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A.F.

OLIVEIRA
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
Copyright© ANDREIA OLIVEIRA

Este e-book é uma obra de ficção. Embora possa ser feita referência a
eventos históricos reais ou locais existentes, os nomes, personagens, lugares e
incidentes são o produto da imaginação da autora ou são usados de forma
fictícia, e qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas,
estabelecimentos comerciais, eventos, ou localidades é mera coincidência.

CAPA: Y3Y ASSESSORIA LITERÁRIA


DIAGRAMAÇÃO: Y3Y ASSESSORIA LITERÁRIA
ASSESSORIA DE MARKETING: Y3Y ASSESSORIA LITERÁRIA
REVISÃO: ANDREIA OLIVEIRA

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SUMÁRIO
CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO QUATORZE
CAPÍTULO QUINZE
CAPÍTULO DEZESSEIS
CAPÍTULO DEZESSETE
CAPÍTULO DEZOITO
CAPÍTULO DEZENOVE
CAPÍTULO VINTE
CAPÍTULO VINTE E UM
CAPÍTULO VINTE E DOIS
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
CAPÍTULO VINTE E CINCO
CAPÍTULO VINTE E SEIS
CAPÍTULO VINTE E SETE
CAPÍTULO VINTE E OITO
EPÍLOGO
CAPÍTULO UM
​ empre achei assustador pensar no futuro. Na verdade, se eu fosse
S
sincera, diria que aquele tipo de pergunta sobre “como você se enxerga daqui
a cinco anos?” costumava me confundir. Não que eu não me preocupasse,
mas vivendo em uma cidade muito pequena, as perspectivas nunca estiveram
muito ao meu favor. Vinda de uma família sem posses? As coisas eram
piores ainda. Formar-me na escola sem precisar trabalhar era uma sorte, sem
dúvidas... Pensar em faculdade? Um luxo para poucos.
​Quando tomei minha decisão de sair da minha cidade natal para tentar a
sorte no Rio de Janeiro, a convite da minha melhor amiga, que conseguiu
uma promoção em uma grande empresa onde poderia me indicar, nunca
pensei que seria tão difícil dizer adeus às duas pessoas que eu mais amava no
mundo – minha mãe e minha avó.
​Eu já estava na cidade há uma semana – que foi o tempo que me
concederam para organizar minhas coisas antes de começar a trabalhar –, e
ainda me pegava chorando à noite, com medo de ter sido um erro, mas fora
para o melhor. Com o salário que iria ganhar, como secretária do CEO de
uma grande rede de concessionárias de motos, eu poderia cuidar das duas,
principalmente da minha avó, que precisava de atenções especiais com sua
saúde.
​Ainda assim, cheguei no meu primeiro dia com a cabeça erguida, usando
meu melhor vestido preto, tubinho, comportado e que me deixava com a
silhueta elegante, apesar de eu não ser uma mulher de muitas curvas.
Razoavelmente alta – um metro e setenta –, não precisei alongar demais
minhas pernas com um salto de muitos centímetros, então optei por algo mais
confortável, mas que ecoava a cada passo, conforme eu era conduzida pela
moça do RH até o meu posto.
​Eu trabalharia direto no andar da presidência, em uma sala ao lado da do
chefão.
​Provavelmente eu deveria ter pesquisado mais sobre Gabriel Grecco, com
quem trabalharia, mas as coisas aconteceram tão rápido que mal tive tempo
de respirar. Desde a proposta à entrevista online, à viagem, à mudança,
adaptação à cidade grande, admissão na empresa, assinatura de contrato e de
carteira, exames médicos e todo o resto, sentia como se os últimos dias
tivessem passado como um cometa.
​ A empresa eu conhecia, porque era impossível não conhecer, já que eles
eram enormes. Se não a maior franquia de concessionárias de motos do país,
era a segunda ou a terceira, com lojas espalhadas por todo o Brasil. Só nos
poucos passeios que fiz pelo Rio de Janeiro, deparei-me com mais de três. E
olha que eu nem fiz um tour muito relevante.
​A mulher não falava muito, mas eu sabia que sua função era apenas me
receber, entregar meu crachá e me levar ao meu posto, onde me encontraria
com Nádia, minha amiga que conseguiu a vaga para mim. Eu iria ocupar seu
cargo, já que ela se formara em direito e iria assumir uma posição no
departamento jurídico da empresa.
​Fui deixada aos seus cuidados com um “bem-vinda”, e, assim que
ficamos sozinhas, Nádia me abraçou bem apertado, mesmo que tivéssemos
nos visto naquela mesma manhã. Tínhamos chegado na empresa juntas, aliás.
A diferença era que eu havia seguido para o andar do RH, para realizar todas
as burocracias, e minha amiga fora direto para seu posto.
​— Ahhh! Estou tão feliz de ter você aqui, Bea! Vai ser tão divertido! —
Ela bateu palmas como uma criança quando ganha um presente de
aniversário muito esperado.
​Abri um sorriso, ainda me sentindo um pouco nervosa. Era meu primeiro
dia em uma empresa grande como aquela, em uma função importante. Queria
estar completamente animada, mas precisava primeiro me certificar de que
daria conta de tudo para comemorar.
​Nádia pegou uma cadeira, sentando-se ao meu lado à mesa. Acompanhei-
a, enfiando-me atrás do computador. Havia post-its de todas as cores
pendurados em toda parte, com lembretes, vários cadernos empilhados, uma
bandeja com documentos e mais. Era muito para a minha cabeça, e eu
poderia jurar que acabaria louca.
​Mas Nádia foi me explicando tudo com muita paciência. Apesar de
maluquinha, ela era muito organizada e deixou um caderninho pronto com
várias explicações para que eu pudesse consultar quando quisesse. Tudo
estava bem separado em gavetas, em pastas – tanto físicas quanto no
computador – e por mais que fosse muito trabalho, com o tempo eu iria dar
conta. E a teria por perto quando precisasse de ajuda.
​Só que havia um problema: será que meu chefe seria assim tão paciente?
Eu não o conhecia, não sabia nada sobre ele. Era hora de perguntar algo,
porque também fazia parte do meu trabalho conhecer o homem com quem
iria trabalhar.
​— E então... como é o poderoso chefão? Gabriel Grecco...? O que pode
me dizer sobre ele? — perguntei, ficando um pouco mais relaxada na cadeira,
já que tínhamos passado algumas horas concentradas no meu treinamento.
Passava de meio-dia, aliás, mas Nádia pediu que esperássemos Gabriel
chegar para que pudéssemos nos apresentar, já que ele passaria a tarde toda
preso em uma conferência internacional.
​— Além de ser um gato? — ela soltou, o que me surpreendeu.
​Sentindo-me um pouco mais calma e confiante, deixei escapar uma
risadinha.
​— Não foi o que eu perguntei — afirmei, mas sem deixar de rir da forma
como falou.
​— Mas é o que você precisa saber em um primeiro momento. Vai me
dizer que não fuxicou a internet para saber para quem iria trabalhar?
​— Não.
​— Louca. Você iria lamber a tela do computador ou do celular se visse as
fotos do chefinho. Vou resolver esse problema para você antes que comece a
babar quando ele passar por aqui.
​Digitando rapidamente o nome dele no Google e acessando a página de
imagens, a primeira coisa que pipocou na tela foi uma foto de um homem de
cabelos escuros, cortados curtos, com uma barba espessa cobrindo lábios
rosados e muito bem feitos, olhos escuros também e um sorriso de aquecer o
coração.
​Havia várias fotos, e em muitas delas ele estava acompanhado por
mulheres belíssimas, mas em outras vestia um macacão daqueles de piloto.
​— Ele pilota? — Apontei para uma das imagens em especifico, onde ele
estava segurando um capacete também.
​— Campeão de MotoCross. O cara é um apaixonado por moto; herdou o
gosto do pai, é claro, que era o dono de tudo isso aqui.
​— Que legal! — Toquei o mouse e abri um vídeo sugerido que mostrava
alguns momentos de uma corrida pela qual Gabriel fora campeão.
​Ele era bom, sem dúvidas. Ganhou do segundo lugar com folga.
​Eu odiava motos desde que presenciei um acidente na minha cidade,
voltando para casa. A imagem foi traumática o suficiente para que eu nunca
quisesse subir numa daquelas coisas. Ainda assim, não podia negar que tinha
o seu charme.
​— Ok, ele é bem bonito, mas o que eu quero saber é como ele é como
chefe. Exigente? Rabugento? Sei que esses caras ricos podem ser bem chatos
com suas funcionárias quando querem.
​— Ih, fica tranquila. O Gabriel é super gente boa. Tranquilão de trabalhar.
Claro que ele gosta de tudo organizadinho, corretinho, mas se você fizer tudo
certo, vocês vão se dar muito bem. Ele também não é mala com erros. Se não
for nada grave e der para consertar, o chefinho leva na boa.
​Ufa. Menos uma preocupação na minha cabeça.
​Nádia continuou fuxicando o Google sobre meu futuro chefe e encontrou
uma notícia bem recente sobre um novo affair. Claro que ela abriu
rapidamente, fofoqueira como era, e a primeira coisa que vi foi uma foto dele
com ninguém mais, ninguém menos do que Heloísa Junqueira, a modelo
brasileira mais famosa desde Gisele Bundchen. Loira, alta, esbelta e elegante.
​— Ah, então essa é a da vez... — Nádia comentou.
​— Sério que você não está impressionada? O cara está com a Helô
Junqueira!
​— Amor, há uns três meses ele foi visto aos beijos com a Rihanna em
uma festa em Los Angeles! Você tem noção disso? — Arregalei os olhos,
realmente impressionada.
​Ok – uma coisa eu já sabia sobre o meu patrão: ele era galinha.
​Mas tudo bem, né? Um cara bonito, rico e solteiro tinha todo o direito de
sair quantas mulheres quisesse.
​O som do elevador chegando no andar interrompeu nossa conversa.
​— Falando no diabo...
​Rapidamente empertiguei-me na cadeira, sentindo-me nervosa. Por mais
que Nádia tivesse me dito que Gabriel Grecco era um cara legal e tranquilo
de se trabalhar, minhas relações de trabalho daquele nível nunca foram tão
importantes. Pelo amor de Deus, o cara conhecia a Rihanna! O quão
poderoso não deveria ser?
​No momento em que a porta se abriu...
​Bem...
​A primeira coisa que percebi foi que as fotos não lhe faziam jus. O cara
era muito mais bonito pessoalmente.
​Muito mais.
​Andar confiante – check.
​Altura de mais de um metro e noventa – check.
​Ombros largos – check.
​Voz rouca e sensual falando ao celular – check.
​Olhar intenso ao se voltar para nós – check.
​É... pacote completo.
​Ele é um galinha, Beatriz. E é seu chefe!
​Pensei que iria avançar para sua sala, mas permaneceu perambulando no
saguão, onde ficava a minha mesa, antes de encerrar e vir na nossa direção
com um sorriso.
​E que sorriso.
​— Bom dia, meninas! — Senti seu olhar parar um pouco em mim,
parecendo surpreso. Um brilho de interesse surgiu também, e eu me senti
enrijecer.
​Ah, não, Deus! Permita que o cara não seja um tarado que vai começar a
dar em cima de mim e me deixar sem graça!
​Por mais bonito que pudesse ser, eu não queria ser assediada no meu
ambiente de trabalho. Nenhuma mulher merecia isso, aliás.
​— Você deve ser a Beatriz, não é? — Apesar do olhar que me lançou
antes, o sorriso foi gentil apenas, nada provocador. Esperava que contasse um
ponto a seu favor.
​— Sim, senhor — respondi polida, também tentando sorrir, embora
estivesse mais nervosa do que nunca.
​Ele estendeu a mão enorme na minha direção, ainda sorrindo.
​— Muito prazer. — Seu aperto era forte e, assim como seu andar,
confiante. — Sei que deve estar prestes a sair para almoçar, mas pode vir à
minha sala por alguns instantes? Não tive oportunidade de te entrevistar,
gostaria de te conhecer.
​Ai, meu Deus!
​Era um convite inocente, não?
​Por favor... que seja um convite inocente!
​— Claro! — Levantei-me, tentando manter o equilíbrio e o segui, depois
de ele cumprimentar Nádia com um bom dia e batendo na mão dela como se
eles fossem amigos de longa data e não chefe e secretária.
​Entramos em sua sala, e ele fechou a porta, encaminhando-se à sua mesa.
Abrindo um botão do paletó, acomodou-se em sua cadeira imensa, quase um
trono, e apontou uma das que estavam do outro lado da mesa para que eu me
sentasse também. Assim que o fiz, ele novamente sorriu.
​— Primeiro de tudo, queria te dar as boas-vindas, Beatriz. Quero que se
sinta em casa aqui na empresa e comigo. Seremos parceiros de trabalho,
porque não gosto desse patamar de chefe, entende?
​Assenti, respirando fundo, ainda um pouco amedrontada.
​Provavelmente vocês estão me achando uma boba, mas... pelo amor de
Deus! Eu vinha do interior, criação rígida de mãe e vó. Namorados? Tá bom!
Se dois beijos escondidos, um no banheiro do colégio, aos quatorze, e um
numa festa da cidade com um cara que mal sabia beijar direito, contassem...
​Imaginem a minha total falta de jeito diante de um homem deslumbrante,
que já tinha transado com metade do país – e aparentemente com metade de
outros países também –, incluindo modelos e cantoras famosas, sentindo-me
acuada como um coelhinho em meio a uma floresta.
​— Seja como for, tudo o que preciso de você é que seja organizada,
atenciosa e honesta. Preciso de pessoas leais ao meu lado, como Nádia
sempre foi. Se as coisas forem assim, não teremos problemas. Entendido?
​Bem, ele não estava pedindo muita coisa. Nada de teste do sofá. Até ali
estávamos indo bem.
​— Sim, senhor — falei em um fio de voz.
​— Ah, e vamos cortar esse senhor, ok? Sou Gabriel para meus
funcionários, e quero que seja assim para você também.
​Não era um pedido tão absurdo. Ele usou funcionários, no masculino, o
que queria dizer que ele dava o mesmo tratamento para homens e mulheres.
​— Tudo bem. Vou tentar. — Sorri novamente, tentando parecer mais
simpática.
​— Perfeito. Agora vá almoçar. Espero que a Nádia esteja te passando
tudo direitinho, mas, qualquer coisa, pode perguntar a mim também.
​— Obrigada, sen... Quer dizer... Gabriel.
​— Boa garota!
​Com a deixa, eu me levantei e saí de sua sala, sentindo-me aliviada.
​Nada mal para um primeiro encontro, não é? Ele foi simpático,
respeitoso, e o único problema no meu novo chefe era o quanto o danado era
bonito. Só esperava que isso não fosse me causar problemas.
CAPÍTULO DOIS
​ vibrar do telefone foi o que me acordou. E o que me deixou puto
O
também. Até onde eu sabia, era domingo. Por que o despertador estava
tocando?
​Ok, eu nunca fui o rei da pontualidade e da responsabilidade, mas até que
estava indo bem. Herdar uma empresa inteira antes dos trinta não estava nos
meus planos, mas também não imaginava que iria perder meus pais, em um
acidente, tão cedo. Aos vinte e seis, três anos atrás, tudo isso caiu numa
bomba no meu colo, e eu tive que abraçar a situação enquanto lidava com o
luto.
​Não foi fácil, mas sobrevivi, mesmo com todo mundo ao meu redor
duvidando, até mesmo as pessoas da empresa que atualmente me admiravam
e respeitavam. Para todos, eu sempre fui o bon vivant, o mulherengo, o
festeiro, o irresponsável, que só queria saber de participar de competições por
ser viciado em adrenalina.
​Para ser sincero, eu era tudo isso. Nunca deixei de ser, na verdade, mas,
ao menos, provei meu valor. Nos três anos da minha gestão como CEO da
Grecco’s Adventure, ela não apenas cresceu o esperado para uma empresa de
seu porte, mas mais. Gráficos mostravam que o crescimento durante aquele
período fora além do previsto, o que deixava todos nós muito satisfeitos.
​Surpreendia a mim mesmo também o fato de eu estar curtindo o que
fazia. Só que, por mais que trabalhar tivesse se tornado algo prazeroso,
domingo era sagrado.
​Mas a porra do despertador parecia não concordar comigo.
​Até que eu reparei que não se tratava do despertador, mas de uma ligação.
​Preparei-me para atender no momento em que a minha companhia da
noite passada ronronou do meu lado. Um sonzinho sexy que fez meu pau
responder imediatamente.
​A beldade abriu os olhos, e eu fiz um sinal para que ficasse quietinha,
mostrando-lhe o telefone e avisando que eu precisava atender.
​Tratava-se do meu carcereiro, como eu gostava de chamá-lo. Meu tio
Armando. Irmão mais novo do meu pai, ele trabalhava na Grecco também,
em um cargo bem alto, na gerência executiva. Ele coordenava todas as
equipes de venda de todas as lojas, e fazia um trabalho excepcional.
​Quando meu pai morreu, a escolha óbvia para assumir o cargo seria ele,
mas não aceitou. Dissera que estava velho demais para pegar ainda mais
responsabilidade e que sua esposa, minha tia – que era uma santa – o comeria
vivo se aceitasse algo assim. Os dois não tinham filhos, então eu representava
esse papel para eles, principalmente depois que fiquei órfão – se é que esta
palavra poderia ser usada para um marmanjo do meu tamanho.
​Fosse como fosse, se tio Armando estava me ligando àquela hora, em um
domingo, o assunto era sério.
​— Fala, tio — atendi, tentando controlar a voz de sono.
​— Bom dia, Biel. Tudo bem por aí? A moça de ontem já foi embora? —
jogou a pergunta de forma inocente.
​— Como é que você sabe? Eu poderia estar sozinho, não poderia? —
respondi enquanto estendia a mão para tocar o seio nu da garota que virara de
barriga para cima e o deixara exposto.
​Ela estremeceu ao toque, o que me fez sorrir.
​— Você nunca está sozinho, garoto. Mas não vem ao caso. Tenho uma
notícia pra te dar.
​— Boa ou ruim?
​— Acho que ela é boa e ruim, depende do ponto de vista.
​Rapidamente parei de tocar a garota, colocando-me em alerta. Tudo bem
que ele tinha falado que havia um lado bom na situação, mas estava meio
traumatizado. Na última vez em que meu tio me ligou para me dar alguma
informação, daquele jeito, fora para me contar do acidente dos meus pais.
​— O que foi? — perguntei, bem mais sério e tenso.
​— Calma. É só que o todo poderoso adiantou a viagem para o Rio.
​Todo Poderoso era como eu e ele chamávamos o CEO de uma marca
concorrente da Grecco's, que estava interessado em vender suas ações, para
poder se aposentar. Possuía apenas um filho, que seguira outro rumo e não
tinha interesse nos negócios do pai, por isso ele estava avaliando propostas.
​Até onde eu sabia, a minha era a mais promissora, tanto que ele estava
vindo de Houston, onde morava, para me conhecer, conhecer a empresa e
começar a tomar sua decisão.
​O problema? O cara era todo certinho. Não importava que eu estivesse
oferecendo uma quantia indecente, ele ainda queria que sua preciosa marca se
unisse a uma empresa tradicional, cujo dono fosse um homem de princípios.
Uma empresa de família.
​Ele gostava do meu pai. Apesar de serem concorrentes, Osvaldo Grecco
nunca trapaceou nos negócios, mantinha sua honra e era um cara respeitado
no meio. Minha imagem não era tão sólida quanto a dele, mas meu tio andou
sondado, e o cara falou que isso não seria um problema, porque eu era
solteiro e não tinha filhos. Colecionar affairs sem ter uma esposa era
aceitável.
​Mas, obviamente, se eu tivesse uma família já teríamos fechado negócio
há mais tempo.
​Ainda assim, eu teria uma única oportunidade para provar a ele que era
capaz de honrar e elevar o nome de sua empresa, assim que ela se juntasse à
minha. E eu faria isso.
​— Quando ele chega? — perguntei ao meu tio, um pouco aliviado. Claro
que estava nervoso para aquela reunião, que seria a maior decisão que tomei
desde que assumi meu posto como CEO, mas era algo bom.
​— Daqui a dez dias. Teremos algum tempo para revisar o contrato. Vai
que ele decide assinar logo?
​— Amém. Você sabe que eu vou me empenhar para isso, não sabe? Que
vamos fazer acontecer — afirmei em um tom de promessa, esperando
acreditar em mim mesmo o suficiente para isso.
​Eu costumava ser um cara confiante em vários sentidos. Com as
mulheres, principalmente, mas quando se tratava de levar adiante tudo o que
meu pai construiu... Não que não acreditasse em mim mesmo, mas um
perfeccionismo exacerbado às vezes me atrapalhava. Queria que, de onde
quer que estivesse, o Sr. Osvaldo Grecco estivesse orgulhoso. Queria que não
achasse seu filho único uma completa decepção.
​Isso era o mais importante para mim.
​— Biel, para de se cobrar tanto. Se não der certo desta vez, teremos
outras oportunidades. E mesmo que o Alvarez não feche, a Grecco se
manterá muito bem como está — meu tio tentou me tranquilizar.
​— É, mas se ele não fechar comigo, vai fechar com algum concorrente e
vai fortalecer outra marca. Não podemos dar esse mole. Falando nisso, quer
saber? Vou dar uma passada lá na empresa e revisar algumas coisas. Preciso
mostrar para ele uma papelada organizada e...
​— Gabriel! Pelo amor de Deus! É domingo. Podemos fazer isso amanhã.
Volte para a sua garota, aproveite o dia de folga. Não seja afobado. Temos
tempo. Além do mais, tem uma galera lá preparando algumas coisas, lembra?
Eles estão fazendo revezamento para organizar tudo.
​Nossa, eu tinha até me esquecido, mas ele estava certo.
​De fato, minha equipe era a melhor, e eu sabia que eles dariam conta.
​— Olha, Biel, eu estou de olho. Se souber que você apareceu naquela
empresa hoje, vou te fazer me pagar uma garrafa de champanhe daquela que
eu gosto que é mais de mil reais.
​— Porra! Não! De novo, não. Você usa dessas chantagens para me
controlar. A psicologia explica isso, com certeza.
​Meu tio gargalhou do outro lado, e nós continuamos a conversa por mais
alguns instantes.
​Desliguei o telefone, e realmente poderia me animar para tentar mais uma
aproximação com a garota na minha cama, mas acabei arrumando uma
desculpa esfarrapada de que teria que correr na empresa para resolver alguns
problemas.
​Só que não foi o que eu fiz, mas fiquei em casa remoendo a inércia e
pensando que poderia estar sendo produtivo.
​Mas eu não ia pagar uma garrafa cara daquela para o meu tio nem a pau.
Muito menos lhe dar o gostinho da vitória.
​Peguei meu telefone e arrisquei a sorte, ligando para Nádia, na esperança
de que estivesse lá. Quem atendeu, no entanto, foi Beatriz.
​A linda ruiva que já estava trabalhando para mim há uma semana e de
quem eu não sabia absolutamente nada. Totalmente o contrário de sua amiga,
falante e extrovertida, Beatriz era calada, tímida, discreta, embora
competente. As duas ainda estavam atuando juntas, porque era muita coisa a
aprender, mas a novata parecia estar pegando o jeito rápido.
​O mais engraçado a respeito dela era que parecia ter medo de mim. Como
se eu fosse o lobo mau, e ela, a Chapeuzinho.
​Em qualquer outra circunstância eu teria, sem dúvidas, dado em cima
dela, mas não assediava minhas funcionárias. Queria que se sentissem à
vontade em seu ambiente de trabalho.
​— Oi, Beatriz, é Gabriel, tudo bem? — tentei soar simpático, como
sempre.
​Ela, no entanto, mudou um pouco o tom de voz, saindo do gentil para
estritamente profissional.
​Eu sabia que aquela garota vinha do interior, que provavelmente recebera
uma criação rígida, então, me mantinha ainda mais cuidadoso com ela.
​— Sim, senhor. Estou aqui no mutirão com o pessoal. — O maldito
senhor. De todos os meus funcionários ela era a única que mantinha aquele
tipo de tratamento.
​— Ótimo. Posso te fazer um pedido?
​— Claro.
​— A Nádia está aí também?
​— Não, só eu. Ela virá no final de semana que vem.
​Óbvio. Fazia muito sentido.
​— Tudo bem. Você está com as pastas dos documentos que separei para
o Julio Alvarez?
​— Sim. Estão no armário, organizadas.
​Respirei fundo, sabendo que seria uma péssima ideia, mas...
​— Você se incomodaria de pegar um táxi e trazê-las para mim? Queria
trabalhar um pouco hoje, mas estou... eh... bem... impossibilitado de ir à
empresa.
​Porque entrei numa aposta ridícula com meu tio, que eu não quero
perder.
​Claro que eu não iria dizer isso.
​Mas o silêncio que recebi quase me fez dar explicações melhores,
especialmente tendo noção do que poderia estar se passando pela cabeça da
garota.
​Ainda assim, ela era profissional o suficiente para responder:
​— Tudo bem, senhor. Pode me passar seu endereço?
​Foi o que fiz, ela anotou e desligamos.
​Bem... quem sabe não era uma oportunidade de ela perceber que poderia
haver uma amizade entre nós, mesmo que nutríssemos uma relação de chefe e
funcionária, sem que eu precisasse passar dos limites?
​ u será que minha imagem era assim tão poluída que uma garota como
O
ela não conseguia acreditar em minhas boas intenções?
CAPÍTULO TRÊS
​Respira, não pira.
​Fácil falar. Difícil colocar em prática.
​Eu já tinha chegado até ali, não tinha? Estava na frente do elevador do
prédio de Gabriel, onde ele morava numa cobertura triplex, que pegava todo
o andar, no bairro mais nobre do Rio de Janeiro, com as pastas apertadas
contra o peito. Cada número que surgia no visor digital me deixava mais
nervosa.
​Três.
​Dois.
​Um.
​Térreo.
​Enquanto as portas não se abrissem, eu ainda podia fugir, né?
​Mas seria ridículo da minha parte, pelo amor de Deus. Nádia certamente
tinha feito aquilo inúmeras vezes. Era normal uma secretária precisar levar
documentos ao chefe em sua casa, não era?
​Eu deveria ter pedido que ele fosse buscar lá embaixo. Seria mais seguro.
​O apito do elevador soou, e as portas se abriram. Ok, eu precisava entrar.
​Enquanto esperava o negócio subir até o andar C, equivalente à cobertura,
tentava focar novamente que era uma atitude completamente exagerada. Nos
últimos dias, desde que comecei a trabalhar com Gabriel, ele nunca fora
desrespeitoso comigo, nem de longe. Nunca me olhara de forma a me deixar
constrangida e nunca dissera nada desconfortável. Pelo contrário. Era um
patrão gentil, divertido e sempre nos tratava de forma amigável. Eu deveria
estar grata.
​E era nisso que eu precisava focar.
​Toquei a campainha assim que me vi diante de sua porta, e Gabriel não
demorou nada para abrir.
​Lá estava ele: com o sorrisão na cara, usando uma roupa bem mais
informal do que as que eu estava acostumada a ver – camiseta preta, calça
jeans, descalço. Bonito de doer. Talvez esse, aliás, fosse todo o problema. O
homem era uma perdição. Um gato. Por mais que nunca tivesse dado em
cima de mim, eu não conseguia me sentir confortável próxima a Gabriel,
porque era difícil olhá-lo sem corar.
​Eu não tinha muitas experiências com homens. Na cidade pequena onde
eu vivia todo mundo se conhecia desde criança, então, éramos quase todos
irmãos, ao menos os rapazes da minha idade. Eu os vi tirar meleca do nariz e
comer; chorar ao machucar o dedão do pé jogando futebol; eles puxaram meu
cabelo quando menina e estragaram minhas bonecas. Não havia desejo
quando tais memórias se destacavam.
​Além disso, definitivamente, nenhum dos homens que eu conhecia era tão
sexy quanto o meu chefe.
​— Poxa, Beatriz, que bom que você veio. Obrigado! — Ele abriu a porta,
convidando-me a entrar. Não seria só entregar os documentos?
​— Senhor, eu preciso voltar para a empresa e...
​— Não, tudo bem. O que você ia fazer lá não é tão importante quanto o
que podemos fazer aqui. Você se incomodaria de me ajudar?
​Travei.
​Sério. Desde que Gabriel me ligou, eu poderia ser comparada a um
computador de 1998, com os quais se demorava duas horas e meia só para
abrir um arquivo de Word. Deveria ser algum tipo de doença, não é possível.
Algo que fazia o corpo paralisar por qualquer coisa.
​Vozes bonitas e profundas de homens deslumbrantes deveriam fazer a
bactéria atacar; uma coisa parecida com intolerância a lactose, quem sabe?
​— Por favor, Beatriz, só preciso que me ajude ditando os dados dessas
pastas para que eu possa inserir em planilhas. São informações de vendas das
lojas. Quero ter tudo informatizado e organizado o quanto antes.
​Ele não poderia esperar pela segunda-feira, para fazermos isso dentro do
escritório, com testemunhas e um ambiente mais propício?
​Bem... mas não era nenhuma proposta indecente, né?
​Minha mãe sempre me ensinou a nunca entrar na casa de um homem que
eu não conhecia direito, especialmente se estivesse sozinha. Quando esse
homem era um tremendo galinha as coisas pioravam? Mas e quando era meu
chefe, será que a regra poderia ser burlada?
​Na verdade, provavelmente eu não tinha muita escolha, então entrei, e ele
fechou a porta.
​— Fica à vontade. Quer beber alguma coisa? Água, suco, refrigerante?
​Ele não ofereceu bebida alcoólica. Bom sinal.
​— Água, por favor.
​Ouvi movimentação na cozinha e fui me sentando no sofá, em uma das
extremidades dele, deixando as pastas no meu colo e pousando minha bolsa
no braço do móvel. Gabriel surgiu logo depois, entregando-me um copo de
água bem gelada, o que me fez dar uma risadinha.
​— O que foi? — ele perguntou, surpreso.
​— O senhor é meu chefe, não deveria estar me servindo.
​Novamente ele sorriu, e eu dei uma boa golada na água, esperando que
isso me ajudasse a engolir o nó que se formou na minha garganta.
​Dei mais um só para garantir.
​Não adiantou nada.
​— Bobagem. Sou seu chefe, mas você está na minha casa. — Ele se
sentou também. Felizmente bem longe, na outra extremidade do sofá. Ainda
assim, o cheiro de seu xampu e de sua colônia – que eu já conhecia de todas
as vezes que passava pela minha mesa na empresa – voaram até minhas
narinas. — No entanto, se você quiser abrir a geladeira e se servir da próxima
vez, não vou me opor.
​Arregalei os olhos, surpresa, mas me controlei.
​— Não, estou bem assim, obrigada. — Pousei o copo já quase vazio
sobre a mesinha de café ao lado do sofá. — Por onde começamos?
​— Boa pergunta! — Gabriel foi falando enquanto estendia a mão para a
poltrona, onde um notebook repousava, e ele o pegou, abrindo-o.
​O trabalho era simples, mas eu precisava ser honesta e admitir que corria
muito mais rápido com duas pessoas. E também que era muito fácil trabalhar
com Gabriel. Ele nunca deixava o clima ficar muito pesado. Sempre tinha
uma piadinha ou me fazia rir zombando do nome de algum cliente quando
este era muito não convencional. Ou quando não entendia o que eu falava e
se fingia de surdo, dizendo que minha voz era muito baixinha.
​Com o passar do tempo, eu fui me soltando e relaxando. Assim como
acontecera no escritório, ele não tentara nada desrespeitoso, pelo contrário.
Comecei a acreditar que toda a minha paranóia era completamente infundada.
​Quando me dei conta da hora, percebi que passava das quatro da tarde, e
eu não tinha comido absolutamente nada. Gabriel pareceu reparar também,
porque sua reação foi bem espontânea.
​— Ah, merda! Você está aqui me ajudando, e eu nem te alimentei. —
Colocando o notebook de lado, ele se levantou, estendendo a mão para mim.
— Vem...
​— Oi? — Como assim... vem?
​Vem pra onde?
​— Vou te levar para almoçar. Ou quase jantar, né? É o mínimo que posso
fazer para compensar a sua ajuda.
​— Ah, mas não precisa. Eu posso... bem... comer qualquer coisa quando
chegar em casa e...
​— Nada disso. Não quero ninguém desmaiando no caminho para casa. Só
vou calçar um tênis e saímos, ok? Tem um restaurante delicioso quase aqui
do lado, de frente para a praia. Você vai adorar. — Ele subiu correndo as
escadas, de dois em dois, voltando em tempo recorde, trazendo os sapatos na
mão. — Come frutos do mar?
​— Sim, como...
​— Perfeito! — Ele parecia animado. Como não podia negar novamente e
porque estava morrendo de fome, aceitei.
​Exatamente como Gabriel dissera, o restaurante ficava bem próximo do
prédio onde morava, e eu me senti encantada com o fato de ele estar
localizado no calçadão, próximo à areia.
​Acomodamo-nos em uma mesa estrategicamente posicionada de frente
para o mar e fizemos nossos pedidos.
​A conversa fluiu fácil, porque Gabriel era uma pessoa muito sociável.
Falava pelos cotovelos, era muito divertido, bem humorado e muito
confiante, o que o tornava ainda mais bonito.
​Em um dado momento, quando já tínhamos terminado de comer,
entramos em um impasse, porque ele ficou abismado quando eu disse que a
primeira vez que vi o mar foi quando cheguei ao Rio.
​— E eu estou falando ver de ver mesmo. Entrar nele, eu nunca entrei —
comentei.
​ O quê? Isso é um ultraje. Vamos resolver isso agora! — Gabriel tirou

a carteira do bolso do jeans e chamou a garçonete. Decidi não perguntar nada,
porque já entendia que quando ele colocava algo na cabeça, ninguém o
dissuadia.
​Pagou a conta no cartão de débito e se levantou, logo puxando a minha
cadeira, como um cavalheiro. Então novamente estendeu a mão para mim, e
eu aceitei, daquela vez com um pouco mais de facilidade.
​Descemos as escadas que davam para a areia, e eu comecei a ficar
apreensiva.
​— O que... o que vai fazer?
​— Calma. Você falou que nunca entrou no mar. Esta de vestido, não
está? Pode colocar o pezinho, pelo menos. Vai ser sua estreia como
verdadeira carioca.
​Gostei da ideia. Tanto que abri um enorme sorriso.
​Fomos andando pela areia fofinha, e eu tirei os sapatos, experimentando a
sensação gostosa, enquanto anoitecia. Gabriel também tirou o tênis e ergueu a
barra da calça jeans, entrando comigo.
​A primeira ondinha veio, atingindo meus tornozelos, e eu fiquei
emocionada.
​Era uma bobagem chorar por aquilo, sem dúvidas, mas era lindo. Não
apenas a visão da natureza, mas saber que eu estava numa cidade grande,
trabalhando, tentando a sorte e, quem sabe, prestes a prosperar.
​— O que foi? — Gabriel perguntou, percebendo minha emoção.
​Dei de ombros, tentando não valorizar muito minhas reações.
​— Só estou... feliz.
​E, de fato, estava. Mais do que imaginei que poderia ficar, longe da
minha família e em lugar tão diferente de onde vivia.
​Permanecemos mais algum tempo curtindo o mar, até que voltamos para
o prédio. Gabriel disse que fazia questão de me levar em casa, o que eu tentei
argumentar, mas ele era bom de lábia. Não era difícil entender por que
conseguira levar Rihanna para a cama.
​Estávamos parados diante do elevador, único acesso ao subsolo, para ele
poder pegar o carro, quando o nome dele foi chamado.
​— Seu Gabriel? Deixaram uma encomenda para o senhor há uma hora
mais ou menos — disse o porteiro.
​— Ah, é? Eu não estava esperando nada. É grande? Posso pegar depois?
Não estou indo para o meu apartamento e...
​ Senhor... acho melhor pegar agora. Não posso ficar com ele mais

tempo na portaria.
​Ele?
​Gabriel olhou para mim, também parecendo não entender nada.
​Meu chefe caminhou em direção ao balcão, onde o porteiro colocou uma
cestinha.
​A expressão de Gabriel modificou-se em um segundo. Olhos arregalados,
palidez... Jurei que aquele homem de mais de um metro e noventa iria
despencar ali mesmo.
​— Tem certeza que é para mim?
​— A moça foi bem específica, senhor. Gabriel Grecco. E o bebê é seu
filho.
​Mas... oi?
​Como assim?
​Ótima hora para participar de uma cena de Casos de Família, Beatriz!
Ponto para você!
CAPÍTULO QUATRO
​ u andava de um lado para o outro sem parar. Tanto que certamente iria
E
criar um furo no piso da minha sala dali a algumas horas se continuasse
naquele ritmo.
​Um bebê.
​Um bebê meu?
​Como isso foi acontecer?
​— Bem, eu imagino que o senhor saiba exatamente como funciona a
mecânica da coisa. Provavelmente não acredita mais em cegonhas e suspeito
que tem bastante prática no assunto.
​Eu tinha feito a pergunta em voz alta?
​E a garota tinha respondido?
​Lancei um olhar para ela com uma sobrancelha erguida, levemente
contrariado. Já tinha percebido que ela tinha um senso de humor peculiar,
mas não era uma boa hora, era?
​— Desculpa. Quando fico nervosa eu falo demais. — Ela levou a mão à
boca, enquanto segurava o bebê, que eu nem me lembrava de ter passado para
ela.
​Ou melhor, eu não me lembrava de nada desde o momento em que
cheguei do restaurante, depois de realmente me divertir com aquela garota,
achando-a mais e mais bonita a cada segundo que passava – como se já não
tivesse achado desde o início –, enquanto tentava focar que ela era minha
secretária.
Intocável.
Nem pensar, garanhão.
A partir do momento em que aquela cesta com o bebê surgira na
minha frente, da forma mais clichê possível, eu poderia esquecer até do meu
nome. Uma amnésia poderia se instalar que não faria a menor diferença.
Como assim eu sou pai?
— Acho que eu não vou precisar falar de novo e... — Beatriz falou.
Ah, merda, eu tinha dito outra vez em voz alta?
Joguei-me no sofá, porque já não conseguia mais ficar de pé. Acho
que eu poderia, inclusive, desmaiar no meio da minha sala, o que não seria
nada gracioso. A queda também não seria divertida. E não que eu me
importasse muito com essas coisas, mas seria um pouco constrangedor um
homem de um metro e noventa e cinco despencando sem sentidos na frente
de uma mulher bonita.
— O senhor está bem? Precisa de um copo d’água ou algo assim? —
ela perguntou com toda a gentileza, e eu deveria agradecer, não só por ela
estar sendo tão solícita, mas por não estar sozinho.
O que eu faria com um bebê? Mal sabia segurar um.
Eu não fazia ideia se ela sabia também, mas, aparentemente, a criança
não tinha caído ainda... devia ser um bom sinal.
Só que, naquele momento, tudo o que eu queria era sumir. Quebrar a
casa inteira. Gritar na janela até o Rio de Janeiro inteiro achar que eu
endoidei.
A pobre garota estava ali, disponível para servir de saco de pancadas,
e eu podia jurar que vi um alvo em sua testa. A grosseria saiu, e eu nem me
dei conta:
— Dá para parar com essa porra de senhor?
Ergui os olhos para a moça, e ela deu um passo para trás – ou mais
como um pulo –, assustada.
Merda! Não era a minha intenção.
— Desculpa — pedi. — Estou descontando na pessoa errada.
Beatriz pensou por algum tempo e veio na minha direção. A cestinha
do bebê estava sobre a mesinha de centro, então ela o colocou lá dentro, com
cuidado, ajeitando-o e acariciando a cabecinha do menino com ternura.
Ou melhor... era um menino, não? Estava todo vestidinho de azul. O
que não indicava muitas coisas, claro.
— O que está fazendo? — Era levemente óbvio, mas suspeitei que o
fato de ela colocar o neném na cestinha deveria indicar alguma outra coisa.
— Vou embora. Posso pegar um uber ou um táxi. Com todo o
respeito, o senhor está muito estressado, e eu acho que isso pode nos
prejudicar. Sou sua secretária, não sua amiga.
Uau. A imagem de menina tímida e do interior era válida, mas Beatriz
também sabia como não levar desaforo para casa como ninguém.
Sem nem pensar no que fazia, segurei-a pelo punho, o que fez com
que olhasse para mim, e pela primeira vez eu me dei conta do lindo tom
amendoado de seus olhos.
Novamente Beatriz mais parecia um bichinho acuado, o que me fez
soltá-la imediatamente. Ainda assim, continuamos nos olhando por algum
tempo, perdidos em um momento quase estranho, porque eu não conseguia
dizer nada. Minha mente estava enevoada e muito pesada, começando a doer,
e tudo o que eu menos queria era que ela fosse embora.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, porém, o bebê começou a
chorar.
Se aquele garoto era mesmo meu filho, eu já havia conquistado um
aliado. Ele tinha um timing perfeito.
Beatriz poderia simplesmente dar as costas ao neném que ela sequer
conhecia, e eu vi esse dilema em seu rosto, enquanto nós ainda nos
olhávamos. Se era atração o que estava acontecendo ali, ou apenas o meu
desespero, eu não saberia diferenciar.
Para a minha sorte, a garota parecia ter um fraco por bebês, porque
novamente o pegou no colo. Só que quando fez isso, ao tirá-lo da cestinha, eu
reparei em um papel dobrado que não tinha visto antes.
Peguei-o na mão e o abri, reparando que se tratava de uma carta
escrita em uma caligrafia feminina até bem bonita.
Tá, era uma carta da mãe do bebê. O que funcionou para mim como
ver uma assombração no espelho.
— O que foi? — Beatriz perguntou no momento em que eu joguei o
papel de volta à cesta como se estivesse pegando fogo.
— É uma carta. Aparentemente da mãe da criança.
— Bem, então você tem que ler, né?
Sim, provavelmente eu tinha mesmo.
Provavelmente eu deveria fazer tantas coisas que nem conseguia
começar a enumerá-las. Só que me sentia um covarde. Um babaca. Tanto que
abri a boca para falar a besteira que saiu:
— Você poderia ler para mim?
A pobre da mulher novamente arregalou os olhos, quase como se eu
tivesse pedido para ela tirar a roupa na minha frente e dançar sensualmente.
Só que, naquele caso, quem iria se despir ali era eu. Beatriz não me conhecia,
ela trabalhava para mim há muito pouco tempo, tínhamos passado um dia
bem agradável juntos, mas ela estava certa – não éramos amigos. A primeira
impressão que iria guardar de mim era a pior possível. Ainda assim, era a
pessoa mais próxima, a única que poderia me ajudar naquele momento.
— Por favor. Eu estou assustado. Isso é tão absurdo para mim...
Os ombros de Beatriz caíram, e ela pareceu penalizada. O bebê parara
de chorar no momento em que ela o pegou nos braços, e de alguma forma
sentiu que não poderia soltá-lo. Por isso, sentou-se ao meu lado, no sofá,
ajeitando-o com cuidado para segurá-lo com um braço só enquanto segurava
a carta com a outra mão.

Gabriel,
Muito provavelmente você não se lembra mais de mim, então não há
sentido revelar quem sou, mas pode acreditar que você deixou uma
impressão e tanto, além, é claro, dessa pequena coisinha que estou te
entregando, já que você tem muito mais condições de cuidar do que eu.
É um bom menino, e eu o chamo de Davi. Você pode mudar o nome se
quiser, já que a partir de agora eu não terei mais participação em sua vida.
Tem cinco meses de vida, e eu demorei tanto para deixá-lo com você, porque
tentei. Juro. Eu queria ser uma boa mãe, mas não sou. Fora que não tenho
condições de cuidar dele. Financeiras nem emocionais.
Então é isso. Acho que não tenho muito mais o que dizer.
Cuide bem do menino, você é um cara legal, sei que vai saber o que
fazer.

​— E só — Beatriz falou, encerrando a leitura.


​— Como assim só? — Arranquei o papel da mão dela, indignado.
​Como assim a mulher realmente não assinava? Como não dava nenhuma
pista de quem poderia ser? Como eu iria saber se o garoto era meu mesmo?
Poderia ser só uma louca tentando...
​Tentando o quê? A mulher não pedira pensão, ela apenas deixara o bebê
comigo. Se fosse uma aproveitadora, não faria diferente? Quem em sã
consciência deixaria uma criança com um playboy como eu, solteiro, que
vivia uma vida super desregrada, se não fosse para ganhar dinheiro em cima?
​Será que, no futuro, aquela mulher iria buscar alguma vantagem?
​Porra, eu não sabia o que pensar.
​— Olha, ela falou que o bebê tem cinco meses. Você pode fazer as
contas. Tente se lembrar de mulheres com quem saiu há quatorze meses.
Assim você diminui as opções.
​Olhei para ela com uma expressão que deveria explicar tudo, de total
impaciência. Não com a garota, no caso.
​— Eu não tenho uma memória assim tão boa, Beatriz. E costumo sair
com muitas mulheres. Muitas mesmo.
​Vi quando Beatriz aquiesceu, e cheguei a ficar envergonhado. Era a
primeira vez que me sentia assim falando da minha vida sexual bastante
ativa. Não que eu tivesse motivos para isso, já que era solteiro, desimpedido,
não havia nada que me prendesse a uma opção de celibato.
​Ainda assim... aquela menina parecia tão... pura. Não fazia ideia de suas
experiências românticas passadas, mas não sentia como se fosse certo me
mostrar tão frívolo àquele ponto.
​Não que fosse de sua conta, mas chegar ao ponto de engravidar uma
mulher e não fazer ideia de quem poderia ser, porque peguei muitas, me fazia
me sentir... errado. Como um cafajeste.
​O que... bem... talvez eu fosse, embora nunca prometesse nada, nunca
desse esperanças a ninguém.
​Só que isso me incomodou ao ponto de eu precisar levantar de um
rompante e me colocar de pé.
​— Preciso ir ao banheiro. Você pode esperar mais um pouco?
​Parecendo muito solícita, apesar de assustada e um pouco contrariada,
Beatriz assentiu, então eu saí de perto, não querendo ficar perto de uma
garota aparentemente tão inocente enquanto me sentia tão impuro.
​Tudo o que eu pensava era: o que diabos eu ia fazer a partir daquele
momento?
CAPÍTULO CINCO
​ bebê era uma gracinha. Olhinhos amendoados, bochechinhas rosadas,
O
fiapinhos castanhos na cabeça. Estava quietinho no meu colo, mas era só
fazer menção de soltá-lo para que recomeçasse a chorar. Um chantagista.
​Eu tinha zero experiência com bebês, mas gostava de crianças, e quando
Davi encostou a cabecinha no meu ombro, meu coração inflou no peito por
ele.
​Sentei-me no sofá, esperando seu pai resolver sair do banheiro. O cara
estava apavorado, e não era para menos, né? Descobrir que tinha um filho
daquela maneira deveria ser bem assustador. E eu odiava estar no meio
daquela situação.
​O que eu estava fazendo ali, meu Deus? Era só a secretária. Por que tinha
que ser eu exatamente a única testemunha quando ele descobria que era pai?
​Para completar o pacote, senti um cheiro estranho vindo do neném.
Ótimo! Um presentinho de boas-vindas.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa a respeito, ouvi a porta do
banheiro se abrindo, e Gabriel saiu de lá com os cabelos e a barba pingando,
como se tivesse jogado um enorme jato de água no rosto. Só que ele
provavelmente não tinha sequer se secado. Sua blusa também estava muito
molhada – que a santa padroeira das secretárias virgens me protegesse –,
quase grudada ao peito, deixando muito pouco para a imaginação.
— Quer saber de uma coisa? Eu sou um merda, sei disso... eu transo
com garotas que nunca mais vou ver na vida, para quem não ligo no dia
seguinte, mas isso? — Ele apontou para o bebê no meu colo, falando
desembestado, nervoso. — Eu não negligenciaria um filho. Fiquei lá dentro
esse tempo todo tentando me convencer de que só podia ser um cara mais
babaca do que sempre pensei que era por ter deixado uma mulher grávida
sozinha por aí pelo mundo, mas eu não sabia. Se essa mulher tem o endereço
do meu prédio é porque eu a trouxe para cá. Por que não me procurou antes?
— Gabriel... — cheguei a evitar o senhor, porque ele já estava
nervoso demais. Só que ele, aparentemente, não estava interessado em me
deixar falar.
— Eu sou um cara responsável, Beatriz. De coração, sou mesmo.
Assumi a porra da empresa da família, porque foi jogada no meu colo, e eu
abracei a ideia, porque, né? Não tinha muita escolha. Mas fiz tudo direitinho.
Olha aonde chegamos! Tudo o que sempre fiz foi pensando no quanto queria
que meu pai tivesse orgulho de mim. Mas como ele poderia ter, sabendo que
durante meses um filho meu ficou perdido pelo mundo?
— Talvez você devesse começar a fazer as coisas por você e não por
seu pai. — Ah, Beatriz, sua louca! O cara é seu chefe! Ele pode falar que fez
cocô no meio de uma avenida e você deveria aplaudir, não é assim que as
coisas funcionam? Como você vai dar uma de escritora de auto-ajuda sendo
que ele nem pediu opinião? Augusto Cury ta aí pra isso. Você não vai ganhar
milhões com uma frase idiota dessas.
Ainda assim, Gabriel ergueu os olhos para mim, surpreso.
— Como assim?
— Ué... você falou que sempre fez tudo querendo deixar seu pai
orgulhoso. Mas é o que você queria fazer? — Remexi o bebê no meu colo,
porque ele estava pesando o meu braço. — Pela minha mãe e pela minha avó
eu ficaria para sempre no interior, me casaria com o filho de um fazendeiro e
me contentaria em ser dona de casa, engravidando a cada dois ou três anos.
Só que nunca foi o que eu quis para mim.
Gabriel se jogou no sofá, parecendo derrotado, levando ambas as
mãos à cabeça, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu gosto do que eu faço. Sei fazer bem. Mas um bebê... não sei ser
pai. Fiquei lá dentro esse tempo pensando em como vai ser...
Não pude conter um sorriso.
— Ninguém sabe ser pai. Não é o tipo de coisa que se ensina na
escola ou que vem com manual de instrução. É o amor que faz com que a
gente se empenhe em aprender e em querer ser melhor.
Gabriel continuava olhando para mim como se eu fosse uma pessoa
completamente diferente da de antes. Será que eu estava falando algo assim
tão errado?
— E o seu pai? Foi bom para você? — ele perguntou subitamente,
talvez para desviar o foco, mas eu apenas dei de ombros.
— Não conheci o meu pai. Ele abandonou a minha mãe quando
descobriu que ela estava grávida — respondi muito séria, sem muito alarde,
porque esta era uma história que não me incomodava mais.
— Ah, porra, ta vendo? Esse é o tipo de coisa que eu faço. Falo merda
nas horas erradas. Desculpa, eu...
— Está tudo bem. Não é uma ferida recente.
— Mesmo assim. Não foi legal da minha parte. Desculpa.
— Não precisa se preocupar por isso. Você tem problemas maiores...
Aliás, vai fazer algum DNA ou qualquer coisa assim? — Era uma pergunta
lógica, não? Ele nem sabia quem era a mãe.
Mais uma vez Gabriel olhou para mim, perdido, como se fosse um
garotinho abandonado.
Droga, eu era uma manteiga derretida; era difícil não me comover
quando um cara bonito daquele jeito parecia tão desamparado. Fora o fato de
que ele era bem legal também, o que contribuía para a minha simpatia.
— Eu deveria fazer, não? Assim... ele se parece comigo, você não
acha?
Olhando para o bebê com atenção... Sim, ele se parecia muito com
Gabriel. Sem a barba e tal, é claro.
Analisando com mais atenção ainda... Nossa, eles eram um a cara do
outro.
Ainda assim, não queria dizer nada. Vai que uma louca tem um filho,
olha para o bebê e fala: “Olha, não é que ele é a cara daquele milionário, o
Gabriel Grecco? Perfeito para um golpe da barriga!”. Sabendo que meu
querido chefinho não tinha exatamente muito critério com suas mulheres,
contanto que fossem bonitas e maiores de idade – eu esperava que sim, aliás
–, poderia não ser algo muito difícil de se concretizar.
— Sim, ele se parece com você — respondi apenas, tentando
amenizar a situação, se é que era possível.
Peguei Gabriel olhando na direção do bebê, quase hipnotizado,
refletindo. Ele parecia... ponderar muitas coisas, que eu não fazia ideia quais
eram, mas precisei dar um aviso, para o qual eu já estava até atrasada.
— Olha... o bebê... Bem... — Por que eu estava tão envergonhada? —
Precisamos trocar a fralda dele.
O homem à minha frente arregalou os olhos.
— Você sabe como fazer isso? — Havia súplica em sua expressão.
Em qualquer outra situação eu teria rido de seu desespero, mas não achei que
seria de bom tom.
— Eu? — exclamei em um rompante. — Não... eu não faço ideia.
Nunca cuidei de um bebê.
— Ah, merda! Estava contando que você soubesse... — Ele levou as
mãos à cabeça.
— Por quê? Só porque sou mulher? — indignei-me.
— Não. É porque você está segurando o bebê tão direitinho. Achei
que tinha experiência. Mas isso não vem ao caso. O que faremos?
— Bem... temos YouTube para pesquisar. Tem fraldas e roupinhas
dentro da cesta, mas não é muita coisa. Você vai ter que comprar mais. E
leite.
— Ah, meu Deus! — Ele pareceu se desesperar por um momento,
mas logo se recompôs e levantou-se. — Vamos colocar a mão na massa.
Literalmente.
Não pude deixar de rir.
Com o celular apoiado na bancada do banheiro, pegamos um tutorial
de como trocar fralda. Infelizmente as instruções se limitavam à mecânica da
coisa em si, mas não preparavam sobre o quão podre era o cheiro e sobre o
quanto a criança poderia se mover durante o processo. Mas, no final das
contas, fizemos um trabalho decente, e Gabriel chegou a erguer a mão para
um cumprimento high-five, o que nos deixou um pouco sem graça depois.
Com Davi já limpinho, Gabriel ousou pegá-lo em seus braços.
Ergueu-o com cuidado, pela primeira vez, e eu me vi em completo silêncio
observando a cena.
De início desajeitado, mas logo se entendendo com o corpinho do
bebê, aquele homem grande manejou a criança com tanto cuidado que
chegou a me comover. Os dois começaram a se olhar como se tivessem uma
conexão de anos e não como se tivessem acabado de se conhecer. Gabriel
ainda parecia reticente, como se tivesse medo de se apegar, de tornar a coisa
real demais.
— Meu filho ou não, eu não posso deixar esse menino desamparado.
A mãe abandonou, e eu não sei nem quem é. Não posso devolvê-lo, se é que
essa é uma palavra decente para se usar com uma criança.
— O que pretende fazer, então?
— Vou ver a questão do exame, mas... vou ficar com ele enquanto
isso. — Gabriel ergueu os olhos para mim. — Desculpa te colocar nessa
situação, e eu sei que você não tem muita experiência no assunto, mas...
preciso da sua ajuda. Você ficaria aqui esta noite para me ajudar com ele?
Vou te pagar pelas horas extras.
O quê?
Mas...
Pelo amor de Deus... que proposta mais descabida era aquela? Como
eu iria passar a noite na casa do meu chefe? Do meu chefe, pelo amor de
Deus!
Só que ao olhar para eles, tanto para o homem quanto para o neném, e
compreendendo que nenhum dos dois conseguiria se virar sozinho – não que
eu fosse a mais indicada para ajudá-los, já que mal sabia cuidar direito de
mim mesma, entendi que não havia muito o que fazer. Se não fosse a criança,
eu poderia até negar, mas como virar as costas daquela forma para um
garotinho que já tinha sido abandonado?
Que escolha eu tinha? Só precisava esperar que as coisas não se
complicassem a partir dali.
CAPÍTULO SEIS
​ ra difícil esquecer que se tinha um bebê em casa quando a coisinha
E
chorava a madrugada inteira. E a plenos pulmões.
​Pobrezinho... quem poderia culpá-lo? Deveria ser sua primeira noite sem
a mãe, e obviamente sem toda a estrutura necessária para um bebê. Não havia
um berço, um local adequado para que passasse a noite, não havia roupinhas
de cama, nem muitos brinquedos – com exceção de dois bichinhos que a
desnaturada que o deixou comigo levara.
​Tudo o que consegui fazer foi comprar algumas papinhas – com
instruções do farmacêutico –, uma nova mamadeira para reserva, chupeta,
fraldas extras e algumas outras coisas, em uma ida rápida à drogaria mais
próxima. Voltei com sacolas e mais sacolas, incluindo uma banheira de
plástico e todo o resto que consegui encontrar pela frente, indicado para um
bebê da idade dele.
​Eu até poderia me considerar um homem de sorte por não ter estado
sozinho ao receber a “encomenda”. Beatriz estava sendo de uma ajuda
absurda, principalmente porque era paciente, gentil, e Davi parecia ter se
apegado a ela muito mais rápido do que a mim. Provavelmente o fato de ela
ser mulher e, sem dúvidas, mais maternal do que eu, contavam para a
preferência.
​Isso e o fato de que ela era linda. Muito linda. Se meu filho tinha metade
do meu bom gosto para mulheres, já tinha reparado nisso.
​Meu filho... a realização caiu como uma bomba na minha cabeça. Eu não
tinha sequer feito um exame, não tinha certeza de nada, mas já considerava o
moleque como meu. Era errado. Caso fosse uma mentira, eu poderia acabar
me apegando à criança e teria que me despedir.
​Em um dado momento durante a madrugada, acabei conseguindo pegar
no sono, quando Davi também adormeceu. Ouvi um chorinho pouco depois,
mas estava tão cansado, tão esgotado mental e fisicamente, que não consegui
me levantar. Quando o fiz, já era manhã, e eu pulei da cama, horrorizado por
ter deixado Beatriz sozinha para lidar com um bebê que não era seu.
​Ao chegar no quarto ao lado, onde instalei os dois, encontrei-a sentada na
poltrona reclinável, com a criança em seu peito, ambos dormindo, serenos.
​Com cuidado, peguei o neném, levando-o para seu cestinho, já que não
tínhamos um berço, mas esse pequeno movimento acordou a moça. Ela se
alongou na poltrona, como uma gatinha preguiçosa, e era difícil não me sentir
perdido olhando para ela.
​— Desculpa, que horas são? — ela perguntou em meio a um bocejo.
​— Sete. Eu não queria te acordar.
​— Tudo bem — respondeu ainda aérea, endireitando-se e ajeitando a saia
do vestido que tinha subido um pouco. As pernas eram incríveis, mas eu
evitei olhá-las para não deixá-la ainda mais sem graça. E porque... bem...
seria desrespeitoso. A mulher estava na minha casa para me ajudar, pelo amor
de Deus! — Preciso ir. Tomar um banho, pegar algumas roupas e ir trabalhar.
​Eu tinha pensado muito naquilo durante a noite. Muito mesmo. Como iria
lidar com a situação a partir daquele momento? Tudo fora jogado no meu
colo da forma mais absurda possível, e eu não tinha um plano. Mais ou
menos como acontecera depois do acidente dos meus pais. Só que daquela
vez eu tivera meu tio para me ajudar e já sabia o que fazer com uma empresa,
porque sempre trabalhei nela. Com um bebê? O YouTube podia me ensinar a
trocar fraldas, mas o resto? Teria que me virar sozinho.
​Deixei que a garota se levantasse e começasse a se dirigir à porta, mas
antes que ela pudesse cruzá-la, provavelmente para ir ao banheiro, tive que
chamá-la.
​— Beatriz? — chamei, e ela se virou para mim. — Eu não tenho com
quem deixar o neném e preciso ir à empresa. Nádia ainda está lá e pode te
cobrir. Você se importaria de passar o dia com ele? Juro que vou te
compensar por isso.
​ h, merda, ela parecia tão cansada. Era tão injusto fazer aquilo, mas,
A
infelizmente, eu não tinha escolha.
​— Mas eu falei que não sei cuidar de crianças — insistiu em um fio de
voz.
​— É só por hoje. Prometo que vou buscar um serviço de babás decente,
que me atenda em caráter urgente, mas hoje vai ser difícil. Além do mais, o
menino parece gostar de você.
​— Parece? — indagou com um jeitinho sonhador, como se saber que o
bebê gostava dela a deixasse feliz.
​— Bem, ele seria louco se não gostasse... — divaguei. Aliás, eu estava
pensando alto demais naqueles dias.
​Minha resposta surpreendeu Beatriz, que olhou para mim com os olhos
mais abertos, entre chocada e confusa, o que eu achei adorável.
​Provavelmente era o sono, mas, naquele instante, tudo parecia
extremamente adorável nela.
​— Por favor, Beatriz. Só mais hoje. Pode pegar uma roupa minha para
usar, para poder se trocar.
​— Você é mais de vinte centímetros mais alto do que eu. Uma camisa sua
seria um vestido para mim. Além do mais, tudo bem. Esse vestido não é dos
mais desconfortáveis. Posso tomar um banho e colocá-lo novamente.
​— Isso quer dizer que você topa ficar? — perguntei esperançoso, e ela
assentiu.
​— Eu vou te ajudar.
​Sem nem pensar no que fazia, dei um passo à frente, pegando Beatriz pela
cintura e tirando-a do chão em um abraço.
​Minha reação pareceu deixar a nós dois muito surpresos, porque cheguei
a demorar a soltá-la de tão súbito. Ou talvez não por isso.
​Eu estava vulnerável. Mais do que isso... minha cabeça estava confusa,
girando, e essa era a explicação para as reações do meu corpo naquele
momento. Não era certo ficar atraído pela minha secretária, especialmente
levando em consideração o quão tímida e retraída ela era. Não fazia sequer o
meu tipo, já que gostava de mulheres mais atiradas, independentes e
despreocupadas. Só que o jeitinho doce e solícito, além da aparência incrível,
estavam me deixando muito desconcertado.
​Quando a coloquei no chão, Beatriz deu um único passo para trás, com a
cabeça baixa e o rosto corado. Era hora de me afastar antes que as coisas
ficassem mais estranhas entre nós.
​ Eu vou... Er... Vou... — gaguejei. — Vou me arrumar para ir para a

empresa. Tudo bem?
​— Sim, claro. Vamos ficar bem. — Ela deu de ombros, entrelaçando as
mãos nas costas. — Ao menos eu acho que sim. — Sorriu, ainda sem graça, e
eu não consegui não imitá-la.
​Aliás, eu não queria ficar pensando nisso, mas seu sorriso me
acompanhou durante todo o caminho até a empresa. Muitas eram as mulheres
que sorriam para mim; eu não poderia ser hipócrita de dizer que isso não me
envaidecia, é claro, mas nunca daquela forma. Sincera, desinteressada, doce,
meiga... Beatriz não queria nada de mim. Ou melhor, eu lhe pagava um
salário, é claro, mas algo me dizia que iria me ajudar com Davi porque era
esse tipo de pessoa.
​Assim que cheguei no prédio da sede administrativa da Grecco’s,
convoquei uma reunião com meu tio e com Kléber, meu melhor amigo, que
também trabalhava conosco, sabendo que precisava colocar o assunto em
pauta. Era a minha vida pessoal, é claro, mas com a chegada do Alvarez, a
ideia de eu ter um filho poderia colocar tudo a perder.
​Na sala de reuniões do andar da presidência, sentei-me com eles e lhes
contei tudo, desde o início, sobre a chegada de Davi em minha vida. Falei
sobre a incerteza sobre ele ser ou não meu filho, sobre a identidade da mãe
ser um segredo e sobre eu não fazer ideia de quem poderia ser. Os dois me
ouviram com atenção e quando terminei o relato ficaram em silêncio,
ponderando.
​— Antes de mais nada, você precisa se certificar se o bebê é seu mesmo
— meu tio falou. — Mas seja como for, as coisas podem complicar com
Alvarez enquanto isso. Se ao menos você estivesse com a mãe dele... Tipo...
se pelo menos fingisse que estão em um relacionamento, que pretendem
formar uma família... Acidentes acontecem, mas ele vai querer que você
honre o compromisso.
​Respirei fundo, estressado com aquela história.
​— Sabe o que eu acho? Que isso é ridículo. É a minha vida pessoal. O
que o cara pode ter a ver com ela? — indignei-me.
​— Nada, mas você precisa abrir as pernas se quer mesmo fazer dar certo
— Kléber afirmou. — Foi uma decisão sua, Gabriel. Você está interessado no
negócio.
​— Claro que estou. Vocês sabem que vai ser uma coisa boa para a
Grecco’s.
​ Vai, sem dúvidas. Mas se isso vai afetar a sua vida... — tio Armando

insistiu.
​— Não deveria. Até ontem estava tudo certo. Só que agora tudo mudou.
O que vou fazer com um bebê? Não posso escondê-lo.
​— Não, não pode. Nem fingir que ele não existe — Kléber completou,
mas meu tio parecia pensativo, como se estivesse ponderando alguma ideia.
​— Olha... você não pode fingir que o bebê não existe, mas pode fingir
que ele tem uma mãe presente, não? Tenho certeza de que uma dessas suas
namoradas super toparia se fazer passar por oficial. De repente você pode
oferecer uma grana. Seria como um trabalho de atriz, sei lá. Seria só por
alguns dias e...
​— Porra, tio, ta louco? Primeiro que eu mal tenho o telefone dessas
mulheres com quem saio. E segundo que isso seria um passaporte para o
inferno. Se eu escolher a garota errada, ela pode usar isso de chantagem ou,
sei lá, entender as coisas de uma forma que não quero que entenda.
​— Então escolha a garota certa.
​— Como, tio? — alterei-me. — Eu sou um babaca que não conhece
nenhuma delas direito. Uma semana é o meu recorde, e mesmo assim mal
converso com as garotas.
​— Pelo amor de Deus, Gabriel, não é possível. Isso deve ser tão vazio.
​— Sempre funcionou para mim e...
​Eu ia continuar falando, mas meu celular começou a tocar. Era uma
chamada de vídeo pelo Whatsapp, de Beatriz.
​Atendi na mesma hora, sabendo que poderia ser algo a respeito do bebê.
Ela pediu orientação sobre como fazer para acionar a água quente para encher
a banheirinha do bebê, mostrou-me Davi sorrindo, e eu quase senti o coração
inflar no peito.
​Porra, eu nem sabia se a criança era minha; como podia estar tão
emocionado?
​Quando desliguei, os dois estavam olhando para mim, principalmente
meu tio, ao meu lado.
​— O que foi? — perguntei, curioso.
​— Essa menina aí... é sua secretária nova, não é? — tio Armando
lembrou.
​— Sim, a Beatriz. Ela estava me ajudando com umas pastas ontem
quando o menino chegou. Contratei-a para passar o dia todo com ele —
expliquei.
​ Ah, então você trabalhou ontem? Está me devendo uma champanhe.

— Merda! — Só que me ocorreu uma coisa aqui, agora. Ela é bem bonita,
hein...
​Ergui uma sobrancelha, confuso.
​— Sim, ela é. Por quê?
​— Será que não seria uma boa escolha? É interesse dela que a empresa vá
bem, você poderia oferecer um aumento de salário ou uma posição melhor.
Além disso, não é uma mulher com quem você tenha tido envolvimento
amoroso, não é? Ao menos até onde eu sei.
​— Não, claro que não. Não saio com minhas secretárias.
​— Ótimo. Menos chances de ela interpretar errado. Você pode deixar
tudo bem claro desde o início. Sinceramente? Acho uma solução bem
plausível.
​— Sério? Você está falando sério? Quer que eu peça para a minha
secretária interpretar o papel de minha namorada e mãe de um bebê que
talvez possa ser meu para um parceiro de negócios? Tio, você bebeu antes de
vir para cá? — indaguei com o cenho franzido.
​— De jeito nenhum. Pensa na possibilidade com carinho. — Ele se voltou
para Kléber. — O que você acha?
​— É uma ideia e precisa ser levada em consideração.
​Uma ideia descabida. Da pior espécie.
​Não! Nem pensar! Como eu iria fazer uma proposta como aquela para
Beatriz? Logo para a tímida e assustada moça que estava lentamente
começando a ganhar um pouco mais de intimidade comigo? Isso seria dar dez
passos para trás.
​Não! Fora de cogitação. Precisava pensar em outra coisa.
​Mas o quê?
CAPÍTULO SETE
​Cantar não era exatamente o meu forte, mas Davi não parecia se importar.
Eu fazia algumas palhaçadas enquanto entoava minha melhor versão de
Borboletinha – aquela que estava na cozinha, fazendo chocolate e tal... –,
fazendo-lhe cosquinhas enquanto a criança ria e gargalhava com um sonzinho
delicioso.
​Era um bom menino, de fato. Chorava, ainda, em momentos estratégicos,
porque a falta da mãe deveria ser dolorosa. Mas, fora isso, estávamos nos
dando muito bem. O que era uma droga. Ele não deveria se apegar a mim. Eu
não era da família, não era sequer amiga de seu pai. Era uma funcionária
quebrando um galho.
​Minha atenção estava totalmente voltada para ele e nem me dei conta de
que não estávamos mais sozinhos. Com um dos ombros apoiado no batente
da porta, Gabriel nos observava. Em silêncio, embora houvesse um sorriso
em seu rosto.
​— Não sabia que você tinha chegado — falei, pegando o neném, que
estava deitado na cama do quarto de hóspedes, depois da sessão de
cosquinhas.
​— Desculpa, eu não queria atrapalhar.
​— Bem, não é como se eu estivesse em uma reunião de negócios com o
bebê... — tentei brincar e o fiz rir.
​— Não, mas a cena era bonitinha demais para ser interrompida.
​Oh...
​O comentário foi bonitinho também, mas eu preferi não dizer nada.
​— Como foi o dia com ele? Parece que vocês se divertiram — ele
comentou, entrando e se aproximando. Fez um carinho na cabecinha de Davi,
mas ainda parecia bastante reticente com o neném. Eu não o culpava. Se
fosse comigo, também estaria me sentindo estranha.
​— Ah, sim. Ele é bem bonzinho. Só está manhoso, provavelmente pela
falta da mãe, mas estamos nos tornando amigos. Não é, peixinho? — dirigi-
me à criança com uma daquelas vozinhas que usamos para conversar com
bebês.
​— Peixinho? — Gabriel pareceu confuso.
​— Sim! Ele gosta quando eu imito a cara de um peixe... Olha só. — Fiz
de novo, sugando os lados da bochecha para ficar com um bico engraçado e
revirei os olhos, como se fosse vesga, o que fez Davi gargalhar.
​— Entendo. Gosto da sua cara de peixe também — Gabriel respondeu,
novamente acariciando a cabecinha do neném, mas ele parecia um pouco
desanimado, cansado, aéreo. Não tinha intimidade para perguntar, então
deixei que continuasse assim. — Consegui falar com uma agência de babás
de confiança, e a moça virá amanhã de manhã. Sei que estou pedindo muito,
mas pode passar a noite aqui novamente? Vai receber por isso, prometo.
​Que escolha eu tinha? Como iria deixar o bebê com um cara que não
tinha a menor ideia do que fazer com ele? Não que eu tivesse, mas mantive o
bebê limpo, alimentado e entretido o dia inteiro. Estava me achando muito
maternal, aliás, e exausta. Mas meu coração já estava derretido por aquele
garotinho, e eu não podia abandoná-lo.
​— Tudo bem.
​— Amanhã, quando a babá chegar, quero que vá para casa. Tire dois dias
de folga. Como Nádia já está ciente de toda a situação, ela vai te cobrir.
​Assenti, e algo estranho se remexeu dentro de mim. A perspectiva de
deixar aquele garotinho não me agradava em nada. Claro que ser babá não
estava nos meus planos, que eu não tinha nada a ver com a vida daqueles
dois, mas seria doloroso me afastar depois de horas tão intensas.
​— Vou tomar um banho e pedir algo para jantarmos, tudo bem?
​Novamente assenti, sentindo como se o gato tivesse comido a minha
língua. Mas, também, o que havia para dizer?
​Gabriel fez o que falou que iria fazer e voltou para a sala com os cabelos
molhados, roupa limpa e descalço, afinal, ele nunca parecia andar de chinelo
dentro de casa. Jantamos juntos, conversando basicamente sobre o neném,
porque não tínhamos assuntos em comum, mas à noite, quando nos sentamos
na sala, ele pegou a criança no colo, finalmente, perdendo alguns instantes
em silêncio.
​Vi o dedo de sua mão grande e masculina passear pelo rostinho do bebê
adormecido, traçando o contorno de seu narizinho delicado, da boquinha
rosada, as bochechas gordinhas... ele parecia estar tentando conhecer o
próprio filho – se é que era dele mesmo, embora a semelhança fosse inegável.
​— A vida prega umas peças na gente, né? — ele falou, mas mais parecia
divagar.
​— Todos os dias — foi a minha resposta para ele.
​— Não que um bebê seja algo ruim, não é isso. Eu só não sei se estou
preparado. Ainda mais para assumi-lo sozinho.
​Queria dizer que ele não estava sozinho, mas eu não sabia, para ser
sincera. Não sabia nada sobre sua família, com exceção de que tinha perdido
os pais e que seu tio trabalhava na empresa, mas não sabia se era um cara
legal, se tinham boa relação... Não sabia se Gabriel tinha amigos, embora as
pessoas gostassem dele no geral. Começava a achar que ele não confiava
muito em ninguém, ainda mais se precisou contar com a ajuda de uma quase
desconhecida para algo tão sério.
​— Acho que você vai se sair bem — era uma frase de incentivo muito
genérica, e eu queria saber falar coisas bonitas, fazê-lo enxergar uma luz no
fim do túnel, mas era difícil. Aconselhar alguém com quem não tinha a
menor intimidade não era o meu forte.
​Ou melhor... aconselhar alguém no geral não era a minha especialidade.
O que eu sabia da vida, afinal? Garota do interior, sem muitas perspectivas,
sem experiências, não podia querer saber mais das coisas do que um homem
seis anos mais velho, que viajara para várias partes do mundo, conhecia tanta
gente importante e gerenciava uma empresa de peso. Gabriel era o total
oposto de mim, mas, naquele momento, um bebezinho nos unia, e era em
nome de uma criança que nenhum de nós dois conhecia muito bem que
precisávamos ser quase... amigos.
​Não parecendo muito convencido, Gabriel levantou-se do sofá e colocou
Davi dentro da cestinha, onde ainda dormia.
​— Essa cesta é grande e espaçosa, mas ele precisa de um berço. Só que...
— ele hesitou.
​ Montar um espacinho para ele vai tornar a coisa toda muito real, né?

— eu disse, e Gabriel se surpreendeu. Seu olhar para mim me dizia isso. —
Mas vai ter que acontecer. Mais cedo ou mais tarde. Mesmo que seja
temporário. Bebês crescem rápido.
​— Sei disso. — Ele se jogou no sofá, perto de mim, mas não tão perto
que tornasse a proximidade desconfortável. — Ou melhor, acho que sei. Até
ontem eu achava que sabia um monte de coisas, hoje não tenho mais certeza
de metade delas.
​— Que bom. Ninguém gosta de sabichões — brinquei, mas rapidamente
me arrependi. Onde eu estava com a cabeça para falar daquela forma com
meu chefe?
​Tentei me apressar em retirar o que disse, embora as palavras parecessem
não querer sair, mas Gabriel abriu uma gargalhada com vontade.
​— Meu Deus, garota, você não tem filtro, né? Adoro isso.
​Ele adorava? Essa era uma novidade.
​Gabriel remexeu-se no sofá, colocando-se mais confortável, ainda
pensativo.
​— Não sei se haveria uma boa época para algo do tipo acontecer, mas a
verdade é que foi no pior momento. Alvarez é super conservador, se ele
souber que eu sou pai de um bebê, que não sei quem é a mãe e que não tenho
a menor pretensão de me casar, todos os esforços para a compra da empresa
dele podem ir por água abaixo — falou em tom de confissão.
​— Mas o que ele tem a ver com isso? No final das contas é a sua
competência que conta, não?
​— Aparentemente não para ele. Tive uma reunião com meu tio hoje, e ele
me deu umas ideias meio fora da caixinha, sabe? De fingir ter uma namorada;
apresentar uma garota que topasse fingir estar comprometida comigo, como
se fosse a mãe da criança.
​— Nossa, isso é bem louco. Mas provavelmente as mulheres fariam fila
para o posto.
​— Você acha? — ele perguntou, com uma expressão estranha.
Investigativa, talvez? Como se quisesse saber a minha opinião ou algo assim.
​— Ué... imagino que você fosse oferecer dinheiro ou qualquer coisa
assim. Muitas mulheres também gostariam do status de namorada de Gabriel
Grecco, mesmo que por um tempo. Quem quer... fama... sei lá. Imagino que
haja algumas que se interessariam por esse tipo de proposta.
​— Você não?
​ ancei um olhar assustado na direção dele. Meus olhos arregalados
L
deviam denunciar o quanto a pergunta me deixou surpresa. Mas imaginava
que era apenas uma pesquisa, não? Eu era a mulher mais próxima, então fazia
sentido.
​— Acho que não é o tipo de proposta que faz o meu estilo.
​— Nem por uma boa quantia em dinheiro?
​Por que ele estava insistindo?
​— Eu ficaria muito desconfortável em aceitar dinheiro por algo assim.
Seria como vender o meu corpo.
​— Seria completamente diferente. E você sabe disso.
​— Mas eu estaria mentindo e enganando alguém. E isso não é quem eu
sou. — Não sei por que tive o ímpeto de me levantar, mas o fiz. O assunto
estava me deixando nervosa, e a verdade era que me sentia cansada demais
para discutir sobre algo que eu esperava que nem estivesse em pauta.
​Gabriel não estava pensando em me fazer aquela proposta, estava?
​Não, seria absurdo. Ele nem me conhecia. Provavelmente haveria muitas
mulheres dispostas a não apenas fingir ser sua noiva de mentirinha quanto
ainda aproveitar sua cama no processo, o que, certamente, ele iria adorar.
​Não, eu era uma péssima candidata. Era melhor que, se isso estivesse
passando por sua cabeça, fosse eliminado imediatamente. Não ia rolar.
​Nem pensar...
CAPÍTULO OITO
​ nde diabos eu estava com a cabeça para sair falando aquele tipo de coisa
O
para a garota, especialmente sabendo que ela era super fechada e tímida?
​Coisa do meu tio, é claro. Aquela ideia merecia o prêmio das piores ideias
da história das ideias horrorosas.
​Ou talvez não fosse.
​Ah, merda! Meu tio não estava errado de todo. Se eu queria que aquele
negócio desse certo, não deveria lutar por ele com tudo o que eu tinha? Se
isso significasse contar uma mentira, era o que eu deveria fazer. Só que o erro
fora envolver uma moça que definitivamente não iria topar nada sequer
parecido.
​Porra, e por que ela toparia? Ok, haveria dinheiro envolvido, mas nem
todo mundo era ganancioso a tal ponto. E algo me dizia que Beatriz era o
completo oposto disso. Ainda não a conhecia muito bem, mas no pouco de
tempo que passamos juntos consegui entender que era um modelo de
integridade, era leal e gentil, além de divertida e com um senso de humor
muito peculiar. Uma garota especial.
​Uma que não merecia receber aquele tipo de proposta.
​Fiquei andando no meu quarto de um lado para o outro, incapaz de
dormir, tomado pela vergonha e pelo arrependimento. Passei horas
ruminando o que disse, tentando encontrar coragem de ir pedir desculpas,
mas sentia-me um covarde.
​Só que acabei tomando uma atitude quando Davi começou a chorar no
meio da madrugada.
​Tudo bem que eu ainda não tinha certeza se o menino era meu filho, mas
dela é que não era. De nós dois, a responsabilidade era mais minha. Não era
certo que a garota precisasse tomar as rédeas da situação inteira. Já bastava
que estivesse na minha casa, sem poder voltar para a dela, só porque era uma
verdadeira santa.
​Saí do meu quarto, passando pela porta como um furacão, esperando
chegar lá antes que ela acordasse. Era hora de assumir minhas
responsabilidades. Fosse aquele menino meu filho ou não, enquanto estivesse
na minha casa, ele era assunto meu.
​Só que, infelizmente, Beatriz já estava de pé, pegando-o do berço, e eu
mal consegui me aproximar de tão doce que era a cena. Era a segunda vez
que eu me sentia hipnotizado pelo que via, mas daquela vez foi mais intenso.
​A linda ruiva estava com os cabelos todos desgrenhados, bem longos e
soltos, e antes de tirar o bebê da cestinha, ela os enrolou em um nó, como se
já esperasse que o bebê iria agarrá-los e puxá-los. Apesar do cansaço visível,
Beatriz pegou Davi com uma paciência, falando com ele em uma voz doce e
tão melodiosa, que até eu poderia ter me acalmado ao ouvi-la. Ela conseguiria
me tranquilizar até mesmo se eu estivesse extremamente estressado depois de
uma reunião de negócios mal-sucedida.
​O que subitamente me deixou com uma imensa vontade de beijá-la.
​Não que essa vontade não tivesse existido desde o início. Como poderia
ser diferente? A garota era linda, e eu não era cego, muito menos imune a
esse tipo de coisa. Depois, conforme passei a conhecê-la e ela passou a me
ajudar, o desejo começou a se manifestar como uma imensa gratidão. O que
também era facilmente explicável. Se não fosse por ela, eu estaria
completamente louco.
​Mas as coisas começaram a mudar. Quando? Eu não saberia dizer. Era
um misto dos dois: atração e gratidão, mas havia mais.
​Só que ela não era uma garota qualquer. Além do fato de ser minha
secretária, o que por si só já tornava tudo uma bagunça, não era para o meu
bico. Beatriz seria uma complicação, levando em consideração o quão
inocente parecia ser. E a minha vida já estava complicada o suficiente com
um bebê inesperado para que eu ainda piorasse mais as coisas.
​Sentando-se na beirada da cama, ela acomodou o bebê em seus braços
delicados e começou a cantar baixinho. Não era a voz mais afinada de todas,
mas atraiu-me como se eu estivesse ouvindo uma sereia.
​Aproximei-me e sentei-me ao lado deles, estendendo os braços. Por mais
que não quisesse interromper a cena, queria aprender como cuidar daquele
bebê. Se fosse mesmo meu, teríamos um longo caminho pela frente e
precisávamos nos conhecer.
​Beatriz o entregou para mim com muito cuidado, e ele ainda chorava,
embora com menos desespero.
​— Será que ele não está com fome? — perguntei baixinho, mas ela
negou.
​— Não tem nem duas horas que mamou. Acho que teve um pesadelo.
​— Bebês têm pesadelos? Como o quê sonham? Alguém roubando seu
leite ou esmagando um de seus brinquedos? — tentei descontrair, e Beatriz,
ao menos, riu.
​— Eu andei lendo algumas coisas hoje. Mandei algumas interessantes
para o seu e-mail. Acho que podem te ajudar.
​— Você pesquisou coisas na internet a respeito de bebês? — Ela
balançou a cabeça em afirmativa. — Só para me ajudar?
​— Bem... sim... — Beatriz deu de ombros, como se não fosse grande
coisa. — Mas não só para te ajudar. Esse garotinho merecia o melhor de mim
durante esses dias, e eu quis saber tudo o que poderia saber para lhe deixar
confortável e não negligenciar nada.
​Ah, merda! Sim, eu poderia beijá-la. Por horas. Que porra de mulher
maravilhosa!
​— Obrigado — foi tudo o que eu consegui dizer, embora um milhão de
outras palavras estivessem presas na minha garganta.
​Ficamos em silêncio, os dois apenas com nossas atenções focadas em
Davi, observando enquanto o lindo garotinho ia se acalmando aos poucos e
pegando no sono novamente. Quando o fez, ele tinha a mão na boquinha e
chupava o dedinho polegar, deixando tudo babado.
​— Ele é tão lindinho — Beatriz comentou baixinho, mais como uma
divagação.
​— É, sim — respondi, igualmente fascinado. Então ergui os olhos para
ela, quase de súbito. — Você realmente acha que ele é meu?
​Beatriz me olhou com atenção, parecendo surpresa com a pergunta.
​— Não é o tipo de coisa que eu possa responder, porque nós não nos
conhecemos assim tão bem. — Então abriu um sorriso largo: — Quem sabe
ele não seja da Rihanna...
​Arregalei os olhos.
​— Te contaram essa história? Aposto que foi a Nádia — entrei no modo
divertido, feliz por ela parecer um pouco mais solta comigo.
​— E quem mais?
​— Mas, não... eu realmente saí com a Rihanna, mas ficamos só nos
beijos. Era uma festa em Los Angeles, de um amigo nosso em comum.
Nenhum dos dois quis chegar mais longe naquela noite.
​— Mas era a Rihanna! Eu teria querido chegar mais longe com ela em
qualquer noite.
​Uma gargalhada escapou, mas eu me interrompi rapidamente, antes que
Davi acordasse. Para que não acontecesse um acidente, levei-o à cestinha e o
coloquei lá de volta.
​Não demorei a me aproximar de Beatriz novamente, percebendo que os
cabelos dela estavam cheirando ao meu xampu, o que era estranhamente
erótico.
​— Eu me condenei depois por isso. Mas foi legal. Gosto de beijar
também. — Senti a tensão tornar-se palpável com a minha frase. Para ser
sincero, não tentei soar sexy nem nada disso, mas a expressão no rosto de
Beatriz, levemente surpresa, me fez querer continuar para ver até onde ela
aguentava. — E você?
​— Eu o quê? — ela respondeu com os olhos bem mais abertos do que
antes, ainda sentada na cama, mas agarrando a borda do colchão com ambas
as mãos, como se isso pudesse protegê-la.
​— Gosta de beijar...?
​Beatriz levantou-se de um pulo, e eu quase me arrependi de começar a
conversa.
​Quase.
​Não fosse a forma como ela começou a mexer no cabelo e como olhou
para mim, eu poderia jurar que ficou ofendida, mas depois percebi que era
outra coisa. Estava desconfortável, mas não de uma forma ruim.
​— Todo mundo gosta, não? — Ela continuava mexendo no cabelo,
colocando as mechas que soltaram do coque improvisado atrás da orelha.
​— Imagino que sim. — Porra, eu estava hipnotizado por cada movimento
dela. Por cada olhar. Toda aquela inocência estava me matando. A doçura
parecia me envenenar. Nunca me deparei com uma mulher como ela, e isso
me intrigava.
​ ão só isso. Ela me seduzia mais do que se estivesse tentando com muito
N
afinco.
​Coloquei-me completamente diante de Beatriz, mas sem encurralá-la em
lugar algum. Tinha bastante espaço para fugir, e eu lhe dei tempo para isso,
só que ela não se mexeu. Seus olhos puros ficaram fixos nos meus por alguns
instantes, parecendo estudar quais seriam meus próximos movimentos.
​— Você é linda, Beatriz. Não só por fora, mas é uma mulher encantadora
— falei bem baixinho, em nada mais do que um sussurro, e eu a vi
estremecer.
​— Obrigada... eu... — Ela ia falar mais alguma coisa, mas interrompeu-se
no momento em que levei a mão ao seu rosto, tocando-o com as pontas dos
meus dedos, cheio de cautela. Eu a sentia como um bichinho acuado, e
qualquer movimento mais em falso me faria perdê-la em meio a uma floresta.
​— Sei que é errado, que eu não deveria fazer isso... mas... — Cheguei a
deixar escapar um suspiro. Uma respiração profunda. Precisava me controlar,
mas não consegui.
​Inclinei-me na direção dela, novamente seguindo um ritmo bem lento
para que pudesse recuar, se fosse o caso, e encostei nossos lábios.
​Não era exatamente o beijo que eu tinha em mente; não era nem perto do
que eu realmente gostaria de fazer com ela, mas precisava ir com calma.
Havia muito em jogo. Não apenas a personalidade da garota, mas nossos
empregos. Nossa relação não se resumia apenas àquela realidade do meu
apartamento e de um bebê inesperado. Trabalhávamos juntos. Eu era chefe
dela. O quão estranho seria quando retornássemos à empresa depois de
termos passado por tantas coisas?
​Mas o beijo... eu precisava dele. Mesmo que fosse só um encostar de
lábios inocente.
​Um que durou muito menos do que eu gostaria.
​Quando me afastei, vi Beatriz com a cabeça baixa e com o rosto
adoravelmente corado.
​Porra, ela era uma delícia, em todos os sentidos. Eu não tinha vontade
apenas de jogá-la naquela cama e devorá-la dos pés à cabeça. Tinha vontade
de pegá-la no colo e cuidar dela.
​O que diabos estava acontecendo comigo?
​Sem dizer nada, achei melhor me afastar antes que cometesse mais
alguma loucura. Tinham sido várias naquela noite. Não seria de se admirar se
aquela garota começasse a me considerar um doido.
​ ui para o meu quarto e me deitei na cama. De alguma forma, apesar de
F
errado, o beijo me relaxou, e eu consegui dormir.
​Quando acordei, poucas horas depois, tomei um banho, coloquei minha
roupa de trabalho e fui ao quarto onde Davi e Beatriz dormiam, esperando
ver o neném e acordá-la para que recebêssemos, juntos, a babá que chegaria
em uma hora, no máximo.
​Bati na porta, esperando que atendesse, mas esta estava aberta.
​Empurrei-a, anunciando minha presença, imaginando que Beatriz poderia
estar na pequena suíte, tomando banho ou fazendo qualquer outra coisa, e eu
não queria, de forma alguma, invadir sua privacidade.
​Só que ela não respondeu nada. E eu só ouvi o total silêncio.
​Quando me aproximei um pouco da cestinha onde Davi ainda dormia,
encontrei um papel dobrado, com meu nome escrito.
​Peguei-o e o abri, já sentindo meu coração ficar pequeno no peito.

​Bom dia, Gabriel.


​Desculpe-me por ir embora dessa forma, sem avisar, mas as coisas
ficaram um pouco estranhas entre nós, com a conversa sobre a namorada de
mentira e depois o beijo. Eu não sou esse tipo de garota ao qual você está
acostumado. Não beijo meu chefe e saio ilesa depois.
​Beijos são especiais para mim, e antes que eu pudesse começar a pensar
coisas que não me dizem respeito, preferi ir embora. Vou tirar os dois dias
de folga que me prometeu, então, nos veremos novamente na quinta, na
empresa. Até lá espero que as coisas voltem ao normal e que possamos
esquecer tudo o que aconteceu nesses dias.
​Eu esperei você acordar para ir embora, para que Davi não ficasse
desamparado, mas ele estava dormindo quando saí. A babá deve saber
melhor o que fazer do que eu. Imagino que você ficará bem.

​Só isso.
​Ela nem assinou. Não que precisasse, é claro.
​Beijos são especiais para mim, foi o que ela disse. Em qualquer outra
circunstância eu ficaria preocupado, porque nunca quis que houvesse
sentimento em minhas relações. Daquela vez, porém, havia algo de especial
para mim também.
​Mas quanto?
​ ó que isso não deveria importar, porque, provavelmente, eu estraguei
S
tudo.
​Parabéns, Gabriel! Mais uma vez...
CAPÍTULO NOVE
​Seria normal achar errado tudo o que a nova babá fazia?
A forma como pegava Davi não era igual à forma como Beatriz o
pegava.
​A forma como sorria para ele não parecia tão sincera.
​Ela não o fazia rir do mesmo jeito.
​Não era tão doce, nem tão gentil... nem tão linda. Nem perto.
​Só que eu não tinha muita escolha. Precisava sair para a empresa, e o
menino não podia ficar sozinho. As referências eram ótimas, e a empresa fora
indicada por um casal de amigos de confiança. Eu não poderia querer um
clone de Beatriz na minha casa.
​Aliás, eu poderia tê-la convencido a ficar mais um pouco, se não tivesse
agido como um idiota e beijado a garota.
​Burro! Babaca!
​Saí de casa com um humor do cão. Era a primeira vez que entrava na
empresa com aquela pouca vontade de trabalhar, com a sensação de que
poderia mandar o primeiro desavisado tomar no cu sem motivo. Por isso,
preferi manter a boca fechada.
​Só que era impossível, levando em consideração que não era meu humor
usual. Normalmente eu era bem sociável e animado, o que fazia com que
meus funcionários me tratassem com informalidade.
​Certamente todos eles perceberam quando cheguei com a cara fechada e
um vinco profundo na testa. O sorriso da recepcionista sumiu na hora. O bom
dia saiu como um resmungo, o que era ridículo. As pessoas não tinham culpa
do quão babaca eu era.
​Cheguei à minha sala, sentindo-me ainda mais merda do que quando saí
de casa, fechei a porta e me tranquei do mundo. Sabia que as notícias iriam
correr como um coelho com fome e que eu não teria muito tempo de paz
antes de o meu tio aparecer para descobrir o que aconteceu, então, era a
minha chance de pegar meu telefone e tentar mandar uma mensagem para
Beatriz.
​Era o mínimo que eu podia fazer para tentar me desculpar. Para ser
sincero, eu deveria telefonar, só que algo me dizia que não diria as coisas
certas. Uma mensagem de texto era mais seguro, porque poderia pensar,
apagar, ponderar...
​Só que eu fiz isso mil vezes. Escrevi pedidos de desculpas de diferentes
maneiras, mas, aparentemente, não era o meu forte. Tanto que, estressado
como um cachorro raivoso, lancei o aparelho longe, desistindo sem mandar
sequer um “foi mal”. Porque ela merecia ao menos isso. Sempre jurei que
nunca iria perturbar uma funcionária minha e olha aonde tinha chegado!
​Mas eu podia tentar de novo mais tarde, não podia?
​Exatamente como previ, meu tio não demorou a aparecer, e o meu humor
que estava ruim tornou-se ainda pior, enquanto falávamos sobre uma nova
loja, que estávamos prestes a abrir, em um bairro nobre de São Paulo.
Conforme ele falava sem parar, eu apenas balançava a cabeça, tentando
prestar atenção, mas não demorou muito para ele perceber.
​— Gabriel! — falou mais alto, tentando chamar a minha atenção. — O
pessoal me avisou que você não estava exatamente falando e animado, mas
pensei que era exagero. Só que é bem pior do que pensei. Que bicho te
mordeu?
​Eu não estava a fim. De verdade. Não queria falar para ele que estava
muito mal humorado por ter beijado uma mulher que não queria me beijar.
Por ela ter me abandonado quando eu queria que ficasse.
​Na verdade, eu nem sabia pelo quê estava tão irritado. Se era por ela não
ter sentido absolutamente nada com o beijo – ao menos era o que eu pensava
–, se por saber que ela não estaria mais no meu apartamento quando voltasse
para casa ou se era por tudo isso junto, ao dar-me conta de que estava
pensando demais nela.
​ oda aquela história de paternidade deve ter mexido demais comigo,
T
porque era a primeira vez que eu me sentia tão vulnerável.
​Fosse como fosse, mentir ou tentar omitir algo de tio Armando era
impossível. Ele me conhecia desde criança; provavelmente saberia ler todas
as minhas expressões.
​— A garota! Beatriz! Ela ficou ofendidíssima quando sequer cogitei
contratá-la como minha namorada de mentirinha para enganar o Alvarez! —
Bem, era metade da verdade, né? Uma parte que eu poderia contar.
​— Provavelmente você fez tudo errado. Pode ser um garanhão para levar
mulheres para cama, mas é um desastre quando se trata de sutileza. — Só que
meu tio olhou para mim com uma sobrancelha erguida, analisando-me. —
Mas não foi só isso, né? Uma coisa assim não te deixaria tão puto, porque já
era de se esperar que ela não topasse. Vamos lá, Biel... o que foi?
​Engoli em seco, ainda mais estressado. Como era possível que eu não
pudesse sequer guardar meus segredos para mim?
​— Eu a beijei — falei por entre dentes, como um resmungo, esperando
que ele não ouvisse. Ou que não compreendesse. Se pedisse para repetir, eu
não repetiria.
​— Você o quê? Ah, não, pelo amor de Deus! — Meu tio levou a mão à
cabeça. — Porra, Gabriel, será possível que você não consegue pensar com a
cabeça de cima quando tem a ver com mulheres?
​Levantei-me da cadeira de um rompante, sentindo-me ultrajado. Não era
totalmente verdade. Eu não apenas pensava com o pau, tanto que nunca
desrespeitei nenhuma funcionária. Nunca me meti em problemas por causa
das garotas com quem saía. Beatriz foi a primeira bola fora.
​Ou não, porque eu realmente quis beijá-la. Nem me lembrava de ter
desejado tanto um beijo como acontecera naquela madrugada.
​— Não foi planejado, ok? Ela estava lá, linda, doce, meiga, tão carinhosa
com o neném. Foi difícil resistir. E ela não fugiu, ok? Eu lhe dei espaço, lhe
dei todas as chances. Não é como se eu tivesse agarrado a moça e a beijado à
força.
​— Ainda bem, né? Senão teríamos que lidar com um bebê e com uma
acusação de assédio. — Revirei os olhos. — Mas seja como for, ainda acho
que ela é sua melhor opção.
​— Porra, tio, você não estava ouvindo nada do que eu falei? A garota
ficou ofendida com algo que nem era uma proposta. Eu fiz apenas um
comentário. Ela disse que seria como se vender e que nunca faria algo assim.
​— Nem pelo bebê?
​— Mas o que o bebê tem a ver com isso? Ela se fingir de minha
namorada ajudaria apenas a mim, no meu negócio. Davi não seria
prejudicado em nada.
​Meu tio abriu um sorriso malicioso.
​— Bem, aí é que tem que entrar seu poder de persuasão. Você pode
inventar que o menino está sentindo falta dela e seria uma forma de mantê-los
mais juntos, por algum tempo.
​— Isso é ridículo. Usar a criança... — Coloquei ambas as mãos na
cintura, porque não sabia o que fazer com elas. — Não sei se concordo, tio.
Não sei mesmo.
​Eu ia dizer mais alguma coisa, mas uma batida desesperada na porta fez
com que eu e meu tio olhássemos para ela.
​Era Nádia.
​— Gabriel, desculpa interromper assim, mas você precisa dar uma olhada
no link que eu te mandei por Whatsapp. É urgente.
​Nádia não era de fazer esse tipo de coisa, então entendi que deveria ser
sério mesmo. Por isso fui checar imediatamente a mensagem.
​Abri o link no meu whatsapp web, por ser mais prático, e rapidamente vi
que se tratava de um daqueles Instagrams de fofocas. Lá estava uma foto de
Davi, tirada no meu apartamento, e toda a história exposta. Com detalhes.
​Detalhes que só eu e Beatriz sabíamos. O bilhete que encontrei na
cestinha estava todo lá, cada palavra, cada pequeno ponto e vírgula.
​Fora por isso que aquela garota saíra de fininho da minha casa, não fora?
Porque ela ia vender a história para a mídia. Com certeza arquitetara muito
bem. Ficara sozinha com Davi no dia anterior, provavelmente tirara foto do
bilhete e o guardara para o momento certo.
​— Filha da mãe! — exclamei sem nem pensar no que fazia. Meu tio falou
alguma coisa, mas nem o ouvi de tão cego e surdo de raiva.
​Peguei minha carteira e a chave do carro dentro da gaveta onde sempre as
guardava durante o expediente, fechei o laptop e saí da sala sem nem dar
qualquer explicação.
​Beatriz morava com Nádia, não era? Eu sabia o endereço da minha
secretária, pois já a tinha levado em casa mais de uma vez, em dias em que
saímos tarde do escritório.
​Era para lá que eu iria, porque não era o tipo de conversa que estava a fim
de ter por telefone.
​ eatriz autorizou a minha subida no prédio e atendeu à campainha
B
quando toquei.
​Linda. Porra! Eu odiava o fato de que fosse tão bonita e que tivesse
aquela expressão tão doce. Era uma mentirosa. Uma cobra ardilosa. Eu não
podia sequer confiar nela para trabalhar comigo.
​— Gabriel, por favor... eu acho que seria melhor esperarmos para
conversar na quinta-feira. Tudo está muito recente e...
​— Você não podia segurar a língua, né? — fui grosseiro, e ela chegou a
recuar. Nem pedi para entrar, porque não era a minha intenção. Queria
demorar o mínimo ali.
​— Oi? Do que você está falando? — ela parecia muito confusa, o que me
deixou ainda mais irritado. Seria possível que fosse tão boa atriz?
​— Por quanto vendeu a notícia? Espero que tenha sido por um valor bem
alto, porque você vai precisar de dinheiro. Está demitida, ok? Amanhã pode
passar na empresa, no RH, e pegar o seu acerto.
​A expressão de Beatriz era impagável. Seus olhos arregalados, o queixo
caído, paralisada. Sério... se eu não estivesse tão convencido de que somente
ela poderia ter feito o que fez, juraria que era um engano.
​— O que aconteceu? O que eu fiz? — Os olhos dela se encheram de
lágrimas muito rápido, e eu era péssimo lidando com choros de mulheres. Se
permanecesse ali por muito tempo, iria querer abraçá-la e não brigar como
vinha fazendo desde que cheguei.
​— Você sabe o que fez. Já está no Instagram, mas em breve estará no
YouTube, nos jornais e por toda a parte. Se queria me foder, ao menos
deveria ter me deixado te beijar de forma mais decente ontem. Obrigado,
Beatriz. Espero que tenha valido a pena!
​Sem dizer mais nada, saí de perto dela, marchando em direção ao
elevador e aproveitando que estava no andar. Apertei o botão para fazê-lo
abrir as portas, entrei e nem olhei na cara dela novamente.
​Que ódio! Esse era o preço que se pagava por se confiar em uma carinha
bonita e inocente.
​Eu precisava ter um pouco mais de discernimento quando tinha a ver com
as mulheres. Talvez eu realmente pensasse demais com a cabeça de baixo ao
invés da de cima.
​Idiota! Completo idiota!
CAPÍTULO DEZ
​O que diabos tinha acabado de acontecer?
​Eu fui demitida, na minha própria casa?
​Calma... calma, Beatriz. Só pode ter sido um mal entendido.
​Mas Gabriel parecia puto da vida, de verdade. O que ele dissera sobre
Instagram? O que poderia ter acontecido? Suas explicações foram muito
vagas, eu não podia nem como checar do que se tratava.
​Talvez Nádia soubesse...
​Sentindo minhas mãos trêmulas, peguei o telefone e liguei para minha
amiga. Ela atendeu no segundo toque, graças a Deus!
​— Nádia, por favor, eu preciso que você me explique por que Gabriel
surgiu aqui, no nosso apartamento, como um furacão, soltando fogo pelas
ventas. Ele falou algo de Instagram, mas eu não...
​— Uma treta enorme, amiga. Enorme. Pelo visto saiu na mídia a história
do bebê. Saiu uma carta todinha de uma mulher dizendo que estava deixando
a criança para ele cuidar, sem revelar o nome... uma coisa louca!
​— Ah, meu Deus! Já entendi tudo. Ele deve estar achando que fui eu que
publiquei a carta! — falei, sem nem perceber que estava dizendo em voz alta.
​— Você? Mas... Bea... como assim? Ele não pode acreditar que você fez
isso!
​— Mas aparentemente acreditou. E acabou de me demitir.
​ O quê? Não! Não! Para! Eu vou falar com ele. O Gabriel não é assim,

amiga. Ele deve estar muito estressado.
​— Dane-se se está estressado! Ele não pode sair acusando os outros dessa
maneira — alterei-me. Quem aquele cara pensava que era? Eu tinha minha
honra, minha lealdade. Não estava à venda como ele achou que estava.
​Ainda assim, precisava do emprego. Merda, eu precisava muito. Como
fui me meter naquela confusão?
​— Amiga, eu vou resolver isso. Você e Gabriel precisam conversar. Você
deve ter como provar que não foi você que divulgou a carta, não tem?
​— Como, Nádia? Só se o jornalista revelasse a fonte, e eu acho que eles
não fazem isso. Até onde eu sei, a própria mãe do neném pode ter feito isso, e
nunca saberemos. Mas Gabriel preferiu acreditar que fui eu, então, deixa ele.
— Só que uma dor no coração me tomou: — Vou ter que voltar para a minha
cidade, amiga. Não vou poder me manter aqui sem emprego.
​— Ah, mas você não vai perder o emprego. Aquele safado vai me ouvir.
Quer você queira, quer não.
​— Aí você vai perder o seu também... — Quase ri com a determinação da
minha amiga.
​— Vou nada. Ele não é mais meu chefe direto, esqueceu? Estou aqui só
de quebra galho para te ensinar. Além disso, quando ele se der conta do quão
errado estava, vai ter é que te pedir desculpas de joelhos e a mim também.
Ofender minha amiga é o mesmo que me ofender.
​Muito estressada, minha amiga desligou o telefone, sem nem me dar
tempo de falar mais alguma coisa.
​Eu sabia que aquela história ainda iria render. Não queria que ela se
prejudicasse por minha causa, que se indispusesse com Gabriel para me
defender. Seria difícil provar que a culpa não era minha, ainda mais que eu
tive todas as oportunidades para repassar aquele bilhete a qualquer um.
​Mas eu não tinha feito isso. Minha consciência estava limpa, e era o que
deveria importar.
​Mesmo que tivesse que voltar para a minha cidade – o que eu
definitivamente não queria –, faria isso com a certeza de que não havia
cometido nenhum erro. Gabriel fora injusto comigo e logo depois de eu tê-lo
ajudado tanto.
​Ingrato!
​Eu só tinha pena por Davi. Apeguei-me ao bebezinho, como não poderia
ser diferente e estava quase cogitando a hipótese de me fazer passar por
namorada de Gabriel, para o tal Alvarez, nem que fosse para ficar mais tempo
perto dele.
​Só do bebê? Eu já não tinha muita certeza.
​Tivera o beijo, né? Um encostar de lábios inocente, mas que mexeu
comigo. Como não mexeria? Eu era uma garota inocente, e Gabriel era um
homem lindo. Um homem que sabia o que dizer, como se aproximar... Eu era
uma presa fácil, por isso me afastei. Ele nunca iria querer algo sério com uma
mulher como eu. Uma mulher completamente inexperiente que não se
contentaria com apenas uma noite.
​Ainda não estava apaixonada. Mas poderia vir a ficar.
​Só que o sinal estava ali, sendo jogado na minha cara. Na primeira
oportunidade, ele já duvidou de mim, não me deu um voto de confiança.
Gabriel nunca me veria como algo além de uma secretária a quem ele poderia
seduzir, se fosse o caso. Ou, talvez, uma possível babá para seu filho. Ele
usava e descartava as mulheres como bem entendia. E eu não estava pronta
para algo assim.
​Fosse como fosse, mandei mensagem a Nádia pedindo o link do post.
Assim que ela me enviou, eu o abri e constatei que todo o conteúdo da carta
estava lá. Sem tirar nem pôr.
​Eu estava com raiva de Gabriel pela acusação, mas era difícil não ter a
impressão de que eu fui a culpada por tudo. Compreendia o lado dele, embora
me magoasse. Como poderia pedir sua confiança, sendo que mal nos
conhecíamos? As provas mais contundentes eram contra mim.
​Tentei respirar fundo, buscando me acalmar. Eu poderia conversar com
ele, não poderia? Quando estivesse mais calmo, ao menos. Mesmo que não
conseguisse meu emprego de volta, eu queria que ele soubesse que nunca o
trairia. Nem a ele e nem ao bebê.
​Droga, eu não faria aquilo com ninguém! Por que iria colocar duas
pessoas boas em uma situação como aquela, incluindo um garotinho adorável
que ganhou meu coração tão rápido?
​Sentindo-me cansada, fui me arrastando até o banheiro, tirei a roupa e
entrei no chuveiro, tomando um banho, esperando que a água fria me
acalmasse.
​Quando saí, meu telefone estava tocando sem parar.
​Por um momento achei que se tratasse de Gabriel. Mas era o número da
minha mãe.
​Ótimo! Tudo de que eu precisava.
​ Oi, mãe! Tá tudo bem? — perguntei logo, porque conhecia bem a D.

Edith. Se estava ligando no meio do dia, era para pedir alguma coisa.
​— Oi, filha. Não muito. Levei sua vó no médico, porque ela caiu aqui em
casa.
​— Ah, meu Deus! Mas ela está bem? O que houve? — apavorei-me.
​— Está engessada, filha. O braço todo. Só que talvez tenham que operá-
la.
​— Mas a vovó tem oitenta anos, mãe. Não é seguro. Ainda mais pelo
SUS, se ainda fosse em um hospital particular... mas deve ser muito caro, né?
​— Uns quinze, vinte mil. — Pelo amor de Deus! — A outra opção seria
fisioterapia, ao menos para tentarmos, só que cada sessão é muito cara. Além
do transporte até a cidade vizinha.
​Ou seja... péssima hora para eu contar para a minha mãe que perdi o
emprego.
​Mas eu poderia encontrar outro, não? Na cidade grande eu tinha muito
mais chances de conseguir algo em uma loja de shopping ou em outra
empresa.
​— Eu vou dar um jeito, mãe. Segura um pouco, porque meu salário ainda
não saiu, mas vamos cuidar da vovó.
​Ouvi o suspiro do outro lado da linha.
​— Que Deus te abençoe, filha. Eu sabia que você ia se dar bem, sempre
foi inteligente e esforçada.
​Novamente... mal sabia ela que consegui estragar tudo mais rápido do que
seria sequer imaginável.
​Ou melhor, nem tanto. A culpa não tinha sido minha, mas se eu não
tivesse saído que nem uma ladra do apartamento dele, Gabriel poderia ter
acreditado em mim. Meu comportamento foi suspeito demais.
​Só que agora eu tinha mais um problema nas costas. Minha avó precisava
de dinheiro para se tratar, e eu não tinha de onde tirá-lo.
​Belo começo na cidade grande, Beatriz! Belo começo!
CAPÍTULO ONZE
​ em consegui voltar para a empresa. Minha raiva era tanta que eu sentia
N
como se o sangue que corria pelas minhas veias carregasse veneno ou algo
igualmente tóxico.
​Enquanto dirigia, a expressão de Beatriz não saía da minha mente. Como
era possível que fosse tão dissimulada? Como pudera me enganar daquele
jeito?
​E sabe o que era pior? Pensar que algo dentro de mim ainda duvidava. Os
olhos dela... o susto quando a acusei. A mágoa.
​Mágoa... Eu era a parte lesada de tudo aquilo. Eu e o neném. Ela não
tinha nenhum direito de se fazer de vítima.
​Fui direto para casa, mesmo sendo ainda cedo. Sabia que não havia
reuniões marcadas para aquele dia, e eu nem teria cabeça para continuar
trabalhando. Minha tarefa precisava ser consertar a merda que Beatriz fizera.
Provavelmente teria que desembolsar uma grana para minimizar as notícias, e
tinha certeza de que muito em breve chegaria aos ouvidos de Alvarez. Aí
seria o verdadeiro caos.
​Eu teria que contornar a situação muito bem, e a ideia do meu tio de uma
namorada de mentira precisaria entrar mesmo no esquema. Alguém que
desmentisse muito bem a história da carta.
​Mas onde encontraria alguém de confiança, que não me traísse na
primeira oportunidade, como Beatriz fizera?
​Abri a porta da minha cobertura sentindo uma grande ansiedade em ver
Davi. Como era possível que aquele bebezinho já tivesse passado a fazer tão
parte da minha vida? Eu tinha me tornado pai há tão poucos dias, mal sabia
mesmo se ele era meu de fato, mas pensar em sua presença na casa me
acalmava. Saber que iria vê-lo dissipava um pouco a raiva que sentia.
​Entrei tentando fazer o mínimo de barulho, porque ouvi a babá falando no
telefone, e ouvi meu nome. Fui me aproximando aos poucos, porque queria
pegá-la de surpresa para saber como estava tratando o meu filho.
​Foi então que a verdade veio à tona.
​— Te juro, mulher. Gabriel Grecco. Aquele bonitão milionário. O que
saiu com a Rihanna! — Por que todo mundo me associava a essa história?
— É para ele que estou trabalhando. — Ela fez uma pausa. — Dei a maior
sorte. Tinha uma cartinha na cestinha onde o bebê está dormindo. Nossa,
quase leiloei a informação, mas aquele influencer lá de fofocas me pagou
quinze mil. Foi a melhor oferta.
​Meu mundo parou por um momento.
​Ou melhor, ele começou a girar na direção contrária.
​Então fora a babá nova que vendera a notícia? Não fora Beatriz?
​Calma, Gabriel, você precisa colocar a cabeça no lugar.
​Continuei ouvindo sua conversa com quem quer que estivesse falando –
alguma amiga, talvez –, porque ela não percebeu minha presença. Ria à
minha custa, enquanto explicava toda a história à outra pessoa, como se não
estivesse a fácil acesso pela Internet afora.
​Assim que cheguei ao meu limite, revelei minha presença, fazendo
bastante barulho ao entrar, e a safada virou-se na minha direção com os olhos
arregalados. Não havia um espelho à minha frente, mas meu cenho estava
franzido, e eu esperava que minha expressão demonstrasse minha irritação.
​— O senhor já chegou? — ela perguntou, rapidamente largando seu
telefone, provavelmente desligando na cara da pessoa com quem estava
falando.
​— Não! É minha alma que está aqui te ouvindo confessar que é a culpada
por meu nome estar em um instagram de fofocas — usei de sarcasmo e a vi
engolir em seco. — Quinze mil? É um bom dinheiro. Mas ganhado à custa da
paz de outras pessoas. E do seu emprego, porque eu vou te denunciar para a
agência. Acho que essa não é uma quantia que dure tanto tempo assim para
você poder se dar ao luxo de tirar um ano sabático.
​ eus, eu queria foder com aquela mulher de tantas maneiras. Queria
D
deixar uma mancha no currículo dela, fazê-la nunca mais conseguir emprego
no estado. No país!
​Claro que eu estava com raiva pelo que ela fez. Como não estaria? Mas o
problema maior era a forma como tratei Beatriz, que era completamente
inocente, quando a víbora era aquela babá que eu nem conhecia.
​Como se a louca pudesse fazer algum mal ao bebê, arranquei o menino
dela, fazendo-o chorar.
​Ótimo, Gabriel! Você hoje está um expert em magoar pessoas que não
merecem.
​— Senhor, eu... — ela ainda tentou. Eu poderia sentir pena em qualquer
outra situação, mas, naquele momento, tudo o que queria era que
desaparecesse da minha frente.
​— Vá embora. Agora! Antes que eu me arrependa de não chamar a
polícia.
​Eu nem tinha direito de chamar, né? Era um blefe apenas, mas a carapuça
serviu, porque a mulher pegou sua bolsa correndo e saiu porta afora, como se
estivesse fugindo de um serial killer.
​Fiquei sozinho com o bebê e logo vi que a carta que sua mãe lhe deixou
estava aberta sobre o sofá, evidenciando o meu descuido e minha vergonha
por ter acusado uma pessoa inocente.
​Sentando-me no sofá, ajeitei Davi no colo, olhando para ele e lamentando
que tivesse que fazer parte de tanta confusão, sendo tão pequenininho.
​— É, amigão. Acho que você não escolheu muito bem o seu pai, sabia?
Você merecia coisa melhor. — Bem, isso se é que eu era pai dele, mas não
pretendia falar em voz alta. Não queria que o menino se sentisse rejeitado.
Tudo bem que provavelmente ele não iria entender nada, mas eu saberia que
ele estava ouvindo e me sentiria péssimo. — Ainda assim, se você for meu,
eu vou fazer de tudo para ser o melhor possível. Vou te dar tudo, não só
material, mas atenção, amor e te fazer o garotinho mais feliz do mundo. Você
vai ter orgulho de mim, e eu vou babar de orgulho por você.
​Dei um beijinho em sua cabeça, pensando em algo que falei: se você for
meu.
​Será que fazia alguma diferença? Será que eu me importaria menos com
ele se não fosse meu? Será que eu teria coragem de mandar aquele garotinho
embora da minha vida caso um exame de paternidade desse negativo? O que
fariam com ele? Enviariam o pobrezinho para um orfanato? O que seria dele?
​ oltei minha atenção para o bebê, para aqueles olhinhos desamparados e
V
sonolentos, sabendo que, de alguma forma, ele já era meu. A forma como
olhava para mim fazia com que eu me sentisse importante, como se eu fosse
o mundo inteiro dele.
​E talvez fosse, naquele momento. Mas ele olhara daquela forma para
outra pessoa também.
​Uma pessoa que merecia um belo pedido de desculpas.
​Estava pensando em como fazer isso quando meu telefone tocou. Deixei
Davi novamente na cestinha, agradecendo por ele estar sonolento, e percebi
que se tratava de Alvarez.
​Merda! Não era uma boa hora para eu encarar uma conversa com o
sujeito.
​Ainda assim, não poderia ignorá-lo. Seria muito pior.
​— Boa tarde, Alvarez! Tudo bem? — tentei soar animado, embora
estivesse bastante nervoso.
​— Comigo tudo, e com você, Gabriel? Fiquei sabendo de algo bem
complicado, mas quis conversar primeiro, porque odeio disse me disse.
​Ah, pronto! Eu estava fodido. Será que aquele dia ainda podia ficar pior?
​— O quê? — me fiz de sonso.
​— Você tem um filho? Porque até onde eu sei, não é casado. Ouvi dizer
que a mãe deixou a criança na sua porta e desapareceu, que você nem sabe
quem ela é — ele parecia desapontado.
​Perfeito! Tudo de que eu precisava.
​Fiquei calado por um tempo, dividido entre a vontade de mandá-lo cuidar
de sua vida e meu apreço por meu negócio. Precisava inventar algo rápido
antes que ele simplesmente dissesse que não queria mais fechar negócio
comigo. Antes que fosse tarde demais.
​Bem... para ser sincero, já tinham inventado para mim, não? Meu tio
fizera a parte difícil de pensar em algo, e foi isso que surgiu em minha mente
naquele momento.
​— Tudo mentira. Imprensa, sabe como é, né? — Quanto cinismo, meu
Deus! — Eles inventam qualquer coisa para conseguirem mídia.
​— Então não existe um bebê?
​Voltei meus olhos na direção de Davi. Isso eu não podia e nem queria
negar.
​— Existe. Mas eu sei quem é a mãe. Claro que sei! — Dei uma risada,
que eu esperava que não soasse tão nervosa quanto parecia. — Aliás, nós
vamos nos casar.
​— Ah, vão? — ele pareceu um pouco mais aliviado.
​— Claro! Eu nunca negligenciaria a minha família. Vamos nos casar e
seremos muito felizes.
​Pelo amor de Deus, será que eu estava, pelo menos, soando coerente?
​— Fico feliz com isso, garoto. Como sabe, é importante, para mim,
associar-me a uma empresa com valores morais como os meus. Não há nada
como uma família estruturada e um homem que sabe honrar as calças que
veste. Eu ficaria muito desapontado se soubesse que você é pai de uma
criança e não sabe nem quem é a mãe, não tem interesse em descobrir e lhe
tornar uma mulher digna.
​Uma mulher digna? Então mães solteiras não eram dignas? Que babaca!
​Eu queria muito dizer isso em voz alta, mas tudo o que eu desejava
daquele homem era uma assinatura num papel, depois ele sumiria da minha
vida. Então eu poderia suportar suas crises de machismo e seu pensamento
retrógrado por algum tempo.
​Só que havia um problema enorme nas minhas costas. Eu precisava de
uma noiva.
​Onde iria arranjar uma?
CAPÍTULO DOZE
​Um pote de sorvete inteiro deveria curar o meu péssimo humor. Só que
não estava funcionando.
​Isso, provavelmente, só curava dores de cotovelo, mas não era tão eficaz
para depressão por ter sido demitida e injustiçada. Aliás, eu sabia que deveria
estar fazendo algo a respeito. Enviando currículos, buscando anúncios na
internet ou até mesmo pensando na hipótese de voltar para casa, mas não
conseguia. Naquele dia, a fossa era tanta que eu só queria ficar enrolada num
cobertor, no sofá, lamentando a minha falta de sorte.
​Nádia queria desmarcar seu encontro daquela noite, mas não permiti.
Falei para ela que preferia ficar sozinha, e era verdade. Como me conhecia há
muito tempo, ela sabia que eu funcionava desse jeito e não tentou
argumentar.
​Ainda bem, porque eu não saberia lidar com aquela conversa naquela
noite. Não sem chorar ou ficar mais nervosa.
​O filme que escolhi era um de comédia bem besta, mas nem isso estava
me distraindo. Eu não conseguia esquecer a conversa com Gabriel, muito
menos o tom acusatório que usou comigo. Suas palavras rudes, sua expressão
de impaciência...
​Claro que eu odiava ser acusada injustamente, mas havia algo mais. Ser
acusada por ele fora ainda mais doloroso. O cara era meu chefe, mas estava
se tornando alguém especial. Ele me beijara, e eu gostei mais do que deveria.
Só que tudo era complicado. E ainda tinha o bebê! Deus, que confusão!
​Saí da minha cidadezinha pacata para me enfiar no Rio de Janeiro, já
imaginando que seriam emoções atrás de emoções, mas não imaginei que as
coisas ficariam tão tensas.
​Também não esperava que o interfone fosse tocar àquela hora. Chequei o
relógio no meu celular e vi que passava um pouco das oito.
​Levantei-me para atender, e o porteiro me informou que se tratava do
“Seu Gabriel Grecco” e que ele estava com um bebê.
​O que diabos estava fazendo ali? Se era para me falar mais desaforos, eu
ia expulsá-lo a pontapés.
​Só que no momento em que abri a porta, vi que ele trazia Davi num braço
e um imenso buquê de flores no outro.
​— Obrigado por me deixar subir — foi a primeira coisa que falou. —
Pensei que ia ter que implorar um pouco mais.
​— Só deixei por causa de Davi, senão iria dar com a cara na porta — foi
tudo o que respondi, com a maior antipatia possível.
​Queria perguntar o que estava fazendo ali, mas fui impedida no momento
em que o pequeno Davi fez um delicioso sonzinho e estendeu os bracinhos
para mim com um sorriso banguela.
​Não consegui resistir em pegá-lo, sentindo meu coração derreter.
​— Acho que ele estava sentindo falta de você — Gabriel falou, o que me
surpreendeu. Para o bebê eu era só sorrisos, para ele, minha expressão ficou
um pouco mais séria.
​Ao perceber isso, ele pousou o buquê sobre a mesa de jantar.
​— O que veio fazer aqui, Gabriel? Pensei que tivesse dito tudo o que
queria dizer da última vez. — Eu estava magoada. E era extremamente
perceptível pelo meu tom de voz. Provavelmente pela minha expressão
também. Era difícil alguém me deixar contrariada daquela forma, mas ele
conseguira. Injustiça sempre me enfurecia.
​— Disse. Tudo o que quis, mas não deveria. — Parecendo envergonhado
e melancólico, ele deu um passo à frente. Eu recuei. — Sei que não foi você,
Beatriz. Sei que não divulgou sobre a situação de Davi à imprensa.
​— Ah, agora você sabe? O que te fez enxergar a luz? — usei de um
pouco de deboche, mesmo sabendo que provavelmente não era o certo a
fazer. Só que ele não era mais o meu chefe, né? O cara tinha me demitido da
forma mais grosseira possível.
​Gabriel abaixou a cabeça, parecendo ainda mais constrangido.
​— Foi a babá nova. Ela achou a carta da mãe de Davi na cestinha e
vendeu a informação.
​— Hummm — murmurei. Por dentro, estava fazendo a dancinha da
vitória e pensando: “chupa, otário!”. — Que bom que você descobriu, né? A
verdade sempre aparece, mais cedo ou mais tarde.
​Lá estava eu parecendo a rancorosa. Não era muito do meu feitio, mas o
cara merecia se esforçar um pouco para conseguir me convencer de qualquer
coisa.
​Vi Gabriel respirar fundo, resignado.
​— Me desculpa, Beatriz. Não foi justo da minha parte te acusar sem nem
tentar entender o que aconteceu. Mas me pareceu tão óbvio...
​— O quê? A garota pobre e do interior ver uma oportunidade de ganhar
dinheiro e sair passando por cima de qualquer um? — Davi agarrou uma
mecha do meu cabelo em seus dedinhos gordinhos, e eu retirei com calma,
sorrindo para ele. O menininho merecia meus sorrisos, o pai, não.
​Gabriel passou a mão pelos cabelos castanhos e curtos, parecendo
nervoso.
​— Não foi o que passou pela minha cabeça. Eu só não via outra
explicação.
​— Ah, não? E a mãe? Que você nem sabe quem é? Ela não poderia ter
enviado a própria carta que escreveu à imprensa? Ganharia dinheiro em cima
de você.
​— Isso passou pela minha cabeça, mas... — Gabriel suspirou mais uma
vez. — Tudo bem, eu não tenho argumentos. Sou um idiota. Você não
merecia.
​— Não merecia mesmo. E você é um idiota, sem dúvidas.
​— O que eu posso fazer para compensar? Primeiro de tudo, você não está
demitida... por favor, faço questão de te dar um aumento até.
​— Não! — exclamei, indignada. — Você não vai me comprar com isso.
Eu preciso do emprego, mas vou receber pelo meu trabalho o que mereço
receber. Não quero privilégios só porque você foi um babaca comigo e acha
que pode compensar com dinheiro. Nem tudo está à venda, Gabriel. Eu,
definitivamente, não estou.
​Uau! Foi um baita discurso. Fiquei orgulhosa de mim mesma. Queria até
sorrir, mas não iria combinar com o teor da conversa, então, mantive meu
cenho franzido, tentando minha melhor cara de má.
​— Sei que não está à venda, Beatriz. Mais do que nunca agora eu sei. E,
por favor, eu não quis te ofender. Só quero compensar de alguma forma.
​Também respirei fundo, sabendo que não chegaríamos a lugar algum.
​— Tudo bem. Só de eu poder manter o meu emprego já é alguma coisa.
Minha avó caiu, precisa fazer fisioterapia, e o tratamento vai ser caro. Eu não
teria como pagar se estivesse desempregada. O ideal seria ela operar, mas
num hospital público demoraria muito, e eu tenho medo. Acho que...
​— Taí! Me deixa pagar a operação da sua avó! — ele parecia animado.
— É o mínimo que eu posso fazer.
​— Não! Ficou louco? Deve ser uns vinte mil reais!
​— Não é nada para mim. — Revirei os olhos. O cara ia mesmo ser
convencido em um momento como aquele? — Calma, não estou querendo
me gabar por ser rico. Estou tentando te fazer entender que não vai me fazer
falta. Que posso te ajudar.
​— Olha, Gabriel, eu não quero bancar a orgulhosa aqui, até porque eu
não posso. Não quando se trata da minha família, mas não posso aceitar essa
oferta sem te dar algo em troca. — Ah, meu Deus! Pegou mal, né? Pela
forma como falei, poderia parecer qualquer coisa, mesmo depois de eu ter
afirmado que não estava à venda. — O que quero dizer com dar em troca é...
​— Calma! — Ele estendeu as mãos em rendição. — Não pensei em nada
desse tipo, fica tranquila. Mas tem uma coisa que você poderia fazer por
mim, sim. E acho que você sabe o que é.
​Confusa, tentei pensar no quê ele poderia estar falando. Gabriel afirmara
que não pensara em nada maldoso, não é? Então o que poderia ser?
​Tentei puxar pela memória nossas últimas conversas e lá estava: aquela
história de que ele iria pedir para alguém fingir ser sua noiva e mãe de Davi.
​Gabriel provavelmente viu o entendimento em meu rosto, porque se
apressou em explicar:
​— Eu falei com Alvarez hoje mais cedo, e ele está muito desconfiado
com a notícia que saiu. Só se acalmou porque eu falei que vou me casar com
a mãe do neném.
​— E você ainda nem tem candidata para isso, não é? Como pôde já ter
mentido para o cara desse jeito?
​— Porque eu estava desesperado! — Gabriel alterou o tom de voz,
parecendo realmente em desespero. — Falei a primeira coisa que me veio à
mente. Não fui eu que inventei essa história, foi o meu tio. Mas ela
faz algum sentido.
​ entindo-me um pouco agoniada com tudo aquilo, sentei-me, com Davi
S
no colo, porque ele estava inquieto – eu também –, e não queria derrubar o
menino no chão.
​— Não gosto de mentir. Nunca dá certo, sempre acontece algo de errado.
E eu não sou uma boa mentirosa. Você já viu que sou tímida, e nós dois não
temos a menor intimidade. Como vou fingir que estamos juntos?
​— Isso é fácil. Teoricamente, para Alvarez, eu pedi você em casamento
mais por uma questão de obrigação do que por amor. Ele não se importa que
seja um acordo de conveniência, só quer que eu honre a minha família.
​— Sua família? — Quase ri. Ainda assim, estava pensando no caso, não
estava? O quão louca isso me tornava?
​Gabriel veio se sentar na mesinha de centro em frente ao sofá, ficando de
frente para mim.
​— Escute, Beatriz, será só por alguns dias. Assim que ele fechar negócio,
cada um de nós volta para suas vidas.
​— E como vamos fazer com a empresa? As pessoas de lá saberão que —
fiz sinal de aspas — estamos juntos. Vão pensar que eu sou mesmo a mãe do
seu filho. Como vamos fazer?
​— Ok, eu não tinha pensado nisso. — Gabriel ficou parado por um
tempo, olhando para o nada, pensando.
​Como ele não tinha levado aquele detalhe tão importante em
consideração?
​Enquanto o bendito refletia, fiquei entretendo seu filho, que parecia
fascinado com os desenhos do meu pijama. Aliás, foi quando eu me dei conta
de que estava usando a coisa menos sexy que poderia ter dentro do meu
armário. Isso sem contar o quanto o cabelo deveria estar caótico depois de
um dia inteiro largada no sofá. O sorvete já derretia na mesinha de café ao
lado do sofá. O filme ainda estava pausado na TV, mas nada disso importava.
​Eu estava esperando a resposta de Gabriel.
​— E se a gente tentar contar com a ajuda das pessoas da empresa? Eu
confio nos meus funcionários e...
​— Ah, você provou isso muito bem hoje de manhã — não pude deixar de
comentar.
​— Eu não te conheço tão bem assim.
​— A gente não conhece as pessoas, Gabriel. Não podemos colocar a mão
no fogo por ninguém.
​— Não, mas temos a questão de empregos em jogo.
​ Sua babá não se preocupou com isso. Mas se é o que você quer fazer,

tudo bem por mim. Se Alvarez descobrir a verdade não serei eu a estar
encrencada.
​— Você, sem dúvidas, sabe como animar alguém. E sua família?
Provavelmente algo vai sair na imprensa.
​— Ah, e eu vou ter que me tornar mãe de alguém, né? — Maravilhoso!
Eu me tornaria a reencarnação de Maria, tendo um filho sem nem ter perdido
a virgindade. — Isso é loucura, Gabriel! Loucura! Não pela minha família,
porque minha mãe não usa internet, não lê o tipo de site onde poderia sair a
notícia, mas porque se eu assumisse a maternidade de Davi publicamente,
não daria para voltar atrás. Seria algo vitalício.
​— Sim, você está certa. O que eu posso fazer é tentar manter sua
identidade ao máximo em segredo.
​— Você acha que daria certo?
​— Não sei. Mas vou proteger ao máximo o seu nome. Caso algo diferente
de nossos planos aconteça, podemos pensar em uma solução.
​— Juro que não vejo nenhuma.
​— Pode confiar, Beatriz. Nem que eu tenha que vir a público falar a
verdade, mesmo que eu manche minha imagem, você vai sair ilesa disso.
​Olhei para ele com desconfiança.
​— Como posso confiar em você depois do que aconteceu hoje mais cedo?
E se no primeiro problema você jogar a culpa em mim e me largar de mão?
​Ele respirou fundo, parecendo mesmo arrependido.
​— Não vou. Juro. Eu não sou aquele cara de hoje mais cedo, Beatriz. Só
que tem muitas coisas acontecendo, estou sob pressão e fiz uma merda. Você
quer que eu fique de joelhos? — Gabriel se jogou no chão, ajoelhado,
entrelaçando uma mão na outra, e eu arregalei os olhos.
​— O que diabos você está fazendo?
​— Por favor, Beatriz, me perdoa. De verdade! Eu agi como um babaca,
mas não vai se repetir. Da mesma forma como vai confiar em mim, vou
confiar em você.
​— Tá, ta, pelo amor de Deus! Levanta daí.
Gabriel fez o que eu pedi, retornando a ficar de pé. Precisei
novamente erguer os olhos para olhar para ele.
— Posso ficar feliz porque você aceitou, certo? Esse ta foi uma
resposta positiva ou entendi errado?
​— Não, entendeu certo. Eu não deveria, depois de tudo o que aconteceu,
mas minha consciência ficaria pesada se não te ajudasse. Apesar de tudo,
você é um cara quase legal — falei com um sorriso, que eu esperava que
selasse a paz entre nós.
​— Quase?
​— Antes eu estava te achando cem por cento legal, depois da babaquice
isso caiu pela metade — brinquei.
​— Metade? Não é muita coisa?
​— É menos do que você merece... mas vamos lá. Eu já topei, não topei?
​Gabriel pegou minha mão e a beijou.
​— Obrigado, Beatriz. De verdade.
​Dei de ombros.
​— Não há de quê. Mas acho que você vai sair perdendo. Garanto que
poderia encontrar uma mulher muito mais bonita, elegante e sofisticada do
que eu para o papel.
​Os olhos castanhos e profundos de Gabriel se fixaram nos meus, sérios
demais.
​— Você não tem a menor noção, né? — ele parecia surpreso ao falar.
​— Do quê?
​— Do quanto é linda.
​Ah, Deus! Aquilo foi inesperado. Tanto que eu sabia que estava corada.
Mas o que poderia fazer? Era bastante lisonjeiro que um homem bonito e
extremamente mulherengo me achasse bonita. Ele poderia estar me bajulando
para tentar me ganhar e conseguir o que queria? Podia, mas havia verdade em
seus olhos e em seu tom de voz.
​Além disso... eu queria acreditar. Queria me sentir bonita e valorizada, e
não iria minimizar o elogio. Se ele o fez era porque eu merecia.
​Fosse como fosse, aquela nossa brincadeirinha inocente certamente
cobraria seu preço. Não só para ele, que o sentiria no bolso, mas algo me
dizia que eu a sentiria no coração.
CAPÍTULO TREZE
​ eatriz andava de um lado para o outro. Inquieta, esfregando as mãos; eu
B
podia ouvir sua respiração profunda de longe.
​Já tinha trocado de roupa três vezes, embora em todas elas eu achasse que
estava linda. Eu a esperava com Davi no colo, sentado no sofá de sua casa,
enquanto experimentava sapatos, tentando encontrar o mais adequado e
confortável. Todas as roupas eram de Nádia, porque Beatriz insistira que não
tinha nada elegante o suficiente para usar. Insisti que poderíamos ter ido ao
shopping no dia anterior, para ela comprar quantas coisas quisesse, mas a
orgulhosinha decidiu que não era necessário.
​Aparentemente era, porque estávamos atrasados, e ela não escolhera.
​— Amiga, você ficou linda nesse. Não precisa mais experimentar
nenhum outro. — Nádia deu uma piscadinha para mim conspiratória, como
se quisesse ajudar naquele impasse.
​Como eu já tinha dito, Beatriz ficara linda em todos, mas aquele último,
realmente, era especial. O tom de verde fechado combinava com o vermelho
de seus cabelos – que ela me dissera que não era natural, mas que lhe caía
muito bem –, além do tom branquinho de sua pele. Ele tinha uma gola
delicada, quase como no estilo boneca, a cintura era marcada e a saia se abria
levemente, ondulando quando movimentava os quadris. Ela parecia delicada,
meiga e elegante, especialmente com a escolha da sandália, que deixava seus
lindos pés de fora. Tinha um salto não muito alto, o que a mantinha bem mais
baixa do que eu, e eu apreciava.
​Ela, de fato, parecia a personificação da moça recatada que Alvarez
aprovaria. Não que eu tivesse exigido isso, porque era ridículo. Estava
começando a ficar de saco cheio de Alvarez e suas exigências que nada
tinham a ver com o negócio em si.
​Sem que eu nem percebesse, Beatriz parou à minha frente, subiu na
mesinha de centro, e tudo o que eu vi em um primeiro momento foi um par
de pernas longas e incríveis. Mas não era para isso que eu precisava olhar,
né? Era para o rosto dela apavorado.
​— Você jura que está bom? É uma festa, Gabriel! Vai ter um bando de
gente rica. Eu não quero estar deslocada ou mal vestida! — Beatriz estava
desesperada. — Vou te envergonhar.
​— Ei, ei! Você está usando um vestido meu! Eu não compro coisa meia
boca — Nádia reclamou.
​Eu ia ficar louco no meio das duas.
​Entreguei Davi para Nádia, que iria ficar cuidando dele – eu lhe pagaria
por isso, é claro –, e me voltei para Beatriz. Em um movimento ousado,
coloquei ambas as mãos em sua cintura e a desci da mesa, o que a deixou
ainda mais embaraçada.
​Quando a pus no chão, tomei seu rosto entre as mãos, olhando em seus
olhos.
​— Não há uma única chance de você me envergonhar. Você está linda.
Eu seria um idiota ou se cego se não percebesse isso.
​O rosto de Beatriz tornou-se mais rosado. Era adorável vê-la corar
daquela forma.
​— Obrigada — ela falou baixinho, e nós nos perdemos em uma troca de
olhares que me deixou confuso.
​Eu queria beijá-la novamente. Queria tocar em seu rosto e acariciá-lo,
agradecendo-a e jurando que tudo ficaria bem, porque eu não permitiria que
nada de ruim lhe acontecesse. Já fazia dias desde que lhe pedi desculpas pelo
mal entendido sobre a carta publicada, mas ainda me sentia péssimo por ter
duvidado de sua lealdade. Só que isso não se repetiria.
​Porém o problema parecia um pouco maior naquele momento: porque
meu coração estava agindo estranho no peito. Havia um sentimento
desconhecido tomando forma. Algo que eu não sabia explicar nem
reconhecer. Só que ele me fazia ficar quase sem ar olhando para ela daquela
forma. Fazia com que meus desejos fossem levá-la para outro lugar, não uma
festa onde seria exibida como minha noiva de mentira.
​Se pudesse, minha vontade seria roubá-la dali e me esconder com ela em
algum lugar privado onde eu a teria só para mim, mesmo que fosse por
alguns dias apenas.
​Porra! De onde estavam surgindo tais pensamentos?
​— Olha... vocês dois estão soltando faíscas. Eu vou lá para o quarto com
essa coisinha fofa aqui. Decidam-se. E boa festa — Nádia nos interrompeu.
Que merda que ela percebeu que algo estava rolando entre mim e Beatriz.
Será que meus pensamentos eram assim tão óbvios?
​Beatriz abaixou a cabeça, constrangida como sempre. Antes que eu a
perdesse novamente, coloquei a mão sob seu queixo e o ergui, fazendo-a
olhar nos meus olhos.
​— Não há nada de errado com você, está me ouvindo? Pelo contrário. É a
mulher mais bonita por dentro e por fora que eu já vi. E pense que você não
estará sozinha. Somos um time, Beatriz. Não vou te abandonar no meio
daquelas pessoas.
​Eu sabia que não era exatamente a forma mais inteligente de mostrar
minha “noiva” a Alvarez, mas ele tinha chegado no Rio na noite anterior, e
seu primeiro compromisso era aquela confraternização da própria empresa
dele – a que eu queria comprar –, que fora preparada para sua chegada. Fui
convidado, além de outros CEOs que estavam interessados em conquistar o
cara, embora ele sempre tivesse dito que eu era seu preferido. Claro que não
teríamos muito tempo para conversar em um local como aquele, mas eu
precisava comparecer. E se tinha uma companhia, precisava levá-la comigo.
​Ao menos era uma festa à tarde, com um clima mais ameno – embora eu
soubesse que seria bem sofisticado –, e esperava que tudo desse certo.
​Se não desse, Beatriz ficaria imensamente chateada e poderia desistir.
Mas não era só por isso que eu não queria que ela fosse magoada. Caso
alguém a destratasse ou usasse a história da carta para humilhá-la ou qualquer
coisa assim, eu ficaria bem puto.
​Meus instintos protetores em relação àquela garota estavam bem
aguçados.
​E foi com esse pensamento que chegamos ao sítio onde estava
acontecendo o evento.
​Passamos boa parte do caminho até lá calados, e eu jurei que Beatriz
ficaria como um bichinho do mato acuado, mas ela se empertigou quando
entramos e começou a fazer o seu papel.
​Sorria quando precisava sorrir, cumprimentava com gentileza, agradecia
quando parabenizada pelo casamento em breve, mas ainda se sentia um
pouco reticente quando eu a tocava. Até mesmo uma mão na curva das costas
parecia algo que a deixava muito desconfortável, embora eu a sentisse
estremecer de uma forma diferente.
​Porém esse sentimento foi transmitido para mim no momento em que nos
aproximamos de Alvarez.
​Poucas vezes nos encontramos pessoalmente, para ser sincero. Apenas em
eventos, nos quais eu acompanhava meu pai, e ele estava presente. Nunca
chegamos a conversar de verdade, mas éramos cordiais. Na maioria das vezes
estava com a esposa, e ela pouco falava também. Eram um casal discreto,
mas simpático.
​Só que a forma como Alvarez olhou para Beatriz, no momento em que a
viu, não me agradou em nada.
​Direto para os seios dela, que nem estavam em evidência no vestido
comportado.
​Filho da puta!
​— Deveria ter trazido seu neném, Gabriel. Eu adoraria conhecê-lo — ele
falou para mim, mas ainda olhando para Beatriz.
​Porra, eu ia enfiar a mão na cara dele se continuasse daquela forma.
Velho tarado!
​Beatriz remexeu-se ao meu lado, e eu percebi que estava apertando sua
mão com um pouco mais de força do que deveria. Sem nem me dar conta do
que fazia, coloquei o braço ao redor de sua cintura, puxando-a para mim,
quase de forma protetora.
​— Achamos melhor deixá-lo com uma babá. É muito pequeno ainda —
respondi, tentando me controlar.
​— Mas deve estar amamentando, não? — Ele aproveitou o tema para
novamente olhar para os seios dela outra vez.
​Que tarado! Como nunca percebi isso antes?
​— Sim, mas está tudo sob controle — Beatriz respondeu, parecendo
muito sem graça, mas mantendo o controle. Eu estava ainda mais admirado
com seu comportamento. Ela não merecia aquele tipo de olhar, não merecia
ser observada como uma mercadoria em exposição.
​— Ah, disso eu não tenho dúvidas — a malícia em sua voz não me
passou despercebida.
​ nde estava o cara conservador que me julgava por ser pai solteiro? Onde
O
estava o homem digno que valorizava família quando visivelmente tarava a
mulher dos outros estando com a esposa do lado.
​Ele estava tarando a minha mulher.
​Ok, ela não era minha de verdade. Mas ele achava que era, não? Deveria
ter um mínimo de respeito.
​Subitamente eu tinha perdido toda a empolgação de fechar negócio com
ele, só que Alvarez pareceu grudar em nós a tarde inteira. Isso deveria me
animar, porque era um sinal de que tinha uma preferência por mim para a
venda de sua empresa, mas não era o caso. Seu interesse era em Beatriz,
puramente. E isso estava começando a me deixar puto.
​Como era possível que sua esposa não se importasse com isso? Como não
falava nada, não lhe dava um toque, não se afastava para repreendê-lo?
​Definitivamente, eu só queria que aquele dia de merda acabasse. Queria
levar Beatriz para casa e...
​E o quê, Gabriel? O que você iria fazer sozinho com ela? Beijá-la? Levá-
la para a cama?
​Eram as minhas vontades, sem dúvidas, mas algo me dizia que aquela
garota não era do tipo que concordava com uma noite, com algo fugaz. Se eu
quisesse Beatriz, teria que ser para valer. Teria que transformá-la de
namorada de mentira para namorada oficial.
​Mas seria isso o que eu queria?
CAPÍTULO QUATORZE
​Nada estava acontecendo do jeito que eu queria. Nada.
​Ok, o pessoal não era tão esnobe quanto pensei, não era tão difícil me
adequar, mas eu não esperava que o tal empresário a quem Gabriel tanto
queria agradar fosse um tarado. Jesus, não era possível que ele não
percebesse o quão inconveniente eram seus olhares e as coisas ridículas que
dizia.
​Gabriel parecia ter percebido, porque seu comportamento mudou
completamente. Ele se mostrava mais... possessivo em relação a mim, mas
não de um modo ruim. Talvez mais protetor. E isso mexia comigo.
​A forma como me tocava, como parecia não querer tirar as mãos de
mim... Deus, seria difícil me recuperar ao final da noite.
​Mais do que isso... eu estava sentindo coisas demais por ele.
​O jeito como me olhava me fazia sentir vulnerável. A maneira como me
tocava despertava sentimentos que eu desconhecia; vontades que sempre
estiveram adormecidas dentro de mim.
​Ok, eu era virgem, mas não me mantive assim porque estava aguardando
o príncipe encantando que iria me arrebatar e me prometer um conto de fadas.
A verdade era que nenhum dos pouquíssimos caras por quem me interessei
na minha cidade nunca me causaram desejo suficiente para eu sentir que era a
hora.
​ e alguma forma, o modo como Gabriel estava se comportando naquele
D
evento inteiro fez meu corpo responder de uma forma muito peculiar.
​Aquilo era... tesão? Bem-vindo, novo sentimento.
​Tudo tomou proporções maiores ainda quando Gabriel praticamente me
arrastou para um espaço onde casais tinham se reunido para dançar,
visivelmente com a desculpa para termos um tempo longe do peçonhento
Alvarez que não nos largava por nada.
​— Me desculpa por isso — ele sussurrou, enquanto me conduzia. E ainda
bem que fez isso antes de chegarmos ao espaço reservado como pista de
dança, porque a forma como me pegou, puxando-me contra si e envolvendo
minha cintura com um de seus braços fortes, me deixou completamente aérea
a tudo ao redor.
​— Isso o quê? — perguntei como uma boba fora de órbita.
​— Pela forma como Alvarez está te tratando. Não gosto disso, Beatriz. O
cara é um tarado, e eu não sabia. Se soubesse não teria te trazido comigo.
Inventaria uma desculpa.
​— Está tudo bem, de verdade. O que ele poderia fazer?
​— Nada! — Era para ser uma resposta simples, apenas uma constatação,
mas Gabriel respondeu olhando intensamente para mim, e a mão que tocava a
curva das minhas costas apertou-me um pouco mais, mostrando-me a
quantidade de pegada que aquele homem deveria ter. Quase fiquei sem ar. —
Nada, Beatriz. Eu não permitiria que ele fizesse nada a você.
​A profundidade de seu olhar e a força de suas palavras provocou
novamente aquela reação infundada do meu coração. Eu não queria me
apaixonar por Gabriel, mas começava a acreditar que era tarde demais.
​O pior: eu não queria me apaixonar pelo meu chefe. Não daria certo, de
jeito nenhum. Eu estava ali para fingir que era sua namorada, mãe de seu
filho, nada mais. Não era um conto de fadas.
​— Ainda assim, se chegar a um ponto insuportável, quero que me avise e
iremos embora imediatamente — ele falou cheio de decisão, o que fez meu
estômago se revirar.
Novamente, ele era pura intensidade, e eu estava começando a me
sentir até ofegante.
— Você quer muito conquistar essa venda, Gabriel. Vou aguentar
firme.
— Sim, eu quero, mas não ao preço de você se sentindo intimidada ou
desconfortável.
Ah, eu estava intimidada e desconfortável, mas não por causa do tal
Alvarez. Por causa do homem cujos braços me envolviam como se eu fosse
preciosa. O homem que estava me deixando de pernas bambas.
Sabendo que as coisas começavam a ficar confusas, tentei sorrir e
lançar um comentário mais espirituoso:
— É muito gentil da sua parte, chefinho — usei o apelido que Nádia
também usava com ele, mas tudo o que consegui foi que ele me puxasse para
si ainda mais, segurando-me com mais força.
Não havia mais um único milímetro entre nós. Eu sentia seu peito
musculoso contra meus seios, seus quadris embolados com os meus e...
bem... eu podia dizer que ele estava excitado. O que normalmente me
assustaria, mas não naquele momento.
— Beatriz... — ele sussurrou meu nome de um jeito que fez cada uma
das células do meu corpo se contorcer. Se é que células se contorciam. Mas
eram como pequeninos pontos de choque dentro de mim. — Lembra quando
você disse que beijos para você nunca eram levianos? Que eram especiais?
— Mal conseguia reagir quanto mais responder. Um balançar de cabeça
precisou servir. — Se eu disser que quero te beijar agora e prometer que será
especial para mim também, você vai permitir?
Era fofo, não era? Um homem como ele poderia simplesmente achar
que tinha o direito de pegar o que queria sem pedir permissão, mas Gabriel
estava tendo todo aquele cuidado comigo. Ninguém poderia negar que era um
cavalheiro, e isso me agradava e muito.
E como eu poderia negar? Como poderia dizer não àquela voz macia
e cálida? Como ignorar a forma como suas mãos grandes deslizaram até o
meu rosto, uma de cada lado, segurando-o, enquanto seus polegares
acariciavam minhas bochechas com ternura?
Por que eu negaria?
Então apenas balancei a cabeça novamente, suspirando sem nem
perceber.
Gabriel tomou isso como um consentimento válido, porque veio
devagar em direção à minha boca, mas parou no meio do caminho, antes de
me beijar de verdade.
A centímetros de distância, ao ponto de que eu poderia sentir sua
respiração me tocar, ele disse:
— Não. Aqui, não. Não vou te expor dessa forma.
Então pegou minha mão e começou a me levar para longe dos outros
casais que dançavam ao nosso redor. Fomos nos afastando mais e mais,
chegando a uma área onde mal podíamos ouvir a música. Ela era apenas um
murmúrio distante que chegava aos nossos ouvidos, como uma trilha sonora
quase silenciosa.
Gabriel encostou-me em um muro. Havia grama sob nossos pés, mas
isso era tudo o que eu conseguia perceber, levando em consideração que
minha atenção estava toda concentrada no homem e na forma como ele
pegou cada uma das minhas mãos e as beijou, cheio de doçura, mas logo as
imprensou no concreto, imobilizando-me e me tornando sua refém.
— Linda — ele sussurrou, meio de forma inconsciente, e finalmente
tomou meus lábios para si.
Não foi romântico como achei que seria. Foi uma demonstração de
que ele estava faminto. Sua língua ávida abriu passagem, envolvendo-me,
dominando-me, provando que eu nunca tinha sido beijada de verdade. Não
daquele jeito. Por um homem que sabia o que estava fazendo.
Por um homem que estava mexendo com minha cabeça e com meu
coração.
Ele explorou minha boca de todas as formas, em todos os ângulos,
mordendo, sugando e lambendo meus lábios, nunca soltando minhas mãos.
Então deslizou para meu pescoço, deixando uma trilha de beijos pelo meu
maxilar, fazendo-me arfar e sentir meu coração acelerar no peito. De uma
forma que parecia explodir sangue para todos os outros pontos do meu corpo.
— Vamos ligar para Nádia, pedindo que cuide de Davi esta noite.
Pago o dobro para ela. Mas quero te levar para a minha casa. Não precisamos
fazer nada que você não queira. Só quero ficar a sós com você — foram
palavras sussurradas, roucas, sexy.
— Tudo bem — eu respondi sem nem ter muita noção do que dizia.
Eu não fazia ideia de quais eram meus pensamentos. Não sabia quem
eu era naquele instante.
Quando Gabriel retornou aos meus lábios, se alguém me perguntasse
meu nome, eu não saberia responder.
Eu só queria mais e mais de seus beijos. Queria, sim, ficar a sós com
ele naquela noite. Queria tudo. Era uma loucura, mas eu me renderia a
Gabriel Grecco sem pensar duas vezes. Entregaria minha virgindade ao meu
próprio chefe, naquela noite, porque não conseguia pensar em nada que
pudesse desejar mais.
As consequências? Essas viriam depois.
CAPÍTULO QUINZE
​ recisamos suportar mais algumas horas daquela inconveniência toda,
P
mas depois do beijo, minha reação mudou por completo com Beatriz. Se
antes eu não tirava as mãos dela para que Alvarez entendesse que estava
sendo inconveniente, o jogo virou totalmente.
​Eu não conseguia parar de tocá-la simplesmente porque não podia fazer
isso. Era uma necessidade sentir sua pele contra a minha.
​Beatriz não parecia exatamente mais à vontade comigo do que antes, mas
já não se sobressaltava quando eu a tocava e até retribuiu um selinho que lhe
dei de forma completamente aleatória só porque desejei sentir sua boca
contra a minha mais uma vez.
​Já passava das oito quando conseguimos nos livrar de Alvarez e
pegarmos o carro para irmos para o meu apartamento. Seguimos calados, e eu
sentia que Beatriz estava nervosa. Para tentar amenizar a situação, peguei sua
mão e a beijei, abrindo um sorriso, esperando que isso a acalmasse. Não deu
muito certo.
​Bem, o que eu estava esperando? Ela não parecia exatamente uma mulher
com muita experiência.
​Tinha planos de ir com calma, mas no momento em que saímos do
elevador e entramos no apartamento, isso foi tudo por água abaixo.
​Assim que tranquei a porta, parti para cima dela, sentindo-me
completamente louco só de olhá-la. Porra, havia algo naquela mulher... Algo
que me deixava insanamente rendido. Não era só sua beleza, embora esta
fosse evidente, mas era sua personalidade, seu jeitinho de ser, sua voz, seu
cheiro... tudo parecia afrodisíaco para mim.
​Novamente encostei-a na parede e peguei uma de suas coxas, erguendo-a
até a minha cintura e deixando-a de pé, apoiada em apenas uma das pernas.
Agarrei sua carne com força, fazendo-a gemer contra a minha boca. Soube
que não era de dor porque arfou no momento que a mesma mão foi parar em
sua bunda.
​Afundei os dedos em sua pele, querendo senti-la, enquanto o beijo se
tornava mais e mais intenso. A outra mão agarrava seus cabelos ruivos,
mantendo-a presa a mim de todas as formas.
​Se ela pedisse que fôssemos com calma, eu pararia. Mas Beatriz não
pediu. Pelo contrário, colocou seus braços ao redor dos meus ombros e me
puxou mais para si.
​Nem mesmo tê-la assim tão perto era suficiente. Tanto que agarrei a outra
coxa e a tirei do chão, deixando-a entrelaçada à minha cintura, suspensa,
usando a parede como apoio. Isso pareceu deixá-la surpresa, porque ofegou
ainda mais.
​— Gabriel! — meu nome saiu de sua boca entre um gemido e um suspiro,
o que me deixou ainda mais insano. Eu queria ouvi-la proferi-lo assim na
cama, quando eu estivesse com meus dedos ou minha língua dentro dela,
fazendo-a gozar.
​Aliás, pensar nisso me deixou ainda mais louco, portanto, levei-a naquela
posição até a mesa de jantar, deitando-a sobre ela. Ergui sua saia, tirando a
calcinha em um puxão, testando-a. Estava molhada. Deliciosamente molhada.
​Os olhos de Beatriz estavam fixos nos meus, e neles eu podia ver toda a
doçura daquela mulher. Tudo o que havia me encantado e que com o passar
dos dias em que estreitamos nossa convivência me encheram de sentimentos
diversificados por ela.
​Levei meu dedo à sua boceta, sentindo-a aos poucos, e Beatriz
estremeceu quando cheguei ao seu clitóris. Perdi algum tempo lá, vendo-a se
contorcer, muito sensível e receptiva. Deliciosa.
​Mas foi quando a penetrei com um dedo, chegando bem fundo, bem
devagar, começando a masturbá-la, que Beatriz demonstrou de verdade suas
reações. Quando atingi seu ponto mais sensível, ela literalmente gritou,
arqueando as costas, como se me pedisse mais. Isso me fez sorrir.
​ Gosta disso, linda? — perguntei com certo nível de malícia na voz e

meu sorriso se ampliou ao vê-la arfar e ter dificuldades de responder quando
movimentei meu dedo, estimulando-a, enquanto a outra mão se ocupava de
seu clitóris.
​— Sim. Muito — sua resposta foi nada mais do que um sussurro.
​— Estou só começando — afirmei, ansioso por cada minuto daquela
noite.
​Se fosse daquele jeito, com ela respondendo a mim de forma tão intensa,
eu iria apreciar cada instante com cuidado, sem pressa.
​De um dedo, ousei penetrá-la com dois. Enquanto fazia isso, inclinei-me
sobre seu corpo, deitado na mesa, com a saia do vestido erguida até a barriga
e dei uma mordida na carne generosa e depilada, pouco acima do local onde
eu estava tocando, o que a fez gemer alto novamente.
​Repeti os movimentos, usando a língua e chegando ao seu clitóris,
lambendo-o apenas de leve, enquanto usava de mais força nos dedos e mais
velocidade.
​Quando os músculos de Beatriz se contraíram, e eu soube que ela estava
gozando, não resisti:
​— Goza para mim, linda. Me dê esse prazer...
​Ela atendeu ao meu pedido, e eu poderia jurar que nunca vi nada tão belo.
A expressão de deleite no lindo rosto de Beatriz, com seus olhos fechados,
seus lábios rosados abertos, seus seios subindo e descendo e resquícios de
gemidos sensuais escapando... tudo isso foi a minha ruína.
​Eu queria levá-la para a cama, deitá-la com cuidado, mas teria a noite
inteira para isso. Naquele momento, possuí-la sobre aquela mesa, da forma
mais selvagem possível, foi meu primeiro pensamento.
​Inclinei-me sobre ela, aproximando nossos rostos, tomando meu tempo
para que ela se recuperasse. Eu precisava fazer uma pergunta.
​— Querida, você toma anticoncepcional?
​Minha voz pareceu trazê-la de volta à realidade, porque Beatriz
sobressaltou, erguendo o tronco. Isso nos deixou ainda mais próximos,
prontos para mais um beijo, mas sua expressão dizia que não era o momento
certo de roubar um.
​— O que foi, Beatriz? Algo errado?
​Ela continuou hesitando, mas parecia tensa, o que me preocupou. Só que
eu sinceramente não esperava a revelação que veio a seguir.
​— Eu sou virgem — falou tão baixinho que precisei me esforçar para
ouvir.
​E acreditar.
​Mas por que será que foi tão surpreendente? Beatriz sempre mostrou ser
meio inocente, envergonhada, a típica moça do interior. Quando a beijei pela
primeira vez, só um selinho, ela falou que beijos eram especiais, como não
teria o mesmo comportamento a respeito do sexo? Claro que poderia ter
havido algum namorado, um cara que roubara seu coração e sua virgindade,
mas, não.
​A mulher mais desejável que conheci – e olha que eu conhecia muitas –
era virgem. E tinha me escolhido para ser seu primeiro.
​Ou, ao menos, parecia ter escolhido. Talvez eu estivesse enganado.
​Colocando o braço ao redor de suas costas gentilmente, içando-a da mesa
e deixando-a sentada na borda, tomei seu rosto entre as mãos, beijando-a de
forma rápida, apenas para demonstrar ternura, e olhei em seus olhos:
​— Então é melhor pararmos, não é? — perguntei com toda a paciência,
porque queria que ela compreendesse que não haveria problema algum em
não darmos mais um passo. Por mais excitado que eu estivesse, não iria
pressioná-la. — Ou podemos continuar dessa forma. Dando alguns amassos e
mais alguns orgasmos para você — tentei brincar, mas ela não sorriu.
​— Eu não quero parar — disse, parecendo muito segura, o que me
surpreendeu.
​— Querida, não tem problema.
​— Eu sei que não. Mas quero você.
​Porra! Será que ela poderia soar mais doce do que aquilo? Eu duvidava
muito. Corada, não apenas pelo constrangimento, mas pelo orgasmo recente,
eu nunca tinha visto mulher mais deslumbrante. Beatriz mexia comigo mais
do que eu gostaria.
​Eu não estava pronto para me envolver daquele jeito, mas lá estava eu,
querendo-a da cabeça aos pés, incluindo o coração.
​Não me considerava o homem certo para uma mulher como Beatriz. Eu
era volúvel, errado, impuro se comparado a ela. Mas talvez fosse a hora de
tentar ser alguém melhor. Transformar a fantasia em algo quase real.
​Ela ainda seria a mãe de mentira do meu filho, mas namorada? Isso
poderia ser para valer. Eu queria que fosse. Pela primeira vez na minha vida
eu queria sossegar com uma mulher só, porque queria que ela também fosse
só minha.
​Pensar em outro homem colocando as mãos nela... Era devastador.
​— Certeza? — quis constatar, porque não suportaria que ela fizesse algo
por se sentir acuada ou sem graça de negar.
​— Tenho.
​Não pude conter um sorriso. Era um presente.
​— Então vamos fazer as coisas da forma certa.
​Tirei-a de cima da mesa, pegando-a no colo com cuidado e começando a
carregá-la pelo apartamento. Meiga como era, Beatriz envolveu os braços nos
meus ombros e encostou a cabeça no meu peito. Eu sabia que ela estava
nervosa, mas eu também. Nunca tinha tirado a virgindade de mulher
nenhuma, muito menos uma que era especial para mim. Odiaria machucá-la
ou fazer algo errado.
​Por mais experiente que eu pudesse ser, nada se comparava àquilo. A
responsabilidade que eu sentia.
​Coloquei-a de pé ao lado da cama, pegando uma camisinha na mesinha de
cabeceira e deixando-a sobre o colchão. Agachei-me e levei as mãos à barra
de seu vestido. Antes de tirá-lo, olhei-a nos olhos.
​— Posso?
​Ela novamente balançou a cabeça, consentindo, então eu a despi. Sem
calcinha, havia apenas um sutiã delicado, que eu também tirei. E lá estava
ela, completamente nua para mim. Uma perfeição.
​Seios pequenos, mas arredondados, cintura fina, quadris esguios, mas
bonitos, pernas longas... Não havia nada naquela garota que eu não
apreciasse.
​Com ela ainda de pé, inclinei-me, levando uma boca a um de seus
mamilos, o que a fez arfar imediatamente.
​Chupei-o com vontade, segurando-a com os braços entrelaçados em sua
cintura, sentindo-a estremecer.
​— Gosta disso? — perguntei, já cheio de desejo.
​— Sim! — ela ofegou, e eu deslizei uma das mãos novamente até sua
fenda úmida, recomeçando a masturbá-la.
​Eu sabia que, de pé, as sensações eram mais intensas do que quando ela
estava deitada, então a ouvi gemer bem alto, o que foi um deleite.
​Continuei com a leve tortura até senti-la bem molhada. Despi-me da
cintura para baixo e a conduzi até a cama, deitando-me por cima, tomando
seus lábios em um beijo lento, para seduzi-la. Conquistá-la. E porque eu
queria. Não conseguia me satisfazer de seus beijos. Dela inteira.
​Enquanto isso, minha mão se esgueirou novamente para sua boceta,
voltando a estimulá-la, novamente de forma intensa, porque a queria bem
molhada e pronta.
​Desci a boca a um mamilo, beijando-o enquanto usava as duas mãos para
abrir e colocar a camisinha. Assim que estava protegido, posicionei-me, mas
não a penetrei.
​— Não quero te machucar, Beatriz. Vou te amar com bastante cuidado,
mas se doer, me avise, ok?
​— Ok — ela respondeu insegura, mas parecia pronta.
​Fui me colocando dentro dela bem devagar, sentindo sua expressão
demonstrar todo o seu desconforto. Eu não sabia mensurar sua dor, mas tentei
ser gentil com todas as minhas forças, embora a sensação de estar dentro
dela, tão quente e apertada, fosse o céu.
​Quando senti que tinha chegado mais fundo, ela deu um grito, e eu sabia
que era de dor.
​— Me desculpa, querida. Vai passar, eu prometo.
​— Continue. Por favor, não pare — ela pediu, e eu acatei.
​Comecei a me movimentar muito lentamente, o que era uma tortura. Eu
era um cara que gostava de foder, de fazer sexo de forma bem crua, mas
precisava ser cuidadoso com aquela mulher preciosa e intocada. Então
iríamos em seu ritmo.
​Aos poucos ela foi parecendo relaxar. Gostar, até.
​E eu queria que ela gostasse. Queria lhe dar prazer, queria que
repetíssemos naquela noite e em muitas outras.
​Ouvi um discreto gemido de prazer e levei uma das mãos
preguiçosamente ao seu seio, girando o mamilo entre os dedos. Depois
deslizei-a por sua barriga plana, chegando ao clitóris, fazendo o mesmo com
ele.
​Então ela gemeu mais alto. Suspirou. E sussurrou meu nome baixinho.
Cada uma dessas coisas parecia uma vitória para mim.
​Nunca fui um homem egoísta no sexo. Costumava gostar muito de ver
minhas parceiras tendo prazer, porque isso também me excitava. Só que com
Beatriz, eu queria que ela tivesse tudo. Queria lhe dar tudo que estivesse ao
meu alcance.
​Queria que ela fosse às estrelas nos meus braços, que conhecesse o sexo
da melhor forma. Mesmo que não nos tornássemos algo sério, que ela se
entregasse a outro homem depois de mim – por mais que esse pensamento me
deixasse muito incomodado –, queria que pudesse comparar com algo bom,
para que nunca precisasse se contentar com pouco.
​Eu era o primeiro homem daquela mulher maravilhosa, e queria ser
especial. Queria fazê-la conhecer o prazer da forma mais plena possível.
​Continuei tocando-a enquanto fazíamos amor, e ela arqueou o corpo,
soltando um gemido mais alto. Contraiu-se novamente ao meu redor, e isso
foi a minha perdição. Não pude mais me conter, e nós chegamos juntos ao
orgasmo.
​Sinceramente? O melhor da minha vida. Porque era... especial.
Eu não entendia ainda por que, mas Beatriz era especial. E eu não
podia deixá-la escapar.
CAPÍTULO DEZESSEIS
​ quarto estava em total penumbra, mas eu não conseguia descansar. Um
O
braço musculoso repousava sobre a minha cintura, quente, quase carinhoso,
mas levemente possessivo, como se Gabriel quisesse me manter ali ao seu
lado a qualquer custo.
​Eu nunca tinha ficado nua na frente de um homem, nunca tinha dormido
com um. Mas também nunca tinha transado. Eram muitas primeiras vezes
para uma noite só. E eu nunca poderia dizer que estava arrependida. Porque
não era o caso. Fora muito melhor do que esperei que pudesse ser.
​Na primeira tentativa, foi muito doloroso no início, mas depois a coisa
melhorou muito. Só que na segunda... foi só prazer. O que me fez entender
por que as pessoas eram tão fissuradas por sexo.
​Mas provavelmente a escolha da pessoa certa contava e muito. Gabriel
podia ser errado em muitos aspectos: meu chefe, estava encrencado com um
bebê que surgira em sua vida de forma inusitada, era um mulherengo que
provavelmente não iria querer nada sério comigo.
​E eu estava muito envolvida.
​Pensando nisso, desvencilhei-me de Gabriel, fazendo todo o esforço para
não acordá-lo, saindo da cama.
​Peguei meu vestido, que estava jogado no chão, e o pus, descendo em
seguida. Precisava de um copo de água, de um tempo sozinha, de respirar um
ar onde não houvesse o cheiro de Gabriel por toda parte – o que era difícil, já
que o apartamento era dele.
​Fui direto à cozinha, para abrir a geladeira e pegar a água. Ainda me
sentia um pouco constrangida de me movimentar em sua cobertura daquele
jeito, como se fizesse parte do lugar, mas era isso ou morrer de sede.
​Servi-me rapidamente, fechando a geladeira e decidida a me sentar um
pouco na varanda, observando a noite lá fora, para me perder nos meus
pensamentos. Sabia que não era uma boa ideia, porque acabaria ruminando
minhas decisões, e eu não queria isso. Pensei em ligar para Nádia, mas
imaginei que ela estaria dormindo, já que Davi estava com ela.
​Seria eu e minha solidão. O silêncio do local ao meu redor, enquanto
minha cabeça gritava mil e um problemas e mil e duas soluções absurdas.
​Só que eu não estava completamente sozinha.
​Um barulho me fez sobressaltar antes mesmo de sair da área da cozinha.
Teria Gabriel acordado? Não sabia se estava pronta para encará-lo. Queria
mais algum tempo comigo mesma e...
​Uma sombra passou. Silenciosa demais. O apartamento estava quase
totalmente escuro, porque a janela estava aberta e alguma iluminação vinha lá
de fora, além da luz que acendi no corredor lá em cima, para poder descer as
escadas. Fora isso, não havia mais nada para que eu pudesse enxergar o que
se encontrava à minha frente.
​Se fosse Gabriel, era melhor eu avisá-lo onde estava, não? Ele poderia
esbarrar em mim ou sei lá.
​Tateei a parede em busca do interruptor, mas minha mão foi agarrada.
Um toque grosseiro, que nem se comparava com a gentileza do homem por
quem eu estava apaixonada.
​Fui puxada de encontro a um corpo, que, apesar de igualmente sólido, não
era familiar. A voz que falou no meu ouvido também não.
​— Fica quietinha ou eu vou te furar inteira. — Senti algo cutucar minha
cintura através do tecido do meu vestido. Prendi o ar, porque não sabia o que
fazer. Também fiquei em silêncio, sentindo meu corpo começar a reagir à
adrenalina, estremecendo. — Onde está o bebê?
​O quê? Ele queria Davi? Mas... por quê? Era só um bebezinho.
​— Ele não está aqui — respondi com a voz frágil, quase agradecendo por
termos deixado o bebê com Nádia.
​— Hum... então vai ter que ser você mesmo, lindinha. Acho que vamos
ter que dar um passeio...
​Passeio? Como assim?
​Ele ia me... sequestrar? Mas por quê?
​Será que ele acreditava que eu era importante para Gabriel, que iria poder
cobrar um resgate e seria pago?
​Não! Ele não poderia estar mais enganado, eu era apenas a secretária e...
​— Seria mais fácil levar um bebê, mas você vai quietinha, não vai, linda?
Se não for, vou ter que te apagar e aí vai me dar um pouquinho mais de
trabalho, mas você não parece muito pesada...
​Arfei, apavorada. Meu Deus, no que é que eu tinha me metido?
​Eu só tinha que dar um jeito de não permitir que aquele doido me levasse.
​Sabe aquelas reações estranhas que temos quando não conseguimos
pensar direito? Pois é...
​A primeira coisa que consegui fazer foi enfiar o cotovelo na barriga dele
com toda a minha força. Eu sabia que não era um homem grande como
Gabriel, mas era maior do que eu, então as minhas chances de correr algum
risco com aquela manobra perigosa eram enormes, mas tentei mesmo assim.
​Para a minha sorte, o bandido largou o que segurava, que eu chutei para
baixo da pia, e eu pude soltar um grito, a plenos pulmões:
​— GABRIEL! SOCORRO!
​Só que a mão que me segurava não me soltou, e ele aproveitou para me
manter junto a si, cobrindo a minha boca.
​— Vadia! Eu mandei ficar quieta.
​Tentei me desvencilhar, aproveitando que estava desarmado, mas tudo o
que consegui foi ser agredida, levando um golpe na cabeça que me deixou
completamente zonza.
​O homem me sustentou de pé por algum tempo, começando a me arrastar
até porta, mas antes que pudéssemos sair, as luzes do apartamento se
acenderam.
​Eu estava zonza, mas consegui abrir os olhos e vi Gabriel, vestindo
apenas uma calça de moletom, à nossa frente. Seus olhos estavam
apavorados, observando a cena.
​— Solta ela! — ele falou em voz de comando, mas o homem não
obedeceu.
​Queria fazer alguma coisa, tentar me soltar novamente, mas me sentia
completamente fraca. Como era possível que um golpe na cabeça me
deixasse tão inútil?
​Fosse como fosse, imaginei que Gabriel, de forma sensata, iria deixar o
cara me levar sem reagir. Por que faria diferente? Novamente, eu era apenas a
secretária com quem ele acabara de transar. O cara não se lembrava nem
quem era a mãe de seu filho, como iria se importar comigo?
​Mas Gabriel me surpreendeu. Em uma atitude completamente impensada,
ele veio na nossa direção, praticamente me arrancando dos braços do bandido
e me colocando de lado só para lançar o outro contra uma parede com
violência.
​Tentei me manter de pé, mas despenquei no chão e acho que apaguei por
alguns instantes, porque não me dei conta de mais nada. Não ouvi e nem vi
nada. A próxima coisa que tive noção foi da voz de Gabriel me chamando e
de ser tocada com tanto cuidado que eu poderia derreter se já não estivesse
meio grogue.
​— Querida, você está bem? — Ele me virou com cuidado, amparando-me
em seus braços, enquanto eu lentamente voltava à total consciência.
​— Estou — respondi, ainda com a vista embaçada, mas quando consegui
focar, percebi que seu rosto estava ferido.
​Levei a mão ao corte, acariciando-o.
​— Ele te machucou — falei baixinho, não me sentindo ainda cem por
cento.
​— O filho da puta conseguiu me acertar um soco e fugiu. Mas saiu daqui
bem pior do que eu fiquei — aparentemente foi uma tentativa de brincadeira,
mas ele logo me olhou com pesar. — Ele machucou você também. Consegue
se levantar? — Assenti, e Gabriel me ajudou a me colocar de pé, amparando-
me até o sofá.
​Sentou-se na mesinha de centro, à minha frente, e também me tocou, em
um ponto que estava dolorido.
​— O que ele queria? — perguntou enquanto continuava acariciando meu
rosto, provocando uma letargia tão grande que eu poderia simplesmente
pegar no sono ali mesmo, no sofá.
​— Davi. Como eu falei que ele não estava aqui, disse que ia levar a mim.
​— Sequestro? — ele pareceu surpreso, e eu assenti. — Mas... isso não faz
sentido.
​Dei de ombros.
​— Você é rico. Talvez quisessem cobrar um resgate, não sei. Eles devem
estar achando que sou importante para você.
​Gabriel parou de me tocar e se empertigou. Ficamos em silêncio, e eu
senti o clima pesar. Será que eu tinha falado algo de errado?
​ osse como fosse, era melhor eu ir embora. Ao menos foi a ideia
F
brilhante que meu cérebro enviou, fazendo com que eu me levantasse.
​— Gabriel, eu vou pegar um táxi e voltar para a minha casa. Posso trazer
Davi amanhã e...
​— Você ficou louca? — ele vociferou, levantando-se também. — Não vai
a lugar algum. Por sorte estava em casa e conseguiu gritar. Imagina se aquele
filho da puta ainda está à espreita e te pega pelo caminho? Vamos deixar as
coisas como estão. Ninguém tem como saber que Davi está com Nádia, e
você vai ficar aqui — ele falou com convicção, mas rapidamente ergueu um
dedo em riste. — Ou melhor... vou é te levar para um hospital. Ele te agrediu,
e você ficou inconsciente por alguns instantes.
​— Não precisa. Eu estou bem e... — Mas como a minha sorte não andava
das melhores, eu obviamente cambaleei no momento em que disse isso, tendo
que ser amparada por Gabriel antes que caísse no chão.
​Sem dizer nada, ele simplesmente me pegou no colo, encostando minha
cabeça em seu peito.
​— Vamos dar uma olhada em você, mocinha. Fazer alguns exames e
constatar se está tudo bem mesmo. No caminho você me conta o que
aconteceu, e depois vamos fazer uma denúncia. — Ele passou pelo aparador
na sala, onde deixou carteira e chave quando chegamos.
​— Não podemos ir ao hospital com você assim, sem camisa. — Não que
eu me incomodasse. Ele tinha um corpo escultural.
​Gabriel deu uma risada desanimada, e eu podia entendê-lo. Tinham
invadido a sua casa. Como poderia estar tranquilo?
​— Tenho uma no carro — explicou, enquanto me levava, carregando-me
sem nenhum esforço.
​— Mas e o apartamento? Você não vai trancar a porta? — perguntei
quando passamos por ela, vendo que ele apenas a bateu, usando o pé.
​— Eu esqueci de trancar quando chegamos, porque estava muito ocupado
pensando em fazer amor com você. Mas preciso descobrir como ele subiu.
​— Sim, mas não seria melhor trancar? — insisti, mas o elevador já estava
no andar, então ele só precisou apertar o botão para descermos.
​— Já tirei de lá de dentro o que era importante — foi tudo o que ele
respondeu.
​Será que estava falando de mim? Pelo olhar que me lançou, depois de
apertar o botão que nos levaria para a garagem subterrânea, eu poderia dizer
que sim.
​Mas eu não era importante para Gabriel. Era?
CAPÍTULO DEZESSETE
​ stava tudo bem com ela – era o que eu vinha repetindo desde que
E
voltamos do hospital. Só que já tinha amanhecido, estávamos há horas em
casa, mas mesmo assim eu não conseguia arrancar aquela sensação horrível
do meu coração.
​Alguém tentara sequestrá-la. Alguém que tinha intenções de levar Davi,
mas estava disposto a usar Beatriz para me chantagear de alguma forma.
​Claro, meu filho ou minha suposta noiva – qualquer um dos dois seria
eficaz para me extorquirem dinheiro. Ou ao menos era a única coisa que me
vinha à mente como um motivo plausível. Só que somente Alvarez sabia do
meu “compromisso”.
​Ou melhor... ele e alguns concorrentes. O que já poderia me levar a algum
lugar. Se algum deles sequestrasse meu filho ou minha noiva e me obrigasse
a desistir do negócio, eu desistiria imediatamente. Fazia sentido.
​Mas poderia haver outra razão, não? Alguma bem fora da caixinha, que
eu nunca conseguiria pensar qual era.
​Muito menos com a cabeça cheia como estava naquele momento.
​Beatriz ainda dormia na minha cama, vestindo uma camisa minha, toda
encolhida como uma menininha assustada, completamente diferente da
mulher sensual que entregara sua virgindade a mim horas atrás. Como era
possível que tudo tivesse mudado tanto? A noite começara maravilhosa e
terminara daquele jeito.
​Eu estava sentado ao lado da cama, observando-a dormir. Não tinha
pregado o olho além das poucas horinhas em que dormi depois de termos
feito amor. Cotovelos apoiados no joelho, mão apoiando a cabeça... Posição
de um derrotado. Era o que eu me sentia. Como poderia ser diferente depois
de ter permitido que alguém colocasse as mãos nela? Que alguém perturbasse
sua paz dentro da minha casa?
​Como conseguiria dormir sabendo que quem quer que tivesse invadido
meu apartamento poderia voltar? Claro que tinha o detalhe da porta que
deixei aberta por puro descuido, mas saber que o guarita dormia todos os dias
no mesmo horário, deixando o caminho livre, e que o bandido aproveitara
essa falha para render um morador e entrar era o cúmulo. Obviamente
reportei o ocorrido à administração do condomínio, e ele seria demitido.
Odiava prejudicar a vida das pessoas, mas ele quase prejudicara a minha.
​O machucado em minha boca ardia e era um lembrete constante do que
havia acontecido. O desgraçado conseguira acertar um único soco em mim.
Um único, mas poderia jurar que tinha saído bem mais ferido do que eu.
​Ainda era pouco.
​O que estava acontecendo comigo? Porque me sentia tão protetor a
respeito de Beatriz? Tudo bem, eu nunca deixaria uma mulher indefesa ser
levada por um homem com intenções cruéis, nunca permitira que algo assim
acontecesse debaixo do meu nariz, mas com ela... a situação parecia se
agravar.
​Eu já tinha decidido que Beatriz era especial, mas quanto?
​Dei uma olhada no relógio, vendo que marcava nove horas, e ela se
remexeu na cama, mas como demoramos no hospital, porque exigi que lhe
fizessem todos os exames possíveis, e como ainda levou algum tempo para
pegar no sono quando voltamos, sabia que dormiria até um pouco mais tarde,
e eu planejava deixá-la descansar. Já tinha telefonado para Nádia e explicado
a situação. A doidinha concordara em ficar com o bebê contanto que eu
cuidasse muito bem de sua amiga em troca.
​Isso era mais do que óbvio. Eu cuidaria. Não pelo pedido de Nádia, mas
porque queria. Muito.
​Sentindo as costas doerem pela posição ingrata, levantei-me e decidi
descer para tomar uma boa caneca de café. Talvez preparar algo para quando
Beatriz acordasse... Nunca fui o tipo de cara que leva café da manhã na cama
para uma mulher, mas por ela... valeria a pena.
​ o momento em que cheguei à sala, vi que meu celular estava tocando.
N
Revirei os olhos ao perceber que era Alvarez.
​Dias atrás eu sempre ficava muito animado em receber ligações dele,
porque eram um sinal de que estava empolgado em manter uma relação
comigo, em nossa parceria. Me dava a sensação de que havia uma
preferência. Daquela vez, no entanto, tudo o que eu queria era que ele
explodisse. Não conseguia tirar da cabeça a imagem dele olhando para
Beatriz com desejo. Tudo bem que não era minha namorada de verdade, mas
e se fosse? Ele pensava que era e mesmo assim a tratara com desrespeito.
​Fosse como fosse, atendi.
​A voz dele soava animada do outro lado da linha.
​— Ei, garoto. Foi muito bom conversar com você ontem, sabia?
​Deveria ser um bom sinal. Por que, então, eu me sentia tão estressado
com ele?
​— Digo o mesmo, Alvarez — menti. Eu não podia desistir do negócio.
Compraria sua empresa e depois não teria mais que lidar com ele. Faria
questão de acrescentar uma cláusula no contrato que garantisse que ele não
teria mais poder nenhum de decisão nem abertura para se intrometer em nada.
​— O que acha, então, de passarmos alguns dias em uma casa que aluguei
em Búzios. Só eu, você e nossas mulheres? Claro que você pode levar seu
bebê também. Teremos pessoas para cuidar dele por lá.
​Péssima ideia. Eu queria dizer isso, mas com essas exatas palavras seria
complicado, então precisei suavizá-las.
​— Não sei se posso me ausentar da empresa dessa forma — eu sabia que
estava soando seco, mas não podia evitar.
​— Claro que pode. Conversei com seu tio antes. Ele disse que cuida de
tudo.
​Porra, tio!
​Claro, ele não fazia ideia do que tinha acontecido na festa. Em sua
cabecinha, eu ainda estava animadíssimo para concluir o negócio.
​Bem... e ainda estava. Só que passar dias com aquele velho tarado não era
a melhor opção. Muito menos com Beatriz. Precisava encontrar uma evasiva
rapidamente.
​— É que...
​— Não quero desculpas, rapaz — Alvarez me interrompeu. — Tenho
plena convicção de que entraremos em um acordo durante esta viagem.
Sugiro que leve os contratos, porque talvez eu os assine lá mesmo.
​Estava com cara de chantagem. Muita, aliás.
​Mas eu estava lutando por essa compra há meses. Vinha conversando e
“cantando” Alvarez há muito tempo. Desistir agora seria retroceder. Tinha
designado funcionários para se dedicarem à proposta de venda, feito
mudanças em cada setor. Seriam meses de trabalho jogados no lixo. Eu não
podia fazer isso com a minha equipe. Todos estavam empolgados com essa
parceria que traria bons frutos à empresa.
​Não seria certo desistir de tudo só porque o cara ficou olhando para uma
mulher que sequer era minha. Pelo quê? Ciúmes? Seria isso?
​Eu estava com ciúmes de Beatriz?
​— Gabriel? — ele me chamou, do outro lado da linha, e eu voltei a mim.
​Seria errado prejudicar a empresa e o trabalho de vários funcionários por
causa dos meus sentimentos, não?
​— Sim, tudo bem. Vou falar com Beatriz — respondi sem muito
entusiasmo.
​— Ah, claro. A linda Beatriz. Parabéns, Gabriel. Sua noiva é uma moça
encantadora. — O nojo que senti pela forma como ele a elogiou me fez
estremecer. Cheguei a fechar a mão em punho, com vontade de socá-lo, mas,
ainda assim, tentei me controlar.
​— Sim, ela é linda.
​— Uma escolha excelente. Recatada, também. Acho que ela foi um ponto
crucial para que eu me sentisse mais compelido a assinar o contrato. Espero
que nossas famílias possam ser bem... próximas.
​Odiei também a forma como ele fez aquela proposta. Ou seria uma
insinuação?
​Provavelmente deveria ser coisa da minha cabeça, não?
​— Seja como for, vou mandar todas as informações do local para você
por Whatsapp. Partiremos depois de amanhã, mas vocês podem demorar um
pouco mais, se for necessário. Sei que viajar com um bebê não é mole.
​— Como eu disse, preciso conversar com Beatriz primeiro.
​— Ah, mas explique a situação. Diga que ela é uma grande influência
para minha assinatura. Isso provavelmente vai envaidecê-la. Sabe como são
as mulheres.
​— Mulheres são diferentes entre si, e não um estereótipo. A minha tem
bastante personalidade.
​A minha... pensar em Beatriz como algo que não fosse apenas a secretária
que levei para a cama fez meu estômago se revirar. Mas de um jeito bom.
​Eu queria que ela fosse mais. Não queria?
​— Claro, mas não pode dar muita corda, senão você vira marionete na
mão dela. Ainda mais sendo tão bonita. — Filho da puta machista! — Bem,
mas você deve saber como lidar com sua garota melhor do que eu. Até mais,
Gabriel. Espero vocês lá na casa. Vai ser ótimo.
​Eu não conseguia imaginar como poderia ser bom estar com aquele
homem. E acreditava que Beatriz não ia gostar da ideia. Se ela dissesse não,
eu iria acatar.
​Com isso em mente, preparei um sanduíche e peguei suco na geladeira. O
café poderia esperar um pouco. Com ambos em uma bandeja, subi novamente
para o quarto e a encontrei já acordada, sentada na cama, parecendo um
pouco perdida. Ela tinha voltado para casa andando, consciente, trocara de
roupa, conversara um pouco comigo antes de dormir, mas fora medicada no
hospital, e eu sabia que deveria estar ainda relembrando as coisas que tinham
acontecido.
​— Bom dia. — Coloquei-me à sua frente, sentado na cama, pousando a
bandeja entre nós.
​— Café da manhã na cama? — ela perguntou de um jeito tão doce que eu
senti vontade de beijá-la. Mas tantas coisas tinham acontecido desde que
transamos que eu já não sabia mais como lidar com o que havia entre nós.
​Talvez fosse melhor ir com calma e analisar aos poucos. Eu não tinha a
menor experiência com relacionamentos, não sabia como lidar com uma...
namorada. Muito menos com uma namorada de mentira, com quem eu tinha
acabado de fazer amor.
​Ok, as coisas tinham complicado e muito.
​— Queria ter uma bandeja mais bonita e completa para você, mas foi o
que consegui fazer — respondi dando de ombros e com um sorriso
envergonhado no rosto.
​Ela não se fez de rogada e começou a comer. Bom sinal.
​— Bea — era a primeira vez que a chamava assim. Esperava que não
tivesse problemas. — Alvarez acabou de me ligar nos chamando para passar
alguns dias com ele em Búzios. Disse que está disposto a assinar o contrato
lá.
​— Então temos que ir, não temos?
​— Não se você não quiser. Se por acaso se sentir amedrontada de passar
dias na companhia dele, eu não vou.
​— Gabriel, eu sou sua funcionária. Estou me fazendo passar por sua
namorada da mesma forma. Não tenho escolha. A última palavra é sua.
​Peguei a mão dela e a beijei, sentindo um aperto no peito por ouvi-la falar
daquela forma.
​— Nunca vai ser assim. Eu nunca vou colocar seu bem estar abaixo de
nada. Você é uma pessoa, Beatriz, um ser humano. Não pense que sou
escroto a esse ponto. — Fiz uma pausa, hesitando um pouco, mas eu não
podia deixar de falar o que ela merecia ouvir. — E é alguém especial para
mim.
​Em um rompante, Beatriz ergueu os olhos na minha direção, e eles
pareciam tão doces, vulneráveis e quase assustados. Eu não a julgava, sentia-
me da mesma forma. Tudo a respeito daquela mulher me deixava apavorado.
​— Nós podemos ir, Gabriel. Não tem problema. Ele é inconveniente, mas
não vai passar dos limites, estando você e a esposa dele lá.
​— Tudo bem, mas se mudar de ideia, me avise.
​Ela assentiu, concordando, mas ficou calada por algum tempo. Quando
voltou a falar, parecia curiosa e confusa.
— Eu sou especial para você? — sua voz saiu em um murmúrio quase
inaudível.
Nem pestanejei para responder.
​— Sim, querida, você é.
​Eu só não sabia ainda o quanto.
CAPÍTULO DEZOITO
​ casa era maravilhosa. Com uma praia particular enorme, uma vista
A
incrível em todos os cômodos, e o cheiro de maresia por toda parte era
reconfortante.
​Eu queria muito curtir o momento. Ou melhor... até curtia, embora meu
coração estivesse cheio de dúvidas.
​Havia meus sentimentos por Gabriel, nossa relação que se tornara
estranha, meu apego ao pequeno Davi – o que poderia se tornar um grande
problema quando precisasse me afastar dele –, além do inconveniente
Alvarez, que sempre encontrava uma forma de me constranger.
​Eu tentava minimizar as minhas reações a ele, porque sentia que Gabriel
estava no seu limite. Qualquer deslize do velho, ele poderia partir para algo
mais drástico, e isso não apenas prejudicaria o negócio, que eu sabia que ele
queria muito, mas também poderia colocá-lo em uma situação complicada. E
se Alvarez prestasse queixa? Ou se queimasse a reputação de Gabriel no meio
em que trabalhavam? O cara era idoso, seria um adversário vulnerável para
um homem do tamanho de Gabriel.
​Era muitos “e se”, e eu estava me afundando neles.
​A esposa de Alvarez, Mônica, era totalmente o oposto do marido.
Agradável, embora falasse pouco, gentil, mas extremamente submissa. De
alguma forma aquele tarado a mantinha a rédeas curtas, provavelmente por
conta de questão financeira, e eu comecei a observá-los me enchendo ainda
mais de ranço.
​Ela se tornava bem mais falante quando ele não estava por perto, e eu
senti uma afeição enorme, além de empatia. Ficou louca por Davi,
lamentando o fato de seu único filho já ser adulto, já noivo, mas ainda não ter
lhe dado nenhum neto.
​Naquela tarde, por exemplo – a segunda desde que tínhamos chegado à
casa –, estávamos eu, ela e o bebê, sentadas na praia, de frente para o mar,
enquanto os homens se mantinham na casa, falando sobre negócios. Eram
quase cinco horas, e em breve anoiteceria, mas o clima estava maravilhoso,
depois de um dia de sol. De banho tomado, eu sentia a brisa gostosa me tocar,
com os pés na areia, respirando ar puro.
​Davi estava no colo de Mônica, e ela brincava com ele de forma
carinhosa, o que me fez sorrir. O carinho era recíproco, porque o menino
sorria e interagia com ela.
​— Ele é tão fofinho — comentou pela milésima vez. — Bebês são tão
gostosos.
​— Sim. Nunca tive muita experiência antes de... — Eu sempre me
embolava para mentir. Precisava me lembrar que, ali, eu era mãe de Davi e
não apenas a pessoa que estava no lugar errado e na hora errada quando ele
surgiu. Uma mistura de babá com secretária de seu pai, algo que eu nunca
poderia explicar para a criança quando tivesse um pouco mais de idade para
entender. — Antes de ele nascer.
​Eu odiava mentir para uma pessoa como Mônica, mas imaginava que ela
seria leal ao marido ao ponto de lhe contar a verdade. E eu tinha que ser leal a
Gabriel.
​Ainda assim, para compensar, eu poderia tentar ajudá-la, não?
​— Posso ser indiscreta? — péssima maneira de introduzir o assunto,
mas... precisava começar de alguma forma.
​Mônica voltou-se para mim, curiosa.
​— Pode, querida. Não quer dizer que eu vá responder...
​Engoli em seco, porque ela não tinha me dado total abertura, mas sentia
que precisava fazer alguma coisa. Não podia fechar os olhos para um possível
caso de abuso.
​— Você é uma mulher incrível, só que muda completamente quando está
com seu marido. Ele parece te podar de alguma forma. Me desculpa estar
falando esse tipo de coisa, mas não consigo ficar calada quando vejo uma
injustiça.
​Mônica abaixou a cabeça, novamente mudando.
​— É o preço que pago por ter permitido que meu marido me engolisse
desde o início. Eu era secretária dele quando começamos a sair. Muito
mulherengo, e eu me apaixonei fácil. Homens experientes nos envolvem em
teias rapidamente, sabe? — Ela sorria, de forma nostálgica e melancólica,
mas eu não conseguia ter a mesma reação. O quão parecida aquela história
seria com a minha? Estava até com medo de ouvir o resto. — As coisas
foram ficando mais sérias, e eu me sentia uma sortuda por ter um cara como
ele me assumindo como sua namorada. Nós nos casamos muito rápido, eu
engravidei, e ele me pediu que parasse de trabalhar. Seria capaz de fazer tudo
o que ele pedia. Na cabeça de Julio, uma boa mulher deveria ficar em casa,
cuidar dos filhos e do marido. E eu acatei. Nem terminei a faculdade.
​— O que você estava estudando?
​Seu sorriso se alargou.
​— Engenharia. Ele achava um absurdo, especialmente porque eu era a
única moça da turma. Naquela época... imagine...
​— Sim, eu imagino.
​— Pois é. A verdade é que eu amava o que fazia. Só que Julio é muito
ciumento. Aconteceram algumas coisas que não quero que se repitam.
​Estremeci com o tom que ela assumiu.
​— Tipo o quê? — insisti, mesmo sabendo que poderia soar como uma
fofoqueira. Minha intenção era ajudar, apenas. — Você pode confiar em
mim, não vou contar para ninguém nem usar isso contra você, de forma
alguma.
​Ela olhou para mim, ponderando. Eu me sentia péssima pressionando-a
daquela forma.
​— Ele já me agrediu algumas vezes, Beatriz. Há muito tempo não faz
mais isso, porque eu passei a andar na linha, como ele mesmo diz. — Meu
Deus! Que horror! — Por isso sou calada, evito me meter em qualquer coisa.
Sei que ele tem sido inconveniente com você, mas se eu reclamar...
​— Não, por favor. Posso lidar com isso. Mas por que você não se separa?
​— Não é tão simples. Homens como Julio, muito ricos, acabam tendo um
poder sobre uma mulher como eu, que veio do nada. Não tenho família. Para
onde eu iria?
​— E seu filho?
​— Não! Não quero envolvê-lo nisso. Ele idolatra o pai, mas o odiaria se
descobrisse o mal que me faz. Não posso ser a causadora de um atrito entre
eles.
​— Mas, Mônica! Ele tem o direito de saber. De poder te defender. Se
fosse a minha mãe, eu...
​— Por favor, Beatriz! Não faça isso. Eu já sofro demais todos os dias.
Vamos apenas viver momentos de paz aqui e agora.
​Foi a deixa para que eu me calasse. Só que meu coração já estava
despedaçado por aquela mulher.
​Uma lágrima caía de seus olhos enquanto ela voltava a brincar com Davi
como se nada tivesse acontecido. Certamente era perita em mascarar suas
emoções para fingir que era feliz, mas toda a sua tristeza era perceptível para
alguém que a olhasse verdadeiramente.
​Quantos outros amigos e colegas de trabalho teriam percebido e ficado
calados? Quantos sequer tinham olhado para ela com atenção?
​Foi então que me dei conta. Isso poderia acontecer comigo se eu ficasse
com Gabriel para valer? Será que eu me tornaria a mulher invisível, apenas a
namorada do poderoso Gabriel Grecco? E depois a esposa... e...
​Peraí, Beatriz! O que você está pensando? Que esposa o quê? O cara
apenas tirou sua virgindade, te levou café na cama e estava te pagando para
ser a namorada de mentira dele. Ele estava te alugando por um tempo.
Quando não precisasse mais de sua brilhante atuação, cada um de vocês iria
para um lado. Provavelmente nem secretária mais você seria.
​Aquela história acabaria muito mais rápido do que eu sequer poderia
imaginar.
​Por que estava pensando tanto?
​Ainda assim, foi mais um incômodo que entrou para a minha lista.
​Quando voltamos para a casa, algumas horas depois, antes do jantar, eu
fui direto ao quarto que dividia com Gabriel para passar momentos sozinha.
Não pretendia demorar muito, porque estava com fome e não queria atrasar a
refeição dos outros, mas precisava jogar uma água no rosto e me acalmar.
​Em poucos instantes perceberia que estava surtando sem nenhum motivo.
​Fui à suíte do quarto, não deixando de olhar para a cama que tinha
dividido com Gabriel naquela noite. Ele não me tocou, não tentou sequer me
seduzir, mas me puxou para seus braços e dormimos abraçados. Foi algo
ainda mais íntimo do que o sexo que fizemos daquela vez – e que não se
repetira até aquele momento –, mas foi bom. Ele me fez sentir protegida, e
isso era perigoso. Era algo com o qual eu não podia me acostumar.
​ eguei um pouco de água, nas duas mãos em concha, e levei ao rosto,
P
molhando-o um pouco, esperando que isso me fizesse acordar. Eu não estava
vivendo um sonho. Era a realidade. E na realidade secretárias virgens – ou
ex-virgens, no caso – não ganhavam o coração de um chefe gato. Precisava
me colocar no meu lugar.
​Ouvi um som de porta se abrindo, se fechando e da mesma sendo
trancada. Imaginei que pudesse ser Gabriel, embora fosse uma atitude um
pouco estranha. Só que no momento em que fui para o quarto, deparei-me
com Alvarez.
​Ele e sua expressão maliciosa que me causava arrepios.
​— Enfim sós, lindinha.
​Respirei fundo, sentindo o pânico me atormentar.
​— O que o senhor quer? — perguntei em um fio de voz, odiando a minha
fragilidade.
​— Um pouquinho da sua atenção. Sabe, Beatriz... seu namoradinho quer
muito comprar a minha empresa, e eu posso facilitar as coisas para ele se
você facilitar para mim também. — Ele deu um passo à frente, e eu recuei.
​— Não estou entendendo...
​— Não se faça de sonsa. Sabe o que eu quero. Tem esse jeitinho recatado,
mas soube fazer um filho em um ricaço e garantir grana para o resto da vida.
Conheço seu tipinho.
​Dei mais um passo para trás.
​— O senhor não me conhece. Não pode falar de mim desse jeito — falei
com raiva. Quem ele pensava que era para me julgar?
​Mas o que eu poderia esperar de alguém que agredia a própria esposa?
​— Eu sei muito bem o que estou falando. E quero um pouquinho do que
você deu a Gabriel. Prometo te fazer gostar.
​Daquela vez ele estendeu a mão, agarrando meu punho e me puxando
para si.
​— Seja boazinha e vou recompensar a você e ao seu namorado.
​Meu Deus... ele ia... ia...?
​Eu não podia permitir. Mas o que poderia fazer?
CAPÍTULO DEZENOVE
​ avi fazia gracinhas para Mônica, no meu colo. Ele tinha mesmo gostado
D
da mulher, mas eu precisava admitir que era bem mais agradável que o
marido. Sem comparação, aliás.
​Com sua pouca idade, meu bebê ainda não sabia fazer certas coisas, mas
ria, mostrava os dentinhos e imitava alguns sons, da forma como conseguia.
Era esperto, e eu me sentia como um pai orgulhoso, mesmo sem saber se ele
era meu.
​Já deveria ter feito o exame de DNA, mas tantas coisas foram
acontecendo ao longo do caminho que isso foi ficando em segundo plano. Já
havia um berço na minha casa para ele, além de várias coisas que um
bebezinho de sua idade necessitava. O problema era que... aquele pequeno
detalhe começava a não fazer diferença. Se era ou não meu filho biológico,
não importava. Meu coração já pertencia a ele. Eu já tinha me tornado seu pai
e estava pronto para lutar por aquele garotinho.
​Talvez eu estivesse sem coragem de buscar a comprovação.
​A gargalhada gostosa de Davi foi subitamente cortada por um grito.
​Era como um déjà vu. Reconhecia a voz de Beatriz, e a última vez que
aquilo acontecera, eu a encontrei ferida, quase sendo sequestrada por alguém.
​Não, de novo, não!
​A lembrança da expressão apavorada de Beatriz naquele dia e o medo que
tive de não conseguir protegê-la ainda me assombrava. Era exatamente isso
que me deixava tão confuso a respeito de meus sentimentos. Seriam eles
assim tão relevantes ao ponto de eu não querer perdê-la?
​Fosse como fosse, naquele momento, ela parecia estar novamente em
apuros.
​Sem hesitar, entreguei o bebê a Mônica, que o pegou igualmente
assustada, e saí correndo, subindo os degraus de dois em dois, em direção ao
som que ouvi.
​Beatriz não estava mais gritando, mas eu ouvia vozes. Depois ouvi o som
de algo quebrando, o que me deixou desesperado. Os barulhos vinham do
quarto onde eu estava dormindo com ela e Davi.
​— Beatriz? — chamei, forçando a maçaneta. — O que está acontecendo?
​Só que ela não respondeu. Ainda assim, havia movimento dentro do
quarto. Dava para ouvir.
​Eu não podia contar com a sorte.
​Tentei girar a maçaneta novamente, mas a porta estava trancada. O jeito
era arrombar.
​Tomando distância, enfiei o pé na madeira uma, duas vezes, tendo
sucesso na segunda tentativa.
​Quando entrei no quarto, deparei-me com a cena mais estranha possível.
Uma Beatriz trêmula e pálida segurava um caco de um vaso na mão, que
sangrava. À sua frente, Alvarez, em posição de rendição, parecia irritado, e
havia um corte em seu braço.
​— Que bom que apareceu, Gabriel! Sua noiva é louca! Eu estava
passando pelo corredor e a ouvi me chamar, pedindo ajuda, mas quando
entrei ela me agarrou, agora está fazendo essa ceninha.
​Olhei para Beatriz, obviamente não acreditando em uma única palavra
que aquele velho asqueroso dizia, mas a mulher não reagia. Seus olhos
estavam fixos em Alvarez, como se estivesse em total alerta, temendo que ele
a surpreendesse.
​— O que você fez com ela? — perguntei por entre dentes.
​— Eu? — Ele se fez de vítima. — A garota é louca. Eu só quis ajudar e...
​— Mentira — a vozinha doce de Beatriz soou quase como um
choramingo. Suas mãos tremiam. Ela inteira tremia. — Ele me agarrou... eu...
eu só... me defendi — gaguejou.
​Não que eu duvidasse, mas ouvir de sua boca que novamente passara por
algo traumático por minha causa era de partir o coração.
​ eu não podia deixar barato. Voei em cima do filho da puta e o soquei
E
com força, desejando que valesse por todo o constrangimento que ele a fez
passar até aquele momento. O segundo soco valeu por todo o resto.
​O velho caiu sobre a cama, manchando a colcha de sangue.
​Ainda era pouco. Nada era mais desprezível do que um estuprador. E pelo
que Beatriz tinha falado, era isso que ele era.
​— Você vai se arrepender, garoto. Pensa que ainda vou assinar aquele
contrato depois disso? — Alvarez perguntou, levando a mão ao machucado
de sua boca, que não era nada perto do ferimento que provavelmente Beatriz
tinha lhe causado. Não que este fosse tão grave quanto o desgraçado merecia,
mas esperava que estivesse doendo bastante.
​— O que te faz pensar que quero alguma coisa que venha de você? Se
tivesse assinado aquela merda de contrato, eu o rasgaria em pedacinhos agora
mesmo. Tão conservador... tão cheio de si... mas não quando tem a ver com
colocar as mãos numa mulher que não te deu permissão para isso, né? —
vociferei.
​— Ela estava pedindo. Se exibindo naquele biquíni minúsculo. Uma
mulher não pode ser bonita assim e ter um corpo desses sem querer ser
assediada. É da nossa natureza, você sabe disso, Gabriel.
​Não tive piedade, parti para cima dele com a mão em punho e o soquei
novamente.
​Que porra de pensamento machista, de homem nojento que queria
encontrar justificativa para um crime.
​Ergui o dedo em riste, aproximando-me dele e tentando parecer
ameaçador.
​— Tente encostar nela novamente, e eu vou te mostrar outro tipo de
natureza que é típica de nós, homens — daquela vez minha voz saiu como
um rosnado. Eu temia minhas próprias atitudes, por isso me afastei,
preocupando-me com Beatriz.
​Ela ainda estava parada, com o pedaço do vaso na mão, tremendo e
olhando para o homem na cama, como se este pudesse pular dali em cima
dela.
​— Bea, querida... me dá esse caco. Você está se machucando — alertei
quando percebi que ela estava segurando o objeto com tanta força que este
estava cortando sua mão. Só que não houve nenhuma reação da parte dela.
Isso me apavorava. Decidi insistir: — Querida, por favor, me entregue o que
você tem na mão.
​ ó que ela novamente não fez nada. Olhei ao meu redor e fui ao banheiro,
S
pegando a toalha de rosto. Voltei para perto de Beatriz e, com todo cuidado,
retirei o caco de sua mão, jogando-o longe e colocando o pano no lugar dele,
estancando o sangue. Não era nada alarmante, apenas cortes superficiais, mas
eu odiava ver que estava machucada por causa daquele velho nojento.
​E onde eu estive todo aquele tempo que não percebi que os dois tinham
sumido? Ela era minha responsabilidade enquanto estivesse comigo. O quão
merda eu iria me sentir depois, quando a levasse para um lugar seguro e
pudesse pensar no que tinha acontecido? Meus pensamentos seriam uma
bosta.
​Quando ergui os olhos, vi Mônica na porta, segurando Davi, horrorizada.
Ela olhava para o marido com nojo. Esperava que estivesse do nosso lado.
​— Mônica, preciso que me ajude. Fique um pouco com Davi enquanto
levo Beatriz para o carro, tudo bem? Depois vou pedir que faça companhia a
ela enquanto pego nossas coisas. — Para a minha sorte, deixamos tudo dentro
das malas, era só fechá-las e partir.
​— Você vai ficar aqui, Mônica. Não vai ajudar esses loucos, viram o que
fizeram com seu marido. — A mulher pareceu incerta, amedrontada. A
explicação para isso veio logo em seguida: — Se fizer o que este babaca está
pedindo, já sabe o que vai acontecer...
​O filho da puta estava mesmo ameaçando a esposa na minha frente? Meu
Deus, era com aquele tipo de pessoa que eu ia fazer negócios?
​— Mônica... — Virei-me para ela, chamando sua atenção para mim. —
Venha comigo. Não posso deixá-la aqui com esse louco. Daremos um jeito.
Você pode trabalhar para mim por um tempo... Davi precisa de uma babá —
foi a primeira coisa que pensei. Ela era tão boa para o menino, e ele gostava
dela.
​— Uma babá? Uma mulher da sua posição social? Você a ofende, garoto!
— Alvarez cuspiu.
​— Sei que não é equivalente à sua posição, mas pretendo pagar um bom
salário e você ficaria segura. Não vou deixar que esse louco te machuque
enquanto estiver comigo. Pode até ficar na minha casa por um tempo. Só saia
daqui conosco.
​Mônica hesitava, ainda com meu bebê no colo, e eu queria tirar Beatriz
dali. Mas não podia apressá-la. Eu não sabia o que se passava naquele
casamento, mas tinha a impressão de que a mulher era oprimida de todas as
formas.
​ Eu vou — ela respondeu depois de alguns minutos, e eu respirei

aliviado.
​Sem esperar mais nada, peguei Beatriz no colo, para apressar as coisas, e
fiz um sinal com a cabeça para que Mônica me seguisse. Alvarez ficou
praguejando, vindo atrás de nós, mas me voltei para ele com uma expressão
ameaçadora:
​— Se nos seguir, eu vou te enfiar tanta porrada que não vai nem
conseguir se levantar do chão. E não pense que vamos deixar isso assim.
Vamos prestar queixa.
​Ele continuou falando, mas não lhe dei atenção. Beatriz aninhou-se em
meu peito, e a outra mulher nos seguia com meu bebê nos braços. Davi
chorava, como se entendesse o que estava acontecendo, e eu mal sabia o que
fazer. Precisava proteger os três, mas temia não dar conta.
​Mônica abriu o carro para mim, e eu coloquei Beatriz sentada no banco
do carona, e deixei tanto ela quanto meu filho com a esposa do homem que
eu passara a odiar. Entrei na casa, passando pelo raivoso Alvarez, que me
seguiu, gritando impropérios de que iria me acusar de sequestro e tudo o
mais. Falava tanto, me dando nos nervos, que virei em sua direção,
acertando-lhe mais um soco, fazendo-o apagar.
​Eu deveria sentir remorso, porque era um homem bem mais velho, mas o
sujeito merecia.
​Aproveitando que estava sozinho, arrumei o que precisava, pegando a
mala de Mônica também, e saí da casa, levando tudo.
Ao chegar lá fora, Mônica já estava no banco de trás e tinha prendido
Davi na cadeirinha que comprei antes da viagem. Tudo o que precisei fazer
foi colocar as malas no bagageiro, me sentar no banco do motorista e
começar a dirigir, tudo isso em silêncio.
Mônica foi quem quebrou o silêncio.
— Eu tenho uma amiga aqui em Búzios, ela vai me receber. Se você
puder me levar à casa dela...
— É melhor que fique conosco, não é? — perguntei, preocupado.
— Eu vou mesmo aceitar o emprego, Gabriel, mas neste momento
preciso estar com alguém conhecido. Alguém em quem confie. Não é que
não confie em você, mas estou assustada com a decisão que tomei, quero
conversar com alguém que me conhece e que sabe da situação.
— Essa amiga sabe?
— Sim, de tudo. Eu morava aqui antes de ir para o Rio e, depois, para
Houston, com Julio.
— Ok, vou te deixar lá, mas quero que anote o meu telefone. Amanhã
à tarde sairemos de Búzios, assim que Beatriz se recuperar, e vamos levá-la,
se quiser.
— Pode deixar.
Eu esperava que ela realmente fosse conosco.
Aliás, eu esperava muitas coisas. Como era possível que tivéssemos
chegado àquele ponto?
CAPÍTULO VINTE
​ hotel ficava à beira da praia e parecia bem luxuoso. Um pouco
O
desnecessário, talvez, levando em consideração que seria apenas um refúgio
depois de uma situação complicada e que voltaríamos no dia seguinte, mas
imaginava que Gabriel não abria mão de certas coisas.
​Naquele momento, Davi dormia no berço providenciado pelo próprio
hotel, enquanto ele me abraçava dentro da banheira, mantendo-me muito
próxima e praticamente dentro de um casulo formado por seus braços.
​Senti um beijo em meu ombro, cálido e seguido por um suspiro, e foi o
único som em uns bons minutos. Ele estava me deixando apenas remoer a
situação. Se eu quisesse falar sobre meus sentimentos, Gabriel ouviria e
estaria lá para me confortar. Era uma presença forte e reconfortante.
​— Não vou quebrar, sabia? — falei em um tom de brincadeira, tentando
sorrir. — O pior não aconteceu. Você chegou a tempo, meu herói.
​— Eu? Pelo amor de Deus, Beatriz! Você já tinha feito metade do
trabalho. — Ao dizer isso, pegou minha mão, beijando o curativo que ele
mesmo fizera pouco antes de me colocar na banheira.
​Subi ao quarto de hotel nos meus próprios pés, e ainda carregando Davi –
porque insisti que estava em plenas condições –, mas quando chegamos, ele
me tratou como uma peça de cristal. Tirou a minha roupa, visivelmente sem
intenções sexuais, e me carregou no colo à banheira. Cada uma dessas coisas,
cada detalhe, me levava a um caminho sem volta.
​Eu estava completamente apaixonada.
​— Você é muito corajosa, querida — disse e deixou outro beijo no outro
ombro, me fazendo estremecer.
​De início, mal me dei conta de nossa proximidade e nossa nudez, do pau
de Gabriel duro atrás de mim, tocando minhas costas. Ele estava excitado,
mas tomando todo o cuidado para não insinuar que estava me vendo de forma
erótica naquele momento.
​Isso deveria ser levado em consideração.
​Reunindo toda a minha coragem, peguei as duas mãos de Gabriel e as
levei aos meus seios, passando um recado muito claro.
​— Beatriz, eu não sei se... — ele sussurrou no meu ouvido, inseguro.
​— Você não quer?
​— Acho que é bem evidente o meu desejo por você, mas não quero me
aproveitar da sua fragilidade.
​Sorri, compreendendo que Gabriel era um homem muito melhor do que
sempre suspeitei.
​— Novamente, não vou quebrar. Além do mais, você sabe o que poderia
ter acontecido hoje. Não quero pensar em um homem colocando as mãos em
mim sem meu consentimento, por isso quero que faça amor comigo para
afastar as imagens que estão surgindo na minha cabeça. Elas não são
bonitas... — Virei a cabeça na direção de Gabriel, olhos nos olhos. — Me dê
lembranças bonitas, Gabriel. Por favor.
​Eu não queria pedir daquela forma, suplicante. Ainda era um tabu para
mim, eu não sabia me insinuar, muito menos para um homem experiente
como Gabriel, mas esperava que acatasse o pedido. Como ele mesmo disse, o
desejo por mim era evidente e pareceu se tornar ainda maior quando tocou
meus seios.
​— Darei, querida. Prometo.
​Então seus dedos se prenderam aos meus mamilos, girando-os e
deixando-os duros como pedra. Minha cabeça tombou para trás, caindo em
seus ombros, e eu soltei um suspiro, sentindo o vale entre minhas pernas
latejar em uma resposta muito mais efusiva ao toque de Gabriel do que
imaginei.
​Remexi-me na banheira, sentindo a água, em um estado entre morna e
fria, imitar meus movimentos e ondular, causando ainda mais sensações.
​Os lábios de Gabriel caíram em meu pescoço, beijando-o, descendo uma
trilha por toda a sua extensão, usando a língua e deixando minha pele
arrepiada. Subiu novamente, chegando à minha orelha, mordendo-a e
encontrando um ponto muito sensível logo atrás dela, que ele lambeu de
forma sensual.
​Uma de suas mãos deixou um dos seios e foi escorrendo bem devagar, até
que encontrou meu clitóris, que ele preguiçosamente começou a massagear,
fazendo meu corpo se contorcer com a deliciosa tortura. Gabriel parecia não
ter pressa, ele apenas tomava seu tempo, estimulando-me e realmente me
fazendo esquecer todo o drama daquela noite.
​Quando seu dedo invadiu-me de forma completamente súbita, eu arfei em
meio a um gemido lento e involuntário, que fez Gabriel soltar um rosnado
sexy.
​— Eu fico louco te ouvindo assim.
​Mal consegui responder, apenas continuei aproveitando a sensação
maravilhosa que ele me proporcionava. Ele havia retirado seu dedo de dentro
de mim e passara a brincar com minha entrada, que estava úmida não apenas
da água da banheira, mas completamente lubrificada. Quando estocou
novamente, foi um momento inesperado, e ele chegou tão fundo que eu gritei.
​Droga! Tinha um bebê dormindo no cômodo logo ao lado. E se ele
acordasse?
​Só que mal tive tempo ou discernimento para pensar nisso, porque
Gabriel investiu mais uma vez. Investiu com tudo, enquanto novamente
mordia a minha orelha e sua outra mão puxava o bico do meu seio com força,
mas sem me causar dor, apenas um desejo desesperado de ser possuída por
ele, sem delicadeza, sem o cuidado das primeiras vezes.
​Algo me dizia que Gabriel podia ser tão bom amante de uma forma mais
gentil, como fora quando tirara a minha virgindade, como com um pouco
mais de brutalidade. Talvez estivesse na hora de eu experimentar essa
segunda faceta.
​Novamente, tentando engolir meus pudores, ergui-me um pouco e revirei
meus quadris para que estes roçassem em sua ereção. Ele soltou um gemido
gutural, vindo do fundo da garganta, que era quase selvagem.
​— Que menina má você sabe ser, Beatriz. Vou ter que ser malvado com
você também — ele falou com um tom sacana. Então sua voz adquiriu uma
nota de comando: — Vire-se para mim e ajoelhe-se no chão da banheira.
​Hesitei um pouco, porque não fazia ideia do que ele poderia estar
querendo, mas imaginei que tinha planos.
​ iz o que ordenou, e ele pegou ambas as minhas mãos, colocando-as nas
F
bordas da banheira.
​— Não as tire daí.
​Assenti, e ele se aproximou um pouco mais de mim, tomando um dos
meus mamilos na boca e o outro novamente na ponta dos dedos. A outra mão
ocupou-se de voltar a me masturbar, e eu senti seu dedo indo tão fundo que
mal parecia possível.
​A combinação de tudo o que ele estava fazendo era cruel. No melhor
sentido da palavra.
​Eu sentia como se meu corpo estivesse sendo queimado de dentro para
fora, mas a sensação era sublime.
​Se eu soubesse que apareceria um homem na minha vida como Gabriel,
capaz de despertar o meu corpo daquela forma, eu não teria me mantido
virgem por tanto tempo.
​Quase ri com meu pensamento, mas mais uma estocada forte de dois de
seus dedos me impediu. O riso transformou-se em mais um gemido alto.
​A boca de Gabriel abandonou meu seio e veio direto à minha, beijando-
me. Rapidamente tornamo-nos uma confusão de línguas, e eu mal tinha
coordenação para corresponder ao beijo, enquanto ele usava suas mãos para
me enlouquecer. As minhas mantinham-se firmes nas bordas da banheira, até
que tomei a liberdade de tocá-lo também.
​Tomei seu pau em uma delas, grosso, duro e grande, acariciando-o de
forma tímida e inexperiente. A resposta dele foi agarrar o coque que fiz, com
a mão que ainda tocava meu seio, soltando meus cabelos, fazendo os fios
vermelhos caírem pelos meus ombros, tocando a água. Então seus dedos se
embolaram nas mechas, pegando-as com força.
​Os sons que ele fazia, o beijo, nossas respirações, o meu coração
acelerado... tudo aquilo serviu para me elevar e me fazer me perder em todos
os sentimentos. Não apenas no tesão ou na luxúria, mas no quanto ele estava
se tornando especial para mim. E eu nem sabia aonde aquilo tudo iria nos
levar.
​Foi tudo tão intenso que não demorei a gozar.
​Envolta na bruma do meu prazer, fui me dando conta de ser tirada da
banheira com cuidado, enrolada em uma toalha, e ele me secou. Deixou-me
sentada um pouco no vaso sanitário, com a tampa fechada, enquanto se
secava também, até que me pegou no colo e me levou para a cama, deitando-
me nela.
​ oi até sua mala, pegando uma camisinha, retornando para perto de mim,
F
subindo na cama e colocando-se sobre o meu corpo.
​— Certeza? — ele perguntou, como fizera na minha primeira vez, e eu
assenti. Aquele era um caminho sem volta.
​Vi quando pôs a camisinha e me enchi de expectativa, só que nada me
preparava para a sensação de tê-lo inteiro dentro de mim, preenchendo-me,
esticando-me e deslizando carne com carne. Quando chegou bem fundo,
controlei um pouco o gemido, porque Davi estava no cômodo anexo, e
continuei me contendo enquanto ele investia.
​A velocidade e a força de suas estocadas aumentavam conforme eu sentia
que o desejo entre nós ia se tornando mais e mais avassalador. Conforme
nossos corpos iam se entendendo mais e mais, conhecendo-se e tornando-se
parte um do outro.
​Gabriel reivindicou meus lábios novamente, beijando-me daquele jeito
insano, enquanto fazia misérias com o meu discernimento.
​Ele tomou seu tempo, fazendo amor comigo como se não tivéssemos
pressa, embora houvesse um senso de urgência em seus movimentos, como
se não conseguisse se satisfazer. Como se precisasse de mais e mais e mais.
​— Goza pra mim, linda. Goza comigo — ele pediu, e isso foi definitivo.
​Não pude mais me conter. Não queria me conter.
​Com um gemido que evidenciava todo o prazer que ele estava me
proporcionando, atingi um orgasmo avassalador, enquanto Gabriel fazia o
mesmo, em meio a grunhidos muito sensuais e masculinos. Seu corpo
musculoso e pesado quase desabou sobre mim, mas ele teve o cuidado de se
sustentar nos cotovelos, enquanto seus olhos se fixavam nos meus.
Surpreendentemente não havia apenas desejo neles.
​E suas palavras comprovaram isso:
​— Fica comigo. Vamos transformar esse namoro de mentira em algo real.
​Aquilo me surpreendeu.
​— Você quer... ficar comigo? — quase gaguejei.
​— Todos os dias, toda hora. Estou me desconhecendo perto de você, mas
me sinto uma pessoa melhor. E eu quero ser melhor. Para você e para o meu
filho. Quero os dois na minha vida.
​Foi como se um peso tivesse saído do meu peito. Algo que eu nem sabia
que estava dentro de mim, mas que foi libertado. Como se uma luz perfeita
invadisse meu coração, libertando-o das dúvidas.
​Aquilo era o certo. Eu e Gabriel. E Davi, é claro – aquele bebezinho lindo
que, de certa forma, nos uniu. Podíamos ser bons juntos.
​— Também quero ficar com você.
​A resposta de Gabriel foi um sorriso charmoso e um beijo.
​O início de algo que eu esperava que fosse muito especial.
CAPÍTULO VINTE E UM
TRÊS MESES DEPOIS

​ ós voltamos para casa no dia seguinte, levando Mônica conosco. E


N
Beatriz também foi para o meu apartamento.
​Sim, ela tinha concordado em passar algum tempo comigo. Eu sabia que
as coisas estavam andando rápido demais entre nós, mas ela fora ameaçada
debaixo do meu nariz. Se não conseguissem acesso a Davi, poderiam
procurá-la, e eu me sentia melhor tendo-a por perto.
​Não apenas por uma questão de proteção, mas porque... era maravilhoso
chegar em casa todos os dias e tê-la me esperando.
​Os dois, aliás.
​Minha rotina mudara completamente depois que um filho foi literalmente
jogado no meu colo. Nada mais de baladas, de happy hours, de fins de
semana com mulheres diferentes na minha cama. Sempre pensei que odiaria
perder esse estilo de vida, mas foi o contrário. Eu estava adorando cada
segundo dos dias preguiçosos que passava com meu filho e minha garota; das
noites em que jantávamos juntos, que conversávamos no sofá e que íamos
dormir, não sem antes fazer amor.
​Era uma vida nada ruim. Jurei que iria enjoar dela, mas já estávamos
brincando de casinha há três meses, e eu não conseguia não me sentir
maravilhado com cada descoberta de cada dia.
​Quebrei o acordo com Alvarez, conforme disse que iria fazer, e fiz um
telefone sem fio a respeito de sua conduta, tanto com a esposa quanto com
Beatriz, fazendo vários dos possíveis compradores de sua empresa desistirem
do negócio. Ele perdera as melhores ofertas. Claro que ainda conseguiria um
bom valor, mas bem abaixo do que eu mesmo lhe propus.
​Ele ainda importunava Mônica, mas ela dera entrada no divórcio litigioso
com ajuda do filho, que era advogado. O rapaz ficara indignado quando nos
visitara, uma semana depois do incidente em Búzios, e tudo lhe fora relatado.
​Beatriz não quisera continuar trabalhando para mim, não sendo minha
namorada, e nós tivemos que entrar em alguns acordos. Um deles era que me
deixasse pagar a cirurgia de sua avó. Ela até topou, contanto que fosse um
empréstimo. Jurava todos os dias que iria me pagar.
​No lugar dela, na Grecco’s, contratei Mônica. Pensamos que seria uma
melhor opção do que mantê-la como babá de Davi, já que eu realmente
precisava de alguém. Nádia não podia permanecer muito mais tempo sem
assumir sua nova função. Em retribuição, o filho dela ofereceu emprego a
Beatriz, também como sua secretária, mas podendo trabalhar em home-office,
já que ele ainda estava montando um escritório, depois de sair de uma grande
empresa. Naquele primeiro momento, Beatriz só precisava revisar alguns
documentos, redigir e-mails, cuidar da agenda dele, e tudo podia ser feito
remotamente. Isso era bom, já que eu ainda estava um pouco assustado com
sua segurança. Assim, também, podia me ajudar com Davi – embora eu
continuasse insistindo em contratar uma babá, apesar dos protestos dela.
​Era um diabo de uma mulher teimosa, mas eu estava completamente
apaixonado.
​Ao menos permitira que eu contratasse uma pessoa para cuidar da casa.
​O sorriso que ela abria quando me via chegar – como naquele momento –
era o meu combustível todos os dias.
​Mesmo preocupada com a operação da avó, que aconteceria dali a poucas
semanas, nunca deixava o clima pesar, nem para mim nem para meu filho.
Era perfeita em todos os sentidos.
​Enquanto se preocupava com a avó, eu me preocupava com ela. Ainda
não tínhamos novidades sobre a invasão do apartamento, e não fazíamos
ideia de quem poderia ter sido. Eu ainda suspeitava de Alvarez, mas Beatriz
alegara que ele não tinha motivos. Mas quem poderia ser?
​Fora isso, as coisas estavam indo muito bem entre nós. Beatriz não
apenas entendia como também incentivava minha decisão de não fazer DNA.
Qualquer um poderia me chamar de idiota, por, talvez, estar disposto a criar o
filho de outro homem, mas Davi se tornara meu no momento em que o
peguei nos braços pela primeira vez. Em seu primeiro sorriso para mim, no
instante em que uma ligação que transcendia as leis do sangue e da biologia
fora criada entre nós.
​Davi era meu filho. Eu não precisava de um exame para comprovar isso.
​Aproximei-me de Beatriz, que estava no chão da sala, rodeada por
brinquedos e por um bebê de nove meses que exigia toda a sua atenção,
inclinando-me para beijá-la. Era sempre doce fazer isso.
​Quem diria que um dia eu me tornaria um homem de uma mulher só?
​— Tarde animada? — perguntei para ela.
​— Sim! Como sempre. Essa coisinha aqui tem muita energia. — Beatriz
estendeu os braços, fazendo cosquinhas em Davi que começou a gargalhar,
preenchendo a casa com o som que se tornara o meu favorito.
​Não conseguindo resistir à cena, ergui um pouco o tecido da calça social
que usava e sentei-me ao chão, junto a eles. Eu nunca tinha feito isso antes,
sempre tomava um banho primeiro, tentava ficar mais confortável, mas
naquele momento quis participar.
​Já sentado, agarrei a gravata e tirei-a em um puxão, depois me desfiz do
blazer. Ao erguer os olhos, percebi que os de Beatriz estavam famintos em
mim.
​— O que foi? — indaguei provocador.
​— Não é lá muito desagradável olhar para você fazendo esse tipo de
coisa, sabe? — Era encantador vê-la, aos poucos, perdendo a timidez comigo.
​— Hum, então a senhorita está interessada em um striptease completo?
Posso providenciar. Quer uma porção de fritas para acompanhar?
​Beatriz lançou a cabeça para trás, rindo como uma garotinha, e eu jurei
que aquela era a visão que eu queria guardar para sempre: minha linda
mulher rindo, feliz, e meu garotinho ao nosso redor.
​Uma família.
​O pensamento veio como um flash, atingindo-me na cabeça e no peito ao
ponto de me assustar.
​Era isso que eu queria? Mas não era cedo demais para pensar em tais
coisas? Estávamos morando juntos há três meses, e não era como se eu já
tivesse revelado meus sentimentos. Beatriz também não o fizera, sequer
contara para sua mãe e avó que estava namorando o chefe. Na verdade, ela
não mencionara namoro com ninguém.
​Ainda assim... quando eu pensava em perdê-la...
​Não, eu preferia nem pensar e...
​— Papá... — fui interrompido por uma vozinha doce, inesperada, e por
uma mãozinha agarrando a minha camisa.
​O susto foi tanto que eu voltei minha cabeça na direção de Davi – que se
inclinava todo para mim – como se ela fosse um chicote.
​— Ele... falou? — minha voz saiu como nada mais que um sussurro,
porque eu sequer tinha forças.
​Beatriz não respondeu de imediato, e eu precisei olhar para ela também,
percebendo que seus olhos estavam começando a marejar.
​— Eu venho treinando com ele há alguns dias. Senti que começou a
balbuciar algumas coisas, então quis fazer uma surpresa para você, mas não
esperei que fosse acontecer tão rápido.
​Poderia jurar que ouvi tudo o que ela falou, mas demorei a processar as
palavras. Àquela altura, Davi já tinha se arrastado até mim e começado a
escalar minha perna. Peguei-o nos braços, ainda atordoado, e quando
estávamos cara a cara, olhos nos olhos, ele repetiu:
​— Papá...
​Naquele momento, nada parecia mais lindo do que o meu filho. O meu
menininho, nos meus braços, me chamando de papai pela primeira vez. Nada
mais importava ao redor – no máximo a linda mulher que me proporcionara
aquele momento, pensando sempre com toda a sua doçura e seu jeito
atencioso.
​Meu mundo inteiro estava ali. Eu não precisava mais de dinheiro, de
prestígio, muito menos de comprar a empresa milionária de um velho tarado
que merecia era estar na cadeia. Eu só queria aqueles dois ao meu lado – a
garota que ganhou meu coração e meu bebê.
​— Sim, filho. Eu sou seu papai. — Puxei-o contra o meu peito,
encostando sua cabecinha em meu ombro, sentindo seu cheirinho de bebê.
Ele era meu. Ninguém iria tirá-lo de mim.
​Olhei de soslaio para Beatriz e vi que erguia a mão ao rosto para secar
uma lágrima. Sua respiração estava irregular, e eu sentia que segurava um
choro mais efusivo.
​Estendi a mão para ela, que logo pegou. Levei-a à boca, beijando-a.
Queria agradecê-la por tantas coisas, mas não encontrava palavras. Não era
apenas aquele pequeno detalhe de ter me dado o presente de ouvir Davi me
chamando de papai, mas por tudo. Ela estivera ao meu lado desde o primeiro
momento, nunca me abandonara, e fora quem me dera força, mesmo
inconscientemente, para me tornar a pessoa que eu nunca imaginei que queria
ser, mas que se provou ser a melhor versão de mim.
​Ela merecia essa versão.
​Havia coisas que eu poderia e queria dizer a ela, mas não sabia se era o
momento. Aquela era a primeira vitória de Davi, e eu não queria misturar as
lembranças.
​Em breve... Em breve Beatriz saberia tudo o que eu sentia por ela.
CAPÍTULO VINTE E DOIS
​ epois de uma noite maravilhosa, de ser chamado de papai pela primeira
D
vez, o dia seguinte foi permeado por reuniões atrás de reuniões. Eu sabia que
ter rompido o negócio com Alvarez poderia ser prejudicial à empresa, por
tanto tempo perdido, por isso precisávamos correr contra o tempo. Já fazia
três meses que estávamos tentando compensar e, finalmente, as coisas
começavam a entrar nos eixos.
​Foi cansativo, mas saí da última delas com a esperança renovada de que
tudo daria certo a partir dali. Não que as perspectivas fossem ruins. Na
verdade não houve qualquer prejuízo para a Grecco’s Adventure, mas todos
estavam muito animados com a perspectiva de estarmos linkados a outra
empresa forte. Só que isso não iria nos derrubar.
​Ainda conversava com meu tio, que seguia comigo até a minha sala, mas
Mônica me parou com uma expressão preocupada.
​— Gabriel, tem uma pessoa lá na recepção esperando por você há mais de
uma hora. Disse que o nome é Juliana e que é mãe de Davi.
​Juliana?
​Juliana...
​Deus, eu obviamente conhecia algumas Julianas. Não era um nome
incomum. Provavelmente tinha saído com algumas, mas nenhuma parecia
especial o suficiente para ser lembrada. E eu deveria me lembrar da mãe do
meu filho, não?
​Só que não lembrava.
​Mas até que ponto eu poderia acreditar que a tal Juliana era mãe de Davi?
A notícia que saíra no Instagram era capaz de despertar a ganância de muita
gente. Qualquer mulher que saíra comigo no período em que meu filho foi
gerado poderia surgir com aquela historinha e tentar tirar vantagem.
​Fosse como fosse, eu precisava encontrá-la, entender o que queria e não
dar margem para que mais fofocas fossem feitas com o meu nome.
​— Peça para que ela suba, Mônica, por favor.
​Lancei um olhar para meu tio, e a preocupação era evidente em seu rosto.
​— O que essa mulher pode querer, Gabriel? — ele indagou com uma voz
grave, muito sério. Meu tio era um cara sempre brincalhão, então vê-lo
naquele humor me deixava ainda mais apreensivo.
​— Não faço ideia. Espero que seja só dinheiro e que caia fora.
​— Você ainda não fez o DNA. E se ela vier dizer que Davi não é seu?
​— Então eu farei o exame — respondi por entre dentes. Aquela não era
uma opção na qual eu gostasse de pensar.
​— E se o menino não for seu filho, Gabriel? É nisso que estou pensando.
Como você vai ficar?
​Meu tio sabia o quanto eu estava apegado a Davi. O quanto se tornara
importante para mim. Aquele garotinho, aos poucos, se transformara no meu
mundo inteiro. Eu era pai dele em todos os sentidos. Se o perdesse, isso iria
me destruir.
​Não consegui nem responder àquela pergunta, especialmente porque ouvi
a sineta do elevador, avisando que ele tinha chegado ao andar.
​Voltei-me para Mônica:
​— Avise à moça que estarei na minha sala. Oriente-a sobre como chegar
lá, por favor.
​Atordoado, vi Mônica assentir e segui para a minha sala sem nem me
despedir do meu tio, mas, conhecendo-o como o conhecia, sabia que sua
expressão não era das melhores. Provavelmente estava me julgando por ter
feito tudo errado. E ele estava certo. Eu deveria ter feito o exame assim que
Davi chegou na minha vida e acabado com a dúvida. Não que isso importasse
para mim. Mesmo que ele não carregasse meu DNA, eu o sentia como meu.
​Eu estava de costas para a porta quando esta se abriu. Ouvi cada
movimento, o ranger, os saltos batendo no piso de taboa corrida, a respiração.
E, finalmente, a voz:
​ Quanto tempo, Gabriel — havia provocação em seu tom, o que foi um

sinal de que eu tinha muito a esperar daquele encontro.
​Virei-me devagar na direção dela e me deparei com uma loira da qual eu
me lembrava vagamente. Seu rosto e corpo me eram familiares, mas, por
mais cafajeste que pudesse ser, eu não me esquecia assim tão fácil da imagem
das mulheres com quem eu saía.
​A não ser que estivesse muito bêbado. O que, provavelmente, era o caso.
​— Juliana, não é? — Não fiz a menor questão de tentar ser gentil ou
fingir que me lembrava dela. Sabia que aquela mulher era pura encrenca.
​Ela sorriu de forma maliciosa.
​— Fico feliz em saber que, ao menos, não é hipócrita. Sei que não se
lembra de mim. Nenhum de nós estava em muito boas condições naquela
noite.
​— Ainda assim, você se lembra.
​Ela ergueu uma sobrancelha e sorriu de canto. Era uma mulher bonita,
exatamente do tipo com quem eu costumava sair antes de Beatriz. Antes de
querer pertencer a uma mulher só.
​Sem nem ser convidada, ela se sentou no sofá de couro no canto da sala.
​— Você não é o tipo de homem que se esquece fácil.
​Isso deveria massagear o meu ego? Porque não fez nem cosquinhas.
​Aproximei-me dela, puxando uma cadeira de rodinhas para me sentar à
sua frente, mas ainda mantendo certa distância.
​— Já que não fui hipócrita com você, Juliana, vamos resolver a questão
como dois adultos que têm mais o que fazer. Ao menos eu tenho. — Fiz uma
pausa tentando respirar fundo e me preparar para o que estava prestes a vir.
— Primeiro de tudo, como vou saber que você é mesmo mãe de Davi?
​Sem dizer nada, ela me estendeu alguns papéis. Um exame de DNA.
​— Sabia que poderia precisar dele algum dia. Pode atestar a veracidade,
se quiser. Pode repeti-lo também, não me importo.
​Parecia genuíno. Ela não blefaria daquele jeito, blefaria?
— O que você quer? — perguntei sem perder tempo.
​Outro sorriso perverso. Aquela mulher não estava ali apenas para me dar
oi.
​— Não vai me oferecer um café, uma água? Você já foi mais cavalheiro,
Gabriel.
​Tentei imitar o sorriso dela.
​— Como eu disse, não vou perder tempo com formalidades. Não somos
amigos, e imagino que você não esteja aqui para uma visita social. Fale logo
o que quer, Juliana. Sejamos práticos.
​— Ok, ok! — Ela ergueu as mãos em rendição. — Não sei se você sabe,
mas desde que entreguei Davi para você, comecei a investir mais na minha
carreira de influencer. Em três meses o meu Instagram atingiu cem mil
seguidores, e a tendência é crescer. Estou começando a conseguir parcerias
com marcas, e acho que se eu for a mãe do filho de Gabriel Grecco, ainda
mais que ele é tão bonitinho, pode me dar mais audiência.
​Era impossível acreditar no que aquela louca estava dizendo. Ela queria
usar o meu filho para se promover?
​— Você abandonou o Davi. Mal sabia se eu iria acolher o menino ou se
iria deixá-lo à própria sorte. Deixou a criança numa portaria de um prédio,
com um porteiro, em uma cesta. Como pode estar sequer cogitando a ideia de
que vou acatar uma sugestão louca dessas? — vociferei, sentindo a raiva me
queimar.
​— Porque você tem muito a perder. Eu vi a postagem que saiu sobre o
bilhete que eu deixei e depois a forma como você tentou contornar dizendo
que a mãe de Davi era sua noiva e que vocês estavam de casamento marcado.
Você está noivo mesmo?
​— Claro que sim! — respondi, indignado. Mas a verdade era que Beatriz
não era exatamente minha noiva. Estávamos engatinhando em um
relacionamento, e eu ainda não queria que seu nome fosse exposto.
​— Bem, mas há algum motivo pelo qual você não quer revelar o nome
dela, não é? — Juliana remexeu em sua bolsa, tirando de lá o que pareciam
ser fotografias, entregando-me em seguida. — Acho que vai gostar de ver
isso.
​Eram retratos de Beatriz. Vários, em várias ocasiões. Saindo do meu
prédio, fazendo compras, como se alguém a vigiasse.
​E foi então que me atingiu.
​— Foi você! Você que mandou aquele cara invadir meu apartamento.
​Ela nem tentou negar.
​— Eu estava precisando de dinheiro — a forma como proferiu a última
palavra não deixou dúvidas de que tipo de amigo estava falando —, mas dei
azar de escolher um dia ruim. Eu nem planejava mandar pegar a garota,
porque jurei que era só mais uma transa. O cara que contratei é que não
queria aparecer de mãos abanando e pensou em levá-la. Só que teria sido uma
jogada bem inteligente, pois ela parecer ter alguma importância para você.
​Lancei as fotos que tinha em mãos sobre a mesa que havia entre nós, em
um rompante de raiva.
​Aquela filha da mãe não podia me manipular daquela forma.
​— Se você ou o seu capanga tocarem nela, vão se arrepender — falei,
sentindo meu instinto protetor em relação a Beatriz se aguçar.
​— Não precisamos chegar a esse ponto. Mas eu quero dinheiro. Dois
milhões de reais ou vou anunciar que sou a mãe de Davi. Vou jogar na roda o
nome e a carinha bonita da namoradinha que você tanto quer proteger. E
ainda vou contar uma história bem triste de que você tentou me afastar do
meu filho, que tem me mantido longe dele por todo esse tempo. Vai ser
péssimo para a sua reputação.
​Ela não podia estar falando sério. Ou podia?
​— Você não tem poder para isso... — tentei.
​— É, eu não tinha. Mas fiz um amigo, sabe? Uma pessoa que agora nutre
certo ranço de você e tem me ajudado bastante nesses últimos três meses,
desde que entrei em contato com ele ao perceber que tínhamos um inimigo
em comum. O cara tem dinheiro.
​Alvarez. Claro... quem mais? Eu sabia que ele estava muito quieto desde
que fodi com seu casamento e com sua vida profissional, mas um homem
como ele não se dava por vencido sem se vingar.
​Mas preferi não dizer nada a Juliana. Só que ela se levantou, fazendo com
que eu me sobressaltasse. O que ia fazer?
​— Vamos combinar uma coisa, Gabriel? Vou te dar dois dias para pensar.
— Então jogou um cartão de visitas sobre a mesma mesa onde lancei as
fotos. — Ligue-me assim que tiver a resposta. Se demorar mais de quarenta e
oito horas, vou passar a notícia para o mesmo site onde saiu a primeira. Sei
que eles me ofereceriam uma grana maravilhosa, mas não chegaria aos pés do
que você pode me dar.
​Antes que ela pudesse passar pela porta, respirei fundo e perguntei, de
cabeça baixa, sem encará-la:
​— Se eu decidir te pagar, você vai ter que assinar um termo me passando
a guarda de Davi inteiramente para mim.
​— Não tenho interesse em ficar com a guarda dele. Quero o dinheiro, só
isso.
​Depois de jogar essa frase como um punhal, ela saiu da sala batendo a
porta atrás de si. Provavelmente estava se dando completamente por vencida,
mas eu ainda não sabia o que iria fazer. Primeiro queria e precisava conversar
com Beatriz sobre tudo. Ela fazia parte daquela história e merecia ser ouvida.
​Eu só esperava que, juntos, encontrássemos a melhor solução.
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
​Eu normalmente gostava de esperar por Gabriel. Terminava meu trabalho
por volta das cinco e depois passava mais uma hora e meia com Davi. Havia
uma pessoa para nos ajudar a limpar a casa e cozinhar, mas do bebê eu
mesma gostava de me ocupar. Meu trabalho com Paulo Alvarez, filho de
Mônica, não exigia tanto de mim, e eu podia ficar de olho no menino sem me
preocupar em não dar conta.
​Não queria me sentir uma daquelas mulheres que ficam empolgadas
quando seus maridos abrem a porta de casa – especialmente porque eu e
Gabriel estávamos longe de um casamento –, mas a cada dia eu me sentia
mais confiante de que nós dois, por mais improvável que pudesse parecer,
acabaríamos nos entendendo de verdade.
​A rotina que estabelecemos me agradava, embora, às vezes, eu ainda
tivesse a impressão de que o conto de fadas poderia terminar a qualquer
momento.
​Só que naquele final de tarde, quando o vi entrando pela porta da
cobertura, logo percebi que havia algo de errado. Nem mesmo a empolgação
de Davi ao vê-lo pareceu mudar sua expressão preocupada e sisuda.
​Ainda assim, ele se aproximou de nós, beijou a cabecinha do filho, a
minha boca, e se jogou no sofá pegando o bebê, como se precisasse dele para
confortar seu coração e minimizar o que quer que estivesse lhe fazendo mal.
​ eixei que curtisse Davi um pouco, em silêncio, e observei a cena,
D
encantada. Mesmo que Gabriel não estivesse em seu melhor humor, observar
um homem bonito como ele, brincando e olhando apaixonado para um
bebezinho, era algo a se levar em consideração. Havia algo de muito
hipnotizante no contexto.
​Só que, do nada, ele começou a falar:
​— A mãe de Davi apareceu. Ela foi à empresa hoje — ele soltou, em um
tom de voz baixo e desanimado.
​— O quê? — em contraste com a voz dele, a minha saiu quase
esganiçada, uma oitava acima.
​— Isso mesmo que você ouviu.
​— E o que ela quer?
​— Dinheiro. Dois milhões de reais.
​— O QUÊ? — novamente a pergunta saiu de forma gritada, como se eu
fosse uma louca. Tentando me recompor, respirei fundo e tentei de novo: —
Ela pirou? É muito dinheiro.
​Gabriel suspirou.
​— Não para mim, e ela sabe disso.
​— Como assim não é muito dinheiro para você? Pelo amor de Deus,
Gabriel! É muito dinheiro para qualquer um!
​— Não discordo, Bea, mas aparentemente essa mulher sabe mais sobre
mim do que pensei. Foi a mando dela que invadiram o apartamento. Além
disso, ela está mancomunada com Alvarez. Acho que ele não teve nada a ver
com isso, em específico, mas duas pessoas com raiva podem causar o caos.
​Arregalei os olhos, assustada.
​— Então ela é perigosa. Será que teria coragem de fazer algo contra o
Davi?
​Ele finalmente me fitou, parecendo muito sério.
​— Não sei. Naquele dia o cara queria sequestrá-lo, não foi?
​— Ah, meu Deus! — respondi, nervosa, e provavelmente meu rosto
demonstrou isso, porque Gabriel pegou minha mão e a beijou.
​— Calma. Não vou deixar que nada aconteça a ele nem a você. Na
verdade, as ameaças dela foram outras. Disse que se eu não pagar, vai a
público dizer que é mãe de Davi e que eu roubei o neném dela.
​— Mas nós temos testemunhas, Gabriel! O condomínio tem câmeras, eu
estava aqui quando tudo aconteceu, o porteiro sabe... Até aquela babá louca
leu o bilhete! Ela não vai conseguir o que quer.
​— Não, mas só de ela se revelar como mãe de Davi já não me agrada.
​— Não faz diferença. Você não está mais em busca da compra da
empresa de Alvarez, deixe-a falar o que quiser — respondi, indignada.
​— Não, Beatriz. Além de isso dar muito poder a ela e uma chance de que
possa querer tirar Davi de mim no futuro... — Ele hesitou, e eu esperei que
prosseguisse: — Ela abandonou o menino. Você é muito mais mãe dele do
que aquela louca jamais foi.
​Uau.
​Isso me atingiu em cheio.
​Eu amava aquele menininho. Ele não era meu filho, não saíra do meu
ventre, mas já era parte de mim. Eu daria tudo por sua segurança, para que
fosse feliz, para que continuasse iluminando tudo à sua volta. Mas nunca
tinha pensado em mim como sua mãe. Nunca me vi no direito disso. Era
grandioso demais para imaginar.
​Só que ouvir Gabriel falando aquilo me encheu de uma emoção que eu
não esperava sentir.
​Ele realmente me considerava a mãe de Davi?
​Mais uma vez... uau.
​— Desculpa. Eu não queria jogar essa responsabilidade nas suas costas.
Também não estou querendo que pegue o título para si, mas...
​Em total silêncio, olhei para aquele menininho lindo, que ainda estava no
colo do pai, com o dedinho polegar na boca, e ele também olhou para mim.
Um sorriso banguela se abriu, enchendo meu coração de amor.
​Não resistindo, coloquei as mãos sob seus bracinhos, puxando-o para
mim e abraçando-o.
​Sim, eu queria ser mãe dele, se eu tivesse aquela sorte...
​— O que vamos fazer, então? — perguntei, incluindo-me na situação. Se
Gabriel me considerava quase como uma mãe para Davi, eu não ia deixar a
filha da mãe brincar com a vida daquele garotinho, muito menos magoá-lo.
Se ela teimasse em voltar para a vida dele só para desaparecer depois, ele
começaria a perceber, porque já se apegava às pessoas.
​Se era para bancar a mãe dele, eu ia fazer isso com unhas e dentes.
​— Não sei. — Gabriel se remexeu no sofá, colocando um braço ao redor
dos meus ombros e aconchegando a mim e ao seu bebê em seu peito. —
Tenho medo por você também.
​— Por mim?
​— Claro. Minha prioridade sempre foi manter sua identidade em segredo.
Imagina se aquela louca usa o seu nome? O que a sua família vai pensar?
Quantas explicações você não teria que dar? Fora que a imprensa não te
deixaria em paz. Tudo bem que não sou assim tão midiático, mas rendo
alguma fofoca. Não quero esse tipo de exposição para você.
​— Nem eu quero, mas não sei se acho uma boa ideia você pagar a ela
tanto dinheiro. Até porque não sabemos se vai parar aí. Se conseguiu te
extorquir uma vez, pode tentar de novo.
​— Eu sei que sim. Acabaria me tornando escravo dela.
​Eu nem estava pensando ainda em uma solução, mas ela me atingiu como
um raio.
​— E se nós fôssemos à imprensa? Se contássemos toda a história? Se a
acusássemos de abandono de menor, se a pintássemos como a errada? Ela
ficaria sem espaço para te atacar. As pessoas não costumam perdoar esse tipo
de coisa.
​Gabriel ficou calado por algum tempo, olhando para mim como se
analisasse meu rosto. Primeiro impassível, depois, uma luz surgiu em seus
lindos olhos castanhos.
​— Você acha que pode dar certo?
​Dei de ombros.
​— O que temos a perder? Você tem a mim como testemunha, as câmeras
do prédio e o porteiro, como falei antes. Fora as pessoas que conviveram com
você esse tempo todo, até na empresa, e sabem que você estava se esforçando
para cuidar sozinho de Davi.
​— Sozinho, não. — Ele repetiu o gesto de antes, pegando minha mão e
beijando-a. — Eu tive a melhor mulher do mundo do meu lado.
​Não consegui disfarçar um sorriso.
​— Não exagera. Mas voltando ao assunto... ela te deu algum prazo?
​— Quarenta e oito horas.
​— Hum, tudo bem. Acho que podemos decidir isso em um dia, né? Para
que ela não invente nenhuma gracinha antes do tempo e... — eu ia continuar
falando, mas percebi que Gabriel estava me olhando de uma forma tão
engraçada, com um sorriso cheio de orgulho, que interrompi a mim mesma.
— O que foi?
​— Você... toda mulher de negócios, pensando com estratégia, lidando
com uma situação complicada desse jeito, completamente racional. Estou
babando aqui com esse seu lado sexy.
​Ergui uma sobrancelha, surpresa.
​ Eu? — Soltei uma risadinha. — Novamente você está exagerando.

Mas se é assim que prefere me ver, não vou reclamar.
​Então ele se aproximou, sussurrando no meu ouvido:
​— Vamos ver se você vai reclamar ou contestar mais tarde, quando
estiver na minha cama gemendo o meu nome.
​Com isso, o safado levantou-se, deixando meu corpo completamente em
alerta depois de sua insinuação erótica.
​— Vou tomar um banho e já volto para jantarmos.
​E eu fiquei lá, boquiaberta, apenas observando-o afastar-se e subir as
escadas, olhando para mim com um sorriso malicioso, sexy como o inferno,
já imaginando que aquela noite prometeria. E muito.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
​ olocamos Davi para dormir, e nós seguimos em silêncio para o quarto.
C
O apartamento todo estava no escuro, e talvez eu devesse acender a luz para
que pudéssemos nos orientar melhor, mas nós dois conhecíamos bem cada
espaço.
​Queria esperar que chegássemos ao quarto para fazer o que eu tanto
queria com Beatriz, mas não consegui. Precisava colocar minhas mãos nela o
quanto antes.
​Se eu já estava apaixonado, naquela noite a mulher ganhou o meu coração
de forma definitiva. A forma como se empenhou em encontrar uma solução
para o meu problema, como pareceu uma leoa defendendo o meu filho... tudo
isso foi a minha ruína.
​Não que eu duvidasse disso antes, mas aquela mulher e meu bebezinho
tinham dado tanto significado à minha vida que eu nunca permitiria que nada
lhes acontecesse. Eu seria capaz de tudo para protegê-los.
​Só que naquele momento eu não queria pensar em nada que não fosse em
me perder no corpo daquela garota maravilhosa que era minha. Só minha.
​Sem aviso, agarrei Beatriz como um lobo faminto atacaria sua presa.
Imprensei-a na primeira parede que vi pelo caminho, em meio ao breu. Antes
que pudesse protestar, tomei sua boca com fome, beijando-a, possuindo-a
com meus lábios, buscando-a como se disso dependesse a minha
sobrevivência.
​— Gabriel... — ela falou meu nome como um suspiro, no primeiro
instante em que consegui me afastar. Só que minhas mãos já deslizavam
pelos botões da camisa que ela usava. Era uma minha, porque adorava vê-la
usando minhas roupas, e eu sabia que não havia absolutamente nada por
debaixo dela além de uma calcinha. Seus mamilos deliciosos se destacavam
através do tecido.
​— Eu não vou aguentar chegar no quarto, Beatriz. Quero você aqui
mesmo, ao menos na primeira vez. Depois no banheiro, enquanto eu te dou
um banho. Depois na cama. Nesta ordem.
​— Exigente hoje, chefinho? — ela sempre me chamava assim quando
queria me provocar.
​— Posso ficar mais se você não se comportar direito — falei em tom de
comando, o que havia se tornado uma brincadeira entre nós naqueles meses
em que estávamos juntos.
​Assim que terminei de desabotoar sua camisa, virei-a de costas para a
parede, arrancando sua calcinha em seguida, deixando-a no chão. Minhas
mãos, completamente ávidas, começaram a explorar seu corpo delicado e
delicioso, cada parte, mas parando em dois pontos – uma segurando um dos
bicos entre os dedos e girando-o. A outra, mais abaixo, encontrando sua
entrada já úmida e penetrando-a com um dedo, do jeito que sabia que ela
gostava.
​O gemido e a forma como inclinou a cabeça para trás, encostando-a no
meu ombro, me fizeram respirar fundo, em busca de um oxigênio que parecia
ter desaparecido por completo dos meus pulmões. Se eu pudesse, respiraria
apenas Beatriz. O cheiro dela. Também me alimentaria de seu prazer. Seria
uma forma doce de se viver.
​Deixei minha boca cair por suas costas, enquanto beijava uma trilha por
sua coluna. Então parei de masturbá-la e empinei seu quadril, deixando seus
braços apoiados na parede, mas criando um vão, onde me ajoelhei, enfiando-
me de frente para ela, com a cabeça em meio às suas pernas, permitindo que
minha língua a explorasse de todas as formas. Lambendo seu clitóris,
penetrando-a – assim como meus dedos tinham feito pouco antes – e usando
meus lábios para sugá-la, que eu sabia que era o que ela mais gostava.
​Os gemidos começaram a ganhar mais volume, assim como sua
respiração tornou-se mais entrecortada. Minhas mãos mantinham-se firmes
em suas coxas, deixando-as ao máximo abertas para que eu pudesse degustá-
la.
​ ra impressionante como eu sempre busquei o prazer fugaz com pessoas
E
e corpos desconhecidos, mas que a garota mais inocente que surgiu na minha
vida pudesse me deixar tão louco. Não havia nada como fazer amor com
Beatriz. Ela parecia ter sido feita para mim.
​Deixei que os minutos passassem enquanto eu me perdia no gosto dela.
Não queria parar. Queria fazê-la gozar muitas vezes naquela noite.
​A primeira não demorou muito. Senti quando se contraiu em minha boca,
gemendo bem alto, do jeito que eu gostava.
​Mal deixei que terminasse de encontrar sua libertação, pois me levantei,
colocando-me de pé logo atrás dela, abaixando a calça de moletom e
libertando meu pau que já estava duro como pedra. Aproveitando sua
posição, penetrei-a, sentindo-a molhada, quente e perfeita, como sempre.
​Desde que começamos a nos relacionar de forma mais séria, Beatriz
passou a tomar anticoncepcional, então tínhamos liberdade para não usar
camisinha. Eu não havia tocado uma única mulher depois dela, e eu sabia que
ainda era o seu único.
​Pretendia manter as coisas assim.
​Minhas mãos agarraram a carne de seus quadris, movimentando-a com
força, do jeito que descobri que ela mais gostava. Minha menina, antes tão
pura, curtia um sexo mais intenso e selvagem. Então por que não dar a ela o
que tanto queria?
​As coisas ficaram ferozes muito rápido. Meus grunhidos de prazer se
misturavam aos gemidos dela. Ela sempre se continha um pouco mais por
causa de Davi, mas naquela noite eu podia ouvi-la em alto e bom som.
Provavelmente os vizinhos também.
​Antes que pudesse gozar de novo, girei-a de frente para mim, tirei minha
calça por completo, erguendo-a do chão e colocando-a entrelaçada na minha
cintura. Meu pau, que ainda precisava de atenção, voltou para dentro dela
bem devagar, implorando por mais.
​Mantendo meus braços sob suas coxas, usei-os para movimentá-la,
fazendo-a quicar naquela posição, no sexo mais insano que já fiz na minha
vida. Com nenhuma outra mulher fora daquela forma. Nem perto. Não era
apenas a química incrível que tínhamos. Não era o desejo. Não era o tesão,
embora fosse tudo isso junto também. Só que era mais.
​Eram as surpresas de cada dia; era a forma como ela parecia caber
perfeitamente no meu abraço; os sorrisos que tornavam meus dias mais
felizes. Era a certeza de que havia alguém leal me esperando em casa, alguém
com quem eu poderia conversar, com quem poderia desabafar e falar sobre o
meu dia. Alguém que amava o meu filho, assim como ele a amava.
​Beatriz era completa. Dos pés à cabeça, um presente. Um anjo. A
personificação de tudo o que sempre precisei, mas nem imaginava.
​Eu não queria parar. Não queria sair de dentro dela. Não queria me
afastar. Só que meu corpo começou a exigir o orgasmo. E Beatriz já estava
pronta para mais um.
​— Vamos lá, linda. Eu quero te ver gozando mais uma vez, junto
comigo...
​Não precisei pedir duas vezes. Beatriz também se soltou, gemendo mais
alto do que nunca, enquanto eu também gozava intensamente, sentindo-me
saciado.
​Ou não... porque não pretendia terminar por ali. Não naquela noite.
​Amparei-a nos braços, ainda naquela posição, mantendo-me dentro dela,
enquanto sentia meu pau perder a rigidez. Beatriz estava lânguida, suada,
respirando com dificuldade. Levei-a, então, ao quarto, carregando-a com
cuidado e colocando-a na cama para que se recompusesse. Acendi a luz do
abajur só para poder contemplá-la e vê-la corada de prazer, com os cabelos
vermelhos espalhados pela cama, os seios pequenos subindo e descendo.
​Eu já estava excitado de novo.
​Como era possível que ela conseguisse me encher de tesão em tão poucos
segundos, logo depois de termos feito sexo desesperado contra uma parede?
​Deitei-me ao lado dela, ainda de camisa, concedendo a nós dois algum
tempo para nos recompormos.
​— Aquilo que fizemos... — ela começou, completamente ofegante. — É
ilegal em algum tipo de país? Porque não é possível que as pessoas façam
isso o tempo todo. Não deve ser bom para a saúde.
​Não contive uma gargalhada. Além de tudo ela ainda sabia o jeito certo
de me fazer rir.
​Tomado por um sentimento que parecia prestes a explodir dentro do meu
peito, girei, colocando-me sobre ela, deixando nossos rostos próximos.
​— Perfeita — sussurrei baixinho, mas a proximidade a faria ouvir.
​— O quê?
​— Você é perfeita. Seja lá o que for que fiz de bom para merecê-la, eu
repetiria mil vezes. — Suspirando, ela olhou para mim com olhos
apaixonados. — Não vá embora. Nunca. Por favor? — o pedido soou mais
suplicante do que eu gostaria, mas não me importei. Queria que ela soubesse
o quanto realmente a desejava comigo.
​Então ela sorriu, levando uma mão ao meu rosto.
​— Não vou. Seremos nós três contra o mundo.
​— Eu, você e nosso bebê.
​Nosso bebê. Não foi uma frase dita sem pensar. Eu disse o que queria
dizer.
​— Eu, você e nosso bebê — ela repetiu.
​Eu gostava da ideia.
CAPÍTULO VINTE E CINCO
​ ão precisei nem de vinte e quatro horas para tomar a minha decisão.
N
Beatriz estava certa, nós não podíamos ficar reféns daquela mulher. Tudo o
que eu poderia fazer seria lhe dar um documento que a proibisse de
reivindicar a guarda de Davi e que mencionasse que ela não poderia mais
pedir dinheiro, mas, teoricamente, meu advogado me informou que essas
coisas poderiam até funcionar legalmente, mas uma pessoa inescrupulosa
poderia encontrar meios de me chantagear.
​Um deles seria tentando fazer algum mal ao meu filho ou à minha
mulher.
​Obviamente essa possibilidade ainda me assustava. Eu não conhecia o
caráter de Juliana, e isso foi uma das coisas que me deixou mais incomodado.
Depois de passar aqueles meses com Beatriz eu já não conseguia mais me
imaginar compartilhando momentos tão íntimos com uma pessoa que eu não
fazia ideia de quem era. Alguém que poderia usar qualquer coisa contra mim.
Algo que eu pudesse dizer, algo que encontrasse em minha casa ou minha
carteira. Com um pouco de imaginação, eu poderia ser acusado de mil coisas,
mesmo que nenhuma delas fosse real.
​Ao menos se não cedêssemos à chantagem, estaríamos em alerta.
​Lancei a notícia na imprensa, sem nem pedir dinheiro em troca. Eu e
Beatriz participamos de uma coletiva, anunciando nosso relacionamento e
explicando que era verdade que minha namorada não era mãe de Davi, não
biologicamente, mas que não queríamos que nosso bebê acreditasse que fora
abandonado, por isso, decidimos contar para todos uma história que achamos
mais bonita, para, no futuro, a criança não se sentir rejeitada, porque, de fato,
juramos que Juliana nunca mais iria aparecer.
​Fizemos um relato emocionado, dramático, exatamente como as pessoas
gostavam. Tentamos não causar nenhum dano à imagem de Juliana e ainda
desejamos sorte em sua carreira de influencer. Não contamos que fomos
chantageados e nem que ela fez ameaças. Foi uma sugestão de nosso
advogado para tentar acalmá-la. Na verdade chegamos a dizer que ela voltara
querendo participar da vida do filho, arrependida.
​Odiei cada segundo disso. E Beatriz também. Só que a instrução foi
correta, já que se criássemos um circo, ele poderia se voltar contra nós. Com
tudo isso, Juliana não nos importunou. Até ganhou alguns seguidores novos,
curiosos, e eu imaginava que poderiam até virar fãs dela, talvez pelos
motivos errados, só porque era uma mulher muito bonita.
​Foram seis meses de paz após todos esses tormentos. O que eu dei graças
a Deus.
​Fazia um bom tempo que eu não corria. Desde que Davi entrou na minha
vida, sem dúvidas, eu me tornei um homem um pouco mais cauteloso e
pretendia continuar assim, porque odiaria deixá-lo desamparado, precisando
voltar à guarda da mãe ou dependendo de outras pessoas. Além disso, eu
queria ter a chance de cuidar dele, de ser seu pai, de criá-lo e de vê-lo crescer
como um homem de bem.
Eu não tinha dúvidas de que meu filho seria um homem íntegro, tendo
uma pessoa ao meu lado como Beatriz para guiá-lo.
​Só que algumas coisas eram inevitáveis. Sempre que fazíamos o
lançamento de uma nova loja, eu gostava de me enfiar em alguma coisa
relacionada a motos para chamar atenção para a marca. Os convites sempre
apareciam, e eu sabia que daquela vez não poderia recusar.
​A loja nova era no Rio mesmo – já que a de São Paulo, sobre a qual falei
com meu tio meses atrás ainda estava em stand-by –, em um bairro da Zona
Sul, e eu sabia que seria um ótimo negócio. Especialmente porque eu estava
em nova negociação com outra marca, concorrente de Alvarez, para comprá-
la. Seria um negócio ainda maior, mais grandioso, e eu estava empolgado.
Parecia uma segunda chance. E daquela vez eu iria agarrá-la com unhas e
dentes.
J​ á estava na pista, olhando para o ponto onde Beatriz esperava que
iniciasse a corrida para ir para uma espécie de espaço VIP, mais seguro. Era
uma gracinha, porque ela dava pulinhos discretos, com Davi no colo. Era
uma corrida beneficente, e eu estava até animado em participar.
​Lancei uma piscadinha para ela antes de colocar o capacete e me preparar
para a largada. Vi quando foi conduzida para o local onde assistiria toda a
corrida, acompanhada de meus tios, de Kléber e de Nádia – que eu tinha a
impressão de que estavam começando a se entender.
​Assim que acelerei, uma emoção diferente me tomou. Claro que eu
amava ser um homem de família e tudo o mais, mas também curtia aquele
lado mais aventureiro da minha vida. Enquanto estava a toda velocidade em
cima de uma moto, eu me esquecia de tudo. Foi uma das coisas que me
salvou depois da morte dos meus pais. Tanto que eu fiz muitas besteiras,
pegando a moto para sair pela estrada, sem rumo, ultrapassando limites e me
colocando em risco, até mesmo sob chuva torrencial.
​Naquela época, eu sabia que uma empresa estava nas minhas mãos, que
pessoas dependiam de mim para sustentarem suas famílias, mas não me
importei. Fui egoísta e imaturo, só que não me condenava por isso. Eu era
apenas humano.
​Daquela vez, havia muitas coisas boas na minha vida. Uma mulher
maravilhosa, que me deixava mais e mais apaixonado a cada dia, que cegara
meus olhos para qualquer outra, e havia meu bebê. O que mais eu poderia
pedir?
​Mas nem por isso eu queria perder.
​Estava um pouco fora de forma, mas era como andar de bicicleta. Fui
ultrapassando um por um, sentindo o sangue correr mais quente e acelerado
em minhas veias.
​Quando cruzei a linha de chegada, em primeiro lugar, o coração acelerou
de uma forma deliciosa. Eu sorria por trás do capacete, e este sorriso se
manteve até que o retirei. Mas o beijo que recebi de Beatriz, mesmo todo
suado, e as palminhas de Davi, incentivado por ela, foram prêmios muito
mais valiosos para mim.
​Queria poder comemorar com eles, mas sabia que o intuito da minha
participação naquela corrida era um: a coletiva de imprensa que aconteceria
depois, em uma sala pequena, para apenas alguns repórteres selecionados,
onde eu poderia falar sobre a nova loja. Aquela corrida contava com algumas
celebridades e empresários apaixonados por motos, e eu sabia que poderia
demorar, porque havia pessoas bem mais interessantes para a mídia do que
eu.
​Sendo assim, eu – depois de um banho e usando uma roupa limpa e mais
confortável do que meu macacão de Nomex –, Beatriz e Davi, fomos
deixados em uma sala, com água e algumas guloseimas. Sentados em um
sofá confortável, conversávamos e brincávamos com o bebê, que estava tão
animado como sempre. Era um garotinho feliz, doce e amável. Todos
concordavam que era delicioso olhar para ele, de tão lindo e tão simpático.
​Estávamos rindo de suas palavras emboladas, mas que iam melhorando a
cada dia, quando a porta da sala se abriu e bateu com força.
​Ergui os olhos imediatamente, deparando-me com Juliana.
​Ela estava com a maquiagem borrada, os cabelos não pareciam tão bem
tratados quanto antes, e ela não se vestia como a mulher que aparecera no
meu escritório naquele dia. Era como se tivesse acabado de acordar e corrido
para o local onde estávamos.
​— Juliana, o que você está fazendo aqui?
​Ela não respondeu de imediato. Levantei-me de um rompante, e Beatriz
fez o mesmo, segurando Davi contra o peito. O movimento dela fez com que
Juliana se voltasse na direção dos dois, com lágrimas nos olhos.
​— Ele está tão grande... — foi seu comentário.
​E era um bem idiota, porque obviamente o menino tinha crescido muito
desde que o deixara na minha porta. Eram dez meses de diferença. Ele tinha
apenas cinco quando surgiu na minha vida, naquele momento era um bebê
grande, forte e saudável, de um ano e três meses.
​— Vou perguntar mais uma vez, Juliana — falei com toda a calma e
paciência, dando um passo à frente. — O que quer aqui? É uma coletiva
privada. Quem te deixou entrar?
​— Eu fui me esgueirando. Segui vocês e esperei a hora certa para entrar.
Não tem ninguém lá fora.
​Como era possível que a segurança daquele local estivesse tão fraca? Era
a minha família que estava ali.
​— Juliana, não acho que seja uma boa hora para conversarmos, seja lá o
que você quer falar comigo.
​— Não! — ela gritou, descontrolada. Rapidamente me assustei. — É a
hora certa. Você vai me dar espaço nessa coletiva para eu contar a minha
história. Eu precisava de dinheiro, estou cheia de dívidas, mas você negou.
Destruiu minha carreira, porque ninguém quer fechar publi com uma mãe que
abandonou um filho.
​— Você sabe que eu tentei desde o início preservar sua imagem e...
​— Mentira! — gritou. — Você queria me foder.
​— Saia, Juliana, antes que eu chame a segurança. Você não deveria estar
aqui.
​Ela hesitou. Por um momento jurei que iria acatar e que nos deixaria em
paz. Seus olhos estavam voltados para Davi, e ela respirava de forma
irregular. Eu sabia que havia algo de errado, mas lhe dei o benefício da
dúvida antes de pegar o telefone e chamar um segurança.
​Só que era o que eu deveria ter feito, porque Juliana colocou a mão no
bolso da jaqueta que usava e tirou de lá uma arma, apontando-a direto para
nós.
​— Você não deveria ter feito o que fez, Gabriel. Agora vai pagar por isso.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
​ u tinha muito apreço pela minha vida, obrigada. Tanto que quando
E
minha mãe ficou sabendo que eu iria morar no Rio de Janeiro fez um drama
fora do comum sobre o fato de que eu iria morrer com uma bala perdida, sem
dúvidas.
​Até aquele momento, eu não tinha contado para ela que quase fui
sequestrada. Ok, ela sabia sobre meu namoro com Gabriel e me passara um
sermão sobre “onde se ganha o pão não se come a carne”, mas se apaixonou
quando o conheceu. Fomos visitá-la depois da operação da minha avó – que
ele pagou – e minha mãe monopolizou Davi, tratando-o como se fosse seu
próprio neto.
​Desde então ela nunca mais reclamou de eu ter iniciado um
relacionamento com meu próprio chefe.
​Mas obviamente, eu não contava que um dia me veria na mira de um
revólver, e não por conta de um assalto qualquer, mas por culpa de uma louca
que queria nos chantagear.
​Ainda assim, apesar de ter muito apego pela minha vida, a primeira coisa
na qual pensei foi em proteger Davi.
​Agarrei o menino com força contra o meu peito. Ele estava inquieto, e
tentou se desvencilhar, e a forma como o prendi a mim fez com que
começasse a chorar.
​ sforcei-me para acalmá-lo ao mesmo tempo em que Gabriel se colocava
E
à nossa frente, como escudo.
​— Juliana, seja lá o que for que está passando pela sua cabeça, desista.
Você vai destruir a sua vida.
​— Não me importo! Eu quero destruir a sua — ela falou com convicção
demais para alguém que estava blefando.
​— Sua louca! Você vai machucar o bebê com isso. É seu filho! — alterei-
me, sentindo-me completamente fora de mim. O medo fazia isso com as
pessoas.
​— Meu? Aparentemente ele é seu, né? Você tomou posse do meu bebê e
ainda ficou com o ricaço bonitão. O que você tem, garota? Com essa cara de
songa monga. Como pode ter conquistado tanto?
​Tinha uma explicação bem simples para isso: não era eu que estava com
uma arma na mão, ameaçando três pessoas. Só isso já me dava uma vantagem
enorme sobre ela.
​No entanto achei que não seria muito prudente dizer algo assim.
​— Juliana, podemos voltar atrás na questão do dinheiro. De quanto você
precisa? Posso te fazer um cheque aqui e agora de algum valor de sinal e
depois acertamos o resto. Quinze mil de início? — Gabriel estava com as
mãos erguidas, falando em um tom de voz muito calmo, e eu sabia que estava
tentando negociar.
​Juliana gargalhou. Louca, completamente.
​— Quinze mil? Isso não dá nem para um mês. Já falei que estou com uma
dívida. Comprei algumas coisas para investir na minha carreira, contando que
Alvarez iria me ajudar, mas ele sumiu. Conseguiu vender a merda da marca
dele e voltou para Houston.
​Eu sabia disso, porque Gabriel me contara. Depois que Mônica e Paulo se
juntaram contra Julio Alvarez, que ela passara a morar com o filho – ao
menos por um tempo, já que logo alugou um local para morar sozinha –,
aquele velho safado voltou para seu país de origem. Gabriel ficou puto, na
época, porque queria ter conseguido algo contra ele para colocá-lo na cadeia,
porque nossa queixa de assédio não deu em nada. Mas nem tudo era como
queríamos, né?
​Naquele momento, por exemplo, tudo o que eu queria era tirar Davi dali.
​— Juliana, por favor, me deixa entregar o Davi para alguém. Eu juro que
volto, não vou deixar Gabriel sozinho e...
​— Não! — foi Gabriel quem falou. — Deixa os dois saírem, Juliana. Isso
é entre mim e você. Eu vou te dar todo o dinheiro que você quiser, só deixa a
Beatriz e o meu filho saírem. — Ele estava nervoso, e quem poderia culpá-
lo?
​— Seu filho! — Ela gargalhou. — Você não deve ter feito DNA, né, seu
idiota? O garoto não é seu. Eu dei para um bando de gente naquela época.
Nem sei quem é o pai dele.
​Ela só podia estar blefando, né? Não podia ser verdade.
​Deus! E se isso tinha me atingido em cheio, magoando-me
profundamente, o que Gabriel não estaria sentindo? Ele era louco por aquele
menino. Desde que Davi entrara em sua vida, ele parecia outro homem.
​Olhei de soslaio em sua direção e o percebi vacilar por um instante. Mas
logo se recompôs.
​— Não importa, Juliana. Eu vou criá-lo, já me apeguei a ele, amo esse
menino. Podemos entrar em um acordo. Vou te ajudar com sua carreira e
podemos estabelecer uma pensão mensal. Assino isso em contrato, se você
quiser.
​Ela pareceu hesitar. Gabriel era um homem de negócios, e eu precisava
acreditar que ele iria nos tirar daquela enrascada.
​— Então eu fico com Davi até que você prepare esse documento. Posso
levá-lo para a minha casa e depois você o busca — ela falou, ainda com a
arma apontada.
​— NÃO! — eu e Gabriel respondemos ao mesmo tempo.
​— Nem pensar — falei mais baixo, em um tom de total desprezo. Aquela
mulher estava mesmo achando que ia levar o meu bebezinho? Ia ter que
passar por mim primeiro.
​Porque Davi era um pouco meu. Mais meu do que dela.
​— Eu estou no controle aqui. Vocês não vão me dizer o que fazer — ela
gritou. Davi chorou um pouco mais. — Ele é sempre manhoso assim? Vocês
estão mimando demais esse menino. Com uma chinelada eu o consertaria.
​— Sua filha da... — Tentei entregar Davi para Gabriel, para avançar
naquela louca, mas ele esticou um braço, não me deixando passar.
​Eu precisava me controlar.
​Percebendo que a situação estava ficando perigosa, Gabriel decidiu
intrometer novamente.
​— Juliana, vamos parar com isso. Deixe Beatriz e Gabriel saírem. Vamos
deixar este lugar, e eu vou te levar aos meus advogados. Preparamos um
contrato provisório e depois elaboramos outro mais formal. O que acha? Só
que preciso que me entregue a arma.
​Novamente a mulher pareceu pensar. Só que eu não conseguia ver uma
luz no fim do túnel. Fiquei balançando Davi, esperando que ele se acalmasse,
mas o menino não parava de chorar. Sussurrei em seu ouvido que ficaria tudo
bem, esperando que não fosse uma mentira. Juliana estava muito
descontrolada, e isso foi provado quando ela abaixou a arma por alguns
instantes, mas logo a ergueu novamente.
​— Não confio em você. — E apertou o gatilho.
​Meu grito soou junto com o estampido, e eu quase não vi mais nada ao
redor.
​Ela atirou em Gabriel, ao meu lado, e eu fiquei parada, apertando Davi
contra o meu peito, tentando protegê-lo, e eu nem sabia de quê. Não
conseguia olhar para ver o que tinha acontecido, onde ele tinha sido atingido.
Minha mente estava completamente perdida, zonza, aérea. Tudo o que se
passava por meus pensamentos era que eu não podia perder nenhum daqueles
dois. Nem o homem e nem o bebê.
​E aquela louca tinha machucado o homem que eu amava...
​Mas o pior de tudo era pensar que ele nem sabia disso. Ele não sabia,
porque eu nunca tinha lhe dito.
​Eu queria saber como ele estava, mas continuava paralisada, e fiquei mais
ainda quando várias pessoas surgiram, entrando na sala, inclusive a equipe de
segurança.
​Onde diabos eles estavam quando precisamos deles?
​Armando veio na minha direção, e sei que ele falou alguma coisa, mas
não respondi. Tentou tirar Davi do meu colo, mas agarrei o bebê contra mim
novamente, nem um pouco disposta a permitir que o levassem, embora eu
soubesse que se tratava de uma pessoa de confiança.
​— Querida, por favor, deixe Davi comigo. Está tudo bem... — Armando
falou com uma voz muito calma, tentando novamente puxar o bebê dos meus
braços.
​Demorei ainda um pouco para voltar a mim, mas quando olhei, Juliana já
tinha sido contida pelos seguranças, desarmada, e era arrastada para fora da
sala. Ao meu redor estavam Armando, sua esposa e Kléber.
​Tentei forçar a minha mente a acreditar que se tratavam de boas pessoas,
que iriam cuidar do meu bebê como eu mesma cuidaria.
​Além do mais, eu sentia minhas pernas fraquejando, estava prestes a
despencar, e não poderia permitir deixar Davi cair.
​ ssim que passei o neném aos braços do tio-avô, literalmente fraquejei,
A
mas fui amparada por braços fortes que não permitiram que eu fosse ao chão.
Quando ergui os olhos, lá estava Gabriel.
​— Querida, acalme-se, você está muito pálida — ele falou. Estava
mesmo conversando comigo? Intacto? Não tinha sido atingido?
​— Você... você está... bem? — gaguejei.
​— Sim. Ela não me acertou. Estou bem, amor. Estou bem.
​Então eu me permiti cambalear novamente, e ele me ergueu do chão,
enquanto as pessoas falavam ao nosso redor, e eu não conseguia ouvir.
Estava em completo pânico, mas precisava focar que estava tudo bem.
​Encostei a cabeça no peito forte de Gabriel, deixando que ele me levasse
para fora daquela sala. E ainda bem por isso, porque eu não queria ficar ali
nem mais um minuto.
​Esperava que aquela filha da mãe apodrecesse na cadeia por ameaçar os
dois homens da minha vida.
CAPÍTULO VINTE E SETE
​ les estavam em casa. Minha mulher e meu filho. Seguros. Era nisso que
E
eu precisava pensar.
​Só que imagens de Juliana puxando aquele gatilho e acertando algum
deles ainda assombravam a minha mente, durante a madrugada, e eu não
conseguia dormir.
​Beatriz estava na cama ao meu lado, profundamente adormecida, embora
tivesse demorado também a pegar no sono. A exaustão a vencera minutos
antes, quando apagou nos meus braços, aninhada e assustada. Agarrara-se a
mim logo depois que voltou a si, depois do susto mais cedo, dizendo que
temera me perder. Que jurara que o tiro tinha me acertado.
​Ela não fazia ideia do quanto eu também temi perdê-la. Do quanto fiquei
fora de mim só de imaginar aquela louca atirando nela. Obviamente Davi era
nossa prioridade, tanto para mim quanto para Beatriz, mas eu poderia jurar
que se ela se ferisse, ou coisa pior, eu ficaria devastado.
​Não... a quem eu queria enganar? Eu morreria um pouco por dentro
também.
​Observando-a adormecida, com apenas a luz da suíte acesa, senti os
pensamentos se avolumarem. Aquela mulher era preciosa demais. Ela era...
tudo. Eu não saberia mais como chegar em casa e não encontrá-la. Não
saberia como reencontrar a felicidade se não a tivesse ao meu lado.
​ inda estava pensando nisso quando fui interrompido pelo chorinho de
A
Davi.
​Ele ficara muito agitado o dia todo, e eu sabia que não duraria muito
tempo dormindo. Há uns bons meses não acordava mais à noite, era um
menino muito bonzinho, mas era difícil ficar calmo depois de tudo pelo que
ele passou. Lá estava eu, desperto, assustado ainda, então como exigir algo
diferente de um bebê?
​Levantei-me apressado, esperando que Beatriz não acordasse, e fui até o
quarto dele. Tirei-o do berço, pegando-o no colo e aninhando-o no meu peito.
​— Calma, filho. Papai está aqui.
​Sentei-me na poltrona, com ele em meus braços, tentando acalmá-lo,
falando baixinho, repetindo que não estava mais sozinho.
​— Mamã — Davi falou, e eu fiquei surpreso. Será que se referia a
Beatriz?
​Por mais que ela sempre tivesse sido a referência materna dele, nunca o
incentivamos a chamá-lo de mamãe, a pedido de Beatriz. Nádia me explicara
um dia que ela ainda tinha medo de que de uma hora para a outra nosso
relacionamento se encerrasse. Isso me doera, na época, porque senti como se
fosse um sinal de que não confiava em mim. Só que não poderia culpá-la.
Nunca fui um modelo de estabilidade antes de conhecê-la, então coloquei na
cabeça que caberia a mim provar a ela que éramos para valer.
​Ainda assim, ela preferira fazer Davi chamá-la de Bea, embora sempre se
referisse a ele como “meu bebê”. Ou seja, ela poderia sofrer com a perda,
mas meu filho já tinha perdido uma mãe, não poderia perder mais uma.
​Só que lá estava Davi chamando por uma mamãe que eu só podia supor
que se tratava de Beatriz.
​— Sua mamãe está dormindo, filho. Estava muito cansada, vamos deixá-
la descansar, ok? Mas eu estou aqui. E não vou te deixar sozinho. Nunca.
​Isso me fez respirar mais fundo. Juliana dissera que Davi não era meu. O
golpe me pegou tão desprevenido e me feriu tão profundamente que nem me
dei chance de pensar novamente na possibilidade. Mas lá estava ela surgindo
outra vez, como se eu pudesse ouvir a voz daquela louca repetindo a merda
de frase em looping, sem parar, como um filme de terror.
​Afastei um pouco Davi de mim, para olhar para ele.
​Seria mesmo tão parecido comigo como me permiti acreditar? Como as
pessoas costumavam dizer que era? Ou era algo que tentei incutir na minha
cabeça só para tornar a verdade mais plausível?
​ u o amava. Tanto que chegava a doer. Meu filho chegara de forma
E
inesperada e tomara meu coração inteiro para si. Eu mataria e morreria por
ele. Isso não era uma dúvida. Mesmo que descobrisse que era o sangue de
outro homem que corria por suas veias, ele ainda seria meu. Por direito, por
amor e pelo que significávamos um para o outro. Só que aquela louca
conseguiu plantar a dúvida no meu peito. E isso era insuportável.
​Davi levou a mão gordinha ao rostinho, coçando-o. Em seguida focou os
olhinhos enormes em mim, parecendo mais calmo.
​— Papai ama você, filho. Sabia disso? Papai te ama tanto que eu mal sei
como expressar. E sua mamãe também. — Não importava o que Beatriz
queria que ele acreditasse. Para mim ela era a mãe dele, e eu sabia que
desejava isso de todo coração. — Ninguém vai tirá-lo de nós.
​— Ah, mas não vai mesmo — uma voz sonolenta soou da porta do
quarto, e eu vi Beatriz em pé ali, com os lindos cabelos ruivos desgrenhados,
uma expressão sonolenta no rosto, e o baby doll sexy que deixava suas pernas
longas e torneadas à mostra. — Ainda bem que aquela louca foi presa, ou eu
juro que voaria nela na próxima vez em que tentasse algo contra vocês dois.
​Sorri, apaixonado, e fiz um gesto chamando-a para se aproximar.
Coloquei Davi sentado em uma das minhas pernas e fiz com que Bea se
sentasse na outra.
​— Minha leoa — brinquei.
​Só que outra criaturinha decidiu ser o centro das atenções no momento,
porque se manifestou também:
​— Mamã — Davi repetiu, estendendo as mãozinhas na direção de
Beatriz.
​Pronto, não havia mais nenhuma dúvida a respeito de quem ele estava
chamando.
​Vi Beatriz hesitar, olhando para mim, como se pedisse permissão.
​— Você é mãe dele em todos os sentidos, amor. Só se não quiser ser.
​— Claro que eu quero! — ela respondeu com veemência, pegando-o da
minha outra perna e segurando-o em seus braços. — Sou sua mamãe,
menininho lindo. Enquanto você me quiser, eu serei. — Então ela olhou para
mim, com os olhos melancólicos, corroborando com o que Nádia me dissera.
— Enquanto os dois me quiserem, eu serei de vocês.
​Respirei fundo, porque eu sabia que estava mais do que na hora de tomar
algumas atitudes. Estava até tarde, mas talvez as coisas tivessem que
acontecer quando tinham que acontecer.
​ proveitando que ela estava com Davi no colo e que meu outro braço
A
estava livre, levei a mão ao seu rosto e o acariciei. Foi um movimento quase
solene, assim como o olhar que lhe dirigi.
​— Eu te amo — falei baixinho, olhando profundamente em seus olhos.
— Já deveria ter dito isso antes, porque é o que sinto há muito tempo, mas
não sou um expert em revelar meus sentimentos. Só que você merece saber.
Você merece o melhor de mim, Beatriz.
​Ela pareceu emocionada. Suspirou, e seus olhos se encheram de lágrimas.
​— Eu também te amo — sua voz saiu embargada, mas um sorriso enorme
curvou seus lábios.
​— Então casa comigo.
​Foi algo de impulso. Ou melhor... não exatamente. A ideia de me casar
com Beatriz vinha pairando na minha mente há um bom tempo, tornando-se
cada vez mais atraente. Claro que ela já morava comigo, que tínhamos vida
de marido e mulher em todos os sentidos que importavam, mas eu queria que
ela tivesse meu sobrenome – se fosse o que ela queria também. Queria que
fosse legalmente dona de tudo o que eu tinha, que estivesse ao meu lado
como minha esposa, porque eu a exibiria orgulhoso, não só porque era linda,
mas porque era uma mulher admirável. A mais incrível que poderia ter
surgido na minha vida.
​— Isso é sério? — ela perguntou chocada.
​— Seríssimo. É um pedido de casamento de verdade. Sem anel, por
enquanto, mas será providenciado o mais rápido possível. Posso me ajoelhar,
se quiser e...
​— Não precisa! Estamos bem assim... — Eu concordava. Não havia nada
melhor do que ter a ela e Davi no meu colo. Era como se eu pudesse abraçar
tudo de mais importante que havia na minha vida. — Eu aceito. Aceito ser
sua esposa.
​E o que mais eu precisava?
​Inclinei-me para beijá-la e só consegui fazer isso por um segundo, porque
um garotinho ciumento nos interrompeu, colocando cada uma das mãozinhas
em nossos rostos, afastando-os, o que nos fez gargalhar.
​— Não posso beijar a mamãe, filho? Como assim?
​Uma boquinha com várias janelinhas banguelas se abriu em uma risada
gostosa, e ela se misturou à de Beatriz, preenchendo o quarto de uma forma
mágica. Era o som que eu queria ouvir para sempre.
​Beatriz seria minha esposa. E Davi era meu filho. Não importava o resto.
O que importava era o que estávamos juntos. Como uma família.
CAPÍTULO VINTE E OITO
​ eria possível eu me apaixonar mais ainda por ela? Ao menos ao olhar
S
para Beatriz vestida de noiva, caminhando em direção ao altar, eu poderia
jurar que meu coração disparou ainda mais forte, como se um sentimento
novo nascesse. E talvez fosse isso mesmo. Naquele momento, a garota mais
especial do mundo estava prestes a se tornar minha esposa. O que eu sentia
por ela estava amadurecendo e tornando-se mais profundo.
​Seu sorriso parecia iluminar tudo ao redor, e eu a sentia tão feliz quanto
eu. Arrumamos tudo para aquele casamento acontecer o mais rápido possível,
porque estávamos com pressa de nos tornarmos marido e mulher.
​Como não tinha pai, Beatriz deveria entrar sozinha na igreja, mas ela
insistiu que queria levar Davi no colo – afinal de contas, ele era o nosso elo, o
serzinho iluminado que nos unira. Ele já andava, mas suspeitamos que faria
muita bagunça, com seus um ano e seis meses, então a ideia dela foi a
melhor. Entregou uma cestinha de pétalas em suas mãos e o instruíra a jogá-
las pelo caminho, para que ela viesse até mim.
​Claro que não foi exatamente perfeito, mas a igreja inteira deu risada com
as peripécias do pequeno, principalmente quando ele decidiu provar se uma
das pétalas era gostosa, levando-a à boca e fazendo Beatriz parar em seu
caminho para impedi-lo.
​Quando ela chegou ao altar, entregou-o à sua mãe, que estava na primeira
fileira, pronta para segurá-lo durante a cerimônia. Nádia, a madrinha do lado
de Beatriz, pegou o buquê, que Beatriz equilibrara durante todo o seu
caminho junto com o bebê, e o padre começou a falar.
​Kléber acompanhava sua namorada Nádia de um lado, e, do outro,
estavam meus tios. Quatro pessoas que muito nos ajudaram em toda a nossa
jornada. A família de Beatriz finalmente fora ao Rio, para nos prestigiar, e
minha linda noiva estava muito feliz em ter sua avó presente. Por mais que o
Alzheimer fosse cruel e bem evidente, porque estava avançado, ela amava a
neta, o que era mais do que perceptível. Naquele momento, dei uma olhada
em sua direção e vi seus olhinhos enrugados brilharem ao olhar para Beatriz
vestida de noiva.
​Jamais poderia julgá-la, porque ela estava parecendo uma princesa.
​A minha princesa.
​O padre disse suas belas palavras e nos declarou como marido e mulher.
Trocamos alianças, eu a beijei – como sempre queria fazer, a todo momento –
e peguei nosso bebê, para que ele seguisse conosco, como nosso parceirinho.
​Partimos para o salão onde aconteceria a festa, e eu a tirei para dançar.
Nossa primeira dança como casados. Senti que naquele momento começaria
o nosso felizes para sempre.
​Ela nunca parecera mais linda ou mais feliz, e isso refletia na minha
felicidade também. Se Beatriz e meu filho estavam bem, todo o resto se
tornava irrelevante. Minha família era tudo em que eu pensava desde que
acordava até a hora em que ia dormir.
​Depois de abrirmos a pista de dança, as pessoas nos seguiram, mas
tivemos que dar atenção aos convidados. A empresa quase em peso estava
presente, assim como alguns amigos mais próximos de Beatriz de sua cidade
natal. Mônica, Paulo e sua esposa também compareceram, e minha querida
secretária estava radiante porque ia ser avó.
​Ela tinha conseguido o divórcio de Julio Alvarez, e este rapidamente se
casara com uma moça uns quarenta anos mais jovem. Não poderia dizer que
não fiquei satisfeito ao saber que a garota gastou boa parte do dinheiro,
deixando-o cheio de dívidas e trocando-o por um jogador de futebol
americano famoso, rico, jovem e musculosão. Tudo isso me foi repassado por
Mônica, que me contou que ele pedira reconciliação, e ela riu da cara dele.
​Achei bem propício.
​Quando consegui tirar novamente minha esposa – eu adorava esse novo
termo – para dançar, sussurrei que a amava enquanto a conduzia no ritmo da
música lenta que era tocada pela banda. A voz da mulher que cantava era
gostosa de se ouvir, e eu senti meu coração acelerar, satisfeito, quando
Beatriz encostou a cabeça no meu peito.
​Estávamos prestes a emendar na segunda música quando senti alguém
cutucar o meu ombro. Virei-me para trás e vi meu tio com um envelope na
mão.
​— Podemos conversar em particular? Serão só alguns minutos. É que eu
queria dar um presente de casamento a vocês — ele falou.
​— Como assim, tio? Você já pagou nossa lua de mel, mesmo eu
insistindo para que não fizesse isso.
​— Esse aqui é especial.
​Dei uma olhada para Beatriz, e ela deu de ombros. Também parecia não
saber o que estava acontecendo, então apenas o seguimos, até o escritório da
casa de festas, que, aparentemente, fora liberado para aquela pequena
reunião.
​Quando chegamos lá, minha tia estava com Davi no colo. Como passava
da meia-noite, meu filho já parecia mais sonolento, e eu imaginava que não
aguentaria muito mais tempo acordado. Mas fosse como fosse, queria saber
por que ele precisava estar presente. Imaginava que tinha algum significado.
​Meu tio fechou a porta e se aproximou de mim e de Beatriz, que
estávamos com as mãos entrelaçadas. Eu não deveria me preocupar, já que
ele disse que se tratava de um presente de casamento, mas a expressão solene
em seu rosto era algo que me deixava curioso e inseguro.
​— Não sei se você vai ficar chateado comigo pelo que fiz, mas quis
resolver uma pendência. Sei que não é importante para você, mas acho que o
que tem dentro deste envelope vai tirar um peso do seu peito. Jurei que se o
resultado fosse diferente eu jogaria fora e você nunca saberia, mas aqui está.
​Tio Armando me entregou o envelope. Hesitei antes de tirar o lacre,
porque realmente temia o que iria encontrar, embora já suspeitasse,
especialmente pelo emblema estampado no papel.
​Quando finalmente o abri e puxei o que havia lá dentro, deparei-me com
um exame de DNA.
​Ergui os olhos, antes de ver o resultado, sentindo o coração acelerar no
peito, apavorado.
​— Como conseguiu isso? — perguntei, sentindo o desespero na minha
voz.
​— Você tem uma escova de cabelo no seu banheiro na empresa. Não foi
difícil levar alguns fios para o laboratório. Só precisei fazer isso em um dia
em que vocês deixaram Davi conosco.
​— Eu não autorizei! — vociferei, ainda muito alterado.
​— Por que não lê a merda do papel antes de perder a cabeça? — meu tio
também ergueu o tom de voz, e eu olhei para Beatriz.
​Ela também parecia tensa, mas assentiu, incentivando-me.
​Sem alternativa, baixei os olhos ao documento e li as informações. Era
muito claro e havia uma conclusão que explicava tudo: o teste dera positivo
com 99,9% de acerto.
​Eu era pai de Davi.
​Ele era meu de verdade.
​Meu filho. Meu sangue.
​Claro que não importava. Se o exame desse negativo, eu continuaria
amando-o, mas saber que ele era meu filho, tanto de coração quanto
biologicamente, me proporcionava uma alegria tão plena que eu nem
conseguia explicar.
​Lágrimas começaram a se avolumar em meus olhos, pesadas, e eu ouvi o
soluço de Beatriz ao meu lado. Ao olhá-la vi que tinha levado a mão à boca,
contendo sons mais altos. Abracei-a em comemoração e deixei que chorasse
contra o meu peito, enquanto eu também permitia que minhas emoções
fluíssem.
​Perdemos alguns instantes assim, até que eu fui na direção da minha tia,
pegando Davi de seus braços.
​Meu filho.
​Ainda era o mesmo menininho doce, que corria pela casa como um
furacão e com as pernas gordinhas. O mesmo pequeno sapeca, que
gargalhava ao fazer uma travessura e que nos enchia de beijos para não ser
repreendido. Era o mesmo bebê forte, saudável, que me enchia de orgulho.
Só que não havia mais dúvidas entre nós.
​Abracei minha família como se fosse a primeira vez. Havia uma sensação
de renascimento que não era necessária, mas que nos trouxe uma alegria sem
igual.
​Ainda com meu filho e minha esposa nos braços, voltei-me para o meu
tio, olhando-o de soslaio e murmurei:
​— Obrigado!
​Com um meneio de cabeça ele me respondeu e saiu de fininho, abraçado
à minha tia, deixando-nos sozinhos.
​ ada mais poderia nos separar. Era oficial. E eu era o cara mais sortudo
N
do mundo inteiro.
EPÍLOGO
​ erdi as contas de quantas vezes me vi em uma arquibancada, mas
P
daquela vez era especial. Eu ouvia o ranger das motos que estavam na pista,
observando uma em tons de vermelho e dourado que, ao menos para mim, se
destacava em meio às outras.
​As pessoas ao meu redor gritavam, balançavam bandeiras e estavam na
expectativa. Assim como eu.
​Duas pessoas ao meu lado berravam o nome de quem estava prestes a
estrear no Motocross, e só havia um torcedor mais animado do que eles em
toda aquela arquibancada. Ou melhor... não exatamente na arquibancada,
porque se ausentou para comprar algo para comer de tão nervoso.
​Meus gêmeos de treze anos, Henrique e Vanessa, vibravam como loucos,
com uma faixa enorme de incentivo.
​Comecei a tirar fotos deles até que a cadeira ao meu lado foi preenchida
por alguém afobado, com as mãos e braços cheios de coisas.
​— Eu não sabia se eles iam querer comer cachorro quente ou pipoca,
comprei dos dois. Para você, chá gelado.
​— Obrigada, querido. — Inclinei-me para ele, beijando-o e admirando o
homem lindo que era meu marido há mais de dezesseis anos. Havia cabelos
brancos recentes, mas isso só aumentava o seu charme.
​Entreguei as comidas às crianças, que pegaram simplesmente, começaram
a comer e se voltaram para a pista, onde a contagem regressiva começava.
​Quando foi dada a largada, Gabriel, ao meu lado, quase pulou na cadeira.
Eu estava em meio a três pessoas ensandecidas, que não paravam de gritar
um só minuto, e eu gargalhava, animada também.
​Foi uma corrida acirrada, mas nosso favorito ultrapassou a poucos metros
da chegada.
​Meu garoto era um campeão. Como seu pai.
​E eu não poderia estar mais orgulhosa enquanto nossa família se abraçava
e pulava, comemorando a vitória.
​Algum tempo depois, Gabriel, abraçado ao filho, respondia algumas
coisas à imprensa, já que sua marca era a maior patrocinadora do garoto, mas
deixou que o protagonismo ficasse com a estrela daquela tarde.
​Um jornalista se aproximou, com seu gravador.
​— Davi Grecco, esta é sua primeira vitória no MotoCross. Gostaria de
dedicá-la a alguém?
​Não duvidei nem por um segundo que ele iria mencionar o pai. Tanto que
olhou para ele com admiração, olhos brilhando, como sempre acontecia. Mas
então se voltou para mim, com um sorriso charmoso que já fazia com que
garotas corressem atrás dele aos montes. Com dezoito anos, meu menino
começava a se metamorfosear em um homem lindo.
​— Sim. Gostaria de dedicá-la à minha mãe. Eu amo meu pai, admiro-o e
me espelho nele todos os dias, mas esta mulher aqui... — Ele passou um
braço ao redor do meu ombro. Era quase da altura do pai, então minha cabeça
batia em seu peito. — Ela é tudo para mim.
​Davi sabia que eu não era a mãe biológica dele. Fizemos questão de
contar, desde muito pequeno, porque sempre acreditamos que mentiras nunca
nos levariam a lugar algum. Anos depois, Juliana fora morta na cadeia, e foi
um pouco impossível esconder a verdade dele, já que a mídia era
imperdoável. Ainda assim, nosso menino de ouro soube lidar com tudo e
agradecer por fazer parte de uma família feliz.
​— Eu te amo, mãe — completou, dando um beijo na minha testa, e eu me
emocionei.
​A entrevista continuou, com Davi dando respostas precisas e maduras
para a sua idade. Enquanto ele falava, eu e Gabriel nos entreolhamos, com
aquela cumplicidade que apenas casais que estavam há muito tempo juntos
compartilhavam, e nossos olhares disseram tudo o que queríamos que
soubéssemos.
​Nossa família era perfeita. E nenhum de nós dois poderia pedir mais do
que nos fora concedido.

FIM
Books By This Author
Uma Babá Perfeita
Todos pensariam que minha vida é perfeita. CEO de uma renomada empresa
de construções, pai solteiro de duas lindas filhas, boa aparência e uma
mansão maravilhosa para chamar de lar.
Poucos sabiam que eu tinha um único arrependimento, e ele se chamava
Maria Luísa Avelar.
A mulher que um dia foi a dona do meu coração, mas que foi afastada de
mim por causa do destino.
Seis anos depois, ela retorna à minha vida, com um enorme problema nas
costas. Para ajudá-la, eu a contrato como babá das minhas filhas.
Só que algo me diz que esse reencontro não aconteceu por acaso e que
finalmente eu terei uma nova chance de consertar os erros do passado e
construir um novo futuro. Ao lado dela.

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