Você está na página 1de 26

Revista Brasileira de Educação do Campo

Brazilian Journal of Rural Education


ARTIGO/ARTICLE/ARTÍCULO
DOI: http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e8629

A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos


culturais pós-estruturalistas: um olhar para publicações
em periódicos científicos

1 2 3 4
Alberto Dias Valadão , Keila Mariano dos Santos , Tatiane Cristina Pinto , Karla Aryella da Silva Tico
1, 2, 3, 4
Universidade Federal de Rondônia - UNIR. Departamento Acadêmico de Ciências Humanas e Sociais - DACHS.
Campus de Ji-Paraná. Rua Rio Amazonas, 351, Bairro Jardim dos Migrantes, Ji-Paraná - RO. Brasil.

Autor para correspondência/Author for correspondence: albertoelaine10@gmail.com

RESUMO. A partir de um levantamento feito em periódicos


qualis A1 e A2 e artigos publicados em todas as edições da
Revista Brasileira de Educação do Campo (2016 - v.1. – Jan/jun
a 2020 – v.5.), no total de 11 edições, procurou-se identificar os
trabalhos que recorreram ao campo teórico dos Estudos
Culturais Pós-Estruturalistas para fazerem suas análises. Este
artigo resulta dos estudos bibliográficos de um projeto de
pesquisa vinculado ao Departamento Acadêmico de Ciências
Humanas e Sociais (DACHS) da Universidade Federal de
Rondônia – UNIR - Campus de Ji-Paraná, que tem como
objetivo identificar e analisar como são produzidas e negociadas
as identidades e diferenças de crianças e jovens do campo de Ji-
Paraná/RO, resultado da inserção no espaço educativo urbano. O
projeto, em sua fase inicial, procurou investigar em periódicos
científicos se os Estudos Culturais têm contribuído nas análises
da Educação do Campo no Brasil. Entende-se que uma
investigação a partir dos Estudos Culturais contribui para
problematizar como crianças e jovens vitimados pela política
pública de fechamento das escolas do campo foram se tornando
reféns do transporte escolar para escolas urbanas. Constata-se
que são ínfimos os estudos empreendidos no Brasil, que
recorrem aos Estudos Culturais para problematizar a Educação
do Campo.

Palavras-chave: educação do campo, estudos culturais,


publicações.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


1
Este conteúdo utiliza a Licença Creative Commons Attribution 4.0 International License
Open Access. This content is licensed under a Creative Commons attribution-type BY
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Rural Education in Brazil under the lenses of post-


structuralist cultural studies: a look at publications in
scientific journals

ABSTRACT. Based on a research made in qualis A1 and A2


journals and articles published in all editions of the Revista
Brasileira de Educação do Campo (2016 - v.1. - Jan / jun to
2020 - v.5.), in a total of 11 editions, we tried to identify the
works that resorted to the theoretical field of Post-Structuralist
Cultural Studies to do their analysis. This article results from the
bibliographic studies of a research project, linked to the
Academic Department of Human and Social Sciences (DACHS)
of the Federal University of Rondônia - UNIR - Ji-Paraná
Campus, which aims to identify and analyze how they are
produced and negotiated the identities and differences of
children and youth in the Ji-Paraná/RO countryside, the result of
insertion in the urban educational space. The project in its initial
phase sought to investigate in scientific journals, whether
Cultural Studies has contributed to the analysis of Rural
Education in Brazil. It is understood that an investigation based
on Cultural Studies, contributes to problematize how children
and young people victimized by the public policy of closing
rural schools, have become hostages of school transport to urban
schools. It appears that the studies undertaken in Brazil are very
small, which resort to Cultural Studies to problematize Rural
Education.

Keywords: rural education, cultural studies, publications.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


2
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Educación Rural en Brasil bajo las lentes de los estudios


culturales pos-estructuralistas: una mirada a las
publicaciones en revistas científicas

RESUMEN. Basado en una encuesta realizada en revistas y


artículos Qualis A1 y A2 publicados en todas las ediciones de la
Revista Brasileira de Educação do Campo (2016 - v.1. - enero /
junio a 2020 - v.5.), en un total de 11 en las ediciones, tratamos
de identificar las obras que recurrieron al campo teórico de los
Estudios Culturales pos-estructuralistas para hacer su análisis.
Este artículo es el resultado de los estudios bibliográficos de un
proyecto de investigación, vinculado al Departamento
Académico de Ciencias Humanas y Sociales (DACHS) de la
Universidad Federal de Rondônia - UNIR - Campus Ji-Paraná,
cuyo objetivo es identificar y analizar cómo se producen y
negocian Las identidades y diferencias de niños y jóvenes en el
campo de Ji-Paraná / RO, resultado de la inserción en el espacio
educativo urbano. El proyecto en su fase inicial buscó investigar
en revistas científicas, si los estudios culturales han contribuido
al análisis de la educación rural en Brasil. Se entiende que una
investigación basada en estudios culturales, contribuye a
problematizar cómo los niños y jóvenes víctimas de la política
pública de cierre de escuelas rurales, se han convertido en
rehenes del transporte escolar a las escuelas urbanas. Parece que
los estudios realizados en Brasil son muy pequeños, que
recurren a los estudios culturales para problematizar la
educación rural.

Palabras clave: educación rural, Educación de campo, estudios


culturales, publicaciones.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


3
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Introdução

O Estado de Rondônia tem na 2013, 119.890 escolas (Mariano & Sapelli,


agricultura familiar um dos seus pilares de 2014). Foram fechadas, portanto, mais de
sustentabilidade econômica. Mesmo com o 30 mil escolas no campo brasileiro. Em
processo de migração intensa do campo Rondônia, conforme Suave (2017), houve
para as cidades, o setor ainda emprega em a maior taxa de redução de escolas rurais
torno de 84% da mão de obra que trabalha do país como o fechamento de 1.150
no campo, segundo o Ministério do escolas rurais (- 64,61%).
Desenvolvimento Agrário (MDA) (Brasil, Aos poucos, os alunos vitimados por
2012). No entanto, parece não haver uma essa política pública, sob a justificativa de
preocupação por parte do Estado com a cortes de gastos, vão se tornando reféns do
escolarização dos filhos dos agricultores, transporte escolar para escolas distantes de
que convivem com problemas, tanto em suas residências, principalmente àquelas
relação à estrutura física precária das situadas em áreas periféricas urbanas. São
escolas como um ensino descolado de suas crianças e jovens adentrando numa escola
realidades, fruto de currículos similares aos que não consegue reconhecer que o modo
produzidos para as escolas urbanas, bem de vida urbano representa uma dentre as
como professores que desconhecem as várias formas possíveis de vida, não sendo,
experiências sociais de quem vive e portanto, a forma “natural”. Assim, há
trabalha no campo. novas configurações subjetivas, posições
Esse descaso, com a Educação no de sujeito e processos de identificação que
campo no interior de Rondônia tornou-se são constituídos em práticas sociais (Hall,
mais agudo com o processo de fechamento, 2012) diferentes daquelas constituintes das
no início dos anos 1990, das escolas famílias camponesas.
chamadas de multisseriadas, às quais os Esse desinteresse do poder público
filhos dos agricultores tinham acesso. pela educação dos agricultores não ocorre
Comparando os dados do Censo Escolar de apenas em Rondônia. Oliveira e Campos
2013 com os dados de 2003, constata-se (2012, p. 243) afirmam que, “Por parte dos
que o número de escolas do campo no sistemas estaduais e municipais de ensino,
Brasil caiu em 31,4%. Havia, em 2003, permanece a política de fechamento das
103.300 escolas do campo e, em 2013, escolas do campo, por meio da nucleação e
70.816 escolas; sendo que na área urbana, da oferta de transporte dos educandos para
em 2003, havia 108.600 escolas e, em escolas urbanas”, apesar de vários

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


4
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

estudiosos virem denunciando esse culturais (Escosteguy, 2010), concebendo


processo como responsável pela exclusão e que todos os elementos que de alguma
segregação daqueles que historicamente forma serão envolvidos devem ser levados
tiveram suas vozes e passos silenciados, em consideração, tornando-se artefatos
vítimas como afirma Caldart (2004, p. importantes na produção do conhecimento,
151), de “... um tipo de educação optou-se num primeiro momento (de maio
domesticadora e atrelada a modelos a novembro de 2019) por um estudo sobre
econômicos perversos”. esse campo teórico, e sobre os
Ao constatar, portanto, que a cada fundamentos da Educação do Campo,
ano reincidem políticas supletivas, principalmente a partir das Diretrizes
compensatórias, que não raras vezes têm Operacionais para Educação Básica nas
estigmatizado o agricultor e o seu trabalho, Escolas do Campo (Resolução CNE/CEB
fazendo com que os jovens tencionem logo Nº 1, 2002).
cedo migrar sem qualificação para as A partir deste estudo, empreendeu-se
cidades, propôs-se em 2019 no uma investigação de publicações em
Departamento Acadêmico de Ciências revistas qualis A1 e A2 e na Revista
Humanas e Sociais (DACHS), UNIR – Brasileira de Educação do Campo (RBEC)
Campus de Ji-Paraná, um projeto de da Universidade Federal de Tocantins/TO
pesquisa objetivando identificar e analisar em suas 11 edições, procurando identificar
como são produzidas e negociadas as trabalhos que tenham recorrido aos
identidades e diferenças de crianças e Estudos Culturais como campo
jovens do campo resultado da inserção no epistemológico para problematização da
espaço educativo urbano, buscando Educação do Campo, ou para a educação
compreender como os alunos do campo daqueles que hodiernamente deslocam-se
que estudam nas escolas urbanas de suas residências para depois de um
constroem, reconstroem e resistem aos longo trajeto adentrar numa escola urbana.
sentidos impostos em seus processos de Este artigo objetiva, portanto,
escolarização. identificar como a Educação do Campo
Ao eleger neste trabalho para análise nos últimos anos têm sido objeto de estudo
da investigação o campo teórico dos a partir de um campo teórico que tem na
Estudos Culturais Pós-Estruturalistas, cujo cultura um elemento central para a
interesse central é perceber as intersecções produção do conhecimento, ou como diz
entre as estruturas sociais e as práticas Hall (1997), como um campo de luta que

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


5
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

governa, regula as condutas dos sujeitos, como as práticas sociais, enquanto práticas
suas ações e práticas sociais. Dessa forma, de significação, vão forjando os sujeitos e
a partir da consulta a periódicos qualisados o modo como se veem e interpretam o que
no Brasil, pretende-se compreender se há lhes ocorre, não tem sido “operado” como
estudos que problematizam a Educação do instrumental importante para ajudar a
Campo como prática produtiva, envolvida pensar a Educação do Campo.
em relações de poder, inclusive no sentido
Os Estudos Culturais e a desconfiança
de fabricar meios de controle das condutas,
das metanarrativas
ações e modos de ser e de pensar dos
sujeitos, cujas práticas sociais divergem O campo teórico dos Estudos
daquelas para onde o poder público os tem Culturais não se alinha ao modelo
encaminhado para o processo de historicamente constituído de pensar a
escolarização. cultura a partir de uma disciplina
Para desenvolver a argumentação acadêmica no sentido tradicional, com
sobre como, ou se os Estudos Culturais finalidades, objetivos, estratégias
têm sido utilizados como campo teórico definidas. Ao surgir, como um campo de
para problematização da Educação do estudo, que tem na cultura um elemento
Campo em Revistas qualis A1 e A2 e na central para a produção do conhecimento
RBEC em todas as suas publicações, o (Hall, 1997), os Estudos Culturais,
artigo está estruturado em três momentos principalmente a partir da proposição do
distintos, que se entrelaçam. Inicia-se filósofo francês Jean-François Lyotard
mostrando os Estudos Culturais como (1998), coloca em xeque as metanarrativas
campo teórico que concebe a cultura como tidas como detentoras das explicações
uma prática de significação que produz científicas, mas cujas respostas não davam
identidades e diferenças. No segundo conta de um entendimento mais profundo
momento, discute-se como a Educação do dos novos problemas contemporâneos,
Campo em Rondônia tem sido principalmente em relação às questões
marginalizada pelas políticas públicas, econômicas. Com isso, abrem-se
negando ao sujeito do campo o direito de possibilidades de romper com a
estudar onde reside e trabalha. Por último, homogeneização fundada no discurso da
trazem-se a síntese dos resultados e outros “alta cultura”, procurando dar vez aos
apontamentos mostrando como os Estudos discursos marginais, construídos a partir de
Culturais, mesmo permitindo investigar uma “baixa cultura”, desprezada como

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


6
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

constitutiva da sociedade. A cultura torna- As utilizações da cultura (1957) de Richard


se nessa nova perspectiva, um elemento Hoggart, Cultura e sociedade (1958) de
propulsor da sociedade. Raymond Williams e A formação da classe
A partir da “centralidade da cultura” operária inglesa (1963) de Edward Palmer
(Hall, 1997) e da ideia do que a mesma Thompson. Através dessas obras esses
tem um papel constitutivo na compreensão autores,
e na análise das instituições e relações
Quer fossem históricos ou
sociais, há segundo Limeira de Sá (2017) contemporâneos em seu foco, eles
uma desconfiança de todas as próprios constituíam respostas às
pressões imediatas do tempo e da
metanarrativas pelo entendimento de que sociedade em que foram escritos, ou
eram focalizados ou organizados por
os discursos são parciais. Segundo a tais respostas. Eles não apenas
autora, que recorre aos Estudos Culturais levaram a “cultura” a sério, como
uma dimensão sem a qual as
para pensar a Cultura Surda, “Uma das transformações históricas, passadas e
presentes, simplesmente não
grandes contribuições desses Estudos é a poderiam ser pensadas de maneira
noção de que a classe, ou a economia, não adequada. Eram em si mesmos
“culturais”, no sentido de Cultura e
são o motor fundamental que fornece a sociedade. (Hall, 2013, p. 146, grifos
do autor).
força organizadora da vida social – o motor
fundamental é a luta por poderes e saberes”
Essa nova forma de pensar a cultura
(Limeira de Sá, 2017, p. 232).
coloca em xeque as explicações da
Os Estudos Culturais surgem,
possibilidade do conhecimento científico a
portanto, como um campo teórico, que
partir do sujeito guiado somente pela sua
segundo Siega (2017, p. 191) “... conferem
racionalidade, ou como centro de suas
papel relevante à esfera da cultura, que
ações na formação da consciência. Hall
deixa de ser interpretada como reflexo da
(2013) afirma que não crê que exista
estrutura econômica para ter reconhecida a
qualquer ciência que possa dar conta do
sua função dinâmica no estabelecimento,
sentido. Nessa perspectiva, “algumas
manutenção ou transformação da realidade
verdades” tidas como definitivas são
social”. Isso pode ser constatado no
colocadas “sob rasura”. Dentre essas,
engendramento dos Estudos Culturais,
podemos apontar as já consolidadas
quando Hall (2013, p. 145) aponta três
construções teóricas que fixam,
livros, que segundo ele, “... constituíram a
estabelecem conceitos acabados de
cesura da qual – entre outras coisas –
identidade, racismo, etnicidade, dentre
emergiram os Estudos Culturais”. São eles:
outros. A partir dos Estudos Culturais a

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


7
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

subjetividade, a significação, o sentido, a ... a importância da linguagem e da


metáfora linguística para qualquer
representação aparecem como reguladores, estudo da cultura; a expansão da
organizadores da vida social e da noção do texto e da textualidade,
quer como fonte de significado, quer
construção do sujeito enquanto partícipe de como aquilo que escapa e adia o
significado; o reconhecimento da
um grupo, de uma comunidade. Hall heterogeneidade e da multiplicidade
(1997, p. 6, grifos do autor) aponta que dos significados, do esforço
envolvido no encerramento arbitrário
“Até os mais céticos têm se obrigado a da semiose infinita para além do
significado; o reconhecimento da
reconhecer que os significados são textualidade e do poder cultural, da
subjetivamente validos e, ao mesmo própria representação, como local de
poder e de regulamentação; do
tempo, estão objetivamente presentes no símbolo como fonte de identidade.
(Hall, 2013, p. 232, grifo do autor).
mundo contemporâneo – em nossas ações,
instituições, rituais e práticas”.
Como se observa, não é um campo
Gestados, portanto a partir da
teórico que dá ênfase a somente uma
chamada “virada cultural”, os Estudos
grande problemática como objeto de
Culturais se estruturam a partir da
estudo, mas é eminentemente marcado por
descoberta da discursividade, da
grandes tensões sociais, econômicas e
textualidade (Hall, 2013), da negação da
culturais. Um campo teórico que a partir da
concepção e prática de cultura concebida
cultura pensada como instrumento de
como hierarquizada onde tradicionalmente
reorganização da sociedade (Limeira de
se aceitava que havia uma cultura elitista –
Sá, 2017), como prática produtiva (Silva,
produtora de verdades incontestáveis e
2010), mostra que “Cada movimento que
universais – dominante em detrimento de
fizemos é normativamente regulado no
uma cultura de massa, popular
sentido de que, do início ao fim, foi guiado
caracterizada pela barbárie, pela
por um conjunto de normas e
incapacidade intelectual, social e política,
conhecimentos culturais” (Hall, 1997, p.
necessitando dessa forma dos detentores de
19). Dessa forma, não teríamos os Estudos
uma “alta cultura” para organizar,
Culturais fundamentados num bloco
moralizar e fixar os significados que
monolítico de investigação, um corpo
circulariam como necessários e
teórico homogeneizado, pois isso os
indispensáveis para todos. Os Estudos
descaracterizariam como um conjunto de
Culturais vão contestar essa busca da
conhecimentos contestados, localizados e
“redenção” pautada pela homogeneização.
conjunturais, que têm que ser debatidos de
Dessa forma, ressalta-se:
um modo dialógico (Hall, 2013).

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


8
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Como os Estudos Culturais sistemas simbólicos de representação


quanto por meio de formas de
interessam-se por valores e sentidos, exclusão social. A identidade, pois,
privilegiando a experiência e as condições não é o oposto da diferença: a
identidade depende da diferença. Nas
em que as pessoas vivem (Limeira de Sá, relações sociais, essas formas de
diferença – a simbólica e a social –
2017), torna-se importante entender num são estabelecidas em parte, por meio
estudo que trata da Educação do Campo, de sistemas classificatórios.
(Woodward, 2012, p. 40, grifos da
ou como as crianças e jovens recorrerem às autora).
escolas urbanas para o processo de
escolarização discutir brevemente como Como um sistema classificatório

esse campo teórico pensa as identidades e como diz Woodward (2012), aplica um

diferenças. Isso porque “... as velhas princípio da diferença a um determinado

identidades, que por tanto tempo grupo. Os alunos do campo ao adentrarem

estabilizaram o mundo social, estão em numa escola urbana se submetem a um

declínio, fazendo surgir novas identidades processo de produção de identidades de

e fragmentando o indivíduo moderno, até crianças e jovens do campo

aqui visto como um sujeito unificado” homogeneizadas, tendo como referência as

(Hall, 2011, p. 7). Hoje, os alunos, ao identidades “normais” urbanas. Nesse

deixarem suas comunidades rumo às processo de fixação de identidades únicas,

cidades, são confrontados por uma desejáveis produzem-se identidades que se

multiplicidade desconcertante e cambiante querem idênticas, “normais”, apesar de a

de identidades possíveis, como afirma Hall identidade, como afirma Bauman (2005),

(2011) ao caracterizar a identidade do ser um monte de problemas, e não uma

sujeito pós-moderno. Isso porque “Dentro campanha de tema único.

de nós há identidades contraditórias, No próximo tópico, dar-se-á ênfase à

empurrando em diferentes direções, de tal Educação do Campo, historicamente

modo que nossas identificações estão marginalizada pelo poder público. Mostra

sendo continuamente deslocadas” (Hall, que apesar do discurso, tanto da academia

2011, p. 13). quanto do poder público oficial, de que

Essas identidades não são dadas a essa é uma dívida que precisa ser

priori, um pendor natural, mas são resgatada, isso pouco tem contribuído para

contingentes, plurais, a mudança do quadro desolador ao qual


estão expostos os agricultores até os dias
... fabricadas por meio da marcação atuais, principalmente em Rondônia,
da diferença. Essa marcação da
diferença ocorre tanto por meio de

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


9
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

estado de características eminentemente identidades camponesas que, convivendo


agropecuárias. num campo de hierarquias, são disputadas
numa queda de braço desigual, uma vez
Educação do Campo em Rondônia:
que estão sujeitas a vetores de forças, as
educação com o campo e para o campo?
relações de poder (Silva, 2012).
Os direitos à educação no Brasil, A educação no interior de Rondônia
independentemente da localização opta por um modelo pensado para o
geográfica, são garantidos pela público urbano, não levando em
Constituição Federal de 1988, no Art. 205 consideração as características
(Brasil, 1988), onde está escrito que a socioeconômicas e culturais fundadas na
educação, direito de todos e dever do agricultura familiar, constituidora da
Estado e da família, será promovida e grande maioria dos camponeses. Segundo
incentivada com a colaboração da o Ministério do Desenvolvimento Agrário
sociedade, visando ao pleno (MDA) (Brasil, 2012), Rondônia é o estado
desenvolvimento da pessoa, seu preparo líder da agricultura familiar no norte do
para o exercício da cidadania e sua país, com mais de 75 mil estabelecimentos,
qualificação para o trabalho. Esse direito respondendo por 74% do valor bruto da
constitucional é reafirmado no Art. 2º da produção agropecuária do estado e
LDB 9394/96 (Brasil, 1996). No entanto, empregando 233.355 pessoas. Isso mostra
parece que na realidade camponesa de que a agricultura familiar tem sido
Rondônia perpetua a ideia de que o direito fundamental na produção das identidades
à educação está relacionado com origem dos sujeitos do campo do Estado, forjados
social ou com identidades fixas, unificadas, ao produzirem sua subsistência. Hall
imutáveis, ligadas a destino ou desígnio (1997, p. 6) colabora para pensarmos este
divino, portanto naturalizadas. movimento, quando aponta que a cultura
Ter escola ou uma educação com um “... tem de ser vista como algo
mínimo de qualidade depende do “berço” fundamental, constitutivo, determinando
onde se nasce, pois a referência tem sido tanto a forma como o caráter deste
muitas vezes a de homens residentes movimento, bem como a sua vida interior”.
urbanos detentores de bens materiais, com Apesar disso, os números da
escolas cujos currículos os constituem educação para os sujeitos do campo em
como parâmetros para o restante da Rondônia – quando esta existe – mostram
sociedade. Assim, são produzidas que não se pode caracterizá-la como uma

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


10
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Educação do Campo, produtora de acordo com a bandeira de luta dos


povos do campo. A Educação do
identidades camponesas, pois não Campo é uma forma de respeito à
reconhece o povo do campo, o agricultor, diversidade cultural ao reconhecer os
direitos das pessoas que vivem no
como sujeito de sua própria educação, de campo, no sentido de terem uma
educação diferenciada da perspectiva
sua própria pedagogia. Como afirma da educação rural, como também
Caldart (2004, p. 151), trata-se de daquela que é oferecida aos
habitantes da área urbana e que
“pacotes”, que intentam “... fazer das valorize as suas especificidades.
pessoas que vivem no campo instrumentos
de implementação de modelos que as Além de não haver uma política que

ignoram ou escravizam”. A Educação do preveja uma mudança, cumprindo os

Campo pensada a partir da 1ª Conferência ditames legais de uma educação rural para

Nacional por uma Educação Básica do a Educação do Campo no Estado, o poder

Campo (1998), que permitiu a público fechou as escolinhas

consolidação das Diretrizes Operacionais multisseriadas e adotou o transporte

para a Educação Básica nas Escolas do escolar para as escolas-polo e para as

Campo (Resolução CNE/CEB Nº 1, 2002), escolas urbanas, desconsiderando o

rompe com essa ideia de uma educação previsto no Art. 4, Parágrafo Único da

pensada para o campo, típica da educação Resolução 02 de 2008 (CNE/CEB) quando

rural, e trabalha na perspectiva de uma afirma que “Quando se fizer necessária a

educação que seja no e do campo: adoção do transporte escolar, devem ser


considerados o menor tempo possível no
No: o povo tem direito a ser educado percurso residência-escola e a garantia de
no lugar onde vive; Do: o povo tem
direito a uma educação pensada transporte das crianças do campo para o
desde o seu lugar e com a sua
campo”. Mas o que tem ocorrido de forma
participação, vinculada à sua cultura
e às suas necessidades humanas e mais intensa a cada ano é a inserção dos
sociais. (Caldart, 2004, p. 149, grifos
da autora). alunos do campo nas escolas urbanas,
contrariando mais uma vez a Resolução
Pires (2012, p. 14) contribui com
citada acima, que em seu Art. 5º, § 1º diz
essa reflexão ao afirmar que,
que o deslocamento dos alunos deverá ser
Advinda da organização dos feito do campo para o campo, evitando-se,
movimentos sociais, a Educação do
Campo nasce em contraposição à ao máximo, o deslocamento do campo para
educação rural, na medida em que a cidade.
reafirma a legitimidade por políticas
públicas específicas e por um projeto Portanto, mesmo que a Resolução
educativo próprio para os sujeitos
que vivem e trabalham no campo, de CNE/CEB nº 02/2008 afirme em seu Art.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


11
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

3º que a Educação Infantil e os anos ações educativas... tratou o camponês


iniciais do Ensino Fundamental serão como carente, subnutrido, pobre e
sempre oferecidos nas próprias ignorante, não discutindo efetivamente a
comunidades rurais, evitando-se os origem dos problemas vividos no campo,
processos de nucleação de escolas e de voltando-se a atender o processo de
deslocamento das crianças, isso não tem industrialização em curso” (Rossato &
sensibilizado o poder público. Ao deslocar Praxedes, 2015, p. 21).
os alunos, crianças e jovens, de suas Em contrapartida, a educação
famílias/comunidades via transporte pleiteada pelas comunidades do interior de
escolar para a escolarização em núcleos Rondônia e prevista no Art. 13, inciso II
distantes ou nas cidades, a cultura dos das Diretrizes Operacionais para a
agricultores é secundarizada. Educação Básica nas Escolas do Campo,
Desconsidera-se, na proposição política, a deve estar centrada em “... propostas
forma como esses agricultores vão pedagógicas que valorizem, na organização
constituindo suas identidades mediante do ensino, a diversidade cultural e os
suas práticas, sendo interpelados por processos de interação e transformação do
determinadas posições de sujeito, negando campo” (Resolução CNE/CEB Nº 1,
a produção de sentidos constituídos pelo 2002), caracterizando-se por três aspectos,
trabalho campesino. Foram e continuam segundo Souza (2010, p. 26): “1.
reféns de uma educação pensada para os identidade com a sociedade civil
povos do campo, que reivindicam uma organizada e as lutas sociais no campo; 2.
educação dos povos do campo, que organização do trabalho pedagógico que
valorize sua cultura e contribua para a valoriza trabalho, identidade e cultura dos
formação humana, mediante o trabalho povos do campo; 3. gestão democrática da
com os conhecimentos construídos escola com intensa participação da
historicamente (Souza, 2010). comunidade”. Essa educação, requerida
Esse modelo descrito acima é típico pelos agricultores, pode ser conceituada
da educação rural implantada em Rondônia segundo Rossato e Praxedes (2015, p. 72)
em seus 38 anos de emancipação. Uma como a “... a expressão de um movimento
educação que continua apegada a uma educativo baseado na luta pela autonomia
visão inferiorizante dos educandos, não dos agricultores camponeses com relação
como sujeitos de experiências e saberes. ao seu modo de viver no campo e trabalhar
Uma educação “... que através de diversas

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


12
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

a terra para suprir as necessidades das sobre a Educação do Campo e, identificar e


famílias e da sociedade”. analisar artigos científicos publicados em
Mas como “a educação do campo periódicos qualisados A ou B e na Revista
[que] não admite a interferência de Brasileira de Educação do Campo (RBEC),
modelos externos e está inserida em um que problematizem a Educação do Campo,
projeto popular de sociedade, inspirado e principalmente no Brasil, tendo como
sustentado na solidariedade e na dignidade campo epistemológico os Estudos
camponesas” (Ribeiro, 2012, p. 300), mas Culturais.
que tem sido praticada em Rondônia como Nos primeiros seis meses do Projeto,
uma educação rural que trata os povos que tem previsão de encerramento em
campesinos como incivilizados, rústicos, novembro de 2021, o grupo responsável
incultos (Rossato & Praxedes, 2015) tem realizou estudos e discussões a partir de
sido problematizada pelo campo teórico teóricos dos Estudos Culturais como Hall
dos Estudos Culturais? No próximo tópico (1997, 2011, 2013, 2016), Silva (2003,
serão apontadas e discutidas as publicações 2010, 2012), Escosteguy (2010),
encontradas em periódicos qualis A1 e A2 Woodward (2012) e dos teóricos e
e em todas as edições da RBEC. princípios legais da Educação do Campo
como Caldart (2004, 2012), Souza (2010),
A Educação do Campo no Brasil tem
Pires (2012), Ribeiro (2012), Rossato e
sido problematizada pelos Estudos
Culturais? Praxedes (2015), Diretrizes Operacionais
para a Educação Básica nas Escolas do
O Projeto de Pesquisa “A produção
Campo (Resolução CNE/CEB. Nº 1, 2002)
das identidades e diferenças de crianças e
e Diretrizes complementares, normas e
jovens do campo pelas escolas públicas de
princípios para o desenvolvimento de
Ji-Paraná/RO: o colapso das identidades
políticas públicas de atendimento da
agricultoras”, vinculado à Linha de
Educação Básica do Campo (Lei
Pesquisa Educação do Campo, Cultura e
CNE/CEB nº 2, 2008).
Movimentos Sociais, Grupo de Pesquisa
A partir dos estudos empreendidos
em Etnoconhecimento e Pesquisa em
pelo grupo responsável pelo projeto sobre
Educação do Departamento Acadêmico de
a Educação do Campo e os Estudos
Ciências Humanas e Sociais – DACHS,
Culturais foi feito um levantamento em
UNIR – Campus de Ji-Paraná, tem dentre
sítios eletrônicos de periódicos A1 e A2,
os seus objetivos realizar estudos sobre os
disponíveis na Classificação de Periódicos
Estudos Culturais Pós-Estruturalistas e

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


13
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

CAPES Qualis - Áreas de Educação e Rural e Educação do Campo, dentre


Ensino - Novembro de 2015. outros.
Na Classificação de Periódicos citada Além da consulta em Revistas A1 e
acima, estão disponíveis 40 Revistas A2, usando como descritores Educação do
brasileiras A1 e 79 revistas A2 tendo a Campo e Estudos Culturais foi feita uma
educação como área de avaliação, investigação no Google como mecanismo
envolvendo áreas do conhecimento como de busca, sendo em ambas as investigações
Ciências Biológicas, Ciências Sociais encontradas, a partir da leitura dos
Aplicadas, Ciências Humanas e resumos, apenas dois artigos que fazem
Linguística, Letras e Artes. uma análise dessa modalidade de educação
Mesmo com a constatação, segundo utilizando intencionalmente o campo
Souza (2010), de que na Educação do teórico dos Estudos Culturais. O primeiro
Campo, “... alguns Nós ainda merecem trata-se do trabalho publicado na Revista
muita atenção quando se trata da produção Educação & Realidade da Universidade
de conhecimento” (Souza, 2010, p. 245, Federal do Rio Grande do Sul, Porto
grifo da autora), há nessas revistas uma Alegre, v. 40, n. 3, (2015), A1, por Ribeiro
gama de produção bastante expressiva que e Paraíso, sob o título “Currículo e MST:
trata dessa modalidade educativa, conflitos de saberes e estratégias na
envolvendo temáticas como: políticas produção de sujeitos”.
públicas, práticas pedagógicas, avanços da O trabalho das pesquisadoras discute
Educação do Campo no Brasil, os conflitos em torno dos saberes
organização curricular, multisseriação, disponibilizados nos currículos de duas
gestão democrática das escolas do campo, escolas do Movimento dos Trabalhadores
formação de professores, aspectos legais Rurais Sem Terra (MST) e das estratégias
da Educação do Campo, Pedagogia da ali inscritas para a produção de sujeitos.
Alternância, Pedagogia do MST, Educação Segundo as autoras, o trabalho insere-se no
do Campo e movimentos sociais, educação campo do currículo na vertente pós-crítica,
na reforma agrária, Educação do campo e incorporando ferramentas conceituais dos
pesquisas, Licenciatura em Educação do Estudos Culturais e dos estudos de Michel
Campo, diversidade e identidade das Foucault. Desenvolvem o argumento de
escolas do campo, fechamento das escolas que, apesar das relações de poder-saber
do campo e o processo de nucleação e forjadas no currículo das escolas
estudos comparativos entre Educação investigadas serem marcadas pela presença

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


14
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

predominante dos conhecimentos pelo pensador argentino Ernesto Laclau.


autorizados, há ali um esforço de ensinar Segundo Mosquera (2019), foi uma
outros saberes que contribuem para tentativa de estabelecer um diálogo entre a
disponibilizar algumas posições de sujeito epistemologia da educação popular,
que são de importância estratégica para a conectada com a dimensão ontológica para
produção do sujeito Sem Terra. Concluem desnaturalizar as identidades e os limites
afirmando que parece muito mais útil ao transformadores que são outorgadas às
MST um trânsito convenientemente identidades emancipatórias.
organizado entre os diversos saberes. Diante da constatação em revistas
O segundo, refere-se ao trabalho qualis A1 e A2, de que o campo teórico
publicado na Revista E-Curriculum da dos Estudos Culturais tem sido utilizado de
PUC/SP, v. 17, n. 2 (2019), A2 por forma ínfima para problematização da
Mosquera, sob o título “(F)jogos da Educação do Campo o grupo responsável
linguagem para um povo do campo: por pelo projeto, como havia sido previsto,
uma errância da Agroecologia e da perscrutou a Revista Brasileira de
Educação do Campo”. Educação do Campo (RBEC), criada em
O trabalho de Mosquera (2019) trata- 2016 na Universidade Federal do
se de uma reflexão ético-política que Tocantins, Campus de Tocantinópolis,
problematiza a forma em que a noção de tencionando identificar publicações sob o
povo é trabalhada no interior de dois olhar dos Estudos Culturais que, segundo
campos que se articulam epistemológica e Silva (2003), concebem a cultura como
politicamente como são a Agroecologia e a campo de luta em torno da significação
Educação do Campo. O autor afirma que o social, pretendendo que suas análises
deslocamento para o campo dos Estudos funcionem como uma intervenção na vida
Culturais leva-nos a extrair possíveis política e social.
consequências para os processos de Encontra-se no site deste periódico,
(trans)formação humana na educação avaliado em 2016 pela CAPES como
do/no campo e na agroecopedagogia. qualis B2 em Educação, que o mesmo
Afirma também que enveredou-se por uma surgiu da necessidade de se ter um
problematização transversal de povo, que periódico científico institucional que
constitui a superficialidade e as camadas pudesse socializar conhecimento científico
dos movimentos mencionados. Para tal à sociedade, principalmente no que
fim, fez uso de categorias desenvolvidas concerne à Educação do Campo, área ainda

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


15
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

bastante nova no âmbito da educação com 12 artigos publicados. O segundo, sob


brasileira, porém, de extrema relevânciai. o título de 50 anos da Alternância no
Consultando os arquivos da RBEC, Brasil, com 27 artigos publicados. Em
desde o seu surgimento em 2016, até a janeiro de 2020 (v.5), dando continuidade
última publicação, que se trata do volume à Publicação Contínua, foram publicados
5 de 2020, foram encontrados: dois oito artigos.
volumes em 2016 com 27 artigos Assim sendo, foram publicados pela
publicados; dois volumes em 2017, mais Revista Brasileira de Educação do Campo
um dossiê temático, sob o título Ciências até o momento 214 artigos, três ensaios,
da Natureza na Educação do Campo: duas resenhas e uma entrevista que dentre
encontros e desencontros na luta pela outros assuntos em relação à Educação do
Educação Popular somando-se 43 artigos, Campo discutiram: Movimentos Sociais e
dois ensaios e uma resenha; três volumes formação de professores; Pedagogia da
em 2018, mais um dossiê temático, sob o Alternância; experiência formativa técnico-
título Epistemologia de “nosotras”: profissional de trabalhadores do campo e
mulheres do campo, das águas e das desenvolvimento sustentável; saberes
florestas, mais um artigo especial, sob o matemáticos e história de vida de atores do
título Arquitectura do pathos en “Los dos campo; processo educativo e o currículo de
príncipes” de José Martí de Luisa Isabel escolas do campo; material didático;
Rodríguez Bello da Universidad Licenciatura em Educação do Campo
Pedagógica Experimental Libertador – (LEC); os processos formativos dos alunos
Venezuela, somando-se ao todo 61 artigos. da LEC; cultura popular e interface com a
Em 2019, com objetivo de acelerar o educação; experiências formativas de
processo de comunicação e socialização camponeses; projetos pedagógicos das
das pesquisas, disponibilizando-as de escolas comunitárias rurais; formação de
forma mais rápida às pessoas, a Revista professores para a educação básica do
adotou Publicação Contínua (PC)ii. Num campo; interfaces entre agricultura familiar
primeiro momento (v.4 (2019)) foram e Educação do Campo; conhecimentos
publicados 36 artigos, um ensaio, uma tradicionais em torno das plantas
resenha e uma entrevista. Foram medicinais e currículo de ciências; relações
publicados ainda dois Dossiês Temáticos. de gênero e divisão sexual de trabalho no
O primeiro com o título Políticas para a meio rural; condições de trabalho dos
educação e a diversidade sociocultural, educadores das escolas do campo;

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


16
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

interculturalidade na formação de Em relação aos Dossiês Temáticos,


professores; Projovem Campo - Saberes da foram dadas ênfases no primeiro (v. 2. n. 3
Terra; a formação para igualdade de (2017)) como se vê no site da Revista aos
gênero no MST; Projeto Político- fundamentos sociais, históricos, políticos,
Pedagógico (PPP) e relações participativas; culturais, filosóficos, pedagógicos e
PRONERA; o trabalho como princípio psicopedagógicos das Ciências da
educativo; os movimentos sociais e a Natureza na Educação do Campo no
conquista do Ensino Superior; escola em Brasil, procurando explorar as relações
tempo integral no campo; Educação Física entre a dimensão da formação de
nas escolas do campo; Educação do professores, sujeitos e práticas de ensino
Campo e autonomia; educação e em espaços escolares e não escolares,
cooperativismo; Educação do Campo em conhecimento, cultura e desigualdades
comunidades quilombolas; Alternância educacionais. No segundo (v. 3 n. 4,
escolar e promoção do desenvolvimento; a (2018)), a ênfase fundou-se no
função social da escola e os princípios entendimento de que existem “formas de
filosóficos da educação do MST; histórias fazer e de pensar” o conhecimento a partir
de vida de professores das escolas do da realidade das mulheres do campo, das
campo; interfaces entre a Educação do águas e das florestas. Por isso, o Dossiê foi
Campo e o êxodo rural jovem; Ensino denominado de “epistemologia de
Médio e juventude camponesa; das escolas nosotras”, àquelas produzidas pelas e para
rurais à nuclearização; relação escola- as mulheres, em sua maioria, relacionadas
comunidade; retratos contemporâneos da à perspectiva feminista, como se vê na
Educação do Campo; programa escola página da Revista. O terceiro e o quarto
ativa no campo; a presença da tecnologia Dossiês (v. 4 (2019)) fomentaram
na Educação do Campo; concepções e trabalhos sobre Políticas para a educação e
expectativas dos professores sobre a a diversidade sociocultural enfocando
organização das escolas do campo; avanços, limites e desafios no
multisseriação e formação de professores; enfrentamento das desigualdades e, sobre
fechamento das escolas do campo; Paulo os 50 anos de existência da Pedagogia da
Freire e o processo de alfabetização de Alternância no Brasil, principalmente do
adultos; gestão democrática na Educação que tratam as pesquisas nacionais e
do Campo; Educação do Campo e internacionais.
Agroecologia.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


17
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Ao lançar um olhar sobre as principalmente àquele de suas vertentes


Referências dos trabalhos publicados na marxistas. Isso porque:
Revista evidenciam-se autoresiii que, a
Não se pode dizer que os processos
partir dos teóricos pós-estruturalistas de dominação de classe, baseados na
podem ser vistos como vinculados às exploração econômica, tenham
simplesmente desaparecido. Na
Teorias Críticas, cujas análises são verdade, eles continuam mais
evidentes e dolorosos do que nunca...
fundamentadas numa economia política do Nesse contexto, nenhuma análise
poder, centradas em uma análise textual pode substituir as poderosas
ferramentas de análise das sociedades
materialista, no sentido marxista (Silva, de classe que nos foram legadas pela
economia política marxista. (Silva,
2003). O autor, apesar de defender uma 2003, p. 147).
teorização que se baseia em formas
textuais e discursivas de análises, afirma A consulta às Referências dos
que os trabalhos, com ênfase quase trabalhos publicados na RBEC mostra que
exclusiva na classe social tornam-se “Esses pesquisadores defendem uma
importantes, pois sabe-se que somos cada perspectiva teórico-metodológica de
vez mais governados “... por relações e natureza materialista histórica dialética ou
estruturas de poder baseadas na dela se aproximam, em maior ou menor
propriedade de recursos econômicos e grau” (Souza, 2010, p. 280)iv, tendo como
culturais” (Silva, 2003, p. 145). referência o conceito de movimento social
Deste modo, para Silva (2003), as do ponto de vista histórico e de classe
chamadas teorias pós-críticas e dentro social, como afirma a autora. Ainda
delas os Estudos Culturais ao focar na conforme Souza (2010, p. 41), categorias e
análise da dinâmica de poder, envolta “... conceitos como “... totalidade, contradição,
em relações de gênero, etnia, raça e trabalho, luta de classes, ideologia,
sexualidade nos fornece um mapa muito hegemonia, consciência, conhecimento,
mais completo e complexo das relações de trabalho educativo e práticas sociais, entre
dominação de que aquele que as teorias outras, integram o arcabouço teórico-
críticas, com sua ênfase quase exclusiva na metodológico da maioria das pesquisas”.
classe social nos tinham anteriormente Silva (2003, p. 133), mesmo
fornecido” (Silva, 2003, p. 146). Mas, isso entendendo que os Estudos Culturais “...
não significa que se deve ignorar ou negar opõem-se às implicações deterministas da
o legado das teorias críticas, famosa metáfora de divisão entre infra-
estrutura e super-estrutura”, pois a “A
cultura é um campo de produção de

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


18
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

significados no qual os diferentes grupos desconfiança, questionamento e


sociais, situados em posições diferenciais transformação radical, cuja consigna pode
de poder, lutam pela imposição de seus ser sintetizada na frase “formar a
significados à sociedade mais ampla” consciência crítica” (Silva, 2010).
(Silva, 2003, p. 133-134), afirma que Colocam, dessa forma, o sujeito no centro
outros conceitos como poder, reprodução da ação social e sua consciência é o centro
cultural e social, classe social, capitalismo, de suas próprias ações, como afirma o
relações sociais de produção, autor.
conscientização, emancipação, libertação,
As teorias críticas... nos ensinam que
currículo oculto e resistência, podem ser é através da formação da consciência
vistos como grandes categorias do que ele que o currículo contribui para
reproduzir a estrutura da sociedade
denomina de teorias críticas. Neste capitalista. O currículo atua
ideologicamente para manter a
trabalho, entende-se que os autores citados crença de que a forma capitalista de
nos artigos publicados na Revista organização da sociedade é boa e
desejável. Através das relações
vinculam-se a esse campo teórico, pois “... sociais do currículo, as diferentes
classes sociais aprendem quais são
fazem opções pelas categorias e conceitos seus respectivos papéis nas relações
do materialismo histórico e dialético, sociais mais amplas. Há uma
conexão estreita entre o código
muito em função do caráter de classe do dominante do currículo e a
reprodução de formas de consciência
MST” (Souza, 2010, p. 41). Dessa forma,
de acordo com a classe social. A
como se infere a partir da autora, formação da consciência – dominante
ou dominada – é determinada pela
compreendem a Educação do Campo no gramática social do currículo. (Silva,
movimento histórico de produção da 2003, p. 148).

realidade, de sujeitos históricos, da luta


O campo teórico dos Estudos
social, valorizando a relação entre trabalho
Culturais não concebe que haja sujeitos
e educação.
conscientes, sem consciência ou em
São autores que, ao optarem pelo
processo de formação da consciência
materialismo histórico-dialético como
crítica, mas sujeitos cujas identidades vão
tendência metodológica (Souza, 2010),
sendo construídas em meio a relações de
sendo suas análises fundamentadas numa
poder, que dirigem o processo de
hipótese de determinação econômica
significação (Silva, 2010). Conceber o
(Silva, 2003), elaboram estudos que os
sujeito como alguém que deve ser
aproximam dos legados das teorias críticas,
conscientizado, visto ser guiado apenas por
que são vistas como teorias de
sua racionalidade, é tratar a identidade

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


19
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

como questão de essência, e não como na Pedagogia da Alternância. Trata-se do


questão de política. É não perceber que a trabalho publicado em 2018 (v.3 n.2), de
Escola como uma arena cultural, ao Valadão e Backes, sob o título A
produzir saberes, produz determinados Pedagogia da Alternância no CEFFA de Ji-
tipos de sujeitos e identidades sociais. Paraná/Rondônia: A ênfase na identidade
Os Estudos Culturais não defendem a que produz diferenças. O artigo é fruto de
ideia de que não existem cidadãos, e não se uma pesquisa que teve como objetivo
concebe aqui, pensar que não seja identificar e analisar como são produzidas
importante o sujeito das escolas do campo e negociadas as identidades/diferenças de
constituir-se como alguém capaz do jovens do campo no espaço educativo do
exercício da cidadania. Segundo Centro Familiar de Formação por
Escosteguy (2010, p. 4), “... a concepção Alternância (CEFFA) de Ji-Paraná, em
de cidadania é fundamental, pois esta Rondônia, fundado na Formação em
articula o terreno da micropolítica referente Alternância. O trabalho recorreu ao campo
ao sujeito e suas interações sociais com o teórico dos Estudos Culturais pós-
da macropolítica visto como o espaço estruturalistas, principalmente às ideias de
oficial onde os direitos são ou não são autores que concebem as identidades como
reconhecidos”. Por isso, entende-se que, ao contingentes, marcadas pela diferença.
fazer a análise dos trabalhos publicados na Recorreu-se, ainda, a alguns teóricos da
RBEC, sob o viés pós-estruturalista, é Educação do Campo, articulando-os com
preciso pensar o contexto das escolas do os Estudos Culturais. Como procedimento
campo como um lugar em que se vão metodológico, fez-se uso da entrevista com
delineando as identidades dos sujeitos, alunos e professores, chamados no CEFFA
renunciando às ideias de libertação, de monitores, da observação de alunos e
emancipação e autonomia, por não haver monitores, bem como de sua inter-relação
essência a ser restaurada, como afirmam com os outros sujeitos e o ambiente
Corazza e Silva (2003). acadêmico onde estão inseridos, além da
Dentre os 214 artigos publicados na análise de documentos curriculares da
RBEC, identificou-se apenas um trabalho Pedagogia da Alternância.
em que os autores recorreram aos Estudos O estudo, a partir de autores que
Culturais como campo epistemológico na utilizam do campo teórico dos Estudos
compreensão da prática cultural da Culturais para suas análises como Silva
Educação do Campo, mais especificamente (2003, 2010, 2012), Hall (2005, 2011,

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


20
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

2013, 2016), Moreira (2011), Woodward reportar a autores como Stuart Hall,
(2012), Nelson, Treichler & Grossberg Boaventura de Sousa Santos, Catherine
(2013), Skliar (2014), possibilitou um Walsh, Reinaldo Fleuri, Antônio Flávio
olhar sobre a prática pedagógica do Barbosa Moreira, Tomaz Tadeu da Silva,
CEFFA de uma forma inabitual, Vera Candau, dentre outros, que transitam
principalmente em relação às identidades e pelo campo teórico dos Estudos Culturais,
diferenças, pois nem alunos nem monitores são trabalhos em que os seus autores não
são interpelados pelas práticas da recorreram intencionalmente aos seus
Pedagogia da Alternância da mesma operadores teóricos para suas análises.
forma, assumindo posições de sujeito
Considerações finais
coincidentes. A descrição do estudo
mostrou que, ao assumir como referência a
No interior do Estado de Rondônia, a
cultura, que, como prática de significação,
escolarização nas escolas urbanas têm sido
é constitutiva das identidades e diferenças
a única opção de muitas famílias, crianças
dos sujeitos a partir de seus diferentes
e jovens do campo, que cotidianamente
significados e práticas sociais, a Pedagogia
levantam muito cedo, correm risco de
da Alternância produz sujeitos vacilantes,
acidentes dada às más condições das
hesitantes, cujos sentidos, constituídos por
estradas e dos ônibus, e podem sentir-se,
meio das práticas sociais, se movem em
completamente deslocados nas escolas
diferentes direções, produzindo
urbanas por serem diferentes dos que ali
perspectivas identitárias que se cruzam e se
estudam.
deslocam, tornando o processo de
O projeto de pesquisa proposto, ao
produção das identidades e diferenças
tencionar identificar e analisar como são
provisório, variável, fragmentado,
produzidas e negociadas as identidades e
indeciso, o que resulta em identidades
diferenças de jovens do campo resultado
vigiadas, subjugadas, conformadas, mas
da inserção no espaço educativo urbano,
também identidades em conflito,
precisava optar por um procedimento
ambivalentes.
metodológico fundado num campo teórico,
Apesar de encontrar na RBEC
que percebesse que não é possível uma
trabalhos que problematizam a Educação
escola homogênea, visto que ela sempre
do Campo utilizando terminologias como
será plural, multifacetada.
multiculturalismo, interculturalidade,
Como existem múltiplas formas de
identidades, diferenças, diversidades, e
propor uma investigação em determinado

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


21
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

campo social, bem como inúmeros campos problematizar a Educação do Campo


epistemológicos que permitem pensando que os conceitos de identidade e
problematizar o que ocorre nesse diferença são tidos como múltiplos,
espaço/tempo cultural, a escolha dos contingentes, plurais.
Estudos Culturais para esta investigação O estudo até o momento mostra que
pode desvelar um contexto cultural a grande maioria dos artigos científicos
produtor de múltiplas e cambiantes publicados em periódicos qualisados A ou
identidades. Isso porque as identidades B, mesmo concebendo a realidade em que
constituídas sob o padrão hegemônico, em os alunos estudam como histórica, em
que os sujeitos, ao chegarem à Escola, movimento contínuo, carregada de
deveriam ser agrupados sob o mesmo arco contradições, não problematiza a escola
da identidade, vista como fato da natureza, sob o olhar dos Estudos Culturais, para
oriunda de uma essência, e não produto da quem os significados são flutuantes,
cultura em que se inter-relacionam, não cambiantes, caracterizando a escola como
fazem sentido. uma arena cultural marcada por conflitos e
Os Estudos Culturais, ao abarcarem disputas, onde os sujeitos são interpelados,
discursos múltiplos, bem como numerosas recrutados para ocuparem determinadas
histórias distintas (Hall, 2013), com a sua posições, constituindo assim sujeitos do
inclinação para atravessar fronteiras, campo, cujas identidades são fluídas e em
concebe o processo de construção das permanente construção/reconstrução.
identidades e diferenças como efêmeras, Apesar de teóricos críticos
dependendo das relações de poder e das entenderem que não fica suficientemente
posições de sujeito dos envolvidos. Ao esclarecido nos Estudos Culturais a forma
propor que as identidades são produzidas pela qual os professores transformam as
culturalmente, e acionadas de acordo com análises dos fundamentos sociais e
os interesses em jogo, num campo em que culturais do currículo em práticas de sala
os processos de significação estão em de aula nas suas matérias (Libâneo, 2017),
disputa incessante, por meio das relações e que tornou-se modismo debater-se muito
de poder, produzindo significados que se mais as diferenças entre os povos, do que
querem hegemônicos, auxilia no as marcas históricas comuns entre eles
entendimento de como a escola opera para (Souza, 2010), pode-se a partir dos estudos
fixar e estabilizar as identidades mediante empreendidos afirmar que a imersão dos
suas práticas. Por isso a intenção de Estudos Culturais na Educação do Campo

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


22
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

revela que o ambiente escolar urbano como S., & Molina, M. C. (Orgs.). Por uma
Educação do Campo (pp. 149-168).
uma arena cultural, procura enquadrar as
Petrópolis: Vozes.
identidades de crianças e jovens do campo
Corazza, S. M., & Silva, T. T. S. (2003).
que diferem do padrão hegemônico,
Composições. Belo Horizonte: Autêntica.
deixando-as à margem da economia e da
Escosteguy, A. C. D. (2010). Cartografias
política, mas, de forma mais visível, da
dos Estudos Culturais. Uma versão
escola, instituição que contribui para dizer Latinoamericana. Belo Horizonte:
Autêntica.
quem são, de onde vieram e para onde irão.
Hall, S. (2005). Raça, cultura e
comunicações: olhando para trás e para
Referências frente dos Estudos
Culturais. Revista do Programa de Estudos
Bauman, Z. (2005). Identidade. Entrevista Pós-graduados de História, 31, 1-11.
a Benedetto Vecchi. (C. A. Medeiros, Recuperado de:
Trad.). Rio de Janeiro: Zahar Editora. https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/ar
ticle/view/2308
Brasil. (1988). Constituição da República
Federativa do Brasil. Brasília: Senado Hall, S. (1997). A Centralidade da Cultura:
Federal. notas sobre as revoluções culturais do
nosso tempo. Educação & Realidade,
Brasil. (1996). Lei n. 9.394/1996, de 20 de 22(2), 15-46. Recuperado de:
dezembro de 1996. Estabelece as https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoere
Diretrizes e Bases da Educação Nacional. alidade/article/view/71361
Diário Oficial da República Federativa do
Brasil. Brasília. Hall, S. (2011). A identidade cultural na
pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A
Brasil. (2002). Resolução CNE/CEB. nº 1 Editora.
(2002). Diretrizes Operacionais para a
Educação Básica nas Escolas do Campo. Hall, S. (2012). Quem precisa de
Brasília. identidade? In Silva, T. T. (Org.).
Identidade e diferença. A perspectiva dos
Brasil. (2008). Lei CNE/CEB nº 2 (2008). Estudos Culturais (pp. 103-133).
Diretrizes complementares, normas e Petrópolis: Vozes.
princípios para o desenvolvimento de
políticas públicas de atendimento da Hall, S. (2013). Estudos Culturais: dois
Educação Básica do Campo. Brasília. paradigmas. In Sovik, L. (Org.). Da
diáspora. Identidades e mediações
Brasil. (2012). Ministério do culturais (pp. 143-175). Belo Horizonte:
Desenvolvimento Agrário (MDA). MDA Editora UFMG.
leva políticas para
fortalecer a agricultura familiar em Hall, S. (2016). Cultura e representação.
Rondônia. Brasília. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri.

Caldart, R. S. (2004). Por uma Educação Hoggart, R. (1957). As utilizações da


do Campo: traços de uma identidade em cultura: aspectos da vida da classe
construção. In Arroyo, M. G., Caldart, R. trabalhadora, com especiais referências a

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


23
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

publicações e divertimentos. Lisboa: São Paulo: Escola Politécnica de Saúde


Editorial Presença. Joaquim Venâncio; Expressão Popular.

Libâneo, J. C. (2017). Organização e Pires, A. M. (2012). A Educação do


gestão da escola: teoria e prática São Campo como um direito humano. São
Paulo: Heccus Editora. Paulo: Cortez.

Limeira de Sá, N. R. (2017). Vertentes dos Ribeiro, M. (2012). Educação Rural. In


Estudos Culturais nos estudos surdos. In j. Caldart, R. S. et al. (Orgs.).
Almeida, & P. R. T. Patrocínio (Orgs.). Dicionário da Educação do Campo (pp.
Estudos Culturais: legado e apropriações 295-301). Rio de Janeiro; São Paulo:
(pp. 229-242). Campinas: Pontes Editores. Escola Politécnica de Saúde Joaquim
Venâncio; Expressão Popular.
Lyotard, J. F. (1998). O pós-moderno. (R.
C. Barbosa. Trad.). Rio de Janeiro: José Ribeiro, V., & Paraíso, M. A. (2015).
Olympio Editora. Currículo e MST: conflitos de saberes e
estratégias na produção de sujeitos.
Mariano, A. S., & Sapelli, M. L. S. (2014). Educação & Realidade, 40(3), 785-
Fechar escola é crime social: causas, 808. https://doi.org/10.1590/2175-
impacto e esforços coletivos contra o 623645800
fechamento de escolas no campo. Paraná:
UNIOESTE. Rossato, G., & Praxedes, W. (2015).
Fundamentos da Educação do Campo:
Mosquera, O. E. Z. (2019). (F)Jogos da história, legislação, identidades
linguagem para um povo do campo: por camponesas e pedagogia. São Paulo:
uma errância da Agroecologia e da Edições Loyola.
Educação do Campo. Rev. e-Curriculum
17(2), 319-343. Siega, P. (2017) Estudos Culturais e
https://doi.org/10.23925/1809- cinema. In Almeida, J., & Patrocínio, P. R.
3876.2019v17i2p319-343 T. (Orgs.). Estudos Culturais: legado e
apropriações (pp. 191-211). Campinas:
Moreira, A. F. B. (2011). Currículo e Pontes Editores.
Estudos Culturais: tensões e desafios em
torno das identidades. In: R. M. H. Siveira Silva, T. T. (2003). Documentos de
(Org.). Cultura, poder e educação: identidade: Uma introdução às teorias do
Um debate sobre Estudos Culturais em currículo. Belo Horizonte: Autêntica.
educação (pp. 123-144). Canoas: Ed.
ULBRA. Silva, T. T. (2010). O currículo como
fetiche: A poética e a política do texto
Nelson, C., Treichler, P. A., & Grossberg, curricular. Belo Horizonte: Autêntica.
L. (2013). Estudos Culturais: uma
introdução. In Silva, T. T. (Org.). Silva, T. T. (2012). A produção social da
Alienígenas na sala de aula: Uma identidade e da diferença. In Silva, T. T.
introdução aos Estudos Culturais em (Org.). Identidade e diferença: A
educação (pp. 7-37). Petrópolis: Vozes. perspectiva dos Estudos Culturais (pp. 73-
102). Petrópolis: Vozes.
Oliveira, L. M. T., & Campos, M. (2012).
Educação básica do campo. In Caldart, R. Skliar, C. (2014). Desobedecer a
S. et al. (Orgs.). Dicionário da educação linguagem: Educar. Belo Horizonte:
do campo (pp. 239-246). Rio de Janeiro; Autêntica Editora.

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


24
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

Souza, M. A. (2010). Educação e de teses e dissertações defendidas nos Programas de


Movimentos Sociais do Campo: A Pós-Graduação em Educação no Brasil, no período
de 1987 a 2007. Assim como na maioria dos
produção do conhecimento no período de trabalhos publicados na RBEC, os estudos tiveram,
1987 a 2007. Curitiba: Ed. UFPR. especialmente a partir dos anos de 1980, em sua
maioria, inspiração marxista, segundo a autora.
Suave, M. P. (2017). O ensino de
Geografia. Uma perspectiva crítica para
abordar o agrário no Estado de Rondônia.
In VIII Simpósio Internacional de
Geografia Agrária e IX Simpósio Nacional Informações do Artigo / Article Information
de Geografia Agrária: Geografia das
Redes de Mobilização Social na América Recebido em : 13/03/2020
Latina. Curitiba. Recuperado de: Aprovado em: 05/06/2020
Publicado em: 26/02/2021
https://singa2017.files.wordpress.com/201
7/12/gt14_1506629790_arquivo_singa201 Received on March 13th, 2020
Accepted on June 05th, 2020
7curitibamirianpsuave.pdf Published on February, 26th, 2021

Thompson, E. P. (1963). A formação da Contribuições no Artigo: Os autores foram os


classe operária inglesa. Rio de Janeiro: responsáveis por todas as etapas e resultados da
pesquisa, a saber: elaboração, análise e interpretação dos
Paz e Terra. dados; escrita e revisão do conteúdo do manuscrito
e; aprovação da versão final publicada.
Williams, R. (1958). Cultura e sociedade: Author Contributions: The author were responsible for
1780-1950. São Paulo, Editora Nacional. the designing, delineating, analyzing and interpreting the
data, production of the manuscript, critical revision of the
content and approval of the final version published.
Woodward, K. (2012). Identidade e
diferença: uma introdução teórica e Conflitos de Interesse: Os autores declararam não haver
conceitual. In Silva, T. T. (Org.). nenhum conflito de interesse referente a este artigo.
Identidade e diferença: A perspectiva dos Conflict of Interest: None reported.
Estudos Culturais (pp. 7-72). Petrópolis,
RJ: Vozes. Avaliação do artigo

Artigo avaliado por pares.

Article Peer Review

i Double review.
https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/ca
mpo/about.
Agência de Fomento
ii
https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/ca
mpo/issue/archive. Não teve financiamento.

iii
Os autores mais citados nos artigos publicados na
Funding
RBEC segue a seguinte ordem: Caldart; Arroyo;
Freire; Molina; Fernandes; Marx; Antunes-Rocha;
Saviani; Mészáros; Mufarrej Hage; Souza; Kolling;
Vigotski; Libâneo; Vendramini.
iv
A obra de Maria Antônia de Souza (2010),
Editora da UFPR, sob o título Educação e
Movimentos Sociais do Campo, a produção do
conhecimento no período de 1987 a 2007, é fruto de
uma pesquisa bibliográfica que analisou o conteúdo

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


25
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S. (2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos estudos culturais pós-estruturalista: um
olhar para publicações em periódicos científicos...

No funding.

Como citar este artigo / How to cite this article

APA
Valadão, A. D., Santos, K. M., Pinto, T. C., & Tico, K. A. S.
(2021). A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos
estudos culturais pós-estruturalistas: um olhar para
publicações em periódicos científicos. Rev. Bras. Educ.
Camp., 6, e8629. http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e8629

ABNT
VALADÃO, A. D.; SANTOS, K. M.; PINTO, T. C.; TICO, K.
A. S. A Educação do Campo no Brasil sob as lentes dos
estudos culturais pós-estruturalistas: um olhar para
publicações em periódicos científicos. Rev. Bras. Educ.
Camp., Tocantinópolis, v. 6, e8629, 2021.
http://dx.doi.org/10.20873/uft.rbec.e8629

RBEC Tocantinópolis/Brasil v. 6 e8629 10.20873/uft.rbec.e8629 2021 ISSN: 2525-4863


26