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Capítulo III

A Humildade de Espírito
Alejandro G. Frank

Introdução
No capítulo anterior temos visto que as bem-aventuranças representam o caráter que todo
cristão deve apresentar na sua vida. Mesmo que tenhamos dificuldades em algum dos
aspectos citados no sermão, é o caráter que todo cristão deve buscar desenvolver na sua vida,
através da ajuda e do poder do Espírito Santo. Isto faz parte da santificação do crente. No
capítulo passado tratamos sobre essas características de modo geral. Assim sendo, a partir de
agora, neste e nos seguintes capítulos abordaremos o assunto nos pontos específicos. Neste
capítulo consideraremos a primeira das bem-aventuranças, que é a seguinte:

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5.3)

Aqui temos apresentada a primeira das características que, como crentes, devemos ter: “a
humildade de espírito”. No capítulo anterior também temos visto que há uma progressividade
nas características apresentadas nas bem-aventuranças. Por conseguinte, há uma destacada
relevância para esta primeira característica, pois ela é essencial para que também as outras
possam estar presentes. Também vimos que todas elas são exclusivas, no sentido que se não a
temos, nos exclui daqueles que receberão as promessas do Senhor. Mas vocês já se
perguntaram por que esta é a primeira das bem-aventuranças? Eu começaria afirmando que
ela é a primeira por ser esta uma das qualidades mais difíceis de vermos na natureza humana.
O ser humano é, por natureza, arrogante, egocêntrico, soberbo, jactancioso, orgulhoso. Vemos
já Adão, no inicio da criação, querendo ser igual a seu Criador. Ao longo da Bíblia sempre
vemos o homem querendo se rebelar contra Deus e buscando sua própria glória e isso é assim
até nos nossos dias. Hoje, vemos os artistas, os esportistas, os políticos e até os líderes
religiosos buscando todos a sua própria glória e lamentavelmente o povo segue o exemplo dos
seus líderes. Mas nesta primeira bem-aventurança o Senhor Jesus nos diz que seus discípulos
devem ser diferentes e, por esse motivo, queremos ver o que significa ser verdadeiramente
humilde de espírito.

O que “não” significa ser humilde de espírito


Assim como todo o sermão do monte não trata apenas de ensinamentos morais, aqui também
não se trata apenas de um aspecto meramente moral nem de um aspecto temperamental de
uma pessoa, mas de um aspecto “espiritual”. Na tradução alemã de Lutero e na versão
espanhola de Reina-Valera o conceito “humildes de espírito” é traduzido como “pobres de
espírito”. Ambas as expressões mantém a mesma noção de alguma forma de inferioridade que
explicaremos mais adiante. Esta bem-aventurança não trata acerca dos humildes sociais, como
se usa de eufemismo para os pobres, nem trata sobre os humildes de temperamento, como
inclusive muitas pessoas do mundo podem ser. Aqui se trata de humildes “de espírito” ou
“espiritualmente humildes”. Vejam que aqui há um destaque particular para o aspecto
espiritual. Não diz apenas “bem-aventurados os humildes”, mas “os humildes de espírito”.

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Lloyd-Jones1 destaca que sermos humildes não significa que devamos ser tímidos e fracalhões,
e nem significa que deveríamos ser retraídos, fracos ou acovardados. Podemos ver exemplos
na Bíblia sobre grandes servos de Deus que eram humildes, mas ousados, valentes, dispostos a
morrer por Cristo. Também, sermos humildes não significa que precisamos ser praticantes de
uma falsa humildade, de algo forçado, como a utilização de roupas mais simples, carros mais
simples, ou uma linguagem popular, para dizermos que por alguma dessas coisas somos
humildes. Têm pessoas que até trocaram seu modo de vida para demonstrar uma falsa
humildade, como no caso dos monges que foram morar no deserto para serem mais piedosos.
Tampouco são humildes aqueles grandes sábios do mundo que não ostentam a sua sabedoria,
ou alguma estrela que não ostenta na rua e dá atenção a todas as pessoas. Embora algumas
atitudes assim sejam boas e apropriadas, não é isto que o texto quer dizer. Todos estes
aspectos são meramente superficiais, exteriores, são apenas “boas obras”. Além disso, todos
estes aspectos podem levar à jactância pela condição de humildade e isto é um grande risco
que corremos todos nós. Como disse Lloyd-Jones: “O homem que, por assim dizer, gloria-se
dessa forma em sua humildade de espírito, mediante tal atitude apenas prova que não é
humilde”. Por isso Paulo disse que “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor” (2
Coríntios 2.17).

Por outro lado, existe também uma tendência de confundir o que aqui a Palavra define como
humildade com o significado da mansidão. Inclusive, algumas versões da Bíblia traduzem esta
primeira bem-aventurança como “mansos”, ao invés de humildes. Muitos acham que isto é o
mesmo. Mas temos visto no Capítulo II que há um caráter progressivo e não repetitivo nas
bem-aventuranças e que a terceira bem-aventurança trata sobre a mansidão. Portanto, não se
trata de uma característica que é repetida duas vezes no sermão. Além disso, podemos ver
que em Mateus 11.29, o Senhor disse: “Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque
sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma”. O Senhor destaca
ter duas características diferentes das quais temos que aprender: a mansidão e a humildade
de coração, ou como diz no texto em análise “de espírito”. A mansidão não é humildade. Eu
definiria a mansidão como uma atitude passiva e pacífica diante de ações injustas que
recebemos. Manso é aquele que não se irrita, não revida e aceita sofrer as consequências da
injustiça. Um exemplo figurativo pode ser o de um animal de carga que, quando é chicoteado,
ele não reage se defendendo. Quando dizemos que um animal é manso, nos referimos a que
ele não reage em defesa. Poderia antecipar dizendo que Pedro era um homem que tinha
humildade (depois veremos o porquê), mas que um dos seus pontos fracos era a mansidão.
Por acaso lembram o episódio de Pedro cortando a orelha de Malco para defender ao Senhor
em Getsêmani? Isto foi uma prova da falta de mansidão de Pedro, pois o Senhor lhe
respondeu: “Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?”
(João18.11). O Senhor estava aceitando mansamente a vontade do Pai.

Então, se tudo o anterior não é humildade, o que realmente é a humildade de espírito? Eu


diria que a humildade tem a ver com a nossa atitude de reconhecimento da nossa situação,
posição ou estado inferior diante de alguém. Quando falamos de humildade de espírito essa
atitude de reconhecimento nosso refere-se a nossa posição diante de Deus. A humildade de
espírito é uma atitude ativa, pois não se trata de uma reação, como no caso da mansidão, mas

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“Estudos no Sermão do Monte” D.Martyn Lloyd Jones, Editora Fiel, p.41-45.

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tem a ver com a forma que agimos o tempo todo, por isso digo que é uma atitude ativa.
Sintetizamos a ideia de humildade nas seguintes palavras de Lloyd-Jones1:

“Ser humilde de espírito significa que, se alguém é crente autêntico, então não está
dependendo dos seus dotes naturais, que lhe vem do berço. Os humildes de espírito não
dependem do fato que pertencem a determinadas famílias, não se vangloriam de
pertencer a certas raças ou nacionalidades. Essas pessoas também não edificam as suas
vidas sobre o alicerce do se temperamento natural. Nem acreditam que haja alguma
vantagem em sua posição natural na vida, e nem dependem disso ou de quaisquer
potencialidades que lhes hajam sido conferidas. A pessoa que é humilde de espirito não
depende do dinheiro ou de quaisquer riquezas de que, porventura, seja possuidora. Se
somos humildes de espirito, então não dependemos da educação recebida, nem da escola
ou faculdade particular que tivermos frequentado. [...] Ser humilde de espírito é sentir que
nada somos, que nada temos, e também que olhamos para Deus em total submissão a Ele,
dependendo inteiramente de Sua misericórdia, de Sua graça.”

Por que sermos humildes de espírito?


Agora que temos explicado o que a humildade de espírito é, precisamos prosseguir e entender
o seguinte: por que devemos ser humildes de espírito? Por que a humildade de espírito é uma
característica essencial dos cristãos retratada na bem-aventurança? A primeira resposta que
eu daria é a seguinte: temos que ser assim porque o Senhor Deus se agrada disso. Vejam o que
diz o seguinte texto em 1.Pedro 5.5-6:

“Rogo igualmente aos jovens: sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato
de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos,
contudo, aos humildes concede a sua graça. Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão
de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte...”

O primeiro aprendizado que podemos extrair deste texto é que o Senhor “concede a sua
graça” aos humildes. Precisamos ser humildes para recebermos a graça do Senhor. Refiro-me a
sua “graça” em todos os sentidos, desde a salvação até o sustento diário que recebemos, pois
tudo é por graça. Isso significa que tudo isso recebemos como presente imerecido do Senhor.
Alguém que concede graça é alguém que dá algo que o outro não merece, por amor. E o
Senhor concede somente a sua graça aos humildes de espírito. Mas nesse texto também
vemos que Pedro associa o fato de sermos humildes com nos humilharmos diante de Deus. Há
pessoas que acham ser humildes, mas, em certas ocasiões, não estão dispostas a se
humilharem. Então, precisamos deixar já claro desde o inicio: humilde é aquele que se
humilha. Vejam que nisto há uma componente ativa, como já disse mais acima. Não se trata
apenas de “sermos” humildes, mas de “nos humilharmos”. Estão compreendendo a diferença?
Podemos ser naturalmente calmos, simples, ocultar nossas virtudes para não aparecer diante
das pessoas, mas isto pode ser apenas superficial, isto é diferente a nos humilharmos diante
de Deus e, como consequência, diante dos homens. Por este motivo esta é a primeira das
bem-aventuranças, já que o cristão é, em essência, alguém que se humilha diante do seu
Criador. Quando reconhecemos que somos pecadores e vamos a Cristo implorando a sua
salvação, nós nos humilhamos diante do Senhor. Quando reconhecemos no dia a dia, que
precisamos da ajuda do Senhor para todas as coisas que faremos, nós nos humilhamos diante
do Senhor. Quando oramos pedindo que a vontade do Senhor seja realizada e não a nossa,

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estamos nos humilhando diante do Senhor. Em essência, a vida cristã é diferente à do mundo,
pois é uma vida de humildade que reconhece sua insuficiência e que depende constantemente
de Deus e da graça de Cristo. Aos humildes ele concede a sua graça.

Por outro lado, outra resposta que eu daria a quem pergunta o porquê de nos humilharmos
sendo cristãos, é a seguinte: devemos nos humilhar porque Cristo também se humilhou e nós
somos imitadores dEle. Vejam o que disse Paulo em Filipenses 2.6-8:

“Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os
outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu,
senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que
houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como
usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo,
tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz”.

Este texto nos ensina que a humilhação de Cristo consistiu no “esvaziamento” e na posição de
servo, embora ele é Deus e Senhor, ele se fez servo. Ele nos deu um exemplo a seguir: “Porque
eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (João 13.15). Então, para
sermos humildes precisamos nos esvaziar primeiro de todo o que temos dentro. O Senhor
abandonou a sua posição, esvaziando-se de todo o poder e a glória que lhe pertenciam para se
fazer um simples servo. É assim que nos humilhamos e é assim que passamos a ser humildes
de espírito. Conforme destaca Lloyd-Jones, a diferença das outras bem-aventuranças que
apresentam características de enchimento, de plenitude, esta primeira característica é de
esvaziamento, de abandono completo do orgulho e a autossuficiência pessoal.

Os primeiros passos visando a humildade de espírito


Uma vez entendida a necessidade de sermos humildes de espírito. Por onde deveríamos
começar para seguir este caminho na vida cristã? Como podemos nos tornar realmente
humildes de espírito e não simplesmente cair em um autoengano de uma falsa piedade
superficial sustentada pelas aparências exteriores? Eu sintetizaria a resposta nas palavras2 de
John Owen, o grande pregador puritano, a respeito da humildade:

“Há duas coisas que servem para humilhar as almas dos homens: a devida consideração a
respeito de Deus e então, a respeito de nós mesmos. A respeito de Deus, em sua grandeza,
glória, santidade, poder, majestade e autoridade; a respeito de nós mesmos em nossa
condição insignificante, abjeta e pecaminosa”.

Isso quer dizer que o primeiro passo é entendermos a grandeza e santidade de Deus.
Precisamos conhecer quem Deus é e quais são os seus atributos. Já pensaram sobre os
atributos de Deus? Quais as suas características? Como Deus é? A.W.Pink3 escreveu um
tratado sobre os atributos de Deus, dentre os quais ele destaca: a solidão de Deus, os decretos
de Deus, a sua onisciência, a sua presciência, a sua supremacia, a sua soberania, a sua
imutabilidade, a sua santidade, o seu poder, a sua fidelidade, a sua bondade, a sua paciência, a
sua graça, sua misericórdia, seu amor, e a sua ira. Estes são alguns atributos de Deus. Somente
conhecendo Deus e seus atributos é que entenderemos os seus juízos e a situação da

2
Citado por J.I. Packer no livro “Entre os gigantes de Deus”, Editora Fiel.
3
“Os atributos de Deus”. A.W.Pink, Editora PES.

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humanidade toda diante dEle. Além disso, se conhecemos Deus, também entenderemos algo
sobre nós mesmos, o que nos leva à segunda parte sobre como sermos humildes, que
trataremos a seguir.

O segundo passo do caminho à humildade é entendermos o que somos diante dEle, qual é a
nossa situação pelos nossos pecados. Precisamos entender que merecemos a condenação e
que não somos dignos da sua misericórdia. Precisamos entender como foi grande a sua graça,
como ele nos perdoou não sendo merecedores disso. Precisamos entender que somos
sustentados por Ele e que sem a sua graça seriamos consumidos em um instante. Somente isso
nos leva a uma atitude de humilhação diante de Deus e nos fará sentir o que diz em Ezequiel
36.31: “Então, vos lembrareis dos vossos maus caminhos e dos vossos feitos que não foram
bons; tereis nojo de vós mesmos por causa das vossas iniquidades e das vossas abominações”.
Ou como disse Pedro (agora sim, mostrando o lado humilde dele), quando viu o poder de
Cristo operando na grande pesca milagrosa: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”
(Lucas 5.8). Também Isaías é um exemplo, quando viu a glória de Deus e disse: “Então, disse
eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um
povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Isaías 6.5).

Somente tendo esse sentimento de humilhação diante da grandeza de Deus é que sentiremos
a necessidade de um salvador para nossos pecados, somente assim entenderemos que
precisamos correr para Cristo, para que ele nos socorra. Somente na humilhação do espírito o
pecador corre a Cristo por ajuda. Por isso esta é a primeira bem-aventurança, o inicio do
discipulado e da vida cristã. Mas isto não é apenas necessário para quem não é crente ainda.
Todo cristão precisa constantemente se humilhar diante de Deus por causa dos seus pecados.
Todo homem precisa reconhecer constantemente o reinado e soberania de Deus. É isso o que
o texto de 1.Pedro 5.5-6 que apresentamos anteriormente diz, ele foi escrito para pessoas que
já eram cristãs: “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto” (1Pedro 1.1b). Mas
Pedro lhes lembra: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em
tempo oportuno, vos exalte” (1 Pedro 5.6).

A consequência – aplicações práticas na nossa vida


Se compreendermos os passos anteriores, o terceiro passo deveria ser uma simples
consequência, embora na prática sempre nisto tenhamos sérias dificuldades. Se trata da
humildade na nossa vida prática diante das pessoas. Eis aqui a pedra de tropeço para os
crentes. Na teoria entendemos muito bem, mas eu acredito que temos dificuldades práticas
com a humildade por causa de não termos entendido completamente com o coração a nossa
miséria diante de Deus e, por tanto, também não manifestamos isso no comportamento do dia
a dia. A seguir, apresentaremos alguns exemplos da vida prática nos quais precisamos ser
humildes de espírito:

A- A humildade de espírito como dependência no dia a dia


Hoje se prega muito na mídia sobre os méritos próprios: “você pode”, “você é dono de si
mesmo”, etc. Mas a vida cristã é, neste sentido, uma negação a nosso ego: “Se alguém quer vir
após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lucas 9.23). Nada
podemos fazer sozinhos. Além disso, o ensinamento bíblico não afirma que Deus vai fazer por
nós tudo quanto quisermos. Neste sentido, têm pessoas que usam equivocadamente o texto

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de Filipenses 4.13 (“Tudo posso naquele que me fortalece”), declarando que podemos fazer
qualquer coisa, pois Cristo está do nosso lado. Mas se vemos os versos anteriores, o que Paulo
está afirmando é que ele pode resistir qualquer circunstância que Deus lhe colocar, pois é
fortalecido em Cristo. O ensinamento bíblico diz também que, além de não podermos fazer
nada, tudo aquilo que podemos fazer é somente “se Deus o quiser e o determinar assim” (veja
Tiago 4.13-16). É por isso que oramos “em súplica”, rogando ao Senhor por seu favor. Um bom
exemplo disto encontramos em 2 Coríntios 12.8-9. Paulo rogou ao Senhor que tirasse o
espinho da sua carne, mas lhe foi negado. “Basta-te a minha graça” foi a resposta que ele
recebeu de Deus. Lamentavelmente, alguns crentes não querem aceitar as dificuldades e
tentam se rebelar contra Deus ou se desanimam e querem abandonar a fé. É neste contexto
que foi escrito Hebreu 12. Será que seriamos capazes de nos humilharmos diante do Senhor e
dizer como disse Jó: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o
SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21).

Também, é comum ver como o homem, mesmo sendo cristão, muitas vezes busca dar o seu
“jeitinho” nas situações da vida. Vemos por exemplo Sara que não soube esperar o filho da
promessa, e deu sua serva para seu marido para que engravidasse no seu lugar, buscando
desta forma obter a promessa. Mas o Senhor Deus disse a seu marido, Abrahão, que não seria
esse o filho da promessa. A promessa viria do “impossível”, pois o Senhor Deus queria mostrar
o seu poder nesta obra. Assim também somos nós. Muitas vezes não sabemos esperar e, ao
invés de sermos humildes, nos tornamos arrogantes e agimos como que querendo dar um
empurrãozinho de ajuda ao Senhor, como se ele tivesse ficado sem poder para agir e
precisasse de nós! Demais seria falar sobre as consequências destes atos. Sempre acabam em
precipitação, más escolhas e, por conseguinte, perdas e sofrimentos que não eram
necessários. Cada um saberá no que pode ter dificuldades de esperar os tempos do Senhor. É
ter dificuldade de esperar a pessoa certa, ou querer mudar no nosso tempo as atitudes de uma
pessoa, querer que as respostas venham já, etc., etc. Em isto nos falta humildade para
reconhecermos a soberania de Deus, a nossa incapacidade de mudar as coisas sem o poder de
Deus, além de reconhecermos que ele age nos seus tempos. Nos falta humildade para
reconhecer como o fez Davi, no Salmo 31.14-15a: “Quanto a mim, confio em ti, SENHOR. Eu
disse: tu és o meu Deus. Nas tuas mãos, estão os meus dias...”. Entender isto e reconhecer que
o Senhor é soberano e que dependemos plenamente da sua graça precisa de humilhação de
espírito, pois é contrário ao desejo humano e pecaminoso que reinou no homem desde o
princípio quando quis ser igual a Deus e independente dEle, não querendo aceitar a sua
vontade e traças seus próprios caminhos.

B- A humildade de espírito na sociedade, na igreja e na vida do lar


Como é a nossa postura na igreja, família e sociedade? A postura cristã é de sujeição e
submissão, o que consiste em considerar ao outro sempre superior a mim. Isso precisa de
humildade de espírito. Por exemplo, na família, em Efésios 5.21 apresenta o princípio que tem
a ver com a humildade. Quais são as consequências práticas? A sujeição das esposas aos
maridos requer humildade, a sujeição dos filhos aos pais requer de humildade, a sujeição dos
servos a seus senhores requer humildade. Ora, todas essas atitudes não são pesadas pela
atitude exterior, mas pelo que está no coração. Como uma mulher se indigna quando seu
marido tem a responsabilidade de tomar as decisões? E pior ainda, quando a decisão tomada
por ele não foi a melhor? Se isto acontecer é que falta humildade para reconhecer a liderança

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do lar que foi dada pelo Senhor Deus e é ter falta de fé de que Deus dirigirá da melhor maneira
ao marido. Como os filhos se indignam em obedecer às proibições dos seus pais? Neste caso é
a mesma atitude. E os servos com seus senhores? Da mesma maneira, também falta
humildade. Temos que lembrar na posição que o Senhor Deus nos colocou e para isso
precisamos ser humildes de espírito, fazendo tudo em primeiro lugar porque somos humildes
diante do Senhor e porque o amamos!

Por outro lado, há outro tipo de problema de humildade na vida social que tem a ver mais com
as capacidades que cada um de nós tem. Um dos testes que colocaria para este tipo de
humildade é a seguinte questão: Quanto falo de mim mesmo para os outros? Quanto eu falo
sobre meus resultados, sobre minhas virtudes? Ou talvez não fale, mas como me sinto em
relação a isso? Há um senso de superioridade por minha posição diante dos outros? Não
estamos nos referindo à alegria normal que toda pessoa tem quando ganha algo, quando
ascende no seu trabalho, ou similares. Também não estou falando sobre o respeito que outras
pessoas podem nos ter quando somos pessoas reconhecidas na igreja ou na sociedade, mas
me refiro àquela atitude de sermos nós quem sempre puxa para falar de nós mesmos e do que
nós fazemos, ou aquele sentimento quando estamos do lado de outras pessoas e sentimos
como que pena por serem menos que nós. Se formos assim certamente temos problema de
humildade diante do Senhor. Por quê? Porque estamos esquecendo que tudo o que temos
provém do Senhor. Neste sentido, se temos mais do que outro, se alcançamos mais coisas do
que outro, se estamos em uma melhor situação do que outro, é tudo bênção do Senhor. O
Senhor é quem dá e o Senhor é quem tira, até a nossa própria capacidade intelectual. Então
não podemos nos gabar de nada. É uma questão de quantos talentos o Senhor dá a cada um,
como disse o Senhor em Lucas 12.48: “Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor
e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado,
muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. Quanto mais
capazes formos mais seremos cobrados, assim também, quanto mais responsáveis formos
como lideres do lar, como senhores nos negócios, como pais na família, mas seremos cobrados
do Senhor. Isto tem que nos levar à humildade de espírito clamando ao Senhor para que nos
capacite Ele para realizar o trabalho que Ele nos tem encomendado como mordomos seus.

Finalmente, gostaria de destacar mais um ponto da nossa postura, mas agora em relação a
nossa igreja. Como é a nossa postura? Se tivermos mais entendimento da Palavra do que
outros irmãos, menosprezamos a eles por isso? E os pequenos grupos que se formam dentro
da igreja? Será que não nos tornamos arrogantes em um pequeno grupo achando que é ali que
está a igreja e, como consequência, nos afastamos dos outros irmãos? Nada disso deveria
acontecer! Se alguma dessas é a nossa atitude é porque nos falta humildade de espírito. Se o
Senhor Deus nos deu um entendimento maior é para que edifiquemos os outros irmãos,
ajudando-os a compreender melhor as Escrituras. Se em um pequeno grupo somos edificados
e há uma visão doutrinária em comum, firme na Palavra, é para que sejamos fortalecidos e
para que, depois, possamos compartilhar isso com outros irmãos, edificar a igreja, corrigir os
erros e “segurar” a outros mais fracos. É assim que deve agir um humilde de espírito.

C- A humildade de espírito diante das críticas


Finalmente, o último ponto que queremos ver é o seguinte: quanta humildade há no mais
íntimo do nosso coração? Ou colocando a pergunta no sentido negativo, sabemos que o

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contrário à humildade é o orgulho, então: quanto orgulho há no fundo do nosso coração? E


para respondermos isto não nos apressemos pensando no dia a dia, mas vamos pensar nas
situações difíceis, como por exemplo no meio de uma discussão tensa, no meio de uma
dificuldade com alguma pessoa, etc. É nesses momentos que mais se torna manifesto o que
realmente somos, pois é ai que o nosso velho homem emerge à luz. Então pensemos nessas
situações tensas, como reagimos diante de uma crítica forte? Realmente ponderamos o que a
outra pessoa disse, tentando avaliar objetivamente os fatos para entendermos se ela tem algo
de razão? Ou rapidamente nos defendemos negando ser verdade o que a pessoa nos afirma?
Ficamos furiosos, irados ou paramos para pensar? Como as outras pessoas se sentem em
relação a nós para nos falar alguma coisa que não gostaram de nossas atitudes? As pessoas
têm certo temor de nos falarem algo um pouco duro e nos ofenderem? Se estas coisas
acontecem é porque provavelmente há algo de orgulho no nosso coração.

Mas há outra atitude que também implica em orgulho e que é aquela pessoa que facilmente
se machuca por algo que o outro falou. Eis aqui a mesma atitude, mas com uma reação
diferente. Um melindroso no fundo é um orgulhoso, pois seu ego é tão alto que não tolera
críticas, embora seja bem fundado. Facilmente se ofende e fica machucado, ao invés de se
avaliar diante do Senhor para ver se não é o próprio Senhor lhe falando através de uma
pessoa. Nada disto provém da humildade de espírito, pois o humilde de espírito é ciente que
peca, quem tem falhas e defeitos e, por conseguinte, constantemente está em auto-avaliação
para crescer e ser santificado.

Considerações finais sobre a humildade de espírito


Depois de termos analisado o verdadeiro significado da humildade de espírito. O que podemos
concluir a esse respeito? Já temos visto alguns exemplos práticos de casos de problemas de
humildade, também vimos como começar a sermos humildes de espirito, sendo necessário um
conhecimento sobre a grandeza de Deus e sobre a pequenez humana. Isto nos levará a uma
correta postura diante de Deus e dos homens. Assim sendo, podemos concluir que precisamos
constantemente buscar conhecer mais a nosso Deus, conhecer mais dos seus atributos e nos
enxergarmos diante dEle, para assim exaltar seu grande nome e lembrarmos o nada que
somos.

Por outro lado, temos um claro modelo de humildade e de humilhação a seguir no nosso dia a
dia. Esse modelo é Cristo, que sendo Deus e Senhor do Universo veio ao mundo em forma de
servo, nasceu em um estábulo, vivia sem ter sequer aonde encostar a sua cabeça para dormir,
que sendo Rei entrou a Jerusalém humildemente montado em um jumento, que lavou os pés
aos discípulos e que morreu na cruz em nosso lugar. Ele é o exemplo de humildade. Assim é o
reino de Deus, por isso o Senhor Jesus disse:

“Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade,
em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do
que aquele que o enviou. Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as
praticardes.” (João 13. 15-17)