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Ano 2 - N º 09 Setembro/Outubro - 2009

LINGUAGEM E SENTIDO: EVOCAÇÃO HISTÓRICO-SEMÂNTICA DE


TOMAR EM LÍNGUA PORTUGUESA

Jarbas Vargas Nascimento1


João Caetano Campos Andrade2

RESUMO: Neste trabalho, procuramos apresentar a produtividade semântica do verbo


tomar na história do português no Brasil. Partimos do pressuposto de que a língua está
em contínua mudança e que as alterações constantes no sentido das palavras advêm de
mudanças que ocorrem nela e na sociedade. Justifica-se nosso estudo de tomar, na
medida em que, no português, é um dos itens lexicais mais produtivos do ponto de vista
semântico, sendo que há, em alguns dicionários, quase cinquenta acepções para o termo.

PALAVRAS-CHAVE: produtividade semântica; polissemia; língua portuguesa, tomar.

ABSTRACT

In this paper we intent to present the semantic productivity of the verb tomar in the
history of the Portuguese in Brazil. We start from the premise that the language is in a
continuous change and that the constant alterations in the meaning of the words come
from the changes that occur in it and in the society as well. Our study of tomar can be
justified, in order that, the Portuguese, is one of the more productive lexical items from
the semantic point of view, remembering that are, in some dictionaries, almost fifty
meanings for the term.

KEYWORDS: Semantic Productivity; polisemy; Portuguese language; tomar.

Considerações iniciais

Este artigo apresenta como tema um estudo semântico-histórico da


produtividade do verbo tomar, considerando sua possível origem germânica e suas
variadas acepções de uso, em diferentes momentos da história do português. Nossa
pesquisa apóia-se na Semântica Histórica e abre-se a uma interdisciplinaridade com
outras disciplinas afins, entre elas a Etimologia, a Linguística e a História, para compor

1
Doutor em Letras (Semiótica e Linguística Geral) pela Universidade de São Paulo; Professor Titular do
departamento de Português e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Láingua Portuguesa da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP - Rua Monte Alegre, 984 - CEP 05014-001 - São
Paulo-SP)
2
Especialista em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor na
FMU.
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um panorama, em que vários contextos de uso da palavra tomar possam ser


recuperados, a fim de que tenhamos um conhecimento da mudança e da ampliação
gradual dos sentidos que vemos construir, a partir de neologias semânticas assumidas
por tal palavra.
Estudos sobre a polissemia e a produtividade semântica de determinados itens
lexicais têm merecido muitas abordagens não somente em função da ampliação de
sentidos das palavras ao longo da história do português, mas também por conta de
imposições dos contextos, onde estão em uso por diferentes falantes. Com isso,
queremos esclarecer que os falantes constroem os sentidos para as palavras, a partir dos
processos de interação em sociedade.

1. O aspecto histórico-etimológico

Para o cumprimento de nosso objetivo, faz-se necessário um trabalho de


recuperação histórica da palavra tomar, observando sua origem etimológica e os
processos linguísticos e socioculturais que envolvem sua mudança semântica em
diferentes momentos de seu uso e na história da língua portuguesa. Dada a
complexidade do processo de transformação semântica, sofrida por tomar,
primeiramente abordamos os aspectos etimológicos para, em seguida, proceder a uma
análise de ordem semântica da palavra tomar, objeto de nosso estudo.
O verbo tomar é um dos mais produtivos do ponto de vista semântico, sendo que
há, em alguns dicionários, quase cinqüenta acepções para o termo. Sua origem, porém,
ainda é controversa, embora alguns estudiosos apontem para três hipóteses
etimológicas. O Dicionário Etimológico de Antônio Geraldo da Cunha (1989: 774), por
exemplo, não determina a origem de tomar, classificando-o como sendo de origem
incerta.
Outros autores julgam que a primeira possibilidade de origem seria por meio do
léxico latino autumare, que na concepção antiga do termo significava “afirmar, julgar,
pesar”. Esta tese etimológica, do filólogo Joan Corominas, é apresentada por Silveira
Bueno (1967), mas é de difícil de sustentação do ponto de vista etimológico. Ainda
segundo Silveira Bueno, não se conseguiu observar uma mudança semântica do léxico
latino autumare, pois, no tempo do escritor Plauto (254 a 184 a.C.), esse verbo era já
considerado raro, inusitado. Também do ponto de vista da fonética histórica, autumare
não encontra qualquer suporte razoável, pois não há como explicar uma eventual aférese
para uma provável forma em tumare.
Além destas implicações, em textos do latim da Alta Idade Média, onde se
verificou, em tradução, o uso de tomar e de algumas de suas variantes, não se fazia
menção ao uso do verbo autumare ou variantes dele, antes, utilizaram-se outras palavras
com sentidos parecidos.
Um rápido olhar ao passado da língua nos possibilita, por exemplo, observar
obras escritas no período medieval e identificar a produtividade do verbo tomar,
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conforme exemplos apontados por Norberg (2007: 47, 28, 88), respectivamente, dos
quais nos servimos a seguir:
No trecho do texto “Um hino composto por Paulo Álvaro de Córdova (século
IX)”: Mox tonans verba feriendo conquerit , traduzido para Tomando logo a palavra,
abriu-se o interrogatório, temos que a palavra mox carrega um valor gramatical
temporal e equivale a “logo depois”, “logo após”, “imediatamente”, o que nos leva a
expressar que o verbo tomar, nesse contexto, apresenta um valor meramente reforçativo.
Em outro texto, “Uma carta rimada de Frodeberto (século VII)”, lemos Satis te
praesumo salutare, que pode ser traduzido em: Eu ouso tomar a liberdade de te saudar.
Neste caso, a escolha lexical de praesumo parece mais adequada no contexto de
“presumir”, “tomar antes” e, portanto, o uso de tomar é feito por analogia semântica.
No texto “A seqüência de Natal, radiante de alegria (século XI)”, encontra-se o
enunciado Corporari passum est, carne sumpta, cuja tradução Dignou-se tomar um
corpo de carne, remete-nos ao uso de uma analogia semântica: sumpta teria o sentido de
“assumir forma de” ou como na tradução “tomar forma de“, em que há elipse do termo
“forma”.
Decorre do que exemplificamos anteriormente que, se, em diferentes contextos
de uso, não se privilegiou a palavra autumare em textos escritos entre os séculos VII e
XI, não há, portanto, possibilidade de este termo ser a origem do atual verbo tomar em
português.
Para outros autores, uma segunda possibilidade seria uma origem germânica,
advinda por meio da importação de um léxico saxão. Segundo o dicionário Michaelis
(2000: 2078), a palavra tomar viria do saxão “tomian”. O saxão é uma língua da grande
família do indo-europeu, ramo do proto-germânico, ligada ao germânico ocidental e
filiada à corrente do baixo alemão. Esta língua foi falada nas regiões sul e sudeste da
Britânia, pelo menos até o século X, após a chegada dos povos bárbaros que habitavam
o noroeste do território que, atualmente, corresponde à Alemanha. A partir do ano de
449, a convite dos próprios bretões, para combaterem outros povos bárbaros: os pictos e
os escotos, que habitavam o norte da Britânia, território hoje correspondente à Escócia.
Há aspectos muito positivos, quando se adota a perspectiva etimológica
germânica para a palavra tomar. Podemos citar, também, a segurança de um período
histórico relativamente longo, para que o termo pudesse concentrar diferentes sentidos,
tanto em línguas de origem germânica (o inglês), quanto em línguas românicas
(português e espanhol). A exemplo de tomar em português, o seu equivalente em inglês
to take também é extremamente produtivo na concentração de múltiplos e variados
sentidos.
O problema parcial da aceitação desta origem germânica é o improvável ponto
de contato dessa língua com o português ou espanhol antigos, já que tomar também
aparece em espanhol com os mesmos sentidos do português, embora com uma
produtividade semântica menor. Caso houvesse algum contato militar ou comercial
direto entre reinos saxões ou francos com os espanhóis, a origem se justificaria
perfeitamente. Como não se puderam verificar contatos diretos destas ordens, alguns
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autores concluem que o mais provável é que tomar tenha vindo ao português ou ao
espanhol, por meio de outra língua, que tenha mantido contato mais intenso com os
povos germânicos, como o francês, por exemplo. Partindo-se desse pressuposto, fica
difícil aceitar uma importação direta de sentido. Faz-se necessário, portanto, verificar a
possibilidade de entrada indireta de tomar nas línguas ibéricas.
Fixando-se no aspecto linguístico, a teoria dos campos semânticos de Trier é
muito proveitosa, embora possamos afirmar que nem toda palavra esteja coberta por
campos semânticos. Pelo que parece, o sentido primeiro de tomar é o de posse, invasão,
usurpação.
Ora, as palavras de origem germânica que permaneceram em nossa língua se
originam, sobretudo, de palavras ligadas a contextos de guerra e invasão, tais como as
citadas por Viaro (2004: 263, 269, 267), respectivamente:
Bando < (pelo gótico) bandwoo; guerra < werra (língua germânica
indeterminada) – francês guerre, inglês war; guarda < (pelo gótico) wardja - latim
medieval guardare; ganhar < (pelo franco) waidanjan - latim medieval guadianiare; e
roubar < (pelo gótico) raupjan - anglo-saxão riepan (saquear) e alemão rauben.
Uma rápida recapitulação histórica será essencial para uma melhor compreensão
desta tese.
As primeiras invasões viquingues (povos germânicos da Península Escandinava)
nas costas ocidentais francesas ocorreram no final do século VIII, mais precisamente em
799, e não pararam até seu estabelecimento definitivo como população sedentária em
911, na região conhecida, atualmente, como Normandia.
Decorreram quatro séculos e meio da primeira investida deste povo germânico
até o uso comprovado do verbo tomar numa acepção tão diversa como a que
encontramos no exemplo de José Pedro Machado (1990: 313): “Tota mulier de fresco
que acharem cum marido alieno queimena por aleiuosa e tomem todo suo auer o
concelo...” Com isso, podemos verificar que houve tempo suficiente para a ampla
expansão semântica que ocorreu com essa palavra.
Já que não podemos afirmar, com segurança, que esta tenha sido a origem
etimológica de nosso verbo tomar, há como comprovar historicamente a passagem de
outro léxico por esta mesma via germânica ao português com uma consequente
acomodação fonética, que viria a consolidar o verbo tomar.
Essa tese, que vem a ser a terceira e mais plausível a respeito da origem do verbo
tomar, foi proposta pelo filólogo Silveira Bueno (1967), retomando uma hipótese do
lingüista Schuchardt (2007). O verbo tomar teria sua origem em outro verbo, o
“tombar”, vindo por importação indireta do verbo medieval francês tomber.
Ao se adotar “tombar” como ponto de partida, poderíamos juntar as duas
hipóteses etimológicas e, assim, admitir uma origem germânica do verbo com a
conseqüente adaptação à fonética das línguas românicas.
Em termos etimológicos, justificar-se-ia a origem de tomar, partindo-se do
léxico tomian, pois há um correspondente noutra língua germânica. No francês, há o
verbo tumer, variante do verbo tûmon que, por sua vez, vem do alto alemão tûmôn. Esse
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verbo francês deixou de ser usado no século XVII, conforme Dauzat (1938).
Posteriormente, o verbo tomber passou a ser utilizado com o sentido unicamente de
“tombar, cair, derrubar”, já que o sentido de “ocupar” ficou contido no verbo occuper.
Foi, talvez, o fato de se deixar de utilizar o verbo tumer, que explicaria a causa de o
francês moderno não utilizar uma palavra derivada deste verbo para o sentido de
“ocupar” ou “invadir”.
O sentido primeiro de tomar, segundo Silveira Bueno (1967), retomando a ideia
de Bloch et von Wartburg, viria da linguagem dos lutadores que, para derrubarem ao
chão seus adversários, precisavam primeiro agarrá-los ou segurá-los. Do ponto de vista
etimológico, há uma hipótese de que o verbo tomar exprima ideia de beligerância que,
por vir do francês, uma língua que apresenta vasta quantidade de palavras de origem
germânica (franco, principalmente), seria coerente já com o primeiro aspecto semântico
de tomar.
Se pensarmos que os primeiros contextos de uso do verbo tomar deram-se em
ocasiões de invasão, e que “tombar uma cidade” ou “derrubar uma cidade” poderia por
simples apócope da letra “b” transformar-se em “tomar uma cidade”, teríamos a união
perfeita do aspecto semântico com o etimológico. Outro respaldo linguístico é que o
mesmo processo ocorre no italiano, segundo Batisti e Alessio, citados por Silveira
Bueno.
Do ponto de vista histórico, a passagem de palavras de origem germânica
coincidiria justamente com o período da Reconquista Cristã dos territórios ibéricos
dominados pelos califas islâmicos. Pelágio, rei asturiano cristão, estabeleceu seu reino
em Cangas de Onís e, posteriormente, em Pravia, após uma batalha em 718 ou 722.
Carlos Magno expandiu os territórios franceses até anexar algumas terras do nordeste da
Espanha, conhecidas como a Marca Hispânica. Dado que Carlos Magno reinou de 742 a
814 temos aí a prova inequívoca de que muitas palavras de origem germânica entraram
no espanhol pelo idioma francês.
Segundo Silvio Elia (1974), do ponto de vista fonético, temos a acomodação do
verbo francês tomber ao provençal tombar e daí ao catalão tombar e a outras línguas
românicas próximas (aragonês, castelhano e leonês oriental no norte e centro da
Espanha e gascão no sudoeste francês) pela transformação do grupo consonantal mb >
mm > m. Esse fenômeno fonético é característico justamente nas regiões onde houve
uma grande incorporação de palavras francesas, principalmente vindas da região da
Provença, ao espanhol, seguindo a rota do movimento da Reconquista Cristã. Essa rota,
como se sabe, partiu dos movimentos cristãos de resistência no norte da Península
Ibérica, encorpado pela ajuda de tropas francesas que, àquela ocasião, eram fortemente
influenciadas pelo poder central dos imperadores carolíngios.
Das montanhosas regiões das Astúrias, em conjunto com tropas da Marca
Hispânica, os exércitos cristãos vão lentamente retomando o controle das regiões mais
ao sul da Península Ibérica e, assim, temos a formação dos reinos de Leão, Aragão,
Navarra e Castela e dos condados da Catalunha, Galícia e o Portucalense. Do galego-
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português, tem-se a passagem ao português do verbo tomar, já em sua forma definitiva,


assim como o castelhano tomar.
Estabelece-se, deste modo, a origem do verbo tomar, mas resta acrescentar,
ainda, que o cenário onde ocorreram essas incorporações léxicas é o militar, o que faz
confirmar, definitivamente, por meio de um contexto específico, a origem de tomar.
Trabalharemos, portanto, com essa tese.

2. O aspecto histórico-semântico

2. 1. Primeiros contextos de uso do léxico

A vantagem de se conhecer o étimo de uma determinada palavra é poder traçar,


a partir de seu sentido primeiro, um percurso histórico e semântico-lingüístico, para que
se chegue, na atualidade, com relativa segurança, aos diferentes contextos de uso de
determinadas palavras.
O caso do verbo tomar é emblemático. Podemos afirmar que, seu uso em
contextos tão variados o coloca num patamar diferenciado na realidade linguística da
língua portuguesa. Said Ali (2006), no Boletim de Filologia, já verificava que muitas
palavras apresentavam uma produtividade semântica antiga, sendo que, em alguns
casos, ele chega mesmo a comparar estruturas de enunciados de textos medievais com
contextos de uso mais recentes da época em que ele escreveu, para esclarecer a
ampliação semântica que estas palavras adquiriram, tais como os verbos “cometer”,
“começar”, “continuar”, “acabar” e “correr”.
A aparição do verbo tomar em contextos diversos e com diferentes sentidos se
dá, comprovadamente, em documentos veiculados, a partir do século XII. Logo, a
defesa de que esta palavra tenha vindo de outra língua, como empréstimo lingüístico,
recebe maior suporte de probabilidade, em detrimento à sua origem latina, onde não se
verifica o mesmo procedimento. O uso primeiro deste verbo, portanto, deve ter sido
realizado num contexto, onde ele aparecia com um grau de concretude muito alto e foi
assimilando, aos poucos, capacidades mais abstratas até incluir-se em contextos menos
específicos, passo primordial para sua versatilidade semântica.
Antes de analisarmos os critérios semânticos que compõem a mudança nos
sentidos do verbo tomar, faz-se necessário ressaltar o aspecto das leis que regem essa
mudança. O termo “lei”, segundo Bréal (1992: 23), refere-se a uma acepção filosófica,
no sentido da relação constante que se deixa descobrir em uma série de fenômenos.
Portanto entende-se por “lei” muito mais uma tendência linguística do que propriamente
um conjunto de regras fixas a serem seguidas.
O caso do verbo tomar atende à chamada Lei de Repartição. Bréal (op. cit.: 34)
afirma:
Em matéria de linguagem, a significação é a grande
reguladora da memória. Para tomar lugar em nosso
espírito, as palavras novas têm necessidade de serem
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associadas a alguma palavra de sentido próximo. O povo


possui, portanto, seus sinônimos, que ele dispõe e
subordina segundo suas ideias. À medida que ele aprende
palavras novas, ele as insere entre as palavras que já
conhece. Não é nada surpreendente que essas palavras
sofram um deslocamento, um recuo. Quanto mais houver
populações que se misturem, mais se constatará novos
exemplos de repartição. Para reter-lhes os efeitos, seria
preciso colocar fronteiras, muros na língua.

Como se pôde observar, segundo a Lei da Repartição de Bréal, as palavras


“tombar” e “tomar”, que teriam vários motivos para serem compreendidas como
sinônimas, especializaram num primeiro momento seus sentidos e. posteriormente,
tornaram-se palavras com sentidos diferentes.

2. 2. Processos semânticos de mudanças dos sentidos do verbo tomar

De acordo com o dicionário Michaellis (2000) e do Dicionário Etimológico


Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha (1989), o radical tumb- vem de uma raiz
indo-européia, o que reforçaria a ideia de valor onomatopaico associado à criação do
verbo “tombar”. Entretanto, a palavra “tombar” ainda é altamente motivada, segundo os
critérios de Ullmann (1973). Na passagem de “tombar” a tomar, há um duplo processo
de perda de motivação. Primeiramente, há uma perda de motivação que ocorre por uma
perda de ordem fonética, com a síncope da consoante “b”. Depois, em decorrência da
perda de motivação fonética, há a perda de motivação semântica, decisiva para a fixação
de outro sentido para tomar.
Nos primeiros usos de tomar, em contextos militares, ficava explícita a
necessidade de se tombar, fazer cair ao chão as defesas da cidade, castelo ou feudo a ser
conquistado para, posteriormente, ocupá-lo, já que nas batalhas da antiguidade era
fundamental vencer a resistência dessas construções, que se circundavam com grandes
muralhas. Daí a necessidade de uso de um verbo de valor concreto.
Da passagem do verbo “tombar” ao tomar, há um primeiro processo de
contiguidade de sentidos. Como apenas um dos sentidos de tombar - o de invadir,
ocupar - estendeu-se para tomar, percebe-se que, nesta passagem semântica, houve um
caso de metaforização, entendida como um processo, que resultou da ideia de que
primeiro se derruba uma defesa, (tomba-se) para que, em seguida, ela seja conquistada
(tome-a, portanto).
Podemos entender melhor o processo que culminou na produtividade semântica
do verbo tomar em português, se fizermos uma analogia com o verbo francês arriver,
também bastante produtivo e com a vantagem de também ter origem no mesmo estrato
social, o militar, do verbo “tombar”. Segundo Guiraud (1972: 76):
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Em francês, arriver era originariamente um termo


náutico, significando ”atingir a margem”, rive. Em
seguida, tal palavra se generaliza com um valor
estilístico, e esse valor, apagando-se, dá o sentido de se
atingir um ponto qualquer, e não mais apenas a margem.
Vemos que a generalização, que é um alargamento da
esfera social da palavra, corresponde, muitas vezes, a
uma extensão do sentido, uma ampliação de sua área
referencial, assim como a especialização acarreta a sua
restrição.

Verificamos que, após esse “empréstimo social” do verbo “tombar”, do estrato


social militar, é que o verbo concretiza seu sentido primeiro e passa a expandir seu uso
em situações contextuais mais genéricas, portanto, menos específicas. Num primeiro
momento, o valor semântico do verbo passa a restringir a noção de queda, de derrubada
ao chão e passa a enfatizar, por um processo de similaridade de sentidos, mais
especificamente o sentido de ocupação, de invasão, que tem um valor mais concreto. A
partir desse sentido fixado, vários outros correlatos lhe surgem. De início, os mais
concretos, tais como “pegar”, “agarrar”, “usurpar”, “retirar”, formando um primeiro
campo semântico definido; posteriormente, outros sentidos, mais abstratos, vão sendo
incorporados.
Aplicando-se o esquema de deslizamento do sentido, de Guiraud (1972), temos o
seguinte quadro para o verbo tomar:

Tipo de Léxico Léxico


associação “tombar” “tomar”
DESLIZAMENTO DO SENTIDO

A derrubada,
Associação a um
queda de uma
processo
Comparação defesa inimiga,
específico, indicado
seguida de sua
por um verbo.
invasão.

O duplo processo
de “derrubada”
...conquista efetiva,
Metáfora seguida de
posse.
“invasão” que se
transforma em...
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... e por uma


Esse duplo questão de
processo que já necessidade
Valor se encontra conceitual, ao se
estilístico cristalizado sob a aplicar um conceito
forma de uma fonético básico
palavra... (síncope), cria-se
um léxico novo.

O léxico “tomar” já
está pleno deste
Semantização sentido
(“conquistar”,
“apossar-se”).
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Vale ressaltar que, por meio de diferentes processos, entre eles o de


“contaminação semântica”, mais especificamente, e o de “contágio semântico”, a
passagem de “tombar” a tomar deu-se sem maiores dificuldades semânticas,
contemplando, segundo Ullmann (1973), um critério de similaridade dos nomes. A
partir desse primeiro campo semântico, bastante concreto, pode-se operar à vontade
para a criação de novos valores estilísticos para o verbo tomar e, já que a idéia do
sentido do verbo é bastante genérica, está aberto o processo de possibilidades de
extensão semântica para ele, o que vemos ocorrer não só em português, como também
em inglês e, em menor grau, no espanhol.
Outro fato merecedor de atenção é que, a fim de se evitar o risco de um conflito
homonímico, a língua resolveu a questão do verbo “tombar” com seus novos sentidos,
utilizando-se de um artifício fonético: a letra b sofre uma síncope devido à sua
proximidade articulatória com a vogal nasalada o.

2.3. Exemplos de usos contextualizados do verbo tomar

Amini Boainain Hauy (1988: 85, 105) apresenta os seguintes exemplos:


Exemplo 1: ...a el rey que tomasse Nunallvarez por seu morador. (século XV)
Nesse exemplo, há sinonímia de tomar com “conceder moradia”, o que já revela uma
aplicação diferenciada dessa palavra, num contexto de uso que não é militar.
Exemplo 2: E estava alli aprendendo (a) tomar algum conforto no meu mal.
(1530).
Nesse exemplo, há sinonímia do verbo tomar com “confortar-me” (valor locucional).
Devido ao constante obscurecimento da motivação, o verbo tomar passa a um
segundo estágio de mudança semântica. O processo de extensão do sentido, decorrente
deste constante obscurecimento da motivação, enfraquece a idéia associada a esse
primeiro sentido; no entanto, torna a palavra suscetível de agregar outros sentidos,
muito diversos em relação ao primeiro.
Mattos e Silva (2006: 173, 174, 184), apresenta exemplos de uso de tomar,
retirados de um conhecido texto medieval do século XIV, “Os Diálogos de São
Gregório”.
Exemplo 1: Non queiras tomar trabalho em ir a Roma hu e lhe, ca muito
cansarias a gram nojo receberias ende.
Nesse exemplo, há sinonímia do verbo tomar com o verbo “ter”, num processo já usual
no século XIV, como verbo principal da locução verbal “queiras tomar”, outro uso
muito diverso do verbo num período bastante afastado da língua.
Exemplo 2: E pois que ardera já hữa peça da cidade tomarom...
Nesse exemplo, temos um uso do verbo tomar como sinônimo de “capturar”,
“arrebatar”, revelando-nos que, no mesmo texto, convivem sentidos já amplamente
utilizados, como este, que é dos primeiros usos específicos de tomar.
Exemplo 3: Fery o meu servo por que ele aja medo e tome exemplo.
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Nesse exemplo, percebemos o uso de tomar em outro contexto bastante diferenciado,


pois aqui, o verbo tomar tem sinonímia aproximada com o verbo “perceber”,
principalmente, se observarmos a elipse da conjunção “como” antes do substantivo
“exemplo”.
Como podemos verificar pelos exemplos transcritos, anteriormente, esse
processo de cumulação de diferentes sentidos é o que explica a produtividade semântica
do verbo tomar, transformando-o numa autêntica “palavra omnibus”, segundo Ullmann
(op. cit.: 480).

2. 4. Teorias de aplicação da Semântica Estrutural

A dificuldade de se estudar sistematicamente a mudança semântica de uma


determinada palavra é a falta de um método científico aplicável à complexidade dos
fenômenos relacionados a essa transformação. O que há de mais sólido em termos de
metodologia estrutural, e onde se verifica a possibilidade de utilização empírica no caso
do verbo em questão, é a teoria dos campos linguísticos, de Trier, linguista alemão que a
formulou em 1931, em Heidelberg.
Segundo Ullmann (op. cit.: 510):

Trier elaborou a sua concepção dos campos como setores


estreitamente entrelaçados do vocabulário, no qual uma
esfera particular está dividida, classificada e organizada
de tal modo que cada elemento contribui para delimitar os
seus vizinhos e é por eles delimitado.

A partir da divulgação das teorias de Trier e Guiraud, o sentido não é mais visto
como um fenômeno circunscrito ao léxico, mas depende do campo semântico como um
todo, da rede de palavras que têm sentidos próximos. Às vezes, há diferenças muito
sutis de matizes semânticas, que fazem com que sentidos muito específicos mantenham-
se sempre em determinadas palavras e, quando há necessidade, parte deste sentido ou
sua totalidade, modificada pela ação inquietante da metáfora, passa a outra palavra, mas
sempre mantendo algum tipo de vínculo com o sentido primeiro daquela palavra
genérica.
Além deste procedimento metodológico, podemos citar outro: a vantagem de se
fazer um recorte histórico preciso e poder proceder a uma análise histórico-semântica
sincrônica, especificamente delimitada por um período a ser estipulado e, desse modo,
contribuir para análises futuras que porventura necessitem dos dados históricos, sociais
e estilísticos desse recorte histórico específico.
Percebemos, portanto, uma possibilidade de diálogo interdisciplinar, juntando-se
uma teoria semântica, como é a teoria dos campos semânticos, a uma disciplina
interdisciplinar como a Historiografia Linguística, por exemplo. Outra razão de ordem
prática para a utilização em contextos tão variados de uma mesma palavra é de ordem
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fonética. A eufonia de tomar favorece deveras a sua utilização. Não por coincidência,
outra palavra que apresenta considerável ampliação semântica é o verbo “pegar”,
também dissílabo e de fácil elocução.
A palavra tomar tem quase cinquenta acepções de uso listadas, dependendo do
dicionário consultado. No dicionário eletrônico de Língua Portuguesa, de Houaiss
(2001), versão 1.0, há quarenta e oito acepções e no Dicionário Michaelis (2000), há
quarenta e um sentidos de uso. Utilizando a tese de Guiraud (1972), classificamos os
diversos sentidos de tomar em alguns campos semânticos de valor aproximado:
Assim, tomar no sentido de
a) ser tangível, palpável: corresponde aos sinônimos de 1 a 9 (pegar, agarrar,
sustentar, conquistar, arrebatar, capturar, apanhar, utilizar, retirar);
b) ingerir: corresponde aos sinônimos 10 e 11 (beber, comer e aspirar);
c) ser invadido: corresponde aos sinônimos de 13, 15 e 16 (acometer, sentir,
deixar-se);
d) movimentação: corresponde aos sinônimos de 22, 23, 25 e 26 (alcançar,
ocupar, seguir, dirigir-se);
e) percepção: corresponde aos sinônimos de 37, 38 e 39 (interpretar,
considerar, conhecer).

A seguir, listamos as acepções de uso do verbo tomar conforme o Dicionário


MICHAELIS 2000, (pp. 2078-9):

Campo semântico 1: (sentido de tangibilidade, palpabeabilidade)

1 Pegar em: tomar armas em defesa da pátria. "Da essa tomam, levam nos braços o
ataúde" (Almeida Garrett). vtd 2 Agarrar, segurar: Tomou-lhe o braço com força.
Tomou dos braços da ama o filho. Tomou nas mãos a arma da vingança. Toma-o para
ti. Tomando-o pela mão, atravessou a rua. vtd 3 Agüentar, suspender, sustentar: Tomou
nos braços o ferido. vtd 4 Apreender, conquistar: Tomar uma cidade, uma fortaleza, um
navio. vtd 5 Arrebatar, furtar, tirar: Tomar o alheio. vtd 6 Apoderar-se de; apreender,
capturar: Tomaram-lhe a muamba. vtd 7 Apanhar, colher, puxar para si: Tomar as
rédeas. vtd 8 Lançar mão de, servir-se de; utilizar: "Tomou a prata das igrejas para
sustento dos soldados" (Pe. Antônio Vieira). vtd 9 Retirar, tirar: Tomar um livro da
estante. vtd

Campo semântico 2 (sentido de ingestão)


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10 Beber, comer: "Por almoço, tomava em geral dois ovos quentes, um cálice de vinho"
(Aluísio Azevedo). "...o velho tomava o primeiro chimarrão do dia" (Érico Veríssimo).
vtd 11 Aspirar, sorver: Tomar ar, tomar rapé. vtd

Campo semântico 3 (sentido de invasão, penetrabilidade)

13 Acometer, assaltar, invadir: Tomou-os o medo. vtd 15 Ser invadido por; sentir: A
criança tomou grande medo do padrasto, mas não lhe tomou ódio. Tomar-se de dúvida,
de receio, de terror. vpr 16 Deixar-se dominar ou persuadir: Não me tomei de seu
conselho. vtd.

Campo semântico 4 (sentido de movimentação)

22 Alcançar, atingir, ocupar: Tomando o pico do morro, sentamo-nos para descansar.


vtd 23 Embargar, encher, ocupar: O povo tomou inteiramente a praça. vtd 25 Seguir:
Tomar uma direção, tomar um rumo. vti 26 Dirigir-se, encaminhar-se: Tomou para o
santuário, a pé. Daí tomou por um atalho. vtd

Campo semântico 5 (sentido de percepção)

37 Interpretar: Tomou as palavras em sentido figurado. "Toma o rumor dos próprios


passos por estropiada de inimigos" (Coelho Neto). vtd 38 Considerar: Tomou como
injúria aquela alusão. vtd 39 Ter conhecimentos em alguma arte ou ciência: Toma tanto
de ciências quanto de letras. vtd

Outras acepções de uso passíveis de classificação em outros campos semânticos

12 Exigir, obter, pedir: Tomar satisfações. Tomar satisfações de alguém. vtd


14 Escolher, preferir: Tomai outro ajudante. Tomou para medianeira a Santíssima
Virgem. Tomo-vos por testemunha. vtd e vpr 17 Acolher, recolher: A boa senhora tomou
a si alguns órfãos. Tomar um enjeitado para criar. vtd 18 Surpreender: A polícia
tomou-o com o furto nas mãos. vtd 19 Fazer uso de: Tomar banhos de luz. vtd e vpr 20
Embeber(se), impregnar(-se) de: Esta parede toma muita umidade. A roupa suada
toma-se de mau cheiro. vtd 21 Encarregar-se de: Tomou o governo da casa. Tomava a si
a desforra. vtd 24 Estorvar: Os curiosos tomavam a passagem nas ruas. Vtd 27 Aceitar,
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receber: Tomar a coroa, tomar o hábito. O novo presidente tomou a faixa simbólica das
mãos de seu antecessor. vtd 28 Alugar: Tomar um apartamento. vtd 29 Contratar
(serviços): Tomar uma secretária, tomar um criado. vtd 30 Consumir: Os divertimentos
tomam muito tempo. Não lhe quero tomar o tempo. vtd 31 Adquirir, atingir, contrair: O
incêndio tomou enormes proporções. vtd 32 Empregar, exercer, usar: Tomar intimidade
com alguém. vtd 33 Adotar: Tomar uma atitude, tomar um título. vtd 34 Imitar, seguir:
Os filhos nem sempre tomam o exemplo dos pais. vtd 35 Apresentar em si, dar mostras
de; assumir: Tomou um ar de constrangimento. "...e o rio tomou aspecto uniforme"
(Visc. de Taunay). vtd 36 Ajuntar, recolher, reunir: Tomar os votos. vtd 40 Calcular,
medir: Tomar as dimensões de um objeto. vtd 41 Fazer emitir em favor próprio (uma
letra de câmbio, uma promissória etc.). Tomar à boa parte: interpretar em sentido
favorável. Tomar a estrada a: antecipar-se ao que alguém ia dizer ou fazer. Tomar a
garça no ar: praticar um ato de destreza ou de galhardia. Tomar água benta: persignar-
se ou benzer-se com os dedos molhados em água benta. Tomar alento: animar-se,
resolver-se, tomar ânimo. Tomar a liberdade de: fazer sem pedir autorização ou licença.
Tomar a mão: a) ser o primeiro a falar; b) ser o primeiro a fazer alguma coisa; c)
adiantar-se, tomar a iniciativa. Tomar a mão a quem lhe dá o pé: tomar mais confiança
do que aquela que lhe dão. Tomar à má parte: tomar a mal; interpretar em sentido
desfavorável. Tomar ânimo: o mesmo que tomar alento. Tomar a nuvem por Juno:
iludir-se com aparências. Tomar a ousadia de: o mesmo que tomar a liberdade de.
Tomar a palavra: começar a falar, tomar a voz. Tomar a palavra a: interromper o
discurso de. Tomar à parte: chamar para lugar afastado a fim de falar
confidencialmente. Tomar a peito: dedicar-se seriamente a, empenhar-se por. Tomar a
peso em: levantar no ar. Tomar ar: respirar o ar livre. Tomar à refrescata: refrescar-se,
tomar o fresco. Tomar armas: armar-se, preparar-se para a guerra, para o combate.
Tomar as alturas: a) orientar-se; b) avaliar, medir. Tomar às de Vila-Diogo: fugir.
Tomar as dores por: considerar pessoal a ofensa feita a (alguém). Tomar a sério: a) dar
importância a; b) melindrar-se por alguma coisa que lhe não agrada. Tomar as mãos:
apanhar, apoderar-se de, apreender. Tomar as palavras pela toada: interpretá-las à letra
sem atender ao sentido delas. Tomar as portas: a) assenhorear-se delas, guardando-as
para não deixar entrar nem sair ninguém; b) atalhar todos os pontos por onde a caça
possa evadir-se ou salvar-se. Tomar assento em: colocar-se ou estabelecer-se em.
Tomar as suas medidas: precaver-se. Tomar as vezes de: desempenhar as funções de
(alguém), na sua ausência ou impedimento; fazer-lhe as vezes. Tomar a tonsura:
abraçar o estado clerical. Tomar a vez de: desempenhar as funções na ausência ou
impedimento de. Tomar a voz: o mesmo que tomar a palavra. Tomar a voz por:
declarar-se a favor de, partidário de. Tomar banhos: banhar-se. Tomar caminho:
começar a proceder bem; dar mostras de ter juízo. Tomar chá de cadeira: ir ao baile e
não ser convidada para dançar (falando-se de moça). Tomar chegada: aproximar-se
cautelosa e dissimuladamente. Tomar conta de: a) guardar para si, incumbir-se de, ter
sob a sua vigilância e responsabilidade; b) invadir, ocupar. Tomar de cor: decorar.
Tomar de parte: o mesmo que tomar à parte. Tomar de ponta: começar a ter zanga a;
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embirrar com (alguém). Tomar em consideração ou em conta: atender a, ter em atenção.


Tomar ensino: aprender, corrigir-se. Tomar entre dentes: tomar ódio a. Tomar
esperança: confiar, esperar. Tomar estado: a) casar-se; pôr casa; b) abraçar uma
carreira. Tomar experiência: adquirir prática da vida, adquirir conhecimento
experimental, pela observação dos fatos e acontecimentos da vida. Tomar firme um
empréstimo: a) responsabilizar-se pela colocação de um empréstimo no mercado, a uma
determinada cotação; b) subscrever com ações não sujeitas a rateio. Tomar fogo:
incendiar-se, inflamar-se; animar-se, entusiasmar-se; falar calorosamente. Tomar
fôlego: a) aspirar o ar; b) cobrar ânimo, refazer-se das forças. Tomar gargarejos, pop:
namorar, conversando da rua para uma janela. Tomar gosto a: comprazer-se ou deleitar-
se com. Tomar língua: procurar alguém que lhe sirva de língua ou intérprete. Tomar
língua de: averiguar, informar-se por meio de intérprete. Tomar lugar em: colocar-se ou
estabelecer-se em. Tomar luto: vestir-se de luto. Tomar medida: medir, verificar a
extensão ou outra dimensão ou o valor de (alguma coisa). Tomar medidas: usar dos
meios necessários para corrigir um abuso. Tomar muita tinta: fazer-se demasiadamente
familiar, tomar muita confiança. Tomar nome: denominar-se. Tomar o alto: fazer-se ao
mar. Tomar o atrevimento de: o mesmo que tomar a liberdade de. Tomar o freio nos
dentes: não obedecer (o cavalo) ao governo, por não sentir o freio comprimir-lhe a
língua. Tomar o fresco: expor-se ao ar livre para refrescar. Tomar o gosto: provar,
saborear. Tomar o hábito: ingressar em ordem ou congregação religiosa. Tomar o
largo: afastar-se de terra (o navio). Tomar o mu: amuar, desconfiar. Tomar o
nascimento a, ant: tirar o horóscopo de. Tomar o partido de: defender, mostrar-se a
favor de, proteger. Tomar o passaporte para o outro mundo: morrer. Tomar o passo a:
adiantar-se, passar adiante de, preceder em qualquer ato. Tomar o peso a ou de: a)
avaliar experimentalmente o peso de, pesar, sopesar; b) apreciar. Tomar o ponto:
verificar os que estão presentes e os que faltam. Tomar o porco: embebedar-se. Tomar o
pulso, Med: aplicar o dedo no pulso a fim de, pela contagem e exame das pulsações,
saber se há febre. Tomar o pulso de: experimentar, investigar, sondar as disposições ou
o estado de (alguém ou de alguma coisa); sondar o ânimo ou os sentimentos de. Tomar
ordens: receber uma ou algumas das ordens maiores ou menores. Tomar o recado na
escada: a) dar a resposta antes de ouvir a pergunta completa; b) falar antes de ouvir o
que alguém lhe quer dizer. Tomar o sol: a) aquecer-se ao sol; b) calcular a altura do sol
ou a latitude de um lugar. Tomar o tempo a: distrair, entreter, importunar alguém com
assuntos alheios ao mister que está desempenhando. Tomar o tole: tomar às de Vila-
Diogo; despedir-se, safar-se. Tomar o véu: fazer-se religiosa, tornar-se freira. Tomar o
vôo: começar a voar. Tomar panca: resolver-se à prática de desordens. Tomar para si:
destinar ou reservar para si ou para seu uso, aplicar-se a si. Tomar parte em: envolver-se
em, compartilhar. Tomar pé: a) tocar com os pés o fundo da água; b) enraizar-se, fixar-
se; estabelecer-se solidamente. Tomar por entremez: fazer alvo de zombarias, meter a
ridículo. Tomar por ponto: considerar como pundonor, fazer timbre. Tomar por
testemunha de: invocar o testemunho de. Tomar posse de: diz-se do ato pelo qual
alguém é investido ou investe outrem no direito de fruir dos bens móveis ou imóveis ou
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nas funções de uma dignidade, de um cargo etc. Tomar posto em: colocar-se ou
estabelecer-se em. Tomar praça de: ocupar o lugar de, substituir. Tomar raízes:
arraigar-se. Tomar repouso: descansar, repousar. Tomar resolução: animar-se, resolver-
se. Tomar rumo: a) começar a proceder melhor na vida; b) achar emprego ou ocupação.
Tomar satisfações a: exigir contas a (alguém) das injúrias ou do dano de que foi autor.
Tomar-se de mãos: brigar, lutar com alguém. Tomar sentido: prestar a devida atenção;
tomar tento. Tomar sobre si: tomar à sua conta ou sob a sua responsabilidade ou
vigilância. Tomar sob sua proteção: proteger. Tomar tento: o mesmo que tomar
sentido. Tomar terra: aportar, desembarcar. Tomar um oito, pop: ingerir muita bebida
alcoólica. Tomar um ponto: cerrar a malha com agulha e linha. Tomar ventos: diz-se do
cão quando, antes de abrir a carreira no rasto da caça, está de cabeça levantada e ventas
dilatadas para tomar o faro dela; farejar. Tomar vôo: levantar vôo. Tomar vulto:
aumentar, avolumar, crescer, fazer-se grande e avultado.
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Faz-se necessário que observemos que os cinco campos semânticos relacionados


anteriormente não esgotam a classificação de todos os sentidos possíveis do verbo
tomar. Entretanto, fica evidente nessa associação por campos semânticos que o verbo
tomar expandiu seu uso para ações bastante distintas, ao aceitar novos sentidos.
Aplicando a teoria dos campos semânticos, adaptada à realidade de um verbo, podemos
afirmar que o verbo tomar é parte de um seleto rol de palavras da língua portuguesa
que, historicamente, por motivos semânticos, pragmáticos, eufônicos, entre outros,
alçou-se à posição de palavras capazes de agregar vários campos semânticos distintos
sob sua esfera conceitual. Da parte dos substantivos, registramos a palavra “coisa”,
léxico extremamente produtivo, talvez a palavra mais genérica da língua portuguesa,
utilizada de maneira abusiva nas mais diferentes ocasiões e contextos.
Por tudo que dissemos anteriormente, o que torna o verbo tomar ainda mais
especial é o fato de que somado a sua incrível capacidade de expansão semântica,
possuir usos também de ordem gramatical. Em enunciados como Tome nota do que vou
dizer o verbo tomar é empregado como auxiliar, apresenta uma ampliação linguística
que contempla critérios de ordem semântica e também gramatical. Temos que
mencionar, ainda, uma consolidação semântica cristalizada em expressões como o
famoso toma lá, dá cá que aparece, segundo Silva (2004: 771) no romance “Memórias
de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antonio de Almeida, ou seja, desde 1854, data
de publicação do romance, pelo menos, já se utilizava essa expressão.
Resta-nos, ainda, focar os aspectos polissêmicos do verbo tomar, por isso,
trataremos de classificá-lo quanto a esse critério.
Ullmann (1973) cita cinco fontes específicas de geração de polissemia:
mudanças de aplicação, especialização num meio social, linguagem figurada,
homônimos reinterpretados e influência estrangeira.
Parece-nos mais adequado levar em consideração, para o caso do verbo tomar
somente a primeira fonte (mudanças de aplicação), pois nos casos da segunda
(especialização num meio social) e da terceira (linguagem figurada), há amplo
predomínio, senão exclusividade, de nomes, substantivos e adjetivos. No caso da quarta
fonte (homônimos reinterpretados), não se tem um caso de sinonímia, mas de
paronímia. Como já dissemos, o verbo tomar vem de “tombar” e guarda grande
semelhança, tanto gráfica quanto fonética, mas a causa de sua polissemia não é essa.
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Considerações Finais

Por fim, na quinta fonte - influência estrangeira -, não há aplicação do conceito,


pois o autor se refere a sentidos distintos, após a incorporação numa dada língua de um
novo léxico proveniente de outra língua. O verbo tomar e seus correspondentes em
outras línguas mantêm sua carga semântica muito parecida, senão praticamente iguais.
Como já observamos, do sentido primeiro de “agarrar” para, posteriormente, “levar ao
chão”, que revela uma concretude bastante forte, seguiu-se o sentido de “invadir para,
em seguida, conquistar ou arrasar”, sendo que este segundo sentido vem de um contexto
de uso militar. Fica, desta forma, nítida a mudança semântico-histórica do sentido do
verbo tomar. Esse verbo já apresentava ampliação de sentidos com uso específico no
século XII, mais especificamente em 1152, segundo José Pedro Machado (1990: 13),
em seu fragmento de texto jurídico. Esse exemplo revela que, em pleno século XII, já
encontrávamos uma ampliação de uso do verbo tomar, que contempla um tipo
específico de ação, utilizado num contexto muito diferente de seu uso primeiro, o
militar. A consolidação do sentido primeiro de tomar, a de “penetrar, invadir com a
conseqüente ocupação” é ainda percebida, ou seja, há, ainda, um resquício dessa
motivação primeira, de maneira muito ínfima, devido aos constantes apagamentos que
os processos semânticos infligem ao léxico. Tal evidência comprova e reforça a idéia
saussuriana de que há, de fato, uma espécie de “rede associativa” por onde é possível
prever, embora com pouca certeza, possíveis sentidos futuros a serem incorporados por
uma determinada palavra.
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