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Filosofia e Cidadania

Melhor do que apenas não aceitar doutrinas que neguem a liberdade de outrem,
injuriando a dignidade humana e engendrando a barbárie, é, além disso, promover uma
reflexão filosófica que afirme a liberdade eticamente exercida de outrem, que suporte
conceitualmente o ético exercício da liberdade humana, contribuindo com a afirmação
da cidadania. Assim, ao lado da crítica que desvenda mecanismos alienadores e
opressivos afirmam-se elementos filosóficos que permitem considerar a construção de
novas relações humanas que ampliem as liberdades de todos.

Como nenhum preconceito deve servir de referência para decidir sobre quais temas
algum filósofo possa trabalhar, nada impede que um filósofo tome, como tema de sua
investigação, questões éticas, estéticas, políticas, semióticas, gnosiológicas, entre tantas
outras que emerjam da práxis social, com vistas à construção da cidadania. Como é de
consenso na comunidade filosófica, não cabe à filosofia tornar-se baluarte na defesa de
sistemas ideológicos e políticos. Pelo contrário uma de suas possíveis tarefas é criticar
tais sistemas, como objetivo de produzir conceitos que permitam às pessoas viverem
com sabedoria, ampliando e fortalecendo o exercício das liberdades públicas e privadas,
considerando criticamente os elementos éticos, estéticos, políticos, semiológicos,
gnosiológicos e tantos outros que perpassam as relações sociais.

Esta idéia basilar é um dos fundamentos da assim chamada filosofia da libertação que
destaca a necessidade de refletir-se filosoficamente a práxis social, considerando em
particular as situações que caracterizam fenômenos de injustiça e opressão, a fim de
promover a ampliação das liberdades públicas e privadas em sua máxima extensão
possível, tendo a consciência de que, sendo a liberdade um exercício historicamente
condicionado, não haverá jamais uma libertação total nem tampouco uma dominação
absoluta, havendo sempre a possibilidade de os seres humanos decidirem libertar-se não
apenas daquilo que os oprime, como também dos limitados horizontes de conhecimento
nos quais se movem, a fim de poderem realizar aquilo que os humanize cada vez mais.

Esta perspectiva filosófica, foi coletivamente assumida no Brasil em setembro de 1988


no III Encontro Nacional de Filosofia, em Gramado-RS, por um conjunto de filósofos
que subscreveu o que ficou conhecida como Carta de Gramado(12). Destacando que a
filosofia, desde o seu surgimento na Grécia antiga, "manifestou-se como atividade
intelectual que busca pensar o homem e sua realidade", o documento esclarecia que "a
Filosofia da Libertação, no contexto da Filosofia Latino-Americana, constitui uma
corrente de pensamento filosófico que busca a reflexão crítica sobre a opressão do
homem, a partir de uma perspectiva latino-americana", tomando como questões para
reflexão e ação os seguintes elementos: "a) a situação de exploração e dependência do
terceiro mundo; b) a democracia; c) a educação; d) a justiça social; e) as situações de
discriminação étnico, racial e sexual; f) a ecologia."(13)

Esse conjunto de elementos, que não pretende ser exaustivo mas apenas indicador do
perfil das questões às quais prioritariamente se volta esta reflexão, possibilita considerar
que os temas a serem refletidos advenham da práxis social que busca construir espaços
mais amplos de exercícios de liberdade.
A argumentação que articula filosofia e cidadania também está presente em um dos
movimentos pela reintrodução da filosofia no ensino médio brasileiro, que,
considerando a educação pública, gratuita e de qualidade como condição do exercício
da cidadania, destacará a necessidade do ensino de filosofia no segundo grau como
elemento da formação humanística necessário ao fortalecimento da democracia.

A Moção em Defesa da Filosofia no Segundo Grau, elaborada neste movimento em


1996, analisava que o ensino de segundo grau, voltado cada vez mais para o aspecto
tecnológico - conforme a LDB então defendida pelo Governo e que foi aprovada pelo
Congresso -, negligenciava conteúdos humanísticos fundamentais para a cidadania.
Particularmente enfatizava o documento:

"entre as disciplinas humanísticas necessárias à educação para a cidadania ressaltamos a


importância da Filosofia que deve constar nos currículos escolares. O seu papel é
formar pessoas com pensamento crítico, solidário, criativo, que saibam distinguir
argumentos, fundamentar posições e tomar decisões, habilidades necessárias ao mundo
prático. Não se trata somente de apreender conteúdos tecnológicos já elaborados, mas
desenvolver a capacidade de compreendê-los, criticá-los e de produzir ciência. Trata-se
de manejar estruturas de pensamento e resolver problemas, formando as condições
básicas para o pensar em todos os campos, inclusive o tecnológico."(14)

Assim, compreende-se a educação filosófica como capaz - entre outros aspectos - de


formar pessoas que exercitem um pensamento criterioso, que desenvolvam
semioticamente interpretantes afetivos solidários, que aprimorem a criatividade na
inteligibilidade e intervenção sobre os eventos dos quais tomam parte, que saibam
distinguir argumentos ponderando os diversos elementos neles envolvidos e sua
articulação orgânica, fundamentar posições em bases conceituais mais sólidas e tomar
decisões por conta própria nas diversas esferas do mundo da vida. Considerada deste
modo, a filosofia possibilita desenvolver a capacidade geral de compreender os
conhecimentos em suas complexidades, permitindo inteligir de maneira mais precisa
tanto as elaborações humanísticas quanto tecnológicas e de criticá-las, formando certas
bases valiosas à própria elaboração científica, uma vez que desenvolve a habilidade em
manejar estruturas de pensamento, em realizar análises e sínteses, reimplantando os
conhecimentos produzidos em horizontes mais amplos e orgânicos, possibilitando
ordenar logicamente problemas complexos e de organizar a sua resolução.

Esta concepção de filosofia, como prática de cidadania, entretanto, enfrenta pesadas


críticas formuladas a partir de uma falsa dicotomia subjacente a muitos cursos de
graduação em filosofia no Brasil, a saber, de que não se pode ensinar alguém a ser
filósofo, isto é, a criar novos conceitos e a ensaiar novas estratégias teóricas em que
estes se articulem, mas que somente é possível formar bons professores de filosofia, isto
é, pessoas que saibam ensinar filosofia, explicando adequadamente o que os filósofos
escreveram ou ensinaram. Para estes, o fundamental não está em desenvolver a
habilidade de refletir filosoficamente os desafios contemporâneos lançados à elaboração
crítica a partir da realidade de cada qual, não está em criar novos conceitos
possibilitando a cada um pensar por si mesmos a sua existência, mas basicamente em
levar os alunos a apropriarem-se de reflexões e conteúdos reconhecidos como
filosóficos pela comunidade acadêmica internacional. Em parte, em razão desta
concepção, gerou-se mesmo um certo cuidado, no Brasil, no uso dos adjetivos filósofo e
professor de filosofia. Nos jogos de linguagem habituais sobre o tema, quem se forma
em sociologia é sociólogo, quem se forma em psicologia é psicólogo, mas quem se
forma em filosofia é professor de filosofia. O fato de que possa existir bons professores
de filosofia, que a cultivem sem se preocupar em criar novos conceitos ou estratégias
teóricas inovadoras na resolução de problemáticas atuais, não significa que não sejam
estas as principais tarefas para as quais os graduandos em filosofia devam
progressivamente se voltar. Assim, os cursos de graduação em filosofia não podem ser
reduzidos a excelentes cursos de história da filosofia européia e norte-americana, nos
quais pouco se reflete a própria realidade em que vivemos. Pelo contrário, cursos que
enfatizam a história da filosofia européia, norte-americana, latino-americana, africana e
asiática devem contribuir também para aprimorar o exercício da crítica filosófica sobre
problemáticas urgentes da realidade contemporânea na qual o pensador está inserido
como cidadão. Tão imprescindível como não tergiversar acerca de uma compreensão
rigorosa dos fundamentais textos clássicos de toda a história da filosofia, é não deixar
de pensar a própria realidade em que se está, julgando por si mesmo as questões éticas,
estéticas, políticas e científicas, entre tantas outras, que condicionam o exercício da
liberdade que a reflexão filosófica visa ampliar.

Trata-se, pois, de uma falsa dicotomia porque é possível aprender a filosofar


exercitando o pensamento a partir de qualquer área de investigação e, particularmente,
estudando a própria filosofia. Com efeito, qualquer teórico de uma ciência específica,
aprofundando os conhecimentos de sua área poderá atingir um patamar de reflexão
reconhecida academicamente com o título de Philosophiae Doctor (Ph. D.) naquele
assunto, isto é, alguém que se tornou um doutor filosófico naquela matéria. Embora esta
expressão advenha do período medieval e seja comumente utilizada em universidades
européias e norte-americanas como título conferido a quem conclui seu doutorado em
qualquer área do conhecimento, cabe destacar que vários filósofos nunca se graduaram
formalmente em filosofia, mas em matemática, direito, física, biologia, etc. Se é
possível um pensador filosofar sem ter feito um curso acadêmico de graduação em
filosofia, por outro lado também é possível aprender a filosofar participando-se de
processos pedagogicamente organizados com vistas a exercitar a própria reflexão
filosófica. A dupla fonte de elementos, neste caso, são os textos filosóficos e a própria
realidade. Trata-se de problematizar a realidade, recuperando os elementos que a
tradição filosófica - em seus textos - nos dispõe para considerá-la e avançar
dialogicamente em uma reflexão que gere novos conceitos que permitam uma posição
mais consciente e livre sobre os reais condicionantes da existência humana.