Cena Lusófona

n.º 11 Setembro 2010
ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telef. (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt

distribuição gratuita

como se diz perda?

Ruy Duarte de Carvalho
viagens meridionais

Miguel Seabra e Natália Luíza

como se o tempo flutuasse

Ivo M. Ferreira

Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES Cabo Verde

editorial
Nenhum epitáfio faria justiça ao Orlando Worm e ao Ruy Duarte de Carvalho. Por isso os lembramos neste número em vida plena, pela mão de duas pessoas que os conheceram bem e que, enquanto amigos, puderam beneficiar das suas imensas qualidades, pessoais e profissionais. Dizer que a Cena Lusófona (ou o teatro, ou a cultura de língua portuguesa) fica mais pobre será um lugar demasiado comum. Nos seus largos campos de actuação, e cada um à sua maneira, tanto o Orlando como o Ruy transcenderam sempre os projectos a que se associavam. Cidadãos do mundo, mudadores do mundo, é a este todo que já estão a fazer falta. Mas é também este mundo todo que continuará a recordá-los e a melhorar com o seu legado. Em 2005, com a Universidade de Coimbra, a Cena Lusófona homenageou Ruy Duarte de Carvalho. Estávamos longe de imaginar que nos deixaria tão cedo, mas pareceu-nos de óbvia justiça destacar a sua originalidade e a dimensão e a variedade da sua obra, quer quanto aos temas, quer quantos aos estilos e aos instrumentos que utilizou. Poesia, cinema, antropologia, pintura, ensaio, ficção – tudo isto imbricado num género difícil de definir, que marca a “inquieta singularidade experimental” da vida e da obra do Ruy Duarte, como na altura a qualificámos. Em nada essa homenagem nos alivia a consciência ou atenua a sensação de perda – havia ainda tanto para fazer! Mas consola-nos o facto de ter podido contribuir, em especial com o número da setepalcos que lhe é dedicado, para a difusão do seu trabalho. O Orlando era um de nós. Fundador da Cena Lusófona, acompanhou-nos na concepção e na concretização de vários projectos, com a raríssima combinação de artista, mestre e cavalheiro que o caracterizava e distinguia. Se ele morreu (como parece que sim, que a gente ainda não se habituou à ideia), morreu também uma parte do projecto, que não haverá como substituir. Ainda agora, quando pensamos nas acções que queremos desenvolver, é dele o telefone para o qual queremos ligar, é dele que precisamos nos tantos teatros que conhecemos juntos, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em São Tomé e Príncipe, é ele o formador ideal para continuar o trabalho iniciado com dezenas de jovens nestes países, que inevitavelmente se tornavam seus amigos. E perante tudo isto, encaixada a dor, não vemos alternativa que não seja prosseguir. Agora com a responsabilidade adicional de o fazermos também em homenagem ao trabalho e à memória dos que partiram. Falamos neste cenaberta desse caminho que temos pela frente: os documentários do Ivo M. Ferreira que editamos neste Outono, a conversa com Miguel Seabra e Natália Luíza sobre o tanto que partilhamos, a crescente importância que o Brasil vem atribuindo ao intercâmbio lusófono, demonstrado pelos festivais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Realizações, estímulos, parcerias, desafios – eis o que permanece, aquilo com que contamos e o que temos para ultrapassar. A um dos primeiros filmes que realizou, deu Ruy Duarte um sugestivo título: “Faz lá coragem, camarada”. Faremos sim, Orlando e Ruy.

Teatro do Imaginário Angolar
de FERNANDO DE MACEDO São Tomé e Príncipe

Supernova

de ABEL NEVES Portugal

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Moçambique

Teatro I e II

obra dramatúrgica de JOSÉ MENA ABRANTES (dois volumes) Angola

Mar me quer Teatro

de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA Portugal / Moçambique obra completa de NAUM ALVES DE SOUZA Brasil

Revista setepalcos

(esgotados números 0, 1 e 2) N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO N.º 6 – Setepalcos especial sobre TEATRO EM CABO VERDE

Floripes Negra

Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo de AUGUSTO BAPTISTA Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio

AVEIRO

Livraria da Universidade de Aveiro
Campus Universitário 3810-193 Aveiro (+351) 234 370 200 BRAGA

LISBOA

Livraria do Teatro Nacional D. Maria II
Praça D. Pedro V 1100-201 Lisboa (+351) 213 250 860

BRASILIA

Livraria Cultura

Livraria Barata

Theatro Circo

Avenida da Liberdade, 697 4710-251 Braga (+351) 253 203 800

Av. de Roma, 11 A 1000-047 Lisboa (+351) 218 428 350

Casapark Shopping Center SGCV Sul, Lote 22 4 – A Zona Industrial, Guará CEP 71215 100 Brasília, DF Tel.: (55) 61 3410 4033 PORTO ALEGRE

Livraria Ler Devagar

Livraria Cultura

100ª Página

AV. Central, 118-120 4710-229 Braga (+351) 253 267 647 COIMBRA

Rua Rodrigues Faria, 103, Edifício G03, LX Factory 1300-501 Lisboa (+351) 213 259 992

Livraria Escolar Editora
Edifício Caleidoscópio Jardim do Campo Grande 1700-089 Lisboa (+351) 217 575 055

Bourbon Shopping Country Avenida Túlio de Rose, 80, Loja 302 CEP 91340 110 Porto Alegre, RS Tel.: (+55) 51 3028 4033 RECIFE

Teatro Académico de Gil Vicente
Praça da República 3000-343 Coimbra (+351) 239 855 630 3000-097 Coimbra (+351) 239 718 238 ÉVORA

Livraria Cultura

Livraria Portugal

Teatro da Cerca de S. Bernardo

Rua do Carmo, 70-74 1200-094 Lisboa (+351)213 474 982 PORTO

Paço Alfândega Rua Madre de Deus, s/n CEP 50030 110 Recife, PE Tel.: (+55) 81 2102 4033 SÃO PAULO

Teatro Nacional São João
Praça Batalha 4000-102 Porto (+351)223 401 900

Livraria Cultura

Teatro Garcia de Resende

Praça Joaquim António de Aguiar 7000-510 Évora (+351) 266 703 112

Livraria Poetria

Conjunto Nacional Avenida Paulista, 2073 CEP 01311 940 São Paulo, SP Tel.: (+55) 11 3170 4033

Livraria Cultura

Livraria Nazareth & Filho
Praça do Giraldo, 64 7001-901 Évora (+351) 266 702 221 GUARDA

Rua das Oliveiras, 70 – r/c, loja 12 4050-448 Porto (+351) 222 023 071 VISEU

Shopping Villa Lobos Avenida das Nações Unidas, 4777 CEP 05477 000 São Paulo, SP Tel.: (+55) 11 3024 3599 ESPANHA VIGO

Teatro Viriato

Casa Véritas Editora, Lda
Rua Marquês de Pombal, 55 6300-728 Guarda (+351) 271 222 105

Largo Mouzinho de Albuquerque Apartado 1057 3511-901 Viseu (+351) 232 480 110 BRASIL BELO HORIZONTE

Libreria Andel

Rua Pintor Lugris, 10 36211 Vigo, Galiza (+34) 986 239 000

Livraria da Travessa

Rua Paraíba 1419 Savassi CEP 30130-141 Belo Horizonte, MG (+55) 31 3223 8092

edições.cena
A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:

cenaberta ficha técnica
Director António Augusto

Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Baptista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues, Sandra Nogueira | Colaboram neste número Fernando Madaíl, Nuno Porto | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | ISSN 1645-9873 | N.º 11 distribuição gratuita | Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA, PORTUGAL | Telef. (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt IMAGEM DA CAPA: aguarela de Ruy Duarte de Carvalho.

cenaberta 2

cenaberta

Setembro 2010

Circuito de Teatro Português de São Paulo

Criar lusofonia pela mão do teatro
cenaberta reportou a 5.ª edição do Circuito de Teatro Português de São Paulo, festival com palco na grande metrópole paulista entre 16 e 24 de Julho de 2010, e testemunhou como, na senda da cultura e do teatro, se implanta e cresce a lusofonia no Brasil.
A 5.ª edição do Circuito de Teatro Português de São Paulo abraçou 12 cidades do Estado paulista: Andradina, Barretos, Botucatu, Guararapes, LiAté ao fim do mundo” e “Auto da Índia”) e cerca de 700 espectadores. Um mini-festival dentro do Festival, simbolicamente chamado “Festival de Teatro Português”, com uma oficina de interpretação, dirigida por Rui Madeira, director da Companhia de Teatro de Braga. Os resultados superaram as melhores expectativas, na óptica de Almir Martins, director do Teatro Municipal, recentemente requalificado.
Augusto Baptista

Creusa Borges

meira, Mauá, Mogi Mirim, Paraibuna, Santo André, São Caetano do Sul, São Carlos e, enfim, a própria capital, São Paulo. Da imensa mancha geográfica em que se apresentou o festival e das muitas companhias aí presentes, cenaberta pôde testemunhar a receptividade ao teatro português nas cidades de São Paulo, Botucatu e São Carlos. Em Botucatu, Daniel dos Santos, membro da equipa da Prefeitura que acolheu “Auto da Índia”, agradecia “a prenda” do Circuito: “temos muito poucas oportunidades de receber grupos de Portugal”. As mais de 200 pessoas que, após o espectáculo, se mantiveram na sala numa animada conversa com os actores d'A Escola da Noite confirmariam esse interesse pelo teatro português. Osni Ribeiro, Secretário de Cultura, acrescentaria ainda a vontade de estreitar os laços culturais com Portugal, a propósito do “cururu”. Botucatu, cidade com cerca de 130 mil habitantes a 230 quilómetros de São Paulo, orgulha-se de ser um dos principais centros de recolha e difusão desta tradição poética e musical caipira, com evidentes parentescos, por exemplo, com a desgarrada minhota. Por São Carlos, cidade a pouco mais de 200 quilómetros de São Paulo, passaram três espectáculos do Circuito (“Amor solúvel”, “Inês de Castro...

Almir Martins confiou ao cenaberta a convicção de que esta edição e os contactos proporcionados lançaram raízes para o futuro, fundaram o sonho de concretizar em 2012 um Festival Internacional de Teatro em São Carlos, centrado nos países de língua portuguesa. (ver “Brasil e Portugal precisam estar juntos”, pág. 4) Circuito: balanço e projectos O Dragão7, companhia anfitriã do Circuito de Teatro Português de São Paulo, convidou este ano quatro companhias portuguesas: A Escola da Noite (“Auto da Índia”, de Gil Vicente), Art'Imagem (“O Escurial”, de Michel de Ghelderode”) e Teatro Constantino Nery (“Amor Solúvel”, de Carlos Tê). Também convidada, a Companhia de Teatro de Braga acabou por não poder apresentar o espectáculo “Concerto à la Carte”, face aos custos com o transporte do cenário, mas assegurou um workshop, a cargo do seu director artístico, Rui Madeira. De Angola, pela primeira vez no Circuito, participou o Elinga Teatro, com “Adriana Mater”, peça dirigida por José Mena Abrantes. Os organizadores apresentaram “Inês de Castro... Até ao fim do mundo”, espectáculo que dois meses antes viajou por Portugal. Cumprindo a tradição, cada companhia representou em várias cidades do Estado. Salas cheias foram uma constante, média de 370 espectadores por sessão, a premiar o formato desenhado pela organização: “descentralizar as actividades culturais da cidade de São Paulo, fazendo um circuito

simultâneo por cidades do ABC paulista [“cintura industrial” de São Paulo, originalmente composta pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, mas que hoje inclui também Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra] e interior, realizando espectáculos, debates e workshops, gratuitamente abertos ao público”. Satisfeita com os resultados, Creusa Borges, directora do Dragão7 e do Circuito, destaca outra dimensão do êxito, fruto da continuidade do trabalho desenvolvido ao longo dos anos em sucessivas edições: o surgimento de outras iniciativas de parceria e intercâmbio, na sequência dos contactos estabelecidos ao longo do festival. Exemplifica: o convite à actriz Lilian Lima para fazer uma temporada em Lisboa com a Companhia Constantino Nery em 2011 (na sequência da sua participação nas apresentações de “Amor Solúvel” em São Paulo); a participação da companhia paulista “Os Pregadores do Riso” no Festival Cómico da Maia (organizado pelo Art'Imagem); uma co-produção entre o Art'Imagem e o Dragão7, que “está sendo avaliada”. O Circuito mereceu apoios só de instituições brasileiras: “Conseguimos um patrocínio da Caixa Económica Federal, completado pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e com a parceria da cidade de São Carlos”, diz Creusa Borges, lamentando que o Instituto Camões não tenha sequer apoiado as viagens dos grupos portugueses, ao contrário das expectativas que haviam sido criadas no ano anterior: “quando liguei em 2010 para ver qual seria o apoio, me disseram que não podiam apoiar em nada pois não havia verba para este ano.” Creusa quer que o Circuito cresça ainda mais no futuro e, apesar das dificuldades, quer acreditar no aprofundamento da cooperação Portugal-Brasil, no quadro das iniciativas projectadas para 2012, “Ano de Portugal no Brasil” e “Ano do Brasil em Portugal”: “estou tentando saber como participar, como as escolhas se darão, os critérios, mas nada está sendo divulgado.” Pedro Rodrigues
cenaberta 3

cenaberta
DR

Carlos Azevedo

"Amor Solúvel", Teatro Constantino Nery
Augusto Baptista

Teatro Municipal de São Carlos

"Brasil e Portugal precisam estar juntos"
São Carlos, cidade com 220 mil habitantes a 200 quilómetros de São Paulo, é um destacado pólo universitário no Brasil, em particular na tecnologia e na investigação de ponta. Tem um teatro requalificado recentemente, apto a servir a criação e a oferta cultural da cidade, no âmbito do actual movimento de descentralização dos acessos aos bens culturais. Olhando para estas características, o director do Grupo Tapa, Eduardo Tolentino, recomendara a Almir Martins, director do Teatro Municipal Dr. Alderico Vieira Perdigão, de visita a Portugal em Março passado, “que não deixasse de conhecer a cidades que são centros universitários e produtoras de conhecimento científico, referências em seus países”. Por via destes contactos, Almir Martins e a própria cidade de São Carlos ligaram-se ao Circuito de Teatro Português: “O Rui Madeira falou de mim para a Creusa Borges e assim surgiu o convite, por parte dela, para que São Carlos participasse”. No balanço muito positivo que faz desta primeira participação no Circuito, Almir destaca o facto de o Festival se ter enraizado em São Carlos. “A repercussão na cidade foi a mais satisfatória possível”. Também os participantes na formação “quiseram continuar o trabalho plantado aqui pelo Rui Madeira, criando um núcleo de trabalho teatral dirigido por mim. Nesse encontro surgiu a possibilidade de um grupo teatral sãocarlense ser convidado pelo teatro de Braga para ir a Portugal, se apresentar e ministrar oficinas”. Olhos no futuro, Almir Martins quer organizar até 2012 um Festival Internacional de Teatro em São Carlos, centrado nos países de língua portuguesa:
João Moura
DR

"Auto da Índia: aula prática", A Escola da Noite
DR

"O Escurial", Teatro Art'Imagem
DR

"Inês de Castro... Até ao fim do mundo", Dragão7

Almir Martins

Cena Lusófona e de ir a Braga e a Coimbra”. Mais recorda Almir Martins: “O Eduardo havia me apontado semelhanças entre as três cidades, e que enxergava a possibilidade de um intercâmbio teatral entre São Carlos, Braga e Coimbra. Três

“pela primeira vez na história contemporânea, um país de língua portuguesa está se tornando a quinta maior economia do mundo. Brasil e Portugal precisam estar juntos nesse momento”.
Pedro Rodrigues

cenaberta 4

Setembro 2010

Entrevista a Tânia Pires

FESTLIP: Balanço do Festival
A 3.ª edição do Festival de Teatro da Língua Portuguesa, palco no Rio de Janeiro, Brasil, de 14 a 25 de Julho, acolheu pela primeira vez representações oriundas dos oito países de língua portuguesa. Em conversa on-line, Tânia Pires, directora do FESTLIP, transmitiu ao cenaberta a convicção de que os objectivos do festival foram “bem atingidos”, transformando-o num “grande movimento do teatro lusófono”.
Cumprido o festival, analisando criticamente os resultados, foram atingidos os objectivos? Os objectivos foram bem atingidos. Este ano o Festival se desenhou de forma mais sólida e já mostrando que as três edições o transformaram em um grande movimento do teatro lusófono. Na edição deste ano do FESTLIP houve uma presença marcante, maioritária mesmo, de companhias portuguesas. Essa é uma aposta para continuar? Não existe uma regra na curadoria. Tentamos sempre equilibrar as participações quando isso é possível. Trazer Timor-Leste foi um grande esforço. O grupo participante foi formado em decorrência da oficina teatral itinerante que eu ministrei no ano passado em todos os países da CPLP. Sem isso, não seria possível. Cada ano o próprio cenário se desenha. Com a homenagem à actriz portuguesa Maria do Céu Guerra, que muito nos orgulhou, acabámos dando um foco maior aos grupos portugueses em 2010. Que significado retirar da distinção atribuída pelo FESTLIP a Maria do Céu Guerra e a Miguel Seabra? A homenagem a Maria do Céu Guerra foi pensada, estudada e, de forma muito consciente, escolhida. Com total certeza ela é uma imagem muito forte do teatro da nossa língua. A oficina que ela ministrou no FESTLIP foi minuciosamente cuidada e teve enorme receptividade dos participantes. Ela foi magnífica. Com o Miguel, a distinção veio de forma muito espontânea. O voto popular se identificou e reconheceu no seu espectáculo, na sua direcção e linguagem, nossa própria imagem. Podemos chamar de imagem universal. Aquela que o próprio Miguel cria com seu talento distinto e muito seguro. Que papel e que importância é dada ao Festival no estreitamento de relações teatrais e culturais no seio da lusofonia e na defesa da língua, património comum? A nossa língua é a nossa riqueza. Nosso ponto de partida e de encontro. É encantador assistir Timor ser reconhecido e conhecido através das artes cénicas pelos demais países irmãos de língua. Ela é nosso elo e a nossa inspiração. Todo ano, cada vez mais, nos damos conta da força que a língua portuguesa tem. É um orgulho podermos nos unir através dela e dessa forma torná-la cada vez mais forte. Não tenho dúvidas que o teatro seja o caminho das artes mais que adequado. Ele é livre, directo no contacto humano e o resultado é imediato. A Talu Produções, estrutura nodal na organização do FESTLIP e de que és co-fundadora, nasce quando? A Talu Produções foi fundada no final de 2003. O Produções tem um foco directo no movimento do Festival. Já é uma missão! Mas agora mesmo já estamos trabalhando na produção de um novo espectáculo teatral. A produtora possui diversos projectos. No final todos se complementam, afinal estamos trabalhando pelo teatro da língua portuguesa. Gostaria de acrescentar que o FESTLIP é um Festival aberto para crescer paralelamente com todas as iniciativas que convergirem para o mesmo ideal, ética e respeito em favor da unificação, formação e da preservação da diversidade do teatro da língua portuguesa. Augusto Baptista, com Pedro Rodrigues
(versão integral da entrevista em www.cenalusofona.pt/cenaberta)
Augusto Baptista

FESTLIP 2010 em síntese
O Festival de Teatro da Língua Portuguesa animou este ano durante 12 dias variados espaços do Rio de Janeiro, de 14 a 25 de Julho, com mostras teatrais do pleno dos países de língua portuguesa, num total de 15 grupos e 40 representações, e um público recorde de 23 mil espectadores. Ponto alto do Festival foi a homenagem à actriz Maria do Céu Guerra, directora de “A Barraca”, distinguida com o prémio FESTLIP 2010, e a distinção conferida através de voto popular ao Teatro Meridional, dirigido por Miguel Seabra: Prémio Revelação pelo espectáculo "Contos em Viagem-Cabo Verde". Entre todos os participantes no FESTLIP, maioritária foi a representação portuguesa, com a presença das companhias A Barraca ("Agosto-Contos da Emigração"), Teatro Meridional ("Contos em Viagem-Cabo Verde"), Trigo Limpo ("Chovem Amores na Rua do Matador") e Binólogos ("Filhas da Mãe-Fantasias Eróticas das Mulheres Portuguesas"). O Brasil participou com três companhias: Os Fofos Encenam ("Ferro em Brasa"), Barracão Cultural ("A Mulher que Ri") e Cia. de Teatro Novo Ato ("Drummond 4 Tempos"). Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste participaram respectivamente com as companhias GTO–Grupo de Teatro do Oprimido ("Maria: Ritual das Parideiras"), Centro Cultural de Mindelo ("Androginia"), Grupo Fôlô Blagui ("O Pagador de Promessas"), Grupo Arte Lorosae ("Saramau"). Angola fez-se representar pela Companhia de Teatro Dadaísmo ("Olímias") e Miragens Teatro ("4 e 30") e, por fim, de Moçambique vieram: Companhia de Teatro Gungu ("A Demissão do Sô Ministro") e Kudumba ("Só Cheira Borracha"). Além da Mostra Teatral o FESTLIP integrou espectáculos musicais, debates, exposição fotográfica e gastronomia: “O Sabor da Língua Portuguesa”.
cenaberta 5

Tânia Pires

primeiro projecto produzido por ela foi o espectáculo “O Pequeno Eyolf", de Henrik Ibsen. Quando e como se revela a tua vocação lusófona? Em 2006 fui convidada com meu espectáculo para o "Ibsen Festival" em Oslo, Noruega. Aí sim, tive o grande prazer de conhecer a Manuela Soeiro, fundadora do grupo Mutumbela Gogo de Moçambique. Depois desse encontro na Noruega ela me convidou no final do segundo semestre de 2006 para participar de um seminário em Moçambique no período de comemoração de aniversário do Mutumbela, a pedido da Embaixada da Noruega. Esse contacto com o teatro moçambicano foi determinante? Eu já tinha contacto com o teatro português, mas só em 2006 pude descobrir o teatro moçambicano. Fiquei muito aguçada para estudar e conhecer o universo teatral da nossa língua. Ter ido para Oslo interpretar um texto norueguês em português já havia despertado em mim um forte orgulho do teatro lusófono. Em Moçambique o círculo se fechou e, a partir de 2006, comecei a focar minha experiência teatral de 20 anos na possibilidade de comungar tantas descobertas com meus irmãos actores dos oito países da CPLP. E é a partir daí que, em 2007, nasce o FESTLIP? O FESTLIP nasceu de surpresa. Não foi um filho programado, mas com certeza um filho amado! A Talu

cenaberta

Viagens meridionais
Miguel Seabra é suave no trato, nas relações profissionais, na direcção do Teatro Meridional. Esta qualidade impregna a sua companhia. Ao lado de Miguel, Natália Luíza, mulher vestida de palavras, voz-mistério. Poetas, cada um a seu modo, cenaberta ouviu um e outro. Uma longa viagem pelos labirintos do palco, da alma e da lusofonia.
No Meridional quais são as tuas funções, Miguel? Miguel Seabra (MS) O Meridional formou-se comigo, confunde-se com a minha vida. Estou no Meridional a tempo inteiro, exerço várias funções de responsabilidade, a maioria das quais partilho com a Natália Luíza. Sou ligeiramente mais generalista, com ligação quer à produção, quer à parte artística, quer à parte técnica. O meu percurso de vida tem um paralelismo identitário muito forte com o percurso artístico e criativo e de produção do Meridional. És fundador da companhia. MS Sou co-fundador… E director. MS Se tivesse de haver designações formais eu seria como que um director-geral do Teatro Meridional. E a Natália Luíza? Natália Luíza (NL) Sou a retaguarda. É assim: o Meridional sem mim existia; sem o Miguel não. A grande diferença é essa. É evidente que sou uma figura estruturante também, mas de retaguarda. Estou envolvida em decisões relacionadas com a estrutura da companhia, com aquelas coisas que não se vêem, mas que são fundamentais para manter o edifício em movimento. Nos projectos artísticos faço parte de uma outra geração, uma geração mais nómada. Na minha vida não tenho ficado afecta exclusivamente a um projecto, tenho feito coisas em muitas áreas, faz parte da minha natureza, da minha inquietação. Sendo uma figura que se mantém desde início no Meridional, meia volta saio com projectos próprios, para ir fazer coisas com outras pessoas. Portanto, mantendo aqui a casa, sou mais da viagem. E há aqui um contrasenso: o Teatro Meridional tem uma componente de itinerância, valor que o Miguel defende muito, e eu, gostando da viagem, sou menos itinerante. Contos em Viagem é uma proposta de itinerância e viagem que ambos partilham e em que ambos estão envolvidos. MS O Teatro Meridional tem vários caminhos principais de expressão artística. Um deles incide na dramaturgia não-teatral, ou seja, no levantamento de textos que partem do universo não-teatral, como adaptações de romances. Isso fizemos com o "Mar Me Quer" do Mia Couto, adaptado pelo Mia Couto e pela Natália Luíza, obra editada pela Cena Lusófona. NL Fizemos com Pepetela… MS Fizemos vários trabalhos nesta vertente, privilegiadamente do universo literário da lusofonia. Outra linha é o desafio a autores para arriscarem a escrita dramatúrgica, nomeadamente do universo da lusofonia. Caso de José Eduardo Agualusa. MS Agualusa, Nuno Pino Custódio, José Luís Peixoto. O trabalho com os autores imagino-o intenso e muito marcado pela proximidade, estou a lembrar-me da adaptação do “Mar Me Quer”, até porque a obra resultante
cenaberta 6

está assinada pelo Mia Couto e pela Natália Luíza. MS A Natália teve a ideia de adaptar o "Mar Me Quer", grande história com um raro poder de comunicação. Fez uma pesquisa enorme por todos os livros do Mia Couto e a colagem que faz, com base na história do "Mar Me Quer", tem esse universo miacoutiano por detrás. A adaptação inclui extractos de outros romances, sendo que o Mia Couto colaborou no supervisionamento do texto global e desenvolveu específica e qualificadamente a personagem do Avô Celestiano, que não tinha quase forma literária no "Mar Me Quer". NL A circunstância foi esta: nós encontrámo-nos e foi um trabalho muito interessante, feito essencialmente por e-mail entre Moçambique e Portugal. Apresentei uma estrutura do espectáculo e, inclusivamente, peço uma cena – o livro não acaba da mesma maneira que acaba a peça – peço ao Mia para que no final haja uma relação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, o que não está no texto inicial do "Mar Me Quer", mas corresponde ao imaginário moçambicano tal qual eu própria, nascida em Moçambique, o reconheço. Também pedi que aprofundasse a figura do Avô Celestiano, que não encontrei no universo literário criado até à altura pelo Mia Couto onde ir alimentar a personagem. MS No caso dos textos relativos aos Contos em Viagem – Cabo Verde/Brasil, a pesquisa é totalmente feita pela Natália Luíza. A responsabilidade primeira e última dos espectáculos dos Contos em Viagem, até agora e assim será, é da Natália, pela sua paixão pela literatura, pela sua paixão pela leitura, pela perspicácia, devido à sua experiência como actriz e comunicadora e leitora de poemas, o que lhe dá a capacidade de percepção da qualidade de um texto não-dramático em palco se tornar objecto comunicante de qualidade. Nos Contos em Viagem como se entrelaçam música e palavra? Como é feita essa articulação que tem muito de poético, de realidade avessa a fórmulas? NL Encontram-se linhas através das quais se pesquisam os textos. Por exemplo, o universo literário do Brasil é de uma riqueza desarmante. É portanto necessário encontrar um caminho através do qual se percorrem os autores e se seleccionam os textos. Faz-se um apanhado geral de textos, começa-se a sentir para onde é que vamos, define-se o mapa da viagem. Por acaso nós já fizemos duas dramaturgias sobre o universo literário do Brasil nos Contos em Viagem. A primeira era mulheres dentro de casa com linhas, agulhas e vestidos. A segunda, um percurso através do Rio S. Francisco. São dois mundos distintos: um dentro de casa, habitado por um universo essencialmente feminino; outro é o mundo de gente que se encontra ao longo do rio. É através destas conduções que se acha o mapa dos textos. Mas depois é preciso fazer a viagem propriamente, a viagem corpórea, a viagem do actor, a viagem do músico, através dos sons das palavras, das sugestões dos ambientes, da comunicação, da distinção dentro de um texto da parte narrada da parte em que a personagem irrompe. E isso

é o trabalho do actor, do músico e de condução do Miguel em cena, transformando as palavras na outra viagem, a da comunicação. Lembro que quando em Julho passado o Meridional foi ao Brasil participar no FESTLIP, são os Contos em Viagem - Cabo Verde que levam na bagagem, embora pudessem embarcar com um universo de contos brasileiros. MS Tivemos a possibilidade de ir com os dois, ou só com o Brasil, ou só com Cabo Verde. Com o Brasil tínhamos acabado de fazer uma temporada, houve uma impossibilidade prática do músico, estava comprometido. Então remontámos Cabo Verde, até porque há a facilidade, digamos, de tanto a actriz, a Carla Galvão, como o músico, Fernando Mota, trabalharem connosco há muito tempo. Há um código de linguagem subliminar que facilita uma remontagem rápida: tivemos cinco ensaios antes de partir. No Brasil, não gosto de utilizar a palavra sucesso, mas o impacto dos Contos em Viagem - Cabo Verde foi incrível. NL É evidente que, de um determinado ponto de vista, seria interessante levar-se o Brasil que Portugal pensa ao próprio Brasil. Mas foi também muito interessante, nós que nos cruzámos todos em termos históricos, serem portugueses a levar Cabo Verde ao Brasil. Acaba por ser muito mais germinatório. No Brasil também não se conhece a cultura cabo-verdiana. Justo no FESTLIP, festival em que o Teatro Meridional foi agraciado com o Prémio Revelação, resultante de voto popular. MS Este prémio foi muito significativo, sensibilizou-me particularmente. É uma votação do público, a contagem é isenta, rigorosa, percebe-se que aquilo é o público a votar e, numa escala de 0 a 10, que era a pontuação possível, o espectáculo foi premiado com o primeiro lugar do público: 9,7 pontos. Vamos ter a possibilidade de estar em Fevereiro de 2011 em Coimbra com este espectáculo e eu fiquei também contente com o convite para irmos fazer uma mostragem da companhia com diversas apresentações. Pensei logo na lusofonia, nos Contos em Viagem - Cabo Verde, um espectáculo muito feliz. O Teatro Meridional é um construtor de lusofonia. A nível da CPLP e das estruturas culturais da comunidade, sentem haver o entendimento da importância do vosso trabalho? MS Da CPLP penso que não. Entidades ligadas à lusofonia, temos uma ligação ao Mindelact, fizemos uma co-produção inclusive, e há uma ligação forte, pessoal e profissional. Outra estrutura a que estamos ligados é a Cena Lusófona, através de várias parcerias, inclusive a ida a Cabo Verde, a ida ao Brasil, a ida a Timor, o apoio ao "Mar Me Quer", o apoio à "Geração W". A relação com a Cena Lusófona tem sido muito saudável, fraterna, transparente, descomprometida no bom sentido e comprometida em termos de cumplicidade na acção.

Setembro 2010

Augusto Baptista

A Cena Lusófona é o organismo que em Portugal está mais ligado ao universo da lusofonia, na vertente teatral. É espantoso o espólio, riquíssimo e diversificado, do seu Centro de Documentação. Sem nenhum compromisso e com todos os compromissos, muito me agrada e honra, e falo também em nome da Natália, a ligação à Cena. Acima de tudo mantemos uma independência a nível de projectos muito salutar. A Cena Lusófona sabe que o Meridional existe, que trabalha em projectos da lusofonia; o Meridional sabe que a Cena Lusófona existe na sua vertente abrangedora de diversas áreas ligadas ao teatro e à lusofonia. Esta parceria é saudável, é bonita, também cúmplice, discretamente cúmplice. O Meridional participou em Coimbra no Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, organizado pela Cena Lusófona em Dezembro de 2009. Sentes que estas iniciativas, estes encontros, estes momentos de discussão alargada, são úteis, necessários? MS Resistir é vencer. Através do teatro, nós, portugueses, temos de assumir um papel centralizador e motivador da manutenção do universo da lusofonia. Digo centralizador no sentido de manter a capacidade de iniciativa, não no sentido centralista, que nega a possibilidade e a importância de haver diversos pólos. A língua portuguesa partiu de Portugal, espalhou-se pelo mundo, e eu acho que temos de manter essa responsabilidade viva. E nisto já vamos para o universo da política. É indesculpável não haver outro cuidado, outra atenção, outra qualidade de apoio às iniciativas de agregação da lusofonia através do teatro, por parte das entidades públicas. É mais uma coisa à portuguesa, no péssimo sentido da expressão. NL Nesse Encontro organizado pela Cena Lusófona eu fiquei próxima da Guiné-Bissau, uma realidade a que não tinha acesso, através da informação veiculada, do ponto de vista humano. Embora eu tenha um vídeo para sustentar o que acontece na Guiné-Bissau em termos teatrais, foi o estar em contacto real com as pessoas – ser-se pessoa é ter-se a humana fragilidade ao lado de nós, senti-la parte de nós – que me aproximou. A vida teatral não é feita só de acordos protocolares, que depois são muito pouco exequíveis, pouco práticos. Por exemplo, esta nossa recente ida ao Brasil proporcionou-se porque a Tânia Pires, directora do FESTLIP, fazia parte dos participantes no Encontro, e aí convidou o Meridional. Parece que o Brasil entende melhor a importância da cultura e do teatro na construção da lusofonia. NL O Brasil entende melhor isso, parece, porque tem mais gente, tem outra lógica de prioridades. Nós não temos, enquanto portugueses, uma política de internacionalização definida. O que queremos de nós próprios? O que queremos mostrar de nós próprios e das produções que se fazem aqui? No fundo tudo aquilo que acontece é produto destes encontros humanos, produto de vontades grupais e individuais, por serem mais fortes que as vontades que constroem

os muros. Em termos de internacionalização, a CPLP que política tem? Não sei. E isso até pode constar de um site, não sei. Nós, companhia que trabalha este eixo de acção muito específico, noutro país qualquer creio que já teríamos sido contactados para acções diversas, para que os nossos espectáculos pudessem ser mostrados como produto desta geminação de linguagens, de encontros. MS Outra das características do Teatro Meridional é também trabalhar muito com criadores africanos, actores, músicos. NL Muitos vivem em Portugal, mas mantêm as suas nacionalidades de origem. O Meridional é das companhias que mais tem trabalhado com actores ligados a países africanos. Nunca o poder político, eu acho, apoiou suficientemente esta acção. Vai valorizando o Meridional e o seu trabalho, mas não ao ponto da especificidade que merece. Acho que seríamos todos mais ricos se algumas das nossas criações pudessem confrontar-se com públicos dotados de outro tipo de recepção ao espectáculo, como foi agora no Brasil. Isso permitiria um outro intercâmbio também. MS Além dos espectáculos propriamente ditos, há a mais valia da formação. A equipa do Meridional tem várias pessoas que dão formação diversificada: trabalho de actor, trabalho de cenografia, trabalho ligado à poesia, à palavra, à música. NL Dar é também receber formação. Quando vamos a outros sítios estamos permeáveis, abertos a aprender. São duas células que entram em contacto e trocam coisas. Formarmos, formando-nos. Daí a necessidade de sair, contactar realidades exteriores que, ao mesmo tempo, integram o interior da lusofonia: Cabo Verde, Brasil, Angola… A palavra, conforme essas distintas geografias, assume tonalidades, sonoridades, coloridos distintos. A dada altura esse cirandar permite descobertas, desafios, encontros com palavras e acepções insuspeitadas. NL O Brasil e todos os países africanos é como se ensolarassem as palavras. Há palavras que acordam, ficam mais sonoras, adquirem musicalidade numa relação com a natureza mais aberta. Ao irmos aí estamos obrigados a adequar a relação com as plateias, se queremos ser compreendidos. Interessante na língua portuguesa é nós podermos viajar através dela, com ela, e em cada sítio ela ser a mesma, sendo diferente. E caberem essas diferenças, essas alterações lexicais, semânticas, caber a invenção dos novos léxicos que, por exemplo, os países africanos e o Brasil estão a fazer a partir do português. Um português que se enriquece não secando as línguas nacionais. Um português implicando, casando com as línguas nacionais, brincando com elas. NL Elas brincam-se a si próprias. Elas vão-se brincando nos outros sítios. MS Nós somos um país europeu, da velha Europa, imbuídos de formalismos burocráticos e sobretudo mentais, conceptuais. Os países da lusofonia são do hemisfério

sul, principalmente os cinco países africanos e o Brasil, de quem estamos mais próximos. E o hemisfério sul constitui uma outra realidade. É meridional (risos) NL Estes países que escolheram a língua portuguesa para comunicarem tiraram a gravata às palavras, vestiram-nas de lenços, missangas, ensolararam-nas. Acho bonito mantermos a nossa postura, como país, coexistindo com a irrequietude dos outros. De facto esse diálogo gera surpresas e demonstra uma rara capacidade de acolher, da língua se metamorfosear, criar léxicos com correspondência aos novos imaginários e realidades. NL É por isso que para mim as próprias palavras são a grande viagem. Adoro palavras. Se pudesse andava vestida de palavras. Embora, frequentemente, mais do que vestir, as palavras dispam. NL Que seja assim, se pudesse andava despida de palavras, porque as tenho todas e não preciso de nenhuma. MS Se o Japão é o país do Sol Nascente, nós somos o país do Sol Poente, onde o sol se deita em relação à Europa. E esta viagem para onde o sol vai sempre nos atraiu, sempre nos pôs nas praias a olhar para o mar com nostalgia e espírito de partida. Somos um povo virado para o mar que, desde 1985 e aproveitando a entrada na União Europeia e um governo com características particulares, liderado pelo actual Presidente da República, foi voltado bruscamente para a Europa. Ficámos descentrados, a nossa organicidade é outra. Actualmente temos um plano muito melhor de comunicações rodoviárias, temos muitos telemóveis e o parque automóvel mais rico da Europa e, paralelamente, somos o país com mais iliteracia. Este desequilíbrio, desencaixe, a mim toca-me muito. Somos um povo com uma personalidade vincadíssima, independente – só um povo assim resiste à força solar e afirmativa, masculina, dos espanhóis –; somos um povo lunar, receptivo, falta-nos um lado activo para afirmarmos de uma maneira mais sólida a nossa identidade. Por outro lado, como essencialmente somos um povo voltado para o mar, estamos sempre abertos aos outros, com vontade de partir, com vontade de aventura. E, diria, este espírito também marca o Meridional. Fazendo um laço com a lusofonia, a abertura ao desafio tenta-nos a trazer também a Galiza e o universo literário galaico-português para o projecto Contos em Viagem. NL É necessário que este querer fazer por parte dos agentes culturais corresponda também a definições programáticas, políticas, sobre o que queremos mostrar de nós, o que queremos permutar, o que se define em termos de política cultural, que identidade levamos. MS Neste mundo cada vez mais igual e global, cada vez com menos mistérios, a riqueza da nossa identidade provém da língua. A língua veicula a nossa identidade de uma forma específica, sui generis, única. entrevista de Augusto Baptista
(versão integral da entrevista em www.cenalusofona.pt/cenaberta)
cenaberta 7

Como se diz perda? Que som, voz, murmúrio, inscrever aqui? Como se diz grito? Como se diz, em letra de jornal, que o Ruy morreu? Era Agosto. Este Agosto

Ruy Duarte de Carvalho
De uns dias em Luanda, no ano passado, por ocasião do ciclo no Centro Cultural Português dedicado à obra do Ruy Duarte de Carvalho, lembro-me da festa de encerramento no Chá de Caxinde. Surpreendeu-me, não sei porquê, que também ele dançasse. E ficou-me a ideia dessa convicção, sua, de fazer as coisas com ‘joie de vivre’. Os dias anteriores passaram-se em conversas à volta dos trabalhos dele: o cinema, a fotografia, as diversas antropologias e as modalidades literárias. A obra em que a sua constância se estendeu de muitas maneiras, e que se deixa ficar para nos interpelar pelo tempo fora. Entretanto, foi-se falando de muitos outros assuntos, (de futebol, até, para registar a indiferença que esse exercício nos suscitava), que acabavam por regressar a Luanda e aos seus abismos de contrastes, ostensivos numa corriqueira caminhada pelas ruas. Por essa altura o Ruy Duarte andava cansado do exercício inevitável e insano de costurar ligações sobre os fossos da desigualdade normalizada do quotidiano luandense e tratava de se mudar para a Namíbia. Não lhe era coisa estranha, o exílio, e perguntava-se se isso era nele um recurso ou uma condição, por causa da sua incapacidade atávica de se resignar a qualquer versão de iniquidade e que muitos confundiam com ‘mau feitio’, que às vezes, suspeito que por condescendência com eles, também era. A questão, posta a cru, é que se uma pessoa pode dedicar a vida toda a investigar uma ideia de um país, e se mesmo assim é maltratado, é mais realista continuar a fazê-lo onde não o chateiem. Habitualmente almoçávamos na baixa. Um restaurante com vocação de cantina, refeições honestas a preços decentes, e mesas quase colectivas onde sempre se encontra alguém que há já uns tempos não se vê, ou se conversam novas companhias. É que desistir dessa ideia também não lhe ocorria, e sempre ia podendo confirmar que, apesar de tudo, a sua era uma terra de gente boa, capaz, lutadora, e, em geral, merecedora de melhores dias. Enquanto esperávamos mesa, nos sentávamos com uns, e outros iam, depois, chegando, sempre se trocavam umas ideias sobre isto e aquilo, a situação, claro, e o que era preciso fazer para as coisas ficarem bem, melhores, ou na mesma, mas de maneira a que todos fossem mais bem tratados. Também percebi, nesses dias, que o Ruy Duarte era um conversador compulsivo, quando lhe dava para esse lado, e tinha as suas artes de colocar a subtileza de escutar ao serviço da escavação dos assuntos que iam aparecendo sobre a mesa. Depois tomávamos café e ele preferia caminhar devagar rua acima, identificando memórias que às vezes comentava. O reconhecimento da obra, a homenagem de que era o centro, sempre lhe davam ocasião para estar, outra vez, em Luanda. Confirmava, numa e noutra coisa, a impossibilidade pessoal de se conformar com a insistência na asneira, e uma vez ou outra, anotava impossibilidades corriqueiras para mais tarde, dizia, conversar sobre elas com o Paulino. Em Luanda tinha saudades do sul. Falou disso uma vez por outra a tomar cerveja. Como não tinha, nisso, grandes preferências, bebia Cuca, como ele, filha da terra, brindando à vida. Nuno Porto

Nestas páginas: obras de Ruy Duarte de Carvalho

cenaberta 8

Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), escritor, cineasta, antropólogo angolano: obra extensa a que a Cena Lusófona dedicou a revista setepalcos n.º 5. Doutor em Antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris; Professor (Universidade de Luanda, Universidade de Coimbra e Universidade de São Paulo). Autor, entre outros, de “Vou lá Visitar Pastores” (1999) sobre a comunidade pastoril kuvale, Angola; poesia: “Chão de Oferta” (1972), “A Decisão da Idade” (1972), “Lavra” (colectânea poética 1970-2000); ficção: “Os papéis do Inglês” (2000), “Como se o Mundo não Tivesse Leste” (1977), “Paisagem Propícia” e “Desmedida”; cinema: curtas e longas metragens, entre estas, “Nelisita: Narrativas Nyaneka” (1982).

AB

cenaberta 9

cenaberta

Ivo por Ivo

Como se o tempo flutuasse
Só tarde percebi a influência que o teatro teve na minha opção pelo cinema. Quando digo o teatro, não digo as peças, a obra acabada, digo os ensaios de leitura, a montagem dos cenários, das luzes.Via as peças muitas vezes, quase todos os dias, que aliás lá em casa nem televisão havia, e nos meus filmes acho que se passa um tanto isso: preciso de repetir as coisas para perceber. Lembro-me um dia, muito puto, lembro-me um dia ter dito aos meus pais: Quero realizar filmes. Eu sofria imenso com a efemeridade do teatro. Às vezes participava mesmo nas peças, do Bando, da Comuna, e houve um espectáculo muito intenso, o Amadis, do Abel Neves, encenado pelo João Mota, que teve uma carreira muito grande, tinha eu uns 10 anos, todos os dias fazia o espectáculo e uma noite aquilo acabou. Foi das primeiras vezes que me lembro de sentir angústia. Ligado a este tempo recordo-me de comprar livros de cinema. Havia uns, das Edições 70, Artes & Ideias, acho eu, a Semiótica do Cinema, a Realização Cinematográfica… Cheguei a casa e disse: Mãe, gastei uma fortuna em livros. E, já agora, quero fazer filmes, não quero fazer teatro, porque os filmes ficam. Isto pode ter sido um disparate que eu disse por dizer. Ou se calhar por teimosia, provocação, e depois acabei por seguir essa ideia. O meu pai disse-me: Porreiro, ser realizador de cinema em Portugal é como ser astronauta, vai-se à lua uma vez na vida… Na altura deu-me exemplos práticos de realizadores de que eu gosto, importantes, portugueses, o número de filmes que tinham, a idade. E a sustentabilidade que me traria a escolha dessa profissão. A minha mãe, sempre acreditou muito em mim, só disse: Cá em casa nunca haverá de faltar dinheiro para comida e para livros. O meu pai, evidentemente, quando percebeu que era a sério foi a pessoa que secretamente me impulsionou. Isto deu-me confiança, que se calhar eu agora deveria perder. Muito miúdo, depois dos ensaios gerais, lembro-me do João Mota e da minha mãe me fazerem entrevistas para eu dizer o que eram os espectáculos. Com certeza, só por curiosidade queriam saber o que o miúdo achava, mas eu levava aquilo muito a peito e lembro-me de sintetizar os espectáculos e lembro-me de as pessoas dizerem: OK, está feito! Isto se calhar até me deu quase um sobre à vontade em analisar o que quis depois, deu-me a liberdade de nunca pensar pela cabeça dos outros. Acho que das
cenaberta 10

Fértil tem sido o entrecruzar criativo da Cena Lusófona com Ivo M. Ferreira, na área do cinema. Prova disso são os documentários, agora editados em DVD, sobre a tradição dos narradores orais em São Tomé e Príncipe: Soia di Príncipe e À procura de Sabino. Boa razão para cenaberta ouvir o homem para quem filmar é como um flirt, momento raro em discurso directo, Ivo por Ivo: enredos imbricados, em catadupa, o realizador, o cinema, enleio de lugares, ontens e futuros. Como se o tempo flutuasse.
poucas qualidades que eu tenho como realizador, uma é ser um gajo bestial, outra é nunca me passar pela cabeça ser os outros, não querer imitar ninguém. À volta do mundo Antes de ancorar na realização de cinema fiz muita coisa. Fui actor, produtor, cameraman, desenhador de luzes, estive na dança… Houve uma altura em que queria viajar, estava inscrito na Universidade de Budapeste, faltava um ano e meio e eles só aceitavam oito alunos de 4 em 4 anos, eu tinha entrado também na London International Film School, estava com as costas quentes. Um dia fui entrevistar uma prostituta, teria 16, 17 anos, percebi que não sabia nada da vida, decidi viajar e trabalhar. Sentia-me um cidadão irresponsável, porque, à partida, nunca teria de fazer trabalhos físicos, pesados, para ganhar a vida. Sentia-me culpado por isso e decidi viajar à volta do mundo, coisa que acabou por não acontecer, e trabalhar nas obras na Europa, trabalhar como as comunidades da África do Norte. Achava que aquilo iria ser muito produtivo intelectualmente. Claro, ao fim do primeiro dia, nem me lembrava do meu nome. A meio deste percurso, uma vez vim a Portugal, encontrei-me para jantar com a Jeanne Waltz e o Joaquim Pinto e disse: Eh pá, estou fodido com esta merda, estava ali a trabalhar nas obras, no meio da neve, pensava que aquilo ia ser intelectualmente enriquecedor e foi mais uma das desilusões da minha vida. Foi uma experiência curta como operário, fui barman, limpador de piscinas, andei em estufas. Mais tarde em Macau fui repórter-fotográfico, assistente de realização, tinha de andar a correr de um lado para o outro com cassetes betacam, fui funcionário público. Eu e o António Pedro decidimos ser funcionários públicos em Macau, na mesma instituição. Mas éramos funcionários públicos de luxo: tínhamos um cinema, programávamos, dávamos aulas de teatro, de música, fazíamos um espectáculo, de vez em quando tínhamos algumas vicissitudes… Agora no Natal têm de fazer um presépio! Um presépio?! Fizemos uma instalação em que toda a gente tinha de andar de gatas, ambientes sonoros, água a cair, apesar de tudo ainda nos divertimos. Mas éramos efectivamente funcionários públicos, uma grande seca, que lidávamos com pessoas intratáveis, isto enquanto criávamos a produtora Super 8 Filmes. Tinha 18 anos quando eu e o António Pedro montámos o meu primeiro filme: “O Homem da Bicicleta”. Depois ainda fiz outro filme com essa produtora. De Macau para a Expo A Macau fui parar quando estava a dar a frustrada volta ao mundo. Sei que estou a caminho da Índia, vou para Hong Kong, depois Macau, porque aí talvez arranjasse trabalho na Índia. Entretanto quis filmar Macau, tive um filho, andei por ali a viajar, a sair e a entrar na fronteira. De Macau vim para Portugal e fui convidado pela Expo98 para realizar um filme. Na altura não me passava pela cabeça usar vídeo. Era uma coisa que não fazia parte do meu léxico. Não era tanto por causa da qualidade, que me estou um bocadinho nas tintas para a definição. Parece que há uma obsessão pela definição, não percebo porquê, se calhar porque sou vesgo ou assim. Não tenho nenhuma questão com a hiperdefinição, só me atrapalha a leitura às vezes das imagens, mas gosto das coisas nítidas, evidentemente. Apesar de tudo venho de uma escola, venho da fotografia. Com 14 anos fiz um cartaz para o meu pai e em troca tive um laboratório de fotografia. Passava noites e dias enfiado na câmara escura. Embora hoje isso não se reflicta em nada, acho que parte da minha forma de olhar vem daí. Nunca se me põe grande questão onde colocar a câmara, que objectiva usar, parece que é meio empírico, não é empírico nada, com certeza deve vir desses anos a fotografar, a ampliar. Depois, enquanto fiz a António Arroio, li muito. E sempre fotografando, filmando. Na realização há uma componente técnica, essa eu a sei muito certinha. E é preciso saber estruturar uma narrativa ou contar uma história. No meu caso, com um gajo a ouvir os Tchékhov e os Shakespeare desde que nasceu, alguma coisa em termos de construção dramática deve ter aprendido. E a ver filmes e a ler sobre cinema. De resto, quem pode ensinar um realizador a filmar, um pintor a pintar? O filme que eu fiz a convite da Expo em 98 era ficção, mas com uma parte muito grande de documentário. A primeira longa metragem e o projecto Cena Estive quatro anos sem pôr cá os pés, constituí família, tive um filho. Quando achava que havia uma certa

Setembro 2010

estabilidade, tinha a minha vida de pantanas. Chego, vejo os meus amigos a dar alegremente umas quecas, mas também todos lixados. Então fiz “O que foi” sobre as relações amorosas que estávamos a viver, tudo fodido, basicamente. Os actores escreveram sobre o que se estava a passar e com isso montei o argumento. Embora seja ficção pura e dura tem uma vertente documental. Aí ganho o prémio “Jovem talento”, no festival de Vila do Conde. Em 2002 realizo a minha primeira longa metragem, “Em volta”. Ainda em 2002 trabalho para a Cena Lusófona no projecto “Narradores Orais na Ilha do Príncipe”. Pouco sabia da oralidade, da tradição oral no Príncipe, fiz a investigação possível, na altura até pedi à Zé Lobo Antunes para me ajudar, mas sobre aquela realidade específica havia muito pouco, coisas soltas, mas ok, também gosto de aventuras e de certeza que vou fazer uma coisa bestial e tudo vai correr bem. Não me passa pela cabeça fazer uma coisa que vai correr mal. Esta é uma abordagem que sai, como outras, fora do meu território normal de trabalho, é um filme que me foi encomendado pela Cena Lusófona. Isso não tem nada de menor nem de maior. Quando cheguei ao Príncipe, tinham organizado uma apresentação no Centro Cultural Português. Foi lá alguém, contou três histórias e acabou-se o trabalho, vamos embora para casa. Eu pensei, por amor de Deus, eu não vim aqui para isto, para isto tinham de me pagar bem. Tive de explicar que não era aquilo que me interessava, queria conhecê-los, ouvir mais histórias, ir a casa deles, queria procurar contadores de histórias. E então aí começa uma caminhada, não quero mentir, de nove dias pela ilha, com câmara de vídeo, do género de chegar a uma praia de pescadores e nem me contarem histórias nem me darem de comer, nem de dormir, ainda por cima depois duma chuvada do caraças, eu sem poder ir para trás. Não faz mal, não dá não dá, tudo bem, fico aqui. As horas passam, acabam por se aproximar e lá fiquei em casa das pessoas, contaram-me as histórias todas. Na altura, não percebia nada do assunto, não tinha conseguido definir o que era a soia Longo Cantá, a soia Cuto da Malé, a soia Contage. A soia Longo Cantá é um tipo de história, de soia, mais longa, com uma estrutura diferente: inclui canto e pode demorar dias a contar. Hoje, com o aparecimento da televisão, embora no Príncipe não haja muito essa questão, estas histórias rareiam, mas têm funções ligadas a coisas muito práticas: avós a contarem-nas aos netos para eles fazerem a digestão, para os entreterem quando estão doentes… A única ocasião em que sobrevive a soia Longo Cantá é nos nozados, nas cerimónias fúnebres. Do Príncipe para São Tomé E assim chegámos ao primeiro filme, viemos embora com uma sensação boa, com material interessante, histórias que foram remontadas graças à nossa presença e à nossa iniciativa. Mas isto era apenas o princípio. Eu filmei histórias com nove horas, quatro horas, numa língua que não entendia. Mas, apesar de tudo, se um gajo estiver atento, percebe pelo menos o que está a acontecer na história: são performances, caramba. Podes não perceber exactamente se ele está a dizer que foi uma colher de pau ou um pau, mas sabes que alguma coisa ele atirou ao outro. Se bem que eu tive erros, histórias que eu achava que eram, sei lá, uma lebre e não sei quantos, afinal era um caramujo, um macaco… Em 2003 voltei a São Tomé. Agora, pelo menos, sabia que não sabia. Sabia que havia todo um mundo à volta das soias que eu desconhecia. Sabia o tamanho da minha ignorância. Aqui falei uma vez com o Ângelo

Torres e ele confirmou-me, falou-me também num tal Sabino, uma lenda, viva ou morta, da soia Longo Cantá. Pensei, enquanto pesquiso sobre o assunto vou filmando. A minha ideia era filmar uma personagem, de uma forma clássica, concreta, o seu dia-a-dia, o tal Sabino, enquanto ia recolhendo outros elementos. Também se aprende a filmar. Só que cheguei lá e não encontrei o Sabino, passei os dias de um lado para o outro, fui ter com o filho, nem o filho sabia. Cheguei a pensar, se calhar o homem já morreu; mas continuei a fazer a minha pesquisa e a filmar. Entretanto, ia-me cruzando com outros contadores. Filmei imenso e acabei por encontrar o Sabino. Quando me dizem: Está ali o Sabino, todo coxo peguei na câmara, o plano treme imenso – tinha tido um acidente – caminhei lá para casa, eu que não sou nada de pegar na câmara e avançar à Michael Moore… Nestas pesquisas conheci o Caustrino Alcântara, uma revelação. Não tinha nenhuma referência dele, nem aqui nem com as elites de lá, mas um dia, estava eu à procura de coisas linguísticas, percebo que há um fulano que ensina a língua, um fulano que vem de uma família de soia – o que envolve muita superstição, por exemplo, quando morre alguém de uma família de soia acredita-se que vão morrer muitas pessoas do quintal – chamado Caustrino Âlcantara. Eu disse: Esse é que é o homem, não me lixem! Procurei-o, mas foi difícil: não há telefones, não há moradas, não podes dizer vai à avenida não sei quantos, número tal, 7.º B. Quando o encontrei ele disse-me: Podemos falar mas agora não, que já são dez e meia da manhã, o que era Ivo M. Ferreira tardíssimo. No dia seguinte lá estava eu, às 6 da manhã, com uma grade de cerveja… Nunca na vida me passou pela cabeça filmar-me, mas pensei, o vídeo tem esta coisa bestial de um gajo gastar três euros e ficar com um registo importante para o Centro de Documentação da Cena. Estivemos a beber cerveja e ele falou durante horas e pus isso no filme. Ter-me em campo a falar, a beber cerveja, foi de mau gosto, mas foi também uma homenagem ao Caustrino e às nossas cirroses, quando vierem um dia. Ia fazer como os outros se não o pusesse como protagonista no filme.Tudo o que sei foi o homem que me disse. Salva o tomate Nos nozados, funerais, os contadores de histórias são pessoas que aparecem ou são contratadas, ainda que

não seja necessariamente por dinheiro. Em São Tomé eu acordava de manhãzinha, punha a rádio às cinco e meia, às seis diziam os óbitos do dia e eu ia à procura da família do defunto. Se vinha ou não vinha contador não se sabia. Aquilo não é propriamente os correios indianos, não há um procedimento muito claro, muitas vezes esperei e não apareceu ninguém. Chegava, falava com a família, dizia ao que ia e perguntava se poderia voltar mais tarde, ou então ia mais tarde mesmo. O nozado tem uma componente pagã, uma religiosa, e uma componente social muito forte. Joga-se às cartas para entreter a família, há uma ladanha, uma ladainha, contam-se anedotas, come-se, bebe-se mais do que se come, chora-se. Mas é um evento social claramente, a ideia é fazer uma festa para a família não sofrer tanto. E pode ou não aparecer um contador, homem ou mulher, pago com comida, dinheiro ou com uma grade
Augusto Baptista

de cerveja. É um ofício, apesar de tudo. Nesses meus registos andava completamente à vontade entre as pessoas, não me levantavam nenhum tipo de reservas. Há uma cena no filme, num espaço mínimo – a câmara era pequena, mas o tripé bastante pesado, que eu gosto dos tripés bastante pesados, mas mesmo pesados – pensava que ia filmar durante dois minutos uma ladanha, uma coisa fabulosa, em que dizem coisas do tipo salva o tomate, que é a corruptela do latim de salve tu o mater. O senhor que vai dirigir a ladanha também é pago e as pessoas choram, cheguei com a câmara e alguém disse: Entra! Entro, dois metros por dois, oito pessoas lá dentro, pus-me a filmar pensando que aquilo durava dois minutos. Acho que tenho 40 minutos de plano, eu com a câmara, pingava, de repente o fulano começa a atirar água, sai. Pego na
cenaberta 11

cenaberta

câmara, tremia todo, completamente marreco ali, pego na câmara, sigo o homem que vai molhar os gajos das cartas e por ali fora. Consegui estabelecer a ligação entre os vários espaços, ou seja, o lado mais profano, o lado religioso, social, gente a jogar a bisca 61, banal jogo de cartas. Tudo aquilo me parece um ritual muito performativo. Nos dois filmes apresentei cerca de uma vintena de contadores. Eu acho que, em princípio, daqueles que ouvi falar, posso estar a dizer um grande disparate, podem-me ter escapado dois, três, no máximo. No caso do Príncipe, há uma velha que vive lá numa cabana, andei para aí duas horas e meia na mata, todo lixado para a encontrar e, mal cheguei, antes de dizer ao que ia, já ela gritava: Eu não quero! Eu não quero! Acabei por incluir isso no filme. Mas à partida a amostra parece-me ser bastante significativa. De resto, contar histórias é uma actividade muito específica, nada fácil: implica cantar, interpretar. A soia Longo Cantá, claramente a minha preferida, envolve tramas dramáticas complexas, cantos. Há um contador e um tipo que o ajuda a cantar, mas são capazes de desdobramentos espectaculares. Os destinatários das histórias do nozado são homens, são mulheres, miúdos, tudo. Ainda cheguei a filmar algumas roças desactivadas, em que os trabalhadores ficaram lá a viver com as famílias, e ainda hoje ali se contam histórias. Quem me dera ser onda Este contacto com a realidade cultural e humana de São Tomé e do Príncipe foi muito enriquecedor. Gostei muito das pessoas, para mim a paisagem pode ser muito bonita, mas não dispenso as pessoas. Tenho uns sete anos de Ásia, tinha estado em Angola, tinha estado em Cabo Verde, mas realmente ali era um mundo que eu não conhecia. Fascinava-me essa coisa de uma gajo viver sem nada, com um saquinho de tomate, uma colher de arroz, um peixe seco, uma colher de óleo para um saco de plástico, essa coisa de realmente não se precisar de nada, de as pessoas viverem normalmente sem nada, chegarem ao mercado e terem um dente de alho cortado em quatro. Estava encantado, não com pobreza; estava encantado com esta forma de poder viver. Mas havia aspectos que eu tinha de perceber melhor, como isso de um gajo ir ao fim da tarde para a rua arrastar o chinelo, com o seu chapéu, passear uma carcaça, uma carcaça cortada ao meio, sem nada lá dentro. E acabei por decidir viver mais quase um ano no Príncipe. Em 2001 tinha estado em Angola, quando o meu pai aí encenou, no quadro da Cena Lusófona, o “Quem me dera ser onda”, do Manuel Rui Monteiro. Essa acção da Cena pareceu-me absolutamente inacreditável. Nós chegámos ao Elinga, não havia água, luz, interruptores, tomadas, mas montámos um espectáculo além de tudo lindíssimo. Dei aulas de cinema e fiz com os alunos o “Angola em Cena”, um filme também para a Cena Lusófona sobre esta acção de formação. Este meu contacto pôs-me completamente a vibrar com o país, é incrível como do nada tudo acontece, e foi humanamente uma coisa fantástica. Eu fiquei com muita pena que não se tenham montado os filmes da malta que participou nesta acção de formação. Foram feitas coisas interessantes: filmar Luanda, o Roque Santeiro, coisas assim; muito corajoso o projecto deles. Eu fiz teoria, teoria, rua; teoria, teoria, rua, e depois o exercício final. A câmara era só uma, a da Cena, organizaram-se equipas, elegeram-se quatro projectos. Foi uma coisa muito boa. Eles esperavam fazer um curso de vídeo para aprenderem a mexer na câmara e aquilo foi muito mais do que isso, foi uma forma de pensarem cinema. Um tornou-se realizador, outro artista plástico, que já era na altura, faz coisas com vídeo, outro passou a fazer desenho de luz em teatro…
cenaberta 12

De Lobo Antunes à China Hoje estou a tentar tomar conta dos meus filmes, estou a acompanhar os filmes que fiz e que ainda não acabaram o seu ciclo, estou a trabalhar ao mesmo tempo no percurso por festivais com os filmes que vão sair. Para a semana vou a Roma, para a outra a Paris, depois a Florença. Os festivais, estas presenças, acabam por lembrar um gajo de que realmente é isto que faz na vida. Quando não filmo e me perguntam a profissão fico sempre um bocado a duvidar. Isto é um ofício muito instável, com períodos de grande deserto. E tenho um projecto muito grande, uma adaptação das cartas de guerra do António Lobo Antunes, na altura um jovem médico de 28 anos, brutalmente afastado de tudo e de todos, como toda a gente, um médico que queria ser escritor. É uma história sobre a interrupção abrupta da vida e como as condições extremas fazem com que alguém cresça humana e politicamente. É um projecto muito complexo, produzido pela O Som e a Fúria. Será um filme que vai demorar algum tempo a montar, um projecto caro, com dezenas de actores, argumento escrito por mim com o Edgar Medina. Entretanto estou a montar um filme, resposta a um outro que fiz há pouco tempo, “O Estrangeiro”, realizado de uma forma muito rudimentar. Acho que é muito bom haver grandes projectos e coisas mais imediatas, que nós temos de sobreviver economicamente e também de cabeça. Confronto-me sempre com o problema de sobreviver e de continuar a fazer filmes. Estou a preparar um filme em Macau. Quando saí de lá, aquilo era um espaço vazio, sem identidade. De repente tornou-se um sítio que se está a querer afirmar, a procurar criar uma identidade própria: nunca foi Portugal, não quer ser só a China. Eu sou muito querido pelos meus amigos chineses de lá e tenho relações afectivas muito fortes com aquele território: aí filmei o meu primeiro filme, filmei o meu último filme, tive o meu primeiro filho, passei quatro anos da minha vida. Ao contrário de cá, em Macau as coisas acontecem, com associações de cinema, galerias de artistas plásticos. Isto aqui está chato. Os meus amigos estão todos lixados. Um cenógrafo faz um cenário, toda a gente diz, bestial, repercussão disso, nada; passados anos, volta a fazer uma coisa do caraças, repercussão disso, zero. Um gajo passa a vida a trabalhar e não é reconhecido. Não filmava em Macau desde 2000. Sou português, faço filmes portugueses em Portugal, mas tenho pensado muito nestas últimas semanas que eu tenho afinidades com o meu país, mas também tenho com Macau, com África, o Brasil, com o mundo. Um amigo meu chinês noutro dia disse-me: Nos teus filmes andas sempre à procura de alguma coisa. À procura de mim? Talvez, pois talvez. Talvez por estar muito nos outros, até pela maneira como gosto dos outros. O meu último filme acaba por se centrar nesta questão. Isto de fazer filmes envolve várias coisas: quero fazer filmes porque me diverte, me entretém, me dá prazer, porque não os fazer me custa imenso. Os meus projectos têm sido muito políticos. “Águas Mil” é a história de um homem de 30 anos a viver com a avó e que teve de desmontar a casa porque a avó foi para um lar. Ao desmontar a casa, descobre que o pai, que desaparecera numa viagem que fez com a mãe e com ele a Espanha, integrava uma organização armada no pós 25 de Abril, uma coisa inventada. Pega numa roulotte e vai fazer este percurso. Claro que para mim isto é a história de alguém à procura de si, da sua identidade, da história política do seu país, o que aconteceu aqui nesta festa que foi o 25 de Abril? No filme “Vai com o Vento” (na China, quando alguém parte para longe diz-se, para significar boa viagem, vai com o vento) eu visito uma aldeia chinesa onde vive um indivíduo que vai emigrar, testemunho a despedida, acompanho o percurso dele até Portugal.

Depois tenho uma história que o Cândido Ferreira, o senhor meu pai, escreveu. O meu bisavô estabelecia os filhos, punha-os numa mercearia e depois ficavam com o prédio em cima. É um projecto herdado dessa história e que se passa num qualquer futuro possível, tudo no mesmo prédio, e também num presente qualquer, como se o tempo flutuasse. Entrevista de Augusto Baptista

Filmografia – breve síntese
Ivo M. Ferreira nasceu em Lisboa em 1975, filho do actor e encenador Cândido Ferreira e da actriz Carmen Marques. Actualmente, com a produtora O som e a Fúria, trabalha o filme biográfico sobre a experiência de guerra do escritor António Lobo Antunes em 1961, Angola; prepara um grande projecto em Macau sobre a história do território. Realizou, entre outros: O estrangeiro (2010), Águas mil (2009),Vai com o vento (2009), Fios de fiar (2006); para a Cena Lusófona: À procura de Sabino (2003), Soia di Príncipe (2003), Angola em Cena (2001), Spot para televisão da V Estação Cena Lusófona (2003).

Setembro 2010

cenas breves
CABO VERDE – PORTUGAL Armindo Martins Tavares com novo livro
Armindo Martins Tavares, dramaturgo cabo-verdiano, apresenta “Trilogia de contos para teatro" nos Estados Unidos da América, Cabo Verde e Portugal. Este novo trabalho, “Trilogia de contos para teatro”, escrito em português e em crioulo, reúne três contos - “Perdão Emília”, “Fonseca de Nha Susana” e “Manduco Vivo” - e assume como objectivo destacar a importância do crioulo na afirmação da identidade cultural do arquipélago. A obra foi apresentada nos Estados Unidos em Agosto e em Cabo Verde (Praia e Mindelo) em Setembro e tem o lançamento em Portugal agendado para o Jardim Delfim Guimarães, na Amadora, em Outubro. Armindo Martins Tavares, nascido em Chã de Nispres, Cabo Verde, em 1959, actualmente radicado em Portugal, é autor de dezenas de peças de teatro, entre as quais “As Aventuras de Nhu Lobo”.

Casa dos Budas Ditosos" (Ubaldo Ribeiro); o "espanto", a partir dos contos de Lispector; e a "cobiça", a partir de "São Bernardo", de Graciliano Ramos. O moderador do ciclo é David Oscar Vaz, escritor, professor universitário de literatura brasileira e especialista na obra de Machado de Assis, actualmente a residir em Lisboa. As sessões do ciclo decorrem nas segundas sextas-feiras de cada mês, sempre às 19h00.

sularidade: escrever o Oriente e o Ocidente em Português", programado para Abril de 2011, na cidade inglesa de Bristol. O mundo lusófono é um "conjunto de ilhas separadas por oceanos - sejam marítimos, territoriais ou linguísticos", lê-se no texto de apresentação do Colóquio. Esta realidade é particularmente visível em torno do Oceano Índico, de Moçambique a Macau, passando por Goa, Sri Lanka, Malaca e Timor - uma vasta área e um largo conjunto de comunidades cujas identidades foram influenciadas pelos portugueses. No quadro dos estudos pós-coloniais, o Colóquio pretende olhar para a história, a literatura e a cultura destes antigos territórios portugueses de forma a perceber até que ponto a influência de Portugal marca as suas identidades, procurando coincidências e contrastes com outras zonas do mundo, nomeadamente com os países lusófonos do Atlântico.

pelo Ministério da Cultura do Brasil em 2004, assumindo a cultura como eixo estratégico de desenvolvimento socioeconómico dos Estados-Membros da CPLP.

FRANÇA Revista Plural Pluriel sobre literaturas africanas de expressão portuguesa
As literaturas africanas de língua portuguesa estão em destaque no número 6 da Plural Pluriel - Revue des Cultures de Langue Portugaise (Primavera-Verão 2010), publicada pelo Departamento de Estudos Lusófonos da Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense.

BRASIL Mostra de filmes da CPLP no Rio de Janeiro
A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura do Brasil (MinC) organiza, entre 2 e 7 de Novembro, no Rio de Janeiro, a I Mostra Especial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), destinada a filmes que "promovam e difundam a diversidade cultural e os intercâmbios em língua portuguesa". De acordo com os seus editores, a "Plural Pluriel" previu desde a sua criação consagrar um número às literaturas africanas: "hoje em dia, elas ultrapassam o estado de emergência em que estiveram acantonadas durante muito tempo, para atingir um nível de serena maturidade, em que se misturam os anciãos - Pepetela, Luandino Vieira -, os mestres, lidos, traduzidos e adaptados - Mia Couto e poucos mais - e uma numerosa geração, já impaciente, de autores de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Angola e de Moçambique, vivendo ou não nos seus países". O número, organizado por José Manuel da Costa Esteves, responsável pela cátedra Lindley Cintra do Instituto Camões da Universidade Paris Ouest, é também uma homenagem a Michel Laban, professor, investigador e tradutor, falecido em 2008. A revista inclui textos de Maria Helena Araújo Carreira, Adriano Alcântara, Alberto Carvalho, entre outros. Na secção documentos, quatro escritores africanos - Mia Couto, Ondjaki, Carmén Tindó e Abdulai Sila - homenageiam o seu tradutor e amigo. Como habitualmente, a revista reporta as mais recentes actividades e as iniciativas desenvolvidas pelo CRILUS - Centro de Pesquisas Interdisciplinares sobre o Mundo Lusófono.
cenaberta 13

MOÇAMBIQUE - PORTUGAL Encontros com África II – Moçambique na UTAD
A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, vai acolher nos dias 3 e 4 de Novembro o colóquio Encontros com África II-Moçambique. A iniciativa ocorre no âmbito do projecto "Espaços e Paisagens Culturais na Ficção Africana de Língua Portuguesa", organizado pelo Centro de Estudos em Letras da UTAD. O objectivo dos Encontros é debater manifestações culturais, diversidade cultural, identidade e memória, bem como os diálogos que têm sido promovidos entre a cultura e os horizontes políticos e sociais moçambicanos para responder aos desafios de hoje. A lista dos convidados integra, entre outras personalidades: o Embaixador de Moçambique em Portugal, Miguel Mkaima, os investigadores Ana Mafalda Leite, Nataniel Ngomane e Agnes Levecot, os escritores moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa e Sulemane Cassamo.

PORTUGAL “Estados de alma” na livraria Almedina
A Livraria Almedina do Atrium Saldanha (Lisboa) iniciou a 10 de Agosto um ciclo de conversas em redor da literatura brasileira, "Estados de Alma". Depois de José de Alencar, os autores a visitar até Dezembro são: João Ubaldo Ribeiro, Clarice Lispector e Graciliano Ramos. De acordo com o texto de apresentação, o pretexto deste ciclo é fruir das “melhores obras de ficção produzidas em língua portuguesa do outro lado do Atlântico". O ciclo é dirigido "a todos aqueles que queiram contactar, ou conhecer melhor, o romance feito no Brasil". Foram escolhidas "obras clássicas, consagradas pelo tempo, e as mais significativas produções literárias contemporâneas, unidas por temas transversais, pelo estado de espírito presente em cada texto ficcional, como a alegria, a tristeza ou a ira, a loucura, a gula ou a luxúria, e muitas outras condições humanas". Até ao final do ano, os leitores da Almedina poderão discutir a "luxúria", a partir de "A

INGLATERRA - PORTUGAL A Língua Portuguesa à volta do Índico
Timor-Leste e Moçambique são alguns dos países lusófonos com literatura em destaque no Colóquio Internacional "Pena-In-

A Mostra incidirá sobre filmes de qualquer género e duração, produzidos nos países que integram a CPLP, que "tratem do aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre estas nações, promovendo e difundindo culturas e intercâmbios em língua portuguesa" ou que "revelem um olhar sobre a singularidade de tais países e a inter-relação cultural entre eles". De acordo com o Ministério da Cultura do Brasil, a mostra integra a programação do I Congresso de Língua Portuguesa, a realizar no Rio de Janeiro, de 2 a 7 de Novembro, e faz parte do “Portefólio de Perfis de Projectos Culturais da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)” da Fundação Palmares, que "sistematiza a política cultural deflagrada

cenaberta

PORTUGAL Instituto Camões prepara novos regulamentos para apoio à internacionalização
O Instituto Camões anuncia no seu sítio na Internet estar em preparação um novo modelo de apoio à internacionalização, que deverá entrar em vigor no início de 2011 e cujos pormenores serão divulgados ainda no último trimestre de 2010. Ao contrário dos últimos anos, o Instituto Camões não abriu em 2010 os habituais concursos de apoio à internacionalização, que permitiram várias digressões de artistas portugueses. Tal resulta, segundo os responsáveis, da entrada em vigor da nova lei orgânica do Instituto (Decreto-Lei n.º 165/2009, de 28 de Julho), que veio obrigar a que fossem feitas adaptações ao anterior regulamento.

PORTUGAL - BRASIL “Quando as máquinas param” em co-produção lusófona
O Teatro Extremo (Portugal) e o Grupo Harém de Teatro (Teresina, Piauí, Brasil), estrearam a 18 de Julho, em co-produção, a peça “Quando as máquinas param”, de Plínio Marcos. Para 2011 está prevista a remontagem do espectáculo e a digressão em Portugal.

À semelhança do que aconteceu no primeiro Encontro, o próprio formato da reunião, organizada em mesas-redondas abertas à participação de todos os intervenientes, pretende aproximar os criadores e as estruturas de produção artística que operam no terreno dos decisores políticos dos vários países, na perspectiva de fomentar o inter-conhecimento pessoal e de facilitar a discussão sobre oportunidades e projectos concretos de colaboração, mais do que a produção de ambiciosos documentos programáticos ou cartas de intenção. Os resultados obtidos na primeira edição do Encontro (Coimbra, Dezembro de 2009), cujas conclusões foram publicadas no cenaberta n.º 9, apontaram para a necessidade de uma mais ampla divulgação dos vários acordos de cooperação actualmente em vigor entre os países lusófonos e, sobretudo, de que as medidas aí enunciadas sejam efectiva e definitivamente colocadas em prática. Foi igualmente assinalada a insuficiência da acção cultural da CPLP enquanto comunidade multinacional e reconhecido o interesse em que este tipo de encontros se realizem regularmente, de preferência de forma rotativa pelos vários países envolvidos. Um ano depois, numa altura em que algumas das instituições têm novos responsáveis e em que se anunciam para o futuro próximo significativos projectos de colaboração, multilaterais e bilaterais (como o “Ano do Brasil em Portugal” e o “Ano de Portugal no Brasil”, agendados para 2012), os organizadores crêem ser oportuno fazer um novo ponto da situação. Para o efeito, estão convidados os participantes do I Encontro e outros agentes culturais, em particular, neste caso, do país anfitrião. Os trabalhos estão organizados em quatro mesas-redondas: "Festivais de Teatro e circulação de espectáculos: o encontro como base para o conhecimento", "Formação cruzada: enriquecer com a diversidade", "Co-produções: juntar forças e diferenças" e "Comunidade artística e poder político: fórmulas para o diálogo". O FESTLUSO nasceu em 2008, por iniciativa do Grupo Harém de Teatro, com o objectivo de "levar a Teresina a discussão sobre a preservação, a divulgação, as trocas, no espaço da lusofonia”. De acordo com o seu director, Francisco Pellé, visava-se a criação de um festival “em que pudéssemos fazer a aproximação de pessoas: pesquisadores, directores, estudiosos do teatro de língua portuguesa”. Nas duas primeiras edições do Festival participaram já grupos de Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Portugal. A edição deste ano, que decorre entre 15 e 21 de Novembro, acolherá participantes de cinco países lusófonos e da Galiza. O programa completo pode ser consultado em www.festluso.blogspot.com.

DR

BRASIL IV edição do Concurso Literatura para Todos
Promovido pelo Ministério da Educação do Brasil, a IV edição do Concurso Literatura para Todos aceita propostas de autores brasileiros e de países africanos de expressão portuguesa. As inscrições decorrem até 13 de Outubro. Este ano, o Concurso distinguirá nove obras, nos géneros prosa (conto, novela ou crónica), poesia, tradição oral (em prosa ou em verso), biografia e dramaturgia. Os concorrentes devem apresentar livros inéditos, "dirigidos a leitores jovens, adultos e idosos em processo de alfabetização e matriculados em turmas de educação de jovens e adultos nas redes públicas de educação básica". Os textos "devem ter narrativa atraente, favorecer o envolvimento afectivo e apresentar uma leitura do mundo". Os objectivos são reafirmar o valor da leitura e da palavra escrita e contribuir para a formação de uma comunidade leitora, capaz de compreender a função de ser e estar no mundo, além dos modos de produção social e cultural. Pretende-se, ainda, "estreitar laços culturais com os países africanos de língua portuguesa". No Brasil, as obras devem ser enviadas para o Ministério da Educação, em Brasília. Os autores africanos devem encaminhar as obras para as embaixadas do Brasil nos seus países. As regras do concurso e outras informações podem ser consultadas no sítio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), do Ministério da Educação Brasileiro.
cenaberta 14

“Quando as máquinas param” retrata o quotidiano dum casal com problemas financeiros. Ainda que escrito em 1967, o texto mantém intacta a sua actualidade, nomeadamente na abordagem que faz a temas como o desemprego ou a condição feminina. Depois da estreia em Teresina e da passagem pelo Festival Mindelact, Cabo Verde, o espectáculo voltará a ser apresentado no Brasil no início do próximo ano, viajando posteriormente para Portugal. Aqui cumprirá uma temporada na sala do Teatro Extremo (Almada) e realizará uma digressão por várias localidades. Com encenação de Fernando Jorge Lopes, director artístico do Teatro Extremo, e interpretação de dois actores da companhia brasileira, Bid Lima e Francisco Pellé, o espectáculo foi contemplado com o Prémio de Teatro Myriam Muniz atribuído pela Funarte - Fundação Nacional de Artes do Brasil. A colaboração entre as duas companhias remonta a 1999/2000, quando co-produziram “Dois perdidos numa noite suja”, peça de Plínio Marcos, igualmente encenada por Fernando Jorge Lopes.

O Festival pretende apresentar uma programação diversificada, que inclua algum do melhor teatro que hoje se faz, “além do Atlântico e perto de nós”. Na sua segunda edição, realizada em 2009, assumiu a aposta nos intercâmbios artísticos dentro do espaço ibero-americano e no universo lusófono, acolhendo espectáculos vindos de Portugal, Chile, Equador, Noruega e da Argentina. Na escolha dos espectáculos, uma preocupação assumida com a inovação: “obras arriscadas, multi-culturais, radicais, lúdicas, poéticas e mesmo delirantes. Nenhuma banal, nenhuma que nos deixe indiferentes!”. Porque, acrescenta a directora Ânxeles Cuña Bóveda, “o Teatro é muito mais do que um evento. É uma necessidade desde as origens e sobrevive porque se reinventa”. O FITO reafirmou a sua aposta na lusofonia, procurando reforçar o peso da participação de grupos de língua portuguesa em 2010, nesta terceira edição do Festival. Contudo, a vinda de espectáculos brasileiros acabou por não se confirmar, devido a cortes orçamentais de última hora, que comprometeram a programação do festival. Mais informações em www.fitoourense. com.

CPLP II Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio no FESTLUSO (Teresina, Piauí)
Um ano depois do Encontro realizado em Coimbra, o grupo Harém Teatro organiza em Teresina, em parceria com a Cena Lusófona, a segunda edição do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. A iniciativa decorre entre 15 e 17 de Novembro e integra a programação do FESTLUSO - Festival de Teatro Lusófono e conta com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, através da Funarte. O Encontro pretende estimular o diálogo entre agentes culturais e instituições oficiais quanto à concepção, à planificação e à concretização das políticas de intercâmbio cultural no seio da CPLP.

GALIZA FITO 2010
De 22 a 31 de Outubro realiza-se na Galiza o FITO - Festival Internacional de Teatro de Ourense. Com periodicidade anual, esta é a 3.ª edição do festival, organizado pelo Sarabela Teatro, companhia residente no Teatro Principal de Ourense.

Setembro 2010

Escritos sobre teatro de Kwame Kondé
“Escritos sobre Teatro” reúne mais de três dezenas de textos de Kwame Kondé – “nome de guerra e pseudónimo artístico” de Francisco Fragoso – produzidos entre 1976 e 2005. Médico cirurgião há vários anos radicado em Portugal, Fragoso é um nome incontornável do teatro em Cabo Verde. Fundador e director artístico do grupo “Korda Kaoberdi” e, mais recentemente, já em Lisboa, do “Tchon di Kaoberdi”, é igualmente autor de textos dramáticos e de estudos e ensaios sobre a história do teatro no arquipélago. O livro agora publicado incide particularmente no período de existência do “Korda Kaoberdi” (1975-1982), reunindo preciosa informação sobre a actividade do grupo: textos que integravam os boletins de cada espectáculo ou os cadernos teatrais editados, fotografias (infelizmente não legendadas), peças jornalísticas, como a entrevista dada pelo autor e por outros elementos do grupo ao “Jornal de Angola”, em 1978. Inclui ainda dois dos textos encenados pelo grupo – “Anansegoro (prestarás juramento)” (1978) e “Morte-vida-poeta” (1982) – e “Kantigas Tabanka-Batuko pa Teatru'l”, sobre as quais seria criado o espectáculo “Rai di Tabanka” (1980). Na entrevista ao jornal angolano, Kwame Kondé enquadra a actuação do grupo no âmbito dos esforços governamentais: “é significativo que o camarada ministro da Educação e Cultura tenha muita estima pelo grupo. Tem-nos dado muito apoio e ainda recentemente, em conversa com um de nós, disse que o nosso trabalho era tão positivo que vem dar força a todo o esforço de educação e de esclarecimento que se faz. Então ele dizia: 'nos sítios onde as pessoas ainda não atingiram uma certa compreensão a vossa presença é útil'.” Num artigo de 1978, o autor justifica a importância da utilização do “idioma caboverdiano”: “a língua nacional é indiscutivelmente a substância e a alma dum povo, por isso, arma eficaz neste engajamento na senda da edificação dum novo caminho, que se quer e se deseja sob o signo da liberdade e da independência”. Além disso, o crioulo tinha um maior “poder de impacto na grande massa dos espectadores, dada a sua expressividade, poder de persuasão e força comunicativa”, o que fazia que o teatro cumprisse “o papel que lhe compete na luta pela transformação das comunidades e das mentalidades”. Quando reflecte sobre a história do teatro no seu país, em textos de 77 e 78, mas também num ensaio de 2000, Kwame Kondé não poupa críticas ao colonizador: “Em Cabo Verde, teatro foi coisa que nunca teve oportunidade de trilhar um caminho digno, conducente à edificação de uma expressão artística bem definida e estruturada.(...) Tratando-se de um país vivendo sob domínio colonial, a arte cénica nunca poderia ser permitida ou, pior ainda, fomentada” – o teatro, especifica num outro texto, “luta para a liberdade contra as civilizações ameaçadoras, as tradições mortas e os desequilíbrios perigosos”. Havia pois que contrariá-lo, “reduzindo-o ao nada”, o que aliás foi feito “com grande e espantosa eficácia”. Irónico, acrescenta: “com a agravante de havermos sido colonizados pelo país que bem sabemos – Portugal – onde a arte em apreço – o teatro – passou por vicissitudes das mais incríveis como bem nos dá conta a sua história”. O autor assumiu sempre a função pedagógica e comunitária do teatro: em 1978, referindo-se ao trabalho colectivo do Korda Kaoberdi, fala mesmo numa aliança “povo-grupo cénico”, uma “simbiose colectiva de recriação artística”, conducente “à eficácia social e estética da cultura dum povo”. Apesar disso, Fragoso procurou sempre não descurar o contexto em que este novo teatro caboverdiano poderia inserir-se, quer em África, quer no resto do mundo – entre os espectáculos apresentados pelo grupo há textos de Augusto Boal e peças do “Teatro Campesino” dos Estados Unidos. “Toda a arte que se preza como tal, sendo nacional na sua constituição, não deixa, contudo, de ser ecuménica e universal nos seus projectos e ambições”. Num dos textos mais recentes (2000), o autor reflecte sobre “a avidez e o gosto” pelo Teatro dos caboverdianos, algo que encontramos referido por outros autores e noutros contextos. Mas chama a atenção para o facto de esta predisposição precisar, na sua óptica, de ser “canalizada” e “orientada”, para que possa assumir-se “de forma consequente”. Especifica: “para existir teatro é necessário existir palcos onde ele se faz e literatura dramática convincente. Enfim, um conjunto de meios e recursos indispensáveis para a sua real efectivação”. Dez anos depois, a realidade do teatro em Cabo Verde é hoje necessariamente diferente, como demonstra a recente edição da revista setepalcos que lhe é dedicada. Ainda assim, diz quem está no terreno, a falta de espaços cénicos e a situação da dramaturgia nacional permanecem como os principais problemas. O que sugere que o caminho iniciado em 1975 está ainda longe do seu termo. Pedro Rodrigues

|\||||\
na estante
Últimas aquisições do Centro de Documentação e Informação da Cena Lusófona
5.º Festival de Cinema latino-americano de São Paulo 2010 Org. Associação do Audiovisual. São Paulo: Memorial, 2010. 20 Poemas de desesperança e uma canção de amor Carlos de Moraes. Piracicaba: Ed. do autor, 2010. A Piragua Cândido Pazó. Ames: Ed. Laiovento / AGADIC / Centro Dramático Galego, 2009. Almanaque de História e Cultura – Dimensão Alluminatus Anthemo Roberto Feliciano. Botucatu: Ed. Anthemus, 2010. Antologia poética de autores botucatuenses Associação de poetas e escritores de Botucatu / Centro Cultural de Botucatu. Botucatu: APEB, 1999-2002 (Vol. III, V e VI). Escritos sobre Teatro Kwame Kondé. [s.l.]: Artiletra, 2010.

São Carlos de Todos os Povos: 150 anos Coord. e Fot. Emidio Luisi. São Carlos: Prefeitura Municipal de São Carlos / Fundação PróMemória de São Carlos, 2008. Trinta anos de Cooperativa Paulista de Teatro: uma história de tantos (ou mais quantos, sempre juntos) trabalhadores fazedores de teatro Alexandre Mate. São Paulo: Cooperativa Paulista de Teatro, 2009. Uma tribu nômade: a ação do Ói Nóis Aqui Traveiz como espaço de resistência Beatriz de Araújo Britto. Porto Alegre: Ói Nóis na memória, 2009. Vinício Aloise: uma história desenhada Benedicto Vinício Aloise. Botucatu: SABEP, 2007.

Publicações periódicas:
Artefilosofia Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, n.º 8 (Abril 2010). Artez - Revista de las Artes Escénicas Dir. Carlos Gil Zamora, n.º 159 (Julho 2010). ASSAIG de Teatre-Revista de l’Associació d’investigació i experimentació teatral Dir. Ricard Salvat, n.º 75 (Janeiro 2010). Cavalo Louco Revista de teatro da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, Ano 5, n.º 8 (Julho 2010). Cuadernos Escénicos de San Francisco Dir. Carlos Gil Zamora, n.º 1 (Dezembro 2008). La Ratonera – Revista Asturiana de Teatro Dir. Roberto Corte e Pedro Lanza, n.º 30 (Setembro de 2010). Ouvir ou Ver Revista do Dep. de Música e Artes Cênicas da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de Uberlândia, n.º 5 (2009). Repertório - Teatro e Dança PPGAC: Programa de Pós-Graduação em Artes Cénicas da Universidade Federal da Bahia, Ano 12, n.º 13 (2009). RGT - Revista Galega de Teatro Dir. Antón Lamapereira, n.º 62 (Primavera 2010). Sinais de Cena Propr. APCT - Associação Portuguesa de Críticos de Teatro e CET – Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa, dir. Maria Helena Serôdio, n.º 13 (Junho 2010). TDR - The Drama Review: the journal of performance studies Ed. Richard Schechner, Vol. 54, n.º 2 (Summer 2010). Zirkolika - Revista de las Artes Circenses Dir. Vicente Llorca, n.º 24 (Primavera 2010).

Film Noir André Murraças. Lisboa: Teatro Nacional D. Maria II / Bicho do Mato, 2009. “Fotografia” de um núcleo de investigação teatral com enquadramento universitário: Lume Tiago Porteiro. Amadora: Escola Superior de Teatro e Cinema / CHAIA, 2010. Língua e Cultura na política externa portuguesa: o caso dos Estados Unidos da América Rui Chancerelle de Machete e António Luís Vicente. Lisboa: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2010. Mares e Terras do Morrazo Coord. Salvador Castro Otero. Federación de Comerciantes e Industriais do Morrazo, D.L. 2009. O Bichero Luís Davila. [s.l.]: Federación de Comerciantes e Industriais do Morrazo, [s.d.]. O Ténis e a Moda Paulo Morais-Alexandre. Amadora: Escola Superior de Teatro e Cinema, 2010. Pele Alessio Di Pascucci. Botucatu: SABEP, 2007. Portugal, os Estados Unidos e a África Austral Coord. Manuela Franco. Lisboa: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento / Instituto Português das Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, 2006. Prosa de cantador: a história e as histórias dos cururueiros paulistas Sérgio Santa Rosa. Botucatu: FEPAF, 2007. Regimes e Império: as relações Luso-Americanas no Século XX Coord. Luís Nuno Rodrigues. Lisboa: Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2006.

Audiovisual:
Arte e Pedra no Morrazo [s.l.]: Federación de Comerciantes e Industriais do Morrazo, [s.d.] [DVD]. Cuesta Nova Carlos Franco Drummond. Manaus: Sonopress Rimo Indústria e Comércio Fonográfico, 2008 [CD Rom]. Cururu: Tradição e poesia caipira Jonata e Horácio Neto. São Paulo: PROAC / Governo de São Paulo, [s.d.] [CD Rom]. No Princípio: documentário e espectáculo de dança Org. Soraia Maria Silva. Brasília: Universidade de Brasília / CDPDan, 2010 [DVD]. O Morrazo é arte Manuel Aldao Portas et alli. Federación de Comerciantes e Industriais do Morrazo / Diário de Pontevedra / Caixa Nova, [s.d.] [DVD].
cenaberta 15

cenaberta

Setembro 2010

Orlando Worm (1938-2010)

Notícia brutal: a morte de Orlando Worm, 4 de Agosto. No roteiro biográfico do Orlando há uma dimensão de proximidade, uma estreita relação com a Cena Lusófona, da qual foi dirigente e fundador. Connosco calcorreou espaços cénicos, inventou soluções técnicas e promoveu emblemáticas acções de formação na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe. Transmitiu saber à juventude, ensinou nas mais difíceis e austeras condições. É referência inapagável nesta aventura de, juntos, ousarmos acender palcos na lusofonia. Recordamos Orlando Worm pela pena do jornalista Fernando Madaíl, texto originalmente publicado no Diário de Notícias, 1 de Maio de 2010.

O poeta que desenha a luz na dança e no teatro
Pioneiro no desenho de luzes, em meio século de carreira fez espectáculos com os principais criadores portugueses e, também, com Peter Brook e Louis Falco. Uma linha e um fósforo chegam para se fazer um cenário. Eis uma das frases que, mal percebidas, espantavam (e encantavam) os discípulos de Orlando Worm, quando ele lhes estava a transmitir a sua sabedoria na criação do desenho de luzes para dança, teatro ou ópera – cada arte com suas especificidades. O pioneiro e mestre da iluminação cénica – essa área que ele fez saltar da ficha técnica para a ficha artística dos espectáculos – nasceu em Lisboa, a 21 de Setembro de 1938, e recebeu o apelido familiar de origem dinamarquesa – que, entre nós, deve remontar aos tempos do reinado de D. Maria II. Apesar da tradição musical que se vivia em sua casa, onde morava também a avó pianista, a primeira vez que Orlando Worm percebeu o fascínio pelo palco foi quando aceitou a proposta de um colega da Escola Afonso Domingues que lhe perguntou: "Queres ir à ópera de borla?" Aceitou de imediato o desafio e foram ambos, então rapazes de 16 anos, para uma fila do Coliseu de Lisboa, onde contratavam figurantes para entrarem numa montagem de Aida. E foi como um dos soldados do Acto II da ópera de Verdi que primeiro pisou um palco e visitou os bastidores de um teatro. Dois anos depois, em 1956, já estava a trabalhar no Coliseu, tornando-se técnico de cena e iluminando espectáculos de circo, combates de boxe, operetas várias. Quando o Grupo Experimental de Ópera de Câmara precisou de um iluminador para a sua tournée, chamou aquele jovem, que também cantava música erudita, pois sempre foi um apaixonado por Bach e por Mozart. E o primeiro iluminador português jamais abandonaria essa sua carreira paralela de barítono, integrando o Coro Gulbenkian, o Cantus Firmus, o Grupo de Música Antiga de Lisboa, os Segréis de Lisboa, o Convivum Musicum e o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (com o qual participou no Festival de Arte Contemporânea de Royan, em 1971, desenvolvendo depois ali uma colaboração cúmplice com a compositora Constança Capdeville). Em 1963, foi convidado para a equipa do Grupo Experimental de Bailado da Fundação Gulbenkian (mais tarde, Ballet Gulbenkian) e, primeiro como electricista de cena chefe e, posteriormente, como técnico de cena chefe, começava a desenhar-se a carreira do poeta das luzes dos palcos portugueses. Aliando uma enorme curiosidade sobre a evolução técnica – pois começou quando se iluminava apenas com g a m b i a rr a s (fiadas de lâmpadas de cor, que se acendiam separadamente e só permitiam variar os tons do cenário) e ainda se mantém no tempo da maleável tecnologia LED – ao requinte na sensibilidade artística, soube sempre criar ambientes e atmosferas peculiares para cada narrativa teatral, para cada cadência de bailado, recortando os corpos e sublinhando os gestos, destacando diferentes pontos de atracção, reforçando tensões entre os intervenientes através de maior brilho ou mais penumbra, permitindo as mudanças de cena apenas com jogos de tonalidades ou ilusões conseguidas só com a sábia colocação de um foco. Durante o seu tempo no Ballet Gulbenkian, enquanto os projectores iam diminuindo de tamanho e aumentando as suas potencialidades, adquiriu os primeiros órgãos e mesas de luz, os novos computadores de iluminação. E, em simultâneo, soube sempre constituir e dirigir equipas, delegar trabalho e competências, formar novas gerações de luminotécnicos ("gosto imenso de transmitir o pouco que sei"). Após a Gulbenkian, foi director técnico do São Carlos (de 1989 a 1992), do Centro Cultural de Belém (de 1993 a 1996, com destaque para o facto de ter ajudado a apetrechar a sala de teatro e de lá estar quando aquele foi o palco central de Lisboa Capital Europeia da Cultura - 1994), do Teatro Camões (que também ajudou a equipar e, no biénio de 1997 a 1998, houve ali o Festival dos Cem Dias e a Expo'98) e da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (desde 1999 até agora). Bastavam as plantas de iluminação que criou nestas casas (e, também, o código gestual para a montagem de luzes que concebeu para comunicar, do palco para a mesa, com as suas equipas) para se ter tornado um nome incontornável nas artes de palco em Portugal. Mas a criatividade deste artista sorridente alastrou a

muitas outras colaborações: com companhias do teatro independente como Os Cómicos ou o TEP, a Cornucópia (por exemplo nas peças Pequenos Burgueses, encenada por Jorge Silva Melo, e Ah Q, dirigida por Luís Miguel Cintra) ou A Escola da Noite, com encenadores como Peter Brook ou Giorgio Barberio Corsetti, Carlos Avilez ou Mário Feliciano, Richard Cottrell ou Tito Celestino da Costa, com coreógrafos como Louis Falco (Reunion in Portugal e Escargot), Elisa Worm ou Clara Andermatt, muitos nomes consagrados no bailado, vários pioneiros da nova dança portuguesa. Nalguns casos, inscreveu o nome na ficha de espectáculos que marcaram a carreira de vultos como os encenadores Ricardo Pais (entre outros, "Ninguém - Frei Luís de Sousa", "Fausto - Fernando - Fragmentos" e "Mandrágora") ou Fernanda Lapa (desde "As Bacantes" a "Agosto em Osage"), os coreógrafos Olga Roriz (por exemplo em "Encontros", "O Livro dos Seres Imaginários", "Três Canções de Nina Hagen", "Espaço Vazio", "Treze Gestos de Um Corpo") ou Vasco Wallenkamp (só à laia de exemplo, em "Exultate Jubilate", "Amaramália", "Sete Sonhos de Pássaros", "Eurídice" e "Instante"). Sempre a desenhar os espectáculos na cabeça, antes de inventar as plantas e apontar os projectores, ainda se destacou a formar equipas, a participar em comissões técnicas de reconstrução de teatros – e até a iluminar espaços públicos, edifícios inteiros (a Torre de Belém, o Palácio da Vila de Sintra). Mas, afinal, pode fazer-se um cenário só com uma linha e um fósforo? Não! Mas, se se atirar fósforo para uma linha de água, provoca-se uma reacção química que origina um efeito luminoso espectacular. Sabedoria de mestre – e de poeta! Fernando Madaíl

DR

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful