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O trabalho flexível e a informalidade reconfigurada 1

Angela Maria Carneiro Araújo

Resumo

O conceito de informalidade é conhecidamente polêmico. Sua definição e a forma de mensurar


o fenômeno continuam provocando um debate intenso entre sociólogos e economistas em um
contexto em que o movimento de expansão da produção flexível levou a uma crescente
informalização da economia e das relações de trabalho. Nesse contexto, repensar o conceito de
informalidade torna-se um desafio quando se identifica uma relação cada vez mais intrincada,
dinâmica e própria da acumulação capitalista, entre segmentos do trabalho desprotegido,
informal, e o trabalho formal, em parte articulados pelo processo de terceirização. Este artigo
tem o objetivo de discutir a atualidade e a pertinência do conceito de informalidade para a
análise das novas configurações e condições do trabalho “flexível”.
Para isto, pretende mostrar, ainda que de forma resumida, as mudanças ocorridas nesse conceito
ao longo do tempo, para então discutir o que há de novo na informalidade, sua crescente
heterogeneidade e suas relações com as atividades econômicas formais, e a potencialidade
explicativa do conceito de “nova informalidade”.

Introdução

O conceito de setor informal começa a ser discutida nos anos 1970. Desde então, a
presença importante nas sociedades latino-americanas de atividades econômicas não registradas,
consideradas de baixa produtividade, e de trabalhadores não absorvidos pelo mercado formal de
trabalho, que permanecem em relações de trabalho sem contrato, sem proteção trabalhista e em
grande parte voltadas para a subsistência, tem colocado a questão do trabalho e das atividades
informais no centro do debate envolvendo sociólogos e economistas, estudiosos do trabalho.
A polêmica envolve tanto a definição do fenômeno - que conceito usar e seu significado
preciso – quanto a forma de mensurá-lo, sem esquecermos daqueles que negam a utilidade do
conceito, por considerá-lo polissêmico e tendente a não explicar muita coisa, preferindo evitar o
seu emprego.
A desregulação dos mercados de trabalho e a crescente informalização e precarização das
relações de trabalho ocorridas nas últimas três décadas em decorrência das transformações

1
Este artigo foi publicado na coletânea Roberto Véras de Oliveira; Darcilene Gomes; Ivan Targino
(orgs) Marchas e contramarchas da informalidade do trabalho: das origens às novas abordagens".
Recife, Editora Massangana., 2011
2

econômicas, sociais e políticas associadas à ascensão do neoliberalismo e à acumulação flexível


reacenderam o debate em torno da idéia de informalidade, agora não mais como um conceito
aplicável não apenas aos países do sul, nos quais o mercado de trabalho foi historicamente
pouco estruturado, mas também aos países do norte, nos quais se ampliaram as formas de
trabalho precário, desprotegido, subterrâneo e ilegal. Nesse debate recente, a identificação de
relações cada vez mais imbricadas e dinâmicas entre as atividades e o trabalho informal e os
seguimentos da economia formal, em parte articulados pelo processo de terceirização, levou
alguns autores a proporem o conceito de “nova informalidade”.
Este artigo tem o objetivo de discutir a atualidade e a pertinência do conceito de
informalidade para a análise das novas configurações e condições do trabalho “flexível”. Para
isto, pretende mostrar, ainda que de forma resumida, as mudanças ocorridas nesse conceito ao
longo do tempo, para então discutir o que há de novo na informalidade, sua crescente
heterogeneidade e suas relações com as atividades econômicas formais, e a potencialidade
explicativa do conceito de “nova informalidade”.

O conceito de setor informal

A noção de setor informal começa a ser discutida nos anos 1970, em meio ao debate sobre
as possibilidades de desenvolvimento dos países latino americanos. O termo foi cunhado em um
estudo realizado pela OIT sobre as condições de trabalho no Quênia e Gana, na África e
difundido na América Latina pelos estudos da PREALC -OIT (Programa Regional do Emprego
para América Latina e o Caribe).
Nesses estudos da OIT, o setor informal urbano era identificado com a produção em
pequena escala e atividades baseadas no emprego reduzido de tecnologia, na baixa capacidade
de acumulação de capital, na quase inexistente separação entre o capital e trabalho, na utilização
de trabalho familiar e na oferta de empregos instáveis, sem proteção social.
A discussão, então, centrava-se na questão do desenvolvimento e contrapunha os países
subdesenvolvidos às sociedades industrializadas e modernas. Pensava-se que, em países do
terceiro mundo, ditos subdesenvolvidos como o Brasil, a dinâmica do desenvolvimento
capitalista transformaria relações de trabalho não assalariadas, baseadas em situações
ocupacionais marcadas pela fragilidade e pelo subemprego em relações de trabalho assalariadas,
3

protegidas pela legislação trabalhista, ou seja, relações formais de trabalho, tipicamente


capitalistas.
No Brasil, como outros paises latino-americanos, devido à presença de atividades
econômicas atrasadas, de baixa produtividade, não capitalistas, convivendo com o setor
moderno, dinâmico da economia, o processo de desenvolvimento não tinha como eliminar a
franja da população envolvida nessas atividades. O setor informal, em contraste com o setor
formal, tipicamente capitalista, incluía essa parcela da população considerada como marginal.
Enfim, tratar-se-ia de um setor de excluídos do setor moderno, fruto de uma economia dual e
cuja lógica de funcionamento era sobrevivência (Tokman, 1999) 2.
O informal era assim associado à idéia de marginalidade, de população marginal que
assegurava sua sobrevivência em atividades situadas fora da relação salarial – definida como a
relação central, contratual, de tipo capitalista. As atividades informais caracterizavam-se
também por rendimentos inferiores ao do setor formal, níveis de proteção social reduzidos,
jornadas intermitentes, condições de trabalho precárias e instáveis. A população inserida nesse
setor era considerada um excedente de força de trabalho, não assimilada pelo capitalismo e
absorvida nas atividades urbanas, principalmente no setor terciário tradicional (trabalho
doméstico, serviços pessoais, vendedores ambulantes etc.) e em distintas formas de
subemprego.
Claramente se pensava em termos de uma dicotomia entre moderno e atrasado. De um
lado, o setor formal, moderno, dinâmico, capitalista; de outro, o setor atrasado, informal, de
baixa produtividade. Essa dicotomia decorria da idéia, vigente na época, da quase inexistência
de integração produtiva entre esses segmentos da atividade econômica (moderno /atrasado –
formal/informal).
Os anos de 1970, no Brasil, foram um período de crescimento econômico e grande
desenvolvimento da indústria, principalmente daquelas consideradas como indústrias de ponta.
O dinamismo do desenvolvimento capitalista juntamente com o expressivo crescimento do
emprego que marcou o período parecia confirmar as teses acima expostas. Como observa
Dedecca (2002, p.61),
As atividades capitalistas apareciam como um núcleo autônomo que tinha capacidade
de se reproduzir ampliada e rapidamente, bem como de sustentar uma gama de
atividades de baixa produtividade, na qual se inseria o excedente de força de trabalho

2
Sobre esta discussão ver também TOMAZINI, (1995) e LOPES (2008).
4

com tradição recente no meio urbano. Esse processo era reforçado pela desfavorável
distribuição de renda que viabilizava a reprodução de formas de consumo que
alimentava todo um conjunto de atividades de serviços pessoais e o emprego
doméstico.

Essa era a tendência, pois o que a dinâmica do mercado mostrava era o crescimento do
trabalho formal, portanto, dos assalariados, com carteira, protegidos. A expectativa era,
portanto, de que o aprofundamento de um desenvolvimento capitalista cada vez mais
sustentável levasse à modernização da sociedade e, no limite, ao desaparecimento do setor
informal.
Os estudos de Paulo Renato de Souza, diretor associado da PREALC nos anos 70,
contribuíram para aprimorar e operacionalizar o conceito de setor informal. Em sua tese de
doutoramento a definição desse setor toma como base a organização da produção e relação do
trabalhador com seus meios de produção (Souza, 1980). Para ele o setor informal, identificado
como um conjunto de organizações e atividades não tipicamente capitalistas, incluiria: 1.
organizações mercantis simples sem assalariamento permanente, ou seja pequenas “empresas”
ou trabalhadores autônomos, concentrados no pequeno comércio e na pequena indústria
(padarias, confecções, serralharias, etc., nas oficinas mecânicas, etc.); 2. pequenas empresas
com trabalho assalariado permanente, nas quais os proprietários estão envolvidos nas tarefas
produtivas e a taxa de lucro não é a variável chave de seu funcionamento3; 3.os trabalhadores
por conta própria subordinados, que prestam serviço a uma única empresa (costureiras que
trabalham a domicílio para determinada fábrica ou vendedores ambulantes de produtos de uma
determinada empresa); 3. os trabalhadores autônomos que não estão submetidos a uma só
empresa, (biscateiros, vendedores ambulantes, engraxates, etc.); 4. os serviços domésticos, que
envolvem trabalho assalariado mas para uma família e não para uma empresa.
Esta tipologia mostra claramente a heterogeneidade do setor informal. Demonstra,
segundo o autor, que este setor inclui tanto pequenas empresas “quase capitalistas”, que são
mais produtivas e eficientes, atuam em mercados mais protegidos e tem renda média mais
elevada, quanto um conjunto de atividades, nas quais não há barreiras de entrada e se
caracterizam pela baixa produtividade, pela instabilidade e pelos baixos rendimentos.

3
Ver sobre isto também Cacciamali (1991).
5

Um desdobramento desta análise, ainda nos anos 70 e começo dos 80 está no


questionamento da concepção dual do mercado de trabalho e da sociedade inerente á visão que
contrapunha de forma estática os setores atrasado e moderno, informal e formal.
Essa crítica foi iniciada, no Brasil, com Francisco de Oliveira (1972) que, a partir de uma
abordagem marxista, defende uma integração ou simbiose entre o conjunto não homogêneo de
atividades não capitalistas, informais, e o setor propriamente capitalista, na medida em que
“(...) a expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações novas no arcaico e
reproduzindo relações arcaicas no novo.” (Oliveira, 1972: 32)4.
A critica à visão dualista é desenvolvida também por autores como Souza (1980) e
Cacciamali (1983) que enfatizam a subordinação do setor informal ao núcleo capitalista
(formal) da economia. Entendem que essa subordinação que se estabelece seja através da
ocupação de espaços deixados pelas atividades capitalistas, seja pela extração de excedentes e
exploração das atividades informais pelo capital, que ocorre, por exemplo, na subcontratação.
As atividades não capitalistas interpenetram as atividades das grandes empresas, do grande
comércio e dos bancos, em relações que envolvem além das trocas, acesso à matéria-prima, ao
crédito, a equipamentos e a novas tecnologias.
Afirmando a inexorabilidade da penetração capitalista no mercado, Souza (1980),
desenvolve o argumento da subordinação enfatizando que o desenvolvimento capitalista não
leva necessariamente ao desaparecimento da pequena produção não capitalista pois, “o núcleo
verdadeiramente capitalista de uma economia, no seu movimento de expansão, cria, destrói e
recria os espaços econômicos nos quais atua a pequena produção não tipicamente capitalista”.
(1980: 59).
Para Cacciamali (1983) essa abordagem, que ela denomina de intersticial e subordinada do
setor informal, não considera mais as atividades informais como voltadas para a produção ou
serviços de baixa qualidade, baseadas em técnicas tradicionais ou tecnologia obsoleta, mas
como formas dinâmicas de produção, que se modernizam e se desenvolvem de modo contínuo
no interior mesmo da produção capitalista.

4
Esse enfoque marxista está representado por outros estudos desse período como os de Prandi (1977), Singer
(1979), Oliveira (1988) que vão ressaltar a funcionalidade das atividades não informais para a acumulação de
capital, identificar os trabalhadores informais como “exército industrial de reserva” e discutir seu lugar na estrutura
de classes, como parte do lumpenproletariado. (Lopes, 2008)
6

A retomada do debate: o conceito de informalidade

Nos anos 1980, as transformações decorrentes da crise econômica e do processo de


reestruturação capitalista, reduzindo o emprego assalariado formal no núcleo capitalista,
provocando o crescimento do desemprego e da inserção da força de trabalho nas atividades
informais, promovem uma desestruturação do mercado de trabalho, que coloca em cheque as
expectativas e as concepções predominantes nos anos 70.
Nesse contexto, as atividades informais, até então consideradas como intersticiais, como
uma “franja”, passam a absorver, como observa Dedecca (2002), uma parcela cada vez maior de
trabalhadores, tanto os novos contingentes de imigrantes que continuavam chegando nas
grandes cidades quanto os assalariados expulsos do setor formal.
Esse processo de informalização da economia aprofundou-se na década de 1990, com a
intensificação da reestruturação produtiva5 e a adoção de medidas flexibilizadoras da legislação
trabalhista, que contribuíram para generalizar a precarização do trabalho. O enxugamento de
postos de trabalho, os movimentos de desverticalização e desterritorialização das empresas,
juntamente com a intensificação da terceirização de trabalho e de produção, levaram as grandes
empresas a ampliar cada vez mais as suas relações produtivas com as pequenas empresas e com
as atividades informais. Essas últimas, por sua vez, viram o seu papel na dinâmica econômica
ser transformado na medida em que passaram a realizar parcela significativa da produção e dos
serviços para as grandes empresas, chegando a representar, no final dessa década, pouco menos
de 60% da população ocupada no Brasil.
Assim nos anos 90, diante dessas intensas transformações no trabalho, o informal volta a
ser debatido e a ser redefinido. Esse debate se estende para além das fronteiras dos países pobres
ou em desenvolvimento, envolvendo também pesquisadores dos países do norte, que passaram a
empregar o conceito de informalidade para analisar as transformações dos mercados de
trabalhos de seus países, decorrentes da crise da sociedade salarial6.
Como no resto do mundo, também no Brasil, os processos de reestruturação do
capitalismo e de globalização têm sido acompanhados de uma perda progressiva da importância
do trabalho assalariado. Desde os anos 90, o desemprego tem permanecido em um patamar

5
Sobre o processo de reestruturação produtiva e seus efeitos sobre o trabalho ver POCHMANN (1999).
6
Ver, por exemplo, TABAK e CRICHLOW (2000), SASSEn (2000). Sobre a crise da sociedade salarial, ver
CASTEL (1998).
7

elevado, apesar de uma redução significativa depois de 2003, ao mesmo tempo em que ocorreu
uma ampliação significativa das formas de trabalho não assalariadas e do emprego assalariado
mantido à margem da legislação.
Nesse contexto de desestruturação do mercado de trabalho, o conceito de informalidade
assume lugar de destaque no debate acadêmico. Repensar a informalidade torna-se necessário
quando se observam as relações cada vez mais intrincadas, as interconexões dinâmicas entre
esse segmento do trabalho desprotegido e informal e as atividades econômicas nas quais
predomina o trabalho formal, principalmente se considerarmos o desenvolvimento da
acumulação flexível (Harvey, 1992), que se realiza, em grande medida, por meio do uso flexível
e intensivo do trabalho não só no plano nacional e regional, mas também, em escala global.
Como enfatiza Cacciamali (2000), reafirmando os argumentos desenvolvidos pela abordagem
intersticial e subordinada, não é mais possível conceber os setores formal e informal como
separados e desconectados, na medida em que essa nova dinâmica subordina o setor informal ao
processo de acumulação capitalista.
As interrelações e a dinâmica entre as atividades informais e formais se estabelecem na
medida em que o movimento da reestruturação capitalista cria e recria relações e formas de
trabalho díspares e distintas da relação assalariada padrão. Recria-se o trabalho em domicílio, o
trabalho temporário organizado através de firmas locadoras de força de trabalho, criam-se
diferentes relações de trabalho com a reintrodução do trabalho por conta própria e das
cooperativas de trabalho como formas de assalariamento disfarçado. Isso ocorre na esteira dos
processos de terceirização que se generalizaram em todos os ramos econômicos da produção de
dos serviços. Outra dimensão importante dessas interrelações está no crescimento expressivo da
distribuição de bens através do comércio de rua, dos vendedores ambulantes ou camelôs, tão
visíveis nas grandes cidades.
Vivemos, nesse contexto, um “processo de informalidade”, termo cunhado por Cacciamali
(2000), que o associa a dois fenômenos. O primeiro é um movimento de reorganização do
trabalho assalariado, dado pelo enorme crescimento de formas de emprego assalariado sem
carteira, de que são exemplo hoje todos os setores da indústria e dos serviços que através da
terceirização, transferem atividades para “a ponta inferior” das cadeias produtivas, ou seja, para
pequenas oficinas, microempresas ou para o trabalho a domicílio. O processo de informalidade
dá-se no sentido de uma ruptura com a relação assalariada padrão, através de contratações
8

consensuais e mesmo legais em função de mudanças na legislação trabalhista realizadas para


dar guarida a vínculos de trabalho flexíveis. Entram aí as cooperativas de trabalho, as
empreiteiras de mão de obra (mediante terceirização, redução de benefícios), agências de
trabalho temporário – que só contratam e inserem o trabalhador temporário no mercado –,
locadoras de mão de obra - prestação de serviço muitas vezes dissimulada sob a forma de
trabalho autônomo, que é também assalariamento disfarçado. São formas de trabalho que
indicam também um processo intenso de precarização.
Essas novas formas contratuais vão interpenetrar a totalidade do espaço produtivo de bens
e serviços. A característica comum que as identifica é, fundamentalmente, a sua vulnerabilidade,
ou seja, a insegurança na relação de trabalho. O contrato por tempo indeterminado desaparece
nessas relações de trabalho, também marcadas por insegurança no recebimento da renda,
ausência de qualquer proteção social na maioria dos casos, salários menores e uso flexível da
jornada, que geralmente é indefinida, variando no tempo de acordo com as necessidades, a
demanda, a produção, o serviço etc.
O segundo fenômeno que Cacciamali (2000) identifica no processo de informalidade diz
respeito às diferentes formas de autoemprego. Constituem outras estratégias de sobrevivência
como, por exemplo, o trabalho por conta própria ou o trabalho em microempresas. Ao
analisarmos este nicho, podemos identificá-lo como as atividades informais que caracterizariam
a velha informalidade, presente no Brasil desde o fim da escravidão nos centros urbanos. Trata-
se, no entanto, de um tipo de informalidade que, embora tenha essa história, já não é a mesma,
porque foi totalmente transformada nos dias atuais. As pessoas se deslocam para o autoemprego
geralmente em função de dificuldades de ingresso no mercado de trabalho: jovens e mulheres
que estão ingressando pela primeira vez ou que tem dificuldade de reintegrar, com baixa
qualificação, baixa escolaridade, idade mais avançada. Nesse segmento podemos encontrar uma
grande porcentagem de jovens e de pessoas com mais de 50 anos e, principalmente, mulheres
com baixa escolaridade. Faz parte desse nicho o emprego doméstico, como uma ocupação
tradicionalmente incluída na informalidade e que ainda ocupa a maior porcentagem da
população feminina que tem um trabalho remunerado.
Em artigo recente, Dedecca (2007:22) distingue as noções de setor informal e
informalidade mostrando que apesar delas serem geralmente tomadas como sinônimos, “elas
são, de fato, muito diferentes, e apenas parcialmente complementares”. O autor identifica o
9

surgimento da noção de informalidade nos países desenvolvidos na situação de crise do


emprego e de redução da proteção social do trabalho decorrente das transformações econômicas
e políticas que tiveram impulso a partir dos anos 80.
Mantendo na sua definição as mesmas atividades identificadas na tradição dos estudos
sobre o setor informal, ou seja, “trabalhadores autônomos, empregados domésticos e empresas
individuais ou com até cinco empregados”, Dedecca (2007:22/23) relaciona o setor informal às
atividades não-agrícolas voltadas para a sobrevivência dos que nelas trabalham, por isso,
correspondem a atividades não capitalistas. A informalidade por sua vez é identificada com
todas as formas de trabalho ou ocupações – agrícolas ou urbanas – sem proteção social e
corresponde, na visão desse autor, à dimensão de precariedade presente nas atividades
tipicamente capitalistas. Isto significa que a diferença entre os dois conceitos envolve tanto
dimensões quantitativas quanto qualitativas. Assim, o setor informal inclui trabalhadores
contribuintes e não contribuintes com a previdência social (por exemplo: empregadas
domésticas ou empregados em micro empresas com ou sem carteira) e exclui os trabalhadores
agrícolas. Já a informalidade inclui todos os trabalhadores sem proteção social e trabalhista, ou
seja, sem carteira ou não contribuintes para a previdência social, e que podem ser encontrados
tanto no setor formal, quanto no setor informal e nas atividades agrícolas7.
Essa concepção mostra que as relações de trabalho informais, o trabalho desprotegido e
precário, são inerentes ao desenvolvimento capitalista das últimas décadas, ao mesmo tempo em
que aponta para algumas interconexões e fronteiras pouco nítidas existentes entre a
informalidade e o setor informal. Contudo, ao trabalhar com os dois conceitos simultaneamente,
reeditando a noção de setor informal nos termos em que ele foi definido nos anos 70, repõe
alguns problemas já identificados e criticados na visão dualista.
De um lado, ao incorporar nesse conceito as pequenas empresas com até 5 empregados e
todos os trabalhadores autônomos o autor deixa de considerar as possíveis relações das grandes
e médias empresas capitalistas com essas pequenas/micro empresas (registradas ou não) e
também com uma parcela dos autônomos, através terceirização de produção e serviços, que é,
geralmente, essencial à capacidade de competir e à lucratividade das primeiras. De outro,
dificulta a percepção de como nas profundas mudanças ocorridas nas relações e nas condições

7
Os dados apresentados pelo autor, relativos à PNAD de 2005, mostram que assim definidos, o setor informal
representaria 30,18 milhões de trabalhadores ocupados, dos quais 7,9 milhões são contribuintes e 4,4 milhões
possuem carteira assinada, enquanto a informalidade representaria 48,9 milhões de ocupados.
10

de trabalho, em decorrência da generalização da acumulação flexível e do movimento de


globalização, parte cada vez mais importante dos antigos trabalhadores autônomos8 teve suas
atividades transformadas, recriadas e reinseridas na dinâmica mesma da produção e distribuição
de bens e serviços capitalistas.9

A nova informalidade

As mudanças na informalidade, sua crescente heterogeneidade e suas relações com as


atividades da economia formal vem sendo analisadas também, por estudos recentes, a partir da
noção de “nova informalidade”. Esta noção surge no contexto das transformações da economia
capitalista ocorridas nos últimos trinta anos, em um contexto de crescente desemprego e de
generalização de reformas econômicas de corte neoliberal que promoveram a
desregulamentação dos mercados, flexibilização dos direitos sociais e trabalhistas e um intenso
processo de casualização e precarização do trabalho tanto nos países do norte10 quanto nos do
sul. Nesse contexto, transformaram-se também as características das atividades e do trabalho
informal criando a necessidade de revisão dos antigos conceitos e de novas elaborações.
A noção de “nova informalidade” surge inicialmente nos trabalhos do espanhol Juan Pablo
Pérez-Sainz (1995, 1996)11 que identifica um conjunto de transformações que justificam a
necessidade de repensar a informalidade. Para ele essas transformações estão relacionadas às
novas tecnologias microeletrônicas, que por poderem se adaptar a pequenos estabelecimentos,
dificultam a associação entre desenvolvimento tecnológico, produtividade e grandes empresas,
típica do fordismo, impedindo assim que se identifique informalidade com pequenas/micro
empresas. Estão também relacionadas à desregulamentação dos mercados de trabalho e
flexibilização das relações de trabalho, que levam a uma crescente informalização do emprego,
fazendo com que “a distinção formal/informal perca, progressivamente, pertinência” (Pérez-

8
Biscateiros, camelõs, costureiras domiciliares, serralheiros, pintores, pedreiros, eletricistas, mecânicos, caixeiros
viajantes, etc...
9
Estudos recentes sobre ambulantes ou camelôs mostram como suas atividades foram transformadas pela venda
nas ruas, feiras e “camelódromos” de mercadorias de distintos segmentos industriais nacionais e importados.
Ver,por exemplo, Coutrim (2007), Durães (2008) e Lopes (2008).
10
Ver, por exemplo, Sassen (2000) e Broad (2000) que discutem a informalização da economia nos EUA,
mostrando como ela se associa à desregulamentação do mercado de trabalho e à casualização do trabalho
(através do trabalho part time, por tarefa, temporário, do trabalho a domicílio que estão na interface entre o
formal e o informal).
11
Ver também Lopes (2008b).
11

Sainz, 1998:62). Além disso, o autor identifica a permanência de atividades que


tradicionalmente foram reconhecidas como informais, apesar da sua gênese, dinâmica e
articulação com a economia nacional e global ter sido transformada.
A partir dessas transformações o autor distingue três cenários da neoinformalidade. O
primeiro seria o da exclusão, relacionado com a atual dinâmica da globalização. Essa última na
medida em que tem promovido maior fragmentação das economias nacionais, não incorpora
grandes segmentos da população que permanecem excluídos do processo e relegados às
atividades voltadas exclusivamente para a subsistência, identificadas com a economia da
pobreza. Apesar de pensar esse cenário como uma prolongação do tipo de informalidade
considerada tradicional na América Latina, Pérez-Sainz (1995, 1998) identifica nela elementos
novos, já que ela passa a incorporar os novos pobres que emergem em decorrência dos
processos de crise e dos ajustes estruturais das economias do continente. Também considera que
esse excedente de trabalhadores não se produziria mais apenas devido à introdução de
tecnologias poupadoras de trabalho, mas pela dinâmica não integradora do novo modelo
produtivo, o que faz com que “a base de acumulativa seja restringida e que, portanto, o volume
de força de trabalho absorvido seja também reduzido” (Pérez-Sainz, 1998:63).
O segundo cenário, identificado como o de “informalidade subordinada ao setor de bens
comercializáveis12”, seria gerado pelo próprio processo de globalização através dos movimentos
de deslocalização de empresas que buscam redução de custos e flexibilidade de modo a se
adequar aos imperativos da competição no mercado global. Inclui, de forma não exclusiva, seja
os deslocamentos que buscam a provisão de insumos, antes produzidos pelas próprias empresas,
seja os processos de subcontratação como resposta a mercados com demandas flutuantes. O
autor tende a identificar o primeiro como mais presente nos países latino-americanos que
passaram por processo de industrialização e modernização mais cedo e que tem um tecido
industrial mais denso, enquanto o segundo estaria mais presente nos países de modernização
mais tardia, como é o caso dos países da América Central. (Pérez-Sainz, 1996: 20). Os
processos identificados nesse cenário podem ser encontrados na formação de cadeias globais e
nas cadeias de subcontratação e permitem considerar unidades produtivas de maior tamanho
como parte da informalidade.

12
O autor identifica com este termo a produção capitalista voltada para o mercado global.
12

O terceiro cenário, considerado como mais promissor, é caracterizado pelas aglomerações


de pequenas e micro empresas dinâmicas, que podem ser muito heterogêneas, mas geralmente
incluem estabelecimentos informais e formais, e tem potencial para evoluir para situações
semelhantes aos distritos industriais do Norte, como o da Terceira Itália. Pérez-Sáinz distingue
como características desses conglomerados a existência de socioterritorialidade e uma nova
espacialidade, ou seja, eles se beneficiam de um contexto sócio-cultural e do capital social da
comunidade na qual se situam. Essa, por sua vez, se encontra fora das regiões metropolitanas,
em pequenos municípios, em regiões do interior do país, distantes dos grandes centros
industriais, e claramente adjacentes ao meio rural.
Apesar de ter desenvolvido o conceito de neoinformalidade, influenciando um conjunto de
autores que procuram pensar as transformações ocorridas na informalidade na América Latina e
no Brasil a partir dos processos de reestruturação produtiva e de globalização da economia,
Pérez Sáinz, em artigo de 1998, responde negativamente à pergunta se “ainda é necessário o
conceito de informalidade”. Conclui o texto dizendo que as reestruturações produtivas e sociais
recentes permitem afirmar que não se está diante de um mero prologamento do passado e que
seria necessário pensar que estamos diante da configuração de um novo mundo do trabalho,
para o qual “as categorias analíticas do modelo anterior não parecem ter suficiente poder
interpretativo”. O conceito de informalidade então estaria se convertendo “em uma
reminiscência do passado sem maior utilidade para explicar o presente” (Pérez Sáinz, 1998:69).
No entanto, estas conclusões parecem contraditórias com o esforço feito pelo autor, no
mesmo artigo, de desenvolver o conceito de neoinformalidade, por considerar que o prefixo
“neo” indica que estamos diante de fenômenos inéditos, que os enforques tradicionais não
podem explicar, e que a manutenção do termo “informalidade” mostra que as atividades e
formas de trabalho identificadas como informais há muitas décadas ainda permanecem (Idem,
p.66). Essa definição parece mais adequada a um olhar critico sobre as transformações recentes,
ao mostrar como elas se fazem através de um hibridismo de formas de exploração, que tem
conseqüências perversas sobre o trabalho, no lugar de apenas considerar essas novas
configurações, que incorporam o informal e o precário, como inerentes ao novo modelo
produtivo e por isso inevitáveis e irreversíveis.
13

No Brasil, a noção de nova informalidade foi incorporada por alguns autores, com o
objetivo de pensar a contínua ampliação da informalidade que se dá de forma cada vez mais
relacionada com o desenvolvimento capitalista.
Para Dedecca e Baltar (1997: 69) no Brasil, essa nova informalidade, que resulta dos
processos de reestruturação produtiva e de globalização, tem se caracterizado pelo crescimento
do número de autônomos que trabalham para as empresas formais; pela crescente entrada de
novas pessoas na informalidade que tiveram suas trajetórias profissionais desenvolvidas nas
atividades formais, capitalistas ou legais; pela criação de novos produtos e de novas atividades
econômicas, bem como pela redefinição de outras anteriormente já existentes – mudanças
refletidas na qualidade dos produtos e dos serviços oferecidos diretamente ao público em geral.
Ou ainda, nas suas palavras (Dedecca e Baltar, 1997: 69):

A ‘nova informalidade’ se caracteriza pela presença de novos trabalhadores


informais, em velhas e novas atividades, articuladas ou não com os processos
produtivos formais, ou em atividades tradicionais da ´velha informalidade` que
são por eles redefinidas.

Na mesma direção, Lima e Soares (2002: 167) entendem que o conceito de “nova
informalidade” permite incorporar os contingentes de trabalhadores informais que antes se
encontravam no mercado formal e protegido. E acrescentam:

Juntam-se aos trabalhadores do ‘velho informal’ autônomos de todos os tipos e


atividades. Em comum agora a falta da perspectiva de inserção na formalidade,
antes vista como o futuro desejado. A “nova” informalidade pode ser
considerada como sinônimo da flexibilidade dos novos tempos.

Desse modo, para esses autores, “a informalidade deixa de representar algo transitório
para constituir-se em definitivo”. Baseando-se na discussão feita por Sassen, Broad e Tabak
(2000), eles mostram que o intenso processo de casualização do trabalho nos países do norte,
significa que para atender as suas necessidades de sobrevivência, os trabalhadores e suas
famílias se vêem obrigados a combinar trabalhos em atividades formais e informais. A nova
informalidade se caracterizaria, então também, pelo “(...) retorno do ônus da reprodução da
força de trabalho na própria família e o enfraquecimento da regulação sobre o mercado de
trabalho”, que permitiria a proliferação de atividades mais flexíveis, instáveis e precárias (Idem,
p. 167).
14

Filgueiras, Druck e Amaral, em artigo de 2004, discutem os distintos conceitos de


informalidade/trabalho informal mostrando que cada um deles se refere a fenômenos
econômicos distintos, mas consideram que esses conceitos, apesar da sua diversidade, podem
contribuir “na caracterização da dinâmica e dos processos mais gerais do mercado de trabalho”,
desde que sejam definidos teórica e operacionalmente de forma clara. Tendo esse ponto de
partida, eles confrontam três conceitos de informalidade/trabalho informal: setor informal,
economia não registrada (ou subterrânea) e atividades não fordistas, com o objetivo de aplicá-
los às estatísticas produzidas pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada na
Região Metropolitana de Salvador (RMS), para examinar os resultados decorrentes das distintas
agregações que correspondem a cada conceito.
Assim, depois de examinar os conceitos de setor informal e de economia subterrânea,
identificados respectivamente com as atividades não tipicamente capitalistas e com as atividades
e relações de trabalho ilegais, eles se debruçam sobre a noção constituída pela junção dos
critérios que distinguem os dois conceitos anteriores, permitindo, desse modo, ampliar o
conceito de informalidade. Nessa terceira definição, a informalidade equivale às formas e
relações de trabalho não-fordistas, incluindo todos os trabalhadores sem proteção das leis
trabalhistas e que tem uma inserção precária no mercado de trabalho. Mais especificamente, o
conceito inclui:
(...) tanto as atividades e formas de produção não tipicamente capitalistas,
sejam elas legais ou ilegais, quanto as relações de trabalho não registradas,
mesmo que tipicamente capitalistas (assalariados sem carteira assinada).
Filgueiras, Druck e Amaral (2004, p.215)

Esse terceiro conceito de informalidade, identificado com o conjunto de atividades não-


fordistas, é considerado como o mais adequado, pelos autores, por permitir analisar a amplitude
e o grau de precarização presentes no mercado de trabalho, além de ser uma definição mais
ampla que deixa de fora apenas as atividades/relações de trabalho capitalistas registradas.
Precarização que se expressa seja na inexistência de regulamentação/proteção por parte do
Estado e, portanto, na ausência de direitos, seja nas condições concretas em que o trabalho se
realiza, ou seja, as atividades por conta-própria e não assalariadas que, em geral, são mais
instáveis, em relação à sua demanda e à renda, mais penosas porque exercidas em jornadas mais
longas e mais inseguras por sofrerem agressões e repressão de vários tipos.
15

Esse conceito, parece-me mais próximo do conceito de “nova informalidade”, por captar o
modo como o processo da acumulação flexível incorpora e interconecta atividades e formas de
trabalho formais e informais, ao mesmo tempo que desvenda a amplitude da precarização que
caracteriza o novo modelo produtivo e o movimento de globalização.
A riqueza da noção de nova informalidade está no fato dela permitir identificar as
transformações nas atividades identificadas como tradicionais e típicas do “setor informal”
(como o trabalho autônomo, do vendedor ambulante, por exemplo) e as conexões entre as
pequenas ou micro empresas, o assalariado desprotegido e outros tipos de relações de trabalho
com a dinâmica de acumulação de capital na sua atualidade. Acumulação que se dá por
espoliação, para usar o temo cunhado por Harvey (2003), baseada no trabalho precário e
desprotegido em larga escala.
A terceirização constitui um componente central desse modo de acumulação que se dá sob
hegemonia neoliberal. Não é outro o sentido da generalização da terceirização para toda a
economia. Por meio dos processos de terceirização e de flexibilização das relações de trabalho,
a informalidade se encontra hoje no coração da formalidade. Ela se apresenta como um
componente imprescindível do processo de acumulação e da busca por maior produtividade,
redução de custos e maiores lucros. Dessa maneira, constituem-se novos e velhos cenários de
formas de trabalho precárias, lastreados no uso intensivo da força de trabalho e na incorporação
de segmentos antes deixados à parte desses processos, como no caso dos ex-formais ou das
mulheres.
A informalização que acompanha os processos de terceirização no Brasil, pode ser
encontrada tanto nas situações identificadas por Pérez-Sáinz como parte do segundo cenário da
neoinformalidade quanto naqueles que definem o terceiro cenário. Quanto aos primeiros, que
Pérez-Sáinz denomina de informalidade subordinada ao segmento de bens de troca, gestados
pelo próprio movimento de globalização, um bom exemplo é o da relocalização de fábricas dos
setores de confecção e de calçados para regiões do interior do país, fora dos antigos centros
industriais, que ocorreram em decorrência da crise dos anos 90, e da competição com produtos
importados a baixo custo. Essas transferências, seja de empresas de capital nacional, seja de
capital estrangeiro (capital oriundo de países asiáticos, em alguns casos) ocorreram motivadas
pela busca de mão de obra barata e sem tradição de organização sindical, mas ao mesmo tempo,
pelos incentivos fiscais oferecidos por prefeituras e governos estaduais. Esse movimento de
16

busca de “territórios virgens” (green fields) para a produção fabril, foi acompanhado por um
novo fenômeno: o surgimento das cooperativas de trabalho, voltadas totalmente para a execução
de atividades produtivas terceirizadas. Muitas delas, cooperativas de costura ou de calçados,
empregando quase exclusivamente ou majoritariamente mulheres, surgiram através seja de
parcerias entre empresas e prefeituras em cidades do interior do nordeste, seja por iniciativa de
empresas que fecharam plantas e transferiram a produção para cooperativas organizadas com a
participação de suas antigas trabalhadoras sob sua supervisão direta.
Como mostra Lima (2007), a partir de meados dos anos 90, a transferência de empresas
fabris do setor de calçados do Rio Grande do Sul para as cidades cearenses de Quixeramobim e
Canindé, se deu sob os auspícios dos governos locais que além de conceder incentivos fiscais e
infraestrutura, recrutaram e formaram trabalhadores e trabalhadoras sem experiência fabril
anterior, organizando-os em cooperativas para produzir calçados para as primeiras. Essas
cooperativas recebiam as máquinas das empresas contratantes e eram diretamente
supervisionadas por funcionários dessas empresas. Mantinham, portanto, uma relação direta de
dependência dessas empresas e se subordinavam ao autoritarismo da sua administração, o que
configurava claramente uma forma de assalariamento disfarçado.13 Nessas cooperativas a
instabilidade está dada pela própria situação da terceirização e da dependência de encomendas
pelas empresas contratantes. A precarização está presente na ausência de vínculos formais e na
ausência dos direitos trabalhistas, mesmo considerando que em algumas dessas cooperativas os
trabalhadores e trabalhadoras tem recebido férias e um bônus equivalente ao 13º salário.
No caso estudado por Reis (2007) as cooperativas do setor de confecção foram formadas
no interior do Maranhão por iniciativa da empresa frabricante de calças masculinas, que se
transferiu de São Paulo, em parceria com o governo do Estado. Foram formadas 15
cooperativas, com cerca de 40 associados cada, sendo que 120 deles(as) eram ex-
funcionários(as) da empresa contratante. No caso destas cooperativas, além da rotina extenuante
pela intensidade e volume do trabalho, as trabalhadoras e trabalhadores vivenciavam ainda a
instabilidade da falta de trabalho devido ao tipo de produto que é sazonal. Viviam períodos sem
trabalho, “sem remuneração, sem dia e horário certo para trabalhar e descansar” (Reis, 2007:
201).

13
De acordo com o autor, algumas dessas cooperativas que sobrevivem até o presente, somam cerca de 4000
trabalhadores(as) e continuam funcionando como subcontratadas para empresas que, por sua vez, produzem
como terceirizadas de marcas globais para exportação. Ver também Lima (2002).
17

As aglomerações de pequenas empresas dinâmicas características do terceiro cenário da


neoinformalidade, conforme a definição de Perez Sáinz, podem ser encontradas em vários
segmentos locais ou APLs (Arranjos Produtivos Locais) dos setores de confecção e calçados,
como os estudados por Araújo e Amorim (2002) em Campinas, Lima e Soares (2002) no
interior de Pernambuco, por Lima (2009) na região de Cianorte, Paraná, ou por Navarro (2003)
em Franca, São Paulo.14
Na pesquisa realizada por Lima (2009) em um APL da indústria do vestuário, voltada para
a produção de jeans e moda feminina, na região de Cianorte, norte do Paraná, a terceirização
constituiu o elemento central da modernização e da competitividade das empresas ali instaladas,
por permitir uma adaptação rápida às novas tendências da moda. A cadeia produtiva do jeans e
da chamada “modinha” envolve nessa região empresas de médio porte que são as principais
contratantes, e uma hierarquia de pequenas e micro empresas, facções familiares, costureiras em
domicílio e algumas cooperativas de costura situadas nas cidades vizinhas, na sua maioria,
informais. A novidade encontrada nesse arranjo produtivo local está na customização do jeans
através da lavagem, raspagem, perfuração e realização de cortes que vem sendo feita em facções
nas quais predomina a força de trabalho masculina. A falta de outras opções de emprego na
região, marcada até algumas décadas atrás principalmente por atividades rurais, tem levado mais
recentemente alguns homens a se inserirem nas micro-empresas e facções de costura. Tanto
nessas facções masculinas como nas facções de costura, nas quais predominam as mulheres, no
trabalho a domicílio e nas cooperativas onde vigora o assalariamento disfarçado, as instalações e
as condições de trabalho são totalmente precárias, o vínculo é informal e instável, pois a
continuidade do trabalho depende das encomendas das empresas contratantes e das tendências
da moda. Trabalhadoras e trabalhadores, na sua maioria, não tem acesso aos direitos
trabalhistas, recebem por peça, trabalham longas jornadas e vivenciam com freqüência cada vez
maior situações de adoecimento (Lima, 2009).
As novas facetas do trabalho ambulante constituem um outro exemplo da contribuição do
conceito de “nova informalidade”. Trabalhadores ambulantes ou vendedores de rua existem no
Brasil desde (pelo menos) o século XIX15. Se ao longo do século XX foi possível identificar
características comuns nesta atividade, considerada típica da velha informalidade, cabe

14
Sobre esses casos ver também Araújo e Ferreira (2009).
15
Ver por exemplo DURÃES, Bruno J. R. Trabalhadores de rua de Salvador: Precários nos cantos do século XIX
para os encantos e desencantos do século XXI. São Paulo: Dissertação de Mestrado em Sociologia, Unicamp, 2006.
18

perguntar se, no contexto desse início do século XXI, é possível ainda afirmar que os
trabalhadores e trabalhadoras envolvidos nessa atividade têm o mesmo perfil, realizam o mesmo
tipo de venda e se sua inserção é semelhante àquela que caracterizou essa atividade nas décadas
anteriores. Como é possível pensar que estamos ainda falando da velha informalidade quando
vemos os “camelódromos” das grandes cidades brasileiras ou os “shoppings populares”, que
constituem a forma como os poderes públicos municipais organizam e controlam essa
informalidade de rua?
Estudos recentes sobre o trabalho ambulante mostram que existe uma crescente
diversidade entre os ambulantes, uma vez que esse nicho absorve, em grande medida, ex-
assalariados da indústria, dos bancos e de outros setores da economia, demitidos e sem
possibilidade de retorno. Nele, encontra-se uma grande quantidade de pessoas expulsas do setor
formal, inclusive trabalhadores qualificados, de escolaridade elevada, que se somam aos
trabalhadores e trabalhadoras que não conseguem outra forma de inserção no mercado de
trabalho. É nesse contexto da nova informalidade que aumenta nas cidades a presença dos
“camelôs de tecnologia” (Durães, 2009), que em geral são pessoas mais qualificadas, de alta
escolaridade, que precisam ter um nível de conhecimento para poder vender os equipamentos
eletrônicos e de informática, explicando em detalhes seu funcionamento. Há, portanto, uma
mudança, ou uma recriação do mesmo do tipo de trabalho antigo, historicamente presente na
informalidade.
Por fim, cabe mencionar outra atividade no setor da distribuição de mercadorias, que ao
lado do trabalho ambulante envolve também um expressivo exército de mulheres: as
revendedoras ou “consultoras” de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Verifica-se nos
últimos anos um crescimento exponencial dessa atividade, perceptível no cotidiano das grandes
ou médias cidades brasileiras. O dado relevante é que essas mulheres não são reconhecidas
como trabalhadoras, pois são chamadas de “consultoras”. Estudo em andamento realizado por
Abílio (2007) mostra que algumas das grandes empresas do ramo de cosméticos chegam a ter de
700 mil a um milhão de “consultoras” espalhadas pelo país e encarregadas da distribuição dos
seus produtos. Essas trabalhadoras não possuem qualquer tipo de contrato, proteção trabalhista
ou previdenciária, e nem remuneração assegurada, além de terem de pagar para trabalhar, pois
têm que comprar e consumir os produtos para se tornarem revendedoras. Trata-se, portanto, de
um trabalho marcado pela precariedade e que é central para a possibilidade de realização das
19

vendas e do lucro dessas empresas. Não é possível esquecer que este é um setor em expansão,
de alta produtividade e lucratividade. Assim, além das marcas mais conhecidas existem várias
outras que já surgiram empregando o mesmo método de venda e conformando um universo de
trabalhadoras, e mais recentemente também alguns trabalhadores, totalmente precário e
desprotegido.

Para concluir...

Para concluir, é necessário dizer que apesar das dificuldades relativas às várias acepções
do conceito de informalidade, já muito discutidas pela literatura, concordamos com Filgueiras,
Druck e Amaral (2004) que se definido de forma clara, tanto teórica quanto operacionalmente, o
conceito pode contribuir para a compreensão não apenas das transformações e dos processos
mais gerais do mercado de trabalho, mas também de como se configuram no atual contexto de
globalização e acumulação flexível, novas ocupações e relações de trabalho assim como outras,
antigas ou tradicionais, são recriadas e resignificadas, de modo que atividades e formas de
exercício do trabalho consideradas informais (porque ilegais, desprotegidas, não assalariadas ou
voltadas para a subsistência) se combinam e se entrecruzam com as atividades e formas de
trabalho definidas como formais, identificadas com o emprego assalariado protegido, e as
atividades capitalistas registradas.
Nesse sentido, o conceito de nova informalidade parece-me mais adequado porque ele
indica que no contexto histórico do pós-1980, em países latino-americanos como o Brasil,
estamos diante de fenômenos inéditos, como observa Pérez-Sáinz, que não podem ser
considerados como uma continuidade do passado, do tipo de trabalho informal que
predominava no período da industrialização por substituição de importações. Também porque é
esse conceito, nos termos em que procuramos defini-lo aqui, que permite compreender como,
nas condições atuais de tecnologia microeletrônica e de grande mobilidade do capital, as
atividades informais se conectam e se imbricam com uma dinâmica da acumulação sustentada
na flexibilidade e na generalizada precarização do trabalho.
Por esta razão mesmo, a noção de informalidade não pode ser facilmente descartada.
Pois ela ilumina aspectos da realidade do mundo do trabalho que não estão necessariamente
contempladas pelos conceitos de flexibilização e de precarização, já que eles são mais amplos e
20

podem ser identificados enquanto processos em curso mesmo nas grandes empresas capitalistas
e nos segmentos mais protegidos do trabalho assalariado16.
Além disso, o conceito de nova informalidade contempla tanto as novas modalidades e
relações de trabalho desprotegido, que se inscrevem seja nas cadeias globais de subcontratação
ou nos nichos dinâmicos e lucrativos da produção local, seja nas redes internacionais de
pirataria e comércio ilegal, quanto os nichos de geração de autoemprego, voltado para a
subsistência, decorrentes da presença contínua de uma população não absorvida pela dinâmica
da acumulação globalizada. Contudo mesmo aqui, quando se poderia identificar este tipo de
trabalho informal como um prolongamento do tipo de informalidade que predominou na
América Latina, há elementos novos relativos ao modo como o atual padrão de acumulação
produz um excedente de força de trabalho. Como ressalta Pérez-Sáinz (1996:19), o atual padrão
de acumulação combina o uso de uma base técnica intensiva em capital na produção de certos
bens, com atividades produtivas que mantém uma base técnica intensiva em trabalho. Isto
significa que não é apenas o emprego de tecnologia poupadora de mão de obra que produz o
excedente de trabalhadores. Para esse autor esse excedente seria gerado pela dinâmica não
integradora do novo padrão produtivo, que faz com que sua base de acumulação seja restringida
e reduza o volume de força de trabalho a ser absorvida. Contudo, mesmo nesse segmento dos
trabalhadores autoempregados, geralmente autônomos ou por conta própria, como vimos no
caso dos vendedores ambulantes, não é mais possível identificar simplesmente um
prolongamento da economia da pobreza, na medida em que parte importante desses
trabalhadores viram sua atividade ser transformada, resignificada e inserida no circuito de
distribuição de um grande leque de produtos gerados pelos setores mais dinâmicos da produção
capitalista nacional e globalizada.

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16
Sobre a noção de “processo de precarização” ver o capítulo de Márcia de Paula Leite, neste volume.
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