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Cena Lusófona

n.º 1 Abril 2004


COIMBRA
Rua António José de Almeida n.º2, 3000 - 040 COIMBRA Portugal t (+351) 239 836 679) f (+351) 239 836 476 | teatro@cenalusofona.pt | www.cenalusofona.pt distribuição gratuita

6 ESTAÇÃO .
a

da Cena Lusófona

Centros de
Intercâmbio
Teatral
Guiné-Bissau
São Tomé e Príncipe

BRASIL
um novo impulso
na CPLP?
Uma Estação
Na vida da Cena Lusófona várias foram
países da CPLP: Moçambique, Brasil,
cenaberta editorial
A última Estação, a 6.ª, palco em
Depois de um ensaio a que chamámos número zero, sai agora o número lugar, enfim, onde tudo começou.
um do jornal cenaberta, o primeiro de uma série que este ano com-
preenderá quatro edições e, a partir de Julho, também uma edição online
com actualização constante.
Mais do que um Festival, que também o Co-produção inesperada foi apresentada
Cenaberta é um pequeno jornal que pretende dar conta das múltiplas activi- foi, a última Estação da Cena Lusófona, reali- por actores moçambicanos na Estação, mobi-
dades de intercâmbio teatral e cultural que se desenvolvem no âmbito da zada em co-produção com Coimbra Capital lizando elementos oriundos de Moçambique
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e contribuir para a reflexão Nacional da Cultura 2003, correspondeu ao e outros a residirem em Portugal, todos
sobre os modos e as práticas dessa troca. cruzamento — num mesmo espaço e tempo convergindo numa rica experiência de palco,
— de múltiplos percursos teatrais do universo olhos postos em temáticas sociais e na reali-
As actividades da Cena Lusófona, realizadas nos últimos meses, ocupam da lusofonia. A par disso, também de Música, dade africana.
grande parte do espaço neste número. de Cinema, de debate e Cultura foi feita esta Também o 3.º Estágio Internacional de
Cena Lusófona é o lugar de onde parte esta publicação e esse lugar con- 6.ª Estação da Cena Lusófona em Coimbra, Actores Lusófonos, congregando partici-
entre 5 e 15 de Dezembro de 2003. pantes de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola,
fere-lhe uma marca natural que não pretende ser ocultada. Essas actividades
Confluiu também nesta Estação o esforço São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, assentou
foram, na realidade, momentos significativos na vida de uma rede com
estruturador da Cena no universo da CPLP, arraiais em Coimbra durante quatro meses,
centenas de agentes e presença em todos os países da Comunidade, na
através dos CIT’s, Centros de Intercâmbio “A Escola da Noite” como companhia de
vida de um movimento que tem produzido experiências e resultados que
Teatral, com prioridade para os da Guiné-Bis- acolhimento e formação. Desta experiência
não podem ser ignorados e representam saltos qualitativos rumo a uma
sau e de São Tomé e Príncipe. resultou a construção do espectáculo “O
comunidade artística efectiva e dialogante. Os grupos teatrais que em Coimbra Horácio”, de Heiner Müller, dirigido por
Por isso, merecem destaque nestas páginas alguns indícios da afirmação de representaram os dois referidos países Pierre Voltz, com estreia a 28 de Novembro
um novo Brasil, que deu posse de ministro a um artista e que se apresenta fizeram-no após um ano de trabalho nas e posteriores presenças na Estação.
agora como parceiro activo neste plano de troca cultural, como ainda co-produções, mobilizando contactos, inter- Ainda no âmbito teatral — e além das
recentemente o demonstrou ao organizar um seminário em Salvador câmbios, trânsito de formadores, ensaios. Uma importantes presenças de grupos e actores
prática em que os CIT’s locais revelaram a sua do Brasil, de Angola, da Galiza, de Cabo Ver-
dedicado ao tema.
importância e papel. de, da Companhia de Teatro de Braga, da
A importância da entrada activa do Brasil neste processo é, não só significa-
tiva, como essencial, e deseja-se que arraste consigo um entendimento com

Augusto Baptista
Portugal nesta matéria, que implique, finalmente, a definição de uma política
cultural na CPLP com participação alargada dos agentes e não confinada,
como até aqui, à ruminação estéril dos gabinetes.

António Augusto Barros

ficha técnica

Director António Augusto Barros
Redacção Augusto Baptista (coordenação e fotografia), António José Silva, Cátia Faísco e
Tiago Boavida
Concepção gráfica Ana Rosa Assunção

Colaboraram nesta edição António


Nóbrega, Armindo Bião, Eduardo Moreira, FBA. (mo-
tivos gráficos da Estação), Luiz Paulo Vasconcellos, Luciano Alabarse, Naum Alves de
Souza, Pedro Rodrigues, Silvana Garcia

Publicidade Linda Barreiro


N.º 1 distribuição gratuita
Tiragem 1250 exemplares
Impressão Tipografia Ediliber

Propriedade
Cena Lusófona . Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral
Rua António José de Almeida, n.º 2
3000 - 040 COIMBRA, Portugal

Tel.: (+351) 239 836 679


Fax.: (+351) 239 836 476
teatro@cenalusofona.pt
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Alto patrocínio

"Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante", Cena Só, São Tomé e Príncipe


cenaberta 2
na vida da Cena Lusófona
as Estações, concretizadas em diferentes

Augusto Baptista
Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe.
Dezembro de 2003, foi em Coimbra. O

Quinta Parede — houve dois espaços sabendo que ela é formada por um conjunto
suplementares de encontro: a “Tertúlia dos de contributos, nomeadamente os africanos
Dramaturgos” e o “Espaço Brincante”. e os portugueses, que nos engloba a todos»,
Na Tertúlia participaram dramaturgos, assinala António Augusto Barros. Também o
alguns já envolvidos no projecto, outros a in- “Bando de Teatro Olodum”, o “Teatrão” e os
tegrarem pela primeira vez acções da Cena contadores de histórias Lena Wild, Cândido
Lusófona. Os debates, centrados no texto, Pazó e Quico Cadaval deram inestimável
no lugar do texto na dramaturgia de Língua contributo na animação deste Espaço.
Portuguesa, exploraram também novas pistas, O Cinema teve destaque com o Ciclo
horizontes e caminhos dramatúrgicos. De en- Flora Gomes. E a Música garantiu assinalável
tre os integrantes nos trabalhos e discussões, presença, protagonizada por diversos artistas
alguns nomes: Naum Alves de Souza, Aimar oriundos de várias latitudes da lusofonia: Cida
Labaki, Cleise Mendes, Abel Neves, José Moreira, Virgínia Rodrigues, Ná Ozzetti, Luís
Mena Abrantes, Cunha de Leiradella. Tatit, Zé Miguel Wisnik, António Nóbrega,
O “Espaço Brincante” serviu para criar Mário Lúcio.
pontes entre a cultura tradicional dos vários Este é o retrato sintético da 6.º Estação,
países e as formas artísticas contemporâneas. um verdadeiro Festival pela exuberância da
Neste universo, António Nóbrega, velho programação, um evento construído por uma
companheiro de percurso, uma vez mais de- paciente e continuada prática projectual, olhos
sempenhou papel central. «O seu trabalho no futuro.
concentra aquilo a que se poderia chamar
a discussão identitária da cultura brasileira,

"Makbunhe", Os Fidalgos, Guiné-Bissau

Hora de balanço
Olhar crítico centrado na Estação, nas perspectivas futuras que se abrem, a palavra de António Augusto
Barros, depoimento colhido por cenaberta.

A vários títulos, esta Estação foi realmente ele possa continuar a aprofundar a busca das cal guineense, interrogando o presente, parte no mesmo ano e, melhor do que isso, de as
um momento muito forte, com grandes re- raízes históricas e culturais dos nossos vários muito da ligação do gesto quotidiano e con- ligar mesmo em termos de calendário. Isto foi
flexos internos, em todo este movimento povos. temporâneo para o gesto mítico, no seu todo. possível num contexto muito especial, com
apontado para criar comunidade artística Outra das áreas é a dramaturgia. Esti- Essa ligação sempre nos interessou muito no as atenções viradas para a Coimbra Capital
dentro da CPLP. veram aqui nomes importantes na “Tertúlia Teatro e de uma forma geral na Cultura e, Nacional da Cultura. À justificação da Cena
Penso que as pessoas ficaram muito mais dos Dramaturgos”. No Brasil houve uma portanto, justificava-se a apresentação do Lusófona realizar o programa em Coimbra,
motivadas para continuar o trabalho. Salvador aposta forte, com a presença de Cleise Flora, do seu cinema. por ser a sua cidade-sede, havia este motivo
da Baía quer organizar um Encontro que seja Mendes, Naum Alves de Souza, Aimar Labaki. Quisemos juntar ao Ciclo Flora Gomes a acrescido. A par disso, as instituições artís-
similar a uma Estação, ainda este ano, em No- A estabelecer a ponte Brasil-Portugal: Cunha de colaboração do CEIS 20 – Centro de Estudos ticas mostraram-se mais abertas ao acolhi-
vembro, com um Estágio, à semelhança dos Leiradella. Abel Neves e José Mena Abrantes Interdisciplinares do Século XX, um Instituto mento de programas especiais. Neste con-
que temos desenvolvido. foram outros dos criadores participantes. de investigadores universitários, que veio com texto, valioso foi o contributo de “A Escola da
Também estou convencido que demos A Tertúlia foi também um momento para a sua participação neste programa legitimar e Noite”, grupo que recebeu o Estágio, o orga-
um grande alento aos Centros de Inter- desenvolvermos projectos de fundo, como reconhecer a obra do cinesta. nizou, foi parceiro fundamental da Cena.
câmbio Teatral de Bissau e de São Tomé, e seja o de editarmos uma Setepalcos dedicada Depois, todo o lado musical nesta Estação Há outra coisa a destacar: a participação
podemos esperar que muito brevemente se à dramaturgia de Língua Portuguesa. E, no foi muito desenvolvido. Isto não aconteceu pela primeira vez de um grupo galego, o
dêem passos do mesmo tipo em Moçambique caso do Naum Alves de Souza, estamos no por acaso.Tanto a Ná Ozzetti, como o Wisnik, “Sarabela Teatro”. Esta foi mais uma etapa na
e em Angola. Penso que do ponto de vista da meio de um processo de publicação da sua como o Tatit, como a Cida Moreira, a Virgínia aproximação à Galiza, processo iniciado com o
estruturação da Cena por via dos CIT’s esta obra, edição com reflexos em Portugal, no Rodrigues, o Mário Lúcio, o António Nóbrega, projecto dos Contadores de Histórias — Can-
Estação foi um momento muito produtivo. Brasil, na CPLP. são pessoas muito ligadas a experiências céni- dido Pazó (5.ª e 6.ª Estações), Quico Cadaval
Depois, apontou-se para o cruzamento de Presença de destaque nesta Estação foi cas e teatrais, que têm dado sérios contribu- (6.ª Estação) — e que passou também pela
áreas que estão ligadas a experiências de pes- a de Flora Gomes, exemplo importante de tos ao Teatro, à palavra, à Língua que une esta organização do número da Setepalcos dedicado
quisa. Nós estamos a desenvolver o projecto realizador dentro dos países africanos de Comunidade. ao Teatro Galego.
dos narradores de histórias, e isso passou Língua Oficial Portuguesa. Tinham passado Há ainda outras áreas que também fi- Enfim, a vários títulos, esta Estação cor-
também por aqui. As pessoas conheceram aqui em Portugal algumas obras, mas nunca zeram o programa e lhe deram interesse. O respondeu a um importante ponto de chegada
as linhas de acção, os filmes, os realizadores, antes tinha sido percebida a dimensão do seu Estágio Internacional de Actores vem logo à e de partida. Foi um momento de reflexão
viram os contadores galegos. Nesta frente de percurso artístico. cabeça. e de partilha, mas foi também trampolim de
pesquisa, e com a vinda de António Nóbrega a Flora Gomes é um realizador com uma Tivemos oportunidade, pela primeira vez, novas dinâmicas teatrais e culturais no espaço
Coimbra, deram-se passos para que no futuro obra essencial, que parte muito da cultura lo- de fazer o Estágio e a Estação, as duas coisas da lusofonia.

cenaberta 3
Um estágio plural
A Cena Lusófona, “A Escola da Noite” e Na área específica do trabalho do actor,

Augusto Baptista
Coimbra - Capital Nacional da Cultura destacam-se ainda o estágio de três dias or-
2003 organizaram, entre Setembro e ganizado pelo grupo de teatro “O Bando”,
Dezembro de 2003, o 3.º Estágio Interna- sob a direcção de João Brites, Teresa Lima
cional de Actores. Este estágio contou com e Luca Aprea, bem como o exercício
a participação de sete actores oriundos dirigido por Antônio Mercado, durante três
de Angola, Brasil (Porto Alegre, Salvador e semanas, apresentado aos participantes
São Paulo), Cabo Verde, Guiné-Bissau e São do Congresso Internacional de Literatu-
Tomé e Príncipe, para além de seis actores ras Africanas Cinco Povos, Cinco Nações
portugueses. (organizado pela Faculdade de Letras da
O plano do Estágio consistiu essencial- Universidade de Coimbra).
mente na inclusão dos actores nas activi- A fase final do Estágio consistiu na cons-
dades normais de uma companhia de teatro trução do espectáculo “O Horácio”, de
profissional, “A Escola da Noite”, que fun- Heiner Müller, que estreou na Oficina
cionou ao mesmo tempo como instituição Municipal do Teatro a 28 de Novembro.
de acolhimento e entidade formadora. Foi Dirigido por Pierre Voltz, encenador francês
proporcionado aos estagiários o contacto com larga experiência também no campo
directo com as diferentes valências de uma da formação de jovens actores, o processo
estrutura deste tipo — actuação, encena- de montagem deste espectáculo foi ainda
ção, dramaturgia, cenografia, figurinos, aproveitado para desenvolver outras acções
técnica de palco, produção e gestão —, de formação no campo da dramaturgia
tanto através da realização de pequenos (com Carlos Guimarães, especialista na
workshops temáticos como, sobretudo, obra de Müller) e da preparação do actor,
pelo acompanhamento diário do trabalho com os contributos de António Amorim e
"O Horácio", A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores desenvolvido. de Franck Manzoni.

A Cena Lusófona desafiou jovens oriundos de vários países da CPLP a juntarem-se ao


elenco d'A Escola da Noite para, em conjunto, fazerem o terceiro Estágio Internacio-
nal de Actores, EIA. E se em “O Horácio”, de Heiner Müller, “há muitos homens num
só”, também no EIA foi assim. Isto a crer nos testemunhos dos protagonistas.
Amélia da Silva, Guiné-Bissau oralidade, serra, horizonte e mar; Congresso Quando me chamaram para este estágio fiquei uma comunidade de criação, de uma peça de
Quando entrei no avião na Guiné sabia que de Literaturas Africanas; primeiro público; ner- feliz porque sabia que seria bom para minha teatro. O resultado foi este espectáculo colec-
estava a perseguir um sonho. Um sonho tor- vos exóticos; novo fôlego; Pierre Voltz/Heiner carreira de actor no Brasil, mas não imaginava a tivo, mas de sabor absolutamente pessoal para
nado realidade quando, já em Coimbra, n’ “A Müller; Horácio, Curiácio; ai ki dô com vara e influência que iria ter na minha vida: as pessoas cada um de nós.
Escola da Noite”, encontrei pessoas de culturas sabre; o colectivo, a guerra, a paz, a injustiça, a com quem vivi, as coisas que aprendi, os desen-
diferentes que apenas tinham em comum um sobrevivência; a resistência; o actor consciente/ tendimentos que tivemos, os abraços, os beijos Ricardo Correia, Portugal
Português com diferentes pronúncias. cansado/encantado; desfeito e refeito; há muitos (na boca, no rosto), os sentimentos, o lugar, en- "Há muitos homens num só": a máxima repetida
De “O Horácio”, um dos momentos mais signi- homens num só; a festa; Estação em Coimbra; fim, tanta coisa que é difícil dizê-las todas. Hoje pelos romanos na peça de Heiner Müller vale
ficativos do Estágio, recordo: “o que nunca se teatro, música, palavras novas; descida a Évora, sinto falta de tudo e de todos, mesmo sabendo para “O Horácio” e para cada um dos actores
esquece do passado, e o Horácio não matou a Teatro Garcia de Resende; último sol de inverno; que em breve nos vamos encontrar. do EIA, que, na diversidade de práticas artísticas
irmã por maldade”. Às vezes a história fazia-me o actor consciente/de partida. Projectos. Agradeço à Cena Lusófona por proporcionar e culturais, contaminaram o grupo e deram sen-
lembrar o passado recente da minha terra. este momento na minha vida e na vida de muita tido e significado ao que deveria ser a CPLP.
Espero que este esforço da Cena Lusófona Sofia Lobo, Portugal gente, ao “Bando de Teatro Olodum” que me O EIA foi o resultado de uma fogueira de
de juntar, regularmente, pessoas de diferentes Participar de novo num EIA foi para mim um guia, à “A Escola da Noite” por me suportar, e sonhos, cores e inquietações de pessoas uni-
culturas, onde cada um ensina e aprende, possa privilégio: poder partilhar alguns meses da por ser tão organizada, e ao Teatro que ainda das pelo idioma, mas sobretudo pelo amor ao
ter continuidade. minha vida com pessoas tão diversas, tendo continua sendo a forma de encontrar e dizer Teatro.
à partida apenas em comum com elas o gosto coisas de todos os povos, línguas e raças. Como diria o Cota Vírgula no início de cada
Andrea Pozzi, São Paulo, Brasil pelo Teatro, uma maior ou menor experiência espectáculo: «Sílvia, estamos prontos». E já
O EIA foi uma experiência que proporcionou na sua prática e o falarmos a mesma Língua, João Ricardo, Porto Alegre, Brasil agora: «Queremos mais...»
a nós actores/estagiários sair do pequeno ainda que com sabores muito próprios. De De começo, o choque! Quem são estas pes-
mundo conhecido de nossos países e ousar novo, partindo agora de outros pressupostos soas? O que elas têm em comum comigo, além Carlos Marques, Portugal
abrir nossas mentes criativas e nossa sensibi- e de uma outra base de trabalho (sublinhando da Língua Portuguesa, que vimos não se tratar O ponto de encontro entre os treze actores
lidade para um exercício mais do que teatral, aspectos menos pessoais mas mais técnicos), a de uma, mas de várias Línguas Portuguesas, participantes no EIA, oriundos de culturas tão
no sentido formal, mais uma oportunidade de troca foi muito forte. O trabalho foi intensivo devido à diversidade de sotaques? O que vai diferentes, foi a diversidade: o que nos distinguia
troca de experiências e culturas através de um nas áreas que foram abordadas e o espectáculo/ acontecer? A resposta veio em cena. individualmente fez a união do grupo.
trabalho unificador. produto final que apresentámos é motivo de Lançámo-nos num caminho tortuoso e que Nestes quatro curtos meses do Estágio, com-
Falar deste estágio é falar de uma experiência orgulho para todos nós, creio, para nós os que foi o coração do EIA: a montagem de um panheirismo e teatro caminharam lado a lado.
marcante, que creio ter tocado a todos os acreditamos que há mais semelhanças do que espectáculo feito em conjunto entre “A Escola A experiência profissional e humana de cada
envolvidos, directa ou indirectamente: um tra- diferenças entre as pessoas e que essas mesmas da Noite” e os actores oriundos de Países de um dos participantes enriqueceu o colectivo,
balho corajoso de quem organiza e um presente diferenças podem ser motivo de aproximação Língua Portuguesa. motivou a partilha de culturas.
para os artistas que viveram esse processo. e de sustentáculo da criação artística, pela Sendo um grupo absolutamente sui generis, a Deste modo se apreendem técnicas e éticas,
estranheza que provocam e pela vontade de fricção gerada pelas nossas diferenças culturais, o actor cresce e recicla-se. Não deveria ser
Sílvia Brito, Portugal comunicar que despoletam. Mas se falo de sociais e ideológicas, trouxe, para o dia-a-dia sempre assim?
EIA 2003 - texturas, tintas e pigmentos privilégio é porque, para lá do trabalho que se de trabalhos em conjunto, a própria ideia de
Quatro meses, catorze actores; Gil Vicente e fez e mostrou, quem ficou mais rica fui eu, com conflito positivo, no sentido de aprender com a Carla Sequeira, Cabo Verde
Abel Neves, obrigatório; o poder da palavra na a partilha de uns sorrisos e de umas lágrimas diferença, aprender olhando directo no humano. O Estágio foi para mim uma experiência muito
viagem da Língua; o actor consciente/encantado; ora mais brancos ora mais pretos que guardei Estes conflitos, estas fricções entre realidades forte e enriquecedora que me ajudou a descor-
o corpo respira e paira; a voz ouve-se e canta; no bolso e que espero saber convocar devida- tão diversas, só nos enriqueceu. tinar incógnitas e a abrir portas deste mundo
tai chi chuan; subida a Braga, Teatro Circo; mente quando o Teatro de novo o justificar. O senhor Voltz, nosso encenador, soube usar maravilhoso que é o Teatro. Que a Cena Lusó-
António Mercado, semiologia teatral, O Baile, este potencial criativo dentro da montagem, fona tenha muitos anos de vida, para que outros
cinema teatral; Rui Knopfli, José Craveirinha, Érico Brás, Salvador, Brasil abrindo espaço para que, em cena aberta, sus- jovens usufruam também deste espaço.
Mena Abrantes; descida a Palmela, ao relento Quando a gente passa por coisas gostosas e tentássemos nosso ponto de vista sem largar
n' O Bando, interioridade, corporalidade, saudosas em nossas vidas, é difícil esquecer. a ideia de estar fazendo parte de um todo, de

cenaberta 4
Cruzar culturas
Naum Alves de Souza, dramaturgo brasileiro, elege a 6.ª Estação,
«num mundo tão dominado pelos americanos», como um elixir
revigorante: «A Cena Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá
orgulho. Quando somamos nossas literaturas, nossa cultura, parece
que eu saio daqui com mais força». Cenaberta falou com vários par-
ticipantes que fizeram de Coimbra o seu palco e a sua plateia.

Anxeles Cuña Boveda, encenadora, ria oportunidade de conhecer, de estar sabendo o caminho de África e do Teatro africano, pelo
Ourense, Espanha o que acontece com estes grupos. menos dos países de Língua Portuguesa.
Creio que, em geral, estes encontros são es- Me sinto muito feliz porque trabalho na Escola
timulantes para se ir avançando. No caso da de Teatro da Universidade Federal da Bahia, que Cunha de Leiradella, dramaturgo,
Estação, um dos aspectos de maior relevo foi é um centro de produção, de formação, que tem Portugal/Brasil
ter um muito bom critério de programação. dado uma contribuição importante ao Teatro Encontros, eventos como este são de uma im-
Nos espectáculos, vi coisas lindas, poéticas e que se faz no Estado, que se faz no Brasil. E portância vital para todo e qualquer indivíduo
culturas distintas, que nos podem servir de para mim, sobretudo até para repassar esse que lida com artes cénicas, especificamente
espelho por um lado e de contraste por outro. conhecimento, este encontro da Cena Lusófona com o Teatro. Para mim, foi uma experiência
foi fundamental. fantástica, na cidade de Coimbra, conhecer pes-
A importância dos festivais, destes encontros, soas com outras concepções estéticas.
reside no facto do Teatro ser uma coisa viva, ser Para a arte do teatro eu acho este encontro
algo que não dá muito para encaixotar e guar- fundamental: primeiro, você assiste a uma sé-
dar, como pode acontecer, por exemplo, com o rie de espectáculos, alguns extraordinariamente
Cinema. Eu acho muito importante no Teatro bem fechados, bem dirigidos, bem montados;
você ter um contacto directo com as pessoas, segundo, acaba discutindo o fazer teatral com
com o espectáculo, com aqueles que o fazem. os seus amigos, com os seus colegas; terceiro,
temos a tertúlia de dramaturgos onde foram
Abel Neves, dramaturgo, Portugal colocados na roda e lidos textos de cada um,
O meu interesse no Teatro e fora dele é o foram discutidos. Eu acho isto de uma validade
diálogo. Aqui na 6.ª Estação foi possível e con- extraordinária.
tinua a ser possível o diálogo entre dramaturgos
e outras pessoas do Teatro, encontrando, nos Aimar Labaki, dramaturgo e cronista,
pequeníssimos indícios de criação e de vontade São Paulo, Brasil
de fazer, a utopia que vai alimentando a vida O mundo está tão de cabeça para baixo que às
de cada um. vezes é difícil a gente saber o lugar onde colocar
cada coisa. E o Teatro também serve para isso:
Naum Alves de Souza, dramaturgo, para a gente olhar para dentro, de fora.
São Paulo, Brasil Encontros como este da Cena Lusófona servem
Tenho um contacto com Portugal já grande e exactamente para olhar o diferente e ver o que
conheço bastante, mas eu nunca havia pensado há de mais igual entre a gente. Quer dizer, o
sobre a minha Língua Portuguesa, a ligação Teatro de Língua Portuguesa tem necessaria-
principalmente com África e com os diversos mente alguma coisa em comum, não importa
lugares descobertos pelos portugueses. Isso foi onde ele seja feito. Eu estou descobrindo isso
uma coisa muito interessante e emocionante, aqui neste encontro em Coimbra.
principalmente no dia em que assisti a “O Assim como no Teatro há actor e espectador,
Horácio” e vi todas aquelas pessoas de diversos um em frente do outro, nestes encontros, por
sotaques falando a mesma Língua. mais que se coloquem no colectivo, o que fica
É interessante e curioso ver que muitas vezes os de mais importante são as trocas pessoais.
sentimentos e as ideias se juntam e percebemos
então uma identidade. Portugal e o Brasil são Ayres Major, encenador, São Tomé e
cartaz e motivos: FBA

muito parecidos e muito diferentes. A Língua Príncipe


Portuguesa ocupou aquela extensão territorial No caso específico do meu grupo, o “Cena Só”,
muito grande e eu acho que a Cena Lusófona faz acho que este é um exemplo vivo das coisas
um trabalho de extrema importância para que boas que nascem em função da existência da
a gente tenha consciência disso, de que a nossa Cena Lusófona. Julgo que se a Cena conseguir
Língua ocupa um lugar importante no mundo, aguentar o projecto de intercâmbio de teatro
Também nos fazem pensar muito sobre a situa- que é tão dominado pelos americanos. A Cena lusófono, por mais algum tempo, a CPLP vai ficar
ção do Teatro em países e gentes com quem Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá mais enriquecida. Agora se (e o que eu temo)
temos afinidades. orgulho. Quando somamos nossas literaturas, isto falhar, vai ficar um grande buraco mesmo a
Eu conheço alguns festivais, mas, com estas nossa cultura, parece que eu saio daqui com nível do Governo de todos os nossos países.
características, sinto-o único. Creio que este mais força. “Pedro Andrade a Tartaruga e o Gigante” foi,
modelo de Coimbra é um caminho interes- em parceria com Rogério de Carvalho, o meu
santíssimo a seguir, como proposta de gestão, Marcio Meirelles, encenador, Salva- primeiro trabalho de encenação. Ter vindo a
de produção e de criação. dor, Brasil Coimbra com esta co-produção foi uma opor-
O facto é que no Brasil a gente não conhece a tunidade de assistir a vários espectáculos, con-
Cleise Mendes, dramaturga e profes- África. Há muito poucas referências, mais míti- versar, discutir com encenadores experientes,
sora universitária, Salvador, Brasil cas do que reais, do que seja a África, principal- conhecer novos trabalhos, novas pessoas, novas
Eu acho que esta foi uma oportunidade ímpar mente do que seja a África hoje, muito menos coisas. No fundo isto é um intercâmbio, é uma
de conhecer o trabalho de locais como a Guiné- o que seja o Teatro aí. Acho que a melhor coisa antropofagia e, com base nisto tudo, a gente
-Bissau, Moçambique, Angola, mesmo aqui de que me aconteceu foi ter entrado em con- aprende, troca, convive, faz amizades, cria con-
Portugal. Dificilmente, de fora deste festival, te- tacto com a Cena Lusófona. Porque isso abriu tactos. E a coisa ganha dimensão.

cenaberta 5
Nove imagens d
O Teatro, a Música e o Cinema que passaram pe
avaliarmos o que nesta esfera se faz nos países da CP
guardados em imagens, memórias para juntar ao á

"Lunário Perpétuo" – António Nóbrega, Brasil "Así que pasen 5 anos" – Sarabela Teatro, Galiza
Este actor brincante brasileiro apresentou vários espectáculos: Teatro e Música inspirados na cultura popular do seu "Sarabela Teatro" apresentou-se com "Así que pasen 5 anos", considerada uma das peças mais importantes e mais
país. polémicas da obra de Federico Garcia Lorca.

"A Bota e Sua Meia" – Face & Carretos, Porto Alegre, Brasil "O Horácio" – A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores
A peça de Herbert Achternbusch deu origem ao espectáculo que esta companhia brasileira mantém em circulação "O Horácio”, de Heiner Müller, com encenação de Pierre Voltz, foi o resultado final do Estágio Internacional de Actores
desde 1997. Lusófonos.

cenaberta 6
de uma Estação
ela 6.ª Estação constituem importante pista para
PLP. Os espectáculos presentes em Coimbra ficaram
álbum fotográfico de futuras Estações.

"Niketche" – Hala ni Hala, Moçambique Ná Ozzetti, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, São Paulo, Brasil
"Niketche" é o primeiro espectáculo de "Hala ni Hala", um grupo de artistas moçambicanos que dá a conhecer em Portugal Companheiros de palco no Brasil, reuniram-se à volta das canções que, ao longo dos últimos dez anos, deram origem
as dramaturgias e as formas de fazer teatro em África. aos seus álbuns.

Ciclo Flora Gomes – espaço de debate "A Força da Hábito" – Mais! Produções Artísticas, Porto Alegre, Brasil
António Augusto Barros, Diana Andringa e Flora Gomes. "A Força do Hábito" é uma parábola sobre o autoritarismo, o poder exercido solitariamente que acarreta a mais
profunda solidão.

"Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante" – Cena Só, São Tomé e Príncipe


fotografia: Augusto Baptista Este espectáculo culminou o curso de formação teatral, coordenado por Rogério de Carvalho, em São Tomé.

cenaberta 7
BRASIL:
um novo impulso
na CPLP?
Com o Brasil de Lula da Silva a presidir à Comunidade dos Países de Língua Oficial
Portuguesa, CPLP, que expectativas se abrem aos Oito no plano do intercâmbio
teatral, da cooperação artística, cultural? E, internamente, no imenso Brasil, que
novos rumos alberga o futuro, Gilberto Gil na direcção do Ministério da Cultura?
Cenaberta ouviu em 2003 insignes personalidades da Cultura, do Teatro, das Artes
brasileiras — integrantes de um lato espectro político-ideológico —, em Salvador,
Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte. Aqui ficam os importantes
depoimentos escritos por Luciano Alabarse, Naum Alves de Souza, Silvana Garcia,
Armindo Bião, António Nóbrega, Luiz Paulo Vasconcellos, Eduardo Moreira:
dúvidas e inquietações, palavras de esperança (e desesperança) em acções oficiais
tendentes a que nos possamos todos "enxergar melhor".

O novo tempo A vocação brasileira é a melhor e mais


generosa das vocações, qual seja a de reunir,
se o novo Ministro, Gilberto Gil, tem novos objetivos
em relação ao teatro. O novo governo do Estado de Atitude de abertura
receber, integrar e impulsionar o melhor São Paulo ainda não mostrou uma cara definida no
do futuro. Quando as condições estiverem que diz respeito à cultura. Talvez a maior atividade
colocadas, e os artistas estiverem com suas ainda se note na área da Prefeitura Municipal de São
propostas definitivamente incorporadas, Paulo que tem inaugurado novos centros de lazer
seguramente o panorama será o de troca real e cultura nas periferias. Apesar das dificuldades, é
e real intercâmbio. Oxalá não demore esta grande o movimento das propostas dos mais jovens
hora, e que os governos não sepultem esta que ocupam todos os espaços disponíveis do estado
utopia necessária. Nós, os artistas, já estamos ou do município ou criam, eles mesmos, em lugares
prontos e dispostos a conhecer, reconhecer, insólitos como bares, porões, bibliotecas, ambientes
LUCIANO ALABARSE propor e provocar o outro tempo, o novo para a apresentação de suas produções. SILVANA GARCIA
Produtor teatral, encenador tempo." Num outro âmbito, há a questão dos laços com os Dramaturgista, professora da
países nossos companheiros de língua. São grandes Universidade de São Paulo
"Os artistas sempre fazem a sua parte, e quase as esperanças de que o novo Ministério da Cultura
sempre estão disponíveis: querem trocar e
conhecer outras culturas e possibilidades, querem
Estreitar laços encontre caminhos para que nosso país faça parte da "O Brasil é um país imenso e o investimento na
rede que une os países de língua portuguesa.Apesar produção de bens culturais não se dá de modo
ser ouvidos e construir pontos e pontes de contato, das distâncias terrestres ou marítimas, é angustiante homogêneo. Logo, o primeiro papel que cabe
querem expressão e fazedura de real dimensão. o fato de nos desconhecermos. Os laços culturais ao Estado desempenhar é o de articulador
Mas o papel reservado à criação artística, co- entre Portugal, Brasil e os vários países, ex-colônias dessa produção, implementando a criação e
mo legítima representante do País,  ainda me portuguesas, precisam urgentemente ser mantidos. fomentando a difusão, de modo a equilibrar
parece acanhado e tímido. Ao lado dos nomes Foi muito comovente para mim ler peças teatrais melhor o mapa da produção e permitir uma
consagrados das artes brasileiras, uma geração escritas na África, na mesma língua que falamos e circulação maior dos produtos. O segundo
imensa de novos criadores anseia condições e escrevemos. O Brasil, país onde a cultura africana faz aspecto importante a ser ressaltado é o fato de
reconhecimento.  E sem arrumar primeiro a casa, é parte de sua formação, não pode mais se manter que certos mecanismos de apoio à produção,
difícil imaginar políticas de integração, mesmo com NAUM ALVES DE SOUZA distante daquilo que temos em comum.  Brasileiros, via leis de incentivo fiscais, transferirem para as
os parceiros de sonho e idioma. Se cruzar todas as Dramaturgo, encenador portugueses, africanos, indianos, precisam se manter empresas privadas a responsabilidade por um
fronteiras é meta urgente, sem estabelecer unidos pelo menos no que diz respeito à língua e segmento bastante importante da produção,
diálogo pertinente é muito difícil estabelecer "Não sei se sou a pessoa ideal para falar sobre a à cultura para que o sonho norte-americano de sem que houvesse um contrapeso a estabelecer
comunicação real com outros povos e política cultural brasileira neste novo governo.Tenho tudo dominar seja contido. Quando medito sobre equilíbrio entre o que é visto como viável
culturas. O papel a se esperar de um novo a impressão de que a classe cinematográfica tem sido o perigoso e cego avanço dos Estados Unidos sobre comercialmente e as produções de maior
governo é de um novo e audaz olhar sobre mais ativa e, nos jornais, pode-se ler mais a respeito o mundo, não posso deixar de sentir a incômoda risco. Aqui também é necessária a interferência
as reais condições brasileiras e propor, em do que o ministério pretende fazer com os filmes sensação de que um dia venhamos a fazer parte do Estado, como elemento regulador desse
português, novos paradigmas de política e do que com o teatro. Não consigo ver ainda se do catálogo das espécies extintas, como tem mercado.
ações culturais. E se, como já disse o poeta, pretendem manter o que ia bem, estruturado pelo acontecido com tribos primitivas, espécies vegetais Se tais papéis forem cumpridos com clareza de
navegar é preciso, eu pergunto: para onde? governo anterior, na figura do Ministro Weffort, ou e animais." diagnóstico e de propósitos, e transparência de

cenaberta 8
procedimentos, já estaremos bem avançados cultura,  se desenhando no Brasil, é necessário
no assentamento de uma política cultural que se busque no passado o que, ainda útil
competente. no presente, poderá de fato alargar nossos
Quanto à função possível a cumprir na CPLP, horizontes, de nós brasileiros e nativos e nacionais
antes de mais nada, adotar uma atitude de dos oito países de língua portuguesa."
abertura para essas culturas irmãs. Havendo
interesse em obser var semelhanças e
diferenças, e disposição de estabelecer-se como
interlocutor, as vias de colaboração mútua abrir-
Civilização de
-se-ão naturalmente."
partilha

Pátria é nossa língua

afinal de que adianta tanto conforto material para cartilha aplicada pelos jesuítas.
tanta miséria espiritual? Não é essa a civilização que A ação de intercâmbio proposta pela CPLP
ANTÓNIO NÓBREGA almejo para o meu país. Almejo aquela outra, a do deve ser, necessariamente, apoiada. Com ela
Actor, músico, investigador Divino Espírito Santo, como também a almejou o lucramos todos, o antigo Reino e as colônias,
grande Agostinho da Silva. Que esse seja o Norte, hoje igualados pelo status político e irmanados
ARMINDO BIÃO "Sou ainda daqueles que acham que o Brasil precisa a Bandeira e o Sonho do projeto cultural do meu pela reciprocidade de sentimentos. Que o teatro
Professor da Escola de Teatro da Bahia, dar maior atenção ao seu verdadeiro património país é o que, sinceramente, desejo. " continue a ser a cartilha que tem sido. Amén. "
Presidente da Fundação Cultural da Bahia cultural. Quando uso a palavra verdadeiro uso no
sentido daquele bem cultural que nos pertence
e a mais ninguém. O Choro, por exemplo, uma
Somos todos
"Nossa pátria é nossa língua e a Bahia um elo manifestação verdadeiramente brasileira: claro que
Descobrir os Brasis
berçário para o Brasil e parte intrínseca e
estruturante da rede intercontinental de países
os seus elementos formadores foram diversos, mas
a forma Choro de fazer música é fruto de nosso cidadãos
lusófonos. Navegar continua a ser preciso para temperamento e singularidades. Não há cida-
que a arte e a cultura gerem renda e emprego dezinha brasileira que não tenha um conjunto de
e reduzam desigualdades sócio-econômicas, tão Choro, por menor e mais simples que ele seja.
alarmantes na maioria dessa nossa rede. Artistas, Pois bem, São Paulo, uma cidade que subvenciona
políticos e gestores parecem ter compreendido pelo menos umas cinco orquestras sinfónicas, mas
enfim este nosso destino e vocação. Cabe a cada sequer sustenta um único conjunto de Choro. Para
um mergulhar de cabeça no oceano de problemas o desenvolvimento de nossa música grupos como
e soluções que nos fascinam, motivam e movem, o Papo de Anjo ou Isaías e seus Chorões são tão
e que nos cercam. Ainda mais ilhas isoladas que importantes quanto um quarteto de cordas, mesmo
ilhéus a caminho de um verdadeiro arquipélago, que ele toque Villa Lobos e outros destacados
nossas terras e gentes têm um futuro venturoso músicos brasileiros.
LUIZ PAULO
pela frente, se navegarem ao sabor das marés Acho que nós brasileiros ainda não nos demos VASCONCELLOS EDUARDO MOREIRA
e ventos que já sopram. Em cada canto, porto conta do imenso patrimônio cultural que o nosso Actor, ex-professor da Univ. Federal de Rio Actor e encenador do Grupo Galpão,
e porta, um mundo de projetos. Alguns já em povo foi capaz de criar ao longo de sua dilatada Grande do Sul, encenador Belo Horizonte
diálogo eventual. Na Bahia, sempre aberta história. Me explico: dilatada porque o Brasil não
ao exterior e amarrada a seu largo interior, começou só em 1500.As tradições culturais índias, "O Brasil possui hoje mais de mil e duzentos "Creio que o teatro e a cultura brasileiros vivem um
e s t a m o s t r a b a l h a n d o , co m o e m m u i t o s africanas e ibéricas são milenares, há muitos séculos teatros, segundo levantamento do Centro Técnico momento de grande expectativa.Até agora o novo
outros lugares, para que ações frutifiquem que vinham se construindo. Na Terra Brasilis elas de Artes Cênicas da FUNARTE. O estreitamento governo não deu sinais muito animadores de estar
e se multipliquem. O panorama lembra a apenas começaram a se justapor, a se interligar e, das relações com a África, como declarou recen- empenhado num programa sério de incentivo e de
história, revela a geografia e anuncia uma nova para usar uma palavra da moda, a se fusionar. Dessas temente o Presidente da República, constitui uma fomento aos agentes e movimentos culturais.Ainda
antropologia pragmática. A imagem é de nós, múltiplas interpenetrações nasceram cantos, danças, obrigação histórica. Afinal, com 76 milhões de é cedo para cobrar, mas é preciso urgência. Os úl-
laços e entrecruzamentos. A realidade é a nossa mitologias e cosmogonias riquíssimas, cheias de descendentes de africanos, somos a segunda maior timos anos representaram um abandono do Estado
imagem; e semelhança. verdades e belezas insuspeitadas. Brasileiras. É delas nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. com as suas obrigações com a cultura. Criou-se
O Brasil possui enormes demandas internas que emana o nosso Chão coletivo. Não fosse ele e Segundo o Ministro das Relações Exteriores, Celso uma lei de incentivo que, se em certos aspectos
e externas , de toda ordem. O comércio não teria existido Villa Lobos, Jacob do Bandolim, Amorim, os países africanos de língua portuguesa representou um avanço, criou o perigo de uma
internacional é um grande desafio, assim como Guimarães Rosa, Glauber Rocha. Não existiria olham hoje para o Brasil como uma fonte de elitização das verbas e patrocínios. É preciso que
a diplomacia. A Bahia tem papel importante Choro, Frevo, Capoeira, Baião, Samba, etc. cooperação técnica e prestação de serviços em o poder público crie bases que viabilizem proje-
em ambos os casos no que concerne os países Às vezes, um pouco de brincadeira e muito de diversas áreas do conhecimento, com destaque tos alternativos, populares, de grupos novos e de
africanos e de língua portuguesa, em geral. Aqui, verdade, em meus espetáculos, digo que todo nas da educação e agricultura. Mobilizamo-nos, pesquisa e que procure apoiar a circulação dos
por exemplo,  se desenhou a política internacional brasileiro deveria tocar pandeiro e dançar finalmente, conclui o Chanceler, para superar as bens culturais num país tão vasto e diversificado
brasileira dos anos 90 para a África. E o mestre quotidianamente. O pandeiro deveria estar sempre feridas do passado e lidar com as carências do como o Brasil. Nesse aspecto, é bastante triste a
Agostinho da Silva participou desse desenho entre a tiracolo 17 horas, todo o santo dia, deveria tocar presente. Que não são poucas, convenhamos, concentração que se vê ainda hoje no Brasil em
nós. O retorno político e simbólico do que foi uma sirene concitando as pessoas a pararem de sobretudo nos planos social e econômico. torno do eixo Rio-São Paulo. É preciso abrir es-
feito neste campo tem sido grandioso, mas há fazer o que estivessem fazendo e dançassem. Nas Em termos de arte e cultura, notadamente no caso paços para a produção de outros centros e deixar
ainda um longo caminho pela frente. Apesar ruas, nos lares, nos táxis, nas empresas, nos bares e do teatro, o fato de compartilharmos o idioma é que outros Brasis também sejam ouvidos, falados e
das intervenções em andamento nos campos nos hospitais, tudo pararia para que dançassemos. definitivo. Em nossos palcos, não precisamos mais representados. O Brasil é um país enorme que mal
da engenharia e da publicidade, por exemplo, Parece doidera, não? Mas são coisas dessa natureza falar castelhano, latim e tupi. Basta falar português. se conhece e que conhece menos ainda os outros
com ampla participação baiana, o que se investe que sonho como ideal de civilização e cultura para E nem precisamos mais fazer representar anjos países da comunidade de língua portuguesa. Creio
em cultura de intercâmbio é ainda muito pouco. o meu país.A civilização traz uma ideia de conforto e demônios. Somos todos cidadãos. O que, diga- que esse intercâmbio seria fundamental para que
Hoje, com novos discursos e práticas, na área da mas não traz o conforto propriamente dito. Porque -se de passagem, vem comprovar a eficiência da pudéssemos nos enxergar melhor. "

cenaberta 9
Pronunciar cultura e cooperação
Há um discurso Celso Amorim
novo no Governo Ministro das Relações Exteriores do Brasil

brasileiro, presidido "Como declarou o presidente Lula, o estreitamento

por Lula da Silva, das relações com a África constitui para o Brasil uma
obrigação política, moral e histórica. Com 76 mi-
para quem o estreita- lhões de afrodescendentes, somos a segunda maior
nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo
mento das relações está empenhado em refletir essa circunstância em
com África constitui sua atuação externa.
A África acompanha com grande interesse e
para o Brasil uma expectativa o que se passa no Brasil. Mais do que

obrigação política, isso, parece haver uma verdadeira sede de Brasil no


outro lado do Atlântico! Findo o regime do apart-
moral e histórica. O heid, superados os conflitos internos em Angola e
Moçambique, as sociedades africanas se mobilizam
Ministro das Rela- para cicatrizar as feridas do passado e lidar com as
ções Exteriores, Celso carências do presente. Trata-se de um verdadeiro
processo de renascimento, que não pode deixar de
Amorim, fala com nos sensibilizar. Nos países onde estive — Moçam-

renovado interesse bique, Zimbábue, São Tomé e Príncipe, Angola,


África do Sul, Namíbia e Gana —, deixei claro o
da cooperação ao compromisso do Brasil com uma renovada agenda

nível da Comunidade política, econômica, social, comercial e cultural com


nossos amigos africanos."
de Países de Língua
"Os países de língua portuguesa olham para o
Portuguesa, sensível Brasil como uma fonte de cooperação. (…) São
ao que chamou uma Tomé e Príncipe procura estabelecer parcerias com
sócios estrangeiros na exploração de suas rique-
verdadeira sede de zas petrolíferas. Além disso, deseja o nosso apoio

Brasil no outro lado para a regulamentação do setor. Com a instalação


de embaixada do Brasil em São Tomé, estaremos
do Atlântico. Mas é presentes em todos os integrantes da Comunidade
de Países de Língua Portuguesa. "
o Ministério da Cul-
tura, pela voz do é com essa diversidade interna que temos de literatura, em teatro, em pintura, em concertos "Após décadas de uma sangrenta guerra civil que
nos haver. musicais, em estilos de dança como o balé ou, devastou o país, Angola vive um novo capítulo de
titular da pasta, Gil- Engana-se, ao mesmo tempo, quem acha que essas mais modernamente, em cinema, depois que esta paz e reconciliação nacional. Nas conversas que lá

berto Gil, a estrutura várias culturas brasileiras existem como mundos


isolados, sem alianças e sem trocas entre si. As
forma de criação foi consagrada, pelos intelec-
tuais, no terreno da arte. Dito de outro modo,
mantive, foi recordado o significativo fato de ter sido
o Brasil o primeiro país a reconhecer o governo
do Governo brasileiro fronteiras entre esses mundos são porosas, mu- as pessoas pensam, automaticamente, no círculo angolano, bem como o papel desempenhado pelo

onde a temática da dam de posição frequentemente – e, para cada


montanha que isola, há um rio que aproxima,
restrito das formas que habitam o campo da
assim chamada “cultura superior”. Agem, então,
embaixador Ovídio de Andrade Melo nos primei-
ros momentos do relacionamento bilateral. "
cooperação-cultura conduzindo pessoas e signos." como se cultura fosse isso. O que não cabe
Bienal da União Nacional dos Estudantes, Fevereiro nesse universo não merece ser definido pelo "Em Gana, onde estive poucas horas, fui rece-
tem tido mais eco e de 2003 uso puro e simples do vocábulo cultura. Tem de bido pelo ministro do Turismo, de quem recebi
cor. ser referido com a colocação de um anexo verbal manifestações de interesse por cooperação em
"A Língua Portuguesa é um assunto que diz para restringir o conceito – como no caso de agricultura e esportes. Emocionou-me seu relato
respeito ao próprio lastro de toda a cultura expressões como “cultura de massas” e “cultura sobre a existência de uma Casa do Brasil em Acra,
brasileira. É um tema estratégico para o Brasil popular” – ou mesmo pela adoção de uma outra capital onde sobrevivem remanescentes de uma
Gilberto Gil que é o maior país de fala portuguesa, o que palavra, como “folclore”. comunidade de origem brasileira conhecida como
Ministro da Cultura do Brasil significa oitenta por cento do total de falantes (…) Para nós, do Ministério da Cultura do os “Tá-Bom”.
em oito países do mundo. Governo Lula, de um governo essencialmente O Itamaraty, em coordenação com diferentes
"Porque a cultura brasileira é feita pelo povo O Brasil ainda não se voltou para uma verdadeira transformador e democrático, de um governo áreas do governo, conta com o setor privado
brasileiro – e não por um punhado de pessoas que formulação política de sua língua – o brasileiro, ou que pretende – e vai – mudar o país, esta não e a sociedade civil para transformar os laços de
se julgam esclarecidas e detentoras do sentido e português do Brasil. Uma política da Língua não é, de modo algum, uma visão saudável, lúcida ou amizade que nos unem aos povos da África em
do destino histórico do país. (…) Porque o país pode resumir-se a tratados ortográficos." justa da realidade cultural. E é por esta razão que progresso econômico e social, em benefício mútuo.
e sua cultura não só se configuram a partir de Estação da Luz, Maio de 2003 não trabalhamos com um conceito acadêmico, Os caminhos para a África se reabrem e apontam
focos diversos, como se acham em permanente restritivo e elitista de cultura. (…) O que nós que- um reencontro solidário de brasileiros e africanos,
mudança. O Brasil pode não ser sinônimo de "Tradicionalmente, a maioria das pessoas, remos é justamente isto: incluir. Incluir na cultura, em sintonia com a motivação e as aspirações de
feijoada, mas de tucupi. Pode não ser sinônimo diante da palavra cultura, pensa automatica- franqueando a todos o acesso à produção e ao amplos setores de nossa sociedade. "
de orla marítima, mas de pororoca. Pode não ser mente no conjunto das formas canonizadas consumo dos bens e serviços simbólicos. " In Folha de São Paulo (O Brasil e o renascimento
sinônimo de orixá, mas do Bom Jesus da Lapa. E pela cultura ocidental-européia. Pensa em Câmara dos Deputados, Maio de 2003 africano), 25 de Maio de 2003

setepalcos
número especial sobre Teatro Galego

cenaberta 10
As edições podem ser adquiridas directamente na sede da Cena Lusófona, em Coimbra, ou nas
As Virgens Loucas seguintes livrarias:
de António Aurélio Gonçalves, Cabo Verde,
adaptação teatral de Cândido Ferreira AVEIRO A CORUNHA Livraria Bulhosa
(2001) Livraria dos Serviços de Acção Libraria Couceiro Campo Grande, 10 B
Social Praza do Libro, s/n

1700 092 Lisboa
– 10 euros Universidade de Aveiro 15005 A Corunha Tel.: 217 994 194 bulhosa.liv@sapo.pt
Campus Universitário de Santiago Tel.: (+34) 981 266 377 librariecouceiro Fnac Chiado
Teatro do Imaginário Angolar 3810 193 Aveiro
Tel.: 234 370 200 amanso@sas.ua.pt
@terra.es
ÉVORA
Centro Chiado
Rua Nova do Almada, 110
de Fernando de Macedo, São Tomé e Príncipe BEJA Centro Dramático de Évora 1150 182 Lisboa
(2000) Inclui as peças Capitango e Cloçon Livraria Lupynand Teatro Garcia de Resende Tel.: 213 221 800
Rua de Mértola, 89 Praça Joaquim António de Aguiar Livraria Portugal
Son 7800 145 Beja 7000 510 Évora Rua do Carmo, 70 - 74
– 10 euros Tel.: 284 324 112 Tel.: 266 703 112 cendrev@mail.evora.net 1200 094 Lisboa
BRAGA Livraria Nazareth & Filho Tel.: 213 474 982
Companhia de Teatro de Braga Praça do Giraldo, 64 liv.portugal@mail.telepac.pt
Supernova Teatro Circo 7001 901 Évora PORTALEGRE
Avenida da Liberdade, 697 Tel.: 266 702 221 Livraria Tavares
de Abel Neves, Portugal (2000) 4710 251 Braga FARO Rua do Comércio, 90-92
– 10 euros
Tel.: 253 217 167 ctb@mail.telepac.pt
Livraria Almedina
Campus de Gualtar
Papelaria Livraria Sagres
Rua D. João de Castro, 10
8000 309 Faro
7300 160 Portalegre
Tel.: 245 331 534
PORTO
As Mortes Universidade do Minho Tel.: 289 897 630 livraria@papelariasagr Livraria Leitura
4700 320 Braga es.com Rua de Ceuta, 88
de Lucas Mateus Tel.: 253 678 822 braga@almedina.net FUNCHAL 4050 189 Porto
de Leite de Vasconcelos, Moçambique (1999) Livraria Minho Livraria Almedina Tel.: 222 076 200 leitura@livraria.pt
Largo da Senhora-a-Branca, 66 Rua 31 de Janeiro, 67 – 1º SANTIAGO DE COMPOSTELA
– 9 euros
4710 443 Braga
Tel.: 253 271 152 minho@livrariaminho.pt
CALDAS DA RAINHA
9050 401 Funchal
Tel.: 291 281 160
GAIA
Libraria Couceiro
Rua República de El Salvador, 9
Teatro I e II Loja 107 Livraria Almedina
1571 Santiago de Compostela (Galiza)
Tel.: (+34) 981 565 812
obra dramatúrgica de José Mena Abrantes, em Rua Heróis da Grande Guerra, 107-109 Arrábida shopping, Loja 158 libraria@librariacouceiro.com
2504 910 Caldas da Rainha Praceta Henrique Moreira VIGO
dois volumes, Angola (1998) Tel.: 262 824 462 loja107@mail.telepac.pt Afurada Libreria Andel
– 10 eurosx2. COIMBRA 4000 475 Gaia Rua Pintor Lugris, 10
Livraria Almedina Tel.: 222 046 070 arrabida@almedina.net 36211 Vigo, Galiza
Rua Ferreira Borges, 121 - 127 LISBOA
Mar me quer 3004 Coimbra Livraria Almedina
Tel.: (+34) 986 239 000
andel@andelvirtual.com
de Mia Couto e Natália Luiza, Tel.: 239 851 900 vendas@almedina.net Centro Comercial Atrium Saldanha VISEU
Livraria Finisterra Praça Duque de Saldanha, 1
Portugal / Moçambique (2002) Rua Alexandre Herculano, 3 1050 094 Lisboa
Livraria Pretexto, Loja 1
Avenida Alberto Sampaio, 152 A
– 10 euros. 3000 019 Coimbra Tel.: 213 570 428 atrium@almedina.net 3510 028 Viseu
Tel.: 239 827 176 Livraria Assírio & Alvim Tel.: 232 467 280
Floripes Negra Livraria Interlivro
Rua da Sofia, 82
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Edifício Cinemas King, 52 E
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Livraria Pretexto, Loja 2
Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no 3000 389 Coimbra 1700 213 Lisboa Rua doa Andrades, 55
mundo (2002) Tel.: 239 824 139 Tel.: 218 479 992 3510 Viseu
Livraria Quarteto Livraria Barata Tel.: 232 467 280��loja2@livrariapretexto.pt
de Augusto Baptista, Álbum Fotográfico/ Centro Comercial Primavera, Loja 15 Av. de Roma, 11 A
Reportagem/Ensaio – 25 euros Alameda Calouste Gulbenkian, Lote 5 1000 047 Lisboa
3004 503 Coimbra Tel.: 218 428 350 barata@livrariabarata.pt
Tel.: 239 483 783 livraria@quarteto.pt Livraria Buchholz
Revista Setepalcos Teatro Académico de Gil Vicente Rua Duque de Palmela, 4
(esgotadas números 0 e 1) Praça da República 1250 098 Lisboa
N.º 2 – 7.50 euros 3000 343 Coimbra Tel.: 213 170 580 buchholz@mail.telepac.pt
Tel.: 239 855 630 tagvadm@ci.uc.pt
N.º 3 – 10 euros

edições.cena
N.º 4 – 15 euros

Almedina Coimbra Hotel

Livraria Cotovia
o seu hotel
R. Nova da Trindade, 24
no coração
1200-303 Lisboa de Coimbra
www.livroscotovia.pt

Bertolt Brecht, Molière, Jakob Lenz, Luís de Camões, �����������


Corneille, �������
Heiner
Müller, Paulo José Miranda, De Filippo, Cucha Carvalheiro, T. S. Eliot, Lars
Norén, Luís Assis, Stig Dagerman, Luísa Costa Gomes, Thomas Bernhard,
António Pedro, Eduarda Dionísio, Horváth, Ionesco, Abel Neves, Carlos
J. Pessoa, Koltès, Vicente Sanches, �����������������������������
Calderón de la Barca, �������
Eugene ���������
O’Neill,
Maria Velho da Costa, Arthur Schnitzler, Dylan Thomas, Gil Vicente,
Almedina Coimbra Hotel — Av. Fernão de Magalhães n.º 199, 3000-176 COIMBRA
Fassbinder, Kleist, Jacinto Lucas Pires, Pirandello, Shakespeare, Jorge Silva
Melo, Samuel Beckett, García Lorca,��������������������
Pier Paolo Pasolini telf. 239 855 500 fax. 239 829 906 www.hotel-almedina.pt geral@residencial-almedina.pt

cenaberta 11
Centros de Intercâmbio Teatral
dirigidas por Jorge Pais de Sousa. Assegurada
A cooperação teatral no foi ainda a ligação ao Centro de Documentação,
âmbito da Cena Lusó- permitindo que, tanto em Bissau como em São

fona reclama nos vários Tomé, todos os agentes culturais possam usufruir,
via Internet, do acervo documental da Cena Lusó-
países — conclusão que fona, em Coimbra.
o debate e a prática Neste primeiro ano de funcionamento, estes
Centros foram também destinatários de um
impuseram — a especial investimento na criação artística e na
existência de pólos formação de actores. De processos formativos

nacionais estruturados, dirigidos por Andrzej Kowalski (Bissau) e Ro-


gério de Carvalho (São Tomé) resultaram as
de modo a entrecruzar co-produções “Makbunhe” e “Pedro Andrade,
energias e a basear as a Tartaruga e o Gigante”, presentes na última
Estação.
acções locais e interna- A linha de rumo a orientar o futuro destas es-
cionais programadas. truturas visa a autonomização e a co-responsabi-

Na concretização deste lização dos agentes e das instituições locais, es-


truturando uma rede de intercâmbio mais vasto.
objectivo prioritário Assim, sem quebrar a prioridade na construção
boas notícias nos e consolidação dos CIT’s da Guiné-Bissau e de
São Tomé e Príncipe, perspectivas de trabalho
chegam da Guiné-Bissau se impõem noutros espaços, respondendo ao
e de São Tomé e desafio de criar uma rede de Centros de Inter-

Príncipe. câmbio Teatral ao nível de todos os países CPLP,


malha adequada às especificidades e globalmente
entrelaçados.

S
em infra-estruturas, mínimas que sejam, Para 2004 e num quadro de cooperação com
díficil é localmente concretizar Teatro, diversas instituições culturais baianas, prevê-se
débeis são as hipóteses de intercâmbios a abertura do Centro de Intercâmbio Teatral de
cénicos eficazes, magra é a circulação Salvador, no Teatro Vila Velha, sede do "Bando
de artistas e formadores teatrais, na partilha de Teatro Olodum", cúmplice de projecto neste
conhecimentos e experiências. Estado brasileiro.
Ao nível da Cena Lusófona, cedo se percebeu isto. Em 2005 e na sequência de negociações em curso,
A carência de espaços cénicos e de instituições projecta-se a abertura dos Centros do Maputo
formativas, em muitos dos nossos países, projec- e Luanda e o arranque do CIT de Coimbra, nas
tou a necessidade de criar pólos estruturadores novas instalações cedidas pela Câmara Municipal
— lugar para acções de formação, ensaio, mon- de Coimbra, no Pátio da Inquisição.
tagem — dotados de biblioteca/centro de docu- Formação na área do documentalismo e organização biblio-
tecária, dirigida por Jorge Pais de Sousa, São Tomé, 2003.
mentação e dos indispensáveis meios materiais e Fotografia: Jorge Pais de Sousa

humanos, viabilizadores de cooperação eficaz. Oficina técnica de iluminação, orientada por Elias Macovela,
Bissau, 2003. Fotografia: Elias Macovela
A constituição destes pequenos núcleos, cor-
Oficina técnica de iluminação, orientada por Orlando Worm,
respondendo a um velho objectivo da Cena São Tomé, 2002. Fotografia: Nuno Patinho

Lusófona, ganhou particular fôlego no Fórum da


Estação de 1999, que reuniu agentes teatrais e
representantes da área da Cultura dos governos
de todos os países da CPLP.
A partir daí, a criação dos Centros de Intercâm-
bio Teatral, CIT’s, mobilizou energias, trabalho e
meios, com prioridade para a Guiné-Bissau e São
Tomé e Príncipe.
O esforço traduziu-se já em resultados, corpo-
rizados no funcionamento em fase experimental,
desde 2003, dos CIT’s nestes países. Com “Os
Fidalgos”, em Bissau, e o grupo “Cena Só”, em
São Tomé, a animarem as estruturas, preciosa se
assumiu a colaboração de outros grupos, agen-
tes individuais, instituições. Entre estas, desta-
que para a ONG “Acção para o Desenvolvi-
mento”, que assegura a logística do Centro
em Bissau, para a Direcção-Geral da Cultura,
em São Tomé.
Os aludidos Centros de Intercâmbio foram já
dotados de meios técnicos, que incluem pro-
jectores, mesas de luz e cabos. Esta capacitação
material foi acompanhada da organização de
Oficinas Técnicas, dirigidas por Orlando Worm
e Elias Macovela, visando a qualificação de qua-
dros locais.
Em conjugação com a entrega de uma pequena
biblioteca teatral em Português, as acções de
formação estenderam-se também às áreas do
documentalismo e da organização bibliotecária,