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ANÁLISE DE CLARO ENIGMA (1951) DE CARLOS DRUMMOND DE

ANDRADE
A crítica literária, tendo como parâmetro a dialética Eu vs Mundo, procura
dividir a obra de Drummond em três fases distintas e subsequentes, a saber:
1) “Eu maior que o mundo”: é a fase “gauche”, marcada pelo individualismo,
isolamento, metalinguagem, uma certa dose de ironia e humor, de que são exemplo as
obras Alguma poesia e Brejo das Almas. Nesta fase, entretanto, já está presente uma
poesia de caráter social, podendo-se afirmar que a obra Sentimento do mundo
representa uma transição para a fase seguinte.
2) “Eu menor que o mundo”: presença da crítica social, do poder e da limitação da
palavra, de que é exemplo a obra A rosa do povo.
3) “Eu igual o mundo”: poesia metafísica; presença do niilismo, em que o poeta
interpreta o mundo, analisando-o criticamente e fechando-se para o nada e existência.
Claro enigma assinala uma fase distinta na poética drummoniana, já explícita
na epígrafe de Paul Veléry: “Les événements m’énnuient” (“Os acontecimentos me
entediam”). A citação já aponta para uma mudança de posicionamento: não mais uma
poesia marcadamente política e social, mas agora em favor de temas filosóficos. Uma
outra mudança é a presença de formas poéticas e de uma linguagem mais tradicional, o
que difere da postura anterior, notadamente inovadora, de acordo com as propostas
modernistas.
O título do livro é um paradoxo, um oximoro (mistura de sombra e luz,
obscuridade e clareza). A obra é dividida em seis partes: “Entre Lobo e Cão”, “Notícias
Amorosas”, “Um Menino e os Homens”, “Selo de Minas”, “Os Lábios Cerrados” e “A
Máquina do Mundo”. Segue-se um comentário sucinto sobre cada uma das partes:
1) “Entre Lobo e Cão”
A obra inicia-se com um crepúsculo, a chegada da noite, um ambiente
paradoxal, em que não há como distinguir os dois animais. O primeiro poema
“Dissolução” apresenta uma atmosfera sombria, em que o eu lírico aceita a inevitável
chegada da noite.
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote


uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,


mais vasto é o céu. Povoações
surgem no vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele


da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito


que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou


extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,


já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
Notar que a sexta estrofe apresenta uma “rosa” que nos remete ao título de uma
obra do autor (A rosa do povo); no entanto, não se trata de uma flor promissora, e há
uma rejeição daquilo que antes era positivo. O poema é seguido por três sonetos de
feição clássica: “Remissão”; “A ingaia ciência” (triste saber): e “Legado”. Uma reflexão
a respeito dos ganhos e perdas da maturidade pode ser visto no soneto seguinte.
A Ingaia Ciência
A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estrela,

a madureza vê, posto que a venda


interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato


dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,


o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.
Do poema “Legado”, escrito em versos alexandrinos, numa forma tipicamente
parnasiana, seguem-se os dois últimos tercetos:
“Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso


na vida, restará, pois que o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Nota-se que o poema intertextualiza o tão conhecido “No meio do caminho tinha
uma pedra, pertencente à primeira fase da poética drummoniana. É comum também o
diálogo entre Drummond e outros poetas, como faz no próximo poema
Sonetilho do Falso Fernando Pessoa
Onde nasci, cresci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti


posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,


à deusa que se ri
deste nosso aoristo,

eis-me a dizer: assisto


além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
Segue um soneto ligado ao tema da memória e do tempo, tão comum também na
poesia de Fernando Pessoa:
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido


contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,


muito mais que lindas,
essas ficarão.
O nono poema do livro é composto em versos livres. Aos olhos do boi, o
homem é um ser totalmente desestruturado, o que nos remete ao conto “Conversa de
Bois”, contido em Sagarana, de Guimarães Rosa.
Um Boi vê os Homens
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos __ e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
Um dos poemas mais conhecidos da obra é soneto seguinte, por explicitar no
último verso o título da obra em questão:
Oficina Irritada
Eu quero compor um soneto duro
Como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
Seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,


Não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
Ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro


Há de pungir, há de fazer sofrer,
Tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,


Cão mijando no caos, enquanto arcturo,
Claro enigma, se deixa surpreender.
2) “Notícias Amorosas”
O tema amoroso é explícito nos textos desta segunda parte. Aqui Drummond
afasta-se de toda idealização romântica do amor. Seguem-se dois poemas
representativos desta temática.
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,


sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,


o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: Amor sem conta,


distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor à procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa


amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Tarde de Maio
Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,


colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.


Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

3) “O Menino e os Homens”
Os quatro poemas desta parte são, por assim dizer, homenagens: a um
nascimento (“A um varão que acaba de nascer”), a poetas (Manuel Bandeira, em “O
Chamado” e Mário Quintana, em “Quintana’s Bar) e ao aniversário da morte de Mário
de Andrade (“Aniversário”). Segue-se a homenagem feita a Bandeira, poeta que
influenciou Drummond, como ele mesmo admitiu.
O Chamado
Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado


na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe


(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço


um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.
E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
4) “Selo de Minas”
São poemas que evocam a temática da “terra natal”. Há textos históricos
(Evocação de Mariana”; “Estampas de Vila Rica” e “Morte das Casas de Ouro Preto”) e
um texto em que o grave e o cômico se misturam, em que um testamento de maldição se
estende por diversas gerações. Seguem-se alguns fragmentos.
Os Bens e o Sangue
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanésia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto. Nossas por herança de nossos pais e sogros bem-amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
[...]
Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e uma.
[...]
Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado
(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
[...]
Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
[...]
E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo
e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada
e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro
taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios,
e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas.
[...]
Ó filho pobre, e descorçoado, e finito
ó inapto para as cavalhadas e dos trabalhos brutais
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como quiséramos
para tristeza nossa e consumação das eras,
para o fim de tudo que foi grande!
Ó desejado,
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande
à maneira de um lago de pez e resíduos letais...
És nosso fim natural e somos teu adubo,
tua explicação e tua mais singela virtude...
Pois carecia que um de nós recusasse
para melhor servir-nos. Face a face
te contemplamos, e é teu esse primeiro
e úmido beijo em nossa boca de barro e sarro.
5) “Os Lábios Cerrados”
Encontram-se nesta parte os poemas sobre a família e sobre os mortos. No longo
poema “A Mesa”, do qual se transcreve alguns excertos, Drummond descreve um
hipotético banquete familiar, presidido pelo finado pai, cujo aniversário se
comemoraria no dia em questão (o poema nos remete ao conto “O Peru de Natal”, de
Mário de Andrade).
A Mesa (fragmentos)
E não gostavas de festa...
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
[...]
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse... Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja
essa grande camarada.
Ind’outro dia... comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
[...]
ali ao canto da mesa,
não pro humilde, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições do tipo guache,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranquilo: trabalho.
Afinal, a boa vida
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
[...]
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito __ enfim __ vos querermos
e, amando, nos iludirmos
junto da mesa
vazia.
6) “A Máquina do Mundo”
São apenas dois poemas: “A Máquina do Mundo” e “Relógio do Rosário”. O
primeiro deles é composto de 32 tercetos, lembrando a estrutura e o conteúdo
existencial de A divina comédia.
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos


que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo


na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu


para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,


sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
A obra termina, fazendo jus ao oxímoro do título: as sombras presentes no
poema inicial, dá agora lugar à luz e a cor.:
Relógio do Rosário
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo


decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco


selo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,


em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,


nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,


em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,


a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,


ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa


indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência


como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,


nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,


do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,


e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única


fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura


algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,


nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência


ao contato furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício


de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,


estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,


foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,


já se permite azul, risco de pombas.

EXERCÍCIOS
1. (ITA-SP) – O livro Claro Enigma, uma das obras mais importantes de Carlos
Drummond de Andrade, foi editado em 1951. Desse livro consta o poema a seguir:
MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido


contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,


muito mais que lindas,
essas ficarão.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro Enigma, Rio de Janeiro: Record, 1991.)
Sobre este texto, é correto dizer que
a) a passagem do tempo acaba por apagar da memória praticamente todas as lembranças
humanas; quase nada permanece.
b) a memória de cada pessoa é marcada exclusivamente por aqueles fatos de grande
impacto emocional; tudo o mais se perde.
c) a passagem do tempo apaga muitas coisas, mas a memória afetiva registra as coisas
que emocionalmente têm importância; essas permanecem.
d) a passagem do tempo atinge as lembranças humanas da mesma forma que envelhece
e destrói o mundo material; nada permanece.
e) o homem não tem alternativa contra a passagem do tempo, pois o tempo apaga tudo;
a memória nada pode; tudo se perde.

2. (Universidade Positivo 2015) Considerando o poema “Memória” e o livro Claro


enigma, assinale a alternativa correta.
a) Ao contrário de grande parte dos poemas de Claro enigma, que exploram as formas
poéticas clássicas, “Memória” retoma a estética do primeiro modernismo, tanto pelos
versos livres como pelo humor.
b) Apesar de possibilitar uma leitura fluida e ritmada, “Memória” aborda a temática da
transitoriedade, opondo aquilo que é claro ao que é enigmático, procedimento
característico dessa fase da poesia de Drummond.
c) A confusão a que o poeta se refere relaciona-se à temática predominante em Claro
enigma, elemento responsável pela diferenciação entre essa obra e as anteriormente
publicadas por Drummond: a temática amorosa.
d) A oposição entre “coisas tangíveis” e “coisas findas” exemplifica o caráter religioso
presente na poesia de Drummond desde sua estreia, em 1930, até os livros publicados
postumamente.
e) Por se tratar de um soneto, a estrofe final resume a ideia central do poema: aquilo que
já acabou pode se tornar belo mesmo que escape à memória, pois só a morte dá sentido
à existência humana.

Leia o poema para responder à questão seguinte:


Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti


posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,


à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto


além, nenhum, aqui
mas não sou eu, nem isto.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”. In Claro
Enigma. ed. 10. Rio de Janeiro: Record, 2001.)
3. O poema acima integra o livro Claro Enigma, de 1951, obra em que Carlos
Drummond de Andrade opera uma mudança de direção em relação à sua trajetória
poética anterior, mais ligada ao engajamento social, como se evidencia num livro como
A Rosa do Povo. Diante disso, as escolhas linguísticas feitas pelo autor confere ao
texto:
a) Elabora uma rede intertextual com a obra de Fernando Pessoa, poeta representante da
segunda geração romântica brasileira, ao fazer referência à “falsidade” da poesia,
evidente no último verso.
b) Nega a estética do Modernismo, movimento a que se pode associar Drummond, ao
fazer uso do soneto, uma forma poética fixa, muito comum em movimentos como o
Barroco, Arcadismo e Romantismo.
c) Representa a dificuldade do homem moderno em se estabelecer enquanto uma
unidade e o consequente estado de depressão que esse fato acarreta, evidenciado nos
dois primeiros versos.
d) Dialoga, por meio de versos como “E das peles que visto/muitas há que não vi”, com
a heteronímia de Fernando Pessoa, fenômeno pelo qual o poeta português se
multiplicava em outros poetas, cada um com personalidade diversa da dos outros.
e) Oferece uma visão poética das dificuldades de entendimento entre variantes da língua
portuguesa, uma vez que Drummond é brasileiro e Fernando Pessoa, português

Para responder à próxima questão leia atentamente o soneto transcrito.


OFICINA IRRITADA
1. Eu quero compor um soneto duro
2. como poeta algum ousaria escrever.
3. Eu quero pintar um soneto escuro,
4. seco, abafado, difícil de ler.

5. Quero que o meu soneto, no futuro,


6. não desperte em ninguém nenhum prazer.
7. E que, no seu maligno ar imaturo,
8. ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

9. Esse meu verbo antipático e impuro


10. há de pungir, há de fazer sofrer,
11. tendão de Vênus sob o pedicuro.

12. Ninguém o lembrará: tiro no muro,


13. cão mijando no caos, enquanto Arcturo*
14. claro enigma, se deixa surpreender.
(Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma)
*Arcturo: estrela brilhante da constelação do Boieiro, na cauda da Ursa Maior.

4. Assinale a única afirmação correta sobre o poema transcrito.


a) Os versos são alexandrinos, aproximando-se do Parnasianismo.
b) “Claro enigma” (verso 14) compõe um oxímoro, antítese em que os termos opostos
se contradizem ou se negam.
c) As rimas são interpoladas nos quartetos e alternadas nos tercetos.
d) Além da função poética, o soneto evidencia a função expressiva ou emotiva da
linguagem pela intensidade com que o “eu-lírico” confessa sua impotência verbal.
e) O soneto é uma reafirmação do caráter participante e do sentido de solidariedade que
marcaram a poética drommondiana em Rosa do Povo e Sentimento do Mundo.

Leia o texto para responder à questão seguinte.


O Chamado
Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado


na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe


(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço


um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,


o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
5. No poema, de Claro enigma, Carlos Drummond de Andrade refere-se a um poeta
modernista
a) Identifique-o. Qual o elemento que permite que identifiquemos esse poeta?
b) Quais são, segundo o poema, os elementos constitutivos do destino do poeta
homenageado? Por que o “chamado” desse destino vem escrito com inicial maiúscula?

6. Os versos seguintes são a parte final de um soneto de Carlos Drummond de Andrade


(“A Ingaia Ciência”. Seu tema é a velhice, a maturidade.
“A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,


o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.”
A sabedoria da maturidade é aqui celebrada de forma entusiástica ou pessimista?
Justifique.

Texto para as questões 7 a 9.


MEMÓRIA
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido


contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,


muito mais que lindas,
essas ficarão.
(Carlos Drummond de Andrade)
7. Relacione o título do poema à epígrafe da obra “Os acontecimentos me entediam”.

8. Tendo como parâmetro o poema dado, responda:


a) Fale sobre a estrutura do texto.
b) No texto, a que classe morfológica pertence a palavra “Não”? Qual o seu significado
no contexto?

9. Se o vocábulo “Inexistente” fosse colocado no lugar do vocábulo “Não”, que aspecto


mudaria no texto?

10. A obra Claro enigma inicia-se com o poema “Dissolução”, cuja estrofe inicial
transcreve-se:
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

Relacione a estrofe ao contexto histórico em que o poema foi produzido.

GABARITO
01. Alternativa C
02. Alternativa B
03. Alternativa D
04. Alternativa B
05. a) Drummond se refere a Manuel Bandeira, pela alusão ao tão conhecido poema
“Vou-me embora pra Pasárgada”.
b) O destino do poeta é o caminho para onde o chamam “a intuição, o amor e o risco
desejado”. Trata-se de um chamado não percebido pelas outras pessoas, pois ele parece
transcender a percepção comum e só se manifestar à sensibilidade do poeta. Esse caráter
transcendente do “Chamado” explica o uso da maiúscula alegorizante.
06. O tom é pessimista, porque a sabedoria (“a ciência) da maturidade, que conhece o
valor exato da vida e não alimenta ilusões, nada pode contra a desolação desse
conhecimento. Ela não pode transcender, superar a si mesma: “nada pode contra sua
ciência, contra si mesma”. As conquistas de sua ciência são caracterizadas pela acuidade
desiludida (“o agudo olfato/ o agudo olhar, a mão livre de encantos”), e essa acuidade,
penetrando a ilusão essencial da vida (“o sonho da existência”), destrói-se a si mesma,
anula sua própria significação. Em outras palavras, a sabedoria da maturidade é uma
sabedoria do desengano, do desencanto (“livre de encantos”), que destrói a si mesma,
pois não nutre ilusão quanto a nada, nem quanto a si.
07. Drummond abandona a temática do presente, social e política, para se voltar ao
passado, por assim dizer, afastando dos acontecimentos que marcavam a sua época.
08. a) Quanto à estrutura, o poema possui quatro tercetos, em versos pentassílabos, ou
seja, redondilha menor. Todos os versos apresentam rimas.
b) A palavra “Não” assume morfologicamente a categoria de substantivo. No
contexto, significa o inexistente, aquilo que não mais existe, mas que é impossível
esquecer.
09. Ao colocar o vocábulo “Inexistente” haveria uma mudança na métrica e na rima.
10. O livro Claro enigma foi publicado em 1951, período em que Vargas novamente
ascende ao poder (1951-1954), marcado pelo cerceamento de liberdade. Desta forma,
Drummond assume uma postura negativa, cética e até conformista (“aceito a noite”)
diante da perspectiva história e política do país.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ACHCAR, Francisco et ali. Literatura para a fuvest. São Paulo, Ática,1991.

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