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Cena Lusófona

n.º 11 Setembro 2010 ISSN 1645-9873

Rua António José de Almeida n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal telef. (+351) 239 836 679 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt distribuição gratuita

Ruy Duarte de Carvalho


como se diz perda?
Miguel Seabra e Natália Luíza
viagens meridionais

Ivo M. Ferreira
como se o tempo flutuasse
Colecção Cena Lusófona
As Virgens Loucas
de ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES
editorial
Cabo Verde
Teatro do Imaginário Angolar Nenhum epitáfio faria justiça ao Orlando Worm e ao Ruy
de FERNANDO DE MACEDO
São Tomé e Príncipe Duarte de Carvalho. Por isso os lembramos neste número em
Supernova vida plena, pela mão de duas pessoas que os conheceram bem
de ABEL NEVES
Portugal
e que, enquanto amigos, puderam beneficiar das suas imensas
qualidades, pessoais e profissionais.

As Mortes de Lucas Mateus
de LEITE DE VASCONCELOS Dizer que a Cena Lusófona (ou o teatro, ou a cultura de língua
Moçambique
Teatro I e II portuguesa) fica mais pobre será um lugar demasiado comum.
obra dramatúrgica Nos seus largos campos de actuação, e cada um à sua maneira,
de JOSÉ MENA ABRANTES
(dois volumes) tanto o Orlando como o Ruy transcenderam sempre os pro-
Angola jectos a que se associavam. Cidadãos do mundo, mudadores do
Mar me quer
de MIA COUTO e NATÁLIA LUIZA
mundo, é a este todo que já estão a fazer falta. Mas é também
Portugal / Moçambique este mundo todo que continuará a recordá-los e a melhorar
Teatro com o seu legado.
obra completa
de NAUM ALVES DE SOUZA Em 2005, com a Universidade de Coimbra, a Cena Lusófona
Brasil
homenageou Ruy Duarte de Carvalho. Estávamos longe de
Revista setepalcos imaginar que nos deixaria tão cedo, mas pareceu-nos de óbvia
(esgotados números 0, 1 e 2) justiça destacar a sua originalidade e a dimensão e a variedade
N.º 3 – Setepalcos especial sobre TEATRO BRASILEIRO
N.º 4 – Setepalcos especial sobre TEATRO GALEGO da sua obra, quer quanto aos temas, quer quantos aos estilos
N.º 5 – Setepalcos especial sobre RUY DUARTE DE CARVALHO
N.º 6 – Setepalcos especial sobre TEATRO EM CABO VERDE
e aos instrumentos que utilizou. Poesia, cinema, antropologia,
pintura, ensaio, ficção – tudo isto imbricado num género difícil
Floripes Negra de definir, que marca a “inquieta singularidade experimental” da
Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo
de AUGUSTO BAPTISTA vida e da obra do Ruy Duarte, como na altura a qualificámos.
Álbum Fotográfico / Reportagem / Ensaio
Em nada essa homenagem nos alivia a consciência ou atenua
a sensação de perda – havia ainda tanto para fazer! Mas con-
AVEIRO LISBOA BRASILIA
Livraria da Universidade Livraria do Teatro Nacional Livraria Cultura sola-nos o facto de ter podido contribuir, em especial com o
de Aveiro D. Maria II Casapark Shopping Center
Campus Universitário Praça D. Pedro V SGCV Sul, Lote 22 4 – A número da setepalcos que lhe é dedicado, para a difusão do seu
3810-193 Aveiro
(+351) 234 370 200
1100-201 Lisboa
(+351) 213 250 860
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trabalho.
BRAGA
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O Orlando era um de nós. Fundador da Cena Lusófona, acom-
Theatro Circo 1000-047 Lisboa panhou-nos na concepção e na concretização de vários projectos,
Avenida da Liberdade, 697 (+351) 218 428 350 PORTO ALEGRE
4710-251 Braga Livraria Ler Devagar Livraria Cultura com a raríssima combinação de artista, mestre e cavalheiro que o
(+351) 253 203 800 Rua Rodrigues Faria, 103, Bourbon Shopping Country
100ª Página Edifício G03, LX Factory Avenida Túlio de Rose, 80, Loja caracterizava e distinguia. Se ele morreu (como parece que sim,
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que a gente ainda não se habituou à ideia), morreu também uma
(+351) 253 267 647 Livraria Escolar Editora
Edifício Caleidoscópio
Tel.: (+55) 51 3028 4033 parte do projecto, que não haverá como substituir. Ainda agora,
COIMBRA Jardim do Campo Grande RECIFE quando pensamos nas acções que queremos desenvolver, é dele
Teatro Académico de Gil 1700-089 Lisboa Livraria Cultura
Vicente (+351) 217 575 055 Paço Alfândega o telefone para o qual queremos ligar, é dele que precisamos
Praça da República Livraria Portugal Rua Madre de Deus, s/n
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Teatro da Cerca de
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Guiné-Bissau, em São Tomé e Príncipe, é ele o formador ideal
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para continuar o trabalho iniciado com dezenas de jovens nes-
(+351) 239 718 238 Teatro Nacional São João Conjunto Nacional tes países, que inevitavelmente se tornavam seus amigos.
Praça Batalha Avenida Paulista, 2073
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Teatro Garcia de Resende (+351)223 401 900 Tel.: (+55) 11 3170 4033
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ria dos que partiram. Falamos neste cenaberta desse caminho
7001-901 Évora VISEU que temos pela frente: os documentários do Ivo M. Ferreira
(+351) 266 702 221 Teatro Viriato ESPANHA
Largo Mouzinho de Albuquerque VIGO que editamos neste Outono, a conversa com Miguel Seabra e
GUARDA Apartado 1057 Libreria Andel
Casa Véritas Editora, Lda 3511-901 Viseu Rua Pintor Lugris, 10 Natália Luíza sobre o tanto que partilhamos, a crescente im-
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portância que o Brasil vem atribuindo ao intercâmbio lusófono,
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demonstrado pelos festivais de São Paulo e do Rio de Janeiro.
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MG A um dos primeiros filmes que realizou, deu Ruy Duarte um
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sugestivo título: “Faz lá coragem, camarada”.
Faremos sim, Orlando e Ruy.

edições.cena
A Cena Lusófona é uma estrutura financiada por:
cenaberta ficha técnica
Director António Augusto Barros | Coordenação e Fotografia Augusto Baptista | Redacção Augusto Bap-
tista, Patrícia Almeida, Pedro Rodrigues, Sandra Nogueira | Colaboram neste número Fernando Madaíl,
Nuno Porto | Concepção gráfica Ana Rosa Assunção | ISSN 1645-9873 | N.º 11 distribuição gratuita |
Tiragem 2500 exemplares | Impressão Tipografia Ediliber | Propriedade Cena Lusófona, Associação Por-
tuguesa para o Intercâmbio Teatral, Rua António José de Almeida, n.º 2, 3000 - 040 COIMBRA,
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IMAGEM DA CAPA: aguarela de Ruy Duarte de Carvalho.

cenaberta 2
cenaberta Setembro 2010

Circuito de Teatro Português de São Paulo

Criar lusofonia pela


mão do teatro
cenaberta reportou a 5.ª edição do Circuito de Teatro Português de São Paulo, festival
com palco na grande metrópole paulista entre 16 e 24 de Julho de 2010, e testemunhou
como, na senda da cultura e do teatro, se implanta e cresce a lusofonia no Brasil.
A 5.ª edição do Circuito de Teatro Português de Até ao fim do mundo” e “Auto da Índia”) e cerca simultâneo por cidades do ABC paulista [“cintura
São Paulo abraçou 12 cidades do Estado paulista: de 700 espectadores. Um mini-festival dentro do industrial” de São Paulo, originalmente composta
Andradina, Barretos, Botucatu, Guararapes, Li- Festival, simbolicamente chamado “Festival de pelas cidades de Santo André, São Bernardo do
Teatro Português”, com uma Campo e São Caetano do Sul, mas que hoje in-
Augusto Baptista

oficina de interpretação, dirigi- clui também Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio
da por Rui Madeira, director da Grande da Serra] e interior, realizando espectácu-
Companhia de Teatro de Bra- los, debates e workshops, gratuitamente abertos ao
ga. Os resultados superaram as público”.
melhores expectativas, na Satisfeita com os resultados, Creusa Borges, di-
óptica de Almir Martins, rectora do Dragão7 e do Circuito, destaca outra
director do Teatro Municipal, dimensão do êxito, fruto da continuidade do tra-
recentemente requalificado. balho desenvolvido ao longo dos anos em suces-
Almir Martins confiou ao cena- sivas edições: o surgimento de outras iniciativas de
berta a convicção de que esta parceria e intercâmbio, na sequência dos contac-
edição e os contactos propor- tos estabelecidos ao longo do festival. Exemplifica:
cionados lançaram raízes para o convite à actriz Lilian Lima para fazer uma tem-
o futuro, fundaram o sonho de porada em Lisboa com a Companhia Constantino
concretizar em 2012 um Festival Nery em 2011 (na sequência da sua participação
Internacional de Teatro em São nas apresentações de “Amor Solúvel” em São
Carlos, centrado nos países de
Paulo); a participação da companhia paulista “Os
língua portuguesa. (ver “Brasil
Pregadores do Riso” no Festival Cómico da Maia
Creusa Borges e Portugal precisam estar jun-
(organizado pelo Art'Imagem); uma co-produção
meira, Mauá, Mogi Mirim, Paraibuna, Santo André, tos”, pág. 4)
entre o Art'Imagem e o Dragão7, que “está sendo
São Caetano do Sul, São Carlos e, enfim, a própria
avaliada”.
capital, São Paulo. Da imensa mancha geográfica Circuito: balanço e projectos
O Dragão7, companhia anfitriã do Circuito de O Circuito mereceu apoios só de instituições
em que se apresentou o festival e das muitas com-
panhias aí presentes, cenaberta pôde testemunhar Teatro Português de São Paulo, convidou este ano brasileiras: “Conseguimos um patrocínio da Caixa
a receptividade ao teatro português nas cidades quatro companhias portuguesas: A Escola da Noite Económica Federal, completado pela Secretaria de
de São Paulo, Botucatu e São Carlos. (“Auto da Índia”, de Gil Vicente), Art'Imagem (“O Estado da Cultura de São Paulo e com a parce-
Em Botucatu, Daniel dos Santos, membro da equi- Escurial”, de Michel de Ghelderode”) e Teatro ria da cidade de São Carlos”, diz Creusa Borges,
pa da Prefeitura que acolheu “Auto da Índia”, agra- Constantino Nery (“Amor Solúvel”, de Carlos lamentando que o Instituto Camões não tenha
decia “a prenda” do Circuito: “temos muito poucas Tê). Também convidada, a Companhia de Teatro sequer apoiado as viagens dos grupos portugue-
oportunidades de receber grupos de Portugal”. As de Braga acabou por não poder apresentar o es- ses, ao contrário das expectativas que haviam sido
mais de 200 pessoas que, após o espectáculo, se pectáculo “Concerto à la Carte”, face aos custos criadas no ano anterior: “quando liguei em 2010
mantiveram na sala numa animada conversa com com o transporte do cenário, mas assegurou um para ver qual seria o apoio, me disseram que não
os actores d'A Escola da Noite confirmariam esse workshop, a cargo do seu director artístico, Rui podiam apoiar em nada pois não havia verba para
interesse pelo teatro português. Osni Ribeiro, Madeira. De Angola, pela primeira vez no Circuito, este ano.”
Secretário de Cultura, acrescentaria ainda a von- participou o Elinga Teatro, com “Adriana Mater”, Creusa quer que o Circuito cresça ainda mais no
tade de estreitar os laços culturais com Portugal, a peça dirigida por José Mena Abrantes. Os orga- futuro e, apesar das dificuldades, quer acreditar no
propósito do “cururu”. Botucatu, cidade com cer- nizadores apresentaram “Inês de Castro... Até ao aprofundamento da cooperação Portugal-Brasil,
ca de 130 mil habitantes a 230 quilómetros de São fim do mundo”, espectáculo que dois meses antes
no quadro das iniciativas projectadas para 2012,
Paulo, orgulha-se de ser um dos principais centros viajou por Portugal.
“Ano de Portugal no Brasil” e “Ano do Brasil em
de recolha e difusão desta tradição poética e musi- Cumprindo a tradição, cada companhia repre-
Portugal”: “estou tentando saber como participar,
cal caipira, com evidentes parentescos, por exem- sentou em várias cidades do Estado. Salas cheias
como as escolhas se darão, os critérios, mas nada
plo, com a desgarrada minhota. foram uma constante, média de 370 espectadores
está sendo divulgado.”
Por São Carlos, cidade a pouco mais de 200 quiló- por sessão, a premiar o formato desenhado pela
metros de São Paulo, passaram três espectáculos organização: “descentralizar as actividades cultu-
do Circuito (“Amor solúvel”, “Inês de Castro... rais da cidade de São Paulo, fazendo um circuito Pedro Rodrigues

cenaberta 3
cenaberta

DR

Carlos Azevedo
"Amor Solúvel", Teatro Constantino Nery

Augusto Baptista
Teatro Municipal de São Carlos

"Brasil e Portugal "Auto da Índia: aula prática", A Escola da Noite

precisam estar juntos"

DR
São Carlos, cidade com 220 mil habitantes a 200 cidades que são centros universitários e produ-
quilómetros de São Paulo, é um destacado pólo toras de conhecimento científico, referências em
universitário no Brasil, em particular na tecnolo- seus países”. Por via destes contactos, Almir Mar-
gia e na investigação de ponta. Tem um teatro re- tins e a própria cidade de São Carlos ligaram-se
qualificado recentemente, apto a servir a criação ao Circuito de Teatro Português: “O Rui Madeira
e a oferta cultural da cidade, no âmbito do actual falou de mim para a Creusa Borges e assim surgiu
movimento de descentralização dos acessos aos o convite, por parte dela, para que São Carlos
bens culturais. participasse”. "O Escurial", Teatro Art'Imagem
Olhando para estas características, o director do No balanço muito positivo que faz desta primei-
Grupo Tapa, Eduardo Tolentino, recomendara a ra participação no Circuito, Almir destaca o fac-

DR
Almir Martins, director do Teatro Municipal Dr. to de o Festival se ter enraizado em São Carlos.
Alderico Vieira Perdigão, de visita a Portugal em “A repercussão na cidade foi a mais satisfatória
Março passado, “que não deixasse de conhecer a possível”. Também os participantes na formação
“quiseram continuar
João Moura

o trabalho plantado
aqui pelo Rui Madeira,
criando um núcleo de
trabalho teatral diri-
DR

gido por mim. Nesse


encontro surgiu a pos-
sibilidade de um grupo "Inês de Castro... Até ao fim do mundo", Dragão7
teatral sãocarlense ser
convidado pelo teatro
de Braga para ir a Por-
tugal, se apresentar e
ministrar oficinas”.
Olhos no futuro, Almir
Martins quer organizar
até 2012 um Festival
Internacional de Te-
atro em São Carlos,
centrado nos países
Almir Martins de língua portuguesa:
Cena Lusófona e de ir a Braga e a Coimbra”. “pela primeira vez na história contemporânea, um
Mais recorda Almir Martins: “O Eduardo havia país de língua portuguesa está se tornando a quin-
me apontado semelhanças entre as três cidades, e ta maior economia do mundo. Brasil e Portugal
que enxergava a possibilidade de um intercâmbio precisam estar juntos nesse momento”.
teatral entre São Carlos, Braga e Coimbra. Três Pedro Rodrigues

cenaberta 4
Setembro 2010

Entrevista a Tânia Pires

FESTLIP: Balanço do Festival


A 3.ª edição do Festival de Teatro da Língua Portuguesa, palco no Rio de Janeiro, Brasil,
de 14 a 25 de Julho, acolheu pela primeira vez representações oriundas dos oito países
de língua portuguesa. Em conversa on-line, Tânia Pires, directora do FESTLIP, transmi-
tiu ao cenaberta a convicção de que os objectivos do festival foram “bem atingidos”,
transformando-o num “grande movimento do teatro lusófono”.

Cumprido o festival, analisando critica- Produções tem um foco directo no movimento do

Augusto Baptista
mente os resultados, foram atingidos os Festival. Já é uma missão! Mas agora mesmo já estamos
objectivos? trabalhando na produção de um novo espectáculo
Os objectivos foram bem atingidos. Este ano o Festival teatral. A produtora possui diversos projectos. No final
se desenhou de forma mais sólida e já mostrando que todos se complementam, afinal estamos trabalhando
as três edições o transformaram em um grande movi- pelo teatro da língua portuguesa.
mento do teatro lusófono. Gostaria de acrescentar que o FESTLIP é um Festival
aberto para crescer paralelamente com todas as inicia-
Na edição deste ano do FESTLIP houve uma tivas que convergirem para o mesmo ideal, ética e res-
presença marcante, maioritária mesmo, de peito em favor da unificação, formação e da preserva-
companhias portuguesas. Essa é uma apos- ção da diversidade do teatro da língua portuguesa.
ta para continuar?
Não existe uma regra na curadoria. Tentamos sem- Augusto Baptista, com Pedro Rodrigues
pre equilibrar as participações quando isso é possível.
(versão integral da entrevista em www.cenalusofona.pt/cenaberta)
Trazer Timor-Leste foi um grande esforço. O grupo
participante foi formado em decorrência da oficina
teatral itinerante que eu ministrei no ano passado em
todos os países da CPLP. Sem isso, não seria possível.
Cada ano o próprio cenário se desenha. Com a home- FESTLIP 2010 em síntese
nagem à actriz portuguesa Maria do Céu Guerra, que O Festival de Teatro da Língua Portuguesa animou
muito nos orgulhou, acabámos dando um foco maior este ano durante 12 dias variados espaços do
aos grupos portugueses em 2010. Rio de Janeiro, de 14 a 25 de Julho, com mostras
teatrais do pleno dos países de língua portuguesa,
Que significado retirar da distinção atribuí-
num total de 15 grupos e 40 representações, e um
da pelo FESTLIP a Maria do Céu Guerra e a
público recorde de 23 mil espectadores. Ponto alto
Miguel Seabra? Tânia Pires
A homenagem a Maria do Céu Guerra foi pensada, do Festival foi a homenagem à actriz Maria do Céu
estudada e, de forma muito consciente, escolhida. primeiro projecto produzido por ela foi o espectáculo Guerra, directora de “A Barraca”, distinguida com
Com total certeza ela é uma imagem muito forte do “O Pequeno Eyolf", de Henrik Ibsen. o prémio FESTLIP 2010, e a distinção conferida
teatro da nossa língua. A oficina que ela ministrou no através de voto popular ao Teatro Meridional,
FESTLIP foi minuciosamente cuidada e teve enorme Quando e como se revela a tua vocação dirigido por Miguel Seabra: Prémio Revelação pelo
receptividade dos participantes. Ela foi magnífica. Com lusófona? espectáculo "Contos em Viagem-Cabo Verde".
o Miguel, a distinção veio de forma muito espontânea. Em 2006 fui convidada com meu espectáculo para Entre todos os participantes no FESTLIP, maiori-
O voto popular se identificou e reconheceu no seu es- o "Ibsen Festival" em Oslo, Noruega. Aí sim, tive o tária foi a representação portuguesa, com a
pectáculo, na sua direcção e linguagem, nossa própria grande prazer de conhecer a Manuela Soeiro, fun-
presença das companhias A Barraca ("Agosto-Con-
imagem. Podemos chamar de imagem universal. dadora do grupo Mutumbela Gogo de Moçambique.
tos da Emigração"), Teatro Meridional ("Contos
Aquela que o próprio Miguel cria com seu talento dis- Depois desse encontro na Noruega ela me convidou
no final do segundo semestre de 2006 para partici- em Viagem-Cabo Verde"), Trigo Limpo ("Chovem
tinto e muito seguro.
par de um seminário em Moçambique no período de Amores na Rua do Matador") e Binólogos ("Filhas
comemoração de aniversário do Mutumbela, a pedido da Mãe-Fantasias Eróticas das Mulheres Portugue-
Que papel e que importância é dada ao Fes-
tival no estreitamento de relações teatrais da Embaixada da Noruega. sas"). O Brasil participou com três companhias:
e culturais no seio da lusofonia e na defesa Os Fofos Encenam ("Ferro em Brasa"), Barracão
da língua, património comum? Esse contacto com o teatro moçambicano Cultural ("A Mulher que Ri") e Cia. de Teatro
A nossa língua é a nossa riqueza. Nosso ponto de par- foi determinante? Novo Ato ("Drummond 4 Tempos"). Guiné-Bis-
tida e de encontro. É encantador assistir Timor ser re- Eu já tinha contacto com o teatro português, mas só sau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste
conhecido e conhecido através das artes cénicas pelos em 2006 pude descobrir o teatro moçambicano. Fiquei participaram respectivamente com as companhias
demais países irmãos de língua. Ela é nosso elo e a muito aguçada para estudar e conhecer o universo GTO–Grupo de Teatro do Oprimido ("Maria:
nossa inspiração. Todo ano, cada vez mais, nos damos teatral da nossa língua. Ter ido para Oslo interpretar Ritual das Parideiras"), Centro Cultural de Mindelo
conta da força que a língua portuguesa tem. É um or- um texto norueguês em português já havia desperta-
("Androginia"), Grupo Fôlô Blagui ("O Pagador
gulho podermos nos unir através dela e dessa forma do em mim um forte orgulho do teatro lusófono. Em
de Promessas"), Grupo Arte Lorosae ("Saramau").
torná-la cada vez mais forte. Não tenho dúvidas que Moçambique o círculo se fechou e, a partir de 2006,
Angola fez-se representar pela Companhia de
o teatro seja o caminho das artes mais que adequado. comecei a focar minha experiência teatral de 20 anos
Teatro Dadaísmo ("Olímias") e Miragens Teatro ("4
Ele é livre, directo no contacto humano e o resultado na possibilidade de comungar tantas descobertas com
é imediato. e 30") e, por fim, de Moçambique vieram: Compa-
meus irmãos actores dos oito países da CPLP.
nhia de Teatro Gungu ("A Demissão do Sô Minis-
A Talu Produções, estrutura nodal na orga- E é a partir daí que, em 2007, nasce o FES- tro") e Kudumba ("Só Cheira Borracha").
nização do FESTLIP e de que és co-funda- TLIP? Além da Mostra Teatral o FESTLIP integrou espec-
dora, nasce quando? O FESTLIP nasceu de surpresa. Não foi um filho pro- táculos musicais, debates, exposição fotográfica e
A Talu Produções foi fundada no final de 2003. O gramado, mas com certeza um filho amado! A Talu gastronomia: “O Sabor da Língua Portuguesa”.
cenaberta 5
cenaberta

Viagens meridionais
Miguel Seabra é suave no trato, nas relações profissionais, na direcção do
Teatro Meridional. Esta qualidade impregna a sua companhia. Ao lado de
Miguel, Natália Luíza, mulher vestida de palavras, voz-mistério. Poetas,
cada um a seu modo, cenaberta ouviu um e outro. Uma longa viagem pelos
labirintos do palco, da alma e da lusofonia.

No Meridional quais são as tuas funções, está assinada pelo Mia Couto e pela Na- é o trabalho do actor, do músico e de condução do
Miguel? tália Luíza. Miguel em cena, transformando as palavras na outra
Miguel Seabra (MS) O Meridional formou-se MS A Natália teve a ideia de adaptar o "Mar Me viagem, a da comunicação.
comigo, confunde-se com a minha vida. Estou no Me- Quer", grande história com um raro poder de co-
ridional a tempo inteiro, exerço várias funções de municação. Fez uma pesquisa enorme por todos os Lembro que quando em Julho passado o
responsabilidade, a maioria das quais partilho com a livros do Mia Couto e a colagem que faz, com base na Meridional foi ao Brasil participar no FES-
Natália Luíza. Sou ligeiramente mais generalista, com história do "Mar Me Quer", tem esse universo mia- TLIP, são os Contos em Viagem - Cabo
ligação quer à produção, quer à parte artística, quer coutiano por detrás. A adaptação inclui extractos de Verde que levam na bagagem, embora
à parte técnica. O meu percurso de vida tem um outros romances, sendo que o Mia Couto colaborou pudessem embarcar com um universo de
paralelismo identitário muito forte com o percurso no supervisionamento do texto global e desenvolveu contos brasileiros.
artístico e criativo e de produção do Meridional. específica e qualificadamente a personagem do Avô MS Tivemos a possibilidade de ir com os dois, ou só
Celestiano, que não tinha quase forma literária no com o Brasil, ou só com Cabo Verde. Com o Brasil tí-
És fundador da companhia. "Mar Me Quer". nhamos acabado de fazer uma temporada, houve uma
MS Sou co-fundador… NL A circunstância foi esta: nós encontrámo-nos e foi impossibilidade prática do músico, estava compro-
um trabalho muito interessante, feito essencialmente metido. Então remontámos Cabo Verde, até porque
E director. por e-mail entre Moçambique e Portugal. Apresentei há a facilidade, digamos, de tanto a actriz, a Carla
MS Se tivesse de haver designações formais eu seria uma estrutura do espectáculo e, inclusivamente, peço Galvão, como o músico, Fernando Mota, trabalharem
como que um director-geral do Teatro Meridional. uma cena – o livro não acaba da mesma maneira que connosco há muito tempo. Há um código de lingua-
acaba a peça – peço ao Mia para que no final haja uma gem subliminar que facilita uma remontagem rápida:
E a Natália Luíza? relação entre o mundo dos vivos e o dos mortos, tivemos cinco ensaios antes de partir. No Brasil, não
Natália Luíza (NL) Sou a retaguarda. É assim: o que não está no texto inicial do "Mar Me Quer", gosto de utilizar a palavra sucesso, mas o impacto dos
o Meridional sem mim existia; sem o Miguel não. A mas corresponde ao imaginário moçambicano tal Contos em Viagem - Cabo Verde foi incrível.
grande diferença é essa. É evidente que sou uma fi- qual eu própria, nascida em Moçambique, o reconhe- NL É evidente que, de um determinado ponto de vista,
gura estruturante também, mas de retaguarda. Estou ço. Também pedi que aprofundasse a figura do Avô seria interessante levar-se o Brasil que Portugal pensa
envolvida em decisões relacionadas com a estrutura Celestiano, que não encontrei no universo literário ao próprio Brasil. Mas foi também muito interessante,
da companhia, com aquelas coisas que não se vêem, criado até à altura pelo Mia Couto onde ir alimentar nós que nos cruzámos todos em termos históricos,
mas que são fundamentais para manter o edifício em a personagem. serem portugueses a levar Cabo Verde ao Brasil. Aca-
movimento. Nos projectos artísticos faço parte de MS No caso dos textos relativos aos Contos em ba por ser muito mais germinatório. No Brasil também
uma outra geração, uma geração mais nómada. Na Viagem – Cabo Verde/Brasil, a pesquisa é totalmente não se conhece a cultura cabo-verdiana.
minha vida não tenho ficado afecta exclusivamente a feita pela Natália Luíza. A responsabilidade primeira
um projecto, tenho feito coisas em muitas áreas, faz e última dos espectáculos dos Contos em Viagem, até
parte da minha natureza, da minha inquietação. Sendo agora e assim será, é da Natália, pela sua paixão pela Justo no FESTLIP, festival em que o Teatro
uma figura que se mantém desde início no Meridio- literatura, pela sua paixão pela leitura, pela perspicácia, Meridional foi agraciado com o Prémio
nal, meia volta saio com projectos próprios, para ir devido à sua experiência como actriz e comunicadora Revelação, resultante de voto popular.
fazer coisas com outras pessoas. Portanto, mantendo e leitora de poemas, o que lhe dá a capacidade de per- MS Este prémio foi muito significativo, sensibilizou-
aqui a casa, sou mais da viagem. E há aqui um contra- cepção da qualidade de um texto não-dramático em -me particularmente. É uma votação do público, a
senso: o Teatro Meridional tem uma componente de palco se tornar objecto comunicante de qualidade. contagem é isenta, rigorosa, percebe-se que aquilo
itinerância, valor que o Miguel defende muito, e eu, é o público a votar e, numa escala de 0 a 10, que
gostando da viagem, sou menos itinerante. Nos Contos em Viagem como se entrela- era a pontuação possível, o espectáculo foi premiado
çam música e palavra? Como é feita essa com o primeiro lugar do público: 9,7 pontos. Vamos
Contos em Viagem é uma proposta de articulação que tem muito de poético, de ter a possibilidade de estar em Fevereiro de 2011
itinerância e viagem que ambos partilham realidade avessa a fórmulas? em Coimbra com este espectáculo e eu fiquei tam-
e em que ambos estão envolvidos. NL Encontram-se linhas através das quais se pes- bém contente com o convite para irmos fazer uma
MS O Teatro Meridional tem vários caminhos prin- quisam os textos. Por exemplo, o universo literário mostragem da companhia com diversas apresenta-
cipais de expressão artística. Um deles incide na dra- do Brasil é de uma riqueza desarmante. É portanto ções. Pensei logo na lusofonia, nos Contos em Viagem
maturgia não-teatral, ou seja, no levantamento de necessário encontrar um caminho através do qual - Cabo Verde, um espectáculo muito feliz.
textos que partem do universo não-teatral, como se percorrem os autores e se seleccionam os tex-
adaptações de romances. Isso fizemos com o "Mar tos. Faz-se um apanhado geral de textos, começa-se O Teatro Meridional é um construtor de
Me Quer" do Mia Couto, adaptado pelo Mia Couto e a sentir para onde é que vamos, define-se o mapa da lusofonia. A nível da CPLP e das estrutu-
pela Natália Luíza, obra editada pela Cena Lusófona. viagem. Por acaso nós já fizemos duas dramaturgias ras culturais da comunidade, sentem ha-
NL Fizemos com Pepetela… sobre o universo literário do Brasil nos Contos em ver o entendimento da importância do
MS Fizemos vários trabalhos nesta vertente, privilegia- Viagem. A primeira era mulheres dentro de casa com vosso trabalho?
damente do universo literário da lusofonia. Outra linha é linhas, agulhas e vestidos. A segunda, um percurso MS Da CPLP penso que não. Entidades ligadas à lu-
o desafio a autores para arriscarem a escrita dramatúr- através do Rio S. Francisco. São dois mundos distintos: sofonia, temos uma ligação ao Mindelact, fizemos uma
gica, nomeadamente do universo da lusofonia. um dentro de casa, habitado por um universo essen- co-produção inclusive, e há uma ligação forte, pessoal
cialmente feminino; outro é o mundo de gente que se e profissional. Outra estrutura a que estamos ligados
Caso de José Eduardo Agualusa. encontra ao longo do rio. É através destas conduções é a Cena Lusófona, através de várias parcerias, inclu-
MS Agualusa, Nuno Pino Custódio, José Luís Peixoto. que se acha o mapa dos textos. Mas depois é preciso sive a ida a Cabo Verde, a ida ao Brasil, a ida a Timor, o
fazer a viagem propriamente, a viagem corpórea, a apoio ao "Mar Me Quer", o apoio à "Geração W". A
O trabalho com os autores imagino-o in- viagem do actor, a viagem do músico, através dos sons relação com a Cena Lusófona tem sido muito saudá-
tenso e muito marcado pela proximidade, das palavras, das sugestões dos ambientes, da comuni- vel, fraterna, transparente, descomprometida no bom
estou a lembrar-me da adaptação do “Mar cação, da distinção dentro de um texto da parte nar- sentido e comprometida em termos de cumplicidade
Me Quer”, até porque a obra resultante rada da parte em que a personagem irrompe. E isso na acção.

cenaberta 6
Setembro 2010

Augusto Baptista
A Cena Lusófona é o organismo que em Portugal os muros. Em termos de internacionalização, a CPLP sul, principalmente os cinco países africanos e o Brasil, de
está mais ligado ao universo da lusofonia, na vertente que política tem? Não sei. E isso até pode constar de quem estamos mais próximos. E o hemisfério sul consti-
teatral. É espantoso o espólio, riquíssimo e diversifi- um site, não sei. Nós, companhia que trabalha este tui uma outra realidade.
cado, do seu Centro de Documentação. Sem nenhum eixo de acção muito específico, noutro país qualquer
compromisso e com todos os compromissos, muito creio que já teríamos sido contactados para acções É meridional (risos)
me agrada e honra, e falo também em nome da Na- diversas, para que os nossos espectáculos pudessem NL Estes países que escolheram a língua portuguesa
tália, a ligação à Cena. Acima de tudo mantemos uma ser mostrados como produto desta geminação de para comunicarem tiraram a gravata às palavras, vesti-
independência a nível de projectos muito salutar. A linguagens, de encontros. ram-nas de lenços, missangas, ensolararam-nas. Acho
Cena Lusófona sabe que o Meridional existe, que tra- MS Outra das características do Teatro Meridional bonito mantermos a nossa postura, como país, co-
balha em projectos da lusofonia; o Meridional sabe é também trabalhar muito com criadores africanos, existindo com a irrequietude dos outros.
que a Cena Lusófona existe na sua vertente abrange- actores, músicos.
dora de diversas áreas ligadas ao teatro e à lusofonia. NL Muitos vivem em Portugal, mas mantêm as suas De facto esse diálogo gera surpresas e
Esta parceria é saudável, é bonita, também cúmplice, nacionalidades de origem. O Meridional é das com- demonstra uma rara capacidade de acolher,
da língua se metamorfosear, criar léxicos
discretamente cúmplice. panhias que mais tem trabalhado com actores ligados
com correspondência aos novos imaginários
a países africanos. Nunca o poder político, eu acho,
O Meridional participou em Coimbra no e realidades.
apoiou suficientemente esta acção. Vai valorizando o
Encontro Internacional sobre Políticas NL É por isso que para mim as próprias palavras são
Meridional e o seu trabalho, mas não ao ponto da
de Intercâmbio, organizado pela Cena a grande viagem. Adoro palavras. Se pudesse andava
especificidade que merece. Acho que seríamos todos
Lusófona em Dezembro de 2009. Sentes vestida de palavras.
mais ricos se algumas das nossas criações pudessem
que estas iniciativas, estes encontros, es- confrontar-se com públicos dotados de outro tipo de Embora, frequentemente, mais do que ves-
tes momentos de discussão alargada, são recepção ao espectáculo, como foi agora no Brasil. tir, as palavras dispam.
úteis, necessários? Isso permitiria um outro intercâmbio também. NL Que seja assim, se pudesse andava despida de pala-
MS Resistir é vencer. Através do teatro, nós, portu- MS Além dos espectáculos propriamente ditos, há a vras, porque as tenho todas e não preciso de nenhuma.
gueses, temos de assumir um papel centralizador e mais valia da formação. A equipa do Meridional tem MS Se o Japão é o país do Sol Nascente, nós somos
motivador da manutenção do universo da lusofonia. várias pessoas que dão formação diversificada: traba- o país do Sol Poente, onde o sol se deita em relação à
Digo centralizador no sentido de manter a capacida- lho de actor, trabalho de cenografia, trabalho ligado à Europa. E esta viagem para onde o sol vai sempre nos
de de iniciativa, não no sentido centralista, que nega a poesia, à palavra, à música. atraiu, sempre nos pôs nas praias a olhar para o mar
possibilidade e a importância de haver diversos pólos. NL Dar é também receber formação. Quando va- com nostalgia e espírito de partida.
A língua portuguesa partiu de Portugal, espalhou-se pelo mos a outros sítios estamos permeáveis, abertos a Somos um povo virado para o mar que, desde 1985
mundo, e eu acho que temos de manter essa respon- aprender. São duas células que entram em contacto e e aproveitando a entrada na União Europeia e um go-
sabilidade viva. E nisto já vamos para o universo da trocam coisas. Formarmos, formando-nos. Daí a ne- verno com características particulares, liderado pelo
política. É indesculpável não haver outro cuidado, ou- cessidade de sair, contactar realidades exteriores que, actual Presidente da República, foi voltado bruscamente
tra atenção, outra qualidade de apoio às iniciativas de ao mesmo tempo, integram o interior da lusofonia: para a Europa. Ficámos descentrados, a nossa organi-
agregação da lusofonia através do teatro, por parte Cabo Verde, Brasil, Angola… cidade é outra. Actualmente temos um plano muito
das entidades públicas. É mais uma coisa à portuguesa, melhor de comunicações rodoviárias, temos muitos
no péssimo sentido da expressão. A palavra, conforme essas distintas geo- telemóveis e o parque automóvel mais rico da Europa
NL Nesse Encontro organizado pela Cena Lusófona grafias, assume tonalidades, sonoridades, e, paralelamente, somos o país com mais iliteracia. Este
eu fiquei próxima da Guiné-Bissau, uma realidade a coloridos distintos. A dada altura esse desequilíbrio, desencaixe, a mim toca-me muito.
que não tinha acesso, através da informação veicu- cirandar permite descobertas, desafios, Somos um povo com uma personalidade vincadíssima,
lada, do ponto de vista humano. Embora eu tenha um encontros com palavras e acepções insus- independente – só um povo assim resiste à força so-
vídeo para sustentar o que acontece na Guiné-Bissau peitadas. lar e afirmativa, masculina, dos espanhóis –; somos um
em termos teatrais, foi o estar em contacto real com NL O Brasil e todos os países africanos é como se povo lunar, receptivo, falta-nos um lado activo para
as pessoas – ser-se pessoa é ter-se a humana fragili- ensolarassem as palavras. Há palavras que acordam, afirmarmos de uma maneira mais sólida a nossa iden-
dade ao lado de nós, senti-la parte de nós – que me ficam mais sonoras, adquirem musicalidade numa tidade. Por outro lado, como essencialmente somos
aproximou. A vida teatral não é feita só de acordos relação com a natureza mais aberta. Ao irmos aí esta- um povo voltado para o mar, estamos sempre abertos
protocolares, que depois são muito pouco exequíveis, mos obrigados a adequar a relação com as plateias, se aos outros, com vontade de partir, com vontade de
pouco práticos. Por exemplo, esta nossa recente ida queremos ser compreendidos. Interessante na língua aventura. E, diria, este espírito também marca o Me-
ao Brasil proporcionou-se porque a Tânia Pires, di- portuguesa é nós podermos viajar através dela, com ridional. Fazendo um laço com a lusofonia, a abertura
rectora do FESTLIP, fazia parte dos participantes no ela, e em cada sítio ela ser a mesma, sendo diferente. ao desafio tenta-nos a trazer também a Galiza e o
Encontro, e aí convidou o Meridional. E caberem essas diferenças, essas alterações lexicais, universo literário galaico-português para o projecto
semânticas, caber a invenção dos novos léxicos que, Contos em Viagem.
Parece que o Brasil entende melhor a im- por exemplo, os países africanos e o Brasil estão a NL É necessário que este querer fazer por parte dos
portância da cultura e do teatro na cons- fazer a partir do português. agentes culturais corresponda também a definições
trução da lusofonia. programáticas, políticas, sobre o que queremos mostrar
NL O Brasil entende melhor isso, parece, porque Um português que se enriquece não se- de nós, o que queremos permutar, o que se define em
tem mais gente, tem outra lógica de prioridades. Nós cando as línguas nacionais. Um português termos de política cultural, que identidade levamos.
não temos, enquanto portugueses, uma política de in- implicando, casando com as línguas nacio- MS Neste mundo cada vez mais igual e global, cada
ternacionalização definida. O que queremos de nós nais, brincando com elas. vez com menos mistérios, a riqueza da nossa identi-
próprios? O que queremos mostrar de nós próprios NL Elas brincam-se a si próprias. Elas vão-se brin- dade provém da língua. A língua veicula a nossa iden-
e das produções que se fazem aqui? No fundo tudo cando nos outros sítios. tidade de uma forma específica, sui generis, única.
aquilo que acontece é produto destes encontros hu- MS Nós somos um país europeu, da velha Europa, imbuí-
manos, produto de vontades grupais e individuais, por dos de formalismos burocráticos e sobretudo mentais, entrevista de Augusto Baptista
serem mais fortes que as vontades que constroem conceptuais. Os países da lusofonia são do hemisfério (versão integral da entrevista em www.cenalusofona.pt/cenaberta)

cenaberta 7
Como se diz perda? Que som, voz, murmúrio,
inscrever aqui? Como se diz grito? Como se
diz, em letra de jornal, que o Ruy morreu?
Era Agosto. Este Agosto

Ruy Duarte de Carvalho


De uns dias em Luanda, no ano passado, por de se mudar para a Namíbia. Não lhe era sobre isto e aquilo, a situação, claro, e o que
ocasião do ciclo no Centro Cultural Por- coisa estranha, o exílio, e perguntava-se se era preciso fazer para as coisas ficarem bem,
tuguês dedicado à obra do Ruy Duarte de isso era nele um recurso ou uma condição, melhores, ou na mesma, mas de maneira a
Carvalho, lembro-me da festa de encerra- por causa da sua incapacidade atávica de se que todos fossem mais bem tratados. Tam-
mento no Chá de Caxinde. Surpreendeu-me, resignar a qualquer versão de iniquidade e bém percebi, nesses dias, que o Ruy Duarte
não sei porquê, que também ele dançasse. que muitos confundiam com ‘mau feitio’, que era um conversador compulsivo, quando lhe
E ficou-me a ideia dessa convicção, sua, de às vezes, suspeito que por condescendência dava para esse lado, e tinha as suas artes de
fazer as coisas com ‘joie de vivre’. com eles, também era. A questão, posta a colocar a subtileza de escutar ao serviço da
cru, é que se uma pessoa pode dedicar a vida escavação dos assuntos que iam aparecendo
Os dias anteriores passaram-se em con- toda a investigar uma ideia de um país, e se sobre a mesa. Depois tomávamos café e ele
versas à volta dos trabalhos dele: o cinema, mesmo assim é maltratado, é mais realista preferia caminhar devagar rua acima, identifi-
a fotografia, as diversas antropologias e as continuar a fazê-lo onde não o chateiem. cando memórias que às vezes comentava. O
modalidades literárias. A obra em que a sua reconhecimento da obra, a homenagem de
constância se estendeu de muitas manei- Habitualmente almoçávamos na baixa. Um que era o centro, sempre lhe davam ocasião
ras, e que se deixa ficar para nos interpelar restaurante com vocação de cantina, re- para estar, outra vez, em Luanda. Confirmava,
pelo tempo fora. Entretanto, foi-se falando feições honestas a preços decentes, e mesas numa e noutra coisa, a impossibilidade pes-
de muitos outros assuntos, (de futebol, até, quase colectivas onde sempre se encontra soal de se conformar com a insistência na
para registar a indiferença que esse exercício alguém que há já uns tempos não se vê, ou se asneira, e uma vez ou outra, anotava impos-
nos suscitava), que acabavam por regressar conversam novas companhias. É que desistir sibilidades corriqueiras para mais tarde, dizia,
a Luanda e aos seus abismos de contrastes, dessa ideia também não lhe ocorria, e sem- conversar sobre elas com o Paulino. Em Lu-
ostensivos numa corriqueira caminhada pelas pre ia podendo confirmar que, apesar de anda tinha saudades do sul. Falou disso uma
ruas. tudo, a sua era uma terra de gente boa, capaz, vez por outra a tomar cerveja. Como não
Por essa altura o Ruy Duarte andava cansado lutadora, e, em geral, merecedora de melho- tinha, nisso, grandes preferências, bebia Cuca,
do exercício inevitável e insano de costurar res dias. Enquanto esperávamos mesa, nos como ele, filha da terra, brindando à vida.
ligações sobre os fossos da desigualdade nor- sentávamos com uns, e outros iam, depois,
malizada do quotidiano luandense e tratava chegando, sempre se trocavam umas ideias Nuno Porto

Nestas páginas: obras de Ruy Duarte de Carvalho

cenaberta 8
Ruy Duarte de Carvalho
AB

(1941-2010), escritor, cineasta,


antropólogo angolano: obra
extensa a que a Cena Lusófona
dedicou a revista setepalcos n.º 5.
Doutor em Antropologia pela
École des Hautes Études
en Sciences Sociales, Paris; Pro-
fessor (Universidade de Luanda,
Universidade de Coimbra e
Universidade de São Paulo).
Autor, entre outros, de “Vou lá
Visitar Pastores” (1999) sobre
a comunidade pastoril kuvale,
Angola; poesia: “Chão de Oferta”
(1972), “A Decisão da Idade”
(1972), “Lavra” (colectânea
poética 1970-2000); ficção: “Os
papéis do Inglês” (2000), “Como
se o Mundo não Tivesse Leste”
(1977), “Paisagem Propícia” e
“Desmedida”; cinema: curtas e
longas metragens, entre estas,
“Nelisita: Narrativas Nyaneka”
(1982).

cenaberta 9
cenaberta

Ivo por Ivo

Como se o tempo
flutuasse
Fértil tem sido o entrecruzar criativo da Cena Lusófona com Ivo M. Ferreira, na
área do cinema. Prova disso são os documentários, agora editados em DVD, sobre a
tradição dos narradores orais em São Tomé e Príncipe: Soia di Príncipe e À procura de
Sabino. Boa razão para cenaberta ouvir o homem para quem filmar é como um flirt,
momento raro em discurso directo, Ivo por Ivo: enredos imbricados, em catadupa, o
realizador, o cinema, enleio de lugares, ontens e futuros. Como se o tempo flutuasse.

Só tarde percebi a influência que o teatro teve na poucas qualidades que eu tenho como realizador, uma mos o meu primeiro filme: “O Homem da Bicicleta”.
minha opção pelo cinema. Quando digo o teatro, não é ser um gajo bestial, outra é nunca me passar pela Depois ainda fiz outro filme com essa produtora.
digo as peças, a obra acabada, digo os ensaios de lei- cabeça ser os outros, não querer imitar ninguém.
tura, a montagem dos cenários, das luzes.Via as peças De Macau para a Expo
muitas vezes, quase todos os dias, que aliás lá em casa À volta do mundo A Macau fui parar quando estava a dar a frustrada
nem televisão havia, e nos meus filmes acho que se Antes de ancorar na realização de cinema fiz muita volta ao mundo. Sei que estou a caminho da Índia,
passa um tanto isso: preciso de repetir as coisas para coisa. Fui actor, produtor, cameraman, desenhador de vou para Hong Kong, depois Macau, porque aí talvez
perceber. luzes, estive na dança… Houve uma altura em que arranjasse trabalho na Índia. Entretanto quis filmar
Lembro-me um dia, muito puto, lembro-me um dia queria viajar, estava inscrito na Universidade de Bu- Macau, tive um filho, andei por ali a viajar, a sair e a
ter dito aos meus pais: Quero realizar filmes. Eu sofria dapeste, faltava um ano e meio e eles só aceitavam entrar na fronteira.
imenso com a efemeridade do teatro. Às vezes par- oito alunos de 4 em 4 anos, eu tinha entrado também De Macau vim para Portugal e fui convidado pela
ticipava mesmo nas peças, do Bando, da Comuna, e na London International Film School, estava com as Expo98 para realizar um filme. Na altura não me pas-
houve um espectáculo muito intenso, o Amadis, do costas quentes. Um dia fui entrevistar uma prostituta, sava pela cabeça usar vídeo. Era uma coisa que não
Abel Neves, encenado pelo João Mota, que teve uma teria 16, 17 anos, percebi que não sabia nada da vida, fazia parte do meu léxico. Não era tanto por causa
carreira muito grande, tinha eu uns 10 anos, todos os decidi viajar e trabalhar. Sentia-me um cidadão irres- da qualidade, que me estou um bocadinho nas tintas
dias fazia o espectáculo e uma noite aquilo acabou. Foi ponsável, porque, à partida, nunca teria de fazer tra- para a definição. Parece que há uma obsessão pela
das primeiras vezes que me lembro de sentir angústia. balhos físicos, pesados, para ganhar a vida. Sentia-me definição, não percebo porquê, se calhar porque sou
Ligado a este tempo recordo-me de comprar livros culpado por isso e decidi viajar à volta do mundo, vesgo ou assim. Não tenho nenhuma questão com a
de cinema. Havia uns, das Edições 70, Artes & Ideias, coisa que acabou por não acontecer, e trabalhar nas hiperdefinição, só me atrapalha a leitura às vezes das
acho eu, a Semiótica do Cinema, a Realização Cine- obras na Europa, trabalhar como as comunidades da imagens, mas gosto das coisas nítidas, evidentemente.
matográfica… Cheguei a casa e disse: Mãe, gastei uma África do Norte. Achava que aquilo iria ser muito Apesar de tudo venho de uma escola, venho da foto-
fortuna em livros. E, já agora, quero fazer filmes, não quero produtivo intelectualmente. Claro, ao fim do primeiro grafia.
fazer teatro, porque os filmes ficam. Isto pode ter sido dia, nem me lembrava do meu nome. Com 14 anos fiz um cartaz para o meu pai e em troca
um disparate que eu disse por dizer. Ou se calhar por A meio deste percurso, uma vez vim a Portugal, en- tive um laboratório de fotografia. Passava noites e
teimosia, provocação, e depois acabei por seguir essa contrei-me para jantar com a Jeanne Waltz e o Joa- dias enfiado na câmara escura. Embora hoje isso não
ideia. O meu pai disse-me: Porreiro, ser realizador de quim Pinto e disse: Eh pá, estou fodido com esta merda, se reflicta em nada, acho que parte da minha forma
cinema em Portugal é como ser astronauta, vai-se à lua estava ali a trabalhar nas obras, no meio da neve, pen- de olhar vem daí. Nunca se me põe grande questão
uma vez na vida… Na altura deu-me exemplos práti- sava que aquilo ia ser intelectualmente enriquecedor e onde colocar a câmara, que objectiva usar, parece que
cos de realizadores de que eu gosto, importantes, foi mais uma das desilusões da minha vida. Foi uma ex- é meio empírico, não é empírico nada, com certeza
portugueses, o número de filmes que tinham, a idade. periência curta como operário, fui barman, limpador deve vir desses anos a fotografar, a ampliar. Depois,
E a sustentabilidade que me traria a escolha dessa de piscinas, andei em estufas. Mais tarde em Macau enquanto fiz a António Arroio, li muito. E sempre
profissão. A minha mãe, sempre acreditou muito em fui repórter-fotográfico, assistente de realização, tinha fotografando, filmando.
mim, só disse: Cá em casa nunca haverá de faltar dinhei- de andar a correr de um lado para o outro com cas- Na realização há uma componente técnica, essa eu a
ro para comida e para livros. O meu pai, evidentemente, setes betacam, fui funcionário público. Eu e o António sei muito certinha. E é preciso saber estruturar uma
quando percebeu que era a sério foi a pessoa que Pedro decidimos ser funcionários públicos em Macau, narrativa ou contar uma história. No meu caso, com
secretamente me impulsionou. Isto deu-me confiança, na mesma instituição. Mas éramos funcionários pú- um gajo a ouvir os Tchékhov e os Shakespeare desde
que se calhar eu agora deveria perder. blicos de luxo: tínhamos um cinema, programávamos, que nasceu, alguma coisa em termos de construção
Muito miúdo, depois dos ensaios gerais, lembro-me dávamos aulas de teatro, de música, fazíamos um es- dramática deve ter aprendido. E a ver filmes e a ler
do João Mota e da minha mãe me fazerem entre- pectáculo, de vez em quando tínhamos algumas vi- sobre cinema. De resto, quem pode ensinar um rea-
vistas para eu dizer o que eram os espectáculos. cissitudes… Agora no Natal têm de fazer um presépio! lizador a filmar, um pintor a pintar? O filme que eu
Com certeza, só por curiosidade queriam saber o Um presépio?! Fizemos uma instalação em que toda fiz a convite da Expo em 98 era ficção, mas com uma
que o miúdo achava, mas eu levava aquilo muito a a gente tinha de andar de gatas, ambientes sonoros, parte muito grande de documentário.
peito e lembro-me de sintetizar os espectáculos água a cair, apesar de tudo ainda nos divertimos. Mas
e lembro-me de as pessoas dizerem: OK, está feito! éramos efectivamente funcionários públicos, uma A primeira longa metragem e o projecto
Isto se calhar até me deu quase um sobre à vontade grande seca, que lidávamos com pessoas intratáveis, Cena
em analisar o que quis depois, deu-me a liberdade de isto enquanto criávamos a produtora Super 8 Filmes. Estive quatro anos sem pôr cá os pés, constituí famí-
nunca pensar pela cabeça dos outros. Acho que das Tinha 18 anos quando eu e o António Pedro montá- lia, tive um filho. Quando achava que havia uma certa

cenaberta 10
Setembro 2010

estabilidade, tinha a minha vida de pantanas. Chego, Torres e ele confirmou-me, falou-me também num não seja necessariamente por dinheiro. Em São Tomé
vejo os meus amigos a dar alegremente umas quecas, tal Sabino, uma lenda, viva ou morta, da soia Longo eu acordava de manhãzinha, punha a rádio às cinco e
mas também todos lixados. Então fiz “O que foi” so- Cantá. Pensei, enquanto pesquiso sobre o assunto vou meia, às seis diziam os óbitos do dia e eu ia à procura
bre as relações amorosas que estávamos a viver, tudo filmando. A minha ideia era filmar uma personagem, da família do defunto. Se vinha ou não vinha contador
fodido, basicamente. Os actores escreveram sobre o de uma forma clássica, concreta, o seu dia-a-dia, o tal não se sabia. Aquilo não é propriamente os correios
que se estava a passar e com isso montei o argumen- Sabino, enquanto ia recolhendo outros elementos. indianos, não há um procedimento muito claro, muitas
to. Embora seja ficção pura e dura tem uma vertente Também se aprende a filmar. Só que cheguei lá e não vezes esperei e não apareceu ninguém. Chegava, falava
documental. Aí ganho o prémio “Jovem talento”, no encontrei o Sabino, passei os dias de um lado para o com a família, dizia ao que ia e perguntava se poderia
festival de Vila do Conde. Em 2002 realizo a minha outro, fui ter com o filho, nem o filho sabia. Cheguei voltar mais tarde, ou então ia mais tarde mesmo. O
primeira longa metragem, “Em volta”. a pensar, se calhar o homem já morreu; mas continuei nozado tem uma componente pagã, uma religiosa, e
Ainda em 2002 trabalho para a Cena Lusófona no a fazer a minha pesquisa e a filmar. Entretanto, ia-me uma componente social muito forte. Joga-se às cartas
projecto “Narradores Orais na Ilha do Príncipe”. Pou- cruzando com outros contadores. Filmei imenso e para entreter a família, há uma ladanha, uma ladainha,
co sabia da oralidade, da tradição oral no Príncipe, fiz acabei por encontrar o Sabino. Quando me dizem: contam-se anedotas, come-se, bebe-se mais do que se
a investigação possível, na altura até pedi à Zé Lobo Está ali o Sabino, todo coxo peguei na câmara, o plano come, chora-se. Mas é um evento social claramente, a
Antunes para me ajudar, mas sobre aquela realidade treme imenso – tinha tido um acidente – caminhei lá ideia é fazer uma festa para a família não sofrer tanto.
específica havia muito pouco, coisas soltas, mas ok, para casa, eu que não sou nada de pegar na câmara e E pode ou não aparecer um contador, homem ou
também gosto de aventuras e de certeza que vou fa- avançar à Michael Moore… mulher, pago com comida, dinheiro ou com uma grade
zer uma coisa bestial e tudo vai correr bem. Não me Nestas pesquisas
passa pela cabeça fazer uma coisa que vai correr mal. conheci o Caus-

Augusto Baptista
Esta é uma abordagem que sai, como outras, fora do trino Alcântara,
meu território normal de trabalho, é um filme que me uma revelação.
foi encomendado pela Cena Lusófona. Isso não tem Não tinha nenhu-
nada de menor nem de maior. ma referência dele,
Quando cheguei ao Príncipe, tinham organizado uma nem aqui nem com
apresentação no Centro Cultural Português. Foi lá al- as elites de lá, mas
guém, contou três histórias e acabou-se o trabalho, um dia, estava eu à
vamos embora para casa. Eu pensei, por amor de Deus, procura de coisas
eu não vim aqui para isto, para isto tinham de me pagar linguísticas, percebo
bem. Tive de explicar que não era aquilo que me in- que há um fulano
teressava, queria conhecê-los, ouvir mais histórias, ir que ensina a língua,
a casa deles, queria procurar contadores de histórias. um fulano que vem
E então aí começa uma caminhada, não quero mentir, de uma família de
de nove dias pela ilha, com câmara de vídeo, do gé- soia – o que envolve
nero de chegar a uma praia de pescadores e nem me muita superstição,
contarem histórias nem me darem de comer, nem de por exemplo, quan-
dormir, ainda por cima depois duma chuvada do cara- do morre alguém
ças, eu sem poder ir para trás. Não faz mal, não dá não de uma família de
dá, tudo bem, fico aqui. As horas passam, acabam por se soia acredita-se que
aproximar e lá fiquei em casa das pessoas, contaram- vão morrer muitas
-me as histórias todas. pessoas do quintal
Na altura, não percebia nada do assunto, não tinha – chamado Caus-
conseguido definir o que era a soia Longo Cantá, trino Âlcantara. Eu
a soia Cuto da Malé, a soia Contage. A soia Longo disse: Esse é que é
Cantá é um tipo de história, de soia, mais longa, com o homem, não me
uma estrutura diferente: inclui canto e pode demorar lixem! Procurei-o,
dias a contar. Hoje, com o aparecimento da televisão, mas foi difícil: não
embora no Príncipe não haja muito essa questão, es- há telefones, não
tas histórias rareiam, mas têm funções ligadas a coisas há moradas, não
muito práticas: avós a contarem-nas aos netos para podes dizer vai
eles fazerem a digestão, para os entreterem quando à avenida não sei
estão doentes… A única ocasião em que sobrevive quantos, número
a soia Longo Cantá é nos nozados, nas cerimónias tal, 7.º B. Quando o
fúnebres. encontrei ele disse-
-me: Podemos falar
Do Príncipe para São Tomé mas agora não, que
E assim chegámos ao primeiro filme, viemos em- já são dez e meia da
bora com uma sensação boa, com material interes- manhã, o que era Ivo M. Ferreira
sante, histórias que foram remontadas graças à nossa tardíssimo. No dia seguinte lá estava eu, às 6 da ma- de cerveja. É um ofício, apesar de tudo.
presença e à nossa iniciativa. Mas isto era apenas o nhã, com uma grade de cerveja… Nunca na vida me Nesses meus registos andava completamente à von-
princípio. Eu filmei histórias com nove horas, quatro passou pela cabeça filmar-me, mas pensei, o vídeo tem tade entre as pessoas, não me levantavam nenhum
horas, numa língua que não entendia. Mas, apesar de esta coisa bestial de um gajo gastar três euros e ficar com tipo de reservas. Há uma cena no filme, num espaço
tudo, se um gajo estiver atento, percebe pelo menos um registo importante para o Centro de Documentação mínimo – a câmara era pequena, mas o tripé bastan-
o que está a acontecer na história: são performances, da Cena. Estivemos a beber cerveja e ele falou durante te pesado, que eu gosto dos tripés bastante pesados,
caramba. Podes não perceber exactamente se ele está horas e pus isso no filme. Ter-me em campo a falar, mas mesmo pesados – pensava que ia filmar durante
a dizer que foi uma colher de pau ou um pau, mas sa- a beber cerveja, foi de mau gosto, mas foi também dois minutos uma ladanha, uma coisa fabulosa, em que
bes que alguma coisa ele atirou ao outro. Se bem que uma homenagem ao Caustrino e às nossas cirroses, dizem coisas do tipo salva o tomate, que é a corruptela
eu tive erros, histórias que eu achava que eram, sei lá, quando vierem um dia. Ia fazer como os outros se não do latim de salve tu o mater. O senhor que vai dirigir a
uma lebre e não sei quantos, afinal era um caramujo, o pusesse como protagonista no filme.Tudo o que sei ladanha também é pago e as pessoas choram, cheguei
um macaco… foi o homem que me disse. com a câmara e alguém disse: Entra! Entro, dois me-
Em 2003 voltei a São Tomé. Agora, pelo menos, sa- tros por dois, oito pessoas lá dentro, pus-me a filmar
bia que não sabia. Sabia que havia todo um mundo à Salva o tomate pensando que aquilo durava dois minutos. Acho que
volta das soias que eu desconhecia. Sabia o tamanho Nos nozados, funerais, os contadores de histórias são tenho 40 minutos de plano, eu com a câmara, pingava,
da minha ignorância. Aqui falei uma vez com o Ângelo pessoas que aparecem ou são contratadas, ainda que de repente o fulano começa a atirar água, sai. Pego na

cenaberta 11
cenaberta

câmara, tremia todo, completamente marreco ali, pego De Lobo Antunes à China Depois tenho uma história que o Cândido Ferreira, o
na câmara, sigo o homem que vai molhar os gajos das Hoje estou a tentar tomar conta dos meus filmes, es- senhor meu pai, escreveu. O meu bisavô estabelecia
cartas e por ali fora. Consegui estabelecer a ligação tou a acompanhar os filmes que fiz e que ainda não os filhos, punha-os numa mercearia e depois ficavam
entre os vários espaços, ou seja, o lado mais profano, acabaram o seu ciclo, estou a trabalhar ao mesmo com o prédio em cima. É um projecto herdado dessa
o lado religioso, social, gente a jogar a bisca 61, banal tempo no percurso por festivais com os filmes que história e que se passa num qualquer futuro possí-
jogo de cartas. Tudo aquilo me parece um ritual muito vão sair. Para a semana vou a Roma, para a outra a vel, tudo no mesmo prédio, e também num presente
performativo. Paris, depois a Florença. Os festivais, estas presenças, qualquer, como se o tempo flutuasse.
Nos dois filmes apresentei cerca de uma vintena de acabam por lembrar um gajo de que realmente é isto
que faz na vida. Quando não filmo e me perguntam a Entrevista de Augusto Baptista
contadores. Eu acho que, em princípio, daqueles que
profissão fico sempre um bocado a duvidar. Isto é um
ouvi falar, posso estar a dizer um grande disparate, po-
ofício muito instável, com períodos de grande deserto.
dem-me ter escapado dois, três, no máximo. No caso
E tenho um projecto muito grande, uma adaptação das
do Príncipe, há uma velha que vive lá numa cabana, andei cartas de guerra do António Lobo Antunes, na altura
para aí duas horas e meia na mata, todo lixado para a um jovem médico de 28 anos, brutalmente afastado de
encontrar e, mal cheguei, antes de dizer ao que ia, já ela tudo e de todos, como toda a gente, um médico que
gritava: Eu não quero! Eu não quero! Acabei por incluir queria ser escritor. É uma história sobre a interrupção
isso no filme. Mas à partida a amostra parece-me ser abrupta da vida e como as condições extremas fazem
bastante significativa. De resto, contar histórias é uma
Filmografia – breve síntese
com que alguém cresça humana e politicamente. É um
actividade muito específica, nada fácil: implica cantar, projecto muito complexo, produzido pela O Som e a
interpretar. A soia Longo Cantá, claramente a minha Fúria. Será um filme que vai demorar algum tempo a Ivo M. Ferreira nasceu em Lisboa em 1975, filho do
preferida, envolve tramas dramáticas complexas, can- montar, um projecto caro, com dezenas de actores, actor e encenador Cândido Ferreira e da actriz Car-
tos. Há um contador e um tipo que o ajuda a cantar, argumento escrito por mim com o Edgar Medina. En- men Marques. Actualmente, com a produtora O som
mas são capazes de desdobramentos espectaculares. tretanto estou a montar um filme, resposta a um outro
e a Fúria, trabalha o filme biográfico sobre a experiên-
Os destinatários das histórias do nozado são homens, que fiz há pouco tempo, “O Estrangeiro”, realizado de
uma forma muito rudimentar. Acho que é muito bom cia de guerra do escritor António Lobo Antunes em
são mulheres, miúdos, tudo. Ainda cheguei a filmar al-
haver grandes projectos e coisas mais imediatas, que 1961, Angola; prepara um grande projecto em Macau
gumas roças desactivadas, em que os trabalhadores
nós temos de sobreviver economicamente e também sobre a história do território. Realizou, entre outros:
ficaram lá a viver com as famílias, e ainda hoje ali se
de cabeça. Confronto-me sempre com o problema de O estrangeiro (2010), Águas mil (2009),Vai com o
contam histórias.
sobreviver e de continuar a fazer filmes. Estou a pre-
vento (2009), Fios de fiar (2006); para a Cena Lusó-
parar um filme em Macau. Quando saí de lá, aquilo era
Quem me dera ser onda um espaço vazio, sem identidade. De repente tornou- fona: À procura de Sabino (2003), Soia di Príncipe
Este contacto com a realidade cultural e humana de -se um sítio que se está a querer afirmar, a procurar (2003), Angola em Cena (2001), Spot para televisão da
São Tomé e do Príncipe foi muito enriquecedor. Gostei criar uma identidade própria: nunca foi Portugal, não V Estação Cena Lusófona (2003).
muito das pessoas, para mim a paisagem pode ser mui- quer ser só a China.
to bonita, mas não dispenso as pessoas. Tenho uns sete Eu sou muito querido pelos meus amigos chineses de
anos de Ásia, tinha estado em Angola, tinha estado em lá e tenho relações afectivas muito fortes com aquele
Cabo Verde, mas realmente ali era um mundo que eu território: aí filmei o meu primeiro filme, filmei o meu
não conhecia. Fascinava-me essa coisa de uma gajo viver último filme, tive o meu primeiro filho, passei quatro
sem nada, com um saquinho de tomate, uma colher de anos da minha vida. Ao contrário de cá, em Macau as
arroz, um peixe seco, uma colher de óleo para um saco coisas acontecem, com associações de cinema, galerias
de plástico, essa coisa de realmente não se precisar de de artistas plásticos. Isto aqui está chato. Os meus ami-
nada, de as pessoas viverem normalmente sem nada, gos estão todos lixados. Um cenógrafo faz um cenário,
chegarem ao mercado e terem um dente de alho cor- toda a gente diz, bestial, repercussão disso, nada; pas-
tado em quatro. Estava encantado, não com pobreza; sados anos, volta a fazer uma coisa do caraças, reper-
estava encantado com esta forma de poder viver. Mas cussão disso, zero. Um gajo passa a vida a trabalhar e
havia aspectos que eu tinha de perceber melhor, como não é reconhecido.
isso de um gajo ir ao fim da tarde para a rua arrastar Não filmava em Macau desde 2000. Sou português, faço
o chinelo, com o seu chapéu, passear uma carcaça, uma filmes portugueses em Portugal, mas tenho pensado
carcaça cortada ao meio, sem nada lá dentro. E acabei muito nestas últimas semanas que eu tenho afinidades
por decidir viver mais quase um ano no Príncipe. com o meu país, mas também tenho com Macau, com
Em 2001 tinha estado em Angola, quando o meu pai aí África, o Brasil, com o mundo. Um amigo meu chinês
encenou, no quadro da Cena Lusófona, o “Quem me noutro dia disse-me: Nos teus filmes andas sempre
dera ser onda”, do Manuel Rui Monteiro. Essa acção à procura de alguma coisa. À procura de mim? Talvez,
da Cena pareceu-me absolutamente inacreditável. Nós pois talvez. Talvez por estar muito nos outros, até pela
chegámos ao Elinga, não havia água, luz, interruptores, maneira como gosto dos outros. O meu último filme
tomadas, mas montámos um espectáculo além de tudo acaba por se centrar nesta questão. Isto de fazer filmes
lindíssimo. Dei aulas de cinema e fiz com os alunos envolve várias coisas: quero fazer filmes porque me di-
o “Angola em Cena”, um filme também para a Cena verte, me entretém, me dá prazer, porque não os fazer
Lusófona sobre esta acção de formação. Este meu con- me custa imenso.
tacto pôs-me completamente a vibrar com o país, é Os meus projectos têm sido muito políticos. “Águas
incrível como do nada tudo acontece, e foi humana- Mil” é a história de um homem de 30 anos a viver com
mente uma coisa fantástica. Eu fiquei com muita pena a avó e que teve de desmontar a casa porque a avó foi
que não se tenham montado os filmes da malta que para um lar. Ao desmontar a casa, descobre que o pai,
participou nesta acção de formação. Foram feitas coi- que desaparecera numa viagem que fez com a mãe e
sas interessantes: filmar Luanda, o Roque Santeiro, coi- com ele a Espanha, integrava uma organização armada
sas assim; muito corajoso o projecto deles. Eu fiz teo- no pós 25 de Abril, uma coisa inventada. Pega numa
ria, teoria, rua; teoria, teoria, rua, e depois o exercício roulotte e vai fazer este percurso. Claro que para mim
final. A câmara era só uma, a da Cena, organizaram-se isto é a história de alguém à procura de si, da sua iden-
equipas, elegeram-se quatro projectos. Foi uma coisa tidade, da história política do seu país, o que aconteceu
muito boa. Eles esperavam fazer um curso de vídeo aqui nesta festa que foi o 25 de Abril?
para aprenderem a mexer na câmara e aquilo foi muito No filme “Vai com o Vento” (na China, quando alguém
mais do que isso, foi uma forma de pensarem cinema. parte para longe diz-se, para significar boa viagem, vai
Um tornou-se realizador, outro artista plástico, que já com o vento) eu visito uma aldeia chinesa onde vive
era na altura, faz coisas com vídeo, outro passou a fazer um indivíduo que vai emigrar, testemunho a despedida,
desenho de luz em teatro… acompanho o percurso dele até Portugal.

cenaberta 12
Setembro 2010

pelo Ministério da Cultura do Brasil em 2004,

cenas
Casa dos Budas Ditosos" (Ubaldo Ribeiro); o sularidade: escrever o Oriente e o Ociden-
"espanto", a partir dos contos de Lispector; te em Português", programado para Abril assumindo a cultura como eixo estratégico
e a "cobiça", a partir de "São Bernardo", de de 2011, na cidade inglesa de Bristol. de desenvolvimento socioeconómico dos Es-

breves Graciliano Ramos.


O moderador do ciclo é David Oscar Vaz,
escritor, professor universitário de literatura
O mundo lusófono é um "conjunto de ilhas
separadas por oceanos - sejam marítimos,
tados-Membros da CPLP.

brasileira e especialista na obra de Machado territoriais ou linguísticos", lê-se no texto de FRANÇA


de Assis, actualmente a residir em Lisboa. apresentação do Colóquio. Esta realidade é Revista Plural Pluriel so-
As sessões do ciclo decorrem nas segundas particularmente visível em torno do Oceano bre literaturas africanas
sextas-feiras de cada mês, sempre às 19h00. Índico, de Moçambique a Macau, passando de expressão portuguesa
por Goa, Sri Lanka, Malaca e Timor - uma
vasta área e um largo conjunto de comuni- As literaturas africanas de língua portu-
CABO VERDE – PORTUGAL
dades cujas identidades foram influenciadas guesa estão em destaque no número 6
Armindo Martins Tavares
pelos portugueses. da Plural Pluriel - Revue des Cultures de
com novo livro
No quadro dos estudos pós-coloniais, o Langue Portugaise (Primavera-Verão 2010),
Colóquio pretende olhar para a história, a publicada pelo Departamento de Estudos
Armindo Martins Tavares, dramaturgo
literatura e a cultura destes antigos territó- Lusófonos da Universidade de Paris Ouest
cabo-verdiano, apresenta “Trilogia de con-
rios portugueses de forma a perceber até Nanterre La Défense.
tos para teatro" nos Estados Unidos da
que ponto a influência de Portugal marca as
América, Cabo Verde e Portugal.
suas identidades, procurando coincidências
e contrastes com outras zonas do mundo,
Este novo trabalho, “Trilogia de contos para
nomeadamente com os países lusófonos do
teatro”, escrito em português e em crioulo,
Atlântico.
reúne três contos - “Perdão Emília”, “Fon-
seca de Nha Susana” e “Manduco Vivo” - e
assume como objectivo destacar a importân-
cia do crioulo na afirmação da identidade
BRASIL
cultural do arquipélago.
Mostra de filmes da CPLP
A obra foi apresentada nos Estados Unidos
no Rio de Janeiro
em Agosto e em Cabo Verde (Praia e Min-
A Secretaria do Audiovisual do Ministério
delo) em Setembro e tem o lançamento em
da Cultura do Brasil (MinC) organiza, entre
Portugal agendado para o Jardim Delfim Gui-
2 e 7 de Novembro, no Rio de Janeiro, a I
marães, na Amadora, em Outubro.
Mostra Especial da Comunidade dos Países
Armindo Martins Tavares, nascido em Chã de MOÇAMBIQUE - PORTUGAL de Língua Portuguesa (CPLP), destinada a
Nispres, Cabo Verde, em 1959, actualmente Encontros com África II filmes que "promovam e difundam a diver-
radicado em Portugal, é autor de dezenas de – Moçambique na UTAD sidade cultural e os intercâmbios em língua
peças de teatro, entre as quais “As Aventuras
portuguesa".
de Nhu Lobo”. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro, em Vila Real, vai acolher nos dias 3 e De acordo com os seus editores, a "Plural
4 de Novembro o colóquio Encontros com Pluriel" previu desde a sua criação consagrar
PORTUGAL África II-Moçambique. A iniciativa ocorre um número às literaturas africanas: "hoje em
“Estados de alma” no âmbito do projecto "Espaços e Paisa- dia, elas ultrapassam o estado de emergên-
na livraria Almedina gens Culturais na Ficção Africana de Língua cia em que estiveram acantonadas durante
Portuguesa", organizado pelo Centro de muito tempo, para atingir um nível de serena
A Livraria Almedina do Atrium Saldanha Estudos em Letras da UTAD. maturidade, em que se misturam os anciãos
(Lisboa) iniciou a 10 de Agosto um ciclo de - Pepetela, Luandino Vieira -, os mestres,
conversas em redor da literatura brasileira, O objectivo dos Encontros é debater mani- lidos, traduzidos e adaptados - Mia Couto
"Estados de Alma". Depois de José de Alen- festações culturais, diversidade cultural, iden- e poucos mais - e uma numerosa geração,
car, os autores a visitar até Dezembro são: tidade e memória, bem como os diálogos já impaciente, de autores de Cabo Verde, da
João Ubaldo Ribeiro, Clarice Lispector e que têm sido promovidos entre a cultura e Guiné-Bissau, de Angola e de Moçambique,
Graciliano Ramos. os horizontes políticos e sociais moçambica- vivendo ou não nos seus países".
nos para responder aos desafios de hoje. A Mostra incidirá sobre filmes de qualquer O número, organizado por José Manuel da
De acordo com o texto de apresentação, o A lista dos convidados integra, entre outras género e duração, produzidos nos países que Costa Esteves, responsável pela cátedra
pretexto deste ciclo é fruir das “melhores personalidades: o Embaixador de Moçam- integram a CPLP, que "tratem do aprofunda- Lindley Cintra do Instituto Camões da Uni-
obras de ficção produzidas em língua portu- bique em Portugal, Miguel Mkaima, os in- mento da amizade mútua e da cooperação versidade Paris Ouest, é também uma ho-
guesa do outro lado do Atlântico". O ciclo é vestigadores Ana Mafalda Leite, Nataniel entre estas nações, promovendo e difun- menagem a Michel Laban, professor, investi-
dirigido "a todos aqueles que queiram con- Ngomane e Agnes Levecot, os escritores dindo culturas e intercâmbios em língua por- gador e tradutor, falecido em 2008. A revista
tactar, ou conhecer melhor, o romance feito moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa e tuguesa" ou que "revelem um olhar sobre a inclui textos de Maria Helena Araújo Car-
no Brasil". Foram escolhidas "obras clássicas, Sulemane Cassamo. singularidade de tais países e a inter-relação reira, Adriano Alcântara, Alberto Carvalho,
consagradas pelo tempo, e as mais significa- cultural entre eles". entre outros. Na secção documentos, quatro
tivas produções literárias contemporâneas, De acordo com o Ministério da Cultura do escritores africanos - Mia Couto, Ondjaki,
unidas por temas transversais, pelo estado INGLATERRA - PORTUGAL Brasil, a mostra integra a programação do I Carmén Tindó e Abdulai Sila - homenageiam
de espírito presente em cada texto ficcional, A Língua Portuguesa à vol- Congresso de Língua Portuguesa, a realizar o seu tradutor e amigo.
como a alegria, a tristeza ou a ira, a loucura, a ta do Índico no Rio de Janeiro, de 2 a 7 de Novembro, e Como habitualmente, a revista reporta as
gula ou a luxúria, e muitas outras condições faz parte do “Portefólio de Perfis de Projectos mais recentes actividades e as iniciativas
humanas". Timor-Leste e Moçambique são alguns dos Culturais da Comunidade dos Países de Língua desenvolvidas pelo CRILUS - Centro de
Até ao final do ano, os leitores da Almedina países lusófonos com literatura em des- Portuguesa (CPLP)” da Fundação Palmares, Pesquisas Interdisciplinares sobre o Mundo
poderão discutir a "luxúria", a partir de "A taque no Colóquio Internacional "Pena-In- que "sistematiza a política cultural deflagrada Lusófono.
cenaberta 13
cenaberta

PORTUGAL PORTUGAL - BRASIL À semelhança do que aconteceu no primei-


Instituto Camões prepara “Quando as máquinas pa- ro Encontro, o próprio formato da reunião,
novos regulamentos ram” em co-produção lu- organizada em mesas-redondas abertas à
para apoio sófona participação de todos os intervenientes,
à internacionalização pretende aproximar os criadores e as es-
O Teatro Extremo (Portugal) e o Grupo truturas de produção artística que operam
O Instituto Camões anuncia no seu sítio Harém de Teatro (Teresina, Piauí, Brasil), no terreno dos decisores políticos dos
na Internet estar em preparação um novo estrearam a 18 de Julho, em co-produção, vários países, na perspectiva de fomentar o
modelo de apoio à internacionalização, que a peça “Quando as máquinas param”, de inter-conhecimento pessoal e de facilitar a
deverá entrar em vigor no início de 2011 e Plínio Marcos. Para 2011 está prevista a discussão sobre oportunidades e projectos
cujos pormenores serão divulgados ainda remontagem do espectáculo e a digressão concretos de colaboração, mais do que a
no último trimestre de 2010. em Portugal. produção de ambiciosos documentos pro-
gramáticos ou cartas de intenção.
Ao contrário dos últimos anos, o Instituto Os resultados obtidos na primeira edição

DR
Camões não abriu em 2010 os habituais do Encontro (Coimbra, Dezembro de 2009),
concursos de apoio à internacionalização, O Festival pretende apresentar uma pro- cujas conclusões foram publicadas no cena-
que permitiram várias digressões de ar- gramação diversificada, que inclua algum berta n.º 9, apontaram para a necessidade de
tistas portugueses. Tal resulta, segundo os do melhor teatro que hoje se faz, “além do uma mais ampla divulgação dos vários acor-
responsáveis, da entrada em vigor da nova Atlântico e perto de nós”. Na sua segunda dos de cooperação actualmente em vigor
lei orgânica do Instituto (Decreto-Lei n.º edição, realizada em 2009, assumiu a aposta entre os países lusófonos e, sobretudo, de
165/2009, de 28 de Julho), que veio obrigar nos intercâmbios artísticos dentro do espa- que as medidas aí enunciadas sejam efectiva
a que fossem feitas adaptações ao anterior ço ibero-americano e no universo lusófono, e definitivamente colocadas em prática. Foi
regulamento. acolhendo espectáculos vindos de Portugal, igualmente assinalada a insuficiência da acção
Chile, Equador, Noruega e da Argentina. cultural da CPLP enquanto comunidade
Na escolha dos espectáculos, uma preo- multinacional e reconhecido o interesse
cupação assumida com a inovação: “obras em que este tipo de encontros se realizem
BRASIL arriscadas, multi-culturais, radicais, lúdicas, regularmente, de preferência de forma rota-
IV edição do Concurso poéticas e mesmo delirantes. Nenhuma ba- tiva pelos vários países envolvidos.
Literatura para Todos nal, nenhuma que nos deixe indiferentes!”. Um ano depois, numa altura em que algu-
Porque, acrescenta a directora Ânxeles mas das instituições têm novos responsáveis
Promovido pelo Ministério da Educação “Quando as máquinas param” retrata o Cuña Bóveda, “o Teatro é muito mais do que e em que se anunciam para o futuro próxi-
do Brasil, a IV edição do Concurso Li- quotidiano dum casal com problemas finan- um evento. É uma necessidade desde as ori- mo significativos projectos de colaboração,
teratura para Todos aceita propostas de ceiros. Ainda que escrito em 1967, o texto gens e sobrevive porque se reinventa”. multilaterais e bilaterais (como o “Ano do
autores brasileiros e de países africanos mantém intacta a sua actualidade, nomeada- O FITO reafirmou a sua aposta na lusofonia, Brasil em Portugal” e o “Ano de Portugal no
de expressão portuguesa. As inscrições mente na abordagem que faz a temas como procurando reforçar o peso da participação Brasil”, agendados para 2012), os organiza-
decorrem até 13 de Outubro. o desemprego ou a condição feminina. de grupos de língua portuguesa em 2010, dores crêem ser oportuno fazer um novo
Depois da estreia em Teresina e da passagem nesta terceira edição do Festival. Contudo, a ponto da situação.
pelo Festival Mindelact, Cabo Verde, o espectá- vinda de espectáculos brasileiros acabou por Para o efeito, estão convidados os par-
Este ano, o Concurso distinguirá nove obras,
culo voltará a ser apresentado no Brasil no não se confirmar, devido a cortes orçamen- ticipantes do I Encontro e outros agentes
nos géneros prosa (conto, novela ou cróni-
início do próximo ano, viajando posterior- tais de última hora, que comprometeram a culturais, em particular, neste caso, do país
ca), poesia, tradição oral (em prosa ou em
mente para Portugal. Aqui cumprirá uma programação do festival. anfitrião.
verso), biografia e dramaturgia. Os concor-
temporada na sala do Teatro Extremo (Al- Mais informações em www.fitoourense. Os trabalhos estão organizados em quatro
rentes devem apresentar livros inéditos, "di-
mada) e realizará uma digressão por várias com. mesas-redondas: "Festivais de Teatro e cir-
rigidos a leitores jovens, adultos e idosos em
localidades. culação de espectáculos: o encontro como
processo de alfabetização e matriculados em
Com encenação de Fernando Jorge Lopes, di- base para o conhecimento", "Formação
turmas de educação de jovens e adultos nas
rector artístico do Teatro Extremo, e interpre-
redes públicas de educação básica". Os tex- CPLP cruzada: enriquecer com a diversidade",
tação de dois actores da companhia brasileira,
tos "devem ter narrativa atraente, favorecer II Encontro Internacional "Co-produções: juntar forças e diferenças"
Bid Lima e Francisco Pellé, o espectáculo foi
o envolvimento afectivo e apresentar uma sobre Políticas de Inter- e "Comunidade artística e poder político:
contemplado com o Prémio de Teatro Myriam
leitura do mundo". câmbio no FESTLUSO fórmulas para o diálogo".
Muniz atribuído pela Funarte - Fundação Na-
Os objectivos são reafirmar o valor da lei- (Teresina, Piauí) O FESTLUSO nasceu em 2008, por iniciativa
cional de Artes do Brasil. do Grupo Harém de Teatro, com o objecti-
tura e da palavra escrita e contribuir para a
A colaboração entre as duas companhias vo de "levar a Teresina a discussão sobre a
formação de uma comunidade leitora, capaz Um ano depois do Encontro realizado em
remonta a 1999/2000, quando co-produzi- preservação, a divulgação, as trocas, no es-
de compreender a função de ser e estar no Coimbra, o grupo Harém Teatro organiza
ram “Dois perdidos numa noite suja”, peça paço da lusofonia”. De acordo com o seu
mundo, além dos modos de produção so- em Teresina, em parceria com a Cena
de Plínio Marcos, igualmente encenada por director, Francisco Pellé, visava-se a criação
cial e cultural. Pretende-se, ainda, "estreitar Lusófona, a segunda edição do Encontro
Fernando Jorge Lopes. de um festival “em que pudéssemos fazer
laços culturais com os países africanos de Internacional sobre Políticas de Intercâm-
língua portuguesa". bio. A iniciativa decorre entre 15 e 17 de a aproximação de pessoas: pesquisadores,
No Brasil, as obras devem ser enviadas Novembro e integra a programação do directores, estudiosos do teatro de língua
para o Ministério da Educação, em Bra-
GALIZA FESTLUSO - Festival de Teatro Lusófono portuguesa”.
sília. Os autores africanos devem encami-
FITO 2010 e conta com o apoio do Ministério da Cul- Nas duas primeiras edições do Festival par-
nhar as obras para as embaixadas do Brasil tura do Brasil, através da Funarte. ticiparam já grupos de Cabo Verde, Angola,
De 22 a 31 de Outubro realiza-se na Galiza
nos seus países. Moçambique, São Tomé e Príncipe e Portu-
o FITO - Festival Internacional de Teatro
As regras do concurso e outras informações O Encontro pretende estimular o diálogo gal. A edição deste ano, que decorre entre
de Ourense. Com periodicidade anual, esta
podem ser consultadas no sítio da Secreta- entre agentes culturais e instituições ofici- 15 e 21 de Novembro, acolherá partici-
é a 3.ª edição do festival, organizado pelo
ria de Educação Continuada, Alfabetização e ais quanto à concepção, à planificação e à pantes de cinco países lusófonos e da Galiza.
Sarabela Teatro, companhia residente no
Diversidade (Secad), do Ministério da Edu- concretização das políticas de intercâmbio O programa completo pode ser consultado
Teatro Principal de Ourense.
cação Brasileiro. cultural no seio da CPLP. em www.festluso.blogspot.com.
cenaberta 14
Setembro 2010

Escritos sobre teatro


São Carlos de Todos os Povos: 150
anos

|\||||\
Coord. e Fot. Emidio Luisi. São Carlos: Prefei-
tura Municipal de São Carlos / Fundação Pró-
Memória de São Carlos, 2008.

de Kwame Kondé
Trinta anos de Cooperativa Paulista
de Teatro: uma história de tantos (ou
mais quantos, sempre juntos) traba-
lhadores fazedores de teatro
Alexandre Mate. São Paulo: Cooperativa Pau-
lista de Teatro, 2009.
“Escritos sobre Teatro” reúne mais de trilhar um caminho digno, conducente Uma tribu nômade: a ação do Ói Nóis

na estante
três dezenas de textos de Kwame Kon- à edificação de uma expressão artística Aqui Traveiz como espaço de resistên-
cia
dé – “nome de guerra e pseudónimo bem definida e estruturada.(...) Tratan- Beatriz de Araújo Britto. Porto Alegre: Ói Nóis
na memória, 2009.
artístico” de Francisco Fragoso – produ- do-se de um país vivendo sob domínio
Vinício Aloise: uma história desenha-
zidos entre 1976 e 2005. Médico cirur- colonial, a arte cénica nunca poderia ser da
Últimas aquisições Benedicto Vinício Aloise. Botucatu: SABEP,
gião há vários anos radicado em Portu- permitida ou, pior ainda, fomentada” 2007.
gal, Fragoso é um nome incontornável – o teatro, especifica num outro texto, do Centro de Documentação e
Informação da Cena Lusófona Publicações periódicas:
do teatro em Cabo Verde. Fundador “luta para a liberdade contra as civiliza-
5.º Festival de Cinema latino-ameri- Artefilosofia
e director artístico do grupo “Korda ções ameaçadoras, as tradições mortas cano de São Paulo 2010 Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Uni-
Org. Associação do Audiovisual. São Paulo: Me- versidade Federal de Ouro Preto, n.º 8 (Abril
Kaoberdi” e, mais recentemente, já em e os desequilíbrios perigosos”. Havia morial, 2010. 2010).
Lisboa, do “Tchon di Kaoberdi”, é igual- pois que contrariá-lo, “reduzindo-o ao 20 Poemas de desesperança e uma Artez - Revista de las Artes Escénicas
mente autor de textos dramáticos e de nada”, o que aliás foi feito “com grande canção de amor Dir. Carlos Gil Zamora, n.º 159 (Julho 2010).
Carlos de Moraes. Piracicaba: Ed. do autor,
estudos e ensaios sobre a história do e espantosa eficácia”. Irónico, acres- 2010. ASSAIG de Teatre-Revista de l’Asso-
ciació d’investigació i experimentació
teatro no arquipélago. centa: “com a agravante de havermos A Piragua teatral
Cândido Pazó. Ames: Ed. Laiovento / AGADIC / Dir. Ricard Salvat, n.º 75 (Janeiro 2010).
O livro agora publicado incide particu- sido colonizados pelo país que bem Centro Dramático Galego, 2009.
Cavalo Louco
larmente no período de existência do sabemos – Portugal – onde a arte em Almanaque de História e Cultura – Di- Revista de teatro da Tribo de Atuadores Ói
mensão Alluminatus Nóis Aqui Traveiz, Ano 5, n.º 8 (Julho 2010).
“Korda Kaoberdi” (1975-1982), reunin- apreço – o teatro – passou por vicis- Anthemo Roberto Feliciano. Botucatu: Ed. An-
themus, 2010. Cuadernos Escénicos de San Francisco
do preciosa informação sobre a activi- situdes das mais incríveis como bem Dir. Carlos Gil Zamora, n.º 1 (Dezembro
Antologia poética de autores botuca- 2008).
dade do grupo: textos que integravam nos dá conta a sua história”. tuenses
os boletins de cada espectáculo ou os O autor assumiu sempre a função peda- Associação de poetas e escritores de Botucatu La Ratonera – Revista Asturiana de
/ Centro Cultural de Botucatu. Botucatu: APEB, Teatro
cadernos teatrais editados, fotografias gógica e comunitária do teatro: em 1999-2002 (Vol. III, V e VI). Dir. Roberto Corte e Pedro Lanza, n.º 30
(Setembro de 2010).
(infelizmente não legendadas), peças jor- 1978, referindo-se ao trabalho colectivo Escritos sobre Teatro
Kwame Kondé. [s.l.]: Artiletra, 2010. Ouvir ou Ver
nalísticas, como a entrevista dada pelo do Korda Kaoberdi, fala mesmo numa Revista do Dep. de Música e Artes Cênicas da
Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais
autor e por outros elementos do grupo aliança “povo-grupo cénico”, uma “sim- da Universidade de Uberlândia, n.º 5 (2009).
ao “Jornal de Angola”, em 1978. Inclui biose colectiva de recriação artística”, Repertório - Teatro e Dança
PPGAC: Programa de Pós-Graduação em Artes
ainda dois dos textos encenados pelo conducente “à eficácia social e estética Cénicas da Universidade Federal da Bahia, Ano
grupo – “Anansegoro (prestarás jura- da cultura dum povo”. Apesar disso, 12, n.º 13 (2009).

mento)” (1978) e “Morte-vida-poeta” Fragoso procurou sempre não descurar RGT - Revista Galega de Teatro
Dir. Antón Lamapereira, n.º 62 (Primavera
(1982) – e “Kantigas Tabanka-Batuko pa o contexto em que este novo teatro 2010).
Teatru'l”, sobre as quais seria criado o caboverdiano poderia inserir-se, quer Sinais de Cena
Propr. APCT - Associação Portuguesa de Críti-
espectáculo “Rai di Tabanka” (1980). em África, quer no resto do mundo cos de Teatro e CET – Centro de Estudos de
Teatro da Universidade de Lisboa, dir. Maria
Na entrevista ao jornal angolano, – entre os espectáculos apresentados Helena Serôdio, n.º 13 (Junho 2010).
Kwame Kondé enquadra a actuação do pelo grupo há textos de Augusto Boal TDR - The Drama Review: the journal
of performance studies
grupo no âmbito dos esforços governa- e peças do “Teatro Campesino” dos Es- Ed. Richard Schechner, Vol. 54, n.º 2 (Summer
2010).
mentais: “é significativo que o camarada tados Unidos. “Toda a arte que se preza
Zirkolika - Revista de las Artes Cir-
ministro da Educação e Cultura tenha como tal, sendo nacional na sua consti- censes
muita estima pelo grupo. Tem-nos dado tuição, não deixa, contudo, de ser ecu- Dir. Vicente Llorca, n.º 24 (Primavera 2010).
muito apoio e ainda recentemente, em ménica e universal nos seus projectos e
conversa com um de nós, disse que o ambições”.
nosso trabalho era tão positivo que Num dos textos mais recentes (2000),
vem dar força a todo o esforço de o autor reflecte sobre “a avidez e o
Film Noir
educação e de esclarecimento que se gosto” pelo Teatro dos caboverdianos, André Murraças. Lisboa: Teatro Nacional D.
Maria II / Bicho do Mato, 2009.
faz. Então ele dizia: 'nos sítios onde as algo que encontramos referido por ou-
“Fotografia” de um núcleo de inves-
pessoas ainda não atingiram uma certa tros autores e noutros contextos. Mas tigação teatral com enquadramento
universitário: Lume
compreensão a vossa presença é útil'.” chama a atenção para o facto de esta Tiago Porteiro. Amadora: Escola Superior de
Num artigo de 1978, o autor justifica predisposição precisar, na sua óptica, Teatro e Cinema / CHAIA, 2010.
a importância da utilização do “idioma de ser “canalizada” e “orientada”, para Língua e Cultura na política externa
portuguesa: o caso dos Estados Unidos
caboverdiano”: “a língua nacional é in- que possa assumir-se “de forma conse- da América
Rui Chancerelle de Machete e António Luís Vi-
discutivelmente a substância e a alma quente”. Especifica: “para existir teatro cente. Lisboa: Fundação Luso-Americana para o
Desenvolvimento, 2010.
dum povo, por isso, arma eficaz neste é necessário existir palcos onde ele se
Mares e Terras do Morrazo
engajamento na senda da edificação faz e literatura dramática convincente. Coord. Salvador Castro Otero. Federación de
Comerciantes e Industriais do Morrazo, D.L.
dum novo caminho, que se quer e se Enfim, um conjunto de meios e recur- 2009.
deseja sob o signo da liberdade e da sos indispensáveis para a sua real efec- O Bichero
independência”. Além disso, o crioulo tivação”. Luís Davila. [s.l.]: Federación de Comerciantes e
Industriais do Morrazo, [s.d.].
tinha um maior “poder de impacto na Dez anos depois, a realidade do teatro O Ténis e a Moda
Audiovisual:
grande massa dos espectadores, dada a em Cabo Verde é hoje necessariamente Paulo Morais-Alexandre. Amadora: Escola Su- Arte e Pedra no Morrazo
perior de Teatro e Cinema, 2010. [s.l.]: Federación de Comerciantes e Industriais
sua expressividade, poder de persuasão diferente, como demonstra a recente do Morrazo, [s.d.] [DVD].
Pele
e força comunicativa”, o que fazia que o edição da revista setepalcos que lhe é Alessio Di Pascucci. Botucatu: SABEP, 2007. Cuesta Nova
Carlos Franco Drummond. Manaus: Sonopress
teatro cumprisse “o papel que lhe com- dedicada. Ainda assim, diz quem está Portugal, os Estados Unidos e a África Rimo Indústria e Comércio Fonográfico, 2008
Austral [CD Rom].
pete na luta pela transformação das co- no terreno, a falta de espaços cénicos Coord. Manuela Franco. Lisboa: Fundação Luso-
-Americana para o Desenvolvimento / Instituto Cururu: Tradição e poesia caipira
munidades e das mentalidades”. e a situação da dramaturgia nacional Português das Relações Internacionais da Uni- Jonata e Horácio Neto. São Paulo: PROAC /
Quando reflecte sobre a história do permanecem como os principais pro- versidade Nova de Lisboa, 2006. Governo de São Paulo, [s.d.] [CD Rom].
teatro no seu país, em textos de 77 e blemas. O que sugere que o caminho Prosa de cantador: a história e as No Princípio: documentário e espec-
histórias dos cururueiros paulistas táculo de dança
78, mas também num ensaio de 2000, iniciado em 1975 está ainda longe do Sérgio Santa Rosa. Botucatu: FEPAF, 2007. Org. Soraia Maria Silva. Brasília: Universidade
de Brasília / CDPDan, 2010 [DVD].
Kwame Kondé não poupa críticas ao seu termo. Regimes e Império: as relações
Luso-Americanas no Século XX O Morrazo é arte
colonizador: “Em Cabo Verde, teatro foi Coord. Luís Nuno Rodrigues. Lisboa: Funda- Manuel Aldao Portas et alli. Federación de Co-
ção Luso-Americana para o Desenvolvimento, merciantes e Industriais do Morrazo / Diário de
coisa que nunca teve oportunidade de Pedro Rodrigues 2006. Pontevedra / Caixa Nova, [s.d.] [DVD].

cenaberta 15
cenaberta Setembro 2010

Orlando Worm (1938-2010)


Notícia brutal: a morte de Orlando Worm, 4 de Agosto. No roteiro biográfico do Or-
lando há uma dimensão de proximidade, uma estreita relação com a Cena Lusófona, da
qual foi dirigente e fundador. Connosco calcorreou espaços cénicos, inventou soluções
técnicas e promoveu emblemáticas acções de formação na Guiné-Bissau e em São Tomé
e Príncipe. Transmitiu saber à juventude, ensinou nas mais difíceis e austeras condições.
É referência inapagável nesta aventura de, juntos, ousarmos acender palcos na lusofonia.
Recordamos Orlando Worm pela pena do jornalista Fernando Madaíl, texto original-
mente publicado no Diário de Notícias, 1 de Maio de 2010.

O poeta que desenha a luz


na dança e

DR
no teatro
Pioneiro no desenho de luzes, em meio século de car- ção técnica
reira fez espectáculos com os principais criadores por- – pois come-
tugueses e, também, com Peter Brook e Louis Falco. çou quando
Uma linha e um fósforo chegam para se fazer um cenário. se iluminava
Eis uma das frases que, mal percebidas, espantavam (e apenas com
encantavam) os discípulos de Orlando Worm, quando g a m b i a rr a s
ele lhes estava a transmitir a sua sabedoria na criação (fiadas de
do desenho de luzes para dança, teatro ou ópera – cada lâmpadas de
arte com suas especificidades. O pioneiro e mestre da cor, que se
iluminação cénica – essa área que ele fez saltar da ficha acendiam se-
técnica para a ficha artística dos espectáculos – nasceu paradamente
em Lisboa, a 21 de Setembro de 1938, e recebeu o ape- e só permi-
lido familiar de origem dinamarquesa – que, entre nós, tiam variar
deve remontar aos tempos do reinado de D. Maria II. os tons do
Apesar da tradição musical que se vivia em sua casa, cenário) e ainda se mantém no tempo da maleável muitas outras colaborações: com companhias do teatro
onde morava também a avó pianista, a primeira vez que tecnologia LED – ao requinte na sensibilidade artística, independente como Os Cómicos ou o TEP, a Cornu-
Orlando Worm percebeu o fascínio pelo palco foi quan- soube sempre criar ambientes e atmosferas peculiares cópia (por exemplo nas peças Pequenos Burgueses,
do aceitou a proposta de um colega da Escola Afonso para cada narrativa teatral, para cada cadência de bai- encenada por Jorge Silva Melo, e Ah Q, dirigida por Luís
Domingues que lhe perguntou: "Queres ir à ópera de lado, recortando os corpos e sublinhando os gestos, Miguel Cintra) ou A Escola da Noite, com encenado-
borla?" Aceitou de imediato o desafio e foram ambos, destacando diferentes pontos de atracção, reforçando res como Peter Brook ou Giorgio Barberio Corsetti,
então rapazes de 16 anos, para uma fila do Coliseu de tensões entre os intervenientes através de maior brilho Carlos Avilez ou Mário Feliciano, Richard Cottrell ou
Lisboa, onde contratavam figurantes para entrarem ou mais penumbra, permitindo as mudanças de cena Tito Celestino da Costa, com coreógrafos como Louis
numa montagem de Aida. E foi como um dos soldados apenas com jogos de tonalidades ou ilusões conseguidas Falco (Reunion in Portugal e Escargot), Elisa Worm ou
do Acto II da ópera de Verdi que primeiro pisou um só com a sábia colocação de um foco. Clara Andermatt, muitos nomes consagrados no bailado,
palco e visitou os bastidores de um teatro. Durante o seu tempo no Ballet Gulbenkian, enquanto os vários pioneiros da nova dança portuguesa.
Dois anos depois, em 1956, já estava a trabalhar no projectores iam diminuindo de tamanho e aumentando Nalguns casos, inscreveu o nome na ficha de espectá-
Coliseu, tornando-se técnico de cena e iluminando es- as suas potencialidades, adquiriu os primeiros órgãos e culos que marcaram a carreira de vultos como os en-
pectáculos de circo, combates de boxe, operetas várias. mesas de luz, os novos computadores de iluminação. E, cenadores Ricardo Pais (entre outros, "Ninguém - Frei
Quando o Grupo Experimental de Ópera de Câmara em simultâneo, soube sempre constituir e dirigir equipas, Luís de Sousa", "Fausto - Fernando - Fragmentos" e
precisou de um iluminador para a sua tournée, chamou delegar trabalho e competências, formar novas gera- "Mandrágora") ou Fernanda Lapa (desde "As Bacantes"
aquele jovem, que também cantava música erudita, pois ções de luminotécnicos ("gosto imenso de transmitir a "Agosto em Osage"), os coreógrafos Olga Roriz (por
sempre foi um apaixonado por Bach e por Mozart. E o o pouco que sei"). exemplo em "Encontros", "O Livro dos Seres Imaginá-
primeiro iluminador português jamais abandonaria essa Após a Gulbenkian, foi director técnico do São Carlos rios", "Três Canções de Nina Hagen", "Espaço Vazio",
sua carreira paralela de barítono, integrando o Coro (de 1989 a 1992), do Centro Cultural de Belém (de "Treze Gestos de Um Corpo") ou Vasco Wallenkamp
Gulbenkian, o Cantus Firmus, o Grupo de Música Antiga 1993 a 1996, com destaque para o facto de ter ajuda- (só à laia de exemplo, em "Exultate Jubilate", "Amaramá-
de Lisboa, os Segréis de Lisboa, o Convivum Musicum do a apetrechar a sala de teatro e de lá estar quando lia", "Sete Sonhos de Pássaros", "Eurídice" e "Instante").
e o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa (com aquele foi o palco central de Lisboa Capital Europeia Sempre a desenhar os espectáculos na cabeça, antes de
o qual participou no Festival de Arte Contemporânea da Cultura - 1994), do Teatro Camões (que também inventar as plantas e apontar os projectores, ainda se
de Royan, em 1971, desenvolvendo depois ali uma ajudou a equipar e, no biénio de 1997 a 1998, houve ali destacou a formar equipas, a participar em comissões
colaboração cúmplice com a compositora Constança o Festival dos Cem Dias e a Expo'98) e da Companhia técnicas de reconstrução de teatros – e até a iluminar
Capdeville). Portuguesa de Bailado Contemporâneo (desde 1999 espaços públicos, edifícios inteiros (a Torre de Belém,
Em 1963, foi convidado para a equipa do Grupo Experi- até agora). o Palácio da Vila de Sintra).
mental de Bailado da Fundação Gulbenkian (mais tarde, Bastavam as plantas de iluminação que criou nestas casas Mas, afinal, pode fazer-se um cenário só com uma linha
Ballet Gulbenkian) e, primeiro como electricista de cena (e, também, o código gestual para a montagem de luzes e um fósforo? Não! Mas, se se atirar fósforo para uma
chefe e, posteriormente, como técnico de cena chefe, que concebeu para comunicar, do palco para a mesa, linha de água, provoca-se uma reacção química que
começava a desenhar-se a carreira do poeta das luzes com as suas equipas) para se ter tornado um nome origina um efeito luminoso espectacular. Sabedoria de
dos palcos portugueses. incontornável nas artes de palco em Portugal. mestre – e de poeta!  
Aliando uma enorme curiosidade sobre a evolu- Mas a criatividade deste artista sorridente alastrou a Fernando Madaíl