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Design de superfícies no vestuário e nos revestimentos cerâmicos:

similaridades, coincidências e tendências

Surface Design in clothing and tiles: similarities, coincidences and trends

Pereira, Livia Marsari


Mestranda do PPGDI - UNESP – Bauru – SP – liviamarsari@hotmail.com

Serafim, Marcos Antonio


Mestrando do PPGDI - UNESP – Bauru – SP – serafim@ccb.org.br

Resumo
O presente trabalho propõe uma reflexão a cerca das similaridades entre o design de
superfícies para vestuário e o design de superfícies para revestimentos cerâmicos, buscando
uma relação entre a moda e a decoração em diferentes épocas e como as tendências
influenciam e alimentam essas áreas do design.

Palavras Chave: Design, Moda, Vestuário, Design de Revestimentos Cerâmicos

Abstract

This study seeks to establish similarities between the design of surfaces for clothing and
design of surfaces for ceramic tiles, looking for a relationship between the fashion and decor
in different seasons and trends influencing and feeding these areas of the design.

Keywords: Design, Fashion, Clothing, Design of ceramic tiles

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Introdução

Segundo definição do Núcleo de Design de Superfície da Universidade Federal do Rio


Grande do Sul, Design de Superfície é uma atividade técnica e criativa cujo objetivo é a
criação de imagens bidimensionais (texturas visuais e tácteis), projetadas especificamente
para a constituição e/ou tratamento de superfícies, apresentando soluções estéticas e
funcionais adequadas aos diferentes materiais e processos de fabricação artesanal e industrial.
Dessa maneira o desenho de padrões para superfícies manifesta-se ao longo da atividade
humana de diferentes formas, retratando costumes, épocas e culturas.
Para Minuzzi (2007) o desenho de padrões para superfícies manifesta-se de diversas
maneiras, constituindo um campo investigativo abrangente, no qual a multiplicidade e a
singularidade convivem em razão das peculiaridades e características de cada superfície
enfocada. Percorrendo um caminho iniciado com as técnicas artesanais mais antigas e
chegando à evolução tecnológica de materiais e processos na contemporaneidade, a
estamparia permanece como um recurso diferenciadores, presentes nos mais diversos
produtos, podendo ser aplicada em sapatos, revestimentos cerâmicos, bolsas, peças de
vestuário, utilitários em geral, entre outros. Com o impulso da moda e das últimas tendências,
tal campo ganha espaço de pesquisa também sob o aspecto do resgate de procedimentos e
métodos de artesãos e artistas em seu trabalho com os materiais, afora as variações pertinentes
ao contexto no qual se insere, bem como às características culturais e climáticas das diferentes
regiões ou àquelas inerentes a cada sujeito criador.
Dentre as diversas áreas de investigação do Design de Superfície temos a têxtil e a
cerâmica. Ambos estão no limiar entre o desenvolvimento do design de produto e o
desenvolvimento do design gráfico, uma vez que tanto um quanto o outro definem padrões
bidimensionais para produtos que ganharão volume em três dimensões.
Comparando algumas linhas de produtos da área têxtil e da área do revestimento
cerâmico podemos traçar uma congruência nas bases conceituais em que as duas áreas se
alimentam para definir coleções e estilos.

A (recente) história do revestimento cerâmico no Brasil


Para se falar da história do revestimento cerâmico no Brasil é necessário compreender o
processo que trouxe essa indústria pro cenário que vemos hoje.

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Segundo Castro (1999) a história do azulejo começou no antigo Egito. Depois passou
pela Mesopotâmia e espalhou-se pelo Sul do Mediterrâneo. A sua introdução na Europa foi
feita pelos povos oriundos do Norte da África.
O desenvolvimento do azulejo, enquanto arte decorativa, conheceu um profunda
evolução na Península Ibérica, onde, durante séculos, se fizeram trocas culturais e guerras
entre povos islâmicos e cristãos.
A azulejaria teria chegado ao Brasil, principalmente pela corte portuguesa, que por sua
vez chegou ao Brasil, em meados do século XIX como relata Maestri (2008):

Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a ocupação e desmembramento do reino


português. Lisboa tratou secretamente com os ingleses o apoio naval à transferência
da Família Real e de parte da nobreza ao Rio de Janeiro, medida apoiada pelos
britânicos pois significava a liberdade plena para seu comércio com o Brasil.
A mudança para o Brasil era idéia antiga. Os “Diálogos das grandezas do Brasil” já
registravam a profecia de astrólogo do rei dom Manuel, o Venturoso, de que a
colônia serviria, um dia, "de refúgio e abrigo da gente portuguesa". A aristocracia
lusitana tinha consciência de que vivia sobretudo das rendas brasileiras e que o
sistema colonial entrava em crise.

No Brasil a cerâmica como revestimento surgiu principalmente como azulejos para


fachadas de casas litorâneas, com diversas influências, sobretudo, européias. Como relatado
no Portal EMDIV (2008).

Encontram-se azulejos em diversos estados brasileiros, especialmente na Bahia,


Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro. A maior parte das peças do período
colonial provém de Portugal, embora se encontrem exemplares holandeses, como os
da igreja de Santo Antônio, no Recife. Após a independência, sem que cessasse a
importação de peças portuguesas, começaram a chegar ao país azulejos de
procedência francesa, alemã e, mais raramente, belga.
Os primeiros azulejos fabricados no Brasil são de Niterói RJ, por volta de 1861.
Entre os mais belos exemplares encontrados no Brasil citam-se os do claustro da
igreja de São Francisco, em Salvador; os da Capela Dourada, em Recife; os da igreja
da Misericórdia, em Olinda; os do convento de Santo Antônio, em Belém; e os da
igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, no Rio de Janeiro. Já no século XX,
arquitetos de renome como Lúcio Costa restabeleceram o uso do azulejaria no
revestimento arquitetônico. Exemplo do emprego contemporâneo do azulejo são os
painéis executados por Cândido Portinari e Paulo Rossi Osir no edifício do antigo
Ministério da Educação (hoje palácio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro.

O grande impulso da indústria cerâmica de revestimento no Brasil veio a partir da


década dos anos 1950 com a vinda das primeiras linhas de decoração automatizadas. A
decoração na indústria cerâmica de revestimento é feita atualmente a partir de processos
gráficos diversos, como permeográficos (flexografia), flexográficos e encavográficos. Sendo
esse último o mais utilizado atualmente. O processo encavográfico foi adaptado à indústria
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cerâmica como meio alternativo ao processo permeográfico, conferindo maior produtividade e
durabilidade das matrizes gráficas.

Athos Bulcão
Os azulejos criados por Athos Bulcão entre as décadas de 60 e 70, sobretudo para
compor a arquitetura moderna de Oscar Niemeyer nas construções de Brasília, demonstram
um vigor no uso das cores e das formas, compondo grandes malhas geométricas no espaço
arquitetônico projetado por Niemeyer (Figura 1). Curiosamente, em homenagem às obras de
Bulcão foram desenvolvidas peças moda praia com as mesmas padronagens criadas por
Bulcão em sua azulejaria (Figura 2).

Figura 1 – Azulejaria desenvolvida por Bulcão em Brasília

Nascido no Catete, Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1918, Athos passou sua infância
em uma casa ampla em Teresópolis. Perdeu a mãe, Maria Antonieta da Fonseca
Bulcão, de enfisema pulmonar antes dos cinco anos e foi criado com seu pai,
Fortunato Bulcão, entusiasta da siderurgia, amigo e sócio de Monteiro Lobato, com
o irmão Jayme, 11 anos mais velho, e com suas irmãs adolescentes Mariazinha e
Dalila, que substituíram a mãe.
Enquanto crescia, passsava muito tempo dentro de casa e, por ser muito tímido,
misturava fantasia e realidade. Na família havia um interesse pela arte e suas irmãs o
levavam freqüentemente ao teatro, ao Salão de Artes, aos espetáculos das
companhias estrangeiras, à ópera e à Comédia Francesa. Athos aos quatro anos
ouvia Caruso no gramofone, e ensaiava desenhos sem no entanto chamar a atenção
da família; chegou às artes graças a uma série de acidentais e providenciais lances
do acaso.
Athos foi amigo de alguns dos mais importantes artistas brasileiros modernos, os
maiores responsáveis por sua formação. Carlos Scliar, Jorge Amado, Pancetti,
Enrico Bianco – que o apresentou a Burle Marx –, Milton Dacosta, Vinicius de
Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Ceschiatti, Manuel Bandeira
entre outros.
Aos 21 anos, os amigos o apresentaram a Portinari, com quem trabalhou como
assistente no Mural de São Francisco de Assis na Pampulha e aprendeu muitas
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lições importantes sobre desenhos e cores. Antes de pintar, planeja as cores que vai
usar e acredita fervorosamente que o artista tem de saber o que quer fazer. Athos
não acredita em inspiração. Para ele, o que existe é o talento e muito trabalho. "Arte
é cosa mentale", diz, citando Leonardo da Vinci.
A trajetória artística de Athos Bulcão é especialmente consagrada ao público em
geral. Não ao que freqüenta museus e galerias, mas ao que entra acidentalmente em
contato com sua obra, quando passa para ir ao trabalho, à escola ou simplesmente
passeia pela cidade, impregnada pela sua obra, que "realça" o concreto da
arquitetura de Brasília.
Athos Bulcão é o artista de Brasília! As obras que aqui realizou foram feitas para o
convívio com a população e carregam a consideração por esta cidade e seus
habitantes. (Fundação Athos Bulcão)

Figura 2 – Coleção moda praia inspirada nos azulejos de Bulcão

No entanto a evolução tecnológica esteve atrelada às necessidades e tendências estéticas


e culturais. Abaixo (Figura 3) seguem exemplos da coleção da Cerâmica Eliane de meados
dos anos 1970.

Figura 3 - coleção da Cerâmica Eliane de meados dos anos 1970


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É perceptível a influência pós movimento hippie da década antecedente nas padronagens e
grafismos da linha apresentada acima. Esse mesmo padrão perdurou até meados da década de
80.
Na década de 90 surgem grandes linhas de produção com processos decorativos mais
elaborados e mais produtividade. No aspecto estético os produtos saem das paredes e passam
a revestir os pavimentos, é a era dos pisos cerâmicos. Com o intuito de substituir os produtos
que tradicionalmente são utilizados para pavimentos como rochas naturais (mármores e
granitos) e pavimentos de madeira, o revestimento cerâmico passa a criar imitações, ainda que
grosseiras, dos seus concorrentes. No final dos anos 90 e a partir de 2000 as indústrias
cerâmicas, com toda sua estrutura tecnológica passam a buscar formatos cada vez maiores,
cores sóbrias, sem grandes contrastes e surgimento do porcelanato. Nesse contexto, quanto
mais natural parecesse o revestimento, mais bem aceito ele seria.
Atualmente é possível ver uma mudança no estilo dos revestimentos. Na última edição
da Revestir 2009 (Feira Internacional de Revestimentos), foi possível conferir mudanças
bastante significativas no estilo dos produtos apresentados pelas empresas como divulgado no
site da ANFACER (Associação Nacional dos Fabricantes de Revestimentos Cerâmicos):

Conhecida como a Fashion Week da Arquitetura e da Construção, a EXPO


REVESTIR antecipou as novidades que estarão em breve nas lojas. “Em tempos de
incerteza, eventos internacionais e com o porte da REVESTIR e o Fórum
Internacional de Arquitetura e Construção são extremamente importantes não só
para oportunidades de negócios, mas também para a expansão das redes de
relacionamento e a atualização profissional”, enfatizou Lauro Andrade Filho, diretor
da EXPO REVESTIR e do Fórum. Este ano, as linhas de produtos apresentadas
pelos expositores incluíram designs diferenciados, novas cores, texturas e formatos,
mais resistência e versatilidade, acabamentos luxuosos e preocupação com a
sustentabilidade.

Evolução da estamparia no vestuário

Estampar designa de maneira genérica, diferentes procedimentos que tem como


finalidade produzir desenhos coloridos ou monocromáticos que pode ser na superfície de
tecidos, como uma pintura localizada que se repete ao longo da peça. Para Pompas (1994):

Uma definição genérica e normalmente aceita sobre estamparia têxtil é que esta
consiste nos procedimentos utilizados para obter um motivo, em uma ou mais cores,
que se repete com regularidade sobre o fundo. Os acabamentos baseados em
estampas representam um meio importantíssimo para agregar valor aos tecidos lisos.

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As estampas podem ser analisadas sob a óptica da história da indumentária, revelando
tendências e especificidades das épocas. As estampas podem ser aplicadas sobre a superfície
dos tecidos ou trabalhadas na própria estrutura do mesmo, durante a tecelagem.
Dos vários e diferentes métodos de estamparia a técnica de uso de blocos de madeira é a
mais antiga. YAMANE (2008) afirma que as primeiras estampas sugiram antes da era cristã
na Índia e Indonésia, por meio de uma combinação de reservas de pintura e estampagem com
moedas, que eram blocos de madeira com motivos gravados.
Estampas usando técnica de serigrafia sobre linho foram escavadas pelos arqueólogos
em tumbas egípcias de 8.000 anos. Como mostra a figura 4.

Figura 4 – Túnica egípcia que possui estampas

Foi partir do ano 1000, quando Veneza estabeleceu sua posição como porto de difusão
de mercadorias entre o Leste e o Oeste que os tecidos estampados começaram a ganhar força
na moda. Por volta do ano 1200 aconteceram várias mudanças importantes, entre elas o fato
das cores deixarem de possuir um significado simbólico, deixando de serem usado com o
propósito específico de indicar as diferenças de classes, papel este que passou a ser exercido
pelo tecido, no caso a seda devido ao seu alto valor de mercado. Desta forma, surgiu então
uma imensa variedade de padrões de estamparia como listras, xadrez e figuras.
Na Itália, durante o século XIV este fenômeno pôde ser observado com o florescimento
das estampas de flores estilizadas. A moda dos tecidos de estampas florais tornou-se
generalizada. No século XV os padrões florais assumiram dimensões exageradas, com
grandes romãs ou cardos estampados entre linhas sinuosas.
Durante o século XVIII, as padronagens dos tecidos passaram a sofrer a influência das
grandes descobertas e viagens de exploração. Encontrava-se exemplos da flora exótica em
padronagem que exibiam flores e frutos desconhecidos na Europa até então. Esta tendência
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manteve-se até o final do século, quando a moda voltou as suas origens ocidentais, com
padronagens mais simples.
Tecidos estampados com flores miúdas, surgiram por volta de 1800, nos Estados
Unidos, com a adoção das primeiras máquinas de estampar. A empresa Thorp, Siddel and
Company, instalava em Philadelphia a primeira dessas máquinas em 1810. Dentro de poucos
anos passava a existir uma grande quantidade de empresas de estamparia.
Desde o final do século XX as empresas de estamparia iniciaram uma grande evolução
nas técnicas, processos e maquinários para inserir desenhos nos tecidos. Os computadores
tornaram os desenhos mais precisos e possibilitaram novas formas, cores e imagens.
A partir dos anos 1990 os elementos visuais compostos e combinados, na forma de
texto, imagens, texturas e cores no vestuário tornam-se alem da função de adorno das peças
um dinâmico canal de comunicação. Como mostra a figura 5. Cândido (2008, p. 5) afirma
que “a partir do momento em que a estampa da camiseta é descoberta, como nova mídia,
jamais deixará de ser utilizada com esse intuito”.

Figura 5 – Estampas que comunicam e adornam o tecido


Tendências, coincidências e similaridades

As evoluções estéticas do design de superfícies no vestuário e no revestimento cerâmico


muitas vezes coincidem entre si. E tais coincidências por sua vez fazem parte de um conceito
anterior, que pode ser um estudo de tendência ou modismo. A indústria da moda, de forma
geral, lança duas coleções anuais, o que torna as mudanças estéticas, em tese, muito ágeis. Em
compensação as mudanças na indústria de revestimento cerâmico são mais lentas, haja vista
que são bens muito mais duráveis que produtos de moda, apesar das empresas lançarem
coleções anuais, as grandes mudanças ocorrem não menos que a cada dois anos.

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No entanto é possível pontuarmos algumas coincidências em determinadas épocas entre as
duas áreas do design de superfícies. A figura 4 mostra exatamente como essas duas áreas
sofreram as mesmas influências em determinado recorte do tempo.

Figura 4 – À esquerda, foto ilustrativa de uma revista de decoração da década de 70, e à direita
exemplo de revestimento de parede da coleção da Cerâmica Eliane de meados da mesma década.

As estampas, as cores e os padrões geométricos são bastante similares, retratando todo o


fervor cultural da época e imprimindo uma estética replicada no mobiliário, vestuário e
revestimento.
Assim como no exemplo demonstrado na figura 4, outras similaridades são encontradas nas
áreas do Design de Superfície investigados – vestuário e revestimento cerâmico.

Cores
As cores para a moda e para a decoração podem ser trabalhadas de formas diversas e para
diferentes fins, mas algumas coincidências recorrentes são bastante interessantes. Como os
exemplos apresentados na figura 5, onde cores formas e contrastes são bastante similares.

Figura 5 - coleção da marca Pucci primavera-verão 2008 e coleção da Cerâmica Jatobá


apresentada na Revestir 2009 em pastilhas cerâmicas.

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Retrô
A moda e a decoração sempre buscam influências de tempos passados para releituras próprias
nesse sentido o conceito “retro” é bastante revisto.

“Do francês rétro, palavra usada para descrever roupas de épocas anteriores, no
mínimo de vinte anos passados. Muitos estilistas apresentam trajes retro em suas
coleções. Essas roupas, embora tenham uma proposta reformista, são revividas para
funcionar como o visual do momento.” (Enciclopédia da moda, Georgina O’Hara
Callan pg. 267)

Figura 6 – Vestido estilo retro anos 20 da marca tsumori chisato 2008


Assim como na moda, o design de superfície voltado ao revestimento cerâmico
apropria-se de linguagens de épocas passadas para reinventar coleções como mostrado na
figura 7.

Figura 7 – Coleção de revestimentos para pisos apresentada na edição de 2004 da Revestir inspirada nos
ladrilhos hidráulicos do início do século XX.

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Minimalismo
O minimalismo, uma forte corrente estética que ganha força nos anos 60 com influência de
vários outros movimentos como o construtivismo e o modernismo, perdurou (e talvez ainda
perdure) durante muito tempo como principal tendência na maioria das revistas de decoração
das últimas duas décadas e os revestimentos acompanharam essa tendência com o
desenvolvimento focado nos grandes formatos que infeririam o menos possível no ambiente,
com rejuntamentos cada vez menos aparentes, cores sóbrias que se adequariam nos poucos
móveis da casa, quando muito, revestimentos em pretos e brancos formandos monótonos
xadrezes quase tecnológicos (figura 8). No vestuário, depois da profusão de cores e formas
das décadas de 60 e 70, a partir da década de 80, apesar dos volumes e cores, havia uma
geometrização dos padrões, cores bem definidas, modularidades que ganham força na década
de 90, agora com menos volumes e uma cartela de cores mais restritiva.

Figura 8 – Coleção apresentada pela cerâmica Mosarte na Revestir 2009

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Art Nouveau

O Art nouveau surgiu nas primeiras décadas do século XX, em contraponto às artes vitorianas
com motivos históricos. Tem em seus traços características verdadeiramente modernas;
valoriza linhas sinuosas e reproduzem elementos da natureza (figura 9).

“Apesar de o art nouveau expressar-se principalmente na arquitetura, na


decoração de interiores e no desenho de mobiliário, abrangeu também jóias e
tecidos. Caracteriza-se por linhas graciosas, um tanto exageradas, com traços
alongados terminando em arabescos e em motivos de flores e folhas.”
(Enciclopédia da moda, Georgina O’Hara Callan pg. 26)

Atualmente, o estilo “Art Nouveau” aparece fortemente como uma linguagem gráfica
aplicada (às vezes a exaustão) em diversos projetos de design gráfico e superfícies. Na
decoração o estilo minimalista divide as atenções com papéis de parede florais, estofados,
estampas e todo o tipo de grafismo que remeta a esse estilo. E mais uma vez o design de
superfície tanto do vestuário quanto do revestimento cerâmico acompanham, por coincidência
ou influência esse estilo “novo” e reinventado (figuras 10 e 11).

Figura 9 – Estampas de William Morris

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Figura 10 – À esquerda, vestido da marca Prada para coleção outono/inverno 2003 e à direita
conjunto da marca Prada para coleção primavera/verão 2008

Figura 11 – À esquerda, coleção apresentada pela cerâmica Porto Ferreira na Revestir 2009 e à direita
coleção apresentada pelo Studio Vetromani no mesmo evento

ERA DA TECNOLOGIA
Já na década de 80 a moda buscava demonstrar através da roupa uma ligação com o mundo
tecnológico, metalizados, geometrias, cibernização da roupa. Mas a alta tecnologia empregada
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em produtos de moda e de revestimento cerâmico só foram largamente empregados nos
últimos 15 anos, é quando a engenharia tecnológica está a favor do desenvolvimento de novos
padrões e inovação de produtos. Como é o caso do vestido conceitual Piezing, da designer
Amanda Parkes, que foi projetado para as mulheres acumularem energia enquanto dançam,
correm ou andam, possibilitando a recarga de aparelhos portáteis (figura 12). Já no
revestimento cerâmico a alta tecnologia é empregada nos padrões gráficos como as peças
iridiscentes - esmalte cerâmico especial aplicado sobre a placa cerâmica que modifica a cor
em função da luminosidade (figura 13) ou materiais cada vez mais resistentes e versáteis do
ponto de vista da aplicação no ambiente.

Figura 12 - Vestido conceitual Piezing

Figura 13 – Pastilhas com aplicação de esmalte especial com efeito iridiscente

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Conclusão
Após as comparações apontadas nesse trabalho é possível afirmar que as áreas aqui
investigadas dentro do design de superfícies – vestuário e revestimentos cerâmicos – possuem
grandes congruências nos estilos e nas linguagens gráficas utilizadas no desenvolvimento de
seus produtos, o que torna as áreas com muitas afinidades para estudos de tendências, estilo e
comportamento, o que amplia o leque de possibilidades para ambas as áreas na busca de
referências e linguagens visuais.

Bibliografia

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