Cena Lusófona

n.º 1 Abril 2004

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COIMBRA 6da Cena Lusófona ESTAÇÃO

distribuição gratuita

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a

Centros de Intercâmbio Teatral BRASIL um novo impulso na CPLP?

Guiné-Bissau São Tomé e Príncipe

Uma Estação
cenaberta editorial
Depois de um ensaio a que chamámos número zero, sai agora o número um do jornal cenaberta, o primeiro de uma série que este ano compreenderá quatro edições e, a partir de Julho, também uma edição online com actualização constante. Cenaberta é um pequeno jornal que pretende dar conta das múltiplas actividades de intercâmbio teatral e cultural que se desenvolvem no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e contribuir para a reflexão sobre os modos e as práticas dessa troca. As actividades da Cena Lusófona, realizadas nos últimos meses, ocupam grande parte do espaço neste número. Cena Lusófona é o lugar de onde parte esta publicação e esse lugar confere-lhe uma marca natural que não pretende ser ocultada. Essas actividades foram, na realidade, momentos significativos na vida de uma rede com centenas de agentes e presença em todos os países da Comunidade, na vida de um movimento que tem produzido experiências e resultados que não podem ser ignorados e representam saltos qualitativos rumo a uma comunidade artística efectiva e dialogante. Por isso, merecem destaque nestas páginas alguns indícios da afirmação de um novo Brasil, que deu posse de ministro a um artista e que se apresenta agora como parceiro activo neste plano de troca cultural, como ainda recentemente o demonstrou ao organizar um seminário em Salvador dedicado ao tema. A importância da entrada activa do Brasil neste processo é, não só significativa, como essencial, e deseja-se que arraste consigo um entendimento com Portugal nesta matéria, que implique, finalmente, a definição de uma política cultural na CPLP com participação alargada dos agentes e não confinada, como até aqui, à ruminação estéril dos gabinetes. António Augusto Barros

Na vida da Cena Lusófona várias foram países da CPLP: Moçambique, Brasil, A última Estação, a 6.ª, palco em lugar, enfim, onde tudo começou.
Mais do que um Festival, que também o foi, a última Estação da Cena Lusófona, realizada em co-produção com Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003, correspondeu ao cruzamento — num mesmo espaço e tempo — de múltiplos percursos teatrais do universo da lusofonia. A par disso, também de Música, de Cinema, de debate e Cultura foi feita esta 6.ª Estação da Cena Lusófona em Coimbra, entre 5 e 15 de Dezembro de 2003. Confluiu também nesta Estação o esforço estruturador da Cena no universo da CPLP, através dos CIT’s, Centros de Intercâmbio Teatral, com prioridade para os da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe. Os grupos teatrais que em Coimbra representaram os dois referidos países fizeram-no após um ano de trabalho nas co-produções, mobilizando contactos, intercâmbios, trânsito de formadores, ensaios. Uma prática em que os CIT’s locais revelaram a sua importância e papel. Co-produção inesperada foi apresentada por actores moçambicanos na Estação, mobilizando elementos oriundos de Moçambique e outros a residirem em Portugal, todos convergindo numa rica experiência de palco, olhos postos em temáticas sociais e na realidade africana. Também o 3.º Estágio Internacional de Actores Lusófonos, congregando participantes de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, assentou arraiais em Coimbra durante quatro meses, “A Escola da Noite” como companhia de acolhimento e formação. Desta experiência resultou a construção do espectáculo “O Horácio”, de Heiner Müller, dirigido por Pierre Voltz, com estreia a 28 de Novembro e posteriores presenças na Estação. Ainda no âmbito teatral — e além das importantes presenças de grupos e actores do Brasil, de Angola, da Galiza, de Cabo Verde, da Companhia de Teatro de Braga, da

Augusto Baptista

ficha técnica
Director António Augusto Redacção Augusto

Barros Baptista (coordenação e fotografia), António José Silva, Cátia Faísco e Rosa Assunção

Tiago Boavida
Concepção gráfica Ana Colaboraram nesta edição António

Nóbrega, Armindo Bião, Eduardo Moreira, FBA. (motivos gráficos da Estação), Luiz Paulo Vasconcellos, Luciano Alabarse, Naum Alves de Souza, Pedro Rodrigues, Silvana Garcia
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Linda Barreiro

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Propriedade

Cena Lusófona . Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral Rua António José de Almeida, n.º 2 3000 - 040 COIMBRA, Portugal
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"Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante", Cena Só, São Tomé e Príncipe

cenaberta 2

na vida da Cena Lusófona
as Estações, concretizadas em diferentes Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe. Dezembro de 2003, foi em Coimbra. O
Augusto Baptista

Quinta Parede — houve dois espaços suplementares de encontro: a “Tertúlia dos Dramaturgos” e o “Espaço Brincante”. Na Tertúlia participaram dramaturgos, alguns já envolvidos no projecto, outros a integrarem pela primeira vez acções da Cena Lusófona. Os debates, centrados no texto, no lugar do texto na dramaturgia de Língua Portuguesa, exploraram também novas pistas, horizontes e caminhos dramatúrgicos. De entre os integrantes nos trabalhos e discussões, alguns nomes: Naum Alves de Souza, Aimar Labaki, Cleise Mendes, Abel Neves, José Mena Abrantes, Cunha de Leiradella. O “Espaço Brincante” serviu para criar pontes entre a cultura tradicional dos vários países e as formas artísticas contemporâneas. Neste universo, António Nóbrega, velho companheiro de percurso, uma vez mais desempenhou papel central. «O seu trabalho concentra aquilo a que se poderia chamar a discussão identitária da cultura brasileira,

sabendo que ela é formada por um conjunto de contributos, nomeadamente os africanos e os portugueses, que nos engloba a todos», assinala António Augusto Barros. Também o “Bando de Teatro Olodum”, o “Teatrão” e os contadores de histórias Lena Wild, Cândido Pazó e Quico Cadaval deram inestimável contributo na animação deste Espaço. O Cinema teve destaque com o Ciclo Flora Gomes. E a Música garantiu assinalável presença, protagonizada por diversos artistas oriundos de várias latitudes da lusofonia: Cida Moreira, Virgínia Rodrigues, Ná Ozzetti, Luís Tatit, Zé Miguel Wisnik, António Nóbrega, Mário Lúcio. Este é o retrato sintético da 6.º Estação, um verdadeiro Festival pela exuberância da programação, um evento construído por uma paciente e continuada prática projectual, olhos no futuro.

Hora de balanço
A vários títulos, esta Estação foi realmente um momento muito forte, com grandes reflexos internos, em todo este movimento apontado para criar comunidade artística dentro da CPLP. Penso que as pessoas ficaram muito mais motivadas para continuar o trabalho. Salvador da Baía quer organizar um Encontro que seja similar a uma Estação, ainda este ano, em Novembro, com um Estágio, à semelhança dos que temos desenvolvido. Também estou convencido que demos um grande alento aos Centros de Intercâmbio Teatral de Bissau e de São Tomé, e podemos esperar que muito brevemente se dêem passos do mesmo tipo em Moçambique e em Angola. Penso que do ponto de vista da estruturação da Cena por via dos CIT’s esta Estação foi um momento muito produtivo. Depois, apontou-se para o cruzamento de áreas que estão ligadas a experiências de pesquisa. Nós estamos a desenvolver o projecto dos narradores de histórias, e isso passou também por aqui. As pessoas conheceram as linhas de acção, os filmes, os realizadores, viram os contadores galegos. Nesta frente de pesquisa, e com a vinda de António Nóbrega a Coimbra, deram-se passos para que no futuro ele possa continuar a aprofundar a busca das raízes históricas e culturais dos nossos vários povos. Outra das áreas é a dramaturgia. Estiveram aqui nomes importantes na “Tertúlia dos Dramaturgos”. No Brasil houve uma aposta forte, com a presença de Cleise Mendes, Naum Alves de Souza, Aimar Labaki. A estabelecer a ponte Brasil-Portugal: Cunha de Leiradella. Abel Neves e José Mena Abrantes foram outros dos criadores participantes. A Tertúlia foi também um momento para desenvolvermos projectos de fundo, como seja o de editarmos uma Setepalcos dedicada à dramaturgia de Língua Portuguesa. E, no caso do Naum Alves de Souza, estamos no meio de um processo de publicação da sua obra, edição com reflexos em Portugal, no Brasil, na CPLP. Presença de destaque nesta Estação foi a de Flora Gomes, exemplo importante de realizador dentro dos países africanos de Língua Oficial Portuguesa. Tinham passado aqui em Portugal algumas obras, mas nunca antes tinha sido percebida a dimensão do seu percurso artístico. Flora Gomes é um realizador com uma obra essencial, que parte muito da cultura local guineense, interrogando o presente, parte muito da ligação do gesto quotidiano e contemporâneo para o gesto mítico, no seu todo. Essa ligação sempre nos interessou muito no Teatro e de uma forma geral na Cultura e, portanto, justificava-se a apresentação do Flora, do seu cinema. Quisemos juntar ao Ciclo Flora Gomes a colaboração do CEIS 20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, um Instituto de investigadores universitários, que veio com a sua participação neste programa legitimar e reconhecer a obra do cinesta. Depois, todo o lado musical nesta Estação foi muito desenvolvido. Isto não aconteceu por acaso.Tanto a Ná Ozzetti, como o Wisnik, como o Tatit, como a Cida Moreira, a Virgínia Rodrigues, o Mário Lúcio, o António Nóbrega, são pessoas muito ligadas a experiências cénicas e teatrais, que têm dado sérios contributos ao Teatro, à palavra, à Língua que une esta Comunidade. Há ainda outras áreas que também fizeram o programa e lhe deram interesse. O Estágio Internacional de Actores vem logo à cabeça. Tivemos oportunidade, pela primeira vez, de fazer o Estágio e a Estação, as duas coisas

"Makbunhe", Os Fidalgos, Guiné-Bissau

Olhar crítico centrado na Estação, nas perspectivas futuras que se abrem, a palavra de António Augusto Barros, depoimento colhido por cenaberta.
no mesmo ano e, melhor do que isso, de as ligar mesmo em termos de calendário. Isto foi possível num contexto muito especial, com as atenções viradas para a Coimbra Capital Nacional da Cultura. À justificação da Cena Lusófona realizar o programa em Coimbra, por ser a sua cidade-sede, havia este motivo acrescido. A par disso, as instituições artísticas mostraram-se mais abertas ao acolhimento de programas especiais. Neste contexto, valioso foi o contributo de “A Escola da Noite”, grupo que recebeu o Estágio, o organizou, foi parceiro fundamental da Cena. Há outra coisa a destacar: a participação pela primeira vez de um grupo galego, o “Sarabela Teatro”. Esta foi mais uma etapa na aproximação à Galiza, processo iniciado com o projecto dos Contadores de Histórias — Candido Pazó (5.ª e 6.ª Estações), Quico Cadaval (6.ª Estação) — e que passou também pela organização do número da Setepalcos dedicado ao Teatro Galego. Enfim, a vários títulos, esta Estação correspondeu a um importante ponto de chegada e de partida. Foi um momento de reflexão e de partilha, mas foi também trampolim de novas dinâmicas teatrais e culturais no espaço da lusofonia.
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Um estágio plural
A Cena Lusófona, “A Escola da Noite” e Coimbra - Capital Nacional da Cultura 2003 organizaram, entre Setembro e Dezembro de 2003, o 3.º Estágio Internacional de Actores. Este estágio contou com a participação de sete actores oriundos de Angola, Brasil (Porto Alegre, Salvador e São Paulo), Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para além de seis actores portugueses. O plano do Estágio consistiu essencialmente na inclusão dos actores nas actividades normais de uma companhia de teatro profissional, “A Escola da Noite”, que funcionou ao mesmo tempo como instituição de acolhimento e entidade formadora. Foi proporcionado aos estagiários o contacto directo com as diferentes valências de uma estrutura deste tipo — actuação, encenação, dramaturgia, cenografia, figurinos, técnica de palco, produção e gestão —, tanto através da realização de pequenos workshops temáticos como, sobretudo, pelo acompanhamento diário do trabalho desenvolvido. Na área específica do trabalho do actor, destacam-se ainda o estágio de três dias organizado pelo grupo de teatro “O Bando”, sob a direcção de João Brites, Teresa Lima e Luca Aprea, bem como o exercício dirigido por Antônio Mercado, durante três semanas, apresentado aos participantes do Congresso Internacional de Literaturas Africanas Cinco Povos, Cinco Nações (organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). A fase final do Estágio consistiu na construção do espectáculo “O Horácio”, de Heiner Müller, que estreou na Oficina Municipal do Teatro a 28 de Novembro. Dirigido por Pierre Voltz, encenador francês com larga experiência também no campo da formação de jovens actores, o processo de montagem deste espectáculo foi ainda aproveitado para desenvolver outras acções de formação no campo da dramaturgia (com Carlos Guimarães, especialista na obra de Müller) e da preparação do actor, com os contributos de António Amorim e de Franck Manzoni.
Augusto Baptista

"O Horácio", A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores

A Cena Lusófona desafiou jovens oriundos de vários países da CPLP a juntarem-se ao elenco d'A Escola da Noite para, em conjunto, fazerem o terceiro Estágio Internacional de Actores, EIA. E se em “O Horácio”, de Heiner Müller, “há muitos homens num só”, também no EIA foi assim. Isto a crer nos testemunhos dos protagonistas.
Amélia da Silva, Guiné-Bissau Quando entrei no avião na Guiné sabia que estava a perseguir um sonho. Um sonho tornado realidade quando, já em Coimbra, n’ “A Escola da Noite”, encontrei pessoas de culturas diferentes que apenas tinham em comum um Português com diferentes pronúncias. De “O Horácio”, um dos momentos mais significativos do Estágio, recordo: “o que nunca se esquece do passado, e o Horácio não matou a irmã por maldade”. Às vezes a história fazia-me lembrar o passado recente da minha terra. Espero que este esforço da Cena Lusófona de juntar, regularmente, pessoas de diferentes culturas, onde cada um ensina e aprende, possa ter continuidade. Andrea Pozzi, São Paulo, Brasil O EIA foi uma experiência que proporcionou a nós actores/estagiários sair do pequeno mundo conhecido de nossos países e ousar abrir nossas mentes criativas e nossa sensibilidade para um exercício mais do que teatral, no sentido formal, mais uma oportunidade de troca de experiências e culturas através de um trabalho unificador. Falar deste estágio é falar de uma experiência marcante, que creio ter tocado a todos os envolvidos, directa ou indirectamente: um trabalho corajoso de quem organiza e um presente para os artistas que viveram esse processo. Sílvia Brito, Portugal EIA 2003 - texturas, tintas e pigmentos Quatro meses, catorze actores; Gil Vicente e Abel Neves, obrigatório; o poder da palavra na viagem da Língua; o actor consciente/encantado; o corpo respira e paira; a voz ouve-se e canta; tai chi chuan; subida a Braga, Teatro Circo; António Mercado, semiologia teatral, O Baile, cinema teatral; Rui Knopfli, José Craveirinha, Mena Abrantes; descida a Palmela, ao relento n' O Bando, interioridade, corporalidade,
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oralidade, serra, horizonte e mar; Congresso de Literaturas Africanas; primeiro público; nervos exóticos; novo fôlego; Pierre Voltz/Heiner Müller; Horácio, Curiácio; ai ki dô com vara e sabre; o colectivo, a guerra, a paz, a injustiça, a sobrevivência; a resistência; o actor consciente/ cansado/encantado; desfeito e refeito; há muitos homens num só; a festa; Estação em Coimbra; teatro, música, palavras novas; descida a Évora, Teatro Garcia de Resende; último sol de inverno; o actor consciente/de partida. Projectos. Sofia Lobo, Portugal Participar de novo num EIA foi para mim um privilégio: poder partilhar alguns meses da minha vida com pessoas tão diversas, tendo à partida apenas em comum com elas o gosto pelo Teatro, uma maior ou menor experiência na sua prática e o falarmos a mesma Língua, ainda que com sabores muito próprios. De novo, partindo agora de outros pressupostos e de uma outra base de trabalho (sublinhando aspectos menos pessoais mas mais técnicos), a troca foi muito forte. O trabalho foi intensivo nas áreas que foram abordadas e o espectáculo/ produto final que apresentámos é motivo de orgulho para todos nós, creio, para nós os que acreditamos que há mais semelhanças do que diferenças entre as pessoas e que essas mesmas diferenças podem ser motivo de aproximação e de sustentáculo da criação artística, pela estranheza que provocam e pela vontade de comunicar que despoletam. Mas se falo de privilégio é porque, para lá do trabalho que se fez e mostrou, quem ficou mais rica fui eu, com a partilha de uns sorrisos e de umas lágrimas ora mais brancos ora mais pretos que guardei no bolso e que espero saber convocar devidamente quando o Teatro de novo o justificar. Érico Brás, Salvador, Brasil Quando a gente passa por coisas gostosas e saudosas em nossas vidas, é difícil esquecer.

Quando me chamaram para este estágio fiquei feliz porque sabia que seria bom para minha carreira de actor no Brasil, mas não imaginava a influência que iria ter na minha vida: as pessoas com quem vivi, as coisas que aprendi, os desentendimentos que tivemos, os abraços, os beijos (na boca, no rosto), os sentimentos, o lugar, enfim, tanta coisa que é difícil dizê-las todas. Hoje sinto falta de tudo e de todos, mesmo sabendo que em breve nos vamos encontrar. Agradeço à Cena Lusófona por proporcionar este momento na minha vida e na vida de muita gente, ao “Bando de Teatro Olodum” que me guia, à “A Escola da Noite” por me suportar, e por ser tão organizada, e ao Teatro que ainda continua sendo a forma de encontrar e dizer coisas de todos os povos, línguas e raças. João Ricardo, Porto Alegre, Brasil De começo, o choque! Quem são estas pessoas? O que elas têm em comum comigo, além da Língua Portuguesa, que vimos não se tratar de uma, mas de várias Línguas Portuguesas, devido à diversidade de sotaques? O que vai acontecer? A resposta veio em cena. Lançámo-nos num caminho tortuoso e que foi o coração do EIA: a montagem de um espectáculo feito em conjunto entre “A Escola da Noite” e os actores oriundos de Países de Língua Portuguesa. Sendo um grupo absolutamente sui generis, a fricção gerada pelas nossas diferenças culturais, sociais e ideológicas, trouxe, para o dia-a-dia de trabalhos em conjunto, a própria ideia de conflito positivo, no sentido de aprender com a diferença, aprender olhando directo no humano. Estes conflitos, estas fricções entre realidades tão diversas, só nos enriqueceu. O senhor Voltz, nosso encenador, soube usar este potencial criativo dentro da montagem, abrindo espaço para que, em cena aberta, sustentássemos nosso ponto de vista sem largar a ideia de estar fazendo parte de um todo, de

uma comunidade de criação, de uma peça de teatro. O resultado foi este espectáculo colectivo, mas de sabor absolutamente pessoal para cada um de nós. Ricardo Correia, Portugal "Há muitos homens num só": a máxima repetida pelos romanos na peça de Heiner Müller vale para “O Horácio” e para cada um dos actores do EIA, que, na diversidade de práticas artísticas e culturais, contaminaram o grupo e deram sentido e significado ao que deveria ser a CPLP. O EIA foi o resultado de uma fogueira de sonhos, cores e inquietações de pessoas unidas pelo idioma, mas sobretudo pelo amor ao Teatro. Como diria o Cota Vírgula no início de cada espectáculo: «Sílvia, estamos prontos». E já agora: «Queremos mais...» Carlos Marques, Portugal O ponto de encontro entre os treze actores participantes no EIA, oriundos de culturas tão diferentes, foi a diversidade: o que nos distinguia individualmente fez a união do grupo. Nestes quatro curtos meses do Estágio, companheirismo e teatro caminharam lado a lado. A experiência profissional e humana de cada um dos participantes enriqueceu o colectivo, motivou a partilha de culturas. Deste modo se apreendem técnicas e éticas, o actor cresce e recicla-se. Não deveria ser sempre assim? Carla Sequeira, Cabo Verde O Estágio foi para mim uma experiência muito forte e enriquecedora que me ajudou a descortinar incógnitas e a abrir portas deste mundo maravilhoso que é o Teatro. Que a Cena Lusófona tenha muitos anos de vida, para que outros jovens usufruam também deste espaço.

Cruzar culturas
Naum Alves de Souza, dramaturgo brasileiro, elege a 6.ª Estação, «num mundo tão dominado pelos americanos», como um elixir revigorante: «A Cena Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá orgulho. Quando somamos nossas literaturas, nossa cultura, parece que eu saio daqui com mais força». Cenaberta falou com vários participantes que fizeram de Coimbra o seu palco e a sua plateia.
Anxeles Cuña Boveda, encenadora, Ourense, Espanha Creio que, em geral, estes encontros são estimulantes para se ir avançando. No caso da Estação, um dos aspectos de maior relevo foi ter um muito bom critério de programação. Nos espectáculos, vi coisas lindas, poéticas e culturas distintas, que nos podem servir de espelho por um lado e de contraste por outro. ria oportunidade de conhecer, de estar sabendo o que acontece com estes grupos. Me sinto muito feliz porque trabalho na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, que é um centro de produção, de formação, que tem dado uma contribuição importante ao Teatro que se faz no Estado, que se faz no Brasil. E para mim, sobretudo até para repassar esse conhecimento, este encontro da Cena Lusófona foi fundamental. A importância dos festivais, destes encontros, reside no facto do Teatro ser uma coisa viva, ser algo que não dá muito para encaixotar e guardar, como pode acontecer, por exemplo, com o Cinema. Eu acho muito importante no Teatro você ter um contacto directo com as pessoas, com o espectáculo, com aqueles que o fazem. Abel Neves, dramaturgo, Portugal O meu interesse no Teatro e fora dele é o diálogo. Aqui na 6.ª Estação foi possível e continua a ser possível o diálogo entre dramaturgos e outras pessoas do Teatro, encontrando, nos pequeníssimos indícios de criação e de vontade de fazer, a utopia que vai alimentando a vida de cada um. Naum Alves de Souza, dramaturgo, São Paulo, Brasil Tenho um contacto com Portugal já grande e conheço bastante, mas eu nunca havia pensado sobre a minha Língua Portuguesa, a ligação principalmente com África e com os diversos lugares descobertos pelos portugueses. Isso foi uma coisa muito interessante e emocionante, principalmente no dia em que assisti a “O Horácio” e vi todas aquelas pessoas de diversos sotaques falando a mesma Língua. É interessante e curioso ver que muitas vezes os sentimentos e as ideias se juntam e percebemos então uma identidade. Portugal e o Brasil são muito parecidos e muito diferentes. A Língua Portuguesa ocupou aquela extensão territorial muito grande e eu acho que a Cena Lusófona faz um trabalho de extrema importância para que a gente tenha consciência disso, de que a nossa Língua ocupa um lugar importante no mundo, que é tão dominado pelos americanos. A Cena Lusófona traz-nos uma realidade que nos dá orgulho. Quando somamos nossas literaturas, nossa cultura, parece que eu saio daqui com mais força. Marcio Meirelles, encenador, Salvador, Brasil O facto é que no Brasil a gente não conhece a África. Há muito poucas referências, mais míticas do que reais, do que seja a África, principalmente do que seja a África hoje, muito menos o que seja o Teatro aí. Acho que a melhor coisa que me aconteceu foi ter entrado em contacto com a Cena Lusófona. Porque isso abriu o caminho de África e do Teatro africano, pelo menos dos países de Língua Portuguesa. Cunha de Leiradella, dramaturgo, Portugal/Brasil Encontros, eventos como este são de uma importância vital para todo e qualquer indivíduo que lida com artes cénicas, especificamente com o Teatro. Para mim, foi uma experiência fantástica, na cidade de Coimbra, conhecer pessoas com outras concepções estéticas. Para a arte do teatro eu acho este encontro fundamental: primeiro, você assiste a uma série de espectáculos, alguns extraordinariamente bem fechados, bem dirigidos, bem montados; segundo, acaba discutindo o fazer teatral com os seus amigos, com os seus colegas; terceiro, temos a tertúlia de dramaturgos onde foram colocados na roda e lidos textos de cada um, foram discutidos. Eu acho isto de uma validade extraordinária. Aimar Labaki, dramaturgo e cronista, São Paulo, Brasil O mundo está tão de cabeça para baixo que às vezes é difícil a gente saber o lugar onde colocar cada coisa. E o Teatro também serve para isso: para a gente olhar para dentro, de fora. Encontros como este da Cena Lusófona servem exactamente para olhar o diferente e ver o que há de mais igual entre a gente. Quer dizer, o Teatro de Língua Portuguesa tem necessariamente alguma coisa em comum, não importa onde ele seja feito. Eu estou descobrindo isso aqui neste encontro em Coimbra. Assim como no Teatro há actor e espectador, um em frente do outro, nestes encontros, por mais que se coloquem no colectivo, o que fica de mais importante são as trocas pessoais. Ayres Major, encenador, São Tomé e Príncipe No caso específico do meu grupo, o “Cena Só”, acho que este é um exemplo vivo das coisas boas que nascem em função da existência da Cena Lusófona. Julgo que se a Cena conseguir aguentar o projecto de intercâmbio de teatro lusófono, por mais algum tempo, a CPLP vai ficar mais enriquecida. Agora se (e o que eu temo) isto falhar, vai ficar um grande buraco mesmo a nível do Governo de todos os nossos países. “Pedro Andrade a Tartaruga e o Gigante” foi, em parceria com Rogério de Carvalho, o meu primeiro trabalho de encenação. Ter vindo a Coimbra com esta co-produção foi uma oportunidade de assistir a vários espectáculos, conversar, discutir com encenadores experientes, conhecer novos trabalhos, novas pessoas, novas coisas. No fundo isto é um intercâmbio, é uma antropofagia e, com base nisto tudo, a gente aprende, troca, convive, faz amizades, cria contactos. E a coisa ganha dimensão.
cenaberta 5

cartaz e motivos: FBA

Também nos fazem pensar muito sobre a situação do Teatro em países e gentes com quem temos afinidades. Eu conheço alguns festivais, mas, com estas características, sinto-o único. Creio que este modelo de Coimbra é um caminho interessantíssimo a seguir, como proposta de gestão, de produção e de criação. Cleise Mendes, dramaturga e professora universitária, Salvador, Brasil Eu acho que esta foi uma oportunidade ímpar de conhecer o trabalho de locais como a Guiné-Bissau, Moçambique, Angola, mesmo aqui de Portugal. Dificilmente, de fora deste festival, te-

Nove imagens d

O Teatro, a Música e o Cinema que passaram pe avaliarmos o que nesta esfera se faz nos países da CP guardados em imagens, memórias para juntar ao á

"Lunário Perpétuo" – António Nóbrega, Brasil Este actor brincante brasileiro apresentou vários espectáculos: Teatro e Música inspirados na cultura popular do seu país. "A Bota e Sua Meia" – Face & Carretos, Porto Alegre, Brasil A peça de Herbert Achternbusch deu origem ao espectáculo que esta companhia brasileira mantém em circulação desde 1997.

"Así que pasen 5 anos" – Sarabela Teatro, Galiza "Sarabela Teatro" apresentou-se com "Así que pasen 5 anos", considerada uma das peças mais importantes e mais polémicas da obra de Federico Garcia Lorca. "O Horácio" – A Escola da Noite, Estágio Internacional de Actores "O Horácio”, de Heiner Müller, com encenação de Pierre Voltz, foi o resultado final do Estágio Internacional de Actores Lusófonos.

cenaberta 6

de uma Estação

ela 6.ª Estação constituem importante pista para PLP. Os espectáculos presentes em Coimbra ficaram álbum fotográfico de futuras Estações.

"Niketche" – Hala ni Hala, Moçambique "Niketche" é o primeiro espectáculo de "Hala ni Hala", um grupo de artistas moçambicanos que dá a conhecer em Portugal as dramaturgias e as formas de fazer teatro em África. Ciclo Flora Gomes – espaço de debate António Augusto Barros, Diana Andringa e Flora Gomes.

Ná Ozzetti, Luiz Tatit e Zé Miguel Wisnik, São Paulo, Brasil Companheiros de palco no Brasil, reuniram-se à volta das canções que, ao longo dos últimos dez anos, deram origem aos seus álbuns. "A Força da Hábito" – Mais! Produções Artísticas, Porto Alegre, Brasil "A Força do Hábito" é uma parábola sobre o autoritarismo, o poder exercido solitariamente que acarreta a mais profunda solidão. "Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante" – Cena Só, São Tomé e Príncipe Este espectáculo culminou o curso de formação teatral, coordenado por Rogério de Carvalho, em São Tomé.

fotografia: Augusto Baptista

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BRASIL: um novo impulso na CPLP?
Com o Brasil de Lula da Silva a presidir à Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, CPLP, que expectativas se abrem aos Oito no plano do intercâmbio teatral, da cooperação artística, cultural? E, internamente, no imenso Brasil, que novos rumos alberga o futuro, Gilberto Gil na direcção do Ministério da Cultura? Cenaberta ouviu em 2003 insignes personalidades da Cultura, do Teatro, das Artes brasileiras — integrantes de um lato espectro político-ideológico —, em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte. Aqui ficam os importantes depoimentos escritos por Luciano Alabarse, Naum Alves de Souza, Silvana Garcia, Armindo Bião, António Nóbrega, Luiz Paulo Vasconcellos, Eduardo Moreira: dúvidas e inquietações, palavras de esperança (e desesperança) em acções oficiais tendentes a que nos possamos todos "enxergar melhor". O novo tempo
A vocação brasileira é a melhor e mais generosa das vocações, qual seja a de reunir, receber, integrar e impulsionar o melhor do futuro. Quando as condições estiverem colocadas, e os artistas estiverem com suas propostas definitivamente incorporadas, seguramente o panorama será o de troca real e real intercâmbio. Oxalá não demore esta hora, e que os governos não sepultem esta utopia necessária. Nós, os artistas, já estamos prontos e dispostos a conhecer, reconhecer, propor e provocar o outro tempo, o novo tempo."
se o novo Ministro, Gilberto Gil, tem novos objetivos em relação ao teatro. O novo governo do Estado de São Paulo ainda não mostrou uma cara definida no que diz respeito à cultura. Talvez a maior atividade ainda se note na área da Prefeitura Municipal de São Paulo que tem inaugurado novos centros de lazer e cultura nas periferias. Apesar das dificuldades, é grande o movimento das propostas dos mais jovens que ocupam todos os espaços disponíveis do estado ou do município ou criam, eles mesmos, em lugares insólitos como bares, porões, bibliotecas, ambientes para a apresentação de suas produções. Num outro âmbito, há a questão dos laços com os países nossos companheiros de língua. São grandes as esperanças de que o novo Ministério da Cultura encontre caminhos para que nosso país faça parte da rede que une os países de língua portuguesa.Apesar das distâncias terrestres ou marítimas, é angustiante o fato de nos desconhecermos. Os laços culturais entre Portugal, Brasil e os vários países, ex-colônias portuguesas, precisam urgentemente ser mantidos. Foi muito comovente para mim ler peças teatrais escritas na África, na mesma língua que falamos e escrevemos. O Brasil, país onde a cultura africana faz parte de sua formação, não pode mais se manter distante daquilo que temos em comum. Brasileiros, portugueses, africanos, indianos, precisam se manter unidos pelo menos no que diz respeito à língua e à cultura para que o sonho norte-americano de tudo dominar seja contido. Quando medito sobre o perigoso e cego avanço dos Estados Unidos sobre o mundo, não posso deixar de sentir a incômoda sensação de que um dia venhamos a fazer parte do catálogo das espécies extintas, como tem acontecido com tribos primitivas, espécies vegetais e animais."

Atitude de abertura

LUCIANO ALABARSE
Produtor teatral, encenador

"Os artistas sempre fazem a sua parte, e quase sempre estão disponíveis: querem trocar e conhecer outras culturas e possibilidades, querem ser ouvidos e construir pontos e pontes de contato, querem expressão e fazedura de real dimensão. Mas o papel reservado à criação artística, como legítima representante do País, ainda me parece acanhado e tímido. Ao lado dos nomes consagrados das artes brasileiras, uma geração imensa de novos criadores anseia condições e reconhecimento. E sem arrumar primeiro a casa, é difícil imaginar políticas de integração, mesmo com os parceiros de sonho e idioma. Se cruzar todas as fronteiras é meta urgente, sem estabelecer diálogo pertinente é muito difícil estabelecer comunicação real com outros povos e culturas. O papel a se esperar de um novo governo é de um novo e audaz olhar sobre as reais condições brasileiras e propor, em português, novos paradigmas de política e ações culturais. E se, como já disse o poeta, navegar é preciso, eu pergunto: para onde?
cenaberta 8

Dramaturgista, professora da Universidade de São Paulo "O Brasil é um país imenso e o investimento na produção de bens culturais não se dá de modo homogêneo. Logo, o primeiro papel que cabe ao Estado desempenhar é o de articulador dessa produção, implementando a criação e fomentando a difusão, de modo a equilibrar melhor o mapa da produção e permitir uma circulação maior dos produtos. O segundo aspecto importante a ser ressaltado é o fato de que certos mecanismos de apoio à produção, via leis de incentivo fiscais, transferirem para as empresas privadas a responsabilidade por um segmento bastante importante da produção, sem que houvesse um contrapeso a estabelecer equilíbrio entre o que é visto como viável comercialmente e as produções de maior risco. Aqui também é necessária a interferência do Estado, como elemento regulador desse mercado. Se tais papéis forem cumpridos com clareza de diagnóstico e de propósitos, e transparência de

SILVANA GARCIA

Estreitar laços

NAUM ALVES DE SOUZA
Dramaturgo, encenador "Não sei se sou a pessoa ideal para falar sobre a política cultural brasileira neste novo governo.Tenho a impressão de que a classe cinematográfica tem sido mais ativa e, nos jornais, pode-se ler mais a respeito do que o ministério pretende fazer com os filmes do que com o teatro. Não consigo ver ainda se pretendem manter o que ia bem, estruturado pelo governo anterior, na figura do Ministro Weffort, ou

procedimentos, já estaremos bem avançados no assentamento de uma política cultural competente. Quanto à função possível a cumprir na CPLP, antes de mais nada, adotar uma atitude de abertura para essas culturas irmãs. Havendo interesse em obser var semelhanças e diferenças, e disposição de estabelecer-se como interlocutor, as vias de colaboração mútua abrir-se-ão naturalmente."

cultura, se desenhando no Brasil, é necessário que se busque no passado o que, ainda útil no presente, poderá de fato alargar nossos horizontes, de nós brasileiros e nativos e nacionais dos oito países de língua portuguesa."

Civilização de partilha

Pátria é nossa língua

ANTÓNIO NÓBREGA
Actor, músico, investigador

Professor da Escola de Teatro da Bahia, Presidente da Fundação Cultural da Bahia "Nossa pátria é nossa língua e a Bahia um elo berçário para o Brasil e parte intrínseca e estruturante da rede intercontinental de países lusófonos. Navegar continua a ser preciso para que a arte e a cultura gerem renda e emprego e reduzam desigualdades sócio-econômicas, tão alarmantes na maioria dessa nossa rede. Artistas, políticos e gestores parecem ter compreendido enfim este nosso destino e vocação. Cabe a cada um mergulhar de cabeça no oceano de problemas e soluções que nos fascinam, motivam e movem, e que nos cercam. Ainda mais ilhas isoladas que ilhéus a caminho de um verdadeiro arquipélago, nossas terras e gentes têm um futuro venturoso pela frente, se navegarem ao sabor das marés e ventos que já sopram. Em cada canto, porto e porta, um mundo de projetos. Alguns já em diálogo eventual. Na Bahia, sempre aberta ao exterior e amarrada a seu largo interior, e s t a m o s t r a b a l h a n d o , co m o e m m u i t o s outros lugares, para que ações frutifiquem e se multipliquem. O panorama lembra a história, revela a geografia e anuncia uma nova antropologia pragmática. A imagem é de nós, laços e entrecruzamentos. A realidade é a nossa imagem; e semelhança. O Brasil possui enormes demandas internas e externas , de toda ordem. O comércio internacional é um grande desafio, assim como a diplomacia. A Bahia tem papel importante em ambos os casos no que concerne os países africanos e de língua portuguesa, em geral. Aqui, por exemplo, se desenhou a política internacional brasileira dos anos 90 para a África. E o mestre Agostinho da Silva participou desse desenho entre nós. O retorno político e simbólico do que foi feito neste campo tem sido grandioso, mas há ainda um longo caminho pela frente. Apesar das intervenções em andamento nos campos da engenharia e da publicidade, por exemplo, com ampla participação baiana, o que se investe em cultura de intercâmbio é ainda muito pouco. Hoje, com novos discursos e práticas, na área da

ARMINDO BIÃO

"Sou ainda daqueles que acham que o Brasil precisa dar maior atenção ao seu verdadeiro património cultural. Quando uso a palavra verdadeiro uso no sentido daquele bem cultural que nos pertence e a mais ninguém. O Choro, por exemplo, uma manifestação verdadeiramente brasileira: claro que os seus elementos formadores foram diversos, mas a forma Choro de fazer música é fruto de nosso temperamento e singularidades. Não há cidadezinha brasileira que não tenha um conjunto de Choro, por menor e mais simples que ele seja. Pois bem, São Paulo, uma cidade que subvenciona pelo menos umas cinco orquestras sinfónicas, mas sequer sustenta um único conjunto de Choro. Para o desenvolvimento de nossa música grupos como o Papo de Anjo ou Isaías e seus Chorões são tão importantes quanto um quarteto de cordas, mesmo que ele toque Villa Lobos e outros destacados músicos brasileiros. Acho que nós brasileiros ainda não nos demos conta do imenso patrimônio cultural que o nosso povo foi capaz de criar ao longo de sua dilatada história. Me explico: dilatada porque o Brasil não começou só em 1500.As tradições culturais índias, africanas e ibéricas são milenares, há muitos séculos que vinham se construindo. Na Terra Brasilis elas apenas começaram a se justapor, a se interligar e, para usar uma palavra da moda, a se fusionar. Dessas múltiplas interpenetrações nasceram cantos, danças, mitologias e cosmogonias riquíssimas, cheias de verdades e belezas insuspeitadas. Brasileiras. É delas que emana o nosso Chão coletivo. Não fosse ele e não teria existido Villa Lobos, Jacob do Bandolim, Guimarães Rosa, Glauber Rocha. Não existiria Choro, Frevo, Capoeira, Baião, Samba, etc. Às vezes, um pouco de brincadeira e muito de verdade, em meus espetáculos, digo que todo brasileiro deveria tocar pandeiro e dançar quotidianamente. O pandeiro deveria estar sempre a tiracolo 17 horas, todo o santo dia, deveria tocar uma sirene concitando as pessoas a pararem de fazer o que estivessem fazendo e dançassem. Nas ruas, nos lares, nos táxis, nas empresas, nos bares e nos hospitais, tudo pararia para que dançassemos. Parece doidera, não? Mas são coisas dessa natureza que sonho como ideal de civilização e cultura para o meu país.A civilização traz uma ideia de conforto mas não traz o conforto propriamente dito. Porque

afinal de que adianta tanto conforto material para tanta miséria espiritual? Não é essa a civilização que almejo para o meu país. Almejo aquela outra, a do Divino Espírito Santo, como também a almejou o grande Agostinho da Silva. Que esse seja o Norte, a Bandeira e o Sonho do projeto cultural do meu país é o que, sinceramente, desejo. "

cartilha aplicada pelos jesuítas. A ação de intercâmbio proposta pela CPLP deve ser, necessariamente, apoiada. Com ela lucramos todos, o antigo Reino e as colônias, hoje igualados pelo status político e irmanados pela reciprocidade de sentimentos. Que o teatro continue a ser a cartilha que tem sido. Amén. "

Somos todos cidadãos

Descobrir os Brasis

Actor, ex-professor da Univ. Federal de Rio Grande do Sul, encenador "O Brasil possui hoje mais de mil e duzentos teatros, segundo levantamento do Centro Técnico de Artes Cênicas da FUNARTE. O estreitamento das relações com a África, como declarou recentemente o Presidente da República, constitui uma obrigação histórica. Afinal, com 76 milhões de descendentes de africanos, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. Segundo o Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, os países africanos de língua portuguesa olham hoje para o Brasil como uma fonte de cooperação técnica e prestação de serviços em diversas áreas do conhecimento, com destaque nas da educação e agricultura. Mobilizamo-nos, finalmente, conclui o Chanceler, para superar as feridas do passado e lidar com as carências do presente. Que não são poucas, convenhamos, sobretudo nos planos social e econômico. Em termos de arte e cultura, notadamente no caso do teatro, o fato de compartilharmos o idioma é definitivo. Em nossos palcos, não precisamos mais falar castelhano, latim e tupi. Basta falar português. E nem precisamos mais fazer representar anjos e demônios. Somos todos cidadãos. O que, diga-se de passagem, vem comprovar a eficiência da

LUIZ PAULO VASCONCELLOS

Actor e encenador do Grupo Galpão, Belo Horizonte "Creio que o teatro e a cultura brasileiros vivem um momento de grande expectativa.Até agora o novo governo não deu sinais muito animadores de estar empenhado num programa sério de incentivo e de fomento aos agentes e movimentos culturais.Ainda é cedo para cobrar, mas é preciso urgência. Os últimos anos representaram um abandono do Estado com as suas obrigações com a cultura. Criou-se uma lei de incentivo que, se em certos aspectos representou um avanço, criou o perigo de uma elitização das verbas e patrocínios. É preciso que o poder público crie bases que viabilizem projetos alternativos, populares, de grupos novos e de pesquisa e que procure apoiar a circulação dos bens culturais num país tão vasto e diversificado como o Brasil. Nesse aspecto, é bastante triste a concentração que se vê ainda hoje no Brasil em torno do eixo Rio-São Paulo. É preciso abrir espaços para a produção de outros centros e deixar que outros Brasis também sejam ouvidos, falados e representados. O Brasil é um país enorme que mal se conhece e que conhece menos ainda os outros países da comunidade de língua portuguesa. Creio que esse intercâmbio seria fundamental para que pudéssemos nos enxergar melhor. "
cenaberta 9

EDUARDO MOREIRA

Pronunciar cultura e cooperação
Há um discurso novo no Governo brasileiro, presidido por Lula da Silva, para quem o estreitamento das relações com África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, fala com renovado interesse da cooperação ao nível da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, sensível ao que chamou uma verdadeira sede de Brasil no outro lado do Atlântico. Mas é o Ministério da Cultura, pela voz do titular da pasta, Gilberto Gil, a estrutura do Governo brasileiro onde a temática da cooperação-cultura tem tido mais eco e cor.

Celso Amorim

Ministro das Relações Exteriores do Brasil "Como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância em sua atuação externa. A África acompanha com grande interesse e expectativa o que se passa no Brasil. Mais do que isso, parece haver uma verdadeira sede de Brasil no outro lado do Atlântico! Findo o regime do apartheid, superados os conflitos internos em Angola e Moçambique, as sociedades africanas se mobilizam para cicatrizar as feridas do passado e lidar com as carências do presente. Trata-se de um verdadeiro processo de renascimento, que não pode deixar de nos sensibilizar. Nos países onde estive — Moçambique, Zimbábue, São Tomé e Príncipe, Angola, África do Sul, Namíbia e Gana —, deixei claro o compromisso do Brasil com uma renovada agenda política, econômica, social, comercial e cultural com nossos amigos africanos." "Os países de língua portuguesa olham para o Brasil como uma fonte de cooperação. (…) São Tomé e Príncipe procura estabelecer parcerias com sócios estrangeiros na exploração de suas riquezas petrolíferas. Além disso, deseja o nosso apoio para a regulamentação do setor. Com a instalação de embaixada do Brasil em São Tomé, estaremos presentes em todos os integrantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. " é com essa diversidade interna que temos de nos haver. Engana-se, ao mesmo tempo, quem acha que essas várias culturas brasileiras existem como mundos isolados, sem alianças e sem trocas entre si. As fronteiras entre esses mundos são porosas, mudam de posição frequentemente – e, para cada montanha que isola, há um rio que aproxima, conduzindo pessoas e signos." Bienal da União Nacional dos Estudantes, Fevereiro de 2003 "A Língua Portuguesa é um assunto que diz respeito ao próprio lastro de toda a cultura brasileira. É um tema estratégico para o Brasil que é o maior país de fala portuguesa, o que significa oitenta por cento do total de falantes em oito países do mundo. O Brasil ainda não se voltou para uma verdadeira formulação política de sua língua – o brasileiro, ou português do Brasil. Uma política da Língua não pode resumir-se a tratados ortográficos." Estação da Luz, Maio de 2003 "Tradicionalmente, a maioria das pessoas, diante da palavra cultura, pensa automaticamente no conjunto das formas canonizadas pela cultura ocidental-européia. Pensa em literatura, em teatro, em pintura, em concertos musicais, em estilos de dança como o balé ou, mais modernamente, em cinema, depois que esta forma de criação foi consagrada, pelos intelectuais, no terreno da arte. Dito de outro modo, as pessoas pensam, automaticamente, no círculo restrito das formas que habitam o campo da assim chamada “cultura superior”. Agem, então, como se cultura fosse isso. O que não cabe nesse universo não merece ser definido pelo uso puro e simples do vocábulo cultura. Tem de ser referido com a colocação de um anexo verbal para restringir o conceito – como no caso de expressões como “cultura de massas” e “cultura popular” – ou mesmo pela adoção de uma outra palavra, como “folclore”. (…) Para nós, do Ministério da Cultura do Governo Lula, de um governo essencialmente transformador e democrático, de um governo que pretende – e vai – mudar o país, esta não é, de modo algum, uma visão saudável, lúcida ou justa da realidade cultural. E é por esta razão que não trabalhamos com um conceito acadêmico, restritivo e elitista de cultura. (…) O que nós queremos é justamente isto: incluir. Incluir na cultura, franqueando a todos o acesso à produção e ao consumo dos bens e serviços simbólicos. " Câmara dos Deputados, Maio de 2003 "Após décadas de uma sangrenta guerra civil que devastou o país, Angola vive um novo capítulo de paz e reconciliação nacional. Nas conversas que lá mantive, foi recordado o significativo fato de ter sido o Brasil o primeiro país a reconhecer o governo angolano, bem como o papel desempenhado pelo embaixador Ovídio de Andrade Melo nos primeiros momentos do relacionamento bilateral. " "Em Gana, onde estive poucas horas, fui recebido pelo ministro do Turismo, de quem recebi manifestações de interesse por cooperação em agricultura e esportes. Emocionou-me seu relato sobre a existência de uma Casa do Brasil em Acra, capital onde sobrevivem remanescentes de uma comunidade de origem brasileira conhecida como os “Tá-Bom”. O Itamaraty, em coordenação com diferentes áreas do governo, conta com o setor privado e a sociedade civil para transformar os laços de amizade que nos unem aos povos da África em progresso econômico e social, em benefício mútuo. Os caminhos para a África se reabrem e apontam um reencontro solidário de brasileiros e africanos, em sintonia com a motivação e as aspirações de amplos setores de nossa sociedade. " In Folha de São Paulo (O Brasil e o renascimento africano), 25 de Maio de 2003

Gilberto Gil
Ministro da Cultura do Brasil
"Porque a cultura brasileira é feita pelo povo brasileiro – e não por um punhado de pessoas que se julgam esclarecidas e detentoras do sentido e do destino histórico do país. (…) Porque o país e sua cultura não só se configuram a partir de focos diversos, como se acham em permanente mudança. O Brasil pode não ser sinônimo de feijoada, mas de tucupi. Pode não ser sinônimo de orla marítima, mas de pororoca. Pode não ser sinônimo de orixá, mas do Bom Jesus da Lapa. E

número especial sobre Teatro Galego
cenaberta 10

setepalcos

As Virgens Loucas

de António Aurélio Gonçalves, Cabo Verde, adaptação teatral de Cândido Ferreira (2001) – 10 euros

As edições podem ser adquiridas directamente na sede da Cena Lusófona, em Coimbra, ou nas seguintes livrarias:
AVEIRO Livraria dos Serviços de Acção Social Universidade de Aveiro Campus Universitário de Santiago 3810 193 Aveiro Tel.: 234 370 200 amanso@sas.ua.pt BEJA Livraria Lupynand Rua de Mértola, 89 7800 145 Beja Tel.: 284 324 112 BRAGA Companhia de Teatro de Braga Teatro Circo Avenida da Liberdade, 697 4710 251 Braga Tel.: 253 217 167 ctb@mail.telepac.pt Livraria Almedina Campus de Gualtar Universidade do Minho 4700 320 Braga Tel.: 253 678 822 braga@almedina.net Livraria Minho Largo da Senhora-a-Branca, 66 4710 443 Braga Tel.: 253 271 152 minho@livrariaminho.pt CALDAS DA RAINHA Loja 107 Rua Heróis da Grande Guerra, 107-109 2504 910 Caldas da Rainha Tel.: 262 824 462 loja107@mail.telepac.pt COIMBRA Livraria Almedina Rua Ferreira Borges, 121 - 127 3004 Coimbra Tel.: 239 851 900 vendas@almedina.net Livraria Finisterra Rua Alexandre Herculano, 3 3000 019 Coimbra Tel.: 239 827 176 Livraria Interlivro Rua da Sofia, 82 3000 389 Coimbra Tel.: 239 824 139 Livraria Quarteto Centro Comercial Primavera, Loja 15 Alameda Calouste Gulbenkian, Lote 5 3004 503 Coimbra Tel.: 239 483 783 livraria@quarteto.pt Teatro Académico de Gil Vicente Praça da República 3000 343 Coimbra Tel.: 239 855 630 tagvadm@ci.uc.pt A CORUNHA Libraria Couceiro Praza do Libro, s/n 15005 A Corunha Tel.: (+34) 981 266 377 librariecouceiro @terra.es ÉVORA Centro Dramático de Évora Teatro Garcia de Resende Praça Joaquim António de Aguiar 7000 510 Évora Tel.: 266 703 112 cendrev@mail.evora.net Livraria Nazareth & Filho Praça do Giraldo, 64 7001 901 Évora Tel.: 266 702 221 FARO Papelaria Livraria Sagres Rua D. João de Castro, 10 8000 309 Faro Tel.: 289 897 630 livraria@papelariasagr es.com FUNCHAL Livraria Almedina Rua 31 de Janeiro, 67 – 1º 9050 401 Funchal Tel.: 291 281 160 GAIA Livraria Almedina Arrábida shopping, Loja 158 Praceta Henrique Moreira Afurada 4000 475 Gaia Tel.: 222 046 070 arrabida@almedina.net LISBOA Livraria Almedina Centro Comercial Atrium Saldanha Praça Duque de Saldanha, 1 1050 094 Lisboa Tel.: 213 570 428 atrium@almedina.net Livraria Assírio & Alvim Av. Frei Miguel Contreiras Edifício Cinemas King, 52 E 1700 213 Lisboa Tel.: 218 479 992 Livraria Barata Av. de Roma, 11 A 1000 047 Lisboa Tel.: 218 428 350 barata@livrariabarata.pt Livraria Buchholz Rua Duque de Palmela, 4 1250 098 Lisboa Tel.: 213 170 580 buchholz@mail.telepac.pt Livraria Bulhosa Campo Grande, 10 B 1700 092 Lisboa Tel.: 217 994 194 bulhosa.liv@sapo.pt Fnac Chiado Centro Chiado Rua Nova do Almada, 110 1150 182 Lisboa Tel.: 213 221 800 Livraria Portugal Rua do Carmo, 70 - 74 1200 094 Lisboa Tel.: 213 474 982 liv.portugal@mail.telepac.pt PORTALEGRE Livraria Tavares Rua do Comércio, 90-92 7300 160 Portalegre Tel.: 245 331 534 PORTO Livraria Leitura Rua de Ceuta, 88 4050 189 Porto Tel.: 222 076 200 leitura@livraria.pt SANTIAGO DE COMPOSTELA Libraria Couceiro Rua República de El Salvador, 9 1571 Santiago de Compostela (Galiza) Tel.: (+34) 981 565 812 libraria@librariacouceiro.com VIGO Libreria Andel Rua Pintor Lugris, 10 36211 Vigo, Galiza Tel.: (+34) 986 239 000 andel@andelvirtual.com VISEU Livraria Pretexto, Loja 1 Avenida Alberto Sampaio, 152 A 3510 028 Viseu Tel.: 232 467 280 loja2@livrariapretexto.pt Livraria Pretexto, Loja 2 Rua doa Andrades, 55 3510 Viseu Tel.: 232 467 280 lloja2@livrariapretexto.pt

Teatro do Imaginário Angolar

de Fernando de Macedo, São Tomé e Príncipe (2000) Inclui as peças Capitango e Cloçon Son – 10 euros

Supernova

de Abel Neves, Portugal (2000) – 10 euros

As Mortes de Lucas Mateus

de Leite de Vasconcelos, Moçambique (1999) – 9 euros

Teatro I e II

obra dramatúrgica de José Mena Abrantes, em dois volumes, Angola (1998) – 10 eurosx2.

Mar me quer

de Mia Couto e Natália Luiza, Portugal / Moçambique (2002) – 10 euros.

Floripes Negra

Floripes na Ilha do Príncipe, em Portugal e no mundo (2002) de Augusto Baptista, Álbum Fotográfico/ Reportagem/Ensaio – 25 euros

Revista Setepalcos

(esgotadas números 0 e 1) N.º 2 – 7.50 euros N.º 3 – 10 euros N.º 4 – 15 euros

edições.cena
Almedina Coimbra Hotel

Livraria Cotovia
R. Nova da Trindade, 24 1200-303 Lisboa www.livroscotovia.pt Bertolt Brecht, Molière, Jakob Lenz, Luís de Camões, Corneille, �einer Müller, Paulo José Miranda, De Filippo, Cucha Carvalheiro, T. S. Eliot, Lars Norén, Luís Assis, Stig Dagerman, Luísa Costa Gomes, Thomas Bernhard, António Pedro, Eduarda Dionísio, �orváth, Ionesco, Abel Neves, Carlos J. Pessoa, Koltès, Vicente Sanches, Calderón de la Barca, Eugene ��Neill, Maria Velho da Costa, Arthur Schnitzler, Dylan Thomas, Gil Vicente, Fassbinder, Kleist, Jacinto Lucas Pires, Pirandello, Shakespeare, Jorge Silva Melo, Samuel Beckett, García Lorca, Pier Paolo Pasolini

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cenaberta 11

Centros de Intercâmbio Teatral
A cooperação teatral no âmbito da Cena Lusófona reclama nos vários países — conclusão que o debate e a prática impuseram — a existência de pólos nacionais estruturados, de modo a entrecruzar energias e a basear as acções locais e internacionais programadas. Na concretização deste objectivo prioritário boas notícias nos chegam da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe.
dirigidas por Jorge Pais de Sousa. Assegurada foi ainda a ligação ao Centro de Documentação, permitindo que, tanto em Bissau como em São Tomé, todos os agentes culturais possam usufruir, via Internet, do acervo documental da Cena Lusófona, em Coimbra. Neste primeiro ano de funcionamento, estes Centros foram também destinatários de um especial investimento na criação artística e na formação de actores. De processos formativos dirigidos por Andrzej Kowalski (Bissau) e Rogério de Carvalho (São Tomé) resultaram as co-produções “Makbunhe” e “Pedro Andrade, a Tartaruga e o Gigante”, presentes na última Estação. A linha de rumo a orientar o futuro destas estruturas visa a autonomização e a co-responsabilização dos agentes e das instituições locais, estruturando uma rede de intercâmbio mais vasto. Assim, sem quebrar a prioridade na construção e consolidação dos CIT’s da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe, perspectivas de trabalho se impõem noutros espaços, respondendo ao desafio de criar uma rede de Centros de Intercâmbio Teatral ao nível de todos os países CPLP, malha adequada às especificidades e globalmente entrelaçados. Para 2004 e num quadro de cooperação com diversas instituições culturais baianas, prevê-se a abertura do Centro de Intercâmbio Teatral de Salvador, no Teatro Vila Velha, sede do "Bando Teatro Olodum", cúmplice de projecto neste Estado brasileiro. Em 2005 e na sequência de negociações em curso, projecta-se a abertura dos Centros do Maputo e Luanda e o arranque do CIT de Coimbra, nas novas instalações cedidas pela Câmara Municipal de Coimbra, no Pátio da Inquisição.
Formação na área do documentalismo e organização bibliotecária, dirigida por Jorge Pais de Sousa, São Tomé, 2003. Fotografia: Jorge Pais de Sousa Oficina técnica de iluminação, orientada por Elias Macovela, Bissau, 2003. Fotografia: Elias Macovela Oficina técnica de iluminação, orientada por Orlando Worm, São Tomé, 2002. Fotografia: Nuno Patinho

S

em infra-estruturas, mínimas que sejam, díficil é localmente concretizar Teatro, débeis são as hipóteses de intercâmbios cénicos eficazes, magra é a circulação de artistas e formadores teatrais, na partilha de conhecimentos e experiências. Ao nível da Cena Lusófona, cedo se percebeu isto. A carência de espaços cénicos e de instituições formativas, em muitos dos nossos países, projectou a necessidade de criar pólos estruturadores — lugar para acções de formação, ensaio, montagem — dotados de biblioteca/centro de documentação e dos indispensáveis meios materiais e humanos, viabilizadores de cooperação eficaz. A constituição destes pequenos núcleos, correspondendo a um velho objectivo da Cena Lusófona, ganhou particular fôlego no Fórum da Estação de 1999, que reuniu agentes teatrais e representantes da área da Cultura dos governos de todos os países da CPLP. A partir daí, a criação dos Centros de Intercâmbio Teatral, CIT’s, mobilizou energias, trabalho e meios, com prioridade para a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. O esforço traduziu-se já em resultados, corporizados no funcionamento em fase experimental, desde 2003, dos CIT’s nestes países. Com “Os Fidalgos”, em Bissau, e o grupo “Cena Só”, em São Tomé, a animarem as estruturas, preciosa se assumiu a colaboração de outros grupos, agentes individuais, instituições. Entre estas, destaque para a ONG “Acção para o Desenvolvimento”, que assegura a logística do Centro em Bissau, para a Direcção-Geral da Cultura, em São Tomé. Os aludidos Centros de Intercâmbio foram já dotados de meios técnicos, que incluem projectores, mesas de luz e cabos. Esta capacitação material foi acompanhada da organização de Oficinas Técnicas, dirigidas por Orlando Worm e Elias Macovela, visando a qualificação de quadros locais. Em conjugação com a entrega de uma pequena biblioteca teatral em Português, as acções de formação estenderam-se também às áreas do documentalismo e da organização bibliotecária,

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