando pelo menos
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controlar o meu tom de voz, mas não consigo e sei


que estou falando bem mais alto do que devia.
— Tem um homem maravilhoso no meu quarto
que acabou de dizer que me ama e eu não respondi
— digo. — Eu estou aqui, sentada, tentando prestar
atenção em você, mas tudo que consigo pensar é
que preciso voltar para lá e falar com ele, porque
não dá. Eu não quero. Não dá. Não consigo mais
deixar as coisas do jeito que estão, eu não…
Passo as mãos pelo rosto e bagunço o cabelo que
já está todo desgrenhado das mãos de Rafael que
insistem em enganchar nos meus fios. Isso não é
nem de longe uma reclamação. Juliana levanta, o
cenho ainda franzido, e vem na minha direção,
segurando minhas mãos, esperando-me continuar.
Respiro fundo e balanço a cabeça.
— Eu não quero mais fingir que o que a gente
tem é só uma amizade boba — continuo, minha voz

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agora em um sussurro. — Que essa história de P.A.


é o suficiente, porque não é. Nós somos ótimos
juntos, Ju.
Ela abre um sorriso e sei que não tem mais volta.
— Você sabe que eu nunca te trocaria por pau
nenhum. Por foda nenhuma. Então acredita em
mim quando digo que preciso que você vá embora
para eu voltar para aquele quarto e dizer para ele o
que acabei de te falar.
Juliana fica em silêncio por um segundo apenas
antes de voltar ao sofá e pegar a bolsa dela.
— Eu sei que você já teve namorados sérios
antes, mas nunca achei que fosse te ver tão
entregue a alguém assim — diz, indo em direção à
porta. — Eu vou matar esse homem se ele te
machucar. Se bem que nós duas sabemos que é
mais fácil que o contrário aconteça.
Rio, balançando a cabeça. Ela tem razão, mas
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realmente espero que isso não aconteça.


Juliana me manda um beijo e eu respiro fundo
quando vejo a porta fechando. Ando em direção ao
meu quarto e paro com a mão na maçaneta por um
segundo antes de abri-la. Paro no lugar com o
cenho franzido quando vejo Rafael sentado na beira
da cama, completamente vestido.
Ele olha para mim e inclina a cabeça, abrindo um
sorrisinho travesso de lado que não vejo há um bom
tempo.
— Você se vestiu só para me dar o trabalho de
tirar sua roupa de novo? — pergunto, entrando no
cômodo, fechando a porta atrás de mim.
Ele solta uma risada baixa e nega com a cabeça.
Atravesso o quarto, monto no colo dele, enlaçando
seu pescoço, e o beijo. Rafael hesita por um
segundo e eu paro, descolando minha boca da dele,
dando de cara com seus olhos marejados. Abro a
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boca para perguntar o que houve, mas ele passa a


mão pelo meu pescoço e puxa minha boca à sua.
Sinto seus dedos me apertarem um pouco e sua
outra mão tocar minha cintura.
Rafael me beija como se o mundo dependesse
disso. Necessitado, desesperado. Um sinal de alerta
enorme soa na minha mente. Tem alguma coisa
errada. Sua mão sobe pelo meu pescoço e me
prende, apertando meu corpo contra o seu. Quando
solto sua boca, ele mal olha para mim.
— Tenho que ir embora, loira — responde, e
arqueio uma sobrancelha. Ele sobe uma mão pelas
minhas costas e ergue o olhar para o meu. — Eu só
queria te pedir desculpas antes de ir.
— Desculpas?
Ele acena em positivo.
— Eu me deixei levar pelo momento. Na verdade,
acho que me deixei levar por tudo. Você é incrível,
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loira. É minha melhor amiga e eu te adoro. A gente


tem passado tanto tempo junto que acabei
confundindo as coisas. — Ele solta uma risada e
balança a cabeça, parecendo constrangido. — Será
que a gente consegue fazer as coisas não ficarem
esquisitas? Foi isso que a gente combinou e
amizade sempre vai vir antes de sexo. As coisas só
ficaram… intensas demais.
Espero pela passada de mão no cabelo que sei que
ele dá quando está nervoso. Espero para ver
confusão e incerteza nos seus olhos. Espero o bico
de lado, espero a fala apressada de quando ele está
surtando com alguma coisa. Mas nada disso vem.
Rafa só me olha com carinho e um sorriso quase
complacente no rosto.
A minha vontade de enfiar a mão na cara dele é
tão real que nem sei. Sinto meu peito apertar e
minha garganta arranhar em uma sensação que não

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me lembro de ter experimentado antes. Não gosto


disso. Quero que pare.
Então tá. Se é para bancar o louco, a gente banca
o louco.
— Você sabe que gosto de intenso, bonitinho —
digo, colocando todo o tom de flerte que posso na
minha voz, e recebo a reação de sempre: uma
abaixada da cabeça e uma risadinha. — Não se
preocupa. Nada vai ficar esquisito.
Ele concorda com a cabeça.
Eu quero chutar minha bunda. Lembro-me de
como tudo isso começou e com as minhas
implicâncias infinitas sobre Rafa ser fofo e
carinhoso com todo mundo. Lembro-me de dizer
mais de uma vez que ele ainda acaba com uma
desavisada toda derretida por ele, entendendo tudo
errado. Achando que era alguma coisa quando era
só sexo com um cara incapaz de não se fazer
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presente na vida dela. Só não achei que a


desavisada fosse ser eu.
Rafael passa a mão pelo meu pescoço e puxa
minha boca à sua, mas para no meio do caminho,
só arrastando os lábios nos meus. Fecha os olhos e
suspira